sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro encarnou o Brazil que não conhece o Brasil


O Brazil não conhece o Brasil. No último debate presidencial, Flávio Bolsonaro ofendeu moradores de Belém ao descrever a cidade como um “esgoto a céu aberto”. “É urubu revirando comida na porta de casa, e as pessoas se acostumando a morar, a viver num lugar que tem cheiro ruim”, disse.

O Brasil nunca foi ao Brazil. Instado a apresentar ideias para o Nordeste, o senador afirmou: “Vou ser o carioca mais nordestino que vocês já viram na face da Terra”. Na Presidência, seu pai costumava se referir aos habitantes da região como “paus de arara”. “Se chamar cearense de cabeçudo, você não consegue identificar ninguém, lá todo mundo é cabeçudo”, gracejou, certa vez.


O Brazil não merece o Brasil. Derrotado nas urnas, Flávio se negou a reconhecer o resultado, despistou a polícia e fugiu num jatinho para a Flórida. Em carta golpista, autoproclamou-se “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, comparou-se a Rui Barbosa e humilhou os aliados que ficaram no país, dizendo que passará a comandá-los à distância.

O Brazil tá matando o Brasil. O Ministério da Justiça informou que dez pessoas foram mortas em episódios de violência política no segundo turno. Foram vítimas de espancamentos, atropelamentos intencionais, disparos de arma de fogo. A brutalidade se intensificou na noite de domingo, quando bolsonaristas atacaram eleitores de Lula que festejavam a vitória nas urnas.

Em “Querelas do Brasil”, Aldir Blanc descreve uma elite colonizada que ignora a diversidade do país, despreza a herança indígena e busca validação no olhar estrangeiro — o tal Brazil com Z.

Composta no fim da ditadura, em parceria com Maurício Tapajós, a canção parodia o ufanismo da “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso. No lugar das “fontes murmurantes”, entram em cena o Arariboia e o Pererê. No lugar da “terra boa e gostosa”, a vida dura nos subúrbios de Madureira, Olaria e Bangu.

Flávio enfeitou a primeira versão de sua carta golpista com um brasão da República e a inscrição “Estados Unidos do Brazil”. O país não é chamado assim desde 1931, quando passou a ser grafado com S. Em 1967, adotou o nome de República Federativa do Brasil.

Em outro ato falho, o candidato derrotado iniciou a missiva com um agradecimento ao “maravilhoso povo americano”. No décimo parágrafo, lembrou-se de mencionar os quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele.

O mar de lama que ameaça engolir Flávio e a fuga por procuração

Meus dedos estão cansados de tanto ter teclado ao longo da última campanha eleitoral que o sacripanta do Flávio Bolsonaro (ou prefere chamá-lo de velhaco, patife, canalha, enganador, sem caráter?) não passava de uma cópia encardida do pai, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.

Não passou de farsa apresentar-se como o Bolsonaro que parte do país ansiava. Está aí para quem quiser ver: se moderado de fato fosse, reconheceria os resultados das urnas, cumprimentaria o presidente eleito e vida que segue – no caso dele, como o principal líder da oposição, detentor de quase 60 milhões de votos e provável candidato a presidente do Brasil nas eleições de 2030. Lula perdeu três batalhas cruentas antes de subir pela primeira vez a rampa do Palácio do Planalto. Flávio não poderia perder uma?


Mas não. Com medo de ser preso de uma hora para a outra, porque sua vida está ameaçada de ser engolida por um mar de lama, ele simplesmente correu para os braços de Donald Trump em busca de um local seguro e acolhedor. Ao desembarcar na pátria dos sonhos de toda a sua família, uma vez rasgada a fantasia de político moderado, revelou-se o que nunca deixou de ser: um golpista, como o pai.

Trump pode gostar de golpistas, até porque, sem sucesso, ele já tentou abolir a democracia no seu país. Mas detesta a proximidade com derrotados. Acreditou que Flávio, se eleito, lhe entregaria o Brasil de mão beijada – a cereja de um bolo de que ele gostaria de se fartar, a oitava maior economia do mundo, rica em terras raras e o maior parceiro comercial da China na América Latina, quintal dos Estados Unidos.

O erro fatal de Flávio foi esquecer que, no tabuleiro do pragmatismo extremista, quem perde o poder perde o valor. Trump não gerencia afetos, gerencia ativos. Ao bater às portas da Casa Branca com o peso da derrota nas costas, o herdeiro do clã brasileiro não encontrará um padrinho pronto para o resgate, mas sim um espelho de sua própria derrocada política. A tentativa de internacionalizar o choro pós-eleitoral é o sintoma definitivo de uma oposição que faliu internamente e agora implora por validação estrangeira.

Enquanto isso, o Brasil real seguirá o seu curso, indiferente ao exílio voluntário dos que preferem a Flórida ao debate público que as urnas lhes impuseram. Se a estratégia era se blindar em solo americano contra o avanço das investigações judiciais que o cercam, o tiro tende a sair pela culatra. A história mostra que líderes que governam ou se opõem por procuração, escondidos atrás de fronteiras convenientes, rapidamente se tornam notas de rodapé na memória do eleitorado.

Resta saber se os quase 60 milhões de eleitores que acreditaram no discurso de resistência patriótica de Flávio continuarão aceitando que seu principal representante prefira o conforto dos resorts americanos ao asfalto das ruas do Brasil, que sempre lhe foi estranho. O figurino de mártir perseguido perde o brilho quando o cenário de fundo é o horizonte de Miami. O mar de lama que Flávio tanto teme pode não ter vindo das urnas, mas sim da própria incapacidade de sustentar, na derrota, a altivez que ostentou na campanha.

Os afetos coloniais que forjam o bolsonarismo

A cena política brasileira recente é atravessada por uma coreografia curiosa: quando a ordem vacila por dentro, busca-se o amparo por fora. Não bastam tribunais, nem parlamentos; é preciso que uma voz estrangeira diga o que vale e o que não vale, quem deve ser punido e quem deve ser absolvido. A exceção veste uniforme importado.

Não é apenas cálculo ideológico: é um regime de afeto. O desejo de tutela encontra no estrangeiro o Pai capaz de nomear, punir e purificar. A democracia aparece como vertigem, a exceção como cura, e a soberania só se confirma quando validada por um Outro imperial. O aplauso às sanções, as listas de proscritos, as reprimendas vindas de Washington, tudo isso funciona como liturgia de obediência, um sacramento político em que a dependência se transmuta em virtude.


É nesse deslocamento libidinal (do soberano interno ao Pai estrangeiro) que proponho situar a noção de colonialidade afetiva. Mais que obediência ou submissão, trata-se de uma economia emocional que organiza o campo político brasileiro em torno da renúncia: renúncia à autonomia, renúncia ao conflito democrático, renúncia ao próprio nome. O ensaio que segue procura cartografar esse território afetivo e suas consequências, não apenas para entender o bolsonarismo, mas para pensar o que resta de soberania quando o desejo já não nos pertence.

Um outro vetor decisivo para compreender a resposta entusiástica de alguns setores bolsonaristas às sanções impostas por Trump, bem como às suas críticas ao sistema jurídico brasileiro, é a persistente idealização dos Estados Unidos como arquétipo civilizacional: potência geopolítica revestida de autoridade moral, erguida como totem planetário de legitimidade. Essa idealização opera menos no campo da análise do que no da afeição: é uma paixão política, uma estrutura imaginária de reconhecimento vertical que posiciona o Brasil como filho menor de uma ordem superior. O que se dramatiza é uma filiação transnacional de caráter sacrificial: um laço vertical no qual o poder de fora é autorizado a separar os justos dos transgressores, reencenando o mito da redenção por mãos alheias.

 É preciso desfazer o encantamento que transforma o Brasil em periferia de si mesmo

O resultado é um duplo deslocamento: o da autoridade, que é exportada; e o da autoimagem, que se organiza em torno de um eixo externo, gerando uma subjetividade periférica que se sonha central, desde que espelhada. Esse gesto de identificação com o centro imperial não é novo, mas reaparece sob a forma de colonialidade afetiva, desejo de pertencimento e ressentimento nacional: três faces de uma mesma estrutura mítica em que o Outro é simultaneamente aquilo que se quer ser e aquilo que jamais se poderá alcançar sem abdicar de si.

A obediência ao Pai externo, convém insistir, assume uma dimensão litúrgica antes que estratégica. O que se apresenta como política revela-se, na verdade, como um elaborado processo de autoalienação: o deslocamento voluntário do poder para fora, como forma de eximir o eu da tarefa de sustentá-lo por dentro.

A identificação com os Estados Unidos, vistos como horizonte civilizatório de força, riqueza e liberdade performativa, exprime mais que simples admiração; evidencia um desejo profundo de fusão simbólica com o corpo mítico do vencedor. A nação norte-americana, nesse imaginário, opera como figura escatológica de um futuro idealizado, um espelho no qual se tenta enxergar uma versão mais viril e bem-sucedida de si.

Trump, como figura totêmica desse imaginário, excede o papel de representante de uma política conservadora: encarna um ethos importável, replicável, contagiante, o arquétipo de uma autoridade que dispensa justificativas, de uma liberdade blindada por armas, de uma verdade que se impõe sem mediações institucionais, como se fosse revelação direta, quase divina.

Esse desejo de importação não é neutro. Envolve abdicação simbólica das diferenças que formam o Brasil (pluralidades históricas, regionais e raciais) em troca de uma filiação imaginária a um projeto apresentado como universal, mas efetivamente excludente, hierárquico e colonizador. Estamos diante de uma adesão litúrgica ao sistema-mundo imperial, cujo ingresso exige, como moeda, a abdicação não só da autonomia institucional, mas da própria existência como alteridade.

