quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Os inimigos errados

Há poucos dias o Papa encerrou o encontro internacional da juventude franciscana em Assis, Itália, apelando à mobilização dos cristãos nas situações de injustiça social mais profunda assim como à rejeição dos preconceitos. Segundo a Agência Ecclesia, terá desafiado os milhares de participantes num encontro franciscano de jovens: “Ousai acreditar na palavra do Evangelho, tornai-vos humanos com a liberdade de Jesus Cristo.”

E acrescentou que os jovens deviam “evitar a cultura do poder” porque “derrubar os muros que separam os seres humanos uns dos outros não é, de forma alguma, trair a família, a cidade ou a tradição, mas sim libertá-las dos seus fantasmas, dos inimigos inventados pelo medo e pela ignorância, da violência com que se quer impor”.

Leão XIV alertou em Assis, sobretudo, para os verdadeiros inimigos que são inventados pelo medo e pela ignorância. E aqui o pontífice tocou no cerne da questão.


Os tiranos sempre governaram com estes dois “ajudantes”. Por um lado instilando medo sobre os seus governados, em especial o medo de penalizações derivadas das arbitrariedades do poder. Mas, nos tempos que correm, tornou-se muito comum um outro tipo de medo, o medo do que é diferente na cor de pele, cultura, língua, costumes ou religião.

Depois, e porque o medo é filho da ignorância, ambos seguem juntos, amparam-se e retroalimentam-se um ao outro. O medo é a causa de muitos erros e até há quem mate por medo.

No que toca ao povo português, é estranho como aqueles que foram os atores da primeira globalização da História, a partir deste jardim plantado à beira-mar, se vejam agora incomodados pelo diferente. A Lisboa do século XVI foi chamada um tabuleiro de xadrez, tal era a presença de tantas e tão desvairadas gentes de outras cores e regiões do mundo, que conviviam de forma ordeira na capital do império.

Além do mais, este é o mesmo povo que “deu novos mundos ao mundo”, que conviveu e se misturou durante meio milénio com gentes americanas, africanas e asiáticas, e que ainda hoje se integra sem grandes dificuldades noutras sociedades bem diferentes daquela onde nasceram.

A verdade é que o medo e a ignorância continuam a ter muita força. Mas se o primeiro resulta de fatores externos que nos podem influenciar e condicionar, já a solução para a segunda está inteiramente na mão de cada um. Basta querer aprender, conhecer e informar-se, para lá da espuma dos dias, do sensacionalismo mediático e da vertigem das redes sociais.

Afinal, os nossos verdadeiros inimigos são o medo e a ignorância, exatamente as armas preferidas dos ditadores de todos os tempos.
José Brissos-Lino

A Inteligência Artificial perdeu o direito de fingir

Em 1950, Alan Turing propôs um experimento simples. Se um ser humano conversasse com uma máquina sem conseguir distingui-la de outro ser humano, faria sentido continuar a dizer que aquela máquina não pensa?

Durante décadas, a humanidade perseguiu esse objetivo. Chatbots, assistentes virtuais e modelos de linguagem foram avaliados justamente pela capacidade de soar naturais, e quanto mais humana a interação, melhor parecia ser a tecnologia. Mas, agora, parece que os papéis se invertem. As máquinas precisam anunciar que são máquinas, já que a interação é quase natural.

O AI Act europeu estabelece que sistemas de IA concebidos para interagir diretamente com pessoas devem, em determinadas circunstâncias, informar o utilizador de que este está a interagir com um sistema de Inteligência Artificial. Da mesma forma, conteúdos sintéticos como imagens, vídeos, áudios e textos gerados artificialmente estão sujeitos a requisitos de transparência e identificação da sua origem artificial, nos termos previstos no regulamento europeu.


Em outras palavras, ainda que uma IA consiga passar no Teste de Turing, ela não poderá fazê-lo sem antes denunciar a sua verdadeira identidade.

Essa mudança revela algo importante sobre a nossa relação com a IA, que se torna cada vez mais presente no nosso quotidiano. Durante décadas, acreditámos que o grande desafio seria construir máquinas suficientemente sofisticadas para parecerem humanas. Hoje, o desafio parece ser exatamente o contrário: garantir que elas não escondam que não são.

A exigência de transparência, entretanto, não nasce de uma preocupação filosófica, mas prática. Deepfakes, golpes, manipulação política, atendimento automatizado, influência nas redes sociais e relações de consumo dependem, muitas vezes, da perceção de quem está do outro lado da conversa.

Saber se estamos a falar com uma pessoa ou um algoritmo tornou-se uma informação relevante para o exercício da autonomia.

Mais do que uma questão de transparência tecnológica, está em causa uma nova relação de poder. Quem controla a tecnologia e sabe quando, como e por que razão ela está a interagir connosco possui uma vantagem sobre quem desconhece a natureza dessa interação. A transparência procura, precisamente, reduzir essa assimetria: permitir que o cidadão saiba quando está a ser informado, persuadido, atendido ou influenciado por uma pessoa e quando está perante um sistema automatizado. Num ambiente digital em que a fronteira entre conteúdo humano e conteúdo sintético se torna cada vez mais difícil de perceber, saber quem — ou o quê — está do outro lado deixa de ser um detalhe e passa a ser uma condição básica para uma escolha verdadeiramente livre.

E pensar que há quase 75 anos, o Teste de Turing perguntava se os humanos seriam capazes de identificar uma máquina. O AI Act acaba por inverter essa lógica, ao estabelecer obrigações de transparência que procuram garantir que os utilizadores saibam quando estão perante determinados sistemas de IA ou conteúdos gerados artificialmente.

O “sucesso” de um sistema de IA deixa de ser medido apenas pela sua capacidade de imitar pessoas e passa a incluir a sua capacidade de ser transparente enquanto o faz.

À procura de lixo

Vamos parar de procurar modelos, ao menos nisto não sejamos tão colonizados, não permitamos que mais lixo contamine nosso pensamento. Os americanos é que têm obsessão por raça (lá nós, brasileiros, somos “hispânicos”), nós temos é a glória e o privilégio de ser o único país em que homens e mulheres de todas as raças se misturaram e misturam e onde a raça, Deus há de ser servido, ainda terá o lugar que merece, ou seja, nenhum.
João Ubaldo Ribeiro

A família Bolsonaro e o uso de imagem por sistemas de IA

O candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, usou um vídeo sintético do pai, Jair Bolsonaro, declarando apoio à sua candidatura em uma convenção nacional do PL. Na peça em questão, o avatar do ex-presidente começa avisando que trata-se de conteúdo sintético, faz críticas à prisão de Jair Bolsonaro e conclui que o “o Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro Presidente”. O anúncio de que o vídeo não se tratava de uma mídia real ficou por conta de um aviso verbal do avatar, logo ao início do vídeo, que informava que o conteúdo havia sido fabricado artificialmente.

A decisão de uso de mídia sintética do ex-presidente se deu em função da atual proibição de que o mesmo demonstre apoio ou realize atos de apoio político no decorrer das eleições de 2026. Ao optar por um avatar e não um vídeo diretamente gravado, a campanha de Flávio Bolsonaro visava incendiar a base de apoio ao bolsonarismo sem que isso representasse mais uma violação de Jair Bolsonaro da decisão judicial que declarou a sua inelegibilidade. No entanto, o ato não é novo.

Em 2024, nas eleições gerais da Indonésia, o ex-general do exército e ditador Suharto foi ressuscitado por meio de vídeos sintéticos criados pelo partido Golkar com o objetivo de lembrar eleitores sobre o valor do voto e para demonstrar apoio ao candidato Prabowo Subianto. Já em 2025, na Bolívia, conversas vazadas do candidato à vice-presidência Jorge Richter, onde ele supostamente teria planejado um golpe contra o presidente Evo Morales, também foram fabricadas com ferramentas de imagem e vídeo sintéticos. Mais recentemente, o governo Trump manipulou uma imagem da ativista de direitos humanos Nekima Levy Armstrong, detida em um protesto contra o ICE, com o objetivo de retratá-la chorando e com uma tonalidade de pele mais escura.

Em 2026, com rápidos avanços em realismo, sincronização e geração de conteúdos extensos, a capacidade de manipulação de eleitores e processos eleitorais com mídias sintéticas fica cada vez maior. E, neste cenário, estamos passando de casos isolados do uso de mídias sintéticas para um estado de incerteza contínua.


Mídias sintéticas agora podem gerar e manipular conteúdo em diversos formatos – imagens, vídeo, voz e identidades totalmente sintéticas. O que estamos presenciando é uma mudança mais profunda: a perda da verdade visual e um desgaste significativo na realidade compartilhada. Uma vez que o que vemos já não pode ser aceito pelo seu valor aparente, a dúvida não é mais algo ocasional – é constante. Assim, a verdade não é apenas debatida – ela é continuamente desestabilizada.

Nas resoluções lançadas para o pleito de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral regulamentou o uso de inteligência artificial em campanhas e propaganda eleitoral. A resolução n. 23.755, de 2 de março de 2026, determina que o uso de mídias sintéticas em propaganda eleitoral com o objetivo de criar, substituir, omitir, mesclar ou alterar a velocidade ou sobrepor imagens ou sons prescinde da obrigação de informar, de modo explícito, destacado e acessível, que o conteúdo foi fabricado ou manipulado e qual tecnologia foi utilizada. Adicionalmente, a nova resolução eleitoral veda a “publicação e a republicação, ainda que gratuitas, bem como o impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial ou por tecnologias equivalentes que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidata ou candidato ou de pessoa pública, mesmo que rotulados e em conformidade com as demais exigências deste artigo, no período compreendido entre as 72 horas que antecedem e as 24 horas que sucedem o término do pleito”.

Mais recentemente, o órgão lançou uma cartilha de boas práticas sobre inteligência artificial com o objetivo de orientar eleitores e partidos em torno do uso responsável da IA, protegendo a democracia e as eleições gerais 2026. O documento incentiva a atuação de campanhas, coligações e candidatos dentro da legalidade, reforça a necessidade do compromisso com a verdade e incentiva a transparência sobre o uso e origem dos conteúdos, dentre outras coisas.

Apesar do caso da campanha de Flávio Bolsonaro não ser um fato novo, ele revela algumas falhas ou ausências na resolução eleitoral e que merecem uma reflexão: (a) como incentivar transparência sobre conteúdos sintéticos por meio da adoção de práticas de proveniência de conteúdo, (b) mais proteções sobre o uso de imagem, voz ou manifestação de pessoas públicas e individuais a fim de evitar a manipulação de eleitores e (c) medidas mais concretas por parte das plataformas e demais atores parte do ecossistema digital na implementação de ferramentas de detecção de deepfakes.

Em linhas gerais, isso significa que apesar dos repetidos e bem vindos esforços do TSE em delimitar o uso de inteligência artificial e mídias sintéticas em campanhas políticas, a corte ainda precisa incrementar as medidas relativas à transparência de conteúdos compartilhados e também discutir a proteção dos usuários quando confrontados com conteúdos sintéticos que possuem o objetivo de manipular eleitores. 

Na organização WITNESS temos trabalhado diretamente com casos de mídias sintéticas e em torno de tentativas de reforçar os compromissos assumidos pelas empresas a respeito da transparência de conteúdos de IA. Isso porque não estamos mais lidando com incidentes isolados e o próprio ambiente se transformou.

