sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Como o crime gera onda de 'bukelização' na América Latina

Poucos anos atrás, a chamada "onda rosa" parecia consolidar uma nova hegemonia política na América Latina. Impulsionados pela insatisfação popular com desigualdades agravadas pela pandemia de covid-19, governos de esquerda chegaram ao poder em alguns dos principais países da região, incluindo Brasil, Chile, Colômbia e Peru. Em meados da década, porém, o cenário mudou de forma significativa.

Uma nova onda conservadora avança pelo continente. De Buenos Aires a Bogotá, passando por Santiago, Quito e Lima, candidatos de direita e de perfil populista vêm conquistando espaço ao prometer soluções rápidas para problemas que há décadas desafiam os governos latino-americanos: violência, crime organizado, imigração irregular e crescimento econômico insuficiente.

A eleição do colombiano Abelardo de la Espriella se tornou o episódio mais recente desse movimento. Uma vitória que confirmou uma tendência já observada em países como Argentina, Chile, Equador e Peru, onde lideranças conservadoras conseguiram capitalizar o descontentamento popular com a situação econômica e a sensação crescente de insegurança.


O principal combustível da atual guinada à direita é a segurança pública. Embora a taxa média de homicídios na América Latina tenha diminuído em relação aos níveis registrados uma década atrás, a expansão do crime organizado e o crescimento de delitos como extorsão, sequestros e tráfico de drogas transformaram a segurança na principal preocupação do eleitorado em muitos países.

A natureza do crime também mudou. Organizações criminosas já não dependem apenas do tráfico internacional de cocaína. Hoje controlam minas ilegais, redes de extorsão, rotas migratórias e economias paralelas inteiras em bairros urbanos e regiões periféricas.

No Peru, comerciantes e transportadores enfrentam cobranças sistemáticas de grupos criminosos. No Equador, gangues ligadas a cartéis mexicanos e colombianos desencadearam uma escalada de violência sem precedentes. Na Colômbia, grupos armados continuam ocupando regiões pouco controladas pelo Estado.

Diante desse cenário, propostas de longo prazo defendidas por setores progressistas – como reformas policiais, fortalecimento da Justiça, prevenção da violência e inclusão social – passaram a competir com promessas mais imediatas e de forte apelo popular.

Foi nesse ambiente que Nayib Bukele, presidente de El Salvador, se transformou em modelo para parte da direita latino-americana. Seu combate agressivo às gangues, baseado em prisões em massa e forte militarização da segurança, reduziu drasticamente os índices de violência no país e lhe garantiu índices recordes de aprovação.

Mesmo enfrentando críticas de organizações de direitos humanos, o chamado "modelo Bukele" passou a inspirar candidatos em diversos países da região.

Discursos de campanha apresentando os imigrantes como criminosos e defendendo estratégias rigorosas de segurança popularizadas por Bukele garantiram a candidatos conservadores o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e mobilizaram eleitores descontentes, apesar das preocupações de que essas táticas possam incentivar violações dos direitos humanos ou ameaçar a democracia.

"Há uma nova direita emergente que colabora intensamente em toda a região e com os Estados Unidos por meio do movimento Maga, que também usa o combate ao crime como bandeira para mobilização política", afirmou Enrique Roig, vice-presidente da organização sem fins lucrativos Human Rights First e ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA. "É mais fácil vender a ideia de prender pessoas do que lidar com as razões pelas quais principalmente jovens ingressam em gangues em países como El Salvador."

Embora o populismo tenha obtido sucesso em diferentes espectros políticos, apenas a direita tem oferecido soluções de curto prazo para a segurança, que fazem os eleitores "se sentirem mais seguros em seis meses", mesmo que isso exija "sacrificar a democracia e os direitos humanos", avalia Adam Isacson, diretor de supervisão de defesa da organização Washington Office on Latin America (Wola).

Segundo ele, propostas da esquerda, como programas comunitários de prevenção da violência, melhor treinamento policial e reformas no sistema judiciário e prisional, levam mais tempo para produzir resultados.

"É exatamente o que deveria ser feito, mas a paciência das pessoas acaba", resalta Isacson sobre as propostas de longo prazo. "Então surgem os Bukeles do mundo dizendo: 'Quer se sentir melhor? Deixe conosco.'"

No Peru, onde os casos de extorsão aumentaram cinco vezes nos últimos cinco anos, Keiko Fujimori avançou rapidamente para o segundo turno presidencial de 7 de junho com uma plataforma baseada em lei e ordem. Ela prometeu empregar as Forças Armadas nas prisões e nas fronteiras, apoiando-se no legado autoritário de seu falecido pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, cuja trajetória permanece controversa.

Na Costa Rica, abalada por níveis recordes de homicídios relacionados ao narcotráfico, os eleitores escolheram, em fevereiro, a populista conservadora Laura Fernández, atraídos por sua plataforma de combate rigoroso ao crime. Em Honduras, o empresário Nasry Asfura venceu as eleições de dezembro após receber o apoio de Trump como aliado na luta contra os chamados "narcocomunistas".

Segundo a organização InSight Crime, especializada no estudo do crime organizado nas Américas, a taxa média de homicídios na América Latina e no Caribe caiu mais de 5% no último ano em comparação com 2024, atingindo uma média de aproximadamente 17,6 homicídios por 100 mil habitantes.

No entanto, existem exceções importantes. As mortes relacionadas ao narcotráfico aumentaram no Peru e na Colômbia, os maiores produtores de cocaína do mundo, assim como no Equador, cujos principais portos são vistos pelos traficantes como uma porta de entrada para os mercados europeus.

No ano passado, as autoridades registraram 2.400 homicídios no Peru e 14.780 na Colômbia, os maiores números observados em ambos os países desde pelo menos 2020. No Equador, os assassinatos cresceram expressivos 31% em relação ao ano anterior, chegando a 9.216 casos.

Grande parte da violência no Equador é atribuída às gangues criminosas. Durante a pandemia, cartéis do México, da Colômbia e dos Bálcãs ampliaram suas operações no país e recrutaram habitantes locais, desencadeando uma disputa sangrenta pelas rotas do tráfico de drogas. Os confrontos também se estenderam ao sistema prisional, onde centenas de detentos foram mortos desde 2021.

As autoridades equatorianas registraram ainda mais de 16.100 casos de extorsão no ano passado – uma redução em relação aos 23 mil registrados em 2024 – embora especialistas alertem que esse tipo de crime continua amplamente subnotificado.

Há quatro anos, os eleitores chilenos rejeitaram o político ultraconservador José Antonio Kast e elegeram o ex-presidente Gabriel Boric, um jovem ex-líder estudantil que prometia enfrentar as desigualdades sociais históricas do Chile.

No ano passado, porém, o temor diante do aumento da criminalidade – frequentemente associado pela mídia ao crescimento da população de imigrantes venezuelanos – favoreceu Kast e contribuiu para seu retorno ao poder.

À medida que organizações criminosas venezuelanas, como a gangue Tren de Aragua, aproveitaram a onda de migração em massa para expandir suas atividades e se infiltrar em redes de tráfico de pessoas após a pandemia, o Chile, tradicionalmente considerado um dos países mais seguros da América Latina, passou a registrar uma explosão sem precedentes de roubos de veículos, sequestros e tiroteios.

De acordo com o Ministério do Interior chileno, a taxa de homicídios no país aumentou 30%, alcançando o pico de 6,7 por 100 mil habitantes entre 2021 e 2022. Embora tenha diminuído desde então, permanece acima dos níveis anteriores a 2021. Outros crimes violentos continuam em alta, especialmente os sequestros, que cresceram quase 180% nos últimos quatro anos.

Inspirado por Bukele – e após visitar suas megaprisões em El Salvador durante a campanha – Kast derrotou com ampla margem sua adversária de esquerda em dezembro, prometendo construir um grande muro na fronteira, endurecer as condições carcerárias para membros de gangues e deportar centenas de milhares de imigrantes em situação irregular.

Em troca das promessas de segurança, muitos eleitores minimizaram suas posições contrárias ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como sua defesa da ditadura de Augusto Pinochet.

No Peru, apesar do legado controverso do condenado Alberto Fujimori, a candidatura de sua filha se beneficiou da escalada da criminalidade violenta, quatro anos após sua derrota para o professor Pedro Castillo.

Com o slogan "Peru com ordem", Keiko Fujimori obteve a maior votação no primeiro turno realizado em abril. Com mais de 99% das urnas apuradas do segundo turno, realizado em 7 de junho, ela tinha ligeira vantagem sobre Roberto Sánchez, herdeiro político do preso Pedro Castillo, de cerca de 40 mil votos.

Especialistas afirmam que o apetite popular por medidas rígidas – historicamente associadas às ditaduras de direita do século 20 na região – cresceu à medida que diminuía a confiança da população nas instituições estatais e aumentava a insatisfação com a democracia.

"O raciocínio costuma ser: 'a democracia não conseguiu manter minha família e eu seguros, então talvez a própria democracia seja parte do problema'", afirmou Eduardo Moncada, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia.

Isso representa um desafio significativo para a esquerda latino-americana, que em muitos países tem enfrentado economias estagnadas, escândalos de corrupção e dificuldades para cumprir promessas de reforma social.

Até mesmo políticos progressistas, como Jeannette Jara, no Chile, e Roberto Sánchez, no Peru, adaptaram seus discursos ao novo contexto político. O presidente uruguaio Yamandú Orsi descreveu o modelo de Bukele como um exemplo digno de estudo. Já o governo de centro-esquerda da Guatemala decretou estado de emergência para combater a violência das gangues e recebeu apoio da administração Trump no combate ao narcotráfico.

