quarta-feira, 24 de junho de 2026

Pensamento diário

 


A inteligência artificial e a nova fratura metabólica do capital



A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma promessa de eficiência, produtividade e libertação do trabalho humano. Fala-se em automação, modelos generativos, medicina preditiva, educação personalizada, transição energética, racionalização de processos e democratização do conhecimento. Mas essa narrativa, quando separada da crítica da economia política, encobre uma contradição decisiva: a IA não nasce fora da história. Ela nasce dentro do capitalismo, financiada por capitais concentrados, orientada por mercados monopolizados, dependente de infraestrutura material pesada e subordinada à lógica da valorização.

Este é o ponto de partida necessário para compreender a inteligência artificial não como simples ferramenta, mas como expressão de uma nova etapa da crise civilizatória do capital. Se o primeiro movimento desta trilogia tratou da macroeconomia, da financeirização e da tentativa de contenção da crise por meio do capital fictício; se o segundo examinou a IA como limite histórico, filosófico e político do capitalismo; este terceiro precisa enfrentar a consequência mais profunda: a inteligência artificial revela que o capitalismo já não ameaça apenas o trabalho, a subjetividade e a democracia. Ele ameaça também o metabolismo ecológico da vida.

A chamada “nuvem” não flutua sobre a Terra. Ela está fincada em data centers, cabos submarinos, mineração, terras raras, semicondutores, energia elétrica, água, sistemas de refrigeração, galpões industriais, vigilância informacional e trabalho humano invisibilizado. A IA é apresentada como abstração, mas sua existência é brutalmente material. Por trás da leveza aparente de uma resposta gerada em segundos, há uma cadeia mundial de extração, processamento e consumo energético. O algoritmo parece imaterial apenas porque sua materialidade foi deslocada para longe do olhar do usuário.

Atribuir inteligência às máquinas pode servir para reduzir o valor da inteligência humana, naturalizar a substituição de trabalhadores, justificar decisões automatizadas e enfraquecer a exigência de responsabilidade política pelos sistemas técnicos 

Kate Crawford é decisiva nesse ponto. Em Atlas of AI, ela demonstra que a inteligência artificial deve ser compreendida como uma tecnologia de extração: extrai minerais da terra, energia dos sistemas elétricos, trabalho humano precarizado, dados dos sujeitos e padrões da vida social. Sua contribuição desloca o debate de uma “ética da IA” abstrata para uma crítica material da infraestrutura que torna a IA possível. A inteligência artificial não é apenas código, modelo ou linguagem matemática. É uma rede planetária de poder, trabalho, natureza e capital.

Essa materialidade já aparece nos dados internacionais. A Agência Internacional de Energia estimou que os data centers consumiram cerca de 415 TWh em 2024, aproximadamente 1,5% da eletricidade mundial. A mesma agência projeta que esse consumo pode mais do que dobrar até 2030, chegando a cerca de 945 TWh – valor superior ao consumo atual de eletricidade do Japão. A IA aparece como um dos principais vetores desse crescimento, ao lado da expansão geral dos serviços digitais. O dado é politicamente decisivo: a infraestrutura da IA deixou de ser marginal e passou a disputar energia com setores industriais inteiros.

A Universidade das Nações Unidas também chama atenção para um ponto essencial: não basta medir a pegada de carbono da IA. É preciso medir conjuntamente carbono, água e terra. A localização dos data centers, a matriz energética utilizada, os sistemas de refrigeração, o uso operacional dos modelos e a expansão da inferência cotidiana alteram profundamente o impacto ambiental da tecnologia. O problema não está apenas em treinar grandes modelos uma única vez, mas em operá-los milhões ou bilhões de vezes, todos os dias, em cadeias de consumo energético permanentes.

A isso se soma o lixo eletrônico. O Global E-waste Monitor 2024 registrou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022, com projeção de 82 milhões de toneladas em 2030. Apenas uma fração minoritária desse volume é adequadamente coletada e reciclada. A economia digital, portanto, não elimina a materialidade da produção: ela apenas a desloca para minas, fábricas, aterros, periferias ambientais e cadeias globais de descarte.

A categoria marxiana de metabolismo entre sociedade e natureza ganha aqui nova atualidade. John Bellamy Foster mostrou que o capitalismo produz uma fratura metabólica: rompe o intercâmbio racional entre humanidade e natureza ao subordinar esse metabolismo à acumulação. Kohei Saito, ao recuperar o Marx ecológico no contexto do Antropoceno, aprofunda esse diagnóstico: o capitalismo não resolve suas contradições ecológicas; ele as desloca, as amplia e as reorganiza em escala superior.

A inteligência artificial aprofunda essa fratura em novo patamar. Não se trata apenas da indústria poluente clássica, da fábrica ou da mineração tradicional. Trata-se de uma infraestrutura digital que promete substituir ou reorganizar atividades humanas enquanto amplia a demanda por energia, água, minerais, semicondutores e capacidade computacional. A IA é apresentada como solução racional para a crise, mas pode se converter em novo acelerador da crise se permanecer submetida à concorrência privada, ao segredo industrial, à guerra geopolítica e à acumulação monopolista.

Shoshana Zuboff ajuda a compreender o segundo eixo dessa crise: a transformação da experiência humana em matéria-prima comportamental. No capitalismo de vigilância, a vida cotidiana é convertida em dado, o dado em previsão e a previsão em produto. Mas a etapa atual é ainda mais delicada. A IA generativa não apenas observa comportamentos; ela passa a mediar o acesso ao conhecimento. O buscador tradicional listava caminhos. A IA começa a entregar respostas.

Essa mudança altera a estrutura pública da verdade. Quando a resposta substitui a busca, quem controla a resposta controla parte decisiva da percepção social da realidade. Esse é o perigo civilizatório: a informação pode deixar de circular como disputa pública visível e passar a ser reorganizada por sistemas opacos de ranqueamento, recomendação, patrocínio, personalização e influência. A velha publicidade separava, ao menos formalmente, conteúdo e anúncio. A nova economia das respostas tende a borrar fronteiras entre informação, recomendação, reputação, consumo e indução comportamental.

Esse risco não exige imaginar uma conspiração. Basta observar a lógica econômica. Plataformas privadas precisam monetizar atenção, tráfego, reputação e dependência. À medida que a IA se torna a nova porta de entrada da internet, empresas, governos, grupos econômicos e elites informacionais passam a disputar não apenas anúncios, mas o próprio enquadramento das respostas. A questão deixa de ser apenas “quem aparece primeiro no resultado de busca?” e se torna: “quem será apresentado pela IA como fonte confiável, resposta provável ou solução recomendada?”.

O perigo é ainda maior porque a resposta automatizada aparece revestida de neutralidade técnica. Mas nenhum sistema treinado em bases históricas desiguais, controlado por empresas privadas, monetizado por publicidade e protegido por segredo industrial pode ser considerado neutro. A IA pode reorganizar visibilidade, autoridade e legitimidade. Pode tornar determinados autores, países, empresas, mercadorias e interpretações mais visíveis, enquanto torna outros sujeitos e perspectivas praticamente inexistentes.

Essa é uma nova forma de poder. Não se trata apenas de censurar. Trata-se de ordenar o mundo. A IA pode selecionar o que merece atenção, o que parece verdadeiro, o que surge como razoável, o que é classificado como extremado, irrelevante ou duvidoso. Em sociedades profundamente desiguais, essa mediação tende a favorecer quem já possui capacidade econômica, influência institucional, domínio tecnológico e poder de adaptação aos critérios das plataformas.

Por isso, a crise ambiental da IA não pode ser separada da crise democrática da informação. A mesma infraestrutura que consome energia e água também organiza visibilidade. A mesma plataforma que promete responder perguntas pode direcionar consumo, moldar preferências, reduzir pluralidade e deslocar o debate público para ambientes privados. A mesma tecnologia que promete eficiência pode consolidar uma nova forma de governo algorítmico da vida cotidiana.

Miguel Nicolelis acrescenta uma dimensão decisiva a esse debate. Sua crítica não parte apenas da economia política, mas da neurociência. Ao longo de sua trajetória, Nicolelis tornou-se uma das principais referências mundiais em interfaces cérebro-máquina, neuroengenharia e estudos sobre a atividade coletiva dos neurônios. Justamente por conhecer profundamente a relação entre cérebro, corpo, plasticidade e ação, sua crítica à inteligência artificial possui peso especial: ela não nasce de recusa abstrata à tecnologia, mas da compreensão científica de que o cérebro vivo não é uma máquina digital.

Essa distinção é fundamental para o argumento civilizatório. A inteligência humana não é simples processamento de informação. Ela emerge de um organismo situado, de um corpo sensível, de uma história biológica, afetiva, social e cultural. O cérebro não funciona como computador isolado que recebe dados, calcula respostas e entrega resultados. Ele é um sistema vivo, plástico, incorporado, relacional, atravessado por emoção, memória, percepção, movimento, linguagem, desejo, medo, imaginação e vínculo social.

Por isso, a crítica de Nicolelis atinge o centro do fetiche contemporâneo da IA. Quando empresas e governos chamam modelos estatísticos de “inteligentes”, produzem uma confusão politicamente útil. Atribuir inteligência às máquinas pode servir para reduzir o valor da inteligência humana, naturalizar a substituição de trabalhadores, justificar decisões automatizadas e enfraquecer a exigência de responsabilidade política pelos sistemas técnicos. A máquina aparece como sujeito, enquanto os sujeitos reais – trabalhadores, programadores, usuários, populações exploradas e territórios impactados – desaparecem da cena.

A formulação de Nicolelis permite afirmar com mais precisão: a IA não é uma mente exterior à humanidade. Ela é uma técnica produzida por humanos, treinada sobre dados humanos, sustentada por trabalho humano, energia, mineração e infraestrutura material. Sua suposta autonomia encobre as intenções, interesses e poderes que a organizam. A inteligência artificial, portanto, não deve ser analisada como consciência emergente das máquinas, mas como sistema técnico-social comandado por grupos econômicos, Estados, mercados financeiros e projetos geopolíticos.

