sábado, 27 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 



O homem apagado

Não era apenas um objeto. O homem largado sobre a cadeira de rodas era um ser humano. Repleto de sonhos, de frustrações. Quem sabe de amores perdidos ao longo da vida? Talvez por ser uma pessoa em situação de rua, o homem foi apagado aos olhos dos outros. Morreu dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Recanto das Emas, em circunstâncias que estão sendo apuradas. De repente, o homem deixou este mundo. Parou de respirar. O corpo, inerte sobre a cadeira de rodas, somente foi percebido tempos depois por uma mulher, enfermeira, que estava na sala de espera com o marido. Mas era tarde demais.


O homem apagado estava sem sinais vitais. Virou número, estatística, dado que provavelmente será usado para evitar novos apagamentos em unidades de saúde. No dia seguinte, ganhou identidade pelas autoridades: Vilmar da Silva, 49 anos. Antes de morrer, contou a um grupo de religiosos que não se alimentava havia 15 dias. Acredita-se que estivesse ali para se proteger do frio e para aliviar a sede. Dessa vez, parece ter sido ignorado. Até partir.

Outros homens, mulheres e crianças apagados cobram o preço de sua mera existência mundo afora. Os palestinos sofrem apagamento quase diariamente. Bombardeios israelenses arrastaram para a morte dezenas de milhares de moradores da Faixa de Gaza. E o mundo se cala, parece acostumado à política de matança. Dia desses me deparei no Instagram com a história de um palestino assassinado em ataque aéreo enquanto buscava os convites de seu casamento. Quase diariamente, nós, jornalistas, recebemos fotos das agências de notícias em que pais e mães da Palestina se desesperam e se debruçam sobre os corpos dos filhos envoltos em mortalha. Assim como Vilmar, que morreu sobre uma cadeira de rodas na UPA de Recanto das Emas, retiraram-lhes o direito de viver.

Mas não é preciso ir tão longe para ver homens anulados pela sociedade. Muitos de nós estamos presos ao individualismo, ao egoísmo, à busca do enriquecimento e da prosperidade. Nós nos preocupamos tanto conosco e não olhamos para o próximo, para o lado. Quantos filhos abandonam seus pais em asilos e os apagam da própria história? Tantas vezes, quando o fazem, levam meses ou anos sem uma visita. O idoso alimenta aquela esperança, irreal, a cada fim de semana. Do outro lado, muitos encontram silêncio, desprezo e esquecimento em vida. Também quantos pais ignoram a existência de seus filhos e não lhes oferecem o mínimo suporte afetivo e financeiro? Destroem a saúde psicológica de quem deveriam amar.

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade. Estão nos semáforos, nas portas dos supermercados, sob as pontes e os viadutos, lançados na sarjeta. Dependem unicamente da empatia alheia, que quase sempre inexiste. Quando o Estado lhes dá atenção, normalmente é para sepultá-las.

Intervenção assumida

Observamos seu otimismo em relação às próximas eleições de outubro e sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição caso o senhor seja eleito.

Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos 

Livro XI


I
. Devo considerar o meu vínculo com os homens e que fomos feitos uns para os outros. Sob outra perspectiva, fui concebido para pastorar, como um carneiro que chefia o rebanho ou um touro que conduz a manada. Devo examinar a questão a partir das primeiras convicções: caso não existam somente átomos, a natureza ordena tudo. Assim sendo, as coisas inferiores existem para o benefício das superiores, e essas para o bem umas das outras.

II. Devo avaliar quais tipos de homens são na mesa, na cama e assim por diante. Particularmente, a quais compulsões estão sujeitos devido às suas opiniões e o quanto se orgulham das suas ações.

III. Caso os homens façam o que é certo, não devemos nos descontentar. Caso não, agem por falta de consciência e por ignorância. Nenhuma alma é voluntariamente privada da verdade ou tolhida da aptidão para lidar com os homens conforme seus méritos. Esse é o motivo de se chatearem quando são chamados de injustos, ingratos e gananciosos e, em especial, malfeitores dentre seus vizinhos.

IV. Também erro e sou um homem como qualquer outro. Embora não incorra em certas falhas, ainda estou inclinado a cometê-las — mesmo que a covardia, o apego à reputação ou outras motivações vis me previnam de falhar.

V. Nem sequer sei se os homens estão agindo errado ou não, porque muitas ações são realizadas proporcionalmente às circunstâncias. Um homem precisa saber muito para ser capaz de julgar corretamente as ações do outro.

VI.Caso esteja aborrecido ou aflito, devo ponderar: a vida do homem é um breve instante e logo estaremos todos mortos.

VII. O que nos perturba não são os atos dos homens — pois esses se fundamentam nas suas faculdades hegemônicas —, mas sim nossas próprias opiniões acerca dos atos. Portanto, remova a sua opinião. Pare de julgar um ato como doloroso e sua dor cessará.

“Como, então, remover essas opiniões?”

Basta reconhecer que nenhum ato errôneo sofrido por você é vergonhoso. Afinal de contas, se o que é vergonhoso fosse apenas mau, você cometeria muitos erros, seria um ladrão e tudo mais.

VIII. A dor é causada mais pela cólera e pelo aborrecimento em resposta aos atos do que  pelos atos em si.

IX. Uma boa disposição é invencível quando é genuína—quando o sorriso não é falso ou fingido. Não há nada que o homem mais violento possa fazer caso você continue tratando-o gentilmente, admoestando-o e calmamente corrigindo-o quando tentar prejudicá-lo. Diga a ele: “Não é assim, meu filho. Fomos constituídos por natureza para outro propósito. Você prejudica não a mim, mas a você mesmo.” Mostre-o, com tato e recorrendo a convicções abrangentes, que nem as abelhas nem quaisquer animais gregários agem como ele. Você deve se dirigir a ele de modo afetuoso, sem sarcasmo ou reprimenda e sem guardar rancor na sua alma. Você deve admoestá-lo não como se fosse um professor ou como se pretendesse impressionar espectadores, mas sim como se ele estivesse sozinho — ainda que outros estejam presentes.

Receba essas nove regras como se fossem dádivas das nove Musas.

Comece, enquanto ainda vive, a ser um homem. Evite, na mesma medida, tagarelar e se aborrecer com os outros, porque ambos são comportamentos antissociais e danosos. Quando encolerizado, retenha esta verdade: ser movido pela paixão não é viril. A brandura e a gentileza, por estarem mais em consonância com a natureza humana, são mais viris. Quem possui essas duas qualidades demonstra força, nervos e coragem, diferente do homem sujeito ao ímpeto da paixão e do descontentamento. Ao passo que se liberta das paixões, o homem se fortalece. A raiva é uma característica da fraqueza tanto quanto o sofrimento. Quem cede à ira está tão ferido e rendido quanto quem cede à dor.

Por fim, caso queira, receba uma décima dádiva do líder das Musas:

X. Esperar que homens maus não façam o mal é insanidade, pois significa expectar o impossível. Permitir que se comportem dessa maneira com o outro mas não com você é irracional e tirânico.
Marco Aurélio, "Meditações"

Por que ainda as chamamos de redes sociais?

Certa vez, tive um professor no ensino médio famoso por suas aulas intermináveis. Entre bocejos, ele repetia um aviso que, na época, parecia óbvio: “Nunca se esqueçam de que o que acontece na televisão é ficção, não realidade”. Anos depois, vendo o que as redes sociais se tornaram , esse aviso ressoa com uma relevância inesperada.

O termo “rede social” tornou-se comum em meados dos anos 2000, coincidindo com a ascensão de plataformas como Facebook, Twitter e YouTube. Durante seus primeiros anos, a expressão descrevia com bastante precisão o que acontecia ali: espaços digitais onde as pessoas compartilhavam conteúdo, mantinham contato com amigos e familiares e reconstruíam relacionamentos enfraquecidos pelo tempo ou pela distância. O que importava não era apenas o conteúdo, mas a conexão que ele fomentava: comentar uma foto, responder a uma publicação. Essa dimensão relacional alimentou uma ilusão coletiva sobre o potencial dessas plataformas para fortalecer a solidariedade e democratizar a comunicação.

No entanto, as mesmas plataformas que facilitavam a conexão tornaram-se amplificadoras de desinformação, assédio e polarização, enquanto a lógica da viralização recompensa conteúdo extremo ou falso. Mas, além desses problemas amplamente documentados, ocorreu uma transformação mais profunda e menos visível: uma mudança na forma como as pessoas usam as redes sociais. Dados da Pesquisa Global de Consumidores sobre o Uso de Redes Sociais mostram que cada vez mais usuários priorizam o consumo de conteúdo em detrimento da interação. Além disso, a natureza desse conteúdo mudou. As postagens que dominam os feeds não são mais, em sua maioria, espontâneas, mas sim peças cuidadosamente elaboradas com uma intenção clara: capturar a atenção.


Essa evolução decorre de um modelo econômico específico. O ativista Cory Doctorow o descreve da seguinte forma: uma vez que as plataformas conquistam a fidelidade do público oferecendo serviços gratuitos, elas gradualmente priorizam outros interesses, orientando o ambiente primeiro para os anunciantes e depois para a maximização do lucro, mesmo que isso prejudique a experiência do usuário. Nesse processo, a sociabilidade, a força motriz inicial dessas redes, torna-se um recurso explorável: as interações deixam de ser o objetivo final e passam a ser o meio para capturar e manter a atenção, o bem mais disputado no ecossistema midiático atual.