Mas as ambições linha-dura dos governantes recém-eleitos têm esbarrado nas dificuldades práticas de administrar democracias complexas e com limitações orçamentárias, como Equador e Chile. Esses países diferem bastante de El Salvador, onde o partido de Bukele possui ampla maioria no Legislativo.

Durante sua campanha de 2023, o presidente equatoriano Daniel Noboa prometeu prender líderes de gangues em prisões flutuantes e construir megaprisões. Após assumir o cargo, abandonou a proposta das embarcações-prisão, e seu governo levou até novembro para inaugurar a primeira megaprisão.

"Construir megaprisões não tem sido tão simples nem tão direto porque o país atravessa uma situação financeira muito difícil e porque Noboa ainda se vê como um democrata", explica Beatriz García Nice, analista de políticas públicas do centro de pesquisa Stimson Center.

No Chile, o governo de José Antonio Kast já enfrenta desgaste diante da dificuldade de cumprir promessas de deportações em massa e soluções rápidas para a criminalidade. Quase três meses após a sua posse, pesquisas indicam que uma parcela cética da população não percebe grandes diferenças entre sua política de segurança e a de seu antecessor de esquerda.

Seu governo realizou apenas dois voos de deportação, apesar de ter prometido deter e expulsar imediatamente mais de 300 mil imigrantes sem status legal. Além disso, seu discurso tornou-se mais moderado. No mês passado, ele foi alvo de críticas ao afirmar que a promessa de deportação em massa era apenas "uma metáfora".

Mesmo ao anunciar novas medidas de segurança em um discurso realizado em 1º de junho – incluindo a proibição de benefícios sociais para condenados por agressão a policiais – Kast procurou reduzir as expectativas de seus apoiadores.

"Governar, como muitos de vocês sabem, significa assumir responsabilidade diante da realidade, especialmente quando ela é difícil", declarou. "Estou avançando passo a passo porque isso não é algo que acontece da noite para o dia."
Déficits descambam em protestos

Líderes de direita na Argentina, Chile, Peru e Colômbia ganharam apoio com promessas de cortes de impostos, redução do tamanho do governo e flexibilização das regras para mineração e combustíveis fósseis. No entanto, muitos enfrentam déficits orçamentários, o que os obriga a implementar cortes de gastos impopulares que têm provocado protestos.

A Bolívia declarou estado de emergência em junho e começou a remover bloqueios que haviam paralisado o país por mais de 50 dias, enquanto sindicatos e outros grupos protestavam contra as medidas de austeridade adotadas pelo presidente de centro-direita Rodrigo Paz.

No Chile, o índice de aprovação de Kast despencou após a guerra com o Irã que levou seu governo a aumentar os preços dos combustíveis, enquanto as medidas de austeridade do presidente argentino Javier Milei têm sido recebidas com protestos recorrentes.

Os desafios de segurança persistem, apesar das promessas de combate rigoroso ao crime. No Equador, os homicídios aumentaram 30% no ano passado, e o governo de Noboa atribuiu o aumento às disputas territoriais entre facções criminosas dissidentes que competem pelo controle.

Os homicídios também cresceram na Costa Rica sob o governo do populista de direita Rodrigo Chaves. Sua sucessora, Laura Fernández, prometeu uma guerra contra o crime, mas os índices de homicídio continuam elevados, à medida que o pequeno país da América Central se tornou um importante ponto de trânsito para a cocaína sul-americana destinada aos Estados Unidos e à Europa.

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella assume um país marcado pela presença de grupos armados, economias ilegais e profundas divisões políticas. Sua vitória apertada e um Congresso fragmentado indicam que a implementação de uma agenda de mudanças encontrará obstáculos significativos.

O mesmo desafio vale para o Peru, onde Keiko Fujimori, chega ao poder prometendo restaurar a ordem em um país cada vez mais impactado pela violência e pela instabilidade institucional.

Defender linchamento é pôr o mundo de ponta-cabeça

Na última terça-feira, um estudante foi espancado por colegas na UFRJ. Os agressores lincharam um rapaz que usava camiseta com simbologia associada ao nazismo. O vídeo da agressão, reproduzido pela imprensa, mostra o estudante caído no chão, chutado por dez colegas. O rapaz consegue então se levantar e escapar do prédio, mas é alcançado pela turba e agredido novamente na calçada. Por que esse linchamento violento e covarde num campus universitário não é amplamente condenado? Por que, ao contrário, é endossado e aplaudido?

O Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ fez uma nota de repúdio ambígua. A nota não denuncia inequivocamente o linchamento, apenas repudia “qualquer forma de violência, discriminação ou manifestação de caráter nazista”. Não distingue a violência física sofrida pelo estudante da manifestação tida como nazista. A referência à “violência” pode ser lida como condenação à agressão, mas também como atribuição da violência ao nazismo — e, nesse caso, condena a vítima, alegadamente nazista, e não os linchadores.

A nota oficial da UFRJ também foi ambígua:

— A Universidade repudia manifestações de apologia ao nazismo, ao fascismo, ao racismo, ao antissemitismo, ao machismo e a todas as formas de intolerância e discriminação. Reafirma, ao mesmo tempo, que agressões físicas e outras formas de violência não podem ser admitidas como resposta a provocações, conflitos ou divergências.

A nota condena primeiro o nazismo, depois a agressão, insinuando que as agressões foram “resposta a provocações” — a palavra “provocações” introduz uma lógica causal que atribui parte da responsabilidade pelas agressões à vítima. Nenhuma das notas oficiais condenou inequivocamente o linchamento.

O Centro Acadêmico de Ciências Sociais também publicou uma manifestação, mas, nesse caso, sem qualquer ambiguidade:

— Os estudantes do IFCS-IH deram o recado que lugar de nazista não é na universidade.


Centenas de posts nas redes sociais com cenas da agressão celebraram o linchamento e foram curtidos por professores e estudantes. Os comentários incluíam “nazismo não se cria”, “em nazista é porrada”, “nazismo não se debate, se combate”, “o único erro é que não tinha mais gente pra bater”, “o cara foi fazer apologia ao nazismo no IFCS e esperava o quê?”, “mais imagens, que delícia!” e “apanhou foi pouco”.

Tudo indica que o estudante não era nazista. Usava até um broche antinazista — mas isso não deveria ser relevante. O linchamento é uma brutalidade execrável em qualquer circunstância e não passa a ser escusável se a vítima é acusada de nazismo.

Em certos ambientes, já não conseguimos separar a condenação moral do nazismo da licença para agredir quem é acusado de professá-lo. Nossa obsessão em sermos política e moralmente puros nos impede de distinguir a gravidade das condutas e de graduar as respostas a elas.

Uma coisa é usar uma camiseta com simbologia ambígua. Outra é professar uma crença preconceituosa. Outra ainda é discriminar alguém de fato. E matar minorias é algo completamente diferente. Entender essa gradação não é “passar pano para o nazismo”, é defender o Estado de Direito. É também exercer o juízo crítico. No linchamento, não há direito de defesa, não há julgamento equilibrado e não há sentença proporcional. É a justiça popular em sua faceta mais brutal.

O imperativo de demonstrar pureza e credenciais antifascistas irrepreensíveis dificulta a condenação inequívoca da violência porque qualquer ponderação pode ser lida como complacência com o nazismo. As instituições tornam-se incapazes de condenar o linchamento. Professores e estudantes passam a endossar e a celebrar a justiça popular — tudo em nome do combate ao preconceito e à discriminação.

O mundo vira de ponta-cabeça: um linchamento nas dependências de uma universidade deixa de ser um ato bárbaro, violento e covarde e passa a ser celebrado como defesa dos direitos humanos.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


E se pensássemos num Ministério da População?

Durante décadas, as contas foram sempre as mesmas e simples de fazer. Todos os anos, havia mais nascimentos do que mortes. E, naturalmente, entravam mais pessoas no mercado de trabalho do que aquelas que o abandonavam, por aposentação. Além de uma outra característica: com o crescimento da economia e a inflação, os salários de entrada em cada profissão também progrediam a um ritmo considerável, permitindo existir excedente para todos os meses pagar aos pensionistas – numa era em que a esperança média de vida era muito inferior à dos nossos dias.


Agora, tudo é diferente, embora tenhamos dificuldade em admiti-lo – de tal forma que ainda continuamos a chamar pirâmide etária a uma realidade demográfica que, em termos geométricos, passou a ter a configuração de um pentágono, visto que as crianças e jovens, que formavam a base do triângulo, deixaram de ser o sector mais numeroso da população. Esta é uma realidade transversal a quase todos os países desenvolvidos, onde as taxas de nascimento caem a pique, o crescimento económico é anémico em comparação com o de outras eras e, particularmente na Europa, a riqueza vem mais por herança do que por iniciativa empresarial, com todos os problemas de desigualdade que isso acarreta.

O Estado social e a nossa economia foram construídos no pressuposto de que a população iria sempre aumentar, que nunca perderíamos a base que alimenta o topo da pirâmide. O que sabemos, agora, é que a proporção dos idosos na população total está a crescer, enquanto a população ativa tende a diminuir cada vez mais. Essa realidade tem reflexos no sistema de pensões, mas também nos cuidados de saúde, no ordenamento do território, na educação e na economia em geral.




