sexta-feira, 16 de outubro de 2026
Steven Levitsky: 'PL é antiliberal'
Um levantamento feito por ele havia mostrado que, desde a pandemia, 74% dos governos incumbentes perderam as eleições nas democracias ocidentais analisadas. Foram 40 de 54. Foi o caso do Brasil, que não reelegeu Jair Bolsonaro (PL) em 2022.
Para o cientista político e professor de Harvard, essa insatisfação é a chave para ler os resultados das urnas do primeiro turno. O resultado positivo nas urnas para Flávio indica, segundo Levitsky, que o país continua insatisfeito com o status quo que o PT de Lula representa. "Não é que essa maioria dos brasileiros seja autoritária. Parte desse eleitorado está votando contra o status quo", afirma.
Levitsky afirma que, se antes o mundo se dividia entre esquerda, centro, direita e suas gradações, hoje o espectro é melhor orientado pela chave do liberalismo e do antiliberalismo, ou seja, o autoritarismo.
A tendência ao autoritarismo é global. Na Alemanha, a AfD é um dos partidos mais populares. Os Estados Unidos são encabeçados por um presidente antiliberal. A defesa da democracia foi um mote abraçado pela campanha de Lula.
"Seria péssimo para a democracia se a defesa dela se tornasse uma questão partidária", diz Levitsky. "Para que a democracia esteja segura, todos os partidos precisam abraçá-la."
Para ele, não é o que ocorre no Brasil hoje. Ele diz que o PL (Partido Liberal), a outra grande legenda em atividade além do PT, é amplamente iliberal. "É um erro de nomenclatura chamá-lo de Partido Liberal", diz.
Levitsky critica, ainda, a falta de atenção do PT para a fragilidade da busca pela reeleição e a resistência aos incumbentes recentemente. Ele diz que o partido deveria ter aprendido as lições deixadas pela campanha à reeleição de Joe Biden, nos Estados Unidos, que acabou com uma renúncia à candidatura, uma campanha às pressas encabeçada por Kamala Harris e culminou na reeleição de Donald Trump.
No ano passado, era do Brasil que Levitsky tirava as lições. O americano viu com bons olhos quando Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, coisa que os Estados Unidos não fizeram quando Donald Trump estava em situação similar.
"É uma mensagem muito melhor do que a dos Estados Unidos, em que as instituições estenderam um tapete vermelho para alguém que tentou derrubar o resultado de uma eleição", afirma.
O candidato do PL se posiciona –e posiciona o próprio pai– como vítimas de uma caça às bruxas. É, como diz Levitsky, uma estratégia empregada por líderes autoritários ao redor do mundo e abraçada por Trump e por Keiko Fujimori, filha do ditador peruano Alberto Fujimori e hoje presidente do país.
Uma das plataformas de campanha de Flávio é conceder o perdão ao pai, movimento que Levitsky vê como "infeliz para a democracia brasileira". Ele afirma, porém, que não seria fatal para o sistema político. "Se essa é a plataforma dele e se ele for eleito pela maioria dos brasileiros, então é isso que terá que acontecer", diz.
Para o cientista político, o alinhamento de Flávio com o pai é mais preocupante para o país do que o alinhamento do candidato do PL com Trump. "Foi o pai dele que tentou derrubar uma eleição."
Levitsky afirma que o Brasil é um país cujo sistema político demanda que alianças para governar. E ele vê potencial nas instituições do país para frear uma guinada autoritária. É o caso do STF (Supremo Tribunal Federal) que, "mesmo em uma crise séria, ainda é uma instituição poderosa".
Ele afirma, ainda, que o Congresso Nacional, mesmo dominado pelo conservadorismo, vai demandar pragmatismo caso Flávio seja eleito. Isso porque, com 121 deputados federais eleitos de 513 vagas na Câmara dos Deputados, e 28 de 81 congressistas no Senado, o PL não tem maioria absoluta no Legislativo. Isso significa que, se alçado à Presidência, o senador precisará negociar a governabilidade.
"Os outros partidos de direita e o centrão vão ser parte da conversa e vão oferecer certas restrições ao potencial autoritarismo de Flávio", diz Levitsky. "Mas sempre que um país elege um presidente que não está totalmente comprometido com a democracia, ainda mais em um país em que essa figura é tão poderosa, é uma ameaça."
Com Flávio lá, contrapesos e democracia correm risco
Flávio é o herdeiro político de Jair Bolsonaro e representa um movimento que atacou reiteradamente a legitimidade das eleições e as instituições democráticas. Poderá não repetir o brutalismo tosco do pai ex-militar dos porões da ditadura, mas isso não é suficiente para afastar os riscos.
A convergência em torno de uma agenda de flexibilização de direitos trabalhistas, retrocessos ambientais, cortes de benefícios sociais e favorecimento de interesses econômicos poderosos está dada. A questão mais grave é saber até que ponto essa aliança estaria disposta a sacrificar os mecanismos de controle do Executivo em caso de escalada antidemocrática.
Sabemos que o autoritarismo contemporâneo não precisa recorrer a tanques nas ruas ou ao fechamento do Legislativo. Democracias podem ser corroídas por governantes eleitos, mediante mudanças constitucionais, intimidação dos adversários e enfraquecimento obstinado das instituições.
Esse caminho tem sido franqueado em diversos países pela conveniência de elites tradicionais, num mundo em que o futuro é percebido por amplos setores sociais como incerto e perigoso. O acúmulo de crises (do trabalho, do clima, da tecnologia, da paz) parece apontar para o fim dos tempos, gerando medo e desorientação.
O cenário piora com o ativismo disruptivo do populista autocrático Donald Trump, aliado do bolsonarismo e protagonista, nos Estados Unidos e na política externa, de ataques à ordem e às convenções liberais. Com Flávio, o avanço da doutrina Donroe, que vê a América Latina como quintal, será incontível. E tem o hermano Milei, a versão libertária do perfeito idiota latino-americano —ainda que em rota de fiasco econômico.
O episódio recente da censura de Kassio Nunes Marques ao canal lulista de André Janones, a pedido da campanha de Flávio, ofereceu mais uma amostra de que a diligente subserviência política da bancada de magistrados suspeitos de direita está muito competitiva. A decisão virou alvo de disputa, mas é de se perguntar se os "checks and balances" funcionariam com um Executivo disposto a submeter os Poderes.
Poderá surgir um contrapeso, talvez de natureza paradoxal, à perspectiva de avalanche ideológica no exercício governamental. O centrão, embora identificado com a agenda conservadora, não pretende entregar de bom grado ao PL o comando da Câmara, aceitando o do Senado. Os interesses de ocasião e as disputas por influência e recursos tendem a mobilizar a velha tática de criar dificuldades para vender facilidades. Haverá também uma representação de esquerda e centro-esquerda, especialmente entre deputados.
Em caso de vitória de Lula, outros problemas virão, mas o jogo entre Poderes terá que ser jogado — lembrando que o presidente já enfrentou a bombástica rejeição de uma indicação ao STF.
O segundo mandato é o da vingança
Assim que subida a rampa, o chicote presidencial vibrará firme sobre todos que impediram o golpe tentado por Jair Bolsonaro em 2022-23. Há uma dúvida sobre quais serão os primeiros atingidos, se três ou quatro ministros do STF ou se os militares que se puseram ao lado da democracia e ainda foram trabalhar no governo Lula.
O ataque ao Supremo talvez exija um arremedo legal, encenado pelo novo Congresso, mas a demissão, reforma ou até prisão dos atuais titulares das Forças só dependerá de uma canetada. O brigadeiro Carlos Baptista Junior, comandante da Aeronáutica sob Bolsonaro e autor do livro "Eu Disse Não! – Uma Trincheira Antigolpista", responderá pela ousadia. Em troca, as grades se abrirão e voltaremos a ter a alegre companhia dos generais Augusto Heleno, Braga Netto, Mário Fernandes —este, autor do plano "Punhal Verde e Amarelo", que previa o assassinato de autoridades— e demais anistiados.
A vingança contra o Itamaraty já foi anunciada pelo futuro chanceler Eduardo Bolsonaro, com a varrição de diplomatas de carreira e sua substituição por parças de clubes de tiro e de churrascos nos condomínios. Os órgãos de educação e pesquisa, dados a produzir saberes contrários aos negacionismos, conhecerão a mão pesada dos bolsonaristas —o recente incêndio numa universidade e iguais ameaças podem ser um indício. As artes e a cultura passarão a pão e água e os meios de comunicação serão reapresentados à censura.
Não são palpites. Historicamente, o segundo mandato é o da vingança.
Sempre que a cobertura de polícia toma a de política, fascistoides avançam
Os partidários de Lula têm feito atos Brasil afora que realmente impressionam. O de domingo, na Avenida Paulista e adjacências, disputa lugar entre os maiores da história do país. Nem de longe teve na grande imprensa a visibilidade que o fato exigiria em tempos normais. Em dias assim, certo equilibrismo em nome da isenção costuma privilegiar a administração dessa isenção em prejuízo da realidade. Talvez um dia isso seja revisto. E, pois, falemos mais de imprensa.