O resultado é um ambiente onde a visibilidade é profundamente hierárquica. Um pequeno grupo de criadores comanda a atenção , enquanto a maioria adota um papel passivo: não se trata mais tanto de conversar com outras pessoas, mas sim de seguir aqueles que estão constantemente produzindo. O que emerge não é uma rede social no sentido original, mas algo mais próximo de um sistema de relações unilaterais. Esse tipo de conexão, em que uma das partes conhece (ou pelo menos acredita conhecer) a outra sem qualquer interação real, é chamado de parassocial. Não é um fenômeno novo: já existia entre o público e as celebridades da televisão ou do rádio. A diferença é que agora se tornou a forma dominante de interação em plataformas que ainda chamamos de sociais.

Nada disso significa que a ficção seja inerentemente negativa; ela pode ser uma fonte de entretenimento e aprendizado. O problema surge quando ela substitui os laços que envolvem reciprocidade e presença mútua. Uma coisa é acompanhar a vida de alguém através de uma tela , e outra bem diferente é fazer parte de uma rede de relacionamentos que pode nos apoiar quando precisamos. A primeira entretém; a segunda constrói o tecido social. Hoje, grande parte do tempo gasto nas redes sociais é dedicada à primeira, ativamente reforçada por algoritmos que priorizam conteúdo que maximiza o tempo gasto online. Como resultado, aqueles que ainda valorizam uma conexão mais autêntica estão se refugiando em espaços mais limitados: grupos de mensagens privadas, comunidades fechadas e ambientes baseados em assinatura, onde a confiança importa mais do que a escala.

Vale, portanto, retornar à questão inicial. Se o que acontece nesses espaços se assemelha cada vez mais a um sistema de consumo de conteúdo do que a uma rede de relacionamentos, ainda faz sentido chamá-los de “redes sociais”? Nomear não é um ato trivial. As palavras que usamos para descrever a realidade condicionam a nossa compreensão dela . Continuar falando em redes sociais pode nos fazer esquecer a transformação pela qual essas plataformas passaram e dificultar a reflexão crítica sobre o seu funcionamento atual. Se a sua natureza mudou, também devem mudar as categorias que usamos para pensar e analisá-las. Não se trata apenas de terminologia: trata-se de reconhecer que o que domina esses espaços hoje não é precisamente a conexão entre iguais.

Aquele professor nos disse para não confundirmos a tela da televisão com a realidade. Hoje, quando a tela cabe no bolso e a levamos para todo lugar, seu aviso já não soa óbvio. Soa urgente.
Marta Fraile

Um país que só existe hoje e até a esquina

Faça um teste com qualquer pessoa das que lhe prestam serviços, em sua casa, no seu prédio ou na rua. Pergunte-lhe se sabe o que aconteceu no Brasil em 1964. Ou sobre qual veio primeiro, se a Segunda Guerra ou a Guerra do Paraguai. Ou em que ano foi proclamada a República, 1822 ou 1889. Não quero antecipar nada, mas temo que as respostas não sejam muito animadoras. Converso com muita gente, de todas as classes e categorias, e sinto nelas um distanciamento crescente entre as premências da vida real e um conhecimento básico do país. É como se, para elas, o Brasil só existisse hoje e até a esquina.


Todos recebemos com satisfação os dados do recente levantamento do IBGE, que registrou a queda do analfabetismo para, pela primeira vez, abaixo de 5% da população. É uma vitória –há cerca de 100 anos, a taxa era de monstruosos 80%. Um fator fundamental para a escalada da alfabetização foi a transferência da população rural para as cidades nas décadas de 1960 e 1970. Mais da metade dos 4,9% atuais que não sabem ler nem escrever tem acima de 60 anos, o que confere com o dado anterior. São os brasileiros que ficaram para trás, e os governos não foram até a eles para alfabetizá-los.

Mas, para mim, o chocante são os 29% da população entre 15 e 60 anos, hoje, que sabem identificar as palavras e os números, mas não conseguem entender textos pouco além da cartilha nem multiplicar 3 vezes 9 ou dividir 12 por 4. Chama-se a isso analfabetismo funcional e atinge até quem está nas faculdades. Pode-se aceitar que 12% dos atuais matriculados no ensino superior sejam analfabetos funcionais? Serão esses os nossos profissionais do futuro?

Dos 16 anos que se exigem de alguém para se educar (nove no ensino fundamental, três no médio e quatro no superior), o brasileiro passa só dez anos na escola. O americano, 14. Sim, temos bolhas de alta realização –sempre as tivemos. Só que todos os países também as têm e, na média, mais do que nós.

Mas chega de pessimismo. Neste momento, há um livro vendendo aos milhões no país: o álbum de figurinhas da Copa.

Ameaças que pairam sobre nós

No dia 3 de janeiro deste ano, Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, em uma ação militar espetacular que quebrou todas as resistências e retirou de seu país o presidente da Venezuela, sem nenhuma baixa norte-americana.

No dia 15 de janeiro, Lula convocou uma reunião emergencial com os chefes das Forças Armadas e perguntou se temos como nos defender de uma ação similar no Brasil. A resposta é frágil, e volta à tona a falta de investimentos em modernização e armamento.

A questão da defesa do país já se colocava em razão dos atritos com os Estados Unidos ocorridos em 2025. Em 3 de novembro de 2025, depois da aprovação do PL pelo Senado, a Câmara dos Deputados aprovou o repasse de R$ 30 bilhões para reaparelhar e modernizar Exército, Marinha e Aeronáutica. Dinheiro extra, fora das regras do arcabouço fiscal.

A Marinha encomendou oito fragatas da classe Tamandaré, equipadas para guerra antiaérea, antissubmarino e de superfície, e reforçou seu programa do submarino nuclear. A Aeronáutica impulsiona a construção no Brasil dos caças Gripen, comprados da Suécia e com uma linha de montagem no Brasil. O Exército impulsiona a fabricação de carros de combate blindados e sistemas de inteligência. Todas as Forças compram munições e encomendam drones e mísseis. A indústria bélica brasileira ganha impulso.


Na avaliação do governo, há um risco crescente de conflitos militares com os Estados Unidos e os demais países que constituíram recentemente o Escudo das Américas, em uma reunião no dia 7 de março de 2026. Eles formam uma coalizão política e militar comandada pelos Estados Unidos, com a participação de outros 17 países latino-americanos. A Doutrina Donroe (“As Américas para os norte-americanos”) se propõe a combater toda forma de expressão de autonomia ou soberania nacional diante das imposições dos Estados Unidos.

Em 10 de março deste ano, o Congresso do Paraguai aprovou um acordo com os Estados Unidos que permite a presença de militares norte-americanos e de membros do Departamento de Defesa no país. O mesmo tratado permite a livre circulação de aeronaves, barcos e veículos operados pelo Departamento de Defesa. Fica acordado que os Estados Unidos terão uma base militar no país.

A Argentina fez acordo por cinco anos com a Quarta Frota do Comando Sul dos Estados Unidos para cooperação militar no patrulhamento do Atlântico Sul. Do acordo constam transferência de tecnologia, treinamento e interferência direta norte-americana contra eventuais “ameaças”. Em construção, uma base militar norte-americana na Patagônia argentina. No momento, a base militar de Ushuaia permite a presença de forças especiais navais norte-americanas, por força de um decreto administrativo do governo Milei.

No Equador, os Estados Unidos já atuam na luta contra o “terrorismo”.

Na região Norte, o Exército brasileiro já deslocou efetivos e reforçou sua presença na fronteira com a Venezuela, hoje um protetorado norte-americano. Além disso, seguindo a proposta da Política de Transformações (modernização e maior eficiência), o Exército determinou que 20% de seu efetivo esteja em elevado grau de prontidão para cenários de defesa e de resposta rápida, e designou cinco brigadas para essa condição – ao todo, são cerca de 25 mil soldados.6

Mesmo com todo esse esforço, nossa vulnerabilidade é enorme. E podemos ter problemas caso se efetive o pedido de Flavio Bolsonaro para que Trump classifique o PCC e o CV como organizações terroristas, uma vez que a legislação americana permite a intromissão em outros países para combater o terrorismo.

A realidade é que a América do Sul se militariza, e o que antes era um território de paz hoje se converte em um território de disputas no qual os Estados Unidos já praticam uma guerra híbrida, isto é, um conflito que combina táticas militares com ações não convencionais para derrotar um adversário sem necessidade de um confronto bélico. Combinam-se ações de manipulação de notícias e fake news, roubo de dados, ciberguerra, pressão econômica, financiamento das oposições, influência em processos eleitorais, lawfare (guerra jurídica). Mas o confronto bélico sempre está no horizonte, como forma de pressão.

Não tenhamos dúvidas de que o Brasil está sendo atacado. Trump não aceita nossa defesa da soberania, nosso esforço de defesa do multilateralismo para sair de sua dependência, nosso esforço de industrialização, nosso esforço de integração latino-americana e com o Brics.

Os Estados Unidos, associados às plataformas digitais, vão tentar interferir em nossas eleições, como já ameaçou Elon Musk, que teve sua empresa X suspensa temporariamente de operar no Brasil em 2024 por recusar-se a obedecer à legislação brasileira.

