terça-feira, 20 de outubro de 2026
Como o fim da marcação de munições alimenta o crime organizado
Em debates eleitorais, certas declarações revelam muito mais do que simples gafes de palanque: expõem a fragilidade de projetos políticos inteiros. Na sabatina do Jornal Nacional, de 16 de outubro de 2026, o candidato a presidente, Flávio Bolsonaro foi confrontado pela jornalista Renata Lo Prete sobre sua defesa do Projeto de Lei 3.723/2019. O texto retira do Estatuto do Desarmamento, a obrigatoriedade de marcação de lotes nas munições compradas por órgãos públicos e forças de segurança. Questionado repetidamente sobre como a polícia poderá investigar crimes graves se perder essa ferramenta, o senador fugiu das explicações práticas e chamou a medida de um mero “detalhezinho”, prometendo compensar o vácuo com investimentos em inteligência artificial e penas mais altas.
Classificar a identificação de cartuchos como um detalhe sem importância ignora a realidade do trabalho policial e da perícia científica. Em uma cena de homicídio ou confronto, a cápsula deixada no chão costuma ser o único vestígio físico capaz de ligar o autor do disparo ao contrato de compra daquele projétil. Tratar esse mecanismo como burocracia descartável não apenas enfraquece a elucidação de crimes, mas garante proteção prévia a redes de corrupção que desviam arsenais oficiais para o crime organizado.
A ideia conveniente de que o poder de fogo das facções brasileiras vem exclusivamente do contrabando internacional foi desfeita por dados empíricos. O relatório De onde vem o tiro?, produzido pelo Instituto Sou da Paz, analisou 31.699 cartuchos de fuzil apreendidos com o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, entre 2018 e 2025. A pesquisa revelou que a indústria brasileira é a principal fornecedora da facção: 40,9% de todas as munições foram fabricadas no país pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC). Mais grave ainda: entre essas munições nacionais, 51,9% traziam códigos que comprovavam sua compra original por Forças Armadas ou policiais. Em termos gerais, mais de um quinto (21,2%) do arsenal de fuzil nas mãos do tráfico carioca saiu diretamente dos depósitos do próprio Estado.
O estudo também derruba a tese de que esses desvios seriam sobras esquecidas de governos passados. Das munições com data de fabricação identificada, 39,9% tinham sido fabricadas em até dois anos antes da apreensão policial. Isso demonstra que o desvio é recente e contínuo. Essa rota de abastecimento ficou evidente na Operação Contenção, em outubro de 2025, na qual cápsulas do lote ETU03, entregue ao Exército em Barueri (SP), em 2022, foram disparadas contra policiais no Rio de Janeiro, a centenas de quilômetros de distância. Apesar disso, as investigações esbarram no sigilo das próprias autoridades: dos 119 códigos de lote encontrados pela pesquisa, apenas 34 foram identificados, porque o Exército se recusa a informar quem comprou os outros 85 registros.
Se o controle já falha no setor público, no mercado privado ele praticamente não existe. A lei brasileira exige marcação nos cartuchos comprados pelo Estado, mas deixa as munições vendidas a cidadãos comuns e a Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) em total anonimato. No primeiro semestre de 2025, os CACs compraram cerca de 1 milhão de balas para fuzis, dois terços de todo o consumo nacional desses calibres de guerra, o que equivale a mais de 5 mil cartuchos de alto impacto entregues por dia a civis sem qualquer código que identifique o comprador final.
Essa brecha alimenta um comércio ilegal paralelo. O Sou da Paz apontou que 20,7% dos casos de abastecimento da facção ocorreram pela revenda de cotas legais por CACs e agentes de segurança corrompidos. O método mais comum é o uso de “laranjas”: pessoas sem antecedentes criminais compram grandes volumes legais a preço de fábrica e revendem com lucro alto ao crime organizado. Crimes históricos da crônica policial brasileira, como o assassinato da juíza Patrícia Acioli, em 2011, e as mortes da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes, em 2018, só foram esclarecidos porque as munições usadas pertenciam a lotes públicos marcados. Se tivessem sido compradas no mercado civil comum, os estojos seriam anônimos e os mandantes permaneceriam impunes.
Fuzis são peças de metal que duram décadas, mas armas não atiram sem munição. As facções dependem do fornecimento contínuo de projéteis para sustentar disputas territoriais. A polícia rodoviária apreende volumes expressivos dessas cargas nas estradas, foram 27.850 cartuchos apreendidos em transporte, contra pouco mais de 2.300 recolhidos em tiroteios diretos. No entanto, quando a carga interceptada não tem marcação, a punição recai apenas sobre o motorista do veículo. A polícia não consegue descobrir quem comprou a mercadoria na fábrica nem quem autorizou sua entrega, deixando os verdadeiros fornecedores intocados.
Defender o fim da marcação de munições públicas e normalizar o anonimato das compras privadas é uma contradição insanável na segurança pública. Prometer investimentos em inteligência artificial não resolve o problema: nenhum computador consegue decifrar o que foi deliberadamente apagado da lei. Da mesma forma, aumentar as penas de prisão não reduz a violência se as provas materiais continuam sendo destruídas na origem. Ao tratar a rastreabilidade como um “detalhezinho”, o discurso punitivista revela que não tem planos reais contra o crime. Criar um apagão sobre a origem das balas não protege o cidadão de bem; apenas garante que o crime organizado continue armado até os dentes sem deixar rastros.
Classificar a identificação de cartuchos como um detalhe sem importância ignora a realidade do trabalho policial e da perícia científica. Em uma cena de homicídio ou confronto, a cápsula deixada no chão costuma ser o único vestígio físico capaz de ligar o autor do disparo ao contrato de compra daquele projétil. Tratar esse mecanismo como burocracia descartável não apenas enfraquece a elucidação de crimes, mas garante proteção prévia a redes de corrupção que desviam arsenais oficiais para o crime organizado.
A ideia conveniente de que o poder de fogo das facções brasileiras vem exclusivamente do contrabando internacional foi desfeita por dados empíricos. O relatório De onde vem o tiro?, produzido pelo Instituto Sou da Paz, analisou 31.699 cartuchos de fuzil apreendidos com o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, entre 2018 e 2025. A pesquisa revelou que a indústria brasileira é a principal fornecedora da facção: 40,9% de todas as munições foram fabricadas no país pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC). Mais grave ainda: entre essas munições nacionais, 51,9% traziam códigos que comprovavam sua compra original por Forças Armadas ou policiais. Em termos gerais, mais de um quinto (21,2%) do arsenal de fuzil nas mãos do tráfico carioca saiu diretamente dos depósitos do próprio Estado.
O estudo também derruba a tese de que esses desvios seriam sobras esquecidas de governos passados. Das munições com data de fabricação identificada, 39,9% tinham sido fabricadas em até dois anos antes da apreensão policial. Isso demonstra que o desvio é recente e contínuo. Essa rota de abastecimento ficou evidente na Operação Contenção, em outubro de 2025, na qual cápsulas do lote ETU03, entregue ao Exército em Barueri (SP), em 2022, foram disparadas contra policiais no Rio de Janeiro, a centenas de quilômetros de distância. Apesar disso, as investigações esbarram no sigilo das próprias autoridades: dos 119 códigos de lote encontrados pela pesquisa, apenas 34 foram identificados, porque o Exército se recusa a informar quem comprou os outros 85 registros.
Se o controle já falha no setor público, no mercado privado ele praticamente não existe. A lei brasileira exige marcação nos cartuchos comprados pelo Estado, mas deixa as munições vendidas a cidadãos comuns e a Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) em total anonimato. No primeiro semestre de 2025, os CACs compraram cerca de 1 milhão de balas para fuzis, dois terços de todo o consumo nacional desses calibres de guerra, o que equivale a mais de 5 mil cartuchos de alto impacto entregues por dia a civis sem qualquer código que identifique o comprador final.
Essa brecha alimenta um comércio ilegal paralelo. O Sou da Paz apontou que 20,7% dos casos de abastecimento da facção ocorreram pela revenda de cotas legais por CACs e agentes de segurança corrompidos. O método mais comum é o uso de “laranjas”: pessoas sem antecedentes criminais compram grandes volumes legais a preço de fábrica e revendem com lucro alto ao crime organizado. Crimes históricos da crônica policial brasileira, como o assassinato da juíza Patrícia Acioli, em 2011, e as mortes da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes, em 2018, só foram esclarecidos porque as munições usadas pertenciam a lotes públicos marcados. Se tivessem sido compradas no mercado civil comum, os estojos seriam anônimos e os mandantes permaneceriam impunes.
Fuzis são peças de metal que duram décadas, mas armas não atiram sem munição. As facções dependem do fornecimento contínuo de projéteis para sustentar disputas territoriais. A polícia rodoviária apreende volumes expressivos dessas cargas nas estradas, foram 27.850 cartuchos apreendidos em transporte, contra pouco mais de 2.300 recolhidos em tiroteios diretos. No entanto, quando a carga interceptada não tem marcação, a punição recai apenas sobre o motorista do veículo. A polícia não consegue descobrir quem comprou a mercadoria na fábrica nem quem autorizou sua entrega, deixando os verdadeiros fornecedores intocados.
Defender o fim da marcação de munições públicas e normalizar o anonimato das compras privadas é uma contradição insanável na segurança pública. Prometer investimentos em inteligência artificial não resolve o problema: nenhum computador consegue decifrar o que foi deliberadamente apagado da lei. Da mesma forma, aumentar as penas de prisão não reduz a violência se as provas materiais continuam sendo destruídas na origem. Ao tratar a rastreabilidade como um “detalhezinho”, o discurso punitivista revela que não tem planos reais contra o crime. Criar um apagão sobre a origem das balas não protege o cidadão de bem; apenas garante que o crime organizado continue armado até os dentes sem deixar rastros.
A mídia privada, os anunciantes e a independência editorial
Até agora, o escândalo do Banco Master estava concentrado principalmente nas relações corruptas e criminosas entre agentes econômicos e autoridades da política e do Judiciário. Mas as novas revelações da semana passada, que trazem à tona o envolvimento do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com executivos de meios de comunicação, mais especificamente do portal Metrópoles e do Grupo Globo, apontam para uma dimensão tanto ou mais perigosa para a democracia, por ser difícil de identificar e punir. Vale ressaltar que relações suspeitas de financiamento, patrocínio e suposta interferência editorial envolvendo o caso Master já haviam sido atribuídas também aos portais DCM, CartaCapital, Brazil Journal, IstoÉ e PlatôBR.
Todos esses casos não devem ser interpretados apenas pela perspectiva de desvio de conduta individual. Eles são reveladores de um problema estrutural: o que acontece com o direito à informação quando os interesses comerciais de uma empresa de comunicação se confundem com os interesses de seus anunciantes? Ou, dito de outra forma: é possível compatibilizar o interesse público que deveria revestir o trabalho jornalístico com a dependência econômica de um veículo por anúncio publicitário?
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), segue sendo um farol da promoção de uma conduta ética de alto padrão profissional. Ele é explícito ao estabelecer que o compromisso com a informação deve prevalecer sobre os interesses econômicos das empresas. Cabe aos veículos garantir condições para que esse princípio seja respeitado na prática.
Além disso, como bem ressaltam as entidades sindicais do campo do jornalismo, é fundamental distinguir as responsabilidades de proprietários e dirigentes das empresas de comunicação daquelas dos profissionais que trabalham nas redações. Jornalistas não podem ser responsabilizados por decisões tomadas à sua revelia, nem pressionados a modificar ou omitir informações para atender a interesses particulares.
Porém, mais do que respostas pontuais, esses graves episódios de desvio ético evidenciam os limites de um sistema de comunicação, como é o caso do brasileiro, excessivamente dominado por poucos grandes conglomerados empresariais e de suas relações com anunciantes. Quem paga, manda? Se a informação é um direito fundamental, e não uma mera mercadoria, sua produção e circulação não podem ficar condicionadas à capacidade de gerar receitas ou atender a interesses privados.
A resposta democrática passa, portanto, não apenas pela cobrança de transparência e responsabilidade das empresas jornalísticas, mas também pelo fortalecimento de um ecossistema de mídia efetivamente plural. Isso inclui meios públicos dotados de autonomia editorial, governança independente e financiamento estável. Passa também por políticas que favoreçam a sustentabilidade de mídias comunitárias, alternativas e sem fins lucrativos.
Não se trata de substituir um modelo privado por outro estatal ou público, mas de assegurar que diferentes vozes, perspectivas e interesses sociais tenham condições reais de participar do debate público. Como previsto na própria Constituição Federal de 1988, tão atacada na boca de políticos autoritários. O artigo 223, já clássico na defesa da democratização das comunicações, aponta a obrigação de complementaridade entre os sistemas público, privado e estatal de radiodifusão.
Esse princípio expressa que a pluralidade não é apenas uma suposta diversidade de opiniões dentro de um mesmo grupo empresarial. É também a existência de diferentes formas de propriedade e de financiamento. Meios públicos autônomos, veículos comunitários e organizações jornalísticas sem fins lucrativos ampliam a diversidade de vozes e reduzem a dependência de interesses comerciais concentrados. Porém, isso exige políticas de financiamento transparentes, critérios públicos de distribuição de recursos e salvaguardas contra interferências políticas ou econômicas.
Não basta garantir liberdade de imprensa às empresas jornalísticas. Um Estado democrático deve assegurar as condições materiais para que o direito à informação seja exercido com independência e pluralidade, em favor do conjunto da sociedade. É nesse sentido que o fortalecimento da comunicação pública e das emissoras comunitárias deixa de ser uma pauta setorial e passa a integrar a agenda de aprofundamento da democracia.
São estas garantias civilizatórias que devem guiar um debate sério, suscitado por esses lamentáveis casos de desvio de conduta, que têm implicações muito mais sérias do que apenas relações espúrias entre um ou dois profissionais da mídia e um anunciante, como ressaltamos. Estamos diante de uma grave evidência de anomalia no interior da democracia brasileira, que não é de agora. Não há democracia sem um ambiente de mídia efetivamente desconcentrado, descentralizado e independente dos poderes políticos e econômicos.
Todos esses casos não devem ser interpretados apenas pela perspectiva de desvio de conduta individual. Eles são reveladores de um problema estrutural: o que acontece com o direito à informação quando os interesses comerciais de uma empresa de comunicação se confundem com os interesses de seus anunciantes? Ou, dito de outra forma: é possível compatibilizar o interesse público que deveria revestir o trabalho jornalístico com a dependência econômica de um veículo por anúncio publicitário?
