domingo, 23 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Um pacto nacional contra o crime

Transparece no noticiário um crescimento da violência urbana em estados governados pelo PT. Mas inferências generalizantes por números de ocorrências ainda fornecem uma imagem desfocada da criminalidade vivida em todo o país. É sem dúvida insuportável a proliferação dos assaltos armados, balas perdidas, até drones explosivos nas metrópoles brasileiras. Entretanto, apenas estatísticas de mortes violentas não caracterizam insegurança maior numa região. Organizado, o crime altera o paradigma de abordagem do fenômeno.


O foco tradicional incide sobre o modelo de confronto entre Estado e facções criminosas, adequado a países da centralidade capitalista, com forte sociedade civil e corrupção controlada. Para nações periféricas, porém, vale evocar o conceito de Estado ampliado, em que Gramsci faz a crítica da identificação do Estado apenas com seus aparelhos coercitivos (governo, Forças Armadas, polícia e tribunais). E amplia com sociedade civil, que engloba as instituições (escolas, igrejas, mídia etc.) responsáveis pelo consenso de ideias, valores e crenças.

Acontece que esse modelo de Estado ampliado, sustentado pela hegemonia do bloco dirigente, pode se fragilizar devido a crises de confiança no pacto consensual entre povo e poder estatal. A descrença nas políticas públicas e o aumento desmesurado dos índices criminais são alarmantes. O anseio de paz e proteção desperta pulsões vingativas de segurança por repressão ilimitada ou matanças. Vale então ponderar o conceito de reversão (Jean Baudrillard, em "A Troca Simbólica e a Morte"), segundo o qual todo sistema que se expande sem limites tende a produzir um movimento contrário, que o desestabiliza. O excesso de segurança produziria maior insegurança.

É o caso da hipersegurança armada. Jamais funcionou nas potências, muito menos na periferia do grande capital, em que o povo sempre foi matéria-prima (com escasso valor agregado) de exploração do Estado e, agora, refém do crime. A visão extremista para o problema, em chavões como "bandido bom é bandido morto", só comprova a inanidade institucional da sociedade civil. Hoje, afim ao pretexto trumpista para construção do "escudo das Américas", versão armada da internacional direitista.

Na época de Gramsci, o Estado não enfrentava a crise de uma sociedade civil drogada pelo consumo de química e mídia nem atravessada pelo acidente histórico de uma criminalidade cuja intensidade corruptiva faz colapsar o equilíbrio institucional da ampliação Estado/sociedade civil. Uma crise incrementada pelo custo adicional da economia criminosa para o mercado formal.

O pensamento progressista atual não apreende o risco representado pela ruptura do equilíbrio social. Ao afetar qualitativamente o sistema, o acidente da emergência brutal do crime organizado assume proporções de mudança social disruptiva, despercebida pelos anacrônicos quadros cognitivos das militâncias, aquém da era digital.

Entre nós, essa emergência permeia instituições, empresas e altos poderes, em tal escala que Estado coercitivo e sociedade civil se tornam, eles próprios, criminogênicos. Ou seja, chegou-se à metástase social do crime. Daí o embaraço da classe política, parte do problema, com a questão. Daí a urgência de um magno pacto nacional de reajuste da ação social.

Programa de Flávio: extermínio, entrega de minerais críticos, vida desde a concepção e respeito a todos os arranjos familiares

O programa de Flávio Bolsonaro apresentado ao TSE, Para o Brasil vencer o atraso, registra formalmente um conjunto de moderações que o candidato já anunciava. Traz uma frase impensável no bolsonarismo de 2018 – “Este Plano respeita todos os arranjos familiares” – e uma série de acenos: manter os programas sociais (“nenhum brasileiro fica para trás”); tratar o meio ambiente como “ativo”; zerar o desmatamento ilegal; dar “autonomia” a povos indígenas e quilombolas (que já não são medidos em arrobas, como fez seu pai); proteger as mulheres com o que anuncia como o maior programa da história. E não fala em armamento: o marcador identitário central de anos atrás sai da vitrine.

Aliás, nos quatro planos de governo da direita registrados no TSE, os termos que definiram o ciclo anterior – “globalismo”, “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, “kit gay” – praticamente desapareceram. Em seu lugar, uma gramática punitivista-gerencial: “narcoterrorismo”, “terrorismo doméstico”, “Direito Penal do Inimigo”, “implacável”, “tesouraço”.

O desaparecimento desse léxico não significa que a guerra cultural acabou – significa que seus fronts se decidiram de forma desigual: na agenda de diversidade e ambiental, a direita e suas variantes extremas recuaram no vocabulário para não perder o centro; na punição, a extrema direita tem conseguido impor seu repertório.

Então uma pergunta se impõe: ainda estamos diante de um candidato de extrema direita?


A literatura internacional chama de normalização um traço definidor da onda contemporânea da extrema direita, e que significa duas coisas. Na Europa, o fato de os partidos criados à margem serem aos poucos incorporados na arena eleitoral ordinária. No campo das ideias, mais difusamente, o processo pelo qual suas bandeiras migram das margens para o centro do debate.

Há também um outro tipo de normalização dessa extrema direita, que é a incorporação de uma face moderna a líderes que defendem expressamente ou que já defenderam pautas contra legados básicos do iluminismo.

O caso clássico é a dédiabolisation, de Marine Le Pen: expulsar o pai, abandonar o antissemitismo explícito, profissionalizar o discurso, tudo sem alterar o núcleo do programa. Meloni governa dentro das metas fiscais da União Europeia; Bardella é o rosto palatável do lepenismo; Kast suavizou o tom no Chile. O programa de Flávio Bolsonaro é a tradução brasileira dessa gramática.

Se a desdiabolização é justamente a arte de mudar o que se diz e como se diz, o critério para classificar a extrema direita não pode estar apenas no vocabulário.

A posição dos atores no sistema político não se define apenas por ideias professadas – menos ainda pelas adotadas por conveniência. O lugar de extrema direita no espectro político é ocupado pela relação efetiva dos atores com a democracia constitucional: sua disposição de aceitar, justificar ou promover a sua interrupção. É o que eu, Isabela Kalil e Letícia Cesarino defendemos em livro sobre o conceito de extrema direita, que está prestes a ser lançado pela Editora Contracorrente.

Flávio silencia sobre o 8 de janeiro e sobre a anistia – e não precisa defendê-la expressamente, como faz Ronaldo Caiado. Ele é filho de Jair Bolsonaro: o preso, o pivô, o inelegível cuja absolvição é a razão de ser da própria candidatura. O sobrenome carrega o compromisso que o texto cala.

A relação com a democracia define a fronteira do campo. Mas o campo tem também um conteúdo.

O campo da direita brasileira se organiza em torno de três eixos de longa duração – o privatismo patrimonial e religioso, o patriotismo subalterno e o punitivismo seletivo –, atravessados por um quarto elemento, o antipluralismo, todos contra o programa da Constituição de 1988. A gradação política que vai da direita, passa pela extrema direita e chega à direita ultrarradical é a gradação da menor ou maior radicalização desses elementos. Este também é arranjo conceitual que propomos no livro que mencionei.

Estão todos esses elementos no programa de Flávio Bolsonaro.

Não é à toa: a demanda por segurança é imensa e totalmente legítima – provavelmente a mais legítima e popular das demandas brasileiras hoje. A extrema direita captura esse problema com o espetáculo punitivo, que não é uma política de segurança, antes é a sua canibalização.

Redução da maioridade penal, bandido que “vai virar pó”, cinco novos presídios de segurança máxima, batizados de TREVA, que seguirão, nas palavras do próprio texto, “o modelo adotado por El Salvador” – um país de cerca de 6 milhões de habitantes. Transpor esse arranjo para 213 milhões de brasileiros, em dimensão continental e com facções nacionalizadas há décadas, não é política pública: é fantasia de escala com custo constitucional – e de classe e raça – embutido.

O neoliberalismo distingue a extrema direita da América Latina de seus pares do norte global. O programa de Flávio é coerente com isso. Fala em retomada das desestatizações, corte de dez ministérios, vouchers para creche e escola, negociado sobre o legislado, cruzada contra a “República Sindical” e o “Tesouraço” como bandeira-síntese. O vocabulário da “prosperidade” – a CAIXA rebatizada de “Banco da Prosperidade” – dá nome à subjetividade que esse projeto fabrica: o indivíduo como empresa de si, responsável exclusivo pelo próprio êxito e pelo próprio fracasso. O capítulo “Brasil que Prospera” formula com clareza rara a individualização do risco social: a jornada é a que o cidadão “percorre pelas próprias pernas”. Até o que soa como aceno tem tradução privatista: o meio ambiente vira “ativo”, e a “autonomia” prometida a indígenas e quilombolas é a de “decidir sobre atividades produtivas em suas terras” – a abertura econômica dos territórios com vocabulário de autodeterminação.

Mas o programa faz com um giro notável também alinhado ao movimento transnacional. O trumpismo é inspirado pela corrente paleoconservadora da direita norte-americana, especialmente por Pat Buchanan, que propunha tarifas, protecionismo e nacionalismo econômico para proteger os “americanos esquecidos”. No programa de Flávio, não há protecionismo – há, sim, a linhagem do “privatizar tudo que for possível”. Mas existe uma inspiração retórica.

O texto promete que “nenhum brasileiro fica para trás”, fala ao povo “humilhado ao frequentar os supermercados” e invoca a gramática dos esquecidos que o MAGA de 2016 consagrou. A coesão que, lá, cabe ao nacionalismo econômico ou ao chauvinismo de bem-estar – o que aproxima o trumpismo da extrema direita europeia – coube, aqui, como sempre, à moral e à segurança.

Os mimetismos com a esquerda são uma tônica da extrema direita contemporânea, que copia dos adversários métodos e linguagens para pô-los a serviço de fins opostos. Este é mais um: falar aos “deixados para trás” é uma linguagem de proteção da classe trabalhadora que não existiria sem a esquerda que a criou. O programa a mimetiza sem os instrumentos – sem protecionismo, sem política social como direito e com o entreguismo como política externa.

