quarta-feira, 22 de julho de 2026
A democracia da desconfiança
Há um erro de diagnóstico que se tornou quase consensual no debate público europeu: a convicção de que vivemos uma crise do regime democrático. A expressão repete-se com tanta frequência que raramente é questionada. Mas talvez o problema seja outro.
Portugal não assiste ao colapso das suas instituições democráticas. As eleições realizam-se regularmente, a alternância política permanece assegurada, os tribunais conservam a sua autonomia e as liberdades fundamentais continuam protegidas. O que se deteriora não é a democracia enquanto regime, mas a confiança na sua capacidade para interpretar uma sociedade em rápida transformação.
A distinção é decisiva. Uma democracia pode sobreviver a governos impopulares, parlamentos divididos ou sucessivas crises políticas. O que dificilmente resiste é ao enfraquecimento da convicção de que os representantes compreendem aqueles em nome de quem decidem. A legitimidade democrática nunca dependeu apenas do voto; sempre assentou na perceção de que existe uma relação de reconhecimento entre governantes e governados. É precisamente esse vínculo que hoje se fragiliza.
Durante demasiado tempo, atribuiu-se o crescimento da abstenção, da fragmentação partidária ou do populismo às crises económicas, aos escândalos de corrupção ou ao desgaste natural dos governos. Todos estes fatores contribuíram para o cenário atual, mas nenhum explica um fenómeno que atravessa democracias com desempenhos económicos muito distintos.
Os estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que o apoio à democracia continua elevado, ao mesmo tempo que diminui a confiança na capacidade dos governos para responder de forma eficaz, previsível e transparente. O Eurobarómetro identifica uma tendência semelhante. A crise não é da democracia; é da representação.
Durante grande parte do século XX, os partidos desempenharam uma função que hoje parece distante. Não eram apenas organizações eleitorais. Eram instituições de mediação. Organizavam interesses, agregavam identidades e davam coerência às expectativas da sociedade, convertendo reivindicações dispersas em projetos políticos reconhecíveis. A representação era um vínculo cívico antes de ser um mecanismo institucional.
Esse modelo foi progressivamente desfeito pela globalização, pela integração europeia e pela revolução digital. Os Estados perderam margem para controlar processos económicos decisivos, enquanto a política deixou de deter o monopólio da construção das narrativas públicas. Hoje disputa a atenção dos cidadãos com plataformas digitais, comentadores, influenciadores e algoritmos concebidos para privilegiar a emoção em detrimento da reflexão.
Daí nasce um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca foi tão fácil comunicar com os cidadãos; nunca foi tão difícil representá-los. A proximidade tecnológica criou a ilusão da proximidade política. Os responsáveis políticos tornaram-se mais acessíveis, mas não necessariamente mais credíveis. A exposição permanente não reforçou a confiança; tornou apenas mais evidentes os limites da ação política perante problemas cuja escala ultrapassa largamente as fronteiras nacionais.
O Reuters Institute tem demonstrado que a confiança na informação permanece sob pressão em grande parte da Europa. A dificuldade já não resulta da escassez de notícias, mas da crescente dificuldade em distinguir informação, opinião, propaganda e entretenimento. Quando desaparece um espaço comum de factos, torna-se igualmente mais difícil construir consensos duradouros. A quebra de confiança compromete, assim, não apenas a política, mas o próprio fundamento da democracia.
Seria, contudo, um erro atribuir esta transformação exclusivamente às redes sociais. Elas aceleraram um processo que começou muito antes. A questão decisiva reside no crescente desfasamento entre aquilo que os cidadãos esperam dos governos nacionais e aquilo que estes efetivamente conseguem concretizar.
Nunca se exigiu tanto da política quando ela dispõe de tão poucos instrumentos para moldar a realidade.
Os cidadãos continuam a esperar dos governos respostas para desafios que já não conhecem fronteiras. A habitação, a imigração, a produtividade, a transição energética, a inteligência artificial ou a competitividade económica dependem hoje de mercados globais, decisões europeias, inovação tecnológica e tensões geopolíticas que escapam, em larga medida, ao controlo de qualquer executivo.
Ainda assim, é sobre os governos nacionais que recai a responsabilidade política. É deste desencontro entre expectativas e capacidade de ação que nasce a desconfiança.
Portugal constitui um exemplo particularmente elucidativo. A sucessão de governos minoritários, crises parlamentares e eleições antecipadas costuma ser apresentada como a causa da instabilidade. É, sobretudo, a sua manifestação. A dificuldade está na crescente incapacidade de produzir reformas consistentes num ambiente dominado pela urgência permanente. Governar passou a significar responder ao ciclo noticioso quando os desafios estruturais exigem continuidade, previsibilidade e tempo político.
É neste vazio que prosperam os discursos populistas. A sua vantagem não reside necessariamente na qualidade das soluções, mas na clareza da narrativa. Enquanto a democracia liberal é obrigada a reconhecer limites, negociar compromissos e administrar complexidades, o populismo promete devolver uma soberania plena que nenhum governo contemporâneo possui. Simplifica problemas que não admitem soluções simples e transforma a frustração em mobilização política.
Seria, porém, insuficiente reduzir este fenómeno ao confronto entre democracia liberal e populismo. O desafio é mais profundo. Os eleitores continuam a preferir a democracia, mas começam a duvidar da sua aptidão para produzir mudanças percetíveis. Quando a alternância política deixa de produzir alterações reconhecíveis na vida das pessoas, instala-se uma sensação persistente de impotência que desgasta qualquer governo, independentemente da sua orientação ideológica.
É por isso que a confiança se tornou o ativo mais valioso — e também o mais escasso — das democracias europeias. Não se recupera através de campanhas de comunicação nem de estratégias de marketing político. Reconstrói-se pela coerência entre discurso e ação, pela estabilidade das regras, pela transparência das decisões e pela capacidade de explicar não apenas o que é possível fazer, mas também os limites impostos por um mundo em que o poder deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados.
As investigações do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Fundação Francisco Manuel dos Santos convergem precisamente neste ponto: a legitimidade democrática constrói-se diariamente. Depende da previsibilidade das instituições, da imparcialidade das regras, da igualdade perante a lei e da convicção de que o poder permanece sujeito ao escrutínio público. Quando essa perceção enfraquece, a confiança não desaparece de forma abrupta; dissolve-se lentamente, até que o cinismo substitui a participação e a suspeita ocupa o lugar da esperança.
Talvez seja este o maior desafio das democracias europeias. Não apenas defender as suas instituições, mas recuperar a capacidade de dar expressão a sociedades cada vez mais diversas, exigentes e fragmentadas. A democracia nunca prometeu eliminar o conflito. A sua força sempre residiu na capacidade de transformar divergências em compromissos reconhecidos como legítimos, mesmo por quem deles discorda.
O futuro da democracia dependerá menos da solidez formal das suas instituições do que da confiança que forem capazes de inspirar. As constituições protegem direitos, organizam poderes e estabelecem regras. Mas nenhuma Constituição consegue preservar, por si só, um regime cujos cidadãos deixaram de acreditar que alguém os compreende antes de decidir, lhes dá voz antes de governar e lhes oferece uma razão credível para continuarem a confiar.
Portugal não assiste ao colapso das suas instituições democráticas. As eleições realizam-se regularmente, a alternância política permanece assegurada, os tribunais conservam a sua autonomia e as liberdades fundamentais continuam protegidas. O que se deteriora não é a democracia enquanto regime, mas a confiança na sua capacidade para interpretar uma sociedade em rápida transformação.
A distinção é decisiva. Uma democracia pode sobreviver a governos impopulares, parlamentos divididos ou sucessivas crises políticas. O que dificilmente resiste é ao enfraquecimento da convicção de que os representantes compreendem aqueles em nome de quem decidem. A legitimidade democrática nunca dependeu apenas do voto; sempre assentou na perceção de que existe uma relação de reconhecimento entre governantes e governados. É precisamente esse vínculo que hoje se fragiliza.
Durante demasiado tempo, atribuiu-se o crescimento da abstenção, da fragmentação partidária ou do populismo às crises económicas, aos escândalos de corrupção ou ao desgaste natural dos governos. Todos estes fatores contribuíram para o cenário atual, mas nenhum explica um fenómeno que atravessa democracias com desempenhos económicos muito distintos.
Os estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que o apoio à democracia continua elevado, ao mesmo tempo que diminui a confiança na capacidade dos governos para responder de forma eficaz, previsível e transparente. O Eurobarómetro identifica uma tendência semelhante. A crise não é da democracia; é da representação.
Durante grande parte do século XX, os partidos desempenharam uma função que hoje parece distante. Não eram apenas organizações eleitorais. Eram instituições de mediação. Organizavam interesses, agregavam identidades e davam coerência às expectativas da sociedade, convertendo reivindicações dispersas em projetos políticos reconhecíveis. A representação era um vínculo cívico antes de ser um mecanismo institucional.
Esse modelo foi progressivamente desfeito pela globalização, pela integração europeia e pela revolução digital. Os Estados perderam margem para controlar processos económicos decisivos, enquanto a política deixou de deter o monopólio da construção das narrativas públicas. Hoje disputa a atenção dos cidadãos com plataformas digitais, comentadores, influenciadores e algoritmos concebidos para privilegiar a emoção em detrimento da reflexão.
Daí nasce um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca foi tão fácil comunicar com os cidadãos; nunca foi tão difícil representá-los. A proximidade tecnológica criou a ilusão da proximidade política. Os responsáveis políticos tornaram-se mais acessíveis, mas não necessariamente mais credíveis. A exposição permanente não reforçou a confiança; tornou apenas mais evidentes os limites da ação política perante problemas cuja escala ultrapassa largamente as fronteiras nacionais.
O Reuters Institute tem demonstrado que a confiança na informação permanece sob pressão em grande parte da Europa. A dificuldade já não resulta da escassez de notícias, mas da crescente dificuldade em distinguir informação, opinião, propaganda e entretenimento. Quando desaparece um espaço comum de factos, torna-se igualmente mais difícil construir consensos duradouros. A quebra de confiança compromete, assim, não apenas a política, mas o próprio fundamento da democracia.
Seria, contudo, um erro atribuir esta transformação exclusivamente às redes sociais. Elas aceleraram um processo que começou muito antes. A questão decisiva reside no crescente desfasamento entre aquilo que os cidadãos esperam dos governos nacionais e aquilo que estes efetivamente conseguem concretizar.
Nunca se exigiu tanto da política quando ela dispõe de tão poucos instrumentos para moldar a realidade.
Os cidadãos continuam a esperar dos governos respostas para desafios que já não conhecem fronteiras. A habitação, a imigração, a produtividade, a transição energética, a inteligência artificial ou a competitividade económica dependem hoje de mercados globais, decisões europeias, inovação tecnológica e tensões geopolíticas que escapam, em larga medida, ao controlo de qualquer executivo.
Ainda assim, é sobre os governos nacionais que recai a responsabilidade política. É deste desencontro entre expectativas e capacidade de ação que nasce a desconfiança.
Portugal constitui um exemplo particularmente elucidativo. A sucessão de governos minoritários, crises parlamentares e eleições antecipadas costuma ser apresentada como a causa da instabilidade. É, sobretudo, a sua manifestação. A dificuldade está na crescente incapacidade de produzir reformas consistentes num ambiente dominado pela urgência permanente. Governar passou a significar responder ao ciclo noticioso quando os desafios estruturais exigem continuidade, previsibilidade e tempo político.
É neste vazio que prosperam os discursos populistas. A sua vantagem não reside necessariamente na qualidade das soluções, mas na clareza da narrativa. Enquanto a democracia liberal é obrigada a reconhecer limites, negociar compromissos e administrar complexidades, o populismo promete devolver uma soberania plena que nenhum governo contemporâneo possui. Simplifica problemas que não admitem soluções simples e transforma a frustração em mobilização política.
Seria, porém, insuficiente reduzir este fenómeno ao confronto entre democracia liberal e populismo. O desafio é mais profundo. Os eleitores continuam a preferir a democracia, mas começam a duvidar da sua aptidão para produzir mudanças percetíveis. Quando a alternância política deixa de produzir alterações reconhecíveis na vida das pessoas, instala-se uma sensação persistente de impotência que desgasta qualquer governo, independentemente da sua orientação ideológica.
É por isso que a confiança se tornou o ativo mais valioso — e também o mais escasso — das democracias europeias. Não se recupera através de campanhas de comunicação nem de estratégias de marketing político. Reconstrói-se pela coerência entre discurso e ação, pela estabilidade das regras, pela transparência das decisões e pela capacidade de explicar não apenas o que é possível fazer, mas também os limites impostos por um mundo em que o poder deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados.
As investigações do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Fundação Francisco Manuel dos Santos convergem precisamente neste ponto: a legitimidade democrática constrói-se diariamente. Depende da previsibilidade das instituições, da imparcialidade das regras, da igualdade perante a lei e da convicção de que o poder permanece sujeito ao escrutínio público. Quando essa perceção enfraquece, a confiança não desaparece de forma abrupta; dissolve-se lentamente, até que o cinismo substitui a participação e a suspeita ocupa o lugar da esperança.
Talvez seja este o maior desafio das democracias europeias. Não apenas defender as suas instituições, mas recuperar a capacidade de dar expressão a sociedades cada vez mais diversas, exigentes e fragmentadas. A democracia nunca prometeu eliminar o conflito. A sua força sempre residiu na capacidade de transformar divergências em compromissos reconhecidos como legítimos, mesmo por quem deles discorda.
O futuro da democracia dependerá menos da solidez formal das suas instituições do que da confiança que forem capazes de inspirar. As constituições protegem direitos, organizam poderes e estabelecem regras. Mas nenhuma Constituição consegue preservar, por si só, um regime cujos cidadãos deixaram de acreditar que alguém os compreende antes de decidir, lhes dá voz antes de governar e lhes oferece uma razão credível para continuarem a confiar.
Ato revolucionário
Em uma época em que os algoritmos nos aproximam apenas de quem pensa como nós e nos afastam de quem vive de maneira diferente, permanecer no mesmo espaço é quase um ato revolucionário.
Mariana Caminha
Fome por 'lama'
Uma cena do livro "As Tumbas de Atuan", de Ursula K. Le Guin, circulou online esta semana, na qual jovens famintas tentam convencer um mágico a usar seus poderes para conseguir comida para elas. “Eu posso invocar um coelho e ele virá”, diz ele. “Mas vocês seriam capazes de pegar, esfolar e assar um coelho invocado dessa maneira? Talvez se estivessem morrendo de fome. Mas acho que seria uma quebra de confiança.” As garotas não querem matar ninguém; elas só querem que ele conjure o jantar. O mágico poderia fazer isso, ele lhes diz. “Até mesmo servi-lo em pratos de ouro, se preferirem. Mas isso seria uma ilusão, e quando você se alimenta de ilusões, acaba com mais fome do que antes.”
A metáfora é tão apropriada que parece quase improvisada : os ingredientes sintéticos são concebidos para estimular as papilas gustativas, mas carecem de fibras, vitaminas, proteínas ou aminoácidos essenciais. Quanto mais se come, mais fome se sente. Essa insatisfação, que já deveria ser motivo suficiente para evitar o alimento, é, no entanto, o segredo do seu sucesso. Na década de 1990, um psicólogo chamado Patrick Carnes deu a esse estranho fenômeno um nome: vínculo traumático.
O vínculo traumático explica por que tantas pessoas permanecem presas em relacionamentos exploradores ou abusivos. É difícil de entender porque a explicação desafia o senso comum: elas não agem assim apesar do abuso, mas precisamente por causa dele. Elas retornam ao abusador repetidamente, como alguém que volta a uma máquina caça-níqueis que engole todas as suas moedas, na esperança de que desta vez sua lealdade seja recompensada com um momento de afeto. O aspecto perverso do sistema é que a máquina funciona melhor quando começa a distribuir menos prêmios, e os que distribui são cada vez piores, porque o processo degrada tanto os padrões da pessoa que, quando um alívio temporário chega, ela o recebe com a intensidade mística de uma aparição mariana. Elas transformam um gesto cotidiano, como lembrar um aniversário, em prova de um amor transcendente.
Em 2019, publiquei um livro que começava descrevendo o mesmo fenômeno, mas com foco nas redes sociais, não na IA . Naquela época, a máquina ainda distribuía prêmios. Havia algumas coisas muito interessantes que só existiam no Twitter, Instagram ou TikTok, mas o padrão de abuso já era evidente. Sabíamos que seus algoritmos opacos eram projetados para explorar a privacidade dos usuários, maximizando o tempo de interação. À medida que as plataformas se tornaram monetizadas, dois tipos de conteúdo floresceram: aqueles capazes de gerar o máximo de interação com o mínimo de orçamento e aqueles criados por agentes oportunistas para manipular a população.
A mediocridade é o resultado final desse processo: conteúdo curto, repetitivo, derivado e fragmentado, produzido em larga escala, otimizado para viralizar em questão de horas e, nos piores casos, explorar a instabilidade política e se aproveitar da nossa vulnerabilidade emocional. E isso corrói nossa capacidade de apreciar outras coisas que exigem investimento financeiro e esforço, como jornalismo ou literatura. Relacionamentos saudáveis são tediosos e demandam algo mais difícil do que submissão.
