segunda-feira, 19 de outubro de 2026
O Brasil quer um presidente. A TV dá um inimigo
Se Hitler, Stalin e Pol Pot desembarcassem no Brasil, sem conhecer nossa eleição, poderiam imaginar que estamos escolhendo o responsável pelo fim do mundo e eles também achariam que estamos substituindo-os com muita competência. Cada campanha apresenta seu guerreiro como a última esperança da humanidade e o ninja adversário como uma mistura de assombração, cobrador e criador da Covid. Falta explicar, aos brasileirinhos, quem e como é que vai governar quando o terror passar.
Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.
Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.
O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.
Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?
Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!
No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.
Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.
Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.
Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!
O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.
O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.
Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.
Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.
O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.
Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?
Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!
No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.
Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.
Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.
Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!
O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.
O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.
Como não votar em Flávio Bolsonaro?
Há razões de sobra para votar nele se você pensa como ele, ou parecido. No livro “Mito ou verdade”, de 2017, sobre o seu pai, o senador das rachadinhas e padroeiro dos milicianos expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. Flávio exalta o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais à época da ditadura. Descreve o militar como um “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e que teria sido “massacrado pela mídia”. Acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva teria sido morto por grupos de esquerda.
“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009. “A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou.
Pandemia da Covid-19? Aquela que matou entre nós mais de 700 mil pessoas? O que é que tem? É mentira, segundo Flávio, que o pai dele não a tenha combatido com eficiência. Não atrasou a compra de vacinas. Fez tudo como mandava a ciência. Infelizmente…
Golpe? Tentativa de golpe para derrubar Lula, que o derrotara? Jair, seu pai, estava nos Estados Unidos no 8 de janeiro de 2023. E os acampados à porta de quartéis que vandalizaram prédios públicos, em Brasília, foram estimulados por agentes de esquerda a fazerem o que fizeram. Os que restam presos serão anistiados se Flávio se eleger presidente, assim como o pai dele.
Não está no radar de Flávio acolher o pai no Palácio do Planalto, nem governar o país junto com ele. Mas Jair será seu principal conselheiro. Por que não? Jair foi um ótimo presidente, alega Flávio, entregou o país em melhores condições e só foi condenado e preso por culpa do ministro Alexandre de Moraes, que sempre o perseguiu. Mas está chegando a hora de Moraes ser punido. Ele não perde por esperar.
No mais, é bola para frente. Afinal, há que se mudar a Constituição para redemocratizar o país. O que temos hoje não é uma democracia. Só teremos uma armando o povo para que ele a defenda. Mais armas, portanto. E se elas foram parar nas mãos de bandidos, paciência.
Tesouraço para cortar despesas desnecessárias. Mas, prestem atenção: serão mantidos todos os programas sociais da era Lula, como o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Farmácia Popular, reajuste do salário-mínimo acima da inflação, todos. Talvez mudem de nome, mas será só isso. Nada de cortes na Educação, Saúde, Meio Ambiente, Transportes, nem um tostão.
E tomem nota: Flávio se propõe a arrumar a casa em um único mandato. Não precisa de outro, como ele garante. Basta um. Não acredita? Vote nele e verá. Eu não votarei.
“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009. “A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou.
Pandemia da Covid-19? Aquela que matou entre nós mais de 700 mil pessoas? O que é que tem? É mentira, segundo Flávio, que o pai dele não a tenha combatido com eficiência. Não atrasou a compra de vacinas. Fez tudo como mandava a ciência. Infelizmente…
Golpe? Tentativa de golpe para derrubar Lula, que o derrotara? Jair, seu pai, estava nos Estados Unidos no 8 de janeiro de 2023. E os acampados à porta de quartéis que vandalizaram prédios públicos, em Brasília, foram estimulados por agentes de esquerda a fazerem o que fizeram. Os que restam presos serão anistiados se Flávio se eleger presidente, assim como o pai dele.
Não está no radar de Flávio acolher o pai no Palácio do Planalto, nem governar o país junto com ele. Mas Jair será seu principal conselheiro. Por que não? Jair foi um ótimo presidente, alega Flávio, entregou o país em melhores condições e só foi condenado e preso por culpa do ministro Alexandre de Moraes, que sempre o perseguiu. Mas está chegando a hora de Moraes ser punido. Ele não perde por esperar.
No mais, é bola para frente. Afinal, há que se mudar a Constituição para redemocratizar o país. O que temos hoje não é uma democracia. Só teremos uma armando o povo para que ele a defenda. Mais armas, portanto. E se elas foram parar nas mãos de bandidos, paciência.
Tesouraço para cortar despesas desnecessárias. Mas, prestem atenção: serão mantidos todos os programas sociais da era Lula, como o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Farmácia Popular, reajuste do salário-mínimo acima da inflação, todos. Talvez mudem de nome, mas será só isso. Nada de cortes na Educação, Saúde, Meio Ambiente, Transportes, nem um tostão.
E tomem nota: Flávio se propõe a arrumar a casa em um único mandato. Não precisa de outro, como ele garante. Basta um. Não acredita? Vote nele e verá. Eu não votarei.
Em livro e discursos, Flávio Bolsonaro defendeu golpe, ditadura e torturador
Em 30 de abril de 1981, um capitão e um sargento do Exército cruzaram o Rio em missão secreta. Transportavam duas bombas para causar terror e pânico num show que reunia milhares de jovens em comemoração ao Dia do Trabalhador. O plano era culpar a esquerda e sabotar o processo de redemocratização do país.
Em 30 de abril de 1981, um tenente que amava a ditadura, mas era tido pelos superiores como “excessivamente ambicioso”, assistiu em Resende ao nascimento do primeiro filho. Tempos depois, ele entraria na política como porta-voz dos porões.
Ninguém escolhe o dia em que vem ao mundo, e Flávio Bolsonaro não tem culpa de ter nascido no dia do atentado do Riocentro. No entanto, todos são responsáveis pelas escolhas feitas na idade adulta. Entre a democracia e a ditadura, Flávio sempre marcou a segunda opção.
No livro “Mito ou verdade”, o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. “Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser ser tratados como heróis nacionais”, escreve, sobre os agentes da repressão.
A exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e teria sido “massacrado pela mídia”.
O filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ele ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.
O livro foi lançado em 2017, quando Flávio ensaiava concorrer ao Senado. Estava no fim do quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio, onde se notabilizou por subir à tribuna todos os anos para festejar o 31 de março, data cultuada pela extrema direita como aniversário da ditadura.
“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009.
“A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou. Quem haveria de discordar?
Desde que entrou na política, o patriarca do clã milita na defesa do autoritarismo. Especializou-se em exaltar a violência de Estado, atuar pela impunidade de torturadores, ofender viúvas e órfãos de desaparecidos. Quando o Ministério Público Federal reabriu o caso Riocentro, em 2014, ele fez questão de acompanhar o depoimento de um militar investigado. Diante dos procuradores, atacou a Comissão da Verdade e disse sonhar com uma reedição da Operação Condor, aliança clandestina entre ditaduras do Cone Sul.
A democracia deveria ser tema central na primeira eleição após o 8 de Janeiro e a inédita condenação de generais golpistas. Os marqueteiros treinaram o candidato do PL para evitar menções à ditadura, mas não podem apagar tudo o que ele já disse e escreveu sobre o tema. Por destino e por escolha, Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro.
Em 30 de abril de 1981, um tenente que amava a ditadura, mas era tido pelos superiores como “excessivamente ambicioso”, assistiu em Resende ao nascimento do primeiro filho. Tempos depois, ele entraria na política como porta-voz dos porões.
Ninguém escolhe o dia em que vem ao mundo, e Flávio Bolsonaro não tem culpa de ter nascido no dia do atentado do Riocentro. No entanto, todos são responsáveis pelas escolhas feitas na idade adulta. Entre a democracia e a ditadura, Flávio sempre marcou a segunda opção.
No livro “Mito ou verdade”, o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. “Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser ser tratados como heróis nacionais”, escreve, sobre os agentes da repressão.
A exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e teria sido “massacrado pela mídia”.
O filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ele ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.
O livro foi lançado em 2017, quando Flávio ensaiava concorrer ao Senado. Estava no fim do quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio, onde se notabilizou por subir à tribuna todos os anos para festejar o 31 de março, data cultuada pela extrema direita como aniversário da ditadura.
“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009.
“A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou. Quem haveria de discordar?
Desde que entrou na política, o patriarca do clã milita na defesa do autoritarismo. Especializou-se em exaltar a violência de Estado, atuar pela impunidade de torturadores, ofender viúvas e órfãos de desaparecidos. Quando o Ministério Público Federal reabriu o caso Riocentro, em 2014, ele fez questão de acompanhar o depoimento de um militar investigado. Diante dos procuradores, atacou a Comissão da Verdade e disse sonhar com uma reedição da Operação Condor, aliança clandestina entre ditaduras do Cone Sul.
A democracia deveria ser tema central na primeira eleição após o 8 de Janeiro e a inédita condenação de generais golpistas. Os marqueteiros treinaram o candidato do PL para evitar menções à ditadura, mas não podem apagar tudo o que ele já disse e escreveu sobre o tema. Por destino e por escolha, Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro.
Promessas sem base são enganação
O governo Lula promoveu avanços importantes na justiça tributária brasileira. Depois de décadas de privilégios para os mais ricos, o país começou a cobrar impostos sobre grandes rendimentos do capital e a aliviar a carga de quem vive do trabalho. São conquistas concretas que beneficiam milhões de famílias, fortalecem a economia e ampliam as possibilidades de financiamento das políticas públicas.
A reforma do Imposto de Renda isentou quem ganha até R$ 5 mil mensais, reduziu a tributação para rendimentos até R$ 7.350 e instituiu imposto mínimo progressivo de até 10% sobre altas rendas. Também começou a corrigir uma injustiça que persistia desde 1996: a isenção de lucros e dividendos distribuídos aos acionistas, enquanto os trabalhadores sempre tiveram o imposto descontado diretamente do salário.
O governo Lula também passou a tributar lucros de offshores e rendimentos de fundos exclusivos. Apenas 2.500 brasileiros concentram cerca de R$ 756 bilhões nesses fundos. As mudanças contribuíram para arrecadar R$ 20,7 bilhões em 2024. A tributação dos Juros sobre Capital Próprio subiu de 15% para 17,5%, enquanto a regulamentação das apostas online ampliou a arrecadação. A reforma do consumo trouxe a desoneração da cesta básica e o cashback para famílias de baixa renda.
Um conjunto de mudanças importantes para tornar o sistema tributário mais progressivo. Ainda há muito a corrigir, mas os avanços mostram que é possível aliviar os impostos de quem trabalha e ampliar a contribuição dos mais ricos.
Quem ganha com a justiça tributária é quem trabalha, paga menos imposto e fica com mais dinheiro no bolso. Quem depende de saúde, educação e serviços públicos. E o Brasil, que precisa de recursos para crescer e reduzir desigualdades. Os super-ricos, finalmente, começam a pagar impostos sobre rendimentos privilegiados por décadas.
Os resultados econômicos reforçam essa trajetória. Em 2025, o PIB cresceu 2,3%, a renda média avançou e o desemprego recuou para cerca de 5%. O governo também anunciou R$ 256,9 bilhões em programas sociais e medidas de crédito em 2026, destinados a famílias, trabalhadores e setores produtivos. Quando crescem o emprego, a renda e o consumo, cresce também a arrecadação.
É diante desses avanços que as propostas econômicas da campanha de Flávio Bolsonaro precisam ser examinadas. A equipe que conduz seu programa econômico é inconsistente nos dados. A economista Daniella Marques defende ajuste profundo, com superávit primário de 1,5% do PIB, exigindo esforço fiscal estimado em R$ 200 bilhões. Depois, Adolfo Sachsida afirma que programas sociais seriam preservados, o Bolsa Família fortalecido e o salário mínimo não seria congelado. O próprio candidato prometeu reduzir impostos e manter grandes empresas estatais.
Mas como cortar R$ 200 bilhões, reduzir impostos e preservar as principais despesas públicas? De onde virá o dinheiro?
A contradição é evidente. Sem apresentar fontes adicionais de receita ou identificar despesas a serem reduzidas, essas promessas deixam sem resposta quem suportaria o ajuste. Cortes dessa magnitude podem comprometer saúde, educação, Previdência, investimentos e programas sociais.
Há ainda um problema econômico: reduzir drasticamente os gastos públicos pode derrubar o consumo, enfraquecer a atividade produtiva e diminuir a arrecadação. Com menos crescimento, o próprio equilíbrio fiscal fica mais difícil.
O ex-presidente Jair Bolsonaro governou sem enfrentar a isenção histórica de lucros e dividendos recebidos pelos mais ricos. Agora, a campanha de seu filho apresenta propostas de redução de impostos e ajuste fiscal sem esclarecer como conciliá-las com a preservação dos direitos sociais. A isenção de caráter regressivo do governo anterior foi para importação de jet-skis e veleiros.
O filho promete uma conta que não fecha. Não basta anunciar cortes sem consequências, impostos menores e benefícios preservados. É preciso mostrar onde a tesoura vai passar, quem será beneficiado e quem pagará a conta.
Responsabilidade fiscal é necessária, mas não pode significar restringir direitos enquanto privilégios tributários permanecem intocados. O equilíbrio das contas públicas exige crescimento econômico, receitas sustentáveis e distribuição justa do esforço tributário.
A justiça fiscal começou a avançar e precisa continuar. O Brasil não pode abrir mão do crescimento, dos direitos sociais e do enfrentamento aos privilégios. Promessas econômicas precisam de números, coerência e compromisso com a população. Sem isso, não passam de palavras que escondem quem pagará a conta.Maria Regina Paiva Duarte
A reforma do Imposto de Renda isentou quem ganha até R$ 5 mil mensais, reduziu a tributação para rendimentos até R$ 7.350 e instituiu imposto mínimo progressivo de até 10% sobre altas rendas. Também começou a corrigir uma injustiça que persistia desde 1996: a isenção de lucros e dividendos distribuídos aos acionistas, enquanto os trabalhadores sempre tiveram o imposto descontado diretamente do salário.
O governo Lula também passou a tributar lucros de offshores e rendimentos de fundos exclusivos. Apenas 2.500 brasileiros concentram cerca de R$ 756 bilhões nesses fundos. As mudanças contribuíram para arrecadar R$ 20,7 bilhões em 2024. A tributação dos Juros sobre Capital Próprio subiu de 15% para 17,5%, enquanto a regulamentação das apostas online ampliou a arrecadação. A reforma do consumo trouxe a desoneração da cesta básica e o cashback para famílias de baixa renda.
Um conjunto de mudanças importantes para tornar o sistema tributário mais progressivo. Ainda há muito a corrigir, mas os avanços mostram que é possível aliviar os impostos de quem trabalha e ampliar a contribuição dos mais ricos.
Quem ganha com a justiça tributária é quem trabalha, paga menos imposto e fica com mais dinheiro no bolso. Quem depende de saúde, educação e serviços públicos. E o Brasil, que precisa de recursos para crescer e reduzir desigualdades. Os super-ricos, finalmente, começam a pagar impostos sobre rendimentos privilegiados por décadas.
Os resultados econômicos reforçam essa trajetória. Em 2025, o PIB cresceu 2,3%, a renda média avançou e o desemprego recuou para cerca de 5%. O governo também anunciou R$ 256,9 bilhões em programas sociais e medidas de crédito em 2026, destinados a famílias, trabalhadores e setores produtivos. Quando crescem o emprego, a renda e o consumo, cresce também a arrecadação.
É diante desses avanços que as propostas econômicas da campanha de Flávio Bolsonaro precisam ser examinadas. A equipe que conduz seu programa econômico é inconsistente nos dados. A economista Daniella Marques defende ajuste profundo, com superávit primário de 1,5% do PIB, exigindo esforço fiscal estimado em R$ 200 bilhões. Depois, Adolfo Sachsida afirma que programas sociais seriam preservados, o Bolsa Família fortalecido e o salário mínimo não seria congelado. O próprio candidato prometeu reduzir impostos e manter grandes empresas estatais.
Mas como cortar R$ 200 bilhões, reduzir impostos e preservar as principais despesas públicas? De onde virá o dinheiro?
A contradição é evidente. Sem apresentar fontes adicionais de receita ou identificar despesas a serem reduzidas, essas promessas deixam sem resposta quem suportaria o ajuste. Cortes dessa magnitude podem comprometer saúde, educação, Previdência, investimentos e programas sociais.