O programa dedica seções inteiras à soberania, mas a define assim: “a soberania começa na porta da sua casa”. Esvaziada de conteúdo econômico e geopolítico – a família Bolsonaro insiste em subordinar o Brasil aos EUA –, a soberania vira sinônimo de segurança pública – e o que sobra da política externa é o alinhamento. O texto lamenta que as relações com Estados Unidos e Israel tenham sido “levadas ao limite do rompimento”, promete entregar minerais críticos e terras raras ao “capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo” e, diante das sanções norte-americanas a produtos brasileiros, oferece apenas “soluções diplomáticas eficazes”.

Ali se promete declarar PCC, CV e milícias “organizações narcoterroristas”. A categoria não é neutra. O “narcoterrorismo” é uma fórmula que circula pelo repertório transnacional da extrema direita das Américas – de Donald Trump a Nayib Bukele e Javier Milei – e cumpre dupla função: funde o crime organizado à esquerda política e, ao enquadrar facções brasileiras na moldura do terrorismo internacional, abre caminho para atuação norte-americana em território nacional, de sanções a pressões militares, e vem constituindo uma verdadeira estratégia de lawfare. Um programa que dedica um capítulo inteiro à palavra “soberania” adota, na sua primeira página programática, a categoria que mais a fragiliza.

O quarto elemento atravessa o documento em doses medidas. A escola será “livre de doutrinação político-partidária”, os professores formados “para ensinar bem, e não para militar em sala de aula”, as escolas cívico-militares ampliadas. A contradição merece ser dita: condena-se a suposta doutrinação ideológica e propõe-se a doutrinação literal – fardada, hierárquica, institucionalizada.

E o “Tesouraço na Censura”, contra o suposto “Ministério da Verdade” do governo atual – referência à Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD) –, mostra o mimetismo que marca o campo: a captura do vocabulário da liberdade de expressão, historicamente caro à esquerda e ao liberalismo político, como arma de guerra cultural.

O privatismo religioso e societal, por sua vez, comparece sem disfarce: o documento põe a “vida desde a concepção” entre os valores inegociáveis e define que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”. E nenhuma palavra sobre direitos reprodutivos, em um programa que se anuncia feito para as mulheres. A autoridade do pai sobre a família como espelho da autoridade do mercado sobre a sociedade.

A extrema direita é, por definição, a força que avança sobre os princípios básicos do liberalismo político – direitos universais, contrapesos, pluralismo – mesmo quando adota a sua língua. O vocabulário está lá; o conteúdo igualitário, não.

Deixaria de ser extrema direita o programa que abandonasse a fabricação do inimigo interno; que desradicalizasse os eixos que estruturam o campo; e que parasse de tensionar a democracia constitucional. Este documento não passa em nenhum dos três testes.

Mantém todos os inimigos: a “República Sindical”, as ONGs de “dinheiro estrangeiro”, os professores “militantes”, as facções fundidas à esquerda pelo “narcoterrorismo”. Definir-se pelo combate a adversários não é um monopólio da extrema direita: o campo progressista também se organiza contra algo – a concentração de renda, a exploração do trabalho, a dominação de gênero. A diferença está no estatuto do antagonista. Os alvos da esquerda são estruturas; os inimigos da extrema direita são particularizados. E é justamente essa inexistência que o torna indestrutível: cada desmentido é lido como prova de que o complô funciona.

O programa radicaliza os eixos: promete extermínio, exceção salvadorenha, entrega de minerais críticos e Estado mínimo. É a marca da direita radical: não rompe com a democracia constitucional; tensiona-a por dentro. E não é textual sobre a vertente ultrarradical – a que promove a abolição do Estado de direito – porque o filho de Bolsonaro não precisa dizê-lo.

A moderação é sinal de que o eleitorado radical é insuficiente e já está integralmente capturado e que é preciso novamente acenar a algum centro. É sinal, também, de que as pautas dos movimentos feminista, LGBTQIA+ e ambiental se tornaram majoritárias demais para serem confrontadas de frente.

A moderação, portanto, não revela uma extrema direita que mudou. A ambiguidade é calculada: incorporar o vocabulário liberal para esvaziar a esquerda, não para adotar sua agenda.

Telefonema entre Trump e Lula mostra que relações não estão abaladas

O telefonema entre Lula e Donald Trump na sexta-feira confirma o que minhas fontes no governo americano sempre me dizem: não existe animosidade pessoal do presidente americano para com o brasileiro. E abre oportunidade no momento em que Trump precisa de boas notícias na política externa.

Um presidente americano não dedica 1h20 de seu tempo, perto de eleições cruciais para o Congresso, se não tiver interesse em cultivar o relacionamento com um governante estrangeiro. A iniciativa da conversa foi de Lula, e parece ter sido em ambiente de cordialidade.

Quem mudou não foi Trump, mas a estratégia de Lula. Ele parece ter chegado à conclusão de que um embate com o presidente americano, que lhe rendeu popularidade no ano passado, pode ser menos interessante, neste momento de tarifaço contra o Brasil, do que demonstrar estatura política para falar com Trump, como fez seu adversário Flávio Bolsonaro em maio ao visitar a Casa Branca.

Lula aparentemente atingiu seu principal objetivo na conversa: retomar as negociações comerciais, encerradas em julho com o fim do período de um ano das investigações da Seção 301, que resultaram em alíquota adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Mas não adianta retomá-las, se o Brasil não estiver disposto a fazer concessões.

O Escritório do Representante Comercial dos EUA apenas executa a ordem de Trump de melhorar as condições de comércio com os parceiros do mundo inteiro. Não é algo dirigido contra o Brasil. Mas atinge produtos brasileiros em cheio por causa das altas barreiras protecionistas praticadas pelo País.

Segundo o relato do governo brasileiro, Trump perguntou sobre o processo eleitoral. Lula defendeu a integridade do sistema de votação e o presidente americano não fez comentários. Ou seja, mesmo o interesse de Trump de tracionar a tese de fraude eleitoral que prejudica a direita não evoluiu para um desgaste entre os presidentes.

A recusa de vistos para funcionários americanos que pretendiam averiguar o processo eleitoral, combinada com a falta do agrément para o embaixador Daniel Perez, nomeado por Trump, levou a uma grave crise diplomática, com a retirada do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O assunto nem sequer foi tratado.

Esses atritos diplomáticos não são provocados por Trump, mas por seu poderoso secretário de Estado, Marco Rubio, hostil a governos de esquerda da América Latina. Lula criticou a designação do crime organizado como terrorismo e defendeu a cooperação entre os dois países no seu combate. Outro tema caro a Trump, que não causou irritação na conversa.

EUA ameaçam suspender vistos na Argentina devido a compras da Huawei

A alta direção da Cooperativa Calf, que fornece eletricidade, gás, água e fibra óptica para Neuquén - a nona maior cidade da Argentina e a maior da Patagônia - viajou em abril para a sede da empresa chinesa de tecnologia Huawei, e alguns meses depois eclodiu um conflito diplomático entre Washington e Pequim.

Executivos da empresa argentina, que presta serviços à principal cidade próxima ao rico campo de petróleo e gás de Vaca Muerta, foram conhecer ferramentas de inteligência para monitoramento de redes elétricas e soluções de fibra óptica para Wi-Fi.

Em julho, diplomatas da embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires reagiram enviando mensagens de WhatsApp aos executivos da Calf , alertando-os de que negariam ou revogariam, conforme o caso, os vistos de turista e de negócios dos 18 principais executivos da cooperativa se eles contratassem a Huawei.

Em 2018, durante seu primeiro mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, proibiu a entrada da empresa chinesa Huawei no país, alegando que ela representava um risco à segurança nacional. O governo de seu sucessor, Joe Biden, deu continuidade à campanha contra a Huawei e recomendou que países como a Argentina não firmassem contratos com a empresa. Diversas nações aderiram à proibição da empresa chinesa: Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Japão, Alemanha, Lituânia, Portugal, Letônia e Paraguai, entre outras.


Em 29 de julho, Marcelo Severini, presidente da Calf, enviou uma carta ao embaixador dos EUA na Argentina, Peter Lamelas, questionando se as mensagens informais do WhatsApp refletiam a posição oficial dos EUA e quais eram as objeções técnicas relativas à segurança cibernética e à proteção de dados contra a Huawei. Sem obter resposta, em 4 de agosto, solicitou a intervenção do Ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, e tornou a denúncia pública.

Até o momento, o governo argentino permanece em silêncio, mesmo em resposta às perguntas da DW. A Huawei, fornecedora de grandes empresas de telecomunicações que operam na Argentina, como a Telecom Argentina e a Claro (pertencente à América Móvil), também permanece em silêncio.

Em vez disso, as mensagens das embaixadas chinesa e americana começaram a se intensificar por meio da plataforma X. Em 5 de agosto, a embaixada chinesa comentou: "Essas práticas refletem plenamente a arrogância e o preconceito dos EUA, constituem uma grave violação da soberania de outros países e prejudicam seriamente os princípios do livre mercado". No dia seguinte, o embaixador Lamelas respondeu: "Negar ou revogar um visto não é um privilégio; é uma decisão para proteger a segurança e os interesses do país". No dia 12, ele se reuniu com executivos da Calf.

"O embaixador reiterou as mensagens intimidatórias", disse Sergio Fernández Novoa, gerente de Tecnologia da Informação e Comunicação da Calf, à DW. "O que lhe dissemos foi que compramos de marcas americanas, europeias e asiáticas. No caso de uma rede para Neuquén, a Huawei tem algumas características que consideramos vantajosas em termos de preço, qualidade e financiamento. Mas estamos abertos a ouvir propostas. Não vamos deixar de comprar de todas as empresas das quais compramos atualmente", acrescentou o gerente da Calf.

No dia seguinte ao encontro com os executivos da cooperativa, Lamelas participou de um fórum de empresas norte-americanas sobre energia na Argentina e declarou que a Huawei espiona para o Partido Comunista Chinês e que isso poderia afetar os investimentos em Vaca Muerta. A embaixada chinesa respondeu novamente por meio do canal X: "O governo chinês nunca pede, nem jamais pedirá, que empresas forneçam, coletem ou armazenem dados em violação das leis locais. O que os EUA estão fazendo é motivado por uma mentalidade da Guerra Fria."

