quinta-feira, 21 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Curriculum Vitae, 01

Filho de pai preso. Segue carreira do pai e se elege por ser filho do pai. Obedece ideias do pai, copia métodos do pai. Tem os aliados do pai. Trilha o curriculum do pai. Em casa, o pai o chama pelo número de antiguidade 01. Amor filial supera o paterno.

Sua sagacidade não alcança a do pai, porém mais afiada que a dos irmãos. Nunca disse "ditadura devia ter matado mais", mas vê em 1964 "contrarrevolução democrática". Não gostaria de filho "entrando em casa e apresentando seu namorado". Definiu as medidas do governo do pai na pandemia, e o superávit de mortes evitáveis da ordem dos seis dígitos, como o que "se espera de um estadista".

Revelou que, se presidente, caso STF anule seu indulto ao pai, "aí é confusão fora das quatro linhas". Mas fará o possível "para que não chegue a esse ponto". É candidato à versão moderada da família.


Apoiador da cultura nacional, lutou pela produção de filme sobre o pai. Articulou modelo arrojado de patrocínio, onde patrocinador prefere não aparecer. Recebeu milhões de reais de banco quando já se sabia a magnitude das operações ilegais.

"Sem graça de ficar cobrando", cobrou outros milhões na véspera da prisão do mecenas. Trata o banqueiro, que alegou nunca ter conhecido, por "meu irmão", a quem confessou não saber "como tudo isso vai acabar, está nas mãos de Deus aí", "estou contigo sempre".

Explicou ser filme privado com dinheiro privado. Não menciona emendas parlamentares e dinheiro de aposentados. Não sabia que, quando autoridade pede dinheiro a banqueiro, pode cometer pelo menos um de três crimes: corrupção, lavagem e financiamento de organização criminosa. Depende do destino real do dinheiro, ainda não sabido, e de outras variáveis. Não importa se privado o dinheiro.

Empresário bem-sucedido de chocolates, em três anos sua loja recebeu 1.512 depósitos em valores idênticos e movimentou R$ 3 milhões em espécie. Explicou ser assim no comércio, "no final do dia você junta a quantia e deposita no banco".

Ministério Público e Coaf produziram provas sobre peculato (rachadinha) de seu gabinete, de onde supostamente provinham investimentos imobiliários em áreas de milícias. Foram anuladas por STF e STJ, que alegaram vício formal.

Mora em casa comprada por R$ 6 milhões, metade financiada pelo Banco de Brasília (BRB). Negociou juros europeus de 3,71% ao ano.

Retirou assinatura do pedido de CPI do Banco Master, mas continuou gritando a favor. Assinou outra vez depois da notícia sobre sua relação com o banqueiro, que admitiu depois de tanto negar.

Ativista do direito de mentir, combate cidadãos que lutam pelo direito de não acreditar. Chama de "narrativa" o que lhe desabona, de "fato" o que lhe favorece.

Candidato à Presidência, sua dancinha de campanha aperfeiçoa o molejo de boneco de posto. Exibe "O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula" na camiseta. Seu irmão conspira contra a economia brasileira perante o governo norte-americano, que cobra tarifa e combate o Pix em favor de cartões de crédito.

Sua filosofia constitucional está encapsulada no conceito de "legalização de milícias", emprestado do pai. Argumenta: "As classes mais altas pagam segurança particular, e o pobre, como faz para ter segurança?"

Seu pensamento religioso: "Sou instrumento de Deus para pacificar o Brasil".

Quer novo emprego.

A próxima era da política mundial entregue de bandeja

O declínio da hegemonia mundial americana já vinha acontecendo desde a década de 1990, mas este governo acelerou esse processo drasticamente. No ano passado, a União Europeia e até mesmo o Canadá discutiram a possibilidade de se desvincular dos Estados Unidos devido às tarifas impostas por Trump. Essas mesmas tarifas levaram rivais históricos como China, Japão e Coreia do Sul a se unirem e intensificarem o comércio entre si, apesar de seu longo histórico de conflitos e desconfiança. Essas tarifas transmitiram ao mundo a mensagem de que os Estados Unidos não são confiáveis.

Some aprimoramentos financeiros, como o apoio confuso à agressão de Israel, a guerra ilegal no Irã, a devastação que ela está causando naquele país e o prejuízo financeiro que se espalha pelo mundo, tornam possível que os EUA entreguem a próxima era da política mundial à China em tempo real. A China está prestes a se tornar a superpotência preeminente do mundo, e praticamente não precisa fazer nada.

É importante compreender os danos a longo prazo que essas ações estão causando. Mesmo que o trumpismo morra após Trump, o resto do mundo talvez nunca mais volte a confiar plenamente nos EUA, porque agora sabe que basta outro presidente extremista do MAGA assumir o poder e subverter a ordem global mais uma vez.

Os primeiros a morrer

Doze de março acaba de ser instituído como o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19 no Brasil. A data se refere à morte no dia 12 de março de 2020, em São Paulo, da diarista Rosa Aparecida Urbano, 57 anos, a primeira vítima registrada da pandemia no país. Não há um de nós sem a perda de um ente querido, próximo ou remoto, entre os 700 mil que se foram sob o negacionismo de Jair Bolsonaro. Talvez, ao lembrar Rosa, o país se recorde do que era ser governado por um irresponsável.


Se quiserem instituir datas em memória das vítimas de outras tragédias brasileiras, 25 de janeiro marcaria a morte da médica Marcelle Porto Cangussu, 35 anos, o primeiro corpo reconhecido pelas autoridades no rompimento da barragem de Brumadinho (MG), em 2019. Ela representaria os outros 271 soterrados pelo despejo de 11 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração e nos alertaria para o fato de que os responsáveis ainda não foram nem julgados.

Já o dia 8 de maio lembraria o primeiro morto sob tortura pela ditadura militar. Ou talvez o primeiro cujo registro não foi possível esconder: o sargento Manoel Alves de Oliveira, no Hospital Central do Exército, em Triagem (RJ), em 1964, 37 dias depois do golpe, por violências sofridas naquela unidade. Mas Manuel foi somente o primeiro morto sob tortura. A primeira vítima do golpe foi a dona de casa Labile Abduch, 65 anos, síria naturalizada brasileira, morta por disparos contra um grupo que protestava na Cinelândia, vindos do defronte Clube Militar, no próprio dia 1º de abril.

E, em outubro de 1944 (não se sabe o dia), morreu o primeiro pracinha brasileiro na Itália, o aspirante niteroiense José Gerônimo de Mesquita, 19 anos. Há uma placa com seu nome no Monumento aos Pracinhas, no aterro do Flamengo. Foi o que coube aos rapazes da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que deixaram a vida no campo de batalha. Os que voltaram foram abandonados pelo ditador Getúlio Vargas.

Se o Brasil tende a ignorar os vivos, que passe a lembrar seus mortos.

O fascismo como futuro

Aqueles que acompanham, mesmo minimamente, a produção intelectual e a intervenção pública de Vladimir Safatle sabem que ele vem insistindo há tempos: o fascismo nunca desapareceu. O imperativo categórico formulado por Theodor Adorno, impedir que Auschwitz se repita, foi invalido uma vez depois da outra desde que ele proferiu essas palavras em 1965. 61 anos depois sabemos que Auschwitz se repete todo dia: se repetiu aqui, como na chacina recente nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro; se repete lá, em Gaza. E sabemos que amanhã se repetirá novamente. O que permite tal persistência devastadora do fascismo? O que explica a continuidade de uma condição inumana?

Safatle parte de um diagnóstico de época: “A última década deixou claro como vivemos no interior de uma conjunção inédita de crises: ecológica, demográfica, social, econômica, política, psíquica e epistêmica. A isso podemos chamar de “crises conexas”, pois estão conectadas e se retroalimentam”. Essas crises, imanente ao próprio modo de produção capitalista, garantem a força e a persistência do fascismo.


Entretanto, em seu rastreio das condições de possibilidade do fascismo, Safatle encontra-as no cerne do próprio sujeito moderno. Segundo ele, fascismo não pode ser usado apenas para se referir a uma ordem político-econômica (aquela que emergiu na Europa do entre guerras), mas que descrevesse “uma forma específica de violência e dessensibilização social assentada na expressão aberta e generalizada de traços fundamentais da estrutura própria à personalidade da individualidade moderna”. Desta maneira, seria possível compreender que a individualidade que é socialmente produzida pela ordem liberal, é necessariamente agressiva, rígida, autoritária. Em suas palavras: “como se a personalidade do indivíduo moderno portasse o germe de sua própria realização como fascismo”.

Esse é o ponto que me parece mais interessante do livro do professor Safatle. Sua contribuição reside na possibilidade de compreender o núcleo estrutural por trás da racionalidade fascista, que nunca desapareceu – lembremos. Por um lado, esse procedimento acaba achatando diferenças importantes entre as formas historicamente específicas pelas quais tal princípio emerge – o fascismo histórico possui particularidades que o diferenciam do fascismo contemporâneo e certamente ambos não são a mesma coisa que o horror do colonialismo. Entretanto, por outro lado, o mérito de Safatle está exatamente em explorar as conexões entre “violência racial ordinária, extermínio colonial e fascismo”. 

Desta maneira, Safatle evita as interpretações do fascismo que pouco colaboram na compreensão do fenômeno, pois interpreta-o como um fenômeno puramente psicologizante, embora possa ser materialmente informado. Isto é, dizer que tal sujeito é fascista porque ressentido, porque não pensa direito, porque apenas segue o líder, não ajuda em entender o fascismo, mas “só serviam para alimentar nossas ilusões narcísicas de superioridade moral, em vez de fornecer alguma arma teórica eficaz para lutar contra o pior”. Sua leitura, portanto, ajuda a compreender como o mesmo impulso da modernização, que pretendia civilizar, educar, desenvolver, carrega em seu cerne a matriz violenta do fascismo.

