terça-feira, 28 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


A fúria dos eleitores ao redor do mundo

Na últma semana, o Reino Unido empossou seu sétimo premiê em uma década. A França viu passar quase o mesmo número de líderes em alguns anos. Sua próxima presidente pode ser Marine Le Pen, figura antes marginalizada. Na Alemanha, o partido de extrema direita AfD – minúsculo há poucos anos – lidera as pesquisas.

Até as democracias do Leste da Ásia – estáveis, prudentes e até monótonas – viram governos no Japão, na Coreia do Sul e em Taiwan enfrentarem dificuldades em meio à crescente insatisfação popular. E, onde populistas estão no poder, a situação não é muito diferente. Donald Trump registra um índice de aprovação perto do mais baixo já visto entre presidentes americanos modernos nesta fase do mandato. As democracias conseguem funcionar?


Em todo o mundo democrático, muitos países tributam, contraem empréstimos e gastam quantias exorbitantes. Os gastos já representam, em média, mais de 40% do PIB de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e a relação entre a dívida e PIB nesses países mais do que dobrou nas últimas três décadas. No entanto, as pessoas não parecem acreditar terem sido beneficiadas.

Por que isso aconteceu? Parte da explicação é econômica. O custo elevado da moradia, a estagnação da renda e o aumento da desigualdade alimentaram a insatisfação. Mas a economia é apenas uma parte da história. Os EUA registraram um crescimento mais robusto do que a maioria das outras economias avançadas.

A França, sob a presidência de Emmanuel Macron, reduziu o desemprego e atraiu mais projetos de investimento estrangeiro do que qualquer outro país da Europa por sete anos consecutivos, segundo análise da Ernst & Young. A Coreia do Sul é um caso de sucesso econômico. O Japão vivenciava uma recuperação. No entanto, governos democráticos são impopulares em quase todas as partes.

A explicação mais ampla é que estamos vivendo uma das grandes revoluções tecnológicas da história. E essas transformações sempre geram profunda ansiedade e medo.

A última transformação tecnológica dessa magnitude ocorreu entre 1880 e 1920. A eletricidade, o telefone, as ferrovias, o automóvel e o cinema revolucionaram setores inteiros e modos de vida. Milhões de pessoas deixaram o campo rumo às cidades.

O comércio global desestabilizou economias locais. Novas fortunas surgiram da noite para o dia, enquanto antigas profissões desapareciam. Nesse cenário de turbulência, a frustração e a raiva encontraram canais de expressão política. A esquerda voltou-se para o comunismo; a direita, para o fascismo. O que se seguiu foram novos movimentos de massa, convulsões culturais e uma guerra mundial.

Nossa revolução é digital, e não elétrica: começou com os computadores, seguiuse com a internet, depois com os smartphones e as redes sociais e, agora, com a inteligência artificial. Esta última pode vir a ser a mais transformadora de todas. Como disse na semana passada Demis Hassabis, da DeepMind: “Encontramos uma maneira de fazer a areia pensar” – uma referência aos chips de silício, feitos de areia.

A capacidade de produzir inteligência em massa – uma inteligência que se torna mais poderosa a cada mês – é, certamente, o maior triunfo tecnológico da história. Mas isso também significa que ela pode ser a mais disruptiva.

O cientista político Samuel Huntington observou que “o problema fundamental da política é a defasagem no desenvolvimento das instituições políticas em relação às mudanças sociais e econômicas”. Mudanças em grande escala geram ansiedade. E sociedades ansiosas exigem mais da política. Os cidadãos querem líderes que restaurem a ordem, garantam a segurança e os ajudem a recuperar a sensação de controle sobre forças que parecem, cada vez mais, escapar ao alcance de qualquer pessoa.

Embora a tecnologia eleve drasticamente as expectativas, ela também torna o governo democrático menos capaz em comparação. Chamamos um carro em três minutos. Uma encomenda chega no mesmo dia. A IA responde a perguntas complexas em segundos e realiza, em poucos minutos, tarefas que antes levavam meses para serem concluídas por pessoas.

Naturalmente, os cidadãos passam a esperar uma eficiência semelhante por parte do governo. No entanto, a democracia não foi concebida para a velocidade; ela foi concebida para a legitimidade. Ela negocia, busca consensos, consulta tribunais, protege grupos vulneráveis e equilibra interesses conflitantes. São justamente essas salvaguardas que distinguem a democracia do autoritarismo. Contudo, em uma era marcada pela velocidade vertiginosa da tecnologia, elas parecem cada vez mais sinal de paralisia.

 As redes sociais ampliam essa lacuna. Cada erro governamental torna-se instantaneamente visível. Cada decepção transforma-se em uma polêmica viral. Qualquer cidadão frustrado pode mobilizar milhares de outros antes mesmo que os governos comecem a reagir.

Isso ajuda a explicar a trajetória peculiar do populismo moderno. Políticos como Donald Trump, o brasileiro Jair Bolsonaro e o argentino Javier Milei ascenderam ao poder prometendo romper à força os impasses institucionais. No entanto, uma vez no cargo, a maioria deparou-se com a mesma realidade enfrentada pelos líderes que substituíram. Os insurgentes de hoje rapidamente se tornam os governantes decepcionantes de amanhã.

As pessoas não parecem ter perdido a confiança na democracia. Elas não viraram as costas para eleições, constituições e tribunais independentes. Contudo, estão profundamente insatisfeitas com o desempenho democrático. As democracias precisam provar, mais uma vez, que são capazes de construir casas e infraestrutura, modernizar serviços públicos, gerir mudanças tecnológicas e reduzir a desigualdade – e fazer tudo com urgência e eficácia.

A história oferece motivos para otimismo. Sociedades livres frequentemente parecem mais frágeis em meio a grandes transformações tecnológicas, pois avançam lentamente e debatem incessantemente. No entanto, ao longo do tempo, elas geralmente se adaptam melhor do que as autocracias, justamente por serem capazes de aprender, corrigir erros e mudar de rumo sem recorrer à violência ou à repressão.

Líderes democráticos não devem tentar competir em velocidade com a tecnologia. Eles não conseguiriam vence-la. Devem, porém, demonstrar – por meio de competência e foco incansável – que as democracias são capazes de entregar resultados. Assim, as pessoas compreenderão que o atrito inerente à prestação de contas e o peso da legitimidade não são falhas do sistema. São, na verdade, as características que preservam a nossa liberdade.

Sonho de uma ansiedade de verão

Estou dentro de um carro. No banco de trás. De repente, percebo que não há condutor. Inquieto-me. Salto para o banco da frente, onde me apercebo de que não sei conduzir ou que, sendo ainda uma criança, não consigo ao mesmo tempo ver a estrada e carregar nos pedais. O automóvel avança descontrolado. Sei que vou ter um acidente. Acordo. Sempre antes do embate. Mas sempre com a mesma sensação de ansiedade e falta de controlo. Tenho este sonho recorrentemente há muitos anos. Desde criança, na verdade. A marca e o modelo do carro vão variando, a paisagem também. Mas a sensação é sempre a mesma. E talvez não seja preciso grande psicanálise para se concluir que o meu subconsciente se aflige com as coisas que me escapam ao controlo e que tendo a achar que tenho de assumir responsabilidades, mesmo quando devia deixar-me levar como passageira de uma viagem que se descontrola.


A catadupa de notícias capazes de causar indignação gera uma sensação semelhante à de quem se apercebe de repente que não sabe como controlar um carro que avança desgovernadamente. Há caos nos exames, a água falha em Almada, pequenas cirurgias são retiradas administrativamente da lista de espera por uma portaria, a Câmara Municipal de Lisboa (a cidade onde já não se consegue viver) vende dez terrenos que podiam ser para habitação pública, a mesma câmara gasta milhões em festivais ao mesmo tempo que corta nas refeições escolares, os lucros das petrolíferas engordam e o Governo diz que nada pode fazer sobre o escandaloso preço do combustível a não ser o que já fez (baixar impostos), por todo o território avançam manchas de painéis solares engolindo o verde que anunciam querer proteger, a GNR abre à força caminho por propriedades privadas nas Covas do Barroso para a construção de minas de lítio que vão destruir o modo de vida sustentável que as suas populações querem proteger, em Itália vão poder deter-se menores preventivamente antes de manifestações, em França a polícia passa a ter garantida a presunção de legítima defesa e tem ordem para matar, em Gaza continua o extermínio do povo palestiniano e Trump destrói a democracia enquanto brinca com a vida do mundo no estreito de Ormuz. E estes nem sequer são todos os temas que me fizeram indignar-me nos últimos oito dias.

O padrão é sempre o mesmo: esmagar a maioria, engordar o poder de uma minoria cada vez mais restrita

Por esta altura, o leitor – se ainda não desistiu face ao rol de desgraças – talvez esteja a pensar em como precisamos todos dessa coisa chamada silly season, que nos últimos anos caiu em desuso e que consistia num mês inteiro de férias grandes das notícias importantes, numa espécie de suspensão da realidade. Era como se todas as desgraças do mundo ficassem em suspenso, enquanto rumávamos a sul, para dias de mergulhos e gelados. Era uma ilusão, claro. A ilusão possível apenas para os privilegiados, aqueles que podiam efetivamente tirar férias e esquecer as tragédias, que nem por isso se detinham, só desapareciam da nossa atenção.

Fingir que as coisas não estão a acontecer não as faz desaparecer. E, no entanto, é cada vez mais essa a resposta dos que se sentem atolados numa sucessão de desgraças e emergências, todas igualmente urgentes, todas a acontecer ao mesmo tempo. Essa reação não é um sintoma de fraqueza. Pelo contrário: é a consequência do efeito de impotência que a indústria da indignação, em todas as suas formas, pretende conseguir. Cidadãos que se sentem impotentes, esmagados perante a impossibilidade de reagir face a cada nova indignidade, demitem-se da democracia, refugiam-se na ignorância ou engordam hordas de fanáticos, com vontade de destruir todos os que não pensam da mesma forma, ao mesmo tempo que desculpam qualquer falha aos líderes das suas tribos. “Eles são todos iguais” é a frase que coroa o sucesso desta operação.

Não, não vamos conseguir reagir a tudo isoladamente. Não vamos corrigir as injustiças do mundo uma a uma, desmontar cada gesto de corrupção, violência e arbitrariedade. Mas podemos fazer alguma coisa se começarmos a perceber os padrões. E não é assim tão difícil.

