Que tal começarmos a exercer
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?
No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.
Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.
Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.
A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.
A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.
A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.
E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.
Há uma cena em Lawrence da Arábia em que T. E. Lawrence percebe que a promessa de libertação feita às populações árabes não passava de um instrumento tático, uma ficção conveniente num jogo maior. A ilusão desfaz-se não com um estrondo, mas com um silêncio. Não há revolução, não há redenção, apenas a consciência tardia de que alguém falou em nome deles sem nunca ter querido ouvi-los. O Irão de hoje vive nesse mesmo espaço, entre a promessa e o abandono, entre a expectativa criada e a realidade que nunca chegou a cumprir-se.
Nas primeiras horas do conflito, Donald Trump e Benjamin Netanyahu desenharam uma narrativa tão simples quanto eficaz. Bastaria resistir. Bastaria aguentar mais um pouco. A cavalaria estaria a caminho e, com ela, a possibilidade de o povo iraniano tomar o poder pelas suas próprias mãos. Não se tratava de um compromisso com a democracia, mas de uma promessa de rutura, de substituição de um regime que há décadas se sustenta na repressão, na teocracia e na violência institucionalizada.
Mais de 40 mil mortos depois, e perante uma guerra que rapidamente escapou ao guião de Washington, essa promessa evaporou-se. Não houve correção de discurso, nem revisão estratégica, nem sequer um esforço para explicar o desfasamento entre o que foi dito e o que aconteceu. A mudança de regime, que durante dias foi apresentada como horizonte plausível, deixou simplesmente de existir como tema. O conflito deslocou-se para outros eixos, e o povo iraniano voltou a ocupar o lugar habitual na geopolítica contemporânea, o de elemento secundário numa equação definida por outros, sacrificável na narrativa e descartável na estratégia.
Durante um breve momento, tentou-se dar forma a essa promessa através de um rosto. Reza Pahlavi surgiu como símbolo de uma alternativa possível, uma figura capaz de corporizar uma transição que nunca chegou a materializar-se. A sua projeção mediática foi rápida, quase artificial, sustentada mais por necessidade externa do que por capacidade interna. Tal como aconteceu noutros contextos, a tentativa de fabricar uma liderança a partir do exterior revelou-se estruturalmente frágil. O Irão não oferece o terreno político nem social para soluções importadas, e a figura que durante dias concentrou expectativas acabou por ser descartada sem sequer ter tido a oportunidade de se confrontar com a realidade interna do país.
O problema nunca foi a ausência total de oposição, mas a sua fragmentação, a sua distância do território e a incapacidade de se transformar numa força politicamente operativa. Ao contrário do que muitos quiseram acreditar, o colapso de um regime não se produz por vontade externa nem por desejo mediático. Exige uma erosão interna sustentada, fissuras institucionais profundas e, sobretudo, a existência de uma alternativa credível capaz de ocupar o vazio. Nada disso, até ao momento, se consolidou no Irão.
O que começa verdadeiramente a ganhar relevância não é a queda do regime, mas as tensões dentro dele. Seyed Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros e figura central nas recentes conversações em Islamabad, representa uma linha que, ainda que distante de qualquer noção de moderação no sentido ocidental, revela uma consciência estratégica dos limites do confronto direto com os EUA e os seus aliados. Do outro lado, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e antigo comandante da Guarda Revolucionária, encarna uma visão mais ideológica, mais securitária e menos disponível para qualquer forma de compromisso que não passe pela demonstração de força.
Esta clivagem não é apenas retórica. Traduz uma disputa sobre a própria natureza da sobrevivência do regime. Para a ala mais pragmática, a prioridade é evitar um confronto que possa comprometer a estabilidade interna e expor fragilidades estruturais. Para a linha dura, pelo contrário, a sobrevivência passa pela escalada controlada, pela capacidade de impor custos ao adversário e pela demonstração de que o Irão continua a ser um ator capaz de moldar o sistema internacional, mesmo sem superioridade militar convencional.
É neste enquadramento que o estreito de Ormuz assume uma centralidade absoluta. A guerra deixou de ser definida pela questão nuclear, pelos mísseis balísticos ou pela ativação dos tradicionais proxies regionais. A verdadeira capacidade de projeção estratégica do Irão reside hoje na possibilidade de perturbar, condicionar ou, no limite, bloquear um dos principais corredores energéticos do mundo, por onde passa uma parte significativa do abastecimento global de petróleo e gás.
Ao deslocar o conflito para Ormuz, Teerão altera a natureza da guerra. Deixa de procurar uma vitória militar clássica e passa a operar numa lógica de disrupção sistémica. O objetivo não é derrotar diretamente os EUA ou Israel, mas tornar o custo da estabilidade global suficientemente elevado para forçar uma reconfiguração das prioridades internacionais. Ao ameaçar o fluxo energético, o Irão transforma um conflito regional num problema global, envolvendo economias, mercados e governos que, de outra forma, poderiam manter-se à margem.
Esta estratégia, muitas vezes descrita como assimétrica, é, na realidade, profundamente racional. Para um regime que conhece os limites da sua capacidade militar convencional, a utilização de um ponto de estrangulamento económico como Ormuz representa uma forma eficaz de compensar essa desvantagem. É a transformação da geografia em poder, do território em instrumento político.
No meio desta reconfiguração, o povo iraniano volta a desaparecer do centro da narrativa. Não porque não exista contestação, mas porque essa contestação permanece incapaz de se traduzir em poder político efetivo. As promessas externas falharam, as alternativas internas não se consolidaram e o regime, apesar das suas tensões e divergências, mantém-se funcional, adaptando-se mais uma vez à pressão sem ceder na sua essência.
Talvez seja essa a dimensão mais incómoda desta crise. A política internacional continua a produzir expectativas que não pretende cumprir. Fala-se de libertação como se fosse uma variável estratégica, promete-se mudança como se fosse um instrumento operacional. Mas a realidade é mais crua. Os povos raramente são libertados por quem projeta poder sobre eles, e as promessas feitas em tempo de guerra raramente sobrevivem à lógica fria dos interesses.
No fim, o que fica não é apenas a destruição ou o cálculo geopolítico. Fica a memória de uma promessa. E a consciência, cada vez mais clara, de que, mais uma vez, alguém acreditou que a cavalaria viria. E, mais uma vez, ela nunca chegou.
Na Poética, de Aristóteles, somos ensinados que quanto mais intensos são os sentimentos inspirados por uma tragédia – medo, horror, revolta, compaixão –, maior é a catarse do público. Uma história bem contada, em que as tensões presentes na peça permitem à audiência identificar-se com as emoções das personagens, conduz à resolução do conflito e ao desfazer de tensões, atingindo-se então a catarse.
Se para Aristóteles a catarse era sobretudo experienciada pela audiência, hoje em dia é comum referirmo-nos à escrita como processo terapêutico – catártico – do próprio autor ou da autora. Afinal, é preciso um especial tipo de coragem para decidir enfrentar o abismo que devolve a nossa reflexão ao espelho. Sem coragem, como seríamos capazes de pôr fim às trevas e preenchê-las de luz?
Vem isto a propósito de uma conversa em que participei, a convite do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e do coletivo feminista Insurgentes, com a participação de várias autoras com obras sobre migração, cultura e desenraizamento, e que me fez regressar a esta ideia aristotélica de catarse.
Fiquei a conhecer a história de Margarita Sharapova que vivera toda a vida na Rússia e, durante o regime de Putin, começou a ser perseguida por ser uma autora lésbica e que escrevera sobre temáticas LGBT. No livro Três Histórias de Mulheres Refugiadas, partilha a sua história e revela como foi constantemente perseguida em Moscovo devido à sua escrita, insultada e espancada pela polícia e por neonazis russos. Não adiantava recorrer às autoridades porque estavam em conluio com o regime. Sharapova não queria abandonar a sua terra natal, mas após a morte trágica da sua companheira, vítima de violência policial, a vida tornou-se impossível na Rússia. Fugiu para Portugal sem conhecer a língua nem o país, e pediu asilo político.
Quando falamos de violência e perseguição política, de refugiados e guerras, quando falamos de descolonização, deslocamento forçado e outros processos de enorme violência, esquecemo-nos com frequência de que cada história tem um rosto e um nome. Há todo um passado que fica para trás, e a pessoa que éramos ontem já não é a pessoa que somos hoje. O que seria dos escritores se não fosse a força de vontade para detalhar em papel essas vivências, numa tentativa de sensibilizar os leitores para a indignidade e a crueldade crescente dos nossos tempos?
Recordo-me de ter ficado profundamente impressionada com O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch, permitindo-me uma compreensão das circunstâncias históricas esmagadoras, antes e depois do regime soviético, e as promessas que foram feitas e a seguir estilhaçadas.
Recordo-me do álbum autobiográfico de banda desenhada Assombrada, da iraniana Shaghayegh Moazzami. Imigrou para o Canadá, numa tentativa de fugir à vida opressiva sob o regime iraniano, mas não consegue desligar-se do seu país de origem. Essa ligação transforma-se na figura de uma mulher iraniana conservadora, vestida com um chador preto, que a assombra e a acusa de ter abandonado os costumes e a religião. Moazzami está de tal forma atormentada pela culpa que só através do processo catártico da sua arte consegue finalmente deixar para trás os seus fantasmas.
Recordo-me também da banda desenhada autobiográfica da libanesa Zeina Abirached, que conta em A Dança das Andorinhas a história da sua infância durante a guerra civil libanesa, e de como os vizinhos formaram uma comunidade que lhes permitiu ultrapassar a vida absurda numa cidade dividida por campos de batalha e sob a constante ameaça dos mísseis. No meio da devastação em redor, os vizinhos procuram manter a normalidade, e enquanto uns ponderam o exílio, outros sabem que jamais irão partir.
Tantas histórias de violência que foram transformadas em literatura em vez de ficarem guardadas numa gaveta profunda de memória. Tantas autoras a passarem pelos seus processos de catarse. Talvez seja nesse gesto de escrita que reside não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a de partilha. E talvez seja aí, nesse encontro entre quem escreve e quem lê, que começamos a compreender melhor aquilo que, de outra forma, permaneceria distante.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, descreveu o confronto com o Irã como uma ampla luta ideológica, afirmando que Israel e os Estados Unidos estão envolvidos em uma “batalha da civilização contra a barbárie”.