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| “Os Pilares da Sociedade” (1926), George Grosz |
Mas quando é que houve um miserável impedimento? Nunca. Convém não confundir a pregação de golpe de Estado com exercício da divergência, não é mesmo? Há coisas que chegam a ser risíveis. No domingo, no dia do grande ato dos eleitores de Lula na Paulista, um grupo de jovens resolveu pichar uma estação do metrô. O ora ultrarreacionário Tarcísio de Freitas, com fama de “moderado” na mídia, gravou um vídeo em que se referiu — sei lá se sabia o que estava dizendo ou se foi pautado por algum assessor com ou sem o concurso da IA — ao “paradoxo da tolerância”, de Karl Popper, na obra em dois volumes “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”.
Em síntese: os democratas não podem tolerar os que tentam solapar o regime justamente em nome da tolerância porque fazê-lo significa aceitar a premissa da intolerância. E não é que o homem que defende anistia para os golpistas se mostra, então, severíssimo com pichadores — e não penso que devam ser adulados —, mas passa a mão na cabeça dos que tentaram pôr fim à democracia, um plano que contemplava até o assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes?
Já recomendei aqui um livro de 1980: “Friendly Fascism: The New Face of Power in America”. É o fascismo que volta com um “sorriso”, com cara “amigável”. Mas, sabemos todos, se precisar, fuzila, como se viu em São Paulo.
Ora, senhor Tarcísio, os golpistas é que não podiam ser tolerados, não é mesmo?, segundo os fundamentos expostos por Popper. Ah, claro: se não leu, não cite.
Não sei quem vai vencer no dia 25. Mas é fato que a própria imprensa só começou a cuidar de eleição propriamente depois do primeiro turno — e, ainda assim, antecipando o desastre de Lula. A mobilização da rua petista está obrigando-a a falar do pleito. Desde que André Mendonça quebrou o sigilo da investigação ilegal que mandou fazer contra Alexandre, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, o jornalismo político não cuidou de outra coisa. Melhor para Flávio, não?, que tem um programa oculto.
Até agora, ninguém sabe onde ele vai aplicar o seu “tesouraço” que tanto encanta os mercados. Mendonça e Kássio não querem que os adversários do senador sugiram que os cortes serão feitos na área social, embora isso tenha sido vazado para a imprensa por gente da própria campanha para testar reações. O Flávio que diz que vai pôr fim à era petista só prometeu aumento de gastos. Adolfo Sachsida, um de seus coordenadores econômicos, diz que a revolução dos gastos sairá do enxugamento dos ministérios e do corte de supersalários. É uma piada.
Em suma: bastou a cobertura política falar um pouco de política, e Flávio se complicou porque, ora vejam!, é adversário dos fatos. Daqui a pouco alguém ainda tem uma ideia: “Vamos retomar a agenda de polícia e a caça ao Supremo, ou nosso homem ainda perde a eleição. E lá ficaremos nós sem nosso projeto de fascismo que consideramos ‘amigável e sorridente’.”
O candidato do PL e seu coordenador político, senador Rogério Marinho (PL-RN), querem encarcerar crianças de 14 anos e choram quando pensam em golpistas presos… Lembro-me do poema “Anedota Búlgara”, de Drummond:
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.
O país real versus o país da tela
O que repercute nas plataformas digitais pauta o que a imprensa tradicional publica, e vice-versa. O leitor de ambos os espaços diz confiar mais no que lê nos veículos tradicionais, mas não larga o celular para saber, se possível minuto a minuto, o que está em discussão nas redes.
Não é de hoje que os grandes veículos de comunicação se opõem com ferocidade a Lula e ao PT, buscando varrê-los do poder. Trata-se de uma questão ideológica, mas não apenas isso. É também uma questão de alinhamento com as fontes que os remuneram e que enriquecem seus proprietários.
O surgimento da internet agravou a crise financeira em que a imprensa já vivia, e hoje ela tenta sobreviver a duras penas. Como não soube — e continua sem saber — se reinventar, ela acaba, na maioria das ocasiões, mandando às favas os princípios e valores que sempre disse cultivar.
Por ser uma meta impossível, o jornalismo nunca foi totalmente imparcial, por mais que apregoe o contrário ou que essa seja a meta ideal. Cobra-se dele, pelo menos, que seja honesto. No passado, nem tão distante assim, havia um esforço sincero para tentar separar a produção de notícias da produção de anúncios. Hoje, infelizmente, está tudo misturado. Quem perde com essa fusão são os leitores, cuja maioria permanece desconhecendo a realidade.
O paradoxo entre a melhora na vida real e o pessimismo na percepção pública é o sintoma claro de uma sociedade hiperinformada, mas profundamente desorientada. Enquanto o jornalismo não resgatar sua honestidade essencial, o brasileiro continuará refém de uma realidade que ele vive diariamente, mas na qual é ensinado a não acreditar.
Banquetaço: Para a democracia não sair da mesa brasileira
No dia primeiro de janeiro de 2019, o recém empossado presidente Jair Messias Bolsonaro deu uma canetada que varreu do mapa conquistas fundamentais da população brasileira. Entre as medidas adotadas, estava a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), responsável pela elaboração de políticas públicas agroalimentares que se tornaram referência mundial, ao tirar, em 2014 e pela primeira vez na história, nosso país do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU).
Rapidamente, a surpresa manifestada pelos movimentos ativistas pela comida boa no prato em relação a essa brusca medida governamental foi substituída pelo sentimento de revolta e de recusa em aceitar passivamente tamanho autoritarismo e insensatez. Assim, nasceu a primeira ação nacionalizada do Banquetaço, iniciativa que, desde 2017, vem mobilizando redes e ruas por meio da realização de manifestações criativas envolvendo a comensalidade. E uma faísca se irradiou por todas as regiões do país, instigando ativistas de mais de 40 cidades a fazerem atos comensais, protestando contra o governo federal e reivindicando a permanência do CONSEA.
Apesar de todo o agito e da sólida argumentação pró-manutenção do Conselho, ele jamais veria a luz do dia durante toda a gestão do então presidente, que atualmente está cumprindo prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, o que só comprova seu desprezo pela democracia.
As consequências dessa extinção foram dramáticas, impulsionadas também por outras medidas anti-alimentares, como o esvaziamento dos galpões da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), responsável por garantir os estoques de comida em épocas de necessidade, como nas que há o combate à alta dos preços ou o enfrentamento de desastres socioambientais.
Com a chegada da pandemia e a insistência do governo Bolsonaro em adotar uma postura negligente e até negacionista em relação ao cenário gravíssimo que enfrentávamos, o resultado não poderia ser outro: voltamos para o fatídico Mapa da Fome em 2021.
Nem mesmo a gigantesca dedicação de milhares de pessoas que se organizaram para fornecer uma marmita nutritiva para quem não tinha nada na barriga pôde evitar que o número de brasileiras e brasileiros famintos aumentasse de 3,4 milhões, ao sair do Mapa em 2014, para 33 milhões, em meados de 2022.
Por trás desses números, encontramos moradias desestruturadas; agricultores e agricultoras familiares sem apoio para cultivar suas roças; ecossistemas destruídos com uma fúria inédita, estimulada pelo próprio poder público e pela bancada ruralista; e uma sociedade na qual a exclusão e a exploração voltaram a imperar sem o menor pudor.
Mas não sem resistência! E aqui podemos retomar a conversa sobre datas marcantes, já que, após anos de muita luta, conseguimos dar um basta no desgoverno de Jair e companhia, eleger Lula presidente novamente e testemunhar, no dia 1.º de janeiro de 2023, a volta do CONSEA.
Se nos empenhamos tanto na luta contra o agrofascismo, fazendo um enfrentamento nas instâncias participativas que ainda existiam, e agindo em rede para levar outra perspectiva de vida aos setores mais vulnerabilizados da população — o que permitiu mudar o rumo do comando nacional do país em relação à Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional —, merecíamos celebrar. E foi o que fizemos, organizando novamente a comunidade do Banquetaço para fazer ações comensais nas ruas e gritar com toda a alegria: o CONSEA voltou!
Com o Conselho e os programas por ele criados e apoiados de volta, começamos uma caminhada em direção à redução dos pratos vazios nas mesas. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) teve finalmente um reajuste em seus valores e, posteriormente, passou a exigência na quantidade de alimentos provenientes da Agricultura Familiar nas escolas públicas de 30% para 45% do total. Desse modo, ele não apenas permitiu que crianças e jovens se alimentassem melhor, como estimulou quem cultiva familiarmente a aumentar a produção, gerando renda no campo e nas áreas urbanas e periurbanas em que há a presença de hortas.
Passo a passo, os estoques da CONAB foram sendo formados novamente, algo fundamental nestes tempos de emergência climática, em que secas, inundações, incêndios e outros fenômenos extremos tornaram-se frequentes. E, embora o agronegócio monocultor continue recebendo as benesses governamentais que permitem que ele não quebre frente à própria insustentabilidade de seu modelo, e o Plano Safra conceda, ano a ano, mais recursos a ele, a Agricultura Familiar voltou a respirar, tendo sua verba aumentada de R$ 53,61 bilhões, em 2022, para R$ 97,3 bilhões, neste ano.
