sábado, 25 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Todo poder corrompe

No ano passado, os norte-americanos colocaram no mercado internacional produtos agropecuários no valor de US$ 171 bilhões. O Brasil, no mesmo período, exportou US$ 169 bilhões. Pela primeira vez, em quase um século, os Estados Unidos estão ameaçados de perder a hegemonia no fornecimento de produtos da terra ao resto do mundo. Essa inversão de posições deve-se ao laborioso trabalho da Embrapa no Brasil e às sobretaxas impostas por Trump desde seu primeiro mandato. Ele taxou fortemente produtos chineses. Pequim retaliou. Taxou produtos norte-americanos e deixou de comprar no mercado dos Estados Unidos. Passou a realizar suas encomendas no Brasil.



Os fazendeiros do Meio-Oeste dos Estados Unidos estão inquietos. Reclamam de seu governo, sofrem com o desaparecimento dos principais fregueses e dos lucros que estão se transformando em prejuízo. Resta a Donald Trump perseguir o caminho único de sua obsessão: aumentar tarifas e interferir no comércio internacional. Os resultados não favorecem seus objetivos. Ele já enfiou bilhões de dólares no conflito com o Irã, que provocou elevação dos preços do petróleo em todo o mundo. E despertou a vocação belicista dos persas que começaram a bombardear as instalações norte-americanas em todo o Oriente Médio. As tropas do Tio Sam não mais são capazes de defender seus aliados. Prejuízo sobre prejuízo.


Há motivos político-eleitorais e econômicos para justificar a aplicação de tarifas sobre os produtos brasileiros. Os norte-americanos estão perdendo em segmentos da economia em que trabalhavam sem concorrência. O cenário mudou. O candidato Flávio Bolsonaro não entendeu o quadro que está à sua frente. Ele, a exemplo do pai, tenta colocar a urna eletrônica no centro do debate político. O mesmo erro cometido por Jair. Flávio é senador, eleito por intermédio do sistema brasileiro de votação eletrônica. Ele não contestou a própria eleição. Perde tempo. Não apresentou uma única linha de seu hipotético programa de governo, se existir. A economista Daniella Marques, candidata a ser o posto Ipiranga de um hipotético governo Flávio, passou pela maratona de conversas com representantes do setor financeiro em São Paulo.

Ela conhece os caminhos. Mas ouviu o que não queria. Seus interlocutores, com maior ou menor clareza, afirmaram que seu problema está no candidato. Ou seja, Flávio, que vai sendo colocado à margem por vários partidos. Teresa Cristina, senadora, convidada para ser candidata à vice-presidência, de maneira educada, pediu para esquecerem dela. Na outra ponta, José Sérgio Gabrielli, também percorreu os escritórios na Faria Lima para defender o governo atual. Apresentou argumentos em favor da maior participação de empresas estatais e do próprio governo na economia nacional. Foi um desastre.

O panorama eleitoral brasileiro é construído por contradições espantosas. O candidato de oposição, segundo as pesquisas, não tem chance de vencer no primeiro turno. Ele é fortemente rejeitado pela maioria e até pelo pessoal de centro-direita. Lula carrega também enorme rejeição. Contudo, no eventual segundo turno, Lula aparece empatado com seus concorrentes, sempre segundo as pesquisas. Esse fenômeno aponta para outra direção: o antipetismo é muito forte no país. Quem conseguir chegar ao segundo tempo da eleição, terá chances de vencer o pleito.

A ideologia do governo Lula está estacionada em algum momento dos anos 70. Sua fórmula populista se esgotou. Ele elevou o endividamento do país e não solucionou problemas básicos de habitação, de educação e de infraestrutura. Há grande número de projetos burocráticos que sustentam o noticiário político, mas não chegam à mesa do brasileiro. O Brasil do século 21, com seus 158.745.463 eleitores, apresenta outros desafios. Ainda há um número expressivo de analfabetos no país. Ao mesmo tempo, a sociedade precisa de profissionais qualificados para enfrentar os caminhos do difícil comércio internacional.

Dois exemplos estão absurdamente nítidos. Brasileiros de quaisquer quadrantes deveriam olhar para o que está ocorrendo nas Américas. Cuba, ícone do comunismo tropical, mudou radicalmente. Passou a admitir capital privado em todos os níveis de sua economia. O país quebrou, há cortes de energia que duram mais de 12 horas. A comida e o combustível estão escassos. Hospitais funcionam de maneira precária. A solução encontrada em Havana foi privatizar o possível.

Ao contrário, Daniel Ortega, na Nicarágua, decidiu por vontade própria cancelar as eleições em seu país "para evitar que a oposição tome o poder". Extinguiu a democracia. Ele, velho comunista, tomou o poder de um ditador, Anastásio Somoza, em 1979, para livrar o país da ditadura. Mas reproduziu o que havia antes. Todo poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.

Bets: a pandemia do século

Meu primeiro contato com uma plataforma de apostas ocorreu durante a Copa do Mundo de 2022. Inicialmente, depositei R$ 10 na conta, valor que logo se transformou em um aporte de R$ 20, e assim sucessivamente. Ao fim da competição, meu dinheiro havia se dissipado como um grão de areia levado pelo vento do deserto do Catar, palco daquele torneio. O valor relativamente pequeno que desapareceu em um piscar de olhos da minha conta bancária – cerca de R$ 150 – foi suficiente para me fazer abandonar de vez a jogatina. Infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos brasileiros atraídos pelos jogos online e por mais uma edição do maior evento futebolístico do planeta.

Quatro anos depois da minha estreia no sórdido universo das apostas, pouca coisa mudou. A CazéTV, única emissora do país a transmitir os 104 jogos da Copa do Mundo de 2026, esteve no centro das discussões devido ao bombardeio de propagandas de plataformas de apostas ao longo das transmissões.

A repercussão foi tamanha que o Ministério da Justiça abriu uma investigação para apurar indícios de publicidade abusiva de plataformas de apostas na CazéTV, levando a emissora a adotar novos formatos para esse tipo de divulgação. Em paralelo, o Ministério da Fazenda editou novas regras para a publicidade do setor. As peças publicitárias passaram a ser acompanhadas de advertências, em modelo semelhante ao adotado para propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas.F


Os tentáculos da jogatina no futebol não se restringem à Copa do Mundo. No Campeonato Brasileiro, é praticamente impossível assistir a uma partida sem se deparar com a publicidade dessas empresas, seja nas placas ao redor do gramado, nas inserções durante a transmissão, nos intervalos ou, ainda mais frequentemente, estampada na parte “master” das camisas dos clubes por meio de contratos milionários. Para se ter uma ideia, segundo levantamento da Folha de S.Paulo, um telespectador tem mais chances de ver anúncios de casas de apostas do que a bola rolando no Brasileirão. O veículo analisou 22 transmissões da edição de 2025 em diferentes canais com direito de transmissão.

Como se isso não bastasse, alguns dos principais jogadores (em atividade ou não) e jornalistas esportivos brasileiros são patrocinados por essas empresas, caso do narrador Galvão Bueno (Betnacional) e dos atacantes Vinícius Júnior (Betnacional) e Neymar (Blaze), ambos convocados por Carlo Ancelotti para a disputa do Mundial realizado no Canadá, México e Estados Unidos. Lucas Paquetá, outro atleta chamado para a seleção e atualmente no Flamengo – clube patrocinado pela Betano –, chegou a ser investigado por suposta manipulação esportiva quando defendia o West Ham, atualmente patrocinado pela BOYLE Sports, outra empresa do setor.

Quando se fala em apostas online, existem diferentes modalidades. Há aquelas que dependem da previsão de resultados ou acontecimentos esportivos – como o placar exato de uma partida, número de escanteios ou cartões recebidos por determinada equipe – e as baseadas em algoritmos, popularmente associadas ao “Jogo do Tigrinho” (Fortune Tiger). Semelhantes aos caça-níqueis, elas funcionam de maneira ainda menos transparente. Em comum, todas compartilham o mesmo objetivo: fazer o usuário perder dinheiro, mas continuar jogando por acreditar que, uma hora, receberá uma bolada.

Em dezembro de 2024, a revista piauí lançou luz sobre a explosão das bets ao publicar uma extensa reportagem, que mostrava como a expansão da jogatina virtual foi impulsionada pela publicidade de influenciadores com milhões de seguidores nas redes sociais. A matéria revela, por exemplo, que a empresária Virgínia Fonseca, hoje com mais de 56 milhões de seguidores, foi uma das maiores beneficiadas pelos cachês milionários pagos por empresas do setor para divulgação.

Pouco antes da publicação da reportagem, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), no Senado Federal, para investigar o impacto das apostas virtuais e dos jogos de azar no orçamento das famílias, sua possível associação com organizações criminosas e o papel desempenhado por influenciadores digitais na promoção dessas plataformas. Em maio, quando Virgínia prestou depoimento à comissão, o circo já estava armado. A melhor demonstração da galhofa veio do senador Cleitinho (PL-MG), que pediu um vídeo da influenciadora para sua família.

No fim das contas, o relatório final da CPI foi rejeitado em junho de 2025, e tudo acabou em pizza. Quem pagou essa conta, literalmente, foi a população.

Não chega a surpreender que o setor de apostas online conta com um lobby robusto e bem articulado em Brasília. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, alterna sua agenda entre os corredores do Congresso, viagens a Courchevel, na França, ao lado de seu “irmãozão”, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e viagens luxuosas à ilha de Saint Martin, paraíso fiscal no Caribe, na companhia de Fernandin OIG, apontado, em outra apuração da piauí, como um dos responsáveis pelo “Jogo do Tigrinho”

No Brasil, as empresas de apostas passaram a ter respaldo legal em 2018, durante o governo Michel Temer. No entanto, somente em 2023, já na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, o setor foi regulamentado, com a definição de regras para operação, fiscalização e tributação.