Outro mérito do livro de Safatle é a mobilização dos recursos conceituais da psicanálise para interpretar o fascismo, alinhando-se já há uma longa tradição de crítica, mas avançando em relação a ela. Apoiado nas interpretações da primeira geração da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno, Safatle afirma que a violência fascista não é caracterizada por um excesso de destrutividade, “mas, paradoxalmente, excesso de preservação”. Trata-se de uma tentativa violenta de preservar a personalidade narcísica e a identidade dela com o mundo falso. Contudo, a preservação tem como condição necessária a eliminação do outro que ameaça essa identidade. Por isso o fascismo possui um impulso genocidário.

Por outro lado, essa identidade em colapso com o mundo falso movimenta também o “desejo social de autodestruição”. Apoiado na leitura de Paul Virilio do Estado Suicidário, Safatle vai perceber que a lógica de autopreservação dá no seu contrário: diante de uma destruição dos princípios da identificação fetichista do eu com o mundo experimentado como catástrofe uma narrativa é construída que seja “capaz de dar sentido heroico à degradação da vida cotidiana”. Uma espécie de auto-sacrifício para sustentar seus ideais narcísicos.

Ou seja, o fascismo baseia-se, ao mesmo tempo, na eliminação do outro e de si próprio, instaurando um regime duplo: genocidário e suicidário. Dessa maneira, ocorre, como descreve Safatle, uma militarização das subjetividades como forma de se referir à estratégia de defesa do Eu dessa personalidade unidimensional que conecta o mundo corporativo do empreendedorismo de si ao mundo militar de culto às armas. É nesse ponto, escreve o autor, “o masculinismo aparece em toda sua força, como uma formação defensiva diante da impotência social real” .

Como Safatle afirma, o fascismo se tornou uma resposta realista às crises, pois elas reforçam a identidade destrutiva dessas crises, dependem dela e com ela avançam. Não é à toa que Edward Luttwak dizia ser o fascismo a onda do futuro. Para impedir que esse futuro se confirme, “então não deveríamos temer afirmar que só um irrealismo delirante pode nos salvar. Há momentos históricos nos quais o delírio é a única saída consequente”. Talvez só assim, o fascismo não seja o nosso derradeiro horizonte.
Thiago Canettieri

Os duros não dançam, mas levam baile

Neste tempo de emoções efémeras, teleguiadas por algoritmos, ainda há artes antigas, amadurecidas ao longo de séculos, com o poder extraordinário de mudar narrativas, exibir os pontos fracos do oponente e, com uma delicadeza estudada, fazer virar o jogo a seu favor. A diplomacia e a retórica são duas dessas artes, que quando usadas em conjunto transformam-se em autênticas armas de poder.

Nas últimas semanas, tivemos dois bons exemplos dessa forma de ação. Primeiro, com o discurso proferido por Carlos III, de Inglaterra, perante o Congresso dos EUA: uma intervenção em que o humor foi usado como técnica para desengatilhar sentimentos hostis. Mas também um discurso em que as evocações históricas permitiram definir claramente as distâncias entre Londres e Washington e em que, finalmente, a ironia funcionou como um grito poderoso e mordaz, que deixou o alvo subliminar – Donald Trump − encurralado entre duas alternativas: ficar calado ou, se respondesse, cair no ridículo. O mais importante, mesmo assim, foi que ao celebrar os valores do Iluminismo e a defesa intransigente da democracia perante as ameaças autocráticas do século XXI, o discurso lido pelo rei acabou por ser uma lição de como a identidade e os valores podem funcionar como cimento político, mesmo em tempos conturbados.

O segundo momento, ocorreu na visita do mesmo Donald Trump a Pequim, com os dirigentes chineses, em momentos pacientemente coreografados, a saberem vincar as diferenças colossais entre uma civilização milenar e um país que, por mais poderoso que seja, só agora se prepara para completar 250 anos de história. Por isso, Xi fez questão de mostrar ao seu convidado, como anteriormente já fizera com Putin, as árvores muito mais antigas do que os EUA que se encontram no antigo jardim imperial de Zhongnanhai, que hoje alberga os gabinetes e as salas de reuniões dos dirigentes do Partido Comunista Chinês. Depois, nas declarações públicas, Xi soube envolver Trump na pompa imperial, estabeleceu as suas linhas vermelhas, nomeadamente em relação a Taiwan, e assumiu o papel de liderança na gestão de risco de uma possível escalada de tensão entre os dois países. E quando, de uma forma surpreendente, evocou a “armadilha de Tucídides”, fê-lo num exercício de retórica que sabe evocar a Antiguidade Clássica, mas também o momento exato em que se iniciou a mudança estratégica dos EUA em relação à China, quando Trump ainda nem pensava seriamente ocupar a Sala Oval da Casa Branca. A teoria da quase inevitabilidade de uma guerra entre a potência dominante e a potência emergente, como sucedeu frequentemente ao longo da História, começou a circular, pela pena de um investigador e professor de Harvard, Graham Allison, em 2015, durante a Presidência de Obama, que virou o eixo estratégico dos EUA para a região da Ásia-Pacífico. O aviso de Xi, neste momento, significa muito mais do que uma figura de estilo. É, antes, uma movimentação inteligente num jogo de xadrez que se irá prolongar para lá do mandato de Donald Trump. Mas que lhe permitiu delimitar o espaço de manobra do adversário, através de uma jogada de cortesia institucional.


O contraste entre as máquinas diplomáticas chinesa e britânica face à atual administração Trump é de um contraste absoluto. De um lado, temos equipas altamente profissionais, com séculos de história atrás de si e um profundo conhecimento do mundo e, acima de tudo, daquilo que deve ser dito em cada e determinado contexto. Do outro, é aquilo que se torna cada vez mais evidente: um Presidente que confia cegamente no seu instinto, rodeado de pessoas escolhidas apenas pela sua lealdade cega a Trump, e não pelas suas especiais competências ou aptidões para o cargo. E, em grande parte dos casos, pessoas sem “mundo”, sem conhecimentos de História e apenas habituados aos discursos mais básicos – que podem ter muita tração nas redes sociais, mas que, no contexto internacional, por mais ameaçadores que possam ser, apenas fazem quebrar os laços de confiança de quem os escuta.

Em dois momentos diferentes e embora cada um com o seu arsenal, Carlos III e Xi demonstraram como se deve falar com Trump e a atual administração dos EUA: ditaram as regras, selecionaram as palavras que mais pesam e ignoraram qualquer pose intimidatória do oponente. Ou seja, dançaram a música que escolheram para ser posta a tocar. Essa é a lição que deve ser aprendida pelas várias diplomacias, neste momento. Porque quem optar pela subserviência acabará, no final, por ter de dançar, apenas e só, a música do mais forte.

Até onde a elite vai com os Bolsonaro?

A forma como parte da elite econômica e política espera para ver se a candidatura de Flávio Bolsonaro fica de pé diante das evidências quase diárias de uma relação constante com Daniel Vorcaro escancara um fenômeno conhecido, mas que se renova a despeito dos fatos: a enorme condescendência desses estamentos com todo tipo de instabilidade que a família Bolsonaro é capaz de provocar, algo inexistente em relação a qualquer outro grupo político.


A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, se deu a despeito da profusão de evidências de evolução patrimonial do patriarca e dos filhos incompatível com a atividade parlamentar de todos eles, do histórico antiliberal do “capitão” recém-associado a Paulo Guedes e de outras inconsistências.

Os quatro anos de mandato de Bolsonaro trouxeram à tona detalhes da relação do ex-deputado estadual Flávio, então já senador, com seu ex-braço direito Fabrício Queiroz, evidências de prática de rachadinha em seu gabinete, de mais movimentações financeiras apontadas pelo Coaf como suspeitas, de relacionamento com ex-policiais ligados à milícia, mais compra de patrimônio imobiliário em transações milionárias e em dinheiro vivo — e tudo foi aceito.

A gestão da pandemia expôs um presidente avesso à ciência, disposto a dinamitar o Programa Nacional de Imunizações, incentivando que se “passasse a boiada” em desmonte ambiental aproveitando o isolamento, zombando de medidas sanitárias e de mortes, trocando ministros da Saúde como quem mudava de camisa do Brasil. Houve abalo a sua imagem, mas ele quase foi reeleito.

Vieram o 8 de janeiro de 2023 e aquela destruição sem precedentes em Brasília, por uma turba mantida em acampamentos em frente a quartéis por meses, incentivada por um presidente que abdicou do exercício do cargo desde a derrota no segundo turno, depois deixou o país sem passar o cargo ao sucessor. Houve repúdio generalizado de imediato, mas logo depois passou-se a relativizar a gravidade do que aconteceu, como se fosse apenas coisa de donas de casa armadas de batom.

Por fim, o processo da trama golpista expôs a realização de uma reunião ministerial gravada em vídeo em que se discutiram opções até para melar as eleições. Vieram à tona um plano para matar autoridade e minutas de diferentes estados de exceção. O primeiro ex-presidente do Brasil foi condenado por tramar um golpe de Estado.

E, ainda assim, uma parcela majoritária de nossos tomadores de decisão permanece aferrada aos desígnios desse líder, agora preso, a ponto de rapidamente assimilar aquilo que não queria: um presidenciável da própria família. Foi escolhida a segunda opção, porque o primeiro cogitado estava nos Estados Unidos havia meses obtendo sanções econômicas e políticas contra o Brasil.