Suas declarações coincidiram com um relatório da ONU Mulheres que estimava que, até dezembro de 2025, mais de 38.000 mulheres e meninas haviam sido mortas em Gaza, sendo mais de 22.000 mulheres e 16.000 meninas. Esses números representam uma mudança drástica em relação às ofensivas anteriores em Gaza, onde mulheres e meninas representavam 15% das mortes em 2008-2009 e 22% em 2014.
Um ex-soldado israelense, entrevistado pelo Haaretz, descreveu seu retorno de Gaza sob aclamação pública como um "herói", mesmo enquanto lutava contra um profundo trauma moral. Seu depoimento relata o assassinato de palestinos desarmados, os maus-tratos a detidos e uma cultura generalizada de impunidade que normalizava o uso excessivo da força e a humilhação. O abismo entre a celebração pública e a violência que testemunhou o fez sentir-se monstruoso em vez de heróico, revelando as fraturas psicológicas e éticas produzidas pela conduta militar de Israel.
Ao mesmo tempo, as autoridades militares israelenses intensificaram a destruição de terras agrícolas em toda a Cisjordânia. Uma ordem emitida para Kufr Malik, a leste de Ramallah, autorizou o exército a arrancar vegetação, incluindo oliveiras centenárias, sob o pretexto de “segurança e visibilidade”. A ordem entrou em vigor imediatamente, dando aos proprietários de terras apenas 24 horas para apresentar objeções por meio da Diretoria de Ligação e Coordenação. Ao sul de Nablus, sua implementação resultou no arrancamento de mais de 150 oliveiras.
Em alguns casos, os proprietários de terras palestinos chegaram a pedir para arrancar as árvores eles mesmos, numa tentativa de minimizar os danos. O exército rejeita rotineiramente esses pedidos. Os palestinos suspeitam que as árvores arrancadas acabam sendo transferidas para assentamentos israelenses.
Em 21 de abril, colonos israelenses invadiram a vila de Al-Mughayyir durante as provas escolares, atirando em direção às salas de aula e matando Aws Hamdi al-Naasan, de 14 anos, e Jihad Marzouq Abu Naim, de 32 anos. Testemunhas descreveram estudantes caindo no chão quando as balas atingiram o prédio. Moradores disseram que soldados acompanharam os colonos, contradizendo a alegação do exército israelense de que as tropas chegaram somente depois que civis abriram fogo após um suposto incidente com pedras.
Naquele mesmo dia, Mohammad Ali al-Jabari, de dezesseis anos, foi morto perto de Hebron quando um veículo da escolta de segurança da ministra israelense dos Assentamentos, Orit Strook, o atropelou enquanto ele atravessava a Rodovia 60 de bicicleta, a caminho da escola. A estrada, fechada para palestinos desde a guerra em Gaza, obriga os estudantes a enfrentar um tráfego rápido e imprevisível.
Também em 21 de abril, Ouda Atef Ouda Awawda, de 29 anos, pai de gêmeas recém-nascidas, morreu após ser baleado pelas costas durante um ataque de colonos a Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Colonos armados, acompanhados por forças israelenses, abriram fogo contra moradores e casas nos arredores da cidade. As forças israelenses então bloquearam a entrada principal e realizaram prisões em massa, detendo cerca de 30 pessoas.
Em 22 de abril, um ataque aéreo israelense no norte da Faixa de Gaza matou cinco palestinos, incluindo três crianças. Outro ataque aéreo no mesmo dia matou a jornalista libanesa Amal Khalil e feriu um colega enquanto trabalhavam perto da fronteira com Israel, em um ataque que atingiu uma casa na cidade de al-Tiri.
A violência dos colonos na Área C tem assumido formas cada vez mais sexualizadas e direcionadas a questões de gênero , criando condições coercitivas que levam as comunidades palestinas ao deslocamento. Entrevistas e monitoramento de campo documentam assédio, ameaças de estupro, nudez forçada, humilhação sexual e invasões domiciliares.
Mulheres e meninas enfrentam perigos ainda maiores, enquanto homens e meninos também são submetidos a abusos sexuais e tratamentos degradantes, muitas vezes na presença de forças israelenses que não intervêm. Isso se soma às restrições de movimento, ao declínio econômico, às demolições de casas e à expansão dos assentamentos. Mais de 70% das famílias deslocadas citaram as ameaças a mulheres e crianças como o fator decisivo para o abandono do assentamento, evidenciando como a violência de gênero influencia as decisões sobre a permanência das famílias em suas terras.
O deslocamento transforma a vida cotidiana e o bem-estar da comunidade. As famílias restringem a liberdade de movimento das mulheres, enviam mulheres e crianças para longe em realocações parciais, dependem das crianças para tarefas arriscadas e, às vezes, arranjam casamentos precoces para afastar as meninas do perigo. Após a partida, as famílias frequentemente vivem em locais superlotados e inseguros, com serviços limitados. As mulheres perdem a renda ligada à terra e à criação de animais, enquanto as crianças sofrem traumas, têm sua educação interrompida e perdem espaços seguros. Os homens enfrentam riscos maiores de prisão, detenção e violência letal, agravando a tensão familiar. Essas pressões, em conjunto, contribuem para condições que configuram transferência forçada.
Embora as autoridades israelenses insistam em retratar o exército como "o exército mais moral do mundo", investigações e depoimentos também destacam saques generalizados cometidos por soldados israelenses. Relatos da Síria, Líbano, Gaza e Cisjordânia descrevem roubos de dinheiro, joias e dispositivos eletrônicos, com os itens roubados sendo posteriormente vendidos no Telegram, Facebook ou em mercados públicos. Amigos e parentes relatam que soldados levaram dinheiro durante invasões domiciliares ou em postos de controle; em um caso, uma família relatou o desaparecimento de dinheiro após uma busca, mas sua queixa foi ignorada.
Os colonos também estão envolvidos no saque de propriedades para construir colônias agrícolas em terras roubadas. Em 12 de fevereiro de 2025, colonos, protegidos pelo exército israelense, roubaram gado palestino na Cisjordânia, incluindo 800 ovelhas na vila de Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Em Al Mughayyir, roubaram 170 ovelhas, assim como em outras vilas de Yabrud e Jifna, uma prática generalizada e rotineira.
Essas práticas remetem à Nakba, quando a Haganá e outras milícias sionistas destruíram, confiscaram e saquearam sistematicamente propriedades palestinas, incluindo casas, bibliotecas, arquivos e coleções pessoais. Unidades armadas também saquearam residências particulares, levando joias, móveis, roupas e outros pertences, enquanto ocupavam, expropriavam ou destruíam bens imóveis.
Soldados israelenses que serviram no Líbano disseram ao Haaretz que saques se tornaram rotina durante as operações na região, descrevendo unidades invadindo casas, roubando objetos de valor e vandalizando propriedades com o pleno conhecimento de seus comandantes. Os oficiais frequentemente ignoravam ou toleravam implicitamente os roubos, criando uma atmosfera na qual os soldados se sentiam à vontade para levar dinheiro, eletrônicos e pertences pessoais das casas dos expulsos. Alguns soldados disseram estar perturbados com a escala da má conduta e a indiferença dos altos escalões, observando que as queixas eram ignoradas ou recebidas com silêncio e impunidade.
Desde 2 de março, as operações militares israelenses no Líbano mataram mais de 2 mil pessoas, incluindo profissionais de saúde e jornalistas, e feriram outras 6.588. A escalada do conflito deslocou mais de um milhão de pessoas, aproximadamente um quinto da população do Líbano, com cerca de 140.682 abrigadas em instalações superlotadas.
O relatório do Yesh Din, Roubo Uniformizado (agosto de 2025), documenta o saque generalizado e sistemático de dinheiro e propriedades de palestinos por soldados e forças de segurança israelenses na Cisjordânia, uma prática definida como crime de guerra pelo direito internacional. Com base em mais de duas décadas de monitoramento e depoimentos de 2022 a 2024, o relatório mostra como o roubo se intensificou desde 7 de outubro, tornando-se algo comum durante invasões domiciliares e buscas em postos de controle, facilitadas pela lei militar que concede amplos poderes e impunidade às forças de segurança. Essas ações de roubo se inserem em um sistema mais amplo de desapropriação e expropriação de terras.
As declarações de autoridades israelenses também refletem ambições territoriais expansivas. Em entrevista à i24 em 12 de agosto de 2025, Netanyahu descreveu-se como estando em uma “missão histórica e espiritual”, expressando apego à visão de um Grande Israel que se estenda além das fronteiras atuais. Outras autoridades, incluindo o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, fizeram coro com aspirações semelhantes.
Essas ambições também são visíveis na Palestina histórica. Em 7 de novembro de 2025, Ben Gvir supervisionou pessoalmente a demolição de casas palestinas no Naqab (Negev), alegando que haviam sido construídas sem licença. Ao ser confrontado por um morador, declarou : “Lentamente, mas com certeza, estamos retomando as terras do Negev”. A Autoridade Fundiária de Israel tem utilizado cada vez mais inteligência artificial e vigilância aérea para identificar o que considera “estruturas não autorizadas”, possibilitando ordens de demolição rápidas.
Em toda a região, Israel impôs novos regimes territoriais. No sul do Líbano, as forças israelenses estabeleceram uma "Linha Amarela" de 10 km de profundidade, apresentada como uma medida de segurança, mas acompanhada de demolições, bombardeios e ataques aéreos que, segundo críticos, consolidam o controle a longo prazo.
Em Gaza, uma “linha amarela” indefinida, imposta após o cessar-fogo de outubro de 2025, tornou-se um mecanismo para o deslocamento contínuo de pessoas. O chefe do Estado-Maior de Israel a descreveu como “uma nova linha de fronteira”, apesar de sua invisibilidade e da falta de demarcação clara. Israel permanece estacionado em mais de 58% da Faixa de Gaza, continuando os ataques ao longo dessa linha e impedindo que os palestinos deslocados retornem para suas casas.
Os saques, roubos, destruição e deslocamentos documentados devem ser compreendidos dentro da trajetória mais longa do projeto sionista, que estabeleceu um Estado em terras roubadas e propriedades apropriadas.
À medida que Israel expande seu alcance territorial por meio da expropriação de terras no Líbano, na Síria e em toda a Palestina histórica, o saque de casas e pertences torna-se não incidental, mas instrumental, mobiliando espaços recém-conquistados e reforçando um sistema construído sobre a desapropriação. Crimes de guerra não reconhecidos. Como em outros contextos de colonialismo de povoamento, a chamada missão civilizadora opera como um projeto de desapropriação e destruição da população indígena.
