quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Marcha para Jesus e a guerra dos deuses no Brasil contemporâneo

A Marcha para Jesus realizada em São Paulo no feriado de Corpus Christi de 2026 talvez tenha revelado menos sobre as próximas eleições e mais sobre as profundas e ainda pouco compreendidas transformações da relação entre religião e política no Brasil contemporâneo. À primeira vista, o evento repete uma cena já conhecida: lideranças evangélicas mobilizando multidões, políticos buscando proximidade com o eleitorado religioso, imprensa acompanhando os movimentos do tabuleiro eleitoral. Entretanto, uma leitura mais atenta das falas, dos símbolos e das narrativas que atravessaram a 34ª edição da Marcha revela algo mais complexo: a coexistência tensionada de três projetos distintos de compreensão da presença da religião no espaço público brasileiro.

Segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da ONG More in Common, o evento reuniu aproximadamente 33,8 mil pessoas, com margem de erro de 12%, o que situa o público entre 29,8 mil e 37,8 mil participantes. Mas os números, como sempre, dizem pouco sobre aquilo que realmente estava em disputa naquele espaço.

De um lado do trio elétrico, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato ao Planalto em 2026, declarou que o Brasil vive uma “guerra espiritual” e que “o mal vai ser expulso do governo do Brasil esse ano”. Cantou um hino gospel chamado Hino da Vitória e reverenciou Israel, causa cara ao eleitorado evangélico. Disse também estar ali “não como candidato, mas como cristão”, distinção que, na gramática política brasileira, costuma funcionar como um reforço, não como uma recusa, da candidatura.

Do outro lado, o advogado-geral da União, Jorge Messias, afirmou ter sido enviado pelo presidente Lula ao evento, não para fazer comício, mas para levar “amor, a palavra de amor e de comunhão”. Acrescentou que aquele não era “lugar para comício”. Messias, que é evangélico e presbiteriano batista, transitou pela Marcha em um canto do trio elétrico, isolado dos demais políticos, em posição que a reportagem da Folha de S.Paulo descreve como a de uma “minoria de esquerda entre as lideranças políticas no evento”.

Entre os dois, o apóstolo Estevam Hernandes, líder da Renascer em Cristo e fundador da Marcha para Jesus no Brasil desde 1993, proclamou respeito “a todas as diferenças e todas as crenças”, mas apontou um “único caminho a seguir: Jesus Cristo”. Descreveu o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes como “o governador e o prefeito da Marcha”, chamando-os de “servos de Deus”. Mas buscou ao mesmo tempo preservar a identidade religiosa do evento diante de sua crescente colonização pela política partidária.

Esses não são discursos intercambiáveis. São formas distintas e, em alguns aspectos, incompatíveis de compreender o lugar do sagrado na política.


Max Weber, ao analisar as tensões da modernidade, formulou um diagnóstico que permanece surpreendentemente atual: a racionalização do mundo não eliminou os deuses, mas os multiplicou. A “guerra dos deuses” não é uma disputa entre crentes e incrédulos. É a disputa permanente entre sistemas de valores, concepções morais e projetos de mundo que se tornam inconciliáveis à medida que a modernidade fragmenta a possibilidade de uma autoridade ética única e universal.

No Brasil contemporâneo, essa guerra dos deuses assume com frequência uma dimensão explicitamente religiosa. Família, sexualidade, autoridade estatal, direitos humanos e papel das instituições tornam-se campos de batalha simbólicos, nos quais diferentes visões de mundo disputam legitimidade não apenas no campo das ideias, mas no coração das decisões políticas.

A retórica da “guerra espiritual”, mobilizada por Flávio Bolsonaro na 34ª edição da Marcha, produz um deslocamento específico nessa disputa. Quando adversários políticos são apresentados como expressões do mal a ser expulso, a política deixa de ser o espaço legítimo do conflito democrático, onde diferentes projetos de sociedade se confrontam dentro de regras compartilhadas, e passa a ser compreendida como um combate entre forças transcendentais antagônicas. O adversário não precisa mais ser convencido ou derrotado nas urnas: ele precisa ser exorcizado.

Essa linguagem possui raízes profundas no pentecostalismo e no neopentecostalismo brasileiro, onde a “batalha espiritual” é uma categoria teológica consolidada. O problema analítico não reside na existência dessa crença no interior das comunidades religiosas, mas no seu deslocamento para o terreno da política institucional, onde a mediação democrática exige o reconhecimento da legitimidade do outro.

Essa operação não ocorre de forma improvisada.

Em artigo recente sobre o que denomina “cristofascismo brasileiro”, o teólogo e pesquisador Fábio Py analisa a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro como parte de uma narrativa religiosa deliberadamente construída. Segundo Py, o senador vem sendo apresentado como herdeiro de uma missão política que articula fundamentalismo cristão, bolsonarismo e uma vocação providencial herdada da trajetória paterna. O Natal é mobilizado como símbolo do chamado; a Páscoa, como símbolo de reconciliação e missão redentora. O calendário litúrgico converte-se em calendário político.

Na interpretação de Py, a carta pública divulgada por Jair Bolsonaro no Natal de 2025, entregando simbolicamente ao país o seu filho para a missão de “resgatar o Brasil”, não é apenas um gesto familiar ou eleitoral. Trata-se de uma construção simbólica que aproxima a narrativa política de categorias profundamente arraigadas no imaginário cristão, como chamado, missão, envio e redenção. A candidatura deixa de ser apenas uma candidatura. Passa a ser apresentada como vocação.

A Marcha para Jesus de 2026 parece representar mais um capítulo dessa narrativa. Não por acaso, Flávio Bolsonaro escolheu falar em “guerra espiritual” em um evento marcado pela celebração pública da fé cristã. A estrutura discursiva identificada por Py aparece novamente: a existência de um inimigo externo que ameaça a nação, a necessidade de unidade interna dos fiéis e a atribuição de uma missão redentora a uma liderança específica.

Essa lógica encontra paralelos nas análises de Theodor Adorno sobre as formas contemporâneas de autoritarismo. Para Adorno, a construção de inimigos absolutos é uma das características centrais dos movimentos autoritários modernos. A coesão interna do grupo depende da existência de um adversário que não deve ser apenas derrotado, mas moralmente deslegitimado. A distinção entre crítica política e combate espiritual dissolve-se. E com ela dissolve-se também a possibilidade do dissenso legítimo.

É importante, porém, distinguir planos analíticos. O conceito de “cristofascismo” proposto por Py é uma categoria forte, que remete a uma tradição específica da história europeia do século XX e demanda uso cuidadoso. O que a Marcha de 2026 permite observar com mais precisão é um processo mais amplo: a sacralização progressiva da política, na qual determinados projetos políticos passam a ser apresentados como expressão direta da vontade divina, tornando a crítica a esses projetos facilmente interpretável como perseguição religiosa.

É nesse contexto que emerge com força crescente a categoria de “cristofobia”.

Utilizada por setores conservadores para denunciar ataques e discriminações dirigidos contra cristãos, a categoria abarca situações reais e legítimas. O Brasil registra episódios documentados de intolerância religiosa contra cristãos, assim como contra religiões de matriz africana, comunidades judaicas, muçulmanas e outras tradições. O combate à intolerância religiosa, em qualquer direção, é imperativo democrático.

O problema analítico surge quando a categoria é ampliada indiscriminadamente para incluir críticas a projetos políticos que utilizam símbolos cristãos. Quando toda divergência com uma agenda política de inspiração religiosa passa a ser classificada como cristofobia, estabelece-se uma zona de imunidade discursiva. Questionar lideranças políticas torna-se equivalente a perseguir a fé dos fiéis.

O paradoxo é estrutural. Ao mesmo tempo em que determinados grupos cristãos reivindicam centralidade cultural e política na sociedade brasileira, e a Marcha para Jesus é, em si, uma demonstração impressionante dessa centralidade, apresentam-se frequentemente como vítimas permanentes de perseguição. Essa combinação entre posição hegemônica e retórica de vitimização constitui um dos recursos mais eficazes da mobilização política conservadora contemporânea, não apenas no Brasil, mas em contextos como os Estados Unidos, a Hungria e a Polônia.

A ausência física de Lula na Marcha e sua presença simbólica por meio de Jorge Messias colocam uma questão que merece ser tratada em seus próprios termos, sem reduzi-la a cálculo eleitoral.

O presidente comunicou, por meio do advogado-geral da União, que considera inadequado que o chefe de Estado se associe institucionalmente a um evento de uma religião específica, em respeito ao caráter laico do Estado brasileiro. Trata-se de uma posição coerente com a tradição republicana clássica: a laicidade não é hostilidade à religião, mas autonomia do Estado diante das diferentes confissões. O Estado não pertence a nenhuma.

A solução escolhida, enviar um representante evangélico com uma mensagem de proximidade, é ao mesmo tempo pragmática e ambígua. Ela permite ao governo manter um canal de diálogo com o campo evangélico sem associar formalmente a Presidência da República a uma manifestação religiosa específica. Mas é também uma solução que reconhece, implicitamente, a relevância política crescente desse campo.

O governador Ronaldo Caiado, que chegou à Marcha depois que Flávio Bolsonaro, Tarcísio e Ricardo Nunes já haviam deixado o local, afirmou a jornalistas que, se Lula tivesse comparecido, teria sido vaiado. A observação revela tanto a leitura política predominante em parte do campo evangélico quanto a dimensão do território simbólico atualmente em disputa.

As reportagens sobre a 34ª edição da Marcha para Jesus revelam uma dimensão que as análises centradas nos discursos políticos tendem a obscurecer: o que os fiéis, de fato, levavam àquele evento.

A tradição da palmilha, baixar no site da Marcha um papel com pedidos a Deus, imprimir, acomodar nos sapatos e caminhar os mais de três quilômetros entre a estação da Luz e o Campo de Marte, concentra uma verdadeira etnografia espontânea da religiosidade popular brasileira. Na palmilha esquerda, agradecimentos. Na palmilha direita, “pedidos impossíveis”.