Para atuar legalmente no país, essas empresas precisam obter autorização do Ministério da Fazenda mediante o pagamento de uma licença com prazo de validade determinado. Além disso, devem recolher tributos e cumprir uma série de exigências regulatórias. Com a regulamentação, o governo passou a bloquear e suspender plataformas que operavam sem autorização ou em desacordo com as novas normas, as chamadas bets ilegais. Na prática, porém, muitas dessas plataformas fraudulentas continuam operando irregularmente.

Nesse jogo contra a indústria das apostas, o brasileiro está perdendo de goleada. Desde o início da Copa do Mundo de 2026, mais de um terço da população enviou dinheiro para plataformas do setor. Os números revelam um cenário alarmante: comprometimento da renda, adiamento de projetos de vida, endividamento, impactos sobre a saúde mental e desenvolvimento de comportamentos compulsivos relacionados ao jogo. Para se ter uma ideia, quem seguiu as sugestões de narradores e comentaristas da CazéTV – vale lembrar, a única emissora a transmitir todos os jogos da competição — perdeu dinheiro em quase 61% das apostas, segundo levantamento do ICL Notícias.

O problema pode ser ainda maior. De acordo com dados da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), 34% dos brasileiros entre 18 e 35 anos que ingressariam em uma graduação em 2025 precisaram adiar esse projeto por terem gasto seu dinheiro com plataformas de apostas e cassinos virtuais. A expectativa também é de novo encolhimento das receitas no setor de serviços, já que uma parcela cada vez maior da renda disponível deixa de ser destinada à indústria e ao comércio para ser destinado para casas de apostas.

Em ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a endurecer o discurso contra o setor. Lula afirmou que, se a decisão dependesse exclusivamente dele, acabaria com as bets. A declaração foi interpretada como um aceno ao eleitorado feminino, que tem defendido medidas mais rígidas para conter o avanço dessas empresas.

Uma das iniciativas mais interessantes para combater o vício em jogos de azar foi a criação do serviço de autoexclusão. Por meio dele, qualquer cidadão brasileiro pode restringir voluntariamente o próprio acesso às plataformas autorizadas pelo governo. Apesar do caráter preventivo, a ferramenta apenas mitiga um problema que ainda está muito longe de ser solucionado. (Até o momento, quase 700 mil pessoas já recorreram ao mecanismo de autoexclusão de casas de apostas).

Sejam relacionadas a eventos esportivos ou a jogos baseados em algoritmos, essas plataformas contam com sofisticadas estratégias de publicidade. Se, em um primeiro momento, sua presença estava concentrada nas transmissões de futebol e nas redes sociais de influenciadores com milhões de seguidores, hoje ela se espalhou pelos mais diversos espaços da vida cotidiana. Festivais culturais e eventos tradicionais, como as festas de São João e o Carnaval, passaram a contar com o patrocínio dessas empresas, ampliando sua exposição e naturalizando sua presença no imaginário popular.

Essa pandemia também se espalhou pelo transporte público das grandes cidades. Não é raro encontrar anúncios em trens, metrôs e ônibus com QR Codes que direcionam o passageiro diretamente para plataformas de apostas, oferecendo “bônus”, “rodadas grátis” e outras “vantagens” – entre aspas, mesmo – para atrair novos usuários. Considerando que os brasileiros que utilizam transporte público nas capitais passam, em média, cerca de duas horas por dia em deslocamentos, isso representa quase 120 minutos diários de exposição a estímulos cuidadosamente planejados para seduzir potenciais apostadores e alimentar um comportamento que pode evoluir para o vício. De maneira, no mínimo, sádica, todas essas campanhas vêm acompanhadas do clichê “jogue com responsabilidade” – como se o vício pudesse ser controlado apenas pela força de vontade. A advertência passou a ser obrigatória após a regulamentação do setor promovida pelo governo Lula.

As bets funcionam como uma droga: estão disponíveis 24 horas por dia, ao alcance de um celular, impulsionadas por campanhas publicitárias, influenciadores digitais e pela exposição constante nos meios de comunicação. Como definiu o escritor Sérgio Rodrigues, em coluna publicada na Folha de S.Paulo, “criar uma rede nacional de milhões de cassinos de bolso legalizados e abertos 24 horas não é tão diferente de vender crack no horário nobre”.
Guilherme Loureiro

Contrato e barbaridade

Rousseau disse que a única maneira de se sair da barbárie é o “Contrato Social”, no “Espírito das Leis” de Montesquieu. Na Democracia, os grupos sociais estariam politicamente representados, o sistema eleitoral levaria sempre à eleição dos melhores, e a representatividade na negociação política iria garantir a repartição da renda. Mas nada disso ocorreu. Os grupos sociais não são representados, as eleições elegem, via de regra, os piores, e a distribuição de renda piora cada vez mais. Onde vamos parar?

Do início da Revolução Industrial até o final do século XX, experimentamos surtos de democracia. Na Inglaterra, o Parlamentarismo prosperou, conjuntamente com os movimentos sociais e melhor distribuição de renda. Nos Estados Unidos, a Revolução Americana instalou os princípios da liberdade e do mercado, com grande desenvolvimento econômico e político. Na França, a Revolução Francesa introduziu os conceitos de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, e após 50 anos de conturbação política que seguiram, a França encontrou sua forma da Terceira República em diante. Na Suécia, capital e trabalho fizeram o que se denomina de pacto “Social Democrata”, com revezamento no poder entre as classes e benefícios para todos.

Passamos por duas Guerras Mundiais, por motivos geopolíticos e de poderio econômico das nações.


Até 1980, a renda das três classes sociais, a alta, a média e a baixa, aumentou. A partir de 1980, entretanto, dispara a renda da classe alta, estabiliza-se a renda da classe baixa, e cai significativamente a renda das classes médias, como dados do “World Inequality Report”. Ao mesmo tempo, o sinal amarelo, hoje quase vermelho, da crise ecológica e dos recursos naturais, acende-se.

As classes médias, que dependem de estabilidade para viver, desgostosas com os sistemas eleitorais por não serem representativos e redistributivos, e aversas ao socialismo ou à políticas sociais, agarram-se aos líderes radicais de direita. Simon Commander, ex-professor da London Business School, em sua nova revista “Modern Autocracy”, indica que hoje 2/3 de humanidade vive em “Modern Autocracies”, no desmanche das ordens constituídas. E some-se a isso a crise ecológica que se acentua, com a predominância da geopolítica pelos países sobre os interesses das classes sociais.

A Lei perece, e a Barbárie cresce. Nesta Copa, por exemplo, até um “cartão vermelho” foi revertido pela FIFA a pedido – ou, poderíamos por assim dizer, por determinação – de Donald Trump.

Como diz Noah Harari, em ”Sapiens”, o homo sapiens tem muito pouco de sapiens, caminhando para um desastre a curto prazo. O interesse na riqueza imediata e o usufruto individual de suas benesses prevalecem sobre o bem das futuras gerações.

Como na música de “As Meninas”:

“Analisando essa cadeia hereditária
Quero me livrar dessa situação precária
Onde o rico cada vez fica mais rico
E o pobre cada vez fica mais pobre
E o motivo todo mundo já conhece
É que o de cima sobe e o de baixo desce”

Democracias repetem erro ao ignorar ameaça autoritária

Há 90 anos por estes dias, Barcelona se preparava para receber os Jogos Olímpicos operários e antifascistas em alternativa aos Jogos Olímpicos organizados pelos nazistas em Berlim. Não aconteceu porque eclodiu a Guerra Civil da Espanha.

Em vez do grande evento esportivo, os trabalhadores e os seus sindicatos, nos quais predominavam os anarquistas, saíram às ruas para impedir a tomada de poder pelos fascistas. Durante uma década e meia tinham visto país após país cair em ditadura —Itália, Alemanha, Portugal mesmo ali ao lado, a própria Espanha na década anterior com Primo de Rivera, e desta vez disseram: "¡No pasarán!" ("Não passarão").


É difícil ter hoje em dia uma noção da enormidade que foi esse grito de coragem. Não só pela primeira vez os trabalhadores reagiram em defesa da democracia pegando em armas como, em muitos casos, tomaram conta de uma economia que, nos centros urbanos, era complexa, sofisticada e industrializada.

Conseguiram fazê-lo e ainda organizar uma resistência que durou três anos. E conseguiram fazê-lo não numa ditadura, mas num ambiente pluralista e diverso.

Tudo isso era demais não só para os fascistas, salazaristas e nazis, que apoiaram Franco, mas também para Stálin, que preferiu perder a guerra atacando a esquerda pelas costas a ver nascer do outro lado da Europa uma alternativa socialista que lhe fugisse ao controle autoritário.

Mas isso estaria ainda no futuro. Veio a guerra e perdeu-se a guerra, e depois veio a Guerra Mundial. Ao passo que os regimes autoritários apoiaram Franco, os democratas deixaram abandonada a República Espanhola.

Na França, governava havia pouco tempo a Frente Popular, liderada por socialistas e apoiada por sindicatos. Nestes mesmos dias há noventa anos, o assunto no país era o direito dos operários de ter férias —duas semanas, com salário, imposto por lei.

As férias europeias são em agosto e, por esses dias, os jornais de direita reagiam, entre o espanto e o desprezo, às multidões que aprendiam a pegar o trem para ir, pela primeira vez, ver o mar.