Trata-se, no limite, de uma recusa da invenção de si: o sujeito abdica da criação para aderir à forma já legitimada, já nomeada, já instituída. E nesse processo, a diferença local é sacrificada no altar de uma semelhança impossível, mas desejada com fúria. A particularidade se dissolve na cópia; e a política, mais uma vez, se revela como rito de autoapagamento.


Ao celebrar com entusiasmo gestos autoritários vindos de fora, sobretudo quando voltados contra instituições nacionais, certos grupos revelam algo que excede o dissenso político: um movimento de autoapagamento. A crítica ao Supremo funciona como superfície visível de um gesto mais profundo: a recusa do Brasil como espaço legítimo de enunciação política. O que se desenha é uma economia simbólica da autodegradação, em que o externo é sinônimo de autenticidade, e o interno, de falsificação.

Nesse espelho invertido, o Brasil deixa de ser sujeito e passa a ser simulacro; um país condenado à secundariedade, cuja validade só pode vir de fora, como selo de autenticidade. O STF, o Estado, a cultura política local, tudo se torna ruína antecipada diante do mito regulador de uma “nação verdadeira” (os Estados Unidos) que simboliza, ao mesmo tempo, potência, pureza e verdade.

Essa lógica vai além de qualquer desejo de correção; expõe a internalização ativa de uma posição de inferioridade. É colonialidade em sua versão mais refinada, um colonialismo voluntário no qual o sujeito político se entrega como reflexo, como sombra, como plateia da autoridade do outro. O poder externo não intervém à revelia; ele é convocado, desejado, celebrado, como se apenas de fora pudesse emergir o gesto capaz de restaurar uma ordem considerada inalcançável pelas vias internas. O resultado é uma soberania paradoxal, que se realiza por meio da própria abdicação: um teatro de espelhos onde o eu político só adquire contorno ao desaparecer na imagem do outro.

A relação com os Estados Unidos, nesse regime de afetos e representações, opera como uma economia psíquica da filiação idealizada. O Pai distante aparece como aquele que tudo vê, tudo julga e tudo protege, enquanto o Brasil é figurado como criança rebelde, imatura e sempre por civilizar, cuja salvação se imagina depender da imitação obediente do modelo exterior. Temos aí uma fábula política na qual a virtude é sempre importada, e a soberania, um efeito colateral da imitação bem-sucedida.

Essa assimetria vai além das dimensões política ou econômica; ela é, sobretudo, epistemológica. Opera como um sistema de validação de saberes, normas e instituições que rebaixa tudo o que se origina fora do eixo euro-americano, classificando-o como inferior, exótico ou simplesmente descartável. No imaginário de alguns setores bolsonaristas, essa lógica não é questionada: é reforçada. O que se reproduz é mais que uma geopolítica da dependência, mas uma ontologia da inferioridade, em que formas locais de pensar, governar e existir são sistematicamente desautorizadas. A racionalidade brasileira (forma de organizar o pensamento, o tempo e o conflito político no Brasil), marcada por contradições, processos lentos, conflitos constitutivos, é interpretada não como expressão de uma complexidade histórica, mas como defeito, insuficiência, falha diante da verdade rígida, binária e armada que se atribui ao Norte.

Nesse espelho colonial, o Brasil nunca é o autor de sua própria narrativa; é sempre o aluno, o réu ou o rebelde diante de um tribunal moral estrangeiro. E a política torna-se, assim, um esforço permanente de autoadequação a um Outro que nunca reconhece reciprocamente aquilo que exige ser imitado.

Esse fenômeno atinge sua expressão mais aguda no interior do bolsonarismo, cuja estrutura discursiva é atravessada por uma miríade de símbolos, slogans e rituais importados do imaginário político norte-americano. A questão não é de mera inspiração, mas de possessão simbólica. Da apropriação da bandeira dos Estados Unidos às referências bélicas e escatológicas do conservadorismo made in USA, o bolsonarismo opera como uma tradução ressentida de uma teologia imperial.

A idolatria de Trump, nesse contexto, é o sintoma visível de uma arquitetura mais profunda: a constituição de um Pai estrangeiro como fonte de verdade, moralidade e soberania. Ao investir libidinalmente em um líder externo, o movimento faz mais do que celebrar um modelo: deslegitima a própria capacidade nacional de gerar autoridade e produzir verdade.

O Brasil não se apresenta só como território marcado pela colonização; configura-se como uma consciência colonizada. Um lugar que já não acredita em sua própria capacidade de redenção, esperando que a salvação venha de fora, pronunciada num idioma estrangeiro, por um verbo que jamais se conjuga em português. A política, assim, torna-se ato litúrgico de mímese. O bolsonarismo surge como um culto nacional à própria insuficiência.

Paradoxalmente, e talvez inevitavelmente, ao buscar força, legitimidade e redenção fora de si, esses grupos corroem justamente aquilo que dizem defender: a soberania nacional, a liberdade do povo, a autonomia das instituições. O apelo a um Pai autoritário estrangeiro que intervenha na cena política brasileira escancara uma crise de autoridade interna, e sobretudo revela uma recusa mais funda: a incapacidade de reconhecer o Brasil como espaço legítimo de maturidade política e subjetiva.

A exaltação de Trump atua menos como gesto ideológico do que como encenação de uma fantasia de tutelagem restaurada, o desejo de ser governado por um Outro superior, mais forte, mais verdadeiro. É rendição simbólica consentida, não forçada. Um retorno à casa colonial, reencenada no palco expandido da política global.

O Brasil, nesse gesto, é reinscrito como periferia moral de um império imaginário, e seus próprios cidadãos, em vez de autores de um projeto nacional, tornam-se personagens secundários de uma narrativa estrangeira. A subalternidade deixa de ser imposta e passa a ser desejada, reafirmando com zelo quase devocional o lugar do país como filho menor da história, incapaz de governar-se sem espelhos.
Desejo, colonialidade e autoridade

Chegamos ao ponto onde a análise se dissolve no feitiço. Não estamos diante de um fenômeno político em sentido estrito, mas de uma cosmopolítica afetiva, em que os sujeitos não apenas defendem ideias: eles encarnam entidades. Trump não é uma figura: é um espírito. Um operador de autoridade transfigurada, convocado para corrigir, punir e salvar. Não porque entenda o Brasil, mas porque se ergue acima dele como instância de legitimação cósmica, potência transcendental a quem se atribui a tarefa de purgar a aldeia.

Em sua vertente mais simbólica e devocional, o bolsonarismo, é menos um programa político do que uma máquina a convidar o espírito estrangeiro para ocupar o corpo do país com a promessa de que, possuído, seremos enfim purificados. Há mais que submissão: há entrega desejante, possessão consentida. Um regime de subjetivação no qual o desejo de tutela é tão intenso que se transforma em vocação metafísica.

O Pai não está perdido, ele está no exterior. E é preciso trazê-lo de volta, mesmo que, para isso, o preço seja a abdicação simbólica da soberania. O que se desenha é uma economia política da autoridade: um deslocamento da fonte de poder para além das fronteiras, como se só no corpo do Outro residisse a verdade do Eu. O Brasil, nesse teatro, não fala, ele é ventríloquo; não age, é médium; não decide, é decidido.

E o mais perturbador: isso é desejado. Mais do que erro, o que se firma é um vínculo afetivo com a autoridade como feitiço de sentido. Um culto estrutural à insuficiência local que transforma o nacional em ruína antecipada, e o estrangeiro em totem escatológico. Um país que, em vez de inventar-se, imita. Que, em vez de narrar-se, copia. Que, em vez de habitar sua diferença, exila-se num espelho.

É nessa chave que a obediência ao Pai da exceção pode ser lida: como processo de estabilização frente à vertigem democrática. A democracia, como máquina de negociação permanente, de indeterminação generalizada, aparece como ameaça. E a exceção, como promessa de cura. O desejo de Trump não é desejo de Trump: é desejo de simplificação do mundo. O bolsonarismo, portanto, se revela como cosmologia política reativa, um sistema simbólico que mobiliza a transcendência estrangeira para resolver o colapso do imanente local. Uma política na qual o poder não vem do outro mundo para equilibrar este, mas deste mundo para subjugar o nosso.

No tempo em que o delírio se disfarça de destino, urge mais do que nomear o feitiço: é preciso rompê-lo. É preciso desfazer o encantamento que transforma o Brasil em periferia de si mesmo.

Advogado de araque

No domingo da eleição, os jornais abriram páginas com a galeria dos presidentes da República. Sob as fotos, a profissão e o mandato de cada um. Três foram eleitos, mas, por impedimento (Júlio Prestes) ou morte (Rodrigues Alves e Tancredo Neves), não tomaram posse.

Oito (Deodoro, Floriano, Getúlio e os cinco milicos de 1964) não foram eleitos —nem precisavam, porque tinham cavalos e tanques. E quatro exerceram mandatos-tampão constitucionais. Excluindo as reeleições (donde Lula só contou uma vez), foram 38 presidentes.


Deles, 23 eram advogados. Os demais foram nove militares (o nono, definido como "reformado", Jair Bolsonaro), um médico (Juscelino), um "jornalista" (Collor), um engenheiro (Itamar), um sociólogo (FHC), uma economista (Dilma) e um metalúrgico (Lula). O que tirar dessa lista? A perplexidade ao constatar que, apesar de 23 presidentes advogados, a República sofreu tantos golpes, tentativas, golpes abortados e golpes dentro de golpes. Não seria de se esperar que, com tanto saber jurídico, o poder se mantivesse estável?

Não. Nenhum desses presidentes advogados está entre os grandes advogados do país. A maioria nunca defendeu uma causa e sua única relação com o direito se limitou ao diploma na parede. Não quer dizer que, além da carreira política, alguns não se dessem bem na profissão.

