terça-feira, 7 de julho de 2026
Soberania em IA é mais importante que regulação
Uma reportagem publicada na semana passada ontem no Financial Times revelou que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a proposta é do senador Bernie Sanders).
A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.
Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.
O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.
O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.
Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.
Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.
O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.
Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.
A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.
Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.
A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.
Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.
O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.
O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.
Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.
Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.
O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.
Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.
A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.
Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.
Complexo nacional
Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores
Nelson Rodrigues, Manchete Esportiva, a 31 de maio de 1958
Nelson Rodrigues, Manchete Esportiva, a 31 de maio de 1958
Escombros
Na madrugada de 24 de junho, a terra tremeu no norte da Venezuela. Dois sismos seguidos de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, uma brutalidade. Dezenas, talvez centenas de milhares de desaparecidos, ninguém sabe bem ao certo, o número de mortos não pára de subir a cada hora que passa.
E o mundo… claro que se mexeu. Viu-se logo aquela mobilização que quase nos permite voltar a ter fé na humanidade: mais de 40 equipas internacionais de busca, dois mil especialistas a correr para os aeroportos, cães de resgate a farejar os destroços.
Quem ligou a televisão por estes dias ficou colado ao ecrã. É impossível não ficar. Vimos em direto aquele rapaz de 21 anos a ser puxado para fora dos escombros ao fim de 106 horas soterrado. E a mãe, com o bebé de 18 dias que resistiu 36 horas ali debaixo? Uma coisa inacreditável. Prendemos a respiração diante da televisão, choramos, celebramos o milagre.
É legítimo. É o mínimo que se espera.
Só que há um nó dentro de mim que não desaparece. E eu tenho mesmo de perguntar: e Gaza?
Desde outubro de 2023 que a contagem de mortos em Gaza deixou de fazer sentido. São milhares, a maioria mulheres e crianças, uma população inteira empurrada de um lado para o outro, com fome, com medo, a viver no meio de nada. Tendas e pedras. Sim, porque em Gaza também há escombros, quilómetros deles. Há corpos esquecidos nas ruínas daquilo que já foram casas, escolas, parque infantis, igrejas ou hospitais. Só que ali não há escavadoras a tirar toneladas de betão. Quando muito, tenta-se escavar com as mãos, sob o risco de as equipas de salvamento serem apanhadas pelo bombardeamento seguinte.
Para Gaza não voaram dezenas de aviões com especialistas. Não houve cães farejadores a caminho de Gaza. Para Gaza, o que continuou a chegar foram bombas. Dia após dia.
Custa engolir este contraste. Enquanto a malta chora na sala a ver o resgate milagroso de uma criança na Venezuela, há miúdos a morrer sufocados no entulho em Gaza, ou desfeitos pelo fogo nas tendas de al-Mawasi (ainda ontem), que supostamente eram “zonas seguras”, mas onde os drones atacam na mesma. Para esses não há transmissão em direto, não há equipas de resgate internacionais, não há comoção mundial. Gaza tornou-se aquele inferno que toda a gente sabe que existe, mas que dá mais jeito ignorar.
O sismo surge da Mãe Natureza, não vem assinado. Uma bomba vem. Tem um Estado, um governo, uma ordem militar por trás.
É aí que a porca torce o rabo. Quando há um autor, o sofrimento deixa de ser uma questão humanitária e passa a ser política. E a política traz aquela burocracia moral que divide, paralisa e, no fim de contas, mata por omissão.
Criou-se uma espécie de anestesia geral. Uma disputa de narrativas tão perversa que conseguiu fazer com que a morte de um palestiniano pareça normal e até inevitável. O bebé da Venezuela é um milagre da vida. O bebé de Gaza é “dano colateral”, uma estatística cinzenta num relatório qualquer.
Não adianta escudarmo-nos na ignorância porque isso é ser ingénuo. O mundo vê as mesmas imagens que eu vejo. Sabe perfeitamente o que se passa. É uma escolha de perspetiva e escolher fechar os olhos, não é neutralidade nenhuma.
A nossa capacidade de chorar parece que depende da geopolítica e na minha ideia de humanidade isso é muito podre. Escombros são escombros, em qualquer parte do mundo. O peso dos mortos é o mesmo. O grito desesperado das mães é o mesmo, seja em espanhol ou em árabe.
A diferença está no nosso olhar.
E o mundo… claro que se mexeu. Viu-se logo aquela mobilização que quase nos permite voltar a ter fé na humanidade: mais de 40 equipas internacionais de busca, dois mil especialistas a correr para os aeroportos, cães de resgate a farejar os destroços.
Quem ligou a televisão por estes dias ficou colado ao ecrã. É impossível não ficar. Vimos em direto aquele rapaz de 21 anos a ser puxado para fora dos escombros ao fim de 106 horas soterrado. E a mãe, com o bebé de 18 dias que resistiu 36 horas ali debaixo? Uma coisa inacreditável. Prendemos a respiração diante da televisão, choramos, celebramos o milagre.
É legítimo. É o mínimo que se espera.
Só que há um nó dentro de mim que não desaparece. E eu tenho mesmo de perguntar: e Gaza?
Desde outubro de 2023 que a contagem de mortos em Gaza deixou de fazer sentido. São milhares, a maioria mulheres e crianças, uma população inteira empurrada de um lado para o outro, com fome, com medo, a viver no meio de nada. Tendas e pedras. Sim, porque em Gaza também há escombros, quilómetros deles. Há corpos esquecidos nas ruínas daquilo que já foram casas, escolas, parque infantis, igrejas ou hospitais. Só que ali não há escavadoras a tirar toneladas de betão. Quando muito, tenta-se escavar com as mãos, sob o risco de as equipas de salvamento serem apanhadas pelo bombardeamento seguinte.
Para Gaza não voaram dezenas de aviões com especialistas. Não houve cães farejadores a caminho de Gaza. Para Gaza, o que continuou a chegar foram bombas. Dia após dia.
Custa engolir este contraste. Enquanto a malta chora na sala a ver o resgate milagroso de uma criança na Venezuela, há miúdos a morrer sufocados no entulho em Gaza, ou desfeitos pelo fogo nas tendas de al-Mawasi (ainda ontem), que supostamente eram “zonas seguras”, mas onde os drones atacam na mesma. Para esses não há transmissão em direto, não há equipas de resgate internacionais, não há comoção mundial. Gaza tornou-se aquele inferno que toda a gente sabe que existe, mas que dá mais jeito ignorar.
O sismo surge da Mãe Natureza, não vem assinado. Uma bomba vem. Tem um Estado, um governo, uma ordem militar por trás.
É aí que a porca torce o rabo. Quando há um autor, o sofrimento deixa de ser uma questão humanitária e passa a ser política. E a política traz aquela burocracia moral que divide, paralisa e, no fim de contas, mata por omissão.
Criou-se uma espécie de anestesia geral. Uma disputa de narrativas tão perversa que conseguiu fazer com que a morte de um palestiniano pareça normal e até inevitável. O bebé da Venezuela é um milagre da vida. O bebé de Gaza é “dano colateral”, uma estatística cinzenta num relatório qualquer.
Não adianta escudarmo-nos na ignorância porque isso é ser ingénuo. O mundo vê as mesmas imagens que eu vejo. Sabe perfeitamente o que se passa. É uma escolha de perspetiva e escolher fechar os olhos, não é neutralidade nenhuma.
A nossa capacidade de chorar parece que depende da geopolítica e na minha ideia de humanidade isso é muito podre. Escombros são escombros, em qualquer parte do mundo. O peso dos mortos é o mesmo. O grito desesperado das mães é o mesmo, seja em espanhol ou em árabe.
A diferença está no nosso olhar.
Orwellianos são os outros
Qualquer apreciador de distopias concebe como estruturantes, pelo menos, duas obras: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell. Não obstante a qualidade comparável ou até, atrevo-me, superior da primeira, a segunda colhe muito mais sucesso. Bastante difundida em tempos de Guerra Fria e até hoje altamente comercializada, viu um dos seus principais conceitos homenageados no célebre reality show Big Brother e já se converteu em novela gráfica, filme… e ainda arma de arremesso.
Não seria excessivo constatar que orwelliano é um epíteto comum no debate político hodierno. Em Portugal, é especialmente mobilizado por um setor amplo e transpartidário da direita, que o retira convenientemente da algibeira a qualquer sinal de esforço de regulação ou política mais ou menos de esquerda. Regular as redes sociais? Orwelliano. Aumentar a participação do Estado num dos setores estratégicos nacionais? Vem aí o Grande Irmão. Averiguar casos evidentes de racismo ou misoginia no Twitter/X ou noutras redes sociais? Lá estão eles a limitar a liberdade de expressão. O 1984 previu isto. Ironia histórica ou não, o certo é que Orwell viveu filiado à tradição socialista, ainda que fosse revendo periodicamente algumas posições.
É verdade que as distopias, enquanto exercícios de imaginação crítica do futuro, são sempre infundidas de ânsias do presente. Contudo, não me parece que nenhum dos seus consagrados autores demonstraria apreço por ser sinónimo de acusações rasteiras e que, não raro, denunciam um profundo desconhecimento dos enredos. Já enquanto leitor, estou plenamente convicto do meu desprezo pela bastardização de livros cuja mensagem pode fazer a diferença na vida de muitos.
No meu caso, 1984 foi incontornável. A presença do duplo-pensar e da polícia de pensamento na narrativa desencadeou um período de reflexão que me permitiu identificar os mecanismos de controlo e uniformização aos quais fui sujeito durante 19 anos no culto religioso em que me criaram.
Irritações literárias à parte, se a instrumentalização leviana de Orwell veio para ficar, surpreende-me que os alarmes não tenham soado aquando do anúncio da Prestação Social Única (PSU). O projeto de integração de 13 prestações sociais – incluindo o rendimento social de inserção (RSI) e o subsídio social de desemprego – numa só acende legitimamente as paixões. O principal objeto de conflito tem sido a obrigatoriedade do trabalho social para beneficiários com grau de incapacidade inferior a 80%, que incluirá potencialmente doentes com cancro e pessoas com deficiência. Mesmo a promessa do Governo de uma avaliação “caso a caso” não produziu a esperada acalmia, e tal deve-se à multiplicidade de problemáticas que a PSU suscita, das quais destaco três.
Em primeiro lugar, inserir nas fileiras produtivas indivíduos que serão remunerados a valores muito inferiores aos praticados no mercado abre a possibilidade de barateamento do trabalho. Em segundo, a premissa de todo o programa assenta numa noção de criminalização da pobreza, edifício ideológico que reduz os pobres a uma entidade monolítica constituída por sujeitos moralmente desviantes. Ser pobre deixa de ser fruto de azares, um triste desfecho de uma vida que não correu bem ou, se formos mais avançados, uma condição estrutural e estruturante do nosso modo de organização social e económica. Passa a indiciar uma corrupção no âmago do eu, uma identidade essencialmente mesquinha que assim se manifesta materialmente. Tudo isto apesar de o número de beneficiários do RSI ser o mais baixo desde 2005.
Em terceiro, e retornando ao mote deste artigo, a PSU instituirá um canal de denúncia que permitirá a cada cidadão reportar fraudes ou suspeitas de fraudes na atribuição de benefícios. Bom, eu diria que se há momento para desatar pelas colinas a gritar "Big Brother is watching you", é este. A cultura generalizada de denúncia dos pares é um dos eixos canónicos de 1984 e provavelmente um dos mais desconcertantes. É, por isso, com enorme espanto que reparo na falta de referências orwellianas ante este revivalismo tragicómico da chibaria pidesca. Onde está o queixume ensurdecedor, onde estão os prantos efusivos e o rasgar de vestes pelo ocaso da liberdade? Será que a sua ausência é fruto de falta de leitura ou de falta de interesse?
Enfatizo a gravidade da medida. Não se trata de um mero instrumento administrativo de consulta cidadã. Não é um meio para aproximar os órgãos da administração pública dos utentes. É um mecanismo de massificação da desconfiança que produz sujeitos vigilantes do outro. É a ressurreição digital e caricatural do bufo salazarista, mas desta vez sem a frequente condenação social à qual esta figura era votada. E, além disso, encerra uma contradição: se o corpo administrativo irá avaliar casuisticamente a incapacidade para o trabalho social, não deveria municiar também a Segurança Social e outras entidades de meios para averiguar incumprimentos? Questiono-me se o recurso ao povo não é uma forma de, novamente, tapar buracos e evitar, como sempre, o investimento sério em fiscalização.
O que interessa, de qualquer das formas, é que desta vez as sensibilidades distópicas não foram despertadas. Os lamentos habituais não se ouvem e os seus autores não querem fazer-se ouvir. A lição a retirar é que, nas contendas políticas, orwellianos são os outros.
Não seria excessivo constatar que orwelliano é um epíteto comum no debate político hodierno. Em Portugal, é especialmente mobilizado por um setor amplo e transpartidário da direita, que o retira convenientemente da algibeira a qualquer sinal de esforço de regulação ou política mais ou menos de esquerda. Regular as redes sociais? Orwelliano. Aumentar a participação do Estado num dos setores estratégicos nacionais? Vem aí o Grande Irmão. Averiguar casos evidentes de racismo ou misoginia no Twitter/X ou noutras redes sociais? Lá estão eles a limitar a liberdade de expressão. O 1984 previu isto. Ironia histórica ou não, o certo é que Orwell viveu filiado à tradição socialista, ainda que fosse revendo periodicamente algumas posições.
É verdade que as distopias, enquanto exercícios de imaginação crítica do futuro, são sempre infundidas de ânsias do presente. Contudo, não me parece que nenhum dos seus consagrados autores demonstraria apreço por ser sinónimo de acusações rasteiras e que, não raro, denunciam um profundo desconhecimento dos enredos. Já enquanto leitor, estou plenamente convicto do meu desprezo pela bastardização de livros cuja mensagem pode fazer a diferença na vida de muitos.
No meu caso, 1984 foi incontornável. A presença do duplo-pensar e da polícia de pensamento na narrativa desencadeou um período de reflexão que me permitiu identificar os mecanismos de controlo e uniformização aos quais fui sujeito durante 19 anos no culto religioso em que me criaram.
Irritações literárias à parte, se a instrumentalização leviana de Orwell veio para ficar, surpreende-me que os alarmes não tenham soado aquando do anúncio da Prestação Social Única (PSU). O projeto de integração de 13 prestações sociais – incluindo o rendimento social de inserção (RSI) e o subsídio social de desemprego – numa só acende legitimamente as paixões. O principal objeto de conflito tem sido a obrigatoriedade do trabalho social para beneficiários com grau de incapacidade inferior a 80%, que incluirá potencialmente doentes com cancro e pessoas com deficiência. Mesmo a promessa do Governo de uma avaliação “caso a caso” não produziu a esperada acalmia, e tal deve-se à multiplicidade de problemáticas que a PSU suscita, das quais destaco três.
Em primeiro lugar, inserir nas fileiras produtivas indivíduos que serão remunerados a valores muito inferiores aos praticados no mercado abre a possibilidade de barateamento do trabalho. Em segundo, a premissa de todo o programa assenta numa noção de criminalização da pobreza, edifício ideológico que reduz os pobres a uma entidade monolítica constituída por sujeitos moralmente desviantes. Ser pobre deixa de ser fruto de azares, um triste desfecho de uma vida que não correu bem ou, se formos mais avançados, uma condição estrutural e estruturante do nosso modo de organização social e económica. Passa a indiciar uma corrupção no âmago do eu, uma identidade essencialmente mesquinha que assim se manifesta materialmente. Tudo isto apesar de o número de beneficiários do RSI ser o mais baixo desde 2005.
Em terceiro, e retornando ao mote deste artigo, a PSU instituirá um canal de denúncia que permitirá a cada cidadão reportar fraudes ou suspeitas de fraudes na atribuição de benefícios. Bom, eu diria que se há momento para desatar pelas colinas a gritar "Big Brother is watching you", é este. A cultura generalizada de denúncia dos pares é um dos eixos canónicos de 1984 e provavelmente um dos mais desconcertantes. É, por isso, com enorme espanto que reparo na falta de referências orwellianas ante este revivalismo tragicómico da chibaria pidesca. Onde está o queixume ensurdecedor, onde estão os prantos efusivos e o rasgar de vestes pelo ocaso da liberdade? Será que a sua ausência é fruto de falta de leitura ou de falta de interesse?