Também é preciso levar em conta que o bolsonarismo pede o apoio de Trump em sua campanha eleitoral, chegando a desfraldar a bandeira norte-americana em manifestações de rua. Parte do empresariado se coloca contra o governo petista e em apoio a Flavio Bolsonaro.

A disputa eleitoral será renhida, e do resultado depende a sobrevivência da democracia ou seu fim.

A diplomacia da vassalagem: Flávio Bolsonaro e a submissão aos EUA

Faltam exatos 99 dias para 4 de outubro de 2026, data em que será realizado o primeiro turno das eleições. E, justo neste momento, a política externa da extrema-direita brasileira, liderada por Flávio Bolsonaro, rende mais um capítulo vergonhoso de submissão aos interesses econômicos dos Estados Unidos.

Revelada por Paulo Figueiredo — neto do último ditador do Brasil, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, e assessor do ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro —, uma carta de Marco Rubio, secretário do Departamento de Estado dos Estados Unidos, volta a deixar Flávio em maus lençóis. Nela, Rubio registra a “generosa oferta” que teria sido feita por Flávio para “colocar uma equipe de transição” à disposição do governo americano, caso este se eleja presidente da República.


Ocorre que, pela legislação brasileira, a equipe de transição funciona unicamente para facilitar a passagem do governo que sai para o governo que entra. Regulamentada em 2002 por decreto do então presidente Fernando Henrique Cardoso, a lei prevê a criação de até 50 cargos comissionados para recolher dados junto a órgãos da administração pública federal, com o objetivo de preparar os primeiros atos do futuro governo.

Flávio recebeu a carta de Rubio no último dia 23. No mesmo dia, enviou ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) um pedido para participar da audiência pública sobre as tarifas propostas pelo governo Donald Trump contra o Brasil, marcada para 6 de julho. O novo tarifaço foi anunciado dois dias depois da última reunião de Flávio com Trump na Casa Branca.

Tarifaço ou “Tariflávio”, tanto faz. Flávio jura que nada tem a ver com a imposição de tarifas a produtos brasileiros. Diz que só pediu a Trump para declarar como organizações terroristas, de acordo com a legislação americana, as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC). Foi atendido de imediato.

Quando do primeiro tarifaço, em março do ano passado, Flávio o apoiou, assim como fizeram seu irmão Eduardo e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Além disso, quando Trump começou a bombardear barcos com drogas no Caribe, Flávio sugeriu que fizesse o mesmo com embarcações que navegam na Baía de Guanabara.

Cópias encardidas do pai, Flávio e Eduardo se comportam como vassalos de Trump. É o que de fato são.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Pensamento diário

 


A inteligência artificial e a nova fratura metabólica do capital



A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma promessa de eficiência, produtividade e libertação do trabalho humano. Fala-se em automação, modelos generativos, medicina preditiva, educação personalizada, transição energética, racionalização de processos e democratização do conhecimento. Mas essa narrativa, quando separada da crítica da economia política, encobre uma contradição decisiva: a IA não nasce fora da história. Ela nasce dentro do capitalismo, financiada por capitais concentrados, orientada por mercados monopolizados, dependente de infraestrutura material pesada e subordinada à lógica da valorização.

Este é o ponto de partida necessário para compreender a inteligência artificial não como simples ferramenta, mas como expressão de uma nova etapa da crise civilizatória do capital. Se o primeiro movimento desta trilogia tratou da macroeconomia, da financeirização e da tentativa de contenção da crise por meio do capital fictício; se o segundo examinou a IA como limite histórico, filosófico e político do capitalismo; este terceiro precisa enfrentar a consequência mais profunda: a inteligência artificial revela que o capitalismo já não ameaça apenas o trabalho, a subjetividade e a democracia. Ele ameaça também o metabolismo ecológico da vida.

A chamada “nuvem” não flutua sobre a Terra. Ela está fincada em data centers, cabos submarinos, mineração, terras raras, semicondutores, energia elétrica, água, sistemas de refrigeração, galpões industriais, vigilância informacional e trabalho humano invisibilizado. A IA é apresentada como abstração, mas sua existência é brutalmente material. Por trás da leveza aparente de uma resposta gerada em segundos, há uma cadeia mundial de extração, processamento e consumo energético. O algoritmo parece imaterial apenas porque sua materialidade foi deslocada para longe do olhar do usuário.

Atribuir inteligência às máquinas pode servir para reduzir o valor da inteligência humana, naturalizar a substituição de trabalhadores, justificar decisões automatizadas e enfraquecer a exigência de responsabilidade política pelos sistemas técnicos 

Kate Crawford é decisiva nesse ponto. Em Atlas of AI, ela demonstra que a inteligência artificial deve ser compreendida como uma tecnologia de extração: extrai minerais da terra, energia dos sistemas elétricos, trabalho humano precarizado, dados dos sujeitos e padrões da vida social. Sua contribuição desloca o debate de uma “ética da IA” abstrata para uma crítica material da infraestrutura que torna a IA possível. A inteligência artificial não é apenas código, modelo ou linguagem matemática. É uma rede planetária de poder, trabalho, natureza e capital.

Essa materialidade já aparece nos dados internacionais. A Agência Internacional de Energia estimou que os data centers consumiram cerca de 415 TWh em 2024, aproximadamente 1,5% da eletricidade mundial. A mesma agência projeta que esse consumo pode mais do que dobrar até 2030, chegando a cerca de 945 TWh – valor superior ao consumo atual de eletricidade do Japão. A IA aparece como um dos principais vetores desse crescimento, ao lado da expansão geral dos serviços digitais. O dado é politicamente decisivo: a infraestrutura da IA deixou de ser marginal e passou a disputar energia com setores industriais inteiros.

A Universidade das Nações Unidas também chama atenção para um ponto essencial: não basta medir a pegada de carbono da IA. É preciso medir conjuntamente carbono, água e terra. A localização dos data centers, a matriz energética utilizada, os sistemas de refrigeração, o uso operacional dos modelos e a expansão da inferência cotidiana alteram profundamente o impacto ambiental da tecnologia. O problema não está apenas em treinar grandes modelos uma única vez, mas em operá-los milhões ou bilhões de vezes, todos os dias, em cadeias de consumo energético permanentes.

A isso se soma o lixo eletrônico. O Global E-waste Monitor 2024 registrou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022, com projeção de 82 milhões de toneladas em 2030. Apenas uma fração minoritária desse volume é adequadamente coletada e reciclada. A economia digital, portanto, não elimina a materialidade da produção: ela apenas a desloca para minas, fábricas, aterros, periferias ambientais e cadeias globais de descarte.

A categoria marxiana de metabolismo entre sociedade e natureza ganha aqui nova atualidade. John Bellamy Foster mostrou que o capitalismo produz uma fratura metabólica: rompe o intercâmbio racional entre humanidade e natureza ao subordinar esse metabolismo à acumulação. Kohei Saito, ao recuperar o Marx ecológico no contexto do Antropoceno, aprofunda esse diagnóstico: o capitalismo não resolve suas contradições ecológicas; ele as desloca, as amplia e as reorganiza em escala superior.

A inteligência artificial aprofunda essa fratura em novo patamar. Não se trata apenas da indústria poluente clássica, da fábrica ou da mineração tradicional. Trata-se de uma infraestrutura digital que promete substituir ou reorganizar atividades humanas enquanto amplia a demanda por energia, água, minerais, semicondutores e capacidade computacional. A IA é apresentada como solução racional para a crise, mas pode se converter em novo acelerador da crise se permanecer submetida à concorrência privada, ao segredo industrial, à guerra geopolítica e à acumulação monopolista.

Shoshana Zuboff ajuda a compreender o segundo eixo dessa crise: a transformação da experiência humana em matéria-prima comportamental. No capitalismo de vigilância, a vida cotidiana é convertida em dado, o dado em previsão e a previsão em produto. Mas a etapa atual é ainda mais delicada. A IA generativa não apenas observa comportamentos; ela passa a mediar o acesso ao conhecimento. O buscador tradicional listava caminhos. A IA começa a entregar respostas.

Essa mudança altera a estrutura pública da verdade. Quando a resposta substitui a busca, quem controla a resposta controla parte decisiva da percepção social da realidade. Esse é o perigo civilizatório: a informação pode deixar de circular como disputa pública visível e passar a ser reorganizada por sistemas opacos de ranqueamento, recomendação, patrocínio, personalização e influência. A velha publicidade separava, ao menos formalmente, conteúdo e anúncio. A nova economia das respostas tende a borrar fronteiras entre informação, recomendação, reputação, consumo e indução comportamental.

Esse risco não exige imaginar uma conspiração. Basta observar a lógica econômica. Plataformas privadas precisam monetizar atenção, tráfego, reputação e dependência. À medida que a IA se torna a nova porta de entrada da internet, empresas, governos, grupos econômicos e elites informacionais passam a disputar não apenas anúncios, mas o próprio enquadramento das respostas. A questão deixa de ser apenas “quem aparece primeiro no resultado de busca?” e se torna: “quem será apresentado pela IA como fonte confiável, resposta provável ou solução recomendada?”.

