Na semana passada, enquanto navegava pelas águas escuras do Rio Negro, no Amazonas, aproveitei para ler Futuro Ancestral, de Ailton Krenak. Não poderia ter escolhido cenário mais apropriado. Cercada por uma paisagem que parece existir em outra dimensão do tempo, encontrei nas palavras do pensador indígena uma explicação desconcertante para a crise ambiental que enfrentamos.
Krenak diz que nossas crianças, aos sete ou oito anos, já estão sendo treinadas para ignorar o meio ambiente. Somos educados para manter distância da natureza, para desconfiar dela. Aprendemos desde cedo que a terra é suja, que não devemos colocar a mão no barro, que uma batata arrancada diretamente do chão precisa ser vista com suspeita. Melhor encontrá-la limpa, embalada e organizada na prateleira do supermercado.
É o que ele chama de uma educação sanitária. Uma educação que, em nome da higiene, da segurança e da civilização, vai progressivamente nos separando do mundo natural. Crescemos acreditando que a natureza é algo que está lá fora, distante de nós, e não aquilo de que somos parte.
Essa desconexão, argumenta Krenak, está na origem de uma visão de mundo que transforma o planeta em um gigantesco almoxarifado. Um depósito de recursos à disposição da humanidade, de onde podemos retirar tudo aquilo de que precisamos, como se as prateleiras fossem infinitas.
Pensei muito nisso durante minha passagem por Manaus, onde tive o privilégio de conhecer de perto o trabalho da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e conversar longamente com seu fundador, o professor Virgílio Viana.
A FAS é um exemplo concreto de como a conservação da floresta pode caminhar lado a lado com a melhoria das condições de vida de quem nela habita. A organização atua em centenas de comunidades amazônicas, desenvolvendo projetos que vão da geração de renda e educação à saúde, energia limpa e conectividade. Seu trabalho alcança mais de 20 mil famílias e contribui para a conservação de milhões de hectares de floresta.
Mas o que mais me chamou a atenção durante a conversa com Virgílio não foram apenas os números ou a diversidade das iniciativas. Foram os desafios de transformar experiências bem-sucedidas em soluções capazes de ganhar escala.
Conversamos sobre o papel do financiamento climático, especialmente sobre as possibilidades e limitações do mercado de títulos verdes e sustentáveis para apoiar projetos na Amazônia. Como fazer com que os bilhões movimentados pelos mercados financeiros internacionais cheguem às comunidades que estão, todos os dias, na linha de frente da conservação?
Porque existe um paradoxo difícil de ignorar. Nunca se falou tanto em financiamento climático. Nunca tivemos tantos instrumentos financeiros, compromissos internacionais, fundos e títulos sustentáveis. E, ainda assim, fazer com que esse dinheiro chegue efetivamente às comunidades que protegem a floresta continua sendo um enorme desafio.
O mercado de títulos verdes e sustentáveis, que acompanho há anos, demonstrou que é possível mobilizar grandes volumes de capital para investimentos com benefícios ambientais e sociais. Mas projetos comunitários, muitas vezes pequenos, dispersos geograficamente e com retornos que não cabem facilmente nas planilhas tradicionais do mercado financeiro, enfrentam barreiras importantes para acessar esses recursos.
Como financiar aquilo cujo valor não pode ser medido apenas em dinheiro? Quanto vale uma floresta em pé? Quanto vale o conhecimento de uma comunidade que há gerações sabe conviver com ela? Quanto vale um rio saudável?
E foi impossível não estabelecer uma conexão entre o que ouvi de Virgílio Viana e o que lia nas páginas de Krenak.
Um dos nossos maiores equívocos, acredito, é tentar resolver a crise ambiental exclusivamente com as ferramentas de uma mentalidade que ajudou a produzi-la. Criamos mercados para atribuir valor à natureza, mecanismos para compensar emissões, instrumentos financeiros para financiar sua proteção. Tudo isso é necessário. Mas será suficiente se continuarmos olhando para a floresta como um estoque de ativos, e não como um sistema vivo do qual dependemos?
A resposta não está em abandonar a economia, muito menos em rejeitar o financiamento climático. Está em reconhecer seus limites e, principalmente, em mudar aquilo que escolhemos valorizar.
Na próxima semana, Virgílio Viana e eu estaremos na Turquia, participando da COP31, a conferência do clima das Nações Unidas. O encontro acontece em um momento particularmente simbólico para a governança climática global.
Nesta semana, completaram-se dez anos da entrada em vigor do Acordo de Paris, o mais importante pacto internacional já firmado para enfrentar o aquecimento global. Uma década depois, a distância entre o que os países prometeram e aquilo que efetivamente entregaram continua preocupante.
Por isso, a palavra que precisa orientar as negociações em Antalya é implementação. Já sabemos, com razoável precisão, o que precisa ser feito. Conhecemos os riscos do aquecimento global, temos tecnologias disponíveis, instrumentos financeiros e evidências científicas suficientes. O grande desafio é transformar compromissos em investimentos concretos, políticas públicas e resultados que possam ser percebidos na vida das pessoas.
Isso significa fazer o dinheiro chegar onde ele é necessário. Significa financiar adaptação, resiliência, conservação e desenvolvimento sustentável. Significa reconhecer que uma comunidade amazônica não pode continuar esperando enquanto o mundo discute, pela enésima vez, como mobilizar recursos para protegê-la.
Precisamos reaprender a relação com o mundo natural. Precisamos de uma educação que permita às crianças colocar as mãos na terra, compreender de onde vem o alimento, reconhecer a vida que existe nos rios e nas florestas. Uma educação que não transforme a natureza em ameaça, mercadoria ou cenário, mas que nos ensine a pertencer a ela.
A COP31 poderá produzir avanços importantes. Espero que produza. Mas nenhuma conferência internacional, por mais ambiciosa que seja, será capaz de resolver sozinha uma crise que também é de imaginação, de valores e de pertencimento.
Dez anos depois da entrada em vigor do Acordo de Paris, temos muito a fazer. E talvez uma parte desse trabalho comece justamente onde Krenak nos convida a olhar: na infância, antes que alguém nos ensine que a terra é suja e que o mundo não passa de um almoxarifado.
sábado, 7 de novembro de 2026
Um país para depois da vitória
Na noite de 25 de outubro, poucas horas depois de confirmada sua vitória, Lula disse que, encerrada a eleição, já não tinha mais adversários: precisava governar para 215 milhões de brasileiros. Ninguém era obrigado a gostar do presidente eleito, acrescentou, mas ele teria de governar para todos. A frase parece simples. Não é. Uma eleição termina quando os votos são contados. As divisões que revelou não desaparecem na mesma noite. Vencedores e vencidos continuam morando nas mesmas cidades, trabalhando lado a lado e dependendo das mesmas instituições. O adversário derrotado continua sendo cidadão no dia seguinte.
O que significa, então, governar para 215 milhões? A pergunta importa ainda mais porque esta eleição produziu algo que não aparece nas planilhas de resultados. Entre os dois turnos, muita gente que recebera com desalento o resultado de 4 de outubro voltou a agir. Estudantes foram às ruas, redes se organizaram, pessoas procuraram amigos, parentes e colegas, discutiram, convenceram, buscaram votos. Muitos descobriram que sua participação podia alterar o curso de uma eleição.
Seria um enorme desperdício se essa energia se dissipasse. Uma eleição democrática precisa terminar. A cidadania que ela despertou, não. O desafio é preservá-la sem preservar a lógica da guerra eleitoral.
Como transformar, então, a energia de uma vitória política em força para construir um país que continue pertencendo também aos que foram derrotados?
Trinta e dois anos atrás, em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas, Nelson Mandela enfrentou uma versão extrema desse desafio. Após 27 anos na prisão, tomou posse como presidente da África do Sul, em 1994. O apartheid deixara mortos, presos, exilados, famílias destruídas e uma sociedade organizada pela segregação racial e pela exclusão da maioria negra do poder político. Mandela tinha razões pessoais para o ressentimento e legitimidade política suficiente para fazer dele um instrumento de poder. Escolheu outro caminho.
Seu governo incluiu antigos adversários. F. W. de Klerk, último presidente do regime do apartheid, tornou-se um dos vice-presidentes da nova África do Sul. Isso não apagou as diferenças entre os dois. Mandela continuou a confrontá-lo e a denunciar as responsabilidades da ordem que o mantivera preso. Trabalhar juntos era uma necessidade. Sua reconciliação não dependia de esquecer quem fizera o quê, mas de reconhecer que antigos inimigos continuariam pertencendo ao mesmo país. Democracias precisam de adversários. O perigo começa quando deixamos de reconhecer no adversário o direito de pertencer à mesma comunidade política.
A África do Sul mostrou também que reconciliação não é esquecimento. A Comissão da Verdade e Reconciliação ouviu vítimas, investigou violações, propôs reparações e examinou pedidos de anistia. Se a memória diz de onde viemos, a reconciliação pergunta se, sabendo disso, ainda conseguiremos construir juntos.
Mandela compreendia, porém, que nem isso bastava. Em 1997, afirmou que não poderia haver reconciliação sem reconstrução e desenvolvimento. A história posterior da África do Sul transformaria a frase numa advertência.
A transição política foi extraordinária. Já a transformação das estruturas materiais herdadas do apartheid, muito menos. Três décadas depois, a África do Sul continua entre as sociedades mais desiguais do mundo: seu índice de Gini – numa escala em que zero representa igualdade perfeita e 1, desigualdade máxima – é de 0,541. O do Brasil, ele próprio profundamente desigual, é de 0,503. A igualdade perante a lei avançou muito mais rapidamente do que a igualdade das condições de vida.
Até onde uma sociedade consegue se reconciliar politicamente quando aquilo que materialmente separa seus cidadãos permanece quase intacto? Talvez uma reconciliação duradoura exija mais que tolerância. Exija pertencimento. É aí que a frase de Lula sobre os 215 milhões deixa de ser apenas uma declaração de boas intenções.
Governar para todos não significa abandonar o programa que venceu as eleições. Significa governar segundo um projeto sem transformar aqueles que votaram contra ele em estrangeiros dentro do próprio país. Quando um cidadão entra numa unidade do SUS e é atendido sem que ninguém lhe pergunte em quem votou, há ali algo maior do que a prestação de um serviço. Quando uma criança encontra numa escola pública professores, ciência, cultura e oportunidades que sua família talvez não pudesse lhe oferecer, acontece algo semelhante. O país lhes está dizendo: este país também é seu. Talvez devêssemos pensar essas instituições também como infraestruturas de pertencimento. Isso não exige que conservadores e progressistas concordem sobre impostos, segurança, costumes, meio ambiente ou o papel do Estado. Uma democracia saudável não é uma sociedade sem conflitos. É uma sociedade capaz de tê-los sem transformar cada divergência numa guerra entre pessoas que deixaram de se reconhecer como concidadãs.
Talvez a melhor maneira de reduzir a polarização não seja pedir aos brasileiros que esqueçam suas diferenças, mas oferecer-lhes coisas importantes para construir juntos. É também por isso que a mobilização do segundo turno não deveria desaparecer. Pessoas que descobriram que sua ação podia mudar uma eleição podem descobrir que ela também consegue mudar uma escola, um bairro, uma cidade.
Durante muito tempo, acostumamo-nos a ouvir que o Brasil era o “país do futuro”. A expressão de Stefan Zweig, originalmente esperançosa, adquiriu uma ironia que seu autor certamente não imaginava: o futuro brasileiro parecia estar sempre alguns anos adiante. Talvez esteja na hora de aposentar a expressão. Não porque o futuro tenha finalmente chegado. Nenhum futuro chega sozinho. Mas porque, entre os dois turnos, milhões descobriram que sua ação podia mudar o rumo do país.
Essa experiência pode desaparecer na memória de mais uma campanha. Ou produzir uma descoberta mais duradoura: participação não precisa ser convocada apenas quando chega a hora de votar. Mandela mostrou que sociedades podem escapar de destinos que pareciam inevitáveis. A África do Sul mostrou que nenhuma vitória política termina o trabalho da história.
O país precisa preservar a energia dos que se mobilizaram sem transformá-la em combustível para uma guerra permanente contra os que perderam. Precisa lembrar sem fazer da memória uma prisão e governar segundo o programa escolhido pela maioria sem transformar a minoria em estrangeira dentro do próprio país. Governar para 215 milhões não significa imaginar que todos passarão a pensar da mesma maneira. Significa construir um país em que possamos discordar profundamente e continuar pertencendo ao mesmo futuro. Talvez o Brasil deixe de ser o eterno país do futuro no dia em que compreendermos que o futuro não é um lugar para onde estamos indo. É aquilo que 215 milhões de brasileiros forem capazes de construir juntos.
O que significa, então, governar para 215 milhões? A pergunta importa ainda mais porque esta eleição produziu algo que não aparece nas planilhas de resultados. Entre os dois turnos, muita gente que recebera com desalento o resultado de 4 de outubro voltou a agir. Estudantes foram às ruas, redes se organizaram, pessoas procuraram amigos, parentes e colegas, discutiram, convenceram, buscaram votos. Muitos descobriram que sua participação podia alterar o curso de uma eleição.
Seria um enorme desperdício se essa energia se dissipasse. Uma eleição democrática precisa terminar. A cidadania que ela despertou, não. O desafio é preservá-la sem preservar a lógica da guerra eleitoral.
Como transformar, então, a energia de uma vitória política em força para construir um país que continue pertencendo também aos que foram derrotados?
Trinta e dois anos atrás, em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas, Nelson Mandela enfrentou uma versão extrema desse desafio. Após 27 anos na prisão, tomou posse como presidente da África do Sul, em 1994. O apartheid deixara mortos, presos, exilados, famílias destruídas e uma sociedade organizada pela segregação racial e pela exclusão da maioria negra do poder político. Mandela tinha razões pessoais para o ressentimento e legitimidade política suficiente para fazer dele um instrumento de poder. Escolheu outro caminho.
Seu governo incluiu antigos adversários. F. W. de Klerk, último presidente do regime do apartheid, tornou-se um dos vice-presidentes da nova África do Sul. Isso não apagou as diferenças entre os dois. Mandela continuou a confrontá-lo e a denunciar as responsabilidades da ordem que o mantivera preso. Trabalhar juntos era uma necessidade. Sua reconciliação não dependia de esquecer quem fizera o quê, mas de reconhecer que antigos inimigos continuariam pertencendo ao mesmo país. Democracias precisam de adversários. O perigo começa quando deixamos de reconhecer no adversário o direito de pertencer à mesma comunidade política.
A África do Sul mostrou também que reconciliação não é esquecimento. A Comissão da Verdade e Reconciliação ouviu vítimas, investigou violações, propôs reparações e examinou pedidos de anistia. Se a memória diz de onde viemos, a reconciliação pergunta se, sabendo disso, ainda conseguiremos construir juntos.
Mandela compreendia, porém, que nem isso bastava. Em 1997, afirmou que não poderia haver reconciliação sem reconstrução e desenvolvimento. A história posterior da África do Sul transformaria a frase numa advertência.
A transição política foi extraordinária. Já a transformação das estruturas materiais herdadas do apartheid, muito menos. Três décadas depois, a África do Sul continua entre as sociedades mais desiguais do mundo: seu índice de Gini – numa escala em que zero representa igualdade perfeita e 1, desigualdade máxima – é de 0,541. O do Brasil, ele próprio profundamente desigual, é de 0,503. A igualdade perante a lei avançou muito mais rapidamente do que a igualdade das condições de vida.
Até onde uma sociedade consegue se reconciliar politicamente quando aquilo que materialmente separa seus cidadãos permanece quase intacto? Talvez uma reconciliação duradoura exija mais que tolerância. Exija pertencimento. É aí que a frase de Lula sobre os 215 milhões deixa de ser apenas uma declaração de boas intenções.
Governar para todos não significa abandonar o programa que venceu as eleições. Significa governar segundo um projeto sem transformar aqueles que votaram contra ele em estrangeiros dentro do próprio país. Quando um cidadão entra numa unidade do SUS e é atendido sem que ninguém lhe pergunte em quem votou, há ali algo maior do que a prestação de um serviço. Quando uma criança encontra numa escola pública professores, ciência, cultura e oportunidades que sua família talvez não pudesse lhe oferecer, acontece algo semelhante. O país lhes está dizendo: este país também é seu. Talvez devêssemos pensar essas instituições também como infraestruturas de pertencimento. Isso não exige que conservadores e progressistas concordem sobre impostos, segurança, costumes, meio ambiente ou o papel do Estado. Uma democracia saudável não é uma sociedade sem conflitos. É uma sociedade capaz de tê-los sem transformar cada divergência numa guerra entre pessoas que deixaram de se reconhecer como concidadãs.
Talvez a melhor maneira de reduzir a polarização não seja pedir aos brasileiros que esqueçam suas diferenças, mas oferecer-lhes coisas importantes para construir juntos. É também por isso que a mobilização do segundo turno não deveria desaparecer. Pessoas que descobriram que sua ação podia mudar uma eleição podem descobrir que ela também consegue mudar uma escola, um bairro, uma cidade.