Enfatizo a gravidade da medida. Não se trata de um mero instrumento administrativo de consulta cidadã. Não é um meio para aproximar os órgãos da administração pública dos utentes. É um mecanismo de massificação da desconfiança que produz sujeitos vigilantes do outro. É a ressurreição digital e caricatural do bufo salazarista, mas desta vez sem a frequente condenação social à qual esta figura era votada. E, além disso, encerra uma contradição: se o corpo administrativo irá avaliar casuisticamente a incapacidade para o trabalho social, não deveria municiar também a Segurança Social e outras entidades de meios para averiguar incumprimentos? Questiono-me se o recurso ao povo não é uma forma de, novamente, tapar buracos e evitar, como sempre, o investimento sério em fiscalização.
O que interessa, de qualquer das formas, é que desta vez as sensibilidades distópicas não foram despertadas. Os lamentos habituais não se ouvem e os seus autores não querem fazer-se ouvir. A lição a retirar é que, nas contendas políticas, orwellianos são os outros.
Primeira infância deve estar no centro do planejamento urbano
As mudanças climáticas têm tornado cada vez mais evidente a necessidade de repensar a forma como planejamos e ocupamos os territórios. Enchentes, ondas de calor, deslizamentos e outros eventos extremos afetam cidades de diferentes portes e expõem desigualdades históricas que atingem principalmente as populações mais vulneráveis. Nesse cenário, cresce a discussão sobre cidades resilientes – aquelas capazes de se adaptar, responder e se recuperar diante dos desafios ambientais e sociais. No entanto, ainda há um aspecto pouco explorado nesse debate: os impactos que as escolhas urbanas produzem sobre a primeira infância.
Os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento humano. É nesse período que se estabelecem bases fundamentais para a saúde, aprendizagem, convivência social e bem-estar ao longo da vida. Por isso, pensar cidades a partir das necessidades das crianças pequenas não é uma pauta restrita à infância, mas uma estratégia de desenvolvimento que beneficia toda a sociedade. Afinal, a forma como uma cidade acolhe suas crianças revela, em grande medida, sua capacidade de promover qualidade de vida para todas as pessoas.
Quando falamos em planejamento urbano voltado à primeira infância, estamos nos referindo à promoção da mobilidade segura, ao acesso a áreas verdes, à moradia adequada, ao saneamento básico, a equipamentos públicos acessíveis e a espaços de convivência que estimulem o brincar e as interações sociais. Estamos falando também de bairros que permitam que famílias realizem seus deslocamentos cotidianos com segurança e tenham acesso aos serviços essenciais sem percorrer longas distâncias. São elementos que influenciam diretamente o desenvolvimento infantil e fortalecem os vínculos comunitários.
Essa visão dialoga com reflexões desenvolvidas pelo arquiteto e urbanista Kevin Lynch, que já na década de 1970, defendia a importância de considerar crianças e adolescentes como sujeitos legítimos na avaliação e no planejamento das cidades. Essa perspectiva foi apresentada no projeto Children’s Perception of Space (A Percepção do Espaço pelas Crianças), desenvolvido no âmbito do programa da UNESCO Man and His Environment – Design for Living e coordenado por Lynch em países como Argentina, Austrália, México e Polônia. Os resultados da pesquisa foram publicados na obra Growing Up in Cities (Lynch, 1977), que evidenciou como a experiência cotidiana das crianças pode oferecer importantes subsídios para a construção de cidades mais humanas, acolhedoras e capazes de responder às necessidades reais da população. Mais de cinquenta anos depois, esse entendimento continua desafiando gestores e planejadores urbanos.
Ao observarmos uma cidade sob a perspectiva de uma criança pequena, muitos desafios urbanos tornam-se mais evidentes. Calçadas inadequadas, travessias inseguras, falta de arborização, ausência de áreas de lazer e equipamentos públicos distantes impactam diretamente a vida das famílias e limitam o acesso a oportunidades de desenvolvimento. Por outro lado, quando esses elementos são pensados de forma integrada, os benefícios alcançam diferentes grupos sociais e contribuem para uma ocupação mais equilibrada e inclusiva do território.
A lógica é simples. Se uma mãe ou um pai consegue circular com segurança empurrando um carrinho de bebê, uma pessoa idosa ou com deficiência também encontrará melhores condições de mobilidade. Se uma criança consegue acessar uma praça próxima de casa para brincar e conviver, aquele território provavelmente oferece mais oportunidades de encontro, pertencimento e participação comunitária. Dessa forma, a criança passa a ser um importante indicador da qualidade urbana e da capacidade de uma cidade promover bem-estar para seus moradores.
Essa compreensão tem orientado iniciativas em diferentes municípios brasileiros. Entre elas está o Primeira Infância Cidadã (PiC), projeto da Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a Petrobras, que integra o Programa Petrobras Socioambiental, que apoia gestores públicos na elaboração e implementação de políticas voltadas às crianças de até seis anos. Mais do que estimular ações específicas para a infância, experiências como essa têm contribuído para ampliar o debate sobre a necessidade de integrar áreas como urbanismo, mobilidade, assistência social, saúde, educação, cultura e meio ambiente na construção de cidades mais acolhedoras e preparadas para os desafios contemporâneos.
A relação entre a primeira infância e o planejamento urbano torna-se ainda mais evidente diante dos impactos das mudanças climáticas. As crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos, pois dependem de condições adequadas de saúde, proteção e acesso a serviços essenciais para seu pleno desenvolvimento. Enchentes podem interromper o acesso às creches e às escolas, comprometer a alimentação e ampliar a exposição a doenças. As ondas de calor afetam o sono, a atenção e o bem-estar infantil, enquanto a escassez de áreas verdes reduz as oportunidades de brincar, de convivência e de desenvolvimento socio-emocional.
Os efeitos desses fenômenos são ainda mais severos em territórios marcados por déficits de infraestrutura, habitação precária e acesso limitado a serviços públicos. Nessas localidades, os impactos ambientais costumam se somar a desigualdades históricas, ampliando vulnerabilidades e restringindo oportunidades para crianças e suas famílias. Por essa razão, políticas de adaptação climática precisam considerar não apenas a proteção dos espaços urbanos, mas também as condições necessárias para garantir o desenvolvimento saudável da população infantil.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais importante que diferentes áreas da gestão pública atuem de forma articulada. Urbanismo, mobilidade, saúde, educação, assistência social, cultura e meio ambiente não podem ser tratados como temas isolados quando o objetivo é construir territórios mais resilientes e inclusivos. A chamada cidade do cuidado nasce justamente dessa compreensão, reconhecendo que o desenvolvimento das crianças está diretamente relacionado à qualidade dos espaços onde elas vivem, circulam, aprendem e convivem.
Planejar cidades para a primeira infância não significa criar espaços exclusivos para crianças. Significa construir ambientes mais seguros, saudáveis e acolhedores para todos, capazes de fortalecer vínculos comunitários, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. Em um momento em que os desafios climáticos e urbanos se tornam cada vez mais complexos, colocar a infância no centro do planejamento não é apenas uma questão de proteção social, mas uma estratégia inteligente para pensar o presente e o futuro das cidades.
Os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento humano. É nesse período que se estabelecem bases fundamentais para a saúde, aprendizagem, convivência social e bem-estar ao longo da vida. Por isso, pensar cidades a partir das necessidades das crianças pequenas não é uma pauta restrita à infância, mas uma estratégia de desenvolvimento que beneficia toda a sociedade. Afinal, a forma como uma cidade acolhe suas crianças revela, em grande medida, sua capacidade de promover qualidade de vida para todas as pessoas.
Quando falamos em planejamento urbano voltado à primeira infância, estamos nos referindo à promoção da mobilidade segura, ao acesso a áreas verdes, à moradia adequada, ao saneamento básico, a equipamentos públicos acessíveis e a espaços de convivência que estimulem o brincar e as interações sociais. Estamos falando também de bairros que permitam que famílias realizem seus deslocamentos cotidianos com segurança e tenham acesso aos serviços essenciais sem percorrer longas distâncias. São elementos que influenciam diretamente o desenvolvimento infantil e fortalecem os vínculos comunitários.
Essa visão dialoga com reflexões desenvolvidas pelo arquiteto e urbanista Kevin Lynch, que já na década de 1970, defendia a importância de considerar crianças e adolescentes como sujeitos legítimos na avaliação e no planejamento das cidades. Essa perspectiva foi apresentada no projeto Children’s Perception of Space (A Percepção do Espaço pelas Crianças), desenvolvido no âmbito do programa da UNESCO Man and His Environment – Design for Living e coordenado por Lynch em países como Argentina, Austrália, México e Polônia. Os resultados da pesquisa foram publicados na obra Growing Up in Cities (Lynch, 1977), que evidenciou como a experiência cotidiana das crianças pode oferecer importantes subsídios para a construção de cidades mais humanas, acolhedoras e capazes de responder às necessidades reais da população. Mais de cinquenta anos depois, esse entendimento continua desafiando gestores e planejadores urbanos.
| Uma cidade boa para as crianças é melhor para todos |
Ao observarmos uma cidade sob a perspectiva de uma criança pequena, muitos desafios urbanos tornam-se mais evidentes. Calçadas inadequadas, travessias inseguras, falta de arborização, ausência de áreas de lazer e equipamentos públicos distantes impactam diretamente a vida das famílias e limitam o acesso a oportunidades de desenvolvimento. Por outro lado, quando esses elementos são pensados de forma integrada, os benefícios alcançam diferentes grupos sociais e contribuem para uma ocupação mais equilibrada e inclusiva do território.
A lógica é simples. Se uma mãe ou um pai consegue circular com segurança empurrando um carrinho de bebê, uma pessoa idosa ou com deficiência também encontrará melhores condições de mobilidade. Se uma criança consegue acessar uma praça próxima de casa para brincar e conviver, aquele território provavelmente oferece mais oportunidades de encontro, pertencimento e participação comunitária. Dessa forma, a criança passa a ser um importante indicador da qualidade urbana e da capacidade de uma cidade promover bem-estar para seus moradores.
Essa compreensão tem orientado iniciativas em diferentes municípios brasileiros. Entre elas está o Primeira Infância Cidadã (PiC), projeto da Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a Petrobras, que integra o Programa Petrobras Socioambiental, que apoia gestores públicos na elaboração e implementação de políticas voltadas às crianças de até seis anos. Mais do que estimular ações específicas para a infância, experiências como essa têm contribuído para ampliar o debate sobre a necessidade de integrar áreas como urbanismo, mobilidade, assistência social, saúde, educação, cultura e meio ambiente na construção de cidades mais acolhedoras e preparadas para os desafios contemporâneos.
A relação entre a primeira infância e o planejamento urbano torna-se ainda mais evidente diante dos impactos das mudanças climáticas. As crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos, pois dependem de condições adequadas de saúde, proteção e acesso a serviços essenciais para seu pleno desenvolvimento. Enchentes podem interromper o acesso às creches e às escolas, comprometer a alimentação e ampliar a exposição a doenças. As ondas de calor afetam o sono, a atenção e o bem-estar infantil, enquanto a escassez de áreas verdes reduz as oportunidades de brincar, de convivência e de desenvolvimento socio-emocional.
Os efeitos desses fenômenos são ainda mais severos em territórios marcados por déficits de infraestrutura, habitação precária e acesso limitado a serviços públicos. Nessas localidades, os impactos ambientais costumam se somar a desigualdades históricas, ampliando vulnerabilidades e restringindo oportunidades para crianças e suas famílias. Por essa razão, políticas de adaptação climática precisam considerar não apenas a proteção dos espaços urbanos, mas também as condições necessárias para garantir o desenvolvimento saudável da população infantil.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais importante que diferentes áreas da gestão pública atuem de forma articulada. Urbanismo, mobilidade, saúde, educação, assistência social, cultura e meio ambiente não podem ser tratados como temas isolados quando o objetivo é construir territórios mais resilientes e inclusivos. A chamada cidade do cuidado nasce justamente dessa compreensão, reconhecendo que o desenvolvimento das crianças está diretamente relacionado à qualidade dos espaços onde elas vivem, circulam, aprendem e convivem.
Planejar cidades para a primeira infância não significa criar espaços exclusivos para crianças. Significa construir ambientes mais seguros, saudáveis e acolhedores para todos, capazes de fortalecer vínculos comunitários, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. Em um momento em que os desafios climáticos e urbanos se tornam cada vez mais complexos, colocar a infância no centro do planejamento não é apenas uma questão de proteção social, mas uma estratégia inteligente para pensar o presente e o futuro das cidades.
Trem para o futuro
Nos anos 1840, o príncipe herdeiro de Hanôver, que depois se tornaria rei Ernesto Augusto, opôs-se à implantação de ferrovias em seu país porque “não queria qualquer sapateiro ou alfaiate viajando tão rápido quanto ele”. A frase é citada por Orlando Figes no livro Os Europeus, ao tratar do impacto da revolução ferroviária na política, na cultura e na economia da Europa. Pois o príncipe mudou de posição e transformou-se em defensor das ferrovias, colocando a Alemanha na vanguarda do desenvolvimento. Não tivesse adotado os trilhos, o país teria ficado para trás entre as nações do continente.
O que o príncipe pensava há 200 anos é o que sente a elite dirigente brasileira em relação à ideia de um sistema nacional de escolas com a mesma qualidade para todos. A minoria privilegiada sabe que uma boa escola é o trem para o futuro e procura reservá-la apenas para seus filhos, mesmo que isso signifique sacrificar o avanço do país. Esse teria sido nosso trem para o futuro: nenhum cérebro deixado para trás, todos dispondo do mapa para buscar sua felicidade e as ferramentas para construir o país. No livro Jogados ao Mar, uma militante progressista demite sua empregada doméstica porque esta, em vez de pedir aumento salarial, teve a ousadia de reivindicar para seus filhos a mesma escola frequentada pelos da patroa. A empregada argumentava que não via futuro para suas crianças, deixadas sem acesso a um ensino de qualidade e sujeitas a greves. Ainda teve a petulância de comparar as escolas das crianças.
Ao longo de mais de um século de República, nossos dirigentes pouco mudaram em sua resistência a permitir que seus filhos viajem para o futuro na mesma velocidade que os do chamado povão. Mesmo sem manifestar isso explicitamente, se assustam diante da ideia de vê-los estudando nas mesmas escolas que os filhos das camadas mais pobres. Quando oferecem matrícula para quase todos os brasileiros, negam a mesma qualidade a todas as escolas. Os dirigentes brasileiros não se importam com o rumo do país porque sabem que seus filhos estão cada vez mais preparados para integrar o “primeiro mundo internacional dos ricos”, no qual já vivem, mesmo morando no Brasil. Para eles, mudar de um país para outro não significa migrar, porque pertencem à mesma nação social dos ricos do mundo. Por isso, dentro de seu país geográfico, erguem muros contra os migrantes sociais do próprio Brasil. Além dos muros dos condomínios que os barram no presente, instalam catracas nos portões das escolas de qualidade para barrar o futuro.
Diferentemente do rei Ernesto Augusto, que compreendeu a importância das ferrovias, aceitou “viajar na mesma velocidade que sapateiros e alfaiates” para promover a revolução ferroviária e fez de Hanôver uma sociedade próspera, a minoria brasileira prefere reservar o trem-escola apenas para seus filhos. Prefere deixar o Brasil para trás, ainda que hoje seja muito mais fácil implantar uma rede nacional de escolas públicas de qualidade do que, há quase 200 anos, foi construir uma malha ferroviária na Europa. Infelizmente, ainda não adotamos nada semelhante à Lei Guizot, de 1833, que obrigou cada município da França a manter escolas públicas com padrões nacionais de qualidade para todos.