"Não me lembro de os Estados Unidos jamais terem demonstrado tanta sensibilidade em relação às atividades de uma cooperativa no Sul Global, mas trata-se de uma região muito sensível devido à energia", observa Gustavo Girado, diretor do Centro de Pesquisa Sino-Latino-Americana da Universidade de Lanús. "A lei de defesa chinesa estipula que as informações devem ser fornecidas mediante solicitação do regime de partido único, mas o Departamento de Estado também pode fazer o mesmo", argumenta Girado.

"A Argentina não respondeu porque, em fevereiro, assinou um acordo de comércio e investimento com os Estados Unidos que a compromete a coordenar esforços para combater políticas antimercado em outros países", explicou Federico Merke, professor da Universidade de San Andrés, à DW. "Mas os Estados Unidos também não oferecem uma alternativa mais barata", acrescentou.

"Estão a começar investimentos vultosos em áreas estratégicas, como Vaca Muerta, e em centros de dados de inteligência artificial na Patagônia, uma vez que os Estados Unidos têm interesse em garantir que esta região não fique sob jurisdição eletrônica chinesa", afirma Fabián Calle, professor das universidades UCA e UCEMA.

Seu colega em ambas as universidades, Ignacio Labaqui, observa que, embora os métodos variem, os EUA, com ou sem Trump, têm suas "linhas vermelhas" em relação à infraestrutura chinesa na América Latina, mas não em relação ao comércio.

Prova disso é que, nas recentes licitações para dragagem do Rio Paraná, para obras elétricas e para a privatização de ferrovias, o governo Milei proibiu a participação de empresas cujos acionistas sejam Estados estrangeiros, em clara alusão à China, mas promove suas exportações para o gigante asiático, abre o mercado para seus produtos e acaba de renovar um acordo de swap cambial para fortalecer as reservas de seu banco central.

André Mendonça será o novo Sergio Moro?

Em abril de 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça atirando. Acusou o então presidente Jair Bolsonaro de interferir na Polícia Federal para blindar o filho Flávio, investigado no escândalo da rachadinha. Para o lugar de Moro, o capitão escalou um auxiliar mais discreto, que chefiava a Advocacia-Geral da União. Era André Mendonça, que se notabilizaria por usar o cargo para abrir inquéritos contra críticos e opositores do chefe.

Em seis anos, Moro reatou com o bolsonarismo, virou senador e agora disputa o governo do Paraná pelo PL. Seu substituto na Justiça foi alçado a ministro do Supremo Tribunal Federal. Hoje é relator de dois casos com potencial para influir no resultado da eleição.


Estão nas mãos de Mendonça o caso Master, que arranhou a imagem de Flávio Bolsonaro, e dois inquéritos do caso Lulinha, que ameaça os planos do presidente. As investigações parecem andar em ritmos diferentes. Uma não produz fatos novos desde maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a intimidade do senador com Daniel Vorcaro. A outra ocupa o noticiário com vazamentos em série, pautando a eleição a seis semanas do primeiro turno.

Ninguém deve se sair bem dessas histórias. Flávio foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro preso por aplicar golpes, subornar políticos e atuar como chefe de máfia. Fábio Luís, o Lulinha, recebia favores e mordomias da lobista Roberta Luchsinger, que buscava negócios com o governo do pai dele.

Os escândalos devem servir de munição para as duas campanhas, como é próprio da política. A questão é saber se o árbitro vai apitar o jogo com imparcialidade, sem vestir a camisa de um dos times.

Mendonça não costuma dar entrevistas, mas seu gabinete fala pelos cotovelos. Na quinta-feira, soube-se que a Procuradoria-Geral da República pediu o envio do caso Lulinha à primeira instância. Argumentou que a investigação não cita autoridades com foro privilegiado, o que justificaria a permanência no Supremo. Assim que o pedido veio a público, Mendonça fez circular a informação de que vai recusá-lo. A informação foi atribuída a “interlocutores” do ministro — método de divulgação judicial que fez escola na Lava-Jato.

Em 2018, a caneta de Moro desequilibrou a eleição presidencial em favor de Bolsonaro. Depois de prender o candidato que liderava as pesquisas, o juiz interrompeu as férias para impedir o cumprimento de uma decisão que mandava soltá-lo. A seis dias do primeiro turno, divulgou uma delação de alto impacto contra o PT. O titular da 13ª Vara Federal de Curitiba desfrutava uma imagem de herói, depois demolida pela anulação de suas sentenças.

Em declarações a um podcast de seu próprio instituto, Mendonça prometeu conduzir todos os inquéritos com “rigor técnico” e “imparcialidade”, por entender que corrupção “não tem cor partidária”. Bonitas palavras, mas melhor seria demonstrá-las na prática.

Nesta quinta, Flávio disse considerar seu envolvimento no caso Master uma “página virada”. O candidato do PL tem razões para se sentir protegido. Desde que as conversas com Vorcaro vieram à tona, nada lhe aconteceu. Ele permanece a salvo de novos vazamentos, operações de busca ou intimações para se explicar à polícia.

sábado, 22 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Relatório da Oxfam mostra como os super-ricos dominam a democracia

Existe uma engrenagem política que preserva a desigualdade e faz da democracia um delivery dos interesses dos super-ricos brasileiros. A riqueza proporciona melhores condições para disputar eleições. A vitória eleitoral oferece acesso ao Legislativo e aos órgãos que definem políticas públicas. Paralelamente, o lobby mantém canais permanentes de pressão. E assim, limita-se a representação de grupos historicamente excluídos. Esse é um dos destaques do relatório: “Retratos das Desigualdades Brasileiras : Poder, Privilégio e a Captura da Democracia”, publicado pela Oxfam Brasil no dia 19.

O relatório deste ano dialoga diretamente com o do ano passado. Em 2025, a Oxfam afirmou que os super-ricos estavam construindo uma nova aristocracia. Em 2026, o documento evidencia como essa elite se apodera da democracia. “A riqueza ela não é só uma questão econômica, ela também vai se constituir como um poder político. Quanto mais riqueza, mais poder político você tem”, resume Viviana Santiago, diretora executiva da organização civil.

Segundo o documento, um candidato super-rico tem 4.000 vezes mais chances de se eleger do que um cidadão comum. Nenhuma candidatura que declarou patrimônio inferior a R$ 100 mil conseguiu se eleger em 2022, enquanto candidatos milionários, embora representassem menos de 32% do total, corresponderam a quase 58% dos eleitos.


Esse dado influencia também quem é considerado pelos partidos como uma candidatura “viável”. Para Viviana, candidaturas negras enfrentam uma barreira adicional porque foram afastadas historicamente dos mecanismos de acumulação patrimonial. Cria-se um círculo difícil de romper: os mais ricos têm mais recursos para disputar uma eleição, por isso recebem mais verbas dos partidos. Com mais recursos, elegem-se. Essa “viabilidade” acaba reproduzindo os mesmos padrões históricos de classe, raça e gênero que já estruturam o poder brasileiro. O relatório recomenda a discussão sobre reparação histórica e reserva de vagas, além da fiscalização da distribuição dos recursos partidários.

Não é coincidência o perfil médio dos candidatos na eleição deste ano, segundo o TSE: homens, brancos, casados, com ensino superior completo, entre 40 e 59 anos, empresários.

Para quem já é rico, o cargo político representa uma oportunidade de ampliar o patrimônio. É também a chance de enriquecer rapidamente. Exemplos não faltam nas declarações apresentadas ao TSE. O patrimônio do candidato a deputado federal Felipe Cecílio (PSDB-GO) saltou de R$ 20 mil em 2022 para R$ 86,8 milhões neste ano, segundo matéria do ICL. . O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) viu seu patrimônio crescer de R$ 36 mil para R$ 3,8 milhões ao longo de seu mandato na Câmara.

Para quem não possui riqueza, o caminho é outro. Antes de transformar poder político em patrimônio, é preciso superar as barreiras econômicas que dificultam a própria chegada ao poder. Teve grande repercussão a deputada Erika Hilton declarar um patrimônio de cerca de 15 mil reais. A parlamentar do Psol afirmou que “é impossível enriquecer na política sendo honesta, arrimo de família e tendo bom gosto pra se vestir”. “Desculpem a decepção”, ironizou

A defesa dos interesses dos mais ricos não se limita ao plenário e à promulgação de leis. Ela desfila por comissões parlamentares e espaços de decisão de temas econômicos. A desigualdade se mantém porque aqueles que se beneficiam da estrutura do Estado também possuem maior capacidade de influenciar sua manutenção.

É a “porta giratória”, a circulação de pessoas entre cargos estratégicos do Estado e posições de destaque em empresas privadas. Um executivo que sai de uma corporação para ocupar um cargo em um agência de regulação ou ministério, e depois volta para o mercado.

Ela chama atenção para esse “acúmulo de conhecimento das dinâmicas internas” que acompanha o trânsito entre os dois mundos. Um dado explicativo: duas em cada três pessoas que trabalham para as Big Techs teriam ocupado anteriormente cargos estratégicos no governo ou em empresas estatais, segundo reportagem da Pública. O fenômeno, portanto, não precisa envolver corrupção explícita para produzir um dilema democrático.

O relatório defende períodos de quarentena mais longos para pessoas que deixam funções públicas estratégicas antes de assumirem posições diretamente relacionadas aos interesses que regulavam ou supervisionavam. Também sugere aperfeiçoar os mecanismos de identificação de conflitos de interesse. “O objetivo não é impedir que profissionais transitem entre governo e empresas durante toda a vida. É criar regras que reduzam a possibilidade de que essa circulação seja utilizada para transformar capital político e conhecimento institucional em vantagem econômica privada”, pontua Viviana.

A porta-giratória se conecta a outra atividade sem transparência e antidemocrática, o lobby, que consiste na tentativa organizada de influenciar decisões públicas. O problema, segundo o relatório, é a enorme diferença de capacidade de atuação entre os grupos econômicos e a sociedade civil.

Grandes corporações possuem equipes especializadas, recursos financeiros e acesso contínuo aos centros de decisão. Movimentos sociais e organizações da sociedade civil frequentemente ficam do lado de fora. O setor de apostas é um exemplo. Segundo Viviana, representantes das bets participaram de mais de 78 reuniões com representantes do governo para discutir alíquotas. E funcionou. As empresas de apostas são taxadas em 13% sobre a receita bruta e a alíquota subirá para 14% em 2027 e chegará a 15% em 2028. O governo defendia uma progressão de 18% a 24%. O lobby venceu.

