segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


EUA projetam poder militar nas Américas às vésperas da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro

Cinco países da América Latina aceitaram o emprego de militares dos EUA em seus territórios para combater o crime organizado. Eles fazem parte de um grupo de 19 países que aderiram à Coalizão Anticartéis das Américas. O presidente Donald Trump tem mantido posição ambígua em relação à possibilidade de intervenção militar sem autorização de governos.

Os países que já assinaram a autorização são Guatemala, Honduras, Jamaica, Colômbia e Equador. Do total de 19 países, apenas dois não estão sob governos de direita: Guatemala e Bahamas.

A Colômbia aderiu depois da posse do presidente Abelardo de la Espriella, no dia 7.

Seu antecessor, Gustavo Petro, rejeitava ação militar americana, da mesma forma que a presidente do México, Claudia Sheinbaum. Mesmo assim, Trump se negou a responder se poderia ou não ordenar ações militares nos dois países.


A coalizão tem origem em uma reunião de cúpula realizada em março na Flórida. A tese da ação militar americana é apoiada pela designação de narcotraficantes como terroristas.

Em 28 de maio, o Departamento de Estado incluiu o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho nessa lista, composta por 12 grupos da América Latina. A medida foi adotada logo depois de o senador Flávio Bolsonaro, agora candidato à Presidência, entregar em Washington um dossiê defendendo a designação.

Em vídeo divulgado na quinta-feira, em que aparece com uma camiseta da unidade de selva do exército americano, e cercado de militares, o secretário de Defesa Pete Hegseth avisa que os narcotraficantes serão tratados como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda.

O Comando Sul conduziu desde setembro ao menos 59 bombardeios contra barcos no Caribe e no Pacífico, provenientes de Venezuela, Colômbia e Equador, deixando 196 mortos. Segundo relatos de moradores, havia pescadores entre eles. Nenhuma evidência foi apresentada pelo Pentágono de que se tratava de criminosos.

Os documentos de Estratégia de Segurança e de Defesa dos EUA preveem a concentração de forças militares nas Américas, para fazer frente à influência chinesa e projetar poder na região.

Na hipótese de eleição de Flávio Bolsonaro, o Brasil deverá ser incluído na coalizão, e talvez na lista menor dos países que aceitam o emprego de forças americanas em seu território. O senador comentou no X, em 23 de outubro, um post de Hegseth, mostrando um ataque contra uma embarcação.

Ele escreveu em inglês: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil de drogas. Vocês não gostariam de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”

A impunidade do genocídio e a perda da conquista histórica de Nuremberg

“A única pista para aquilo que o ser humano pode fazer é aquilo que o ser humano já fez.” A advertência de R. G. Collingwood, utilizada no encerramento do filme Nuremberg, não deveria ser recebida como uma reflexão melancólica sobre um passado encerrado. Ela contém uma profecia política: os mecanismos que permitiram as grandes barbaridades do século XX não desapareceram com a derrota militar do nazismo. Podem reaparecer sempre que o Estado converte o medo em doutrina, o preconceito em identidade nacional, a obediência em virtude e a destruição de outro povo em requisito de segurança.

A formulação exige, porém, uma precisão indispensável. Não são os transtornos psiquiátricos que explicam o nazismo, os crimes de guerra ou os projetos contemporâneos de extermínio. Associar doença mental à barbárie seria cientificamente frágil e injusto com milhões de pessoas que convivem com sofrimento psíquico sem jamais praticar violência. A descoberta mais perturbadora de Douglas Kelley foi justamente a inversa: pessoas sem uma patologia psiquiátrica incapacitante podem participar de crimes extraordinários quando determinadas circunstâncias políticas, institucionais e morais tornam o crime normal, recompensado ou socialmente aceitável.

Não precisamos ser clinicamente insanos para participar de uma sociedade criminosa.

Em O nazista e o psiquiatra, Jack El-Hai reconstrói o encontro entre Kelley, então psiquiatra do Exército norte-americano, e os principais dirigentes nazistas presos antes do primeiro julgamento de Nuremberg. Kelley deveria avaliar se aqueles homens possuíam condições mentais para responder perante o tribunal. Esperava talvez encontrar uma estrutura psicológica especificamente nazista, uma deformação que separasse aqueles acusados da humanidade comum. O livro mostra que sua investigação não produziu uma fronteira confortável entre monstros e pessoas normais. Encontrou homens inteligentes, ambiciosos, socialmente funcionais e capazes de adaptar consciência, linguagem e comportamento às oportunidades oferecidas pelo poder.

A conclusão de Kelley antecipa uma questão que atravessaria o pensamento político do pós-guerra: o mal organizado não depende apenas de uma personalidade excepcionalmente perversa. Depende da criação de um ambiente em que a responsabilidade individual seja diluída entre ordens superiores, procedimentos administrativos, discursos patrióticos e interesses profissionais. A profecia de Nuremberg não é a de uma doença psiquiátrica que se repete. É a de uma possibilidade humana e institucional que permanece disponível.


Hannah Arendt encontrou na figura de Adolf Eichmann não a ausência de responsabilidade, mas a incapacidade de pensar criticamente sobre aquilo que fazia. Sua ideia de banalidade do mal foi muitas vezes reduzida à afirmação simplista de que os criminosos seriam burocratas inocentes. O argumento é mais exigente: atos monstruosos podem ser praticados por pessoas que substituem o julgamento moral pela linguagem administrativa, pela carreira e pela obediência. A banalidade não está no sofrimento causado, mas na normalidade com que o agente aprende a administrá-lo.

Christopher Browning, em Homens comuns, examinou como integrantes de um batalhão policial composto majoritariamente por alemães de meia-idade se transformaram em executores de milhares de judeus. Não eram todos militantes fanáticos nem foram todos obrigados sob ameaça imediata de morte. Pressão do grupo, conformismo, carreira, medo de parecer covarde, antissemitismo e adaptação progressiva tornaram possível aquilo que inicialmente poderia ter parecido impensável.

Robert Jay Lifton, ao estudar os médicos nazistas, demonstrou outra dimensão decisiva. Profissionais treinados para curar puderam participar da seleção, da experimentação e da morte porque construíram uma separação interna entre a identidade médica e a função exercida no sistema de extermínio. O conhecimento científico não impediu o crime; foi colocado a serviço dele. A medicina, quando capturada pelo Estado totalitário, deixou de proteger a vida concreta e passou a administrar uma suposta saúde racial da nação.

Essas contribuições não eliminam a responsabilidade pessoal. Fazem exatamente o contrário. Demonstram que não podemos esperar sinais de loucura para reconhecer o perigo. Um governante pode discursar racionalmente, vencer eleições, dominar estatísticas, reunir especialistas e, ainda assim, conduzir políticas criminosas. Um oficial pode amar sua família e ordenar a destruição da família de outro. Um médico pode preservar a saúde de determinados cidadãos e aceitar a privação médica de uma população considerada inimiga. Um eleitor pode defender valores democráticos para seu próprio grupo e tolerar a suspensão desses valores para quem foi colocado fora da comunidade nacional.

O Museu Memorial do Holocausto, dos Estados Unidos, resume as motivações dos participantes e colaboradores do nazismo em dois grandes campos: elementos culturais e ideológicos, como o antissemitismo, e mecanismos psicossociais, como medo, oportunismo e pressão para conformar-se. Muitos europeus testemunharam perseguições, violência, deportações e apropriação de bens, mesmo sem conhecer a extensão completa da chamada Solução Final. A propaganda ocultou métodos e utilizou eufemismos, mas a exclusão dos judeus da sociedade ocorria diante de vizinhos, funcionários, comerciantes e beneficiários diretos da desapropriação.

O Estado nacional-socialista criou as circunstâncias em que o crime deixou de parecer crime. O judeu foi primeiro transformado em problema jurídico, econômico, biológico e territorial. Vieram as classificações, as proibições profissionais, a expropriação, a segregação, a deportação e, finalmente, o assassinato industrializado. O Holocausto foi um processo em evolução: a perseguição sistemática iniciada em 1933 culminou, entre 1941 e 1945, na política de assassinato em massa denominada pelos nazistas “Solução Final”.

A Alemanha nazista e seus aliados e colaboradores assassinaram seis milhões de judeus europeus, além de milhões de outras vítimas perseguidas pelo regime. Aproximadamente 9,5 milhões de judeus viviam na Europa em 1933. Ao final da guerra, dois de cada três haviam sido mortos – uma destruição equivalente a cerca de 63% da população judaica europeia anterior ao nazismo. Nenhuma comparação contemporânea deve apagar a especificidade histórica, continental, racial e industrial desse processo.

Comparar, contudo, não significa declarar equivalência. A história comparada não coloca tragédias em uma competição macabra. Ela identifica mecanismos, ritmos, proporções e estruturas de impunidade. O Holocausto e a destruição de Gaza não são acontecimentos idênticos: diferem em duração, escala absoluta, tecnologia, configuração territorial e contexto histórico. Mas a singularidade do Holocausto não pode ser utilizada para proibir toda comparação, porque os princípios jurídicos construídos em resposta a ele foram deliberadamente formulados como universais.

Nuremberg estabeleceu que o indivíduo responde por crimes internacionais; que a legislação interna não elimina essa responsabilidade; que a condição de governante não oferece imunidade absoluta; e que a alegação de cumprimento de ordens não basta para absolver aquele que possuía possibilidade de escolha. A Convenção do Genocídio, aprovada em 1948, incluiu entre os atos proibidos o assassinato de integrantes do grupo, a produção de danos físicos ou mentais graves e a imposição deliberada de condições de vida calculadas para provocar sua destruição física total ou parcial

É precisamente por isso que Gaza não pode ser analisada apenas pela comparação entre números absolutos. O universo populacional é decisivo. Segundo a UNICEF, 71.803 palestinos haviam sido registrados como mortos na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 3 de fevereiro de 2026, entre eles pelo menos 21.289 crianças. Outros 171.230 haviam sido registrados como feridos, incluindo cerca de 44.500 crianças. Em uma população estimada em 2,1 milhões de habitantes, as mortes diretas registradas correspondem aproximadamente a 3,4% da população; as crianças mortas, isoladamente, superam 1% de todos os habitantes; e os feridos representam mais de 8%. Trata-se de uma aproximação proporcional baseada nos números publicados, não de uma estimativa de mortalidade total ou de uma comparação de equivalência com o Holocausto.