O perigo é ainda maior porque a resposta automatizada aparece revestida de neutralidade técnica. Mas nenhum sistema treinado em bases históricas desiguais, controlado por empresas privadas, monetizado por publicidade e protegido por segredo industrial pode ser considerado neutro. A IA pode reorganizar visibilidade, autoridade e legitimidade. Pode tornar determinados autores, países, empresas, mercadorias e interpretações mais visíveis, enquanto torna outros sujeitos e perspectivas praticamente inexistentes.

Essa é uma nova forma de poder. Não se trata apenas de censurar. Trata-se de ordenar o mundo. A IA pode selecionar o que merece atenção, o que parece verdadeiro, o que surge como razoável, o que é classificado como extremado, irrelevante ou duvidoso. Em sociedades profundamente desiguais, essa mediação tende a favorecer quem já possui capacidade econômica, influência institucional, domínio tecnológico e poder de adaptação aos critérios das plataformas.

Por isso, a crise ambiental da IA não pode ser separada da crise democrática da informação. A mesma infraestrutura que consome energia e água também organiza visibilidade. A mesma plataforma que promete responder perguntas pode direcionar consumo, moldar preferências, reduzir pluralidade e deslocar o debate público para ambientes privados. A mesma tecnologia que promete eficiência pode consolidar uma nova forma de governo algorítmico da vida cotidiana.

Miguel Nicolelis acrescenta uma dimensão decisiva a esse debate. Sua crítica não parte apenas da economia política, mas da neurociência. Ao longo de sua trajetória, Nicolelis tornou-se uma das principais referências mundiais em interfaces cérebro-máquina, neuroengenharia e estudos sobre a atividade coletiva dos neurônios. Justamente por conhecer profundamente a relação entre cérebro, corpo, plasticidade e ação, sua crítica à inteligência artificial possui peso especial: ela não nasce de recusa abstrata à tecnologia, mas da compreensão científica de que o cérebro vivo não é uma máquina digital.

Essa distinção é fundamental para o argumento civilizatório. A inteligência humana não é simples processamento de informação. Ela emerge de um organismo situado, de um corpo sensível, de uma história biológica, afetiva, social e cultural. O cérebro não funciona como computador isolado que recebe dados, calcula respostas e entrega resultados. Ele é um sistema vivo, plástico, incorporado, relacional, atravessado por emoção, memória, percepção, movimento, linguagem, desejo, medo, imaginação e vínculo social.

Por isso, a crítica de Nicolelis atinge o centro do fetiche contemporâneo da IA. Quando empresas e governos chamam modelos estatísticos de “inteligentes”, produzem uma confusão politicamente útil. Atribuir inteligência às máquinas pode servir para reduzir o valor da inteligência humana, naturalizar a substituição de trabalhadores, justificar decisões automatizadas e enfraquecer a exigência de responsabilidade política pelos sistemas técnicos. A máquina aparece como sujeito, enquanto os sujeitos reais – trabalhadores, programadores, usuários, populações exploradas e territórios impactados – desaparecem da cena.

A formulação de Nicolelis permite afirmar com mais precisão: a IA não é uma mente exterior à humanidade. Ela é uma técnica produzida por humanos, treinada sobre dados humanos, sustentada por trabalho humano, energia, mineração e infraestrutura material. Sua suposta autonomia encobre as intenções, interesses e poderes que a organizam. A inteligência artificial, portanto, não deve ser analisada como consciência emergente das máquinas, mas como sistema técnico-social comandado por grupos econômicos, Estados, mercados financeiros e projetos geopolíticos.

Essa distinção também é decisiva para a democracia. Se tratarmos a IA como uma inteligência superior, tenderemos a aceitar suas respostas como autoridade. Se a compreendermos como sistema estatístico, histórico e politicamente orientado, poderemos exigir auditoria, transparência, contestação, responsabilidade e controle público. A crítica de Nicolelis, portanto, não diminui a importância da IA. Ao contrário: mostra que ela é importante demais para ser entregue ao mito de que máquinas pensam por nós.

Nesse ponto, Nicolelis dialoga diretamente com Crawford, Zuboff e Michael Löwy. Crawford mostra a materialidade extrativa da IA: minas, energia, água, trabalho e dados. Zuboff revela a captura comportamental da experiência humana pelo capitalismo de vigilância. Nicolelis acrescenta o fundamento neurocientífico: a inteligência viva não pode ser reduzida à computação, e a humanidade não pode aceitar que sua capacidade de pensar, sentir e decidir seja rebaixada à lógica operacional das máquinas. Löwy oferece a saída ecossocialista: subordinar a técnica às necessidades sociais, ao equilíbrio ecológico e ao planejamento democrático.

Essa contribuição é central para o fechamento da trilogia. A crise civilizatória não consiste apenas no risco de a IA consumir energia, concentrar renda ou direcionar informações para quem paga mais. Consiste também no risco de a própria ideia de humanidade ser rebaixada. O capitalismo digital não quer apenas automatizar tarefas; ele tende a automatizar decisões, preferências, diagnósticos, recomendações, julgamentos e formas de reconhecimento social. Nesse processo, o ser humano pode passar a ser medido, previsto e administrado como se fosse um conjunto de dados.

A crítica de Nicolelis permite recusar essa redução. A inteligência humana é inseparável do corpo, da vida, da experiência e da liberdade. Nenhuma sociedade democrática pode permitir que sistemas privados, opacos e orientados por lucro assumam a mediação central da verdade, do trabalho, da educação, da saúde, da guerra e da política sob o pretexto de possuírem uma inteligência superior. O problema não é a existência de máquinas capazes de realizar operações complexas. O problema é uma civilização que começa a tratar máquinas como sujeitos e sujeitos humanos como peças substituíveis de uma engrenagem computacional.

É aqui que Michael Löwy se torna indispensável. O ecossocialismo, em sua formulação, não é uma ecologia decorativa nem uma simples política de compensação ambiental. É uma alternativa civilizatória ao “progresso destrutivo” do capital. Sua força está em recusar duas ilusões: a ilusão liberal de que o mercado poderá salvar o planeta sem enfrentar a acumulação; e a ilusão produtivista de que basta desenvolver forças produtivas sem perguntar a quem servem, que necessidades atendem e que destruição carregam.

O ecossocialismo propõe recolocar a economia sob critérios de necessidade social, equilíbrio ecológico, igualdade substantiva e planejamento democrático. Aplicado à inteligência artificial, isso significa perguntar: quais usos da IA são socialmente necessários? Quais apenas aceleram consumo, vigilância, desemprego, obsolescência e manipulação? Quais aplicações deveriam ser públicas, auditáveis e orientadas por finalidades coletivas? Quais deveriam ser proibidas ou severamente limitadas? Que data centers podem ser admitidos em determinado território? Com qual matriz energética? Com qual uso de água? Com qual retorno social? Com qual controle popular?

A questão ecossocialista não é “mais tecnologia” ou “menos tecnologia” em abstrato. É planejamento democrático da tecnologia. Não há racionalidade ecológica quando a infraestrutura da IA é decidida por fundos, big techs, contratos militares, bolsas de valores e estratégias privadas de domínio de mercado. Se a IA reorganiza trabalho, educação, saúde, comunicação, energia e democracia, então ela não pode ser tratada como propriedade estratégica de poucas corporações.

Essa formulação permite escapar tanto do entusiasmo ingênuo quanto do medo paralisante. A inteligência artificial pode ampliar capacidades humanas, acelerar pesquisas científicas, apoiar políticas públicas, melhorar diagnósticos, fortalecer acessibilidade, ajudar no planejamento climático e reduzir desperdícios. Mas esses usos emancipatórios não emergem automaticamente do mercado. Eles dependem de finalidade social, controle público, transparência, soberania tecnológica, proteção de dados, direitos trabalhistas e limites ecológicos.

Sob o capitalismo, porém, a tendência dominante é outra. Os ganhos de produtividade são apropriados por acionistas. Os custos ambientais são socializados. Os trabalhadores são pressionados por automação, vigilância e intensificação. Os territórios pobres oferecem energia, água, minerais e descarte. Os usuários produzem dados e dependência. As plataformas concentram renda, infraestrutura e poder de mediação.

A periferia global corre risco especial. Países como o Brasil podem ser convocados a fornecer energia renovável, minerais estratégicos, território para data centers, dados populacionais e mão de obra barata, enquanto o comando tecnológico, as patentes, os modelos, as receitas e o poder de decisão permanecem concentrados no Norte global e nas grandes corporações. O discurso da “vantagem competitiva verde” pode esconder uma nova dependência: exportar natureza, energia e dados; importar plataformas, vigilância e subordinação tecnológica.

Essa é a nova fronteira da dependência. Não basta perguntar se um país terá data centers. É preciso perguntar quem os controla, para que servem, quanta energia consomem, quanta água utilizam, que empregos geram, que soberania tecnológica constroem e que danos ambientais deixam. Sem política pública, transparência e controle social, a infraestrutura da IA pode se tornar uma nova forma de enclave: altamente intensiva em recursos, pouco distributiva em benefícios e profundamente subordinada ao capital transnacional.

A inteligência artificial, nesse sentido, condensa a crise civilizatória do capitalismo. Ela promete abundância, mas nasce da escassez produzida. Promete inteligência, mas pode reduzir a autonomia humana. Promete eficiência, mas amplia a pressão energética. Promete acesso ao conhecimento, mas pode privatizar a mediação da verdade. Promete libertar o trabalho, mas pode intensificar desemprego, vigilância e sofrimento psíquico. Promete sustentabilidade, mas depende de uma infraestrutura material cada vez mais pesada.