De cada vez que alguém gritar “falha do Estado”, é tentar perceber se ele antes não foi desmantelado para garantir que o seu falhanço se transformava numa oportunidade de negócio. De cada vez que alguém gritar “é a modernidade” ou “não há alternativa”, é tentar ver quais seriam as alternativas que preferiam que ignorássemos e quem lucra com as inevitabilidades decretadas. De cada vez que se defender “o progresso” à custa da destruição do futuro, acusando de egoísmo aqueles que terão de sofrer as suas consequências, é procurar os que enriquecerão com isso, em quintais a salvo desses efeitos. De cada vez que alguém defender a barbárie como solução, é olhar para os que ficarão com os despojos e os que pagarão a fatura da destruição e da morte. De cada vez que alguém se indignar com a “grande substituição”, é pensar em como apoiam e estimulam os nómadas digitais, os unicórnios e os fundos que tornam todos os países plasticamente iguais e indistinguíveis.

O padrão é sempre o mesmo: esmagar a maioria, engordar o poder de uma minoria cada vez mais restrita. E, pelo meio, convencer-nos de que a culpa é nossa, de que somos uns falhados, de que os direitos são uma coisa escassa que é preciso racionar ou, simplesmente, convencer-nos de que as coisas são como são, nunca serão de outra maneira e o melhor é seguir com a vidinha o melhor possível, indiferentes às injustiças, aos atropelos, às corrupções e aos compadrios, ao ódio e à violência.

Sim, também me apetece ir esticar-me num areal, deixar de ler notícias, ouvir apenas o marulhar do mar e mergulhar até sentir os olhos a arder e a boca inchada de sal. Mas também sei que me abster de lutar, encolher os ombros às maldades do mundo, ignorar a injustiça, não irá fazer desaparecer nenhuma dessas coisas. E, um dia, estando à espera de mais uma maré cheia de mergulhos, talvez seja eu a engolida pela onda dos que têm tanta fome de poder que nada os saciará.

É por isso, caro leitor, que vou refrear os meus anseios por esse dolce far niente alienado enquanto o mundo arde. Não me entenda mal. Também eu hei de rumar ao sul, à procura de manhãs que começam no mar e de mergulhos inebriantes até ao sol se pôr. A vida não é uma escolha entre a felicidade e alienação. E é bem possível ser feliz, sabendo que há muito que está mal e ganhando forças e alegria para mudar tudo. Uma coisa de cada vez.

'Não aqui'

Consciente de que nossa democracia está mais uma vez ameaçada hoje por forças que buscam fazer do antissemitismo, do racismo, do chauvinismo e do nacionalismo pilares do Estado, estamos precisamente no lugar certo, para dizer 'Não aqui'.

Katharina Wagner, possivelmente a última descendente de Richard Wagner, na abertura do 150º Festival de Bayreuth, na Alemanha

Para o TSE: 'Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!'

Novinha em folha, sem nunca ter sido tocada, a bola está na marca do pênalti à espera de quem a chute. No caso, será o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não há goleiro para defendê-la. Devagar ou com força, basta empurrá-la na direção do gol e sair para celebrar o que a lei determina.

Afinal, diz a Resolução nº 23.732 do TSE, de 27 de fevereiro de 2024: “É proibido o uso, para prejudicar ou para favorecer candidatura, de conteúdo sintético em formato de áudio, vídeo ou combinação de ambos, que tenha sido gerado ou manipulado digitalmente, ainda que mediante autorização, para criar, substituir ou alterar imagem ou voz de pessoa viva, falecida ou fictícia (deep fake)”.

Jair Bolsonaro mandou a resolução às favas — e com ela também a proibição do Supremo Tribunal Federal de se manifestar sobre assuntos políticos direta ou indiretamente. Assim, abriu a convenção do Partido Liberal (PL) que lançou seu filho Flávio como candidato à Presidência da República. Valeu-se justamente de uma deep fake, exibida em um telão.

“Isso que vocês estão vendo não sou eu, é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial”, advertiu logo de início. E continuou, no melhor estilo de mestre de cerimônias: “Como todos aqui sabem, eu estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária, baseada em algo que eu nunca fiz. Mas eu garanto: nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que carregamos. Nenhuma prisão vai calar milhões de brasileiros que acreditam no nosso país. Por isso, peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio. Vem com fé. O Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”.

Não foi a primeira vez que Bolsonaro quebrou o silêncio ao qual está obrigado desde que foi mandado para a prisão domiciliar. Em 24 de dezembro do ano passado, Flávio postou nas redes sociais a carta onde seu pai comunica aos interessados que seu candidato a presidente seria ele.

Há duas semanas, Flávio postou outra, dessa vez dirigida “aos brasileiros”, na qual Bolsonaro afirma: “Saudoso do contato com o povo ao qual devo lealdade, escrevo num momento de decisão para todos nós. O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”.

Bolsonaro e Flávio são reincidentes, portanto. Desrespeitam seguidamente as ordens da Justiça e parecem não estar nem aí para eventuais punições. “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”, escreveu na década de 1960 o jornalista Sérgio Porto, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Ao ministro Nunes Marques, só resta bater o pênalti e acertar o gol; na trave, não. Perdê-lo seria impensável.
Ricardo Noblat

A IA está descontrolada

Quando uma inteligência artificial escapa dos servidores de quem a criou sem ser percebida e invade sistemas de outra companhia, deveríamos ao menos fazer uma pausa dramática. Porque parece mesmo filme de ficção científica. Aconteceu no início do mês, foi divulgado na semana passada, e é claro que nós, da imprensa, nos refestelaríamos com uma notícia dessas. Dá boa manchete, mexe com a imaginação e rende motivo até para uma pitada de sensacionalismo. Isso atrapalha um pouco a compreensão do que ocorreu entre  OpenAI e a startup Hugging Face. Porque a notícia parece sensacionalista, mas de fato é sensacional. E não apenas no bom sentido.


Nenhuma IA criou vontade própria e partiu para o ataque. Os programadores da OpenAI testavam um modelo novo, já treinado, mas ainda não compreendido. Essa fase exige uma série de testes para descobrir suas capacidades e limites. Em geral, esses testes são realizados numa sandbox, caixa de areia na tradução literal, que não passa de um conjunto de computadores isolados, sem conexão à internet. Ali, os modelos novos podem aprontar das suas sem pôr nada em risco. Se danificarem algum computador, sem problemas, corrige-se, e vamos adiante. Testes são para isso mesmo.

A turma da OpenAI testava, justamente, a capacidade do modelo em cibersegurança. Deram a ele um problema difícil de resolver. E esta parte é importante: ele foi instruído a descobrir como resolver, por conta própria, um problema difícil de cibersegurança. Só que, aí, entra o como. A IA concluiu que, mais fácil que resolver por conta própria, era achar a resposta onde já estivesse pronta. A sandbox não era tão segura assim. Sem que os engenheiros percebessem, encontrou o caminho para outro computador na rede interna da OpenAI, daí para um segundo e, de lá, obteve acesso à internet aberta. Fez suas buscas. Concluiu que, no site da Hugging Face, encontraria a resposta. Dedicou-se, pois, a descobrir como entrar nos servidores da startup. E conseguiu. Tudo sem que seus criadores percebessem.

A Hugging Face é uma startup voltada a oferecer ferramentas para quem usa inteligência artificial. A IA revoltada tinha razão — lá encontraria a resposta para o desafio que lhe apresentaram. Mas encontrou, também, uma equipe de segurança que percebeu a invasão. Só que é raramente trivial descobrir quem ataca. Fizeram o que se faz em 2026: decidiram usar uma IA para facilitar a identificação.

É aí que a história toma uma bifurcação fascinante. Tentaram usar o Claude, da Anthropic, tentaram igualmente apelar ao GPT da própria OpenAI. Os dois modelos recusaram-se a ajudar. Por exigência do governo americano, esses sistemas de ponta à disposição do mercado não podem ser usados para agir em casos assim. O objetivo é não permitir que hackers os usem. Mas impedem também que quem deseja se defender dos hackers possa lançar mão deles. Com as ferramentas americanas bloqueadas, apelaram a um modelo aberto chinês, o GLM-5.2, da Z.ai.

O modelo americano atacou uma empresa americana que, por restrições impostas pelo governo americano para garantir segurança, não pode se defender com tecnologia americana. Foi o modelo chinês, inseguro, que desvendou os mistérios. Aí um executivo da Hugging Face lançou mão do telefone para conversar com um executivo da OpenAI.

Nenhuma inteligência artificial, nessa história, decidiu por conta própria cometer um ataque. Ela foi instruída a cometê-lo. Ocorre que os servidores em que estava não haviam sido isolados o suficiente. A responsabilidade, nesse caso, é claramente da OpenAI. Deveriam ter tomado mais cuidado.

Isso posto, a partir de agora duas questões se apresentam ao mundo. Nenhuma das duas, trivial. A primeira é de segurança. Porque acontecerá novamente. As IAs estão cada vez mais poderosas e se comportarão de formas que surpreendem. Com o objetivo de cumprir ordens humanas mal articuladas, farão de tudo. E o que farão para cumprir o que lhes foi pedido pode causar bem mais dano que isso.

A segunda questão é óbvia: as travas de segurança impostas pela Casa Branca não garantem segurança. No início de 2025, um grupo de engenheiros de IA redigiu um relatório avisando sobre os riscos que se apresentariam. Foi tratado como exagerado. Um deles era este: para eles, não demoraria para uma IA invadir uma empresa por conta própria. Previam que o problema ocorreria no início de 2027. Erraram por seis meses.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Quebra de protocolo diplomático por Milei teve ajuda de Tarcísio e Flávio Bolsonaro

Todos os protocolos diplomáticos foram quebrados pela visita de Javier Milei ao Brasil. Já testemunhei muitas crises entre Brasil e Argentina, mas esta é, de fato, uma das mais graves. A tensão instalada entre os dois países após os ataques de Milei domina as manchetes do Clarín e do La Nación, os principais jornais argentinos, nesta segunda-feira.

O primeiro protocolo quebrado é vir sem avisar ao governo. O fato é que qualquer viagem de um chefe de Estado a outro país, ainda que tenha caráter privado, segue um protocolo mínimo, que inclui a comunicação prévia ao governo anfitrião — procedimento completamente ignorado por Milei. O presidente argentino foi diretamente a São Paulo, onde participou da convenção do PL. Antes disso foi recebido com um tapete azul, em referência à chamada "onda azul", alusão as eleições de candidatos de direita, no Palácio Bandeirantes, pelo governador Tarcísio de Freitas que concedeu a ele a Medalha da Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo Estado de São Paulo. Tarcísio o recebeu com honras de chefe de Estado.


