sábado, 22 de agosto de 2026
Relatório da Oxfam mostra como os super-ricos dominam a democracia
Existe uma engrenagem política que preserva a desigualdade e faz da democracia um delivery dos interesses dos super-ricos brasileiros. A riqueza proporciona melhores condições para disputar eleições. A vitória eleitoral oferece acesso ao Legislativo e aos órgãos que definem políticas públicas. Paralelamente, o lobby mantém canais permanentes de pressão. E assim, limita-se a representação de grupos historicamente excluídos. Esse é um dos destaques do relatório: “Retratos das Desigualdades Brasileiras : Poder, Privilégio e a Captura da Democracia”, publicado pela Oxfam Brasil no dia 19.
O relatório deste ano dialoga diretamente com o do ano passado. Em 2025, a Oxfam afirmou que os super-ricos estavam construindo uma nova aristocracia. Em 2026, o documento evidencia como essa elite se apodera da democracia. “A riqueza ela não é só uma questão econômica, ela também vai se constituir como um poder político. Quanto mais riqueza, mais poder político você tem”, resume Viviana Santiago, diretora executiva da organização civil.
Segundo o documento, um candidato super-rico tem 4.000 vezes mais chances de se eleger do que um cidadão comum. Nenhuma candidatura que declarou patrimônio inferior a R$ 100 mil conseguiu se eleger em 2022, enquanto candidatos milionários, embora representassem menos de 32% do total, corresponderam a quase 58% dos eleitos.
Esse dado influencia também quem é considerado pelos partidos como uma candidatura “viável”. Para Viviana, candidaturas negras enfrentam uma barreira adicional porque foram afastadas historicamente dos mecanismos de acumulação patrimonial. Cria-se um círculo difícil de romper: os mais ricos têm mais recursos para disputar uma eleição, por isso recebem mais verbas dos partidos. Com mais recursos, elegem-se. Essa “viabilidade” acaba reproduzindo os mesmos padrões históricos de classe, raça e gênero que já estruturam o poder brasileiro. O relatório recomenda a discussão sobre reparação histórica e reserva de vagas, além da fiscalização da distribuição dos recursos partidários.
Não é coincidência o perfil médio dos candidatos na eleição deste ano, segundo o TSE: homens, brancos, casados, com ensino superior completo, entre 40 e 59 anos, empresários.
Para quem já é rico, o cargo político representa uma oportunidade de ampliar o patrimônio. É também a chance de enriquecer rapidamente. Exemplos não faltam nas declarações apresentadas ao TSE. O patrimônio do candidato a deputado federal Felipe Cecílio (PSDB-GO) saltou de R$ 20 mil em 2022 para R$ 86,8 milhões neste ano, segundo matéria do ICL. . O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) viu seu patrimônio crescer de R$ 36 mil para R$ 3,8 milhões ao longo de seu mandato na Câmara.
Para quem não possui riqueza, o caminho é outro. Antes de transformar poder político em patrimônio, é preciso superar as barreiras econômicas que dificultam a própria chegada ao poder. Teve grande repercussão a deputada Erika Hilton declarar um patrimônio de cerca de 15 mil reais. A parlamentar do Psol afirmou que “é impossível enriquecer na política sendo honesta, arrimo de família e tendo bom gosto pra se vestir”. “Desculpem a decepção”, ironizou
A defesa dos interesses dos mais ricos não se limita ao plenário e à promulgação de leis. Ela desfila por comissões parlamentares e espaços de decisão de temas econômicos. A desigualdade se mantém porque aqueles que se beneficiam da estrutura do Estado também possuem maior capacidade de influenciar sua manutenção.
É a “porta giratória”, a circulação de pessoas entre cargos estratégicos do Estado e posições de destaque em empresas privadas. Um executivo que sai de uma corporação para ocupar um cargo em um agência de regulação ou ministério, e depois volta para o mercado.
Ela chama atenção para esse “acúmulo de conhecimento das dinâmicas internas” que acompanha o trânsito entre os dois mundos. Um dado explicativo: duas em cada três pessoas que trabalham para as Big Techs teriam ocupado anteriormente cargos estratégicos no governo ou em empresas estatais, segundo reportagem da Pública. O fenômeno, portanto, não precisa envolver corrupção explícita para produzir um dilema democrático.
O relatório defende períodos de quarentena mais longos para pessoas que deixam funções públicas estratégicas antes de assumirem posições diretamente relacionadas aos interesses que regulavam ou supervisionavam. Também sugere aperfeiçoar os mecanismos de identificação de conflitos de interesse. “O objetivo não é impedir que profissionais transitem entre governo e empresas durante toda a vida. É criar regras que reduzam a possibilidade de que essa circulação seja utilizada para transformar capital político e conhecimento institucional em vantagem econômica privada”, pontua Viviana.
A porta-giratória se conecta a outra atividade sem transparência e antidemocrática, o lobby, que consiste na tentativa organizada de influenciar decisões públicas. O problema, segundo o relatório, é a enorme diferença de capacidade de atuação entre os grupos econômicos e a sociedade civil.
Grandes corporações possuem equipes especializadas, recursos financeiros e acesso contínuo aos centros de decisão. Movimentos sociais e organizações da sociedade civil frequentemente ficam do lado de fora. O setor de apostas é um exemplo. Segundo Viviana, representantes das bets participaram de mais de 78 reuniões com representantes do governo para discutir alíquotas. E funcionou. As empresas de apostas são taxadas em 13% sobre a receita bruta e a alíquota subirá para 14% em 2027 e chegará a 15% em 2028. O governo defendia uma progressão de 18% a 24%. O lobby venceu.
“É preciso mais transparência, saber quem consegue fazer lobby, com que frequência, com quais recursos e com qual acesso aos responsáveis pelas decisões”, frisa a diretora da Oxfam. Mas a transparência é um elemento. Seria necessário também garantir proporcionalidade no acesso. Uma empresa consegue se reunir dezenas de vezes com autoridades enquanto uma organização da sociedade civil não consegue sequer uma audiência. A solução passa, portanto, por combinar transparência, regulamentação e participação social.
Nesse cenário, o relatório defende o fortalecimento dos conselhos e de outros mecanismos de participação popular. Quanto mais atores participarem da formulação das políticas públicas, menor a possibilidade de que um único grupo controle a agenda. “Quanto mais espaço de participação, mais escrutínio”, afirma Viviana.
O relatório deste ano dialoga diretamente com o do ano passado. Em 2025, a Oxfam afirmou que os super-ricos estavam construindo uma nova aristocracia. Em 2026, o documento evidencia como essa elite se apodera da democracia. “A riqueza ela não é só uma questão econômica, ela também vai se constituir como um poder político. Quanto mais riqueza, mais poder político você tem”, resume Viviana Santiago, diretora executiva da organização civil.
Segundo o documento, um candidato super-rico tem 4.000 vezes mais chances de se eleger do que um cidadão comum. Nenhuma candidatura que declarou patrimônio inferior a R$ 100 mil conseguiu se eleger em 2022, enquanto candidatos milionários, embora representassem menos de 32% do total, corresponderam a quase 58% dos eleitos.
Esse dado influencia também quem é considerado pelos partidos como uma candidatura “viável”. Para Viviana, candidaturas negras enfrentam uma barreira adicional porque foram afastadas historicamente dos mecanismos de acumulação patrimonial. Cria-se um círculo difícil de romper: os mais ricos têm mais recursos para disputar uma eleição, por isso recebem mais verbas dos partidos. Com mais recursos, elegem-se. Essa “viabilidade” acaba reproduzindo os mesmos padrões históricos de classe, raça e gênero que já estruturam o poder brasileiro. O relatório recomenda a discussão sobre reparação histórica e reserva de vagas, além da fiscalização da distribuição dos recursos partidários.
Não é coincidência o perfil médio dos candidatos na eleição deste ano, segundo o TSE: homens, brancos, casados, com ensino superior completo, entre 40 e 59 anos, empresários.
Para quem já é rico, o cargo político representa uma oportunidade de ampliar o patrimônio. É também a chance de enriquecer rapidamente. Exemplos não faltam nas declarações apresentadas ao TSE. O patrimônio do candidato a deputado federal Felipe Cecílio (PSDB-GO) saltou de R$ 20 mil em 2022 para R$ 86,8 milhões neste ano, segundo matéria do ICL. . O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) viu seu patrimônio crescer de R$ 36 mil para R$ 3,8 milhões ao longo de seu mandato na Câmara.
Para quem não possui riqueza, o caminho é outro. Antes de transformar poder político em patrimônio, é preciso superar as barreiras econômicas que dificultam a própria chegada ao poder. Teve grande repercussão a deputada Erika Hilton declarar um patrimônio de cerca de 15 mil reais. A parlamentar do Psol afirmou que “é impossível enriquecer na política sendo honesta, arrimo de família e tendo bom gosto pra se vestir”. “Desculpem a decepção”, ironizou
A defesa dos interesses dos mais ricos não se limita ao plenário e à promulgação de leis. Ela desfila por comissões parlamentares e espaços de decisão de temas econômicos. A desigualdade se mantém porque aqueles que se beneficiam da estrutura do Estado também possuem maior capacidade de influenciar sua manutenção.
É a “porta giratória”, a circulação de pessoas entre cargos estratégicos do Estado e posições de destaque em empresas privadas. Um executivo que sai de uma corporação para ocupar um cargo em um agência de regulação ou ministério, e depois volta para o mercado.
Ela chama atenção para esse “acúmulo de conhecimento das dinâmicas internas” que acompanha o trânsito entre os dois mundos. Um dado explicativo: duas em cada três pessoas que trabalham para as Big Techs teriam ocupado anteriormente cargos estratégicos no governo ou em empresas estatais, segundo reportagem da Pública. O fenômeno, portanto, não precisa envolver corrupção explícita para produzir um dilema democrático.
O relatório defende períodos de quarentena mais longos para pessoas que deixam funções públicas estratégicas antes de assumirem posições diretamente relacionadas aos interesses que regulavam ou supervisionavam. Também sugere aperfeiçoar os mecanismos de identificação de conflitos de interesse. “O objetivo não é impedir que profissionais transitem entre governo e empresas durante toda a vida. É criar regras que reduzam a possibilidade de que essa circulação seja utilizada para transformar capital político e conhecimento institucional em vantagem econômica privada”, pontua Viviana.
A porta-giratória se conecta a outra atividade sem transparência e antidemocrática, o lobby, que consiste na tentativa organizada de influenciar decisões públicas. O problema, segundo o relatório, é a enorme diferença de capacidade de atuação entre os grupos econômicos e a sociedade civil.
Grandes corporações possuem equipes especializadas, recursos financeiros e acesso contínuo aos centros de decisão. Movimentos sociais e organizações da sociedade civil frequentemente ficam do lado de fora. O setor de apostas é um exemplo. Segundo Viviana, representantes das bets participaram de mais de 78 reuniões com representantes do governo para discutir alíquotas. E funcionou. As empresas de apostas são taxadas em 13% sobre a receita bruta e a alíquota subirá para 14% em 2027 e chegará a 15% em 2028. O governo defendia uma progressão de 18% a 24%. O lobby venceu.
“É preciso mais transparência, saber quem consegue fazer lobby, com que frequência, com quais recursos e com qual acesso aos responsáveis pelas decisões”, frisa a diretora da Oxfam. Mas a transparência é um elemento. Seria necessário também garantir proporcionalidade no acesso. Uma empresa consegue se reunir dezenas de vezes com autoridades enquanto uma organização da sociedade civil não consegue sequer uma audiência. A solução passa, portanto, por combinar transparência, regulamentação e participação social.
Nesse cenário, o relatório defende o fortalecimento dos conselhos e de outros mecanismos de participação popular. Quanto mais atores participarem da formulação das políticas públicas, menor a possibilidade de que um único grupo controle a agenda. “Quanto mais espaço de participação, mais escrutínio”, afirma Viviana.
Quem paga a conta quando o voto vira mercadoria?
Muito se fala que, no Brasil, o povo não sabe votar, que vota muito mais por amizade do que propostas. Além disso, pesquisas comprovam que a compra e venda de votos é ainda comum no país. Em 2010, após a aprovação da Lei da Ficha Limpa, uma pesquisa foi feita pelo IBOPE, demonstrando que “43% dos eleitores conhecem políticos que já compraram votos e 41% sabem de casos de gente que já vendeu seu voto”. A informação completava: pessoas com menor poder aquisitivo são as que têm mais contato com esse tipo de crime. Deve-se ressaltar que, tanto a compra como a venda de votos é considerada crime pela legislação brasileira, Lei nº 9.840, de 28 de setembro de 1999. O artigo 299 do Código Eleitoral pune do mesmo modo o comprador e o vendedor, sendo que pode resultar em até 4 anos de pena de reclusão, além de multa.
Essa prática de compra e venda de votos não é de hoje e sempre colocou em cheque a representatividade política no Brasil. José Murilo de Carvalho, no prefácio de sua autoria à sétima edição do livro Coronelismo, enxada e voto, de Vítor Nunes Leal, aponta que o autor deste clássico da Ciência Política brasileira “via nele [coronelismo] um dos sintomas do falseamento da representação”, afastando-nos de um verdadeiro sistema representativo. Por que esta representação se vê ameaçada? Pela estrutura que o coronelismo coloca em movimento e que garante a troca de favores entre os líderes locais, regionais e nacionais, baseados no poder econômico, principalmente na propriedade da terra, desde o período colonial. No prefácio da segunda edição de Coronelismo, enxada e voto, Barbosa Lima Sobrinho lembra que Antonil já escrevia em 1711, em Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas, que “o ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram, porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos” e apoia seu poder em uma base sólida: a propriedade territorial.
Hoje, o poder territorial ainda é importante, pois o Brasil apresenta uma das maiores concentrações de terras no mundo, sendo que 1% das maiores propriedades rurais concentra cerca de 47,5% de todas as terras produtivas, isto equivale a um índice Gini agrário de 0,73. O índice Gini de concetração das terras urbanas fica um pouco abaixo, em 0,70. O país, de dimensões continentais, é ainda a terra do latifúndio agro-exportador que, agora aliado ao capital financeiro, alavanca a concentração de renda e, consequentemente, a desigualdade social. Esses dois elementos – latifúndio agro-exportador e o capital financeiro – geram um sistema político extremamente elitista e excludente. As camadas mais vulneráveis da sociedade brasileira, a partir do momento que conquistaram o direito de participar do processo eleitoral, foram levadas a transformar o seu voto em um instrumento de barganha, muitas vezes para resolver problemas emergenciais ou crônicos em suas vidas ou, ainda, para sobreviver frente à violência política dos poderosos, tanto na cidade como no campo.
A prática da compra e venda de voto está bem retratada no filme Curral, de Marcelo Brennand. E não apenas no filme que este fato se evidencia, a realidade aparece de forma cristalina no nosso cotidiano, como o depoimento abaixo, de 12 de fevereiro de 2026, demonstra:
“Vivi em uma cidade próxima de Garanhuns, em Pernambuco. Muita gente de minha família ainda mora lá, na cidade de Capoeiras. Há 20 (vinte) anos isso acontece lá, eles oferecem material de construção, como tijolos e cimento e até cobertor e colchão em troca de voto”. Perguntei quem são eles e ela me respondeu: “Eles, os vereadores e candidatos a prefeito. Eles vão nas casas das pessoas, nos sítios e oferecem isso em troca do voto ou as próprias pessoas os procuram, dizendo do que precisam. Isso só na época da política, das eleições. Isso continua acontecendo. No ano passado, na Semana Santa os políticos atuais foram oferecer peixe de graça para as pessoas. A própria Prefeitura e candidatos a prefeito fizeram e fazem isso”.
Mário de Andrade, em sua obra Macunaíma, discute a formação da identidade e do caráter nacional, às vezes de forma irônica, mas sempre com forte crítica social. E é esse caráter nacional e essa identidade que perpassam o processo eleitoral brasileiro. Na construção da nossa identidade, entraram os elementos mais autoritários e excludentes de uma sociedade patriarcal – misógina e racista –, patrimonialista, concentradora de riqueza, de poder econômico e prestígio social e, consequentemente, concentradora também do poder político. É nesse contexto que a compra e a venda do voto se mostra cruel, pois a aparente vantagem recebida pelo eleitor em troca de seu apoio a um candidato, esvai-se em pouco tempo; pois, quando no poder, o eleito dificilmente irá criar políticas públicas que favoreçam a maioria da população, alimentando o fisiologismo. Desta feita, a compra e a venda de votos corrompe “um dos maiores bens da sociedade, qual seja, a democracia”.
Para analisar essa realidade profundamente enraizada na cultura política e social brasileira, deve-se primeiro conceituar o que é a prática de compra e venda de voto. Segundo o Código Eleitoral, no artigo 299, a prática de compra de voto é considerada crime de corrupção eleitoral (Lei nº 4.737/1965). Segundo o Ministério Público Federal:
“A compra de voto acontece quando um candidato doa, oferece, promete ou entrega dinheiro, um bem material ou serviço (…) ao eleitor em troca de voto. A oferta também pode envolver vantagem pessoal, incluindo emprego ou um cargo público. (…) Só a promessa já basta para caracterizar o delito. Além disso, não é necessário o pedido explícito de votos para que a conduta seja caracterizada como crime, caso haja evidências da tentativa de compra de votos.”
Deve-se ressaltar que como bem material, entende-se dinheiro, materiais de construção, dentadura e qualquer outro tipo de mercadoria que envolva a obtenção de uma vantagem ao eleitor, como serviços, incluindo liberação de pendências em órgãos do Estado (prefeituras, cartórios, autarquias, etc).
Isto posto, deve-se lembrar que, na História brasileira, eleições ocorriam desde o período colonial e até 1821 votava-se apenas para as câmaras municipais, não existiam partidos políticos, o voto era aberto e apenas os homens livres podiam votar. Os eleitores, os homens bons, eram aqueles “de linhagem nobre, senhores de engenho, e os membros da alta burocracia militar, a esses se acrescentando os homens novos, burgueses enriquecidos pelo comércio”. Essas eleições eram marcadas por fraudes, pois o voto era indireto, aberto e o processo eleitoral era repleto de detalhes facilmente contornáveis. Formavam-se nove listas tríplices, que depois eram rearranjadas em três listas pelo juiz mais velho da comarca, e estas listas eram guardadas em uma arca com três cadeados, cujas chaves eram guardadas pelos três vereadores em exercício. No início do novo ano, quando acabavam os mandatos dos vereadores, havia uma reunião em que era feito o sorteio da lista com os três nomes daqueles que iriam exercer a vereança por um ano.
A primeira Constituição brasileira de 1824, outorgada por Dom Pedro I, mudou o sistema eleitoral e determinava que os deputados (tanto das assembleias provinciais como da Câmara dos Deputados) e os senadores seriam eleitos de uma forma indireta. As fraudes eleitorais eram frequentes, pois havia o voto por procuração. A participação eleitoral nessa época dependia de uma renda mínima para exercer o direito ao voto (voto censitário), era indireto, aberto (não secreto) e para homens com mais de 25 anos; os analfabetos que se enquadravam nestes outros critérios também votavam. Somente em 1875, o voto ficou restrito aos alfabetizados e as eleições tornaram-se diretas. Estavam excluídos de qualquer participação política os escravizados, as mulheres, os indígenas e os assalariados.
No início do período regencial, em 1831, a criação da Guarda Nacional ocorreu para garantir a ordem dos grandes proprietários de terras – que sufocaram as revoltas populares ocorridas neste período – e, em consequência a este uso da força, esses proprietários de terras passaram a ter o controle das eleições. Por ser formada por cidadãos-eleitores e comandada pela elite agrária (os “coronéis”), esta milícia foi usada para fraudar votações, coagir o eleitorado e garantir a eleição de candidatos alinhados à oligarquia. Isso se perpetuou na ordem republicana da República Velha (1889 a 1930), pois as elites agrárias regionais passaram a ter o controle completo da máquina política de seus respectivos estados. No governo central, dominavam as oligarquias mais ricas, dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (política café-com-leite), que negociavam com as outras oligarquias regionais, estabelcendo-se a chama Política dos Governadores.
Esse sistema garantia o controle férreo do sistema político e social pela elite agrária, que o exercia e perpetuava-se no poder através dos mecanismos do voto de cabresto, clientelismo e fraudes eleitorais.
O voto de cabresto surgiu em decorrência da autoridade armada da Guarda Nacional, que a exercia no âmbito local. Os coronéis utilizavam esse poder das armas para intimidar os eleitores de regiões rurais e, com o voto aberto, asseguravam a vitória de seus apadrinhados políticos. O clientelismo era a troca de favores (empregos, remédios, petições, etc) por apoio político e votos. As fraudes eleitorais consolidavam-se na falsificação das atas das mesas eleitorais, garantindo a manipulação dos resultados e evitando a vitória da oposição. Como pode-se observar neste trecho de Victor Nunes Leal:
“Qualquer que seja, entretanto, o chefe municipal, o elemento primário desse tipo de liderança é o coronel, que comanda discricionariamente um lote considerável de votos de cabresto. A força eleitoral empresta-lhe prestígio político, natural coroamento de sua privilegiada situação econômica e social de dono de terras. Dentro da esfera própria de influência, o coronel como que resume em sua pessoa, sem substituí-las, importantes instituições sociais. Exerce, por exemplo, uma ampla jurisdição sobre seus dependentes, compondo rixas e desavenças e proferindo, às vezes, verdadeiros arbitramentos, que os interessados respeitam. Também se enfeixam em suas mãos, com ou sem caráter oficial, extensas funções policiais, de que frequentemente se desintumesce com a sua pura ascendência social, mas que eventualmente pode tornar efetivas com auxílio de empregados, agregados ou capangas”.
Essa estrutura de poder gerou grande exclusão social e concentração de renda, deixando a maior parte da população urbana e rural marginalizada. Ao longo das primeiras décadas do século XX, a população urbana cresceu no Brasil, houve a diversificação da economia e a ânsia pela participação política ampliou, mas o sistema oligárquico não dava margem para isso. A insatisfação da população não demorou a produzir grandes revoltas populares e messiânicas pelo país, greves operárias, a Revolta da Vacina e o movimento tenentista.
Esse sistema oligárquico, que desde o início dos anos 1900 demonstrava grandes fragilidades estruturais, entrou em colapso na eleição de 1930, quando o presidente Washington Luís rompeu a aliança do “café com leite” ao lançar outro paulista (Júlio Prestes) para a sucessão. Este foi o estopim para “uma ruptura institucional, com grandes consequências para a vida nacional, cujos marcos orientadores foram: maior participação de novos atores sociais no jogo político e modernização do país por meio do desenvolvimento industrial”. E, com isso, uma profunda mudança na estrutura eleitoral fez-se necessária e foi criada a Justiça Eleitoral.
O movimento que levou ao fim a Primeira República, chamado de Revolução de 1930, foi na realidade um golpe de Estado e logo atuou para contemplar uma das maiores reivindicações do movimento tenentista, já que muitas lideranças deste movimento aderiram ao golpe de 1930. Aliás, um dos primeiros atos do Governo Provisório de Getúlio Vargas foi criar uma comissão de reforma do sistema eleitoral vigente, para exatamente garantir sua sustentação, além de tentar neutralizar em parte o poder das oligarquias derrotadas pelas forças golpistas. Esta comissão elaborou o primeiro Código Eleitoral do Brasil (1932) e também trouxe o gerenciamento das eleições centralizado no Poder Judiciário. A partir dessa data, “a Justiça Eleitoral tornou-se a responsável por todos os trabalhos eleitorais: alistamento, organização das mesas de votação, apuração dos votos, reconhecimento e proclamação dos eleitos, bem como o julgamento de questões que envolviam matéria eleitoral”.
Neste novo período da história do país, o Código Eleitoral trouxe muitas inovações, as principais foram: o voto feminino facultativo; o voto secreto; a representação proporcional, a regulação em todo país das eleições federais, estaduais e municipais; o registro prévio, feito pelos partidos, de todas as candidaturas; e a possibilidade de candidaturas independentes. Permaneceram as restrições de voto aos analfabetos, aos mendigos e aos cabos e soldados.
Na esteira da nova Constituição de 1934, houve alteração no Código Eleitoral. As principais alterações foram: redução da idade mínima para votar de 21 para 18 anos; obrigatoriedade de voto das mulheres que exerciam função pública remunerada. Esse Código Eleitoral nunca foi aplicado, pois em 1937, tivemos o golpe que instaurou o Estado Novo. Uma nova Constituição foi outorgada por Getúlio Vargas, que extinguiu a Justiça eleitoral, os partidos políticos existentes e suspendeu as eleições. Entre 1937 e 1945, não houve eleições no Brasil. Houve a dissolução das casas legislativas instituídas e a ditadura impôs interventores nos estados.
Em 1945, houve o fim do Estado Novo, acarretado pelo término da Segunda Guerra Mundial, tendo em vista a contradição do governo em apoiar os Aliados contra o nazifascismo enquanto mantinha uma ditadura interna, a forte pressão popular e das elites pela democracia e o próprio desgaste político de Getúlio Vargas.
Foi nesse cenário político que a Justiça Eleitoral foi definitivamente reinstalada. O Código Eleitoral passou a regulamentar, em todo o país, o alistamento eleitoral e as eleições. Sua principal novidade foi a obrigatoriedade de os candidatos estarem vinculados a partidos políticos. Estabeleceu-se a obrigatoriedade do voto a partir dos 18 anos para homens e mulheres alfabetizados, além das restrições ao voto para cabos e soldados, analfabetos e mendigos. Também foram instituídas eleições diretas para todos os cargos nos três níveis de governo.
Entre o fim do Estado Novo, em 1945, e o golpe militar de 1964, o Brasil teve uma normalidade democrática dentro da ordem estabelecida, mas alguns movimentos tentaram romper com essa estabilidade institucional. De forma bem simples, pode-se dizer que o movimento que conduziu ao golpe de Estado ocorrido em 1964 foi tentado antes em 1951, quando os setores mais conservadores procuraram impedir a posse de Getúlio Vargas após as eleições presidenciais em que saiu vencedor; em 1954, com a tentativa desses setores conservadores em depor Getúlio Vargas, algo que foi abortado pelo suicídio do próprio; em 1956, com a Revolta de Jacareacanga (PA), levante militar liderado por oficiais da Aeronáutica; em 1958, com o levante, também liderado por oficiais da Aeronáutica, em Aragarças (GO); em 1961, com a tentativa de impedir a posse de João Goulart, então vice-presidente, após a renúncia de Jânio Quadros. Essa última tentativa foi impedida pela famosa Rede da Legalidade liderada por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul.
Durante este período (1945-1964), a legislação eleitoral continuou a trazer novos elementos à cena política, pois com a ampliação do universo de eleitores e a obrigatoriedade do voto em sufrágio universal estabeleceram-se novas relações entre os candidatos e o eleitorado. Nesse período, as campanhas eleitorais passaram a ter cada vez mais importância, uma estratégia dos partidos políticos para cativar um universo de eleitores cada vez maior, principalmente com o avanço da industrialização e o êxodo rural. Novas práticas eleitorais surgiram: “os panfletos de manifestos políticos passaram a ser panfletos de propaganda, os comícios microfonados se tornaram parte do cenário urbano, os candidatos começaram a distribuir apertos de mão e sorrisos” e a imagem do candidato passou a ter crucial importância.
Mas a compra e a venda de votos não deixou de ocorrer mesmo no universo urbano, nem após oito anos de Estado Novo e a supressão das eleições, nem com a mudança do universo eleitoral. A troca do voto por sapatos, dentaduras, ou empregos continuou no processo eleitoral brasileiro, prática profundamente arraigada nas raízes das instituições nacionais.
A elite política e econômica conservadora, ao longo dos anos 1950 e início dos anos 1960, aliada ao grande capital internacional no contexto da Guerra Fria, acabou por articular o golpe militar para expurgar da cena nacional políticos que propunham amplas reformas de base – agrária, urbana, educacional, bancária, fiscal e eleitoral – que colocariam em risco a hegemonia do grande latifundio e do grande capital sobre a sociedade brasileira e suas instituições.
O golpe se concretizou e muitas pessoas tiveram seus direitos políticos cassados e foram para o exílio. As eleições para o Executivo federal, estadual e das capitais de estado foram suspensas; as eleições eram indiretas (no caso da Presidência da República) e governadores e prefeitos das capitais passaram a ser indicados pelo governo central. O Legislativo continuou a existir, mas com prerrogativas limitadas e períodos de fechamento compulsório implantado pelos quartéis. Neste período, 1964 e 1985, a concentração de renda se intensificou e a renda apropriada pelos 1% mais ricos saltou de 10%, em 1965, para 16%, em 1968; houve um arrocho salarial sobre a os trabalhadores, sendo que cerca de 70% dos trabalhadores não tiveram ganhos reais expressivos durante o período de maior expansão do PIB, no chamado período do “milagre econômico” (1968-1973).