A presbítera Edenik Anacleto, sobrevivente da tragédia de Brumadinho, foi à Marcha com “Deus no coração e nos pés”. A técnica em enfermagem Maria Alice Silva pediu sabedoria para ganhar o carro elétrico sorteado no evento e para recuperar o que havia perdido em jogos de azar. Fábio Martins acompanhou a Marcha em cadeira de rodas após um grave acidente de moto. Renan Pereira e Kayk dos Santos levaram súplicas ligadas ao trabalho e ao futuro profissional. Irene Aparecida Barbosa Cintra agradecia pela transformação da vida do filho, antes envolvido com o crime e hoje trabalhador e pai de família.

Esses pedidos revelam uma distância significativa entre a fé vivida pelas multidões e a fé instrumentalizada pela política. A religião popular presente na Marcha não estava mobilizada prioritariamente por disputas ideológicas. Estava preocupada com sofrimento concreto, esperança concreta, sobrevivência e mobilidade social. Enquanto políticos falavam sobre o destino da nação, boa parte dos participantes falava sobre o destino das próprias vidas.

Essa tensão entre a fé como experiência vivida e a fé como recurso político constitui, talvez, o núcleo mais importante do debate que a Marcha para Jesus coloca para a democracia brasileira.

A Marcha para Jesus de 2026 não foi, e nunca foi, um evento politicamente homogêneo. Ela é, antes, um espaço de convergência contraditória: nele coexistem pentecostais históricos e neopentecostais, fiéis de diferentes denominações, políticos de diferentes espectros e uma maioria silenciosa de crentes que levam suas vidas nos sapatos.

O apóstolo Estevam Hernandes, ao pedir respeito “a todas as diferenças e todas as crenças”, buscava preservar a Marcha como manifestação religiosa. Ao descrever Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes como “servos de Deus” e pedir orações para Jair Bolsonaro, fazia precisamente o oposto. Essa contradição não é acidental. Ela reflete a tensão constitutiva do movimento evangélico brasileiro entre sua vocação universalista e sua tentação de tornar-se instrumento de um projeto político particular.

A guerra dos deuses descrita por Weber não terminará. Diferentes sistemas de valores continuarão disputando corações e mentes. Projetos distintos de sociedade continuarão mobilizando símbolos religiosos e referências morais. O problema, como o próprio Weber identificava, não está na disputa em si. Ela é constitutiva da modernidade plural. O problema começa quando uma das visões em disputa deixa de reconhecer a legitimidade das outras e passa a tratá-las como inimigos espirituais a serem exorcizados, e não como adversários políticos a serem derrotados no debate democrático.

A laicidade republicana não exige que a religião desapareça da esfera pública. Ela exige que nenhuma tradição religiosa se converta em linguagem exclusiva do poder político e que as críticas a projetos políticos que instrumentalizam a fé não sejam suprimidas pela blindagem da cristofobia.

Porque quando Deus deixa de ser referência de transcendência para se tornar instrumento de governo, quando a guerra espiritual se converte em linguagem de poder, a guerra dos deuses corre o risco de se transformar em guerra entre cidadãos.

E nenhuma democracia sai fortalecida dessa transformação.

Como plataformas digitais transformam política em comportamento de enxame


“A colônia é o organismo. As formigas são apenas suas células.”
E. O. Wilson

Durante muito tempo, a ideia de inteligência esteve associada ao indivíduo. O ser humano racional, autônomo e consciente ocuparia o centro da ação política e social. Mas a natureza oferece exemplos desconfortáveis de sistemas altamente organizados nos quais o comportamento coletivo não depende da consciência individual de seus integrantes. Abelhas, formigas e cupins constroem estruturas complexas, distribuem tarefas, tomam decisões coletivas e defendem suas colônias, sem que exista propriamente uma consciência central coordenando cada ação individual.

A inteligência deixa de residir exclusivamente no indivíduo e passa a emergir das interações da rede.

Uma formiga isolada é quase incapaz de sobreviver por muito tempo. O que chamamos de “colônia” funciona, na prática, como um superorganismo distribuído, no qual cada indivíduo atua como uma célula de um sistema maior. A coordenação coletiva ocorre por meio de sinais químicos – os feromônios – que orientam trajetórias, organizam ataques, identificam inimigos e sincronizam comportamentos.

Mais do que simples comunicação, os feromônios produzem a coesão sistêmica. Eles permitem que milhares ou milhões de indivíduos operem como se compartilhassem uma única lógica organizadora. A colônia reage, adapta-se, defende-se e expande-se sem depender de consciência centralizada permanente.

Talvez seja precisamente esse o ponto mais inquietante da analogia contemporânea. Não porque seres humanos tenham se tornado, literalmente, insetos eusociais, mas porque plataformas digitais passaram a criar ambientes de hipercoordenação emocional capazes de progressivamente reduzir a autonomia cognitiva dos indivíduos em favor de dinâmicas coletivas de enxame.

Nos insetos eusociais, feromônios funcionam como a infraestrutura invisível da colônia. Eles indicam caminhos, acionam respostas defensivas, reforçam pertencimento e mantêm a coesão do grupo.

Nas plataformas digitais, memes, hashtags, vídeos curtos, áudios virais, correntes de WhatsApp e algoritmos de recomendação passaram a desempenhar função análoga. Não transportam substâncias químicas, mas sim estímulos emocionais sincronizados em tempo real.

Os feromônios das colmeias digitais são algorítmicos.

Em ecossistemas políticos radicalizados, o indivíduo opera raramente de maneira isolada. Sua percepção do mundo é continuamente reforçada por uma arquitetura comunicacional que combina indignação permanente, pertencimento tribal, repetição memética e hostilidade ao dissenso. A sociedade contemporânea passou a operar crescentemente por meio de estruturas de poder organizadas em redes digitais distribuídas, capazes de conectar comunicação, identidade e mobilização política em tempo real.

O radicalizado não é apenas alguém que possui determinadas opiniões. Ele se torna um nó de uma rede emocionalmente sincronizada. O indivíduo experimenta a redução da angústia ao dissolver sua singularidade em um corpo coletivo maior, no qual medo, responsabilidade e identidade passam a ser compartilhados. Décadas antes, Freud já havia observado que, nas massas organizadas, o indivíduo tende a suspender parcialmente suas capacidades críticas e a transferir sua autonomia psíquica para o grupo e para a figura do líder, produzindo formas intensas de identificação emocional coletiva.

Sua identidade política passa a depender do fluxo contínuo de estímulos provenientes da colmeia digital. Quando afastado desse ecossistema – grupos, canais, vídeos, cultos, lives, influencers e redes de reforço emocional –, parte significativa da intensidade do comportamento tende a enfraquecer.

Talvez por isso muitos processos contemporâneos de radicalização se assemelhem menos à conversão intelectual tradicional e mais à imersão ecológica em ambientes informacionais fechados. O indivíduo passa a respirar permanentemente a mesma atmosfera simbólica. Os mesmos medos, os mesmos inimigos, as mesmas palavras de ordem e os mesmos afetos circulam continuamente pela rede.

Aqui, a analogia com insetos eusociais deixa de ser mera metáfora estética e passa a adquirir dimensão estrutural. Em colônias de formigas ou cupins, o indivíduo não carrega internamente todas as informações necessárias para orientar seu comportamento. A inteligência encontra-se distribuída pelo sistema. O mesmo parece ocorrer em ecossistemas políticos fortemente mediados por plataformas digitais.

Nas colônias eusociais, diferentes castas desempenham funções específicas: defesa, exploração, manutenção e reprodução.

Em sistemas políticos altamente radicalizados, estruturas semelhantes emergem espontaneamente. Influenciadores digitais amplificam narrativas e produzem mobilização contínua. Pastores oferecem legitimação moral e transcendência simbólica. Militâncias digitais executam ataques coordenados contra adversários e dissidentes. Empresários e financiadores garantem sustentação material. Plataformas distribuem alcance e priorizam conteúdos emocionalmente mais explosivos.

Frequentemente, nem mesmo é necessário que exista uma coordenação explícita. O sistema aprende a se autorregular. Os participantes internalizam padrões de reação, reconhecem sinais de pertencimento e passam a responder automaticamente aos estímulos emitidos pela própria rede.

A lógica do enxame substitui progressivamente os mecanismos tradicionais de deliberação racional. A velocidade da circulação emocional passa a importar mais do que a verificação factual, a coerência argumentativa ou a reflexão crítica. O sistema privilegia respostas rápidas, o alinhamento afetivo e a sincronização grupal.

Talvez por isso determinados movimentos contemporâneos revelem enorme capacidade de mobilização instantânea e, simultaneamente, extrema dificuldade de convivência com o pluralismo, a dúvida ou a ambiguidade.

Como ocorre em sistemas imunológicos, o dissidente deixa de ser percebido como alguém que diverge. Passa a ser tratado como um corpo estranho. O debate deixa de ser concebido como confronto legítimo entre perspectivas distintas e passa a funcionar segundo lógica sanitária: eliminar contaminações simbólicas capazes de ameaçar a integridade emocional da colmeia.

A linguagem frequentemente assume características imunológicas: “infiltrado”, “traidor”, “vendido”, “comunista”, “globalista”, “herege”. O objetivo já não é debater, mas sim neutralizar elementos percebidos como uma ameaça à integridade simbólica da colmeia.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que movimentos de tipo sectário frequentemente apresentam enorme dificuldade de convivência com instituições pluralistas. Democracias dependem de dissenso legítimo. Colmeias, não. Como observou Hannah Arendt ao analisar os regimes totalitários do século XX, a destruição da pluralidade humana constitui condição essencial para sistemas políticos que buscam dissolver o indivíduo em identidades coletivas totalizantes.

Nas colônias de insetos eusociais, a rainha exerce papel biológico e organizador central. Sua presença mantém a estabilidade química e funcional do sistema. Quando a rainha desaparece ou perde a capacidade de coordenação, a colônia frequentemente entra em desorganização, disputa interna ou colapso gradual.

A analogia ajuda a compreender um dos dilemas atuais do bolsonarismo radical.