Como disse Jung, aquilo que permanece inconsciente tende a nos guiar, por isso vale a pena entender seu estranho mecanismo: não nos captura apesar de sua estupidez, mas precisamente por causa dela. Nos deixa tão famintos que nos força a comer mais. E essa dieta nos degrada até que não saibamos mais como comer outra coisa. É por isso que se chama degeneração cerebral.
A metáfora é tão apropriada que parece quase improvisada : os ingredientes sintéticos são concebidos para estimular as papilas gustativas, mas carecem de fibras, vitaminas, proteínas ou aminoácidos essenciais. Quanto mais se come, mais fome se sente. Essa insatisfação, que já deveria ser motivo suficiente para evitar o alimento, é, no entanto, o segredo do seu sucesso. Na década de 1990, um psicólogo chamado Patrick Carnes deu a esse estranho fenômeno um nome: vínculo traumático.
O vínculo traumático explica por que tantas pessoas permanecem presas em relacionamentos exploradores ou abusivos. É difícil de entender porque a explicação desafia o senso comum: elas não agem assim apesar do abuso, mas precisamente por causa dele. Elas retornam ao abusador repetidamente, como alguém que volta a uma máquina caça-níqueis que engole todas as suas moedas, na esperança de que desta vez sua lealdade seja recompensada com um momento de afeto. O aspecto perverso do sistema é que a máquina funciona melhor quando começa a distribuir menos prêmios, e os que distribui são cada vez piores, porque o processo degrada tanto os padrões da pessoa que, quando um alívio temporário chega, ela o recebe com a intensidade mística de uma aparição mariana. Elas transformam um gesto cotidiano, como lembrar um aniversário, em prova de um amor transcendente.
Em 2019, publiquei um livro que começava descrevendo o mesmo fenômeno, mas com foco nas redes sociais, não na IA . Naquela época, a máquina ainda distribuía prêmios. Havia algumas coisas muito interessantes que só existiam no Twitter, Instagram ou TikTok, mas o padrão de abuso já era evidente. Sabíamos que seus algoritmos opacos eram projetados para explorar a privacidade dos usuários, maximizando o tempo de interação. À medida que as plataformas se tornaram monetizadas, dois tipos de conteúdo floresceram: aqueles capazes de gerar o máximo de interação com o mínimo de orçamento e aqueles criados por agentes oportunistas para manipular a população.
A mediocridade é o resultado final desse processo: conteúdo curto, repetitivo, derivado e fragmentado, produzido em larga escala, otimizado para viralizar em questão de horas e, nos piores casos, explorar a instabilidade política e se aproveitar da nossa vulnerabilidade emocional. E isso corrói nossa capacidade de apreciar outras coisas que exigem investimento financeiro e esforço, como jornalismo ou literatura. Relacionamentos saudáveis são tediosos e demandam algo mais difícil do que submissão.
Como disse Jung, aquilo que permanece inconsciente tende a nos guiar, por isso vale a pena entender seu estranho mecanismo: não nos captura apesar de sua estupidez, mas precisamente por causa dela. Nos deixa tão famintos que nos força a comer mais. E essa dieta nos degrada até que não saibamos mais como comer outra coisa. É por isso que se chama degeneração cerebral.
Um presidente de mãos atadas governará o Brasil
Acabou a Copa do Mundo; agora, nosso tema comum é a eleição. É preciso afirmar algo tão inconveniente agora quanto foi dizer que, com aquele time, o Brasil não ia longe, apesar da fanfarra comercial do “rumo ao hexa”.
Depois de muito debate e emoção, o presidente que escolhermos chegará ao poder de mãos quase atadas. Ele simplesmente não terá dinheiro para executar suas promessas. A causa disso é muito simples: o Congresso sequestrou parte do Orçamento. Ele gasta cerca de R$ 61 bilhões por ano só em emendas parlamentares. Sobra pouco para o governo.
Orçamento é um tema muito chato. É uma quantidade abstrata de recursos, que a gente costuma pensar como o dinheiro do governo. No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça com as contas do nosso dia a dia. Por que se preocupar com o que gasta o governo?
Há coisas, no entanto, que precisam ser conhecidas. Nas democracias ocidentais, todo o dinheiro arrecadado com impostos é usado pelos governos eleitos. Deputados e senadores apenas fiscalizam.
No Brasil, o Congresso abocanhou uma grande parte desse dinheiro. O resultado é uma irracionalidade nos gastos. Cada deputado gasta de acordo com suas necessidades eleitorais. Há muita redundância e corrupção.
Os deputados queriam que esse dinheiro que gastam fosse secreto. Daí o surgimento do famoso orçamento secreto, que o STF combate até hoje. Dinheiro público precisa de transparência.
Apesar de muita interferência legal, ainda agora soubemos que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se soubessem os autores. São emendas de comissão. As comissões são uma réplica dos ministérios: Comissão de Educação, Saúde, Transporte. Por que gastam dinheiro de uma forma diferente dos ministérios? Por que não racionalizar?
O Congresso não abre mão desse poder. O resultado não é só dispersão e irracionalidade. Há coisas do arco da velha, como dizíamos no passado. Foi descoberto agora que pessoas que não são deputados manipulam algumas verbas. Valdemar Costa Neto destinou R$ 119 milhões; Eduardo Cunha, R$ 6 milhões.
A expressão “não deputados” é muito vaga. Não se trata da vizinha aposentada ou de um arcebispo. Ambos não são deputados. Costa Neto e Cunha foram presos, em momentos diferentes, por corrupção.
Por aí, é possível ver a seriedade com que o Congresso trata o Orçamento sequestrado. É tão grande o problema que a PF só consegue investigar alguns casos, pois não tem capacidade de fiscalizar quase 600 pessoas distribuindo ou embolsando dinheiro pelo país. Há casos fantásticos de cidades em que quase todo mundo arrancou os dentes ou fraturou os dedos. O Tribunal de Contas da União chegou a investigar cem casos e encontrou irregularidades em 82 deles.
O país que terá um novo presidente terá de se resignar com a falta de dinheiro. Só nas eleições, os partidos vão gastar R$ 5 bilhões. Os argumentos afirmam que são gastos com a democracia. Na verdade, a parte do leão são gastos antidemocráticos.
Encarar essa realidade ou se resignar? Até o momento, apesar de os jornais noticiarem e a PF trabalhar, existe certa passividade em torno do sangramento contínuo do dinheiro público, isto é, sempre lembrando, do dinheiro do nosso bolso.
De que adianta apenas escolher um candidato a presidente, sem equacionar esse problema?
Depois de muito debate e emoção, o presidente que escolhermos chegará ao poder de mãos quase atadas. Ele simplesmente não terá dinheiro para executar suas promessas. A causa disso é muito simples: o Congresso sequestrou parte do Orçamento. Ele gasta cerca de R$ 61 bilhões por ano só em emendas parlamentares. Sobra pouco para o governo.
Orçamento é um tema muito chato. É uma quantidade abstrata de recursos, que a gente costuma pensar como o dinheiro do governo. No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça com as contas do nosso dia a dia. Por que se preocupar com o que gasta o governo?
Há coisas, no entanto, que precisam ser conhecidas. Nas democracias ocidentais, todo o dinheiro arrecadado com impostos é usado pelos governos eleitos. Deputados e senadores apenas fiscalizam.
No Brasil, o Congresso abocanhou uma grande parte desse dinheiro. O resultado é uma irracionalidade nos gastos. Cada deputado gasta de acordo com suas necessidades eleitorais. Há muita redundância e corrupção.
Os deputados queriam que esse dinheiro que gastam fosse secreto. Daí o surgimento do famoso orçamento secreto, que o STF combate até hoje. Dinheiro público precisa de transparência.
Apesar de muita interferência legal, ainda agora soubemos que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se soubessem os autores. São emendas de comissão. As comissões são uma réplica dos ministérios: Comissão de Educação, Saúde, Transporte. Por que gastam dinheiro de uma forma diferente dos ministérios? Por que não racionalizar?
O Congresso não abre mão desse poder. O resultado não é só dispersão e irracionalidade. Há coisas do arco da velha, como dizíamos no passado. Foi descoberto agora que pessoas que não são deputados manipulam algumas verbas. Valdemar Costa Neto destinou R$ 119 milhões; Eduardo Cunha, R$ 6 milhões.
A expressão “não deputados” é muito vaga. Não se trata da vizinha aposentada ou de um arcebispo. Ambos não são deputados. Costa Neto e Cunha foram presos, em momentos diferentes, por corrupção.
Por aí, é possível ver a seriedade com que o Congresso trata o Orçamento sequestrado. É tão grande o problema que a PF só consegue investigar alguns casos, pois não tem capacidade de fiscalizar quase 600 pessoas distribuindo ou embolsando dinheiro pelo país. Há casos fantásticos de cidades em que quase todo mundo arrancou os dentes ou fraturou os dedos. O Tribunal de Contas da União chegou a investigar cem casos e encontrou irregularidades em 82 deles.
O país que terá um novo presidente terá de se resignar com a falta de dinheiro. Só nas eleições, os partidos vão gastar R$ 5 bilhões. Os argumentos afirmam que são gastos com a democracia. Na verdade, a parte do leão são gastos antidemocráticos.
Encarar essa realidade ou se resignar? Até o momento, apesar de os jornais noticiarem e a PF trabalhar, existe certa passividade em torno do sangramento contínuo do dinheiro público, isto é, sempre lembrando, do dinheiro do nosso bolso.
De que adianta apenas escolher um candidato a presidente, sem equacionar esse problema?
terça-feira, 21 de julho de 2026
Grande Guerra
Podes-me roubar o pão!
A Fome, não.
A boca, sim: come, ou não come
Porém, como roubar a inextinguível Fome?
Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.
Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me , até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.
Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal...e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...
Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Pôr abutres roendo as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...
Podes cobrir-me o nome de impropérios;
Tu , que és o senhor dos impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama.
Não brilha o sol na própria lama?
Podes tirar-me paz, saúde , e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
que ao Cristo lhas tiraram.
Perderam-se e O ressuscitaram.
Podes, às minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo que fazes?
És sempre o mesmo, tu, cujas razões supremas
São mordaças, grilhões, vendas. algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.
Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
" Filho , vem até mim!
" A História principia onde eles põem : fim."
José Régio, "A Chaga do Lado "
A Fome, não.
A boca, sim: come, ou não come
Porém, como roubar a inextinguível Fome?
Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.
Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me , até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.
Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal...e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...
Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Pôr abutres roendo as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...
Podes cobrir-me o nome de impropérios;
Tu , que és o senhor dos impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama.
Não brilha o sol na própria lama?
Podes tirar-me paz, saúde , e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
que ao Cristo lhas tiraram.
Perderam-se e O ressuscitaram.
Podes, às minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo que fazes?
És sempre o mesmo, tu, cujas razões supremas
São mordaças, grilhões, vendas. algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.
Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
" Filho , vem até mim!
" A História principia onde eles põem : fim."
José Régio, "A Chaga do Lado "
O que que eu não sei (e gosto assim)
Tenho 34 anos de vida, dos quais, cerca de 20 anos, foram vividos junto das redes sociais. Essa maioridade deveria ser suficiente para que eu tivesse aprendido algumas coisas. Por exemplo, não ler comentários em páginas de notícias; ou até mesmo não ler comentários na publicação de um meme qualquer. Ler comentários nas redes sociais é mergulhar no pântano da estupidez humana, é o que eu já deveria saber. Na verdade, eu sei. Ainda assim, não consigo evitar.
Entre a Europa e o continente americano, entre Brasil e Portugal, já houve caminho suficiente, leitura suficiente, indignação suficiente, medo suficiente, para saber que não se deve ler comentários. Sobretudo quando a ultradireita, asquerosa e fascista (é preciso dar nome aos bois), galopa entre os dois continentes já há vários anos. E, ainda assim, eu leio.
Há alguns anos, enquanto fazia meu doutorado, costumava conversar com uma colega que estudava comentários de redes sociais no contexto da famigerada “ideologia de gênero” que explodiu no Brasil, com seus delírios de “mamadeira de piroca”, “kit-gay” e “boneca trans”. Ou seja, tenho até mesmo uma relativa proximidade com uma discussão científica sobre como essa exposição de comentários funciona, seus métodos, seus pânicos morais, suas falsas rebeldias, sua lógica de guerra, seus conflitos binários. E, ainda assim, eu leio.
Quando, no Instagram, vejo uma chamada para ler uma notícia sobre imigração no site do PÚBLICO, por exemplo, não consigo evitar de ler os comentários. E o meu sentimento, como imigrante, é sempre o mesmo: estou cercado de inimigos que querem a minha cabeça. É uma atração sádica pelo perigo. É uma sensação de inchaço emocional que apenas confirma algo que eu já sabia, ao mesmo tempo em que me deparo com a minha própria dificuldade em acreditar que alguns expressem, desavergonhadamente, tanta maldade, ignorância e preconceito.
Às vezes, penso: depois de todos estes anos, surpreender-se com estes comentários cruéis, para além da minha própria estupidez em lê-los, talvez não seja um sintoma de algo tão ruim assim. A ensaísta Susan Sontag uma vez escreveu que, diante do sofrimento dos outros exibido à exaustão em vídeos e fotografias que circulam pelo mundo, nos tornamos imunes ou indiferentes à dor alheia.
Este argumento de Sontag é útil para pensar a respeito de quando alguns de nós nos espantamos, longe da indiferença, com os comentários em redes sociais. Pois ainda conseguir espantar-se com a banalidade incalculável de tanta violência, boçalidade e intolerância indica a capacidade de ainda estranhar a desumanidade no outro – e, por consequência, a desumanidade em si mesmo.
Pois não se engane: a teatralidade de bom samaritano indignado é dispensável. O espanto deve transformar-se em consciência de cumplicidade ou responsabilidade política. Comecemos por nos perguntar: como nosso modo de vida, ou como nossas escolhas de governantes, estão ligados, direta ou indiretamente, à desavergonhada vontade de destruição de imigrantes, refugiados ou pessoas LGBT+ nas redes sociais?
Eu não quero mero entretenimento mórbido ou simples choques visuais ao ler comentários boçais. Por isso, além de manter, na maior parte do tempo, as redes sociais desinstaladas do meu telefone móvel, como imigrante e gay, eu preciso saber o que ainda não sei. Eu já sei que, aos olhos do atual Governo português e de parte da população portuguesa, a vida de imigrantes e refugiados não tem valor; que em vários países, como Brasil e Estados Unidos, pessoas LGBT+ são menosprezadas, quando não são ativamente odiadas e mortas. Já sei que, diante dos vídeos das guerras no Oriente Médio e na Europa, muitas pessoas, sobretudo brasileiros e brasileiras, fazem comentários como se estivessem acompanhando uma partida de futebol.
Se estou certo de todas essas coisas, o que sei, então, que já não sabia? Esta pergunta é uma paráfrase de uma escritora norte-americana que gosto muito, Eve Sedgwick, falecida nos anos 2000. Lembrei-me desta pergunta quando, semana passada, no miradouro São Pedro de Alcântara, vi o céu de Lisboa tingido de violeta na boca da noite, enquanto eu e meu namorado assistíamos a um tributo a António Variações. Estávamos longe das redes sociais.
Longe das redes sociais eu posso saber o que ainda não sabia. Não sabia que Pedro, o português da drogaria, com simpatia e paciência, me explicaria como faço para trocar a fechadura da porta da nossa sacada; que Lena, minha vizinha portuguesa, apareceria na porta da nossa casa com um prato de comida e um vaso de flores.
Quando cheguei a Lisboa, não sabia que Giulia, uma colega italiana, gentilmente me convidaria para tomar um café depois de perceber o meu nervosismo ao chegar em uma universidade, cheia de colegas portugueses, para trabalhar. Não sabia que Bruno, outro colega português, também abriria a porta para mim, antes mesmo de chegar a Lisboa. Dias atrás, não sabia que o funcionário português da Livraria da Travessa conhecia tão bem a literatura brasileira.
Longe dos comentários boçais das redes sociais, os quais não representam a totalidade do mundo, nada disso eu sabia. Há muitas outras pequenas coisas que eu ainda não sei; e gosto assim.
Os chineses encostaram nos americanos na corrida da IA
Na última sexta-feira, o líder chinês Xi Jinping discursou em uma conferência de IA, realizada em Xangai. Ao público, atacou indiretamente os Estados Unidos.
— O desenvolvimento da inteligência artificial não pode depender da performance solitária de um único país — afirmou.
Defendeu que as IAs sejam distribuídas livremente para todos. Gratuitas. Na quinta-feira, apenas um dia antes, uma empresa chinesa chamada Moonshot AI publicou o modelo Kimi K3. Em performance, encostou no GPT 5.6 Sol e está a um fio de distância do Claude Fable 5. Pois é. Custou uma fração do preço que os americanos pagam para treinar os seus.