O fechamento da trilogia, portanto, deve ser político e civilizatório: a IA não pode ser abandonada às forças cegas do mercado. A inteligência social acumulada pela humanidade não pode ser convertida em monopólio privado. Os dados produzidos pela vida coletiva não podem servir apenas à predição comercial e ao controle comportamental. A energia, a água, os territórios e o trabalho humano não podem ser subordinados a uma corrida tecnológica sem deliberação democrática.

A inteligência artificial deve ser recolocada em seu devido lugar: não como destino da humanidade, mas como instrumento. Não como consciência, mas como técnica. Não como autoridade, mas como objeto de deliberação pública. Não como substituta da inteligência viva, mas como ferramenta que só pode ser legitimada quando subordinada à vida, ao trabalho digno, à democracia, à justiça social e ao equilíbrio ecológico.

A IA não é uma nova consciência que supera a humanidade. É uma técnica produzida pela humanidade, mas capturada por uma forma social que tenta transformar inteligência viva, natureza, trabalho e verdade pública em mercadoria. Por isso, a tarefa civilizatória não é obedecer às máquinas, mas libertar a técnica do capital e devolvê-la ao governo democrático da vida.

Isso exige soberania tecnológica, auditoria pública, redução da jornada de trabalho, proteção social, transparência algorítmica, regulação ambiental dos data centers, controle democrático dos dados, investimento público em ciência aberta e prioridade absoluta aos usos socialmente necessários da tecnologia.

Sem isso, a IA será apenas mais uma promessa capturada pela história real do capitalismo: transformar toda potência humana em valor, todo valor em propriedade, toda propriedade em poder e todo poder em capacidade de decidir, em nome de poucos, o destino comum da humanidade.

A crise da inteligência artificial é, no fundo, a crise de quem governa a inteligência social. E essa pergunta não é técnica. É civilizatória.

A IA não é o fim da crise do capital. Ela é a tentativa de automatizar a própria contenção da crise – transferindo seus custos para trabalhadores, territórios, subjetividades e ecossistemas. A questão final, portanto, não é se o capitalismo conseguirá usar a IA para sobreviver à própria crise. A questão é se a humanidade conseguirá impedir que essa sobrevivência seja obtida contra a vida.
Flaviano Correia Cardoso

O país da 'generosidade excessiva'

No país onde o fim da escala 6x1 é tratado como heresia por setores da economia, ameaça aos empregos e ao crescimento do país, os homens da lei e da Justiça deitam e rolam com seus 60 dias de férias, fora os recessos, as licenças, as benesses e tudo o mais que a criatividade permitir.

É no Congresso, onde os recessos somam 55 dias por ano e parlamentares comparecem, basicamente, nas terças e quartas-feiras, que está o destino de quem labuta de segunda a sábado.


No mundo dos privilégios, as cores são tão sortidas que há até quem se esqueça deles. Em entrevista à Folha, o presidente do Tribunal de Contas da União, Vital do Rêgo, que trabalha há 12 anos na corte, disse que só tinha 30 dias de férias. Corrigido pela reportagem, admitiu que tinha 60 dias, mas que se enganou porque costuma tirar, no máximo, cerca de 20 dias de descanso.

Na realidade, Vital se referia a seu recesso. Os 60 dias de férias seguem intactos em seu contracheque, que ele pode tirar ou guardar para a aposentadoria. À queima-roupa, Vital disse que, se pudesse, acabaria com o benefício, que considera uma "generosidade excessiva".

Na contramão desse raciocínio, porém, o que se vê são juízes e integrantes do Ministério Público mexendo com as próprias regras, para parcelar o descanso de 60 dias, fracionando esse tempo em até 12 vezes. Com cotas de cinco dias, é possível juntar dois fins de semana. São nove dias de pernas para o ar. Desconta-se apenas cinco.

Noves fora, a turma da toga poderá folgar seis meses por ano, o que pode ficar ainda generoso, com outras licenças já criadas.

Hoje, a escala 6x1 atinge 33% dos empregos no país. São cerca de 20 milhões de pessoas que acordam e dormem com essa carga de trabalho. Cada uma delas tem direito a 78 dias de folga por ano, somando seus 30 dias (isso quando conseguem tirar) e os fins de semana.

Com a caneta na mão, magistrados e afins se regozijam com 178 dias sem trabalho. Os números deveriam bastar para expor o escárnio.

Cuidado!

Mesmo que consigamos restaurar o espaço do eleitor moderado, a impaciência algorítmica, creio, veio para ficar.
Hélio Schwartsman

Flávio se oferece para apagar o incêndio que ele mesmo estimulou

Foi Donald Trump, em setembro do ano passado, quem disse ter rolado “uma química excelente” entre ele e Lula ao se cruzarem pela primeira vez no prédio da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York:

– “Ele parece um cara muito legal. Ele gostou de mim, eu gostei dele. Eu só faço negócios com pessoas de quem gosto. Quando não gosto, não gosto”.

Lula respondeu, fazendo questão de exagerar:

– “Não foi uma química, foi uma indústria petroquímica”.

Menos de um mês depois, Lula e Trump conversaram por telefone durante quase uma hora. Em pauta estava o tarifaço de 50% aplicado aos produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos, em vigor desde agosto. Voltaram a se falar no início de dezembro sobre o mesmo assunto e sobre o combate ao crime organizado.

Em 7 de maio último, finalmente, Trump recebeu Lula na Casa Branca com direito a tapete vermelho, reuniões de trabalho e almoço. Trump classificou o encontro como “muito bom” e descreveu Lula como um “presidente dinâmico”. Chamou-o de “bom homem” e “inteligente”, destacando que as reuniões de trabalho se concentraram principalmente em tópicos como comércio e tarifas.

Como sempre, Lula foi mais efusivo. Disse a Trump não querer “guerra” entre os países e aproveitou a ocasião para sugerir que ele sorrisse mais, no que foi atendido por Trump, que sorriu.


Vendo aquilo, os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro decidiram intervir com a ajuda de secretários do governo americano contrários à aproximação entre Trump e Lula. Cavaram uma sessão de fotos com Trump no Salão Oval da Casa Branca, o que aconteceu 19 dias depois de Lula ter posto os pés por lá. E foram embora admitindo que desancaram Lula e que cobraram novas intervenções dos Estados Unidos em assuntos internos do Brasil.

Uma delas seria a promoção das organizações criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) à categoria de organizações terroristas. Outra, o monitoramento das eleições de outubro para evitar a ocorrência de fraudes que possam beneficiar Lula e o PT. A primeira já foi atendida por Trump.

Flávio e Eduardo juram, porém, que nada têm a ver com o novo tarifaço anunciado pelo governo Trump no último dia 2 de junho. Pegou mal para eles. Pegou tão mal que Flávio antecipa que voltará a Washington para falar na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos contra o tarifaço:

– “Vou fazer a minha parte para evitar que empresas brasileiras sejam ainda mais taxadas do que já são com o governo Lula. Como era de se esperar, Lula não move uma palha para evitar que elas sejam tarifadas. Ele acredita que isso pode beneficiá-lo em outubro, mesmo que custe quebrar as empresas brasileiras”.

Em resumo: Flávio, agora, se oferece para apagar o incêndio que ele mesmo estimulou. O que lhe importa é livrar-se da pecha de traidor da Pátria.

Ricardo Noblat

O que é violência algorítmica e como enfrentar esse problema

Há dez anos, o influenciador digital e cientista da comunicação Christian Gonzatti, de 33 anos, denuncia a violência algorítmica, argumentando que os algoritmos de redes sociais costumam dar menos visibilidade a alguns conteúdos de temática LGBTQIA+ produzidos por ele sem transparência quanto aos termos que seriam supostamente "proibidos" pelo sistema.

Gonzatti, que também é professor na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), começou a publicar conteúdos culturais classificados como "nerd" dentro do segmento LGBTQIA+ em um canal chamado Viado Nerd.

"O algoritmo não lê contexto. Não via ‘viado' como uma ressignificação, da maneira que historicamente o movimento faz a partir de termos criados originalmente para difamar e caluniar. A página começou a ser denunciada e a plataforma as acatou, como se o espaço fosse de veiculação de discursos de ódio", recorda ele.


De lá para cá, mesmo rebatizando o projeto de Diversidade Nerd, ele continua sendo frequentemente classificado de forma errônea pelas plataformas ou, acredita, muitas vezes tendo seus posts rebaixados em relevância conforme algumas terminologias adotadas. "Se coloco a palavra gay ou lésbica na legenda, por exemplo, o alcance é menor", afirma.

Esse não é um caso específico. Há violência algorítmica quando sistemas de reconhecimento facial classificam de forma pejorativa traços ligados a etnias não brancas, quando a inteligência artificial (IA) produz e distribui deep fakes para destruir a reputação de alguém e até quando modelos automatizados buscam interferir no comportamento das pessoas.

"Muitas vezes estou já dirigindo há 10 horas, 12 horas, sem parar e, quando penso em encerrar o dia, recebo mensagem no aplicativo que estou a uma corrida de ganhar um bônus. Quando vejo, fico 14 horas trabalhando direto, sem parar nem para comer", conta um motorista de aplicativo que atua em São Paulo – mas pede para não ser identificado.