Há ainda um problema econômico: reduzir drasticamente os gastos públicos pode derrubar o consumo, enfraquecer a atividade produtiva e diminuir a arrecadação. Com menos crescimento, o próprio equilíbrio fiscal fica mais difícil.
O ex-presidente Jair Bolsonaro governou sem enfrentar a isenção histórica de lucros e dividendos recebidos pelos mais ricos. Agora, a campanha de seu filho apresenta propostas de redução de impostos e ajuste fiscal sem esclarecer como conciliá-las com a preservação dos direitos sociais. A isenção de caráter regressivo do governo anterior foi para importação de jet-skis e veleiros.
O filho promete uma conta que não fecha. Não basta anunciar cortes sem consequências, impostos menores e benefícios preservados. É preciso mostrar onde a tesoura vai passar, quem será beneficiado e quem pagará a conta.
Responsabilidade fiscal é necessária, mas não pode significar restringir direitos enquanto privilégios tributários permanecem intocados. O equilíbrio das contas públicas exige crescimento econômico, receitas sustentáveis e distribuição justa do esforço tributário.
A justiça fiscal começou a avançar e precisa continuar. O Brasil não pode abrir mão do crescimento, dos direitos sociais e do enfrentamento aos privilégios. Promessas econômicas precisam de números, coerência e compromisso com a população. Sem isso, não passam de palavras que escondem quem pagará a conta.
O jornalismo na disputa pelo futuro da democracia no Brasil
O resultado do primeiro turno das eleições reacendeu as preocupações sobre o futuro da democracia brasileira. Motivos não faltam. Aqui, interessa olhar para um de seus pilares mais frequentemente invocados: a liberdade de imprensa.
As razões para preocupação com uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro são conhecidas. O candidato reivindica e encarna o legado político de seu pai, cujo governo representou o período mais sombrio para o jornalismo desde a redemocratização. Durante quatro anos, jornalistas foram alvos recorrentes de insultos, intimidações e campanhas de ódio. A desinformação tornou-se indissociável da comunicação do governo, especialmente durante a pandemia de Covid-19 e nas falsas acusações de fraude eleitoral. Em quatro anos, o Brasil chegou à sua pior pontuação no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, elaborado anualmente pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF) desde 2002.
As referências internacionais de Flávio Bolsonaro reforçam os temores de uma nova ofensiva contra a imprensa. Nos Estados Unidos, Donald Trump recorre a pressões institucionais e econômicas contra grandes redes de televisão. Na Argentina, Javier Milei transformou o ódio aos jornalistas em slogan político. Em El Salvador, o governo de Nayib Bukele combina pressões administrativas, propaganda e asfixia financeira, levando jornalistas e redações inteiras ao exílio. São experiências distintas que mostram como a hostilidade à imprensa, quando banalizada, pode abrir caminho para mecanismos cada vez mais severos de pressão e censura.
A chegada de Lula ao seu terceiro mandato, em 2023, marcou uma mudança significativa nas relações entre o governo e a imprensa. A descredibilização sistemática dos jornalistas deixou de fazer parte da comunicação cotidiana do Poder Executivo. Também houve avanços na transparência pública, após um período marcado por restrições e pelo uso abusivo do sigilo. Na área de segurança, o governo criou o Observatório Nacional da Violência contra Jornalistas e fortaleceu políticas de proteção, embora esses mecanismos ainda apresentem limitações. Segundo os registros da RSF, nenhum jornalista foi assassinado no país em decorrência de sua atividade durante o mandato. O Brasil passou da 110ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, em 2022, para a 52ª, em 2026, uma recuperação de 58 posições.
A integridade da informação também se consolidou como um eixo importante da agenda do governo Lula, com iniciativas voltadas à proteção da informação confiável e à responsabilidade das plataformas digitais. Durante a presidência brasileira do G20, em 2024, o Brasil contribuiu para colocar o tema no centro das discussões sobre a economia digital. Em parceria com a ONU e a Unesco, o país lançou a Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas, estabelecendo uma conexão entre os trabalhos iniciados no G20 e a COP30, realizada em Belém, em 2025. Durante a conferência, foram assumidos compromissos relacionados à proteção do jornalismo ambiental, à responsabilização das plataformas e à sustentabilidade econômica da mídia.
No Brasil, porém, os resultados legislativos dessa agenda foram mais limitados. O Executivo participou ativamente dos debates sobre transparência e responsabilização das plataformas digitais, mas enfrentou dificuldades para transformar essas discussões em normas. O projeto para criar a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (PL 2630), que buscava estabelecer novas obrigações para essas empresas, acabou engavetado no Congresso, em meio a resistências políticas e à mobilização das grandes empresas de tecnologia. O projeto de lei sobre inteligência artificial (PL 2338), aprovado pelo Senado em 2024, perdeu parte das disposições relacionadas à integridade da informação ao longo de sua tramitação e ainda não foi votado pela Câmara dos Deputados.
O próximo governo encontrará, portanto, um debate em aberto sobre as regras do espaço digital, onde uma parcela crescente dos brasileiros se informa. Nas últimas duas décadas, as plataformas passaram a exercer enorme influência sobre a visibilidade, o alcance e a monetização dos conteúdos jornalísticos. Suas decisões afetam o acesso às notícias e a circulação de conteúdos falsos ou manipulados, frequentemente sem transparência suficiente sobre os critérios adotados.
A responsabilidade dessas empresas tornou-se objeto de uma disputa política internacional sobre os limites da liberdade de expressão. Setores da direita global, incluindo o bolsonarismo, apresentam iniciativas de regulação das plataformas como formas de censura. Nos Estados Unidos, essa posição também se manifesta na aproximação entre setores da direita e grandes empresários de tecnologia, como Elon Musk e Mark Zuckerberg. Flávio Bolsonaro tem se oposto a iniciativas legislativas e decisões judiciais voltadas à responsabilização dessas empresas.
Essa aproximação reúne interesses distintos, mas convergentes em torno da resistência a determinadas formas de regulação. Para as grandes empresas de tecnologia, está em jogo a preservação da autonomia sobre seus modelos de negócio, com menos exigências de transparência e responsabilização. Para determinados movimentos políticos, a defesa de uma concepção praticamente irrestrita da liberdade de expressão pode se associar à contestação da credibilidade do jornalismo e de outras instituições que produzem conhecimento verificável.
As consequências dessa disputa ultrapassam a regulação das plataformas e alcançam as próprias bases do debate democrático. Uma democracia pode conviver com interpretações radicalmente diferentes sobre o país. Precisa, porém, preservar as condições para que afirmações sobre a realidade sejam investigadas, verificadas e contestadas publicamente. Quando a credibilidade de uma informação passa a depender exclusivamente da identidade política de quem a transmite, o debate público perde uma de suas bases. O jornalismo contribui para preservar referências compartilhadas, mesmo entre pessoas que discordam profundamente sobre os rumos do país.
É por isso que o futuro do jornalismo não pode ocupar um lugar secundário nesta eleição. O que está em disputa não são apenas as garantias para que a imprensa investigue o poder sem intimidação, mas também a possibilidade de a sociedade ter acesso a informações independentes e confiáveis. O direito à informação precisa ser tratado como uma questão central nas escolhas sobre o futuro democrático do Brasil.
As razões para preocupação com uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro são conhecidas. O candidato reivindica e encarna o legado político de seu pai, cujo governo representou o período mais sombrio para o jornalismo desde a redemocratização. Durante quatro anos, jornalistas foram alvos recorrentes de insultos, intimidações e campanhas de ódio. A desinformação tornou-se indissociável da comunicação do governo, especialmente durante a pandemia de Covid-19 e nas falsas acusações de fraude eleitoral. Em quatro anos, o Brasil chegou à sua pior pontuação no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, elaborado anualmente pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF) desde 2002.
As referências internacionais de Flávio Bolsonaro reforçam os temores de uma nova ofensiva contra a imprensa. Nos Estados Unidos, Donald Trump recorre a pressões institucionais e econômicas contra grandes redes de televisão. Na Argentina, Javier Milei transformou o ódio aos jornalistas em slogan político. Em El Salvador, o governo de Nayib Bukele combina pressões administrativas, propaganda e asfixia financeira, levando jornalistas e redações inteiras ao exílio. São experiências distintas que mostram como a hostilidade à imprensa, quando banalizada, pode abrir caminho para mecanismos cada vez mais severos de pressão e censura.
A chegada de Lula ao seu terceiro mandato, em 2023, marcou uma mudança significativa nas relações entre o governo e a imprensa. A descredibilização sistemática dos jornalistas deixou de fazer parte da comunicação cotidiana do Poder Executivo. Também houve avanços na transparência pública, após um período marcado por restrições e pelo uso abusivo do sigilo. Na área de segurança, o governo criou o Observatório Nacional da Violência contra Jornalistas e fortaleceu políticas de proteção, embora esses mecanismos ainda apresentem limitações. Segundo os registros da RSF, nenhum jornalista foi assassinado no país em decorrência de sua atividade durante o mandato. O Brasil passou da 110ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, em 2022, para a 52ª, em 2026, uma recuperação de 58 posições.
A integridade da informação também se consolidou como um eixo importante da agenda do governo Lula, com iniciativas voltadas à proteção da informação confiável e à responsabilidade das plataformas digitais. Durante a presidência brasileira do G20, em 2024, o Brasil contribuiu para colocar o tema no centro das discussões sobre a economia digital. Em parceria com a ONU e a Unesco, o país lançou a Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas, estabelecendo uma conexão entre os trabalhos iniciados no G20 e a COP30, realizada em Belém, em 2025. Durante a conferência, foram assumidos compromissos relacionados à proteção do jornalismo ambiental, à responsabilização das plataformas e à sustentabilidade econômica da mídia.
No Brasil, porém, os resultados legislativos dessa agenda foram mais limitados. O Executivo participou ativamente dos debates sobre transparência e responsabilização das plataformas digitais, mas enfrentou dificuldades para transformar essas discussões em normas. O projeto para criar a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (PL 2630), que buscava estabelecer novas obrigações para essas empresas, acabou engavetado no Congresso, em meio a resistências políticas e à mobilização das grandes empresas de tecnologia. O projeto de lei sobre inteligência artificial (PL 2338), aprovado pelo Senado em 2024, perdeu parte das disposições relacionadas à integridade da informação ao longo de sua tramitação e ainda não foi votado pela Câmara dos Deputados.
O próximo governo encontrará, portanto, um debate em aberto sobre as regras do espaço digital, onde uma parcela crescente dos brasileiros se informa. Nas últimas duas décadas, as plataformas passaram a exercer enorme influência sobre a visibilidade, o alcance e a monetização dos conteúdos jornalísticos. Suas decisões afetam o acesso às notícias e a circulação de conteúdos falsos ou manipulados, frequentemente sem transparência suficiente sobre os critérios adotados.
A responsabilidade dessas empresas tornou-se objeto de uma disputa política internacional sobre os limites da liberdade de expressão. Setores da direita global, incluindo o bolsonarismo, apresentam iniciativas de regulação das plataformas como formas de censura. Nos Estados Unidos, essa posição também se manifesta na aproximação entre setores da direita e grandes empresários de tecnologia, como Elon Musk e Mark Zuckerberg. Flávio Bolsonaro tem se oposto a iniciativas legislativas e decisões judiciais voltadas à responsabilização dessas empresas.
Essa aproximação reúne interesses distintos, mas convergentes em torno da resistência a determinadas formas de regulação. Para as grandes empresas de tecnologia, está em jogo a preservação da autonomia sobre seus modelos de negócio, com menos exigências de transparência e responsabilização. Para determinados movimentos políticos, a defesa de uma concepção praticamente irrestrita da liberdade de expressão pode se associar à contestação da credibilidade do jornalismo e de outras instituições que produzem conhecimento verificável.
As consequências dessa disputa ultrapassam a regulação das plataformas e alcançam as próprias bases do debate democrático. Uma democracia pode conviver com interpretações radicalmente diferentes sobre o país. Precisa, porém, preservar as condições para que afirmações sobre a realidade sejam investigadas, verificadas e contestadas publicamente. Quando a credibilidade de uma informação passa a depender exclusivamente da identidade política de quem a transmite, o debate público perde uma de suas bases. O jornalismo contribui para preservar referências compartilhadas, mesmo entre pessoas que discordam profundamente sobre os rumos do país.
É por isso que o futuro do jornalismo não pode ocupar um lugar secundário nesta eleição. O que está em disputa não são apenas as garantias para que a imprensa investigue o poder sem intimidação, mas também a possibilidade de a sociedade ter acesso a informações independentes e confiáveis. O direito à informação precisa ser tratado como uma questão central nas escolhas sobre o futuro democrático do Brasil.
Futuro ambiental e climático do planeta depende das eleições no Brasil
Poucas eleições são tão importante para o meio ambiente quanto a disputa presidencial no Brasil. A deste ano, em particular, está sendo acompanhada muito além das fronteiras do país.
Por abrigar a maior parte da Floresta Amazônica, um importante sumidouro de carbono em escala global, as políticas de conservação do Brasil têm impacto mundial.
Ambientalistas já manifestaram preocupação com o fato de o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ter aparecido 2% à frente do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no primeiro turno das eleições.
"Será uma espécie de retorno dos Bolsonaros, portanto, com um Bolsonaro ainda mais radical", afirma Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, uma rede de ONGs brasileiras. "Sem querer soar alarmista, diria que a reeleição de Lula é a única barreira entre nós e o fim da Amazônia."
A Floresta Amazônica armazena grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) liberado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Com isso, ela ajuda a regular o clima da Terra.
Ao longo de décadas, a floresta tropical atuou como uma das defesas mais poderosas da natureza contra as mudanças climáticas. O bioma, no entanto, também tem sofrido com o desmatamento em larga escala.
Durante a presidência do pai de Flávio, Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, os órgãos ambientais foram enfraquecidos e as ações de fiscalização, reduzidas. Com isso, o desmatamento da floresta tropical atingiu taxas sem precedentes.
"A pauta ambiental foi negligenciada, e o controle que o governo exercia sobre a poluição em geral – e, especificamente, sobre o desmatamento – foi revertido", explica Claudio Forner, chefe de política climática da Climate Analytics, um think tank sediado em Berlim.
Durante os quatro anos de governo Bolsonaro, estima-se que 45.586 quilômetros quadrados da Amazônia tenham sido destruídos– uma área maior do que a da Dinamarca. A floresta, por sua vez, já não é tão resiliente quanto antes. Cientistas alertam que, atualmente, partes do bioma emitem mais carbono do que absorvem.
Lula assumiu o governo com uma mensagem de proteção à Amazônia. Ele prometeu o fim do desmatamento até 2030, ampliou o monitoramento da floresta e fortaleceu o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o órgão responsável pela fiscalização ambiental. Sob sua gestão, odesmatamento caiu significativamente, com a previsão de que, em 2026, atinja o menor patamar em uma década. Isso representa uma queda total de 41% em comparação ao período de Jair Bolsonaro na Presidência.
Especialistas já criticaram o histórico de Flávio Bolsonaro no que diz respeito à proteção florestal. Como senador, ele apresentou em 2019 um projeto de lei que poderia ter impactos severos para a Amazônia. Atualmente, proprietários rurais são obrigados a preservar 80% de suas terras com vegetação nativa. O projeto permitiria que eles utilizassem suas propriedades como bem entendessem.
"O sinal vindo presidente poderá ser 'agora vocês podem desmatar' ou 'agora vai ser mais difícil desmatar'", afirma à DW Ana Yang, diretora do Centro de Meio Ambiente e Sociedade do think tank Chatham House, sediado em Londres.
"No momento em que se reduz a capacidade de fiscalização, o desmatamento aumenta", alerta ela.
Flávio também prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2029 – um ano antes da meta de Lula. No entanto, Claudio Angelo vê essa promessa com ceticismo. "Ele acabará com o desmatamento ilegal não fazendo cumprir a lei, mas tornando-o legal", diz.
De modo geral, especialistas em meio ambiente temem que o candidato do PL possa desmantelar muitas das proteções ambientais que foram fortalecidas sob o atual governo.
"Infelizmente, as mudanças climáticas se tornaram uma questão partidária. Em vez de oferecerem uma solução a partir de sua própria perspectiva, os setores de direita retratam as mudanças climáticas como um problema inventado [...] argumentando que a regulação vai contra o crescimento econômico ou a competitividade, e que o objetivo da esquerda seria controlar os meios de produção", explica Forner.
Em uma entrevista divulgada pela mídia em agosto, Flávio disse considerar que eventos climáticos extremos são cíclicos e que não acredita que estejam ligados exclusivamente à influência humana.