“É preciso mais transparência, saber quem consegue fazer lobby, com que frequência, com quais recursos e com qual acesso aos responsáveis pelas decisões”, frisa a diretora da Oxfam. Mas a transparência é um elemento. Seria necessário também garantir proporcionalidade no acesso. Uma empresa consegue se reunir dezenas de vezes com autoridades enquanto uma organização da sociedade civil não consegue sequer uma audiência. A solução passa, portanto, por combinar transparência, regulamentação e participação social.

Nesse cenário, o relatório defende o fortalecimento dos conselhos e de outros mecanismos de participação popular. Quanto mais atores participarem da formulação das políticas públicas, menor a possibilidade de que um único grupo controle a agenda. “Quanto mais espaço de participação, mais escrutínio”, afirma Viviana.

Quem paga a conta quando o voto vira mercadoria?

Muito se fala que, no Brasil, o povo não sabe votar, que vota muito mais por amizade do que propostas. Além disso, pesquisas comprovam que a compra e venda de votos é ainda comum no país. Em 2010, após a aprovação da Lei da Ficha Limpa, uma pesquisa foi feita pelo IBOPE, demonstrando que “43% dos eleitores conhecem políticos que já compraram votos e 41% sabem de casos de gente que já vendeu seu voto”. A informação completava: pessoas com menor poder aquisitivo são as que têm mais contato com esse tipo de crime. Deve-se ressaltar que, tanto a compra como a venda de votos é considerada crime pela legislação brasileira, Lei nº 9.840, de 28 de setembro de 1999. O artigo 299 do Código Eleitoral pune do mesmo modo o comprador e o vendedor, sendo que pode resultar em até 4 anos de pena de reclusão, além de multa.

Essa prática de compra e venda de votos não é de hoje e sempre colocou em cheque a representatividade política no Brasil. José Murilo de Carvalho, no prefácio de sua autoria à sétima edição do livro Coronelismo, enxada e voto, de Vítor Nunes Leal, aponta que o autor deste clássico da Ciência Política brasileira “via nele [coronelismo] um dos sintomas do falseamento da representação”, afastando-nos de um verdadeiro sistema representativo. Por que esta representação se vê ameaçada? Pela estrutura que o coronelismo coloca em movimento e que garante a troca de favores entre os líderes locais, regionais e nacionais, baseados no poder econômico, principalmente na propriedade da terra, desde o período colonial. No prefácio da segunda edição de Coronelismo, enxada e voto, Barbosa Lima Sobrinho lembra que Antonil já escrevia em 1711, em Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas, que “o ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram, porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos” e apoia seu poder em uma base sólida: a propriedade territorial.

Hoje, o poder territorial ainda é importante, pois o Brasil apresenta uma das maiores concentrações de terras no mundo, sendo que 1% das maiores propriedades rurais concentra cerca de 47,5% de todas as terras produtivas, isto equivale a um índice Gini agrário de 0,73. O índice Gini de concetração das terras urbanas fica um pouco abaixo, em 0,70. O país, de dimensões continentais, é ainda a terra do latifúndio agro-exportador que, agora aliado ao capital financeiro, alavanca a concentração de renda e, consequentemente, a desigualdade social. Esses dois elementos – latifúndio agro-exportador e o capital financeiro – geram um sistema político extremamente elitista e excludente. As camadas mais vulneráveis da sociedade brasileira, a partir do momento que conquistaram o direito de participar do processo eleitoral, foram levadas a transformar o seu voto em um instrumento de barganha, muitas vezes para resolver problemas emergenciais ou crônicos em suas vidas ou, ainda, para sobreviver frente à violência política dos poderosos, tanto na cidade como no campo.


A prática da compra e venda de voto está bem retratada no filme Curral, de Marcelo Brennand. E não apenas no filme que este fato se evidencia, a realidade aparece de forma cristalina no nosso cotidiano, como o depoimento abaixo, de 12 de fevereiro de 2026, demonstra:

“Vivi em uma cidade próxima de Garanhuns, em Pernambuco. Muita gente de minha família ainda mora lá, na cidade de Capoeiras. Há 20 (vinte) anos isso acontece lá, eles oferecem material de construção, como tijolos e cimento e até cobertor e colchão em troca de voto”. Perguntei quem são eles e ela me respondeu: “Eles, os vereadores e candidatos a prefeito. Eles vão nas casas das pessoas, nos sítios e oferecem isso em troca do voto ou as próprias pessoas os procuram, dizendo do que precisam. Isso só na época da política, das eleições. Isso continua acontecendo. No ano passado, na Semana Santa os políticos atuais foram oferecer peixe de graça para as pessoas. A própria Prefeitura e candidatos a prefeito fizeram e fazem isso”.

Mário de Andrade, em sua obra Macunaíma, discute a formação da identidade e do caráter nacional, às vezes de forma irônica, mas sempre com forte crítica social. E é esse caráter nacional e essa identidade que perpassam o processo eleitoral brasileiro. Na construção da nossa identidade, entraram os elementos mais autoritários e excludentes de uma sociedade patriarcal – misógina e racista –, patrimonialista, concentradora de riqueza, de poder econômico e prestígio social e, consequentemente, concentradora também do poder político. É nesse contexto que a compra e a venda do voto se mostra cruel, pois a aparente vantagem recebida pelo eleitor em troca de seu apoio a um candidato, esvai-se em pouco tempo; pois, quando no poder, o eleito dificilmente irá criar políticas públicas que favoreçam a maioria da população, alimentando o fisiologismo. Desta feita, a compra e a venda de votos corrompe “um dos maiores bens da sociedade, qual seja, a democracia”.

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Para analisar essa realidade profundamente enraizada na cultura política e social brasileira, deve-se primeiro conceituar o que é a prática de compra e venda de voto. Segundo o Código Eleitoral, no artigo 299, a prática de compra de voto é considerada crime de corrupção eleitoral (Lei nº 4.737/1965). Segundo o Ministério Público Federal:

“A compra de voto acontece quando um candidato doa, oferece, promete ou entrega dinheiro, um bem material ou serviço (…) ao eleitor em troca de voto. A oferta também pode envolver vantagem pessoal, incluindo emprego ou um cargo público. (…) Só a promessa já basta para caracterizar o delito. Além disso, não é necessário o pedido explícito de votos para que a conduta seja caracterizada como crime, caso haja evidências da tentativa de compra de votos.”

Deve-se ressaltar que como bem material, entende-se dinheiro, materiais de construção, dentadura e qualquer outro tipo de mercadoria que envolva a obtenção de uma vantagem ao eleitor, como serviços, incluindo liberação de pendências em órgãos do Estado (prefeituras, cartórios, autarquias, etc).

Isto posto, deve-se lembrar que, na História brasileira, eleições ocorriam desde o período colonial e até 1821 votava-se apenas para as câmaras municipais, não existiam partidos políticos, o voto era aberto e apenas os homens livres podiam votar. Os eleitores, os homens bons, eram aqueles “de linhagem nobre, senhores de engenho, e os membros da alta burocracia militar, a esses se acrescentando os homens novos, burgueses enriquecidos pelo comércio”. Essas eleições eram marcadas por fraudes, pois o voto era indireto, aberto e o processo eleitoral era repleto de detalhes facilmente contornáveis. Formavam-se nove listas tríplices, que depois eram rearranjadas em três listas pelo juiz mais velho da comarca, e estas listas eram guardadas em uma arca com três cadeados, cujas chaves eram guardadas pelos três vereadores em exercício. No início do novo ano, quando acabavam os mandatos dos vereadores, havia uma reunião em que era feito o sorteio da lista com os três nomes daqueles que iriam exercer a vereança por um ano.

A primeira Constituição brasileira de 1824, outorgada por Dom Pedro I, mudou o sistema eleitoral e determinava que os deputados (tanto das assembleias provinciais como da Câmara dos Deputados) e os senadores seriam eleitos de uma forma indireta. As fraudes eleitorais eram frequentes, pois havia o voto por procuração. A participação eleitoral nessa época dependia de uma renda mínima para exercer o direito ao voto (voto censitário), era indireto, aberto (não secreto) e para homens com mais de 25 anos; os analfabetos que se enquadravam nestes outros critérios também votavam. Somente em 1875, o voto ficou restrito aos alfabetizados e as eleições tornaram-se diretas. Estavam excluídos de qualquer participação política os escravizados, as mulheres, os indígenas e os assalariados.

No início do período regencial, em 1831, a criação da Guarda Nacional ocorreu para garantir a ordem dos grandes proprietários de terras – que sufocaram as revoltas populares ocorridas neste período – e, em consequência a este uso da força, esses proprietários de terras passaram a ter o controle das eleições. Por ser formada por cidadãos-eleitores e comandada pela elite agrária (os “coronéis”), esta milícia foi usada para fraudar votações, coagir o eleitorado e garantir a eleição de candidatos alinhados à oligarquia. Isso se perpetuou na ordem republicana da República Velha (1889 a 1930), pois as elites agrárias regionais passaram a ter o controle completo da máquina política de seus respectivos estados. No governo central, dominavam as oligarquias mais ricas, dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (política café-com-leite), que negociavam com as outras oligarquias regionais, estabelcendo-se a chama Política dos Governadores.

Esse sistema garantia o controle férreo do sistema político e social pela elite agrária, que o exercia e perpetuava-se no poder através dos mecanismos do voto de cabresto, clientelismo e fraudes eleitorais.

O voto de cabresto surgiu em decorrência da autoridade armada da Guarda Nacional, que a exercia no âmbito local. Os coronéis utilizavam esse poder das armas para intimidar os eleitores de regiões rurais e, com o voto aberto, asseguravam a vitória de seus apadrinhados políticos. O clientelismo era a troca de favores (empregos, remédios, petições, etc) por apoio político e votos. As fraudes eleitorais consolidavam-se na falsificação das atas das mesas eleitorais, garantindo a manipulação dos resultados e evitando a vitória da oposição. Como pode-se observar neste trecho de Victor Nunes Leal:

“Qualquer que seja, entretanto, o chefe municipal, o elemento primário desse tipo de liderança é o coronel, que comanda discricionariamente um lote considerável de votos de cabresto. A força eleitoral empresta-lhe prestígio político, natural coroamento de sua privilegiada situação econômica e social de dono de terras. Dentro da esfera própria de influência, o coronel como que resume em sua pessoa, sem substituí-las, importantes instituições sociais. Exerce, por exemplo, uma ampla jurisdição sobre seus dependentes, compondo rixas e desavenças e proferindo, às vezes, verdadeiros arbitramentos, que os interessados respeitam. Também se enfeixam em suas mãos, com ou sem caráter oficial, extensas funções policiais, de que frequentemente se desintumesce com a sua pura ascendência social, mas que eventualmente pode tornar efetivas com auxílio de empregados, agregados ou capangas”.