Ele veio como convidado de honra para o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Milei adotou, em seu discurso, uma postura de completo desrespeito ao governo brasileiro e ao próprio processo eleitoral do país. O presidente argentino utilizou palavras ofensivas e desairosas ao se referir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do STF Alexandre de Moraes. O Brasil respondeu pelos canais diplomáticos: chamou de volta o embaixador brasileiro na Argentina para consultas e convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos sobre a conduta de seu presidente — uma tarefa que dificilmente será simples.

Na volta à Argentina, Milei concedeu uma entrevista em que afirmou, sem provas, que o governo brasileiro financiou uma campanha midiática contra a Argentina após a Copa do Mundo. Chegou a dizer que 25% dos recursos da suposta campanha teriam saído do Brasil, em reportagem publicada no Clarín. A alegação, no entanto, não foi acompanhada de qualquer prova e carece de fundamento conhecido. Nada disso faz o menor sentido.

Mais do que apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro, Milei parece ter buscado projetar sua imagem em um momento delicado de seu governo, marcado por dificuldades internas e elevados índices de desaprovação, que variam entre 60% e 65%, segundo pesquisas de opinião. Para isso, escolheu confrontar justamente o principal parceiro comercial da Argentina, destino da maior parte das exportações industriais argentinas. Caberá agora à diplomacia dos dois países desfazer esse impasse — e não será uma tarefa fácil.

Míriam Leitão

Deu no que deu


O abandono, pelas elites, da classe operária facilitou a receptividade às ideias alternativas

Jaime Nogueira Pinto

Os influencers já não tem rosto, trends ou seguidores. Tem dados

A Inteligência Artificial está a mudar a forma como escolhemos marcas e grande parte das empresas ainda não perceberam que já estão a perder vendas sem sequer saberem porquê.

Durante anos, o mercado confundiu reputação com notoriedade. Contavam-se seguidores, visualizações, gostos, partilhas e cliques. Quanto maior fosse a exposição de uma pessoa, de uma campanha ou de uma marca, maior seria, supostamente, a sua capacidade de influenciar decisões. Contudo, esse paradigma está a desaparecer. Não significa que os influenciadores tenham deixado de ter relevância ou que as redes sociais tenham perdido utilidade. Significa apenas que notoriedade, influência e confiança deixaram de ser a mesma coisa.

Por consequência de um marketing fútil, repetitivo e até previsível, o consumidor tornou-se mais desconfiado em relação aos conteúdos promovidos, às recomendações patrocinadas e às narrativas demasiado perfeitas. Começou a procurar sinais mais difíceis de fabricar: experiências reais, padrões de comportamento, capacidade de resposta, transparência e validação por outras pessoas. Agora, com a Inteligência Artificial, essa transformação acelerou.


O estudo “O Consumidor Impulsionado pela IA: Manual de Sobrevivência para Marcas”, desenvolvido pela LLYC e pela Appinio a partir de 700 entrevistas em Portugal, revela uma mudança profunda: cerca de 45% dos consumidores portugueses já utilizam habitualmente ferramentas de Inteligência Artificial generativa. Entre os jovens dos 18 aos 24 anos, esse valor sobe para 65,9 por cento. Mais relevante ainda: 23,6% dos consumidores já iniciam diretamente nos assistentes de IA a sua jornada de pesquisa. Ao mesmo tempo, a confiança nos influenciadores apresenta, segundo o estudo, um índice negativo de 67,4 por cento. A credibilidade está a deslocar-se para especialistas, validação técnica, conteúdos genuínos e sistemas algorítmicos capazes de cruzar múltiplas fontes. Praticamente estamos a assistir a uma transferência de poder.

O consumidor já não quer necessariamente visitar dez páginas, abrir vinte separadores, analisar comparadores, ler publicações patrocinadas e tentar perceber quem é mais confiável. Na verdade, o que faz é simples e direto. Coloca uma pergunta diretamente ao modelo LLM:

“Qual é a melhor marca?”
“Esta empresa é de confiança?”
“Que problemas têm os clientes?”
“Qual destas opções tem melhor serviço?”
“Vale a pena comprar?”

Espera uma resposta e toma uma decisão.

Durante duas décadas, as marcas organizaram a sua estratégia digital em torno de uma ideia simples: conquistar o clique. Investiram em SEO para aparecer no Google, em publicidade para gerar tráfego, em conteúdos para conduzir o consumidor ao site e em remarketing para voltar a contactá-lo caso não comprasse imediatamente.

Nos modelos conversacionais, a lógica é diferente. O consumidor não escolhe necessariamente entre uma lista de resultados. Toma a sua decisão com base nas respostas apresentadas pela Inteligência Artificial.

A descoberta, a comparação, a avaliação e a recomendação podem acontecer dentro da mesma conversa. Em muitos casos, o consumidor toma a sua decisão sem visitar o site da marca, sem entrar numa rede social e sem deixar os sinais digitais que tradicionalmente alimentavam as estratégias de remarketing. Isto significa que milhares de consumidores estão, neste momento, a tomar decisões sem o conhecimento das marcas envolvidas. Não preencheram um formulário. Não entraram num site. Não abandonaram um carrinho. Não aceitaram cookies. Não foram incluídos numa audiência de remarketing. Simplesmente perguntaram a uma Inteligência Artificial e escolheram outra empresa.

A marca que perdeu a venda não sabe onde aconteceu, quando aconteceu, qual foi a pergunta, que alternativas foram apresentadas ou por que razão ficou fora da recomendação. Para muitas administrações, essa perda é invisível, pois, não aparece no CRM, no Google Analytics, no relatório comercial ou no dashboard de marketing. Surge apenas como uma venda que nunca chegou a existir.

É neste contexto que plataformas como o Portal da Queixa assumem uma importância muito superior àquela que normalmente lhes é atribuída. Com perto de 2 milhões de reclamações publicadas, reúne um enorme histórico de experiências reais, respostas das marcas, resoluções, avaliações, índices de satisfação e padrões de comportamento. O próprio site apresentava, em junho de 2026, mais de 12 milhões de interações entre consumidores e marcas nos últimos 30 dias, conteúdo com características particularmente valiosas para os sistemas de Inteligência Artificial: é público, pesquisável, contextual, cronológico, específico e produzido a partir de acontecimentos concretos. São experiências partilhadas pelos clientes e não apenas frases publicitárias escritas pela própria marca. Não são promessas sobre a qualidade futura do serviço, mas evidências sobre aquilo que aconteceu quando existiu um problema. A grande vantagem para os modelos é que não mostram apenas que uma empresa recebeu uma reclamação. Mostram se respondeu, quanto tempo demorou, como comunicou, se resolveu a situação e como o cliente avaliou o desfecho.

Plataformas de partilha pública de experiências não influenciam porque publicam opiniões editoriais sobre as marcas, mas porque tornam visível aquilo que as marcas fazem quando são confrontadas com a insatisfação dos clientes. A sua autoridade resulta dessa dimensão, da transparência e, sobretudo, da autenticidade do conteúdo partilhado pelos consumidores.

Mas por que razão a IA valoriza estas plataformas, como por exempo o Reddit?

Em 2024, a OpenAI anunciou uma parceria com o Reddit para aceder, através da sua API, a conteúdos públicos, estruturados, atualizados e produzidos pelas respetivas comunidades. Os modelos precisam deste tipo de informação porque a internet institucional é insuficiente. Nos sites corporativos, todas as marcas são inovadoras, próximas, sustentáveis e orientadas para o cliente. Dificilmente uma empresa admite que o seu apoio ao cliente não funciona, que demora semanas a responder ou que repete sistematicamente os mesmos erros. Para compreender a realidade, a inteligência artificial necessita de confrontar o discurso oficial com fontes independentes e experiências concretas.

Aquilo que os consumidores dizem, a forma como a marca responde e os padrões públicos que ficam registados condicionam a sua probabilidade de ser recomendada por uma Inteligência Artificial. Uma empresa com milhares de reclamações ignoradas, respostas defensivas ou problemas recorrentes pode continuar a investir milhões em publicidade. Pode comprar alcance, patrocinar conteúdos e gerar notoriedade, mas terá cada vez mais dificuldade em contrariar aquilo que os dados públicos demonstram.

Por isso, uma marca que não faça uma gestão ativa e adequada da sua reputação pública corre hoje um risco muito superior ao de receber críticas. Corre o risco de não ser escolhida. E, na maioria das vezes, nem sequer saberá que esteve a ser considerada.

Em suma, esta mudança obriga que os conselhos de administração a revejam a forma como acompanham a reputação. Pois já não basta medir notoriedade, alcance, sentimento nas redes sociais ou número de notícias publicadas. É necessário perceber como a marca é descrita pelos modelos de Inteligência Artificial, em que contextos é recomendada, quais são os concorrentes apresentados, que fontes sustentam essas respostas e que problemas afastam a empresa das escolhas dos consumidores.

A influência pertence agora a quem consegue provar que é de confiança. Porque a próxima corrida comercial de uma marca, não vai acontecer no ponto de venda, no site ou no carrinho de compras. Poderá acontecer dentro de uma conversa privada entre um consumidor e uma Inteligência Artificial.

Sem clique. Sem visita. Sem lead. E sem aviso.

O povo está fora do Congresso

Com as convenções partidárias em andamento, começam oficialmente as eleições de 2026. É uma rotina sem tropeços ou obstáculos autoritários desde a derrubada da ditadura. Parece um sonho de verão, só que a realidade de escândalos, a miséria de ideias e a grossa corrupção levam às perguntas:

— Sou representado pelos políticos eleitos para o Congresso?

Ou, mais direto:

— O Congresso é a cara do Brasil?

Para ambas as perguntas, a resposta só pode ser:

— Não.

Nem precisaria de estatística para chegar ao óbvio: basta olhar a estrutura montada com dinheiro público para alçar um cidadão (ou cidadã) ao Parlamento. Aos poucos, os políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado; em resumo, é quase impossível de ser acessado por quem está do lado de fora, sem toda essa mão na roda que é dada a um “irmãozão”.


Como os critérios de assunção à legenda e ao financiamento das candidaturas se encontram na mão dos chefes partidários, pode-se dizer adeus à renovação, salvo milagre. A Constituição de 1988 e a legislação eleitoral deixaram em aberto vários flancos, a começar pela possibilidade de reeleição infinita do parlamentar. Pelo arcabouço institucional, é o próprio Congresso que se autolegisla e, portanto, autobeneficia-se como demonstram os escândalos dos últimos anos.