Uma vitória de Bolsonaro provavelmente faria com que o Brasil se afastasse de sua posição como líder na agenda climática — posição consolodada no ano passado, quando o país sediou a Conferência do Clima da ONU (COP30) em Belém.
Contudo, especialistas ressaltam que uma vitória de Lula, por si só, não representaria uma história de sucesso climático. Embora a atual gestão tenha promovido reduções significativas no desmatamento, também apoiou planos para expandir a produção de petróleo.
Angelo afirma que a decisão de permitir a perfuração exploratória, como na foz do rio Amazonas, foi uma "traição" ao mandato de Lula, mas acrescentou que o histórico geral do presidente em relação ao clima tem sido "bastante impressionante". "Lula é o pior líder climático do mundo – exceto por todos os outros", diz.
O atual presidente enfrentará Flávio no segundo turno em 25 de outubro. Embora especialistas afirmem que o resultado pode determinar o destino da Amazônia e dos esforços mais amplos para conter o aquecimento global, para muitos brasileiros a questão climática não é prioridade.
"No fim das contas, o que importa para as pessoas é o acesso à educação, ao saneamento e à saúde", afirma Yang. Ela aponta que a construção de uma estrada através da Amazônia para viabilizar o acesso a esses serviços, embora criticada fora do Brasil por destruir partes da floresta tropical, é vista como algo desejável pelos eleitores.
"Eles não têm tempo para se preocupar com isso. Não porque não queiram; mas porque eles estão preocupados com a própria sobrevivência."
Por abrigar a maior parte da Floresta Amazônica, um importante sumidouro de carbono em escala global, as políticas de conservação do Brasil têm impacto mundial.
Ambientalistas já manifestaram preocupação com o fato de o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ter aparecido 2% à frente do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no primeiro turno das eleições.
"Será uma espécie de retorno dos Bolsonaros, portanto, com um Bolsonaro ainda mais radical", afirma Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, uma rede de ONGs brasileiras. "Sem querer soar alarmista, diria que a reeleição de Lula é a única barreira entre nós e o fim da Amazônia."
A Floresta Amazônica armazena grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) liberado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Com isso, ela ajuda a regular o clima da Terra.
Ao longo de décadas, a floresta tropical atuou como uma das defesas mais poderosas da natureza contra as mudanças climáticas. O bioma, no entanto, também tem sofrido com o desmatamento em larga escala.
Durante a presidência do pai de Flávio, Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, os órgãos ambientais foram enfraquecidos e as ações de fiscalização, reduzidas. Com isso, o desmatamento da floresta tropical atingiu taxas sem precedentes.
"A pauta ambiental foi negligenciada, e o controle que o governo exercia sobre a poluição em geral – e, especificamente, sobre o desmatamento – foi revertido", explica Claudio Forner, chefe de política climática da Climate Analytics, um think tank sediado em Berlim.
Durante os quatro anos de governo Bolsonaro, estima-se que 45.586 quilômetros quadrados da Amazônia tenham sido destruídos– uma área maior do que a da Dinamarca. A floresta, por sua vez, já não é tão resiliente quanto antes. Cientistas alertam que, atualmente, partes do bioma emitem mais carbono do que absorvem.
Lula assumiu o governo com uma mensagem de proteção à Amazônia. Ele prometeu o fim do desmatamento até 2030, ampliou o monitoramento da floresta e fortaleceu o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o órgão responsável pela fiscalização ambiental. Sob sua gestão, odesmatamento caiu significativamente, com a previsão de que, em 2026, atinja o menor patamar em uma década. Isso representa uma queda total de 41% em comparação ao período de Jair Bolsonaro na Presidência.
Especialistas já criticaram o histórico de Flávio Bolsonaro no que diz respeito à proteção florestal. Como senador, ele apresentou em 2019 um projeto de lei que poderia ter impactos severos para a Amazônia. Atualmente, proprietários rurais são obrigados a preservar 80% de suas terras com vegetação nativa. O projeto permitiria que eles utilizassem suas propriedades como bem entendessem.
"O sinal vindo presidente poderá ser 'agora vocês podem desmatar' ou 'agora vai ser mais difícil desmatar'", afirma à DW Ana Yang, diretora do Centro de Meio Ambiente e Sociedade do think tank Chatham House, sediado em Londres.
"No momento em que se reduz a capacidade de fiscalização, o desmatamento aumenta", alerta ela.
Flávio também prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2029 – um ano antes da meta de Lula. No entanto, Claudio Angelo vê essa promessa com ceticismo. "Ele acabará com o desmatamento ilegal não fazendo cumprir a lei, mas tornando-o legal", diz.
De modo geral, especialistas em meio ambiente temem que o candidato do PL possa desmantelar muitas das proteções ambientais que foram fortalecidas sob o atual governo.
"Infelizmente, as mudanças climáticas se tornaram uma questão partidária. Em vez de oferecerem uma solução a partir de sua própria perspectiva, os setores de direita retratam as mudanças climáticas como um problema inventado [...] argumentando que a regulação vai contra o crescimento econômico ou a competitividade, e que o objetivo da esquerda seria controlar os meios de produção", explica Forner.
Em uma entrevista divulgada pela mídia em agosto, Flávio disse considerar que eventos climáticos extremos são cíclicos e que não acredita que estejam ligados exclusivamente à influência humana.
Uma vitória de Bolsonaro provavelmente faria com que o Brasil se afastasse de sua posição como líder na agenda climática — posição consolodada no ano passado, quando o país sediou a Conferência do Clima da ONU (COP30) em Belém.
Contudo, especialistas ressaltam que uma vitória de Lula, por si só, não representaria uma história de sucesso climático. Embora a atual gestão tenha promovido reduções significativas no desmatamento, também apoiou planos para expandir a produção de petróleo.
Angelo afirma que a decisão de permitir a perfuração exploratória, como na foz do rio Amazonas, foi uma "traição" ao mandato de Lula, mas acrescentou que o histórico geral do presidente em relação ao clima tem sido "bastante impressionante". "Lula é o pior líder climático do mundo – exceto por todos os outros", diz.
O atual presidente enfrentará Flávio no segundo turno em 25 de outubro. Embora especialistas afirmem que o resultado pode determinar o destino da Amazônia e dos esforços mais amplos para conter o aquecimento global, para muitos brasileiros a questão climática não é prioridade.
"No fim das contas, o que importa para as pessoas é o acesso à educação, ao saneamento e à saúde", afirma Yang. Ela aponta que a construção de uma estrada através da Amazônia para viabilizar o acesso a esses serviços, embora criticada fora do Brasil por destruir partes da floresta tropical, é vista como algo desejável pelos eleitores.
"Eles não têm tempo para se preocupar com isso. Não porque não queiram; mas porque eles estão preocupados com a própria sobrevivência."
Não sei vocês
Não sei vocês, mas entendo que estamos às vésperas da eleição mais importante do resto de nossas vidas. Em poucos dias iremos definir se queremos um governo que se caracteriza pela defesa dos interesses coletivos e pela priorização do bem-estar social ou um governo associado ao autoritarismo, ao culto à personalidade, à perseguição de minorias e ao desprezo pelo meio ambiente.
Não sei vocês, mas a escolha certa me parece óbvia para quem preza a democracia, a liberdade de expressão, o direito à divergência, o livre pensamento, a justiça social, a equidade de gênero e de raça, a educação pública, a proteção previdenciária e uma série de direitos e garantias conquistados com muita luta e articulação coletiva ao longo de décadas.
Não sei vocês, mas acredito que precisamos centrar esforços para manter viva a Nova República, período que começou com o término dos 21 anos de ditadura militar, uma época caracterizada pelo autoritarismo, pela censura à imprensa, pela restrição de direitos políticos, pela perseguição, repressão e tortura de opositores, pela criação de órgãos de controle e por golpes institucionais.
Não sei vocês, mas creio que não podemos correr o risco de perder nenhum dos direitos que conquistamos. Devemos isso em respeito aos que, num passado recente, pagaram com a vida para que hoje pudéssemos ir às urnas para expressar nossa soberania por meio do voto. Devemos isso a nós mesmos. Devemos isso especialmente às próximas gerações.
Não sei vocês, mas numa sociedade extremamente injusta e desigual como a brasileira, é imprescindível contar com leis trabalhistas, com salário mínimo, com negociação coletiva, com direitos previdenciários, com ações afirmativas, com proteção ao meio ambiente, com um Estado que proteja direitos e module relações econômicas absolutamente díspares – entre outras coisas.
Não sei vocês, mas para mim liberdade, equidade e justiça social são valores maiores e mais relevantes que o gosto ou desgosto por qualquer partido político.
Não sei vocês, mas a escolha certa me parece óbvia para quem preza a democracia, a liberdade de expressão, o direito à divergência, o livre pensamento, a justiça social, a equidade de gênero e de raça, a educação pública, a proteção previdenciária e uma série de direitos e garantias conquistados com muita luta e articulação coletiva ao longo de décadas.
Não sei vocês, mas acredito que precisamos centrar esforços para manter viva a Nova República, período que começou com o término dos 21 anos de ditadura militar, uma época caracterizada pelo autoritarismo, pela censura à imprensa, pela restrição de direitos políticos, pela perseguição, repressão e tortura de opositores, pela criação de órgãos de controle e por golpes institucionais.
Não sei vocês, mas creio que não podemos correr o risco de perder nenhum dos direitos que conquistamos. Devemos isso em respeito aos que, num passado recente, pagaram com a vida para que hoje pudéssemos ir às urnas para expressar nossa soberania por meio do voto. Devemos isso a nós mesmos. Devemos isso especialmente às próximas gerações.
Não sei vocês, mas numa sociedade extremamente injusta e desigual como a brasileira, é imprescindível contar com leis trabalhistas, com salário mínimo, com negociação coletiva, com direitos previdenciários, com ações afirmativas, com proteção ao meio ambiente, com um Estado que proteja direitos e module relações econômicas absolutamente díspares – entre outras coisas.
Não sei vocês, mas para mim liberdade, equidade e justiça social são valores maiores e mais relevantes que o gosto ou desgosto por qualquer partido político.
domingo, 18 de outubro de 2026
O apelo da dignidade
Na fatigante expectativa do segundo turno, especialistas insistem em que problemas nacionais sejam postos em debate entre os dois candidatos e não se confundam campanhas com exposições biográficas. Todo mundo está cansado de saber que Lula, autodeclarado mais sindicalista que de esquerda, representa estabilidade democrática, ideias de povo próspero e soberano. Por vias populistas, sempre "entregou" benefícios sociais.
Mas até os mal-informados também estão cansados de saber que Flávio Bolsonaro tem mais folha corrida do que biografia publicável em 23 anos de vida parlamentar. Supunha-se que um político da ultradireita em ascensão tivesse algo de pertinente a dizer sobre ajuste fiscal ou sobre um benefício qualquer a "entregar", como senha de trânsito no mercado eleitoral. O que ele diz numa hora, desdiz na outra. É um "flatus" ambulante. De concreto, o projeto de tirar o pai da cadeia. Embora possa facilmente entregar o país.
Há cansaço, sim, "fadiga de material". Mas esse "stress corrosion" (jargão técnico de engenheiro para queda estrutural de ponte ou viaduto) também acomete o arcabouço das explicações de macroestrutura. Não que estejam erradas, são apenas abstratas demais, próprias ao entendimento intelectual, porém deslocadas em tempo e espaço para a média compreensão imediata.
E o problema imediato dos debates é que a massa eleitoral parece não querer saber de coisa alguma. A falha no primeiro turno não foi falta de debates, mas demonstração da falta de vontade de debater. Agito é o que balança as redes. Não apenas os 33 milhões que deixaram de votar, mas principalmente aqueles que, polarizados por uma "mudança" engana-vista, aderem à lógica televisiva do Big Brother.
Por pouco caso que disso façam as explicações por frações de classes de consumo, o reality show oferece um simulacro de parte importante do processo eleitoral. No BBB não se trata de saber, mas de polarizar afetivamente. É modelo de um democratismo tão radical que favorece o homem sem qualidades. Ganha o pior, ou seja, aquele que, exatamente por falta de méritos, catalisa por plebiscito a simpatia majoritária. Criticá-lo desperta a emoção reversa da autopiedade: é como dizer "coitadinho de mim mesmo", tão semelhante.
O rebaixamento nas redes sociais parece hoje prioritário no pleito político. Parlamentares da caixa de gargalhadas, com milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração. Mas o pano de fundo conceitual permanece o do reality show, regido pelo ditado latino "qui vult decipi, decipiatur": quem quer ser enganado, seja. No espelho eletrônico, o pobre empreendedor de si mesmo quer se ver como rico, a vítima como carrasco vingador.
Redes, onde versões precedem fatos, são as ruas movimentadas dessa megalópole-BB chamada internet. No Rio, as semimortas pertencem a neopentecostais, traficantes e milicianos. Debater o quê, com quem? Daí repercutir como contra-hegemonia nas redes o eco das ruas ainda vivas: "fascismo não se discute, se destrói", pois "é difícil defender, só com palavras, a vida" (João Cabral). Cabe mesmo a cada brasileiro sentir no peito o apelo da sua dignidade.
Mas até os mal-informados também estão cansados de saber que Flávio Bolsonaro tem mais folha corrida do que biografia publicável em 23 anos de vida parlamentar. Supunha-se que um político da ultradireita em ascensão tivesse algo de pertinente a dizer sobre ajuste fiscal ou sobre um benefício qualquer a "entregar", como senha de trânsito no mercado eleitoral. O que ele diz numa hora, desdiz na outra. É um "flatus" ambulante. De concreto, o projeto de tirar o pai da cadeia. Embora possa facilmente entregar o país.
Há cansaço, sim, "fadiga de material". Mas esse "stress corrosion" (jargão técnico de engenheiro para queda estrutural de ponte ou viaduto) também acomete o arcabouço das explicações de macroestrutura. Não que estejam erradas, são apenas abstratas demais, próprias ao entendimento intelectual, porém deslocadas em tempo e espaço para a média compreensão imediata.
E o problema imediato dos debates é que a massa eleitoral parece não querer saber de coisa alguma. A falha no primeiro turno não foi falta de debates, mas demonstração da falta de vontade de debater. Agito é o que balança as redes. Não apenas os 33 milhões que deixaram de votar, mas principalmente aqueles que, polarizados por uma "mudança" engana-vista, aderem à lógica televisiva do Big Brother.
Por pouco caso que disso façam as explicações por frações de classes de consumo, o reality show oferece um simulacro de parte importante do processo eleitoral. No BBB não se trata de saber, mas de polarizar afetivamente. É modelo de um democratismo tão radical que favorece o homem sem qualidades. Ganha o pior, ou seja, aquele que, exatamente por falta de méritos, catalisa por plebiscito a simpatia majoritária. Criticá-lo desperta a emoção reversa da autopiedade: é como dizer "coitadinho de mim mesmo", tão semelhante.
O rebaixamento nas redes sociais parece hoje prioritário no pleito político. Parlamentares da caixa de gargalhadas, com milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração. Mas o pano de fundo conceitual permanece o do reality show, regido pelo ditado latino "qui vult decipi, decipiatur": quem quer ser enganado, seja. No espelho eletrônico, o pobre empreendedor de si mesmo quer se ver como rico, a vítima como carrasco vingador.
Redes, onde versões precedem fatos, são as ruas movimentadas dessa megalópole-BB chamada internet. No Rio, as semimortas pertencem a neopentecostais, traficantes e milicianos. Debater o quê, com quem? Daí repercutir como contra-hegemonia nas redes o eco das ruas ainda vivas: "fascismo não se discute, se destrói", pois "é difícil defender, só com palavras, a vida" (João Cabral). Cabe mesmo a cada brasileiro sentir no peito o apelo da sua dignidade.
Flávio perde votos quando eleitor o imagina governando
Para Flávio Bolsonaro vencer a eleição, precisa impedir que os brasileiros se lembrem de que, se votarem nele, ele será o presidente do Brasil pelos próximos quatro anos. Ou mais, dependendo do que ele e o pai fizerem com a Constituição que já disseram que esculhambarão.
Não houve campanha eleitoral no primeiro turno: houve noticiário sobre corrupção no STF. Leitores da coluna sabem que votar no PL para punir os corruptos do STF foi votar em 98% da quadrilha Master para usar os outros 2% como bodes expiatórios. Mas muita gente caiu no golpe, e Flávio terminou o primeiro turno na frente de Lula.
Em retrospecto, a liderança pode ter sido ruim para Flávio. Ela forçou o eleitorado a levar a sério a possibilidade de ser governado por Flávio Bolsonaro. Foi quando começou a recuperação de Lula nas pesquisas.