Até ao momento, o que se tem tentado fazer é olhar para cada uma das consequências de forma isolada. Como se fossem problemas de gestão sectoriais, quando, afinal, se trata de uma alteração muito mais profunda da sociedade e do nosso modo de vida. É preciso, urgentemente, mudar essa forma de olhar para a realidade. A demografia tem de passar a estar no centro das políticas e deixar de ser vista como um acessório ou uma nota de rodapé. E a política tem de voltar ao seu centro vital: servir as populações em vez de apenas querer ganhar os seus votos.

Tradicionalmente, a regra tem sido a de olhar para as políticas demográficas de forma sectorial, segundo a estrutura habitual de cada ministério. A Saúde preocupa-se com a natalidade e a longevidade, a Educação procura gerir os movimentos de matrículas, o Trabalho tem o foco na escassez ou no excesso de mão de obra e o Ambiente, tantas vezes, olha mais para a natureza do que para os movimentos populacionais. Para piorar as coisas, a recente onda populista no mundo tem procurado atirar os fluxos migratórios para os braços da Administração Interna e das forças de segurança, inquinando e impedindo o debate que era necessário.

A verdade é que só há três formas de fazer aumentar a população ativa, cada uma delas com prazos diferentes de concretização. Estimular e fazer aumentar os nascimentos é uma solução óbvia, mas qualquer política nesse campo demorará gerações a apresentar resultados. Elevar a idade da reforma ou aumentar a percentagem de idosos ativos, como se faz no Japão, será sempre um programa de médio prazo. Finalmente, a única solução que existe para resolver a equação depressa é importar mão de obra – acolher imigrantes e integrá-los convenientemente e com dignidade.

Todas essas três vias precisam de ser discutidas e debatidas dentro de uma política geral de população e de desenvolvimento do País. Se o fizermos, estaremos de certeza mais próximos de encontrar respostas sérias acerca da sustentabilidade da Segurança Social e até do próprio futuro do Estado-providência.

A demografia devia ser central na política dos nossos dias, com a taxa de fecundidade e as variações populacionais a serem debatidas com o mesmo fervor que se usa em relação ao défice orçamental ou ao valor da inflação. Se calhar, criar um Ministério da População poderia ser o primeiro passo para pôr a demografia no centro do debate. Com uma grande virtude: alinhar, dessa forma, a economia, o território, o trabalho, a educação, a imigração e a família sob uma mesma bússola estratégica. Planear em vez de nos limitarmos a reagir.
Rui Tavares Guedes

Quem vai prender a IA do Trump no drone do Putin?

Aconteceu finalmente! Um drone russo pilotado por uma IA dos EUA decidiu, por si próprio, matar três civis na Ucrânia. A palavra-chave aqui é “decidiu”. A pergunta-chave é “por que?”. Ou seja, por que uma arma decide que três pessoas abastecendo o carro representam uma ameaça de guerra a ser bombardeada? Foi uma tragédia histórica. Um ponto de virada. Uma máquina decide que seres humanos representam um risco e simplesmente atira contra eles, sem submeter sua decisão a nenhuma autorização superior humana.


Houve dilemas semelhantes em filmes de ficção onde computadores ou robôs tomam o controle de espaçonaves, aviões, armamentos e governos. Mas, na vida real é a primeira vez. Por que? A questão é polêmica. Assim que vi a TV noticiar o ataque do drone russo aos civis, comecei a perguntar a amigos (diplomata, militar, servidor público, político, empresário de TI e da sociedade civil) quem deveria ser responsabilizado pelo homicídio doloso praticado por um cérebro digital que resolveu emboscar e assassinar seres humanos inocentes.

Seis especialistas deram seis respostas diferentes: O próprio drone como efeito colateral; o operador do drone; o fabricante do drone; o fabricante do chip IA; o comandante da operação; a autoridade que comprou o drone… Uma pergunta foi frequente nas conversas: quem é o culpado quando alguém é morto por uma pistola, ou um míssil? Porém, no ataque na Ucrânia tem um detalhe que muda tudo. A máquina decidiu matar aquelas pessoas. Uma pistola e uma bomba não decidem matar pessoas. Não se dá voz de prisão a um revólver, nem mesmo ao seu fabricante, se a arma estiver em perfeito estado de funcionamento.

Aqui temos outra questão delicada no debate das armas autônomas. Que critérios um chip com IA utiliza para avaliar se alguém ou algo representa uma ameaça passível de eliminação? Por que um chip de uma empresa norte americana (Nvidia), implantado em um drone militar russo, sobrevoando a Ucrânia, concluiu que três pessoas comuns tocando seu dia a dia urbano deveriam ser bombardeadas? Pior ainda, a IA avaliou que aquelas pessoas seriam uma ameaça a quem? À Rússia? Ao drone? Ao chip? À Nvidia? Aos EUA? À humanidade? À vida? Ou representariam alguma espécie de ameaça aleatória genérica? Que características e atitudes sutis aquelas pessoas apresentavam naquele instante que fizeram com que a IA de Trump no drone de Putin identificasse uma ameaça digna de assassinato?

Os chips de IA, dotados de capacidade de aprendizado (machine learning), são fabricados e treinados para aprenderem respeitando parâmetros, critérios e propósitos pré-estabelecidos. Uma IA médica não toma decisões sobre engenharia hidráulica. Sendo assim, que tipo de ensinamento o fabricante do chip IA, o fabricante o drone, o comandante da operação, o ministro da Defesa, ou o presidente do País, estão introduzindo nos seus armamentos? Que acontece se a polícia utilizar drones autônomos em operações nas favelas e um chip com IA decidir que as crianças num parquinho representam uma ameaça a ser executada? Será que pobres e negros, por exemplo, parecerão mais ameaçadores? Tomara que aprendamos a lição com 2001 Uma Odisseia no Espaço e Matrix (antes que a IA o faça).

Um louco na Sala Oval

A verdade é que as coisas só têm piorado, o delírio agrava-se a olhos vistos e a tendência é para um agravamento progressivo. Uma das últimas pérolas trumpistas é a ameaça pública de que os Estados Unidos irão bombardear Omã “até à exaustão”, um país que é seu aliado no Médio Oriente, caso este acorde com a república islâmica uma rota de navegação segura através do estreito de Ormuz.

E nós a pensar que a atual crise na região se deveria ultrapassar através da diplomacia, de modo a acabar com o estrangulamento do estreito que está a afetar gravemente a economia mundial.

O louco da Sala Oval pensa que pode acordar um dia, maldisposto, e mandar bombardear não apenas um país inimigo, mas também um país amigo e aliado como o sultanato árabe de Omã, localizado no sudeste da Península Arábica, onde até tem uma base militar sua. E também acha que pode anunciar tal coisa ao mundo sem correr o risco de vir a ser internado num hospício.


Já sabemos que Trump se está a borrifar para o Direito Internacional e os tratados existentes ou a diplomacia e a ordem internacional. Já disse que o seu limite se reduz à sua consciência. Ora, a consciência de um louco deixa muito a desejar, por isso a lei considera os loucos como inimputáveis.

Mas a questão é esta, se o louco da Sala Oval ameaça bombardear um país aliado no Médio Oriente, o que fará com os europeus por quem repetidamente demonstra o seu desprezo e que insultou, ameaçou e atacou politicamente através do movimento MAGA, ao apoiar os seus adversários radicais?

Bem, poderíamos dizer que Trump é um problema dos estadunidenses. Foram eles que o levaram ao poder pelo voto, por isso agora aturem-no. Só que os Estados Unidos não são um país qualquer, muito embora esteja em acentuado declínio e em perda de influência global. Mas é evidente que ainda influencia o mundo ocidental, neste momento mais para o mal do que para o bem.

Por outro lado, existe um descontentamento interno cada vez maior com a política económica do presidente norte-americano e com o custo de vida no país. Segundo o Jornal de Negócios, “A menos de três meses das eleições intercalares de novembro, a sondagem nacional realizada pela Focaldata para o Finantial Times revelou que ‘mais de 53 por cento dos eleitores registados dizem que a sua situação financeira se deteriorou desde que Trump regressou à Casa Branca’, em janeiro de 2025.”

Além disso, a dívida pública do país ultrapassou, pela primeira vez na sua história, os 40 biliões de dólares (34,2 biliões de euros). A popularidade de Trump está incrivelmente baixa, rondando os 30 por cento.

Uma das últimas habilidades foi o regresso da reunião da NATO na Turquia quando, perante uma suposta ameaça, o presidente saiu às escondidas do avião oficial para não correr perigo mas deixou os seus colaboradores e jornalistas servirem de isco, entre eles a sua porta-voz que tinha sido mãe há poucas semanas e se demitiu de seguida.

A próxima jogada parece ser retirar aos estados as competências eleitorais a poucas semanas do ato eleitoral, de modo a manipulá-lo à vontade e tentar alterar a lei para correr de novo à Casa Branca. Em suma, Trump está a transformar um país de referência numa república das bananas.

Mas não podemos concentrar-nos em culpar apenas o louco da Sala Oval. Todo o seu círculo próximo tem elevada responsabilidade no estado a que chegou a Casa Branca. E nem sequer os jornalistas são capazes de tomar uma posição conjunta de boicotar a informação da Casa Branca enquanto o cavalheiro os continua a insultar em todas as conferências de imprensa.

É uma vergonha ver um governante dum país (ainda) democrático mandar calar os profissionais da informação e insultá-los com epítetos como “porca”, “falsa” e “uma desgraça”. Ninguém está a ver qualquer presidente republicano ou democrata a fazer nada que se pareça. Basta lembrar Obama, Biden, Clinton, Bush ou George W. Bush para não ir mais para trás.

