quarta-feira, 8 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


Na encruzilhada entre a civilização e a barbárie

Nesta hora sombria, uma grande escumalha emerge dos subterrâneos: belicistas, fascistas, nazistas; os que querem dar continuidade e revitalizar a escravidão; os que morrem de medo da ideia da igualdade de direitos e de oportunidades para todos os seres humanos; os que temem o outro, os outros, as outras culturas; esses que se sentem ameaçados pelas diferenças humanas, por diferentes modos de ser; os adoradores do dinheiro e os que aceitam de bom grado a servidão consentida; os que são defensores da exploração sem limites dos trabalhadores pelo capital; os que ganham com a economia de guerra; os especuladores e os que querem revitalizar, a qualquer custo, os grandes impérios decadentes. Neste momento sombrio, o império da morte e da aniquilação vem à luz do dia fazer pilhagens, matar sem dó e sem pudor, como se viu na ascensão do nazismo na Alemanha. Hoje, o massacre de crianças, o assassinato de famílias inteiras, a destruição de territórios e o apagamento de culturas milenares são transmitidos em tempo real e festejados com orgulho. O tempo da vergonha não existe mais.

Zombam dos valores civilizatórios que a humanidade construiu; desprezam a empatia e a ética, desrespeitam todos os princípios que sustentam a vida e a convivência em sociedade. Uma horda de rancorosos, que se ufanam de serem os arautos da morte, faz da violência sua única linguagem. À frente estão aqueles que desejam renovar suas relações imperialistas com o resto do mundo. Trump vem fazendo a pilhagem de fontes de energia, de riquezas minerais e de outros ativos econômicos acreditando que, com isso, reverterá a decadência dos Estados Unidos. Não reverterá. Mas a truculência de seus atos está provocando uma trinca profunda na frágil estabilidade do mundo. Ao não reconhecer os direitos das outras nações, Trump estabelece que a pilhagem é uma prerrogativa de países militarmente mais fortes.

Sob a batuta de Trump, “mileis”, “bolsonaros” e que tais, uma escumalha – o que há de pior entre os seres humanos – está sendo mobilizada nos quatro cantos do planeta para tocar o terror. Essa onda semeia o medo, a falta de perspectiva e a desconfiança; promove o terror e o caos. Cresce se alimentando da insegurança geral para se impor e submeter a todos aos seus desmandos.

Nesse contexto assombroso, a fala de Lula nos fóruns mundiais adquire uma grande importância e legitimidade. É um bálsamo, um sopro de vento fresco para os que estão apreensivos, percebendo que a insanidade está conquistando terreno. A voz de Lula se espalha por todas as latitudes e longitudes, indicando alternativas, enquanto os fascistas, nazistas e todos os supremacistas tentam recuperar as energias exauridas na derrota da Segunda Grande Guerra. Estão, neste momento, ameaçando de muitas maneiras as democracias e atacando direitos individuais e coletivos na tentativa de enfraquecer e desmoralizar os Estados nacionais, suas normas e instituições.

São arautos da destruição e inimigos de tudo o que é bom para os seres humanos. Representam a morte e a degradação. Desejam botar fogo, demolir, degradar, até que não reste mais nada do mundo que construímos. São inimigos de todos os direitos, valores e relações civilizadas conquistados com muita luta no decorrer da História.

Atacam sistematicamente a institucionalidade das nações, não para aprimorá-las, mas para aumentar a insegurança e transformar os países em terra sem lei, onde o caos e a insegurança predominem para que escapem de qualquer controle político e social.


Aqui mesmo, no Brasil, temos a dura missão de enfrentar as novas investidas dessa turba que insiste em impor o retrocesso, o entreguismo, a morte, a ignorância, o racismo, a misoginia, a discriminação e o ressentimento cego. Seres alienados, carregam dentro de si o complexo de inferioridade. Como já demonstraram, capazes de destruir todo o patrimônio social, econômico e cultural conquistado pelo povo brasileiro. Paradoxalmente, defendem com orgulho aqueles que lhes desprezam e subestimam. Numa total insanidade, seguem seus verdadeiros algozes, prontos para demolir toda a estrutura de organização, proteção e emancipação social, iludidos por uma falsa ideia de liberdade e de crescimento por mérito pessoal. Caminham alegremente para o cadafalso e, junto com eles, tentam levar toda a sociedade como um tsunami que arrasa a terra por onde passa.

Lula nos representa ao chamar a atenção para o mal que ameaça e se impõe sobre toda a humanidade. Nosso presidente tornou-se uma voz com legitimidade global ao representar os interesses de todos os seres vivos. Ele é a voz lúcida e corajosa que aponta para a urgência e a viabilidade da construção de um ambiente de paz entre as nações. Com sua confiança e sensatez, Lula indica a possibilidade de um futuro feliz para todos. Suas palavras são a faísca de esperança da qual o mundo necessita para resistir e seguir em frente.

A Europa está com dificuldade de mobilizar sua energia vital causando decepção ao se submeter à lógica distópica imposta ao mundo. Da mesma forma, a democracia norte-americana não tem demonstrado ser capaz de deter a marcha insana capitaneada por seu próprio presidente. O sinal inequívoco de que a sanha destruidora segue sem obstáculos e a parceria de Trump, Netanyahu e o Estado sionista de Israel para perpetrar o genocídio calculado do povo palestino e rapinar as fontes de energia dos países do Oriente Médio e da América Latina. Tudo debaixo dos olhos atônitos de um ocidente inerte. Estão impondo a lei do cão.

Não podemos ter ilusões: os Estados nacionais dos países europeus, com honrosas exceções, como a Espanha, foram capturados ou estão submetidos a essa onda reacionária contagiosa. Toda a ordem mundial está ruindo, causando uma reação ao estilo “salve-se quem puder”. Ocorre que, se Trump, Netanyahu e seus assemelhados forem bem sucedidos, somente os países que possuem a bomba atômica e aqueles que têm uma coesão nacional que lhes garanta soberania e resistência terão alguma chance de sobreviver.

Estamos diante de um desafio sem precedentes. Não há exemplo na história da humanidade para o qual possamos olhar em busca de uma inspiração. Teremos que inventar algo novo que nos torne fortes e maleáveis a ponto de vencer um inimigo desgovernado que detém o maior poderio bélico do planeta e conta uma horda de adoradores infiltrados entre nós, atuando nas famílias, nas instituições, nas escolas, nas igrejas, nas redes e nas ruas.

Frente a um cerco dessas proporções, os povos despertos de todo o mundo terão que desenvolver uma espécie de cidadania planetária, sem fronteiras, sem barreiras, no verdadeiro espírito “ninguém larga a mão de ninguém” para resistir ao tsunami de baixo astral que vem crescendo no horizonte.

Os organismos internacionais estão neutralizados. A ONU perdeu a capacidade de contribuir para a solução dos conflitos, desconcertada diante de criminosos que não respeitam as normas internacionais e desprezam qualquer iniciativa de governança global. Cabe aos cidadãos e às nações soberanas, juntos e conscientes da gravidade do momento, desempenhar o papel de defender e zelar pela paz mundial, pelo respeito entre os povos, pelos direitos de todos os seres vivos, pelo futuro da humanidade, pela sobrevivência do planeta e da vida na Terra.

Civilização ou barbárie? Eis o centro da contradição no mundo, neste momento.
Juca Ferreira

A 'invasão de Taiwan' segue dentro de momentos…

Ao contrário do que o diretor da CIA tinha alertado, “os líderes chineses não planeiam executar uma invasão de Taiwan em 2027, nem têm um calendário fixo para conseguir a unificação”, diz o relatório anual dos Serviços de Informações dos EUA sobre “os riscos de segurança”, divulgado a 19 de março. Mais: “eles preferem” alcançar a unificação “sem o uso da força”.

Os crónicos prognósticos acerca de uma invasão chinesa de Taiwan tornaram-se mais insistentes depois de a Rússia invadir a Ucrânia, em 2022. Imaginando a liderança chinesa inteiramente alinhada com Moscovo, alguns comentadores anteciparam que Xi Jinping iria imitar o homólogo russo: “Hoje, a Ucrânia; amanhã, Taiwan.” “Sabemos que o Presidente Xi Jinping instruiu o Exército Popular de Libertação (EPL) para estar pronto para invadir Taiwan em 2027”, disse há três anos o então diretor da CIA, William Burns. A data coincide com o centenário do EPL, que é, ainda hoje, o nome oficial das Forças Armadas chinesas.

Taiwan − ou Formosa, como lhe chamaram os navegadores portugueses − entrou no imaginário europeu no século XVI. Situada a cerca de 150 quilómetros do continente chinês, aquela ilha da Ásia-Pacífico está no centro da rivalidade sino-americana. A geografia, fustigada por frequentes sismos e tufões, é conhecida; a História, nem por isso.


Depois dos portugueses, vieram os espanhóis e, a seguir, os holandeses, que dominaram a ilha durante quase 20 anos, até 1662. No século XIX, os franceses também tentaram anexá-la, procurando repetir o que os ingleses fizeram em Hong Kong. A China estava em declínio. Em 1895, teve de ceder Taiwan ao Japão, uma anexação que durou até ao fim da II Guerra Mundial. No continente, o país resistiu unido à ocupação japonesa, mas a seguir entrou de novo em guerra civil.

Após a vitória comunista e a fundação da República Popular, em 1949, o que restava da antiga república, com capital em Nanjing, ficou reduzida a Taiwan e a três pequenos arquipélagos: Penghu, Mazu e Kinmen. Este último fica a meia hora de barco da costa chinesa. A nacionalidade indicada no bilhete de identidade dos seus 23,5 milhões de habitantes é “República da China” (sem o adjetivo “popular”).

Tudo somado, Taiwan vive há 130 anos fora do controlo de Pequim. Nas últimas décadas, a China transformou-se no maior parceiro comercial da ilha, absorvendo mais de um terço das suas exportações. Politicamente, porém, a separação acentuou-se a partir dos anos 90, depois de Taiwan abolir a lei marcial, autorizar o multipartidarismo e eleições por sufrágio direto. Para o Partido Comunista Chinês, o processo de democratização não alterou o estatuto da ilha: trata-se de uma província chinesa e não de uma entidade política soberana. Apenas 12 países, quase todos pequenos Estados do Pacífico, da América Central e da Caraíbas, mantêm relações diplomáticas com aquela “província”.

