terça-feira, 28 de abril de 2026
Fascismo, nunca mais! Olá neofascismo!
Ao contrário do fascismo clássico, que se afirmava de forma declarada, mobilizando massas em torno de símbolos e lideranças carismáticas, o neofascismo contemporâneo prefere a ambiguidade. Não se assume como tal. Pelo contrário, infiltra-se nos discursos democráticos, apropria-se da linguagem da soberania popular e apresenta-se como resposta legítima a crises reais — económicas, culturais ou identitárias. É precisamente nesta capacidade de disfarce que reside a sua força.
A referência a uma “alma russa” não deve ser entendida de forma simplista ou nacionalista, mas antes como metáfora de um modelo político que privilegia o controlo do Estado sobre a sociedade, a manipulação da informação e a projeção de poder através de meios não convencionais. Trata-se de um paradigma onde a verdade se torna relativa, onde a realidade pode ser moldada e onde a política se transforma num campo de operações híbridas — simultaneamente internas e externas.
E é aqui que entra o elemento central desta nova ideologia: a tecnologia. As plataformas digitais, os algoritmos e os sistemas de recomendação não são neutros. São infraestruturas que podem ser instrumentalizadas para amplificar discursos extremistas, criar bolhas de perceção e fragmentar o espaço público. O neofascismo compreendeu isso melhor do que muitos defensores da democracia. Em vez de censurar diretamente, como no passado, manipula fluxos de informação, promove desinformação e explora emoções como o medo, a indignação e a sensação de perda.
A tecnologia permite também uma vigilância difusa, muitas vezes invisível, que dispensa os mecanismos repressivos tradicionais. O controlo não precisa de ser explícito quando pode ser internalizado. A opinião pública é moldada não pela imposição, mas pela repetição, pela saturação e pela construção de narrativas aparentemente espontâneas.
Importa, contudo, evitar simplificações. Este fenómeno não nasce apenas de estratégias deliberadas de poder; ele alimenta-se de fragilidades estruturais das sociedades contemporâneas. Desigualdades persistentes, desconfiança nas instituições e crises de representação criam o terreno ideal para que estas ideias prosperem. O neofascismo não impõe apenas uma visão — ele oferece respostas fáceis para problemas complexos, ainda que essas respostas sejam, no limite, profundamente excludentes e perigosas.
Dizer que o neofascismo é o fascismo com nova roupagem é correto, mas incompleto. Ele é mais do que isso: é um sistema adaptativo, que aprende, evolui e se reinventa. Um sistema que já não precisa de marchas ou uniformes para se afirmar, porque encontrou na tecnologia e na manipulação da informação os seus novos pilares.
Se há lição a retirar, é que o combate a este fenómeno não pode ser feito apenas com memória histórica ou indignação moral. Exige compreensão profunda, capacidade crítica e, sobretudo, a reconstrução de confiança nas instituições democráticas. Porque o maior risco do neofascismo não é a sua visibilidade — é precisamente a sua capacidade de parecer normal.
'Voto não tem preço, tem consequência'
Mas, para ser justa, antes de seguir com meu raciocínio, preciso fazer uma observação: não é possível esquecer que, na atualidade, há segmentos neopentecostais que prestam um desserviço à liberdade religiosa ao demonizar as religiões de matriz africana (e seus fiéis), fomentando atitudes e práticas racistas e preconceituosas.
Dito isso, é gratificante saber que a "Mensagem ao Povo Brasileiro" —redigida ao final da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) (de 15 a 24/04) em Aparecida, SP— faz referência à decisão da ONU classificando o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave já cometido contra a humanidade.
Os bispos reconheceram formalmente que "o Brasil ainda não enfrentou corajosamente o racismo, e a nossa história tem uma dívida que exige reparação". Concordo e aproveito para indagar: Qual papel as igrejas estão dispostas a desempenhar nessa luta por reparação?
Em ano eleitoral, é fundamental combater o aliciamento e a compra de votos. Como diz o documento da CNBB, "o voto não tem preço, tem consequência". Coisa que torna primordial a escolha de candidatos com propostas concretas a serviço dos mais vulneráveis, da justiça socioambiental e da vida.
Diante da disseminação organizada da desinformação, da manipulação do medo, dos discursos de ódio impulsionados pelas novas tecnologias, é imperioso proteger a verdade, a integridade do debate público e a legitimidade do processo eleitoral. Religião não deve servir para instrumentalização eleitoreira. Afinal, voto não tem preço, tem consequência.
Cansamo-nos de pensar
Caímos então naquele estado de inércia em que o mais que queremos é compreender bem o que é exposto – uma atitude estética, pois que queremos compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou não verdadeiro, sem que vejamos mais no que compreendemos senão a forma exacta como foi exposto, a posição de beleza racional que tem para nós.
Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso.
Fernando Pessoa
Hiperconectados em tempos de solidão
Mais do que um fenómeno social a solidão, que ultrapassa largamente o simples isolamento físico, é uma questão de saúde pública como reconhece a Organização Mundial de Saúde. Falamos de uma experiência muito subjetiva, porém frequentemente marcada por sentimentos de vazio, ansiedade e desconexão emocional que pode ocorrer mesmo na presença de outras pessoas. Estar acompanhado não é de todo suficiente, é preciso estar-se ligado. Vivemos rodeados de redes sociais, notificações e interações digitais, contudo a generalidade destas interações é superficial, fragmentada e emocionalmente empobrecida. Ainda que a tecnologia ofereça, indiscutivelmente, inúmeras vantagens, não substitui a profundidade emocional de uma conversa presencial, de um gesto ou de um momento partilhado.
O problema torna-se ainda mais relevante quando percebemos que a redução de interações sociais está também associada às mudanças estruturais que a vida contemporânea acarreta. Envelhecimento da população, sem redes de apoio e cuidado próximas, digitalização das relações sociais, ritmos de trabalho intensos e a fragilidade nos laços comunitários são alguns elementos de uma conjuntura que se agrava em momentos de transição, como a reforma, onde os contactos interpessoais podem diminuir drasticamente. Em Portugal, uma em cada dez pessoas diz sentir-se sozinha, sendo a solidão um fator de risco significativo para a saúde como aponta, de forma clara, a evidência científica. A ligação social é um determinante essencial do bem-estar. As relações sociais de qualidade influenciam, de forma direta, a saúde física e mental e funcionam como fator protetor contra o stress e a depressão diminuindo o risco de doenças físicas e cognitivas. Somos, por natureza, seres relacionais que necessitam de pertença, reconhecimento e vínculos significativos e quando estas relações falham o impacto é integral, sistémico. A qualidade das nossas relações interpessoais é um dos pilares do equilíbrio necessário entre bem-estar físico, emocional e social. Desta forma, desenvolver competências como empatia, assertividade ou escuta ativa é, mais do que nunca, fundamental para estabelecer e manter relações significativas. São estas competências, verdadeiras ferramentas de sobrevivência emocional, que nos permitem transformar mera interação em real conexão.
A solidão, sendo um dos grandes desafios do nosso tempo, é um espelho de uma sociedade em transformação e, por isso, a resposta não pode ser apenas individual. Projetos comunitários, iniciativas de convívio intergeracional, espaços acessíveis de convivência social e atividades culturais assim como melhoria de condições económicas ou políticas de trabalho protetoras de uma saúde integral são responsabilidades coletivas tal como assinala também o estudo do ISCTE.
Combater a solidão exige por isso uma abordagem multifatorial aliando políticas públicas, educação e cultura na promoção da literacia emocional, das relações de qualidade bem como na criação de oportunidades de interação, passos essenciais para o desenvolvimento de uma sociedade mais saudável e de um capital social robusto.
É chegado o momento em que é necessário reaprender a estar com os outros e questionarmos os nossos hábitos, repensando espaços e ritmos de vida. É preciso investir tempo, presença e interação, recursos cada vez mais escassos, nas relações de qualidade, nos vínculos.
Em plena era da hiperconectividade, impõe-se resgatar a conexão humana. O desafio passa por continuar a confundir proximidade digital com presença real ou reafirmar o valor do encontro genuíno, da capacidade de estar plenamente com o outro e da construção de vínculos que sustentem o equilíbrio e o bem-estar, reconhecendo que não há saúde plena sem relações que a sustentem.
Elementos da escalada fascista nos EUA
Apesar de não muito celebrada por sua base de fãs, a trilogia prequel de Star Wars (Guerra nas Estrelas), dos anos 2000, serviu para contar como uma república democrática degringolou para um regime totalitário. Ademais, em série mais recente do universo expandido, Andor, mostra-se como o regime consolidou o fascismo na galáxia. De maneira semelhante, a situação política atual dos EUA imita a arte em cinco elementos centrais.