Essa distinção também é decisiva para a democracia. Se tratarmos a IA como uma inteligência superior, tenderemos a aceitar suas respostas como autoridade. Se a compreendermos como sistema estatístico, histórico e politicamente orientado, poderemos exigir auditoria, transparência, contestação, responsabilidade e controle público. A crítica de Nicolelis, portanto, não diminui a importância da IA. Ao contrário: mostra que ela é importante demais para ser entregue ao mito de que máquinas pensam por nós.

Nesse ponto, Nicolelis dialoga diretamente com Crawford, Zuboff e Michael Löwy. Crawford mostra a materialidade extrativa da IA: minas, energia, água, trabalho e dados. Zuboff revela a captura comportamental da experiência humana pelo capitalismo de vigilância. Nicolelis acrescenta o fundamento neurocientífico: a inteligência viva não pode ser reduzida à computação, e a humanidade não pode aceitar que sua capacidade de pensar, sentir e decidir seja rebaixada à lógica operacional das máquinas. Löwy oferece a saída ecossocialista: subordinar a técnica às necessidades sociais, ao equilíbrio ecológico e ao planejamento democrático.

Essa contribuição é central para o fechamento da trilogia. A crise civilizatória não consiste apenas no risco de a IA consumir energia, concentrar renda ou direcionar informações para quem paga mais. Consiste também no risco de a própria ideia de humanidade ser rebaixada. O capitalismo digital não quer apenas automatizar tarefas; ele tende a automatizar decisões, preferências, diagnósticos, recomendações, julgamentos e formas de reconhecimento social. Nesse processo, o ser humano pode passar a ser medido, previsto e administrado como se fosse um conjunto de dados.

A crítica de Nicolelis permite recusar essa redução. A inteligência humana é inseparável do corpo, da vida, da experiência e da liberdade. Nenhuma sociedade democrática pode permitir que sistemas privados, opacos e orientados por lucro assumam a mediação central da verdade, do trabalho, da educação, da saúde, da guerra e da política sob o pretexto de possuírem uma inteligência superior. O problema não é a existência de máquinas capazes de realizar operações complexas. O problema é uma civilização que começa a tratar máquinas como sujeitos e sujeitos humanos como peças substituíveis de uma engrenagem computacional.

É aqui que Michael Löwy se torna indispensável. O ecossocialismo, em sua formulação, não é uma ecologia decorativa nem uma simples política de compensação ambiental. É uma alternativa civilizatória ao “progresso destrutivo” do capital. Sua força está em recusar duas ilusões: a ilusão liberal de que o mercado poderá salvar o planeta sem enfrentar a acumulação; e a ilusão produtivista de que basta desenvolver forças produtivas sem perguntar a quem servem, que necessidades atendem e que destruição carregam.

O ecossocialismo propõe recolocar a economia sob critérios de necessidade social, equilíbrio ecológico, igualdade substantiva e planejamento democrático. Aplicado à inteligência artificial, isso significa perguntar: quais usos da IA são socialmente necessários? Quais apenas aceleram consumo, vigilância, desemprego, obsolescência e manipulação? Quais aplicações deveriam ser públicas, auditáveis e orientadas por finalidades coletivas? Quais deveriam ser proibidas ou severamente limitadas? Que data centers podem ser admitidos em determinado território? Com qual matriz energética? Com qual uso de água? Com qual retorno social? Com qual controle popular?

A questão ecossocialista não é “mais tecnologia” ou “menos tecnologia” em abstrato. É planejamento democrático da tecnologia. Não há racionalidade ecológica quando a infraestrutura da IA é decidida por fundos, big techs, contratos militares, bolsas de valores e estratégias privadas de domínio de mercado. Se a IA reorganiza trabalho, educação, saúde, comunicação, energia e democracia, então ela não pode ser tratada como propriedade estratégica de poucas corporações.

Essa formulação permite escapar tanto do entusiasmo ingênuo quanto do medo paralisante. A inteligência artificial pode ampliar capacidades humanas, acelerar pesquisas científicas, apoiar políticas públicas, melhorar diagnósticos, fortalecer acessibilidade, ajudar no planejamento climático e reduzir desperdícios. Mas esses usos emancipatórios não emergem automaticamente do mercado. Eles dependem de finalidade social, controle público, transparência, soberania tecnológica, proteção de dados, direitos trabalhistas e limites ecológicos.

Sob o capitalismo, porém, a tendência dominante é outra. Os ganhos de produtividade são apropriados por acionistas. Os custos ambientais são socializados. Os trabalhadores são pressionados por automação, vigilância e intensificação. Os territórios pobres oferecem energia, água, minerais e descarte. Os usuários produzem dados e dependência. As plataformas concentram renda, infraestrutura e poder de mediação.

A periferia global corre risco especial. Países como o Brasil podem ser convocados a fornecer energia renovável, minerais estratégicos, território para data centers, dados populacionais e mão de obra barata, enquanto o comando tecnológico, as patentes, os modelos, as receitas e o poder de decisão permanecem concentrados no Norte global e nas grandes corporações. O discurso da “vantagem competitiva verde” pode esconder uma nova dependência: exportar natureza, energia e dados; importar plataformas, vigilância e subordinação tecnológica.

Essa é a nova fronteira da dependência. Não basta perguntar se um país terá data centers. É preciso perguntar quem os controla, para que servem, quanta energia consomem, quanta água utilizam, que empregos geram, que soberania tecnológica constroem e que danos ambientais deixam. Sem política pública, transparência e controle social, a infraestrutura da IA pode se tornar uma nova forma de enclave: altamente intensiva em recursos, pouco distributiva em benefícios e profundamente subordinada ao capital transnacional.

A inteligência artificial, nesse sentido, condensa a crise civilizatória do capitalismo. Ela promete abundância, mas nasce da escassez produzida. Promete inteligência, mas pode reduzir a autonomia humana. Promete eficiência, mas amplia a pressão energética. Promete acesso ao conhecimento, mas pode privatizar a mediação da verdade. Promete libertar o trabalho, mas pode intensificar desemprego, vigilância e sofrimento psíquico. Promete sustentabilidade, mas depende de uma infraestrutura material cada vez mais pesada.

O fechamento da trilogia, portanto, deve ser político e civilizatório: a IA não pode ser abandonada às forças cegas do mercado. A inteligência social acumulada pela humanidade não pode ser convertida em monopólio privado. Os dados produzidos pela vida coletiva não podem servir apenas à predição comercial e ao controle comportamental. A energia, a água, os territórios e o trabalho humano não podem ser subordinados a uma corrida tecnológica sem deliberação democrática.

A inteligência artificial deve ser recolocada em seu devido lugar: não como destino da humanidade, mas como instrumento. Não como consciência, mas como técnica. Não como autoridade, mas como objeto de deliberação pública. Não como substituta da inteligência viva, mas como ferramenta que só pode ser legitimada quando subordinada à vida, ao trabalho digno, à democracia, à justiça social e ao equilíbrio ecológico.

A IA não é uma nova consciência que supera a humanidade. É uma técnica produzida pela humanidade, mas capturada por uma forma social que tenta transformar inteligência viva, natureza, trabalho e verdade pública em mercadoria. Por isso, a tarefa civilizatória não é obedecer às máquinas, mas libertar a técnica do capital e devolvê-la ao governo democrático da vida.

Isso exige soberania tecnológica, auditoria pública, redução da jornada de trabalho, proteção social, transparência algorítmica, regulação ambiental dos data centers, controle democrático dos dados, investimento público em ciência aberta e prioridade absoluta aos usos socialmente necessários da tecnologia.

Sem isso, a IA será apenas mais uma promessa capturada pela história real do capitalismo: transformar toda potência humana em valor, todo valor em propriedade, toda propriedade em poder e todo poder em capacidade de decidir, em nome de poucos, o destino comum da humanidade.

A crise da inteligência artificial é, no fundo, a crise de quem governa a inteligência social. E essa pergunta não é técnica. É civilizatória.

A IA não é o fim da crise do capital. Ela é a tentativa de automatizar a própria contenção da crise – transferindo seus custos para trabalhadores, territórios, subjetividades e ecossistemas. A questão final, portanto, não é se o capitalismo conseguirá usar a IA para sobreviver à própria crise. A questão é se a humanidade conseguirá impedir que essa sobrevivência seja obtida contra a vida.
Flaviano Correia Cardoso

O país da 'generosidade excessiva'

No país onde o fim da escala 6x1 é tratado como heresia por setores da economia, ameaça aos empregos e ao crescimento do país, os homens da lei e da Justiça deitam e rolam com seus 60 dias de férias, fora os recessos, as licenças, as benesses e tudo o mais que a criatividade permitir.

É no Congresso, onde os recessos somam 55 dias por ano e parlamentares comparecem, basicamente, nas terças e quartas-feiras, que está o destino de quem labuta de segunda a sábado.


No mundo dos privilégios, as cores são tão sortidas que há até quem se esqueça deles. Em entrevista à Folha, o presidente do Tribunal de Contas da União, Vital do Rêgo, que trabalha há 12 anos na corte, disse que só tinha 30 dias de férias. Corrigido pela reportagem, admitiu que tinha 60 dias, mas que se enganou porque costuma tirar, no máximo, cerca de 20 dias de descanso.

Na realidade, Vital se referia a seu recesso. Os 60 dias de férias seguem intactos em seu contracheque, que ele pode tirar ou guardar para a aposentadoria. À queima-roupa, Vital disse que, se pudesse, acabaria com o benefício, que considera uma "generosidade excessiva".

Na contramão desse raciocínio, porém, o que se vê são juízes e integrantes do Ministério Público mexendo com as próprias regras, para parcelar o descanso de 60 dias, fracionando esse tempo em até 12 vezes. Com cotas de cinco dias, é possível juntar dois fins de semana. São nove dias de pernas para o ar. Desconta-se apenas cinco.

Noves fora, a turma da toga poderá folgar seis meses por ano, o que pode ficar ainda generoso, com outras licenças já criadas.