A mídia sintética instaurou um estado persistente de dúvida, onde a incerteza deixa de ser exceção para se tornar a regra. Essa dúvida, chamada de “dividendo do mentiroso”, permite que evidências reais sejam descartadas como “falsas” e enfraquece a confiança nas vítimas, abrindo caminho para a negação, a postergação e a impunidade. O impacto da inteligência artificial, neste sentido, não se limita à tecnologia em si, mas resulta da convergência de quatro fatores críticos: a facilidade de acesso (o processo tornou-se simples, exigindo pouco input), a alta qualidade e realismo dos outputs, a sofisticação das capacidades (movimento, voz e interação em tempo real) e, por fim, a escala massiva, que sobrecarrega as plataformas e torna cada vez mais difícil distinguir o que é real do que é sintético.

No entanto, algumas soluções ajudam a fortalecer a necessidade de mais transparência sobre conteúdo sintético.

A primeira delas é a proveniência e autenticidade de conteúdos, uma prática que se refere à fonte e à história do conteúdo de mídia online, funcionando como uma “receita” que detalha como uma peça foi criada, editada e distribuída, permitindo traçar sua cadeia de custódia e verificar a autenticidade da mesma. Esses conceitos são pilares essenciais para a transparência de IA, pois fornecem sinais verificáveis que restauram a confiança em um ambiente digital onde a fronteira entre o real e o sintético se tornou fluida. Ao disponibilizar essa infraestrutura de transparência, capacitamos usuários, reguladores e defensores de direitos humanos a distinguir fatos de ficção, combatendo o fenômeno do “dividendo do mentiroso” e garantindo que o público possa avaliar a veracidade das informações com base em dados concretos, e não apenas na aparência visual do conteúdo.

No caso da resolução eleitoral, o texto poderia recomendar a implementação de proveniência dos conteúdos por meio de metadados encriptados que informam como o conteúdo foi feito, somados a um simples rótulo que avisa se o conteúdo é feito ou manipulado com ferramentas de inteligência artificial. Essa sugestão seria importante para evitar que ferramentas de edição ou corte de vídeos retirem eventuais disclaimers que sejam feitos verbalmente – como no vídeo da campanha de Flávio Bolsonaro – e permitam que a “receita” do conteúdo de IA viaje com ele.

A segunda diz respeito a implementação de ferramentas de detecção de deepfakes que consigam reconhecer e limitar o alcance de conteúdos sintéticos com potencial de influenciar eleitores e o processo eleitoral. Ao longo dos últimos anos, a experiência da Deepfakes Rapid Response Force demonstrou que modelos hiper-realistas de áudio e vídeo produzem fraudes difíceis de identificar, sobretudo quando os arquivos passam por recompressão em redes sociais, edições regionais cirúrgicas (inpainting) ou retratam cenários de conflito sem rostos humanos. Além disso, a facilidade de criar falsificações provocou um aumento na desconfiança do público, que passou a contestar registros reais autênticos sob a justificativa de serem gerados por IA.

Fatores como este denotam o quão urgente é a necessidade de promoção de melhorias nas ferramentas de detecção de deepfakes a fim de promover a remoção e retirada de conteúdos desinformadores a partir da sua ocorrência. Isso significa criar sistemas que funcionem com a mídia que as pessoas realmente compartilham – reenvios de arquivos compactados, gravações de tela e áudio com qualidade reduzida – e não apenas com arquivos originais de alta qualidade. Significa também priorizar métodos capazes de lidar com os cenários do mundo real mais desafiadores (e comuns): imagens dinâmicas ou sem rostos visíveis, áudio multilíngue com ruído e edições sutis e “cirúrgicas”. Além disso, implica tratar a explicação como parte da intervenção – não apenas determinar se algo foi gerado por IA, mas apresentar as evidências e o grau de confiança na análise.

Por fim, precisamos evoluir na direção de mais proteções ao uso de imagem, voz ou manifestação de pessoas públicas e individuais a fim de evitar a manipulação de eleitores. A “likeness protection” (proteção do direito à própria imagem e voz) emerge como uma pauta essencial no advocacy atual, exigindo uma abordagem que transcenda a lógica de direitos autorais ou propriedade comercial. O foco deve ser uma resposta baseada em direitos humanos que centre a proteção de pessoas comuns, ativistas e jornalistas contra a manipulação indevida de sua identidade, evitando danos reais à dignidade, à reputação e à segurança. O desafio regulatório é desenvolver diretrizes que impeçam o uso de avatares ou vozes sintéticas para difamar ou silenciar indivíduos, sem, contudo, criar mecanismos que possam ser instrumentalizados pelo Estado para censurar o ativismo, a sátira ou a documentação de direitos humanos. Essa agenda deve ser articulada de forma integrada a outras proteções contra abusos digitais, como a divulgação de imagens íntimas não consentidas (NCII), garantindo que a proteção da identidade seja um direito universal e não apenas um ativo de mercado.

A emergência das mídias sintéticas exige uma transição urgente de uma postura reativa para um compromisso proativo com a integridade do ecossistema de informação e promoção de transparência de sistemas de IA. O uso crescente de avatares e manipulações visuais em campanhas eleitorais sublinha que a transparência sobre a origem do conteúdo, o aprimoramento das ferramentas de detecção para cenários reais e a implementação de proteções à identidade baseadas em direitos humanos não são apenas diferenciais técnicos, mas pilares indispensáveis para a preservação da democracia. Apesar de estarmos lidando com um problema “novo”, o futuro do processo eleitoral brasileiro depende de nossa capacidade coletiva de restaurar a confiança na evidência visual, garantindo que o debate público permaneça ancorado na realidade e não seja refém da desestabilização contínua proporcionada pela manipulação algorítmica.

Sudão do Sul: Como as mudanças climáticas podem ser tóxicas

A cidade de Bentiu já viu de tudo. Localizada no norte do Sudão do Sul, perto da fronteira com o Sudão, a capital do Estado de Unity já teve apenas alguns milhares de habitantes.

Mas a guerra, a violência e outras crises levaram cerca de 140 mil pessoas deslocadas a buscar refúgio ali desde 2013, resultando em um enorme campo para deslocados internos.

Diversas agências da ONU operam no campo de Proteção de Civis (POC), que hoje se assemelha mais a um assentamento permanente do que a um abrigo temporário.

Num cais improvisado, chegam canoas carregadas de peixe para alimentar a população do acampamento, onde a insegurança alimentar continua sendo uma preocupação constante.

Simon Gatkuoth, um morador na casa dos quarenta anos, tira um peixe de um carrinho de mão e explica que os peixes pescados perto dos campos de petróleo estão contaminados. "Quando os cozinhamos, a sopa às vezes cheira a penicilina", diz ele. "Mas não temos alternativa. Precisamos comer. Não podemos parar porque não há outra opção."

As comunidades de Unity convivem com as inundações sazonais dos pântanos de Sudd há gerações.

Mas, em 2021, inundações sem precedentes, ligadas às mudanças climáticas, destruíram plantações, meios de subsistência e milhares de cabeças de gado.

O Sudão do Sul não possuía a infraestrutura necessária para lidar com essa catástrofe e as inundações subsequentes.

Mais de quatro anos depois, a água ainda não recuou completamente.


Um simples dique mantido pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) é a única coisa que separa o acampamento da planície alagada.

A população, primeiro deslocada pela guerra e depois atingida por inundações, depende fortemente da ajuda humanitária.

Nos últimos anos, as inundações de 2021 também expuseram um grave risco ambiental. Unity é a principal região produtora de petróleo do Sudão do Sul.
Apesar da poluição, a região de Rotriak tem experimentado uma rápida expansão de assentamentos devido ao deslocamento contínuo de habitantes.

Uma análise geoespacial revelou que, durante as inundações de 2021, 159 dos mais de 400 poços de petróleo da região ficaram submersos.

A DW, em colaboração com a PlaceMarks Africa, confirmou que mais de 50 delas ainda estão submersas.

Os rios e lagos dos quais dependem centenas de milhares de pessoas parecem ter sido poluídos, com potenciais consequências para o meio ambiente e a saúde.

"Muitos animais estão morrendo por causa dessa poluição, e as pessoas também estão sofrendo sintomas que atribuem a ela. Tudo isso é visível, mas ainda não temos evidências suficientes ou estudos epidemiológicos para afirmar isso com certeza", explica o pesquisador Marko Gatkuoth, afiliado ao Instituto do Vale do Rift.

"As inundações que começaram há mais de quatro anos se tornaram um veículo de poluição. Elas fizeram com que os poluentes se espalhassem."
"Negligência deliberada"

Bul Duot Kuer, um pesquisador sul-sudanês da Universidade Kenyatta, no Quênia, encontrou concentrações de chumbo quase duas vezes maiores que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em rios ao redor de Bentiu, perto de Rotriak. Ele também detectou níveis de hidrocarbonetos acima dos limites recomendados.

"A água é o elemento mais poluído", afirma ele. "Não há qualquer controle. As leis ambientais existem no papel, mas simplesmente não são aplicadas. Isso é negligência. O governo e as companhias petrolíferas não se importam com a saúde da população."

A moradora local Anna Nyashing Bul contou à DW que ela e sua família se mudaram para Rotriak após as enchentes de 2021 porque era "o único lugar que ainda estava seco". A água não tratada que consomem frequentemente apresenta uma "película preta na superfície" e causou repetidos surtos de doenças em sua família, explicou ela. "Mas não tínhamos mais nada para beber."

No Hospital Estadual de Bentiu, médicos e parteiras relatam ter observado um aumento nos casos de defeitos congênitos, abortos espontâneos e complicações na gravidez, especialmente entre mulheres de áreas produtoras de petróleo.

Nyapuka Nios, de 19 anos, acaba de dar à luz um bebê com malformações visíveis. "Não sei o que será dele", sussurra. "É a vontade de Deus. Deus o deu a mim assim." Em outro cômodo, Nyekal Nuok cuida de sua filha, que nasceu cinco dias antes com espinha bífida.

Diversos estudos relacionam a proximidade a poços de petróleo com um risco maior de defeitos congênitos.

"Desde as inundações, temos visto mais abortos espontâneos e mais bebês nascidos com defeitos congênitos", concorda Dorgan Patai, diretor dos serviços de saúde do Condado de Rubkona. "A longo prazo, isso pode até levar à infertilidade."

Segundo a OMS, não existem dados conclusivos para estabelecer se esses casos estão realmente relacionados à poluição ambiental.
À deriva

Ayen Mijok Kiir, primeira vice-presidente do Conselho dos Estados, vem pedindo providências há anos.

"Não somos um país estável", enfatiza ele. "Temos dificuldade em alocar recursos para diferentes setores. Estamos sob pressão para priorizar a segurança. Mas sim, mesmo com esses desafios, deveríamos ter feito mais."

Apesar das investigações e reuniões oficiais, ela afirma que a situação praticamente não mudou. "Que diferença fará se eu falar sobre isso de novo?", diz ela em voz baixa. "Já falei sobre isso inúmeras vezes, dei inúmeras entrevistas, e nada aconteceu."

Quinze anos após conquistar a independência, o Sudão do Sul ainda carece de sistemas eficazes de monitoramento ambiental. Combater o impacto ambiental provavelmente continuará sendo uma meta inatingível em um país ainda mergulhado em sofrimento e conflitos
Buster Emil Kirchner / Marco Simoncelli

Falar bem de brasileiros em Portugal é um perigo

O que era para ser meu dia de folga depois de uma pesada semana de trabalho começou com o telefone tocando ainda muito cedo. Relutei em atender, mas o instinto de repórter falou mais alto. Do outro lado da linha havia uma pessoa chorando copiosamente, mal conseguia falar. Pedi calma e que me explicasse o que estava acontecendo. Fui ouvindo com atenção e, a cada palavra, meu espanto aumentava. A minha interlocutora, que é portuguesa, havia recebido uma série de ameaças simplesmente porque tinha elogiado os brasileiros que vivem em Portugal, cidadãos, segundo ela, muito comprometidos com o trabalho.