O que o príncipe pensava há 200 anos é o que sente a elite dirigente brasileira em relação à ideia de um sistema nacional de escolas com a mesma qualidade para todos. A minoria privilegiada sabe que uma boa escola é o trem para o futuro e procura reservá-la apenas para seus filhos, mesmo que isso signifique sacrificar o avanço do país. Esse teria sido nosso trem para o futuro: nenhum cérebro deixado para trás, todos dispondo do mapa para buscar sua felicidade e as ferramentas para construir o país. No livro Jogados ao Mar, uma militante progressista demite sua empregada doméstica porque esta, em vez de pedir aumento salarial, teve a ousadia de reivindicar para seus filhos a mesma escola frequentada pelos da patroa. A empregada argumentava que não via futuro para suas crianças, deixadas sem acesso a um ensino de qualidade e sujeitas a greves. Ainda teve a petulância de comparar as escolas das crianças.
Ao longo de mais de um século de República, nossos dirigentes pouco mudaram em sua resistência a permitir que seus filhos viajem para o futuro na mesma velocidade que os do chamado povão. Mesmo sem manifestar isso explicitamente, se assustam diante da ideia de vê-los estudando nas mesmas escolas que os filhos das camadas mais pobres. Quando oferecem matrícula para quase todos os brasileiros, negam a mesma qualidade a todas as escolas. Os dirigentes brasileiros não se importam com o rumo do país porque sabem que seus filhos estão cada vez mais preparados para integrar o “primeiro mundo internacional dos ricos”, no qual já vivem, mesmo morando no Brasil. Para eles, mudar de um país para outro não significa migrar, porque pertencem à mesma nação social dos ricos do mundo. Por isso, dentro de seu país geográfico, erguem muros contra os migrantes sociais do próprio Brasil. Além dos muros dos condomínios que os barram no presente, instalam catracas nos portões das escolas de qualidade para barrar o futuro.
Diferentemente do rei Ernesto Augusto, que compreendeu a importância das ferrovias, aceitou “viajar na mesma velocidade que sapateiros e alfaiates” para promover a revolução ferroviária e fez de Hanôver uma sociedade próspera, a minoria brasileira prefere reservar o trem-escola apenas para seus filhos. Prefere deixar o Brasil para trás, ainda que hoje seja muito mais fácil implantar uma rede nacional de escolas públicas de qualidade do que, há quase 200 anos, foi construir uma malha ferroviária na Europa. Infelizmente, ainda não adotamos nada semelhante à Lei Guizot, de 1833, que obrigou cada município da França a manter escolas públicas com padrões nacionais de qualidade para todos.
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Menos saúde e segurança, mais Trump
Esqueça saúde, educação, segurança. Esses são temas secundários para Flávio Bolsonaro. Quando não ataca Lula e o petismo, só resta Trump, Trump ou Trump. A tática impulsionada pela estadia de seu irmão Eduardo na terra da Copa de 2026 tem sido desastrosa. Tarifas, sanções, ameaças ao Pix, grupos criminosos classificados como terroristas compõem esse emaranhado de erros. Mesmo assim, o bolsonarismo insiste, como se ainda agitasse a bandeira dos EUA no Sete de Setembro na Avenida Paulista. O ataque à soberania virou método?
Não é novidade. Em diversas ocasiões, enquanto comandava o país, Jair Bolsonaro manifestou alinhamento quase automático à política externa de Donald Trump, inclusive em temas considerados sensíveis para a autonomia diplomática brasileira, como relações com China, meio ambiente e Oriente Médio. É emblemática sua continência à bandeira americana durante a execução de ” The Star-Spangled Banner “. Seu chanceler Ernesto “Pária” Araújo rompeu com a tradição de autonomia do Itamaraty. Os companheiros Sergio Moro e Deltan Dallagnol, durante a Operação Lava Jato, mantiveram intensa cooperação com autoridades estrangeiras, especialmente norte-americanas.
Historicamente, indignados costumavam denunciar violações de direitos humanos em organismos multilaterais, como a ONU ou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. No caso do bolsonarismo, o foco deslocou-se para os republicanos do governo e do Congresso dos Estados Unidos, na tentativa de convencer parlamentares de que o Brasil deixava de ser uma democracia. A nação que nasceu para defender a democracia no mundo precisava agir aqui.
É uma continuação farsesca da política externa dependente que foi consolidada no golpe de 64 e na ditadura militar. Setores da sociedade, militares entre eles, defendem uma aproximação ideológica com o conservadorismo norte-americano, atuam para que os Estados Unidos sejam um aliado político prioritário. Surfam no discurso do anticomunismo e precisam dos ianques para legitimar projetos políticos internos. A balança comercial e os empréstimos davam sentido a essa atuação no passado, hoje, com o multilateralismo e as relações com a China, tudo mudou. Só o poderio bélico justificaria tal submissão.
O problema do bolsonarismo é constitucional. O artigo 4º determina que as relações internacionais do Brasil são guiadas pela independência nacional, pela não intervenção de outros Estados. Isso significa que conflitos políticos internos devem ser solucionados pelo Congresso, Judiciário, Ministério Público e eleições — sem interferência de governos estrangeiros. Foi justamente esse paradigma que foi desacreditado pela extrema-direita patriota.
Não é novidade. Em diversas ocasiões, enquanto comandava o país, Jair Bolsonaro manifestou alinhamento quase automático à política externa de Donald Trump, inclusive em temas considerados sensíveis para a autonomia diplomática brasileira, como relações com China, meio ambiente e Oriente Médio. É emblemática sua continência à bandeira americana durante a execução de ” The Star-Spangled Banner “. Seu chanceler Ernesto “Pária” Araújo rompeu com a tradição de autonomia do Itamaraty. Os companheiros Sergio Moro e Deltan Dallagnol, durante a Operação Lava Jato, mantiveram intensa cooperação com autoridades estrangeiras, especialmente norte-americanas.
Historicamente, indignados costumavam denunciar violações de direitos humanos em organismos multilaterais, como a ONU ou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. No caso do bolsonarismo, o foco deslocou-se para os republicanos do governo e do Congresso dos Estados Unidos, na tentativa de convencer parlamentares de que o Brasil deixava de ser uma democracia. A nação que nasceu para defender a democracia no mundo precisava agir aqui.
É uma continuação farsesca da política externa dependente que foi consolidada no golpe de 64 e na ditadura militar. Setores da sociedade, militares entre eles, defendem uma aproximação ideológica com o conservadorismo norte-americano, atuam para que os Estados Unidos sejam um aliado político prioritário. Surfam no discurso do anticomunismo e precisam dos ianques para legitimar projetos políticos internos. A balança comercial e os empréstimos davam sentido a essa atuação no passado, hoje, com o multilateralismo e as relações com a China, tudo mudou. Só o poderio bélico justificaria tal submissão.
O problema do bolsonarismo é constitucional. O artigo 4º determina que as relações internacionais do Brasil são guiadas pela independência nacional, pela não intervenção de outros Estados. Isso significa que conflitos políticos internos devem ser solucionados pelo Congresso, Judiciário, Ministério Público e eleições — sem interferência de governos estrangeiros. Foi justamente esse paradigma que foi desacreditado pela extrema-direita patriota.
Ponderação de valores na internet
A internet constitui enorme veículo de transmissão de opiniões, permitindo a manifestação da imensa maioria de pessoas antes destituídas de meio revelador de suas impressões. “L’uomo qualunque” encontrou o caixote no qual sobe para dizer ao mundo o que acha disto ou daquilo.
Se há o benefício da democratização da comunicação, por outro lado, abre-se uma imensa porta para se lançarem opiniões, revelações, fabulações e criações de imagem que têm potencialidade para ofender valores imprescindíveis à sadia convivência social e à tranquilidade pessoal.
Assim, passou o Judiciário a interpretar ser insuficiente o disposto no art. 19 do Marco Civil da Internet, segundo o qual só cabe responsabilizar os provedores de aplicação da internet por conteúdo de terceiro caso desatendam ordem judicial de o tornar indisponível.
Neste mês de julho, passa a ter eficácia a obrigatoriedade de deveres de cuidado imposta aos provedores para indisponibilizar conteúdo indevido de terceiro, ofensivo a valores essenciais, como consta na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) (RE 1037396/SP) e no Decreto n.º 12.975 de maio passado.
Dá-se um confronto de valores constitucionais, cabendo interpretar o disposto no art. 19 do Marco Civil para compor solução adequada de respeito à liberdade de expressão conjugada com proteção à privacidade, à moralidade e à incolumidade sexual, à segurança pessoal e pública, à não discriminação, à paz pública.
O certo é que não se pode deixar a sociedade e as pessoas ao desabrigo de meios para o mais rapidamente possível conseguir intervir para fazer cessar a lesão a seus interesses fundamentais, atingidos pela postagem de conteúdos falsos, embustes e incitação ao crime. Assim, impôs-se aos provedores a indisponibilização, sob pena de poderem ser responsabilizado por omissão.
Para tanto, cabe aos provedores viabilizar canal de denúncia permanente e de fácil acesso, para recebimento e tratamento das notificações de conteúdos ilícitos.
Dessa forma, como destacado no acórdão do STF, acode-se à vulnerabilidade digital, que recai especialmente sobre mulheres, crianças e adolescentes (lembro o cyberbullying), para tornar exequível ação defensiva rápida e efetiva.
Assim, para o STF, as empresas têm o dever de cuidado de evitar que determinados conteúdos permaneçam no espaço público, tais como: pornografia infantil e crimes graves contra crianças e adolescentes, instigação ou auxílio a suicídio, terrorismo e abolição do Estado de Direito.
Com razão, excluiu-se a obrigatoriedade de indisponibilização de crime contra a honra, cuja configuração é complexa a depender de análise do contexto, do ambiente e da ocasião em que são proferidas as palavras, bem como da pessoa dos interlocutores.
No decreto presidencial de maio, a vigorar a partir de julho, a exemplo do acórdão, prevê-se notificação que especifique a possível conduta ilícita, cabendo ao provedor avaliar o dado indicado e, em caso de remoção, comunicar o notificante e o usuário que o publicou. O provedor poderá, após análise diligente e fundamentada, manter a matéria se tiver dúvida razoável sobre o caráter ilícito do conteúdo.
Sensível às conotações do discurso, diz o art. 16-G, § 2.º, do decreto que, para assegurar a liberdade de expressão, o provedor, na aplicação destas medidas, levará em conta o contexto das publicações, a liberdade religiosa, a finalidade informativa, educativa ou de crítica, bem como a sátira e paródia.
Além do mais, conforme o decreto, o responsável pela publicação poderá pedir reconsideração da decisão de indisponibilidade, sendo-lhe cabível, segundo o acórdão, requerer também judicialmente o restabelecimento da notícia suprimida.
Anote-se prever o art. 16-I que a responsabilidade administrativa do provedor de aplicações de internet, pelo descumprimento das medidas acima mencionadas, não pode estar fundada exclusivamente na manutenção ou na remoção isolada de conteúdo objeto de notificação. É preciso que haja falha sistêmica, consistente em falta de diligência no tratamento das notificações recebidas.
Verifica-se, portanto, equilíbrio no modo de aplicação de controles no terreno delicado da liberdade de expressão.
Assim, penso ter-se encontrado justa medida na forma de proteger a dignidade da pessoa humana ao se dar meio de enfrentar publicações lesivas a valores essenciais, sem deixar de haver, contudo, cuidado para que a avaliação da supressão de notícia não seja arbitrária, mas justificada e passível de revisão.
Destarte, ponderação refinada na avaliação do cabimento da indisponibilização é exigida, buscando-se proteger a sociedade dos abusos que a internet viabiliza, sem ferir a liberdade de expressão.
Entregar tão só ao usuário o ônus de judicializar o pedido de exclusão de matéria nociva, ficando os provedores à espera de ordem judicial para retirar conteúdo manifestamente ilícito, é desprezar a pessoa humana e o conjunto da sociedade em favor da exploração cômoda das empresas aplicadoras de internet. O princípio da liberdade de expressão não autoriza esta inversão, que destrói a liberdade ao confundi-la com libertinagem.
Se há o benefício da democratização da comunicação, por outro lado, abre-se uma imensa porta para se lançarem opiniões, revelações, fabulações e criações de imagem que têm potencialidade para ofender valores imprescindíveis à sadia convivência social e à tranquilidade pessoal.
Assim, passou o Judiciário a interpretar ser insuficiente o disposto no art. 19 do Marco Civil da Internet, segundo o qual só cabe responsabilizar os provedores de aplicação da internet por conteúdo de terceiro caso desatendam ordem judicial de o tornar indisponível.
Neste mês de julho, passa a ter eficácia a obrigatoriedade de deveres de cuidado imposta aos provedores para indisponibilizar conteúdo indevido de terceiro, ofensivo a valores essenciais, como consta na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) (RE 1037396/SP) e no Decreto n.º 12.975 de maio passado.
Dá-se um confronto de valores constitucionais, cabendo interpretar o disposto no art. 19 do Marco Civil para compor solução adequada de respeito à liberdade de expressão conjugada com proteção à privacidade, à moralidade e à incolumidade sexual, à segurança pessoal e pública, à não discriminação, à paz pública.
O certo é que não se pode deixar a sociedade e as pessoas ao desabrigo de meios para o mais rapidamente possível conseguir intervir para fazer cessar a lesão a seus interesses fundamentais, atingidos pela postagem de conteúdos falsos, embustes e incitação ao crime. Assim, impôs-se aos provedores a indisponibilização, sob pena de poderem ser responsabilizado por omissão.
Para tanto, cabe aos provedores viabilizar canal de denúncia permanente e de fácil acesso, para recebimento e tratamento das notificações de conteúdos ilícitos.
Dessa forma, como destacado no acórdão do STF, acode-se à vulnerabilidade digital, que recai especialmente sobre mulheres, crianças e adolescentes (lembro o cyberbullying), para tornar exequível ação defensiva rápida e efetiva.
Assim, para o STF, as empresas têm o dever de cuidado de evitar que determinados conteúdos permaneçam no espaço público, tais como: pornografia infantil e crimes graves contra crianças e adolescentes, instigação ou auxílio a suicídio, terrorismo e abolição do Estado de Direito.
Com razão, excluiu-se a obrigatoriedade de indisponibilização de crime contra a honra, cuja configuração é complexa a depender de análise do contexto, do ambiente e da ocasião em que são proferidas as palavras, bem como da pessoa dos interlocutores.
No decreto presidencial de maio, a vigorar a partir de julho, a exemplo do acórdão, prevê-se notificação que especifique a possível conduta ilícita, cabendo ao provedor avaliar o dado indicado e, em caso de remoção, comunicar o notificante e o usuário que o publicou. O provedor poderá, após análise diligente e fundamentada, manter a matéria se tiver dúvida razoável sobre o caráter ilícito do conteúdo.
Sensível às conotações do discurso, diz o art. 16-G, § 2.º, do decreto que, para assegurar a liberdade de expressão, o provedor, na aplicação destas medidas, levará em conta o contexto das publicações, a liberdade religiosa, a finalidade informativa, educativa ou de crítica, bem como a sátira e paródia.
Além do mais, conforme o decreto, o responsável pela publicação poderá pedir reconsideração da decisão de indisponibilidade, sendo-lhe cabível, segundo o acórdão, requerer também judicialmente o restabelecimento da notícia suprimida.
Anote-se prever o art. 16-I que a responsabilidade administrativa do provedor de aplicações de internet, pelo descumprimento das medidas acima mencionadas, não pode estar fundada exclusivamente na manutenção ou na remoção isolada de conteúdo objeto de notificação. É preciso que haja falha sistêmica, consistente em falta de diligência no tratamento das notificações recebidas.
Verifica-se, portanto, equilíbrio no modo de aplicação de controles no terreno delicado da liberdade de expressão.
Assim, penso ter-se encontrado justa medida na forma de proteger a dignidade da pessoa humana ao se dar meio de enfrentar publicações lesivas a valores essenciais, sem deixar de haver, contudo, cuidado para que a avaliação da supressão de notícia não seja arbitrária, mas justificada e passível de revisão.
Destarte, ponderação refinada na avaliação do cabimento da indisponibilização é exigida, buscando-se proteger a sociedade dos abusos que a internet viabiliza, sem ferir a liberdade de expressão.