Durante muito tempo, acostumamo-nos a ouvir que o Brasil era o “país do futuro”. A expressão de Stefan Zweig, originalmente esperançosa, adquiriu uma ironia que seu autor certamente não imaginava: o futuro brasileiro parecia estar sempre alguns anos adiante. Talvez esteja na hora de aposentar a expressão. Não porque o futuro tenha finalmente chegado. Nenhum futuro chega sozinho. Mas porque, entre os dois turnos, milhões descobriram que sua ação podia mudar o rumo do país.
Essa experiência pode desaparecer na memória de mais uma campanha. Ou produzir uma descoberta mais duradoura: participação não precisa ser convocada apenas quando chega a hora de votar. Mandela mostrou que sociedades podem escapar de destinos que pareciam inevitáveis. A África do Sul mostrou que nenhuma vitória política termina o trabalho da história.
O país precisa preservar a energia dos que se mobilizaram sem transformá-la em combustível para uma guerra permanente contra os que perderam. Precisa lembrar sem fazer da memória uma prisão e governar segundo o programa escolhido pela maioria sem transformar a minoria em estrangeira dentro do próprio país. Governar para 215 milhões não significa imaginar que todos passarão a pensar da mesma maneira. Significa construir um país em que possamos discordar profundamente e continuar pertencendo ao mesmo futuro. Talvez o Brasil deixe de ser o eterno país do futuro no dia em que compreendermos que o futuro não é um lugar para onde estamos indo. É aquilo que 215 milhões de brasileiros forem capazes de construir juntos.
sexta-feira, 6 de novembro de 2026
Antes de crise bancária, bolsonarismo vendia Paraguai como 'exemplo para a América Latina'
O chamado foi feito por Luciano Hang, dono das lojas Havan. “Empresários brasileiros, venham para o Paraguai!”, conclamou. “Aqui empresário não paga a ineficiência do governo. Aqui você paga poucos impostos. Pode se desenvolver, pode crescer”, animou-se o bilionário catarinense.
O Louro José do bolsonarismo estava empolgado. Convidado pelo presidente Santiago Peña, aproveitou a viagem para propagandear as maravilhas de Assunção. “Olha só os prédios. Muita modernidade! Você nota nas ruas e nas pessoas a alegria. Parabéns, Paraguai!”, derramou-se.
Os áulicos de Peña devem ter se enciumado. Em visita ao palácio presidencial, Hang descreveu a gestão de direita como um “exemplo para toda a América Latina”. “Fiquei impressionado. Eles estão no governo para servir o país”, enalteceu, estendendo as loas a ministros e assessores.
Até a vitória da seleção paraguaia sobre a Alemanha, uma das maiores zebras da Copa, virou pretexto para bajular o presidente. “Fazendo o certo, dá certo”, enalteceu o dono da Havan. A sabujice não deu sorte aos anfitriões. O Paraguai foi eliminado no jogo seguinte, ao perder para a França. Peña renunciou ontem, quatro meses depois da visita de Hang.
O presidente caiu em meio a uma onda de protestos pela quebra do Ueno Bank. O escândalo deixa o caso Master no chinelo. Em três anos, o banco paraguaio acumulou quase 3 milhões de correntistas, o equivalente a 60% da população adulta do país.
Peña tem tudo a ver com a crise. Acionista do Ueno até o ano passado, entregou o comando do Banco Central do Paraguai a um ex-diretor do conglomerado. Apesar dos aportes de dinheiro público, o banco maquiava balanços para esconder sua insolvência.
O autodenominado Véio da Havan não foi o único brasileiro a vender a ilusão paraguaia. Em campanha ao Planalto, Flávio Bolsonaro elogiou o aliado de Donald Trump por “modernizar o Estado” e “investir em governo digital”. “Parabéns ao Paraguai pela visão de futuro”, exaltou. Se escapar da cadeia, Peña é candidato a reencontrá-lo em breve. Na Flórida.
O Louro José do bolsonarismo estava empolgado. Convidado pelo presidente Santiago Peña, aproveitou a viagem para propagandear as maravilhas de Assunção. “Olha só os prédios. Muita modernidade! Você nota nas ruas e nas pessoas a alegria. Parabéns, Paraguai!”, derramou-se.
Os áulicos de Peña devem ter se enciumado. Em visita ao palácio presidencial, Hang descreveu a gestão de direita como um “exemplo para toda a América Latina”. “Fiquei impressionado. Eles estão no governo para servir o país”, enalteceu, estendendo as loas a ministros e assessores.
Até a vitória da seleção paraguaia sobre a Alemanha, uma das maiores zebras da Copa, virou pretexto para bajular o presidente. “Fazendo o certo, dá certo”, enalteceu o dono da Havan. A sabujice não deu sorte aos anfitriões. O Paraguai foi eliminado no jogo seguinte, ao perder para a França. Peña renunciou ontem, quatro meses depois da visita de Hang.
O presidente caiu em meio a uma onda de protestos pela quebra do Ueno Bank. O escândalo deixa o caso Master no chinelo. Em três anos, o banco paraguaio acumulou quase 3 milhões de correntistas, o equivalente a 60% da população adulta do país.
Peña tem tudo a ver com a crise. Acionista do Ueno até o ano passado, entregou o comando do Banco Central do Paraguai a um ex-diretor do conglomerado. Apesar dos aportes de dinheiro público, o banco maquiava balanços para esconder sua insolvência.
O autodenominado Véio da Havan não foi o único brasileiro a vender a ilusão paraguaia. Em campanha ao Planalto, Flávio Bolsonaro elogiou o aliado de Donald Trump por “modernizar o Estado” e “investir em governo digital”. “Parabéns ao Paraguai pela visão de futuro”, exaltou. Se escapar da cadeia, Peña é candidato a reencontrá-lo em breve. Na Flórida.
À altura dos farialimers
Um dos textos mais importantes deste ano foi publicado na revista piauí de 1º de outubro último: "O que esses brasileiros sabem", do jornalista e cineasta João Moreira Salles. Tratava da tendência de parte da elite brasileira a "desviar o olhar" dos riscos à democracia pela então possível, até provável, vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, em troca de seus interesses empresariais e financeiros. Moreira Salles, ex-acionista do Banco Itaú, faz parte dessa elite — mas não dessa parte da elite.
Em seu artigo, ele observou a compreensível preocupação da Faria Lima com a situação fiscal do país, os gastos públicos e a dívida interna, mas que isso não justificava a aproximação dos farialimers com um candidato que, assim como o pai, o ex-presidente e presidiário Jair Bolsonaro, defendeu a prática da tortura na ditadura militar. Segundo Moreira Salles, a elite sabe bem do apreço do clã Bolsonaro por rupturas democráticas, mas isso não lhes faria maior diferença desde que a economia os favorecesse.
Numa atitude quase inédita por aqui, Moreira Salles deu os nomes de 28 empresários e executivos a quem atribuiu o flerte com o bolsonarismo — um deles, CEO do próprio banco controlado por sua família. Dias depois, às vésperas do segundo turno, seu artigo gerou uma contundente resposta de outro empresário (não citado na lista), o qual argumentou que "aproximar-se de um candidato e conhecer suas ideias não significa apoiá-lo". Mas, na última linha, o autor da resposta deixou escapar que aprovava as ditas ideias, ao sugerir, "em nome da alternância no poder, a troca de Lula por Flávio".
Apesar deles, a troca não se deu, e os farialimers terão de sobreviver a mais um governo Lula, talvez com um ou outro bilhão de reais a menos em seus bolsos. O que me intriga é saber o que estão achando dos destemperos, despautérios e desatinos com que Flávio Bolsonaro reagiu à derrota, comportando-se como o charlatão invertebrado que sempre foi.
E se Flávio continua a lhes parecer à altura de presidi-los.
Em seu artigo, ele observou a compreensível preocupação da Faria Lima com a situação fiscal do país, os gastos públicos e a dívida interna, mas que isso não justificava a aproximação dos farialimers com um candidato que, assim como o pai, o ex-presidente e presidiário Jair Bolsonaro, defendeu a prática da tortura na ditadura militar. Segundo Moreira Salles, a elite sabe bem do apreço do clã Bolsonaro por rupturas democráticas, mas isso não lhes faria maior diferença desde que a economia os favorecesse.
Numa atitude quase inédita por aqui, Moreira Salles deu os nomes de 28 empresários e executivos a quem atribuiu o flerte com o bolsonarismo — um deles, CEO do próprio banco controlado por sua família. Dias depois, às vésperas do segundo turno, seu artigo gerou uma contundente resposta de outro empresário (não citado na lista), o qual argumentou que "aproximar-se de um candidato e conhecer suas ideias não significa apoiá-lo". Mas, na última linha, o autor da resposta deixou escapar que aprovava as ditas ideias, ao sugerir, "em nome da alternância no poder, a troca de Lula por Flávio".
Apesar deles, a troca não se deu, e os farialimers terão de sobreviver a mais um governo Lula, talvez com um ou outro bilhão de reais a menos em seus bolsos. O que me intriga é saber o que estão achando dos destemperos, despautérios e desatinos com que Flávio Bolsonaro reagiu à derrota, comportando-se como o charlatão invertebrado que sempre foi.
E se Flávio continua a lhes parecer à altura de presidi-los.
Brasil, Sérvia Israel e EUA: o futuro das Autocracias
No Brasil, Flávio Bolsonaro perde para Lula. Na Sérvia, o partido “Student List”, inusitadamente formado por estudantes e professores, ganha as eleições, destronando 14 anos de poder. Em Israel, Netanyahu não consegue formar a maioria no Parlamento, dependendo de composição com os Partidos Árabes. Nos Estados Unidos, Trump, com somente 31% de aprovação de seu governo na pesquisa IPSOS/Reuters, o menor percentual de todas as épocas da história dos Estados Unidos após dois anos de governo, perde as Midterms Elections, em fragorosa derrota.
Este será o futuro das Autocracias?
A lógica da formação das Autocracias Modernas é simples. Até 1980, todas as classes prosperaram. A partir de 1980, dispara a renda dos mais ricos, mantém-se a renda da classe baixa, diminuindo a renda da classe média. Hoje, 3.300 famílias detêm em patrimônio o equivalente a cerca de 13% do PIB mundial.
A classe média, aversa a políticas sociais e desgostosa com o sistema eleitoral representativo, que não redistribuiu renda, dá suporte a líderes de extrema direita, na expectativa de resolverem os seus problemas.
Entretanto, as Autocracias Modernas privilegiam somente a um grupo determinado em sua volta, nem mesmo à classe produtiva em geral, sem, portanto, solucionar os problemas da classe que os elegeu. Assim, Viktor Orbán foi destronado na Hungria, depois de 16 anos no poder.
Então, voltando à questão, seria esse o futuro das Autocracias Modernas?
O problema é que, uma vez destituídos, quem os substitui teria que suprir as necessidades econômicas e de reposição da renda da população, impossível devido à lógica atual de concentração da renda nas sociedades. Em não se resolvendo, tudo tende a voltar atrás.
Adicione-se o problema ecológico, que do ponto de vista empresarial significa a diminuição dos recursos naturais, como input para a concentração de poder e da renda, sem a solução do problema social.
Se não for resolvido o problema da renda, o extremismo da direita radical deverá voltar, tendendo para práticas autoritárias e ditatoriais, mais definitivas, a longo prazo.
“Oh, Deus! Este é o nosso destino?”
Este será o futuro das Autocracias?
A lógica da formação das Autocracias Modernas é simples. Até 1980, todas as classes prosperaram. A partir de 1980, dispara a renda dos mais ricos, mantém-se a renda da classe baixa, diminuindo a renda da classe média. Hoje, 3.300 famílias detêm em patrimônio o equivalente a cerca de 13% do PIB mundial.
A classe média, aversa a políticas sociais e desgostosa com o sistema eleitoral representativo, que não redistribuiu renda, dá suporte a líderes de extrema direita, na expectativa de resolverem os seus problemas.
Entretanto, as Autocracias Modernas privilegiam somente a um grupo determinado em sua volta, nem mesmo à classe produtiva em geral, sem, portanto, solucionar os problemas da classe que os elegeu. Assim, Viktor Orbán foi destronado na Hungria, depois de 16 anos no poder.
Então, voltando à questão, seria esse o futuro das Autocracias Modernas?
O problema é que, uma vez destituídos, quem os substitui teria que suprir as necessidades econômicas e de reposição da renda da população, impossível devido à lógica atual de concentração da renda nas sociedades. Em não se resolvendo, tudo tende a voltar atrás.
Adicione-se o problema ecológico, que do ponto de vista empresarial significa a diminuição dos recursos naturais, como input para a concentração de poder e da renda, sem a solução do problema social.
Se não for resolvido o problema da renda, o extremismo da direita radical deverá voltar, tendendo para práticas autoritárias e ditatoriais, mais definitivas, a longo prazo.
“Oh, Deus! Este é o nosso destino?”
A democracia recupera esperança. Mas recupera força?
O mundo acorda com sinais de esperança. Nos Estados Unidos, os democratas recuperam terreno e, no Brasil, uma alternativa conquista as eleições. Parece que a democracia volta a respirar. Mas será que estamos a recuperar a força democrática ou apenas a escolher o mal menor?
Há uma diferença entre votar em alguém em cujo projeto nos revemos e votar porque sentimos que o outro lado representa algo que não podemos aceitar. Quando a rejeição do adversário se torna mais mobilizadora do que a capacidade de apresentar um novo projeto de sociedade, alguma coisa se perde. A democracia não pode viver permanentemente da repulsa. Precisa de alternativas, de ideias e de projetos capazes de responder à complexidade dos desafios que a Humanidade enfrenta.
E é aqui que a esperança eleitoral se cruza com uma inquietação maior. Temos um Estado Social fragilizado, um tecido social desgastado e uma crescente dificuldade em garantir que os direitos se concretizam. Sabemos quem elegemos, mas sabemos quem condiciona as decisões? Terão os políticos força para enfrentar interesses económicos instalados, que não conhecemos nem elegemos, mas que determinam muito do panorama mundial?
Não basta conquistar o poder. É preciso ter capacidade para o exercer. Porque uma democracia que vive apenas da rejeição corre o risco de perder a capacidade de construir, enquanto os poderes que não respondem perante os cidadãos continuam a ganhar influência.
A democracia não se fortalece apenas quando impedimos que vença quem rejeitamos. Fortalece-se quando somos capazes de construir alternativas, recuperar a confiança e garantir que o poder permanece ao serviço do bem comum.
É aqui que precisamos de recuperar a grandeza da pessoa humana. Não como uma expressão abstrata, mas como fundamento das decisões políticas, económicas e sociais. A pessoa não pode ser reduzida à sua produtividade, ao seu mérito individual ou à sua capacidade de competir num mundo profundamente desigual.
O verdadeiro desafio não é apenas saber quem ganha eleições. É saber se continuamos a ter força coletiva para decidir o nosso futuro e garantir que o Estado existe para servir a pessoa humana, e não interesses que se sobrepõem à democracia.
Há uma diferença entre votar em alguém em cujo projeto nos revemos e votar porque sentimos que o outro lado representa algo que não podemos aceitar. Quando a rejeição do adversário se torna mais mobilizadora do que a capacidade de apresentar um novo projeto de sociedade, alguma coisa se perde. A democracia não pode viver permanentemente da repulsa. Precisa de alternativas, de ideias e de projetos capazes de responder à complexidade dos desafios que a Humanidade enfrenta.
E é aqui que a esperança eleitoral se cruza com uma inquietação maior. Temos um Estado Social fragilizado, um tecido social desgastado e uma crescente dificuldade em garantir que os direitos se concretizam. Sabemos quem elegemos, mas sabemos quem condiciona as decisões? Terão os políticos força para enfrentar interesses económicos instalados, que não conhecemos nem elegemos, mas que determinam muito do panorama mundial?
Não basta conquistar o poder. É preciso ter capacidade para o exercer. Porque uma democracia que vive apenas da rejeição corre o risco de perder a capacidade de construir, enquanto os poderes que não respondem perante os cidadãos continuam a ganhar influência.
A democracia não se fortalece apenas quando impedimos que vença quem rejeitamos. Fortalece-se quando somos capazes de construir alternativas, recuperar a confiança e garantir que o poder permanece ao serviço do bem comum.
É aqui que precisamos de recuperar a grandeza da pessoa humana. Não como uma expressão abstrata, mas como fundamento das decisões políticas, económicas e sociais. A pessoa não pode ser reduzida à sua produtividade, ao seu mérito individual ou à sua capacidade de competir num mundo profundamente desigual.
O verdadeiro desafio não é apenas saber quem ganha eleições. É saber se continuamos a ter força coletiva para decidir o nosso futuro e garantir que o Estado existe para servir a pessoa humana, e não interesses que se sobrepõem à democracia.
Baile de máscaras
Não sei os motivos profundos do fenômeno, mas este existe e se faz cada vez mais forte e espalhado: hoje, no Brasil, é comum o profissional que desconhece da sua profissão as regrinhas mais banais, as habilidades mais elementares à prática desse ofício ou dessa arte. E não é só isso, não; já é bastante chique praticar uma profissão sem saber praticá-la. As qualidades negativas, por um imponderabilíssimo segredo, passaram a ser mais recomendáveis que as qualidades positivas.
