domingo, 26 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Quando a distopia americana de Trump vai além do gênero literário

“Estamos vivendo uma distopia”, comentou um velho amigo radicado há décadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. Pesa em sua avaliação o fato de que os imigrantes latinos são perseguidos nas ruas por agentes federais que atuam como uma verdadeira milícia patrocinada pelo presidente Donald Trump. Mascarados e fortemente armados, eles abordam trabalhadores, cercam bairros, invadem locais de trabalho e detêm pessoas com base na aparência, no sotaque ou na suspeita de situação migratória irregular. Práticas características do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade.


Por causa dessa conversa, aguardo a chegada às livrarias de “Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana”, do jornalista Jamil Chade, cujo lançamento será em agosto. Com prefácio do cineasta Walter Salles, o livro mostra o esgarçamento da democracia nos Estados Unidos entre a campanha eleitoral de 2024 e o início do segundo governo Trump. Chade percorre os lugares onde se espalham o medo, o rancor, a pobreza e a ilusão, de Manhattan à fronteira mexicana, do Madison Square Garden aos abrigos destinados aos deportados.

O resultado é um ensaio jornalístico sobre como as democracias podem sucumbir. A força do livro decorre de sua materialidade. Os fatos aconteceram. As pessoas perseguidas têm nome, família, emprego e endereço. Os agentes que as detêm pertencem ao Estado. As ordens partem da Casa Branca. Os recursos são aprovados pelo Congresso. As deportações aparecem nas estatísticas oficiais, enquanto as ameaças contra universidades, professores, minorias e servidores públicos se transformam em decretos, normas administrativas e decisões orçamentárias. E inibem as denúncias e protestos. Não é ficção literária.

Em “1984” (Camelot Editora), Orwell concebeu um Estado que controlava a sociedade pela vigilância, pela manipulação da linguagem e pela fabricação de inimigos. Trump não criou um Ministério da Verdade, mas construiu um ecossistema político no qual fatos inconvenientes são denunciados como falsos, adversários são apresentados como inimigos internos e a lealdade ao presidente se sobrepõe ao respeito às instituições.

O imigrante é responsabilizado pela criminalidade, pelo desemprego, pela deterioração das cidades e pelas deficiências dos serviços públicos. Produz-se, assim, uma falsa ameaça permanente, para justificar poderes excepcionais e impor o medo à sociedade, como como aconteceu com os judeus na ascensão do fascismo na Itália e na Alemanha.

Segundo levantamento do Migration Policy Institute, 622 mil estrangeiros haviam sido deportados desde a posse de Trump até o fim de 2025, enquanto as detenções realizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, chegaram a cerca de 1.200 por dia. Parte expressiva dos detidos não possuía condenação criminal. Houve também cidadãos norte-americanos presos, separação de famílias, transferências para prisões estrangeiras e tentativas de restringir o direito de defesa. A Suprema Corte precisou reafirmar que até os estrangeiros submetidos à Lei dos Inimigos Estrangeiros têm direito a ser notificados e a contestar sua expulsão.

A distopia americana de Donald Trump não é uma metáfora. O terror político gerado pelas deportações difunde a insegurança entre milhões. Famílias evitam hospitais, escolas, igrejas e repartições por medo de detenções. Trabalhadores deixam de denunciar abusos. Crianças regressam para casa sem saber se encontrarão os pais. Agentes mascarados podem deter as pessoas sem se identificar claramente e levá-lo para lugar desconhecido; para eles, já existe um regime de exceção. Quatro pessoas foram mortas à frente de todos por essa milicia de Trump, duas das quais norte-americanas.

Em “Fahrenheit 451” (Biblioteca Azul), de Ray Bradbury, os livros eram queimados porque preservavam a complexidade, estimulavam perguntas e impediam o pensamento uniforme. Trump não precisa organizar fogueiras em praças públicas. Mas manda retirar livros de bibliotecas, eliminar referências ao racismo, perseguir programas universitários e condicionar recursos federais à adesão ideológica. Trump revogou políticas de diversidade, equidade e inclusão e passou a considerar o combate ao racismo uma forma de discriminação contra os brancos.

Jamil Chade demonstra o absurdo dessa operação ao percorrer o delta do Mississippi, região decisiva para a expansão econômica dos Estados Unidos e profundamente marcada pela escravidão. Em West Helena, no Arkansas, 35% dos cerca de oito mil habitantes vivem abaixo da linha da pobreza. No Mississippi, o estado mais pobre do país, 45% da população estão abaixo da linha de pobreza ou integra os segmentos de baixa renda. A paisagem de casas abandonadas, lojas fechadas e serviços precários não corresponde à prosperidade prometida pelo movimento Maga (Make America Great Again). É o avesso do chamado sonho americano.

Uma família negra recebe anualmente cerca de US$ 30 mil menos do que uma família branca. Há um desmonte da proteção social. A lei orçamentária aprovada em 2025 reduz em mais de US$ 1 trilhão os gastos federais previstos com saúde ao longo de uma década e 10 milhões de pessoas a mais ficarão sem seguro-saúde. Uma guerra cultural fomenta a distopia. Trump produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas são transformados em ameaças aos valores tradicionais. A fé também é instrumentalizada. Deus, pátria e governo estariam unidos num mesmo projeto. O dissidente político passa a ser tratado como inimigo da nação, da família e dos cristãos.

Fingidores de sempre fingem e há quem acredite!

Somos mais fortes do que aqueles que fingem nos governar. O fascismo está em alta nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Não temos consciência da nossa força porque nosso conceito de poder geralmente envolve aqueles que elegemos.

Angela Davis, filósofa e ativista socialista americana

O comunismo dos retardatários

O final do século XVIII foi palco das grandes revoluções no mundo ocidental – a Revolução Industrial na Inglaterra, a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos, também chamada de Revolução Americana. O século XIX assistiu à consolidação da modernidade econômica, social e política – o progresso, o fim das aristocracias absolutistas e o florescimento da democracia. Alheios a essas revoluções, estiveram o Império Russo Czarista, que derrotou Napoleão em 1812; e o Império Chinês, que foi submetido ao Ocidente em meados do século XIX – quero dizer com isso que os conceitos de Revolução Francesa, direitos do cidadão e democracia nunca chegaram a estes confins.

A era da modernidade do século XIX, no Ocidente, foi acompanhada por um intenso processo de urbanização, desestruturação do tecido social, migrações em massa, recorrentes crises econômicas e grandes mobilizações operárias. Em 1848, Karl Marx anunciou o fim do reino da mercadoria, isto é, do sistema na Inglaterra, o país que detinha a hegemonia capitalista internacional; e o nascimento de uma nova era, o socialismo.

O capitalismo, contudo, sobreviveu na Inglaterra e se alastrou pela Europa Continental e pelos Estados Unidos. Friedrich Engels responsabilizou a sobrevida do sistema inglês ao aburguesamento de sua classe operária, por conta da exploração dos trabalhadores do além-mar – uma argumentação terminantemente espúria à teoria de Marx.

No início do século XX foram desintegrados os impérios Austro-Húngaro e Otomano – multiétnicos, multilíngues e multinacionais; e ruíram também os impérios Russo (Revolução Russa de 1917) e Chinês (Revolução Xin Hai de 1911).
O Império Russo

Em 1848, quando Marx considerou que “o capitalismo construiu mais maravilhas para o mundo do que todas as gerações anteriores juntas, incluindo as pirâmides do Egito”, a Inglaterra, com 17 milhões de habitantes, já reunia 50% da população na zona urbana. Em 1917, às vésperas da Revolução, o Império Russo, com 175 milhões de habitantes, constituía uma sociedade essencialmente agrária – apenas 15% de sua população vivia nas cidades.

Vladimir Lenin sonhava em atravessar Varsóvia para se juntar aos comunistas alemães e alcançar Paris, Londres e… Nova York. Mas, concretamente, Lenin e Joseph Stalin, em seu “socialismo real”, se dedicaram, com sucesso, a “desenvolver as forças produtivas” do agrário Império Russo.

Os bolcheviques implementaram a industrialização acelerada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – num ritmo que faria inveja a Frederick Taylor e Henry Ford; e promoveram a coletivização forçada do campo, para garantir o excedente agrícola necessário ao intrínseco processo de urbanização.

Em 1989, depois de transformar o país em uma potência internacional, os bolcheviques foram levados a abrir mão de seus estados satélites no Leste Europeu e, em 1991, dissolver a União Soviética e abdicar do poder na Rússia.

James Baker, secretário de Estado dos EUA, reunido com Mikhail Gorbachev para tratar da reunificação da Alemanha, garantiu que a “OTAN não se moveria uma polegada para o leste”, que os países do extinto Pacto de Varsóvia constituiriam uma zona neutra entre os dois blocos políticos. Mas, com a dissolução da URSS em 1991, a OTAN considerou o acordo sem efeito e não só absorveu o Leste Europeu, como passou a contemplar a Ucrânia também.

Distrito financeiro de Lujiazui em Xangai

A China, às vésperas da Revolução de 1949, com 540 milhões de habitantes, constituía uma sociedade ainda mais rural do que o Império Russo em 1917 – apenas 10% de sua população vivia nas cidades. A República Popular da China também se empenhou em “desenvolver as forças produtivas” da agrária sociedade chinesa.

Entre 1958 e 1962, promoveu o Grande Salto Adiante, em um período de crise e fome que levou milhões à morte. Após a radical e violenta Revolução Cultural (1966-1976), o Partido Comunista da China – PCCh, nos anos 1980 e sem abrir mão do poder, resolveu mercantilizar a economia, valorizar os mecanismos de mercado, iniciativa privada, empreendedorismo, competitividade e abertura da China ao investimento capitalista internacional.