Fiquei em choque quando a minha interlocutora contou que uma pessoa de sua família havia sido agredida verbalmente na rua. E o motivo: as declarações que ela tinha dado em relação aos brasileiros. Foi preciso que a turma do deixa disso entrasse em ação para que o familiar da minha interlocutora não fosse vítima de violência física. Ouvindo aquelas barbaridades, fiquei me perguntando o porquê de um elogio a brasileiros provocar tanta revolta em Portugal. Por que um elogio a cidadãos oriundos do Brasil está se tornando um perigo num país que se apresenta como o sétimo mais seguro do mundo?


Os brasileiros formam a maior comunidade estrangeira em Portugal. Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que quase 600 mil cidadãos do Brasil cruzaram o Atlântico para se estabelecerem em terras lusas, muitos, em busca de uma vida melhor. Que mal há nisso? Os brasileiros são hoje quase 10% dos trabalhadores que contribuem todos os meses para a Segurança Social de Portugal. Somente em 2025, pagaram 1,47 bilhão (mil milhões) de euros.

Entre os trabalhadores estrangeiros que vivem em Portugal, os brasileiros só não são maioria em dois setores econômicos: agricultura e construção civil. E têm sido fundamentais para as áreas de restaurante e de hotelaria. Como disse a minha interlocutora, quando elogiou os brasileiros, eles estão sempre dispostos a fazer horas extras, a trabalhar nos fins de semana, mesmo os salários em Portugal estando entre os mais baixos da União Europeia. Isso é um pecado?

Os brasileiros também têm ampliado os investimentos em Portugal. Já detêm, em valores, mais imóveis no país do que nos Estados Unidos. Nada fixa tanto uma pessoa em um território que ter a casa própria. É comprometimento. Somente em Cascais, onde quase 10% da população atual têm origem no Brasil, dois empreendimentos vão movimentar pelo menos 300 milhões de euros. Esse montante corresponde a mais da metade do Orçamento deste ano da vila portuguesa e movimenta a economia local e os empregos.

A brasileira Embraer, que controla a OGMA em Portugal, vai construir uma fábrica no país. É na sua unidade em Alverca que estão sendo montados os aviões do modelo Super Tucano A-29N, já preparados para atender as exigências da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A fabricante de aeronaves foi fundamental para aumentar o salário médio pago na região. Em Santo Tirso, no Norte de Portugal, a brasileira WEG, maior fabricante de motores do mundo, é um dos pilares da economia.

Pelos dados do Observatório das Migrações, há cerca de 10 mil empreendedores brasileiros espalhados por Portugal, sendo 80% deles, mulheres. Entre os imigrantes, os empreendedores brasileiros são os que mais empregam, seguidos pelos chineses. Estamos falando de pequenos negócios, mas que, no conjunto, se tornam fundamentais para movimentar um país que ainda é pobre e dependente de subsídios repassados pela União Europeia.

Por todos os ângulos que se olhe, os brasileiros e os demais imigrantes são, sim, uma benção para Portugal. Não fossem eles, como revelou o INE, a população do país teria encolhido e, certamente, a economia, mesmo com o turismo fortalecido, estaria próxima da recessão. Os portugueses, portanto, não deveriam embarcar no discurso racista e xenófobo da extrema-direita. Deveriam estar agradecendo por poder contar com essa parceria. Sim, porque é uma parceria, em que todos ganham.

A dica vale, inclusive, para o Governo de Luís Montenegro, que, erroneamente, embarcou no discurso preconceituoso liderado pelo extremista André Ventura acreditando que teria amplo apoio da sociedade portuguesa. Isso não só não aconteceu, como, aos poucos, o Chega está implodindo o PSD, o partido do primeiro-ministro. Em vez de endossar a xenofobia, Montenegro deveria romper com o atraso que dá as cartas em Portugal.

Vamos ficar apenas na infraestrutura para escancarar a ineficiência do Estado. O Governo sequer consegue construir um novo aeroporto em Lisboa, promessa que se arrasta por quase 50 anos. Também é incapaz de construir uma ponte ou um túnel ligando Lisboa à Margem Sul, impondo sofrimento diário à população que precisa fazer a travessia entre os dois lados, com horas de engarrafamento.

No modal ferroviário, a situação é calamitosa. Um país mínimo, como Portugal, não tem ligação expressa com o restante da Europa. A vizinha Espanha tem a segunda maior malha de trem de alta velocidade do mundo, só ficando atrás da China. Não vou dizer que é incompetência portuguesa, para não ser deselegante. Mas a alcunha de ineficiência cai bem.

Diante desse quadro, só resta lamentar o fato de um bando de gente maluca, sem a menor noção da realidade, ficar atacando quem fala bem dos brasileiros que vivem em Portugal. Essas pessoas deveriam tomar vergonha na cara!
Vicente Nunes

terça-feira, 11 de agosto de 2026

E o mundo, mais uma vez, não se acabou

Anunciaram e garantiram que na sexta-feira o mundo ia se acabar, um ciclone de não sei quantas intensidades de pavor ia derrubar as palmeiras imperiais do Jardim Botânico, levantar a ressaca que afogaria Copacabana, e por causa disso a prefeitura soltou alertas desesperados pelos celulares para que todos corressem para casa, o fim estava próximo, pegassem os filhos na escola pois nenhuma álgebra seria mais necessária, puxassem os terços de 59 contas e pedissem com fervor o perdão divino. Já surgia nos computadores da meteorologia municipal a ventania definitiva, aquela que releria o apocalipse, traria de volta a besta de sete cabeças, agora em modo mais radical.


Em 1938 foi a mesma coisa. Os nazistas invadiram a Áustria, a previsão de choque de planetas estava na primeira página dos jornais, Orson Welles irradiava em Nova York a invasão de alienígenas, e todo esse quadro de destruição, a batalha do Armagedon finalmente em cartaz, fez com que o anúncio do fim do mundo – o sol ia nascer antes da madrugada – soasse natural. Todos já ouviam as trombetas dos últimos dias tocando por todos os lados, a um ponto tal de alucinação que Carmen Miranda aproveitou o que seriam esses últimos momentos de vida, o fim dos falsos pudores, e saiu beijando na boca de quem não devia, pegou na mão de quem não conhecia, tudo isso conforme relatou na letra do samba que gravou naquele mesmo tresloucado 1938, também anunciando e garantindo que agora era para valer, os gafanhotos chegaram, o mundo ia se acabar.

O alerta extremo de vento forte na sexta-feira me abriu na memória as páginas de Incidente em Antares, mais exatamente aquelas em que os sete mortos criados por Érico Veríssimo, impedidos pela greve dos coveiros de descer à terra, permanecem insepultos no coreto da praça, espalhando pela cidade o mau cheiro da morte e, pior que ele, o cheiro daquilo que os vivos gostariam de esconder, as traições conjugais, as corrupções dos poderosos, a pouca vergonha da burguesia que fedia mais do que eles. De repente, o minuano sopra furioso e, varrendo o ar empestado, leva embora a fedentina dos cadáveres moralizadores e permite que a cidade respire de novo as suas hipocrisias, recomponha as aparências de falsa normalidade e todos – os homens de bem, as mulheres recatadas do lar, os políticos que não se emendam – finjam nada ter acontecido naqueles dias de dezembro de 1963.

Depois de 1938 e de 1963, eis que na sexta-feira os sete anjos das sete trombetas voltam a tocar o terror, e quando isso acontece é preciso ter pressa, é preciso botar o texto para correr, economizar na abertura de parágrafos, maneirar nos pontos, todas essas boas regras que deixam o leitor respirar feliz. Num momento desses, a ventania anunciada para daqui a pouco, esses bons modos de pontuação só serviriam para atravancar o último desejo do cronista, que – assim como Carmen Miranda beijou na boca de quem não devia – queria aproveitar as linhas da última crônica para escrever do jeito que não podia, desrespeitando o manual de redação – e agora não sabe mais o que fazer porque o mundo mais uma vez não se acabou.

Os anti-antifa - os fascistas voltam e revoltam

Dizem que o regime que o Brasil viveu sob Getúlio Vargas não pode ser chamado de fascista. Afinal, os pontos que caracterizam o fascismo seriam um ditador ((√)), uma autocracia (√), o militarismo (√), a supressão da oposição (√), crença numa hierarquia social (√), nacionalismo (√), desprezo pela democracia eleitoral (√) e pela liberdade política e econômica (√). É verdade que o Pai dos Pobres não teve um partido político central — até, durante o Estado Novo, pleiteava o contato direto com o povo —, como fizeram Stalin, Hitler e Mussolini, mas Franco só manteve a Falange ativa episodicamente, a União Nacional de Salazar era discreta (vivi em Lisboa durante o salazarismo e testemunhei) etc. É verdade também que ele tinha grande desprezo por tudo que não era poder pessoal, e, na undécima hora de 1945, foi capaz de fazer o grande acordo queremista com Prestes.

Conheci Luís Carlos Prestes, o Cavalheiro da Esperança, quando ele voltou ao Brasil no final da década de 70. Os oitenta anos lhe davam talvez uma certa lentidão, mas parecia uma rocha. Não tinha o olhar que marcava em Giocondo Dias a sensibilidade pelo outro, pelos outros, mas olhava de frente o futuro. Prestes voltava para participar da vida política seguindo a maré, evitando conflitos.

Mas, em março de 1936, Prestes fora preso, na grande rede que se lançara sobre o País desde a Intentona, enchendo as prisões. Sua mulher, Olga Benário, grávida, foi entregue à câmara de gás dos nazistas — nada mais trágico que o nascimento de Anita Leocádia em Barnimstrasse, a prisão da Gestapo. Para prender não era preciso razão e nem sempre havia processo judicial. Graciliano Ramos, preso e um ano depois libertado sem acusação ou julgamento, deixou o testemunho impactante das Memórias do Cárcere. Para Harry Berger, barbaramente torturado, Sobral Pinto pediu a aplicação da Lei de Proteção aos Animais; Berger (Arthur Ernest Ewert) enlouqueceu na prisão. Eles tiveram 35 mil companheiros. Afinal, não tinham nada que ser antifascistas, como os clandestinos da FUA – Frente Única Antifascista, depois reunidos na ANL – Aliança Nacional Libertadora.


O passado e a imitação sempre voltam a cavalo. As tendências fascistas de Trump resultaram na reaparição dos antifa americanos, logo considerados terroristas — no ano passado o Orange King os declarou “oficialmente” terroristas — e combatidos com força. O governo genocida não poderia deixar de seguir o mesmo caminho. Uma Secretaria de Operações Integradas – Seopi foi criada por Sérgio Moro e mantida por André Mendonça. Seus operadores foram os policiais Gilson Libório de Oliveira Mendes e Thiago Marcantonio Ferreira. Centenas de pessoas — algumas tão ilustres como Paulo Sérgio Pinheiro — foram relacionadas como antifascistas. Era um rótulo de decência, mas acompanhado da invasão de suas privacidades e da evidência de que a lista se destinava à perseguição política.