Nesse cenário brasileiro – Estado autoritário e aumento da pobreza – o clientelismo não foi abandonado. Os candidatos que ajudavam a manter a ordem autoritária sempre tiveram apoio institucional e financeiro e os eleitores encontravam nessa prática, voluntariamente ou coersitivamente, uma forma de garantir alguma ajuda em tempos tão difíceis.
No final da década de 1970, o movimento pela anistia mobilizou a sociedade brasileira. A Lei de Anistia, de 28 de agosto de 1979, trouxe de volta à vida política centenas de cassados durante a ditadura, os exilados e banidos também retornaram ao país. Neste mesmo ano, houve uma reforma partidária e o bipartidarismo foi abolido. Esta movimentação cresceu o movimento pela normalidade democrática. Em 1982, os governadores voltaram a ser eleitos pelo sufrágio popular. Em 1983, a tentativa de passar, no Congresso Nacional, o voto direto para a Presidência da República (Emenda Dante de Oliveira) ganhou as ruas do país.
A tentativa foi derrotada, por um Congresso moldado pela maioria de deputados e senadores ligados ao governo militar, mas em 1985 a chapa governista – formada por Paulo Maluf e Flávio Marcílio – para a Presidência da República no colégio eleitoral foi vencida pela chapa de oposição – formada por Tancredo Neves e José Sarney – encerrando o governo militar.
A redemocratização e a nova Constituição (1988) não conseguiram erradicar a prática de compra e venda de votos. A prática continua e em épocas de insegurança, o clientalismo retoma sua agenda. O crescimento do extremismo de direita que mina as bases das instituições democráticas, com seu discurso de ódio, usando uma agenda desestabilizadora da economia, da segurança pública e da dinâmica social e política, leva ao aumento dessa prática que corrompe a normalidade do pleito. Aos extremistas, juntam-se os políticos do chamado Centrão, que vivem de olho nas emendas parlamentares, procurando satisfazer interesses pessoais e de grupos específicos, que fazem pressão sobre o Executivo, para abocanhar o orçamento federal. Não agem em prol da coisa pública. Têm a percepção de que o povo é completamente manipulável, sem importância a não ser em época de voto, um voto sem consciência e dentro da lógica clientelista.
Entretanto, a lei de iniciativa popular chamada de Lei da Ficha Limpa (2010), que obteve mais de 1,6 milhão de assinaturas, depois de ampla mobilização da sociedade civil, demonstra como a população brasileira anseia por candidatos para os cargos eletivos que tenham práticas transparentes e com retidão. Em 2025, a Lei da Ficha Limpa esteve sob ataque, exatamente por aqueles que se aproveitam de práticas ilícitas para vencer as eleições. As modificações realizadas pelo Congresso levaram os movimentos sociais, entidades de transparência e juristas a criticarem essas alterações por considerarem as medidas um retrocesso e uma tentativa de abrandar punições a políticos. Ações de inconstitucionalidade foram ajuizadas no Supremo Tribunal Federal, argumentando falhas formais na tramitação e ofensa aos princípios da moralidade e da vedação ao retrocesso em direitos coletivos.
A mobilização popular, tendo em vista estas tentativas de retrocesso institucional, colocou em andamento uma ampla campanha nacional contra a compra e a venda de votos, campanha que não termina em 2026, mas será de longa duração até 2030. Os mais diversos setores vém aderindo à campanha, que agora lança um selo para candidatos que se comprometem a não usar esta prática.
Para erradicarmos as práticas clientelistas, toda a sociedade deve se comprometer com esta pauta, não basta reclamar, precisamos todos nos mobilizarmos e atuarmos para o seu fim. Pois, os princípios para a defesa do Estado democrático de Direito e a manutenção da equidade, transparência, inclusão e soberania nacional devem ser apoiados por todos.
Essa prática de compra e venda de votos não é de hoje e sempre colocou em cheque a representatividade política no Brasil. José Murilo de Carvalho, no prefácio de sua autoria à sétima edição do livro Coronelismo, enxada e voto, de Vítor Nunes Leal, aponta que o autor deste clássico da Ciência Política brasileira “via nele [coronelismo] um dos sintomas do falseamento da representação”, afastando-nos de um verdadeiro sistema representativo. Por que esta representação se vê ameaçada? Pela estrutura que o coronelismo coloca em movimento e que garante a troca de favores entre os líderes locais, regionais e nacionais, baseados no poder econômico, principalmente na propriedade da terra, desde o período colonial. No prefácio da segunda edição de Coronelismo, enxada e voto, Barbosa Lima Sobrinho lembra que Antonil já escrevia em 1711, em Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas, que “o ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram, porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos” e apoia seu poder em uma base sólida: a propriedade territorial.
Hoje, o poder territorial ainda é importante, pois o Brasil apresenta uma das maiores concentrações de terras no mundo, sendo que 1% das maiores propriedades rurais concentra cerca de 47,5% de todas as terras produtivas, isto equivale a um índice Gini agrário de 0,73. O índice Gini de concetração das terras urbanas fica um pouco abaixo, em 0,70. O país, de dimensões continentais, é ainda a terra do latifúndio agro-exportador que, agora aliado ao capital financeiro, alavanca a concentração de renda e, consequentemente, a desigualdade social. Esses dois elementos – latifúndio agro-exportador e o capital financeiro – geram um sistema político extremamente elitista e excludente. As camadas mais vulneráveis da sociedade brasileira, a partir do momento que conquistaram o direito de participar do processo eleitoral, foram levadas a transformar o seu voto em um instrumento de barganha, muitas vezes para resolver problemas emergenciais ou crônicos em suas vidas ou, ainda, para sobreviver frente à violência política dos poderosos, tanto na cidade como no campo.
A prática da compra e venda de voto está bem retratada no filme Curral, de Marcelo Brennand. E não apenas no filme que este fato se evidencia, a realidade aparece de forma cristalina no nosso cotidiano, como o depoimento abaixo, de 12 de fevereiro de 2026, demonstra:
“Vivi em uma cidade próxima de Garanhuns, em Pernambuco. Muita gente de minha família ainda mora lá, na cidade de Capoeiras. Há 20 (vinte) anos isso acontece lá, eles oferecem material de construção, como tijolos e cimento e até cobertor e colchão em troca de voto”. Perguntei quem são eles e ela me respondeu: “Eles, os vereadores e candidatos a prefeito. Eles vão nas casas das pessoas, nos sítios e oferecem isso em troca do voto ou as próprias pessoas os procuram, dizendo do que precisam. Isso só na época da política, das eleições. Isso continua acontecendo. No ano passado, na Semana Santa os políticos atuais foram oferecer peixe de graça para as pessoas. A própria Prefeitura e candidatos a prefeito fizeram e fazem isso”.
Mário de Andrade, em sua obra Macunaíma, discute a formação da identidade e do caráter nacional, às vezes de forma irônica, mas sempre com forte crítica social. E é esse caráter nacional e essa identidade que perpassam o processo eleitoral brasileiro. Na construção da nossa identidade, entraram os elementos mais autoritários e excludentes de uma sociedade patriarcal – misógina e racista –, patrimonialista, concentradora de riqueza, de poder econômico e prestígio social e, consequentemente, concentradora também do poder político. É nesse contexto que a compra e a venda do voto se mostra cruel, pois a aparente vantagem recebida pelo eleitor em troca de seu apoio a um candidato, esvai-se em pouco tempo; pois, quando no poder, o eleito dificilmente irá criar políticas públicas que favoreçam a maioria da população, alimentando o fisiologismo. Desta feita, a compra e a venda de votos corrompe “um dos maiores bens da sociedade, qual seja, a democracia”.
* * *
Para analisar essa realidade profundamente enraizada na cultura política e social brasileira, deve-se primeiro conceituar o que é a prática de compra e venda de voto. Segundo o Código Eleitoral, no artigo 299, a prática de compra de voto é considerada crime de corrupção eleitoral (Lei nº 4.737/1965). Segundo o Ministério Público Federal:
“A compra de voto acontece quando um candidato doa, oferece, promete ou entrega dinheiro, um bem material ou serviço (…) ao eleitor em troca de voto. A oferta também pode envolver vantagem pessoal, incluindo emprego ou um cargo público. (…) Só a promessa já basta para caracterizar o delito. Além disso, não é necessário o pedido explícito de votos para que a conduta seja caracterizada como crime, caso haja evidências da tentativa de compra de votos.”
Deve-se ressaltar que como bem material, entende-se dinheiro, materiais de construção, dentadura e qualquer outro tipo de mercadoria que envolva a obtenção de uma vantagem ao eleitor, como serviços, incluindo liberação de pendências em órgãos do Estado (prefeituras, cartórios, autarquias, etc).
Isto posto, deve-se lembrar que, na História brasileira, eleições ocorriam desde o período colonial e até 1821 votava-se apenas para as câmaras municipais, não existiam partidos políticos, o voto era aberto e apenas os homens livres podiam votar. Os eleitores, os homens bons, eram aqueles “de linhagem nobre, senhores de engenho, e os membros da alta burocracia militar, a esses se acrescentando os homens novos, burgueses enriquecidos pelo comércio”. Essas eleições eram marcadas por fraudes, pois o voto era indireto, aberto e o processo eleitoral era repleto de detalhes facilmente contornáveis. Formavam-se nove listas tríplices, que depois eram rearranjadas em três listas pelo juiz mais velho da comarca, e estas listas eram guardadas em uma arca com três cadeados, cujas chaves eram guardadas pelos três vereadores em exercício. No início do novo ano, quando acabavam os mandatos dos vereadores, havia uma reunião em que era feito o sorteio da lista com os três nomes daqueles que iriam exercer a vereança por um ano.
A primeira Constituição brasileira de 1824, outorgada por Dom Pedro I, mudou o sistema eleitoral e determinava que os deputados (tanto das assembleias provinciais como da Câmara dos Deputados) e os senadores seriam eleitos de uma forma indireta. As fraudes eleitorais eram frequentes, pois havia o voto por procuração. A participação eleitoral nessa época dependia de uma renda mínima para exercer o direito ao voto (voto censitário), era indireto, aberto (não secreto) e para homens com mais de 25 anos; os analfabetos que se enquadravam nestes outros critérios também votavam. Somente em 1875, o voto ficou restrito aos alfabetizados e as eleições tornaram-se diretas. Estavam excluídos de qualquer participação política os escravizados, as mulheres, os indígenas e os assalariados.
No início do período regencial, em 1831, a criação da Guarda Nacional ocorreu para garantir a ordem dos grandes proprietários de terras – que sufocaram as revoltas populares ocorridas neste período – e, em consequência a este uso da força, esses proprietários de terras passaram a ter o controle das eleições. Por ser formada por cidadãos-eleitores e comandada pela elite agrária (os “coronéis”), esta milícia foi usada para fraudar votações, coagir o eleitorado e garantir a eleição de candidatos alinhados à oligarquia. Isso se perpetuou na ordem republicana da República Velha (1889 a 1930), pois as elites agrárias regionais passaram a ter o controle completo da máquina política de seus respectivos estados. No governo central, dominavam as oligarquias mais ricas, dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (política café-com-leite), que negociavam com as outras oligarquias regionais, estabelcendo-se a chama Política dos Governadores.
Esse sistema garantia o controle férreo do sistema político e social pela elite agrária, que o exercia e perpetuava-se no poder através dos mecanismos do voto de cabresto, clientelismo e fraudes eleitorais.
O voto de cabresto surgiu em decorrência da autoridade armada da Guarda Nacional, que a exercia no âmbito local. Os coronéis utilizavam esse poder das armas para intimidar os eleitores de regiões rurais e, com o voto aberto, asseguravam a vitória de seus apadrinhados políticos. O clientelismo era a troca de favores (empregos, remédios, petições, etc) por apoio político e votos. As fraudes eleitorais consolidavam-se na falsificação das atas das mesas eleitorais, garantindo a manipulação dos resultados e evitando a vitória da oposição. Como pode-se observar neste trecho de Victor Nunes Leal:
“Qualquer que seja, entretanto, o chefe municipal, o elemento primário desse tipo de liderança é o coronel, que comanda discricionariamente um lote considerável de votos de cabresto. A força eleitoral empresta-lhe prestígio político, natural coroamento de sua privilegiada situação econômica e social de dono de terras. Dentro da esfera própria de influência, o coronel como que resume em sua pessoa, sem substituí-las, importantes instituições sociais. Exerce, por exemplo, uma ampla jurisdição sobre seus dependentes, compondo rixas e desavenças e proferindo, às vezes, verdadeiros arbitramentos, que os interessados respeitam. Também se enfeixam em suas mãos, com ou sem caráter oficial, extensas funções policiais, de que frequentemente se desintumesce com a sua pura ascendência social, mas que eventualmente pode tornar efetivas com auxílio de empregados, agregados ou capangas”.
Essa estrutura de poder gerou grande exclusão social e concentração de renda, deixando a maior parte da população urbana e rural marginalizada. Ao longo das primeiras décadas do século XX, a população urbana cresceu no Brasil, houve a diversificação da economia e a ânsia pela participação política ampliou, mas o sistema oligárquico não dava margem para isso. A insatisfação da população não demorou a produzir grandes revoltas populares e messiânicas pelo país, greves operárias, a Revolta da Vacina e o movimento tenentista.
Esse sistema oligárquico, que desde o início dos anos 1900 demonstrava grandes fragilidades estruturais, entrou em colapso na eleição de 1930, quando o presidente Washington Luís rompeu a aliança do “café com leite” ao lançar outro paulista (Júlio Prestes) para a sucessão. Este foi o estopim para “uma ruptura institucional, com grandes consequências para a vida nacional, cujos marcos orientadores foram: maior participação de novos atores sociais no jogo político e modernização do país por meio do desenvolvimento industrial”. E, com isso, uma profunda mudança na estrutura eleitoral fez-se necessária e foi criada a Justiça Eleitoral.
* * *
O movimento que levou ao fim a Primeira República, chamado de Revolução de 1930, foi na realidade um golpe de Estado e logo atuou para contemplar uma das maiores reivindicações do movimento tenentista, já que muitas lideranças deste movimento aderiram ao golpe de 1930. Aliás, um dos primeiros atos do Governo Provisório de Getúlio Vargas foi criar uma comissão de reforma do sistema eleitoral vigente, para exatamente garantir sua sustentação, além de tentar neutralizar em parte o poder das oligarquias derrotadas pelas forças golpistas. Esta comissão elaborou o primeiro Código Eleitoral do Brasil (1932) e também trouxe o gerenciamento das eleições centralizado no Poder Judiciário. A partir dessa data, “a Justiça Eleitoral tornou-se a responsável por todos os trabalhos eleitorais: alistamento, organização das mesas de votação, apuração dos votos, reconhecimento e proclamação dos eleitos, bem como o julgamento de questões que envolviam matéria eleitoral”.
Neste novo período da história do país, o Código Eleitoral trouxe muitas inovações, as principais foram: o voto feminino facultativo; o voto secreto; a representação proporcional, a regulação em todo país das eleições federais, estaduais e municipais; o registro prévio, feito pelos partidos, de todas as candidaturas; e a possibilidade de candidaturas independentes. Permaneceram as restrições de voto aos analfabetos, aos mendigos e aos cabos e soldados.
Na esteira da nova Constituição de 1934, houve alteração no Código Eleitoral. As principais alterações foram: redução da idade mínima para votar de 21 para 18 anos; obrigatoriedade de voto das mulheres que exerciam função pública remunerada. Esse Código Eleitoral nunca foi aplicado, pois em 1937, tivemos o golpe que instaurou o Estado Novo. Uma nova Constituição foi outorgada por Getúlio Vargas, que extinguiu a Justiça eleitoral, os partidos políticos existentes e suspendeu as eleições. Entre 1937 e 1945, não houve eleições no Brasil. Houve a dissolução das casas legislativas instituídas e a ditadura impôs interventores nos estados.
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Em 1945, houve o fim do Estado Novo, acarretado pelo término da Segunda Guerra Mundial, tendo em vista a contradição do governo em apoiar os Aliados contra o nazifascismo enquanto mantinha uma ditadura interna, a forte pressão popular e das elites pela democracia e o próprio desgaste político de Getúlio Vargas.
Foi nesse cenário político que a Justiça Eleitoral foi definitivamente reinstalada. O Código Eleitoral passou a regulamentar, em todo o país, o alistamento eleitoral e as eleições. Sua principal novidade foi a obrigatoriedade de os candidatos estarem vinculados a partidos políticos. Estabeleceu-se a obrigatoriedade do voto a partir dos 18 anos para homens e mulheres alfabetizados, além das restrições ao voto para cabos e soldados, analfabetos e mendigos. Também foram instituídas eleições diretas para todos os cargos nos três níveis de governo.
Entre o fim do Estado Novo, em 1945, e o golpe militar de 1964, o Brasil teve uma normalidade democrática dentro da ordem estabelecida, mas alguns movimentos tentaram romper com essa estabilidade institucional. De forma bem simples, pode-se dizer que o movimento que conduziu ao golpe de Estado ocorrido em 1964 foi tentado antes em 1951, quando os setores mais conservadores procuraram impedir a posse de Getúlio Vargas após as eleições presidenciais em que saiu vencedor; em 1954, com a tentativa desses setores conservadores em depor Getúlio Vargas, algo que foi abortado pelo suicídio do próprio; em 1956, com a Revolta de Jacareacanga (PA), levante militar liderado por oficiais da Aeronáutica; em 1958, com o levante, também liderado por oficiais da Aeronáutica, em Aragarças (GO); em 1961, com a tentativa de impedir a posse de João Goulart, então vice-presidente, após a renúncia de Jânio Quadros. Essa última tentativa foi impedida pela famosa Rede da Legalidade liderada por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul.
Durante este período (1945-1964), a legislação eleitoral continuou a trazer novos elementos à cena política, pois com a ampliação do universo de eleitores e a obrigatoriedade do voto em sufrágio universal estabeleceram-se novas relações entre os candidatos e o eleitorado. Nesse período, as campanhas eleitorais passaram a ter cada vez mais importância, uma estratégia dos partidos políticos para cativar um universo de eleitores cada vez maior, principalmente com o avanço da industrialização e o êxodo rural. Novas práticas eleitorais surgiram: “os panfletos de manifestos políticos passaram a ser panfletos de propaganda, os comícios microfonados se tornaram parte do cenário urbano, os candidatos começaram a distribuir apertos de mão e sorrisos” e a imagem do candidato passou a ter crucial importância.
Mas a compra e a venda de votos não deixou de ocorrer mesmo no universo urbano, nem após oito anos de Estado Novo e a supressão das eleições, nem com a mudança do universo eleitoral. A troca do voto por sapatos, dentaduras, ou empregos continuou no processo eleitoral brasileiro, prática profundamente arraigada nas raízes das instituições nacionais.
A elite política e econômica conservadora, ao longo dos anos 1950 e início dos anos 1960, aliada ao grande capital internacional no contexto da Guerra Fria, acabou por articular o golpe militar para expurgar da cena nacional políticos que propunham amplas reformas de base – agrária, urbana, educacional, bancária, fiscal e eleitoral – que colocariam em risco a hegemonia do grande latifundio e do grande capital sobre a sociedade brasileira e suas instituições.
O golpe se concretizou e muitas pessoas tiveram seus direitos políticos cassados e foram para o exílio. As eleições para o Executivo federal, estadual e das capitais de estado foram suspensas; as eleições eram indiretas (no caso da Presidência da República) e governadores e prefeitos das capitais passaram a ser indicados pelo governo central. O Legislativo continuou a existir, mas com prerrogativas limitadas e períodos de fechamento compulsório implantado pelos quartéis. Neste período, 1964 e 1985, a concentração de renda se intensificou e a renda apropriada pelos 1% mais ricos saltou de 10%, em 1965, para 16%, em 1968; houve um arrocho salarial sobre a os trabalhadores, sendo que cerca de 70% dos trabalhadores não tiveram ganhos reais expressivos durante o período de maior expansão do PIB, no chamado período do “milagre econômico” (1968-1973).
Nesse cenário brasileiro – Estado autoritário e aumento da pobreza – o clientelismo não foi abandonado. Os candidatos que ajudavam a manter a ordem autoritária sempre tiveram apoio institucional e financeiro e os eleitores encontravam nessa prática, voluntariamente ou coersitivamente, uma forma de garantir alguma ajuda em tempos tão difíceis.
No final da década de 1970, o movimento pela anistia mobilizou a sociedade brasileira. A Lei de Anistia, de 28 de agosto de 1979, trouxe de volta à vida política centenas de cassados durante a ditadura, os exilados e banidos também retornaram ao país. Neste mesmo ano, houve uma reforma partidária e o bipartidarismo foi abolido. Esta movimentação cresceu o movimento pela normalidade democrática. Em 1982, os governadores voltaram a ser eleitos pelo sufrágio popular. Em 1983, a tentativa de passar, no Congresso Nacional, o voto direto para a Presidência da República (Emenda Dante de Oliveira) ganhou as ruas do país.
A tentativa foi derrotada, por um Congresso moldado pela maioria de deputados e senadores ligados ao governo militar, mas em 1985 a chapa governista – formada por Paulo Maluf e Flávio Marcílio – para a Presidência da República no colégio eleitoral foi vencida pela chapa de oposição – formada por Tancredo Neves e José Sarney – encerrando o governo militar.
A redemocratização e a nova Constituição (1988) não conseguiram erradicar a prática de compra e venda de votos. A prática continua e em épocas de insegurança, o clientalismo retoma sua agenda. O crescimento do extremismo de direita que mina as bases das instituições democráticas, com seu discurso de ódio, usando uma agenda desestabilizadora da economia, da segurança pública e da dinâmica social e política, leva ao aumento dessa prática que corrompe a normalidade do pleito. Aos extremistas, juntam-se os políticos do chamado Centrão, que vivem de olho nas emendas parlamentares, procurando satisfazer interesses pessoais e de grupos específicos, que fazem pressão sobre o Executivo, para abocanhar o orçamento federal. Não agem em prol da coisa pública. Têm a percepção de que o povo é completamente manipulável, sem importância a não ser em época de voto, um voto sem consciência e dentro da lógica clientelista.
Entretanto, a lei de iniciativa popular chamada de Lei da Ficha Limpa (2010), que obteve mais de 1,6 milhão de assinaturas, depois de ampla mobilização da sociedade civil, demonstra como a população brasileira anseia por candidatos para os cargos eletivos que tenham práticas transparentes e com retidão. Em 2025, a Lei da Ficha Limpa esteve sob ataque, exatamente por aqueles que se aproveitam de práticas ilícitas para vencer as eleições. As modificações realizadas pelo Congresso levaram os movimentos sociais, entidades de transparência e juristas a criticarem essas alterações por considerarem as medidas um retrocesso e uma tentativa de abrandar punições a políticos. Ações de inconstitucionalidade foram ajuizadas no Supremo Tribunal Federal, argumentando falhas formais na tramitação e ofensa aos princípios da moralidade e da vedação ao retrocesso em direitos coletivos.
A mobilização popular, tendo em vista estas tentativas de retrocesso institucional, colocou em andamento uma ampla campanha nacional contra a compra e a venda de votos, campanha que não termina em 2026, mas será de longa duração até 2030. Os mais diversos setores vém aderindo à campanha, que agora lança um selo para candidatos que se comprometem a não usar esta prática.
Para erradicarmos as práticas clientelistas, toda a sociedade deve se comprometer com esta pauta, não basta reclamar, precisamos todos nos mobilizarmos e atuarmos para o seu fim. Pois, os princípios para a defesa do Estado democrático de Direito e a manutenção da equidade, transparência, inclusão e soberania nacional devem ser apoiados por todos.
Nas sombras
Três tiros a menos de dois metros de distância. Disfarçados com capacetes e parecendo entregadores de comida, atirador e cúmplice logo desapareceram. Um vídeo mostra a mulher jovem, em saia branca e blusa bege, cambaleando na entrada do hotel plantado à beira da reserva florestal de Santa Cruz de La Sierra, principal cidade boliviana. Não havia sangue visível, mas, diz a polícia, balas calibre 9 milímetros foram extraídas do pescoço, tórax e braço direito da vítima.
Nadia Beller é uma ativista do Movimento ao Socialismo (MAS), partido que governou a Bolívia por duas décadas até o ano passado. Ela ainda estava no hospital quando seu namorado foi preso no aeroporto, em aparente fuga. O argentino Fernando Cerimedo, 45 anos, foi acusado de contratar a dupla de pistoleiros para matá-la. Seria mais um caso na epidemia de violência contra mulheres, não fossem os vínculos políticos do protagonista dessa história de crime sob encomenda.
Cerimedo é um dos personagens das sombras da política latino-americana, reconhecido prestador de serviços para grupos de extrema direita no Brasil, Argentina, Chile, Bolívia e Honduras, entre outros países. Ganha dinheiro na montagem e operação de tramas de desinformação em massa nas temporadas eleitorais. São enredos com difusão integrada a plataformas de empresas nos Estados Unidos e na Europa que prometem “amplificar narrativas” manipulando os “ecossistemas de influencers” nas redes sociais. Ele também atua na conexão com o movimento de apoio a Donald Trump conhecido como MAGA (sigla em inglês para o slogan “Make America Great Again”, que significa tornar a América grande novamente).
Cerimedo é procurado pela polícia brasileira por ter participado na frustrada tentativa de golpe de Estado liderada por Jair Bolsonaro na primavera de 2022. Na sexta-feira 4 de novembro, dias depois de confirmada a derrota do candidato à reeleição na Presidência, ele realizou uma transmissão ao vivo em redes sociais para exibir um “estudo” sobre como “o Brasil foi roubado”.
Apoiado numa rede de audiência turbinada a partir do exterior, com registros de até 415 000 “espectadores” simultâneos, devaneou sobre a manipulação de modelos antigos de urnas eletrônicas para desidratar Bolsonaro de votos em benefício do adversário Lula: “As pessoas que votaram com uma máquina (de fabricação) anterior a 2020 tiveram, em alguns casos, entre 5 e 80 vezes mais probabilidade de votar em Lula do que em Bolsonaro, uma diferença estatisticamente impossível de justificar”.
Ecoava Jair Bolsonaro, que, dois anos antes, iniciara uma campanha de descrédito do sistema eleitoral, sem mostrar uma única prova de fraude no voto eletrônico do qual foi beneficiário — sem uma só queixa — durante um quarto de século de eleições.
Cerimedo se integrou ao grupo de conspiradores na temporada eleitoral de 2022 por iniciativa do então deputado Eduardo Bolsonaro. Sua apresentação ao vivo sobre o “roubo” nas eleições foi elaborada por pessoas vinculadas a um certo Instituto Voto Legal — “nosso pessoal”, na definição do coronel Mauro Cid, ajudante de ordens da Presidência da República. O conteúdo passou pelo crivo do candidato a vice-presidente Walter Braga Netto e do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira.
Dez dias depois, Bolsonaro chamou o chefe da Aeronáutica, Carlos Baptista. Bolsonaro entregou ao brigadeiro Baptista uma cópia do relatório com a “auditoria” do Instituto Voto Legal, divulgada por Cerimedo e financiada pelo caixa do Partido Liberal. O chefe da FAB contou em depoimento ter folheado o papelório, criticado erros de redação e, sobretudo, o ardil usado no texto para enganar o leitor na conclusão sobre fraude. “Sofisma”, nas suas palavras.
Bolsonaro disse ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, para seguir com o enredo. E, assim, o Partido Liberal reivindicou à Justiça uma recontagem de votos estritamente limitada ao segundo turno da disputa presidencial. O recurso foi rejeitado e o PL acabou multado em 22,9 milhões de reais por “litigância de má fé” — o partido usou dinheiro público para sustentar a tese de fraude na votação, foi multado e pagou com dinheiro público. Bolsonaro acabou condenado à cadeia pelos próximos 27 anos.
As suspeitas sobre o sistema de votação continuam sendo difundidas. O porta-voz agora é o candidato Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal. Mas, desta vez, o argentino Cerimedo não vai poder ajudar. O homem das sombras está num presídio boliviano.
Nadia Beller é uma ativista do Movimento ao Socialismo (MAS), partido que governou a Bolívia por duas décadas até o ano passado. Ela ainda estava no hospital quando seu namorado foi preso no aeroporto, em aparente fuga. O argentino Fernando Cerimedo, 45 anos, foi acusado de contratar a dupla de pistoleiros para matá-la. Seria mais um caso na epidemia de violência contra mulheres, não fossem os vínculos políticos do protagonista dessa história de crime sob encomenda.