Hoje, três quartos do poder de processamento voltado para inteligência artificial estão nas mãos dos Estados Unidos. A China, em segundo lugar, tem 14%. Em 2022, tinha quase 40%. Mudou muito, e mudou rápido, a partir do momento em que o governo americano proibiu a exportação de chips de primeira linha da Nvidia. São justamente esses os chips que os laboratórios americanos, como OpenAI (GPT) e Anthropic (Claude), usam. Os chineses trataram de se adaptar. A Moonshot treinou seu Kimi com chips menos capazes da mesma Nvidia. Outros laboratórios começaram a utilizar chips de IA produzidos pela Huawei. Não são equivalentes ao topo de linha. Ainda.
O Kimi K3 estar em terceiro no ranking das melhores IAs não quer dizer apenas que está na frente de Google (com seu Gemini), xAI (Grok) e outros tantos. Quer dizer, também, que é um modelo melhor do que o Claude Opus 4.8, que apenas dois meses atrás estava no topo do ranking. Os chineses estão chegando muito rápido a um nível máximo de competitividade e gastam bastante menos dinheiro para construir seus modelos.
Para isso, desenvolveram seus truques de treinamento. Um deles é a técnica MoE, sigla em inglês para “mistura de especialistas”. Em essência, quando o sistema vai processar uma quantidade colossal de textos para construir o modelo, a análise de cada pedaço de informação não é feita por todos os circuitos treinadores. Só aqueles específicos, que extrairão mais conhecimento, são empregados. Enquanto os americanos passam cada informação nova por um processo imenso, os chineses separam antes, são precisos com que parte do sistema lê que pedaço do volume de textos. Em essência, isso diminui a necessidade de poder computacional. Que, ora, é justamente o que lhes falta. A economia não é pequena, nem em uso de máquina, nem em dinheiro.
Kimi é muito mais barato de construir, mas a empresa escolheu posicioná-lo no mesmo preço dos concorrentes americanos. A assinatura mensal de entrada é US$ 19, tem dois níveis intermediários a US$ 39 e US$ 99 e, no topo, US$ 199. ChatGPT ou Claude saem por essencialmente o mesmo. Preço é posicionamento. Querem dizer ao mundo que são equivalentes — e são, mesmo. Para algumas funções específicas, como escrever o código de páginas web, os chineses estão em primeiro. E, ainda assim, há outra vantagem nada irrelevante. Nas próximas semanas, prometem lançar uma versão em pesos abertos. Para download. Quem quiser, baixa e instala. Não roda em computador pessoal, mas nuvem é fácil e barato de contratar. O presidente Xi não lançou a cartada da distribuição gratuita à toa.
A diferença é a seguinte: a China sabe que o mundo desconfia dela. IA só é útil a uma empresa se ela coloca todo o peso de seus dados internos mais secretos para estudo. Nessa hora, confia-se muito mais no contrato firmado com uma empresa americana do que uma chinesa. Há medo de pirataria. Mas isso muda por completo para quem baixa um modelo gratuitamente e instala num data center próprio. É preciso pagar a nuvem, não sai sem custo. Ainda assim, o ambiente pode ser totalmente controlado. Os dados corporativos estarão seguros.
Hoje, empresas como a alemã Siemens ou a americaníssima Airbnb já estão mergulhadas nas IAs chinesas. E chegamos a um ponto no qual OpenAI e Anthropic precisarão reavaliar suas estratégias. É perfeitamente possível que, até o fim do ano, alguma empresa chinesa apareça com um modelo que lidere o ranking. Nesse ritmo, o custo americano de treinar IAs se tornará inviável.
Os planos da Anthropic eram de tirar Claude Fable 5 da assinatura para pessoas físicas. Deixar só para empresas. Agora, durante o fim de semana, desistiram. Está lá para todo mundo que paga.
— O desenvolvimento da inteligência artificial não pode depender da performance solitária de um único país — afirmou.
Defendeu que as IAs sejam distribuídas livremente para todos. Gratuitas. Na quinta-feira, apenas um dia antes, uma empresa chinesa chamada Moonshot AI publicou o modelo Kimi K3. Em performance, encostou no GPT 5.6 Sol e está a um fio de distância do Claude Fable 5. Pois é. Custou uma fração do preço que os americanos pagam para treinar os seus.
Hoje, três quartos do poder de processamento voltado para inteligência artificial estão nas mãos dos Estados Unidos. A China, em segundo lugar, tem 14%. Em 2022, tinha quase 40%. Mudou muito, e mudou rápido, a partir do momento em que o governo americano proibiu a exportação de chips de primeira linha da Nvidia. São justamente esses os chips que os laboratórios americanos, como OpenAI (GPT) e Anthropic (Claude), usam. Os chineses trataram de se adaptar. A Moonshot treinou seu Kimi com chips menos capazes da mesma Nvidia. Outros laboratórios começaram a utilizar chips de IA produzidos pela Huawei. Não são equivalentes ao topo de linha. Ainda.
O Kimi K3 estar em terceiro no ranking das melhores IAs não quer dizer apenas que está na frente de Google (com seu Gemini), xAI (Grok) e outros tantos. Quer dizer, também, que é um modelo melhor do que o Claude Opus 4.8, que apenas dois meses atrás estava no topo do ranking. Os chineses estão chegando muito rápido a um nível máximo de competitividade e gastam bastante menos dinheiro para construir seus modelos.
Para isso, desenvolveram seus truques de treinamento. Um deles é a técnica MoE, sigla em inglês para “mistura de especialistas”. Em essência, quando o sistema vai processar uma quantidade colossal de textos para construir o modelo, a análise de cada pedaço de informação não é feita por todos os circuitos treinadores. Só aqueles específicos, que extrairão mais conhecimento, são empregados. Enquanto os americanos passam cada informação nova por um processo imenso, os chineses separam antes, são precisos com que parte do sistema lê que pedaço do volume de textos. Em essência, isso diminui a necessidade de poder computacional. Que, ora, é justamente o que lhes falta. A economia não é pequena, nem em uso de máquina, nem em dinheiro.
Kimi é muito mais barato de construir, mas a empresa escolheu posicioná-lo no mesmo preço dos concorrentes americanos. A assinatura mensal de entrada é US$ 19, tem dois níveis intermediários a US$ 39 e US$ 99 e, no topo, US$ 199. ChatGPT ou Claude saem por essencialmente o mesmo. Preço é posicionamento. Querem dizer ao mundo que são equivalentes — e são, mesmo. Para algumas funções específicas, como escrever o código de páginas web, os chineses estão em primeiro. E, ainda assim, há outra vantagem nada irrelevante. Nas próximas semanas, prometem lançar uma versão em pesos abertos. Para download. Quem quiser, baixa e instala. Não roda em computador pessoal, mas nuvem é fácil e barato de contratar. O presidente Xi não lançou a cartada da distribuição gratuita à toa.
A diferença é a seguinte: a China sabe que o mundo desconfia dela. IA só é útil a uma empresa se ela coloca todo o peso de seus dados internos mais secretos para estudo. Nessa hora, confia-se muito mais no contrato firmado com uma empresa americana do que uma chinesa. Há medo de pirataria. Mas isso muda por completo para quem baixa um modelo gratuitamente e instala num data center próprio. É preciso pagar a nuvem, não sai sem custo. Ainda assim, o ambiente pode ser totalmente controlado. Os dados corporativos estarão seguros.
Hoje, empresas como a alemã Siemens ou a americaníssima Airbnb já estão mergulhadas nas IAs chinesas. E chegamos a um ponto no qual OpenAI e Anthropic precisarão reavaliar suas estratégias. É perfeitamente possível que, até o fim do ano, alguma empresa chinesa apareça com um modelo que lidere o ranking. Nesse ritmo, o custo americano de treinar IAs se tornará inviável.
Os planos da Anthropic eram de tirar Claude Fable 5 da assinatura para pessoas físicas. Deixar só para empresas. Agora, durante o fim de semana, desistiram. Está lá para todo mundo que paga.
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Perdoa, Rei
Meu personagem da semana se chama Edson Arantes do Nascimento.
Na última semana inúmeras heresias foram cometidas contra Edson Arantes. Seu manto real foi profanado, seu nome foi pronunciado em vão, seu trono foi vilipendiado, sua soberania foi questionada.
Perdoa, Rei, porque eles não sabem o que fazem.
Houve hereges brasileiros capazes de ironizar seus vídeos em redes sociais. Para estes podemos oferecer a danação eterna, um chute do Roberto Carlos na região indefesa, quem sabe milho ocasional para o joelho arrependido.
Estudar história é necessário. Houve um, apenas um, que aos 17 anos deu chapéu, matou no peito e fez gol em final de Copa do Mundo. Houve apenas um que ganhou três Copas do Mundo como jogador.
Entendam os amigos argentinos: Messi compete com Maradona – e não sabemos se ganha. Pelé está em outro planeta. Em outra galáxia. Em outra dimensão.
Pelé nunca perdeu uma final da Copa, muito menos duas. Maradona, diga-se, perdeu só uma. Pelé nunca viu seu time ser engolido em final de Copa. Aliás, nas duas finais que disputou, o Brasil ganhou de goleada. Na primeira, o jovem Edson fez o citado gol de almanaque. Na segunda, deu aula de futebol e fez gol mais uma vez. Sua camisa 10 de 1970 deveria estar na entrada da FIFA como uma espécie de santo sudário futebolístico.
Maradona ganhou um título sozinho em 1986. Levou a Argentina nas costas até a final de 1990 – mais ou menos como Messi fez agora. Aquela final em Roma, porém, foi vagamente equilibrada. A partida que vimos ontem em Nova York foi um massacre.
Poucas vezes se viu, numa final de Mundial, domínio tão impressionante. A Argentina só foi finalizar na prorrogação. Parecia um daqueles jogos de Estadual – em que o time grande fica com a bola e o pequeno joga com raça tentando arrumar o gol milagroso num contra-ataque que nunca vem.
Quando o gol espanhol saiu, os argentinos tentaram tirar o improvável coelho da cartola. Messi enfim apareceu no jogo – fazendo duas, três jogadinhas na ponta direita... batendo escanteios perigosos. Houve brio. E pouco mais.
Por um instante me lembrei da musiquinha que ecoou pelos estádios brasileiros em 2014:
- Mil gols, mil gols... só Pelé... só Pelé... Maradona cheirador!
Messi sequer aparecia na canção. Aquela derrota e outras duas em Copa América quase tiraram Messi da seleção argentina. A volta por cima em 2022 foi linda – por mais que ele já não fosse o SuperMessi do Barcelona. Ele já tinha se tornado um Messi estratégico, especialista em encontrar as brechas impossíveis, derivando em campo como um fantasma.
Em 2026, Messi foi ainda mais esse pós-Messi que, não nos enganemos, continua craque, mas longe daquele Messi capaz de destruir qualquer partida a qualquer momento. A vitória em 2022 e essa improvável final alucinaram especialistas e parte da imprensa mundial – que resolveram elegê-lo como o melhor jogador de todos os tempos.
O massacre espanhol talvez desidrate esse descalabro. Messi deve se considerar abençoado pela mera existência da discussão. Mas seu debate é outro – e com outro argentino. Até porque Messi não fez em nenhuma de suas seis Copas o que Maradona fez em 1986. Ou que Garrincha fez em 1962 - para falar de outro gênio.
Então, celebremos o craque infinito, seu currículo, sua história e tudo aquilo que Messi ofereceu ao futebol. Foi um prazer apreciá-lo em campo e é uma pena que não tenhamos mais Copas com ele. Mas não perturbemos o sono real. Deixemos que Edson Arantes descanse em paz na inviolável eternidade de seu trono.
Na última semana inúmeras heresias foram cometidas contra Edson Arantes. Seu manto real foi profanado, seu nome foi pronunciado em vão, seu trono foi vilipendiado, sua soberania foi questionada.
Perdoa, Rei, porque eles não sabem o que fazem.
Houve hereges brasileiros capazes de ironizar seus vídeos em redes sociais. Para estes podemos oferecer a danação eterna, um chute do Roberto Carlos na região indefesa, quem sabe milho ocasional para o joelho arrependido.
Estudar história é necessário. Houve um, apenas um, que aos 17 anos deu chapéu, matou no peito e fez gol em final de Copa do Mundo. Houve apenas um que ganhou três Copas do Mundo como jogador.
Entendam os amigos argentinos: Messi compete com Maradona – e não sabemos se ganha. Pelé está em outro planeta. Em outra galáxia. Em outra dimensão.
Pelé nunca perdeu uma final da Copa, muito menos duas. Maradona, diga-se, perdeu só uma. Pelé nunca viu seu time ser engolido em final de Copa. Aliás, nas duas finais que disputou, o Brasil ganhou de goleada. Na primeira, o jovem Edson fez o citado gol de almanaque. Na segunda, deu aula de futebol e fez gol mais uma vez. Sua camisa 10 de 1970 deveria estar na entrada da FIFA como uma espécie de santo sudário futebolístico.
Maradona ganhou um título sozinho em 1986. Levou a Argentina nas costas até a final de 1990 – mais ou menos como Messi fez agora. Aquela final em Roma, porém, foi vagamente equilibrada. A partida que vimos ontem em Nova York foi um massacre.
Poucas vezes se viu, numa final de Mundial, domínio tão impressionante. A Argentina só foi finalizar na prorrogação. Parecia um daqueles jogos de Estadual – em que o time grande fica com a bola e o pequeno joga com raça tentando arrumar o gol milagroso num contra-ataque que nunca vem.
Quando o gol espanhol saiu, os argentinos tentaram tirar o improvável coelho da cartola. Messi enfim apareceu no jogo – fazendo duas, três jogadinhas na ponta direita... batendo escanteios perigosos. Houve brio. E pouco mais.
Por um instante me lembrei da musiquinha que ecoou pelos estádios brasileiros em 2014:
- Mil gols, mil gols... só Pelé... só Pelé... Maradona cheirador!
Messi sequer aparecia na canção. Aquela derrota e outras duas em Copa América quase tiraram Messi da seleção argentina. A volta por cima em 2022 foi linda – por mais que ele já não fosse o SuperMessi do Barcelona. Ele já tinha se tornado um Messi estratégico, especialista em encontrar as brechas impossíveis, derivando em campo como um fantasma.
Em 2026, Messi foi ainda mais esse pós-Messi que, não nos enganemos, continua craque, mas longe daquele Messi capaz de destruir qualquer partida a qualquer momento. A vitória em 2022 e essa improvável final alucinaram especialistas e parte da imprensa mundial – que resolveram elegê-lo como o melhor jogador de todos os tempos.
O massacre espanhol talvez desidrate esse descalabro. Messi deve se considerar abençoado pela mera existência da discussão. Mas seu debate é outro – e com outro argentino. Até porque Messi não fez em nenhuma de suas seis Copas o que Maradona fez em 1986. Ou que Garrincha fez em 1962 - para falar de outro gênio.
Então, celebremos o craque infinito, seu currículo, sua história e tudo aquilo que Messi ofereceu ao futebol. Foi um prazer apreciá-lo em campo e é uma pena que não tenhamos mais Copas com ele. Mas não perturbemos o sono real. Deixemos que Edson Arantes descanse em paz na inviolável eternidade de seu trono.
Mundo de pastelão
O mundo está assim, uniformizado, massificado. E a uniformidade é o fim. As cadeias de lojas e o urbanismo também. É uma arquitetura do desastre, da repetição, dos caixotes com vidro fumê que eu critico tanto nos meus romances.
É a massificação do capitalismo, o fim das aristocracias todas, das elites pensantes. Não estou lamentando isso, só estou constatando, porque também não sou nostálgico de nada disso. Acho que é uma crise mesmo, é para onde caminha o capitalismo tentacular, tudo vai se parecer, todas as cidades vão ser mais ou menos iguais,
É a massificação do capitalismo, o fim das aristocracias todas, das elites pensantes. Não estou lamentando isso, só estou constatando, porque também não sou nostálgico de nada disso. Acho que é uma crise mesmo, é para onde caminha o capitalismo tentacular, tudo vai se parecer, todas as cidades vão ser mais ou menos iguais,
Trump quer o Brasil
Donald Trump quer, sim, as terras raras do Brasil. Quer regalias para as suas bigtechs e seu etanol, quer o fim do Pix, cujo pecado é ser gratuito. Mas a nova taxação de 25% a produtos brasileiros não se limita a quereres pontuais. Trump quer o Brasil. Quer porque quer esta terra rebelde que não se curvou à sua “química”, insistindo em impedir que ele se torne dono das Américas, plano que imaginava próximo.
Primeiro, Trump jogou com os vizinhos México e Canadá, os dois maiores exportadores e importadores de produtos norteamericanos. A grita interna foi tamanha que ele refluiu parcialmente nas tarifas mexicanas e abandonou a ideia inescrupulosa de transformar o Canadá em 51º estado. Mas mantém ambos sob constante ameaça.
Com algum êxito, avançou na América Central, obrigando a revisão de contratos com chineses na operação do Canal do Panamá, que, para Trump, deveria pertencer aos Estados Unidos. Esmagou a indigesta Cuba, pobre e incapaz de provocar qualquer dano.
Sob alegação nunca comprovada de combater o tráfico de drogas, bombardeou embarcações no Mar do Caribe, operação encerrada logo depois da bem sucedida incursão na Venezuela. Prendeu Nicolás Maduro e domesticou a vice Delcy Rodrigues. Seis meses depois, Trump se vangloria de sorver o petróleo, cujo lucro os venezuelanos não viram.