Trump é o tipo de pessoa altamente tóxica com quem eu nunca deixaria que filhos meus ainda pequenos convivessem, por razões de higiene mental e moral.

Esperanças e utopias

Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-lo a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.
José Saramago, "O caderno"

O juiz de Deus

O salário, ainda que seja um bom salário, não te dá condições de ter uma vida sem preocupações financeiras. A gente tem que controlar a despesa no dia a dia.

André Mendonça, ministro do Supremo, ganha R$ 46 mil de subsídio por mês

A gramática da catástrofe e o fim do mundo

Há muito tempo aprendemos a reconhecer o fim do mundo. Ele tem uma gramática.

No Apocalipse, chega a cavalo. Conquista, guerra, fome e morte atravessam a Terra como sinais de que o tempo se esgota. A literatura cristã ocidental transformou essa gramática da catástrofe em uma poderosa narrativa de futuro: haverá um dia em que aquilo que conhecemos terminará. Um último dia. Um último julgamento. Um último mundo.

Séculos passaram e continuamos reconhecendo os cavaleiros.

Eles atravessam cidades bombardeadas, campos devastados, rios secos, florestas incendiadas. Chegam com a fome, as epidemias, os deslocamentos forçados, as violências que se acumulam e se sobrepõem. Mudam os cavalos, as armas, as fronteiras, as tecnologias. A gramática permanece. Guerra, fome, peste, seca, morte. E agora, a emergência climática.

A profecia parece estranhamente familiar porque o fim do mundo nunca pertenceu apenas ao futuro.

Em um conto de Dezső Kosztolányi (
O fim do mundo), Kornél Esti pergunta a seu interlocutor se ele costuma sonhar com o fim do mundo. A resposta surpreende menos pela frequência do que pela naturalidade. Cinco ou seis vezes por ano ele acaba com o mundo em seus sonhos. E conclui: “Parece que precisamos disso.”

Precisamos imaginar o fim.

A literatura faz isso há séculos. O cinema, a tv e as redes sociais, há menos tempo, porém, com majestática habilidade. Narram o fim, destroem cidades, exterminam civilizações, inventam dilúvios, pestes, alienígenas, monstros e guerras. Derrubam o céu para experimentar o que restaria depois. Kosztolányi parece compreender que imaginar o fim também é uma maneira de pensar sobre o mundo que construímos.

Julio Cortázar escolhe outro caminho. Em "O fim do mundo do fim", o apocalipse perde solenidade e ganha burocracia. A humanidade escreve. Escreve cada vez mais.

Os leitores tornam-se escribas. Multiplicam-se as fábricas de papel e tinta. Os escribas trabalham durante o dia, as máquinas imprimem durante a noite. A produção cresce até ocupar o espaço disponível. Livros acumulam-se, invadem territórios, chegam ao mar.

Cortázar inventou uma imagem quase perfeita do nosso tempo.


Produzir tornou-se uma espécie de prova de existência. Produzimos textos, dados, relatórios, mercadorias, indicadores, imagens, resíduos, informações, metas, avaliações. Criamos os produtores de conteúdo, como se alguém produzisse algo sem ele. Nunca escrevemos tantas mensagens, stories e reels. Produzimos conhecimento e também ruído. Registramos a vida enquanto a vida acontece. Medimos o mundo enquanto o consumimos.

No conto, quando os livros finalmente ocupam espaço demais, encontra-se uma solução perfeitamente racional: lançá-los ao mar. Enquanto isso, presidentes das repúblicas refugiam-se em transatlânticos transformados em ilhas, celebrando grandes festas e trocando mensagens entre si. Na Terra, os escribas sobrevivem precariamente.

É difícil encontrar uma metáfora mais adequada para uma civilização capaz de produzir as condições de sua própria destruição e continuar chamando esse movimento de progresso. Aqui podemos enxergar os bilionários dos combustíveis fósseis e dos data centers, as fazendas de sacrifício de milhões de animais criados para nos alimentar.

Durante muito tempo, aprendemos que a história caminhava para a frente. Desenvolvimento social, crescimento econômico, ciência e tecnologia pareciam conduzir inevitavelmente a mais conhecimento, mais conforto, mais liberdade, mais futuro. A própria ideia de progresso organizou uma linha do tempo na qual alguns povos estavam adiante e outros permaneciam atrás. Os que viviam de outras maneiras receberam nomes conhecidos: atrasados, primitivos, arcaicos, subdesenvolvidos.

O problema dessa linha é que ela termina sempre no mesmo lugar.

Existe um único destino desejável, uma única forma de desenvolvimento, uma única relação possível com a natureza, uma única ideia de riqueza, uma única medida de sucesso. Para chegar até lá, florestas podem cair, rios podem morrer, povos podem desaparecer. Tudo cabe na contabilidade do progresso.

É uma curiosa pedagogia do fim do mundo. Ensina-se que destruir certos mundos é o preço necessário para construir o mundo. Por isso a pergunta precisa mudar. De que mundo estamos falando quando falamos do fim do mundo?

Para muitos povos, o mundo já acabou. Acabou quando perderam seus territórios. Quando suas línguas desapareceram. Quando suas crianças foram arrancadas de suas comunidades. Quando seus conhecimentos foram tratados como superstição. Quando seus deuses receberam o nome de demônios. Quando suas maneiras de viver foram transformadas em atraso e suas terras, em recursos.

O fim do mundo, para milhões de pessoas, nunca foi uma hipótese distante. É experiência histórica e ameaça cotidiana: o desaparecimento de línguas, culturas, cosmovisões, práticas, saberes, territórios, identidades e, no limite, dos próprios corpos.

É por isso que Ailton Krenak respondeu de maneira tão desconcertante quando lhe perguntaram, em 2018, como os povos indígenas sobreviveriam àquilo que se anunciava no Brasil. Há quinhentos anos os povos indígenas resistem, respondeu. Sua preocupação era outra: como os brancos escapariam dessa?

A resposta-pergunta, astuta e disruptiva, inverte a gramática da catástrofe.

Quem imaginava estar conduzindo a humanidade ao futuro descobre-se incapaz de garantir o próprio futuro. Quem foi inúmeras vezes declarado condenado ao desaparecimento conhece há séculos tecnologias de sobrevivência, memória e resistência.

O fim do mundo muda de lugar. E muda também de tempo.

Ele deixa de ser apenas o grande acontecimento futuro que encerrará a história e passa a ser compreendido como experiência repetida. Mundos acabam todos os dias. Alguns desaparecem silenciosamente. Outros sobrevivem porque alguém conta uma história, ensina uma língua, preserva uma memória, planta novamente, canta, dança, escreve, cuida, lembra.

É nesse ponto que a gramática da catástrofe encontra outra gramática: a gramática do adiamento.

Ailton Krenak propõe adiar o fim do mundo ampliando nossa experiência, reconhecendo outras formas de estar aqui, contando mais uma história. Adiar significa abrir espaço para outros presentes e, com eles, outros futuros. Chama atenção para essa possibilidade de ampliar o presente, retirando do futuro único o poder de condenar todas as experiências que seguem outros caminhos.

É aqui que entram as escolas.

Todos os dias, milhões de crianças e jovens entram em salas de aula levando mundos consigo. Levam histórias de suas famílias, territórios, religiões, culturas, músicas, medos, desejos, conhecimentos, palavras e perguntas. Encontram professores que também carregam seus mundos. E dessa conversa, sempre imperfeita, surgem conhecimentos que nenhum documento curricular conseguiria prever por inteiro.

Currículo é também isso: o encontro entre mundos, o fim de uns mundos e o sonho com outros. Sonhar com outros mundos possíveis é parte do currículo escolar todos os dias.

Uma professora altera o planejamento porque uma criança fez uma pergunta. Uma história contada por uma avó entra na sala. Um evento climático extremo na cidade muda a aula. Uma palavra desconhecida obriga todos a pesquisar. Um conflito exige conversa. Uma memória reaparece. Um conhecimento que permanecia do lado de fora encontra lugar.

São acontecimentos pequenos diante dos cavaleiros do Apocalipse.

Ainda assim, carregam uma enorme força política.

A escola pode funcionar como máquina de repetição da história única, ensinando que existe um conhecimento legítimo, uma cultura superior, um caminho correto e um futuro já desenhado. Também pode transformar-se em lugar onde muitas histórias encontram condições de existir. Contar histórias é também enfrentar genocídios porque todo genocídio começa ou se completa tentando apagar histórias.

Essa segunda escola interessa especialmente quando o mundo parece diminuir.

Nos cotidianos escolares, professores criam currículos aproveitando as ocasiões que aparecem, inventando aquilo que cada circunstância pede e possibilita. Seus currículos são feitos de conhecimentos pessoais, sociais e culturais colocados em conversa. É nessa criação cotidiana que a escola amplia o mundo em vez de reduzi-lo.

Podemos chamá-las de escolas da gramática do adiamento.

Uma escola que conta para conhecer e conta para existir. Que entende cada história como presença e cada presença como possibilidade de mundo. Uma escola capaz de ensinar que nenhuma narrativa esgota a experiência humana e que o futuro permanece aberto enquanto pudermos imaginar mais de um.

Contar histórias, nesse sentido, é enfrentar apagamentos.

É guardar mundos e adiar seu fim.

É oferecer às crianças aquilo que toda gramática da catástrofe tenta sequestrar primeiro: a possibilidade de imaginar futuro.

Há uma ironia bonita em voltar, então, a Cortázar. Seus escribas escreveram tanto que acabaram soterrados pela própria escrita. As escolas da gramática do adiamento fazem outro movimento. Escrever para circular. Contar para encontrar. Escutar para aprender. Guardar aquilo que merece atravessar o tempo e abrir espaço para aquilo que ainda não foi contado.