Mais de uma década antes do colapso da União Soviética e da emergência de um mundo unipolar dominado pelos EUA, a China já defendia a “reunificação pacífica” com Taiwan, só admitindo “usar a força” se as autoridades locais declararem a independência. A ilha, entretanto, passou a ser governada por um partido pró-separatista, cujo atual líder, Lai Ching-te, considera a China “uma força estrangeira hostil”. O principal partido da oposição, pelo contrário, duvida de que a reunificação desejada pelo PCC ocorra por via militar. “Não acredito que Pequim queira isso”, afirmou a presidente do Partido Nacionalista, Cheng Li-wen. “Afinal, eles veem os taiwaneses como compatriotas. Seriam realmente tão tolos que caíssem numa armadilha americana que nos levaria a massacrar-nos uns aos outros e a destruir Taiwan?” Os dois partidos da oposição têm a maioria no Parlamento, mas não conseguiram apresentar uma candidatura comum às eleições de 2024, permitindo que Lai Ching-te fosse eleito com 40% dos votos.

A reação do governo chinês ao último relatório dos EUA também não mudou: “A questão de Taiwan é um assunto interno da China, e a forma de a resolver é da exclusiva competência do povo chinês, não admitindo qualquer interferência de forças externas”, disse um porta-voz dos Negócios Estrangeiros. “Os EUA devem corrigir a sua compreensão acerca da China e parar de exagerar a teoria da ameaça chinesa.”

Todos os países da NATO reconhecem Pequim como “o único representante do povo chinês”. Os EUA, no entanto, nunca deixaram de vender armas a Taiwan e comprometeram-se a assegurar “os meios necessários para a sua defesa”. O antecessor de Donald Trump na Casa Branca, Joe Biden, garantiu que os EUA interviriam se a China invadisse Taiwan. O atual Presidente, neste aspeto, tem-se mostrado menos ameaçador, mas nunca se sabe o que fará a seguir…

Estamos todos cansados e não é por acaso

Há uma fila para pagar. Mas não me aproximo das caixas automáticas, vazias àquela hora, evitadas por todos os que vivem no bairro e aproveitam para dar dois dedos de conversa com os operadores enquanto as compras rolam pelo tapete. A senhora que está a atender trabalha ali há muitos anos, conhece quem conta nas mãos as moedas enquanto olha com ansiedade para a soma registada pela máquina, quem se atrapalha com as mãos trémulas pela idade a fazer os trocos, quem tenta gerir as compras e os filhos pequenos ao mesmo tempo que fala ao telefone. Sei de tudo isso e de como ela, e vários outros que aqui trabalham, se tornam figuras reconhecidas com quem se fala de tudo e de nada. Mas tenho quase a certeza de que a senhora que estava à minha frente a ser atendida não a conhecia particularmente. E talvez isso torne ainda mais incrível o que lhe disse. “Como está?”, perguntou a operadora, com um sorriso, fazendo deslizar os códigos de barras pela máquina. Sem grande hesitação, a mulher respondeu: “Muito cansada. Psicologicamente muito cansada.”


Ainda não tinha reparado nela, ocupada que estava a descarregar o carrinho sobre o tapete rolante. Ergui os olhos, procurando a dona desta resposta desabrida e honesta, inesperada o suficiente para provocar uma pausa. A operadora parou também por instantes o que estava a fazer. Apenas um ou dois segundos. Olhou-a. E, sem vestígio de condenação, respondeu com bondade e empatia. “Pois. Isto está muito difícil.” A outra tinha já moedas entre os dedos. Parou de frente para a caixa. Tinha o cabelo em desalinho e a cara demasiado envelhecida para a idade, uma t-shirt puída, gasta sobre a saliência do ventre, as costas tortas debaixo de um casaco de malha. “É uma colega lá do trabalho. Faz-me a vida num inferno”, desabafou, explicando quase de rajada que trabalha numa cozinha. “Não sei se vou aguentar muito tempo”, disse mesmo antes de rodar sobre os pés para sair com os sacos das compras.

Fiquei a pensar naquilo. No cansaço. Em como o carregamos às costas, em como nos verga os ombros, em como nos tolda a compreensão e a paciência. Andamos cansados. Todos. Exaustos. Arrastamo-nos de tarefa em tarefa. Corremos atrás das horas. Sem pausa. Sem um momento que seja em que não estejamos a fazer nada. Existir é uma coisa que demora demasiado tempo. Fazemos. Cumprimos. Resolvemos. A cada passo consultando o telefone, com as mensagens, as notificações, as chamadas, os emails. É tudo urgente. É tudo importante. Temos de responder, temos de aparecer, temos de fazer. Os dias esgotam-se depressa como se os engolíssemos de um trago. São pequenos fósforos a arder entre os dedos até os sentirmos queimar. Chegamos à cama com um misto de alívio e culpa. Este dia já foi, pensamos. Este dia já era, lamentamos. Mas sabemos que temos de adormecer depressa. O relógio já nos engole as poucas horas de descanso, enquanto nos enrolamos nos lençóis e nas ideias do que ficou por fazer. É preciso descansar. O sono tornou-se um imperativo que perseguimos ansiosos e não a resposta de um corpo que procura repousar.

O cansaço que nos tolhe não é individual. Quando nos queixamos dele, achamos que sim. Pensamos que talvez tenha que ver com as nossas más escolhas. Até nisso o neoliberalismo é eficaz: responsabiliza-nos, dividindo-nos entre os bem-sucedidos e os falhados, como antes a religião nos dividia entre os bem-aventurados e os pecadores. A culpa que carregamos faz parte do processo. Sempre fez.

O cansaço que nos tolhe não é individual, dizia eu. Estamos cansados porque temos de vender muitas horas de trabalho só para conseguir viver, num sistema que nos impinge a ideia de que o nosso valor intrínseco se mede pelo que conseguimos fazer e ter e não pelo que somos. Estamos cansados porque vivemos cada vez mais longe do trabalho, dos amigos, da família. Estamos cansados porque ficamos sem rede que nos ajude a cuidar dos filhos e dos pais. Estamos cansados porque a ansiedade da incerteza e da precariedade cansa. Estamos cansados porque até os encontros sociais se tornam um momento de consumo, desligado do prazer simples de estar com aqueles de quem gostamos, transformado em mais uma possibilidade de negócio que faz com que manter amizades custe demasiado dinheiro. Estamos cansados porque parar é um luxo. Estamos cansados porque somos nós o produto final, explorados numa economia da atenção, desenhada para nos manter colados aos ecrãs e às redes, enquanto minera os nossos dados. Estamos cansados porque desligar tem um preço demasiado alto.

Estamos cansados para que nos vendam detox e retiros, férias e massagens, livros de autoajuda e medicação, saídas à noite e entradas no ginásio, escapadinhas e chás, cremes e sonhos.

Estou a pensar nisso enquanto saio do supermercado. Tenho à frente um parque infantil. Passa pouco das quatro da tarde e a praceta enche-se de mulheres e crianças pequenas. Olhando com atenção, percebo que as mulheres que ali estão são todas negras e as crianças brancas e loiras. Algumas das mulheres estão fardadas. É evidente que não são as mães. Vigiam as crianças, mais ou menos atentas, enquanto elas brincam. Algumas delas, distraindo-se com conversas entre si, outras olhando para os telefones, outras ainda enchendo os pequenos de mimos e atenção.

Esta é uma das primeiras tardes de primavera e as árvores enchem o ar de um cheiro doce. Devia ser uma alegria apanhar este sol seguindo os pequenos passos curiosos destas crianças. Mas há uma evidência que me esmaga: estas não são as mães. Noutro ponto da cidade, hão de estar mulheres, talvez esmagadas pela culpa, trabalhando fechadas longe desta brisa primaveril. Noutro ponto da cidade, hão de estar crianças, vigiadas por outros olhos, enquanto os braços das suas mães carregam os filhos das outras. E todos andam nesta mesma roda-viva que transforma a vida num ato de sobrevivência e a afasta do prazer que todos devíamos instintivamente procurar. Temos mesmo de desligar.

Os pobres pagam pela crise mundial

Para desconsolo de operadores do mercado financeiro, a ganhadora do Prêmio Nobel de Economia de 2019, a francesa Esther Duflo, tem vindo ao Brasil e falado sobre o País com mais frequência do que gostariam. Duflo tem discorrido sobre temas que a tornaram reconhecida mundialmente, como pobres, combate à pobreza, taxação dos muitos ricos, políticas sociais inclusivas. São temas perturbadores aos que se dedicam a acumular riquezas, para si ou para terceiros.


Na sua mais recente vinda ao País, há duas semanas, Duflo participou de eventos ligados à Fundação Lemann, que, em seu slogan, diz: “Por um Brasil que acredita nas pessoas; por pessoas que acreditam no Brasil”. O principal idealizador da Fundação é Jorge Paulo Lemann, provavelmente o mais conhecido dos empresários brasileiros que conquistaram prestígio e poder no mundo e certamente um dos ídolos dos que trabalham na área financeira. Mas Esther Duflo veio para falar sobre os temas de que tem tratado. Pior: ela deu uma aula magna em Brasília na Escola Nacional de Administração Pública, realizada em parceria com a Fundação Lemann. A ação do Estado assusta parte das pessoas que lidam com muito dinheiro; o susto deve aumentar quando uma instituição privada, com palestras como estas, contribui para aperfeiçoar e modernizar a atuação do poder público.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Duflo afirmou que os pobres pagam a conta das guerras, como a que hoje envolve Estados Unidos, Israel e Irã. O impacto do conflito sobre o orçamento dos pobres vem pelo aumento dos combustíveis (que afeta os demais preços) e dos alimentos (impacto direto). “São sempre os pobres que pagam. A guerra da Ucrânia é um resumo disso: levou a um grande aumento dos preços de alimentos, o que foi ruim para todos e um desastre para o custo de vida das pessoas pobres da África”, lembrou.