O responsável era um jovem de 36 anos chamado Léo Lagrange, subsecretário de Estado para o esporte e o lazer, que tinha negociado com as empresas ferroviárias privadas descontos de até 40% para as passagens vendidas aos operários.

Num jornal das esquerdas, na mesma página que noticiava a alegria dos operários franceses, aparecia uma foto da Espanha com a seguinte legenda: "Em Espanha, apenas uma certeza: cadáveres nas ruas".

França e Espanha davam, então, duas faces de um futuro alternativo para as democracias: ou conseguiam resolver a "questão social" melhorando a vida das massas ou pereceriam.

Mas a lição essencial é uma que não pode ficar esquecida hoje. A Espanha republicana naufragou não porque não conseguiu gerir a economia ou a resistência nem combinar a liberdade e as políticas públicas de emancipação, mas, sim, porque os autoritários se juntaram, e as democracias não a ajudaram.

Esta semana, ao ver no palco da Fifa um Trump que não queria sair de cena e que não vai acabar o ano sem interferir nas duas maiores eleições do seu continente (Brasil e EUA), pensei: será que as democracias não aprenderam a lição de 90 anos atrás?
Rui Tavares

Flávio e o Partido Digital Bolsonarista

A partir de 2013, Jair Bolsonaro construiu um ecossistema digital bolsonarista. Cresceu gradualmente até 2018 e consolidou-se no período em que Bolsonaro foi presidente da República (2019-2023).

Pois bem. Este ecossistema resultou na existência do Partido Digital Bolsonarista (PDB). Um novo modelo partidário, não institucionalizado, que nasce digital com a lógica da própria rede da internet. Ou seja, a internet é o próprio ambiente do partido, que não se trata de um partido-plataforma.

A tese da existência do PDB vem de uma pesquisa seminal de três anos no Cebrap/SP, publicada agora em 2026. Resultou no livro digital “Partido Digital Bolsonarista” (Cebrap) organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira.


No debate sobre a organização política contemporânea, o PDB é uma novidade. Não é só o “ismo” (Bolsonarismo). Produto da ascensão da extrema direita, um fenômeno global, é visto como uma nova forma de partido político, “com potencial para remodelar a democracia moderna”: o partido digital.

Atua regularmente nas redes digitais, como nova forma de ação política – independente dos partidos tradicionais. No Brasil, o PDB tem o PL como interface institucional, “para ter acesso ao poder”. No interior do PL, existe a ala Centrão fisiológica e a ala de membros do PDB, que é majoritária – dizem os autores.

O Partido Digital seria uma espécie de atualização do Partido de Massas da virada do Século XIX. No Século XX, os partidos de massas foram disruptivos em termos de mobilização de massas. “Agora, o Partido Digital é uma espécie de atualização do partido de massas”(…)”no Brasil, entre os maiores partidos, só o PT construiu um partido de massas”. Um partido orgânico, mas ainda analógico.

Trata-se, portanto, de um processo de metamorfose da democracia representativa e do governo representativo. Uma provável nova democracia de massa, depois de um longo período minimalista da democracia do tipo schumpeteriana – na qual “o papel do cidadão é apenas eleger representantes” e a democracia só se mobiliza em épocas de eleições.

O Partido Digital atua de forma constante, coordenada e intensa, não apenas em épocas eleitorais.

O livro mostra que é impressionante o grau de coesão entre o eleitorado.: “uma coletividade unificada com agenda identitária, coesão, organização coletiva e escolha social”.

A escolha e escala social ocorre pela via da utilização de “múltiplas plataformas online para criar redes densamente articuladas de lealdade entre topo e base, mediadas por camadas intermediárias de influenciadores”. São cadeias de lealdade, com interseção entre diferentes cadeias de lealdade. Portanto, “as fronteiras da legenda digital tornam-se difusas”(…)”com expansão contínua”.

O pertencimento, como se sabe, vem da qualidade do engajamento online de cada indivíduo.

O fato é que o Partido Digital acaba resgatando características dos partidos de massas que haviam sido perdidas com a ascensão de partidos eleitorais. A chamada democracia minimalista.

O objeto de conquista de poder social do PDB é o bolsonarismo. Mas os autores mostram que ele está se ampliando para outros grupos de direita. São cadeias de lealdades (tipo “correntes partidárias) “atreladas a elementos práticos de engajamento, financiamento, hierarquia, coesão, coordenação, disciplina partidária e atuação institucional”. Atuação institucional via PL e outros partidos do Centrão.

Com dinâmica de rede, o PDB está sempre em ritmo de campanha permanente, para além dos ciclos eleitorais. “Tal vantagem se estende às formas de financiamento e construção de influência, que não se restrigem aos canais formais e permitem sustentar uma atuação contínua”.

OU seja, “sem leis que obriguem a transparência de algoritmos ou o controle de fluxos financeiros virtuais, o PDB consegue manter uma estrutura hierárquica e de financiamento que escapa à fiscalização do Estado. A lógica permanente de mobilização reorganiza o tempo político, tornando a campanha uma condição contínua. Ao mesmo tempo, o PDB desenvolve mecanismos próprios de legitimação. Eventos de grande visibilidade pública funcionam como rituais nos quais se tornam observáveis a hierarquia interna, a capacidade de ativação e o grau de disciplina do conjunto”.

Em suma, dizem os autores, o PDB sinaliza uma “mutação nas bases do governo representativo que excede a simples adaptação tecnológica”.

Tese relevante (o PDB) para compreender e debater melhor o momento político brasileiro. Vale a leitura.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Resiliência não basta

A previsão de um El Niño intenso no segundo semestre deste ano traz uma série de alertas. Chuvas acima da média no Sul, temperaturas elevadas no Sudeste e maior risco de incêndios florestais fazem parte dos cenários traçados por estudiosos. De acordo com a agência meteorológica dos Estados Unidos, há 81% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro e figurar entre os maiores registrados desde 1950. No Rio de Janeiro, mais de 50 órgãos e agências municipais já foram mobilizados para enfrentar seus possíveis efeitos.

Essas previsões costumam ser tratadas como informações sobre o clima ou sobre a capacidade de resposta das cidades. Mas elas também dizem respeito à saúde mental. Para quem já perdeu a casa, o trabalho ou alguém próximo em uma enchente, um novo alerta meteorológico não é apenas um dado técnico. Pode soar como o anúncio de que tudo está prestes a acontecer outra vez.

A psiquiatria estuda a resiliência como a habilidade de atravessar adversidades, reorganizar a vida e seguir adiante. É uma competência fundamental, mas frequentemente mal compreendida. Ser resiliente não significa sair ileso de uma tragédia, nem suportar indefinidamente situações de ameaça. A elaboração do trauma exige tempo, apoio e alguma possibilidade de reconstruir a confiança no futuro.


O Brasil conhece bem a força da reação coletiva. Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, milhares de voluntários se mobilizaram. Empresas reorganizaram suas operações para enviar alimentos e medicamentos. Organizações da sociedade civil arrecadaram recursos em todo o país. Em poucos dias, formou-se uma ampla rede de solidariedade.

Esse movimento teve enorme importância prática e emocional. Em momentos de ruptura, perceber que não se está sozinho ajuda a reduzir o desamparo e a recuperar vínculos. A solidariedade não entrega apenas comida ou abrigo. Ela também comunica à pessoa atingida que sua vida continua tendo valor para os outros.

O problema começa quando o desastre deixa de ser uma ruptura excepcional e passa a integrar o horizonte cotidiano. O trauma provocado por um episódio específico pode ser elaborado. Mais difícil é viver sob a expectativa de que ele se repetirá. A cada chuva forte ou novo alerta, o organismo pode voltar ao estado de ameaça.

Esse estado de vigilância contínua cobra um preço. O sono piora, a concentração diminui e o medo passa a ocupar uma parte maior da rotina. Em pessoas que já atravessaram uma catástrofe, sinais aparentemente comuns, como o som da chuva ou a elevação de um rio, podem reativar lembranças e respostas físicas associadas ao trauma.

Há ainda um desgaste coletivo menos visível. Quando os eventos extremos se repetem e as soluções parecem sempre provisórias, cresce a sensação de impotência. A pessoa deixa de acreditar que suas ações serão suficientes ou que as instituições conseguirão protegê-la. Nesse ambiente, a ansiedade tende a persistir e a desesperança encontra espaço.

Por isso, não basta celebrar a capacidade de reconstrução dos brasileiros. A resiliência não pode ser usada como justificativa para exigir que populações vulneráveis suportem perdas sucessivas. Há um limite para a adaptação quando a ameaça permanece e as condições de vida não mudam.

Preparar uma cidade para eventos extremos também é cuidar da saúde mental de seus habitantes. Sistemas de alerta confiáveis e rotas de evacuação conhecidas reduzem a sensação de abandono. Saber o que fazer e para onde ir não elimina o medo, mas impede que ele se transforme em completo desamparo.

A atenção psicossocial precisa fazer parte dessa preparação. O sofrimento não termina quando a água baixa ou quando as famílias deixam os abrigos. Muitas vezes, ele aparece mais forte justamente depois, quando a urgência passa e começam as dificuldades para retomar a rotina, reorganizar a vida.

Equipes de saúde mental devem estar presentes não apenas depois das tragédias, mas integradas aos planos de prevenção e resposta. Isso exige continuidade do atendimento e articulação com os serviços já existentes nos territórios. Sem essa rede, o cuidado corre o risco de chegar tarde ou desaparecer quando a comoção pública diminui.

Há uma diferença entre reconhecer um risco e viver permanentemente submetido a ele. A consciência permite agir e buscar proteção. O medo contínuo, ao contrário, estreita a vida. O desafio do país é evitar que milhões de brasileiros passem a interpretar cada mudança no tempo como a possível chegada de uma nova perda.