Porque o fim do mundo é antigo. A sabedoria está em aprender a adiá-lo.

Krenak lembra que povos submetidos a sucessivos fins do mundo continuam aqui. Empurraram o céu para cima, produziram resistência, preservaram histórias e inventaram maneiras de continuar. Em nossos trabalhos sobre educação, essa imagem já nos levou a pensar escolas e outros espaços educativos como lugares capazes de empurrar o céu para cima e adiar o fim do mundo.

Essa é uma das tarefas mais bonitas da educação.

Ensinar que o mundo pode ser contado de muitas maneiras.

Fazer circular histórias que sobreviveram às tentativas de apagamento.

Criar condições para que histórias ainda desconhecidas possam nascer. Assim fizemos nas escolas, quando, ainda recentemente, a pandemia de Covid acabava com o mundo de forma catastrófica e, nas escolas, tentávamos adiar seu fim, fosse contando sobre os vivos, ou homenageando os mortos.

E, enquanto os velhos cavaleiros apocalípticos continuam atravessando o presente, manter aberta uma escola onde caibam muitos mundos é uma gramática anti-catástrofe.

Contar mais uma história pode ser apenas isso: adiar o fim do mundo por mais um dia.
Maria Luiza Süssekind

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O direito de ouvir o outro

Poucos anos após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a jornalista, autora e tradutora alemã Jella Lepman (1891-1970) mobilizou um grupo de pessoas ligadas à literatura infantil em torno de uma ideia: os livros poderiam aproximar povos separados pelo conflito e contribuir para a construção da paz. Dessa iniciativa nasceu, em 1953, o International Board on Books for Young People (IBBY).

A ideia de Lepman era simples e poderosa: crianças que conhecem as histórias umas das outras crescem mais preparadas para compreender culturas diferentes da sua. Mais de sete décadas depois, essa missão permanece atual, embora tenha adquirido novas dimensões.

Sociedades democráticas não dependem apenas da liberdade de falar, mas também da disposição para ouvir. A literatura, especialmente aquela oferecida às novas gerações, constitui um dos primeiros espaços em que se aprende a conviver com experiências, valores e visões de mundo diferentes.


O tema escolhido para o 40º Congresso do IBBY, realizado em Ottawa, “escutar as vozes uns dos outros”, oferece uma chave interessante para compreender essa transformação. Mais do que um lema institucional, ele sintetiza uma mudança de paradigma. O debate internacional parece deslocar-se da tradicional pergunta: que livros devemos oferecer às crianças; para outra, mais abrangente: quais vozes conseguem chegar até elas?

A programação do congresso tornou essa evolução particularmente evidente. Povos indígenas, crianças refugiadas, jovens leitores e bibliodiversidade apareceram de forma recorrente nos debates. Temas distintos, mas unidos por uma preocupação comum: assegurar que toda criança possa encontrar nos livros tanto um espaço de reconhecimento quanto uma oportunidade de conhecer realidades diferentes da sua.

Essa perspectiva amplia a compreensão do papel da produção voltada à infância. Além da alfabetização, da formação e do incentivo à leitura, ganha espaço outra dimensão: a construção da alteridade. A boa literatura oferece espelhos, nos quais o leitor se reconhece, e janelas, pelas quais descobre o mundo.

A produção destinada aos adolescentes, assim como a tradução, a ilustração e a bibliodiversidade, faz parte desse mesmo movimento. Ampliar o repertório significa permitir que diferentes experiências, idiomas, culturas e formas de representar a infância e a juventude cheguem aos leitores. O Brasil, com uma sólida tradição de literatura infantil e juvenil, construída por nomes como Ana Maria Machado, Lygia Bojunga e Ruth Rocha, tem muito a contribuir para esse debate, e também razões para refletir sobre ele.

O contraste com alguns episódios recentes no país é inevitável. Obras vêm sendo questionadas ou retiradas de escolas e bibliotecas não por sua qualidade literária, mas pelo desconforto provocado por determinados temas, personagens ou visões de mundo. É legítimo discutir adequação etária, critérios pedagógicos e mediação da leitura. Outra coisa é pretender proteger crianças eliminando de seu horizonte aquilo que contraria as convicções dos adultos.

Nesse ponto, Ottawa oferece uma inversão reveladora. Enquanto no Brasil, em alguns casos, se discute quais vozes devem deixar de ser ouvidas, o debate internacional procura identificar quais vozes ainda não estão sendo escutadas. São movimentos em direções opostas. Um reduz o repertório; o outro procura ampliá-lo.

A diferença não é apenas literária ou pedagógica. É também política. Uma sociedade democrática não se constrói oferecendo às novas gerações apenas ideias com as quais seus pais, professores ou governantes concordam. Forma-se para a democracia quando se desenvolve a capacidade de entrar em contato com perspectivas diferentes, examiná-las criticamente e conviver com a divergência. O oposto do cancelamento não é a concordância. É a convivência.

Isso não significa transformar qualquer livro em obra adequada para qualquer idade nem retirar das famílias e dos educadores a responsabilidade sobre a formação das crianças. Significa reconhecer a diferença entre mediação e interdição. A primeira contextualiza, acompanha, educa e promove o diálogo; a segunda simplesmente elimina a possibilidade de encontro com aquilo que incomoda.

A literatura infantil assume, assim, uma responsabilidade que ultrapassa a formação de leitores. Ela participa da formação de cidadãos capazes de viver em sociedades culturalmente complexas, nas quais diferenças não são acidentes a serem corrigidos, mas parte constitutiva da vida em comum.

“Escutar as vozes uns dos outros” recupera, mais de 70 anos depois, a intuição de Jella Lepman. Livros não eliminam conflitos nem fazem desaparecer divergências. Podem, entretanto, ensinar algo indispensável às sociedades democráticas: o outro não precisa pensar como nós para ter o direito de contar sua história. Antes de aprender a conviver com a diferença, é preciso reconhecer sua existência. E estar disposto a ouvi-la.

Oligopólios são uma ameaça à democracia, não o diploma de jornalismo

O debate em torno da exigência do diploma de Jornalismo para o exercício profissional ganhou escala nos últimos dias, a partir das declarações favoráveis dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e incendiaram as redes sociais. Não demorou para que o setor empresarial da mídia se insurgisse ostensivamente contra essa possibilidade, firmando o brado retumbante contra uma suposta evocação aos tempos do regime militar. Editoriais e colunas de opinião em alguns dos maiores jornais do país, como Folha de São Paulo e Estadão, que no passado foram eles próprios colaboradores da ditadura, voltaram a rotular a luta pelo diploma como “entulho autoritário” e como um risco para a liberdade de imprensa.

Na verdade, o que ameaça a liberdade de imprensa e a democracia brasileira é justamente um ambiente informacional marcado por alta concentração da propriedade dos meios de comunicação e precarização dos/as trabalhadores/as do setor. Cenário este que não apenas permaneceu tal qual, como foi piorado, na atualidade, pela arquitetura de funcionamento das corporações digitais oligopólicas. Elas passaram a dominar a infraestrutura de distribuição da informação, definindo o alcance de praticamente qualquer tema no debate público, sem nenhuma transparência algorítmica ou responsabilidade social, deslocando inclusive parte do poder de agendamento e da sustentabilidade econômica dos monopólios hegemônicos de outrora.

Entre as perguntas que precisam ser feitas no debate atual sobre o diploma de jornalista, estão: a dispensa da formação profissional obrigatória, decidida em 2009 pelo STF, trouxe ganhos sociais concretos na garantia das liberdades constitucionais? Melhorou a qualidade do Jornalismo brasileiro em relação ao período anterior? Em ambas as questões, as evidências disponíveis mostram que não.


Do ponto de vista das relações de trabalho, a desregulamentação profissional do Jornalismo só ajudou a aprofundar o processo de redução de postos de trabalho e salários, além de ampliar a perda de direitos por meio de contratações ultra precarizadas, situação agravada pela Reforma Trabalhista de 2017.

Obviamente que o fim da exigência do diploma não é a única explicação para a piora das condições trabalhistas, mas é inegável que foi, e segue sendo, um fator de desestabilização profissional, com impactos negativos sobre a independência e a autonomia dos/as jornalistas, que ficam ainda mais suscetíveis a pressões editoriais, processos judiciais de censura e assédio político.

Já do ponto de vista das prerrogativas constitucionais, como o sigilo da fonte, tão alardeado na última semana, a desregulamentação profissional criou foi mais insegurança jurídica para o seu exercício real, pois turvou a distinção entre quem atua como jornalista profissional, amparado em parâmetros técnicos e éticos, daqueles que se valem de uma garantia fundamental para operar desinformação, alimentar canais de difamação e, nos casos mais graves, acobertar ou sustentar o crime organizado.

Ao contrário do que propaga o senso comum corporativo, a exigência de diploma não cerceia vozes; ela organiza a profissão diante do abismo contemporâneo da desinformação e da precarização das condições de trabalho. Infelizmente, mitos e imprecisões têm prevalecido neste debate, e é preciso desfazê-los, como buscaremos a seguir.