Essa contagem também não representa necessariamente toda a dimensão humana da catástrofe. Ela registra mortes oficialmente reportadas, não todas as pessoas desaparecidas sob escombros nem os efeitos futuros de ferimentos, doenças, desnutrição, contaminação da água e interrupção de tratamentos. O rigor exige que não inventemos números além dos documentados. Exige também que não reduzamos a destruição aos corpos já contabilizados.

Aproximadamente 1,9 milhão dos 2,1 milhões de habitantes de Gaza permaneciam deslocados em julho de 2026 – mais de 90% da população. Cerca de 82% das famílias enfrentavam insegurança hídrica, e até 70% não conseguiam acesso a seis litros de água por pessoa ao dia, volume inferior aos padrões mínimos de emergência. Dos 633 caminhões de ajuda da UNICEF provenientes do Egito em maio e junho, apenas 280 conseguiram descarregar seus suprimentos.

Mais de 60 milhões de toneladas de escombros haviam sido geradas desde outubro de 2023. Somente uma fração havia sido removida. Nos centros coletivos avaliados pela OCHA, 69% apresentavam esgoto visível e 80% não possuíam iluminação funcional. No primeiro semestre de 2026, foram registradas quase quatro mil perdas gestacionais; mais de 57% das gestantes apresentavam anemia, e a morbidade materna grave chegou a 82 casos para cada mil partos.

Esses dados dimensionam uma forma de destruição que ultrapassa o ataque militar direto. Uma sociedade é atingida em sua possibilidade de continuidade quando hospitais deixam de funcionar, mulheres não conseguem realizar partos seguros, crianças adoecem por falta de água, escolas desaparecem, áreas agrícolas se tornam inacessíveis e famílias são obrigadas a deslocar-se repetidamente sem lugar seguro para permanecer.

Mesmo depois do anúncio de um cessar-fogo em 10 de outubro de 2025, a OCHA informou outras 1.180 mortes e 3.810 feridos até 22 de julho de 2026. Entre 15 e 22 de julho, 59 palestinos foram registrados como mortos e mais de 190 como feridos. O termo “cessar-fogo” perde parte de seu conteúdo quando a população continua submetida a ataques, mortes e deslocamentos.

Nada disso justifica os crimes cometidos pelo Hamas e por outros grupos armados em 7 de outubro de 2023. A Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU concluiu que foram praticados ataques intencionais contra civis, assassinatos, tratamentos cruéis, tortura e tomada de reféns. Condenar esses crimes é uma obrigação moral e jurídica. Contextualizá-los historicamente não significa legitimá-los.

Mas a história palestina não começou naquele 7 de outubro. Em 1948, mais de 750 mil palestinos foram arrancados de suas casas, muitos deles à força, no processo conhecido como Nakba. A crise dos refugiados palestinos tornou-se a mais longa crise prolongada desse tipo no mundo contemporâneo. Em 2007, Israel intensificou o bloqueio terrestre, marítimo e aéreo de Gaza, aprofundando restrições anteriores e produzindo impactos profundos sobre a economia, a mobilidade e o tecido social do território.

A violência posterior ao atentado não surgiu do nada. Foi a intensificação colossal de uma estrutura anterior de ocupação, bloqueio, deslocamento e desigualdade jurídica. O ataque terrorista ofereceu ao governo Netanyahu a oportunidade política de transformar o trauma israelense em autorização para uma campanha cuja escala destrutiva passou muito além da responsabilização dos autores do ataque.

Em setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Investigação das Nações Unidas concluiu que autoridades e forças israelenses haviam cometido e continuavam cometendo genocídio contra os palestinos em Gaza. Israel rejeita essa conclusão. A Corte Internacional de Justiça ainda não proferiu uma sentença definitiva sobre o mérito da ação apresentada pela África do Sul, embora tenha determinado medidas provisórias de proteção. Essa diferença deve ser preservada: uma comissão da ONU apresentou uma conclusão jurídica de genocídio; o processo de responsabilidade estatal perante a CIJ permanece em andamento.

No campo da responsabilidade individual, o Tribunal Penal Internacional expediu mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant por alegados crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo o uso da fome como método de guerra, assassinato, perseguição e outros atos desumanos. O mandado contra Netanyahu permanece registrado pelo tribunal. Não é uma condenação antecipada, mas uma ordem para que o acusado seja apresentado à Justiça, conheça as provas, exerça sua defesa e seja submetido ao devido processo.

Prender Netanyahu em território de um Estado obrigado a cooperar com o TPI seria juridicamente legítimo. A presunção de inocência não significa o direito de evitar o julgamento. Significa o direito de ser julgado por tribunal competente, de contestar a acusação e de não ser condenado sem prova. Impedir a prisão não protege o devido processo; impede que ele aconteça.

A reação dos Estados Unidos confirma a perda da conquista histórica de Nuremberg. Washington apoiou o Tribunal Penal Internacional quando a instituição expediu mandado contra Vladimir Putin, mas passou a atacar o tribunal quando a mesma lógica de responsabilização alcançou Netanyahu. Uma norma aplicada aos adversários e suspensa diante dos aliados deixa de ser norma universal. Converte-se em arma geopolítica.

Essa seletividade também aparece no cerco contra Cuba. As situações de Gaza e Cuba não são equivalentes: uma população está submetida a uma campanha militar destrutiva; a outra sofre há décadas com um bloqueio econômico, comercial e financeiro. A lógica comum é o uso das condições materiais de vida de uma sociedade para impor submissão política.

Cuba não deve ser idealizada nem isentada de críticas sobre liberdades, participação política, gestão econômica e direitos civis. Mas suas contradições internas não autorizam uma potência estrangeira a decidir, pela escassez de combustível, crédito, tecnologia e medicamentos, qual regime os cubanos devem adotar.

A experiência socialista cubana produziu conquistas reconhecidas internacionalmente. A UNESCO descreve a Campanha Nacional de Alfabetização de 1961 como o acontecimento mais marcante da educação e da cultura cubanas no século XX. O método Yo, sí puedo contribuiu para alfabetizar mais de seis milhões de pessoas em 29 países. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, a expectativa de vida em Cuba alcançou 78,3 anos em 2024, superando a média das Américas. Reconhecer esses resultados não exige silenciar os problemas do regime; exige apenas analisar a trajetória histórica de Cuba sem as caricaturas construídas por Washington.

Em outubro de 2025, 165 países votaram na Assembleia Geral das Nações Unidas pelo fim do embargo norte-americano contra Cuba; apenas sete votaram contra e doze se abstiveram. A votação mostra a amplitude da rejeição internacional, mas também a impotência da Assembleia para obrigar a maior potência econômica e militar a modificar sua conduta.

Gaza e Cuba revelam, por métodos diferentes, o mesmo limite da ordem internacional. O TPI emite um mandado, mas não possui força policial para executá-lo. A Assembleia Geral condena um bloqueio, mas não possui meios para encerrá-lo. A norma existe, porém a aplicação depende daqueles que controlam armas, sistemas financeiros, alianças e sanções.

A sociedade israelense não pode ser responsabilizada coletivamente pelas decisões de Netanyahu. O povo judeu, o judaísmo, os cidadãos israelenses e o governo de Israel não são a mesma coisa. Transformar judeus em culpados por sua identidade seria reproduzir a lógica antissemita de culpa étnica. Mas negar a culpa coletiva não elimina a responsabilidade democrática individual.

A lição de Kelley dirige-se também aos cidadãos. O fato de uma pessoa não emitir ordens, lançar bombas ou administrar bloqueios não encerra sua responsabilidade moral. Há momentos em que permanecer neutro diante do que é feito em nome de sua sociedade significa permitir que o sistema continue funcionando. A resistência necessária em Israel deve ser civil, democrática e não violenta: nas ruas, nos sindicatos, nas universidades, na imprensa, nos tribunais, nas eleições e na recusa de participar de condutas incompatíveis com o direito humanitário.

A memória do Holocausto não concede imunidade a um Estado. Seu valor universal está precisamente na recusa de que qualquer população seja expulsa da humanidade. Honrar os seis milhões de judeus assassinados não significa silenciar diante da morte de crianças palestinas. Significa reconhecer nelas o mesmo direito à vida que o mundo jurou proteger depois de Auschwitz.

O desafio ultrapassa Israel e Palestina. O que se decide é se a civilização aceitará uma ordem em que tribunais são obedecidos quando acusam inimigos e sancionados quando investigam aliados; em que a fome pode ser administrada como instrumento militar; em que a energia se converte em arma de mudança de regime; e em que o destino de povos inteiros depende da conveniência de uma potência.

A resposta precisa chegar às instituições políticas. No Brasil, o primeiro turno das eleições gerais ocorrerá em 4 de outubro de 2026, com eventual segundo turno em 25 de outubro. Nos Estados Unidos, as eleições federais parlamentares serão realizadas em 3 de novembro. Esses pleitos não resolverão sozinhos Gaza, o bloqueio contra Cuba ou a crise do direito internacional, mas podem alterar a correlação política que sustenta a hegemonia pela força.

Derrotar eleitoralmente o trumpismo e seus representantes brasileiros não significa hostilidade contra o povo norte-americano nem submissão acriticamente a qualquer governo adversário de Washington. Significa rejeitar uma política que sanciona tribunais, protege aliados procurados, ameaça a soberania econômica de terceiros países e trata a força como fonte última de legitimidade.

Nuremberg será perdido não quando seus documentos forem queimados, mas quando se transformarem em objetos cerimoniais sem eficácia contra os poderosos. Será perdido quando a responsabilidade individual valer para os derrotados e a imunidade política permanecer reservada aos aliados. Será perdido quando a humanidade concluir que determinados povos podem ser destruídos desde que o responsável disponha de proteção militar suficiente.

A profecia de Douglas Kelley permanece diante de nós. Não precisamos ser clinicamente insanos para participar de uma sociedade criminosa. Basta que nos adaptemos, que obedeçamos, que racionalizemos e que aceitemos o sofrimento do outro como preço inevitável de nossa própria segurança.

A história já demonstrou aquilo que pessoas comuns podem fazer sob as circunstâncias de um Estado que organiza a desumanização. Cabe às sociedades de Israel, dos Estados Unidos, do Brasil e do mundo demonstrar aquilo que pessoas comuns também podem impedir quando se recusam a entregar sua consciência ao poder.

A Europa entre o populismo, a inação política e o descontentamento

Atualmente, a Europa atravessa um período de transformação social, económica e política que será um dos momentos mais desafiantes desde o final da Guerra Fria. A crescente radicalização do debate político, a perceção de inação política e o aumento do descontentamento dos cidadãos pressionam as instituições e fragilizam as democracias europeias.

