sexta-feira, 22 de maio de 2026
Direita, de uma queda foi ao chão
A direita brasileira, de um modo geral, não vencia eleições majoritárias, daí o grande número de tentativas de golpe em nossa história contemporânea. No entanto, o processo de redemocratização trouxe algumas novidades: Collor e o próprio Jair Bolsonaro se elegeram – hoje ambos cumprem prisão domiciliar por razões humanitárias.
A vitória de Jair Bolsonaro representou um encontro com o voto popular. No auge das lutas identitárias, ele soube como ninguém usar o desconforto conservador, explorando o lado sombrio do racismo, da homofobia e da misoginia. Líderes como Carlos Lacerda não teriam a mesma desenvoltura, apesar do brilho intelectual. Verdade é que as condições históricas estavam mudadas, mas a direita sempre foi acusada de elitismo. Bolsonaro conseguiu adicionar à clássica agenda da direita a luta contra a corrupção, além de todos os temas de costumes presentes no Brasil moderno. E enfatizou uma visão implacável na segurança pública, uma política do tipo “bandido bom é bandido morto”.
Numa época em que as redes sociais têm hegemonia na propaganda política, Bolsonaro se beneficiou de uma presença agressiva na internet e mobilizou, por sua vez, grupos aguerridos a seu favor. Com todas essas características, principalmente a capacidade de atrair votos, Bolsonaro galvanizou a direita e também o antipetismo. Os candidatos no seu campo que desprezam sua orientação seriam apenas coadjuvantes no processo eleitoral.
Agora que o modelo dinástico com a candidatura do filho está fazendo água, Bolsonaro coloca em risco toda a estratégia de avanço da direita que deveria culminar, ao lado da campanha presidencial, com uma eleição de grande número de senadores. Essa força no Senado seria usada para combater alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive com impeachment.
Nada autoriza dizer que a direita perderá espaço no Parlamento. Mas um baque na Presidência acaba refletindo nas eleições proporcionais. Muitos candidatos estão revendo seu plano de campanha diante da fragilidade de Flávio expressa nas relações com Vorcaro e suas desculpas inconsistentes. Certos candidatos ao Senado estudam disputar a Câmara. A expectativa vai baixar.
No campo da esquerda, havia um certo cansaço com o governo. O desgaste de Lula por nada disso foi alterado. Mas a primeira pesquisa que surgiu após as revelações mostra uma queda acentuada de Flávio e a manutenção das preferências por Lula. Diante desse quadro, o favoritismo se fortaleceu. Vários candidatos continuam a disputar o papel de opositor, mas dificilmente um deles vai superar a fragmentação.
Diante dessa possível realidade, o caminho é desejar que a política do atual governo mantenha alguns dos seus pontos positivos e, certamente, encontre outros.
A política de transição energética é fundamental para, entre outras coisas, fortalecer o papel do Brasil como um importante interlocutor global no campo do meio ambiente. A hipótese de que se vai lutar contra o desmatamento, explorar de forma sustentável nossos recursos naturais e proteger nossos povos originários pode ser uma boa previsão para o futuro.
Reformas serão necessárias: política, administrativa e judiciária. Muita coisa velha tem de ser superada. E todas essas tensões estarão presentes diante de um Congresso hostil e de grandes dificuldades financeiras em 2027.
Será preciso superar o problema de equilíbrio fiscal. Não tenho a fórmula. Sei que uma política austera dá margem ao desgaste e o avanço do populismo, conforme o próprio Lula admitiu em seu discurso de Barcelona.
Penso que uma reforma administrativa e a adesão do Estado aos instrumentos digitais poderiam tornar a máquina mais leve, a vida das pessoas e empresas mais fácil e, quem sabe, um grande alívio para o peso fiscal. Não podemos deixar de gastar e não podemos gastar. Será preciso discutir com calma como sair desse dilema.
É preciso saber também como será o resultado final das eleições, que tipo de correlação de forças emergirá das urnas, que evolução terá a conjuntura internacional com protagonistas tão imprevisíveis como Donald Trump.
É previsível que todos terão de tentar uma renovação, inclusive os vencedores. Com a velocidade dos fatos, a interdependência global, a nostalgia é proibida: a direita brasileira que o diga.