Um dos argumentos mais frequentes de quem se opõe ao diploma é o de que ele representaria uma barreira de acesso excludente ao mercado de trabalho. Essa visão, no entanto, ignora as transformações socioeconômicas estruturais do Brasil recente. Se há algumas décadas o ingresso no ensino superior era um privilégio quase exclusivo de pessoas majoritariamente brancas das classes média e alta, e a oferta de cursos de Jornalismo era restrita, hoje o cenário se democratizou de forma significativa, com a expansão e a descentralização das universidades. É verdade que as instituições privadas são maioria e o custo ainda representa um obstáculo, mesmo que o financiamento estudantil seja política pública consolidada, mas falar em barreira elitista de acesso ao nível superior na atualidade é ignorar uma realidade concreta.

A profissão continua exigindo um registro formal para ser exercida legalmente no Brasil. Isso jamais chegou a ser abolido. Ou seja, qualquer pessoa que queira exercer o Jornalismo como profissional, nos dias atuais, precisa ser registrada no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), através das delegacias regionais de trabalho (DRTs). Antes da decisão do STF, o registro era apenas emitido a quem apresentasse diploma de conclusão de curso em jornalismo. Ocorre que, após a “queda do diploma”, não foram definidos, muito menos aplicados, parâmetros fixos, sérios e seguros para sua concessão. Importante lembrar que outras funções técnicas da comunicação, como repórteres fotográficos e repórteres cinematográficos, seguem exigindo registros profissionais específicos, que são emitidos mediante apresentação de portfólio e, muitas vezes, com participação sindical.

Mesmo nos países em que o diploma específico não é exigido, há sim, na grande maioria deles, critérios de acesso à profissão, que incluem obrigações como a sindicalização, a comprovação de atuação profissional (reconhecida por pares ou organizações de trabalhadores) ou algum registro formal que demonstre o vínculo com a atividade jornalística.

Se para exercer o Jornalismo ainda é necessário o registro, o caos se materializa, no caso brasileiro, pelo fato de que qualquer pessoa consegue esse documento sem maiores demonstrações. Memorial elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), e distribuído aos ministros do STF, aponta que pessoas que não foram alfabetizadas e até mesmo menores de 18 anos tiveram acesso ao registro profissional de jornalista. Sem contar os inúmeros oportunistas que hoje oferecem serviços pagos para auxiliar na emissão do registro – algo que é feito gratuitamente pelas DRTs.

Diante desse cenário de descaso e de outras propostas regulatórias complexas, o diploma acadêmico destaca-se como o critério mais objetivo, justo e transparente para organizar a prática jornalística. O diploma certifica que o profissional passou por um processo sistemático de aprendizado sobre ética, métodos de apuração e responsabilidade social. Ele deve ser o ponto de partida, não o diferencial. Sem esse anteparo, a profissão afunda em um cenário de desestruturação que mais interessa ao setor patronal do que ao conjunto da sociedade. E no qual qualquer critério subjetivo pode ser usado para fins de exclusão ou favorecimento. Apesar de ser considerada uma profissão essencial para a sociedade e pilar da democracia, não há qualquer zelo sobre quem pode atuar como jornalista.

A exaustiva narrativa de que a exigência de diploma ameaça a liberdade de expressão é uma inversão retórica aparentemente sofisticada, mas frágil. Como já destacado e amplamente verificável, a verdadeira mordaça ao pluralismo e à livre circulação de ideias não vem das salas de aula das faculdades, mas sim da altíssima concentração econômica exercida pelos oligopólios de mídia e, de forma crescente, pelos oligopólios digitais. São esses gigantes econômicos que controlam os canais de distribuição de informação, ditam e interditam as condições do debate público e sufocam iniciativas independentes.

Essa contradição fica evidente ao analisar o uso de exemplos demagógicos por parte de formadores de opinião da grande imprensa para se opor à necessidade de diploma. Nos últimos dias, tornou-se frequente o argumento de que a exigência do diploma impediria o funcionamento e as denúncias de emissoras comunitárias, por exemplo. No entanto, a questão das rádios comunitárias é historicamente invisibilizada por essa mesma grande imprensa.

Na prática, as rádios comunitárias sofrem há décadas com entraves para ampliar sua potência e obter sustentabilidade econômica devido à pressão direta de associações patronais de empresas de comunicação. Utilizar a radiodifusão comunitária como escudo para atacar o diploma é uma ironia que esconde o real sufocamento da liberdade de expressão e da comunicação democrática promovido pelos monopólios midiáticos. Além disso, antes de 2009, quando o diploma era obrigatório, a atuação de comunicadores populares e a liberdade de expressão comunitária nunca deixaram de existir, e eles já sofriam com a opressão dos setores empresariais que deveriam estimulá-los.

Outro argumento falso é o de que a exigência foi uma invenção autoritária da ditadura. Trata-se de reivindicação histórica do próprio movimento sindical de jornalistas iniciada na década de 1940. Os militares nunca precisaram se valer da regulamentação profissional para perseguir jornalistas. Eles o faziam de forma direta pela censura, pela cassação de licenças de emissoras e pela colaboração dos próprios empresários proprietários dos meios de comunicação. Vladimir Herzog, por exemplo, não foi perseguido, torturado e assassinado durante a ditadura em decorrência da legislação profissional, mas pelo exercício do poder de repressão política e ideológica do regime, operado por meio de órgãos como o DOI-CODI.

Usar a origem cronológica do decreto de regulamentação profissional para desqualificar a regra ignora que direitos trabalhistas cruciais, como a CLT, criada na era Vargas, também nasceram em períodos de exceção e nem por isso perdem seu valor de proteção social.

A conjuntura atual, em 2026, impõe desafios tecnológicos e trabalhistas muito mais complexos do que aqueles enfrentados em 2009. O avanço descontrolado da inteligência artificial (IA) generativa, o uso de deepfakes e a disseminação industrializada de desinformação ameaçam efetivamente a própria integridade da democracia. Nesse ecossistema de alta complexidade, a qualificação técnica rigorosa, baseada em métodos científicos de apuração e em um sólido código de ética profissional, torna-se um pilar inegociável para a integridade da informação de interesse público. Se, mesmo com a exigência de formação acadêmica, o mercado já se mostra vulnerável a abusos, sem o diploma a situação tende a se deteriorar de forma irreversível. Além de cobrar a volta da exigência do diploma, devemos também exigir a fiscalização da qualidade do ensino oferecido pelas faculdades de Jornalismo, em especial as particulares.

Ademais, a queda do diploma contribuiu significativamente para a degradação das relações trabalhistas na área, como já destacado. A desregulamentação da formação criou um ambiente extremamente favorável à precarização sistêmica, ao desemprego e à expansão da pejotização irregular. Esse quadro de fragilidade laboral se agravou mais recentemente com a aprovação da Lei nº 15.325/2026 (Lei do Multimídia).

Ao criar a figura do profissional de “multimídia”, essa legislação promoveu a sobreposição de funções e acendeu o alerta das entidades representativas, motivando uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), no STF, por parte da Fenaj e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Organizar o exercício profissional por meio de critérios objetivos não se confunde com censura ou restrição da fala. Como defendem a Fenaj e seus sindicatos, o direito à livre expressão é universal e garantido a qualquer cidadão. O jornalismo, contudo, é um trabalho especializado que exige método, verificação empírica, técnicas de apuração e responsabilidade jurídica.

Superar o cenário atual de precariedade laboral e institucional passa, inevitavelmente, pelo resgate do diploma universitário de jornalismo como critério de registro profissional. Trata-se de uma medida a mais para proteger os direitos trabalhistas e conter as fraudes de registros falsos, e, sobretudo, para salvaguardar a sociedade na era da desinformação, garantindo a higidez da informação profissional indispensável à democracia.

Seria ingênuo e apelativo argumentar que a exigência do diploma resolveria o problema da desinformação. Essa epidemia precisa ser enfrentada com um conjunto amplo de políticas públicas, que vão desde a institucionalização da educação midiática nas escolas até a efetiva regulação democrática, pública e transparente do ambiente digital. Mas a exigência da formação em Jornalismo é um passo acertado na direção de proteger e promover esse pilar tão importante da democracia: o jornalismo profissional.
Renata Roncali Maffezoli / Pedro Rafael Vilela

A vanguarda do atraso

Não sei se Lulinha é inocente ou culpado por tudo que lhe atribuem. Isso está sob investigação. O inquérito corre em segredo de Justiça. Mas não preciso ser um jornalista diplomado (e sou) para concluir que grande parte da imprensa quer ver Lulinha enterrado na lama para, assim, prejudicar as chances de seu pai se reeleger. Nada muito diferente do que aconteceu durante o período da Lava Jato, que resultou na prisão de Lula por 580 dias e no impedimento de disputar a eleição presidencial de 2018, vencida por Jair Bolsonaro.


Todas as eleições presidenciais desde o fim da ditadura militar de 64 se deram à sombra do pernambucano nascido em 1945, registrado com o nome de Luiz Inácio da Silva e filho de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, que depois se tornaria conhecida como Dona Lindu. Ambos trabalhavam na agricultura de subsistência, cultivando a terra para o sustento da própria família. Como líder sindical na região do ABC paulista, Luiz Inácio virou Lula; e em 1982, para disputar o governo de São Paulo, adotou oficialmente o nome Luiz Inácio Lula da Silva.

Foi candidato a presidente da República pela primeira vez em 1989, sendo derrotado por Fernando Collor de Mello. Perdeu as eleições de 1994 e 1998 para Fernando Henrique Cardoso. Elegeu-se presidente em 2002, reelegeu-se em 2006 e venceu novamente em 2022. É o único presidente desde 1930 que elegeu e reelegeu sua sucessora, Dilma Rousseff. Ganhe ou perca a eleição deste ano, passará à História como o brasileiro que pelo voto popular governou o Brasil por mais tempo. Getúlio Vargas governou 15 anos como ditador e apenas quatro como presidente eleito.