Desde a campanha de 2018, Jair Bolsonaro passou a funcionar não apenas como liderança política, mas sobretudo como o principal núcleo de coesão emocional do ecossistema bolsonarista. Em torno de sua figura convergiam ressentimentos, medos, crenças religiosas, teorias conspiratórias, antipetismo, militarismo e fortes mecanismos de pertencimento grupal.

Mais do que um programa político coerente, o bolsonarismo estruturou-se como uma arquitetura afetiva centrada no líder, simultaneamente referência moral, catalisador emocional e mecanismo de sincronização do enxame.

Mas sistemas altamente dependentes de liderança carismática enfrentam dificuldades quando o centro organizador se fragiliza.

Inelegibilidade, desgaste político, investigações judiciais, divisões internas e perda gradual de capacidade mobilizadora criam um problema estrutural: como preservar a coesão do enxame sem a presença plenamente funcional da “rainha”?

O sistema tenta responder distribuindo funções entre influencers, parlamentares, pastores, militares e plataformas digitais. Mas isso produz tensões permanentes de sucessão, competição e fragmentação.

Em ecossistemas desse tipo, a ausência progressiva da liderança central frequentemente não produz moderação. Pode produzir exatamente o contrário: radicalização crescente, disputas de pureza ideológica e proliferação de facções concorrentes tentando reivindicar a herança simbólica do líder original.

Em colônias naturais, a perda da rainha frequentemente desencadeia desorganização. Em sistemas humanos altamente polarizados, o enfraquecimento do centro organizador pode produzir paranoia crescente e busca desesperada por novos mecanismos de coesão.

Talvez o aspecto mais inquietante das colmeias humanas contemporâneas não seja apenas a existência de líderes carismáticos, mas também a infraestrutura tecnológica capaz de produzir sincronização emocional em escala planetária.

As colmeias digitais não emergem espontaneamente da sociedade. Elas são produzidas, moduladas e amplificadas por arquiteturas tecnológicas desenhadas para maximizar a captura da atenção, o engajamento emocional e a permanência nas plataformas.

Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes – e frequentemente menos discutidos – da nova ecologia informacional contemporânea. As plataformas digitais não funcionam apenas como meios neutros de comunicação. Elas operam como sistemas ativos de modulação comportamental.

Seu modelo econômico depende da atenção contínua dos usuários. E, nesse ambiente competitivo, conteúdos emocionalmente intensos tendem a possuir enorme vantagem adaptativa.

Indignação, medo, ressentimento, paranoia, escândalo e conflito geram mais compartilhamentos, mais comentários, mais tempo de permanência e maior circulação algorítmica. A própria lógica econômica das plataformas favorece, assim, dinâmicas de polarização emocional e sincronização coletiva.

As colmeias humanas do século XXI possuem infraestrutura corporativa. As plataformas não apenas hospedam enxames digitais. Elas possuem incentivos econômicos para produzi-los.

A radicalização política deixa então de ser apenas um fenômeno ideológico ou psicológico. Ela passa a integrar modelos de negócio baseados em vigilância comportamental, mineração de dados e engenharia algorítmica da atenção[††].

Nesse ambiente, algoritmos aprendem continuamente quais estímulos produzem maior ativação emocional nos usuários. O sistema identifica medos, preferências, vulnerabilidades, ressentimentos e padrões de comportamento, retroalimentando-os em ciclos sucessivos de reforço cognitivo.

Os feromônios das colmeias digitais são produzidos industrialmente.

Talvez por isso o comportamento de enxame contemporâneo apresente intensidade sem precedentes históricos. Nunca existiu, em nenhuma época, infraestrutura comunicacional capaz de sincronizar afetos, medos e reações de centenas de milhões de indivíduos em tempo real.

A arquitetura técnica das plataformas favorece respostas rápidas, impulsivas e emocionalmente carregadas. A reflexão lenta torna-se uma desvantagem competitiva em ecossistemas governados por velocidade, visibilidade e engajamento.

O próprio desenho das redes estimula mimetismo coletivo. Quanto mais compartilhado um conteúdo, maior sua legitimidade aparente. Quanto mais intensa a reação emocional, maior sua circulação algorítmica. O enxame aprende continuamente consigo mesmo.

Em consequência, plataformas digitais tendem a funcionar menos como espaços públicos deliberativos e mais como sistemas de amplificação emocional em larga escala.

Talvez seja precisamente essa combinação entre capitalismo de vigilância, arquitetura algorítmica e sincronização afetiva que esteja criando as condições para formas inéditas de eusocialidade simbólica entre humanos.

A tentativa de sincronizar emocionalmente grandes massas humanas não surgiu com as redes sociais. O século XX já havia testemunhado formas poderosas de coordenação coletiva mediadas por tecnologias de comunicação de massa.

Poucos exemplos foram tão emblemáticos quanto o uso político do rádio durante a consolidação do nazismo na Alemanha.

Sob a direção de Joseph Goebbels, o regime compreendeu precocemente que o controle da infraestrutura comunicacional seria decisivo para moldar percepções, emoções e pertencimentos coletivos. O rádio deixava de ser apenas um meio de informação. Tornava-se instrumento de sincronização social.

O governo nazista incentivou massivamente a produção do Volksempfänger – o “rádio do povo” –, aparelho de baixo custo projetado para ampliar o alcance da propaganda estatal. Discursos de Hitler, cerimônias públicas, marchas e palavras de ordem passaram a penetrar simultaneamente milhões de lares alemães.

A repetição contínua produzia um efeito cumulativo de imersão simbólica.

O indivíduo deixava progressivamente de perceber suas emoções como experiências privadas e passava a compartilhá-las coletivamente em tempo real. Medos, ressentimentos, humilhações nacionais, paranoias conspiratórias e promessas de redenção eram continuamente reforçados por uma ecologia comunicacional centralizada e altamente coordenada.

A tecnologia permitia transformar multidões dispersas em uma massa emocionalmente sincronizada.

No Brasil, o Estado Novo de Getúlio Vargas também compreendeu precocemente o poder das novas tecnologias de comunicação na construção de pertencimento político e da identidade nacional. Sob a direção de Lourival Fontes, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) coordenou uma vasta máquina de produção simbólica voltada à consolidação da imagem de Vargas como líder nacional e mediador paternal da sociedade brasileira.

Mais uma vez, o rádio desempenhou um papel central nesse processo. Discursos oficiais, programas culturais, campanhas cívicas e cadeias nacionais ajudavam a produzir uma sensação de simultaneidade emocional entre regiões social e culturalmente muito distintas do país. Ainda se tratava de uma lógica vertical, centralizada e unidirecional. Mas já era possível perceber o potencial das tecnologias de comunicação para transformar populações dispersas em comunidades afetivamente sincronizadas.

Outros regimes autoritários compreenderam rapidamente o mesmo fenômeno. Na Itália fascista, o rádio desempenhou papel central na construção do culto à personalidade de Mussolini. Na União Soviética stalinista, cinema, imprensa e radiodifusão foram utilizados para alcançar a homogeneização ideológica em escala continental. Durante a Revolução Cultural chinesa, megafones, jornais murais e sessões públicas de mobilização coletiva desempenharam funções semelhantes de sincronização simbólica.

Mesmo em democracias liberais, a expansão da televisão ao longo da segunda metade do século XX ampliou enormemente a capacidade de coordenação afetiva das sociedades contemporâneas. Guerras, eleições, crises econômicas e grandes eventos passaram a ser vividos simultaneamente por populações inteiras.

Da árvore ao enxame

Durante grande parte do século XX, os sistemas de comunicação de massa operavam segundo uma lógica essencialmente arbórea ou radicular. A informação partia de centros relativamente bem definidos – emissoras de rádio, jornais, redes de televisão, aparelhos de propaganda estatal – e se espalhava de maneira hierárquica pela sociedade.

Mesmo regimes altamente autoritários dependiam de estruturas relativamente centralizadas de emissão simbólica. O fluxo comunicacional possuía uma direção previsível: poucos falavam para muitos.

O rádio, a televisão e os jornais operavam predominantemente segundo a lógica unidirecional: poucos emissores transmitiam mensagens relativamente homogêneas para as grandes audiências.

As plataformas digitais introduziram algo qualitativamente novo.

O modelo contemporâneo aproxima-se menos de uma árvore hierárquica e mais de sistemas distribuídos de tipo enxame. A informação já não depende exclusivamente de centros fixos de emissão. Ela circula horizontalmente, replica-se em cascata, adapta-se continuamente e reorganiza-se em tempo real.

Elas combinam comunicação horizontal, vigilância comportamental contínua, personalização algorítmica e retroalimentação emocional em tempo real. Cada indivíduo passa a receber fluxos informacionais ajustados dinamicamente às suas vulnerabilidades cognitivas, preferências emocionais e padrões prévios de comportamento.

Nesse novo ambiente, memes, vídeos, hashtags, correntes de mensagens e algoritmos passam a operar de maneira funcionalmente semelhante aos feromônios das colônias eusociais: sinais simples, mas capazes de produzir coordenação coletiva altamente complexa.

O enxame deixa então de ser apenas massa mobilizada. Passa a funcionar como um sistema adaptativo autorregulado.

Talvez resida aí a singularidade histórica das colmeias digitais contemporâneas: pela primeira vez, as infraestruturas tecnológicas permitem a sincronização emocional massiva, sem a necessidade permanente de um comando central explícito.

O próprio sistema aprende, adapta-se e reorganiza-se continuamente.

A passagem da propaganda de massas clássica para a engenharia algorítmica do comportamento político talvez tenha alcançado sua expressão mais emblemática no caso da Cambridge Analytica, empresa britânica de consultoria política e análise de dados ligada ao estrategista norte-americano Steve Bannon e financiada pelo bilionário Robert Mercer, cientista da computação, investidor e importante financiador de organizações conservadoras e nacionalistas nos Estados Unidos. A empresa ganhou notoriedade internacional ao utilizar dados extraídos de redes sociais – especialmente do Facebook – para construir perfis psicométricos detalhados de milhões de usuários, identificando traços de personalidade, medos, vulnerabilidades emocionais e predisposições políticas.