Há datas que não se limitam à celebração, mas exigem elaboração. O 1º de maio, Dia do Trabalhador, é uma delas. Mais do que rememorar conquistas históricas dos trabalhadores, essa data nos provoca a interrogar as condições concretas em que as atividades profissionais se realizam hoje e, sobretudo, o quanto a perda de vidas ainda faz parte do funcionamento do nosso sistema produtivo e de consumo.
Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale S.A., na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, interrompeu 272 vidas. Destas, 250 estavam trabalhando na hora da tragédia. Esse dado desloca a compreensão do ocorrido: não se trata apenas de um dos maiores desastres humanitários e ambientais do Brasil, mas, também, da maior tragédia laboral da história do país.
Nos anos seguintes ao rompimento, foi erguido, em frente ao local da barragem e da mancha da lama de rejeito, o Memorial Brumadinho. Mais do que um espaço de homenagem às Joias, como são chamadas as vítimas fatais da tragédia, o local, gerido pela Fundação Memorial de Brumadinho, constitui-se como território de memória viva, onde o luto se articula à exigência de justiça e à construção de consciência pública.
A existência desse espaço tem como origem a atuação da AVABRUM, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão. Desde os dias seguintes à tragédia, a associação se tornou protagonista na luta coletiva por direitos, reunindo uma maioria feminina de mães, viúvas, filhas e irmãs enlutadas, que se mobilizaram em busca de respostas. Ao reivindicarem não apenas compromissos institucionais, mas a memória como um direito coletivo, a AVABRUM transformou a dor e o luto em ação – e tornou possível a existência do Memorial.
Os dados contemporâneos sobre acidentes de trabalho no Brasil tornam essa memória ainda mais urgente. Em 2025, o país registrou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes – o maior número da série histórica recente. Trata-se de uma média superior a 2 mil acidentes por dia e de dezenas de mortes por semana. Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2012 e 2024, foram registrados mais de 8,8 milhões de acidentes e notificadas 32 mil mortes em decorrência do trabalho no Brasil.
Esses números, já alarmantes, ainda são subestimados. A subnotificação, especialmente no trabalho informal, oculta uma parcela significativa dessa realidade. No plano mundial, a dimensão é ainda mais contundente. A Organização Internacional do Trabalho estima que quase 3 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Trata-se de uma crise contínua, que atravessa fronteiras e modelos econômicos.
Diante desse cenário, o Memorial Brumadinho não se limita a narrar o passado. Ele tensiona o presente. Ao articular cultura, arquitetura e meio ambiente, o Memorial constrói uma experiência que convida à reflexão e à ação. Os nomes das vítimas fatais, inscritos na Fenda, que atravessa o terreno do museu-memorial, restituem a dimensão humana do que frequentemente se dilui em estatísticas. Somados às fotos e aos objetos pessoais reunidos na sala Memória, cada nome e rosto ali presentes afirmam que não houve fatalidade, mas escolhas, negligência e estruturas que permitiram que essas mortes acontecessem.
Memoriais são, essencialmente, espaços erguidos contra o esquecimento, mas também contra a naturalização da barbárie. No 1º de maio, essa dimensão se torna incontornável. Celebrar o trabalho sem enfrentar suas condições reais é perpetuar uma contradição histórica. Em um país onde os acidentes crescem de forma consistente e atingem níveis recordes, é necessário deslocar o debate: não se trata apenas de garantir acesso ao trabalho, mas de assegurar que ele não seja um vetor de morte.
O Memorial Brumadinho nasce, precisamente, para interromper essa naturalização. Ele se recusa a tratar o desastre como episódio, como acidente ou como passado. Sua função, além de recordar, é denunciar o que se estende no presente. Ele expõe o óbvio que tantas vezes se tenta encobrir: a lama não inaugurou nada; ela apenas revelou um processo histórico de negligência, ganância e descaso com a vida.
Nos marcos dessa leitura, a memória deixa de ser homenagem e se torna resistência geontológica – um gesto ético contra a lógica que coloca a terra, a água e certos corpos no lado dos “não viventes”, como escreve Elizabeth Povinelli, disponíveis à exploração total. Portanto, lembrar é, em Brumadinho, reordenar o mundo; é devolver às vidas perdidas o estatuto que lhes foi negado antes mesmo do rompimento.
Povinelli nos lembra que algumas catástrofes não começam no dia em que rompem. Elas são ancestrais: longas, subterrâneas, feitas de séculos de decisões e classificações que decretam quem pode viver, quem pode morrer, o que pode ser explorado e o que pode ser descartado. São desastres que não têm data exata – têm regimes. E Brumadinho, antes da lama, já era sintoma.
O Memorial se insere, assim, em uma tradição de espaços que transformam o luto, a dor e a exploração em ação pública. Ele não oferece respostas fáceis. Sustenta a complexidade da dor e a converte em pergunta: que modelo de desenvolvimento estamos dispostos a aceitar? Um questionamento que não diz respeito apenas a Brumadinho, mas atravessa o Brasil e o mundo.
Ao longo da história, o 1º de maio foi marcado por lutas que ampliaram direitos e redefiniram limites para a exploração do trabalho. Hoje, talvez seja necessário recolocar no centro dessa agenda uma questão elementar: o direito à vida; o direito de não morrer no trabalho.
Nesse sentido, o Memorial não é apenas um lugar de memória. É um marco ético. Ele afirma que nenhum projeto de desenvolvimento pode se sustentar sobre a perda de vidas. E que a memória, quando compartilhada, tem a potência de transformar não apenas a forma como lembramos o passado, mas a maneira como decidimos o futuro.
Em 27 de fevereiro do ano passado, funcionários da Usaid, a agência internacional de cooperação dos Estados Unidos, tiveram 15 minutos para recolher os pertences pessoais dos escritórios onde alguns haviam trabalhado por décadas. Cada um teria de levar as próprias caixas de papelão. A agência não as forneceria. Foram escoltados, como criminosos. Aos prantos, os funcionários esvaziaram as mesas e o prédio. No fundo, sem saber, apagavam as luzes de um mundo que se desfazia.
Apesar dos problemas e das suspeitas de encobrir operações de espionagem da CIA, a Usaid, por meio de seus programas, evitou mais de 90 milhões de mortes nos últimos 20 anos ao combater doenças graves. O fechamento da agência interrompeu os programas globais de saúde e a assistência humanitária financiados pelos EUA em todo o mundo.
Não se tratou apenas de mais um gesto irresponsável de Donald Trump. Depois de implementar de forma inédita uma agenda ultraconservadora nos EUA, o governo do republicano ampliava a ofensiva para exportar pelo planeta a ideologia de extrema-direita, com o apoio de grupos políticos em diversas partes do globo. Desmontar a forma pela qual os norte-americanos interagiam com governos estrangeiros foi o primeiro passo. A etapa seguinte visava substituir esse modelo por uma operação de imposição de uma nova agenda.
Um estudo do Global Project Against Hate and Extremism (Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo) rede de pesquisadores sediada nos Estados Unidos, desvela um plano meticuloso, bilionário e ambicioso para alterar a ordem mundial e transformar o movimento de extrema-direita no novo status quo. “As instituições criadas para promover a democracia, os direitos humanos e a cooperação internacional estão sendo desafiadas por uma rede emergente construída em torno do nacionalismo religioso, da retórica supremacista branca e de alianças ideológicas”, descrevem os pesquisadores.
A ofensiva é construída por meio de iniciativas diplomáticas, redes transnacionais de ONGs e apoio financeiro condicionado a governos aliados. A “Internacional Reacionária” usa como base o Projeto 2025, agenda que pauta o segundo governo Trump e está enraizada no nacionalismo cristão. Para os ideólogos do projeto, os Estados Unidos devem ser governados de acordo com uma interpretação ultraconservadora da doutrina cristã. “Estamos no processo da segunda Revolução Americana, que permanecerá sem derramamento de sangue se a esquerda permitir”, afirmou Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation e mentor da iniciativa.
A teologia do 2025 baseia-se no Gênesis 1:28: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a”, incluídos todos os seres vivos. Os nacionalistas cristãos entendem esse “domínio” como um mandato divino para o controle das instituições sociais – governo, educação, mídia, família, religião, artes e negócios. “Sob essa visão de mundo, a igualdade de gênero é uma rebelião contra a ordem divina. Leis que protegem minorias são perseguição aos fiéis. O pluralismo atrapalha a obra de Deus. E qualquer um que discorde não está apenas errado, está fazendo o trabalho de Satanás”, diz o estudo.
Ao assumir o poder, portanto, a extrema-direita iniciou um desmonte das estruturas de soft power dos EUA. A prática da democracia, o apoio aos direitos humanos e o financiamento da assistência humanitária foram substituídos por iniciativas destinadas a promover uma coalizão global centrada na oposição ao direito ao aborto, à igualdade LGBTQ+, a programas de igualdade para mulheres e meninas e na definição de família segundo uma interpretação nacionalista cristã. Para permitir a exportação da ideologia, as reformas foram profundas. No mesmo dia de sua posse, Trump reclassificou milhares de servidores de carreira como ocupantes de cargos políticos que podem ser demitidos sem justa causa. Russell Vought, autor de um dos capítulos do Projeto 2025, foi nomeado como chefe do Escritório de Administração e Orçamento e passou a implementar seu próprio plano. “Essa purga de pessoal viabiliza diretamente a agenda nacionalista cristã global”, disse Vought. “Diplomatas de carreira que negociaram acordos internacionais de direitos humanos por décadas estão sendo substituídos por indicados políticos. Sua principal qualificação? Lealdade à ideologia nacionalista cristã e à cruel agenda do Projeto 2025.”
Segundo o estudo da rede de pesquisadores, um instrumento central para implementar a agenda global é a Declaração de Consenso de Genebra, iniciativa promovida ainda durante o primeiro mandato de Trump e que afirma não existir um direito internacional ao aborto e promove uma definição de família limitada ao casamento heterossexual. Sob Jair Bolsonaro, o Brasil foi um dos principais laboratórios dessa iniciativa, interrompida no terceiro mandato do presidente Lula. Com a volta de Trump ao poder, a coalizão foi expandida e reúne atualmente 40 países, muitos governados por lideranças autocráticas e cujas violações de direitos humanos estão amplamente documentadas. Por meio dessa ideia, os EUA ditam uma espécie de cartilha a ser seguida para garantir o retrocesso nos direitos das mulheres e nas proteções LGBTQ+, ao mesmo tempo que desafiam as normas internacionais de direitos humanos criadas nos últimos 30 anos.