"Neste caso, os algoritmos forçam as pessoas a aumentar a produtividade de um jeito que não reconhece os limites naturais da humanidade. É violência", afirma o cientista da computação e jornalista Alexandre Gonçalves, professor e pesquisador na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos.

Professor de mídia e democracia na Universidade de Maryland, também nos Estados Unidos, o jornalista Daniel Trielli explica que violência algorítmica é um "tipo de agressão ou ataque que depende ou se integra a sistemas computacionais automatizados". Isto inclui não só algoritmos de redes sociais, mas também plataformas de vigilância digital e ferramentas de inteligência artificial. Esses meios podem intensificar os modos tradicionais de violência e também possibilitam novas maneiras de violência.

O exemplo mais corriqueiro seria a disseminação de fake news via redes sociais. "Quando alguém espalha esse conteúdo, os algoritmos amplificam o alcance de mensagem que têm apelo emocional", explica Trielli.

O termo violência algorítmica passou a ser utilizado no início da década passada – por acadêmicos, intelectuais e artistas engajados na problemática. Pesquisadores na Unisinos, a jurista e professora Haide Maria Hupffer e o advogado Gabriel Cemin Petry explicam que o termo foi fundamentado com propriedade a partir do livro Topologia da Violência, do filósofo Byung-Chul Han.

"Não há uma pessoa única que tenha ‘inventado' a expressão. Ela faz parte de um campo mais amplo de debates sobre discriminação algorítmica, opressão, racismo, colonialismo de dados e injustiça automatizada", comenta a assistente social Bruna Irineu, professora na Universidade Federal de Mato Grosso e coautora do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+.

O fato é que os algoritmos não são neutros. Criados por pessoas, empresa e instituições que foram alçadas a ocupar papéis hegemônicos em sociedades alicerçadas em pilares de racismo, sexismo e outras desigualdades estruturais, esses sistemas tendem a reproduzir este "pensamento" preponderante. Afinal, de forma muito simplificada, as ferramentas de inteligência artificial são treinadas a partir da exposição de milhões de conteúdos e decisões oriundos da mente humana.

"Podemos dizer que violência algorítmica acontece quando sistemas automatizados, plataformas digitais, inteligências artificiais, mecanismos de busca, redes sociais ou bancos de dados produzem, reproduzem e amplificam desigualdades sociais", define a antropóloga Larissa Pelúcio, professora na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coautora do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+.

"Ela aparece quando uma tecnologia decide quem será visto, quem será silenciado, quem será considerado suspeito, quem terá acesso a oportunidades, crédito, emprego, circulação, reconhecimento ou proteção", acrescenta.

Irineu completa frisando que a violência algorítmica não cria a desigualdade, mas organiza, amplifica, potencializa, automatiza e dá mais relevância a uma desigualdade que já estava presente na sociedade.

No Brasil, o problema é potencializado por diversas razões. Pelúcio ressalta que a sociedade brasileira já é marcada por formas "naturalizadas de violência institucional". No caldo nacional, há uma combinação peculiar entre "intensa presença digital e profundas desigualdades sociais".

Para a antropóloga, são ingredientes fundamentais para conferir gravidade à questão. Ela frisa ainda que há, no panorama brasileiro, uma "centralidade da violência contra populações negras, indígenas, periféricas e LGBTQIAPN+".

Hupffer e Petry dão um exemplo que ilustra o problema. Em 2021, o Conselho Nacional de Justiça criou um grupo de trabalho para realizar um diagnóstico em processos criminais para evitar condenação de inocentes. Partiram de estudos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro que demonstravam os efeitos do racismos estrutural no sistema, em âmbito nacional. Segundo a pesquisa, em 83% dos casos de reconhecimento facial equivocado que levou pessoas inocentes à prisão preventiva, os encarcerados eram pessoas negras.

Se dados assim forem usados para treinamento de algoritmos, argumentam os pesquisadores, a consequência seria a automatização de falhas que prejudicam os afrodescendentes. É o racismo estrutural, portanto, se tornando racismo digital.

Além disso, para as pesquisadoras Pelúcio e Irineu há a questão do "pânico moral" ligado às plataformas digitais. "Os algoritmos de engajamento tendem a favorecer conteúdos que provocam medo, indignação e conflito. Isso faz com que discursos de ódio e desinformação ganhem escala e velocidade", pontua Irineu.

O cientista da computação Gonçalves explica que esse cenário tende a ser mais complicado no Brasil pelo papel periférico que o país ocupa na construção dessas tecnologias. Como é um setor que importa muito as soluções, os dados muitas vezes não são adequados para as diferenças demográficas brasileiras. "Pode gerar decisões ainda mais enviesadas", argumenta ele.

Mas os juristas Hupffer e Petry lembram que o Brasil "explicitamente reconheceu" a proteção de dados pessoais como um direito fundamental, a partir de emenda constitucional de 2022. Além disso, a Lei Geral de Proteção de Dados do país carrega o princípio da não discriminação. Ou seja: ao menos no arcabouço jurídico e legislativo, há um amparo.

Não há uma panaceia para resolver o problema. Há um conjunto de medidas que precisam ser tomadas. A começar pela educação, os esforços de letramento digital em busca do exercício consciente de uma cidadania online. "É muito importante educar para que todos entendam a maluquice que é o fato de darmos todos os nossos dados para as empresas de tecnologia", comenta Gonçalves.

Especialistas também cobram regulação do setor das big techs. "Precisamos de leis e políticas públicas que responsabilizem plataformas e empresas de tecnologias por danos algorítmicos", afirma a antropóloga Pelúcio. O influenciador Gonzatti também defende que as plataformas tenham mais transparência em suas diretrizes algorítmicas.

Em um espectro mais profundo, Pelúcio e Irineu entendem ser necessária uma técnica amparada por justiça social, em um esforço envolvendo auditorias independentes e revisão em bases de dados com participação de grupos afetados pelo desenho das tecnologias. "Não se trata de corrigir viés como se fosse um pequeno defeito técnico, mas de reconhecer que muitos sistemas são construídos sobre desigualdades históricas", afirma Irineu.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


A paz tornou-se exceção

As imagens da guerra na Ucrânia continuam a atravessar diariamente os ecrãs europeus. No Médio Oriente, sucessivas escaladas militares recordam a fragilidade de uma das regiões mais voláteis do planeta. No Indo-Pacífico, a rivalidade entre os Estados Unidos e a China redefine alianças, estratégias e prioridades económicas.


À primeira vista, trata-se de crises distintas, separadas por geografias, interesses e protagonistas. Na realidade, todas apontam para a mesma transformação histórica. O mundo entrou numa nova fase das relações internacionais e essa mudança é mais profunda do que qualquer conflito isolado.

Durante mais de três décadas, o Ocidente viveu sob uma convicção que parecia confirmada pelos acontecimentos. A Guerra Fria terminara sem confronto direto entre as grandes potências, a globalização expandia-se a um ritmo sem precedentes, as economias tornavam-se cada vez mais interdependentes e a prosperidade parecia avançar lado a lado com a estabilidade. Persistiam conflitos, crises e ameaças, mas a direção da História parecia definida. A política de poder, que durante séculos moldou as relações internacionais, dava lugar a um mundo regulado por instituições, comércio e cooperação. Hoje, essa convicção está a desfazer-se.

Da Ucrânia ao Médio Oriente, das disputas no Indo-Pacífico à crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, a atualidade internacional é frequentemente apresentada como uma sucessão de crises independentes. Essa leitura ajuda a compreender os acontecimentos, mas não explica a sua verdadeira relevância. O que estamos a testemunhar não é apenas uma acumulação de conflitos. Estamos a assistir ao fim de um período histórico excecional e ao regresso de uma realidade que muitos julgavam ultrapassada: a competição estratégica entre Estados voltou a ocupar o centro da política internacional.

Esta constatação obriga a uma inversão de perspetiva . Durante anos, o debate centrou-se na pergunta errada. A questão nunca foi saber se a globalização eliminaria a geopolítica. A questão era saber durante quanto tempo conseguiria mantê-la em segundo plano.

Os acontecimentos dos últimos anos mostram que as rivalidades estratégicas entre Estados nunca deixaram de moldar o sistema internacional. A competição por influência, recursos, mercados e posições de poder continuou a existir, ainda que disfarçada por um período excepcional de integração económica, expansão comercial e relativa estabilidade. O que hoje parece um regresso da geopolítica é, na verdade, o fim da ilusão de que ela alguma vez deixou de ocupar um lugar central na História.

A estabilidade que marcou as últimas décadas foi frequentemente encarada como um estado natural das relações internacionais. Vista à distância, porém, poderá ter sido precisamente o contrário: uma exceção rara. Poucas vezes na era moderna existiu um período tão prolongado em que as principais potências evitaram confrontações diretas, as cadeias globais de comércio conheceram uma expansão tão intensa e a integração económica avançou com tão reduzida resistência geopolítica.

O que muitos consideraram a nova normalidade pode ter sido, afinal, um breve intervalo num sistema internacional tradicionalmente moldado pela competição, pelo equilíbrio de forças e pela afirmação dos interesses nacionais.