Em outra entrevista, esta para o Estadão há cerca de um ano (26/4/2025), Duflo falou do papel dos ricos no agravamento das mudanças climáticas e dos que arcam com os custos ambientais. Referindo-se à sua proposta de taxação das 2 mil ou 3 mil pessoas com patrimônio superior a US$ 1 bilhão, que a tem levado a viajar o mundo, disse que os recursos arrecadados seriam destinados aos mais pobres do planeta afetados por eventos extremos, pois essas pessoas são “as maiores vítimas das mudanças climáticas e não contribuíram em nada para que o aquecimento global acontecesse”.

Uma justificativa sobre a proposta foi apresentada por ela em entrevista que concedeu em 2024 à BBC News Brasil. Eis o que disse: “A dupla crueldade das alterações climáticas é que as emissões responsáveis por elas, tanto historicamente como ainda hoje, se devem às pessoas ricas do mundo, que se encontram majoritariamente em países ricos, embora haja pessoas ricas em países de renda média. Mas as principais vítimas são as pessoas pobres do mundo, que se encontram majoritariamente em países pobres, embora haja pessoas pobres nos países ricos”. E completou: “Você não pode seguir em frente e dizer que está tudo bem”.

Daí ela falar em “dívida moral” dos bilionários que poluem mais do que ninguém, mas em nada arcam com os custos da degradação ambiental e, sobretudo, mal pagam impostos, quando pagam. E daí mais um argumento para sua proposta de taxação dos bilionários.

Quanto ao Brasil, Duflo disse que o País tem posição destacada no debate das mudanças climáticas, mas, quanto à questão socioeconômica, precisa evoluir na taxação dos muitos ricos para avançar no combate à pobreza. “Há uma coisa com que, eu acho, todos concordam: a situação fiscal do Brasil é complexa”, disse.

De fato, o equilíbrio das contas públicas é a grande preocupação que tem alimentado o debate entre economistas de prestígio no País – e tem colocado o governo na defensiva. São frequentes projeções de crise das finanças públicas em futuro próximo, com risco para a sustentação de importantes programas, especialmente na área social, o que afetaria os que mais necessitam do apoio do governo, os pobres. Evitar isso exige aumento de arrecadação, com a taxação maior sobre quem pode muito e paga pouco.

O sistema tributário brasileiro, como observou Duflo, é incapaz de enfrentar esse problema. De forma mais direta, seria necessário dizer que o sistema é socialmente injusto. Duflo lembrou que o Bolsa Família, grande responsável pela redução da pobreza no Brasil, foi basicamente financiado pela classe média, que por isso faz restrições ao programa. E a origem dessa conta para a classe média, como provam muitos estudos, vários citados nesses artigos, é o fato de que os ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que os demais contribuintes. E os muito ricos pagam proporcionalmente menos ainda. Não é tema que interesse parte das pessoas com poder de decisão. Isso torna difícil a melhora do quadro. A conta não mudará de mãos.

Pesadelo judeu

A identidade, tanto de um indivíduo como de um povo, é uma construção atualizada historicamente. Nomes, então, são variáveis aleatórias. No Leste Europeu, onde meus antepassados viveram por um milênio, as fronteiras moviam-se quase que por encanto – ia-se dormir em um país e acordava-se em outro. O idioma oficial variava entre o polonês, o alemão falado na Prússia, no Império Austro-húngaro, o russo etc. Meu nome poderia variar, ir e vir, entre Szmil Kilsztajn, Samuel Külstein ou Самуил Кильштейн.

Nasci em Jaffa, uma cidade que, mesmo de acordo com o despótico Plano de Partilha das Nações Unidas, estava reservada aos palestinos. Para me manter íntegro, hoje me identifico como palestino budista e assumi o nome Samy El Khalili. E como, além de budista, sou anarquista, não vou me dar ao trabalho de alterar o nome no registro civil. Para todos os efeitos, sou eu que determino a minha identidade e o meu nome – e não os outros. Então é como humanista, internacionalista e pacifista que me atrevo a discorrer sobre o pesadelo judeu que ora se descortina diante de nós.

Com a aprovação do Plano de Partilha da Palestina em novembro de 1947, enquanto o pai de Amós Oz comemorava a profecia de Herzl, “o Estado Judeu bate à porta”, sua mãe dizia, “não bate, não há porta alguma, o que há é um precipício.” Em 1948, às vésperas da criação do Estado de Israel, Hannah Arendt publicou um artigo prenunciando a possibilidade de uma ruptura entre os judeus israelenses e os da diáspora. As relações dos israelenses “com o judaísmo mundial se tornariam problemáticas, já que seus interesses de defesa poderiam entrar em conflito a qualquer momento com os de outros países onde vivem grandes contingentes de judeus. O judaísmo palestino acabaria por se separar do corpo maior do judaísmo mundial e, em seu isolamento, se desenvolveria em um povo inteiramente novo.” Mas a realidade foi muito mais cruel – o sionismo capturou o judaísmo e se transformou oficialmente em sua nova identidade tanto em Israel quanto na diáspora, apesar dos protestos de algumas organizações judaicas antissionistas.


O artigo reflete o clima entre os judeus anterior à criação do Estado de Israel, em que “o terrorismo e o crescimento de métodos totalitários são tolerados silenciosamente e secretamente aplaudidos”. Hannah Arendt, embora considere que os palestinos “em vez de concluir pelo menos acordos de trégua locais, decidiram evacuar cidades e vilas inteiras a permanecer em território dominado por judeus”, cita, no decorrer do texto, o lançamento de uma bomba contra uma fila de trabalhadores árabes em Haifa, o ataque a Jaffa e o massacre de Deir Yassin, em que aldeões, embora tenham feito acordos com os judeus, foram atacados e assassinados, “incutindo na população árabe o medo aos judeus” (episódios anteriores a 14 de maio de 1948).

Por ocasião da criação do Estado de Israel, as autoridades acharam por bem que seus cidadãos esquecessem a Segunda Guerra Mundial e se desfizessem da cultura da diáspora e de seu “jargão”, o Yiddish. O Holocausto exterminou os pais dos sobreviventes; mas como Israel poderia exterminar a sua língua materna? Como poderiam eles se desfazer de sua língua, a língua na qual expressavam seus sentimentos, a língua em que pensavam, a língua na qual sonhavam? Em Israel, falar yiddish nas ruas era mal visto, quase uma contravenção. O poeta Menke Katz, depois de ter sido conduzido à prisão em Israel por falar yiddish com seu filho na rua, fez as malas mais uma vez e remigrou para os Estados Unidos.

No início dos anos 1950, milhares de sobreviventes do Holocausto, que foram levados a acreditar que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra, começaram a abandonar a Terra Prometida. Para estancar esse êxodo, os Estados Unidos, a Alemanha e Israel arquitetaram um escândalo internacional em Munich. O Brasil, na época, foi chamado a cooperar e abrir os portos para esses refugiados indesejados tanto na Europa como nos Estados Unidos. E lá estavam eu e meus pais, encalhados em Munich, alcunhados como Returnees e presos como imigrantes ilegais – testemunhas oculares dessa história. Ancoramos em Santos sem nunca ter ouvido falar que existisse um país com o nome de Brasil.

Neste período, os sionistas, que achavam que os sobreviventes deveriam se esquecer de sua cultura humanista, internacionalista e pacifista, resolveram ainda instrumentalizar o Holocausto em favor do Estado de Israel. Em 1960, o Mossad capturou e contrabandeou o nazista Eichmann. Seu julgamento foi amplamente divulgado, televisionado e transmitido internacionalmente para mostrar ao mundo os crimes dos nazistas durante o Holocausto. Em 1963, tanto os israelenses como os judeus da diáspora amaldiçoaram Hannah Arendt por seu texto publicado em The New Yorker, Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal.

Seguiu-se a ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia em 1967 e, depois do Massacre de Sabra e Chatila de 1982, o militante sobrevivente Primo Levi declarou que Israel foi um erro em termos históricos e que “Como judeu da diáspora, que se sente muito mais italiano do que judeu, eu preferiria que o centro de gravidade do judaísmo ficasse fora de Israel… acredito que a principal corrente do judaísmo está mais bem preservada em outros lugares do que em Israel.” Contudo, efetivamente, o judaísmo da diáspora foi oficialmente capturado pelo sionismo.

Em Pesadelo palestino, mencionei que a Torah e a história do povo judeu foram moldadas e redigidas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos, e que qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios. O artigo foi postado em 23 de fevereiro de 2026, às vésperas da atual ofensiva de Israel contra o Iran, em conjunto com os Estados Unidos, que já transformou o genocídio palestino em guerra regional e corre ainda o risco de se alastrar para além do Oriente Médio.

O verdadeiro inimigo de Israel e do povo judeu não é o Hamas, o Hezbollah, o povo palestino ou os iranianos. O verdadeiro inimigo não é um oponente externo, é aquele que vive dentro de nós. A última vez que estive na Palestina foi em abril de 2023, seis meses antes da investida de Israel em 7 de outubro do mesmo ano. 

Em Jaffa, redigido em maio e publicado em junho de 2023, escrevi que os israelenses vivem no primeiro mundo, presos a uma armadilha, ricos, alegres, orgulhosos, arrogantes, escravos de sua opulência e de seu “poder” militar, refestelando-se e rindo-se da pobreza de seus arcaicos vizinhos palestinos e maldizendo os muçulmanos “sanguinários que vivem se esfaqueando uns aos outros em todas as partes do mundo”. Como não achei ninguém que pudesse fazer a apresentação, apresentei o livro eu mesmo, usando como autor o pseudônimo Shmuel e o sobrenome Yored, que significa traidor em hebraico.

E se Trump quiser um golpe para se tornar ditador?

A guerra no Irã está a ser desencadeada em nome de Deus (até o Papa teve que vir mandar calar a Administração Trump. A guerra no Irã tem como objetivo fazer retornar os iranianos à “Idade da Pedra, que é o seu lugar”. O Presidente americano promete o “inferno” ao país que invadiu e ameaça com mais crimes de guerra, além dos já levados a cabo em escolas e outras infraestruturas civis: agora vai rebentar mais pontes.


No momento em que escrevo, domingo de Páscoa, um dia sagrado no calendário cristão, o último post de Trump na sua rede social pode traduzir-se assim: “Terça-feira é o dia das centrais eléctricas e o dia das pontes [que Trump promete destruir]. Abram o maldito [tradução simpática da palavra ‘fucking’] estreito, seus filhos da mãe [também tradução algo benévola de ‘bastards’] loucos, ou viverão no inferno. VÃO VER [assim, em maiúsculas]. Rezem a Alá.” O declínio mental deveria ser obrigatória razão para “impeachment”. Alguém que o faça.