Por que não dizer mais? Direi mais: houve em nossa terra nestes últimos anos uma sutil e vitoriosa conspiração em favor da burrice, da ignorância e da incompetência. E da desonestidade, poderia acrescentar, não fosse mudar de área. É o que sempre se chamou “inversão de valores”; isso antigamente não passava de figura de retórica; tornou-se realidade.
Imaginemos um santo sacerdote que não soubesse o catecismo, que ficasse embatucado se lhe perguntássemos de repente qual é o sinal do cristão ou que começasse a contar nos dedos as pessoas da Santíssima Trindade. Não, esse padre ainda não existe, mas a analogia nos serve: há muitos sujeitos por aí que, dentro das ciências que professam, ignoram qual o sinal do cristão ou que fazem demorado esforço de memória para dizer quais as pessoas da Trindade.
Estamos vivendo uma divertida comédia social, mas ainda não chegamos à apoteose, isto é, ao momento da guerra de pastelões. Por enquanto, o baile de máscaras continua muito a sério, fingindo todos que estão a acreditar nos personagens travestidos. Aqui do nosso canto, podemos apreciar a grande festa.
Olha ali um pintor, calça de veludo, blusa manchada de óleo, um copo de bebida forte na mão, a dar gargalhadas aprendidas em Paris, dizendo palavrões às damas e demonstrando através de todos os seus gestos que a vida fora da arte não tem o menor sentido. Evidentemente, trata-se dum artista genial. Por isso mesmo, não lhe peça nunca para pintar uma banana, que ele é capaz de fechar o baile. Quem sabe pintar banana (a expressão é dele) é uma besta quadrada. Para não ser besta quadrada, o nosso artista comprou um bonito compasso e pinta círculos pretos sobre fundo branco, semicírculos cinzentos, formas inatacáveis e eternas em sua pureza absoluta.
Perto do pintor há um belo rapaz, alto, robusto, corado, um poeta, naturalmente. Erramos. Pois a crítica mais avançada afirma que esse formidável miúra não é um poeta, mas o poeta, autor aliás dum arquipoema famoso, que só posso citar integralmente: “V”. É isso mesmo, leitor distraído, o poema é “V”. Os melhores espíritos do país sabem que, nessa consoante labiodental fricativa sonora, o poeta resumiu plasticamente todo o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. É o máximo em poesia.
Mas passemos rapidamente a vista por mais alguns fantasiados. Nem todas as fantasias são igualmente sublimes. Vai ali, por exemplo, uma cozinheira que nunca fez um bife com sinceridade, mas todos reconhecem que seria capaz de fazer grandes papéis secundários no teatro.
Conversando com aquela bonita senhora fantasiada de elegante, vemos um colunista célebre, respeitado e bem pago. Descobriram a sua esmagadora vocação jornalística no dia em que escreveu “sociedade” com Ç. Riram-se dele os colegas. O moço corrigiu logo, trocando o Ç por um S cedilhado. Aí não se riram mais. Um homem capaz de inventar um S cedilhado tem garantido um feérico futuro no colunismo social. Coisa muito séria.
Máscara que dá muito em nosso baile é a de político. Debaixo dessas fisionomias cívicas de papelão pintado existem contrabandistas, cangaceiros, mascates, ex-vereadores etc. Mas não vamos estragar a festa; façamos de conta que eles estão mesmo a salvar o nosso Brasil.
Há mais. Naquele canto, um “médico” diz a uma jovem que o “complexo B” foi uma das grandes descobertas de Freud. O cômico a contar anedotas nunca fez rir a ninguém: bossa nova. Em matéria de ponte, aquele engenheiro só conhece a ponte aérea, mas de avião é que ele não viaja, pois, diz ele, o homem não foi feito para voar. O rapaz falando fino e fanhoso é cantor. O cara de boné de coach de baseball pensa que é técnico de futebol. O imponente cavalheiro a medir ângulos com as mãos já convenceu a todos de que é o maior cineasta do mês. No mês que vem, demitido pela opinião pública; outro tomará o seu lugar.
Sem falar, porque não há espaço, nos fabulosos técnicos eletrônicos, nos advogados, que Deus me perdoe, nas paralíticas vestidas de bailarina, nas respeitáveis vovozinhas brincando de vedetes, nos humanistas que de latim conhecem mal e mal as páginas cor-de-rosa do Larousse, nos sambistas duros de orelhas, nos milionários do papagaio, nos public-relations detestados pela cidade inteira etc. etc.
Atrás daquele jarrão, mascarado de cronista, está este seu criado, mas, por favor, não espalhe, não espalhe.
Paulo Mendes Campos, "O homem que odiava ilhas"
Por que não dizer mais? Direi mais: houve em nossa terra nestes últimos anos uma sutil e vitoriosa conspiração em favor da burrice, da ignorância e da incompetência. E da desonestidade, poderia acrescentar, não fosse mudar de área. É o que sempre se chamou “inversão de valores”; isso antigamente não passava de figura de retórica; tornou-se realidade.
Imaginemos um santo sacerdote que não soubesse o catecismo, que ficasse embatucado se lhe perguntássemos de repente qual é o sinal do cristão ou que começasse a contar nos dedos as pessoas da Santíssima Trindade. Não, esse padre ainda não existe, mas a analogia nos serve: há muitos sujeitos por aí que, dentro das ciências que professam, ignoram qual o sinal do cristão ou que fazem demorado esforço de memória para dizer quais as pessoas da Trindade.
Estamos vivendo uma divertida comédia social, mas ainda não chegamos à apoteose, isto é, ao momento da guerra de pastelões. Por enquanto, o baile de máscaras continua muito a sério, fingindo todos que estão a acreditar nos personagens travestidos. Aqui do nosso canto, podemos apreciar a grande festa.
Olha ali um pintor, calça de veludo, blusa manchada de óleo, um copo de bebida forte na mão, a dar gargalhadas aprendidas em Paris, dizendo palavrões às damas e demonstrando através de todos os seus gestos que a vida fora da arte não tem o menor sentido. Evidentemente, trata-se dum artista genial. Por isso mesmo, não lhe peça nunca para pintar uma banana, que ele é capaz de fechar o baile. Quem sabe pintar banana (a expressão é dele) é uma besta quadrada. Para não ser besta quadrada, o nosso artista comprou um bonito compasso e pinta círculos pretos sobre fundo branco, semicírculos cinzentos, formas inatacáveis e eternas em sua pureza absoluta.
Perto do pintor há um belo rapaz, alto, robusto, corado, um poeta, naturalmente. Erramos. Pois a crítica mais avançada afirma que esse formidável miúra não é um poeta, mas o poeta, autor aliás dum arquipoema famoso, que só posso citar integralmente: “V”. É isso mesmo, leitor distraído, o poema é “V”. Os melhores espíritos do país sabem que, nessa consoante labiodental fricativa sonora, o poeta resumiu plasticamente todo o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. É o máximo em poesia.
Mas passemos rapidamente a vista por mais alguns fantasiados. Nem todas as fantasias são igualmente sublimes. Vai ali, por exemplo, uma cozinheira que nunca fez um bife com sinceridade, mas todos reconhecem que seria capaz de fazer grandes papéis secundários no teatro.
Conversando com aquela bonita senhora fantasiada de elegante, vemos um colunista célebre, respeitado e bem pago. Descobriram a sua esmagadora vocação jornalística no dia em que escreveu “sociedade” com Ç. Riram-se dele os colegas. O moço corrigiu logo, trocando o Ç por um S cedilhado. Aí não se riram mais. Um homem capaz de inventar um S cedilhado tem garantido um feérico futuro no colunismo social. Coisa muito séria.
Máscara que dá muito em nosso baile é a de político. Debaixo dessas fisionomias cívicas de papelão pintado existem contrabandistas, cangaceiros, mascates, ex-vereadores etc. Mas não vamos estragar a festa; façamos de conta que eles estão mesmo a salvar o nosso Brasil.
Há mais. Naquele canto, um “médico” diz a uma jovem que o “complexo B” foi uma das grandes descobertas de Freud. O cômico a contar anedotas nunca fez rir a ninguém: bossa nova. Em matéria de ponte, aquele engenheiro só conhece a ponte aérea, mas de avião é que ele não viaja, pois, diz ele, o homem não foi feito para voar. O rapaz falando fino e fanhoso é cantor. O cara de boné de coach de baseball pensa que é técnico de futebol. O imponente cavalheiro a medir ângulos com as mãos já convenceu a todos de que é o maior cineasta do mês. No mês que vem, demitido pela opinião pública; outro tomará o seu lugar.
Sem falar, porque não há espaço, nos fabulosos técnicos eletrônicos, nos advogados, que Deus me perdoe, nas paralíticas vestidas de bailarina, nas respeitáveis vovozinhas brincando de vedetes, nos humanistas que de latim conhecem mal e mal as páginas cor-de-rosa do Larousse, nos sambistas duros de orelhas, nos milionários do papagaio, nos public-relations detestados pela cidade inteira etc. etc.
Atrás daquele jarrão, mascarado de cronista, está este seu criado, mas, por favor, não espalhe, não espalhe.
Paulo Mendes Campos, "O homem que odiava ilhas"
A armadilha da autocrítica: por que só o PT deve confessar seus pecados?
Tem sido assim desde que o partido foi criado: entra eleição e sai eleição — ganhe ou perca o Partido dos Trabalhadores (PT) —, e seus críticos mais duros cobram da legenda a conversão à autocrítica. Exigem que ela seja feita em público para que, só assim, o partido possa ser perdoado por seus muitos erros, sendo cobrado mais tarde caso os repita. Igual tratamento, contudo, não se aplica às demais agremiações. Por que será?
Ora, responderão alguns: porque desde a redemocratização do país, com a posse do presidente José Sarney em 15 de março de 1985, se passaram exatamente 41 anos, 7 meses e 22 dias até a data de hoje. Desse total, o PT governou o Brasil por 16 anos, 10 meses e 5 dias. Já o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) governou por 8 anos, enquanto o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) ocupou a liderança recentemente por pouco mais de dois anos com Michel Temer.
Embora o ato individual de avaliar as próprias ações exista desde a filosofia antiga, a transformação da autocrítica em uma ferramenta política coletiva e institucional ocorreu de forma bastante específica na história. O termo e a prática ganharam força logo após a Revolução Russa de 1917, consolidando-se como doutrina partidária oficial entre 1921 e 1924, por obra e graça do ditador Joseph Stalin.
Lavar roupa suja em público não é algo que se peça a um partido político, a não ser que o objetivo seja, de fato, enfraquecê-lo — algo de que, naturalmente, se aproveitariam seus adversários. A Igreja Católica, por exemplo, recomenda aos seus fiéis que confessem seus pecados como sinal de arrependimento; em troca, porém, garante não os revelar em nenhuma hipótese, salvaguardados pelo segredo de confissão.
O antigo Partido Social Democrático (PSD), criado pelo então presidente Getúlio Vargas em julho de 1945, no contexto do fim do Estado Novo, tinha por hábito só se reunir publicamente depois que suas divergências internas tivessem sido devidamente aplacadas. A estratégia servia para que a sigla se mostrasse como um bloco unido, sólido e confiável. O segredo era a alma do negócio, pois a exposição de fraturas não beneficia vencedores nem vencidos.
De volta ao PT: quantos ajustamentos ou revisões na sua forma de pensar as coisas e de atuar o partido já não promoveu ao longo de sua história? É por isso que tem se dado bem, pelo menos até aqui, obtendo resultados melhores do que os de seus oponentes. A conjuntura não pode ser desconsiderada por nenhum governo que mire o sucesso. Quando o é, por erro de análise ou de soberba, o resultado deságua no cenário que estamos testemunhando hoje nos Estados Unidos de Donald Trump.
Lula é frequentemente criticado por ter dito, um dia, que é uma “metamorfose ambulante”. No fundo, a frase define alguém que sabe adaptar-se a um mundo em constante transformação. Na eleição concluída em 25 de outubro último, o candidato da mudança foi ele, e não Flávio Bolsonaro, que acenava com uma volta ao passado. Resta alguma dúvida sobre isso?
Ora, responderão alguns: porque desde a redemocratização do país, com a posse do presidente José Sarney em 15 de março de 1985, se passaram exatamente 41 anos, 7 meses e 22 dias até a data de hoje. Desse total, o PT governou o Brasil por 16 anos, 10 meses e 5 dias. Já o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) governou por 8 anos, enquanto o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) ocupou a liderança recentemente por pouco mais de dois anos com Michel Temer.
Embora o ato individual de avaliar as próprias ações exista desde a filosofia antiga, a transformação da autocrítica em uma ferramenta política coletiva e institucional ocorreu de forma bastante específica na história. O termo e a prática ganharam força logo após a Revolução Russa de 1917, consolidando-se como doutrina partidária oficial entre 1921 e 1924, por obra e graça do ditador Joseph Stalin.
Lavar roupa suja em público não é algo que se peça a um partido político, a não ser que o objetivo seja, de fato, enfraquecê-lo — algo de que, naturalmente, se aproveitariam seus adversários. A Igreja Católica, por exemplo, recomenda aos seus fiéis que confessem seus pecados como sinal de arrependimento; em troca, porém, garante não os revelar em nenhuma hipótese, salvaguardados pelo segredo de confissão.
O antigo Partido Social Democrático (PSD), criado pelo então presidente Getúlio Vargas em julho de 1945, no contexto do fim do Estado Novo, tinha por hábito só se reunir publicamente depois que suas divergências internas tivessem sido devidamente aplacadas. A estratégia servia para que a sigla se mostrasse como um bloco unido, sólido e confiável. O segredo era a alma do negócio, pois a exposição de fraturas não beneficia vencedores nem vencidos.
De volta ao PT: quantos ajustamentos ou revisões na sua forma de pensar as coisas e de atuar o partido já não promoveu ao longo de sua história? É por isso que tem se dado bem, pelo menos até aqui, obtendo resultados melhores do que os de seus oponentes. A conjuntura não pode ser desconsiderada por nenhum governo que mire o sucesso. Quando o é, por erro de análise ou de soberba, o resultado deságua no cenário que estamos testemunhando hoje nos Estados Unidos de Donald Trump.
Lula é frequentemente criticado por ter dito, um dia, que é uma “metamorfose ambulante”. No fundo, a frase define alguém que sabe adaptar-se a um mundo em constante transformação. Na eleição concluída em 25 de outubro último, o candidato da mudança foi ele, e não Flávio Bolsonaro, que acenava com uma volta ao passado. Resta alguma dúvida sobre isso?
'Dark Horse', só na nuvem; se não chover
Que pena, estamos ameaçados de nunca ver a obra-prima "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro, numa tela de cinema! Obra-prima é como o filme foi classificado por seu produtor-associado, levantador de dinheiro, filho do personagem e talvez receptador de parte do orçamento, Flávio Bolsonaro. Não sei das credenciais do ex-futuro presidente da República como crítico de cinema, mas sua insistência em dizer que "Dark Horse" é uma obra-prima nos faria ir correndo conferir. Obras-primas do cinema —algumas— são "Em Busca do Ouro" (1925), de Chaplin, "Ladrões de Bicicletas" (1948), de Vittorio de Sica, "Um Corpo que Cai" (1958), de Hitchcock. Estaria "Dark Horse" nesse time?
A chamada Sétima Arte está cheia de possíveis obras-primas que seus diretores levaram anos tentando filmar e, por vários motivos — um deles, falta de dinheiro—, nunca conseguiram terminar ou mesmo começar. Exemplos são "Que Viva México!", de Eisenstein, "Dom Quixote", de Orson Welles, "Napoleão", de Stanley Kubrick. Dinheiro não foi problema para "Dark Horse" — Daniel Vorcaro prometeu a Flávio R$ 134 milhões dos bilhões que desviou de aposentados e mandou-lhe R$ 61 milhões, quase metade da bufunfa.
Mas, se você pensa que isso é suficiente para realizar uma obra-prima, é porque não entende nada de cinema. Imagine o custo da peruca usada pelo subastro Jim Caviezel para interpretar o velho Bolsonaro — tanto que Flávio, numa famosa mensagem gravada, arrastou-se pedindo a Vorcaro que lhe mandasse mais. Como parte do dinheiro já recebido tinha ido para os EUA a fim de ser lavado por uma firma no Texas e nunca voltou, faltou aqui para os sanduíches da equipe.
E, agora, o problema. Surrado no segundo turno da eleição e investigado exatamente por lavar dinheiro, Flávio foi para os EUA com a família, sem data para voltar. O salário de senador que receberá até janeiro sem trabalhar não bastará para se manter. Precisará sacar da verba de "Dark Horse" depositada lá.
E, com isso, só teremos o filme na nuvem — se não chover.