A política está vazia! Encheu-se de ruído
Muitas vezes, a política parece transformar-se numa competição pela atenção pública. O impacto imediato de uma frase, a rapidez de uma resposta ou a polémica do momento acabam por ocupar mais espaço do que a análise profunda dos desafios reais. Questões fundamentais como a educação, a saúde, a habitação, a desigualdade social ou o futuro do trabalho ficam frequentemente reduzidas a discursos breves ou a promessas superficiais.
O excesso de ruído tem consequências. Quando os cidadãos sentem que a política é apenas conflito, espetáculo ou troca de acusações, cresce o afastamento em relação às instituições e aumenta a desconfiança. A participação diminui porque muitos deixam de acreditar que a política possa representar uma verdadeira ferramenta de mudança.
No entanto, a política não deveria ser apenas palco de confronto. O seu propósito deve continuar a ser a procura de soluções, a construção de consensos e a resposta às necessidades coletivas. Discordar faz parte da democracia, mas a discussão política precisa de recuperar espaço para a reflexão, para a responsabilidade e para propostas concretas.
Mais do que uma política cheia de ruído, é necessária uma política com sentido, capaz de ouvir, dialogar e agir. Porque quando o barulho se torna mais forte do que as ideias, perde a política e perde a sociedade.
Hoje, o espaço político parece menos orientado para a discussão de ideias capazes de enfrentar problemas estruturais e mais centrado na produção de soundbites: mensagens curtas, mediáticas e de efeito imediato, que privilegiam a visibilidade em detrimento da profundidade.
O Brasil das capitanias hereditárias sobrevive nos 'nepo babies' da política
O termo em inglês "nepo baby" é usado para descrever filhos de celebridades que seguem a carreira dos pais, herdando contatos e privilégios do nome famoso. Assim como no entretenimento e na moda, os ‘nepo babies’ dão o que falar no meio político, onde herdeiros de oligarquias e clãs trafegam com vantagem na disputa por indicações, cargos e visibilidade.
O filho 01 foi o escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para ser candidato à presidência, como herdeiro de um espólio político que já o fizera saltar de deputado estadual a senador.
Nepotismo que desmonta o discurso bolsonarista de ruptura com a chamada "velha política", ao reproduzir uma das práticas mais tradicionais na República brasileira: a transferência de capital político dentro da própria família.
O Brasil aboliu as capitanias hereditárias ainda no período colonial, mas jamais conseguiu eliminar a lógica do poder transmitido como herança. Uma cultura política profundamente marcada pelo patrimonialismo, pelo personalismo e pela ideia de que determinados sobrenomes carregam uma espécie de direito natural à liderança.
O "nepo babyismo" político é base das oligarquias que governam o Brasil há séculos. No Norte e Nordeste, o fenômeno é quase monárquico. Vide Renan Calheiros Filho e Jader Barbalho Filho galgando ministérios, governos estaduais e cadeiras no Parlamento carregando votos e o mesmo nome de seus patriarcas.
Já em outro lado do espectro ideológico, o "nepo baby" Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é acusado de operar nas sombras do poder paterno. Embora nunca tenha disputado cargos eletivos, o acesso a negócios e a influência em Brasília rendem investigações na Polícia Federal e no Ministério Público.
Assim como Flávio Bolsonaro também está na berlinda por ter negociado centenas de milhões com o encrencado Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre a trajetória do pai, em roteiro digno de "nepo baby".
A Síndrome de Estocolmo da direita
Compreender as razões desse dilema é fundamental para a direita não bolsonarista. Ela vive hoje uma espécie de Síndrome de Estocolmo, caracterizada por uma simpatia ou lealdade irrestrita em relação ao sequestrador. O bolsonarismo sequestrou quase todos os políticos direitistas e mesmo uma parcela mais ao centro. Tal aprisionamento impede críticas às posições ou atos da família Bolsonaro e dificulta sobremaneira um projeto efetivamente independente de poder, mesmo quando hoje temos mais presidenciáveis à direita do que à esquerda.
Não se trata de um feitiço político. Há quatro razões objetivas que explicam essa dificuldade de se libertar do sequestrador. A primeira é que o bolsonarismo conseguiu tornar a direita palatável e popular no país, pois Jair Bolsonaro nunca mascarou suas ideias e por meio delas chegou ao Palácio do Planalto. Claro que políticos direitistas sempre foram fortes no país, particularmente no Legislativo e nos governos locais. Contudo, tinham medo de dizer seu próprio nome, e isso ficou ainda mais destacado a partir da redemocratização, quando as ideias da direita eram remetidas ao período da ditadura militar e a um certo elitismo social.