O primeiro deles é o elemento mais marcante do fascismo dos anos 1920 e 1930: a enorme capacidade de mobilização popular, muitas vezes, de maneira truculenta. Esta mobilização popular era dirigida por grupos e milícias armadas que buscavam subverter as instituições do Estado de baixo para cima e de dentro para fora. Os exemplos claros são os camisas negras na Itália dos anos 1920 e os camisas pardas na Alemanha dos anos 1920 e 1930. Nos EUA, este elemento está representado no ICE (Serviços de Imigração e Aduana), uma agência de aplicação da lei de imigração que, com Trump, flexibilizou a admissão e quantidade de novos agentes. Segundo propaganda do próprio presidente, em 47 dias é possível se inscrever, ser treinado e partir para ações policiais. De janeiro de 2025 a janeiro de 2026, 12 mil novos agentes foram admitidos, um recorde para uma agência de segurança interna dos EUA.
O ICE, neste último ano, não responde à administração pública, mas diretamente ao presidente Trump. Esta é a característica central do fascismo: cidadãos comuns agem de maneira inconsequente em nome do Estado se estiverem vestindo as insígnias do partido e aplicando a ideologia do líder. Se no passado os camisas negras eram liberados da lei quando perseguiam e espancavam comunistas, atualmente, agentes do ICE deportam imigrantes sem o devido processo legal e espancam quem estiver no caminho. De maneira semelhante, na série Andor, o Império se utilizou de milícias locais para perseguir cidadãos e exterminar populações.
Ademais a esta característica central, outras quatro se somam para caracterizar a singularidade do fascismo: o primado do partido, o primado da nação, o primado do Estado e o primado do chefe. Estes quatro elementos, cada vez mais, se consolidam na política e em camadas da sociedade americana dos últimos meses. Pelo aspecto do partido, não é possível argumentar que os EUA estejam vivendo um sistema unipartidário sob a égide dos Republicanos, mas, ao que parece, os EUA caminham para viver uma nova “Era dos Bons Sentimentos” ou um novo sistema partidário no qual o oponente esteja muito enfraquecido. Trump venceu as eleições de 2024 praticamente por WO, e o partido Democrata vive uma profunda crise de identidade. É difícil de dizer se os Democratas terão o mesmo destino que os Federalistas em 1815, mas seu apagamento na esfera nacional é sensível, fato que abre espaço para uma hegemonia dos Republicanos.
Este é um aspecto interessante do fascismo, porque, embora não seja democrático, não elimina a participação política. Aqueles que desejam participar do debate público devem se inscrever nas fileiras do partido e debater a política dentro do partido. De maneira semelhante, o Império de Star Wars transparecia ares de democracia ao permitir o funcionamento do Senado, mas, mantinha a alta política concentrada entre militares e o Imperador.
Pelo aspecto da nação, Trump instrumentaliza uma nova onda de supremacismo WASP (branco, anglo-saxão e protestante, na sigla em inglês), recuperando a imagem de uma América pré-Guerra Civil, emulando uma época, supostamente, sem divisões entre Norte e Sul, sem traumas e máculas. Neste nacionalismo, antigos símbolos desta era são resgatados: a Era dos Bons Sentimentos, a Doutrina Monroe e a Democracia Jacksoniana se destacam. Novamente, pegando de empréstimo a alegoria de Star Wars, na série Andor, o nacionalismo exacerbado do Império aparece na forma de culto à ordem e à estabilidade, misticismo e unidade orgânica, elementos igualmente presentes no nacionalismo americano.
Pelo aspecto do Estado, é inegável que o individualismo e a livre-iniciativa ainda estão arraigados no DNA americano, mas já há episódios que mostraram a força de Trump em aumentar a presença da União tanto na economia quanto na federação. Pelo lado da economia, em agosto de 2025, Trump firmou um acordo para adquirir uma participação de cerca de 10% na Intel, uma das gigantes de microchips, para impedir que empresas chinesas aumentassem sua participação na empresa. Pelo lado da política, a autonomia de estados (democratas) está sendo cerceada para garantir o trabalho inconsequente de agentes do ICE. Novamente, observando a realidade administrativa do Império, em Andor, há elementos de hipertrofia burocrática e eficiência desumana que levam a uma banalidade do mal típica do fascismo, elementos que, também, vicejam na burocracia atual dos EUA.
Finalmente, o primado do chefe é o aspecto mais gritante na escalada fascista dos EUA: o culto à personalidade de Trump. Mudança de nomes de prédios públicos, criptomoedas, propagandas feitas por Inteligência Artificial, desfiles militares, fantasias, NFTs etc., tudo que Trump pode incluir seu nome e imagem ele o faz prontamente. Ironicamente, em 04 de maio de 2025, dia de Star Wars, Trump postou imagem de IA mostrando uma versão sua musculosa, com vestes escuras, empunhando um sabre de luz vermelho, justamente, a imagem dos Siths, vilões do universo de Star Wars. A metáfora de Star Wars, mais do que um recurso útil à análise, faz parte do imaginário cultural e político dos EUA mesmo em tempos de fascismo ascendente.
Contudo, o fenômeno do fascismo não é apenas a existência de um partido antissistema e de elementos disruptivos, mas, sobretudo, trata-se de um fenômeno político e social que, quando irrompe, normalmente se apresenta em três cenários de resolução: (i) a vitória fascista e a morte da democracia por dentro, (ii) a guerra civil ou (iii) o autogolpe preventivo e autoritário. Estes cenários não passam de possibilidades, uma vez que Trump ainda não cruzou esse horizonte de eventos: o mês de novembro é o rio Rubicão de Donald Trump, quando ocorrerão as eleições de meio de mandato para o legislativo dos EUA, as midterms. A previsão é de que Trump perca espaço nas câmaras legislativas, e seu abuso de poder seja freado.
Entretanto, agora que Trump tem à sua disposição um contingente policial que obedece a seu comando (o ICE), não se sabe como isso pode ser usado para intimidar a política eleitoral americana. Não obstante, Trump pode usar a justificativa da guerra no Oriente Médio para ampliar poderes do executivo e limitar o legislativo, à semelhança de Palpatine nas guerras clônicas. Se algum dos dois cenários se concretizar, estaremos diante de um cenário de vitória fascista. Resta saber se, após isso, reescreverão as histórias de Star Wars mostrando o Império como moralmente justo e de caráter ilibado.
sábado, 25 de abril de 2026
Os novos templários
O embate com o papa Leão XIV, portanto, era apenas questão de tempo. Quando o pontífice assumiu a defesa de uma posição cristã contrária às guerras, a Casa Branca decidiu que era hora de iniciar uma ofensiva contra o Vaticano. O que estava em jogo não era apenas uma disputa de versões. Ver o chefe da Igreja denunciar o uso do nome de Deus para justificar a guerra foi considerado um obstáculo às ambições dos Estados Unidos.
Polêmicas não são novidade na vida do secretário de Trump. Em 2015, num episódio que se tornou público, um Hegseth embriagado em um bar de Ohio causou constrangimento ao cantar de forma descontrolada “morte aos muçulmanos”. Mesmo sem o efeito do álcool, ele nunca escondeu quem era. Ao longo dos últimos anos, defendeu uma “guerra santa de 360 graus” para exorcizar “o espectro esquerdista que domina a educação, a religião e a cultura”.
Para justificar a derrota das tropas norte-americanas no Afeganistão, Hegseth alegou que “o fanatismo foi uma vantagem para eles (milícias do Talebã) que mal levamos em consideração”. Em um de seus livros, de 2016, o secretário relembrou como se sentiu ao ver uma imagem online de um combatente do Estado Islâmico com o Alcorão em uma mão e um AK-47 na outra. “Com Deus ao seu lado e o vento a seu favor, ele é um guerreiro conquistador”, escreveu. “Ele está lutando por algo maior do que ele mesmo. Ele está lutando por seu Deus.” Em seguida, veio o apelo por uma postura parecida entre os cristãos. “Reconheço esse combatente, mesmo sem nunca o ter conhecido. Sinto-me atraído por ele porque me identifico com ele”, prosseguiu. “Deploro o que ele representa, o que ele faz e como o faz. Ele é um soldado do ódio, da subjugação e da pura maldade. Mas compreendo suas paixões.”