Em entidades como a ONU, o Unicef, braço das Nações Unidas dedicado à infância, e a Organização Mundial da Saúde, a coalizão tenta bloquear as diretrizes que tratam da expansão de direitos ou fazem pressão contra qualquer financiamento destinado a atender uma agenda progressista. O governo Trump ainda abandonou 66 entidades internacionais e cortou 380 milhões de dólares em contribuições.
Um dos focos da exportação da ideologia reacionária é a América Latina. Segundo o levantamento, de acordos de deportação a ataques à igualdade de gênero e aos direitos reprodutivos “a região tornou-se um laboratório para uma poderosa agenda internacional que prioriza o fortalecimento de alianças com atores autoritários dispostos a marginalizar a proteção internacional dos direitos humanos”. O estudo acrescenta: “As vitórias eleitorais de José Antonio Kast no Chile, Nasry Asfura em Honduras e Rodrigo Paz na Bolívia em 2025 reforçaram a capacidade de Trump de expandir sua agenda política na região. Eles se juntaram a um grupo de líderes já alinhados com o movimento MAGA, incluindo Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador, Daniel Noboa no Equador e Santiago Peña no Paraguai”.
A linguagem do Projeto 2025 apontava nessa direção. A estratégia introduziu o termo “re-hemisferização”, que envolve a transferência da produção industrial para mais perto dos Estados Unidos, em países da América Central e do Sul. Ao assumir o segundo mandato, Trump de fato reforçou a perspectiva do “Hemisfério Ocidental” e, pela região, líderes alinhados com o republicano começaram a adotar políticas ultraconservadoras. “A Argentina ilustra como essa transição do plano para a política se desenrolou. O presidente Javier Milei anunciou a retirada do país da Organização Mundial da Saúde, ecoando propostas apresentadas pelo Projeto 2025”, disse o levantamento. “Sob a liderança de Milei, a Argentina passou a retroceder nos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQ+. O governo restringiu o acesso à terapia hormonal para menores transgêneros e anunciou planos para remover o feminicídio do Código Penal, apesar do alarmante aumento de casos documentado por observatórios feministas. Essa agenda restritiva ganhou força em 2025, ao mesmo tempo que a dependência econômica da Argentina em relação ao governo Trump se aprofundou.”
O caso de El Salvador é emblemático. O presidente Nayib Bukele alinhou-se às prioridades políticas do Projeto 2025 e tornou-se um modelo para candidatos extremistas da América Latina, seduzidos por uma política de combate à criminalidade que atropela os mais básicos direitos humanos e pelo maior presídio do mundo, no qual cabem 40 mil detentos. “Essas prioridades incluem a oposição aos direitos LGBTQ+ e das mulheres, bem como o apoio à proibição total do aborto”, observam os pesquisadores. Organizações nos EUA defenderam o arcabouço legal salvadorenho em tribunais internacionais e grupos norte-americanos, entre eles o Moms for Liberty, integrantes do Conselho Consultivo do Projeto 2025, influenciaram as políticas educacionais de Bukele. O país centro-americano tornou-se ainda um campo de testes para as políticas repressivas de deportação do governo Trump.
Outro destaque é o papel desempenhado pelo Paraguai, apontado como um “laboratório para políticas contrárias aos direitos das mulheres”. Antes mesmo de Trump voltar ao poder, Assunção vinha adotando políticas destinadas a desacelerar o progresso das mulheres e da comunidade LGBTQ+. As iniciativas incluem a proibição de termos como “igualdade de gênero” em instituições educacionais, a oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a representação pública do país como uma “ilha de conservadorismo”. O aborto não é permitido nem mesmo nos casos de estupro. A única exceção legal é quando a vida da gestante está em risco.
Com essas credenciais, o Paraguai tem buscado cada vez mais relevância internacional nas redes alinhadas a Trump. “Ao sediar eventos de grande repercussão, como a CPAC e o Foro Madrid, o país tornou-se um ponto de encontro para líderes da extrema-direita da América Latina, Europa e Estados Unidos”, descreve o estudo. O presidente Santiago Peña também tenta impressionar a base mais radical de Trump. “Enquanto o Paraguai existir, haverá pessoas que dirão, em alto e bom som, ao mundo: não ao aborto livre, não a ideias alternativas de família e não a experimentos sociais radicais”, afirmou em uma das reuniões.
A unidade da UE é posta em xeque por legendas como o Vox, na Espanha, e a AfD, na Alemanha. Com Kast , o pinochetismo renasce no Chile.
A influência de lideranças norte-americanas contrárias aos direitos humanos sobre as políticas paraguaias tem se tornado cada vez mais evidente. O Institute for Women’s Health (IWH), comandado por Valerie Huber, anunciou que a entidade e o governo Peña iriam implementar projetos conjuntos. Huber foi a arquiteta do Consenso de Genebra e secretária de Família de Trump no primeiro mandato.
Na Guatemala, a parceria entre a mesma IWH e o governo local envolveu o desenvolvimento de cartilhas para pais e professores. “O casamento”, define o material, “é um compromisso para toda a vida entre um homem e uma mulher” e que “a única maneira 100% eficaz de evitar a gravidez na adolescência é esperar até o casamento para ter relações sexuais.”
A extrema-direita norte-americana igualmente avança no continente africano. O Burundi tem se associado a organizações ligadas ao Projeto 2025 para promover políticas que enfatizam a abstinência. Em Uganda, a aproximação com os EUA coincide com a aprovação de uma das leis anti-LGBTQ+ mais agressivas do mundo, que inclui a imposição da pena de morte em certas situações. A estratégia envolve, porém, muito mais que um convencimento acerca de certas posições que os reacionários gostam de chamar de “valores”. Em dezembro último, o presidente do Quênia, William Ruto, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, assinaram um acordo de 2,5 bilhões de dólares para o país africano se tornar um modelo para a Estratégia Global de Saúde “América Primeiro”. Trata-se de uma aliança que tem se espalhado por todo o continente e envolve pactos bilaterais projetados para substituir instituições multilaterais como a OMS. Se, pelo acordo, o país africano é obrigado a adotar os princípios ultraconservadores dos EUA, o pacto também foi visto como uma oportunidade para o governo local garantir que não houvesse qualquer compromisso de promoção da democracia ou de direitos humanos.
O governo Trump ofereceu a continuação dos tratados tarifários com os africanos, na condição de que eles adotassem suas políticas sociais antidireitos. “Em dezembro, o Quênia reafirmou rapidamente seu alinhamento e sua retórica de ‘família natural’ e conquistou o direito de ter suas tarifas de 42% reembolsadas retroativamente”, aponta o documento. “Os EUA não subsidiarão mais a indústria manufatureira africana, a menos que essa produção seja acompanhada de total fidelidade ideológica.”
De acordo com o estudo, a agenda antimulher e anti-LGBTQ+ dos Estados Unidos espalhou-se pela África – cerca de 20 países passaram a subscrever a Declaração de Genebra. A investigação descobriu que o auxílio externo e a diplomacia dos EUA foram usados para “pressionar os países a assinar” os tratados. Em alguns casos, como o do Sudão, a assinatura da declaração “coincidiu com a remoção da lista de países terroristas dos EUA e com o aumento da ajuda ou do comércio”.
Os planos da Casa Branca incluem moldar a Europa à sua imagem e, por extensão, erradicar políticas progressistas. Por anos, a extrema-direita norte-americana olhou para a Hungria de Viktor Orbán como referência. Mas, com a derrota nas recentes eleições parlamentares, o foco do movimento é o de dar apoio a forças políticas de oposição. Vista como bastião de posições liberais, a Europa precisa ser “contida” por meio de uma guerra cultural. “Isso protegerá a extrema-direita americana, enfraquecerá o liberalismo na Europa e nos Estados Unidos e prejudicará o projeto europeu como um todo”, avalia o estudo. A nova Estratégia de Segurança Nacional de Washington planeja “restaurar a identidade ocidental da Europa” e salvá-la do “apagamento civilizacional”.
Segundo os pesquisadores, o Projeto 2025 defende a interferência na política interna europeia por meio do apoio a “partidos patrióticos” de extrema-direita, uma intervenção antes impensável nos assuntos internos de um aliado. Desde que voltou ao poder, Trump e aliados têm feito exatamente isso. A ordem é apoiar, de todas as maneiras possíveis, grupos como o Vox, da Espanha, Chega, de Portugal, e a AfD, da Alemanha, entre outras facções extremistas, fascistas e neonazistas do continente. Parte da estratégia centra-se na exigência de que empresas europeias e prefeituras abandonem iniciativas de diversidade, caso queiram manter alguma relação com os EUA.
A constatação dos pesquisadores é de que, para além das fronteiras dos Estados Unidos, a base mais radical do trumpismo tem construído uma infraestrutura global para a expansão de sua ideologia. Isso implica adoção de leis, redes de financiamento e pressão política. “Onde, antes, as instituições governamentais dos EUA promoviam os direitos humanos, agora organizações privadas promovem o nacionalismo cristão”. Conclusão: o projeto é global. “Todo o sistema pós-Segunda Guerra Mundial está sendo desmantelado. As proteções aos direitos humanos, definidas por consenso internacional, estão sendo substituídas por ‘direitos naturais’ definidos por doutrinas religiosas. A promoção da democracia é substituída pela defesa da ‘família natural’. A assistência humanitária está sendo substituída pela conformidade ideológica”.
As mesmas redes que remodelam as instituições norte-americanas constroem, de forma ativa, alianças internacionais, estratégias jurídicas e estruturas políticas destinadas a consolidar essa agenda em todo o mundo. “A criminalização de pessoas LGBTQ+, os papéis de gênero obrigatórios, o controle reprodutivo, a fusão entre Igreja e Estado – tudo isso está retornando e conta com os recursos do governo mais poderoso do mundo”, conclui o estudo.