A indústria chinesa atraiu o capital estrangeiro e invadiu o mundo com mercadorias descartáveis – produzidas por disciplinados trabalhadores com baixo nível de consumo – e taxas de câmbio administradas. A China industrializou-se, generalizou a mercadoria e, em recordes 40 anos, deixou de ser um país pobre para, com tecnologia de ponta, se transformar na maior economia do planeta, o país que detém hoje a hegemonia internacional do capital.

A mercadoria não tem preconceitos de “raça”, cultura, gênero etc. O capitalismo industrial, a partir da Inglaterra, generalizou a mercadoria pelo mundo, além de incluir as mulheres no mercado de trabalho, emponderando-as e libertando-as da condição de procriadoras.

Nas sociedades agrárias russa e chinesa, particularmente, o processo de mercantilização da economia – industrialização, urbanização, modernização e desestruturação da sociedade rural tradicional para garantir o excedente agrícola – foi propiciado pela ascensão dos comunistas ao poder.

Os campônios, que representavam 85% da população no Império Russo e 90% da população na China, se aliaram aos comunistas para se livrarem da exploração dos senhores de terra – para descobrirem, mais tarde, que foram traídos, que teriam que elevar ainda mais o seu excedente agrícola – de modo a alimentar a industrialização de seus “retrógrados” países e propiciar “o desenvolvimento das forças produtivas”.

A mercadoria é democrática – a hegemonia capitalista mundial passou da Inglaterra no século XIX para a “inculta” sociedade norte-americana no século XX; e desta para “os china” no século XXI. Para se ter uma ideia dos direitos dos trabalhadores na atualidade, seguem o corrente número de horas semanais e o direito a férias em alguns países selecionados.

Na Inglaterra, a jornada de trabalho é de 37 a 40 horas, com 4 semanas de férias ao ano; na Alemanha, 35 a 40 horas de trabalho e 4 semanas de férias; e na França, 35 horas de trabalho e 5 semanas de férias. Na Rússia são 40 horas de trabalho e 4 semanas de férias.

Nos Estados Unidos, a jornada é de 40 horas, mas as férias não são regulamentadas; empresas costumam oferecer férias do tipo 1 semana nos primeiros 5 anos de trabalho, 2 semanas de 5 a 10 anos, 3 semanas de 10 a 20 anos e 4 semanas após 20 anos de serviço (a contagem do tempo de trabalho para efeito das férias recomeça do zero a cada novo emprego). Na China, legalmente, são 44 horas e 1 semana de férias nos primeiros 10 anos de trabalho, 2 semanas de 10 a 20 anos e 3 semanas após 20 anos de serviço.

A China garante hoje um sofisticado consumo à elite e uma situação financeira bastante confortável à classe média urbana, enquanto 800 milhões entre os 1,4 bilhão de habitantes sobrevivem com restritos direitos trabalhistas e sociais – 450 milhões de camponeses na zona rural e 350 milhões de migrantes urbanos e principalmente rurais que vivem e trabalham em cidades na qualidade de cidadãos de segunda classe.

A extremamente autoritária e eficiente República Popular, embora declare como ilegal, “não consegue” livrar a China dos regimes 996 e 997 (doze horas de trabalho, das 9h às 21h, 7 dias por semana). Em 2020, uma empresa de entregas, que demitiu um funcionário que se recusou a cumprir a jornada 996, foi condenada a pagar uma indenização de 8.000 yuans ao trabalhador (equivalente a um mês de trabalho). A empresa também “recebeu advertências”, porque suas normas e regulamentos exigiam 72 horas semanais (28 horas excedentes às 44 horas legais) e 120 horas extras ao mês (84 horas excedentes às 36 horas-extras legais).

Apesar da ridícula indenização determinada pela justiça, o Supremo Tribunal Popular e o Ministério de Recursos Humanos e Seguridade Social divulgaram este caso como paradigmático. O mais significativo, entretanto, é que o governo não se declara contra as prolongadas jornadas simplesmente por serem insanas, mas também por privarem os trabalhadores exaustos de constituírem um mercado de consumo em condições de aquecer a economia do país, de acordo com o Plano de Ação Especial para Impulsionar o Consumo – o que confirma que a mercadoria, soberana, rege hoje a sociabilidade da milenar civilização chinesa.

As grandes marcas e grifes internacionais, que alimentam a elite mundial e, particularmente, a elite chinesa, também gostariam de ampliar o seu mercado consumidor e aquecer a economia da China – anseiam por lançar uma linha “mais popular” e acessível para contemplar os 490 milhões de chineses da classe média. Contudo, estão empenhadas neste projeto com muito cuidado para não melindrar a elite (e acabar perdendo este seu mercado cativo).

Mais que nunca, pensar

A IA anda à procura de filósofos. Dez anos atrás, segundo um boletim repercutido pelo The New York Times, recomendava-se a estudantes em ciências sociais e filosofia aprender programação de computadores se quisessem conseguir empregos no futuro.

Pesquisas recentes indicam, entretanto, que a empregabilidade é cada vez maior entre graduados em estudos culturais e filosofia. Em nada diminuiu a importância da programação, mas já é função assumida pelas próprias máquinas. Elas fazem de tudo na lógica dos números, só não pensam.


Mas as máquinas deixam claro que a existência ultrapassa a lógica, impotente no incessante transformar-se do mundo, onde se mostram apenas a existência e a realidade. Em outras palavras, a razão que faz funcionar a inteligência artificial não é a mesma do pensamento essencial fragmentação da vida, ao mistério do mundo, que é a cultura. Jorge Luis Borges bem o viu: "A solução do mistério é sempre inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e do divino; a solução, do jogo manual" (em "O Aleph").

Nenhum esoterismo nessa ideia de mistério. É só uma palavra para o que se oculta no movimento de aparecer e velar da physis, a natureza. Místico é o que se esconde, o que aciona a criatividade de toda cultura. Para isso, é preciso especular, imaginar, pesquisar, seja com as artes do pensamento, da criação ou do trabalho científico.

Tudo disso difere da combinatória dos saberes armazenados para resolver problemas práticos e imediatos. É o que Borges chama de "jogo manual", hoje uma interação com o hardware dos computadores. Num software, o logaritmo é mera sequência lógica de caminhos para dar solução rápida a determinada questão. É funcionamento de máquina, não pensamento ou busca de sentido para as coisas.

Mas há criações humanas que, sem serem meras combinações do já dado, prescindem de sentido. É o caso da música, que engendra o seu próprio real. Igualmente, a matemática, que tem rigorosa coerência, mas não sentido, e se aproxima da linguagem da physis: "O livro da natureza está escrito em linguagem matemática" (Galileu Galilei).

É assim que a matemática, indo além da medição, pode ensejar a construção de mundos, que não apenas replicam a realidade, mas produzem novos universos conceituais. E com todo o seu rigor, costeia a mística. O jovem indiano Ramanujan, um dos maiores matemáticos do século passado, atordoou os luminares britânicos ao revelar que suas complexas equações lhe eram sopradas em sonho por uma divindade familiar.

Agregadas como pensamento, matemática, música, ciências da natureza e do homem mostram que a redução da complexidade da vida à eficácia produtiva e ao consumo é efeito de uma programação neoliberal capaz de levar ao emburrecimento do mundo.

A soberania tecnológica de uma nação depende hoje de IA, mas não resulta da importação de modelos lógicos avançados, e sim de pensamento próprio, de universidades que respirem como territórios livres. Pensar, singularidade humana, não virá salvar apenas empregos, mas a nossa própria espécie.

Eleição entre soberania e entreguismo, ordem e desordem. Milei: o lixo

O esforço dos Estados Unidos de interferir no processo eleitoral brasileiro em favor de Flávio Bolsonaro não é mais nem uma possibilidade nem uma hipótese: trata-se de uma realidade. E, como os fatos também revelam, a operação é conduzida em parceria com a família Bolsonaro, a começar do próprio candidato, sob a orientação, digamos, ideológica de Eduardo e Paulo Figueiredo — Pinky e o Cérebro do intervencionismo.

Como revelou o jornal “The Washington Post”, Marco Rubio queria despachar um par de funcionários para vir ao Brasil com o intuito de pôr em dúvida a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Trata-se de Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente do Departamento de Estado. Os respectivos pedidos de visto já foram negados pelo Itamaraty.

A notícia vem a público três dias depois de Flávio participar de um seminário em Brasília, na terça, em que repetiu as acusações falsas de seu pai, o golpista condenado Jair Bolsonaro, às urnas eletrônicas. Nesta quinta, foi a vez de Eduardo participar de uma live, em companhia de Fernando Cerimedo, o picareta argentino que inventou uma teoria conspiratória sobre a totalização dos votos em 2022, para acusar vulnerabilidade no sistema eleitoral e sugerir que houve fraude naquela eleição.

“Argentino Picareta”? Javier Milei discursou há pouco na Convenção do PL que oficializou o nome de Flávio à Presidência. Nesta sexta, o agora candidato do partido publicou nas redes um vídeo feito por IA em que ambos chegavam ao estádio do Pacaembu, em São Paulo, pilotando caças. A Argentina — então Províncias Unidas do Rio do Prata — não invade solo brasileiro desde a Batalha do Passo do Rosário (ou de Ituzaingó, com a chamam  os “hermanos”), em 20 de fevereiro de 1827. Agora temos essa cortesia de Flávio, ainda que no território da fantasia.

É grotesco. O “Leão”, como Milei chama a si mesmo, contrastando a mixuriquice de seus dotes físico e moral com a majestade do bicho, falou contra uma suposta ameaça socialista e, ao lado do Zero Um, dançou ao som de “Panic Show”, da banda La Renga, como faz em todos os seus eventos — à revelia da vontade do grupo, note-se:

“Olá a todos! Eu sou o leão
A fera rugiu no meio da avenida
Todos correram sem entender
Show de pânico em plena luz do dia
Por favor, não fujam de mim
Eu sou o rei de um mundo perdido
Eu sou o rei e eu vou te destroçar
Todos os cúmplices são do meu apetite
Não fuja! Venha a mim
Fique desnudo e enfrente meus dentes
Eu sou o rei, o leão
Venha saber como é”.