O objetivo já não era apenas difundir propaganda homogênea para grandes audiências, como ocorria nos sistemas clássicos de comunicação de massa. Tratava-se agora de personalizar estímulos emocionais e mensagens políticas para segmentos específicos da população, explorando medos, ressentimentos e predisposições cognitivas de maneira altamente segmentada.

A Cambridge Analytica tornou-se particularmente conhecida por seu envolvimento nas campanhas do Brexit, no Reino Unido, e na primeira eleição presidencial de Donald Trump, em 2016. Steve Bannon, que integrava o conselho da empresa antes de assumir um papel central na campanha de Trump, enxergava nas novas tecnologias de microtargeting político uma ferramenta poderosa para intensificar a polarização, a mobilização emocional e o comportamento tribal em ambientes digitais.

O cientista de dados Michal Kosinski havia demonstrado anteriormente que padrões de comportamento digital – curtidas, compartilhamentos e interações –, aparentemente banais, permitiam inferir características psicológicas com surpreendente precisão. A perspectiva de aplicar esses métodos à disputa política chamou rapidamente a atenção de atores como Steve Bannon e da própria Cambridge Analytica.

A lógica da propaganda política sofria então uma mutação profunda. Durante grande parte do século XX, líderes, partidos e governos buscavam persuadir multidões. Agora passava a ser possível influenciar indivíduos específicos, explorando suas vulnerabilidades psicológicas de maneira personalizada. A propaganda deixava de ser massiva para tornar-se cirúrgica.

Ao mesmo tempo, autores como Eli Pariser passaram a alertar para o surgimento das chamadas “bolhas de filtro”, ambientes digitais nos quais algoritmos tendem a reforçar continuamente crenças, preferências e visões de mundo já existentes, reduzindo exposição ao contraditório e intensificando processos de radicalização cognitiva.

A lógica da propaganda política sofria então uma mutação profunda. Em vez de mensagens padronizadas irradiadas para toda a população, as plataformas digitais permitiam a microsegmentação contínua de estímulos emocionais adaptados a diferentes perfis psicológicos.

A comunicação política aproximava-se cada vez mais do funcionamento de sistemas eusociais distribuídos. O enxame já não precisava apenas ser mobilizado. Precisava ser permanentemente calibrado, estimulado e sincronizado em tempo real.

À medida que as plataformas digitais se tornam infraestrutura central da vida social, econômica e política, a disputa contemporânea pelo poder passa de modo crescente pelo controle dos fluxos de informação, vigilância e modulação comportamental.

As Big Techs deixaram de funcionar apenas como empresas de tecnologia. Tornaram-se arquiteturas privadas de coordenação social em escala planetária.

Diferentemente dos sistemas de propaganda do século XX, que dependiam principalmente de Estados nacionais, a nova infraestrutura informacional encontra-se concentrada em um número reduzido de corporações privadas capazes de operar simultaneamente em escala global. Pela primeira vez na história, empresas privadas dispõem de capacidade técnica para observar, classificar, segmentar e influenciar bilhões de indivíduos em tempo real.

A questão central deixa então de ser apenas quem controla o Estado. Passa a ser também quem controla as infraestruturas que moldam a percepção da realidade. Em sociedades cada vez mais mediadas por plataformas digitais, o poder de definir quais informações circulam, quais emoções são amplificadas e quais narrativas recebem visibilidade torna-se um dos principais instrumentos de influência política do século XXI.

Seu poder já não reside apenas na capacidade de armazenar dados, mas também de identificar padrões, antecipar comportamentos, modular preferências e influenciar dinâmicas coletivas em tempo real.

Empresas como a Palantir – originalmente associada a sistemas de inteligência, análise de dados e segurança – ajudam a revelar a crescente convergência entre vigilância algorítmica, inteligência artificial e poder político. O monitoramento contínuo de populações, fluxos financeiros, deslocamentos, redes de relacionamento e padrões de comportamento passa a integrar uma nova infraestrutura de gestão social baseada em dados massivos.

Em ecossistemas digitais altamente conectados, a vigilância e a modulação tornam-se processos inseparáveis. O sistema aprende continuamente não apenas a observar o enxame, mas também a influenciar sua direção, intensidade emocional e padrões de reação.

Talvez o maior risco contemporâneo não seja apenas a existência de colmeias humanas digitais, mas a crescente concentração privada da capacidade de produzir, monitorar e direcionar seus feromônios algorítmicos.

Talvez o aspecto mais inquietante das colmeias humanas contemporâneas não seja a existência de líderes carismáticos, mas a gradual dissolução da autonomia individual.

Plataformas digitais recompensam conformidade emocional, respostas rápidas, indignação permanente e pertencimento tribal. A reflexão lenta torna-se uma desvantagem competitiva dentro da lógica algorítmica.

A própria arquitetura técnica das redes favorece comportamentos miméticos. Conteúdos emocionalmente intensos recebem mais engajamento. O algoritmo amplifica reações rápidas. O pertencimento grupal gera recompensas psicológicas contínuas. A dissidência produz punição simbólica imediata.

Progressivamente, a política deixa de funcionar como espaço de deliberação e passa a operar como um circuito fechado de estímulos afetivos sincronizados.

Talvez estejamos assistindo ao surgimento da primeira infraestrutura tecnológica capaz de induzir comportamentos de enxame em escala planetária e em tempo real.

Nunca existiu democracia sem indivíduos capazes de sustentar pensamento autônomo diante da pressão do grupo.

Talvez o maior perigo das colmeias humanas do século XXI não seja a obediência imposta pela força, mas a entrega voluntária da própria capacidade de pensar ao conforto emocional da colônia.

Humanos não são formigas. Mas talvez as plataformas digitais estejam criando, pela primeira vez na história, condições tecnológicas para que parcelas inteiras da vida política passem a funcionar como se fossem.

A questão decisiva já não é apenas se estamos formando colmeias humanas. É quem controla seus feromônios.
Celso P. de Melo

Ira, emoções e a promessa de ‘Dark Horse’

As democracias contemporâneas se estabeleceram sobre uma concepção do cidadão como sujeito de razão. Tudo acontece como se só houvesse legitimidade em combater adversários políticos por meio de informações verificáveis e argumentos plausíveis. É o que faz uma democracia “civilizada”, conforme o legado europeu e iluminista que ainda organiza boa parte do nosso imaginário político.

Surpreende, assim, que certas informações – por mais escandalosas que sejam – não alterem de maneira significativa a orientação política da população. A informação conta, é certo, mas talvez não conte por tudo na arena política.

É possível que o jornalismo convencional não tenha, sozinho, todas as armas necessárias para enfrentar a expansão da extrema-direita no Brasil. A produção de informação rigorosa e a investigação jornalística seguem indispensáveis. Mas talvez não disponham da força mobilizadora que muitas vezes esperamos delas.

Por que será?

Uma pista pode estar no suposto blockbuster do bolsonarismo, o filme Dark Horse, anunciado como projeto de forte apelo político e identitário no interior do campo bolsonarista. Se este longa seguir o exemplo de outras grandes peças de propaganda política, dificilmente buscará convencer seu público com informações que este já não disponha. Seu papel mais decisivo será outro: satisfazer o prazer de ser bolsonarista.

Porque ser bolsonarista é, antes de tudo, um prazer. Um prazer de pertencimento.

O bolsonarismo, como o trumpismo e outros movimentos contemporâneos de extrema-direita, emergiu, como se sabe, em meio a uma sucessão de crises (institucionais, econômicas e ecológicas). Como lembra Elias Canetti em Massa e poder, são nesses contextos que movimentos de massa aparecem como promessa de proteção coletiva. Eles respondem ao medo do isolamento e da vulnerabilidade.

Pertencer a um grupo coeso e bem definido permite desfrutar de uma sensação de poder. A devoção ao líder não é vivida como submissão, mas como uma forma de canalização da energia coletiva para enfrentar as ameaças e realizar o impossível.

Dark Horse parece operar justamente nesse registro: desenhar o horizonte do impossível tornado possível e converter a frustração coletiva em energia organizada.

Daí o êxito do bolsonarismo e de seus meios de comunicação: constituir um estoque de ira – para usar uma expressão de Peter Sloterdijk –, acumular ressentimentos e frustrações, alimentar a percepção de injustiça, despertar o desejo de vingança e cristalizar essas emoções em uma narrativa compartilhada que aponta para a conquista final.

O “núcleo duro” do bolsonarismo é identitário. Ele não se alimenta prioritariamente de informações – às quais pode permanecer impermeável –, mas de uma estética de grupo.

Vestir verde e amarelo, vociferar os lemas conservadores, declamar o ódio aos opositores, desafiar as autoridades, manifestar desprezo pelas instituições, demonstrar lealdade ao líder sob quaisquer circunstâncias são atos e atitudes que constituem uma linguagem política distinta da linguagem jornalística ou do debate institucional. São expressões de poder.


A violência, como linguagem, expressa independentemente de seu conteúdo informacional uma identidade coletiva. Ela marca uma diferença radical e fortalece os elos do grupo.

Dark Horse é, e será, um filme de congregação que permite a expressão dessa violência ritualizada, seja pelas representações ou pelas reações previsíveis do público. Independentemente de seu sucesso comercial ou de seu mérito artístico, ele já é um filme operacional. Em torno dele se constitui uma forma de cooperação intensa do bolsonarismo. Enquanto elemento de confrontação pública com os grupos adversos, o filme é um acelerador de solidariedade identitária e um instrumento de violência programada.

O que quer que digam seus críticos, o longa-metragem funcionará como uma tecnologia social de coesão pelo conflito. Ele demonstra a função primordial da comunicação política bolsonarista: permitir a expressão e o reconhecimento mútuo dos membros ativos e multiplicar as ocasiões de grande intensidade emocional partilhada. Diante de tal tecnologia social e política, as considerações sensatas das instituições democráticas são totalmente impotentes. O apelo à moderação ou ao bom senso não dialoga com essas estruturas de mobilização afetiva.

Talvez isso nos obrigue a repensar de maneira mais profunda o papel das emoções na democracia.