O mal e o remédio estão em nós. A própria espécie humana, que agora nos indigna, se indignou antes e se indignará amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o senso da solidariedade, o senso cívico, que não deve ser confundido com a caridade. É um tempo obscuro, mas chegará, com certeza, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não progredimos muito em bondade em milhares de anos na Terra. Talvez estejamos percorrendo um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, chegaremos a ser aquilo que temos de ser. Quando a metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada… algo não funciona. Quem sabe um dia!José Saramago, "As palavras de Saramago"
A ânsia de patologizar Donald Trump não toma ninguém de surpresa. Vladimir Putin é lunático, Kim Jong-Un é um egomaníaco com delírio de grandeza, Nicolás Maduro é paranóico e, claro, não falta o clássico “psicopata” para descrever gente como Benjamin Netanyahu.
Recorremos a esta linguagem para descrever comportamentos bizarros que não encaixam nas nossas categorias habituais. Não é fácil usar a nossa linguagem quotidiana para descrever massacres como o de Gaza, invasões como a da Ucrânia ou a ininterrupta torrente de declarações absolutamente delirantes com que Trump aborda crises que podem mergulhar o mundo no caos.
Estes homens são normalmente retratados como casos atípicos, bizarrias num mundo maioritariamente avesso a este tipo de comportamentos. A minha tese é que entre Trump e o tipo que hoje de manhã passou à sua frente numa manobra perigosa, pondo toda a gente em perigo, ou o último tipo que entrou armado numa escola e desatou a atirar não há diferenças substantivas no que diz respeito aos processos mentais.
Atrás do volante, no controlo de uma tonelada e meia, as pessoas — os homens — sentem o poder que lhes escapa noutras circunstâncias. É aquela arma em forma de automóvel que lhe confere a possibilidade de circular pelo mundo como se fosse a personagem principal de um filme em que todos os outros são figurantes.
Tirando aquele condutor daquele contexto, essa fonte de poder desvanece. Ele torna-se mais um, sem nada que lhe confira particular autoridade. Numa resposta reacionária ao processo de nivelamento de oportunidades e direitos entre homens e mulheres, homens que mediam o seu valor pela autoridade que exerciam sobre mulheres não conseguem perceber que essa autoridade não emanava diretamente deles, mas de um contexto social caracterizado por desnivelar o campo de jogo.
As relações de poder nunca são unidirecionais, dependem necessariamente de uma parte o exercer e de outra parte o acatar. Isso quer dizer que a mesma pessoa se vê, em contexto diferentes, ora numa situação em que detém poder, ora na situação em que tem de se submeter.
No entanto, para o exercer, é necessário, repito, que alguém o acate, que alguém reconheça a sua legitimidade ou, pelo menos, tenha medo das consequências da insolência. Em sociedades tradicionais, os mais velhos exercem poder sobre os mais novos porque os mais novos aceitam a idade como fonte de poder. Mas, nos tempos que correm, de deslaçamento social, de erosão de referências e de perda generalizada de controlo sobre as nossas próprias vidas, tudo é potencialmente entendido como um sinal de fragilidade.
É entre os homens que este fenómeno é mais visível. Ansiosos por uma posição de dominação, recorrem ao que tiverem à mão para a exercer: não porque os outros aceitam a legitimidade do seu poder, mas porque o temem.
O homem que conduz agressivamente reclama para ele a autoridade que advém do medo que as pessoas têm do carro que conduz, o jovem que entra armado numa escola e dispara reclama para si a autoridade que advém do medo que as pessoas têm das balas e o líder político que semeia o caos pelo mundo reclama para si a autoridade que advém do medo que as pessoas têm do aparelho militar que ele controla.
Da estrada à geopolítica, vivemos sob ameaça de homens com egos frágeis. O tipo de raciocínio que leva um homem a desrespeitar a fila porque pode meter-se mais à frente e ainda vociferar se não o deixarem é o mesmo que leva um homem a pensar que pode ameaçar líderes mundiais e promover a chacina de milhares para enriquecer e sentir o gosto do poder. Enfim, salvas as devidas distâncias.
Não ignoro que, ao nível dos impactos, a diferença não poderia ser maior, mas perdoe-se-me a provocação que serve para chamar a atenção para um fio condutor que percorre a nossa vida. É verdade que o século XX se caracterizou por um movimento de libertação de velhas amarras que subjugavam as pessoas em sistemas de dominação injustos. Mas esses sistemas foram substituídos por uma ideologia individualista do salve-se quem puder, uma lei da selva promovida, por exemplo, pela manosfera.
Quando mandámos abaixo as velhas relações de poder, esquecemo-nos de construir um novo modelo assente na igualdade, na dignidade e na bondade. Pelo contrário, deixámos um vazio que está a ser ocupado por rapazes que, à falta de outro caminho, se agarram à sua capacidade de provocar medo nos outros para viverem a sua vida.
A ânsia pela ordem que serve de pulsão ao avanço neo-fascista é também uma ânsia pelo regresso do medo. Cá estaremos para resistir, com medo e com coragem.
O DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano) ficou para a história como o pesticida, que, de droga milagrosa capaz de evitar epidemias de malária e febre tifoide e exponenciar a produção agrícola ao eliminar pragas, se tornou símbolo dos efeitos letais da química moderna.
Até ser banido em 1972, mais de 660 milhões de toneladas de DTT (mais de três quilos por habitante) foram aplicados em campos, relvados e florestas só nos Estados Unidos da América. Dada a sua estabilidade química (o DDT e congéneres não se decompõem com facilidade em compostos não letais), persiste no meio ambiente, e estudos científicos demonstram que a exposição a este químico continua a provocar cancro e doenças do sistema nervoso e reprodutivo.
O DDT presta-se a múltiplas comparações com o fenómeno das redes sociais.
Também as redes sociais nasceram com uma aura de promessa de um futuro melhor. A democratização da informação e do saber. A conexão planetária.
Tal como no DDT, as preocupações com os efeitos nocivos foram abafadas por uma indústria que gerava milhões, com o mantra de que os dados científicos eram insuficientes para se chegar a uma conclusão. Só perante efeitos nefastos e uma população crescentemente consciente das consequências, o legislador agiu e proibiu a comercialização.
Mas ao contrário dos insetos, que em virtude de ciclos de vida muito curtos, em algumas décadas conseguiram tornar-se resistentes ao DDT, nós, dada a nossa biologia, continuamos extremamente vulneráveis às redes sociais.
No seu muito recente e pertinente livro Des Regulados, Beatriz Subtil (doutorada em Ciências Biomédicas) explica como a nossa biologia não se alterou desde o período paleolítico, em que os humanos eram caçadores-coletores. O nosso sucesso como espécie resulta da nossa adaptabilidade ao meio ambiente, e somos os descendentes dos indivíduos mais bem adaptados. Tal significa que somos muito atentos aos sinais de alarme e que o nosso organismo reage em bloco perante um perigo. Igualmente, procuramos o prazer (que então era raro) e facilmente ganhamos tolerância.
Como ficou demonstrado em dois processos judiciais recentes nos Estados Unidos, um contra a Meta (na Califórnia) e outro contra a Google (no Novo México), estas empresas contrataram cientistas e psicólogos para compreenderem a nossa biologia, e em especial o nosso sistema nervoso, e usaram deliberadamente esse conhecimento para criar funcionalidades que nos tornassem presas fáceis. O scrolling personalizado e infinito das redes sociais alimenta a nossa busca de prazer, provocando a libertação de dopamina sempre que vemos um vídeo ou uma imagem que nos surpreende e agrada. E a disponibilização de conteúdos que nos atormentam serve a nossa ânsia de garantir que conhecemos os perigos que nos rodeiam e nos preparamos para reagir.
Mas como Beatriz Subtil nos explica, no passado, o perigo era momentâneo, permitindo (se sobrevivêssemos) voltar a um estado de repouso. O prazer era também escasso, pelo que dificilmente a nossa tolerância ao prazer comprometia o nosso bem-estar. Hoje, o perigo e o prazer estão no nosso bolso, permanentemente à nossa disposição. Não somos moscas da fruta e não vamos adaptar-nos rapidamente.
A condenação da Meta e da Google por design aditivo é um primeiro sinal de que estamos dispostos a reagir e a exigir uma ação coletiva que coloque no centro da regulação o bem-estar do indivíduo (a cotação das ações da Meta caiu 7%, revelando que o mercado antecipa futuras condenações nos vários processos judiciais em curso).
A ciência já demonstrou como são danosas as redes sociais, como as big tech agiram deliberadamente em prol do lucro fácil, com desprezo pelo bem comum. Devemos assumir, que não se trata de uma franja de pessoas frágeis, facilmente manipuláveis, que se deixam dominar pelas redes sociais. Se reconhecermos, como a ciência o impõe, que individualmente, dada a nossa biologia, somos alvos fáceis do design aditivo das redes sociais, então, legislar para proibir tais funcionalidades deveria ser simples e consensual.
Ao pensar na relação entre educação e futuro me deparo com uma ambiguidade. Tenho percebido em conversas com educadores de diferentes culturas — não só dos povos originários, mas que trabalham com outras abordagens da infância — que, já no primeiro período da vida, todo um aparato de recursos pedagógicos é acionado para moldar a gente. Isso me faz pensar em antigas práticas usadas por diferentes povos deste continente americano para constituir seus coletivos. São práticas ligadas à produção da pessoa — o que é muito diferente de moldar alguém —, que entendem que todos nós temos uma transcendência e, ao chegarmos ao mundo, já somos — e o ser é a essência de tudo. As outras habilidades que podemos adquirir, como possuir coisas, seguir uma profissão, governar o mundo, são camadas que você acrescenta à perspectiva de um ser que já existe. Esse antigo conceito é muito confortável, pois não entra em choque com a experiência de existir.
Os Guarani fazem um batismo, o nhemongaraí, que ocorre no Ano Novo deles, por volta do dia 25 de janeiro. Nesse ritual, o pajé, dentro da opy, a casa cerimonial, canta e defuma as crianças novas que estão no colo de suas mães. Fica assoprando e olhando para elas, para ver quem são os seres que chegaram ali. Depois de realizados os cantos, o pajé se aproxima dos parentes e pergunta o nome das crianças. A partir de então elas passam a ser nomeadas. Esse lindo ritual carrega a mensagem de que nós já chegamos aqui como seres prontos. É de grande respeito dizer: esse ser já existe, não precisa de uma fôrma, ele quem nos informa quem é que chegou ao mundo.