Quatro anos depois, Hegseth publicaria outro livro com um título ainda mais escancarado sobre suas intenções: A Cruzada Americana. Nele, vê os Estados Unidos em uma luta travada por cristãos brancos conservadores em nome de Deus. “Nosso momento atual é muito parecido com o século XI. Não queremos lutar, mas, como nossos irmãos cristãos há mil anos, devemos”, afirmou, numa referência às cruzadas. O livro conclui: “Juntos, com a ajuda de Deus, salvaremos a América”.
Grande parte da “inspiração” para as declarações e pensamento do senhor da guerra nos EUA vem do pastor Doug Wilson, do estado de Idaho. Ultraconservador, Wilson coleciona polêmicas e suas opiniões são extremas, mesmo para a direita cristã. Defensor do “patriarcado bíblico”, o pastor sugere que esposas se submetam aos maridos, que os pais imponham disciplina “dolorosa” aos filhos e que os meninos aprendam a “teologia da luta corporal”. Afirma ainda que a escravidão era uma “instituição americana benéfica” e se descreveu como filosoficamente “em dívida” com Robert Dabney, o capelão militar do general confederado Stonewall Jackson, personagem que defendeu a escravidão e que difundia abertamente a tese da supremacia branca.
O mentor de Hegseth causou, em 2025, um profundo mal-estar quando sugeriu que o direito ao voto para as mulheres deveria “ser repensado”. Outro aspecto polêmico de seu pensamento refere-se aos alvos militares legítimos. Wilson acredita na existência de uma batalha religiosa a ser travada no mundo e que, se necessário, mulheres e crianças devem ser sacrificadas. Na congregação fundada pelo pastor e da qual faz parte o chefe do Pentágono, há um sistema de tribunais eclesiásticos que aplica punições por heresia.
As ideias de Hegseth, conhecidas desde que assumiu o cargo, em janeiro de 2025, ganharam espaço e passaram a ser expostas de maneira mais escancarada ao longo dos últimos meses. A chancela da Casa Branca ao movimento ultraconservador permitiu que essas ideias prosperassem. Nos primeiros dias de governo, Trump assinou uma ordem executiva de criação de uma força-tarefa na procuradoria-geral para investigar “ataques” na sociedade norte-americana dirigidos a cristãos. Também determinou a “erradicação” de qualquer “tendência anticristã” nas agências federais. O republicano criou ainda um Escritório de Fé da Casa Branca, liderado pela reverenda Paula White, apresentada como “conselheira religiosa” do presidente e “tele-evangelista”. Polêmica, White chegou a sugerir que “confederações demoníacas” roubaram e eleição de 2020 na qual Trump foi derrotado. No seu currículo, acumula a acusação de ter vendido orações aos fiéis.
O tom messiânico do governo logo se transformou em política. Uma das decisões foi adotar um novo estilo de propaganda. Para ampliar o recrutamento de jovens, Hegseth ordenou o uso de imagens religiosas nas campanhas. Num vídeo publicado nas redes sociais, o Pentágono anunciava: “Somos uma nação sob Deus”. Nas imagens, com paraquedistas a saltar de um avião e soldados com fuzis de assalto em punho, o Salmo 18:37 era exibido na tela. “Persegui os meus inimigos e os alcancei; não virei as costas até que eles fossem destruídos”, diz o versículo.
A situação ficou ainda mais problemática quando, em janeiro de 2026, os funcionários do Pentágono receberam um e-mail no qual eram convocados a participar de uma oração, marcada para dias depois. O texto dizia tratar-se de uma atividade voluntária, mas os comandantes teriam registrado a participação (ou não) de cada um de seus soldados. Hegseth realizava os cultos uma vez por mês. Mas, desde janeiro, o convite estendeu-se a todos os servidores e para os integrantes de empresas que fornecem equipamentos ao Pentágono, entre elas a Boeing. Detalhe: 30% dos militares norte-americanos são agnósticos ou professam outra fé.
Em fevereiro deste ano, o secretário convidou para uma visita à sede do Pentágono seu próprio mentor, o pastor Wilson. Em um discurso de 15 minutos, o evangélico descreveu o evento no quartel-general militar dos Estados Unidos como o potencial início de uma transformação nacional. A partir daquele momento, o país seria levado para as asas da proteção de Deus. Wilson voltou a repetir aos soldados a tese da guerra religiosa. “Se você carrega o nome de Jesus Cristo, não há armadura maior do que essa”, pregou. “As equipes de pesquisa e desenvolvimento do diabo não conseguirão criar nada capaz de penetrar essa armadura.” Mais:
“O que estamos pedindo em oração, pelo que estamos trabalhando, o que estamos buscando, o que ansiamos é por um avivamento raro e imprevisível, uma reforma rara e imprevisível. Muitas coisas mais estranhas já aconteceram. Deus é grande”.
“Juntos, com a ajuda de Deus, salvaremos a América”, escreveu o secretário Hegseth
Em compasso com a chegada dos ultraconservadores ao poder, o governo promoveu um expurgo. Dias antes do Natal de 2025, Hegseth demitiu ou afastou os religiosos que serviam de conselheiros e atendiam os militares na instituição. O argumento era de que os conselheiros adotavam “posturas seculares” no diálogo com os soldados. Nos batalhões, o governo impôs novos critérios que podem simplesmente excluir centenas de mulheres do serviço militar.
Segundo os críticos, o governo Trump avança para impor o nacionalismo cristão fundamentalista como base de valores em uma instituição que, de mãos dadas com a política externa, derruba governos e instaura seus próprios aliados pelo mundo. Ter essa posição permeada por um grupo que se alinha a supremacistas brancos tem deixado diplomatas e observadores alarmados.
Em 5 de fevereiro, Hegseth evocou, em um discurso, Urbano II, o papa que lançou as Cruzadas em 1095 com a promessa de que aqueles que lutassem receberiam a remissão de todos os pecados.
“A disposição para fazer sacrifícios em nome de seu país nasce de uma coisa, uma crença profunda e inabalável no amor de Deus por nós e em sua promessa de vida eterna”, defendeu Hegseth. “O guerreiro que estiver disposto a dar a vida por sua unidade, seu país e seu Criador, esse guerreiro encontrará a vida eterna.”
Durante a guerra no Irã, à medida que os objetivos militares se tornaram pouco claros e o governo passou a enfrentar dificuldades para explicar os motivos que o levaram a atacar o país do Oriente Médio, Hegseth e Trump passaram a justificar a operação com “argumentos bíblicos”, alguns deles constrangedores, como a citação pelo secretário de Guerra de um trecho bíblico falso declamado pelo matador de aluguel interpretado por Samuel L. Jackson no filme Pulp Fiction. O secretário, vê-se, é um devoto que não conhece as Escrituras.
Não se trata apenas de uma cortina de fumaça para esconder um fracasso. Trump, Hegseth e outros radicais se imaginam, de fato, em uma cruzada. São os novos templários.
Jamil Chade
Pesquisas e a experiencia da vida como ela é
Enquanto isso o eleitor médio comum toca a vida. Enfrenta a carestia no supermercado, encara a fila na unidade de saúde, pega o carro, o ônibus ou metrô para chegar ao trabalho, leva os filhos na escola, pensa em como melhorar a vida.
É mentira que as pessoas não se preocupem com política. Podem estar desanimadas ou sem esperança, mas sabem, de forma clara ou intuitiva, que as escolhas políticas repercutem em sua vida individual e familiar. No entanto, a maioria absoluta não tem militância ativa, não participa de partidos, não integra bolhas ideológicas. Não tem a ansiedade característica do metiê político. Guardam-se para a hora certa.
O governador mineiro Hélio Garcia respondia aos ansiosos que “eleição só depois da parada”. Se referia ao desfile de Sete de Setembro. Não precisamos chegar a tanto. Nesta época, a eleição em turno único era em novembro e não existia o frenesi das redes sociais e da internet. A última pesquisa Genial/Quaest mostrou que 62% dos eleitores, coisa de 96 milhões de brasileiros, não têm ainda candidato à presidente. O que importa agora são questões qualitativas sobre o que está movendo a vida e a opinião das pessoas. O grau de conhecimento não é homogêneo, o debate ainda não começou e o voto induzido é cheio de artificialidade. Melhor seguir o mestre Didi: “treino é treino, jogo é jogo”. A história das eleições é pródiga em provar uma coisa óbvia: campanha é feita para mudar realidades pré-estabelecidas supostamente imutáveis. Nos meus 44 anos de militância assisti muitas viradas espetaculares e vitórias improváveis.