O bolsonarismo deu amparo para quem quisesse ser chamado de direitista. Mais do que isso, gerou um projeto de poder com base popular, capaz de eleger um presidente da República. Isso não quer dizer que a direita, sozinha, seja capaz de ter hegemonia política no país - e nem a esquerda tem esse poder. Também não é verdade que haja um único ideário de direita - ao contrário, há várias tonalidades possíveis. Basta lembrar que os bolsonaristas concentram seu discurso no campo moral e quando estiveram no poder não levaram adiante nem uma agenda liberal à Javier Milei, nem foram nacionalistas econômicos como Trump está tentando ser no seu segundo mandato.
A diversidade de posições à direita e de centro-direita de fato existe em forças sociais e políticas brasileiras. No entanto, quem gritou mais alto e sem vergonha que era direitista foi o bolsonarismo, mesmo que sua corrente seja uma das formas possíveis desse espectro político, num ponto mais extremo dele.
Verdade que desde a década passada o MBL - hoje um partido, o Missão - trouxe à tona essa identidade, só que não ganhou a liderança do movimento. Isso coube a Jair Bolsonaro e sua vitória eleitoral em 2018, que levou direitistas ao poder, depois o distribuiu entre os aliados e tentou reverter a hegemonia mais à centro-esquerda que dominava a eleição presidencial e o discurso político-cultural.
Numa democracia, o peso eleitoral faz muita diferença. E aqui entra uma segunda razão que explica por que o bolsonarismo aprisionou o restante da direita em seu casulo. Os bolsonaristas-raiz, comandados diretamente pela família, conseguem ter um piso entre 20% e 30% dos votos do eleitorado brasileiro. Não têm a maioria dos eleitores ao seu lado, como comprova a derrota do projeto reeleitoral de Jair Bolsonaro, mas criaram uma barreira de entrada para outras forças de direita e mesmo do centro entrarem no jogo político maior da eleição presidencial.
O exemplo do escândalo de Flávio Bolsonaro e suas relações mal explicadas e antirrepublicanas com Daniel Vorcaro, que era líder de crime organizado e não banqueiro, revela bem a força que tem um piso eleitoral alto. É bem provável que o senador perca pontos nas próximas pesquisas, mas é muito difícil que caia para menos de 20% ou deixe de ficar na frente dos outros de seu front ideológico, como Zema, Caiado e Renan Santos. Daí que é muito tentador manter até o final uma candidatura quando se domina um espectro político e se há chances grandes de ir ao segundo turno.
Entretanto, se esse derretimento continuar, o que tende a ser alavancado por tanta coisa a ser descoberta na cleptocracia bolsonarista que governava o Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro perderá a eleição presidencial para manter a hegemonia da família dentro do bloco direitista.
Quem não tem esse piso eleitoral alto, mas não quer que Lula continue como presidente, deveria se contrapor e defender um projeto independente de poder. Zema arriscou ir por esse caminho, mas desistiu rapidamente, quase se desculpando. Caiado foi tão educado nas críticas que ninguém percebeu que ele as fez. O único que teve coragem de desafiar o bolsonarismo foi o Missão e seu candidato presidencial - se os Bolsonaros conhecem Maquiavel, deveriam temê-los.
Por que tanto medo e hesitação no momento em que Flávio Bolsonaro foi pego com a boca na botija com o maior larápio do país? É importante frisar que não é a primeira vez que a direita não bolsonarista retrocede em sua busca por independência. O caso mais conhecido foi o de Sergio Moro, que saiu do governo de Jair Bolsonaro propondo uma revolta ampla, dizendo que iria desvendar muitos escândalos, e hoje é um soldado apático e servil do bolsonarismo.
O medo da perseguição bolsonarista, especialmente nas redes sociais, é o terceiro ingrediente da Síndrome de Estocolmo que tomou conta da direita. Por ora, é inegável a capacidade de o bolsonarismo destruir reputações e carreiras políticas de gente do seu mesmo espectro político ou de ex-aliados. Praticamente todos que saíram do ventre eleitoral comandado pela família Bolsonaro e desafiaram o clã político estão hoje menores politicamente. Para usar a linguagem militar, trata-se de um fator dissuasório para os pretendentes a dissidentes. É uma patrulha ideológica eficaz, tal como outras que a esquerda usou no passado aos que abandonavam o ideal comunista.