A solidariedade continuará sendo indispensável. Mas ela não pode substituir políticas públicas, nem planejamento. Um país preparado não é aquele que apenas reconstrói com rapidez depois de cada tragédia. É aquele que reduz perdas e oferece condições para que sua população não precise viver em estado permanente de alerta.

A aproximação de um El Niño potencialmente intenso torna essa discussão ainda mais urgente. Os próximos meses dirão muito sobre a capacidade do país de antecipar riscos, mas também sobre o modo como escolhemos proteger a saúde mental das pessoas. Resiliência é uma força humana importante. Ela não pode, porém, ser confundida com a obrigação de suportar o insuportável.
Jorge Jaber

Isolado, Flávio se pendura na Casa Branca

Cinco dias antes do discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) exumando notícias falsas sobre as urnas eletrônicas, o presidente americano, Donald Trump, acusou a China de intervenção nas eleições de 2020, quando perdeu para Joe Biden, e apontou “chocantes vulnerabilidades” no sistema de votação dos EUA.

A “denúncia” a diplomatas estrangeiros valendo-se da Smartmatic, que denunciou a fraude cometida por um de seus clientes, o governo venezuelano, e foi derrotada numa licitação de urnas do TSE, só perde, em grau de insanidade, para a acusação de Trump de que a China acessou 220 milhões de arquivos de eleitores americanos para fraudar aquela disputa.

Tanto no Brasil quanto nos EUA, a história não começou pelas urnas. Na semana passada, a campanha do PL informou não ter interesse em ser incluída no esquema montado pela Polícia Federal para proteger os candidatos, com 450 servidores, veículos blindados e equipamentos antidrone e de vistoria antibomba. Preferiu permanecer com a polícia do Senado. Em seguida, sua campanha acrescentou que o senador passaria a usar colete à prova de balas em função de ameaças crescentes.

Enquanto isso, nos EUA, o secretário de Estado, Marco Rubio, reuniu representantes de mais de 60 países para anunciar a reconstrução da arquitetura internacional de contraterrorismo montada no 11/9. Desta vez, esta estrutura estaria voltada contra o “ressurgimento do terrorismo político de extrema esquerda”. Ainda participaram desta apresentação Stephen Miller, do gabinete de Trump, e Scott Bessent, secretário do Tesouro.

Grande parte da falação tem como fonte oculta Hugo Carvajal, o ex-chefe da inteligência militar venezuelana, preso nos EUA por narcoterrorismo, que se ofereceu a depor contra supostas redes de corrupção e financiamento político ilícito contra Nicolás Maduro. O Brasil não é mencionado. Quem enfiou o país nessa história foi Flávio Bolsonaro, na esteira de Rubio.

Um mês antes, os EUA haviam oficializado a classificação do PCC e do CV como terroristas. Tudo soa muito conspiracionista e é, mas quem dá o tom é o secretário do Departamento de Estado que já antecipa o que pode vir a ser seu discurso de campanha à sucessão de Trump.

As universidades, centros de pesquisa e imprensa seriam legitimadores da violência de esquerda. No mesmo pacote, Rubio colocou a “hostilidade” da extrema esquerda à religião como uma ameaça à civilização ocidental, sob a liderança de Cuba e Irã. Num triplo salto carpado juntou tudo isso com os atentados contra Trump e com o assassinato de Charlie Kirk.

Coube a Bessent fazer a ponte entre as fantasias Rubio e Miller e o sistema financeiro. Detalhou o arcabouço para detectar a operação da extrema esquerda latino-americana e os fluxos financeiros em território americano formado, por exemplo, pela Ofac, agência de controle de ativos estrangeiros. Dias antes os EUA haviam aplicado as primeiras sanções contra brasileiros supostamente ligados ao PCC. A ação acabaria por atrapalhar uma operação da PF para prender o empresário acusado de lavagem de dinheiro.

Sem cobrar tarifa, o bolsonarismo importa todas essas teorias conspiracionistas. Na “live” do jornalista Claudio Dantas na tarde de quarta-feira, a coordenadora-jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro, Maria Claudia Buchianeri, que foi ministra do TSE, chegou a mencionar que a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem impulsionamentos feitos por uma “organização criminosa digital”. Também informou que é a segurança paralela de Flávio que está a mapear as ameaças digitais contra o senador.

E, depois da onda de associação de Lula ao crime organizado colombiano, pela resistência conjunta com Gustavo Petro à designação de narcoterrorismo, chegou a vez de estender esta associação ao ditador nicaraguense Daniel Ortega, como fez esta semana o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), um dos principais aliados de Flávio Bolsonaro.

A campanha de Lula e os órgãos de investigação do governo vêm sendo municiados de informações sobre esta teia crescente entre a campanha de Flávio e o Departamento de Estado americano que aponta para os riscos de uma vitória eleitoral apertada. Estaria em curso a descredibilização do processo eleitoral com o pano de fundo do “terrorismo político da esquerda latino-americana”. O bolsonarismo se valeria dos dois anos restantes de Trump para minar o quarto mandato lulista. Da Abin à PF, monitora-se o tema, mas, como Lula não aposta que a Casa Branca se insurja contra sua eleição, não há reação em curso.

A escalada de Flávio rumo à radicalização mudou a face de uma campanha que se iniciou sob a promessa de que traria um “Bolsonaro que toma vacina”. Seu isolamento político, provocado pela reação de aliados ao envolvimento com o Master e com o tarifaço, contribuiu para que o senador venha a ser obrigado a buscar uma vice no seu próprio partido enquanto o governador Tarcísio Freitas, de São Paulo, deve ter 12 partidos em sua chapa. É o governador paulista, aliás, que capitaneia a resistência do apoio do Republicanos a Flávio.

O sonho do Centrão em torno de nomes como o de Teresa Cristina, até para cabeça de chapa, esbarra na percepção clara de que pretende usar a senadora do PP apenas para sair do beco em que se encontra. A recusa da federação PP-União ao apoio a Flávio fechou o cerco. Por fim, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, achou por bem confessar que o senador não estava preparado para a campanha. Isolado até no seu partido, o senador pendurou-se na Casa Branca.

Um olhar sobre a política e o poder no Brasil

O aviso foi dado por Daniel Ortega, presidente da Nicarágua: “Não haverá mais eleições aqui”. O líder da Revolução Sandinista discursava em Manágua, no último domingo. Depois do anúncio, explicou: vai proibir o voto porque a oposição não pode chegar ao poder.

Ortega participou da guerrilha que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza. O levante de 1979 empolgou a esquerda latino-americana, sufocada por regimes militares no Brasil, na Argentina e no Chile.

Os vitoriosos se inspiraram no marxismo e na Teologia da Libertação. Fizeram a reforma agrária, alfabetizaram o povo, reduziram a pobreza. Depois da euforia inicial, o país enfrentou um embargo econômico e mergulhou numa guerra civil financiada pelos Estados Unidos. A revolução começou a fazer água, e os sandinistas foram derrotados nas urnas em 1990.


Ortega perdeu três eleições até vencer de novo, em 2006. De volta ao palácio, resolveu reescrever a Constituição para se eternizar no poder. Em 2018, virou alvo de protestos e ordenou uma repressão violenta, que deixou mais de 300 mortos. Depois passou a censurar a imprensa, prender opositores e perseguir religiosos que contestavam seu autoritarismo.

A fala de domingo só escancarou o que já não era segredo: a Nicarágua voltou a viver sob uma ditadura familiar. No ano passado, o cargo de “copresidente” foi criado sob medida para a primeira-dama, Rosario Murillo.

“É inacreditável”, desabafa o escritor Frei Betto, que vibrou com o levante de 1979 e frequentou o país por uma década, envolvido em programas de educação popular. “O projeto revolucionário acabou. Por apego ao poder, Ortega está fazendo o mesmo que o Somoza. É triste, porque depõe contra as utopias que alimentamos por muito tempo na América Latina”, lamenta.

Lula ainda era dirigente sindical quando desembarcou na Nicarágua para o primeiro aniversário da revolução, em 1980. Vinte e sete anos depois, voltou ao país como presidente.

No mandato atual, prometeu ao Papa Francisco que tentaria interceder pela libertação do bispo Rolando José Álvarez, preso sob acusação de “traição à pátria”. Ortega ignorou o pedido e expulsou o embaixador brasileiro em 2024, selando um distanciamento definitivo. O petista tem sorte.
Bernardo Mello Franco

Filho de golpista, golpista é. Os Bolsonaros são prova disso

Primeiro foi o Flávio, aspirante a presidente da República, ao discursar na última terça-feira para cerca de 40 diplomatas. Ontem, em um podcast, foi Eduardo Bolsonaro, refugiado nos Estados Unidos desde março do ano passado a pretexto de salvar o pai de condenação por tentativa de golpe de Estado. Não conseguiu.

Os dois irmãos voltaram a atacar a credibilidade do processo eleitoral brasileiro e, por tabela, a dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal, a quem acusam de perseguir seu pai. Enquanto governou o país entre 2019 e 2022, Jair Bolsonaro pavimentou o caminho a ser percorrido pelos filhos “zero”.

Todos eles já são bastante crescidinhos, poderiam pensar com a própria cabeça, determinar o próprio destino, mas não: seguem como cópias encardidas do pai. “Quem puxa aos seus não degenera”, ensina um velho ditado português. Flávio, Carlos, Eduardo e Jair Renan puxaram ao pai, um degenerado por sua livre vontade.