Entregar tão só ao usuário o ônus de judicializar o pedido de exclusão de matéria nociva, ficando os provedores à espera de ordem judicial para retirar conteúdo manifestamente ilícito, é desprezar a pessoa humana e o conjunto da sociedade em favor da exploração cômoda das empresas aplicadoras de internet. O princípio da liberdade de expressão não autoriza esta inversão, que destrói a liberdade ao confundi-la com libertinagem.
O colunismo social que ilustra o Brasil podre
O ex-deputado estadual TH Joias, do Rio, está preso por ser acusado de prestar serviços ao Comando Vermelho etc. Também vendia joias caras a jogadores de futebol, influenciadores e pessoas da música, algumas acusadas de confraternizar com PCC e CV.
Celebridades propagandeiam "bets", essa desgraça. Famosos de internet se enrolaram com "bets", ilegais ou legais, ou foram presos por suspeita de lavar dinheiro para facções, como Deolane Bezerra, com mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.
Jogadores lideram rankings da fama nas redes, seguidos por humoristas e cantores. Depois de Anitta, na lista de campeãs do Instagram aparece Virgínia, 56 milhões de seguidores. Na semana passada, apanhou por incentivar apostas na vitória de Cabo Verde contra a Argentina quando fazia propaganda da Blaze, "bet".
Viih Tube, 25, tem fama e empreende nas redes desde adolescente, é atriz e ex-BBB. Na semana passada, apanhou por promover um reality em que punha seus empregados domésticos para catar moedas no lixo, em disputa de prêmio em dinheiro.
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) fez turismo pago por Fernadin OIG, dono de bets. Nogueira era teúdo e manteúdo de Daniel Vorcaro. Vorcaro alugava graúdos da República e pagava festa de uísque e charuto para parte da cúpula da Justiça e da política, que aceitava com avidez arrivista e cafona esse favor em si impróprio.
Vorcaro e TH Joias são exemplos de nós em que se cruzam muitos fios da vida do país.TH Joias era protegido de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), também preso, quase candidato a governador com apoio do inelegível ex-governador do Rio, Cláudio Castro (PL), estado que colocou dinheiro de seus servidores no Master, de Vorcaro. Bicheiros, chefes de gangues homicidas, se infiltraram na Alerj e patrocinam a alegria carnavalesca. Gestoras de fundos faziam negócios para Vorcaro e gangues diversas.
Essa enumeração caótica é uma coluna social. Muitas das figuras citadas têm voto ou fama nas redes por decisão de massas da população. A vida pública mais e mais é marcada por jogatina, normalização social do crime e corrupção política extensa. A corrupção ajuda a entrincheirar a política da rapina, emendas e lobbies empresariais no Congresso, como o das "bets", um dos mais bem sucedidos.
Até os anos 1990, jornais publicavam "colunas sociais" à moda antiga, notas e fotos que retratavam ricos e agregados, que queriam aparecer e controlar o modo como apareciam. Era campanha de "soft power" de mandões e mandantes desta província. As colunas mais vetustas pareciam imagem editada de salões da elite mais velha, já fazia muito misturada a imigrantes enriquecidos. As mais "modernas" mostravam a vida festeira e mais informal em que se misturavam "artistas", gente de TV e outros admitidos à mesa de ricos, "socialites" e animadores de salão em geral, como doleiros ou vendedores de cocaína e bolinha. Fofocas de famosos de TV e música apareciam mais no que chamavam então de "revista de empregada".
As colunas retratavam a "boa sociedade". Lá apareciam varões que davam golpes na Bolsa, metiam-se nos escândalos financeiros da ditadura ou industriais que viviam de subsídio e protecionismo do "desenvolvimentismo" do "Brasil Grande". O colunismo criado pelo povo das redes pouco trata desses mandantes do poder. A lama muda de cor.
Vinicius Torres Freire
Celebridades propagandeiam "bets", essa desgraça. Famosos de internet se enrolaram com "bets", ilegais ou legais, ou foram presos por suspeita de lavar dinheiro para facções, como Deolane Bezerra, com mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.
Jogadores lideram rankings da fama nas redes, seguidos por humoristas e cantores. Depois de Anitta, na lista de campeãs do Instagram aparece Virgínia, 56 milhões de seguidores. Na semana passada, apanhou por incentivar apostas na vitória de Cabo Verde contra a Argentina quando fazia propaganda da Blaze, "bet".
Viih Tube, 25, tem fama e empreende nas redes desde adolescente, é atriz e ex-BBB. Na semana passada, apanhou por promover um reality em que punha seus empregados domésticos para catar moedas no lixo, em disputa de prêmio em dinheiro.
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) fez turismo pago por Fernadin OIG, dono de bets. Nogueira era teúdo e manteúdo de Daniel Vorcaro. Vorcaro alugava graúdos da República e pagava festa de uísque e charuto para parte da cúpula da Justiça e da política, que aceitava com avidez arrivista e cafona esse favor em si impróprio.
Vorcaro e TH Joias são exemplos de nós em que se cruzam muitos fios da vida do país.TH Joias era protegido de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), também preso, quase candidato a governador com apoio do inelegível ex-governador do Rio, Cláudio Castro (PL), estado que colocou dinheiro de seus servidores no Master, de Vorcaro. Bicheiros, chefes de gangues homicidas, se infiltraram na Alerj e patrocinam a alegria carnavalesca. Gestoras de fundos faziam negócios para Vorcaro e gangues diversas.
Essa enumeração caótica é uma coluna social. Muitas das figuras citadas têm voto ou fama nas redes por decisão de massas da população. A vida pública mais e mais é marcada por jogatina, normalização social do crime e corrupção política extensa. A corrupção ajuda a entrincheirar a política da rapina, emendas e lobbies empresariais no Congresso, como o das "bets", um dos mais bem sucedidos.
Até os anos 1990, jornais publicavam "colunas sociais" à moda antiga, notas e fotos que retratavam ricos e agregados, que queriam aparecer e controlar o modo como apareciam. Era campanha de "soft power" de mandões e mandantes desta província. As colunas mais vetustas pareciam imagem editada de salões da elite mais velha, já fazia muito misturada a imigrantes enriquecidos. As mais "modernas" mostravam a vida festeira e mais informal em que se misturavam "artistas", gente de TV e outros admitidos à mesa de ricos, "socialites" e animadores de salão em geral, como doleiros ou vendedores de cocaína e bolinha. Fofocas de famosos de TV e música apareciam mais no que chamavam então de "revista de empregada".
As colunas retratavam a "boa sociedade". Lá apareciam varões que davam golpes na Bolsa, metiam-se nos escândalos financeiros da ditadura ou industriais que viviam de subsídio e protecionismo do "desenvolvimentismo" do "Brasil Grande". O colunismo criado pelo povo das redes pouco trata desses mandantes do poder. A lama muda de cor.
Vinicius Torres Freire
Como dar sentido ao mundo
Tim Harford consegue transformar conceitos difíceis da economia em best-sellers. Seu livro "O Economista Clandestino" vendeu mais de 1 milhão de exemplares no mundo todo, o que não acontece todo dia com obras de divulgação científica.
"How to Make the World Add Up" vai na mesma linha, mas tentando tornar a estatística, mais especificamente as toneladas de dados a que somos submetidos diariamente ao ler um jornal, por exemplo, em algo mais inteligível.
O que eu achei particularmente interessante no livro é que Harford opera mais com a psicologia do que com a matemática propriamente dita. A maior parte das dez regras que ele elabora para nos ajudar a navegar nesse mundo tem mais a ver com o modo pelo qual lemos os dados do que com a forma pela qual eles são produzidos. É um jeito, eu diria, bem bayesiano de lidar com a questão.
Para tornar a discussão mais concreta, a primeira regra de Harford é que devemos avaliar como a estatística anunciada nos afeta emocionalmente. Humanos temos o péssimo hábito de nos apegar a tudo o que reforce aquilo em que já acreditamos e rejeitar, às vezes visceralmente, o que vai contra nossas convicções. É uma receita infalível para não entender o mundo. Apenas nos darmos conta de que esse é um fenômeno que nos afeta diuturnamente já tende a nos tornar melhores intérpretes.
Outros conselhos valiosos de Harford incluem sempre olhar para o contexto em que os dados são apresentados, problematizar as fontes dos números, fazer perguntas sobre a metodologia e desconfiar de gráficos muito bonitinhos. Eles frequentemente embutem armadilhas. Tudo é explicado muito didaticamente e ilustrado por ótimos casos reais.
Também achei legal em "How..." que o autor não adota a fórmula fácil de proclamar-se um arauto da ciência e criticar a plebe ignara que não se sujeita ao método científico. Harford leva o espírito crítico a sério e não hesita em abordar problemas sérios das ciências como a crise de reprodutibilidade e os vieses de publicação dos periódicos.
Hélio Schwartsman
"How to Make the World Add Up" vai na mesma linha, mas tentando tornar a estatística, mais especificamente as toneladas de dados a que somos submetidos diariamente ao ler um jornal, por exemplo, em algo mais inteligível.
O que eu achei particularmente interessante no livro é que Harford opera mais com a psicologia do que com a matemática propriamente dita. A maior parte das dez regras que ele elabora para nos ajudar a navegar nesse mundo tem mais a ver com o modo pelo qual lemos os dados do que com a forma pela qual eles são produzidos. É um jeito, eu diria, bem bayesiano de lidar com a questão.
Para tornar a discussão mais concreta, a primeira regra de Harford é que devemos avaliar como a estatística anunciada nos afeta emocionalmente. Humanos temos o péssimo hábito de nos apegar a tudo o que reforce aquilo em que já acreditamos e rejeitar, às vezes visceralmente, o que vai contra nossas convicções. É uma receita infalível para não entender o mundo. Apenas nos darmos conta de que esse é um fenômeno que nos afeta diuturnamente já tende a nos tornar melhores intérpretes.
Outros conselhos valiosos de Harford incluem sempre olhar para o contexto em que os dados são apresentados, problematizar as fontes dos números, fazer perguntas sobre a metodologia e desconfiar de gráficos muito bonitinhos. Eles frequentemente embutem armadilhas. Tudo é explicado muito didaticamente e ilustrado por ótimos casos reais.
Também achei legal em "How..." que o autor não adota a fórmula fácil de proclamar-se um arauto da ciência e criticar a plebe ignara que não se sujeita ao método científico. Harford leva o espírito crítico a sério e não hesita em abordar problemas sérios das ciências como a crise de reprodutibilidade e os vieses de publicação dos periódicos.
Hélio Schwartsman
Cuba: morrer na areia
Foi no ano aparentemente distante de 1968, numa manhã a caminho do colégio no meu bairro em Havana, onde eu estudava, que tive uma revelação muito impactante sobre o que um processo revolucionário radical poderia ser. No caminho para a escola, passei pelo que todos conhecíamos como a Armarinho da Fina , onde geralmente encontrávamos, a preços bem razoáveis, alguns dos materiais de que precisávamos. Naquele dia, eu pretendia comprar um lápis e, para minha frustração, vi que o pequeno balcão, situado numa abertura da janela, permanecia fechado no horário em que normalmente estava aberto. Perto dali, vi o velho Serafín, marido da Sra. Fina, e perguntei-lhe por que a loja de ferragens estava fechada. Ele respondeu que o negócio não voltaria a funcionar até que o governo decidisse o contrário: como parte de uma ofensiva revolucionária, a pequena loja havia sido confiscada e, das mãos de Serafín e Fina, tornou-se propriedade do povo, embora na realidade pertencesse ao Estado… E, como logo descobriríamos, não pertenceria a ninguém, porque a loja de ferragens nunca mais existiu e, portanto, parou de vender os lápis (mesmo os cobiçados lápis de duas cores), as borrachas e os cadernos que comprávamos lá durante anos.
A pequena loja de Fina, como todos os pequenos negócios que sobreviveram às intervenções revolucionárias na propriedade privada e nas atividades produtivas e comerciais (um processo que começou em 1959 com as nacionalizações em larga escala), fora considerada pelas políticas econômicas e sociais do país uma forma de exploração capitalista, uma relíquia inaceitável do passado em um estado socialista que almejava um futuro melhor para a nação, até mesmo para a humanidade. Embora na época eu não pudesse questionar quem Serafín e Fina estavam explorando, ou por que o engraxate icônico do bairro, Negro Caridad, agora tinha que trabalhar como funcionário público (com horário fixo e um auxílio de graxa para sapatos, tinta, pincéis e talvez até os panos que usava para engraxar sapatos), logo percebi que agora seria mais difícil, e às vezes impossível, comprar um lápis, tomar um refresco gelado ou engraxar meus sapatos, entre muitas outras opções que haviam diminuído, se deteriorado ou simplesmente desaparecido.
Vinte e cinco anos depois, naquele mesmo país socialista, com os mesmos líderes no poder e no auge de uma crise em que tudo faltava (e digo tudo mesmo ), a abertura de pequenos negócios privados foi permitida, embora sob rigoroso controle. Isso incluía cafés, minúsculos restaurantes (limitados a apenas 12 cadeiras e um único cômodo em uma residência particular) e algumas outras atividades de produção e serviços. Sobrecarregados por restrições e sempre vistos com suspeita, alguns sobreviveram tenazmente, talvez aceitos como um mal necessário, assim como a legalização da posse de moeda estrangeira, que até recentemente era alvo de perseguição e até mesmo punível com anos de prisão.
Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, em meio a uma crise persistente que se mostrou sistêmica, o processo de reabertura das atividades comerciais e econômicas cubanas tem sido turbulento, marcado por controles, desconfiança oficial e, sobretudo, assolado pelo que tem sido o maior temor do governo: a possibilidade de que alguns acumulem riquezas. Pois, embora não declarado abertamente, esse sempre foi o peso político subjacente que oprimiu a sociedade cubana. É sabido que o dinheiro pode influenciar políticas.
Nesse mesmo período recente, e mesmo com reformas tão pequenas, um fenômeno significativo ocorreu na ilha socialista do Caribe: o tecido social coeso criado em 1968 começou a se desfazer, ainda que em duas direções opostas. Enquanto alguns setores da sociedade mostram sinais de prosperidade, outros, a maioria, vivenciaram um empobrecimento desenfreado que, em 2026, reduziu essa vasta população à mera sobrevivência. Prolongados cortes de energia, dificuldades para comprar alimentos (quanto mais para conservá-los ou mesmo processá-los), escassez de medicamentos e, sobretudo, uma palpável perda de esperança emergiram e se enraizaram na vida de milhões de cidadãos. A alternativa mais comum para escapar desse abismo tem sido a emigração, que, em cinco anos, atingiu quase dois milhões de pessoas, aproximadamente 15% da população total do país. E estamos contando aqueles que puderam partir, não aqueles que queriam partir, mas não tinham os recursos necessários para fazê-lo.
E agora, acontece que nesse mesmo país, com o mesmo sistema e praticamente as mesmas pessoas no poder, foi anunciado um pacote substancial de medidas, que, segundo eles, eram necessárias para resolver os problemas socioeconômicos do país. De agora em diante, dizem também, qualquer pessoa pode abrir não apenas uma loja muito maior do que a da Fina — o que já era possível há algum tempo —, mas até mesmo uma fábrica capitalista com muitos trabalhadores e, claro, mais-valia, e até mesmo fundar um banco — e com muito dinheiro. E todos poderão fazer isso, até mesmo pessoas como Fina, Serafín e Negro Caridad, se estivessem vivos e tivessem os meios. Meu falecido pai também poderia ter feito isso, condenado em 1985 a seis meses de prisão por tráfico de moeda, por ter comprado tinta de cabelo para a barbearia — clandestina, é claro — que minha mãe administrava no quintal de casa.
Foi preciso que a sociedade cubana mergulhasse na mais profunda e sombria crise geral para que o inaceitável, o punível, o condenável fossem considerados convenientes, apropriados, justos. Foi necessária uma política de pressão máxima projetada por Washington, incluindo ameaças de ação militar, para reverter o rígido sistema econômico do país e estabelecer uma economia de mercado e uma sociedade do tipo “cada um por si”, com um Estado que, embora se esquive até mesmo das responsabilidades básicas para com a população, certamente pretende preservar sua indústria mais importante e eficiente: o controle. Porque, mesmo agora, em Cuba, pode-se manipular cada elo da corrente, mas (como diz o ditado popular) sem tocar no macaco.