Nos últimos tempos, o aumento do custo de vida em todos os países europeus, a dificuldade de muitos jovens europeus em comprarem a sua primeira habitação e a sucessiva instabilidade no panorama internacional face aos conflitos e à imprevisibilidade dos Estados Unidos têm contribuído para o aumento do descontentamento das populações face aos governos e às instituições do Estado de Direito.

Segundo os dados da Pordata e da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), cerca de oito a cada dez cidadãos tendem a não confiar no sistema partidário português e 62% manifestam desconfiança face ao Parlamento português. Estes dados não representam uma crise de credibilidade das instituições, mas sim, uma crescente distância entre as instituições e as pessoas.


Este contexto político no continente europeu tem fortalecido movimentos e partidos populistas que se apresentam como alternativas ao sistema político. Existem diversas formas de populismo face à realidade social e política de cada país, mas uma das características mais evidentes em todos os movimentos é a defesa de uma solução simples para problemas complexos. Esta característica é o reflexo da degradação do espaço político e da perigosidade que o discurso populista pode ter relativamente aos problemas reais das pessoas.

Porém, o fortalecimento do populismo nos países europeus é o exemplo da inação política de muitos atores políticos face às preocupações reais dos eleitores. O imobilismo político é um dos principais motores da ascensão do populismo nas democracias europeias, e torna-se um desafio à capacidade das democracias liberais de defenderem a promoção do debate maduro e sério sobre soluções concretas para os problemas reais.

A inação política não é só uma perceção e um dos principais motivos para o crescimento do populismo, mas um sintoma das transformações rápidas do mundo contemporâneo. Cada vez mais, uma sociedade é marcada pela rapidez da informação e pela exigência de soluções para o imediato, algo em que a democracia já demonstrou, diversas vezes ao longo da sua história, que as soluções reais para os problemas complexos de uma sociedade exigem tempo e negociação para terem a efetividade que todos querem. Nesse sentido, a demora pode ser interpretada como incapacidade de resposta face aos problemas dos cidadãos, apesar de existirem casos em que é evidente a falta de vontade política.

Por outro lado, a aceleração da história faz com que as sociedades não acompanhem as mudanças estruturais do tempo, e as plataformas digitais são exemplo disso face à relação entre governantes e governados. Tanto contribui para uma maior participação política pelos mais jovens, como também fragiliza a democracia com a desinformação e o aumento da polarização política.


O último perigo para a Europa é o crescimento do descontentamento das populações face à realidade europeia e do mundo, mas, acima de tudo, à realidade económica, social e política de cada país europeu, porque a perceção de inação política e o aumento exponencial dos movimentos populistas nas sociedades europeias farão com que os atores políticos não tenham espaço de manobra para solucionar os problemas reais com tempo e credibilidade, tal como a pressão política é muito maior quando o descontentamento se torna combustível político para os populismos.

Neste sentido, as democracias europeias têm de mostrar, mais uma vez, a força da resiliência europeia e a defesa intransigente dos valores da democracia. Os cidadãos precisam de uma política de proximidade, de auscultação, mas, principalmente, de uma política concreta para voltar a trazer a confiança às pessoas e a credibilidade às instituições democráticas.

O mundo de hoje acelera no tempo com mudança e rapidez. A Europa precisa de se reinventar e aproximar-se dos cidadãos. O desafio da minha geração não é só resistir aos populismos, mas também renovar a esperança de que a democracia continua a ser o melhor regime político. Como dizia Winston Churchill, “Democracy may be the worst form of government, except for all the others that have been tried ”. Cabe-nos, por isso, torná-la mais próxima e capaz de responder às preocupações dos europeus.

O crime nos trinques

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.


A pergunta tem a ver com os filmes americanos, novos ou clássicos, em que os gângsteres dos anos 1920 se vestem bem, moram em belos apartamentos e têm sempre uma loura decotada à mão. E, se você pensa que isso é coisa de cinema, saiba que é verdade —eles gostavam de se tratar.

É verdade que, no começo, não era assim. Os gângsteres surgiram com a Lei Seca, em 1920, e, enquanto se limitavam a vender gororobas fabricadas em banheiras, eram esculhambados como os nossos. Mas eles logo tomaram também a prostituição, os speakeasies, as casas de jogo e até o show business — cantores, músicos, night-clubs, tudo ficou nas mãos deles. E, então, a começar por Al Capone, vieram os ternos bem cortados, os chapéus de feltro, a pérola na gravata, as abotoaduras de ouro, as metralhadoras último tipo.

Nossos traficantes hoje superam aqueles gângsteres em dinheiro e poder. Por que, então, continuam a parecer pés-de-chinelo? Você dirá que os verdadeiros chefões do crime organizado são os magnatas, que moram nas mansões de luxo e não sabemos quem são. Mas, no americano, era a mesma coisa. Os bacanas não apareciam, e os famosos, como John Dillinger, Pretty Boy Floyd, Baby Face Nelson, Machine Gun Kelly e outros, eram como o nosso segundo escalão, só que nos trinques.

Nos trinques ou não, não adiantou. Quando o FBI desbaratou o comando, fechando a torneira econômica, eles tiveram de trocar seus ternos risca-de-giz pelo pijama listrado ou de madeira.

Lula sai na frente do primeiro dia da campanha para presidente

Lula larga na frente. Não importa o empate técnico no segundo turno com Flávio Bolsonaro, registrado pela mais recente pesquisa Quaest. No primeiro turno, ele abre sete pontos de vantagem sobre Flávio (PL), 34 sobre Ronaldo Caiado (PSD), 34 sobre Renan Santos (Missão) e 36 sobre Romeu Zema (Novo). Os demais candidatos mal pontuaram.

No domingo, o primeiro dia de campanha oficial, Lula também largou na frente. Basta comparar o tamanho do comício que promoveu no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, onde surgiu como líder sindical, com o tamanho do comício realizado por Flávio na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.


Para tentar vender sua visão de futuro, Lula resgatou feitos passados seus e dos governos do PT, citando o mais importante de todos: a inscrição definitiva dos pobres na agenda nacional. Desde então, qual foi o candidato a presidente que ousou ignorar os pobres na hora de prometer mundos e fundos para atrair votos?

Flávio não tem feitos para resgatar, nem seus, nem do seu pai, nem do partido de aluguel que o abriga hoje com toda a sua família. A não ser que considere como dignos de menção a “rachadinha”, a condecoração de milicianos, o comportamento do seu pai durante a pandemia da Covid-19 — que matou 700 mil brasileiros — e o golpe de 8 de janeiro.

Eleição é emoção na veia aplicada por meio de falas e propaganda. Lula e Flávio usaram essa receita em seus respectivos atos. Porém, houve mais emoção no estádio em São Bernardo, onde os símbolos predominaram, do que em Copacabana. À beira-mar, bandeiras dos Estados Unidos indicaram com clareza de que lado está Donald Trump.

“O atual governo briga com países que estão a 10 mil quilômetros de distância da gente, mas não briga com o ladrão vizinho, traficante, estuprador e assassino”, disse Flávio. Contrapôs Lula: “Que futuro querem para o povo brasileiro se riem de quem morre asfixiado por falta de ar e não investem em educação, saúde, casa e emprego?”

A esquerda de todos os tons uniu-se em torno de Lula, com o apoio de sete partidos. Já Flávio só conta com o PL, pois a direita se fragmentou. Os partidos do Centrão, ideologicamente afinados com Flávio, declararam-se neutros, embora uma parte deles no Sudeste vote em Flávio e, no Nordeste, em Lula.

Chapa “puro-sangue”, como a de Flávio com Antônio Gaspar de vice, só ganhou eleição presidencial uma vez: em 1989, com Fernando Collor e Itamar Franco, ambos filiados ao PRN. Mesmo assim, isso aconteceu porque aquela foi uma eleição isolada, não geral. Votou-se apenas para presidente, e os partidos não tinham a importância que têm hoje.

Estamos ou não no rumo do tetra, por um lado, ou do bi, pelo outro? Existe algum sinal de zebra, como a chance de Cabo Verde ganhar a Copa? Façam suas apostas.

sábado, 15 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A 'praga' dos influencers: o cinema e a política já não querem críticos, querem cúmplices

Começo pelo que me é mais próximo. Houve um tempo em que os distribuidores nacionais e internacionais mostravam os filmes aos críticos porque admitiam que um filme podia ser pensado antes de ser vendido. O crítico via, escrevia, irritava o realizador e, de vez em quando, ajudava o público a descobrir uma obra que a publicidade não sabia embrulhar. Agora, a ante-estreia parece quase uma festa infantil, daquelas que outrora se destinavam aos filmes de animação da Pixar ou da Disney, organizada por uma multinacional: uma parede “instagramável”, pipocas da cor da campanha, brindes nas cadeiras e telemóveis erguidos antes de a luz se apagar. O filme ainda não começou e já é “uma experiência imperdível”. A opinião chega antes do objeto e a obra-prima nasce no corredor, ao lado do photocall.


Chamam-lhes influencers ou criadores de conteúdos, expressão suficientemente vaga para não se perguntar que conteúdos criam, para quem e pagos por quem. Alguns são cinéfilos sérios e chegam a públicos que os jornais abandonaram. O problema não é o TikTok, o YouTube ou a juventude. Uma crítica não fica inteligente por sair num jornal, nem estúpida por ser filmada na vertical. A fronteira está entre pensamento e promoção, independência e publicidade.

Os estúdios perceberam depressa a vantagem. Um crítico pode gostar ou não gostar. Um influencer convidado para uma estreia, alojado num hotel, conduzido pela passadeira vermelha, alimentado pelo catering e colocado durante vinte segundos diante de uma estrela tem, no mínimo, um problema de gratidão e, regra geral, não ganha um “tusto”. Nem é preciso ordenar-lhe que elogie. A censura moderna não levanta a voz: gere listas. Quem embaraça a campanha deixa de receber convites. Quem escreve “obra-prima” antes do embargo ganha uma entrevista, uma viagem e uma caixa de merchandising que acabará no lixo depois de produzir quatro stories.

Os grandes estúdios e as distribuidoras internacionais organizam sessões preparadas para gerar reações, não análises, nas quais os influencers recebem acesso antecipado e o crítico chega quando o filme já está coberto por “uau”, “épico” e “não estava preparado para isto”. Entretanto, alguns criadores de conteúdos também descobriram que uma opinião negativa rende mais visualizações. A indústria criou mascotes e acordou rodeada de monstros algorítmicos.