Logo ficou claro que as entrevistas de Daniella Marques eram o equivalente econômico de "Não sei quem é Daniel Vorcaro, quer dizer, sei mas nunca falei com ele, nunca falei com ele a não ser nessas duas vezes, mas tirando essas dez vezes nunca falei nem vi, só vi nessas dez visitas, vi nessas 20 visitas mas nunca viajei no avião dele, nunca viajei no avião dele porque o avião também era meu, sou usuário master da conta da empresa que o Willer Tomaz usou pra virar sócio do Vorcaro na propriedade do avião, se bem que nunca tive conta conjunta com o Willer porque pegaram ele lavando dinheiro para a turma que roubava no INSS, mas quem andou no avião foi o Alexandre de Moraes, e, ok, eu também, mas odeio Alexandre de Moraes apesar de que, sim, ganhamos exatamente a mesma quantia milionária do mesmo ladrão, mas no meu caso foi pra fazer filme, vou mostrar as contas que provam isso, opa, peraí, não vou mostrar não kkk, caraca Daniella para de se debater na missa".
A votação sobre a jornada 6x1 provou o argumento de minha última coluna: quando fala sobre o que fará com o dinheiro dos brasileiros, Flávio tem um discurso para você que vive do seu trabalho (votou a favor da proposta de Lula) e outro discurso para os ricos (prometeu liberar a 6x1 se for eleito).
Quem você acha que terá mais condições de cobrar as promessas de Flávio, os ricos ou você?
Também já tem gente percebendo que a turma que tentou o golpe de 2022 pode voltar ao poder com um STF castrado pela ameaça permanente de impeachment. Se for eleito, Flávio não vai ter só o poder de derrubar Xandão. Com maioria no Senado, poderá derrubar qualquer ministro que se oponha a qualquer um de seus projetos.
Jair Bolsonaro vai sair da cadeia e escolher os ministros militares de Flávio, já sabendo que generais apoiaram sua última tentativa de golpe. Paulo Figueiredo já disse, em vídeo, que pretende dar a um general que disse não ao golpe a função de carregar uma mala cheia de fezes o dia inteiro. Os golpistas, naturalmente, serão promovidos.
Uma vitória de Flávio, enfim, fortaleceria em Jair a convicção de que não precisa fazer qualquer concessão para obter apoio da direita que preferia Tarcísio.
Para vencer, Flávio precisa que os brasileiros continuem indignados, mas sem se perguntar muito sobre que governo lhes faria ganhar mais dinheiro, ou sobre com que governo prefeririam enfrentar uma nova pandemia.
Não houve campanha eleitoral no primeiro turno: houve noticiário sobre corrupção no STF. Leitores da coluna sabem que votar no PL para punir os corruptos do STF foi votar em 98% da quadrilha Master para usar os outros 2% como bodes expiatórios. Mas muita gente caiu no golpe, e Flávio terminou o primeiro turno na frente de Lula.
Em retrospecto, a liderança pode ter sido ruim para Flávio. Ela forçou o eleitorado a levar a sério a possibilidade de ser governado por Flávio Bolsonaro. Foi quando começou a recuperação de Lula nas pesquisas.
Logo ficou claro que as entrevistas de Daniella Marques eram o equivalente econômico de "Não sei quem é Daniel Vorcaro, quer dizer, sei mas nunca falei com ele, nunca falei com ele a não ser nessas duas vezes, mas tirando essas dez vezes nunca falei nem vi, só vi nessas dez visitas, vi nessas 20 visitas mas nunca viajei no avião dele, nunca viajei no avião dele porque o avião também era meu, sou usuário master da conta da empresa que o Willer Tomaz usou pra virar sócio do Vorcaro na propriedade do avião, se bem que nunca tive conta conjunta com o Willer porque pegaram ele lavando dinheiro para a turma que roubava no INSS, mas quem andou no avião foi o Alexandre de Moraes, e, ok, eu também, mas odeio Alexandre de Moraes apesar de que, sim, ganhamos exatamente a mesma quantia milionária do mesmo ladrão, mas no meu caso foi pra fazer filme, vou mostrar as contas que provam isso, opa, peraí, não vou mostrar não kkk, caraca Daniella para de se debater na missa".
A votação sobre a jornada 6x1 provou o argumento de minha última coluna: quando fala sobre o que fará com o dinheiro dos brasileiros, Flávio tem um discurso para você que vive do seu trabalho (votou a favor da proposta de Lula) e outro discurso para os ricos (prometeu liberar a 6x1 se for eleito).
Quem você acha que terá mais condições de cobrar as promessas de Flávio, os ricos ou você?
Também já tem gente percebendo que a turma que tentou o golpe de 2022 pode voltar ao poder com um STF castrado pela ameaça permanente de impeachment. Se for eleito, Flávio não vai ter só o poder de derrubar Xandão. Com maioria no Senado, poderá derrubar qualquer ministro que se oponha a qualquer um de seus projetos.
Jair Bolsonaro vai sair da cadeia e escolher os ministros militares de Flávio, já sabendo que generais apoiaram sua última tentativa de golpe. Paulo Figueiredo já disse, em vídeo, que pretende dar a um general que disse não ao golpe a função de carregar uma mala cheia de fezes o dia inteiro. Os golpistas, naturalmente, serão promovidos.
Uma vitória de Flávio, enfim, fortaleceria em Jair a convicção de que não precisa fazer qualquer concessão para obter apoio da direita que preferia Tarcísio.
Para vencer, Flávio precisa que os brasileiros continuem indignados, mas sem se perguntar muito sobre que governo lhes faria ganhar mais dinheiro, ou sobre com que governo prefeririam enfrentar uma nova pandemia.
Querem mudar o jeito de escolher o presidente, deputados, e levar bandidos ao poder
As turmas do poder político pretendem mudar formas e modos de governo entre o final deste ano e o começo do próximo. Flávio Bolsonaro (PL) e cia. têm plano nebuloso de "mudar a Constituição para redemocratizar o país". O centrão-direitão quer se defender do avanço da extrema direita e dos políticos digitais. Todos querem mexer no falido STF.
Tais mudanças serão discutidas em momento que pode ser de domínio da extrema direita no governo federal e de grande força no Congresso, com o que tal corrente pode vir a ser hegemônica no partidarizado STF. A extrema direita é composta também de grupos políticos associados ao crime organizado. De resto, a elite no poder foi comprada ou alugada pelo gângster e cafetão Daniel Vorcaro.
Trata-se de:
1. Duração do mandato do presidente e fim da reeleição
2. Sistema de eleição parlamentar passa de proporcional, como hoje, para distrital misto
3. Ministros do STF com mandatos de duração fixa ou idade mínima maior; código de conduta e limites à "monocracia" firmados em lei
Caso eleito, Flávio Bolsonaro vai mandar ao Congresso projeto para estender seu mandato, não se sabe em quais termos. Diz que quer apenas abreviar sua estada no poder (sem reeleição). Flávio é mentiroso contumaz, sem escrúpulo. Faz qualquer negócio, de negar relação com Daniel Vorcaro a renegar seu ajuste fiscal. Pode tentar emplacar no Congresso pacote insidioso de captura do poder à maneira dos autocratas do século 21, de Hungria, Turquia ou Venezuela.
O centrão-direitão assustou-se com o sucesso da extrema direita e dos políticos digitais. Desde 2025, planeja emplacar o voto distrital misto para deputados. Metade deles seria escolhida em distritos (regiões de cada estado de eleitorado de tamanho similar); metade viria de listas de candidatos, a depender da votação de cada partido. Projeto assim foi aprovado em 2017 no Senado e lá ficou. É assunto para outro dia, mas se diga logo que tal sistema pode ser mutretado para favorecer correntes políticas, a depender de regras e distritos.
Em suma, pode haver enorme e rara virada no sistema político. Em geral, tais mudanças fracassam neste país dado a inércia, gradualismo inepto, acordão e transições transadas. Ou então há golpes.
Além de tudo, ano que vem será de crescimento baixo e de transições grandes, como a reforma tributária e o fim da 6x1, reformas que há quem queira abortar. O país estará pendendo entre ajuste fiscal complexo e conflitivo e estagnação ou tumulto econômicos.
No caso de confluência de tantas mudanças e dificuldades, é de se temer crise. Ou golpes e contragolpes.
Como se não bastasse, parte relevante da coalizão da extrema direita é aliada ou comparsa de grupos políticos associados ao crime organizado. Além de laços antigos com milicianos e matadores, o grupo político de Flávio Bolsonaro (PL) é ligado à turma de Cláudio Castro e de quem mandava no governo corrupto dele e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, PL e União Brasil. É gente associada ao Comando Vermelho, outros traficantes, "bets" mafiosas, milicianos, bicheiros, máfia de combustíveis e organizações empresariais criminosas diversas etc. O grupo, na verdade um sistema, agora é comandado pelo governador eleito Douglas Ruas, do PL.
Há o risco de que, eleito, Flávio Bolsonaro transforme o governo do Brasil em um grande Rio de Janeiro sob um sistema político mutretado por reformas autoritárias.
Tais mudanças serão discutidas em momento que pode ser de domínio da extrema direita no governo federal e de grande força no Congresso, com o que tal corrente pode vir a ser hegemônica no partidarizado STF. A extrema direita é composta também de grupos políticos associados ao crime organizado. De resto, a elite no poder foi comprada ou alugada pelo gângster e cafetão Daniel Vorcaro.
Trata-se de:
1. Duração do mandato do presidente e fim da reeleição
2. Sistema de eleição parlamentar passa de proporcional, como hoje, para distrital misto
3. Ministros do STF com mandatos de duração fixa ou idade mínima maior; código de conduta e limites à "monocracia" firmados em lei
Caso eleito, Flávio Bolsonaro vai mandar ao Congresso projeto para estender seu mandato, não se sabe em quais termos. Diz que quer apenas abreviar sua estada no poder (sem reeleição). Flávio é mentiroso contumaz, sem escrúpulo. Faz qualquer negócio, de negar relação com Daniel Vorcaro a renegar seu ajuste fiscal. Pode tentar emplacar no Congresso pacote insidioso de captura do poder à maneira dos autocratas do século 21, de Hungria, Turquia ou Venezuela.
O centrão-direitão assustou-se com o sucesso da extrema direita e dos políticos digitais. Desde 2025, planeja emplacar o voto distrital misto para deputados. Metade deles seria escolhida em distritos (regiões de cada estado de eleitorado de tamanho similar); metade viria de listas de candidatos, a depender da votação de cada partido. Projeto assim foi aprovado em 2017 no Senado e lá ficou. É assunto para outro dia, mas se diga logo que tal sistema pode ser mutretado para favorecer correntes políticas, a depender de regras e distritos.
Em suma, pode haver enorme e rara virada no sistema político. Em geral, tais mudanças fracassam neste país dado a inércia, gradualismo inepto, acordão e transições transadas. Ou então há golpes.
Além de tudo, ano que vem será de crescimento baixo e de transições grandes, como a reforma tributária e o fim da 6x1, reformas que há quem queira abortar. O país estará pendendo entre ajuste fiscal complexo e conflitivo e estagnação ou tumulto econômicos.
No caso de confluência de tantas mudanças e dificuldades, é de se temer crise. Ou golpes e contragolpes.
Como se não bastasse, parte relevante da coalizão da extrema direita é aliada ou comparsa de grupos políticos associados ao crime organizado. Além de laços antigos com milicianos e matadores, o grupo político de Flávio Bolsonaro (PL) é ligado à turma de Cláudio Castro e de quem mandava no governo corrupto dele e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, PL e União Brasil. É gente associada ao Comando Vermelho, outros traficantes, "bets" mafiosas, milicianos, bicheiros, máfia de combustíveis e organizações empresariais criminosas diversas etc. O grupo, na verdade um sistema, agora é comandado pelo governador eleito Douglas Ruas, do PL.
Há o risco de que, eleito, Flávio Bolsonaro transforme o governo do Brasil em um grande Rio de Janeiro sob um sistema político mutretado por reformas autoritárias.
Luchsinger na CNN: após 37 anos, “Operação Miriam Cordeiro” II pré-debate
Trinta e sete anos depois daquele 1989 fatídico, e com as consequências então conhecidas, apareceu uma candidata a Miriam Cordeiro na sucessão: Roberta Luchsinger. Há, claro, diferenças, como sempre, quando se associam personagens de tempos históricos distintos: aquela falou no horário eleitoral de Fernando Collor; esta concedeu uma estupefaciente entrevista à CNN na noite deste sábado. Tratou-se de uma sessão de insultos dirigidos contra o presidente, sem uma miserável acusação objetiva. Muito pelo contrário: ela admitiu não ter nada. Afirmou, por exemplo, que aceita fazer uma delação premiada, embora diga não ter cometido crime nenhum nem ter contrato com o poder público. Nota: Cordeiro apareceu no horário eleitoral na noite de 12 de dezembro daquele ano; a peça foi repisada no dia 13, e o debate entre os candidatos se deu no dia 14. O primeiro confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro acontece na Band neste domingo.
Uma frase resume a entrevista de Luchsinger, além dos xingamentos: “Um homem desse não pode continuar na Presidência da República”. Flávio Bolsonaro certamente concorda com ela. Em 1989, Cordeiro afirmou sobre Lula, com quem teve uma filha, Lurian, que sempre esteve ao lado do pai: “Eu não apoio o Lula e não quero apoiar o Lula porque eu acho que apoiar o Lula seria uma traição a mim mesma. Eu fui uma pessoa que sofreu muito na mão do Lula. […] Eu não posso, sob hipótese nenhuma, apoiar um homem que acabou com a minha vida, tá?”
A lobista, que falou neste sábado, acusa o presidente de ter acabado com o seu negócio. Disse ter perdido clientes que mantinha havia 10 anos, embora não fique claro exatamente o que ela faz. Distribuiu insinuações contra Lulinha, sugerindo que um empresário se deu bem em razão dessa amizade, mas afirmou também não ter conhecimento de irregularidades. Acha que o ex-amigo tem de ser investigado. Por quê?
Não por contratos irregulares que a dupla tenha conquistado no governo. Ela insiste que inexistem os ditos-cujos e que nada fez de errado. Mas aí se saiu com o seguinte truque: se houver, que a polícia diga, e ela se prontificou a colaborar. Talvez não lhe tenham dito como funciona a Lei nº 12.850: o colaborador tem de começar por confessar os próprios crimes. Mas delatar o quê, se ela diz não ter cometido nenhum? Luchsinger confunde uma delação com a simples acusação dos inimigos da hora.
Está obviamente injuriada porque o presidente a chamou de “pilantra”, e chegou até a ensaiar alguns surtos de feminismo seletivo. Contra um adjetivo, uma pilha: “mentiroso, mau-caráter, senil, esclerosado…”. Jurou que era defensora do governo e perguntou: “O que eu recebi em troca?”.
Desse governo, obviamente, nada. Se Flávio vencer, teremos a chance de saber se haverá alguma compensação no próximo.
Num dos momentos que seriam até hilariantes, não fosse tudo bastante melancólico, afirmou que ministros de Estado recorreriam à sua intermediação para conseguir audiência com o presidente da República… Entra na categoria das coisas que nem erradas conseguem ser.
Mas como isso se daria? É tudo confuso — ela estava muito furiosa para pensar com clareza, embora o objetivo da entrevista tenha sido claríssimo —, mas parece que sua amizade com Marcola (Marco Aurélio Ribeiro), ex-chefe de gabinete de Lula, facilitaria o acesso. Pergunta óbvia de resposta idem: por que um ministro de Estado ligaria para ela em vez de passar a mão no telefone e procurar Rui Costa, então chefe da Casa Civil?
É claro que se trata de uma entrevista para tentar interferir na eleição. Cordeiro afirmou em 1989 naquele depoimento absurdo no horário eleitoral de Collor: “Eu peguei a Lurian e entreguei no colo dele e falei: ‘agora você mata; porque, quando ela estava na minha barriga, eu não permiti’.” Luchsinger agora diz que Lula será o responsável por qualquer atentado que venha a sofrer.
Eu não sou ombudsman da imprensa, claro! Mas me pergunto: faz sentido levar ao ar um troço como esse? Ouitra pergunta óbvia de resposta idem: se a extrema direita atentasse contra a vida dela, o responsável seria Lula?
A síntese da entrevista é a seguinte:
– o presidente não gosta dela nem ela do presidente;
– ela não conseguiu fechar nenhuma parceria com o governo;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas afirma querer delatar os outros, o que não tem suporte legal;
– afirma estar sendo perseguida pela “máquina pública”, embora não tenha evidência disso;
– quer saber por que Lulinha não é investigado, embora ele esteja sendo investigado;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas sugere que seu ex-amigo pode ter cometido algum, embora não diga qual.