Essa estrutura de poder gerou grande exclusão social e concentração de renda, deixando a maior parte da população urbana e rural marginalizada. Ao longo das primeiras décadas do século XX, a população urbana cresceu no Brasil, houve a diversificação da economia e a ânsia pela participação política ampliou, mas o sistema oligárquico não dava margem para isso. A insatisfação da população não demorou a produzir grandes revoltas populares e messiânicas pelo país, greves operárias, a Revolta da Vacina e o movimento tenentista.

Esse sistema oligárquico, que desde o início dos anos 1900 demonstrava grandes fragilidades estruturais, entrou em colapso na eleição de 1930, quando o presidente Washington Luís rompeu a aliança do “café com leite” ao lançar outro paulista (Júlio Prestes) para a sucessão. Este foi o estopim para “uma ruptura institucional, com grandes consequências para a vida nacional, cujos marcos orientadores foram: maior participação de novos atores sociais no jogo político e modernização do país por meio do desenvolvimento industrial”. E, com isso, uma profunda mudança na estrutura eleitoral fez-se necessária e foi criada a Justiça Eleitoral.

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O movimento que levou ao fim a Primeira República, chamado de Revolução de 1930, foi na realidade um golpe de Estado e logo atuou para contemplar uma das maiores reivindicações do movimento tenentista, já que muitas lideranças deste movimento aderiram ao golpe de 1930. Aliás, um dos primeiros atos do Governo Provisório de Getúlio Vargas foi criar uma comissão de reforma do sistema eleitoral vigente, para exatamente garantir sua sustentação, além de tentar neutralizar em parte o poder das oligarquias derrotadas pelas forças golpistas. Esta comissão elaborou o primeiro Código Eleitoral do Brasil (1932) e também trouxe o gerenciamento das eleições centralizado no Poder Judiciário. A partir dessa data, “a Justiça Eleitoral tornou-se a responsável por todos os trabalhos eleitorais: alistamento, organização das mesas de votação, apuração dos votos, reconhecimento e proclamação dos eleitos, bem como o julgamento de questões que envolviam matéria eleitoral”.

Neste novo período da história do país, o Código Eleitoral trouxe muitas inovações, as principais foram: o voto feminino facultativo; o voto secreto; a representação proporcional, a regulação em todo país das eleições federais, estaduais e municipais; o registro prévio, feito pelos partidos, de todas as candidaturas; e a possibilidade de candidaturas independentes. Permaneceram as restrições de voto aos analfabetos, aos mendigos e aos cabos e soldados.

Na esteira da nova Constituição de 1934, houve alteração no Código Eleitoral. As principais alterações foram: redução da idade mínima para votar de 21 para 18 anos; obrigatoriedade de voto das mulheres que exerciam função pública remunerada. Esse Código Eleitoral nunca foi aplicado, pois em 1937, tivemos o golpe que instaurou o Estado Novo. Uma nova Constituição foi outorgada por Getúlio Vargas, que extinguiu a Justiça eleitoral, os partidos políticos existentes e suspendeu as eleições. Entre 1937 e 1945, não houve eleições no Brasil. Houve a dissolução das casas legislativas instituídas e a ditadura impôs interventores nos estados.

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Em 1945, houve o fim do Estado Novo, acarretado pelo término da Segunda Guerra Mundial, tendo em vista a contradição do governo em apoiar os Aliados contra o nazifascismo enquanto mantinha uma ditadura interna, a forte pressão popular e das elites pela democracia e o próprio desgaste político de Getúlio Vargas.

Foi nesse cenário político que a Justiça Eleitoral foi definitivamente reinstalada. O Código Eleitoral passou a regulamentar, em todo o país, o alistamento eleitoral e as eleições. Sua principal novidade foi a obrigatoriedade de os candidatos estarem vinculados a partidos políticos. Estabeleceu-se a obrigatoriedade do voto a partir dos 18 anos para homens e mulheres alfabetizados, além das restrições ao voto para cabos e soldados, analfabetos e mendigos. Também foram instituídas eleições diretas para todos os cargos nos três níveis de governo.

Entre o fim do Estado Novo, em 1945, e o golpe militar de 1964, o Brasil teve uma normalidade democrática dentro da ordem estabelecida, mas alguns movimentos tentaram romper com essa estabilidade institucional. De forma bem simples, pode-se dizer que o movimento que conduziu ao golpe de Estado ocorrido em 1964 foi tentado antes em 1951, quando os setores mais conservadores procuraram impedir a posse de Getúlio Vargas após as eleições presidenciais em que saiu vencedor; em 1954, com a tentativa desses setores conservadores em depor Getúlio Vargas, algo que foi abortado pelo suicídio do próprio; em 1956, com a Revolta de Jacareacanga (PA), levante militar liderado por oficiais da Aeronáutica; em 1958, com o levante, também liderado por oficiais da Aeronáutica, em Aragarças (GO); em 1961, com a tentativa de impedir a posse de João Goulart, então vice-presidente, após a renúncia de Jânio Quadros. Essa última tentativa foi impedida pela famosa Rede da Legalidade liderada por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul.

Durante este período (1945-1964), a legislação eleitoral continuou a trazer novos elementos à cena política, pois com a ampliação do universo de eleitores e a obrigatoriedade do voto em sufrágio universal estabeleceram-se novas relações entre os candidatos e o eleitorado. Nesse período, as campanhas eleitorais passaram a ter cada vez mais importância, uma estratégia dos partidos políticos para cativar um universo de eleitores cada vez maior, principalmente com o avanço da industrialização e o êxodo rural. Novas práticas eleitorais surgiram: “os panfletos de manifestos políticos passaram a ser panfletos de propaganda, os comícios microfonados se tornaram parte do cenário urbano, os candidatos começaram a distribuir apertos de mão e sorrisos”
 e a imagem do candidato passou a ter crucial importância.

Mas a compra e a venda de votos não deixou de ocorrer mesmo no universo urbano, nem após oito anos de Estado Novo e a supressão das eleições, nem com a mudança do universo eleitoral. A troca do voto por sapatos, dentaduras, ou empregos continuou no processo eleitoral brasileiro, prática profundamente arraigada nas raízes das instituições nacionais.

A elite política e econômica conservadora, ao longo dos anos 1950 e início dos anos 1960, aliada ao grande capital internacional no contexto da Guerra Fria, acabou por articular o golpe militar para expurgar da cena nacional políticos que propunham amplas reformas de base – agrária, urbana, educacional, bancária, fiscal e eleitoral – que colocariam em risco a hegemonia do grande latifundio e do grande capital sobre a sociedade brasileira e suas instituições.

O golpe se concretizou e muitas pessoas tiveram seus direitos políticos cassados e foram para o exílio. As eleições para o Executivo federal, estadual e das capitais de estado foram suspensas; as eleições eram indiretas (no caso da Presidência da República) e governadores e prefeitos das capitais passaram a ser indicados pelo governo central. O Legislativo continuou a existir, mas com prerrogativas limitadas e períodos de fechamento compulsório implantado pelos quartéis. Neste período, 1964 e 1985, a concentração de renda se intensificou e a renda apropriada pelos 1% mais ricos saltou de 10%, em 1965, para 16%, em 1968; houve um arrocho salarial sobre a os trabalhadores, sendo que cerca de 70% dos trabalhadores não tiveram ganhos reais expressivos durante o período de maior expansão do PIB, no chamado período do “milagre econômico” (1968-1973).

Nesse cenário brasileiro – Estado autoritário e aumento da pobreza – o clientelismo não foi abandonado. Os candidatos que ajudavam a manter a ordem autoritária sempre tiveram apoio institucional e financeiro e os eleitores encontravam nessa prática, voluntariamente ou coersitivamente, uma forma de garantir alguma ajuda em tempos tão difíceis.

No final da década de 1970, o movimento pela anistia mobilizou a sociedade brasileira. A Lei de Anistia, de 28 de agosto de 1979, trouxe de volta à vida política centenas de cassados durante a ditadura, os exilados e banidos também retornaram ao país. Neste mesmo ano, houve uma reforma partidária e o bipartidarismo foi abolido. Esta movimentação cresceu o movimento pela normalidade democrática. Em 1982, os governadores voltaram a ser eleitos pelo sufrágio popular. Em 1983, a tentativa de passar, no Congresso Nacional, o voto direto para a Presidência da República (Emenda Dante de Oliveira) ganhou as ruas do país.

A tentativa foi derrotada, por um Congresso moldado pela maioria de deputados e senadores ligados ao governo militar, mas em 1985 a chapa governista – formada por Paulo Maluf e Flávio Marcílio – para a Presidência da República no colégio eleitoral foi vencida pela chapa de oposição – formada por Tancredo Neves e José Sarney – encerrando o governo militar.

A redemocratização e a nova Constituição (1988) não conseguiram erradicar a prática de compra e venda de votos. A prática continua e em épocas de insegurança, o clientalismo retoma sua agenda. O crescimento do extremismo de direita que mina as bases das instituições democráticas, com seu discurso de ódio, usando uma agenda desestabilizadora da economia, da segurança pública e da dinâmica social e política, leva ao aumento dessa prática que corrompe a normalidade do pleito. Aos extremistas, juntam-se os políticos do chamado Centrão, que vivem de olho nas emendas parlamentares, procurando satisfazer interesses pessoais e de grupos específicos, que fazem pressão sobre o Executivo, para abocanhar o orçamento federal. Não agem em prol da coisa pública. Têm a percepção de que o povo é completamente manipulável, sem importância a não ser em época de voto, um voto sem consciência e dentro da lógica clientelista.