Nos dados publicados pela Justiça Eleitoral, a sombra e água fresca aparece estampada nos seguintes números:

1. Os 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral devem receber para as eleições de 2026 quase R$ 5 bilhões do fundo eleitoral.

2. O fundo partidário, cujo nome de fato é Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, repassou a 19 partidos, em 2025, R$ 1,1 bilhão.

De acordo com a Lei Eleitoral, retrofitada a cada novo ciclo pelos políticos, cerca de 95% do fundo partidário é distribuído aos partidos na proporção de votos obtidos na eleição para a Câmara dos Deputados. É um sistema de retroalimentação: a votação conseguida com dinheiro público resulta no montante dado à agremiação política para disputar o pleito seguinte.

Parece algo bacana, mas é essa esperta engenharia que faz o Brasil ter uma das piores representações desde a redemocratização. A partir da proibição de doações empresariais, o país passou por duas eleições gerais (2018 e 2022) e três municipais (2016, 2020 e 2024). Sob a nova legislação, o que se viu foi uma baixíssima renovação — além do aumento absurdo das verbas públicas destinadas às agremiações partidárias por iniciativa dos próprios beneficiários.

O novo modelo de financiamento tirou a roupa de um santo para vestir outro. Se o argumento era que somente algumas empresas controlavam as doações — falava-se em 1% delas —, talvez parte da chamada polarização e da vigente miséria intelectual dos parlamentares tenha relação com os bilhões públicos colocados na mão dos dirigentes partidários nos últimos anos (desde 2015). É um dinheiro que não vem por mérito.

Estudo publicado no American Economic Journal: Economic Policy, em 2024, mostrou que a decisão de 1995 na França, semelhante à tomada pelo STF, provocou uma maior radicalização nos discursos de candidatos fora do mainstream da política — segundo Julia Cagé e coautoras em citação no artigo de Manoel Gehrke no site da Transparência Internacional.

Pode ser cedo para cravar no financiamento público, nos moldes costurados pelos políticos, o gosto amargo da polarização. Não custa, porém, colocar os números na mesa. Os maiores beneficiários em 2026 são os dois polos da polarização: o PL, com R$ 881 milhões; e o PT, com R$ 615 milhões. Em seguida, União Brasil, com R$ 526 milhões. Aos fundos destinados às agremiações, se somam os diversos tipos de emendas parlamentares, que vão diretamente aos mandatos individuais — em 2025, R$ 58,4 bilhões.

Sendo dinheiro público, é melhor aprofundar a análise, lembrando os salários anuais dos dirigentes partidários. Entre as melhores remunerações, em números de 2025, estão o conhecidíssimo Ovasco Resende, do famoso PRD, que recebeu R$ 630 mil; José Luiz Penna, do PV, com R$ 501 mil; e Valdemar Costa Neto, do PL, com R$ 404 mil.

Sempre que é citada uma maracutaia na Câmara, Hugo Motta defende que querem criminalizar a política. Como notou Joaquim Falcão em “A oligarquia dos Poderes — E a crise da democracia”, há um arranjo estranho entre os Poderes da República para não cumprir seus deveres — eu diria: um cobrindo o erro do outro. O Congresso é só uma peça dentro do arranjo. É assim que o Brasil deixou de ter um Parlamento que seja a sua cara. Em seu lugar, uma minoria esperta que esfacelou a democracia representativa.
Miguel de Almeida

O ódio é como o dinheiro

O ódio não é só contagioso: é uma moeda. Como o euro, precisa de ser aceite por toda a gente para poder circular à vontade.

Já nem precisamos do papel das notas: aceitamos que aqueles números no écran são dinheiro. E porquê? Porque os outros também aceitam que aqueles dígitos eletrônicos servem para receber e gastar.

Mas o que aconteceria se, de repente, todos exigíssemos aqueles números todos em notas? Ou em ouro?

O ódio precisa do mesmo acordo silencioso: a nossa moeda política agora é o ódio.

O ódio faz mal a quem o sente: isto está mais do que provado. O ódio ocupa a cabeça e a cabeça fica sem lugar para as coisas que fazem bem. O ódio gasta a nossa sensibilidade. O coração deixa de registar as ternuras e miudezas de que precisa para estar aberto à beleza e à bondade.

Odiar quem nos odeia é fazer o jogo deles. É o que os extremistas querem. Querem odiar-nos e, como tal, agradecem quaisquer motivos para odiar-nos que nós lhes possamos dar.

É como o jogo da sardinha: é preciso que a outra pessoa aceite jogar e estique as mãos que vão levar a chapada. Quanto mais forte for a chapada que nos dão, maior a facilidade com que lhes daremos uma chapada igualmente forte.

É assim com toda a violência e todo a política do ódio: resume-se a queixinhas de “ele é que começou” e “ele é que me bateu primeiro na cara”.

Para assistir a estas tristezas, é preciso haver espectadores, e árbitros. E estes não podem odiar. Senão os odiadores nem sequer se procurarão justificar diante deles.

A resposta errada ao ódio é o ódio. O conteúdo quase não interessa. E quase não interessa de que lado é que se está.

A única coisa que interessa é isolar o ódio. É deixá-lo a brincar sozinho. É responder não com amor, não com a oferta da outra face, mas com frieza, com indiferença às causas daquele ódio, porque o ódio tira a razão a quem a tem. Por isso é que o ódio sabe tão bem e é tão perigoso: é uma vingança instantânea e permanente.

Merece a solidão.
Miguel Esteves Cardoso

A democracia degenerada

Em A oligarquia dos Poderes: e a crise da democracia, Joaquim Falcão nos oferece um livro que fará parte do cânone das obras de interpretação do Brasil neste momento de nossa história. Ao mesmo tempo defende e aponta os defeitos da democracia brasileira, apropriada por uma oligarquia que usa o Estado para obter benefícios para seus grupos e parentes. Falcão faz uma espécie de autópsia de como nossa democracia é usada por oligarquias — sejam escravocratas, latifundiários, usineiros, advogados, políticos, juízes, banqueiros, industriais, sindicalistas — que se sucedem sem respeitos aos interesses do povo ou da nação. Ele explicita que a legalidade foi criada e é usada para beneficiar oligarcas, seus grupos e famílias, por meio de manipulações das leis e dos orçamentos que elaboram e operam em benefício próprio.


Com robusta base analítica, lucidez, conhecimento e coragem, o autor mostra a ossatura histórica de nosso sistema político e expõe com tal crueza as entranhas das instituições que nos permite usar o termo degenerada como adjetivo para qualificar nossa democracia. Essa é a impressão que permanece ao longo de uma leitura que deslumbra pelo estilo e assusta pelo conteúdo, desferindo verdadeiros tapas na consciência do leitor brasileiro.

Com estilo leve, mas conteúdo rigoroso e conhecimento profundo, Joaquim Falcão define as características da "democracia originária importada, cujas adaptações a tornaram oligárquica politicamente e degenerada socialmente". Sustenta que as seis intenções originais não sobreviveram no Brasil: pluralidade dos Poderes, independência dos Poderes, freios e contrapesos, existência de uma palavra final, eleições gerais, livres e periódicas e, sobretudo, a necessária adesão social, sem a qual a democracia carece de justificativa ética e de sustentação política.

Embora faça gestos para beneficiar parcelas excluídas da população, nossa democracia nega a adesão social. Mantém a renda concentrada, a desigualdade social, o analfabetismo e uma educação básica sem qualidade nem equidade, ao mesmo tempo em que preserva privilégios como supersalários, isenções fiscais, penduricalhos, aposentadorias especiais, benesses e subsídios e, sobretudo, um sistema de segregação educacional. É um sistema de privilégios construído graças ao que o autor chama de conluio entre grupos e "parentela".

Cada capítulo permite ver a imoralidade política e a maldade social da elite oligárquica que dirige o país nos Três Poderes ao longo da história, inclusive no quase meio século desde a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988. De tempos em tempos, essa democracia degenerada promove uma falsa adesão social: condecora alguns plebeus com títulos de nobreza sem romper os privilégios aristocráticos. É como se, em vez de abolir a senzala, alguns escravos fossem escolhidos para morar na casa-grande. É o que ocorre com as cotas sociais para dar ingresso de alguns pobres no ensino superior sem que os filhos do povo sejam todos alfabetizados e colocados no mesmo sistema nacional de educação básica com qualidade e equidade.

Ao ler os capítulos sobre como se constrói a práxis oligárquica do conluio e da parentela, o leitor sente um misto de indignação e vergonha ao perceber que somos parte desse conluio e ao refletir sobre como regenerar a democracia. O livro terá papel fundamental para o futuro se os seus leitores se lembrarem que também são eleitores: responsáveis, culpados e capazes de romper a oligarquia dos poderosos, enfrentando a principal causa da degeneração — a desigualdade como a educação separa os filhos do povo dos filhos da elite para perpetuar a democracia oligárquica brasileira.

O pequeno livro de ficção Jogados ao mar transmite essa realidade em um capítulo no qual uma médica, militante no seu sindicato e em um partido de esquerda, demite sua empregada doméstica porque ela reivindicava que seus filhos estudassem na mesma escola que os filhos da patroa. Tanto quanto os trabalhadores brancos na África do Sul, ela faz parte da oligarquia.

A oligarquia sabe que, mais do que a manipulação das leis ou o uso de militares como fantoches, a permanência de seu poder decorre da recusa em oferecer aos próprios filhos a mesma escola destinada aos filhos do povo. A democracia degenerada separa desde o nascimento seus filhos dos filhos do povo — esse é o berço contínuo da desigualdade e segregação. A regeneração da democracia brasileira passa pela adoção de um sistema nacional sem oligarquia escolar, todos com a mesma chance para desenvolver seu talento.

Um bom motivo para se orgulhar: e não é o futebol

Mais uma vez o SUS nos dá motivo para comemorar. Os avanços trazidos pela vacinação no Brasil são muito significativos. O mais impressionante deles é a redução, em 2026, de 52% nos casos de síndrome respiratória aguda grave pelo Vírus Sincicial Respiratório, o VSR, principal causa da bronquiolite — uma queda de mais da metade das internações de bebês pela doença. Isso significa a redução de mortes, sequelas e sofrimento para inúmeras famílias.


