domingo, 6 de setembro de 2026
Relatos de puro espanto
Espanto ou estupefação: a escolha da palavra fica a cargo da parcela crítica do público disposto a avaliar uma notícia recente em alguns veículos de mídia. Trata-se da narrativa em que Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução, mas, compungido, lamenta ter assassinado os dois únicos inocentes em sua carreira de crimes. E o público, nada menos que estupefato, ainda fica sabendo que ele não matou mil pessoas, como teriam insinuado. Foi menos, mas poderia ser muito mais, fosse feita a conta de ações conjuntas com a polícia.
Horripilante, esse relato evoca Jean-Jacques Rousseau em "A Nova Heloísa" quando menciona um jeito de "negar o que é, e de explicar o que não é". A negação permite manipular a percepção plena de algo que existe, para naturalizar o lado obscuro dessa existência. É quando a explicação serve para confundir, como diz o compositor Tom Zé.
"Negar o que é" equivale a desconversar sobre uma estrutura sociopolítica criminosa emergente no território fluminense a partir da infiltração do velho caciquismo, com os vícios de políticas interioranas, nos aparelhos de Estado. São amostras o parentesco e o compadrio das alianças partidárias, mas igualmente a reconfiguração dos antigos capangas como matadores profissionais. A indiferença aos direitos humanos por parcelas expressivas da sociedade é fator de expansão desse fenômeno, com vezos de autonomia: o "escritório do crime", horror público.
Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia. Abordou o fato como fait-divers, isto é, notícia curiosa que rompe a normalidade cotidiana, e aí ficou, sem relacioná-la à estrutura criminosa que se mantém de pé. Ao mesmo tempo, entretanto, acendeu holofote continuado sobre um incidente universitário, em que alunos agrediram outro por suposto uso de insígnia nazista. Numa das matérias, chegou-se a comparar com o linchamento fatal de um ciclista em Copacabana.
O fato é condenável, não se discute, nem se justifica manifesto de docentes em apoio a agressores. Mas a atitude imediata do reitor Roberto Medronho, um dos melhores nesses tempos de carência por que passam as instituições públicas de ensino e pesquisa, foi exemplar: abriu sindicância, deu entrevista clara, os responsáveis serão avaliados. Não foi ato de uma "esquerda" imaginária encarnada: tratou-se mesmo de inaceitável violência por parte de adolescentes exaltados, no âmbito da UFRJ. Daí ser também espantoso o persistente foco da mídia carioca sobre o assunto, simultâneo e minimizador do relato do pistoleiro. Universidade pública pode ser alvo empresarial mais impactante.
Quando se pensa em "jornalismo do futuro", conviria ser incorporada a definição por Machado de Assis de jornal como "a verdadeira forma da república do pensamento" (em "O Jornal e o Livro"). Sim, diante da metástase eletrônica da informação desinformativa, o bom jornalismo ainda é "expressão, um sintoma de democracia". Nunca foi tão crucial a reflexão responsável sobre o que se ouve e publica.
Horripilante, esse relato evoca Jean-Jacques Rousseau em "A Nova Heloísa" quando menciona um jeito de "negar o que é, e de explicar o que não é". A negação permite manipular a percepção plena de algo que existe, para naturalizar o lado obscuro dessa existência. É quando a explicação serve para confundir, como diz o compositor Tom Zé.
"Negar o que é" equivale a desconversar sobre uma estrutura sociopolítica criminosa emergente no território fluminense a partir da infiltração do velho caciquismo, com os vícios de políticas interioranas, nos aparelhos de Estado. São amostras o parentesco e o compadrio das alianças partidárias, mas igualmente a reconfiguração dos antigos capangas como matadores profissionais. A indiferença aos direitos humanos por parcelas expressivas da sociedade é fator de expansão desse fenômeno, com vezos de autonomia: o "escritório do crime", horror público.
Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia. Abordou o fato como fait-divers, isto é, notícia curiosa que rompe a normalidade cotidiana, e aí ficou, sem relacioná-la à estrutura criminosa que se mantém de pé. Ao mesmo tempo, entretanto, acendeu holofote continuado sobre um incidente universitário, em que alunos agrediram outro por suposto uso de insígnia nazista. Numa das matérias, chegou-se a comparar com o linchamento fatal de um ciclista em Copacabana.
O fato é condenável, não se discute, nem se justifica manifesto de docentes em apoio a agressores. Mas a atitude imediata do reitor Roberto Medronho, um dos melhores nesses tempos de carência por que passam as instituições públicas de ensino e pesquisa, foi exemplar: abriu sindicância, deu entrevista clara, os responsáveis serão avaliados. Não foi ato de uma "esquerda" imaginária encarnada: tratou-se mesmo de inaceitável violência por parte de adolescentes exaltados, no âmbito da UFRJ. Daí ser também espantoso o persistente foco da mídia carioca sobre o assunto, simultâneo e minimizador do relato do pistoleiro. Universidade pública pode ser alvo empresarial mais impactante.
Quando se pensa em "jornalismo do futuro", conviria ser incorporada a definição por Machado de Assis de jornal como "a verdadeira forma da república do pensamento" (em "O Jornal e o Livro"). Sim, diante da metástase eletrônica da informação desinformativa, o bom jornalismo ainda é "expressão, um sintoma de democracia". Nunca foi tão crucial a reflexão responsável sobre o que se ouve e publica.
Debatemos ideias, não abatemos pessoas
Passei a última semana no Rio de Janeiro por conta da estreia da minha aula-espetáculo no Teatro Axia Casa Grande. A oportunidade de voltar à cidade por um longo período me deu a chance de acompanhar de perto o cotidiano da Zona Sul. Algumas coisas seguem como sempre foram.
Em um café no Leblon, uma senhora insistia em me oferecer um santinho com os dados do seu candidato. Em cinco minutos, uma outra apareceu com a camisa tomada de broches e adesivos do adversário. Na mesa ao lado, pai e filha não discordavam sobre seus votos, mas se divertiam vendo memes de candidatos e riam dos jingles políticos do momento. É o tempo da política. E a política, aqui, se faz assim.
Moacir Palmeira e Beatriz de Heredia, antropólogos com larga experiência em disputas eleitorais, nos lembram que “o tempo da política” é mais do que uma expressão rotineira, comum na boca do povo. É quando se instala uma fratura temporária no tecido social e uma completa reorganização das relações, de maneira que os projetos políticos se materializem na paisagem, nos encontros e nas pessoas.
É nesse intervalo temporal que nos dividimos, nos aglutinamos em novos formatos, colocamos bandeiras ou toalhas temáticas nas janelas, vestimos as cores dos candidatos e assumimos identidades coletivas, misturadas a valores partidários. É quando não se fala de política como um domínio ou uma esfera, mas se faz política. Nessas horas, é comum que as preferências se imponham sobre as relações familiares ou que um abismo surja entre velhos amigos. Por semanas, nos afastamos da tradicional rotina de encontros em nome de outros vínculos que nos parecem ter mais sentido no hoje.
Esses são momentos contraditórios por si só. Afinal, se as eleições são um convite para que a nação (o todo) pense sobre quais rumos deseja seguir, para dar cabo desse objetivo somos obrigados a nos dividir, nos opor, rivalizar, disputar e romper com os nossos.
Para que a fratura não fuja do controle, é preciso estarmos atentos a dois elementos fundamentais: de um lado, a crença de que o “tempo da política” tem de ter fim e vamos ter a sociedade em debate em torno de um projeto vencedor; do outro, a percepção compartilhada de que, na política, debatemos ideias, não abatemos pessoas.
Desde os gregos, como nos lembrou Hannah Arendt, a política sempre foi o lugar no qual os indivíduos se reuniam, expunham suas visões de mundo distintas e se organizavam para decidir juntos, sem precisar lançar mão de socos e pontapés. É onde, apesar das divergências pessoais, nos damos conta de que há algo maior que nos une e nos impede de romper com os outros para todo o sempre.
Ou, como ouvi Ailton Krenak dizer em um podcast, a política é o ato entre um bofetão e um argumento. É aquele lugar no qual, diante de uma diferença abissal, percebemos que precisamos desses mesmos outros para viver. Com isso, em vez de lançarmos mão da violência que nos separaria definitivamente, somos obrigados a discutir, argumentar, refletir e construir algo juntos. Só é possível fazer política com projeto e ideias. Caso contrário, só restam as bofetadas.
Na saída do café, as duas senhoras já não estavam mais lá. Pai e filha continuavam na mesma mesa, ainda rindo, ainda discordando. Sigamos em paz.
Em um café no Leblon, uma senhora insistia em me oferecer um santinho com os dados do seu candidato. Em cinco minutos, uma outra apareceu com a camisa tomada de broches e adesivos do adversário. Na mesa ao lado, pai e filha não discordavam sobre seus votos, mas se divertiam vendo memes de candidatos e riam dos jingles políticos do momento. É o tempo da política. E a política, aqui, se faz assim.
Moacir Palmeira e Beatriz de Heredia, antropólogos com larga experiência em disputas eleitorais, nos lembram que “o tempo da política” é mais do que uma expressão rotineira, comum na boca do povo. É quando se instala uma fratura temporária no tecido social e uma completa reorganização das relações, de maneira que os projetos políticos se materializem na paisagem, nos encontros e nas pessoas.
É nesse intervalo temporal que nos dividimos, nos aglutinamos em novos formatos, colocamos bandeiras ou toalhas temáticas nas janelas, vestimos as cores dos candidatos e assumimos identidades coletivas, misturadas a valores partidários. É quando não se fala de política como um domínio ou uma esfera, mas se faz política. Nessas horas, é comum que as preferências se imponham sobre as relações familiares ou que um abismo surja entre velhos amigos. Por semanas, nos afastamos da tradicional rotina de encontros em nome de outros vínculos que nos parecem ter mais sentido no hoje.
Esses são momentos contraditórios por si só. Afinal, se as eleições são um convite para que a nação (o todo) pense sobre quais rumos deseja seguir, para dar cabo desse objetivo somos obrigados a nos dividir, nos opor, rivalizar, disputar e romper com os nossos.
Para que a fratura não fuja do controle, é preciso estarmos atentos a dois elementos fundamentais: de um lado, a crença de que o “tempo da política” tem de ter fim e vamos ter a sociedade em debate em torno de um projeto vencedor; do outro, a percepção compartilhada de que, na política, debatemos ideias, não abatemos pessoas.
Desde os gregos, como nos lembrou Hannah Arendt, a política sempre foi o lugar no qual os indivíduos se reuniam, expunham suas visões de mundo distintas e se organizavam para decidir juntos, sem precisar lançar mão de socos e pontapés. É onde, apesar das divergências pessoais, nos damos conta de que há algo maior que nos une e nos impede de romper com os outros para todo o sempre.
Ou, como ouvi Ailton Krenak dizer em um podcast, a política é o ato entre um bofetão e um argumento. É aquele lugar no qual, diante de uma diferença abissal, percebemos que precisamos desses mesmos outros para viver. Com isso, em vez de lançarmos mão da violência que nos separaria definitivamente, somos obrigados a discutir, argumentar, refletir e construir algo juntos. Só é possível fazer política com projeto e ideias. Caso contrário, só restam as bofetadas.
Na saída do café, as duas senhoras já não estavam mais lá. Pai e filha continuavam na mesma mesa, ainda rindo, ainda discordando. Sigamos em paz.
A Cultura que não nos pertence
Há muitos anos, quando surgiu pela primeira vez a tecnologia dos e-readers e e-books, por volta de 2008-2011, trabalhava no meio editorial e recordo-me da pompa e circunstância com que foi então anunciada a morte do livro físico, como se fosse uma certeza que iria concretizar-se em poucos anos. Quem claramente se beneficiava com essa narrativa de disrupção total era a Amazon, que tinha acabado de lançar o Kindle, um dispositivo de leitura de e-books, e desejava entrar em força no mundo dos livros. Muitas previsões não se cumpriram, ainda assim os e-books fizeram o seu próprio caminho e passaram a coexistir com outros novos formatos que também ganharam adeptos, como os audiolivros, tendo todos eles impulsionado uma mudança muito positiva na área da acessibilidade.
O cansaço e a saturação da ligação permanente à internet dos tablets e telemóveis fez-me agora regressar ao universo dos e-readers e, por isso, adquiri um Kobo Libra, modelo recomendado por amigos. A facilidade de leitura, o conforto para os olhos, que ficam menos cansados, a possibilidade de ir variando de género sem ter de carregar todos os livros na mala, são fatores que contribuíram para integrar rapidamente o e-reader na minha rotina.
Tive a possibilidade de integrar no e-reader um vasto acervo de e-books que já tinha reunido ao longo dos anos, sendo possível adquirir novos livros na loja da Kobo. No entanto, estou consciente do facto de que esta aquisição não significa necessariamente que o livro passe a ser meu. Em termos puramente legais, limito-me a adquirir uma licença de acesso ao livro. É verdade que, se eu perder de súbito a biblioteca, posso restaurá-la em dispositivos compatíveis. No entanto, a longo prazo, desconheço se aqueles ficheiros serão mantidos porque muitos deles estão protegidos por DRM (Digital Rights Management), uma espécie de cadeado em que o conteúdo digital é encriptado e não pode ser lido sem uma licença válida. Mas o que acontece se um dia a Kobo entra em falência e decide encerrar os serviços? É possível continuar a preservar a biblioteca digital se a plataforma da Kobo desaparecer? Se a maioria dos e-books adquiridos estiverem protegidos por DRM, a probabilidade de preservação é muito menor.
Usei este caso dos e-readers e e-books como exemplo de uma questão que não é devidamente escrutinada. Atualmente, pagamos por conteúdos digitais, mas não nos tornamos os seus proprietários. Muitas vezes estamos a pagar apenas o direito de acesso, mas se alguma coisa acontecer à empresa que detém os licenciamentos, então o desfecho pode ser bastante negativo. Em matéria de conteúdos digitais, não podemos chamar aquilo que adquirimos como sendo verdadeiramente nosso, pelo menos não da mesma forma que compramos um livro físico ou um disco em vinil. O streaming só veio reforçar ainda mais esse panorama com avenças mensais às grandes plataformas que nos concedem licenças de acesso. Pior: corremos o risco de as plataformas alterarem as condições de acesso ou mesmo removerem unilateralmente o acesso, sem qualquer possibilidade de controlo por parte do consumidor. Não podemos oferecer ou revender aquilo que compramos, assim como também não podemos transmitir esses bens adquiridos para familiares. Onde está o nosso direito à preservação cultural?
Se é verdade que, por um lado, a facilidade de disseminação de conteúdos digitais pirateados torna inevitável que os conteúdos venham com encriptação, por outro lado, há que começar a criar soluções melhores para o futuro. Não por acaso, a nostalgia pela cópia física está a regressar em força com o ressurgimento dos DVDs e álbuns de vinil. Hoje em dia, muitas séries e filmes lutam pelo direito de verem os seus conteúdos preservados em cópia física, porque já nem sequer isso é garantido, ficando totalmente dependentes da boa vontade das plataformas que têm os seus próprios modelos de negócio.
Se esta crónica começou por abordar os direitos do consumidor e da propriedade, termina com a questão da memória cultural. Não podemos aceitar que o modelo de subscrições passe a ser a única forma de acesso à cultura, tornando-nos dependentes do streaming ou de lojas online para podermos ver os nossos filmes e séries favoritos, escutar música ou ler livros. E uma vez que a opção de comprar o objeto está cada vez menos disponível, quem garante que a cultura que hoje consumimos continua a estar disponível amanhã?
O cansaço e a saturação da ligação permanente à internet dos tablets e telemóveis fez-me agora regressar ao universo dos e-readers e, por isso, adquiri um Kobo Libra, modelo recomendado por amigos. A facilidade de leitura, o conforto para os olhos, que ficam menos cansados, a possibilidade de ir variando de género sem ter de carregar todos os livros na mala, são fatores que contribuíram para integrar rapidamente o e-reader na minha rotina.
Tive a possibilidade de integrar no e-reader um vasto acervo de e-books que já tinha reunido ao longo dos anos, sendo possível adquirir novos livros na loja da Kobo. No entanto, estou consciente do facto de que esta aquisição não significa necessariamente que o livro passe a ser meu. Em termos puramente legais, limito-me a adquirir uma licença de acesso ao livro. É verdade que, se eu perder de súbito a biblioteca, posso restaurá-la em dispositivos compatíveis. No entanto, a longo prazo, desconheço se aqueles ficheiros serão mantidos porque muitos deles estão protegidos por DRM (Digital Rights Management), uma espécie de cadeado em que o conteúdo digital é encriptado e não pode ser lido sem uma licença válida. Mas o que acontece se um dia a Kobo entra em falência e decide encerrar os serviços? É possível continuar a preservar a biblioteca digital se a plataforma da Kobo desaparecer? Se a maioria dos e-books adquiridos estiverem protegidos por DRM, a probabilidade de preservação é muito menor.
Usei este caso dos e-readers e e-books como exemplo de uma questão que não é devidamente escrutinada. Atualmente, pagamos por conteúdos digitais, mas não nos tornamos os seus proprietários. Muitas vezes estamos a pagar apenas o direito de acesso, mas se alguma coisa acontecer à empresa que detém os licenciamentos, então o desfecho pode ser bastante negativo. Em matéria de conteúdos digitais, não podemos chamar aquilo que adquirimos como sendo verdadeiramente nosso, pelo menos não da mesma forma que compramos um livro físico ou um disco em vinil. O streaming só veio reforçar ainda mais esse panorama com avenças mensais às grandes plataformas que nos concedem licenças de acesso. Pior: corremos o risco de as plataformas alterarem as condições de acesso ou mesmo removerem unilateralmente o acesso, sem qualquer possibilidade de controlo por parte do consumidor. Não podemos oferecer ou revender aquilo que compramos, assim como também não podemos transmitir esses bens adquiridos para familiares. Onde está o nosso direito à preservação cultural?
Se é verdade que, por um lado, a facilidade de disseminação de conteúdos digitais pirateados torna inevitável que os conteúdos venham com encriptação, por outro lado, há que começar a criar soluções melhores para o futuro. Não por acaso, a nostalgia pela cópia física está a regressar em força com o ressurgimento dos DVDs e álbuns de vinil. Hoje em dia, muitas séries e filmes lutam pelo direito de verem os seus conteúdos preservados em cópia física, porque já nem sequer isso é garantido, ficando totalmente dependentes da boa vontade das plataformas que têm os seus próprios modelos de negócio.
Se esta crónica começou por abordar os direitos do consumidor e da propriedade, termina com a questão da memória cultural. Não podemos aceitar que o modelo de subscrições passe a ser a única forma de acesso à cultura, tornando-nos dependentes do streaming ou de lojas online para podermos ver os nossos filmes e séries favoritos, escutar música ou ler livros. E uma vez que a opção de comprar o objeto está cada vez menos disponível, quem garante que a cultura que hoje consumimos continua a estar disponível amanhã?
A palavra magnífica de George Clooney
George Clooney lançou a palavra para as luzes da ribalta na abertura da 83ª Mostra Internacional de Cinema de Veneza, na quarta-feira: “Há uma palavra magnífica, caquistocracia, que designa um país governado pelas pessoas menos qualificadas. Acho que talvez tenhamos neste momento uma caquistocracia nos EUA. Contudo, haveremos de ultrapassar esta situação.”