O vídeo circula por aí. Não parece coisa de gente que transita clinicamente no vasto orbital da normalidade.

Quando os EUA impuseram a tarifa de 25% a parte dos produtos brasileiros, mais uma das delicadezas do Imperador do Norte impostas a nosso país com o patrocínio interno da família Bolsonaro, Rubio houve por bem desferir um ataque a Lula nas redes, descontente porque o presidente brasileiro não assentiu em se comportar como um estafeta do império, o que Flávio lhe prometeu numa carta pessoal e num documento de 84 páginas enviado ao Escritório de Representação Comercial (USTR).

Rubio emprestava um viés político àquilo que é parte da guerra comercial de Washington contra o… mundo, o que se confirma com a tarifa adicional de 12,5%, esta imposta a 59 países mais a União Europeia. Donald Trump elegeu o planeta como alvo, mas é evidente que o Brasil vive uma circunstância particular.

A investida protecionista e, a rigor, anticapitalista de Trump não encontra eco entre seus aliados ideológicos em nenhum outro país do mundo. Ele costuma ser até bem desagradável com aqueles que compartilham alguns de seus valores ideológicos. Há, no entanto, duas exceções: o Brasil e a Argentina.

Por aqui, a família Bolsonaro, que tem a hegemonia da extrema direita e fagocita parte considerável da direita amorfa, aceita ser o instrumento da tentativa de tomar de assalto a economia. Assim, a presença de Milei, outro esbirro do trumpismo, é apenas uma ilustração cômica, apalhaçada, da subserviência e do entreguismo. Eduardo já ganhou o “green card” como gorjeta. Imaginem quanto pode render a concessão das terras raras e do Pix — ainda que de forma maquiada —a seus patrões caso Flávio vença a eleição.

Os setores da indústria e do agro que se engraçavam, ou se engraçam ainda, com Flávio fiquem espertos. A depender do resultado da eleição, preparem-se para atuar como meros agentes de um novo “Pacto Colonial”.

Tudo está devidamente exposto. Nem chega a haver opinião neste texto. Listo evidências apenas. E, se alguém achou exagerada a interpretação que deu o Itamaraty à classificação das organizações criminosas como terroristas, alertando para o risco óbvio de invasão do território brasileiro — o que as leis norte-americanas facultam —, bem, a esta altura, creio, caberia uma reconsideração. Os dois funcionários de Rubio falam por si. Ademais, tal designação permite que a CIA realize operações secretas em nome da… segurança dos EUA.

Você não gosta de Lula e do PT? É parte do jogo democrático. Cada um escolha o seu sonho e o seu voto. O que resta inequívoco, e isto não depende nem da minha vontade nem da sua, é que a eleição de outubro se dará entre forças que representam a soberania — e não excluo que equívocos se cometam em seu nome; também isso é do jogo — e as forças mais escancaradas do entreguismo.

Se a soberania pode se equivocar, o entreguismo, do seu ponto de vista, não se equivoca nunca: está sempre a serviço da intervenção e dos seus próprios interesses mesquinhos. No primeiro caso, pode-se fazer uma correção de rota; no segundo, firma-se o pacto com a destruição do país. Sem retorno.

Em seu discurso, Milei nos brindou com esta frase de suposto requinte intelectual:

“O Brasil pode se somar à transformação regional que, nos últimos anos, levou a América Latina a deixar de ser uma região associada à miséria romantizada, retratada por certas obras de realismo mágico, para se tornar um sinônimo de progresso. Creio firmemente que não há outro caminho capaz de afastar o risco que paira sobre o Brasil, como uma ‘Espada de Dâmocles'”.

A literatura latino-americana, com efeito, é rica no chamado realismo mágico, que não fez fortuna crítica no Brasil. Nossa impressionante riqueza literária segue por outros caminhos — e deixo isso para outra hora. O presidente argentino, fica claro, não entende nada dessa corrente: trata-se, não raro, da denúncia da miséria, não da sua romantização. As elites retratadas em tom crítico, muitas vezes fantasmagórico, são precisamente as forças a que se aliam Milei e Flávio. Acerta ao dizer que há uma “Espada de Dâmocles” (pesquisem a respeito depois) sobre o Brasil. E ela é representada hoje por aqueles que atentam contra a sua independência e a sua liberdade.

Milei referiu-se a Alexandre de Moraes como “o lixo Careca”. Tem-se aí mais um evento inédito: um chefe de Estado de país estrangeiro refere-se a um membro do Supremo Tribunal Federal em termos obviamente inaceitáveis, numa outra evidência de uma articulação de forças estrangeiras contra a autonomia do Brasil — e, como resta evidente, em parceria com os Bolsonaros.

O lixo intervencionista vai se acumulando. A eleição, assim, não se dá apenas entre soberania e entreguismo. Também se trata de escolher entre as forças da ordem institucional e as da desordem.
Reinaldo Azevedo

sábado, 25 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Todo poder corrompe

No ano passado, os norte-americanos colocaram no mercado internacional produtos agropecuários no valor de US$ 171 bilhões. O Brasil, no mesmo período, exportou US$ 169 bilhões. Pela primeira vez, em quase um século, os Estados Unidos estão ameaçados de perder a hegemonia no fornecimento de produtos da terra ao resto do mundo. Essa inversão de posições deve-se ao laborioso trabalho da Embrapa no Brasil e às sobretaxas impostas por Trump desde seu primeiro mandato. Ele taxou fortemente produtos chineses. Pequim retaliou. Taxou produtos norte-americanos e deixou de comprar no mercado dos Estados Unidos. Passou a realizar suas encomendas no Brasil.



Os fazendeiros do Meio-Oeste dos Estados Unidos estão inquietos. Reclamam de seu governo, sofrem com o desaparecimento dos principais fregueses e dos lucros que estão se transformando em prejuízo. Resta a Donald Trump perseguir o caminho único de sua obsessão: aumentar tarifas e interferir no comércio internacional. Os resultados não favorecem seus objetivos. Ele já enfiou bilhões de dólares no conflito com o Irã, que provocou elevação dos preços do petróleo em todo o mundo. E despertou a vocação belicista dos persas que começaram a bombardear as instalações norte-americanas em todo o Oriente Médio. As tropas do Tio Sam não mais são capazes de defender seus aliados. Prejuízo sobre prejuízo.


Há motivos político-eleitorais e econômicos para justificar a aplicação de tarifas sobre os produtos brasileiros. Os norte-americanos estão perdendo em segmentos da economia em que trabalhavam sem concorrência. O cenário mudou. O candidato Flávio Bolsonaro não entendeu o quadro que está à sua frente. Ele, a exemplo do pai, tenta colocar a urna eletrônica no centro do debate político. O mesmo erro cometido por Jair. Flávio é senador, eleito por intermédio do sistema brasileiro de votação eletrônica. Ele não contestou a própria eleição. Perde tempo. Não apresentou uma única linha de seu hipotético programa de governo, se existir. A economista Daniella Marques, candidata a ser o posto Ipiranga de um hipotético governo Flávio, passou pela maratona de conversas com representantes do setor financeiro em São Paulo.

Ela conhece os caminhos. Mas ouviu o que não queria. Seus interlocutores, com maior ou menor clareza, afirmaram que seu problema está no candidato. Ou seja, Flávio, que vai sendo colocado à margem por vários partidos. Teresa Cristina, senadora, convidada para ser candidata à vice-presidência, de maneira educada, pediu para esquecerem dela. Na outra ponta, José Sérgio Gabrielli, também percorreu os escritórios na Faria Lima para defender o governo atual. Apresentou argumentos em favor da maior participação de empresas estatais e do próprio governo na economia nacional. Foi um desastre.

O panorama eleitoral brasileiro é construído por contradições espantosas. O candidato de oposição, segundo as pesquisas, não tem chance de vencer no primeiro turno. Ele é fortemente rejeitado pela maioria e até pelo pessoal de centro-direita. Lula carrega também enorme rejeição. Contudo, no eventual segundo turno, Lula aparece empatado com seus concorrentes, sempre segundo as pesquisas. Esse fenômeno aponta para outra direção: o antipetismo é muito forte no país. Quem conseguir chegar ao segundo tempo da eleição, terá chances de vencer o pleito.

A ideologia do governo Lula está estacionada em algum momento dos anos 70. Sua fórmula populista se esgotou. Ele elevou o endividamento do país e não solucionou problemas básicos de habitação, de educação e de infraestrutura. Há grande número de projetos burocráticos que sustentam o noticiário político, mas não chegam à mesa do brasileiro. O Brasil do século 21, com seus 158.745.463 eleitores, apresenta outros desafios. Ainda há um número expressivo de analfabetos no país. Ao mesmo tempo, a sociedade precisa de profissionais qualificados para enfrentar os caminhos do difícil comércio internacional.

Dois exemplos estão absurdamente nítidos. Brasileiros de quaisquer quadrantes deveriam olhar para o que está ocorrendo nas Américas. Cuba, ícone do comunismo tropical, mudou radicalmente. Passou a admitir capital privado em todos os níveis de sua economia. O país quebrou, há cortes de energia que duram mais de 12 horas. A comida e o combustível estão escassos. Hospitais funcionam de maneira precária. A solução encontrada em Havana foi privatizar o possível.

Ao contrário, Daniel Ortega, na Nicarágua, decidiu por vontade própria cancelar as eleições em seu país "para evitar que a oposição tome o poder". Extinguiu a democracia. Ele, velho comunista, tomou o poder de um ditador, Anastásio Somoza, em 1979, para livrar o país da ditadura. Mas reproduziu o que havia antes. Todo poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.