O bolsonarismo deu identidade e poder à direita, tem um piso eleitoral muito alto, sabe dissuadir dissidentes com grande eficácia, e, como quarto fator do poder de aprisionamento do seu espectro ideológico, edificou firmemente uma causa comum: o antipetismo e a oposição ao presidente Lula, visto como o principal inimigo a ser batido. Por meio desse objetivo, o mais estratégico de todos, os bolsonaristas clamam pelo esquecimento das brigas ou escândalos da família que comanda o movimento, dado que há um projeto unificador que só pode ser realizado com o apoio inconteste ao líder mais forte: Jair Bolsonaro ou quem ele indique.
É por meio desse discurso do inimigo comum que o bolsonarismo vai atacar os direitistas que ousarem criticar Flávio Bolsonaro e sua busca pelo patrocínio de Daniel Vorcaro. Há o risco de descobrirem mais histórias mal explicadas, ou até “videozinhos do senador”, mas sempre se retornará à questão central: só um Bolsonaro pode chegar a um segundo turno contra Lula. Na verdade, seria mais fácil um candidato que não viesse da extrema direita vencer a disputa presidencial, do mesmo modo que o lulismo cresce toda vez que acena para um eleitorado mais amplo.
O problema é que nos últimos quatro anos todos os pretendentes à direita fora da “família real” não tiveram a coragem de buscar a independência frente ao bolsonarismo, seja por amor ou medo do patriarca. O que ganharam Zema, Caiado, Tarcísio, Ratinho e outras lideranças mais à direita indo a comícios na avenida Paulista de defesa da anistia a Jair Bolsonaro? O direito de ficarem calados toda vez que houver algum escândalo envolvendo a família Bolsonaro.
Fica a lição: só se mudará essa realidade na direita, ou mesmo no centro, buscando um caminho alternativo no início do próximo período presidencial. Quem tentar montar um projeto somente no final do quadriênio, às vésperas da eleição, não terá tempo para mudar o jogo. A coragem de escolher um caminho próprio é um processo e não um lampejo frágil de quem é dependente politicamente. Cabe recordar que ao início Jair Bolsonaro era visto como uma caricatura, percorreu todo o Brasil e construiu uma candidatura.
Quem estiver no mesmo espectro eleitoral deveria guiar sua própria trajetória, pois os políticos ou partidos só se tornam fortes ao longo da história quando são livres e independentes de qualquer tipo de mito ou aprisionamento a um grupo.
Tal subserviência não é o único efeito dessa Síndrome de Estocolmo. Ao se colar completamente ao bolsonarismo, as direitas deixaram de discutir ideias sobre democracia, políticas públicas e o papel do Brasil no mundo, questões cujos resultados foram desastrosos no governo Bolsonaro. É fundamental ter conservadores e liberais com um projeto claro, para não dizer de um centro robusto, essencial para o equilíbrio das democracias. Antes, todavia, é preciso se libertar dos grilhões que os acorrentam a uma família que tem muitos esqueletos no armário, numa narrativa que é dominada agora pelo ponto e vírgula, uma vez que a única coisa certa é que Flávio Bolsonaro desmentirá o que disse ontem.
Uma caneca de plástico e tudo o que ela diz sobre nós
Escrevo isto outra vez devagar, porque vale a pena fixar a estranheza da frase. Um relógio de bolso. Aquela coisa que os nossos bisavôs traziam no colete e que desapareceu da vida humana há cerca de um século. Voltou ontem, custa à volta de quatrocentos euros, vende-se um por pessoa, por loja, por dia, não há venda online, e foi suficiente para mover multidões. Chama-se Royal Pop e nasceu de uma colaboração entre a Swatch e a Audemars Piguet, uma das casas relojoeiras mais fechadas e elitistas do mundo, que nunca na sua história tinha emprestado o seu desenho a quem quer que fosse. Nem a estrelas, nem a marcas, a ninguém.