No Sul, nem foi necessário muito trabalho. Bastaram algumas migalhas aqui e ali em prol de postulantes de direita ou de franco-atiradores para garantir apoio consistente de nada menos de oito dos 12 países da região. Restaram à esquerda apenas o pequeno e desenvolvido Uruguai, a Guiana e o Suriname. E o Brasil – esse estraga prazeres.
Sem o Brasil, décima economia do mundo, que, sozinho, responde por 47,5% do PIB da parte Sul, não há como Trump dominar as Américas.
Depois do desacerto da primeira rodada de tarifas e sanções impostas no ano passado com o claro objetivo de tentar reverter a condenação do ex Jair Bolsonaro, Trump imaginou que avançaria suas garras no Brasil adulando o presidente Lula. Fez caras e bocas, elogios, ofereceu almoço na Casa Branca, paparicou.
Paralelamente, as equipes de negociação dos dois lados não conseguiam avançar. Não por falta de empenho ou de competência dos brasileiros. Mas porque as hipóteses de acordo, desde sempre, eram de mentirinha. O que Trump buscava era a submissão.
Como bobos da corte, o deputado cassado Eduardo, autoexilado no Texas, chegou a comemorar sanções contra o Brasil, e, mais recentemente, defender que o Pix operasse como o sistema americano Zelle, similar, mas sem gratuidade. Seu irmão Flávio, pré-candidato à Presidência pelo PL, foi ainda mais patético ao sugerir não a suspensão, mas o adiamento do tarifaço para depois das eleições, porque sua imposição agora beneficiaria Lula. Fez isso oficialmente por escrito, e presencialmente na audiência pública do Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR).
Agora, Flávio faz malabarismos para se desvencilhar da encrenca. Ele e os seus tentam jogar em Lula a culpa por não haver acordo, o qual os Estados Unidos de Trump, e não o Brasil de Lula, nunca desejou. Isso está estampado com todas as letras em um documento divulgado pelo jornalista Jamil Chade com absurdas exigências de submissão do Brasil, que, se sabia de antemão, eram inaceitáveis.
Mesmo se tratando de Trump, que adora desanunciar no dia seguinte o que anunciou no anterior, dificilmente haverá mudança de rota no tarifaço aos produtos brasileiros. Politicamente, será custoso para ele: lança o Brasil na corrida para outros mercados, ampliando a dependência do país à China, seu maior rival; e dá mais vigor à campanha de Lula, até mesmo junto a parcela significativa do empresariado que torce o nariz para o petista.
Não será a primeira vez que Trump ajuda o lado contrário. Aconteceu no Canadá e na Hungria. De alguma forma também no Brasil de Bolsonaro, quando ambos atacaram as vacinas e defenderam com unhas e dentes o uso da cloroquina para tratar a Covid-19. Safo, Trump se vacinou em segredo, mas entupiu o Brasil com dois milhões de doses do remédio ineficaz. O descaso com a Covid, a postura antivacina e a crença em medicamentos milagrosos contribuíram seriamente para a derrota de Bolsonaro em 2022.
Isso foi no primeiro mandato de Trump, quando sua megalomania chegava, no máximo, a patacoadas como a dita ao então presidente Michel Temer, sugerindo que ele invadisse a Venezuela.
Hoje, Trump parece mais tresloucado. Mas ele tem método. E quer porque quer o Brasil, a pedra que ele não consegue tirar do sapato e que o impede de conquistar as Américas.
Primeiro, Trump jogou com os vizinhos México e Canadá, os dois maiores exportadores e importadores de produtos norteamericanos. A grita interna foi tamanha que ele refluiu parcialmente nas tarifas mexicanas e abandonou a ideia inescrupulosa de transformar o Canadá em 51º estado. Mas mantém ambos sob constante ameaça.
Com algum êxito, avançou na América Central, obrigando a revisão de contratos com chineses na operação do Canal do Panamá, que, para Trump, deveria pertencer aos Estados Unidos. Esmagou a indigesta Cuba, pobre e incapaz de provocar qualquer dano.
Sob alegação nunca comprovada de combater o tráfico de drogas, bombardeou embarcações no Mar do Caribe, operação encerrada logo depois da bem sucedida incursão na Venezuela. Prendeu Nicolás Maduro e domesticou a vice Delcy Rodrigues. Seis meses depois, Trump se vangloria de sorver o petróleo, cujo lucro os venezuelanos não viram.
No Sul, nem foi necessário muito trabalho. Bastaram algumas migalhas aqui e ali em prol de postulantes de direita ou de franco-atiradores para garantir apoio consistente de nada menos de oito dos 12 países da região. Restaram à esquerda apenas o pequeno e desenvolvido Uruguai, a Guiana e o Suriname. E o Brasil – esse estraga prazeres.
Sem o Brasil, décima economia do mundo, que, sozinho, responde por 47,5% do PIB da parte Sul, não há como Trump dominar as Américas.
Depois do desacerto da primeira rodada de tarifas e sanções impostas no ano passado com o claro objetivo de tentar reverter a condenação do ex Jair Bolsonaro, Trump imaginou que avançaria suas garras no Brasil adulando o presidente Lula. Fez caras e bocas, elogios, ofereceu almoço na Casa Branca, paparicou.
Paralelamente, as equipes de negociação dos dois lados não conseguiam avançar. Não por falta de empenho ou de competência dos brasileiros. Mas porque as hipóteses de acordo, desde sempre, eram de mentirinha. O que Trump buscava era a submissão.
Como bobos da corte, o deputado cassado Eduardo, autoexilado no Texas, chegou a comemorar sanções contra o Brasil, e, mais recentemente, defender que o Pix operasse como o sistema americano Zelle, similar, mas sem gratuidade. Seu irmão Flávio, pré-candidato à Presidência pelo PL, foi ainda mais patético ao sugerir não a suspensão, mas o adiamento do tarifaço para depois das eleições, porque sua imposição agora beneficiaria Lula. Fez isso oficialmente por escrito, e presencialmente na audiência pública do Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR).
Agora, Flávio faz malabarismos para se desvencilhar da encrenca. Ele e os seus tentam jogar em Lula a culpa por não haver acordo, o qual os Estados Unidos de Trump, e não o Brasil de Lula, nunca desejou. Isso está estampado com todas as letras em um documento divulgado pelo jornalista Jamil Chade com absurdas exigências de submissão do Brasil, que, se sabia de antemão, eram inaceitáveis.
Mesmo se tratando de Trump, que adora desanunciar no dia seguinte o que anunciou no anterior, dificilmente haverá mudança de rota no tarifaço aos produtos brasileiros. Politicamente, será custoso para ele: lança o Brasil na corrida para outros mercados, ampliando a dependência do país à China, seu maior rival; e dá mais vigor à campanha de Lula, até mesmo junto a parcela significativa do empresariado que torce o nariz para o petista.
Não será a primeira vez que Trump ajuda o lado contrário. Aconteceu no Canadá e na Hungria. De alguma forma também no Brasil de Bolsonaro, quando ambos atacaram as vacinas e defenderam com unhas e dentes o uso da cloroquina para tratar a Covid-19. Safo, Trump se vacinou em segredo, mas entupiu o Brasil com dois milhões de doses do remédio ineficaz. O descaso com a Covid, a postura antivacina e a crença em medicamentos milagrosos contribuíram seriamente para a derrota de Bolsonaro em 2022.
Isso foi no primeiro mandato de Trump, quando sua megalomania chegava, no máximo, a patacoadas como a dita ao então presidente Michel Temer, sugerindo que ele invadisse a Venezuela.
Hoje, Trump parece mais tresloucado. Mas ele tem método. E quer porque quer o Brasil, a pedra que ele não consegue tirar do sapato e que o impede de conquistar as Américas.
Polícia não pode ser responsável por tudo
Imagine uma ocorrência de embriaguez e desordem em um sábado à noite. A polícia chega para conter a confusão e encontra uma mulher agredida, crianças vivendo em um ambiente de violência e uma família abandonada pelo poder público. Quando a ocorrência termina e todos chegam à delegacia, aparece uma das grandes distorções do nosso sistema. O homem que provocou a violência passa a responder também como vítima, alegando lesão corporal, invasão de domicílio ou prisão ilegal. A mulher e os filhos, que precisavam da intervenção do Estado para interromper o ciclo de violência, tornam-se testemunhas. E o policial chamado para proteger a família passa a ocupar o banco dos réus. Não discuto a responsabilização de abusos policiais quando eles existem. O que essa situação revela é outra coisa: a ausência das demais políticas públicas empurra a polícia para resolver, sozinha, problemas que nunca foram só policiais.
Essa cena ajuda a entender por que o debate sobre segurança pública no Brasil costuma começar no lugar errado. Transformamos problemas de saúde, assistência social, álcool e drogas, educação, urbanismo e proteção à infância em ocorrências policiais. Depois, discutimos apenas a atuação da polícia, enquanto as causas da violência permanecem praticamente intocadas.
Durante décadas criamos falsas escolhas, como se o país tivesse de optar entre mais polícia ou mais políticas sociais. Também se difundiu a ideia de que endurecer penas, prender mais pessoas ou reduzir a maioridade penal bastaria para conter a violência. O Brasil já possui uma das maiores populações prisionais do mundo e continua convivendo com índices elevados de criminalidade. Se o encarceramento resolvesse o problema, nossa realidade seria
O próprio sistema penitenciário, marcado por superlotação, condições degradantes e baixa capacidade de recuperação, acabou fortalecendo as facções criminosas. Organizações que nasceram nos presídios encontraram ali as condições para se estruturar, recrutar integrantes e se expandir pelo país.
Também é uma injustiça com os profissionais da segurança. O Estado permanece anos ausente de um território. Faltam escolas, saúde, cultura, esporte, oportunidades de trabalho, urbanização e atendimento às famílias. Depois retorna apenas por meio da polícia e espera que ela resolva, sozinha, problemas acumulados por décadas. Nenhuma profissão conseguiria cumprir essa missão.
Foi sobre esse tema que conversei recentemente com Rodrigo Pimentel no podcast Papo de Elite. Nossas trajetórias são diferentes e continuamos divergindo em vários pontos, o que tornou o diálogo mais rico. Não se tratava de convencer um ao outro, mas de colocar experiências distintas em diálogo. Quem conhece o território enxerga aspectos que nem sempre aparecem nos relatórios. Quem vive a segurança pública revela desafios pouco visíveis para quem está fora dela.
Segurança não pode continuar como responsabilidade quase exclusiva das polícias. Ela depende da articulação entre educação, saúde, assistência social, desenvolvimento econômico, urbanismo, cultura, esporte e um sistema penitenciário capaz de recuperar pessoas, em vez de fortalecer organizações criminosas. Recuperar territórios exige recuperar a presença do Estado por inteiro. Enquanto insistirmos em cobrar da polícia respostas para problemas produzidos pela ausência das demais políticas públicas, continuaremos administrando consequências quando deveríamos enfrentar as causas.
Essa cena ajuda a entender por que o debate sobre segurança pública no Brasil costuma começar no lugar errado. Transformamos problemas de saúde, assistência social, álcool e drogas, educação, urbanismo e proteção à infância em ocorrências policiais. Depois, discutimos apenas a atuação da polícia, enquanto as causas da violência permanecem praticamente intocadas.
Durante décadas criamos falsas escolhas, como se o país tivesse de optar entre mais polícia ou mais políticas sociais. Também se difundiu a ideia de que endurecer penas, prender mais pessoas ou reduzir a maioridade penal bastaria para conter a violência. O Brasil já possui uma das maiores populações prisionais do mundo e continua convivendo com índices elevados de criminalidade. Se o encarceramento resolvesse o problema, nossa realidade seria
O próprio sistema penitenciário, marcado por superlotação, condições degradantes e baixa capacidade de recuperação, acabou fortalecendo as facções criminosas. Organizações que nasceram nos presídios encontraram ali as condições para se estruturar, recrutar integrantes e se expandir pelo país.
Também é uma injustiça com os profissionais da segurança. O Estado permanece anos ausente de um território. Faltam escolas, saúde, cultura, esporte, oportunidades de trabalho, urbanização e atendimento às famílias. Depois retorna apenas por meio da polícia e espera que ela resolva, sozinha, problemas acumulados por décadas. Nenhuma profissão conseguiria cumprir essa missão.
Foi sobre esse tema que conversei recentemente com Rodrigo Pimentel no podcast Papo de Elite. Nossas trajetórias são diferentes e continuamos divergindo em vários pontos, o que tornou o diálogo mais rico. Não se tratava de convencer um ao outro, mas de colocar experiências distintas em diálogo. Quem conhece o território enxerga aspectos que nem sempre aparecem nos relatórios. Quem vive a segurança pública revela desafios pouco visíveis para quem está fora dela.
Segurança não pode continuar como responsabilidade quase exclusiva das polícias. Ela depende da articulação entre educação, saúde, assistência social, desenvolvimento econômico, urbanismo, cultura, esporte e um sistema penitenciário capaz de recuperar pessoas, em vez de fortalecer organizações criminosas. Recuperar territórios exige recuperar a presença do Estado por inteiro. Enquanto insistirmos em cobrar da polícia respostas para problemas produzidos pela ausência das demais políticas públicas, continuaremos administrando consequências quando deveríamos enfrentar as causas.
A escravidão do êxtase
Ando há uns dias a pensar em escalar. Quero escalar o Mont Blank. O K2. O Shishapangma. Sim, quero. Li agora mesmo que registam as taxas de mortalidade mais altas do mundo. É lá que os alpinistas morrem e há em mim algo que precisa de morte.
Posso ficar-me pela crista do Shishapangma, sim, apesar de ser apenas a décima quarta montanha mais elevada do mundo. Eu morreria a trepar o muro da casa da minha avó e a descer o escorrega vermelho do parque infantil a trezentos metros do meu apartamento. Nunca escalei e o meu cu não caberia naquele escorrega elegante. Mas, seguindo com a escalada, confesso-vos que ando a pensar em subir montanhas por causa de algo que não sabia que tinha nome, mas descobri esta semana: adaptação hedónica.
Ora, estas duas palavras, juntas, basicamente querem dizer que o humano sabe adaptar-se a tudo, por isso, aquilo que é êxtase num momento, logo deixa de o ser. É como fazer sexo sempre com o mesmo parceiro. No fundo, precisamos de novo parceiro, desculpem, novo êxtase, e assim sucessivamente até andarmos de gatas e língua no chão, quem sabe a lamber mijo de rato.
Trata-se de uma espécie de “Ambrósio, apetece-me algo”, só que mais complexo, porque agora apetece-nos algo a toda a hora, e bem mais bizarro que um bombom com picos. Apetece-nos algo ao ponto de não nos apetecer quase nada pela fadiga que é apetecer-nos quase tudo, e tudo extenuantemente excêntrico.
E o que é excentricidade ou sentir êxtase? Por exemplo, pode passar por comprar um peido engarrafado da Stephanie Matto no Only Fans ou virar um eremita que se maquilha para milhares de seguidores no Instagram, no mato grosso da imbecilidade da sua solidão, para falar de livros que nunca leu.
E quem sabe esta seja a maior tragédia da contemporaneidade: a adaptação hedónica, ou como dizia o visionário Santo Agostinho, “o desejo não tem descanso”.
Eu, por exemplo, estou tão cheia de êxtases que começaram a sair pelas bordas. Mas, porque também estou cheia de buracos, dei por mim vazia-vazia-vazia. Sem gota. Então, sim, o Shishapangma é perfeito. Depois, também é preciso morrer com estilo para ter alguma dignidade na posteridade do post, porque é preciso chamar a atenção no scroll. E Shishapangma é nome exótico. Já estou a ver a minha lápide. Que pintarola! Já agora, que cor fica bem a um morto? Convém saber o que vestir.
Mas esperem, ou ide, que eu não saio daqui tão cedo. Estou agora para aqui a pensar se o meu desejo de escalada e o tamanho do meu cu não terão vindo do streaming. Terá sido isso? De querer o êxtase de outros? Gostei tanto de ver aquele filme… Como se chamava? Apex! Sim! A magra da Charlize Theron, linda, a esfolar os joelhos na pedra… Oh!, mas eu queria era o papel do Taron Egerton, o de predador canibal.
Pensando melhor, não, não estou certa se ando com vontades de morrer ou antes de matar. Preciso sentir-me perigosa. Quero! Não fazer mal a ninguém dá má reputação. Quem sabe não compre uma arma de plástico, e faça aqueles guinchinhos do Taron num reel. Quem sabe… quem sabe… foda-se!
Tenho de aprender a sair do sofá onde me deitei estafada de êxtases.
Oh!, o que eu gostava dos tempos em que jogar à bisca, bastava. O que eu gostava do Tito, o espinhoso. Onde andam os espinhosos? Os feios. As velhas. As gordas. Os que não visitaram o mundo em fast forward e não mandam mensagens feitas pelo ChatGPT enquanto incham o bíceps e tiram um doutoramento em engenharia aeroespacial, remotamente.