Entretanto, a lei de iniciativa popular chamada de Lei da Ficha Limpa (2010), que obteve mais de 1,6 milhão de assinaturas, depois de ampla mobilização da sociedade civil, demonstra como a população brasileira anseia por candidatos para os cargos eletivos que tenham práticas transparentes e com retidão. Em 2025, a Lei da Ficha Limpa esteve sob ataque, exatamente por aqueles que se aproveitam de práticas ilícitas para vencer as eleições. As modificações realizadas pelo Congresso levaram os movimentos sociais, entidades de transparência e juristas a criticarem essas alterações por considerarem as medidas um retrocesso e uma tentativa de abrandar punições a políticos. Ações de inconstitucionalidade foram ajuizadas no Supremo Tribunal Federal, argumentando falhas formais na tramitação e ofensa aos princípios da moralidade e da vedação ao retrocesso em direitos coletivos.

A mobilização popular, tendo em vista estas tentativas de retrocesso institucional, colocou em andamento uma ampla campanha nacional contra a compra e a venda de votos, campanha que não termina em 2026, mas será de longa duração até 2030. Os mais diversos setores vém aderindo à campanha, que agora lança um selo para candidatos que se comprometem a não usar esta prática.

Para erradicarmos as práticas clientelistas, toda a sociedade deve se comprometer com esta pauta, não basta reclamar, precisamos todos nos mobilizarmos e atuarmos para o seu fim. Pois, os princípios para a defesa do Estado democrático de Direito e a manutenção da equidade, transparência, inclusão e soberania nacional devem ser apoiados por todos.

Nas sombras

Três tiros a menos de dois metros de distância. Disfarçados com capacetes e parecendo entregadores de comida, atirador e cúmplice logo desapareceram. Um vídeo mostra a mulher jovem, em saia branca e blusa bege, cambaleando na entrada do hotel plantado à beira da reserva florestal de Santa Cruz de La Sierra, principal cidade boliviana. Não havia sangue visível, mas, diz a polícia, balas calibre 9 milímetros foram extraídas do pescoço, tórax e braço direito da vítima.

Nadia Beller é uma ativista do Movimento ao Socialismo (MAS), partido que governou a Bolívia por duas décadas até o ano passado. Ela ainda estava no hospital quando seu namorado foi preso no aeroporto, em aparente fuga. O argentino Fernando Cerimedo, 45 anos, foi acusado de contratar a dupla de pistoleiros para matá-la. Seria mais um caso na epidemia de violência contra mulheres, não fossem os vínculos políticos do protagonista dessa história de crime sob encomenda.


Cerimedo é um dos personagens das sombras da política latino-americana, reconhecido prestador de serviços para grupos de extrema direita no Brasil, Argentina, Chile, Bolívia e Honduras, entre outros países. Ganha dinheiro na montagem e operação de tramas de desinformação em massa nas temporadas eleitorais. São enredos com difusão integrada a plataformas de empresas nos Estados Unidos e na Europa que prometem “amplificar narrativas” manipulando os “ecossistemas de influencers” nas redes sociais. Ele também atua na conexão com o movimento de apoio a Donald Trump conhecido como MAGA (sigla em inglês para o slogan “Make America Great Again”, que significa tornar a América grande novamente).

Cerimedo é procurado pela polícia brasileira por ter participado na frustrada tentativa de golpe de Estado liderada por Jair Bolsonaro na primavera de 2022. Na sexta-feira 4 de novembro, dias depois de confirmada a derrota do candidato à reeleição na Presidência, ele realizou uma transmissão ao vivo em redes sociais para exibir um “estudo” sobre como “o Brasil foi roubado”.

Apoiado numa rede de audiência turbinada a partir do exterior, com registros de até 415 000 “espectadores” simultâneos, devaneou sobre a manipulação de modelos antigos de urnas eletrônicas para desidratar Bolsonaro de votos em benefício do adversário Lula: “As pessoas que votaram com uma máquina (de fabricação) anterior a 2020 tiveram, em alguns casos, entre 5 e 80 vezes mais probabilidade de votar em Lula do que em Bolsonaro, uma diferença estatisticamente impossível de justificar”.

Ecoava Jair Bolsonaro, que, dois anos antes, iniciara uma campanha de descrédito do sistema eleitoral, sem mostrar uma única prova de fraude no voto eletrônico do qual foi beneficiário — sem uma só queixa — durante um quarto de século de eleições.

Cerimedo se integrou ao grupo de conspiradores na temporada eleitoral de 2022 por iniciativa do então deputado Eduardo Bolsonaro. Sua apresentação ao vivo sobre o “roubo” nas eleições foi elaborada por pessoas vinculadas a um certo Instituto Voto Legal — “nosso pessoal”, na definição do coronel Mauro Cid, ajudante de ordens da Presidência da República. O conteúdo passou pelo crivo do candidato a vice-presidente Walter Braga Netto e do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira.

Dez dias depois, Bolsonaro chamou o chefe da Aeronáutica, Carlos Baptista. Bolsonaro entregou ao brigadeiro Baptista uma cópia do relatório com a “auditoria” do Instituto Voto Legal, divulgada por Cerimedo e financiada pelo caixa do Partido Liberal. O chefe da FAB contou em depoimento ter folheado o papelório, criticado erros de redação e, sobretudo, o ardil usado no texto para enganar o leitor na conclusão sobre fraude. “Sofisma”, nas suas palavras.

Bolsonaro disse ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, para seguir com o enredo. E, assim, o Partido Liberal reivindicou à Justiça uma recontagem de votos estritamente limitada ao segundo turno da disputa presidencial. O recurso foi rejeitado e o PL acabou multado em 22,9 milhões de reais por “litigância de má fé” — o partido usou dinheiro público para sustentar a tese de fraude na votação, foi multado e pagou com dinheiro público. Bolsonaro acabou condenado à cadeia pelos próximos 27 anos.

As suspeitas sobre o sistema de votação continuam sendo difundidas. O porta-voz agora é o candidato Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal. Mas, desta vez, o argentino Cerimedo não vai poder ajudar. O homem das sombras está num presídio boliviano.

Onde as direitas se encontram

O Centrão se inventou como força política em 1987, assim que a Constituinte iniciou seus trabalhos. Nesse período ocorreu o primeiro movimento de reacomodação de parlamentares antes filiados ao PDS, o partido da ditadura, que criaram uma dissidência capaz de dar a vitória ao candidato do PMDB, Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, formada por aqueles que aderiram ao peemedebista quando ele emergiu como o candidato indiscutivelmente favorito nas eleições indiretas e pelo grupo que estreava na política como nomes defensores dos interesses de associações de classe empresariais. Serviram, todos eles, à ditadura e a abandonaram nos seus estertores para continuar no poder.


A mobilização popular contra os governos militares, que tomou o País durante a campanha pelas eleições diretas, foi canalizada para a eleição de Tancredo Neves tão logo derrotada, pelo Congresso, a Emenda Dante de Oliveira, que reinstituía o voto popular para a escolha do presidente. Tancredo era candidato ao Colégio Eleitoral da ditadura, mas levou das ruas um forte apoio popular.

A posse do governo civil de José ­Sarney em 15 de março de 1985, após a morte de Tancredo, e a convocação da Assembleia Nacional Constituinte, cujos trabalhos foram iniciados em fevereiro de 1987, aconteceram ainda sob o êxtase popular de derrubada da ditadura. A sociedade civil inverteu, por completo, as regras políticas de antes. Nos governos militares, nenhum político poderia se declarar de esquerda sem correr o risco de ter o seu mandato cassado pelo governante de plantão. Após a vitória de Tancredo, definir-se como direita era autodenunciar apoio pretérito a uma ditadura que fora embora sem deixar saudades.

Na Constituinte, as diferenças fatalmente seriam expostas. A Assembleia tornara-se o palco de uma luta de classes encoberta no regime militar e onde os atores sociais disputavam palmo a palmo com os egressos da ditadura o seu espaço social. Em vez de se autodefinirem como conservadores, estes se nomearam como “centro democrático”. Foram apelidados de “Centrão”. Eram a base de apoio parlamentar de José Sarney, oriundo do PDS, inequivocamente conservador e um líder regional afeito à política de clientela. Era também um político conservador. E andava na contramão do deputado Ulysses Guimarães, líder inconteste do PMDB durante boa parte da vida do partido de oposição criado pela ditadura, no bipartidarismo, que havia se aproximado dos movimentos populares no período marcado pela campanha das diretas e tendia claramente ao apoio da pauta progressista na Constituinte. Ulysses presidia a Assembleia.

O Centrão tinha um papel duplo. Era o bloco de apoio a um presidente que dominava as técnicas do clientelismo e premiava a sua bancada parlamentar com emendas e favores para obter maiorias em matérias de seu interesse. Mas existiam, nessa articulação, integrantes que, embora não recusassem as benesses do fisiologismo, assumiam suas posições de classe. Entre eles constam os primeiros políticos brasileiros a proclamarem uma adesão ideológica clara ao neoliberalismo que grassava pelo mundo.

Ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso, embora o fisiologismo fizesse parte de uma vitoriosa ação de governo para conseguir maiorias a propostas que conseguiram derrubar no Congresso medidas de caráter fortemente nacionalista de uma Constituinte recente, houve uma articulação ideológica paralela que conquistou parlamentares do antigo centro-esquerda e de boa parcela da opinião pública. O Consenso Neoliberal, nos governos tucanos, entrou pela porta da frente do Congresso e desqualificou adversários. A esquerda que, durante a ditadura, era sinônimo de subversão, no consenso liberal tornou-se obsoleta, “jurássica”. Dizer-se de esquerda tornou-se motivo de piada.

Entre os governos Lula e os de Dilma, até o impeachment da presidenta, o centro da discordância política era entre “atrasados” – a esquerda que mantinha suas posições políticas – e os “modernos” (os tucanos que entenderam que o liberalismo era o fim da história).

O impeachment de Dilma foi o momento em que o jogo mudou. Seu afastamento não foi apenas uma disputa ideológica entre neoliberais e uma proposta de Estado de Bem-Estar Social, mas uma tomada de poder. As forças democráticas demoraram a perceber que era um golpe não apenas contra Dilma, mas contra forças progressistas que resistiram à ascensão do Consenso Neoliberal. O golpe de 2016 e a tentativa de golpe contra o presidente Lula em 2023, logo depois da sua posse a um terceiro mandato presidencial, são contra o país que resistiu à sanha autoritária do ultraliberalismo sucedâneo do neoliberalismo. É isso que está em jogo nestas eleições.