E a imprensa especializada, que não costuma ser dada a filosofias, encontrou imediatamente a palavra certa para descrever o que isto é. Chamaram-lhe o Labubu dos relógios. “Bye bye Labubu”, escreveu uma revista da especialidade. Outra foi mais cruel e mais exata: a fivela de saco tornada mecânica, masculina, a seiscentos e trinta dólares. O Labubu, aquele boneco de olhos esbugalhados que durante ano e meio andou pendurado em malas que custam mais do que um carro, provou uma coisa, e foi esta: o acessório passou a ser o ponto, e não a mala. O que se pendura passou a valer mais do que aquilo de onde se pendura.
Eu podia agora escrever o texto fácil. O texto que toda a gente espera e que já foi escrito mil vezes. As pessoas são fúteis, materialistas, vazias, capazes de dormir na rua por um boneco mas incapazes de atravessar a rua para ajudar um sem-abrigo. É verdade que esse contraste existe e dói olhar para ele. Mas se eu escrevesse isso, estaria a fazer exatamente o que critico noutros, que é resolver uma questão complicada com desprezo. E o desprezo é confortável precisamente porque dispensa pensar. Por isso não vou por aí.
Vou por outro lado, que é mais incómodo e, acho eu, mais honesto.
Aquela fila não foi um acidente. Aquilo não é gente fraca a comportar-se mal espontaneamente. Aquilo foi desenhado. Uma das marcas mais inacessíveis do planeta sentou-se numa sala de reuniões e decidiu, ao milímetro, fabricar um objeto de pertença barato. Decidiu o preço para ser desejável e ainda assim doloroso. Decidiu a escassez, um por pessoa, por dia. Decidiu não vender online para obrigar o corpo das pessoas a estar fisicamente ali, na fila, à vista umas das outras, porque a fila faz parte do produto. A sensação de pertencer a um clube, de ter conseguido, de ser dos que apanharam, isso não nasceu no comprador. Foi engenharia. Foi produzido e foi-lhe vendido já pronto, embrulhado, com a emoção incluída no preço.
Digo isto porque me parece que metade da culpa que despejamos sobre o indivíduo está mal endereçada. Ninguém acordou um dia, sozinho, com a ideia genial de que precisava de um relógio de bolso. Essa necessidade foi-lhe construída por gente muito inteligente, muito bem paga, que estuda exatamente como é que o nosso cérebro responde à escassez e ao olhar dos outros. Quando vemos a fila e dizemos “mas que gente parva”, estamos a olhar para a vítima e a chamar-lhe culpada, enquanto quem desenhou o anzol fica de fora da conversa, a contar o dinheiro.
Mas, e tem de haver um mas, senão isto era um texto a inocentar toda a gente, e as pessoas também não são marionetas. A engenharia só funciona porque encontra terreno onde pegar. O anzol só apanha porque há fome. E a pergunta que verdadeiramente interessa, a única que vale a pena fazer, é esta: porque é que este objeto consegue mover multidões de madrugada e uma petição por direitos humanos não consegue mover ninguém? Porque é que se faz fila por uma caneca e não se faz fila por uma causa?
A resposta honesta não é que as pessoas são más. Eu acho mesmo que não é. A resposta é que o consumo dá uma coisa que a solidariedade não dá. O consumo dá pertença imediata, visível e sem custo moral. Compro, ponho ao pescoço, e no minuto seguinte pertenço a um grupo, toda a gente vê que pertenço, e não tive de me interrogar sobre nada. A solidariedade dá o contrário disto tudo. Exige esforço prolongado, quase nunca se vê, não dá estatuto nenhum e ainda por cima obriga a olhar para coisas desagradáveis. Adotar um cão dá trabalho durante quinze anos e ninguém bate palmas. Ajudar um sem-abrigo não se pendura na mala. Lutar por direitos é lento, ingrato e às vezes perde-se. Entre os dois caminhos, alguém otimizou um até ele ficar irresistível e deixou o outro cheio de buracos. Depois admiramo-nos de que as pessoas escolham o caminho asfaltado.
E aqui chego ao que mais me custa, porque liga isto a uma coisa de que já escrevi e que não me sai da cabeça.