O ex-candidato e fujonildo Flávio Bolsonaro é advogado. Seu "escritório", aberto em 2021, ficava na sua própria mansão em Brasília. Não empregava outros advogados, não acolhia estagiários e era administrado por uma senhora moradora nos cafundós. Dos poucos casos de que tratou, um era em causa própria e outro, defendendo seu pai — pelo visto, sem muito sucesso. Apesar disso, seu CNPJ faturou cerca de R$ 14 milhões nesses cinco anos.

Por coincidência, as contas bancárias do "escritório" de Flávio batem com as do também advogado Willer Tomaz, ambos investigados por lavagem de dinheiro. Flávio poderia defender Willer e a si próprio, mas, que pena, se mandou sem nem se despedir.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


O jornalismo e as eleições

E, de repente, não menos que de repente, a coisa não coube mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Parecia haver um problema com os eventos da realidade, mas não era isso. O problema não estava nas coisas, nos fatos e nos objetos, mas no modo como o jornalismo os nomeava. Recapitulemos.

Enquanto a campanha eleitoral pegava fogo, gente de direita começou a dizer que não estava à vontade na direita. Personagens expressivos do chamado campo conservador, ou seja, personagens notoriamente da direita, passaram a atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que vinha sendo qualificada nos órgãos de imprensa, com poucas exceções, como a chapa de direita. O general Santos Cruz, a ex-deputada Joice Hasselmann e até João Amoêdo, entre várias outras pessoas, todas de direita, passaram a repudiar a candidatura que representaria a direita no segundo turno. Mas como assim, perguntava o cidadão? Não eram todos igualmente de direita? O público se sentia tragado por uma dissonância cognitiva. Se Flávio Bolsonaro era o representante da direita, como diziam os jornais, o rádio e a TV, por que tanta gente da direita o rejeitava?


A explicação teria sido muito simples, embora até hoje não tenha sido assimilada por uma parcela expressiva das redações. Os personagens de direita não se reconheciam na candidatura da direita não porque tivessem desistido de ser o que eram, ou seja, de direita, mas porque não queriam mais abaixar a cabeça para a extrema direita antidemocrática, que o discurso jornalístico insistia em designar como de “direita”, sem outros qualificativos.

Os personagens lembrados aqui há dois parágrafos, exatamente por se reconhecerem de direita, não se dispunham mais a bater continência para uma coagulação que namorava o golpismo, chafurdava no entreguismo, estreitava laços de camaradagem com gangues armadas e, de resto, sabotava a Justiça (parece que um dos seus se esmerou em escafederse, em fugir das autoridades).

Pois bem. Ao dar a essa aberração o rótulo singelo de “direita”, pura e simplesmente, muitas das narrativas da imprensa atrapalharam o discernimento do público. O objeto não coube no conceito e, como resultado, o que seria fácil de explicar assumiu o aspecto de mistério insondável.

O jornalismo deveria ter prestado mais atenção. Nas páginas e nas telas noticiosas, nós não devemos chamar muriçoca de varejeira, arcebispo de cardeal e promotor de magistrado. Não podemos escrever que juiz dá parecer. Pelas mesmas razões, não há como chamar a direita e a extrema direita antidemocrática pelo mesmo nome. Os dois fenômenos são distintos, jamais poderiam ter se embaralhado no discurso jornalístico. A direita valoriza o respeito às instituições republicanas, enquanto a extrema direita antidemocrática não hesita em conspirar contra a alternância no poder. A primeira preza a urbanidade e a convivência pacífica; a segunda hostiliza a dissidência e autoriza a violência. Uma coisa não é igual à outra coisa, mas, infelizmente, uma parte considerável do discurso jornalístico as igualou.

A chapa de Flávio Bolsonaro não era, nunca foi e jamais poderia ter sido tratada como se fosse uma composição de direita, pois nunca se pautou pelos princípios liberais ou pela sobriedade conservadora. Longe disso, tinha origem na celebração do golpe de 1964, na idolatria de torturadores, no culto das garruchas (de preferência desviadas das Forças Armadas) e no obscurantismo. Por definição, era uma anormalidade política – anormalidade que, ao ser chamada candidamente de “direita”, saiu por aí desfilando com uma roupagem semântica de normalidade.

Foi então que, de repente, não menos que de repente, a retórica da normalidade foi varrida pelos ventos factuais. A coisa não cabia mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Com a terminologia que dava ao aberrante um aspecto benigno de eventualidade cotidiana, não havia como demonstrar o que levou tanta gente identificada com a direita a recusar seu voto para Bolsonaro.

Foi um tropeço, um descuido, uma imprecisão. Se as redações, desde o início, tivessem chamado a extrema direita antidemocrática pelo seu nome devido, seu nome objetivo, a explicação teria sido mais fácil, ou mesmo óbvia.

A designação irrefletida – e incorreta – trouxe um segundo desvio: a tentativa de tratar como simétricas as duas candidaturas que disputavam o segundo turno. Entre ambas, contudo, não havia nenhuma homologia, nenhuma paridade. Uma, a de Lula, apesar de todos os defeitos, tinha compromisso provado e já testado com as instituições democráticas e com o respeito à Justiça. A outra desdenhava dos ordenamentos do Estado de Direito. As duas eram de naturezas distintas. Por sorte, ou por milagre, o eleitorado, intuitivo, enxergou a distinção de natureza. Uma boa parte do jornalismo não viu até agora.

Em nota pública, o Instituto Vladimir Herzog, do qual sou conselheiro, alertou sobre o tema, sem maiores repercussões. Por dever de ofício, volto ao ponto, sem maiores esperanças.

O iate não paga IPVA

A Constituição de 1988 deu à União o poder de criar um imposto sobre grandes fortunas. O artigo 153, inciso VII, está lá há 38 anos e nunca foi regulamentado. Em novembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal reconheceu, por maioria, que o Congresso está em omissão, mas não fixou prazo para que ela acabe. Entre o que a Constituição permite e o que o Estado cobra fica um espaço vazio, que mostra bem como o sistema tributário brasileiro trata a riqueza: em vez de proibir a cobrança, simplesmente nunca a regulamenta.

A palavra “luxo” precisa de uma definição antes de qualquer conta, porque cada leitor tem a sua. Em economia, bem de luxo é aquele cuja procura cresce mais depressa do que a renda: quem ganha o dobro não compra o dobro de arroz, mas pode comprar dez vezes mais em viagens, joias ou barcos. O luxo, portanto, não se mede pelo preço absoluto. Mede-se por quem pode comprá-lo. O geógrafo Milton Santos, no livro O espaço do cidadão (1987), descreveu outro lado da mesma questão: “no Brasil, muita gente foi incluída como consumidora antes de ser incluída como cidadã. O consumo virou o lugar onde se mede quem pertence, e o imposto sobre o consumo virou o lugar onde se paga essa entrada.”

O rico adia a compra, e quem perde é o trabalhador da fábrica

A tese que os números permitem sustentar é esta: no Brasil, a carga tributária pesa mais sobre o que se consome para viver do que sobre o que se possui para acumular, e algumas das exceções mais visíveis beneficiam justamente os bens que só os mais ricos têm.


O retrato mais citado vem de cálculos do Ipea com a Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2008-2009, divulgados pela Oxfam. Segundo esses cálculos, os 10% mais pobres entregavam cerca de 32% da renda em tributos, quase tudo embutido nos preços. Os 10% mais ricos entregavam cerca de 21%. Um estudo mais recente, de Rozane Siqueira, José Ricardo Nogueira e Carlos Feitosa Luna, baseado na POF de 2017-2018, chega a uma conclusão parecida por outro método: os tributos indiretos equivaliam a 15,9% da renda disponível do décimo mais pobre e a 10,6% da do décimo mais rico. As duas contas não são comparáveis entre si, porque medem coisas diferentes. Apontam, porém, para o mesmo lado.

O mecanismo é simples. O imposto sobre o consumo é cobrado no caixa, igual para todos, sem perguntar a renda de quem paga. Uma família que gasta toda a renda em comida, transporte e roupa, entrega ao Estado uma fatia maior do que outra que gasta só uma parte e aplica o resto. É a isso que os economistas chamam tributação regressiva: proporcionalmente, pesa mais embaixo do que em cima.

O imposto que ninguém vê na nota é o que mais pesa em quem conta as moedas. 

O IPVA é um exemplo expressivo. Durante décadas, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal entendeu que o imposto só alcançava veículos terrestres, porque sucedeu uma antiga taxa rodoviária. Como resultado, a moto do entregador e o carro popular pagavam, em geral, alíquotas de 1% a 4% do valor do veículo ao ano, conforme o estado. Jatinhos, helicópteros e iates ficavam fora da cobrança.

A reforma tributária de 2023, porém, abriu caminho para a incidência do imposto sobre veículos aquáticos e aéreos, com exceções para aeronaves agrícolas, empresas de serviço aéreo ou de transporte aquaviário, barcos de pesca e plataformas. Mas a permissão ainda não virou cobrança. Falta uma lei complementar com as regras gerais e, depois, leis em cada estado. O projeto que trata disso, o PLP 138/2025, recebeu parecer favorável no Senado, em março de 2026, e voltou ao relator para reexame dias depois. Em outubro de 2026, o dono de um jatinho continua sem pagar IPVA. O Sindifisco Nacional, sindicato dos auditores da Receita, estimou em 2024, que a cobrança renderia cerca de R$ 10 bilhões por ano. É uma estimativa sindical, não um cálculo oficial, e por isso deve ser lida com cautela.

A moto que leva a encomenda paga todos os anos. O iate que fica parado na marina, não.