Cerimedo é um dos personagens das sombras da política latino-americana, reconhecido prestador de serviços para grupos de extrema direita no Brasil, Argentina, Chile, Bolívia e Honduras, entre outros países. Ganha dinheiro na montagem e operação de tramas de desinformação em massa nas temporadas eleitorais. São enredos com difusão integrada a plataformas de empresas nos Estados Unidos e na Europa que prometem “amplificar narrativas” manipulando os “ecossistemas de influencers” nas redes sociais. Ele também atua na conexão com o movimento de apoio a Donald Trump conhecido como MAGA (sigla em inglês para o slogan “Make America Great Again”, que significa tornar a América grande novamente).
Cerimedo é procurado pela polícia brasileira por ter participado na frustrada tentativa de golpe de Estado liderada por Jair Bolsonaro na primavera de 2022. Na sexta-feira 4 de novembro, dias depois de confirmada a derrota do candidato à reeleição na Presidência, ele realizou uma transmissão ao vivo em redes sociais para exibir um “estudo” sobre como “o Brasil foi roubado”.
Apoiado numa rede de audiência turbinada a partir do exterior, com registros de até 415 000 “espectadores” simultâneos, devaneou sobre a manipulação de modelos antigos de urnas eletrônicas para desidratar Bolsonaro de votos em benefício do adversário Lula: “As pessoas que votaram com uma máquina (de fabricação) anterior a 2020 tiveram, em alguns casos, entre 5 e 80 vezes mais probabilidade de votar em Lula do que em Bolsonaro, uma diferença estatisticamente impossível de justificar”.
Ecoava Jair Bolsonaro, que, dois anos antes, iniciara uma campanha de descrédito do sistema eleitoral, sem mostrar uma única prova de fraude no voto eletrônico do qual foi beneficiário — sem uma só queixa — durante um quarto de século de eleições.
Cerimedo se integrou ao grupo de conspiradores na temporada eleitoral de 2022 por iniciativa do então deputado Eduardo Bolsonaro. Sua apresentação ao vivo sobre o “roubo” nas eleições foi elaborada por pessoas vinculadas a um certo Instituto Voto Legal — “nosso pessoal”, na definição do coronel Mauro Cid, ajudante de ordens da Presidência da República. O conteúdo passou pelo crivo do candidato a vice-presidente Walter Braga Netto e do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira.
Dez dias depois, Bolsonaro chamou o chefe da Aeronáutica, Carlos Baptista. Bolsonaro entregou ao brigadeiro Baptista uma cópia do relatório com a “auditoria” do Instituto Voto Legal, divulgada por Cerimedo e financiada pelo caixa do Partido Liberal. O chefe da FAB contou em depoimento ter folheado o papelório, criticado erros de redação e, sobretudo, o ardil usado no texto para enganar o leitor na conclusão sobre fraude. “Sofisma”, nas suas palavras.
Bolsonaro disse ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, para seguir com o enredo. E, assim, o Partido Liberal reivindicou à Justiça uma recontagem de votos estritamente limitada ao segundo turno da disputa presidencial. O recurso foi rejeitado e o PL acabou multado em 22,9 milhões de reais por “litigância de má fé” — o partido usou dinheiro público para sustentar a tese de fraude na votação, foi multado e pagou com dinheiro público. Bolsonaro acabou condenado à cadeia pelos próximos 27 anos.
As suspeitas sobre o sistema de votação continuam sendo difundidas. O porta-voz agora é o candidato Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal. Mas, desta vez, o argentino Cerimedo não vai poder ajudar. O homem das sombras está num presídio boliviano.
Onde as direitas se encontram
O Centrão se inventou como força política em 1987, assim que a Constituinte iniciou seus trabalhos. Nesse período ocorreu o primeiro movimento de reacomodação de parlamentares antes filiados ao PDS, o partido da ditadura, que criaram uma dissidência capaz de dar a vitória ao candidato do PMDB, Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, formada por aqueles que aderiram ao peemedebista quando ele emergiu como o candidato indiscutivelmente favorito nas eleições indiretas e pelo grupo que estreava na política como nomes defensores dos interesses de associações de classe empresariais. Serviram, todos eles, à ditadura e a abandonaram nos seus estertores para continuar no poder.
A mobilização popular contra os governos militares, que tomou o País durante a campanha pelas eleições diretas, foi canalizada para a eleição de Tancredo Neves tão logo derrotada, pelo Congresso, a Emenda Dante de Oliveira, que reinstituía o voto popular para a escolha do presidente. Tancredo era candidato ao Colégio Eleitoral da ditadura, mas levou das ruas um forte apoio popular.
A posse do governo civil de José Sarney em 15 de março de 1985, após a morte de Tancredo, e a convocação da Assembleia Nacional Constituinte, cujos trabalhos foram iniciados em fevereiro de 1987, aconteceram ainda sob o êxtase popular de derrubada da ditadura. A sociedade civil inverteu, por completo, as regras políticas de antes. Nos governos militares, nenhum político poderia se declarar de esquerda sem correr o risco de ter o seu mandato cassado pelo governante de plantão. Após a vitória de Tancredo, definir-se como direita era autodenunciar apoio pretérito a uma ditadura que fora embora sem deixar saudades.
Na Constituinte, as diferenças fatalmente seriam expostas. A Assembleia tornara-se o palco de uma luta de classes encoberta no regime militar e onde os atores sociais disputavam palmo a palmo com os egressos da ditadura o seu espaço social. Em vez de se autodefinirem como conservadores, estes se nomearam como “centro democrático”. Foram apelidados de “Centrão”. Eram a base de apoio parlamentar de José Sarney, oriundo do PDS, inequivocamente conservador e um líder regional afeito à política de clientela. Era também um político conservador. E andava na contramão do deputado Ulysses Guimarães, líder inconteste do PMDB durante boa parte da vida do partido de oposição criado pela ditadura, no bipartidarismo, que havia se aproximado dos movimentos populares no período marcado pela campanha das diretas e tendia claramente ao apoio da pauta progressista na Constituinte. Ulysses presidia a Assembleia.
O Centrão tinha um papel duplo. Era o bloco de apoio a um presidente que dominava as técnicas do clientelismo e premiava a sua bancada parlamentar com emendas e favores para obter maiorias em matérias de seu interesse. Mas existiam, nessa articulação, integrantes que, embora não recusassem as benesses do fisiologismo, assumiam suas posições de classe. Entre eles constam os primeiros políticos brasileiros a proclamarem uma adesão ideológica clara ao neoliberalismo que grassava pelo mundo.
Ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso, embora o fisiologismo fizesse parte de uma vitoriosa ação de governo para conseguir maiorias a propostas que conseguiram derrubar no Congresso medidas de caráter fortemente nacionalista de uma Constituinte recente, houve uma articulação ideológica paralela que conquistou parlamentares do antigo centro-esquerda e de boa parcela da opinião pública. O Consenso Neoliberal, nos governos tucanos, entrou pela porta da frente do Congresso e desqualificou adversários. A esquerda que, durante a ditadura, era sinônimo de subversão, no consenso liberal tornou-se obsoleta, “jurássica”. Dizer-se de esquerda tornou-se motivo de piada.
Entre os governos Lula e os de Dilma, até o impeachment da presidenta, o centro da discordância política era entre “atrasados” – a esquerda que mantinha suas posições políticas – e os “modernos” (os tucanos que entenderam que o liberalismo era o fim da história).
O impeachment de Dilma foi o momento em que o jogo mudou. Seu afastamento não foi apenas uma disputa ideológica entre neoliberais e uma proposta de Estado de Bem-Estar Social, mas uma tomada de poder. As forças democráticas demoraram a perceber que era um golpe não apenas contra Dilma, mas contra forças progressistas que resistiram à ascensão do Consenso Neoliberal. O golpe de 2016 e a tentativa de golpe contra o presidente Lula em 2023, logo depois da sua posse a um terceiro mandato presidencial, são contra o país que resistiu à sanha autoritária do ultraliberalismo sucedâneo do neoliberalismo. É isso que está em jogo nestas eleições.
A mobilização popular contra os governos militares, que tomou o País durante a campanha pelas eleições diretas, foi canalizada para a eleição de Tancredo Neves tão logo derrotada, pelo Congresso, a Emenda Dante de Oliveira, que reinstituía o voto popular para a escolha do presidente. Tancredo era candidato ao Colégio Eleitoral da ditadura, mas levou das ruas um forte apoio popular.
A posse do governo civil de José Sarney em 15 de março de 1985, após a morte de Tancredo, e a convocação da Assembleia Nacional Constituinte, cujos trabalhos foram iniciados em fevereiro de 1987, aconteceram ainda sob o êxtase popular de derrubada da ditadura. A sociedade civil inverteu, por completo, as regras políticas de antes. Nos governos militares, nenhum político poderia se declarar de esquerda sem correr o risco de ter o seu mandato cassado pelo governante de plantão. Após a vitória de Tancredo, definir-se como direita era autodenunciar apoio pretérito a uma ditadura que fora embora sem deixar saudades.
Na Constituinte, as diferenças fatalmente seriam expostas. A Assembleia tornara-se o palco de uma luta de classes encoberta no regime militar e onde os atores sociais disputavam palmo a palmo com os egressos da ditadura o seu espaço social. Em vez de se autodefinirem como conservadores, estes se nomearam como “centro democrático”. Foram apelidados de “Centrão”. Eram a base de apoio parlamentar de José Sarney, oriundo do PDS, inequivocamente conservador e um líder regional afeito à política de clientela. Era também um político conservador. E andava na contramão do deputado Ulysses Guimarães, líder inconteste do PMDB durante boa parte da vida do partido de oposição criado pela ditadura, no bipartidarismo, que havia se aproximado dos movimentos populares no período marcado pela campanha das diretas e tendia claramente ao apoio da pauta progressista na Constituinte. Ulysses presidia a Assembleia.
O Centrão tinha um papel duplo. Era o bloco de apoio a um presidente que dominava as técnicas do clientelismo e premiava a sua bancada parlamentar com emendas e favores para obter maiorias em matérias de seu interesse. Mas existiam, nessa articulação, integrantes que, embora não recusassem as benesses do fisiologismo, assumiam suas posições de classe. Entre eles constam os primeiros políticos brasileiros a proclamarem uma adesão ideológica clara ao neoliberalismo que grassava pelo mundo.
Ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso, embora o fisiologismo fizesse parte de uma vitoriosa ação de governo para conseguir maiorias a propostas que conseguiram derrubar no Congresso medidas de caráter fortemente nacionalista de uma Constituinte recente, houve uma articulação ideológica paralela que conquistou parlamentares do antigo centro-esquerda e de boa parcela da opinião pública. O Consenso Neoliberal, nos governos tucanos, entrou pela porta da frente do Congresso e desqualificou adversários. A esquerda que, durante a ditadura, era sinônimo de subversão, no consenso liberal tornou-se obsoleta, “jurássica”. Dizer-se de esquerda tornou-se motivo de piada.
Entre os governos Lula e os de Dilma, até o impeachment da presidenta, o centro da discordância política era entre “atrasados” – a esquerda que mantinha suas posições políticas – e os “modernos” (os tucanos que entenderam que o liberalismo era o fim da história).
O impeachment de Dilma foi o momento em que o jogo mudou. Seu afastamento não foi apenas uma disputa ideológica entre neoliberais e uma proposta de Estado de Bem-Estar Social, mas uma tomada de poder. As forças democráticas demoraram a perceber que era um golpe não apenas contra Dilma, mas contra forças progressistas que resistiram à ascensão do Consenso Neoliberal. O golpe de 2016 e a tentativa de golpe contra o presidente Lula em 2023, logo depois da sua posse a um terceiro mandato presidencial, são contra o país que resistiu à sanha autoritária do ultraliberalismo sucedâneo do neoliberalismo. É isso que está em jogo nestas eleições.
Claro como água
Como sempre sucedeu, e há-de suceder sempre, a questão central de qualquer tipo de organização social humana, da qual todas as outras decorrem e para a qual todas acabam por concorrer, é a questão do poder, e o problema teórico e prático com que nos enfrentamos é identificar quem o detém, averiguar como chegou a ele, verificar o uso que dele faz, os meios de que se serve e os fins a que aponta. Se a democracia fosse, de facto, o que com autêntica ou fingida ingenuidade continuamos a dizer que é, o governo do povo pelo povo e para o povo, qualquer debate sobre a questão do poder perderia muito do seu sentido, uma vez que, residindo o poder no povo, era ao povo que competiria a administração dele, e, sendo o povo a administrar o poder, está claro que só o deveria fazer para seu próprio bem e para sua própria felicidade, pois a isso o estaria obrigando aquilo a que chamo, sem nenhuma pretensão de rigor conceptual, a lei da conservação da vida. Ora, só um espírito perverso, panglossiano até ao cinismo, ousaria apregoar a felicidade de um mundo que, pelo contrário, ninguém deveria pretender que o aceitemos tal qual é, só pelo facto de ser, supostamente, o melhor dos mundos possíveis. É a própria e concreta situação do mundo chamado democrático, que se é verdade serem os povos governados, verdade é também que não o são por si mesmos nem para si mesmos. Não é em democracia que vivemos, mas sim numa plutocracia que deixou de ser local e próxima para tornar-se universal e inacessível.
Por definição, o poder democrático terá de ser sempre provisório e conjuntural, dependerá da estabilidade do voto, da flutuação das ideologias ou dos interesses de classe, e, como tal, pode ser entendido como um barómetro orgânico que vai registando as variações da vontade política da sociedade. Mas, ontem como hoje, e hoje com uma amplitude cada vez maior, abundam os casos de mudanças políticas aparentemente radicais que tiveram como efeito radicais mudanças de governo, mas a que não se seguiram as mudanças económicas, culturais e sociais radicais que o resultado do sufrágio havia prometido. Dizer hoje governo “socialista”, ou “social-democrata”, ou “conservador”, ou “liberal”, e chamar-lhe poder, é pretender nomear algo que em realidade não está onde parece, mas em um outro inalcançável lugar — o do poder económico e financeiro cujos contornos podemos perceber em filigrana, mas que invariavelmente se nos escapa quando tentamos chegar-lhe mais perto e inevitavelmente contra-ataca se tivermos a veleidade de querer reduzir ou regular o seu domínio, subordinando-o ao interesse geral. Por outras e mais claras palavras, digo que os povos não elegeram os seus governos para que eles os “levassem” ao Mercado, mas que é o Mercado que condiciona por todos os modos os governos para que lhe “levem” os povos. E se falo assim do Mercado é porque é ele, hoje, e mais que nunca em cada dia que passa, o instrumento por excelência do autêntico, único e insofismável poder, o poder económico e financeiro mundial, esse que não é democrático porque não o elegeu o povo, que não é democrático porque não é regido pelo povo, que finalmente não é democrático porque não visa a felicidade do povo.
O nosso antepassado das cavernas diria: “É água”. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: “Sim, mas está contaminada”.
José Saramago, "O caderno"
O nosso antepassado das cavernas diria: “É água”. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: “Sim, mas está contaminada”.
José Saramago, "O caderno"
Elite não compra pão com o próprio suor
Não fui eu que escrevi isso primeiro, foi Machado de Assis, ou melhor, o Brás Cubas. "Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto."
Na divina comédia da burguesia à brasileira –rentista e pouco produtiva— que é Memórias Póstumas, Machado expõe as contradições do andar de cima da sociedade brasileira, de ideias liberais e renda escrava. Por isso, a atriz Fernanda Torres recomendou para que se entenda o Brasil a leitura do clássico machadiano combinada com a dos ensaios de Roberto Schwarz sobre Machado.
No campo da economia política, a ficção se torna tragédia. Na quarta-feira, a organização de direitos humanos Oxfam Brasil lançou um relatório que revela como vive o topo da pirâmide social do país. Intitulado "Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia", o documento traz importantes contribuições para o debate sobre desigualdade.
Quando se diz que a elite não compra pão com seu suor, trata-se de uma descrição factual: enquanto os mais pobres obtêm sua renda do trabalho –tributável, visível e regulada— os mais ricos obtêm de formas diversas de ganhos de capital –menos tributada e mais nebulosa. O 1% (renda mensal a partir de 34,7mil) no topo controla sozinho 37,3% de toda riqueza patrimonial declarada no país, metade dela do capital; enquanto a alíquota efetiva de imposto de renda do 0,01% (renda mensal a partir de R$ 855,5mil) mais rico é de 4,6%.
Poder econômico se reflete em poder político codificado –para usar um termo de Katharina Pistor— em formas jurídicas por meio de manobras legais para se blindar da tributação e permitir a sucessão patrimonial. A pesquisa da Oxfam mostra estas engrenagens da desigualdade, inclusive pela influência desproporcional sobre políticos e, portanto, sobre a produção e aplicação de leis.
Enquanto a periferia parcela o pão com seu suor e com juros –como lembra Kaué Lopes no livro "Parcelado"– o andar de cima come brioches com o trabalho alheio.
Na divina comédia da burguesia à brasileira –rentista e pouco produtiva— que é Memórias Póstumas, Machado expõe as contradições do andar de cima da sociedade brasileira, de ideias liberais e renda escrava. Por isso, a atriz Fernanda Torres recomendou para que se entenda o Brasil a leitura do clássico machadiano combinada com a dos ensaios de Roberto Schwarz sobre Machado.
No campo da economia política, a ficção se torna tragédia. Na quarta-feira, a organização de direitos humanos Oxfam Brasil lançou um relatório que revela como vive o topo da pirâmide social do país. Intitulado "Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia", o documento traz importantes contribuições para o debate sobre desigualdade.
Quando se diz que a elite não compra pão com seu suor, trata-se de uma descrição factual: enquanto os mais pobres obtêm sua renda do trabalho –tributável, visível e regulada— os mais ricos obtêm de formas diversas de ganhos de capital –menos tributada e mais nebulosa. O 1% (renda mensal a partir de 34,7mil) no topo controla sozinho 37,3% de toda riqueza patrimonial declarada no país, metade dela do capital; enquanto a alíquota efetiva de imposto de renda do 0,01% (renda mensal a partir de R$ 855,5mil) mais rico é de 4,6%.
Poder econômico se reflete em poder político codificado –para usar um termo de Katharina Pistor— em formas jurídicas por meio de manobras legais para se blindar da tributação e permitir a sucessão patrimonial. A pesquisa da Oxfam mostra estas engrenagens da desigualdade, inclusive pela influência desproporcional sobre políticos e, portanto, sobre a produção e aplicação de leis.
Enquanto a periferia parcela o pão com seu suor e com juros –como lembra Kaué Lopes no livro "Parcelado"– o andar de cima come brioches com o trabalho alheio.
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
A disputa pelo poder das big techs chega com tudo às eleições
A transformação política do Vale do Silício não pode mais ser vista como simples mudança de comportamento de alguns bilionários ou flerte com a extrema-direita americana. Por trás dessa aproximação existe uma disputa sobre quem terá o poder de definir os limites das empresas que controlam plataformas digitais, mecanismos de busca, publicidade, inteligência artificial e parte crescente da circulação de informação.
Enquanto parte da elite tecnológica defende menor interferência estatal e maior liberdade empresarial, órgãos públicos continuam travando batalhas antitruste contra gigantes do setor. A inteligência artificial ampliou a queda de braços. O controle sobre grandes modelos, chips, centros de processamento e serviços de nuvem determinará quem terá capacidade de desenvolver as próximas gerações tecnológicas. O debate deixou de ser sobre redes sociais e comércio eletrônico apenas. O busílis é a infraestrutura sobre a qual empresas, governos e cidadãos construirão seus sistemas digitais.

Isso tem tudo a ver com a mudança de paradigma d do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na geopolítica mundial. Os Estados Unidos pressionam a União Europeia contra a adoção de regras digitais. A regulação das big techs tornou-se também uma disputa sobre soberania, comércio internacional e poder tecnológico. mÉ disso que trata o livro mais recente do jornalista americano Gil Durán, The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy, lançado em 18 de agosto passado. A obra investiga a ascensão do autoritarismo tecnológico e a influência de bilionários do Vale do Silício — como Peter Thiel — nas instituições democráticas e na política atual.
Magnatas ou apóstolos modernos do Vale do Silício citados por Durán lideram a extrema-direita tecnológica. O que chama de Nerd Reich é encabeçado por figuras proeminentes da tecnologia, como Peter Thiel (PayPal), Elon Musk (Space X, TeslaX), Marc Andreessen (Andreessen Horowitz e Substack) e Balaji Srinivasan (Network School / Network State e Coinbase). Essas empresas são usadas para financiar campanhas políticas e o conceito de “Network State” (Estado em Rede) de Balaji pretende substituir os países tradicionais.
A tese central de Gil Durán sobre a nova ordem é a seguinte: parte da elite tecnológica americana passou a questionar os limites impostos pela Estado e pretende ir além da democracia liberal,, não se trata mais das velhas disputas entre democratas e republicanos. Qual deve ser o limite do poder privado na democracia representativa quando uma empresa controla a infraestrutura essencial à vida econômica, social e política? Eis a questão.
As plataformas digitais não vendem apenas produtos. Determinam quais conteúdos circulam mais, quais anúncios alcançam determinados públicos e quais informações aparecem primeiro. A tecnologia não precisa escolher um candidato para produzir efeitos políticos. Basta alterar a arquitetura de circulação das mensagens. É justamente aí que o problema passou a ser uma variável das eleições deste ano.
O Brasil chega às eleições de 2026 com experiência acumulada em campanhas digitais, desinformação, disparos em massa, manipulação de imagens e vídeos e uso político das redes sociais. O Tribunal Superior Eleitoral reconhece que o ambiente digital se tornou central para a formação da opinião pública e aprovou novas regras para o pleito, incluindo medidas específicas sobre inteligência artificial, porém não se sabe exatamente o que vai acontecer.
As normas estabelecem restrições à circulação de determinados conteúdos sintéticos e regras para a atuação das plataformas. O TSE também determinou que sistemas de inteligência artificial não devem recomendar candidaturas, para evitar interferência algorítmica na decisão do eleitor. A Corte ampliou ainda acordos com empresas digitais para enfrentar conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados e proteger a integridade eleitoral.
Meta, TikTok, Kwai, LinkedIn e outras plataformas firmaram acordos com a Justiça Eleitoral brasileira para ampliar canais de denúncia, cooperação e transparência. No caso da publicidade política, mecanismos permitem acompanhar informações sobre anúncios, anunciantes e gastos. A questão, porém, não está restrita à produção de notícias falsas. Envolve também a capacidade das plataformas de determinar a velocidade, a amplitude e o público de determinadas mensagens.
Hoje, a inteligência artificial pode reduzir drasticamente o custo de uma operação de desinformação. Uma campanha pode produzir milhares de vídeos falsos em poucas horas, adaptando imagens, vozes e narrativas a regiões, grupos sociais e perfis distintos. O risco eleitoral, portanto, não está apenas na mentira tradicional, mas na possibilidade de industrialização da persuasão política.
Quanto maior o poder das plataformas, maior a importância de suas decisões sobre o que circula na sociedade. Uma rede social pode modificar políticas de moderação; uma plataforma de vídeos pode alterar recomendações; um mecanismo de busca pode mudar a apresentação dos resultados; e uma empresa de IA pode estabelecer filtros e restrições para milhões de usuários. São decisões privadas com consequências públicas.
O Brasil possui instituições eleitorais experientes, mas não controla a infraestrutura tecnológica. Grande parte das plataformas utilizadas pelos brasileiros é comandada por empresas estrangeiras, cujos algoritmos, decisões corporativas e políticas podem ser definidas fora do país. A campanha eleitoral, entretanto, acontece dentro dessas plataformas. Esse descompasso cria uma zona de vulnerabilidade.
Isso não significa afirmar que alguma big tech esteja planejando interferir nas eleições brasileiras de 2026 em favor de determinada candidatura. Não há evidência para essa conclusão. Existe, porém, uma preocupação legítima com a possibilidade de influência indevida em eleições nas quais plataformas, inteligência artificial e publicidade segmentada possuem capacidade inédita de alcançar eleitores.
Enquanto parte da elite tecnológica defende menor interferência estatal e maior liberdade empresarial, órgãos públicos continuam travando batalhas antitruste contra gigantes do setor. A inteligência artificial ampliou a queda de braços. O controle sobre grandes modelos, chips, centros de processamento e serviços de nuvem determinará quem terá capacidade de desenvolver as próximas gerações tecnológicas. O debate deixou de ser sobre redes sociais e comércio eletrônico apenas. O busílis é a infraestrutura sobre a qual empresas, governos e cidadãos construirão seus sistemas digitais.
Isso tem tudo a ver com a mudança de paradigma d do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na geopolítica mundial. Os Estados Unidos pressionam a União Europeia contra a adoção de regras digitais. A regulação das big techs tornou-se também uma disputa sobre soberania, comércio internacional e poder tecnológico. mÉ disso que trata o livro mais recente do jornalista americano Gil Durán, The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy, lançado em 18 de agosto passado. A obra investiga a ascensão do autoritarismo tecnológico e a influência de bilionários do Vale do Silício — como Peter Thiel — nas instituições democráticas e na política atual.
Magnatas ou apóstolos modernos do Vale do Silício citados por Durán lideram a extrema-direita tecnológica. O que chama de Nerd Reich é encabeçado por figuras proeminentes da tecnologia, como Peter Thiel (PayPal), Elon Musk (Space X, TeslaX), Marc Andreessen (Andreessen Horowitz e Substack) e Balaji Srinivasan (Network School / Network State e Coinbase). Essas empresas são usadas para financiar campanhas políticas e o conceito de “Network State” (Estado em Rede) de Balaji pretende substituir os países tradicionais.
A tese central de Gil Durán sobre a nova ordem é a seguinte: parte da elite tecnológica americana passou a questionar os limites impostos pela Estado e pretende ir além da democracia liberal,, não se trata mais das velhas disputas entre democratas e republicanos. Qual deve ser o limite do poder privado na democracia representativa quando uma empresa controla a infraestrutura essencial à vida econômica, social e política? Eis a questão.
As plataformas digitais não vendem apenas produtos. Determinam quais conteúdos circulam mais, quais anúncios alcançam determinados públicos e quais informações aparecem primeiro. A tecnologia não precisa escolher um candidato para produzir efeitos políticos. Basta alterar a arquitetura de circulação das mensagens. É justamente aí que o problema passou a ser uma variável das eleições deste ano.
O Brasil chega às eleições de 2026 com experiência acumulada em campanhas digitais, desinformação, disparos em massa, manipulação de imagens e vídeos e uso político das redes sociais. O Tribunal Superior Eleitoral reconhece que o ambiente digital se tornou central para a formação da opinião pública e aprovou novas regras para o pleito, incluindo medidas específicas sobre inteligência artificial, porém não se sabe exatamente o que vai acontecer.
As normas estabelecem restrições à circulação de determinados conteúdos sintéticos e regras para a atuação das plataformas. O TSE também determinou que sistemas de inteligência artificial não devem recomendar candidaturas, para evitar interferência algorítmica na decisão do eleitor. A Corte ampliou ainda acordos com empresas digitais para enfrentar conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados e proteger a integridade eleitoral.
Meta, TikTok, Kwai, LinkedIn e outras plataformas firmaram acordos com a Justiça Eleitoral brasileira para ampliar canais de denúncia, cooperação e transparência. No caso da publicidade política, mecanismos permitem acompanhar informações sobre anúncios, anunciantes e gastos. A questão, porém, não está restrita à produção de notícias falsas. Envolve também a capacidade das plataformas de determinar a velocidade, a amplitude e o público de determinadas mensagens.
Hoje, a inteligência artificial pode reduzir drasticamente o custo de uma operação de desinformação. Uma campanha pode produzir milhares de vídeos falsos em poucas horas, adaptando imagens, vozes e narrativas a regiões, grupos sociais e perfis distintos. O risco eleitoral, portanto, não está apenas na mentira tradicional, mas na possibilidade de industrialização da persuasão política.
Quanto maior o poder das plataformas, maior a importância de suas decisões sobre o que circula na sociedade. Uma rede social pode modificar políticas de moderação; uma plataforma de vídeos pode alterar recomendações; um mecanismo de busca pode mudar a apresentação dos resultados; e uma empresa de IA pode estabelecer filtros e restrições para milhões de usuários. São decisões privadas com consequências públicas.
O Brasil possui instituições eleitorais experientes, mas não controla a infraestrutura tecnológica. Grande parte das plataformas utilizadas pelos brasileiros é comandada por empresas estrangeiras, cujos algoritmos, decisões corporativas e políticas podem ser definidas fora do país. A campanha eleitoral, entretanto, acontece dentro dessas plataformas. Esse descompasso cria uma zona de vulnerabilidade.
Isso não significa afirmar que alguma big tech esteja planejando interferir nas eleições brasileiras de 2026 em favor de determinada candidatura. Não há evidência para essa conclusão. Existe, porém, uma preocupação legítima com a possibilidade de influência indevida em eleições nas quais plataformas, inteligência artificial e publicidade segmentada possuem capacidade inédita de alcançar eleitores.
O voto latino-americano: ideológico ou pragmático?