Agora, diante de um áudio reconhecido pelo próprio pré-candidato como autêntico, pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro já enrolado para um filme sobre o pai, com recursos geridos por um fundo sem nenhuma transparência, existe uma torcida silenciosa para que a tempestade passe, e a motociata siga.

É difícil compreender, apenas à luz da ideologia, tal complacência. Não foi vista em escândalos envolvendo políticos do PT ou mesmo do PSDB. Basta ver a descida ao inferno de Aécio Neves por muito menos que esse acervo do “azarão” e sua prole.

O resultado econômico e fiscal sob Bolsonaro e Guedes não explica tal devoção imune a fatos. O antigo teto de gastos foi seguidamente excedido, houve a pedalada com precatórios e toda sorte de medida eleitoreira, inclusive elevando despesas assistenciais — um dos pecados sempre apontado nas gestões petistas.

As pesquisas e as novas revelações (que não param de aparecer, a despeito das velas acesas na Faria Lima) dirão se Flávio se segura. Mas a disposição a passar pano com desinfetante para tudo o que tenha o sobrenome Bolsonaro é um traço distópico dos nossos tempos que precisará ser explicado nos livros de História, com as consequências dela decorrentes.
Vera Magalhães

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


De Trump à AfD: redes amplificam retórica anti-imigração

Visualizada quase dez milhões de vezes, uma postagem do Departamento de Estado americano acusava as Nações Unidas de buscarem "facilitar a imigração de substituição para os Estados Unidos e nossos aliados ocidentais", acrescentando que, sob o governo do presidente Donald Trump, o órgão priorizaria a "remigração" em vez da mencionada "migração de substituição". O post rapidamente se espalhou pelas redes da extrema-direita na Alemanha.

Referências sobre "substituição" costumam fazer parte de uma teoria conspiratória propagada em círculos extremistas que descreve como supostas elites estariam agindo de maneira obscura para "substituir" as populações étnicas da Europa e dos Estados Unidos.

Em 13 de maio, a Casa Branca repetiu a mensagem com uma nova publicação, visualizada mais de 3,7 milhões de vezes. A reação na extrema-direita alemã foi de celebração.


"Para aqueles que tinham pouca ou nenhuma ligação com a política antes do presidente Trump: vocês provavelmente não têm ideia do quão monumental é este momento – o fato de o Departamento de Estado dos EUA usar o termo 'migração de substituição' – e anunciar a remigração para a América e todo o Ocidente", escreveu Eugen Andres, um político local do partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD).

A Deutsche Welle monitorou um conjunto de dados com mais de 150 políticos e contas da AfD para acompanhar as suas reações. O Departamento de Estado publicou o seu tweet durante a madrugada na Europa. Por volta das 7h da manhã, no horário da Alemanha, o primeiro político da AfD já tinha notado a publicação e começado a partilhá-la.

Às 8h da manhã, um político local da AfD escreveu que "o fato de a 'migração de substituição', ou 'substituição populacional', ser oficialmente abordada por um governo ocidental pela primeira vez é um sucesso."

A comemoração rapidamente ultrapassou os limites da plataforma X. Buscas por palavras-chave em canais do Telegram em alemão revelaram capturas de tela da declaração original, juntamente com comentários comemorativos sobre a remigração.

Um tradutor baseado em Bruxelas compartilhou uma versão em alemão da notícia, que passou a circular amplamente entre os canais alemães do Telegram relacionados ao QAnon – teoria conspiratória surgida nos EUA que afirma a existência de uma elite secreta criminosa e de um plano oculto para combatê-la.

No início da tarde, a mensagem já havia chegado ao topo da liderança da AfD. Alice Weidel, co-líder do partido, escreveu no X: "exatamente o que a AfD vem alertando há anos. Conversa franca de Washington."

O governo Trump fez a publicação ao abordar a revisão do Pacto Global da ONU sobre Migração, que ocorria em meio a uma série de discussões e mesas-redondas em Nova York, entre 5 e 8 de maio.

Adotado em 2018, o pacto é uma estrutura voluntária e não vinculativa criada pelos Estados-membros da ONU. Desde a sua adoção, é bastante debatido se o pacto busca principalmente regular a migração ou se incentiva e facilita o aumento desse fenômeno social.

Mas as Nações Unidas afirmam explicitamente que o pacto não se destina a substituir as políticas migratórias nacionais de nenhum país ou a criar um "direito à migração". Em vez disso, contém uma lista de objetivos, focados em metas como minimizar os fatores que forçam as pessoas a migrar, criar mais vias legais para a migração e combater o tráfico de seres humanos.

O Pacto Global se tornou motivo de agitação na extrema-direita. Em 2018, grupos marginais argumentaram que o pacto era "prova" da conspiração da "grande substituição". O discurso chegou à AfD, que o levou ao Bundestag (Parlamento alemão).

"Isso foi um grande sucesso porque fontes confiáveis, parlamentares, de fato deram atenção a essa ideia", afirmou à DW Kilian Bühling, especialista em dinâmicas de redes entre grupos antidemocráticos e teóricos da conspiração na esfera digital, no Instituto Weizenbaum da Universidade de Berlim, na Alemanha.

"Isto está acontecendo agora: se houver mais ideias ou palavras marginais que sejam repetidas e recebam atenção de figuras como o presidente dos EUA ou sua administração, isso as torna mais legítimas."

A "remigração" é a resposta política para os adeptos da extrema-direita que alertam sobre a teoria da conspiração da "grande substituição". O termo implica enviar residentes não brancos de volta aos seus países de origem – desde migrantes recém-chegados até cidadãos com histórico de migração, dependendo de quem propaga a ideia.

Já foi uma palavra proibida na política alemã – a extrema-direita alemã se viu em apuros depois que jornalistas investigativos descobriram que políticos da AfD participaram de uma conferência em Potsdam sobre o tema "remigração".

A proposta debatida na conferência, segundo o Correctiv – um portal alemão de jornalismo investigativo independente –, incluía a deportação de cidadãos alemães com histórico de migração, o que é inconstitucional segundo a lei alemã.

O envolvimento da AfD na conferência levou centenas de milhares de pessoas às ruas em todo o país em protestos pró-democracia. Isso também gerou um debate sobre rotular o partido como extremista de direita e tentar impedi-lo de participar das eleições.

Desde então, a AfD dobrou a aposta na "remigração", mas esclareceu que sua política oficial não inclui cidadãos alemães. Apesar disso, algumas figuras do partido continuaram a usar retórica sobre remoções em massa e revogação da cidadania de determinados grupos.

"Quando as pessoas no discurso político alemão os acusam de serem anticonstitucionais, extremistas de direita e antidemocráticos, pode ser de grande ajuda se a liderança da maior e mais antiga democracia do Ocidente usar exatamente o mesmo termo", disse Bühling.

"Remigração" é um conceito defendido pelo ativista austríaco de extrema direita Martin Sellner. Após a reunião de Potsdam, a Alemanha o proibiu de entrar no país. Mas, na segunda-feira, a política que ele ajudou a popularizar recebeu um importante apoio de Trump.

"A Casa Branca publicou isso hoje", escreveu Sellner no Telegram para seus 74 mil seguidores, com um link para a postagem de Trump. "Ninguém poderá mais ignorar o assunto. A substituição populacional é real."

A cooperação entre a extrema-direita europeia e americana é bem organizada. Desde 1973, ativistas dos dois países se reúnem na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada anualmente nos EUA. Weidel, inclusive, foi a palestrante convidada do ano passado.

Embora haja um longo histórico de ideias de extrema-direita atravessando o Atlântico, segundo Bühling, "a velocidade e as possibilidades de conexão e fluxo de informações aumentaram com a internet e as plataformas de mídia social".

O bezerro da América

A inauguração aconteceu há dias no Trump National Doral, campo de golfe do presidente em Miami. A cerimónia foi dirigida pelo pastor Mark Burns, integrante do grupo Pastors for Trump, e outros religiosos, presentes na apresentação duma estátua dourada de 6,7 metros de altura. A estrutura, apelidada de “Don Colossus”, mostra Trump com o punho erguido. O projeto terá custado 450 mil dólares financiados por investidores de criptomoedas.

Supõe-se que estes religiosos certamente fizeram as suas orações ao deus Baal. O bezerro de ouro da América é Donald Trump, o alvo da idolatria de parte do espetro evangélico conservador dos EUA, que é uma das principais bases políticas do movimento MAGA. Só que, tal como a “divindade” que pretende adorar, é fake. Só é de ouro por fora, por dentro é de bronze.


O bezerro de ouro da tradição judaico-cristã, terá sido construído por Arão enquanto Moisés estava ausente no monte Sinai a receber as tábuas da lei. Provavelmente seria uma reprodução tosca da divindade egípcia Boi Ápis. Face às dificuldades iniciais do percurso no ambiente inóspito do deserto, embora livres, muitos hebreus pressionaram o irmão de Moisés a reproduzir a divindade egípcia, na ideia de reconduzir o povo de volta à terra de onde tinham sido libertados.

É a velha ambivalência entre liberdade e provisão. Ainda hoje muitos pensam que é melhor viver sob opressão e ter o pão mais ou menos garantido, do que assumir a liberdade e fazer pela vida, o que explica a presente emergência das autocracias por todo o mundo.

Em linguagem corrente, a expressão “bezerro de ouro” simboliza um falso ídolo, ou falso deus. Neste caso Trump representa o deus do nacionalismo cristão norte-americano que surge como “escolhido” por Deus. Por isso Trump tem intensificado cada vez mais a simbologia religiosa na comunicação política.

A verdade é que a inauguração da estátua provocou fortes reações contrárias no meio cristão americano e não só. A associação entre simbolismo religioso e apoio político foi a base das críticas, tendo alguns líderes evangélicos manifestado a sua frontal discordância ao considerar o ato como uma prática de idolatria.