O novo contexto econômico cubano levanta muitas questões, e as respostas são quase sempre alarmantes. Algumas dessas questões variam desde quem confiará em um governo que fomentou a desconfiança até quem investirá seu dinheiro em Cuba agora? Outra questão relacionada é quem, dentro das estruturas de poder, estará em melhor posição para se beneficiar de uma provável desordem nos investimentos. Claramente, a lista de perguntas poderia ser interminável.
Leonardo Padura
A pequena loja de Fina, como todos os pequenos negócios que sobreviveram às intervenções revolucionárias na propriedade privada e nas atividades produtivas e comerciais (um processo que começou em 1959 com as nacionalizações em larga escala), fora considerada pelas políticas econômicas e sociais do país uma forma de exploração capitalista, uma relíquia inaceitável do passado em um estado socialista que almejava um futuro melhor para a nação, até mesmo para a humanidade. Embora na época eu não pudesse questionar quem Serafín e Fina estavam explorando, ou por que o engraxate icônico do bairro, Negro Caridad, agora tinha que trabalhar como funcionário público (com horário fixo e um auxílio de graxa para sapatos, tinta, pincéis e talvez até os panos que usava para engraxar sapatos), logo percebi que agora seria mais difícil, e às vezes impossível, comprar um lápis, tomar um refresco gelado ou engraxar meus sapatos, entre muitas outras opções que haviam diminuído, se deteriorado ou simplesmente desaparecido.
Vinte e cinco anos depois, naquele mesmo país socialista, com os mesmos líderes no poder e no auge de uma crise em que tudo faltava (e digo tudo mesmo ), a abertura de pequenos negócios privados foi permitida, embora sob rigoroso controle. Isso incluía cafés, minúsculos restaurantes (limitados a apenas 12 cadeiras e um único cômodo em uma residência particular) e algumas outras atividades de produção e serviços. Sobrecarregados por restrições e sempre vistos com suspeita, alguns sobreviveram tenazmente, talvez aceitos como um mal necessário, assim como a legalização da posse de moeda estrangeira, que até recentemente era alvo de perseguição e até mesmo punível com anos de prisão.
Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, em meio a uma crise persistente que se mostrou sistêmica, o processo de reabertura das atividades comerciais e econômicas cubanas tem sido turbulento, marcado por controles, desconfiança oficial e, sobretudo, assolado pelo que tem sido o maior temor do governo: a possibilidade de que alguns acumulem riquezas. Pois, embora não declarado abertamente, esse sempre foi o peso político subjacente que oprimiu a sociedade cubana. É sabido que o dinheiro pode influenciar políticas.
Nesse mesmo período recente, e mesmo com reformas tão pequenas, um fenômeno significativo ocorreu na ilha socialista do Caribe: o tecido social coeso criado em 1968 começou a se desfazer, ainda que em duas direções opostas. Enquanto alguns setores da sociedade mostram sinais de prosperidade, outros, a maioria, vivenciaram um empobrecimento desenfreado que, em 2026, reduziu essa vasta população à mera sobrevivência. Prolongados cortes de energia, dificuldades para comprar alimentos (quanto mais para conservá-los ou mesmo processá-los), escassez de medicamentos e, sobretudo, uma palpável perda de esperança emergiram e se enraizaram na vida de milhões de cidadãos. A alternativa mais comum para escapar desse abismo tem sido a emigração, que, em cinco anos, atingiu quase dois milhões de pessoas, aproximadamente 15% da população total do país. E estamos contando aqueles que puderam partir, não aqueles que queriam partir, mas não tinham os recursos necessários para fazê-lo.
E agora, acontece que nesse mesmo país, com o mesmo sistema e praticamente as mesmas pessoas no poder, foi anunciado um pacote substancial de medidas, que, segundo eles, eram necessárias para resolver os problemas socioeconômicos do país. De agora em diante, dizem também, qualquer pessoa pode abrir não apenas uma loja muito maior do que a da Fina — o que já era possível há algum tempo —, mas até mesmo uma fábrica capitalista com muitos trabalhadores e, claro, mais-valia, e até mesmo fundar um banco — e com muito dinheiro. E todos poderão fazer isso, até mesmo pessoas como Fina, Serafín e Negro Caridad, se estivessem vivos e tivessem os meios. Meu falecido pai também poderia ter feito isso, condenado em 1985 a seis meses de prisão por tráfico de moeda, por ter comprado tinta de cabelo para a barbearia — clandestina, é claro — que minha mãe administrava no quintal de casa.
Foi preciso que a sociedade cubana mergulhasse na mais profunda e sombria crise geral para que o inaceitável, o punível, o condenável fossem considerados convenientes, apropriados, justos. Foi necessária uma política de pressão máxima projetada por Washington, incluindo ameaças de ação militar, para reverter o rígido sistema econômico do país e estabelecer uma economia de mercado e uma sociedade do tipo “cada um por si”, com um Estado que, embora se esquive até mesmo das responsabilidades básicas para com a população, certamente pretende preservar sua indústria mais importante e eficiente: o controle. Porque, mesmo agora, em Cuba, pode-se manipular cada elo da corrente, mas (como diz o ditado popular) sem tocar no macaco.
O novo contexto econômico cubano levanta muitas questões, e as respostas são quase sempre alarmantes. Algumas dessas questões variam desde quem confiará em um governo que fomentou a desconfiança até quem investirá seu dinheiro em Cuba agora? Outra questão relacionada é quem, dentro das estruturas de poder, estará em melhor posição para se beneficiar de uma provável desordem nos investimentos. Claramente, a lista de perguntas poderia ser interminável.
Leonardo Padura
domingo, 5 de julho de 2026
As favas mal contadas
Do instante da assinatura do Ato Institucional-5 (que passou a legislar por conta própria em 1968, consolidando o golpe militar), ficou marcada na memória social a frase do coronel Jarbas Passarinho: "Às favas os escrúpulos". Meio século depois, essa peça de amoralidade foi incorporada pelo Congresso, ampliando o escopo dos escrúpulos na direção de algo como "às favas o Brasil".
A distância temporal não é significativa. Esses enunciados encontram um ponto de convergência em escusas declarações de "princípios" sopradas pela classe dominante aos sucessivos blocos dirigentes. Princípios do vale-tudo na manutenção e usufruto do poder. Violenta, a frase do coronel transfigurou a duração do ato num instante eterno, isto é, a falta de escrúpulos como uma negativa vontade de poder, destinada a soldar passado e futuro.
Essa morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5. Mas persistiu na reabertura liberal-democrática sob forma de uma infecção da classe política, cuja banda podre foi cultivada pelo regime ditatorial. O raquitismo moral, a sabujice, a degenerescência de caráter dessas lideranças produziram um magno aviltamento coletivo, outro nome para corrupção como prática societária.
O inferno chama pelo inferno. Na memória, como se fosse hoje: logo após anunciado o AI-5, um dos donos de uma empresa editorial carioca entrou na redação aos gritos exultantes de "não mais teremos de pagar indenização aos demitidos". Meio século depois, pequenos empresários confessavam o voto em Bolsonaro por essa mesma expectativa. Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior.
Esse "mesmo" perdurável dá margem à hipótese de que o ponto convergente entre o espírito da frase do coronel e a posterioridade cívica seja a corrupção pura e crua, sem fixa ideologia de fundo. Certo, a máquina metafísica do fascismo funcionou na ausência de projeto nacional coerente e do esvaziamento da dignidade cívica, entendido como vácuo do sentimento de comunidade nacional.
"Às favas os escrúpulos" e "às favas o Brasil" são variações frasais com o mesmo sentido. Não ainda como pleno fascismo, que é forma estrutural de pensamento, dependente, estilo Mussolini, de mitos "fundadores de civilidade". O que há mesmo é aviltamento corruptivo como azeite de relações sociais. Esse é o legado moral e cívico da ditadura. Embora se diga cívico-militar, a banda golpista jamais quis escutar outra coisa de civis senão palavras de bajulação.
Virótica, a corrupção infecciona a esquerda política. Vorcaro é personagem conceitual: assim como a medicina dispõe de marcadores biológicos de saúde, ele se tornou marcador do grau corruptivo do sistema. O escândalo do Master mostra que o crime organizado no país não se limita a facções classificáveis como "terroristas", mas que também se organiza em conluio com altos aparatos dos Poderes. Embora posto às vezes em modo de sobrevivência, como agora, é um ecossistema de teias onde rastejam seres aranhosos, permeáveis à sedução cínica do dinheiro. Brasil, escrúpulos? Às favas.
A distância temporal não é significativa. Esses enunciados encontram um ponto de convergência em escusas declarações de "princípios" sopradas pela classe dominante aos sucessivos blocos dirigentes. Princípios do vale-tudo na manutenção e usufruto do poder. Violenta, a frase do coronel transfigurou a duração do ato num instante eterno, isto é, a falta de escrúpulos como uma negativa vontade de poder, destinada a soldar passado e futuro.
Essa morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5. Mas persistiu na reabertura liberal-democrática sob forma de uma infecção da classe política, cuja banda podre foi cultivada pelo regime ditatorial. O raquitismo moral, a sabujice, a degenerescência de caráter dessas lideranças produziram um magno aviltamento coletivo, outro nome para corrupção como prática societária.
O inferno chama pelo inferno. Na memória, como se fosse hoje: logo após anunciado o AI-5, um dos donos de uma empresa editorial carioca entrou na redação aos gritos exultantes de "não mais teremos de pagar indenização aos demitidos". Meio século depois, pequenos empresários confessavam o voto em Bolsonaro por essa mesma expectativa. Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior.
Esse "mesmo" perdurável dá margem à hipótese de que o ponto convergente entre o espírito da frase do coronel e a posterioridade cívica seja a corrupção pura e crua, sem fixa ideologia de fundo. Certo, a máquina metafísica do fascismo funcionou na ausência de projeto nacional coerente e do esvaziamento da dignidade cívica, entendido como vácuo do sentimento de comunidade nacional.
"Às favas os escrúpulos" e "às favas o Brasil" são variações frasais com o mesmo sentido. Não ainda como pleno fascismo, que é forma estrutural de pensamento, dependente, estilo Mussolini, de mitos "fundadores de civilidade". O que há mesmo é aviltamento corruptivo como azeite de relações sociais. Esse é o legado moral e cívico da ditadura. Embora se diga cívico-militar, a banda golpista jamais quis escutar outra coisa de civis senão palavras de bajulação.
Virótica, a corrupção infecciona a esquerda política. Vorcaro é personagem conceitual: assim como a medicina dispõe de marcadores biológicos de saúde, ele se tornou marcador do grau corruptivo do sistema. O escândalo do Master mostra que o crime organizado no país não se limita a facções classificáveis como "terroristas", mas que também se organiza em conluio com altos aparatos dos Poderes. Embora posto às vezes em modo de sobrevivência, como agora, é um ecossistema de teias onde rastejam seres aranhosos, permeáveis à sedução cínica do dinheiro. Brasil, escrúpulos? Às favas.
A insustentável leveza das autocracias
Donald Trump não é o primeiro nem será o último autocrata empenhado em dominar o mundo.
Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norteamericano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.
Mas, claro, a história não termina aqui. Trump é também aliado de unha e carne das outras duas superpotências econômicas e militares – a Rússia de Vladimir Putin e a China de Xi Jinping. Somados, esses três países detêm ogivas nucleares suficientes para destruir nosso planeta centenas de vezes.
Com essa troica pairando sobre nossas cabeças, chega a ser um milagre que um certo grau de democracia ainda seja possível; a razão principal é que um estado de guerra permanente privaria os três protagonistas principais de uma grande parte dos recursos naturais, notadamente alimentos, sem os quais a situação doméstica dos três seria muito mais difícil. A China, por exemplo, mesmo despendendo cifras estonteantes só para manter o terror policial sobre seus cidadãos, não teria como pôr, diariamente, seis refeições na mesa de cada família.
O pano de fundo acima exposto explica em grande parte o vai e vem entre caudilhismos e aspirações democráticas que, bem ou mal, continuamente se repete em toda a América Latina. Assim como há lideranças querendo se afastar de amigos externos que só conhecem a diplomacia do “murro na mesa”, outras há que não se sustentariam sem o ácido carinho que as grandes potências militares lhes prodigalizam. Aqui temos um troca-troca verdadeiramente trágico: um domínio territorial barato para os Trump da vida e um ganho de poder e sobrevivência para autocratas menores de idade que de outra forma pagariam caro pelo comezinho ato de disputar eleições.
Aqui mesmo, em nossa vizinhança, estamos vendo se configurar uma situação como a que acima descrevi. Falo das recentes eleições no Peru e na Colômbia.
O problema, em ambos os países, vai muito além de divergências constitucionais ou ideológicas. Em ambos os casos, um passado de espessa violência. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Fujimori, disputou a Presidência pela quarta vez e venceu, após uma longa e conturbada apuração, com 50,13% dos votos. Num país que teve oito presidentes em dez anos, essa vantagem não soa como um bom augúrio. Ela tem feito gestos de conciliação e convergência – a única coisa sensata que poderia fazer –, mas a questão é se sua atitude e eventual habilidade conseguirão sobrestar o DNA incrustado em seu passado de ódios.
Na Colômbia, o antinomia esquerda vs. direita ressurgiu muito mais carregada, e pelas mesmas razões: guerrilha, tráfico de drogas e uma relação odienta entre setores da elite. Inicialmente, o favorito à sucessão do presidente Gustavo Petro era o alto dirigente comunista Iván Cepeda. Mas uma reviravolta absolutamente inesperada pôs à frente Abelardo de la Espriella – descrito pelo Estadão como representante da “direita populista”. Ainda o Estadão, ibidem: “De 47 anos, é um advogado e empresário milionário que entrou para a política para impedir que a Colômbia seja ‘destruída’ pela esquerda. Ele é admirador do americano Donald Trump e do argentino Javier Milei (...). Vestido com ternos impecáveis e, recentemente, com colete à prova de balas (...), antes de disputar a presidência vivia na cidade italiana de Florença. Promovia seus negócios de rum e vinho, viajava em jatos particulares e cantava ópera”. Sua plataforma, conhecida na América Latina, foi propor “(...) uma aliança militar com EUA e Israel, a construção de megapresídios e medidas para incentivar o porte de armas”. E conclui: “Em meu governo, bandido que não se submeter à Justiça será abatido”.
Os acordes variam, mas a melodia é a mesma. Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira. Quase ninguém acreditava, mas essa é também a história dos EUA na era Trump.
Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norteamericano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.
Com essa troica pairando sobre nossas cabeças, chega a ser um milagre que um certo grau de democracia ainda seja possível; a razão principal é que um estado de guerra permanente privaria os três protagonistas principais de uma grande parte dos recursos naturais, notadamente alimentos, sem os quais a situação doméstica dos três seria muito mais difícil. A China, por exemplo, mesmo despendendo cifras estonteantes só para manter o terror policial sobre seus cidadãos, não teria como pôr, diariamente, seis refeições na mesa de cada família.
O pano de fundo acima exposto explica em grande parte o vai e vem entre caudilhismos e aspirações democráticas que, bem ou mal, continuamente se repete em toda a América Latina. Assim como há lideranças querendo se afastar de amigos externos que só conhecem a diplomacia do “murro na mesa”, outras há que não se sustentariam sem o ácido carinho que as grandes potências militares lhes prodigalizam. Aqui temos um troca-troca verdadeiramente trágico: um domínio territorial barato para os Trump da vida e um ganho de poder e sobrevivência para autocratas menores de idade que de outra forma pagariam caro pelo comezinho ato de disputar eleições.
Aqui mesmo, em nossa vizinhança, estamos vendo se configurar uma situação como a que acima descrevi. Falo das recentes eleições no Peru e na Colômbia.
O problema, em ambos os países, vai muito além de divergências constitucionais ou ideológicas. Em ambos os casos, um passado de espessa violência. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Fujimori, disputou a Presidência pela quarta vez e venceu, após uma longa e conturbada apuração, com 50,13% dos votos. Num país que teve oito presidentes em dez anos, essa vantagem não soa como um bom augúrio. Ela tem feito gestos de conciliação e convergência – a única coisa sensata que poderia fazer –, mas a questão é se sua atitude e eventual habilidade conseguirão sobrestar o DNA incrustado em seu passado de ódios.