Da direita para a esquerda, e vice-versa, o pêndulo oscila nas eleições latino-americanas , e desta vez de forma marcante . Em contraste com a recente onda rosa de governos progressistas de esquerda, agora é a vez da onda conservadora de direita , que se consolida graças às recentes vitórias no Equador, Chile, Bolívia, Peru e Colômbia.
"É um pêndulo, mas também um pêndulo anti-establishment , porque as antigas receitas que haviam sido dadas já não funcionam para o eleitorado, que busca novas alternativas fora do que está estabelecido", disse à DW Javiera Arce, pesquisadora do Centro de Estudos de Gestão Pública da Universidade de Valparaíso, no Chile.
"Algumas análises mostram que a mudança foi o fator determinante nos votos em muitas das eleições dos últimos anos na América Latina. Às vezes, quando surgem opções autoritárias ou reacionárias, isso tem mais a ver com a busca por mudanças em relação ao que existia antes do que com uma adesão programática à extrema direita", disse Pablo Vommaro, diretor executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).
Na opinião de Arce, os partidos políticos tornaram-se "menos guiados por ideologia e mais pragmáticos, baseados em um consenso centrista". Como resultado, as disputas ideológicas diminuíram e os partidos se concentraram em novas causas. "Eles entram em conflito por questões mais secundárias e demandas mais imediatas, pequenas e específicas", acrescenta o doutor em Ciência Política, que acredita que a conexão do público com os partidos enfraqueceu: "Parece que eles não conseguem mais canalizar os afetos do público de forma eficaz. Portanto, temos visto um ressurgimento de antigas demandas materiais, como segurança cidadã e segurança econômica."
Segundo Hans-Jürgen Burchardt, a duração das oscilações do pêndulo é variável, e não sabemos quanto tempo elas podem durar a médio e longo prazo. "Devemos reconhecer, por um lado, que o centro progressista não cumpriu sua promessa mais importante, que era a redistribuição, não apenas por razões de justiça social, mas também para tornar os países mais produtivos e, por meio disso, melhorar as condições de vida e de trabalho. Isso representou uma grande decepção para esses governos, e a direita, por vezes, aproveitou-se disso", observa o professor de Relações Internacionais da Universidade de Kassel.
Por outro lado, ele cita o exemplo da última eleição no Chile. O debate centrou-se na segurança, um tema muito presente nos meios de comunicação, embora o nível de alarme não corresponda às estatísticas. Tal como a migração, a insegurança é um tema priorizado pela direita, em detrimento de preocupações como a saúde, a educação ou as pensões.
Embora as disputas sobre agendas materiais persistam em alguns países, como trabalho, moradia ou saúde – na eleição de Milei na Argentina, por exemplo, foi a inflação ou o valor do dólar – “a disputa situada no terreno das subjetividades, do afetivo, do emocional e dos gostos ganhou maior importância e mais espaço na definição das disputas eleitorais nos últimos anos”, explica Vommaro.
"Há uma luta em torno do significado, que até mesmo alguns grupos de extrema-direita enquadram como uma guerra cultural", observa o professor e pesquisador da Universidade de Buenos Aires (UBA). Isso influencia a formação da subjetividade dos eleitores e está ligado ao sentimento predominante de descontentamento nesses contextos. Na batalha para influenciar as percepções, o mundo digital e as mídias sociais desempenham um papel significativo, assim como a estratégia de desinformação, notícias falsas e conteúdo gerado por inteligência artificial com base em dados inverídicos.
"Essa situação é agravada pela crescente incerteza em que vivemos, um mundo onde nada parece certo, onde tudo pode ser abalado, de terremotos a pandemias e guerras. A incerteza sobre o futuro é muito forte entre as gerações mais jovens. Ela também contribui para que a dimensão afetiva assuma uma importância maior do que nas décadas anteriores", explica o diretor executivo da CLACSO.
Burchardt, por sua vez, destaca que "nenhum político tem as respostas, e a direita também não, mas consegue capitalizar em cima do medo, embora a questão da segurança não possa ser resolvida com o aumento da repressão policial ou militar. Outras respostas são necessárias."
A este respeito, a diretora do centro de pesquisa Käte Hamburger Kolleg, da Universidade de Kassel, aponta diferenças entre os países: a Argentina é altamente dependente do FMI e de empréstimos, e, diante da ameaça de falta de apoio de Trump , parte da população decidiu votar em Milei. Já no Brasil, Lula assumiu uma postura clara de defesa da autonomia brasileira e ganhou popularidade.
Ao observar os altos e baixos recentes das eleições latino-americanas, parece que os eleitores não são mais fiéis a uma única tendência política, mas sim guiados por outros interesses. "Eles sentem que a política não tem sido fiel a eles e às suas demandas, então ajustam suas preferências, maximizando suas opções", afirma Arce.
Segundo Vommaro, "hoje, o voto é definido menos por ideologia, adesão a um programa ou lealdade partidária, e é decidido mais por condições materiais e subjetivas imediatas. O voto é mais pragmático no sentido de ser mais contingente, menos fiel a certas opções. Há também votos de lealdade, claro, mas eles estão se tornando cada vez mais diluídos."
Ao mesmo tempo, "é mais emocional, afetivo e ligado a outras afinidades que não têm a ver diretamente com uma adesão programática ou ideológica, mas com sensações e percepções, muitas vezes bastante negativas, ou seja, de desconforto, desilusão e desencanto. E então surge uma busca por mudança", afirma o acadêmico da UBA.
"Poderíamos dizer que eles votam contra algo: por exemplo, no Chile, contra o fascismo de Kast em 2021, ou contra o comunismo de Jeannette Jara em 2025, ou recentemente na Colômbia, ou o voto antiperonista com Milei em 2023."
Nesse sentido, Burchardt observa que na Argentina "o último governo de Alberto Fernández foi uma decepção para grande parte da população. Não só gerou alta inflação, como também aumentou o desemprego entre os jovens, que se sentiram mais desiludidos com o governo progressista do que com as próprias ideias e objetivos da direita."
Nesse panorama, a questão é se a era das ideologias já passou. Arce esclarece: "Eu não falaria em pós-ideologia. Esses movimentos de direita que temos são extremamente ideológicos. Estamos vivenciando uma luta brutal por ideologia, e é um tipo de ideologia completamente diferente."
Por sua vez, Burchardt acredita que isso aconteceu "até certo ponto". "Se estivermos falando da esquerda ou dos partidos progressistas, eles carecem de uma narrativa que prometa um futuro melhor, e se os políticos não têm nada a oferecer, significa que estamos diante de uma desideologização, não como um processo de nova política, mas sim como uma incapacidade de criar uma narrativa." Ele também acredita que a direita tem a capacidade de "canalizar e capitalizar o medo do público, e é isso que ela faz ao vencer eleições, mesmo sem ter respostas para nada. E isso não é ideologização."
“Não sei se a ideologia se tornou coisa do passado, porque mesmo dentro dos discursos dominantes, a ideologia ressurge quando as pessoas são rotuladas de ‘comunistas’ ou ‘socialistas’, ou, há alguns anos, de ‘castroístas’ ou ‘chavistas’, ou quando certos países, como Cuba ou Venezuela, são apresentados como exemplos negativos, ‘bicho-papão’ e a causa de todos os males. Esses discursos são fortemente ideológicos”, alerta Vommaro. No entanto, ele reitera que as ideologias e as lealdades programáticas perderam peso específico na arena política, enquanto as lealdades afetivas, emocionais e mais subjetivas estão crescendo.
"É um pêndulo, mas também um pêndulo anti-establishment , porque as antigas receitas que haviam sido dadas já não funcionam para o eleitorado, que busca novas alternativas fora do que está estabelecido", disse à DW Javiera Arce, pesquisadora do Centro de Estudos de Gestão Pública da Universidade de Valparaíso, no Chile.
"Algumas análises mostram que a mudança foi o fator determinante nos votos em muitas das eleições dos últimos anos na América Latina. Às vezes, quando surgem opções autoritárias ou reacionárias, isso tem mais a ver com a busca por mudanças em relação ao que existia antes do que com uma adesão programática à extrema direita", disse Pablo Vommaro, diretor executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).
Nenhum político tem as respostas, e a direita também não, mas consegue capitalizar em cima do medo, embora a questão da segurança não possa ser resolvida com o aumento da repressão policial ou militar
Na opinião de Arce, os partidos políticos tornaram-se "menos guiados por ideologia e mais pragmáticos, baseados em um consenso centrista". Como resultado, as disputas ideológicas diminuíram e os partidos se concentraram em novas causas. "Eles entram em conflito por questões mais secundárias e demandas mais imediatas, pequenas e específicas", acrescenta o doutor em Ciência Política, que acredita que a conexão do público com os partidos enfraqueceu: "Parece que eles não conseguem mais canalizar os afetos do público de forma eficaz. Portanto, temos visto um ressurgimento de antigas demandas materiais, como segurança cidadã e segurança econômica."
Segundo Hans-Jürgen Burchardt, a duração das oscilações do pêndulo é variável, e não sabemos quanto tempo elas podem durar a médio e longo prazo. "Devemos reconhecer, por um lado, que o centro progressista não cumpriu sua promessa mais importante, que era a redistribuição, não apenas por razões de justiça social, mas também para tornar os países mais produtivos e, por meio disso, melhorar as condições de vida e de trabalho. Isso representou uma grande decepção para esses governos, e a direita, por vezes, aproveitou-se disso", observa o professor de Relações Internacionais da Universidade de Kassel.
Por outro lado, ele cita o exemplo da última eleição no Chile. O debate centrou-se na segurança, um tema muito presente nos meios de comunicação, embora o nível de alarme não corresponda às estatísticas. Tal como a migração, a insegurança é um tema priorizado pela direita, em detrimento de preocupações como a saúde, a educação ou as pensões.
Embora as disputas sobre agendas materiais persistam em alguns países, como trabalho, moradia ou saúde – na eleição de Milei na Argentina, por exemplo, foi a inflação ou o valor do dólar – “a disputa situada no terreno das subjetividades, do afetivo, do emocional e dos gostos ganhou maior importância e mais espaço na definição das disputas eleitorais nos últimos anos”, explica Vommaro.
"Há uma luta em torno do significado, que até mesmo alguns grupos de extrema-direita enquadram como uma guerra cultural", observa o professor e pesquisador da Universidade de Buenos Aires (UBA). Isso influencia a formação da subjetividade dos eleitores e está ligado ao sentimento predominante de descontentamento nesses contextos. Na batalha para influenciar as percepções, o mundo digital e as mídias sociais desempenham um papel significativo, assim como a estratégia de desinformação, notícias falsas e conteúdo gerado por inteligência artificial com base em dados inverídicos.
"Essa situação é agravada pela crescente incerteza em que vivemos, um mundo onde nada parece certo, onde tudo pode ser abalado, de terremotos a pandemias e guerras. A incerteza sobre o futuro é muito forte entre as gerações mais jovens. Ela também contribui para que a dimensão afetiva assuma uma importância maior do que nas décadas anteriores", explica o diretor executivo da CLACSO.
Burchardt, por sua vez, destaca que "nenhum político tem as respostas, e a direita também não, mas consegue capitalizar em cima do medo, embora a questão da segurança não possa ser resolvida com o aumento da repressão policial ou militar. Outras respostas são necessárias."
A este respeito, a diretora do centro de pesquisa Käte Hamburger Kolleg, da Universidade de Kassel, aponta diferenças entre os países: a Argentina é altamente dependente do FMI e de empréstimos, e, diante da ameaça de falta de apoio de Trump , parte da população decidiu votar em Milei. Já no Brasil, Lula assumiu uma postura clara de defesa da autonomia brasileira e ganhou popularidade.
Ao observar os altos e baixos recentes das eleições latino-americanas, parece que os eleitores não são mais fiéis a uma única tendência política, mas sim guiados por outros interesses. "Eles sentem que a política não tem sido fiel a eles e às suas demandas, então ajustam suas preferências, maximizando suas opções", afirma Arce.
Segundo Vommaro, "hoje, o voto é definido menos por ideologia, adesão a um programa ou lealdade partidária, e é decidido mais por condições materiais e subjetivas imediatas. O voto é mais pragmático no sentido de ser mais contingente, menos fiel a certas opções. Há também votos de lealdade, claro, mas eles estão se tornando cada vez mais diluídos."
Ao mesmo tempo, "é mais emocional, afetivo e ligado a outras afinidades que não têm a ver diretamente com uma adesão programática ou ideológica, mas com sensações e percepções, muitas vezes bastante negativas, ou seja, de desconforto, desilusão e desencanto. E então surge uma busca por mudança", afirma o acadêmico da UBA.
"Poderíamos dizer que eles votam contra algo: por exemplo, no Chile, contra o fascismo de Kast em 2021, ou contra o comunismo de Jeannette Jara em 2025, ou recentemente na Colômbia, ou o voto antiperonista com Milei em 2023."
Nesse sentido, Burchardt observa que na Argentina "o último governo de Alberto Fernández foi uma decepção para grande parte da população. Não só gerou alta inflação, como também aumentou o desemprego entre os jovens, que se sentiram mais desiludidos com o governo progressista do que com as próprias ideias e objetivos da direita."
Nesse panorama, a questão é se a era das ideologias já passou. Arce esclarece: "Eu não falaria em pós-ideologia. Esses movimentos de direita que temos são extremamente ideológicos. Estamos vivenciando uma luta brutal por ideologia, e é um tipo de ideologia completamente diferente."
Por sua vez, Burchardt acredita que isso aconteceu "até certo ponto". "Se estivermos falando da esquerda ou dos partidos progressistas, eles carecem de uma narrativa que prometa um futuro melhor, e se os políticos não têm nada a oferecer, significa que estamos diante de uma desideologização, não como um processo de nova política, mas sim como uma incapacidade de criar uma narrativa." Ele também acredita que a direita tem a capacidade de "canalizar e capitalizar o medo do público, e é isso que ela faz ao vencer eleições, mesmo sem ter respostas para nada. E isso não é ideologização."
“Não sei se a ideologia se tornou coisa do passado, porque mesmo dentro dos discursos dominantes, a ideologia ressurge quando as pessoas são rotuladas de ‘comunistas’ ou ‘socialistas’, ou, há alguns anos, de ‘castroístas’ ou ‘chavistas’, ou quando certos países, como Cuba ou Venezuela, são apresentados como exemplos negativos, ‘bicho-papão’ e a causa de todos os males. Esses discursos são fortemente ideológicos”, alerta Vommaro. No entanto, ele reitera que as ideologias e as lealdades programáticas perderam peso específico na arena política, enquanto as lealdades afetivas, emocionais e mais subjetivas estão crescendo.
Flávio silencia sobre R$ 61 milhões e desvia foco para Lulinha
Não perguntem a Flávio Bolsonaro sobre quando ele dará as explicações prometidas sobre onde foram parar os 61 milhões de reais doados, a seu pedido, por Daniel Vorcaro, ex-dono do extinto Banco Master, para o financiamento do filme de exaltação ao seu pai. Também não perguntem sobre a data de estreia do filme, a princípio marcada para o próximo dia 11 de setembro. A data foi adiada. Coincidiria com a passagem de mais um aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, mas não foi por isso.
Está prestes a completar 100 dias a promessa feita por Flávio de explicar, num prazo de 30 dias, o destino dado ao dinheiro. Ontem, em São Paulo, perguntado a respeito, ele respondeu que o assunto “é página virada” e sugeriu aos jornalistas que fossem indagar a Lula sobre a ligação do seu filho Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, com a lobista Roberta Luchsinger, suspeita de tentar fazer negócios espúrios com o governo.
Curioso é que até aqui não se comprovou o fechamento de qualquer negócio investigado pela Polícia Federal (PF). Por sinal, a Procuradoria-Geral da República, em manifestação enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que a atuação da lobista Roberta e de Lulinha para favorecer os interesses de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, não resultou em fechamento de negócios com o poder público.
“Embora tenham sido identificados pagamentos feitos por Camilo Antunes a Roberta Luchsinger, a representação [da PF] não menciona a conclusão de nenhum negócio entre o empresário e o Poder Público, que pudesse sugerir o efetivo atendimento às pretensões que o grupo se propôs a agenciar”, afirma o texto da PGR.
Se dependesse da Procuradoria, a quem cabe oferecer denúncia, o inquérito aberto pela PF deveria ser enviado à primeira instância da Justiça, uma vez que não há ninguém com foro privilegiado envolvido no caso. Isso não justifica sua permanência no STF sob a relatoria do ministro “terrivelmente evangélico” André Mendonça, nomeado para o tribunal pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mas imagine só se Mendonça concordará com isso. Nem morto. Nas mãos dele está o inquérito e ali ficará até quando o ministro quiser. As eleições ocorrerão à sombra de um inquérito que corre sob segredo de Justiça. Nem os advogados dos suspeitos podem acessá-lo.
Está prestes a completar 100 dias a promessa feita por Flávio de explicar, num prazo de 30 dias, o destino dado ao dinheiro. Ontem, em São Paulo, perguntado a respeito, ele respondeu que o assunto “é página virada” e sugeriu aos jornalistas que fossem indagar a Lula sobre a ligação do seu filho Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, com a lobista Roberta Luchsinger, suspeita de tentar fazer negócios espúrios com o governo.
Curioso é que até aqui não se comprovou o fechamento de qualquer negócio investigado pela Polícia Federal (PF). Por sinal, a Procuradoria-Geral da República, em manifestação enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que a atuação da lobista Roberta e de Lulinha para favorecer os interesses de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, não resultou em fechamento de negócios com o poder público.
“Embora tenham sido identificados pagamentos feitos por Camilo Antunes a Roberta Luchsinger, a representação [da PF] não menciona a conclusão de nenhum negócio entre o empresário e o Poder Público, que pudesse sugerir o efetivo atendimento às pretensões que o grupo se propôs a agenciar”, afirma o texto da PGR.
Se dependesse da Procuradoria, a quem cabe oferecer denúncia, o inquérito aberto pela PF deveria ser enviado à primeira instância da Justiça, uma vez que não há ninguém com foro privilegiado envolvido no caso. Isso não justifica sua permanência no STF sob a relatoria do ministro “terrivelmente evangélico” André Mendonça, nomeado para o tribunal pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mas imagine só se Mendonça concordará com isso. Nem morto. Nas mãos dele está o inquérito e ali ficará até quando o ministro quiser. As eleições ocorrerão à sombra de um inquérito que corre sob segredo de Justiça. Nem os advogados dos suspeitos podem acessá-lo.
Coronelismo, emenda e voto
Em 1949, Victor Nunes Leal publicou uma obra fundamental da ciência política brasileira: Coronelismo, enxada e voto.O livro tornou-se referência para compreender o poder na República Velha e as relações entre Estado, elites rurais e eleitorado. Passadas mais de sete décadas, sua atualidade decorre da sobrevivência da lógica de apropriação do poder que descreveu. A enxada perdeu protagonismo; as emendas parlamentares ganharam posição estratégica. Viveria o Brasil um novo ciclo de neocoronelismo, emenda e voto?
Victor Nunes Leal demonstrou que o coronelismo era uma rede de reciprocidades entre o poder local e o poder central. Os coronéis entregavam votos e sustentação política; em troca, recebiam prestígio, favores administrativos, influência e autonomia para controlar seus redutos. O eleitor, frequentemente dependente do chefe político, ocupava posição subordinada. O traço essencial daquele sistema era a confusão entre a res publica e a res privada.
A urbanização, o sufrágio e a Constituição de 1988 desmontaram esse universo rural. O velho coronel perdeu espaço, mas a intermediação política não desapareceu. Apenas se transformou.
O novo personagem já não precisa controlar grandes fazendas. Seu domínio é predominantemente urbano, e seu poder decorre da capacidade de influenciar a destinação de recursos públicos, organizar redes políticas e distribuir benefícios por meio da máquina estatal. Se antes o instrumento de poder era a propriedade da terra, hoje ele pode ser o controle de parcelas expressivas do orçamento público.
As emendas parlamentares são instrumentos legítimos do Legislativo. Em milhares de municípios, elas financiam hospitais, ambulâncias, escolas, pavimentação e outras demandas. Podem fortalecer o federalismo, reduzir desigualdades e aproximar o Estado da população. O problema não está em sua existência, mas na forma como elas são utilizadas.
Quando a emenda deixa de obedecer a prioridades públicas e se converte em mecanismo de construção de bases eleitorais, instala-se uma nova relação de dependência. A obra deixa de ser percebida como resultado dos impostos e da ação institucional do Estado, passando a ser apresentada como dádiva do parlamentar. O Orçamento transforma-se em patrimônio político: capital eleitoral financiado com dinheiro público.
Nesse ponto, a analogia com Victor Nunes Leal ganha força. O coronel de ontem distribuía favores e proteção; o neocoronel distribui recursos orçamentários. Mudam os instrumentos, mas permanece a tentativa de construir vínculos duradouros de lealdade política.
Assim, a antiga fórmula Coronelismo, enxada e voto encontra correspondência em neocoronelismo, emenda e voto. A enxada foi substituída pelo Orçamento; a propriedade rural, pelo domínio sobre verbas públicas. O velho curral eleitoral reaparece sob formas mais sofisticadas, articulando parlamentares, prefeitos, vereadores, lideranças de bairros, organizações sociais e estruturas partidárias. Forma-se uma cadeia de reciprocidades na qual recursos descem e votos sobem.
Esse fenômeno revela uma constante da cultura política brasileira: a tensão entre o interesse público e os interesses privados. O Orçamento, que deveria refletir critérios técnicos, planejamento e necessidades coletivas, pode converter-se em instrumento de fortalecimento de projetos individuais. A obra necessária cede lugar à obra eleitoralmente rentável.
A democracia brasileira é hoje muito mais plural do que aquela estudada por Victor Nunes Leal. As eleições são competitivas, a imprensa fiscaliza, os órgãos de controle ampliaram sua atuação e a sociedade civil dispõe de novos instrumentos. Ainda assim, persistem incentivos para transformar recursos públicos em ativos eleitorais.
Os coronéis da República Velha distinguiam-se pelo domínio da terra. Os novos destacam-se pela capacidade de comandar fluxos orçamentários, influenciar investimentos e consolidar redes de clientelismo. A força da terra foi substituída pela força do Orçamento. O coronelismo não acabou; metamorfoseouse e adaptou-se às cidades, à democracia e ao moderno sistema orçamentário.
O grande desafio do Brasil é impedir que instrumentos legítimos da representação política sejam capturados pela lógica patrimonialista. Sempre que parcelas do Estado forem tratadas como propriedade de grupos que temporariamente o controlam, renascerá a velha confusão entre o interesse público e os interesses privados.
Victor Nunes Leal ensinou que o coronelismo era menos uma figura histórica do que um modo de exercer o poder. A tarefa do século 21 é impedir que novas formas de concentração política convertam novamente a res publica em extensão da res privata. Neocoronelismo, emenda e voto oferece uma chave para interpretar tensões da democracia brasileira e reforça a necessidade de transparência, planejamento e compromisso com o interesse coletivo.
Victor Nunes Leal demonstrou que o coronelismo era uma rede de reciprocidades entre o poder local e o poder central. Os coronéis entregavam votos e sustentação política; em troca, recebiam prestígio, favores administrativos, influência e autonomia para controlar seus redutos. O eleitor, frequentemente dependente do chefe político, ocupava posição subordinada. O traço essencial daquele sistema era a confusão entre a res publica e a res privada.
A urbanização, o sufrágio e a Constituição de 1988 desmontaram esse universo rural. O velho coronel perdeu espaço, mas a intermediação política não desapareceu. Apenas se transformou.
O novo personagem já não precisa controlar grandes fazendas. Seu domínio é predominantemente urbano, e seu poder decorre da capacidade de influenciar a destinação de recursos públicos, organizar redes políticas e distribuir benefícios por meio da máquina estatal. Se antes o instrumento de poder era a propriedade da terra, hoje ele pode ser o controle de parcelas expressivas do orçamento público.
As emendas parlamentares são instrumentos legítimos do Legislativo. Em milhares de municípios, elas financiam hospitais, ambulâncias, escolas, pavimentação e outras demandas. Podem fortalecer o federalismo, reduzir desigualdades e aproximar o Estado da população. O problema não está em sua existência, mas na forma como elas são utilizadas.
Quando a emenda deixa de obedecer a prioridades públicas e se converte em mecanismo de construção de bases eleitorais, instala-se uma nova relação de dependência. A obra deixa de ser percebida como resultado dos impostos e da ação institucional do Estado, passando a ser apresentada como dádiva do parlamentar. O Orçamento transforma-se em patrimônio político: capital eleitoral financiado com dinheiro público.
Nesse ponto, a analogia com Victor Nunes Leal ganha força. O coronel de ontem distribuía favores e proteção; o neocoronel distribui recursos orçamentários. Mudam os instrumentos, mas permanece a tentativa de construir vínculos duradouros de lealdade política.
Assim, a antiga fórmula Coronelismo, enxada e voto encontra correspondência em neocoronelismo, emenda e voto. A enxada foi substituída pelo Orçamento; a propriedade rural, pelo domínio sobre verbas públicas. O velho curral eleitoral reaparece sob formas mais sofisticadas, articulando parlamentares, prefeitos, vereadores, lideranças de bairros, organizações sociais e estruturas partidárias. Forma-se uma cadeia de reciprocidades na qual recursos descem e votos sobem.
Esse fenômeno revela uma constante da cultura política brasileira: a tensão entre o interesse público e os interesses privados. O Orçamento, que deveria refletir critérios técnicos, planejamento e necessidades coletivas, pode converter-se em instrumento de fortalecimento de projetos individuais. A obra necessária cede lugar à obra eleitoralmente rentável.
A democracia brasileira é hoje muito mais plural do que aquela estudada por Victor Nunes Leal. As eleições são competitivas, a imprensa fiscaliza, os órgãos de controle ampliaram sua atuação e a sociedade civil dispõe de novos instrumentos. Ainda assim, persistem incentivos para transformar recursos públicos em ativos eleitorais.
Os coronéis da República Velha distinguiam-se pelo domínio da terra. Os novos destacam-se pela capacidade de comandar fluxos orçamentários, influenciar investimentos e consolidar redes de clientelismo. A força da terra foi substituída pela força do Orçamento. O coronelismo não acabou; metamorfoseouse e adaptou-se às cidades, à democracia e ao moderno sistema orçamentário.
O grande desafio do Brasil é impedir que instrumentos legítimos da representação política sejam capturados pela lógica patrimonialista. Sempre que parcelas do Estado forem tratadas como propriedade de grupos que temporariamente o controlam, renascerá a velha confusão entre o interesse público e os interesses privados.
Victor Nunes Leal ensinou que o coronelismo era menos uma figura histórica do que um modo de exercer o poder. A tarefa do século 21 é impedir que novas formas de concentração política convertam novamente a res publica em extensão da res privata. Neocoronelismo, emenda e voto oferece uma chave para interpretar tensões da democracia brasileira e reforça a necessidade de transparência, planejamento e compromisso com o interesse coletivo.
Os Bolsonaros são diferentes, você sabe
Flávio Bolsonaro disse em Copacabana, no domingo, que o Brasil "olha com nojo para Brasília". O que Brasília terá achado disso? Ele estava se referindo aos políticos. Os Bolsonaros são diferentes, você sabe. Não são políticos. O sistema é "podre". Eles são "antissistema". Mas vejamos o que cada um fez ou faz na vida.
1 - Jair Bolsonaro. Sete mandatos como deputado federal (1990, 94, 98, 2002, 06, 10 e 14). Presidente eleito em 2018, derrotado em 2022. Atual presidiário condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado.
1 - Jair Bolsonaro. Sete mandatos como deputado federal (1990, 94, 98, 2002, 06, 10 e 14). Presidente eleito em 2018, derrotado em 2022. Atual presidiário condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado.
2 - Flávio Bolsonaro. Filho 01 de Bolsonaro. Quatro mandatos como deputado estadual pelo Rio (2002, 06, 10 e 14). Atual senador e candidato à Presidência da República.
3 - Carlos Bolsonaro. Filho 02. Sete mandatos como vereador pelo Rio (2000, 04, 08, 12, 16, 20 e 24). No primeiro, concorreu contra a própria mãe e a derrotou. Chamado de "vereador federal" por passar mais tempo em Brasília do que no Rio. Candidato a senador por Santa Catarina, para onde se mudou em 2025 a fim de conseguir domicílio eleitoral.
3 - Carlos Bolsonaro. Filho 02. Sete mandatos como vereador pelo Rio (2000, 04, 08, 12, 16, 20 e 24). No primeiro, concorreu contra a própria mãe e a derrotou. Chamado de "vereador federal" por passar mais tempo em Brasília do que no Rio. Candidato a senador por Santa Catarina, para onde se mudou em 2025 a fim de conseguir domicílio eleitoral.