Há muito que boa parte da igreja americana vendeu o seu direito de primogenitura, leia-se a sua legitimidade profética, qual Esaú, por um prato de lentilhas, isto é, pela proximidade do poder político. Por este andar vai acabar por ficar sem uma nem outra, ou seja, com uma mão sem nada e outra com coisa nenhuma.

Parece estar encontrado o “boi Ápis” da direita religiosa norte-americana. Aguarda-se que surja um Moisés contemporâneo que acabe com esta tonta blasfémia, e obrigue estes adoradores de bezerros a engolir o ouro derretido. O Moisés bíblico mandou derreter e misturar com água o ídolo profano, forçando-os a bebê-lo. Mostrou assim a impotência do Boi Ápis que passou pelo corpo do povo até ser defecado. Aquela beberragem desagradável funcionou como uma espécie de punição física, mas também como uma representação da amargura e das consequências da idolatria que Iavé abominava.

Ao menos o bezerro de ouro do Sinai era maciço, fundido a partir dos brincos, pulseiras e demais adornos de ouro que os hebreus haviam trazido durante o Êxodo, entregues pelos próprios egípcios em pânico, que se queriam livrar da maldição das pragas que se haviam abatido sobre o território.

Ainda assim, o bezerro de ouro dos hebreus não era falso como este, que só é dourado por fora, tal e qual como a figura humana que representa.

País rico

Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba.

Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico…


Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.

Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:

-Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?

O governo responde:

– Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.

E o Brasil é um país rico, muito rico…

As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não tem cavalos, etc; etc.

– Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?

O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:

– Não há verba; o governo não tem dinheiro

– E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico…
Lima Barreto (1881–1922)

As ilusões que não perdi. O bolsomaster em filme

Ainda levará algum tempo para se entender a parte da rachadinha que coube ao bolsomaster, mas uma coisa é certa: de minha parte nunca tive a menor ilusão de que Flávio Bolsonaro pudesse ser um bolsonaro diferente. Desde que ouvi pela primeira vez falar no filho 01 entendi que seu pai já lhe tinha vendido a alma a Vautrin — para os que não são leitores de Balzac, o personagem que, ao longo de vários livros de A Comédia Humana, encarna o Diabo.

Inato ou adquirido pela (des)educação paterna, ele era desde cedo um desses personagens típicos do baixo-clero que assola os legislativos de todo o Brasil: seguidor fanático da lei de Gérson — coitado, o grande jogador deu nome a esta lei dizendo uma frase estúpida num comercial estúpido —, tirava vantagem em tudo, a começar no salário dos falsos funcionários, pastoreados pelo bandido confesso e impune que atende pelo nome de Fabrício Queirós. Como o pai, aprendera a negociar com as milícias e com os milicianos de todo naipe, executivos ou executores, como o Capitão Adriano (mãe e irmã nomeadas para seu gabinete), sócio nas rachadinhas, o Major Ronald — ambos líderes do “Escritório do Crime” — ou Ronnie Lessa — o assassino de Marielle Franco vizinho de Jair Bolsonaro. Como o pai, seus mais expressivos projetos de lei eram de homenagem a assassinos.


Inexpressivo na assembleia estadual — não dá para colocar em iniciais maiúsculas um valhacouto como esse — do Rio de Janeiro, inexpressivou-se com mais ênfase no Senado Federal, onde gosta de apresentar projetos punitivistas. Para compreender o que passa na cabeça do jovem senador (tá bom, tá bom, também eu sei que é …), cito alguns de seus projetos: o 2362/19 acabaria com a Reserva Legal estabelecida no Código Florestal; o 2393/19 acrescentaria aos “excludentes de ilicitude”, isto é, à licença para matar, a legítima defesa ao direito à segurança pública; o 4640/19 idem ao “suicídio por policial” (isso mesmo está escrito); o 3132/19 acabaria com os atenuantes aos crimes cometidos por menor de 21 anos…

Como seu pai, o 01 tem certa dificuldade de dizer lé com cré, mas nem por isso se notabilizou menos por sua atividade de bastidores: foi, durante o governo do pai, o grande acertador de nomeações e ajustes $$$. Entre suas obras-primas está a nomeação de Kassio com K para o Supremo Tribunal Federal — como se pode constatar, o K é brilhante. Pelo sim pelo não, conseguiu desfazer a investigação sobre as rachadinhas em seu gabinete no Rio, sendo de supor que, diante do sucesso, continuou rachando no Senado.

Mas interessante mesmo são suas ideias (?) como candidato a presidente da República. Ele diz que vai reduzir em 90% o número das estatais — viva a sabesp & cia — e torrar o patrimônio da União para fazer caixa — o moço é especialista em dinheiro em caixa, tanto assim que já comprou 57 imóveis em dinheiro vivo, dinheiro que certamente estava em caixa e provavelmente foi levado em caixa, como nos bons negócios da vida (há uma certa atrapalhada entre valor de compra e valor de mercado, mas quem liga para isso?). Ele promete uma redução de despesas considerável — o pai prometeu e acabou com a verba de ministérios dispensáveis como da educação, da saúde, do desenvolvimento social, do meio ambiente, para não falar no da cultura, que só serve para as falcatruas da “lei ruaneid” — e, também como o pai, as aumentaria sem nenhum escrúpulo, desde que para os negócios amigos; o modelo é o ditado pelo estadista africânder Elon Musk. Está certo de que encontrará, entre as hostes de farialimers, um novo posto Ipiranga; se não der, vai com o velho mesmo.

Não se diga que ele é ingrato, pois defende a anistia ampla, total e indenizada para o pai e seus companheiros de condenação — não sei se extensiva aos cúmplices não condenados. E já esclareceu: como sabe que é inconstitucional e que o Supremo a vetará, será preciso não aceitar isso e tomar as medidas — pedir ao irmão um cabo e um jipe para fechar a área do pênalti — para que sua decisão seja cumprida.

Não é o único rasgar da quatro-linhas que anuncia: também acabaria com a maioridade penal aos dezoito anos. Como o art. 288 da Constituição é cláusula pétrea, cabo e jipe. É um apelo à sede de linchamento de parte relevante da população — inclusive entre evangélicos e católicos, que dizem crer em Nosso Senhor Jesus Cristo, mas não nessa besteira de outra face.

Na linha das obsessões escatológicas de seu pai, promete também criar mais meio milhão de vagas nos presídios. Seu objetivo não é acabar com o “estado de coisas inconstitucional”, mas passar a terra do Trump: como nem todos sabem, os EUA têm 1800 mil presos, 542/100 mil habitantes; a China, 1700 mil, 119/100 mil; o Brasil, 900 mil, 416/100 mil; a Índia, 530 mil, 37/100 mil. Em números absolutos ainda faltará um pouco, mas se bolsonarizarmos por 20 anos chegaremos lá. Nos bukelerizaremos (El Salvador tem 1620/100 mil), como explicitou o 01 depois de visitar o pobre país em companhia do 02 bananinha.

É claro que não poderemos deixar de acrescentar à lista de crimes do Novo Bolsonaro — como sabem, é crime a incitação ao crime —, ao lado da proposta de abolição violenta do Estado de Direito que configuram suas declarações propondo o fechamento do STF, o pedido de bombardeio, por forças norte-americanas, de embarcações na Baía de Guanabara (outubro 2025) — art. 142, não da Constituição, do Código Penal Militar, com pena de reclusão de quinze a trinta anos.

Mas voltemos ao bolsomaster. Foram divulgadas mensagens do muito esperto ao chefe da quadrilha-que-está-com-dificuldade-de-acertar-a-delação. O que se sabe até agora: a) que o Vorcaro deu — não “emprestou” dinheiro — 61 milhões de uma promessa de 134, que não conseguiu cumprir pois foi encanado; b) que se fala de um filme brazuca-americano com orçamento muitas vezes maior que os mais caros filmes brasileiros; c) que é difícil de acreditar que o dinheiro dado tenha sido dado para o filme; d) que é difícil de acreditar que o dinheiro dado não tenha um qui-pro-quò, nos dois sentidos; e) que o ilustre ator-secretário-da-cultura, assumindo-se produtor do dito filme, disse que o filme recebeu/não-recebeu um tostão do Vorcaro; f) que o STF tenta citar o dito ator pela destinação de 2 milhões em emendas para a ong Instituto Conhecer Brasil, da produtora do dito filme; g) que a ICB contratou com a prefeitura de S. Paulo 108 milhões para instalar 5 mil pontos de wi-fi, assunto que está sob exame do Tribunal de Contas dos Municípios, com mais de 20 irregularidades; h) que o O2 mexeu/não-mexeu no dinheiro que foi para os EUA; i) que há um pouco de cláusulas de confidencialidade a mais para a produção de um filme, pois pela primeira vez os patrocinadores (privados?) de um filme (privado?) não querem aparecer; j) que o 01 negou, confirmou, não foi bem assim, acusou, rebolou e se enrolou mais que rebolador de bambolê.

Bem, nada de ilusões: os bolsonaristas, os farialimers (não sei se há distinção, mas vá que haja) et caterva virão com tudo contra o resto dos brasileiros — nós, pobres de nós — nós, que sabemos que Deus é brasileiro e ainda vai jogar outros bambolês nos pés deles.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


O relógio do vosso consumismo vai explodir

Hmm… desculpem começar a assim, mas: vocês estão bem? Sim, vocês. Vocês que passaram a noite numa fila para comprar um relógio da Swatch, estão bem? Como é que se estão a sentir? Se se estão a sentir patéticos, ok, menos preocupante. Quer dizer que ainda detêm algumas faculdades psicossociais. Se se sentem na boa, a achar perfeitamente normal o que acabou de acontecer, espero francamente que tenham familiares e amigos que falem convosco e, acima de tudo, vos indiquem o caminho da ajuda profissional.