Juntar-se a uma família de tal estirpe não deve ser bom para ninguém, mas foi o que fez Michelle de Paula Firmo Reinaldo, uma moça pobre, porém bonita, nascida na periferia de Brasília e servidora pública à época em que conheceu Jair, então obscuro deputado federal do baixo clero. Resultado: deu nisso que se vê.

Da boca de Michelle, os brasileiros jamais ouviram uma só palavra contra a Justiça ou o Estado Democrático de Direito. Pelo contrário: ouviram elogios ao ministro Alexandre de Moraes. Porém, o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair, diz ter ouvido Michelle incentivar o marido a dar o golpe que acabou abortado.

Não faz sentido acreditar que o vídeo postado por Michelle com duros ataques contra Flávio possa ter sido uma jogada combinada entre eles para ocupar espaço e reforçar a marca da família, pois, afinal, Flávio perdeu espaço e votos, e ainda por cima ganhou a pecha de misógino. Michelle saiu do episódio como mais uma mulher vítima de abusos.

Faz sentido, sim, para que não venha a ser culpada pelo que possa acontecer de mal aos Bolsonaros, que Michelle tenha sido convencida a aceitar o renovado pedido de desculpas de um Flávio desesperado e ladeira abaixo. Dê no que der, ela espera que sua imagem de boa esposa e de boa madrasta resista de pé. A conferir mais adiante.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


A democracia da desconfiança

Há um erro de diagnóstico que se tornou quase consensual no debate público europeu: a convicção de que vivemos uma crise do regime democrático. A expressão repete-se com tanta frequência que raramente é questionada. Mas talvez o problema seja outro.

Portugal não assiste ao colapso das suas instituições democráticas. As eleições realizam-se regularmente, a alternância política permanece assegurada, os tribunais conservam a sua autonomia e as liberdades fundamentais continuam protegidas. O que se deteriora não é a democracia enquanto regime, mas a confiança na sua capacidade para interpretar uma sociedade em rápida transformação.


A distinção é decisiva. Uma democracia pode sobreviver a governos impopulares, parlamentos divididos ou sucessivas crises políticas. O que dificilmente resiste é ao enfraquecimento da convicção de que os representantes compreendem aqueles em nome de quem decidem. A legitimidade democrática nunca dependeu apenas do voto; sempre assentou na perceção de que existe uma relação de reconhecimento entre governantes e governados. É precisamente esse vínculo que hoje se fragiliza.

Durante demasiado tempo, atribuiu-se o crescimento da abstenção, da fragmentação partidária ou do populismo às crises económicas, aos escândalos de corrupção ou ao desgaste natural dos governos. Todos estes fatores contribuíram para o cenário atual, mas nenhum explica um fenómeno que atravessa democracias com desempenhos económicos muito distintos.

Os estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que o apoio à democracia continua elevado, ao mesmo tempo que diminui a confiança na capacidade dos governos para responder de forma eficaz, previsível e transparente. O Eurobarómetro identifica uma tendência semelhante. A crise não é da democracia; é da representação.

Durante grande parte do século XX, os partidos desempenharam uma função que hoje parece distante. Não eram apenas organizações eleitorais. Eram instituições de mediação. Organizavam interesses, agregavam identidades e davam coerência às expectativas da sociedade, convertendo reivindicações dispersas em projetos políticos reconhecíveis. A representação era um vínculo cívico antes de ser um mecanismo institucional.

Esse modelo foi progressivamente desfeito pela globalização, pela integração europeia e pela revolução digital. Os Estados perderam margem para controlar processos económicos decisivos, enquanto a política deixou de deter o monopólio da construção das narrativas públicas. Hoje disputa a atenção dos cidadãos com plataformas digitais, comentadores, influenciadores e algoritmos concebidos para privilegiar a emoção em detrimento da reflexão.

Daí nasce um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca foi tão fácil comunicar com os cidadãos; nunca foi tão difícil representá-los. A proximidade tecnológica criou a ilusão da proximidade política. Os responsáveis políticos tornaram-se mais acessíveis, mas não necessariamente mais credíveis. A exposição permanente não reforçou a confiança; tornou apenas mais evidentes os limites da ação política perante problemas cuja escala ultrapassa largamente as fronteiras nacionais.

O Reuters Institute tem demonstrado que a confiança na informação permanece sob pressão em grande parte da Europa. A dificuldade já não resulta da escassez de notícias, mas da crescente dificuldade em distinguir informação, opinião, propaganda e entretenimento. Quando desaparece um espaço comum de factos, torna-se igualmente mais difícil construir consensos duradouros. A quebra de confiança compromete, assim, não apenas a política, mas o próprio fundamento da democracia.

Seria, contudo, um erro atribuir esta transformação exclusivamente às redes sociais. Elas aceleraram um processo que começou muito antes. A questão decisiva reside no crescente desfasamento entre aquilo que os cidadãos esperam dos governos nacionais e aquilo que estes efetivamente conseguem concretizar.

Nunca se exigiu tanto da política quando ela dispõe de tão poucos instrumentos para moldar a realidade.

Os cidadãos continuam a esperar dos governos respostas para desafios que já não conhecem fronteiras. A habitação, a imigração, a produtividade, a transição energética, a inteligência artificial ou a competitividade económica dependem hoje de mercados globais, decisões europeias, inovação tecnológica e tensões geopolíticas que escapam, em larga medida, ao controlo de qualquer executivo.

Ainda assim, é sobre os governos nacionais que recai a responsabilidade política. É deste desencontro entre expectativas e capacidade de ação que nasce a desconfiança.

Portugal constitui um exemplo particularmente elucidativo. A sucessão de governos minoritários, crises parlamentares e eleições antecipadas costuma ser apresentada como a causa da instabilidade. É, sobretudo, a sua manifestação. A dificuldade está na crescente incapacidade de produzir reformas consistentes num ambiente dominado pela urgência permanente. Governar passou a significar responder ao ciclo noticioso quando os desafios estruturais exigem continuidade, previsibilidade e tempo político.

É neste vazio que prosperam os discursos populistas. A sua vantagem não reside necessariamente na qualidade das soluções, mas na clareza da narrativa. Enquanto a democracia liberal é obrigada a reconhecer limites, negociar compromissos e administrar complexidades, o populismo promete devolver uma soberania plena que nenhum governo contemporâneo possui. Simplifica problemas que não admitem soluções simples e transforma a frustração em mobilização política.

Seria, porém, insuficiente reduzir este fenómeno ao confronto entre democracia liberal e populismo. O desafio é mais profundo. Os eleitores continuam a preferir a democracia, mas começam a duvidar da sua aptidão para produzir mudanças percetíveis. Quando a alternância política deixa de produzir alterações reconhecíveis na vida das pessoas, instala-se uma sensação persistente de impotência que desgasta qualquer governo, independentemente da sua orientação ideológica.

É por isso que a confiança se tornou o ativo mais valioso — e também o mais escasso — das democracias europeias. Não se recupera através de campanhas de comunicação nem de estratégias de marketing político. Reconstrói-se pela coerência entre discurso e ação, pela estabilidade das regras, pela transparência das decisões e pela capacidade de explicar não apenas o que é possível fazer, mas também os limites impostos por um mundo em que o poder deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados.

As investigações do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Fundação Francisco Manuel dos Santos convergem precisamente neste ponto: a legitimidade democrática constrói-se diariamente. Depende da previsibilidade das instituições, da imparcialidade das regras, da igualdade perante a lei e da convicção de que o poder permanece sujeito ao escrutínio público. Quando essa perceção enfraquece, a confiança não desaparece de forma abrupta; dissolve-se lentamente, até que o cinismo substitui a participação e a suspeita ocupa o lugar da esperança.

Talvez seja este o maior desafio das democracias europeias. Não apenas defender as suas instituições, mas recuperar a capacidade de dar expressão a sociedades cada vez mais diversas, exigentes e fragmentadas. A democracia nunca prometeu eliminar o conflito. A sua força sempre residiu na capacidade de transformar divergências em compromissos reconhecidos como legítimos, mesmo por quem deles discorda.

O futuro da democracia dependerá menos da solidez formal das suas instituições do que da confiança que forem capazes de inspirar. As constituições protegem direitos, organizam poderes e estabelecem regras. Mas nenhuma Constituição consegue preservar, por si só, um regime cujos cidadãos deixaram de acreditar que alguém os compreende antes de decidir, lhes dá voz antes de governar e lhes oferece uma razão credível para continuarem a confiar.

Ato revolucionário

Em uma época em que os algoritmos nos aproximam apenas de quem pensa como nós e nos afastam de quem vive de maneira diferente, permanecer no mesmo espaço é quase um ato revolucionário.
Mariana Caminha

Fome por 'lama'

Uma cena do livro "As Tumbas de Atuan", de Ursula K. Le Guin, circulou online esta semana, na qual jovens famintas tentam convencer um mágico a usar seus poderes para conseguir comida para elas. “Eu posso invocar um coelho e ele virá”, diz ele. “Mas vocês seriam capazes de pegar, esfolar e assar um coelho invocado dessa maneira? Talvez se estivessem morrendo de fome. Mas acho que seria uma quebra de confiança.” As garotas não querem matar ninguém; elas só querem que ele conjure o jantar. O mágico poderia fazer isso, ele lhes diz. “Até mesmo servi-lo em pratos de ouro, se preferirem. Mas isso seria uma ilusão, e quando você se alimenta de ilusões, acaba com mais fome do que antes.”