4 - Eduardo Bolsonaro. Filho 03. Três mandatos como deputado federal por São Paulo (2016, 20 e 24). Cassado por abandono do cargo e condenado a quatro anos de prisão por coação judicial. Foragido nos EUA, dedica-se a pregar medidas econômicas contra o Brasil.
5 - Jair Renan Bolsonaro. Filho 04. Vereador desde 2024 por Balneário Camboriú (SC).
5 - Jair Renan Bolsonaro. Filho 04. Vereador desde 2024 por Balneário Camboriú (SC).
6 - Michelle Bolsonaro. Terceira mulher de Bolsonaro. Líder partidária e candidata a senadora pelo Distrito Federal.
7 - Rogéria Bolsonaro. Primeira mulher de Bolsonaro, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo. Vereadora pelo Rio em 1992 e 96. Candidata a deputada federal.
8 - Renato Bolsonaro. Irmão de Bolsonaro. Foi candidato a vereador e a prefeito de Registro (SP) e Miracatu (SP) em 1996, 98, 2000, 04, 08, 12, 16 e 24. Perdeu todas.
9 - Percy Bolsonaro. Pai de Bolsonaro. Filiado nos anos 1960 ao MDB de Eldorado (SP), partido contra a ditadura militar, e monitorado pelo extinto SNI (Serviço Nacional de Informações) por exercício ilegal da medicina.
Não falei que os Bolsonaros eram diferentes?
Não falei que os Bolsonaros eram diferentes?
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
É agora que o clima vai voltar a ser urgente?
Durante anos, demasiados anos, falar sobre alterações climáticas na Europa era falar sobre um futuro distante, quase sempre associado a lugares remotos, quantas vezes do lado de lá do mundo em que habitamos.
Subida do nível da água do mar? Isso era um problema para Tuvalu, Kiribati, Vanuatu e outras ilhas que aprendemos a decorar o nome por essa razão e sobre as quais se publicavam reportagens com fotos que anunciavam, geralmente de forma tranquila, a catástrofe que viria daqui a muitos anos. Aumento das secas extremas? Essa era uma desgraça que sabíamos, há muito tempo, que atingia a Etiópia, o Sudão, bem como uma série de outros países em África, há muito condenados à pobreza. Tempestades mais intensas? Não parecia nada connosco, pois quem devia preocupar-se eram aqueles países e zonas costeiras onde costumam entrar os furacões ou tufões, em especial na Ásia ou na América Central e do Norte. Rios sem água e em risco de desaparecer? Mais uma realidade que associávamos a locais com nomes esquisitos na Ásia Central ou noutras regiões remotas de África – para nós, o problema maior dos rios continuava a ser o risco de inundações e, mesmo assim, apenas em invernos invulgares e rigorosos.
Esses foram também os anos em que continuávamos a olhar para os grandes e descontrolados incêndios florestais apenas como resultado da incúria, culpando, liminarmente, quem não tinha sabido acionar a tempo os meios aéreos – e que quantidade de polémicas isso gerou em Portugal, só comparáveis, mais tarde, com as causadas por quem passou a atribuir a culpa de tudo ao SIRESP e à falta de comunicação. E, depois da pandemia, foram também os anos em que todos estes temas começaram a desaparecer do espaço público, como se já tivessem “passado de moda” ou fossem considerados demasiado pessimistas para uma sociedade a precisar de novos alentos de esperança.
Por aquilo que temos visto, este ano de 2026 pode vir a ser, no final, o do novo alarme de despertar para a necessidade de enfrentar o desafio climático. Por razões tão simples quanto cruas: agora, as mudanças de clima deixaram de ser um problema de regiões pobres para passarem a ser uma emergência dos países ricos, com a sucessão de ondas de calor em toda a Europa Ocidental, a eclosão de incêndios de grandes dimensões em países que vão muito para lá da bacia mediterrânica, a culminar, nas últimas semanas, com a falta de água nos rios que, durante séculos, definiram o comércio e a vida no chamado Velho Continente.
Já é mais ou menos consensual que estamos a viver, na Europa, o verão mais quente de sempre. E as consequências desse facto já não se limitam aos países do Sul. Muito pelo contrário: estão a ser muito mais gravosas nos países ricos do Centro e do Norte, que pareciam imunes a este flagelo das ondas de calor, dos incêndios e da falta de água. É por isso que estão a ouvir-se, com mais intensidade, os alarmes. Até porque as consequências disto tudo, não tenhamos dúvidas, estão a chegar ao ponto onde a dor é maior: ao dinheiro. Ou melhor: à economia, com os reflexos normais não só nos resultados das empresas como, logo a seguir, no custo de vida, na inflação e nas poupanças das famílias.
O verão de 2026 na Europa tem tudo para ser um ponto de viragem, assim saibam ler-se os sinais. Se calhar, este é o momento em que passámos a perceber que a eclosão de uma meia dúzia de ondas de calor pode ter o mesmo efeito económico que o aumento do preço do barril de petróleo.
Segundo o Financial Times, que ouviu especialistas de algumas das instituições financeiras mais respeitadas, a atual seca deste ano na Europa deverá causar um impacto económico de curto prazo entre os 50 e os 180 mil milhões de euros. Um relatório da Moody’s alerta para as consequências que esta nova realidade já está a ter nas seguradoras e, logo a seguir, nos consumidores. Preparemo-nos, portanto, para aquele momento que, na verdade, nunca pensámos que fosse possível: as ondas de calor, as secas e as tempestades passarem a ter influência direta no custo de vida, forçando os bancos centrais a manter as taxas de juro elevadas por mais tempo. É este, se calhar, o novo normal – aqui, na Europa, e já não em Kiribati ou em Tuvalu, e sem as imagens poéticas de populações com a água pelos joelhos. Infelizmente é bem pior… e mais caro.
Subida do nível da água do mar? Isso era um problema para Tuvalu, Kiribati, Vanuatu e outras ilhas que aprendemos a decorar o nome por essa razão e sobre as quais se publicavam reportagens com fotos que anunciavam, geralmente de forma tranquila, a catástrofe que viria daqui a muitos anos. Aumento das secas extremas? Essa era uma desgraça que sabíamos, há muito tempo, que atingia a Etiópia, o Sudão, bem como uma série de outros países em África, há muito condenados à pobreza. Tempestades mais intensas? Não parecia nada connosco, pois quem devia preocupar-se eram aqueles países e zonas costeiras onde costumam entrar os furacões ou tufões, em especial na Ásia ou na América Central e do Norte. Rios sem água e em risco de desaparecer? Mais uma realidade que associávamos a locais com nomes esquisitos na Ásia Central ou noutras regiões remotas de África – para nós, o problema maior dos rios continuava a ser o risco de inundações e, mesmo assim, apenas em invernos invulgares e rigorosos.
Esses foram também os anos em que continuávamos a olhar para os grandes e descontrolados incêndios florestais apenas como resultado da incúria, culpando, liminarmente, quem não tinha sabido acionar a tempo os meios aéreos – e que quantidade de polémicas isso gerou em Portugal, só comparáveis, mais tarde, com as causadas por quem passou a atribuir a culpa de tudo ao SIRESP e à falta de comunicação. E, depois da pandemia, foram também os anos em que todos estes temas começaram a desaparecer do espaço público, como se já tivessem “passado de moda” ou fossem considerados demasiado pessimistas para uma sociedade a precisar de novos alentos de esperança.
Por aquilo que temos visto, este ano de 2026 pode vir a ser, no final, o do novo alarme de despertar para a necessidade de enfrentar o desafio climático. Por razões tão simples quanto cruas: agora, as mudanças de clima deixaram de ser um problema de regiões pobres para passarem a ser uma emergência dos países ricos, com a sucessão de ondas de calor em toda a Europa Ocidental, a eclosão de incêndios de grandes dimensões em países que vão muito para lá da bacia mediterrânica, a culminar, nas últimas semanas, com a falta de água nos rios que, durante séculos, definiram o comércio e a vida no chamado Velho Continente.
Já é mais ou menos consensual que estamos a viver, na Europa, o verão mais quente de sempre. E as consequências desse facto já não se limitam aos países do Sul. Muito pelo contrário: estão a ser muito mais gravosas nos países ricos do Centro e do Norte, que pareciam imunes a este flagelo das ondas de calor, dos incêndios e da falta de água. É por isso que estão a ouvir-se, com mais intensidade, os alarmes. Até porque as consequências disto tudo, não tenhamos dúvidas, estão a chegar ao ponto onde a dor é maior: ao dinheiro. Ou melhor: à economia, com os reflexos normais não só nos resultados das empresas como, logo a seguir, no custo de vida, na inflação e nas poupanças das famílias.
O verão de 2026 na Europa tem tudo para ser um ponto de viragem, assim saibam ler-se os sinais. Se calhar, este é o momento em que passámos a perceber que a eclosão de uma meia dúzia de ondas de calor pode ter o mesmo efeito económico que o aumento do preço do barril de petróleo.
Segundo o Financial Times, que ouviu especialistas de algumas das instituições financeiras mais respeitadas, a atual seca deste ano na Europa deverá causar um impacto económico de curto prazo entre os 50 e os 180 mil milhões de euros. Um relatório da Moody’s alerta para as consequências que esta nova realidade já está a ter nas seguradoras e, logo a seguir, nos consumidores. Preparemo-nos, portanto, para aquele momento que, na verdade, nunca pensámos que fosse possível: as ondas de calor, as secas e as tempestades passarem a ter influência direta no custo de vida, forçando os bancos centrais a manter as taxas de juro elevadas por mais tempo. É este, se calhar, o novo normal – aqui, na Europa, e já não em Kiribati ou em Tuvalu, e sem as imagens poéticas de populações com a água pelos joelhos. Infelizmente é bem pior… e mais caro.
Bolsonarismo, integralismo e o neofascismo brasileiro
A seguir à tentativa golpista de 8 de janeiro, escrevi um artigo que procurava caracterizar quais eram as forças sociais que constituíam o bolsonarismo e a oportunidade histórica que se abria naquela conjuntura. Três anos e meio depois, retomo o parágrafo com que encetei aquele texto:
“Quando Jair Bolsonaro deixou o Palácio do Planalto, recebi de amigos portugueses várias mensagens de felicitações. A resposta que eu lhes devolvia era quase sempre a mesma: mas o movimento bolsonarista foi derrotado? O 8 de janeiro de 2023 respondeu de forma brutal. A eleição havia retirado Bolsonaro do Governo; não tinha dissolvido a força social, política, institucional e ideológica que se organizara à sua volta.”
A essência histórica daquela pergunta conjuntural sobre o movimento e as suas bases retorna neste ensaio numa perspetiva de longa duração histórica: o bolsonarismo seria um novo integralismo? Uma resposta rápida seria afirmativa. Encontramos o lema “Deus, Pátria e Família”, o anticomunismo, o culto do líder, a denúncia de uma nação corrompida por inimigos internos, o moralismo religioso, a exaltação da autoridade e a legitimação da violência política. Outra resposta igualmente açodada, mas oposta, lembraria que não houve camisas verdes, Sigma, “Anauê”, partido-milícia estruturado nem projeto corporativo equivalente ao da Ação Integralista Brasileira (AIB) dos anos 1930. Entendo que as duas respostas são insuficientes e aparentes. Uma confunde semelhança com identidade; a outra imagina que um fenómeno histórico só pode reaparecer vestido com o mesmo uniforme, etc. Ambas comparam sinais aparentes (exteriores) antes de analisarem as relações sociais, o terreno histórico do seu surgimento, as formas de organização, os interesses de classe e a sua base social, os aparelhos de Estado, as ideologias e o projeto de poder.
A hipótese central deste artigo é que o integralismo, que teve o maior partido fascista fora da Europa, constitui uma das raízes fundamentais do bolsonarismo, mas sem ser uma explicação totalizante do movimento. Isto é, o bolsonarismo conformou-se socialmente após a crise capitalista de 2008 e a crise da chamada Nova República, numa articulação entre frações dominantes interessadas no aprofundamento das políticas neoliberais: o Partido Fardado (aparelhos militares e policiais) e os aparelhos jurídico-políticos com relativa autonomia; organizações religiosas, empresariais, mediáticas e digitais capazes de produzir consenso e mobilização; bases sociais heterogéneas movidas pelo antipetismo, punitivismo, medo, racismo estrutural e pela (suposta) restauração das hierarquias patriarcais e machistas; e uma direção plebiscitária concentrada em Bolsonaro (totem) e na sua família. Por outras palavras, não estamos diante uma soma de grupos, mas sim perante uma totalidade contraditória: interesses materiais, aparelhos repressivos, ideologia fascizante, afetos políticos, organizações e liderança que se reforçaram mutuamente numa conjuntura de crise económica e política de alta intensidade e conflito social. É essa particular e complexa imbricação que nos permite categorizar e identificar o bolsonarismo como uma forma brasileira do neofascismo.
Entendo que adjetivar como neofascista qualquer conservador ou adversário político transforma a categoria histórica numa demarcação política de cunho depreciativo e sem valor explicativo. Por outro lado, limitar o fascismo a Mussolini e Hitler, como se a História apenas produzisse exemplares únicos e encerrados, também nos deixa desarmados diante das transformações da extrema-direita.
Essa problemática integra, há alguns anos, o meu trabalho de investigação e será, em breve, objeto de uma publicação sobre fascismo e neofascismo, na qual proponho uma separação analítica em quatro níveis. Sinteticamente, o fascismo é uma possibilidade histórica que altera a forma estatal, o regime político, e que mobiliza e reorganiza de modo autoritário a dominação e hegemonia capitalista em condições de múltiplas e intensas crises. O neofascismo atualiza esse núcleo sob condições posteriores ao fascismo histórico (1945). A fascização designa o processo pelo qual movimentos desse cariz político ganham enraizamento, normalizam a violência política e a sua estética, penetram nas estruturas do Estado e alteram a correlação de forças e a referida forma estatal. A neofascização é a forma contemporânea desse processo, atravessada pelo neoliberalismo (padrão de reprodução do capital-imperialismo), pelas grandes plataformas digitais (tecnopolítica), pela fragmentação e agudização da precarização do mundo do trabalho e pelas novas capacidades repressivas e informacionais (vigilância) do Estado.
Esta distinção, ultra-sumarizada, permite apreender os processos históricos nas suas contradições e conflitos, de modo a evitar equívocos recorrentes. Um movimento pode ser neofascista sem ter construído um Estado fascista. Um grupo político é capaz de buscar uma rutura autoritária sem conseguir destruir a (aparente) competição eleitoral. Um governo consegue ser dirigido por uma corrente neofascista e, simultaneamente, agrupar militares, liberais, conservadores, religiosos e partidos tradicionais que não possuem exatamente o mesmo projeto político – convergem na defesa dos mesmos interesses de classe, mas, dependendo da intensidade da crise, optam por soluções políticas fora do regime liberal-capitalista. Alberto Toscano sintetiza a questão decisiva: “Perguntar sobre o fascismo é invariavelmente também perguntar sobre as crises que produzem o fascismo.”
No caso brasileiro, o bolsonarismo surgiu como um movimento e uma corrente ideopolítica com grande apoio popular (quer no seu bloco social, quer no eleitoral). Bolsonaro foi/é a liderança (totem) plebiscitária que o galvanizou e organizou o movimento; o governo do Partido Fardado/Bolsonaro foi uma coligação heterogénea, dirigida hegemonicamente pela extrema-direita, mas composta por grupos com interesses próprios (por exemplo, Sérgio Moro) e, por vezes, conflituantes (como a gestão da pandemia, etc.). O regime político de 2019 a 2022 permaneceu uma democracia representativa liberal, com forte ímpeto autoritário, submetida à erosão institucional e a tentativas de rutura golpista, mas não se transformou num Estado fascista consolidado. Em síntese, o Brasil possuía um conjunto de ideias, imaginários e movimentos atravessados pelo fascismo; além disso, neofascistas estavam na principal posição do Governo central, mas o país não chegou a ter uma ditadura fascista (Boito Jr.). Essa distinção é decisiva, pois negar a matriz social neofascista do movimento porque não existiu partido único é tão errado quanto declarar fascista todo o Estado brasileiro porque Bolsonaro/Partido Fardado chegou à Presidência.
Quais são, então, os elementos constitutivos fundamentais no âmbito da política? No meu entendimento, quatro relações precisam de estar presentes: uma mobilização chauvinista regeneradora/libertadora – livrar o Brasil de um suposto regime socialista – que promete reconstruir a nação; a produção totalizante de inimigos internos que não são reconhecidos como adversários legítimos, mas alvos a serem eliminados; uma reconfiguração na relação hegemónica entre consenso e violência; e a pretensão de reorganizar autoritariamente uma ordem atravessada por uma crise de alta intensidade. O avanço do processo pode ser aferido pela instilação nos aparelhos repressivos, pela neutralização ou exclusão das organizações adversárias, pela legalização ou normalização da exceção, pela subordinação das instituições ao grupo dirigente e pela transformação duradoura da forma política e jurídica do Estado.
O bolsonarismo preencheu os critérios elementares e avançou em diversos dos agravantes. Procurou construir ideologicamente uma comunidade moral do “Brasil de verdade” e “dos cidadãos de bem”, transformar a esquerda — quer os seus setores moderados, quer os seus setores minoritários radicais —, os movimentos sociais, professores, jornalistas, indígenas, feministas e pessoas LGBTQIA+ em partes de uma conspiração do “marxismo cultural” ou da agenda woke; legitimou tortura, violência policial e eliminação física; recorreu ao totem do Partido das Forças Armadas e penetrou profundamente nas polícias (militares); governou mediante a ameaça, a tensão e o conflito permanentes; procurou desacreditar eleições, tribunais e mecanismos de controlo do regime liberal. O bolsonarismo não conseguiu efetivar o golpe que preparara; contudo, o fracasso do objetivo máximo não oculta a substância política e histórica do processo.
Como sinalizámos, o fascismo brasileiro tem uma história anterior ao movimento encabeçado por Jair Messias Bolsonaro. A Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 e dirigida por Plínio Salgado, foi um movimento de massas com organização nacional (com forte preponderância em São Paulo e no Rio de Janeiro), imprensa própria, símbolos, rituais, estética uniformizada, formação de quadros e capacidade de disputar as ruas. O chefe era apresentado como intérprete do destino nacional; a sociedade como organismo moral superior às classes; o comunismo como força dissolvente da família, da religião e da pátria.
No livro O fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo, Leandro Gonçalves e Odilon Caldeira Neto procuraram demonstrar que a dissolução da AIB não destruiu as suas redes e ideias. O integralismo sobreviveu em associações, jornais, círculos culturais, memórias militantes e experiências partidárias, sobretudo ao reorganizar-se no pós-guerra através do Partido de Representação Popular (PRP) e ao reaparecer posteriormente em grupos neointegralistas. Um artigo recente trata de uma mediação fundamental do movimento: a AIB não consistiu numa imitação passiva de Mussolini, pois “articulou vínculos com o fascismo italiano, o nazismo alemão, o integralismo lusitano e o falangismo espanhol” (Bianchi, Defina, Cardoso, 2026). Em resumo, integrou um campo transnacional da direita “ultranacionalista” e fascista do século XX, no qual símbolos, práticas e conceitos circulavam e eram traduzidos para as condições brasileiras.
Há, portanto, continuidade organizativa e ideopolítica suficiente para pôr em causa a “perceção” de que o integralismo desapareceu em 1938 (com a repressão de Getúlio Vargas). Existem elementos constitutivos que atravessaram o tempo: “Deus, Pátria e Família”; o anticomunismo; a autoridade como se fosse a solução para o conflito; a rejeição à luta de classes; a comunidade nacional concebida como unidade espiritual; a violência e a sua estética apresentada numa perspetiva moral e defensiva; a transformação da política numa guerra contra agentes da decadência brasileira. Um ponto fulcral: identificar continuidades não significa repetição, pois a verdade histórica é concretamente particular; o que existe hoje, por mais que tenha elementos semelhantes aos do passado, é diferente (desculpem-me o momento hegeliano). Noutros termos, não é razoável equiparar símbolos e retórica com base apenas nas aparências; é necessário determinar a formação social, os sujeitos das classes, o programa económico e a função política de cada movimento.
Plínio Salgado denunciava o grande capital e a finança em nome de uma ordem rural, cristã, hierárquica e fundada na pequena propriedade. O aparente “anticapitalismo” não questionava a propriedade dos meios de produção nem pretendia emancipar o trabalho assalariado da sua alienação; isto é, o integralismo moralizava as relações sociais e projetava uma (hipotética) restauração. O bolsonarismo, ao contrário, promoveu a expansão dos capitais financeiros, da agroexportação e do extrativismo – padrão de produção típico de um país periférico e dependente. Não pretendeu conter a acumulação capitalista, mas quis “libertá-la” das garantias básicas (laborais e de segurança social) que protegiam minimamente os/as trabalhadores/as, da proteção ambiental (“vamos passar a boiada”), das políticas públicas de cariz universalizante, com vista à sua mercantilização, etc. Além disso, identifico uma mudança na materialidade da organização política, visto que o integralismo construiu um partido uniformizado, com milícias, secções territoriais e liturgias públicas. O bolsonarismo tem desenvolvido uma organização (mais) flexível, eleitoral, religiosa e digital (elemento do nosso tempo). A direção continua a produzir unidade, disciplina e inimigos, mas já não depende de uma sede partidária fixa. As redes sociais, os canais de comunicação direta, as igrejas, os gabinetes parlamentares e os movimentos de rua cumprem funções que antes eram concentradas na forma-partido de massas clássica. A base religiosa transformou-se igualmente, pois, o integralismo sustentava-se no catolicismo conservador. No bolsonarismo, lideranças evangélicas/protestantes (pentecostais e neopentecostais) adquiriram um peso sem equivalente; todavia, os setores católicos de cariz mais conservador e reacionário também constituem a base do bolsonarismo, mas não com a força mobilizadora das lideranças evangélicas. O decisivo é que a religião não desapareceu; mudou de instituições, de linguagem e de formas de inserção na vida quotidiana.
O integralismo, portanto, não é a origem exclusiva do bolsonarismo. É uma procedência real, entrelaçada com outras: o anticomunismo militar, a memória apologética da ditadura, o punitivismo policial, o neoliberalismo, o olavismo, o moralismo da Lava Jato, o fundamentalismo religioso, as forças paraestatais e milícias em grandes capitais e a tecnopolítica das plataformas digitais (Big Techs). A questão central é como tradições diferentes foram reativadas, combinadas e subordinadas a um novo projeto de poder.
Frações dominantes e beneficiados
No referido artigo, apresentei o ultraneoliberalismo e o agronegócio como dois “setores” de classe constitutivos do bolsonarismo. Importa fazer duas notas caracterizadoras. O neoliberalismo ultrapassa um determinado grupo social que o defende enquanto política económica e ideologia, pois é, sobretudo, um projeto económico-político de reorganização da acumulação (tendo como eixo dinâmico a financeirização), do Estado e das relações entre capital e trabalho, etc. Quando o categorizo como setor ultraneoliberal, tenho como objetivo sinalizar o conteúdo autoritário (com elementos fascizantes) dessas forças políticas, que se reconfiguram no interior da direita tradicional, maioritariamente. O agronegócio, por sua vez, agrupa os interesses dos proprietários fundiários (fazendeiros), das agroindústrias, dos exportadores, das tradings, dos grandes frigoríficos/matadouros, do capital financeiro ligado à terra e dos representantes parlamentares (bancada do boi).
Nesse contexto, a análise que faço desse processo suscita duas questões fundamentais: quem apoiou e/ou ganhou materialmente com o governo Bolsonaro? A base social ativa de um movimento de cariz neofascista pode ser identificada sociologicamente na pequena burguesia e no que tenho classificado de “pobre premium” (a dita alta “classe média”), enquanto o governo serve prioritariamente frações do grande capital (Boito Jr.). Numa formulação sintética: mobilização social de setores intermédios, governo para as classes dominantes. Ou seja, os que ocupam as ruas, difundem mensagens e imaginam combater o “sistema” não são necessariamente os principais beneficiários da política económica que ajudam a legitimar. O bolsonarismo tem uma vertente com uma forma (sem conteúdo) insurrecional deveras marcado e distintivo no fazer política, o que expressa uma aparência, somente cariz, de antissistema.
A composição concreta do bloco dominante foi disputada: o capital financeiro, o agronegócio, a mineração, os grandes grupos comerciais (retalho) e de comunicação, partes da indústria e o capital estrangeiro não tiveram interesses semelhantes em todos os momentos do governo bolsonarista (por exemplo, durante a pandemia da Covid-19). Ainda assim, convergiram em torno de elementos fundamentais: reforma da Previdência (da segurança social); privatizações; abertura de mercados; desregulação ambiental; enfraquecimento de direitos laborais; “autonomia” (privatização) acrescida do Banco Central; redução da capacidade redistributiva do Estado; e proteção da propriedade diante de movimentos sociais.
As classes dominantes não precisaram de fabricar Bolsonaro desde o início, visto que setores relevantes preferiram candidatos convencionais (por exemplo, Geraldo Alckmin, hoje vice de Lula da Silva). A adesão tornou-se maciça quando ele apareceu como a alternativa capaz de derrotar o PT e executar o programa ultraneoliberal avalizado por Paulo Guedes (associado aos Chicago Boys, tendo prestado serviços à ditadura de Pinochet, no Chile). O movimento liderado por Bolsonaro possuía dinâmica relativamente própria; os capitalistas brasileiros e os ditos conservadores aderiram “pragmaticamente”, pero no mucho, quando reconheceram a sua utilidade, força social e eleitoral.
Observemos a contradição. O bolsonarismo afirmava falar em nome do indivíduo contra o Estado, mas não procurou um Estado menor, como a ideologia neoliberal propala. Todavia, a política seguida foi a de um Estado seletivamente forte. Isto é, fraco para garantir trabalho, saúde, segurança social, educação, preservação ambiental e redistribuição do rendimento, etc.; forte para assegurar austeridade, contratos, privatizações, propriedade, rentismo, fronteira extrativa, repressão policial e disciplina social. A liberdade do capital exigia a limitação da força social daqueles/as que vivem da força do seu trabalho.
Essa lógica de operar sob o neoliberalismo traz em si raízes históricas de longa duração, como alerta Marcelo Matos ao analisar a autocracia burguesa brasileira. A classe dominante brasileira formou-se associada ao capital externo, conciliada com grandes proprietários e estruturalmente hostil a uma verdadeira democratização que ameaçasse a riqueza e o poder (por exemplo, o golpe de 1964). A autocracia não existe apenas em ditaduras abertas. Manifesta-se também na restrição sistemática da participação popular e na prontidão com que as classes possidentes aceitam soluções de força e autoritárias, desde que constituam a forma mais eficiente de preservar os seus interesses.
O suposto “nacionalismo” bolsonarista foi estridente no plano moral e subordinado no plano material. Quer dizer, o slogan “Brasil acima de tudo” conviveu com alinhamento externo (submetido aos EUA), privatização (de setores estratégicos), financeirização e expansão de uma economia agromineira exportadora (intensificando a desindustrialização e a dependência). Quanto menor a soberania económica, maiores podiam ser a exaltação simbólica e o chauvinismo da pátria. A imaginada defesa do Brasil contra aqueles que o bolsonarismo considerava inimigos internos (os comunistas, petistas, ambientalistas, indígenas, professores/as, as mulheres e o feminismo, a comunidade LGBTIQ+), com consequências concretas para estes, desaparece por completo perante a contínua transferência de riqueza (valor) e a dependência cada vez maior do país em relação ao exterior.
No campo e na Amazónia, economia e violência territorial encontraram-se, visto que a expansão do agronegócio extrativista atinge os territórios de povos indígenas, de comunidades quilombolas e de camponeses, bem como a floresta e áreas afins. O armamentismo e a desregulação ambiental não foram apenas temas de retórica, pois integraram condições políticas da acumulação capitalista no Brasil. A figura do “produtor” ameaçado transformou a expropriação de terras e a violência em defesa da propriedade.
Para concluir este tópico, retomo os estudos da historiadora Virgínia Fontes sobre aparelhos privados de hegemonia, que permitem perceber que as classes dominantes não atuam apenas através do financiamento eleitoral. Institutos, fundações, associações patronais e organizações empresariais produzem quadros, programas, campanhas e constrangimentos. O seu “hegemonismo” reduz o campo de decisões possíveis, aproxima programas partidários e apresenta interesses privados como imperativos técnicos. A extrema-direita não substituiu esse ativismo; ofereceu-lhe uma forma de mobilização de massas e uma capacidade acrescida de coerção.
É no esteio desta caracterização que identificamos o papel estruturante e o poder político das classes no bolsonarismo. Contudo, a função das classes, por si só, não explica como milhões de pessoas, na sua maioria pertencentes à classe trabalhadora, foram mobilizadas para constituir o seu bloco (heterogéneo e interclassista) social e eleitoral.