E, como se nota, ela está pedindo proteção. Ingênua não é — o que talvez Cordeiro fosse. Ela fez uma aposta na derrota de Lula. E parece esperar que o futuro lhe seja ameno, uma vez que diz topar uma delação premiada contra os outros e se diz inocente como as flores.
Que a “Operação Luchsinger” não seja bem-sucedida como foi a “Operação Cordeiro”.
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| Roberta, a 'Miriam Cordeiro' da vez |
Uma frase resume a entrevista de Luchsinger, além dos xingamentos: “Um homem desse não pode continuar na Presidência da República”. Flávio Bolsonaro certamente concorda com ela. Em 1989, Cordeiro afirmou sobre Lula, com quem teve uma filha, Lurian, que sempre esteve ao lado do pai: “Eu não apoio o Lula e não quero apoiar o Lula porque eu acho que apoiar o Lula seria uma traição a mim mesma. Eu fui uma pessoa que sofreu muito na mão do Lula. […] Eu não posso, sob hipótese nenhuma, apoiar um homem que acabou com a minha vida, tá?”
A lobista, que falou neste sábado, acusa o presidente de ter acabado com o seu negócio. Disse ter perdido clientes que mantinha havia 10 anos, embora não fique claro exatamente o que ela faz. Distribuiu insinuações contra Lulinha, sugerindo que um empresário se deu bem em razão dessa amizade, mas afirmou também não ter conhecimento de irregularidades. Acha que o ex-amigo tem de ser investigado. Por quê?
Não por contratos irregulares que a dupla tenha conquistado no governo. Ela insiste que inexistem os ditos-cujos e que nada fez de errado. Mas aí se saiu com o seguinte truque: se houver, que a polícia diga, e ela se prontificou a colaborar. Talvez não lhe tenham dito como funciona a Lei nº 12.850: o colaborador tem de começar por confessar os próprios crimes. Mas delatar o quê, se ela diz não ter cometido nenhum? Luchsinger confunde uma delação com a simples acusação dos inimigos da hora.
Está obviamente injuriada porque o presidente a chamou de “pilantra”, e chegou até a ensaiar alguns surtos de feminismo seletivo. Contra um adjetivo, uma pilha: “mentiroso, mau-caráter, senil, esclerosado…”. Jurou que era defensora do governo e perguntou: “O que eu recebi em troca?”.
Desse governo, obviamente, nada. Se Flávio vencer, teremos a chance de saber se haverá alguma compensação no próximo.
Num dos momentos que seriam até hilariantes, não fosse tudo bastante melancólico, afirmou que ministros de Estado recorreriam à sua intermediação para conseguir audiência com o presidente da República… Entra na categoria das coisas que nem erradas conseguem ser.
Mas como isso se daria? É tudo confuso — ela estava muito furiosa para pensar com clareza, embora o objetivo da entrevista tenha sido claríssimo —, mas parece que sua amizade com Marcola (Marco Aurélio Ribeiro), ex-chefe de gabinete de Lula, facilitaria o acesso. Pergunta óbvia de resposta idem: por que um ministro de Estado ligaria para ela em vez de passar a mão no telefone e procurar Rui Costa, então chefe da Casa Civil?
É claro que se trata de uma entrevista para tentar interferir na eleição. Cordeiro afirmou em 1989 naquele depoimento absurdo no horário eleitoral de Collor: “Eu peguei a Lurian e entreguei no colo dele e falei: ‘agora você mata; porque, quando ela estava na minha barriga, eu não permiti’.” Luchsinger agora diz que Lula será o responsável por qualquer atentado que venha a sofrer.
Eu não sou ombudsman da imprensa, claro! Mas me pergunto: faz sentido levar ao ar um troço como esse? Ouitra pergunta óbvia de resposta idem: se a extrema direita atentasse contra a vida dela, o responsável seria Lula?
A síntese da entrevista é a seguinte:
– o presidente não gosta dela nem ela do presidente;
– ela não conseguiu fechar nenhuma parceria com o governo;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas afirma querer delatar os outros, o que não tem suporte legal;
– afirma estar sendo perseguida pela “máquina pública”, embora não tenha evidência disso;
– quer saber por que Lulinha não é investigado, embora ele esteja sendo investigado;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas sugere que seu ex-amigo pode ter cometido algum, embora não diga qual.
E, como se nota, ela está pedindo proteção. Ingênua não é — o que talvez Cordeiro fosse. Ela fez uma aposta na derrota de Lula. E parece esperar que o futuro lhe seja ameno, uma vez que diz topar uma delação premiada contra os outros e se diz inocente como as flores.
Que a “Operação Luchsinger” não seja bem-sucedida como foi a “Operação Cordeiro”.
Memórias de um foca nos anos de chumbo
Cerca de 18 horas no dia 28 de março de 1968, no Rio de Janeiro, o estudante secundarista Edson Luis de Lima Souto foi baleado e morto durante uma manifestação no Restaurante Calabouço, ponto de encontro de estudantes no Centro da cidade. Os estudantes protestavam contra os altos preços e a péssima qualidade da comida servida no local.
Havia grande alarido no local quando as tropas da Polícia Militar chegaram para reprimir o protesto estudantil e invadiram o restaurante, disparando contra os jovens. Um tiro perfurou o coração de Edson, que morreu poucos instantes após o disparo.
Minutos depois o telefone tocou na redação dos Diários Associados, onde eu dava início à minha carreira de repórter, na Rua do Carmo, a poucas quadras do Calabouço: era alguém comunicando o atentado. Eu já tinha encerrado meu expediente e me preparava para ir embora quando ouvi a voz do Leo Guanabara, nosso chefe de redação: “Luis, Luis, você precisa ir ao Calabouço, a polícia acaba de matar um estudante”. Fui chamado porque todos os outros repórteres já tinham ido embora. A rigor, não seria trabalho para um foca quase sem nenhuma experiência como era o meu caso. Tinha só 23 anos, e há apenas uma semana conseguira o emprego. Mas fui para lá, a pé, correndo, um tanto atordoado, sem saber que aquela seria minha prova de fogo no jornalismo.
No restaurante, ao chegar, instalara-se um clima de pânico e revolta. Os estudante sabiam que, se a polícia ficasse com o corpo de Edson Luis, o crime certamente seria abafado, as evidências seriam destruídas e ele, como tantos outros antes, e também depois, seria transformado em um “desaparecido” ou o caso seria distorcido pelas autoridades.
Para impedir que a polícia sumisse com o corpo, os estudantes agiram rapidamente: eles recolheram Edson do chão do restaurante antes que o local fosse totalmente isolado. Carregaram o corpo nos braços e iniciaram uma passeata espontânea pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro. O destino final foi o palácio da Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara (Alerj). Os estudantes invadiram o local carregando o cadáver e exigiram que o velório fosse realizado ali mesmo, em espaço público, para garantir a segurança e impedir a intervenção do regime militar.
Acompanhei tudo isso, arrastado pelos acontecimentos. Consegui que o gerente de um bar nas proximidades me permitisse usar o telefone. Liguei para a redação algumas vezes e ditei, palavra por palavra, todas as informações que conseguira obter. Ainda não estávamos na era dos celulares e dos computadores. Foi minha primeira reportagem verdadeira, e também minha primeira lição de como e o quanto regimes autocráticos podem ser violentos, injustos e assassinos.
A rotina, nos meses que seguiram, foi a mesma: passeatas, protestos, manifestações que tornaram o Rio, e também São Paulo e outras cidades brasileiras em verdadeiras praças de guerra. No dia 31 de julho daquele mesmo ano eu fazia um duplo expediente no jornal O Paiz. O diretor, Newton Rodrigues, que gostava de mim e decidira se tornar meu guru no jornalismo tomou a decisão de me mandar para a cidade de Corumbá, no Mato Grosso, fronteira com a Bolívia. O ex-presidente Jânio Quadros acabara de ser confinado lá pelos militares.
E lá fiquei eu, durante três meses e meio, hospedado no Hotel Santa Mônica, onde também estavam Jânio, sua esposa Dona Eloá, mais uma pequena comitiva de amigos e jornalistas encarregados de cobrir o confinamento. Todos os dias, ao final da tarde, fazíamos fila para usar o mesmo telefone para ditar notícias aos seus respectivos jornais.
Na metade de novembro me mandaram finalmente de volta para casa, no Rio. E retomei minhas atividades na reportagem geral dos dois jornais, O Paiz e o Diário de São Paulo. No dia 13 de dezembro explode a bomba autoritária que iria mudar – para pior – o destino da nação: o Ato Institucional Número 13. E com ele todo um séquito de atrocidades começaram quase imediatamente. No dia 15 a redação de O Paiz foi invadida e empastelada por um destacamento militar. Destruíram móveis, utensílios, máquinas de escrever. Por sorte não mataram nem prenderam ninguém.
Chegamos bem cedo na manhã seguinte, para arrumar a redação e tocar o barco. No jornalismo, como no teatro, o show não pode parar. As 11 horas eu tentava redigir um texto quando o telefone da mesa ao lado da minha começou a tocar. Fui atender. Era a esposa de um colega redator. Queria falar com o marido. “Mas ele ainda não chegou, eu disse. Tinha uma entrevista marcada para as 10 horas. As pessoas que seriam entrevistadas vieram, esperaram uma meia hora, e foram embora”. “Mas ele saiu muito cedo, disse que tinha de ajudar na arrumação e falou dessa entrevista marcada para as 10 horas. Meu Deus, que terá acontecido?”
Marco desapareceu para sempre. Seu carro foi interceptado no bairro do Botafogo, a caminho do Centro. O Fuska foi encontrado abandonado numa rua do bairro. Soubemos depois que o coleguinha fora preso, levado para depor, torturado e, finalmente, levado de helicóptero para o alto mar e atirado às águas, lá de cima, com uma pedra amarrada aos pés para que afundasse mais rápido. Marco deixou viúva e dois filhos pequenos.
E a partir daí, dia após dia, a sarabanda do terror não mais parou. Dois ou três dias depois, Leo Guanabara me chamou na sua sala e perguntou: “Luis, você está envolvido com algum grupo contrarrevolucionário, de ações contra a ditadura? Um repórter que faz a cobertura jornalística dentro do DOPS, a polícia política, bateu os olhos numa lista de jornalistas que serão chamados para depor. Seu nome faz parte dela. E, você sabe, a metade dos que entram lá para depor não saem mais. Não sabemos o que eles estão fazendo com as pessoas. Você corre sério perigo, terá de sair do país o mais rápido possível”. E eu disse a verdade: “Não estou envolvido em nada, Leo. Só no meu trabalho de reportagem. De qualquer forma, tenho passaporte, mas não tenho visto de saída. Você sabe que o visto é o próprio DOPS que dá. Mas se eu aparecer lá e disser que quero viajar posso ser preso na mesma hora”. Leo pensou um pouco e disse: “Já sei, você vai sair de navio. Tenho um conhecido na Polícia Marítima que me deve uns favores, vou pedir a ele que lhe dê o visto. Enquanto eu o localizo, vá buscar o seu passaporte. Siga direto para a Praça XV, procure esse cara, ele já estará sabendo do que se trata.”
E, para encurtar a história, foi isso que fiz. Saí do prédio histórico da Polícia Marítima com meu passaporte com visto carimbado e assinado, e a recomendação do policial amigo do Leo ecoando nos meus ouvidos: “Suba no primeiro navio que puder e desapareça do país. E lembre-se: eu não te conheço e você não me conhece”.
E assim foi: poucos dias depois subi no navio espanhol Cabo de San Roque, com destino a Barcelona. De lá segui para Paris e lá, graças ao jornalista Ney Sroulevitch, diretor do escritório da revista Manchete, consegui emprego.
Só voltei ao Brasil em novembro de 1974, no governo Geisel, quando as coisas estavam mais amenas. Fui me hospedar na casa de uma amiga, em Copacabana. A primeira coisa que ela me disse foi: “Luis, não diga nada, não abra a boca em dois lugares aqui no Rio: dentro dos elevadores, pois quase todos, inclusive os do nosso prédio, tem gravadores para registrar as conversas; mesma coisa dentro dos taxis, boa parte dos taxistas são informantes da ditadura.”
Sim, eu tinha voltado ao Brasil. Continuava, como continuo até hoje, sem saber por que meu nome estava naquela lista de jornalistas que seriam chamados para depor no DOPS. Correndo o risco de virar comida para peixes, no fundo do mar, com um tijolo amarrado aos pés.
Por isso, e muito mais, pense bem antes de votar. No próximo final de semana, não dê seu voto a quem segue a cartilha do pai Jair, aquele que, em alto e bom som, considerou que o Coronel Carlos Brilhante Ustra – o maior e mais cruel torturador da ditadura – é um herói nacional, digno de todas as homenagens e reverências.
Palavra de quem viveu, sofreu e testemunhou os Anos de Chumbo: ser vítima do autoritarismo é a pior coisa que nos pode acontecer.
Havia grande alarido no local quando as tropas da Polícia Militar chegaram para reprimir o protesto estudantil e invadiram o restaurante, disparando contra os jovens. Um tiro perfurou o coração de Edson, que morreu poucos instantes após o disparo.
Minutos depois o telefone tocou na redação dos Diários Associados, onde eu dava início à minha carreira de repórter, na Rua do Carmo, a poucas quadras do Calabouço: era alguém comunicando o atentado. Eu já tinha encerrado meu expediente e me preparava para ir embora quando ouvi a voz do Leo Guanabara, nosso chefe de redação: “Luis, Luis, você precisa ir ao Calabouço, a polícia acaba de matar um estudante”. Fui chamado porque todos os outros repórteres já tinham ido embora. A rigor, não seria trabalho para um foca quase sem nenhuma experiência como era o meu caso. Tinha só 23 anos, e há apenas uma semana conseguira o emprego. Mas fui para lá, a pé, correndo, um tanto atordoado, sem saber que aquela seria minha prova de fogo no jornalismo.
No restaurante, ao chegar, instalara-se um clima de pânico e revolta. Os estudante sabiam que, se a polícia ficasse com o corpo de Edson Luis, o crime certamente seria abafado, as evidências seriam destruídas e ele, como tantos outros antes, e também depois, seria transformado em um “desaparecido” ou o caso seria distorcido pelas autoridades.
Para impedir que a polícia sumisse com o corpo, os estudantes agiram rapidamente: eles recolheram Edson do chão do restaurante antes que o local fosse totalmente isolado. Carregaram o corpo nos braços e iniciaram uma passeata espontânea pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro. O destino final foi o palácio da Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara (Alerj). Os estudantes invadiram o local carregando o cadáver e exigiram que o velório fosse realizado ali mesmo, em espaço público, para garantir a segurança e impedir a intervenção do regime militar.
Acompanhei tudo isso, arrastado pelos acontecimentos. Consegui que o gerente de um bar nas proximidades me permitisse usar o telefone. Liguei para a redação algumas vezes e ditei, palavra por palavra, todas as informações que conseguira obter. Ainda não estávamos na era dos celulares e dos computadores. Foi minha primeira reportagem verdadeira, e também minha primeira lição de como e o quanto regimes autocráticos podem ser violentos, injustos e assassinos.
A rotina, nos meses que seguiram, foi a mesma: passeatas, protestos, manifestações que tornaram o Rio, e também São Paulo e outras cidades brasileiras em verdadeiras praças de guerra. No dia 31 de julho daquele mesmo ano eu fazia um duplo expediente no jornal O Paiz. O diretor, Newton Rodrigues, que gostava de mim e decidira se tornar meu guru no jornalismo tomou a decisão de me mandar para a cidade de Corumbá, no Mato Grosso, fronteira com a Bolívia. O ex-presidente Jânio Quadros acabara de ser confinado lá pelos militares.
E lá fiquei eu, durante três meses e meio, hospedado no Hotel Santa Mônica, onde também estavam Jânio, sua esposa Dona Eloá, mais uma pequena comitiva de amigos e jornalistas encarregados de cobrir o confinamento. Todos os dias, ao final da tarde, fazíamos fila para usar o mesmo telefone para ditar notícias aos seus respectivos jornais.
Na metade de novembro me mandaram finalmente de volta para casa, no Rio. E retomei minhas atividades na reportagem geral dos dois jornais, O Paiz e o Diário de São Paulo. No dia 13 de dezembro explode a bomba autoritária que iria mudar – para pior – o destino da nação: o Ato Institucional Número 13. E com ele todo um séquito de atrocidades começaram quase imediatamente. No dia 15 a redação de O Paiz foi invadida e empastelada por um destacamento militar. Destruíram móveis, utensílios, máquinas de escrever. Por sorte não mataram nem prenderam ninguém.