Por sua origem e suas ideias, Lula jamais foi aceito pelas elites que construíram um dos países mais desiguais do mundo – o último do Ocidente a acabar oficialmente com o sistema escravocrata. Quando o Brasil criou sua primeira universidade, já existiam 76 universidades na América do Norte e 26 na América do Sul. Embora figure entre as maiores economias do mundo, o Brasil ocupa a 79ª posição no ranking global de PIB nominal per capita, e a 87ª posição quando o cálculo considera a Paridade do Poder de Compra (PPC).

Daí a alta rejeição de Lula, que conseguiu incluir os mais pobres na agenda nacional. Na época da ditadura, dizia-se que era preciso deixar crescer o bolo das riquezas para depois reparti-lo. Um logro. A concentração de renda continua rígida no topo da pirâmide. Dados da PNAD Contínua do IBGE mostram que a divisão atual do bolo penaliza os mais necessitados. O grupo dos 10% mais ricos detém mais de 40% de toda a renda gerada no país. Essa única fatia é maior do que toda a renda somada dos 70% mais pobres da população

Respondam com sinceridade: será Flávio Bolsonaro, se eleito presidente, que se empenhará em mudar essa situação, ou pelo menos atenuá-la? Se a resposta for sim, por que ele é contra a redução da jornada de trabalho de 6×1? Por que se esforça tanto para que ela não seja votada no Senado?
Ricardo Noblat

Bets causam prejuízo ao PIB cinco vezes maior do que tarifaço de Trump

Além dos riscos de vício, impactos sobre a saúde e sobre o endividamento e a situação financeira de milhares de brasileiros, as apostas têm um efeito maior, que ultrapassa suas consequências sobre o orçamento doméstico das famílias.

Para mensurar esse efeito, o economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), calculou o impacto das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país), a arrecadação do governo e a desigualdade.

Segundo o estudo inédito, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano.

"Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 [que foi de 2,3%] e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro", compara Klein, no estudo.


Em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda estimou o potencial impacto da tarifa de importação de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros em 0,2 ponto percentual do PIB entre agosto daquele ano o final de 2026.

Em julho, esse tarifaço foi prorrogado por mais um ano e os EUA anunciaram tarifas adicionais de 25% e 12,5% neste ano.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidades representativas do setor de bets, reconhecem "a importância de aprofundar o debate sobre os impactos econômicos e sociais das apostas", mas afirmam que os resultados "devem ser interpretados com cautela".

Para calcular o efeito das bets sobre o PIB, Klein parte de uma estimativa de transferência líquida de recursos das famílias para as plataformas de apostas.

"Estamos falando basicamente da diferença entre o que é gasto pelas famílias em apostas e o que elas recebem de volta", diz o economista.

"Porque, pela própria natureza do jogo, obviamente o que as pessoas vão receber, em média, é menor do que o que elas pagam."


Crédito,AFP via Getty ImagesLegenda da foto,Estudo recente estima que brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões para bets em 2025

Um estudo recente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central, estima essa transferência líquida de recursos em R$ 62,5 bilhões em 2025.

Esse valor importa, explica Klein, porque cada R$ 1 "perdido" para apostas representa menos dinheiro disponível para o consumo.

A partir desse dado, o pesquisador busca estimar como essa transferência de recursos está distribuída entre as diferentes faixas de renda.

"As pessoas de renda menor gastam proporcionalmente mais da renda delas com consumo", observa Klein.

"Porque a pessoa que ganha pouco acaba tendo que gastar tudo com aluguel, alimentação, vestuário e assim por diante. Então, levamos isso em conta para entender esse efeito agregado."

Com base em outras pesquisas já publicadas, o economista constrói então dois cenários: um em que a maior parte do gasto com apostas vem da faixa de menor renda (até 2 salários mínimos, ou R$ 3.036 em 2025), e outro em que o gasto é mais concentrado nas faixas de renda mais alta.

De posse desses dois cenários, o economista aplica um multiplicador — uma estimativa de quanto R$ 1 a mais ou a menos no bolso das famílias se converte em mais ou menos consumo na economia..

"Fazendo esse cruzamento, chegamos a um efeito entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões — um valor bem importante, porque é quase 1% do PIB", observa.

"O contrafactual, que é o que teria acontecido [sem as apostas], é sempre difícil de fazer em economia, mas esse montante é basicamente metade de todo o crescimento que a gente teve em 2025."

Klein observa que, mesmo levando em conta a estimativa de empregos diretos e indiretos gerados pelas plataformas de apostas — cerca de 15,5 mil, segundo um estudo da LCA Consultores para a ANJL e IBJR, cuja massa salarial poderia gerar até R$ 1 bilhão de renda total na economia — esse impacto negativo pouco muda.

Um outro estudo, realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e publicado em abril deste ano, estimou que o avanço da inadimplência severa, parcialmente atribuída aos gastos com bets, retirou R$ 144 bilhões nas vendas do comércio entre 2024 e 2025.

Segundo a CNC, o impacto somente no comércio é equivalente às vendas de "dois Natais", principal data do varejo brasileiro, cujas vendas anuais giram em torno dos R$ 70 bilhões.

"As bets não representam apenas entretenimento; configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo", destaca a confederação.

A partir da estimativa da queda do PIB, Klein calcula o impacto para a arrecadação do governo.

"Isso ocorre basicamente via tributos indiretos, porque cada real gasto com consumo paga imposto", explica Klein.

Ele cita como exemplos o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o Imposto Sobre Serviços (ISS) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), com a reforma tributária, que começou a ser implementada este ano.

No estudo, Klein estima que uma queda de 1% no PIB provoca uma perda de 0,8% a 1,2% na arrecadação.

Como a carga tributária bruta foi de cerca de 32,4% do PIB em 2025, a redução da atividade econômica causada pelas bets implicaria uma perda líquida de R$ 22 bilhões a R$ 46 bilhões da arrecadação, descontados os R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com os impostos cobrados das plataformas de apostas.

O economista observa que esse dado é importante, porque as apostas muitas vezes são colocadas como algo que está gerando arrecadação para o governo. Mas, devido à perda de consumo, esse efeito pode ser, na verdade, negativo, quando as duas coisas são colocadas "na ponta do lápis".

"E isso sem nem entrar na questão dos gastos gerados, como as despesas com saúde devido ao vício", destaca o professor da UFRJ.

Por fim, para estimar o potencial impacto das apostas sobre a desigualdade, Klein também elabora dois cenários: um que considera que a perda de R$ 62,5 bilhões com bets se concentra nos 99% da população fora do 1% mais rico, e outro que considera que não só isso acontece, como que esse valor é transferido ao 1% mais rico (um cenário extremo, pois é sabido que parte das empresas de apostas são estrangeiras, então uma parte desses recursos vai, na verdade, para fora do país).

Nesses dois cenários, o aumento da concentração da renda no topo (esse 1% mais rico) varia de 0,5% a 2,1%, algo relevante num país que é ainda hoje um dos mais desiguais do mundo.

Para Klein, o que os resultados sugerem é que o Brasil deveria, no mínimo, aumentar a tributação das bets. "A taxação tem que ser ampliada, para que, pelo menos, tenhamos um aumento da arrecadação líquida", defende o economista.

"Não faz sentido nenhum permitir uma atividade que reduz a arrecadação, que aumenta a desigualdade num país já tão desigual, e causa uma série de outros problemas sociais e de saúde, que são o que a gente em economia chama de externalidades", observa.

O pesquisador cita o exemplo dos cigarros, que causam doenças que oneram o sistema público de saúde, e por isso são altamente taxados.

"Faz todo o sentido ter uma tributação alta o suficiente para, no mínimo, cobrir esses custos a mais que essa atividade gera."

Questionada sobre os resultados do estudo, a ANJL afirmou em nota à BBC News Brasil que "tais estimativas devem ser analisadas com cautela antes de serem divulgadas como verdadeiras e robustas".

Segundo a entidade, o exercício é "fortemente dependente das hipóteses adotadas, e não uma estimativa causal do efeito das bets sobre o PIB".

A ANJL considera que o multiplicador adotado por Klein no estudo é desproporcional, que o valor de R$ 62,5 bilhões em perdas estaria superestimado, e que a análise ignora que apostas são bem de lazer e substituem outros gastos de entretenimento, como cinema, teatro, streaming e futebol.

A associação refuta ainda a comparação com o crescimento de 2025, observando que as bets já existiam em 2024.

"Para avaliar quanto sua expansão teria reduzido o crescimento do PIB em 2025, seria necessário estimar principalmente o efeito incremental entre 2024 e 2025, e não comparar todo o suposto efeito de nível existente em 2025 com a variação do PIB naquele ano", pondera.

Já o IBJR destaca que os resultados "partem de uma estimativa contrafactual de R$ 62,5 bilhões, e não de perdas efetivamente observadas nas operadoras"; questiona algumas das pesquisas escolhidas por Klein como base para o estudo; e a premissa de que os recursos destinados às apostas seriam integralmente redirecionados ao consumo.

"O estudo também não mensura, com metodologia equivalente, o valor adicionado pelo setor regulado, incluindo aspectos como geração de empregos, cadeia de fornecedores, tecnologia, publicidade, patrocínios, investimentos e arrecadação tributária", observa o IBJR.

"Ressaltar essas limitações não significa desqualificar o estudo, mas contribuir para uma avaliação mais ampla e consistente dos seus resultados", diz o instituto.