Quando atuamos no sentido de incidir sobre o design original de um ser, seja ele humano ou não, e formatá-lo para que tenha alguma utilidade, estamos incorrendo em uma violência sobre o percurso que ele já está habilitado a percorrer aqui na Terra. Tem uma cantiga que eu gosto muito de repetir, que diz assim:
Cantando, dançando
Passando em cima do fogo,
Seguimos num contínuo,
No rastro dos nossos ancestrais.
Essa invocação de ancestralidade é educativa. Traz uma imagem poética apoiada num rito muito antigo de consagração do fogo, em que as pessoas, depois de a lenha ter sido consumida, eram capazes de passar descalças sobre as brasas sem queimar os pés. Parecia uma mágica, um efeito de ilusão, mas não era. Jovens, anciões, mulheres e homens eram capazes de sair do outro lado sem se queimar. No percurso, se a pessoa iniciada nesse rito tivesse medo, sem dúvida machucaria os pés e sairia correndo dali. Vamos imaginar essa parábola como algo que você herdou e que, portanto, não te dá medo, ao contrário, é reconfortante. Esta é uma imagem bem instrutiva para a gente começar a pensar educação e futuro.
Para começar, o futuro não existe — nós apenas o imaginamos. Dizer que alguma coisa vai acontecer no futuro não exige nada de nós, pois ele é uma ilusão. Então, pode-se depositar tudo ali, como em um jogo de dados. Infelizmente, desde a modernidade, fomos provocados a nos inserir no mundo de maneira competitiva. E essa competitividade, estimulada durante séculos, acabou formando um mundo de jogadores. Se o futuro der certo: “Bingo!”. Mas a verdade é que estamos vivendo cada vez mais a projeção de futuros muito improváveis, embora continuemos preferindo essa mentira ao presente.
Ao focarmos nesse futuro prospectivo acabamos construindo justamente aquilo que Chimamanda Ngozi nos recomenda evitar: um mundo com uma única narrativa. O risco de projetar um futuro assim é muito grande, pois vem embalado em ansiedade, fúria e uma tremenda aceleração do tempo. Olhar sempre para o futuro, e não para o que está ao nosso redor, está diretamente associado ao sofrimento mental que tem assolado tanta gente, inclusive os jovens. É uma experiência que penetra por todos os poros e reflete em nosso estado emocional. O vasto ecossistema do planeta Terra também está sofrendo o estresse dessa aceleração.
Ainda assim, ela é real. Muitos cientistas estão observando a maneira como as crianças experimentam a infância. Alguns estudos mostram que, nos últimos trinta, quarenta anos, esse período passou a ser encurtado. Em vez de as crianças o viverem como um lugar folgado, já estão caindo nele como em uma chapa quente, em que se veem obrigadas a responder às perguntas de um mundo em erosão. Quando a gente ouve um adulto que viveu a infância na década de 1990, ele frequentemente fala dela como um período extremamente apertado, um corredor. E se isso está sendo dito agora por uma pessoa que tem trinta anos, se não tomarmos cuidado, a próxima geração vai ter suprimida de vez a experiência da infância como esse lugar fantástico — de seres ainda pousando na Terra — e será introduzida de cara em um mundo em disputa.
Na antroposofia, o primeiro septênio de vida é considerado o período em que a gente ainda está meio anjo, meio humano, não de todo firme na Terra. Antigamente, os povos mais tradicionais diziam que a criança de zero a sete anos estava mais suscetível a morrer porque sua alma ainda não estava bem fixada e podia decolar daqui feito um passarinho. Segundo essas culturas, nesse período não deveríamos sofrer moldagem alguma. Penso nas palavras “molde”, “forma”, “formar”, “formatar” etc., e que aplicar esses conceitos a pessoas no primeiro momento da vida, quando são seres inventivos e cheios de subjetividade, é uma violência muito grande. Já vão podando espíritos que poderiam trazer muita novidade para a Terra. No lugar de produzir um futuro, a gente deveria recepcionar essa inventividade que chega através das novas pessoas. As crianças, em qualquer cultura, são portadoras de boas novas. Em vez de serem pensadas como embalagens vazias que precisam ser preenchidas, entupidas de informação, deveríamos considerar que dali emerge uma criatividade e uma subjetividade capazes de inventar outros mundos — o que é muito mais interessante do que inventar futuros.
Esses primeiros anos de existência fazem uma cartografia do mundo e fornecem uma espécie de mapa para a experiência adulta. Então, se nesse período a gente não reconhece os caminhos, depois vamos andar pelo mundo como se ele fosse um lugar estranho — não só do ponto de vista geográfico e climático, mas também de um lugar a ser compartilhado com outros seres. Nossa sociabilidade tem que ser repensada para além dos seres humanos, tem que incluir abelhas, tatus, baleias, golfinhos. Meus grandes mestres da vida são uma constelação de seres — humanos e não humanos.
Quando eu tinha oito ou nove anos de idade, estava no quintal, lugar de que gosto muito, e lá estava uma linda égua selvagem que meu irmão tinha ganhado. Ela comia milho enquanto eu limpava o quintal com um rastelo. Enquanto a égua roía os sabugos, passei o rastelo perto dela e, sem querer, a assustei. Ela me deu um coice bem dado, que acertou meu estômago e me fez voar uns três metros. Perdi o fôlego, mas logo me recuperei. E ali, de uma maneira totalmente atemporal, como se fosse um raio, tive uma aula sobre limite e, ao mesmo tempo, compreendi que podemos agir no mundo. Foi uma revelação que me veio como um mantra: “sim, nós podemos muito, mas nem tudo”. Um aprendizado que recebi em fricção com a natureza.
Essa liberdade que tive na infância de viver uma conexão com tudo aquilo que percebemos como natureza me deu o entendimento de que eu também sou parte dela. Então, o primeiro presente que ganhei com essa liberdade foi o de me confundir com a natureza num sentido amplo, de me entender como uma extensão de tudo, e ter essa experiência do sujeito coletivo. Trata-se de sentir a vida nos outros seres, numa árvore, numa montanha, num peixe, num pássaro, e se implicar. A presença dos outros seres não apenas se soma à paisagem do lugar que habito, como modifica o mundo. Essa potência de se perceber pertencendo a um todo e podendo modificar o mundo poderia ser uma boa ideia de educação. Não para um tempo e um lugar imaginários, mas para o ponto em que estamos agora.
Para além de onde cada um de nós nasce — um sítio, uma aldeia, uma comunidade, uma cidade —, estamos todos instalados num organismo maior que é a Terra. Por isso dizemos que somos filhos da terra. Essa Mãe constitui a primeira camada, o útero da experiência da consciência, que não é aplicada nem utilitária. Não se trata de um manual de vida, mas de uma relação indissociável com a origem, com a memória da criação do mundo e com as histórias mais reconfortantes que cada cultura é capaz de produzir — que são chamadas, em certa literatura, de mitos. As mitologias estão vivas. Seguem existindo sempre que uma comunidade insiste em habitar esse lugar poético de viver uma experiência de afetação da vida, a despeito das outras narrativas duras do mundo. Isso pode não ter um significado muito prático para concorrer com os outros em um mundo em disputa, mas faz todo sentido na valorização da vida como um dom.
Não há nada mais importante do que a vida. Estamos passando por uma experiência coletiva de apreensão diante de crises e pandemias, mas a constituição de mentalidades sensíveis significa também resiliência, capacidade de esses seres continuarem criando um mundo menos suscetível ao terrorismo psicológico que tem atingido a vida contemporânea. As famílias ocidentais em contexto urbano supervalorizam o sistema de educação. São adultos que aderem a esse formato no qual as pessoas que chegam vão sendo inseridas no mundo. Antes de elas poderem escolher a experiência de se implicar no mundo num sentido coletivo, já são abordadas pela visão que os adultos têm dele. Um jovem de vinte anos já tem um mundo formatado dentro de si e, quando coloca uma criança nele, passa a agir a partir de sua aspiração de perfeição, daquela ideia de formar um sujeito campeão. Dessa forma, nós começamos, desde cedo, a sugerir para as crianças que elas precisam alcançar um patamar de excelência e ocupar lugares de destaque, pois no topo do pódio só cabe um. No entanto, esse pódio é uma mentira, porque não tem nenhum lugar no mundo onde só cabe um, sempre cabem todos.
Em conflito com essa mentalidade, por todos os lugares a gente vê jovens se sentindo expulsos do mundo. Deveríamos prestar mais atenção à campanha da Greta Thunberg na Europa, que instiga os jovens contra o mundo adulto, dizendo que eles não vão às aulas naquela semana, pois, afinal, a escola não tem tanta importância assim. A gente devia olhar bem para esse gesto, ouvir a voz dessa criança que ainda não desistiu do mundo e que é capaz de propor outra narrativa para ele, pois a que a gente teve até agora precisa ser questionada. A escolha de um outro mundo pode ser feita aqui e agora e será feita pelas crianças, não pelos adultos. A geração da Greta literalmente acusa os adultos de serem ladrões de futuro. Tem acusação mais terrível do que essa? Educação não tem nada a ver com futuro, afinal ele é imaginário, e a educação é uma experiência que tem que ser real.
Vamos considerar a partir daqui que, quando falamos de educação, já não a associamos ao futuro, mas ao aqui e agora. No Tibet e entre outros povos do Oriente, a meditação e a observação da mente são recursos educacionais. Ao Dalai Lama, quando criança, foi assegurada uma vasta liberdade de experiências para que ele se constituísse em um ser pleno. Depois, ele precisou fugir de seu país, as coisas mudaram, mas a infância dele formou seu ser. Estou dando um exemplo bem conhecido do mundo inteiro, mas milhares de outros meninos da geração dele e das anteriores eram estimulados e protegidos dessa maneira para que vivessem a experiência da infância como o fundamento da vida. E tinham a felicidade de estar inseridos em culturas em que isso é uma prática coletiva.
No Ocidente, essa não é a prática vigente, muito pelo contrário. A educação que conhecemos sempre teve o ímpeto de formatar as pessoas. A sala de aula já sugere isso ao incluir um grupo de crianças de mesma faixa etária sendo abordadas por um adulto, que é o professor. Isso ilustra de maneira muito clara a intervenção externa sobre cada um ali. Perdem sua autonomia e começam a se sentir compelidos a se alinhar com um propósito formatador do pensamento. E se nós sugerirmos que as crianças passem a ter tempo para si mesmas, que a experiência educativa seja convertida em uma proteção desse período para que a pessoa se autoforme, ao invés de ser formatada?
