segunda-feira, 30 de março de 2026
Brasil passou à frente dos EUA em ranking global de democracia,
A democracia americana está doente. O check-up feito pelo V-Dem apontou disfunção no sistema judicial, falência múltipla de liberdades civis e hipertrofia da Presidência da República, sintomas causados por um vírus chamado Donald Trump.
O instituto rebaixou os Estados Unidos à categoria de democracia eleitoral, uma espécie de segunda divisão dos regimes de liberdade. Na pontuação final, ficou atrás de países como Coreia do Sul, Japão, Portugal e Brasil.
Rankings de democracia como o V-Dem, o mais utilizado em pesquisas acadêmicas na área de ciência política, há muito tempo saltaram o muro das universidades e entraram na corrente sanguínea do debate público. Nas redes sociais brasileiras, nossa colocação à frente dos EUA gerou um questionamento: como podemos ter uma boa pontuação se estamos mergulhados em uma crise institucional, em que um escândalo financeiro abala a credibilidade do Judiciário e joga os Poderes uns contra os outros?
Para responder a essa pergunta, é necessário entender como funcionam os rankings de democracia, para que servem e como, ao longo dos anos, vêm mostrando que nada tem mais peso para a deterioração dos regimes de liberdade que a existência de um líder com tendências autoritárias.
Donald Trump motivou um capítulo à parte no relatório do V-Dem, da mesma maneira que, em edições anteriores, mereceram destaque o húngaro Viktor Orbán, o indiano Narendra Modi, o polonês Jaroslaw Kaczynski e Jair Bolsonaro.
As eleições constituem o momento central nos regimes de liberdade. Desde pelo menos os anos 1950, no entanto, os cientistas políticos entendem que as democracias são processos contínuos. Entre um pleito e outro, partidos políticos negociam, Legislativos fiscalizam Executivos, ONGs e o poder econômico fazem seus lobbies, a sociedade civil se mobiliza, a academia e a imprensa municiam o debate público —e quanto mais esses atores exercem seus papéis e interagem, mesmo com alto grau de fricção, maior é a qualidade da democracia.
A essa vibração cívica algo caótica, o cientista político Robert Dahl (1915-2014) deu o nome de poliarquia. Resumindo em uma frase uma ideia complexa, poliarquia seria a tradução para o mundo real do conceito original de democracia, um regime em que, em tese, todos teriam o mesmo peso e a mesma influência nas decisões coletivas, um ideal por definição inatingível.
A partir desse insight, Larry Diamond e Leonardo Morlino sistematizaram, na virada do século 21, a ideia de que os regimes de liberdade se aproximariam desse ideal à medida que obedeciam a vários pré-requisitos, indo muito além das eleições livres e justas. Estava dado o alicerce teórico para os rankings de democracia.
O V-Dem reúne dados sobre diversos desses aspectos definidos pelos teóricos da política. Em uma democracia, deve prevalecer a vontade da maioria —a dimensão eleitoral— ao mesmo tempo que são garantidos os direitos de todos —a dimensão liberal.
A alta participação política deve ser valorizada, assim como a capacidade de os cidadãos efetivamente interferirem nos resultados das políticas públicas —os aspectos participativo e deliberativo. Por último, a assimetria de poder e de recursos entre os cidadãos conspira contra o ideal democrático, o que faz o V-Dem valorizar uma quinta dimensão, chamada de igualitária.
O instituto hospedado na cidade sueca de Gotemburgo tabula notas de 4.000 especialistas espalhados pelo mundo. Há sempre, como é óbvio, algo de subjetivo nas avaliações. Os resultados, no entanto, mostram que não há captura política por um ou outro campo ideológico. O processo permite identificar, nos diferentes países, tendências autoritárias de esquerda e de direita, da Venezuela à Índia, da Hungria ao México.
Outra vantagem é que os dados quantitativos permitem acompanhar a evolução dos países. Um artigo publicado em 2019 pelo sueco Staffan Lindberg, diretor do V-Dem, e pela cientista política alemã Anna Lührmann estabeleceu o conceito de autocratização, processo que se verifica empiricamente quando as notas de democracia de um país vão diminuindo recorrentemente.
No artigo, eles propõem que vivemos uma era de autocratização que se segue à terceira onda de democratização definida pelo cientista político americano Samuel Huntington (1927-2008) —a que começou com a Revolução dos Cravos em Portugal e continuou com a queda dos regimes militares latino-americanos e das ditaduras comunistas do Leste Europeu.
Os sucessivos relatórios do V-Dem —e de outros levantamentos similares, como o da Freedom House americana e o da revista britânica The Economist— vêm infelizmente confirmando a tendência.
Os processos de autocratização, no entanto, não começam, como no passado, com quarteladas militares ou revoluções armadas. No livro "Como as Democracias Morrem", Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como os autoritarismos modernos se instalam aos poucos, como doenças insidiosas, promovidos na maioria das vezes por forças políticas que, paradoxalmente, chegam ao poder de forma democrática, pelo voto.
É essa precisamente a principal utilidade dos rankings de democracia. Como na metáfora do início deste texto, eles medem os sinais vitais dos regimes de liberdade, rastreando tendências de deterioração em curto e em longo prazo. Identificam também os fatores que levam a essa deterioração.
A sequência dos relatórios chama a atenção para alguns padrões. Sempre que um líder de tendências autoritárias é reeleito, ganha carta branca para aprofundar o processo de autocratização. Isso aconteceu na Índia com Narendra Modi, que, em seu segundo mandato, aprovou leis que praticamente inviabilizam o jornalismo investigativo. Vem também ocorrendo recorrentemente com Viktor Orbán, na Hungria.
Marcadas para o próximo dia 12 de abril, as eleições húngaras determinarão se Orbán irá conquistar um quinto mandato. Em quatro períodos consecutivos de quatro anos cada, o premiê húngaro estabeleceu uma espécie de "playbook" da autocratização, tendo entre seus seguidores o próprio Donald Trump.
Orbán consagrou, entre outros, o procedimento de cortar verbas de universidades capazes de produzir conhecimento crítico ao governo, algo que vem ocorrendo nos EUA e é apontado, no relatório deste ano do V-Dem, como um dos indícios mais fortes da deterioração democrática americana.
Lidos em conjunto, os relatórios do V-Dem mostram que as doenças da democracia costumam ter nome e sobrenome: os dos líderes que usam o seu poder para corroer as instituições.
Na visão de outro cientista político, o alemão Yascha Mounk, esses presidentes e primeiros-ministros, em geral classificados como populistas, usam o pilar eleitoral das democracias para solapar os seus aspectos liberais. Em outras palavras, se valem da legitimidade conquistada pelo voto para confiscar direitos, como os de imigrantes e grupos minorizados, e restringir liberdades, como as de expressão, imprensa e pensamento acadêmico.
Os relatórios do V-Dem apontam vários casos em que líderes autoritários pioraram a qualidade da democracia nos países em que governaram. O oposto também ocorreu: quando esses presidentes ou primeiros-ministros saíram do poder, as notas dos seus países melhoraram. À esquerda, um caso bastante estudado é o de Rafael Correa, no Equador. À direita, o de Jair Bolsonaro, no Brasil.
O caso brasileiro aponta para um último e importante aspecto: a capacidade das democracias de identificar a deterioração e punir tentativas de golpe.
Em outro livro, "Como Salvar as Democracias", Levitsky e Ziblatt comparam o processo movido contra Jair Bolsonaro com as alegações jurídicas contra Donald Trump no final do seu primeiro mandato. Ambos os presidentes questionaram as urnas e não reconheceram o resultado das eleições. Um perdeu temporariamente os direitos políticos e, mais tarde, foi julgado, condenado e preso por tentativa de golpe. O outro seguiu o seu caminho político e se reelegeu. O resultado está expresso no relatório atual do V-Dem.
É inegável que a democracia brasileira sofre com escândalos de corrupção e guerra entre Poderes. Como no episódio recente da tentativa de golpe, o país precisa demonstrar maturidade e punir os responsáveis —sejam eles governantes eleitos ou juízes do STF—, de forma a preservar as instituições.
No histórico do V-Dem, as maiores ameaças à saúde das democracias não são episódios de corrupção ou brigas de poder, mas, é preciso frisar, as doenças que têm nome e sobrenome e, paradoxalmente, chegam ao poder pelo voto.
O instituto rebaixou os Estados Unidos à categoria de democracia eleitoral, uma espécie de segunda divisão dos regimes de liberdade. Na pontuação final, ficou atrás de países como Coreia do Sul, Japão, Portugal e Brasil.
Rankings de democracia como o V-Dem, o mais utilizado em pesquisas acadêmicas na área de ciência política, há muito tempo saltaram o muro das universidades e entraram na corrente sanguínea do debate público. Nas redes sociais brasileiras, nossa colocação à frente dos EUA gerou um questionamento: como podemos ter uma boa pontuação se estamos mergulhados em uma crise institucional, em que um escândalo financeiro abala a credibilidade do Judiciário e joga os Poderes uns contra os outros?
Para responder a essa pergunta, é necessário entender como funcionam os rankings de democracia, para que servem e como, ao longo dos anos, vêm mostrando que nada tem mais peso para a deterioração dos regimes de liberdade que a existência de um líder com tendências autoritárias.
Donald Trump motivou um capítulo à parte no relatório do V-Dem, da mesma maneira que, em edições anteriores, mereceram destaque o húngaro Viktor Orbán, o indiano Narendra Modi, o polonês Jaroslaw Kaczynski e Jair Bolsonaro.
As eleições constituem o momento central nos regimes de liberdade. Desde pelo menos os anos 1950, no entanto, os cientistas políticos entendem que as democracias são processos contínuos. Entre um pleito e outro, partidos políticos negociam, Legislativos fiscalizam Executivos, ONGs e o poder econômico fazem seus lobbies, a sociedade civil se mobiliza, a academia e a imprensa municiam o debate público —e quanto mais esses atores exercem seus papéis e interagem, mesmo com alto grau de fricção, maior é a qualidade da democracia.
A essa vibração cívica algo caótica, o cientista político Robert Dahl (1915-2014) deu o nome de poliarquia. Resumindo em uma frase uma ideia complexa, poliarquia seria a tradução para o mundo real do conceito original de democracia, um regime em que, em tese, todos teriam o mesmo peso e a mesma influência nas decisões coletivas, um ideal por definição inatingível.
A partir desse insight, Larry Diamond e Leonardo Morlino sistematizaram, na virada do século 21, a ideia de que os regimes de liberdade se aproximariam desse ideal à medida que obedeciam a vários pré-requisitos, indo muito além das eleições livres e justas. Estava dado o alicerce teórico para os rankings de democracia.
O V-Dem reúne dados sobre diversos desses aspectos definidos pelos teóricos da política. Em uma democracia, deve prevalecer a vontade da maioria —a dimensão eleitoral— ao mesmo tempo que são garantidos os direitos de todos —a dimensão liberal.
A alta participação política deve ser valorizada, assim como a capacidade de os cidadãos efetivamente interferirem nos resultados das políticas públicas —os aspectos participativo e deliberativo. Por último, a assimetria de poder e de recursos entre os cidadãos conspira contra o ideal democrático, o que faz o V-Dem valorizar uma quinta dimensão, chamada de igualitária.
O instituto hospedado na cidade sueca de Gotemburgo tabula notas de 4.000 especialistas espalhados pelo mundo. Há sempre, como é óbvio, algo de subjetivo nas avaliações. Os resultados, no entanto, mostram que não há captura política por um ou outro campo ideológico. O processo permite identificar, nos diferentes países, tendências autoritárias de esquerda e de direita, da Venezuela à Índia, da Hungria ao México.
Outra vantagem é que os dados quantitativos permitem acompanhar a evolução dos países. Um artigo publicado em 2019 pelo sueco Staffan Lindberg, diretor do V-Dem, e pela cientista política alemã Anna Lührmann estabeleceu o conceito de autocratização, processo que se verifica empiricamente quando as notas de democracia de um país vão diminuindo recorrentemente.
No artigo, eles propõem que vivemos uma era de autocratização que se segue à terceira onda de democratização definida pelo cientista político americano Samuel Huntington (1927-2008) —a que começou com a Revolução dos Cravos em Portugal e continuou com a queda dos regimes militares latino-americanos e das ditaduras comunistas do Leste Europeu.
Os sucessivos relatórios do V-Dem —e de outros levantamentos similares, como o da Freedom House americana e o da revista britânica The Economist— vêm infelizmente confirmando a tendência.
Os processos de autocratização, no entanto, não começam, como no passado, com quarteladas militares ou revoluções armadas. No livro "Como as Democracias Morrem", Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como os autoritarismos modernos se instalam aos poucos, como doenças insidiosas, promovidos na maioria das vezes por forças políticas que, paradoxalmente, chegam ao poder de forma democrática, pelo voto.
É essa precisamente a principal utilidade dos rankings de democracia. Como na metáfora do início deste texto, eles medem os sinais vitais dos regimes de liberdade, rastreando tendências de deterioração em curto e em longo prazo. Identificam também os fatores que levam a essa deterioração.
A sequência dos relatórios chama a atenção para alguns padrões. Sempre que um líder de tendências autoritárias é reeleito, ganha carta branca para aprofundar o processo de autocratização. Isso aconteceu na Índia com Narendra Modi, que, em seu segundo mandato, aprovou leis que praticamente inviabilizam o jornalismo investigativo. Vem também ocorrendo recorrentemente com Viktor Orbán, na Hungria.
Marcadas para o próximo dia 12 de abril, as eleições húngaras determinarão se Orbán irá conquistar um quinto mandato. Em quatro períodos consecutivos de quatro anos cada, o premiê húngaro estabeleceu uma espécie de "playbook" da autocratização, tendo entre seus seguidores o próprio Donald Trump.
Orbán consagrou, entre outros, o procedimento de cortar verbas de universidades capazes de produzir conhecimento crítico ao governo, algo que vem ocorrendo nos EUA e é apontado, no relatório deste ano do V-Dem, como um dos indícios mais fortes da deterioração democrática americana.
Lidos em conjunto, os relatórios do V-Dem mostram que as doenças da democracia costumam ter nome e sobrenome: os dos líderes que usam o seu poder para corroer as instituições.
Na visão de outro cientista político, o alemão Yascha Mounk, esses presidentes e primeiros-ministros, em geral classificados como populistas, usam o pilar eleitoral das democracias para solapar os seus aspectos liberais. Em outras palavras, se valem da legitimidade conquistada pelo voto para confiscar direitos, como os de imigrantes e grupos minorizados, e restringir liberdades, como as de expressão, imprensa e pensamento acadêmico.
Os relatórios do V-Dem apontam vários casos em que líderes autoritários pioraram a qualidade da democracia nos países em que governaram. O oposto também ocorreu: quando esses presidentes ou primeiros-ministros saíram do poder, as notas dos seus países melhoraram. À esquerda, um caso bastante estudado é o de Rafael Correa, no Equador. À direita, o de Jair Bolsonaro, no Brasil.
O caso brasileiro aponta para um último e importante aspecto: a capacidade das democracias de identificar a deterioração e punir tentativas de golpe.
Em outro livro, "Como Salvar as Democracias", Levitsky e Ziblatt comparam o processo movido contra Jair Bolsonaro com as alegações jurídicas contra Donald Trump no final do seu primeiro mandato. Ambos os presidentes questionaram as urnas e não reconheceram o resultado das eleições. Um perdeu temporariamente os direitos políticos e, mais tarde, foi julgado, condenado e preso por tentativa de golpe. O outro seguiu o seu caminho político e se reelegeu. O resultado está expresso no relatório atual do V-Dem.
É inegável que a democracia brasileira sofre com escândalos de corrupção e guerra entre Poderes. Como no episódio recente da tentativa de golpe, o país precisa demonstrar maturidade e punir os responsáveis —sejam eles governantes eleitos ou juízes do STF—, de forma a preservar as instituições.
No histórico do V-Dem, as maiores ameaças à saúde das democracias não são episódios de corrupção ou brigas de poder, mas, é preciso frisar, as doenças que têm nome e sobrenome e, paradoxalmente, chegam ao poder pelo voto.
Trump tem agora pouquíssimas opções na guerra no Irã
Algumas velhas verdades sobre a guerra têm batido à porta do Salão Oval no mês desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, enviaram aviões de guerra americanos e israelenses para bombardear o Irã.
A incapacidade de aprender com o passado significa que Donald Trump agora enfrenta uma escolha difícil. Se ele não conseguir um acordo com o Irã, pode tentar declarar uma vitória que não enganará ninguém ou intensificar a guerra.
A mais antiga das velhas verdades vem do estrategista militar prussiano Helmuth von Moltke, o Velho: "Nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo". Ele escreveu isso em 1871, o ano em que a Alemanha foi unificada como um império, um momento tão consequente para a segurança da Europa quanto esta guerra pode ser para a segurança do Oriente Médio.
Talvez Trump prefira a versão moderna do boxeador Mike Tyson: "Todo mundo tem um plano até ser atingido". Ainda mais relevantes para Trump são as palavras de um de seus antecessores, Dwight D. Eisenhower, o general americano que comandou o desembarque do Dia D em 1944 e que posteriormente serviu dois mandatos como presidente republicano dos Estados Unidos na década de 1950.
A versão de Eisenhower era: "planos não valem nada, mas o planejamento é tudo". Ele queria dizer que a disciplina e o processo de elaboração de planos para travar uma guerra tornam possível mudar de rumo quando o inesperado acontece.
Para Trump, o elemento inesperado tem sido a resiliência do regime no Irã. Parece que ele esperava uma repetição do sequestro relâmpago, em janeiro, do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, pelas forças armadas americanas. Eles estão agora presos em Nova York, aguardando julgamento. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, o substituiu na presidência e está recebendo ordens de Washington.
Esperar uma repetição da vitória sobre Maduro demonstra uma enorme falta de compreensão das diferenças entre a Venezuela e o Irã.
O ditado de Eisenhower sobre pensar no futuro foi usado em um discurso de 1957. Ele havia sido o responsável pelo planejamento e comando da maior operação militar anfíbia da história, a invasão da Europa Ocidental no Dia D, então ele sabia do que estava falando.
Ele prosseguiu explicando que, quando surge uma emergência inesperada, "a primeira coisa a fazer é pegar todos os planos da prateleira de cima, jogá-los pela janela e começar tudo de novo. Mas se você não planejou, não pode começar a trabalhar, pelo menos não de forma inteligente".
"Essa é a razão pela qual é tão importante planejar, para se manter imerso na natureza do problema que você pode um dia ser chamado a resolver – ou a ajudar a resolver."
Longe de capitular ou entrar em colapso depois que Israel e os EUA mataram o Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, no primeiro ataque aéreo da guerra, o regime em Teerã está funcionando e revidando. Está jogando bem com as cartas que tem.
Em contraste, Donald Trump dá a impressão de estar improvisando. Ele segue seus instintos, não as páginas de inteligência e conselhos estratégicos que outros presidentes analisaram minuciosamente.
Treze dias após o início da guerra, Trump foi questionado pela Fox News Radio sobre quando a guerra terminaria. Ele respondeu que não achava que a guerra "seria longa". Quanto ao seu término, seria "quando eu sentir, sentir na pele".
Ele se apoia em um círculo íntimo de assessores que estão em seus cargos para apoiar suas decisões e fazê-las acontecer. Dizer a verdade ao poder não parece estar em suas atribuições. Confiar nos instintos do presidente em vez de um conjunto de planos bem elaborados – mesmo que precisem ser adaptados ou descartados – torna mais difícil travar uma guerra. A falta de uma direção política clara enfraquece o poder de fogo devastador e a eficácia das forças armadas dos EUA.