A chamada Sétima Arte está cheia de possíveis obras-primas que seus diretores levaram anos tentando filmar e, por vários motivos — um deles, falta de dinheiro—, nunca conseguiram terminar ou mesmo começar. Exemplos são "Que Viva México!", de Eisenstein, "Dom Quixote", de Orson Welles, "Napoleão", de Stanley Kubrick. Dinheiro não foi problema para "Dark Horse" — Daniel Vorcaro prometeu a Flávio R$ 134 milhões dos bilhões que desviou de aposentados e mandou-lhe R$ 61 milhões, quase metade da bufunfa.
Mas, se você pensa que isso é suficiente para realizar uma obra-prima, é porque não entende nada de cinema. Imagine o custo da peruca usada pelo subastro Jim Caviezel para interpretar o velho Bolsonaro — tanto que Flávio, numa famosa mensagem gravada, arrastou-se pedindo a Vorcaro que lhe mandasse mais. Como parte do dinheiro já recebido tinha ido para os EUA a fim de ser lavado por uma firma no Texas e nunca voltou, faltou aqui para os sanduíches da equipe.
E, agora, o problema. Surrado no segundo turno da eleição e investigado exatamente por lavar dinheiro, Flávio foi para os EUA com a família, sem data para voltar. O salário de senador que receberá até janeiro sem trabalhar não bastará para se manter. Precisará sacar da verba de "Dark Horse" depositada lá.
E, com isso, só teremos o filme na nuvem — se não chover.
A luta
Querer pensar que um cidadão tem que cumprir uma lei injusta, ou que deve comer e calar, ou reduzir-se à sua insignificância mesmo em situações de gritante insensibilidade social, incompetência governativa e desprezo pelos mais vulneráveis, é tolice
Os governantes em geral não estão sensibilizados para as necessidades dos governados, em especial dos mais fracos, pobres e vulneráveis, porque costumam viver numa bolha. Não sentem as suas necessidades e dores nem são sensíveis aos seus sacrifícios, que muitas vezes desconhecem.
Por isso, é melhor esperar sentado que as elites desçam à terra para acudir às populações, ainda que no caso das democracias tenham sempre algum cuidado em falar uma linguagem de simpatia e compreensão, fazendo promessas eleitorais com vista a obter o voto.
A história comprova à saciedade que todas as mudanças estruturais resultaram de movimentos sociais, durante os quais os cidadãos se manifestaram frequentemente contra leis injustas.
Aconteceu assim nos Estados Unidos com a luta pelos direitos civis, com Rosa Park, que desobedeceu a uma lei racista, e tantos outros como Martin Luther King que acabou assassinado.
Aconteceu assim na África do Sul, em pleno aparthaid, um regime racista e ignóbil que matou indiscriminadamente, encarcerando Nelson Mandela durante 27 anos.
Aconteceu assim com as sufragistas inglesas no início do século XX, que reivindicavam o direito democrático das mulheres ao voto.
Aconteceu assim com a luta pelos direitos do trabalho, em Chicago, que ficou conhecida como Massacre de Haymarket, em 1886, quando milhares de operários exigiram a redução da jornada de trabalho de até 18 horas para oito horas diárias, tendo a polícia disparado então contra os grevistas na fábrica McCormick, matando vários trabalhadores. Deu-se então origem ao Dia Internacional dos Trabalhadores, celebrado a 1 de maio de cada ano.
Outro caso dramático foi o do incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, ocorrido a 25 de março de 1911, em Nova Iorque, onde proprietários inescrupulosos obrigavam as operárias a condições desumanas de trabalho, o que contribuiu para uma tragédia. Os patrões cometeram o crime de mandar trancar as portas, de modo que quando o fogo deflagrou, as operárias ficaram encurraladas. Morreram 146, das quais 123 eram jovens mulheres imigrantes.
Aconteceu assim com a luta pacifista da Índia britânica pela independência, sob inspiração de Mahatma Gandhi, que dizia: “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita.”
Aconteceu assim com a queda das ditaduras fascistas e comunistas, com o sacrifício de tantas vidas.
Querer pensar que um cidadão tem que cumprir uma lei injusta, ou que deve comer e calar, ou reduzir-se à sua insignificância mesmo em situações de gritante insensibilidade social, incompetência governativa e desprezo pelos mais vulneráveis, é tolice.
Milan Kundera lembra ainda que “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. Ou seja, o poder, normalmente, tem memória fraca e precisa sempre de ser lembrado por alguém.
Confrontado com a luta, quem está no poder tentará sempre desacreditar os que lutam a fim de os deslegitimar. Caso não consiga tentará a ameaça e a intimidação. Se isso ainda não chegar para fazer calar os que lutam, partirá para a repressão com base numa qualquer lei injusta ou mesmo sem o respaldo da lei e da constituição.
Restará então aos que lutam por uma causa justa assumir a divisa de Santo Agostinho: “Enquanto houver vontade de lutar haverá esperança de vencer.”
As dúvidas que as urnas deixaram
O Brasil saiu das eleições presidenciais tão dividido quanto nelas entrou. Assim continuará? Depende muito do que acontecer com a extrema-direita e do que o governo e as forças democráticas fizerem para garantir a normalidade política.
É cedo para dizer o que será do extremismo depois de sua segunda derrota. Muito menos o que será de sua liderança, com Bolsonaro-pai na cadeia e o filho-herdeiro acoitado por Trump. O bolsonarismo continuará sendo seu sinônimo ou outros líderes lhe darão novo nome e sobrevida? Neste caso, manterão os ultra a capacidade de aglutinar o vasto campo das direitas nas disputas pelo Palácio do Planalto?
A formidável vitória do presidente Lula não apaga o fato de que cerca de 60 milhões de eleitores preferiram um candidato de retórica extremista, cujas ideias eram tão desconhecidas quanto sabidas eram suas relações com o mundo do crime carioca e com o afamado Daniel Vorcaro — já não bastasse a forma pouco ortodoxa mediante a qual ele fez fortuna e acumulou patrimônio.
Como em 2022, a polarização política não resultou só da regra eleitoral que no segundo turno força o eleitor a optar entre dois concorrentes. Então, como agora, já na primeira volta as preferências dos cidadãos se concentraram em dois polos situados a grande distância ideológica e programática —um deles nas mãos da ultra, o outro ocupado pela esquerda democrática e moderada.
A competição eleitoral naturalmente radicaliza as diferenças entre os contendores. Ainda mais quando um deles, seguindo o roteiro da extrema destra, ativa medos e ressentimentos nas ruas e nas redes, estimulando o oponente a fazer o mesmo. Difícil imaginar que o "Exército do Lula" pudesse ter a mesma força, não tivesse mobilizado o temor real de milhões de pessoas ao retorno do bolsonarismo à Presidência.
Ainda assim, pesquisas dos institutos Quaest e Ideia, feitas antes das eleições, mostraram que só uma minoria se identificava com o bolsonarismo: 12% dos entrevistados. Já entre 21% e 26%, conforme cada instituto, se declararam de direita não bolsonarista. Parcela significativa se definia como independente: 32% (Quaest) e 28% (Ideia). Um em cada três eleitores se considerava parte da esquerda petista ou não-petista.
Da mesma forma, outros levantamentos, comentados pelo jornalista Pedro Doria no Canal Meio na terça-feira indicam que o apoio a alguns temas, como o fim da jornada 6x1, é de tal ordem que necessariamente reúne cidadãos de diferentes campos políticos. Ou seja: há, sim, questões aptas a produzir consensos, rompendo a polarização construída no campo eleitoral.
O encarcerado Jair e o fugitivo Flávio podem engendrar o encolhimento do movimento que leva seus sobrenomes a seu efetivo tamanho na preferência dos brasileiros. Pode, mas não é certo. Terão grande importância as escolhas das lideranças direitistas e sua disposição de não apostar de novo em quem é desafeto da democracia. Pesarão também as decisões do presidente reeleito; sua capacidade de conceber políticas que beneficiem as maiorias e caibam no orçamento; a prontidão para falar com os que nele não votaram e entender suas aspirações — além do permanente exercício da sua comprovada capacidade de negociação.
É cedo para dizer o que será do extremismo depois de sua segunda derrota. Muito menos o que será de sua liderança, com Bolsonaro-pai na cadeia e o filho-herdeiro acoitado por Trump. O bolsonarismo continuará sendo seu sinônimo ou outros líderes lhe darão novo nome e sobrevida? Neste caso, manterão os ultra a capacidade de aglutinar o vasto campo das direitas nas disputas pelo Palácio do Planalto?
A formidável vitória do presidente Lula não apaga o fato de que cerca de 60 milhões de eleitores preferiram um candidato de retórica extremista, cujas ideias eram tão desconhecidas quanto sabidas eram suas relações com o mundo do crime carioca e com o afamado Daniel Vorcaro — já não bastasse a forma pouco ortodoxa mediante a qual ele fez fortuna e acumulou patrimônio.
Como em 2022, a polarização política não resultou só da regra eleitoral que no segundo turno força o eleitor a optar entre dois concorrentes. Então, como agora, já na primeira volta as preferências dos cidadãos se concentraram em dois polos situados a grande distância ideológica e programática —um deles nas mãos da ultra, o outro ocupado pela esquerda democrática e moderada.
A competição eleitoral naturalmente radicaliza as diferenças entre os contendores. Ainda mais quando um deles, seguindo o roteiro da extrema destra, ativa medos e ressentimentos nas ruas e nas redes, estimulando o oponente a fazer o mesmo. Difícil imaginar que o "Exército do Lula" pudesse ter a mesma força, não tivesse mobilizado o temor real de milhões de pessoas ao retorno do bolsonarismo à Presidência.
Ainda assim, pesquisas dos institutos Quaest e Ideia, feitas antes das eleições, mostraram que só uma minoria se identificava com o bolsonarismo: 12% dos entrevistados. Já entre 21% e 26%, conforme cada instituto, se declararam de direita não bolsonarista. Parcela significativa se definia como independente: 32% (Quaest) e 28% (Ideia). Um em cada três eleitores se considerava parte da esquerda petista ou não-petista.
Da mesma forma, outros levantamentos, comentados pelo jornalista Pedro Doria no Canal Meio na terça-feira indicam que o apoio a alguns temas, como o fim da jornada 6x1, é de tal ordem que necessariamente reúne cidadãos de diferentes campos políticos. Ou seja: há, sim, questões aptas a produzir consensos, rompendo a polarização construída no campo eleitoral.
O encarcerado Jair e o fugitivo Flávio podem engendrar o encolhimento do movimento que leva seus sobrenomes a seu efetivo tamanho na preferência dos brasileiros. Pode, mas não é certo. Terão grande importância as escolhas das lideranças direitistas e sua disposição de não apostar de novo em quem é desafeto da democracia. Pesarão também as decisões do presidente reeleito; sua capacidade de conceber políticas que beneficiem as maiorias e caibam no orçamento; a prontidão para falar com os que nele não votaram e entender suas aspirações — além do permanente exercício da sua comprovada capacidade de negociação.
A força e a fraqueza da direita
A direita saiu das urnas com um capital político nada desprezível. Mesmo derrotado por mais de quatro milhões de votos no segundo turno, seu candidato à Presidência amealhou cerca de 60 milhões de votos. No Parlamento, houve crescimento expressivo, particularmente do PL. A legenda comandada por Valdemar Costa Neto elegeu 121 deputados e terá 28 senadores, aproximadamente um terço da Casa. Essa é sua força. Sua fraqueza está na dificuldade de transformar esse patrimônio em um projeto nacional que ultrapasse o bolsonarismo.
A direita não é um campo uniforme, embora tenha se subordinado à liderança da família Bolsonaro nos últimos oito anos. A derrota presidencial e a postura de Flávio diante do resultado expuseram os limites dessa submissão. Pela segunda eleição presidencial consecutiva, a família que lidera o movimento recusou-se a reconhecer a decisão dos brasileiros expressa por meio do voto.
Há diferenças importantes no campo conservador, e nem mesmo o PL terá atuação homogênea no Congresso. União Brasil, PP e setores do MDB que estiveram no palanque de Flávio já ensaiam aproximações com o quarto governo Lula, em troca, claro, de espaço no poder. O alinhamento na eleição não significou identidade política nem compromisso duradouro com o bolsonarismo.
É preciso, porém, distinguir movimentos de acomodação da construção de uma alternativa. Negociar cargos no governo demonstra pragmatismo, mas não constitui uma renovação da direita. Uma oposição com identidade própria exige projeto, organização e disposição para enfrentar também os setores autoritários de seu próprio campo.
O reconhecimento do resultado eleitoral por governadores que apoiaram Flávio é um sinal relevante. Segundo levantamento publicado por O Globo em 1º de novembro, 13 dos 15 governadores eleitos considerados na reportagem reconheceram expressamente a vitória de Lula. A necessidade de manter relações institucionais com a União certamente pesa nessa atitude. Ainda assim, ela estabelece uma diferença em relação à contestação promovida pelo candidato derrotado.
Nesse cenário, merece destaque a postura de Tarcísio de Freitas. Ao reconhecer o resultado eleitoral, o governador de São Paulo diferenciou-se da contestação promovida por Flávio e sinalizou que é possível exercer uma oposição firme sem desrespeitar a decisão das urnas. Por partir de uma liderança ligada à família Bolsonaro, o gesto tem significado político e abre espaço para uma atuação mais autônoma.
A crise de liderança abre uma disputa pela representação desse eleitorado. A radicalização, a hostilidade às instituições e a ideia de que só é legítimo o resultado eleitoral favorável fazem parte da identidade que o bolsonarismo construiu. Sua moderação encontra aí um obstáculo: não basta trocar o tom dos discursos ou substituir personagens sem enfrentar os fundamentos dessa prática política.
É nessa dificuldade que se abre uma oportunidade para o país: o fortalecimento de uma direita com projeto de governo e compromisso inequívoco com as regras do regime democrático. Parte expressiva dos eleitores de Flávio não é necessariamente bolsonarista, tampouco deseja uma ruptura institucional. Pode ter votado por conservadorismo, rejeição ao PT, insatisfação com o governo ou expectativas em relação à economia e à segurança.
Disputar esse eleitorado exige levar suas preocupações a sério. Uma liderança conservadora precisa mostrar que pode defender segurança pública, responsabilidade fiscal, liberdade econômica e valores de seus eleitores sem aceitar o autoritarismo como preço da unidade.
A existência dessa direita é uma necessidade para a democracia brasileira. Regimes sólidos precisam de forças capazes de disputar o poder, representar seu eleitorado e exercer a oposição sem ameaçar as instituições ou transformar adversários em inimigos. A alternância só é saudável quando todos aceitam que a vitória não confere propriedade permanente do Estado e que a derrota não autoriza o desrespeito às urnas.
Nos últimos oito anos, lideranças que poderiam representar essa alternativa atrelaram seu destino ao bolsonarismo. No primeiro turno, candidatos que se apresentavam como opções conservadoras adotaram discursos praticamente indistinguíveis do de Flávio, por vezes disputando quem era mais radical no antipetismo. Em vez de construir identidade própria, preferiram disputar a bênção da família.
A derrota presidencial não elimina esse mecanismo de submissão. O bolsonarismo conserva votos, mandatos, capacidade de mobilização e instrumentos de pressão sobre seus aliados. Romper sua hegemonia exigirá disputar a base social que o sustenta, enfrentar acusações de traição e oferecer resultados que deem credibilidade a outro caminho.
No Congresso, essa disputa terá consequências concretas. A bancada do PL é numerosa, mas não representa uma maioria ideológica coesa. Interesses partidários, prioridades regionais e diferentes lealdades políticas estarão em disputa no Legislativo. Lideranças de centro-direita com autonomia poderão construir maiorias para enfrentar os problemas do país e barrar propostas que ameacem as instituições. Na sociedade, empresários, lideranças religiosas e eleitores conservadores precisam encontrar representação sem se subordinar ao radicalismo.
Tarcísio, na opinião de muitos analistas, reúne condições para ocupar um papel importante nessa renovação e aparece como um dos possíveis candidatos à Presidência em 2030. O governo de São Paulo lhe oferece uma oportunidade de demonstrar capacidade administrativa, construir alianças e dar dimensão nacional a um projeto próprio. Seu desafio será ampliar sua autonomia e reunir conservadores e setores de centro em torno de uma alternativa comprometida com princípios democráticos.
A força desse campo está nos votos, nos governos estaduais e nas cadeiras conquistadas no Congresso. Sua fraqueza está em continuar dependente de uma liderança familiar que limita sua capacidade de ampliar alianças e governar o país. As urnas abriram uma oportunidade de mudança. Aproveitá-la exige das lideranças conservadoras a coragem de conquistar sua autonomia e disputar o futuro sem pedir licença ao bolsonarismo.
A direita não é um campo uniforme, embora tenha se subordinado à liderança da família Bolsonaro nos últimos oito anos. A derrota presidencial e a postura de Flávio diante do resultado expuseram os limites dessa submissão. Pela segunda eleição presidencial consecutiva, a família que lidera o movimento recusou-se a reconhecer a decisão dos brasileiros expressa por meio do voto.
Há diferenças importantes no campo conservador, e nem mesmo o PL terá atuação homogênea no Congresso. União Brasil, PP e setores do MDB que estiveram no palanque de Flávio já ensaiam aproximações com o quarto governo Lula, em troca, claro, de espaço no poder. O alinhamento na eleição não significou identidade política nem compromisso duradouro com o bolsonarismo.