No fundo, os distribuidores já não procuram quem saiba falar de cinema. Procuram quem reduza melhor a distância entre o trailer e a compra do bilhete. Não querem uma leitura; querem uma temperatura. Não querem uma ideia; querem engagement. Não querem saber se o filme presta; querem saber se a hashtag pega. A crítica pergunta o que uma obra significa e que linguagem inventa ou repete. O marketing pergunta quantos seguidores tem a pessoa que vai dizer que chorou no fim. Entre uma pergunta difícil e uma lágrima bem iluminada, Hollywood escolhe a lágrima.

Depois aparece a desculpa suprema: “Temos de chegar à Geração Z.” A frase é dita com o paternalismo de quem acredita que os jovens já não conseguem ler três parágrafos. A Geração Z não nasceu ignorante. Não é, afinal, a geração mais qualificada e viajada de sempre? Porém, foi educada num ecossistema que recompensa a velocidade, castiga a dúvida e oferece estímulos sem contexto. Se desconhece a história do cinema, talvez seja porque as televisões deixaram de mostrar clássicos, as revistas de cinema fecharam ou se limitaram à sobrevivência através dos cliques do online, os jornais despediram a maioria dos críticos e jornalistas culturais e as escolas tratam a cultura como decoração ou acessório. Culpar os jovens por comerem mal depois de lhes fechar a biblioteca e abrir vinte cadeias de fast food é cobardia adulta.

A praga, portanto, não são propriamente os influencers. A praga é o modelo que transforma toda a pessoa numa superfície publicitária, toda a experiência em conteúdo e toda a opinião numa mercadoria. O influencer é apenas o rosto mais fotogénico do problema. Atrás dele estão distribuidoras, agências, departamentos de marketing e plataformas que descobriram uma forma barata de comprar proximidade. A publicidade tradicional tinha, pelo menos, a decência de parecer publicidade. Esta nova publicidade veste a roupa da amizade e começa por dizer: “Malta, tenho de vos contar uma coisa.”

É também por isso que tantos vídeos parecem ter sido produzidos pela mesma pessoa, ainda que apresentem rostos, penteados e sotaques diferentes. Há sempre uma estante estrategicamente desarrumada, uma planta que prova sensibilidade ecológica, um pequeno microfone agarrado entre os dedos e uma energia de vendedor de aspiradores promovido a filósofo da cultura. O filme “bateu-me muito”. A interpretação “está incrível”. A fotografia “é brutal”. A história “faz pensar”. Pensar em quê já seria pedir demasiado. O algoritmo não recompensa desenvolvimento; recompensa reconhecimento. O espectador deve perceber imediatamente se deve gostar, odiar, comprar ou partilhar. A dúvida, essa velha matéria-prima da inteligência, faz perder retenção.

Não é que os influencers digam sempre bem. Alguns já aprenderam que destruir um filme pode dar mais visualizações do que elogiá-lo. Mas até a negatividade obedece ao mesmo mecanismo. O filme não é analisado: é executado. “O pior do ano”, “uma vergonha”, “ninguém pediu isto”. De um lado, o entusiasmo alugado; do outro, a indignação industrial. No meio, o cinema, reduzido a combustível para alimentar uma personalidade digital que precisa de publicar amanhã, depois de amanhã e todos os dias, até que o algoritmo a substitua por alguém mais novo, mais rápido e com uma estante ainda mais bonita atrás de si.

O contágio não termina no cinema. A televisão e a informação televisiva descobriu o seu próprio influencer: o comentador residente. À segunda-feira domina finanças, à terça a guerra, à quarta a justiça e à quinta explica, com a mesma segurança, a alma nacional e o Governo do País. É uma marca com gravata. Mandar um repórter investigar custa dinheiro e pode produzir uma conclusão incómoda; sentar quatro comentadores à mesa ou por videoconferência de casa, custa menos e gera clips. A televisão imita o algoritmo: frases curtas, indignação pronta, adversários fixos. Quem diz “não sei” desaparece; quem grita muito regressa amanhã e nos dias seguintes.

O comentador televisivo já não está ali para esclarecer. Está para representar uma posição, ocupar uma trincheira e produzir frases suficientemente inflamáveis para circularem nas redes sociais. É o influencer político adaptado ao horário nobre. Tem maquilhagem profissional em vez de ring light, auricular em vez de microfone minúsculo e um realizador a escolher-lhe o melhor plano quando levanta a sobrancelha. A função, porém, é semelhante: transformar complexidade em identidade e informação em espetáculo.

O Digital News Report 2026 ajuda a perceber a mudança: 27% dos inquiridos recebem notícias de criadores dedicados à informação e 46% consomem alguma informação através de criadores de qualquer género. Consideram-nos mais divertidos e próximos, mas também menos fiáveis e imparciais do que os meios tradicionais. Confiamos menos, mas vemos mais; desconfiamos da mensagem, mas partilhamo-la porque dura quarenta segundos e sorri para nós.

A autoridade deixou de depender do conhecimento e passou a depender da familiaridade, por vezes até de um estúdio de televisão com croma atrás. Vemos a mesma pessoa todos os dias, ouvimos a sua voz durante meses, conhecemos a sala onde grava, o cão que lhe passa atrás e a caneca de café que segura. Acabamos por acreditar nela não porque apresente provas, mas porque já faz parte da mobília emocional da nossa vida. O jornalismo tinha instituições, editores, regras, correções e responsabilidades. O novo pregador digital tem seguidores. E um seguidor, como a própria palavra indica, não é exatamente alguém treinado para fazer perguntas.

Quando esta lógica entra na política internacional, o assunto deixa de ser apenas irritante e torna-se altamente perigoso e perverso. Um filme mal promovido pode perder espectadores; uma guerra promovida como produto pode fazer desaparecer seres humanos dentro de uma narrativa. Em Setembro de 2025, documentação registada nos EUA ao abrigo da lei dos agentes estrangeiros descreveu uma campanha internacional ligada a Israel, com verbas destinadas à produção de conteúdos e ao trabalho com influencers, incluindo metas mensais de publicações. O documento não prova que toda a defesa pública de Israel seja paga, nem permite acusar alguém apenas porque tem uma determinada opinião. Prova que os Estados compreenderam o valor estratégico de uma voz aparentemente pessoal e espontânea.

No caso de Gaza e da Palestina, esconder a origem de um patrocínio não é uma pequena infração publicitária. É manipular a confiança entre uma pessoa e a sua comunidade. Pode defender-se Israel, a Palestina, um cessar-fogo, dois Estados ou outra solução. O que não se pode é vender uma narrativa encomendada como descoberta moral. Uma viagem paga não é uma epifania. Um guião de agência não é consciência. E um vídeo diante de ruínas não se transforma em jornalismo só porque tem boa luz, música grave e um plano de drone.

A propaganda mais eficaz já não começa com uma voz oficial. Começa com: “Estive aqui e ninguém vos está a contar a verdade eu.” Trinta segundos mais tarde, uma guerra cabe num reel e o espectador sente que compreendeu tudo. Não compreendeu; foi conduzido. Desde outubro de 2025, a União Europeia aplica regras de transparência à publicidade política, que podem abranger criadores remunerados para promover ideias. Uma opinião patrocinada continua a ser publicidade, mesmo quando filmada na cozinha.

A manipulação tornou-se mais eficaz porque perdeu o aspeto de manipulação. Já não chega num panfleto assinado pelo ministério, mas numa conversa aparentemente casual. O influencer visita um lugar escolhido, fala com pessoas selecionadas, recebe dados preparados e regressa com a convicção daqueles que descobriram a verdade numa viagem de três dias com motorista e guia orientado. Tudo parece testemunho. Tudo parece espontâneo. Tudo foi pensado para parecer exatamente assim.

Não se trata de proibir opiniões favoráveis a um país, a um governo ou a uma causa. Trata-se de exigir que saibamos quando uma opinião também é um serviço. Quem paga a viagem? Quem escolhe o itinerário? Quem organiza os encontros? Quem fornece os números? Quem aprova o conteúdo? A transparência não impede ninguém de falar; apenas impede que a publicidade se faça passar por consciência individual. E talvez seja por isso que tanta gente a detesta.

Volto à velha crítica de cinema, sejamos honestos, também cavou parte da sua própria sepultura. Tornou-se previsível e prudente. Houve críticos que aceitaram funcionar como máquinas de promoção, confundindo o amor pelo cinema com a obrigação de elogiar tudo, fazer entrevistas coletivas em barda e não levantar ondas. Depois ficaram surpreendidos quando a indústria encontrou profissionais mais rápidos, mais jovens em geral, baratos, sorridentes e, portanto, menos sisudos e mal-vestidos.

Durante demasiado tempo, alguns críticos acreditaram que defender o cinema significava recomendar todos os filmes, como se uma crítica negativa fechasse salas e uma positiva salvasse a arte. Aceitaram entrevistas coletivas de cinco minutos, perguntas previamente negociadas, frases promocionais arrancadas aos textos e embargos desenhados para impedir qualquer pensamento antes do fim-de-semana de estreia. Habituaram a indústria à docilidade e agora queixam-se de que apareceu uma espécie ainda mais dócil. É a velha história do cortesão que protesta quando o rei arranja um cão ou um novo animal de estimação.

Mas a solução não é substituir a crítica por relações-públicas com rosto humano. É recuperar aquilo que ela ainda pode oferecer e o marketing nunca oferecerá: distância, memória, contexto, contradição, estilo, risco e liberdade para dizer não. Um crítico não existe para levar pessoas ao cinema a qualquer preço. Existe para lhes dar razões, inclusive razões suficientemente fortes para não ficarem em casa. Trabalha para a vida posterior do filme, quando o brinde foi deitado fora, o reel deixou de circular e sobra a obra ou o vazio.

A crítica sobreviverá, provavelmente sem o antigo trono de eleição, porque tudo tem o seu tempo e agora os influencers são decerto uma moda. Porém, seja de cinema ou de qualquer outra arte, terá de escrever melhor, dominar novas linguagens e deixar de confundir perda de privilégios com o fim da civilização. Mas não pode abdicar da independência para parecer moderna. Quando o cinema troca críticos por cúmplices, o jornalismo por comentadores e a política por vendedores de narrativas, não estamos perante uma democratização da comunicação. Estamos perante a privatização da confiança.

A verdadeira praga dos influencers não está no telemóvel, no ring light ou no microfone minúsculo, preso entre o indicador e o polegar. Está numa sociedade que só valoriza a opinião quando ela vende alguma coisa: um filme, um candidato, uma guerra, uma causa. Quando todos são convidados a influenciar, a única rebeldia séria é recusar ser influenciado pelo convite. E quando um estúdio, um partido ou um governo pergunta quantos seguidores temos, talvez esteja na altura de responder com a única métrica que ainda interessa: quantas perguntas somos capazes de fazer sem medo nem hesitações, até onde estamos dispostos a levar a nossa curiosidade e atenção e quantas verdades estamos preparados para dizer, mesmo sabendo que não haverá convite para a próxima estreia ou apresentação.