Na Colômbia, o antinomia esquerda vs. direita ressurgiu muito mais carregada, e pelas mesmas razões: guerrilha, tráfico de drogas e uma relação odienta entre setores da elite. Inicialmente, o favorito à sucessão do presidente Gustavo Petro era o alto dirigente comunista Iván Cepeda. Mas uma reviravolta absolutamente inesperada pôs à frente Abelardo de la Espriella – descrito pelo Estadão como representante da “direita populista”. Ainda o Estadão, ibidem: “De 47 anos, é um advogado e empresário milionário que entrou para a política para impedir que a Colômbia seja ‘destruída’ pela esquerda. Ele é admirador do americano Donald Trump e do argentino Javier Milei (...). Vestido com ternos impecáveis e, recentemente, com colete à prova de balas (...), antes de disputar a presidência vivia na cidade italiana de Florença. Promovia seus negócios de rum e vinho, viajava em jatos particulares e cantava ópera”. Sua plataforma, conhecida na América Latina, foi propor “(...) uma aliança militar com EUA e Israel, a construção de megapresídios e medidas para incentivar o porte de armas”. E conclui: “Em meu governo, bandido que não se submeter à Justiça será abatido”.
Os acordes variam, mas a melodia é a mesma. Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira. Quase ninguém acreditava, mas essa é também a história dos EUA na era Trump.
A república da amnésia
Na manhã do dia 7 de abril de 1988, uma forte explosão sacudiu o habitualmente plácido bairro de Sommerschield, em Maputo, capital de Moçambique. Albie Sachs — professor de Direito na Universidade Eduardo Mondlane e destacado opositor do regime do apartheid, na vizinha África do Sul — acabava de ser vítima de um atentado, no qual perdeu um braço e a visão de um olho.
Sachs escreveu sobre essa manhã num testemunho extraordinário, sem qualquer sinal de rancor, que a editora Caminho publicou em Portugal, em 1990, com o título “A suave vingança de um combatente da liberdade”. Poucos anos mais tarde, o homem que a polícia do apartheid tentou matar em Maputo ajudaria a redigir a Constituição da nova África do Sul.
Aquela não foi a primeira vez, nem a última, que os serviços secretos sul-africanos intervieram diretamente em Moçambique. Outros países da região pagaram durante décadas um elevado preço por acolherem combatentes da luta contra o apartheid. Muitos morreram por causa dessa solidariedade.
Lembro-me de ouvir Ruy Mingas — o Chico Buarque angolano — cantar em rodas de amigos uma canção belíssima, sobre a contribuição angolana na luta contra o apartheid. A canção começava assim: “Sou ventre da África Austral/ com os filhos que gerei/ já fui granada do amanhecer na Namíbia,/ do amanhecer no Zimbábue/ e na África do Sul.”
As recentes manifestações contra imigrantes africanos na África do Sul estão sendo recebidas no restante do continente com perplexidade, revolta e um profundo sentimento de injustiça. Moçambique, Angola, Zâmbia e outros países sacrificaram-se para que os sul-africanos alcançassem a liberdade. Como compreender agora este ódio?
Milhares de moçambicanos, zimbabuenses, nigerianos, senegaleses e malianos estão abandonando a África do Sul. Muitos escapam apenas com a roupa que trazem no corpo, deixando para trás lojas, casas, bens diversos e, por vezes, as próprias famílias. O seu desespero é enorme.
Alguns analistas recusam o termo xenofobia. Não se trata de simples hostilidade contra estrangeiros. As comunidades de origem europeia ou asiática raramente são alvo destes ataques. Talvez a palavra mais exata seja afrofobia: o medo e o ódio dirigidos aos próprios africanos.
O que mais surpreende é a amnésia.
Durante décadas, sul-africanos perseguidos atravessaram fronteiras em busca de abrigo. Encontraram refúgio em Luanda, em Maputo, em Lusaca, em Dar es Salaam. Muitos viveram durante anos longe de casa. Outros, como Albie Sachs, quase morreram. Hoje a viagem faz-se em sentido contrário. São os moçambicanos que atravessam a fronteira para sul. E encontram homens que lhes dizem: voltem para casa.
Retorno à canção de Ruy Mingas. Nos versos finais ele cantava: “Quero,/ hoje eu quero mil vulcões,/ tempestades no deserto,/ quero a chuva mais perto/ de todos os furacões.”
A África do Sul democrática, o país do arco-íris, nasceu da solidariedade africana. Agora, ao trair o continente, volta a ficar isolada. A grande questão é — a quem interessa tal isolamento? Quem, na sombra, está fomentando a divisão?
Sachs escreveu sobre essa manhã num testemunho extraordinário, sem qualquer sinal de rancor, que a editora Caminho publicou em Portugal, em 1990, com o título “A suave vingança de um combatente da liberdade”. Poucos anos mais tarde, o homem que a polícia do apartheid tentou matar em Maputo ajudaria a redigir a Constituição da nova África do Sul.
Aquela não foi a primeira vez, nem a última, que os serviços secretos sul-africanos intervieram diretamente em Moçambique. Outros países da região pagaram durante décadas um elevado preço por acolherem combatentes da luta contra o apartheid. Muitos morreram por causa dessa solidariedade.
Lembro-me de ouvir Ruy Mingas — o Chico Buarque angolano — cantar em rodas de amigos uma canção belíssima, sobre a contribuição angolana na luta contra o apartheid. A canção começava assim: “Sou ventre da África Austral/ com os filhos que gerei/ já fui granada do amanhecer na Namíbia,/ do amanhecer no Zimbábue/ e na África do Sul.”
As recentes manifestações contra imigrantes africanos na África do Sul estão sendo recebidas no restante do continente com perplexidade, revolta e um profundo sentimento de injustiça. Moçambique, Angola, Zâmbia e outros países sacrificaram-se para que os sul-africanos alcançassem a liberdade. Como compreender agora este ódio?
Milhares de moçambicanos, zimbabuenses, nigerianos, senegaleses e malianos estão abandonando a África do Sul. Muitos escapam apenas com a roupa que trazem no corpo, deixando para trás lojas, casas, bens diversos e, por vezes, as próprias famílias. O seu desespero é enorme.
Alguns analistas recusam o termo xenofobia. Não se trata de simples hostilidade contra estrangeiros. As comunidades de origem europeia ou asiática raramente são alvo destes ataques. Talvez a palavra mais exata seja afrofobia: o medo e o ódio dirigidos aos próprios africanos.
O que mais surpreende é a amnésia.
Durante décadas, sul-africanos perseguidos atravessaram fronteiras em busca de abrigo. Encontraram refúgio em Luanda, em Maputo, em Lusaca, em Dar es Salaam. Muitos viveram durante anos longe de casa. Outros, como Albie Sachs, quase morreram. Hoje a viagem faz-se em sentido contrário. São os moçambicanos que atravessam a fronteira para sul. E encontram homens que lhes dizem: voltem para casa.
Retorno à canção de Ruy Mingas. Nos versos finais ele cantava: “Quero,/ hoje eu quero mil vulcões,/ tempestades no deserto,/ quero a chuva mais perto/ de todos os furacões.”
A África do Sul democrática, o país do arco-íris, nasceu da solidariedade africana. Agora, ao trair o continente, volta a ficar isolada. A grande questão é — a quem interessa tal isolamento? Quem, na sombra, está fomentando a divisão?
sábado, 4 de julho de 2026
O apoio dos latinos aos republicanos está diminuindo nos EUA
Quando Donald Trump venceu a eleição presidencial de 2024, ele o fez com o apoio de milhões de eleitores latinos. Na época, isso foi descrito como uma demonstração histórica de apoio dessa comunidade, que lhe concedeu cerca de 46% dos votos, tornando esses votos um fator decisivo para a vitória do atual presidente dos EUA.
Mas o entusiasmo inicial pela administração republicana diminuiu. Após quase um ano e meio no poder, os latinos parecem estar desiludidos. Muitos até se arrependeram de ter votado em Trump. Isso foi demonstrado por diversas pesquisas que tentam acompanhar possíveis mudanças no comportamento dos eleitores latinos, que somam mais de 36 milhões nos Estados Unidos.
A pesquisa apresentada pela organização latina UnidosUS, divulgada em maio e que coletou a opinião de três mil eleitores latinos, detalha que um em cada quatro desses eleitores que votaram em Trump não votaria nele novamente. Enquanto isso, 67% dos entrevistados desaprovam o desempenho do presidente americano.
Ao longo de suas três campanhas presidenciais, Donald Trump conseguiu aumentar sua porcentagem de votos entre os latinos, passando de 28% para 46% de apoio nesse grupo. Ele alcançou esse resultado reforçando sua promessa de campanha de melhorar a economia , uma questão que afeta diretamente os latinos, que são em grande parte uma população da classe trabalhadora. Portanto, se buscarmos razões para o declínio no apoio latino observado durante o governo Trump, um dos principais fatores é a inflação.
O cientista político e professor da Universidade de Houston, Jerónimo Cortina, explicou à DW que "na última eleição presidencial, em 2014, vimos um voto de protesto contra o contexto econômico e político que estávamos vivenciando. Em contraste, hoje observamos uma desilusão com as promessas feitas, que eram muito simples. Disseram aos eleitores: sua qualidade de vida vai melhorar, os empregos vão melhorar, os salários vão aumentar, os preços nos supermercados vão cair, os preços dos combustíveis vão diminuir, a economia vai crescer. No entanto, agora, no segundo ano do governo, vemos que isso não se concretizou totalmente. É verdade que a macroeconomia nos Estados Unidos está em expansão, mas o eleitor médio, incluindo os latinos, não viu esse ganho macroeconômico se traduzir em benefícios tangíveis para suas famílias."
Outro aspecto fundamental da insatisfação com Trump reside na política de imigração implementada por seu governo. "As operações de imigração realizadas pelo ICE marcaram profundamente os sentimentos dos eleitores, especialmente os latinos, que foram particularmente afetados. O tom usado contra eles, independentemente de serem cidadãos ou não, e as ações tomadas que separaram famílias, as mortes de imigrantes indocumentados e até mesmo de cidadãos americanos, têm um efeito direto nas intenções de voto desse grupo de eleitores", acrescenta o analista político Julio Sevilla.
O próximo grande teste para o governo Trump são as eleições de meio de mandato em 3 de novembro, que renovarão a Câmara dos Representantes e parte do Senado. Portanto, o declínio dos votos latinos e, de forma mais geral, entre os grupos minoritários no eleitorado americano, volta a ser de particular importância.
Embora ainda faltem vários meses para a votação, analistas acreditam que os votos extras que Trump obteve das minorias latina, asiática e afro-americana já estão perdidos.
Julio Sevilla, professor da Universidade da Geórgia, disse à DW que "o apoio dos latinos aos republicanos e a Trump vai se inverter; mesmo pesquisas como a do Pew Research Center mostram que o apoio dessa comunidade ao governo está atualmente abaixo de 30%, e embora o número de eleitores não seja tão grande nem sejam um grupo decisivo nas eleições de meio de mandato, acho que a queda nesses votos será sentida."
Ele acrescenta: "Na minha opinião, é tarde demais para reverter a tendência de queda no apoio dos latinos aos republicanos. Assim como aconteceu com Biden, a percepção de que este é um governo fracassado já está estabelecida, e mesmo que tentem mudar essa ideia, a eleição está logo ali."
Jerónimo Cortina compartilha da visão de um cenário difícil para os republicanos . "O resultado da próxima eleição dependerá, por um lado, da participação eleitoral, de qual partido conseguir levar o maior número de pessoas às urnas. É provável que os republicanos não se saiam muito bem, especialmente considerando a baixíssima popularidade do presidente Trump. Além disso, se analisarmos o que historicamente aconteceu nas eleições de meio de mandato, o partido na Casa Branca geralmente perde cadeiras tanto no Senado quanto na Câmara dos Representantes. Isso torna ainda mais provável que isso se repita."
Mas o entusiasmo inicial pela administração republicana diminuiu. Após quase um ano e meio no poder, os latinos parecem estar desiludidos. Muitos até se arrependeram de ter votado em Trump. Isso foi demonstrado por diversas pesquisas que tentam acompanhar possíveis mudanças no comportamento dos eleitores latinos, que somam mais de 36 milhões nos Estados Unidos.
A pesquisa apresentada pela organização latina UnidosUS, divulgada em maio e que coletou a opinião de três mil eleitores latinos, detalha que um em cada quatro desses eleitores que votaram em Trump não votaria nele novamente. Enquanto isso, 67% dos entrevistados desaprovam o desempenho do presidente americano.
Ao longo de suas três campanhas presidenciais, Donald Trump conseguiu aumentar sua porcentagem de votos entre os latinos, passando de 28% para 46% de apoio nesse grupo. Ele alcançou esse resultado reforçando sua promessa de campanha de melhorar a economia , uma questão que afeta diretamente os latinos, que são em grande parte uma população da classe trabalhadora. Portanto, se buscarmos razões para o declínio no apoio latino observado durante o governo Trump, um dos principais fatores é a inflação.
O cientista político e professor da Universidade de Houston, Jerónimo Cortina, explicou à DW que "na última eleição presidencial, em 2014, vimos um voto de protesto contra o contexto econômico e político que estávamos vivenciando. Em contraste, hoje observamos uma desilusão com as promessas feitas, que eram muito simples. Disseram aos eleitores: sua qualidade de vida vai melhorar, os empregos vão melhorar, os salários vão aumentar, os preços nos supermercados vão cair, os preços dos combustíveis vão diminuir, a economia vai crescer. No entanto, agora, no segundo ano do governo, vemos que isso não se concretizou totalmente. É verdade que a macroeconomia nos Estados Unidos está em expansão, mas o eleitor médio, incluindo os latinos, não viu esse ganho macroeconômico se traduzir em benefícios tangíveis para suas famílias."
Outro aspecto fundamental da insatisfação com Trump reside na política de imigração implementada por seu governo. "As operações de imigração realizadas pelo ICE marcaram profundamente os sentimentos dos eleitores, especialmente os latinos, que foram particularmente afetados. O tom usado contra eles, independentemente de serem cidadãos ou não, e as ações tomadas que separaram famílias, as mortes de imigrantes indocumentados e até mesmo de cidadãos americanos, têm um efeito direto nas intenções de voto desse grupo de eleitores", acrescenta o analista político Julio Sevilla.
O próximo grande teste para o governo Trump são as eleições de meio de mandato em 3 de novembro, que renovarão a Câmara dos Representantes e parte do Senado. Portanto, o declínio dos votos latinos e, de forma mais geral, entre os grupos minoritários no eleitorado americano, volta a ser de particular importância.
Embora ainda faltem vários meses para a votação, analistas acreditam que os votos extras que Trump obteve das minorias latina, asiática e afro-americana já estão perdidos.
Julio Sevilla, professor da Universidade da Geórgia, disse à DW que "o apoio dos latinos aos republicanos e a Trump vai se inverter; mesmo pesquisas como a do Pew Research Center mostram que o apoio dessa comunidade ao governo está atualmente abaixo de 30%, e embora o número de eleitores não seja tão grande nem sejam um grupo decisivo nas eleições de meio de mandato, acho que a queda nesses votos será sentida."
Ele acrescenta: "Na minha opinião, é tarde demais para reverter a tendência de queda no apoio dos latinos aos republicanos. Assim como aconteceu com Biden, a percepção de que este é um governo fracassado já está estabelecida, e mesmo que tentem mudar essa ideia, a eleição está logo ali."
Jerónimo Cortina compartilha da visão de um cenário difícil para os republicanos . "O resultado da próxima eleição dependerá, por um lado, da participação eleitoral, de qual partido conseguir levar o maior número de pessoas às urnas. É provável que os republicanos não se saiam muito bem, especialmente considerando a baixíssima popularidade do presidente Trump. Além disso, se analisarmos o que historicamente aconteceu nas eleições de meio de mandato, o partido na Casa Branca geralmente perde cadeiras tanto no Senado quanto na Câmara dos Representantes. Isso torna ainda mais provável que isso se repita."
Sem futuro?