Bets: a pandemia do século

Meu primeiro contato com uma plataforma de apostas ocorreu durante a Copa do Mundo de 2022. Inicialmente, depositei R$ 10 na conta, valor que logo se transformou em um aporte de R$ 20, e assim sucessivamente. Ao fim da competição, meu dinheiro havia se dissipado como um grão de areia levado pelo vento do deserto do Catar, palco daquele torneio. O valor relativamente pequeno que desapareceu em um piscar de olhos da minha conta bancária – cerca de R$ 150 – foi suficiente para me fazer abandonar de vez a jogatina. Infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos brasileiros atraídos pelos jogos online e por mais uma edição do maior evento futebolístico do planeta.

Quatro anos depois da minha estreia no sórdido universo das apostas, pouca coisa mudou. A CazéTV, única emissora do país a transmitir os 104 jogos da Copa do Mundo de 2026, esteve no centro das discussões devido ao bombardeio de propagandas de plataformas de apostas ao longo das transmissões.

A repercussão foi tamanha que o Ministério da Justiça abriu uma investigação para apurar indícios de publicidade abusiva de plataformas de apostas na CazéTV, levando a emissora a adotar novos formatos para esse tipo de divulgação. Em paralelo, o Ministério da Fazenda editou novas regras para a publicidade do setor. As peças publicitárias passaram a ser acompanhadas de advertências, em modelo semelhante ao adotado para propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas.F


Os tentáculos da jogatina no futebol não se restringem à Copa do Mundo. No Campeonato Brasileiro, é praticamente impossível assistir a uma partida sem se deparar com a publicidade dessas empresas, seja nas placas ao redor do gramado, nas inserções durante a transmissão, nos intervalos ou, ainda mais frequentemente, estampada na parte “master” das camisas dos clubes por meio de contratos milionários. Para se ter uma ideia, segundo levantamento da Folha de S.Paulo, um telespectador tem mais chances de ver anúncios de casas de apostas do que a bola rolando no Brasileirão. O veículo analisou 22 transmissões da edição de 2025 em diferentes canais com direito de transmissão.

Como se isso não bastasse, alguns dos principais jogadores (em atividade ou não) e jornalistas esportivos brasileiros são patrocinados por essas empresas, caso do narrador Galvão Bueno (Betnacional) e dos atacantes Vinícius Júnior (Betnacional) e Neymar (Blaze), ambos convocados por Carlo Ancelotti para a disputa do Mundial realizado no Canadá, México e Estados Unidos. Lucas Paquetá, outro atleta chamado para a seleção e atualmente no Flamengo – clube patrocinado pela Betano –, chegou a ser investigado por suposta manipulação esportiva quando defendia o West Ham, atualmente patrocinado pela BOYLE Sports, outra empresa do setor.

Quando se fala em apostas online, existem diferentes modalidades. Há aquelas que dependem da previsão de resultados ou acontecimentos esportivos – como o placar exato de uma partida, número de escanteios ou cartões recebidos por determinada equipe – e as baseadas em algoritmos, popularmente associadas ao “Jogo do Tigrinho” (Fortune Tiger). Semelhantes aos caça-níqueis, elas funcionam de maneira ainda menos transparente. Em comum, todas compartilham o mesmo objetivo: fazer o usuário perder dinheiro, mas continuar jogando por acreditar que, uma hora, receberá uma bolada.

Em dezembro de 2024, a revista piauí lançou luz sobre a explosão das bets ao publicar uma extensa reportagem, que mostrava como a expansão da jogatina virtual foi impulsionada pela publicidade de influenciadores com milhões de seguidores nas redes sociais. A matéria revela, por exemplo, que a empresária Virgínia Fonseca, hoje com mais de 56 milhões de seguidores, foi uma das maiores beneficiadas pelos cachês milionários pagos por empresas do setor para divulgação.

Pouco antes da publicação da reportagem, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), no Senado Federal, para investigar o impacto das apostas virtuais e dos jogos de azar no orçamento das famílias, sua possível associação com organizações criminosas e o papel desempenhado por influenciadores digitais na promoção dessas plataformas. Em maio, quando Virgínia prestou depoimento à comissão, o circo já estava armado. A melhor demonstração da galhofa veio do senador Cleitinho (PL-MG), que pediu um vídeo da influenciadora para sua família.

No fim das contas, o relatório final da CPI foi rejeitado em junho de 2025, e tudo acabou em pizza. Quem pagou essa conta, literalmente, foi a população.

Não chega a surpreender que o setor de apostas online conta com um lobby robusto e bem articulado em Brasília. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, alterna sua agenda entre os corredores do Congresso, viagens a Courchevel, na França, ao lado de seu “irmãozão”, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e viagens luxuosas à ilha de Saint Martin, paraíso fiscal no Caribe, na companhia de Fernandin OIG, apontado, em outra apuração da piauí, como um dos responsáveis pelo “Jogo do Tigrinho”

No Brasil, as empresas de apostas passaram a ter respaldo legal em 2018, durante o governo Michel Temer. No entanto, somente em 2023, já na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, o setor foi regulamentado, com a definição de regras para operação, fiscalização e tributação.

Para atuar legalmente no país, essas empresas precisam obter autorização do Ministério da Fazenda mediante o pagamento de uma licença com prazo de validade determinado. Além disso, devem recolher tributos e cumprir uma série de exigências regulatórias. Com a regulamentação, o governo passou a bloquear e suspender plataformas que operavam sem autorização ou em desacordo com as novas normas, as chamadas bets ilegais. Na prática, porém, muitas dessas plataformas fraudulentas continuam operando irregularmente.

Nesse jogo contra a indústria das apostas, o brasileiro está perdendo de goleada. Desde o início da Copa do Mundo de 2026, mais de um terço da população enviou dinheiro para plataformas do setor. Os números revelam um cenário alarmante: comprometimento da renda, adiamento de projetos de vida, endividamento, impactos sobre a saúde mental e desenvolvimento de comportamentos compulsivos relacionados ao jogo. Para se ter uma ideia, quem seguiu as sugestões de narradores e comentaristas da CazéTV – vale lembrar, a única emissora a transmitir todos os jogos da competição — perdeu dinheiro em quase 61% das apostas, segundo levantamento do ICL Notícias.

O problema pode ser ainda maior. De acordo com dados da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), 34% dos brasileiros entre 18 e 35 anos que ingressariam em uma graduação em 2025 precisaram adiar esse projeto por terem gasto seu dinheiro com plataformas de apostas e cassinos virtuais. A expectativa também é de novo encolhimento das receitas no setor de serviços, já que uma parcela cada vez maior da renda disponível deixa de ser destinada à indústria e ao comércio para ser destinado para casas de apostas.

Em ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a endurecer o discurso contra o setor. Lula afirmou que, se a decisão dependesse exclusivamente dele, acabaria com as bets. A declaração foi interpretada como um aceno ao eleitorado feminino, que tem defendido medidas mais rígidas para conter o avanço dessas empresas.

Uma das iniciativas mais interessantes para combater o vício em jogos de azar foi a criação do serviço de autoexclusão. Por meio dele, qualquer cidadão brasileiro pode restringir voluntariamente o próprio acesso às plataformas autorizadas pelo governo. Apesar do caráter preventivo, a ferramenta apenas mitiga um problema que ainda está muito longe de ser solucionado. (Até o momento, quase 700 mil pessoas já recorreram ao mecanismo de autoexclusão de casas de apostas).

Sejam relacionadas a eventos esportivos ou a jogos baseados em algoritmos, essas plataformas contam com sofisticadas estratégias de publicidade. Se, em um primeiro momento, sua presença estava concentrada nas transmissões de futebol e nas redes sociais de influenciadores com milhões de seguidores, hoje ela se espalhou pelos mais diversos espaços da vida cotidiana. Festivais culturais e eventos tradicionais, como as festas de São João e o Carnaval, passaram a contar com o patrocínio dessas empresas, ampliando sua exposição e naturalizando sua presença no imaginário popular.

Essa pandemia também se espalhou pelo transporte público das grandes cidades. Não é raro encontrar anúncios em trens, metrôs e ônibus com QR Codes que direcionam o passageiro diretamente para plataformas de apostas, oferecendo “bônus”, “rodadas grátis” e outras “vantagens” – entre aspas, mesmo – para atrair novos usuários. Considerando que os brasileiros que utilizam transporte público nas capitais passam, em média, cerca de duas horas por dia em deslocamentos, isso representa quase 120 minutos diários de exposição a estímulos cuidadosamente planejados para seduzir potenciais apostadores e alimentar um comportamento que pode evoluir para o vício. De maneira, no mínimo, sádica, todas essas campanhas vêm acompanhadas do clichê “jogue com responsabilidade” – como se o vício pudesse ser controlado apenas pela força de vontade. A advertência passou a ser obrigatória após a regulamentação do setor promovida pelo governo Lula.

As bets funcionam como uma droga: estão disponíveis 24 horas por dia, ao alcance de um celular, impulsionadas por campanhas publicitárias, influenciadores digitais e pela exposição constante nos meios de comunicação. Como definiu o escritor Sérgio Rodrigues, em coluna publicada na Folha de S.Paulo, “criar uma rede nacional de milhões de cassinos de bolso legalizados e abertos 24 horas não é tão diferente de vender crack no horário nobre”.
Guilherme Loureiro

Contrato e barbaridade

Rousseau disse que a única maneira de se sair da barbárie é o “Contrato Social”, no “Espírito das Leis” de Montesquieu. Na Democracia, os grupos sociais estariam politicamente representados, o sistema eleitoral levaria sempre à eleição dos melhores, e a representatividade na negociação política iria garantir a repartição da renda. Mas nada disso ocorreu. Os grupos sociais não são representados, as eleições elegem, via de regra, os piores, e a distribuição de renda piora cada vez mais. Onde vamos parar?