A invasão da Ucrânia pela Rússia tornou essa mudança impossível de ignorar. O seu significado ultrapassa largamente as fronteiras do conflito. Pela primeira vez desde o final da Guerra Fria, uma potência nuclear procurou alterar pela força a arquitetura de segurança europeia e desafiar pressupostos que, durante décadas, foram considerados inquestionáveis. A guerra revelou não apenas a vulnerabilidade de um país, mas também a fragilidade de um conjunto de certezas sobre as quais a Europa construiu a sua visão do mundo.

A relevância desta transformação para os europeus é difícil de exagerar. Durante grande parte das últimas três décadas, a Europa beneficiou de condições estratégicas extraordinariamente favoráveis. Energia relativamente acessível, mercados globais em expansão, segurança garantida pela aliança transatlântica e ausência de ameaças militares diretas permitiram concentrar recursos na prosperidade económica e no desenvolvimento social.

Hoje, praticamente todos esses pressupostos estão sob pressão. A discussão sobre defesa, autonomia estratégica, competitividade industrial e segurança energética deixou de ser um exercício académico para se transformar numa prioridade política.

O mesmo padrão pode ser observado noutras regiões. No Médio Oriente, as tensões recorrentes entre atores regionais e internacionais demonstram que a estabilidade continua a depender de equilíbrios delicados e frequentemente precários. Sempre que a situação se deteriora, os seus efeitos fazem-se sentir muito para além da região. Os mercados energéticos reagem, as rotas comerciais tornam-se mais vulneráveis e a incerteza repercute-se nas economias de todo o mundo. Num sistema profundamente interligado, as consequências da instabilidade deixaram há muito de respeitar fronteiras.

Ao mesmo tempo, a ascensão da China introduziu um elemento novo na equação global. Pela primeira vez desde o fim da União Soviética, os Estados Unidos enfrentam um concorrente com capacidade para disputar influência económica, tecnológica, militar e diplomática à escala planetária.

Esta rivalidade não reproduz mecanicamente os padrões da Guerra Fria. As economias permanecem profundamente ligadas e os incentivos à cooperação continuam significativos. Ainda assim, a lógica estratégica é inequívoca. As duas maiores potências mundiais passaram a encarar-se cada vez mais como concorrentes na definição das regras que moldarão a próxima fase da ordem internacional.

A consequência mais importante desta transformação não é o aumento do número de conflitos. É a erosão gradual dos mecanismos que, durante décadas, ajudaram a limitar esses conflitos. As instituições multilaterais continuam a desempenhar funções essenciais, mas enfrentam dificuldades crescentes para produzir consensos entre atores cujas prioridades estratégicas se afastam progressivamente. O desafio vai além das divergências entre Estados. Reflete uma crescente incapacidade de definir princípios e objetivos comuns para a gestão da ordem internacional.

É aqui que se encontra o verdadeiro desafio do nosso tempo. O debate público concentra-se frequentemente nas crises do momento, nos líderes envolvidos ou nos acontecimentos mais recentes. No entanto, os fenómenos que definem uma época raramente se resumem às manchetes de um dia. O que está em causa é algo mais profundo: a capacidade das estruturas políticas internacionais para gerir rivalidades sem permitir que estas se transformem em confrontações permanentes.

Nada disto significa que o mundo esteja condenado a uma nova guerra global. A História não funciona como uma sequência inevitável de catástrofes. As grandes potências continuam a possuir fortes incentivos para evitar confrontos directos. A diplomacia mantém a sua relevância. A cooperação económica continua a produzir benefícios mútuos. Mas seria igualmente imprudente ignorar os sinais de uma mudança estrutural que se desenrola diante dos nossos olhos.

Durante muitos anos, a principal preocupação das democracias ocidentais consistiu em gerir a prosperidade gerada pela globalização. Hoje, o desafio é mais exigente. Consiste em preservar a estabilidade num mundo onde as rivalidades estratégicas regressaram ao centro das decisões que moldam a política internacional.

Não se trata de um regresso ao século XX nem de uma repetição automática dos seus conflitos. Trata-se da transição para um contexto internacional em que muitas das premissas que orientaram as últimas décadas perderam a solidez que lhes era atribuída.

O século XXI não está a assistir ao colapso da ordem internacional. O que revela é o esgotamento de uma convicção que marcou as últimas décadas. A crença de que a integração económica seria suficiente para neutralizar rivalidades geopolíticas revelou-se mais frágil do que muitos imaginaram. A prosperidade aproximou sociedades e criou oportunidades extraordinárias. Não eliminou, porém, os interesses estratégicos, as ambições nacionais nem a disputa pelo poder.

A transformação já está em curso. O verdadeiro desafio consiste em perceber se os principais centros de poder compreenderam a sua profundidade e as suas implicações. O risco não está em interpretar mal os primeiros sinais de mudança. Está em persistir na convicção de que o contexto continua a ser o mesmo quando já deixou de o ser.

O que os acontecimentos recentes vieram pôr em causa não é a possibilidade de cooperação entre Estados. É a ideia de que essa cooperação seria suficiente para neutralizar rivalidades estratégicas duradouras.

A paz, longe de ser um ponto de chegada definitivo, continua a ser uma construção política frágil, exigente e sempre inacabada. Durante uma geração, muitos acreditaram que ela podia ser tomada como adquirida. Os acontecimentos dos nossos dias recordam-nos o contrário. E talvez essa seja a principal lição geopolítica do nosso tempo.

A humilhação diária

Minha amiga Ana Luiza recebeu e me mandou. Num cartum, um idoso de capa, cachecol e bengala está diante de um balcão de informações. A atendente lhe mostra o celular e o instrui: "O senhor baixa o aplicativo e entra em ‘gerar código de acesso’. Aqui tem o certificado digital. Faz o login e clica em ‘escolher o arquivo’. Ele vai pedir um código de liberação do acesso nas extensões JPG, PNG ou PDF... Entendeu?". O cartum é assinado por Tom Cotrim. Mostra uma realidade que está acontecendo neste momento no seu bairro, com macróbios quase centenários como eu ou talvez você.


Sob o cartum, segue-se um texto não assinado: "Uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um smartphone para acessar os seus próprios direitos não é moderna. É uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos. Em 2026, tudo virou um aplicativo, um código, um portal. Mas quem construiu este país com as próprias mãos vê-se hoje analfabeto dentro da própria casa. Para marcar uma consulta ou pagar uma conta, é preciso um filho ou neto, quando existe um".

O texto continua: "Isso é exclusão. A tecnologia deve ajudar, não selecionar quem tem direito à dignidade. Quando deixamos para trás aqueles que vieram antes de nós, não estamos evoluindo —apenas nos tornando mais cômodos e egoístas".

Há anos, no começo da ditadura do smartphone, observei as tentativas de gente da minha geração para se entender com o bicho, assim como se entendia com as novidades da antiga tecnologia. Não queriam parecer velhos ou superados. Mas eles se superestimaram. Não foram capazes de acompanhar a velocidade com que o smartphone evoluiu. Hoje, a tecnologia acha normal que a enorme parcela da população que se recusa a morrer antes da hora —a nossa— seja diariamente humilhada por aquela joça.

Levei a vida me aplicando para escrever direito, ficar atento à história, entender o que lia. Não tenho mais idade, capacidade ou vontade de me converter em engenheiro eletrônico. E acho burro o sistema binário, o do sim ou não. Prefiro o talvez.

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões 

Em Brasília, acha-se normal o que é totalmente anormal

A cena se passa em Brasília, em meados de 2024, pouco antes do evento promovido em Lisboa pelo ministro do Supremo Gilmar Mendes — o famoso Gilmarpalooza. Participam do diálogo o senador pelo Piauí, Ciro Nogueira, presidente do PP, e o deputado pela Paraíba, Hugo Motta, do Republicanos. Quem relata a conversa é Hugo Motta, numa entrevista ao Estadão:

— Ciro me chamou: “Vamos para o evento do Gilmar”. Eu disse: “Ciro, não comprei passagem e tal, e eu tenho que voltar”, porque era a época da festa junina lá nossa. Ele disse: “Não, pô, vamos com o Daniel de carona”. Conhecia o Daniel, fomos de carona. Chegou lá, o Daniel tinha reservado o hotel. Também não vejo problema nisso, é um evento corporativo. Se você falar com qualquer pessoa, é normal você convidar uma pessoa, botar no hotel.


O Daniel é o Vorcaro, claro. A carona é num jatinho. O hotel é o cinco estrelas Four Seasons de Lisboa. De maneira que temos um senador e um deputado federal pegando uma boca-livre de um banqueiro que tinha questões de interesse tramitando no Congresso Nacional — questões que seriam analisadas e votadas pelos parlamentares.

Tudo normal, não é mesmo? Uma situação corriqueira no ambiente de Brasília. Onde mais seria normal “você convidar uma pessoa, botar no hotel”? Sendo que a “pessoa”, no caso, é uma autoridade, e o patrocinador, interessado em negócios com dinheiro público. Todo mundo sabe disso. Reparem no comentário de Hugo Motta, quando ele justifica a boca-livre: “se você falar com qualquer pessoa...”. Quer dizer: se você falar com qualquer pessoa em Brasília, ela dirá que é normal.