No fim dos anos 1980, um chinês próximo dos 50 anos chamado Chen Yizi acompanhou uma delegação do seu país em visita oficial ao Brasil. Ele era uma pessoa influente e respeitada na China. Assessor especial do primeiro-ministro e do secretário-geral do Partido Comunista, foi protagonista nas reformas econômicas de Deng Xiaoping naquela década.
Em 2013, em exílio após demitir-se em protesto pelo Massacre da Praça da Paz Celestial, Yizi escreveu um livro de memórias, no qual contou detalhes daquela visita ao Brasil. Segundo ele, a delegação chinesa ficou fascinada com a capital modernista Brasília, as rodovias, os prédios estilosos, as fábricas, as moradias de vanguarda, os carros compactos para as massas. Especulou que o Brasil deveria ter, naquele momento, uma renda per capita dez vezes superior à da China. Não era para tanto, mas a reação é reveladora.
Em 2019, passados apenas cinco anos de sua morte, sua terra natal superou o país que o havia deixado fascinado três décadas atrás. Era questão de tempo. Desde 1990, a renda per capita brasileira cresceu 1,3% ao ano, em média, enquanto a da China, que aprendeu uma coisa ou outra com o Brasil, avançou 8,1%. Não só isso: o fosso brasileiro em relação ao mundo desenvolvido se alargou. As nações consideradas de alta renda cresceram 1,5% ao ano. Tínhamos 36% da renda deles. Agora, temos 34%.
Mantida a tendência, o “país do futuro” não apenas se tornará um sonho cada vez mais distante, como também perdemos a esperança nele. Mas em que magnitude deveríamos repensar a nossa estratégia nacional de desenvolvimento? Dados sugerem que a mudança terá de ser radical.
Se quisermos atingir a renda per capita média dos países ricos, precisamos crescer em patamares muito superiores aos atuais. Para atingi-la em uma geração (25 anos), teremos de acelerar o nosso crescimento de 1,3% para 5,9% ao ano. Para se ter uma ideia, somente uma vez desde 1990 crescemos acima disso – em 2010, após a chamada “Crise do Subprime”, cujos impactos se concentraram nos dois anos anteriores.
A tarefa não ficará fácil se reduzirmos a ansiedade. Caso aguardemos duas gerações (50 anos), nosso crescimento precisará ser de 3,7%. Nem mesmo na nossa melhor década recente, no auge do boom das commodities entre 2004 e 2013, chegamos nesse patamar (3,1% em média). Quatro gerações (um século) exigirão 2,6% ao ano, o dobro do nosso desempenho atual. Doze gerações (300 anos!) demandarão um crescimento de 1,9% ao ano, ainda assim com uma aceleração de 50% em relação ao ritmo atual.
A intenção não é desanimar quem acredita no Brasil, ainda mais em tempos de Copa do Mundo. Pelo contrário, como no caso da Seleção Brasileira de futebol, nossa própria história nos dá motivos para otimismo.
Recordemos que a alcunha de “País do Futuro” não surgiu do nada. Em 1941, em livro homólogo, o escritor austríaco Stefan Zweig, que chegou ao Brasil fugido do regime nazista na Europa, relatou com entusiasmo as características brasileiras que considerava promissoras. Além das nossas riquezas naturais, “de uma opulência perturbadora”, o autor não deixou de notar o “desenvolvimento nitidamente crescente da indústria, que produz, em proporções cada vez maiores, no próprio país e com material seu, grande parte do que anteriormente tinha de importar”.
Era o início do período conhecido como nacional-desenvolvimentista, tradicionalmente situado entre 1930 e 1980, quando o Brasil adotou sucessivos planos de desenvolvimento liderados pelo Estado, crescentemente capacitado para tal, e que tinha na industrialização o seu objetivo prioritário. Instituições-chave como o BNDES, a Petrobras, a Eletrobras e a Embraer foram criadas. Conhecido pelos ciclos de exploração de commodities, como pau-brasil, açúcar, ouro, borracha e café, o Brasil passou a produzir aço, petroquímicos, máquinas, automóveis e até aviões. Grandes obras de infraestrutura, como rodovias interestaduais, usinas nucleares e a maior hidrelétrica do mundo, foram realizadas.
Foram as entregas desse período que deixaram os chineses fascinados no início dos anos 1980. Durante aquelas cinco décadas, o Brasil foi o terceiro país que mais cresceu no mundo, a uma taxa per capita de 3,7% ao ano. Naquele ritmo, atingiríamos a renda média dos países ricos em 50 anos. Se fosse mantido aquele ritmo, hoje já teríamos a renda da Itália.
Aquela época não foi livre de contradições e erros. Além de suprimir as liberdades individuais e impedir o exercício da democracia, a ditadura impediu uma reforma agrária profunda, que esteve na base do “milagre econômico” do Leste Asiático, com relativa igualdade. Também em contraste com os casos de sucesso da Ásia, ficamos excessivamente dependentes de capitais estrangeiros, com aumento da vulnerabilidade externa (raiz da década perdida) e o comprometimento da construção de capacidades nacionais e de coalizões de apoio a projetos verdadeiramente nacionais.
O problema é que o período posterior, marcado pela hegemonia neoliberal, pautado pelos interesses de curto prazo do mercado financeiro e, como nos primórdios, refém dos ciclos de commodities, não solucionou essas questões. Pior ainda, alguns governos atuaram deliberadamente para aprofundar esses erros e destruir os legados positivos.
O resultado foi a mais grave desindustrialização precoce do mundo, grande dificuldade de gerar empregos estáveis, de qualidade e com bons salários, crescente dependência externa e a perda das características que um dia nutriram o sonho do “País do Futuro”: liderança, fortalecimento e planejamento estatal, desenvolvimento das capacidades produtivas, ambição e ousadia.
Convém relembrar as palavras de Zweig: “Já não se encontra um brasileiro que deseje voltar para o Velho Mundo… essa ambição de se desenvolver por si só… nada é demasiado ousado… este país aprendeu a pensar de acordo com as dimensões de sua própria vastidão e a contar com suas possibilidades ilimitadas como se fossem uma realidade em breve atingível”. Se provarmos, ainda que tardiamente, que o austríaco não estava errado, talvez a geração que viverá o sonho de um Brasil desenvolvido já esteja entre nós.
Felipe Augusto Machado
Em 2013, em exílio após demitir-se em protesto pelo Massacre da Praça da Paz Celestial, Yizi escreveu um livro de memórias, no qual contou detalhes daquela visita ao Brasil. Segundo ele, a delegação chinesa ficou fascinada com a capital modernista Brasília, as rodovias, os prédios estilosos, as fábricas, as moradias de vanguarda, os carros compactos para as massas. Especulou que o Brasil deveria ter, naquele momento, uma renda per capita dez vezes superior à da China. Não era para tanto, mas a reação é reveladora.
Em 2019, passados apenas cinco anos de sua morte, sua terra natal superou o país que o havia deixado fascinado três décadas atrás. Era questão de tempo. Desde 1990, a renda per capita brasileira cresceu 1,3% ao ano, em média, enquanto a da China, que aprendeu uma coisa ou outra com o Brasil, avançou 8,1%. Não só isso: o fosso brasileiro em relação ao mundo desenvolvido se alargou. As nações consideradas de alta renda cresceram 1,5% ao ano. Tínhamos 36% da renda deles. Agora, temos 34%.
Mantida a tendência, o “país do futuro” não apenas se tornará um sonho cada vez mais distante, como também perdemos a esperança nele. Mas em que magnitude deveríamos repensar a nossa estratégia nacional de desenvolvimento? Dados sugerem que a mudança terá de ser radical.
Se quisermos atingir a renda per capita média dos países ricos, precisamos crescer em patamares muito superiores aos atuais. Para atingi-la em uma geração (25 anos), teremos de acelerar o nosso crescimento de 1,3% para 5,9% ao ano. Para se ter uma ideia, somente uma vez desde 1990 crescemos acima disso – em 2010, após a chamada “Crise do Subprime”, cujos impactos se concentraram nos dois anos anteriores.
A tarefa não ficará fácil se reduzirmos a ansiedade. Caso aguardemos duas gerações (50 anos), nosso crescimento precisará ser de 3,7%. Nem mesmo na nossa melhor década recente, no auge do boom das commodities entre 2004 e 2013, chegamos nesse patamar (3,1% em média). Quatro gerações (um século) exigirão 2,6% ao ano, o dobro do nosso desempenho atual. Doze gerações (300 anos!) demandarão um crescimento de 1,9% ao ano, ainda assim com uma aceleração de 50% em relação ao ritmo atual.
A intenção não é desanimar quem acredita no Brasil, ainda mais em tempos de Copa do Mundo. Pelo contrário, como no caso da Seleção Brasileira de futebol, nossa própria história nos dá motivos para otimismo.
Recordemos que a alcunha de “País do Futuro” não surgiu do nada. Em 1941, em livro homólogo, o escritor austríaco Stefan Zweig, que chegou ao Brasil fugido do regime nazista na Europa, relatou com entusiasmo as características brasileiras que considerava promissoras. Além das nossas riquezas naturais, “de uma opulência perturbadora”, o autor não deixou de notar o “desenvolvimento nitidamente crescente da indústria, que produz, em proporções cada vez maiores, no próprio país e com material seu, grande parte do que anteriormente tinha de importar”.
Era o início do período conhecido como nacional-desenvolvimentista, tradicionalmente situado entre 1930 e 1980, quando o Brasil adotou sucessivos planos de desenvolvimento liderados pelo Estado, crescentemente capacitado para tal, e que tinha na industrialização o seu objetivo prioritário. Instituições-chave como o BNDES, a Petrobras, a Eletrobras e a Embraer foram criadas. Conhecido pelos ciclos de exploração de commodities, como pau-brasil, açúcar, ouro, borracha e café, o Brasil passou a produzir aço, petroquímicos, máquinas, automóveis e até aviões. Grandes obras de infraestrutura, como rodovias interestaduais, usinas nucleares e a maior hidrelétrica do mundo, foram realizadas.
Foram as entregas desse período que deixaram os chineses fascinados no início dos anos 1980. Durante aquelas cinco décadas, o Brasil foi o terceiro país que mais cresceu no mundo, a uma taxa per capita de 3,7% ao ano. Naquele ritmo, atingiríamos a renda média dos países ricos em 50 anos. Se fosse mantido aquele ritmo, hoje já teríamos a renda da Itália.
Aquela época não foi livre de contradições e erros. Além de suprimir as liberdades individuais e impedir o exercício da democracia, a ditadura impediu uma reforma agrária profunda, que esteve na base do “milagre econômico” do Leste Asiático, com relativa igualdade. Também em contraste com os casos de sucesso da Ásia, ficamos excessivamente dependentes de capitais estrangeiros, com aumento da vulnerabilidade externa (raiz da década perdida) e o comprometimento da construção de capacidades nacionais e de coalizões de apoio a projetos verdadeiramente nacionais.
O problema é que o período posterior, marcado pela hegemonia neoliberal, pautado pelos interesses de curto prazo do mercado financeiro e, como nos primórdios, refém dos ciclos de commodities, não solucionou essas questões. Pior ainda, alguns governos atuaram deliberadamente para aprofundar esses erros e destruir os legados positivos.
O resultado foi a mais grave desindustrialização precoce do mundo, grande dificuldade de gerar empregos estáveis, de qualidade e com bons salários, crescente dependência externa e a perda das características que um dia nutriram o sonho do “País do Futuro”: liderança, fortalecimento e planejamento estatal, desenvolvimento das capacidades produtivas, ambição e ousadia.
Convém relembrar as palavras de Zweig: “Já não se encontra um brasileiro que deseje voltar para o Velho Mundo… essa ambição de se desenvolver por si só… nada é demasiado ousado… este país aprendeu a pensar de acordo com as dimensões de sua própria vastidão e a contar com suas possibilidades ilimitadas como se fossem uma realidade em breve atingível”. Se provarmos, ainda que tardiamente, que o austríaco não estava errado, talvez a geração que viverá o sonho de um Brasil desenvolvido já esteja entre nós.
Felipe Augusto Machado
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Terremotos remodelam a relação entre os EUA e a Venezuela
Os terremotos de 24 de junho de 2026 alteraram as prioridades da relação entre os Estados Unidos e a Venezuela . O que até poucos dias atrás era uma estratégia focada na estabilização política e econômica do país passou a um segundo plano devido à emergência humanitária causada pelos terremotos.
Antes de 24 de junho, já existiam dúvidas sobre o plano de três fases do governo Trump: estabilização, recuperação e transição. Após o desastre, o secretário de Estado Marco Rubio admitiu que a estratégia havia sofrido um revés. Enquanto isso, o encarregado de negócios dos EUA na Venezuela, John Barrett, afirmou que o plano continua em vigor, embora "apresente algumas diferenças".
"Os terremotos interrompem esse plano porque causaram um dos piores desastres naturais que a Venezuela já enfrentou em mais de um século", disse Carolina Jiménez Sandoval, presidente do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA). Em sua opinião, os terremotos comprometem o caminho traçado por Washington e tornam uma transição política "organizada e gradual" muito mais difícil.
Phil Gunson, analista sênior para a região andina do International Crisis Group, concorda que o plano está, por ora, suspenso. "Todas as energias do governo e da sociedade civil precisam estar concentradas em uma reconstrução que, obviamente, levará anos", explicou Gunson. Ele também lembrou que, mesmo antes dos terremotos, o plano não estava progredindo sem problemas: "Havia dúvidas, críticas, atrasos e uma grande falta de informações sobre o andamento, especialmente em questões políticas."
Por outro lado, a tragédia também reabre a questão do grau de influência que Washington exerce sobre a Venezuela, num contexto em que Donald Trump chegou mesmo a sugerir que o país poderia tornar-se o 51.º estado dos Estados Unidos .
“Não sabemos até que ponto isso é uma piada”, observa Gunson, “mas se for o caso, a maior responsabilidade pelo resgate e reconstrução recai sobre os EUA”. Em sua relação com a Venezuela, os Estados Unidos escolhem seus interlocutores e o momento . Como exemplo, Phil Gunson lembra que, antes da catástrofe, a líder política Dinorah Figuera, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela eleita em 2015, viajou a convite dos EUA para se encontrar com Delcy Rodríguez e discutir as condições para futuras eleições. “Washington dita as discussões: o que fazer, quando negociar e quem se senta para negociar”, enfatiza Gunson.
Por outro lado, o governo Trump apoiou o governo interino de Delcy Rodríguez desde o início , mas esse apoio pode se complicar em um momento em que crescem as críticas públicas à controversa resposta do governo aos terremotos. "A rejeição por parte dos venezuelanos pode se traduzir em uma demanda maior por mudanças políticas mais tarde. Isso terá repercussões em Washington", alerta Jiménez Sandoval.
Na frente econômica, o desafio é enorme. Os terremotos agravam uma crise humanitária que já dura mais de uma década. A essa situação somam-se agora os custos exorbitantes da reconstrução.
Washington prometeu cerca de 300 milhões de dólares para esforços de ajuda emergencial, um valor insuficiente dada a magnitude das necessidades. "O dinheiro oferecido pelos Estados Unidos está muito aquém das necessidades econômicas que existiam antes do desastre", afirma Phil Gunson, que destaca que a Venezuela já vivenciava o que especialistas chamam de "emergência humanitária complexa" antes dos terremotos, com serviços públicos em colapso, infraestrutura deteriorada e grave escassez de saúde e nutrição.
Nos últimos seis meses, após a prisão de Maduro, a Venezuela aumentou suas vendas de petróleo, mas Gunson destaca que Washington controla essas transações e deposita os lucros em uma conta administrada pelo governo dos EUA, que decide quanto dinheiro enviar para a Venezuela e quando. "Não se sabe quanto há nessa conta ou quanto dinheiro foi enviado", enfatiza ele, observando que os democratas no Congresso vêm exigindo transparência há meses, sem sucesso. Além disso, surge a questão de quanto desse dinheiro realmente chega ao povo venezuelano .
Por fim, Gunson menciona o regime de sanções imposto à Venezuela pelos Estados Unidos, que ele descreve como "quase o mais forte do mundo inteiro": "Por que as sanções não estão sendo suspensas?", pergunta o especialista.