Hoje, a escala 6x1 atinge 33% dos empregos no país. São cerca de 20 milhões de pessoas que acordam e dormem com essa carga de trabalho. Cada uma delas tem direito a 78 dias de folga por ano, somando seus 30 dias (isso quando conseguem tirar) e os fins de semana.

Com a caneta na mão, magistrados e afins se regozijam com 178 dias sem trabalho. Os números deveriam bastar para expor o escárnio.

Cuidado!

Mesmo que consigamos restaurar o espaço do eleitor moderado, a impaciência algorítmica, creio, veio para ficar.
Hélio Schwartsman

Flávio se oferece para apagar o incêndio que ele mesmo estimulou

Foi Donald Trump, em setembro do ano passado, quem disse ter rolado “uma química excelente” entre ele e Lula ao se cruzarem pela primeira vez no prédio da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York:

– “Ele parece um cara muito legal. Ele gostou de mim, eu gostei dele. Eu só faço negócios com pessoas de quem gosto. Quando não gosto, não gosto”.

Lula respondeu, fazendo questão de exagerar:

– “Não foi uma química, foi uma indústria petroquímica”.

Menos de um mês depois, Lula e Trump conversaram por telefone durante quase uma hora. Em pauta estava o tarifaço de 50% aplicado aos produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos, em vigor desde agosto. Voltaram a se falar no início de dezembro sobre o mesmo assunto e sobre o combate ao crime organizado.

Em 7 de maio último, finalmente, Trump recebeu Lula na Casa Branca com direito a tapete vermelho, reuniões de trabalho e almoço. Trump classificou o encontro como “muito bom” e descreveu Lula como um “presidente dinâmico”. Chamou-o de “bom homem” e “inteligente”, destacando que as reuniões de trabalho se concentraram principalmente em tópicos como comércio e tarifas.

Como sempre, Lula foi mais efusivo. Disse a Trump não querer “guerra” entre os países e aproveitou a ocasião para sugerir que ele sorrisse mais, no que foi atendido por Trump, que sorriu.


Vendo aquilo, os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro decidiram intervir com a ajuda de secretários do governo americano contrários à aproximação entre Trump e Lula. Cavaram uma sessão de fotos com Trump no Salão Oval da Casa Branca, o que aconteceu 19 dias depois de Lula ter posto os pés por lá. E foram embora admitindo que desancaram Lula e que cobraram novas intervenções dos Estados Unidos em assuntos internos do Brasil.

Uma delas seria a promoção das organizações criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) à categoria de organizações terroristas. Outra, o monitoramento das eleições de outubro para evitar a ocorrência de fraudes que possam beneficiar Lula e o PT. A primeira já foi atendida por Trump.

Flávio e Eduardo juram, porém, que nada têm a ver com o novo tarifaço anunciado pelo governo Trump no último dia 2 de junho. Pegou mal para eles. Pegou tão mal que Flávio antecipa que voltará a Washington para falar na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos contra o tarifaço:

– “Vou fazer a minha parte para evitar que empresas brasileiras sejam ainda mais taxadas do que já são com o governo Lula. Como era de se esperar, Lula não move uma palha para evitar que elas sejam tarifadas. Ele acredita que isso pode beneficiá-lo em outubro, mesmo que custe quebrar as empresas brasileiras”.

Em resumo: Flávio, agora, se oferece para apagar o incêndio que ele mesmo estimulou. O que lhe importa é livrar-se da pecha de traidor da Pátria.

Ricardo Noblat

O que é violência algorítmica e como enfrentar esse problema

Há dez anos, o influenciador digital e cientista da comunicação Christian Gonzatti, de 33 anos, denuncia a violência algorítmica, argumentando que os algoritmos de redes sociais costumam dar menos visibilidade a alguns conteúdos de temática LGBTQIA+ produzidos por ele sem transparência quanto aos termos que seriam supostamente "proibidos" pelo sistema.

Gonzatti, que também é professor na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), começou a publicar conteúdos culturais classificados como "nerd" dentro do segmento LGBTQIA+ em um canal chamado Viado Nerd.

"O algoritmo não lê contexto. Não via ‘viado' como uma ressignificação, da maneira que historicamente o movimento faz a partir de termos criados originalmente para difamar e caluniar. A página começou a ser denunciada e a plataforma as acatou, como se o espaço fosse de veiculação de discursos de ódio", recorda ele.


De lá para cá, mesmo rebatizando o projeto de Diversidade Nerd, ele continua sendo frequentemente classificado de forma errônea pelas plataformas ou, acredita, muitas vezes tendo seus posts rebaixados em relevância conforme algumas terminologias adotadas. "Se coloco a palavra gay ou lésbica na legenda, por exemplo, o alcance é menor", afirma.

Esse não é um caso específico. Há violência algorítmica quando sistemas de reconhecimento facial classificam de forma pejorativa traços ligados a etnias não brancas, quando a inteligência artificial (IA) produz e distribui deep fakes para destruir a reputação de alguém e até quando modelos automatizados buscam interferir no comportamento das pessoas.

"Muitas vezes estou já dirigindo há 10 horas, 12 horas, sem parar e, quando penso em encerrar o dia, recebo mensagem no aplicativo que estou a uma corrida de ganhar um bônus. Quando vejo, fico 14 horas trabalhando direto, sem parar nem para comer", conta um motorista de aplicativo que atua em São Paulo – mas pede para não ser identificado.

"Neste caso, os algoritmos forçam as pessoas a aumentar a produtividade de um jeito que não reconhece os limites naturais da humanidade. É violência", afirma o cientista da computação e jornalista Alexandre Gonçalves, professor e pesquisador na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos.

Professor de mídia e democracia na Universidade de Maryland, também nos Estados Unidos, o jornalista Daniel Trielli explica que violência algorítmica é um "tipo de agressão ou ataque que depende ou se integra a sistemas computacionais automatizados". Isto inclui não só algoritmos de redes sociais, mas também plataformas de vigilância digital e ferramentas de inteligência artificial. Esses meios podem intensificar os modos tradicionais de violência e também possibilitam novas maneiras de violência.

O exemplo mais corriqueiro seria a disseminação de fake news via redes sociais. "Quando alguém espalha esse conteúdo, os algoritmos amplificam o alcance de mensagem que têm apelo emocional", explica Trielli.

O termo violência algorítmica passou a ser utilizado no início da década passada – por acadêmicos, intelectuais e artistas engajados na problemática. Pesquisadores na Unisinos, a jurista e professora Haide Maria Hupffer e o advogado Gabriel Cemin Petry explicam que o termo foi fundamentado com propriedade a partir do livro Topologia da Violência, do filósofo Byung-Chul Han.

"Não há uma pessoa única que tenha ‘inventado' a expressão. Ela faz parte de um campo mais amplo de debates sobre discriminação algorítmica, opressão, racismo, colonialismo de dados e injustiça automatizada", comenta a assistente social Bruna Irineu, professora na Universidade Federal de Mato Grosso e coautora do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+.

O fato é que os algoritmos não são neutros. Criados por pessoas, empresa e instituições que foram alçadas a ocupar papéis hegemônicos em sociedades alicerçadas em pilares de racismo, sexismo e outras desigualdades estruturais, esses sistemas tendem a reproduzir este "pensamento" preponderante. Afinal, de forma muito simplificada, as ferramentas de inteligência artificial são treinadas a partir da exposição de milhões de conteúdos e decisões oriundos da mente humana.

"Podemos dizer que violência algorítmica acontece quando sistemas automatizados, plataformas digitais, inteligências artificiais, mecanismos de busca, redes sociais ou bancos de dados produzem, reproduzem e amplificam desigualdades sociais", define a antropóloga Larissa Pelúcio, professora na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coautora do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+.

"Ela aparece quando uma tecnologia decide quem será visto, quem será silenciado, quem será considerado suspeito, quem terá acesso a oportunidades, crédito, emprego, circulação, reconhecimento ou proteção", acrescenta.

Irineu completa frisando que a violência algorítmica não cria a desigualdade, mas organiza, amplifica, potencializa, automatiza e dá mais relevância a uma desigualdade que já estava presente na sociedade.

No Brasil, o problema é potencializado por diversas razões. Pelúcio ressalta que a sociedade brasileira já é marcada por formas "naturalizadas de violência institucional". No caldo nacional, há uma combinação peculiar entre "intensa presença digital e profundas desigualdades sociais".

Para a antropóloga, são ingredientes fundamentais para conferir gravidade à questão. Ela frisa ainda que há, no panorama brasileiro, uma "centralidade da violência contra populações negras, indígenas, periféricas e LGBTQIAPN+".

Hupffer e Petry dão um exemplo que ilustra o problema. Em 2021, o Conselho Nacional de Justiça criou um grupo de trabalho para realizar um diagnóstico em processos criminais para evitar condenação de inocentes. Partiram de estudos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro que demonstravam os efeitos do racismos estrutural no sistema, em âmbito nacional. Segundo a pesquisa, em 83% dos casos de reconhecimento facial equivocado que levou pessoas inocentes à prisão preventiva, os encarcerados eram pessoas negras.

Se dados assim forem usados para treinamento de algoritmos, argumentam os pesquisadores, a consequência seria a automatização de falhas que prejudicam os afrodescendentes. É o racismo estrutural, portanto, se tornando racismo digital.

Além disso, para as pesquisadoras Pelúcio e Irineu há a questão do "pânico moral" ligado às plataformas digitais. "Os algoritmos de engajamento tendem a favorecer conteúdos que provocam medo, indignação e conflito. Isso faz com que discursos de ódio e desinformação ganhem escala e velocidade", pontua Irineu.

O cientista da computação Gonçalves explica que esse cenário tende a ser mais complicado no Brasil pelo papel periférico que o país ocupa na construção dessas tecnologias. Como é um setor que importa muito as soluções, os dados muitas vezes não são adequados para as diferenças demográficas brasileiras. "Pode gerar decisões ainda mais enviesadas", argumenta ele.

Mas os juristas Hupffer e Petry lembram que o Brasil "explicitamente reconheceu" a proteção de dados pessoais como um direito fundamental, a partir de emenda constitucional de 2022. Além disso, a Lei Geral de Proteção de Dados do país carrega o princípio da não discriminação. Ou seja: ao menos no arcabouço jurídico e legislativo, há um amparo.