A mesma sociedade que sai de casa de madrugada por um relógio é a sociedade que, em Portugal, em 2026, assistiu calada à revogação de direitos de pessoas que não fizeram mal a ninguém. Não estou a dizer que quem comprou o Royal Pop é responsável por isso. Seria estúpido e injusto dizê-lo. Estou a dizer outra coisa, mais funda e mais difícil de digerir. Aprendemos a mover-nos por pertença fabricada e desaprendemos a mover-nos por pertença a uma causa. Treinámos o músculo de pertencer a um clube que se compra e deixámos atrofiar o músculo de pertencer a uma ideia de justiça que não se compra e que só dá trabalho. Não é o mesmo fenómeno, a fila da loja e o silêncio perante a injustiça. Mas há um mecanismo comum por baixo dos dois, e o mecanismo é este: a pertença a um grupo tornou-se um motor mais forte do que a justiça. E quem souber operar esse motor, seja uma marca de relógios, seja um partido que precisa de inimigos, faz de nós o que quiser.
Tenho de dizer também o que torna isto tudo menos limpo do que eu gostaria, porque não quero escrever uma caricatura. Há contradições inconvenientes para a minha própria tese, e a honestidade obriga a pô-las aqui. A Audemars Piguet anunciou que doa 100% da parte que lhe cabe nestas vendas à preservação do saber-fazer relojoeiro e à formação de uma geração nova de artesãos. Quer dizer que dentro da própria máquina de consumo existe um gesto que aponta ao contrário. E as gerações que fazem fila pelo Labubu são, em dados que se podem verificar, das mais ativas de sempre em voluntariado, em causas, em ativismo. Não devo verificar isto de cor, mas o padrão está documentado e desmente a ideia preguiçosa de uma juventude apenas fútil. Digo isto de propósito, porque se a minha crítica só funcionasse caricaturando as pessoas, então não valeria nada. Vale precisamente por funcionar mesmo depois de eu reconhecer isto.
Então o que é que fica, depois de tirar o desprezo fácil e a caricatura?
Fica isto. O problema nunca foi querermos pertencer. Querer pertencer é das coisas mais humanas que há, talvez a mais humana de todas, e não há nada de errado em querer pertencer. O problema é a quem decidimos que vale a pena pertencer. E, sobretudo, o problema é que, na maior parte das vezes, não fomos nós que decidimos. Decidiram por nós, numa sala de reuniões ou num comício, e venderam-nos a decisão já tomada, com a emoção embrulhada, ao preço que o mercado aguentasse. Uma caneca de plástico chega para nos pôr na rua. Uma pessoa a perder direitos, ali ao lado, muitas vezes não chega. Não porque sejamos maus. Porque alguém trabalhou muito para que fosse assim, e nós deixámos.
E talvez o gesto mais radical que ainda nos resta, num tempo assim, seja o mais aborrecido de todos: escolher por nós a que é que vale a pena pertencer, mesmo quando não dá estatuto, mesmo quando ninguém vê, mesmo quando só dá trabalho. Sobretudo quando só dá trabalho.
Ana Inês Patrício
A influência dos livros e dos jornais
Essa força dos livros era, sobretudo, considerável quando se lia pouco. A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.
Hoje, a influência dos jornais é muito superior à força dos livros. São em número incalculável as pessoas que têm unicamente a opinião do jornal que elas leem.
Gustave Le Bon
Isso não é normal: a República que esconde suas relações com o dinheiro
Não, não é normal, não pode ser normal ouvir em silêncio o que disse, ontem, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) ao presidir mais uma sessão do Congresso. Ele anunciou que rejeitava mais um requerimento para a instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o escândalo do Banco Master. E por quê? Porque o regimento interno do Congresso lhe dava poderes para tal, só por isso. Sim, mas por qual razão ele o fez? Ninguém perguntou. Se perguntaram, ele não respondeu. Todos sabiam, mas se negam a admitir, que Alcolumbre poderia se tornar um dos alvos da CPMI. Todos sabem que ele procurou Lula para revelar seu temor.
Diga-se em favor de Alcolumbre — e em desfavor dele e de boa parte dos seus pares — que a CPMI foi enterrada para impedir que seja investigada a relação de muitas autoridades da República com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, ex-dono do Master. Minutos antes de Alcolumbre anunciar sua decisão, o senador Flávio Bolsonaro discursou, desafiando a bancada do governo a assinar o requerimento da CPMI. Ouviram-se resmungos, apenas isso. Flávio disse que assinara todos os requerimentos que lhe apresentaram. Mentiu, para variar. Foram cinco no total, e ele recusou-se a assinar três. Não é normal mentir por tão pouco, mas Flávio mentiu. Hábito. Vício.