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), segue sendo um farol da promoção de uma conduta ética de alto padrão profissional. Ele é explícito ao estabelecer que o compromisso com a informação deve prevalecer sobre os interesses econômicos das empresas. Cabe aos veículos garantir condições para que esse princípio seja respeitado na prática.
Além disso, como bem ressaltam as entidades sindicais do campo do jornalismo, é fundamental distinguir as responsabilidades de proprietários e dirigentes das empresas de comunicação daquelas dos profissionais que trabalham nas redações. Jornalistas não podem ser responsabilizados por decisões tomadas à sua revelia, nem pressionados a modificar ou omitir informações para atender a interesses particulares.
Porém, mais do que respostas pontuais, esses graves episódios de desvio ético evidenciam os limites de um sistema de comunicação, como é o caso do brasileiro, excessivamente dominado por poucos grandes conglomerados empresariais e de suas relações com anunciantes. Quem paga, manda? Se a informação é um direito fundamental, e não uma mera mercadoria, sua produção e circulação não podem ficar condicionadas à capacidade de gerar receitas ou atender a interesses privados.
A resposta democrática passa, portanto, não apenas pela cobrança de transparência e responsabilidade das empresas jornalísticas, mas também pelo fortalecimento de um ecossistema de mídia efetivamente plural. Isso inclui meios públicos dotados de autonomia editorial, governança independente e financiamento estável. Passa também por políticas que favoreçam a sustentabilidade de mídias comunitárias, alternativas e sem fins lucrativos.
Não se trata de substituir um modelo privado por outro estatal ou público, mas de assegurar que diferentes vozes, perspectivas e interesses sociais tenham condições reais de participar do debate público. Como previsto na própria Constituição Federal de 1988, tão atacada na boca de políticos autoritários. O artigo 223, já clássico na defesa da democratização das comunicações, aponta a obrigação de complementaridade entre os sistemas público, privado e estatal de radiodifusão.
Esse princípio expressa que a pluralidade não é apenas uma suposta diversidade de opiniões dentro de um mesmo grupo empresarial. É também a existência de diferentes formas de propriedade e de financiamento. Meios públicos autônomos, veículos comunitários e organizações jornalísticas sem fins lucrativos ampliam a diversidade de vozes e reduzem a dependência de interesses comerciais concentrados. Porém, isso exige políticas de financiamento transparentes, critérios públicos de distribuição de recursos e salvaguardas contra interferências políticas ou econômicas.
Não basta garantir liberdade de imprensa às empresas jornalísticas. Um Estado democrático deve assegurar as condições materiais para que o direito à informação seja exercido com independência e pluralidade, em favor do conjunto da sociedade. É nesse sentido que o fortalecimento da comunicação pública e das emissoras comunitárias deixa de ser uma pauta setorial e passa a integrar a agenda de aprofundamento da democracia.
São estas garantias civilizatórias que devem guiar um debate sério, suscitado por esses lamentáveis casos de desvio de conduta, que têm implicações muito mais sérias do que apenas relações espúrias entre um ou dois profissionais da mídia e um anunciante, como ressaltamos. Estamos diante de uma grave evidência de anomalia no interior da democracia brasileira, que não é de agora. Não há democracia sem um ambiente de mídia efetivamente desconcentrado, descentralizado e independente dos poderes políticos e econômicos.
Perigo para o humanismo
Está se tornando cada vez mais óbvio que não é a fome, nem os micróbios, nem o câncer, mas o próprio homem o maior perigo para a Humanidade, porque ele não dispõe de proteção adequada contra epidemias psíquicas, infinitamente mais devastadoras, em seus efeitos, do que as maiores catástrofes naturais.
C. G. Jung, "O Homem Moderno em Busca de uma Alma"
C. G. Jung, "O Homem Moderno em Busca de uma Alma"
Duas promessas de Flávio Marçal, o coach bolsonarista
Prosperidade qualquer um almeja. Então, por que não criar um ministério que abrace a causa? Tem orçamento, metas ou objetivos? Claro que não. Mas o que importa? A proposta de Flávio Bolsonaro tem a cara do discurso de coach de Pablo Marçal, que assumiu o papel de estrategista da campanha nesta reta final. O estelionato eleitoral transforma a prosperidade individual em promessa de governo, usando palavras genéricas como empreender, crescer e vencer, mas sem apresentar qualquer desenho administrativo.
Flávio propõe reunir qualificação profissional, crédito e incentivo aos pequenos negócios. Também afirmou que manterá o Bolsa Família, inclusive para quem conseguir emprego. “Para esse governo, Bolsa Família é o máximo. Para mim, é só o começo”, boa frase, mas já se sabe o final.
O problema, bem pequeno, é que o plano de governo de Flávio não prevê a nova pasta. Ao contrário, promete extinguir pelo menos dez ministérios para reduzir gastos. Não existe prosperidade quando o governo, o principal indutor de desenvolvimento e crescimento no país, fecha a torneira dos gastos. A prosperidade é apenas um slogan que jamais se tornará política pública.
Sejamos justos, o plano do candidato possui um eixo denominado “Brasil que Prospera”, com propostas como a prioridade de beneficiários de programas sociais em ações de qualificação profissional, o incentivo à abertura de pequenos negócios e a transformação da Caixa Econômica Federal em um “Banco da Prosperidade”. Pobre Caixa.
Chamou atenção outra promessa vazia de Flávio no debate. Se Lula anuncia bilhões em bondades eleitorais atropeladas sem saber como bancá-las, Flávio se viu autorizado a fazer o mesmo. Quis emular o Desenrola com o perdão da dívida para MEIs. “Para você que é pessoa física, vai ficar seis meses parada a sua dívida. Você não vai pagar boleto nenhum. E para você que é pessoa jurídica, esse prazo vai ser de um ano”.
Mais uma vez, a proposta não está em seu plano de governo e evidentemente, o senador não detalhou como seria financiada a compra das dívidas, critérios para selecionar os beneficiários ou as condições de pagamento. Coisa de debate. Se não for eleito, senador fica sem mandato, mas não ficará sem emprego. Poderá seguir o caminho dos coachs, como seu estrategista Pablo Marçal.
Flávio propõe reunir qualificação profissional, crédito e incentivo aos pequenos negócios. Também afirmou que manterá o Bolsa Família, inclusive para quem conseguir emprego. “Para esse governo, Bolsa Família é o máximo. Para mim, é só o começo”, boa frase, mas já se sabe o final.
O problema, bem pequeno, é que o plano de governo de Flávio não prevê a nova pasta. Ao contrário, promete extinguir pelo menos dez ministérios para reduzir gastos. Não existe prosperidade quando o governo, o principal indutor de desenvolvimento e crescimento no país, fecha a torneira dos gastos. A prosperidade é apenas um slogan que jamais se tornará política pública.
Sejamos justos, o plano do candidato possui um eixo denominado “Brasil que Prospera”, com propostas como a prioridade de beneficiários de programas sociais em ações de qualificação profissional, o incentivo à abertura de pequenos negócios e a transformação da Caixa Econômica Federal em um “Banco da Prosperidade”. Pobre Caixa.
Chamou atenção outra promessa vazia de Flávio no debate. Se Lula anuncia bilhões em bondades eleitorais atropeladas sem saber como bancá-las, Flávio se viu autorizado a fazer o mesmo. Quis emular o Desenrola com o perdão da dívida para MEIs. “Para você que é pessoa física, vai ficar seis meses parada a sua dívida. Você não vai pagar boleto nenhum. E para você que é pessoa jurídica, esse prazo vai ser de um ano”.
Mais uma vez, a proposta não está em seu plano de governo e evidentemente, o senador não detalhou como seria financiada a compra das dívidas, critérios para selecionar os beneficiários ou as condições de pagamento. Coisa de debate. Se não for eleito, senador fica sem mandato, mas não ficará sem emprego. Poderá seguir o caminho dos coachs, como seu estrategista Pablo Marçal.
O Brasil quer um presidente. A TV dá um inimigo
Se Hitler, Stalin e Pol Pot desembarcassem no Brasil, sem conhecer nossa eleição, poderiam imaginar que estamos escolhendo o responsável pelo fim do mundo e eles também achariam que estamos substituindo-os com muita competência. Cada campanha apresenta seu guerreiro como a última esperança da humanidade e o ninja adversário como uma mistura de assombração, cobrador e criador da Covid. Falta explicar, aos brasileirinhos, quem e como é que vai governar quando o terror passar.
Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.
Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.
O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.
Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?
Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!
No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.
Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.
Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.
Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!
O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.
O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.
Roberto Caminha Filho, economista, perguntará, aos dois, após as honoráveis propostas: Como farás e pagarás essa obra, Excelência? Sempre com muito respeito.
Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.
Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.
O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.
Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?
Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!
No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.
Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.
Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.
Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!
O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.
O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.
Roberto Caminha Filho, economista, perguntará, aos dois, após as honoráveis propostas: Como farás e pagarás essa obra, Excelência? Sempre com muito respeito.
Roberto Caminha Filho
Fascismo, crise climática e desinformação: sinais de um mundo em colapso
O livro é “A paixão pela mentira — A família e as tiranias”, do psicanalista Paulo Schiller. Lançado em 2025, discute as angústias e traumas infantis que resultam no adulto que nos tornamos. Como o título e o subtítulo indicam, o livro denuncia as narrativas estrambólicas que sustentam o fascismo desde sua origem, no âmbito familiar. A leitura é atrativa a leitores de qualquer espectro político, mas abri o livro justo neste frenético outubro de 2026, e ele me ajudou a entender a razão de estarmos tão assustados com a possibilidade de sermos governados por uma família que se encaixa exemplarmente na análise profissional e isenta do autor.
Faltavam apenas 50 páginas para eu terminar a leitura quando minha filha mais nova saiu do quarto determinada a me convencer a assistir a “Digger”, em cartaz apenas nos cinemas. Sério? Logo esse filme que, dizem, é um fracasso de bilheteria? “Sério, mãe”. Você escuta isso de uma garota que nasceu de seu ventre e, se tiver juízo, vai conferir a razão de ela ter deixado o celular de lado para conversar com você sobre uma obra de arte. Dois nomes da ficha técnica bastariam para credibilizar o filme: Tom Cruise está assombroso, candidatíssimo ao Oscar de 2027, e o diretor Alejandro Iñárritu, mais uma vez, não passa despercebido pela telona. São motivo suficiente para sair de casa.
“Digger” é uma experiência cinematográfica. Reúne comédia, tragédia, farsa, cinema, teatro, realidade, fantasia, tecnologia, tudo sacudido na mesma coqueteleira. Extravagante, aborda nossa dependência do petróleo, “o leite materno da Terra” (como define um personagem), e as insanidades feitas em seu nome. Ao mesmo tempo, dá palco ao aquecimento global, que acabará por afogar a ânsia inconsequente pelo poder. Batemos no teto? Chegamos ao fim da linha? Irá tudo por água abaixo?
E aí entra a vida. Entre a leitura do livro e a ida ao cinema, fui surpreendida pelas imagens da lama invadindo o bairro de Las Condes, em Santiago do Chile, cidade em que morei. Lembro bem do arroio que corta suas vias. Foi chocante ver o transbordamento arrastando carros, os transeuntes em pânico. Cortesia da chuva intensa e do derretimento da Cordilheira dos Andes, da mesma forma que se deu no Himalaia, no Nepal, poucos meses atrás, assim como tem acontecido com geleiras e calotas polares — afundaremos todos, é isso mesmo?
Sobreviverá quem estiver no lucro. E não falo de dinheiro, e sim do lucro de ter vivido bastante, cercado por livros, informação e consciência do momento presente.
Agora imagina quem não lê, quem não vai ao cinema, nem respeita a ciência e o conhecimento. Desfocado da realidade, só lhe resta acreditar em miragens.
Faltavam apenas 50 páginas para eu terminar a leitura quando minha filha mais nova saiu do quarto determinada a me convencer a assistir a “Digger”, em cartaz apenas nos cinemas. Sério? Logo esse filme que, dizem, é um fracasso de bilheteria? “Sério, mãe”. Você escuta isso de uma garota que nasceu de seu ventre e, se tiver juízo, vai conferir a razão de ela ter deixado o celular de lado para conversar com você sobre uma obra de arte. Dois nomes da ficha técnica bastariam para credibilizar o filme: Tom Cruise está assombroso, candidatíssimo ao Oscar de 2027, e o diretor Alejandro Iñárritu, mais uma vez, não passa despercebido pela telona. São motivo suficiente para sair de casa.
“Digger” é uma experiência cinematográfica. Reúne comédia, tragédia, farsa, cinema, teatro, realidade, fantasia, tecnologia, tudo sacudido na mesma coqueteleira. Extravagante, aborda nossa dependência do petróleo, “o leite materno da Terra” (como define um personagem), e as insanidades feitas em seu nome. Ao mesmo tempo, dá palco ao aquecimento global, que acabará por afogar a ânsia inconsequente pelo poder. Batemos no teto? Chegamos ao fim da linha? Irá tudo por água abaixo?
E aí entra a vida. Entre a leitura do livro e a ida ao cinema, fui surpreendida pelas imagens da lama invadindo o bairro de Las Condes, em Santiago do Chile, cidade em que morei. Lembro bem do arroio que corta suas vias. Foi chocante ver o transbordamento arrastando carros, os transeuntes em pânico. Cortesia da chuva intensa e do derretimento da Cordilheira dos Andes, da mesma forma que se deu no Himalaia, no Nepal, poucos meses atrás, assim como tem acontecido com geleiras e calotas polares — afundaremos todos, é isso mesmo?
Sobreviverá quem estiver no lucro. E não falo de dinheiro, e sim do lucro de ter vivido bastante, cercado por livros, informação e consciência do momento presente.
Agora imagina quem não lê, quem não vai ao cinema, nem respeita a ciência e o conhecimento. Desfocado da realidade, só lhe resta acreditar em miragens.
Trumpistas fogem do mundo real
Há quem goste de qualificar Stephen Miller como a éminence grise de Donald Trump. O epíteto não lhe faz justiça. Seu poder é mais vasto do que o do frade de batina cinza Leclerc du Tremblay, braço direito de Richelieu nos tempos de Luís XIII. Miller é o homem que transforma em política pública os impulsos mais incivilizados de Trump. Imprime sua ideologia raivosa com métodos de inquisidor, não aceita desculpas nem abre espaço a dissenso. É temido não pela fisionomia que lembra Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, mas por deter um poder de ação e persuasão imenso na Casa Branca. Não por acaso, escolheu a dedo um cargo que não quer dizer nada (e, portanto, pode significar tudo) e não exige ser sabatinado pelo Senado: vice-chefe de Gabinete para Políticas Públicas. Opera melhor nas sombras do que à luz do dia, e poucos no universo Make America Great Again (Maga) se aventuram a contrariá-lo.