Há uma longa tradição de desqualificação política das emoções. No cenário atual do Brasil e do mundo, busca-se muitas vezes atribuir a expansão do neofascismo à intensa circulação, por via de algoritmos, de apelos emocionais e narrativas que conduzem ao “fanatismo”. No entanto, a história mostra algo mais complexo.

As acusações de fanatismo não recaíram historicamente apenas sobre movimentos autoritários e fascistas: também foram dirigidas a formas populares de mobilização que escapavam ao repertório político dominante e não se alinhavam com um certo conceito de civilização. Em particular na época colonial, fanáticos eram aqueles movidos por energias políticas consideradas irracionais e, portanto, marginalizados.

No cenário político atuam forças que as instituições democráticas nem sempre reconhecem. De Gandhi aos coletes amarelos, a história do mundo moderno nos ensina que a criatividade política é também estética. As forças coletivas que movem as democracias são afetivas, dionisíacas, e não apenas discursivas ou informacionais. Elas dependem de ritmos, melodias, danças, cores, rituais, êxtases, ídolos, agrupamentos, festas e processos identitários.

É preciso mais do que a informação para mobilizar energias capazes de desintegrar o bolsonarismo. Não há convulsão política sem a mobilização ativa de emoções inconscientes.

Cabe sobretudo ficarmos atentos à criatividade popular. É dela que devem surgir os motes de uma estética política que mina o bolsonarismo. A primavera dos povos emerge nas periferias do mundo civilizado. Os mais bem formados e informados nem sempre estão preparados para ouvir seu despertar.

Vocês da imprensa na Copa de Infantino

Antes de mais nada, permitam-me apresentar este novo espaço, que vou ocupar nas quintas de Copa. A ideia é trazer um pouco da visão de vocês da imprensa de outros países sobre esse evento que mobiliza o mundo. You from the press, na Inglaterra, vão voltar a se considerar candidatos ao título por terem inventado o futebol ou ceder ao pessimismo que é o passatempo nacional? Ustedes de la prensa, na Argentina, ainda estão de barriga cheia com a conquista de 2022? E vous de la presse, no Marrocos, acreditam mesmo que são favoritos na estreia? Sim, um jornal de lá publicou que quem tem de se preocupar é o Brasil.

A manchete que escolhi para ilustrar este primeiro texto está escrita em inglês num jornal francês. O "Welcome to the USA" do L'Équipe contém ironia, como se pode perceber pelas ilustrações: o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, que levou cartão vermelho da polícia de fronteira dos Estados Unidos, mostra um amarelo – talvez para Donald Trump, que tem o troféu numa das mãos e uma marionete de Gianni Infantino na outra. "A Fifa fecha os olhos diante da política migratória americana", escreve Frédérique Galametz no editorial dessa edição. A partida de abertura é no México (que vem dando seu costumeiro show de hospitalidade), o Canadá também terá as suas, mas as críticas se concentram no principal país anfitrião.


A Copa de 2026 poderia ter como marco a volta do evento a países democráticos – o último foi o Brasil de 2014, que, como os Estados Unidos de hoje, vivia na época uma crise política capaz de ameaçar a própria democracia. Mas nem aqui, nem nos regimes autoritários da Rússia e do Catar, houve restrições como as que o governo Trump impôs até mesmo aos participantes da competição. Em artigo no jornal inglês The Independent sobre a deportação do árbitro, Miguel Delaney (torcedor do Nottingham Forest, como meu amigo Jorge Luiz Rodrigues) devolve essa responsabilidade à entidade máxima do futebol: "A Fifa está esquecendo suas regras e seus valores."

Regras, vá lá; mas valores? A pergunta, cínica porém pertinente, não foi feita diretamente, mas percorre o perfil “A Copa do Mundo segundo Gianni Infantino”, que Sam Knight escreveu para a revista The New Yorker (as tentativas que os veículos tradicionais de comunicação dos Estados Unidos estão fazendo para entender o futebol da bola redonda e seu maior evento produziram alguns dos textos mais interessantes do período pré-Copa). Knight é inglês, chama o soccer de football e se declara um torcedor apaixonado logo na abertura, mas no dia a dia se dedica à cobertura de eventos políticos e sociais, como o Brexit e a morte da Rainha Elisabeth II. O presidente da Fifa é descrito por ele como um filho de imigrantes pobres que, depois de fazer sucesso como executivo na Uefa, se viu diante de uma oportunidade única: tornar-se o dono da bola no planeta.

Os valores que usou para se eleger e se manter no cargo, segundo Knight, não foram morais, mas financeiros. Uma fonte anônima citada na reportagem diz que Infantino ofereceu como resposta à crise de corrupção na Fifa a possibilidade de todo mundo na entidade ganhar mais dinheiro. Nunca viu qualquer problema em se associar a governantes autoritários para isso; usou o combate ao eurocentrismo como justificativa para levar a Copa à Rússia (que não se sente europeia e alega que a invasão da Ucrânia é uma guerra moral contra o Ocidente) e ao Catar; bate incessantemente na tecla de que o futebol une os povos; e pergunta aos assessores mais íntimos por que os jornalistas são tão cruéis com ele.

O autor do perfil não responde. O da coluna, muito menos.

Soberania e segurança: um falso dilema

A crise da segurança pública transformou-se numa das principais questões políticas da América Latina. México, Colômbia, Equador, Venezuela, Honduras e El Salvador convivem há anos com organizações criminosas que desafiam a autoridade do Estado, controlam territórios, corrompem instituições e impõem regras próprias a milhões de cidadãos. Não por acaso, diversos desses grupos foram enquadrados como organizações terroristas pelo governo de Donald Trump.


O Brasil ingressou recentemente nessa lista com a decisão americana de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida provocou controvérsia política e jurídica, mas não pode ser analisada isoladamente. Ela faz parte de uma estratégia dos Estados Unidos que passou a tratar o narcotráfico e o crime organizado transnacional como ameaças à sua segurança nacional.

No Brasil, porém, a discussão rapidamente foi contaminada pela polarização. De um lado, setores governistas passaram a apresentar a medida como ameaça à soberania nacional. De outro, a oposição procurou transformá-la em evidência do fracasso das políticas de segurança do governo Lula.

O primeiro fato é que o Brasil enfrenta um fracasso histórico no enfrentamento do crime organizado. Ao longo das últimas décadas, facções deixaram de ser organizações voltadas ao tráfico de drogas para se transformar em estruturas empresariais sofisticadas, com atuação nacional e internacional. Controlam rotas de tráfico, operam esquemas de lavagem de dinheiro, infiltram-se em atividades econômicas legais e exercem domínio territorial sobre comunidades inteiras.

O crescimento das facções não é apenas um problema policial. É uma evidência de que o Estado brasileiro falhou, durante décadas, em exercer plenamente sua autoridade em partes relevantes do território nacional.

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que organizações criminosas exercem influência direta ou indireta sobre milhões de brasileiros. Em muitas regiões, o Estado perdeu o monopólio efetivo da força. Quem impõe regras de convivência, controla atividades econômicas e regula conflitos locais não é a autoridade pública, mas o poder paralelo.

A responsabilidade por essa deterioração é compartilhada por sucessivos governos. Ainda assim, é difícil ignorar que a expansão das facções ocorreu justamente no período em que o país conviveu com estratégias frequentemente fragmentadas e hesitantes de enfrentamento ao crime organizado, abrangendo administrações de diferentes orientações políticas, inclusive os 18 anos de governos petistas desde 2003.

O Brasil, contudo, não está sozinho nessa trajetória. O mesmo fenômeno ocorreu em diversos países latino-americanos. E foi precisamente essa incapacidade de conter o avanço do crime organizado que abriu espaço para o surgimento de lideranças que se apresentam como restauradoras da ordem.

Em praticamente toda a América Latina, o avanço da criminalidade ampliou o espaço político de candidatos que prometem repressão mais severa, mesmo quando suas propostas afrontam garantias constitucionais e princípios do Estado de Direito.

É sob essa perspectiva que deve ser analisada a decisão americana de classificar facções brasileiras como organizações terroristas.

O exemplo mexicano é instrutivo. Ao mesmo tempo em que rejeitou qualquer hipótese de intervenção estrangeira, o governo mexicano preservou mecanismos de cooperação com os Estados Unidos nas áreas de inteligência, lavagem de dinheiro e combate às redes internacionais do narcotráfico.

Trata-se de uma postura pragmática. O México não abriu mão de sua soberania, mas tampouco recusou instrumentos capazes de fortalecer sua capacidade de enfrentamento ao crime organizado.

O Brasil deveria seguir caminho semelhante. Especialistas em segurança pública apontam que a cooperação internacional pode gerar ganhos importantes no rastreamento de recursos ilícitos, bloqueio de ativos e desarticulação de redes financeiras transnacionais.

O governo Lula, entretanto, parece ter optado por enfatizar prioritariamente a narrativa da soberania nacional. Trata-se de uma estratégia que possui evidente dimensão política e eleitoral. O risco é ignorar que a principal preocupação dos brasileiros hoje não é a diplomacia, mas a segurança.

Para quem vive em áreas controladas por facções, a soberania ameaçada não é apenas a do Estado brasileiro diante dos Estados Unidos. É a soberania cotidiana do cidadão: o direito de ir e vir, de empreender, de circular sem medo e de viver protegido da extorsão e da violência.

Quando o Estado deixa de exercer plenamente sua autoridade, a discussão sobre soberania deixa de ser apenas diplomática e passa a ser também uma questão de governabilidade interna.

A defesa da soberania nacional é uma causa legítima. Mas ela perde força quando ignora a soberania dos brasileiros comuns.

O verdadeiro desafio do país não é escolher entre soberania e segurança. É compreender que uma depende da outra. Nenhum Estado pode se considerar plenamente soberano quando já não exerce integralmente sua autoridade dentro de suas próprias fronteiras.


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Universo sem deus

Muitas vezes sinto que a religião, como o sol, extinguiu as estrelas de menos brilho, mas não menos beleza, que cintilam sobre nós na escuridão de um universo sem deus. 