Na outra ponta do consumo, o Estado foi mais rápido. Em agosto de 2024 passou a cobrar 20% de imposto de importação sobre compras internacionais de até 50 dólares, além do ICMS estadual. Segundo a Receita Federal, a cobrança rendeu R$ 5 bilhões em 2025, com mais de 165 milhões de encomendas taxadas. Quem comprava nesses sites? Uma pesquisa encomendada pela própria Shein ao Ipsos, em 2024, indicou que só 11% dos clientes eram das classes A e B. Por ter sido paga pela empresa interessada, a pesquisa serve como indício, não como prova.

Em maio de 2026, uma medida provisória zerou o imposto federal para essas compras, e o Congresso aprovou a conversão em setembro. O Ministério da Fazenda estimou a perda de arrecadação em R$ 1,94 bilhão, em 2026, e R$ 4,24 bilhões, em 2028. O ICMS estadual continua a ser cobrado. Durante quase dois anos, o tributo novo que o país conseguiu cobrar com rapidez foi o que recaía sobre a encomenda barata.

Seria incompleto parar aqui, porque houve mudança no topo. A Lei 15.270, sancionada em novembro de 2025, e em vigor desde janeiro de 2026, isentou de imposto de renda quem ganha até R$ 5 mil por mês e criou um imposto mínimo para rendas acima de R$ 600 mil por ano, com alíquota que chega a 10% a partir de R$ 1,2 milhão. Segundo o Ministério da Fazenda, cerca de 10 milhões de pessoas deixam de pagar e 141,4 mil passam a pagar o mínimo. Esses 141,4 mil contribuintes, 0,06% da população, pagavam até então uma alíquota efetiva média de 2,54% sobre a renda. Os números mostram, ao mesmo tempo, o tamanho da correção e o tamanho do que havia para corrigir.

A reforma do consumo também incluiu um Imposto Seletivo que vai alcançar veículos, embarcações e aeronaves a partir de 2027. As alíquotas ainda não foram fixadas, e a própria lei permite alíquota zero para aeronaves e barcos considerados eficientes. O desenho final, portanto, continua em disputa.

Quem se opõe a taxar o luxo tem um caso histórico forte. Em 1990, os Estados Unidos criaram um imposto de 10% sobre a parte do preço de barcos acima de US$ 100 mil, de aviões acima de US$ 250 mil, de carros acima de US$ 30 mil e de joias e peles acima de US$ 10 mil. Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso americano, o imposto foi revogado em 1993, exceto para os carros, depois de pressões que o acusavam de derrubar as vendas e os empregos de quem construía os barcos, e não de quem os comprava. É o argumento clássico: o rico adia a compra, e quem perde é o trabalhador da fábrica.

A experiência francesa aponta noutra direção. Em 2018, a França trocou o imposto sobre a fortuna por um imposto só sobre imóveis. O comitê de avaliação do governo, da France Stratégie, concluiu em 2023, que a troca custa mais de 4 bilhões de euros por ano. Sob o imposto antigo, cerca de 950 contribuintes ricos deixavam o país por ano e 370 voltavam. Depois da troca, passaram a sair 260 e a voltar 380. E não foi possível detectar ganho de investimento. A fuga existia, mas era pequena, e o investimento prometido não apareceu.

Em 2024, sob a presidência brasileira do G20, o economista Gabriel Zucman propôs um imposto mínimo global de 2% ao ano sobre o patrimônio de cerca de 3 mil bilionários. Segundo o Observatório Fiscal da União Europeia, esses bilionários pagavam o equivalente a algo entre 0% e 0,5% do patrimônio em imposto pessoal. A declaração final dos ministros do G20 comprometeu-se a “cooperar” para que os ultrarricos sejam “efetivamente tributados”. Não fixou alíquota nem prazo.

Portugal e Alemanha, os outros dois países deste percurso, mostram versões próprias do mesmo dilema. Em Portugal, o regime de residentes não habituais, criado para atrair estrangeiros com rendimentos altos, custou ao Estado 1,74 mil milhões de euros em benefícios fiscais em 2024, segundo uma auditoria da Inspeção-Geral de Finanças. Em contrapartida, o adicional ao IMI sobre imóveis de valor superior a 600 mil euros arrecadou 147,9 milhões no mesmo ano. Na Alemanha, o imposto sobre o patrimônio não é cobrado desde 1997, depois de o Tribunal Constitucional ter decidido, em 1995, que a forma de avaliar os bens era desigual. O imposto nunca foi revogado. Está suspenso há quase trinta anos, como o brasileiro está por regulamentar há 38.

Nenhum destes números prova que alguém tenha planejado proteger o iate e taxar a blusinha. Mostram, no entanto, um padrão que se repete: o imposto que alcança a maioria é cobrado com rapidez, na fonte e no caixa, enquanto o imposto que alcançaria o topo depende de leis complementares, regulamentações, avaliações e reexames que se arrastam por décadas. Quando a demora favorece sempre o mesmo lado, parece menos um acaso e mais uma escolha de desenho, que alguém pode refazer.

Entre a moto que paga e o iate que não paga não há mistério técnico. Há uma lei que falta escrever e uma pergunta que falta fazer: quem ganha com a espera?

Família 'Jumenaros'

Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige. Trump já tirou o apoio: "Deixei ele vir para a América, mas não me me meto nessa questão". Um bando de amadores babacas.
Silas Malafaia

A fuga do amarelão

Qual você prefere? Amarelão, covarde, medroso, pusilânime, frangote, maricas, desertor, foragido, poltrão, peidão, pipoqueiro, frouxo, trêmulo, borrão, arregão? Ou, numa palavra, cagão — digo, fujão? Se você for um dos meus fiéis leitores bolsonaristas ou um dos 59.826.041 eleitores que cravaram o número de Flávio Bolsonaro na urna neste domingo, a escolha é farta. Todas definem o caráter do homem que, não fosse por outros 64.256.232 brasileiros, poderia ser agora o presidente da República. Derrotado e sujeito a investigação e processo por uma quantidade de acusações — a escolha também é farta —, preferiu escafeder-se a enfrentar a Justiça. Onde está o machão que ele fingia ser?


Menos de 12 horas depois de produzir um vídeo em que bateu no peito e desmentiu a possibilidade de fugir do país —ao contrário, entregaria os passaportes e ficaria para liderar a oposição, retomar o Brasil e fazer e acontecer—, meteu-se na escuridão, tomou um avião na moita ou atravessou de cócoras a fronteira e foi se esconder sob a gravata vermelha de seu chefe, Donald Trump.

Como ficaram seus seguidores que assistiram ao vídeo e acreditaram nele? Como passaram a vê-lo depois desta? Se quiserem, aqui vão sugestões: falso, embusteiro, fingido, enganador, trapaceiro, mendaz, pérfido, perjuro, desleal, simulado, charlatão, cascateiro, impostor, xavequeiro, patureba, trambiqueiro. Ou, também, em uma palavra, mentiroso.

É uma atitude decepcionante para alguém que, assim como seus adeptos, fala grosso, faz arminha, ronca motocicletas e exibe braços musculosos sob as camisetas amarelas, mas é incapaz de enfrentar uma Justiça armada apenas com fatos, números e provas. A contrapô-los com seus próprios fatos, números e provas, escolheu vazar, escapar, ciscar, dar o pira, cair fora, dar no pé, picar a mula. Em resumo, fugir.

Ao abandonar seus eleitores —na verdade, traí-los—, Flávio Bolsonaro apenas repetiu o que levou toda a campanha fazendo: mentir para eles, iludi-los, ludibriá-los, fazê-los de otários.

A fuga de Flávio Bolsonaro e a covardia do bolsonarismo

O patriotismo de Flávio Bolsonaro atravessou uma fronteira. Depois de uma campanha em que apresentou a si e a seu campo político como defensores do Brasil, o senador derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva deixou o país, segundo relatos de aliados, com destino aos Estados Unidos.

A notícia chegou em meio a uma investigação e à determinação judicial para que Flávio entregasse seus passaportes. O senador havia declarado que cumpriria a ordem e se defenderia.

Entre a promessa de enfrentar os questionamentos e os relatos de que deixou o país, abriu-se um abismo político. Não é necessário aguardar a conclusão de um processo para examinar a postura de uma liderança pública. A responsabilidade criminal depende de prova, defesa e julgamento. A responsabilidade política começa no instante em que um homem pede a confiança de milhões e depois precisa explicar suas próprias escolhas.

Flávio Bolsonaro tem direito ao devido processo legal, à presunção de inocência e a uma defesa ampla. Mas também não tornam sua conduta imune ao escrutínio. Garantias processuais não são salvo-conduto político.

O que sua saída sugere, sobretudo diante das circunstâncias noticiadas, é uma tentativa de escapar do alcance imediato das instituições brasileiras. Essa é uma leitura política do episódio; as autoridades ainda precisam esclarecer o que ocorreu e quais são suas consequências jurídicas. Mesmo com essas informações pendentes, a cena desorganiza a narrativa de coragem que o bolsonarismo cultivou durante anos.

Porque a coragem que se exigiu dos outros sempre pareceu maior do que aquela que se cobrava dos próprios líderes.O candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL), fala com jornalistas após ser derrotado no segundo turno das eleições pelo candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT).


Aos apoiadores, ofereceu-se uma causa permanente, uma pátria em perigo, a urgência de resistir. A eles se pediu que confiassem mesmo quando a desconfiança em relação às instituições contaminava famílias, amizades e espaços de convivência. Pediu-se que enfrentassem o mundo em nome de um projeto político. Quando chegou a hora de o candidato derrotado enfrentar as perguntas dirigidas a ele, aliados passaram a dizer que havia partido.

Essa é a pedagogia cruel da liderança que se imagina acima de seus seguidores: o povo deve permanecer fiel; o líder pode procurar uma saída.

Não há heroísmo em conclamar uma nação à vigilância permanente e, ao ser alcançado pelo escrutínio público, buscar distância. Não há bravura em transformar instituições em inimigas sempre que elas deixam de funcionar como instrumentos de proteção pessoal. Tampouco há compromisso com a pátria na ideia de que o país só merece respeito enquanto oferece poder, vitória ou abrigo.