Agora mesmo, vejo uma aparição: José Tolentino Mendonça no meu telemóvel, dizendo: “Os computadores não choram”. José, eu tenho a certeza que não, verti as lágrimas todas e nenhuma veio do ecrã.
Quando é que esta escravidão por nós armada acaba?
Posso ficar-me pela crista do Shishapangma, sim, apesar de ser apenas a décima quarta montanha mais elevada do mundo. Eu morreria a trepar o muro da casa da minha avó e a descer o escorrega vermelho do parque infantil a trezentos metros do meu apartamento. Nunca escalei e o meu cu não caberia naquele escorrega elegante. Mas, seguindo com a escalada, confesso-vos que ando a pensar em subir montanhas por causa de algo que não sabia que tinha nome, mas descobri esta semana: adaptação hedónica.
Ora, estas duas palavras, juntas, basicamente querem dizer que o humano sabe adaptar-se a tudo, por isso, aquilo que é êxtase num momento, logo deixa de o ser. É como fazer sexo sempre com o mesmo parceiro. No fundo, precisamos de novo parceiro, desculpem, novo êxtase, e assim sucessivamente até andarmos de gatas e língua no chão, quem sabe a lamber mijo de rato.
Trata-se de uma espécie de “Ambrósio, apetece-me algo”, só que mais complexo, porque agora apetece-nos algo a toda a hora, e bem mais bizarro que um bombom com picos. Apetece-nos algo ao ponto de não nos apetecer quase nada pela fadiga que é apetecer-nos quase tudo, e tudo extenuantemente excêntrico.
E o que é excentricidade ou sentir êxtase? Por exemplo, pode passar por comprar um peido engarrafado da Stephanie Matto no Only Fans ou virar um eremita que se maquilha para milhares de seguidores no Instagram, no mato grosso da imbecilidade da sua solidão, para falar de livros que nunca leu.
E quem sabe esta seja a maior tragédia da contemporaneidade: a adaptação hedónica, ou como dizia o visionário Santo Agostinho, “o desejo não tem descanso”.
Eu, por exemplo, estou tão cheia de êxtases que começaram a sair pelas bordas. Mas, porque também estou cheia de buracos, dei por mim vazia-vazia-vazia. Sem gota. Então, sim, o Shishapangma é perfeito. Depois, também é preciso morrer com estilo para ter alguma dignidade na posteridade do post, porque é preciso chamar a atenção no scroll. E Shishapangma é nome exótico. Já estou a ver a minha lápide. Que pintarola! Já agora, que cor fica bem a um morto? Convém saber o que vestir.
Mas esperem, ou ide, que eu não saio daqui tão cedo. Estou agora para aqui a pensar se o meu desejo de escalada e o tamanho do meu cu não terão vindo do streaming. Terá sido isso? De querer o êxtase de outros? Gostei tanto de ver aquele filme… Como se chamava? Apex! Sim! A magra da Charlize Theron, linda, a esfolar os joelhos na pedra… Oh!, mas eu queria era o papel do Taron Egerton, o de predador canibal.
Pensando melhor, não, não estou certa se ando com vontades de morrer ou antes de matar. Preciso sentir-me perigosa. Quero! Não fazer mal a ninguém dá má reputação. Quem sabe não compre uma arma de plástico, e faça aqueles guinchinhos do Taron num reel. Quem sabe… quem sabe… foda-se!
Tenho de aprender a sair do sofá onde me deitei estafada de êxtases.
Oh!, o que eu gostava dos tempos em que jogar à bisca, bastava. O que eu gostava do Tito, o espinhoso. Onde andam os espinhosos? Os feios. As velhas. As gordas. Os que não visitaram o mundo em fast forward e não mandam mensagens feitas pelo ChatGPT enquanto incham o bíceps e tiram um doutoramento em engenharia aeroespacial, remotamente.
Agora mesmo, vejo uma aparição: José Tolentino Mendonça no meu telemóvel, dizendo: “Os computadores não choram”. José, eu tenho a certeza que não, verti as lágrimas todas e nenhuma veio do ecrã.
Quando é que esta escravidão por nós armada acaba?
O vento sopra para Lula e um vídeo assombra a candidatura de Flávio
Embora só tenha confessado a poucos amigos, Lula acha que poderá se eleger no primeiro turno e trabalha intensamente para isso. Seria algo inédito em sua história e um fecho de ouro para sua biografia.
Na primeira eleição presidencial que disputou, em 1989, acabou sendo derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, hoje condenado por corrupção e em prisão domiciliar em Maceió. Na segunda (1994) e na terceira (1998), perdeu para Fernando Henrique Cardoso em turno único. Das vezes em que se elegeu (2002, 2006 e 2022), o sucesso só veio no segundo turno.
A velha guarda do PT não acredita que Lula se elegerá no primeiro turno. A nova guarda e os aliados de ocasião acreditam que sim. Em um eventual segundo turno, contudo, a direita deverá se unir contra ele.
Na eleição passada, Lula escolheu Jair Bolsonaro como adversário, desprezando os outros. Feliz de quem pode escolher seu oponente preferencial e acerta ao fazê-lo, embora, por pouco, Bolsonaro não tenha se elegido.
Ninguém mais do que Lula torce para que a candidatura de Flávio vá até o fim e sem definhar, a ponto de ser ultrapassada por qualquer uma das outras que, por ora, não a ameaçam e apenas patinam. Lula respirou aliviado quando Jair, no Natal de 2025, anunciou em carta que Flávio o substituiria como candidato e herdeiro de seus votos. Enfrentar Tarcísio de Freitas seria mais difícil.
Enfrentar Michelle, a ex-primeira-dama, também seria. Mas Jair, além de abertamente misógino, não confia nela. Confiáveis são os filhos. Flávio é o “Zero Um”, daí sua preferência por ele. De resto, Eduardo, o “Zero Três”, migrara para os Estados Unidos a pretexto de convencer Donald Trump a tentar salvar seu pai da condenação. Já para Carlos, o “Zero Dois”, a política não é sua praia.
No modo de Lula ver as coisas, os ventos sopram a seu favor. Em São Paulo, Fernando Haddad poderá superar o desempenho que teve há quatro anos como candidato ao governo estadual. No Rio de Janeiro, com a ajuda de Eduardo Paes — líder de todas as pesquisas de intenção de voto até aqui para governador —, Lula considera que poderá bater Flávio com razoável folga.
Em Minas Gerais, o terceiro maior colégio eleitoral do país, será Lula quem empurrará para o alto Patrus Ananias, seu ex-ministro, e não o contrário. Ali, a montagem do palanque de Flávio segue complicada.
Quanto a participar de debates no rádio e na televisão com os demais candidatos, Lula ainda não decidiu. Todos irão para cima dele. No primeiro turno da eleição de 2006, por exemplo, ele não foi a nenhum. Talvez vá ao da Rede Bandeirantes de Televisão, marcado para 16 de agosto, por ser o primeiro. E certamente irá ao último, no dia 1º de outubro, promovido pela Rede Globo, que detém a maior audiência.
Por fim, está para vir à luz a qualquer momento um vídeo que causará sérios embaraços para a candidatura de Flávio. Se dependesse de Lula, a gravação não surgiria tão cedo.
Na primeira eleição presidencial que disputou, em 1989, acabou sendo derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, hoje condenado por corrupção e em prisão domiciliar em Maceió. Na segunda (1994) e na terceira (1998), perdeu para Fernando Henrique Cardoso em turno único. Das vezes em que se elegeu (2002, 2006 e 2022), o sucesso só veio no segundo turno.
A velha guarda do PT não acredita que Lula se elegerá no primeiro turno. A nova guarda e os aliados de ocasião acreditam que sim. Em um eventual segundo turno, contudo, a direita deverá se unir contra ele.
Na eleição passada, Lula escolheu Jair Bolsonaro como adversário, desprezando os outros. Feliz de quem pode escolher seu oponente preferencial e acerta ao fazê-lo, embora, por pouco, Bolsonaro não tenha se elegido.
Ninguém mais do que Lula torce para que a candidatura de Flávio vá até o fim e sem definhar, a ponto de ser ultrapassada por qualquer uma das outras que, por ora, não a ameaçam e apenas patinam. Lula respirou aliviado quando Jair, no Natal de 2025, anunciou em carta que Flávio o substituiria como candidato e herdeiro de seus votos. Enfrentar Tarcísio de Freitas seria mais difícil.
Enfrentar Michelle, a ex-primeira-dama, também seria. Mas Jair, além de abertamente misógino, não confia nela. Confiáveis são os filhos. Flávio é o “Zero Um”, daí sua preferência por ele. De resto, Eduardo, o “Zero Três”, migrara para os Estados Unidos a pretexto de convencer Donald Trump a tentar salvar seu pai da condenação. Já para Carlos, o “Zero Dois”, a política não é sua praia.
No modo de Lula ver as coisas, os ventos sopram a seu favor. Em São Paulo, Fernando Haddad poderá superar o desempenho que teve há quatro anos como candidato ao governo estadual. No Rio de Janeiro, com a ajuda de Eduardo Paes — líder de todas as pesquisas de intenção de voto até aqui para governador —, Lula considera que poderá bater Flávio com razoável folga.
Em Minas Gerais, o terceiro maior colégio eleitoral do país, será Lula quem empurrará para o alto Patrus Ananias, seu ex-ministro, e não o contrário. Ali, a montagem do palanque de Flávio segue complicada.
Quanto a participar de debates no rádio e na televisão com os demais candidatos, Lula ainda não decidiu. Todos irão para cima dele. No primeiro turno da eleição de 2006, por exemplo, ele não foi a nenhum. Talvez vá ao da Rede Bandeirantes de Televisão, marcado para 16 de agosto, por ser o primeiro. E certamente irá ao último, no dia 1º de outubro, promovido pela Rede Globo, que detém a maior audiência.
Por fim, está para vir à luz a qualquer momento um vídeo que causará sérios embaraços para a candidatura de Flávio. Se dependesse de Lula, a gravação não surgiria tão cedo.
domingo, 19 de julho de 2026
EUA apostam em testosterona para vencer
O operador de teleprompter Gabriel Pérez trabalhou para Donald Trump por dez anos. Conseguia engordar o salário de US$ 170 mil anuais fazendo apostas na Kalshi (maior concorrente da Polymarket) sobre a duração, os temas e determinadas palavras que o chefe usaria em discursos. A barbada tinha lucro garantido, pois são notórias a esqualidez, vulgaridade superlativa e previsibilidade do vocabulário de Trump.
A jogatina do funcionário foi descoberta poucas horas antes da fala presidencial da semana passada, levando à sua demissão. De todo modo, Pérez teria perdido a aposta. O discurso anunciado por Trump como de importância capital e com revelações tonitruantes durou menos de meia hora em horário nobre —uma merreca para a verborragia habitual. Sequer foi transmitido na íntegra por Fox News, ABC e CNN. É possível que o próprio Trump não aguentasse ouvir por mais tempo sua ladainha de que houve fraude na eleição de 2020, em benefício do democrata Joe Biden. Em fala arrastada, listou um cipoal de “evidências novas” de interferência da China, com respingos até contra a infeliz Venezuela, e deu o recado central: diante da falência do sistema eleitoral americano, será preciso antecipar-se às inevitáveis fraudes no pleito de novembro próximo. Tradução: vale tudo para impedir que os democratas reconquistem maioria na Câmara e/ou no Senado, como apontam as pesquisas de opinião mais recentes.
O secretário da Defesa, Pete Hegseth, sempre pronto a superar o mestre em falatório muscular, apresentou a sua receita para reverter a incapacidade de Trump de ganhar as guerras que inicia ou de conquistar a paz pela força: testosterona.
Em livro publicado dois anos atrás, Hegseth já havia alertado para o perigo de as Forças Armadas se tornarem “afeminadas, apologéticas demais” em relação a seu papel no mundo. Uma vez instalado no Pentágono, ele passou a bloquear a promoção de mulheres oficiais, demitiu a primeira mulher a comandar a Marinha e ordenou uma revisão do papel feminino em frentes de combate. Na semana passada, em vídeo de dois minutos que ressaltava o rosto angular cuidadosamente enquadrado, ele se dirigiu “olho no olho” aos 2,8 milhões de fardados do país:
— Você faz parte da maior elite de guerreiros da face da Terra. Todo santo dia você está sendo exigido no limite absoluto de sua capacidade física e mental. Investimos muito em sistemas e armamento bélico, mas nosso instrumento mais decisivo é e sempre será o guerreiro individual (...) Por isso autorizo a partir de hoje o levantamento do nível de testosterona das nossas Forças Armadas. (...) Sob supervisão de profissionais de saúde de nível mundial, guerreiros de mais de 30 anos passarão a ser testados anualmente. (...) Não se trata de um aprimoramento artificial e sim de otimizar a sua capacidade natural, proteger sua longevidade, e garantir que você tenha os fundamentos biológicos para prosseguir a luta.
Não se sabe se Hegseth, de 46 anos, toma o esteroide cuja presença no corpo humano decresce naturalmente na meia-idade. Mas é mais do que sabido que a terapia de reposição de testosterona suprime a produção natural do hormônio e desacelera a produção de esperma. Aplicá-lo em larga escala para militares que ainda teriam anos de fertilidade possível, em troca de ganho de musculatura, estâmina e fôlego, é o retrato de um governo doente, obcecado com masculinidade.
O estapafúrdio anúncio de Hegseth, que fez carreira na televisão, talvez tenha sido inspirado na Segunda Guerra Mundial, quando as divisões de panzer nazistas, pilotos e soldados da Wehrmacht operaram à base de anfetaminas para suportar a marcha de Hitler. Apesar da retórica estritamente contrária ao uso de drogas do regime nazista, o Terceiro Reich foi movido a dependência química — em especial o estimulante metanfetamina, patenteado à época com o nome de Pervitin. Somente entre abril e julho de 1940, os militares nazistas consumiram mais de 35 milhões de comprimidos da droga. A Blitzkrieg exigiu que a infantaria acompanhasse o assalto a Holanda, Bélgica e França em 11 dias praticamente sem comer, beber ou dormir. Tomavam quatro doses diárias da droga, relata o historiador Norman Ohler, autor de “Drugs in the Third Reich”. O próprio Hitler, como se sabe, foi se desintegrando em narcóticos — começou com injeções de vitaminas e culminou num coquetel de opioides à base de oxicodona, além da cocaína.
— Não precisamos de fracos, queremos apenas os fortes — decretou Hitler.
Hegseth está apenas brincando de guerra com testosterona. Enquanto isso, Trump vai ficando cada vez mais irracional contra o Irã. O importante, agora, é não perder também a eleição.
Que tempos!
A jogatina do funcionário foi descoberta poucas horas antes da fala presidencial da semana passada, levando à sua demissão. De todo modo, Pérez teria perdido a aposta. O discurso anunciado por Trump como de importância capital e com revelações tonitruantes durou menos de meia hora em horário nobre —uma merreca para a verborragia habitual. Sequer foi transmitido na íntegra por Fox News, ABC e CNN. É possível que o próprio Trump não aguentasse ouvir por mais tempo sua ladainha de que houve fraude na eleição de 2020, em benefício do democrata Joe Biden. Em fala arrastada, listou um cipoal de “evidências novas” de interferência da China, com respingos até contra a infeliz Venezuela, e deu o recado central: diante da falência do sistema eleitoral americano, será preciso antecipar-se às inevitáveis fraudes no pleito de novembro próximo. Tradução: vale tudo para impedir que os democratas reconquistem maioria na Câmara e/ou no Senado, como apontam as pesquisas de opinião mais recentes.
O secretário da Defesa, Pete Hegseth, sempre pronto a superar o mestre em falatório muscular, apresentou a sua receita para reverter a incapacidade de Trump de ganhar as guerras que inicia ou de conquistar a paz pela força: testosterona.
Em livro publicado dois anos atrás, Hegseth já havia alertado para o perigo de as Forças Armadas se tornarem “afeminadas, apologéticas demais” em relação a seu papel no mundo. Uma vez instalado no Pentágono, ele passou a bloquear a promoção de mulheres oficiais, demitiu a primeira mulher a comandar a Marinha e ordenou uma revisão do papel feminino em frentes de combate. Na semana passada, em vídeo de dois minutos que ressaltava o rosto angular cuidadosamente enquadrado, ele se dirigiu “olho no olho” aos 2,8 milhões de fardados do país:
— Você faz parte da maior elite de guerreiros da face da Terra. Todo santo dia você está sendo exigido no limite absoluto de sua capacidade física e mental. Investimos muito em sistemas e armamento bélico, mas nosso instrumento mais decisivo é e sempre será o guerreiro individual (...) Por isso autorizo a partir de hoje o levantamento do nível de testosterona das nossas Forças Armadas. (...) Sob supervisão de profissionais de saúde de nível mundial, guerreiros de mais de 30 anos passarão a ser testados anualmente. (...) Não se trata de um aprimoramento artificial e sim de otimizar a sua capacidade natural, proteger sua longevidade, e garantir que você tenha os fundamentos biológicos para prosseguir a luta.