"Em uma questão de tamanha relevância econômica e social, é necessário que a análise dos impactos considere a qualidade das bases utilizadas, os critérios metodológicos adotados e o conjunto das evidências disponíveis."
Thais Carrança

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A peste limpou as terras

“Deus é inglês”, disse o piedoso John Aylmer, pastor de almas, há uns quantos anos. E John Winthrop, fundador da colônia da baía de Massachusetts, afirma que os ingleses podem apropriar-se das terras dos índios tão legitimamente como Abraão entre os sodomitas: O que é comum a todos não pertence a ninguém. Este povo selvagem mandava sobre vastas terras sem título nem propriedade. Winthrop é o chefe dos puritanos que chegaram no Arbella, há quatro anos. Veio com seus sete filhos.

O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.


Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.

A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.

A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.

Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

Confundir paz com pás

Numa das minhas últimas viagens a Angola, ofereceram-me uma obra já antiga de Pepetela, o romance Parábola do cágado velho (Luanda: Texto ed., 2016). A estória, escrita com a conhecida mestria do autor, reflete a cultura popular e a vida dos camponeses no interior do país, durante a longa guerra civil que se seguiu à independência.

Registei, em especial, uma frase: “(…) ainda não há paz, só se anda à procura dela.” Ou seja, as pessoas desejavam que o conflito terminasse para tocarem a sua vida para a frente, em sossego, mas a realidade de todos os dias ia desmentindo a possibilidade de alcançar a tão almejada paz e a segurança que dela haveria de decorrer.


Depois de os angolanos terem lutado pela libertação do colonizador, não contra o povo português mas sim contra o governo autocrático de Lisboa, guerreavam agora entre si, que é a pior das guerras, irmãos contra irmãos. Nada de novo na História.

O processo político e militar que levou as 13 colónias britânicas da América do Norte a rebelarem-se contra o domínio da Grã-Bretanha ficou conhecido como Revolução Americana (1765-1783), tendo influenciado a Revolução Francesa e movimentos independentistas. Dela resultou a fundação dos Estados Unidos da América, formalizada pela Declaração de Independência de 4 de julho de 1776, e portadora duma nova filosofia política, inspirada nos ideais liberais e iluministas europeus.

Décadas mais tarde, estalou a Guerra da Secessão (1861-1865), um confronto muito mais curto na duração mas muito mais penalizador em vidas humanas. Desse confronto, que opôs o norte industrializado ao sul agrário e esclavagista, resultaram cerca de 600 mil mortos, revelando-se assim muito mais devastador do que o processo da independência.

Como dizia a personagem de Pepetela, é preciso andar à procura da paz até a encontrar. Não é coisa que se descubra debaixo duma pedra, que se colha das árvores ou que se compre numa loja qualquer. A resolução de qualquer conflito parte de atitudes humanas de quem tem o poder. Tem que ser pacientemente tecida com muita determinação e consciência.

A guerra é a atividade humana mais estúpida ao cimo da terra, visto que ninguém ganha com ela, mesmo quando parece que sim. Mas se formos a ver até o vencedor declarado – quando o há – tem que lamber as feridas e pagar o preço de devastação na economia e no edificado, além dos mortos, feridos, estropiados e perturbados mental e emocionalmente. A guerra diminui-nos como seres humanos. Por isso Einstein dizia que “a paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos.”

Isto devia levar os governantes dos países a pensar muito bem antes de iniciar um conflito armado. A administração Trump atirou-se ao Irão e afinal agora não sabe como sair de lá sem dar a ideia de derrota. Não alcançou nenhum dos seus objetivos e, entretanto, a situação ficou bem pior do que antes, como se vê pelo estado em que se encontra o Estreito de Ormuz. Lembremo-nos que a maior potência militar do mundo já antes tinha saído com o rabo entre as pernas do Vietname e, mais recentemente, do Afeganistão.

O Império Britânico não conseguiu impedir a independência dos Estados Unidos, nem da Índia e do Paquistão. O regime desumano do apartheid na África do Sul não conseguiu subsistir. As colónias africanas não puderam continuar a ser mantidas pelas potências europeias desde os anos sessenta. E no entanto todos recorreram à força para evitar o inevitável.

A ideia de que a paz se faz pela guerra é muito questionável. Normalmente, comportamento gera comportamento, e o povo diz que quem semeia ventos colhe tempestades. Segundo John Kennedy, “são precisos dois para fazer a paz.”

E claro, nunca é demais lembrar a afirmação de Jesus Cristo: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27). Mas esta é uma paz suprema, a paz espiritual, que está acima de qualquer outra.

A paz ambicionada não pode continuar a ser confundida com as pás de enterrar os mortos em Gaza, no Líbano, na Ucrânia, na Rússia e em tantos outros lugares de que pouco se fala. Tenham juízo, procurem a paz.

Considerações sobre o ‘interregno’

Como tudo na vida, palavras envelhecem, e talvez seja essa a sensação que nos assalta ao depararmos com o uso reiterado de “interregno” para indicar o atual estado das coisas. Na conhecida formulação de Gramsci, a velha ordem está morta e não mais regula corações e mentes, enquanto a nova ainda não consegue se afirmar. No intervalo entre ambas, o mundo se enche de sintomas mórbidos. Provocadora, a imagem parece explicar o caos ao redor, mas há quem nela observe a persistência de uma certeza anacrônica sobre a nova ordem que viria a se impor por meio da revolução.

Admitida a observação, pode-se ainda teimar em que a metáfora ao menos chama a atenção para os riscos próprios de épocas de transição como a nossa. Não por acaso, circulam por aí ideias-zumbis e figuras extravagantes, que recusam comportamentos baseados em regras, ainda que imperfeitas, e proclamam a lei do mais forte. Os sintomas precisam ser pesquisados, assim como buscados os remédios, todos eles políticos, naturalmente. Essa procura incessante, sem prescindir de analogias, não pode se limitar a elas – os adversários da sociedade aberta não são os mesmos de 1930 nem liquidá-los como “fascistas” nos deixa necessariamente em posição mais segura.


Pode ser que estejamos de novo em plena mudança estrutural do espaço público – mudança que, significativamente, Anton Jäger, pesquisador belga da Universidade de Oxford, descreve em termos de “hiperpolítica” (cf. Hyperpolitics: Extreme Politicization Without Political Consequences, Verso Books). Para onde quer que olhemos, pessoas comuns estão em meio a polêmicas ferozes e a contraposições intratáveis. Parecem se contentar com identidades fixas numa sequência interminável de guerras digitais. Algoritmos invisíveis confinam em guetos até quem, pouco antes da entronização das redes sociais, tocava em paz a vida, imerso no próprio mundo privado. Uma politização inflamada, sem dúvida, mas de modo geral sem engajamento em partido, sindicato ou associação “real”.

De fato, essa não é a política de massas da alta modernidade. Para o bem e para o mal, os partidos eram como que a “nomenclatura das classes”. Partidos conservadores podiam ter uma base popular considerável ou, se fossem democratas cristãos, inseriam uma dimensão solidária no liberalismo.

Partidos trabalhistas ou comunistas enraizavam-se na vida sindical, buscando integrar institucionalmente os “de baixo” ou mobilizá-los para a utópica nova ordem anteriormente mencionada. Tudo somado, um processo amplo de incorporação política, abalado, de tempos em tempos, por choques ideológicos que levaram a sacrifícios enormes e a guerras de violência sem precedentes.

A globalização neoliberal dos anos 1990 significa ruptura radical com este “mundo de ontem”. A revolução assim desencadeada, disseminando a mercantilização de todos ou quase todos os âmbitos da vida, teve uma característica singular: fez da economia o fator de ordenação tendencialmente total. Com Reagan e Thatcher, o capitalismo se reinventa e mais uma vez dissolve no ar tudo o que aparentava solidez. A administração das coisas predomina, as instituições se esvaziam, os partidos apresentam programas que mal se distinguem uns dos outros. Afinal, “não havia alternativa”, uma frase de rara soberba que se proclamava aos quatro ventos.

O século 21, sobretudo a partir da grande crise de 2008, se encarregou de liquidar as ilusões economicistas da “pós política” – e aqui voltamos ao argumento mais original de Jäger sobre o “interregno”. Coletivamente não nos livramos da rarefação institucional anterior, até porque não se interrompeu a individualização frenética da vida. Movemo-nos como átomos, as mobilizações hiperpolíticas podem ser intensas, mas são também fugazes e instáveis. E o drama maior é que não há caminho de volta: impossível, ou inaceitável, voltar às formas organizacionais da maior parte do século passado, que não mais seriam vividas como vetores de liberdade.

A reconstrução da sociedade civil, espaço de mediação entre indivíduo e Estado, é o desafio posto diante das forças democráticas há muito na defensiva. No variado espectro do liberalismo, há gente disposta a experimentar formas inovadoras de mudança e recriação da vida social. E, felizmente, o mesmo pode ser dito dos socialistas que não se curvaram ao canto das sereias populistas e à sua recorrente desconfiança dos procedimentos democráticos. Fazer com que aqui e ali, e ainda que aos poucos, se estabeleçam nexos entre essas duas grandes áreas político-culturais é um objetivo permanente, não uma tática para circunstâncias críticas.

O motor de tal convergência é a constatação de que, no presente “interregno”, o frenesi hiperpolítico e a pobreza institucional formam terreno propício para a recomposição dos poderes fortes e a afirmação dos homens providenciais. Tais processos negativos – é dispensável dizer – constituem o núcleo dos sintomas mórbidos que vêm corroendo por dentro as modernas democracias e o sistema de liberdades que lutas seculares nelas inscreveram.