Na língua inglesa a palavra não é nova. Parece ter surgido pela primeira vez num púlpito, em 1644, na boca de um pregador monárquico, Paul Gosnold, durante um furioso discurso no qual acusou os adversários do rei de pretenderem “incendiar o país para assar os próprios ovos”.
A palavra terá entrado na língua portuguesa através do inglês muitos anos mais tarde. Sérgio Rodrigues contou essa história, com o brilhantismo habitual, numa crônica publicada em 2018.
Mais do que a palavra interessa-me o processo que está envenenando as democracias. A grande questão é — por que motivo escolhemos como representantes aqueles que representam o pior de nós? E será que começamos agora?
As democracias erram muito. Os eleitores, independentemente do seu grau de literacia política, sempre escolheram demagogos, corruptos, incompetentes e até genocidas. Não vos maçarei com exemplos. São muitos. A novidade é que passamos a escolher políticos que exibem sem vergonha, em horário nobre, as respectivas deformidades morais. O vício passou a ser apresentado como uma virtude eleitoral.
A política se transformou pouco a pouco num grande circo de monstros. O que aconteceu?
Aconteceu a revolução das redes sociais. Antes das redes sociais, os políticos precisavam convencer os eleitores. Agora, o importante é atrair a atenção dos eleitores. Os políticos moderados, aqueles que tentam olhar para a complexidade do mundo e dos seus problemas, os que têm dúvidas, os que não gostam de gritar nem de se exaltar, os que não dizem palavrões, estão em clara desvantagem perante os pavões escandalosos.
Antes, os políticos com melhor retórica e melhores ideias tinham certa vantagem. Agora vencem os que tiverem o penteado mais extravagante, a maior motosserra, ou a mais extensa e colorida ficha criminal. Antes, o escândalo era o preço a pagar pela notoriedade; hoje, é uma forma de produzir notoriedade.
Esta dinâmica criou uma bizarra subversão de valores. A crueldade de Donald Trump é, para quem o apoia, um sinal de força; o seu machismo, racismo, ignorância e rudeza, uma prova de rebeldia contra a “elite dominante”. Os eleitores de Trump, de Bolsonaro ou de Milei não procuram alguém melhor do que eles. Querem, pelo contrário, alguém que represente os seus próprios vícios e transgressões. Enfim, buscam figuras que legitimem o pior que há neles.
“Haveremos de ultrapassar esta situação”, assegurou George Clooney. Não será fácil. Trump, Milei ou Bolsonaro chegaram ao poder porque se revelaram criaturas muito bem bem adaptadas ao atual ecossistema político. Para derrotar a caquistocracia será necessário, primeiro, derrotar o algoritmo.
O grave problema é que construímos um mundo no qual os piores são os mais aptos.
Na língua inglesa a palavra não é nova. Parece ter surgido pela primeira vez num púlpito, em 1644, na boca de um pregador monárquico, Paul Gosnold, durante um furioso discurso no qual acusou os adversários do rei de pretenderem “incendiar o país para assar os próprios ovos”.
A palavra terá entrado na língua portuguesa através do inglês muitos anos mais tarde. Sérgio Rodrigues contou essa história, com o brilhantismo habitual, numa crônica publicada em 2018.
Mais do que a palavra interessa-me o processo que está envenenando as democracias. A grande questão é — por que motivo escolhemos como representantes aqueles que representam o pior de nós? E será que começamos agora?
As democracias erram muito. Os eleitores, independentemente do seu grau de literacia política, sempre escolheram demagogos, corruptos, incompetentes e até genocidas. Não vos maçarei com exemplos. São muitos. A novidade é que passamos a escolher políticos que exibem sem vergonha, em horário nobre, as respectivas deformidades morais. O vício passou a ser apresentado como uma virtude eleitoral.
A política se transformou pouco a pouco num grande circo de monstros. O que aconteceu?
Aconteceu a revolução das redes sociais. Antes das redes sociais, os políticos precisavam convencer os eleitores. Agora, o importante é atrair a atenção dos eleitores. Os políticos moderados, aqueles que tentam olhar para a complexidade do mundo e dos seus problemas, os que têm dúvidas, os que não gostam de gritar nem de se exaltar, os que não dizem palavrões, estão em clara desvantagem perante os pavões escandalosos.
Antes, os políticos com melhor retórica e melhores ideias tinham certa vantagem. Agora vencem os que tiverem o penteado mais extravagante, a maior motosserra, ou a mais extensa e colorida ficha criminal. Antes, o escândalo era o preço a pagar pela notoriedade; hoje, é uma forma de produzir notoriedade.
Esta dinâmica criou uma bizarra subversão de valores. A crueldade de Donald Trump é, para quem o apoia, um sinal de força; o seu machismo, racismo, ignorância e rudeza, uma prova de rebeldia contra a “elite dominante”. Os eleitores de Trump, de Bolsonaro ou de Milei não procuram alguém melhor do que eles. Querem, pelo contrário, alguém que represente os seus próprios vícios e transgressões. Enfim, buscam figuras que legitimem o pior que há neles.
“Haveremos de ultrapassar esta situação”, assegurou George Clooney. Não será fácil. Trump, Milei ou Bolsonaro chegaram ao poder porque se revelaram criaturas muito bem bem adaptadas ao atual ecossistema político. Para derrotar a caquistocracia será necessário, primeiro, derrotar o algoritmo.
O grave problema é que construímos um mundo no qual os piores são os mais aptos.
O riso de ministros do STF, Charlie Chaplin, polícia política e o AI-5
Comentei na noite de ontem, no meu programa na BandNews, a reação de um sujeito de quem nunca tinha ouvido falar que cismou que um texto meu contestava um troço que ele havia dito. Ocorre que fiquei sabendo que ele existia junto com a ofensa. Que coisa! Porque discorda ou não gosta de mim, acha que produzo para ele. Esses tipos podem ser perigosos. Mark Chapman, o assassino de John Lennon, afirmou em depoimento que seu ex-ídolo debochava dele…
Não sou Lennon nem o sujeito, cuja existência descobri com sua desafeição, é Chapman. Levo o par estrutural ao exagero para que se perceba a natureza desse tipo de pensamento. Vou escrever aqui sobre algumas reportagens — evitei todos os textos opinativos para me precaver de “afetos de tristeza” (Spinoza) — tendentes a pespegar em ministros do STF a pecha de insensíveis porque, afinal, fotografados rindo à larga.
As fotos, de Brenno Carvalho, de “O Globo”, foram tiradas na quarta passada. A personagem da qual partiram alguns chistes, o ministro Flávio Dino, nem aparece no enquadramento que viralizou. Veem-se claramente Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e, de costas, Edson Fachin. Outro fora desse corte era Luiz Fux. Nota: sim, fotos absolutamente jornalísticas. Motivo óbvio: um momento de descontração num dia especialmente tenso.
Há um clássico, quase um clichê para quem se interessa pela área, do momento em que uma imagem vira um símbolo. Em “Tempos Modernos”, Carlitos (Charlie Chaplin), que havia acabado de sair de um hospital, vê uma bandeira vermelha cair da traseira de um caminhão. Bom homem, pega o objeto e sai correndo atrás do veículo para devolvê-la. Ocorre que ele se mistura com uma passeata de trabalhadores socialistas que carregam seus cartazes de protesto. A Polícia chega distribuindo porrada e prende o coitado.
E assim se deu. O juízo policialesco está pronto para descer o porrete no tribunal. Carlitos não tinha direito à inocência. Nem os ministros — exceto, claro!, André Mendonça, aquele que grava vídeo a seus apoiadores em nome de Deus e não se encontrava por ali a ouvir gracejos impuros.
Como estaria em curso a crise mais grave desde que o Supremo existe, ministros não podem sorrir. Noto que continuo a pensar que o pior momento da história do tribunal se deu em janeiro de 1969, quanto o AI-5, a tal “ditadura escancarada”, cassou Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal, com a renúncia consequente, em sinal de protesto, de Antônio Gonçalves de Oliveira e Antônio Carlos Lafayette de Andrada. Minha tese: os males da ditadura, que o STF impediu e da qual já foi vítima, sempre serão maiores do que os da democracia.
É bom que saibam: havia ali ministros que são, como costumo brincar, de “enfermarias distintas”. Dino, que já praticou jiu-jitsu no passado, fez algumas brincadeiras com Fux, que é professor do esporte. São amigos pessoais e mantêm, não obstante, diferenças abissais de análise — o que, em princípio, vejo como positivo. Nesse caso, Moraes e Gilmar, sabemos, são mais próximos de um do que de outro nos juízos que emitem.
Fachin ora está mais para um lado, ora para outro. Os que riam ali já tiveram embates muito duros em momentos cruciais para a democracia brasileira. Deus do Céu! Nem se completaram oito meses do fim do julgamento dos golpistas — tentativa de golpe que, sabemos, André Mendonça, ausente, e Fux, presente, não viram. Nem sei se outro negacionista da intentona, Nunes Marques, encontrava-se por perto. Não aparece em nenhuma das imagens.
Assim, de saída, entendo que rir ou não e estar ou não presente, naquele momento, naquela foto, podem não ser o melhor critério para avaliar um ministro. Mas é claro que este meu juízo tem lado: alinho-me, como circula num viral bolsonarista contra a imprensa (ah, esses defensores da liberdade de expressão!!!), entre os profissionais que defendem que lugar de golpista é a cadeia. Mais: entendo que todos têm direito ao devido processo legal, incluindo ministros do Supremo.
Segundo apurei, o momento da gargalhada propriamente foi motivado por um ouitro chiste, em tom galhofeiramente autodepreciativo — os bem-humorados, quando se incluem numa piada, não devem fazê-lo para se jactar. Inexiste graça na arrogância.
Esse tribunal que ri ainda é vítima de uma escalada que começou no dia 9 de julho de 2018, quando Eduardo Bolsonaro, o condenado por coação no curso do processo, disse numa palestra que, para fechar o Supremo, nem precisaria de um jipe: bastariam um soldado e um cabo. Sua pregação rende frutos: estão aí os editoriais a pedir a cabaça de Moraes, ecoando 1954, 1964, 1969, 2022… Os golpistas queriam matar Moraes. Por ora, nossos valentes pensadores se confortam com a renúncia.
“Mas, então, porque salvou a democracia, ele pode tudo?” Não. Mas não se lhe pode sonegar o devido processo legal nem deve ser ele alvo de procedimentos de exceção, como os praticados por Mendonça. Mas esse será outro texto. Volto ao riso.
Prefiro que ministros riam a que pranteiem a morte de um dos seus. Prefiro que riam a que levam também para os corredores os embates muito duros que ali se travam. Prefiro que riam, demonstrando que julgam teses, não ódios pessoais, a que seu fanatismo seja confundido com seriedade. Prefiro o bom humor mesmo tratando de questões que podem ser de enorme seriedade à circunspecção que, muitas vezes, é só falta do que dizer.
Fux, Mendonça e Nunes Marques não gargalham quando se alinham com os negacionistas do golpe — não creio que o façam nem “por dentro”. Dino não gargalha quando evidencia o modo como o “emendismo” ameaça a eficiência dos gastos públicos e, no limite, a democracia. Gilmar não gargalhava ao se confrontar com os desmandos da Lava Jato. Não gargalhava Moraes quando, por enfrentar os arruaceiros de sonhos sangrentos, acabou vítima da Lei Magnitsky.
Não acredito, voltando a ambos, que Mendonça e Moraes se comportavam como dois sátiros quando enviaram suas respectivas petições a Fachin, que não deve andar por aí com os dentes à mostra, feito o Gato de Alice. Vou sempre preferir o riso que desconstrói doxas ao ódio que embala ortodoxias homicidas e liberticidas.
Em 1974, a Divisão de Censura de Diversões Públicas censurou a música “Tiro ao Álvaro”, de Adoniran Barbosa assim: “A falta de gosto impede a liberação da música”. E vieram circuladas as palavras “erradas”, que incomodaram o pudoroso censor: “álvaro”, “tauba”, “revórver”, “automóver”. Sabem como é… Em tempos rigorosos, não se pode descuidar. Rir pode ser algo muito perigoso e até mesmo ofensivo.
De fato, raramente o tribunal experimentou momentos tão tensos. Há embates duríssimos por vencer. A depender dos desdobramentos, poderemos viver alguns dos piores anos de nossa história, e o riso, se assim for, vai se tornar bem escasso. E, ainda assim, defenderei o humor que não depende da humilhação dos fracos para ter graça.
O latinista francês Jean de Santeul (1630-1697) cravou no busto de Arlequim o lema: “Castigat ridendo mores”. Vale dizer: “Rindo, moraliza os costumes”. Numa tradução mais clara: “Por meio do riso, moralize os costumes”. Se rir é sempre sinal de frivolidade ou de deboche, é o caso de se proibir a comédia. E só a tragédia nos definirá, como se a dor fosse a única expressão da profundidade. A polícia política, mais uma vez, transformou uma simples imagem num símbolo e saiu distribuindo porradas.
Reinaldo Azevedo
Não sou Lennon nem o sujeito, cuja existência descobri com sua desafeição, é Chapman. Levo o par estrutural ao exagero para que se perceba a natureza desse tipo de pensamento. Vou escrever aqui sobre algumas reportagens — evitei todos os textos opinativos para me precaver de “afetos de tristeza” (Spinoza) — tendentes a pespegar em ministros do STF a pecha de insensíveis porque, afinal, fotografados rindo à larga.
As fotos, de Brenno Carvalho, de “O Globo”, foram tiradas na quarta passada. A personagem da qual partiram alguns chistes, o ministro Flávio Dino, nem aparece no enquadramento que viralizou. Veem-se claramente Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e, de costas, Edson Fachin. Outro fora desse corte era Luiz Fux. Nota: sim, fotos absolutamente jornalísticas. Motivo óbvio: um momento de descontração num dia especialmente tenso.
Há um clássico, quase um clichê para quem se interessa pela área, do momento em que uma imagem vira um símbolo. Em “Tempos Modernos”, Carlitos (Charlie Chaplin), que havia acabado de sair de um hospital, vê uma bandeira vermelha cair da traseira de um caminhão. Bom homem, pega o objeto e sai correndo atrás do veículo para devolvê-la. Ocorre que ele se mistura com uma passeata de trabalhadores socialistas que carregam seus cartazes de protesto. A Polícia chega distribuindo porrada e prende o coitado.
E assim se deu. O juízo policialesco está pronto para descer o porrete no tribunal. Carlitos não tinha direito à inocência. Nem os ministros — exceto, claro!, André Mendonça, aquele que grava vídeo a seus apoiadores em nome de Deus e não se encontrava por ali a ouvir gracejos impuros.
Como estaria em curso a crise mais grave desde que o Supremo existe, ministros não podem sorrir. Noto que continuo a pensar que o pior momento da história do tribunal se deu em janeiro de 1969, quanto o AI-5, a tal “ditadura escancarada”, cassou Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal, com a renúncia consequente, em sinal de protesto, de Antônio Gonçalves de Oliveira e Antônio Carlos Lafayette de Andrada. Minha tese: os males da ditadura, que o STF impediu e da qual já foi vítima, sempre serão maiores do que os da democracia.
É bom que saibam: havia ali ministros que são, como costumo brincar, de “enfermarias distintas”. Dino, que já praticou jiu-jitsu no passado, fez algumas brincadeiras com Fux, que é professor do esporte. São amigos pessoais e mantêm, não obstante, diferenças abissais de análise — o que, em princípio, vejo como positivo. Nesse caso, Moraes e Gilmar, sabemos, são mais próximos de um do que de outro nos juízos que emitem.
Fachin ora está mais para um lado, ora para outro. Os que riam ali já tiveram embates muito duros em momentos cruciais para a democracia brasileira. Deus do Céu! Nem se completaram oito meses do fim do julgamento dos golpistas — tentativa de golpe que, sabemos, André Mendonça, ausente, e Fux, presente, não viram. Nem sei se outro negacionista da intentona, Nunes Marques, encontrava-se por perto. Não aparece em nenhuma das imagens.
Assim, de saída, entendo que rir ou não e estar ou não presente, naquele momento, naquela foto, podem não ser o melhor critério para avaliar um ministro. Mas é claro que este meu juízo tem lado: alinho-me, como circula num viral bolsonarista contra a imprensa (ah, esses defensores da liberdade de expressão!!!), entre os profissionais que defendem que lugar de golpista é a cadeia. Mais: entendo que todos têm direito ao devido processo legal, incluindo ministros do Supremo.
Segundo apurei, o momento da gargalhada propriamente foi motivado por um ouitro chiste, em tom galhofeiramente autodepreciativo — os bem-humorados, quando se incluem numa piada, não devem fazê-lo para se jactar. Inexiste graça na arrogância.
Esse tribunal que ri ainda é vítima de uma escalada que começou no dia 9 de julho de 2018, quando Eduardo Bolsonaro, o condenado por coação no curso do processo, disse numa palestra que, para fechar o Supremo, nem precisaria de um jipe: bastariam um soldado e um cabo. Sua pregação rende frutos: estão aí os editoriais a pedir a cabaça de Moraes, ecoando 1954, 1964, 1969, 2022… Os golpistas queriam matar Moraes. Por ora, nossos valentes pensadores se confortam com a renúncia.
“Mas, então, porque salvou a democracia, ele pode tudo?” Não. Mas não se lhe pode sonegar o devido processo legal nem deve ser ele alvo de procedimentos de exceção, como os praticados por Mendonça. Mas esse será outro texto. Volto ao riso.
Prefiro que ministros riam a que pranteiem a morte de um dos seus. Prefiro que riam a que levam também para os corredores os embates muito duros que ali se travam. Prefiro que riam, demonstrando que julgam teses, não ódios pessoais, a que seu fanatismo seja confundido com seriedade. Prefiro o bom humor mesmo tratando de questões que podem ser de enorme seriedade à circunspecção que, muitas vezes, é só falta do que dizer.
Fux, Mendonça e Nunes Marques não gargalham quando se alinham com os negacionistas do golpe — não creio que o façam nem “por dentro”. Dino não gargalha quando evidencia o modo como o “emendismo” ameaça a eficiência dos gastos públicos e, no limite, a democracia. Gilmar não gargalhava ao se confrontar com os desmandos da Lava Jato. Não gargalhava Moraes quando, por enfrentar os arruaceiros de sonhos sangrentos, acabou vítima da Lei Magnitsky.
Não acredito, voltando a ambos, que Mendonça e Moraes se comportavam como dois sátiros quando enviaram suas respectivas petições a Fachin, que não deve andar por aí com os dentes à mostra, feito o Gato de Alice. Vou sempre preferir o riso que desconstrói doxas ao ódio que embala ortodoxias homicidas e liberticidas.
Em 1974, a Divisão de Censura de Diversões Públicas censurou a música “Tiro ao Álvaro”, de Adoniran Barbosa assim: “A falta de gosto impede a liberação da música”. E vieram circuladas as palavras “erradas”, que incomodaram o pudoroso censor: “álvaro”, “tauba”, “revórver”, “automóver”. Sabem como é… Em tempos rigorosos, não se pode descuidar. Rir pode ser algo muito perigoso e até mesmo ofensivo.