O esplendor da vida humana, tenho certeza, é maior para os que não estão ofuscados pela irradiação divina; e a camaradagem humana parece se tornar mais íntima e mais terna com a percepção de que somos todos exilados numa margem inóspita.
Bertrand Russell

As mulheres que aplaudem Flávio Bolsonaro

“Pra ser petista, das duas uma, ou faltou proteína ou falta caráter”. A médica Claudia Leite estava entre amigas que aguardavam a abertura do salão para o encontro “Brasil de Ideias Mulher - Eleições”, o primeiro de uma série com os candidatos à Presidência, com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no hotel Tangará, zona sul de São Paulo.

A zanga se dirigia a duas pessoas que ocuparam uma mesa do restaurante Quattrino, nos Jardins, durante um show, no sábado, do comentarista de direita argentino Gustavo Segré, autor da canção “Janjo e Janja”. A dupla protestou, destoando da maior parte da audiência que os pôs para correr. “Foi um sinal de que ele [Segré] está incomodando”, comentou Vera Renzo, empresária de turismo, arriscando um palpite sobre o potencial destrutivo do comentarista argentino, titular de um quadro “Faroeste à Brasileira”, na Revista Oeste.


Quando o salão abriu, os scarpins se puseram em marcha, mas o senador chegaria quase uma hora depois do horário marcado, acompanhado da esposa, a dentista Fernanda Bolsonaro. Ele de terno azul, sem gravata, ela de tailleur areia com debrum preto.

Na mesa do pré-candidato, além de Karim Miskulin, do grupo Voto, promotor do evento, ficaram Raquel Reis, CEO da SulAmérica Seguros de Saúde, Loren Spíndola, executiva da Philip Morris, e Misa Antonini, CEO do grupo G4 Educação. Nas mesas do salão tomaram assento de dirigentes de empresas, como Claudia Cohn, CEO da Alta Diagnósticos, a diretoras de Assuntos Corporativos, como Juliana Marra, da Unilever, passando por donas de restaurantes, como Sophia Lins (La Cuisine), joalheiras, como Lydia Sayeg (Casa Leão), e integrantes de grupos como o “Clube da Lu”, fundado por Lu Chelegao, especialista em “psicologia positiva” e coordenadora do livro “Mulheres curadas que curam gerações”.

Anette Rivkind, diretora comercial da Breton, fábrica de móveis com 22 lojas por todo o país, oferece a cadeira ao seu lado. Mostra sua foto com Jair Bolsonaro, quatro anos atrás, quando o ex-presidente levou 135 mulheres ao evento que, nesta segunda, atrairia 184. Preferia o pai, mas Flávio é o que se tem à mão para enfrentar “o outro lado que rouba muito e não deixa a gente trabalhar”.

Três mulheres precederam a fala do senador. A primeira foi Misa Antonini, que chegou ao cargo de CEO da G4 Educação depois que Tallis Gomes, fundador e ex-CEO do grupo, declarou, na campanha de 2024, quando apoiou Pablo Marçal: “Deus me livre de CEO mulher”. A executiva disse que os empresários brasileiros são os “verdadeiros heróis” do país e se assemelham a baratas - “porque a gente nada, voa e passa por baixo da porta”. Tascou um “está struggling” (lutando, em inglês) para definir sua atuação.

Apelou, finalmente, ao presidente inaugural do neocon americano, para definir a opção que aquela plateia teria em outubro para reverter o que chamou de “situação impraticável”: “[Ronald] Reagan dizia que, para uma boa opção, basta concordar com 80% do que o candidato fala”.

A expositora que se seguiu, Claudia Scarpa, vice-presidente da Starr, multinacional de seguros para viagem, valeu-se do número anual de turistas na República Dominicana, 11 milhões, maior do que o do Brasil, para pedir segurança, infraestrutura e educação.

Karim Miskulin lembrou o evento de 2022, quando reuniu um grupo mais restrito de executivas com Jair Bolsonaro. Dois anos depois, seu grupo também promoveria o “1 Forum Jurídico: Brasil de Ideias”, no hotel “The Peninsula”, em Londres, com o patrocínio da Souza Cruz, hoje “ British American Tobacco Brasil ”, uma mesa apoiada pelo Master e a presença de três ministros do STF: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.

Karim registrou a defasagem entre a condição majoritária das mulheres no eleitorado e seus cargos de poder antes de dirigir, ao senador, quase um apelo de reconhecimento àquela plateia: “Como um país como o Brasil que quer crescer consegue desperdiçar tanto talento”?

Flávio Bolsonaro decantou a presença de mulheres no seu gabinete e no seu programa de governo - Daniela Marques, secretária-executiva do ex-ministro da Economia Paulo Guedes, estava presente - antes de se dirigir à mulher: “E ali está minha gata, quem transformou o menino em homem foi ela”.

Ao longo de quase duas horas, não se ouviu falar de “Dark Horse” ou Daniel Vorcaro, mas o senador achou por bem se vacinar contra as “narrativas”. Foi aplaudido quatro vezes. Apresentou-se como “empreendedor”, a exemplo da maioria das mulheres presentes, reivindicou o maior investimento das empresas brasileiras em “compliance” como decorrência da denominação de “terroristas” para o PCC e o CV, relatou sua visita a El Salvador para conhecer sua política de segurança. Disse ainda que o roubo de celulares está tão desenfreado que as mulheres “não têm autonomia sobre sua bolsa” e prometeu suspender a reforma tributária. Foi a maior salva de palmas.

Karim lhe perguntou quem seria seu ministro da Economia. “Ou será ministra?”, retrucou. Daniela Marques sairia quase ministra do encontro. “Estou com um bebê de um ano”, despistou. A representante da associação das escolas abertas, Lana Romani, que defendeu a retomada das aulas durante a pandemia, relembrou uma ida ao Palácio do Alvorada às 6h para falar com Bolsonaro, e disse ao filho que o forte da direita não é se comunicar com as mulheres.

“Mulher é mais sensível e distribui mais amor”, disse Flávio antes de se dirigir para a mulher: “Sem você seria impossível”. Fernanda lhe devolveria o afago com os polegares e indicadores fechados em formato de coração.

Que país constróis?

Porque tens nos olhos
o sol
e o mar…

Porque tens nos olhos
o rio
e também:
o riso
e o fogo

Porque tens no ventre
a raiz de todas
as crianças…

que país constróis
diariamente?

Maria Teresa Horta, "Mulheres de Abril"

Interesses do Brasil devem prevalecer sobre amizade com Trump

Nunca me senti confortável com a importância que a imprensa dá à proximidade dos candidatos com Trump. Tanto a fidelidade canina da família Bolsonaro como a química que o uniu a Lula enfraquecem uma análise mais fria sobre interesses dos dois países.

Compreendo que Lula tenha certo orgulho da simpatia de Trump. Afinal, o poder de sedução atravessou barreiras ideológicas confirmando seu prestígio internacional. Na hora do vamos ver, a situação se revela com toda a crueza. Ao apresentar sua política para o continente, os Estados Unidos fizeram uma grande reunião na Flórida. Foi lançado o Escudo das Américas, aliança contra o crime organizado e imigração ilegal. O Brasil ficou de fora, assim como Colômbia e México. Em discurso no Congresso, Marco Rubio nomeou os países que não se alinhavam com a política americana. Entre eles estava o Brasil.


É nesse contexto que temos de analisar alguns movimentos da política em relação ao nosso país. Um deles, a classificação de terrorismo imposta a PCC e Comando Vermelho. Não foi uma decisão importante para uma política de Estado. Vinha sendo avaliada havia muito tempo. Mas a oportunidade de sua oficialização deu uma pequena ajuda ao pré-candidato Flávio Bolsonaro, sem dúvida preferido dos americanos. A preferência explícita acabou trazendo grande desgaste a Flávio quando se anunciaram novas tarifas.

Embora seja um discurso muito eficaz de campanha, as tarifas não foram feitas para a família Bolsonaro. Não se pode analisá-las sob essa ótica de quarteirão, como se fossem obra dos Bolsonaros, dos Morales, dos Bertrands, dos Millers, dos Johnsons. Elas são uma política global de Trump. Já foram tentadas de forma autoritária e anuladas pela Suprema Corte. Agora, Trump volta à carga, usando a seção 301 de uma lei comercial para dar verniz legal a sua determinação.

Há muita coisa injusta nas razões que punem o Brasil. Uma delas é a denúncia de trabalho forçado, algo muito combatido num governo de esquerda, assim como o desmatamento. Os americanos não parecem muito preocupados com precisão nem coerência. Tanto que, no caso da carne, abrem uma exceção. Se o trabalho forçado é para produzir carne, então tudo bem.

É evidente que tudo isso será processado pelas narrativas eleitorais. Mas o Brasil precisa manter um olhar frio e uma prática profissional para atenuar o impacto das medidas e compreender a realidade americana como ela é. Nessa luta planetária contra o poder ascendente da China, os americanos podem passar por várias fases.

Nem a devoção da família Bolsonaro nem a química entre Trump e Lula são proteções estratégicas. Precisamos discutir caminhos, e eles estão um pouco ofuscados no valor cultural da amizade, algo que cultivamos no Brasil. Entre países, não há amigos, apenas interesses. Não significa que devamos abandonar o bom humor e a abertura para novas amizades. Sempre ajudam.

Racistas à prisão: Brasil na luta contra a discriminação racial

Quando a Comissária Rita Salim, da Polícia Civil do Rio de Janeiro, chega ao seu escritório pela manhã, sabe que duas ou três pessoas aparecerão ao longo do dia relatando terem sido vítimas de racismo . Algumas se atrevem a fazê-lo após uma vida inteira de discriminação por causa da cor da pele. “Muitas vítimas vêm quando não aguentam mais, quando o copo está vazio”, diz ela em entrevista em seu escritório. É uma cena triste e, ao mesmo tempo, esperançosa. O véu de silêncio e vergonha que historicamente encobriu esse tipo de discriminação está desaparecendo. O Brasil registrou mais de 7 mil denúncias de racismo em 2025, 67% a mais que no ano anterior.

Especialistas interpretam isso como o início do fim da subnotificação e atribuem o fato a uma combinação de fatores: leis robustas, uma força policial mais bem treinada e, sobretudo, maior conscientização social. O Brasil, último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, possui hoje as leis antirracistas mais avançadas do continente.