O momento do México e do Brasil

Na manhã de 6 de agosto, reuni-me, em nome da presidenta Claudia Sheinbaum, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Coincidimos em um ponto central: é momento de levar a colaboração entre nossos países a um novo nível. Nesse mesmo dia, realizou-se a sexta reunião da Comissão Binacional México-Brasil, três anos após a quinta, em um intervalo que transformou a ordem internacional.

O Brasil e o México são as duas maiores economias e as duas nações mais populosas da América Latina e do Caribe. Concentramos cerca de 60% do PIB regional, figuramos entre as 15 maiores economias do mundo e fazemos parte do G20. Essa dimensão implica responsabilidade compartilhada diante dos desafios de nosso tempo: combater a pobreza, a desigualdade e as mudanças climáticas, defender a democracia e preservar o multilateralismo.

Em matéria energética, a cooperação entre a Pemex e a Petrobras avança com base no memorando assinado em junho, que abriu uma agenda de intercâmbio técnico, tecnológico e regulatório em exploração, produção e transformação de hidrocarbonetos. Soma-se a isso uma cooperação crescente em biocombustíveis, área na qual o México aprenderá com a experiência brasileira.

Nossos governos compartilham uma convicção: a soberania energética e o desenvolvimento econômico devem avançar de mãos dadas com o combate às mudanças climáticas e com soluções baseadas na natureza. O Brasil demonstrou isso em novembro passado, quando sediou, em Belém, a COP30, a primeira conferência climática das Nações Unidas realizada na Amazônia. Dela resultaram compromissos sobre adaptação, proteção florestal e combustíveis sustentáveis. O México chegou a esse encontro com uma Contribuição Nacionalmente Determinada renovada.

Segundo o Banco do México, no primeiro semestre deste ano, nossas exportações para o Brasil cresceram cerca de 33%, e ambos os governos concordaram em ampliar o intercâmbio e os investimentos. O memorando de ciência, tecnologia e inovação assinado nesse mesmo dia abre caminho para o trabalho em inteligência artificial, semicondutores e computação quântica.

O Brasil convidou o México a integrar o Centro Latino-Americano de Biotecnologia, e o México convidou o Brasil a integrar a Agência Latino-Americana e Caribenha do Espaço. A cultura segue o mesmo caminho: a nova sede do Instituto Guimarães Rosa abrirá suas portas no México, junto ao Instituto Matías Romero, para ensinar português aos nossos funcionários e funcionárias.

Diante de um momento complexo na ordem internacional, México e Brasil compartilham uma mesma visão: diplomacias a serviço dos povos — e do nosso planeta — e uma ordem internacional sustentada no direito, que se aplique igualmente a todos e todas. Daí nossa defesa do multilateralismo, do direito internacional, da não ingerência e da igualdade jurídica dos Estados; o impulso a uma reforma das Nações Unidas à altura do nosso tempo; e o compromisso de preservar a América Latina e o Caribe como a Zona de Paz proclamada pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Nesse mesmo espírito, o México apoia a candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral das Nações Unidas.

Essa visão compartilhada tem expressões concretas. O Brasil assumiu a representação dos interesses do México no Peru enquanto durou a ruptura: um gesto que agradecemos e que honra a melhor tradição da vizinhança latino-americana.

O passo seguinte é transformar esse momento em uma arquitetura duradoura: transitar do diálogo bilateral para uma parceria estratégica de longo prazo, medida em resultados concretos. Cadeias regionais de valor em biocombustíveis, indústria aeroespacial, farmacêutica e minerais estratégicos; autossuficiência sanitária; capacidades espaciais próprias; posições compartilhadas no G20 e nos sistemas interamericano e das Nações Unidas.

Antes de receber o Prêmio Nobel da Paz, Alfonso García Robles foi embaixador do México no Brasil e se tornou o principal artífice do Tratado de Tlatelolco, acordo que fez da América Latina e do Caribe a primeira região habitada do planeta livre de armas nucleares.

Tlatelolco foi uma conquista regional e uma contribuição latino-americana para a ordem mundial, feita por países armados com o poder da diplomacia e do direito internacional. Esse é o padrão histórico que hoje reafirmamos: o momento do México e do Brasil não será medido pelo que alcançarmos internamente, mas pelo que a região — e o mundo — receberem de nós.

Fim da credibilidade de uma superpotência

Na semana passada, um pequeno terremoto geopolítico abalou o Oriente Médio. A Arábia Saudita e a Turquia – duas nações que mantiveram uma hostilidade aberta uma em relação à outra durante grande parte da última década – comprometeram-se a entrar em guerra em defesa uma da outra. Juntamente com o Paquistão, elas assinaram o Acordo de Defesa Conjunta de Meca, declarando, ao estilo da Otan, que um ataque a uma delas seria considerado um ataque a todas.

O Paquistão e a Arábia Saudita mantêm, há muito tempo, laços estreitos em matéria de segurança. Mas a Arábia Saudita e a Turquia têm sido rivais regionais acirrados, entrando em conflito por causa do Catar, do Egito, da Irmandade Muçulmana e, de forma mais explosiva, do assassinato de Jamal Khashoggi em Istambul, pelo qual o líder turco, Recep Tayyip Erdogan, pareceu culpar diretamente o príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman.


Então, o que os uniu? Donald Trump – ou, melhor dizendo, a confiança cada vez menor dos dois países nele e em sua palavra. A guerra com o Irã tem sido uma aula magistral sobre como desperdiçar credibilidade. Vale lembrar que tanto a Arábia Saudita quanto o Catar receberam garantias de segurança de Trump apenas no ano passado. Mas a palavra dele é tão confiável para seus aliados no exterior quanto era para seus banqueiros em Nova York.

Trump declarou repetidamente que um acordo com Teerã estava a apenas alguns dias de ser fechado. Em meados de junho, uma contagem registrou pelo menos 38 declarações de que um acordo estava próximo ou de que o Irã o desejava desesperadamente.

No entanto, nesta semana, uma fonte iraniana disse à Reuters que as negociações não haviam feito “absolutamente nenhum progresso”. O mundo aprendeu a tratar seus anúncios na rede social como uma mistura de fato e ficção, assim como alguns dos vídeos gerados por IA que ele publica.

O mesmo padrão é visto na Europa. Em maio, Trump anunciou que 5 mil soldados americanos deixariam a Alemanha e sugeriu que mais cortes estavam por vir. O Pentágono cancelou um plano de envio de cerca de 4 mil soldados para a Polônia. Dias depois, Trump anunciou que mais 5 mil soldados iriam para a Polônia.

Às vezes, ele ameaça não defender a Europa contra a Rússia; outras vezes, diz que o fará. Imagine ser um ministro da Defesa europeu tentando elaborar um plano militar de dez anos com base nisso.

Trump declarou nesta semana que os EUA tinham “controle total” do Estreito de Ormuz. No entanto, dados de rastreamento de navios registraram apenas 14 embarcações transitando em um único dia recentemente, em comparação com mais de 130 por dia antes da guerra. Isso não é simplesmente uma questão de estilo presidencial ou retórica. Toca no cerne do poder americano.

Durante oito décadas, os EUA construíram algo tão poderoso quanto porta-aviões e esquadrões de caças F-35: credibilidade. Os aliados acreditavam que os compromissos americanos perdurariam de um governo para o outro.

Os adversários compreendiam que as ameaças americanas, embora às vezes exageradas, tinham peso real. O sistema não era perfeito. Washington quebrou promessas e cometeu erros. Mas havia uma presunção de que os EUA eram um ator previsível e as palavras do presidente tinham significado.

Trump trata promessas e ameaças como se estivesse jogando um grande jogo de blefe. Mas a imprevisibilidade é algo muito diferente em uma aliança do que em uma negociação imobiliária. Se os aliados não conseguem saber se as tropas chegarão ou partirão, se as tarifas aumentarão ou diminuirão, se um acordo assinado hoje será válido amanhã, eles não se tornam mais obedientes. Eles se tornam mais independentes.

Os países estão criando estratégias de segurança. A Dinamarca escolheu o sistema de defesa aérea franco-italiano SAMP/T em vez do americano Patriot. O Canadá está reconsiderando suas compras de F-35. Os governos europeus estão investindo em suas próprias indústrias de armamento.

A Coreia do Sul tornou-se o segundo maior fornecedor de armas para os países europeus da Otan e está ajudando a equipar a defesa aérea do Golfo com sistemas mais baratos que os Patriots. O banco central holandês transferiu serviços essenciais de nuvem para um provedor europeu, a fim de reduzir a dependência da tecnologia americana. E agora Arábia Saudita, Turquia e Paquistão estão construindo sua própria arquitetura de segurança.

Nenhuma dessas medidas, por si só, representa uma ruptura com Washington. Mas elas demonstram uma perda cada vez maior de confiança na palavra dos EUA. O mesmo está acontecendo com as ameaças americanas.

Se Washington ameaça aplicar tarifas, obtém concessões e depois volta a ameaçar com tarifas, os governos concluem que ceder não traz segurança. Parafraseando o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, no início deste ano, se os países esperam que a obediência garanta segurança, isso não vai acontecer. Portanto, a resposta racional é construir alternativas.

Até mesmo Bibi Netanyahu não levou muito a sério as propostas de Trump, rejeitando de forma seca e sumária o plano de 15 pontos do presidente americano para o território da Faixa Gaza nesta semana. Ele já viu muitos planos de Trump anunciados com grande alarde, que depois são rapidamente esquecidos. Lembra-se do plano da Riviera de Gaza?

É assim que as grandes potências entram em declínio – não necessariamente por meio de alguma derrota dramática, mas à medida que outros, discretamente, deixam de organizar o mundo em torno delas.

Os EUA continuam imensamente poderosos. Possuem as forças armadas mais fortes do mundo, tecnologias de ponta, vastos mercados de capitais, alianças formidáveis e o dólar. Mas a credibilidade também é um ativo, acumulado meticulosamente ao longo de gerações e surpreendentemente fácil de esgotar e desperdiçar.

Durante a crise dos mísseis cubanos, o presidente John F. Kennedy enviou o ex-secretário de Estado, Dean Acheson, a Paris para informar Charles de Gaulle sobre a descoberta de mísseis nucleares soviéticos em Cuba. Acheson levou fotografias de reconhecimento para comprovar o caso.