O aumento real do salário mínimo, a isenção de impostos para quem ganha até 5 mil reais, a ampliação do Bolsa Família e outras medidas tomadas pelo governo Lula, durante o atual mandato, contribuíram para que a parcela da população que tinha sido excluída da mesa voltasse a sentar em torno dela, compartilhando os alimentos necessários para encarar os desafios da rotina imposta por uma sociedade capitalista como a nossa. As filas para pegar os ossos descartados pelos mercados feitas pelas pessoas que estavam com fome, que revelaram a dimensão do estrago feito pelo governo de Jair, sumiram dos noticiários e do cotidiano das cidades.
Mas não foram apenas as antigas políticas públicas que voltaram. Uma das inovações que mais impactaram a rede de organizações e pessoas dedicadas ao combate à fome foi a criação do Programa Cozinhas Solidárias. Ele garante apoio financeiro para que uma ampla teia de cozinheiras e cozinheiros de todos os municípios do país produza quentinhas para distribuição para quem ainda não pode arcar com os custos dos alimentos de que necessita. E se engana quem pensa que esses espaços são somente assistencialistas. Eles vão muito além e se tornaram locais de convívio, de aprendizado e de articulação social e política, impulsionando a cidadania nas comunidades.
Então veio a notícia: em meados de 2025, a ONU anunciou que o Brasil havia saído, pela segunda vez em sua trajetória de 500 anos de país invadido e colonizado, do Mapa da Fome!
E chegamos em outubro de 2026, mês em que se comemora o Dia Mundial da Soberania Alimentar (16/10) e que, neste ano, inclui a data do segundo turno das nossas eleições majoritárias (25/10). Vamos definir quem se sentará na cadeira presidencial pelos próximos quatro anos, caso o sistema da democracia representativa em que vivemos se mantenha, algo que está sob ameaça frente às investidas do bolsonarismo contra a constituição e o judiciário. O fato concreto é que as duas candidaturas já mostraram a que vieram.
O clã Bolsonaro, agora representado pelo filho primogênito de Jair, o atual senador Flávio Bolsonaro, arrasta em sua trilha uma montanha de ações contrárias ao combate à fome, além de tantas outras posturas adotadas para esmagar os direitos do povo. Enquanto as pessoas se amontoavam na fila do osso, a rede de amigos da família, ligada abertamente a milicianos, se refestelava com rachadinhas, lojas suspeitas de práticas ilegais, compras de casas com dinheiro vivo e festinhas em que garotas de programa e uísque importado eram feijão com arroz.
Já o governo Lula, embora engessado por uma composição de frente ampla, em que interesses conflituosos se digladiam, e por um Congresso Nacional que controla boa parte do orçamento, por meio das tais emendas parlamentares impositivas, tem em sua bagagem a inclusão de milhões de pessoas no grupo de quem toma café da manhã, almoça e janta todos os dias, entre muitas outras conquistas. Sabemos que ainda está longe de ser suficiente e temos feito críticas contundentes a muitas das medidas tomadas e, principalmente, à ausência de tantas outras que são necessárias. Mas é impossível não reconhecer a brutal diferença em relação ao seu oponente.
É por isso que não vamos ficar de braços cruzados, apenas assistindo a essa disputa acirrada entre os atuais candidatos à presidência, como se não houvesse uma diferença essencial entre ambos no que se refere à garantia da comida no prato. Vamos às ruas, vamos às redes e vamos às urnas.
O Banquetaço 2026 está na ativa, irradiando sua alegria criativa pelo país, e convidando as pessoas que acreditam que é possível conquistar uma sociedade em que todas, todos e todes tenham acesso a uma alimentação saudável, saborosa e integrada à cultura e à natureza a somarem suas energias nessa jornada.
Participe das atividades espalhadas pelos territórios, chame as pessoas amigas, divulgue em seus canais digitais e na vizinhança. Contribua com nosso Compartilhaço no dia 16 às 12 horas. É o momento de juntar as panelas, de juntar as vontades, de superar as desigualdades econômicas, de unir os sonhos relativos a uma forma de viver em harmonia com a Mãe Terra, e de mostrar que temos voz e vez — e jamais nos calaremos nem nos conformaremos com a injustiça, a exclusão e a exploração de seres viventes.
Traga sua caneca e seu esperançar para chacoalharmos este mês decisivo, em que a Soberania Alimentar é alvo de atenção e as urnas esperam pelos votos conscientes e responsáveis, que vão nutrir a nossa (ainda frágil, mas sempre sagrada) democracia.
Susana Prizendt
O mal não morre, apenas muda de lugar
Pude confirmar tudo isso na minha primeira visita a Israel, em 1989. Confesso que olhei para o nosso guia como um herói enquanto ele contava, com alguns pormenores, a sua participação na “reconquista” (palavra dele) de Jerusalém durante a Guerra dos Seis Dias.
Era, e é, uma obra notável a que se fez naquele pedaço de terra tão pequeno. Mais do que tudo, impressionava-me ver como um povo sistematicamente discriminado, humilhado e assassinado ao longo da História tinha conseguido unir-se, construir e defender a casa de onde saíra há tantos séculos. E logo a seguir a ter sofrido o maior genocídio a que uma gente foi sujeita: seis milhões de judeus exterminados por um país que era uma das luzes da civilização ocidental.
Pouco importava a ajuda que tivesse recebido. Nenhuma ajuda bastaria para reparar o que se fez aos judeus ao longo da História.
E tinham conseguido tudo isto sendo uma democracia. A única verdadeira democracia do Médio Oriente derrotava as mais vis ditaduras, que queriam destruí-la. Até nisso eu via a superioridade moral de Israel.
Já nessa altura não ignorava por completo o que estava a ser feito ao povo palestiniano. Mas a minha vontade de apoiar o povo judeu, tantas vezes massacrado, era tão grande que assobiava para o lado sempre que a realidade me entrava pelos olhos adentro.
Vi claramente visto que as cidades com mais árabes tinham piores condições do que as outras. Vi o desprezo com que os palestinianos eram tratados, mas para mim isso eram pormenores. Vítimas colaterais, talvez até gente que precisava de ser posta na ordem.
Não queria pensar na chave que um palestiniano trazia ao pescoço e que, dizia ele, era a da casa de onde a família fora expulsa entre 1947 e 1949, durante a Nakba. Foram mais de 700 mil os que viram as suas casas ocupadas ou destruídas e a quem a resolução da ONU de 1948 prometeu o regresso. Danos colaterais, pensaria eu, fazendo o que tantas vezes fazemos: não ver o que não queremos ver.
Ligo a televisão e vejo o embaixador de Israel a insultar os autores de NAZA. Abro o jornal e fico a saber que os Estados Unidos decidiram imitar o ISIS e as suas execuções públicas. Desliguei tudo logo a seguir
Voltei a ver aquelas chaves sempre que regressei. A última vez foi um mês antes do massacre de 7 de outubro, num campo de refugiados na Cisjordânia. Gente sem passaporte, que recebe água duas vezes por semana e vive em prédios onde se vão acrescentando andares que milagrosamente se aguentam de pé, porque os palestinianos não podem construir casas novas nestes enclaves. Prédios rodeados de muros com ameias de onde os soldados israelitas, de vez em quando, treinam tiro ao alvo nas rótulas de crianças.
Era a minha quinta estada em Israel. A admiração já se tinha transformado em revolta, e a tolerância numa raiva mal disfarçada. Fiz as peregrinações obrigatórias, porque ia com pessoas que nunca lá tinham estado, mas já me sentia um colaboracionista, figurante de uma farsa em que já não conseguia participar.
O mais importante, claro, é a forma como há décadas se desumanizam os palestinianos. São tratados como animais: tiram-lhes as casas, afastam-nos das suas terras, matam-lhes os filhos, tenta-se de facto aniquilar-lhes a vontade. E já não apenas a vontade. Agora há mesmo uma solução, digamos, total.
Não quero, porém, esquecer algo que continuamos a ouvir constantemente e que, como disse, também me embalava: Israel é uma democracia. E isso é assustador.
Se assim é, é todo um povo que decide democraticamente aniquilar outro. É todo um povo que vota para que isso aconteça, ou que acha que nos princípios da sua democracia cabe um projeto de assassínio em massa. Ou, no mínimo, um projeto de discriminação e violência dirigido a uma categoria de pessoas.
Uma coisa é um bando de ditadores que espezinha o próprio povo cometer barbaridades contra outros. Outra é haver pessoas a cumprir ordens democraticamente emanadas que decretam martírios.
Nós, que também vivemos em países muito democráticos, somos cúmplices. Assistimos aos nossos governantes a financiar aquela carnificina e a apoiar um genocídio. Recebemos os genocidas nos nossos países e nas nossas casas. Deixamos que os seus representantes vivam entre nós e frequentem as nossas televisões. Sentamo-nos com os seus apoiantes. Como escreve Omar El Akkad, “um dia sempre teremos sido contra isto”. Mas será tarde, demasiado tarde.
Há muito tempo que me custa escrever sobre Israel, a Palestina e tudo o que os envolve. Não é pela complexidade, nem por desconhecer as várias culpas. As razões, as causas e as consequências estão mais ou menos distantes no tempo, mas são identificáveis. As forças políticas e sociais, internas e externas, que alimentam os vários conflitos são quase transparentes. É outra coisa.
O documentário NAZA deu-me uma estranha força para falar disto, porque fez o que as obras de arte às vezes fazem: revelou-me o mundo. Muitas vezes, um mundo que não queremos mesmo ver.