A quadra pascal serviu para o bêbado (e abusador de mulheres, segundo a sua própria mãe) Peter Hegseth, com experiência de defesa ligeiramente acima de zero, “ministro da guerra” de Trump, demitir a todo o vapor o chefe do Estado-Maior e vários outros generais experientes, alegadamente por defenderam as políticas de diversidade de que Trump não gosta, mas porque alguns também se opunham à loucura sem saída à vista que tomou Washington.

O homem que nos Estados Unidos detém os códigos do armamento nuclear levou o país para uma guerra em nome do carniceiro de Telavive, que devia estar a responder por crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional, Benjamin Netanyahu. Existe o dinheiro: Trump tem conseguido ficar mais rico e os seus sequazes também (a suspeita de “inside trading”). Mas a quantidade de contradições em que Trump já caiu, dizendo uma coisa e desmentindo-a no mesmo dia, desde as famosas declarações em que afirmava que tinha derrubado o regime logo nos primeiros dias de guerra até à ideia de que os americanos não precisavam do estreito de Ormuz, mostra alguém que não tem a menor ideia do que está a fazer

Trump está a perder a guerra (e a Rússia a ganhar, o que terá repercussões na Ucrânia) e a levar o mundo para uma recessão de proporções ainda impossíveis de imaginar. A popularidade do presidente americano está a bater no fundo. As eleições “midterm”, no próximo novembro, têm todos os ingredientes para se transformarem numa gigantesca humilhação para Trump.

No sábado de Páscoa, Timothy Snyder (historiador, autor do famoso Sobre a Tirania) fez um texto interessantíssimo no Substack onde colocava uma questão que pode mudar o curso daquilo a que ainda se vai chamando “a democracia na América”.

“Estamos a sete meses das mais importantes eleições intercalares na história dos Estados Unidos. Entretanto, estamos em guerra. Estas são condições que podem ser estruturais para uma tentativa de golpe em que o presidente tentará acabar com as eleições e ficar no poder como ditador.” Snyder põe a hipótese de Trump vir a ser bem-sucedido no golpe de Estado que acabaria com a democracia na América. Afinal, como o historiador lembra, Trump já tentou um golpe de Estado, em janeiro de 2021, com o assalto ao Capitólio. Dessa vez, o golpe falhou. Quando regressou ao poder, Trump anistiou os “seus” golpistas.

O mundo de ontem não era perfeito, mas agora entrámos em território desconhecido e imprevisível.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


A realidade que mina a esperança da Páscoa

A ideia era fazer uma pausa neste domingo de Páscoa — arquivar por um mísero dia qualquer noticiário de guerra e deixar falar a poesia. A intenção brotou do acaso, em meio à inescapável leitura sobre a insanidade do confronto no Irã. Um dos analistas da atualidade citava um poeta persa do século XII, Attar de Nishapur, e sua obra mais célebre, “A conferência dos pássaros”. Nela, o poeta narra a história de todos os pássaros do mundo que, por não terem rei, partem em revoada à procura de um soberano. Cada alado representa uma das falhas humanas que impedem o mundo de encontrar sua luz. Em conjunto, escolhem por guia uma poupa de grande sabedoria, que lhes informa qual será o teste de determinação: atravessar sete vales místicos. São eles os vales da Busca, do Amor, do Conhecimento, do Desapego, da União, do Maravilhamento, da Pobreza e Aniquilação.


Muitos pássaros se recusam até a levantar voo, outros desistem a meio caminho, e tantos mais morrem ao longo do percurso. Restam apenas 30 para vislumbrar o monte sagrado que procuravam. Ao chegarem a seu destino, contudo, descobrem não um rei a sua espera, e sim um espelho. Moral da história: o que os pássaros buscavam jamais esteve distante deles. Procuravam encontrar a si mesmos, juntos. No poema de Attar, a certeza de quem somos no coletivo define nossa humanidade. Sozinhos, nos agarramos a algo que torna a jornada impossível, seja por amor, apego, medo, aniquilação, ódio. Ou cinismo.

Enquanto o mundo só se revela por meio do nosso engajamento com ele (é nessa adesão que repousa a experiência humana plena), o cinismo age como sua mais perfeita negação. Talvez seja o sentimento mais corrosivo em um ser humano — de aparência passiva, o cinismo esconde uma capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade. Dentre os poetas mais refinados da música, o australiano Nick Cave dedica parte de seu tempo refletindo sobre a coragem de ter esperança como anteparo a essa praga. Continuou a fazer música enquanto convivia com a perda de um filho adolescente — o garoto de 15 anos havia ingerido LSD e caíra de um precipício em Brighton, na Inglaterra — e, sete anos mais tarde, com a morte de outro, mais velho, que acabara de sair de uma prisão em Melbourne.

— De certa forma, meu trabalho se tornou uma rejeição explícita ao cinismo e à negatividade — diz o músico em seus escritos. — Não tenho tempo para isso, nem para censura ou condenação implacável. Não tenho estômago para todo o ciclo de culpa perpétua. A vida é curta demais para não nos maravilharmos. Permaneço cautelosamente otimista.

Cave ainda acredita numa “espécie de corrente subterrânea de preocupação e conectividade, movimento radical e coletivo em direção a uma existência mais empática e aprimorada”. Em homenagem à Páscoa e a ele, a coluna estava inclinada a prosseguir explorando diferentes noções de otimismo e esperança — esse anseio sincero por melhoria do mundo — que cada um de nós nomeia de acordo com referenciais próprios. Não mais.

Um homem corpulento em júbilo, quipá na cabeça, garrafa de champanhe nas mãos e pin dourado em forma de forca na lapela celebrava uma conquista que perseguia havia anos. Era Itamar Ben-Gvir, ministro de Segurança Nacional de Israel, feroz defensor do extremismo de direita, comemorando a aprovação da pena de morte para palestinos condenados por atos terroristas letais contra israelenses. Julgada por tribunais militares, a execução se dará por enforcamento.

— Em breve vamos contá-los um por um — garante o ministro em vídeo que circula nas redes sociais.

O inverso não foi sequer cogitado: pena semelhante não se aplica a israelenses responsáveis pela morte de palestinos. Dessa forma, para além da eliminação de mais de 70 mil civis em Gaza e a caçada às terras e vidas palestinas ainda remanescentes na Cisjordânia ocupada, Israel agora se aproxima da barbárie fundamentalista do arqui-inimigo Irã.

O editorial do diário Haaretz que tratou do assunto fala em ascensão do terrorismo judaico e precipício dos fundamentos democráticos e morais do Estado. Mas o texto não foi escrito no convencional estilo do jornal. Intitulado “A canção do carrasco”, está em verso de seis estrofes e rimas internas. A linguagem é bíblica, sombria, lírica. Começa assim: Céus — tende piedade de mim/Não há Deus em vós, nem decreto guia/Escolheram-me, gélido e cru/No escuro sangrento do serviço prisional.

Talvez só mesmo a poesia nos salve, enquanto os homens-pássaros em revoada não encontrarem seu caminho interior.

O fim da era dos grupos de mídia nacionais

Está chegando ao fim, no Brasil, a era em que poucos grupos nacionais de comunicação conseguiam se apresentar como intérpretes naturais da nação, árbitros da respeitabilidade pública e fiadores do regime político.

Esse ciclo está se esgotando por razões econômicas, tecnológicas e históricas. A publicidade migrou fortemente para o ambiente digital — que já representava 60% da receita publicitária total no Brasil em 2024, com projeção de chegar a 70% em 2029 —, enquanto o consumo de notícias se fragmentou e o engajamento com TV, impresso e sites jornalísticos tradicionais segue em queda. No Brasil, a confiança nas notícias medida pelo Reuters Institute ficou em 42% em 2025, num patamar estabilizado, mas longe da autoridade quase sacerdotal que os grandes grupos exerceram por décadas.

Democracias precisam de uma imprensa forte. O problema brasileiro foi outro: a formação de um sistema altamente concentrado, cartelizado, familiar, patrimonialista e politicamente orgânico às classes dominantes do momento, apesar de a própria Constituição de 1988 vedar monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social.


Sempre me intrigou o fato da mídia jamais ter se proposto a ser a voz de novos grupos que surgiam no país, como resultado de mudanças econômicas e sociais.

Sempre minimizou a era das grandes indústrias, deixou de lado os movimentos de apoio às pequenas e médias empresas, ignorou por muito tempo a própria revolução agrícola.

Em vários momentos da história, colocou-se contra qualquer projeto de soberania nacional ou de inclusão social.

Conspirou contra o segundo governo Vargas e denunciou diuturnamente o governo JK, usando para ambos denúncias de corrupção – que se revelaram totalmente falsas.

Ora, ambos os governos estavam lançando as bases de uma nova elite empresarial e social. Havia uma demanda por otimismo excepcional. O papel de qualquer mídia inteligente seria captar esses movimentos e se tornar seu porta voz. No curto período em que entendeu essa dinâmica, na campanha das diretas, a Folha de S. Paulo tornou-se o jornal mais influente do país.

Mas se a fórmula funcionou, porque em todos os demais momentos históricos, a mídia preferiu apostar no velho e matar o novo?

A razão é simples. O imediatismo e a falta de visão estratégica da imprensa, a impede de apostar no novo. Ela aposta no poder imediato. E o poder imediato sempre é o poder de ontem, até que seja desbancado pelo novo. Ela só adere ao novo, depois que este se torna poder.

Desse modo, ela atua como estratificadora de todas as eras político-econômicas de um país. O novo sempre terá dificuldades, devido à resistência da mídia. Só depois que ele consegue se impor, apesar da mídia, ele passará a receber seu apoio.

Nos anos 90, a mídia atingiu seu apogeu, não apenas econômico como político. Eram 4 grandes diários, no eixo Rio-São Paulo, que faziam a pauta nacional. O que diziam era reproduzido por agências de notícias, se espraiavam pelo noticiário de rádio e pela imprensa regional.

Cada tiro era uma bomba.