Não há uma panaceia para resolver o problema. Há um conjunto de medidas que precisam ser tomadas. A começar pela educação, os esforços de letramento digital em busca do exercício consciente de uma cidadania online. "É muito importante educar para que todos entendam a maluquice que é o fato de darmos todos os nossos dados para as empresas de tecnologia", comenta Gonçalves.

Especialistas também cobram regulação do setor das big techs. "Precisamos de leis e políticas públicas que responsabilizem plataformas e empresas de tecnologias por danos algorítmicos", afirma a antropóloga Pelúcio. O influenciador Gonzatti também defende que as plataformas tenham mais transparência em suas diretrizes algorítmicas.

Em um espectro mais profundo, Pelúcio e Irineu entendem ser necessária uma técnica amparada por justiça social, em um esforço envolvendo auditorias independentes e revisão em bases de dados com participação de grupos afetados pelo desenho das tecnologias. "Não se trata de corrigir viés como se fosse um pequeno defeito técnico, mas de reconhecer que muitos sistemas são construídos sobre desigualdades históricas", afirma Irineu.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


A paz tornou-se exceção

As imagens da guerra na Ucrânia continuam a atravessar diariamente os ecrãs europeus. No Médio Oriente, sucessivas escaladas militares recordam a fragilidade de uma das regiões mais voláteis do planeta. No Indo-Pacífico, a rivalidade entre os Estados Unidos e a China redefine alianças, estratégias e prioridades económicas.


À primeira vista, trata-se de crises distintas, separadas por geografias, interesses e protagonistas. Na realidade, todas apontam para a mesma transformação histórica. O mundo entrou numa nova fase das relações internacionais e essa mudança é mais profunda do que qualquer conflito isolado.

Durante mais de três décadas, o Ocidente viveu sob uma convicção que parecia confirmada pelos acontecimentos. A Guerra Fria terminara sem confronto direto entre as grandes potências, a globalização expandia-se a um ritmo sem precedentes, as economias tornavam-se cada vez mais interdependentes e a prosperidade parecia avançar lado a lado com a estabilidade. Persistiam conflitos, crises e ameaças, mas a direção da História parecia definida. A política de poder, que durante séculos moldou as relações internacionais, dava lugar a um mundo regulado por instituições, comércio e cooperação. Hoje, essa convicção está a desfazer-se.

Da Ucrânia ao Médio Oriente, das disputas no Indo-Pacífico à crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, a atualidade internacional é frequentemente apresentada como uma sucessão de crises independentes. Essa leitura ajuda a compreender os acontecimentos, mas não explica a sua verdadeira relevância. O que estamos a testemunhar não é apenas uma acumulação de conflitos. Estamos a assistir ao fim de um período histórico excecional e ao regresso de uma realidade que muitos julgavam ultrapassada: a competição estratégica entre Estados voltou a ocupar o centro da política internacional.

Esta constatação obriga a uma inversão de perspetiva . Durante anos, o debate centrou-se na pergunta errada. A questão nunca foi saber se a globalização eliminaria a geopolítica. A questão era saber durante quanto tempo conseguiria mantê-la em segundo plano.

Os acontecimentos dos últimos anos mostram que as rivalidades estratégicas entre Estados nunca deixaram de moldar o sistema internacional. A competição por influência, recursos, mercados e posições de poder continuou a existir, ainda que disfarçada por um período excepcional de integração económica, expansão comercial e relativa estabilidade. O que hoje parece um regresso da geopolítica é, na verdade, o fim da ilusão de que ela alguma vez deixou de ocupar um lugar central na História.

A estabilidade que marcou as últimas décadas foi frequentemente encarada como um estado natural das relações internacionais. Vista à distância, porém, poderá ter sido precisamente o contrário: uma exceção rara. Poucas vezes na era moderna existiu um período tão prolongado em que as principais potências evitaram confrontações diretas, as cadeias globais de comércio conheceram uma expansão tão intensa e a integração económica avançou com tão reduzida resistência geopolítica.

O que muitos consideraram a nova normalidade pode ter sido, afinal, um breve intervalo num sistema internacional tradicionalmente moldado pela competição, pelo equilíbrio de forças e pela afirmação dos interesses nacionais.

A invasão da Ucrânia pela Rússia tornou essa mudança impossível de ignorar. O seu significado ultrapassa largamente as fronteiras do conflito. Pela primeira vez desde o final da Guerra Fria, uma potência nuclear procurou alterar pela força a arquitetura de segurança europeia e desafiar pressupostos que, durante décadas, foram considerados inquestionáveis. A guerra revelou não apenas a vulnerabilidade de um país, mas também a fragilidade de um conjunto de certezas sobre as quais a Europa construiu a sua visão do mundo.

A relevância desta transformação para os europeus é difícil de exagerar. Durante grande parte das últimas três décadas, a Europa beneficiou de condições estratégicas extraordinariamente favoráveis. Energia relativamente acessível, mercados globais em expansão, segurança garantida pela aliança transatlântica e ausência de ameaças militares diretas permitiram concentrar recursos na prosperidade económica e no desenvolvimento social.

Hoje, praticamente todos esses pressupostos estão sob pressão. A discussão sobre defesa, autonomia estratégica, competitividade industrial e segurança energética deixou de ser um exercício académico para se transformar numa prioridade política.

O mesmo padrão pode ser observado noutras regiões. No Médio Oriente, as tensões recorrentes entre atores regionais e internacionais demonstram que a estabilidade continua a depender de equilíbrios delicados e frequentemente precários. Sempre que a situação se deteriora, os seus efeitos fazem-se sentir muito para além da região. Os mercados energéticos reagem, as rotas comerciais tornam-se mais vulneráveis e a incerteza repercute-se nas economias de todo o mundo. Num sistema profundamente interligado, as consequências da instabilidade deixaram há muito de respeitar fronteiras.

Ao mesmo tempo, a ascensão da China introduziu um elemento novo na equação global. Pela primeira vez desde o fim da União Soviética, os Estados Unidos enfrentam um concorrente com capacidade para disputar influência económica, tecnológica, militar e diplomática à escala planetária.

Esta rivalidade não reproduz mecanicamente os padrões da Guerra Fria. As economias permanecem profundamente ligadas e os incentivos à cooperação continuam significativos. Ainda assim, a lógica estratégica é inequívoca. As duas maiores potências mundiais passaram a encarar-se cada vez mais como concorrentes na definição das regras que moldarão a próxima fase da ordem internacional.

A consequência mais importante desta transformação não é o aumento do número de conflitos. É a erosão gradual dos mecanismos que, durante décadas, ajudaram a limitar esses conflitos. As instituições multilaterais continuam a desempenhar funções essenciais, mas enfrentam dificuldades crescentes para produzir consensos entre atores cujas prioridades estratégicas se afastam progressivamente. O desafio vai além das divergências entre Estados. Reflete uma crescente incapacidade de definir princípios e objetivos comuns para a gestão da ordem internacional.

É aqui que se encontra o verdadeiro desafio do nosso tempo. O debate público concentra-se frequentemente nas crises do momento, nos líderes envolvidos ou nos acontecimentos mais recentes. No entanto, os fenómenos que definem uma época raramente se resumem às manchetes de um dia. O que está em causa é algo mais profundo: a capacidade das estruturas políticas internacionais para gerir rivalidades sem permitir que estas se transformem em confrontações permanentes.

Nada disto significa que o mundo esteja condenado a uma nova guerra global. A História não funciona como uma sequência inevitável de catástrofes. As grandes potências continuam a possuir fortes incentivos para evitar confrontos directos. A diplomacia mantém a sua relevância. A cooperação económica continua a produzir benefícios mútuos. Mas seria igualmente imprudente ignorar os sinais de uma mudança estrutural que se desenrola diante dos nossos olhos.

Durante muitos anos, a principal preocupação das democracias ocidentais consistiu em gerir a prosperidade gerada pela globalização. Hoje, o desafio é mais exigente. Consiste em preservar a estabilidade num mundo onde as rivalidades estratégicas regressaram ao centro das decisões que moldam a política internacional.

Não se trata de um regresso ao século XX nem de uma repetição automática dos seus conflitos. Trata-se da transição para um contexto internacional em que muitas das premissas que orientaram as últimas décadas perderam a solidez que lhes era atribuída.

O século XXI não está a assistir ao colapso da ordem internacional. O que revela é o esgotamento de uma convicção que marcou as últimas décadas. A crença de que a integração económica seria suficiente para neutralizar rivalidades geopolíticas revelou-se mais frágil do que muitos imaginaram. A prosperidade aproximou sociedades e criou oportunidades extraordinárias. Não eliminou, porém, os interesses estratégicos, as ambições nacionais nem a disputa pelo poder.

A transformação já está em curso. O verdadeiro desafio consiste em perceber se os principais centros de poder compreenderam a sua profundidade e as suas implicações. O risco não está em interpretar mal os primeiros sinais de mudança. Está em persistir na convicção de que o contexto continua a ser o mesmo quando já deixou de o ser.

O que os acontecimentos recentes vieram pôr em causa não é a possibilidade de cooperação entre Estados. É a ideia de que essa cooperação seria suficiente para neutralizar rivalidades estratégicas duradouras.

A paz, longe de ser um ponto de chegada definitivo, continua a ser uma construção política frágil, exigente e sempre inacabada. Durante uma geração, muitos acreditaram que ela podia ser tomada como adquirida. Os acontecimentos dos nossos dias recordam-nos o contrário. E talvez essa seja a principal lição geopolítica do nosso tempo.

A humilhação diária

Minha amiga Ana Luiza recebeu e me mandou. Num cartum, um idoso de capa, cachecol e bengala está diante de um balcão de informações. A atendente lhe mostra o celular e o instrui: "O senhor baixa o aplicativo e entra em ‘gerar código de acesso’. Aqui tem o certificado digital. Faz o login e clica em ‘escolher o arquivo’. Ele vai pedir um código de liberação do acesso nas extensões JPG, PNG ou PDF... Entendeu?". O cartum é assinado por Tom Cotrim. Mostra uma realidade que está acontecendo neste momento no seu bairro, com macróbios quase centenários como eu ou talvez você.