Para quem não está a par, explico. A Swatch lançou um relógio a um preço modesto (?) de mais ou menos 400 paus, em conjunto com uma marca de luxo, a Audemars Piguet – de que eu nunca tinha ouvido falar, mas eu também não nasci com talento algum para rico.

É um relógio de bolso às cores, e nada mais interessa saber sobre o objeto em si, honestamente. O que precisam de saber, pessoas que me leem e que deduzo estarem curiosas com o sucedido, é que este lançamento de uma coisa onde dá para ver as horas (tem números e ponteiros) gerou o caos um pouco por todo o mundo, com a ideia de que seria um produto de luxo, mas não assim tanto porque é também para as massas, e que não haveria assim tantas unidades, parecendo assim que a sua compra seria um alcançar de estatuto pela posse de uma raridade. E por este bocadinho do estatuto (???) adquirido por se ser detentor de um bocadinho de plástico que serve para – repito – ver as horas, houve gente a dormir à porta das lojas, houve raiva, desespero, porrada e até gás pimenta para dispersar multidões.


Querem mais? Eu digo-vos mais. Há relatos de estafetas de aplicação a serem pagos para ficar na fila, e histórias de pessoas que conseguiram comprar aquele cagalhoto colorido com ponteiros, para o tentarem vender segundos depois pelo triplo do preço, a quem não o conseguiu obter em loja.

“Ai ó Faro, mas ainda te espantas com estas coisas?”. É pá, se calhar não devia, é verdade. E eu sei que uma das maiores vitórias do capitalismo é fazer-nos um buraco na alma, para depois fazer-nos acreditar que a solução para o preencher de novo é adquirindo bens materiais de que precisamos tanto como de levar um pontapé nas costas todos os dias ao acordar. Mas mesmo assim, sim, ainda fico espantado. Ainda me contorço todo em vergonha alheia com o quão patéticas e absurdas as pessoas conseguem ser por causa de coisas e coisinhas. Com esta demência de se achar que aquele objeto nos confere essa exclusividade de sermos diferentes (superiores) aos demais, e por isso, felicidade.

Reparem, ao que parece, e para fechar aqui este círculo glorioso da estupidez humana, já tem havido um monte de queixas de detentores de relógios Audermars Piguet, porque a marca perdeu valor ao juntar-se à Swatch e ter este relógio mais “popularucho”. Não é genial?

Eu adorava que estas pessoas todas conseguissem sair por uns momentos da sua demência consumista, e olhassem para tudo isto de fora. Talvez elas próprias achassem que realmente, mais valia levaram um pontapé nas costas.

A direita e seu longo deserto

Na semana do inferno astral de Flávio Bolsonaro, com opiniões abundantes no ar, meus pensamentos me levaram ao passado, às primeiras eleições que acompanhei. Lembro-me do Brigadeiro Eduardo Gomes e de como era mencionado: brigadeiro, bonito e solteiro.

Desde que me entendo por gente, a direita sempre perdeu eleições para candidatos populares. Por isso tenho visto tantos golpes, fracassados ou não. A redemocratização trouxe novidades. Collor foi uma delas. Passagem meteórica pelo governo. Bolsonaro, em 2018, foi outra. Passagem quase meteórica, pois não se reelegeu.


Em 2018, no auge da luta identitária, Bolsonaro conseguiu algo que a direita tradicional não conseguia ter: um grande eleitorado. Soube encontrar o caminho explorando sentimentos como machismo e homofobia. Nas mesmas circunstâncias, Carlos Lacerda não teria o talento adequado. Mais intelectual, o brilhante polemista teria sido incapaz de encarnar os sentimentos que Bolsonaro mobilizou.

A verdade é que a direita encontrou um caminho mais popular e trabalha com certa sensação de cansaço com os governos do período democrático, expressa também no antipetismo. Apesar de tudo isso, sempre afirmei, em artigos e comentários, que Lula é o favorito. Outro dia, em Nova York, agências americanas também afirmaram o favoritismo de Lula; nem citaram as candidaturas adversárias. Nossas previsões coincidem. Para mim, imerso na realidade brasileira, não é nenhuma vantagem.

A realidade com que trabalho tem orientado meus artigos. Dedico-me, em textos mais longos, a falar de programa de governo, numa esperança de que o ritmo do próximo mandato seja maior. A idade do presidente não é um fator tão importante quanto a possibilidade de buscar um gran finale, pois será seu último mandato.

Movimentos como a transição energética podem ser continuados em velocidade maior. Ela já existe, e o governo trabalha com a realidade das mudanças climáticas.

Uma aceitação maior da revolução digital na prática do governo seria importante para facilitar a vida de cidadãos e empresas. Além do mais, poderia tornar a máquina mais leve e eficaz. Racionalizar a máquina é um ponto importante não só para a reforma administrativa. Isso liberaria mais recursos e ajudaria a reduzir a pressão pelo equilíbrio fiscal.

É preciso fugir da redução de investimentos pela economia de gastos da própria máquina. Uma política fiscal severa e lógica abre uma brecha para o declínio de visões do tipo social-democrata e para a ascensão do populismo de direita. O próprio Lula reconheceu isso com muita lucidez em seu discurso de Barcelona, que, infelizmente, teve pouca repercussão por aqui.

Claro que modernizar a máquina estatal não basta. Será essencial uma reforma política que, entre outras coisas, corrija a aberração de o Congresso usar uma parte considerável do Orçamento.

A vida não será fácil a partir de 2027. Se não forem tomadas medidas audaciosas que revigorem a democracia, em 2030 o cansaço poderá trazer novidades. E não será razoável culpar quem clama por mudanças.

Cilada verbal

Há vários modos de matar um homem:
com o tiro, a fome, a espada
ou com a palavra
– envenenada

Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
– na sintaxe da emboscada.

Affonso Romano de Sant'Anna

Guinada à direita na América Latina pode ser mais frágil do que parece

A onda conservadora que varreu a América Latina nas eleições de 2025 – simbolizada pela derrota da esquerda na Bolívia e pelos triunfos de líderes conservadores no Equador, no Chile, na Argentina e em Honduras – tem sido interpretada, por vários analistas, não como mais um capítulo de um pêndulo político movido por insatisfação econômica e rejeição aos governantes, mas como um reordenamento ideológico mais duradouro. Essa transição seria movida por uma preocupação crescente do eleitorado latino-americano com a segurança pública, o crescimento da população evangélica e a volta de Trump à Casa Branca, entre outros fatores. Vários apostavam, portanto, em uma consolidação da tendência em 2026, nas eleições no Peru, na Colômbia e no Brasil.


Porém, os eventos das últimas semanas sugerem que um domínio da direita por vários ciclos eleitorais é pouco provável. De fato, a maioria das novas lideranças conservadoras já enfrenta sinais de desgaste político, e o resultado dos três pleitos deste ano está longe de ser previsível.

Na Argentina, o governo de Javier Milei enfrenta turbulências próprias: os custos sociais das reformas econômicas e escândalos envolvendo figuras-chave da administração.

No Chile, José Antonio Kast, que assumiu a presidência em março de 2026, viu sua aprovação desabar em questão de semanas, uma das quedas mais acentuadas de qualquer presidente chileno em período equivalente na história recente das pesquisas.

Na Bolívia, Rodrigo Paz, empossado há apenas seis meses, já enfrenta protestos e confrontos violentos no país após eliminar subsídios aos combustíveis.

No Equador, Daniel Noboa assistiu à violência do crime organizado se agravar – 2025 foi o ano mais violento da história do país – e acumula acusações de autoritarismo que corroem sua base de apoio.

Em todos esses casos, os novos governantes de direita chegaram ao poder prometendo soluções rápidas para problemas estruturais e agora enfrentam o duro teste da realidade. A história recente da região mostra que, sem crescimento econômico concreto e melhora

A força política mais poderosa não é a conservadora, mas o ceticismo em relação a quem governa tangível nas condições de vida, o eleitorado latino-americano tende a punir quem está no poder, independentemente do espectro ideológico.

O cenário no Equador talvez revele, de forma mais nítida, por que a onda conservadora é mais frágil do que muitos analistas previam: problemas de segurança pública podem facilitar vitórias eleitorais para candidatos que prometem ações duras contra o crime, mas seria um erro acreditar que governos de direita necessariamente consigam lidar com a questão de forma satisfatória.

O elemento externo também pesa. O retorno de Trump à Casa Branca, longe de ser apenas um vento favorável para a direita regional, produziu efeitos contraditórios: ao mesmo tempo em que legitimou figuras como Milei, Kast e Asfura em Honduras, gerou reações nacionalistas em países que se sentiram pressionados por Washington. No caso brasileiro, as interferências e tarifas de Trump parecem ter fortalecido o governo Lula.

No Peru, o primeiro turno em abril de 2026 ilustra como o voto peruano continua fragmentado e altamente volátil, mais movido pela rejeição a quem governa do que por qualquer adesão ideológica coerente – e o segundo turno, marcado para 7 de junho, ainda não tem resultado previsível.

Na Colômbia, cuja primeira rodada presidencial ocorrerá em 31 de maio, a fragmentação do campo conservador reduz as chances de que a direita mobilize um eleitorado unificado capaz de garantir vitória já no primeiro turno.

No Brasil, escândalos recentes envolvendo Flávio Bolsonaro podem fragilizar o campo conservador num momento em que a corrida ainda está empatada, o que sugere que uma vitória conservadora em outubro não tem nada de inevitável.