Do início da Revolução Industrial até o final do século XX, experimentamos surtos de democracia. Na Inglaterra, o Parlamentarismo prosperou, conjuntamente com os movimentos sociais e melhor distribuição de renda. Nos Estados Unidos, a Revolução Americana instalou os princípios da liberdade e do mercado, com grande desenvolvimento econômico e político. Na França, a Revolução Francesa introduziu os conceitos de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, e após 50 anos de conturbação política que seguiram, a França encontrou sua forma da Terceira República em diante. Na Suécia, capital e trabalho fizeram o que se denomina de pacto “Social Democrata”, com revezamento no poder entre as classes e benefícios para todos.

Passamos por duas Guerras Mundiais, por motivos geopolíticos e de poderio econômico das nações.


Até 1980, a renda das três classes sociais, a alta, a média e a baixa, aumentou. A partir de 1980, entretanto, dispara a renda da classe alta, estabiliza-se a renda da classe baixa, e cai significativamente a renda das classes médias, como dados do “World Inequality Report”. Ao mesmo tempo, o sinal amarelo, hoje quase vermelho, da crise ecológica e dos recursos naturais, acende-se.

As classes médias, que dependem de estabilidade para viver, desgostosas com os sistemas eleitorais por não serem representativos e redistributivos, e aversas ao socialismo ou à políticas sociais, agarram-se aos líderes radicais de direita. Simon Commander, ex-professor da London Business School, em sua nova revista “Modern Autocracy”, indica que hoje 2/3 de humanidade vive em “Modern Autocracies”, no desmanche das ordens constituídas. E some-se a isso a crise ecológica que se acentua, com a predominância da geopolítica pelos países sobre os interesses das classes sociais.

A Lei perece, e a Barbárie cresce. Nesta Copa, por exemplo, até um “cartão vermelho” foi revertido pela FIFA a pedido – ou, poderíamos por assim dizer, por determinação – de Donald Trump.

Como diz Noah Harari, em ”Sapiens”, o homo sapiens tem muito pouco de sapiens, caminhando para um desastre a curto prazo. O interesse na riqueza imediata e o usufruto individual de suas benesses prevalecem sobre o bem das futuras gerações.

Como na música de “As Meninas”:

“Analisando essa cadeia hereditária
Quero me livrar dessa situação precária
Onde o rico cada vez fica mais rico
E o pobre cada vez fica mais pobre
E o motivo todo mundo já conhece
É que o de cima sobe e o de baixo desce”

Democracias repetem erro ao ignorar ameaça autoritária

Há 90 anos por estes dias, Barcelona se preparava para receber os Jogos Olímpicos operários e antifascistas em alternativa aos Jogos Olímpicos organizados pelos nazistas em Berlim. Não aconteceu porque eclodiu a Guerra Civil da Espanha.

Em vez do grande evento esportivo, os trabalhadores e os seus sindicatos, nos quais predominavam os anarquistas, saíram às ruas para impedir a tomada de poder pelos fascistas. Durante uma década e meia tinham visto país após país cair em ditadura —Itália, Alemanha, Portugal mesmo ali ao lado, a própria Espanha na década anterior com Primo de Rivera, e desta vez disseram: "¡No pasarán!" ("Não passarão").


É difícil ter hoje em dia uma noção da enormidade que foi esse grito de coragem. Não só pela primeira vez os trabalhadores reagiram em defesa da democracia pegando em armas como, em muitos casos, tomaram conta de uma economia que, nos centros urbanos, era complexa, sofisticada e industrializada.

Conseguiram fazê-lo e ainda organizar uma resistência que durou três anos. E conseguiram fazê-lo não numa ditadura, mas num ambiente pluralista e diverso.

Tudo isso era demais não só para os fascistas, salazaristas e nazis, que apoiaram Franco, mas também para Stálin, que preferiu perder a guerra atacando a esquerda pelas costas a ver nascer do outro lado da Europa uma alternativa socialista que lhe fugisse ao controle autoritário.

Mas isso estaria ainda no futuro. Veio a guerra e perdeu-se a guerra, e depois veio a Guerra Mundial. Ao passo que os regimes autoritários apoiaram Franco, os democratas deixaram abandonada a República Espanhola.

Na França, governava havia pouco tempo a Frente Popular, liderada por socialistas e apoiada por sindicatos. Nestes mesmos dias há noventa anos, o assunto no país era o direito dos operários de ter férias —duas semanas, com salário, imposto por lei.

As férias europeias são em agosto e, por esses dias, os jornais de direita reagiam, entre o espanto e o desprezo, às multidões que aprendiam a pegar o trem para ir, pela primeira vez, ver o mar.

O responsável era um jovem de 36 anos chamado Léo Lagrange, subsecretário de Estado para o esporte e o lazer, que tinha negociado com as empresas ferroviárias privadas descontos de até 40% para as passagens vendidas aos operários.

Num jornal das esquerdas, na mesma página que noticiava a alegria dos operários franceses, aparecia uma foto da Espanha com a seguinte legenda: "Em Espanha, apenas uma certeza: cadáveres nas ruas".

França e Espanha davam, então, duas faces de um futuro alternativo para as democracias: ou conseguiam resolver a "questão social" melhorando a vida das massas ou pereceriam.

Mas a lição essencial é uma que não pode ficar esquecida hoje. A Espanha republicana naufragou não porque não conseguiu gerir a economia ou a resistência nem combinar a liberdade e as políticas públicas de emancipação, mas, sim, porque os autoritários se juntaram, e as democracias não a ajudaram.

Esta semana, ao ver no palco da Fifa um Trump que não queria sair de cena e que não vai acabar o ano sem interferir nas duas maiores eleições do seu continente (Brasil e EUA), pensei: será que as democracias não aprenderam a lição de 90 anos atrás?
Rui Tavares

Flávio e o Partido Digital Bolsonarista

A partir de 2013, Jair Bolsonaro construiu um ecossistema digital bolsonarista. Cresceu gradualmente até 2018 e consolidou-se no período em que Bolsonaro foi presidente da República (2019-2023).

Pois bem. Este ecossistema resultou na existência do Partido Digital Bolsonarista (PDB). Um novo modelo partidário, não institucionalizado, que nasce digital com a lógica da própria rede da internet. Ou seja, a internet é o próprio ambiente do partido, que não se trata de um partido-plataforma.

A tese da existência do PDB vem de uma pesquisa seminal de três anos no Cebrap/SP, publicada agora em 2026. Resultou no livro digital “Partido Digital Bolsonarista” (Cebrap) organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira.


No debate sobre a organização política contemporânea, o PDB é uma novidade. Não é só o “ismo” (Bolsonarismo). Produto da ascensão da extrema direita, um fenômeno global, é visto como uma nova forma de partido político, “com potencial para remodelar a democracia moderna”: o partido digital.

Atua regularmente nas redes digitais, como nova forma de ação política – independente dos partidos tradicionais. No Brasil, o PDB tem o PL como interface institucional, “para ter acesso ao poder”. No interior do PL, existe a ala Centrão fisiológica e a ala de membros do PDB, que é majoritária – dizem os autores.

O Partido Digital seria uma espécie de atualização do Partido de Massas da virada do Século XIX. No Século XX, os partidos de massas foram disruptivos em termos de mobilização de massas. “Agora, o Partido Digital é uma espécie de atualização do partido de massas”(…)”no Brasil, entre os maiores partidos, só o PT construiu um partido de massas”. Um partido orgânico, mas ainda analógico.

Trata-se, portanto, de um processo de metamorfose da democracia representativa e do governo representativo. Uma provável nova democracia de massa, depois de um longo período minimalista da democracia do tipo schumpeteriana – na qual “o papel do cidadão é apenas eleger representantes” e a democracia só se mobiliza em épocas de eleições.

O Partido Digital atua de forma constante, coordenada e intensa, não apenas em épocas eleitorais.

O livro mostra que é impressionante o grau de coesão entre o eleitorado.: “uma coletividade unificada com agenda identitária, coesão, organização coletiva e escolha social”.

A escolha e escala social ocorre pela via da utilização de “múltiplas plataformas online para criar redes densamente articuladas de lealdade entre topo e base, mediadas por camadas intermediárias de influenciadores”. São cadeias de lealdade, com interseção entre diferentes cadeias de lealdade. Portanto, “as fronteiras da legenda digital tornam-se difusas”(…)”com expansão contínua”.

O pertencimento, como se sabe, vem da qualidade do engajamento online de cada indivíduo.

O fato é que o Partido Digital acaba resgatando características dos partidos de massas que haviam sido perdidas com a ascensão de partidos eleitorais. A chamada democracia minimalista.

O objeto de conquista de poder social do PDB é o bolsonarismo. Mas os autores mostram que ele está se ampliando para outros grupos de direita. São cadeias de lealdades (tipo “correntes partidárias) “atreladas a elementos práticos de engajamento, financiamento, hierarquia, coesão, coordenação, disciplina partidária e atuação institucional”. Atuação institucional via PL e outros partidos do Centrão.

Com dinâmica de rede, o PDB está sempre em ritmo de campanha permanente, para além dos ciclos eleitorais. “Tal vantagem se estende às formas de financiamento e construção de influência, que não se restrigem aos canais formais e permitem sustentar uma atuação contínua”.

OU seja, “sem leis que obriguem a transparência de algoritmos ou o controle de fluxos financeiros virtuais, o PDB consegue manter uma estrutura hierárquica e de financiamento que escapa à fiscalização do Estado. A lógica permanente de mobilização reorganiza o tempo político, tornando a campanha uma condição contínua. Ao mesmo tempo, o PDB desenvolve mecanismos próprios de legitimação. Eventos de grande visibilidade pública funcionam como rituais nos quais se tornam observáveis a hierarquia interna, a capacidade de ativação e o grau de disciplina do conjunto”.