Chegamos bem cedo na manhã seguinte, para arrumar a redação e tocar o barco. No jornalismo, como no teatro, o show não pode parar. As 11 horas eu tentava redigir um texto quando o telefone da mesa ao lado da minha começou a tocar. Fui atender. Era a esposa de um colega redator. Queria falar com o marido. “Mas ele ainda não chegou, eu disse. Tinha uma entrevista marcada para as 10 horas. As pessoas que seriam entrevistadas vieram, esperaram uma meia hora, e foram embora”. “Mas ele saiu muito cedo, disse que tinha de ajudar na arrumação e falou dessa entrevista marcada para as 10 horas. Meu Deus, que terá acontecido?”
Marco desapareceu para sempre. Seu carro foi interceptado no bairro do Botafogo, a caminho do Centro. O Fuska foi encontrado abandonado numa rua do bairro. Soubemos depois que o coleguinha fora preso, levado para depor, torturado e, finalmente, levado de helicóptero para o alto mar e atirado às águas, lá de cima, com uma pedra amarrada aos pés para que afundasse mais rápido. Marco deixou viúva e dois filhos pequenos.
E a partir daí, dia após dia, a sarabanda do terror não mais parou. Dois ou três dias depois, Leo Guanabara me chamou na sua sala e perguntou: “Luis, você está envolvido com algum grupo contrarrevolucionário, de ações contra a ditadura? Um repórter que faz a cobertura jornalística dentro do DOPS, a polícia política, bateu os olhos numa lista de jornalistas que serão chamados para depor. Seu nome faz parte dela. E, você sabe, a metade dos que entram lá para depor não saem mais. Não sabemos o que eles estão fazendo com as pessoas. Você corre sério perigo, terá de sair do país o mais rápido possível”. E eu disse a verdade: “Não estou envolvido em nada, Leo. Só no meu trabalho de reportagem. De qualquer forma, tenho passaporte, mas não tenho visto de saída. Você sabe que o visto é o próprio DOPS que dá. Mas se eu aparecer lá e disser que quero viajar posso ser preso na mesma hora”. Leo pensou um pouco e disse: “Já sei, você vai sair de navio. Tenho um conhecido na Polícia Marítima que me deve uns favores, vou pedir a ele que lhe dê o visto. Enquanto eu o localizo, vá buscar o seu passaporte. Siga direto para a Praça XV, procure esse cara, ele já estará sabendo do que se trata.”
E, para encurtar a história, foi isso que fiz. Saí do prédio histórico da Polícia Marítima com meu passaporte com visto carimbado e assinado, e a recomendação do policial amigo do Leo ecoando nos meus ouvidos: “Suba no primeiro navio que puder e desapareça do país. E lembre-se: eu não te conheço e você não me conhece”.
E assim foi: poucos dias depois subi no navio espanhol Cabo de San Roque, com destino a Barcelona. De lá segui para Paris e lá, graças ao jornalista Ney Sroulevitch, diretor do escritório da revista Manchete, consegui emprego.
Só voltei ao Brasil em novembro de 1974, no governo Geisel, quando as coisas estavam mais amenas. Fui me hospedar na casa de uma amiga, em Copacabana. A primeira coisa que ela me disse foi: “Luis, não diga nada, não abra a boca em dois lugares aqui no Rio: dentro dos elevadores, pois quase todos, inclusive os do nosso prédio, tem gravadores para registrar as conversas; mesma coisa dentro dos taxis, boa parte dos taxistas são informantes da ditadura.”
Sim, eu tinha voltado ao Brasil. Continuava, como continuo até hoje, sem saber por que meu nome estava naquela lista de jornalistas que seriam chamados para depor no DOPS. Correndo o risco de virar comida para peixes, no fundo do mar, com um tijolo amarrado aos pés.
Por isso, e muito mais, pense bem antes de votar. No próximo final de semana, não dê seu voto a quem segue a cartilha do pai Jair, aquele que, em alto e bom som, considerou que o Coronel Carlos Brilhante Ustra – o maior e mais cruel torturador da ditadura – é um herói nacional, digno de todas as homenagens e reverências.
Palavra de quem viveu, sofreu e testemunhou os Anos de Chumbo: ser vítima do autoritarismo é a pior coisa que nos pode acontecer.
Uma utopia tropical
O filósofo português Agostinho da Silva manifestou sempre uma enorme paixão pelo Brasil, onde viveu durante 22 anos, entre 1947 e 1969. Durante a sua permanência no país, adquiriu a nacionalidade brasileira.
Espírito livre, inquieto, subversivo, um mestre da ironia bem-humorada, Agostinho da Silva imaginou uma sociedade utópica, o Quinto Império, na qual os recursos seriam partilhados; o poder perderia a sua natureza opressiva; o trabalho deixaria de ser uma forma de servidão, e os seres humanos poderiam dedicar-se mais livremente ao conhecimento, à contemplação e à criação.
Na visão do filósofo português, a infância seria um modelo de existência, não pela ignorância, mas pela capacidade de brincar, imaginar, descobrir e maravilhar-se: “Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do (Quinto) Império.”
O Brasil ocupa um lugar central na utopia de Agostinho da Silva. Ele via na mestiçagem brasileira uma proposta nova para o funcionamento do mundo e a compreensão da existência. Interessava-lhe, em particular, a forma como a sociedade brasileira é capaz de abraçar e integrar todo o gênero de influências externas. Além disso, Agostinho valorizava o improviso, a festa, a brincadeira, a imaginação, e intuía nas manifestações populares — do carnaval ao bumba-meu-boi, passando pelas rodas de capoeira — uma antecipação da sociedade livre que ansiava construir. Para ele, o Brasil seria o esboço de uma civilização alternativa aos modelos ocidentais.
Nos últimos dias venho pensando muito em Agostinho da Silva. Encontrei-o numa tarde remota, lendo, à sombra do imenso cedro, cuja larga copa cobre uma parte do jardim do Príncipe Real, em Lisboa. Eu era então um jovem estudante de Engenharia Florestal, que lia com entusiasmo todos os grandes pensadores anarquistas, ecologistas e pacifistas. Agostinho da Silva, com o seu inconformismo frente ao aparelho do Estado (orgulhava-se de não ter carteira de identidade nem número de contribuinte), era um dos meus heróis. Aproximei-me, timidamente. O filósofo ergueu os olhos:
— Sim?!
Queria resumir numa frase toda a minha admiração. Porém, só fui capaz de perguntar:
— Desculpe, que horas são?
O velho filósofo mostrou-me o pulso nu:
Espírito livre, inquieto, subversivo, um mestre da ironia bem-humorada, Agostinho da Silva imaginou uma sociedade utópica, o Quinto Império, na qual os recursos seriam partilhados; o poder perderia a sua natureza opressiva; o trabalho deixaria de ser uma forma de servidão, e os seres humanos poderiam dedicar-se mais livremente ao conhecimento, à contemplação e à criação.
Na visão do filósofo português, a infância seria um modelo de existência, não pela ignorância, mas pela capacidade de brincar, imaginar, descobrir e maravilhar-se: “Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do (Quinto) Império.”
O Brasil ocupa um lugar central na utopia de Agostinho da Silva. Ele via na mestiçagem brasileira uma proposta nova para o funcionamento do mundo e a compreensão da existência. Interessava-lhe, em particular, a forma como a sociedade brasileira é capaz de abraçar e integrar todo o gênero de influências externas. Além disso, Agostinho valorizava o improviso, a festa, a brincadeira, a imaginação, e intuía nas manifestações populares — do carnaval ao bumba-meu-boi, passando pelas rodas de capoeira — uma antecipação da sociedade livre que ansiava construir. Para ele, o Brasil seria o esboço de uma civilização alternativa aos modelos ocidentais.
Nos últimos dias venho pensando muito em Agostinho da Silva. Encontrei-o numa tarde remota, lendo, à sombra do imenso cedro, cuja larga copa cobre uma parte do jardim do Príncipe Real, em Lisboa. Eu era então um jovem estudante de Engenharia Florestal, que lia com entusiasmo todos os grandes pensadores anarquistas, ecologistas e pacifistas. Agostinho da Silva, com o seu inconformismo frente ao aparelho do Estado (orgulhava-se de não ter carteira de identidade nem número de contribuinte), era um dos meus heróis. Aproximei-me, timidamente. O filósofo ergueu os olhos:
— Sim?!
Queria resumir numa frase toda a minha admiração. Porém, só fui capaz de perguntar:
— Desculpe, que horas são?
O velho filósofo mostrou-me o pulso nu:
— Nenhumas…
Agostinho da Silva formulou as ideias fundamentais da sua utopia antes do golpe militar de 1964, mas continuou a desenvolvê-las e a defendê-las já em plena ditadura. Ou seja, foi capaz de perceber dentro da triste escuridão da ditadura o outro Brasil no qual nunca deixou de acreditar — essa grande e intensa nação afro-indígena-latina, luminosa, amorosa, generosa, acolhedora, cuja alegria encanta e comove o mundo inteiro.
Talvez esta seja uma das grandes lições que Agostinho da Silva nos deixou: nunca confundir a temporária escuridão de uma época com o destino de um país.
Volto a encontrar o velho filósofo, à sombra do gigantesco cedro do Príncipe Real. Pergunto-lhe:
— Que horas são?
Agostinho mostra-me o pulso nu:
— Todas.
Agostinho da Silva formulou as ideias fundamentais da sua utopia antes do golpe militar de 1964, mas continuou a desenvolvê-las e a defendê-las já em plena ditadura. Ou seja, foi capaz de perceber dentro da triste escuridão da ditadura o outro Brasil no qual nunca deixou de acreditar — essa grande e intensa nação afro-indígena-latina, luminosa, amorosa, generosa, acolhedora, cuja alegria encanta e comove o mundo inteiro.
Talvez esta seja uma das grandes lições que Agostinho da Silva nos deixou: nunca confundir a temporária escuridão de uma época com o destino de um país.
Volto a encontrar o velho filósofo, à sombra do gigantesco cedro do Príncipe Real. Pergunto-lhe:
— Que horas são?
Agostinho mostra-me o pulso nu:
— Todas.
Fome e fascismo
A trajetória da fome no Brasil nas últimas duas décadas evidencia que esse não é um fenômeno natural nem inevitável, mas uma realidade socialmente produzida que responde a projetos políticos concretos. Em 2004, durante o primeiro governo Lula, 35,8 milhões de brasileiros estavam em situação de fome. Nove anos depois, em meio ao primeiro governo Dilma, esse número havia caído praticamente pela metade, isto é, para 17,5 milhões. Com Temer a trajetória se inverteu e a fome voltou a crescer, alcançando 28,9 milhões em 2018, ou seja, mesmo antes da crise sanitária da Covid. Com Bolsonaro e já em meio à pandemia, um surto de fome se somou à fome crônica que pesa de forma constante e oculta sobre uma parcela significativa da sociedade brasileira. Em 2022, 67,5 milhões de pessoas foram submetidas à privação alimentar, de longe o maior patamar da série histórica. A volta de Lula ao governo reverteu a tendência e, em 2024, a fome caiu para 16,3 milhões, o menor nível já registrado no país. Em que pesem os impactos da pandemia, aspecto que discuto adiante, essa trajetória expressa a diferença entre um projeto político progressista, que reconhece a fome como um problema a ser enfrentado, e projetos de caráter neoconservador, que tenderam a negar sua existência enquanto intensificavam a sua produção.
A privação de alimentos é socialmente produzida e estruturalmente articulada às desigualdades de classe, raça e gênero. Trata-se de uma privação que corrói a vida de uma parcela expressiva da população mesmo quando há alimentos disponíveis. O gráfico acima distingue fome e risco de fome, mas as duas categorias formam um contínuo. Sob o risco de fome, as pessoas passam a conviver com a ansiedade, o estresse e o medo de que os alimentos acabem antes que possam comprar mais. A preocupação com as próximas refeições se instala no cotidiano e a qualidade da alimentação se deteriora. A fome propriamente dita começa quando as pessoas passam a sentir as primeiras sensações físicas e psíquicas provocadas pela privação de alimentos, e se aprofunda dependendo da intensidade e duração dessa privação. Isso significa que, ao contrário do que definições restritivas insistem em afirmar, ela começa muito antes da inanição ou de diagnósticos clínicos ou nutricionais. Entendida como processo, a fome compromete de maneira progressiva e interligada o corpo, a psique e os laços sociais. Sua dimensão biológica não a reduz a um fenômeno natural. É essa compreensão da fome como processo socialmente produzido que sustenta a análise.
Os governos progressistas reduziram a fome, mas não foram capazes de erradicá-la. Avanços reais, mensuráveis e sem precedentes na história recente de um país marcado pela fome ocorreram em um contexto macroeconômico de altas taxas de crescimento. Foram conquistados sobretudo pela melhor inserção dos trabalhadores no mercado de trabalho, com destaque para a valorização do salário mínimo, a maior estabilidade e a formalização, e complementados por políticas públicas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Ainda que os menores níveis de fome tenham sido registrados em 2013 (8,7% da população) e 2024 (7,7%), ambos em gestões petistas, é preciso reconhecer que a fome e o risco de fome juntos nunca caíram abaixo de um quarto da população. Esse é um limite da perspectiva progressista, que não prioriza nem realiza reformas estruturais. É uma abordagem que, na prática, não se efetiva sequer como reformista. Nesse sentido, o horizonte dos governos progressistas é a gestão da fome. Trata-se de um limite que, na maior parte das vezes, sequer é reconhecido como tal, porque as transformações necessárias para superar a fome não cabem nesse horizonte
Essa crítica, no entanto, não nivela os campos. A diferença entre progressistas e neoconservadores é de natureza, não de grau. Apesar de seus limites intrínsecos, o campo progressista busca enfrentar a fome e aposta em políticas públicas e alguma regulação da economia para mitigá-la. Já o campo conservador, que combina fundamentalismo de mercado e autoritarismo, tende a minimizar ou até mesmo negar a existência da fome. Tratando-a como fenômeno excepcional, comumente recorre ao viés moral e individualizante e desloca o debate sobre a fome do terreno das relações sociais para o da responsabilidade individual. É desse campo que emerge o fascismo, sobretudo quando a crise da reprodução do capital ameaça a estabilidade da ordem social. O fascismo não supera as contradições do capitalismo. Ele reorganiza as relações de dominação para preservar os interesses de determinadas frações do capital. Nesse processo, a fome deixa de ser apenas um produto da crise e pode converter-se também em instrumento de dominação, mobilizando-a de forma mais intensa e aberta para disciplinar, hierarquizar e descartar parcelas da população.
O governo Bolsonaro representou a radicalização do campo neoconservador e fez do fascismo política de Estado. Durante a pandemia, deixou que milhões de brasileiros fossem submetidos à privação de alimentos. Nesse contexto, em 2022, mais da metade da população brasileira estava submetida à fome (30,7%) ou ao risco de fome (28%). Tamanha privação de alimentos constituiu uma das dimensões do massacre social durante a pandemia. Cabe destacar que tanto a fome como o risco de fome serviram como meio para impedir que milhões de pessoas pudessem fazer o distanciamento social necessário, expondo-as ainda mais ao vírus e à morte. O auxílio emergencial chegou tarde e, para muitas famílias, não foi suficiente para garantir que as pessoas pudessem ficar em casa sem passar fome. Programas como o Pnae e o PAA sofreram cortes profundos ou não foram reajustados. Portanto, não se tratou de acidente ou omissão, mas de uma forma de dominação que faz da fome um de seus mecanismos de governo. Essa forma de governo, que se retira da proteção social, deixa a população à própria sorte e trata a vida como descartável, é a face concreta do fascismo.
Se os números revelam a extensão do massacre, as filas dos ossos e a crise humanitária Yanomami explicitaram de que modo o fascismo mobiliza a fome e determina quais vidas podem ser descartadas. As cenas de pessoas esperando por ossos, aparas e restos que normalmente seriam descartados sintetizaram o que o país havia se tornado durante a pandemia. Em um país que figura entre os maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, as filas não eram apenas a expressão do desespero de quem não encontrava alternativas para se alimentar, mas a imagem de uma política que naturalizou o sofrimento socialmente produzido pela privação de alimentos. Nas filas dos ossos não estavam quaisquer pessoas. Compostas por trabalhadores precarizados ou desempregados, em sua maioria negros, e com forte presença de mulheres, sobre as quais recai a gestão da escassez dentro de casa, as filas revelavam que a fome não se abate indistintamente sobre a população. Sua produção e seus efeitos são atravessados pelas relações de classe, raça e gênero, que determinam quem está mais exposto à privação e sobre quem recai o trabalho cotidiano de enfrentá-la.