Fora da bolha, a história é outra. Até outubro do ano passado, Stephen, sua mulher, Katie, e os quatro filhos pequenos moravam numa daquelas deliciosas mansões arborizadas de Arlington, na Virgínia, a não mais de 15 quilômetros da Casa Branca. Ali, a vizinhança democrata lhes pareceu hostil. Surgiram pichações no asfalto contra as mudanças da vida cívica implantadas por Trump. O incômodo da vizinhança com o excesso de agentes e seguranças nas redondezas (Miller é o único funcionário de segundo escalão com direito a guarda-costas do Serviço Secreto) acabou levando o casal a vender a propriedade.
— Éramos ótimos vizinhos, até aumentamos o valor dos terrenos da redondeza — contou Katie Miller no podcast Ruthless. — O lugar deixou de ser seguro para nossos filhos brincarem no gramado de casa.
Mudaram-se para uma instalação militar fortemente protegida, em Washington D.C. Ali, ocupam uma das residências historicamente reservadas a oficiais de alta patente, transformada numa espécie de assentamento Maga. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, o secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, e outros integrantes da bolha Trump também se mudaram para esse Xanadu fortificado, onde se sentem em segurança por viverem intramuros.
— Agora as crianças estão tão felizes, podem brincar e correr em liberdade. Elas adoram ver os soldados, é uma experiência única na vida delas — festejou a senhora Miller.
Logo no início de seu segundo mandato, Trump havia declarado estado de emergência criminal na capital do país. Batizou a ação de “Dia da Libertação” e decretou a federalização da polícia municipal. Designou tropas da Guarda Nacional com fuzis M4 e blindados para erradicar a criminalidade que dizia ver em todas as esquinas da cidade — o contingente chegou a mobilizar 4.600 militares e deve marcar presença em Washington até o fim do mandato. A empreitada — que também conta com agentes do FBI, do ICE e de delegados federais — resultou em mais de 16 mil prisões até agora e trombeteia índices questionáveis de eficácia.
Ainda assim, os Millers, os Hegseths, os Rubios não se sentem seguros, ou não querem ser incomodados, a ponto de conviver com a população local, blindando-se da sociedade que acreditam conhecer e governar. Não é síndrome nova. Ela adquire facetas variadas, mas tem um denominador comum: o medo do conhecimento da realidade. A apoteose dessa síndrome já recebeu atenção neste espaço em 2009, por ocasião da inauguração da nova embaixada americana em Bagdá, capital do Iraque. Os Estados Unidos haviam invadido o país em 2003 sob falso pretexto e não conseguiam mais sair daquela terra islâmica de 48 milhões de árabes (80%) e curdos (20%).
Primeiro, demarcaram uma “Zona Verde” de 10 quilômetros em pleno centro de Bagdá e a transformaram em minicidade estanque e inviolável. Ali funcionavam órgãos do governo e embaixadas, entre outros. Cidadãos iraquianos comuns eram proibidos de acessar ou transitar pelo perímetro. Arame farpado, barreiras de concreto e tanques, revistas físicas minuciosas mesmo para credenciados faziam parte do controle. Mas nem isso bastou para que se sentissem seguros na cidade por eles ocupada. Ergueram, então, um mastodonte emparedado de 21 edificações às margens do Rio Tigre, dentro da tal Zona Verde, e lá criaram um mundo estanque e ficcional.
Idealizado para abrigar até 16 mil ocupantes (entre funcionários diplomáticos, equipe de segurança, administradores e pessoal terceirizado), o projeto previu restaurantes, cinemas, piscinas, campo de beisebol, shopping, escolas, usina elétrica e hidráulica à prova de morteiros e foguetes. Só não previu a marcha da História. Os Estados Unidos deixaram o Iraque em frangalhos, as instalações pantagruélicas não têm um décimo da ocupação imaginada, e até o posto de embaixador continua vago. A ver se as próximas eleições americanas apontarão para uma debandada trumpista.
Fora da bolha, a história é outra. Até outubro do ano passado, Stephen, sua mulher, Katie, e os quatro filhos pequenos moravam numa daquelas deliciosas mansões arborizadas de Arlington, na Virgínia, a não mais de 15 quilômetros da Casa Branca. Ali, a vizinhança democrata lhes pareceu hostil. Surgiram pichações no asfalto contra as mudanças da vida cívica implantadas por Trump. O incômodo da vizinhança com o excesso de agentes e seguranças nas redondezas (Miller é o único funcionário de segundo escalão com direito a guarda-costas do Serviço Secreto) acabou levando o casal a vender a propriedade.
— Éramos ótimos vizinhos, até aumentamos o valor dos terrenos da redondeza — contou Katie Miller no podcast Ruthless. — O lugar deixou de ser seguro para nossos filhos brincarem no gramado de casa.
Mudaram-se para uma instalação militar fortemente protegida, em Washington D.C. Ali, ocupam uma das residências historicamente reservadas a oficiais de alta patente, transformada numa espécie de assentamento Maga. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, o secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, e outros integrantes da bolha Trump também se mudaram para esse Xanadu fortificado, onde se sentem em segurança por viverem intramuros.
— Agora as crianças estão tão felizes, podem brincar e correr em liberdade. Elas adoram ver os soldados, é uma experiência única na vida delas — festejou a senhora Miller.
Logo no início de seu segundo mandato, Trump havia declarado estado de emergência criminal na capital do país. Batizou a ação de “Dia da Libertação” e decretou a federalização da polícia municipal. Designou tropas da Guarda Nacional com fuzis M4 e blindados para erradicar a criminalidade que dizia ver em todas as esquinas da cidade — o contingente chegou a mobilizar 4.600 militares e deve marcar presença em Washington até o fim do mandato. A empreitada — que também conta com agentes do FBI, do ICE e de delegados federais — resultou em mais de 16 mil prisões até agora e trombeteia índices questionáveis de eficácia.
Ainda assim, os Millers, os Hegseths, os Rubios não se sentem seguros, ou não querem ser incomodados, a ponto de conviver com a população local, blindando-se da sociedade que acreditam conhecer e governar. Não é síndrome nova. Ela adquire facetas variadas, mas tem um denominador comum: o medo do conhecimento da realidade. A apoteose dessa síndrome já recebeu atenção neste espaço em 2009, por ocasião da inauguração da nova embaixada americana em Bagdá, capital do Iraque. Os Estados Unidos haviam invadido o país em 2003 sob falso pretexto e não conseguiam mais sair daquela terra islâmica de 48 milhões de árabes (80%) e curdos (20%).
Primeiro, demarcaram uma “Zona Verde” de 10 quilômetros em pleno centro de Bagdá e a transformaram em minicidade estanque e inviolável. Ali funcionavam órgãos do governo e embaixadas, entre outros. Cidadãos iraquianos comuns eram proibidos de acessar ou transitar pelo perímetro. Arame farpado, barreiras de concreto e tanques, revistas físicas minuciosas mesmo para credenciados faziam parte do controle. Mas nem isso bastou para que se sentissem seguros na cidade por eles ocupada. Ergueram, então, um mastodonte emparedado de 21 edificações às margens do Rio Tigre, dentro da tal Zona Verde, e lá criaram um mundo estanque e ficcional.
Idealizado para abrigar até 16 mil ocupantes (entre funcionários diplomáticos, equipe de segurança, administradores e pessoal terceirizado), o projeto previu restaurantes, cinemas, piscinas, campo de beisebol, shopping, escolas, usina elétrica e hidráulica à prova de morteiros e foguetes. Só não previu a marcha da História. Os Estados Unidos deixaram o Iraque em frangalhos, as instalações pantagruélicas não têm um décimo da ocupação imaginada, e até o posto de embaixador continua vago. A ver se as próximas eleições americanas apontarão para uma debandada trumpista.
A luta contra o desmatamento
A queda do desmatamento na Amazônia ao menor número nos 38 anos em que o INPE faz o monitoramento é uma vitória cuja dimensão só se entende através de uma viagem no tempo. Não poderia ser colhida se não houvesse uma decisão do governo seguida zelosamente por todas as equipes dos órgãos públicos envolvidos na missão. O presidente Lula repete o feito dos primeiros dois mandatos em que também derrubou fortemente o desmatamento na Amazônia. Dessa vez, há outra boa notícia a comemorar. O Cerrado, o bioma que vem sendo mais atacado, também teve o seu melhor número.
A Amazônia começou a ser monitorada pelo INPE em 1988, usando os dados coletados pelos satélites que cruzam nossos céus. Era o governo José Sarney, o desmatamento havia aumentado muito e o ambientalista Chico Mendes havia sido assassinado. A resposta do governo foi criar o Ibama, lançar um programa chamado Nossa Natureza e pedir ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para iniciar o monitoramento. Os primeiros movimentos dessa supervisão foram difíceis, quase épicos. A tecnologia na época era rudimentar perto da que temos hoje.
Várias vezes, os desmatadores testaram governos. Os bons governos reagiram defendendo a lei e o meio ambiente. No começo da primeira gestão Fernando Henrique, a destruição da Amazônia atingiu o pior número da história, 29 mil km². A reação de FHC foi aprovar a Lei de Crimes Ambientais e elevar a reserva legal da Amazônia para 80%. A taxa caiu nos anos seguintes, depois voltou a subir. No início do primeiro governo Lula, o desmatamento teve novo pico, o segundo pior da história, 27 mil km². A resposta, comandada pela ministra Marina Silva, foi a criação de um plano que integrava vários ministérios, o PPCDAm. Por anos, a taxa caiu até atingir 4,5 mil km² em 2012. Oscilou e voltou a subir no governo Bolsonaro.
O melhor resumo da política ambiental de Jair Bolsonaro foi dado pelo então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles naquela trágica reunião de abril de 2020. O “vamos passar a boiada” era um crime duplo, porque o contexto era do início da pandemia, o país amedrontado, o governo omisso diante do que seria a maior tragédia sanitária do país com 700 mil mortos. Aquela reunião ministerial deveria ser para organizar a estratégia de enfrentar o vírus, mas não foi este o tema. Bolsonaro tinha uma preocupação: evitar que sua família fosse investigada, especialmente seu filho Flávio. Ele disse que demitiria um ministro se não fosse obedecido. O ministro Sergio Moro saiu denunciando a interferência na Polícia Federal. Hoje ele faz parte do bolsonarismo. O que Salles propôs naquela reunião foi aproveitar “que a atenção da imprensa está voltada exclusiva quase que exclusivamente pro Covid”, para fazer o desmonte da legislação ambiental. Eles realizaram o plano e passaram a boiada. A taxa de desmatamento na Amazônia subiu até 13 mil km² em 2021.
Quando Marina Silva assumiu novamente o Ministério do Meio Ambiente encontrou o próprio órgão devastado. Um sinal pequeno dessa devastação foi vista na secretaria-executiva. A mesa de reunião era tão pequena que João Paulo Capobianco decidiu medir. Tinha 80 centímetros. Dava para quatro cadeiras. Foi preciso consertar o desmonte praticado deliberadamente pelo governo Bolsonaro e trabalhar com muita determinação para chegar ao resultado divulgado na sexta-feira. O desmatamento caiu 71, 2% em quatro anos e atingiu o nível mais baixo da História a 3,3 mil km². Isso torna possível sonhar com o fim do desmatamento até 2030.
As decisões de Brasília, seja no executivo, seja no Congresso, têm consequências concretas na vida do país. São árvores que deixam de ser derrubadas, gases de efeito estufa que deixam de ser emitidos, é o país que fica mais forte para enfrentar a emergência climática.
Em fevereiro de 2023, perguntei a Capobianco, que hoje é o ministro do Meio Ambiente, qual havia sido a diferença entre assumir a pasta, em 2003 e em 2023. Ele disse que foi totalmente diferente. O governo Fernando Henrique deixou tudo preparado. “O secretário anterior me aguardava, a mesa estava coberta de processos, de encaminhamentos, havia trabalho em andamento. Desta vez, não houve transição, ninguém nos esperava, a mesa estava limpa, nada havia”. Em 2023, foi um recomeçar sobre terra arrasada. Por isso, a vitória anunciada na sexta, do menor desmatamento da história, é tão valiosa. Ela mostra que é possível vencer a destruição.
A Amazônia começou a ser monitorada pelo INPE em 1988, usando os dados coletados pelos satélites que cruzam nossos céus. Era o governo José Sarney, o desmatamento havia aumentado muito e o ambientalista Chico Mendes havia sido assassinado. A resposta do governo foi criar o Ibama, lançar um programa chamado Nossa Natureza e pedir ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para iniciar o monitoramento. Os primeiros movimentos dessa supervisão foram difíceis, quase épicos. A tecnologia na época era rudimentar perto da que temos hoje.
Várias vezes, os desmatadores testaram governos. Os bons governos reagiram defendendo a lei e o meio ambiente. No começo da primeira gestão Fernando Henrique, a destruição da Amazônia atingiu o pior número da história, 29 mil km². A reação de FHC foi aprovar a Lei de Crimes Ambientais e elevar a reserva legal da Amazônia para 80%. A taxa caiu nos anos seguintes, depois voltou a subir. No início do primeiro governo Lula, o desmatamento teve novo pico, o segundo pior da história, 27 mil km². A resposta, comandada pela ministra Marina Silva, foi a criação de um plano que integrava vários ministérios, o PPCDAm. Por anos, a taxa caiu até atingir 4,5 mil km² em 2012. Oscilou e voltou a subir no governo Bolsonaro.
O melhor resumo da política ambiental de Jair Bolsonaro foi dado pelo então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles naquela trágica reunião de abril de 2020. O “vamos passar a boiada” era um crime duplo, porque o contexto era do início da pandemia, o país amedrontado, o governo omisso diante do que seria a maior tragédia sanitária do país com 700 mil mortos. Aquela reunião ministerial deveria ser para organizar a estratégia de enfrentar o vírus, mas não foi este o tema. Bolsonaro tinha uma preocupação: evitar que sua família fosse investigada, especialmente seu filho Flávio. Ele disse que demitiria um ministro se não fosse obedecido. O ministro Sergio Moro saiu denunciando a interferência na Polícia Federal. Hoje ele faz parte do bolsonarismo. O que Salles propôs naquela reunião foi aproveitar “que a atenção da imprensa está voltada exclusiva quase que exclusivamente pro Covid”, para fazer o desmonte da legislação ambiental. Eles realizaram o plano e passaram a boiada. A taxa de desmatamento na Amazônia subiu até 13 mil km² em 2021.