Para que a gente possa promover e facilitar uma experiência que inclui menos moldes e mais invenção, precisamos fazer uma revolução do ponto de vista da educação formal nas práticas estabelecidas, e nas escolhas que as famílias fazem. Se a gente pegar uma amostra de duzentas famílias e disser a elas: “Vocês topariam liberar a sua criança nos próximos cinco, seis anos de qualquer formatação e apoiar uma experiência lúdica com a água, com o rio, com a terra, com o fogo, com tudo, para ela ser um elemento de transição global, de mudança de mentalidade no mundo?”, é capaz que umas vinte topem.
A verdade é que uma criança com sete, oito anos de idade já começa a ser treinada para ignorar o meio ambiente. É isolada em uma sala de aula para ser alfabetizada e vai sendo incutida nela, desde cedo, a ideia de uma vida sanitária. (O que é muito contraditório, porque muitas crianças de comunidades urbanas não têm sequer acesso a saneamento básico, mas vão logo sendo ensinadas a ter nojo da terra.) O que eu chamo de educação sanitária é muito anterior às normas impostas pela pandemia de covid-19. É a formação, ao longo de décadas, de uma mentalidade em que uma criança não deve mexer na terra para não sujar as mãos. Que se você arranca uma batata do chão, não deve levar para dentro de casa, pois está suja. (O ideal é pegar uma batata lavada e empacotada no supermercado.) Quando foi que terra virou sujeira? Faz tempo que eu assisto a esse bombardeio sanitário na cabeça das crianças e não vejo nenhum educador questionar isso. Pois para mim isso está diretamente ligado com essa forma de ver o mundo como um almoxarifado e está no cerne da crise ambiental que estamos enfrentando hoje.
Me referi à meditação porque ela permite à pessoa se colocar no presente. Quem sabe essa prática deveria ser experimentada em todas as escolas? Como não será fácil tirar as crianças de dentro do ambiente escolar e enviá-las para a natureza a fim de que vivam uma experiência de fricção com a terra, que a gente possa pelo menos deixá-las em segurança contemplando os próprios pensamentos — que, com certeza, são luminosos e chegaram ao mundo trazendo maravilhas —, sem bombardeá-las com argumentos. As crianças irão se associar então a esses belos pensamentos de maneira criativa e positiva e serão as portadoras, aqui na Terra, da ancestralidade, um presente que os recém-chegados trazem para nós.
Fiquei feliz de saber que o papa Francisco incluiu, em suas recomendações para a educação, a invocação dos ancestrais. Disse, para a imensa juventude que o ouve, que é preciso resgatar os vínculos com a ancestralidade. Achei isso, que não é muito típico de um discurso de papa, maravilhoso, uma vez que a ideia foi abandonada no século xx como se fosse um atributo de culturas antigas e “primitivas”. O papa dizer que esse é um valor essencial para enfrentar as crises que estamos vivendo hoje me deu uma grande alegria, pois contribui para dissolver fronteiras culturais e raciais, e para que a gente possa falar de uma maneira mais respeitosa da diversidade cultural e da pluralidade da vida. Essas ideias deveriam orientar todo o repertório de quem trabalha com educação.
Infelizmente, a política educacional no Brasil pensa que a escola é um prédio, e por isso desvaloriza tanto o trabalho dos educadores. Enchem a sala de meninos e trancam a porta: pronto, estão na escola. Esse lugar pode ser, inclusive, de renúncia da família à educação de suas crianças. Muitas estão a tal ponto privadas de serem orientadas em seu núcleo coletivo familiar, que, em dado momento, não conseguem mais conversar com seus pais. São sequestradas pelo sistema educacional e não há mais linguagem comum entre eles.
Tem um programa instituído no Brasil desde o final da década de 1990, mas que se consolidou principalmente nos últimos vinte anos, que é o Plano Nacional de Educação Escolar Indígena. Trata-se de uma educação diferenciada, aplicada nos territórios indígenas pelo Brasil inteiro, onde cada comunidade tem a possibilidade de moldar o equipamento escolar da forma que decidir. Eu já frequentei escola em aldeia embaixo de uma árvore e achei muito bom. As pessoas estavam à vontade naquela experiência e não queriam prédio nenhum. Muito tempo depois, aqueles meninos decidiram que seria bom ter uma sala de aula, mas sabem que a experiência pedagógica pode ser realizada na beira do córrego, numa laje de pedra, em qualquer lugar. Trata-se de um grupo de pessoas com o propósito de fazer uma investigação coletiva. Inclusive o próprio letramento pode muito bem prescindir de uma sala de aula. Escola não é prédio, mas uma experiência geracional de troca que deveria ser enriquecida e valorizada, na qual as pessoas que passaram por coisas distintas podem compartilhar conteúdos que ajudem as crianças a se prepararem para a vida adulta.
Algumas escolas indígenas, com muitas dificuldades na tentativa de reconfigurar o aparelho escolar, tentam ficar o mais próximo possível disso que estou argumentando, buscando preparar cada um no contexto da sua comunidade, para agir ali. Essas escolas não são plataformas de lançamentos de meninos, mas lugares para eles estarem. Nós, que persistimos em uma experiência coletiva, não educamos crianças para que elas sejam campeãs em alguma coisa, mas para serem companheiras umas das outras. Não almejamos, por exemplo, que virem chefes. A gente não treina chefes. A base da educação é feita em fricção com o cotidiano. A eventual liderança de uma criança será resultado da experiência diária de colaboração com os outros, não de concorrência.
Aquele menino que fui nunca deixa de estar próximo para conversar, para distrair, aprontar alguma novidade. Ele passa o balaio na beira do rio, sabendo que ali pode ter uma cobra, mas não deixa de passar: isso é coragem. A fricção com a vida proporciona um campo de subjetividade que prepara a pessoa para qualquer tarefa. Em vez de formatar alguém para ser alguma coisa, deveríamos antes pensar na possibilidade de proporcionar experiências que formem pessoas capazes de realizar tudo o que for necessário na vida: sem medo de ter cobra dentro d’água ou de levar um coice. Porque tudo isso é integrado, são experiências fundamentais para se perceber como sujeito coletivo, para aprender que não estamos sozinhos no mundo.
As crianças Krenak anseiam por serem antigas. Isso porque, nas humanidades em que as crianças ainda têm a liberdade e a autonomia de aspirar mundos, elas valorizam muito os velhos. As pessoas antigas têm a habilitação de quem passou por várias etapas da experiência de viver. São os contadores de histórias, os que ensinam as medicinas, a arte, os fundamentos de tudo que é relevante para ter uma boa vida. É o que os quéchuas chamam de sumak kawsay e que foi traduzido para o castelhano como bienvivir, ou bem viver, em português. Acredito que nossas crianças sabem sobre a segurança mental subjetiva que essa experiência pode proporcionar, e por isso não veem a velhice como uma ameaça, mas como um lugar almejado, de conhecimento, que questiona a hipótese de formatar pessoas para um outro mundo, e não para o lugar onde cada um de nós experimenta o cotidiano.
As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser vencedoras, pois para uns vencerem outros precisam perder. Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida em que o indivíduo conta menos que o coletivo. Esse é o mistério indígena, um legado que passa de geração para geração. O que as nossas crianças aprendem desde cedo é a colocar o coração no ritmo da terra.Ailton Krenak, "Futuro ancestral"
Foram muitas e graves as consequências da memorável rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF — a maior e mais eloquente, o risco de o presidente Lula se tornar um pato manco. A derrota, inédita na ocorrência e na magnitude, escancarou a fragilidade do governo diante do Congresso, feriu em grau hemorrágico a autoridade do presidente e, a cinco meses da eleição, dificultou a aprovação de projetos cruciais para a recuperação de sua popularidade, como o da escala 6x1. Na mesma proporção do revés do governo, deu-se o ganho da oposição: Flávio Bolsonaro — que, com seu coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), foi responsável por arregimentar ao menos 28 dos 42 votos contrários a Messias — transformou o episódio em vitória da sua candidatura à Presidência e numa “resposta” do Senado aos “excessos do Supremo”, bandeira de que o concorrente Romeu Zema, do Novo, ameaçava se apropriar.
Se, no rol das consequências do episódio Messias, a derrota de Lula é clara — e, em muitos aspectos, devida, porque nasceu de um flagrante erro de cálculo do próprio presidente —, a vitória da oposição é mais matizada. Flávio sabe que boa parte dos votos que amealhou no Senado não se explica apenas pela tese pública de que a rejeição de Messias serviria como recado de autocontenção ao STF, ou como prenúncio da abertura das comportas para um futuro impeachment de ministros. Fosse essa primeira questão a razão principal, Messias deveria ter sido apoiado, e não rejeitado, pelo grupo de Flávio. Na sabatina da CCJ, defendeu o fim do inquérito das fake news, a criação de um código de ética para o STF e, em mais de uma ocasião, fez críticas indiretas à conduta de Alexandre de Moraes. O motivo maior, como admitem diversos senadores, foi o receio de que Messias se alinhasse a André Mendonça, principal avalista de seu nome na Corte, e ajudasse a formar no Supremo uma maioria capaz de ameaçar aqueles que têm perdido o sono diante de pendências, presentes e futuras, nos inquéritos do Banco Master e das fraudes do INSS — ambos sob relatoria de Mendonça. O último e mais vulgar dos motivos da vitória oposicionista atende pela velha alcunha de “toma lá dá cá”, aqui escorada no empenho de R$ 12 bilhões em emendas pelo governo, em meio a tentativas de recompor pontes com o Senado comandado por Davi Alcolumbre — o marco zero dessa história.
Como até as pedras sabem, Alcolumbre queria que Lula indicasse não Messias, mas o também senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga no STF. Contrariado em seu desejo e ferido em sua vaidade, Alcolumbre urdiu a revanche, no que teria sido apoiado pelos ministros Moraes e Flávio Dino. Tais apoios não se deram de forma explícita, nem por motivos que se possam chamar elevados — a animosidade de Dino em relação a Messias vem da indicação anterior de Lula ao STF: o advogado-geral da União já estava no páreo e Dino, o vitorioso na ocasião, nunca esqueceu as farpas que considera ter recebido dele. Moraes e Dino negam publicamente ter atuado pela derrota do indicado de Lula.