Quatro semanas atrás, Trump e Netanyahu depositaram sua confiança em uma feroz campanha de bombardeios que matou não apenas o líder supremo, mas também seus conselheiros mais próximos e, até o momento, matou 1.464 civis iranianos, de acordo com a HRANA, um grupo com sede nos EUA que monitora violações de direitos humanos no Irã.
Os dois líderes esperavam uma vitória rápida. Ambos desafiaram os iranianos a darem seguimento aos bombardeios com um levante popular para derrubar o regime.
Mas o regime em Teerã ainda se mantém de pé, ainda luta, e Trump está descobrindo por que seus antecessores nunca estiveram preparados para se juntar a Netanyahu em uma guerra de escolha para destruir a República Islâmica. Os oponentes do regime não se levantaram. Eles sabem muito bem que, em janeiro, as forças do governo mataram milhares de manifestantes. Avisos oficiais foram transmitidos, dizendo a qualquer pessoa que pensasse em repetir os protestos que seria tratada como inimiga do Estado.
O regime iraniano é um adversário obstinado, implacável e bem organizado. Fundado após a revolução de 1979 que derrubou o xá, foi então forjado na miséria mortal da guerra de oito anos com o Iraque.
O regime é construído sobre instituições, não indivíduos, e reforçado por crenças religiosas inabaláveis e uma ideologia de martírio. Isso significa que matar líderes, embora sem dúvida chocante e perturbador, não se torna também uma sentença de morte para o regime.
Após os assassinatos de janeiro, o governo considerará a morte de muitos outros iranianos, seja pelas mãos das próprias forças do regime ou por bombas americanas e israelenses, como um preço aceitável para a sobrevivência.
O regime iraniano não tinha esperança de igualar o poder de fogo dos EUA e de Israel, mas, tal como Moltke, Tyson e Eisenhower, tem feito planos. Ampliou a guerra, atacando os seus vizinhos árabes do Golfo, bem como as bases americanas nos seus territórios e Israel, espalhando o sofrimento o mais amplamente possível.
O encerramento efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irã, a estreita entrada para o Golfo, cortou cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e abalou os mercados financeiros globais.
O Irã gastou anos e bilhões de dólares construindo a rede de aliados e representantes que o Irã chamou de "Eixo da Resistência", que inclui o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza e na Cisjordânia, para ameaçar e dissuadir Israel.
Os israelenses o atacaram com muita força e eficácia desde o início da guerra em Gaza, com os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Mas o Irã agora está demonstrando que uma característica geográfica, o estreito de Ormuz, pode ser um fator de dissuasão e ameaça ainda mais eficaz do que seu sistema ruinosamente caro de alianças militares. O Irã pode impor seu controle sobre o estreito com drones baratos que podem ser lançados a centenas de quilômetros de distância no interior montanhoso do Irã.
Aliados são mortos. A geografia permanece a mesma. A menos que capturem e ocupem os penhascos em ambos os lados do estreito e uma grande extensão de terra iraniana além deles, os EUA e Israel – e o resto do mundo – estão descobrindo que o regime iraniano exigirá grande influência na reabertura do estreito de Ormuz.
Como observou o ex-vice-comandante da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), General Sir Richard Shirreff, no programa Today da BBC Radio 4, qualquer simulação de guerra que analisasse as consequências de um ataque ao Irã teria demonstrado que a Guarda Revolucionária Islâmica fecharia o estreito de Ormuz.
Isso nos leva de volta à importância de planejar como iniciar uma guerra, como terminá-la e como lidar com o dia seguinte. Donald Trump e seu círculo íntimo, entusiasmados com a perspectiva de uma vitória rápida e fácil, parecem ter ignorado essas etapas.
O "eixo da resistência" também inclui os houthis no Iêmen. Na sexta-feira, eles dispararam uma saraivada de mísseis contra Israel pela primeira vez desde o início desta guerra, com os ataques aéreos ao Irã em 28 de fevereiro.
Se os houthis retomarem seus ataques à navegação no Mar Vermelho, a Arábia Saudita perderá sua rota marítima ocidental para exportação de petróleo para a Ásia.
O Mar Vermelho tem seu próprio ponto de estrangulamento, o estreito de Bab el-Mandeb, tão importante para o comércio mundial quanto o estreito de Ormuz. Se os houthis decidirem intensificar o conflito atacando navios em Bab al-Mandab e mais ao sul, como fizeram durante a guerra em Gaza, eles cortariam a rota da Ásia para a Europa através do Canal de Suez.
Isso criaria uma crise econômica global ainda pior.
Netanyahu, ao contrário de Trump, vem pensando detalhadamente sobre esta guerra desde o início de sua carreira política, que o tornou o primeiro-ministro que mais tempo serviu em Israel.
No primeiro dia completo da guerra contra o Irã, Netanyahu gravou uma declaração em vídeo no telhado do prédio em Tel Aviv conhecido como Kirya, que abriga o quartel-general militar de Israel. Ele falou com uma clareza sobre os objetivos de guerra de Israel que escapou a Trump.
Isso não deveria ser uma surpresa. Entrar em guerra com o Irã é uma proposta mais direta para Israel do que para os EUA. As preocupações de uma potência regional são diferentes dos desafios globais muito mais amplos enfrentados pelos EUA.
Netanyahu está convencido de que pode garantir a segurança futura de Israel causando o máximo de danos possível à República Islâmica. A guerra, disse ele no vídeo, era "para garantir nossa existência e nosso futuro".
Netanyahu sempre considerou o Irã o inimigo mais perigoso de Israel. Seus críticos dizem que essa preocupação foi um dos motivos pelos quais Israel não conseguiu detectar e impedir os ataques do Hamas vindos de Gaza em 7 de outubro de 2023.
Ele agradeceu aos militares dos EUA e a Trump por sua "assistência" e passou ao ponto que, para ele, é o cerne da questão.
"Esta coalizão de forças nos permite fazer o que eu anseio fazer há 40 anos: aniquilar o regime terrorista. Isso é o que eu prometi – e é isso que faremos."
Netanyahu e o establishment militar de Israel, em diferentes momentos ao longo de seus muitos anos no cargo, analisaram maneiras de entrar em guerra com o Irã, destruindo suas instalações nucleares e mísseis balísticos, e tudo o mais que o tornava uma ameaça para eles.
A conclusão em Israel sempre foi que, embora pudessem causar sérios danos ao Irã, isso representaria apenas um revés para o regime. Tornou-se consenso que a única maneira de destruir a capacidade militar do Irã por uma geração ou mais seria por meio de uma aliança com os EUA.
Mas isso exigia um presidente na Casa Branca que estivesse preparado para ir à guerra ao lado de Israel, algo que nunca havia acontecido, apesar da estreita relação entre os dois países e da dependência de Israel do apoio militar e diplomático dos EUA. Netanyahu nunca conseguiu persuadir um presidente americano de que era do interesse dos Estados Unidos entrar em guerra com o Irã – até o segundo mandato de Donald J. Trump.
Apesar da relação amarga e tóxica entre os Estados Unidos e o Irã desde que o xá, um aliado fiel dos EUA, foi deposto em 1979, os sucessivos presidentes americanos acreditavam que a melhor maneira de lidar com a República Islâmica do Irã era contê-la.
Durante a ocupação americana do Iraque, os EUA não entraram em guerra com o Irã, mesmo quando Teerã estava equipando e treinando milícias iraquianas que matavam tropas americanas. A única justificativa, calcularam eles, seria uma ameaça iminente, especialmente informações de que o Irã estava perto de criar uma arma nuclear.
Trump incluiu uma ameaça nuclear em sua lista crescente de razões para ir à guerra. Mas não há evidências críveis de que o Irã estivesse prestes a obter uma arma ou os meios para lançá-la. Até mesmo a Casa Branca ainda mantém em seu site uma declaração datada de 25 de junho de 2025 com a manchete "As instalações nucleares do Irã foram destruídas – e qualquer sugestão em contrário é notícia falsa".
Trump agora está descobrindo por que seus antecessores decidiram que os riscos de optar pela guerra seriam simplesmente grandes demais.
A guerra parece estar se tornando um exemplo clássico de como uma potência menor e mais fraca pode lutar contra um inimigo maior e mais forte, o tipo de conflito que os estrategistas chamam de guerra assimétrica.
É cedo, após apenas um mês, para compará-la a outras guerras que, no papel, os EUA estavam vencendo em termos de inimigos mortos e bombardeios concluídos no Vietnã, Iraque e Afeganistão. Mas é importante lembrar que, após anos de derramamento de sangue e mortes, todas terminaram de maneiras que representaram uma derrota para os Estados Unidos.
O próximo conjunto de decisões de Trump e Netanyahu pode determinar se a guerra no Irã se tornará outro grande erro dos EUA. Trump já adiou duas vezes sua ameaça de destruir a rede elétrica do Irã – o que, segundo ele, poderia ser considerado um crime de guerra.
Ele afirma que isso ocorre porque o Irã está desesperado para fechar um acordo para encerrar a guerra, já que o regime foi duramente atingido pelos danos e mortes que os EUA já infligiram e teme que isso possa causar ainda mais.
Contatos entre os dois lados, por meio da mediação do Paquistão e outros, estão ocorrendo. Os iranianos negam a afirmação de Trump de que se trata de uma negociação completa.
O texto oficial do plano de paz de 15 pontos do presidente não foi publicado, mas versões vazadas mostram um documento que é uma compilação de todas as exigências que os EUA e Israel fizeram ao Irã ao longo de muitos anos. Ele se assemelha mais a termos de rendição do que a uma base para negociação.
O Irã respondeu com suas próprias exigências, igualmente inaceitáveis para o outro lado, incluindo o reconhecimento de seu controle sobre o Estreito de Ormuz, reparações por danos de guerra e a remoção das bases americanas do Oriente Médio.
A menos que ambos os lados consigam dar um salto gigantesco para um terreno intermediário de compromisso inexplorado, é difícil imaginar que um acordo seja alcançado. Não é impossível. O regime iraniano tem um histórico de negociação.
Fontes diplomáticas árabes corroboraram outros relatos, dizendo-me que o Irã estava oferecendo um caminho para um acordo sobre seu programa nuclear quando os EUA abandonaram abruptamente a diplomacia ao entrar em guerra em 28 de fevereiro. Uma fonte me disse: "Você sabe que os iranianos estavam oferecendo tudo." Isso soa como uma simplificação excessiva, e os americanos negam que estivesse havendo progresso, mas os sinais indicam que havia espaço para mais diplomacia quando os EUA e Israel enviaram bombardeiros.
A guerra está em um ponto crítico. Se não houver acordo entre os americanos e os iranianos, Trump terá poucas opções. Ele poderia declarar vitória, dizendo que os Estados Unidos destruíram as forças armadas do Irã, portanto a missão está cumprida, e que abrir o Estreito de Ormuz não é sua responsabilidade.
Isso poderia desestabilizar os mercados financeiros mundiais e horrorizar seus aliados já descontentes na Europa, Ásia e no Golfo. Um regime iraniano ferido e furioso teria ampla margem para pressionar ainda mais a economia mundial.
Mais provavelmente, Trump decidiria intensificar a guerra. Os americanos têm mais de 4.000 fuzileiros navais em navios a caminho do Golfo, paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada em prontidão e estão discutindo reforços adicionais.
Ninguém está falando de uma invasão em grande escala do Irã, mas é possível que os americanos tentem capturar ilhas no Golfo, incluindo a ilha de Kharg, o principal terminal de petróleo do Irã. Isso envolveria uma série de desembarques anfíbios desafiadores e perigosos. Isso poderia até ser conveniente para o Irã, que quer arrastar os americanos para uma guerra de atrito mais longa. O Irã calcula que a capacidade de sofrimento do regime é maior do que a de Trump.
Trump descobriu no Irã que está se deparando com os limites de seu poder. O regime iraniano tem uma definição diferente de vitória e derrota da dele. Para eles, a mera sobrevivência já é uma vitória.
Mas agora eles esperam mais, acreditando que o controle do estreito de Ormuz lhes dá uma nova vantagem para fazer exigências, talvez até mesmo para obter ganhos estratégicos.
Os iranianos exigiram, entre outras coisas, uma promessa de não serem atacados no futuro e o reconhecimento de seu controle sobre o estreito de Ormuz como preço para abri-lo a toda a navegação.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse na quarta-feira que "o presidente Trump não blefa e está preparado para desencadear o inferno. O Irã não deve errar nos cálculos novamente".
"Se o Irã não aceitar a realidade do momento atual, se não entender que foi derrotado militarmente e continuará sendo, o presidente Trump garantirá que seja atingido com mais força do que jamais foi atingido antes."
Ser derrotado em uma guerra não é uma escolha. Se o Irã tivesse sido tão duramente derrotado quanto Trump e seus aliados afirmam, o regime em Teerã já teria entrado em colapso. Ele não precisaria ameaçá-los para que aceitassem seu destino.
Os Estados Unidos e Israel podem causar muito mais danos e matar muito mais pessoas no Irã. No Líbano, Israel está prosseguindo com sua ofensiva contra o Hezbollah, principal aliado do Irã.
Na ausência de um cessar-fogo, eles calculam que podem aumentar o nível de força até que os iranianos não tenham outra escolha senão ceder.
Isso está longe de ser certo.
Quanto mais a guerra se prolongar, maiores serão as consequências para a região e para o mundo em geral. Um importante analista do Irã, Ali Vaez, do International Crisis Group, disse-me que elas poderiam ser "catastróficas".
Em 1956, o Reino Unido e a França entraram em guerra ao lado de Israel depois que o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez, uma via navegável global que era um ponto de estrangulamento tão importante para a economia mundial quanto o estreito de Ormuz é hoje. Eles alcançaram todos os seus objetivos militares, mas foram forçados a se retirar pelo presidente Eisenhower, dos Estados Unidos.
Para os britânicos, foi o começo do fim de seu domínio imperial no Oriente Médio.
Os Estados Unidos enfrentam a ascensão da China. Quando a história da competição entre eles para se tornarem a maior potência mundial for escrita, a guerra mal planejada de Trump contra o Irã poderá ser vista como um ponto de virada, uma etapa de declínio, assim como Suez foi para o Reino Unido.
A incapacidade de aprender com o passado significa que Donald Trump agora enfrenta uma escolha difícil. Se ele não conseguir um acordo com o Irã, pode tentar declarar uma vitória que não enganará ninguém ou intensificar a guerra.
A mais antiga das velhas verdades vem do estrategista militar prussiano Helmuth von Moltke, o Velho: "Nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo". Ele escreveu isso em 1871, o ano em que a Alemanha foi unificada como um império, um momento tão consequente para a segurança da Europa quanto esta guerra pode ser para a segurança do Oriente Médio.
Talvez Trump prefira a versão moderna do boxeador Mike Tyson: "Todo mundo tem um plano até ser atingido". Ainda mais relevantes para Trump são as palavras de um de seus antecessores, Dwight D. Eisenhower, o general americano que comandou o desembarque do Dia D em 1944 e que posteriormente serviu dois mandatos como presidente republicano dos Estados Unidos na década de 1950.
A versão de Eisenhower era: "planos não valem nada, mas o planejamento é tudo". Ele queria dizer que a disciplina e o processo de elaboração de planos para travar uma guerra tornam possível mudar de rumo quando o inesperado acontece.
Para Trump, o elemento inesperado tem sido a resiliência do regime no Irã. Parece que ele esperava uma repetição do sequestro relâmpago, em janeiro, do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, pelas forças armadas americanas. Eles estão agora presos em Nova York, aguardando julgamento. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, o substituiu na presidência e está recebendo ordens de Washington.
Esperar uma repetição da vitória sobre Maduro demonstra uma enorme falta de compreensão das diferenças entre a Venezuela e o Irã.
O ditado de Eisenhower sobre pensar no futuro foi usado em um discurso de 1957. Ele havia sido o responsável pelo planejamento e comando da maior operação militar anfíbia da história, a invasão da Europa Ocidental no Dia D, então ele sabia do que estava falando.
Ele prosseguiu explicando que, quando surge uma emergência inesperada, "a primeira coisa a fazer é pegar todos os planos da prateleira de cima, jogá-los pela janela e começar tudo de novo. Mas se você não planejou, não pode começar a trabalhar, pelo menos não de forma inteligente".
"Essa é a razão pela qual é tão importante planejar, para se manter imerso na natureza do problema que você pode um dia ser chamado a resolver – ou a ajudar a resolver."
Longe de capitular ou entrar em colapso depois que Israel e os EUA mataram o Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, no primeiro ataque aéreo da guerra, o regime em Teerã está funcionando e revidando. Está jogando bem com as cartas que tem.
Em contraste, Donald Trump dá a impressão de estar improvisando. Ele segue seus instintos, não as páginas de inteligência e conselhos estratégicos que outros presidentes analisaram minuciosamente.
Treze dias após o início da guerra, Trump foi questionado pela Fox News Radio sobre quando a guerra terminaria. Ele respondeu que não achava que a guerra "seria longa". Quanto ao seu término, seria "quando eu sentir, sentir na pele".
Ele se apoia em um círculo íntimo de assessores que estão em seus cargos para apoiar suas decisões e fazê-las acontecer. Dizer a verdade ao poder não parece estar em suas atribuições. Confiar nos instintos do presidente em vez de um conjunto de planos bem elaborados – mesmo que precisem ser adaptados ou descartados – torna mais difícil travar uma guerra. A falta de uma direção política clara enfraquece o poder de fogo devastador e a eficácia das forças armadas dos EUA.
Quatro semanas atrás, Trump e Netanyahu depositaram sua confiança em uma feroz campanha de bombardeios que matou não apenas o líder supremo, mas também seus conselheiros mais próximos e, até o momento, matou 1.464 civis iranianos, de acordo com a HRANA, um grupo com sede nos EUA que monitora violações de direitos humanos no Irã.
Os dois líderes esperavam uma vitória rápida. Ambos desafiaram os iranianos a darem seguimento aos bombardeios com um levante popular para derrubar o regime.
Mas o regime em Teerã ainda se mantém de pé, ainda luta, e Trump está descobrindo por que seus antecessores nunca estiveram preparados para se juntar a Netanyahu em uma guerra de escolha para destruir a República Islâmica. Os oponentes do regime não se levantaram. Eles sabem muito bem que, em janeiro, as forças do governo mataram milhares de manifestantes. Avisos oficiais foram transmitidos, dizendo a qualquer pessoa que pensasse em repetir os protestos que seria tratada como inimiga do Estado.
O regime iraniano é um adversário obstinado, implacável e bem organizado. Fundado após a revolução de 1979 que derrubou o xá, foi então forjado na miséria mortal da guerra de oito anos com o Iraque.
O regime é construído sobre instituições, não indivíduos, e reforçado por crenças religiosas inabaláveis e uma ideologia de martírio. Isso significa que matar líderes, embora sem dúvida chocante e perturbador, não se torna também uma sentença de morte para o regime.
Após os assassinatos de janeiro, o governo considerará a morte de muitos outros iranianos, seja pelas mãos das próprias forças do regime ou por bombas americanas e israelenses, como um preço aceitável para a sobrevivência.
O regime iraniano não tinha esperança de igualar o poder de fogo dos EUA e de Israel, mas, tal como Moltke, Tyson e Eisenhower, tem feito planos. Ampliou a guerra, atacando os seus vizinhos árabes do Golfo, bem como as bases americanas nos seus territórios e Israel, espalhando o sofrimento o mais amplamente possível.
O encerramento efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irã, a estreita entrada para o Golfo, cortou cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e abalou os mercados financeiros globais.
O Irã gastou anos e bilhões de dólares construindo a rede de aliados e representantes que o Irã chamou de "Eixo da Resistência", que inclui o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza e na Cisjordânia, para ameaçar e dissuadir Israel.