Aquelas pessoas são iguais a todas as que fizeram o mesmo ao longo da História. Dizem friamente que ouvem o riso das crianças antes de as matar. Contam as centenas de inocentes que vão morrer e carregam no botão sem remorsos. Admitem que já mataram milhares. Vão beber um copo depois de mais uma matança. Comparam o que fazem a um jogo de computador. O mal não morre, apenas muda de lugar.
2. Abro uma rede social e aparece o Presidente dos Estados Unidos a insultar a Noruega porque o Nobel da Paz foi atribuído a uma antiga juíza do Tribunal Penal Internacional que se destacou na defesa dos direitos humanos, nomeadamente dos palestinianos. Ligo a televisão e vejo o embaixador de Israel a insultar os autores de NAZA. Abro o jornal e fico a saber que os Estados Unidos decidiram imitar o ISIS e as suas execuções públicas. Desliguei tudo logo a seguir, mas ainda a tempo de ver Putin a rir, feliz com o acordo com Trump. O mal mudou mesmo de lugar e está a ganhar. Dentro das nossas casas.
Nós, que também vivemos em países muito democráticos, somos cúmplices. Assistimos aos nossos governantes a financiar aquela carnificina e a apoiar um genocídio. Recebemos os genocidas nos nossos países e nas nossas casas.
Pedro Marques Lopes
O que se sabe sobre o envio de tropas dos EUA à América Latina
De acordo com o periódico, os primeiros integrantes de um batalhão de cerca de 600 militares da 10ª Divisão de Montanha do Exército americano – sediada em Fort Drum, Nova York – já começaram a ser deslocados para um novo centro de treinamento em selva no Panamá. Posteriormente, eles deverão participar de exercícios e treinamentos conjuntos com forças de segurança da Colômbia e de Honduras.
Oficialmente, o objetivo é fortalecer a cooperação militar com países da região no combate a organizações envolvidas no tráfico de drogas. Segundo autoridades ouvidas pelo jornal sob condição de anonimato, parte dos militares poderá dar apoio a forças especiais americanas que já assessoram operações conduzidas por exércitos locais contra grupos acusados de narcotráfico.
Segundo o general Francis L. Donovan, comandante militar responsável por grande parte da América Latina, os EUA pretendem ampliar suas ações para além das operações marítimas atualmente realizadas contra embarcações suspeitas de transportar drogas. O objetivo seria expandir as operações também para áreas terrestres.
A Casa Branca tem buscado construir uma coalizão regional contra os cartéis. De acordo com o jornal, 19 países participam da aliança liderada pelos EUA, denominada Escudo das Américas, embora apenas alguns tenham aceitado oficialmente a realização de operações conjuntas em seus territórios, entre eles Colômbia e Honduras.
Pete Hegseth havia afirmado, durante uma visita ao Panamá em agosto, que a Colômbia, a Guatemala e Honduras haviam concordado em permitir que os EUA realizassem operações militares conjuntas contra grupos criminosos em seus territórios, embora a Guatemala tenha negado a existência de tal acordo.
Temores na região
A perspectiva de uma presença militar americana mais robusta desperta preocupações em parte da América Latina. A região tem um longo histórico de intervenções dos EUA ao longo dos séculos 20 e 21, frequentemente vistas por governos e setores da sociedade como violações da soberania nacional.
Organizações de direitos humanos também manifestam preocupação com a possibilidade de aumento das vítimas civis. Especialistas citados pelo jornal afirmam que a eliminação de integrantes de grupos criminosos costuma ter impacto limitado sobre o fluxo de drogas, já que lideranças podem ser rapidamente substituídas.
Outra crítica recai sobre a eficácia da estratégia. O novo grupo de trabalho criado pelo Pentágono dá continuidade a uma campanha iniciada há cerca de um ano no Caribe e no Pacífico Oriental. Segundo o governo americano, essa campanha resultou em 71 ataques contra embarcações suspeitas de tráfico e a morte de 239 pessoas que – Washington afirma, sem apresentar evidências – estariam traficando drogas. Especialistas, porém, dizem que as operações tiveram pouco efeito sobre a disponibilidade de cocaína nos Estados Unidos.
A reportagem do New York Times informa que integrantes do próprio governo americano questionam a falta de uma definição clara dos objetivos da operação. Há receio de que eventuais ataques contra militares dos EUA levem a uma escalada do envolvimento americano na região, em um momento em que as Forças Armadas do país já enfrentam forte pressão devido a outros compromissos militares no exterior, como na guerra contra o Irã.
Por enquanto, o envio das tropas tem caráter temporário. No entanto, autoridades americanas ouvidas pelo jornal admitem que essas rotações podem se tornar um componente permanente da presença militar dos Estados Unidos na América Latina.
Deutsche Welle
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Veículos de jornalismo se unem pela democracia
O governo de Jair Bolsonaro apresentou sinais documentados de ataques à democracia: investidas contra a credibilidade das eleições, hostilidade à imprensa, uso político das Forças Armadas e tolerância a manifestações antidemocráticas, contestação da alternância de poder e confronto aberto com o Judiciário. O fato de as instituições terem resistido não significa que esses sinais não existiram e nem indica ausência de gravidade. Significa que os mecanismos de contenção funcionaram.
Não há nenhuma razão no horizonte para crer que seu filho teria uma relação melhor com o jornalismo e a democracia. O fato de não ser tão verborrágico e agressivo quanto o pai não faz com que seus atos se tornem menos graves. A promessa primordial de Flávio Bolsonaro é a libertação de Jair e a anulação do julgamento por tentativa de abolir o Estado democrático. Soma-se a isso a ameaça declarada de mudanças na Constituição.
Durante os quatro anos de bolsonarismo, o jornalismo conviveu com o horror da repressão. Agressões verbais promovidas quase diariamente pelo presidente da República contra os repórteres que cobrem o Planalto. Intimidações em todo o território nacional, decorrentes do clima de hostilidade que Bolsonaro promovia contra o exercício da profissão.
Os números ajudam a dimensionar essa escalada de violência. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), foram registrados 1.442 casos de violência contra jornalistas e ataques à imprensa entre 2019 e 2022, uma média anual mais de três vezes superior à observada entre 2010 e 2018. Somente em 2022, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) documentou 557 alertas de violações à liberdade de imprensa, dos quais 41,6% envolveram ao menos um integrante da família Bolsonaro.
Casos anuais de violência contra jornalistas e ataques à imprensa no Brasil registrados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) entre 2009 e 2024
Gráfico de linha que apresenta a evolução anual dos casos de violência contra jornalistas e ataques à imprensa no Brasil, entre 2009 e 2024, segundo a Fenaj. Os registros passaram de 135 em 2018 para 208 em 2019, 428 em 2020 e 430 em 2021, o maior valor da série apresentada. Em 2022, foram 376 casos. Após esse período, os números caíram para 181 em 2023 e 144 em 2024. O intervalo de 2019 a 2022, correspondente ao governo Jair Bolsonaro.
A mudança de cenário a partir de 2023 é igualmente reveladora: os registros da Abraji caíram para 330 naquele ano e 204 em 2025, enquanto o Brasil passou da 110ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, da Repórteres Sem Fronteiras, em 2022, para a 52ª em 2026.
A defesa do jornalismo, porém, vai além do interesse de uma categoria profissional: diz respeito ao direito de toda a população à informação e à própria qualidade da democracia. Esse direito depende de um ambiente de informação íntegro, onde informações confiáveis, verificáveis e plurais possam circular livremente. O jornalismo tem papel essencial na construção desse ambiente, ao investigar casos de corrupção, abusos de poder e violações de direitos, produzindo evidências que ajudam a sociedade a compreender a realidade, cobrar responsabilidades e dar visibilidade a populações frequentemente negligenciadas.
Por isso, ataques sistemáticos à imprensa não atingem apenas jornalistas e veículos de comunicação. Ao intimidar profissionais e desacreditar suas investigações, comprometem o acesso da população a informações de interesse público e enfraquecem a capacidade da sociedade de fiscalizar quem governa e exigir a responsabilização de quem viola a lei.
O que aconteceu durante o governo Jair Bolsonaro tem um longo histórico. Em 1999, ele declarou que, se fosse presidente, fecharia o Congresso Nacional e daria um golpe de Estado. Em 2016, homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador da ditadura militar.
Já na Presidência, participou, em 2020, de uma manifestação que defendia a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2022, reuniu embaixadores estrangeiros para lançar acusações sem provas contra o sistema eleitoral brasileiro, episódio que levou à sua inelegibilidade.
A escalada culminou em um plano de assassinato de autoridades – nomeadamente, Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes –, na tentativa de impedir a alternância de poder após a derrota nas urnas, pela qual Bolsonaro foi condenado pelo STF em 2025.
Esse histórico é indispensável para avaliar as propostas de Flávio Bolsonaro. O senador também tem manifestações próprias que merecem atenção. Em livro publicado em 2017, negou a existência do golpe militar de 1964 e elogiou Ustra. Em julho de 2026, repetiu diante de diplomatas estrangeiros informações falsas sobre a origem das urnas eletrônicas brasileiras.
Não é possível ignorar a trajetória de um grupo político que questionou a legitimidade das eleições, confrontou instituições responsáveis por fiscalizar o poder e agora pretende modificar algumas dessas mesmas instituições.