Os ministros da Justiça do regime fascista em formação formam uma quadrilha (3 pessoas, diz a lei) de depravados. Sérgio Moro fora o chefe da organização criminosa (4 ou mais, diz a lei) da Lava-Jato, podre e ignorante até à medula. O Advogado-Geral da União terrivelmente evangélico André Mendonça o substituiu para colocar a Polícia Federal sob os caprichos do “profeta” — assim chamou Bolsonaro ao afirmar devoção por seus “ideais” sobre segurança pública — e está na categoria dos retardados que acreditam em criacionismo, o que devia ser desqualificante para função pública. Finalmente foi a vez do foragido Anderson Torres, preso em flagrante delito de golpe de Estado. Os três continuam soltos: Moro é senador (!) e candidato a governador do Pará e, depois de demitido como vagabundo pelo cara que ajudara a eleger, voltou a lamber a cria; Anderson Torres, de seu refúgio na Disney, está pendurado em Dudu Bananinha; André Mendonça, ministro “do Bem”, depois de participar de ato eleitoral disfarçado com o pedinte do Master, não se considera impedido de julgá-lo.

A aprovação de sua indicação ao Supremo pelo Senado é, aliás, espantosa. Era chefe da AGU quando Bolsonaro disse que não acataria mais decisões do STF; quando disse que usaria o 142 para intervir no Estado; era ministro da Justiça quando Bozo usou um helicóptero para apoiar manifestantes contra o STF; quando repetia que as urnas eram fraudadas. Aceitar qualquer dessas declarações, evidentemente, torna a pessoa inidônea para ser ministro da Corte (e/ou do TSE).

Voltando à investigação sobre antifascistas, o Supremo de então, 2020, quase por unanimidade — divergiu Marco Aurélio — aprovou o relatório da ministra Carmem Lúcia afirmando que “a coleta de informações para mapear as posições políticas de determinado grupo ou identificar opositores ao governo configura desvio de finalidade das atividades de inteligência”. Pito que Mendonça não levou em conta: convocado pelo Senado, a requerimento de Randolfe Rodrigues e — olha que coincidência — Jacques Wagner, disse que o assunto era sigiloso e não poderia ser compartilhado com os senadores.

A gracinha é agora o Thiago Anti-Antifa ser o chefe da Polícia Extrajudicial do Mendonça e por acaso o gabinete do ministro o maior plantador de notícias contra pessoas ligadas ao governo antifascista — especialmente o Lulinha —, enquanto toma todo o cuidado para não sair uma linha do que fez o Flavorcaro. Em suas novas funções, o chefão da Extrajudicial está comandando uma investigação sobre o chefe da Federal. Sabe aquela coisinha que está na Constituição: “art. 5º. XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção”? Já era, não vale quando se trata do ministro “do Bem”.

E o evangélico Messias, hem?! Foi ao ministro da Justiça para bancar o amigo do peito terrivelmente evangélico, que história é essa de defender a Polícia Federal e o Estado de Direito?
 Pedro Costa

A política de Trump veio para ficar? Protecionismo pode resistir à troca de governo

O presidente Trump vai produzindo uma reviravolta na ordem econômica mundial. Jogou o livre comércio no lixo e decretou o intervencionismo do Estado.

Segue-se a pergunta da hora: até que ponto esse rodopio é coisa exclusiva do presidente Trump e do Partido Republicano, que poderia ser revertida com mudança de governo, a partir do dia em que o Partido Democrata recuperasse a presidência dos Estados Unidos?

Os analistas políticos já levam em conta a possibilidade de que o presidente Trump perca a maioria nas duas casas do Congresso nas eleições de novembro. A forte queda da popularidade de Trump parece fortalecer esse resultado.


Mas, atenção, a resposta à pergunta acima é complexa. Já foi lembrado em outra edição desta Coluna que, embora seja forte adversário eleitoral de Trump e dos políticos do Partido Republicano e combata a atual política contra a imigração, o Partido Democrata não apresentou até agora projeto ou o equivalente, que pudesse se contrapor ao MAGA, ao Make America Great Again.

Não está claro se, de volta ao poder, o Partido Democrata seja capaz de reverter a política de Trump. A administração Joe Biden, que sucedeu em 2021 ao primeiro mandato de Trump, manteve muitas das políticas e determinações de Trump, como se vê a seguir.

As tarifas de importação, de 25%, impostas por Trump à China, em 2018, correspondentes a US$ 50 bilhões anuais, tiveram continuidade com Biden; mais do que isso, foram aumentadas para setores estratégicos, como veículos elétricos, semicondutores, painéis para energia solar, aço e alumínio.

Biden reforçou as restrições às importações pela China de chips de última geração e de máquinas para produção de semicondutores. Com isso, pretendeu bloquear o acesso da China à tecnologia de ponta.

Biden tampouco tentou voltar ao Nafta, o acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México, que Trump substituiu pelo USMCA, que aumentou as exigências de conteúdo local na produção de veículos. Biden também manteve as negociações dos Acordos de Abraão destinados a restabelecer os canais diplomáticos entre Israel e países árabes.

Por aí se vê que a política protecionista não é prerrogativa dos redutos trumpistas. É pleito mais amplo e mais arraigado nos Estados Unidos.

Trump operou uma reviravolta tributária. Transformou o Imposto de Importação (tarifa alfandegária), cuja natureza é regulatória, em taxa arrecadatória. A receita extra obtida com os tarifaços pode ficar muito aquém do pretendido por Trump, mas será agora mais difícil que, nesta secura do Tesouro dos Estados Unidos, um governo que o suceda seja capaz de abrir mão desses recursos.

Isso sugere que a atual política, tão nefasta para os interesses do resto do mundo, só será corrigida se produzir grandes estragos para a própria economia dos Estados Unidos.

Como o El Niño e as guerras podem agravar a fome global

Um fenômeno El Niño com potencial para quebrar recordes está se intensificando no Pacífico e pode causar secas e inundações em algumas das principais regiões agrícolas do mundo.

No início de julho, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) estimou uma probabilidade de 63% de que o fenômeno fosse "muito intenso". O JP Morgan também alertou que o El Niño, combinado com o petróleo a US$ 100 o barril, poderia elevar a inflação global de alimentos em até 1,5%.

A chegada do El Niño coincide com dois conflitos que já têm pressionado o sistema alimentar global: a guerra da Rússia na Ucrânia e o aumento das tensões entre os Estados Unidos e o Irã. Será que essa combinação poderia desencadear uma nova crise alimentar?


A guerra de agressão da Rússia na Ucrânia continua a afetar uma das maiores regiões exportadoras de grãos do mundo, enquanto as tensões com o Irã elevaram os preços da energia e dos fertilizantes, encarecendo a produção agrícola.

Ao mesmo tempo, o Banco Mundial alertou que um evento El Niño intenso poderia reduzir a produção de arroz em 20 a 50 por cento nas regiões mais afetadas.

Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), alerta para um "efeito composto" que poderá criar "uma situação muito complexa" no final do ano. "Estamos muito preocupados com o El Niño e o atraso das monções na Índia", explicou Torero.

A Índia produz cerca de um terço do arroz mundial, e uma monção mais fraca pode afetar as plantações. A FAO também identifica altos riscos no Sahel, no sul da África, no Sudeste Asiático e no Corredor Seco da América Central, onde algumas áreas enfrentam uma probabilidade superior a 50% de seca nos próximos meses.

Apesar das tensões geopolíticas, os preços internacionais dos alimentos permanecem cerca de 20% abaixo do pico atingido em 2022, de acordo com o índice da FAO.

O ano passado registrou a maior colheita de cereais da história, graças ao aumento da produtividade, à maior área cultivada e às condições climáticas favoráveis. Embora a produção deste ano seja ligeiramente menor, ainda se espera que seja a segunda maior já registrada.

"Estamos vendo melhorias na produtividade agrícola", diz Simone Bunse, pesquisadora do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI). "Isso ajudou a manter a produção de alimentos e a reduzir a desnutrição. E está compensando alguns dos impactos localizados do conflito", acrescenta.

A fome continua concentrada em zonas de guerra.

A ONU estima que 266 milhões de pessoas sofrem de fome aguda, e mais da metade delas vive em países afetados por conflitos.

"Produzimos calorias suficientes no mundo para alimentar toda a população", afirma Torero. "O problema é que essas calorias não são distribuídas igualmente pelo mundo, e esse é o desafio", enfatiza.

Em locais como o Sudão ou Gaza, a guerra destrói terras agrícolas, desloca milhões de pessoas e dificulta a entrega de ajuda humanitária.

"Grupos armados destroem deliberadamente terras agrícolas, rebanhos, sistemas de água, instalações de armazenamento de alimentos e rotas de transporte. Eles comprometem o acesso aos mercados e dificultam a assistência humanitária", lembra Bunse.

Outra área de preocupação são os fertilizantes, já que aproximadamente um terço do comércio global passa pelo Estreito de Ormuz, que é afetado pelas tensões entre os Estados Unidos e o Irã e pelos ataques a navios no Mar Vermelho.

O aumento de preços já está levando alguns agricultores a adiarem suas compras ou a reduzirem o uso de fertilizantes, o que pode afetar as próximas colheitas.

Especialistas alertam que, se um forte evento El Niño, novas interrupções nas exportações agrícolas da Ucrânia e uma nova alta nos preços do petróleo ocorrerem simultaneamente, a fome global poderá piorar consideravelmente. Segundo o JP Morgan, a inflação de alimentos poderá ultrapassar 5% até 2027, sendo os mercados emergentes os mais afetados.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Pensamento do Dia (ou a Assunção de Abelardo)

 


O ‘comunista’ de Trump

Cassius Clay tinha só 22 anos e uma insolência já borbulhante quando proclamou, na histórica noite de 25 de fevereiro de 1964:

— Sou o rei do mundo! Sou lindo e malvado! Eu sacudi o mundo.

Era verdade. Ele acabara de derrotar por nocaute técnico o campeoníssimo Sonny Liston, favorito absoluto nas casas de apostas globais. O feito no ringue fez dele muito mais que um fenômeno do boxe — tornou-se força cultural duradoura. Nove dias depois, anunciou ao mundo sua conversão ao islamismo e passou a se chamar Muhammad Ali.

O sanitarista americano Abdul El-Sayed, nascido no estado de Michigan 42 anos atrás, não precisou trocar de nome — Abdulrahman Mohamed El-Sayed é muçulmano de berço. Suas primeiras palavras ao saber que será o nome do Partido Democrata para disputar uma cadeira no Senado, em novembro próximo, foram inspiradas em Ali:

— Nós sacudimos o mundo.

O mundo, ele e seus eleitores não sacudiram, mas o neurastênico cenário político-partidário americano, certamente. El-Sayed saiu-se vencedor nas primárias da terça-feira passada montado num programa arriscado, por progressista e populista:

1) A favor da abolição do ICE (o Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro que, sob o governo de Donald Trump, atua como caçador de imigrantes sem documentação regularizada);

2) A favor da ampliação do esquálido seguro hospitalar e médico, o Medicare, que nos Estados Unidos contempla apenas contribuintes com mais de 65 anos e portadores de deficiências;

3) Radicalmente oposto a qualquer ajuda dos Estados Unidos ao governo de Israel;

4) A favor de mais impostos para os mais ricos e contra o predomínio do dinheiro sobre o exercício da política.