Os israelenses o atacaram com muita força e eficácia desde o início da guerra em Gaza, com os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Mas o Irã agora está demonstrando que uma característica geográfica, o estreito de Ormuz, pode ser um fator de dissuasão e ameaça ainda mais eficaz do que seu sistema ruinosamente caro de alianças militares. O Irã pode impor seu controle sobre o estreito com drones baratos que podem ser lançados a centenas de quilômetros de distância no interior montanhoso do Irã.
Aliados são mortos. A geografia permanece a mesma. A menos que capturem e ocupem os penhascos em ambos os lados do estreito e uma grande extensão de terra iraniana além deles, os EUA e Israel – e o resto do mundo – estão descobrindo que o regime iraniano exigirá grande influência na reabertura do estreito de Ormuz.
Como observou o ex-vice-comandante da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), General Sir Richard Shirreff, no programa Today da BBC Radio 4, qualquer simulação de guerra que analisasse as consequências de um ataque ao Irã teria demonstrado que a Guarda Revolucionária Islâmica fecharia o estreito de Ormuz.
Isso nos leva de volta à importância de planejar como iniciar uma guerra, como terminá-la e como lidar com o dia seguinte. Donald Trump e seu círculo íntimo, entusiasmados com a perspectiva de uma vitória rápida e fácil, parecem ter ignorado essas etapas.
O "eixo da resistência" também inclui os houthis no Iêmen. Na sexta-feira, eles dispararam uma saraivada de mísseis contra Israel pela primeira vez desde o início desta guerra, com os ataques aéreos ao Irã em 28 de fevereiro.
Se os houthis retomarem seus ataques à navegação no Mar Vermelho, a Arábia Saudita perderá sua rota marítima ocidental para exportação de petróleo para a Ásia.
O Mar Vermelho tem seu próprio ponto de estrangulamento, o estreito de Bab el-Mandeb, tão importante para o comércio mundial quanto o estreito de Ormuz. Se os houthis decidirem intensificar o conflito atacando navios em Bab al-Mandab e mais ao sul, como fizeram durante a guerra em Gaza, eles cortariam a rota da Ásia para a Europa através do Canal de Suez.
Isso criaria uma crise econômica global ainda pior.
Netanyahu, ao contrário de Trump, vem pensando detalhadamente sobre esta guerra desde o início de sua carreira política, que o tornou o primeiro-ministro que mais tempo serviu em Israel.
No primeiro dia completo da guerra contra o Irã, Netanyahu gravou uma declaração em vídeo no telhado do prédio em Tel Aviv conhecido como Kirya, que abriga o quartel-general militar de Israel. Ele falou com uma clareza sobre os objetivos de guerra de Israel que escapou a Trump.
Isso não deveria ser uma surpresa. Entrar em guerra com o Irã é uma proposta mais direta para Israel do que para os EUA. As preocupações de uma potência regional são diferentes dos desafios globais muito mais amplos enfrentados pelos EUA.
Netanyahu está convencido de que pode garantir a segurança futura de Israel causando o máximo de danos possível à República Islâmica. A guerra, disse ele no vídeo, era "para garantir nossa existência e nosso futuro".
Netanyahu sempre considerou o Irã o inimigo mais perigoso de Israel. Seus críticos dizem que essa preocupação foi um dos motivos pelos quais Israel não conseguiu detectar e impedir os ataques do Hamas vindos de Gaza em 7 de outubro de 2023.
Ele agradeceu aos militares dos EUA e a Trump por sua "assistência" e passou ao ponto que, para ele, é o cerne da questão.
"Esta coalizão de forças nos permite fazer o que eu anseio fazer há 40 anos: aniquilar o regime terrorista. Isso é o que eu prometi – e é isso que faremos."
Netanyahu e o establishment militar de Israel, em diferentes momentos ao longo de seus muitos anos no cargo, analisaram maneiras de entrar em guerra com o Irã, destruindo suas instalações nucleares e mísseis balísticos, e tudo o mais que o tornava uma ameaça para eles.
A conclusão em Israel sempre foi que, embora pudessem causar sérios danos ao Irã, isso representaria apenas um revés para o regime. Tornou-se consenso que a única maneira de destruir a capacidade militar do Irã por uma geração ou mais seria por meio de uma aliança com os EUA.
Mas isso exigia um presidente na Casa Branca que estivesse preparado para ir à guerra ao lado de Israel, algo que nunca havia acontecido, apesar da estreita relação entre os dois países e da dependência de Israel do apoio militar e diplomático dos EUA. Netanyahu nunca conseguiu persuadir um presidente americano de que era do interesse dos Estados Unidos entrar em guerra com o Irã – até o segundo mandato de Donald J. Trump.
Apesar da relação amarga e tóxica entre os Estados Unidos e o Irã desde que o xá, um aliado fiel dos EUA, foi deposto em 1979, os sucessivos presidentes americanos acreditavam que a melhor maneira de lidar com a República Islâmica do Irã era contê-la.
Durante a ocupação americana do Iraque, os EUA não entraram em guerra com o Irã, mesmo quando Teerã estava equipando e treinando milícias iraquianas que matavam tropas americanas. A única justificativa, calcularam eles, seria uma ameaça iminente, especialmente informações de que o Irã estava perto de criar uma arma nuclear.
Trump incluiu uma ameaça nuclear em sua lista crescente de razões para ir à guerra. Mas não há evidências críveis de que o Irã estivesse prestes a obter uma arma ou os meios para lançá-la. Até mesmo a Casa Branca ainda mantém em seu site uma declaração datada de 25 de junho de 2025 com a manchete "As instalações nucleares do Irã foram destruídas – e qualquer sugestão em contrário é notícia falsa".
Trump agora está descobrindo por que seus antecessores decidiram que os riscos de optar pela guerra seriam simplesmente grandes demais.
A guerra parece estar se tornando um exemplo clássico de como uma potência menor e mais fraca pode lutar contra um inimigo maior e mais forte, o tipo de conflito que os estrategistas chamam de guerra assimétrica.
É cedo, após apenas um mês, para compará-la a outras guerras que, no papel, os EUA estavam vencendo em termos de inimigos mortos e bombardeios concluídos no Vietnã, Iraque e Afeganistão. Mas é importante lembrar que, após anos de derramamento de sangue e mortes, todas terminaram de maneiras que representaram uma derrota para os Estados Unidos.
O próximo conjunto de decisões de Trump e Netanyahu pode determinar se a guerra no Irã se tornará outro grande erro dos EUA. Trump já adiou duas vezes sua ameaça de destruir a rede elétrica do Irã – o que, segundo ele, poderia ser considerado um crime de guerra.
Ele afirma que isso ocorre porque o Irã está desesperado para fechar um acordo para encerrar a guerra, já que o regime foi duramente atingido pelos danos e mortes que os EUA já infligiram e teme que isso possa causar ainda mais.
Contatos entre os dois lados, por meio da mediação do Paquistão e outros, estão ocorrendo. Os iranianos negam a afirmação de Trump de que se trata de uma negociação completa.
O texto oficial do plano de paz de 15 pontos do presidente não foi publicado, mas versões vazadas mostram um documento que é uma compilação de todas as exigências que os EUA e Israel fizeram ao Irã ao longo de muitos anos. Ele se assemelha mais a termos de rendição do que a uma base para negociação.
O Irã respondeu com suas próprias exigências, igualmente inaceitáveis para o outro lado, incluindo o reconhecimento de seu controle sobre o Estreito de Ormuz, reparações por danos de guerra e a remoção das bases americanas do Oriente Médio.
A menos que ambos os lados consigam dar um salto gigantesco para um terreno intermediário de compromisso inexplorado, é difícil imaginar que um acordo seja alcançado. Não é impossível. O regime iraniano tem um histórico de negociação.
Fontes diplomáticas árabes corroboraram outros relatos, dizendo-me que o Irã estava oferecendo um caminho para um acordo sobre seu programa nuclear quando os EUA abandonaram abruptamente a diplomacia ao entrar em guerra em 28 de fevereiro. Uma fonte me disse: "Você sabe que os iranianos estavam oferecendo tudo." Isso soa como uma simplificação excessiva, e os americanos negam que estivesse havendo progresso, mas os sinais indicam que havia espaço para mais diplomacia quando os EUA e Israel enviaram bombardeiros.
A guerra está em um ponto crítico. Se não houver acordo entre os americanos e os iranianos, Trump terá poucas opções. Ele poderia declarar vitória, dizendo que os Estados Unidos destruíram as forças armadas do Irã, portanto a missão está cumprida, e que abrir o Estreito de Ormuz não é sua responsabilidade.
Isso poderia desestabilizar os mercados financeiros mundiais e horrorizar seus aliados já descontentes na Europa, Ásia e no Golfo. Um regime iraniano ferido e furioso teria ampla margem para pressionar ainda mais a economia mundial.
Mais provavelmente, Trump decidiria intensificar a guerra. Os americanos têm mais de 4.000 fuzileiros navais em navios a caminho do Golfo, paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada em prontidão e estão discutindo reforços adicionais.
Ninguém está falando de uma invasão em grande escala do Irã, mas é possível que os americanos tentem capturar ilhas no Golfo, incluindo a ilha de Kharg, o principal terminal de petróleo do Irã. Isso envolveria uma série de desembarques anfíbios desafiadores e perigosos. Isso poderia até ser conveniente para o Irã, que quer arrastar os americanos para uma guerra de atrito mais longa. O Irã calcula que a capacidade de sofrimento do regime é maior do que a de Trump.
Trump descobriu no Irã que está se deparando com os limites de seu poder. O regime iraniano tem uma definição diferente de vitória e derrota da dele. Para eles, a mera sobrevivência já é uma vitória.
Mas agora eles esperam mais, acreditando que o controle do estreito de Ormuz lhes dá uma nova vantagem para fazer exigências, talvez até mesmo para obter ganhos estratégicos.
Os iranianos exigiram, entre outras coisas, uma promessa de não serem atacados no futuro e o reconhecimento de seu controle sobre o estreito de Ormuz como preço para abri-lo a toda a navegação.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse na quarta-feira que "o presidente Trump não blefa e está preparado para desencadear o inferno. O Irã não deve errar nos cálculos novamente".
"Se o Irã não aceitar a realidade do momento atual, se não entender que foi derrotado militarmente e continuará sendo, o presidente Trump garantirá que seja atingido com mais força do que jamais foi atingido antes."
Ser derrotado em uma guerra não é uma escolha. Se o Irã tivesse sido tão duramente derrotado quanto Trump e seus aliados afirmam, o regime em Teerã já teria entrado em colapso. Ele não precisaria ameaçá-los para que aceitassem seu destino.
Os Estados Unidos e Israel podem causar muito mais danos e matar muito mais pessoas no Irã. No Líbano, Israel está prosseguindo com sua ofensiva contra o Hezbollah, principal aliado do Irã.
Na ausência de um cessar-fogo, eles calculam que podem aumentar o nível de força até que os iranianos não tenham outra escolha senão ceder.
Isso está longe de ser certo.
Quanto mais a guerra se prolongar, maiores serão as consequências para a região e para o mundo em geral. Um importante analista do Irã, Ali Vaez, do International Crisis Group, disse-me que elas poderiam ser "catastróficas".
Em 1956, o Reino Unido e a França entraram em guerra ao lado de Israel depois que o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez, uma via navegável global que era um ponto de estrangulamento tão importante para a economia mundial quanto o estreito de Ormuz é hoje. Eles alcançaram todos os seus objetivos militares, mas foram forçados a se retirar pelo presidente Eisenhower, dos Estados Unidos.
Para os britânicos, foi o começo do fim de seu domínio imperial no Oriente Médio.
Os Estados Unidos enfrentam a ascensão da China. Quando a história da competição entre eles para se tornarem a maior potência mundial for escrita, a guerra mal planejada de Trump contra o Irã poderá ser vista como um ponto de virada, uma etapa de declínio, assim como Suez foi para o Reino Unido.
Brasil 2026: o país do bingo permanente
O Brasil inicia 2026 como se estivesse diante de uma cartela de bingo cívico. A cada semana, uma nova bola é sorteada — e, não raro, repete-se o número que já conhecemos: crise, tensão, incerteza. O cidadão acompanha o sorteio com uma mistura de cansaço e resignação. Não se trata mais de surpresa, mas de rotina.
A polarização continua sendo o eixo estruturante da vida política. Não há debate, há trincheiras. De um lado e de outro, narrativas fechadas, impermeáveis ao diálogo. O adversário deixou de ser apenas opositor; transformou-se em inimigo moral. Nesse ambiente, a política perde densidade programática e ganha contornos de guerra simbólica. O país não discute soluções — disputa versões.
Como se não bastasse, escândalos insistem em frequentar o noticiário. O chamado “Caso Master” soma-se a uma sequência de episódios que envolvem agentes públicos, partidos e instituições. A corrupção, que deveria ser exceção, parece estrutural. Espraia-se como mancha de óleo, atingindo Executivo, Legislativo e até setores do Judiciário. A percepção social é devastadora: para muitos brasileiros, o sistema não falha — ele funciona assim.
No plano econômico, o cotidiano pesa. A gasolina orbitando a casa dos oito reais não é apenas um número; é símbolo de um custo de vida que comprime a renda e amplia o desalento. A inflação, ainda que tecnicamente sob controle em alguns indicadores, corrói silenciosamente o poder de compra. O carrinho de supermercado encolhe, o orçamento doméstico estica até o limite. E os impostos, elevados e complexos, reforçam a sensação de que o Estado cobra muito e entrega pouco.
O cenário internacional adiciona mais incerteza ao quadro. Guerras e tensões geopolíticas reconfiguram cadeias produtivas, pressionam preços e afetam mercados. O Brasil, inserido nesse tabuleiro, sente os efeitos indiretos: volatilidade cambial, instabilidade nos custos de energia, insegurança para investimentos. Em um mundo em ebulição, a margem de erro das políticas internas diminui.
Diante desse mosaico, o eleitor brasileiro entra em um novo ciclo eleitoral mais desconfiado e, ao mesmo tempo, mais exigente. A velha lógica do voto emocional começa a ceder espaço a um comportamento mais pragmático. Saúde, segurança e economia voltam ao centro da decisão. O cidadão quer respostas concretas, não apenas discursos inflamados. Quer previsibilidade, não espetáculo.
Mas há um paradoxo. Embora mais crítico, o eleitor ainda está imerso em um ambiente informacional contaminado por desinformação, algoritmos e bolhas digitais. A chamada “telecracia” — o poder das telas e das narrativas instantâneas — molda percepções e amplifica ruídos. A verdade disputa espaço com versões, e o julgamento público torna-se cada vez mais apressado.
O Brasil de 2026 é, portanto, um país tensionado entre a descrença e a esperança. Descrença nas instituições, nos líderes, nas promessas reiteradamente descumpridas. Esperança difusa de que algo, em algum momento, rompa o ciclo. A sociedade parece dizer: “já vimos esse filme”, mas continua assistindo, na expectativa de um final diferente.
O desafio maior não é apenas econômico ou político; é civilizatório. Trata-se de reconstruir confiança — ativo invisível, porém essencial. Sem ela, reformas não prosperam, pactos não se sustentam, e a democracia se fragiliza. Com ela, mesmo cenários adversos podem ser enfrentados com coesão.
Enquanto isso, o bingo segue. As bolas continuam a girar no globo transparente da vida nacional. Resta saber se, desta vez, o país terá a lucidez de não apenas marcar números, mas de mudar as regras do jogo.
Gaudêncio Torquato
A polarização continua sendo o eixo estruturante da vida política. Não há debate, há trincheiras. De um lado e de outro, narrativas fechadas, impermeáveis ao diálogo. O adversário deixou de ser apenas opositor; transformou-se em inimigo moral. Nesse ambiente, a política perde densidade programática e ganha contornos de guerra simbólica. O país não discute soluções — disputa versões.
Como se não bastasse, escândalos insistem em frequentar o noticiário. O chamado “Caso Master” soma-se a uma sequência de episódios que envolvem agentes públicos, partidos e instituições. A corrupção, que deveria ser exceção, parece estrutural. Espraia-se como mancha de óleo, atingindo Executivo, Legislativo e até setores do Judiciário. A percepção social é devastadora: para muitos brasileiros, o sistema não falha — ele funciona assim.
No plano econômico, o cotidiano pesa. A gasolina orbitando a casa dos oito reais não é apenas um número; é símbolo de um custo de vida que comprime a renda e amplia o desalento. A inflação, ainda que tecnicamente sob controle em alguns indicadores, corrói silenciosamente o poder de compra. O carrinho de supermercado encolhe, o orçamento doméstico estica até o limite. E os impostos, elevados e complexos, reforçam a sensação de que o Estado cobra muito e entrega pouco.
O cenário internacional adiciona mais incerteza ao quadro. Guerras e tensões geopolíticas reconfiguram cadeias produtivas, pressionam preços e afetam mercados. O Brasil, inserido nesse tabuleiro, sente os efeitos indiretos: volatilidade cambial, instabilidade nos custos de energia, insegurança para investimentos. Em um mundo em ebulição, a margem de erro das políticas internas diminui.
Diante desse mosaico, o eleitor brasileiro entra em um novo ciclo eleitoral mais desconfiado e, ao mesmo tempo, mais exigente. A velha lógica do voto emocional começa a ceder espaço a um comportamento mais pragmático. Saúde, segurança e economia voltam ao centro da decisão. O cidadão quer respostas concretas, não apenas discursos inflamados. Quer previsibilidade, não espetáculo.
Mas há um paradoxo. Embora mais crítico, o eleitor ainda está imerso em um ambiente informacional contaminado por desinformação, algoritmos e bolhas digitais. A chamada “telecracia” — o poder das telas e das narrativas instantâneas — molda percepções e amplifica ruídos. A verdade disputa espaço com versões, e o julgamento público torna-se cada vez mais apressado.
O Brasil de 2026 é, portanto, um país tensionado entre a descrença e a esperança. Descrença nas instituições, nos líderes, nas promessas reiteradamente descumpridas. Esperança difusa de que algo, em algum momento, rompa o ciclo. A sociedade parece dizer: “já vimos esse filme”, mas continua assistindo, na expectativa de um final diferente.
O desafio maior não é apenas econômico ou político; é civilizatório. Trata-se de reconstruir confiança — ativo invisível, porém essencial. Sem ela, reformas não prosperam, pactos não se sustentam, e a democracia se fragiliza. Com ela, mesmo cenários adversos podem ser enfrentados com coesão.
Enquanto isso, o bingo segue. As bolas continuam a girar no globo transparente da vida nacional. Resta saber se, desta vez, o país terá a lucidez de não apenas marcar números, mas de mudar as regras do jogo.
Gaudêncio Torquato
EUA usam religião para justificar 'guerra santa' contra Irã
Aconteceu no gélido inverno de 2003 no Palácio do Eliseu. O objetivo da ligação do então presidente americano George W. Bush para Jacque Chirac, à época chefe do Executivo francês, era assegurar o apoio de Paris à iminente invasão americana no Iraque. Cerca de uma hora depois, após um protocolar “até breve”, o sisudo político encarou seus auxiliares mais próximos com ar atipicamente atarantado. E pediu que lhe explicassem quem eram, afinal de contas, os tais Gog e Magog de quem o republicano tanto falara na conversa. Silêncio. O mistério só foi resolvido após a convocação de um teólogo suíço, especializado no Antigo Testamento, que os iluminou sobre os textos bíblicos do profeta Ezequiel em torno das representações do mal.