A relação de Jair Bolsonaro com o mundo militar precede em décadas a eleição de 2018. O amotinado e polémico capitão do Exército passou à reserva em 1988, a fim de assumir um cargo político. A sua primeira base foi corporativa: dizia defender os militares e os agentes policiais no que diz respeito a salários, carreiras, etc. O deputado, que parecia folclórico, combinava defesa da ditadura, retórica golpista e anticomunista, e mobilização extraparlamentar. Antes de as formulações reacionárias de Olavo de Carvalho — o olavismo — dominarem a gramática da extrema-direita, a guerra cultural contra o “inimigo interno” já circulava em instituições militares, tendo efetividade nos modos concreto de repressão e perseguição aos opositores perpetrados pela ditadura empresarial-militar.
A categoria “partido fardado”, que utilizamos de um ponto de vista analítico, procura captar e sinalizar a atuação política, relativamente orgânica, de setores militares de alto comando e patentes, a sua pretensão de tutelar a República e a continuidade de uma doutrina que apresenta as Forças Armadas como árbitro superior da vida nacional. Bolsonaro não inventou essa pretensão de poder moderador, apenas se tornou o veículo (totem) eleitoral que permitiu aos militares regressarem ao centro do Executivo, ocuparem milhares de cargos e recuperarem poder sobre áreas civis.
As polícias (militares e civis) constituem um problema com elementos e nuances distintos dos das Forças Armadas, visto serem instituições estaduais, com estatutos e comandos próprios. A lógica de funcionamento e operação nos territórios e as ligações às milícias são permanentes. Contudo, o armamentismo, a retórica de “lei e ordem”, a heroicização da violência e a promessa de proteção jurídica aos agentes repressivos encontraram adesão em setores policiais. A frase retórica “bandido bom é bandido morto” não opera numa sociedade abstrata, pois os suspeitos têm marcadores raciais, territoriais e sociais.
Por isso, a dimensão racial não pode ser acrescentada no fim da análise nem tratada como um tema isolado. A violência policial brasileira é seletiva; a população negra, pobre e periférica conhece o Estado sobretudo através de incursões repressivas, revistas, encarceramento em massa e morte. O racismo vai além de uma herança colonial; constitui uma necessidade do capitalismo na gestão de populações historicamente excluídas e atua como garante legitimador do seu domínio pela violência sistemática. Todavia, o bolsonarismo não criou essa estrutura, mas transformou-a em virtude pública. Enquanto substância histórica do fascismo, a violência converte-se numa estética que torna visível uma dinâmica precedente que, tendencialmente, se procura ocultar ou cujo caráter contínuo se procura velar. A figura do polícia autorizado (impunemente) a matar tornou-se parte da comunidade moral do “cidadão de bem”.
As milícias e outras redes paraestatais pertencem à mesma lógica fascizante, embora o seu peso no conjunto do movimento exija uma abordagem específica e pormenorizada, dadas as singularidades de cada Estado da federação. Mas, no essencial, revelam a circulação entre agentes públicos, economias ilegais, controlo armado territorial, prestação coerciva de serviços e representação política. O bolsonarismo está imbricado e opera, em certa medida, pela lógica e pela estrutura milicianas, indicando que a fronteira entre Estado e paraestado pode funcionar como forma concreta de poder.
O sistema judicial entra nesta caracterização do bolsonarismo por uma via diferente. A operação Lava Jato e os seus principais protagonistas, tanto quanto sabemos, não parecem constituir diretamente uma fração da classe dominante nem possuir ligações às forças políticas que rodeavam o grupo político de Jair Bolsonaro. Identifico-a como uma corrente político-jurídica, instalada em aparelhos do Ministério Público, da magistratura e da Polícia Federal, com forte legitimação mediática e autonomia relativa, mas também interconectada com aspetos do sistema interestatal e da economia política internacional. Os contactos, a cooperação jurídica, a formação, a circulação de doutrinas anticorrupção e as relações com agências estadunidenses são objetos documentáveis.
A operação, liderada por Sérgio Moro, transformou a crise social, política e económica numa perspetiva moralizante da situação. Ou seja, a corrupção deixou de designar relações sistémicas entre empresas, financiamento político, contratos e Estado, etc. – lógica estrutural no capitalismo –, e passou a explicar todos os problemas nacionais, concentrando-os seletivamente no Partido dos Trabalhadores (PT) e nos seus dirigentes, bem como a rotular a esquerda em sentido lato como sinónimo de corrupção e falha moral. O objetivo seria o de apresentar os juízes e procuradores como “salvadores” da pátria acima da política. Noutros termos, a linguagem e as formas jurídicas do processo penal foram utilizadas para reorganizar a competição eleitoral (derrotar o projeto social-liberal do PT). É neste ponto que o lavajatismo intensificou o antipetismo e o anticomunismo, deslegitimou o sistema partidário e contribuiu para o impeachment do golpe de 2016. A prisão e o impedimento eleitoral de Lula da Silva alteraram decisivamente a competição presidencial no ano de 2018. A entrada de Sérgio Moro, juiz que condenou e prendeu Lula da Silva, no Governo militar liderado por Bolsonaro tornou visível a convergência política entre aquela operação jurídico-política e o bolsonarismo, indicando que esse “partido da Lava Jato” viria a constituir uma das bases do bolsonarismo – parece-me evidente que hoje têm uma força política e mediática significativamente reduzida.
O estudioso da questão militar brasileira e jornalista Pedro Marin formulou uma imagem com força explicativa: a Lava Jato foi mais “artilharia” do que “infantaria”. Precisamente, a sua função histórica foi bombardear a ordem existente, destruir reputações, empresas, partidos e mediações políticas. Não possuía, porém, capacidade para ocupar e estabilizar o terreno aberto. A velha direita neoliberal (tucana) também não conseguiu herdar integralmente o resultado; por isso, os militares e a extrema-direita avançaram sobre os escombros.
O ponto central é que a ofensiva liberal-conservadora e neofascista não utilizou apenas as eleições e os partidos; recorreu também às burocracias civis e militares, tribunais, ministérios públicos e polícias para que interviessem na crise, deslocando decisões e construindo legitimidade política e ideológica. É preciso dizer sem rodeios: o bolsonarismo configurou-se a partir dessa politização dos aparelhos estatais, ao mesmo tempo que procurou aprofundar essa politização numa perspetiva autoritária e fascizante.
No esteio das lições de filosofia política de Maquiavel e das experiências históricas, podemos afirmar sem muitas dúvidas, que nenhum movimento de massas se sustenta apenas pela coerção; daí decorre a necessidade de produzir explicações, identidades, consentimentos, afetos e formas de pertença política. A hegemonia opera numa dinâmica contraditória entre consenso e coerção: dependendo do tipo de conflito ou projeto político, um dos polos torna-se preponderante sobre o outro. Nesse sentido, o que temos vindo a identificar e categorizar (provisoriamente) como guerra cultural vai além de táticas de “distração”, “cortina de fumo” e afins, e desponta como um mecanismo constitutivo desse processo político.
Esse brevíssimo preâmbulo relaciona-se com o texto anterior que escrevi sobre o bolsonarismo, no qual sugeri que o “pânico moral” (ou “terrorismo da indignação”) desviava a atenção da agenda da Faria Lima (centro do mercado financeiro brasileiro), o que é verdade; contudo, a formulação precisa de ser ampliada e demarcada. A guerra cultural, objetivando construir outra hegemonia, pode servir para velar reformas económicas antipopulares, mas também tem a capacidade de concertar socialmente o campo bolsonarista, disciplinar os partidários, converter os antagonismos de classe em conflitos de ordem moral, bem como legitimar e normalizar a violência política e unir grupos com interesses materiais e posições de classe diferentes (de um trabalhador evangélico uberizado ao conhecido dono de uma rede de lojas retalhistas do Brasil).
O anticomunismo foi a sua gramática política comum. Importa enfatizar que o anticomunismo não exprimia a força real dos comunistas no Brasil — a esquerda radical é marginal —, mas operava como categoria extensível. O “comunista” podia/pode ser um militante do PT, uma professora, uma feminista, um jornalista, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), um indígena em defesa do território ou alguém que recusasse algumas das ideias-força do bolsonarismo. A ameaça era tanto mais eficiente quanto menos precisava de um referente preciso.
As igrejas e o fundamentalismo religioso tiveram — e continuam a ter — um papel decisivo na constituição do bolsonarismo. Determinadas lideranças e organizações evangélicas conservadoras forneceram-lhe capilaridade territorial, autoridade moral, meios de comunicação, quadros políticos e capacidade de mobilização. Pequenos, mas ideologicamente ativos, grupos católicos reacionários também participaram nessa construção, sobretudo nas campanhas contra o feminismo, os direitos reprodutivos, a população LGBTQIA+ e aquilo a que chamaram “ideologia de género”, etc.
O campo evangélico é social, institucional e teologicamente heterogéneo: os evangélicos históricos, os pentecostais, os neopentecostais, as grandes denominações, as igrejas locais, os pastores de base e os fiéis não pensam nem agem como um corpo uniforme. Existem, ainda que minoritárias, correntes evangélicas progressistas e democráticas, algumas próximas da chamada Teologia da Missão Integral (irmã da Teologia da Libertação de matriz católica), que procuram articular a fé cristã com a justiça social e a defesa dos direitos humanos. Seria, portanto, um erro grosseiro representar milhões de evangélicos como pessoas robotizadas, desprovidas de discernimento, consciência ou interesses próprios. A adesão de parte desse universo ao bolsonarismo não pode ser explicada somente pela manipulação exercida por pastores (que compõem a “burgueses da fé”) ou pela influência de grandes denominações religiosas. É necessário compreender as condições materiais e sociais dentro das quais essas organizações adquiriram tamanha importância.
O melhorismo dos governos do PT/lulismo — isto é, a melhoria relativa e limitada das condições de vida de milhões de brasileiros — não enfrentou as grandes fraturas da formação social brasileira (crise urbana, questão da terra, o caráter da dependência e da desindustrialização progressiva). A expansão do emprego, do consumo, do crédito e do rendimento não eliminou o subemprego, a informalidade laboral, a insegurança económica e alimentar, nem a superexploração da força de trabalho. As implementadas políticas públicas universalizantes permaneceram insuficientes e, em vários momentos, foram e continuam a ser intencionalmente enfraquecidas como forma de garantir a política de austeridade. A vida melhorou para muitos, mas continuou subordinada à instabilidade das crises do capitalismo periférico e dependente brasileiro, à precariedade dos serviços públicos, à violência e à desigualdade racial e territorial.
Foi também nesse espaço que as igrejas cresceram como redes quotidianas de sociabilidade, proteção e solidariedade. Ali, “os irmãos em Cristo ajudam-se”: indicam empregos e trabalhos, organizam cabazes alimentares, visitam doentes, cuidam de crianças, apoiam famílias endividadas e acompanham pessoas atingidas pelo alcoolismo, pela violência doméstica ou pelo abandono. Na maioria das vezes, as respostas oferecidas não são suficientes (mas produzem laços de confiança e a perceção de que estão a ser “apoiadas”); algumas reproduzem hierarquias patriarcais e podem silenciar conflitos que deveriam ser enfrentados pelo Estado e pela sociedade (ex. violência doméstica). Mas o auxílio, a escuta e o sentimento de pertencimento são reais. Para pessoas que a sociedade capitalista e racista brasileira reduz frequentemente à invisibilidade, à suspeição ou à condição de força de trabalho descartável, a igreja pode oferecer um nome, uma comunidade e a possibilidade de recomeçar. Nesses espaços, alguém pode “renascer em Cristo” e tornar-se uma “nova criatura”; os erros e os desacertos do passado deixam de constituir uma condenação irrevogável. A conversão não é apenas uma mudança doutrinária. Pode representar a reconstrução da identidade, o abandono de relações assoladoras, a recuperação da autoestima e o ingresso numa rede concreta de reciprocidade e pertencimento social e também político. A gramática da redenção é um afeto e um imaginário político poderosos que as igrejas mobilizam com muita eficácia, mas que a esquerda também mobilizou no passado e hoje parece ser algo secundário.
É precisamente porque não são simples máquinas de manipulação que as igrejas podem tornar-se aparelhos tão poderosos de produção de hegemonia, no eixo do consenso. A mesma capilaridade que acolhe também pode disciplinar; a própria comunidade que protege pode definir quem pertence e quem ameaça a ordem; assim como a autoridade que oferece consolo pode converter uma orientação política em dever religioso. A solidariedade comunitária e a direção reacionária e fascizante não são realidades incompatíveis. Podem coexistir dentro da mesma organização e, por vezes, dentro da mesma experiência individual.
Nesse quadro, penso ser importante destacar o peso específico das organizações neopentecostais e do sionismo cristão nessa articulação no campo do bolsonarismo. Estas igrejas ofereceram redes territoriais, meios de comunicação (por exemplo, a TV Record), dirigentes, linguagem moral, autoridade e mobilização eleitoral. Noutros termos, a batalha política pode ser traduzida como batalha espiritual; o adversário, como força demoníaca; e o líder político, como instrumento providencial de Deus. Por conseguinte, quando o conflito deixa de opor projetos políticos e passa a representar uma guerra entre o Bem e o Mal, a diversidade e a diferença perdem legitimidade. Negociar com o adversário pode parecer uma cedência ao demónio; derrotá-lo torna-se uma missão religiosa e moral. São formas de vida que se confrontam sem qualquer espaço para mediações.
O sionismo cristão é uma corrente do cristianismo, particularmente influente entre setores neopentecostais, que interpreta o apoio ao Estado de Israel e o retorno dos judeus à chamada Terra Prometida como parte do cumprimento das profecias bíblicas, articulando-se ao neopentecostalismo através de uma linguagem escatológica, do uso de símbolos judaico-israelitas e da construção de uma identidade político-religiosa conservadora em torno de Israel. O bolsonarismo sustenta-se também nessa imbricação, ao ponto de um católico, Jair Bolsonaro, ser batizado por um pastor neopentecostal e político, Everaldo Pereira, nas águas do rio Jordão.
A Teologia da Prosperidade acrescentou a essa infraestrutura comunitária neopentecostal uma gramática munida de fortes afinidades com a subjetividade neoliberal. Desta forma, o sucesso aparece como resultado da fé, do mérito, da disciplina e do investimento individual; o fracasso tende a ser interpretado como insuficiência pessoal ou espiritual. O empresário de si mesmo encontra o fiel, que deve demonstrar a sua eleição através da transformação da própria vida. Problemas produzidos pelo desemprego, pelo racismo, pela precariedade e pela desigualdade podem, assim, ser deslocados para o campo da responsabilidade individual.
O que estou a tentar assinalar com essa descrição é que muitos fiéis procuram proteção, sociabilidade, dignidade e apoio material que o Estado e as suas políticas lhes negam. A força das lideranças do fundamentalismo religioso reside precisamente na capacidade de organizar experiências verdadeiras de insegurança e desamparo dentro de uma retórica ideológica de restauração moral, prosperidade individual e guerra espiritual. A minha crítica, portanto, não se dirige à fé nem aos milhões de pessoas que encontram nas igrejas uma comunidade de pertencimento. Dirige-se à conversão da autoridade religiosa, do dinheiro, da comunicação de massas, dos púlpitos e da capilaridade comunitária em poder político. A expressão “burguesia da fé” procura identificar os dirigentes e pastores que acumulam capital económico, mediático e religioso e o transformam em influência política, eleitoral e estatal. Por isso, não deve servir para desprezar os fiéis nem para atribuir irracionalidade a quem procura respostas para situações concretas de desabrigo e desproteção.
O bolsonarismo não criou essas redes, experiências e linguagens; apenas reconheceu a sua força, estabeleceu alianças com parte das suas direções e ofereceu-lhes canais de influência sobre o Estado. Em contrapartida, recebeu legitimidade religiosa, militância, quadros, votos e uma interpretação providencial da sua liderança (Jair Messias Bolsonaro). É justamente nessa relação — e não numa suposta cegueira coletiva dos fiéis — que se constituiu um dos pilares sociais e ideológicos mais sólidos do movimento bolsonarista.
Os meios de comunicação tradicionais (grandes media) também cumpriram uma função contraditória. Partes relevantes da imprensa legitimaram socialmente a operação Lava Jato, anteciparam condenações e apresentaram a corrupção como monopólio de um partido (do PT) ou da esquerda. Mais tarde, entraram em conflito com Bolsonaro/Partido Fardado, foram atacadas e passaram a defender instituições liberais ameaçadas. Um aparelho pode contribuir para preparar o terreno de uma força e, depois, resistir à sua tentativa de domínio ou de hegemonização. Ainda, saliento, o programa económico desses grupos de média e dos setores empresariais brasileiros é o mesmo; em nenhum momento as diretrizes das políticas económicas do ministro da Economia, Paulo Guedes, foram postas em causa.
As plataformas digitais acrescentaram uma nova materialidade a esse processo histórico e político, visto que a propaganda se tornou algo praticamente ininterrupto. Parece evidente que a internet não inventou o anticomunismo, o racismo, a misoginia ou o militarismo; mas modificou a escala, a velocidade, a segmentação e a participação. O partidário deixou de ser apenas recetor, pois agora partilha, comenta, edita, denuncia, vigia e produz nessa estrutura constante de agitação política.
A distinção entre manipulação e modulação é particularmente profícua para analisar e entender os fenómenos políticos neofascistas. A comunicação de massas envia uma narrativa relativamente homogénea e tão ampla quanto possível; a modulação algorítmica recolhe dados, segmenta públicos e ajusta estímulos aos afetos políticos de cada utilizador. Isto não significa que os algoritmos sejam sujeitos históricos autónomos; representa, sim, que são tecnologias pertencentes a empresas, orientadas por modelos de negócio, acionadas por recursos, dirigentes, produtores de conteúdos e militantes.
Um estudo recente sobre o Brasil Paralelo demonstra que a guerra cultural na construção de uma hegemonia política reacionária e fascizante exige instituições de produção de “conhecimento” ou formas de explicação e justificação daquela conceção de mundo. Filmes, cursos, vídeos e documentários disputam a memória da ditadura empresarial-militar, desacreditam universidades, buscam reescrever a História e oferecem uma visão do mundo em que a esquerda marxista controla a cultura e persegue a maioria cristã. Assim, o olavismo forneceu a linguagem conspiratória; empresas culturais deram-lhe continuidade, profissionalização e mercado. Nesse contexto, outro trabalho interessante, apesar das dúvidas que se colocam quanto à forma-partido, é o estudo da organização denominada Partido Digital Bolsonarista, com coordenação, hierarquias, cadeias de lealdade, disciplina, financiamento, seleção de candidaturas, rituais e capacidade de transformar influência em poder institucional.
Esta forma-partido não cabe plenamente nos diretórios tradicionais, visto que opera através de perfis, gabinetes parlamentares, influenciadores, canais, eventos, financiamento contínuo e sinais de lealdade. O Partido Liberal (PL) funciona como interface jurídica, eleitoral e financeira, mas não esgota o bolsonarismo organizado. Uma dissidência pode não ser punida por uma comissão formal; perde alcance, acesso à base, legitimidade e capacidade de mobilização; basta analisarmos figuras que divergiram do bolsonarismo. A fórmula que melhor resume esta arquitetura é a seguinte: direção simbolicamente centralizada e organização materialmente distribuída. Bolsonaro permanece o principal ponto de condensação (totem), mas o movimento possui quadros, repertórios, recursos e mecanismos que ultrapassam a pessoa e a figura do líder.
Num artigo instigante do ponto de vista da tecnopolítica, Bruno Reinhardt e Letícia Cesarino acrescentam outra dimensão ao trabalharem com a categorização comunicacional de “fascismo atmosférico”. O que significa isto? O bolsonarismo governou também a temporalidade: ameaça iminente, prontidão, indecisão, sensação de golpe que pode ocorrer a qualquer momento — uma dinâmica que, em termos de tática militar, conceptualizamos como “aproximações sucessivas”. Nesse sentido, o 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada, mas como condensação de uma atmosfera construída durante anos por discursos, motociatas, acampamentos, armas, rituais militares, redes digitais e conspirações simultaneamente exibidas e negadas.
A hegemonia política bolsonarista no campo da direita, ainda que truncada e difusa, conformou-se nessa combinação de Forças Armadas, púlpito, televisão, empresas de produção cultural, plataformas digitais, rua e Parlamento. É precisamente neste ponto que a guerra cultural (para construir uma nova-velha hegemonia social) se torna a mediação entre o programa de classe e a experiência quotidiana dos seus partidários/ativistas.
Base social e eleitoral
Quem são os sujeitos políticos que constituem a base social do bolsonarismo? A pergunta parece simples, mas obriga a distinguir categorias que muitas análises confundem, propositadamente ou não. Isto é, financiadores não são necessariamente dirigentes ou quadros políticos; dirigentes não são necessariamente militantes/ativistas; estes militantes não expressam a totalidade complexa do eleitorado. Do mesmo modo, os eleitores podem não ser beneficiários económicos do projeto político que defendem. Noutros termos, os grupos afetados pelo programa económico podem aderir por razões religiosas, raciais, punitivas, morais, pró-capitalista ou anticomunistas. Em suma, o que estou a tentar indicar é a heterogeneidade de classes do movimento bolsonarista, que tem nos segmentos intermédios e subalternos a sua base social e eleitoral.
As mobilizações de 2015 e 2016 tiveram forte presença de pessoas com rendimentos médios e altos, profissionais liberais, pequenos empresários e sucedâneos; esses grupos produziram quadros, recursos, redes e uma militância visível. Entretanto, o bolsonarismo só se tornou força nacional porque atravessou fronteiras de classe e chegou a trabalhadores precarizados, informais, fiéis de igrejas populares, pequenos comerciantes, camionistas, militares de baixa patente, polícias e habitantes das periferias.
Como procurei demonstrar, explicar esta adesão como mera manipulação é intelectualmente cómodo e politicamente desastroso. As notícias falsas (fake news) e as redes sociais não criam do nada o medo do subemprego e da insegurança urbana, a ausência de serviços públicos, a humilhação social ou a procura de pertença, entre muitas outras expressões da questão social. Entendo que elas traduzem esses conflitos reais numa retórica deslocada, oferecendo culpados, uma comunidade e uma promessa de ordem e de futuro. Essa é uma questão central no meu entendimento: a capacidade política de fazer as pessoas sonharem e de prospetar um futuro melhor, principalmente, entre os jovens que parecem viver uma futurofobia.
O trabalhador transformado em “empreendedor de si” pode identificar-se com o discurso contra impostos e direitos laborais, mesmo quando depende de políticas públicas. O fiel pode votar orientado por uma autoridade que o acompanha no quotidiano e tem nela uma referência espiritual. Os pequenos proprietários/comerciantes ou os pobres premium podem temer a proletarização. O assalariado médio pode interpretar a ampliação de direitos dos grupos subalternos como perda do seu estatuto relativo ou de distinção social.
A figura ideológica do “cidadão de bem” condensou essa base heterogénea. Tal designação não se refere a quem supostamente respeita as leis e a ordem, mas a uma comunidade política-moral que se identifica como cristã, heterossexual, patriarcal, proprietária ou aspirante à propriedade, trabalhadora, armamentista, anticomunista (sendo que, no caso brasileiro, o anticomunismo se aproxima do antipetismo) e obediente à autoridade. A sua identidade precisava de um outro negativo/exterior: o “vagabundo”, o criminoso, a feminista, o professor “doutrinador”, o indígena que impede o progresso, o negro acusado de vitimismo ou wokismo, a pessoa LGBTQIA+ apresentada como ameaça às crianças ou com ligações a pedofilia.
A questão racial, o género e o território organizam materialmente a comunidade e os seus inimigos; não podem ser vistos como questões laterais ou secundárias. A polícia que recebe autorização moral e legal para matar atua em territórios racializados e empobrecidos. Do mesmo modo, a fronteira agroextrativa avança sobre povos indígenas e quilombolas. A precarização distribui-se de forma racial e sexualmente desigual. Nesse contexto, a imaginada defesa da família tradicional procura “restaurar autoridade” masculina, disciplinar sexualidades e devolver às mulheres o trabalho invisível da reprodução social. O suposto “anti-identitarismo” bolsonarista era e é, ele próprio, uma política de identidade dominante (branca). Os seus defensores afirmavam denunciar os negros, as mulheres, os indígenas e as pessoas LGBTQIA+ por se organizarem politicamente, enquanto apresentavam o homem cristão, proprietário e heterossexual como indivíduo universal, sem etnia-raça, género ou posição social. A substância histórica e social é a mesma, o que muda são os figurinos e forma de aparecimento a depender da conjuntura histórica.
Para concluir este tópico, há uma dimensão relevante a demarcar, especialmente na perspetiva eleitoral. Penso que não se deve assumir que todos os eleitores de Bolsonaro/bolsonaristas sejam neofascistas conscientes ou militantes, visto que, num processo eleitoral, se agrupam motivações distintas, como o antipetismo, a religião, a expectativa económica, o medo da criminalidade urbana, a rejeição da política do regime liberal, a identificação militar/militarista, a desinformação, o voto útil e outras razões afins. Portanto, a natureza histórica de um movimento não é determinada pela consciência integral de cada eleitor, mas pela direção que organiza essa diversidade, pelos inimigos que constrói e pelo projeto que transforma os votos em poder político. Em síntese, o apoio popular não anula a função de classe de um governo/Estado, do mesmo modo que a função de classe não elimina a necessidade de compreender o consentimento. É precisamente na distância entre os interesses materiais de parte da base social e os beneficiários efetivos do programa económico que a ideologia e a hegemonia revelam a sua força.
Como procuramos demonstrar neste artigo e noutros textos desta série, o bolsonarismo enquanto movimento político não surgiu “do nada”. Antes da sua vitória eleitoral de 2018 já existiam o anticomunismo como um dos pilares das Forças Armadas, as diferentes franjas da direita e da extrema-direita de cariz fascizante, o lavajatismo e uma certa moralização política, movimentos de direita com força nas ruas, o ativismo empresarial, o fundamentalismo religioso e o olavismo como uma corrente filosófica reacionária, assim como os produtores de conteúdos digitais, as forças policiais mobilizadas e uma nostalgia memorialística da ditadura empresarial-militar (1964-1985). A crise do capitalismo periférico brasileiro e do regime político liberal da Nova República aproximou forças que possuíam uma direção: somente a via autoritária aprofundaria as soluções para a crise em prol das classes dominantes.
Nesse quadro, saliento que tratar a figura (totem) de Jair Bolsonaro como recipiente passivo desses conflitos e crises parece-me, no mínimo, um equívoco. Ele, a sua família e o seu grupo político caninamente fiel procuraram articular símbolos e slogans, hierarquizaram os inimigos a derrotar ou “eliminar”, interligaram as agendas/pautas de uma direita fascista e ofereceram legitimidade e voz nacional a discursos antes considerados marginais (agora, ser abertamente racista, misógino e homofóbico já não “ficava tão mal” porque o presidente também era). O que temos é uma relação contraditória: o campo reacionário produziu Bolsonaro; ao tornar-se líder, Bolsonaro/bolsonarismo produziu uma nova-velha forma de fazer política, suprimindo a direita tradicional/oligárquica e tornando-se a força hegemónica desse campo.
Para compreender melhor o que estou a tentar sinalizar de um ponto de vista do imaginário político e ideológico, recupero um pensador de quem discordo em muitos aspetos, mas que foi preciso ao formular freudianamente a figura do “pequeno grande homem” (Theodor Adorno). Sumariamente, o líder fascista apresenta-se como alguém comum, vítima das mesmas proibições e ressentimentos dos correligionários políticos, mas simultaneamente como figura excecional capaz de agir e ir até às últimas consequências para defender o seu projeto político. No caso brasileiro, Bolsonaro comia, falava, insultava e errava como “qualquer pessoa” — e o que mais se ouvia: “ele é autêntico”; ao mesmo tempo, era o “Mito” destinado a salvar a pátria do “socialismo”. Essa duplicidade permitiu a identificação e a submissão. O partidário via no líder alguém semelhante e participava simbolicamente da sua força. As limitações impostas ao racismo, à misoginia ou à violência eram convertidas em censura contra o “homem comum”. O privilégio ameaçado aparecia como opressão.
No núcleo do movimento, a família Bolsonaro e a “família militar” constituem o primeiro círculo de direção e decisão (como vimos agora na decisão de lançar o filho como candidato nas presidenciais), mas não era o único, pois quadros políticos formados na escola de Olavo de Carvalho (o olavismo), pastores (especialmente a burguesia da fé), empresários, parlamentares, dirigentes partidários, comunicadores digitais e influenciadores ocupavam posições distintas.