Vivi esse período e percebi, no espaço de uma coluna que mantinha na Folha, o enorme poder transformador da mídia, desperdiçado, deixado de lado. Na minha coluna, ajudei a disseminar os programas de qualidade total, as políticas científico-tecnológicas, a importância da indústria cultural, da digitalização do Judiciário, da criação de uma indústria de defesa.

Ficava imaginando o que seria possível se, em vez de uma coluna, o jornal inteiro abraçasse uma visão modernizante para o país. Acelerariam em décadas o grande salto nacional.

Mas foi inútil. Até o Estadão, que em priscas eras representou uma elite conservadora culta, o jornal que trouxe a USP, perdeu totalmente seu clã modernizador.

A própria Constituição de 1988 vedava monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social. O texto constitucional também determina finalidades educativas, culturais, informativas e estímulo à produção independente e regional; o país, porém, jamais regulou de forma efetiva esse mandamento. O resultado foi um espaço público sequestrado por poucos conglomerados, capazes de confundir liberdade de imprensa com liberdade de empresa — e interesse público com interesse acionário.

Agora, com a vinda das redes sociais e das grandes plataformas, há o fim de uma era e a entrada de uma nova era, com todos os vícios da anterior: concentração da propriedade, direcionamento do discurso, falta de controle social.

Tem-se um país sem rumo e com a bússola, em vez de organizar o trajeto, montando armadilhas para jogar o navio em direção ao iceberg.

Mundo indiferente

Estamos nos acostumando com a violência, nos resignando a ela e nos tornando indiferentes.

Indiferentes à morte de milhares de pessoas.

Indiferentes às consequências do ódio e da divisão semeados pelos conflitos.
Papa Leão XIV

A sanha intervencionista do “Grande Irmão” está longe do fim

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os EUA respondem por algo como 80 intervenções militares em outro tanto de países, até então soberanos. Tudo em nome de uma farisaica “defesa da democracia”, disfarce da disputa estratégica com a URSS. O ponto de partida dessa fase do imperialismo, que guarda rigorosa coerência com sua história, desde a formação colonial até nossos dias, foi dado pelo que se passou a chamar de “Doutrina Truman” (1947), porque proclamada pelo presidente que lançara duas bombas atômicas sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki, quando a guerra já estava perdida pelo Japão. Ela estabelecia o princípio do containment do comunismo, com apoio político, econômico e militar a países de sua órbita. O Plano Marshall de reconstrução da Europa Ocidental, do mesmo ano, fornece a base econômica. A doutrina militar se corporifica na OTAN, criada em 1949. Seu alvo era a defesa coletiva contra a URSS. São os três pilares sobre os quais se assentará a estratégia global dos EUA no pós-guerra.

Sua primeira intervenção remonta a 1947, no apoio militar à monarquia grega — fustigada pela guerrilha republicana de esquerda — e à Turquia, carente de apoio para conservar sua soberania sobre os estreitos de Bósforo e Dardanelos, quando a URSS reivindicava o direito de acesso ao mar Mediterrâneo.

Mas as bases ideológicas da Guerra Fria, dos tempos de confronto com a URSS, comandada no lado ocidental pelos EUA, já haviam sido formuladas por Winston Churchill em discurso no Westminster College (1946): “De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente.” Era o início de uma política intervencionista global, e a justificativa para ingerência em outros países.

A Guerra Fria toma a forma de confronto universal à “ameaça comunista” (que muitos milhões de dólares rendeu à indústria da guerra), implicando a missão de fazer face a todas as formas de luta social e às guerras de libertação nacional que iluminavam o mundo subdesenvolvido. O papel dos EUA, isoladamente ou comandando a OTAN, aliados de sempre ou aliados de ocasião, passa a ser o de contrarrevolucionário, e, para desempenhá-lo, se tornam a principal guarda do colonialismo retardatário, contra o qual firmara, lá atrás, em1823, a defesa continental (a “América para os americanos”), que, nominalmente dizendo não a novas intervenções europeias nas Américas, terminou reinterpretada como a doutrina da hegemonia estadunidense, servindo de base ideológica para intervenções na América Latina, seja no século XX, seja no século XXI.

O fato objetivo é que se tratava (esquecidas, como se verá, quaisquer preferências entre ditaduras e democracias) de conter a URSS, que se apresentava ao mundo como potência militar após o sucesso na guerra contra o Eixo. Apresentar-se ao mundo era ocupar o espaço que entendia como seu.

Finda uma guerra, começam outras.


As intervenções por procuração, as sabotagens, o apoio político e a ajuda militar e econômica às insurgências de direita não mais cessariam, e logo se espalham por todos os continentes, de par com a intervenção militar direta. Os EUA se fazem atores globais do confronto. A nova grande guerra é uma constelação de conflitos de toda ordem, políticos, econômicos, diplomáticos e militares, à sombra do guarda-chuva nuclear das duas superpotências, que ao menos tiveram o bom senso de evitar o suicídio coletivo.

De princípio, o método corretivo foram as intervenções pontuais, que acima nomeamos como operadas “por procuração”, levadas a cabo por governos títeres ou pela OTAN. Sem que esse artifício seja descartado, logo se impõe a ação direta, espécie que chega aos nossos dias na Venezuela, em Gaza e no Irã, nos dois últimos casos com a participação direta do sionismo. Agora mesmo, Washington reclama de seus aliados europeus a ausência no campo de batalha de uma guerra que Trump e seus cúmplices ainda não souberam explicar.

A folha corrida de crimes de guerra é extensa, percorre o mundo, conhece o Panamá, a Guerra do Golfo, a guerra contra o Iraque, as guerras do Kosovo, do Afeganistão, da Síria e da Líbia. Todas, guerras norte-americanas. Por razões óbvias, é indisponível a estatística das sabotagens, dos assassinatos e dos golpes de Estado intentados e levados a cabo, quase sempre com sucesso, pelos serviços secretos dos EUA em todo o mundo nesse mesmo período. Contra a vida do líder cubano Fidel Castro, estima-se que a CIA tenha atentado ao menos 638 vezes.

As análises disponíveis estimam um mínimo de 80 intervenções conhecidas, percorrendo todos os continentes. As mais relevantes são o golpe de Estado no Irã, com a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, abrindo caminho para o absolutismo da dinastia Reza Pahlavi (pró-Ocidente), posta ao chão em 1979 pela revolução republicana liderada pelos aiatolás. Com o golpe, abre-se a interminável tragédia presente da antiga Pérsia, uma civilização de mais de 4 mil anos, que o atual inquilino da Casa Branca diz pertencer à “pedra lascada”, para cuja idade promete devolvê-la em duas semanas, “sob fogo terrível”.

Os EUA, por todos os meios, se fazem atores na Guerra da Coreia (1950–1953) e, em seguida, na guerra do Vietnã (1955–1975), de onde sairiam batidos, para, em seguida, fazerem a guerra do Afeganistão. Em 1965, promovem a queda de Sukarno, dirigente da Indonésia (maior país do Sudeste Asiático), e fazem ascender ao poder o general Suharto, alinhado com a política de “contenção” da Guerra Fria, que leva a extremos, mediante massacres em massa (1965–1966), com centenas de milhares de mortos, incontáveis – como incontáveis são as vítimas do genocídio promovido por Israel (com apoio de algo como 70/75% de sua população) dos povos de Gaza, da Cisjordânia e da Palestina. Como são incontáveis as vítimas civis das agressões ao Líbano.

No rastro de suas intervenções (é impossível nomeá-las neste espaço), frutificou a barbárie.

Na América do Sul, sofremos os crimes covardes (e em nosso caso, impunes), das ditaduras, no Brasil, na Argentina e no Chile, com seu rol de torturados e assassinados. São, nos tempos recentes, ditaduras legadas pelo imperialismo.

Mas elas, não obstante o que de hediondo apresentaram contra nossos países e nossa gente, são ainda uns poucos itens numa longa listagem que parece não ter fim, e não terá, se a esquerda brasileira e as forças progressistas não tiverem clareza sobre as ameaças que rondam a democracia brasileira, conquistada a tão duras penas e a tão duras penas trazida até aqui. Os idos de janeiro de 2022 ainda estão presentes, e as forças que os animaram permanecem em seus postos, fortalecidas pelo apoio do grande capital e pela ameaçadora ascensão da direita nos EUA, que, para a consolidação de sua preeminência na América do Sul, precisa de um Brasil dócil. A tragédia é esta: nossa importância estratégica. O México sabe o que é isto (custou-lhe 55% do território), a Venezuela conhece, e não de agora, o preço a pagar ao Império por conter em suas entranhas a maior reserva de petróleo do mundo. Somos o maior e mais rico país do continente. Somos um espaço estratégico que pode se transformar em alvo de disputas geopolíticas ausentes de nossos interesses e de nossa afirmação como povo, nação e país que aspira à condição de potência regional.

A saga latino-americana revela os percalços dos países renitentes ao torniquete de Washington. Para não mais lembrar a rapina de que foi vítima o México, vejamos alguns casos, tentando identificar os mais expressivos, como a deposição, em 1954, do presidente Jacobo Árbenz, da Guatemala, responsável por uma reforma agrária que afetou os interesses da americana United Fruit, motivação que voltaria à cena quando Cuba, em 1960, nacionaliza empresas americanas (açúcar, petróleo, bancos). Seguem-se, numa escalada, as intervenções na República Dominicana para depor o presidente Juan Bosch, em 1965; em 1983, a invasão de Granada; e, em 1989, a agressão ao Panamá para o sequestro do presidente Manuel Noriega, ex-agente da CIA.

Invasões e golpes de Estado que são apenas a outra face do mesmo processo coercitivo que tem sido o apoio sistemático a todas as ditaduras na América do Sul e Caribe, como os regimes de Somoza (Nicarágua) e Stroessner (Paraguai), o apoio aos “Contras” na Nicarágua pós-revolucionária e as intervenções diretas e indiretas em El Salvador, que se repetem sob Trump, com o apoio da velhacaria nativa. Por sem dúvida, o Brasil não poderia ficar à deriva: com o substancioso empenho do grande capital e a ação das forças armadas, os EUA desestabilizaram o governo Vargas (1954) e, apenas dez anos passados, conduziram o golpe de Estado de 1º de abril, a que devemos 21 anos de uma ditadura luciferina, de cujas piores consequências ainda não nos livramos, como conta a emergência do neofascismo caboclo, reacionário como suas matrizes alemãs e italianas, mas, ao contrário delas, exasperadamente antinacionalista (entreguista), como se observa nos pronunciamentos dos ícones do bolsonarismo.