El-Sayed teve por adversária Haley Stevens, uma experiente congressista moderada de quatro mandatos no Capitólio. Ela contou com o apoio ostensivo do establishment democrata — a mesma liderança partidária que, há anos encastelada, acumula erros e foi perdendo o pulso da nação. Não fosse o incontornável senador Bernie Sanders, que aos 84 anos continua sendo o grande ícone mobilizador do eleitorado jovem e progressista, El-Sayed talvez não tivesse alcançado o 1% de votos que faltou a Stevens.

Contudo coube ao poderoso lobby pró-Israel agrupado sob a sigla Aipac (Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel) o inglório papel de goleador contra a candidatura que apoiava. A derrama de mais de US$ 30 milhões na campanha da congressista que se orgulha de ser sionista bateu de frente com os itens 3 e 4 do programa de El-Sayed. Afugentou um eleitorado democrata cada vez menos disposto a defender Israel acima de tudo, como se a desumanização de Gaza e a metódica erradicação da vida palestina na Cisjordânia não existissem. A sigla Aipac começou a tornar-se tóxica quando acoplada a candidaturas democratas — segundo divulgou o New York Times na semana passada, a palavra “Israel” praticamente sumiu da maioria das peças de propaganda eleitoral financiadas pela entidade. A causa agora atende pelo nome de United Democracy Project.

Por ora, a maioria dos analistas dá como pouco provável a eleição do epidemiologista e Rhodes Scholar El-Sayed em novembro — ele seria o primeiro muçulmano a ocupar assento no Senado dos Estados Unidos. Até porque o estado de Michigan, como um todo, é um dos campos eleitorais mais imprevisíveis e cambiantes do país (Trump saiu-se vencedor em 2016, perdeu em 2020 e venceu em 2024, sempre com margens apertadíssimas).

Para o ocupante da Casa Branca, El-Sayed é “esse comunista que odeia os judeus e Israel”, fácil de ser derrotado pelos republicanos. O epíteto “comunista” tem sido usado por Trump a torto e a direito em suas postagens e discursos. Não raro, atropela e embaralha cruamente o que, exatamente, entende por “comunista”, “marxista” ou “leninista”. Compreende-se: quando até a centenária The Economist, que Lênin descreveu como publicação para milionários britânicos, admitiu em edição recente que empresas capitalistas têm poucas chances de competir com a China “ecoautoritária e leninista, governada por Xi Jinping, um pioneiro do capitalismo de risco”, o xingamento pode parecer elogio.

Pelo receituário de Trump, saúde pública é commodity, educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário, e pobreza é defeito do indivíduo. Privatizada a sobrevivência, dá-se ao que sobra da vida o nome de liberdade. Faltam três meses para o eleitor americano dizer do que tem mais medo.

Contra o Godzilla digital

Nos EUA, é assim. Quando um caso judicial é encerrado mediante "acordo", significa que a parte acusada, sabendo que vai perder, interrompe o processo e consegue abafar a história por um bom dinheiro em sigilo para o acusador. Que vantagem ela leva nisso? Impede que uma derrota pública deságue numa hemorragia de outros processos do gênero. O TikTok, por exemplo, acaba de fazer um "acordo" com um jovem de 15 anos, residente na Flórida, que acusou a rede social de danos à sua saúde mental causados pela dependência aos seus recursos.


É o segundo "acordo" que o garoto aceitou —o anterior, há alguns meses, foi com o Google, e pelos mesmos motivos. Mas ele ainda tem mais dois em andamento, contra o Meta e o Snapchat, e não importa que, em vez de vencê-los, ele aceite mais "acordos". Ficará caracterizado que as redes sociais podem ser desafiadas por quem sinta sua saúde lesada por elas. O julgamento já está em curso em Los Angeles e, de seu resultado, devem pipocar inúmeras ações acusando as redes de provocar dependência psíquica.

Alguém dirá que o garoto é um esperto aproveitador e que, se não quisesse que as redes sociais lhe provocassem dependência, era só "saber usá-las". Assim como acontece com o álcool e as drogas, os leigos acreditam que seja uma questão de moderação, "força de vontade". Não aceitam que, uma vez instaurada a dependência, não se trata mais de saber ou não usá-los, e muito menos com moderação. O dependente não tem escolha —por isso é dependente— e ninguém está a salvo de se tornar um.

Os fabricantes de bebidas e cigarros e os traficantes de drogas sabem do que seus produtos são feitos e os efeitos que provocam a médio prazo. Tanto quanto eles, as redes sociais também sabem do estresse, depressão, ansiedade, insatisfação com o próprio corpo, ideias suicidas, submissão à luz da tela, pavor de se ver sem o celular e outras consequências de seu uso, mesmo "moderado". É o que as torna trilionárias.

Um jovem luta contra o Godzilla digital. Eu torço por ele.

O limite desigual das doações eleitorais

Passadas as convenções e definidas as candidaturas, as atenções se voltam para o financiamento das campanhas eleitorais. Os fundos públicos respondem hoje pela maior parte do financiamento eleitoral —67,7% dos recursos em 2018 e 81,4% em 2022—, mas ainda há espaço para doações privadas.

Rodrigo Tamussino Roll defendeu recentemente dissertação de mestrado dedicada à análise das estratégias dos doadores de campanhas eleitorais no Brasil, no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.


A pesquisa identifica quatro tipologias de doadores, a partir da dispersão das doações entre cargos e estados e entre campos ideológicos. Nos extremos estão os pragmático-dispersos, que financiam candidaturas de diferentes ideologias, cargos e estados, e os ideológico-concentrados, que restringem as contribuições a um mesmo campo ideológico e a poucos alvos eleitorais.

Até a proibição das doações empresariais, em 2015, as empresas respondiam por quase 91% dos recursos do grupo pragmático-disperso. Já os ideológico-concentrados são majoritariamente pessoas físicas.

Os dois perfis são muito diferentes também financeiramente. Embora os pragmáticos representem cerca de 1% dos doadores, respondem por aproximadamente 34% do valor privado doado.

O grupo ideológico, por sua vez, representa cerca de 96% dos doadores e suas doações concentram-se em valores baixos. Esses doadores têm maior preferência por candidaturas de direita e a cargos do Legislativo. Dados do TSE consultados mostram que a doação mediana desse grupo foi de R$ 1.394 em 2018 e caiu para praticamente R$ 2,21 em 2022. Mas essa é apenas uma face da moeda.

Entre as pessoas físicas, porém, há superdoadores capazes de movimentar milhões de reais e distribuir recursos entre diferentes candidaturas ao Executivo e ao Legislativo.

Por exemplo, Rubens Ometto (Cosan) doou R$ 8 milhões em 2018; os irmãos Pedro e Alexandre Grendene destinaram, juntos, mais de R$ 11,5 milhões a candidatos em 2022; Salim Mattar (Localiza) doou R$ 4,1 milhões em 2018. São exemplos da escala que doações individuais podem alcançar.

Há um abismo entre as doações dos "cidadãos-comuns" e dos "superdoadores". Enquanto os primeiros contribuem majoritariamente com valores simbólicos, a elite usa a doação pessoal como ferramenta de acesso e influência, ocupando o papel que as empresas exerciam até serem proibidas de doar em 2015.

A proibição das doações empresariais, em 2015, retirou as empresas da disputa, mas não eliminou a possibilidade de grandes concentrações privadas. Pessoas físicas continuam podendo doar até 10% dos rendimentos brutos declarados no ano anterior à eleição.

Na prática, esse limite autoriza tetos muito diferentes. Para quem recebeu R$ 100 mil em 2025, o máximo é R$ 10 mil; para quem recebeu R$ 100 milhões, são R$ 10 milhões. Na prática, esse teto apenas acentua as desigualdades de uma sociedade tão desigual quanto a brasileira.

Apenas um teto nominal, fixo e igual para todos, preservaria a doação cidadã e reduziria a capacidade de uma pequena elite de exercer influência financeira desproporcional sobre as campanhas. Essa mudança poderia até reabrir a discussão sobre doações de empresas, mas esse já é assunto para outra coluna.

Eleição nova e a velha sombra

Na eleição de 2022, o principal ponto era enfrentar o golpismo de Jair Bolsonaro. Depois de tudo o que ficou comprovado no julgamento da ação penal, o natural seria que agora o país estivesse discutindo um projeto para o futuro. Contudo, a sombra do autoritarismo continua presente. Um candidato é filho do ex-presidente que liderou a tentativa de golpe. Entre os outros candidatos com menor expressão nas pesquisas, Renan Santos e Romeu Zema querem intervir no STF e defendem o modelo Nayib Bukele; Ronaldo Caiado promete anistiar golpistas e fugiu da pergunta sobre se houve ou não tentativa de golpe.

Na entrevista que concederam às jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery, da Globonews, Renan Santos e Romeu Zema defenderam a adoção do caminho de El Salvador. No entanto, quando foram apresentados à lista de horrores praticados por Bukele — prisão sem mandado, ampliação do tempo de prisão sem ordem judicial, redução drástica de habeas corpus, dificuldade de acesso a advogados, julgamento coletivo de centenas de réus, prisões baseadas em denúncia anônima — eles disseram não concordar. Ou seja, defendem o que sequer conhecem. Constrangedor.


O autoritarismo está presente não apenas nas ideias políticas ou nas propostas de segurança. O candidato Renan Santos, o mais jovem deles, foi confrontado com um vídeo do ano passado, em que ele, dentro de um carro em movimento, dizia que é preciso restabelecer a autoridade masculina. “O que a gente tem que fazer, é o que eu acho, é restabelecimento, enquanto poder, de características profundamente masculinas na nossa sociedade”. O interlocutor o interrompe e lembra que dirão que ele é machista. E ele responde “sou, sou, sou, porque certas coisas tem que dar nomes aos bois”. Tudo o que ele pôde dizer, na entrevista, a seu favor, foi que discordava de algumas teses da pessoa com quem falava, “um influenciador masculinista”. E tentou brincar. “O carro é alfa, não de macho alfa, mas Alfa Romeo”. Outro vídeo, não mostrado, de 2017, traz Renan dizendo que estupraria uma mulher se não entrasse em um bar. Ele tentou dar o contexto, disse que era uma brincadeira, como se houvesse contexto que justifique falar em estupro e como se fosse possível fazer piada sobre tal violência.

Ronaldo Caiado disse que retomará todo o território ocupado por facções criminosas usando as Forças Armadas como polícia. Afirmou que criará uma nova polícia com dez países que fazem divisa com o Brasil, financiada por todos esses governos. Os policiais dessa força transnacional poderiam transitar livremente pelas fronteiras. Mais do que ideias controversas na área que ele diz entender bem, a da segurança, o que espanta é a insistência em fugir da pergunta sobre se houve tentativa de golpe em 8 de janeiro.

Flávio Bolsonaro segue os mesmos passos do pai, parece que o golpismo é hereditário. Fez reunião com embaixadores levantando dúvidas sobre a urna eletrônica e o processo eleitoral. Falou na sexta-feira, em São Caetano do Sul, que há “roubalheira na alta cúpula do Judiciário” e que por isso estariam sendo feitas coisas “além da maldade” para impedir sua eleição. Justifica eventual derrota, já inventando uma conspiração contra ele. Os mesmos métodos do pai.

O autoritarismo permanece presente nesta campanha como esteve em 2022. Um atentado aos Três Poderes por milhares de seguidores de Jair Bolsonaro, uma investigação detalhada que mostrou provas da trama golpista que envolveu integrantes das Forças Armadas, o julgamento e a prisão dos golpistas nada ensinaram a certos políticos. Lideranças da direita que se apresentam como não bolsonarista entregam candidatos ao país que repetem o mesmo discurso diversionista, a mesma atitude tóxica que nos levou a quase perder a democracia. Alguns ainda exibem outro lado do autoritarismo, o que quer se impor sobre as mulheres.