A metáfora é tão apropriada que parece quase improvisada : os ingredientes sintéticos são concebidos para estimular as papilas gustativas, mas carecem de fibras, vitaminas, proteínas ou aminoácidos essenciais. Quanto mais se come, mais fome se sente. Essa insatisfação, que já deveria ser motivo suficiente para evitar o alimento, é, no entanto, o segredo do seu sucesso. Na década de 1990, um psicólogo chamado Patrick Carnes deu a esse estranho fenômeno um nome: vínculo traumático.


O vínculo traumático explica por que tantas pessoas permanecem presas em relacionamentos exploradores ou abusivos. É difícil de entender porque a explicação desafia o senso comum: elas não agem assim apesar do abuso, mas precisamente por causa dele. Elas retornam ao abusador repetidamente, como alguém que volta a uma máquina caça-níqueis que engole todas as suas moedas, na esperança de que desta vez sua lealdade seja recompensada com um momento de afeto. O aspecto perverso do sistema é que a máquina funciona melhor quando começa a distribuir menos prêmios, e os que distribui são cada vez piores, porque o processo degrada tanto os padrões da pessoa que, quando um alívio temporário chega, ela o recebe com a intensidade mística de uma aparição mariana. Elas transformam um gesto cotidiano, como lembrar um aniversário, em prova de um amor transcendente.

Em 2019, publiquei um livro que começava descrevendo o mesmo fenômeno, mas com foco nas redes sociais, não na IA . Naquela época, a máquina ainda distribuía prêmios. Havia algumas coisas muito interessantes que só existiam no Twitter, Instagram ou TikTok, mas o padrão de abuso já era evidente. Sabíamos que seus algoritmos opacos eram projetados para explorar a privacidade dos usuários, maximizando o tempo de interação. À medida que as plataformas se tornaram monetizadas, dois tipos de conteúdo floresceram: aqueles capazes de gerar o máximo de interação com o mínimo de orçamento e aqueles criados por agentes oportunistas para manipular a população.

A mediocridade é o resultado final desse processo: conteúdo curto, repetitivo, derivado e fragmentado, produzido em larga escala, otimizado para viralizar em questão de horas e, nos piores casos, explorar a instabilidade política e se aproveitar da nossa vulnerabilidade emocional. E isso corrói nossa capacidade de apreciar outras coisas que exigem investimento financeiro e esforço, como jornalismo ou literatura. Relacionamentos saudáveis são tediosos e demandam algo mais difícil do que submissão.

Como disse Jung, aquilo que permanece inconsciente tende a nos guiar, por isso vale a pena entender seu estranho mecanismo: não nos captura apesar de sua estupidez, mas precisamente por causa dela. Nos deixa tão famintos que nos força a comer mais. E essa dieta nos degrada até que não saibamos mais como comer outra coisa. É por isso que se chama degeneração cerebral.

Um presidente de mãos atadas governará o Brasil

Acabou a Copa do Mundo; agora, nosso tema comum é a eleição. É preciso afirmar algo tão inconveniente agora quanto foi dizer que, com aquele time, o Brasil não ia longe, apesar da fanfarra comercial do “rumo ao hexa”.

Depois de muito debate e emoção, o presidente que escolhermos chegará ao poder de mãos quase atadas. Ele simplesmente não terá dinheiro para executar suas promessas. A causa disso é muito simples: o Congresso sequestrou parte do Orçamento. Ele gasta cerca de R$ 61 bilhões por ano só em emendas parlamentares. Sobra pouco para o governo.

Orçamento é um tema muito chato. É uma quantidade abstrata de recursos, que a gente costuma pensar como o dinheiro do governo. No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça com as contas do nosso dia a dia. Por que se preocupar com o que gasta o governo?


Há coisas, no entanto, que precisam ser conhecidas. Nas democracias ocidentais, todo o dinheiro arrecadado com impostos é usado pelos governos eleitos. Deputados e senadores apenas fiscalizam.

No Brasil, o Congresso abocanhou uma grande parte desse dinheiro. O resultado é uma irracionalidade nos gastos. Cada deputado gasta de acordo com suas necessidades eleitorais. Há muita redundância e corrupção.

Os deputados queriam que esse dinheiro que gastam fosse secreto. Daí o surgimento do famoso orçamento secreto, que o STF combate até hoje. Dinheiro público precisa de transparência.

Apesar de muita interferência legal, ainda agora soubemos que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se soubessem os autores. São emendas de comissão. As comissões são uma réplica dos ministérios: Comissão de Educação, Saúde, Transporte. Por que gastam dinheiro de uma forma diferente dos ministérios? Por que não racionalizar?

O Congresso não abre mão desse poder. O resultado não é só dispersão e irracionalidade. Há coisas do arco da velha, como dizíamos no passado. Foi descoberto agora que pessoas que não são deputados manipulam algumas verbas. Valdemar Costa Neto destinou R$ 119 milhões; Eduardo Cunha, R$ 6 milhões.

A expressão “não deputados” é muito vaga. Não se trata da vizinha aposentada ou de um arcebispo. Ambos não são deputados. Costa Neto e Cunha foram presos, em momentos diferentes, por corrupção.

Por aí, é possível ver a seriedade com que o Congresso trata o Orçamento sequestrado. É tão grande o problema que a PF só consegue investigar alguns casos, pois não tem capacidade de fiscalizar quase 600 pessoas distribuindo ou embolsando dinheiro pelo país. Há casos fantásticos de cidades em que quase todo mundo arrancou os dentes ou fraturou os dedos. O Tribunal de Contas da União chegou a investigar cem casos e encontrou irregularidades em 82 deles.

O país que terá um novo presidente terá de se resignar com a falta de dinheiro. Só nas eleições, os partidos vão gastar R$ 5 bilhões. Os argumentos afirmam que são gastos com a democracia. Na verdade, a parte do leão são gastos antidemocráticos.

Encarar essa realidade ou se resignar? Até o momento, apesar de os jornais noticiarem e a PF trabalhar, existe certa passividade em torno do sangramento contínuo do dinheiro público, isto é, sempre lembrando, do dinheiro do nosso bolso.

De que adianta apenas escolher um candidato a presidente, sem equacionar esse problema?

terça-feira, 21 de julho de 2026

Grande Guerra

Podes-me roubar o pão!
A Fome, não.
A boca, sim: come, ou não come
Porém, como roubar a inextinguível Fome?

Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.

Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me , até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.

Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal...e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...

Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Pôr abutres roendo as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...

Podes cobrir-me o nome de impropérios;
Tu , que és o senhor dos impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama.
Não brilha o sol na própria lama?

Podes tirar-me paz, saúde , e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
que ao Cristo lhas tiraram.
Perderam-se e O ressuscitaram.

Podes, às minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo que fazes?

És sempre o mesmo, tu, cujas razões supremas
São mordaças, grilhões, vendas. algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.

Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
" Filho , vem até mim!
" A História principia onde eles põem : fim."

José Régio, "A Chaga do Lado "

O que que eu não sei (e gosto assim)

Tenho 34 anos de vida, dos quais, cerca de 20 anos, foram vividos junto das redes sociais. Essa maioridade deveria ser suficiente para que eu tivesse aprendido algumas coisas. Por exemplo, não ler comentários em páginas de notícias; ou até mesmo não ler comentários na publicação de um meme qualquer. Ler comentários nas redes sociais é mergulhar no pântano da estupidez humana, é o que eu já deveria saber. Na verdade, eu sei. Ainda assim, não consigo evitar.

Entre a Europa e o continente americano, entre Brasil e Portugal, já houve caminho suficiente, leitura suficiente, indignação suficiente, medo suficiente, para saber que não se deve ler comentários. Sobretudo quando a ultradireita, asquerosa e fascista (é preciso dar nome aos bois), galopa entre os dois continentes já há vários anos. E, ainda assim, eu leio.


Há alguns anos, enquanto fazia meu doutorado, costumava conversar com uma colega que estudava comentários de redes sociais no contexto da famigerada “ideologia de gênero” que explodiu no Brasil, com seus delírios de “mamadeira de piroca”, “kit-gay” e “boneca trans”. Ou seja, tenho até mesmo uma relativa proximidade com uma discussão científica sobre como essa exposição de comentários funciona, seus métodos, seus pânicos morais, suas falsas rebeldias, sua lógica de guerra, seus conflitos binários. E, ainda assim, eu leio.

Quando, no Instagram, vejo uma chamada para ler uma notícia sobre imigração no site do PÚBLICO, por exemplo, não consigo evitar de ler os comentários. E o meu sentimento, como imigrante, é sempre o mesmo: estou cercado de inimigos que querem a minha cabeça. É uma atração sádica pelo perigo. É uma sensação de inchaço emocional que apenas confirma algo que eu já sabia, ao mesmo tempo em que me deparo com a minha própria dificuldade em acreditar que alguns expressem, desavergonhadamente, tanta maldade, ignorância e preconceito.

Às vezes, penso: depois de todos estes anos, surpreender-se com estes comentários cruéis, para além da minha própria estupidez em lê-los, talvez não seja um sintoma de algo tão ruim assim. A ensaísta Susan Sontag uma vez escreveu que, diante do sofrimento dos outros exibido à exaustão em vídeos e fotografias que circulam pelo mundo, nos tornamos imunes ou indiferentes à dor alheia.

Este argumento de Sontag é útil para pensar a respeito de quando alguns de nós nos espantamos, longe da indiferença, com os comentários em redes sociais. Pois ainda conseguir espantar-se com a banalidade incalculável de tanta violência, boçalidade e intolerância indica a capacidade de ainda estranhar a desumanidade no outro – e, por consequência, a desumanidade em si mesmo.