O bolsonarismo ensinou seus seguidores a suspeitar de tudo: da imprensa, das universidades, do processo eleitoral, do sistema de justiça. A suspeita, porém, raramente deveria alcançar o próprio líder. Para ele, reservava-se outra regra: cada investigação seria uma perseguição; cada decisão contrária, uma prova de arbítrio; cada exigência de explicação, uma afronta.

Essa lógica não é defesa da liberdade. É a reivindicação de uma imunidade política que dispensa o líder de prestar contas.

A impunidade começa muito antes de uma sentença que não vem. Ela começa como cultura: na convicção de que certas pessoas não deveriam sequer ser chamadas a responder. Manifesta-se quando uma pergunta legítima é tratada como ataque, quando uma medida judicial se torna automaticamente perseguição e quando a lealdade a um nome vale mais do que o compromisso com regras comuns.

Ao apresentar qualquer investigação como prova de perseguição, o líder pede a seus seguidores algo mais profundo do que confiança. Pede que desistam de examinar os fatos. Que aceitem sua palavra como suficiente. Que substituam a pergunta “o que aconteceu?” pela declaração antecipada “ele é inocente porque está conosco”.

Essa inversão é útil para quem deseja poder sem controle. E é devastadora para uma sociedade que precisa de instituições capazes de investigar com independência, respeitar direitos e prestar contas de seus próprios atos.

Flávio Bolsonaro não deve ser tratado como culpado por ser adversário de Lula. Mas também não deve receber uma blindagem política por ter sido candidato à Presidência. A igualdade perante a lei é testada justamente quando alguém poderoso precisa responder às mesmas perguntas que alcançam os demais cidadãos.

Na democracia que o bolsonarismo diz defender, um líder pode contestar uma decisão judicial. Pode recorrer. Pode apresentar sua versão. Pode demonstrar que houve abuso. Tudo isso deve ser assegurado. O que não pode exigir é que o país confunda seu direito de defesa com um direito de estar fora do alcance de qualquer responsabilização.

A postura de Flávio, tal como relatada até aqui, também revela o caráter seletivo de uma política acostumada a falar em ordem. A ordem costuma ser cobrada com dureza dos corpos pobres, negros e periféricos. Para eles, a suspeita frequentemente chega antes da prova; a violência, antes da escuta. Já quando o investigado ocupa uma posição de poder, surgem discursos sobre garantias, excessos e perseguição.

As garantias estão corretas. O que escandaliza é sua distribuição desigual na imaginação política de quem as reclama.

Um país comprometido com o Estado de Direito precisa assegurar a Flávio Bolsonaro todas as garantias que a Constituição prevê. E precisa se perguntar por que tantas pessoas, sem sobrenome influente e sem recursos para buscar proteção além das fronteiras, não encontram a mesma disposição pública para defender seus direitos.

O problema brasileiro não é que um político poderoso tenha defesa. É que a defesa de muitos se torna invisível justamente quando eles mais precisam dela.

A saída atribuída a Flávio tampouco pode ser lida apenas como um drama individual. Ela integra uma maneira de exercer poder em que a política se organiza em torno da proteção de uma família, de sua influência e de seus aliados. Nessa estrutura, o povo é convocado a acreditar que participa de uma causa nacional, enquanto os interesses particulares das lideranças se confundem com o destino da própria nação.

Quando a família é questionada, diz-se que a pátria está sob ataque. Quando um de seus integrantes perde, diz-se que o povo foi derrotado. Quando as instituições investigam, apresenta-se o procedimento como perseguição a milhões de eleitores.

Essa operação transforma seguidores em escudo. Pede-se que eles defendam como interesse coletivo aquilo que pode ser, antes de tudo, a preservação de interesses privados.

Os eleitores de Flávio Bolsonaro não são responsáveis pelas decisões pessoais do candidato. Tampouco formam um grupo homogêneo. Há entre eles trabalhadores, famílias e pessoas com preocupações legítimas sobre segurança, economia e futuro. Não merecem ser ridicularizados por terem votado de outra forma. Merecem, isso sim, respostas honestas de quem pediu sua confiança.

Onde está a coragem prometida quando ela passa a exigir prestação de contas? Onde está o compromisso com o Brasil quando a liderança escolhe se afastar no momento em que o país precisa de explicações? E que espécie de patriotismo exige sacrifício dos seguidores, mas reserva aos dirigentes a possibilidade de escapar do confronto com as consequências de seus atos?

A derrota eleitoral já havia imposto ao bolsonarismo uma prova democrática: reconhecer que o povo pode escolher outro caminho. A saída de Flávio acrescentou uma prova moral e política: demonstrar se a retórica da coragem sobreviveria ao momento em que seu principal personagem precisasse praticá-la.

Até aqui, a resposta que emerge dos relatos de sua partida é desoladora.

Enquanto o candidato busca distância, o país permanece. Permanecem seus eleitores, inclusive os que agora precisam decidir se a fidelidade a um líder deve prevalecer sobre o direito de questioná-lo. Permanecem os cidadãos que rejeitaram seu projeto e esperam que a justiça atue sem privilégios nem exceções. Permanecem as instituições, com a obrigação de esclarecer os fatos sem ceder à perseguição ou à condescendência.

A democracia não exige vingança contra Flávio Bolsonaro. Exige algo mais difícil e mais necessário: que ele responda com as garantias devidas e sem privilégios, diante das mesmas regras que valem para os demais.

O patriotismo que só resiste enquanto o poder está garantido é uma fidelidade interessada. A coragem que desaparece quando chegam as perguntas é apenas encenação. E a liberdade reivindicada exclusivamente para escapar de consequências tem outro nome: privilégio.

O patriota pegou o avião. Ao Brasil, deixou a tarefa de provar que nenhuma liderança é maior do que o direito do povo de saber, questionar e exigir responsabilidade.

Flávio, o 'Bolsonaro vacinado', deu positivo para raiva e golpe

Flávio Bolsonaro divulgou nesta quarta, lá dos EUA, uma carta que não reconhece o resultado da eleição presidencial. Lula foi reeleito com 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% dele próprio. O texto tem a mesma essência golpista da pauta do pai: derrota é fraude, e o juiz é perseguidor. Se ainda faltassem motivos, cai a máscara do “Bolsonaro vacinado”, aquele que seria a versão civilizada da família. Flávio chegou a dizer que aceitaria o veredito das urnas. E deixou o país menos de 24 horas depois de afirmar que ficaria para liderar a oposição. A hidrofobia política é a mesma, sem o, vá lá, “carisma” do original…

Tudo na carta está errado, a começar pelo timbre. A primeira versão trazia um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com “Z”, em vez de “República Federativa do Brasil”. O país deixou de ter aquele nome em 1967, e o “Z” já havia sido aposentado da ortografia oficial décadas antes.


Segundo a coluna de Paulo Capelli, um aliado pediu ao ChatGPT que acrescentasse o brasão, e a máquina entregou o modelo antigo. O valentão que prometia salvar a pátria terceirizou o símbolo nacional a um robô e não conferiu o serviço. O texto circulou em três edições em menos de uma hora. Na primeira, ele se apresentava como “presidente eleito”. Só na seguinte virou “líder do Brasil”. Eleito por quem, cara-pálida? O PL, o seu partido, já havia reconhecido a vitória de Lula na segunda-feira.

No extremo da sandice, comparou-se a De Gaulle no exílio. O homem que organizou a França Livre contra a ocupação nazista é invocado por quem tem como parceiro internacional Steve Bannon. Em 19 de janeiro de 2025, em Washington, Bannon pediu que representantes da AfD (Alternativa para a Alemanha) se levantassem para ser saudados e, na sequência, chamou Eduardo Bolsonaro ao palco. Isso foi acompanhado, como relataram vários veículos, de um gesto de braço estendido, alusivo à saudação nazista.

A neonazista AfD, diga-se, é o partido de Beatrix von Storch, neta de Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças durante o nazismo e um dos poucos que serviram a Hitler do início ao fim do regime. Ela foi recebida por Jair Bolsonaro no Planalto em 19 de julho de 2021. O encontro não constou da agenda oficial, e a foto só veio a público no dia 26 daquele mês. A família também cultiva a ultradireita francesa: Eduardo montou, em 2025, uma rede de pressão contra o STF que incluía a eurodeputada Virgine Joron, ligada ao partido de Marine Le Pen.

Esse partido é herdeiro da Frente Nacional, e a história da França ensina de que lado ficou, na Segunda Guerra, a extrema direita que condenou De Gaulle à morte, em agosto de 1940. Comparar-se ao general é oferecer à posteridade uma peça de humor involuntário.

Há ainda o plano de liderar a oposição de dentro dos Estados Unidos, com o beneplácito de Donald Trump, a quem a carta agradece. Convém lembrar o que dizem as leis. A Constituição, no artigo 17, inciso II, proíbe que partidos recebam recursos de entidade ou governo estrangeiros ou sejam subordinados a eles, e a Lei dos Partidos, no artigo 28, prevê o cancelamento do registro pelos mesmos motivos. Oposição se faz com voto, com mandato e com presença, não a distância, com a ajuda de uma potência que aplica sanções contra o país.

A propósito: não se conhece a fonte de renda que sustentará Flávio no exterior. Será a mesma que arca com o custo da vida milionária de Eduardo. O “exilado” ainda não explicou o orçamento da “Resistência”.