A história, confirmada anos depois por pessoas diretamente envolvidas no arremedo de incidente diplomático, ressuscitou este mês na mente do professor Juan Cole. O déjà vu se deu quando o catedrático em Religião e Oriente Médio da Universidade de Michigan atentou para as imagens e falas, na Casa Branca e no Pentágono, que, após hiato de duas décadas, mesclavam intencionalmente fervor religioso e conflito bélico, agora em meio ao ataque dos EUA e de Israel ao Irã, iniciado há quatro semanas. E, sublinha o acadêmico, com potencial de estrago ainda maior.
No último dia 5, duas dezenas de pastores — 19 homens e duas mulheres — oraram no Salão Oval da Casa Branca pelo presidente Donald Trump. E para “Deus proteger nossos soldados”. Os mais ao centro posicionaram suas mãos no corpo do republicano. Vídeo e foto divulgados viralizaram. Na cena, todas as cabeças, inclusive a de Trump, que, diferentemente de Bush, não é evangélico ou especialmente religioso, estão voltadas para o chão, os olhos fechados, em expressões respeitosas.
Vinte dias depois, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, protagonizou um ato religioso no Pentágono em que citou trechos bíblicos para justificar o ataque. A esta altura, o bombardeio a uma escola primária na cidade de Minab, no sul do Irã, com a morte confirmada por Teerã de 175 pessoas, já havia se tornado o episódio mais escandaloso do conflito. Na cerimônia em Washington, o veterano militar de missões no Iraque e Afeganistão pediu a Deus que “arrancasse os dentes” e destruísse “os inimigos ímpios”, “não merecedores de misericórdia”. Eles, seguiu, devem ser “lançados à condenação eterna, à qual estão destinados”. Também conclamou o “Senhor a nos conceder alvos claros e justos para atos de violência”.
— Usa-se novamente no governo americano a linguagem da “guerra santa”, um arremedo de cruzada contemporânea, mas não por um presidente crente, contido por oficiais graduados e auxiliares ciosos em reafirmar a separação de Estado e religião estabelecida na Constituição, como na época de Bush, e, sim, por quem está no comando das operações militares — afirma Cole.
A Fundação Militar para Liberdade Religiosa, organização independente fundada dois anos após a invasão do Iraque, que defende soldados e oficiais americanos às voltas com discriminação religiosa, informou ter recebido, desde o início do ataque ao Irã, mais de 200 reclamações formais de proselitismo coercitivo, inclusive por fuzileiros navais.
No ano em que os EUA se preparam para celebrar 250 anos de independência e a afirmação dos valores democráticos, a contaminação da operação contra o Irã pela religião destilada como ideologia é um sinal amarelo para defensores da Primeira Emenda da Constituição, que assegura a liberdade religiosa no país.
— Os EUA não são um espelho exato para a teocracia iraniana, mas a discussão sobre a invasão da religião na argamassa democrática do país é urgente, uma provocação pertinente — diz Cole. — Esta guerra não tem como razão central o embate religioso, mas ele auxilia a Casa Branca em dois aspectos. Por um lado, escamoteia a falta de estratégia geopolítica, a carência de objetivos claros e factíveis. Por outro, em momento de crescente impopularidade de Trump, dialoga com parte importante de sua coalizão. No cálculo dos governistas, os evangélicos formam um quarto dos que de fato sairão de casa para votar em novembro.
Em sete meses, os americanos escolherão quem comandará o Congresso, além de governadores e Legislativos estaduais. Pesquisas indicam o favoritismo dos democratas para retomarem o comando da Câmara e, ainda que menos provável, o Senado. O que seria, nas palavras do próprio presidente, “o fim de meu governo”, com “mais um impeachment a enfrentar”. E neste caso Trump está coberto de razão.
O ataque ao Irã sem um plano de saída claro pode ter sido o maior passo em falso da segunda temporada do republicano na Casa Branca. Trump hoje amarga 56% de rejeição ao seu governo no monitoramento semanal do YouGov/Economist, responsabilizado pelo aumento da gasolina e do custo de vida como sequela direta de um conflito ainda sem fim no horizonte. E, destaca ao GLOBO Stephen Duncombe, diretor do Centro de Pesquisas de Ativismo e Arte da Universidade de Nova York (NYU), seu desespero se reflete na tentativa de reviver à direita um “messianismo medieval cristão datado e fora de lugar em democracias liberais”.
— E dentre os motivos, além de mais perda de vidas no país, e da eliminação em sequência de líderes, deve-se incluir a retórica da violência, aumentada por todos os lados na esfera religiosa — pondera Duncombe.
Ele lembra ainda que a denúncia do uso de termos como “Grande Satã” pelo Irã, em referência aos EUA, deve ser acompanhada da correspondente condenação a uma “reinterpretação desonesta” do cristianismo, propagada em “neocruzadas contra países com populações majoritariamente muçulmanas”. E que a apropriação desonesta de “imaginários mítico-religiosos” para avançar pautas ideológicas não se restringe ao Irã e ao trumpismo.
Assim como Bush e Hegseth, o premier Benjamin Netanyahu, logo no primeiro dia do conflito, revisitou as origens do Purim, celebrado este ano nos dias 2 e 3 de março. Buscou estabelecer paralelo direto, 2.500 anos depois, entre a ameaça ao povo judeu pelo império dos Aquemênidas, na Pérsia Antiga, e o governo dos aiatolás, que prega a eliminação de Israel.
Cole lembra que há razões terrenas, distantes da mitologia de Gog e Magog revisitadas por Bush, para a atual ênfase no uso da religião como propaganda de guerra pelos governos do Likud, de Netanyahu, e do Partido Republicano, de Trump. O premier israelense depende dos ortodoxos para seguir no poder após as eleições gerais, que é obrigado a convocar até outubro. E o trumpismo “se debate com o número recorde de americanos sem religião no país”, 30% de acordo com pesquisa do Pew Research Center no ano passado, além de crescente oposição ao atrelamento da política externa americana a Israel no Oriente Médio, especialmente após Gaza:
— Este pode ser um dos últimos suspiros da manipulação do imaginário medieval cristão com potencial decisivo de voto. Ainda assim, os aspectos simbólicos e a violência por motivação religiosa precisam ser ainda mais dissecados e combatidos do que em 2003.
Ao mesmo tempo, lembra Duncombe, isso se dá quando o Partido Democrata arrisca traçar novas linhas entre o exercício da fé e a política:
— Zohran Mamdani, muçulmano, venceu com folga a prefeitura de Nova York ano passado apresentando sua ética religiosa como trunfo. E a denúncia de abusos pela comunidade latina, em sua maioria católica, por agentes de imigração, teve enorme eco na Igreja, prenunciando uma disputa pelo voto cristão, especialmente em estrato que parecia migrar para o flanco conservador.
A história, confirmada anos depois por pessoas diretamente envolvidas no arremedo de incidente diplomático, ressuscitou este mês na mente do professor Juan Cole. O déjà vu se deu quando o catedrático em Religião e Oriente Médio da Universidade de Michigan atentou para as imagens e falas, na Casa Branca e no Pentágono, que, após hiato de duas décadas, mesclavam intencionalmente fervor religioso e conflito bélico, agora em meio ao ataque dos EUA e de Israel ao Irã, iniciado há quatro semanas. E, sublinha o acadêmico, com potencial de estrago ainda maior.
No último dia 5, duas dezenas de pastores — 19 homens e duas mulheres — oraram no Salão Oval da Casa Branca pelo presidente Donald Trump. E para “Deus proteger nossos soldados”. Os mais ao centro posicionaram suas mãos no corpo do republicano. Vídeo e foto divulgados viralizaram. Na cena, todas as cabeças, inclusive a de Trump, que, diferentemente de Bush, não é evangélico ou especialmente religioso, estão voltadas para o chão, os olhos fechados, em expressões respeitosas.
Vinte dias depois, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, protagonizou um ato religioso no Pentágono em que citou trechos bíblicos para justificar o ataque. A esta altura, o bombardeio a uma escola primária na cidade de Minab, no sul do Irã, com a morte confirmada por Teerã de 175 pessoas, já havia se tornado o episódio mais escandaloso do conflito. Na cerimônia em Washington, o veterano militar de missões no Iraque e Afeganistão pediu a Deus que “arrancasse os dentes” e destruísse “os inimigos ímpios”, “não merecedores de misericórdia”. Eles, seguiu, devem ser “lançados à condenação eterna, à qual estão destinados”. Também conclamou o “Senhor a nos conceder alvos claros e justos para atos de violência”.
— Usa-se novamente no governo americano a linguagem da “guerra santa”, um arremedo de cruzada contemporânea, mas não por um presidente crente, contido por oficiais graduados e auxiliares ciosos em reafirmar a separação de Estado e religião estabelecida na Constituição, como na época de Bush, e, sim, por quem está no comando das operações militares — afirma Cole.
A Fundação Militar para Liberdade Religiosa, organização independente fundada dois anos após a invasão do Iraque, que defende soldados e oficiais americanos às voltas com discriminação religiosa, informou ter recebido, desde o início do ataque ao Irã, mais de 200 reclamações formais de proselitismo coercitivo, inclusive por fuzileiros navais.
No ano em que os EUA se preparam para celebrar 250 anos de independência e a afirmação dos valores democráticos, a contaminação da operação contra o Irã pela religião destilada como ideologia é um sinal amarelo para defensores da Primeira Emenda da Constituição, que assegura a liberdade religiosa no país.
— Os EUA não são um espelho exato para a teocracia iraniana, mas a discussão sobre a invasão da religião na argamassa democrática do país é urgente, uma provocação pertinente — diz Cole. — Esta guerra não tem como razão central o embate religioso, mas ele auxilia a Casa Branca em dois aspectos. Por um lado, escamoteia a falta de estratégia geopolítica, a carência de objetivos claros e factíveis. Por outro, em momento de crescente impopularidade de Trump, dialoga com parte importante de sua coalizão. No cálculo dos governistas, os evangélicos formam um quarto dos que de fato sairão de casa para votar em novembro.
Em sete meses, os americanos escolherão quem comandará o Congresso, além de governadores e Legislativos estaduais. Pesquisas indicam o favoritismo dos democratas para retomarem o comando da Câmara e, ainda que menos provável, o Senado. O que seria, nas palavras do próprio presidente, “o fim de meu governo”, com “mais um impeachment a enfrentar”. E neste caso Trump está coberto de razão.
O ataque ao Irã sem um plano de saída claro pode ter sido o maior passo em falso da segunda temporada do republicano na Casa Branca. Trump hoje amarga 56% de rejeição ao seu governo no monitoramento semanal do YouGov/Economist, responsabilizado pelo aumento da gasolina e do custo de vida como sequela direta de um conflito ainda sem fim no horizonte. E, destaca ao GLOBO Stephen Duncombe, diretor do Centro de Pesquisas de Ativismo e Arte da Universidade de Nova York (NYU), seu desespero se reflete na tentativa de reviver à direita um “messianismo medieval cristão datado e fora de lugar em democracias liberais”.
— E dentre os motivos, além de mais perda de vidas no país, e da eliminação em sequência de líderes, deve-se incluir a retórica da violência, aumentada por todos os lados na esfera religiosa — pondera Duncombe.
Ele lembra ainda que a denúncia do uso de termos como “Grande Satã” pelo Irã, em referência aos EUA, deve ser acompanhada da correspondente condenação a uma “reinterpretação desonesta” do cristianismo, propagada em “neocruzadas contra países com populações majoritariamente muçulmanas”. E que a apropriação desonesta de “imaginários mítico-religiosos” para avançar pautas ideológicas não se restringe ao Irã e ao trumpismo.
Assim como Bush e Hegseth, o premier Benjamin Netanyahu, logo no primeiro dia do conflito, revisitou as origens do Purim, celebrado este ano nos dias 2 e 3 de março. Buscou estabelecer paralelo direto, 2.500 anos depois, entre a ameaça ao povo judeu pelo império dos Aquemênidas, na Pérsia Antiga, e o governo dos aiatolás, que prega a eliminação de Israel.
Cole lembra que há razões terrenas, distantes da mitologia de Gog e Magog revisitadas por Bush, para a atual ênfase no uso da religião como propaganda de guerra pelos governos do Likud, de Netanyahu, e do Partido Republicano, de Trump. O premier israelense depende dos ortodoxos para seguir no poder após as eleições gerais, que é obrigado a convocar até outubro. E o trumpismo “se debate com o número recorde de americanos sem religião no país”, 30% de acordo com pesquisa do Pew Research Center no ano passado, além de crescente oposição ao atrelamento da política externa americana a Israel no Oriente Médio, especialmente após Gaza:
— Este pode ser um dos últimos suspiros da manipulação do imaginário medieval cristão com potencial decisivo de voto. Ainda assim, os aspectos simbólicos e a violência por motivação religiosa precisam ser ainda mais dissecados e combatidos do que em 2003.
Ao mesmo tempo, lembra Duncombe, isso se dá quando o Partido Democrata arrisca traçar novas linhas entre o exercício da fé e a política:
— Zohran Mamdani, muçulmano, venceu com folga a prefeitura de Nova York ano passado apresentando sua ética religiosa como trunfo. E a denúncia de abusos pela comunidade latina, em sua maioria católica, por agentes de imigração, teve enorme eco na Igreja, prenunciando uma disputa pelo voto cristão, especialmente em estrato que parecia migrar para o flanco conservador.
domingo, 29 de março de 2026
O powerpoint certo do Banco Master
Um programa da GloboNews mostrou um gráfico que colocava Lula e a esquerda no centro do escândalo do Master. Estava errado. A emissora pediu desculpas. Mas como seria o Powerpoint certo?
No centro, coloque Daniel Vorcaro como símbolo do ecossistema Master (que tem também Fictor, Will Bank, Reag, etc.).
Em volta, desenhe um primeiro círculo com o título "suspeitos de roubar com o Master". São os três governadores (todos de direita) e 15 prefeitos (14 de direita) que investiram dinheiro de aposentados no banco. A administração do PT da Bahia é suspeita de coisa diferente, mas pode ser colocada aqui –como um dos 19 casos. Se algum caso merece destaque é Cláudio Castro, do PL, que queimou R$ 1 bilhão dos aposentados do Rio no Master.
Desenhe um segundo círculo com o título "suspeitos de tentar salvar o Master com mutreta". Aqui entram: os partidos PL, PP, União Brasil, Republicanos, MDB e PSB, que assinaram urgência para projeto que lhes permitiria afastar a diretoria do Banco Central que investigava o Master (Req. 3651/2025); Ciro Nogueira (PP-PI) e Filipe Barros (PL-PR), que tentaram mudar a lei para aumentar a cobertura do FGC, dando sobrevida ao esquema (Emenda 11 à PEC 65/2023 e PL 4395/2024); Dias Toffoli, do STF, e Jhonatan de Jesus, ministro do TCU e ex-deputado do Republicanos, que tentaram melar o trabalho do BC.
Guido Mantega, que atuou como lobista para Vorcaro e conseguiu uma reunião dele com Lula e Galípolo; os dois diretores do Banco Central subornados por Vorcaro; e, com absoluto destaque, Ibaneis Rocha (MDB-DF), que deu um rombo de R$ 15 bi a R$ 20 bilhões no BRB tentando salvar o Master.
Nesse segundo círculo também devem entrar Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques. Não sabemos, ainda, se fizeram ou prometeram fazer algo para salvar o Master. Porém, seus familiares (esposa de Moraes, filho de Nunes Marques) têm contratos de advocacia com o ecossistema Master com valores suspeitos. Eu não incluiria Ricardo Lewandowski no mesmo círculo, porque a Polícia Federal, sob sua responsabilidade, prendeu o ecossistema inteiro; e porque os honorários que o Master lhe pagava eram muito mais compatíveis com os valores de mercado. Mas o leitor pode colocá-lo aqui, se achar melhor.
Desenhe um terceiro círculo com o título "recebeu dinheiro do Master para fazer campanha eleitoral". Aqui estão Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) e, sobretudo, Jair Bolsonaro. Além dos R$ 3 milhões recebidos de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, os passeios de jatinho de Nikolas Ferreira eram para fazer campanha para Jair.
Lula não está no Powerpoint. Até agora, não há sinal de que tenha roubado com o Master, tentado salvá-lo ou recebido dinheiro de seus sócios. Se algo aparecer, colocamos Lula.
Haddad é, pelo que se sabe, o único político que se negou a encontrar Vorcaro. Galípolo liquidou o Master.
Esse tipo de gráfico tem seus defeitos: há gente que fez coisas de gravidade diferente no mesmo círculo. Mais importante: o gráfico precisa ser atualizado com o conteúdo dos celulares de Vorcaro (mais importante que as delações).
Há outros envolvidos, mas todo o núcleo político do caso Master está aí. Agora pinte os envolvidos de direita de azul, os de esquerda de vermelho, os juízes de preto, e observe o padrão.
No centro, coloque Daniel Vorcaro como símbolo do ecossistema Master (que tem também Fictor, Will Bank, Reag, etc.).
Em volta, desenhe um primeiro círculo com o título "suspeitos de roubar com o Master". São os três governadores (todos de direita) e 15 prefeitos (14 de direita) que investiram dinheiro de aposentados no banco. A administração do PT da Bahia é suspeita de coisa diferente, mas pode ser colocada aqui –como um dos 19 casos. Se algum caso merece destaque é Cláudio Castro, do PL, que queimou R$ 1 bilhão dos aposentados do Rio no Master.
Desenhe um segundo círculo com o título "suspeitos de tentar salvar o Master com mutreta". Aqui entram: os partidos PL, PP, União Brasil, Republicanos, MDB e PSB, que assinaram urgência para projeto que lhes permitiria afastar a diretoria do Banco Central que investigava o Master (Req. 3651/2025); Ciro Nogueira (PP-PI) e Filipe Barros (PL-PR), que tentaram mudar a lei para aumentar a cobertura do FGC, dando sobrevida ao esquema (Emenda 11 à PEC 65/2023 e PL 4395/2024); Dias Toffoli, do STF, e Jhonatan de Jesus, ministro do TCU e ex-deputado do Republicanos, que tentaram melar o trabalho do BC.
Guido Mantega, que atuou como lobista para Vorcaro e conseguiu uma reunião dele com Lula e Galípolo; os dois diretores do Banco Central subornados por Vorcaro; e, com absoluto destaque, Ibaneis Rocha (MDB-DF), que deu um rombo de R$ 15 bi a R$ 20 bilhões no BRB tentando salvar o Master.
Nesse segundo círculo também devem entrar Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques. Não sabemos, ainda, se fizeram ou prometeram fazer algo para salvar o Master. Porém, seus familiares (esposa de Moraes, filho de Nunes Marques) têm contratos de advocacia com o ecossistema Master com valores suspeitos. Eu não incluiria Ricardo Lewandowski no mesmo círculo, porque a Polícia Federal, sob sua responsabilidade, prendeu o ecossistema inteiro; e porque os honorários que o Master lhe pagava eram muito mais compatíveis com os valores de mercado. Mas o leitor pode colocá-lo aqui, se achar melhor.
Desenhe um terceiro círculo com o título "recebeu dinheiro do Master para fazer campanha eleitoral". Aqui estão Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) e, sobretudo, Jair Bolsonaro. Além dos R$ 3 milhões recebidos de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, os passeios de jatinho de Nikolas Ferreira eram para fazer campanha para Jair.
Lula não está no Powerpoint. Até agora, não há sinal de que tenha roubado com o Master, tentado salvá-lo ou recebido dinheiro de seus sócios. Se algo aparecer, colocamos Lula.
Haddad é, pelo que se sabe, o único político que se negou a encontrar Vorcaro. Galípolo liquidou o Master.
Esse tipo de gráfico tem seus defeitos: há gente que fez coisas de gravidade diferente no mesmo círculo. Mais importante: o gráfico precisa ser atualizado com o conteúdo dos celulares de Vorcaro (mais importante que as delações).