Quando Marina Silva assumiu novamente o Ministério do Meio Ambiente encontrou o próprio órgão devastado. Um sinal pequeno dessa devastação foi vista na secretaria-executiva. A mesa de reunião era tão pequena que João Paulo Capobianco decidiu medir. Tinha 80 centímetros. Dava para quatro cadeiras. Foi preciso consertar o desmonte praticado deliberadamente pelo governo Bolsonaro e trabalhar com muita determinação para chegar ao resultado divulgado na sexta-feira. O desmatamento caiu 71, 2% em quatro anos e atingiu o nível mais baixo da História a 3,3 mil km². Isso torna possível sonhar com o fim do desmatamento até 2030.
As decisões de Brasília, seja no executivo, seja no Congresso, têm consequências concretas na vida do país. São árvores que deixam de ser derrubadas, gases de efeito estufa que deixam de ser emitidos, é o país que fica mais forte para enfrentar a emergência climática.
Em fevereiro de 2023, perguntei a Capobianco, que hoje é o ministro do Meio Ambiente, qual havia sido a diferença entre assumir a pasta, em 2003 e em 2023. Ele disse que foi totalmente diferente. O governo Fernando Henrique deixou tudo preparado. “O secretário anterior me aguardava, a mesa estava coberta de processos, de encaminhamentos, havia trabalho em andamento. Desta vez, não houve transição, ninguém nos esperava, a mesa estava limpa, nada havia”. Em 2023, foi um recomeçar sobre terra arrasada. Por isso, a vitória anunciada na sexta, do menor desmatamento da história, é tão valiosa. Ela mostra que é possível vencer a destruição.
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
O Brasil quer um presidente. A TV dá um inimigo
Se Hitler, Stalin e Pol Pot desembarcassem no Brasil, sem conhecer nossa eleição, poderiam imaginar que estamos escolhendo o responsável pelo fim do mundo e eles também achariam que estamos substituindo-os com muita competência. Cada campanha apresenta seu guerreiro como a última esperança da humanidade e o ninja adversário como uma mistura de assombração, cobrador e criador da Covid. Falta explicar, aos brasileirinhos, quem e como é que vai governar quando o terror passar.
Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.
Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.
O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.
Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?
Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!
No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.
Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.
Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.
Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!
O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.
O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.
Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.
Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.
O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.
Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?
Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!
No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.
Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.
Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.
Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!
O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.
O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.
Como não votar em Flávio Bolsonaro?
Há razões de sobra para votar nele se você pensa como ele, ou parecido. No livro “Mito ou verdade”, de 2017, sobre o seu pai, o senador das rachadinhas e padroeiro dos milicianos expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. Flávio exalta o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais à época da ditadura. Descreve o militar como um “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e que teria sido “massacrado pela mídia”. Acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva teria sido morto por grupos de esquerda.
“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009. “A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou.
Pandemia da Covid-19? Aquela que matou entre nós mais de 700 mil pessoas? O que é que tem? É mentira, segundo Flávio, que o pai dele não a tenha combatido com eficiência. Não atrasou a compra de vacinas. Fez tudo como mandava a ciência. Infelizmente…
Golpe? Tentativa de golpe para derrubar Lula, que o derrotara? Jair, seu pai, estava nos Estados Unidos no 8 de janeiro de 2023. E os acampados à porta de quartéis que vandalizaram prédios públicos, em Brasília, foram estimulados por agentes de esquerda a fazerem o que fizeram. Os que restam presos serão anistiados se Flávio se eleger presidente, assim como o pai dele.
Não está no radar de Flávio acolher o pai no Palácio do Planalto, nem governar o país junto com ele. Mas Jair será seu principal conselheiro. Por que não? Jair foi um ótimo presidente, alega Flávio, entregou o país em melhores condições e só foi condenado e preso por culpa do ministro Alexandre de Moraes, que sempre o perseguiu. Mas está chegando a hora de Moraes ser punido. Ele não perde por esperar.
No mais, é bola para frente. Afinal, há que se mudar a Constituição para redemocratizar o país. O que temos hoje não é uma democracia. Só teremos uma armando o povo para que ele a defenda. Mais armas, portanto. E se elas foram parar nas mãos de bandidos, paciência.
Tesouraço para cortar despesas desnecessárias. Mas, prestem atenção: serão mantidos todos os programas sociais da era Lula, como o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Farmácia Popular, reajuste do salário-mínimo acima da inflação, todos. Talvez mudem de nome, mas será só isso. Nada de cortes na Educação, Saúde, Meio Ambiente, Transportes, nem um tostão.
E tomem nota: Flávio se propõe a arrumar a casa em um único mandato. Não precisa de outro, como ele garante. Basta um. Não acredita? Vote nele e verá. Eu não votarei.
“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009. “A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou.
Pandemia da Covid-19? Aquela que matou entre nós mais de 700 mil pessoas? O que é que tem? É mentira, segundo Flávio, que o pai dele não a tenha combatido com eficiência. Não atrasou a compra de vacinas. Fez tudo como mandava a ciência. Infelizmente…
Golpe? Tentativa de golpe para derrubar Lula, que o derrotara? Jair, seu pai, estava nos Estados Unidos no 8 de janeiro de 2023. E os acampados à porta de quartéis que vandalizaram prédios públicos, em Brasília, foram estimulados por agentes de esquerda a fazerem o que fizeram. Os que restam presos serão anistiados se Flávio se eleger presidente, assim como o pai dele.
Não está no radar de Flávio acolher o pai no Palácio do Planalto, nem governar o país junto com ele. Mas Jair será seu principal conselheiro. Por que não? Jair foi um ótimo presidente, alega Flávio, entregou o país em melhores condições e só foi condenado e preso por culpa do ministro Alexandre de Moraes, que sempre o perseguiu. Mas está chegando a hora de Moraes ser punido. Ele não perde por esperar.
No mais, é bola para frente. Afinal, há que se mudar a Constituição para redemocratizar o país. O que temos hoje não é uma democracia. Só teremos uma armando o povo para que ele a defenda. Mais armas, portanto. E se elas foram parar nas mãos de bandidos, paciência.
Tesouraço para cortar despesas desnecessárias. Mas, prestem atenção: serão mantidos todos os programas sociais da era Lula, como o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Farmácia Popular, reajuste do salário-mínimo acima da inflação, todos. Talvez mudem de nome, mas será só isso. Nada de cortes na Educação, Saúde, Meio Ambiente, Transportes, nem um tostão.
E tomem nota: Flávio se propõe a arrumar a casa em um único mandato. Não precisa de outro, como ele garante. Basta um. Não acredita? Vote nele e verá. Eu não votarei.
Em livro e discursos, Flávio Bolsonaro defendeu golpe, ditadura e torturador
Em 30 de abril de 1981, um capitão e um sargento do Exército cruzaram o Rio em missão secreta. Transportavam duas bombas para causar terror e pânico num show que reunia milhares de jovens em comemoração ao Dia do Trabalhador. O plano era culpar a esquerda e sabotar o processo de redemocratização do país.
Em 30 de abril de 1981, um tenente que amava a ditadura, mas era tido pelos superiores como “excessivamente ambicioso”, assistiu em Resende ao nascimento do primeiro filho. Tempos depois, ele entraria na política como porta-voz dos porões.
Ninguém escolhe o dia em que vem ao mundo, e Flávio Bolsonaro não tem culpa de ter nascido no dia do atentado do Riocentro. No entanto, todos são responsáveis pelas escolhas feitas na idade adulta. Entre a democracia e a ditadura, Flávio sempre marcou a segunda opção.
No livro “Mito ou verdade”, o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. “Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser ser tratados como heróis nacionais”, escreve, sobre os agentes da repressão.
A exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e teria sido “massacrado pela mídia”.
O filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ele ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.
O livro foi lançado em 2017, quando Flávio ensaiava concorrer ao Senado. Estava no fim do quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio, onde se notabilizou por subir à tribuna todos os anos para festejar o 31 de março, data cultuada pela extrema direita como aniversário da ditadura.
“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009.
“A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou. Quem haveria de discordar?
Desde que entrou na política, o patriarca do clã milita na defesa do autoritarismo. Especializou-se em exaltar a violência de Estado, atuar pela impunidade de torturadores, ofender viúvas e órfãos de desaparecidos. Quando o Ministério Público Federal reabriu o caso Riocentro, em 2014, ele fez questão de acompanhar o depoimento de um militar investigado. Diante dos procuradores, atacou a Comissão da Verdade e disse sonhar com uma reedição da Operação Condor, aliança clandestina entre ditaduras do Cone Sul.
A democracia deveria ser tema central na primeira eleição após o 8 de Janeiro e a inédita condenação de generais golpistas. Os marqueteiros treinaram o candidato do PL para evitar menções à ditadura, mas não podem apagar tudo o que ele já disse e escreveu sobre o tema. Por destino e por escolha, Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro.
Em 30 de abril de 1981, um tenente que amava a ditadura, mas era tido pelos superiores como “excessivamente ambicioso”, assistiu em Resende ao nascimento do primeiro filho. Tempos depois, ele entraria na política como porta-voz dos porões.
Ninguém escolhe o dia em que vem ao mundo, e Flávio Bolsonaro não tem culpa de ter nascido no dia do atentado do Riocentro. No entanto, todos são responsáveis pelas escolhas feitas na idade adulta. Entre a democracia e a ditadura, Flávio sempre marcou a segunda opção.
No livro “Mito ou verdade”, o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. “Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser ser tratados como heróis nacionais”, escreve, sobre os agentes da repressão.
A exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e teria sido “massacrado pela mídia”.
O filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ele ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.
O livro foi lançado em 2017, quando Flávio ensaiava concorrer ao Senado. Estava no fim do quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio, onde se notabilizou por subir à tribuna todos os anos para festejar o 31 de março, data cultuada pela extrema direita como aniversário da ditadura.
“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009.
“A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou. Quem haveria de discordar?
Desde que entrou na política, o patriarca do clã milita na defesa do autoritarismo. Especializou-se em exaltar a violência de Estado, atuar pela impunidade de torturadores, ofender viúvas e órfãos de desaparecidos. Quando o Ministério Público Federal reabriu o caso Riocentro, em 2014, ele fez questão de acompanhar o depoimento de um militar investigado. Diante dos procuradores, atacou a Comissão da Verdade e disse sonhar com uma reedição da Operação Condor, aliança clandestina entre ditaduras do Cone Sul.
A democracia deveria ser tema central na primeira eleição após o 8 de Janeiro e a inédita condenação de generais golpistas. Os marqueteiros treinaram o candidato do PL para evitar menções à ditadura, mas não podem apagar tudo o que ele já disse e escreveu sobre o tema. Por destino e por escolha, Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro.
Promessas sem base são enganação
O governo Lula promoveu avanços importantes na justiça tributária brasileira. Depois de décadas de privilégios para os mais ricos, o país começou a cobrar impostos sobre grandes rendimentos do capital e a aliviar a carga de quem vive do trabalho. São conquistas concretas que beneficiam milhões de famílias, fortalecem a economia e ampliam as possibilidades de financiamento das políticas públicas.
A reforma do Imposto de Renda isentou quem ganha até R$ 5 mil mensais, reduziu a tributação para rendimentos até R$ 7.350 e instituiu imposto mínimo progressivo de até 10% sobre altas rendas. Também começou a corrigir uma injustiça que persistia desde 1996: a isenção de lucros e dividendos distribuídos aos acionistas, enquanto os trabalhadores sempre tiveram o imposto descontado diretamente do salário.
O governo Lula também passou a tributar lucros de offshores e rendimentos de fundos exclusivos. Apenas 2.500 brasileiros concentram cerca de R$ 756 bilhões nesses fundos. As mudanças contribuíram para arrecadar R$ 20,7 bilhões em 2024. A tributação dos Juros sobre Capital Próprio subiu de 15% para 17,5%, enquanto a regulamentação das apostas online ampliou a arrecadação. A reforma do consumo trouxe a desoneração da cesta básica e o cashback para famílias de baixa renda.
Um conjunto de mudanças importantes para tornar o sistema tributário mais progressivo. Ainda há muito a corrigir, mas os avanços mostram que é possível aliviar os impostos de quem trabalha e ampliar a contribuição dos mais ricos.
Quem ganha com a justiça tributária é quem trabalha, paga menos imposto e fica com mais dinheiro no bolso. Quem depende de saúde, educação e serviços públicos. E o Brasil, que precisa de recursos para crescer e reduzir desigualdades. Os super-ricos, finalmente, começam a pagar impostos sobre rendimentos privilegiados por décadas.
Os resultados econômicos reforçam essa trajetória. Em 2025, o PIB cresceu 2,3%, a renda média avançou e o desemprego recuou para cerca de 5%. O governo também anunciou R$ 256,9 bilhões em programas sociais e medidas de crédito em 2026, destinados a famílias, trabalhadores e setores produtivos. Quando crescem o emprego, a renda e o consumo, cresce também a arrecadação.
É diante desses avanços que as propostas econômicas da campanha de Flávio Bolsonaro precisam ser examinadas. A equipe que conduz seu programa econômico é inconsistente nos dados. A economista Daniella Marques defende ajuste profundo, com superávit primário de 1,5% do PIB, exigindo esforço fiscal estimado em R$ 200 bilhões. Depois, Adolfo Sachsida afirma que programas sociais seriam preservados, o Bolsa Família fortalecido e o salário mínimo não seria congelado. O próprio candidato prometeu reduzir impostos e manter grandes empresas estatais.
Mas como cortar R$ 200 bilhões, reduzir impostos e preservar as principais despesas públicas? De onde virá o dinheiro?
A contradição é evidente. Sem apresentar fontes adicionais de receita ou identificar despesas a serem reduzidas, essas promessas deixam sem resposta quem suportaria o ajuste. Cortes dessa magnitude podem comprometer saúde, educação, Previdência, investimentos e programas sociais.
Há ainda um problema econômico: reduzir drasticamente os gastos públicos pode derrubar o consumo, enfraquecer a atividade produtiva e diminuir a arrecadação. Com menos crescimento, o próprio equilíbrio fiscal fica mais difícil.
O ex-presidente Jair Bolsonaro governou sem enfrentar a isenção histórica de lucros e dividendos recebidos pelos mais ricos. Agora, a campanha de seu filho apresenta propostas de redução de impostos e ajuste fiscal sem esclarecer como conciliá-las com a preservação dos direitos sociais. A isenção de caráter regressivo do governo anterior foi para importação de jet-skis e veleiros.