Não se sabe se Hegseth, de 46 anos, toma o esteroide cuja presença no corpo humano decresce naturalmente na meia-idade. Mas é mais do que sabido que a terapia de reposição de testosterona suprime a produção natural do hormônio e desacelera a produção de esperma. Aplicá-lo em larga escala para militares que ainda teriam anos de fertilidade possível, em troca de ganho de musculatura, estâmina e fôlego, é o retrato de um governo doente, obcecado com masculinidade.
O estapafúrdio anúncio de Hegseth, que fez carreira na televisão, talvez tenha sido inspirado na Segunda Guerra Mundial, quando as divisões de panzer nazistas, pilotos e soldados da Wehrmacht operaram à base de anfetaminas para suportar a marcha de Hitler. Apesar da retórica estritamente contrária ao uso de drogas do regime nazista, o Terceiro Reich foi movido a dependência química — em especial o estimulante metanfetamina, patenteado à época com o nome de Pervitin. Somente entre abril e julho de 1940, os militares nazistas consumiram mais de 35 milhões de comprimidos da droga. A Blitzkrieg exigiu que a infantaria acompanhasse o assalto a Holanda, Bélgica e França em 11 dias praticamente sem comer, beber ou dormir. Tomavam quatro doses diárias da droga, relata o historiador Norman Ohler, autor de “Drugs in the Third Reich”. O próprio Hitler, como se sabe, foi se desintegrando em narcóticos — começou com injeções de vitaminas e culminou num coquetel de opioides à base de oxicodona, além da cocaína.
— Não precisamos de fracos, queremos apenas os fortes — decretou Hitler.
Hegseth está apenas brincando de guerra com testosterona. Enquanto isso, Trump vai ficando cada vez mais irracional contra o Irã. O importante, agora, é não perder também a eleição.
Que tempos!
Um conto ao pé da letra
"O Conto da Aia", uma das ficções mais influentes da literatura distópica contemporânea, é, em princípio, uma crítica de Margaret Atwood aos regimes totalitários, com foco no controle político sobre o corpo feminino, na perda dos direitos civis e na dominação religiosa. A história: na República de Gilead, teocracia que substituiu o governo americano após um golpe, uma grave crise de fertilidade obriga mulheres férteis a se tornarem "aias", reprodutoras de membros da elite dirigente.
Mas a literatura, como a ironia, se perfaz na escuta. Intenção crítica pode ser interpretada às avessas, a depender do contexto receptivo. Da leitura, escrita e audiovisual dessa distopia parecem aflorar no imaginário da direita dos EUA significações até então submersas na esfera do não-dito, do subconsciente. Embora oculto, esse nível de consciência abriga uma forma de perceber e dar sentido às coisas. Não à toa, "O Conto da Aia" ganha veracidade na trama político-social norte-americana, com irradiações na sabujice misógina de extremistas sul-americanos.
O alvo do ataque inicial é o voto feminino. Não mais um dos disparates regurgitados por Trump, mas algo consistente no âmbito da Secretaria de Defesa, comandada por Pete Hegseth: a abolição da emenda 19 à Constituição dos EUA, um dos baluartes dos direitos políticos e da luta pela igualdade de gênero. Ventríloquo do pastor Doug Wilson, voz extrema da direita cristã, Hegseth não tem pejo em afirmar que mulheres não deveriam votar. Fica assim explicada a origem da frase de Paulo Figueiredo, guru e cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro, homiziado nos EUA: "mulheres votam mal, especialmente as solteiras".
O mais grave de toda essa situação é que as próprias mulheres possam concordar com essa bárbara autodestruição da liberdade: viável é a hipótese de que a insatisfação com a condição feminina leve à autopunição.
O fenômeno já tinha sido observado por Erich Fromm no auge do fascismo europeu ao assinalar que "alguns indivíduos só ficam verdadeiramente felizes quando podem assujeitar-se e submeter-se a uma autoridade, e tanto mais quanto é ela mais severa e cruel" (em "Estudos sobre a autoridade e a família", 1936). De fato, esposas de direita têm-se disposto a abrir mão do livre sufrágio em favor dos maridos, que então votariam pela família. Bíblias em punho, mas aderentes à sura 4:34 do Alcorão: "Os homens são superiores às mulheres porque Deus favoreceu uns em relação a outros".
Caberia a uma sociopsicanálise avaliar o grau de transformação psicótica implicada na incorporação individual de uma estrutura autoritária. À sociopolítica cabe, entretanto, ponderar sobre um brutalismo que conjuga, no modo colonial, masculinidade e racismo. Misoginia é uma variante do ódio racial. Não que sejam fortes as suas possibilidades de abolir conquistas civis. Disso bem sabe a ultradireita, por ora focada na mensagem sádica de que mulheres são apenas seres carnais a serviço do patriarcado branco. "O Conto da Aia" é mera antecipação do recado num país em que a infertilidade é problema real.
Muniz Sodré
Mas a literatura, como a ironia, se perfaz na escuta. Intenção crítica pode ser interpretada às avessas, a depender do contexto receptivo. Da leitura, escrita e audiovisual dessa distopia parecem aflorar no imaginário da direita dos EUA significações até então submersas na esfera do não-dito, do subconsciente. Embora oculto, esse nível de consciência abriga uma forma de perceber e dar sentido às coisas. Não à toa, "O Conto da Aia" ganha veracidade na trama político-social norte-americana, com irradiações na sabujice misógina de extremistas sul-americanos.
O alvo do ataque inicial é o voto feminino. Não mais um dos disparates regurgitados por Trump, mas algo consistente no âmbito da Secretaria de Defesa, comandada por Pete Hegseth: a abolição da emenda 19 à Constituição dos EUA, um dos baluartes dos direitos políticos e da luta pela igualdade de gênero. Ventríloquo do pastor Doug Wilson, voz extrema da direita cristã, Hegseth não tem pejo em afirmar que mulheres não deveriam votar. Fica assim explicada a origem da frase de Paulo Figueiredo, guru e cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro, homiziado nos EUA: "mulheres votam mal, especialmente as solteiras".
O mais grave de toda essa situação é que as próprias mulheres possam concordar com essa bárbara autodestruição da liberdade: viável é a hipótese de que a insatisfação com a condição feminina leve à autopunição.
O fenômeno já tinha sido observado por Erich Fromm no auge do fascismo europeu ao assinalar que "alguns indivíduos só ficam verdadeiramente felizes quando podem assujeitar-se e submeter-se a uma autoridade, e tanto mais quanto é ela mais severa e cruel" (em "Estudos sobre a autoridade e a família", 1936). De fato, esposas de direita têm-se disposto a abrir mão do livre sufrágio em favor dos maridos, que então votariam pela família. Bíblias em punho, mas aderentes à sura 4:34 do Alcorão: "Os homens são superiores às mulheres porque Deus favoreceu uns em relação a outros".
Caberia a uma sociopsicanálise avaliar o grau de transformação psicótica implicada na incorporação individual de uma estrutura autoritária. À sociopolítica cabe, entretanto, ponderar sobre um brutalismo que conjuga, no modo colonial, masculinidade e racismo. Misoginia é uma variante do ódio racial. Não que sejam fortes as suas possibilidades de abolir conquistas civis. Disso bem sabe a ultradireita, por ora focada na mensagem sádica de que mulheres são apenas seres carnais a serviço do patriarcado branco. "O Conto da Aia" é mera antecipação do recado num país em que a infertilidade é problema real.
Muniz Sodré
A arma de Ormuz
Durante décadas, o Ocidente acreditou que a principal ameaça estratégica do Irão estava escondida nas profundezas das instalações nucleares de Natanz, Fordow ou Arak. A guerra recente obrigou-nos a olhar para outro lugar. A verdadeira arma iraniana não está enterrada sob montanhas nem protegida por betão armado. Flutua à superfície das águas do golfo Pérsico. Chama-se estreito de Ormuz.
Foi essa a grande conclusão estratégica dos últimos meses e, provavelmente, a razão pela qual o memorando de entendimento entre Washington e Teerão estava condenado desde o primeiro dia.
O mundo assistiu ao acordo como quem observa o início de uma descompressão. Os mercados reagiram positivamente. O preço da energia estabilizou. As bolsas recuperaram parte das perdas. As seguradoras marítimas reduziram os prémios de risco. A sensação geral era a de que a crise tinha entrado numa fase de controlo.
Mas aquilo que existia nunca foi paz.
O memorando não nasceu para resolver o conflito entre os EUA e o Irão. Nasceu para gerir as suas consequências imediatas. Foi uma ferramenta de estabilização, não uma solução política. Serviu para ganhar tempo, acalmar os mercados e evitar que uma guerra regional se transformasse numa crise económica global.
Em muitos aspetos, cumpriu esse objetivo. Os EUA conseguiram apresentar uma pausa estratégica após uma campanha militar que pretendiam transformar numa vitória política. O Irão conseguiu aliviar parte da pressão económica e alimentar a expectativa de que o levantamento das sanções pudesse abrir uma nova etapa. Os mercados obtiveram aquilo que mais valorizam: previsibilidade.
O problema é que os interesses fundamentais de ambas as partes nunca mudaram.
As divergências concentravam-se sobretudo em dois pontos. O primeiro era o artigo 5º, relacionado com o estreito de Ormuz. O segundo era o artigo 11º, relativo aos ativos iranianos congelados e ao levantamento das sanções.
Para Teerão, Ormuz é mais do que uma passagem marítima. É um instrumento de poder. É a capacidade de transformar geografia em influência política. É a possibilidade de lembrar ao mundo que uma parte significativa da energia global continua dependente de um corredor marítimo cuja estabilidade pode ser posta em causa.
Para Washington, essa visão é inaceitável. Nenhuma superpotência marítima pode aceitar que uma das principais artérias energéticas do planeta seja utilizada como instrumento de pressão estratégica. A liberdade de navegação não é apenas uma questão comercial. É uma questão de poder.
Foi aqui que as leituras começaram a divergir de forma irreconciliável.
O Irão interpretava o memorando como um reconhecimento implícito da sua capacidade de influência regional. Os EUA encaravam-no como uma pausa temporária destinada a reduzir riscos e a ganhar margem de manobra. Ambos assinavam o mesmo documento, mas liam-no de formas completamente diferentes.
O mesmo acontecia com o artigo 11º. A liderança iraniana via o acesso aos ativos congelados e o levantamento das sanções como uma condição essencial para estabilizar a economia e responder a uma população cada vez mais desgastada por décadas de dificuldades económicas. Washington aceitava discutir essa possibilidade, mas apenas dentro de limites muito mais restritivos.
Entre ambas as interpretações existia um fosso demasiado profundo para ser ultrapassado.
A questão central, contudo, não está no texto do memorando. Está naquilo que cada lado acreditava sobre o outro.
Ao longo destes meses, o regime iraniano pareceu partir de uma convicção simples: a sua capacidade de resistência económica seria superior à capacidade de resistência política dos EUA. Em Teerão acreditava-se que Washington acabaria por recuar primeiro. Que a pressão dos mercados, a subida dos preços da energia, a inflação e o desgaste político interno acabariam por limitar a determinação americana.
A lógica não era absurda.
Os EUA carregam ainda as memórias do Iraque e do Afeganistão. Donald Trump regressou à Casa Branca prometendo prosperidade económica, energia acessível e menos conflitos externos. As eleições intercalares aproximam-se. Qualquer choque petrolífero significativo teria inevitavelmente consequências políticas.
Mas foi precisamente aqui que ocorreu o principal erro de cálculo iraniano.
A Administração americana parece ter chegado a uma conclusão diferente. Em vez de considerar que o tempo favorece Teerão, acredita que o tempo favorece Washington. Acredita que a economia iraniana necessita mais do levantamento das sanções do que os EUA necessitam de um acordo rápido. Acredita que as fragilidades económicas do regime são mais profundas do que aparentam. E acredita que a pressão acumulada acabará por produzir efeitos políticos.
A queda do memorando representa, por isso, muito mais do que o fracasso de uma negociação. Representa a passagem para uma nova fase da estratégia americana.
Não estamos perante os preparativos para uma invasão ou para uma guerra convencional de grande escala. Estamos perante algo mais subtil e potencialmente mais eficaz. Uma campanha prolongada de pressão seletiva destinada a limitar progressivamente as capacidades militares iranianas associadas ao golfo Pérsico e ao controlo de Ormuz.
Washington procurará justificar essas ações como necessárias para garantir a segurança marítima internacional, proteger a liberdade de navegação e prevenir futuras ameaças ao comércio global. Independentemente do debate jurídico que inevitavelmente surgirá, a lógica estratégica é evidente: reduzir a capacidade iraniana de transformar Ormuz numa arma económica.
Para Israel, esta evolução é amplamente favorável.
O memorando introduzia ambiguidades e constrangimentos políticos. O seu desaparecimento devolve clareza estratégica. Jerusalém vê reforçada a possibilidade de manter uma política de contenção permanente sobre o regime iraniano e sobre a sua rede de aliados regionais.
Para os Estados árabes do golfo, a situação é mais delicada. Partilham muitas das preocupações de Washington relativamente ao comportamento iraniano, mas conhecem melhor do que ninguém os custos económicos da instabilidade. Beneficiam da proteção americana, mas dependem igualmente da estabilidade dos mercados energéticos.
É por isso que o Médio Oriente entra agora numa fase particularmente perigosa. Não uma fase de guerra aberta. Não uma fase de paz. Mas uma fase intermédia, marcada por operações limitadas, pressão económica, demonstrações de força e confrontação permanente.
O memorando serviu um propósito. Evitou uma escalada imediata e deu aos mercados o tempo de que necessitavam para recuperar confiança. Mas nunca resolveu a questão essencial. A grande disputa deixou de ser apenas nuclear.
Durante anos, acreditámos que o centro da rivalidade estava nas centrifugadoras iranianas. Hoje percebemos que a verdadeira questão é mais ampla. Trata-se de saber quem controla a principal alavanca energética do planeta e quem tem capacidade para transformar essa alavanca numa arma política.
O programa nuclear continua a ser importante. Continua a preocupar Washington, Jerusalém e os seus aliados. Mas a guerra revelou algo que muitos preferiam ignorar.
A bomba mais poderosa do Irão pode não estar escondida num complexo subterrâneo. Pode estar, simplesmente, nas águas de Ormuz.
Foi essa a grande conclusão estratégica dos últimos meses e, provavelmente, a razão pela qual o memorando de entendimento entre Washington e Teerão estava condenado desde o primeiro dia.
O mundo assistiu ao acordo como quem observa o início de uma descompressão. Os mercados reagiram positivamente. O preço da energia estabilizou. As bolsas recuperaram parte das perdas. As seguradoras marítimas reduziram os prémios de risco. A sensação geral era a de que a crise tinha entrado numa fase de controlo.
Mas aquilo que existia nunca foi paz.
O memorando não nasceu para resolver o conflito entre os EUA e o Irão. Nasceu para gerir as suas consequências imediatas. Foi uma ferramenta de estabilização, não uma solução política. Serviu para ganhar tempo, acalmar os mercados e evitar que uma guerra regional se transformasse numa crise económica global.
Em muitos aspetos, cumpriu esse objetivo. Os EUA conseguiram apresentar uma pausa estratégica após uma campanha militar que pretendiam transformar numa vitória política. O Irão conseguiu aliviar parte da pressão económica e alimentar a expectativa de que o levantamento das sanções pudesse abrir uma nova etapa. Os mercados obtiveram aquilo que mais valorizam: previsibilidade.
O problema é que os interesses fundamentais de ambas as partes nunca mudaram.
As divergências concentravam-se sobretudo em dois pontos. O primeiro era o artigo 5º, relacionado com o estreito de Ormuz. O segundo era o artigo 11º, relativo aos ativos iranianos congelados e ao levantamento das sanções.
Para Teerão, Ormuz é mais do que uma passagem marítima. É um instrumento de poder. É a capacidade de transformar geografia em influência política. É a possibilidade de lembrar ao mundo que uma parte significativa da energia global continua dependente de um corredor marítimo cuja estabilidade pode ser posta em causa.
Para Washington, essa visão é inaceitável. Nenhuma superpotência marítima pode aceitar que uma das principais artérias energéticas do planeta seja utilizada como instrumento de pressão estratégica. A liberdade de navegação não é apenas uma questão comercial. É uma questão de poder.
Foi aqui que as leituras começaram a divergir de forma irreconciliável.
O Irão interpretava o memorando como um reconhecimento implícito da sua capacidade de influência regional. Os EUA encaravam-no como uma pausa temporária destinada a reduzir riscos e a ganhar margem de manobra. Ambos assinavam o mesmo documento, mas liam-no de formas completamente diferentes.
O mesmo acontecia com o artigo 11º. A liderança iraniana via o acesso aos ativos congelados e o levantamento das sanções como uma condição essencial para estabilizar a economia e responder a uma população cada vez mais desgastada por décadas de dificuldades económicas. Washington aceitava discutir essa possibilidade, mas apenas dentro de limites muito mais restritivos.
Entre ambas as interpretações existia um fosso demasiado profundo para ser ultrapassado.
A questão central, contudo, não está no texto do memorando. Está naquilo que cada lado acreditava sobre o outro.