É preciso, porém, distinguir movimentos de acomodação da construção de uma alternativa. Negociar cargos no governo demonstra pragmatismo, mas não constitui uma renovação da direita. Uma oposição com identidade própria exige projeto, organização e disposição para enfrentar também os setores autoritários de seu próprio campo.
O reconhecimento do resultado eleitoral por governadores que apoiaram Flávio é um sinal relevante. Segundo levantamento publicado por O Globo em 1º de novembro, 13 dos 15 governadores eleitos considerados na reportagem reconheceram expressamente a vitória de Lula. A necessidade de manter relações institucionais com a União certamente pesa nessa atitude. Ainda assim, ela estabelece uma diferença em relação à contestação promovida pelo candidato derrotado.
Nesse cenário, merece destaque a postura de Tarcísio de Freitas. Ao reconhecer o resultado eleitoral, o governador de São Paulo diferenciou-se da contestação promovida por Flávio e sinalizou que é possível exercer uma oposição firme sem desrespeitar a decisão das urnas. Por partir de uma liderança ligada à família Bolsonaro, o gesto tem significado político e abre espaço para uma atuação mais autônoma.
A crise de liderança abre uma disputa pela representação desse eleitorado. A radicalização, a hostilidade às instituições e a ideia de que só é legítimo o resultado eleitoral favorável fazem parte da identidade que o bolsonarismo construiu. Sua moderação encontra aí um obstáculo: não basta trocar o tom dos discursos ou substituir personagens sem enfrentar os fundamentos dessa prática política.
É nessa dificuldade que se abre uma oportunidade para o país: o fortalecimento de uma direita com projeto de governo e compromisso inequívoco com as regras do regime democrático. Parte expressiva dos eleitores de Flávio não é necessariamente bolsonarista, tampouco deseja uma ruptura institucional. Pode ter votado por conservadorismo, rejeição ao PT, insatisfação com o governo ou expectativas em relação à economia e à segurança.
Disputar esse eleitorado exige levar suas preocupações a sério. Uma liderança conservadora precisa mostrar que pode defender segurança pública, responsabilidade fiscal, liberdade econômica e valores de seus eleitores sem aceitar o autoritarismo como preço da unidade.
A existência dessa direita é uma necessidade para a democracia brasileira. Regimes sólidos precisam de forças capazes de disputar o poder, representar seu eleitorado e exercer a oposição sem ameaçar as instituições ou transformar adversários em inimigos. A alternância só é saudável quando todos aceitam que a vitória não confere propriedade permanente do Estado e que a derrota não autoriza o desrespeito às urnas.
Nos últimos oito anos, lideranças que poderiam representar essa alternativa atrelaram seu destino ao bolsonarismo. No primeiro turno, candidatos que se apresentavam como opções conservadoras adotaram discursos praticamente indistinguíveis do de Flávio, por vezes disputando quem era mais radical no antipetismo. Em vez de construir identidade própria, preferiram disputar a bênção da família.
A derrota presidencial não elimina esse mecanismo de submissão. O bolsonarismo conserva votos, mandatos, capacidade de mobilização e instrumentos de pressão sobre seus aliados. Romper sua hegemonia exigirá disputar a base social que o sustenta, enfrentar acusações de traição e oferecer resultados que deem credibilidade a outro caminho.
No Congresso, essa disputa terá consequências concretas. A bancada do PL é numerosa, mas não representa uma maioria ideológica coesa. Interesses partidários, prioridades regionais e diferentes lealdades políticas estarão em disputa no Legislativo. Lideranças de centro-direita com autonomia poderão construir maiorias para enfrentar os problemas do país e barrar propostas que ameacem as instituições. Na sociedade, empresários, lideranças religiosas e eleitores conservadores precisam encontrar representação sem se subordinar ao radicalismo.
Tarcísio, na opinião de muitos analistas, reúne condições para ocupar um papel importante nessa renovação e aparece como um dos possíveis candidatos à Presidência em 2030. O governo de São Paulo lhe oferece uma oportunidade de demonstrar capacidade administrativa, construir alianças e dar dimensão nacional a um projeto próprio. Seu desafio será ampliar sua autonomia e reunir conservadores e setores de centro em torno de uma alternativa comprometida com princípios democráticos.
A força desse campo está nos votos, nos governos estaduais e nas cadeiras conquistadas no Congresso. Sua fraqueza está em continuar dependente de uma liderança familiar que limita sua capacidade de ampliar alianças e governar o país. As urnas abriram uma oportunidade de mudança. Aproveitá-la exige das lideranças conservadoras a coragem de conquistar sua autonomia e disputar o futuro sem pedir licença ao bolsonarismo.
quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Alguma coisa acontece nas avenidas do mundo
Alguma coisa acontece nas praças e avenidas do mundo. Em um tempo marcado por arrogância e cinismo de líderes autoritários como Donald Trump, que hoje enfrenta o teste das eleições no meio do mandato, jovens tomam as ruas para barrar o avanço da extrema direita e pedir melhores condições de vida.
A começar pelos Estados Unidos, onde uma multidão de estudantes da Carolina do Norte marchou unida até as urnas, depois de Trump proibir a instalação de postos de votação dentro de seus campi universitários.
Poucos dias antes, as ruas de Nova York foram tomadas por manifestantes contrários ao presidente americano. As imagens inundaram as redes sociais. O que cantavam? O velho slogan: “o povo unido jamais será vencido”.
Na Europa, os protestos se multiplicam. Com raras exceções, como as da cidade alemã de Frankfurt, onde se registraram cenas de violência, são manifestações pacíficas, que muitas vezes esbarram na truculência das polícias.
Os jovens ocupam as ruas da França há várias semanas. Tudo começou com manifestações de estudantes em busca de melhores condições de ensino. Depois acolheu outros jovens que se queixavam das difíceis condições de vida.
Na Itália, as avenidas têm sido ocupadas por manifestantes que cantam “somos todos antifascistas!”. E que protestam contra o governo de extrema direita de Giorgia Meloni, o mais longevo do país desde a Segunda Guerra Mundial.
E o Brasil tem uma grande contribuição a todo esse movimento. Por aqui, tudo começou na noite de segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições, quando estudantes da Universidade Federal Fluminense tomaram as ruas de Niterói em apoio ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Depois de Niterói, as manifestações tomaram conta das principais cidades do país. E tiveram, juntamente com a movimentação nas redes sociais, papel fundamental na virada do segundo turno e na vitória de Lula.
A conquista do quarto mandato do velho líder de 81 anos ajudou a espalhar pelo mundo o sentimento de que, sim, é possível vencer o avanço da extrema direita, com seus traços autoritários de inspiração fascista.
O exemplo chegou até a eventos esportivos. Logo após a bandeirada final do Grande Prêmio do México de Fórmula Um, a Federação Internacional de Automobilismo autorizou a entrada dos torcedores na pista. E o que eles cantaram? “Olê, olê olê olá, Lula, Lula”.
Aonde chegará tudo isso? Com as exceções de sempre, não vemos pelo mundo barricadas e trocas de agressões, como em 1968. Mas pode-se facilmente constatar o grau de insatisfação, principalmente entre os jovens.
Em visita ao Brasil, para promover um festival de cinema francês, a atriz Alexandra Lamy disse – em entrevista ao Correio Braziliense – compreender a frustração dos jovens em seu país.
“Nós apoiamos muito os estudantes de ensino médio e a juventude em geral, porque isso nos faz lembrar da violência em que eles vivem”, afirmou Alexandra. “Embora estejamos na França, onde se tem a impressão de que as escolas são excelentes, a realidade é que os alunos passam frio, e faltam professores”.
Nos outros países da Europa onde se multiplicam as manifestações, as queixas se repetem: alto custo de vida, alto custo dos aluguéis, falta de oportunidades.
Nos Estados Unidos, a principal queixa está no custo de vida. E isso está diretamente relacionado à guerra que Trump resolveu promover contra o Irã, algo que encareceu os custos de combustíveis em todo o mundo.
Como tudo isso se refletirá nas urnas das maiores democracias ocidentais? A partir dessa terça-feira será possível ter uma ideia da nova composição do Congresso dos Estados Unidos.
A contagem dos votos é manual – como defendem os bolsonaristas – e pode levar semanas. Existe uma grande chance de vitória dos democratas. Mas resta saber se eles conseguirão o controle de uma ou das duas Casas do Congresso.
Se isso acontecer, o Partido Democrata passa a ter chances reais de vitória nas eleições presidenciais de 2028. E os sonhos de grandeza de Donald Trump ficarão registrados apenas no grande salão de baile que ele constrói na Casa Branca.
Muita gente teme que as manifestações na França acabem por estimular o medo junto a eleitores conservadores, abrindo caminho para uma possível vitória na Frente Nacional das eleições do ano que vem.
É cedo ainda para dizer. Até porque já existe uma multidão de pré-candidatos à sucessão de Emmanuel Macron. O mesmo risco existe na Alemanha, onde tem crescido o apoio à AfD, partido de extrema direita de inspiração nazista.
As ruas e as urnas podem até seguir caminhos diferentes. Mas, como o Brasil mostrou ao resto do mundo, a presença de multidões nas grandes cidades pode ajudar a construir vitórias antes tidas como impossíveis.
A começar pelos Estados Unidos, onde uma multidão de estudantes da Carolina do Norte marchou unida até as urnas, depois de Trump proibir a instalação de postos de votação dentro de seus campi universitários.
Poucos dias antes, as ruas de Nova York foram tomadas por manifestantes contrários ao presidente americano. As imagens inundaram as redes sociais. O que cantavam? O velho slogan: “o povo unido jamais será vencido”.
Na Europa, os protestos se multiplicam. Com raras exceções, como as da cidade alemã de Frankfurt, onde se registraram cenas de violência, são manifestações pacíficas, que muitas vezes esbarram na truculência das polícias.
Os jovens ocupam as ruas da França há várias semanas. Tudo começou com manifestações de estudantes em busca de melhores condições de ensino. Depois acolheu outros jovens que se queixavam das difíceis condições de vida.
Na Itália, as avenidas têm sido ocupadas por manifestantes que cantam “somos todos antifascistas!”. E que protestam contra o governo de extrema direita de Giorgia Meloni, o mais longevo do país desde a Segunda Guerra Mundial.
E o Brasil tem uma grande contribuição a todo esse movimento. Por aqui, tudo começou na noite de segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições, quando estudantes da Universidade Federal Fluminense tomaram as ruas de Niterói em apoio ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Depois de Niterói, as manifestações tomaram conta das principais cidades do país. E tiveram, juntamente com a movimentação nas redes sociais, papel fundamental na virada do segundo turno e na vitória de Lula.
A conquista do quarto mandato do velho líder de 81 anos ajudou a espalhar pelo mundo o sentimento de que, sim, é possível vencer o avanço da extrema direita, com seus traços autoritários de inspiração fascista.
O exemplo chegou até a eventos esportivos. Logo após a bandeirada final do Grande Prêmio do México de Fórmula Um, a Federação Internacional de Automobilismo autorizou a entrada dos torcedores na pista. E o que eles cantaram? “Olê, olê olê olá, Lula, Lula”.
Aonde chegará tudo isso? Com as exceções de sempre, não vemos pelo mundo barricadas e trocas de agressões, como em 1968. Mas pode-se facilmente constatar o grau de insatisfação, principalmente entre os jovens.
Em visita ao Brasil, para promover um festival de cinema francês, a atriz Alexandra Lamy disse – em entrevista ao Correio Braziliense – compreender a frustração dos jovens em seu país.
“Nós apoiamos muito os estudantes de ensino médio e a juventude em geral, porque isso nos faz lembrar da violência em que eles vivem”, afirmou Alexandra. “Embora estejamos na França, onde se tem a impressão de que as escolas são excelentes, a realidade é que os alunos passam frio, e faltam professores”.
Nos outros países da Europa onde se multiplicam as manifestações, as queixas se repetem: alto custo de vida, alto custo dos aluguéis, falta de oportunidades.
Nos Estados Unidos, a principal queixa está no custo de vida. E isso está diretamente relacionado à guerra que Trump resolveu promover contra o Irã, algo que encareceu os custos de combustíveis em todo o mundo.
Como tudo isso se refletirá nas urnas das maiores democracias ocidentais? A partir dessa terça-feira será possível ter uma ideia da nova composição do Congresso dos Estados Unidos.
A contagem dos votos é manual – como defendem os bolsonaristas – e pode levar semanas. Existe uma grande chance de vitória dos democratas. Mas resta saber se eles conseguirão o controle de uma ou das duas Casas do Congresso.
Se isso acontecer, o Partido Democrata passa a ter chances reais de vitória nas eleições presidenciais de 2028. E os sonhos de grandeza de Donald Trump ficarão registrados apenas no grande salão de baile que ele constrói na Casa Branca.
Muita gente teme que as manifestações na França acabem por estimular o medo junto a eleitores conservadores, abrindo caminho para uma possível vitória na Frente Nacional das eleições do ano que vem.
É cedo ainda para dizer. Até porque já existe uma multidão de pré-candidatos à sucessão de Emmanuel Macron. O mesmo risco existe na Alemanha, onde tem crescido o apoio à AfD, partido de extrema direita de inspiração nazista.
As ruas e as urnas podem até seguir caminhos diferentes. Mas, como o Brasil mostrou ao resto do mundo, a presença de multidões nas grandes cidades pode ajudar a construir vitórias antes tidas como impossíveis.
A terra treme nas vozes destes povos
Enquanto esperávamos pela Assembleia Popular, no Rossio, perguntei a uma amiga como iria ser chamado este período histórico. “A crise das acampadas”? Desde a crónica da semana passada, ainda em torno da primeira carga policial na Praça D. João I, Portugal já tremeu imenso. A polícia e o Governo assumiram plenamente táticas de violência e repressão inéditas em Portugal contra manifestações pacíficas. Os relatos de manifestantes no Rossio falavam de bastonadas, cães, cercos e perseguições de moto por longa distância. Ações deliberadas que apanharam os “acampados” de surpresa, numa noite que terminou com muitos entre o hospital e a esquadra.
Se sábado foi um dia negro, seguido de mais um dia de protestos no domingo, a segunda-feira amanheceu com notícias globais de esperança. Numa vitória absolutamente histórica, Lula conseguiu deixar para trás o desaire do primeiro turno e, em duas semanas, impôs uma “virada” fenomenal, contra as elites, contra as táticas de supressão de votos, contra influências da Meta e contra todo um movimento tecnofascista global desejoso de o derrubar e colocar no poder a dinastia Bolsonaro. A equipa de Lula provou que é possível derrotar as forças antidemocráticas com organização, união, empenho e convicção.
Mas ocorreu um outro terramoto eleitoral no domingo à noite que apanhou todos de surpresa. Num curto espaço de tempo, a Sérvia tornou-se um caso de estudo mundial. As ruas de Belgrado irromperam no domingo em celebrações com a vitória do movimento estudantil nas eleições legislativas antecipadas, que derrotou o candidato populista pró-russo Aleksandar Vucic. Anos de governação corrupta, repressão brutal e falta de liberdade de expressão levaram a uma mobilização nacional constante e que nunca cedeu terreno. Em 2024, a contestação na Sérvia intensificou-se com um projeto de exploração de lítio da Rio Tinto, mas o momento decisivo foi o desabamento da cobertura da Estação de Novi Sad, em novembro desse ano, que causou 16 mortos. Um dos rostos que emergiram dessa tragédia foi a mãe de uma das vítimas, Dijana Hrka, que nunca deixou de lutar pela responsabilização judicial dos responsáveis pelo desabamento e se juntou, solidária, à causa dos estudantes em protesto. A sua história deu um rosto humano à dimensão da tragédia e às denúncias.
Na sequência das agressões e da repressão brutal, as manifestações começaram a tomar uma forma organizada e alastraram-se por todo o país. Em resumo, e porque deixo de lado muitos detalhes relevantes, a Sérvia convocou eleições antecipadas e o movimento estudantil concorreu com o cardiologista Ilija Srdanovic como cabeça de lista. Num inacreditável volte-face, a lista de estudantes (mas também de académicos e especialistas) acabou por ganhar a maioria absoluta. A Sérvia tem muitas razões para celebrar, mas o verdadeiro desafio político será provar que uma organização colaborativa e horizontal consegue assumir o poder e construir uma nova estrutura democrática, livre da influência russa e dos oligarcas. Não vai faltar interesse em acompanhar o caso da Sérvia nos próximos tempos. É a demonstração de que movimentos populares bem organizados podem fazer a diferença.
E não é só a Sérvia. Na altura em que escrevo esta crónica, ainda não sei qual será o resultado das eleições em Israel, a 27 de outubro, onde também ocorrem enormes manifestações contra o governo de Netanyahu. Chegará finalmente ao fim o seu poder? Terá Israel condições para eleger e formar um governo não extremista e que não apele aos piores fundamentalismos, pondo fim aos crimes contra o povo palestiniano, mas também aos bombardeamentos no Líbano e na região? E já a 3 de novembro saberemos se as eleições intercalares americanas serão dominadas pelos democratas ou se Trump irá pôr em causa a legitimidade do processo democrático. Entre os novos protestos e movimentos que nascem por toda a parte e a resistência das velhas elites, importa não deixar o vazio tomar lugar.