De Gaulle, que dificilmente poderia ser considerado um súdito dos EUA, dispensou as imagens com um gesto. Ele disse que não precisava das provas. A palavra do presidente dos EUA era suficiente. Essa cena é inimaginável hoje em dia.

Candidato a capitão do mato

Se a extrema-direita apostasse, de fato, na conquista do poder pelo voto, teria se imposto à família Bolsonaro e substituído o candidato às eleições presidenciais. Flávio é inepto e corrupto. Como o pai, confiou na débil Justiça fluminense e no socorro de uma ala do Ministério Público (e agora, na condescendência de um ministro do STF “terrivelmente evangélico”) para livrá-lo dos rigores da lei, embora sem conseguir apagar os rastros das atividades ilícitas. O último escândalo no qual aparece envolvido até o pescoço, o do Banco Master, ainda está quente. Também são indeléveis suas digitais nas negociações com o governo de Donald­ Trump para impor sanções ao Brasil e ameaçar a soberania do País.


Além da folha corrida, o filho de Jair não oferece nada ao eleitor. Escancarou um discurso misógino mesmo diante da evidência de que estará derrotado nas urnas se não quebrar o franco favoritismo do presidente Lula no eleitorado feminino. Escolheu como vice um homem que traz na bagagem uma denúncia por estupro de vulnerável. Fez discursos ameaçadores contra o seu próprio País e apoiou publicamente (e incentivou) as ameaças de Trump ao sistema eleitoral. Rompeu publicamente com a madrasta que, dizem, tem mais votos do que ele. Perdeu apoio entre evangélicos, segmento fundamental na eleição de seu pai em 2018 e na tessitura de um movimento de massas de perfil fascista que manteve Jair no poder e apoiou a tentativa de golpe quando o “mito” foi derrotado por Lula em 2022.

Flávio faz movimentos desagregadores no próprio partido. Tomou para si, como se propriedade sua fosse, uma máquina partidária que, embora tenha ganhado força e importância na esteira do bolsonarismo, constituiu-se nacional e regionalmente como uma legenda forte, com boa representação municipal e uma bancada expressiva no Congresso. É duvidoso que a tomada de assalto do PL de Valdemar Costa Neto dê ao candidato algo além do que financiamento eleitoral. Não existe uma relação orgânica da legenda com ele. O partido cristianizá-lo no meio de um processo eleitoral (jargão político para designar abandono do candidato pelo seu próprio partido, em favor de outro com maiores chances de vitória) não é uma hipótese implausível.

São enormes as evidências de que Flávio é um candidato fraco. Por que, então, se mantém candidato?

A candidatura é um projeto familiar, não apenas de poder, mas de sobrevivência. Estar no poder é a única proteção contra os processos que correm em várias instâncias judiciais contra seus integrantes. Um dos filhos, Eduardo, é foragido da Justiça. O pai está preso por tentativa de golpe de Estado. Carlos e Renan, candidatos, respectivamente, a senador e deputado­ federal por Santa Catarina, precisam de um mandato parlamentar para se proteger de futuras condenações. Flávio seria a tábua de salvação dele próprio. Em algum momento, algum juiz pode se perguntar por que ele compra tantos apartamentos em dinheiro vivo e os vende meses depois pelo triplo do preço.

Se hoje o único apoio inconteste de Flávio é o do governo Trump, e se a tendência eleitoral da família Bolsonaro, representada pelo senador, é a de declínio, e perder a eleição é a hipótese mais plausível no momento, se ele não exerce poder agregador sobre as outras candidaturas de direita, de cujos votos precisaria desesperadamente no segundo turno, se optou por uma candidatura do medo – ou ele, ou a intervenção dos EUA sobre as eleições brasileiras e um possível golpe no candidato com chances efetivas de vitória, o presidente Lula, se conseguiu a façanha de ser rejeitado inclusive pelo setor das Forças Armadas que apoiou a tentativa de golpe contra Lula em 8 de janeiro de 2023, é lógico que aposta na chegada ao poder por um golpe tipo Venezuela. Lula ganha, os EUA contestam a eleição e usam a força para tirá-lo do poder, e Flávio, o amigo do imperador do mundo, assume.

É esse o projeto de Flávio, Eduardo, Carlos, Jair Renan e Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo. E, principalmente, de Jair, que não quer morrer na cadeia. É esse o projeto de Trump, que quer do Brasil petróleo, terras-raras e o que der para agregar não apenas à riqueza dos EUA, mas, principalmente, às próprias finanças. O mundo vive o imperialismo das plutocracias, do uso do poder militar para a concentração cada vez maior das riquezas do planeta nas mãos de poucos. Nesta nova divisão internacional existem os hiper-ricos, o poder militar concentrado nas mãos do país central do capitalismo e os capitães do mato, aqueles que fazem o serviço sujo de desviar a riqueza das nações para os bolsos dos donos do mundo.

Flávio é candidato a capitão do mato.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Manifesto: Contra a produtividade, pim! Pela felicidade, pum!

O dia começa a esvair-se. O céu derrete-se languidamente, em tons de laranja, que escorrem até se desfazerem numa mancha de um rosa arroxeado que desmaia sobre o azul frio. Em breve, vai voltar a aparecer uma lua redonda, cheia como uma laranja, boiando sobre as águas. Não consigo desviar os olhos. Penso em pegar no telefone para fotografar. Mas travo o gesto. Nenhuma fotografia conseguiria captar este momento. Inspiro o vento salgado do fim de tarde com a mesma ânsia com que mergulhei uma e outra vez no mar desde o princípio da manhã. Primeiro aproximando-me devagar, a pele arrepiada avançando sobre as águas. Depois atirando-me inteira sobre as ondas. O corpo deslizando, aquático, como se voltasse ao início de si, àquele momento em que flutuava ainda como embrião. Até me faltar o ar e vir à tona e o arrepio da pele me fazer voltar ao calor do areal. Uma e outra vez. Até o dia desaparecer.

Os autómatos não são felizes, porque as coisas têm uma utilidade e a felicidade é completamente inútil e escapa à lógica e ao planeamento

Há um único dia de férias de verão. Não importa quantos anos se passem. Volto ao mesmo dia, cristalizado na infância, uma e outra vez. Não importam as variações. É pouco importante o pormenor do local ou do tempo. O que importa é regressar à praia e àquele dia que se refaz em todos os dias das férias de verão.

Sou muito feliz na rotina das férias. Gosto de voltar todos os anos ao mesmo lugar, ainda que ao longo de décadas de vida esse sítio já tenha mudado muitas vezes. Por muito que goste da viagem e da novidade, é neste regresso estival que viajo mais longe. É pela repetição que volto, uma e outra vez, àquele momento da infância e do espanto. Regresso agora com dois filhos pelas mãos. Mas sou outra vez a criança que brinca na espuma, que se enterra na areia, que corre até ao paredão, que mergulha uma e outra vez e se recusa a ir para a cama para sentir o ar da noite carregado de maresia e aloendros.


Todos os anos há novas sardas na minha pele. São constelações. São mapas de dias passados ao sol, que me ensinam o caminho até ao lugar desta felicidade inconsequente, feita de mar e calor. Corrijo. A felicidade nunca é inconsequente. A felicidade é urgente. Não sabemos bem o que é, porque ela é parecida com aquele arrepio que sentimos no primeiro mergulho. Está ali entre o desconforto do frio e o calor que vai subindo até nos obrigar a voltar para o mar. Ia escrever que é uma questão de dose, de equilíbrio. Mas a felicidade é desmesurada e tão mais feliz quanto mais desequilibrada for.

A felicidade é uma coisa revolucionária. E é por isso que ela assusta. Porque subverte as regras, desafia as convenções, pisa o medo e dá força aos fracos. Já pensaram bem no tempo e nos recursos que os poderosos de todas as épocas gastaram a tentar esmagar a felicidade? Tudo o que foi proibido e proscrito, tudo o que foi controlado e interdito? Todas as formas de opressão e controlo tentam apagar a felicidade. Fazem dela pecado ou crime, porque sabem como é poderosa e livre a gente feliz. E não há nada que meta mais medo aos que querem o poder só para eles do que pessoas cheias de felicidade.

Os senhores dos algoritmos tentam plastificar a felicidade, reduzi-la a fórmulas de perfeição instagramável, poses falsas, encenações infelizes. Mas a felicidade não está no Instagram. Ela não cabe numa fotografia, não entra num vídeo. Gente verdadeiramente feliz não produz conteúdos. Vive. E isso, claro, não é monetizável. E é também por isso que as redes instigam o ódio e a indignação. Uma e outra vez. Até nos sentirmos completamente infelizes e resignados à ideia de que o mundo é um lugar horrível e a felicidade, uma utopia impossível ou talvez uma anestesia que se pode comprar. Sim, porque a indústria da infelicidade é lucrativa, ela vive acenando-nos com uma felicidade de pacote, que podemos encomendar online, sem portes de envio, mas nos chega sempre estragada ou se desfaz rapidamente.

A rotina das férias é também uma vacina contra essa ideia da novidade de consumo. Uma forma de voltar uma e outra vez àquilo que conhecemos e encontrar o espanto das coisas que existem só porque sim. Deixarmo-nos mesmo regressar ao momento em que mal tínhamos consciência de nós e existíamos apenas, com os olhos abertos e levando o mundo à boca para ter a felicidade de o sentir. Só porque sim.

Um mergulho no mar não serve para nada. Uma tarde na areia não tem utilidade. O pôr do sol é uma coisa sem sentido. O luar das noites de verão não produz coisa nenhuma. Todas as coisas verdadeiramente importantes da vida escapam às métricas da produtividade e da utilidade. Como o amor, os beijos, os abraços, os sorrisos, a música, a pintura e a literatura não servem para coisa alguma. E a Humanidade também não. E ainda bem.

Recusemo-nos a ser instrumentais, úteis, produtivos. Recusemo-nos a refrear a felicidade, a dosear o amor, a ser frugais no prazer e austeros no viver. Não nos envergonhemos do riso nem da dança. Não nos controlemos na festa nem no sonho. Ousemos exigir impossibilidades. Admiremos a capacidade do ócio. Percebamos a importância de existir só porque sim, sem adiar beijos e abraços, sem contar horas como se elas fossem um castigo, mas entendendo-as como uma dádiva, fazendo de cada momento o melhor que ele pode ser. Com os dois pés no presente e a cabeça toda no futuro, sonhando que amanhã será melhor, mas fazendo tudo para que hoje já comece a sê-lo.