O risco não se resume a um novo golpe de Estado: está também na possibilidade de enfraquecimento progressivo dos mecanismos que impedem a concentração de poder e garantem a responsabilização de governantes.
A população depende de uma imprensa livre para fiscalizar o poder. E uma imprensa livre depende de instituições capazes de assegurar direitos, garantir acesso a informações públicas, proteger profissionais contra intimidações e responsabilizar quem tenta impedir seu trabalho.
A experiência do governo Bolsonaro mostrou como a hostilidade promovida pelo presidente pode repercutir sobre a liberdade de imprensa. Se os mecanismos de controle do poder também forem enfraquecidos, tornam-se mais frágeis as condições para que jornalistas investiguem e publiquem informações de interesse público com independência. É assim que ataques ao jornalismo, enfraquecimento institucional e erosão democrática podem se alimentar mutuamente, abrindo caminho para o avanço do autoritarismo.
Nesse sentido, este editorial é também um apelo a veículos de comunicação e jornalistas para que reflitam sobre sua responsabilidade neste momento histórico. Não se trata de defender governos, partidos ou tribunais, mas de reconhecer que a liberdade de imprensa, a independência das instituições e o direito da sociedade à informação são inseparáveis. Em nome de um futuro viável, o Brasil precisa preservar sua democracia, com todas as suas imperfeições, contradições e conquistas. Afinal, a história mostra que o autoritarismo pode chegar ao poder pelas urnas, mas seus efeitos sobre os direitos e as liberdades podem levar décadas para ser revertidos.
Milícias, Faria Lima e governos: a Zona Cinza
Para situar a milicianização brasileira às vésperas de 2027, o paralelo com a Itália do fim do século XX é útil, desde que preciso. A lição italiana não é a de um político que entregou o Estado à máfia, mas a de um sistema político em colapso que normalizou uma contiguidade já existente entre capital legal e capital violento.
O fio condutor desta leitura é a obra de Roberto Saviano. Em Gomorra, os camorristas não chamam sua organização de máfia, mas de Sistema: o crime não é exceção à ordem econômica, é um de seus modos de funcionamento. A lógica do empresário criminoso e o pensamento dos chefões, escreve Saviano, coincidem com o neoliberalismo mais radical.
Em Gomorra (2006), Saviano mostrou que a força da Camorra está menos na violência que na capacidade de convertê-la em capital imobiliário, industrial e de serviços: construção civil, confecção para grifes, descarte de resíduos tóxicos. Em ZeroZeroZero (2013), seguiu a mesma lógica na escala global da cocaína, e fez da ‘Ndrangheta calabresa protagonista.
A penetração das máfias meridionais no Norte não começou com Silvio Berlusconi. Remonta ao soggiorno obbligato, que a partir dos anos 1960 mandou mafiosos para o exílio forçado no Norte, aos sequestros dos anos 1970 e à lavagem de dinheiro na Milão dos anos 1980. A Operação Infinito (2010) encontraria dezenas de células da ‘Ndrangheta na Lombardia.
Berlusconi chegou ao poder em 1994 sobre os escombros do sistema partidário demolido pela Mani Pulite. Seu braço direito e cofundador da Forza Italia, Marcello Dell’Utri, foi condenado em definitivo pela Corte de Cassação, em 2014, a sete anos por concorso esterno em associação mafiosa — a participação de quem, sem ser membro, presta serviços à organização. A sentença o reconheceu como mediador entre Berlusconi e a Cosa Nostra de 1974 a 1992, período que inclui a contratação do mafioso Vittorio Mangano na mansão de Arcore, a residência do então primeiro-ministro nos arredores de Milão.
Os fatos posteriores a 1992 não foram considerados provados, e Berlusconi nunca foi condenado por crimes de máfia. O ponto é estrutural, não judicial: a desregulamentação, o ataque sistemático à magistratura e a retórica do empreendedor contra o Estado deram à contiguidade um ambiente em que ela pôde se normalizar.
A sociologia italiana chamou esse espaço de zona grigia, tomando a expressão de Primo Levi. Rocco Sciarrone a define como a área em que empresários, profissionais liberais, políticos e mafiosos trocam favores sem fronteiras nítidas. A máfia não invadiu o Norte; foi incorporada à economia formal pela construção, pelo setor imobiliário, pelos resíduos e pelas obras públicas.
A forma brasileira: a milícia como mercadoria política
Michel Misse chamou de “mercadorias políticas” os bens cuja troca combina recursos econômicos e poder de coerção. A milícia vende a própria capacidade coercitiva do Estado, privatizada por seus agentes e convertida em renda.
Ao contrário do tráfico de varejo, que opera à margem e em confronto com a polícia, a milícia nasce dentro do aparato repressivo: policiais, ex-militares, bombeiros, agentes penitenciários. José Cláudio Souza Alves, em Dos barões ao extermínio, e Bruno Paes Manso, em A República das Milícias, reconstituem a passagem do esquadrão da morte ao domínio territorial de negócios — a milícia como franquia de extrativismo urbano.
Roberto Saviano chega ao Rio em ZeroZeroZero. Ali as milícias surgem como autodefesa contra o tráfico e acabam como suas concorrentes na venda de proteção, sob a complacência de uma política que, enquanto pôde, as tratou como mal menor. A origem na autodefesa é a versão que as milícias contam de si mesmas; a pesquisa brasileira as situa dentro da polícia. O diagnóstico político, porém, coincide: o “mal menor” foi a forma pela qual o Estado as incorporou.
Sua base de acumulação é o confisco direto da renda da classe trabalhadora periférica: taxas de “proteção”, monopólio do gás de cozinha, controle da água, da TV a cabo e da internet, transporte alternativo e, sobretudo, grilagem e incorporação imobiliária. Na Muzema, zona oeste do Rio, onde dois prédios erguidos sob domínio miliciano desabaram em 2019 e mataram 24 pessoas, repete-se o que Saviano descreveu na Campânia: o cimento liga a violência ao capital fixo.
A atualização de 2025 do Mapa Histórico dos Grupos Armados (GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado) mostra que, em 2024, 34,9% dos moradores da Grande Rio — perto de 4 milhões de pessoas — viviam sob domínio ou influência armada. O domínio tem cor e classe: na capital, a renda per capita nessas áreas é de R$ 1.267, pouco mais de um terço dos R$ 3.521 das áreas livres; na metrópole, pretos, pardos e indígenas são 69,1% dos moradores sob controle miliciano, ante 55,2% no restante.
Nenhum grupo cobre mais chão que as milícias: 49,4% da área sob domínio armado, cerca de 201 km², mais de quatro vezes o que controlavam em 2007. O método é chegar antes — ao loteamento sem título, ao bairro sem asfalto, à franja onde a cidade cresce — e cobrar pedágio sobre tudo o que a urbanização traz. É a expansão urbana convertida em renda armada.
A fronteira entre milícia e tráfico, nítida no discurso, é porosa na prática. Desde o fim dos anos 2010, investigações documentam “narcomilícias” que vendem drogas e se aliam a facções como o Terceiro Comando Puro. A lógica é a do negócio, não a da identidade.
Se o crime territorial é estrutura, sua expansão não pertence a um único governo. As milícias cariocas cresceram sob governos estaduais de várias colorações, inclusive o de Sérgio Cabral, aliado do governo federal petista — o mesmo período em que a CPI das Milícias da Alerj, em 2008, indiciou mais de duzentas pessoas sem desmontar o negócio.
O maior surto de crescimento registrado pelo Mapa, de 31,6% na área dominada, ocorre entre 2016 e 2020: o estado do Rio quebra, as UPPs são desmontadas e a intervenção federal de 2018 assiste ao avanço sem detê-lo.
A partir de 2020, a curva miliciana se inverte. A Operação Intocáveis, do Ministério Público, a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, e as brigas pela sucessão deixaram territórios desguarnecidos, que o Comando Vermelho ocupou: hoje ele domina 47,2% da população sob controle armado. Um poder que depende de redes com o Estado cresce depressa e se quebra quando elas são cortadas.
O ciclo bolsonarista no governo federal (2019–2022) acrescentou aceleração e legitimação. A flexibilização das armas multiplicou os registros de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs), até ser revertida pelo Decreto 11.615/2023. O enfraquecimento da fiscalização ambiental e fundiária abriu espaço à violência privada nas fronteiras agrícolas. E o discurso da autodefesa armada deu cobertura moral à coerção paraestatal.
O decreto conteve novas compras; o arsenal acumulado ficou.
Os casos reunidos pelo Instituto Sou da Paz aparecem em 19 unidades da federação, com São Paulo, Espírito Santo e Rio Grande do Sul na frente, e atendem a clientelas variadas: PCC e CV, milícias urbanas e rurais, grupos de extermínio, grileiros. No caso-limite, um casal esgotou a cota de CAC comprando 26 fuzis idênticos para o Comando Vermelho.
Ao igualar atiradores novatos e veteranos e ampliar as cotas, as regras de 2019 a 2022 abriram caminho ao que o crime mais procura: fuzis e pistolas 9 mm.
A proximidade entre esse campo político e o mundo miliciano tem registro público. Como deputado estadual, Flávio Bolsonaro homenageou na Alerj o policial Adriano da Nóbrega, depois apontado como chefe do Escritório do Crime, e empregou em seu gabinete a mãe e a ex-mulher dele. As investigações sobre o gabinete foram anuladas pelos tribunais superiores por razões processuais, sem julgamento de mérito.