Nada disso significa que a onda conservadora esteja chegando ao fim. A Costa Rica elegeu Laura Fernández, candidata de direita, em fevereiro, e o bloco conservador ainda governa numerosos países do continente. Mas os desafios enfrentados por Kast, Milei, Paz e Noboa são um lembrete de que a força política mais poderosa na América Latina não é a guinada conservadora, mas o ceticismo e a impaciência em relação a quem governa.

Brasil: onde a informação estressa e deprime

O meu Brasil brasileiro, de repente, ficou óbvio e muito chato. O brasileirinho, aquele ser que acorda e vai à luta para fazer o seu país dar show em padrão de vida moderna, começa a ser metralhado por centenas de canais, por informações, mostrando, didaticamente, que tudo é feio, tudo está prestes a desabar, que o Rio de Janeiro ficou horrível e que o Dr. Pitanguy nunca melhorou a Ursula Andress.

Aí você fica sorumbático e sente uma vontade louca de se jogar no fundo de uma rede, depois que atravessou toda uma espessa colcha de espuma de chope das mais geladas, de torcer pela Argentina, dizer que o Vinny Jr é um perna-de-pau e que o Neymar, com 34 anos, é um velho caquético. Os fabricantes do “Caos” estão ganhando a briga e nós, os lutadores pelas boas maneiras, estamos levando de goleada.


Eu vou só dizer o que penso dessas encruzilhadas que estão nos submetendo, desde a hora que acordamos até a hora que voltamos para as nossas redes. É um método covarde de tratar como guerreiros vikings os alegres brasileiros que por aqui teimam em continuar vivendo.

E o pior é que o brasileiro já não sabe mais se assiste ao jornal, ao programa policial ou a uma reprise mal ensaiada do circo romano, onde todos torcem pelo leão. O sujeito liga a televisão para saber do preço do café e termina ouvindo sobre golpe, contragolpe, minuta, pizza, vazamento, delação, criptomoeda, dosimetria e até anatomia constitucional em praça pública. O cidadão queria apenas saber se a prestação da geladeira cabe no orçamento.

A famosa pizza nacional, aquela que antes era servida discretamente em fatias mornas nos fundos de Brasília, agora virou rodízio gourmet. Tem borda recheada, azeite importado e cobertura de lagosta institucional. O caso Vorcaro mostrou ao brasileiro médio uma aula prática de como funciona a culinária política: uns investigam, outros gritam, outros absolvem, outros jantam e, no final, a conta sempre chega para quem toma café sem açúcar porque o açúcar ficou caro.

E quando o povo começa a tentar entender alguma coisa, surge mais uma canetada monumental do arquipresidente Alexandre de Moraes, alterando dosimetrias como quem troca o pneu de um Fusca, num pega, no meio da Belém-Brasília. O brasileiro já não sabe se a lei é um trilho firme ou uma pista de patinação artística. Cada decisão produz vinte especialistas instantâneos, quarenta juristas de Instagram e duzentos vídeos explicando que “agora vai”. Nunca vai. O Brasil é a única nação onde o futuro não chega, nem cansado, antes do presente terminar.

Enquanto isso, o trabalhador brasileiro continua sendo o personagem mais humilhado desse grande teatro guarani. Ele acorda cinco da manhã, pega ônibus lotado, enfrenta calor de forno de pizzaria e ainda precisa ouvir que a culpa de tudo é dele porque tomou um financiamento de geladeira em 24 vezes. O Estado gasta como um príncipe árabe em liquidação de iates, mas exige do cidadão a disciplina de um Dalai.

Eles querem um povo permanentemente deprimido, assustado e obediente, como o cubano. Mas o brasileiro tem um defeito gravíssimo: teima em sobreviver sorrindo e gozando de tudo e de todos, como um brasileiro.

No fundo, o Brasil continua sendo um país extraordinário administrado emocionalmente como um grupo de condomínio brigando por vaga de garagem. Temos água, comida, energia, minério, floresta, criatividade e um povo capaz de transformar dificuldade em negócio e miséria em poesia de botequim. Uma máquina de moer esperança funcionando vinte e quatro horas por dia. A mesma máquina que cubanizou a América do Sul.

Cuba era o paraíso na terra até que uns infelizes a deflorassem e implantassem um regime onde só os palacianos pudessem viver. Os Vorcaros da época, roubavam e assaltavam barcos e bancos, para irem gastar nos belíssimos cabarés de Cuba. Aí, os deuses chegaram, destruíram até os cabarés. Cuba é o inferno. E querem ser exemplos.

E assim seguimos nós, os brasileirinhos comuns, tentando pagar boletos enquanto especialistas explicam o fim da República pela terceira vez na semana. O Brasil virou um país onde a informação já não informa: ela estressa, deprime, envelhece e adoece seu povo.

Mas cuidado. Um povo cansado também aprende. E quando o brasileiro começa a perceber que está sendo tratado como figurante no banquete dos poderosos, pode resolver sair da plateia. E aí, meu amigo, não haverá pizza requentada, canetada milagrosa ou comentarista histérico capaz de salvar o espetáculo.

Eu lembro bem dos dois discos em Long-Play do espetacular comediante do Acre, o José Vasconcelos: o primeiro foi ”Eu sou o espetáculo” e o segundo foi “O espetáculo continua”. O povo já está esperando o convite para reinterpretá-lo.

A tortura que os EUA viram no Brasil

Em passeatas e na porta dos quartéis, os “patriotas” pediram a volta da ditadura. Com alguns cúmplices, generais entre eles, Jair Bolsonaro cumpre pena por tentar um golpe de Estado. O capitão nunca escondeu seu apreço pelo regime militar. O livro “Olhares ianques: a ditadura brasileira nos arquivos norte-americanos”, de Felipe Loureiro, merece ser lido e decorado pelos bolsonaristas e simpatizantes da direita radical. Não é certo que a leitura os transforme em democratas — mas sempre há esperança.


Loureiro teve acesso a milhares de informações produzidas pela diplomacia americana lotada no Brasil. Alguns fatos já eram conhecidos, como a obsessão do embaixador Lincoln Gordon com o governo de João Goulart e o envio pelos Estados Unidos de uma fragata com soldados para apoiar os golpistas de 1964.

Os informes consultados trazem evidências capazes de ajudar na reconstrução do pior período da vida política brasileira. Entre eles, reportado nos telegramas, o pedido do presidente Emílio Garrastazu Médici para que os associados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) contribuíssem para equipar o DOI-Codi. Com a carta do ditador na mão, o portador, general Humberto de Souza Mello, pedia dinheiro. Alegou que o aparelho de segurança — leia-se repressão — custava caro. O DOI-Codi notabilizou-se pela tortura e morte de adversários do regime militar. Entre os vários assassinados, estão o jornalista Vladimir Herzog e operário Manuel Fiel Filho.

Diante do pedido de Médici, o presidente da Fiesp, Theobaldo de Nigris, tratou de mobilizar os empresários. De acordo com os documentos, os dirigentes de empresas americanas no Brasil concordaram em participar da “arrecadação”, apesar da oposição da embaixada. Os diplomatas receavam o possível vazamento da operação. Temiam que o governo dos Estados Unidos fosse envolvido na trama. Dirigentes da General Electric do Brasil, da DuPont e da Caterpillar não se mostraram convencidos e seguiram com a doação. Cerca de 20 empresas atenderam à convocação. Como cortina de fumaça, o dinheiro foi destinado a um pretenso “programa educacional” da Fiesp. Note o cinismo: pediram em troca nota fiscal para lançar no balanço.

Se havia dúvida a respeito do conhecimento de Médici sobre os sequestros, torturas no pau de arara, mortes e desaparecimentos de presos políticos, os telegramas trazem relatos de autoridades brasileiras corroborando sua conivência com a violência. O ministro da Justiça, Armando Falcão, em conversa com diplomatas americanos, contou que o governo Médici havia dado “carta branca” às forças repressoras na luta contra os “subversivos”. Era política de Estado.

Embora o regime negasse publicamente a tortura, um representante da embaixada, Richard Rock, registrou que foi convocado pelo general Antônio Bandeira a servir de intérprete na “sessão” de tortura de um preso suíço. Pendurado no pau de arara, ele sofria choques no corpo, e palmas dos pés e das mãos eram queimadas por cigarro.

Os americanos logo perceberam o fanatismo de alas militares na caça aos adversários do regime. Notaram ainda como a repressão havia se tornado caótica. Diferentes instâncias policiais sentiam-se autorizadas a realizar prisões a esmo. Foi o caso de um funcionário da embaixada, sem qualquer ligação política, detido por dois meses e torturado. Prisões de cidadãos comuns se multiplicaram Brasil afora.

Os relatos, quase sempre, traziam o nome de quem forneceu a informação. Na coleta, estavam o embaixador, seus secretários e adidos militares (leia-se: agentes da CIA). Os documentos reproduziam conversas com os ditadores, ministros, deputados, diversos generais e até motoristas dos militares narrando combinações ouvidas durante o trajeto de seus superiores.

Em encontro com o futuro presidente Ernesto Geisel, o general Mílton Tavares, comandante do II Exército, em São Paulo, relatou que, no ano anterior, 1973, haviam sido executados “sumariamente” 104 presos políticos. Ele aconselhou Geisel: tal política de repressão deveria ser mantida em seu governo.

A Comissão Nacional da Verdade apurou que 434 prisioneiros políticos foram assassinados ao longo da ditadura (1964-1985). Os americanos relataram que, entre 1968 e meados de 1971, ocorreram 800 mortes “misteriosas” pelo Esquadrão da Morte — número que não entrou no cômputo oficial. Dele fazia parte o delegado Sérgio Fleury, protegido e admirado pelo ministro do Exército, Orlando Geisel. Tinha “costas quentes”.