Em suma, dizem os autores, o PDB sinaliza uma “mutação nas bases do governo representativo que excede a simples adaptação tecnológica”.

Tese relevante (o PDB) para compreender e debater melhor o momento político brasileiro. Vale a leitura.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Resiliência não basta

A previsão de um El Niño intenso no segundo semestre deste ano traz uma série de alertas. Chuvas acima da média no Sul, temperaturas elevadas no Sudeste e maior risco de incêndios florestais fazem parte dos cenários traçados por estudiosos. De acordo com a agência meteorológica dos Estados Unidos, há 81% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro e figurar entre os maiores registrados desde 1950. No Rio de Janeiro, mais de 50 órgãos e agências municipais já foram mobilizados para enfrentar seus possíveis efeitos.

Essas previsões costumam ser tratadas como informações sobre o clima ou sobre a capacidade de resposta das cidades. Mas elas também dizem respeito à saúde mental. Para quem já perdeu a casa, o trabalho ou alguém próximo em uma enchente, um novo alerta meteorológico não é apenas um dado técnico. Pode soar como o anúncio de que tudo está prestes a acontecer outra vez.

A psiquiatria estuda a resiliência como a habilidade de atravessar adversidades, reorganizar a vida e seguir adiante. É uma competência fundamental, mas frequentemente mal compreendida. Ser resiliente não significa sair ileso de uma tragédia, nem suportar indefinidamente situações de ameaça. A elaboração do trauma exige tempo, apoio e alguma possibilidade de reconstruir a confiança no futuro.


O Brasil conhece bem a força da reação coletiva. Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, milhares de voluntários se mobilizaram. Empresas reorganizaram suas operações para enviar alimentos e medicamentos. Organizações da sociedade civil arrecadaram recursos em todo o país. Em poucos dias, formou-se uma ampla rede de solidariedade.

Esse movimento teve enorme importância prática e emocional. Em momentos de ruptura, perceber que não se está sozinho ajuda a reduzir o desamparo e a recuperar vínculos. A solidariedade não entrega apenas comida ou abrigo. Ela também comunica à pessoa atingida que sua vida continua tendo valor para os outros.

O problema começa quando o desastre deixa de ser uma ruptura excepcional e passa a integrar o horizonte cotidiano. O trauma provocado por um episódio específico pode ser elaborado. Mais difícil é viver sob a expectativa de que ele se repetirá. A cada chuva forte ou novo alerta, o organismo pode voltar ao estado de ameaça.

Esse estado de vigilância contínua cobra um preço. O sono piora, a concentração diminui e o medo passa a ocupar uma parte maior da rotina. Em pessoas que já atravessaram uma catástrofe, sinais aparentemente comuns, como o som da chuva ou a elevação de um rio, podem reativar lembranças e respostas físicas associadas ao trauma.

Há ainda um desgaste coletivo menos visível. Quando os eventos extremos se repetem e as soluções parecem sempre provisórias, cresce a sensação de impotência. A pessoa deixa de acreditar que suas ações serão suficientes ou que as instituições conseguirão protegê-la. Nesse ambiente, a ansiedade tende a persistir e a desesperança encontra espaço.

Por isso, não basta celebrar a capacidade de reconstrução dos brasileiros. A resiliência não pode ser usada como justificativa para exigir que populações vulneráveis suportem perdas sucessivas. Há um limite para a adaptação quando a ameaça permanece e as condições de vida não mudam.

Preparar uma cidade para eventos extremos também é cuidar da saúde mental de seus habitantes. Sistemas de alerta confiáveis e rotas de evacuação conhecidas reduzem a sensação de abandono. Saber o que fazer e para onde ir não elimina o medo, mas impede que ele se transforme em completo desamparo.

A atenção psicossocial precisa fazer parte dessa preparação. O sofrimento não termina quando a água baixa ou quando as famílias deixam os abrigos. Muitas vezes, ele aparece mais forte justamente depois, quando a urgência passa e começam as dificuldades para retomar a rotina, reorganizar a vida.

Equipes de saúde mental devem estar presentes não apenas depois das tragédias, mas integradas aos planos de prevenção e resposta. Isso exige continuidade do atendimento e articulação com os serviços já existentes nos territórios. Sem essa rede, o cuidado corre o risco de chegar tarde ou desaparecer quando a comoção pública diminui.

Há uma diferença entre reconhecer um risco e viver permanentemente submetido a ele. A consciência permite agir e buscar proteção. O medo contínuo, ao contrário, estreita a vida. O desafio do país é evitar que milhões de brasileiros passem a interpretar cada mudança no tempo como a possível chegada de uma nova perda.

A solidariedade continuará sendo indispensável. Mas ela não pode substituir políticas públicas, nem planejamento. Um país preparado não é aquele que apenas reconstrói com rapidez depois de cada tragédia. É aquele que reduz perdas e oferece condições para que sua população não precise viver em estado permanente de alerta.

A aproximação de um El Niño potencialmente intenso torna essa discussão ainda mais urgente. Os próximos meses dirão muito sobre a capacidade do país de antecipar riscos, mas também sobre o modo como escolhemos proteger a saúde mental das pessoas. Resiliência é uma força humana importante. Ela não pode, porém, ser confundida com a obrigação de suportar o insuportável.
Jorge Jaber

Isolado, Flávio se pendura na Casa Branca

Cinco dias antes do discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) exumando notícias falsas sobre as urnas eletrônicas, o presidente americano, Donald Trump, acusou a China de intervenção nas eleições de 2020, quando perdeu para Joe Biden, e apontou “chocantes vulnerabilidades” no sistema de votação dos EUA.

A “denúncia” a diplomatas estrangeiros valendo-se da Smartmatic, que denunciou a fraude cometida por um de seus clientes, o governo venezuelano, e foi derrotada numa licitação de urnas do TSE, só perde, em grau de insanidade, para a acusação de Trump de que a China acessou 220 milhões de arquivos de eleitores americanos para fraudar aquela disputa.

Tanto no Brasil quanto nos EUA, a história não começou pelas urnas. Na semana passada, a campanha do PL informou não ter interesse em ser incluída no esquema montado pela Polícia Federal para proteger os candidatos, com 450 servidores, veículos blindados e equipamentos antidrone e de vistoria antibomba. Preferiu permanecer com a polícia do Senado. Em seguida, sua campanha acrescentou que o senador passaria a usar colete à prova de balas em função de ameaças crescentes.

Enquanto isso, nos EUA, o secretário de Estado, Marco Rubio, reuniu representantes de mais de 60 países para anunciar a reconstrução da arquitetura internacional de contraterrorismo montada no 11/9. Desta vez, esta estrutura estaria voltada contra o “ressurgimento do terrorismo político de extrema esquerda”. Ainda participaram desta apresentação Stephen Miller, do gabinete de Trump, e Scott Bessent, secretário do Tesouro.

Grande parte da falação tem como fonte oculta Hugo Carvajal, o ex-chefe da inteligência militar venezuelana, preso nos EUA por narcoterrorismo, que se ofereceu a depor contra supostas redes de corrupção e financiamento político ilícito contra Nicolás Maduro. O Brasil não é mencionado. Quem enfiou o país nessa história foi Flávio Bolsonaro, na esteira de Rubio.

Um mês antes, os EUA haviam oficializado a classificação do PCC e do CV como terroristas. Tudo soa muito conspiracionista e é, mas quem dá o tom é o secretário do Departamento de Estado que já antecipa o que pode vir a ser seu discurso de campanha à sucessão de Trump.

As universidades, centros de pesquisa e imprensa seriam legitimadores da violência de esquerda. No mesmo pacote, Rubio colocou a “hostilidade” da extrema esquerda à religião como uma ameaça à civilização ocidental, sob a liderança de Cuba e Irã. Num triplo salto carpado juntou tudo isso com os atentados contra Trump e com o assassinato de Charlie Kirk.

Coube a Bessent fazer a ponte entre as fantasias Rubio e Miller e o sistema financeiro. Detalhou o arcabouço para detectar a operação da extrema esquerda latino-americana e os fluxos financeiros em território americano formado, por exemplo, pela Ofac, agência de controle de ativos estrangeiros. Dias antes os EUA haviam aplicado as primeiras sanções contra brasileiros supostamente ligados ao PCC. A ação acabaria por atrapalhar uma operação da PF para prender o empresário acusado de lavagem de dinheiro.

Sem cobrar tarifa, o bolsonarismo importa todas essas teorias conspiracionistas. Na “live” do jornalista Claudio Dantas na tarde de quarta-feira, a coordenadora-jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro, Maria Claudia Buchianeri, que foi ministra do TSE, chegou a mencionar que a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem impulsionamentos feitos por uma “organização criminosa digital”. Também informou que é a segurança paralela de Flávio que está a mapear as ameaças digitais contra o senador.

E, depois da onda de associação de Lula ao crime organizado colombiano, pela resistência conjunta com Gustavo Petro à designação de narcoterrorismo, chegou a vez de estender esta associação ao ditador nicaraguense Daniel Ortega, como fez esta semana o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), um dos principais aliados de Flávio Bolsonaro.

A campanha de Lula e os órgãos de investigação do governo vêm sendo municiados de informações sobre esta teia crescente entre a campanha de Flávio e o Departamento de Estado americano que aponta para os riscos de uma vitória eleitoral apertada. Estaria em curso a descredibilização do processo eleitoral com o pano de fundo do “terrorismo político da esquerda latino-americana”. O bolsonarismo se valeria dos dois anos restantes de Trump para minar o quarto mandato lulista. Da Abin à PF, monitora-se o tema, mas, como Lula não aposta que a Casa Branca se insurja contra sua eleição, não há reação em curso.