De fato, raramente o tribunal experimentou momentos tão tensos. Há embates duríssimos por vencer. A depender dos desdobramentos, poderemos viver alguns dos piores anos de nossa história, e o riso, se assim for, vai se tornar bem escasso. E, ainda assim, defenderei o humor que não depende da humilhação dos fracos para ter graça.
O latinista francês Jean de Santeul (1630-1697) cravou no busto de Arlequim o lema: “Castigat ridendo mores”. Vale dizer: “Rindo, moraliza os costumes”. Numa tradução mais clara: “Por meio do riso, moralize os costumes”. Se rir é sempre sinal de frivolidade ou de deboche, é o caso de se proibir a comédia. E só a tragédia nos definirá, como se a dor fosse a única expressão da profundidade. A polícia política, mais uma vez, transformou uma simples imagem num símbolo e saiu distribuindo porradas.
Reinaldo Azevedo
sábado, 5 de setembro de 2026
É preciso reconstruir, e não implodir a democracia
Uma pergunta se impõe, ao fim da semana — mais uma — desastrosa. A quem interessa a implosão da democracia? Às brasileiras e aos brasileiros, certamente, não. Em uma década, o país impôs impeachment à única mulher já eleita presidente da República; enfrentou e puniu tentativa de golpe de Estado. Agora, flerta novamente com o abismo. Quem foi para o feriado da Independência sem uma ruga de preocupação está mal informado. O risco é crescente e difuso: parte do golpismo continuado da extrema direita bolsonarista; cruza a ameaça de interferência estrangeira pelos Estados Unidos de Donald Trump no processo eleitoral; passa pela disputa fratricida entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF); esbarra no escândalo financeiro protagonizado por Daniel Vorcaro e sua teia; cruza com um Legislativo ensimesmado. Por fim, encontra o desencanto da população com um sistema político carcomido e desprovido de representatividade.
A democracia brasileira nunca chegou ao patamar sonhado por quem nela acredita. Mas abandoná-la não tornará o país melhor. Um regime alquebrado é para ser curado, não aniquilado. A receita é expulsar o agressor, não abrigá-lo. Quatro anos atrás, perto das eleições, pesquisa Quaest revelava que 58% dos brasileiros se declaravam muito interessados no pleito. O embate entre Jair Bolsonaro, o presidente golpista, e Luiz Inácio Lula da Silva produziu engajamento. No mês passado, a proporção estava em 36%; na quarta passada, no primeiro levantamento de setembro, o percentual oscilou um ponto percentual para cima. Pouco ou nada interessados somavam 63% em agosto, 62% agora, como se a democracia segura estivesse. É um desinteresse espantoso, a um mês da escolha de presidente, 54 senadores, 513 deputados federais, 27 governadores e todos os integrantes das assembleias estaduais.
Felipe Nunes, diretor da Quaest, conta que interesse no pleito é variável usada pelos pesquisadores para avaliar abstenção. Quanto menos engajado, maior a probabilidade de não comparecer à votação. Desencanto é resposta natural de um eleitorado que não se enxerga no leque de candidaturas, não se comove com a campanha, desconfia do sistema. É também combustível para mais fragmentação e/ou ascensão de outsiders e candidatos a autocratas. Contra a ameaça à democracia, radicalizá-la, como ensina Sueli Carneiro, filósofa, escritora, ativista. Há que elevar a participação política, reivindicar inclusão, repelir o autoritarismo, exigir dos candidatos seriedade, obediência à Constituição, planos concretos para os problemas que nos atormentam.
Já que viraram moda na política — e até no Supremo — as referências bíblicas e as mensagens religiosas, trago contribuição da mitologia iorubá, também parte de nossas origens. Oxaguiã é orixá relacionado a progresso, inovação, reconstrução. É divindade que rejeita o comodismo. Inventou o pilão para preparar, mais rapidamente e em maior quantidade, seu prato predileto, o inhame pilado, e repartir com a comunidade, conta o professor e babalorixá Márcio de Jagun.
É também ele que faz do conflito evolução. Luiz Antonio Simas, historiador, escritor e pesquisador das afrobrasilidades, lembra que um itan (narrativa sagrada) dos mais populares trata da demolição, repetidamente, por Oxaguiã do palácio de Ogum como forma de obrigar o povo a reconstruí-lo melhor. É coisa de quem não se conforma com a mediocridade nem com a acomodação; de quem não tolera a resignação nem o comodismo.
— Se esse caminho vem como irê (positividade), é um marco de reconstrução, do fazer melhor. Se a tendência é de negatividade, dá para dizer que o comportamento de destruição e reconstrução está se tornando obsessivo — completa.
Na consulta espontânea sobre intenção de voto, quatro em dez entrevistados (42%) pela Quaest se disseram indecisos; no Datafolha, 26%. Num instituto e no outro, há muita gente por decidir. Quase metade do eleitorado (45%) diz que o principal motivo para escolher o candidato é a qualidade das propostas. A proporção pouco varia entre mulheres e homens, pobres e ricos, católicos e evangélicos, brancos e negros, mais ou menos escolarizados, morador de uma região ou outra. Os eleitores estão quase tão preocupados com promessas quanto indecisos sobre o candidato. Tudo somado devia nutrir o debate, germinar o entusiasmo, jamais abrir mão da democracia e deixar que vençam aqueles que a desprezam. No Judiciário, no Legislativo ou no Executivo.
A democracia brasileira nunca chegou ao patamar sonhado por quem nela acredita. Mas abandoná-la não tornará o país melhor. Um regime alquebrado é para ser curado, não aniquilado. A receita é expulsar o agressor, não abrigá-lo. Quatro anos atrás, perto das eleições, pesquisa Quaest revelava que 58% dos brasileiros se declaravam muito interessados no pleito. O embate entre Jair Bolsonaro, o presidente golpista, e Luiz Inácio Lula da Silva produziu engajamento. No mês passado, a proporção estava em 36%; na quarta passada, no primeiro levantamento de setembro, o percentual oscilou um ponto percentual para cima. Pouco ou nada interessados somavam 63% em agosto, 62% agora, como se a democracia segura estivesse. É um desinteresse espantoso, a um mês da escolha de presidente, 54 senadores, 513 deputados federais, 27 governadores e todos os integrantes das assembleias estaduais.
Felipe Nunes, diretor da Quaest, conta que interesse no pleito é variável usada pelos pesquisadores para avaliar abstenção. Quanto menos engajado, maior a probabilidade de não comparecer à votação. Desencanto é resposta natural de um eleitorado que não se enxerga no leque de candidaturas, não se comove com a campanha, desconfia do sistema. É também combustível para mais fragmentação e/ou ascensão de outsiders e candidatos a autocratas. Contra a ameaça à democracia, radicalizá-la, como ensina Sueli Carneiro, filósofa, escritora, ativista. Há que elevar a participação política, reivindicar inclusão, repelir o autoritarismo, exigir dos candidatos seriedade, obediência à Constituição, planos concretos para os problemas que nos atormentam.
Já que viraram moda na política — e até no Supremo — as referências bíblicas e as mensagens religiosas, trago contribuição da mitologia iorubá, também parte de nossas origens. Oxaguiã é orixá relacionado a progresso, inovação, reconstrução. É divindade que rejeita o comodismo. Inventou o pilão para preparar, mais rapidamente e em maior quantidade, seu prato predileto, o inhame pilado, e repartir com a comunidade, conta o professor e babalorixá Márcio de Jagun.
É também ele que faz do conflito evolução. Luiz Antonio Simas, historiador, escritor e pesquisador das afrobrasilidades, lembra que um itan (narrativa sagrada) dos mais populares trata da demolição, repetidamente, por Oxaguiã do palácio de Ogum como forma de obrigar o povo a reconstruí-lo melhor. É coisa de quem não se conforma com a mediocridade nem com a acomodação; de quem não tolera a resignação nem o comodismo.
— Se esse caminho vem como irê (positividade), é um marco de reconstrução, do fazer melhor. Se a tendência é de negatividade, dá para dizer que o comportamento de destruição e reconstrução está se tornando obsessivo — completa.
Na consulta espontânea sobre intenção de voto, quatro em dez entrevistados (42%) pela Quaest se disseram indecisos; no Datafolha, 26%. Num instituto e no outro, há muita gente por decidir. Quase metade do eleitorado (45%) diz que o principal motivo para escolher o candidato é a qualidade das propostas. A proporção pouco varia entre mulheres e homens, pobres e ricos, católicos e evangélicos, brancos e negros, mais ou menos escolarizados, morador de uma região ou outra. Os eleitores estão quase tão preocupados com promessas quanto indecisos sobre o candidato. Tudo somado devia nutrir o debate, germinar o entusiasmo, jamais abrir mão da democracia e deixar que vençam aqueles que a desprezam. No Judiciário, no Legislativo ou no Executivo.
O lado de Vorcaro na disputa presidencial
Da cadeia, Daniel Vorcaro continua dando as cartas. Ele quer a nulidade do processo do caso Master. O ex-banqueiro caminha a passos largos para conseguir que seja colocado em suspeição todo o inquérito contra ele.
Na intimidade das mensagens trocadas pelo celular, Vorcaro é "amigo, Dani, irmãozão, mermão". Em público, os mesmos que o tratam com palavras amorosas nada sabem. Não são amigos.
O deputado Nikolas Ferreira, que se autoproclama "homem de família", entrou nessa lista. Pediu que Vorcaro ajudasse seu ex-assessor de gabinete a liberar "um ativo de minério". Maracutaia.
Vorcaro muda de advogados como quem troca de roupa. Diz que vai falar, não conta nada, volta atrás, sinaliza com nova delação, engana e segue segurando os cordões das marionetes ao sabor de quem mais o ajudar a alcançar seu propósito.
O advogado da hora é Daniel Bialski, que já prestou serviços ao ex-governador Cláudio Castro, a Michelle Bolsonaro no caso das joias sauditas e à ex-deputada Carla Zambelli.
Em Brasília, Bialski é conhecido por ter boa relação com André Mendonça, relator do caso Master no STF (Supremo Tribunal Federal) e ex-ministro de Bolsonaro.
A disputa eleitoral apertada e o STF em chamas ajudam Vorcaro. A última dele foi dar um depoimento ao gabinete de Mendonça dizendo que sofreu tortura psicológica, maus-tratos e ameaças veladas na prisão para não relatar fatos ligados à Polícia Federal.
O depoimento, gravado em vídeo, foi dado a um juiz auxiliar da equipe do ministro. O alvo era o chefe da PF, Andrei Rodrigues.
Os vazamentos pinçados dão aos advogados a chance de pedir a nulidade. A estratégia acaba favorecendo o presidenciável Flávio Bolsonaro por colocar em risco a apuração sobre o filme "Dark Horse".
Ao tirar o sigilo parcial do caso, Mendonça não estaria agindo de forma proposital? O episódio lembra a atitude do ex-juiz Sérgio Moro, que divulgou grampo de ligação entre Lula e Dilma Rousseff.
Não nos esquecemos: Vorcaro é o maior fraudador da história do sistema financeiro do país. Quem ainda acredita nele?
Na intimidade das mensagens trocadas pelo celular, Vorcaro é "amigo, Dani, irmãozão, mermão". Em público, os mesmos que o tratam com palavras amorosas nada sabem. Não são amigos.
O deputado Nikolas Ferreira, que se autoproclama "homem de família", entrou nessa lista. Pediu que Vorcaro ajudasse seu ex-assessor de gabinete a liberar "um ativo de minério". Maracutaia.
Vorcaro muda de advogados como quem troca de roupa. Diz que vai falar, não conta nada, volta atrás, sinaliza com nova delação, engana e segue segurando os cordões das marionetes ao sabor de quem mais o ajudar a alcançar seu propósito.
O advogado da hora é Daniel Bialski, que já prestou serviços ao ex-governador Cláudio Castro, a Michelle Bolsonaro no caso das joias sauditas e à ex-deputada Carla Zambelli.
Em Brasília, Bialski é conhecido por ter boa relação com André Mendonça, relator do caso Master no STF (Supremo Tribunal Federal) e ex-ministro de Bolsonaro.
A disputa eleitoral apertada e o STF em chamas ajudam Vorcaro. A última dele foi dar um depoimento ao gabinete de Mendonça dizendo que sofreu tortura psicológica, maus-tratos e ameaças veladas na prisão para não relatar fatos ligados à Polícia Federal.
O depoimento, gravado em vídeo, foi dado a um juiz auxiliar da equipe do ministro. O alvo era o chefe da PF, Andrei Rodrigues.
Os vazamentos pinçados dão aos advogados a chance de pedir a nulidade. A estratégia acaba favorecendo o presidenciável Flávio Bolsonaro por colocar em risco a apuração sobre o filme "Dark Horse".
Ao tirar o sigilo parcial do caso, Mendonça não estaria agindo de forma proposital? O episódio lembra a atitude do ex-juiz Sérgio Moro, que divulgou grampo de ligação entre Lula e Dilma Rousseff.
Não nos esquecemos: Vorcaro é o maior fraudador da história do sistema financeiro do país. Quem ainda acredita nele?
Terra arrasada
O Supremo Tribunal Federal foi arrastado para sua maior tormenta por dois de seus integrantes: André Mendonça e Alexandre de Moraes. Agora cabe ao presidente da Corte, Edson Fachin, decidir se o capítulo mais agudo da crise terá um desfecho diante das câmeras de tevê ou se a solução será outra. Mendonça investigou Moraes às escondidas no caso Master e botou na praça todas as informações recebidas da Polícia Federal. Moraes está encrencado até o pescoço, graças à relação com Daniel Vorcaro, dono do finado banco. Ao ligar o ventilador na direção do colega, Mendonça praticamente exigiu que o STF realize uma sessão aberta para decidir o futuro do desafeto. Detalhe: Moraes assumirá o comando do Supremo daqui a um ano, se sobreviver até lá. Para o trivial Fachin, o tribunal vive um momento de “especial gravidade” e tanto a atuação de Mendonça quanto os indícios contra Moraes exigem resposta. Daí sua promessa de anunciar nos próximos dias “as medidas cabíveis e necessárias”, conforme declarou em nota pública. Uma saída que preserve “a integridade do Supremo”, “a autoridade de suas decisões” e “a confiança da sociedade na instituição”.
Ao partir para cima de Moraes, Mendonça incendiou a oposição às vésperas do Dia da Pátria, data que o bolsonarismo usou em outras ocasiões para malhar o Supremo e pretende repetir a dose neste ano. Muitas campanhas direitistas ao Senado, casa com poder para cassar ministros das altas Cortes, se escoram no discurso anti-STF. Não só o tribunal está em jogo, a eleição presidencial também. A guerra contra Moraes é o ápice de uma atuação de Mendonça a favor do clã Bolsonaro nas investigações sobre falcatruas do Master e sobre descontos indevidos em aposentadorias do INSS. O ministro deve a vaga no STF a Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de cadeia por tentativa de golpe em um processo conduzido por Moraes. “É o mais ideológico” da Corte, anota um colega. Enquanto poupa Flávio Bolsonaro no inquérito sobre o filme Dark Horse, um capítulo do escândalo do Master, o “terrivelmente evangélico” parece empenhado em transformar Vorcaro em herói com uma delação premiada contra o lulismo. Uma forma de jogar no colo do governo um escândalo majoritariamente do Centrão e dos bolsonaristas, vide, entre outras, a participação decisiva dos ex-governadores Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, e Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e do senador Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro.
No fim de agosto, o gabinete de Mendonça recebeu Vorcaro, preso preventivamente desde março. Tomou-lhe um depoimento, a pedido do advogado de defesa. Uma das afirmações do interrogado foi de que topa acusar “pessoas do núcleo do atual governo”. A íntegra do depoimento foi vazada na quinta-feira 3. É o método lavajatista a pleno vapor a um mês da eleição. Busca-se pressionar as autoridades, via mídia, para que aceitem a delação de Vorcaro, alguém disposto a passar o Brasil a limpo. O relatório da PF sobre as relações de Moraes com Vorcaro dá plausibilidade à tese de que o banqueiro tem muito a falar.
Vorcaro foi preso duas vezes a pedido da PF e não conseguiu convencê-la a aceitar uma delação, nem teve mais sorte com a Procuradoria-Geral da República. Segundo fontes policiais, ele propôs um acordo inaceitável: reabrir o Master e pagar ao longo de anos, não de cara, uma multa de 40 bilhões de reais. Autorizada pelo Banco Central a funcionar no primeiro ano de Jair Bolsonaro, a instituição de Vorcaro foi fechada pelo BC no dia da primeira prisão dele, em novembro passado. A PF prepara-se para concluir as apurações principais do caso e incriminá-lo por gestão fraudulenta. Aí caberá à PGR acusá-lo, ou não, na Justiça. Um relatório do BC de outubro de 2025 aponta um golpe de 12 bilhões de reais do Master, com a venda ao BRB, banco estatal de Brasília, de uma carteira de crédito fajuta. É a maior fraude financeira da história brasileira.
A delação de um parceiro de Vorcaro tem tudo para piorar a situação do banqueiro e para tornar mais improvável um acordo de delação. José Carlos Mansur é o dono de um fundo, a Reag, que o Master usava para lavar dinheiro. A Reag também se prestava à lavanderia do PCC. Os negócios com o Master injetaram recursos em uma empresa, a Super Empreendimentos, que depois compraria uma casa em Brasília onde seria instalado o QG de Vorcaro. Até 2024, a Super era dirigida por um cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel. Na eleição de 2022, Zettel foi um dos maiores financiadores de Bolsonaro, 3 milhões de reais. A delação de Mansur acaba de ser selada com o Ministério Público. Cabe a Mendonça, relator do caso Master, homologá-la. Idem com outra colaboração premiada encaminhada, conforme O Globo. E esta atinge envolvidos com o filme Dark Horse, a cinebiografia de Bolsonaro bancada por Vorcaro.
O delator, neste caso, é Antônio Carlos Freixo Júnior, alvo em janeiro de uma batida da PF. Conhecido como “mineiro”, fazia chegar aos Estados Unidos os repasses de Vorcaro para o filme. Em 5 de fevereiro do ano passado, Vorcaro e Zettel trocaram mensagens sobre a produção e o patrocínio, conforme revelado, em maio, pelo Intercept Brasil. Zettel dizia que a área de câmbio do Master estava “criando caso”. Vorcaro autorizou “mandar a grana”, por meio de “quem paga lá fora”. Zettel perguntou se poderia pedir ao “Minas” para enviar, ou seja, a Freixo Jr. À época, Eduardo Bolsonaro já havia se autoexilado no Texas, a fim de conspirar para que o governo Trump impusesse medidas prejudiciais ao Brasil, na esperança de livrar o pai da cadeia. Convertido em réu no STF por “coação no curso do processo”, foi condenado a quatro anos em um processo relatado por Moraes. A delação de “mineiro” é uma chance de descobrir se Vorcaro pagou o complô de Eduardo. Fontes da PF são céticas quanto ao auxílio do governo norte-americano no rastreio da verba depositada no Heavengate, o fundo localizado nos EUA que era o destino dos recursos transferidos por Vorcaro. Motivo do ceticismo: os laços do bolsonarismo com o trumpismo.