É um homem grande, a cabeça calva queimada pelo sol, os ombros largos, as mãos enormes. Aproxima-se de mim na multidão que, no final da manifestação contra o pacote laboral, se aperta na Rua de São Bento, quase a chegar à Assembleia da República. É vidreiro, apresenta-se. E vem falar-me da luta de operários como ele, sujeitos a trabalhar no verão a temperaturas que chegam a ultrapassar os 70 ºC, num ambiente de enorme ruído, a respirar sílica cristalina cancerígena, com “jornadas contínuas de trabalho que chegam a um mês seguido, podendo estender-se até dois meses ou mais no período de verão, para assegurar férias dos colegas”. Naquele dia, desculpa-se, está engripado. Mas nem por isso faltou à luta, sob o sol ainda baixo de abril, que nos escalda a cabeça. Quer pôr os partidos a perceber a importância de a profissão de vidreiro ser considerada de desgaste rápido, mas sente-se a pregar num deserto quase tão abrasador como a fábrica onde passa os dias.
O operário explica-me como a tecnologia não lhe aliviou a penosidade do trabalho. “Assistimos a uma evolução tecnológica que aumentou significativamente a rentabilidade, mas não teve efeito no número de trabalhadores nem na forma de operar. Ou seja, a tecnologia melhorou a produção, mas não reduziu a exposição humana. Pelo contrário, em muitos casos intensificou-a”, queixa-se. Os fornos não podem parar nunca ao longo dos 15 anos que duram. Os homens vergam-se às máquinas.
Há quem ache que as histórias que falam de operários deviam ser contadas a preto e branco. Eles não existem hoje, acham os que cantam loas às divindades do empreendedorismo e a quem a própria palavra trabalho cheira a mofo. Decretaram o fim do trabalho. No futuro, dizem eles, as máquinas vão fazer tudo, seremos todos substituídos por Inteligência Artificial. E o futuro, dizem eles, começou agora.
É uma profecia que não estará completamente errada. É fácil de perceber como certos trabalhos, muitos deles administrativos, chatos e repetitivos, mas também muitos dos que se dizem criativos, estão tão votados à extinção como no passado estiveram os de homens que foram substituídos por máquinas nas fábricas. E não só esses. Até os médicos e talvez também os juristas e os jornalistas poderão ser em grande parte substituídos por modelos de linguagem, capazes de simular o pensamento humano, através da análise e da reprodução de padrões. Sim, para muitos o trabalho que hoje fazem irá desaparecer. Mas desaparecerá o trabalho? E a necessidade dele para sobreviver?
Em 1930, o economista John Maynard Keynes previa que até 2030 as jornadas de trabalho reduzir-se-iam a 15 horas semanais, precisamente devido aos avanços tecnológicos. Sabemos bem como isso correu. Até hoje, uma das lutas sindicais é pelas 35 horas semanais. E esse é só o trabalho dito normal. Não entram para essas contas as horas extraordinárias que se multiplicam para muitos e muito menos as desoras a que somos obrigados a responder a emails, mensagens e chamadas, a alimentar as redes sociais ou simplesmente a tentar mantermo-nos a par de tudo o que temos de dominar nas nossas profissões.
O futuro poucas vezes é aquilo que parece que vai ser. Sobretudo, quando o que o molda é um sistema capitalista extrativista que tem contribuído nas últimas décadas para uma desigualdade e uma exploração cada vez maiores. Os milionários das tecnológicas estão tão preocupados com isso que o CEO da OpenIA, Sam Altman, acaba de defender a ideia de aumentar os impostos sobre o capital e taxar o trabalho automatizado (e não só o humano), percebendo que sem uma política fiscal redistributiva deixará de haver consumidores capazes de comprar os seus produtos. Não é justiça social nem altruísmo o que o move: é pragmatismo puro. E a ideia – que alguns considerariam socialista e radical – de que muitos dos nossos grandes problemas coletivos se resolvem através de políticas fiscais redistributivas ganha assim um improvável aliado capitalista. Até um tech bro consegue perceber os limites do capitalismo selvagem e dos mercados desregulados.
Outros terão ideias diferentes para resolver o problema de haver uma massa cada vez maior de trabalhadores intelectuais antigamente qualificados tornados obsoletos. Poderão pensar que a solução está nos exércitos de entregadores e motoristas de plataformas que enxameiam as cidades de todo o mundo, mas só até haver robots que os substituam. E talvez, ainda que não tenham coragem de o admitir, toda a guerra que os engorda financeiramente seja, ao mesmo tempo, uma forma de consumir estes exércitos de humanos desnecessários.
Podemos sempre imaginar que o trabalho humano, aquele que se faz com um cérebro analógico, mãos treinadas, empatia e memória, tenderá a ser cada vez mais um luxo (tão inacessível como as peças que a alta-costura hoje vende), dominado por um punhado de artesãos cobiçados. É possível que assim seja. Mas também é possível que essa transformação venha acompanhada de miséria, exclusão e muito mais exploração. Como o vidreiro me explicou, a tecnologia serve primeiro para engordar os lucros e só eventualmente tem o efeito secundário de aliviar alguns trabalhadores. Afinal, não será por acaso que querem enfiar-nos pela goela abaixo reformas laborais como a que Javier Milei passou na Argentina, que cria o conceito de “salário dinâmico”, pago à vontade do patrão, que até pode entregá-lo em géneros.
Podem achar que operários como o vidreiro que veio falar-me já não existem. Que somos todos empreendedores, colaboradores, modernos unicórnios, nómadas digitais e o raio que vos parta. Mas se, por acaso, não conseguem aguentar-se mais de três meses sem receber qualquer rendimento de trabalho e se não são donos de meios de produção, tenho uma verdade chocante para vos contar: fazem parte da classe trabalhadora!
Por isso, amigos, pensem bem da próxima vez que vierem falar-vos de um futuro radioso sem trabalho, de reformas douradas antecipadas que não são mais do que vidas a gerir rendas e de outras fantásticas histórias da carochinha. Enquanto não chegarem à terra esses rios de leite e mel, lembrem-se de que são trabalhadores e de que os direitos que têm podem ser a linha ténue que vos separa da miséria. O operário vidreiro sabe disso na pele que lhe arde na fábrica e nos pulmões que se enegrecem no trabalho. E vocês? Quando é que vão perceber isto?
Decidi meter o dedo nesta polêmica envolvendo o ator Juliano Cazarré. Reconheço humildemente que ele tem por volta de 5 milhões de seguidores. Antigamente você dizia que a pessoa era respeitada, tinha uma imagem a defender, um papel decente na sociedade. Hoje você diz o número de seguidores como se fosse uma régua para medir a credibilidade de alguém. Mas enfim, são pessoas que o seguem e devem concordar com o que ele diz. Essa é a maneira de conectar as pessoas em torno de uma ideia sua ou copiada, que você defende.
Juliano quer recuperar a figura desamparada do homem(sic). Ele mesmo diz isso. Eu procuro esse homem desamparado e não acho. Acho o homem violento, arrogante, autoritário e misógino. Acho também o homem sem o mesmo poder de antes, questionado, fragmentado, discutido. Esse é fácil de achar e mesmo que ele não se reconheça assim, dá para destacar no meio de todos.
Os homens estão cometendo mais feminicídios hoje não porque estão desamparados ou sem Cristo no coração. Estão cometendo mais crimes contra as mulheres porque estão perdendo o poder sobre o corpo e os desejos femininos. Homens não ocupam mais o papel de “liderança e comando” quase incontestáveis. Podem ainda ser escolhidos, mas não impostos como antes. Não são mais uma fatalidade, literalmente e sim o alvo de desejo que leva a escolha seja por parte de mulheres ou de outros homens. Mas isso incomoda. Os homens não querem se colocar em questão. Querem, como mostra o Cazarré, recuperar o seu papel hoje questionado. Querem voltar a mandar no corpo e na alma das mulheres. Querem decidir sobre família, filhos, espiritualidade, futuro, lar e profissão. Querem voltar a ser os grandes protagonistas da relação, os chefes de família, os provedores. A livre escolha deixou de ter importância e a orientação sexual então, não devia nem ter surgido.
Esse discurso realmente libera o feminicídio, como bem disse a atriz Marjorie Estiano. É esta posição masculina que justifica o corretivo físico e violento para restabelecer o comando familiar. Juliano Cazarré, quando diz que os homens precisam recuperar seu caminho de masculinidade, não prevê que as mulheres mudaram e não aceitam mais essa imposição. O mundo mudou e com isso, até mesmo os princípios cristãos deveriam acompanhar esta mudança. Você pode pregar o amor junto com a livre escolha. Pode pregar a solidariedade o até mesmo a caridade junto com a justiça social. Pregar a crença no reino dos céus sem deixar de querer também uma vida mais digna enquanto está por aqui. Esse é o verdadeiro espírito cristão que une homens e mulheres.
Não existe nenhum texto que ensine que homens são melhores que as mulheres, que devem comandar ou prover uma família. Homens podem ser mais fortes, mas isso não significa que sejam os comandantes. Homens têm características diferentes das mulheres, mas nem melhores nem piores. Essa diferença deveria ser a que une e não a que estabelece hierarquias. Homens devem rever seus papéis sim, mas para se moldar a este mundo novo que inclui todas as pessoas de modo igual. Deveria refletir sobre o poder e porque matam tanto quando este poder é questionado. Deveriam pensar sim porque o acesso às armas acaba favorecendo este tipo de violência e porque os mandamentos masculinos herdados São tão contrários ao convívio harmonioso que deveria existir entre os seres humanos.
Nenhum sexo é melhor do que o outro. E isso deveria ser fator de atração e não de opressão. Juliano Cazarré assim como todos os outros que pensam como ele são curiosamente de direita. É na direita que eles encontram respaldo para esse tipo de questionamento que vai contra a evolução, contra a modernidade, contra a expressão maior da liberdade de escolha. E ninguém escolhe impunemente esta posição. O direito de escolha inclui também o direito de dizer não, de escolher o próprio caminho e decidir o próprio futuro longe dos dogmas ou ensinamentos obsoletos dos quais, a duras penas, estamos conseguindo nos liberar. Sempre me preocupei em ser este homem. Alguma coisa acho que consegui mudar em mim e vejo também em outros. Não estamos desamparados, estamos nos reconstruindo.