Para alguns turistas, isso é uma surpresa. A argentina Agostina Páez foi presa por chamar um funcionário negro de “macaco” e imitar o animal para insultá-lo em um bar. “Há uma lei muito rigorosa no Brasil”, disse ela ao retornar para casa após dois meses em prisão preventiva em um apartamento e depois de pagar fiança de US$ 20.000 para poder voltar à Argentina. Ela agora aguarda julgamento.

Nos últimos meses, multiplicaram-se os casos de estrangeiros presos por racismo. O mais recente envolve mais um argentino que, em um trem turístico, fotografou uma criança e brincou dizendo que queria levá-la para casa como escrava . Ele está atrás das grades há quase duas semanas. Pela lei brasileira, tais palavras são puníveis com pena de dois a cinco anos de prisão. A pena pode ser dobrada se o crime for cometido em grupo ou se for divulgado nas redes sociais.

A delegacia chefiada por Salim é especializada em crimes de racismo e outras formas de discriminação (contra a comunidade LGBTQIA+, contra pessoas com deficiência ou por motivos religiosos). Ela foi inaugurada há oito anos e conta com cerca de vinte policiais. Esse tipo de delegacia, que está começando a ganhar força e já opera em estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia, é um dos principais fatores que contribuem para o aumento dos casos registrados.

Os policiais recebem melhor treinamento, participando de seminários, cursos e conferências, e mantendo contato direto com ONGs e organizações antirracistas. Mesmo assim, qualquer pessoa pode denunciar um crime racista em qualquer delegacia local, onde são feitos esforços para garantir que haja sempre pelo menos um policial especializado nessa área. Salim reconhece que muitas pessoas têm medo de denunciar por receio de serem revitimizadas pelo policial de plantão. “Elas têm medo de ir à delegacia e serem discriminadas novamente. Aqui, trabalhamos para erradicar esse tipo de tratamento intimidatório”, afirma Salim.

As vítimas vêm de origens diversas, independentemente da idade ou classe social, assim como os agressores. No entanto, o comissário de polícia explica que as pessoas mais velhas muitas vezes não têm noção da gravidade da situação. “Às vezes, quando as questionamos, elas usam uma linguagem altamente discriminatória, confirmando o que realmente pensam sem se darem conta… Depois, tentam encobrir a situação alegando que seu melhor amigo é negro ou que têm um parente negro… mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.”

Algo semelhante acontece com estrangeiros que alegam desconhecer a realidade brasileira. Nesses casos, a probabilidade de serem detidos preventivamente é maior, por receio de que tentem fugir do país. Quando alguém é flagrado em delito (geralmente com o auxílio de testemunhas e gravações de celulares), é muito comum o juiz autorizar a prisão preventiva, pois já existem provas suficientes.

O Brasil é o país com a maior população negra fora da África . 56% de seus habitantes se identificam como negros ou mestiços, segundo o último censo. O número de brasileiros que se identificam com suas raízes africanas tem crescido ao longo dos anos, impulsionado pela conscientização antirracista e por políticas de ação afirmativa. Aos poucos, o Brasil está desmantelando o mito da “democracia racial” que se enraizou no inconsciente coletivo — o mito de um paraíso tropical onde a miscigenação de europeus, africanos e indígenas teria criado uma sociedade harmoniosa onde a segregação jamais existiu, ao contrário da África do Sul ou dos Estados Unidos.

Essa nova conscientização, o reconhecimento do próprio racismo estrutural no Brasil, vem modificando o marco legal. Um passo decisivo é a atualização da lei antirracismo, que teve origem na Constituição de 1988. Em 2023, o crime de injúria racial foi equiparado ao crime de racismo. O que antes era uma ofensa à honra de um indivíduo agora é um ataque a todo um grupo. Consequentemente, as penas também foram aumentadas: enquanto uma injúria racial era antes resolvida com prestação de serviços comunitários ou multa, agora é mais provável que resulte em prisão. Além disso, o crime de racismo não prescreve e não pode ser evitado mediante pagamento de fiança.

“Do ponto de vista legislativo, o Brasil está à frente de todos os outros países das Américas”, explica Adilson Moreira, advogado formado em Harvard e um dos maiores especialistas brasileiros em direito antidiscriminatório. Ele foi um dos pioneiros no combate à discriminação racial, quando o humor é usado como forma de discriminação racial. Esse cenário agora é especificamente abordado na legislação, assim como o racismo praticado em contextos esportivos.

Em teoria, o Brasil possui uma forte proteção antirracista, mas a realidade é bem diferente quando se observa o cotidiano. Denúncias, investigações e prisões aumentaram significativamente nos últimos anos, mas as condenações ainda são escassas. No final de março, mais de mil racistas cumpriam pena, sendo 309 deles presos.

O principal desafio, aponta Moreira, reside na mentalidade predominante entre promotores e juízes: “Eles tentam encontrar todo tipo de brecha para impedir que pessoas brancas sejam condenadas por crimes de ódio. Os promotores exigem um nível de comprovação de intenção discriminatória muito maior do que em outros crimes”, lamenta o especialista, que observa que a grande maioria dos juízes brasileiros é branca e tem pouca formação em questões raciais. O comissário Salim também acredita que haveria melhores resultados se o Ministério Público e a Justiça seguissem o exemplo da polícia e criassem unidades especializadas, como já acontece no combate ao crime organizado, por exemplo.

Apesar de tudo, o otimismo prevalece, porque a mudança social está em curso e não dá sinais de retrocesso. As políticas de cotas para estudantes negros, indígenas e de escolas públicas nas universidades vêm diversificando as faculdades de direito, historicamente brancas, há anos, e, há mais de uma década, o movimento antirracista, sempre presente, ocupa um lugar central na mídia, na academia, nas telenovelas e nos livros. O "Pequeno Manual Antirracista", de Djamila Ribeiro, por exemplo, está na lista dos mais vendidos do país há seis anos.

O governo de Lula também fez do combate à discriminação racial uma questão de Estado, especialmente em casos particularmente sensíveis, como os insultos e ameaças contra o jogador de futebol Vinícius Júnior , que quase desencadearam um grave conflito diplomático com a Espanha. “Tudo depende muito da consciência racial do comissário de polícia, do promotor e do juiz, mas as coisas estão progredindo bastante”, resume Moreira, que se despede antes de viajar para dar uma palestra a um grupo de juízes interessados no tema.

Como a Copa cresceu até aqui: geopolítica, boicote e dinheiro explicam expansão do Mundial

Se o futebol pode ser tratado como um microcosmo da sociedade, a Copa do Mundo talvez seja a melhor forma de se entender o contexto geopolítico de cada momento em que ela é disputada. Amanhã, no México, será dado o ponta pé para o maior Mundial de todos os tempos, que também será disputado nos Estados Unidos e no Canadá, e que contará com 48 seleções. Um número quase quatro vezes maior do que na primeira Copa, em 1930, no Uruguai, e 50% maior do que no Catar, em 2022.


Mas, para entender o crescimento da Copa do Mundo, é preciso voltar no tempo e ir além do futebol. Depois de um período inicial com números de participantes variados, o Mundial passou a ter 16 seleções em 1954, na Suíça. Isso perdurou até 1978, na Argentina. O aumento para 24 times em 1982, na Espanha, não veio por acaso. E tem uma assinatura conhecida no mundo do futebol e, especialmente, no Brasil: João Havelange.

Eleito presidente da Fifa em 1974, o histórico dirigente brasileiro, teve como uma de suas plataformas de campanha justamente o aumento de participantes na Copa do Mundo. Mas o que pode soar apenas como uma moeda de troca por votos também veio de um entendimento do cenário geopolítico do mundo naquele momento.

O pós-Segunda Guerra, com o enfraquecimento e a crise vivida pelas potências europeias, que dominavam a Fifa desde a sua fundação, e o processo de descolonização da Ásia e, principalmente, da África, acentuado entre os anos 1950 e 1970, ajudaram a pavimentar o caminho de Havelange para o topo da Fifa. A independência de territórios africanos e asiáticos aumentou consideravelmente o número de membros da entidade. A Fifa passou de 74 filiados em 1950 para 143 em 1974. Em poucos anos, a África passou a ser o continente com mais representantes.

Ainda assim, na 1966, na Inglaterra, por exemplo, a África tinham apenas 0,5 vaga na Copa do Mundo. Ou seja, o melhor colocado nas Eliminatórias deveria enfrentar o vencedor de um confronto entre a Ásia e a Oceania por um lugar no Mundial, o que gerou um boicote dos africanos e parte dos asiáticos — a Coreia do Norte ficou com a vaga ao bater a Austrália no play off. Em 1970, africanos e asiáticos já receberam uma vaga cada, mas a Copa ainda tinha apenas 16 seleções.

Para ser eleito, João Havelange, então presidente da CDB, conseguiu unir a Conmebol e obteve, através de muitas viagens e "agrados", como excursões da seleção e de clubes brasileiros, entre outras moedas de troca, praticamente um apoio maciço da África e de parte significativa da Ásia e do Oriente Médio, o chamado "Terceiro Mundo", contra hegemonia europeia, representada pelo então mandatário da Fifa, o inglês Santley Rous. Para Luiz Guilherme Burlamarqui, professor visitante da George Washington University e autor do livro "A dança das cadeiras: a eleição de João Havelange à presidência da Fifa (1950-1974)", a eleição do dirigente brasileiro representa bem a dinâmica internacional do momento.

— A primeira expansão foi principalmente por conta da descolonização. O ano-chave nessa história é 1964. É o ano da primeira leva da descolonização africana. Houve um congresso em Tóquio, que teve a filiação em massa dessas novas associações africanas, que passam a representar uma grande porcentagem dos países no congresso da Fifa. E começa a pressão pela expansão da Copa. E fazia sentindo expandir. Você teve um aumento grande no número de filiados. Não fazia sentido disputar um torneio com 16 seleções. O Havelange foi eleito como representante desse grupo e uma das promessas dele era aumentar o número de vagas na Copa — disse Luiz Guilherme Burlamarqui.