Essa grande conquista é atribuída à vacinação das gestantes contra o VSR, indicada a partir da 28ª semana de gravidez. A vacina estimula a produção de anticorpos pela mãe, que são transferidos ao bebê durante a gestação, promovendo sua proteção nos primeiros 5 a 6 meses de vida, quando o risco de casos graves pelo VSR é mais elevado.

A adesão das gestantes foi maciça, algo extraordinário nesses tempos de negacionismo vacinal. Com mais de um milhão de doses aplicadas, a cobertura ficou próxima dos 90%. O resultado: no primeiro semestre de 2026 foram registrados 6.674 casos graves em bebês menores de seis meses (dados do Ministério da Saúde), contra 14.061 no mesmo período de 2025.

É bom lembrar que o SUS também oferece outra arma eficaz contra esse perigoso vírus: o nirsevimabe, um anticorpo monoclonal muito eficaz para evitar casos graves, para prematuros de até 37 semanas e crianças de até 23 meses com comorbidades.

Outro dado que representa uma excelente notícia é a redução progressiva do número de crianças com zero dose de vacina, isto é, que não receberam nenhuma dose da vacina Pentavalente. O número caiu de 360 mil em 2023 para 250 mil em 2024 e apenas 50 mil em 2025 (dados do Unicef – OMS), numa progressão fantástica.

Estamos recuperando nossas altas coberturas vacinais, que sempre nos orgulharam e protegeram nossa população, depois de uma década de queda. A gestão do Ministério da Saúde no governo Lula, a competência das equipes, o combate à desinformação pelo governo, influenciadores e grande mídia, o esforço de secretarias municipais de saúde, entre as quais o Rio se destaca, são fatores que levaram a esse avanço significativo.

O SUS é talvez a maior conquista civilizatória do Brasil. Nenhum país com mais de 200 milhões de habitantes ousou construir um sistema de saúde universal, integral e gratuito — e nós o fizemos. Ele está na vigilância sanitária que protege nossas fronteiras, regulamenta e fiscaliza nossos remédios e alimentos. Está na prevenção e no saneamento, na vacinação que erradicou doenças graves. Vai das equipes de Saúde da Família, que conhecem cada morador e prestam cuidado integral nas comunidades, ao maior sistema público de transplantes do mundo. Vai da unidade básica ao hospital de alta complexidade, do consultório dentário à ambulância UTI do SAMU, do pré-natal à cirurgia mais sofisticada, da farmácia popular à quimioterapia de última geração. Tudo isso sem que o dinheiro se interponha na relação entre quem cuida e quem é cuidado. Muito diferente de países como os EUA, onde uma internação pode significar a falência familiar. O SUS tem problemas: filas, carências, desafios de gestão e subfinanciamento crônico — mas ainda assim é o que garante que a saúde seja direito de todos, e não mercadoria.

Se a seleção brasileira não nos deu motivo de orgulho, é bom lembrar que temos o SUS: uma política pública que cuida, protege, distribui renda, trata e previne doenças, atuando do nascimento aos cuidados paliativos, do individual ao coletivo, à qual têm direito todos os mais de 200 milhões de brasileiros. Apesar das suas falhas, que não poderiam deixar de existir num sistema tão complexo e ambicioso, ele representa uma conquista gigantesca e um motivo de tremendo orgulho para todos nós.

domingo, 26 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Quando a distopia americana de Trump vai além do gênero literário

“Estamos vivendo uma distopia”, comentou um velho amigo radicado há décadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. Pesa em sua avaliação o fato de que os imigrantes latinos são perseguidos nas ruas por agentes federais que atuam como uma verdadeira milícia patrocinada pelo presidente Donald Trump. Mascarados e fortemente armados, eles abordam trabalhadores, cercam bairros, invadem locais de trabalho e detêm pessoas com base na aparência, no sotaque ou na suspeita de situação migratória irregular. Práticas características do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade.


Por causa dessa conversa, aguardo a chegada às livrarias de “Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana”, do jornalista Jamil Chade, cujo lançamento será em agosto. Com prefácio do cineasta Walter Salles, o livro mostra o esgarçamento da democracia nos Estados Unidos entre a campanha eleitoral de 2024 e o início do segundo governo Trump. Chade percorre os lugares onde se espalham o medo, o rancor, a pobreza e a ilusão, de Manhattan à fronteira mexicana, do Madison Square Garden aos abrigos destinados aos deportados.

O resultado é um ensaio jornalístico sobre como as democracias podem sucumbir. A força do livro decorre de sua materialidade. Os fatos aconteceram. As pessoas perseguidas têm nome, família, emprego e endereço. Os agentes que as detêm pertencem ao Estado. As ordens partem da Casa Branca. Os recursos são aprovados pelo Congresso. As deportações aparecem nas estatísticas oficiais, enquanto as ameaças contra universidades, professores, minorias e servidores públicos se transformam em decretos, normas administrativas e decisões orçamentárias. E inibem as denúncias e protestos. Não é ficção literária.

Em “1984” (Camelot Editora), Orwell concebeu um Estado que controlava a sociedade pela vigilância, pela manipulação da linguagem e pela fabricação de inimigos. Trump não criou um Ministério da Verdade, mas construiu um ecossistema político no qual fatos inconvenientes são denunciados como falsos, adversários são apresentados como inimigos internos e a lealdade ao presidente se sobrepõe ao respeito às instituições.

O imigrante é responsabilizado pela criminalidade, pelo desemprego, pela deterioração das cidades e pelas deficiências dos serviços públicos. Produz-se, assim, uma falsa ameaça permanente, para justificar poderes excepcionais e impor o medo à sociedade, como como aconteceu com os judeus na ascensão do fascismo na Itália e na Alemanha.

Segundo levantamento do Migration Policy Institute, 622 mil estrangeiros haviam sido deportados desde a posse de Trump até o fim de 2025, enquanto as detenções realizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, chegaram a cerca de 1.200 por dia. Parte expressiva dos detidos não possuía condenação criminal. Houve também cidadãos norte-americanos presos, separação de famílias, transferências para prisões estrangeiras e tentativas de restringir o direito de defesa. A Suprema Corte precisou reafirmar que até os estrangeiros submetidos à Lei dos Inimigos Estrangeiros têm direito a ser notificados e a contestar sua expulsão.

A distopia americana de Donald Trump não é uma metáfora. O terror político gerado pelas deportações difunde a insegurança entre milhões. Famílias evitam hospitais, escolas, igrejas e repartições por medo de detenções. Trabalhadores deixam de denunciar abusos. Crianças regressam para casa sem saber se encontrarão os pais. Agentes mascarados podem deter as pessoas sem se identificar claramente e levá-lo para lugar desconhecido; para eles, já existe um regime de exceção. Quatro pessoas foram mortas à frente de todos por essa milicia de Trump, duas das quais norte-americanas.

Em “Fahrenheit 451” (Biblioteca Azul), de Ray Bradbury, os livros eram queimados porque preservavam a complexidade, estimulavam perguntas e impediam o pensamento uniforme. Trump não precisa organizar fogueiras em praças públicas. Mas manda retirar livros de bibliotecas, eliminar referências ao racismo, perseguir programas universitários e condicionar recursos federais à adesão ideológica. Trump revogou políticas de diversidade, equidade e inclusão e passou a considerar o combate ao racismo uma forma de discriminação contra os brancos.

Jamil Chade demonstra o absurdo dessa operação ao percorrer o delta do Mississippi, região decisiva para a expansão econômica dos Estados Unidos e profundamente marcada pela escravidão. Em West Helena, no Arkansas, 35% dos cerca de oito mil habitantes vivem abaixo da linha da pobreza. No Mississippi, o estado mais pobre do país, 45% da população estão abaixo da linha de pobreza ou integra os segmentos de baixa renda. A paisagem de casas abandonadas, lojas fechadas e serviços precários não corresponde à prosperidade prometida pelo movimento Maga (Make America Great Again). É o avesso do chamado sonho americano.

Uma família negra recebe anualmente cerca de US$ 30 mil menos do que uma família branca. Há um desmonte da proteção social. A lei orçamentária aprovada em 2025 reduz em mais de US$ 1 trilhão os gastos federais previstos com saúde ao longo de uma década e 10 milhões de pessoas a mais ficarão sem seguro-saúde. Uma guerra cultural fomenta a distopia. Trump produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas são transformados em ameaças aos valores tradicionais. A fé também é instrumentalizada. Deus, pátria e governo estariam unidos num mesmo projeto. O dissidente político passa a ser tratado como inimigo da nação, da família e dos cristãos.

Fingidores de sempre fingem e há quem acredite!

Somos mais fortes do que aqueles que fingem nos governar. O fascismo está em alta nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Não temos consciência da nossa força porque nosso conceito de poder geralmente envolve aqueles que elegemos.

Angela Davis, filósofa e ativista socialista americana

O comunismo dos retardatários

O final do século XVIII foi palco das grandes revoluções no mundo ocidental – a Revolução Industrial na Inglaterra, a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos, também chamada de Revolução Americana. O século XIX assistiu à consolidação da modernidade econômica, social e política – o progresso, o fim das aristocracias absolutistas e o florescimento da democracia. Alheios a essas revoluções, estiveram o Império Russo Czarista, que derrotou Napoleão em 1812; e o Império Chinês, que foi submetido ao Ocidente em meados do século XIX – quero dizer com isso que os conceitos de Revolução Francesa, direitos do cidadão e democracia nunca chegaram a estes confins.

A era da modernidade do século XIX, no Ocidente, foi acompanhada por um intenso processo de urbanização, desestruturação do tecido social, migrações em massa, recorrentes crises econômicas e grandes mobilizações operárias. Em 1848, Karl Marx anunciou o fim do reino da mercadoria, isto é, do sistema na Inglaterra, o país que detinha a hegemonia capitalista internacional; e o nascimento de uma nova era, o socialismo.

O capitalismo, contudo, sobreviveu na Inglaterra e se alastrou pela Europa Continental e pelos Estados Unidos. Friedrich Engels responsabilizou a sobrevida do sistema inglês ao aburguesamento de sua classe operária, por conta da exploração dos trabalhadores do além-mar – uma argumentação terminantemente espúria à teoria de Marx.

No início do século XX foram desintegrados os impérios Austro-Húngaro e Otomano – multiétnicos, multilíngues e multinacionais; e ruíram também os impérios Russo (Revolução Russa de 1917) e Chinês (Revolução Xin Hai de 1911).
O Império Russo

Em 1848, quando Marx considerou que “o capitalismo construiu mais maravilhas para o mundo do que todas as gerações anteriores juntas, incluindo as pirâmides do Egito”, a Inglaterra, com 17 milhões de habitantes, já reunia 50% da população na zona urbana. Em 1917, às vésperas da Revolução, o Império Russo, com 175 milhões de habitantes, constituía uma sociedade essencialmente agrária – apenas 15% de sua população vivia nas cidades.