O filho promete uma conta que não fecha. Não basta anunciar cortes sem consequências, impostos menores e benefícios preservados. É preciso mostrar onde a tesoura vai passar, quem será beneficiado e quem pagará a conta.
Responsabilidade fiscal é necessária, mas não pode significar restringir direitos enquanto privilégios tributários permanecem intocados. O equilíbrio das contas públicas exige crescimento econômico, receitas sustentáveis e distribuição justa do esforço tributário.
A justiça fiscal começou a avançar e precisa continuar. O Brasil não pode abrir mão do crescimento, dos direitos sociais e do enfrentamento aos privilégios. Promessas econômicas precisam de números, coerência e compromisso com a população. Sem isso, não passam de palavras que escondem quem pagará a conta.Maria Regina Paiva Duarte
A reforma do Imposto de Renda isentou quem ganha até R$ 5 mil mensais, reduziu a tributação para rendimentos até R$ 7.350 e instituiu imposto mínimo progressivo de até 10% sobre altas rendas. Também começou a corrigir uma injustiça que persistia desde 1996: a isenção de lucros e dividendos distribuídos aos acionistas, enquanto os trabalhadores sempre tiveram o imposto descontado diretamente do salário.
O governo Lula também passou a tributar lucros de offshores e rendimentos de fundos exclusivos. Apenas 2.500 brasileiros concentram cerca de R$ 756 bilhões nesses fundos. As mudanças contribuíram para arrecadar R$ 20,7 bilhões em 2024. A tributação dos Juros sobre Capital Próprio subiu de 15% para 17,5%, enquanto a regulamentação das apostas online ampliou a arrecadação. A reforma do consumo trouxe a desoneração da cesta básica e o cashback para famílias de baixa renda.
Um conjunto de mudanças importantes para tornar o sistema tributário mais progressivo. Ainda há muito a corrigir, mas os avanços mostram que é possível aliviar os impostos de quem trabalha e ampliar a contribuição dos mais ricos.
Quem ganha com a justiça tributária é quem trabalha, paga menos imposto e fica com mais dinheiro no bolso. Quem depende de saúde, educação e serviços públicos. E o Brasil, que precisa de recursos para crescer e reduzir desigualdades. Os super-ricos, finalmente, começam a pagar impostos sobre rendimentos privilegiados por décadas.
Os resultados econômicos reforçam essa trajetória. Em 2025, o PIB cresceu 2,3%, a renda média avançou e o desemprego recuou para cerca de 5%. O governo também anunciou R$ 256,9 bilhões em programas sociais e medidas de crédito em 2026, destinados a famílias, trabalhadores e setores produtivos. Quando crescem o emprego, a renda e o consumo, cresce também a arrecadação.
É diante desses avanços que as propostas econômicas da campanha de Flávio Bolsonaro precisam ser examinadas. A equipe que conduz seu programa econômico é inconsistente nos dados. A economista Daniella Marques defende ajuste profundo, com superávit primário de 1,5% do PIB, exigindo esforço fiscal estimado em R$ 200 bilhões. Depois, Adolfo Sachsida afirma que programas sociais seriam preservados, o Bolsa Família fortalecido e o salário mínimo não seria congelado. O próprio candidato prometeu reduzir impostos e manter grandes empresas estatais.
Mas como cortar R$ 200 bilhões, reduzir impostos e preservar as principais despesas públicas? De onde virá o dinheiro?
A contradição é evidente. Sem apresentar fontes adicionais de receita ou identificar despesas a serem reduzidas, essas promessas deixam sem resposta quem suportaria o ajuste. Cortes dessa magnitude podem comprometer saúde, educação, Previdência, investimentos e programas sociais.
Há ainda um problema econômico: reduzir drasticamente os gastos públicos pode derrubar o consumo, enfraquecer a atividade produtiva e diminuir a arrecadação. Com menos crescimento, o próprio equilíbrio fiscal fica mais difícil.
O ex-presidente Jair Bolsonaro governou sem enfrentar a isenção histórica de lucros e dividendos recebidos pelos mais ricos. Agora, a campanha de seu filho apresenta propostas de redução de impostos e ajuste fiscal sem esclarecer como conciliá-las com a preservação dos direitos sociais. A isenção de caráter regressivo do governo anterior foi para importação de jet-skis e veleiros.
O filho promete uma conta que não fecha. Não basta anunciar cortes sem consequências, impostos menores e benefícios preservados. É preciso mostrar onde a tesoura vai passar, quem será beneficiado e quem pagará a conta.
Responsabilidade fiscal é necessária, mas não pode significar restringir direitos enquanto privilégios tributários permanecem intocados. O equilíbrio das contas públicas exige crescimento econômico, receitas sustentáveis e distribuição justa do esforço tributário.
A justiça fiscal começou a avançar e precisa continuar. O Brasil não pode abrir mão do crescimento, dos direitos sociais e do enfrentamento aos privilégios. Promessas econômicas precisam de números, coerência e compromisso com a população. Sem isso, não passam de palavras que escondem quem pagará a conta.
O jornalismo na disputa pelo futuro da democracia no Brasil
O resultado do primeiro turno das eleições reacendeu as preocupações sobre o futuro da democracia brasileira. Motivos não faltam. Aqui, interessa olhar para um de seus pilares mais frequentemente invocados: a liberdade de imprensa.
As razões para preocupação com uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro são conhecidas. O candidato reivindica e encarna o legado político de seu pai, cujo governo representou o período mais sombrio para o jornalismo desde a redemocratização. Durante quatro anos, jornalistas foram alvos recorrentes de insultos, intimidações e campanhas de ódio. A desinformação tornou-se indissociável da comunicação do governo, especialmente durante a pandemia de Covid-19 e nas falsas acusações de fraude eleitoral. Em quatro anos, o Brasil chegou à sua pior pontuação no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, elaborado anualmente pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF) desde 2002.
As referências internacionais de Flávio Bolsonaro reforçam os temores de uma nova ofensiva contra a imprensa. Nos Estados Unidos, Donald Trump recorre a pressões institucionais e econômicas contra grandes redes de televisão. Na Argentina, Javier Milei transformou o ódio aos jornalistas em slogan político. Em El Salvador, o governo de Nayib Bukele combina pressões administrativas, propaganda e asfixia financeira, levando jornalistas e redações inteiras ao exílio. São experiências distintas que mostram como a hostilidade à imprensa, quando banalizada, pode abrir caminho para mecanismos cada vez mais severos de pressão e censura.
A chegada de Lula ao seu terceiro mandato, em 2023, marcou uma mudança significativa nas relações entre o governo e a imprensa. A descredibilização sistemática dos jornalistas deixou de fazer parte da comunicação cotidiana do Poder Executivo. Também houve avanços na transparência pública, após um período marcado por restrições e pelo uso abusivo do sigilo. Na área de segurança, o governo criou o Observatório Nacional da Violência contra Jornalistas e fortaleceu políticas de proteção, embora esses mecanismos ainda apresentem limitações. Segundo os registros da RSF, nenhum jornalista foi assassinado no país em decorrência de sua atividade durante o mandato. O Brasil passou da 110ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, em 2022, para a 52ª, em 2026, uma recuperação de 58 posições.
A integridade da informação também se consolidou como um eixo importante da agenda do governo Lula, com iniciativas voltadas à proteção da informação confiável e à responsabilidade das plataformas digitais. Durante a presidência brasileira do G20, em 2024, o Brasil contribuiu para colocar o tema no centro das discussões sobre a economia digital. Em parceria com a ONU e a Unesco, o país lançou a Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas, estabelecendo uma conexão entre os trabalhos iniciados no G20 e a COP30, realizada em Belém, em 2025. Durante a conferência, foram assumidos compromissos relacionados à proteção do jornalismo ambiental, à responsabilização das plataformas e à sustentabilidade econômica da mídia.
No Brasil, porém, os resultados legislativos dessa agenda foram mais limitados. O Executivo participou ativamente dos debates sobre transparência e responsabilização das plataformas digitais, mas enfrentou dificuldades para transformar essas discussões em normas. O projeto para criar a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (PL 2630), que buscava estabelecer novas obrigações para essas empresas, acabou engavetado no Congresso, em meio a resistências políticas e à mobilização das grandes empresas de tecnologia. O projeto de lei sobre inteligência artificial (PL 2338), aprovado pelo Senado em 2024, perdeu parte das disposições relacionadas à integridade da informação ao longo de sua tramitação e ainda não foi votado pela Câmara dos Deputados.
O próximo governo encontrará, portanto, um debate em aberto sobre as regras do espaço digital, onde uma parcela crescente dos brasileiros se informa. Nas últimas duas décadas, as plataformas passaram a exercer enorme influência sobre a visibilidade, o alcance e a monetização dos conteúdos jornalísticos. Suas decisões afetam o acesso às notícias e a circulação de conteúdos falsos ou manipulados, frequentemente sem transparência suficiente sobre os critérios adotados.
A responsabilidade dessas empresas tornou-se objeto de uma disputa política internacional sobre os limites da liberdade de expressão. Setores da direita global, incluindo o bolsonarismo, apresentam iniciativas de regulação das plataformas como formas de censura. Nos Estados Unidos, essa posição também se manifesta na aproximação entre setores da direita e grandes empresários de tecnologia, como Elon Musk e Mark Zuckerberg. Flávio Bolsonaro tem se oposto a iniciativas legislativas e decisões judiciais voltadas à responsabilização dessas empresas.
Essa aproximação reúne interesses distintos, mas convergentes em torno da resistência a determinadas formas de regulação. Para as grandes empresas de tecnologia, está em jogo a preservação da autonomia sobre seus modelos de negócio, com menos exigências de transparência e responsabilização. Para determinados movimentos políticos, a defesa de uma concepção praticamente irrestrita da liberdade de expressão pode se associar à contestação da credibilidade do jornalismo e de outras instituições que produzem conhecimento verificável.
As consequências dessa disputa ultrapassam a regulação das plataformas e alcançam as próprias bases do debate democrático. Uma democracia pode conviver com interpretações radicalmente diferentes sobre o país. Precisa, porém, preservar as condições para que afirmações sobre a realidade sejam investigadas, verificadas e contestadas publicamente. Quando a credibilidade de uma informação passa a depender exclusivamente da identidade política de quem a transmite, o debate público perde uma de suas bases. O jornalismo contribui para preservar referências compartilhadas, mesmo entre pessoas que discordam profundamente sobre os rumos do país.
É por isso que o futuro do jornalismo não pode ocupar um lugar secundário nesta eleição. O que está em disputa não são apenas as garantias para que a imprensa investigue o poder sem intimidação, mas também a possibilidade de a sociedade ter acesso a informações independentes e confiáveis. O direito à informação precisa ser tratado como uma questão central nas escolhas sobre o futuro democrático do Brasil.
As razões para preocupação com uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro são conhecidas. O candidato reivindica e encarna o legado político de seu pai, cujo governo representou o período mais sombrio para o jornalismo desde a redemocratização. Durante quatro anos, jornalistas foram alvos recorrentes de insultos, intimidações e campanhas de ódio. A desinformação tornou-se indissociável da comunicação do governo, especialmente durante a pandemia de Covid-19 e nas falsas acusações de fraude eleitoral. Em quatro anos, o Brasil chegou à sua pior pontuação no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, elaborado anualmente pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF) desde 2002.
As referências internacionais de Flávio Bolsonaro reforçam os temores de uma nova ofensiva contra a imprensa. Nos Estados Unidos, Donald Trump recorre a pressões institucionais e econômicas contra grandes redes de televisão. Na Argentina, Javier Milei transformou o ódio aos jornalistas em slogan político. Em El Salvador, o governo de Nayib Bukele combina pressões administrativas, propaganda e asfixia financeira, levando jornalistas e redações inteiras ao exílio. São experiências distintas que mostram como a hostilidade à imprensa, quando banalizada, pode abrir caminho para mecanismos cada vez mais severos de pressão e censura.
A chegada de Lula ao seu terceiro mandato, em 2023, marcou uma mudança significativa nas relações entre o governo e a imprensa. A descredibilização sistemática dos jornalistas deixou de fazer parte da comunicação cotidiana do Poder Executivo. Também houve avanços na transparência pública, após um período marcado por restrições e pelo uso abusivo do sigilo. Na área de segurança, o governo criou o Observatório Nacional da Violência contra Jornalistas e fortaleceu políticas de proteção, embora esses mecanismos ainda apresentem limitações. Segundo os registros da RSF, nenhum jornalista foi assassinado no país em decorrência de sua atividade durante o mandato. O Brasil passou da 110ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, em 2022, para a 52ª, em 2026, uma recuperação de 58 posições.
A integridade da informação também se consolidou como um eixo importante da agenda do governo Lula, com iniciativas voltadas à proteção da informação confiável e à responsabilidade das plataformas digitais. Durante a presidência brasileira do G20, em 2024, o Brasil contribuiu para colocar o tema no centro das discussões sobre a economia digital. Em parceria com a ONU e a Unesco, o país lançou a Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas, estabelecendo uma conexão entre os trabalhos iniciados no G20 e a COP30, realizada em Belém, em 2025. Durante a conferência, foram assumidos compromissos relacionados à proteção do jornalismo ambiental, à responsabilização das plataformas e à sustentabilidade econômica da mídia.
No Brasil, porém, os resultados legislativos dessa agenda foram mais limitados. O Executivo participou ativamente dos debates sobre transparência e responsabilização das plataformas digitais, mas enfrentou dificuldades para transformar essas discussões em normas. O projeto para criar a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (PL 2630), que buscava estabelecer novas obrigações para essas empresas, acabou engavetado no Congresso, em meio a resistências políticas e à mobilização das grandes empresas de tecnologia. O projeto de lei sobre inteligência artificial (PL 2338), aprovado pelo Senado em 2024, perdeu parte das disposições relacionadas à integridade da informação ao longo de sua tramitação e ainda não foi votado pela Câmara dos Deputados.
O próximo governo encontrará, portanto, um debate em aberto sobre as regras do espaço digital, onde uma parcela crescente dos brasileiros se informa. Nas últimas duas décadas, as plataformas passaram a exercer enorme influência sobre a visibilidade, o alcance e a monetização dos conteúdos jornalísticos. Suas decisões afetam o acesso às notícias e a circulação de conteúdos falsos ou manipulados, frequentemente sem transparência suficiente sobre os critérios adotados.
A responsabilidade dessas empresas tornou-se objeto de uma disputa política internacional sobre os limites da liberdade de expressão. Setores da direita global, incluindo o bolsonarismo, apresentam iniciativas de regulação das plataformas como formas de censura. Nos Estados Unidos, essa posição também se manifesta na aproximação entre setores da direita e grandes empresários de tecnologia, como Elon Musk e Mark Zuckerberg. Flávio Bolsonaro tem se oposto a iniciativas legislativas e decisões judiciais voltadas à responsabilização dessas empresas.