Há outros envolvidos, mas todo o núcleo político do caso Master está aí. Agora pinte os envolvidos de direita de azul, os de esquerda de vermelho, os juízes de preto, e observe o padrão.
No balcão de compra e venda, o que se quer da República é uma fachada conveniente
Há algo de salutar no escândalo do Banco Master, pois toda grande crise (do grego "krinein", descriminar, ver nas fissuras) revela aspectos despercebidos da realidade. No caso do Master, mais do que revelar, trata-se de expor: quando não se conhecem detalhes, ao menos se sente o peso do poder paralelo de entidades corruptivas na dinâmica nacional. Na exposição, incrementada nas redes por mobilização neural, o argumento dá lugar à cenografia, como num conto moral. As massas veem o que sentem de coração.
Desse modo, a visibilidade do fato privilegia palavras e imagens projetivas: festa de noivado na Sicília orçada em R$ 21 milhões, R$ 363 milhões em celebração em Taormina, também na Itália, passeio de R$ 10 milhões em iate, jato transatlântico, champanhe e caviar inesgotáveis, beldades eslavas.
Por trás, o azeitamento corruptivo da máquina do poder em Brasília, efeito da falência da política positiva (homóloga à historicidade da ordem e do progresso), ultrapassada por organizações econômicas (bancos, grupos de finanças, agronegócio), direita e centrão.
Nessa crise, fenômenos e movimentos suscitam interrogações relevantes sobre as relações do poder com a sociedade, mas também com a mutação do sentimento de existência nas classes dirigentes.
São diversos os modos de realização da democracia liberal quando os caminhos sociais se decidem por elites abrigadas em protocolos entre formais e obscuros, à sombra do Estado. É o caso dos estamentos burocráticos que ganham autonomia decisória na debilitação político-institucional. Por exemplo, Judiciário e Legislativo vulneráveis a círculos financeiros e empresariais.
Um sentimento de existência permeável à sua própria exposição pública leva um capo fraudulento como Vorcaro à enunciação de verdades escandalosas: "Esse negócio de banco é uma máfia", "eu sou a anarquia do sistema". E como a mafialização é também evangélica, alega-se parceria com o "Senhor dos Exércitos" em desavenças pessoais. Algo correlato ao vaticínio bíblico sobre os que desprezam a palavra do Santo de Israel: " Por isso, o furor do Senhor se inflama contra seu povo, apodera-se dele e o castiga; os montes tremem, seus cadáveres, como carniça, jazem nas ruas" (Isaías, 5-25). Pequena lagoa de ódio que respalda a milícia particular destinada a agredir a imprensa e ameaçar de morte os dissidentes.
A exposição do escândalo levanta a suspeita de que um outro Brasil tenha nascido e se alojado nas vísceras federais como um chupa-cabra de energias do trabalho produtivo. Dinheiro é o sangue vital, corrupção o modo operatório. Nesse balcão de compra e venda, o que se quer da República é uma fachada conveniente, um "brilho de aluguel" (João Bosco/Aldir Blanc).
Não é fenômeno exclusivo, mas aqui a desigualdade social e o desprezo das elites no poder pelo território dão à fraude estatuto de cataclisma moral e cívico. Por isso, ao sentimento público de justiça pouco satisfazem, expostos, uniforme, chinelão e a cela exígua do mestre corruptor, por mais que bata nas paredes a cabeça tosada. Uma delação verdadeira, essa, sim, mostraria o conteúdo da caixa de Pandora chamada Brasília. Aí então, seria um verdadeiro salve-se quem puder.
Desse modo, a visibilidade do fato privilegia palavras e imagens projetivas: festa de noivado na Sicília orçada em R$ 21 milhões, R$ 363 milhões em celebração em Taormina, também na Itália, passeio de R$ 10 milhões em iate, jato transatlântico, champanhe e caviar inesgotáveis, beldades eslavas.
Por trás, o azeitamento corruptivo da máquina do poder em Brasília, efeito da falência da política positiva (homóloga à historicidade da ordem e do progresso), ultrapassada por organizações econômicas (bancos, grupos de finanças, agronegócio), direita e centrão.
Nessa crise, fenômenos e movimentos suscitam interrogações relevantes sobre as relações do poder com a sociedade, mas também com a mutação do sentimento de existência nas classes dirigentes.
São diversos os modos de realização da democracia liberal quando os caminhos sociais se decidem por elites abrigadas em protocolos entre formais e obscuros, à sombra do Estado. É o caso dos estamentos burocráticos que ganham autonomia decisória na debilitação político-institucional. Por exemplo, Judiciário e Legislativo vulneráveis a círculos financeiros e empresariais.
Um sentimento de existência permeável à sua própria exposição pública leva um capo fraudulento como Vorcaro à enunciação de verdades escandalosas: "Esse negócio de banco é uma máfia", "eu sou a anarquia do sistema". E como a mafialização é também evangélica, alega-se parceria com o "Senhor dos Exércitos" em desavenças pessoais. Algo correlato ao vaticínio bíblico sobre os que desprezam a palavra do Santo de Israel: " Por isso, o furor do Senhor se inflama contra seu povo, apodera-se dele e o castiga; os montes tremem, seus cadáveres, como carniça, jazem nas ruas" (Isaías, 5-25). Pequena lagoa de ódio que respalda a milícia particular destinada a agredir a imprensa e ameaçar de morte os dissidentes.
A exposição do escândalo levanta a suspeita de que um outro Brasil tenha nascido e se alojado nas vísceras federais como um chupa-cabra de energias do trabalho produtivo. Dinheiro é o sangue vital, corrupção o modo operatório. Nesse balcão de compra e venda, o que se quer da República é uma fachada conveniente, um "brilho de aluguel" (João Bosco/Aldir Blanc).
Não é fenômeno exclusivo, mas aqui a desigualdade social e o desprezo das elites no poder pelo território dão à fraude estatuto de cataclisma moral e cívico. Por isso, ao sentimento público de justiça pouco satisfazem, expostos, uniforme, chinelão e a cela exígua do mestre corruptor, por mais que bata nas paredes a cabeça tosada. Uma delação verdadeira, essa, sim, mostraria o conteúdo da caixa de Pandora chamada Brasília. Aí então, seria um verdadeiro salve-se quem puder.
A inteligência artificial e a nova fronteira da desigualdade no Brasil
A empresária Natalia Beauty provocou reações ao admitir que utiliza inteligência artificial para estruturar seus artigos publicados na Folha de São Paulo. Questionada após um leitor sugerir que seus textos pareciam “escritos por IA”, ela não negou. Disse que as ideias são suas, mas que usa modelos como o Claude, da Anthropic, para redigir as colunas. Comparou o uso da ferramenta às canetas emagrecedoras: muita gente usa, mas poucos assumem. A reação pública revelou um desconforto com o uso da tecnologia. Mas deixou de expor um fenômeno estrutural: no Brasil, a inteligência artificial pode se tornar um diferencial de classe.
O debate internacional já reconheceu esse fenômeno e lhe deu um nome: AI Divide – ou divisão da inteligência artificial. O conceito descreve uma nova camada de desigualdade baseada não apenas no acesso à tecnologia, mas na capacidade de utilizá-la estrategicamente para ampliar produtividade, renda e poder. Um estudo publicado pela JP Morgan mostra que elites econômicas passaram a incorporar a IA como ferramenta estratégica para ganhar eficiência, antecipar decisões e otimizar processos. A tecnologia aparece não apenas como instrumento de produtividade, mas como forma de converter tempo em vantagem competitiva.
Na mesma direção, estudos da McKinsey & Company sobre consumo e estilo de vida identificam que o bem-estar se tornou um novo luxo e que o activewear é o novo símbolo de status. Para sustentar essa estética de equilíbrio e performance é preciso tempo – e tempo, hoje, virou ativo econômico. A inteligência artificial entra nesse circuito como ferramenta estratégica: acelera tarefas, organiza informações e libera horas que podem ser reinvestidas.
No Brasil, os dados confirmam a concentração. Segundo a TIC Domicílios 2025, 69% da classe A utilizam inteligência artificial generativa, contra apenas 16% nas classes D e E. Entre pessoas com ensino superior, o índice chega a 59%; entre quem tem apenas ensino fundamental, cai para 17%. No total, 32% dos usuários de internet no país já utilizaram IA – mas a média nacional mascara uma desigualdade profunda no acesso qualificado à tecnologia.
Nos ambientes corporativos, a IA é apresentada como estratégia e inovação. Nos territórios vulneráveis, aparece associada a golpes digitais, deepfakes, perda de emprego e desinformação. Os riscos existem. Mas quando a diferença diária de produtividade, acumulada ao longo dos anos, se converte em desigualdade estrutural, limitar o debate apenas às ameaças reforça a exclusão. Ao enfatizar o risco sem oferecer capacitação, a mensagem implícita é clara: essa tecnologia não é para você.
O jornalismo já sente esse efeito. Grandes grupos já integram a IA às suas estratégias de produto e distribuição. Veículos independentes a utilizam de forma pontual, segundo estudo da Thomson Media, muitas vezes restrita a tarefas operacionais. Quando apenas organizações com maior capital incorporam a IA de forma estratégica, a desigualdade no ecossistema informacional se aprofunda.
Parte do debate público ainda tende a moralizar o uso da inteligência artificial, o que frequentemente dificulta uma discussão mais madura sobre sua adoção no Brasil. Utilizar IA seria uma forma de trapaça? Tornaria o trabalho menos legítimo ou o usuário menos inteligente? Ao enquadrar a questão nesses termos, o debate se desloca da discussão sobre infraestrutura, acesso e regulação – justamente os elementos que definem quem realmente se beneficia da tecnologia.
Em texto recente publicado no blog da Mozilla.ai, AI Generated Code Isn’t Cheating: OSS Needs to Talk About It, desenvolvedores defendem que o problema não é utilizar inteligência artificial para gerar código, mas fingir que ela não está presente. Paralelamente, o debate internacional sobre IA tem se deslocado de uma lógica de proibição para uma discussão sobre transparência, responsabilidade e distribuição dos benefícios da tecnologia. O relatório Mind the AI Divide: Shaping a Global Perspective on the Future of Work, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), chama atenção para um aspecto estrutural desse processo: a infraestrutura necessária para desenvolver e operar sistemas avançados de IA – como centros de dados, capacidade computacional e investimento em pesquisa – permanece concentrada em poucos países e empresas globais.
Assim, a disputa de poder na economia da inteligência artificial não se limita ao uso da tecnologia pelos indivíduos, mas envolve também o controle das plataformas, dos dados e da infraestrutura que tornam esses sistemas possíveis. A inteligência artificial não é neutra. Ela amplia estruturas preexistentes. Num país marcado por desigualdades históricas, o resultado tende a ser previsível.
Sem políticas públicas de formação massiva em IA, conectividade de qualidade e apoio a iniciativas locais e independentes, a tecnologia se consolidará como mais um benefício de classe. A questão não é se a IA será usada. Ela já está sendo. A questão é quem acumulará produtividade, renda e poder – e quem ficará apenas com o discurso do risco. Até agora, o futuro continua sendo apropriado pelas mesmas pessoas do presente.
O debate internacional já reconheceu esse fenômeno e lhe deu um nome: AI Divide – ou divisão da inteligência artificial. O conceito descreve uma nova camada de desigualdade baseada não apenas no acesso à tecnologia, mas na capacidade de utilizá-la estrategicamente para ampliar produtividade, renda e poder. Um estudo publicado pela JP Morgan mostra que elites econômicas passaram a incorporar a IA como ferramenta estratégica para ganhar eficiência, antecipar decisões e otimizar processos. A tecnologia aparece não apenas como instrumento de produtividade, mas como forma de converter tempo em vantagem competitiva.
Na mesma direção, estudos da McKinsey & Company sobre consumo e estilo de vida identificam que o bem-estar se tornou um novo luxo e que o activewear é o novo símbolo de status. Para sustentar essa estética de equilíbrio e performance é preciso tempo – e tempo, hoje, virou ativo econômico. A inteligência artificial entra nesse circuito como ferramenta estratégica: acelera tarefas, organiza informações e libera horas que podem ser reinvestidas.
No Brasil, os dados confirmam a concentração. Segundo a TIC Domicílios 2025, 69% da classe A utilizam inteligência artificial generativa, contra apenas 16% nas classes D e E. Entre pessoas com ensino superior, o índice chega a 59%; entre quem tem apenas ensino fundamental, cai para 17%. No total, 32% dos usuários de internet no país já utilizaram IA – mas a média nacional mascara uma desigualdade profunda no acesso qualificado à tecnologia.
Nos ambientes corporativos, a IA é apresentada como estratégia e inovação. Nos territórios vulneráveis, aparece associada a golpes digitais, deepfakes, perda de emprego e desinformação. Os riscos existem. Mas quando a diferença diária de produtividade, acumulada ao longo dos anos, se converte em desigualdade estrutural, limitar o debate apenas às ameaças reforça a exclusão. Ao enfatizar o risco sem oferecer capacitação, a mensagem implícita é clara: essa tecnologia não é para você.
O jornalismo já sente esse efeito. Grandes grupos já integram a IA às suas estratégias de produto e distribuição. Veículos independentes a utilizam de forma pontual, segundo estudo da Thomson Media, muitas vezes restrita a tarefas operacionais. Quando apenas organizações com maior capital incorporam a IA de forma estratégica, a desigualdade no ecossistema informacional se aprofunda.
Parte do debate público ainda tende a moralizar o uso da inteligência artificial, o que frequentemente dificulta uma discussão mais madura sobre sua adoção no Brasil. Utilizar IA seria uma forma de trapaça? Tornaria o trabalho menos legítimo ou o usuário menos inteligente? Ao enquadrar a questão nesses termos, o debate se desloca da discussão sobre infraestrutura, acesso e regulação – justamente os elementos que definem quem realmente se beneficia da tecnologia.
Em texto recente publicado no blog da Mozilla.ai, AI Generated Code Isn’t Cheating: OSS Needs to Talk About It, desenvolvedores defendem que o problema não é utilizar inteligência artificial para gerar código, mas fingir que ela não está presente. Paralelamente, o debate internacional sobre IA tem se deslocado de uma lógica de proibição para uma discussão sobre transparência, responsabilidade e distribuição dos benefícios da tecnologia. O relatório Mind the AI Divide: Shaping a Global Perspective on the Future of Work, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), chama atenção para um aspecto estrutural desse processo: a infraestrutura necessária para desenvolver e operar sistemas avançados de IA – como centros de dados, capacidade computacional e investimento em pesquisa – permanece concentrada em poucos países e empresas globais.
Assim, a disputa de poder na economia da inteligência artificial não se limita ao uso da tecnologia pelos indivíduos, mas envolve também o controle das plataformas, dos dados e da infraestrutura que tornam esses sistemas possíveis. A inteligência artificial não é neutra. Ela amplia estruturas preexistentes. Num país marcado por desigualdades históricas, o resultado tende a ser previsível.
Sem políticas públicas de formação massiva em IA, conectividade de qualidade e apoio a iniciativas locais e independentes, a tecnologia se consolidará como mais um benefício de classe. A questão não é se a IA será usada. Ela já está sendo. A questão é quem acumulará produtividade, renda e poder – e quem ficará apenas com o discurso do risco. Até agora, o futuro continua sendo apropriado pelas mesmas pessoas do presente.
Aplausos trumpistas
Trump 2.0 é muito melhor que Trump 1.0, não é? Bem, Bolsonaro 2.0 também será muito melhor.
Flávio Bolsonaro, ovacionado de pé no Texas durante discurso na CPAC, a conferência anual do movimento conservador americano
Flávio Bolsonaro, ovacionado de pé no Texas durante discurso na CPAC, a conferência anual do movimento conservador americano
Os irmãos Bolsonaro e a sabotagem do Brasil
Flávio Bolsonaro, aquele que muitos tentam vender como o “rosto moderado” da família, resolveu vestir uma nova fantasia. Esqueçam o figurino de centro ou centro-direita que tentam lhe impor.
Reportagem recente do The New York Times pôs luz sobre o que vinha sendo cozinhado nos bastidores: um lobby intenso de Flávio e seu irmão Eduardo junto à administração de Donald Trump.
O objetivo? Convencer os americanos a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Segundo o jornal, Flávio chegou a entregar relatórios detalhados ao Departamento de Estado, atuando quase como um chanceler paralelo – ou, no bom português, um lobista de luxo.
A ideia parece saída diretamente do manual de “idiotices políticas” que a família domina com maestria.
Há uma diferença fundamental que os Bolsonaros fingem não entender: o crime organizado quer lucro. Organizações terroristas querem derrubar Estados e ideologias. Ao misturar as estações, Flávio não busca segurança pública para o brasileiro.
Ele busca um trunfo eleitoral para sua pré-candidatura em 2026 e, pior, abre as portas para uma intervenção externa que fere a nossa soberania.
Se Trump, cercado por uma equipe que só sabe dizer “sim senhor”, cair nessa conversa, entregará um presente de bandeja para Lula. O petista não perderia a chance de se enrolar na bandeira nacional para denunciar o óbvio: um atentado à autonomia do Brasil provocado por brasileiros.
Flávio Bolsonaro parece não perceber que, ao tentar criar esse fato internacional, pode estar cavando um buraco ainda mais fundo. A vida do senador tende a ficar muito mais complicada se Washington começar a ditar as regras no nosso quintal. O tiro, como de costume, tem tudo para sair pela culatra.
Depois das sanções, estimuladas pelo “chanceler do caos” Eduardo Bolsonaro, temos agora o patriota Flávio abrindo as portas para interferência em ano eleitoral.
É o amadorismo da família Bolsonaro atravessando o oceano (de novo) para passar vergonha.
Reportagem recente do The New York Times pôs luz sobre o que vinha sendo cozinhado nos bastidores: um lobby intenso de Flávio e seu irmão Eduardo junto à administração de Donald Trump.
O objetivo? Convencer os americanos a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Segundo o jornal, Flávio chegou a entregar relatórios detalhados ao Departamento de Estado, atuando quase como um chanceler paralelo – ou, no bom português, um lobista de luxo.
A ideia parece saída diretamente do manual de “idiotices políticas” que a família domina com maestria.
Há uma diferença fundamental que os Bolsonaros fingem não entender: o crime organizado quer lucro. Organizações terroristas querem derrubar Estados e ideologias. Ao misturar as estações, Flávio não busca segurança pública para o brasileiro.
Ele busca um trunfo eleitoral para sua pré-candidatura em 2026 e, pior, abre as portas para uma intervenção externa que fere a nossa soberania.
Se Trump, cercado por uma equipe que só sabe dizer “sim senhor”, cair nessa conversa, entregará um presente de bandeja para Lula. O petista não perderia a chance de se enrolar na bandeira nacional para denunciar o óbvio: um atentado à autonomia do Brasil provocado por brasileiros.
Flávio Bolsonaro parece não perceber que, ao tentar criar esse fato internacional, pode estar cavando um buraco ainda mais fundo. A vida do senador tende a ficar muito mais complicada se Washington começar a ditar as regras no nosso quintal. O tiro, como de costume, tem tudo para sair pela culatra.
Depois das sanções, estimuladas pelo “chanceler do caos” Eduardo Bolsonaro, temos agora o patriota Flávio abrindo as portas para interferência em ano eleitoral.
É o amadorismo da família Bolsonaro atravessando o oceano (de novo) para passar vergonha.