Ao longo destes meses, o regime iraniano pareceu partir de uma convicção simples: a sua capacidade de resistência económica seria superior à capacidade de resistência política dos EUA. Em Teerão acreditava-se que Washington acabaria por recuar primeiro. Que a pressão dos mercados, a subida dos preços da energia, a inflação e o desgaste político interno acabariam por limitar a determinação americana.
A lógica não era absurda.
Os EUA carregam ainda as memórias do Iraque e do Afeganistão. Donald Trump regressou à Casa Branca prometendo prosperidade económica, energia acessível e menos conflitos externos. As eleições intercalares aproximam-se. Qualquer choque petrolífero significativo teria inevitavelmente consequências políticas.
Mas foi precisamente aqui que ocorreu o principal erro de cálculo iraniano.
A Administração americana parece ter chegado a uma conclusão diferente. Em vez de considerar que o tempo favorece Teerão, acredita que o tempo favorece Washington. Acredita que a economia iraniana necessita mais do levantamento das sanções do que os EUA necessitam de um acordo rápido. Acredita que as fragilidades económicas do regime são mais profundas do que aparentam. E acredita que a pressão acumulada acabará por produzir efeitos políticos.
A queda do memorando representa, por isso, muito mais do que o fracasso de uma negociação. Representa a passagem para uma nova fase da estratégia americana.
Não estamos perante os preparativos para uma invasão ou para uma guerra convencional de grande escala. Estamos perante algo mais subtil e potencialmente mais eficaz. Uma campanha prolongada de pressão seletiva destinada a limitar progressivamente as capacidades militares iranianas associadas ao golfo Pérsico e ao controlo de Ormuz.
Washington procurará justificar essas ações como necessárias para garantir a segurança marítima internacional, proteger a liberdade de navegação e prevenir futuras ameaças ao comércio global. Independentemente do debate jurídico que inevitavelmente surgirá, a lógica estratégica é evidente: reduzir a capacidade iraniana de transformar Ormuz numa arma económica.
Para Israel, esta evolução é amplamente favorável.
O memorando introduzia ambiguidades e constrangimentos políticos. O seu desaparecimento devolve clareza estratégica. Jerusalém vê reforçada a possibilidade de manter uma política de contenção permanente sobre o regime iraniano e sobre a sua rede de aliados regionais.
Para os Estados árabes do golfo, a situação é mais delicada. Partilham muitas das preocupações de Washington relativamente ao comportamento iraniano, mas conhecem melhor do que ninguém os custos económicos da instabilidade. Beneficiam da proteção americana, mas dependem igualmente da estabilidade dos mercados energéticos.
É por isso que o Médio Oriente entra agora numa fase particularmente perigosa. Não uma fase de guerra aberta. Não uma fase de paz. Mas uma fase intermédia, marcada por operações limitadas, pressão económica, demonstrações de força e confrontação permanente.
O memorando serviu um propósito. Evitou uma escalada imediata e deu aos mercados o tempo de que necessitavam para recuperar confiança. Mas nunca resolveu a questão essencial. A grande disputa deixou de ser apenas nuclear.
Durante anos, acreditámos que o centro da rivalidade estava nas centrifugadoras iranianas. Hoje percebemos que a verdadeira questão é mais ampla. Trata-se de saber quem controla a principal alavanca energética do planeta e quem tem capacidade para transformar essa alavanca numa arma política.
O programa nuclear continua a ser importante. Continua a preocupar Washington, Jerusalém e os seus aliados. Mas a guerra revelou algo que muitos preferiam ignorar.
A bomba mais poderosa do Irão pode não estar escondida num complexo subterrâneo. Pode estar, simplesmente, nas águas de Ormuz.
Se é isso que a direita faz com o Brasil acima de tudo, o Deus acima de todos que se cuide
Toda vez que Flávio Bolsonaro cai nas pesquisas, pede para a Casa Branca punir os brasileiros. Do jeito que a coisa vai, temo que o Brasil seja alvo de um ataque nuclear americano se vazarem vídeos do filho do Jair pelado na festa do Vorcaro.
Os sucessivos tarifaços americanos são a maior agressão à soberania brasileira desde que os nazistas afundaram navios em nossa costa. O bolsonarismo é o único movimento da história brasileira que tentou roubar uma eleição presidencial por intervenção aberta de superpotência estrangeira.
E o máximo que pode acontecer a essa turma é perder dois ou três pontos nas pesquisas presidenciais.
Agora imaginem o seguinte. O que aconteceria se o tarifaço tivesse sido imposto a pedido de um candidato de esquerda?
Se o tarifaço fosse de esquerda, todas as legendas mais ou menos progressistas já teriam perdido seu registro como partido político com base no artigo 28, inciso II, da Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995, que estabelece que partidos não podem ser subordinados a entidades estrangeiras. A regra foi feita para dificultar a vida dos velhos partidos comunistas, que tinham vínculos com Moscou ou Pequim.
Deixo para os historiadores debaterem se os vínculos da direita brasileira contemporânea com Washington são mais fortes ou mais fracos do que os dos velhos comunistas com suas naves-mães. Imagino que a resposta varie conforme o momento da Guerra Fria com que se compare o atual período.
Se o tarifaço fosse de esquerda, o Congresso Nacional, dominado pela direita porque construímos nossa democracia com a classe política da ditadura, já teria instaurado CPI para achar culpados. Toda a bancada mais ou menos progressista perderia o mandato. Novas leis seriam feitas para combater potenciais focos de infiltração estrangeira nos sindicatos, nas ONGs, nas universidades públicas. Qualquer sem-teto com um pedaço de pau na mão seria considerado vanguarda do Exército de Libertação Popular chinês.
Se o tarifaço fosse de esquerda, os formadores de opinião que quisessem manter sua reputação de equilibrados, razoáveis etc. se estapeariam no ar, nas páginas, nas redes, para saber quem desde sempre denunciou a esquerda com mais entusiasmo.
Os que já tivessem, em algum momento, defendido qualquer coisa vagamente iluminista e hoje considerada marxismo (voto feminino, sei lá) fariam um campeonato de autocrítica que faria a revolução cultural chinesa parecer um sóbrio colóquio acadêmico.
Isso tudo aconteceria se o tarifaço fosse de esquerda. Mas o tarifaço é de direita. Por isso, não vai acontecer nada.
Mesmo se Flávio Bolsonaro perder para Lula, a turma do Master e do tarifaço vai eleger a esmagadora maioria dos governadores e a esmagadora maioria dos congressistas. Ser de direita no Brasil é o maior barato.
Se o pessoal conseguiu emplacar o discurso "caso Master afeta igualmente esquerda e direita", vão acabar dando um jeito de dizer que a culpa pelo tarifaço tem que ser dividida entre a família Bolsonaro e algum vizinho esquerdista que os obrigou a se tornarem fascistas porque ficava ouvindo Chico Buarque no último volume até tarde da noite.
Se é isso que a direita faz com o "Brasil acima de tudo", o "Deus acima de todos" que se cuide.
Os sucessivos tarifaços americanos são a maior agressão à soberania brasileira desde que os nazistas afundaram navios em nossa costa. O bolsonarismo é o único movimento da história brasileira que tentou roubar uma eleição presidencial por intervenção aberta de superpotência estrangeira.
E o máximo que pode acontecer a essa turma é perder dois ou três pontos nas pesquisas presidenciais.
Agora imaginem o seguinte. O que aconteceria se o tarifaço tivesse sido imposto a pedido de um candidato de esquerda?
Se o tarifaço fosse de esquerda, todas as legendas mais ou menos progressistas já teriam perdido seu registro como partido político com base no artigo 28, inciso II, da Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995, que estabelece que partidos não podem ser subordinados a entidades estrangeiras. A regra foi feita para dificultar a vida dos velhos partidos comunistas, que tinham vínculos com Moscou ou Pequim.
Deixo para os historiadores debaterem se os vínculos da direita brasileira contemporânea com Washington são mais fortes ou mais fracos do que os dos velhos comunistas com suas naves-mães. Imagino que a resposta varie conforme o momento da Guerra Fria com que se compare o atual período.
Se o tarifaço fosse de esquerda, o Congresso Nacional, dominado pela direita porque construímos nossa democracia com a classe política da ditadura, já teria instaurado CPI para achar culpados. Toda a bancada mais ou menos progressista perderia o mandato. Novas leis seriam feitas para combater potenciais focos de infiltração estrangeira nos sindicatos, nas ONGs, nas universidades públicas. Qualquer sem-teto com um pedaço de pau na mão seria considerado vanguarda do Exército de Libertação Popular chinês.
Se o tarifaço fosse de esquerda, os formadores de opinião que quisessem manter sua reputação de equilibrados, razoáveis etc. se estapeariam no ar, nas páginas, nas redes, para saber quem desde sempre denunciou a esquerda com mais entusiasmo.
Os que já tivessem, em algum momento, defendido qualquer coisa vagamente iluminista e hoje considerada marxismo (voto feminino, sei lá) fariam um campeonato de autocrítica que faria a revolução cultural chinesa parecer um sóbrio colóquio acadêmico.
Isso tudo aconteceria se o tarifaço fosse de esquerda. Mas o tarifaço é de direita. Por isso, não vai acontecer nada.
Mesmo se Flávio Bolsonaro perder para Lula, a turma do Master e do tarifaço vai eleger a esmagadora maioria dos governadores e a esmagadora maioria dos congressistas. Ser de direita no Brasil é o maior barato.
Se o pessoal conseguiu emplacar o discurso "caso Master afeta igualmente esquerda e direita", vão acabar dando um jeito de dizer que a culpa pelo tarifaço tem que ser dividida entre a família Bolsonaro e algum vizinho esquerdista que os obrigou a se tornarem fascistas porque ficava ouvindo Chico Buarque no último volume até tarde da noite.
Se é isso que a direita faz com o "Brasil acima de tudo", o "Deus acima de todos" que se cuide.
A democracia da desconfiança
Há um erro de diagnóstico que se tornou quase consensual no debate público europeu: a convicção de que vivemos uma crise do regime democrático. A expressão repete-se com tanta frequência que raramente é questionada. Mas talvez o problema seja outro.
Portugal não assiste ao colapso das suas instituições democráticas. As eleições realizam-se regularmente, a alternância política permanece assegurada, os tribunais conservam a sua autonomia e as liberdades fundamentais continuam protegidas. O que se deteriora não é a democracia enquanto regime, mas a confiança na sua capacidade para interpretar uma sociedade em rápida transformação.
A distinção é decisiva. Uma democracia pode sobreviver a governos impopulares, parlamentos divididos ou sucessivas crises políticas. O que dificilmente resiste é ao enfraquecimento da convicção de que os representantes compreendem aqueles em nome de quem decidem. A legitimidade democrática nunca dependeu apenas do voto; sempre assentou na perceção de que existe uma relação de reconhecimento entre governantes e governados. É precisamente esse vínculo que hoje se fragiliza.
Durante demasiado tempo, atribuiu-se o crescimento da abstenção, da fragmentação partidária ou do populismo às crises económicas, aos escândalos de corrupção ou ao desgaste natural dos governos. Todos estes fatores contribuíram para o cenário atual, mas nenhum explica um fenómeno que atravessa democracias com desempenhos económicos muito distintos.
Os estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que o apoio à democracia continua elevado, ao mesmo tempo que diminui a confiança na capacidade dos governos para responder de forma eficaz, previsível e transparente. O Eurobarómetro identifica uma tendência semelhante. A crise não é da democracia; é da representação.
Durante grande parte do século XX, os partidos desempenharam uma função que hoje parece distante. Não eram apenas organizações eleitorais. Eram instituições de mediação. Organizavam interesses, agregavam identidades e davam coerência às expectativas da sociedade, convertendo reivindicações dispersas em projetos políticos reconhecíveis. A representação era um vínculo cívico antes de ser um mecanismo institucional.
Esse modelo foi progressivamente desfeito pela globalização, pela integração europeia e pela revolução digital. Os Estados perderam margem para controlar processos económicos decisivos, enquanto a política deixou de deter o monopólio da construção das narrativas públicas. Hoje disputa a atenção dos cidadãos com plataformas digitais, comentadores, influenciadores e algoritmos concebidos para privilegiar a emoção em detrimento da reflexão.
Daí nasce um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca foi tão fácil comunicar com os cidadãos; nunca foi tão difícil representá-los. A proximidade tecnológica criou a ilusão da proximidade política. Os responsáveis políticos tornaram-se mais acessíveis, mas não necessariamente mais credíveis. A exposição permanente não reforçou a confiança; tornou apenas mais evidentes os limites da ação política perante problemas cuja escala ultrapassa largamente as fronteiras nacionais.
O Reuters Institute tem demonstrado que a confiança na informação permanece sob pressão em grande parte da Europa. A dificuldade já não resulta da escassez de notícias, mas da crescente dificuldade em distinguir informação, opinião, propaganda e entretenimento. Quando desaparece um espaço comum de factos, torna-se igualmente mais difícil construir consensos duradouros. A quebra de confiança compromete, assim, não apenas a política, mas o próprio fundamento da democracia.
Seria, contudo, um erro atribuir esta transformação exclusivamente às redes sociais. Elas aceleraram um processo que começou muito antes. A questão decisiva reside no crescente desfasamento entre aquilo que os cidadãos esperam dos governos nacionais e aquilo que estes efetivamente conseguem concretizar.
Nunca se exigiu tanto da política quando ela dispõe de tão poucos instrumentos para moldar a realidade.
Os cidadãos continuam a esperar dos governos respostas para desafios que já não conhecem fronteiras. A habitação, a imigração, a produtividade, a transição energética, a inteligência artificial ou a competitividade económica dependem hoje de mercados globais, decisões europeias, inovação tecnológica e tensões geopolíticas que escapam, em larga medida, ao controlo de qualquer executivo.
Ainda assim, é sobre os governos nacionais que recai a responsabilidade política. É deste desencontro entre expectativas e capacidade de ação que nasce a desconfiança.
Portugal constitui um exemplo particularmente elucidativo. A sucessão de governos minoritários, crises parlamentares e eleições antecipadas costuma ser apresentada como a causa da instabilidade. É, sobretudo, a sua manifestação. A dificuldade está na crescente incapacidade de produzir reformas consistentes num ambiente dominado pela urgência permanente. Governar passou a significar responder ao ciclo noticioso quando os desafios estruturais exigem continuidade, previsibilidade e tempo político.
É neste vazio que prosperam os discursos populistas. A sua vantagem não reside necessariamente na qualidade das soluções, mas na clareza da narrativa. Enquanto a democracia liberal é obrigada a reconhecer limites, negociar compromissos e administrar complexidades, o populismo promete devolver uma soberania plena que nenhum governo contemporâneo possui. Simplifica problemas que não admitem soluções simples e transforma a frustração em mobilização política.
Seria, porém, insuficiente reduzir este fenómeno ao confronto entre democracia liberal e populismo. O desafio é mais profundo. Os eleitores continuam a preferir a democracia, mas começam a duvidar da sua aptidão para produzir mudanças percetíveis. Quando a alternância política deixa de produzir alterações reconhecíveis na vida das pessoas, instala-se uma sensação persistente de impotência que desgasta qualquer governo, independentemente da sua orientação ideológica.
É por isso que a confiança se tornou o ativo mais valioso — e também o mais escasso — das democracias europeias. Não se recupera através de campanhas de comunicação nem de estratégias de marketing político. Reconstrói-se pela coerência entre discurso e ação, pela estabilidade das regras, pela transparência das decisões e pela capacidade de explicar não apenas o que é possível fazer, mas também os limites impostos por um mundo em que o poder deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados.
As investigações do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Fundação Francisco Manuel dos Santos convergem precisamente neste ponto: a legitimidade democrática constrói-se diariamente. Depende da previsibilidade das instituições, da imparcialidade das regras, da igualdade perante a lei e da convicção de que o poder permanece sujeito ao escrutínio público. Quando essa perceção enfraquece, a confiança não desaparece de forma abrupta; dissolve-se lentamente, até que o cinismo substitui a participação e a suspeita ocupa o lugar da esperança.
Talvez seja este o maior desafio das democracias europeias. Não apenas defender as suas instituições, mas recuperar a capacidade de dar expressão a sociedades cada vez mais diversas, exigentes e fragmentadas. A democracia nunca prometeu eliminar o conflito. A sua força sempre residiu na capacidade de transformar divergências em compromissos reconhecidos como legítimos, mesmo por quem deles discorda.
O futuro da democracia dependerá menos da solidez formal das suas instituições do que da confiança que forem capazes de inspirar. As constituições protegem direitos, organizam poderes e estabelecem regras. Mas nenhuma Constituição consegue preservar, por si só, um regime cujos cidadãos deixaram de acreditar que alguém os compreende antes de decidir, lhes dá voz antes de governar e lhes oferece uma razão credível para continuarem a confiar.
Portugal não assiste ao colapso das suas instituições democráticas. As eleições realizam-se regularmente, a alternância política permanece assegurada, os tribunais conservam a sua autonomia e as liberdades fundamentais continuam protegidas. O que se deteriora não é a democracia enquanto regime, mas a confiança na sua capacidade para interpretar uma sociedade em rápida transformação.