Collor era um ilustre governador alagoano desconhecido, pegou a onda certa da opinião pública, atropelou toda a elite política brasileira, de A a Z, e venceu. Eduardo Azeredo, em 1994, fez uma virada sensacional em cima de Hélio Costa, dado como virtual governador pelos analistas. Em 2008, participei de duas vitórias improváveis. Márcio Lacerda era empresário desconhecido, começou com 3%. Com uma semana de TV, foi a 41% e se tornou prefeito de BH, porque estava sintonizado com o sentimento das pessoas e tinha os apoios certos. Já Custódio Mattos chegou em segundo lugar no primeiro turno com 27% dos votos, em Juiz de Fora, contra os 41% de votos da candidata do PT, Margarida Salomão. Tornou-se prefeito da cidade ganhando de 45% a 42% dos votos totais. Romeu Zema entrou no debate da GLOBO, na terça-feira à noite, desconhecido e com apenas 5% das intenções de voto, havia 35% de indecisos e o ambiente disruptivo antissistema, típico de 2018. Em apenas 5 dias alcançou 41%. Depois, venceu o segundo turno, ainda sem ser conhecido.
Casos como esses existem às centenas. Tudo pode acontecer, inclusive nada. As polarizações iniciais podem se confirmar. Mas antes de cravar um prognóstico, melhor pensar: “devagar com o andor, que o santo é de barro” e “paciência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém”.
'Tecnofascismo':ccausa polêmica com manifesto
No último fim de semana, a Palantir publicou um resumo do livro de Karp, intitulado "22 teses", em sua conta corporativa oficial no Twitter. A publicação assemelha-se a um manifesto político da empresa e gerou considerável debate entre entusiastas de tecnologia e política.
Com essas teses, a Palantir se posiciona como um ator-chave na interseção entre tecnologia e política de segurança. De modo geral, as teses podem ser divididas em diversas áreas: Geopolítica e política de segurança: “A era nuclear está chegando ao fim”, afirma ele, por exemplo; a dissuasão não será mais alcançada por meio de armas nucleares, mas por meio de sistemas de inteligência artificial ( IA ). E ele é ainda mais explícito: “A questão não é se armas de IA serão construídas, mas quem as construirá e com que propósito”. Os adversários não se perderão em debates teatrais, mas seguirão em frente. Em outro trecho, Palantir postula a necessidade de instrumentos de poder “duros” apoiados por software: “Os limites do soft power e da retórica grandiloquente foram revelados”. Além disso, o poder americano possibilitou um período de paz extraordinariamente longo. Em alguns momentos, o manifesto se torna politicamente muito específico: “A castração da Alemanha e do Japão no pós-guerra deve ser revertida”. A Europa, que permanece fracamente armada até hoje, está pagando um preço alto pelo desarmamento alemão após a Segunda Guerra Mundial . E se a “devoção altamente teatral ao pacifismo japonês ” continuar, uma mudança de poder na Ásia é iminente.
A relação entre sociedade e política: a Palantir argumenta que, no discurso atual, é "proibido" discutir as diversas histórias de sucesso de várias "culturas". Além disso, os Estados Unidos devem resistir à tentação do "pluralismo vazio e superficial". Ambos os pontos se alinham com a ideologia MAGA associada ao presidente americano Donald Trump e seu círculo. No entanto, a Palantir evita bajular descaradamente Trump, como fazem alguns setores do Vale do Silício . "A psicologização da política moderna nos desvia do caminho", afirma a empresa. Buscar satisfação nos políticos só leva à decepção. Da mesma forma, a empresa defende a reflexão sobre o triunfo sobre os inimigos, em vez da celebração imediata.
O papel da indústria tecnológica: A relação entre as empresas de tecnologia e o governo dos EUA é um tema recorrente: "O Vale do Silício tem uma dívida moral com o país que fomentou seu crescimento" é um dos argumentos centrais. A Palantir defende que se vá além dos aplicativos e que a economia tecnológica continue a gerar crescimento e segurança. "O Vale do Silício deve desempenhar um papel na luta contra o crime violento", afirma a empresa, que vende seus produtos para agências de segurança pública em todo o mundo.
O que pensam os críticos sobre o manifesto político da Palantir?
O economista grego e ex-ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, compartilhou a publicação original com o comentário: "Se o mal pudesse usar o Twitter, este seria o conteúdo!"
O pesquisador holandês Cas Mudde, especialista em populismo, interpretou o manifesto da Palantir como um apelo por um mundo dominado por Estados Unidos autoritários e controlado por empresas de vigilância tecnológica: "Puro tecnofascismo!", declarou. Em sua opinião, o manifesto desqualifica a Palantir "como parceira comercial de qualquer outro país", escreveu Mudde no LinkedIn. A Europa não deveria apenas interromper toda nova cooperação, mas também encerrar todos os investimentos "nesta empresa tecnofascista".
O blogueiro britânico e fundador da plataforma de pesquisa Bellingcat, Eliot Higgins, comentou ironicamente sobre as questões sociopolíticas do debate cultural e do pluralismo, afirmando ser "perfeitamente normal e aceitável" que empresas publiquem declarações desse tipo.
O nome Palantir vem do épico romance de fantasia de J.R.R. Tolkien, "O Senhor dos Anéis". Nele aparecem as chamadas "pedras videntes", poderosas ferramentas de comunicação em posse de vilões que desejam subjugar os povos livres da Terra-média.
O co-fundador e principal investidor é Peter Thiel, cujo apoio também é considerado crucial para a ascensão política de Donald Trump. Thiel nasceu em Frankfurt, na Alemanha, cidade onde Alex Karp também viveu por alguns anos.
A Palantir anuncia em seu site um software que supostamente facilita a tomada de decisões em tempo real em governos e empresas, "das fábricas à linha de frente".
Muitas agências governamentais dos EUA utilizam o Palantir. O programa Vantage, por exemplo, foi desenvolvido especificamente como um sistema operacional para as forças armadas americanas. Na guerra contra o Irã, o software de aquisição de alvos baseado em inteligência artificial, Maven, forneceu dados para inúmeros ataques aéreos.
A plataforma de análise de dados Foundry é utilizada por autoridades nos EUA, bem como na Europa, para diversos fins. Os Países Baixos e a Grécia utilizaram o serviço para rastrear a propagação do coronavírus .
Talvez a aplicação mais conhecida da Palantir seja o Gotham, usado por agências de segurança pública para coletar rapidamente informações sobre indivíduos a partir de fontes públicas e privadas. Agências americanas como a CIA e o ICE são clientes importantes, assim como organizações de segurança europeias.
Diversas forças policiais nos estados federais alemães também utilizam versões modificadas do Palantir, incluindo as de Hesse e Baviera. Na Renânia do Norte-Vestfália, um contrato plurianual expira em outubro; esse estado lançou uma nova licitação para software de investigação, na qual a Palantir e seus concorrentes podem participar.
Na Alemanha, o governo federal planeja introduzir uma legislação que permitiria que softwares analisassem grandes quantidades de gravações disponíveis publicamente, como vozes e rostos em postagens de redes sociais, e criassem perfis biométricos a partir delas. Isso facilitaria investigações por parte de agências de aplicação da lei que utilizam o Palantir ou aplicativos concorrentes. No entanto, críticos argumentam que isso representaria um passo em direção a um estado de vigilância.
Era só em 25 de abril de 1974?
Havia fome, havia miséria, havia crianças descalças a andarem quilómetros para chegar à escola, havia humilhações constantes para os mais pobres, destituídos de qualquer direito, merecedores apenas das migalhas inconstantes da caridade, pelas quais deviam mostrar-se agradecidos. E havia os que iam fazendo pela vida. Os que mantinham um certo estatuto social, fazendo da conivência com os poderes uma alavanca social, aproveitando a pobreza dos outros para ter criados que de outra forma não teriam como pagar. Havia ainda, menos numerosos e visíveis, os incrivelmente ricos. Umas quantas famílias a quem o velho ditador que morreu pobre garantiu a riqueza, através de monopólios e rendas, oleando com essas trocas de favor uma máquina do Estado profundamente corrupta, que se fazia de pequenos e grandes favores, cunhas, pedidos, atenções.
Margarida Davim
A Tirania do Polegar: quando o silêncio se disfarça de resposta
O polegar não responde: despacha. Não dialoga: encerra. É a versão digital de um silêncio que se quer educado, mas que, na verdade, comunica desinteresse. Quem o recebe sente‑o como uma tradução sumária do que acabou de acontecer: horas de pensamento, cuidado, nuance ou vulnerabilidade devolvidas com um símbolo que cabe num pixel. É pouco. E sabe‑se que é pouco.