Em setembro de 2025, o Heavengate recebeu um extra de 1,6 milhão de dólares de Vorcaro, de acordo com um relatório do Coaf, o órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, revelado pela revista Piauí. Na semana anterior, Flávio Bolsonaro havia cobrado o banqueiro. “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?”, dizia o senador. “É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme, e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso.” O senador insiste que a relação entre Vorcaro e o filme só envolve dinheiro privado, ou seja, nada antiético. Será? Ao chegar à beira do abismo, em 2024, o Master lambuzou-se em verba pública para tentar se safar. O fundo de pensão dos servidores do Rio injetou cerca de 3 bilhões de reais no banco, na gestão Castro. E o BRB, 12 bilhões, sob Ibaneis. Karina Ferreira da Gama, a dona da produtora do filme, a GoUp, pede para ser investigada sob supervisão do Mendonça. Idem o deputado Mário Frias, do PL, secretário de Cultura no governo Bolsonaro, roteirista da cinebiografia do capitão e autor do envio de dinheiro de emendas parlamentares a uma ONG de Gama. Essa ONG, o Instituto Conhecer Brasil, é alvo da Polícia Civil de São Paulo por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura paulistana. O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira vê “consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark Horse. Daí os advogados da produtora acionarem Mendonça para que ele retire de São Paulo a investigação e puxe para si em Brasília. Frias é alvo de um inquérito no Supremo, aos cuidados de Flávio Dino, por ter financiado o instituto com emenda parlamentar. Seu advogado pediu a Fachin que transfira o inquérito para Mendonça. Tanto o deputado quanto Gama parecem, digamos, confiar em Mendonça.
Quando o assunto é Dark Horse, o filho “Zero Um” não tem do que reclamar do “terrivelmente evangélico”. O processo não tem gerado notícias. Há, porém, um recurso no Supremo capaz de fazer tudo passar às mãos de outro magistrado. Após a divulgação do áudio de Flávio a Vorcaro, o deputado Lindbergh Farias, do PT, requereu ao STF uma nova investigação do senador. A solicitação foi a Moraes, pois, à época, o ministro era o relator da ação penal de “coação” contra Eduardo. Moraes não aceitou a relatoria e remeteu a bola a Fachin. Este entendeu que o tema se relacionava ao caso Master e mandou o pedido a Mendonça. Cabe a este liberar o recurso para o plenário do Supremo resolver a controvérsia sobre a relatoria.
Por que Moraes se esquivou de supervisionar o processo sobre Dark Horse? Segundo informações em Brasília, o juiz não queria entrar na berlinda associado a Vorcaro. O relatório encomendado por Mendonça a delegados da PF do caso Master explica o receio. Moraes e o banqueiro estiveram juntos várias vezes desde o fim de 2023. O que falaram nas conversas não se sabe. Mas as trocas de mensagens escritas entre eles são comprometedoras para Moraes, mesmo que a PF tenha conseguido descobrir apenas o que Vorcaro dizia. Os dois usavam um método peculiar nas mensagens. Em vez de escreverem o texto no WhatsApp, redigiam no aplicativo “bloco de notas”, faziam uma foto da “nota”, a enviavam ao outro e em seguida a apagavam do WhatsApp, forma de não deixar rastros. O que Vorcaro não sabia é que as fotos ficavam armazenadas em um lugar oculto no celular, e foi a esse “esconderijo” que a PF chegou ao apreender o telefone dele em novembro.
Ao se observarem as mensagens em conjunto e cotejá-las com os acontecimentos, a conclusão inescapável é de que Vorcaro contratou o escritório da esposa de Moraes para ter serviços prestados pelo próprio togado. E que o combinado foi entregue. Descobrir a existência de investigações policiais e de medidas judiciais contra o Master era uma das missões do juiz. Procurar autoridades que pudessem salvar a pele do banco e de seu dono era outra. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o procurador-geral, Paulo Gonet, parecem ter sido acionados por Moraes. Dois deles, afirma uma autoridade em Brasília, receberam mensagens de Moraes nas quais o ministro dizia que Vorcaro era “sério”. Situação que configura, em tese, crimes como advocacia administrativa, favorecimento pessoal, tráfico de influência e obstrução de Justiça.
O primeiro contrato de Vorcaro com o escritório de Viviane Barci de Moraes ocorreu em janeiro de 2024. Em 30 de dezembro de 2023, o banqueiro e o ministro haviam se encontrado na estância turística de Campos do Jordão, no que parece ter sido o tête-à-tête inicial. A reunião tinha sido intermediada por Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro. Foi Faria quem passou o telefone do togado a Vorcaro durante os preparativos do encontro. Duas semanas após a reunião, Moraes examinou o contrato que a esposa selaria com o banqueiro. Há registro de que ele alterou o documento antes da assinatura. O acordo era de 3 milhões de reais mensais, por três anos. Outro, de 50 milhões, a ser pago com cotas de empresas proprietárias de um helicóptero e de um avião, foi celebrado em maio de 2025.
O ano passado marcou a ruína do Master. Vorcaro foi preso pela PF pela primeira vez na noite de 17 de novembro, uma segunda-feira, no aeroporto de Guarulhos, quando estava prestes a embarcar para o exterior. Na antevéspera, 15 de novembro, um sábado, ele havia procurado Moraes. Em uma das mensagens, dizia: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo, tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que na segunda já tenho que estar fora?” No minuto seguinte, prosseguiu: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”.
As mensagens resumem a natureza da relação entre os dois e delineiam o papel do magistrado. “Juiz Ricardo” é Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, autor da decisão sobre a prisão preventiva de novembro, fato desconhecido na ocasião das mensagens. Galípolo é o presidente do BC. Paulo é Gonet, o procurador-geral. E Andrei, o diretor da PF. Em 16 de novembro, Vorcaro e Moraes acertaram uma reunião às 2 da tarde. Depois dela, o primeiro escreveu ao segundo: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Não houve atraso. A PF o algemou no dia seguinte e desde então resiste às suas propostas de delação. Em uma das últimas mensagens a Moraes no dia da prisão, ele indagou: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Por “bloquear”, leia-se “melar” a operação policial a caminho.
Mendonça tornou público o relatório encomendado à PF e assinou um despacho no qual afirma que o “caminho inevitável” é o plenário do Supremo decidir “de forma pública e transparente, em sessão presencial” o que fazer. Tradução: se Moraes será investigado. É mais uma tacada do tipo lavajatista, de usar a opinião pública para pressionar o Judiciário, ao estilo de Sergio Moro, cuja postura Mendonça tem mimetizado ao orientar a mira da PF nos inquéritos do Master e do INSS. A correlação de forças no Supremo não permite antecipar o desfecho, na hipótese de julgamento plenário. A realização ou não dessa sessão depende de Fachin.
Gonet pediu ao tribunal a anulação do relatório policial encomendado por Mendonça. Segundo ele, há duas nulidades por trás do documento. Uma é que o juiz abriu uma investigação por conta própria, sem ser provocado pela PF ou pelo Ministério Público. A outra é que a produção do relatório deveria ter sido discutida no plenário do STF. Há um complicador na posição do procurador. Ele próprio é atingido pelo relatório policial. Além das citações a seu nome em conversas entre Vorcaro e Moraes, aparece como alguém das relações do banqueiro. A ponte entre eles era o advogado Ciro Rocha Soares, que intermediou um convite para Gonet participar de um evento jurídico em Londres, em 2025, organizado por Moraes e patrocinado por Vorcaro. O banqueiro topava bancar as despesas do procurador-geral e de um filho dele, Pedro Gonet. O evento, cuja primeira edição aconteceu em 2024, foi cancelado.
Soares foi intermediário de um encontro de Mendonça com Vorcaro, em março do ano passado, época em que o caso Master ainda não tinha vindo à tona, conforme revelado pelo jornalista Paulo Motoryn. A reunião ocorreu na sede do instituto do juiz, o Iter, em São Paulo. O Iter é um flanco exposto do togado, por causa de contratos com órgãos públicos. Um deles: 1,2 milhão de reais pagos por um consórcio municipal paulista, o Cioste, presidido por um prefeito que injetou dinheiro no Master na hora do aperto do banco, conforme revelado, em abril, por CartaCapital. O acordo foi feito quatro meses após a conversa de Mendonça e Vorcaro. Outro contrato chamativo: 518 mil reais com a Secretaria de Segurança Pública do Rio, de maio passado. Cláudio Castro, governador do estado até janeiro, é investigado no escândalo do Master. A PF pediu uma batida contra ele, e Mendonça autorizou justamente em maio. Não permitiu, porém, que fosse vasculhado o escritório de advocacia de Castro, onde o ex-governador guardaria documentos incriminadores.
E a política diante do maremoto? Flávio Bolsonaro pede a renúncia de Moraes, outros opositores querem o impeachment do juiz via Senado. Quem tem o poder de abrir o processo de cassação é o presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Na quarta-feira, o senador comentou no plenário: “Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para a mesma pessoa, para fazer um filme, e agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”. Foi uma alusão à cobrança de Flávio a Vorcaro. “A maior aliança da República hoje é do Davi com o Alexandre”, afirma um ministro de Lula. O juiz promoveu a reconciliação do senador com o presidente da República, ao oferecer um jantar no início de agosto. O petista conversou com alguns magistrados do Supremo nos últimos dias e está decidido a lavar as mãos no entrevero. O coordenador da campanha à reeleição, Edinho Silva, divulgou um vídeo após falar com Lula. Nele diz que “o sistema apodreceu” e que “ninguém está acima da lei, seja cidadão comum, um governante, um parlamentar, ou até um integrante do Poder Judiciário”.
A conferir se o lavajatismo vai triunfar mais uma vez.
Ao partir para cima de Moraes, Mendonça incendiou a oposição às vésperas do Dia da Pátria, data que o bolsonarismo usou em outras ocasiões para malhar o Supremo e pretende repetir a dose neste ano. Muitas campanhas direitistas ao Senado, casa com poder para cassar ministros das altas Cortes, se escoram no discurso anti-STF. Não só o tribunal está em jogo, a eleição presidencial também. A guerra contra Moraes é o ápice de uma atuação de Mendonça a favor do clã Bolsonaro nas investigações sobre falcatruas do Master e sobre descontos indevidos em aposentadorias do INSS. O ministro deve a vaga no STF a Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de cadeia por tentativa de golpe em um processo conduzido por Moraes. “É o mais ideológico” da Corte, anota um colega. Enquanto poupa Flávio Bolsonaro no inquérito sobre o filme Dark Horse, um capítulo do escândalo do Master, o “terrivelmente evangélico” parece empenhado em transformar Vorcaro em herói com uma delação premiada contra o lulismo. Uma forma de jogar no colo do governo um escândalo majoritariamente do Centrão e dos bolsonaristas, vide, entre outras, a participação decisiva dos ex-governadores Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, e Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e do senador Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro.
No fim de agosto, o gabinete de Mendonça recebeu Vorcaro, preso preventivamente desde março. Tomou-lhe um depoimento, a pedido do advogado de defesa. Uma das afirmações do interrogado foi de que topa acusar “pessoas do núcleo do atual governo”. A íntegra do depoimento foi vazada na quinta-feira 3. É o método lavajatista a pleno vapor a um mês da eleição. Busca-se pressionar as autoridades, via mídia, para que aceitem a delação de Vorcaro, alguém disposto a passar o Brasil a limpo. O relatório da PF sobre as relações de Moraes com Vorcaro dá plausibilidade à tese de que o banqueiro tem muito a falar.
Vorcaro foi preso duas vezes a pedido da PF e não conseguiu convencê-la a aceitar uma delação, nem teve mais sorte com a Procuradoria-Geral da República. Segundo fontes policiais, ele propôs um acordo inaceitável: reabrir o Master e pagar ao longo de anos, não de cara, uma multa de 40 bilhões de reais. Autorizada pelo Banco Central a funcionar no primeiro ano de Jair Bolsonaro, a instituição de Vorcaro foi fechada pelo BC no dia da primeira prisão dele, em novembro passado. A PF prepara-se para concluir as apurações principais do caso e incriminá-lo por gestão fraudulenta. Aí caberá à PGR acusá-lo, ou não, na Justiça. Um relatório do BC de outubro de 2025 aponta um golpe de 12 bilhões de reais do Master, com a venda ao BRB, banco estatal de Brasília, de uma carteira de crédito fajuta. É a maior fraude financeira da história brasileira.
A delação de um parceiro de Vorcaro tem tudo para piorar a situação do banqueiro e para tornar mais improvável um acordo de delação. José Carlos Mansur é o dono de um fundo, a Reag, que o Master usava para lavar dinheiro. A Reag também se prestava à lavanderia do PCC. Os negócios com o Master injetaram recursos em uma empresa, a Super Empreendimentos, que depois compraria uma casa em Brasília onde seria instalado o QG de Vorcaro. Até 2024, a Super era dirigida por um cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel. Na eleição de 2022, Zettel foi um dos maiores financiadores de Bolsonaro, 3 milhões de reais. A delação de Mansur acaba de ser selada com o Ministério Público. Cabe a Mendonça, relator do caso Master, homologá-la. Idem com outra colaboração premiada encaminhada, conforme O Globo. E esta atinge envolvidos com o filme Dark Horse, a cinebiografia de Bolsonaro bancada por Vorcaro.
O delator, neste caso, é Antônio Carlos Freixo Júnior, alvo em janeiro de uma batida da PF. Conhecido como “mineiro”, fazia chegar aos Estados Unidos os repasses de Vorcaro para o filme. Em 5 de fevereiro do ano passado, Vorcaro e Zettel trocaram mensagens sobre a produção e o patrocínio, conforme revelado, em maio, pelo Intercept Brasil. Zettel dizia que a área de câmbio do Master estava “criando caso”. Vorcaro autorizou “mandar a grana”, por meio de “quem paga lá fora”. Zettel perguntou se poderia pedir ao “Minas” para enviar, ou seja, a Freixo Jr. À época, Eduardo Bolsonaro já havia se autoexilado no Texas, a fim de conspirar para que o governo Trump impusesse medidas prejudiciais ao Brasil, na esperança de livrar o pai da cadeia. Convertido em réu no STF por “coação no curso do processo”, foi condenado a quatro anos em um processo relatado por Moraes. A delação de “mineiro” é uma chance de descobrir se Vorcaro pagou o complô de Eduardo. Fontes da PF são céticas quanto ao auxílio do governo norte-americano no rastreio da verba depositada no Heavengate, o fundo localizado nos EUA que era o destino dos recursos transferidos por Vorcaro. Motivo do ceticismo: os laços do bolsonarismo com o trumpismo.
Em setembro de 2025, o Heavengate recebeu um extra de 1,6 milhão de dólares de Vorcaro, de acordo com um relatório do Coaf, o órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, revelado pela revista Piauí. Na semana anterior, Flávio Bolsonaro havia cobrado o banqueiro. “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?”, dizia o senador. “É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme, e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso.” O senador insiste que a relação entre Vorcaro e o filme só envolve dinheiro privado, ou seja, nada antiético. Será? Ao chegar à beira do abismo, em 2024, o Master lambuzou-se em verba pública para tentar se safar. O fundo de pensão dos servidores do Rio injetou cerca de 3 bilhões de reais no banco, na gestão Castro. E o BRB, 12 bilhões, sob Ibaneis. Karina Ferreira da Gama, a dona da produtora do filme, a GoUp, pede para ser investigada sob supervisão do Mendonça. Idem o deputado Mário Frias, do PL, secretário de Cultura no governo Bolsonaro, roteirista da cinebiografia do capitão e autor do envio de dinheiro de emendas parlamentares a uma ONG de Gama. Essa ONG, o Instituto Conhecer Brasil, é alvo da Polícia Civil de São Paulo por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura paulistana. O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira vê “consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark Horse. Daí os advogados da produtora acionarem Mendonça para que ele retire de São Paulo a investigação e puxe para si em Brasília. Frias é alvo de um inquérito no Supremo, aos cuidados de Flávio Dino, por ter financiado o instituto com emenda parlamentar. Seu advogado pediu a Fachin que transfira o inquérito para Mendonça. Tanto o deputado quanto Gama parecem, digamos, confiar em Mendonça.
Quando o assunto é Dark Horse, o filho “Zero Um” não tem do que reclamar do “terrivelmente evangélico”. O processo não tem gerado notícias. Há, porém, um recurso no Supremo capaz de fazer tudo passar às mãos de outro magistrado. Após a divulgação do áudio de Flávio a Vorcaro, o deputado Lindbergh Farias, do PT, requereu ao STF uma nova investigação do senador. A solicitação foi a Moraes, pois, à época, o ministro era o relator da ação penal de “coação” contra Eduardo. Moraes não aceitou a relatoria e remeteu a bola a Fachin. Este entendeu que o tema se relacionava ao caso Master e mandou o pedido a Mendonça. Cabe a este liberar o recurso para o plenário do Supremo resolver a controvérsia sobre a relatoria.
Por que Moraes se esquivou de supervisionar o processo sobre Dark Horse? Segundo informações em Brasília, o juiz não queria entrar na berlinda associado a Vorcaro. O relatório encomendado por Mendonça a delegados da PF do caso Master explica o receio. Moraes e o banqueiro estiveram juntos várias vezes desde o fim de 2023. O que falaram nas conversas não se sabe. Mas as trocas de mensagens escritas entre eles são comprometedoras para Moraes, mesmo que a PF tenha conseguido descobrir apenas o que Vorcaro dizia. Os dois usavam um método peculiar nas mensagens. Em vez de escreverem o texto no WhatsApp, redigiam no aplicativo “bloco de notas”, faziam uma foto da “nota”, a enviavam ao outro e em seguida a apagavam do WhatsApp, forma de não deixar rastros. O que Vorcaro não sabia é que as fotos ficavam armazenadas em um lugar oculto no celular, e foi a esse “esconderijo” que a PF chegou ao apreender o telefone dele em novembro.
Ao se observarem as mensagens em conjunto e cotejá-las com os acontecimentos, a conclusão inescapável é de que Vorcaro contratou o escritório da esposa de Moraes para ter serviços prestados pelo próprio togado. E que o combinado foi entregue. Descobrir a existência de investigações policiais e de medidas judiciais contra o Master era uma das missões do juiz. Procurar autoridades que pudessem salvar a pele do banco e de seu dono era outra. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o procurador-geral, Paulo Gonet, parecem ter sido acionados por Moraes. Dois deles, afirma uma autoridade em Brasília, receberam mensagens de Moraes nas quais o ministro dizia que Vorcaro era “sério”. Situação que configura, em tese, crimes como advocacia administrativa, favorecimento pessoal, tráfico de influência e obstrução de Justiça.
O primeiro contrato de Vorcaro com o escritório de Viviane Barci de Moraes ocorreu em janeiro de 2024. Em 30 de dezembro de 2023, o banqueiro e o ministro haviam se encontrado na estância turística de Campos do Jordão, no que parece ter sido o tête-à-tête inicial. A reunião tinha sido intermediada por Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro. Foi Faria quem passou o telefone do togado a Vorcaro durante os preparativos do encontro. Duas semanas após a reunião, Moraes examinou o contrato que a esposa selaria com o banqueiro. Há registro de que ele alterou o documento antes da assinatura. O acordo era de 3 milhões de reais mensais, por três anos. Outro, de 50 milhões, a ser pago com cotas de empresas proprietárias de um helicóptero e de um avião, foi celebrado em maio de 2025.