Essa aproximação reúne interesses distintos, mas convergentes em torno da resistência a determinadas formas de regulação. Para as grandes empresas de tecnologia, está em jogo a preservação da autonomia sobre seus modelos de negócio, com menos exigências de transparência e responsabilização. Para determinados movimentos políticos, a defesa de uma concepção praticamente irrestrita da liberdade de expressão pode se associar à contestação da credibilidade do jornalismo e de outras instituições que produzem conhecimento verificável.
As consequências dessa disputa ultrapassam a regulação das plataformas e alcançam as próprias bases do debate democrático. Uma democracia pode conviver com interpretações radicalmente diferentes sobre o país. Precisa, porém, preservar as condições para que afirmações sobre a realidade sejam investigadas, verificadas e contestadas publicamente. Quando a credibilidade de uma informação passa a depender exclusivamente da identidade política de quem a transmite, o debate público perde uma de suas bases. O jornalismo contribui para preservar referências compartilhadas, mesmo entre pessoas que discordam profundamente sobre os rumos do país.
É por isso que o futuro do jornalismo não pode ocupar um lugar secundário nesta eleição. O que está em disputa não são apenas as garantias para que a imprensa investigue o poder sem intimidação, mas também a possibilidade de a sociedade ter acesso a informações independentes e confiáveis. O direito à informação precisa ser tratado como uma questão central nas escolhas sobre o futuro democrático do Brasil.
Futuro ambiental e climático do planeta depende das eleições no Brasil
Poucas eleições são tão importante para o meio ambiente quanto a disputa presidencial no Brasil. A deste ano, em particular, está sendo acompanhada muito além das fronteiras do país.
Por abrigar a maior parte da Floresta Amazônica, um importante sumidouro de carbono em escala global, as políticas de conservação do Brasil têm impacto mundial.
Ambientalistas já manifestaram preocupação com o fato de o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ter aparecido 2% à frente do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no primeiro turno das eleições.
"Será uma espécie de retorno dos Bolsonaros, portanto, com um Bolsonaro ainda mais radical", afirma Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, uma rede de ONGs brasileiras. "Sem querer soar alarmista, diria que a reeleição de Lula é a única barreira entre nós e o fim da Amazônia."
A Floresta Amazônica armazena grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) liberado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Com isso, ela ajuda a regular o clima da Terra.
Ao longo de décadas, a floresta tropical atuou como uma das defesas mais poderosas da natureza contra as mudanças climáticas. O bioma, no entanto, também tem sofrido com o desmatamento em larga escala.
Durante a presidência do pai de Flávio, Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, os órgãos ambientais foram enfraquecidos e as ações de fiscalização, reduzidas. Com isso, o desmatamento da floresta tropical atingiu taxas sem precedentes.
"A pauta ambiental foi negligenciada, e o controle que o governo exercia sobre a poluição em geral – e, especificamente, sobre o desmatamento – foi revertido", explica Claudio Forner, chefe de política climática da Climate Analytics, um think tank sediado em Berlim.
Durante os quatro anos de governo Bolsonaro, estima-se que 45.586 quilômetros quadrados da Amazônia tenham sido destruídos– uma área maior do que a da Dinamarca. A floresta, por sua vez, já não é tão resiliente quanto antes. Cientistas alertam que, atualmente, partes do bioma emitem mais carbono do que absorvem.
Lula assumiu o governo com uma mensagem de proteção à Amazônia. Ele prometeu o fim do desmatamento até 2030, ampliou o monitoramento da floresta e fortaleceu o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o órgão responsável pela fiscalização ambiental. Sob sua gestão, odesmatamento caiu significativamente, com a previsão de que, em 2026, atinja o menor patamar em uma década. Isso representa uma queda total de 41% em comparação ao período de Jair Bolsonaro na Presidência.
Especialistas já criticaram o histórico de Flávio Bolsonaro no que diz respeito à proteção florestal. Como senador, ele apresentou em 2019 um projeto de lei que poderia ter impactos severos para a Amazônia. Atualmente, proprietários rurais são obrigados a preservar 80% de suas terras com vegetação nativa. O projeto permitiria que eles utilizassem suas propriedades como bem entendessem.
"O sinal vindo presidente poderá ser 'agora vocês podem desmatar' ou 'agora vai ser mais difícil desmatar'", afirma à DW Ana Yang, diretora do Centro de Meio Ambiente e Sociedade do think tank Chatham House, sediado em Londres.
"No momento em que se reduz a capacidade de fiscalização, o desmatamento aumenta", alerta ela.
Flávio também prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2029 – um ano antes da meta de Lula. No entanto, Claudio Angelo vê essa promessa com ceticismo. "Ele acabará com o desmatamento ilegal não fazendo cumprir a lei, mas tornando-o legal", diz.
De modo geral, especialistas em meio ambiente temem que o candidato do PL possa desmantelar muitas das proteções ambientais que foram fortalecidas sob o atual governo.
"Infelizmente, as mudanças climáticas se tornaram uma questão partidária. Em vez de oferecerem uma solução a partir de sua própria perspectiva, os setores de direita retratam as mudanças climáticas como um problema inventado [...] argumentando que a regulação vai contra o crescimento econômico ou a competitividade, e que o objetivo da esquerda seria controlar os meios de produção", explica Forner.
Em uma entrevista divulgada pela mídia em agosto, Flávio disse considerar que eventos climáticos extremos são cíclicos e que não acredita que estejam ligados exclusivamente à influência humana.
Uma vitória de Bolsonaro provavelmente faria com que o Brasil se afastasse de sua posição como líder na agenda climática — posição consolodada no ano passado, quando o país sediou a Conferência do Clima da ONU (COP30) em Belém.
Contudo, especialistas ressaltam que uma vitória de Lula, por si só, não representaria uma história de sucesso climático. Embora a atual gestão tenha promovido reduções significativas no desmatamento, também apoiou planos para expandir a produção de petróleo.
Angelo afirma que a decisão de permitir a perfuração exploratória, como na foz do rio Amazonas, foi uma "traição" ao mandato de Lula, mas acrescentou que o histórico geral do presidente em relação ao clima tem sido "bastante impressionante". "Lula é o pior líder climático do mundo – exceto por todos os outros", diz.
O atual presidente enfrentará Flávio no segundo turno em 25 de outubro. Embora especialistas afirmem que o resultado pode determinar o destino da Amazônia e dos esforços mais amplos para conter o aquecimento global, para muitos brasileiros a questão climática não é prioridade.
"No fim das contas, o que importa para as pessoas é o acesso à educação, ao saneamento e à saúde", afirma Yang. Ela aponta que a construção de uma estrada através da Amazônia para viabilizar o acesso a esses serviços, embora criticada fora do Brasil por destruir partes da floresta tropical, é vista como algo desejável pelos eleitores.
"Eles não têm tempo para se preocupar com isso. Não porque não queiram; mas porque eles estão preocupados com a própria sobrevivência."
Por abrigar a maior parte da Floresta Amazônica, um importante sumidouro de carbono em escala global, as políticas de conservação do Brasil têm impacto mundial.
Ambientalistas já manifestaram preocupação com o fato de o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ter aparecido 2% à frente do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no primeiro turno das eleições.
"Será uma espécie de retorno dos Bolsonaros, portanto, com um Bolsonaro ainda mais radical", afirma Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, uma rede de ONGs brasileiras. "Sem querer soar alarmista, diria que a reeleição de Lula é a única barreira entre nós e o fim da Amazônia."
A Floresta Amazônica armazena grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) liberado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Com isso, ela ajuda a regular o clima da Terra.
Ao longo de décadas, a floresta tropical atuou como uma das defesas mais poderosas da natureza contra as mudanças climáticas. O bioma, no entanto, também tem sofrido com o desmatamento em larga escala.
Durante a presidência do pai de Flávio, Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, os órgãos ambientais foram enfraquecidos e as ações de fiscalização, reduzidas. Com isso, o desmatamento da floresta tropical atingiu taxas sem precedentes.
"A pauta ambiental foi negligenciada, e o controle que o governo exercia sobre a poluição em geral – e, especificamente, sobre o desmatamento – foi revertido", explica Claudio Forner, chefe de política climática da Climate Analytics, um think tank sediado em Berlim.
Durante os quatro anos de governo Bolsonaro, estima-se que 45.586 quilômetros quadrados da Amazônia tenham sido destruídos– uma área maior do que a da Dinamarca. A floresta, por sua vez, já não é tão resiliente quanto antes. Cientistas alertam que, atualmente, partes do bioma emitem mais carbono do que absorvem.
Lula assumiu o governo com uma mensagem de proteção à Amazônia. Ele prometeu o fim do desmatamento até 2030, ampliou o monitoramento da floresta e fortaleceu o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o órgão responsável pela fiscalização ambiental. Sob sua gestão, odesmatamento caiu significativamente, com a previsão de que, em 2026, atinja o menor patamar em uma década. Isso representa uma queda total de 41% em comparação ao período de Jair Bolsonaro na Presidência.
Especialistas já criticaram o histórico de Flávio Bolsonaro no que diz respeito à proteção florestal. Como senador, ele apresentou em 2019 um projeto de lei que poderia ter impactos severos para a Amazônia. Atualmente, proprietários rurais são obrigados a preservar 80% de suas terras com vegetação nativa. O projeto permitiria que eles utilizassem suas propriedades como bem entendessem.
"O sinal vindo presidente poderá ser 'agora vocês podem desmatar' ou 'agora vai ser mais difícil desmatar'", afirma à DW Ana Yang, diretora do Centro de Meio Ambiente e Sociedade do think tank Chatham House, sediado em Londres.
"No momento em que se reduz a capacidade de fiscalização, o desmatamento aumenta", alerta ela.
Flávio também prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2029 – um ano antes da meta de Lula. No entanto, Claudio Angelo vê essa promessa com ceticismo. "Ele acabará com o desmatamento ilegal não fazendo cumprir a lei, mas tornando-o legal", diz.
De modo geral, especialistas em meio ambiente temem que o candidato do PL possa desmantelar muitas das proteções ambientais que foram fortalecidas sob o atual governo.
"Infelizmente, as mudanças climáticas se tornaram uma questão partidária. Em vez de oferecerem uma solução a partir de sua própria perspectiva, os setores de direita retratam as mudanças climáticas como um problema inventado [...] argumentando que a regulação vai contra o crescimento econômico ou a competitividade, e que o objetivo da esquerda seria controlar os meios de produção", explica Forner.
Em uma entrevista divulgada pela mídia em agosto, Flávio disse considerar que eventos climáticos extremos são cíclicos e que não acredita que estejam ligados exclusivamente à influência humana.
Uma vitória de Bolsonaro provavelmente faria com que o Brasil se afastasse de sua posição como líder na agenda climática — posição consolodada no ano passado, quando o país sediou a Conferência do Clima da ONU (COP30) em Belém.
Contudo, especialistas ressaltam que uma vitória de Lula, por si só, não representaria uma história de sucesso climático. Embora a atual gestão tenha promovido reduções significativas no desmatamento, também apoiou planos para expandir a produção de petróleo.
Angelo afirma que a decisão de permitir a perfuração exploratória, como na foz do rio Amazonas, foi uma "traição" ao mandato de Lula, mas acrescentou que o histórico geral do presidente em relação ao clima tem sido "bastante impressionante". "Lula é o pior líder climático do mundo – exceto por todos os outros", diz.
O atual presidente enfrentará Flávio no segundo turno em 25 de outubro. Embora especialistas afirmem que o resultado pode determinar o destino da Amazônia e dos esforços mais amplos para conter o aquecimento global, para muitos brasileiros a questão climática não é prioridade.
"No fim das contas, o que importa para as pessoas é o acesso à educação, ao saneamento e à saúde", afirma Yang. Ela aponta que a construção de uma estrada através da Amazônia para viabilizar o acesso a esses serviços, embora criticada fora do Brasil por destruir partes da floresta tropical, é vista como algo desejável pelos eleitores.
"Eles não têm tempo para se preocupar com isso. Não porque não queiram; mas porque eles estão preocupados com a própria sobrevivência."
Não sei vocês
Não sei vocês, mas entendo que estamos às vésperas da eleição mais importante do resto de nossas vidas. Em poucos dias iremos definir se queremos um governo que se caracteriza pela defesa dos interesses coletivos e pela priorização do bem-estar social ou um governo associado ao autoritarismo, ao culto à personalidade, à perseguição de minorias e ao desprezo pelo meio ambiente.
Não sei vocês, mas a escolha certa me parece óbvia para quem preza a democracia, a liberdade de expressão, o direito à divergência, o livre pensamento, a justiça social, a equidade de gênero e de raça, a educação pública, a proteção previdenciária e uma série de direitos e garantias conquistados com muita luta e articulação coletiva ao longo de décadas.
Não sei vocês, mas acredito que precisamos centrar esforços para manter viva a Nova República, período que começou com o término dos 21 anos de ditadura militar, uma época caracterizada pelo autoritarismo, pela censura à imprensa, pela restrição de direitos políticos, pela perseguição, repressão e tortura de opositores, pela criação de órgãos de controle e por golpes institucionais.
Não sei vocês, mas creio que não podemos correr o risco de perder nenhum dos direitos que conquistamos. Devemos isso em respeito aos que, num passado recente, pagaram com a vida para que hoje pudéssemos ir às urnas para expressar nossa soberania por meio do voto. Devemos isso a nós mesmos. Devemos isso especialmente às próximas gerações.
Não sei vocês, mas numa sociedade extremamente injusta e desigual como a brasileira, é imprescindível contar com leis trabalhistas, com salário mínimo, com negociação coletiva, com direitos previdenciários, com ações afirmativas, com proteção ao meio ambiente, com um Estado que proteja direitos e module relações econômicas absolutamente díspares – entre outras coisas.
Não sei vocês, mas para mim liberdade, equidade e justiça social são valores maiores e mais relevantes que o gosto ou desgosto por qualquer partido político.
Não sei vocês, mas a escolha certa me parece óbvia para quem preza a democracia, a liberdade de expressão, o direito à divergência, o livre pensamento, a justiça social, a equidade de gênero e de raça, a educação pública, a proteção previdenciária e uma série de direitos e garantias conquistados com muita luta e articulação coletiva ao longo de décadas.