O processo de aumento de 24 seleções para 32, em 1998, tem a assinatura de duas mãos que eram praticamente uma. E vem com um novo contexto geopolítico, mas também comercial, financeiro e político da Fifa, que transformou o futebol e a Copa em um produto global, com contratos milionários de transmissão e patrocínio. Um dos principais projetos de Havelange na Fifa foi o Programa de Desenvolvimento Técnico, que ajudava a distribuir os recursos da entidade para os seus filiados, com o objetivo de desenvolver o futebol ao redor do mundo, principalmente em países periféricos. Quem comandava este programa era Joseph Blatter, que virou o braço direito do brasileiro na Fifa — não à toa, cresceu, virou secretário-geral, depois CEO e, em 1998, foi eleito presidente, se aproveitando do legado de Havelange. Também não à toa, posteriormente foi revelado uma série de escândalos envolvendo a dupla que gerou condenações na justiça da Suíça, dos Estados Unidos e processos internos na Fifa, que hoje tenta apagar este passado. O atual presidente Gianni Infantino, por exemplo, pouco ou quase nada fala sobre os ex-presidentes da entidade.

Mas, voltando ao número de participantes da Copa do Mundo, Havelange e Blatter, por vias controvérsias, foram responsáveis pelo boom comercial e financeiro da Fifa e da Copa do Mundo. Além disso, o fim da União Soviética e a fragmentação da Iugoslávia no começo dos anos 1990 levaram a um novo aumento considerável de países filiados a Fifa. Assim, em 1998, a Copa passou a ter 32 participantes.

— A segunda expansão vem com o fim da Guerra Fria. Ali você também teve um aumento significativo no número de países filiados. Até 1991, Croácia, Sérvia e outros países eram um só, a Iugoslávia. A mesma coisa com os países da União Soviética. Esse processo de expansão da Fifa também levou a Copa para a Ásia em 2002, a primeira fora do eixo Europa-América — disse o doutor em História.

Se nestes outros dois momentos o aumento no número de filiados da Fifa serviu como pano de fundo para o crescimento da Copa do Mundo, o mesmo não se observa na decisão de Infantino, eleito presidente da entidade em 2016. Neste século, o número de membros pouco cresceu. Os últimos associados, que fizeram a Fifa chegar a 211 filiados, foram Gilbraltar e Kosovo, justamente em 2016. Ainda assim, a ideia de um futebol cada vez mais globalizado segue viva e é importante para aumentar cada vez mais os recursos da Fifa e das próprias federações nacionais. Neste ciclo para a Copa do Mundo de 2026, a Fifa anunciou ter distribuído 1,05 bilhão de dólares (R$ 5,4 bilhões) para os seus filiados.

— Um dos programas do Havelange que continua até hoje é o Programa de Desenvolvimento da Fifa (hoje chamado de "Fifa Foward"). O Infantino, além de anunciar o aumento de vagas, também anunciou um aumento dos repasses da Fifa aos países associados. É também uma questão política de para onde vão os recursos. E com mais países na Copa, você tem mais dinheiro. E você tem mais dinheiro justamente para as federações nacionais. Cada federação recebe 5 milhões de dólares por ano. Para o Brasil, por exemplo, não é muita coisa. Mas pensa numa federação como Curaçao, como Haiti, Ilhas Fiji... Eles recebem a mesma quantidade de dinheiro. Para fazer a roda econômica girar, isso é muito importante — concluiu Luiz Guilherme Burlamaqui.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


As interferências na luta eleitoral

Começou a temporada do uso político de Deus, uma manipulação permitida e incentivada por líderes evangélicos. A declaração de Flávio Bolsonaro de que é uma “guerra espiritual” e “uma luta contra o mal”, se referindo à eleição deste ano, no qual ele é um dos pré-candidatos, repete o roteiro de abuso do poder religioso. Pastores, por serem líderes seguidos pela congregação, restringem a liberdade de escolha dos fiéis ao se posicionarem tão explicitamente em uma questão que deveria estar restrita ao campo cívico. O político que se utiliza disso está tendo uma atitude farisaica.

Flávio Bolsonaro não tem qualquer intimidade com a pauta evangélica e faz isso exclusivamente por oportunismo eleitoral. A democracia fica vulnerável quando isso acontece, porque as igrejas se tornam currais eleitorais e a Justiça Eleitoral pouco pode fazer contra essa distorção, sem ser acusada de ferir a liberdade de culto. O direito de professar a fé nada tem a ver com uso político dos púlpitos e sua transformação em palanques. A fronteira difusa que pastores criaram nos cultos e nos atos públicos como a “Marcha para Jesus” nunca foi demarcada pela legislação eleitoral.

O que aconteceu na “Marcha para Jesus” de São Paulo este ano é lamentável sob todos os pontos de vista. A presença de Flávio Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas é campanha antecipada, é uso da religião como estratégia política num país laico, e é mentira. O que está acontecendo este ano no país não é uma guerra espiritual e sim uma disputa de projetos políticos em que cada cidadão e cada cidadã deveria ter o direito de escolher livremente. O constrangimento que muitas denominações evangélicas impõem sobre os seus membros é um ato político-eleitoral. Não deveria ocorrer, não é aceitável, porém não se sabe como neutralizar.

A luta eleitoral por si só é intensa e há muito espaço para a comparação de ideias e projetos. Deveria ficar restrita a este lugar. Mas a direita nos últimos tempos tem imposto a interferência de outros campos na arena política. O conceito de pátria que pertence a todos tem sido apropriado por eles através do sequestro da bandeira e do hino nacional.

Na época da ditadura, os militares se colocavam como detentores do monopólio dos símbolos da pátria. Da mesma forma fez a extrema direita atual. Os manifestantes bolsonaristas abraçavam a bandeira e entoavam o hino enquanto preparavam um golpe de Estado, como se viu no 8 de janeiro. Até o plano de assassinatos de adversários foi definido pelos golpistas como “punhal verde e amarelo”. Este ano em que todos estaremos juntos torcendo pela seleção, eles vestirão a camisa amarela como se ela fosse só deles.

Esse suposto entusiasmo com as cores nacionais ficou comprometido diante do que os líderes bolsonaristas têm feito ao estimular o ataque à economia brasileira. Ao pedir novas tarifas sobre produtos brasileiros, na verdade, trabalham para o enfraquecimento do país.

O ex-presidente Jair Bolsonaro usou as igrejas evangélicas em favor de sua candidatura nas duas disputas presidenciais das quais participou. Foi bem-sucedido na trama. Esse segmento eleitoral, instrumentalizado pelos pastores, votou maciçamente no candidato da extrema direita. Houve até pastores em marchas cristãs fazendo arminha com a mão. Agora seu filho, Flávio Bolsonaro, tem a mesma desfaçatez do pai e tenta usar Deus como parte do seu arsenal de campanha. Ao subir no palanque no dia de Corpus Christi, ele disse que não estava ali como candidato, mas como cristão. Era mentira. As afirmações que fez no mesmo dia mostraram isso. “Vamos orar pelo nosso Brasil, essa guerra é espiritual. E hoje a maior resposta que podemos dar ao mal, que vai ser expulso do governo do Brasil esse ano”, disse ele, claramente manipulando a fé.

A Justiça Eleitoral precisa encontrar uma forma de deter esse uso de símbolos religiosos. O ministro Luiz Edson Fachin tentou tipificar o abuso do poder religioso como um ilícito eleitoral específico que poderia levar à perda do mandato. A maioria do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou a proposta. O tema, contudo, permanecerá na agenda. Cada período eleitoral será temporada da demagogia religiosa em que aparecem os fariseus, os falsos profetas e os vendilhões do templo. Isso restringe a liberdade do voto, por isso é uma questão a ser enfrentada pela Justiça.Isso restringe a liberdade do voto, por isso é uma questão a ser enfrentada pela Justiça.
Míriam Leitão

Nasce um otário por segundo

Perguntaram-me quantos "seguidores" eu calculava que tivesse. Embatuquei: "Sei lá, nunca pensei nisso. Acho que nenhum". O outro insistiu: "Não é possível. Você está na imprensa há milhões de anos, escreve livros, dá entrevistas. É um dos principais influencers do país". Reagi com "Deus me livre, imagine a responsabilidade de influenciar alguém, de ser responsável por algo que uma pessoa faça ou deixe de fazer!". É verdade. Mal consigo dar conta de mim mesmo e meus gatos Bing, Dixie e Bizu acham ridículas minhas tentativas de ensiná-los a miar em francês. Além disso, em que um "influencer" influencia seus "seguidores"?


Não faltou quem me instruísse. Um influencer é alguém que usa instagrams, youtubes, tiktoks e que tais para produzir vídeos, fotos e textos sobre si mesmo e atrair seguidores que se deixam "impactar por suas opiniões, sugestões, rotinas, atitudes e opções de consumo". E que, devidamente impactados, passam a regular por ele suas preferências. Em quê? "Em tudo: moda, games, viagens, gastronomia, até aplicações financeiras". "Sério?", perguntei. E o que o influencer ganha com isso? "Fábulas —é pago pelos serviços e marcas que ‘recomenda’. Descubra quantos o seguem e calcule a grana que isso rende."

No Brasil, me disseram, um influencer que se preze tem de 1 milhão a 100 milhões de seguidores. Quis saber quais eram os principais e ouvi nomes como Neymar, Ronaldinho Gaúcho, Anitta, Vinicius Jr., Ivete Sangalo. Até aí tudo bem —são famosos, com profissão definida, não falta quem queira ser como eles.

Mas quem é Virginia Fonseca, com 56 milhões de seguidores? O que ela faz? E Camila Pudim, Açucena Guerra, Gustavo Tubarão, Pamela Fuego, Andressa Suíta? E sumidades com nomes como Hytalo, Thallysson, Sunaika, Pkllipe, Wueverton e Leuriscleia? Mais importante ainda: quem são os milhões de brasileiros que os seguem?

P.T. Barnum (1810-91), inventor do mafuá de horrores, deixou uma frase que parecia imortal: "Nasce um otário por minuto". Isso já era. Hoje é por segundo.