Sob o cartum, segue-se um texto não assinado: "Uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um smartphone para acessar os seus próprios direitos não é moderna. É uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos. Em 2026, tudo virou um aplicativo, um código, um portal. Mas quem construiu este país com as próprias mãos vê-se hoje analfabeto dentro da própria casa. Para marcar uma consulta ou pagar uma conta, é preciso um filho ou neto, quando existe um".

O texto continua: "Isso é exclusão. A tecnologia deve ajudar, não selecionar quem tem direito à dignidade. Quando deixamos para trás aqueles que vieram antes de nós, não estamos evoluindo —apenas nos tornando mais cômodos e egoístas".

Há anos, no começo da ditadura do smartphone, observei as tentativas de gente da minha geração para se entender com o bicho, assim como se entendia com as novidades da antiga tecnologia. Não queriam parecer velhos ou superados. Mas eles se superestimaram. Não foram capazes de acompanhar a velocidade com que o smartphone evoluiu. Hoje, a tecnologia acha normal que a enorme parcela da população que se recusa a morrer antes da hora —a nossa— seja diariamente humilhada por aquela joça.

Levei a vida me aplicando para escrever direito, ficar atento à história, entender o que lia. Não tenho mais idade, capacidade ou vontade de me converter em engenheiro eletrônico. E acho burro o sistema binário, o do sim ou não. Prefiro o talvez.

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões 

Em Brasília, acha-se normal o que é totalmente anormal

A cena se passa em Brasília, em meados de 2024, pouco antes do evento promovido em Lisboa pelo ministro do Supremo Gilmar Mendes — o famoso Gilmarpalooza. Participam do diálogo o senador pelo Piauí, Ciro Nogueira, presidente do PP, e o deputado pela Paraíba, Hugo Motta, do Republicanos. Quem relata a conversa é Hugo Motta, numa entrevista ao Estadão:

— Ciro me chamou: “Vamos para o evento do Gilmar”. Eu disse: “Ciro, não comprei passagem e tal, e eu tenho que voltar”, porque era a época da festa junina lá nossa. Ele disse: “Não, pô, vamos com o Daniel de carona”. Conhecia o Daniel, fomos de carona. Chegou lá, o Daniel tinha reservado o hotel. Também não vejo problema nisso, é um evento corporativo. Se você falar com qualquer pessoa, é normal você convidar uma pessoa, botar no hotel.


O Daniel é o Vorcaro, claro. A carona é num jatinho. O hotel é o cinco estrelas Four Seasons de Lisboa. De maneira que temos um senador e um deputado federal pegando uma boca-livre de um banqueiro que tinha questões de interesse tramitando no Congresso Nacional — questões que seriam analisadas e votadas pelos parlamentares.

Tudo normal, não é mesmo? Uma situação corriqueira no ambiente de Brasília. Onde mais seria normal “você convidar uma pessoa, botar no hotel”? Sendo que a “pessoa”, no caso, é uma autoridade, e o patrocinador, interessado em negócios com dinheiro público. Todo mundo sabe disso. Reparem no comentário de Hugo Motta, quando ele justifica a boca-livre: “se você falar com qualquer pessoa...”. Quer dizer: se você falar com qualquer pessoa em Brasília, ela dirá que é normal.

Motta também esteve presente num fórum jurídico promovido por Vorcaro em Nova York. Entre os exaustivos debates, participantes tiveram direito a momentos de relaxamento: uma degustação de uísque e charutos num clube de luxo. Diz Motta: “Eu fui também ... Os ministros estavam. Não foi escondido isso. Tinha gente da imprensa lá, de todo mundo. Não era um negócio secreto, vamos nos disfarçar aqui. Não, não. Foi à luz do dia”.

Vorcaro ainda não tinha sido apanhado pela Polícia Federal. Era um banqueiro que conhecia todo mundo em Brasília, onde também promovia jantares, festas e “experiências” — como elas, autoridades, chamam um banquete comandado por chef badalado.

Hoje presidente da Câmara, Motta diz que os parlamentares recebem empresários dos diversos setores, banqueiros, líderes políticos, autoridades de outros Poderes — sempre para discutir temas nacionais. Qual o problema nisso? Nenhum, desde que as conversas se deem formalmente, nos gabinetes, com agenda marcada e publicada. Deveriam ser audiências formais. O que é muito diferente de um papo regado a uísque de 30 anos.

Parlamentares podem, é claro, participar de eventos no exterior que considerem relevantes. Recebem até diárias para custear as viagens, pagas em dólares. Isso para que o parlamentar possa viajar com independência, ele mesmo escolhendo sua agenda e dedicando-se exclusivamente a ela. Ao trabalho. E por quê? Porque é pago com dinheiro público, o nosso dinheiro. E, se tem a diária, ninguém precisa pegar carona em jatinho nem ter um amigo para “botar no hotel”.

A sinceridade, a simplicidade de Motta impressionam por isso. Ele considera normal o que é totalmente anormal, ou deveria ser, numa República. Jatinhos, festas, hospedagens em hotéis internacionais ou resorts locais, mesadas em dinheiro, presentes, incluindo apartamentos — tudo isso parece normal. Os presenteados por Vorcaro dizem que não sabiam o que ele fazia. Ora, mesmo que fosse o banqueiro mais ortodoxo do mundo, também não podia.

Motta, um político mais novo, falou como alguém que usufrui alegremente aquilo tudo. Muitos outros também usufruem, mas se calam. Mesmo quando apanhados, não fornecem qualquer explicação ao público que paga seus salários. Até sentem-se ofendidos quando solicitados a falar. Nos bastidores, manobram para bloquear as investigações.

O futebol e seus oportunistas

Creio que foi Jorge Valdano quem disse isso (e acredito nisso com base em simples estatísticas: quando algo interessante é dito sobre futebol no meu idioma, é muito provável que seja Valdano o responsável). A reflexão foi mais ou menos assim: nunca antes a Copa do Mundo pareceu tão venal, tão comercializada, tão elitista, tão questionável em seu desejo de encobrir autocracias; e, no entanto, a próxima começará, e os torcedores de futebol do mundo todo estarão lá, diante da tela verde, sentindo as mesmas emoções primordiais e insubstituíveis que sentimos desde os tempos da inocência. E, de fato, foi exatamente o que aconteceu. Esta Copa do Mundo com os três países começou tão bem, com tanto futebol de qualidade, tantos gols e tantas satisfações, grandes e pequenas, que corremos o risco de acreditar que estamos assistindo ao mesmo futebol de sempre. Mas não é o caso.

Sob a presidência de Gianni Infantino, essa figura nefasta que se dedicou a usar o esporte mais belo para encobrir os regimes mais inescrupulosos, a Copa do Mundo foi realizada na Rússia de Putin e no Catar da era da sharia , e agora está sendo realizada nos Estados Unidos de Trump. E o país anfitrião, que recebe cerca de cinquenta nações, é um governo abertamente xenófobo que tenta diariamente minar a ordem internacional e destruir as instituições que defendem o multilateralismo. Tudo isso é grotesco por si só: ninguém pode descartar o risco de que o ICE, uma estrutura paramilitar que assassina cidadãos inocentes à luz do dia, use os estádios da Copa do Mundo como uma armadilha para caçar imigrantes; ninguém pode ignorar o cinismo de um presidente que embarca em uma guerra ilegal contra o Irã e depois escreve sobre a seleção nacional daquele país: “Eles podem jogar na Copa do Mundo, mas não acho apropriado que o façam, para sua própria segurança e suas próprias vidas.”

Há uma ironia nesta Copa do Mundo que nunca deixa de me fascinar (digo isso por educação e para evitar dizer que me causa repulsa). É a seguinte: o país anfitrião de uma Copa do Mundo que não existiria sem a imigração latino-americana é um regime que persegue imigrantes latino-americanos com particular ferocidade e crueldade. Aqueles de nós que já vivenciaram Copas do Mundo suficientes sabem como tem sido difícil interessar o americano médio por este esporte, que é profundamente alheio aos seus gostos e prioridades: este esporte onde uma partida pode terminar, para o desespero dos fãs de basquete, sem que nenhuma das equipes tenha marcado um único ponto; este esporte onde não há cantores, nem sorteios, nem bichos de pelúcia gigantes no intervalo para entreter os espectadores. A lógica dos esportes americanos, o entretenimento constante, não se encaixa bem com o futebol, que para muitas pessoas nem sequer é entretenimento. “Algumas pessoas pensam que futebol é uma questão de vida ou morte”, disse o velho Bill Shankly, técnico do Liverpool. “Essa atitude me decepciona: futebol é muito, muito mais importante.”

Foram necessárias décadas para que os empresários do futebol, que há muito reconheceram o potencial econômico inesgotável do esporte mais popular do mundo, o integrassem ao vasto shopping center que é a sociedade americana. As tentativas começaram no início dos anos 70, quando o New York Cosmos trouxe Pelé e Beckenbauer ao país para ver se conseguiam semear o futebol naquelas terras áridas: não tiveram sucesso. Cerca de vinte anos depois, os Estados Unidos sediaram sua primeira Copa do Mundo , e hoje a lembramos por uma das finais mais tediosas da história (e pela vergonhosa tragédia de um jogador colombiano assassinado por mafiosos após marcar um gol contra). Mas foi preciso tempo e ondas de imigração latino-americana, cujos filhos têm filhos que entendem menos espanhol do que entendem de futebol, para que tudo o que faz o futebol ser o que é no resto do mundo emergisse de fato: tradição, memória, lealdade a um time que também é lealdade a uma comunidade, ou àquela rara forma de comunidade que é a infância. Em resumo: tudo isso é tão difícil de explicar para quem nunca sentiu.