O ano passado marcou a ruína do Master. Vorcaro foi preso pela PF pela primeira vez na noite de 17 de novembro, uma segunda-feira, no aeroporto de Guarulhos, quando estava prestes a embarcar para o exterior. Na antevéspera, 15 de novembro, um sábado, ele havia procurado Moraes. Em uma das mensagens, dizia: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo, tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que na segunda já tenho que estar fora?” No minuto seguinte, prosseguiu: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”.
As mensagens resumem a natureza da relação entre os dois e delineiam o papel do magistrado. “Juiz Ricardo” é Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, autor da decisão sobre a prisão preventiva de novembro, fato desconhecido na ocasião das mensagens. Galípolo é o presidente do BC. Paulo é Gonet, o procurador-geral. E Andrei, o diretor da PF. Em 16 de novembro, Vorcaro e Moraes acertaram uma reunião às 2 da tarde. Depois dela, o primeiro escreveu ao segundo: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Não houve atraso. A PF o algemou no dia seguinte e desde então resiste às suas propostas de delação. Em uma das últimas mensagens a Moraes no dia da prisão, ele indagou: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Por “bloquear”, leia-se “melar” a operação policial a caminho.
Mendonça tornou público o relatório encomendado à PF e assinou um despacho no qual afirma que o “caminho inevitável” é o plenário do Supremo decidir “de forma pública e transparente, em sessão presencial” o que fazer. Tradução: se Moraes será investigado. É mais uma tacada do tipo lavajatista, de usar a opinião pública para pressionar o Judiciário, ao estilo de Sergio Moro, cuja postura Mendonça tem mimetizado ao orientar a mira da PF nos inquéritos do Master e do INSS. A correlação de forças no Supremo não permite antecipar o desfecho, na hipótese de julgamento plenário. A realização ou não dessa sessão depende de Fachin.
Gonet pediu ao tribunal a anulação do relatório policial encomendado por Mendonça. Segundo ele, há duas nulidades por trás do documento. Uma é que o juiz abriu uma investigação por conta própria, sem ser provocado pela PF ou pelo Ministério Público. A outra é que a produção do relatório deveria ter sido discutida no plenário do STF. Há um complicador na posição do procurador. Ele próprio é atingido pelo relatório policial. Além das citações a seu nome em conversas entre Vorcaro e Moraes, aparece como alguém das relações do banqueiro. A ponte entre eles era o advogado Ciro Rocha Soares, que intermediou um convite para Gonet participar de um evento jurídico em Londres, em 2025, organizado por Moraes e patrocinado por Vorcaro. O banqueiro topava bancar as despesas do procurador-geral e de um filho dele, Pedro Gonet. O evento, cuja primeira edição aconteceu em 2024, foi cancelado.
Soares foi intermediário de um encontro de Mendonça com Vorcaro, em março do ano passado, época em que o caso Master ainda não tinha vindo à tona, conforme revelado pelo jornalista Paulo Motoryn. A reunião ocorreu na sede do instituto do juiz, o Iter, em São Paulo. O Iter é um flanco exposto do togado, por causa de contratos com órgãos públicos. Um deles: 1,2 milhão de reais pagos por um consórcio municipal paulista, o Cioste, presidido por um prefeito que injetou dinheiro no Master na hora do aperto do banco, conforme revelado, em abril, por CartaCapital. O acordo foi feito quatro meses após a conversa de Mendonça e Vorcaro. Outro contrato chamativo: 518 mil reais com a Secretaria de Segurança Pública do Rio, de maio passado. Cláudio Castro, governador do estado até janeiro, é investigado no escândalo do Master. A PF pediu uma batida contra ele, e Mendonça autorizou justamente em maio. Não permitiu, porém, que fosse vasculhado o escritório de advocacia de Castro, onde o ex-governador guardaria documentos incriminadores.
E a política diante do maremoto? Flávio Bolsonaro pede a renúncia de Moraes, outros opositores querem o impeachment do juiz via Senado. Quem tem o poder de abrir o processo de cassação é o presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Na quarta-feira, o senador comentou no plenário: “Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para a mesma pessoa, para fazer um filme, e agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”. Foi uma alusão à cobrança de Flávio a Vorcaro. “A maior aliança da República hoje é do Davi com o Alexandre”, afirma um ministro de Lula. O juiz promoveu a reconciliação do senador com o presidente da República, ao oferecer um jantar no início de agosto. O petista conversou com alguns magistrados do Supremo nos últimos dias e está decidido a lavar as mãos no entrevero. O coordenador da campanha à reeleição, Edinho Silva, divulgou um vídeo após falar com Lula. Nele diz que “o sistema apodreceu” e que “ninguém está acima da lei, seja cidadão comum, um governante, um parlamentar, ou até um integrante do Poder Judiciário”.
A conferir se o lavajatismo vai triunfar mais uma vez.
Como a riqueza reproduz a desigualdade brasileira
No dia 19 de agosto, a Oxfam Brasil lançou o relatório Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia. O documento mostra uma aparente contradição: embora alguns indicadores de renda dos brasileiros tenham apresentado melhora nos últimos anos, uma parcela desproporcional dos ganhos foi apropriada pelos grupos situados no topo da pirâmide social. Entre 2017 e 2023, por exemplo, a participação do 1% mais rico na renda nacional passou de 20,4% para 24,3%; desse avanço, 85% ficaram com o 0,1% mais rico. Para compreender essa aparente contradição, porém, é preciso ir além da constatação de que o Brasil apresenta uma das mais elevadas concentrações de renda do mundo. É necessário, antes de tudo, distinguir uma questão fundamental: salário é renda, mas renda não se resume ao salário.
Essa diferenciação exige uma breve pausa para alinhar três conceitos que, embora frequentemente tratados como sinônimos no debate público, possuem papéis completamente distintos na dinâmica econômica:
A desigualdade brasileira não resulta apenas da distribuição desigual da renda produzida pelo trabalho. Ela está assentada em uma estrutura de propriedade que permite a uma pequena parcela da sociedade transformar patrimônio em renda, renda em riqueza e riqueza em poder – processo que também se materializa de forma desigual no território.
Na prática, esse mecanismo opera como uma espiral de privilégios. A propriedade do capital gera uma renda que não apenas sustenta o indivíduo, mas se reverte continuamente em novo patrimônio. É na continuidade desse ciclo que a desigualdade deixa de ser um evento ocasional e passa a constituir uma estrutura permanente. Por isso, para compreender a concentração da renda, não basta perguntar quanto cada pessoa ganha; é preciso perguntar também quem possui os ativos que a produzem. E, diante da enorme concentração no topo da pirâmide, surge uma questão fundamental: de onde vem uma parcela tão grande desse montante?
Uma parcela significativa dessa renda pouco ou nada depende da remuneração do trabalho, mas do fato de a propriedade do capital produzir novos rendimentos e se multiplicar continuamente. No Brasil, os dados apresentados pela Oxfam evidenciam que a concentração no topo da pirâmide social está estreitamente relacionada à posse de ativos financeiros, imobiliários e empresariais. À medida que esses ativos geram lucros, dividendos, juros, aluguéis e ganhos patrimoniais, seus proprietários ampliam sua capacidade de acumulação e de reprodução da riqueza. Esse processo é ainda mais intenso entre o 1% mais rico e, de forma particularmente concentrada, no interior desse grupo, entre os integrantes do 0,1% do topo.
Desse modo, uma parcela expressiva dos rendimentos dos mais ricos não depende exclusivamente da remuneração obtida pelo trabalho, mas da capacidade de um patrimônio já acumulado produzir novos rendimentos e ser continuamente ampliado.
Assim, a questão sobre a origem de tamanha concentração nos conduz inevitavelmente à estrutura de propriedade: o patrimônio acumulado deixa de ser mero bem individual e passa a atuar como um mecanismo de reprodução da riqueza, capaz de gerar novos fluxos de renda e multiplicar a riqueza daqueles que já ocupam o topo da estrutura social.
Essa conversão da riqueza privada em poder político manifesta-se com clareza na própria composição do Congresso Nacional. Segundo o relatório da Oxfam, 45% das pessoas eleitas declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão, revelando uma presença massiva de milionários no Legislativo. No Senado Federal, o contraste é ainda mais expressivo: entre as 207 candidaturas analisadas, apenas 15, cerca de 7% do total, possuíam patrimônio de até R$ 100 mil.
Esses dados revelam uma assimetria que vai muito além da renda: o abismo econômico converte-se em desigualdade nas condições de acesso ao poder político. Embora o Parlamento seja formalmente democrático, sua composição está muito distante da estrutura patrimonial da sociedade brasileira, marcada por uma forte concentração de representantes pertencentes aos estratos de maior patrimônio e pela presença reduzida daqueles situados nas camadas patrimoniais inferiores. A riqueza deixa, assim, de ser mero recurso privado e passa a atuar como alavanca de influência pública, permitindo que as elites econômicas moldem as regras do jogo e a distribuição de recursos do Estado. Em última análise, a desigualdade econômica passa a produzir também uma desigualdade política, restringindo a diversidade social nas instituições e favorecendo a reprodução das estruturas de poder existentes.
Essa engrenagem de acumulação e poder não fica solta no ar: ela ganha corpo, toma forma e se fixa diretamente no território. É no espaço geográfico que a passagem do patrimônio ao poder se torna mais concreta, transformando a desigualdade econômica e política em uma profunda desigualdade territorial, cujos efeitos se materializam diariamente no campo e na cidade.
No espaço urbano, a produção da segregação estabelece novas fronteiras de exclusão à medida que a mobilidade do capital financeiro e imobiliário transforma o solo em um ativo estratégico de valorização e especulação. Esse processo contribui para concentrar investimentos públicos e privados em áreas dotadas de maior infraestrutura e capacidade de valorização, ao mesmo tempo em que produz novas centralidades e enclaves fortificados, como condomínios fechados, shopping centers e complexos empresariais, que fragmentam o tecido urbano e estabelecem diferentes regimes de acesso à cidade. Essas estruturas redefinem a centralidade urbana por meio de espaços seletivos e controlados, reproduzindo, sob formas privadas, funções tradicionalmente associadas ao espaço público. Enquanto o capital imobiliário se apropria de parcelas da valorização produzida coletivamente pela cidade e concentra investimentos nas áreas mais valorizadas, a população trabalhadora, cuja principal fonte de renda é o salário, é submetida aos efeitos da espoliação urbana e empurrada para periferias cada vez mais distantes. A ausência ou precariedade de saneamento, transporte, iluminação e equipamentos públicos transforma, assim, a distância geográfica em barreira concreta ao acesso a direitos fundamentais.
No campo, por sua vez, a materialização da riqueza expressa a continuidade de condicionantes históricos de longa duração que estruturam o capitalismo agrário brasileiro. A estrutura fundiária contemporânea é herdeira de uma longa história de concentração da terra, marcada pelo regime de sesmarias, por quase quatro séculos de escravidão e, posteriormente, pela Lei de Terras de 1850, que estabeleceu a compra como principal forma de acesso à propriedade e dificultou sua obtenção por aqueles que não dispunham de recursos para adquiri-la. Em um contexto de profunda desigualdade social e racial, esse processo contribuiu para restringir o acesso à terra por grande parte da população negra e trabalhadora. Essa herança histórica permanece inscrita no poder econômico das grandes propriedades rurais e na capacidade de expansão do agronegócio sobre novas áreas, inclusive em territórios públicos e tradicionais ocupados por povos indígenas, comunidades quilombolas e populações ribeirinhas. A propriedade da terra opera, nesse contexto, simultaneamente como reserva de valor, fonte de renda e instrumento de poder, enquanto o território rural é incorporado às cadeias de produção e exportação de commodities.
Essa estrutura também é atravessada pela ação do Estado, que historicamente desempenha papel decisivo na organização do espaço agrário por meio de crédito, infraestrutura, políticas de financiamento, pesquisa e incentivos econômicos. Quando esses instrumentos são distribuídos de forma desigual entre os diferentes agentes do campo, contribuem para ampliar as vantagens dos segmentos mais capitalizados, enquanto agricultores familiares e pequenos produtores enfrentam maiores restrições de acesso a recursos, mercados e infraestrutura. A desigualdade patrimonial, portanto, não apenas se reproduz no campo: ela participa da produção de profundos contrastes territoriais e regionais.
Em última análise, o relatório da Oxfam ganha uma dimensão mais potente quando lido sob a perspectiva da Geografia Política. A desigualdade brasileira não é apenas um indicador estatístico abstrato, mas uma estrutura de poder espacializada. O capital acumulado no topo amplia a capacidade de influência sobre as instituições, enquanto a concentração da propriedade e dos investimentos organiza de maneira desigual o acesso ao território, à infraestrutura, aos serviços e às oportunidades. A desigualdade econômica, convertida em poder político e inscrita no espaço geográfico, transforma o território em uma das principais dimensões da reprodução dos privilégios.
Essa diferenciação exige uma breve pausa para alinhar três conceitos que, embora frequentemente tratados como sinônimos no debate público, possuem papéis completamente distintos na dinâmica econômica:
Salário: É a remuneração recebida pelo trabalho realizado. Para a esmagadora maioria da população, ele constitui a única fonte de recursos para a manutenção da vida cotidiana, garantindo o acesso a bens essenciais como alimentação, moradia e transporte. O salário, portanto, está diretamente vinculado à venda da força de trabalho no mercado.
Renda: Trata-se de um conceito mais amplo. Ela corresponde ao conjunto de recursos que uma pessoa ou família recebe em determinado período e pode ter diferentes origens. Além dos salários, a renda pode resultar de aposentadorias, benefícios, aluguéis, juros, lucros, dividendos e outras formas de remuneração. Essa distinção é fundamental para compreender a desigualdade, pois pessoas que possuem patrimônios elevados podem obter rendimentos significativos mesmo sem depender diretamente do trabalho para gerar sua renda.
Patrimônio: O patrimônio, por sua vez, representa o conjunto de bens e ativos acumulados por uma pessoa ou família. Nele podem estar incluídos imóveis, veículos, empresas, participações societárias, aplicações financeiras e outros ativos. Diferentemente da renda, que representa um fluxo contínuo de recursos recebido ao longo do tempo, o patrimônio constitui um estoque de riqueza acumulada. E essa diferença é fundamental: o patrimônio não representa apenas riqueza acumulada no passado; ele constitui também um ativo capaz de produzir novas rendas e, consequentemente, ampliar a própria riqueza por meio de aluguéis, juros, lucros e dividendos.
Renda do capital: É no encontro entre patrimônio e renda que surge a renda do capital. Ela corresponde aos rendimentos gerados a partir da propriedade de ativos: lucros distribuídos, dividendos, juros e aluguéis. A diferença crucial reside no fato de que o patrimônio não representa apenas uma riqueza passada, mas o motor da riqueza futura. Assim, quanto maior o patrimônio acumulado, maior a capacidade de gerar novas rendas de forma autônoma, sem qualquer dependência da venda da força de trabalho.
A desigualdade brasileira não resulta apenas da distribuição desigual da renda produzida pelo trabalho. Ela está assentada em uma estrutura de propriedade que permite a uma pequena parcela da sociedade transformar patrimônio em renda, renda em riqueza e riqueza em poder – processo que também se materializa de forma desigual no território.
Na prática, esse mecanismo opera como uma espiral de privilégios. A propriedade do capital gera uma renda que não apenas sustenta o indivíduo, mas se reverte continuamente em novo patrimônio. É na continuidade desse ciclo que a desigualdade deixa de ser um evento ocasional e passa a constituir uma estrutura permanente. Por isso, para compreender a concentração da renda, não basta perguntar quanto cada pessoa ganha; é preciso perguntar também quem possui os ativos que a produzem. E, diante da enorme concentração no topo da pirâmide, surge uma questão fundamental: de onde vem uma parcela tão grande desse montante?
Uma parcela significativa dessa renda pouco ou nada depende da remuneração do trabalho, mas do fato de a propriedade do capital produzir novos rendimentos e se multiplicar continuamente. No Brasil, os dados apresentados pela Oxfam evidenciam que a concentração no topo da pirâmide social está estreitamente relacionada à posse de ativos financeiros, imobiliários e empresariais. À medida que esses ativos geram lucros, dividendos, juros, aluguéis e ganhos patrimoniais, seus proprietários ampliam sua capacidade de acumulação e de reprodução da riqueza. Esse processo é ainda mais intenso entre o 1% mais rico e, de forma particularmente concentrada, no interior desse grupo, entre os integrantes do 0,1% do topo.
Desse modo, uma parcela expressiva dos rendimentos dos mais ricos não depende exclusivamente da remuneração obtida pelo trabalho, mas da capacidade de um patrimônio já acumulado produzir novos rendimentos e ser continuamente ampliado.
Assim, a questão sobre a origem de tamanha concentração nos conduz inevitavelmente à estrutura de propriedade: o patrimônio acumulado deixa de ser mero bem individual e passa a atuar como um mecanismo de reprodução da riqueza, capaz de gerar novos fluxos de renda e multiplicar a riqueza daqueles que já ocupam o topo da estrutura social.
Essa conversão da riqueza privada em poder político manifesta-se com clareza na própria composição do Congresso Nacional. Segundo o relatório da Oxfam, 45% das pessoas eleitas declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão, revelando uma presença massiva de milionários no Legislativo. No Senado Federal, o contraste é ainda mais expressivo: entre as 207 candidaturas analisadas, apenas 15, cerca de 7% do total, possuíam patrimônio de até R$ 100 mil.
Esses dados revelam uma assimetria que vai muito além da renda: o abismo econômico converte-se em desigualdade nas condições de acesso ao poder político. Embora o Parlamento seja formalmente democrático, sua composição está muito distante da estrutura patrimonial da sociedade brasileira, marcada por uma forte concentração de representantes pertencentes aos estratos de maior patrimônio e pela presença reduzida daqueles situados nas camadas patrimoniais inferiores. A riqueza deixa, assim, de ser mero recurso privado e passa a atuar como alavanca de influência pública, permitindo que as elites econômicas moldem as regras do jogo e a distribuição de recursos do Estado. Em última análise, a desigualdade econômica passa a produzir também uma desigualdade política, restringindo a diversidade social nas instituições e favorecendo a reprodução das estruturas de poder existentes.
Essa engrenagem de acumulação e poder não fica solta no ar: ela ganha corpo, toma forma e se fixa diretamente no território. É no espaço geográfico que a passagem do patrimônio ao poder se torna mais concreta, transformando a desigualdade econômica e política em uma profunda desigualdade territorial, cujos efeitos se materializam diariamente no campo e na cidade.
No espaço urbano, a produção da segregação estabelece novas fronteiras de exclusão à medida que a mobilidade do capital financeiro e imobiliário transforma o solo em um ativo estratégico de valorização e especulação. Esse processo contribui para concentrar investimentos públicos e privados em áreas dotadas de maior infraestrutura e capacidade de valorização, ao mesmo tempo em que produz novas centralidades e enclaves fortificados, como condomínios fechados, shopping centers e complexos empresariais, que fragmentam o tecido urbano e estabelecem diferentes regimes de acesso à cidade. Essas estruturas redefinem a centralidade urbana por meio de espaços seletivos e controlados, reproduzindo, sob formas privadas, funções tradicionalmente associadas ao espaço público. Enquanto o capital imobiliário se apropria de parcelas da valorização produzida coletivamente pela cidade e concentra investimentos nas áreas mais valorizadas, a população trabalhadora, cuja principal fonte de renda é o salário, é submetida aos efeitos da espoliação urbana e empurrada para periferias cada vez mais distantes. A ausência ou precariedade de saneamento, transporte, iluminação e equipamentos públicos transforma, assim, a distância geográfica em barreira concreta ao acesso a direitos fundamentais.