Quanto a nós, talvez ainda não seja possível saber como vamos chamar a este período histórico em Portugal, mas o seu nome também depende de quem se recusar a ser apenas testemunha. Vem-me à cabeça a estrofe de José Mário Branco: “Sobre as águas calmas um vulcão de fogo / Toda a terra treme nas vozes deste povo / Mesmo no silêncio sabemos cantar / Povo por extenso é unidade popular.”
Se sábado foi um dia negro, seguido de mais um dia de protestos no domingo, a segunda-feira amanheceu com notícias globais de esperança. Numa vitória absolutamente histórica, Lula conseguiu deixar para trás o desaire do primeiro turno e, em duas semanas, impôs uma “virada” fenomenal, contra as elites, contra as táticas de supressão de votos, contra influências da Meta e contra todo um movimento tecnofascista global desejoso de o derrubar e colocar no poder a dinastia Bolsonaro. A equipa de Lula provou que é possível derrotar as forças antidemocráticas com organização, união, empenho e convicção.
Mas ocorreu um outro terramoto eleitoral no domingo à noite que apanhou todos de surpresa. Num curto espaço de tempo, a Sérvia tornou-se um caso de estudo mundial. As ruas de Belgrado irromperam no domingo em celebrações com a vitória do movimento estudantil nas eleições legislativas antecipadas, que derrotou o candidato populista pró-russo Aleksandar Vucic. Anos de governação corrupta, repressão brutal e falta de liberdade de expressão levaram a uma mobilização nacional constante e que nunca cedeu terreno. Em 2024, a contestação na Sérvia intensificou-se com um projeto de exploração de lítio da Rio Tinto, mas o momento decisivo foi o desabamento da cobertura da Estação de Novi Sad, em novembro desse ano, que causou 16 mortos. Um dos rostos que emergiram dessa tragédia foi a mãe de uma das vítimas, Dijana Hrka, que nunca deixou de lutar pela responsabilização judicial dos responsáveis pelo desabamento e se juntou, solidária, à causa dos estudantes em protesto. A sua história deu um rosto humano à dimensão da tragédia e às denúncias.
Na sequência das agressões e da repressão brutal, as manifestações começaram a tomar uma forma organizada e alastraram-se por todo o país. Em resumo, e porque deixo de lado muitos detalhes relevantes, a Sérvia convocou eleições antecipadas e o movimento estudantil concorreu com o cardiologista Ilija Srdanovic como cabeça de lista. Num inacreditável volte-face, a lista de estudantes (mas também de académicos e especialistas) acabou por ganhar a maioria absoluta. A Sérvia tem muitas razões para celebrar, mas o verdadeiro desafio político será provar que uma organização colaborativa e horizontal consegue assumir o poder e construir uma nova estrutura democrática, livre da influência russa e dos oligarcas. Não vai faltar interesse em acompanhar o caso da Sérvia nos próximos tempos. É a demonstração de que movimentos populares bem organizados podem fazer a diferença.
E não é só a Sérvia. Na altura em que escrevo esta crónica, ainda não sei qual será o resultado das eleições em Israel, a 27 de outubro, onde também ocorrem enormes manifestações contra o governo de Netanyahu. Chegará finalmente ao fim o seu poder? Terá Israel condições para eleger e formar um governo não extremista e que não apele aos piores fundamentalismos, pondo fim aos crimes contra o povo palestiniano, mas também aos bombardeamentos no Líbano e na região? E já a 3 de novembro saberemos se as eleições intercalares americanas serão dominadas pelos democratas ou se Trump irá pôr em causa a legitimidade do processo democrático. Entre os novos protestos e movimentos que nascem por toda a parte e a resistência das velhas elites, importa não deixar o vazio tomar lugar.
Quanto a nós, talvez ainda não seja possível saber como vamos chamar a este período histórico em Portugal, mas o seu nome também depende de quem se recusar a ser apenas testemunha. Vem-me à cabeça a estrofe de José Mário Branco: “Sobre as águas calmas um vulcão de fogo / Toda a terra treme nas vozes deste povo / Mesmo no silêncio sabemos cantar / Povo por extenso é unidade popular.”
Os inocentes do Leblon não sabem de você
Foi no auge da década de 1980 que Marina Lima, ao lado de seu irmão, o letrista, poeta e filósofo, Antônio Cícero, deu voz à canção Virgem. Entre seus versos, uma referência direta a Carlos Drummond de Andrade: “os inocentes do Leblon”.
Anos depois, Cícero contaria que a expressão fazia parte de suas lembranças de infância, quando seu pai costumava chamar assim os filhos que saíam do mar, nas praias cariocas. Uma memória afetiva que, curiosamente, evocava outra vivência, anterior àquela família e à própria canção.
Aqui, recorremos brevemente a Michel Foucault, que, na abertura do seu livro, A ordem do discurso, manifesta o desejo de encontrar uma voz que já o precedesse. De acordo com ele, não inauguramos os discursos que pronunciamos, mas ocupamos lugares em uma trama de sentidos, histórias e relações de poder que existiam muito antes de nós.
Foi o que Antônio Cícero fez convocando Drummond para sua própria lírica? Ao recuperar “os inocentes do Leblon”, a expressão foi realocada para o território da experiência amorosa, onde o mundo continua existindo, indiferente às nossas perdas. Entretanto, o verso original traz consigo uma história menos romântica.
Publicado em 1940, em Sentimento do mundo, o poema de Drummond surge em meio ao avanço do fascismo e à Segunda Guerra Mundial. Nele, os inocentes não percebem a chegada de um navio, não sabem o que transporta, quem chega ou o que acontece para além da praia. Estão ocupados com o calor da areia, o óleo sobre as costas e a tranquilidade de quem pode se dar ao luxo de não olhar para o horizonte. Lá, na cadência proposta pelo poeta, o mundo parece estar em convulsão. O bronzeado, todavia, não pode esperar.
Eis, então, que surge a primeira de muitas perguntas que aqui nos interessa: quem são e será que os inocentes do Leblon são mesmo tão inocentes assim?
Há algo na classe média brasileira que remete continuamente a esses personagens, não exatamente pela localização geográfica, embora o Leblon seja uma metáfora bastante conveniente para pensar os privilégios no Brasil, mas pela relação que determinados segmentos estabelecem com a própria condição de classe.
Isso porque a classe média brasileira parece ter desenvolvido uma extraordinária capacidade de se reconhecer em tudo aquilo que não é. Não é pobre, porque comprou um apartamento financiado. Não é trabalhadora, porque ocupa um cargo de gestão. Não é proletária, porque tem diploma universitário, carro, plano de saúde e, eventualmente, alguém que trabalha em sua casa. Ela também não é burguesa, embora faça um esforço admirável para pensar como se fosse.
A grande ironia é que basta perder o emprego para descobrir que o banco, o condomínio e a operadora do plano de saúde não reconhecem distinções tão sofisticadas – e é justamente nessa contradição que a leitura marxista se torna incontornável.
Para Marx, a alienação está inscrita das e nas próprias relações de trabalho, quando aquele que produz a riqueza não controla plenamente as condições de sua produção. Mas há outra dimensão dessa discussão que nos interessa particularmente, a saber, a maneira como determinadas relações sociais e ideológicas contribuem para que trabalhadores se identifiquem com posições de classe que não ocupam.
É o caso de parcelas da classe média que dependem do próprio salário, mas encontram no diploma, no cargo e no padrão de consumo motivos suficientes para se imaginar mais próximas da burguesia do que dos demais trabalhadores.
Diante disso, podemos inferir que o problema não está em a classe média reconhecer seus privilégios, mas em confundi-los com uma mudança de classe e, nessa confusão, terminar por defender os interesses de quem controla o capital, enquanto se empenha em manter distância daqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Esta maneira de compreender a própria posição social possui uma história, e ela não vem de agora…
A classe média urbana brasileira já existia antes de 1930, mas sua expansão acompanhou as transformações econômicas desencadeadas pela industrialização e pelo crescimento do Estado. A partir da Era Vargas, a reorganização das relações de trabalho, a ampliação do funcionalismo público e o desenvolvimento de ocupações técnicas e administrativas contribuíram para a formação de novos segmentos assalariados. A Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, tornou-se um marco dessa reorganização, embora suas garantias não tenham alcançado todos os trabalhadores da mesma maneira.
Nos anos seguintes, a industrialização, a urbanização e a expansão dos serviços ampliaram essas ocupações. O crescimento econômico durante a ditadura militar também favoreceu determinados segmentos médios, ao mesmo tempo que aprofundou desigualdades e concentrou renda. Bem mais adiante, após o período ditatorial, a redemocratização, a estabilização monetária com o Plano Real e, posteriormente, a ampliação do emprego formal, do crédito e do acesso à educação contribuíram, em momentos distintos, para modificar as condições de vida e as possibilidades de ascensão social.
Embora essa trajetória não tenha sido linear, tampouco universal, ela auxilia na compreensão de como o emprego estável, a formação profissional e o acesso ao consumo se tornaram referências importantes para a identidade de parcelas da classe média brasileira.
Entretanto, o que aqui importa não é reconstituir toda essa história, mas observar o que acontece quando as condições de trabalho que ajudaram a sustentar determinadas expectativas de estabilidade começam a se transformar.
Durante boa parte do século XX, a expansão do trabalho assalariado formal esteve associada, para determinados grupos, à possibilidade de construir uma carreira, acumular patrimônio e projetar alguma segurança para o futuro. A empresa, a instituição pública ou a profissão ofereciam uma referência relativamente estável de pertencimento.
Todavia, é importante registrar que essa estabilidade nunca foi uma experiência generalizada no Brasil. O trabalho doméstico, a informalidade, a desigualdade racial e a precariedade das ocupações rurais permaneceram como características estruturais do mercado de trabalho. Ainda assim, a promessa de uma carreira protegida e de ascensão pela escolarização exerceu enorme influência sobre o imaginário das classes médias urbanas.
Nas últimas décadas, essa promessa passou a conviver com transformações profundas na organização do trabalho.
A flexibilização das relações contratuais, a terceirização, a expansão do trabalho por demanda, a contratação por pessoa jurídica e o crescimento das plataformas digitais modificaram a maneira como empresas e trabalhadores se relacionam. A especialização profissional, antes frequentemente associada à estabilidade, passou a coexistir com vínculos mais instáveis, competição permanente e exigências contínuas de atualização.
O neoliberalismo não inventou a precariedade do trabalho brasileiro – ela é muito anterior a ele, isso é fato –, mas a reorganização econômica e institucional das últimas décadas contribuiu para produzir novas formas de insegurança, inclusive entre profissionais que, historicamente, se percebiam relativamente protegidos.
A Reforma Trabalhista de 2017, durante o governo Temer, é um marco importante desse processo. Ao mesmo tempo, a expansão das plataformas digitais tornou mais visíveis formas de organização do trabalho nas quais a promessa de autonomia convive com mecanismos intensos de controle, dependência econômica e transferência de riscos.
O trabalhador passa a ser estimulado a se perceber como uma empresa de si mesmo. Precisa administrar a própria carreira, investir continuamente em qualificações, construir uma marca pessoal e assumir os riscos de sua inserção profissional. A ausência de estabilidade ganha o nome de liberdade, a perda de garantias vira flexibilidade, e trabalhar cada vez mais passa a ser celebrado como espírito empreendedor. Eis uma das grandes ironias do capitalismo contemporâneo, a de que o trabalhador perde direitos, mas ganha um título de empresário para chamar de seu.
É nesse cenário que a meritocracia cumpre uma função bastante conveniente. O sucesso passa a ser apresentado como resultado exclusivo do esforço individual, enquanto o fracasso é atribuído à incapacidade de acompanhar as exigências do mercado. Pouco importa que as oportunidades continuem profundamente condicionadas pela origem social, escolaridade e relações de poder. A responsabilidade é sempre do indivíduo, nunca das estruturas que organizam sua existência.
A contradição se torna ainda mais evidente quando observamos a classe média brasileira. Acostumada a encontrar no diploma, na profissão e no consumo elementos de distinção social, ela passa a enfrentar um mercado de trabalho que já não oferece as mesmas garantias de estabilidade e ascensão. O diploma permanece na parede, o cargo profissional é estampado no LinkedIn, mas a segurança econômica que deveria acompanhar essas conquistas se torna cada vez mais incerta.
E, em vez de reconhecer nessa precarização uma condição que a aproxima dos demais trabalhadores, parte da classe média insiste em preservar a distância simbólica que acredita separá-la deles. A ampliação do acesso à universidade, a conquista de direitos ou a ascensão dos mais pobres, costumeiramente, são percebidas como ameaças ao próprio prestígio. Afinal, de que vale ocupar uma posição privilegiada se aqueles que antes estavam excluídos começam a frequentar os mesmos espaços?
O resultado disso soa como uma inversão bastante reveladora. O trabalhador que perde garantias encontra no trabalhador que conquista direitos um adversário, enquanto continua a reconhecer naquele que controla o capital um modelo de sucesso. A disputa se desloca das relações entre capital e trabalho para uma competição entre pessoas que, apesar das diferenças reais de renda e prestígio, compartilham a dependência do próprio trabalho. E, assim, a classe média consegue a proeza de se afastar simbolicamente de sua condição de classe sem jamais conseguir escapar materialmente dela.
A história eleitoral brasileira oferece exemplos bastante reveladores dessa contradição. Desde a redemocratização, a classe média esteve longe de constituir um bloco político homogêneo. Mas, especialmente a partir das eleições de 2006, quando Lula consolidou seu apoio eleitoral entre os segmentos de menor renda, parcelas da classe média e dos estratos superiores passaram a se identificar mais fortemente com candidaturas de oposição ao PT. Esse movimento assumiu novas configurações nas eleições seguintes e encontrou, na ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, uma expressão particularmente significativa da combinação entre conservadorismo moral, antipetismo e liberalismo econômico.
Evidentemente, ninguém vota apenas de acordo com sua posição nas relações de produção. Religião, segurança pública, valores morais e experiências individuais também orientam escolhas políticas. Mas há uma ironia difícil de ignorar quando trabalhadores assalariados defendem a flexibilização de direitos, profissionais precarizados celebram a ausência de vínculo empregatício como liberdade e pequenos empresários se identificam com os interesses de grandes grupos econômicos que, não raramente, também os pressionam na estrutura social.
É justamente aí que a ideologia encontra terreno fértil. A liberdade de quem controla o capital passa a ser confundida com a liberdade de quem precisa vender sua força de trabalho. Parte da classe média, ao incorporar como seus os interesses daqueles que ocupam posições superiores na estrutura econômica, acaba por defender relações que também sustentam sua própria subordinação. Em outras palavras, ela trabalha como assalariada, consome como classe média e, em determinadas circunstâncias, imagina o mundo como burguesa.
Eis então a grande contradição! Parte da classe média teme perder o lugar que ocupa, mas dirige sua hostilidade a quem tenta alcançá-lo, não a quem controla as condições de acesso a ele. O trabalhador mais pobre se transforma em concorrente, enquanto o grande empresário, em referência de sucesso. E o conflito que poderia revelar interesses compartilhados entre trabalhadores acaba reorganizado como uma disputa por quem merece permanecer alguns degraus acima dos demais.
É nessa antítese que podemos tentar entender a classe média através de uma posição particularmente perversa: a de vítima e algoz. Vítima porque se ilude com a ideia de pertencer à burguesia, confundindo determinados privilégios e sinais de prestígio com a posse efetiva do capital. Afinal, integrar uma elite econômica ou intelectual não significa, necessariamente, pertencer à classe que controla os meios de produção. E a própria burguesia se encarrega de estabelecer os limites dessa identificação, sobretudo quando o emprego desaparece e a renda deixa de sustentar a aparência de pertencimento.
Algoz porque, mesmo submetida a essa relação de dependência, parte da classe média reproduz as hierarquias que a subordinam, oprime os trabalhadores que ocupam posições inferiores e transforma a própria insegurança em instrumento de exclusão. Ela não consegue ser reconhecida por aqueles a quem deseja se igualar, mas insiste em negar o reconhecimento àqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Por essa via de análise, é possível concluir também que a inocência deixa de ser uma questão de desconhecimento. Afinal, reconhecer a própria condição de classe não significa, necessariamente, desejar transformar as relações que a sustentam, sobretudo quando determinados privilégios dependem da permanência de outros trabalhadores em posições inferiores.
Talvez, por isso, o poema de Drummond permaneça tão atual. O navio chegou, o mundo mudou, as relações de trabalho se transformaram, mas os inocentes continuam ocupados demais para perceber o que acontece além da praia. Afinal, reconhecer a própria vulnerabilidade exige um esforço consideravelmente maior do que preservar a confortável ilusão de pertencimento à classe dominante.