Dondon
Chamava-se Dondon. Mais exatamente, o nome era Antônio Santana Castelo Branco, mas ele próprio acrescentava: — “vulgo Dondon”; e com o tempo, já morto, não se tornou de todo alheio a mim pela misteriosa rede dos afetos que o sangue confirma, pois era parente longe da menina moça que um dia me deu um lar e, mais perto, do meu professor de francês no Liceu Piauiense, que há quarenta anos quero e admiro, Cristino Castelo Branco, e de seu filho, Carlos, que amo como irmão. Pensando melhor, emendo a tempo. Esse clã dos Castelo Branco, no ramo piauiense, sempre foi muito da minha gente. Havia os amigos de meu pai, Fenelon, Heitor e houve os meus, Huguinho, que morreu em meus braços, de cabelos brancos e com quem se perderam os segredos mais típicos do vale do Parnaíba, exceto a altura exata de armador de rede, pois esse ainda teve ocasião de me confiar, e Sansão, menino de cachos vestido de veludo que vi adulto morrer dispersando o gênio, gênio mesmo de verdade, em noites boêmias, cujo amanhecer por vezes refluía para minha casa de Santa Teresa, onde iam parar suas compras de madrugada em mercado de peixe, siris vivos, ou algum pato que preparava ao tucupi com a mesma arte dos seus quadros.
Ora, isto posto, como ia dizendo, chamava-se Dondon e (com perdão da má palavra) era meio doido, senão doido inteiro. Ele próprio dizia que morava no Campo de Marte, no mesmo largo em que estavam a Santa Casa, o Asilo de Loucos, a Cadeia Pública e o Cemitério, que era para não dar trabalho em caso de necessidade…
Dizia, só? Não. Escrevia. Porque esse piauiense atarracado e falante, por cujo desvario nunca faltou caridade em casa de meus pais, era jornalista. Foi, mesmo, um dos primeiros jornalistas que conheci, e ainda hoje o vejo (ou revejo) com os olhos da infância, que viu outros, e no exemplo de outros se banhou, mas com Antônio Santana Castelo Branco, vulgo Dondon, aprendeu cedo como não se deve fazer jornal.
Desde logo, porém, direi uma coisa em seu louvor. Era tudo, em sua folha; e gabava-se disso. Diretor, redator, revisor, tipógrafo, distribuidor a domicílio, vendedor de número avulso no Bar Carvalho, não dependia de ninguém para fazer O Denunciante. Era esse o nome daquelas quatro páginas impressas; e nelas se derramava toda a maledicência da pequena cidade provinciana, a Teresina da era de Vinte. Do fundo da memória emerge o cabeçalho, e se o tempo não me trai nele se acrescentava aos apelidos e qualificações de Dondon no desempenho profissional de suas tarefas outra condição mais alta, a de “Defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz”.
Não propriamente a paz entre as famílias, nem dentro delas; porque algumas das hipóteses que os filhos da Candinha e a imaginação alucinada de Dondon transformavam em verdades incontestáveis e matéria impressa eram de molde a separar marido e mulher, filhos e pais, irmãos e cunhados, e assim por diante, sem falar em patrões e caixeiros, governados e governantes. Um destes últimos, cujo nome ainda hoje no Piauí é coberto de bênçãos pela excelência do seu governo, cometeu com Dondon a única arbitrariedade consciente de que sua mocidade severa e ativa o acusa. Estava-se em plena Revolução de 1930, o Tenente Landri Sales era interventor, cansou-se daquela maluquice exaltada que fazia da calúnia e da injúria um sistema jornalístico; mandou jogar a tipografia de Dondon no Parnaíba. E Antônio Santana Castelo Branco passou a viver de carregar banana em lombo de burro.
Falei em sistema. Era um sistema. O Denunciante não tinha preço fixo para a venda. Cada família, suscetível de vir a ter o nome impresso em tinta de jornal, era taxada, segundo as suas posses, que não segundo seus pecados. Pois a lembrança da espórtula arrecadada, cinco, vinte ou cinquenta mil réis que fossem, mesmo cem — o preço de dois bois —, se apagava totalmente da memória de Antônio Santana Castelo Branco, o defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz, quando se sentava para escrever. Não assumia compromissos com ninguém — a não ser com a maledicência pública e com seu próprio desvario denunciatório. Nem adiantava pagar-lhe para que se calasse, pois, ao contrário de tantos cosmopolitas, não escrevia que lhe pagassem — e se calasse. Faltava-lhe o siso, não a honestidade.
Cheguei ao Rio em março de 1930. A 6 de janeiro de 1931 Félix Pacheco iluminava de alegria os meus dezesseis anos com um emprego no Jornal do Comércio. Fui ser repórter no Ministério do Trabalho e conheci Lindolfo Collor, com quem a Revolução de 30 dizia ao que vinha, coisa que as Revoluções faziam depressa naquele tempo. Lá se vão mais de 33 anos que vivo em jornal. Nunca mais vi O Denunciante. Dondon já morreu há muito. Eis senão quando esta surpresa brutal: seu espírito ressuscita e invade a imprensa brasileira com uma fúria a que poucos restam imunes. Mistério insondável da natureza, os tipos do O Denunciante, que o então Tenente Landri Sales Gonçalves mandou jogar no Parnaíba, germinaram monstruosamente. Sua tinta pesteou as águas; e com elas desceu rio abaixo, salgou o mar oceano e onde houve terra brasileira banhada pelo Atlântico e mais chão adentro esse vírus maníaco foi contaminar jornais e jornalistas. E no caminho em que vão as coisas, será em breve necessário acrescentar ao currículo das escolas de jornalismo a cadeira em que se ensine a técnica da delação e a arte da denúncia.
Ora, isto posto, como ia dizendo, chamava-se Dondon e (com perdão da má palavra) era meio doido, senão doido inteiro. Ele próprio dizia que morava no Campo de Marte, no mesmo largo em que estavam a Santa Casa, o Asilo de Loucos, a Cadeia Pública e o Cemitério, que era para não dar trabalho em caso de necessidade…
Dizia, só? Não. Escrevia. Porque esse piauiense atarracado e falante, por cujo desvario nunca faltou caridade em casa de meus pais, era jornalista. Foi, mesmo, um dos primeiros jornalistas que conheci, e ainda hoje o vejo (ou revejo) com os olhos da infância, que viu outros, e no exemplo de outros se banhou, mas com Antônio Santana Castelo Branco, vulgo Dondon, aprendeu cedo como não se deve fazer jornal.
Desde logo, porém, direi uma coisa em seu louvor. Era tudo, em sua folha; e gabava-se disso. Diretor, redator, revisor, tipógrafo, distribuidor a domicílio, vendedor de número avulso no Bar Carvalho, não dependia de ninguém para fazer O Denunciante. Era esse o nome daquelas quatro páginas impressas; e nelas se derramava toda a maledicência da pequena cidade provinciana, a Teresina da era de Vinte. Do fundo da memória emerge o cabeçalho, e se o tempo não me trai nele se acrescentava aos apelidos e qualificações de Dondon no desempenho profissional de suas tarefas outra condição mais alta, a de “Defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz”.
Não propriamente a paz entre as famílias, nem dentro delas; porque algumas das hipóteses que os filhos da Candinha e a imaginação alucinada de Dondon transformavam em verdades incontestáveis e matéria impressa eram de molde a separar marido e mulher, filhos e pais, irmãos e cunhados, e assim por diante, sem falar em patrões e caixeiros, governados e governantes. Um destes últimos, cujo nome ainda hoje no Piauí é coberto de bênçãos pela excelência do seu governo, cometeu com Dondon a única arbitrariedade consciente de que sua mocidade severa e ativa o acusa. Estava-se em plena Revolução de 1930, o Tenente Landri Sales era interventor, cansou-se daquela maluquice exaltada que fazia da calúnia e da injúria um sistema jornalístico; mandou jogar a tipografia de Dondon no Parnaíba. E Antônio Santana Castelo Branco passou a viver de carregar banana em lombo de burro.
Falei em sistema. Era um sistema. O Denunciante não tinha preço fixo para a venda. Cada família, suscetível de vir a ter o nome impresso em tinta de jornal, era taxada, segundo as suas posses, que não segundo seus pecados. Pois a lembrança da espórtula arrecadada, cinco, vinte ou cinquenta mil réis que fossem, mesmo cem — o preço de dois bois —, se apagava totalmente da memória de Antônio Santana Castelo Branco, o defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz, quando se sentava para escrever. Não assumia compromissos com ninguém — a não ser com a maledicência pública e com seu próprio desvario denunciatório. Nem adiantava pagar-lhe para que se calasse, pois, ao contrário de tantos cosmopolitas, não escrevia que lhe pagassem — e se calasse. Faltava-lhe o siso, não a honestidade.
Cheguei ao Rio em março de 1930. A 6 de janeiro de 1931 Félix Pacheco iluminava de alegria os meus dezesseis anos com um emprego no Jornal do Comércio. Fui ser repórter no Ministério do Trabalho e conheci Lindolfo Collor, com quem a Revolução de 30 dizia ao que vinha, coisa que as Revoluções faziam depressa naquele tempo. Lá se vão mais de 33 anos que vivo em jornal. Nunca mais vi O Denunciante. Dondon já morreu há muito. Eis senão quando esta surpresa brutal: seu espírito ressuscita e invade a imprensa brasileira com uma fúria a que poucos restam imunes. Mistério insondável da natureza, os tipos do O Denunciante, que o então Tenente Landri Sales Gonçalves mandou jogar no Parnaíba, germinaram monstruosamente. Sua tinta pesteou as águas; e com elas desceu rio abaixo, salgou o mar oceano e onde houve terra brasileira banhada pelo Atlântico e mais chão adentro esse vírus maníaco foi contaminar jornais e jornalistas. E no caminho em que vão as coisas, será em breve necessário acrescentar ao currículo das escolas de jornalismo a cadeira em que se ensine a técnica da delação e a arte da denúncia.
Odylo Costa, filho (Jornal do Brasil, 26 de maio de 1964)
A barata americana
Donald Trump anuncia o completo esmagamento do Irã. Logo a seguir surpreende-se com a resistência. Admite ter proposto um cessar-fogo. Diz que foram os iranianos a iniciar as conversações. Reivindica a vitória total. Na frase seguinte proclama, com a ingenuidade de um anjo recém-saído das mãos de Deus, que ninguém poderia prever o encerramento do Estreito de Ormuz. Escreve que o Irã tem 48 horas para reabrir a passagem, caso contrário, aniquilará várias usinas de energia. Anuncia que suspende por cinco dias os ataques às infraestruturas energéticas. Diz-se disposto a abandonar o cenário de guerra. Os europeus que resolvam o problema. Irrita-se com o alheamento dos europeus. Implora ajuda aos europeus. Grita que não precisa dos europeus. Confessa que os israelenses o forçaram a iniciar o conflito. Volta, ainda na mesma frase, a proclamar vitória. Diz que não se importa que os aiatolás se mantenham no poder desde que lhe entreguem o petróleo. Noticia o levantamento do embargo petrolífero ao inimigo mortal. Acrescenta que nunca os americanos foram tão vitoriosos. É uma vitória a seguir à outra. Tantas vitórias já cansam.
Analistas conservadores se esforçam por dar um véu de coerência aos desencontrados discursos do presidente norte-americano. Suam. Balbuciam. É um esforço formidável, inglório, como tentar dar consistência a uma efêmera nuvem num esplendoroso céu de verão.
“O problema é que Trump partiu para a guerra sem um Plano B”, reconhece um deles.
“Talvez não tivesse nem sequer um Plano A”, arrisca outro, num fio de voz.
Um terceiro elogia a intuição de Donald Trump. O presidente americano, segundo este especialista, e outros da mesma escola, seria uma espécie de poeta da estratégia política e militar. Eu diria mais — um profeta! O próprio Donald confessou ter tomado a decisão de atacar o Irã após escutar os seus ossos. Não disse quais. Podemos imaginá-lo a dialogar, por exemplo, com a tíbia direita. É mais fácil imaginá-lo debruçado sobre a tíbia do que a falar com o estribo, desde logo porque Trump nem deve conhecer a palavra, quanto mais o osso.
Acredito na intuição. Tenho para mim que a intuição é uma manifestação sutil de inteligência. O pensamento se organizando, num súbito clarão, antes da linguagem. Qualquer pedra tem mais intuição do que Donald Trump.
O atual presidente americano pode ser um inimigo temível, sim, não por causa da sua intuição, mas por causa da sua estupidez. A estupidez é imprevisível.
Canalhas, tiranos, pessoas perversas, todos eles traçam estratégias. Obedecem a estratégias. Podemos combatê-los. É muito mais difícil enfrentar um homem tolo, sobretudo um homem tolo com grande poder, porque, como acontece com as baratas americanas, nunca sabemos que rumo irá tomar.
Donald Trump é uma barata americana com uma bomba nuclear atada às costas. Uma barata americana esvoaçando, a toda velocidade, numa sala fechada.
Eu estou encolhido, imóvel, num canto da sala.
Medo. Muito medo.
Analistas conservadores se esforçam por dar um véu de coerência aos desencontrados discursos do presidente norte-americano. Suam. Balbuciam. É um esforço formidável, inglório, como tentar dar consistência a uma efêmera nuvem num esplendoroso céu de verão.
“O problema é que Trump partiu para a guerra sem um Plano B”, reconhece um deles.
“Talvez não tivesse nem sequer um Plano A”, arrisca outro, num fio de voz.
Um terceiro elogia a intuição de Donald Trump. O presidente americano, segundo este especialista, e outros da mesma escola, seria uma espécie de poeta da estratégia política e militar. Eu diria mais — um profeta! O próprio Donald confessou ter tomado a decisão de atacar o Irã após escutar os seus ossos. Não disse quais. Podemos imaginá-lo a dialogar, por exemplo, com a tíbia direita. É mais fácil imaginá-lo debruçado sobre a tíbia do que a falar com o estribo, desde logo porque Trump nem deve conhecer a palavra, quanto mais o osso.
Acredito na intuição. Tenho para mim que a intuição é uma manifestação sutil de inteligência. O pensamento se organizando, num súbito clarão, antes da linguagem. Qualquer pedra tem mais intuição do que Donald Trump.
O atual presidente americano pode ser um inimigo temível, sim, não por causa da sua intuição, mas por causa da sua estupidez. A estupidez é imprevisível.
Canalhas, tiranos, pessoas perversas, todos eles traçam estratégias. Obedecem a estratégias. Podemos combatê-los. É muito mais difícil enfrentar um homem tolo, sobretudo um homem tolo com grande poder, porque, como acontece com as baratas americanas, nunca sabemos que rumo irá tomar.
Donald Trump é uma barata americana com uma bomba nuclear atada às costas. Uma barata americana esvoaçando, a toda velocidade, numa sala fechada.
Eu estou encolhido, imóvel, num canto da sala.
Medo. Muito medo.
sábado, 28 de março de 2026
Sob escuta
No Hospital Miguel Bombarda existe um dos poucos edifícios panóticos construídos no mundo. Trata-se do Pavilhão de Segurança, hoje museu. Visitá-lo é perturbador se tivermos presente que se destinava a presos políticos e, no centro da edificação (construída em círculo), existia uma torre central com persianas que permitia ver sem ser visto. O sentimento de estar ou parecer estar sob constante vigilância induzia ao “bom comportamento”. A arquitetura incutia terror.
Um sentimento semelhante é o sentido pelos imigrantes nos Estados Unidos da América. A torre é a Inteligência Artificial, que cruza dados para identificar e localizar imigrantes ilegais.
Os imigrantes ilegais não têm os documentos adequados, mas o seu nome é conhecido pelas autoridades (a maioria iniciou o processo de legalização ou pedido de asilo). A ICE (a agência responsável pelo serviço de controlo de fronteiras) precisa, apenas, de uma morada atualizada.
O consumo de eletricidade numa habitação, o sinal de um telemóvel, uma câmara de vigilância num espaço público, o registo automóvel, a carta de condução, análises de crédito, dados das Finanças e da Segurança Social… Dados de registos públicos e de empresas privadas − sobre o imigrante e aqueles com quem se relaciona − são cruzados para localizar indivíduos e cumprir a promessa de deter e deportar os ilegais. Sejam ou não indivíduos com historial criminal (de acordo com os dados divulgados pela própria ICE, dois terços dos detidos não têm registo criminal).
Embora a Anthropic não tenha nenhum contrato com a ICE, no seu recente conflito com a Administração Trump afirmou que a utilização de Inteligência Artificial para “vigilância doméstica em massa” viola princípios democráticos. Dados inócuos per se, que quando conjugados permitem um retrato abrangente de qualquer pessoa – imigrante ou não. As ferramentas são hoje tão poderosas, que tal pode ser feito de forma sistemática, em grande escala e num curtíssimo espaço de tempo.
Do conforto da nossa casa, aqui na Europa, não devemos assumir que estamos imunes a abusos semelhantes. A questão sobre que dados são recolhidos por entidades públicas e privadas e como são usados não deve ser-nos indiferente.
O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos tem vindo a pronunciar-se sobre a violação do artigo 8 da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, que estabelece a proteção dos dados pessoais, pelas leis de vários Estados-membros. Leis que impõem deveres genéricos de manutenção de registos de comunicações e partilha com as autoridades para a investigação de crimes graves, fora de um processo judicial específico.
O Tribunal admite este arquivo e acesso, mas com limitações. Os Estados, na sequência das decisões, estabelecem regras que na prática impõem um arquivo generalizado.
França alega a ameaça terrorista para manter um dever genérico de manutenção de registos. A Dinamarca estabelece o risco de criminalidade em termos tão apertados que 70% da população se encontra abrangida. Em Portugal, as operadoras de telecomunicações estão obrigadas a manter o registo de todas as comunicações pelo prazo de um ano.
Para que o sentimento de “sob escuta” não exista, melhor seria que o tema fosse abertamente discutido na revisão em curso do RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados) e que regras claras fossem estabelecidas quanto aos dados que podem ser recolhidos, mantidos e quando e para que fins podem ser cruzados com outros (e quais) por autoridades públicas. Não é apenas nos Estados Unidos da América que a lei não acompanha o poder da Inteligência Artificial.
Um sentimento semelhante é o sentido pelos imigrantes nos Estados Unidos da América. A torre é a Inteligência Artificial, que cruza dados para identificar e localizar imigrantes ilegais.
Os imigrantes ilegais não têm os documentos adequados, mas o seu nome é conhecido pelas autoridades (a maioria iniciou o processo de legalização ou pedido de asilo). A ICE (a agência responsável pelo serviço de controlo de fronteiras) precisa, apenas, de uma morada atualizada.
O consumo de eletricidade numa habitação, o sinal de um telemóvel, uma câmara de vigilância num espaço público, o registo automóvel, a carta de condução, análises de crédito, dados das Finanças e da Segurança Social… Dados de registos públicos e de empresas privadas − sobre o imigrante e aqueles com quem se relaciona − são cruzados para localizar indivíduos e cumprir a promessa de deter e deportar os ilegais. Sejam ou não indivíduos com historial criminal (de acordo com os dados divulgados pela própria ICE, dois terços dos detidos não têm registo criminal).
Embora a Anthropic não tenha nenhum contrato com a ICE, no seu recente conflito com a Administração Trump afirmou que a utilização de Inteligência Artificial para “vigilância doméstica em massa” viola princípios democráticos. Dados inócuos per se, que quando conjugados permitem um retrato abrangente de qualquer pessoa – imigrante ou não. As ferramentas são hoje tão poderosas, que tal pode ser feito de forma sistemática, em grande escala e num curtíssimo espaço de tempo.
Do conforto da nossa casa, aqui na Europa, não devemos assumir que estamos imunes a abusos semelhantes. A questão sobre que dados são recolhidos por entidades públicas e privadas e como são usados não deve ser-nos indiferente.