O problema é que o futebol, no esforço que seus donos financeiros fizeram para forçá-lo a entrar na cultura americana , pode estar perdendo sua essência. Ou melhor: é possível que os aproveitadores do futebol, como o Sr. Infantino, estejam dispostos, por pura ganância, a transformar o esporte em algo que ele não é. Não me refiro apenas a troféus idiotas como o Prêmio da Paz da FIFA, que Infantino inventou para dar a Trump — talvez o ato de bajulação mais vergonhoso do século. Isso não é exatamente novidade: Mussolini inventou a Coppa del Duce em 1934 para que o verdadeiro troféu não o ofuscasse, e a única diferença é que não havia um Infantino para entregá-lo a ele naquela época. Mas me refiro, acima de tudo, à transformação desse esporte de rua, nascido em terrenos baldios e genuinamente popular, em uma atividade entregue à exploração econômica de seus mínimos aspectos. O preço obsceno dos ingressos para esta Copa do Mundo é o menor dos problemas: até as regras estão mudando.

Agora vemos partidas divididas em quatro quartos — como no basquete — em vez dos tradicionais dois tempos, e chamar esses intervalos de pausas para hidratação não disfarça o fato de que são, na verdade, intervalos comerciais: para que os anúncios preencham esses minutos nas transmissões internacionais. Dizem que esta final da Copa do Mundo terá um intervalo de 30 minutos em vez de 15, e durante ele haverá um show , músicas serão cantadas e pessoas dançarão para que a partida de futebol se assemelhe ao Super Bowl: não importa que, nesse meio tempo, os jogadores se refresquem e a tensão se dissipe. Toda vez que o VAR intervém para anular um gol porque um computador detectou a ponta de uma chuteira do outro lado da linha, ou porque um braço está em posição de impedimento mesmo que as pernas comecem mais atrás, eu penso a mesma coisa: em um esporte que nasceu nas ruas e campos abertos, qualquer coisa que os quatro pares de olhos de quatro árbitros bem treinados não consigam detectar não deveria existir. O VAR nos roubou a emoção , a espontaneidade e a astúcia; Em contrapartida, isso só enriqueceu os fabricantes de uma tecnologia que teria tirado do mundo o gol de Maradona em 1986.

Sim, eu sinto — e não estou sozinho — que estamos sendo roubados. A única decisão positiva que os especuladores do futebol tomaram para 2026 foi a expansão do torneio: com 48 seleções, esta Copa do Mundo é verdadeiramente global. Em uma competição onde a tradição pesa muito — 80 seleções jogaram a Copa do Mundo desde 1930, mas apenas oito foram campeãs —, os estreantes nos deram mais de um motivo para comemorar. O empate de Cabo Verde com a Espanha , mesmo indo contra meus próprios interesses, me lembrou algo que outro treinador lendário disse. “A bola é redonda e as partidas duram 90 minutos”, disse Sepp Herberger em 1954. “Até aqui, nada de certezas. O resto é teoria.”
 Juan Gabriel Vásquez

domingo, 21 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Conflito com Irã faz EUA encolherem como superpotência

"Navios do mundo, liguem seus motores", disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no último domingo ao anunciar um acordo com o Irã para encerrar o conflito que ele iniciou junto com Israel há mais de três meses.

Na quinta-feira, foi a vez de Estados Unidos e Irã assinarem o documento. Trump o fez durante um evento no Palácio de Versalhes, na França, local da assinatura do tratado que cristalizou a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.

O acordo foi saudado pelo líder do Hezbollah, Naim Qassem, aliado do Irã, como uma "grande vitória". Já o principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou: "O acordo é um registro do fracasso dos EUA. As pessoas verão isso e julgarão".

Ao defender o acordo, Trump disse que nenhum presidente dos EUA havia sido tão duro com o Irã e que "a alternativa seria uma depressão mundial", argumentando que, se não tivesse fechado o acordo, "o estreito [de Ormuz] jamais teria sido aberto".

Terminada a assinatura do acordo, ficou claro que os Estados Unidos não conseguiram impor condições ao Irã em relação a uma série de objetivos anunciados no início da guerra, apesar de sua enorme superioridade militar.

Além disso, a capacidade do Irã de usar drones, minas e pequenas embarcações para interromper a livre circulação no transporte marítimo trouxe à tona questões desconfortáveis sobre o papel do poder dos EUA na proteção da liberdade de navegação e na garantia do livre comércio.

"A guerra com o Irã mostrou a extraordinária capacidade militar dos EUA – e sua incapacidade de transformar essas capacidades em algo que se aproxime de uma vitória estratégica", avalia Rebecca Lissner, pesquisadora sênior de política externa dos EUA e diretora da iniciativa Future of American Strategy no think tank Conselho de Relações Exteriores (CFR).

"Isso é um golpe na imagem dos EUA como superpotência global e enfraquece seu status como garantidor da liberdade de navegação. Essa guerra deixou os Estados Unidos em uma posição mais fraca do que no início do conflito", diz ela.


Trump apresentou uma série de objetivos ao iniciar a guerra, incluindo a "aniquilação" da marinha convencional do Irã. Esse objetivo, pelo menos, parece ter sido alcançado – o think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) avaliou que "o Irã perdeu a maior parte de sua capacidade naval em menos de 10 dias".

Mas o Irã não precisava de uma marinha convencional para manter o tráfego marítimo em Ormuz sob ameaça. Seus ataques assimétricos baseados em drones contra instalações energéticas no Golfo provaram ser uma forma eficaz de dissuasão contra a escalada dos EUA. Os aliados do Irã no Iêmen e no Líbano também continuam sendo uma ameaça.

Os ataques aéreos dos EUA e de Israel também eliminaram grande parte da liderança da República Islâmica e enfraqueceram suas forças militares. Ao mesmo tempo, o conflito dificultou muito a vida dos iranianos comuns, que haviam enfrentado uma repressão brutal ao protestar contra o regime poucas semanas antes da guerra. Trump não menciona o destino deles, nem a ideia de "mudança de regime", desde as primeiras semanas do conflito.

Na região, as relações entre Teerã e os Estados do Golfo vizinhos também foram prejudicadas, sinalizando uma instabilidade prolongada. Esses países também passaram a questionar a confiabilidade da proteção de segurança dos EUA, já que suas infraestruturas civis e instalações energéticas ficaram vulneráveis.

Ainda assim, a principal questão estratégica daqui para frente é o Estreito de Ormuz, com o mundo aguardando para ver se os EUA concederão ao Irã nos próximos meses algum controle, mesmo que parcial, sobre o tráfego na via marítima.

O acordo assinado prevê que o "Irã providenciará a passagem segura de navios comerciais, sem custos, por 60 dias". Mas fica em aberto o que acontecerá após esse prazo.

"Mesmo que o acordo consiga reabrir o estreito, o Irã agora tem um poder de negociação que não tinha antes", disse Lissner.

"Os Estados Unidos mostraram que são incapazes ou não estão dispostos a forçar o Irã a reabrir o estreito, o que significa que o mundo viverá com o risco de o Irã poder fechá-lo novamente a qualquer momento", acrescentou.

E, tendo bloqueado o fornecimento global de energia por meses, ainda não está claro por que o regime iraniano abriria mão dessa vantagem sem receber algo em troca.

O Irã, por sua vez, confirmou que não tentará cobrar taxas de passagem por 60 dias, mas, segundo a agência de notícias Tasnim — um veículo estatal semioficial do país —, passará a "cobrar dos navios por serviços após esse período".

O Irã, juntamente com Omã, vem elaborando planos concretos para controlar o tráfego marítimo nessa via navegável estratégica. As duas nações realizaram pelo menos uma conversa sobre o tema nas últimas semanas, e o Irã chegou a criar uma Autoridade para o Estreito do Golfo Pérsico.

E, enquanto os mercados globais respiram aliviados, ainda há dúvidas se o transporte marítimo por Ormuz voltará ao normal.

"Esse acordo parece propenso a, na prática, consolidar o controle iraniano sobre o estreito, criando um mecanismo para que o Irã cobre taxas de embarcações que transitam por lá", disse Lissner.

Por décadas, os pilares centrais do poder dos EUA foram sua superioridade militar e o compromisso com a manutenção do que Washington chama de "ordem baseada em regras", junto a aliados com ideias semelhantes. No comércio global, isso significava que o poder americano poderia garantir a liberdade de navegação e o fluxo eficiente de mercadorias, como o petróleo, ao redor do mundo.

Os EUA projetaram esse sistema global e foram seus maiores beneficiários. Donald Trump, no entanto, sempre foi cético em relação a ele, retratando-o como um sistema em que o mundo "explora" os Estados Unidos em troca de pouco. Essa rejeição ficou evidente na imposição errática de tarifas no ano passado, que continuam gerando incerteza na economia global, mesmo com sua redução recente.

O primeiro acordo nuclear com o Irã, em 2015, negociado pelo governo de Barack Obama, foi um exemplo de multilateralismo liderado pelos EUA. Ele foi construído com cooperação cuidadosa de aliados europeus, além da China e da Rússia. Apesar de imperfeito, permitiu que a pressão sobre o Irã fosse aplicada de forma gradual e coordenada, evitando que divergências se transformassem em conflito aberto.

Trump abandonou o acordo durante seu primeiro mandato, em 2018, e ainda parece acreditar que pode usar a força dos EUA para pressionar o Irã a aceitar algo melhor. Na segunda-feira, Trump afirmou que Obama estava "basicamente pagando o Irã" e que seu governo "negociou a partir de uma posição de força".

Lissner, junto com outros analistas como o historiador Timothy Snyder, classificou a abordagem da administração Trump em política externa como um "suicídio de superpotência".

Sob a liderança de Trump, os EUA têm "desmantelado progressivamente o sistema que Washington construiu, junto com seus aliados, para se manter poderoso e próspero", disse ela.

"A guerra com o Irã apenas acelerou essa tendência, enfraquecendo ainda mais a ordem baseada em regras e afastando aliados americanos. Esses passos apontam para uma 'nova desordem mundial', caracterizada por crescente violência e instabilidade."