Fica a pergunta final, a que a elite brasileira deve uma resposta. O que ela viu, afinal, num bravateiro que pregava o encarceramento de adolescentes — defendeu reduzir a maioridade penal de 18 para 14 anos —, mas sai correndo diante da primeira adversidade? É um Falstaff de Henrique IV, o fanfarrão que se fingiu de morto no campo de batalha para escapar à espada e ainda se gabou da “discrição”. Falstaff é cômico porque é covarde. Os Bolsonaros são perigosos porque, além de covardes, têm eleitores.

Enquanto eles comandarem a extrema direita, o pensamento progressista talvez deva regozijar-se, mas nunca descansar. Porque, na versão corrente de Brecht, a cadela do fascismo está sempre no cio. A eleição para o Senado está aí para provar. A verdadeira resistência tem de se fortalecer.

Eis aí. Eles são quem são e não podem negar a sua natureza. A esta altura, só caem na conversa os coniventes. Até os tolos já desertaram.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Exausto

Não por percorrer distâncias, mas de tanta discussão e canelada. Não pela ansiedade dos prazos, mas pelas amizades desfeitas por política. Menos por subir oito lances de escada, mais por conta da luz que falta a qualquer ameaça de chuva. Não pelo peso de halteres e aparelhos, e sim pela ignorância que se orgulha de sua condição. Nem tanto pela tontura que antes fosse só pela idade, mais por aquela sensação de não pertencimento de três semanas atrás.

Não pelo noticiário na TV e sim por não ter mais criança em casa. Não pelas sete pílulas diárias (mais uma para proteger o estômago), mas pelas evidências escancaradas do aquecimento global. Muito menos pelo pernilongo que atazanou minha noite, senão pelos pesadelos que o sono trazia.

Um peso sobre os ombros que não sei de onde. Um espectro ao fechar os olhos (não fechemos os olhos, jamais). Uma aflição nas praças, bares e trens do metrô, comum a todos.


Menos pela saudade que não se resolve, mais por saber que ninguém do outro lado vai atender o telefone. Não pela feiúra absurda dos fios enrolados nos postes, mas pelas derrotas da delicadeza. Nem pelos fracassos do nosso futebol, mas por tanta gente normalizando o que não se deve. Não só pela glorificação da vulgaridade, mas pelo genocídio em Gaza. Menos pelas ruas vazias de medo às nove da noite, mais pela tentativa de infiltração das milícias em todos os setores.

Mais grave que a exaustão é o cansaço de falar sobre ela. E os algoritmos, sempre tão contra.

Não só pela indiferença dos privilegiados, mas também pela arrogância do sujeito que abriu o vidro do carro para jogar o lixo na rua. Não pelo sumiço dos amigos, mas por vê-los desorientados. Menos pelas relações desencontradas, mais pelas balas perdidas. Não pela demolição das casas simpáticas do bairro, mas pela impossibilidade de hoje abraçar minha filha.

Exausto pela prepotência dos que comandam a tecnologia e lucram com as nossas desavenças. Pela criança comemorando no capô do carro com uma arma na mão. Pelas ofensas naturalizadas. Pelas queimadas provocadas pelo homem. Pelas chicotadas no chão em tom de ameaça. O homem negro desfilando na avenida, acorrentado por um homem branco. Não pelo sim, muito mais pelo não.

Exausto. Mas aliviado.

Flávio, mártir do pau oco, quer criar nova revolta dos Bolsonaros contra o 'sistema'

A fuga de Flávio Bolsonaro dá o que pensar sobre o destino da oposição a Lula 4 e sobre a montagem de um projeto da direita para 2030. Talvez os Bolsonaros se façam de mártires da desdemocratização do Brasil, de vingadores dos oprimidos pelo "sistema", mote fundamental da família e das extremas direitas.

Podem meter os pés pelas mãos se tentarem, com sucesso, apoio do governo americano para campanha qualquer contra o Brasil. Por exemplo, Donald Trump poderia aceitar um processo de asilo político para os Bolsonaros. Diria assim que o regime brasileiro não é democrático, que persegue politicamente cidadãos. Pelo meio do caminho, haveria sanções, políticas ou comerciais.


Quanto ao mais doméstico, imediato e previsível, a escafedida de Flávio Bolsonaro promove tumulto nas fileiras dos partidos adversários de Lula 4, a começar pelo PL. Até segunda (26), esse senador com mandato terminal se coroava líder da oposição. A capacidade de Flávio liderar qualquer coisa, mesmo como estafeta ou garoto de recados do pai, causava certa descrença mesmo no PL e entre bolsonaristas de outros partidos. Agora, Flávio está fugido e não se sabe o que pretende —discursaria ainda nesta semana nos EUA. Sim, acontece de haver líderes de oposição que vivem fora do país deles. Em geral, tentam insurreição contra um governo autoritário, sem política viva.

O PL é um tanto gelatinoso, sem coesão. Há implicâncias com bolsonarismos mais extremados e divergências entre bolsonaristas. Que rumo vai tomar? Embarcaria em um projeto "antissistema"? Na oposição, é preciso pensar mais nos custos e no risco de perder emendas.

Por um lado, a família tem muito poder sobre as bases. Por outro, a fuga, uma campanha antinacional ou até golpista podem enfraquecê-la. Essa hipótese inspira aquelas pessoas que os Bolsonaros chamam de "direita cheirosa": deu ânimo àqueles que pregam a ideia de que a direita deve se afastar do bolsonarismo.

Essa direita terá condição de liderar políticos, grupos sociais e econômicos e a massa da militância, de resto em atrito com os Bolsonaros? Note-se que o evangelismo político, o agro, militares e forças de segurança de diversos tipos juntaram-se ao bolsonarismo, o constituíram ou nele pegaram carona para assumir poder direto de fato, de modo inédito. Mudariam de barco assim, sem mais, para essa hipotética ou fantasiosa nova direita?

Essa nova direita conseguiria disputar com sucesso o comando daquilo que o filósofo político Marcos Nobre chama de "partido digital bolsonarista"? Isto é, um partido informal que se estrutura e sustenta pelas redes e assim também cria organizações de base no mundo dito "real", típicas de um "partido de massas", e que parasita um partido formalmente constituído, que agora é no caso o PL.

Quem defende a tese da direita pós-bolsonarista é muito simpatizante do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Como o governador levaria adiante um projeto eleitoralmente viável sem contar com o eleitor bolsonarista de alma? É a questão de qualquer candidato a líder ou a presidente direitista em 2030. Os Bolsonaros concederiam o lugar de liderança sobre esses eleitores? Tarcísio até apareceu nas redes nesta terça (27), como líder de um "a luta continua", da "união e reconstrução", versão direitista, propondo um programa e dizendo "a eleição passou, o Brasil não". Vai disputar o poder com seus mentores?
Vinicius Torres Freire

Para que serve a polarização?

No domingo, com o seu voto, você ajudou a adormecer uma forma de polaridade: a oposição, burramente vista no Brasil como irreconciliável, entre a direita e a esquerda. Este dualismo, em tese, impede de maneira estúpida qualquer colaboração. Hoje, porém, com um novo presidente eleito, essa polarização terminou para dar lugar a uma oposição que a esquerda e a direita escamoteavam, a saber: a oposição entre a centralidade dos poderosos que vão para os palácios e a situação dos perdedores que são relegados à periferia. Agora, tranquilos, sabemos quem são os mandões e quem são os mandados. Ou seja, voltamos a viver a oposição rotineira entre os que detêm o poder e aqueles que devem se submeter a ele. Recuperamos a concepção tradicional de autoridade e, assim, restauramos o velho reino imperial iniciado com d. João VI e continuado pelos golpes, ditaduras e governos demagógicos.


O mundo político brasileiro voltou ao normal; restabelecemos a divisão entre barões e cidadãos, entre miliardários e remediados, como você e eu. Porque é exatamente dessa maneira que concebemos a política e o poder à brasileira: nele, o Brasil é esquecido e substituído por ideologias que jamais se concretizam. Nesse sistema, os mandões se apropriam da administração pública e controlam não só as leis, mas também o tesouro nacional, impiedosamente saqueado pelas autoridades que deveriam protegê-lo.

As polaridades põem em confronto duas entidades que podem ser políticas, religiosas, geográficas, cosmológicas ou até mesmo familiares. As polaridades dão significado ao mundo. Acabamos de inibir uma oposição trivial entre a mão direita e a mão esquerda; contudo, ingressamos naquela dualidade escondida pela polarização entre esquerda e direita - a oposição capital entre o alto e o baixo, entre o centro e a periferia, entre os poderosos e os comuns, como nós.

Como ensinou Claude Lévi-Strauss em um ensaio da década de 1950, existem, pelo menos, dois tipos de dualismo: o diametral e o concêntrico, já mencionados. Este último revela uma hierarquia que permanece oculta pela oposição entre as mãos: a relação entre a cabeça, que comanda, e os pés e as mãos, que obedecem.

Chegou a hora de sermos menos apaixonados pela disputa entre direita e esquerda e de dedicarmos mais atenção à permanente desigualdade entre senhores e escravos, homens e mulheres, honestos e gatunos da coisa pública.

P.S.: Nesta quarta, dia em que você lê esta crônica, habemus um novo presidente e, obviamente, inaugura-se uma nova etapa, fortemente marcada por aqueles que mandam e por aqueles que obedecem, pois é dessa maneira que concebemos o poder no Brasil. A eleição, repito, é como a coroação de um novo imperador. Que Deus nos proteja.

Poema do Aviso Final

É preciso que haja alguma coisa
alimentando meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança
É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminho

É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana
se firmará a machadadas.