Era para o país estar discutindo o futuro, a superação de impasses e obstáculos, os dilemas do ajuste fiscal, a proteção contra a mudança climática, a aceleração da aprendizagem, as receitas para melhorar o SUS, a redução das desigualdades, fórmulas para enfrentar os desafios tecnológicos, mas os homens que se oferecem como alternativa ao presidente Lula alimentam a sombra autoritária que sempre ameaçou a República brasileira. O futuro fica adiado.

O refúgio do canalha

“O patriotismo é o último refúgio do canalha.” A frase, pronunciada pelo escritor inglês Samuel Johnson em 7 de abril de 1775, atravessou dois séculos e meio sem perder a atualidade. Ao contrário do que uma leitura apressada poderia sugerir, Johnson não condenava o amor verdadeiro à pátria. Seu alvo era o falso patriotismo, transformado em disfarce por pessoas que invocam o interesse nacional para esconder ambições particulares, escapar de críticas ou conquistar a confiança da sociedade.

O autêntico patriotismo não precisa de trombetas. Manifesta-se no respeito às instituições, na defesa da democracia, no cuidado com o patrimônio público e na disposição de servir à coletividade. O falso patriota, ao contrário, cobre-se com a bandeira, proclama-se intérprete exclusivo da vontade nacional e apresenta os adversários como inimigos do país. Confunde a pátria com seu partido, seu grupo ou sua própria pessoa.

Samuel Johnson percebeu que a causa nacional poderia funcionar como esconderijo moral. Quando faltam argumentos, sobram símbolos. Quando a biografia provoca dúvidas, exibe-se a bandeira. Quando os resultados do governo são insuficientes, recorre-se à grandiloquência. O patriotismo de fachada transforma-se, assim, em instrumento de absolvição: quem se apresenta como salvador da pátria espera que seus erros sejam esquecidos em nome de uma missão superior.

Pois bem, a advertência de 1775 cai como uma luva no ambiente político brasileiro. À medida que avança a campanha presidencial, os principais candidatos procuram vestir mantos simbólicos capazes de emocionar e mobilizar o eleitorado. Cada qual apresenta sua própria versão do país e tenta convencer a população de que somente seu projeto poderá salvá-lo.

Lula recorre à memória de seus governos e proclama ter realizado a melhor administração da história brasileira. Procura ocupar um lugar no panteão dos grandes presidentes, aproximando sua imagem da herança trabalhista de Getúlio Vargas e do desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek. O passado é restaurado, polido e exibido como certificado de competência. As realizações são ampliadas; os fracassos, minimizados; as contradições, empurradas para os bastidores.

O presidente tenta encarnar a imagem de pai dos pobres, defensor da soberania e protetor dos que vivem nos andares inferiores da pirâmide social. Seu patriotismo apoia-se na ideia de inclusão: amar o Brasil seria cuidar dos pobres, aumentar a renda, gerar empregos e defender as riquezas nacionais. Trata-se de uma narrativa poderosa, porque combina lembrança, gratidão e esperança. Mas o discurso torna-se oportunista quando transforma políticas de Estado em favores pessoais e apresenta o governante como proprietário das conquistas sociais.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, procura ocupar o território da moral, dos bons costumes e da família. Apresenta-se como herdeiro de uma corrente conservadora e guerreiro contra tudo aquilo que descreve como ameaça aos valores nacionais. Em sua retórica, a pátria aparece associada à religião, à autoridade, à ordem, à segurança e à preservação da família. O candidato tenta converter o sobrenome em patrimônio eleitoral e transformar a lealdade ao pai em compromisso com o Brasil.

Também aí existe uma operação de apropriação simbólica. Ninguém possui o monopólio da família, da fé ou da moralidade. São valores pertencentes à sociedade, não a um partido ou clã político. Quando utilizados como armas de campanha, deixam de unir e passam a separar. O adversário já não é apenas alguém com ideias diferentes: torna-se inimigo da família, da religião e da pátria. A política abandona o terreno do debate e invade o espaço da condenação moral.

De um lado, portanto, o patriotismo social de Lula; de outro, o patriotismo moral de Flávio Bolsonaro. Um promete proteger os pobres; o outro, defender as famílias. Um convoca a memória dos programas sociais; o outro mobiliza a tradição conservadora. Ambos procuram pescar votos nos mares da emoção coletiva. As iscas mudam, mas a técnica é semelhante: envolver interesses eleitorais em causas que ninguém ousaria rejeitar.

O problema não está nas causas, todas legítimas. Combater a pobreza é dever do Estado. Defender a família, em suas diversas configurações, também constitui compromisso social. Preservar a soberania, assegurar a ordem pública e promover o desenvolvimento são responsabilidades de qualquer governo. A deformação começa quando essas bandeiras são sequestradas por candidatos que se apresentam como seus únicos representantes.

O falso patriotismo alimenta-se da polarização. Precisa dividir a sociedade entre patriotas e traidores, pessoas de bem e agentes do mal, defensores do povo e inimigos dos pobres. Essa linguagem simplifica a realidade, elimina as nuances e dispensa a prestação de contas. Se o líder representa a pátria, criticá-lo passa a ser interpretado como agressão ao próprio país. Se encarna o povo, investigar seus atos torna-se perseguição. Está formado o refúgio descrito por Samuel Johnson.

A campanha de 2026 começa a ser marcada por esse duelo de símbolos. De um lado, a promessa de reconstrução social; de outro, a cruzada pela restauração moral. O debate sobre educação, saúde, segurança, produtividade, equilíbrio fiscal, desigualdade e eficiência administrativa corre o risco de desaparecer sob o peso dos slogans. A pátria converte-se em cenário, a bandeira em adereço e o eleitor em plateia de uma representação cuidadosamente ensaiada.

O verdadeiro patriota não pede imunidade. Aceita a fiscalização, respeita a divergência e submete seus atos ao julgamento público. Não trata os recursos do Estado como propriedade pessoal, não transforma programas sociais em moeda de gratidão e não utiliza a religião ou a família como escudos eleitorais. Seu amor ao país mede-se menos pelas palavras que pronuncia do que pelas responsabilidades que assume.

Depois de 251 anos, a sentença de Samuel Johnson conserva sua força porque identifica uma tentação permanente do poder: transformar valores coletivos em esconderijos particulares. Cabe ao eleitor abrir as portas desses refúgios, examinar quem está atrás das bandeiras e separar o compromisso verdadeiro da encenação. A pátria pertence a todos. Quando um político tenta tomá-la para si, é prudente verificar o que pretende esconder sob seu manto.

Gaudêncio Torquato

A reconquista do futuro

Em seu discurso no lançamento da pedra inaugural de Brasília, Juscelino Kubitschek fala em sua “fé inquebrantável” no grande destino reservado ao Brasil. Lido com os olhos de hoje, o discurso provoca um sorriso irônico, pelo tom superlativo e pelo otimismo sem ressalvas com o futuro do país. Na época, as palavras expressavam um sentimento real. O presidente JK simbolizou, como nenhum outro, a confiança do Brasil em si mesmo, como nação moderna, democrática, tolerante e criativa.

Era um outro país, ainda predominantemente rural, mas em rápida transição para uma sociedade de massas urbana. Crescia a taxas chinesas. A industrialização moldava um horizonte comum para todas as correntes políticas, e a migração do campo para as cidades alimentava sonhos de ascensão social para quem deixava a roça. Urbanização e industrialização rápidas serviam de amálgama para uma sociedade cada vez mais conflituosa e polarizada. Polarização mais intensa que a atual, exacerbada pela Guerra Fria, mas circunscrita às elites e concentrada em algumas poucas capitais do país. A tevê apenas engatinhava, e a comunicação de massa se dava pelas ondas do rádio, ainda assim com restrito alcance regional.


Hoje o Brasil é outro. Um país muito mais complexo, populoso e melhor, sobretudo para a grande maioria que então vivia na pobreza, analfabeta, sem acesso a escola, atendimento básico de saúde ou rede de proteção social, num país que precisava importar alimentos tão essenciais quanto o trigo e seus derivados para atender ao consumo interno. Para não falar que em meados dos anos 1950 as mulheres necessitavam de autorização especial dos maridos para trabalhar fora, abrir conta bancária, comprar e vender bens, e a discriminação racial era considerada simples contravenção punível com penas leves.

Melhoramos, mas agora nos falta a confiança no futuro, que naquela época havia de sobra. Segundo o Edelman Trust Barometer de 2026, menos de um terço dos brasileiros acredita que a próxima geração viverá melhor do que a deles.

É preciso ter uma visão sobre o futuro do país, que não deve ser grandiosa, mas reconhecer que o Brasil não é um país qualquer

Por que perdemos a confiança no futuro? Atribuir a perda à polarização afetiva que se exacerbou ao longo deste século é um equívoco. Ela não é a causa principal da perda de confiança, embora contribua para agravá-la e dificulte a sua superação.

Ainda que difícil de ser mensurada com exatidão, a confiança é ingrediente decisivo para um país avançar em seu desenvolvimento. Não será possível recobrá-la idealizando o passado. O desafio é recuperá-la em novas bases, tarefa complexa em uma quadra histórica em que a confiança escasseia em quase todo o mundo, devido a transformações sociais e tecnológicas que criam ressentimentos e incertezas e põem em xeque a legitimidade da democracia representativa e do capitalismo liberal, em suas diferentes versões. Apesar de responder a condicionantes gerais, a perda de confiança nas instituições e no futuro, uma tendência global entre as democracias ocidentais, tem causas e manifestações específicas em cada país.

A confiança do Brasil em si mesmo não despencou da noite para o dia. Ao longo dos setenta anos que nos separam do lançamento da pedra inaugural de Brasília, ela teve altos e baixos. Os primeiros dez anos decorridos depois de 1985, quando se deu o retorno à democracia, não foram fáceis. As esperanças criadas com a recuperação e expansão de direitos, consagrados na Constituição de 1988, se chocaram contra a realidade de um país cronicamente à beira da hiperinflação, submetido a repetidos e fracassados congelamentos de preços e salários, num processo de desorganização econômica, crescimento da pobreza e precarização da governabilidade.

Com o Plano Real, com as reformas institucionais dos governos FHC, com a civilizada alternância no poder ao término de seus dois mandatos e as mudanças sem ruptura introduzidas por Lula, que deixou o Palácio do Planalto como o presidente mais popular da história, nas asas de um amplo processo de inclusão e mobilidade social, o país recuperou a confiança em si mesmo. Ao final de quatro mandatos presidenciais, dois de FHC e dois de Lula, o Brasil pôde apresentar uma singular combinação de conquistas em sua história, rara também em um mundo que mal se recuperava da crise financeira de 2008, a maior desde 1929: estabilidade econômica com crescimento, mobilidade social ascendente, governabilidade democrática, em um quadro de progressivo aperfeiçoamento institucional. Uma das imagens desse período foi a capa da revista The Economist, que mostrava o Cristo Redentor, com os braços abertos sobre a Baía de Guanabara, decolando como um foguete em direção aos céus. Um exagero, sem dúvida, pois nem tudo era tão sólido e sustentável na decolagem do Brasil, mas representativo do sentimento da época.