Claro como água

Como sempre sucedeu, e há-de suceder sempre, a questão central de qualquer tipo de organização social humana, da qual todas as outras decorrem e para a qual todas acabam por concorrer, é a questão do poder, e o problema teórico e prático com que nos enfrentamos é identificar quem o detém, averiguar como chegou a ele, verificar o uso que dele faz, os meios de que se serve e os fins a que aponta. Se a democracia fosse, de facto, o que com autêntica ou fingida ingenuidade continuamos a dizer que é, o governo do povo pelo povo e para o povo, qualquer debate sobre a questão do poder perderia muito do seu sentido, uma vez que, residindo o poder no povo, era ao povo que competiria a administração dele, e, sendo o povo a administrar o poder, está claro que só o deveria fazer para seu próprio bem e para sua própria felicidade, pois a isso o estaria obrigando aquilo a que chamo, sem nenhuma pretensão de rigor conceptual, a lei da conservação da vida. Ora, só um espírito perverso, panglossiano até ao cinismo, ousaria apregoar a felicidade de um mundo que, pelo contrário, ninguém deveria pretender que o aceitemos tal qual é, só pelo facto de ser, supostamente, o melhor dos mundos possíveis. É a própria e concreta situação do mundo chamado democrático, que se é verdade serem os povos governados, verdade é também que não o são por si mesmos nem para si mesmos. Não é em democracia que vivemos, mas sim numa plutocracia que deixou de ser local e próxima para tornar-se universal e inacessível.

Por definição, o poder democrático terá de ser sempre provisório e conjuntural, dependerá da estabilidade do voto, da flutuação das ideologias ou dos interesses de classe, e, como tal, pode ser entendido como um barómetro orgânico que vai registando as variações da vontade política da sociedade. Mas, ontem como hoje, e hoje com uma amplitude cada vez maior, abundam os casos de mudanças políticas aparentemente radicais que tiveram como efeito radicais mudanças de governo, mas a que não se seguiram as mudanças económicas, culturais e sociais radicais que o resultado do sufrágio havia prometido. Dizer hoje governo “socialista”, ou “social-democrata”, ou “conservador”, ou “liberal”, e chamar-lhe poder, é pretender nomear algo que em realidade não está onde parece, mas em um outro inalcançável lugar — o do poder económico e financeiro cujos contornos podemos perceber em filigrana, mas que invariavelmente se nos escapa quando tentamos chegar-lhe mais perto e inevitavelmente contra-ataca se tivermos a veleidade de querer reduzir ou regular o seu domínio, subordinando-o ao interesse geral. Por outras e mais claras palavras, digo que os povos não elegeram os seus governos para que eles os “levassem” ao Mercado, mas que é o Mercado que condiciona por todos os modos os governos para que lhe “levem” os povos. E se falo assim do Mercado é porque é ele, hoje, e mais que nunca em cada dia que passa, o instrumento por excelência do autêntico, único e insofismável poder, o poder económico e financeiro mundial, esse que não é democrático porque não o elegeu o povo, que não é democrático porque não é regido pelo povo, que finalmente não é democrático porque não visa a felicidade do povo.

O nosso antepassado das cavernas diria: “É água”. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: “Sim, mas está contaminada”.
José Saramago, "O caderno"

Elite não compra pão com o próprio suor

Não fui eu que escrevi isso primeiro, foi Machado de Assis, ou melhor, o Brás Cubas. "Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto."

Na divina comédia da burguesia à brasileira –rentista e pouco produtiva— que é Memórias Póstumas, Machado expõe as contradições do andar de cima da sociedade brasileira, de ideias liberais e renda escrava. Por isso, a atriz Fernanda Torres recomendou para que se entenda o Brasil a leitura do clássico machadiano combinada com a dos ensaios de Roberto Schwarz sobre Machado.


No campo da economia política, a ficção se torna tragédia. Na quarta-feira, a organização de direitos humanos Oxfam Brasil lançou um relatório que revela como vive o topo da pirâmide social do país. Intitulado "Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia", o documento traz importantes contribuições para o debate sobre desigualdade.

Quando se diz que a elite não compra pão com seu suor, trata-se de uma descrição factual: enquanto os mais pobres obtêm sua renda do trabalho –tributável, visível e regulada— os mais ricos obtêm de formas diversas de ganhos de capital –menos tributada e mais nebulosa. O 1% (renda mensal a partir de 34,7mil) no topo controla sozinho 37,3% de toda riqueza patrimonial declarada no país, metade dela do capital; enquanto a alíquota efetiva de imposto de renda do 0,01% (renda mensal a partir de R$ 855,5mil) mais rico é de 4,6%.

Poder econômico se reflete em poder político codificado –para usar um termo de Katharina Pistor— em formas jurídicas por meio de manobras legais para se blindar da tributação e permitir a sucessão patrimonial. A pesquisa da Oxfam mostra estas engrenagens da desigualdade, inclusive pela influência desproporcional sobre políticos e, portanto, sobre a produção e aplicação de leis.

Enquanto a periferia parcela o pão com seu suor e com juros –como lembra Kaué Lopes no livro "Parcelado"– o andar de cima come brioches com o trabalho alheio.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A disputa pelo poder das big techs chega com tudo às eleições

A transformação política do Vale do Silício não pode mais ser vista como simples mudança de comportamento de alguns bilionários ou flerte com a extrema-direita americana. Por trás dessa aproximação existe uma disputa sobre quem terá o poder de definir os limites das empresas que controlam plataformas digitais, mecanismos de busca, publicidade, inteligência artificial e parte crescente da circulação de informação.

Enquanto parte da elite tecnológica defende menor interferência estatal e maior liberdade empresarial, órgãos públicos continuam travando batalhas antitruste contra gigantes do setor. A inteligência artificial ampliou a queda de braços. O controle sobre grandes modelos, chips, centros de processamento e serviços de nuvem determinará quem terá capacidade de desenvolver as próximas gerações tecnológicas. O debate deixou de ser sobre redes sociais e comércio eletrônico apenas. O busílis é a infraestrutura sobre a qual empresas, governos e cidadãos construirão seus sistemas digitais.


Isso tem tudo a ver com a mudança de paradigma d do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na geopolítica mundial. Os Estados Unidos pressionam a União Europeia contra a adoção de regras digitais. A regulação das big techs tornou-se também uma disputa sobre soberania, comércio internacional e poder tecnológico. mÉ disso que trata o livro mais recente do jornalista americano Gil Durán, The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy, lançado em 18 de agosto passado. A obra investiga a ascensão do autoritarismo tecnológico e a influência de bilionários do Vale do Silício — como Peter Thiel — nas instituições democráticas e na política atual.

Magnatas ou apóstolos modernos do Vale do Silício citados por Durán lideram a extrema-direita tecnológica. O que chama de Nerd Reich é encabeçado por figuras proeminentes da tecnologia, como Peter Thiel (PayPal), Elon Musk (Space X, TeslaX), Marc Andreessen (Andreessen Horowitz e Substack) e Balaji Srinivasan (Network School / Network State e Coinbase). Essas empresas são usadas para financiar campanhas políticas e o conceito de “Network State” (Estado em Rede) de Balaji pretende substituir os países tradicionais.

A tese central de Gil Durán sobre a nova ordem é a seguinte: parte da elite tecnológica americana passou a questionar os limites impostos pela Estado e pretende ir além da democracia liberal,, não se trata mais das velhas disputas entre democratas e republicanos. Qual deve ser o limite do poder privado na democracia representativa quando uma empresa controla a infraestrutura essencial à vida econômica, social e política? Eis a questão.

As plataformas digitais não vendem apenas produtos. Determinam quais conteúdos circulam mais, quais anúncios alcançam determinados públicos e quais informações aparecem primeiro. A tecnologia não precisa escolher um candidato para produzir efeitos políticos. Basta alterar a arquitetura de circulação das mensagens. É justamente aí que o problema passou a ser uma variável das eleições deste ano.

O Brasil chega às eleições de 2026 com experiência acumulada em campanhas digitais, desinformação, disparos em massa, manipulação de imagens e vídeos e uso político das redes sociais. O Tribunal Superior Eleitoral reconhece que o ambiente digital se tornou central para a formação da opinião pública e aprovou novas regras para o pleito, incluindo medidas específicas sobre inteligência artificial, porém não se sabe exatamente o que vai acontecer.

As normas estabelecem restrições à circulação de determinados conteúdos sintéticos e regras para a atuação das plataformas. O TSE também determinou que sistemas de inteligência artificial não devem recomendar candidaturas, para evitar interferência algorítmica na decisão do eleitor. A Corte ampliou ainda acordos com empresas digitais para enfrentar conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados e proteger a integridade eleitoral.

Meta, TikTok, Kwai, LinkedIn e outras plataformas firmaram acordos com a Justiça Eleitoral brasileira para ampliar canais de denúncia, cooperação e transparência. No caso da publicidade política, mecanismos permitem acompanhar informações sobre anúncios, anunciantes e gastos. A questão, porém, não está restrita à produção de notícias falsas. Envolve também a capacidade das plataformas de determinar a velocidade, a amplitude e o público de determinadas mensagens.

Hoje, a inteligência artificial pode reduzir drasticamente o custo de uma operação de desinformação. Uma campanha pode produzir milhares de vídeos falsos em poucas horas, adaptando imagens, vozes e narrativas a regiões, grupos sociais e perfis distintos. O risco eleitoral, portanto, não está apenas na mentira tradicional, mas na possibilidade de industrialização da persuasão política.

Quanto maior o poder das plataformas, maior a importância de suas decisões sobre o que circula na sociedade. Uma rede social pode modificar políticas de moderação; uma plataforma de vídeos pode alterar recomendações; um mecanismo de busca pode mudar a apresentação dos resultados; e uma empresa de IA pode estabelecer filtros e restrições para milhões de usuários. São decisões privadas com consequências públicas.

O Brasil possui instituições eleitorais experientes, mas não controla a infraestrutura tecnológica. Grande parte das plataformas utilizadas pelos brasileiros é comandada por empresas estrangeiras, cujos algoritmos, decisões corporativas e políticas podem ser definidas fora do país. A campanha eleitoral, entretanto, acontece dentro dessas plataformas. Esse descompasso cria uma zona de vulnerabilidade.