Pois não se engane: a teatralidade de bom samaritano indignado é dispensável. O espanto deve transformar-se em consciência de cumplicidade ou responsabilidade política. Comecemos por nos perguntar: como nosso modo de vida, ou como nossas escolhas de governantes, estão ligados, direta ou indiretamente, à desavergonhada vontade de destruição de imigrantes, refugiados ou pessoas LGBT+ nas redes sociais?

Eu não quero mero entretenimento mórbido ou simples choques visuais ao ler comentários boçais. Por isso, além de manter, na maior parte do tempo, as redes sociais desinstaladas do meu telefone móvel, como imigrante e gay, eu preciso saber o que ainda não sei. Eu já sei que, aos olhos do atual Governo português e de parte da população portuguesa, a vida de imigrantes e refugiados não tem valor; que em vários países, como Brasil e Estados Unidos, pessoas LGBT+ são menosprezadas, quando não são ativamente odiadas e mortas. Já sei que, diante dos vídeos das guerras no Oriente Médio e na Europa, muitas pessoas, sobretudo brasileiros e brasileiras, fazem comentários como se estivessem acompanhando uma partida de futebol.

Se estou certo de todas essas coisas, o que sei, então, que já não sabia? Esta pergunta é uma paráfrase de uma escritora norte-americana que gosto muito, Eve Sedgwick, falecida nos anos 2000. Lembrei-me desta pergunta quando, semana passada, no miradouro São Pedro de Alcântara, vi o céu de Lisboa tingido de violeta na boca da noite, enquanto eu e meu namorado assistíamos a um tributo a António Variações. Estávamos longe das redes sociais.

Longe das redes sociais eu posso saber o que ainda não sabia. Não sabia que Pedro, o português da drogaria, com simpatia e paciência, me explicaria como faço para trocar a fechadura da porta da nossa sacada; que Lena, minha vizinha portuguesa, apareceria na porta da nossa casa com um prato de comida e um vaso de flores.

Quando cheguei a Lisboa, não sabia que Giulia, uma colega italiana, gentilmente me convidaria para tomar um café depois de perceber o meu nervosismo ao chegar em uma universidade, cheia de colegas portugueses, para trabalhar. Não sabia que Bruno, outro colega português, também abriria a porta para mim, antes mesmo de chegar a Lisboa. Dias atrás, não sabia que o funcionário português da Livraria da Travessa conhecia tão bem a literatura brasileira.

Longe dos comentários boçais das redes sociais, os quais não representam a totalidade do mundo, nada disso eu sabia. Há muitas outras pequenas coisas que eu ainda não sei; e gosto assim.

Os chineses encostaram nos americanos na corrida da IA

Na última sexta-feira, o líder chinês Xi Jinping discursou em uma conferência de IA, realizada em Xangai. Ao público, atacou indiretamente os Estados Unidos.

— O desenvolvimento da inteligência artificial não pode depender da performance solitária de um único país — afirmou.

Defendeu que as IAs sejam distribuídas livremente para todos. Gratuitas. Na quinta-feira, apenas um dia antes, uma empresa chinesa chamada Moonshot AI publicou o modelo Kimi K3. Em performance, encostou no GPT 5.6 Sol e está a um fio de distância do Claude Fable 5. Pois é. Custou uma fração do preço que os americanos pagam para treinar os seus.


Hoje, três quartos do poder de processamento voltado para inteligência artificial estão nas mãos dos Estados Unidos. A China, em segundo lugar, tem 14%. Em 2022, tinha quase 40%. Mudou muito, e mudou rápido, a partir do momento em que o governo americano proibiu a exportação de chips de primeira linha da Nvidia. São justamente esses os chips que os laboratórios americanos, como OpenAI (GPT) e Anthropic (Claude), usam. Os chineses trataram de se adaptar. A Moonshot treinou seu Kimi com chips menos capazes da mesma Nvidia. Outros laboratórios começaram a utilizar chips de IA produzidos pela Huawei. Não são equivalentes ao topo de linha. Ainda.

O Kimi K3 estar em terceiro no ranking das melhores IAs não quer dizer apenas que está na frente de Google (com seu Gemini), xAI (Grok) e outros tantos. Quer dizer, também, que é um modelo melhor do que o Claude Opus 4.8, que apenas dois meses atrás estava no topo do ranking. Os chineses estão chegando muito rápido a um nível máximo de competitividade e gastam bastante menos dinheiro para construir seus modelos.

Para isso, desenvolveram seus truques de treinamento. Um deles é a técnica MoE, sigla em inglês para “mistura de especialistas”. Em essência, quando o sistema vai processar uma quantidade colossal de textos para construir o modelo, a análise de cada pedaço de informação não é feita por todos os circuitos treinadores. Só aqueles específicos, que extrairão mais conhecimento, são empregados. Enquanto os americanos passam cada informação nova por um processo imenso, os chineses separam antes, são precisos com que parte do sistema lê que pedaço do volume de textos. Em essência, isso diminui a necessidade de poder computacional. Que, ora, é justamente o que lhes falta. A economia não é pequena, nem em uso de máquina, nem em dinheiro.

Kimi é muito mais barato de construir, mas a empresa escolheu posicioná-lo no mesmo preço dos concorrentes americanos. A assinatura mensal de entrada é US$ 19, tem dois níveis intermediários a US$ 39 e US$ 99 e, no topo, US$ 199. ChatGPT ou Claude saem por essencialmente o mesmo. Preço é posicionamento. Querem dizer ao mundo que são equivalentes — e são, mesmo. Para algumas funções específicas, como escrever o código de páginas web, os chineses estão em primeiro. E, ainda assim, há outra vantagem nada irrelevante. Nas próximas semanas, prometem lançar uma versão em pesos abertos. Para download. Quem quiser, baixa e instala. Não roda em computador pessoal, mas nuvem é fácil e barato de contratar. O presidente Xi não lançou a cartada da distribuição gratuita à toa.

A diferença é a seguinte: a China sabe que o mundo desconfia dela. IA só é útil a uma empresa se ela coloca todo o peso de seus dados internos mais secretos para estudo. Nessa hora, confia-se muito mais no contrato firmado com uma empresa americana do que uma chinesa. Há medo de pirataria. Mas isso muda por completo para quem baixa um modelo gratuitamente e instala num data center próprio. É preciso pagar a nuvem, não sai sem custo. Ainda assim, o ambiente pode ser totalmente controlado. Os dados corporativos estarão seguros.

Hoje, empresas como a alemã Siemens ou a americaníssima Airbnb já estão mergulhadas nas IAs chinesas. E chegamos a um ponto no qual OpenAI e Anthropic precisarão reavaliar suas estratégias. É perfeitamente possível que, até o fim do ano, alguma empresa chinesa apareça com um modelo que lidere o ranking. Nesse ritmo, o custo americano de treinar IAs se tornará inviável.

Os planos da Anthropic eram de tirar Claude Fable 5 da assinatura para pessoas físicas. Deixar só para empresas. Agora, durante o fim de semana, desistiram. Está lá para todo mundo que paga.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Perdoa, Rei

Meu personagem da semana se chama Edson Arantes do Nascimento.

Na última semana inúmeras heresias foram cometidas contra Edson Arantes. Seu manto real foi profanado, seu nome foi pronunciado em vão, seu trono foi vilipendiado, sua soberania foi questionada.

Perdoa, Rei, porque eles não sabem o que fazem.


Houve hereges brasileiros capazes de ironizar seus vídeos em redes sociais. Para estes podemos oferecer a danação eterna, um chute do Roberto Carlos na região indefesa, quem sabe milho ocasional para o joelho arrependido.

Estudar história é necessário. Houve um, apenas um, que aos 17 anos deu chapéu, matou no peito e fez gol em final de Copa do Mundo. Houve apenas um que ganhou três Copas do Mundo como jogador.

Entendam os amigos argentinos: Messi compete com Maradona – e não sabemos se ganha. Pelé está em outro planeta. Em outra galáxia. Em outra dimensão.

Pelé nunca perdeu uma final da Copa, muito menos duas. Maradona, diga-se, perdeu só uma. Pelé nunca viu seu time ser engolido em final de Copa. Aliás, nas duas finais que disputou, o Brasil ganhou de goleada. Na primeira, o jovem Edson fez o citado gol de almanaque. Na segunda, deu aula de futebol e fez gol mais uma vez. Sua camisa 10 de 1970 deveria estar na entrada da FIFA como uma espécie de santo sudário futebolístico.

Maradona ganhou um título sozinho em 1986. Levou a Argentina nas costas até a final de 1990 – mais ou menos como Messi fez agora. Aquela final em Roma, porém, foi vagamente equilibrada. A partida que vimos ontem em Nova York foi um massacre.

Poucas vezes se viu, numa final de Mundial, domínio tão impressionante. A Argentina só foi finalizar na prorrogação. Parecia um daqueles jogos de Estadual – em que o time grande fica com a bola e o pequeno joga com raça tentando arrumar o gol milagroso num contra-ataque que nunca vem.

Quando o gol espanhol saiu, os argentinos tentaram tirar o improvável coelho da cartola. Messi enfim apareceu no jogo – fazendo duas, três jogadinhas na ponta direita... batendo escanteios perigosos. Houve brio. E pouco mais.

Por um instante me lembrei da musiquinha que ecoou pelos estádios brasileiros em 2014:

- Mil gols, mil gols... só Pelé... só Pelé... Maradona cheirador!

Messi sequer aparecia na canção. Aquela derrota e outras duas em Copa América quase tiraram Messi da seleção argentina. A volta por cima em 2022 foi linda – por mais que ele já não fosse o SuperMessi do Barcelona. Ele já tinha se tornado um Messi estratégico, especialista em encontrar as brechas impossíveis, derivando em campo como um fantasma.