Vladimir Lenin sonhava em atravessar Varsóvia para se juntar aos comunistas alemães e alcançar Paris, Londres e… Nova York. Mas, concretamente, Lenin e Joseph Stalin, em seu “socialismo real”, se dedicaram, com sucesso, a “desenvolver as forças produtivas” do agrário Império Russo.

Os bolcheviques implementaram a industrialização acelerada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – num ritmo que faria inveja a Frederick Taylor e Henry Ford; e promoveram a coletivização forçada do campo, para garantir o excedente agrícola necessário ao intrínseco processo de urbanização.

Em 1989, depois de transformar o país em uma potência internacional, os bolcheviques foram levados a abrir mão de seus estados satélites no Leste Europeu e, em 1991, dissolver a União Soviética e abdicar do poder na Rússia.

James Baker, secretário de Estado dos EUA, reunido com Mikhail Gorbachev para tratar da reunificação da Alemanha, garantiu que a “OTAN não se moveria uma polegada para o leste”, que os países do extinto Pacto de Varsóvia constituiriam uma zona neutra entre os dois blocos políticos. Mas, com a dissolução da URSS em 1991, a OTAN considerou o acordo sem efeito e não só absorveu o Leste Europeu, como passou a contemplar a Ucrânia também.

Distrito financeiro de Lujiazui em Xangai

A China, às vésperas da Revolução de 1949, com 540 milhões de habitantes, constituía uma sociedade ainda mais rural do que o Império Russo em 1917 – apenas 10% de sua população vivia nas cidades. A República Popular da China também se empenhou em “desenvolver as forças produtivas” da agrária sociedade chinesa.

Entre 1958 e 1962, promoveu o Grande Salto Adiante, em um período de crise e fome que levou milhões à morte. Após a radical e violenta Revolução Cultural (1966-1976), o Partido Comunista da China – PCCh, nos anos 1980 e sem abrir mão do poder, resolveu mercantilizar a economia, valorizar os mecanismos de mercado, iniciativa privada, empreendedorismo, competitividade e abertura da China ao investimento capitalista internacional.

A indústria chinesa atraiu o capital estrangeiro e invadiu o mundo com mercadorias descartáveis – produzidas por disciplinados trabalhadores com baixo nível de consumo – e taxas de câmbio administradas. A China industrializou-se, generalizou a mercadoria e, em recordes 40 anos, deixou de ser um país pobre para, com tecnologia de ponta, se transformar na maior economia do planeta, o país que detém hoje a hegemonia internacional do capital.

A mercadoria não tem preconceitos de “raça”, cultura, gênero etc. O capitalismo industrial, a partir da Inglaterra, generalizou a mercadoria pelo mundo, além de incluir as mulheres no mercado de trabalho, emponderando-as e libertando-as da condição de procriadoras.

Nas sociedades agrárias russa e chinesa, particularmente, o processo de mercantilização da economia – industrialização, urbanização, modernização e desestruturação da sociedade rural tradicional para garantir o excedente agrícola – foi propiciado pela ascensão dos comunistas ao poder.

Os campônios, que representavam 85% da população no Império Russo e 90% da população na China, se aliaram aos comunistas para se livrarem da exploração dos senhores de terra – para descobrirem, mais tarde, que foram traídos, que teriam que elevar ainda mais o seu excedente agrícola – de modo a alimentar a industrialização de seus “retrógrados” países e propiciar “o desenvolvimento das forças produtivas”.

A mercadoria é democrática – a hegemonia capitalista mundial passou da Inglaterra no século XIX para a “inculta” sociedade norte-americana no século XX; e desta para “os china” no século XXI. Para se ter uma ideia dos direitos dos trabalhadores na atualidade, seguem o corrente número de horas semanais e o direito a férias em alguns países selecionados.

Na Inglaterra, a jornada de trabalho é de 37 a 40 horas, com 4 semanas de férias ao ano; na Alemanha, 35 a 40 horas de trabalho e 4 semanas de férias; e na França, 35 horas de trabalho e 5 semanas de férias. Na Rússia são 40 horas de trabalho e 4 semanas de férias.

Nos Estados Unidos, a jornada é de 40 horas, mas as férias não são regulamentadas; empresas costumam oferecer férias do tipo 1 semana nos primeiros 5 anos de trabalho, 2 semanas de 5 a 10 anos, 3 semanas de 10 a 20 anos e 4 semanas após 20 anos de serviço (a contagem do tempo de trabalho para efeito das férias recomeça do zero a cada novo emprego). Na China, legalmente, são 44 horas e 1 semana de férias nos primeiros 10 anos de trabalho, 2 semanas de 10 a 20 anos e 3 semanas após 20 anos de serviço.

A China garante hoje um sofisticado consumo à elite e uma situação financeira bastante confortável à classe média urbana, enquanto 800 milhões entre os 1,4 bilhão de habitantes sobrevivem com restritos direitos trabalhistas e sociais – 450 milhões de camponeses na zona rural e 350 milhões de migrantes urbanos e principalmente rurais que vivem e trabalham em cidades na qualidade de cidadãos de segunda classe.

A extremamente autoritária e eficiente República Popular, embora declare como ilegal, “não consegue” livrar a China dos regimes 996 e 997 (doze horas de trabalho, das 9h às 21h, 7 dias por semana). Em 2020, uma empresa de entregas, que demitiu um funcionário que se recusou a cumprir a jornada 996, foi condenada a pagar uma indenização de 8.000 yuans ao trabalhador (equivalente a um mês de trabalho). A empresa também “recebeu advertências”, porque suas normas e regulamentos exigiam 72 horas semanais (28 horas excedentes às 44 horas legais) e 120 horas extras ao mês (84 horas excedentes às 36 horas-extras legais).

Apesar da ridícula indenização determinada pela justiça, o Supremo Tribunal Popular e o Ministério de Recursos Humanos e Seguridade Social divulgaram este caso como paradigmático. O mais significativo, entretanto, é que o governo não se declara contra as prolongadas jornadas simplesmente por serem insanas, mas também por privarem os trabalhadores exaustos de constituírem um mercado de consumo em condições de aquecer a economia do país, de acordo com o Plano de Ação Especial para Impulsionar o Consumo – o que confirma que a mercadoria, soberana, rege hoje a sociabilidade da milenar civilização chinesa.

As grandes marcas e grifes internacionais, que alimentam a elite mundial e, particularmente, a elite chinesa, também gostariam de ampliar o seu mercado consumidor e aquecer a economia da China – anseiam por lançar uma linha “mais popular” e acessível para contemplar os 490 milhões de chineses da classe média. Contudo, estão empenhadas neste projeto com muito cuidado para não melindrar a elite (e acabar perdendo este seu mercado cativo).

Mais que nunca, pensar

A IA anda à procura de filósofos. Dez anos atrás, segundo um boletim repercutido pelo The New York Times, recomendava-se a estudantes em ciências sociais e filosofia aprender programação de computadores se quisessem conseguir empregos no futuro.

Pesquisas recentes indicam, entretanto, que a empregabilidade é cada vez maior entre graduados em estudos culturais e filosofia. Em nada diminuiu a importância da programação, mas já é função assumida pelas próprias máquinas. Elas fazem de tudo na lógica dos números, só não pensam.


Mas as máquinas deixam claro que a existência ultrapassa a lógica, impotente no incessante transformar-se do mundo, onde se mostram apenas a existência e a realidade. Em outras palavras, a razão que faz funcionar a inteligência artificial não é a mesma do pensamento essencial fragmentação da vida, ao mistério do mundo, que é a cultura. Jorge Luis Borges bem o viu: "A solução do mistério é sempre inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e do divino; a solução, do jogo manual" (em "O Aleph").

Nenhum esoterismo nessa ideia de mistério. É só uma palavra para o que se oculta no movimento de aparecer e velar da physis, a natureza. Místico é o que se esconde, o que aciona a criatividade de toda cultura. Para isso, é preciso especular, imaginar, pesquisar, seja com as artes do pensamento, da criação ou do trabalho científico.

Tudo disso difere da combinatória dos saberes armazenados para resolver problemas práticos e imediatos. É o que Borges chama de "jogo manual", hoje uma interação com o hardware dos computadores. Num software, o logaritmo é mera sequência lógica de caminhos para dar solução rápida a determinada questão. É funcionamento de máquina, não pensamento ou busca de sentido para as coisas.

Mas há criações humanas que, sem serem meras combinações do já dado, prescindem de sentido. É o caso da música, que engendra o seu próprio real. Igualmente, a matemática, que tem rigorosa coerência, mas não sentido, e se aproxima da linguagem da physis: "O livro da natureza está escrito em linguagem matemática" (Galileu Galilei).

É assim que a matemática, indo além da medição, pode ensejar a construção de mundos, que não apenas replicam a realidade, mas produzem novos universos conceituais. E com todo o seu rigor, costeia a mística. O jovem indiano Ramanujan, um dos maiores matemáticos do século passado, atordoou os luminares britânicos ao revelar que suas complexas equações lhe eram sopradas em sonho por uma divindade familiar.

Agregadas como pensamento, matemática, música, ciências da natureza e do homem mostram que a redução da complexidade da vida à eficácia produtiva e ao consumo é efeito de uma programação neoliberal capaz de levar ao emburrecimento do mundo.

A soberania tecnológica de uma nação depende hoje de IA, mas não resulta da importação de modelos lógicos avançados, e sim de pensamento próprio, de universidades que respirem como territórios livres. Pensar, singularidade humana, não virá salvar apenas empregos, mas a nossa própria espécie.

Eleição entre soberania e entreguismo, ordem e desordem. Milei: o lixo

O esforço dos Estados Unidos de interferir no processo eleitoral brasileiro em favor de Flávio Bolsonaro não é mais nem uma possibilidade nem uma hipótese: trata-se de uma realidade. E, como os fatos também revelam, a operação é conduzida em parceria com a família Bolsonaro, a começar do próprio candidato, sob a orientação, digamos, ideológica de Eduardo e Paulo Figueiredo — Pinky e o Cérebro do intervencionismo.