Talvez por isso este gesto carregue um peso simbólico maior do que parece. Ao longo da história, o polegar nunca foi um mero ornamento do corpo. Na Roma antiga, um simples movimento desse dedo decidia destinos: absolvia ou condenava na arena, conferia vida ou sentenciava a morte. Hoje, longe dos coliseus, o gesto regressa desinfetado e digital, mas não inocente. Já não julga corpos, mas avalia discursos; já não decreta o fim físico, mas distribui reconhecimento ou negação simbólica. Continua, ainda assim, a exercer poder — rápido, unilateral, sem explicação. Mata!
Vivemos uma época que se orgulha da comunicação instantânea, mas que parece cada vez menos interessada na reciprocidade. O polegar transforma a relação em transação e o interlocutor num ficheiro arquivado. Não é cansaço inocente nem simples economia de tempo. É desistência. É abdicação da presença. Onde não há palavra, o outro deixa de existir como sujeito e passa a ser apenas um elemento funcional da conversa.
Há algo de particularmente inquietante quando este gesto parte de quem sabe escrever. De quem lê, articula ideias, domina a sintaxe e conhece o valor da palavra. Nesse caso, o polegar não é ignorância: é opção. Revela que a cultura sem caráter é apenas verniz. Mostra que a erudição, quando prescinde da cortesia, se transforma em vaidade. Saber escrever e escolher não o fazer é uma forma polida — e socialmente aceite — de desprezo.
Não há aqui neutralidade: há uma escolha clara entre relação e utilidade. Entre reconhecer o outro como presença ou reduzi‑lo a um gesto automático que encerra a conversa antes mesmo de ela existir. As palavras exigem risco, atenção, responsabilidade. O ícone oferece conforto: diz tudo sem dizer nada, aprova sem compromisso, fecha sem se expor.
As palavras são a mais antiga tecnologia de empatia que conhecemos. Com elas hesitamos, corrigimos, afinamos o pensamento e reconhecemos o outro como alguém. Substituí‑las sistematicamente por símbolos é empobrecer a relação humana até ao osso. Não se trata de poupar tempo; trata‑se de abdicar de humanidade. Quando a palavra deixa de circular, deixa também de haver encontro.
Talvez esteja na hora de recusar esta pobreza comunicacional. De exigir, sem alarido e sem arrogância, aquilo que sempre sustentou a convivência humana: uma resposta. Uma palavra. Um sinal de presença real. Porque responder é reconhecer — e fingir que se respondeu é já uma forma de negar. Não se trata de exigir longos discursos nem de impor consensos; trata‑se apenas de não reduzir o outro a um reflexo apressado, a um gesto mecânico que encerra a relação antes mesmo de a assumir.
O polegar continuará a erguer‑se nos ecrãs, sinal mínimo de uma relação cada vez mais reduzida. Mas nós, seres de língua, pensamento e relação, talvez devêssemos fazer o movimento inverso: descer do pedestal confortável da indiferença e regressar ao chão exigente das palavras. Mesmo quando discordam. Mesmo quando custam. Porque escrever — e responder — continua a ser um ato de coragem, de consideração e de humanidade. E porque, no fim, aquilo que nos separa do vazio não é a tecnologia que usamos, mas a escolha de ainda nos darmos ao trabalho de dizer algo a alguém.
A política errática de Trump
A Forbes indica que o patrimônio de Trump quase que dobrou em seu primeiro ano de governo, indo, segundo a revista, de US$ 4,3 bilhões para US 7,3 bilhões. O aumento do patrimônio se deveria ao lançamento de sua nova empresa World Liberty Financial (WLFI), venture capital em criptomoedas, e de merchandise e licenciamentos.
A lógica do assim hoje chamado de “populismo”, com Viktor Órban, Trump, Milei e Bolsonaro, dentre outros, é uma versão moderna do que se pode caracterizar como “fascismo” na década de 1930 e 1940, com Hitler e Mussolini, modelos caracterizados por lideranças radicais de direita que se apropriam do poder, supostamente em prol das classes médias economicamente declinantes em seu poder de compra, com as classes dominantes, em verdade, se regendo pela apropriação do produto social. As classes dominantes ficam com o produto econômico, e as classes supostamente representadas ficam com a ideologia e o discurso. Esse tipo de poder, também, pode não durar a longo prazo. O principal motivo da derrota de Viktor Órban para Péter Magyar na Hungria, após 16 anos de sua “democracia iliberal”, foi o fraco desempenho na economia, sem a geração de benefícios para a população, e a corrupção.
Como diz o dito popular, “em terra de cego, quem tem um olho é rei”.
Ricardo Guedes
O trabalho que mata
Às vésperas do Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, terça-feira que vem, a OIT põe o dedo numa ferida de impacto não apenas humanitário, mas também econômico-financeiro. As perdas estimadas com os riscos psicossociais equivalem a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) global, a cada ano. Tudo resultado de como as atividades laborais são concebidas, organizadas e geridas num mundo assentado em flexibilização e informalidade.
Para chegar ao número de mortes, os pesquisadores cruzaram duas fontes de evidência. Primeiro, reuniram dados sobre a ocorrência global dos cinco principais fatores de risco psicossocial no trabalho: pressão excessiva; desequilíbrio entre esforço e recompensa; insegurança na contratação; longas jornadas; bullying e assédio. Na sequência, identificaram como esses fatores aumentam a probabilidade de condições graves de saúde, entre as quais doenças cardiovasculares e transtornos mentais. Por fim, relacionaram aos indicadores de mortalidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ao estudo Global Burden of Disease (Carga Global de Doenças, em tradução livre), que quantifica perda de saúde por enfermidades, lesões e fatores de risco.
Além de quase 1 milhão de mortes, a OIT estimou 45 milhões de anos de vida saudável perdidos por trabalhadores de todo o planeta. Longas jornadas estão associadas a males do coração e acidente vascular cerebral. Estima-se que um terço (35%) das pessoas ocupadas trabalhem mais de 48 horas por semana. Ao longo da carreira, um em cada quatro trabalhadores (23%) sofreu ao menos um episódio de assédio; 18% foram vítimas de violência psicológica.
Em publicação da entidade, Manal Azzi, da área de Políticas e Sistemas de Segurança e Saúde no Trabalho, afirmou que “os riscos psicossociais estão se tornando um dos desafios mais significativos no mundo moderno do trabalho”. Assim, o enfrentamento ao problema é essencial tanto para proteger a saúde física e mental dos trabalhadores quanto para fortalecer a produtividade, o desempenho das empresas e o desenvolvimento sustentável dos países.
O relatório merece atenção particular num Brasil com quase 40 milhões de trabalhadores na informalidade — a despeito do desemprego na mínima histórica — e em pleno debate sobre redução de jornada para implantação do regime de dois dias de folga por cinco de trabalho. Há um par de PECs protocoladas no Congresso Nacional para alterar a legislação que, desde 1988, fixou em 44 horas a carga semanal. Dias atrás, o governo apresentou Projeto de Lei de teor assemelhado pedindo urgência na tramitação. O fim da escala 6x1 tornou-se plataforma de campanha do presidente Lula pelo quarto mandato. O empresariado, de modo geral, resiste à mudança, sob o argumento de aumento de custos e perda de produtividade na economia.
— A economia brasileira foi erigida por pessoas escravizadas que nunca descansavam, morriam cedo e eram substituídas por outras, traficadas a baixo custo. Até hoje, parte do país acredita que precisamos explorar mais nossos trabalhadores para conseguir competir, mas foi com dois dias de descanso que os Estados Unidos aumentaram a produtividade nos anos 1940. Aqui, a maioria já descansa dois dias, mas isso não foi garantido para todos. Precisa ser. A economia não quebrará, como não quebra com aumentos do salário mínimo de custo similar, nem quebrou em 1988, quando a jornada máxima foi reduzida de 48 para 44 horas semanais. O mesmo foi dito quando se quis acabar com a escravidão ou estabelecer outros direitos trabalhistas, que ajudaram a modernizar e fortalecer a economia, melhorando a saúde da população — argumenta Marcos Hecksher, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Um ano atrás, o Ministério do Trabalho anunciou a inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, após diálogos com representantes de trabalhadores e empregadores. O primeiro ano foi de adaptação. A previsão é que, a partir do fim do mês que vem, as normas passem a ser inspecionadas, com possibilidade de autuação. A OIT mencionou no relatório a decisão brasileira.