O fator Master nesta eleição

O Banco Master já é um fator relevante na eleição de 2026. Estará na mente do eleitor. O que houve na última semana não igualou tudo, apenas deu a todos os participantes da peleja eleitoral a chance de entender que a crise provocada pelo banqueiro que queria comprar todo mundo é mais profunda. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, precisa se defender com argumentos que fiquem de pé. O pré-candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, não será salvo pela tese fraca de que era “dinheiro privado”. Daniel Vorcaro assediava autoridades no pressuposto de que o dinheiro público e as leis iriam socorrê-lo. Nunca foi dinheiro privado.


Para entender o caso, é preciso voltar à quadra um: as agências de controle no governo Lula impuseram todas as derrotas que Daniel Vorcaro e seus cúmplices amargaram. O Banco Central recusou o negócio que seria a salvação do Master, a compra pelo BRB. Se a operação fosse permitida, o rombo provocado pela gestão fraudulenta do ex-banqueiro estaria todo no colo do setor público. A direção do BRB, no governo do bolsonarista Ibaneis Rocha, comprou uma carteira do Master. Foi o suficiente para deixar o banco estadual em frangalhos.

O Banco Central vetou o negócio dos sonhos de Vorcaro, identificou indícios de crime na atuação do Master e de má conduta de dois servidores graduados. Entregou tudo ao Ministério Público e afastou os funcionários. Com base nessa notícia-crime, o assunto foi levado à Polícia Federal que tem investigado. Na nona fase, a operação Compliance Zero chegou a Jaques Wagner, mas já havia atingido o senador Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, o ex-governador bolsonarista Cláudio Castro e integrantes da família Bolsonaro na esteira do estranho financiamento ao filme propaganda Dark Horse. O presidente da Câmara, Hugo Motta, teve contas de viagem internacional pagas pelo ex-banqueiro e reagiu: “Não vejo problemas”. Pois é. O problema está em não vê-los.

A Polícia Federal no governo Bolsonaro foi alvo explícito de intervenção do então presidente. Agora tem investigado com autonomia, olhando para todos os lados.

Voltemos a setembro do ano passado. No dia 2, os partidos do Centrão — PP, União Brasil, PL, Republicanos — e o PSB assinaram pedido de urgência para um projeto do PP que dava ao Congresso o poder de demitir dirigentes do Banco Central. Era intimidação. Não funcionou. No dia 3, o Banco Central negou autorização para a compra do Master pelo BRB. No dia 4, o enteado do senador Jaques Wagner disse em conversa com o banqueiro Augusto Lima “Amanhã vence os boletos e são altos”. O sócio de Vorcaro avisou que o cenário estava “crítico" e, segundo a PF, “vinculou a dificuldade financeira ao insucesso da operação Banco Master/BRB”. No dia 8, Flávio Bolsonaro mandou um áudio para Daniel Vorcaro. Solidário e cobrador. “E você eu sei que está passando por um momento dificílimo”… “tem muita parcela para trás, cara, tá todo mundo tenso (…) já tem muita conta para pagar esse mês”.

O negócio que jogaria nos cofres públicos toda a lambança — farras, shows, apartamentos, jatinhos, advogados, extravagâncias em Nova York, Paris, Lisboa, Los Angeles e Courchevel — seria a compra do Master pelo BRB. O Banco Central frustrou a manobra e pagou um preço alto. Enfrentou pressões do Centrão através do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União, e do ministro Dias Toffoli, o primeiro relator do caso.

No capítulo mais recente, mas não o último dessa investigação, o atingido foi o senador Jaques Wagner. O relator, ministro André Mendonça, não avisou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre a operação, mas não aceitou o pedido da Polícia Federal de fazer busca e apreensão no Senado. Wagner, diante das trocas de mensagens que teve com Augusto Lima sobre a compra de um apartamento, disse que teria pedido ao “Guga" para comprar o apartamento que depois ele recompraria. Quem no mundo tem um amigo banqueiro a quem possa pedir a compra provisória de um apartamento? Um detalhe meio novelesco. Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, é casado com Flávia ex-Arruda que foi ministra da secretaria de Governo de Jair Bolsonaro.

O que é o caso Master? Uma chance, uma enorme oportunidade de fixar a fronteira do que é inaceitável nas relações entre autoridades e endinheirados. Isso é o que realmente interessa ao Brasil.

A foto ofusca o filme

Vista como foto, a violência parece diminuir com a redução da maioridade penal; vista como filme, ela pode se agravar. Com base no momento, explica-se a opinião favorável à redução da maioridade penal; mas, vista como filme, sabe-se que essa redução tende a aumentar a criminalidade, porque muitos adolescentes presos cairão nas garras do crime organizado. No longo prazo, o aumento no tempo de permanência na escola tem melhor efeito na segurança pública do que a redução da maioridade penal. Há sessenta anos, Darcy Ribeiro dizia que “se não fizermos escolas hoje, vamos precisar fazer cadeias no futuro”; na época, preferimos a foto ao filme e, agora, repetimos o erro, construindo mais cadeias para novos condenados adolescentes.


Pesquisa recente de opinião sobre as preocupações da população indica que em primeiro lugar está a violência (27%), seguida da corrupção (20%), dos problemas sociais (18%), da saúde (13%), da economia (9%) e, em último lugar, da educação (6%). Essa hierarquia mostra a lucidez da população no momento da pesquisa. Mas, se no lugar da foto fizermos um filme, a ordem se inverte. A luta contra a violência imediata depende da ineficiência do aparato policial e jurídico para reprimir e punir o crime, inclusive de menores de idade — mas também depende da qualidade e universalização da educação básica.

A saúde é muito mais urgente que a educação e depende de saneamento e da atenção médica, mas a pessoa educada cuida melhor da própria saúde e da saúde pública. A desigualdade no acesso à educação provoca ou acirra a desigualdade social, que, por sua vez, pressiona a violência nas ruas como meio de sobrevivência. A corrupção depende da impunidade com os corruptos eleitos, mas há uma correlação direta entre a universalização da educação e a prática política com valores éticos na escolha de prioridades e na conduta dos políticos.

Embora o emprego dependa do crescimento econômico e este dependa da infraestrutura eficiente e da estabilidade jurídica e monetária, sabe-se que a produtividade e a competitividade dependem do grau de educação da população e que uma pessoa educada tem mais chances de conseguir emprego. O desequilíbrio ecológico decorre de um propósito equivocado de crescimento e da falta de regras para um sistema econômico em harmonia com a natureza. Mas o desenvolvimento sustentável depende, sobretudo, de uma mudança de mentalidade proporcionada pela educação. A soberania precisa de Forças Armadas preparadas, mas, em sua base, está o povo educado. É difícil haver soberania efetiva com população despreparada e até incapaz de reconhecer a inscrição “Ordem e Progresso” na bandeira nacional.

Cada problema depende de outros fatores — o atraso científico e tecnológico decorre da falta de qualidade do ensino superior e da estabilidade no financiamento de pesquisas; a instabilidade democrática decorre da falta de solidez das instituições; o combate à pobreza depende de transferências de renda e da estabilidade monetária — mas a solução para esses problemas requer também educação para todos. Quando conhecemos a história, percebemos que a ausência da educação está na origem e na continuidade de todos os problemas.

Master: extrema direita se anima com corrupção da esquerda

Quem sobra para criticar Estado tomado por corruptos, facções e orcrims empresariais?

As corrupções da política ainda vão ser tema relevante da campanha para presidente? A imundície está tão espalhada que dificilmente haverá flagrante grandioso o suficiente para tirar o país da resignação com a sujeira.

Não se trata de dizer que todo mundo é corrupto ou que todas as turmas políticas contem com corruptos de igual grandeza. Mas há rolo bastante para que candidaturas relevantes se joguem imundícies umas nas outras, em particular pelas redes. Sendo assim, as campanhas talvez deixem o assunto para lá. Será o consenso da podridão.

O lamento não é udenismo, lavajatismo ou demagogia picareta que o valha. Governos do país apodrecem rapidamente, o crime chegou ao poder em alguns estados, entramos na rota de sermos um Estado fracassado.


O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perdeu quantidade de pontos importantes, longe de letal, quando foi pego pedinchando dinheiro a Daniel Vorcaro e por ter mentido sem parar sobre seu caso de amor fraterno com o gangster. Mumunhas e delinquências recentes de sua família, como as do irmão Eduardo, não fizeram estrago maior.

A ficha corrida de Flávio e família poderia reemergir na campanha eleitoral. Os tropeços levaram até gente aliada da direita a plantar em jornais que se estuda alternativa à candidatura Flávio. Com imundície generalizada, as mutretas ainda vão fazer diferença, ameaçar candidaturas?

O senador Jaques Wagner (PT-BA) não é candidato a presidente. Apesar de amigão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-ministro de governos petistas e líder do governo no Senado, mal é conhecido fora da Bahia. A Polícia Federal acaba de tirar uns pedaços de corpos de gavetas de Wagner. Não se compara às covas coletivas dos Bolsonaro. Nem mesmo ao caso do também senador Ciro Nogueira (PP-PI), teúdo e manteúdo de Vorcaro, ex-ministro de Jair Bolsonaro e que até o início do ano queria ser vice de Flávio. Não refresca para Wagner.

O senador petista alega que ajudava a filha a comprar um apartamento, pedindo, digamos, uma espécie de empréstimo-ponte a um sujeito da turma de Vorcaro. Que fosse apenas isso. Imagine-se gente comum (e com alguma sorte na vida), que junta dinheiro de trabalho, vende carro e pede empréstimo a banco para comprar casa. O que vai achar? E quem não tem nada?

No mínimo, Wagner e pares preferem dever favor à ralé endinheirada, pegam carona em jatinho e confraternizam com escroques naquelas cafajestadas cafonas e arrivistas de fumar charuto e tomar uísque. Sim, isso é fichinha. Vide como o Congresso aprova medidas destrutivas da economia nacional, dando dezenas de bilhões a empresários suspeitos do setor elétrico, como está para fazer de novo. Quanto vai custar? Bem mais do que um charuto.

Há muito cadáver para sair do armário da corrupção. Política e Estado apodrecem sem parar. Afora policiais e promotores, pouca gente mais liga para o desastre do Rio de Janeiro. A Assembleia Legislativa do estado (Alerj) estava infiltrada até a cúpula por facções, como Comando Vermelho ou Terceiro Comando. Quem mandava na Alerj e no governo era a turma do PL e aliados, turma de Flávio Bolsonaro.