Como revelou o jornal “The Washington Post”, Marco Rubio queria despachar um par de funcionários para vir ao Brasil com o intuito de pôr em dúvida a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Trata-se de Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente do Departamento de Estado. Os respectivos pedidos de visto já foram negados pelo Itamaraty.

A notícia vem a público três dias depois de Flávio participar de um seminário em Brasília, na terça, em que repetiu as acusações falsas de seu pai, o golpista condenado Jair Bolsonaro, às urnas eletrônicas. Nesta quinta, foi a vez de Eduardo participar de uma live, em companhia de Fernando Cerimedo, o picareta argentino que inventou uma teoria conspiratória sobre a totalização dos votos em 2022, para acusar vulnerabilidade no sistema eleitoral e sugerir que houve fraude naquela eleição.

“Argentino Picareta”? Javier Milei discursou há pouco na Convenção do PL que oficializou o nome de Flávio à Presidência. Nesta sexta, o agora candidato do partido publicou nas redes um vídeo feito por IA em que ambos chegavam ao estádio do Pacaembu, em São Paulo, pilotando caças. A Argentina — então Províncias Unidas do Rio do Prata — não invade solo brasileiro desde a Batalha do Passo do Rosário (ou de Ituzaingó, com a chamam  os “hermanos”), em 20 de fevereiro de 1827. Agora temos essa cortesia de Flávio, ainda que no território da fantasia.

É grotesco. O “Leão”, como Milei chama a si mesmo, contrastando a mixuriquice de seus dotes físico e moral com a majestade do bicho, falou contra uma suposta ameaça socialista e, ao lado do Zero Um, dançou ao som de “Panic Show”, da banda La Renga, como faz em todos os seus eventos — à revelia da vontade do grupo, note-se:

“Olá a todos! Eu sou o leão
A fera rugiu no meio da avenida
Todos correram sem entender
Show de pânico em plena luz do dia
Por favor, não fujam de mim
Eu sou o rei de um mundo perdido
Eu sou o rei e eu vou te destroçar
Todos os cúmplices são do meu apetite
Não fuja! Venha a mim
Fique desnudo e enfrente meus dentes
Eu sou o rei, o leão
Venha saber como é”.

O vídeo circula por aí. Não parece coisa de gente que transita clinicamente no vasto orbital da normalidade.

Quando os EUA impuseram a tarifa de 25% a parte dos produtos brasileiros, mais uma das delicadezas do Imperador do Norte impostas a nosso país com o patrocínio interno da família Bolsonaro, Rubio houve por bem desferir um ataque a Lula nas redes, descontente porque o presidente brasileiro não assentiu em se comportar como um estafeta do império, o que Flávio lhe prometeu numa carta pessoal e num documento de 84 páginas enviado ao Escritório de Representação Comercial (USTR).

Rubio emprestava um viés político àquilo que é parte da guerra comercial de Washington contra o… mundo, o que se confirma com a tarifa adicional de 12,5%, esta imposta a 59 países mais a União Europeia. Donald Trump elegeu o planeta como alvo, mas é evidente que o Brasil vive uma circunstância particular.

A investida protecionista e, a rigor, anticapitalista de Trump não encontra eco entre seus aliados ideológicos em nenhum outro país do mundo. Ele costuma ser até bem desagradável com aqueles que compartilham alguns de seus valores ideológicos. Há, no entanto, duas exceções: o Brasil e a Argentina.

Por aqui, a família Bolsonaro, que tem a hegemonia da extrema direita e fagocita parte considerável da direita amorfa, aceita ser o instrumento da tentativa de tomar de assalto a economia. Assim, a presença de Milei, outro esbirro do trumpismo, é apenas uma ilustração cômica, apalhaçada, da subserviência e do entreguismo. Eduardo já ganhou o “green card” como gorjeta. Imaginem quanto pode render a concessão das terras raras e do Pix — ainda que de forma maquiada —a seus patrões caso Flávio vença a eleição.

Os setores da indústria e do agro que se engraçavam, ou se engraçam ainda, com Flávio fiquem espertos. A depender do resultado da eleição, preparem-se para atuar como meros agentes de um novo “Pacto Colonial”.

Tudo está devidamente exposto. Nem chega a haver opinião neste texto. Listo evidências apenas. E, se alguém achou exagerada a interpretação que deu o Itamaraty à classificação das organizações criminosas como terroristas, alertando para o risco óbvio de invasão do território brasileiro — o que as leis norte-americanas facultam —, bem, a esta altura, creio, caberia uma reconsideração. Os dois funcionários de Rubio falam por si. Ademais, tal designação permite que a CIA realize operações secretas em nome da… segurança dos EUA.

Você não gosta de Lula e do PT? É parte do jogo democrático. Cada um escolha o seu sonho e o seu voto. O que resta inequívoco, e isto não depende nem da minha vontade nem da sua, é que a eleição de outubro se dará entre forças que representam a soberania — e não excluo que equívocos se cometam em seu nome; também isso é do jogo — e as forças mais escancaradas do entreguismo.

Se a soberania pode se equivocar, o entreguismo, do seu ponto de vista, não se equivoca nunca: está sempre a serviço da intervenção e dos seus próprios interesses mesquinhos. No primeiro caso, pode-se fazer uma correção de rota; no segundo, firma-se o pacto com a destruição do país. Sem retorno.

Em seu discurso, Milei nos brindou com esta frase de suposto requinte intelectual:

“O Brasil pode se somar à transformação regional que, nos últimos anos, levou a América Latina a deixar de ser uma região associada à miséria romantizada, retratada por certas obras de realismo mágico, para se tornar um sinônimo de progresso. Creio firmemente que não há outro caminho capaz de afastar o risco que paira sobre o Brasil, como uma ‘Espada de Dâmocles'”.

A literatura latino-americana, com efeito, é rica no chamado realismo mágico, que não fez fortuna crítica no Brasil. Nossa impressionante riqueza literária segue por outros caminhos — e deixo isso para outra hora. O presidente argentino, fica claro, não entende nada dessa corrente: trata-se, não raro, da denúncia da miséria, não da sua romantização. As elites retratadas em tom crítico, muitas vezes fantasmagórico, são precisamente as forças a que se aliam Milei e Flávio. Acerta ao dizer que há uma “Espada de Dâmocles” (pesquisem a respeito depois) sobre o Brasil. E ela é representada hoje por aqueles que atentam contra a sua independência e a sua liberdade.

Milei referiu-se a Alexandre de Moraes como “o lixo Careca”. Tem-se aí mais um evento inédito: um chefe de Estado de país estrangeiro refere-se a um membro do Supremo Tribunal Federal em termos obviamente inaceitáveis, numa outra evidência de uma articulação de forças estrangeiras contra a autonomia do Brasil — e, como resta evidente, em parceria com os Bolsonaros.

O lixo intervencionista vai se acumulando. A eleição, assim, não se dá apenas entre soberania e entreguismo. Também se trata de escolher entre as forças da ordem institucional e as da desordem.
Reinaldo Azevedo

sábado, 25 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Todo poder corrompe

No ano passado, os norte-americanos colocaram no mercado internacional produtos agropecuários no valor de US$ 171 bilhões. O Brasil, no mesmo período, exportou US$ 169 bilhões. Pela primeira vez, em quase um século, os Estados Unidos estão ameaçados de perder a hegemonia no fornecimento de produtos da terra ao resto do mundo. Essa inversão de posições deve-se ao laborioso trabalho da Embrapa no Brasil e às sobretaxas impostas por Trump desde seu primeiro mandato. Ele taxou fortemente produtos chineses. Pequim retaliou. Taxou produtos norte-americanos e deixou de comprar no mercado dos Estados Unidos. Passou a realizar suas encomendas no Brasil.



Os fazendeiros do Meio-Oeste dos Estados Unidos estão inquietos. Reclamam de seu governo, sofrem com o desaparecimento dos principais fregueses e dos lucros que estão se transformando em prejuízo. Resta a Donald Trump perseguir o caminho único de sua obsessão: aumentar tarifas e interferir no comércio internacional. Os resultados não favorecem seus objetivos. Ele já enfiou bilhões de dólares no conflito com o Irã, que provocou elevação dos preços do petróleo em todo o mundo. E despertou a vocação belicista dos persas que começaram a bombardear as instalações norte-americanas em todo o Oriente Médio. As tropas do Tio Sam não mais são capazes de defender seus aliados. Prejuízo sobre prejuízo.


Há motivos político-eleitorais e econômicos para justificar a aplicação de tarifas sobre os produtos brasileiros. Os norte-americanos estão perdendo em segmentos da economia em que trabalhavam sem concorrência. O cenário mudou. O candidato Flávio Bolsonaro não entendeu o quadro que está à sua frente. Ele, a exemplo do pai, tenta colocar a urna eletrônica no centro do debate político. O mesmo erro cometido por Jair. Flávio é senador, eleito por intermédio do sistema brasileiro de votação eletrônica. Ele não contestou a própria eleição. Perde tempo. Não apresentou uma única linha de seu hipotético programa de governo, se existir. A economista Daniella Marques, candidata a ser o posto Ipiranga de um hipotético governo Flávio, passou pela maratona de conversas com representantes do setor financeiro em São Paulo.

Ela conhece os caminhos. Mas ouviu o que não queria. Seus interlocutores, com maior ou menor clareza, afirmaram que seu problema está no candidato. Ou seja, Flávio, que vai sendo colocado à margem por vários partidos. Teresa Cristina, senadora, convidada para ser candidata à vice-presidência, de maneira educada, pediu para esquecerem dela. Na outra ponta, José Sérgio Gabrielli, também percorreu os escritórios na Faria Lima para defender o governo atual. Apresentou argumentos em favor da maior participação de empresas estatais e do próprio governo na economia nacional. Foi um desastre.

O panorama eleitoral brasileiro é construído por contradições espantosas. O candidato de oposição, segundo as pesquisas, não tem chance de vencer no primeiro turno. Ele é fortemente rejeitado pela maioria e até pelo pessoal de centro-direita. Lula carrega também enorme rejeição. Contudo, no eventual segundo turno, Lula aparece empatado com seus concorrentes, sempre segundo as pesquisas. Esse fenômeno aponta para outra direção: o antipetismo é muito forte no país. Quem conseguir chegar ao segundo tempo da eleição, terá chances de vencer o pleito.