Não sei vocês, mas acredito que precisamos centrar esforços para manter viva a Nova República, período que começou com o término dos 21 anos de ditadura militar, uma época caracterizada pelo autoritarismo, pela censura à imprensa, pela restrição de direitos políticos, pela perseguição, repressão e tortura de opositores, pela criação de órgãos de controle e por golpes institucionais.
Não sei vocês, mas creio que não podemos correr o risco de perder nenhum dos direitos que conquistamos. Devemos isso em respeito aos que, num passado recente, pagaram com a vida para que hoje pudéssemos ir às urnas para expressar nossa soberania por meio do voto. Devemos isso a nós mesmos. Devemos isso especialmente às próximas gerações.
Não sei vocês, mas numa sociedade extremamente injusta e desigual como a brasileira, é imprescindível contar com leis trabalhistas, com salário mínimo, com negociação coletiva, com direitos previdenciários, com ações afirmativas, com proteção ao meio ambiente, com um Estado que proteja direitos e module relações econômicas absolutamente díspares – entre outras coisas.
Não sei vocês, mas para mim liberdade, equidade e justiça social são valores maiores e mais relevantes que o gosto ou desgosto por qualquer partido político.
domingo, 18 de outubro de 2026
O apelo da dignidade
Na fatigante expectativa do segundo turno, especialistas insistem em que problemas nacionais sejam postos em debate entre os dois candidatos e não se confundam campanhas com exposições biográficas. Todo mundo está cansado de saber que Lula, autodeclarado mais sindicalista que de esquerda, representa estabilidade democrática, ideias de povo próspero e soberano. Por vias populistas, sempre "entregou" benefícios sociais.
Mas até os mal-informados também estão cansados de saber que Flávio Bolsonaro tem mais folha corrida do que biografia publicável em 23 anos de vida parlamentar. Supunha-se que um político da ultradireita em ascensão tivesse algo de pertinente a dizer sobre ajuste fiscal ou sobre um benefício qualquer a "entregar", como senha de trânsito no mercado eleitoral. O que ele diz numa hora, desdiz na outra. É um "flatus" ambulante. De concreto, o projeto de tirar o pai da cadeia. Embora possa facilmente entregar o país.
Há cansaço, sim, "fadiga de material". Mas esse "stress corrosion" (jargão técnico de engenheiro para queda estrutural de ponte ou viaduto) também acomete o arcabouço das explicações de macroestrutura. Não que estejam erradas, são apenas abstratas demais, próprias ao entendimento intelectual, porém deslocadas em tempo e espaço para a média compreensão imediata.
E o problema imediato dos debates é que a massa eleitoral parece não querer saber de coisa alguma. A falha no primeiro turno não foi falta de debates, mas demonstração da falta de vontade de debater. Agito é o que balança as redes. Não apenas os 33 milhões que deixaram de votar, mas principalmente aqueles que, polarizados por uma "mudança" engana-vista, aderem à lógica televisiva do Big Brother.
Por pouco caso que disso façam as explicações por frações de classes de consumo, o reality show oferece um simulacro de parte importante do processo eleitoral. No BBB não se trata de saber, mas de polarizar afetivamente. É modelo de um democratismo tão radical que favorece o homem sem qualidades. Ganha o pior, ou seja, aquele que, exatamente por falta de méritos, catalisa por plebiscito a simpatia majoritária. Criticá-lo desperta a emoção reversa da autopiedade: é como dizer "coitadinho de mim mesmo", tão semelhante.
O rebaixamento nas redes sociais parece hoje prioritário no pleito político. Parlamentares da caixa de gargalhadas, com milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração. Mas o pano de fundo conceitual permanece o do reality show, regido pelo ditado latino "qui vult decipi, decipiatur": quem quer ser enganado, seja. No espelho eletrônico, o pobre empreendedor de si mesmo quer se ver como rico, a vítima como carrasco vingador.
Redes, onde versões precedem fatos, são as ruas movimentadas dessa megalópole-BB chamada internet. No Rio, as semimortas pertencem a neopentecostais, traficantes e milicianos. Debater o quê, com quem? Daí repercutir como contra-hegemonia nas redes o eco das ruas ainda vivas: "fascismo não se discute, se destrói", pois "é difícil defender, só com palavras, a vida" (João Cabral). Cabe mesmo a cada brasileiro sentir no peito o apelo da sua dignidade.
Mas até os mal-informados também estão cansados de saber que Flávio Bolsonaro tem mais folha corrida do que biografia publicável em 23 anos de vida parlamentar. Supunha-se que um político da ultradireita em ascensão tivesse algo de pertinente a dizer sobre ajuste fiscal ou sobre um benefício qualquer a "entregar", como senha de trânsito no mercado eleitoral. O que ele diz numa hora, desdiz na outra. É um "flatus" ambulante. De concreto, o projeto de tirar o pai da cadeia. Embora possa facilmente entregar o país.
Há cansaço, sim, "fadiga de material". Mas esse "stress corrosion" (jargão técnico de engenheiro para queda estrutural de ponte ou viaduto) também acomete o arcabouço das explicações de macroestrutura. Não que estejam erradas, são apenas abstratas demais, próprias ao entendimento intelectual, porém deslocadas em tempo e espaço para a média compreensão imediata.
E o problema imediato dos debates é que a massa eleitoral parece não querer saber de coisa alguma. A falha no primeiro turno não foi falta de debates, mas demonstração da falta de vontade de debater. Agito é o que balança as redes. Não apenas os 33 milhões que deixaram de votar, mas principalmente aqueles que, polarizados por uma "mudança" engana-vista, aderem à lógica televisiva do Big Brother.
Por pouco caso que disso façam as explicações por frações de classes de consumo, o reality show oferece um simulacro de parte importante do processo eleitoral. No BBB não se trata de saber, mas de polarizar afetivamente. É modelo de um democratismo tão radical que favorece o homem sem qualidades. Ganha o pior, ou seja, aquele que, exatamente por falta de méritos, catalisa por plebiscito a simpatia majoritária. Criticá-lo desperta a emoção reversa da autopiedade: é como dizer "coitadinho de mim mesmo", tão semelhante.
O rebaixamento nas redes sociais parece hoje prioritário no pleito político. Parlamentares da caixa de gargalhadas, com milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração. Mas o pano de fundo conceitual permanece o do reality show, regido pelo ditado latino "qui vult decipi, decipiatur": quem quer ser enganado, seja. No espelho eletrônico, o pobre empreendedor de si mesmo quer se ver como rico, a vítima como carrasco vingador.
Redes, onde versões precedem fatos, são as ruas movimentadas dessa megalópole-BB chamada internet. No Rio, as semimortas pertencem a neopentecostais, traficantes e milicianos. Debater o quê, com quem? Daí repercutir como contra-hegemonia nas redes o eco das ruas ainda vivas: "fascismo não se discute, se destrói", pois "é difícil defender, só com palavras, a vida" (João Cabral). Cabe mesmo a cada brasileiro sentir no peito o apelo da sua dignidade.
Flávio perde votos quando eleitor o imagina governando
Para Flávio Bolsonaro vencer a eleição, precisa impedir que os brasileiros se lembrem de que, se votarem nele, ele será o presidente do Brasil pelos próximos quatro anos. Ou mais, dependendo do que ele e o pai fizerem com a Constituição que já disseram que esculhambarão.
Não houve campanha eleitoral no primeiro turno: houve noticiário sobre corrupção no STF. Leitores da coluna sabem que votar no PL para punir os corruptos do STF foi votar em 98% da quadrilha Master para usar os outros 2% como bodes expiatórios. Mas muita gente caiu no golpe, e Flávio terminou o primeiro turno na frente de Lula.
Em retrospecto, a liderança pode ter sido ruim para Flávio. Ela forçou o eleitorado a levar a sério a possibilidade de ser governado por Flávio Bolsonaro. Foi quando começou a recuperação de Lula nas pesquisas.
Logo ficou claro que as entrevistas de Daniella Marques eram o equivalente econômico de "Não sei quem é Daniel Vorcaro, quer dizer, sei mas nunca falei com ele, nunca falei com ele a não ser nessas duas vezes, mas tirando essas dez vezes nunca falei nem vi, só vi nessas dez visitas, vi nessas 20 visitas mas nunca viajei no avião dele, nunca viajei no avião dele porque o avião também era meu, sou usuário master da conta da empresa que o Willer Tomaz usou pra virar sócio do Vorcaro na propriedade do avião, se bem que nunca tive conta conjunta com o Willer porque pegaram ele lavando dinheiro para a turma que roubava no INSS, mas quem andou no avião foi o Alexandre de Moraes, e, ok, eu também, mas odeio Alexandre de Moraes apesar de que, sim, ganhamos exatamente a mesma quantia milionária do mesmo ladrão, mas no meu caso foi pra fazer filme, vou mostrar as contas que provam isso, opa, peraí, não vou mostrar não kkk, caraca Daniella para de se debater na missa".
A votação sobre a jornada 6x1 provou o argumento de minha última coluna: quando fala sobre o que fará com o dinheiro dos brasileiros, Flávio tem um discurso para você que vive do seu trabalho (votou a favor da proposta de Lula) e outro discurso para os ricos (prometeu liberar a 6x1 se for eleito).
Quem você acha que terá mais condições de cobrar as promessas de Flávio, os ricos ou você?
Também já tem gente percebendo que a turma que tentou o golpe de 2022 pode voltar ao poder com um STF castrado pela ameaça permanente de impeachment. Se for eleito, Flávio não vai ter só o poder de derrubar Xandão. Com maioria no Senado, poderá derrubar qualquer ministro que se oponha a qualquer um de seus projetos.
Jair Bolsonaro vai sair da cadeia e escolher os ministros militares de Flávio, já sabendo que generais apoiaram sua última tentativa de golpe. Paulo Figueiredo já disse, em vídeo, que pretende dar a um general que disse não ao golpe a função de carregar uma mala cheia de fezes o dia inteiro. Os golpistas, naturalmente, serão promovidos.
Uma vitória de Flávio, enfim, fortaleceria em Jair a convicção de que não precisa fazer qualquer concessão para obter apoio da direita que preferia Tarcísio.
Para vencer, Flávio precisa que os brasileiros continuem indignados, mas sem se perguntar muito sobre que governo lhes faria ganhar mais dinheiro, ou sobre com que governo prefeririam enfrentar uma nova pandemia.
Não houve campanha eleitoral no primeiro turno: houve noticiário sobre corrupção no STF. Leitores da coluna sabem que votar no PL para punir os corruptos do STF foi votar em 98% da quadrilha Master para usar os outros 2% como bodes expiatórios. Mas muita gente caiu no golpe, e Flávio terminou o primeiro turno na frente de Lula.
Em retrospecto, a liderança pode ter sido ruim para Flávio. Ela forçou o eleitorado a levar a sério a possibilidade de ser governado por Flávio Bolsonaro. Foi quando começou a recuperação de Lula nas pesquisas.
Logo ficou claro que as entrevistas de Daniella Marques eram o equivalente econômico de "Não sei quem é Daniel Vorcaro, quer dizer, sei mas nunca falei com ele, nunca falei com ele a não ser nessas duas vezes, mas tirando essas dez vezes nunca falei nem vi, só vi nessas dez visitas, vi nessas 20 visitas mas nunca viajei no avião dele, nunca viajei no avião dele porque o avião também era meu, sou usuário master da conta da empresa que o Willer Tomaz usou pra virar sócio do Vorcaro na propriedade do avião, se bem que nunca tive conta conjunta com o Willer porque pegaram ele lavando dinheiro para a turma que roubava no INSS, mas quem andou no avião foi o Alexandre de Moraes, e, ok, eu também, mas odeio Alexandre de Moraes apesar de que, sim, ganhamos exatamente a mesma quantia milionária do mesmo ladrão, mas no meu caso foi pra fazer filme, vou mostrar as contas que provam isso, opa, peraí, não vou mostrar não kkk, caraca Daniella para de se debater na missa".
A votação sobre a jornada 6x1 provou o argumento de minha última coluna: quando fala sobre o que fará com o dinheiro dos brasileiros, Flávio tem um discurso para você que vive do seu trabalho (votou a favor da proposta de Lula) e outro discurso para os ricos (prometeu liberar a 6x1 se for eleito).
Quem você acha que terá mais condições de cobrar as promessas de Flávio, os ricos ou você?
Também já tem gente percebendo que a turma que tentou o golpe de 2022 pode voltar ao poder com um STF castrado pela ameaça permanente de impeachment. Se for eleito, Flávio não vai ter só o poder de derrubar Xandão. Com maioria no Senado, poderá derrubar qualquer ministro que se oponha a qualquer um de seus projetos.
Jair Bolsonaro vai sair da cadeia e escolher os ministros militares de Flávio, já sabendo que generais apoiaram sua última tentativa de golpe. Paulo Figueiredo já disse, em vídeo, que pretende dar a um general que disse não ao golpe a função de carregar uma mala cheia de fezes o dia inteiro. Os golpistas, naturalmente, serão promovidos.
Uma vitória de Flávio, enfim, fortaleceria em Jair a convicção de que não precisa fazer qualquer concessão para obter apoio da direita que preferia Tarcísio.
Para vencer, Flávio precisa que os brasileiros continuem indignados, mas sem se perguntar muito sobre que governo lhes faria ganhar mais dinheiro, ou sobre com que governo prefeririam enfrentar uma nova pandemia.
Querem mudar o jeito de escolher o presidente, deputados, e levar bandidos ao poder
As turmas do poder político pretendem mudar formas e modos de governo entre o final deste ano e o começo do próximo. Flávio Bolsonaro (PL) e cia. têm plano nebuloso de "mudar a Constituição para redemocratizar o país". O centrão-direitão quer se defender do avanço da extrema direita e dos políticos digitais. Todos querem mexer no falido STF.
Tais mudanças serão discutidas em momento que pode ser de domínio da extrema direita no governo federal e de grande força no Congresso, com o que tal corrente pode vir a ser hegemônica no partidarizado STF. A extrema direita é composta também de grupos políticos associados ao crime organizado. De resto, a elite no poder foi comprada ou alugada pelo gângster e cafetão Daniel Vorcaro.
Trata-se de:
1. Duração do mandato do presidente e fim da reeleição
2. Sistema de eleição parlamentar passa de proporcional, como hoje, para distrital misto
3. Ministros do STF com mandatos de duração fixa ou idade mínima maior; código de conduta e limites à "monocracia" firmados em lei
Caso eleito, Flávio Bolsonaro vai mandar ao Congresso projeto para estender seu mandato, não se sabe em quais termos. Diz que quer apenas abreviar sua estada no poder (sem reeleição). Flávio é mentiroso contumaz, sem escrúpulo. Faz qualquer negócio, de negar relação com Daniel Vorcaro a renegar seu ajuste fiscal. Pode tentar emplacar no Congresso pacote insidioso de captura do poder à maneira dos autocratas do século 21, de Hungria, Turquia ou Venezuela.