No campo, por sua vez, a materialização da riqueza expressa a continuidade de condicionantes históricos de longa duração que estruturam o capitalismo agrário brasileiro. A estrutura fundiária contemporânea é herdeira de uma longa história de concentração da terra, marcada pelo regime de sesmarias, por quase quatro séculos de escravidão e, posteriormente, pela Lei de Terras de 1850, que estabeleceu a compra como principal forma de acesso à propriedade e dificultou sua obtenção por aqueles que não dispunham de recursos para adquiri-la. Em um contexto de profunda desigualdade social e racial, esse processo contribuiu para restringir o acesso à terra por grande parte da população negra e trabalhadora. Essa herança histórica permanece inscrita no poder econômico das grandes propriedades rurais e na capacidade de expansão do agronegócio sobre novas áreas, inclusive em territórios públicos e tradicionais ocupados por povos indígenas, comunidades quilombolas e populações ribeirinhas. A propriedade da terra opera, nesse contexto, simultaneamente como reserva de valor, fonte de renda e instrumento de poder, enquanto o território rural é incorporado às cadeias de produção e exportação de commodities.
Essa estrutura também é atravessada pela ação do Estado, que historicamente desempenha papel decisivo na organização do espaço agrário por meio de crédito, infraestrutura, políticas de financiamento, pesquisa e incentivos econômicos. Quando esses instrumentos são distribuídos de forma desigual entre os diferentes agentes do campo, contribuem para ampliar as vantagens dos segmentos mais capitalizados, enquanto agricultores familiares e pequenos produtores enfrentam maiores restrições de acesso a recursos, mercados e infraestrutura. A desigualdade patrimonial, portanto, não apenas se reproduz no campo: ela participa da produção de profundos contrastes territoriais e regionais.
Em última análise, o relatório da Oxfam ganha uma dimensão mais potente quando lido sob a perspectiva da Geografia Política. A desigualdade brasileira não é apenas um indicador estatístico abstrato, mas uma estrutura de poder espacializada. O capital acumulado no topo amplia a capacidade de influência sobre as instituições, enquanto a concentração da propriedade e dos investimentos organiza de maneira desigual o acesso ao território, à infraestrutura, aos serviços e às oportunidades. A desigualdade econômica, convertida em poder político e inscrita no espaço geográfico, transforma o território em uma das principais dimensões da reprodução dos privilégios.
A história do fim da classe média
“Vêm aí os primos do norte.” É assim que me lembro de terem sido anunciados, embora talvez a memória me atraiçoe, uma vez que o anúncio foi feito por avós e tios que viviam no Porto. Foi a primeira e a última vez que os vi. Mas o dia ficou-me na memória, porque me explicaram que era a primeira vez que vinham ao Algarve. Eu, que ali passava férias ainda na barriga da minha mãe, registei este dado com estranheza de coisa exótica. O privilégio é assim. Ofusca o que está mesmo ao lado, apaga quem não é igual a nós.
Esta semana, enquanto comprava os livros escolares, a minha filha ia e vinha ao balcão, insistindo para que eu lhe comprasse um livro de histórias. E eu, assoberbada com a verificação da encomenda escolar e um pouco perplexa com a soma que se agigantava, ia-a afastando. “Já vamos ver isso.” O rapaz que me atendia apressou-se logo a fazer um comentário simpático, deixando claro que nesta época do ano já se habituou a ver pais aflitos com a conta do material escolar. E eu, que até tenho a sorte de poder dar-me ao luxo de comprar aos meus filhos os livros que eles querem, pedi para juntar à conta aquele livro que a minha filha tanto desejava, enquanto aproveitava para lhe explicar como nem todos os pais podiam fazer o mesmo, apesar dos vouchers que o Estado dá a quem anda nas escolas públicas e tem, assim, pelo menos, os manuais gratuitos.
Entre uma e outra história, deve haver uns 30 anos de diferença. Parece que estes dois episódios não têm qualquer relação entre si. Mas eles contam-nos um pouco do que aconteceu ao País nestas décadas de intervalo.
Quando nos anos 90 aqueles primos afastados vieram pela primeira vez passar férias ao Algarve, dava os primeiros passos mais sólidos aquilo a que poderia chamar-se uma classe média. Para muitas famílias, foi o tempo das primeiras férias fora de casa, da compra do primeiro carro ou da primeira casa, dos eletrodomésticos (comprados a prestações ou não) que eram grande novidade antes de se tornarem banais, como os micro-ondas, as arcas frigoríficas, as aparelhagens de som, as VHS primeiro e depois os DVDs. Havia no ar um cheiro a otimismo. Os hipermercados eram um sítio onde se passeava e os refrigerantes e iogurtes começaram a encher os frigoríficos. Sim, foi o tempo dos dinheiros que vinham da Europa e de um excesso de consumismo, que vinha de uma espécie de fome de tudo dos anos sombrios da ditadura. Mas foi também muito o tempo em que a Educação e a Saúde deixaram de ser privilégios e se tornaram direitos e essa é uma parte importante da história.
Nessa altura, estavam na idade adulta aqueles a quem a Revolução abriu as portas para uma vida melhor. Eram os professores, médicos, enfermeiros e engenheiros de uma nova geração, alguns filhos de pedreiros ou camponeses, que conseguiam empregos com que os seus pais nunca tinham sequer sonhado e direitos laborais, como férias pagas e baixas por doença, que poucos anos antes pareciam uma ficção. Num país onde tudo faltava, não lhes faltava trabalho. E, mais do que isso, parecia que nada faltaria aos seus filhos.
Ninguém fazia contas de cabeça para pagar um seguro de saúde. Ninguém sentia que se não fossem para uma escola privada estava a condenar os filhos a um futuro pior. Nós, os que nos sentávamos nos bancos da escola pública, tínhamos ao lado os filhos dos professores universitários e das empregadas de limpeza, os filhos dos engenheiros e dos trabalhadores do comércio. E, no máximo, a grande diferença era que uns compravam Levi’s legítimas e os outros iam à feira. Mas a escola não era um quebra-cabeças financeiro. Parecia (mesmo que houvesse uma grande ilusão nisso) que podíamos todos chegar aos mesmos lugares.
Trinta anos depois, pagar pela Saúde e pela Educação banalizou-se tanto que quase parece que o fazemos por escolha. E quase nem pensamos em como poderíamos gastar esse dinheiro e na diferença que ele faria se não nos sentíssemos impelidos a procurar nos privados um serviço que se degradou tanto no público. Sei bem que continua a haver escolas públicas extraordinárias e que só o SNS garante alguns cuidados que são impossíveis de pagar em hospitais privados. Mas não é disso que falo. Do que falo é desta classe média que está a deixar de o ser, não porque os impostos lhe comem o salário (embora, sim, os impostos sobre o trabalho estejam demasiado altos, sobretudo quando comparados com o que se taxa a riqueza), mas sobretudo pela falta de investimento público.
Em Portugal, cerca de 33% das famílias não têm dinheiro para pagar uma semana de férias fora de casa. E este não é um problema exclusivamente português: na Europa, a média dos que não podem dar-se a esse luxo está nos 27,5%. Claro que é preciso não esquecer que, dependendo se se considera o salário base ou a remuneração total declarada, em Portugal cerca de 55% a 75% dos trabalhadores ganham até mil euros por mês. Mas mesmo os 2,7% que ganham mais de três mil euros líquidos (e que quadruplicaram nos últimos dez anos) sentem que esses três mil euros valem cada vez menos. E não é só (embora também seja) porque a inflação está a comer-lhes o salário. É também porque há uma fatia de rendimento cada vez maior que vai para o que antes era assegurado gratuitamente e com qualidade pelo Estado. Se somarmos a isso os efeitos da especulação imobiliária (em média, os portugueses destinam cerca de 80% do salário para pagar a casa), percebemos melhor a história deste fim da classe média.
A classe média foi, em certa medida, uma espécie de amortecedor social. Uma ideia política, feita de capacidades aquisitivas simbólicas (como as férias fora de casa, o carro próprio e a casa), que servia para tornar mais aceitáveis algumas desigualdades. A ideia central era a de que o esforço e o trabalho podiam servir de elevador social. Hoje, o simples facto de apenas 3% dos estudantes que entraram este ano no Ensino Superior na primeira fase virem das famílias mais pobres desmonta bem essa ideia. Se juntarmos a isso a própria erosão da noção de propriedade, com as hipotecas sobre hipotecas feitas para se conseguir viver, as licenças que nos permitem ser utilizadores de tantos serviços, mas não proprietários, e uma precariedade que perpassa todas as esferas das nossas vidas, percebemos que a classe média é uma espécie de ideia fora de moda.
As elites parecem ter deixado de precisar das classes médias. A aceitação das desigualdades como naturais (às vezes, até tidas como um dado biológico) ajuda a perceber em parte porquê. A promoção de uma meritocracia aspiracional e uma pornografia do luxo difundida por influencers que nos dizem que a riqueza virá se a “visualizarmos” são outra parte desta domesticação dos que antes reivindicavam direitos. A apatia política geral das massas explica o resto. Os super-ricos não sentem medo do poder popular. A própria ideia de que é preciso conquistar a opinião pública está enfraquecida, à medida que cada vez mais decisões se transferem da esfera política para a técnica e as soluções são apresentadas como inevitabilidades.
Não escrevo nada disto para assumir uma derrota. Pelo contrário. Escrevo-o, porque sei que é preciso nomear as coisas para as entender. E também sei que é cada vez mais importante perceber que o mesmo poder que fez ascender as classes médias está a agora a fazê-las desaparecer. O que não desaparece é o facto de que as classes trabalhadoras serão sempre mais do que as elites que querem oprimi-las. Assim elas entendam o seu poder.
Esta semana, enquanto comprava os livros escolares, a minha filha ia e vinha ao balcão, insistindo para que eu lhe comprasse um livro de histórias. E eu, assoberbada com a verificação da encomenda escolar e um pouco perplexa com a soma que se agigantava, ia-a afastando. “Já vamos ver isso.” O rapaz que me atendia apressou-se logo a fazer um comentário simpático, deixando claro que nesta época do ano já se habituou a ver pais aflitos com a conta do material escolar. E eu, que até tenho a sorte de poder dar-me ao luxo de comprar aos meus filhos os livros que eles querem, pedi para juntar à conta aquele livro que a minha filha tanto desejava, enquanto aproveitava para lhe explicar como nem todos os pais podiam fazer o mesmo, apesar dos vouchers que o Estado dá a quem anda nas escolas públicas e tem, assim, pelo menos, os manuais gratuitos.
Entre uma e outra história, deve haver uns 30 anos de diferença. Parece que estes dois episódios não têm qualquer relação entre si. Mas eles contam-nos um pouco do que aconteceu ao País nestas décadas de intervalo.
Quando nos anos 90 aqueles primos afastados vieram pela primeira vez passar férias ao Algarve, dava os primeiros passos mais sólidos aquilo a que poderia chamar-se uma classe média. Para muitas famílias, foi o tempo das primeiras férias fora de casa, da compra do primeiro carro ou da primeira casa, dos eletrodomésticos (comprados a prestações ou não) que eram grande novidade antes de se tornarem banais, como os micro-ondas, as arcas frigoríficas, as aparelhagens de som, as VHS primeiro e depois os DVDs. Havia no ar um cheiro a otimismo. Os hipermercados eram um sítio onde se passeava e os refrigerantes e iogurtes começaram a encher os frigoríficos. Sim, foi o tempo dos dinheiros que vinham da Europa e de um excesso de consumismo, que vinha de uma espécie de fome de tudo dos anos sombrios da ditadura. Mas foi também muito o tempo em que a Educação e a Saúde deixaram de ser privilégios e se tornaram direitos e essa é uma parte importante da história.
Nessa altura, estavam na idade adulta aqueles a quem a Revolução abriu as portas para uma vida melhor. Eram os professores, médicos, enfermeiros e engenheiros de uma nova geração, alguns filhos de pedreiros ou camponeses, que conseguiam empregos com que os seus pais nunca tinham sequer sonhado e direitos laborais, como férias pagas e baixas por doença, que poucos anos antes pareciam uma ficção. Num país onde tudo faltava, não lhes faltava trabalho. E, mais do que isso, parecia que nada faltaria aos seus filhos.
Ninguém fazia contas de cabeça para pagar um seguro de saúde. Ninguém sentia que se não fossem para uma escola privada estava a condenar os filhos a um futuro pior. Nós, os que nos sentávamos nos bancos da escola pública, tínhamos ao lado os filhos dos professores universitários e das empregadas de limpeza, os filhos dos engenheiros e dos trabalhadores do comércio. E, no máximo, a grande diferença era que uns compravam Levi’s legítimas e os outros iam à feira. Mas a escola não era um quebra-cabeças financeiro. Parecia (mesmo que houvesse uma grande ilusão nisso) que podíamos todos chegar aos mesmos lugares.
Trinta anos depois, pagar pela Saúde e pela Educação banalizou-se tanto que quase parece que o fazemos por escolha. E quase nem pensamos em como poderíamos gastar esse dinheiro e na diferença que ele faria se não nos sentíssemos impelidos a procurar nos privados um serviço que se degradou tanto no público. Sei bem que continua a haver escolas públicas extraordinárias e que só o SNS garante alguns cuidados que são impossíveis de pagar em hospitais privados. Mas não é disso que falo. Do que falo é desta classe média que está a deixar de o ser, não porque os impostos lhe comem o salário (embora, sim, os impostos sobre o trabalho estejam demasiado altos, sobretudo quando comparados com o que se taxa a riqueza), mas sobretudo pela falta de investimento público.
Em Portugal, cerca de 33% das famílias não têm dinheiro para pagar uma semana de férias fora de casa. E este não é um problema exclusivamente português: na Europa, a média dos que não podem dar-se a esse luxo está nos 27,5%. Claro que é preciso não esquecer que, dependendo se se considera o salário base ou a remuneração total declarada, em Portugal cerca de 55% a 75% dos trabalhadores ganham até mil euros por mês. Mas mesmo os 2,7% que ganham mais de três mil euros líquidos (e que quadruplicaram nos últimos dez anos) sentem que esses três mil euros valem cada vez menos. E não é só (embora também seja) porque a inflação está a comer-lhes o salário. É também porque há uma fatia de rendimento cada vez maior que vai para o que antes era assegurado gratuitamente e com qualidade pelo Estado. Se somarmos a isso os efeitos da especulação imobiliária (em média, os portugueses destinam cerca de 80% do salário para pagar a casa), percebemos melhor a história deste fim da classe média.
A classe média foi, em certa medida, uma espécie de amortecedor social. Uma ideia política, feita de capacidades aquisitivas simbólicas (como as férias fora de casa, o carro próprio e a casa), que servia para tornar mais aceitáveis algumas desigualdades. A ideia central era a de que o esforço e o trabalho podiam servir de elevador social. Hoje, o simples facto de apenas 3% dos estudantes que entraram este ano no Ensino Superior na primeira fase virem das famílias mais pobres desmonta bem essa ideia. Se juntarmos a isso a própria erosão da noção de propriedade, com as hipotecas sobre hipotecas feitas para se conseguir viver, as licenças que nos permitem ser utilizadores de tantos serviços, mas não proprietários, e uma precariedade que perpassa todas as esferas das nossas vidas, percebemos que a classe média é uma espécie de ideia fora de moda.
As elites parecem ter deixado de precisar das classes médias. A aceitação das desigualdades como naturais (às vezes, até tidas como um dado biológico) ajuda a perceber em parte porquê. A promoção de uma meritocracia aspiracional e uma pornografia do luxo difundida por influencers que nos dizem que a riqueza virá se a “visualizarmos” são outra parte desta domesticação dos que antes reivindicavam direitos. A apatia política geral das massas explica o resto. Os super-ricos não sentem medo do poder popular. A própria ideia de que é preciso conquistar a opinião pública está enfraquecida, à medida que cada vez mais decisões se transferem da esfera política para a técnica e as soluções são apresentadas como inevitabilidades.
Não escrevo nada disto para assumir uma derrota. Pelo contrário. Escrevo-o, porque sei que é preciso nomear as coisas para as entender. E também sei que é cada vez mais importante perceber que o mesmo poder que fez ascender as classes médias está a agora a fazê-las desaparecer. O que não desaparece é o facto de que as classes trabalhadoras serão sempre mais do que as elites que querem oprimi-las. Assim elas entendam o seu poder.
Política não é um mundo paralelo
As eleições constituem o principal instrumento para que os políticos ouçam, dialoguem e respondam à sociedade. Isso não quer dizer que os governantes e representantes também não tenham de prestar contas ao longo de seus mandatos. Ocupar um cargo eletivo sempre envolve ser monitorado e responsabilizado por seus atos. Mas é no processo eleitoral que os cidadãos têm mais força para listar as prioridades e buscar soluções para os problemas públicos. O que estamos vendo em 2026, infelizmente, é um uso muito insatisfatório e reduzido desse momento estratégico da democracia.
O Brasil passou por muitas transformações positivas desde o início da redemocratização. Nesta lista estariam o acesso universal à saúde, a expansão da educação para camadas sociais que tinham sido alijadas ou expulsas das escolas, a criação de políticas que reduziram a pobreza, a estabilização da economia com o Plano Real, bem como a adoção de programas para proteger o meio ambiente e minorias sociais, como negros, mulheres e indígenas. Tudo isso só foi possível porque houve eleições, com participação dos cidadãos, pressões de organizações da sociedade e apresentação de propostas por candidatos competindo entre si.
A eleição de 2026 tem toda a estrutura para ser o terreno de construção de melhores políticas públicas frente aos diversos problemas que o país terá de enfrentar nos próximos quatro anos. Entretanto, até agora, o debate e as disputas eleitorais têm sido pobres em ideias, fugindo dos principais problemas que vão afligir o próximo presidente e o Congresso Nacional. Trata-se de um pleito em que a política está rodando em torno de si mesma, quase num mundo paralelo.
A explicação para esse comportamento no plano dos concorrentes ao Legislativo resume-se a uma palavra da ciência política: oligarquização. Essa é a característica mais marcante do sistema político brasileiro iniciada pelo comando de Eduardo Cunha na Presidência da Câmara Federal e que foi lapidada nos últimos dez anos por uma série de reformas institucionais. Quem entrou no clube dos eleitos nos últimos anos dificilmente sairá do jogo, e quem está fora começa a corrida eleitoral em grande desvantagem.
Entre as medidas que produziram a oligarquização, destacam-se, primeiramente, a ampliação gigantesca do tamanho das emendas parlamentares, que se tornaram menos transparentes e dominadas por uma pequena elite política, formada pelos cardeais do Congresso Nacional e alguns presidentes de partidos. Soma-se a isso o crescimento enorme dos Fundos Partidário e Eleitoral, comandados pelas cúpulas das agremiações partidárias, definindo assim os pouco donos do dinheiro e vencedores dentro das legendas. Também pode ser agregada aqui a redução do tempo de campanha, o que cria uma barreira de entrada para os que estão fora desse sistema oligárquico, diminuindo a competição eleitoral.