No caso dos Yanomami, a fome tornou-se um dos meios pelos quais se ameaçou a própria existência de um povo. O garimpo ilegal, atividade defendida e incentivada pelo governo Bolsonaro como projeto de desenvolvimento, invadiu o território Yanomami e comprometeu suas condições de reprodução da vida. Os garimpeiros contaminaram os rios com mercúrio, afugentaram os animais de caça e abriram crateras que favoreceram a proliferação dos mosquitos transmissores da malária, privando os Yanomami das condições de caçar, pescar, coletar e plantar. A fome que se seguiu, portanto, não pode ser entendida como efeito involuntário dessa economia extrativista, mas como parte de um projeto mais amplo de enfraquecimento da proteção dos territórios indígenas, vistos como obstáculos à exploração dos recursos naturais neles existentes. A fome expressa, assim, a subordinação das condições de reprodução da vida Yanomami aos interesses de exploração econômica de seu território. O fascismo não apenas tolera a fome. Ele a converte em instrumento de uma política de morte.
A ascensão do fascismo não é um fenômeno nacional. Netanyahu utiliza o alimento como arma de guerra para conduzir o genocídio em Gaza. Em 2024, toda a população do território, cerca de 2,2 milhões de pessoas, enfrentava uma grave crise de fome (famine). Para metade dela, a situação era ainda mais extrema: 1,1 milhão de pessoas estavam em condições de catástrofe alimentar, marcadas pela privação extrema e pelo risco de desnutrição aguda e morte. Trump, por sua vez, intensificou o bloqueio contra Cuba, agravando as restrições ao abastecimento de combustível e dificultando a entrada de outras mercadorias essenciais à vida da população. A situação alimentar dos cubanos se deteriora gradativamente, e eles pagam com a fome o preço de resistir ao imperialismo. Não se trata de personalizar o fascismo em Bolsonaro, Netanyahu ou Trump, mas de reconhecer que esses projetos, embora situados em contextos distintos, convergem em seus métodos de instrumentalização da fome. Se o fascismo é uma forma de dominação capitalista que emerge quando a crise se aprofunda, a fome revela-se como um de seus meios de impor a dominação.
O segundo turno das eleições presidenciais coloca em disputa projetos distintos para o país e, com eles, diferentes perspectivas para o enfrentamento da fome. A reeleição de Lula abre a possibilidade de dar continuidade (e talvez ampliar) as políticas de combate à fome e de proteção social, embora permaneça o desafio de enfrentar as relações sociais que produzem e reproduzem a privação de alimentos. A eleição de Flávio Bolsonaro, por sua vez, abre caminho para o aprofundamento de um projeto que subordina ainda mais as condições de reprodução da vida aos interesses da acumulação capitalista e pode converter a fome em instrumento de dominação. A fome não decorre da incapacidade de a sociedade produzir o necessário à vida, mas das relações sociais que determinam como a riqueza é produzida, distribuída e apropriada. Em uma sociedade capaz de produzir abundância, a persistência da privação alimentar expõe a contradição de uma ordem que subordina a satisfação das necessidades humanas à reprodução do capital. O fascismo leva essa contradição ao extremo quando transforma a privação em instrumento de dominação.
José Raimundo Sousa Ribeiro Junior
A privação de alimentos é socialmente produzida e estruturalmente articulada às desigualdades de classe, raça e gênero. Trata-se de uma privação que corrói a vida de uma parcela expressiva da população mesmo quando há alimentos disponíveis. O gráfico acima distingue fome e risco de fome, mas as duas categorias formam um contínuo. Sob o risco de fome, as pessoas passam a conviver com a ansiedade, o estresse e o medo de que os alimentos acabem antes que possam comprar mais. A preocupação com as próximas refeições se instala no cotidiano e a qualidade da alimentação se deteriora. A fome propriamente dita começa quando as pessoas passam a sentir as primeiras sensações físicas e psíquicas provocadas pela privação de alimentos, e se aprofunda dependendo da intensidade e duração dessa privação. Isso significa que, ao contrário do que definições restritivas insistem em afirmar, ela começa muito antes da inanição ou de diagnósticos clínicos ou nutricionais. Entendida como processo, a fome compromete de maneira progressiva e interligada o corpo, a psique e os laços sociais. Sua dimensão biológica não a reduz a um fenômeno natural. É essa compreensão da fome como processo socialmente produzido que sustenta a análise.
Os governos progressistas reduziram a fome, mas não foram capazes de erradicá-la. Avanços reais, mensuráveis e sem precedentes na história recente de um país marcado pela fome ocorreram em um contexto macroeconômico de altas taxas de crescimento. Foram conquistados sobretudo pela melhor inserção dos trabalhadores no mercado de trabalho, com destaque para a valorização do salário mínimo, a maior estabilidade e a formalização, e complementados por políticas públicas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Ainda que os menores níveis de fome tenham sido registrados em 2013 (8,7% da população) e 2024 (7,7%), ambos em gestões petistas, é preciso reconhecer que a fome e o risco de fome juntos nunca caíram abaixo de um quarto da população. Esse é um limite da perspectiva progressista, que não prioriza nem realiza reformas estruturais. É uma abordagem que, na prática, não se efetiva sequer como reformista. Nesse sentido, o horizonte dos governos progressistas é a gestão da fome. Trata-se de um limite que, na maior parte das vezes, sequer é reconhecido como tal, porque as transformações necessárias para superar a fome não cabem nesse horizonte
Essa crítica, no entanto, não nivela os campos. A diferença entre progressistas e neoconservadores é de natureza, não de grau. Apesar de seus limites intrínsecos, o campo progressista busca enfrentar a fome e aposta em políticas públicas e alguma regulação da economia para mitigá-la. Já o campo conservador, que combina fundamentalismo de mercado e autoritarismo, tende a minimizar ou até mesmo negar a existência da fome. Tratando-a como fenômeno excepcional, comumente recorre ao viés moral e individualizante e desloca o debate sobre a fome do terreno das relações sociais para o da responsabilidade individual. É desse campo que emerge o fascismo, sobretudo quando a crise da reprodução do capital ameaça a estabilidade da ordem social. O fascismo não supera as contradições do capitalismo. Ele reorganiza as relações de dominação para preservar os interesses de determinadas frações do capital. Nesse processo, a fome deixa de ser apenas um produto da crise e pode converter-se também em instrumento de dominação, mobilizando-a de forma mais intensa e aberta para disciplinar, hierarquizar e descartar parcelas da população.
O governo Bolsonaro representou a radicalização do campo neoconservador e fez do fascismo política de Estado. Durante a pandemia, deixou que milhões de brasileiros fossem submetidos à privação de alimentos. Nesse contexto, em 2022, mais da metade da população brasileira estava submetida à fome (30,7%) ou ao risco de fome (28%). Tamanha privação de alimentos constituiu uma das dimensões do massacre social durante a pandemia. Cabe destacar que tanto a fome como o risco de fome serviram como meio para impedir que milhões de pessoas pudessem fazer o distanciamento social necessário, expondo-as ainda mais ao vírus e à morte. O auxílio emergencial chegou tarde e, para muitas famílias, não foi suficiente para garantir que as pessoas pudessem ficar em casa sem passar fome. Programas como o Pnae e o PAA sofreram cortes profundos ou não foram reajustados. Portanto, não se tratou de acidente ou omissão, mas de uma forma de dominação que faz da fome um de seus mecanismos de governo. Essa forma de governo, que se retira da proteção social, deixa a população à própria sorte e trata a vida como descartável, é a face concreta do fascismo.
Se os números revelam a extensão do massacre, as filas dos ossos e a crise humanitária Yanomami explicitaram de que modo o fascismo mobiliza a fome e determina quais vidas podem ser descartadas. As cenas de pessoas esperando por ossos, aparas e restos que normalmente seriam descartados sintetizaram o que o país havia se tornado durante a pandemia. Em um país que figura entre os maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, as filas não eram apenas a expressão do desespero de quem não encontrava alternativas para se alimentar, mas a imagem de uma política que naturalizou o sofrimento socialmente produzido pela privação de alimentos. Nas filas dos ossos não estavam quaisquer pessoas. Compostas por trabalhadores precarizados ou desempregados, em sua maioria negros, e com forte presença de mulheres, sobre as quais recai a gestão da escassez dentro de casa, as filas revelavam que a fome não se abate indistintamente sobre a população. Sua produção e seus efeitos são atravessados pelas relações de classe, raça e gênero, que determinam quem está mais exposto à privação e sobre quem recai o trabalho cotidiano de enfrentá-la.
No caso dos Yanomami, a fome tornou-se um dos meios pelos quais se ameaçou a própria existência de um povo. O garimpo ilegal, atividade defendida e incentivada pelo governo Bolsonaro como projeto de desenvolvimento, invadiu o território Yanomami e comprometeu suas condições de reprodução da vida. Os garimpeiros contaminaram os rios com mercúrio, afugentaram os animais de caça e abriram crateras que favoreceram a proliferação dos mosquitos transmissores da malária, privando os Yanomami das condições de caçar, pescar, coletar e plantar. A fome que se seguiu, portanto, não pode ser entendida como efeito involuntário dessa economia extrativista, mas como parte de um projeto mais amplo de enfraquecimento da proteção dos territórios indígenas, vistos como obstáculos à exploração dos recursos naturais neles existentes. A fome expressa, assim, a subordinação das condições de reprodução da vida Yanomami aos interesses de exploração econômica de seu território. O fascismo não apenas tolera a fome. Ele a converte em instrumento de uma política de morte.
A ascensão do fascismo não é um fenômeno nacional. Netanyahu utiliza o alimento como arma de guerra para conduzir o genocídio em Gaza. Em 2024, toda a população do território, cerca de 2,2 milhões de pessoas, enfrentava uma grave crise de fome (famine). Para metade dela, a situação era ainda mais extrema: 1,1 milhão de pessoas estavam em condições de catástrofe alimentar, marcadas pela privação extrema e pelo risco de desnutrição aguda e morte. Trump, por sua vez, intensificou o bloqueio contra Cuba, agravando as restrições ao abastecimento de combustível e dificultando a entrada de outras mercadorias essenciais à vida da população. A situação alimentar dos cubanos se deteriora gradativamente, e eles pagam com a fome o preço de resistir ao imperialismo. Não se trata de personalizar o fascismo em Bolsonaro, Netanyahu ou Trump, mas de reconhecer que esses projetos, embora situados em contextos distintos, convergem em seus métodos de instrumentalização da fome. Se o fascismo é uma forma de dominação capitalista que emerge quando a crise se aprofunda, a fome revela-se como um de seus meios de impor a dominação.
O segundo turno das eleições presidenciais coloca em disputa projetos distintos para o país e, com eles, diferentes perspectivas para o enfrentamento da fome. A reeleição de Lula abre a possibilidade de dar continuidade (e talvez ampliar) as políticas de combate à fome e de proteção social, embora permaneça o desafio de enfrentar as relações sociais que produzem e reproduzem a privação de alimentos. A eleição de Flávio Bolsonaro, por sua vez, abre caminho para o aprofundamento de um projeto que subordina ainda mais as condições de reprodução da vida aos interesses da acumulação capitalista e pode converter a fome em instrumento de dominação. A fome não decorre da incapacidade de a sociedade produzir o necessário à vida, mas das relações sociais que determinam como a riqueza é produzida, distribuída e apropriada. Em uma sociedade capaz de produzir abundância, a persistência da privação alimentar expõe a contradição de uma ordem que subordina a satisfação das necessidades humanas à reprodução do capital. O fascismo leva essa contradição ao extremo quando transforma a privação em instrumento de dominação.
José Raimundo Sousa Ribeiro Junior
'Morto, amordaçado, volta a incomodar'
Em 8 de janeiro de 2023, Jair Messias Bolsonaro, do Partido Liberal, tentou tomar o poder por meio de um golpe fracassado, que o levou à prisão. Nas eleições de 2026, o Partido Liberal tornou-se o maior partido tanto na Câmara dos Deputados, com 121 das 513 cadeiras; como no Senado, com uma bancada de 28 dos 81 parlamentares.
Em 8 de novembro de 1923, Adolf Hitler, do Partido Nazista, também tentou tomar o poder por meio de um golpe fracassado, que o levou à prisão. Nas eleições de 1932, o Partido Nazista tornou-se o maior partido do Parlamento alemão, com 230 das 608 cadeiras. Em 1933, a partir de negociações com as elites conservadoras, Hitler foi nomeado chanceler e o Parlamento aprovou, em total desacordo com a ordem constitucional, uma lei que conferiu a Hitler plenos poderes para legislar e governar o país sem o consentimento parlamentar. A Lei de Plenos Poderes ao chanceler foi aprovada sob condições de repressão e intimidação dos parlamentares e abriu caminho para o completo desmantelamento da democracia alemã.
O III Reich, concebido para durar um milênio, durou intermináveis 12 anos e mergulhou a Alemanha e o mundo em uma das maiores catástrofes da história, destruição, morte e um rastro de sofrimento que invadiu a humanidade. Embora tenha nascido depois da Segunda Guerra Mundial, vivi os horrores da guerra desde sempre, sendo filho de dois sobreviventes de uma família que perdeu nove em cada dez de seus membros – ele como escravo em campos de concentração, ela deportada para a Sibéria.
Por obra do destino, nos últimos dias de 1953, ancoramos no Novo Mundo, nestas terras de imigrantes, que, de nativos, só têm os indígenas – quando aqui chegamos, nem sequer sabíamos que existia um país com o nome de Brasil. Poucos meses depois Getúlio Vargas se suicidou e, em 1961, fomos surpreendidos pela crise política desencadeada pela renúncia de Jânio Quadros. Meus pais pouco entendiam o que aqui se passava e, para desgosto deles, seu filho, que aqui escreve, aos dezesseis anos de idade, envolveu-se em política e acabou preso e torturado durante a Ditadura Militar que tomou conta do país por longos 21 anos.
No sábado, 10 de outubro de 2026, entre os dois turnos da eleição presidencial, voltando do Parque da Água Branca, fui fisgado pela "Revelação", que o motorista do ônibus ia cantarolando enquanto seguia pela Avenida São João: “quando a gente tenta, de toda maneira, dele se guardar, sentimento ilhado, morto, amordaçado, volta a incomodar”.
O que há de errado com a democracia quando ela elege deputados e senadores que apoiam um governo que valoriza a ditadura, debocha da Constituição, arquiteta um golpe fracassado e, ainda assim, conquista maioria no Congresso?
O que buscam os eleitores? Sonham com o bezerro de ouro? Querem se apossar da Amazônia e acossar ainda mais uma vez os povos indígenas exterminados desde o “descobrimento” e, mais recentemente, com a ocupação do Planalto Central, a construção de um museu futurista a céu aberto, a expansão da fronteira agrícola e a abertura da Transamazônica? Querem flexibilizar as regras ambientais e favorecer o garimpo, o agronegócio e a exploração dos recursos naturais? Querem suprimir os já parcos direitos trabalhistas e sociais e privatizar o Estado? Querem escolas cívico-militares e facilitar o acesso às armas? Querem utilizar o voto para extinguir o próprio voto e instaurar um regime militar? Servem-se do voto para acabar com as eleições e a democracia? Um voto suicida?