O outro lado desta guerra sem quartel pela hegemonia mundial se dá fora dos teatros clássicos das batalhas, operado por todos os demais meios conhecidos, econômicos, políticos e culturais-ideológicos, que chegam aos nossos dias classificados pela ciência política como “guerra híbrida”, vencida largamente pelos EUA, objeto de análise anterior neste espaço. Está em toda parte, faz a consciência da classe dominante.

A História, mais uma vez, se repete, e desta vez não foi como farsa: o Irã foi invadido e está sendo agredido pelos EUA (com a ajuda do sionismo), não porque tenha armas nucleares, mas exatamente por não possui-las. Foi assim com a Líbia de Muammar Kadhafi, foi assim com o Iraque. E continuará assim, até que se altere a correlação de poder militar que governa a ordem internacional, de um mundo que mais e mais se aproxima do caos, graças à irresponsabilidade dos EUA.

A lógica desta guerra ensina ao mundo porque o Irã, que não ameaça e jamais ameaçou os EUA, está sendo bombardeado pela maior potência militar jamais conhecida pela humanidade, enquanto, por exemplo, a pequena e resistente Coreia do Norte, aparentemente isolada do mundo, não é atacada, e que jamais o seja, embora lance rotineiramente mísseis balísticos ao mar do Japão, capazes de atingir a Coreia do Sul e até territórios dos EUA.

Os EUA dizem aos países que ainda aspiram à sua integridade física e política, decididos a preservar a soberania nacional herdada, muitas vezes ao preço de incontáveis e dolorosos sacrifícios humanos, que a única dissuasão possível contra agressores poderosos é a defesa nuclear.

E isto é muito perigoso.

O Brasil falha onde tudo começa

O encontro inicial com os livros é um dos momentos mais decisivos na formação de qualquer leitor, mas isso ainda está longe de ser uma realidade no país.

É na infância que se descobrem histórias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. Antes mesmo de compreender plenamente a linguagem, a criança intui que ali existe algo maior: uma possibilidade de imaginar, explorar e dar sentido ao que a cerca, muitas vezes por meio das imagens, que inauguram esse encontro com a mesma potência das palavras. A literatura infantil não é apenas uma etapa na formação do leitor. Ela constitui uma base essencial da formação cultural, cognitiva e criativa.


No Brasil, porém, essa realidade segue longe de ser universal. Milhões de crianças crescem sem contato regular com livros, sem bibliotecas estruturadas e sem mediação qualificada. Trata-se de um déficit silencioso, que compromete desde cedo a trajetória dos estudantes, revela uma fragilidade estrutural do nosso sistema de educação e ajuda a explicar, em parte, os baixos níveis de letramento observados ao longo da vida escolar.


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Garantir o acesso ao livro desde a infância é, portanto, uma condição necessária. Mas não é suficiente; além de iniciativas isoladas, o país carece de uma articulação institucional capaz de dar escala, continuidade e coerência a essas ações. A formação de leitores não se sustenta apenas por esforços fragmentados, ainda que bem-intencionados. Exige estruturas capazes de integrar produção, circulação e mediação de forma consistente.

O quadro reflete as desigualdades do país. Enquanto algumas crianças crescem cercadas de livros, outras têm contato com eles apenas de forma episódica, quando o têm. Isso tende a se ampliar ao longo da vida escolar, produzindo trajetórias cada vez mais desiguais.

Nesse processo, a qualidade importa. Escrever para crianças exige rigor, sensibilidade e domínio da linguagem. Ilustrar, por sua vez, é um ato de criação que demanda repertório, técnica e intencionalidade. Texto e imagem não ocupam lugares hierárquicos: constroem juntos a narrativa, ampliam significados e criam camadas de leitura.

Valorizar a produção de livros infantis é, portanto, reconhecer a literatura e a ilustração como dimensões indissociáveis de uma mesma experiência criativa e, no caso brasileiro, reconhecer também a força de uma produção que alcançou alta qualidade e projeção internacional.

O setor do livro infantil, que envolve autores, ilustradores, editoras, livrarias, escolas e bibliotecas, forma um ecossistema complexo, que exige coordenação e visão integrada para funcionar plenamente. No entanto, sem presença consistente e sem mediação, esse sistema não alcança plenamente quem mais precisa.

A mediação, aliás, é um ponto central. A formação de leitores não acontece de forma espontânea. Professores, bibliotecários e famílias são responsáveis por aproximar a criança do livro, criar contextos de leitura e transformar o acesso em experiência significativa. É nesse encontro que a leitura deixa de ser possibilidade e se torna prática.

Por meio dos livros, a criança amplia seu repertório e entra em contato com diferentes realidades, experiências e perspectivas. A leitura permite reconhecer o outro, compreender diferenças e desenvolver empatia. Ao mesmo tempo, contribui para a construção de um universo que sustenta o pensamento e a criatividade.

Também é fundamental que as crianças se aproximem de livros que representem a diversidade de experiências, territórios e identidades que compõem a sociedade. A literatura infantil contribui para o desenvolvimento do senso de pertencimento e para o reconhecimento da pluralidade que caracteriza o mundo contemporâneo.

Em um contexto de múltiplos estímulos e formas de oferta de informações, o livro segue sendo uma ferramenta insubstituível. A literatura infantil tem relevância fundamental ao oferecer uma experiência de leitura profunda, estruturada e formadora.

Mais do que marcar o Dia Mundial do Livro Infantil, celebrado em 2 de abril, é preciso investir no acesso, na qualidade e na mediação dos livros para crianças. E isso exige não apenas recursos, mas capacidade de organização e articulação.

Sociedades que não formam leitores desde a infância dificilmente formam cidadãos capazes de compreender, participar e transformar a realidade. E é nas primeiras histórias, feitas de palavras e imagens, que começam, silenciosamente, as possibilidades de futuro de um país.
Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro, Hubert Alquéres, Curador do Prêmio Jabuti

Guerra no Irã ameaça segurança alimentar global com mais 45 milhões de pessoas em situação de fome

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passam 20% do petróleo e gás do mundo, fez os preços do petróleo dispararem acima de US$ 100 por barril (cerca de R$ 520) e deixou economistas em alerta. Em meio às escaladas retórica e bélica desde o ataque americano-israelense em 28 de fevereiro, porém, especialistas afirmam que uma crise paralela e menos comentada está surgindo simultaneamente: a ameaça à segurança alimentar global, causada em grande parte pela iminente escassez de fertilizantes, essenciais para a produção de alimentos. Para analistas, os desdobramentos do conflito atual, se não forem enfrentados, serão capazes de transformar uma guerra regional em uma emergência humanitária mundial.


— O que distingue este conflito de guerras anteriores do século XXI é a interrupção simultânea de três pilares da segurança alimentar global: cadeias de suprimentos de alimentos, infraestrutura hídrica e produção de fertilizantes. Trata-se de uma máquina da fome em câmera lenta — afirmou ao GLOBO Michael Werz, pesquisador do CFR especializado em segurança alimentar. — [Isso] em um ano em que especialistas esperam efeitos significativos do El Niño, com possíveis impactos nas colheitas.

Desde o início dos ataques, apenas um número reduzido de embarcações conseguiu atravessar a via marítima, sendo a maioria petroleiros iranianos ou ligados à China que, em geral, seguem rotas próximas à costa iraniana. Em março, o Comitê Internacional de Resgate disse que os atrasos no transporte marítimo estavam interrompendo cadeias de suprimentos e itens sensíveis à temperatura usados em cuidados de saúde, programas de nutrição e distribuição de vacinas. Pelo menos US$ 130 mil (R$ 675 mil) em materiais farmacêuticos urgentes destinados à resposta humanitária no Sudão foram retidos em Dubai.

— As interrupções na cadeia de suprimentos que passa pelo Estreito estão atrasando envios de alimentos que salvam vidas, tanto na região quanto no restante do mundo — disse Sam Vigersky, pesquisador do Council on Foreign Relations (CFR) e ex-assessor humanitário na missão dos EUA nas Nações Unidas. — Os custos de combustível e de seguro para navios estão aumentando, o que reduzirá os orçamentos de programas de ONGs e agências da ONU que executam iniciativas de segurança alimentar.

No mês passado, uma nova análise do Programa Mundial de Alimentos (PMA) estimou que quase 45 milhões de pessoas adicionais podem enfrentar fome aguda se a guerra não terminar até o meio do ano e se os preços do petróleo permanecerem acima de US$ 100 por barril. O contingente se somaria às mais de 670 milhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem em situação de fome crônica, sendo a África Subsaariana e a Ásia as regiões mais vulneráveis devido à dependência de importações. Na Somália, onde há crises de seca, o preço de alguns produtos essenciais já subiu pelo menos 20% desde o início do conflito.

— A crise já está em curso: o PMA foi forçado a reduzir as rações alimentares para pessoas em condições de fome no Sudão e só consegue apoiar uma em cada quatro crianças com desnutrição aguda no Afeganistão, atualmente a pior crise de desnutrição do mundo — alertou Werz. — Isso ocorre antes mesmo de o choque dos fertilizantes se desenvolver plenamente. Com a alta dos preços de alimentos e do transporte, a ajuda humanitária será ainda mais desafiadora.

Segundo artigo publicado pelo especialista, a água potável também está em risco. Ataques iranianos a usinas de dessalinização no Bahrein e bombardeios próximos a um complexo com 43 instalações do mesmo tipo na Arábia Saudita, disse, indicam mais uma camada da guerra. A vulnerabilidade é elevada porque os países do Golfo dependem amplamente dessa tecnologia: “400 plantas nos países do Conselho de Cooperação do Golfo produzem quase 40% da água dessalinizada do mundo. No Kuwait, 90% da água potável depende dessas instalações; em Omã, 86%; e na Arábia Saudita, 70%”, escreveu.