A escalada de Flávio rumo à radicalização mudou a face de uma campanha que se iniciou sob a promessa de que traria um “Bolsonaro que toma vacina”. Seu isolamento político, provocado pela reação de aliados ao envolvimento com o Master e com o tarifaço, contribuiu para que o senador venha a ser obrigado a buscar uma vice no seu próprio partido enquanto o governador Tarcísio Freitas, de São Paulo, deve ter 12 partidos em sua chapa. É o governador paulista, aliás, que capitaneia a resistência do apoio do Republicanos a Flávio.

O sonho do Centrão em torno de nomes como o de Teresa Cristina, até para cabeça de chapa, esbarra na percepção clara de que pretende usar a senadora do PP apenas para sair do beco em que se encontra. A recusa da federação PP-União ao apoio a Flávio fechou o cerco. Por fim, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, achou por bem confessar que o senador não estava preparado para a campanha. Isolado até no seu partido, o senador pendurou-se na Casa Branca.

Um olhar sobre a política e o poder no Brasil

O aviso foi dado por Daniel Ortega, presidente da Nicarágua: “Não haverá mais eleições aqui”. O líder da Revolução Sandinista discursava em Manágua, no último domingo. Depois do anúncio, explicou: vai proibir o voto porque a oposição não pode chegar ao poder.

Ortega participou da guerrilha que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza. O levante de 1979 empolgou a esquerda latino-americana, sufocada por regimes militares no Brasil, na Argentina e no Chile.

Os vitoriosos se inspiraram no marxismo e na Teologia da Libertação. Fizeram a reforma agrária, alfabetizaram o povo, reduziram a pobreza. Depois da euforia inicial, o país enfrentou um embargo econômico e mergulhou numa guerra civil financiada pelos Estados Unidos. A revolução começou a fazer água, e os sandinistas foram derrotados nas urnas em 1990.


Ortega perdeu três eleições até vencer de novo, em 2006. De volta ao palácio, resolveu reescrever a Constituição para se eternizar no poder. Em 2018, virou alvo de protestos e ordenou uma repressão violenta, que deixou mais de 300 mortos. Depois passou a censurar a imprensa, prender opositores e perseguir religiosos que contestavam seu autoritarismo.

A fala de domingo só escancarou o que já não era segredo: a Nicarágua voltou a viver sob uma ditadura familiar. No ano passado, o cargo de “copresidente” foi criado sob medida para a primeira-dama, Rosario Murillo.

“É inacreditável”, desabafa o escritor Frei Betto, que vibrou com o levante de 1979 e frequentou o país por uma década, envolvido em programas de educação popular. “O projeto revolucionário acabou. Por apego ao poder, Ortega está fazendo o mesmo que o Somoza. É triste, porque depõe contra as utopias que alimentamos por muito tempo na América Latina”, lamenta.

Lula ainda era dirigente sindical quando desembarcou na Nicarágua para o primeiro aniversário da revolução, em 1980. Vinte e sete anos depois, voltou ao país como presidente.

No mandato atual, prometeu ao Papa Francisco que tentaria interceder pela libertação do bispo Rolando José Álvarez, preso sob acusação de “traição à pátria”. Ortega ignorou o pedido e expulsou o embaixador brasileiro em 2024, selando um distanciamento definitivo. O petista tem sorte.
Bernardo Mello Franco

Filho de golpista, golpista é. Os Bolsonaros são prova disso

Primeiro foi o Flávio, aspirante a presidente da República, ao discursar na última terça-feira para cerca de 40 diplomatas. Ontem, em um podcast, foi Eduardo Bolsonaro, refugiado nos Estados Unidos desde março do ano passado a pretexto de salvar o pai de condenação por tentativa de golpe de Estado. Não conseguiu.

Os dois irmãos voltaram a atacar a credibilidade do processo eleitoral brasileiro e, por tabela, a dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal, a quem acusam de perseguir seu pai. Enquanto governou o país entre 2019 e 2022, Jair Bolsonaro pavimentou o caminho a ser percorrido pelos filhos “zero”.

Todos eles já são bastante crescidinhos, poderiam pensar com a própria cabeça, determinar o próprio destino, mas não: seguem como cópias encardidas do pai. “Quem puxa aos seus não degenera”, ensina um velho ditado português. Flávio, Carlos, Eduardo e Jair Renan puxaram ao pai, um degenerado por sua livre vontade.

Juntar-se a uma família de tal estirpe não deve ser bom para ninguém, mas foi o que fez Michelle de Paula Firmo Reinaldo, uma moça pobre, porém bonita, nascida na periferia de Brasília e servidora pública à época em que conheceu Jair, então obscuro deputado federal do baixo clero. Resultado: deu nisso que se vê.

Da boca de Michelle, os brasileiros jamais ouviram uma só palavra contra a Justiça ou o Estado Democrático de Direito. Pelo contrário: ouviram elogios ao ministro Alexandre de Moraes. Porém, o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair, diz ter ouvido Michelle incentivar o marido a dar o golpe que acabou abortado.

Não faz sentido acreditar que o vídeo postado por Michelle com duros ataques contra Flávio possa ter sido uma jogada combinada entre eles para ocupar espaço e reforçar a marca da família, pois, afinal, Flávio perdeu espaço e votos, e ainda por cima ganhou a pecha de misógino. Michelle saiu do episódio como mais uma mulher vítima de abusos.

Faz sentido, sim, para que não venha a ser culpada pelo que possa acontecer de mal aos Bolsonaros, que Michelle tenha sido convencida a aceitar o renovado pedido de desculpas de um Flávio desesperado e ladeira abaixo. Dê no que der, ela espera que sua imagem de boa esposa e de boa madrasta resista de pé. A conferir mais adiante.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


A democracia da desconfiança

Há um erro de diagnóstico que se tornou quase consensual no debate público europeu: a convicção de que vivemos uma crise do regime democrático. A expressão repete-se com tanta frequência que raramente é questionada. Mas talvez o problema seja outro.

Portugal não assiste ao colapso das suas instituições democráticas. As eleições realizam-se regularmente, a alternância política permanece assegurada, os tribunais conservam a sua autonomia e as liberdades fundamentais continuam protegidas. O que se deteriora não é a democracia enquanto regime, mas a confiança na sua capacidade para interpretar uma sociedade em rápida transformação.


A distinção é decisiva. Uma democracia pode sobreviver a governos impopulares, parlamentos divididos ou sucessivas crises políticas. O que dificilmente resiste é ao enfraquecimento da convicção de que os representantes compreendem aqueles em nome de quem decidem. A legitimidade democrática nunca dependeu apenas do voto; sempre assentou na perceção de que existe uma relação de reconhecimento entre governantes e governados. É precisamente esse vínculo que hoje se fragiliza.

Durante demasiado tempo, atribuiu-se o crescimento da abstenção, da fragmentação partidária ou do populismo às crises económicas, aos escândalos de corrupção ou ao desgaste natural dos governos. Todos estes fatores contribuíram para o cenário atual, mas nenhum explica um fenómeno que atravessa democracias com desempenhos económicos muito distintos.

Os estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que o apoio à democracia continua elevado, ao mesmo tempo que diminui a confiança na capacidade dos governos para responder de forma eficaz, previsível e transparente. O Eurobarómetro identifica uma tendência semelhante. A crise não é da democracia; é da representação.

Durante grande parte do século XX, os partidos desempenharam uma função que hoje parece distante. Não eram apenas organizações eleitorais. Eram instituições de mediação. Organizavam interesses, agregavam identidades e davam coerência às expectativas da sociedade, convertendo reivindicações dispersas em projetos políticos reconhecíveis. A representação era um vínculo cívico antes de ser um mecanismo institucional.

Esse modelo foi progressivamente desfeito pela globalização, pela integração europeia e pela revolução digital. Os Estados perderam margem para controlar processos económicos decisivos, enquanto a política deixou de deter o monopólio da construção das narrativas públicas. Hoje disputa a atenção dos cidadãos com plataformas digitais, comentadores, influenciadores e algoritmos concebidos para privilegiar a emoção em detrimento da reflexão.

Daí nasce um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca foi tão fácil comunicar com os cidadãos; nunca foi tão difícil representá-los. A proximidade tecnológica criou a ilusão da proximidade política. Os responsáveis políticos tornaram-se mais acessíveis, mas não necessariamente mais credíveis. A exposição permanente não reforçou a confiança; tornou apenas mais evidentes os limites da ação política perante problemas cuja escala ultrapassa largamente as fronteiras nacionais.

O Reuters Institute tem demonstrado que a confiança na informação permanece sob pressão em grande parte da Europa. A dificuldade já não resulta da escassez de notícias, mas da crescente dificuldade em distinguir informação, opinião, propaganda e entretenimento. Quando desaparece um espaço comum de factos, torna-se igualmente mais difícil construir consensos duradouros. A quebra de confiança compromete, assim, não apenas a política, mas o próprio fundamento da democracia.

Seria, contudo, um erro atribuir esta transformação exclusivamente às redes sociais. Elas aceleraram um processo que começou muito antes. A questão decisiva reside no crescente desfasamento entre aquilo que os cidadãos esperam dos governos nacionais e aquilo que estes efetivamente conseguem concretizar.

Nunca se exigiu tanto da política quando ela dispõe de tão poucos instrumentos para moldar a realidade.

Os cidadãos continuam a esperar dos governos respostas para desafios que já não conhecem fronteiras. A habitação, a imigração, a produtividade, a transição energética, a inteligência artificial ou a competitividade económica dependem hoje de mercados globais, decisões europeias, inovação tecnológica e tensões geopolíticas que escapam, em larga medida, ao controlo de qualquer executivo.

Ainda assim, é sobre os governos nacionais que recai a responsabilidade política. É deste desencontro entre expectativas e capacidade de ação que nasce a desconfiança.

Portugal constitui um exemplo particularmente elucidativo. A sucessão de governos minoritários, crises parlamentares e eleições antecipadas costuma ser apresentada como a causa da instabilidade. É, sobretudo, a sua manifestação. A dificuldade está na crescente incapacidade de produzir reformas consistentes num ambiente dominado pela urgência permanente. Governar passou a significar responder ao ciclo noticioso quando os desafios estruturais exigem continuidade, previsibilidade e tempo político.