A distinção é decisiva. Uma democracia pode sobreviver a governos impopulares, parlamentos divididos ou sucessivas crises políticas. O que dificilmente resiste é ao enfraquecimento da convicção de que os representantes compreendem aqueles em nome de quem decidem. A legitimidade democrática nunca dependeu apenas do voto; sempre assentou na perceção de que existe uma relação de reconhecimento entre governantes e governados. É precisamente esse vínculo que hoje se fragiliza.
Durante demasiado tempo, atribuiu-se o crescimento da abstenção, da fragmentação partidária ou do populismo às crises económicas, aos escândalos de corrupção ou ao desgaste natural dos governos. Todos estes fatores contribuíram para o cenário atual, mas nenhum explica um fenómeno que atravessa democracias com desempenhos económicos muito distintos.
Os estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que o apoio à democracia continua elevado, ao mesmo tempo que diminui a confiança na capacidade dos governos para responder de forma eficaz, previsível e transparente. O Eurobarómetro identifica uma tendência semelhante. A crise não é da democracia; é da representação.
Durante grande parte do século XX, os partidos desempenharam uma função que hoje parece distante. Não eram apenas organizações eleitorais. Eram instituições de mediação. Organizavam interesses, agregavam identidades e davam coerência às expectativas da sociedade, convertendo reivindicações dispersas em projetos políticos reconhecíveis. A representação era um vínculo cívico antes de ser um mecanismo institucional.
Esse modelo foi progressivamente desfeito pela globalização, pela integração europeia e pela revolução digital. Os Estados perderam margem para controlar processos económicos decisivos, enquanto a política deixou de deter o monopólio da construção das narrativas públicas. Hoje disputa a atenção dos cidadãos com plataformas digitais, comentadores, influenciadores e algoritmos concebidos para privilegiar a emoção em detrimento da reflexão.
Daí nasce um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca foi tão fácil comunicar com os cidadãos; nunca foi tão difícil representá-los. A proximidade tecnológica criou a ilusão da proximidade política. Os responsáveis políticos tornaram-se mais acessíveis, mas não necessariamente mais credíveis. A exposição permanente não reforçou a confiança; tornou apenas mais evidentes os limites da ação política perante problemas cuja escala ultrapassa largamente as fronteiras nacionais.
O Reuters Institute tem demonstrado que a confiança na informação permanece sob pressão em grande parte da Europa. A dificuldade já não resulta da escassez de notícias, mas da crescente dificuldade em distinguir informação, opinião, propaganda e entretenimento. Quando desaparece um espaço comum de factos, torna-se igualmente mais difícil construir consensos duradouros. A quebra de confiança compromete, assim, não apenas a política, mas o próprio fundamento da democracia.
Seria, contudo, um erro atribuir esta transformação exclusivamente às redes sociais. Elas aceleraram um processo que começou muito antes. A questão decisiva reside no crescente desfasamento entre aquilo que os cidadãos esperam dos governos nacionais e aquilo que estes efetivamente conseguem concretizar.
Nunca se exigiu tanto da política quando ela dispõe de tão poucos instrumentos para moldar a realidade.
Os cidadãos continuam a esperar dos governos respostas para desafios que já não conhecem fronteiras. A habitação, a imigração, a produtividade, a transição energética, a inteligência artificial ou a competitividade económica dependem hoje de mercados globais, decisões europeias, inovação tecnológica e tensões geopolíticas que escapam, em larga medida, ao controlo de qualquer executivo.
Ainda assim, é sobre os governos nacionais que recai a responsabilidade política. É deste desencontro entre expectativas e capacidade de ação que nasce a desconfiança.
Portugal constitui um exemplo particularmente elucidativo. A sucessão de governos minoritários, crises parlamentares e eleições antecipadas costuma ser apresentada como a causa da instabilidade. É, sobretudo, a sua manifestação. A dificuldade está na crescente incapacidade de produzir reformas consistentes num ambiente dominado pela urgência permanente. Governar passou a significar responder ao ciclo noticioso quando os desafios estruturais exigem continuidade, previsibilidade e tempo político.
É neste vazio que prosperam os discursos populistas. A sua vantagem não reside necessariamente na qualidade das soluções, mas na clareza da narrativa. Enquanto a democracia liberal é obrigada a reconhecer limites, negociar compromissos e administrar complexidades, o populismo promete devolver uma soberania plena que nenhum governo contemporâneo possui. Simplifica problemas que não admitem soluções simples e transforma a frustração em mobilização política.
Seria, porém, insuficiente reduzir este fenómeno ao confronto entre democracia liberal e populismo. O desafio é mais profundo. Os eleitores continuam a preferir a democracia, mas começam a duvidar da sua aptidão para produzir mudanças percetíveis. Quando a alternância política deixa de produzir alterações reconhecíveis na vida das pessoas, instala-se uma sensação persistente de impotência que desgasta qualquer governo, independentemente da sua orientação ideológica.
É por isso que a confiança se tornou o ativo mais valioso — e também o mais escasso — das democracias europeias. Não se recupera através de campanhas de comunicação nem de estratégias de marketing político. Reconstrói-se pela coerência entre discurso e ação, pela estabilidade das regras, pela transparência das decisões e pela capacidade de explicar não apenas o que é possível fazer, mas também os limites impostos por um mundo em que o poder deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados.
As investigações do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Fundação Francisco Manuel dos Santos convergem precisamente neste ponto: a legitimidade democrática constrói-se diariamente. Depende da previsibilidade das instituições, da imparcialidade das regras, da igualdade perante a lei e da convicção de que o poder permanece sujeito ao escrutínio público. Quando essa perceção enfraquece, a confiança não desaparece de forma abrupta; dissolve-se lentamente, até que o cinismo substitui a participação e a suspeita ocupa o lugar da esperança.
Talvez seja este o maior desafio das democracias europeias. Não apenas defender as suas instituições, mas recuperar a capacidade de dar expressão a sociedades cada vez mais diversas, exigentes e fragmentadas. A democracia nunca prometeu eliminar o conflito. A sua força sempre residiu na capacidade de transformar divergências em compromissos reconhecidos como legítimos, mesmo por quem deles discorda.
O futuro da democracia dependerá menos da solidez formal das suas instituições do que da confiança que forem capazes de inspirar. As constituições protegem direitos, organizam poderes e estabelecem regras. Mas nenhuma Constituição consegue preservar, por si só, um regime cujos cidadãos deixaram de acreditar que alguém os compreende antes de decidir, lhes dá voz antes de governar e lhes oferece uma razão credível para continuarem a confiar.
sábado, 18 de julho de 2026
A guerra é um presente, mas não para os EUA
À medida que a tensão com o Irã oscila de uma semana para outra, uma tendência fica clara: a China é a maior beneficiária do conflito. Pequim não precisou disparar um único tiro, gastar quantias vultosas ou consumir capital político. No entanto, obteve mais ganhos com a crise do que com qualquer outro país nas últimas três décadas.
O conflito acelerou três objetivos de longa data da China: um Oriente Médio menos dependente dos EUA; um mundo mais dependente de tecnologias chinesas; e a consolidação da reputação de Pequim como uma potência mundial séria e estável.
Pequim não tentou substituir Washington enquanto fiador militar do Oriente Médio – isso exigiria compromissos dispendiosos. Seu objetivo é mais simples e sutil: afastar o Golfo Pérsico da órbita americana. Donald Trump está realizando grande parte desse trabalho para Xi Jinping.
Aliados dos EUA no Golfo viram Washington conduzir a guerra de maneira caótica e com pouca consideração pelos danos causados às cidades, à infraestrutura e às economias da região. O Golfo Pérsico está agora se dividindo em dois blocos. Os Emirados Árabes estão se aproximando de Israel e EUA. No entanto, um grupo maior liderado pela Arábia Saudita, que inclui Catar, Omã e, talvez, Iraque e Turquia, provavelmente buscará segurança no longo prazo por meio de um equilíbrio: manter laços com os EUA, mas também dialogar com o Irã e melhorar as relações com a China.
Essa é precisamente a ordem regional que Pequim quer. Em 2023, a China mediou a restauração das relações entre Arábia Saudita e Irã. Desde então, Riad resiste a aderir a certos projetos liderados pelos EUA sobre data centers e chips. O país comprou mísseis e drones chineses, realizou exercícios com a marinha chinesa e explorou a produção local de drones de combate Wing Loong.
Os países do Golfo foram destino de mais de 80% das exportações chinesas de defesa para o Oriente Médio entre 2016 e 2025. Ninguém está tentando substituir o guarda-chuva de segurança dos EUA, mas eles querem opções – e opções reduzem a influência americana.
A vitória mais impressionante da China é de natureza geoeconômica. À primeira vista, um país que importa 70% de seu petróleo deveria estar entre os maiores perdedores da guerra. No entanto, Pequim resistiu ao choque melhor do que a maioria, porque passou anos se preparando. Diversificou fornecedores, construiu o que se estima ser a maior reserva estratégica de petróleo do mundo, continuou utilizando carvão, expandiu a energia nuclear e eletrificou sua economia em uma escala que nenhum outro país igualou.
A eletricidade responde por 30% do consumo de energia da China, um índice quase 40% superior ao dos EUA ou da Europa. Em 2024, a China foi responsável pela instalação de mais da metade de toda a nova capacidade global de energia eólica e solar. Por todos esses motivos, o país pôde reduzir suas importações de petróleo em 4 milhões de barris por dia durante o conflito.
A guerra tornou-se uma enorme vitrine para as tecnologias estratégicas chinesas. Governos de todo o mundo buscam expandir suas capacidades em energia solar, baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e redes de energia.
A China detém 91% da capacidade global de fabricação de painéis solares e 89% da capacidade de produção de baterias de íon-lítio. Empresas chinesas fabricam 70% de quase todas as tecnologias de energia limpa monitoradas pela Bloomberg. Quanto mais tempo persistir a insegurança energética, mais o mundo recorrerá às indústrias dominadas pelos chineses.
A guerra também promoveu um objetivo fundamental da China: enfraquecer o domínio do dólar sobre o comércio global. Segundo relatos, o Irã permitiu a passagem de alguns navios-tanque pelo Estreito de Ormuz sob a condição de que as transações fossem feitas em renminbi chinês (ou em criptomoedas).
A China e seus parceiros ampliaram o comércio em renminbi para reduzir a exposição às sanções americanas. Essa mudança será gradual, mas a tendência agora é inconfundível: o afastamento da hegemonia do dólar.
Por fim, há o ganho inesperado em termos de reputação. O governo Trump entrou na guerra com objetivos grandiosos: mudança de regime, destruição do programa nuclear do Irã e eliminação de suas capacidades de mísseis balísticos e de seu apoio a grupos aliados na região. Não alcançou nenhum. Em vez disso, espera apenas abrir o Estreito de Ormuz, que já estava aberto antes da guerra.
Trump escolheu esta guerra e, ao fazê-lo, consumiu dezenas de bilhões de dólares, desperdiçou munições, desviou recursos militares da Ásia, desestabilizou aliados e demonstrou que, mesmo com o enorme poder dos EUA, uma estratégia errada e táticas em constante mudança geram maus resultados.
A China fez pouco. Continuou comprando petróleo iraniano, manteve relações com países do Oriente Médio e evitou os custos de defender o Irã ou de patrulhar o Golfo. Essa é a abordagem preferida de Pequim: nada de confrontos, mas sim o acúmulo constante de influência.
Nos últimos 25 anos, os EUA se exauriram em três grandes aventuras militares no Oriente Médio enquanto a China acumulava poder industrial, capacidade tecnológica e relações diplomáticas. Washington age. Pequim aguarda. A China arcou com custos decorrentes desta guerra – preços de energia mais altos, cadeias de abastecimento interrompidas e uma demanda global mais fraca. Mas o poder é sempre relativo. Em comparação aos danos sofridos pelos objetivos, pelas alianças e pela credibilidade dos EUA, a China saiu em vantagem.
Fareed Zakaria
Racismo. Quem não é contra é a favor
Nunca entendi o absurdo do racismo, por isso sempre o odiei. Tive a sorte de ter como melhor amigo desde a infância e por toda a vida, como um irmão e parceiro em vários empreendimentos vitoriosos, um negro, um dos melhores seres humano que conheci, que a cada dia me mostrava o absurdo do racismo.
Em 25 de março de 2026 a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos africanos e a escravização racializada como “crime mais grave contra a Humanidade”. A resolução foi aprovada por123 votos a favor e 3 contra: Estados Unidos, Israel e Argentina.
Não muda nada, mas diz tudo. Depois de importar e usar milhões de escravos africanos, metade da população, a Argentina libertou-os para deixá-los morrer de fome e de doenças, abrindo caminho para o projeto de branqueamento do país com a importação em massa de italianos e espanhóis. Eliminaram os negros, hoje 1% da população, mas não conseguiram exterminar os índios, que continuam “sujando” a sua branquitude com mestiços como vários craques argentinos.
Nos Estados Unidos, dizimaram os indígenas e escravizaram milhões de negros, 600 mil americanos se mataram na Guerra Civil, com o Sul rural e o Norte industrializado lutando pelo fim da escravidão. Hoje os negros americanos são 12% da população e conquistaram imenso poder político e social numa luta permanente contra a discriminação e o preconceito. E muita gente morreu por isso. Mas a cultura negra americana do século XX, nas artes, no esporte, no comportamento, na moda, tornou-se um fenômeno cultural que mudou o mundo, numa colossal derrota do racismo. Mesmo que os supremacistas brancos de Trump digam que qualquer caipira idiota do Texas pode se achar melhor do que o negro mais brilhante.
Mas o que esperar de assassinos como Trump e Netanyahu e um idiota como Milei? Interessante, porque o povo judeu foi vítima do maior holocausto da História. Racismo no rabo dos outros é refresco.
É irônico, porque a combinação de maior sucesso na indústria musical americana foi de artistas negros com executivos judeus, que se harmonizavam na discriminação para conquistar qualidade, vendas e prêmios.
Sempre amei a América, por sua cultura, seu progresso, sua modernidade e liberdade. No more. Hoje o mundo odeia a América de Trump, e a maior parte dos americanos também. E o seu racismo se manifesta no ódio e na inveja patológica de Obama, mas qualquer comparação entre a educação, cultura e elegância do estadista negro com um “white trash” de reality show grosso, ignorante e autoritário é uma fragorosa derrota do racismo.
E também sempre amei a Argentina, por seus escritores e artistas, por seu cinema, seu rock and roll e seu futebol, por seu humor e sua loucura: Buenos Aires é a cidade com mais psicanalistas per capita do mundo. A Argentina não é um bando de racistas ignorantes numa arquibancada de futebol, mas a omissão de suas vozes mais fortes, como o gênio Messi, na luta contra o racismo, diz tanto sobre preconceito como covardia.
Em 25 de março de 2026 a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos africanos e a escravização racializada como “crime mais grave contra a Humanidade”. A resolução foi aprovada por123 votos a favor e 3 contra: Estados Unidos, Israel e Argentina.
Não muda nada, mas diz tudo. Depois de importar e usar milhões de escravos africanos, metade da população, a Argentina libertou-os para deixá-los morrer de fome e de doenças, abrindo caminho para o projeto de branqueamento do país com a importação em massa de italianos e espanhóis. Eliminaram os negros, hoje 1% da população, mas não conseguiram exterminar os índios, que continuam “sujando” a sua branquitude com mestiços como vários craques argentinos.
Nos Estados Unidos, dizimaram os indígenas e escravizaram milhões de negros, 600 mil americanos se mataram na Guerra Civil, com o Sul rural e o Norte industrializado lutando pelo fim da escravidão. Hoje os negros americanos são 12% da população e conquistaram imenso poder político e social numa luta permanente contra a discriminação e o preconceito. E muita gente morreu por isso. Mas a cultura negra americana do século XX, nas artes, no esporte, no comportamento, na moda, tornou-se um fenômeno cultural que mudou o mundo, numa colossal derrota do racismo. Mesmo que os supremacistas brancos de Trump digam que qualquer caipira idiota do Texas pode se achar melhor do que o negro mais brilhante.
Mas o que esperar de assassinos como Trump e Netanyahu e um idiota como Milei? Interessante, porque o povo judeu foi vítima do maior holocausto da História. Racismo no rabo dos outros é refresco.
É irônico, porque a combinação de maior sucesso na indústria musical americana foi de artistas negros com executivos judeus, que se harmonizavam na discriminação para conquistar qualidade, vendas e prêmios.
Sempre amei a América, por sua cultura, seu progresso, sua modernidade e liberdade. No more. Hoje o mundo odeia a América de Trump, e a maior parte dos americanos também. E o seu racismo se manifesta no ódio e na inveja patológica de Obama, mas qualquer comparação entre a educação, cultura e elegância do estadista negro com um “white trash” de reality show grosso, ignorante e autoritário é uma fragorosa derrota do racismo.
E também sempre amei a Argentina, por seus escritores e artistas, por seu cinema, seu rock and roll e seu futebol, por seu humor e sua loucura: Buenos Aires é a cidade com mais psicanalistas per capita do mundo. A Argentina não é um bando de racistas ignorantes numa arquibancada de futebol, mas a omissão de suas vozes mais fortes, como o gênio Messi, na luta contra o racismo, diz tanto sobre preconceito como covardia.
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