O que há de errado com uma democracia quando o voto é usado para abolir as próprias regras do jogo democrático? Acordei no meio da noite impelido a escrever este texto e agora me deu um cansaço medonho…
… saio para fazer aula de Tai Chi – isto deve me fazer bem. Mas, no caminho, lembro que estou sem a roupa apropriada e a sapatilha. Mas não faz mal, isso se ajeita. Também estou sem o documento que devo apresentar para fazer a aula e sequer lembro o meu número de matrícula. Consegui o número de matrícula e vou apanhar o ônibus que vai me levar à aula de Tai Chi. Mas agora não lembro mais o número de matrícula, não sei qual ônibus devo tomar, nem onde fica a academia. Mas não faz mal…
… fico angustiado. Não faz mal? Isso poderia ser corriqueiro para uma pessoa normal, não para mim, que sou extremamente metódico, que é a forma que me faz sobreviver neste mundo caótico. Então acordo do sonho e volto a escrever este texto para dizer que não estou com a roupa apropriada, estou sem a minha carteira, não sei meu número de matrícula, qual é o ônibus que devo apanhar, nem qual é o caminho que devo seguir…
Nota: Durante as eleições municipais de outubro de 2024, eu estava viajando. Na volta, levei os cartões de embarque e fiquei na fila para justificar o meu (não) voto. Mas a funcionária da Justiça Eleitoral disse: “Meu senhor, com a sua idade, o senhor não precisa mais justificar o seu (não) voto”. No dia 4 de outubro de 2026, tive um problema com a burocracia estatal: levei meu título de eleitor original e a cópia autenticada da carteira de identidade que carrego comigo. O mesário disse que a minha foto (de 1982), na cópia, estava irreconhecível. Informou que eu poderia apresentar a carteira de trabalho, desde que fosse original (e eu expliquei que a foto na carteira era de boa qualidade, mas que eu tinha então 17 anos de idade). Voltei para casa e trouxe a carteira de trabalho, mas ele não aceitou. Dentro dela, contudo, estava minha carteira de identidade original, que acabou sendo aceita. Mas não acabou por aí: ele queria a digital; informei que não funcionava; tentaram várias vezes e, por fim, a mesária usou a digital dela, que funcionou (achei estranho, mas faz parte das normas) e consegui votar. Agora, para o segundo turno, já sei, devo levar a carteira de identidade original.
Em 8 de novembro de 1923, Adolf Hitler, do Partido Nazista, também tentou tomar o poder por meio de um golpe fracassado, que o levou à prisão. Nas eleições de 1932, o Partido Nazista tornou-se o maior partido do Parlamento alemão, com 230 das 608 cadeiras. Em 1933, a partir de negociações com as elites conservadoras, Hitler foi nomeado chanceler e o Parlamento aprovou, em total desacordo com a ordem constitucional, uma lei que conferiu a Hitler plenos poderes para legislar e governar o país sem o consentimento parlamentar. A Lei de Plenos Poderes ao chanceler foi aprovada sob condições de repressão e intimidação dos parlamentares e abriu caminho para o completo desmantelamento da democracia alemã.
O III Reich, concebido para durar um milênio, durou intermináveis 12 anos e mergulhou a Alemanha e o mundo em uma das maiores catástrofes da história, destruição, morte e um rastro de sofrimento que invadiu a humanidade. Embora tenha nascido depois da Segunda Guerra Mundial, vivi os horrores da guerra desde sempre, sendo filho de dois sobreviventes de uma família que perdeu nove em cada dez de seus membros – ele como escravo em campos de concentração, ela deportada para a Sibéria.
Por obra do destino, nos últimos dias de 1953, ancoramos no Novo Mundo, nestas terras de imigrantes, que, de nativos, só têm os indígenas – quando aqui chegamos, nem sequer sabíamos que existia um país com o nome de Brasil. Poucos meses depois Getúlio Vargas se suicidou e, em 1961, fomos surpreendidos pela crise política desencadeada pela renúncia de Jânio Quadros. Meus pais pouco entendiam o que aqui se passava e, para desgosto deles, seu filho, que aqui escreve, aos dezesseis anos de idade, envolveu-se em política e acabou preso e torturado durante a Ditadura Militar que tomou conta do país por longos 21 anos.
No sábado, 10 de outubro de 2026, entre os dois turnos da eleição presidencial, voltando do Parque da Água Branca, fui fisgado pela "Revelação", que o motorista do ônibus ia cantarolando enquanto seguia pela Avenida São João: “quando a gente tenta, de toda maneira, dele se guardar, sentimento ilhado, morto, amordaçado, volta a incomodar”.
O que há de errado com a democracia quando ela elege deputados e senadores que apoiam um governo que valoriza a ditadura, debocha da Constituição, arquiteta um golpe fracassado e, ainda assim, conquista maioria no Congresso?
O que buscam os eleitores? Sonham com o bezerro de ouro? Querem se apossar da Amazônia e acossar ainda mais uma vez os povos indígenas exterminados desde o “descobrimento” e, mais recentemente, com a ocupação do Planalto Central, a construção de um museu futurista a céu aberto, a expansão da fronteira agrícola e a abertura da Transamazônica? Querem flexibilizar as regras ambientais e favorecer o garimpo, o agronegócio e a exploração dos recursos naturais? Querem suprimir os já parcos direitos trabalhistas e sociais e privatizar o Estado? Querem escolas cívico-militares e facilitar o acesso às armas? Querem utilizar o voto para extinguir o próprio voto e instaurar um regime militar? Servem-se do voto para acabar com as eleições e a democracia? Um voto suicida?
O que há de errado com uma democracia quando o voto é usado para abolir as próprias regras do jogo democrático? Acordei no meio da noite impelido a escrever este texto e agora me deu um cansaço medonho…
… saio para fazer aula de Tai Chi – isto deve me fazer bem. Mas, no caminho, lembro que estou sem a roupa apropriada e a sapatilha. Mas não faz mal, isso se ajeita. Também estou sem o documento que devo apresentar para fazer a aula e sequer lembro o meu número de matrícula. Consegui o número de matrícula e vou apanhar o ônibus que vai me levar à aula de Tai Chi. Mas agora não lembro mais o número de matrícula, não sei qual ônibus devo tomar, nem onde fica a academia. Mas não faz mal…
… fico angustiado. Não faz mal? Isso poderia ser corriqueiro para uma pessoa normal, não para mim, que sou extremamente metódico, que é a forma que me faz sobreviver neste mundo caótico. Então acordo do sonho e volto a escrever este texto para dizer que não estou com a roupa apropriada, estou sem a minha carteira, não sei meu número de matrícula, qual é o ônibus que devo apanhar, nem qual é o caminho que devo seguir…
Nota: Durante as eleições municipais de outubro de 2024, eu estava viajando. Na volta, levei os cartões de embarque e fiquei na fila para justificar o meu (não) voto. Mas a funcionária da Justiça Eleitoral disse: “Meu senhor, com a sua idade, o senhor não precisa mais justificar o seu (não) voto”. No dia 4 de outubro de 2026, tive um problema com a burocracia estatal: levei meu título de eleitor original e a cópia autenticada da carteira de identidade que carrego comigo. O mesário disse que a minha foto (de 1982), na cópia, estava irreconhecível. Informou que eu poderia apresentar a carteira de trabalho, desde que fosse original (e eu expliquei que a foto na carteira era de boa qualidade, mas que eu tinha então 17 anos de idade). Voltei para casa e trouxe a carteira de trabalho, mas ele não aceitou. Dentro dela, contudo, estava minha carteira de identidade original, que acabou sendo aceita. Mas não acabou por aí: ele queria a digital; informei que não funcionava; tentaram várias vezes e, por fim, a mesária usou a digital dela, que funcionou (achei estranho, mas faz parte das normas) e consegui votar. Agora, para o segundo turno, já sei, devo levar a carteira de identidade original.
Cortes orçamentários de Flávio Bolsonaro poupam a classe política
Se eleito, o filho 01 vai aproveitar o embalo e pôr em prática os planos de "reformar" o Supremo Tribunal Federal nos primeiros meses de governo. O primeiro ato prevê o impeachment de ministros que resistiram ao projeto autocrata do pai e o condenaram por tentativa de golpe. Um espetáculo para saciar a sede de vingança, provavelmente com Jair Bolsonaro já em liberdade assistindo na primeira fila ao rolar das cabeças.
O segundo propõe transferir a competência criminal do Supremo para tribunais inferiores, impedindo que o STF toque investigações envolvendo políticos. Adeus inquéritos sobre desvios de verbas parlamentares.
É a reedição da PEC da Blindagem, aprovada por maioria na Câmara, em 2025, com o argumento falacioso de garantir aos parlamentares o direito de emitir opiniões. Na verdade, era um carimbo de impunidade. A proposta só não foi adiante devido à pressão popular, com protestos nas capitais, milhares de pessoas nas ruas e mobilização nas redes sociais.
Protegidos e impunes, deputados e senadores vão legislar em causa própria e trabalhar no que lhes interessa: a disparada das emendas, uma disfuncionalidade que dura mais de dez anos. O butim abocanhou bilhões do Orçamento para uso paroquial, desequilibrou a harmonia entre os Poderes e instituiu um mecanismo sem transparência, via Pix, que funciona na base do clientelismo e da corrupção. Potencialmente é o maior esquema de corrupção em curso no país.
Em suas andanças pós-primeiro turno, Flávio Bolsonaro se reuniu com representantes dos partidos fisiológicos que se escondem sob o apelido de centrão e defendeu as emendas parlamentares, indicando que não pretende mexer no desenho de pagamento. Nem precisava fazer o afago. O Congresso já tem pronta a proposta orçamentária, com as emendas crescendo num ritmo três vezes maior que as despesas escolhidas pelo Executivo.
Pelo jeito, os cortes de gastos prometidos pelo 01 não atingem a classe política. Ele sabe que, se o dinheiro não entrar no bolso, a ideologia acaba na hora.
Alvaro Costa e Silva
O segundo propõe transferir a competência criminal do Supremo para tribunais inferiores, impedindo que o STF toque investigações envolvendo políticos. Adeus inquéritos sobre desvios de verbas parlamentares.
É a reedição da PEC da Blindagem, aprovada por maioria na Câmara, em 2025, com o argumento falacioso de garantir aos parlamentares o direito de emitir opiniões. Na verdade, era um carimbo de impunidade. A proposta só não foi adiante devido à pressão popular, com protestos nas capitais, milhares de pessoas nas ruas e mobilização nas redes sociais.
Protegidos e impunes, deputados e senadores vão legislar em causa própria e trabalhar no que lhes interessa: a disparada das emendas, uma disfuncionalidade que dura mais de dez anos. O butim abocanhou bilhões do Orçamento para uso paroquial, desequilibrou a harmonia entre os Poderes e instituiu um mecanismo sem transparência, via Pix, que funciona na base do clientelismo e da corrupção. Potencialmente é o maior esquema de corrupção em curso no país.
Em suas andanças pós-primeiro turno, Flávio Bolsonaro se reuniu com representantes dos partidos fisiológicos que se escondem sob o apelido de centrão e defendeu as emendas parlamentares, indicando que não pretende mexer no desenho de pagamento. Nem precisava fazer o afago. O Congresso já tem pronta a proposta orçamentária, com as emendas crescendo num ritmo três vezes maior que as despesas escolhidas pelo Executivo.
Pelo jeito, os cortes de gastos prometidos pelo 01 não atingem a classe política. Ele sabe que, se o dinheiro não entrar no bolso, a ideologia acaba na hora.
Alvaro Costa e Silva
Asfixia constitucional
"Todo homem investido no poder é tentado a dele abusar (…) para viver em liberdade é necessário que o poder freie o poder". A máxima de Montesquieu deveria servir, ao menos para aqueles que se creem liberais, com um alerta sobre o que está em jogo na eleição do próximo domingo.
A promessa de Flávio Bolsonaro de mudar a Constituição para "democratizar o país" teria gerado menos apreensão não fosse o alinhamento de três elementos: a origem e o histórico antidemocrático do clã político a que pertence; o crescimento da direita não liberal na composição do Congresso Nacional e dos governos de Estado; o dramático declínio da autoridade do Supremo, que, para piorar, terá sua maioria recomposta pelo próximo mandatário.
Para agravar a situação, se eleito, Bolsonaro governará em um contexto internacional em que as instituições liberais e democráticas estão sendo submetidas a imensas pressões e a um deliberado processo de erosão por políticos extremistas. Em resumo, será um governo sem contenção, que disporá de ampla discricionariedade para moldar a política e as instituições brasileiras em função de seus interesses e concepções de mundo.
O Brasil já adotou a mais democrática de suas constituições, em 1988. A atual Constituição foi uma clara reação da sociedade brasileira a um passado de autoritarismo e injustiça que marcou a nossa história. Somente no século 20, o Brasil experimentou dois longos períodos de exceção. Um de natureza militar e outro de matiz populista. Em comum, ambas as ditaduras promoveram a demolição do sistema de freios e contrapesos. Subordinaram o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal; restringiram e violaram direitos, especialmente dos seus inimigos; manipularam o processo eleitoral para se perpetuar no poder.
A Constituição de 1988 devolveu aos cidadãos o direito de escolherem periodicamente seus governantes, além das liberdades essenciais à vida democrática. Adotou um robusto sistema de freios e contrapesos, de forma a dificultar a concentração de poderes numa só pessoa, facção ou partido. Reconheceu um amplo rol de direitos, voltados a corrigir históricas injustiças que estruturaram nossa sociedade. Para proteger esses valores, limitou por meio de cláusulas pétreas o poder de maiorias eventuais que, em momentos de fúria ou irracionalidade, podem ficar tentadas a abrir mão das próprias condições que habilitam democracia.
Esse complexo edifício institucional, no entanto, ficará vulnerável se um mesmo grupo ou facção política tiver oportunidade objetiva de neutralizar o sistema de freio e contrapesos. Com isso, não sofrerá restrições ao manipular o processo eleitoral, violar direitos ou promover a erosão do próprio Estado de Direito.
Como demonstram as experiências de Venezuela, Rússia, Hungria, El Salvador, Turquia ou Índia, o declínio da democracia não decorre mais apenas de golpes, como o tentado por Jair Bolsonaro após ser derrotado nas urnas, mas também de sucessivos processos de mudança constitucional e legal, que levam à subversão da própria natureza liberal e democrática da Constituição.
Esses processos de erosão institucional se aprofundam, sobretudo, quando temos um segundo mandato de líderes ou grupos autoritários. A mudança de regras e estruturas institucionais, além da ocupação das instituições com pessoas leais e dispostas a tudo para aprofundar e prolongar o exercício do poder, toma tempo.
O Brasil precisa de mudanças, mas não daquelas que asfixiem nossa democracia constitucional.
A promessa de Flávio Bolsonaro de mudar a Constituição para "democratizar o país" teria gerado menos apreensão não fosse o alinhamento de três elementos: a origem e o histórico antidemocrático do clã político a que pertence; o crescimento da direita não liberal na composição do Congresso Nacional e dos governos de Estado; o dramático declínio da autoridade do Supremo, que, para piorar, terá sua maioria recomposta pelo próximo mandatário.
Para agravar a situação, se eleito, Bolsonaro governará em um contexto internacional em que as instituições liberais e democráticas estão sendo submetidas a imensas pressões e a um deliberado processo de erosão por políticos extremistas. Em resumo, será um governo sem contenção, que disporá de ampla discricionariedade para moldar a política e as instituições brasileiras em função de seus interesses e concepções de mundo.
O Brasil já adotou a mais democrática de suas constituições, em 1988. A atual Constituição foi uma clara reação da sociedade brasileira a um passado de autoritarismo e injustiça que marcou a nossa história. Somente no século 20, o Brasil experimentou dois longos períodos de exceção. Um de natureza militar e outro de matiz populista. Em comum, ambas as ditaduras promoveram a demolição do sistema de freios e contrapesos. Subordinaram o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal; restringiram e violaram direitos, especialmente dos seus inimigos; manipularam o processo eleitoral para se perpetuar no poder.
A Constituição de 1988 devolveu aos cidadãos o direito de escolherem periodicamente seus governantes, além das liberdades essenciais à vida democrática. Adotou um robusto sistema de freios e contrapesos, de forma a dificultar a concentração de poderes numa só pessoa, facção ou partido. Reconheceu um amplo rol de direitos, voltados a corrigir históricas injustiças que estruturaram nossa sociedade. Para proteger esses valores, limitou por meio de cláusulas pétreas o poder de maiorias eventuais que, em momentos de fúria ou irracionalidade, podem ficar tentadas a abrir mão das próprias condições que habilitam democracia.
Esse complexo edifício institucional, no entanto, ficará vulnerável se um mesmo grupo ou facção política tiver oportunidade objetiva de neutralizar o sistema de freio e contrapesos. Com isso, não sofrerá restrições ao manipular o processo eleitoral, violar direitos ou promover a erosão do próprio Estado de Direito.
Como demonstram as experiências de Venezuela, Rússia, Hungria, El Salvador, Turquia ou Índia, o declínio da democracia não decorre mais apenas de golpes, como o tentado por Jair Bolsonaro após ser derrotado nas urnas, mas também de sucessivos processos de mudança constitucional e legal, que levam à subversão da própria natureza liberal e democrática da Constituição.
Esses processos de erosão institucional se aprofundam, sobretudo, quando temos um segundo mandato de líderes ou grupos autoritários. A mudança de regras e estruturas institucionais, além da ocupação das instituições com pessoas leais e dispostas a tudo para aprofundar e prolongar o exercício do poder, toma tempo.
O Brasil precisa de mudanças, mas não daquelas que asfixiem nossa democracia constitucional.
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