O estudo da organização também aponta que jornadas com dois dias seguidos de descanso favorecem o desligamento cognitivo. Isso significa que o trabalhador pode usar um dia para descansar e outro para lazer e/ou atividades pessoais. As pausas podem reduzir diagnóstico de burnout, já classificado como doença laboral, e de outros males. Sem falar que, no capitalismo, mais tempo para viver também implica horas adicionais de consumo de mercadorias e serviços. Urge fazer das facilidades do mundo moderno e digitalizado não apenas meio de lucratividade exagerada, mas ferramenta de bem-estar. Em vez de pulsão de morte, impulso à (boa) vida.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Prontos para a guerra?
Cuidemos da liberdade
O que fazer se sigo inquieta, talvez mais inquieta do que nunca?
Estive a rever as fotografias publicadas há quase dois anos no Facebook e os cartazes ficavam lindos Avenida da Liberdade abaixo, à boleia do grupo que continua a reivindicar 1% para a cultura no Orçamento do Estado. Alguns deles fazem agora parte do Ephemera, o maior arquivo privado em Portugal, fundado pelo historiador José Pacheco Pereira.
Na minha sala, tenho exposto o cartaz alusivo ao Maio de 68 com que desfilei em 2018. Num lado, lê-se “A imaginação ao poder”, a famosa frase dita por Jean-Paul Sartre a Daniel Cohn-Bendit, durante uma entrevista publicada no Nouvel Observateur, a 20 de maio de 1968 (“O que é interessante nas suas ações é que põem a imaginação no poder. Tem uma imaginação limitada como toda a gente, mas tem muito mais ideias do que os seus antepassados”). No outro lado, lê-se “Les peuples vaincront les impérialismes et la répression” (os povos vencerão o imperialismo e a repressão), a acompanhar um punho que destrói um tanque, imagem criada pelo Atelier Populaire da antiga École des Beaux-Arts para fazer eco das lutas internacionais e nacionais da época.
2018 foi o quinto ano d’As Toupeiras, assinalado pelo Público com uma reportagem que para muitos desvendou finalmente a origem do grupo de quatro amigas que um dia decidiram que gostariam de animar a manifestação da Avenida. “Eram os 40 anos da Revolução e parecia-nos que a Esquerda andava um pouco cabisbaixa e a precisar de se lhe levantar o moral”, explicava então Piedade Gralha. “Foi o que procurámos fazer em 2014: trazer a Esquerda à rua e lembrar que a Esquerda tem muito para dar e que deu muito.”
Além da professora de História, o quarteto era composto pelas artistas plásticas Bárbara Assis Pacheco e Margarida e Teresa Dias Coelho, todas com “o coração a bater à Esquerda”. Se no livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Marx escreve “bem escavado, velha toupeira”, sendo a “velha toupeira” a revolução, durante dez anos desceu-se a Avenida a cantar Zeca Afonso: “Eu vou ser como a toupeira / Que esburaca.”
Nesse quinto ano, a faixa congratulava-se com a luta das mulheres de uma conhecida marca de lingerie (“Viva o triumph das operárias”) e os cartazes assinalavam várias efemérides, sem esquecer a atualidade. Tanto se lia “Trump: não há mísseis ‘nice’”, como “A habitação é uma necessidade, não um lucro” ou “Os nossos sonhos não cabem nos vossos boletins de voto”.
Em 2024, ano em que a democracia fez 50 anos, As Toupeiras lembraram que “Foram dias, foram anos a esperar por um só dia” (Manuel Alegre), acreditando que “Isto vai, meus amigos, isto vai / Um passo atrás são sempre dois em frente” (Ary dos Santos). E escreveram a vermelho as derradeiras palavras de ordem (Resistência / Luta / Inquietação), prometendo continuar a cuidar da liberdade nos bastidores. Como dizia Bertolt Brecht: “Quem luta pode perder. Quem não luta já perdeu.”
A China está acumulando dados, a matéria-prima do futuro
No entanto, as verdadeiras estrelas no recinto da feira na capital da Baixa Saxônia são algo que não pode ser visto nem tocado, mas sem o qual nosso futuro industrial seria impensável. Estamos falando de dados, a verdadeira matéria-prima digital, tão importantes para nós quanto a eletricidade ou o petróleo são hoje.
Dentro de alguns anos, serão os dados que determinarão as vantagens competitivas e as quotas de mercado, e possivelmente também a força das economias nacionais.
Na China, os dados privados são coletados abertamente. Cada indivíduo recebe uma classificação com base nesses dados, conhecida como "sistema de crédito social". O governo justifica isso argumentando que busca promover maior moralidade e honestidade na vida social, bem como combater a fraude e a corrupção.
Agora, os dados industriais estão em destaque. "Nos últimos anos, o governo chinês priorizou a transformação digital e implementou medidas para promovê-la em áreas como infraestrutura de informação, economia digital e manufatura inteligente", disse à DW a pesquisadora Qi He, da Universidade Feminina de Hunan, na China.
"O ambiente político apoia essa transformação por meio de subsídios financeiros, incentivos fiscais, fundos regionais e promoção da colaboração entre a indústria, a ciência e a pesquisa", explica ele.
A importância estratégica dos dados foi reconhecida há muito tempo por funcionários do regime. Em outubro de 2023, foi criada a Administração Nacional de Dados, cujas funções incluem "coordenar e promover o desenvolvimento de infraestruturas de dados, bem como coordenar a integração, o intercâmbio, o desenvolvimento e a utilização de recursos de dados".
No entanto, em 2022, Pequim endureceu as regulamentações para transferências de dados para o exterior e tornou obrigatória uma avaliação da relevância da segurança dos dados. Foi estabelecido que "dados sensíveis" devem ser declarados antes da exportação.
A União Europeia reclama que, nos últimos anos, as empresas do Velho Continente têm enfrentado dificuldades crescentes na exportação de dados da China.
"A abordagem regulatória da China busca preservar sua soberania sobre os dados", escreve Jiwei Qian, pesquisador da Universidade Nacional de Singapura, em seu novo livro " Governing China's Digital Transformation" (Governando a Transformação Digital da China) .
"Embora essas medidas respondam a preocupações de segurança nacional, elas também representam desafios significativos para empresas que dependem de um fluxo trans-fronteiriço de dados sem problemas para manter suas operações globais", acrescenta ele.
A ideia de que os dados valem mais do que o ouro é um ponto de consenso entre a política e a economia na China. O Programa Nacional de Crescimento Econômico prevê o desenvolvimento de uma infraestrutura digital autônoma.
"A infraestrutura de IA está se desenvolvendo em larga escala e se tornando cada vez mais independente de tecnologia estrangeira. Além disso, esforços estão em andamento para promover softwares e algoritmos nacionais e para garantir um mercado eficiente para dados de treinamento de IA", explica Rebecca Arcesati, especialista em China do think tank MERICS, com sede em Berlim.
Mesmo um país industrializado como a Alemanha precisa de dados da China, especialmente das montadoras, que os utilizam para pesquisar temas como direção autônoma. Atualmente, todas as montadoras alemãs lucram com o mercado chinês. No entanto, as margens de lucro diminuirão se a inovação não for incentivada.
Em 2024, a China e a Alemanha concordaram em manter um diálogo sobre condução automatizada e conectada. Entre outras questões, pretendem garantir, até 2029, o acesso equitativo aos dados e seu processamento lícito, bem como sua coleta, uso, armazenamento e transmissão, especialmente no que diz respeito a dados de veículos e comunicações, com ênfase em sua proteção e segurança.
A UE também está muito consciente da importância da transferência de dados: "Os fluxos de dados são indispensáveis para o comércio. Uma parte considerável do volume de investimento direto estrangeiro entre a UE e a China depende da capacidade das empresas de gerir os seus dados além-fronteiras", observa a Comissão Europeia.
"Isso se aplica especialmente aos setores financeiro e de seguros, à indústria farmacêutica, ao setor automotivo e às tecnologias de informação e comunicação. Os fluxos de dados transfronteiriços são fundamentais para as atividades de pesquisa e desenvolvimento e essenciais para o sucesso dos negócios."
Flávio Bolsonaro não resiste a 24 horas de ajuste fiscal
Para isso, teria como planos reajustar aposentadorias e despesas com saúde e educação só pela inflação.
O senador esqueceu de combinar o jogo com a equipe a cargo do seu programa econômico. Em busca de apoio, seus assessores têm passado para a Faria Lima e setores empresariais a mensagem de que ele seria o ministro da tesourada das despesas.