O processo desandou nos anos subsequentes, em especial a partir de 2014. Experimentamos hoje uma desconfiança crônica, alta e crescente em relação ao futuro do Brasil. É este o sentimento predominante no país ao nos aproximarmos das eleições de outubro deste ano, agora já com o elenco de candidatos definidos pelas convenções partidárias. Antes de avaliar o quadro eleitoral, cabe perguntar como chegamos ao atual estado de depressão da confiança.

Na economia, se deu uma reversão drástica das expectativas de mobilidade social ascendente e crescimento sustentado. Na política, ocorreu uma série de escândalos, que levaram a uma luta fratricida entre PT e PSDB e à emergência de juízes e procuradores imbuídos da missão de “passar o país a limpo”, custasse o que custasse, e de políticos dispostos a “destruir o sistema” para supostamente regenerá-lo. As jornadas de junho de 2013, por vias tortuosas, deram em Jair Bolsonaro, e o fortalecimento do Centrão e a Lava Jato, pelos descaminhos que tomou, produziram retrocesso e não avanço no combate à corrupção sistêmica. A sociedade sofreu decepções em cadeia, e cumulativas.

A mobilidade social ascendente dos governos Lula 1 e 2 desacomodou a sociedade brasileira. Não apenas foi mais longa e mais intensa do que a é preciso ter uma visão sobre o futuro do país, que não deve ser grandiosa, mas reconhecer que o Brasil não é um país qualquer observada nos primeiros anos depois do Plano Real, como também esteve acompanhada de políticas que mexeram real e simbolicamente com hierarquias sociais enraizadas, a exemplo da chamada pec das empregadas domésticas e das cotas raciais para ingresso no ensino superior. Nas famílias mais pobres, a perspectiva de ascensão social gerou a expectativa de que estavam a caminho de uma vida de classe média mais estável, previsível e favorável à realização pessoal e profissional.

Nos estratos de classe média e alta já mais bem estabelecidos, a emergência de uma “nova classe média” provocou um misto de irritação, pela “invasão” de espaços antes exclusivos, e insegurança, pela percepção de ameaça a posições sociais adquiridas. Esses sentimentos foram mais intensos porque os benefícios eleitorais da emergência da “nova classe média” eram apropriados por um partido “de esquerda” que, em momentos de dificuldade política, recorria à retórica do nós contra eles.

Assentados em bases relativamente frágeis, os sonhos da “nova classe média” se frustraram na prolongada e profunda recessão de 2015 e 2016 e não se reergueram desde então, apesar da promessa de Lula 3 de que o “povo voltaria a comer picanha”. Sem o boom de commodities, a reedição da receita de expansão do gasto e estímulo ao crédito mostrou-se insuficiente para retomar a confiança do povão. Não que a renda da base da pirâmide tenha ficado estagnada desde então. Nos últimos três anos, ela voltou a crescer com força. O consumo popular, mais ainda. Mas o sonho de virar classe média no curso de uma geração se evaporou, com o endividamento das famílias, hoje em níveis recordes, comprometendo parcelas crescentes da renda e impedindo a acumulação de poupança e patrimônio.

Nada mais distante de uma vida previsível e estável de classe média do que aquela que experimentam os milhões de trabalhadores por aplicativos, que ralam cotidianamente em cima de duas rodas, símbolos de um empreendedorismo de sobrevivência. Foi a segunda interrupção abrupta do mesmo sonho desde o Plano Real. A primeira se deu quando a nova moeda sofreu forte desvalorização no início do segundo mandato de fhc, em 1999.

No acidentado terreno do crescimento brasileiro entre 2014 e 2025, com poucos picos e muitos vales, esvaiu-se também a confiança no país entre as classes mais acomodadas. Um dos sinais disso é a evasão de cérebros, fenômeno que responde não apenas ao mau desempenho da economia, mas também à falta de investimentos públicos e privados em ciência e tecnologia. Estudo do Ipea sobre a saída de doutores e pesquisas de consultorias privadas sobre executivos expatriados mostram que tem havido um aumento na evasão de cérebros tanto no mundo acadêmico como no corporativo. Os dados batem com a experiência dos pais da minha geração, eu inclusive, cujos filhos e filhas, em número crescente, vivem no exterior em caráter permanente. Trajetória distinta da minha geração e da anterior, que estudava e/ ou trabalhava no exterior para voltar ao Brasil com uma formação profissional distinta. Teremos de aprender a nos valer dessa diáspora, como fazem, em outra escala, China e Índia.

Como se fosse pouco, o medo da violência do crime se espalhou. Apesar da melhora em muitos indicadores em algumas das principais cidades do país, em particular da taxa de homicídios, o crime organizado passou a ter presença em todo o território nacional, a controlar parte dele, a conectar-se com máfias internacionais e a infiltrar-se no sistema político e no aparato do Estado. Criou- se uma sensação de descontrole e desmoralização da autoridade pública.

No aumento da descrença com o país, o crescimento anêmico se soma à perda da confiança na política como meio pelo qual se constroem soluções para os problemas coletivos. Faz tempo que a economia brasileira cresce pouco (nos últimos quarenta anos, o crescimento da renda per capita foi de 1,2% ao ano). A novidade agora é a sensação de que o país não conseguirá reencontrar o caminho do desenvolvimento, com democracia, segurança pública e soberania nacional. Não porque nos faltem oportunidades, mas porque teríamos perdido a capacidade política de nos organizar em torno de objetivos nacionais de longo prazo. Quando era ministro da Fazenda, Pedro Malan dizia que o Brasil tinha problemas, mas nenhum deles era maior do que a sua capacidade de resolvê-los. A deterioração da qualidade da política põe essa afirmação em xeque. Leva muita gente ao extremo de apoiar a antipolítica, na vã ilusão de que por aí se encontrarão as soluções.

Convém não exagerar no pessimismo quanto à qualidade das instituições brasileiras. Elas se mostraram resilientes às investidas autoritárias do governo de Jair Bolsonaro. Impediram o sucesso da conspiração antidemocrática e conseguiram limitar o número já trágico de vítimas que uma gestão incompetente e tresloucada da pandemia da Covid provocou. O sistema de justiça criminal, em particular quando se dá a ação conjunta das polícias, da Receita e do Ministério Público, tem procurado resistir à expansão do crime organizado. O Congresso aprovou o novo marco legal do saneamento, em 2020, e a reforma tributária do consumo, em 2025, para citar duas reformas importantes.

Feitas as ressalvas, não há como negar que o desempenho e legitimidade das instituições estatais e do sistema político são declinantes. O presidente da República perdeu poder de agenda, necessário para realizar reformas em um país federativo e multipartidário, onde o Executivo federal é chave para coordenar iniciativas de maior alcance. O Congresso abocanhou uma fatia crescente do orçamento do país e ganhou poderes sem o correspondente acréscimo em sua cota de responsabilidade sobre os efeitos de suas decisões. O orçamento é cada vez mais engessado e o planejamento de longo prazo, mais precário. O processo deliberativo dentro do Parlamento se desinstitucionalizou, com o esvaziamento das comissões e a concentração de poder nas presidências das Casas, que jogam um papel central na distribuição dos recursos das emendas ao orçamento, o tema que mais interessa aos parlamentares, não raro o único a que dedicam real atenção. Nesse contexto, matérias importantes são votadas sem discussão ou escrutínio público, de uma hora para outra, frequentemente pelo sistema remoto de votação, que prescinde da presença física do parlamentar. As agências reguladoras se encontram subfinanciadas e, em graus variados, cooptadas por interesses político-partidários. O Supremo Tribunal Federal hipertrofiou-se – em parte por fatores alheios ao tribunal – e passou a ter a sua autoridade contestada, como responsável por dar a última palavra sobre os principais conflitos de interesses e valores que atravessam a sociedade brasileira.

Esse quadro complica a chamada governabilidade, em particular quando dirigida a promover mudanças e não apenas a acomodar interesses setoriais. Está sujeito a curtos-circuitos, pelo choque entre os poderes quanto aos limites das competências de cada um. Cria incerteza e coloca em dúvida a capacidade de o país responder aos desafios de um mundo em rápida transformação. Como reagir bem às demandas da transição ecológica, da mudança climática, da regulação e do uso inteligente da inteligência artificial, que demandam coordenação interna complexa e alianças externas de geometria variável, se continuarmos consumidos por interesses setoriais e corporativos de curto prazo?

Mais preocupante é que o quadro de relativo desarranjo institucional vem acompanhado de um processo de deterioração das virtudes republicanas nas esferas de poder. Não me refiro somente a casos reiterados de flagrante corrupção envolvendo membros do Executivo, do Congresso e dos tribunais superiores, mas também a um amplo conjunto de sintomas que vão desde a incapacidade de separar com clareza negócios familiares e funções públicas e autoconter-se nos limites legais das respectivas esferas de competência até a falta de um mínimo de recato na seleção dos ambientes a frequentar e nas amizades a cultivar, para não falar na desfaçatez em legislar em causa própria, no que os partidos políticos têm sido pródigos.

Não é preciso idealizar o passado – o Brasil, assim como qualquer outro país, jamais foi ou será governado por varões de Plutarco – para perceber a ocorrência desse processo difícil de mensurar, mas ainda assim evidente, de deterioração das virtudes republicanas entre aqueles que detêm parcela importante do poder, seja porque nele estão investidos pelo voto ou pelo exercício de elevada função pública não eletiva.

Ao lançar a pedra inaugural da nova capital, JK se referiu a ela como o “cérebro das mais altas decisões nacionais”. Hoje, o país olha para Brasília e vê não uma elite dirigente com um mínimo de consciência de seu papel e de sua responsabilidade e sim um conjunto de indivíduos interessados em maximizar seus interesses próprios e/ ou das corporações públicas e privadas que representam. Onde foi parar a divisão que antes de fato existia entre uma elite parlamentar e o baixo clero?

Se me refiro a Brasília, não é porque a deterioração das virtudes republicanas lhe seja exclusiva, e sim porque, como centro do poder político, ela exerce um poderoso efeito-demonstração para o conjunto do país. Em toda federação, em todos os poderes do Estado, se encontram exceções, mas quem há de negar que a deterioração das virtudes republicanas está por toda parte? A paixão desmedida pelo dinheiro reflete um fenômeno mais amplo, presente na sociedade em seu conjunto, mas com particular intensidade nas engrenagens que movem o poder. Não só aqui, mas em outras democracias no mundo, haja vista o que se vê hoje nos Estados Unidos, onde os barões ladrões do século xix retornam à cena sob novas vestes, operando agora em escala global, em aliança com a Casa Branca.

De novo, não quero exagerar: sempre haverá aqui e em qualquer lugar do planeta, em um mesmo ator político, individual ou coletivo, um tanto de interesse público e outro de autointeresse. A questão é a dose. No Brasil de hoje, o desequilíbrio é grande e vem aumentando, com o fracasso desmoralizante da Lava Jato, a permanência de um sistema pouco transparente e insaciável de financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais – a proibição das doações de empresas pelo STF mudou apenas a fonte principal dos recursos, agora quase exclusivamente públicos – e relações permissivas entre empresas, escritórios de advocacia e tribunais superiores.

Coexiste com essas tendências a expansão de uma nova e grave ameaça ao estado democrático de direito e à própria soberania nacional: o crime organizado, cada vez mais sofisticado em termos financeiros, econômicos e logísticos. Em alguns lugares do país, ele não é um poder paralelo e sim um substituto do poder do Estado. A deterioração das virtudes republicanas cria o ambiente propício à infiltração do crime organizado no aparelho estatal.