O predomínio da oligarquização política torna mais difícil o debate sobre as disputas legislativas, ainda mais no sistema eleitoral brasileiro, em que voto proporcional por lista aberta enfileira nomes e mais nomes sem que o eleitor saiba claramente as propostas partidárias. A vinculação do voto às benesses locais clientelistas ficou mais poderosa nos últimos dez anos, num retrocesso em relação aos avanços que tínhamos conseguido com a criação de normas mais objetivas e impessoais para o acesso às políticas públicas, especialmente a partir do governo Fernando Henrique.
As eleições majoritárias - Senado, governadorias e Presidência da República - fornecem melhores condições para um debate além do clientelismo localista ou do voto ligado a identidades religiosas ou profissionais. Não obstante, o contexto importa muito, e a grande maioria do eleitorado brasileiro hoje está dividida entre a polarização e o cansaço, mostram as pesquisas qualitativas.
A maioria do eleitorado, cerca de 70%, abraçou o comportamento polarizado, e dentro destes a maior parcela discute cada vez menos as questões nacionais a fundo, e espera saber o que seu lado fala sobre o assunto. Entre os que estão cansados, há um forte sentimento de desânimo, o que leva tais eleitores a procurar mais um perfil fora das brigas e escândalos recentes do que propostas concretas - isso explica o crescimento nas últimas semanas de Augusto Cury.
A lógica da guerra das rejeições entre os dois líderes das pesquisas é mais um ponto que dificulta o debate de ideias. Evidentemente que a sociedade precisa saber tudo sobre os candidatos, com destaque para suas condutas éticas. A questão é que as respostas para tais escândalos tendem a ser mais objetivas quando feitas por apurações independentes. Sabendo que o outro lado também tem telhados de vidro, Flávio Bolsonaro e Lula continuarão discutindo os erros do outro para aumentar a rejeição alheia, fator que deve ser decisivo numa eleição em que os independentes e indecisos, verdadeiros fiéis da balança, tendem a anular ou escolher o menos rejeitado entre os dois.
No conjunto dos candidatos, outro problema tem dificultado o debate: a adoção de paradigmas equivocados de políticas públicas. O apoio à política de segurança pública em El Salvador é um desses casos. Sem analisar o funcionamento efetivo do modelo, presidenciáveis têm abraçado integralmente o que mal conhecem. Mas o que importa aqui é criar um discurso salvacionista, em que as impressões valem mais do que as evidências. Seria muito mais importante analisarem os números brasileiros, as experiências subnacionais mais bem-sucedidas, como Niterói e Rio Grande do Sul, em vez de propor algo estranho às nossas singularidades.
A fragilidade do diagnóstico dos acertos e erros do passado também enfraquece o debate público. Algumas discussões e propostas sobre juros ou Bolsa Família ignoram o que já conhecemos sobre tais temas. Vale mais dizer que será feita uma mudança grande mesmo que o diagnóstico seja pobre e equivocado. Neste campo, o apoio à anistia de Bolsonaro é uma amnésia perigosíssima porque poderá abrir portas para golpes no futuro, jogando uma pá de cal na democracia.
Sabe-se que políticos, em muitas democracias, tendem a evitar os temas espinhosos que exigem soluções que desagradarão a parte importante do eleitorado. Políticos brasileiros não fogem dessa regra. Porém, é igualmente verdadeiro que quem promete o céu e entrega o ajuste logo no início do mandato, especialmente levando-se em conta que os resultados positivos do processo demandam algum tempo, pode ter dificuldades de governabilidade. Por isso, o pragmatismo político indica que é melhor não fugir do diagnóstico e ser mais honesto com o eleitorado. Há espaço eleitoral para dizer que uma repactuação do problema fiscal trará ganhos para todos. Todavia, a pobreza do debate prefere o silêncio ou o populismo.
Mais problemático é o fato de que a maioria dos candidatos não está discutindo a fundo propostas apresentadas por organizações da sociedade para resolver os problemas do país e estabelecer um projeto de futuro ao país. Participei de algum modo de proposições feitas pela Todos Pela Educação, pelo Iedi e pelo Derrubando Muros, que podem ter defeitos, mas apresentam um conjunto rico de diagnósticos e prognósticos que está sendo ignorado pelos principais presidenciáveis. Citei tais documentos e poderia falar de outros posicionamentos setoriais muito interessantes que foram publicados recentemente e que não foram nem citados pelos programas de governo.
Por culpa da grande maioria dos políticos e também de boa parte da cobertura da imprensa, o debate eleitoral está muito distante de uma radiografia precisa dos problemas e de modelos baseados em evidências que construam soluções exequíveis. Seria muito mais interessante confrontar as ideias dos candidatos com as propostas formuladas por várias entidades da sociedade civil. E se concordarem com tais propostas ou com parcela delas, os candidatos à Presidência da República poderiam se comprometer e assinar compromissos que deixariam mais claro o que farão se vencerem as eleições.
Naquilo em que haja polêmica ou concordância parcial em relação às propostas da sociedade civil, o diálogo com os presidenciáveis poderia gerar um cardápio de soluções, dentro do qual as linhas ideológicas dos candidatos optariam por ficar um pouco mais à esquerda ou à direita. De todo modo, sair das meras generalidades ou de mitos equivocados sobre políticas públicas seria um passo muito positivo para usar a democracia como um meio potente de melhorar o país. Até agora, estamos distantes disso, e o mundo paralelo da política prevalece no debate eleitoral. O problema é que o distanciamento do que é efetivamente relevante nos trará uma conta bem pesada nos próximos quatro anos.
Para os eleitores fora da polarização, a eleição de 2026 parece caminhar pela escolha de quem é menos pior. Evitar um caminho mais equivocado ou perigoso para o Brasil é uma justificativa legítima e correta do voto. Mas o momento democrático poderia ser mais bem aproveitado se a qualidade do debate melhorasse. O papel da sociedade é aumentar o sarrafo, o máximo possível, pressionando para que projetos estruturados de país sejam, no mínimo, discutidos e levados em conta pelos presidenciáveis.
O Brasil passou por muitas transformações positivas desde o início da redemocratização. Nesta lista estariam o acesso universal à saúde, a expansão da educação para camadas sociais que tinham sido alijadas ou expulsas das escolas, a criação de políticas que reduziram a pobreza, a estabilização da economia com o Plano Real, bem como a adoção de programas para proteger o meio ambiente e minorias sociais, como negros, mulheres e indígenas. Tudo isso só foi possível porque houve eleições, com participação dos cidadãos, pressões de organizações da sociedade e apresentação de propostas por candidatos competindo entre si.
A eleição de 2026 tem toda a estrutura para ser o terreno de construção de melhores políticas públicas frente aos diversos problemas que o país terá de enfrentar nos próximos quatro anos. Entretanto, até agora, o debate e as disputas eleitorais têm sido pobres em ideias, fugindo dos principais problemas que vão afligir o próximo presidente e o Congresso Nacional. Trata-se de um pleito em que a política está rodando em torno de si mesma, quase num mundo paralelo.
A explicação para esse comportamento no plano dos concorrentes ao Legislativo resume-se a uma palavra da ciência política: oligarquização. Essa é a característica mais marcante do sistema político brasileiro iniciada pelo comando de Eduardo Cunha na Presidência da Câmara Federal e que foi lapidada nos últimos dez anos por uma série de reformas institucionais. Quem entrou no clube dos eleitos nos últimos anos dificilmente sairá do jogo, e quem está fora começa a corrida eleitoral em grande desvantagem.
Entre as medidas que produziram a oligarquização, destacam-se, primeiramente, a ampliação gigantesca do tamanho das emendas parlamentares, que se tornaram menos transparentes e dominadas por uma pequena elite política, formada pelos cardeais do Congresso Nacional e alguns presidentes de partidos. Soma-se a isso o crescimento enorme dos Fundos Partidário e Eleitoral, comandados pelas cúpulas das agremiações partidárias, definindo assim os pouco donos do dinheiro e vencedores dentro das legendas. Também pode ser agregada aqui a redução do tempo de campanha, o que cria uma barreira de entrada para os que estão fora desse sistema oligárquico, diminuindo a competição eleitoral.
O predomínio da oligarquização política torna mais difícil o debate sobre as disputas legislativas, ainda mais no sistema eleitoral brasileiro, em que voto proporcional por lista aberta enfileira nomes e mais nomes sem que o eleitor saiba claramente as propostas partidárias. A vinculação do voto às benesses locais clientelistas ficou mais poderosa nos últimos dez anos, num retrocesso em relação aos avanços que tínhamos conseguido com a criação de normas mais objetivas e impessoais para o acesso às políticas públicas, especialmente a partir do governo Fernando Henrique.
As eleições majoritárias - Senado, governadorias e Presidência da República - fornecem melhores condições para um debate além do clientelismo localista ou do voto ligado a identidades religiosas ou profissionais. Não obstante, o contexto importa muito, e a grande maioria do eleitorado brasileiro hoje está dividida entre a polarização e o cansaço, mostram as pesquisas qualitativas.
A maioria do eleitorado, cerca de 70%, abraçou o comportamento polarizado, e dentro destes a maior parcela discute cada vez menos as questões nacionais a fundo, e espera saber o que seu lado fala sobre o assunto. Entre os que estão cansados, há um forte sentimento de desânimo, o que leva tais eleitores a procurar mais um perfil fora das brigas e escândalos recentes do que propostas concretas - isso explica o crescimento nas últimas semanas de Augusto Cury.
A lógica da guerra das rejeições entre os dois líderes das pesquisas é mais um ponto que dificulta o debate de ideias. Evidentemente que a sociedade precisa saber tudo sobre os candidatos, com destaque para suas condutas éticas. A questão é que as respostas para tais escândalos tendem a ser mais objetivas quando feitas por apurações independentes. Sabendo que o outro lado também tem telhados de vidro, Flávio Bolsonaro e Lula continuarão discutindo os erros do outro para aumentar a rejeição alheia, fator que deve ser decisivo numa eleição em que os independentes e indecisos, verdadeiros fiéis da balança, tendem a anular ou escolher o menos rejeitado entre os dois.
No conjunto dos candidatos, outro problema tem dificultado o debate: a adoção de paradigmas equivocados de políticas públicas. O apoio à política de segurança pública em El Salvador é um desses casos. Sem analisar o funcionamento efetivo do modelo, presidenciáveis têm abraçado integralmente o que mal conhecem. Mas o que importa aqui é criar um discurso salvacionista, em que as impressões valem mais do que as evidências. Seria muito mais importante analisarem os números brasileiros, as experiências subnacionais mais bem-sucedidas, como Niterói e Rio Grande do Sul, em vez de propor algo estranho às nossas singularidades.
A fragilidade do diagnóstico dos acertos e erros do passado também enfraquece o debate público. Algumas discussões e propostas sobre juros ou Bolsa Família ignoram o que já conhecemos sobre tais temas. Vale mais dizer que será feita uma mudança grande mesmo que o diagnóstico seja pobre e equivocado. Neste campo, o apoio à anistia de Bolsonaro é uma amnésia perigosíssima porque poderá abrir portas para golpes no futuro, jogando uma pá de cal na democracia.
Sabe-se que políticos, em muitas democracias, tendem a evitar os temas espinhosos que exigem soluções que desagradarão a parte importante do eleitorado. Políticos brasileiros não fogem dessa regra. Porém, é igualmente verdadeiro que quem promete o céu e entrega o ajuste logo no início do mandato, especialmente levando-se em conta que os resultados positivos do processo demandam algum tempo, pode ter dificuldades de governabilidade. Por isso, o pragmatismo político indica que é melhor não fugir do diagnóstico e ser mais honesto com o eleitorado. Há espaço eleitoral para dizer que uma repactuação do problema fiscal trará ganhos para todos. Todavia, a pobreza do debate prefere o silêncio ou o populismo.
Mais problemático é o fato de que a maioria dos candidatos não está discutindo a fundo propostas apresentadas por organizações da sociedade para resolver os problemas do país e estabelecer um projeto de futuro ao país. Participei de algum modo de proposições feitas pela Todos Pela Educação, pelo Iedi e pelo Derrubando Muros, que podem ter defeitos, mas apresentam um conjunto rico de diagnósticos e prognósticos que está sendo ignorado pelos principais presidenciáveis. Citei tais documentos e poderia falar de outros posicionamentos setoriais muito interessantes que foram publicados recentemente e que não foram nem citados pelos programas de governo.
Por culpa da grande maioria dos políticos e também de boa parte da cobertura da imprensa, o debate eleitoral está muito distante de uma radiografia precisa dos problemas e de modelos baseados em evidências que construam soluções exequíveis. Seria muito mais interessante confrontar as ideias dos candidatos com as propostas formuladas por várias entidades da sociedade civil. E se concordarem com tais propostas ou com parcela delas, os candidatos à Presidência da República poderiam se comprometer e assinar compromissos que deixariam mais claro o que farão se vencerem as eleições.
Naquilo em que haja polêmica ou concordância parcial em relação às propostas da sociedade civil, o diálogo com os presidenciáveis poderia gerar um cardápio de soluções, dentro do qual as linhas ideológicas dos candidatos optariam por ficar um pouco mais à esquerda ou à direita. De todo modo, sair das meras generalidades ou de mitos equivocados sobre políticas públicas seria um passo muito positivo para usar a democracia como um meio potente de melhorar o país. Até agora, estamos distantes disso, e o mundo paralelo da política prevalece no debate eleitoral. O problema é que o distanciamento do que é efetivamente relevante nos trará uma conta bem pesada nos próximos quatro anos.
Para os eleitores fora da polarização, a eleição de 2026 parece caminhar pela escolha de quem é menos pior. Evitar um caminho mais equivocado ou perigoso para o Brasil é uma justificativa legítima e correta do voto. Mas o momento democrático poderia ser mais bem aproveitado se a qualidade do debate melhorasse. O papel da sociedade é aumentar o sarrafo, o máximo possível, pressionando para que projetos estruturados de país sejam, no mínimo, discutidos e levados em conta pelos presidenciáveis.
Vorcaro, o neocolonizador
Duzentos anos depois, o Brasil ainda peleja no divã da história com seu transtorno obsessivo colonial, dessa vez, assombrado pelo pesadelo de um banco Master. Quem sabe, seja uma vocação daquelas, de nascença. Talvez, um gene, hereditário. Ou, Deus nos livre, um cancro, incurável. Em 2022, Laurentino Gomes transcrevia em seu avassalador “Escravidão III” alguns trechos do abolicionista Joaquim Nabuco, que vestem perfeitamente a nossa Terra da Santa Cruz ainda hoje.
“Um país já velho… com paisagem marcada pelo abandono… cultiva o desprezo pelos interesses do futuro e a ambição de tirar o maior lucro imediato…, qualquer que seja o prejuízo das gerações futuras… Queimou, plantou e abandonou… não edificou escolas, não construiu pontes, nem melhorou rios… não concorreu para progresso algum na zona circunvizinha”. (O Abolicionismo, 1883).
O que Nabuco descrevera acima – seis décadas corridas da Independência e às vésperas da República – estava em conformidade com o modelo colonial europeu em geral, abrindo galinhas dos ovos de ouro, às custas do meio ambiente e da vida de povos originários e africanos. Vale refletir se o Brasil de hoje não permanece uma República pela metade, onde interesses políticos e econômicos inconfessáveis ainda se aliam a valores arcaicos da sociedade, como se ainda fôssemos segregados, piratas, bandeirantes… simplesmente Vorcaros. Todos gigantes de botas, cada um a seu modo, apenas de passagem pelo Brasil para raspar-lhe o tacho.
Nesse sentido, cabe lembrar que, em pleno século XIX, quando outras colônias e monarquias tradicionais já iam longe na instalação de suas instituições democráticas, o Brasil insistia no sentido oposto. Os EUA já eram república, a Revolução Francesa dava frutos, o Haiti fervia liderado por negros, a revolução industrial transformava as sociedades e a escravidão era abolida mundo afora. Enquanto isso, em 1822, o Brasil torna-se, não uma república, mas, um império na América (cujo imperador ‘independente’ era o herdeiro do trono colonizador!). Não era à toa que, enquanto o mundo criava a máquina a vapor, telefone, eletricidade, vacinas, e diferentes formas de democracia, o Brasil seguia convictamente agrário, tendo como principal fator de competitividade o massacre de pessoas negras sequestradas. Não surpreende que, em pleno caos climático e geopolítico, brasileiros continuem distraídos na contramão, sem uma atitude que corresponda à estatura do desafio global, sequer das nossas limitações e desvios locais. Basta ver quanta gente bacana frequentava as poltronas (e o caixa) do Master.
Quando finalmente a escravidão foi abolida no Brasil, quase no séc. XX, milhões de africanos e indígenas haviam sido raptados, escravizados ou mortos (de fazer inveja a qualquer maníaco do holocausto). A República só chegaria um ano depois – um golpe de Estado patrocinado por escravocratas ressentidos com o rei – liberal demais para nossas elites. O conceito brasileiro de República no século XIX ainda era dissociado da definição de democracia (por aqui considerada uma ideia anárquica). Quem sabe, aquela primeira visão de república – autoritária e concentradora – persista no DNA brasileiro. Quem sabe, explique, até hoje, a naturalidade das desigualdades, da devastação ambiental, da violência e dos arrotos antidemocráticos, bancados por tantos Vorcaros festejados na vida brasileira.
“Um país já velho… com paisagem marcada pelo abandono… cultiva o desprezo pelos interesses do futuro e a ambição de tirar o maior lucro imediato…, qualquer que seja o prejuízo das gerações futuras… Queimou, plantou e abandonou… não edificou escolas, não construiu pontes, nem melhorou rios… não concorreu para progresso algum na zona circunvizinha”. (O Abolicionismo, 1883).
O que Nabuco descrevera acima – seis décadas corridas da Independência e às vésperas da República – estava em conformidade com o modelo colonial europeu em geral, abrindo galinhas dos ovos de ouro, às custas do meio ambiente e da vida de povos originários e africanos. Vale refletir se o Brasil de hoje não permanece uma República pela metade, onde interesses políticos e econômicos inconfessáveis ainda se aliam a valores arcaicos da sociedade, como se ainda fôssemos segregados, piratas, bandeirantes… simplesmente Vorcaros. Todos gigantes de botas, cada um a seu modo, apenas de passagem pelo Brasil para raspar-lhe o tacho.
Nesse sentido, cabe lembrar que, em pleno século XIX, quando outras colônias e monarquias tradicionais já iam longe na instalação de suas instituições democráticas, o Brasil insistia no sentido oposto. Os EUA já eram república, a Revolução Francesa dava frutos, o Haiti fervia liderado por negros, a revolução industrial transformava as sociedades e a escravidão era abolida mundo afora. Enquanto isso, em 1822, o Brasil torna-se, não uma república, mas, um império na América (cujo imperador ‘independente’ era o herdeiro do trono colonizador!). Não era à toa que, enquanto o mundo criava a máquina a vapor, telefone, eletricidade, vacinas, e diferentes formas de democracia, o Brasil seguia convictamente agrário, tendo como principal fator de competitividade o massacre de pessoas negras sequestradas. Não surpreende que, em pleno caos climático e geopolítico, brasileiros continuem distraídos na contramão, sem uma atitude que corresponda à estatura do desafio global, sequer das nossas limitações e desvios locais. Basta ver quanta gente bacana frequentava as poltronas (e o caixa) do Master.