Isto explica as contradições e conflitos dentro do governo do Partido Fardado liderado por Bolsonaro. O grupo neofascista queria mobilização permanente e rutura reacionária; os setores militares pretendiam tutela e preservação institucional aparente da sua autoridade – o golpismo seria uma última solução, porém teria que ser chancelado pela White House; o grupo de neoliberais liderado por Paulo Guedes desejava levar a cabo uma contrarreforma do Estado brasileiro que mercantilizasse tudo o que fosse possível, uma política de austeridade punitiva contra os trabalhadores e pobres; o Centrão pretendia recursos, cargos e continuidade da sua lógica fisiológica (orçamento secreto); a burguesia da fé (Malafaia e sucedâneos) procurava obter poder político-religioso (Estado cristão) e aprovar pautas conservadoras e reacionárias; a classe dominante brasileira sustentava o programa económico do bolsonarismo, mas algumas das suas frações consideravam disfuncionais os conflitos, as tensões e os ímpetos golpistas do bolsonarismo – tanto que Lula da Silva teve apoio desses setores na eleição de 2022 (na figura do vice-presidente Geraldo Alckmin).
A direção da comunicação digital e as formas de organização reforçaram essa autonomia em relação aos modos tradicionais dos partidos. O bolsonarismo já possui mecanismos de reprodução que não dependem exclusivamente da presença física de Bolsonaro (que está preso por golpe de Estado). A figura do líder continua central, mas a organização pode produzir sucessores (dentro da família), transferir lealdades, disciplinar divergências e manter uma lógica de campanha política permanente. Por isso, retirar Bolsonaro não equivale a desmontar o partido difuso que se formou em torno dele e da família militar (Partido Fardado). A sua liderança popular tem raízes profundas na História do Brasil, da colonização até aos dias de hoje.
Numa perspetiva de longa duração histórica, retomamos o integralismo por este possuir uma genealogia documentada, com sobrevivências organizativas, circulação de símbolos, repertórios anticomunistas, moralismo cristão, culto da hierarquização e da autoridade, assim como as formas de produção do inimigo (interno). Além disso, grupos neointegralistas participaram na recomposição contemporânea da extrema-direita e reconheceram no bolsonarismo um campo de convergência. Contudo, o movimento bolsonarista não é uma reiteração da Ação Integralista Brasileira, ainda que tenha reavivado seletivamente o integralismo e subordinado essa tradição a uma síntese mais ampla, marcada pela condição periférica e dependente do capitalismo brasileiro neoliberal, pela tutela militar, pelo lavajatismo, pelo neopentecostalismo, pelo olavismo, pelas redes milicianas (criminosas), pelo ativismo empresarial e pela organização e comunicação digitais, entre outros elementos. Essa relação de descontinuidade-continuidade entre o integralismo e o bolsonarismo tem no capitalismo o seu terreno histórico, mas as particularidades da realidade brasileira e a crise estrutural apresentam contornos diferentes e talvez mais perigosos do que no século passado.
O neofascismo brasileiro apresenta-se concretamente como ultraneoliberal: adota o empresariamento e a mercantilização como lógica totalizante da sociabilidade, o fundamentalismo religioso como instrumento de deslaicização do Estado e uma operação jurídica moralizadora da política; incorpora ainda os “patriotas dos EUA”, uma rede de influenciadores digitais, parlamentares e cidadãos armados. Portanto, não propõe a mesma economia corporativa da AIB, mas defende, sim, uma liberdade desmedida para os capitalistas e uma coerção e uma precarização brutal sobre o mundo do trabalho. Além disso, os seus agentes não precisam de uma milícia partidária única, visto que podem apoiar-se em polícias, clubes de tiro, redes paraestatais, grupos digitais e aparelhos repressivos existentes dentro do próprio Estado.
A sua novidade não elimina a continuidade funcional nem o seu papel de solução para as classes dominantes em momentos de crise de alta intensidade, nos quais o regime político liberal não consegue dar resposta às contradições. Tal como os fascismos históricos, procura transformar a crise numa mobilização “regeneradora”; unir grupos sociais distintos por meio de inimigos (construídos ideologicamente); destruir ou enfraquecer a autonomia das organizações populares (movimentos sociais, sindicatos, etc.); construir uma estética da violência política visível de matriz colonial; e reorganizar autoritariamente a dominação de classe e a hegemonia política.
Perfazendo, o bolsonarismo não constitui uma reprodução do integralismo, mas uma forma brasileira e contemporânea de neofascismo que reativa essa tradição e a combina com os elementos supracitados. A sua função política consiste em mobilizar setores intermédios e subalternos para aprofundar o poder das classes dominantes, convertendo as crises sociais em conflito moral, perseguição de inimigos internos e legitimação da violência neofascista. Por isso, a derrota eleitoral de um grupo ou o fracasso de uma tentativa golpista não dissolvem o movimento, visto que permanecem os aparelhos, os interesses, as redes e os afetos políticos que o sustentam. O problema, portanto, não se encerra em Bolsonaro, porque o bolsonarismo constitui uma totalidade social e política mais ampla do que uma figura política. Bolsonaro pode cair; enquanto permanecer intacta a ordem que o produziu, o bolsonarismo continuará à procura de outro rosto e com outros nomes.
Carlos Hortmann
“Quando Jair Bolsonaro deixou o Palácio do Planalto, recebi de amigos portugueses várias mensagens de felicitações. A resposta que eu lhes devolvia era quase sempre a mesma: mas o movimento bolsonarista foi derrotado? O 8 de janeiro de 2023 respondeu de forma brutal. A eleição havia retirado Bolsonaro do Governo; não tinha dissolvido a força social, política, institucional e ideológica que se organizara à sua volta.”
A essência histórica daquela pergunta conjuntural sobre o movimento e as suas bases retorna neste ensaio numa perspetiva de longa duração histórica: o bolsonarismo seria um novo integralismo? Uma resposta rápida seria afirmativa. Encontramos o lema “Deus, Pátria e Família”, o anticomunismo, o culto do líder, a denúncia de uma nação corrompida por inimigos internos, o moralismo religioso, a exaltação da autoridade e a legitimação da violência política. Outra resposta igualmente açodada, mas oposta, lembraria que não houve camisas verdes, Sigma, “Anauê”, partido-milícia estruturado nem projeto corporativo equivalente ao da Ação Integralista Brasileira (AIB) dos anos 1930. Entendo que as duas respostas são insuficientes e aparentes. Uma confunde semelhança com identidade; a outra imagina que um fenómeno histórico só pode reaparecer vestido com o mesmo uniforme, etc. Ambas comparam sinais aparentes (exteriores) antes de analisarem as relações sociais, o terreno histórico do seu surgimento, as formas de organização, os interesses de classe e a sua base social, os aparelhos de Estado, as ideologias e o projeto de poder.
A hipótese central deste artigo é que o integralismo, que teve o maior partido fascista fora da Europa, constitui uma das raízes fundamentais do bolsonarismo, mas sem ser uma explicação totalizante do movimento. Isto é, o bolsonarismo conformou-se socialmente após a crise capitalista de 2008 e a crise da chamada Nova República, numa articulação entre frações dominantes interessadas no aprofundamento das políticas neoliberais: o Partido Fardado (aparelhos militares e policiais) e os aparelhos jurídico-políticos com relativa autonomia; organizações religiosas, empresariais, mediáticas e digitais capazes de produzir consenso e mobilização; bases sociais heterogéneas movidas pelo antipetismo, punitivismo, medo, racismo estrutural e pela (suposta) restauração das hierarquias patriarcais e machistas; e uma direção plebiscitária concentrada em Bolsonaro (totem) e na sua família. Por outras palavras, não estamos diante uma soma de grupos, mas sim perante uma totalidade contraditória: interesses materiais, aparelhos repressivos, ideologia fascizante, afetos políticos, organizações e liderança que se reforçaram mutuamente numa conjuntura de crise económica e política de alta intensidade e conflito social. É essa particular e complexa imbricação que nos permite categorizar e identificar o bolsonarismo como uma forma brasileira do neofascismo.
Entendo que adjetivar como neofascista qualquer conservador ou adversário político transforma a categoria histórica numa demarcação política de cunho depreciativo e sem valor explicativo. Por outro lado, limitar o fascismo a Mussolini e Hitler, como se a História apenas produzisse exemplares únicos e encerrados, também nos deixa desarmados diante das transformações da extrema-direita.
Essa problemática integra, há alguns anos, o meu trabalho de investigação e será, em breve, objeto de uma publicação sobre fascismo e neofascismo, na qual proponho uma separação analítica em quatro níveis. Sinteticamente, o fascismo é uma possibilidade histórica que altera a forma estatal, o regime político, e que mobiliza e reorganiza de modo autoritário a dominação e hegemonia capitalista em condições de múltiplas e intensas crises. O neofascismo atualiza esse núcleo sob condições posteriores ao fascismo histórico (1945). A fascização designa o processo pelo qual movimentos desse cariz político ganham enraizamento, normalizam a violência política e a sua estética, penetram nas estruturas do Estado e alteram a correlação de forças e a referida forma estatal. A neofascização é a forma contemporânea desse processo, atravessada pelo neoliberalismo (padrão de reprodução do capital-imperialismo), pelas grandes plataformas digitais (tecnopolítica), pela fragmentação e agudização da precarização do mundo do trabalho e pelas novas capacidades repressivas e informacionais (vigilância) do Estado.
Esta distinção, ultra-sumarizada, permite apreender os processos históricos nas suas contradições e conflitos, de modo a evitar equívocos recorrentes. Um movimento pode ser neofascista sem ter construído um Estado fascista. Um grupo político é capaz de buscar uma rutura autoritária sem conseguir destruir a (aparente) competição eleitoral. Um governo consegue ser dirigido por uma corrente neofascista e, simultaneamente, agrupar militares, liberais, conservadores, religiosos e partidos tradicionais que não possuem exatamente o mesmo projeto político – convergem na defesa dos mesmos interesses de classe, mas, dependendo da intensidade da crise, optam por soluções políticas fora do regime liberal-capitalista. Alberto Toscano sintetiza a questão decisiva: “Perguntar sobre o fascismo é invariavelmente também perguntar sobre as crises que produzem o fascismo.”
No caso brasileiro, o bolsonarismo surgiu como um movimento e uma corrente ideopolítica com grande apoio popular (quer no seu bloco social, quer no eleitoral). Bolsonaro foi/é a liderança (totem) plebiscitária que o galvanizou e organizou o movimento; o governo do Partido Fardado/Bolsonaro foi uma coligação heterogénea, dirigida hegemonicamente pela extrema-direita, mas composta por grupos com interesses próprios (por exemplo, Sérgio Moro) e, por vezes, conflituantes (como a gestão da pandemia, etc.). O regime político de 2019 a 2022 permaneceu uma democracia representativa liberal, com forte ímpeto autoritário, submetida à erosão institucional e a tentativas de rutura golpista, mas não se transformou num Estado fascista consolidado. Em síntese, o Brasil possuía um conjunto de ideias, imaginários e movimentos atravessados pelo fascismo; além disso, neofascistas estavam na principal posição do Governo central, mas o país não chegou a ter uma ditadura fascista (Boito Jr.). Essa distinção é decisiva, pois negar a matriz social neofascista do movimento porque não existiu partido único é tão errado quanto declarar fascista todo o Estado brasileiro porque Bolsonaro/Partido Fardado chegou à Presidência.
Quais são, então, os elementos constitutivos fundamentais no âmbito da política? No meu entendimento, quatro relações precisam de estar presentes: uma mobilização chauvinista regeneradora/libertadora – livrar o Brasil de um suposto regime socialista – que promete reconstruir a nação; a produção totalizante de inimigos internos que não são reconhecidos como adversários legítimos, mas alvos a serem eliminados; uma reconfiguração na relação hegemónica entre consenso e violência; e a pretensão de reorganizar autoritariamente uma ordem atravessada por uma crise de alta intensidade. O avanço do processo pode ser aferido pela instilação nos aparelhos repressivos, pela neutralização ou exclusão das organizações adversárias, pela legalização ou normalização da exceção, pela subordinação das instituições ao grupo dirigente e pela transformação duradoura da forma política e jurídica do Estado.
O bolsonarismo preencheu os critérios elementares e avançou em diversos dos agravantes. Procurou construir ideologicamente uma comunidade moral do “Brasil de verdade” e “dos cidadãos de bem”, transformar a esquerda — quer os seus setores moderados, quer os seus setores minoritários radicais —, os movimentos sociais, professores, jornalistas, indígenas, feministas e pessoas LGBTQIA+ em partes de uma conspiração do “marxismo cultural” ou da agenda woke; legitimou tortura, violência policial e eliminação física; recorreu ao totem do Partido das Forças Armadas e penetrou profundamente nas polícias (militares); governou mediante a ameaça, a tensão e o conflito permanentes; procurou desacreditar eleições, tribunais e mecanismos de controlo do regime liberal. O bolsonarismo não conseguiu efetivar o golpe que preparara; contudo, o fracasso do objetivo máximo não oculta a substância política e histórica do processo.
Como sinalizámos, o fascismo brasileiro tem uma história anterior ao movimento encabeçado por Jair Messias Bolsonaro. A Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 e dirigida por Plínio Salgado, foi um movimento de massas com organização nacional (com forte preponderância em São Paulo e no Rio de Janeiro), imprensa própria, símbolos, rituais, estética uniformizada, formação de quadros e capacidade de disputar as ruas. O chefe era apresentado como intérprete do destino nacional; a sociedade como organismo moral superior às classes; o comunismo como força dissolvente da família, da religião e da pátria.
No livro O fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo, Leandro Gonçalves e Odilon Caldeira Neto procuraram demonstrar que a dissolução da AIB não destruiu as suas redes e ideias. O integralismo sobreviveu em associações, jornais, círculos culturais, memórias militantes e experiências partidárias, sobretudo ao reorganizar-se no pós-guerra através do Partido de Representação Popular (PRP) e ao reaparecer posteriormente em grupos neointegralistas. Um artigo recente trata de uma mediação fundamental do movimento: a AIB não consistiu numa imitação passiva de Mussolini, pois “articulou vínculos com o fascismo italiano, o nazismo alemão, o integralismo lusitano e o falangismo espanhol” (Bianchi, Defina, Cardoso, 2026). Em resumo, integrou um campo transnacional da direita “ultranacionalista” e fascista do século XX, no qual símbolos, práticas e conceitos circulavam e eram traduzidos para as condições brasileiras.
Há, portanto, continuidade organizativa e ideopolítica suficiente para pôr em causa a “perceção” de que o integralismo desapareceu em 1938 (com a repressão de Getúlio Vargas). Existem elementos constitutivos que atravessaram o tempo: “Deus, Pátria e Família”; o anticomunismo; a autoridade como se fosse a solução para o conflito; a rejeição à luta de classes; a comunidade nacional concebida como unidade espiritual; a violência e a sua estética apresentada numa perspetiva moral e defensiva; a transformação da política numa guerra contra agentes da decadência brasileira. Um ponto fulcral: identificar continuidades não significa repetição, pois a verdade histórica é concretamente particular; o que existe hoje, por mais que tenha elementos semelhantes aos do passado, é diferente (desculpem-me o momento hegeliano). Noutros termos, não é razoável equiparar símbolos e retórica com base apenas nas aparências; é necessário determinar a formação social, os sujeitos das classes, o programa económico e a função política de cada movimento.
Plínio Salgado denunciava o grande capital e a finança em nome de uma ordem rural, cristã, hierárquica e fundada na pequena propriedade. O aparente “anticapitalismo” não questionava a propriedade dos meios de produção nem pretendia emancipar o trabalho assalariado da sua alienação; isto é, o integralismo moralizava as relações sociais e projetava uma (hipotética) restauração. O bolsonarismo, ao contrário, promoveu a expansão dos capitais financeiros, da agroexportação e do extrativismo – padrão de produção típico de um país periférico e dependente. Não pretendeu conter a acumulação capitalista, mas quis “libertá-la” das garantias básicas (laborais e de segurança social) que protegiam minimamente os/as trabalhadores/as, da proteção ambiental (“vamos passar a boiada”), das políticas públicas de cariz universalizante, com vista à sua mercantilização, etc. Além disso, identifico uma mudança na materialidade da organização política, visto que o integralismo construiu um partido uniformizado, com milícias, secções territoriais e liturgias públicas. O bolsonarismo tem desenvolvido uma organização (mais) flexível, eleitoral, religiosa e digital (elemento do nosso tempo). A direção continua a produzir unidade, disciplina e inimigos, mas já não depende de uma sede partidária fixa. As redes sociais, os canais de comunicação direta, as igrejas, os gabinetes parlamentares e os movimentos de rua cumprem funções que antes eram concentradas na forma-partido de massas clássica. A base religiosa transformou-se igualmente, pois, o integralismo sustentava-se no catolicismo conservador. No bolsonarismo, lideranças evangélicas/protestantes (pentecostais e neopentecostais) adquiriram um peso sem equivalente; todavia, os setores católicos de cariz mais conservador e reacionário também constituem a base do bolsonarismo, mas não com a força mobilizadora das lideranças evangélicas. O decisivo é que a religião não desapareceu; mudou de instituições, de linguagem e de formas de inserção na vida quotidiana.
O integralismo, portanto, não é a origem exclusiva do bolsonarismo. É uma procedência real, entrelaçada com outras: o anticomunismo militar, a memória apologética da ditadura, o punitivismo policial, o neoliberalismo, o olavismo, o moralismo da Lava Jato, o fundamentalismo religioso, as forças paraestatais e milícias em grandes capitais e a tecnopolítica das plataformas digitais (Big Techs). A questão central é como tradições diferentes foram reativadas, combinadas e subordinadas a um novo projeto de poder.
Frações dominantes e beneficiados
No referido artigo, apresentei o ultraneoliberalismo e o agronegócio como dois “setores” de classe constitutivos do bolsonarismo. Importa fazer duas notas caracterizadoras. O neoliberalismo ultrapassa um determinado grupo social que o defende enquanto política económica e ideologia, pois é, sobretudo, um projeto económico-político de reorganização da acumulação (tendo como eixo dinâmico a financeirização), do Estado e das relações entre capital e trabalho, etc. Quando o categorizo como setor ultraneoliberal, tenho como objetivo sinalizar o conteúdo autoritário (com elementos fascizantes) dessas forças políticas, que se reconfiguram no interior da direita tradicional, maioritariamente. O agronegócio, por sua vez, agrupa os interesses dos proprietários fundiários (fazendeiros), das agroindústrias, dos exportadores, das tradings, dos grandes frigoríficos/matadouros, do capital financeiro ligado à terra e dos representantes parlamentares (bancada do boi).
Nesse contexto, a análise que faço desse processo suscita duas questões fundamentais: quem apoiou e/ou ganhou materialmente com o governo Bolsonaro? A base social ativa de um movimento de cariz neofascista pode ser identificada sociologicamente na pequena burguesia e no que tenho classificado de “pobre premium” (a dita alta “classe média”), enquanto o governo serve prioritariamente frações do grande capital (Boito Jr.). Numa formulação sintética: mobilização social de setores intermédios, governo para as classes dominantes. Ou seja, os que ocupam as ruas, difundem mensagens e imaginam combater o “sistema” não são necessariamente os principais beneficiários da política económica que ajudam a legitimar. O bolsonarismo tem uma vertente com uma forma (sem conteúdo) insurrecional deveras marcado e distintivo no fazer política, o que expressa uma aparência, somente cariz, de antissistema.
A composição concreta do bloco dominante foi disputada: o capital financeiro, o agronegócio, a mineração, os grandes grupos comerciais (retalho) e de comunicação, partes da indústria e o capital estrangeiro não tiveram interesses semelhantes em todos os momentos do governo bolsonarista (por exemplo, durante a pandemia da Covid-19). Ainda assim, convergiram em torno de elementos fundamentais: reforma da Previdência (da segurança social); privatizações; abertura de mercados; desregulação ambiental; enfraquecimento de direitos laborais; “autonomia” (privatização) acrescida do Banco Central; redução da capacidade redistributiva do Estado; e proteção da propriedade diante de movimentos sociais.
As classes dominantes não precisaram de fabricar Bolsonaro desde o início, visto que setores relevantes preferiram candidatos convencionais (por exemplo, Geraldo Alckmin, hoje vice de Lula da Silva). A adesão tornou-se maciça quando ele apareceu como a alternativa capaz de derrotar o PT e executar o programa ultraneoliberal avalizado por Paulo Guedes (associado aos Chicago Boys, tendo prestado serviços à ditadura de Pinochet, no Chile). O movimento liderado por Bolsonaro possuía dinâmica relativamente própria; os capitalistas brasileiros e os ditos conservadores aderiram “pragmaticamente”, pero no mucho, quando reconheceram a sua utilidade, força social e eleitoral.
Observemos a contradição. O bolsonarismo afirmava falar em nome do indivíduo contra o Estado, mas não procurou um Estado menor, como a ideologia neoliberal propala. Todavia, a política seguida foi a de um Estado seletivamente forte. Isto é, fraco para garantir trabalho, saúde, segurança social, educação, preservação ambiental e redistribuição do rendimento, etc.; forte para assegurar austeridade, contratos, privatizações, propriedade, rentismo, fronteira extrativa, repressão policial e disciplina social. A liberdade do capital exigia a limitação da força social daqueles/as que vivem da força do seu trabalho.
Essa lógica de operar sob o neoliberalismo traz em si raízes históricas de longa duração, como alerta Marcelo Matos ao analisar a autocracia burguesa brasileira. A classe dominante brasileira formou-se associada ao capital externo, conciliada com grandes proprietários e estruturalmente hostil a uma verdadeira democratização que ameaçasse a riqueza e o poder (por exemplo, o golpe de 1964). A autocracia não existe apenas em ditaduras abertas. Manifesta-se também na restrição sistemática da participação popular e na prontidão com que as classes possidentes aceitam soluções de força e autoritárias, desde que constituam a forma mais eficiente de preservar os seus interesses.
O suposto “nacionalismo” bolsonarista foi estridente no plano moral e subordinado no plano material. Quer dizer, o slogan “Brasil acima de tudo” conviveu com alinhamento externo (submetido aos EUA), privatização (de setores estratégicos), financeirização e expansão de uma economia agromineira exportadora (intensificando a desindustrialização e a dependência). Quanto menor a soberania económica, maiores podiam ser a exaltação simbólica e o chauvinismo da pátria. A imaginada defesa do Brasil contra aqueles que o bolsonarismo considerava inimigos internos (os comunistas, petistas, ambientalistas, indígenas, professores/as, as mulheres e o feminismo, a comunidade LGBTIQ+), com consequências concretas para estes, desaparece por completo perante a contínua transferência de riqueza (valor) e a dependência cada vez maior do país em relação ao exterior.
No campo e na Amazónia, economia e violência territorial encontraram-se, visto que a expansão do agronegócio extrativista atinge os territórios de povos indígenas, de comunidades quilombolas e de camponeses, bem como a floresta e áreas afins. O armamentismo e a desregulação ambiental não foram apenas temas de retórica, pois integraram condições políticas da acumulação capitalista no Brasil. A figura do “produtor” ameaçado transformou a expropriação de terras e a violência em defesa da propriedade.
Para concluir este tópico, retomo os estudos da historiadora Virgínia Fontes sobre aparelhos privados de hegemonia, que permitem perceber que as classes dominantes não atuam apenas através do financiamento eleitoral. Institutos, fundações, associações patronais e organizações empresariais produzem quadros, programas, campanhas e constrangimentos. O seu “hegemonismo” reduz o campo de decisões possíveis, aproxima programas partidários e apresenta interesses privados como imperativos técnicos. A extrema-direita não substituiu esse ativismo; ofereceu-lhe uma forma de mobilização de massas e uma capacidade acrescida de coerção.
É no esteio desta caracterização que identificamos o papel estruturante e o poder político das classes no bolsonarismo. Contudo, a função das classes, por si só, não explica como milhões de pessoas, na sua maioria pertencentes à classe trabalhadora, foram mobilizadas para constituir o seu bloco (heterogéneo e interclassista) social e eleitoral.
A relação de Jair Bolsonaro com o mundo militar precede em décadas a eleição de 2018. O amotinado e polémico capitão do Exército passou à reserva em 1988, a fim de assumir um cargo político. A sua primeira base foi corporativa: dizia defender os militares e os agentes policiais no que diz respeito a salários, carreiras, etc. O deputado, que parecia folclórico, combinava defesa da ditadura, retórica golpista e anticomunista, e mobilização extraparlamentar. Antes de as formulações reacionárias de Olavo de Carvalho — o olavismo — dominarem a gramática da extrema-direita, a guerra cultural contra o “inimigo interno” já circulava em instituições militares, tendo efetividade nos modos concreto de repressão e perseguição aos opositores perpetrados pela ditadura empresarial-militar.
A categoria “partido fardado”, que utilizamos de um ponto de vista analítico, procura captar e sinalizar a atuação política, relativamente orgânica, de setores militares de alto comando e patentes, a sua pretensão de tutelar a República e a continuidade de uma doutrina que apresenta as Forças Armadas como árbitro superior da vida nacional. Bolsonaro não inventou essa pretensão de poder moderador, apenas se tornou o veículo (totem) eleitoral que permitiu aos militares regressarem ao centro do Executivo, ocuparem milhares de cargos e recuperarem poder sobre áreas civis.
As polícias (militares e civis) constituem um problema com elementos e nuances distintos dos das Forças Armadas, visto serem instituições estaduais, com estatutos e comandos próprios. A lógica de funcionamento e operação nos territórios e as ligações às milícias são permanentes. Contudo, o armamentismo, a retórica de “lei e ordem”, a heroicização da violência e a promessa de proteção jurídica aos agentes repressivos encontraram adesão em setores policiais. A frase retórica “bandido bom é bandido morto” não opera numa sociedade abstrata, pois os suspeitos têm marcadores raciais, territoriais e sociais.
Por isso, a dimensão racial não pode ser acrescentada no fim da análise nem tratada como um tema isolado. A violência policial brasileira é seletiva; a população negra, pobre e periférica conhece o Estado sobretudo através de incursões repressivas, revistas, encarceramento em massa e morte. O racismo vai além de uma herança colonial; constitui uma necessidade do capitalismo na gestão de populações historicamente excluídas e atua como garante legitimador do seu domínio pela violência sistemática. Todavia, o bolsonarismo não criou essa estrutura, mas transformou-a em virtude pública. Enquanto substância histórica do fascismo, a violência converte-se numa estética que torna visível uma dinâmica precedente que, tendencialmente, se procura ocultar ou cujo caráter contínuo se procura velar. A figura do polícia autorizado (impunemente) a matar tornou-se parte da comunidade moral do “cidadão de bem”.
As milícias e outras redes paraestatais pertencem à mesma lógica fascizante, embora o seu peso no conjunto do movimento exija uma abordagem específica e pormenorizada, dadas as singularidades de cada Estado da federação. Mas, no essencial, revelam a circulação entre agentes públicos, economias ilegais, controlo armado territorial, prestação coerciva de serviços e representação política. O bolsonarismo está imbricado e opera, em certa medida, pela lógica e pela estrutura milicianas, indicando que a fronteira entre Estado e paraestado pode funcionar como forma concreta de poder.
O sistema judicial entra nesta caracterização do bolsonarismo por uma via diferente. A operação Lava Jato e os seus principais protagonistas, tanto quanto sabemos, não parecem constituir diretamente uma fração da classe dominante nem possuir ligações às forças políticas que rodeavam o grupo político de Jair Bolsonaro. Identifico-a como uma corrente político-jurídica, instalada em aparelhos do Ministério Público, da magistratura e da Polícia Federal, com forte legitimação mediática e autonomia relativa, mas também interconectada com aspetos do sistema interestatal e da economia política internacional. Os contactos, a cooperação jurídica, a formação, a circulação de doutrinas anticorrupção e as relações com agências estadunidenses são objetos documentáveis.
A operação, liderada por Sérgio Moro, transformou a crise social, política e económica numa perspetiva moralizante da situação. Ou seja, a corrupção deixou de designar relações sistémicas entre empresas, financiamento político, contratos e Estado, etc. – lógica estrutural no capitalismo –, e passou a explicar todos os problemas nacionais, concentrando-os seletivamente no Partido dos Trabalhadores (PT) e nos seus dirigentes, bem como a rotular a esquerda em sentido lato como sinónimo de corrupção e falha moral. O objetivo seria o de apresentar os juízes e procuradores como “salvadores” da pátria acima da política. Noutros termos, a linguagem e as formas jurídicas do processo penal foram utilizadas para reorganizar a competição eleitoral (derrotar o projeto social-liberal do PT). É neste ponto que o lavajatismo intensificou o antipetismo e o anticomunismo, deslegitimou o sistema partidário e contribuiu para o impeachment do golpe de 2016. A prisão e o impedimento eleitoral de Lula da Silva alteraram decisivamente a competição presidencial no ano de 2018. A entrada de Sérgio Moro, juiz que condenou e prendeu Lula da Silva, no Governo militar liderado por Bolsonaro tornou visível a convergência política entre aquela operação jurídico-política e o bolsonarismo, indicando que esse “partido da Lava Jato” viria a constituir uma das bases do bolsonarismo – parece-me evidente que hoje têm uma força política e mediática significativamente reduzida.