Nunca ninguém será feliz em folhas de Excel, relatórios de comissões técnicas, auditorias e procedimentos. A Inteligência Artificial pode ser moderna, produtiva e eficaz, mas nunca saberá o que é a felicidade. Os autómatos não são felizes, porque as coisas têm uma utilidade e a felicidade é completamente inútil e escapa à lógica e ao planeamento.

A felicidade, meus amigos, é política. Quem a teme sabe-o bem. É preciso percebê-lo. É preciso ser feliz.

A sociedade da dúvida permanente

Repete-se sempre da mesma maneira, confirmou a Polícia Judiciária à Lusa. Uma fotografia banal, tirada do Instagram. Uma representação sexual fabricada por uma das várias aplicações de “nudificação” que podem ser encontradas com facilidade. A imagem, manipulada mas com o rosto verdadeiro, entra num grupo de WhatsApp da escola. Em poucas horas, transforma-se em meme, ganha novas versões, passa de telemóvel em telemóvel e já não pode ser apagada de todos os dispositivos onde chegou. Em mais de nove em cada dez casos, é uma rapariga.

Os primeiros casos remontam a 2024. Hoje já chegam aos tribunais. A maioria é comunicada pelas próprias escolas e envolve sobretudo jovens entre os 12 e os 16 anos. Portugal, sem grande alarido, deixou de tratar isto como hipótese. Tornou-se rotina. É este o ponto de partida — e não a tecnologia em abstracto: uma sociedade em que já não se sabe se aquilo que se vê aconteceu e em que essa incerteza, por si só, já é suficiente para causar dano.

Durante décadas, falsificar exigiu talento. Uma fotografia adulterada, uma gravação cortada, uma citação inventada — tudo isso precisava de passar pelo crivo de um olhar desconfiado. Havia uma linha, ainda que ténue, entre o acontecimento e a sua representação. Essa linha está agora a dissolver-se e, com ela, desaparece algo mais silencioso: a convicção de que uma imagem constitui evidência.


A União Europeia começou a responder com normas específicas. Desde 2 de Agosto de 2026, entram em aplicação as obrigações de transparência previstas no artigo 50.º do Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, destinadas, entre outras coisas, a tornar identificáveis determinados conteúdos gerados ou manipulados artificialmente.

É uma medida necessária. Mas resolve apenas metade do problema, porque assinala o que foi produzido ou alterado por uma máquina sem devolver, por si só, credibilidade ao que é genuíno. É exactamente aí que a manipulação encontra o seu espaço mais fértil: já não precisa de convencer; basta lançar a dúvida sobre aquilo que aconteceu.

O Brasil oferece, neste preciso momento, um laboratório dessa mutação. O uso de um avatar do ex-presidente Jair Bolsonaro, gerado por inteligência artificial numa convenção partidária, levou o Tribunal Superior Eleitoral a convocar uma reunião extraordinária para discutir o tema. O detalhe mais revelador não é o avatar em si — é a dificuldade crescente em separar, com nitidez, o que foi encenado do que foi fabricado.

Portugal partilha o mesmo ecossistema informativo, mas enfrenta o problema a partir de uma realidade própria. A Comissão Nacional de Eleições promoveu, no âmbito dos seus 50 anos, uma conferência dedicada exactamente a este cruzamento — inteligência artificial, democracia e eleições — reunindo juristas e membros do Tribunal Constitucional para discutir onde termina a inovação e começa a manipulação do processo eleitoral.

A questão portuguesa, portanto, não é saber se esta tecnologia chegará à política. Já chegou. É perceber se as instituições, os jornalistas e os cidadãos estarão preparados quando uma imagem inventada puder ser suficientemente convincente para produzir uma dúvida com consequências reais.

Porque é aqui que a lógica se torna verdadeiramente perigosa. Até agora, a manipulação procurava levar alguém a aceitar uma versão distorcida dos factos. Esta nova forma de interferência tem uma ambição mais modesta e mais devastadora: não precisa sequer de persuadir. Basta retirar às pessoas a certeza sobre aquilo que aconteceu.

Um documento incómodo pode ser desqualificado como manipulação sem que seja preciso demonstrá-lo. Uma gravação genuína pode ser posta em causa apenas porque, em teoria, também poderia ter sido criada por uma máquina. Nem sempre quem lança a suspeita terá razão. Mas deixou de precisar de a ter — basta-lhe semeá-la e esperar que faça o resto do trabalho.

É aqui que a transformação revela a sua verdadeira dimensão. O futuro da desinformação não passa necessariamente por fazer-nos aceitar o inventado como realidade. Pode ser muito mais simples — e muito mais eficaz: fazer-nos desistir de procurar a realidade.

Chegados aqui, torna-se claro que o verdadeiro alvo desta transformação não é a verdade. É a prova — e a diferença entre as duas coisas é politicamente decisiva. Uma sociedade sem factos partilhados pode conservar opiniões divergentes, debate e até democracia, embora sob condições mais difíceis e instáveis. Mas, quando a evidência deixa de ser credível, perde-se algo anterior a tudo isso: a capacidade de um jornalista confirmar um facto, de um tribunal fundamentar uma sentença, de um cidadão responsabilizar um poder. Não se trata apenas de fabricar melhor. Trata-se de retirar à sociedade o instrumento com que se protege de quem procura manipulá-la.

A Unesco tem alertado para os efeitos da inteligência artificial sobre a liberdade de expressão e os processos eleitorais, descrevendo os deepfakes como falsificações capazes de imitar de forma convincente a voz e o rosto de uma pessoa real. O risco maior, porém, talvez não seja sermos enganados por essas imitações. É deixarmos de acreditar que ainda vale a pena separar o original da cópia — entregando essa distinção a quem tiver mais poder para a impor.

Portugal tem discutido a inteligência artificial sobretudo pelo lado da produtividade, da inovação e da competitividade. São dimensões importantes, mas não esgotam o problema. Há uma pergunta mais incómoda: quem garante a autenticidade daquilo que os portugueses verão, ouvirão e lerão quando a manipulação digital se tornar indistinguível do que realmente aconteceu?

Essa pergunta não se resolve com tecnologia. Exige uma resposta institucional, jornalística e cultural — e começa por recusar duas tentações simétricas: a aceitação acrítica do que circula e a desconfiança sistemática perante aquilo que nos é apresentado. Ambas, por caminhos opostos, entregam o mesmo poder a quem manipula.

O perigo maior começa quando a dúvida deixa de ser uma etapa da procura pela verdade e passa a ser o destino. Porque, nesse momento, já não é preciso apagar os factos. Basta tornar impossível provar que aconteceram.

Quando já não é possível distinguir o que aconteceu daquilo que pode ser negado, a dúvida deixa de ser uma virtude democrática. Torna-se poder.

Haja canalhas


O aumento da canalhice é o resultado da má distribuição de renda
Millôr Fernandes

Antipetismo visceral alimenta o servilismo a Donald Trump

Embora possa causar algum espanto, parcela considerável de brasileiros vê com simpatia o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem atacando o país com tarifas comerciais disparatadas e pressões políticas com vistas a interferir nas eleições.

Os apoiadores mais despudorados filiam-se à direita truculenta bolsonarista. Mas há também, talvez mais velados, simpatizantes provenientes de setores liberais conservadores e defensores das pautas das big techs. Entre esses, gente que frequentou boas escolas, teve acesso a leituras e a situação econômica privilegiada. Atestam, em seu transfugismo, quão invertebrados podem ser certos representantes das elites brasileiras.


Parece prevalecer uma espécie de reacionarismo atávico, hoje atualizado por um tipo visceral de antipetismo, que se sobrepõe ao senso de nação — um adesismo equivocado, de viés ideológico, sem altivez.

Mais uma vez, para não deixar dúvidas sobre os propósitos de Trump, o Departamento de Estado dos EUA, comandado pelo diligente e vingativo Marco Rubio, postou vídeo no qual o embaixador no Panamá, Kevin Marino Cabrera, detalha o surgimento da doutrina Monroe, em 1823, quando Washington manifestou-se a favor da independência de países latino-americanos e do afastamento das metrópoles europeias.

O post veio com a frase "o domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente" – proferida por Trump após a captura de Nicolás Maduro, o ex-ditador da Venezuela, ora substituído pela ditadora fantoche Delcy Rodríguez. O norte-americano, como se sabe, defende a doutrina Donroe, trocadilho infame que sintetiza seus interesses imperialistas em nosso continente, onde encontra o referido apoio entreguista.

Trump exerce o poder como um Átila pós-liberal. Onde pisa, a democracia, o multilateralismo e o bom senso morrem. Instituições que mediavam querelas internacionais perderam sentido, na prática não existem mais.

Em seu admirável mundo bárbaro, endossa a disputa entre potências de perfil autocrático —Rússia e China— com autonomia sobre suas áreas de influência. Apoia o projeto Grande Israel para regrar o Oriente Médio, de preferência em sintonia com ditaduras amigas, como a Arábia Saudita —enquanto a Europa é vista como mera frescura para os fracos.

A imposição de taxas no comércio exterior funciona como arma para impor a superpotência e também serve para ajudar no financiamento do Estado, substituindo os impostos não cobrados dos grandes empresários americanos.

Seria como se Lula, se pudesse, num argumento por absurdo, tentasse buscar recursos fiscais impondo barreiras externas para compensar seus gastos públicos e o custo tributário das isenções.

Em ano eleitoral, o Brasil torna-se uma vítima preferencial do republicano, que acredita estar punindo Lula e favorecendo seus aliados extremistas. Recente pesquisa Datafolha, aliás, mostrou que para 52% dos brasileiros Trump atua para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, cuja família e seguidores batem continência para a bandeira dos EUA.

O clássico livro "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Hollanda, já chega aos 90 anos, mas ainda vale em boa medida seu diagnóstico: somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.

Entre deuses e dados: a natureza sagrada

Outro dia me peguei pensando em como nós, seres humanos, passamos milhares de anos tentando dar nomes à natureza.

Ao mar. Ao vento. À chuva. À fertilidade da terra.

Antes que existissem satélites capazes de acompanhar do espaço a formação de um furacão, modelos climáticos que projetam a temperatura do planeta até o fim do século ou relatórios que calculam, em toneladas, a quantidade de carbono lançada na atmosfera, havia histórias. Histórias fantásticas.

E havia deuses.


Na Grécia antiga, Poseidon governava os mares. Deméter estava ligada à agricultura e às colheitas. Ártemis habitava simbolicamente o mundo selvagem. E, antes deles, estava Gaia, a própria Terra transformada em divindade.

A milhares de quilômetros dali, tradições religiosas africanas construíram outras cosmologias, com histórias, significados e relações próprias com o mundo natural. No Candomblé, os orixás estão profundamente associados às forças da natureza.