O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos tem vindo a pronunciar-se sobre a violação do artigo 8 da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, que estabelece a proteção dos dados pessoais, pelas leis de vários Estados-membros. Leis que impõem deveres genéricos de manutenção de registos de comunicações e partilha com as autoridades para a investigação de crimes graves, fora de um processo judicial específico.
O Tribunal admite este arquivo e acesso, mas com limitações. Os Estados, na sequência das decisões, estabelecem regras que na prática impõem um arquivo generalizado.
França alega a ameaça terrorista para manter um dever genérico de manutenção de registos. A Dinamarca estabelece o risco de criminalidade em termos tão apertados que 70% da população se encontra abrangida. Em Portugal, as operadoras de telecomunicações estão obrigadas a manter o registo de todas as comunicações pelo prazo de um ano.
Para que o sentimento de “sob escuta” não exista, melhor seria que o tema fosse abertamente discutido na revisão em curso do RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados) e que regras claras fossem estabelecidas quanto aos dados que podem ser recolhidos, mantidos e quando e para que fins podem ser cruzados com outros (e quais) por autoridades públicas. Não é apenas nos Estados Unidos da América que a lei não acompanha o poder da Inteligência Artificial.
Inteligências
Sistemas algorítmicos exercem cada vez mais influência em decisões judiciais, políticas públicas, campanhas eleitorais, rotinas administrativas e no próprio funcionamento da esfera pública em geral. Mas não parecem alterar o contraste entre os pavores e os entusiasmos relativos à inteligência artificial (IA).
Segundo alguns conceituados analistas, sistemas de IA tendem a destruir instituições cívicas capitais. Corroer a expertise, prejudicar decisões e isolar as pessoas umas das outras. Contra os desejáveis níveis de transparência, cooperação e responsabilidade, há quem garanta que a IA é um “câncer”.
Numa economia baseada em intensa extração de dados comportamentais, a IA não apenas organiza informações, mas antecipa, direciona e molda condutas humanas. Decisões que antes pertenciam ao espaço da política e da deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de modulação algorítmica, concentrados nas mãos de gigantescas plataformas privadas.
Além disto, é uma infraestrutura pesada, dependente de recursos naturais, trabalho humano precarizado e escolhas políticas. Na qual os algoritmos reproduzem e ampliam desigualdades — raciais, socioeconômicas e geopolíticas —, além de introduzir novas assimetrias de poder.
No extremo oposto, não falta quem veja na IA uma oportunidade decisiva de fortalecimento institucional. Enfatizando que ela aumentará substancialmente a capacidade produtiva e administrativa de Estados e organizações.
Para eles, o problema não estaria na tecnologia em si, mas na forma como seus ganhos são distribuídos. Instituições bem desenhadas poderiam usar sistemas inteligentes para melhorar políticas públicas, ampliar o acesso a serviços e liberar servidores humanos de tarefas repetitivas.
Mas também há quem prefira rejeitar a alternativa. Pois a IA seria uma tecnologia “plástica”, com efeitos que dependem dos incentivos econômicos, das regras institucionais e do grau de controle democrático. Sem regulação, tende a concentrar poder e renda, mas, com adequada gestão, pode favorecer participação, transparência e inovação institucional.
A ideia-chave desta espécie de “caminho do meio” é que os impactos da IA não estarão predeterminados por linhas de código. Mas, sim, pelas decisões coletivas que definirem quem controla os sistemas, com quais objetivos e sob quais mecanismos de responsabilização.
Não é outra a postura que mais pode estimular o pragmatismo: botar tamanha controvérsia em banho-maria de fogo baixíssimo, para melhor investigar as dinâmicas evolutivas de empresas que já façam uso dos sistemas algorítmicos.
Foi o que fez um time de 14 profissionais dedicados a este tipo de prática, cujas principais conclusões podem ser sintetizadas em meia dúzia de afirmações.
Isolada, a IA tende a gerar ganhos pontuais de eficiência. Mas, se incorporada a uma boa estratégia, pode redefinir o papel das empresas na economia e na sociedade. Ela só funciona bem se integrada a uma visão mais ampla de sustentabilidade, propósito e regeneração.
O comportamento empresarial contemporâneo precisa superar a lógica extrativista. Em um contexto de crise climática, desigualdade social e instabilidade econômica, modelos regenerativos — capazes de restaurar recursos naturais, fortalecer comunidades e criar valor de longo prazo — deixam de ser periféricos e passam a ser centrais.
Nesta perspectiva, a IA funciona como catalisadora: ao ampliar a capacidade analítica e preditiva das organizações, permite decisões mais informadas, responsáveis e voltadas a objetivos socioambientais.
Muitas empresas aplicam soluções de IA dissociadas da cultura organizacional, da governança e da diversidade, o que limita os seus melhores efeitos. Não terão êxito sem integração entre tecnologia, pessoas e valores, além de lideranças capazes de traduzir dados em boas decisões econômica e sociais.
No fundo, a IA tende a dar um novo sentido ao termo “estratégia”. Em vez de planos rígidos e lineares, as organizações precisam operar com aprendizagem contínua, adaptação e visão de longo prazo. E há empresas de diferentes setores usando inteligência artificial para inovar, reduzir riscos e reposicionar os seus negócios em direção a uma economia mais sustentável.
Em suma, não se trata apenas de usar inteligência artificial, mas de convertê-la em “inteligência estratégica”, colocando a tecnologia a serviço de um modelo de desenvolvimento menos vulnerável, versátil, ético e regenerativo.
São justificativas bem circunstanciadas destes seis entendimentos que constituem a riqueza reflexiva do livro “Inteligência Estratégica — Como IA e Regeneração Transformam os Negócios”.
Quase todo o conteúdo é de produção coletiva, apresentado em capítulos em coautoria com a organizadora Regina Magalhães. Consultora em inovação e sustentabilidade, Regina é doutora em ciência ambiental (Procam-USP), teve formações executivas no MIT e Stanford e ocupou posições de liderança na Microsoft, Johnson Controls, Schneider Electric e IFC.
Segundo alguns conceituados analistas, sistemas de IA tendem a destruir instituições cívicas capitais. Corroer a expertise, prejudicar decisões e isolar as pessoas umas das outras. Contra os desejáveis níveis de transparência, cooperação e responsabilidade, há quem garanta que a IA é um “câncer”.
Numa economia baseada em intensa extração de dados comportamentais, a IA não apenas organiza informações, mas antecipa, direciona e molda condutas humanas. Decisões que antes pertenciam ao espaço da política e da deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de modulação algorítmica, concentrados nas mãos de gigantescas plataformas privadas.
Além disto, é uma infraestrutura pesada, dependente de recursos naturais, trabalho humano precarizado e escolhas políticas. Na qual os algoritmos reproduzem e ampliam desigualdades — raciais, socioeconômicas e geopolíticas —, além de introduzir novas assimetrias de poder.
No extremo oposto, não falta quem veja na IA uma oportunidade decisiva de fortalecimento institucional. Enfatizando que ela aumentará substancialmente a capacidade produtiva e administrativa de Estados e organizações.
Para eles, o problema não estaria na tecnologia em si, mas na forma como seus ganhos são distribuídos. Instituições bem desenhadas poderiam usar sistemas inteligentes para melhorar políticas públicas, ampliar o acesso a serviços e liberar servidores humanos de tarefas repetitivas.
Mas também há quem prefira rejeitar a alternativa. Pois a IA seria uma tecnologia “plástica”, com efeitos que dependem dos incentivos econômicos, das regras institucionais e do grau de controle democrático. Sem regulação, tende a concentrar poder e renda, mas, com adequada gestão, pode favorecer participação, transparência e inovação institucional.
A ideia-chave desta espécie de “caminho do meio” é que os impactos da IA não estarão predeterminados por linhas de código. Mas, sim, pelas decisões coletivas que definirem quem controla os sistemas, com quais objetivos e sob quais mecanismos de responsabilização.
Não é outra a postura que mais pode estimular o pragmatismo: botar tamanha controvérsia em banho-maria de fogo baixíssimo, para melhor investigar as dinâmicas evolutivas de empresas que já façam uso dos sistemas algorítmicos.
Foi o que fez um time de 14 profissionais dedicados a este tipo de prática, cujas principais conclusões podem ser sintetizadas em meia dúzia de afirmações.
Isolada, a IA tende a gerar ganhos pontuais de eficiência. Mas, se incorporada a uma boa estratégia, pode redefinir o papel das empresas na economia e na sociedade. Ela só funciona bem se integrada a uma visão mais ampla de sustentabilidade, propósito e regeneração.
O comportamento empresarial contemporâneo precisa superar a lógica extrativista. Em um contexto de crise climática, desigualdade social e instabilidade econômica, modelos regenerativos — capazes de restaurar recursos naturais, fortalecer comunidades e criar valor de longo prazo — deixam de ser periféricos e passam a ser centrais.
Nesta perspectiva, a IA funciona como catalisadora: ao ampliar a capacidade analítica e preditiva das organizações, permite decisões mais informadas, responsáveis e voltadas a objetivos socioambientais.
Muitas empresas aplicam soluções de IA dissociadas da cultura organizacional, da governança e da diversidade, o que limita os seus melhores efeitos. Não terão êxito sem integração entre tecnologia, pessoas e valores, além de lideranças capazes de traduzir dados em boas decisões econômica e sociais.
No fundo, a IA tende a dar um novo sentido ao termo “estratégia”. Em vez de planos rígidos e lineares, as organizações precisam operar com aprendizagem contínua, adaptação e visão de longo prazo. E há empresas de diferentes setores usando inteligência artificial para inovar, reduzir riscos e reposicionar os seus negócios em direção a uma economia mais sustentável.
Em suma, não se trata apenas de usar inteligência artificial, mas de convertê-la em “inteligência estratégica”, colocando a tecnologia a serviço de um modelo de desenvolvimento menos vulnerável, versátil, ético e regenerativo.
São justificativas bem circunstanciadas destes seis entendimentos que constituem a riqueza reflexiva do livro “Inteligência Estratégica — Como IA e Regeneração Transformam os Negócios”.
Quase todo o conteúdo é de produção coletiva, apresentado em capítulos em coautoria com a organizadora Regina Magalhães. Consultora em inovação e sustentabilidade, Regina é doutora em ciência ambiental (Procam-USP), teve formações executivas no MIT e Stanford e ocupou posições de liderança na Microsoft, Johnson Controls, Schneider Electric e IFC.
Os Estados Unidos sob ameaça autoritária
Os americanos já não vivem numa democracia liberal: eis a conclusão do instituto sueco V-Dem, que monitora e classifica as democracias do mundo segundo a saúde de suas instituições. A organização mede periodicamente como os países efetivam os princípios constitutivos do ideal democrático: eleições livres; garantia das liberdades fundamentais; participação cidadã; processos decisórios com efetiva deliberação; e igualdade política plena.
A rigor, o relatório V-Dem 2026, que vê a potência do norte em franco processo de autocratização, apenas resume o colapso político em curso desde que Donald Trump voltou à Casa Branca. Os indicadores são inequívocos: rápida e gigantesca concentração de poder no Executivo federal; desmantelamento dos freios e contrapesos institucionais; desrespeito aos direitos civis e à igualdade de todos perante a lei; tentativas de calar a mídia, as vozes dissidentes e a academia; ameaça de supressão das associações livres.
Segundo o instituto sediado em Gotemburgo, está em curso o mais dramático declínio das instituições democráticas na América. Somente as regras eleitorais permanecem íntegras: os EUA são hoje uma democracia apenas eleitoral.
Pois agora são aquelas regras o alvo doméstico do presidente, ao mesmo tempo empenhado em destruir a arquitetura internacional pensada para assegurar a paz, quando possível. Na verdade, a integridade das eleições sempre esteve na mira de Trump. Ele nunca abandonou o falacioso discurso que atribuiu a vitória de Joe Biden, em 2020, a fraudes nas urnas.
Ao regressar à Casa Branca, tentou por meio de uma ordem executiva —o equivalente ao decreto presidencial brasileiro— impor o controle federal sobre os pleitos e multiplicar exigências que de fato limitariam o direito de voto. Foi brecado pelo Judiciário, que considerou a manobra ilegal.
Em breve, o Senado apreciará o "SAVE America Act" —assim, em letra maiúscula, no melhor estilo trumpista para as redes sociais—, em que retoma, com outro fraseado, as intenções da fracassada ordem executiva. Caso aprovado, ficará mais difícil para os eleitores alistar-se e votar nos pleitos federais —o que, segundo os críticos, poderá privar alguns milhões da cidadania política, em prejuízo, sobretudo, do Partido Democrata.
A meta do golpe de mão é assegurar a vitória do republicano e de seu partido nas eleições legislativas de novembro deste ano e no pleito presidencial de 2028. Mas a retórica que a justifica faz parte de uma estratégia comum aos populistas com ambição de autocratas.
Trata-se de lançar suspeitas sobre regras e procedimentos eleitorais estabelecidos, alimentando a descrença dos cidadãos, criando um seguro contra uma futura derrota nas urnas e justificativa para, se for o caso, contestá-la "na marra". Tal discurso é prova de que, para os populistas, a democracia eleitoral é um caminho para chegar ao poder, não uma forma de limitar seu exercício. Por isso, é um sistema intrinsecamente instável: ou vem associada ao regime de liberdades e a freios e contrapesos à concentração de poder, ou vira antessala do autoritarismo.
Difícil imaginar os EUA ocupando a posição atual na próxima edição do relatório do V-Dem.
A rigor, o relatório V-Dem 2026, que vê a potência do norte em franco processo de autocratização, apenas resume o colapso político em curso desde que Donald Trump voltou à Casa Branca. Os indicadores são inequívocos: rápida e gigantesca concentração de poder no Executivo federal; desmantelamento dos freios e contrapesos institucionais; desrespeito aos direitos civis e à igualdade de todos perante a lei; tentativas de calar a mídia, as vozes dissidentes e a academia; ameaça de supressão das associações livres.
Segundo o instituto sediado em Gotemburgo, está em curso o mais dramático declínio das instituições democráticas na América. Somente as regras eleitorais permanecem íntegras: os EUA são hoje uma democracia apenas eleitoral.
Pois agora são aquelas regras o alvo doméstico do presidente, ao mesmo tempo empenhado em destruir a arquitetura internacional pensada para assegurar a paz, quando possível. Na verdade, a integridade das eleições sempre esteve na mira de Trump. Ele nunca abandonou o falacioso discurso que atribuiu a vitória de Joe Biden, em 2020, a fraudes nas urnas.
Ao regressar à Casa Branca, tentou por meio de uma ordem executiva —o equivalente ao decreto presidencial brasileiro— impor o controle federal sobre os pleitos e multiplicar exigências que de fato limitariam o direito de voto. Foi brecado pelo Judiciário, que considerou a manobra ilegal.
Em breve, o Senado apreciará o "SAVE America Act" —assim, em letra maiúscula, no melhor estilo trumpista para as redes sociais—, em que retoma, com outro fraseado, as intenções da fracassada ordem executiva. Caso aprovado, ficará mais difícil para os eleitores alistar-se e votar nos pleitos federais —o que, segundo os críticos, poderá privar alguns milhões da cidadania política, em prejuízo, sobretudo, do Partido Democrata.
A meta do golpe de mão é assegurar a vitória do republicano e de seu partido nas eleições legislativas de novembro deste ano e no pleito presidencial de 2028. Mas a retórica que a justifica faz parte de uma estratégia comum aos populistas com ambição de autocratas.
Trata-se de lançar suspeitas sobre regras e procedimentos eleitorais estabelecidos, alimentando a descrença dos cidadãos, criando um seguro contra uma futura derrota nas urnas e justificativa para, se for o caso, contestá-la "na marra". Tal discurso é prova de que, para os populistas, a democracia eleitoral é um caminho para chegar ao poder, não uma forma de limitar seu exercício. Por isso, é um sistema intrinsecamente instável: ou vem associada ao regime de liberdades e a freios e contrapesos à concentração de poder, ou vira antessala do autoritarismo.
Difícil imaginar os EUA ocupando a posição atual na próxima edição do relatório do V-Dem.
Quem é o outro?
Estão as duas à espera de que um equipamento fique livre no ginásio enquanto falam. Uma delas conta a viagem que fez, acompanhando um DJ americano de Londres para Lisboa, em trabalho. “Quando chegámos ao aeroporto, perguntou: porque é que temos de passar pela Imigração? Eu sou americano!” Riem-se as duas. Não sei se da soberba do americano, que se considera a si mesmo um cidadão do mundo, incapaz de se ver em algum momento como imigrante ou estrangeiro. Ou se da ironia revelada pelo espanto de quem vem de um país que tem um Presidente eleito à custa de fazer da perseguição aos imigrantes uma prioridade política. Creio que são duas boas razões para se rir: a soberba e a ironia. Mas há um momento em que temos de deixar de rir.
No dia em que ouvi esta conversa, tropecei nas redes sociais nas imagens de um político de extrema-direita. Estava, como é costume, no meio de uma moldura de gente, que se atropelava para conseguir ficar no enquadramento das fotografias, tiradas numa feira qualquer. Como é costume, eram muito jovens os que se acotovelavam para estar perto do homem. Nada de novo. Mas só à primeira vista. Ao olhar melhor para as fotos, reparei que em várias delas havia jovens negros. Rapazes e raparigas negros, felizes por se fotografarem ao lado de quem faz vida de dizer que os direitos devem ser só para “os portugueses de bem”, de quem desmente que haja o racismo que certamente sentem todos os dias na pele, de quem defende a bondade do colonialismo português.
Congelei por um momento. Fiquei a olhar para as fotografias. Para aqueles rostos sorridentes, os cabelos afro, os fatos de treino da Adidas e todos aqueles sinais exteriores de quem vem da periferia. Todos aqueles sinais que, na rua errada à hora errada, são motivo suficiente para ficar encostado a uma parede, numa rusga da polícia. Aquela polícia que a extrema-direita acha que deve “atirar a matar”, antes mesmo de perguntar.
Mesmo muito jovens, é impossível que ainda ninguém lhes tenha atirado um “preto, vai para a tua terra”, que não tenham percebido como os seguranças os seguem quando entram numa loja ou como algumas mulheres se agarram às carteiras e baixam o rosto quando passam por eles num passeio. É impossível que não percebam que, quando se fala em “portugueses de bem”, estão excluídos, mesmo que estudem e se matem a trabalhar, mesmo que sigam todas as leis e todas as regras. É impossível que não tenham percebido já que, para alguns, é muito mais fácil seguir todas as leis e todas as regras do que para outros. Ou será que não? Será que a sucessão encantatória de vídeos no TikTok os anestesiou a ponto de acharem que o mérito tudo alcança, que a pobreza é coisa de falhados, que a riqueza está à distância de um post viral ou da aposta certa numa criptomoeda?
Independentemente do que pensem estes jovens sobre tudo isso, uma coisa é certa: eles não se consideram o alvo do discurso de ódio da extrema-direita. Da mesma maneira que o americano não se considera estrangeiro, mesmo quando atravessa as fronteiras de outro país. Da mesma forma que uma e outra vez ouvi imigrantes (muitas vezes brasileiros) alinharem com o discurso de que têm de se mandar embora todos aqueles que aqui vivem de subsídios, mesmo que não haja subsídios para quem nunca descontou por eles (à exceção do RSI, que tem o valor de €155,52 por pessoa e só abrange neste momento 80 mil famílias).
E depois há as mulheres. Aquelas que acham que as mulheres deviam estar em casa a cuidar dos filhos, mas estão no Parlamento. Aquelas que acham que as mulheres não deviam votar, mas são militantes de um partido e por vezes candidatas a que votem nelas. Aquelas que defendem que os homens é que devem sustentar-nos, porque o trabalho não combina com a energia feminina, mas fazem fortunas a partilhar vídeos machistas no Instagram. Aquelas que têm nojo do feminismo que lhes deu voz e escolhas e nem ousam questionar um capitalismo que invisibiliza e desqualifica um trabalho de cuidado que escraviza tantas mulheres, deixando-as à beira do esgotamento.