O centrão-direitão assustou-se com o sucesso da extrema direita e dos políticos digitais. Desde 2025, planeja emplacar o voto distrital misto para deputados. Metade deles seria escolhida em distritos (regiões de cada estado de eleitorado de tamanho similar); metade viria de listas de candidatos, a depender da votação de cada partido. Projeto assim foi aprovado em 2017 no Senado e lá ficou. É assunto para outro dia, mas se diga logo que tal sistema pode ser mutretado para favorecer correntes políticas, a depender de regras e distritos.
Em suma, pode haver enorme e rara virada no sistema político. Em geral, tais mudanças fracassam neste país dado a inércia, gradualismo inepto, acordão e transições transadas. Ou então há golpes.
Além de tudo, ano que vem será de crescimento baixo e de transições grandes, como a reforma tributária e o fim da 6x1, reformas que há quem queira abortar. O país estará pendendo entre ajuste fiscal complexo e conflitivo e estagnação ou tumulto econômicos.
No caso de confluência de tantas mudanças e dificuldades, é de se temer crise. Ou golpes e contragolpes.
Como se não bastasse, parte relevante da coalizão da extrema direita é aliada ou comparsa de grupos políticos associados ao crime organizado. Além de laços antigos com milicianos e matadores, o grupo político de Flávio Bolsonaro (PL) é ligado à turma de Cláudio Castro e de quem mandava no governo corrupto dele e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, PL e União Brasil. É gente associada ao Comando Vermelho, outros traficantes, "bets" mafiosas, milicianos, bicheiros, máfia de combustíveis e organizações empresariais criminosas diversas etc. O grupo, na verdade um sistema, agora é comandado pelo governador eleito Douglas Ruas, do PL.
Há o risco de que, eleito, Flávio Bolsonaro transforme o governo do Brasil em um grande Rio de Janeiro sob um sistema político mutretado por reformas autoritárias.
Tais mudanças serão discutidas em momento que pode ser de domínio da extrema direita no governo federal e de grande força no Congresso, com o que tal corrente pode vir a ser hegemônica no partidarizado STF. A extrema direita é composta também de grupos políticos associados ao crime organizado. De resto, a elite no poder foi comprada ou alugada pelo gângster e cafetão Daniel Vorcaro.
Trata-se de:
1. Duração do mandato do presidente e fim da reeleição
2. Sistema de eleição parlamentar passa de proporcional, como hoje, para distrital misto
3. Ministros do STF com mandatos de duração fixa ou idade mínima maior; código de conduta e limites à "monocracia" firmados em lei
Caso eleito, Flávio Bolsonaro vai mandar ao Congresso projeto para estender seu mandato, não se sabe em quais termos. Diz que quer apenas abreviar sua estada no poder (sem reeleição). Flávio é mentiroso contumaz, sem escrúpulo. Faz qualquer negócio, de negar relação com Daniel Vorcaro a renegar seu ajuste fiscal. Pode tentar emplacar no Congresso pacote insidioso de captura do poder à maneira dos autocratas do século 21, de Hungria, Turquia ou Venezuela.
O centrão-direitão assustou-se com o sucesso da extrema direita e dos políticos digitais. Desde 2025, planeja emplacar o voto distrital misto para deputados. Metade deles seria escolhida em distritos (regiões de cada estado de eleitorado de tamanho similar); metade viria de listas de candidatos, a depender da votação de cada partido. Projeto assim foi aprovado em 2017 no Senado e lá ficou. É assunto para outro dia, mas se diga logo que tal sistema pode ser mutretado para favorecer correntes políticas, a depender de regras e distritos.
Em suma, pode haver enorme e rara virada no sistema político. Em geral, tais mudanças fracassam neste país dado a inércia, gradualismo inepto, acordão e transições transadas. Ou então há golpes.
Além de tudo, ano que vem será de crescimento baixo e de transições grandes, como a reforma tributária e o fim da 6x1, reformas que há quem queira abortar. O país estará pendendo entre ajuste fiscal complexo e conflitivo e estagnação ou tumulto econômicos.
No caso de confluência de tantas mudanças e dificuldades, é de se temer crise. Ou golpes e contragolpes.
Como se não bastasse, parte relevante da coalizão da extrema direita é aliada ou comparsa de grupos políticos associados ao crime organizado. Além de laços antigos com milicianos e matadores, o grupo político de Flávio Bolsonaro (PL) é ligado à turma de Cláudio Castro e de quem mandava no governo corrupto dele e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, PL e União Brasil. É gente associada ao Comando Vermelho, outros traficantes, "bets" mafiosas, milicianos, bicheiros, máfia de combustíveis e organizações empresariais criminosas diversas etc. O grupo, na verdade um sistema, agora é comandado pelo governador eleito Douglas Ruas, do PL.
Há o risco de que, eleito, Flávio Bolsonaro transforme o governo do Brasil em um grande Rio de Janeiro sob um sistema político mutretado por reformas autoritárias.
Luchsinger na CNN: após 37 anos, “Operação Miriam Cordeiro” II pré-debate
Trinta e sete anos depois daquele 1989 fatídico, e com as consequências então conhecidas, apareceu uma candidata a Miriam Cordeiro na sucessão: Roberta Luchsinger. Há, claro, diferenças, como sempre, quando se associam personagens de tempos históricos distintos: aquela falou no horário eleitoral de Fernando Collor; esta concedeu uma estupefaciente entrevista à CNN na noite deste sábado. Tratou-se de uma sessão de insultos dirigidos contra o presidente, sem uma miserável acusação objetiva. Muito pelo contrário: ela admitiu não ter nada. Afirmou, por exemplo, que aceita fazer uma delação premiada, embora diga não ter cometido crime nenhum nem ter contrato com o poder público. Nota: Cordeiro apareceu no horário eleitoral na noite de 12 de dezembro daquele ano; a peça foi repisada no dia 13, e o debate entre os candidatos se deu no dia 14. O primeiro confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro acontece na Band neste domingo.
Uma frase resume a entrevista de Luchsinger, além dos xingamentos: “Um homem desse não pode continuar na Presidência da República”. Flávio Bolsonaro certamente concorda com ela. Em 1989, Cordeiro afirmou sobre Lula, com quem teve uma filha, Lurian, que sempre esteve ao lado do pai: “Eu não apoio o Lula e não quero apoiar o Lula porque eu acho que apoiar o Lula seria uma traição a mim mesma. Eu fui uma pessoa que sofreu muito na mão do Lula. […] Eu não posso, sob hipótese nenhuma, apoiar um homem que acabou com a minha vida, tá?”
A lobista, que falou neste sábado, acusa o presidente de ter acabado com o seu negócio. Disse ter perdido clientes que mantinha havia 10 anos, embora não fique claro exatamente o que ela faz. Distribuiu insinuações contra Lulinha, sugerindo que um empresário se deu bem em razão dessa amizade, mas afirmou também não ter conhecimento de irregularidades. Acha que o ex-amigo tem de ser investigado. Por quê?
Não por contratos irregulares que a dupla tenha conquistado no governo. Ela insiste que inexistem os ditos-cujos e que nada fez de errado. Mas aí se saiu com o seguinte truque: se houver, que a polícia diga, e ela se prontificou a colaborar. Talvez não lhe tenham dito como funciona a Lei nº 12.850: o colaborador tem de começar por confessar os próprios crimes. Mas delatar o quê, se ela diz não ter cometido nenhum? Luchsinger confunde uma delação com a simples acusação dos inimigos da hora.
Está obviamente injuriada porque o presidente a chamou de “pilantra”, e chegou até a ensaiar alguns surtos de feminismo seletivo. Contra um adjetivo, uma pilha: “mentiroso, mau-caráter, senil, esclerosado…”. Jurou que era defensora do governo e perguntou: “O que eu recebi em troca?”.
Desse governo, obviamente, nada. Se Flávio vencer, teremos a chance de saber se haverá alguma compensação no próximo.
Num dos momentos que seriam até hilariantes, não fosse tudo bastante melancólico, afirmou que ministros de Estado recorreriam à sua intermediação para conseguir audiência com o presidente da República… Entra na categoria das coisas que nem erradas conseguem ser.
Mas como isso se daria? É tudo confuso — ela estava muito furiosa para pensar com clareza, embora o objetivo da entrevista tenha sido claríssimo —, mas parece que sua amizade com Marcola (Marco Aurélio Ribeiro), ex-chefe de gabinete de Lula, facilitaria o acesso. Pergunta óbvia de resposta idem: por que um ministro de Estado ligaria para ela em vez de passar a mão no telefone e procurar Rui Costa, então chefe da Casa Civil?
É claro que se trata de uma entrevista para tentar interferir na eleição. Cordeiro afirmou em 1989 naquele depoimento absurdo no horário eleitoral de Collor: “Eu peguei a Lurian e entreguei no colo dele e falei: ‘agora você mata; porque, quando ela estava na minha barriga, eu não permiti’.” Luchsinger agora diz que Lula será o responsável por qualquer atentado que venha a sofrer.
Eu não sou ombudsman da imprensa, claro! Mas me pergunto: faz sentido levar ao ar um troço como esse? Ouitra pergunta óbvia de resposta idem: se a extrema direita atentasse contra a vida dela, o responsável seria Lula?
A síntese da entrevista é a seguinte:
– o presidente não gosta dela nem ela do presidente;
– ela não conseguiu fechar nenhuma parceria com o governo;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas afirma querer delatar os outros, o que não tem suporte legal;
– afirma estar sendo perseguida pela “máquina pública”, embora não tenha evidência disso;
– quer saber por que Lulinha não é investigado, embora ele esteja sendo investigado;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas sugere que seu ex-amigo pode ter cometido algum, embora não diga qual.
E, como se nota, ela está pedindo proteção. Ingênua não é — o que talvez Cordeiro fosse. Ela fez uma aposta na derrota de Lula. E parece esperar que o futuro lhe seja ameno, uma vez que diz topar uma delação premiada contra os outros e se diz inocente como as flores.
Que a “Operação Luchsinger” não seja bem-sucedida como foi a “Operação Cordeiro”.
![]() |
| Roberta, a 'Miriam Cordeiro' da vez |
Uma frase resume a entrevista de Luchsinger, além dos xingamentos: “Um homem desse não pode continuar na Presidência da República”. Flávio Bolsonaro certamente concorda com ela. Em 1989, Cordeiro afirmou sobre Lula, com quem teve uma filha, Lurian, que sempre esteve ao lado do pai: “Eu não apoio o Lula e não quero apoiar o Lula porque eu acho que apoiar o Lula seria uma traição a mim mesma. Eu fui uma pessoa que sofreu muito na mão do Lula. […] Eu não posso, sob hipótese nenhuma, apoiar um homem que acabou com a minha vida, tá?”
A lobista, que falou neste sábado, acusa o presidente de ter acabado com o seu negócio. Disse ter perdido clientes que mantinha havia 10 anos, embora não fique claro exatamente o que ela faz. Distribuiu insinuações contra Lulinha, sugerindo que um empresário se deu bem em razão dessa amizade, mas afirmou também não ter conhecimento de irregularidades. Acha que o ex-amigo tem de ser investigado. Por quê?
Não por contratos irregulares que a dupla tenha conquistado no governo. Ela insiste que inexistem os ditos-cujos e que nada fez de errado. Mas aí se saiu com o seguinte truque: se houver, que a polícia diga, e ela se prontificou a colaborar. Talvez não lhe tenham dito como funciona a Lei nº 12.850: o colaborador tem de começar por confessar os próprios crimes. Mas delatar o quê, se ela diz não ter cometido nenhum? Luchsinger confunde uma delação com a simples acusação dos inimigos da hora.
Está obviamente injuriada porque o presidente a chamou de “pilantra”, e chegou até a ensaiar alguns surtos de feminismo seletivo. Contra um adjetivo, uma pilha: “mentiroso, mau-caráter, senil, esclerosado…”. Jurou que era defensora do governo e perguntou: “O que eu recebi em troca?”.
Desse governo, obviamente, nada. Se Flávio vencer, teremos a chance de saber se haverá alguma compensação no próximo.
Num dos momentos que seriam até hilariantes, não fosse tudo bastante melancólico, afirmou que ministros de Estado recorreriam à sua intermediação para conseguir audiência com o presidente da República… Entra na categoria das coisas que nem erradas conseguem ser.
Mas como isso se daria? É tudo confuso — ela estava muito furiosa para pensar com clareza, embora o objetivo da entrevista tenha sido claríssimo —, mas parece que sua amizade com Marcola (Marco Aurélio Ribeiro), ex-chefe de gabinete de Lula, facilitaria o acesso. Pergunta óbvia de resposta idem: por que um ministro de Estado ligaria para ela em vez de passar a mão no telefone e procurar Rui Costa, então chefe da Casa Civil?
É claro que se trata de uma entrevista para tentar interferir na eleição. Cordeiro afirmou em 1989 naquele depoimento absurdo no horário eleitoral de Collor: “Eu peguei a Lurian e entreguei no colo dele e falei: ‘agora você mata; porque, quando ela estava na minha barriga, eu não permiti’.” Luchsinger agora diz que Lula será o responsável por qualquer atentado que venha a sofrer.
Eu não sou ombudsman da imprensa, claro! Mas me pergunto: faz sentido levar ao ar um troço como esse? Ouitra pergunta óbvia de resposta idem: se a extrema direita atentasse contra a vida dela, o responsável seria Lula?
A síntese da entrevista é a seguinte:
– o presidente não gosta dela nem ela do presidente;
– ela não conseguiu fechar nenhuma parceria com o governo;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas afirma querer delatar os outros, o que não tem suporte legal;
– afirma estar sendo perseguida pela “máquina pública”, embora não tenha evidência disso;
– quer saber por que Lulinha não é investigado, embora ele esteja sendo investigado;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas sugere que seu ex-amigo pode ter cometido algum, embora não diga qual.
E, como se nota, ela está pedindo proteção. Ingênua não é — o que talvez Cordeiro fosse. Ela fez uma aposta na derrota de Lula. E parece esperar que o futuro lhe seja ameno, uma vez que diz topar uma delação premiada contra os outros e se diz inocente como as flores.
Que a “Operação Luchsinger” não seja bem-sucedida como foi a “Operação Cordeiro”.
Assinar:
Postagens (Atom)





