Era a ditadura que Bolsonaro queria de volta.

De Gutemberg a Zuckerberg

Da prensa de Johann Gutenberg, no século XV, às plataformas de Mark Zuckerberg, no século XXI, a história se repete: quem controla o meio tenta controlar a narrativa, a economia, a política e a própria percepção do que é real.

Quando Gutenberg adaptou a prensa de vinho para imprimir com tipos móveis, em 1440, ele não criou apenas um método mais rápido de reproduzir a Bíblia. Criou a primeira ruptura no monopólio da informação. Antes dele, o conhecimento vivia trancado nos mosteiros, copiado à mão por monges, em latim, a um custo que só a Igreja e a nobreza podiam pagar. Depois dele, os panfletos de Martinho Lutero circularam pela Europa em alemão e em milhares de cópias. A Reforma Protestante, a ciência moderna e até a ideia de Estado-nação devem muito àquela máquina.


O poder reagiu rápido. Vieram a censura real, o Index de livros proibidos e a exigência de licença para imprimir. Ficou claro desde então que comunicar é disputar poder. O telégrafo e o rádio, no século XIX e início do XX, levaram essa disputa para outra escala. A Reuters passou a vender notícias em tempo real porque encurtar o tempo era encurtar o lucro. O Império Britânico cabeou o mundo por uma razão estratégica: informação é logística militar.

Com o rádio, os governos descobriram que uma única voz podia entrar em milhões de casas ao mesmo tempo. Roosevelt conversava com os americanos no Fireside Chat, Getúlio Vargas criava a Hora do Brasil e Goebbels transformava o aparelho em instrumento de propaganda. Era o broadcasting clássico. Um falava, todos ouviam.

O Estado virou o grande emissor e o cidadão foi educado para ser audiência. A televisão consolidou esse modelo e acrescentou a imagem ao som. Nos anos 1960, quase todos os lares americanos tinham um aparelho ligado. No Brasil, a Rede Globo definiu não só um padrão técnico, mas um padrão narrativo para o país. A TV não precisava dizer em quem votar. Bastava definir sobre o que a família falaria no jantar. A mídia de massa entendeu que o poder mais eficaz não é o que proíbe, mas o que agenda. O consenso passou a ser fabricado diariamente, entre uma novela e um telejornal.

A internet prometeu quebrar essa lógica. No início, cumpriu em parte. Blogs, fóruns e redes sociais deram voz a quem nunca teve um microfone. Mas a promessa de horizontalidade durou pouco. Zuckerberg não inventou a rede social. Inventou um modelo de negócio que transforma atenção em mercadoria. O Facebook e, depois, toda a Meta perceberam que o poder não está mais em ter a gráfica ou a torre de transmissão. Está em ter o feed. A TV falava com milhões ao mesmo tempo. O algoritmo fala com bilhões, um por um, de forma personalizada.

As plataformas têm o histórico de cliques, a localização madrugada adentro, o tempo que o dedo leva para passar por uma postagem. A mediação agora é invisível. Na TV havia um editor com nome e rosto. No feed, o editor é uma equação que ninguém audita e que decide se o usuário verá uma guerra, a promoção de um tênis ou a briga de influenciadores. E o mais lucrativo, o algoritmo descobriu, é o conflito. Polarizar engaja mais que informar.

O poder, nesse novo arranjo, tornou-se extrativista. Extrai comportamento e vende a quem pagar mais. Gutenberg e Zuckerberg têm mais em comum do que parece. Ambos foram acusados de desestabilizar a ordem. Ambos criaram ordens novas. Ambos disseram estar apenas conectando pessoas. A prensa tirou o poder da Igreja e entregou aos reis e, depois, aos barões da imprensa. A rede tirou o poder da imprensa tradicional e entregou a um punhado de empresas no Vale do Silício. Toda revolução da comunicação começa com uma utopia de liberdade e termina capturada por um novo centro. A pergunta, portanto, nunca foi se a tecnologia é boa ou má. A pergunta é a serviço de quem ela opera.

A prensa imprimiu a Bíblia e também os libelos que derrubaram reis. O rádio unificou nações e também convocou massas para a guerra. O feed elege, cancela, derruba bolsa de valores e cria a sensação de realidade para bilhões de pessoas. O próximo capítulo dessa história não será definido por quem tiver o maior conglomerado de comunicação. Será definido por quem programar a inteligência artificial que alimenta o algoritmo.

Gutemberg imprimiu a Bíblia. Zuckerberg imprimiu o timeline. O projeto continua sendo o mesmo, divulgar a narrativa que vira realidade.
Fernando Flores

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 

Qual o próximo pretexto para o Holocausto?

 Vi o fim do fascismo. Foi bom. Vejo o fim do comunismo. É bom. E vi durante toda a vida como um e outro foram úteis para o ódio se cumprir. Mas finda a utilidade desses pretextos, que outro pretexto vai ser? Curamos os efeitos da doença, guardamos a doença para outra vez. É a reserva maior do homem, essa, a do mal, Há o que lhe é inevitável, mas não lhe basta. Cataclismos, traições do irmão corpo. Não chega. E a própria morte, que é a sua fatalidade, ele não a desperdiça e aproveita-a para ir matando mais cedo. Como a um animal do seu sustento. O homem. Que enormidade.

Vergílio Ferreira

Etelvina, acertei no milhar!

 Todo corpo contém massa (m) e energia (E). A energia não é algo que esteja dentro da massa; é a sua própria essência (como o calor e a luz, por exemplo). A massa é concreta, palpável e visível a olho nu; a energia é intrínseca a ela. Em física, massa e energia são equivalentes: E = mc². Uma pequena quantidade de massa corresponde a uma enorme quantidade de energia, pois a constante c² representa a velocidade da luz – um número muito grande – elevada ao quadrado.

Perdas de massa equivalem a perdas de Energia, ganhos também. O Sol perde cerca de 4 milhões de toneladas por segundo – de sua massa de 2 quintilhões de toneladas. A Energia que se desprende do Sol, na forma de luz e calor, leva 8 minutos para percorrer os 150 milhões de quilômetros que o separam dos chamados organismos vivos da Terra e que os alimenta.

Os organismos vivos da Terra apresentam capacidade de reprodução, regulada pelo equilíbrio ecológico. A massa de uma minúscula semente pode conter um embrião com nutrientes e instruções completas para gerar uma estrondosa árvore. A massa de um óvulo fecundado por um espermatozoide pode conter um embrião com nutrientes e instruções completas para gerar um mamífero (inclusive o assim chamado ser racional). E isso é tudo o que sabemos do mundo em que vivemos, de onde viemos e para onde vamos – ou seja, muito pouco. A origem de tudo isso, do Big Bang, do Universo, do hidrogênio, do Sol, dos organismos vivos e de quem aqui vos fala? Não sabemos! Continua sendo um mistério.

Apertem os cintos, porque, em um salto epistemológico e com liberdade poética, vamos aterrar nas humanidades. Você pode se sentir atraído e conhecer o corpo de uma pessoa – concreto, palpável e visível a olho nu –, mas dificilmente tem ciência de sua energia. É mesmo comum ouvir pessoas dizerem que passaram uma vida ao lado de outra, que não conhecem. O corpo de uma pessoa que temos à nossa frente (sua massa) corresponde a uma enorme quantidade de energia (não palpável, profunda, fora de nosso alcance).


A Revolução Industrial na Inglaterra, que inaugurou o capitalismo industrial e generalizou a mercadoria, produziu “maravilhas maiores do que as pirâmides do Egito”, progresso, riquezas, redução da mortalidade infantil, aumento da longevidade, desigualdades, guerras em proporções devastadoras, armamentos, bombas de hidrogênio, o antropocentrismo, poluição, desastres ambientais, aquecimento global etc. e propiciou a globalização do mundo sob o domínio da Europa e dos Estados Unidos, que, em 2020, agregavam apenas 14% dos 8 bilhões de habitantes do planeta – esta participação deve cair para 12% em 2050 e 10% em 2100. A China, que foi subjugada em meados do século XIX, está atualmente desafiando a hegemonia ocidental, com a utilização das armas do próprio ocidente, o mundo da mercadoria e o progresso.

Casar e ter filhos, até há pouco tempo, era parte da vida, da existência, que se fazia automaticamente, sem pensar. Historicamente, altas taxas de fertilidade acompanhavam as altas taxas de mortalidade infantil, que reduziam o número de filhos sobreviventes. A princípio, a fertilidade caiu, acompanhando a mortalidade infantil decrescente. Em 1950, a taxa de fertilidade na Europa registrava 2,7 filhos por mulher. Entretanto, independentemente da mortalidade infantil, a fertilidade continua caindo na Europa que, em 2020, registrou 1,5 filhos por mulher, muito abaixo do nível de reposição populacional, 2,1. Nos Estados Unidos, a taxa de fertilidade, 3,1 filhos por mulher em 1950, caiu para 1,6 em 2020.

A China, neste mesmo período, apresentou uma trajetória muito particular. Após a Revolução de 1949, quando o país somava 500 milhões de habitantes, o governo chinês considerou estratégico incentivar o crescimento populacional. A taxa de fertilidade na China, que antes da revolução era de 5,0 filhos por mulher, em 1963 atingiu 7,5. Nos anos 1960, o governo achou por bem inverter a sua estratégia bem-sucedida e resolveu incentivar o controle da natalidade. Durante a Revolução Cultural, rapazes e moças foram encorajados a canalizar as suas energias para a revolução e se abster de relações sexuais até os 28 anos, idade sugerida para o acasalamento – sexo antes do casamento era proibido, prostituição também. Em 1979, quando a sua população estava beirando um bilhão, a China implementou a política de filho único (com alguma tolerância na zona rural). A política de filho único foi relaxada em 2015, mas a taxa de fertilidade segue caindo, 1,3 filhos por mulher em 2020 e 1,0 filho em 2024.