Motta também esteve presente num fórum jurídico promovido por Vorcaro em Nova York. Entre os exaustivos debates, participantes tiveram direito a momentos de relaxamento: uma degustação de uísque e charutos num clube de luxo. Diz Motta: “Eu fui também ... Os ministros estavam. Não foi escondido isso. Tinha gente da imprensa lá, de todo mundo. Não era um negócio secreto, vamos nos disfarçar aqui. Não, não. Foi à luz do dia”.

Vorcaro ainda não tinha sido apanhado pela Polícia Federal. Era um banqueiro que conhecia todo mundo em Brasília, onde também promovia jantares, festas e “experiências” — como elas, autoridades, chamam um banquete comandado por chef badalado.

Hoje presidente da Câmara, Motta diz que os parlamentares recebem empresários dos diversos setores, banqueiros, líderes políticos, autoridades de outros Poderes — sempre para discutir temas nacionais. Qual o problema nisso? Nenhum, desde que as conversas se deem formalmente, nos gabinetes, com agenda marcada e publicada. Deveriam ser audiências formais. O que é muito diferente de um papo regado a uísque de 30 anos.

Parlamentares podem, é claro, participar de eventos no exterior que considerem relevantes. Recebem até diárias para custear as viagens, pagas em dólares. Isso para que o parlamentar possa viajar com independência, ele mesmo escolhendo sua agenda e dedicando-se exclusivamente a ela. Ao trabalho. E por quê? Porque é pago com dinheiro público, o nosso dinheiro. E, se tem a diária, ninguém precisa pegar carona em jatinho nem ter um amigo para “botar no hotel”.

A sinceridade, a simplicidade de Motta impressionam por isso. Ele considera normal o que é totalmente anormal, ou deveria ser, numa República. Jatinhos, festas, hospedagens em hotéis internacionais ou resorts locais, mesadas em dinheiro, presentes, incluindo apartamentos — tudo isso parece normal. Os presenteados por Vorcaro dizem que não sabiam o que ele fazia. Ora, mesmo que fosse o banqueiro mais ortodoxo do mundo, também não podia.

Motta, um político mais novo, falou como alguém que usufrui alegremente aquilo tudo. Muitos outros também usufruem, mas se calam. Mesmo quando apanhados, não fornecem qualquer explicação ao público que paga seus salários. Até sentem-se ofendidos quando solicitados a falar. Nos bastidores, manobram para bloquear as investigações.

O futebol e seus oportunistas

Creio que foi Jorge Valdano quem disse isso (e acredito nisso com base em simples estatísticas: quando algo interessante é dito sobre futebol no meu idioma, é muito provável que seja Valdano o responsável). A reflexão foi mais ou menos assim: nunca antes a Copa do Mundo pareceu tão venal, tão comercializada, tão elitista, tão questionável em seu desejo de encobrir autocracias; e, no entanto, a próxima começará, e os torcedores de futebol do mundo todo estarão lá, diante da tela verde, sentindo as mesmas emoções primordiais e insubstituíveis que sentimos desde os tempos da inocência. E, de fato, foi exatamente o que aconteceu. Esta Copa do Mundo com os três países começou tão bem, com tanto futebol de qualidade, tantos gols e tantas satisfações, grandes e pequenas, que corremos o risco de acreditar que estamos assistindo ao mesmo futebol de sempre. Mas não é o caso.

Sob a presidência de Gianni Infantino, essa figura nefasta que se dedicou a usar o esporte mais belo para encobrir os regimes mais inescrupulosos, a Copa do Mundo foi realizada na Rússia de Putin e no Catar da era da sharia , e agora está sendo realizada nos Estados Unidos de Trump. E o país anfitrião, que recebe cerca de cinquenta nações, é um governo abertamente xenófobo que tenta diariamente minar a ordem internacional e destruir as instituições que defendem o multilateralismo. Tudo isso é grotesco por si só: ninguém pode descartar o risco de que o ICE, uma estrutura paramilitar que assassina cidadãos inocentes à luz do dia, use os estádios da Copa do Mundo como uma armadilha para caçar imigrantes; ninguém pode ignorar o cinismo de um presidente que embarca em uma guerra ilegal contra o Irã e depois escreve sobre a seleção nacional daquele país: “Eles podem jogar na Copa do Mundo, mas não acho apropriado que o façam, para sua própria segurança e suas próprias vidas.”

Há uma ironia nesta Copa do Mundo que nunca deixa de me fascinar (digo isso por educação e para evitar dizer que me causa repulsa). É a seguinte: o país anfitrião de uma Copa do Mundo que não existiria sem a imigração latino-americana é um regime que persegue imigrantes latino-americanos com particular ferocidade e crueldade. Aqueles de nós que já vivenciaram Copas do Mundo suficientes sabem como tem sido difícil interessar o americano médio por este esporte, que é profundamente alheio aos seus gostos e prioridades: este esporte onde uma partida pode terminar, para o desespero dos fãs de basquete, sem que nenhuma das equipes tenha marcado um único ponto; este esporte onde não há cantores, nem sorteios, nem bichos de pelúcia gigantes no intervalo para entreter os espectadores. A lógica dos esportes americanos, o entretenimento constante, não se encaixa bem com o futebol, que para muitas pessoas nem sequer é entretenimento. “Algumas pessoas pensam que futebol é uma questão de vida ou morte”, disse o velho Bill Shankly, técnico do Liverpool. “Essa atitude me decepciona: futebol é muito, muito mais importante.”

Foram necessárias décadas para que os empresários do futebol, que há muito reconheceram o potencial econômico inesgotável do esporte mais popular do mundo, o integrassem ao vasto shopping center que é a sociedade americana. As tentativas começaram no início dos anos 70, quando o New York Cosmos trouxe Pelé e Beckenbauer ao país para ver se conseguiam semear o futebol naquelas terras áridas: não tiveram sucesso. Cerca de vinte anos depois, os Estados Unidos sediaram sua primeira Copa do Mundo , e hoje a lembramos por uma das finais mais tediosas da história (e pela vergonhosa tragédia de um jogador colombiano assassinado por mafiosos após marcar um gol contra). Mas foi preciso tempo e ondas de imigração latino-americana, cujos filhos têm filhos que entendem menos espanhol do que entendem de futebol, para que tudo o que faz o futebol ser o que é no resto do mundo emergisse de fato: tradição, memória, lealdade a um time que também é lealdade a uma comunidade, ou àquela rara forma de comunidade que é a infância. Em resumo: tudo isso é tão difícil de explicar para quem nunca sentiu.

O problema é que o futebol, no esforço que seus donos financeiros fizeram para forçá-lo a entrar na cultura americana , pode estar perdendo sua essência. Ou melhor: é possível que os aproveitadores do futebol, como o Sr. Infantino, estejam dispostos, por pura ganância, a transformar o esporte em algo que ele não é. Não me refiro apenas a troféus idiotas como o Prêmio da Paz da FIFA, que Infantino inventou para dar a Trump — talvez o ato de bajulação mais vergonhoso do século. Isso não é exatamente novidade: Mussolini inventou a Coppa del Duce em 1934 para que o verdadeiro troféu não o ofuscasse, e a única diferença é que não havia um Infantino para entregá-lo a ele naquela época. Mas me refiro, acima de tudo, à transformação desse esporte de rua, nascido em terrenos baldios e genuinamente popular, em uma atividade entregue à exploração econômica de seus mínimos aspectos. O preço obsceno dos ingressos para esta Copa do Mundo é o menor dos problemas: até as regras estão mudando.

Agora vemos partidas divididas em quatro quartos — como no basquete — em vez dos tradicionais dois tempos, e chamar esses intervalos de pausas para hidratação não disfarça o fato de que são, na verdade, intervalos comerciais: para que os anúncios preencham esses minutos nas transmissões internacionais. Dizem que esta final da Copa do Mundo terá um intervalo de 30 minutos em vez de 15, e durante ele haverá um show , músicas serão cantadas e pessoas dançarão para que a partida de futebol se assemelhe ao Super Bowl: não importa que, nesse meio tempo, os jogadores se refresquem e a tensão se dissipe. Toda vez que o VAR intervém para anular um gol porque um computador detectou a ponta de uma chuteira do outro lado da linha, ou porque um braço está em posição de impedimento mesmo que as pernas comecem mais atrás, eu penso a mesma coisa: em um esporte que nasceu nas ruas e campos abertos, qualquer coisa que os quatro pares de olhos de quatro árbitros bem treinados não consigam detectar não deveria existir. O VAR nos roubou a emoção , a espontaneidade e a astúcia; Em contrapartida, isso só enriqueceu os fabricantes de uma tecnologia que teria tirado do mundo o gol de Maradona em 1986.

Sim, eu sinto — e não estou sozinho — que estamos sendo roubados. A única decisão positiva que os especuladores do futebol tomaram para 2026 foi a expansão do torneio: com 48 seleções, esta Copa do Mundo é verdadeiramente global. Em uma competição onde a tradição pesa muito — 80 seleções jogaram a Copa do Mundo desde 1930, mas apenas oito foram campeãs —, os estreantes nos deram mais de um motivo para comemorar. O empate de Cabo Verde com a Espanha , mesmo indo contra meus próprios interesses, me lembrou algo que outro treinador lendário disse. “A bola é redonda e as partidas duram 90 minutos”, disse Sepp Herberger em 1954. “Até aqui, nada de certezas. O resto é teoria.”
 Juan Gabriel Vásquez