Fora do Rio, a expansão do modelo é desigual. Belém é o caso mais documentado, com chacinas atribuídas a grupos de extermínio e uma CPI das Milícias na Assembleia do Pará em 2015. Em outras regiões avançam a hegemonia de facções e a letalidade policial, fenômenos aparentados, mas distintos.
Do território à Faria Lima
Se a milícia é o equivalente brasileiro do controle territorial mafioso, o equivalente da ‘Ndrangheta em Milão é o Primeiro Comando da Capital. A Operação Carbono Oculto, lançada em agosto de 2025 pela Receita, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público paulista, mostrou o dinheiro da facção circulando por importadoras, distribuidoras e postos de combustível até desaguar em gestoras e fintechs no centro financeiro de São Paulo.
O balanço da Transparência Internacional – Brasil dá a escala: mais de 350 investigados, mais de quatro dezenas de fundos sob suspeita, um patrimônio que ia de usinas de etanol e um terminal portuário a imóveis e caminhões. No dia em que os alvos vieram a público, a Reag Investimentos perdeu mais de 15% em bolsa.
O Estado respondeu na linguagem da regulação, não da polícia: a Instrução Normativa nº 2.278/2025 da Receita estendeu às fintechs os deveres de informação dos bancos, e o Congresso aprovou o projeto do devedor contumaz, contra empresas que fazem da sonegação um método.
É a zona cinzenta em sua forma acabada. O dinheiro do varejo de drogas e do contrabando entra em postos, distribuidoras e veículos financeiros legais, operados por profissionais que não portam armas. A fronteira deixa de ser geográfica, entre a favela e o asfalto, e passa a ser contábil.
Saviano descreveu esse movimento em ZeroZeroZero. Nenhum papel cotado em bolsa, escreve, gera o lucro da cocaína, “o último bem que permite a acumulação originária de capitais”. E esse dinheiro encontra os bancos quando eles mais precisam: o livro lembra que, em dezembro de 2009, Antonio Maria Costa, então responsável pelo escritório da ONU sobre drogas e crime, declarou que os ganhos das organizações criminosas tinham sido, para alguns bancos, o único capital de investimento líquido disponível para escapar da falência. A Faria Lima é a versão brasileira dessa regra.
A zona cinzenta levanta uma pergunta que a crítica moralista não formula: até onde o capital legal convive com a acumulação ilegal? A tolerância não é moral, mas condicional. Depende de quem paga os custos e de se o capital ilegal complementa ou concorre com o legal.
Quando o complementa, a tolerância é alta. O capital ilegal oferece liquidez, demanda para a construção e o mercado imobiliário, disciplina sobre a força de trabalho e “limpeza” de terras. Na Lombardia, a crise de crédito pós-2008 tornou o dinheiro da ‘Ndrangheta atraente para pequenas e médias empresas sem acesso a bancos. O custo recai sobre os trabalhadores das periferias, não sobre o capital.
Quando o tributa ou concorre com ele, a tolerância cai: a extorsão atinge empresas, o roubo de cargas encarece a logística, concessionárias de energia e telecomunicações perdem áreas inteiras para o “gatonet” e as ligações clandestinas, postos ligados a facções derrubam preços sonegando impostos. Aí as empresas legais passam a cobrar o Estado.
A Carbono Oculto marcou esse ponto de virada. Numa sondagem da Transparência Internacional – Brasil com o Datafolha, em dezembro de 2025, empresas apontaram o crime organizado como ameaça crescente, mas só 57% disseram confiar que seus parceiros comerciais têm controles específicos contra ele.
A Itália conheceu os dois lados desse limite. Por décadas, o pizzo foi custo operacional. Em 2007, a Confindustria siciliana passou a expulsar associados que pagassem extorsão, na esteira do Addiopizzo, criado por jovens de Palermo em 2004: a máfia passara a custar mais do que rendia ao empresariado.
Uma coalizão antimáfia pode nascer do próprio capital, mas é seletiva: combate o crime que ameaça a concorrência e os lucros e tolera o que se limita a extrair renda dos pobres. O confisco miliciano da renda popular é justamente a acumulação ilegal que menos incomoda o capital formal.
A integração do crime territorial ao poder não se apresenta como caos, mas como reorganização do Estado: confisco da renda popular legalizado na prática, acumulação ilegal blindada pela política. Ela já se converteu em mandatos — a CPI das Milícias de 2008 tinha entre seus alvos um deputado estadual e um vereador. Na Itália, as marcas desta integração foram a pressão contra a magistratura, as anistias fiscais e a desregulamentação das obras públicas; no Brasil, são o controle sobre as polícias, o desmonte da fiscalização financeira e territorial e a política de armas.
A eleição não decide o fenômeno; apenas o encontra. Quem tomar posse em 2027 governará sobre milícias consolidadas, facções financeirizadas e polícias com baixo controle civil. O que se disputa nas urnas não é a existência da zona cinzenta, mas o grau em que ela se traduz em governo.
O que a punição não alcança
A Mani Pulite, “Operação Mãos Limpas” italiana, prometeu purificar a política e abriu o vácuo ocupado por Berlusconi. A Lava Jato percorreu trajetória semelhante: desorganizou o sistema partidário, relativizou garantias processuais e preparou o terreno para a extrema-direita de 2018.
O punitivismo territorial tampouco toca a estrutura. Operações de alta letalidade, como a Operação Contenção, na Penha e no Alemão em outubro de 2025, com 121 mortos segundo o próprio governo estadual, matam operadores substituíveis e deixam intactos o fluxo de renda e os circuitos financeiros. Segundo o Mapa, o Comando Vermelho cresceu quase sem interrupção ao longo de duas décadas de megaoperações — e os grupos já não ocupam áreas vazias, tomam territórios uns dos outros, numa disputa feita à bala onde mais gente mora.
A experiência italiana mostra o limite da própria resposta penal. O combate às máfias foi, em parte, duramente penal: o maxiprocesso de Palermo, o regime carcerário 41-bis, a tipificação do método mafioso. E foi enquanto a Cosa Nostra era desmontada nos tribunais que a ‘Ndrangheta se tornou a mais poderosa das máfias italianas. O direito penal alcança o mafioso; a acumulação se desloca para onde a lei não olha e sobrevive a ele.
O que a milícia é
Quando passou a confiscar o patrimônio mafioso, com a Lei Rognoni-La Torre, de 1982, o Estado italiano descobriu que o poder da máfia era, antes de tudo, propriedade: fazendas, imóveis, empresas, contratos. A violência era o meio; o patrimônio, a substância.
O mesmo vale para a milícia. Ela não é a ausência do Estado nas periferias, mas uma de suas formas de presença: coerção pública, exercida por agentes públicos, convertida em renda privada. O chamado “poder paralelo” não corre em paralelo a nada; está cravado no orçamento doméstico do trabalhador, do qual retira uma parcela fixa todo mês.
Daí que parte dos moradores de áreas milicianas descreva a milícia como ordem preferível à do tráfico. Não é engano. A milícia vende previsibilidade num mercado em que o Estado é apenas mais um ofertante armado, e nem sempre o mais confiável. A preferência reconhece que, ali, a proteção é mercadoria.
Milícia e facção financeirizada são os dois polos de um mesmo circuito. Num extremo, a renda é extraída no varejo da vida cotidiana; no outro, reaparece como cota de fundo, ação de gestora, usina de etanol. A zona cinzenta não é a fronteira entre os dois, mas o espaço em que a acumulação se realiza.
No capítulo de Gomorra dedicado ao cimento, Saviano vai a Casarsa, ao túmulo de Pier Paolo Pasolini, e retoma o célebre “eu sei” com que Pasolini, em 1974, acusou os responsáveis pelos massacres que ensanguentaram a Itália, num texto que admitia não ter provas. Saviano articula o “eu sei” de seu tempo e o completa: eu sei e tenho as provas. As dele eram as do testemunho, o que os olhos viram nos canteiros de obra. No Brasil, as provas são também públicas: estão nos mapas, painéis, inquéritos e sentenças citados neste texto.
A zona cinzenta não é o que o Brasil pode vir a ser. É o que o Brasil já é: um país em que voto, território e vida cotidiana se organizam, em parte crescente, segundo a franquia do crime com carimbo oficial.
TSE se junta ao STF no foco da desconfiança na Justiça
Ressalve-se, de início, que isso se deve em boa medida à necessidade de lidar com o mundo novo das ferramentas tecnológicas e do uso malandro que as campanhas fazem delas com o abuso de notícias falsas para desacreditar o adversário.
Os atores políticos —estes, sim, as vedetes do show— mentem que nem sentem. Mandam às favas a responsabilidade moral, inundam o Tribunal Superior Eleitoral com ações e os juízes que se virem para tentar lidar com os prejuízos; não raro mais fortes que os desmentidos.
A dinâmica da desfaçatez geral, contudo, não autoriza os magistrados a embarcarem nessa canoa. Ao contrário, caberia a eles se preservar como árbitros, a fim de proporcionar ao eleitorado a visão nítida da separação entre o certo e o errado de acordo com a lei.
Quanto mais as campanhas enveredam pelo terreno do vale-tudo, maior precisaria ser o cuidado dos magistrados em não permitir o contágio das preferências políticas. É evidente a intenção dos times oponentes de tirar proveito da divisão que se estabeleceu nos tribunais.