Filhos, filhos? Melhor não tê-los!

Mas como sabê-los (sem tê-los), diria Vinícius de Moraes. Alan Grant, por sua vez, em Jurassic Park, diz que crianças são barulhentas, bagunceiras, custam caro e fedem.

Tradicionalmente, a identidade sexual biológica, masculina e feminina, era reforçada pela divisão sexual do trabalho, vestuário e normas de comportamento. Sexo e gênero eram uma só categoria e, em regra, homens e mulheres se acasalavam e procriavam – a esterilidade era temida e desprezada. O antropólogo João Paulo Lima Barreto, Yupuri entre os Tukanos do Alto Rio Negro, na introdução autobiográfica de sua premiada tese de doutorado, escreveu que, entre seu povo, quando criança, lhe diziam que “se eu me aproximasse da fabricação dos utensílios reservados às mulheres, iriam crescer feridas em minha barriga”.

A Revolução Industrial implodiu o mundo tradicional e a divisão sexual do trabalho. O capital, em sua racionalidade, instituiu uma divisão técnica e um mercado de trabalho que, democraticamente, emprega homens, mulheres e crianças. O capital não tem preconceitos e, de seu ponto de vista, todos são iguais, ou melhor, as diferenças podem ser comensuradas de acordo com o desempenho e o custo de cada categoria. A vida passou a ser governada pelo mundo da mercadoria, no trabalho, no consumo e em todas as suas outras possíveis dimensões. O mundo passou por um processo de urbanização, as famílias tornaram-se nucleares e ambos os cônjuges foram arregimentados para trabalhar diretamente para o capital.

As pessoas são hoje agentes econômicos a serviço do capital e as relações sociais passaram a ser mediadas pelo mercado, ou seja, foram instituídas relações materiais entre pessoas. O tradicional casamento e a procriação também tiveram que se subordinar à racionalidade do mercado. O indivíduo não é mais induzido a casar e procriar, pode agora exercer o livre arbítrio e estabelecer o planejamento familiar. Nos anos 1960, enquanto vivenciávamos a Revolução Sexual, o Vaticano insistia em associar o prazer sexual exclusivamente à reprodução. Na atualidade, contudo, mesmo a Igreja Católica adotou uma postura mais flexível.

Além do investimento financeiro com os filhos, perde-se muito tempo com o imprescindível investimento narcísico nos mesmos. Se a questão fosse meramente financeira, os ricos teriam mais filhos que os pobres. Mas é exatamente o contrário. No sambinha popularizado por Moreira da Silva, Barbolino, em sonhos, fica rico e resolve viver viajando – “E os nossos filhos, oh, que inferno; eu vou pô-los num colégio interno.”

Os jovens rebeldes dos anos 1950 costumavam enfrentar os pais dizendo que não pediram para nascer. Por outro lado, gerar filhos é uma afirmação pela vida, algo como pedir para ter nascido, ser militante da vida. A família e a geração de filhos passam atualmente por uma crise sem horizontes discerníveis. Qual será o impacto existencial dos desdobramentos desta crise?

Não sei se caso ou se compro uma bicicleta. Lado a lado, convivem frutos de concepções indesejadas – principalmente entre adolescentes, que em parte atendem à demanda por adoção – com os frutos das milionárias inseminações artificiais, que atendem aos casais estressados pelo ritmo de atividade insano a que a vida moderna nos induz, além de iniciativas eugênicas, “melhoria da raça”, eticamente questionáveis.

Os seres vivos nascem e morrem, mas a vida segue sendo imortal. Nas sociedades tradicionais africanas, chamar uma pessoa de indivíduo (sem família, não integrado ao coletivo, desenraizado) é insultuoso, enquanto, no ocidente, a individualização é a meta – a
individualização da massa do nosso corpo e da enorme quantidade de energia que habita cada um de nós.

Cumplicidade da mídia ocidental nos crimes de guerra de Israel é uma traição ao jornalismo básico

 O poder de narrar, ou de impedir que outras narrativas se formem e emerjam, é muito importante para a cultura e o imperialismo, e constitui uma das principais conexões entre eles

Edward Said


As plataformas de mídia ocidentais que demonstram tenacidade em manter uma relação de "baaskap" (relação de amizade/relacionamento) com os consumidores estão entre os muitos covardes da classe jornalística que regularmente "eliminam" o genocídio de Israel em Gaza.

“Baaskap” refere-se a uma filosofia política racista predominante durante o apartheid na África do Sul, semelhante à “suserania” colonial – ambas exercendo supremacia, poder e controle.

Ironicamente, apesar do domínio que exerce, os magnatas da mídia ocidental evitam antagonizar o regime colonial judaico de Israel.

Muitos fatores contribuem para o que melhor se descreve como "covardia", mas o principal é o medo avassalador da intimidação e das acusações de "antissemitismo".

Em suma, existe uma "regra" não escrita que dita o formato da cobertura jornalística relacionada a Israel – uma completa traição à ética do jornalismo. A erosão da confiança e da integridade decorre da autocensura, que minimiza a brutal realidade do horror infligido pelo regime de Netanyahu em Gaza.

O padrão de enquadramento é evidente na escolha de uma linguagem suave, bem como na omissão do contexto crítico.

Criticar a resistência palestina que marca o dia 7 de outubro de 2023 sem analisar décadas de ocupação ilegal por Israel, o bloqueio de Gaza que já dura 17 anos e o estatuto jurídico do território perante o direito internacional é extremamente injusto, tendencioso e enganoso.

De fato, pode-se argumentar que reportagens da mídia que começam com 7 de outubro, enquadrando a justificativa de Israel como uma “guerra justa” ou “contraterrorismo”, enquanto omitem o contexto histórico de ocupação, bloqueio e apartheid, seriam equivalentes a fabricar consentimento para o genocídio.

Na ausência de um contexto crucial, as plataformas de mídia atuam como câmaras de eco da Hasbara (propaganda) de Israel. Reportagens e comentários que surgem dessas omissões cruciais alimentam narrativas sionistas que buscam justificar o genocídio.

Sobre a questão da "linguagem amena", memorandos internos vazados de alguns veículos da grande mídia supostamente instruíam jornalistas a evitar ou restringir termos como genocídio, limpeza étnica e territórios ocupados.

Não há justificativa para o uso de termos como "massacre" e "carnificina" para descrever a retaliação palestina, enquanto termos neutros como "conflito" ou "explosões" são usados ​​para os bombardeios israelenses generalizados e implacáveis ​​contra civis palestinos.

É importante lembrar que o Instituto Lemkin para a Prevenção do Genocídio instou a mídia ocidental a parar de usar uma retórica que "protege ativamente" Israel da responsabilização por crimes internacionais.

É igualmente importante lembrar que, dias depois de 7 de outubro, o presidente de Israel, Herzog, disse que não eram apenas os militantes, mas “uma nação inteira” a responsável pela violência, e que Israel lutaria “até quebrar a espinha dorsal deles”.

Em 9 de outubro, o ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, referiu-se aos palestinos como "animais humanos" e afirmou que as forças israelenses estavam "agindo de acordo". Mais tarde, ele disse às tropas israelenses na fronteira: "Vamos eliminar tudo".

Em 16 de outubro, em um discurso formal ao Knesset israelense, o principal senhor da guerra do regime, Netanyahu, afirmou que a situação era “uma luta entre os filhos da luz e os filhos das trevas, entre a humanidade e a lei da selva”. Essa citação também foi publicada em sua conta oficial X, mas posteriormente foi apagada.

Apesar de a grande mídia ocidental ter contribuído para a criação de consenso em torno do genocídio em Gaza e dos assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada, a desumanização dos palestinos por políticos e soldados israelenses permanece, em grande parte, sem contestação por parte dela.

O recente fiasco em torno da descrição feita pelo Financial Times do deslocamento forçado e racista de palestinos na Cisjordânia pelo regime sionista como "anexação legal" é uma prova de que se está a tentar minimizar a limpeza étnica por meio da força militar violenta, que, segundo todos os relatos, é fundamentalmente criminosa de acordo com o direito internacional.

Não existe nenhum "mecanismo" ou "regulamento" legal que possa legitimar a tomada unilateral de território ocupado.

Em julho de 2024, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), a mais alta instância jurídica do mundo, proferiu uma decisão histórica: a presença de Israel no território palestino ocupado é ilegal.

O Tribunal Internacional de Justiça concluiu que Israel deve pôr fim à sua ocupação o mais rapidamente possível, cessar toda a atividade de novos assentamentos e evacuar todos os colonos.

A cobertura branda da destruição de vidas e propriedades permite que o regime de Netanyahu a disfarce como nada mais do que a autoridade civil burocrática exercendo poderes administrativos.

A cumplicidade da mídia volta a ocupar o centro do palco ao repetir acriticamente a narrativa ardilosa do regime, sem questionar os fatos que revelariam que tais violações visam tornar a anexação irreversível.

Permitir tal fracasso é ignorar relatórios da ONU do início de 2026 que confirmam que essa expansão deslocou à força mais de 36.000 palestinos em meio à crescente violência dos colonos, além de alertas de agências humanitárias de que essas políticas indicam um esforço concertado de transferência forçada em massa.

A omissão de fatos, contexto e a escolha da linguagem permitem a existência de um vácuo que persiste, reforçando os mitos sionistas.