Isso não significa afirmar que alguma big tech esteja planejando interferir nas eleições brasileiras de 2026 em favor de determinada candidatura. Não há evidência para essa conclusão. Existe, porém, uma preocupação legítima com a possibilidade de influência indevida em eleições nas quais plataformas, inteligência artificial e publicidade segmentada possuem capacidade inédita de alcançar eleitores.

O voto latino-americano: ideológico ou pragmático?

Da direita para a esquerda, e vice-versa, o pêndulo oscila nas eleições latino-americanas , e desta vez de forma marcante . Em contraste com a recente onda rosa de governos progressistas de esquerda, agora é a vez da onda conservadora de direita , que se consolida graças às recentes vitórias no Equador, Chile, Bolívia, Peru e Colômbia.

"É um pêndulo, mas também um pêndulo anti-establishment , porque as antigas receitas que haviam sido dadas já não funcionam para o eleitorado, que busca novas alternativas fora do que está estabelecido", disse à DW Javiera Arce, pesquisadora do Centro de Estudos de Gestão Pública da Universidade de Valparaíso, no Chile.

"Algumas análises mostram que a mudança foi o fator determinante nos votos em muitas das eleições dos últimos anos na América Latina. Às vezes, quando surgem opções autoritárias ou reacionárias, isso tem mais a ver com a busca por mudanças em relação ao que existia antes do que com uma adesão programática à extrema direita", disse Pablo Vommaro, diretor executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).

Nenhum político tem as respostas, e a direita também não, mas consegue capitalizar em cima do medo, embora a questão da segurança não possa ser resolvida com o aumento da repressão policial ou militar

Na opinião de Arce, os partidos políticos tornaram-se "menos guiados por ideologia e mais pragmáticos, baseados em um consenso centrista". Como resultado, as disputas ideológicas diminuíram e os partidos se concentraram em novas causas. "Eles entram em conflito por questões mais secundárias e demandas mais imediatas, pequenas e específicas", acrescenta o doutor em Ciência Política, que acredita que a conexão do público com os partidos enfraqueceu: "Parece que eles não conseguem mais canalizar os afetos do público de forma eficaz. Portanto, temos visto um ressurgimento de antigas demandas materiais, como segurança cidadã e segurança econômica."

Segundo Hans-Jürgen Burchardt, a duração das oscilações do pêndulo é variável, e não sabemos quanto tempo elas podem durar a médio e longo prazo. "Devemos reconhecer, por um lado, que o centro progressista não cumpriu sua promessa mais importante, que era a redistribuição, não apenas por razões de justiça social, mas também para tornar os países mais produtivos e, por meio disso, melhorar as condições de vida e de trabalho. Isso representou uma grande decepção para esses governos, e a direita, por vezes, aproveitou-se disso", observa o professor de Relações Internacionais da Universidade de Kassel.


Por outro lado, ele cita o exemplo da última eleição no Chile. O debate centrou-se na segurança, um tema muito presente nos meios de comunicação, embora o nível de alarme não corresponda às estatísticas. Tal como a migração, a insegurança é um tema priorizado pela direita, em detrimento de preocupações como a saúde, a educação ou as pensões.

Embora as disputas sobre agendas materiais persistam em alguns países, como trabalho, moradia ou saúde – na eleição de Milei na Argentina, por exemplo, foi a inflação ou o valor do dólar – “a disputa situada no terreno das subjetividades, do afetivo, do emocional e dos gostos ganhou maior importância e mais espaço na definição das disputas eleitorais nos últimos anos”, explica Vommaro.

"Há uma luta em torno do significado, que até mesmo alguns grupos de extrema-direita enquadram como uma guerra cultural", observa o professor e pesquisador da Universidade de Buenos Aires (UBA). Isso influencia a formação da subjetividade dos eleitores e está ligado ao sentimento predominante de descontentamento nesses contextos. Na batalha para influenciar as percepções, o mundo digital e as mídias sociais desempenham um papel significativo, assim como a estratégia de desinformação, notícias falsas e conteúdo gerado por inteligência artificial com base em dados inverídicos.

"Essa situação é agravada pela crescente incerteza em que vivemos, um mundo onde nada parece certo, onde tudo pode ser abalado, de terremotos a pandemias e guerras. A incerteza sobre o futuro é muito forte entre as gerações mais jovens. Ela também contribui para que a dimensão afetiva assuma uma importância maior do que nas décadas anteriores", explica o diretor executivo da CLACSO.

Burchardt, por sua vez, destaca que "nenhum político tem as respostas, e a direita também não, mas consegue capitalizar em cima do medo, embora a questão da segurança não possa ser resolvida com o aumento da repressão policial ou militar. Outras respostas são necessárias."

A este respeito, a diretora do centro de pesquisa Käte Hamburger Kolleg, da Universidade de Kassel, aponta diferenças entre os países: a Argentina é altamente dependente do FMI e de empréstimos, e, diante da ameaça de falta de apoio de Trump , parte da população decidiu votar em Milei. Já no Brasil, Lula assumiu uma postura clara de defesa da autonomia brasileira e ganhou popularidade.

Ao observar os altos e baixos recentes das eleições latino-americanas, parece que os eleitores não são mais fiéis a uma única tendência política, mas sim guiados por outros interesses. "Eles sentem que a política não tem sido fiel a eles e às suas demandas, então ajustam suas preferências, maximizando suas opções", afirma Arce.

Segundo Vommaro, "hoje, o voto é definido menos por ideologia, adesão a um programa ou lealdade partidária, e é decidido mais por condições materiais e subjetivas imediatas. O voto é mais pragmático no sentido de ser mais contingente, menos fiel a certas opções. Há também votos de lealdade, claro, mas eles estão se tornando cada vez mais diluídos."

Ao mesmo tempo, "é mais emocional, afetivo e ligado a outras afinidades que não têm a ver diretamente com uma adesão programática ou ideológica, mas com sensações e percepções, muitas vezes bastante negativas, ou seja, de desconforto, desilusão e desencanto. E então surge uma busca por mudança", afirma o acadêmico da UBA.

"Poderíamos dizer que eles votam contra algo: por exemplo, no Chile, contra o fascismo de Kast em 2021, ou contra o comunismo de Jeannette Jara em 2025, ou recentemente na Colômbia, ou o voto antiperonista com Milei em 2023."

Nesse sentido, Burchardt observa que na Argentina "o último governo de Alberto Fernández foi uma decepção para grande parte da população. Não só gerou alta inflação, como também aumentou o desemprego entre os jovens, que se sentiram mais desiludidos com o governo progressista do que com as próprias ideias e objetivos da direita."

Nesse panorama, a questão é se a era das ideologias já passou. Arce esclarece: "Eu não falaria em pós-ideologia. Esses movimentos de direita que temos são extremamente ideológicos. Estamos vivenciando uma luta brutal por ideologia, e é um tipo de ideologia completamente diferente."

Por sua vez, Burchardt acredita que isso aconteceu "até certo ponto". "Se estivermos falando da esquerda ou dos partidos progressistas, eles carecem de uma narrativa que prometa um futuro melhor, e se os políticos não têm nada a oferecer, significa que estamos diante de uma desideologização, não como um processo de nova política, mas sim como uma incapacidade de criar uma narrativa." Ele também acredita que a direita tem a capacidade de "canalizar e capitalizar o medo do público, e é isso que ela faz ao vencer eleições, mesmo sem ter respostas para nada. E isso não é ideologização."

“Não sei se a ideologia se tornou coisa do passado, porque mesmo dentro dos discursos dominantes, a ideologia ressurge quando as pessoas são rotuladas de ‘comunistas’ ou ‘socialistas’, ou, há alguns anos, de ‘castroístas’ ou ‘chavistas’, ou quando certos países, como Cuba ou Venezuela, são apresentados como exemplos negativos, ‘bicho-papão’ e a causa de todos os males. Esses discursos são fortemente ideológicos”, alerta Vommaro. No entanto, ele reitera que as ideologias e as lealdades programáticas perderam peso específico na arena política, enquanto as lealdades afetivas, emocionais e mais subjetivas estão crescendo.

Flávio silencia sobre R$ 61 milhões e desvia foco para Lulinha

Não perguntem a Flávio Bolsonaro sobre quando ele dará as explicações prometidas sobre onde foram parar os 61 milhões de reais doados, a seu pedido, por Daniel Vorcaro, ex-dono do extinto Banco Master, para o financiamento do filme de exaltação ao seu pai. Também não perguntem sobre a data de estreia do filme, a princípio marcada para o próximo dia 11 de setembro. A data foi adiada. Coincidiria com a passagem de mais um aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, mas não foi por isso.

Está prestes a completar 100 dias a promessa feita por Flávio de explicar, num prazo de 30 dias, o destino dado ao dinheiro. Ontem, em São Paulo, perguntado a respeito, ele respondeu que o assunto “é página virada” e sugeriu aos jornalistas que fossem indagar a Lula sobre a ligação do seu filho Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, com a lobista Roberta Luchsinger, suspeita de tentar fazer negócios espúrios com o governo.


Curioso é que até aqui não se comprovou o fechamento de qualquer negócio investigado pela Polícia Federal (PF). Por sinal, a Procuradoria-Geral da República, em manifestação enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que a atuação da lobista Roberta e de Lulinha para favorecer os interesses de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, não resultou em fechamento de negócios com o poder público.

“Embora tenham sido identificados pagamentos feitos por Camilo Antunes a Roberta Luchsinger, a representação [da PF] não menciona a conclusão de nenhum negócio entre o empresário e o Poder Público, que pudesse sugerir o efetivo atendimento às pretensões que o grupo se propôs a agenciar”, afirma o texto da PGR.

Se dependesse da Procuradoria, a quem cabe oferecer denúncia, o inquérito aberto pela PF deveria ser enviado à primeira instância da Justiça, uma vez que não há ninguém com foro privilegiado envolvido no caso. Isso não justifica sua permanência no STF sob a relatoria do ministro “terrivelmente evangélico” André Mendonça, nomeado para o tribunal pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mas imagine só se Mendonça concordará com isso. Nem morto. Nas mãos dele está o inquérito e ali ficará até quando o ministro quiser. As eleições ocorrerão à sombra de um inquérito que corre sob segredo de Justiça. Nem os advogados dos suspeitos podem acessá-lo.