O combate à desinformação e o resguardo da civilidade e do equilíbrio de forças na eleição requerem unidade das instâncias judiciais superiores, que, no entanto, têm dado margem à interpretação de que se encontram irremediavelmente partidarizadas.
O Supremo Tribunal Federal deu a letra dessa toada, exibindo-se politicamente engajado numa cisão que invadiu o TSE na reta final do primeiro e no decorrer do segundo turno.
Se aos políticos não ocorre maneira melhor de disputar posições que não a de se escorar nos recursos à Justiça, a esta caberia não se deixar instrumentalizar, não invadir a competência da corte vizinha nem permitir a erosão de confiança nas instâncias garantidoras da legalidade.
Para quem Flávio está mentindo?
Flávio Bolsonaro promete ao mercado financeiro um ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões nos primeiros 18 meses de governo. Aos eleitores, garante que não cortará benefícios sociais, não mexerá nas aposentadorias nem reduzirá recursos para saúde e educação. Ontem, foi além: anunciou voto favorável ao fim da escala 6x1 e prometeu que o governo compensará os empresários pelos custos da medida.
É difícil que todas essas promessas sejam cumpridas. Ou ele vende ao mercado um ajuste que não pretende fazer, ou esconde dos eleitores os sacrifícios que pretende impor. Nenhuma das hipóteses é tranquilizadora, e ambas podem ser traduzidas como estelionato eleitoral.
A equipe econômica de Flávio chegou a estudar um ajuste de 2% do PIB, equivalente a R$ 250 bilhões, com mudanças nas regras de correção da Previdência e nos pisos constitucionais de saúde e educação. A campanha negou que essas propostas integrem seu programa. Ficou a promessa de um “tesouraço” de 1,5% do PIB, sem explicação convincente sobre onde a tesoura cortará.
Flávio garante manutenção do Bolsa Família, do Minha Casa, Minha Vida, para o qual promete até prestações menores, e dos demais programas sociais. Rejeita a desvinculação das aposentadorias do salário mínimo, para o qual diz que continuará concedendo reajustes acima da inflação. Promete também reduzir impostos, diminuindo a arrecadação. Agora, quer que o governo banque parte da conta da redução da jornada de trabalho.
Tudo isso enquanto promete enxugar drasticamente as despesas públicas. Só que 92% do Orçamento federal já está comprometido com gastos obrigatórios. Não há como produzir uma economia dessa magnitude apenas cortando ministérios, cargos comissionados e penduricalhos, combatendo fraudes ou vendendo imóveis da União. São medidas defensáveis, algumas necessárias, mas cuja contribuição para a meta anunciada nem sequer foi quantificada. Privatizações geram receitas pontuais, não redução permanente das despesas. O governo de seu pai prometeu muitas, entregou poucas.
A pergunta que se impõe é se parte do mercado financeiro não tem sido deliberadamente cínica ao aceitar essa grave ambiguidade. Será que investidores e economistas acreditam que Flávio cumprirá as promessas feitas a eles e romperá as assumidas com os mais pobres e, por isso, está tudo bem? Uma mentira precificada, para ficar no jargão compreensível ao meio — desde que os enganados sejam os outros, bem entendido.
Lula tem, ao longo dos anos, explicitado o compromisso com uma agenda social clara e uma meta fiscal fluida, insuficiente. Tem responsabilidade pelo agravamento da situação das contas públicas, resiste a cortar despesas obrigatórias e não apresentou proposta clara para reduzir ou ao menos estabilizar a dívida pública, que chegou a níveis impraticáveis. Sua frouxidão fiscal é criticada com razão.
Mas ele nunca escondeu que a preservação dos programas sociais e a valorização do salário mínimo são prioridades de seu projeto político. Pode-se discordar das escolhas, podem-se questionar seus custos e pode-se exigir que ele diga como pretende financiá-las, mas não se pode alegar surpresa. Diante disso, vê-se que o setor financeiro e também o produtivo concedem a Flávio um crédito de confiança que negam ao petista, por mera afinidade ideológica.
Há uma diferença entre confiar na capacidade de um candidato para executar um programa conhecido e torcer para que ele pratique o contrário do que promete caso eleito. A segunda hipótese implica aceitar que o eleitor é enganado deliberadamente.
Se o mercado acredita que a agenda econômica verdadeira é a que circula reservadamente entre seus interlocutores privilegiados, deveria exigir que fosse explicitada. Afinal, o compromisso com a responsabilidade fiscal não deveria dispensar a obrigação com a transparência na campanha, até para que os penalizados possam fazer uma escolha informada.
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Uma leitura filosofante das eleições
Estão se fazendo as mais variadas análises das eleições brasileiras com a ascensão surpreendente da extrema direita, geralmente com categorias de uma sociologia integral. Elas são necessárias. Entretanto a gravidade da crise brasileira que é também planetária é de tal envergadura que nos faltam categorias adequadas para entendê-la. Estimo que precisamos de uma ótica filosofante, pois se trata de ir às raízes para encontrar alguma luz esperançadora.
Parto da percepção generalizada de que o mundo assim como está não pode continuar. Há demasiadas e graves ameaças ao futuro da vida. A continuar, advertia Zygmunt Bauman “vamos engrossar o cortejo dos que estão rumando na direção da vala comum”.
Já antes em 1930 escreveu Freud em O mal estar da cultura concluindo, na última página, com esta frase sombria: “Agora os homens avançaram tanto no domínio das forças da natureza que com sua ajuda será fácil exterminar uns aos outro até o último indivíduo”. Atualmente com o arsenal destrutivo existente, acrescido pela Inteligência artificial autônoma, pode se tornar uma realidade. Há, pois, um mal-estar coletivo no mundo que encontra na ascensão trepidante do fascismo e da extrema direita no Brasil, especialmente nos EUA e alhures, sua inegável comprovação.
De minha parte, diria, como hipótese, que esta atmosfera inimiga da vida e da convivência fraterna entre os humanos e com a natureza, deriva de uma radical decepção que degenerou numa profunda depressão.
A decepção residiria no fracasso de todas as promessas feitas pelas grandes narrativas nos últimos séculos: o iluminismo, o capitalismo, o socialismo, as democracias, as tecno-ciências da comunicação (internet, twitter, facebook etc.) e a Inteligência artificial. As promessas não foram cumpridas.
A decepção generalizada redundou numa grande depressão coletiva: uma onda terrível de ódio, de raiva, de fake news e de violência estão cobrindo o planeta e o Brasil. A depressão nos rouba a alegria de viver.
Crises sempre houve e haverá em todas as culturas. A nossa é singular, por ser planetária. Haverá alguma luz na imensa obra de 12 tomos do historiador inglês Arnold Toynbee, A Study of History? Nela ele mostra como as culturas surgem, se desenvolvem, chegam a seu ápice e morrem substituídas por outras.
Maneja duas categorias básicas: desafio (challange) e resposta (response). Quando o desafio é de pouca monta a civilização responde a ela e florece. Quando o desafio é maior que sua capacidade de resposta, a civilização entra em crise, pode prolongar sua agonia, mas, no fim desaparece. Essa é uma exposição simplificada de uma obra complexa e extremamente erudita.
Talvez seu limite consista em não ter considerado a luta de classes que, queiramos ou não, sempre ocorre em sociedades complexas. Agora estamos sob a regência da incapacidade de resposta, pois o desafio ultrapassa esta nossa capacidade. Irrompe, então, a depressão.
Há alguma saída para esta enroscada? Ou chegou a nossa vez de encerrarmos o nosso ciclo dentro da cosmogênese e vamos desparecer? É notório que todos os seres, depois de terem vivido por milhões de anos sobre este planeta, chegaram ao seu clímax e desapareceram. Também nós teríamos o mesmo destino? Deixo a questão em aberto pois não nos parece improvável nem impossível, pois já nos demos os meios de nos autodestruir.
Meu sentimento do mundo me diz que quando desfalecem as utopias – mesmo as mínimas, de melhoria dentro do sistema imperante – só nos resta voltarmo-nos sobre nós mesmos. Somos uma fonte inesgotável de virtualidades e de uma capacidade ilimitada de relações e de criatividade. Apesar de sermos contraditórios, feitos de luz e de sombras (C. G. Jung), sapientes e dementes (Edgar Morin), (eros:vida) e (thánatos:morte, Freud) podemos potenciar de tal forma nossa positividade, capaz de definir um novo rumo e uma nova esperança.
Nesse sentido é inspiradora a teoria do caos, formulada pelo russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003), prêmio Nobel de Química em 1977 (Order out of Chaos,1948) e de Lorenz/Gleick. O universo se originou de um fantástico caos inicial (Big Bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos originário, criando ordens cada vez mais altas e complexas até irromperem no ser humano com inteligência, sentimento, amor e cuidado.
A natureza do caos é de ser destrutivo e generativo. Ele destrói uma ordem vigente que esgotou suas virtualidades, mas guarda dentro de si seminalmente uma nova ordem. Concluído o processo de destruição, irrompe a nova ordem. Ela inaugura uma outra história até que ela mesma se extenuar e mostrar-se caótica/destrutiva. Mas guarda dentro de si o novo a irromper.