O terremoto também interrompeu os planos da figura mais proeminente da oposição venezuelana. María Corina Machado expressou, em um vídeo, seu desejo de retornar ao país para apoiar a população afetada, mas afirmou que o governo a impede de fazê-lo, mantendo o espaço aéreo fechado. A resposta de Washington a essa questão foi clara: o governo Trump declarou que seu foco principal é a resposta humanitária e acredita que abordar questões políticas agora seria contraproducente.
Philip Gunson questiona o momento escolhido pela líder da oposição. Ele reconhece que a relação entre Machado e Washington está "seriamente prejudicada, com culpa de ambos os lados", e admite ter dúvidas sobre a adequação de seu retorno à Venezuela neste momento, dada a discrepância entre os objetivos de Machado e o que os Estados Unidos consideram prioritário. "Este não é o momento de introduzir um elemento de discórdia em uma situação já trágica", argumenta Gunson, acrescentando que Machado "estaria melhor ocupada estimulando e organizando ajuda externa do que na Venezuela", um país cujo governo a considera uma terrorista e onde o bem-estar da população deveria ser a única prioridade.
Antes de 24 de junho, já existiam dúvidas sobre o plano de três fases do governo Trump: estabilização, recuperação e transição. Após o desastre, o secretário de Estado Marco Rubio admitiu que a estratégia havia sofrido um revés. Enquanto isso, o encarregado de negócios dos EUA na Venezuela, John Barrett, afirmou que o plano continua em vigor, embora "apresente algumas diferenças".
"Os terremotos interrompem esse plano porque causaram um dos piores desastres naturais que a Venezuela já enfrentou em mais de um século", disse Carolina Jiménez Sandoval, presidente do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA). Em sua opinião, os terremotos comprometem o caminho traçado por Washington e tornam uma transição política "organizada e gradual" muito mais difícil.
Phil Gunson, analista sênior para a região andina do International Crisis Group, concorda que o plano está, por ora, suspenso. "Todas as energias do governo e da sociedade civil precisam estar concentradas em uma reconstrução que, obviamente, levará anos", explicou Gunson. Ele também lembrou que, mesmo antes dos terremotos, o plano não estava progredindo sem problemas: "Havia dúvidas, críticas, atrasos e uma grande falta de informações sobre o andamento, especialmente em questões políticas."
Por outro lado, a tragédia também reabre a questão do grau de influência que Washington exerce sobre a Venezuela, num contexto em que Donald Trump chegou mesmo a sugerir que o país poderia tornar-se o 51.º estado dos Estados Unidos .
“Não sabemos até que ponto isso é uma piada”, observa Gunson, “mas se for o caso, a maior responsabilidade pelo resgate e reconstrução recai sobre os EUA”. Em sua relação com a Venezuela, os Estados Unidos escolhem seus interlocutores e o momento . Como exemplo, Phil Gunson lembra que, antes da catástrofe, a líder política Dinorah Figuera, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela eleita em 2015, viajou a convite dos EUA para se encontrar com Delcy Rodríguez e discutir as condições para futuras eleições. “Washington dita as discussões: o que fazer, quando negociar e quem se senta para negociar”, enfatiza Gunson.
Por outro lado, o governo Trump apoiou o governo interino de Delcy Rodríguez desde o início , mas esse apoio pode se complicar em um momento em que crescem as críticas públicas à controversa resposta do governo aos terremotos. "A rejeição por parte dos venezuelanos pode se traduzir em uma demanda maior por mudanças políticas mais tarde. Isso terá repercussões em Washington", alerta Jiménez Sandoval.
Na frente econômica, o desafio é enorme. Os terremotos agravam uma crise humanitária que já dura mais de uma década. A essa situação somam-se agora os custos exorbitantes da reconstrução.
Washington prometeu cerca de 300 milhões de dólares para esforços de ajuda emergencial, um valor insuficiente dada a magnitude das necessidades. "O dinheiro oferecido pelos Estados Unidos está muito aquém das necessidades econômicas que existiam antes do desastre", afirma Phil Gunson, que destaca que a Venezuela já vivenciava o que especialistas chamam de "emergência humanitária complexa" antes dos terremotos, com serviços públicos em colapso, infraestrutura deteriorada e grave escassez de saúde e nutrição.
Nos últimos seis meses, após a prisão de Maduro, a Venezuela aumentou suas vendas de petróleo, mas Gunson destaca que Washington controla essas transações e deposita os lucros em uma conta administrada pelo governo dos EUA, que decide quanto dinheiro enviar para a Venezuela e quando. "Não se sabe quanto há nessa conta ou quanto dinheiro foi enviado", enfatiza ele, observando que os democratas no Congresso vêm exigindo transparência há meses, sem sucesso. Além disso, surge a questão de quanto desse dinheiro realmente chega ao povo venezuelano .
Por fim, Gunson menciona o regime de sanções imposto à Venezuela pelos Estados Unidos, que ele descreve como "quase o mais forte do mundo inteiro": "Por que as sanções não estão sendo suspensas?", pergunta o especialista.
O terremoto também interrompeu os planos da figura mais proeminente da oposição venezuelana. María Corina Machado expressou, em um vídeo, seu desejo de retornar ao país para apoiar a população afetada, mas afirmou que o governo a impede de fazê-lo, mantendo o espaço aéreo fechado. A resposta de Washington a essa questão foi clara: o governo Trump declarou que seu foco principal é a resposta humanitária e acredita que abordar questões políticas agora seria contraproducente.
Philip Gunson questiona o momento escolhido pela líder da oposição. Ele reconhece que a relação entre Machado e Washington está "seriamente prejudicada, com culpa de ambos os lados", e admite ter dúvidas sobre a adequação de seu retorno à Venezuela neste momento, dada a discrepância entre os objetivos de Machado e o que os Estados Unidos consideram prioritário. "Este não é o momento de introduzir um elemento de discórdia em uma situação já trágica", argumenta Gunson, acrescentando que Machado "estaria melhor ocupada estimulando e organizando ajuda externa do que na Venezuela", um país cujo governo a considera uma terrorista e onde o bem-estar da população deveria ser a única prioridade.
Empurrados para o digital
É outro vídeo que recebi, este de meu amigo Luiz Fernando Janot. Não sabemos quem o escreveu ou interpretou. Mas sabemos que cada cena e cada palavra que contém são verdadeiras. As imagens mostram idosos em bancos e hospitais, tentando conviver com seu pior inimigo: o smartphone. O texto, na voz de uma mulher, diz:
"Quando uma tecnologia não respeita a biologia humana ela não é inovação. É o descaso fantasiado de modernidade. E a punição para quem não consegue passar pela barreira da tela é o abandono. Agências vazias, portas fechadas e a recusa de um atendimento presencial.
"O Brasil é o segundo país mais avançado do mundo digitalmente. Mas de que adianta o sistema ser brilhante se ele negligencia e isola a sua própria população? Hoje somos 35 milhões de idosos no Brasil. Em quatro anos, seremos 41 milhões, quase 18% da população. Mas as empresas e o Estado estão empurrando todo mundo para o digital. E, quando o idoso não consegue, o Estado lava as mãos e joga nos ombros dos familiares uma responsabilidade que deveria ser das instituições.
"Estão esquecendo que o atendimento presencial e humano é garantido no Estatuto do Idoso. Há milhões de brasileiros sem acesso à internet ou com limitações físicas severas que tornam impossível o uso de aplicativos. E não é só para pagar uma conta ou acessar o banco. O agendamento de uma consulta médica pelo SUS passa pela mesma barreira"
O texto conclui com um apelo que deveria ser levado em consideração pelas autoridades e por todos nós: "Esse vídeo não é só um desabafo. É um manifesto. O atendimento humano presencial e capacitado não pode ser um favor. É um direito do cidadão, independentemente da idade ou do status social. É preciso que os bancos atentem para o fim social que têm. Eles têm que atender ao interesse da sociedade. Faço aqui um apelo direto aos órgãos do governo, às associações de classe, às comissões dos direitos dos idosos. Unam-se a nós nessa cobrança. Compartilhem esse manifesto. Não podemos aceitar a exclusão e o silêncio".
"Quando uma tecnologia não respeita a biologia humana ela não é inovação. É o descaso fantasiado de modernidade. E a punição para quem não consegue passar pela barreira da tela é o abandono. Agências vazias, portas fechadas e a recusa de um atendimento presencial.
"O Brasil é o segundo país mais avançado do mundo digitalmente. Mas de que adianta o sistema ser brilhante se ele negligencia e isola a sua própria população? Hoje somos 35 milhões de idosos no Brasil. Em quatro anos, seremos 41 milhões, quase 18% da população. Mas as empresas e o Estado estão empurrando todo mundo para o digital. E, quando o idoso não consegue, o Estado lava as mãos e joga nos ombros dos familiares uma responsabilidade que deveria ser das instituições.
"Estão esquecendo que o atendimento presencial e humano é garantido no Estatuto do Idoso. Há milhões de brasileiros sem acesso à internet ou com limitações físicas severas que tornam impossível o uso de aplicativos. E não é só para pagar uma conta ou acessar o banco. O agendamento de uma consulta médica pelo SUS passa pela mesma barreira"
O texto conclui com um apelo que deveria ser levado em consideração pelas autoridades e por todos nós: "Esse vídeo não é só um desabafo. É um manifesto. O atendimento humano presencial e capacitado não pode ser um favor. É um direito do cidadão, independentemente da idade ou do status social. É preciso que os bancos atentem para o fim social que têm. Eles têm que atender ao interesse da sociedade. Faço aqui um apelo direto aos órgãos do governo, às associações de classe, às comissões dos direitos dos idosos. Unam-se a nós nessa cobrança. Compartilhem esse manifesto. Não podemos aceitar a exclusão e o silêncio".
As primeiras provas de que o RJ está no rumo de ser um narcoestado
Tráfico de drogas e de armas, lavagem de dinheiro, Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP), Amigo dos Amigos (ADA), policiais corruptos, bicheiros, padrinhos bandidos do Carnaval, roubança de dinheiro público e seus agregados políticos de direita arruínam o poder estadual do Rio de Janeiro —note-se, porém, que políticos de vários partidos podem estar na lista da mesada do crime.
Talvez o crime já tenha se infiltrado no comando de outros estados. Não o sabemos. No caso do Rio, temos as primeiras evidências de um narcoestado no Brasil. O termo "narco" talvez seja limitado para descrever o poder de organizações criminosas diversas sobre Legislativo, Executivo e Judiciário fluminenses. O problema, de qualquer modo, é aterrorizante, e tem conexão federal, por meio do PL, o partido do senador Flávio Bolsonaro, e de ramos do centrão.
Qual a novidade? A nova prisão de Rodrigo Bacellar, nesta quinta. Esse sujeito foi secretário de Governo do ex-governador Cláudio Castro (PL) e presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) de 2023 a 2025. Foi preso quando era deputado estadual pelo União Brasil, embora tivesse sido reeleito pelo PL. Até julho de 2025, era o pré-candidato de Flávio Bolsonaro e de Cláudio Castro ao governo do estado do Rio. Castro é inelegível, condenado por abuso de poder.
Bacellar foi apenas formalmente preso de novo. Já estava em Bangu 8 desde março, acusado de tentar ajudar o deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (então MDB) a fugir da polícia e de atrapalhar uma operação contra o CV. Esse deputado, vulgo TH Joias, era joalheiro, vendendo adereços para celebridades populares, como jogadores de futebol e gente da música. Quando deixou a suplência para assumir cadeira na Alerj, em 2024, já havia sido preso preventivamente e condenado a 14 anos por lavagem de dinheiro e de operar com CV, TCP e ADA etc.
Segundo a polícia, foi avisado por Bacellar de que seria alvo de operação da PF, em setembro de 2025. Em dezembro, Bacellar foi por isso preso, para ser liberado por um tempo por votação da Alerj (42 votos a 21). TH Joias nomeou gente das facções para cargos na Alerj. Ainda lavaria dinheiro e faria câmbio de milhões para chefões do tráfico. Aproximou-se da política por meio de Marcos Falcon, presidente da Portela e candidato a vereador no Rio pelo PP quando foi assassinado em seu escritório de campanha, em 2016.
Além de Bacellar, foram presos nesta quinta Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho ("represo"), e o pastor Márcio Poncio (Igreja da Nuvem), fabricante de cigarros e integrante de uma família de influencers novelescos. Adilsinho é patrono do Salgueiro, bicheiro, dono de caça-níqueis, traficante de cigarros e acusado de chefiar gangue de homicídios. Segundo a polícia, lava dinheiro para o tráfico e tinha planilhas de pagamento de subornos e doações eleitorais para políticos. Em sessão do Supremo de abril deste ano, o ministro Gilmar Mendes disse ter ouvido da PF que 32 ou 34 deputados estaduais do Rio (de um total de 70) receberiam "mesada" de bicheiros, atualmente chefes de gangues com negócios variados. Outros secretários de Cláudio Castro caíram, acusados de corrupção ou também de envolvimento com o crime organizado; um desembargador foi preso.
Há mais. Não cabe aqui. O resumo da ópera é que o comando político do Rio foi tomado pelo crime e o país todo corre esse risco.
Vinicius Torres Freire
Talvez o crime já tenha se infiltrado no comando de outros estados. Não o sabemos. No caso do Rio, temos as primeiras evidências de um narcoestado no Brasil. O termo "narco" talvez seja limitado para descrever o poder de organizações criminosas diversas sobre Legislativo, Executivo e Judiciário fluminenses. O problema, de qualquer modo, é aterrorizante, e tem conexão federal, por meio do PL, o partido do senador Flávio Bolsonaro, e de ramos do centrão.
Qual a novidade? A nova prisão de Rodrigo Bacellar, nesta quinta. Esse sujeito foi secretário de Governo do ex-governador Cláudio Castro (PL) e presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) de 2023 a 2025. Foi preso quando era deputado estadual pelo União Brasil, embora tivesse sido reeleito pelo PL. Até julho de 2025, era o pré-candidato de Flávio Bolsonaro e de Cláudio Castro ao governo do estado do Rio. Castro é inelegível, condenado por abuso de poder.
Bacellar foi apenas formalmente preso de novo. Já estava em Bangu 8 desde março, acusado de tentar ajudar o deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (então MDB) a fugir da polícia e de atrapalhar uma operação contra o CV. Esse deputado, vulgo TH Joias, era joalheiro, vendendo adereços para celebridades populares, como jogadores de futebol e gente da música. Quando deixou a suplência para assumir cadeira na Alerj, em 2024, já havia sido preso preventivamente e condenado a 14 anos por lavagem de dinheiro e de operar com CV, TCP e ADA etc.
Segundo a polícia, foi avisado por Bacellar de que seria alvo de operação da PF, em setembro de 2025. Em dezembro, Bacellar foi por isso preso, para ser liberado por um tempo por votação da Alerj (42 votos a 21). TH Joias nomeou gente das facções para cargos na Alerj. Ainda lavaria dinheiro e faria câmbio de milhões para chefões do tráfico. Aproximou-se da política por meio de Marcos Falcon, presidente da Portela e candidato a vereador no Rio pelo PP quando foi assassinado em seu escritório de campanha, em 2016.
Além de Bacellar, foram presos nesta quinta Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho ("represo"), e o pastor Márcio Poncio (Igreja da Nuvem), fabricante de cigarros e integrante de uma família de influencers novelescos. Adilsinho é patrono do Salgueiro, bicheiro, dono de caça-níqueis, traficante de cigarros e acusado de chefiar gangue de homicídios. Segundo a polícia, lava dinheiro para o tráfico e tinha planilhas de pagamento de subornos e doações eleitorais para políticos. Em sessão do Supremo de abril deste ano, o ministro Gilmar Mendes disse ter ouvido da PF que 32 ou 34 deputados estaduais do Rio (de um total de 70) receberiam "mesada" de bicheiros, atualmente chefes de gangues com negócios variados. Outros secretários de Cláudio Castro caíram, acusados de corrupção ou também de envolvimento com o crime organizado; um desembargador foi preso.
Há mais. Não cabe aqui. O resumo da ópera é que o comando político do Rio foi tomado pelo crime e o país todo corre esse risco.
Vinicius Torres Freire
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