Torquato Neto, "O fato e a coisa"

Olhar sobre o deboche, arma da ultra direita

Eram 14h em um subúrbio do Rio de Janeiro, em outubro de 2022. Um vira-lata, magro, sem dono, pedia comida na manifestação em apoio a Bolsonaro. Um manifestante gritou: “Cuidado com esse cachorro: se Lula ganhar, teremos que chamá-lo de picanha!”. Ao redor, dezenas de pessoas começaram a rir alto, e enriqueceram a piada: “Se Lula ganhar, ele será o primeiro a comê-lo!” gritou um homem vestido de amarelo. “Teremos que tomar cuidado ao comprar um cachorro-quente!”, disse um jovem com uma camiseta de seu líder. Nesse momento, Bolsonaro apareceu no palco. Milhares de bandeiras do Brasil, verdes e amarelas, se levantaram ao grito de “Mito, mito, mito!”, esquecendo o cachorro de rua.


Em outra parte da América Latina, na periferia de Buenos Aires, um seguidor de Milei dizia durante sua campanha em setembro de 2023: “Milei é bom, é um homem que gosta de cães”. “Seus cães fazem parte do seu pensamento”, dizia outro rapaz que havia participado da marcha com sua bicicleta do Uber Eats. “Mas os kirchneristas comem gatos, em breve estaremos comendo cachorros se essa máfia continuar governando!”, exclamou, mais assustado, um homem de meia-idade. “Corremos o risco de ser como a Venezuela, um país risível, um país comunista!”, apontou entre risos e indignação uma mulher idosa.

Essas piadas assustadoras viajaram pelo mundo. Viveram transmutacões e adaptações, até chegar em 2024 ao momento em que Donald Trump afirmou, em um debate presidencial contra Kamala Harris, que os haitianos residentes nos EUA “estão comendo os cães”. A risada de Harris foi sua primeira reação, pois encontrou no discurso do oponente o absurdo retórico que só poderia ser compreendido como chacota. Logo depois, ela mudou de expressão, tentando levar Trump para um terreno mais “sério”.

Neste artigo, analiso o papel que o humor – em especial, sua descaída patife, o deboche — desempenha nos processos de polarização e radicalização política das extremas direitas, especificamente as latino-americanas. Bukele, Milei, Bolsonaro, Kast… não se conectam apenas por seu militarismo, por seu componente autoritário, por seus discursos violentos, pela defesa de várias vertentes de um capitalismo ou pela apropriação do aparato estatal. Eles também o fazem pelo uso do deboche, como influenciadores políticos diretos, e como pontos em torno dos quais seus seguidores constroem relatos humorísticos, principalmente nas redes sociais.

A codificação do discuro a partir das chaves de “seriedade” ou “humor” estrutura-se a partir da suposta dicotomia entre modelos de comunicação opostos. Se o “sério” nos leva a compreender a comunicação de forma direta, de sentido literal, sem interpretação, o humor seria um código comunicativo caracterizado pela interpretação ambígua dos significados, e pela flexibilidade de conceder ou não credibilidade ao conteúdo das informações transmitidas. Elementos humorísticos também podem produzir, com base em sua interpretação múltipla, desinformação e conteúdo falso.

Talvez esse último elemento seja o que melhor representa o perigo que o deboche pode exercer no terreno político. Indicar que as pessoas estão ou estarão em breve comendo cachorros pode ser interpretado de diversas maneiras: ao serem perguntados sobre essa questão, alguns manifestantes no Brasil garantiam, com medo (apesar das risadas anteriores), que não queriam comer cachorros nem qualquer outro animal doméstico; outras pessoas dissecavam o humor, separando o elemento fictício, e indicavam que se tratava apenas de uma zombaria para rir do adversário político. De qualquer uma das interpretações, concluía-se que o humor agia como um potente antidepressivo, construindo amplamente identidades coletivas e normalizando uma violência muito concreta: que a esquerda não teria aquilo que Cardoso de Oliveira chamava de uma “substância moral digna”, e seria um espaço político que não mereceria ser considerado “humano”, pois quebraria o tabu social de se alimentar de animais de estimação e seres com os quais se estabeleceu um vínculo afetivo.

A normalização da violência por meio do deboche tem sido uma técnica eficaz utilizada, às vezes de forma planejada, outras vezes espontânea, pelas chamadas extremas direitas. Tanto os espaços orgânicos desses partidos políticos, quanto as bases militantes (por meio de memes e outras expressões humorísticas em espaços digitais) encontraram no humor uma forma de introduzir na agenda pública e política uma série de temas que, através de códigos “sérios”, não teriam encontrado o espaço ou a oportunidade necessária. Zombar de pessoas que passam fome e estariam dispostas a fazer qualquer coisa para comer, propor a pena de morte por meio de imagens e piadas de guilhotinas com figuras públicas, ridicularizar as violações contra mulheres ou a violência física e psicológica contra a população sem-teto, LGTBIQ+ ou racializada, sempre é mais fácil através do humor.

Esses códigos comunicativos, geralmente considerados pela literatura acadêmica como “códigos suaves”, são, na verdade, a ponta de uma lança contra os direitos humanos: por meio dessas piadas, pode-se fazer a primeira exposição e penetração das ideias mais violentas que podemos ouvir ou ver. Trata-se de um mecanismo de controle social, que investiga novas formas mais arriscadas e violentas de consenso sobre o que é “aceitável”. Isso ocorre porque o humor sempre permite um passo atrás. Se essa violência velada for acusada por alguém, por exemplo, de racismo ou machismo, o transmissor da mensagem humorística poderá sempre se refugiar na ideia de que “é só uma piada”. Ao dizer isso, ele estaria, de um lado, tentando evitar qualquer tipo de responsabilidade moral sobre a mensagem transmitida, enquanto diria à outra pessoa que “não entendeu a piada, que não tem senso de humor”. Não ter senso de humor seria um pequeno estigma, caracterizado pela incapacidade de interpretar as mensagens de forma descontraída, e, com isso, um apontamento à pessoa como carente de habilidades sociais recreativas para compartilhar esses códigos.

A verdade é que, por meio dessas mensagens debochadas, está sendo fortalecida uma série de discursos, metáforas e quadros cognitivos que, posteriormente, uma vez comprovada sua aceitação ou rejeição social, podem ser usados explicitamente na construção da agenda política. Ou seja, a violência velada do deboche ocorre primeiro, para depois ser construída uma violência explícita e direta. O humor, assim, torna-se um potente elemento na transição entre discursos ainda não aceitos socialmente e aqueles que já são, um espaço de liminaridade em que influenciadores, políticos e/ou simpatizantes, haters e trolls testam suas habilidades como criadores e difusores de mensagens de ódio.

Partir da premissa de que o deboche colabora na normalização de várias violências implícitas nos leva a entender esse código como algo legível apenas a partir de sua perspectiva cultural. No caso latino-americano, a condição pós-colonial se torna central para entender as particularidades do uso do humor no contexto da polarização política. Normalizar, por meio de piadas, a ideia de que “um bom bandido é um bandido morto” (Brasil de Bolsonaro), de que um presidente pode ser também “um ditador legal” (El Salvador de Bukele) ou de que “a venda de órgãos é apenas um tipo de mercado” (Argentina de Milei) só pode ser entendido através da compreensão de uma violência histórica caracterizada pela desigualdade, pelo racismo e pelo autoritarismo.

A militarização da esfera pública, relacionada a essa lógica colonial, também tem um efeito humorístico capitalizado pelas extremas direitas: fortalecer a categorização amigo-inimigo, distorcendo as características do “inimigo”, animalizando-o, desumanizando-o e transformando-o em um ser que pode ser fisicamente e/ou socialmente exterminado. Frequentemente, piadas e memes atravessam essa dicotomia de opostos, utilizando figuras que representam autoridade e hiper-masculinidade: policiais, militares ou heróis de Marvel e DC esmagando os oponentes, transformados em animais, como ratos ou baratas, algo que, para muitas pessoas, é “divertido”. Esse foi um dos elementos centrais da propaganda fascista e nazista do século XX, exportado e latinoamericanizado em ditaduras como a de Pinochet ou Videla.

O deboche é, portanto, um código que deve ser analisado e estudado com cautela, especialmente em um contexto de fragilidade democrática, onde os símbolos podem esconder ataques a setores da população e suas instituições. O contexto latino-americano atual, caracterizado por amplos movimentos reacionários, é o terreno perfeito para que o humor se torne um elemento-chave na radicalização política, na construção de uma agenda cultural e identitária própria e nas demandas desestabilizadoras das instituições públicas e democráticas. A internacionalização da cultura debicgada está em andamento na extrema direita latino-americana, tornando urgente estudar formas de regulação e educação sobre o uso desses códigos “suaves”, que desempenham um papel central nos processos de radicalização política.

Vitória para a democracia

Luiz Inácio Lula da Silva protagonizou um retorno sem precedentes nas eleições presidenciais brasileiras, e sua vitória tem repercussões que vão muito além das fronteiras da maior economia da América Latina. O presidente, figura proeminente do progressismo global há décadas , derrotou o senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político de seu pai, o ex-presidente condenado por tentativa de golpe. O resultado representa um impulso de otimismo para a esquerda e demonstra que a ascensão da extrema direita, alinhada ao trumpismo, não é inevitável.


Em nome da democracia e no melhor interesse do país, Flávio Bolsonaro deve reconhecer a derrota e respeitar as regras e a lei. Ao mesmo tempo, é necessário esclarecer a confusão em torno da decisão do Supremo Tribunal Federal de estender o horário de encerramento das urnas em duas horas . O Brasil não pode se dar ao luxo de ter sequer a menor dúvida sobre o processo eleitoral, nem, como há quatro anos, outro ataque às instituições como o perpetrado por Bolsonaro pai.

A vitória inesperada de Lula, conquistada por meio de uma campanha que combinou a defesa de programas sociais com uma mobilização
extraordinária em defesa da democracia que ultrapassou os limites do Partido dos Trabalhadores, oferece lições para os progressistas. Ela também envia uma mensagem poderosa em um contexto internacional dominado por Donald Trump. O presidente dos EUA entrou em conflito com o presidente brasileiro , apoiou candidatos extremistas em todo o continente e reviveu antigas noções do século XIX de que os Estados Unidos são um quintal onde a superpotência faz o que bem entende. A derrota de Bolsonaro é também a derrota de Trump.