A que distância estaríamos do que o historiador neozelandês John Greville A. Pocock chamou de “o momento maquiaveliano”, aquele em que uma república vive uma crise existencial? O conceito é utilizado pela ciência política para descrever situações-limite em que as instituições e os valores que sustentam o estado democrático de direito são colocados em xeque pela corrupção moral, pela perda das virtudes políticas e pelo espectro da desordem. Impossível medir essa distância.

Não chegamos a essa situação-limite, mas é preciso tê-la em mente para avaliar os riscos que corremos. É papel das lideranças alertar para esses riscos e apontar caminhos que permitam superá-los ou ao menos reduzi-los, sem apelar às fórmulas fáceis do falso moralismo populista (lembremo-nos do Fernando Collor, o “caçador de marajás”, hoje em prisão domiciliar) e a retrocessos autoritários que, a pretexto de “sanear a política”, sufocam as liberdades e destroem a democracia.

Reformas institucionais que reduzam os incentivos e aumentem os custos dos atos de corrupção são indispensáveis. Uma delas é a Emenda Peluso, proposta pelo ex-ministro do stf, Cezar Peluso. Transformada em PEC, ela determina o início do cumprimento de pena depois da decisão na segunda instância. Dada a morosidade da Justiça brasileira, a possibilidade de recorrer ao STF ou ao Superior Tribunal de Justiça em liberdade afasta a ameaça de prisão não raro indefinidamente para quem conta com advogados com trânsito e competência técnica. Reformas dessa natureza, assim como medidas de combate a privilégios nos setores público e privado, encontram grande resistência de poderosos lobbies. Sua aprovação requer lideranças com coragem cívica, mas sem ânimo populista, dispostas a mobilizar apoio político e social a seu favor.

Sem reconstrução da credibilidade na autoridade pública, o sistema político continuará a girar em falso e a sociedade a se virar como pode, gerando mais desigualdade, cinismo e violência. Uma agenda de reformas que não fizer da reconstrução da autoridade pública a sua prioridade – com medidas articuladas na área da Justiça, da gestão do Estado e da segurança pública, compatíveis com a democracia e voltadas a combater a corrupção, os privilégios e o crime organizado – está fadada a não ganhar a tração social e política necessária para que o país se reorganize e amplie seus horizontes de desenvolvimento. Reformas tópicas, ajustes fiscais, por mais importantes que sejam, não terão esse condão. Tendem a se diluir ou naufragar se a descrença na autoridade pública não for revertida.

Já aprendemos, espero, que não há salvadores da pátria, mas a qualidade das lideranças faz diferença, em particular em certos momentos da história de um país. O Brasil não está desprovido delas. Da centro-esquerda à centro-direita, há bons quadros políticos, alguns promissores, homens e cada vez mais mulheres, a serem selecionados pelo processo democrático. Falta que tenham expressão maior no plano nacional.

Não é necessário que surja um De Gaulle. O Brasil de hoje não é a França dos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Não contamos com heróis da Pátria, como ele de fato foi, muito menos precisamos de um militar que arrogue a si esse papel. A reconstrução da credibilidade da autoridade pública no Brasil é tarefa para as lideranças civis, com o auxílio das Forças Armadas, dentro da Constituição. Para estar à altura do desafio, quem se habilitar precisa ter uma “certa ideia do Brasil”, assim como De Gaulle tinha une certaine idée de la France. A frase completa com a qual ele abre as suas Memórias de guerra, livro escrito quando liderava no exílio a resistência à ocupação da França pelos nazistas, é: “Em toda a minha vida, eu fiz uma certa ideia da França. O sentimento me inspira tanto quanto a razão.” Mais à frente, De Gaulle conclui: “Em suma, a França não pode ser a França sem a sua grandeza.”

Essa “certa ideia do Brasil”, inspirada tanto pelo sentimento quanto pela razão, não deve ser ufanista. Deve ter clareza sobre os nossos passivos históricos, mas também sobre os ativos que adquirimos em mais de duzentos anos como nação independente. Eles não são poucos. Somos uma nação que se implantou sobre um imenso território, conservou sua unidade política, inseriu- se construtivamente no seu entorno geográfico e no sistema internacional, desenvolveu ao longo do século XX uma economia relativamente complexa e diversificada e um Estado nacional com instituições e burocracias comparativamente mais estáveis e eficientes do que a quase totalidade dos países da antiga América espanhola. Uma nação que projetou certa identidade no mundo, sendo ocidental nos valores, mas sem alinhamentos automáticos a potência alguma. Sim, com uma sociedade profundamente desigual, mas crescentemente capaz de se organizar com maior autonomia e contestar hierarquias de poder e privilégios estabelecidos, em democracia, ampliando o espaço da cidadania e nela incluindo quem historicamente dela esteve à margem.

Além de uma certa ideia do percurso do Brasil em mais de dois séculos como nação independente, é preciso ter uma visão sobre o futuro do país. Ela não deve ser grandiosa, pois aqui o sentimento de grandeza convida ao irrealismo. Mas deve reconhecer que o Brasil não é um país qualquer: tem tamanho, recursos naturais e biodiversidade, bases científicas e econômicas, capacidades estatais, dinamismo social e expressão cultural, em suma, elementos de hard e soft power suficientes para ambicionarmos um lugar relevante no sistema internacional.

Nem o mundo nem o Brasil são mais o que foram nos anos 1950. Não se trata de reeditar o Plano de Metas e os Grupos Executivos de JK, que à sua época desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento do país. Muito menos de repetir o descontrole fiscal e monetário que fez a inflação dobrar entre 1955 e 1960, um dos ingredientes da instabilidade que levou ao golpe de 1964. Democracia e controle sobre a inflação são hoje premissas inegociáveis.

Não estamos mais na etapa de implantação da infraestrutura de transportes e energia e da indústria de bens de consumo duráveis nem da expansão da área cultivada pela agricultura, nem mesmo de ampliação da rede pública de ensino, como nos anos de JK. O desafio agora é dar um salto na qualidade do capital humano, na aplicação de conhecimento e ciência aos processos produtivos – em especial, mas não exclusivamente, naqueles setores em que temos vantagens competitivas reveladas, como a produção de alimentos, energia renovável e minerais críticos –, na incorporação do meio ambiente como variável decisiva e intrínseca do desenvolvimento, nas políticas sociais e de fomento aos pequenos negócios para seguir incluindo pessoas na cidadania e na economia formal e promover a redução das desigualdades. Para tudo isso, teremos de ser capazes de fazer bom uso das novas tecnologias digitais em particular a ia, sem cair na ilusão de uma “soberania digital autárquica”, de um lado, nem nos braços do neocolonianismo digital, comandado pelas grandes potências e pelas big techs, de outro.

O salto que precisamos dar requer novas estruturas de gestão. Os Grupos Executivos não nos servem mais de modelo, pois se restringiam a membros da burocracia estatal, técnicos e grandes empresários. Tampouco são adequadas estruturas como as do atual “Conselhão”, que não tem capacidade real de coordenação de ações convergentes do governo, setor privado e sociedade civil. Uma coisa é certa: precisamos com urgência preparar o Estado para responder aos desafios contemporâneos do país. A agenda da reforma administrativa, orientada por objetivos de mais longo prazo, precisa incorporar essa urgência.

Tão importante quanto definir prioridades e propor estruturas de gestão à altura dos desafios complexos, muito exigentes em matéria de coordenação entre diferentes atores e áreas de política pública, incluída a política externa, é reconstruir um horizonte simbólico e aspiracional que nos permita reconhecer a nós mesmos como uma nação com uma história comum e um destino compartilhado. Não se trata de retroagir a um ufanismo tolo e autoritário, que nega as nódoas do nosso passado que ainda mancham o nosso presente, mas de recuperar, em uma nova chave, o sentido de que ou somos uma comunidade nacional ou não teremos sequer o direito de sonhar os nossos próprios sonhos e decidir democraticamente as nossas próprias divergências.

Projetados contra esse pano de fundo, nenhum dos candidatos à Presidência da República neste ano mostra estatura suficiente para exercer o tipo de liderança à altura dos desafios do país. Nem por isso a diferença entre os dois principais adversários deixa de ser incomensurável. Flávio Bolsonaro expressa um conjunto de forças que colocou em xeque as instituições do estado democrático de direito e se articula internacionalmente contra os interesses do Brasil e em favor das conveniências e ambições de sua família.

A derrota política desse clã familiar é condição necessária para a recuperação da confiança. É um clã familiar ligado na origem a grupos milicianos e aos remanescentes dos porões da ditadura militar. A vitória de Flávio Bolsonaro colocaria o país na iminência de uma crise institucional, dado seu compromisso filial em indultar o pai, comprometeria a autonomia da política externa brasileira, por suas relações de lealdade e subserviência à extrema direita americana, em geral, e a Donald Trump, em particular, e traria de volta ao poder quem fez do ódio aos adversários e do desprezo à cultura e à ciência a sua principal forma de fazer política. A direita democrática, da qual o Brasil precisa, seria uma das maiores beneficiadas da derrota do clã Bolsonaro. Receberia a alforria pela qual não teve coragem de lutar.

Lula cometeu muitos erros ao longo de uma trajetória política extraordinária, que tem a meu ver até aqui um saldo líquido positivo para o país. O maior desses erros – tão grande quanto a infame campanha de estigmatização do governo FHC, que o antecedeu e serviu de base para o êxito de seus dois primeiros mandatos – é o de não haver preparado a sua própria sucessão. Ser candidato a um quarto mandato que se encerrará quando Lula estiver com 85 anos é um erro que ele próprio tornou inevitável.

Lula é uma estrela em extinção que ainda emite muita luz pelo tamanho da sua liderança e pelo vigor da sua forma física e mental. Seu coração está no lugar certo, mas suas ideias estão aferradas ao passado e a uma retórica autocongratulatória que nenhum dos que o rodeiam tem coragem de contrariar. Parece não se dar conta de que se esgotou a receita fácil da estimulação do crescimento pela via da expansão do gasto público e do crédito. Sofre de nostalgia renitente pelo nacional-desenvolvimentismo.

Parece também não se dar conta de que, a essa altura de sua história, deveria marcar exemplarmente a máxima distância possível de práticas que se tornaram corriqueiras, mas que nem por isso deixam de ser antirrepublicanas, como o hábito de indicar homens de confiança para o stf. Nessa matéria, embora não seja um caso isolado, Lula se sobressai: depois de Dias Toffoli em seu segundo mandato, ex-advogado do PT e chefe da AGU em seu governo, ele indicou, neste terceiro mandato, o seu próprio advogado pessoal, Cristiano Zanin, seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e Jorge Messias, seu chefe da AGU, cuja nomeação não foi aprovada pelo Senado (e que Lula parece teimar em reapresentar).

Não tenho dúvida sobre a escolha a fazer entre os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto. De qualquer forma, prevejo anos complicados no próximo mandato presidencial. Com transformações geopolíticas e tecnológicas que estão rapidamente redesenhando o mapa de poder no mundo, seria altamente desejável que o país estivesse mais preparado para enfrentá-las.

Para 2030, teremos quatro anos para renovar o quadro de lideranças no plano nacional, articular novas agendas para o país e superar a polarização destrutiva, que é mais sintoma do que causa dos nossos problemas, mas que os agrava e dificulta a sua superação. Até lá, não será pouco evitar crises que comprometam as nossas chances de reconquistar o futuro.