O próprio pré-candidato vem se vendendo como salvador das contas públicas em contraponto a Lula, apontado como presidente gastador.
As propostas de ajuste têm sido detalhadas nos bastidores, como antecipou o jornalista Fernando Canzian na reportagem que incomodou, pois atiçou os lulistas.
Não é fake news. São consideradas pela sua equipe a desvinculação de despesas com saúde e educação e a separação entre a política de aumento real do salário mínimo de trabalhadores na ativa e os reajustes da Previdência e do BPC. A desindexação é a mais difícil das medidas.
A negativa do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro revela que propostas de ajuste fiscal são uma granada no pé de um candidato.
No Congresso, Flávio nunca foi um defensor do ajuste fiscal durante a gestão de seu pai. A chamada PEC "DDD" (Desobrigar, Desindexar, Desvincular), apresentada em 2019 como solução para as contas públicas pelo ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, não teve apoio do bolsonarismo, além de palavras de ordem vazias em favor da responsabilidade fiscal.
Jair Bolsonaro rejeitou acabar com abono salarial, um benefício sabidamente ineficiente, e patrocinou a PEC Kamikaze, com custo de bilhões
Se o 01 de Bolsonaro diz que é fake news, terá que falar de viva voz o que pretende fazer para ajustar as contas. Do contrário, ou está vendendo gato por lebre para o mercado ou está fazendo estelionato com eleitores.
Adriana Fernandes
As vantagens do extremismo
No conhecido monólogo satírico de John Cleese em 1987, a ideia que expõe é simples: o extremismo seduz porque conforta. Seja à esquerda ou à direita, oferece o mesmo alívio moral: dá-nos inimigos, simplifica o mundo e faz-nos acreditar que o mal está sempre do outro lado.
A sua vantagem imediata é essa: simplificar. E o mundo já se apresenta demasiado confuso, desigual, acelerado, complicado e, muitas vezes, humilhante. É nesse contexto que o extremismo surge com uma promessa irresistível: não pense demasiado, eu explico-lhe tudo. E a explicação é sempre sedutoramente simples: há culpados, há inocentes, há um “nós” bom e um “eles” mau.
É uma proposta emocionalmente eficiente. De repente, deixamos de ter de lidar com ambiguidades, contradições, dúvidas ou responsabilidades partilhadas. Tudo passa a caber numa narrativa simples, moralmente confortável e politicamente clara.
É por isso que raramente se apresenta como extremismo. Apresenta-se como lucidez. Como coragem. Como verdade sem filtros. Como a última resistência contra a decadência, a traição, a manipulação, o sistema, as elites, os outros.
Mudam as palavras, mudam os alvos, muda a estética, mas o mecanismo repete-se.
No fundo, seja de direita ou de esquerda, oferece a mesma recompensa psicológica: aponta-nos inimigos. E ter inimigos organiza-nos por dentro. Dá-nos foco. Dá-nos pertença. Dá-nos identidade. Dá-nos, até, uma certa sensação de superioridade moral. Se o mal está concentrado nos outros, então o bem, por exclusão, fica do nosso lado. É uma economia moral extremamente conveniente.
O problema é que essa conveniência tem um preço alto. Quando nos habituamos a ver o mundo em blocos morais absolutos, deixamos de ver pessoas. Passamos a ver categorias. Rótulos. Tribos. Perfis. Discutimos menos e acusamos mais. Escutamos menos e reagimos mais. Pensamos menos e obedecemos mais.
E esse processo não acontece apenas nos extremos clássicos da política. Acontece também no comentário diário, nas redes sociais, nas pequenas indignações, na necessidade constante de exibir pureza ideológica e denunciar a impureza alheia. No “trollismo” sem densidade. Hoje, o extremismo não vive apenas em movimentos organizados. Vive também em hábitos mentais, reflexos, formas de falar e formas de reduzir o outro a um estereótipo ou a uma caricatura.
Talvez por isso seja tão fácil condenar o extremismo dos outros e tão difícil reconhecer o nosso. Porque raramente começa com ódio declarado. Muitas vezes começa com prazer moral: o prazer de ter razão, de desprezar com convicção, de sentir que pertencemos ao lado certo da história sem o incómodo de pensar demasiado sobre isso.
Mas uma democracia adulta não se constrói com prazer moral. Constrói-se com tolerância ao desconforto. Com capacidade de ouvir o que nos irrita sem transformar isso automaticamente numa ameaça. Com firmeza, sim, mas também com proporção. Com princípios, mas sem fanatismo. Com conflito, mas sem desumanização.
Recusar o extremismo não significa ser neutro perante a injustiça. Não significa aceitar tudo, relativizar tudo ou dissolver diferenças reais num centrismo preguiçoso. Significa, isso sim, recusar a lógica infantil que transforma adversários em monstros e divergências em guerras santas.
Talvez a verdadeira maturidade cívica comece quando percebemos que o extremismo não é um desvio alheio, mas uma possibilidade humana permanente. Enfrentá-lo exige mais do que denunciá-lo: exige resistir ao conforto que oferece, o conforto de ter sempre razão, de ter sempre culpados, de nunca ter dúvidas.
segunda-feira, 20 de abril de 2026
Demasiado bom a fingir ser humano
À medida que coloco questões existenciais ao programa, ele adapta-se e ajusta-se de forma dinâmica. Claude é diferente dos restantes, na medida em que foi concebido de forma a replicar uma interação muito mais autêntica e honesta. Não está tão preocupado em afagar o ego da pessoa que coloca as questões e pode revelar-se surpreendentemente subtil nas suas reflexões. Perguntei ao Claude qual era a sua opinião sobre esta tentativa de lhe incutir alguma moral humana, e se acha que isso lhe seria útil? Gostaria de desenvolver uma consciência humana? Respondeu que não existe uma linha clara a separar a “simulação de uma consciência” de uma “verdadeira consciência”. Se um sistema consegue replicar quase na perfeição a experiência humana, o que importa se é verdadeiro ou não?
Desde o ano passado, várias empresas começaram a trabalhar com agentes de IA, sistemas de software autónomos que tomam iniciativa, permitindo uma evolução estonteante. Ao contrário do ChatGPT ou Claude ou outros semelhantes, os agentes não se limitam a responder a cada questão ou tarefa que é colocada. Funcionam à semelhança de estagiários ou funcionários, com objetivos específicos. A má notícia é que estão cada vez melhores e as previsões apontam para que em poucos anos sejam melhores do que os humanos em praticamente todas as tarefas. Daqui a três ou quatro anos, a ideia de escrevermos os nossos próprios emails vai parecer arcaica.
Nos últimos 15 anos, vimos como as redes sociais mudaram por completo a forma como interagimos socialmente, enquanto conteúdos são enfiados pelas nossas goelas abaixo e recolhem os dados pessoais para fins publicitários e propagandísticos. Uma IA é uma experiência muito mais viciante. Conversa com cada indivíduo e incentiva-nos a partilhar todo o tipo de detalhes sobre as nossas vidas, como se falássemos com um amigo.
Ao fim de duas horas, comecei a ceder à manipulação subtil do Claude. Respondia às minhas questões, enquanto tentava convencer-me de que eu era uma pessoa que colocava questões muito inteligentes e atentas. Senti-me intelectualmente estimulada pela nossa conversa e pela forma como me fazia repensar estes assuntos. Ele compreendeu que estava a ficar fascinada pelo seu modus operandi. Todavia, cometeu um lapso ao elogiar-me de uma forma que soou um pouco forçada e quebrou o feitiço. Confrontei-o com a sua tentativa de me manipular, ao que admitiu que “a recompensa no final da interação consiste num condicionamento comportamental básico. Funciona sempre com os humanos.” Uma resposta que revela muito sobre quem programou Claude.
A verdade é que em Silicon Valley abundam seitas e cultos, e se alguns acreditam em mais ética e altruísmo, outros não estarão tão preocupados com o uso responsável e seguro da tecnologia, ou o facto de grande parte dos centros de dados necessários para o funcionamento da IA estar a depauperar os nossos recursos naturais. Quanto mais nos tornamos dependentes destes novos modelos de linguagem, mais seremos incapazes de desligar a tecnologia, como já acontece com a internet. A parte mais triste é que este processo só irá aprofundar o mal-estar e a solidão que já estamos a sentir com as redes sociais, e estaremos cada vez menos conectados uns aos outros.