Analistas estimam que os reflexos do conflito atual podem ser maiores para a segurança alimentar do que os vistos com a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Na época, diz o PMA, os preços dos alimentos subiram rapidamente e demoraram a cair, excluindo famílias vulneráveis do acesso à nutrição básica. Mas alternativas foram encontradas, como o aumento das importações do Oriente Médio — algo que, para Máximo Torero, economista-chefe da Organização da ONU para a Agricultura e Alimentação, não deve ser possível desta vez:

— Não há uma resposta rápida para a oferta de petróleo, gás natural e fertilizantes. Nenhum país consegue aumentar significativamente a produção desses insumos no curto prazo. Por isso é muito importante que o conflito termine logo — disse ele em entrevista coletiva na sede da ONU em Nova York. — Caso contrário, isso afetará a próxima temporada de plantio e terá consequências sobre os preços dos alimentos, [o que] certamente afetará a segurança alimentar.

Governos e órgãos ao redor do mundo já passaram a recorrer a reservas estratégicas de alimentos e a buscar rotas alternativas para tentar garantir o abastecimento. Nos Emirados Árabes Unidos, as reservas cobrem de quatro a seis meses, e o governo pediu aos moradores que denunciem aumentos injustificados de preços. Na Arábia Saudita, há cerca de quatro meses de estoque de trigo, e a ONU criou uma “força-tarefa” dedicada para “propor mecanismos técnicos” especificamente concebidos para atender às necessidades humanitárias no Estreito.

— O potencial para desencadear uma crise alimentar global está em grande parte ligado à duração [do conflito] — disse Joseph Glauber, pesquisador do International Food Policy Research Institute (IFPRI) e ex-economista-chefe do Departamento de Agricultura dos EUA, indicando que, para ele, a crise não deverá ter “efeitos dramáticos” sobre a produção de alimentos neste ano. — Custos mais altos de energia são provavelmente o maior risco. [Eles] já elevaram os custos de transporte, [o que] pode significar inflação dos preços dos alimentos.

As preocupações ocorrem enquanto grupos de ajuda enfrentam dificuldades. A agência da ONU para os refugiados (ACNUR), que estima que 3,2 milhões de pessoas do Irã e 1 milhão de pessoas no Líbano tenham sido deslocadas em pouco mais de um mês de guerra, lançou um apelo urgente por doações, observando que apenas no Líbano o órgão precisa de mais mais US$ 61 milhões (R$ 316 milhões) para apoiar 600 mil pessoas nos próximos três meses — e que “as necessidades estão aumentando mais rapidamente do que os recursos”.

— Há a possibilidade de pressionar pela criação de um corredor humanitário no Estreito de Ormuz para produtos relacionados a alimentos e medicamentos, semelhante à Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que ajudou a escoar grãos da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia em 2022. Talvez navios com bandeira chinesa ou paquistanesa possam ser autorizados a transportar alimentos ou fertilizantes para os países mais necessitados — disse ao GLOBO Noah J. Gordon, pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace.

A decisão do presidente americano, Donald Trump, de dissolver a agência de ajuda internacional dos EUA (Usaid) no ano passado forçou grupos assistenciais em todo o mundo a demitir milhares de funcionários e encerrar programas que salvavam vidas. Embora Washington gastasse apenas 1% de seu orçamento com o órgão, ele foi desmontado após o então Departamento de Eficiência Governamental (Doge), liderado à época por Elon Musk, classificá-lo como desperdício.

À Associated Press, o Departamento de Estado americano disse estar destinando mais de US$ 40 milhões (R$ 207 milhões) em assistência emergencial adicional ao Líbano, incluindo para o PMA. No entanto, trabalhadores humanitários citam a discrepância com o montante gasto na guerra: apenas a primeira semana do conflito custou US$ 11,3 bilhões (R$ 58 bilhões), segundo o Pentágono, que também busca mais de US$ 200 bilhões adicionais para a guerra.

— Cortes de financiamento em 2025 devastaram programas humanitários, incluindo os que trabalham com desnutrição. As agências de ajuda entram nesta crise em desvantagem. O PMA demitiu 25% de sua equipe e perdeu bilhões em financiamento humanitário. Ao mesmo tempo, pouco dinheiro novo foi mobilizado desde o início da guerra — disse Vigersky, que trabalhou no Escritório de Assistência a Desastres Estrangeiros da Usaid de 2014 a 2019.

Para Werz, se o impacto da invasão da Ucrânia e o “uso bem-sucedido dos alimentos como arma” pela Rússia servirem de indicador, é provável que os efeitos sejam de longo prazo. O impacto da guerra na Ucrânia sobre os mercados de fertilizantes, disse, gerou efeitos econômicos duradouros, reestruturou o comércio global e manteve os preços elevados bem acima dos níveis pré-guerra. Segundo ele, mesmo após o fim do conflito com o Irã, produtores no Golfo precisariam de garantias de segurança antes de retomar os envios pelo Estreito, e “efeitos cascata” poderão ser vistos “a milhares de quilômetros de distância”.

— Há uma série de ações que poderiam ser tomadas, mas que provavelmente serão prejudicadas por um sistema internacional cada vez mais disfuncional, no qual as grandes potências frequentemente perseguem interesses nacionais estreitamente definidos — afirmou. — Em última análise, o desafio é sistêmico: a política externa no século XXI envolve resolver problemas nacionais, regionais e globais que afetam grandes partes do mundo. No entanto, as instituições nas quais decisões são tomadas em nível nacional ou internacional muitas vezes ainda se assemelham a um ambiente da Guerra Fria que já não existe mais.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


Esopo na Casa Branca: A moral da história que Trump esqueceu

Cada especialista em Brasil apontou alguma ausência: faltaram pureza racial, um colonizador mais avançado, partidos políticos com valores definidos. Talvez fosse melhor falar do que temos de sobra, como hipocrisia e carisma na sua forma mais degradante: o populismo e uma incurável parcialidade. Entre nós, ignorar a lei e o bom senso é sinal de importância social.

Nosso modo de encarar esse dilema segue um inabalável legalismo. Criamos regras acreditando que um confuso aparelhamento burocrático soluciona problemas de costumes, tal como Donald Trump acredita que seus desmesurados porta-aviões agenciem a rendição do Irã. É a velha ilusão de que foguetes e drones resolvem guerras, destruindo muito e perdendo pouco, pois temos a maior força militar do planeta. Um planeta, aliás, que deixou de ser vivido em sincronia com a natureza.


Lançar foguetes é como usar a “canetada” para salvar colegas ou refazer hierarquias em espaços igualitários. Fica-se na ilusão de que as leis existem, mas elas não são universalmente aplicadas. Não para nós, mas para eles.

No Brasil, nossos drones, foguetes e porta-aviões são as leis produzidas pelo nosso “caga-regrismo”, que até hoje imagina que o poder de legislar opera resolvendo intelectualmente, mas – como os foguetes trumpistas – aumenta frustrações. É muito mais fácil cair na ilusão de que a lei resolve do que discutir o que a lei representa numa sociedade que sabe como sua aplicação é abafada ou simplesmente anulada para certas categorias sociais.

Desde os tempos de Esopo, a fabulação serve como exemplo para intenções, vaidades e pecados humanos. Uma fábula muito conhecida é a dos órgãos do corpo humano que um dia resolveram imitar Donald Trump e determinar qual era o mais poderoso. “Sou eu”, disse o olho. “Não”, berrou a boca, debaixo da discórdia do nariz, ouvidos, estômago, mãos e pés.

Em meio à polêmica, ouviu-se a pequena voz do escondido ânus e, em seguida, a sua imediata expulsão, como a de um cidadão de última categoria. “És”, disse o nariz, “um órgão inferior e sujo; não tens nenhuma importância!”. O humilhado cu retrucou, piscando: “Vou me fechar e vocês verão o meu poder”. Após alguns dias, todos os órgãos que se achavam donos de um indiscutível poder dos fortes pediram perdão ao ânus, que voltou a funcionar, devolvendo – graças ao poder dos fracos – funcionalidade ao corpo.

Assim reza a fábula que, hoje, é literalmente replicada na estreiteza do Estreito de Ormuz – uma passagem estratégica que, se retraída, estrangula a fisiologia do mercado energético planetário. O Estreito de Ormuz ressalta que, antes de sermos países ricos e pobres isolados nos nossos egoísmos coletivos, somos e continuamos a ser, como diz a fábula, parte de um conjunto cuja funcionalidade não pode ser trocada pela selvageria da guerra, a qual nega o que temos de mais sagrado: a nossa humanidade.

Jogando com o extermínio

Segundo uma crença liberal do século passado, as guerras arrefeceriam à medida que as sociedades de mercado prevalecessem e os regimes democráticos, minimamente estáveis, perdurassem. Pois bem, o que se deu foi o contrário, três vezes o contrário.

Primeiro revertério: os regimes democráticos começaram a periclitar e agora claudicam. O relatório anual do Instituto V-Dem, o principal ranking da democracia no mundo, rebaixou os Estados Unidos (até os Estados Unidos). De “democracia liberal”, o país caiu para “democracia eleitoral”. Na terra do tio Trump (o Tio Sam foi deportado), os indicadores de liberdade apodrecem como detritos burocráticos que o caminhão de lixo se esqueceu de recolher.

Marc Chagall

Segundo revertério: o que levava o nome de “sociedade de mercado”, com a livre iniciativa e a livre concorrência dando as cartas, virou uma degenerescência. O que temos para hoje é algo entre o crony capitalism, em que os negócios se viabilizam na base do compadrio de governantes com bilionários (como na Rússia ou, hoje, nos Estados Unidos), e o “tecnofeudalismo” (termo do economista grego Yanis Varoufakis), no qual os reis das big techs comandam a vassalagem generalizada. Podemos falar também em capitalismo superindustrial, como sustenta Fernando Haddad, mas o que importa não é o nome – o que importa é que, das tais sociedades de mercado, só resta uma carcaça decorativa para salvar as aparências (o pessoal gosta de aparências).

Terceiro revertério: as guerras aumentaram em quantidade, intensidade, letalidade e abrangência. O planeta fumega, e não apenas porque o aquecimento global veio nos dar o ar de sua graça febril. O ano 2024, considerado o mais mortífero desde 1945, registrou 129 mil mortes em 61 conflitos armados envolvendo 36 países. O ano de 2026 poderá ser pior, ainda não se sabe. O que se sabe, isto sim, é que o quadro está mais fora de controle do que estava há dois anos. Já não existe um organismo internacional capaz de desarmar o belicismo. A Organização das Nações Unidas (ONU), sem dinheiro, sem autoridade e sem direção, mal se mantém de pé. Muitas vozes pedem reformas no Conselho de Segurança e em toda a entidade. Em vão.