O estudioso da questão militar brasileira e jornalista Pedro Marin formulou uma imagem com força explicativa: a Lava Jato foi mais “artilharia” do que “infantaria”. Precisamente, a sua função histórica foi bombardear a ordem existente, destruir reputações, empresas, partidos e mediações políticas. Não possuía, porém, capacidade para ocupar e estabilizar o terreno aberto. A velha direita neoliberal (tucana) também não conseguiu herdar integralmente o resultado; por isso, os militares e a extrema-direita avançaram sobre os escombros.
O ponto central é que a ofensiva liberal-conservadora e neofascista não utilizou apenas as eleições e os partidos; recorreu também às burocracias civis e militares, tribunais, ministérios públicos e polícias para que interviessem na crise, deslocando decisões e construindo legitimidade política e ideológica. É preciso dizer sem rodeios: o bolsonarismo configurou-se a partir dessa politização dos aparelhos estatais, ao mesmo tempo que procurou aprofundar essa politização numa perspetiva autoritária e fascizante.
No esteio das lições de filosofia política de Maquiavel e das experiências históricas, podemos afirmar sem muitas dúvidas, que nenhum movimento de massas se sustenta apenas pela coerção; daí decorre a necessidade de produzir explicações, identidades, consentimentos, afetos e formas de pertença política. A hegemonia opera numa dinâmica contraditória entre consenso e coerção: dependendo do tipo de conflito ou projeto político, um dos polos torna-se preponderante sobre o outro. Nesse sentido, o que temos vindo a identificar e categorizar (provisoriamente) como guerra cultural vai além de táticas de “distração”, “cortina de fumo” e afins, e desponta como um mecanismo constitutivo desse processo político.
Esse brevíssimo preâmbulo relaciona-se com o texto anterior que escrevi sobre o bolsonarismo, no qual sugeri que o “pânico moral” (ou “terrorismo da indignação”) desviava a atenção da agenda da Faria Lima (centro do mercado financeiro brasileiro), o que é verdade; contudo, a formulação precisa de ser ampliada e demarcada. A guerra cultural, objetivando construir outra hegemonia, pode servir para velar reformas económicas antipopulares, mas também tem a capacidade de concertar socialmente o campo bolsonarista, disciplinar os partidários, converter os antagonismos de classe em conflitos de ordem moral, bem como legitimar e normalizar a violência política e unir grupos com interesses materiais e posições de classe diferentes (de um trabalhador evangélico uberizado ao conhecido dono de uma rede de lojas retalhistas do Brasil).
O anticomunismo foi a sua gramática política comum. Importa enfatizar que o anticomunismo não exprimia a força real dos comunistas no Brasil — a esquerda radical é marginal —, mas operava como categoria extensível. O “comunista” podia/pode ser um militante do PT, uma professora, uma feminista, um jornalista, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), um indígena em defesa do território ou alguém que recusasse algumas das ideias-força do bolsonarismo. A ameaça era tanto mais eficiente quanto menos precisava de um referente preciso.
As igrejas e o fundamentalismo religioso tiveram — e continuam a ter — um papel decisivo na constituição do bolsonarismo. Determinadas lideranças e organizações evangélicas conservadoras forneceram-lhe capilaridade territorial, autoridade moral, meios de comunicação, quadros políticos e capacidade de mobilização. Pequenos, mas ideologicamente ativos, grupos católicos reacionários também participaram nessa construção, sobretudo nas campanhas contra o feminismo, os direitos reprodutivos, a população LGBTQIA+ e aquilo a que chamaram “ideologia de género”, etc.
O campo evangélico é social, institucional e teologicamente heterogéneo: os evangélicos históricos, os pentecostais, os neopentecostais, as grandes denominações, as igrejas locais, os pastores de base e os fiéis não pensam nem agem como um corpo uniforme. Existem, ainda que minoritárias, correntes evangélicas progressistas e democráticas, algumas próximas da chamada Teologia da Missão Integral (irmã da Teologia da Libertação de matriz católica), que procuram articular a fé cristã com a justiça social e a defesa dos direitos humanos. Seria, portanto, um erro grosseiro representar milhões de evangélicos como pessoas robotizadas, desprovidas de discernimento, consciência ou interesses próprios. A adesão de parte desse universo ao bolsonarismo não pode ser explicada somente pela manipulação exercida por pastores (que compõem a “burgueses da fé”) ou pela influência de grandes denominações religiosas. É necessário compreender as condições materiais e sociais dentro das quais essas organizações adquiriram tamanha importância.
O melhorismo dos governos do PT/lulismo — isto é, a melhoria relativa e limitada das condições de vida de milhões de brasileiros — não enfrentou as grandes fraturas da formação social brasileira (crise urbana, questão da terra, o caráter da dependência e da desindustrialização progressiva). A expansão do emprego, do consumo, do crédito e do rendimento não eliminou o subemprego, a informalidade laboral, a insegurança económica e alimentar, nem a superexploração da força de trabalho. As implementadas políticas públicas universalizantes permaneceram insuficientes e, em vários momentos, foram e continuam a ser intencionalmente enfraquecidas como forma de garantir a política de austeridade. A vida melhorou para muitos, mas continuou subordinada à instabilidade das crises do capitalismo periférico e dependente brasileiro, à precariedade dos serviços públicos, à violência e à desigualdade racial e territorial.
Foi também nesse espaço que as igrejas cresceram como redes quotidianas de sociabilidade, proteção e solidariedade. Ali, “os irmãos em Cristo ajudam-se”: indicam empregos e trabalhos, organizam cabazes alimentares, visitam doentes, cuidam de crianças, apoiam famílias endividadas e acompanham pessoas atingidas pelo alcoolismo, pela violência doméstica ou pelo abandono. Na maioria das vezes, as respostas oferecidas não são suficientes (mas produzem laços de confiança e a perceção de que estão a ser “apoiadas”); algumas reproduzem hierarquias patriarcais e podem silenciar conflitos que deveriam ser enfrentados pelo Estado e pela sociedade (ex. violência doméstica). Mas o auxílio, a escuta e o sentimento de pertencimento são reais. Para pessoas que a sociedade capitalista e racista brasileira reduz frequentemente à invisibilidade, à suspeição ou à condição de força de trabalho descartável, a igreja pode oferecer um nome, uma comunidade e a possibilidade de recomeçar. Nesses espaços, alguém pode “renascer em Cristo” e tornar-se uma “nova criatura”; os erros e os desacertos do passado deixam de constituir uma condenação irrevogável. A conversão não é apenas uma mudança doutrinária. Pode representar a reconstrução da identidade, o abandono de relações assoladoras, a recuperação da autoestima e o ingresso numa rede concreta de reciprocidade e pertencimento social e também político. A gramática da redenção é um afeto e um imaginário político poderosos que as igrejas mobilizam com muita eficácia, mas que a esquerda também mobilizou no passado e hoje parece ser algo secundário.
É precisamente porque não são simples máquinas de manipulação que as igrejas podem tornar-se aparelhos tão poderosos de produção de hegemonia, no eixo do consenso. A mesma capilaridade que acolhe também pode disciplinar; a própria comunidade que protege pode definir quem pertence e quem ameaça a ordem; assim como a autoridade que oferece consolo pode converter uma orientação política em dever religioso. A solidariedade comunitária e a direção reacionária e fascizante não são realidades incompatíveis. Podem coexistir dentro da mesma organização e, por vezes, dentro da mesma experiência individual.
Nesse quadro, penso ser importante destacar o peso específico das organizações neopentecostais e do sionismo cristão nessa articulação no campo do bolsonarismo. Estas igrejas ofereceram redes territoriais, meios de comunicação (por exemplo, a TV Record), dirigentes, linguagem moral, autoridade e mobilização eleitoral. Noutros termos, a batalha política pode ser traduzida como batalha espiritual; o adversário, como força demoníaca; e o líder político, como instrumento providencial de Deus. Por conseguinte, quando o conflito deixa de opor projetos políticos e passa a representar uma guerra entre o Bem e o Mal, a diversidade e a diferença perdem legitimidade. Negociar com o adversário pode parecer uma cedência ao demónio; derrotá-lo torna-se uma missão religiosa e moral. São formas de vida que se confrontam sem qualquer espaço para mediações.
O sionismo cristão é uma corrente do cristianismo, particularmente influente entre setores neopentecostais, que interpreta o apoio ao Estado de Israel e o retorno dos judeus à chamada Terra Prometida como parte do cumprimento das profecias bíblicas, articulando-se ao neopentecostalismo através de uma linguagem escatológica, do uso de símbolos judaico-israelitas e da construção de uma identidade político-religiosa conservadora em torno de Israel. O bolsonarismo sustenta-se também nessa imbricação, ao ponto de um católico, Jair Bolsonaro, ser batizado por um pastor neopentecostal e político, Everaldo Pereira, nas águas do rio Jordão.
A Teologia da Prosperidade acrescentou a essa infraestrutura comunitária neopentecostal uma gramática munida de fortes afinidades com a subjetividade neoliberal. Desta forma, o sucesso aparece como resultado da fé, do mérito, da disciplina e do investimento individual; o fracasso tende a ser interpretado como insuficiência pessoal ou espiritual. O empresário de si mesmo encontra o fiel, que deve demonstrar a sua eleição através da transformação da própria vida. Problemas produzidos pelo desemprego, pelo racismo, pela precariedade e pela desigualdade podem, assim, ser deslocados para o campo da responsabilidade individual.
O que estou a tentar assinalar com essa descrição é que muitos fiéis procuram proteção, sociabilidade, dignidade e apoio material que o Estado e as suas políticas lhes negam. A força das lideranças do fundamentalismo religioso reside precisamente na capacidade de organizar experiências verdadeiras de insegurança e desamparo dentro de uma retórica ideológica de restauração moral, prosperidade individual e guerra espiritual. A minha crítica, portanto, não se dirige à fé nem aos milhões de pessoas que encontram nas igrejas uma comunidade de pertencimento. Dirige-se à conversão da autoridade religiosa, do dinheiro, da comunicação de massas, dos púlpitos e da capilaridade comunitária em poder político. A expressão “burguesia da fé” procura identificar os dirigentes e pastores que acumulam capital económico, mediático e religioso e o transformam em influência política, eleitoral e estatal. Por isso, não deve servir para desprezar os fiéis nem para atribuir irracionalidade a quem procura respostas para situações concretas de desabrigo e desproteção.
O bolsonarismo não criou essas redes, experiências e linguagens; apenas reconheceu a sua força, estabeleceu alianças com parte das suas direções e ofereceu-lhes canais de influência sobre o Estado. Em contrapartida, recebeu legitimidade religiosa, militância, quadros, votos e uma interpretação providencial da sua liderança (Jair Messias Bolsonaro). É justamente nessa relação — e não numa suposta cegueira coletiva dos fiéis — que se constituiu um dos pilares sociais e ideológicos mais sólidos do movimento bolsonarista.
Os meios de comunicação tradicionais (grandes media) também cumpriram uma função contraditória. Partes relevantes da imprensa legitimaram socialmente a operação Lava Jato, anteciparam condenações e apresentaram a corrupção como monopólio de um partido (do PT) ou da esquerda. Mais tarde, entraram em conflito com Bolsonaro/Partido Fardado, foram atacadas e passaram a defender instituições liberais ameaçadas. Um aparelho pode contribuir para preparar o terreno de uma força e, depois, resistir à sua tentativa de domínio ou de hegemonização. Ainda, saliento, o programa económico desses grupos de média e dos setores empresariais brasileiros é o mesmo; em nenhum momento as diretrizes das políticas económicas do ministro da Economia, Paulo Guedes, foram postas em causa.
As plataformas digitais acrescentaram uma nova materialidade a esse processo histórico e político, visto que a propaganda se tornou algo praticamente ininterrupto. Parece evidente que a internet não inventou o anticomunismo, o racismo, a misoginia ou o militarismo; mas modificou a escala, a velocidade, a segmentação e a participação. O partidário deixou de ser apenas recetor, pois agora partilha, comenta, edita, denuncia, vigia e produz nessa estrutura constante de agitação política.
A distinção entre manipulação e modulação é particularmente profícua para analisar e entender os fenómenos políticos neofascistas. A comunicação de massas envia uma narrativa relativamente homogénea e tão ampla quanto possível; a modulação algorítmica recolhe dados, segmenta públicos e ajusta estímulos aos afetos políticos de cada utilizador. Isto não significa que os algoritmos sejam sujeitos históricos autónomos; representa, sim, que são tecnologias pertencentes a empresas, orientadas por modelos de negócio, acionadas por recursos, dirigentes, produtores de conteúdos e militantes.
Um estudo recente sobre o Brasil Paralelo demonstra que a guerra cultural na construção de uma hegemonia política reacionária e fascizante exige instituições de produção de “conhecimento” ou formas de explicação e justificação daquela conceção de mundo. Filmes, cursos, vídeos e documentários disputam a memória da ditadura empresarial-militar, desacreditam universidades, buscam reescrever a História e oferecem uma visão do mundo em que a esquerda marxista controla a cultura e persegue a maioria cristã. Assim, o olavismo forneceu a linguagem conspiratória; empresas culturais deram-lhe continuidade, profissionalização e mercado. Nesse contexto, outro trabalho interessante, apesar das dúvidas que se colocam quanto à forma-partido, é o estudo da organização denominada Partido Digital Bolsonarista, com coordenação, hierarquias, cadeias de lealdade, disciplina, financiamento, seleção de candidaturas, rituais e capacidade de transformar influência em poder institucional.
Esta forma-partido não cabe plenamente nos diretórios tradicionais, visto que opera através de perfis, gabinetes parlamentares, influenciadores, canais, eventos, financiamento contínuo e sinais de lealdade. O Partido Liberal (PL) funciona como interface jurídica, eleitoral e financeira, mas não esgota o bolsonarismo organizado. Uma dissidência pode não ser punida por uma comissão formal; perde alcance, acesso à base, legitimidade e capacidade de mobilização; basta analisarmos figuras que divergiram do bolsonarismo. A fórmula que melhor resume esta arquitetura é a seguinte: direção simbolicamente centralizada e organização materialmente distribuída. Bolsonaro permanece o principal ponto de condensação (totem), mas o movimento possui quadros, repertórios, recursos e mecanismos que ultrapassam a pessoa e a figura do líder.
Num artigo instigante do ponto de vista da tecnopolítica, Bruno Reinhardt e Letícia Cesarino acrescentam outra dimensão ao trabalharem com a categorização comunicacional de “fascismo atmosférico”. O que significa isto? O bolsonarismo governou também a temporalidade: ameaça iminente, prontidão, indecisão, sensação de golpe que pode ocorrer a qualquer momento — uma dinâmica que, em termos de tática militar, conceptualizamos como “aproximações sucessivas”. Nesse sentido, o 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada, mas como condensação de uma atmosfera construída durante anos por discursos, motociatas, acampamentos, armas, rituais militares, redes digitais e conspirações simultaneamente exibidas e negadas.
A hegemonia política bolsonarista no campo da direita, ainda que truncada e difusa, conformou-se nessa combinação de Forças Armadas, púlpito, televisão, empresas de produção cultural, plataformas digitais, rua e Parlamento. É precisamente neste ponto que a guerra cultural (para construir uma nova-velha hegemonia social) se torna a mediação entre o programa de classe e a experiência quotidiana dos seus partidários/ativistas.
Base social e eleitoral
Quem são os sujeitos políticos que constituem a base social do bolsonarismo? A pergunta parece simples, mas obriga a distinguir categorias que muitas análises confundem, propositadamente ou não. Isto é, financiadores não são necessariamente dirigentes ou quadros políticos; dirigentes não são necessariamente militantes/ativistas; estes militantes não expressam a totalidade complexa do eleitorado. Do mesmo modo, os eleitores podem não ser beneficiários económicos do projeto político que defendem. Noutros termos, os grupos afetados pelo programa económico podem aderir por razões religiosas, raciais, punitivas, morais, pró-capitalista ou anticomunistas. Em suma, o que estou a tentar indicar é a heterogeneidade de classes do movimento bolsonarista, que tem nos segmentos intermédios e subalternos a sua base social e eleitoral.
As mobilizações de 2015 e 2016 tiveram forte presença de pessoas com rendimentos médios e altos, profissionais liberais, pequenos empresários e sucedâneos; esses grupos produziram quadros, recursos, redes e uma militância visível. Entretanto, o bolsonarismo só se tornou força nacional porque atravessou fronteiras de classe e chegou a trabalhadores precarizados, informais, fiéis de igrejas populares, pequenos comerciantes, camionistas, militares de baixa patente, polícias e habitantes das periferias.
Como procurei demonstrar, explicar esta adesão como mera manipulação é intelectualmente cómodo e politicamente desastroso. As notícias falsas (fake news) e as redes sociais não criam do nada o medo do subemprego e da insegurança urbana, a ausência de serviços públicos, a humilhação social ou a procura de pertença, entre muitas outras expressões da questão social. Entendo que elas traduzem esses conflitos reais numa retórica deslocada, oferecendo culpados, uma comunidade e uma promessa de ordem e de futuro. Essa é uma questão central no meu entendimento: a capacidade política de fazer as pessoas sonharem e de prospetar um futuro melhor, principalmente, entre os jovens que parecem viver uma futurofobia.
O trabalhador transformado em “empreendedor de si” pode identificar-se com o discurso contra impostos e direitos laborais, mesmo quando depende de políticas públicas. O fiel pode votar orientado por uma autoridade que o acompanha no quotidiano e tem nela uma referência espiritual. Os pequenos proprietários/comerciantes ou os pobres premium podem temer a proletarização. O assalariado médio pode interpretar a ampliação de direitos dos grupos subalternos como perda do seu estatuto relativo ou de distinção social.
A figura ideológica do “cidadão de bem” condensou essa base heterogénea. Tal designação não se refere a quem supostamente respeita as leis e a ordem, mas a uma comunidade política-moral que se identifica como cristã, heterossexual, patriarcal, proprietária ou aspirante à propriedade, trabalhadora, armamentista, anticomunista (sendo que, no caso brasileiro, o anticomunismo se aproxima do antipetismo) e obediente à autoridade. A sua identidade precisava de um outro negativo/exterior: o “vagabundo”, o criminoso, a feminista, o professor “doutrinador”, o indígena que impede o progresso, o negro acusado de vitimismo ou wokismo, a pessoa LGBTQIA+ apresentada como ameaça às crianças ou com ligações a pedofilia.
A questão racial, o género e o território organizam materialmente a comunidade e os seus inimigos; não podem ser vistos como questões laterais ou secundárias. A polícia que recebe autorização moral e legal para matar atua em territórios racializados e empobrecidos. Do mesmo modo, a fronteira agroextrativa avança sobre povos indígenas e quilombolas. A precarização distribui-se de forma racial e sexualmente desigual. Nesse contexto, a imaginada defesa da família tradicional procura “restaurar autoridade” masculina, disciplinar sexualidades e devolver às mulheres o trabalho invisível da reprodução social. O suposto “anti-identitarismo” bolsonarista era e é, ele próprio, uma política de identidade dominante (branca). Os seus defensores afirmavam denunciar os negros, as mulheres, os indígenas e as pessoas LGBTQIA+ por se organizarem politicamente, enquanto apresentavam o homem cristão, proprietário e heterossexual como indivíduo universal, sem etnia-raça, género ou posição social. A substância histórica e social é a mesma, o que muda são os figurinos e forma de aparecimento a depender da conjuntura histórica.
Para concluir este tópico, há uma dimensão relevante a demarcar, especialmente na perspetiva eleitoral. Penso que não se deve assumir que todos os eleitores de Bolsonaro/bolsonaristas sejam neofascistas conscientes ou militantes, visto que, num processo eleitoral, se agrupam motivações distintas, como o antipetismo, a religião, a expectativa económica, o medo da criminalidade urbana, a rejeição da política do regime liberal, a identificação militar/militarista, a desinformação, o voto útil e outras razões afins. Portanto, a natureza histórica de um movimento não é determinada pela consciência integral de cada eleitor, mas pela direção que organiza essa diversidade, pelos inimigos que constrói e pelo projeto que transforma os votos em poder político. Em síntese, o apoio popular não anula a função de classe de um governo/Estado, do mesmo modo que a função de classe não elimina a necessidade de compreender o consentimento. É precisamente na distância entre os interesses materiais de parte da base social e os beneficiários efetivos do programa económico que a ideologia e a hegemonia revelam a sua força.
Como procuramos demonstrar neste artigo e noutros textos desta série, o bolsonarismo enquanto movimento político não surgiu “do nada”. Antes da sua vitória eleitoral de 2018 já existiam o anticomunismo como um dos pilares das Forças Armadas, as diferentes franjas da direita e da extrema-direita de cariz fascizante, o lavajatismo e uma certa moralização política, movimentos de direita com força nas ruas, o ativismo empresarial, o fundamentalismo religioso e o olavismo como uma corrente filosófica reacionária, assim como os produtores de conteúdos digitais, as forças policiais mobilizadas e uma nostalgia memorialística da ditadura empresarial-militar (1964-1985). A crise do capitalismo periférico brasileiro e do regime político liberal da Nova República aproximou forças que possuíam uma direção: somente a via autoritária aprofundaria as soluções para a crise em prol das classes dominantes.
Nesse quadro, saliento que tratar a figura (totem) de Jair Bolsonaro como recipiente passivo desses conflitos e crises parece-me, no mínimo, um equívoco. Ele, a sua família e o seu grupo político caninamente fiel procuraram articular símbolos e slogans, hierarquizaram os inimigos a derrotar ou “eliminar”, interligaram as agendas/pautas de uma direita fascista e ofereceram legitimidade e voz nacional a discursos antes considerados marginais (agora, ser abertamente racista, misógino e homofóbico já não “ficava tão mal” porque o presidente também era). O que temos é uma relação contraditória: o campo reacionário produziu Bolsonaro; ao tornar-se líder, Bolsonaro/bolsonarismo produziu uma nova-velha forma de fazer política, suprimindo a direita tradicional/oligárquica e tornando-se a força hegemónica desse campo.
Para compreender melhor o que estou a tentar sinalizar de um ponto de vista do imaginário político e ideológico, recupero um pensador de quem discordo em muitos aspetos, mas que foi preciso ao formular freudianamente a figura do “pequeno grande homem” (Theodor Adorno). Sumariamente, o líder fascista apresenta-se como alguém comum, vítima das mesmas proibições e ressentimentos dos correligionários políticos, mas simultaneamente como figura excecional capaz de agir e ir até às últimas consequências para defender o seu projeto político. No caso brasileiro, Bolsonaro comia, falava, insultava e errava como “qualquer pessoa” — e o que mais se ouvia: “ele é autêntico”; ao mesmo tempo, era o “Mito” destinado a salvar a pátria do “socialismo”. Essa duplicidade permitiu a identificação e a submissão. O partidário via no líder alguém semelhante e participava simbolicamente da sua força. As limitações impostas ao racismo, à misoginia ou à violência eram convertidas em censura contra o “homem comum”. O privilégio ameaçado aparecia como opressão.
No núcleo do movimento, a família Bolsonaro e a “família militar” constituem o primeiro círculo de direção e decisão (como vimos agora na decisão de lançar o filho como candidato nas presidenciais), mas não era o único, pois quadros políticos formados na escola de Olavo de Carvalho (o olavismo), pastores (especialmente a burguesia da fé), empresários, parlamentares, dirigentes partidários, comunicadores digitais e influenciadores ocupavam posições distintas.
Isto explica as contradições e conflitos dentro do governo do Partido Fardado liderado por Bolsonaro. O grupo neofascista queria mobilização permanente e rutura reacionária; os setores militares pretendiam tutela e preservação institucional aparente da sua autoridade – o golpismo seria uma última solução, porém teria que ser chancelado pela White House; o grupo de neoliberais liderado por Paulo Guedes desejava levar a cabo uma contrarreforma do Estado brasileiro que mercantilizasse tudo o que fosse possível, uma política de austeridade punitiva contra os trabalhadores e pobres; o Centrão pretendia recursos, cargos e continuidade da sua lógica fisiológica (orçamento secreto); a burguesia da fé (Malafaia e sucedâneos) procurava obter poder político-religioso (Estado cristão) e aprovar pautas conservadoras e reacionárias; a classe dominante brasileira sustentava o programa económico do bolsonarismo, mas algumas das suas frações consideravam disfuncionais os conflitos, as tensões e os ímpetos golpistas do bolsonarismo – tanto que Lula da Silva teve apoio desses setores na eleição de 2022 (na figura do vice-presidente Geraldo Alckmin).
A direção da comunicação digital e as formas de organização reforçaram essa autonomia em relação aos modos tradicionais dos partidos. O bolsonarismo já possui mecanismos de reprodução que não dependem exclusivamente da presença física de Bolsonaro (que está preso por golpe de Estado). A figura do líder continua central, mas a organização pode produzir sucessores (dentro da família), transferir lealdades, disciplinar divergências e manter uma lógica de campanha política permanente. Por isso, retirar Bolsonaro não equivale a desmontar o partido difuso que se formou em torno dele e da família militar (Partido Fardado). A sua liderança popular tem raízes profundas na História do Brasil, da colonização até aos dias de hoje.
Numa perspetiva de longa duração histórica, retomamos o integralismo por este possuir uma genealogia documentada, com sobrevivências organizativas, circulação de símbolos, repertórios anticomunistas, moralismo cristão, culto da hierarquização e da autoridade, assim como as formas de produção do inimigo (interno). Além disso, grupos neointegralistas participaram na recomposição contemporânea da extrema-direita e reconheceram no bolsonarismo um campo de convergência. Contudo, o movimento bolsonarista não é uma reiteração da Ação Integralista Brasileira, ainda que tenha reavivado seletivamente o integralismo e subordinado essa tradição a uma síntese mais ampla, marcada pela condição periférica e dependente do capitalismo brasileiro neoliberal, pela tutela militar, pelo lavajatismo, pelo neopentecostalismo, pelo olavismo, pelas redes milicianas (criminosas), pelo ativismo empresarial e pela organização e comunicação digitais, entre outros elementos. Essa relação de descontinuidade-continuidade entre o integralismo e o bolsonarismo tem no capitalismo o seu terreno histórico, mas as particularidades da realidade brasileira e a crise estrutural apresentam contornos diferentes e talvez mais perigosos do que no século passado.
O neofascismo brasileiro apresenta-se concretamente como ultraneoliberal: adota o empresariamento e a mercantilização como lógica totalizante da sociabilidade, o fundamentalismo religioso como instrumento de deslaicização do Estado e uma operação jurídica moralizadora da política; incorpora ainda os “patriotas dos EUA”, uma rede de influenciadores digitais, parlamentares e cidadãos armados. Portanto, não propõe a mesma economia corporativa da AIB, mas defende, sim, uma liberdade desmedida para os capitalistas e uma coerção e uma precarização brutal sobre o mundo do trabalho. Além disso, os seus agentes não precisam de uma milícia partidária única, visto que podem apoiar-se em polícias, clubes de tiro, redes paraestatais, grupos digitais e aparelhos repressivos existentes dentro do próprio Estado.
A sua novidade não elimina a continuidade funcional nem o seu papel de solução para as classes dominantes em momentos de crise de alta intensidade, nos quais o regime político liberal não consegue dar resposta às contradições. Tal como os fascismos históricos, procura transformar a crise numa mobilização “regeneradora”; unir grupos sociais distintos por meio de inimigos (construídos ideologicamente); destruir ou enfraquecer a autonomia das organizações populares (movimentos sociais, sindicatos, etc.); construir uma estética da violência política visível de matriz colonial; e reorganizar autoritariamente a dominação de classe e a hegemonia política.
Perfazendo, o bolsonarismo não constitui uma reprodução do integralismo, mas uma forma brasileira e contemporânea de neofascismo que reativa essa tradição e a combina com os elementos supracitados. A sua função política consiste em mobilizar setores intermédios e subalternos para aprofundar o poder das classes dominantes, convertendo as crises sociais em conflito moral, perseguição de inimigos internos e legitimação da violência neofascista. Por isso, a derrota eleitoral de um grupo ou o fracasso de uma tentativa golpista não dissolvem o movimento, visto que permanecem os aparelhos, os interesses, as redes e os afetos políticos que o sustentam. O problema, portanto, não se encerra em Bolsonaro, porque o bolsonarismo constitui uma totalidade social e política mais ampla do que uma figura política. Bolsonaro pode cair; enquanto permanecer intacta a ordem que o produziu, o bolsonarismo continuará à procura de outro rosto e com outros nomes.
Carlos Hortmann
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