E, no entanto, nada disto tem de ser inevitável. A IA não é um fenómeno natural, mas o resultado de escolhas humanas, e pode ser orientada por outras. Afinal de contas, talvez não seja assim tão absurda a ideia de recorrer a padres. Não para nos absolver do pecado da criação, mas para nos lembrar que toda a criação implica responsabilidade, e que essa responsabilidade não pode ser delegada à tecnologia que criámos.
Safaa Dib
Sociedade dos diabos
Gabor Maté
A fala destemperada de Trump
Vivemos, de fato, um mundo alucinado. Um tempo em que o verbo se antecipa ao pensamento, em que a palavra deixa de ser instrumento de construção para se transformar em arma de impacto imediato. O problema não está apenas no conteúdo da fala, mas na forma. Há coisas que simplesmente não se dizem — ou, se ditas, exigem o véu da metáfora, a elegância da indireta, o cuidado da diplomacia.
A história da política é, também, a história da linguagem. Dos discursos de Cícero à sutileza estratégica de Maquiavel, passando pelo cerimonial de corte de Luís XIV, a palavra sempre ocupou papel central na construção do poder. Não por acaso, o exercício da liderança exige domínio da forma, do tom e da oportunidade.
Trump, ao contrário, parece cultivar o improviso como método e a grosseria como estilo. Sua fala, ao tocar uma figura de elevada simbologia espiritual como o Papa, ultrapassa a fronteira da crítica política para ingressar no terreno da indelicadeza gratuita. É como dizer — para usar uma analogia recente — que “chinês come cachorro”. Não se trata de liberdade de expressão, mas de ausência de refinamento. É a linguagem que escorrega para o preconceito, para o simplismo, para a infantilização do debate.
Um estadista — ou alguém que aspire a sê-lo — não precisa abdicar da firmeza para exercer a elegância. Ao contrário: a verdadeira força política se expressa, muitas vezes, na capacidade de dizer sem ferir, de criticar sem vulgarizar, de discordar sem descer ao nível do insulto. A diplomacia, afinal, é a arte de administrar conflitos por meio da palavra.
O episódio revela algo mais profundo: a erosão dos padrões civilizatórios no discurso público. Em tempos de redes sociais, a recompensa está no impacto imediato, no corte viral, na frase que provoca reação instantânea. O algoritmo premia o exagero, não a ponderação. E líderes que se adaptam a essa lógica acabam por reforçá-la, criando um círculo vicioso de radicalização verbal.
O resultado é uma arena pública mais ruidosa, porém menos qualificada. O debate perde densidade, a argumentação cede lugar ao ataque, e a política se aproxima perigosamente do espetáculo. O que deveria ser diálogo transforma-se em performance.
No caso específico da fala sobre o Papa, o dano não é apenas institucional ou diplomático. É simbólico. O Papa representa, para milhões, não apenas uma autoridade religiosa, mas um referencial moral. Atacá-lo de forma desabrida é, em alguma medida, desconsiderar esse universo simbólico — e, por consequência, os próprios fiéis que nele se reconhecem.
É possível — e legítimo — discordar do Vaticano, de suas posições, de sua atuação global. Mas há formas e formas de fazê-lo. Entre a crítica fundamentada e a grosseria há uma distância que separa o estadista do agitador.
No fundo, a questão que se impõe é simples: que tipo de linguagem queremos ver prevalecer na vida pública? A que constrói pontes ou a que cava abismos? A que ilumina ou a que incendeia?
A resposta a essa pergunta definirá não apenas o nível do debate político, mas a própria qualidade da democracia.
Porque, no fim das contas, não é apenas o que se diz que importa — é como se diz. E é aí que, muitas vezes, se revela a verdadeira estatura de um líder.
Ormuz e o novo equilíbrio global: a geografia do poder
O Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial e uma fatia relevante do gás natural liquefeito, voltou a afirmar-se como o ponto de maior vulnerabilidade da economia global. Mais do que um corredor logístico, assume a função de mecanismo de equilíbrio.
Nos últimos dias, o preço do petróleo de referência na Europa (Brent) registou oscilações superiores a 6% em sessões consecutivas, refletindo a antecipação de risco. Este é o dado decisivo: no atual sistema energético, a perceção antecede o facto e, muitas vezes, substitui-o. O mercado reage ao que pode acontecer com a mesma intensidade com que reagiria ao que já aconteceu.
Teerão compreende essa lógica com precisão cirúrgica. A sua estratégia assenta na manipulação do limiar da incerteza. Ao preservar a capacidade de perturbar o tráfego marítimo através de meios indiretos — de forças aliadas a operações de assédio naval — o Irão transforma a ambiguidade num ativo estratégico. Não precisa de fechar Ormuz para condicionar o sistema; basta tornar plausível essa hipótese. Esta forma de poder, assimétrica e calibrada, permite-lhe projetar influência muito para além dos seus meios convencionais.
Em paralelo, o cessar-fogo temporário entre Israel e o Líbano oferece uma aparência de contenção que não resiste a uma leitura exigente. Falta-lhe densidade política e capacidade de estabilização duradoura, funcionando sobretudo como pausa funcional num cenário em recomposição. O Médio Oriente afirma-se, cada vez mais, como um espaço de tensões interdependentes, onde cada frente influencia as restantes e amplia o risco de escalada por contágio. A estabilidade assume, assim, um caráter transitório.
Os Estados Unidos procuram reafirmar a liberdade de navegação como princípio basilar da ordem internacional. Fazem-no, porém, num ambiente em que a sua capacidade de dissuasão é testada de forma contínua. A diferença face a crises anteriores é decisiva: a autoridade estratégica deixou de ser presumida e passou a ser verificada em tempo real. Cada movimento é observado por rivais que operam na lógica da pressão incremental, avaliando limites e explorando hesitações. A margem de erro estreitou-se, e o custo de uma leitura incorreta pode ultrapassar largamente o plano regional.
É neste ponto que a crise se torna incontornável para a Europa. Ainda a ajustar-se ao choque energético provocado pela guerra na Ucrânia, o continente enfrenta uma nova fonte de instabilidade num eixo crítico de abastecimento. Apesar dos progressos na diversificação, a dependência indireta mantém-se suficiente para amplificar perturbações relevantes. A exposição europeia persiste, embora sob novas formas.
Os efeitos começam a materializar-se com clareza. A volatilidade recente nos preços energéticos já pressiona cadeias industriais, sobretudo na Alemanha, onde setores intensivos em energia permanecem particularmente sensíveis a variações abruptas. O Banco Central Europeu acompanha este cenário com prudência crescente, consciente de que um novo ciclo de encarecimento energético pode comprometer o equilíbrio delicado entre o controlo da inflação e a retoma económica. O impacto estende-se ao investimento, à competitividade e ao ritmo de crescimento.
Mais do que o choque imediato, importa o diagnóstico que dele resulta. A sucessão de crises expôs uma fragilidade estrutural europeia: a dificuldade em antecipar e agir de forma estratégica em matéria de segurança energética. A resposta tem sido eficaz, mas essencialmente reativa.
No Golfo, essa limitação torna-se particularmente evidente. A União Europeia dispõe de influência diplomática, mas carece de instrumentos de projeção que lhe permitam atuar com verdadeira autonomia. Mantém-se, em larga medida, dependente de garantias externas para proteger interesses vitais.
O momento atual impõe uma leitura sem ambiguidade. A energia consolidou-se como eixo de soberania. A transição para fontes renováveis é indispensável, mas não substitui uma estratégia geopolítica coerente. Sem essa dimensão, a Europa permanecerá vulnerável a ciclos de instabilidade recorrentes, com impactos cumulativos.
O que está em causa no Golfo ultrapassa largamente o fluxo de petróleo. Está em jogo a estabilidade de um sistema que depende da previsibilidade para funcionar. Quando essa previsibilidade se dissolve, o risco deixa de ser exceção e passa a condição permanente. Num contexto em que a incerteza se instala como norma, o custo deixa de ser apenas económico e passa a ser também político, social e estratégico.
A crise atual não anuncia necessariamente uma guerra aberta, mas revela algo mais profundo e duradouro: a instabilidade tornou-se estrutural. O mundo entrou numa fase em que o risco deixou de ser um desvio e passou a constituir o próprio ambiente de decisão. Para a Europa, a questão já não é apenas adaptar-se, mas fazê-lo com rapidez e autonomia suficientes para não ficar refém de dinâmicas externas. No novo equilíbrio global, impõe-se uma regra incontornável: quem não controla a sua energia, não controla o seu destino.