Quando finalmente a escravidão foi abolida no Brasil, quase no séc. XX, milhões de africanos e indígenas haviam sido raptados, escravizados ou mortos (de fazer inveja a qualquer maníaco do holocausto). A República só chegaria um ano depois – um golpe de Estado patrocinado por escravocratas ressentidos com o rei – liberal demais para nossas elites. O conceito brasileiro de República no século XIX ainda era dissociado da definição de democracia (por aqui considerada uma ideia anárquica). Quem sabe, aquela primeira visão de república – autoritária e concentradora – persista no DNA brasileiro. Quem sabe, explique, até hoje, a naturalidade das desigualdades, da devastação ambiental, da violência e dos arrotos antidemocráticos, bancados por tantos Vorcaros festejados na vida brasileira.
O colapso climático que levou à 'Odisseia' pode se repetir
O mais recente sucesso de bilheteria do diretor Christopher Nolan transportou milhões de espectadores a um mundo de mares tempestuosos e cidades em chamas.
Com exceção dos monstros, esse é um mundo baseado na realidade. A Odisseia – uma história de sobrevivência num contexto pós-Guerra de Tróia – se passa durante o colapso da civilização na Idade do Bronze.
De acordo com um novo estudo, essa situação de crise foi causada por uma grave mudança climática. Na pesquisa, os autores alertam sobre "implicações para o futuro".
Os cientistas já sabem há muito tempo da existência de seca misteriosa e severa que ocorreu há mais de 3 mil anos, coincidindo com a desintegração de reinos e estados em toda a região do Mediterrâneo.
Mas a pesquisa publicada no mês passado lança luz sobre a possível causa dessa crise. De acordo com o estudo, uma tendência lenta de ressecamento, combinada com um ciclo natural mais rápido de clima seco, acabou se sobrepondo e intensificando o fenômeno.
No final da Idade do Bronze, o sistema de monções da África Ocidental já vinha se reduzindo havia milhares de anos, transformando um Saara verde em deserto. Menos chuvas na África significaram menos chuvas no Mediterrâneo.
Essa tendência se intensificou quando a região passou por um período de seca causado por ciclos climáticos naturais do Atlântico, que fazem com que a região oscile entre períodos úmidos e de estiagem que duram décadas.
Katherine Power, pesquisadora da Universidade de Estocolmo que liderou o estudo, afirma que as condições ambientais da época poderiam explicar a migração em massa e os conflitos da era da Odisséia.
Há décadas, os estudiosos vêm especulando sobre a razão por trás desse movimento em grande escala durante o período — também conhecido como a era dos "Povos do Mar".
Arqueólogos argumentam que as mudanças climáticas poderiam ajudar a explicar a migração e o colapso político no final da Idade do Bronze. Agora, as novas descobertas acrescentam mais peças a esse quebra-cabeça.
"Não sabemos necessariamente por que essas pessoas se deslocaram", diz Power. "Mas se pudermos dizer que o clima estava ficando cada vez mais difícil para a sobrevivência, essa poderia ser uma possível causa."
Essa situação, afirma a pesquisadora da Universidade de Estocolmo, é relevante para os dias de hoje. Os principais rios da Europa estão com níveis recordes de baixa, e a estiagem está criando condições para incêndios florestais devastadores, além de causar perdas históricas nas colheitas. A França, por exemplo, enfrenta a menor safra de milho em 50 anos.
Os mesmos ciclos de umidade e seca provenientes do Atlântico ainda existem, mas agora ocorrem no contexto de um mundo que está se aquecendo como resultado da queima de petróleo, gás e carvão pelos seres humanos.
"Acho que isso é ainda mais alarmante e representa uma ameaça ainda maior", argumenta Power.
Eric H. Cline, arqueólogo da Universidade George Washington, autor de um livro sobre as origens da crise da Idade do Bronze, acrescenta que a seca e as doenças fizeram parte da "tempestade perfeita de calamidades" que levou ao colapso da sociedade naquela época.
Ele vê paralelos entre a crise na Idade do Bronze e o contexto atual. Cline diz que "devemos ficar muito preocupados" com a possibilidade de que as mudanças climáticas se tornem um fator de estresse para o colapso da civilização. "Esse temor não é nada exagerado."
Mas o arqueólogo afirma que, nos momentos mais otimistas, acredita que a humanidade vai "cair em si e evitar essa possibilidade em algum momento".
A pesquisa de Power buscou desvendar os padrões por trás dos eventos isolados de seca na Idade do Bronze.
Foram examinados esporos de plantas, núcleos de gelo, rochas de cavernas e outros registros naturais que indicavam a ocorrência de estiagem. Em seguida, a pesquisadora e a coautora, a paleoclimatologista Qiong Zhang, também da Universidade de Estocolmo, recorreram à modelagem para obter uma visão mais ampla do contexto geral da época.
O modelo analisou todo o planeta, sobreposto por uma grade em que cada célula abrangia uma área de aproximadamente 125 quilômetros quadrados. Um supercomputador calculou então as condições em cada uma dessas células, para cada mês, ao longo de milhares de anos. Isso permitiu que as cientistas analisassem toda a região do Mediterrâneo.
"Não estamos limitados a apenas um núcleo ou uma caverna", disse Power. "Podemos enxergar mais longe e construir um panorama completo."
O que as pesquisadoras descobriram não foi um único evento que alterou o clima de forma dramática e repentina. Em vez disso, ciclos mais curtos de umidade e seca se alinharam a uma tendência mais longa de aquecimento.
"Quando procuramos conexões entre as mudanças climáticas e as mudanças na civilização, muitas vezes estamos à procura daquele evento grande, gigantesco, abrupto e catastrófico", aponta Power, acrescentando que são mudanças lentas e graduais que levam uma sociedade a "ultrapassar um limiar".
Segundo a pesquisadora, poderia ter sido uma queda constante no abastecimento de água que levou a um declínio gradual nas colheitas, o que fez pessoas migrarem, desencadeando conflitos.
"Não é preciso muito para empurrar uma sociedade para além do limite com o qual ela se sente confortável", diz Power. "E se você acrescentar mais algum fator à equação? Talvez isso a empurre um pouco mais adiante, e você não consiga se recuperar totalmente disso."
Com exceção dos monstros, esse é um mundo baseado na realidade. A Odisseia – uma história de sobrevivência num contexto pós-Guerra de Tróia – se passa durante o colapso da civilização na Idade do Bronze.
De acordo com um novo estudo, essa situação de crise foi causada por uma grave mudança climática. Na pesquisa, os autores alertam sobre "implicações para o futuro".
Os cientistas já sabem há muito tempo da existência de seca misteriosa e severa que ocorreu há mais de 3 mil anos, coincidindo com a desintegração de reinos e estados em toda a região do Mediterrâneo.
Mas a pesquisa publicada no mês passado lança luz sobre a possível causa dessa crise. De acordo com o estudo, uma tendência lenta de ressecamento, combinada com um ciclo natural mais rápido de clima seco, acabou se sobrepondo e intensificando o fenômeno.
No final da Idade do Bronze, o sistema de monções da África Ocidental já vinha se reduzindo havia milhares de anos, transformando um Saara verde em deserto. Menos chuvas na África significaram menos chuvas no Mediterrâneo.
Essa tendência se intensificou quando a região passou por um período de seca causado por ciclos climáticos naturais do Atlântico, que fazem com que a região oscile entre períodos úmidos e de estiagem que duram décadas.
Katherine Power, pesquisadora da Universidade de Estocolmo que liderou o estudo, afirma que as condições ambientais da época poderiam explicar a migração em massa e os conflitos da era da Odisséia.
Há décadas, os estudiosos vêm especulando sobre a razão por trás desse movimento em grande escala durante o período — também conhecido como a era dos "Povos do Mar".
Arqueólogos argumentam que as mudanças climáticas poderiam ajudar a explicar a migração e o colapso político no final da Idade do Bronze. Agora, as novas descobertas acrescentam mais peças a esse quebra-cabeça.
"Não sabemos necessariamente por que essas pessoas se deslocaram", diz Power. "Mas se pudermos dizer que o clima estava ficando cada vez mais difícil para a sobrevivência, essa poderia ser uma possível causa."
Essa situação, afirma a pesquisadora da Universidade de Estocolmo, é relevante para os dias de hoje. Os principais rios da Europa estão com níveis recordes de baixa, e a estiagem está criando condições para incêndios florestais devastadores, além de causar perdas históricas nas colheitas. A França, por exemplo, enfrenta a menor safra de milho em 50 anos.
Os mesmos ciclos de umidade e seca provenientes do Atlântico ainda existem, mas agora ocorrem no contexto de um mundo que está se aquecendo como resultado da queima de petróleo, gás e carvão pelos seres humanos.
"Acho que isso é ainda mais alarmante e representa uma ameaça ainda maior", argumenta Power.
Eric H. Cline, arqueólogo da Universidade George Washington, autor de um livro sobre as origens da crise da Idade do Bronze, acrescenta que a seca e as doenças fizeram parte da "tempestade perfeita de calamidades" que levou ao colapso da sociedade naquela época.
Ele vê paralelos entre a crise na Idade do Bronze e o contexto atual. Cline diz que "devemos ficar muito preocupados" com a possibilidade de que as mudanças climáticas se tornem um fator de estresse para o colapso da civilização. "Esse temor não é nada exagerado."
Mas o arqueólogo afirma que, nos momentos mais otimistas, acredita que a humanidade vai "cair em si e evitar essa possibilidade em algum momento".
A pesquisa de Power buscou desvendar os padrões por trás dos eventos isolados de seca na Idade do Bronze.
Foram examinados esporos de plantas, núcleos de gelo, rochas de cavernas e outros registros naturais que indicavam a ocorrência de estiagem. Em seguida, a pesquisadora e a coautora, a paleoclimatologista Qiong Zhang, também da Universidade de Estocolmo, recorreram à modelagem para obter uma visão mais ampla do contexto geral da época.
O modelo analisou todo o planeta, sobreposto por uma grade em que cada célula abrangia uma área de aproximadamente 125 quilômetros quadrados. Um supercomputador calculou então as condições em cada uma dessas células, para cada mês, ao longo de milhares de anos. Isso permitiu que as cientistas analisassem toda a região do Mediterrâneo.
"Não estamos limitados a apenas um núcleo ou uma caverna", disse Power. "Podemos enxergar mais longe e construir um panorama completo."
O que as pesquisadoras descobriram não foi um único evento que alterou o clima de forma dramática e repentina. Em vez disso, ciclos mais curtos de umidade e seca se alinharam a uma tendência mais longa de aquecimento.
"Quando procuramos conexões entre as mudanças climáticas e as mudanças na civilização, muitas vezes estamos à procura daquele evento grande, gigantesco, abrupto e catastrófico", aponta Power, acrescentando que são mudanças lentas e graduais que levam uma sociedade a "ultrapassar um limiar".
Segundo a pesquisadora, poderia ter sido uma queda constante no abastecimento de água que levou a um declínio gradual nas colheitas, o que fez pessoas migrarem, desencadeando conflitos.
"Não é preciso muito para empurrar uma sociedade para além do limite com o qual ela se sente confortável", diz Power. "E se você acrescentar mais algum fator à equação? Talvez isso a empurre um pouco mais adiante, e você não consiga se recuperar totalmente disso."
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
A inteligência é artificial, mas o poder será colossal
O aviso feito por Bill Gates devia ser levado a sério: “Mesmo no melhor dos cenários, a transição para esta nova era da Inteligência Artificial será um dos períodos mais turbulentos da História humana.” Foi assim que, há poucos dias, o fundador da Microsoft e um dos homens que, há algumas décadas, foi um dos impulsionadores da revolução digital, procurou alertar o mundo para “o desafio monumental” que temos pela frente.
Há um par de anos, no seu livro A Próxima Vaga, o investigador Mustafa Suleyman, fundador da DeepMind, uma das empresas pioneiras do atual desenvolvimento da IA, também tinha avisado que estamos perante “um momento crucial para a nossa espécie”. Pedia prudência, muita prudência, na forma como devemos gerir a rapidez dos avanços tecnológicos. E fazia-o através de uma formulação tão simples quanto sensata: “Assumir o pior e prevenir o pior.”
Gates e Suleyman não são os únicos a fazer este tipo de advertências em relação à escalada a que assistimos no desenvolvimento de ferramentas tecnológicas capazes de superar os humanos e até, porventura, de poder ganhar aquilo que nos distingue: uma consciência – mas, desta vez, em modo acelerado, sem os princípios éticos e morais que, em nós, demoraram séculos a formar e a cimentar.
Na atual conjuntura geopolítica, num mundo multipolarizado, a corrida pela liderança tecnológica é de difícil controlo. Exige que cada jogador na disputa aceite determinadas regras e, no limite, seja capaz de aceitar a derrota em alguns desafios, para poder concentrar-se na vitória em outros.
O grande problema é que, desta vez, a transformação tecnológica não exige grandes mudanças por parte dos seus utilizadores. A IA está disponível nos computadores e nos telemóveis que já hoje temos. E consegue ler, em segundos, os livros que nós gostaríamos de ter tempo para ler, analisar de forma quase instantânea os relatórios que nos dão sono e desempenhar tarefas complexas com uma simplicidade estonteante.
Em contrapartida – começamos agora a perceber –, para conseguir produzir todos aqueles milagres de rapidez, a IA precisa de ser alimentada, a uma velocidade galopante, por um conjunto de infraestruturas que começam a ser construídas agora em contrarrelógio: centros de dados, suportados por chips que exigem tecnologia tão rara como as terras raras que entram na sua composição, além de quantidades avultadas de energia e de água.
Mais do que uma luta por supremacia tecnológica, a corrida à IA é uma luta pelo poder. Como o mundo nunca viu. E que, no final, pode ter consequências terríveis para a esmagadora maioria da população, ao mesmo tempo que eleva uma minoria a níveis de riqueza estratosféricos.
“Em termos de equidade, a IA será ou o maior instrumento de igualdade já inventado ou a pior fonte de injustiça”, alertou Bill Gates, a esse propósito. Da mesma forma que, na sua encíclica Magnifica Humanitas, o papa Leão XIV tinha deixado bem vincada a sua convicção de que “se as transformações não se regerem tendo como objetivo prioritário, já na fase de projeto, a prevenção de novas e ulteriores disparidades, o progresso tecnológico produz automaticamente desigualdades estruturais”.
O problema, de facto, não é apenas tornarmo-nos inúteis, substituídos por máquinas. É saber quem, na verdade, mais lucra com essa substituição e, no final, o que vai fazer com esse imenso e colossal poder.
Não é ficção científica nem imaginação catastrofista. Hoje, a Nvidia, fabricante dos chips essenciais à revolução da IA, já tem uma avaliação bolsista quase igual à da Alemanha, a terceira maior economia do mundo. E, com isso, um poder que, segundo alguns historiadores, talvez consiga já superar o da Companhia das Índias Orientais, a corporação britânica que, segundo uma célebre carta de Tolstói a Gandhi, foi descrita como “a empresa comercial que escravizou uma nação de 200 milhões de pessoas”.
Como também escreveu Leão XIV, não podemos confiar nem descansar “na mão invisível do mercado” para evitar os tempos turbulentos que se avizinham. Como também será irrealista tentar travar o progresso tecnológico, os avanços científicos e até a própria criatividade humana. Mas podemos impor regras e limites, penalizar a ganância e impor a redistribuição justa da riqueza. Só há uma forma de o fazer: controlando o acesso ao poder e impedindo que ele fique nas mãos de quem só quer usá-lo para proveito próprio.
Há um par de anos, no seu livro A Próxima Vaga, o investigador Mustafa Suleyman, fundador da DeepMind, uma das empresas pioneiras do atual desenvolvimento da IA, também tinha avisado que estamos perante “um momento crucial para a nossa espécie”. Pedia prudência, muita prudência, na forma como devemos gerir a rapidez dos avanços tecnológicos. E fazia-o através de uma formulação tão simples quanto sensata: “Assumir o pior e prevenir o pior.”
Gates e Suleyman não são os únicos a fazer este tipo de advertências em relação à escalada a que assistimos no desenvolvimento de ferramentas tecnológicas capazes de superar os humanos e até, porventura, de poder ganhar aquilo que nos distingue: uma consciência – mas, desta vez, em modo acelerado, sem os princípios éticos e morais que, em nós, demoraram séculos a formar e a cimentar.
O grande problema é que, desta vez, a transformação tecnológica não exige grandes mudanças por parte dos seus utilizadores. A IA está disponível nos computadores e nos telemóveis que já hoje temos. E consegue ler, em segundos, os livros que nós gostaríamos de ter tempo para ler, analisar de forma quase instantânea os relatórios que nos dão sono e desempenhar tarefas complexas com uma simplicidade estonteante.
Em contrapartida – começamos agora a perceber –, para conseguir produzir todos aqueles milagres de rapidez, a IA precisa de ser alimentada, a uma velocidade galopante, por um conjunto de infraestruturas que começam a ser construídas agora em contrarrelógio: centros de dados, suportados por chips que exigem tecnologia tão rara como as terras raras que entram na sua composição, além de quantidades avultadas de energia e de água.
Mais do que uma luta por supremacia tecnológica, a corrida à IA é uma luta pelo poder. Como o mundo nunca viu. E que, no final, pode ter consequências terríveis para a esmagadora maioria da população, ao mesmo tempo que eleva uma minoria a níveis de riqueza estratosféricos.
“Em termos de equidade, a IA será ou o maior instrumento de igualdade já inventado ou a pior fonte de injustiça”, alertou Bill Gates, a esse propósito. Da mesma forma que, na sua encíclica Magnifica Humanitas, o papa Leão XIV tinha deixado bem vincada a sua convicção de que “se as transformações não se regerem tendo como objetivo prioritário, já na fase de projeto, a prevenção de novas e ulteriores disparidades, o progresso tecnológico produz automaticamente desigualdades estruturais”.
O problema, de facto, não é apenas tornarmo-nos inúteis, substituídos por máquinas. É saber quem, na verdade, mais lucra com essa substituição e, no final, o que vai fazer com esse imenso e colossal poder.
Não é ficção científica nem imaginação catastrofista. Hoje, a Nvidia, fabricante dos chips essenciais à revolução da IA, já tem uma avaliação bolsista quase igual à da Alemanha, a terceira maior economia do mundo. E, com isso, um poder que, segundo alguns historiadores, talvez consiga já superar o da Companhia das Índias Orientais, a corporação britânica que, segundo uma célebre carta de Tolstói a Gandhi, foi descrita como “a empresa comercial que escravizou uma nação de 200 milhões de pessoas”.
Como também escreveu Leão XIV, não podemos confiar nem descansar “na mão invisível do mercado” para evitar os tempos turbulentos que se avizinham. Como também será irrealista tentar travar o progresso tecnológico, os avanços científicos e até a própria criatividade humana. Mas podemos impor regras e limites, penalizar a ganância e impor a redistribuição justa da riqueza. Só há uma forma de o fazer: controlando o acesso ao poder e impedindo que ele fique nas mãos de quem só quer usá-lo para proveito próprio.
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