No entanto, no mínimo, Wagner entrou em uma barca do inferno de Vorcaro. A extrema direita, que ganhou força também por velhas corrupções petistas, pode agora pensar em empatar o jogo da imundície ao menos no campo virtual. Se está todo mundo na lama ou assim parece, não é por aí que o eleitorado vai se decidir.
Vinicius Torres Freire

Insônia e dor de cabeça são o custo implacável e invisível dos data centers de IA

O batimento cardíaco da economia da inteligência artificial soa como o zumbido de baixa frequência de um aparelho central de ar-condicionado do vizinho, um avião voando em grande altitude ou o motor de um caminhão funcionando em marcha lenta na estrada.

Mas a sensação é a de uma pulsação vibrante e rítmica de um subwoofer (tipo de alto-falante) vindo de uma festa que nunca termina. Sim, a nuvem tem um som, e algumas das pessoas que vivem mais perto dos data centers que emitem esse ruído chegaram ao limite de sua paciência tentando bloqueá-lo.

Mês passado, moradores de três pequenas cidades entraram com processos contra data centers especificamente por causa do barulho.

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Os Estados Unidos possuem mais de 3 mil data centers em operação e outros 1.500 em desenvolvimento, segundo uma análise do Centro de Pesquisas Pew. Eles têm sido a espinha dorsal da economia da informação por décadas, operando em grande parte nos bastidores da vida cotidiana.

As demandas da inteligência artificial(IA), de quantidades muito maiores de poder computacional e infraestrutura de refrigeração, provocaram uma explosão na construção de novos data centers.

Hoje, quase 40% das residências estão localizadas a menos de 8 quilômetros de pelo menos um centro de dados em funcionamento, segundo o Pew, e cada vez mais deles estão se aproximando das áreas residenciais.

O zumbido dos sistemas de refrigeração, o ronco dos geradores e o ruído das ventoinhas podem ser ouvidos — e sentidos — a centenas de metros de distância e até meso a mais de um quilômetro.

— A pegada acústica é simplesmente diferente em ordens de magnitude —disse Les Blomberg, diretor executivo da organização sem fins lucrativos Noise Pollution Clearinghouse.

Parte desse ruído consiste em infrassom, ondas sonoras de frequência extremamente baixa que ficam abaixo do limiar da audição humana.

Em vez de ouvirem essas frequências muito baixas, as pessoas as sentem fisicamente com flutuações de pressão, semelhantes à vibração profunda de batidão sacudindo o corpo durante um show, explicou Scott Hamilton, membro da Sociedade Acústica da América e consultor em projetos de centros de dados.

Isso pode fazer com que os indicadores tradicionais de ruído e as soluções para atenuá-lo se mostrem inadequados para atender às necessidades modernas.

Moradores que vivem próximos a fontes de infrassom frequentemente relatam privação crônica de sono e insônia, dores de cabeça, pressão interna nos ouvidos e ansiedade.

Muitas vezes, a legislação não ajuda.

A poluição sonora é regulamentada em nível local por uma complexa rede de leis de zoneamento, originalmente elaboradas para lidar com festas barulhentas, cães latindo ou ruídos de construção, e não com o zumbido industrial constante de um centro de dados funcionando 24 horas por dia.

Também não há muito amparo em nível federal, porque o governo Reagan retirou o financiamento do Escritório de Controle e Redução de Ruído da Agência de Proteção Ambiental (EPA) no início da década de 1980.

Embora existam regulamentações, “não há ninguém na EPA efetivamente encarregado de aplicá-las”, disse Richard Neitzel, professor de ciências da saúde ambiental da Universidade de Michigan.

— Eles usaram esse escritório como exemplo de excesso regulatório, como se o governo não tivesse o direito de me dizer quão barulhento meu cortador de grama pode ser — afirmou.

Agora, os moradores estão tentando preencher essa lacuna regulatória.

Os três processos argumentam que, embora os data centers geralmente cumpram os códigos básicos de zoneamento, o zumbido constante e as vibrações causam desvalorização significativa dos imóveis e a perda do direito ao sossego dos proprietários vizinhos.

Os autores das ações querem indenizações pelos danos e também obrigar as empresas a melhorar as medidas de controle de ruído.

Em Vineland, Nova Jersey, um grupo de proprietários entrou com uma ação na Justiça Federal motivado, em parte, pelo receio de que ainda mais ruído esteja por vir.

— Há um ruído constante de máquinas funcionando, que é mais perceptível à noite quando tentamos dormir — declarou Stefanie Bartiromo, moradora da região, referindo-se às três salas de servidores já em operação, segundo o processo. — Parece um helicóptero que nunca sai do lugar e, às vezes, um caminhão pesado funcionando sem parar.

A ação foi movida contra a DataOne USA, que está expandindo seu campus em Vineland. Quando concluído, o complexo da empresa terá cerca de 241 mil metros quadrados e exigirá 300 megawatts de energia, o suficiente para abastecer uma cidade de porte médio.

A DataOne afirmou que já adotou medidas para reduzir o ruído e que continuará fazendo isso à medida que a expansão for concluída.

"Continuamos comprometidos com um diálogo construtivo e com o papel de membro valioso e responsável da comunidade a longo prazo", disse um porta-voz da empresa em comunicado.

A companhia afirmou que pretende gerar empregos e impulsionar a economia local. O mesmo argumento econômico foi apresentado pelas outras empresas processadas por causa do ruído, anos depois de terem reaproveitado antigos terrenos industriais em Dowagiac, Michigan, e Lowell, Massachusetts.

Moradores de Dowagiac vinham reclamando de um data center de 30 megawatts instalado em um prédio que anteriormente era usado principalmente para armazenar barcos e veículos recreativos.

A proprietária do data center, Alliance Cloud Services, comprou recentemente mais 50 acres de área florestal, pois planeja ampliar sua capacidade de consumo de energia de 30 para 300 megawatts. Parte dessa área servirá como uma barreira natural contra os impactos do empreendimento, segundo a empresa.

Para combater o ruído, o setor está migrando para sistemas de refrigeração líquida. Em vez de utilizar ventiladores barulhentos para impulsionar o ar, os servidores são submersos em fluidos especiais não condutores ou equipados com placas frias refrigeradas por líquido instaladas sobre os processadores que geram calor.

Isso pode reduzir o ruído de um centro de dados em mais de 50%, mas o custo de instalação é muito maior.

Dowagiac, uma cidade de 5.700 habitantes, possuía uma lei geral sobre ruídos, como muitas comunidades, mas recentemente estabeleceu limites de decibéis para o ruído ambiente em zonas residenciais, comerciais e industriais.

A maioria das comunidades define seus padrões utilizando a escala de decibéis ponderada em A, projetada para imitar a audição humana em ambientes silenciosos e que reduz significativamente — ou ignora — sons de baixa frequência emitidos pelos data centers, segundo especialistas.

Já a escala ponderada em C foi criada para captar ruídos de baixa frequência.

Essa distinção é especialmente importante ao medir o ruído de data centers, dominado por zumbidos de baixa frequência produzidos por enormes ventiladores de equipamentos de refrigeração, explicou Neitzel.

Como consequência, afirmou Blomberg, uma fonte sonora que claramente domina a percepção auditiva de uma pessoa pode não ser registrada como um problema em um medidor de decibéis convencional.

O CEO da Hyperscale Data, empresa controladora da Alliance, afirmou que suas operações estão dentro dos limites de decibéis permitidos pela cidade e que utilizam sistemas que minimizam o consumo de energia.

O executivo, William B. Horne, disse que participaria de uma reunião do conselho municipal para conversar com os moradores e ressaltou seu compromisso em ser um parceiro confiável.

— Ofereceríamos comprar essas propriedades pelo valor de mercado e fornecer um subsídio para ajudar a cobrir os custos da mudança — afirmou, referindo-se aos residentes que vivem ao lado do centro de dados.

O cerne do problema, segundo Neitzel, é que muitas fontes tradicionais de ruído comunitário — como aeroportos e rodovias — tendem a diminuir de intensidade durante a noite.

Não é o caso dos data centers. Em Lowell, Diana Streete afirmou que o ruído “interfere regularmente na capacidade da minha família de dormir, descansar, relaxar e aproveitar confortavelmente nossa casa”.

— Os quartos dos meus filhos ficam voltados para a área de entrada, onde circulam caminhões e ocorrem atividades da instalação, o que torna o ruído especialmente perturbador — disse.

Lowell, uma cidade de 115 mil habitantes, foi fundada como um polo têxtil no século XIX, mas suas fábricas fecharam no início do século XX. O local onde hoje funciona o data center abrigou anteriormente a Lowell Bleachery and Dye Works e, posteriormente, durante seis décadas, a fábrica da Prince Spaghetti.

O data center, com cerca de 32,5 mil metros quadrados, fica ao lado de residências e instalações recreativas, incluindo um parque e um campo de beisebol.

Sua proprietária, a Markley, afirmou que o complexo sustenta a infraestrutura digital de órgãos de segurança pública, universidades, hospitais locais e outras instituições regionais.

Trata-se de um data center de colocalização, uma instalação compartilhada onde várias empresas alugam espaço para abrigar seus equipamentos computacionais. Isso é diferente dos data centers de hiperescala, construídos para atender às necessidades de grandes empresas globais de tecnologia.

Um porta-voz da Markley afirmou que os geradores são testados semanalmente e que o som produzido permanece dentro dos limites estabelecidos.

Hamilton observou que existe uma ampla variedade de sons e, igualmente ampla, é a forma como as pessoas os percebem. Segundo ele, os padrões atuais são desenvolvidos para a pessoa comum.

— Mas, quando você trabalha tempo suficiente nessa área, acaba encontrando — ou experimentando — pessoas ultrassensíveis — disse Hamilton. — Essas pessoas realmente percebem sons, vibrações e intensidades que o ser humano médio considera irrelevantes e pensa: "Isso não é um problema, não sei do que você está falando". Mas elas são genuinamente atormentadas por isso.