Os desafios são enormes. A queda da Bolsa de Valores brasileira na manhã de segunda-feira é um sinal precoce das dificuldades que aguardam Lula. O déficit fiscal se aproxima de 10% do PIB e a dívida ultrapassa 80%, um nível
elevado para uma economia como a brasileira. Soma-se a isso a margem de manobra legislativa muito limitada. Quase metade dos eleitores apoia Flávio Bolsonaro: o movimento fundado por seu pai mantém forte presença social e territorial, e seu partido detém mais cadeiras do que qualquer outro desde a Assembleia Constituinte de 1988. Lula terá que governar um país muito maior do que a coalizão que o reconduziu à presidência.

A defesa da democracia deve se traduzir em respeito às instituições, à independência judicial, à liberdade de imprensa e em garantias para a oposição. A decisão de um ministro do Supremo Tribunal Federal de manter as urnas abertas duas horas a mais do que o estipulado exige total transparência. E Flávio Bolsonaro, que perdeu por mais de quatro milhões de votos, não pode usar isso como desculpa para rejeitar a vitória de seu rival e arrastar o país de volta para o caminho da luta pelo poder. Nesse sentido, é um sinal positivo que líderes da direita latino-americana, como Keiko Fujimori, do Peru, e José Antonio Kast, do Chile , tenham parabenizado o vencedor.

Lula, que completou 81 anos nesta terça-feira, encara o início de seu quarto e último mandato com uma responsabilidade à altura de sua vitória. Ele tem uma
oportunidade inesperada de consolidar instituições e preparar uma transição política que não dependa de sua liderança pessoal. A democracia brasileira demonstrou nesta campanha e nestas eleições que pode resolver uma disputa de enorme intensidade e significado nas urnas. Seu legado dependerá de se essa democracia emergirá dos próximos quatro anos menos vulnerável às tentações autoritárias.
 Editorial do El País

O voto que se perdeu e a fuga de um covarde

Não me espanta que mais um criminoso tenha fugido do país com medo de ser preso. Espanta-me, sim, que o meliante em questão, 48 horas antes, tenha obtido quase 60 milhões de votos para se eleger presidente do Brasil.

As pessoas não sabiam que ele era investigado pelo Supremo Tribunal Federal por evasão de divisas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa? Sabiam ou deveriam saber. Era público e notório. Mas pouco importou.

Essa conivência das urnas expõe um profundo cinismo institucional e o enfraquecimento do nosso pacto democrático. Ao chancelar o nome de alguém que despreza o próprio sistema legal que pretendia chefiar, o eleitorado normalizou a ideia de que as leis só se aplicam aos adversários. O resultado é a erosão do princípio republicano fundamental de que ninguém está acima da lei, substituído por um pragmatismo amoral que corrói a confiança nas regras do jogo democrático.


Na verdade, a polarização política cegou o discernimento ético, transformando o candidato em um símbolo de guerra cultural intocável. Para os seus eleitores, os crimes de colarinho branco e o desvio de recursos públicos foram relativizados e justificados sob o pretexto de uma suposta perseguição, provando que a paixão cega por um líder há muito substituiu o compromisso com a moralidade pública.

Não sabiam que ele, se derrotado, tentaria evadir-se? Claro que sim. Um irmão dele que vive nos Estados Unidos, em entrevista a um podcast na semana passada, antecipara que ele fugiria, caso não se elegesse. Antes do golpe de 8 de janeiro de 2023, o pai dele também voou em busca de proteção em terra alheia.

Família que bate continência para a bandeira americana compartilha dos mesmos
valores e, por mais que brigue entre si, permanece unida. “Deus, pátria e família” acima de tudo – aqui ou em qualquer outro lugar. Faltou incluir dinheiro, de preferência muito e sujo.

O que assistimos ontem não foi apenas a fuga covarde de um indivíduo que tem contas a pagar com a justiça, mas o retrato de um país anestesiado, onde metade do eleitorado escolheu fechar os olhos para o abismo e continua insanamente a ampliá-lo.

Validar nas urnas quem já desprezava as leis e só defendia a ordem bruta e o tacão é a prova cabal de que a nossa crise moral é muito mais profunda e crônica do que qualquer crise política ou econômica.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Pensamento do Dia (que seja eterno por décdas)

 


Uma frente ampla pela democracia

O deputado André Janones afirmou, em uma das últimas mensagens que dirigiu antes do segundo turno aos apoiadores virtuais de Lula que organizou nas redes sociais, que o próprio Lula dissera a ele que, "nas eleições anteriores, tinha sido eleito por um partido, mas agora seria eleito pelo povo". O futuro da governabilidade do país depende de que Lula esteja realmente convencido do que disse.

A significativa vitória no segundo turno, com números muito expressivos, não terá sido motivada por adesão a uma agenda apresentada por ele. Se assim fosse, teria impactado as urnas já no primeiro turno. A grande virada decorre, fundamentalmente, da (auspiciosa) rejeição do extremismo autoritário por parte de uma majoritária parcela da população que é muito maior do que o eleitorado de qualquer partido ou coligação. Felizmente, a maioria da população tomou consciência a tempo do risco que corria a democracia e transformou o segundo turno num plebiscito a favor da democracia.


Resta esperar que Lula tenha aprendido a lição (mesmo que com quatro anos de atraso). Sua candidatura não foi uma lista partidária: no segundo turno, tornou-se — ainda que não reconhecida explicitamente — uma "frente ampla", no sentido clássico do termo: união de forças políticas bastante diferentes em defesa de um núcleo de valores centrais que está sob grave ameaça — no caso, a democracia e o Estado de Direito. Por conseguinte, a maioria eleitoral não autoriza o eleito a perseguir unilateralmente seu programa político; seu mandato é o de articulador de um acordo nacional, produto de um pacto entre os diferentes segmentos da sociedade que pretendem viver sob a democracia e o Estado de Direito: partidos, sindicatos, associações profissionais e empresariais, organizações da sociedade civil.

Somente uma pauta estruturante negociada de forma autêntica e transparente com todos esses atores sociais permitirá superar os enormes obstáculos que estão na volta da esquina e que ameaçam fazer derreter o futuro governo na paralisia decisória e na ameaça de uso partidário do instrumento do impeachment. Não são perigos triviais: uma maioria de direita (dividida entre uma fração profundamente clientelista e outra fração extremista) em ambas as Casas do Legislativo, maioria essa que tem incentivos ao bloqueio de qualquer iniciativa de política pública de natureza redistributiva ou de resgate dos padrões de legalidade e moralidade na vida pública; um ajuste fiscal que se vai impor independentemente da vontade do governo de turno (seja por meio de medidas de política fiscal, seja por meio de desvalorização cambial e inflação); uma fragilidade financeira do setor público que compromete toda e qualquer iniciativa de enfrentamento dos problemas nacionais pelo governo federal.

Sem pactuar com segmentos sociais relevantes uma agenda mínima, em troca do apoio ativo desses mesmos segmentos pressionando as instâncias institucionais (em especial legislativas e judiciárias) em defesa dos pontos acordados, o caminho do futuro governo é tortuoso e frágil. Somente a pressão social externa, vinda da sociedade organizada, poderá remover os obstáculos impostos às políticas modernizadoras, desde o interior das instituições, pelos grupos de interesses especiais e pela polarização ideológica.

O que se propõe aqui não é um estelionato eleitoral, nem ignorar o programa escolhido pelas urnas: as urnas escolheram uma configuração de poderes que, se observadas as regras procedimentais da democracia (das quais Lula é inequivocamente um defensor), não apenas impedirá quaisquer propostas que tenha a coligação vencedora, mas imporá severos retrocessos em políticas públicas e regras institucionais. O papel histórico de Lula será, ao contrário, atuar dentro dessas regras democráticas (e sob essa correlação de forças conjuntural desfavorável) para preservar, na máxima extensão possível, as conquistas sociais que ficarão sob ameaça.

Somente uma articulação social ampla, captando apoios fora da coalizão do Executivo, permitirá conter a pressão do poder econômico para que o custo do ajuste recaia sobre os mais pobres; somente uma coligação com a sociedade civil permitirá avançar medidas de restauração do caráter republicano do funcionamento de muitos aspectos de instituições como o judiciário, as big techs ou as emendas orçamentárias. Ignorar essa realidade, e pretender que os recursos de poder isolados do Executivo levarão a resultados nessas arenas fundamentais, significaria abrir mão da única possibilidade de que o interesse público e a proteção aos mais vulneráveis sejam defendidos com alguma eficácia no novo quadro sombrio que se avizinha.

Essa necessidade de buscar pactos sociais traz consigo uma consequência instrumental: para viabilizar a interlocução com os demais agentes, Lula necessita abrir o núcleo decisório do governo às forças que autenticamente compuseram essa frente ampla, para que os agentes que falam em seu nome reflitam na prática essa intenção. Isto traria ainda um imenso benefício adicional: ao dar protagonismo decisório real a novos agentes, fora do núcleo duro partidário que controlou o terceiro mandato, Lula poderia finalmente entregar como legado histórico um conjunto de líderes, localizados em vários pontos do espectro ideológico, que seria capaz de continuar conduzindo a bandeira da democracia. Ao dar espaço real a essas novas gerações, Lula diminuiria o risco de reencontrar daqui a quatro anos os extremistas autoritários estando em posição ainda mais frágil e arriscada do que a que superou nesta eleição.
Ysadora Monteiro e Adrian Albala. Núcleo de Estudos sobre Bicameralismo e Instituições Comparadas (Nebic) da UnB