Oxum está ligada às águas doces e aos rios. Iemanjá, ao mar. Iansã, aos ventos e às tempestades. Oxóssi, às matas. Xangô, ao fogo e ao trovão. Ossain, às folhas e ao conhecimento das plantas.

Não se trata, evidentemente, de dizer que essas tradições são equivalentes. Não são. Nasceram em sociedades diferentes, carregam histórias diferentes e ocupam lugares muito distintos no mundo contemporâneo — inclusive porque as religiões de matriz africana continuam sendo alvo de intolerância e racismo religioso no Brasil.

Mas há algo que me interessa nessa aproximação. Em cosmologias tão distantes entre si, a natureza nunca aparece apenas como paisagem. Ela tem força. Tem personalidade. E merece reverência.

Em algum momento, fomos nos afastando dessa ideia.

A modernidade nos ensinou, de muitas maneiras, a enxergar a natureza como recurso. A floresta virou madeira, minério e hectares produtivos. O rio virou potencial hidrelétrico ou canal de irrigação. O petróleo, aprisionado durante milhões de anos no subsolo, virou combustível.

Passamos a falar da natureza quase sempre em termos do que ela poderia nos oferecer e fomos esquecendo de perguntar o que deveríamos oferecer em troca – ou, ao menos, quais limites deveríamos respeitar.

Diante de tantas ondas de calor, secas, enchentes e vendavais, vemos de maneira cada vez menos sutil que a natureza não é passiva. E não é vingança, não. A ciência explica esses processos sem precisar recorrer à vontade dos deuses.

É física pura.

Na lição que essa física nos oferece, no entanto, há quase um toque de magia: existem forças maiores do que nós. Os antigos sabiam disso.

Quem imaginava um deus habitando o mar sabia que o mar merecia respeito. Quem reconhecia o sagrado nas águas, nas folhas, nas matas, nos ventos ou no trovão estabelecia com esses elementos uma relação que não era apenas econômica.

É claro que ninguém é santo – nem mesmo os antigos. Civilizações derrubaram florestas, modificaram paisagens, guerrearam por recursos e provocaram impactos ambientais muito antes de inventarmos a expressão “mudanças climáticas”.

Mas havia, em muitas dessas cosmologias, a ideia de que a natureza também pertencia ao território do sagrado. E há algo importante nisso. Porque é muito mais fácil destruir aquilo que enxergamos apenas como recurso do que aquilo diante do qual aprendemos a prestar reverência.

Curiosa a constatação de que nunca compreendemos tanto a natureza. Sabemos, hoje, muito mais sobre o funcionamento do planeta do que qualquer sociedade que veio antes de nós. Conseguimos medir a concentração de CO₂ na atmosfera, reconstruir temperaturas de milhares de anos atrás, observar o derretimento de geleiras por satélite e calcular quanto o nível do mar poderá subir.

Paradoxalmente, talvez nunca tenhamos vivido tão convencidos de que estamos separados dela, a natureza.

Construímos cidades climatizadas, desviamos rios, perfuramos montanhas, atravessamos oceanos em poucas horas. Criamos uma civilização tão sofisticada que, às vezes, parece possível esquecer que continuamos dependendo de coisas elementares: água, solo, chuva, temperatura, ar.

Até que o rio transborda. A chuva não vem. O termômetro passa dos 40 graus. O vento derruba árvores, fecha aeroportos e interrompe cidades inteiras.

E então nos lembramos de algo que os antigos transformaram em deuses e que a ciência moderna transformou em dados: nunca estivemos fora da natureza.

Talvez tenhamos apenas passado alguns séculos acreditando que estávamos.

A crise climática pode ser a mais dura resposta a essa ilusão.

Israel conquista novos aliados na América Latina

A Venezuela e Israel romperam relações diplomáticas em 2009, quando o então presidente Hugo Chávez expulsou o embaixador israelense em protesto contra a ofensiva militar em Gaza. Dezessete anos depois, Caracas e Jerusalém concordaram em estabelecer um mecanismo para retomar a prestação de serviços consulares aos seus cidadãos. Ainda é um passo limitado, mas impensável até recentemente.

A Colômbia foi muito além . O governo do presidente Abelardo de la Espriella não só reverteu o rompimento das relações diplomáticas decidido por seu antecessor, Gustavo Petro, como também anunciou a transferência de sua embaixada para Jerusalém e reconheceu a soberania israelense sobre as Colinas de Golã, território sírio ocupado por Israel desde 1967 e cuja anexação não é reconhecida pela grande maioria da comunidade internacional.

A Colômbia e a Venezuela são casos isolados ou fazem parte de um realinhamento mais profundo na América Latina?

"Há uma tendência de reaproximação com Israel que responde à onda de sentimentos de extrema-direita que se instalou na região", afirma Isaac Caro, professor da Universidade Alberto Hurtado, no Chile. Em sua opinião, essa tendência está ligada "a um alinhamento ativo com a política externa dos EUA ".

Daniel Wajner, professor associado de Relações Internacionais da Universidade Hebraica de Jerusalém, também fala em uma "onda", com antecedentes em Jair Bolsonaro no Brasil e Nayib Bukele em El Salvador, e que posteriormente se manifestou com particular clareza com Javier Milei na Argentina e agora em outros países.


Wajner, coautor de uma obra acadêmica intitulada "Israel e América Latina", descreve uma oscilação pendular da esquerda para a direita, mas introduz outra variável: o populismo. Segundo sua análise, a direita latino-americana tende a ser mais favorável a Israel do que a esquerda. Quando o populismo de direita é adicionado a isso, argumenta ele, o resultado não é mais apenas uma reaproximação, mas sim um "abraço" de Israel.

Gilberto Aranda, acadêmico do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile, também observa "uma tendência regional", cujo primeiro elemento seria um forte realinhamento com os Estados Unidos sob a administração de Donald Trump e, por extensão ou por convicção própria, uma reaproximação com Israel.

A Argentina é provavelmente o exemplo mais visível. Javier Milei fez de seus laços estreitos com Israel uma parte proeminente de sua política externa e de sua própria identidade política. Caro acredita que a ligação com Israel se tornou "um elemento identificador da extrema direita na região", associada a um discurso de pertencimento a uma civilização ocidental judaico-cristã.

Mas as motivações não são idênticas em todos os países. Wajner destaca fatores ideológicos e religiosos, mas também estratégicos. O fortalecimento das relações com Israel pode sinalizar um alinhamento internacional específico para Washington. O fenômeno, portanto, faria parte de algo maior: governos buscando se identificar mais claramente com os Estados Unidos e o Ocidente.

A Colômbia exemplifica a magnitude da oscilação pendular. Sob o governo de Petro, Bogotá rompeu relações diplomáticas com Israel em 2024 devido à guerra em Gaza. Com De la Espriella, a situação se inverteu.

Caro fala de uma "mudança substancial" na política externa colombiana, especialmente em relação aos Estados Unidos. O reconhecimento da soberania israelense sobre as Colinas de Golã demonstra a extensão dessa mudança.

Para Aranda, na Colômbia, o realinhamento com Washington e as convicções pessoais do novo presidente, um convertido ao cristianismo protestante, convergem.

O governo do presidente colombiano Abelardo de la Espriella foi além de quase toda a comunidade internacional ao romper com o consenso global sobre as Colinas de Golã.

A Venezuela não se encaixa tão facilmente nesse quadro ideológico. Wajner alerta que o regime não mudou sua natureza política. O que mudou foi sua posição internacional após a intervenção dos EUA e sua subsequente reaproximação com Washington.

A restauração dos serviços consulares, no entanto, tem um forte valor simbólico. A Venezuela manteve boas relações com Israel durante décadas antes de Chávez as romper. Para Israel, restabelecer laços com um país que durante anos foi um de seus adversários mais determinados na região constitui um sucesso diplomático num momento em que continua a enfrentar fortes críticas internacionais.

Essa oscilação pendular também é observada em outros países. A Bolívia rompeu relações com Israel em 2023 devido à guerra em Gaza e as restabeleceu em dezembro de 2025, após a mudança de governo.

O Chile também mudou sua postura. Gabriel Boric manteve uma posição bastante crítica em relação ao governo de Benjamin Netanyahu, embora nunca tenha rompido relações. O novo governo de José Antonio Kast adotou uma posição muito mais favorável e busca restabelecer, entre outras coisas, a cooperação em defesa. Aranda ressalta, no entanto, que Santiago não foi tão longe quanto a Colômbia.

O mapa da América Latina está longe de ser uniforme. O Brasil constitui o principal contrapeso. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva mantém uma postura fortemente crítica em relação às ações israelenses em Gaza e na Cisjordânia.

"O país com maior influência na região que mantém uma postura crítica em relação a Israel é claramente o Brasil", destaca Aranda. Justamente por causa do peso demográfico, econômico e político do Brasil, a mudança regional em direção a Israel dificilmente pode ser considerada completa.

A isso se soma o México, o outro gigante latino-americano. Caro diferencia as posições de ambos: enquanto Lula tem sido especialmente crítico de Israel, "o México tem tentado manter maior neutralidade e equilíbrio diplomático".

A presidente Claudia Sheinbaum criticou as ações de Israel em Gaza, mas o México mantém relações diplomáticas com Israel. Sua posição ilustra uma diferença importante: criticar o governo Netanyahu não significa necessariamente romper ou reduzir os laços com o Estado israelense.

A antiga frente latino-americana crítica a Israel está, em todo caso, enfraquecida. Aranda acredita que o bloco agora está "indefinido" após as mudanças políticas em países como a Colômbia, embora o Brasil ainda tenha peso suficiente para sustentar uma posição alternativa.

O interesse de Israel não se limita a cultivar governos aliados. Caro destaca que as relações entre Israel e a América Latina remontam à fundação do Estado israelense em 1948 e abrangem migração, comércio e segurança. O apoio latino-americano em organizações multilaterais, especialmente nas Nações Unidas, também tem sido importante para contrabalançar o isolamento internacional de Israel.

Wajner resume os interesses atuais em três conceitos: "legitimidade, cooperação e influência". Israel busca apoio e reconhecimento internacional, mas também cooperação econômica, tecnológica, militar e de segurança. A América Latina, por sua vez, encontra em Israel um parceiro fundamental em áreas como cibersegurança, inteligência artificial, inteligência de inteligência e defesa.

A reaproximação é, portanto, uma relação de mão dupla e está sujeita aos ciclos políticos latino-americanos. A mesma dinâmica eleitoral que distanciou diversos países de Israel durante governos de esquerda contribuiu posteriormente para aproximá-los.