É neste vazio que prosperam os discursos populistas. A sua vantagem não reside necessariamente na qualidade das soluções, mas na clareza da narrativa. Enquanto a democracia liberal é obrigada a reconhecer limites, negociar compromissos e administrar complexidades, o populismo promete devolver uma soberania plena que nenhum governo contemporâneo possui. Simplifica problemas que não admitem soluções simples e transforma a frustração em mobilização política.

Seria, porém, insuficiente reduzir este fenómeno ao confronto entre democracia liberal e populismo. O desafio é mais profundo. Os eleitores continuam a preferir a democracia, mas começam a duvidar da sua aptidão para produzir mudanças percetíveis. Quando a alternância política deixa de produzir alterações reconhecíveis na vida das pessoas, instala-se uma sensação persistente de impotência que desgasta qualquer governo, independentemente da sua orientação ideológica.

É por isso que a confiança se tornou o ativo mais valioso — e também o mais escasso — das democracias europeias. Não se recupera através de campanhas de comunicação nem de estratégias de marketing político. Reconstrói-se pela coerência entre discurso e ação, pela estabilidade das regras, pela transparência das decisões e pela capacidade de explicar não apenas o que é possível fazer, mas também os limites impostos por um mundo em que o poder deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados.

As investigações do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Fundação Francisco Manuel dos Santos convergem precisamente neste ponto: a legitimidade democrática constrói-se diariamente. Depende da previsibilidade das instituições, da imparcialidade das regras, da igualdade perante a lei e da convicção de que o poder permanece sujeito ao escrutínio público. Quando essa perceção enfraquece, a confiança não desaparece de forma abrupta; dissolve-se lentamente, até que o cinismo substitui a participação e a suspeita ocupa o lugar da esperança.

Talvez seja este o maior desafio das democracias europeias. Não apenas defender as suas instituições, mas recuperar a capacidade de dar expressão a sociedades cada vez mais diversas, exigentes e fragmentadas. A democracia nunca prometeu eliminar o conflito. A sua força sempre residiu na capacidade de transformar divergências em compromissos reconhecidos como legítimos, mesmo por quem deles discorda.

O futuro da democracia dependerá menos da solidez formal das suas instituições do que da confiança que forem capazes de inspirar. As constituições protegem direitos, organizam poderes e estabelecem regras. Mas nenhuma Constituição consegue preservar, por si só, um regime cujos cidadãos deixaram de acreditar que alguém os compreende antes de decidir, lhes dá voz antes de governar e lhes oferece uma razão credível para continuarem a confiar.

Ato revolucionário

Em uma época em que os algoritmos nos aproximam apenas de quem pensa como nós e nos afastam de quem vive de maneira diferente, permanecer no mesmo espaço é quase um ato revolucionário.
Mariana Caminha

Fome por 'lama'

Uma cena do livro "As Tumbas de Atuan", de Ursula K. Le Guin, circulou online esta semana, na qual jovens famintas tentam convencer um mágico a usar seus poderes para conseguir comida para elas. “Eu posso invocar um coelho e ele virá”, diz ele. “Mas vocês seriam capazes de pegar, esfolar e assar um coelho invocado dessa maneira? Talvez se estivessem morrendo de fome. Mas acho que seria uma quebra de confiança.” As garotas não querem matar ninguém; elas só querem que ele conjure o jantar. O mágico poderia fazer isso, ele lhes diz. “Até mesmo servi-lo em pratos de ouro, se preferirem. Mas isso seria uma ilusão, e quando você se alimenta de ilusões, acaba com mais fome do que antes.”

A metáfora é tão apropriada que parece quase improvisada : os ingredientes sintéticos são concebidos para estimular as papilas gustativas, mas carecem de fibras, vitaminas, proteínas ou aminoácidos essenciais. Quanto mais se come, mais fome se sente. Essa insatisfação, que já deveria ser motivo suficiente para evitar o alimento, é, no entanto, o segredo do seu sucesso. Na década de 1990, um psicólogo chamado Patrick Carnes deu a esse estranho fenômeno um nome: vínculo traumático.


O vínculo traumático explica por que tantas pessoas permanecem presas em relacionamentos exploradores ou abusivos. É difícil de entender porque a explicação desafia o senso comum: elas não agem assim apesar do abuso, mas precisamente por causa dele. Elas retornam ao abusador repetidamente, como alguém que volta a uma máquina caça-níqueis que engole todas as suas moedas, na esperança de que desta vez sua lealdade seja recompensada com um momento de afeto. O aspecto perverso do sistema é que a máquina funciona melhor quando começa a distribuir menos prêmios, e os que distribui são cada vez piores, porque o processo degrada tanto os padrões da pessoa que, quando um alívio temporário chega, ela o recebe com a intensidade mística de uma aparição mariana. Elas transformam um gesto cotidiano, como lembrar um aniversário, em prova de um amor transcendente.

Em 2019, publiquei um livro que começava descrevendo o mesmo fenômeno, mas com foco nas redes sociais, não na IA . Naquela época, a máquina ainda distribuía prêmios. Havia algumas coisas muito interessantes que só existiam no Twitter, Instagram ou TikTok, mas o padrão de abuso já era evidente. Sabíamos que seus algoritmos opacos eram projetados para explorar a privacidade dos usuários, maximizando o tempo de interação. À medida que as plataformas se tornaram monetizadas, dois tipos de conteúdo floresceram: aqueles capazes de gerar o máximo de interação com o mínimo de orçamento e aqueles criados por agentes oportunistas para manipular a população.

A mediocridade é o resultado final desse processo: conteúdo curto, repetitivo, derivado e fragmentado, produzido em larga escala, otimizado para viralizar em questão de horas e, nos piores casos, explorar a instabilidade política e se aproveitar da nossa vulnerabilidade emocional. E isso corrói nossa capacidade de apreciar outras coisas que exigem investimento financeiro e esforço, como jornalismo ou literatura. Relacionamentos saudáveis são tediosos e demandam algo mais difícil do que submissão.

Como disse Jung, aquilo que permanece inconsciente tende a nos guiar, por isso vale a pena entender seu estranho mecanismo: não nos captura apesar de sua estupidez, mas precisamente por causa dela. Nos deixa tão famintos que nos força a comer mais. E essa dieta nos degrada até que não saibamos mais como comer outra coisa. É por isso que se chama degeneração cerebral.

Um presidente de mãos atadas governará o Brasil

Acabou a Copa do Mundo; agora, nosso tema comum é a eleição. É preciso afirmar algo tão inconveniente agora quanto foi dizer que, com aquele time, o Brasil não ia longe, apesar da fanfarra comercial do “rumo ao hexa”.

Depois de muito debate e emoção, o presidente que escolhermos chegará ao poder de mãos quase atadas. Ele simplesmente não terá dinheiro para executar suas promessas. A causa disso é muito simples: o Congresso sequestrou parte do Orçamento. Ele gasta cerca de R$ 61 bilhões por ano só em emendas parlamentares. Sobra pouco para o governo.

Orçamento é um tema muito chato. É uma quantidade abstrata de recursos, que a gente costuma pensar como o dinheiro do governo. No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça com as contas do nosso dia a dia. Por que se preocupar com o que gasta o governo?


Há coisas, no entanto, que precisam ser conhecidas. Nas democracias ocidentais, todo o dinheiro arrecadado com impostos é usado pelos governos eleitos. Deputados e senadores apenas fiscalizam.

No Brasil, o Congresso abocanhou uma grande parte desse dinheiro. O resultado é uma irracionalidade nos gastos. Cada deputado gasta de acordo com suas necessidades eleitorais. Há muita redundância e corrupção.

Os deputados queriam que esse dinheiro que gastam fosse secreto. Daí o surgimento do famoso orçamento secreto, que o STF combate até hoje. Dinheiro público precisa de transparência.

Apesar de muita interferência legal, ainda agora soubemos que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se soubessem os autores. São emendas de comissão. As comissões são uma réplica dos ministérios: Comissão de Educação, Saúde, Transporte. Por que gastam dinheiro de uma forma diferente dos ministérios? Por que não racionalizar?

O Congresso não abre mão desse poder. O resultado não é só dispersão e irracionalidade. Há coisas do arco da velha, como dizíamos no passado. Foi descoberto agora que pessoas que não são deputados manipulam algumas verbas. Valdemar Costa Neto destinou R$ 119 milhões; Eduardo Cunha, R$ 6 milhões.

A expressão “não deputados” é muito vaga. Não se trata da vizinha aposentada ou de um arcebispo. Ambos não são deputados. Costa Neto e Cunha foram presos, em momentos diferentes, por corrupção.

Por aí, é possível ver a seriedade com que o Congresso trata o Orçamento sequestrado. É tão grande o problema que a PF só consegue investigar alguns casos, pois não tem capacidade de fiscalizar quase 600 pessoas distribuindo ou embolsando dinheiro pelo país. Há casos fantásticos de cidades em que quase todo mundo arrancou os dentes ou fraturou os dedos. O Tribunal de Contas da União chegou a investigar cem casos e encontrou irregularidades em 82 deles.

O país que terá um novo presidente terá de se resignar com a falta de dinheiro. Só nas eleições, os partidos vão gastar R$ 5 bilhões. Os argumentos afirmam que são gastos com a democracia. Na verdade, a parte do leão são gastos antidemocráticos.

Encarar essa realidade ou se resignar? Até o momento, apesar de os jornais noticiarem e a PF trabalhar, existe certa passividade em torno do sangramento contínuo do dinheiro público, isto é, sempre lembrando, do dinheiro do nosso bolso.

De que adianta apenas escolher um candidato a presidente, sem equacionar esse problema?