Em 2026, Messi foi ainda mais esse pós-Messi que, não nos enganemos, continua craque, mas longe daquele Messi capaz de destruir qualquer partida a qualquer momento. A vitória em 2022 e essa improvável final alucinaram especialistas e parte da imprensa mundial – que resolveram elegê-lo como o melhor jogador de todos os tempos.

O massacre espanhol talvez desidrate esse descalabro. Messi deve se considerar abençoado pela mera existência da discussão. Mas seu debate é outro – e com outro argentino. Até porque Messi não fez em nenhuma de suas seis Copas o que Maradona fez em 1986. Ou que Garrincha fez em 1962 - para falar de outro gênio.

Então, celebremos o craque infinito, seu currículo, sua história e tudo aquilo que Messi ofereceu ao futebol. Foi um prazer apreciá-lo em campo e é uma pena que não tenhamos mais Copas com ele. Mas não perturbemos o sono real. Deixemos que Edson Arantes descanse em paz na inviolável eternidade de seu trono.

Mundo de pastelão

O mundo está assim, uniformizado, massificado. E a uniformidade é o fim. As cadeias de lojas e o urbanismo também. É uma arquitetura do desastre, da repetição, dos caixotes com vidro fumê que eu critico tanto nos meus romances.

É a massificação do capitalismo, o fim das aristocracias todas, das elites pensantes. Não estou lamentando isso, só estou constatando, porque também não sou nostálgico de nada disso. Acho que é uma crise mesmo, é para onde caminha o capitalismo tentacular, tudo vai se parecer, todas as cidades vão ser mais ou menos iguais, 

Trump quer o Brasil

Donald Trump quer, sim, as terras raras do Brasil. Quer regalias para as suas bigtechs e seu etanol, quer o fim do Pix, cujo pecado é ser gratuito. Mas a nova taxação de 25% a produtos brasileiros não se limita a quereres pontuais. Trump quer o Brasil. Quer porque quer esta terra rebelde que não se curvou à sua “química”, insistindo em impedir que ele se torne dono das Américas, plano que imaginava próximo.


Primeiro, Trump jogou com os vizinhos México e Canadá, os dois maiores exportadores e importadores de produtos norteamericanos. A grita interna foi tamanha que ele refluiu parcialmente nas tarifas mexicanas e abandonou a ideia inescrupulosa de transformar o Canadá em 51º estado. Mas mantém ambos sob constante ameaça.

Com algum êxito, avançou na América Central, obrigando a revisão de contratos com chineses na operação do Canal do Panamá, que, para Trump, deveria pertencer aos Estados Unidos. Esmagou a indigesta Cuba, pobre e incapaz de provocar qualquer dano.

Sob alegação nunca comprovada de combater o tráfico de drogas, bombardeou embarcações no Mar do Caribe, operação encerrada logo depois da bem sucedida incursão na Venezuela. Prendeu Nicolás Maduro e domesticou a vice Delcy Rodrigues. Seis meses depois, Trump se vangloria de sorver o petróleo, cujo lucro os venezuelanos não viram.

No Sul, nem foi necessário muito trabalho. Bastaram algumas migalhas aqui e ali em prol de postulantes de direita ou de franco-atiradores para garantir apoio consistente de nada menos de oito dos 12 países da região. Restaram à esquerda apenas o pequeno e desenvolvido Uruguai, a Guiana e o Suriname. E o Brasil – esse estraga prazeres.

Sem o Brasil, décima economia do mundo, que, sozinho, responde por 47,5% do PIB da parte Sul, não há como Trump dominar as Américas.

Depois do desacerto da primeira rodada de tarifas e sanções impostas no ano passado com o claro objetivo de tentar reverter a condenação do ex Jair Bolsonaro, Trump imaginou que avançaria suas garras no Brasil adulando o presidente Lula. Fez caras e bocas, elogios, ofereceu almoço na Casa Branca, paparicou.

Paralelamente, as equipes de negociação dos dois lados não conseguiam avançar. Não por falta de empenho ou de competência dos brasileiros. Mas porque as hipóteses de acordo, desde sempre, eram de mentirinha. O que Trump buscava era a submissão.

Como bobos da corte, o deputado cassado Eduardo, autoexilado no Texas, chegou a comemorar sanções contra o Brasil, e, mais recentemente, defender que o Pix operasse como o sistema americano Zelle, similar, mas sem gratuidade. Seu irmão Flávio, pré-candidato à Presidência pelo PL, foi ainda mais patético ao sugerir não a suspensão, mas o adiamento do tarifaço para depois das eleições, porque sua imposição agora beneficiaria Lula. Fez isso oficialmente por escrito, e presencialmente na audiência pública do Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR).

Agora, Flávio faz malabarismos para se desvencilhar da encrenca. Ele e os seus tentam jogar em Lula a culpa por não haver acordo, o qual os Estados Unidos de Trump, e não o Brasil de Lula, nunca desejou. Isso está estampado com todas as letras em um documento divulgado pelo jornalista Jamil Chade com absurdas exigências de submissão do Brasil, que, se sabia de antemão, eram inaceitáveis.

Mesmo se tratando de Trump, que adora desanunciar no dia seguinte o que anunciou no anterior, dificilmente haverá mudança de rota no tarifaço aos produtos brasileiros. Politicamente, será custoso para ele: lança o Brasil na corrida para outros mercados, ampliando a dependência do país à China, seu maior rival; e dá mais vigor à campanha de Lula, até mesmo junto a parcela significativa do empresariado que torce o nariz para o petista.

Não será a primeira vez que Trump ajuda o lado contrário. Aconteceu no Canadá e na Hungria. De alguma forma também no Brasil de Bolsonaro, quando ambos atacaram as vacinas e defenderam com unhas e dentes o uso da cloroquina para tratar a Covid-19. Safo, Trump se vacinou em segredo, mas entupiu o Brasil com dois milhões de doses do remédio ineficaz. O descaso com a Covid, a postura antivacina e a crença em medicamentos milagrosos contribuíram seriamente para a derrota de Bolsonaro em 2022.

Isso foi no primeiro mandato de Trump, quando sua megalomania chegava, no máximo, a patacoadas como a dita ao então presidente Michel Temer, sugerindo que ele invadisse a Venezuela.

Hoje, Trump parece mais tresloucado. Mas ele tem método. E quer porque quer o Brasil, a pedra que ele não consegue tirar do sapato e que o impede de conquistar as Américas.

Polícia não pode ser responsável por tudo

Imagine uma ocorrência de embriaguez e desordem em um sábado à noite. A polícia chega para conter a confusão e encontra uma mulher agredida, crianças vivendo em um ambiente de violência e uma família abandonada pelo poder público. Quando a ocorrência termina e todos chegam à delegacia, aparece uma das grandes distorções do nosso sistema. O homem que provocou a violência passa a responder também como vítima, alegando lesão corporal, invasão de domicílio ou prisão ilegal. A mulher e os filhos, que precisavam da intervenção do Estado para interromper o ciclo de violência, tornam-se testemunhas. E o policial chamado para proteger a família passa a ocupar o banco dos réus. Não discuto a responsabilização de abusos policiais quando eles existem. O que essa situação revela é outra coisa: a ausência das demais políticas públicas empurra a polícia para resolver, sozinha, problemas que nunca foram só policiais.


Essa cena ajuda a entender por que o debate sobre segurança pública no Brasil costuma começar no lugar errado. Transformamos problemas de saúde, assistência social, álcool e drogas, educação, urbanismo e proteção à infância em ocorrências policiais. Depois, discutimos apenas a atuação da polícia, enquanto as causas da violência permanecem praticamente intocadas.

Durante décadas criamos falsas escolhas, como se o país tivesse de optar entre mais polícia ou mais políticas sociais. Também se difundiu a ideia de que endurecer penas, prender mais pessoas ou reduzir a maioridade penal bastaria para conter a violência. O Brasil já possui uma das maiores populações prisionais do mundo e continua convivendo com índices elevados de criminalidade. Se o encarceramento resolvesse o problema, nossa realidade seria

O próprio sistema penitenciário, marcado por superlotação, condições degradantes e baixa capacidade de recuperação, acabou fortalecendo as facções criminosas. Organizações que nasceram nos presídios encontraram ali as condições para se estruturar, recrutar integrantes e se expandir pelo país.

Também é uma injustiça com os profissionais da segurança. O Estado permanece anos ausente de um território. Faltam escolas, saúde, cultura, esporte, oportunidades de trabalho, urbanização e atendimento às famílias. Depois retorna apenas por meio da polícia e espera que ela resolva, sozinha, problemas acumulados por décadas. Nenhuma profissão conseguiria cumprir essa missão.

Foi sobre esse tema que conversei recentemente com Rodrigo Pimentel no podcast Papo de Elite. Nossas trajetórias são diferentes e continuamos divergindo em vários pontos, o que tornou o diálogo mais rico. Não se tratava de convencer um ao outro, mas de colocar experiências distintas em diálogo. Quem conhece o território enxerga aspectos que nem sempre aparecem nos relatórios. Quem vive a segurança pública revela desafios pouco visíveis para quem está fora dela.

Segurança não pode continuar como responsabilidade quase exclusiva das polícias. Ela depende da articulação entre educação, saúde, assistência social, desenvolvimento econômico, urbanismo, cultura, esporte e um sistema penitenciário capaz de recuperar pessoas, em vez de fortalecer organizações criminosas. Recuperar territórios exige recuperar a presença do Estado por inteiro. Enquanto insistirmos em cobrar da polícia respostas para problemas produzidos pela ausência das demais políticas públicas, continuaremos administrando consequências quando deveríamos enfrentar as causas.