Ainda assim, parte dessa classe prefere responsabilizar aqueles que estão abaixo na hierarquia social por uma insegurança que não foi produzida por eles. O problema nunca parece estar nas relações econômicas que a subordinam, mas no trabalhador que conquistou direitos, no pobre que ingressou na universidade ou naquele que passou a frequentar espaços antes reservados a poucos. A classe média teme perder seus privilégios, mas, frequentemente, se incomoda mais com quem começa a conquistá-los do que com quem efetivamente controla sua distribuição.
Retomemos então a alienação nas relações de trabalho, tal como discutida por Marx. Se as condições materiais de existência contribuem para moldar a maneira como os sujeitos compreendem a si mesmos e o mundo, isso não os isenta de participar da reprodução das relações que os subordinam. A classe média pode ser alienada em sua condição de trabalhadora e, ao mesmo tempo, encontrar na preservação das desigualdades uma forma de sustentar seus próprios privilégios. Sua inocência, portanto, carrega também uma parcela de responsabilidade.
Em Virgem, de Cícero e Marina, o mundo segue indiferente às nossas expectativas. As coisas não necessitam de nós. Mas, diante dos inocentes de Drummond, a pergunta é outra: por que determinados grupos insistem em agir como se não precisassem compreender o mundo que os cerca?
Há uma diferença considerável entre não perceber a chegada de um navio e construir toda uma visão de mundo para continuar ignorando sua presença. A primeira situação pode ser distração, a segunda já se aproxima bastante de uma conveniência política.
Talvez os inocentes do Leblon não sejam tão inocentes assim. Sua “ingenuidade” também pode ser uma posição social, uma maneira de interpretar a realidade e, sobretudo, de escolher a quem atribuir a responsabilidade pelas próprias contradições.
Afinal, o navio continua chegando. E a areia, para alguns, permanece suficientemente quente para que não seja necessário olhar para o mar.
Anos depois, Cícero contaria que a expressão fazia parte de suas lembranças de infância, quando seu pai costumava chamar assim os filhos que saíam do mar, nas praias cariocas. Uma memória afetiva que, curiosamente, evocava outra vivência, anterior àquela família e à própria canção.
Aqui, recorremos brevemente a Michel Foucault, que, na abertura do seu livro, A ordem do discurso, manifesta o desejo de encontrar uma voz que já o precedesse. De acordo com ele, não inauguramos os discursos que pronunciamos, mas ocupamos lugares em uma trama de sentidos, histórias e relações de poder que existiam muito antes de nós.
Foi o que Antônio Cícero fez convocando Drummond para sua própria lírica? Ao recuperar “os inocentes do Leblon”, a expressão foi realocada para o território da experiência amorosa, onde o mundo continua existindo, indiferente às nossas perdas. Entretanto, o verso original traz consigo uma história menos romântica.
Publicado em 1940, em Sentimento do mundo, o poema de Drummond surge em meio ao avanço do fascismo e à Segunda Guerra Mundial. Nele, os inocentes não percebem a chegada de um navio, não sabem o que transporta, quem chega ou o que acontece para além da praia. Estão ocupados com o calor da areia, o óleo sobre as costas e a tranquilidade de quem pode se dar ao luxo de não olhar para o horizonte. Lá, na cadência proposta pelo poeta, o mundo parece estar em convulsão. O bronzeado, todavia, não pode esperar.
Eis, então, que surge a primeira de muitas perguntas que aqui nos interessa: quem são e será que os inocentes do Leblon são mesmo tão inocentes assim?
Há algo na classe média brasileira que remete continuamente a esses personagens, não exatamente pela localização geográfica, embora o Leblon seja uma metáfora bastante conveniente para pensar os privilégios no Brasil, mas pela relação que determinados segmentos estabelecem com a própria condição de classe.
Isso porque a classe média brasileira parece ter desenvolvido uma extraordinária capacidade de se reconhecer em tudo aquilo que não é. Não é pobre, porque comprou um apartamento financiado. Não é trabalhadora, porque ocupa um cargo de gestão. Não é proletária, porque tem diploma universitário, carro, plano de saúde e, eventualmente, alguém que trabalha em sua casa. Ela também não é burguesa, embora faça um esforço admirável para pensar como se fosse.
A grande ironia é que basta perder o emprego para descobrir que o banco, o condomínio e a operadora do plano de saúde não reconhecem distinções tão sofisticadas – e é justamente nessa contradição que a leitura marxista se torna incontornável.
Para Marx, a alienação está inscrita das e nas próprias relações de trabalho, quando aquele que produz a riqueza não controla plenamente as condições de sua produção. Mas há outra dimensão dessa discussão que nos interessa particularmente, a saber, a maneira como determinadas relações sociais e ideológicas contribuem para que trabalhadores se identifiquem com posições de classe que não ocupam.
É o caso de parcelas da classe média que dependem do próprio salário, mas encontram no diploma, no cargo e no padrão de consumo motivos suficientes para se imaginar mais próximas da burguesia do que dos demais trabalhadores.
Diante disso, podemos inferir que o problema não está em a classe média reconhecer seus privilégios, mas em confundi-los com uma mudança de classe e, nessa confusão, terminar por defender os interesses de quem controla o capital, enquanto se empenha em manter distância daqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Esta maneira de compreender a própria posição social possui uma história, e ela não vem de agora…
A classe média urbana brasileira já existia antes de 1930, mas sua expansão acompanhou as transformações econômicas desencadeadas pela industrialização e pelo crescimento do Estado. A partir da Era Vargas, a reorganização das relações de trabalho, a ampliação do funcionalismo público e o desenvolvimento de ocupações técnicas e administrativas contribuíram para a formação de novos segmentos assalariados. A Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, tornou-se um marco dessa reorganização, embora suas garantias não tenham alcançado todos os trabalhadores da mesma maneira.
Nos anos seguintes, a industrialização, a urbanização e a expansão dos serviços ampliaram essas ocupações. O crescimento econômico durante a ditadura militar também favoreceu determinados segmentos médios, ao mesmo tempo que aprofundou desigualdades e concentrou renda. Bem mais adiante, após o período ditatorial, a redemocratização, a estabilização monetária com o Plano Real e, posteriormente, a ampliação do emprego formal, do crédito e do acesso à educação contribuíram, em momentos distintos, para modificar as condições de vida e as possibilidades de ascensão social.
Embora essa trajetória não tenha sido linear, tampouco universal, ela auxilia na compreensão de como o emprego estável, a formação profissional e o acesso ao consumo se tornaram referências importantes para a identidade de parcelas da classe média brasileira.
Entretanto, o que aqui importa não é reconstituir toda essa história, mas observar o que acontece quando as condições de trabalho que ajudaram a sustentar determinadas expectativas de estabilidade começam a se transformar.
Durante boa parte do século XX, a expansão do trabalho assalariado formal esteve associada, para determinados grupos, à possibilidade de construir uma carreira, acumular patrimônio e projetar alguma segurança para o futuro. A empresa, a instituição pública ou a profissão ofereciam uma referência relativamente estável de pertencimento.
Todavia, é importante registrar que essa estabilidade nunca foi uma experiência generalizada no Brasil. O trabalho doméstico, a informalidade, a desigualdade racial e a precariedade das ocupações rurais permaneceram como características estruturais do mercado de trabalho. Ainda assim, a promessa de uma carreira protegida e de ascensão pela escolarização exerceu enorme influência sobre o imaginário das classes médias urbanas.
Nas últimas décadas, essa promessa passou a conviver com transformações profundas na organização do trabalho.
A flexibilização das relações contratuais, a terceirização, a expansão do trabalho por demanda, a contratação por pessoa jurídica e o crescimento das plataformas digitais modificaram a maneira como empresas e trabalhadores se relacionam. A especialização profissional, antes frequentemente associada à estabilidade, passou a coexistir com vínculos mais instáveis, competição permanente e exigências contínuas de atualização.
O neoliberalismo não inventou a precariedade do trabalho brasileiro – ela é muito anterior a ele, isso é fato –, mas a reorganização econômica e institucional das últimas décadas contribuiu para produzir novas formas de insegurança, inclusive entre profissionais que, historicamente, se percebiam relativamente protegidos.
A Reforma Trabalhista de 2017, durante o governo Temer, é um marco importante desse processo. Ao mesmo tempo, a expansão das plataformas digitais tornou mais visíveis formas de organização do trabalho nas quais a promessa de autonomia convive com mecanismos intensos de controle, dependência econômica e transferência de riscos.
O trabalhador passa a ser estimulado a se perceber como uma empresa de si mesmo. Precisa administrar a própria carreira, investir continuamente em qualificações, construir uma marca pessoal e assumir os riscos de sua inserção profissional. A ausência de estabilidade ganha o nome de liberdade, a perda de garantias vira flexibilidade, e trabalhar cada vez mais passa a ser celebrado como espírito empreendedor. Eis uma das grandes ironias do capitalismo contemporâneo, a de que o trabalhador perde direitos, mas ganha um título de empresário para chamar de seu.
É nesse cenário que a meritocracia cumpre uma função bastante conveniente. O sucesso passa a ser apresentado como resultado exclusivo do esforço individual, enquanto o fracasso é atribuído à incapacidade de acompanhar as exigências do mercado. Pouco importa que as oportunidades continuem profundamente condicionadas pela origem social, escolaridade e relações de poder. A responsabilidade é sempre do indivíduo, nunca das estruturas que organizam sua existência.
A contradição se torna ainda mais evidente quando observamos a classe média brasileira. Acostumada a encontrar no diploma, na profissão e no consumo elementos de distinção social, ela passa a enfrentar um mercado de trabalho que já não oferece as mesmas garantias de estabilidade e ascensão. O diploma permanece na parede, o cargo profissional é estampado no LinkedIn, mas a segurança econômica que deveria acompanhar essas conquistas se torna cada vez mais incerta.
E, em vez de reconhecer nessa precarização uma condição que a aproxima dos demais trabalhadores, parte da classe média insiste em preservar a distância simbólica que acredita separá-la deles. A ampliação do acesso à universidade, a conquista de direitos ou a ascensão dos mais pobres, costumeiramente, são percebidas como ameaças ao próprio prestígio. Afinal, de que vale ocupar uma posição privilegiada se aqueles que antes estavam excluídos começam a frequentar os mesmos espaços?
O resultado disso soa como uma inversão bastante reveladora. O trabalhador que perde garantias encontra no trabalhador que conquista direitos um adversário, enquanto continua a reconhecer naquele que controla o capital um modelo de sucesso. A disputa se desloca das relações entre capital e trabalho para uma competição entre pessoas que, apesar das diferenças reais de renda e prestígio, compartilham a dependência do próprio trabalho. E, assim, a classe média consegue a proeza de se afastar simbolicamente de sua condição de classe sem jamais conseguir escapar materialmente dela.
A história eleitoral brasileira oferece exemplos bastante reveladores dessa contradição. Desde a redemocratização, a classe média esteve longe de constituir um bloco político homogêneo. Mas, especialmente a partir das eleições de 2006, quando Lula consolidou seu apoio eleitoral entre os segmentos de menor renda, parcelas da classe média e dos estratos superiores passaram a se identificar mais fortemente com candidaturas de oposição ao PT. Esse movimento assumiu novas configurações nas eleições seguintes e encontrou, na ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, uma expressão particularmente significativa da combinação entre conservadorismo moral, antipetismo e liberalismo econômico.
Evidentemente, ninguém vota apenas de acordo com sua posição nas relações de produção. Religião, segurança pública, valores morais e experiências individuais também orientam escolhas políticas. Mas há uma ironia difícil de ignorar quando trabalhadores assalariados defendem a flexibilização de direitos, profissionais precarizados celebram a ausência de vínculo empregatício como liberdade e pequenos empresários se identificam com os interesses de grandes grupos econômicos que, não raramente, também os pressionam na estrutura social.
É justamente aí que a ideologia encontra terreno fértil. A liberdade de quem controla o capital passa a ser confundida com a liberdade de quem precisa vender sua força de trabalho. Parte da classe média, ao incorporar como seus os interesses daqueles que ocupam posições superiores na estrutura econômica, acaba por defender relações que também sustentam sua própria subordinação. Em outras palavras, ela trabalha como assalariada, consome como classe média e, em determinadas circunstâncias, imagina o mundo como burguesa.
Eis então a grande contradição! Parte da classe média teme perder o lugar que ocupa, mas dirige sua hostilidade a quem tenta alcançá-lo, não a quem controla as condições de acesso a ele. O trabalhador mais pobre se transforma em concorrente, enquanto o grande empresário, em referência de sucesso. E o conflito que poderia revelar interesses compartilhados entre trabalhadores acaba reorganizado como uma disputa por quem merece permanecer alguns degraus acima dos demais.
É nessa antítese que podemos tentar entender a classe média através de uma posição particularmente perversa: a de vítima e algoz. Vítima porque se ilude com a ideia de pertencer à burguesia, confundindo determinados privilégios e sinais de prestígio com a posse efetiva do capital. Afinal, integrar uma elite econômica ou intelectual não significa, necessariamente, pertencer à classe que controla os meios de produção. E a própria burguesia se encarrega de estabelecer os limites dessa identificação, sobretudo quando o emprego desaparece e a renda deixa de sustentar a aparência de pertencimento.
Algoz porque, mesmo submetida a essa relação de dependência, parte da classe média reproduz as hierarquias que a subordinam, oprime os trabalhadores que ocupam posições inferiores e transforma a própria insegurança em instrumento de exclusão. Ela não consegue ser reconhecida por aqueles a quem deseja se igualar, mas insiste em negar o reconhecimento àqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Por essa via de análise, é possível concluir também que a inocência deixa de ser uma questão de desconhecimento. Afinal, reconhecer a própria condição de classe não significa, necessariamente, desejar transformar as relações que a sustentam, sobretudo quando determinados privilégios dependem da permanência de outros trabalhadores em posições inferiores.
Talvez, por isso, o poema de Drummond permaneça tão atual. O navio chegou, o mundo mudou, as relações de trabalho se transformaram, mas os inocentes continuam ocupados demais para perceber o que acontece além da praia. Afinal, reconhecer a própria vulnerabilidade exige um esforço consideravelmente maior do que preservar a confortável ilusão de pertencimento à classe dominante.
Ainda assim, parte dessa classe prefere responsabilizar aqueles que estão abaixo na hierarquia social por uma insegurança que não foi produzida por eles. O problema nunca parece estar nas relações econômicas que a subordinam, mas no trabalhador que conquistou direitos, no pobre que ingressou na universidade ou naquele que passou a frequentar espaços antes reservados a poucos. A classe média teme perder seus privilégios, mas, frequentemente, se incomoda mais com quem começa a conquistá-los do que com quem efetivamente controla sua distribuição.
Retomemos então a alienação nas relações de trabalho, tal como discutida por Marx. Se as condições materiais de existência contribuem para moldar a maneira como os sujeitos compreendem a si mesmos e o mundo, isso não os isenta de participar da reprodução das relações que os subordinam. A classe média pode ser alienada em sua condição de trabalhadora e, ao mesmo tempo, encontrar na preservação das desigualdades uma forma de sustentar seus próprios privilégios. Sua inocência, portanto, carrega também uma parcela de responsabilidade.
Em Virgem, de Cícero e Marina, o mundo segue indiferente às nossas expectativas. As coisas não necessitam de nós. Mas, diante dos inocentes de Drummond, a pergunta é outra: por que determinados grupos insistem em agir como se não precisassem compreender o mundo que os cerca?
Há uma diferença considerável entre não perceber a chegada de um navio e construir toda uma visão de mundo para continuar ignorando sua presença. A primeira situação pode ser distração, a segunda já se aproxima bastante de uma conveniência política.
Talvez os inocentes do Leblon não sejam tão inocentes assim. Sua “ingenuidade” também pode ser uma posição social, uma maneira de interpretar a realidade e, sobretudo, de escolher a quem atribuir a responsabilidade pelas próprias contradições.
Afinal, o navio continua chegando. E a areia, para alguns, permanece suficientemente quente para que não seja necessário olhar para o mar.
IAs enfeiam a matemática
A matemática está se tornando fascista? Admito que a piada não é das melhores, mas não resisto. A publicação de 370 soluções de problemas matemáticos pela OpenAI, no início de outubro, prenuncia uma era em que o método Monte Carlo, uma espécie de força bruta estatística, prevalecerá sobre as abordagens inspiradas em beleza e elegância que vêm dando o tom das demonstrações desde que a humanidade inventou/descobriu a matemática (cabe ao leitor escolher aqui a palavra que mais lhe agrada) alguns milênios atrás.
Que me perdoem os céticos da IA, mas a essa altura não dá mais para negar que os programas sejam capazes de criar soluções originais para problemas complexos e que o fazem através da força bruta probabilística e estatística, em princípio sem nenhuma consideração para com a dimensão estética.
A pergunta que proponho é se um dia fez sentido associar matemática a beleza. Não me entendam mal, também prefiro a elegantérrima prova de Euclides sobre a infinidade dos números primos a qualquer método fascista, mas será que matemáticos mais idealistas não avançaram o sinal quando começaram a propor que a beleza de uma demonstração fosse também um critério de verdade? O fato de termos nos acostumado a associar os dois elementos provavelmente não passa de um viés de sobrevivência. Como até aqui os matemáticos privilegiaram a produção de provas que julgavam belas, ficamos com a sensação de que as duas coisas andam juntas, mas é perfeitamente possível que haja por aí um número muito maior de verdades matemáticas assustadoramente feias. Há alguns teoremas matemáticos e mesmo modelos da física fortemente sugestivos disso. A elegante supersimetria não desbancou o desengonçado modelo-padrão da física de partículas.