As bestas-feras se desinibiram. Como quem comenta que precisa amarrar o sapato, Putin se declara pronto para acionar seus arsenais atômicos, orgulhoso de sua “tríade nuclear” (ogivas plantadas em três bases diferentes, devidamente engatilhadas: mísseis intercontinentais em terra, outros em submarinos soltos pelos mares e, finalmente, bombas penduradas em monstros supersônicos que cruzam os céus e os infernos a 16 mil metros de altura).

Nós nos convertemos numa civilização que joga com o próprio extermínio. A possibilidade de uma chuva de artefatos mais destrutivos do que aqueles que a Casa Branca despejou em Hiroshima e Nagasaki pode não ser grande, mas é real. A jornalista Annie Jacobsen, autora do livro Guerra nuclear: um cenário, lançado em inglês no ano passado pela Penguin, calcula que, se um desses doidos encastelados (como Putin, Trump ou Netanyahu) disparar uma ogiva carregada contra o inimigo poderá colher um contra-ataque em cadeia que, em 72 minutos, reduzirá os vivos e os mortos a geleia radioativa.

O poder está nas mãos dos mascates de explosivos, menos porque reúnam os meios para construir ou erguer coisas boas, ou mesmo belas, e mais porque detêm as ferramentas para dizimar os seres e as coisas – as feias, inclusive. Chantagistas, terroristas de Estado, eles sequestraram tudo o que respira e cobram o resgate diário em obediência. A seu favor, contam com a solicitude do capital, cujos despachantes se convenceram de que podem prescindir da maior parte dos homens e das mulheres que habitam o planeta. As chances de morticínios consentidos crescem dia a dia.

Um dos vários trabalhos de Marc Chagall expostos no Museu de Arte de Zurique, o Kunsthaus, tem o nome de A Guerra. Foi pintado entre 1964 e 1966, nos Estados Unidos. Casas devoradas pelas chamas, migrações dos desvalidos em carroças, corpos destroçados e crianças assassinadas se espalham sobre a tela. Ao centro, resplandece a cabeça gigante de um cavalo branco, com olhos de fria indiferença. Para mim, o animal evoca o apocalipse.

Em outra sala do mesmo museu, um cavalo branco parecido, mas com o olhar de fúria, domina outro quadro, este de 1897. O título é igual: A Guerra. Ali, o simbolista suíço Arnold Böcklin retratou explicitamente três dos cavaleiros do apocalipse, com feições de ódio e demência.

Consta que Chagall, em meados dos anos 60, pensava no passado: o horror da 2.ª Guerra. Parece que Böcklin, em 1897, não olhou para trás, mas para a frente: a matança que viria no século 20. Chagall viu o Holocausto no pretérito. Böcklin conseguiu antevê-lo no amanhã. Por uma janela ou por outra, as montarias do fim dos tempos assombraram os dois artistas. Hoje, desembestadas, elas mandam avisar: a aniquilação que você chancelou ontem voltará para arrancar a sua cabeça logo ali na esquina. Vai ser assim, num estalar de dedos. Dedos atômicos. Estamos num intervalo efêmero.

'Flávio' descobriu que 'Bolsonaro' é palavrão

Alexandra Moraes, nossa ombudsman, chamou a atenção (14/3) para a familiaridade com que, de repente, a imprensa passou a se referir a Flávio Bolsonaro. Assim que ungido presidenciável, o oleoso senador, portador de um sobrenome sinônimo de violência, insensibilidade e golpismo, tornou-se nas reportagens apenas "Flávio", algo assim como um afável vizinho de porta. Isso em veículos que, para manter a objetividade ou evitar repetições, costumam chamar, digamos, Camila Pitanga de "Pitanga" e Ratinho Junior de "Junior".

Os EUA tiveram Teddy Roosevelt na Casa Branca e, alguns presidentes depois, seu primo Franklin Roosevelt, e nem por isso o The New York Times reduziu o segundo Roosevelt a um coloquial Franklin. Os dois eram chamados de "Mr. Roosevelt". É verdade que não temos o hábito de tratar nossos presidentes por "Sr.", nem eles fazem por merecer, mas chamar um Bolsonaro pelo prenome é um suspeito sinal de simpatia, quase amor.

Quando Bolsonaro assumiu a presidência, em 2019, decidi quase de saída nunca chamá-lo aqui de "Presidente Jair Bolsonaro", nem mesmo de "Jair Bolsonaro" e muito menos de "Jair". Não se tratava de economizar espaço, mas de preservar a dignidade da coluna, já que Bolsonaro não preservava a dele. Com isso, até hoje, sempre o chamei apenas de "Bolsonaro", o que pode ser checado por qualquer leitor. Outra decisão foi a de não aderir ao meigo tratamento dado por alguns aos filhos —Carlos Bolsonaro, de "Carlucho", e Eduardo Bolsonaro, de "Bananinha". E, por respeito ao número zero, evitei chamá-los de "Zero Dois" ou "Zero Três".

O que "Flávio" precisa ser chamado é a responder pelas "rachadinhas", a compra de mansões com dinheiro vivo, a lavanderia nos fundos da loja de chocolate, a intimidade com milicianos, as informações privilegiadas para garantir impunidade judicial e, surpresa, o possível envolvimento em esquemas do INSS com operações de entidades fantasmas.

"Flávio", com razão, não quer ser chamado de Bolsonaro. Descobriu que agora é um palavrão.

Flávio Bolsonaro segue os passos do pai e planta sementes da desconfiança eleitoral

Para os que ainda têm fé no bolsonarismo moderado, é recomendável assistir ao discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, na Cpac, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos.

No fim de semana, em Dallas (Texas), Flávio seguiu à risca a cartilha do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), disseminando teorias conspiratórias, colocando em xeque a lisura do processo eleitoral brasileiro e vestindo a roupagem do populismo autoritário e antissistema que assola democracias ao redor do mundo.

O discurso contrasta com a imagem de moderação que a pré-campanha do senador tenta construir, em busca do eleitorado independente que será o fiel da balança de uma acirrada disputa eleitoral contra o presidente Lula (PT).


Aos conservadores do Maga ("Make America Great Again", movimento liderado pelo presidente Donald Trump), Flávio Bolsonaro fez um apelo por "pressão diplomática" para garantir eleições livres e justas no Brasil.

"Meu apelo não só à América, mas a todo o mundo livre, é esse: observem as eleições do Brasil com enorme atenção, aprendam sobre e entendam nosso processo eleitoral, monitorem a liberdade de expressão do nosso povo, e apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente", afirmou.

Em sua fala, Flávio disse estar certo da vitória e, assim como o pai e líderes de linhagem populista, como o ditador Nicolás Maduro, que tanto critica, lançou mão do pronome possessivo para se referir ao eleitorado. "Vou vencer porque é a vontade do meu povo", afirmou.

O senador, porém, fez um alerta: para que essa vontade seja preservada, é preciso haver "eleições livres e justas". Isso, segundo ele, é "um grande desafio" e só acontecerá "se nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e os votos forem contados corretamente".

Nos meses anteriores às eleições de 2018, quando enfrentou Fernando Haddad (PT), Bolsonaro afirmou que "a grande preocupação" não era perder no voto, mas sim "perder na fraude". "Isso só pode acontecer por fraude, não por voto, estou convencido", afirmou em transmissão ao vivo nas redes sociais em outubro.

Em seu discurso na Cpac, antes do apelo ao "mundo livre", Flávio ofereceu um meio e um fim para convencer os trumpistas da necessidade de se envolver com os assuntos eleitorais brasileiros.

Primeiro, o meio. Por cinco vezes, mencionou os cartéis de droga do Brasil, afirmando que os grupos criminosos exportam armas e drogas para os Estados Unidos. As acusações de "narcoterrorismo" têm sido utilizadas pelo governo Trump como fundamento para a intervenção americana em outros países, como ocorreu com a destituição de Maduro do poder na Venezuela.

Segundo, o fim. Flávio vendeu a imagem do Brasil como o "campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido", essencial para quebrar a dependência dos EUA das exportações chinesas de minerais críticos. Assim, o senador posicionou o país como um potencial fornecedor de terras raras —grupo de elementos químicos usados em produtos de alta tecnologia e na energia limpa.

"A América precisa de cadeias de suprimento seguras para materiais críticos, um parceiro confiável no hemisfério e um mercado massivo para bens e serviços americanos."

O filho de Jair Bolsonaro se inseriu, com esse discurso, no ecossistema da direita radical global, replicando a teoria conspiratória de que o ex-presidente americano Joe Biden teria financiado a eleição de Lula em 2022. Flávio repetiu por quatro vezes essa acusação sem provas.

Como mostrou a Folha, essa teoria nasceu no início do ano passado, a partir de uma conversa de vídeo gravada entre o ideólogo Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump, e Mike Benz, que se apresentava no X como ex-funcionário do Departamento de Estado e diretor de uma ONG contra a censura.

Nessa gravação, Benz afirmou que a Usaid, uma agência federal posteriormente dissolvida por Trump, havia trabalhado pela eleição de Lula, financiando projetos de combate à desinformação e advogados que teriam atuado junto ao TSE para reprimir conteúdos de Bolsonaro no WhatsApp.

A narrativa foi rapidamente alardeada como um grande escândalo pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que costuma fazer a ponte entre as direitas bolsonarista e trumpista, e que mais uma vez discursou na Cpac.

Em sua fala, Flávio também aludiu a narrativas e termos abraçados pela direita radical americana e europeia, como quando afirmou que lutará contra a "agenda woke" (em referência aos grupos que militam pela redução das disparidades sociais, raciais e de gênero), contra a "agenda ambiental radical" e contra "os interesses da elite global".

O senador fez ainda uma promessa que revela sua descrença em relação à acelerada erosão democrática com a concentração de poderes na Presidência no segundo mandato de Trump, em meio a ataques às agências federais, às universidades, ao Judiciário e à imprensa.

"Trump 2.0 está sendo muito melhor que Trump 1.0, certo? Bolsonaro 2.0 também será muito melhor."