O que tem toda esta gente em comum? Todos eles se acham exceção. Todos eles ouvem discursos de ódio feitos à medida da pele que vestem e acreditam que, por alguma razão, não serão atingidos. Todos se acham acima da categoria de alvo que apontam aos outros. Todos se sentem a salvo dos ataques.
Não sei o suficiente de psicologia para descortinar as razões desta incapacidade de perceber que se é aquele que se odeia, que se está com as palavras a atiçar uma fogueira onde outros quererão ver-nos arder. Mas talvez tudo isto tenha que ver com o mesmo mecanismo que faz um racista abrir uma exceção para “um amigo preto”, um homofóbico exibir “um amigo gay” ou um machista ressalvar sempre que ama “a mulher e as irmãs”. O ódio funciona melhor quando é abstrato. Odiar categorias é fácil. Odiar quem nos olha nos olhos é muito mais difícil.
As pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres, gays, que se juntam às fileiras de partidos de extrema-direita ou que dão força aos seus discursos olham para si e não veem o que imaginam nas pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres e gays que acham que já têm direitos a mais, que vivem à custa de subsídios, que têm a vida fácil, que não cumprem a lei nem trabalham. Porque cada um deles sabe interiormente que os seus direitos são frágeis, que nunca viveram à custa de um subsídio e que se matam a trabalhar. Se eles não são assim, nunca serão penalizados pelo ódio que instigam. Serão os outros. E nunca ninguém sabe bem quem é outro. Nunca ninguém lhe sabe o nome ou lhe conhece a história. E, se conhece, então é só mais uma exceção. Os outros é que são os maus, os preguiçosos, os que andam à mama.
No dia em que ouvi esta conversa, tropecei nas redes sociais nas imagens de um político de extrema-direita. Estava, como é costume, no meio de uma moldura de gente, que se atropelava para conseguir ficar no enquadramento das fotografias, tiradas numa feira qualquer. Como é costume, eram muito jovens os que se acotovelavam para estar perto do homem. Nada de novo. Mas só à primeira vista. Ao olhar melhor para as fotos, reparei que em várias delas havia jovens negros. Rapazes e raparigas negros, felizes por se fotografarem ao lado de quem faz vida de dizer que os direitos devem ser só para “os portugueses de bem”, de quem desmente que haja o racismo que certamente sentem todos os dias na pele, de quem defende a bondade do colonialismo português.
Congelei por um momento. Fiquei a olhar para as fotografias. Para aqueles rostos sorridentes, os cabelos afro, os fatos de treino da Adidas e todos aqueles sinais exteriores de quem vem da periferia. Todos aqueles sinais que, na rua errada à hora errada, são motivo suficiente para ficar encostado a uma parede, numa rusga da polícia. Aquela polícia que a extrema-direita acha que deve “atirar a matar”, antes mesmo de perguntar.
Mesmo muito jovens, é impossível que ainda ninguém lhes tenha atirado um “preto, vai para a tua terra”, que não tenham percebido como os seguranças os seguem quando entram numa loja ou como algumas mulheres se agarram às carteiras e baixam o rosto quando passam por eles num passeio. É impossível que não percebam que, quando se fala em “portugueses de bem”, estão excluídos, mesmo que estudem e se matem a trabalhar, mesmo que sigam todas as leis e todas as regras. É impossível que não tenham percebido já que, para alguns, é muito mais fácil seguir todas as leis e todas as regras do que para outros. Ou será que não? Será que a sucessão encantatória de vídeos no TikTok os anestesiou a ponto de acharem que o mérito tudo alcança, que a pobreza é coisa de falhados, que a riqueza está à distância de um post viral ou da aposta certa numa criptomoeda?
Independentemente do que pensem estes jovens sobre tudo isso, uma coisa é certa: eles não se consideram o alvo do discurso de ódio da extrema-direita. Da mesma maneira que o americano não se considera estrangeiro, mesmo quando atravessa as fronteiras de outro país. Da mesma forma que uma e outra vez ouvi imigrantes (muitas vezes brasileiros) alinharem com o discurso de que têm de se mandar embora todos aqueles que aqui vivem de subsídios, mesmo que não haja subsídios para quem nunca descontou por eles (à exceção do RSI, que tem o valor de €155,52 por pessoa e só abrange neste momento 80 mil famílias).
E depois há as mulheres. Aquelas que acham que as mulheres deviam estar em casa a cuidar dos filhos, mas estão no Parlamento. Aquelas que acham que as mulheres não deviam votar, mas são militantes de um partido e por vezes candidatas a que votem nelas. Aquelas que defendem que os homens é que devem sustentar-nos, porque o trabalho não combina com a energia feminina, mas fazem fortunas a partilhar vídeos machistas no Instagram. Aquelas que têm nojo do feminismo que lhes deu voz e escolhas e nem ousam questionar um capitalismo que invisibiliza e desqualifica um trabalho de cuidado que escraviza tantas mulheres, deixando-as à beira do esgotamento.
O que tem toda esta gente em comum? Todos eles se acham exceção. Todos eles ouvem discursos de ódio feitos à medida da pele que vestem e acreditam que, por alguma razão, não serão atingidos. Todos se acham acima da categoria de alvo que apontam aos outros. Todos se sentem a salvo dos ataques.
Não sei o suficiente de psicologia para descortinar as razões desta incapacidade de perceber que se é aquele que se odeia, que se está com as palavras a atiçar uma fogueira onde outros quererão ver-nos arder. Mas talvez tudo isto tenha que ver com o mesmo mecanismo que faz um racista abrir uma exceção para “um amigo preto”, um homofóbico exibir “um amigo gay” ou um machista ressalvar sempre que ama “a mulher e as irmãs”. O ódio funciona melhor quando é abstrato. Odiar categorias é fácil. Odiar quem nos olha nos olhos é muito mais difícil.
As pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres, gays, que se juntam às fileiras de partidos de extrema-direita ou que dão força aos seus discursos olham para si e não veem o que imaginam nas pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres e gays que acham que já têm direitos a mais, que vivem à custa de subsídios, que têm a vida fácil, que não cumprem a lei nem trabalham. Porque cada um deles sabe interiormente que os seus direitos são frágeis, que nunca viveram à custa de um subsídio e que se matam a trabalhar. Se eles não são assim, nunca serão penalizados pelo ódio que instigam. Serão os outros. E nunca ninguém sabe bem quem é outro. Nunca ninguém lhe sabe o nome ou lhe conhece a história. E, se conhece, então é só mais uma exceção. Os outros é que são os maus, os preguiçosos, os que andam à mama.
A desumanização é a maior arma das políticas de ódio. E é por isso que a proximidade as desarma. Nada combate melhor esse vírus do que conhecer o outro, ver-lhe a cara, dar-lhe um nome. Nada desmontará melhor esses discursos do que sairmos das redes sociais e encontrarmo-nos cara a cara, onde não há caricaturas, mas gente. Nada será mais eficaz do que erguermos comunidades de gente que se conhece e que se ajuda. Podemos e devemos mudar o mundo, uma rua de cada vez, um encontro de cada vez, recebendo os outros com um sorriso e a vontade de os escutar. No fim, perceberemos que somos todos muito mais iguais do que imaginávamos.
Não se deve subestimar o perigo à democracia
A democracia corre grave perigo, em todo o mundo. Essa é a mensagem de dois conceituados relatórios recentes - um da V-Dem, da Suécia, intitulado, “Desmonte da Era Democrática?”, o outro da Freedom House, dos Estados Unidos, intitulado “A Crescente Sombra da Autocracia”. Eles apresentam dois argumentos fundamentais. O primeiro é que fenômeno chamado por Larry Diamond, de Stanford, de “recessão democrática”, iniciado há 20 anos, começa perigosamente a parecer-se mais a uma depressão democrática. O outro é que, em 2025, o governo Trump iniciou o que se revelou o declínio mais rápido na saúde de qualquer grande democracia nos últimos tempos.
De acordo com a Freedom House, “a liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025”. “Um total de 54 países passou por uma deterioração em seus direitos políticos e liberdades civis, enquanto só 35 registraram melhoras”. A V-Dem mensura esse declínio não apenas pelo número de países afetados, mas também pelo número de pessoas. Conclui que entre 2005 e 2025, a proporção da população mundial vivendo em autocracias aumentou de 50% para 74%, enquanto a que vive em verdadeiras democracias liberais, onde se oferece um leque completo de direitos civis e legais, além de eleições, desabou de 17% para apenas 7%.
Acima de tudo, a V-Dem argumenta que o mundo nunca antes viu tantos países se “autocratizando” ao mesmo tempo. A liberdade de expressão sofre uma queda particularmente rápida, com 44 países tendo apresentado um declínio nesse aspecto em 2025. Até a tortura vem sendo mais empregada.
Ainda mais importante, isso também vem ocorrendo nos EUA. O índice agregado da V-Dem sobre a saúde da democracia dos EUA caiu para os patamares de 1965, logo na esteira da Lei dos Direitos Civis de 1964. Desta vez, contudo, o que vemos é um exemplo clássico de uma tentativa de um Poder Executivo de derrubar uma democracia liberal por dentro. Os freios legislativos ao Executivo - possivelmente o mais fundamental de todos os controles constitucionais - chegaram a seu menor patamar em 100 anos, segundo a V-Dem. Os direitos civis e a igualdade diante da Justiça caíram para os piores níveis desde meados dos anos 1960 e, apesar de toda a ladainha sobre o “discurso livre”, a liberdade de expressão está em seu pior ponto desde o início dos anos 1950. Segundo avalia a V-Dem, apenas os componentes eleitorais da democracia ficaram intocados, pelo menos por enquanto.
Para os que duvidam de tudo isso, recomendo a leitura de Trump Action Tracker (o rastreador das atitudes de Trump), que lista 2.816 ações tomadas desde janeiro de 2025. Talvez o aspecto mais gritante do que está ocorrendo seja o descaramento da corrupção. A ideia pela qual se lutou por tanto tempo de que o serviço público é confiado a alguém em nome do benefício público, não uma oportunidade para enriquecimento pessoal, foi quase inteiramente abandonada. Alguns argumentam, de forma plausível infelizmente, que pessoas com informações privilegiadas têm conseguido lucrar com operações financeiras por possuírem conhecimento prévio de anúncios presidenciais, como o desta semana que retirou ameaças contra o Irã.
O que se deduz a partir de tudo isso? De acordo com a Freedom House, a qualidade da democracia americana está agora no mesmo nível da sul-africana, embora esta venha melhorando, não se deteriorando. Segundo a V-Dem, a velocidade do declínio americano em 2025 superou em muito a da Rússia, Índia, Turquia e Hungria no início da queda desses países. Caso volte a ocorrer um declínio similar no índice de democracia liberal da V-Dem em 2026, os EUA chegariam no patamar em que a Hungria estava em 2018 e terão chegado lá muito mais rápido.
A liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025 (Freedom House). De um total de 54 países, só 35 registraram melhoras em seus direitos políticos e liberdades civis. Subiu a 74% a proporção da população mundial que vive sob uma autocracia (V-Dem)
Infelizmente, até agora nenhum desses outros declínios foi revertido. Isso porque esses aspirantes a autocratas sabem muito bem que não podem se dar ao luxo de perder eleições, e porque conquistaram poder suficiente para impedir isso. A primeira parte certamente já se aplica a Donald Trump, sua família e muitos membros do governo. Alguém duvida, então, de que o governo fará tudo o que estiver a seu alcance para “vencer” as eleições de meio de mandato em novembro, sem dúvida alegando o tempo todo que vêm tentando apenas garantir eleições “justas”? Se eles vão ter sucesso? Veremos.
Na história da humanidade, a democracia, em qualquer forma, é uma raridade, em especial em grandes potências. Muito mais comuns são a autocracia, a oligarquia ou alguma combinação das duas. Foi apenas no fim do século XX que a democracia se tornou uma espécie de norma global. Os EUA tiveram um papel decisivo nesse êxito, tanto em virtude de seu poder quanto de seu exemplo.
O “poder” ainda permanece, embora o governo Trump esteja montando um ataque contra os alicerces desse poder no Estado de Direito, na segurança dos direitos de propriedade, na governança eficaz, na ciência avançada e na liberdade de imprensa. Já o “exemplo” deixou de existir. Para o mundo, os EUA demonstram diariamente seu repúdio aos valores que as pessoas acreditavam que o país representava. Em particular, nos países em desenvolvimento, mas também em muitos outros, as pessoas estão mais do que familiarizadas com aquilo que os EUA de Trump representam: despotismo. Os EUA nunca estiveram perto de ser um modelo perfeito dos ideais democráticos. No entanto, eram esses ideais que o mundo passou a acreditar que os EUA representavam.
Com os EUA sob o comando de pessoas que desprezam a tradição iluminista que criou a civilização ocidental atual (que não é aquela que eles imaginam), onde iremos parar? Não sabemos. Talvez, a democracia americana dê um jeito de se salvar. Talvez, a pura ferocidade do ataque gere a resposta necessária. Infelizmente, a Europa continua dividida entre seus membros, e dentro deles próprios. Portanto, hoje carece da disposição de defender a democracia pelo mundo. O restante das democracias reais pelo mundo também é fraco demais para fazer grande coisa nesta era de autocratas.
Ainda assim, recuso-me a entrar em desespero. As noções de que o Estado não pertence a um governante absoluto, mas, sim, ao povo; de que as pessoas precisam ter o direito de falar e de ser ouvidas; de que a lei existe para protegê-las; e de que não se pode confiar a ninguém poder absoluto sobre elas continuam sendo, na minha visão, as melhores da política. No entanto, seria tolice acreditar que elas estão seguras. Mais uma vez, elas correm gravíssimo perigo.
De acordo com a Freedom House, “a liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025”. “Um total de 54 países passou por uma deterioração em seus direitos políticos e liberdades civis, enquanto só 35 registraram melhoras”. A V-Dem mensura esse declínio não apenas pelo número de países afetados, mas também pelo número de pessoas. Conclui que entre 2005 e 2025, a proporção da população mundial vivendo em autocracias aumentou de 50% para 74%, enquanto a que vive em verdadeiras democracias liberais, onde se oferece um leque completo de direitos civis e legais, além de eleições, desabou de 17% para apenas 7%.
Acima de tudo, a V-Dem argumenta que o mundo nunca antes viu tantos países se “autocratizando” ao mesmo tempo. A liberdade de expressão sofre uma queda particularmente rápida, com 44 países tendo apresentado um declínio nesse aspecto em 2025. Até a tortura vem sendo mais empregada.
Ainda mais importante, isso também vem ocorrendo nos EUA. O índice agregado da V-Dem sobre a saúde da democracia dos EUA caiu para os patamares de 1965, logo na esteira da Lei dos Direitos Civis de 1964. Desta vez, contudo, o que vemos é um exemplo clássico de uma tentativa de um Poder Executivo de derrubar uma democracia liberal por dentro. Os freios legislativos ao Executivo - possivelmente o mais fundamental de todos os controles constitucionais - chegaram a seu menor patamar em 100 anos, segundo a V-Dem. Os direitos civis e a igualdade diante da Justiça caíram para os piores níveis desde meados dos anos 1960 e, apesar de toda a ladainha sobre o “discurso livre”, a liberdade de expressão está em seu pior ponto desde o início dos anos 1950. Segundo avalia a V-Dem, apenas os componentes eleitorais da democracia ficaram intocados, pelo menos por enquanto.
Para os que duvidam de tudo isso, recomendo a leitura de Trump Action Tracker (o rastreador das atitudes de Trump), que lista 2.816 ações tomadas desde janeiro de 2025. Talvez o aspecto mais gritante do que está ocorrendo seja o descaramento da corrupção. A ideia pela qual se lutou por tanto tempo de que o serviço público é confiado a alguém em nome do benefício público, não uma oportunidade para enriquecimento pessoal, foi quase inteiramente abandonada. Alguns argumentam, de forma plausível infelizmente, que pessoas com informações privilegiadas têm conseguido lucrar com operações financeiras por possuírem conhecimento prévio de anúncios presidenciais, como o desta semana que retirou ameaças contra o Irã.
O que se deduz a partir de tudo isso? De acordo com a Freedom House, a qualidade da democracia americana está agora no mesmo nível da sul-africana, embora esta venha melhorando, não se deteriorando. Segundo a V-Dem, a velocidade do declínio americano em 2025 superou em muito a da Rússia, Índia, Turquia e Hungria no início da queda desses países. Caso volte a ocorrer um declínio similar no índice de democracia liberal da V-Dem em 2026, os EUA chegariam no patamar em que a Hungria estava em 2018 e terão chegado lá muito mais rápido.
A liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025 (Freedom House). De um total de 54 países, só 35 registraram melhoras em seus direitos políticos e liberdades civis. Subiu a 74% a proporção da população mundial que vive sob uma autocracia (V-Dem)
Infelizmente, até agora nenhum desses outros declínios foi revertido. Isso porque esses aspirantes a autocratas sabem muito bem que não podem se dar ao luxo de perder eleições, e porque conquistaram poder suficiente para impedir isso. A primeira parte certamente já se aplica a Donald Trump, sua família e muitos membros do governo. Alguém duvida, então, de que o governo fará tudo o que estiver a seu alcance para “vencer” as eleições de meio de mandato em novembro, sem dúvida alegando o tempo todo que vêm tentando apenas garantir eleições “justas”? Se eles vão ter sucesso? Veremos.
Na história da humanidade, a democracia, em qualquer forma, é uma raridade, em especial em grandes potências. Muito mais comuns são a autocracia, a oligarquia ou alguma combinação das duas. Foi apenas no fim do século XX que a democracia se tornou uma espécie de norma global. Os EUA tiveram um papel decisivo nesse êxito, tanto em virtude de seu poder quanto de seu exemplo.
O “poder” ainda permanece, embora o governo Trump esteja montando um ataque contra os alicerces desse poder no Estado de Direito, na segurança dos direitos de propriedade, na governança eficaz, na ciência avançada e na liberdade de imprensa. Já o “exemplo” deixou de existir. Para o mundo, os EUA demonstram diariamente seu repúdio aos valores que as pessoas acreditavam que o país representava. Em particular, nos países em desenvolvimento, mas também em muitos outros, as pessoas estão mais do que familiarizadas com aquilo que os EUA de Trump representam: despotismo. Os EUA nunca estiveram perto de ser um modelo perfeito dos ideais democráticos. No entanto, eram esses ideais que o mundo passou a acreditar que os EUA representavam.
Com os EUA sob o comando de pessoas que desprezam a tradição iluminista que criou a civilização ocidental atual (que não é aquela que eles imaginam), onde iremos parar? Não sabemos. Talvez, a democracia americana dê um jeito de se salvar. Talvez, a pura ferocidade do ataque gere a resposta necessária. Infelizmente, a Europa continua dividida entre seus membros, e dentro deles próprios. Portanto, hoje carece da disposição de defender a democracia pelo mundo. O restante das democracias reais pelo mundo também é fraco demais para fazer grande coisa nesta era de autocratas.
Ainda assim, recuso-me a entrar em desespero. As noções de que o Estado não pertence a um governante absoluto, mas, sim, ao povo; de que as pessoas precisam ter o direito de falar e de ser ouvidas; de que a lei existe para protegê-las; e de que não se pode confiar a ninguém poder absoluto sobre elas continuam sendo, na minha visão, as melhores da política. No entanto, seria tolice acreditar que elas estão seguras. Mais uma vez, elas correm gravíssimo perigo.
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