Na atual fase histórica global estamos sob a energia destrutiva do caos, mas dentro dele está germinando uma nova ordem, um novo mundo, que cremos será amigo da vida, da irmandade universal também com os seres na natureza, justo e terno que permitirá melhor conviver e amar. Superaremos o caos destrutivo bolsonarista-fascista, expresso pelo resultado do primeiro turno, pelo caos generativo de Luiz Inácio Lula da Silva que, esperamos, triunfará para levar avante o projeto de inclusão dos pobres.
Então, não desesperemos. Esta leitura que se propõe filosofante, pode nos infundir um renovado esperançar.
A lição de Fernando Henrique que Flávio Bolsonaro escolheu ignorar
No dia 14 de novembro de 1985, véspera da votação, o senador participava de um ensaio fotográfico para a revista Veja. Induzido pelos fotógrafos e confiante no resultado, ele aceitou posar no Palácio Anhangabaú (antiga sede da prefeitura), sentado na cadeira do então prefeito Mário Covas. A foto foi publicada naquela semana e interpretada pelos eleitores como um ato de soberba e salto alto.
Contrariando as pesquisas, Jânio venceu a disputa com 37,5% dos votos, enquanto Fernando Henrique ficou com 34,1%. Na época, a eleição era decidida em turno único. No dia 1º de janeiro de 1986, ao assumir o cargo, Jânio imortalizou a gafe: convocou a imprensa, sacou um tubo de inseticida e borrifou a cadeira, declarando que “nádegas indevidas” haviam se sentado ali antes da hora.
Embora o episódio da cadeira tenha ficado marcado no imaginário popular, o próprio Fernando Henrique aponta que outro fator pesado na reta final foi uma entrevista dada ao jornalista Boris Casoy. Questionado se acreditava em Deus, o senador hesitou e preferiu não responder. A hesitação foi amplamente explorada por Jânio, que panfletou a cidade chamando o rival de “ateu e maconheiro”.
Na maioria das ocasiões, pelo menos na política, usar salto alto pode ser mortal. É exatamente assim que se comporta Flávio Bolsonaro a 11 dias do segundo turno. No primeiro turno, ele venceu Lula com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. A nova pesquisa da Quaest, a ser divulgada hoje, mostrará se sua vantagem aumentou, diminuiu ou permanece a mesma. Amanhã, o Datafolha divulgará a sua.
Convencido de que está praticamente eleito, Flávio diminuiu o ritmo de sua campanha para se dedicar à negociação com partidos visando à montagem de seu eventual governo. Entregou as ruas a Lula e ao PT. E não parece se preocupar ao vê-las ocupadas por multidões vestidas de vermelho, que gritam com um entusiasmo crescente: “votem no 13”. Acredita piamente que uma virada será impossível.
Conta para isso com o apoio dos ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça, respectivamente presidente e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ambos devem sua nomeação a Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, e atuam de forma alinhada aos interesses da candidatura do filho do ex-presidente, enquanto defendem o impeachment do ministro Alexandre de Moraes.
A confiança de Flávio em seu taco é tamanha que ele já anunciou que não comparecerá ao debate com Lula na Rede Bandeirantes de Televisão, marcado para o próximo domingo. Quanto ao último debate, na quinta-feira, promovido pela Rede Globo, ele ainda não garantiu presença. Se de fato faltar a ambos, os púlpitos com seu nome ficarão vazios, e Lula será entrevistado sozinho.
Talvez Flávio ignore que a soberba é um dos sete pecados capitais. Inclusive, dentro da tradição teológica cristã (formalizada por São Tomás de Aquino e pelo Papa Gregório I), ela não é apenas mais um pecado, mas sim considerada a raiz e o princípio de todas as outras falhas humanas.
A mensagem do Brasil para a democracia na América Latina
"Este país não pode perder sua democracia", alertou o presidente de esquerda e candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva , de 80 anos. Centenas de milhares de apoiadores se uniram a ele no último fim de semana nas ruas de São Paulo, onde ele conclamou a mobilização dos mais de 30 milhões de brasileiros que não votaram no primeiro turno.
Independentemente de quem vencer, "o comportamento do perdedor e de seu círculo próximo será um teste crucial da resiliência institucional e da qualidade democrática do Brasil", disse à DW a analista argentina Carolina Zaccato, professora de Relações Internacionais da IE University, em Madri. A aceitação do resultado "terá um efeito demonstrativo em uma região onde diversas democracias enfrentam tensões e alta polarização".
As "forças Bolsonaro" saíram fortalecidas das eleições legislativas e locais. Elas detêm o maior bloco tanto no Congresso quanto no Senado, afirmou Elayne Whyte, ex-vice-ministra das Relações Exteriores e ex-embaixadora da Costa Rica na ONU, à DW. Se consolidarem a vitória nas eleições presidenciais, terão "um governo capaz de levar adiante sua agenda sem supervisão política". Essa supervisão teria que ser judicial e jurisdicional, como ocorreu com o governo Trump nos EUA.
E devemos "observar a relação de Flávio Bolsonaro com o Supremo Tribunal Federal e a real autonomia que o Judiciário terá, em particular, no que diz respeito ao destino judicial de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão pela conspiração golpista ", acrescenta Zaccato.
Não se trata de esquerda ou extrema-direita, mas sim de multilateralismo ou antissistema.
Uma vitória de Bolsonaro no Brasil — a maior economia da região e o país mais populoso e extenso — "consolidaria uma guinada regional à direita que já é evidente", observa o especialista argentino em relações internacionais. Diante de um forte voto de protesto contra os governos atuais, da insegurança, da estagnação econômica e da erosão dos partidos tradicionais, apenas México, Guatemala e Uruguai manteriam governos de esquerda democraticamente eleitos (além dos regimes na Venezuela, Cuba e Nicarágua).
No entanto, a projeção internacional dessas forças emergentes não seria definida por seu "signo ideológico", mas por sua "abordagem antissistema", oposta à ordem democrática constitucional , explica Whyte, atualmente professora da Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS) da Universidade Johns Hopkins. "Elas buscam exercer o poder com menos controles políticos, constitucionais e institucionais; com fronteiras mais tênues entre assuntos pessoais e públicos", explica ela.
Em jogo, portanto, no pior cenário possível, estaria a ameaça de o país se retirar do Tribunal Penal Internacional (TPI) , como levantou o presidente Abelardo de la Espriella na Colômbia. Ou sua subordinação às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), da qual os Estados Unidos estão se retirando com suas guerras comerciais, mas que ainda regem mais de 70% do comércio mundial, explica Whyte.
Um retorno de Lula, por outro lado, deixaria um governo politicamente mais limitado, dependente de alianças no Congresso. Mas com "uma grande valorização da ordem multilateral, da soberania e da defesa da democracia", bem como uma visão do Brasil como "uma ponte entre o Sul Global e o Ocidente", resume à DW o especialista brasileiro em economia política e desenvolvimento Samuel Siewers, pesquisador do Instituto GIGA de Estudos Latino-Americanos em Hamburgo.
Outra questão em jogo nesta eleição é a "autonomia estratégica" do Brasil em uma região caracterizada por um "alinhamento assimétrico" com os EUA em segurança, comércio e relações com potências extrarregionais como a China, observa o ex-diplomata Whyte.
"Um Brasil sob Bolsonaro seria um acréscimo significativo ao Escudo das Américas e praticamente consolidaria o domínio dos EUA sobre o hemisfério", prevê Siewers. Assim, o governo brasileiro priorizaria o diálogo com aliados regionais como Javier Milei, na Argentina, e Nayib Bukele, em El Salvador, "sob a direção de Washington", opina ele.
Para Zaccato, é "altamente provável" que uma eleição de Bolsonaro reduza o ímpeto de espaços como a CELAC, ou a dimensão política do Mercosul, ao mesmo tempo que diminua as tensões comerciais com os EUA, buscando avançar uma agenda de exploração e comercialização de minerais críticos e acelerando uma agenda de segurança compartilhada com o governo Trump.
Isso deixaria a região como um bloco mais homogêneo centrado nas prioridades dos EUA, com migração, narcotráfico e competição com a China em seu cerne. Ao mesmo tempo, "a região caminharia para uma maior fragmentação, com alinhamentos bilaterais prevalecendo sobre a coordenação coletiva", prevê a analista argentina. No entanto, ela observa que o Brasil possui interesses estruturais, como seu comércio com a China — também fundamental para grande parte da América Latina —, sua influência no Mercosul e sua tradição de diplomacia independente, que "moderam qualquer mudança abrupta".
Um possível governo Lula — que defende a integração regional e a cooperação Sul-Sul, e que atribuiu especial importância ao acordo Mercosul-UE — manteria uma relação mais conflituosa, embora "pragmática", com os EUA, segundo especialistas.
No entanto, a curto prazo, independentemente de quem vencer no Brasil, uma variável adicional deve ser monitorada, alertam também: as eleições de meio de mandato de 3 de novembro nos Estados Unidos. "O resultado delas pode alterar drasticamente a margem de manobra e ação de Donald Trump e, com isso, a intensidade de sua política em relação à América Latina", prevê Zaccato. Se os democratas retomarem o controle do Capitólio, acrescenta Whyte, os diplomatas latino-americanos podem até ter que negociar em duas frentes.
