A ideologia do governo Lula está estacionada em algum momento dos anos 70. Sua fórmula populista se esgotou. Ele elevou o endividamento do país e não solucionou problemas básicos de habitação, de educação e de infraestrutura. Há grande número de projetos burocráticos que sustentam o noticiário político, mas não chegam à mesa do brasileiro. O Brasil do século 21, com seus 158.745.463 eleitores, apresenta outros desafios. Ainda há um número expressivo de analfabetos no país. Ao mesmo tempo, a sociedade precisa de profissionais qualificados para enfrentar os caminhos do difícil comércio internacional.

Dois exemplos estão absurdamente nítidos. Brasileiros de quaisquer quadrantes deveriam olhar para o que está ocorrendo nas Américas. Cuba, ícone do comunismo tropical, mudou radicalmente. Passou a admitir capital privado em todos os níveis de sua economia. O país quebrou, há cortes de energia que duram mais de 12 horas. A comida e o combustível estão escassos. Hospitais funcionam de maneira precária. A solução encontrada em Havana foi privatizar o possível.

Ao contrário, Daniel Ortega, na Nicarágua, decidiu por vontade própria cancelar as eleições em seu país "para evitar que a oposição tome o poder". Extinguiu a democracia. Ele, velho comunista, tomou o poder de um ditador, Anastásio Somoza, em 1979, para livrar o país da ditadura. Mas reproduziu o que havia antes. Todo poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.

Bets: a pandemia do século

Meu primeiro contato com uma plataforma de apostas ocorreu durante a Copa do Mundo de 2022. Inicialmente, depositei R$ 10 na conta, valor que logo se transformou em um aporte de R$ 20, e assim sucessivamente. Ao fim da competição, meu dinheiro havia se dissipado como um grão de areia levado pelo vento do deserto do Catar, palco daquele torneio. O valor relativamente pequeno que desapareceu em um piscar de olhos da minha conta bancária – cerca de R$ 150 – foi suficiente para me fazer abandonar de vez a jogatina. Infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos brasileiros atraídos pelos jogos online e por mais uma edição do maior evento futebolístico do planeta.

Quatro anos depois da minha estreia no sórdido universo das apostas, pouca coisa mudou. A CazéTV, única emissora do país a transmitir os 104 jogos da Copa do Mundo de 2026, esteve no centro das discussões devido ao bombardeio de propagandas de plataformas de apostas ao longo das transmissões.

A repercussão foi tamanha que o Ministério da Justiça abriu uma investigação para apurar indícios de publicidade abusiva de plataformas de apostas na CazéTV, levando a emissora a adotar novos formatos para esse tipo de divulgação. Em paralelo, o Ministério da Fazenda editou novas regras para a publicidade do setor. As peças publicitárias passaram a ser acompanhadas de advertências, em modelo semelhante ao adotado para propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas.F


Os tentáculos da jogatina no futebol não se restringem à Copa do Mundo. No Campeonato Brasileiro, é praticamente impossível assistir a uma partida sem se deparar com a publicidade dessas empresas, seja nas placas ao redor do gramado, nas inserções durante a transmissão, nos intervalos ou, ainda mais frequentemente, estampada na parte “master” das camisas dos clubes por meio de contratos milionários. Para se ter uma ideia, segundo levantamento da Folha de S.Paulo, um telespectador tem mais chances de ver anúncios de casas de apostas do que a bola rolando no Brasileirão. O veículo analisou 22 transmissões da edição de 2025 em diferentes canais com direito de transmissão.

Como se isso não bastasse, alguns dos principais jogadores (em atividade ou não) e jornalistas esportivos brasileiros são patrocinados por essas empresas, caso do narrador Galvão Bueno (Betnacional) e dos atacantes Vinícius Júnior (Betnacional) e Neymar (Blaze), ambos convocados por Carlo Ancelotti para a disputa do Mundial realizado no Canadá, México e Estados Unidos. Lucas Paquetá, outro atleta chamado para a seleção e atualmente no Flamengo – clube patrocinado pela Betano –, chegou a ser investigado por suposta manipulação esportiva quando defendia o West Ham, atualmente patrocinado pela BOYLE Sports, outra empresa do setor.

Quando se fala em apostas online, existem diferentes modalidades. Há aquelas que dependem da previsão de resultados ou acontecimentos esportivos – como o placar exato de uma partida, número de escanteios ou cartões recebidos por determinada equipe – e as baseadas em algoritmos, popularmente associadas ao “Jogo do Tigrinho” (Fortune Tiger). Semelhantes aos caça-níqueis, elas funcionam de maneira ainda menos transparente. Em comum, todas compartilham o mesmo objetivo: fazer o usuário perder dinheiro, mas continuar jogando por acreditar que, uma hora, receberá uma bolada.

Em dezembro de 2024, a revista piauí lançou luz sobre a explosão das bets ao publicar uma extensa reportagem, que mostrava como a expansão da jogatina virtual foi impulsionada pela publicidade de influenciadores com milhões de seguidores nas redes sociais. A matéria revela, por exemplo, que a empresária Virgínia Fonseca, hoje com mais de 56 milhões de seguidores, foi uma das maiores beneficiadas pelos cachês milionários pagos por empresas do setor para divulgação.

Pouco antes da publicação da reportagem, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), no Senado Federal, para investigar o impacto das apostas virtuais e dos jogos de azar no orçamento das famílias, sua possível associação com organizações criminosas e o papel desempenhado por influenciadores digitais na promoção dessas plataformas. Em maio, quando Virgínia prestou depoimento à comissão, o circo já estava armado. A melhor demonstração da galhofa veio do senador Cleitinho (PL-MG), que pediu um vídeo da influenciadora para sua família.

No fim das contas, o relatório final da CPI foi rejeitado em junho de 2025, e tudo acabou em pizza. Quem pagou essa conta, literalmente, foi a população.

Não chega a surpreender que o setor de apostas online conta com um lobby robusto e bem articulado em Brasília. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, alterna sua agenda entre os corredores do Congresso, viagens a Courchevel, na França, ao lado de seu “irmãozão”, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e viagens luxuosas à ilha de Saint Martin, paraíso fiscal no Caribe, na companhia de Fernandin OIG, apontado, em outra apuração da piauí, como um dos responsáveis pelo “Jogo do Tigrinho”

No Brasil, as empresas de apostas passaram a ter respaldo legal em 2018, durante o governo Michel Temer. No entanto, somente em 2023, já na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, o setor foi regulamentado, com a definição de regras para operação, fiscalização e tributação.

Para atuar legalmente no país, essas empresas precisam obter autorização do Ministério da Fazenda mediante o pagamento de uma licença com prazo de validade determinado. Além disso, devem recolher tributos e cumprir uma série de exigências regulatórias. Com a regulamentação, o governo passou a bloquear e suspender plataformas que operavam sem autorização ou em desacordo com as novas normas, as chamadas bets ilegais. Na prática, porém, muitas dessas plataformas fraudulentas continuam operando irregularmente.

Nesse jogo contra a indústria das apostas, o brasileiro está perdendo de goleada. Desde o início da Copa do Mundo de 2026, mais de um terço da população enviou dinheiro para plataformas do setor. Os números revelam um cenário alarmante: comprometimento da renda, adiamento de projetos de vida, endividamento, impactos sobre a saúde mental e desenvolvimento de comportamentos compulsivos relacionados ao jogo. Para se ter uma ideia, quem seguiu as sugestões de narradores e comentaristas da CazéTV – vale lembrar, a única emissora a transmitir todos os jogos da competição — perdeu dinheiro em quase 61% das apostas, segundo levantamento do ICL Notícias.

O problema pode ser ainda maior. De acordo com dados da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), 34% dos brasileiros entre 18 e 35 anos que ingressariam em uma graduação em 2025 precisaram adiar esse projeto por terem gasto seu dinheiro com plataformas de apostas e cassinos virtuais. A expectativa também é de novo encolhimento das receitas no setor de serviços, já que uma parcela cada vez maior da renda disponível deixa de ser destinada à indústria e ao comércio para ser destinado para casas de apostas.

Em ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a endurecer o discurso contra o setor. Lula afirmou que, se a decisão dependesse exclusivamente dele, acabaria com as bets. A declaração foi interpretada como um aceno ao eleitorado feminino, que tem defendido medidas mais rígidas para conter o avanço dessas empresas.

Uma das iniciativas mais interessantes para combater o vício em jogos de azar foi a criação do serviço de autoexclusão. Por meio dele, qualquer cidadão brasileiro pode restringir voluntariamente o próprio acesso às plataformas autorizadas pelo governo. Apesar do caráter preventivo, a ferramenta apenas mitiga um problema que ainda está muito longe de ser solucionado. (Até o momento, quase 700 mil pessoas já recorreram ao mecanismo de autoexclusão de casas de apostas).

Sejam relacionadas a eventos esportivos ou a jogos baseados em algoritmos, essas plataformas contam com sofisticadas estratégias de publicidade. Se, em um primeiro momento, sua presença estava concentrada nas transmissões de futebol e nas redes sociais de influenciadores com milhões de seguidores, hoje ela se espalhou pelos mais diversos espaços da vida cotidiana. Festivais culturais e eventos tradicionais, como as festas de São João e o Carnaval, passaram a contar com o patrocínio dessas empresas, ampliando sua exposição e naturalizando sua presença no imaginário popular.

Essa pandemia também se espalhou pelo transporte público das grandes cidades. Não é raro encontrar anúncios em trens, metrôs e ônibus com QR Codes que direcionam o passageiro diretamente para plataformas de apostas, oferecendo “bônus”, “rodadas grátis” e outras “vantagens” – entre aspas, mesmo – para atrair novos usuários. Considerando que os brasileiros que utilizam transporte público nas capitais passam, em média, cerca de duas horas por dia em deslocamentos, isso representa quase 120 minutos diários de exposição a estímulos cuidadosamente planejados para seduzir potenciais apostadores e alimentar um comportamento que pode evoluir para o vício. De maneira, no mínimo, sádica, todas essas campanhas vêm acompanhadas do clichê “jogue com responsabilidade” – como se o vício pudesse ser controlado apenas pela força de vontade. A advertência passou a ser obrigatória após a regulamentação do setor promovida pelo governo Lula.

As bets funcionam como uma droga: estão disponíveis 24 horas por dia, ao alcance de um celular, impulsionadas por campanhas publicitárias, influenciadores digitais e pela exposição constante nos meios de comunicação. Como definiu o escritor Sérgio Rodrigues, em coluna publicada na Folha de S.Paulo, “criar uma rede nacional de milhões de cassinos de bolso legalizados e abertos 24 horas não é tão diferente de vender crack no horário nobre”.
Guilherme Loureiro