Não penso que o fascismo algorítmico das IAs nos fará aposentar o gosto por demonstrações esteticamente inspiradas, mas saberemos que isso não passa de uma preferência humana, e a matemática ficará mais parecida com a literatura.
Que me perdoem os céticos da IA, mas a essa altura não dá mais para negar que os programas sejam capazes de criar soluções originais para problemas complexos e que o fazem através da força bruta probabilística e estatística, em princípio sem nenhuma consideração para com a dimensão estética.
A pergunta que proponho é se um dia fez sentido associar matemática a beleza. Não me entendam mal, também prefiro a elegantérrima prova de Euclides sobre a infinidade dos números primos a qualquer método fascista, mas será que matemáticos mais idealistas não avançaram o sinal quando começaram a propor que a beleza de uma demonstração fosse também um critério de verdade? O fato de termos nos acostumado a associar os dois elementos provavelmente não passa de um viés de sobrevivência. Como até aqui os matemáticos privilegiaram a produção de provas que julgavam belas, ficamos com a sensação de que as duas coisas andam juntas, mas é perfeitamente possível que haja por aí um número muito maior de verdades matemáticas assustadoramente feias. Há alguns teoremas matemáticos e mesmo modelos da física fortemente sugestivos disso. A elegante supersimetria não desbancou o desengonçado modelo-padrão da física de partículas.
Não penso que o fascismo algorítmico das IAs nos fará aposentar o gosto por demonstrações esteticamente inspiradas, mas saberemos que isso não passa de uma preferência humana, e a matemática ficará mais parecida com a literatura.
Economia, calcanhar de Lula, vira força anti-Flávio. Machado e bolacha Oreo
Em 2022, Lula resgatou a democracia ao derrotar Jair Bolsonaro, que a tratava como estorvo. Em 25 de outubro, preservou-a de novo ao vencer Flávio Bolsonaro por 51,79% a 48,21%. E, de quebra, realizou um feito raro entre os regimes democráticos: obteve a reeleição justamente quando insatisfações as mais diversas têm conduzido a oposição ao poder. Resta a pergunta: como foi possível? Há algo que setores reacionários da imprensa não admitem nem com os números na mão: se o petista quase perdeu porque há descontentamento com a economia, também foi ela a lhe dar a vitória.E concluirei este texto apelando a Machado de Assis e ao modo como se come o biscoito Oreo.
Nos últimos anos, a oposição derrotou o governismo nos EUA (novembro de 2024), na Alemanha (fevereiro de 2025), na Polônia (junho de 2025), na Coreia do Sul (junho de 2025), na Tchéquia (outubro de 2025), na Bolívia (outubro de 2025), nos Países Baixos (outubro de 2025), em Honduras (novembro de 2025), no Chile (dezembro de 2025), na Hungria (abril de 2026), na Colômbia (junho de 2026)… E vai por aí. Houve algumas exceções, às quais se junta o Brasil, mas elas apenas confirmam a tendência.
Thomas Piketty descreveu o fenômeno logo depois da eleição americana. Em 12 de novembro de 2024, no “Le Monde”, sob o título “Partout dans le monde, les gouvernements sortants sont balayés” (“Em todo o mundo, os governos em exercício estão sendo varridos”), ele analisou a vitória de Donald Trump sobre os democratas como parte de uma onda global.
Sustentou que a insatisfação com a inflação, com a estagnação do poder de compra e com o aumento das desigualdades no pós-pandemia produziu uma reação punitiva contra qualquer governante de turno, fosse de esquerda, de centro ou de direita. Os eleitores, afirmou, derrubam sistematicamente quem está no poder porque faltam respostas estruturais e ousadas à crise socioeconômica. Ora, se a onda levou de roldão os democratas, tinha tudo para atingir também um presidente progressista em busca do quarto mandato.
Os analistas apontaram vários fatores para a vitória de Lula: a mobilização da sociedade, a presença forte nas redes, o repúdio à volta de Bolsonaro, a relação multimilionária de Flávio com Daniel Vorcaro, a recusa à tutela de Trump, o engajamento dos estudantes em defesa da Educação e da Saúde, o comparecimento de quem se abstivera no primeiro turno…
Tudo isso é verdade. Mas notem: Lula largou na frente, foi alcançado por Flávio e jamais deixou de estar empatado com o filhote do tiranete, ora evadido. De onde vinha a resiliência do presidente? Não se explica por mágica nem por marketing.
Vejam as conquistas, com números. O rendimento médio do trabalho superou R$ 3,7 mil mensais, recorde do levantamento do IBGE. O desemprego caiu a 5,2% no trimestre até setembro, e o mínimo absoluto, 5,1%, veio no fim de 2025. A pobreza recuou de 27,3% para 23,1% da população entre 2023 e 2024, e a extrema pobreza, de 4,4% para 3,5%: os menores índices já medidos.
Em julho, a FAO confirmou que o país segue fora do Mapa da Fome; pela segunda vez, Lula pôs fim a esse mal. Os programas sociais foram retomados. Só que o brasileiro, endividado por múltiplos fatores, inclusive as bets, esperava mais. Segundo o Banco Central, as dívidas consomem 29% da renda das famílias, o endividamento chegou a 50,1% do rendimento anual, e a inadimplência atingiu a marca mais alta da série, com 6%. Quem está de bolso apertado não vota com uma planilha de indicadores na mão.
Parecia que aqui também se cumpriria o que se vê mundo afora, aquele fenômeno apontado por Piketty: o descontentamento com o custo de vida empurrando o eleitor para o outro lado. Mas a mobilização garantiu que a ficha caísse para a maioria, incluindo os que resolveram votar apenas na etapa decisiva: o que se ganhara até ali corria risco.
Nos últimos anos, a oposição derrotou o governismo nos EUA (novembro de 2024), na Alemanha (fevereiro de 2025), na Polônia (junho de 2025), na Coreia do Sul (junho de 2025), na Tchéquia (outubro de 2025), na Bolívia (outubro de 2025), nos Países Baixos (outubro de 2025), em Honduras (novembro de 2025), no Chile (dezembro de 2025), na Hungria (abril de 2026), na Colômbia (junho de 2026)… E vai por aí. Houve algumas exceções, às quais se junta o Brasil, mas elas apenas confirmam a tendência.
Thomas Piketty descreveu o fenômeno logo depois da eleição americana. Em 12 de novembro de 2024, no “Le Monde”, sob o título “Partout dans le monde, les gouvernements sortants sont balayés” (“Em todo o mundo, os governos em exercício estão sendo varridos”), ele analisou a vitória de Donald Trump sobre os democratas como parte de uma onda global.
Sustentou que a insatisfação com a inflação, com a estagnação do poder de compra e com o aumento das desigualdades no pós-pandemia produziu uma reação punitiva contra qualquer governante de turno, fosse de esquerda, de centro ou de direita. Os eleitores, afirmou, derrubam sistematicamente quem está no poder porque faltam respostas estruturais e ousadas à crise socioeconômica. Ora, se a onda levou de roldão os democratas, tinha tudo para atingir também um presidente progressista em busca do quarto mandato.
Os analistas apontaram vários fatores para a vitória de Lula: a mobilização da sociedade, a presença forte nas redes, o repúdio à volta de Bolsonaro, a relação multimilionária de Flávio com Daniel Vorcaro, a recusa à tutela de Trump, o engajamento dos estudantes em defesa da Educação e da Saúde, o comparecimento de quem se abstivera no primeiro turno…
Tudo isso é verdade. Mas notem: Lula largou na frente, foi alcançado por Flávio e jamais deixou de estar empatado com o filhote do tiranete, ora evadido. De onde vinha a resiliência do presidente? Não se explica por mágica nem por marketing.
Vejam as conquistas, com números. O rendimento médio do trabalho superou R$ 3,7 mil mensais, recorde do levantamento do IBGE. O desemprego caiu a 5,2% no trimestre até setembro, e o mínimo absoluto, 5,1%, veio no fim de 2025. A pobreza recuou de 27,3% para 23,1% da população entre 2023 e 2024, e a extrema pobreza, de 4,4% para 3,5%: os menores índices já medidos.
Em julho, a FAO confirmou que o país segue fora do Mapa da Fome; pela segunda vez, Lula pôs fim a esse mal. Os programas sociais foram retomados. Só que o brasileiro, endividado por múltiplos fatores, inclusive as bets, esperava mais. Segundo o Banco Central, as dívidas consomem 29% da renda das famílias, o endividamento chegou a 50,1% do rendimento anual, e a inadimplência atingiu a marca mais alta da série, com 6%. Quem está de bolso apertado não vota com uma planilha de indicadores na mão.
Parecia que aqui também se cumpriria o que se vê mundo afora, aquele fenômeno apontado por Piketty: o descontentamento com o custo de vida empurrando o eleitor para o outro lado. Mas a mobilização garantiu que a ficha caísse para a maioria, incluindo os que resolveram votar apenas na etapa decisiva: o que se ganhara até ali corria risco.
O pesquisismo infernizou a vida de Lula com a história de que o desagrado com o governo superava a satisfação, quase decretando a derrota. Em 15 de outubro, 10 dias antes do Segundo Turno, o Datafolha registrava 41% de avaliação negativa da gestão contra 35% de positiva, e 50% de rejeição ao trabalho do presidente contra 48% de aprovação.
Esqueceram-se de pôr algo na conta: muitos desaprovavam a administração federal porque queriam mais, não o menos com que Flávio acenava. Ainda que o agora fujão jurasse que nada mudaria no essencial, ficou claro que seu compromisso não era com os mais pobres. Desaprovar a gestão por querer mais é uma coisa; recusá-la para ter menos é outra, e a pesquisa de avaliação não distingue as duas.
Por que esse debate não ocorreu antes, no primeiro turno? Porque a ultradireita e a imprensa deram a impressão de que a eleição se resumia à degola de ministros do Supremo; em 3 de outubro, o bolsonarista concluiu sua pregação eleitoral pedindo um Senado afinado com ele e o impeachment de integrantes da Corte. A campanha só começou no segundo turno. Mas nunca se esqueçam: Lula sempre tangenciou os 50% dos votos, ou pouco mais. Sua reeleição, na contramão do cenário internacional, era uma possibilidade real. E sim: também por causa da economia e dos programas de governo.
Quando avanços importantes ficam sob ameaça, é necessário ajustar o discurso para que se perceba o que se pode perder. E, por óbvio, cabia conectar o adversário com sua biografia. Quem se apresenta como a mudança precisa explicar a quem deve favores e a quem pretende servir.
Em 1992, James Carville, estrategista de Bill Clinton, resumiu a disputa assim: “é a economia, estúpido”. Segue sendo. E a economia caminhou muito melhor sob Lula para todos os setores, e os ricos até ganharam mais: em 2025, segundo o IBGE, a renda dos 10% mais ricos cresceu 8,7%, a do 1% do topo, 9,9%, e a dos 10% mais pobres, 3,1%. Ficou, porém, uma certeza: os pobres compreenderam que o candidato do PL faria o que queriam os bacanas do mercado, e que o corte seria feito na carne deles.
No dia seguinte à vitória de Lula, o dólar disparou 8,21%, a R$ 5,403, e a Bolsa despencou 13,88%. Os derrotados do dia 25 — e “Uzmercáduz” estão entre eles — exigem que Lula anuncie que vai passar o facão nos gastos sociais, algo que até Flávio negava que faria. Eis o busílis: eles sabiam que o candidato da extrema direita estava mentindo quando assegurava que manteria intocados os programas sociais e sabem agora que Lula fala a verdade quando diz que vai mantê-los.
Quanta ousadia! Essa parte dos derrotados exige que Lula aplique, contrariando as promessas que fez aos pobres, aquilo que Flávio faria, em atendimento às juras que fez aos ricos. Ocorre que o filho de Bolsonaro perdeu. E fugiu.
A terra não é plana. Nem a realidade. A economia, fator que quase tirou de Lula a reeleição, foi também o que o salvou. Esperem aí: O QUE NOS SALVOU.
Se depender do “consenso dos economistas” cujas opiniões são publicadas, Lula porá em prática o programa secreto de Flávio, sangrará os pobres e depois passará a faixa para Tarcísio de Freitas, que já foi eleito pela segunda vez o “pré-presidente” do Brasil. Que gente aborrecida!
Pois é… É mais difícil resistir a uma obsessão do que à tentação o elevador de nov quando os que esperam há mais tempo do que você já o fizeram. Machadão, aquele, vocês sabem, foi ao ponto em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Capítulo IV): “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”.
Esqueceram-se de pôr algo na conta: muitos desaprovavam a administração federal porque queriam mais, não o menos com que Flávio acenava. Ainda que o agora fujão jurasse que nada mudaria no essencial, ficou claro que seu compromisso não era com os mais pobres. Desaprovar a gestão por querer mais é uma coisa; recusá-la para ter menos é outra, e a pesquisa de avaliação não distingue as duas.
Por que esse debate não ocorreu antes, no primeiro turno? Porque a ultradireita e a imprensa deram a impressão de que a eleição se resumia à degola de ministros do Supremo; em 3 de outubro, o bolsonarista concluiu sua pregação eleitoral pedindo um Senado afinado com ele e o impeachment de integrantes da Corte. A campanha só começou no segundo turno. Mas nunca se esqueçam: Lula sempre tangenciou os 50% dos votos, ou pouco mais. Sua reeleição, na contramão do cenário internacional, era uma possibilidade real. E sim: também por causa da economia e dos programas de governo.
Quando avanços importantes ficam sob ameaça, é necessário ajustar o discurso para que se perceba o que se pode perder. E, por óbvio, cabia conectar o adversário com sua biografia. Quem se apresenta como a mudança precisa explicar a quem deve favores e a quem pretende servir.
Em 1992, James Carville, estrategista de Bill Clinton, resumiu a disputa assim: “é a economia, estúpido”. Segue sendo. E a economia caminhou muito melhor sob Lula para todos os setores, e os ricos até ganharam mais: em 2025, segundo o IBGE, a renda dos 10% mais ricos cresceu 8,7%, a do 1% do topo, 9,9%, e a dos 10% mais pobres, 3,1%. Ficou, porém, uma certeza: os pobres compreenderam que o candidato do PL faria o que queriam os bacanas do mercado, e que o corte seria feito na carne deles.
No dia seguinte à vitória de Lula, o dólar disparou 8,21%, a R$ 5,403, e a Bolsa despencou 13,88%. Os derrotados do dia 25 — e “Uzmercáduz” estão entre eles — exigem que Lula anuncie que vai passar o facão nos gastos sociais, algo que até Flávio negava que faria. Eis o busílis: eles sabiam que o candidato da extrema direita estava mentindo quando assegurava que manteria intocados os programas sociais e sabem agora que Lula fala a verdade quando diz que vai mantê-los.
Quanta ousadia! Essa parte dos derrotados exige que Lula aplique, contrariando as promessas que fez aos pobres, aquilo que Flávio faria, em atendimento às juras que fez aos ricos. Ocorre que o filho de Bolsonaro perdeu. E fugiu.
A terra não é plana. Nem a realidade. A economia, fator que quase tirou de Lula a reeleição, foi também o que o salvou. Esperem aí: O QUE NOS SALVOU.
Se depender do “consenso dos economistas” cujas opiniões são publicadas, Lula porá em prática o programa secreto de Flávio, sangrará os pobres e depois passará a faixa para Tarcísio de Freitas, que já foi eleito pela segunda vez o “pré-presidente” do Brasil. Que gente aborrecida!
Pois é… É mais difícil resistir a uma obsessão do que à tentação o elevador de nov quando os que esperam há mais tempo do que você já o fizeram. Machadão, aquele, vocês sabem, foi ao ponto em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Capítulo IV): “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”.
Reinaldo Azevedo
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Quanta gente escrevendo e falando nestes dias tinha e ainda tem um argueiro no olho e uma trave nas mãos! Aos obsedados — trata-se quase de uma possessão do espírito — pela “terceira via” e pela destruição do PT, uma sugestão de terapia: resistir à tentação de estourar as bolotas do plástico-bolha, de lamber o alumínio da embalagem de iogurte quando ninguém está olhando e de separar as duas partes do biscoito Oreo para desfrutar de modo quase lúbrico do recheio. Vai que funcione…
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Quanta gente escrevendo e falando nestes dias tinha e ainda tem um argueiro no olho e uma trave nas mãos! Aos obsedados — trata-se quase de uma possessão do espírito — pela “terceira via” e pela destruição do PT, uma sugestão de terapia: resistir à tentação de estourar as bolotas do plástico-bolha, de lamber o alumínio da embalagem de iogurte quando ninguém está olhando e de separar as duas partes do biscoito Oreo para desfrutar de modo quase lúbrico do recheio. Vai que funcione…
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