Flávio está em modo desespero desde a descoberta de que tomou dinheiro de Vorcaro para financiar o filme de exaltação a seu pai. Trocou de marqueteiro — ex-servidor de Vorcaro — a pretexto de que ele não o estava orientando muito bem. Entregou uma cabeça para preservar a sua. Livrou-se da suspeita de que o marqueteiro poderia estar sendo pago por Vorcaro. No próximo domingo, como alardeiam seus assessores, Flávio deverá embarcar para os Estados Unidos para se encontrar com o irmão Eduardo e com o presidente Donald Trump. Tudo por uma foto com Trump para sentir-se fortalecido. Tudo para não estar aqui quando forem publicadas as próximas pesquisas de intenção de voto. A sina de Flávio é triste. Mesmo que definhe, ele está condenado a ir até o fim como candidato. Ordem do pai.
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Curriculum Vitae, 01
Sua sagacidade não alcança a do pai, porém mais afiada que a dos irmãos. Nunca disse "ditadura devia ter matado mais", mas vê em 1964 "contrarrevolução democrática". Não gostaria de filho "entrando em casa e apresentando seu namorado". Definiu as medidas do governo do pai na pandemia, e o superávit de mortes evitáveis da ordem dos seis dígitos, como o que "se espera de um estadista".
Revelou que, se presidente, caso STF anule seu indulto ao pai, "aí é confusão fora das quatro linhas". Mas fará o possível "para que não chegue a esse ponto". É candidato à versão moderada da família.
Apoiador da cultura nacional, lutou pela produção de filme sobre o pai. Articulou modelo arrojado de patrocínio, onde patrocinador prefere não aparecer. Recebeu milhões de reais de banco quando já se sabia a magnitude das operações ilegais.
"Sem graça de ficar cobrando", cobrou outros milhões na véspera da prisão do mecenas. Trata o banqueiro, que alegou nunca ter conhecido, por "meu irmão", a quem confessou não saber "como tudo isso vai acabar, está nas mãos de Deus aí", "estou contigo sempre".
Explicou ser filme privado com dinheiro privado. Não menciona emendas parlamentares e dinheiro de aposentados. Não sabia que, quando autoridade pede dinheiro a banqueiro, pode cometer pelo menos um de três crimes: corrupção, lavagem e financiamento de organização criminosa. Depende do destino real do dinheiro, ainda não sabido, e de outras variáveis. Não importa se privado o dinheiro.
Empresário bem-sucedido de chocolates, em três anos sua loja recebeu 1.512 depósitos em valores idênticos e movimentou R$ 3 milhões em espécie. Explicou ser assim no comércio, "no final do dia você junta a quantia e deposita no banco".
Ministério Público e Coaf produziram provas sobre peculato (rachadinha) de seu gabinete, de onde supostamente provinham investimentos imobiliários em áreas de milícias. Foram anuladas por STF e STJ, que alegaram vício formal.
Mora em casa comprada por R$ 6 milhões, metade financiada pelo Banco de Brasília (BRB). Negociou juros europeus de 3,71% ao ano.
Retirou assinatura do pedido de CPI do Banco Master, mas continuou gritando a favor. Assinou outra vez depois da notícia sobre sua relação com o banqueiro, que admitiu depois de tanto negar.
Ativista do direito de mentir, combate cidadãos que lutam pelo direito de não acreditar. Chama de "narrativa" o que lhe desabona, de "fato" o que lhe favorece.
Candidato à Presidência, sua dancinha de campanha aperfeiçoa o molejo de boneco de posto. Exibe "O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula" na camiseta. Seu irmão conspira contra a economia brasileira perante o governo norte-americano, que cobra tarifa e combate o Pix em favor de cartões de crédito.
Sua filosofia constitucional está encapsulada no conceito de "legalização de milícias", emprestado do pai. Argumenta: "As classes mais altas pagam segurança particular, e o pobre, como faz para ter segurança?"
Seu pensamento religioso: "Sou instrumento de Deus para pacificar o Brasil".
Quer novo emprego.
A próxima era da política mundial entregue de bandeja
Some aprimoramentos financeiros, como o apoio confuso à agressão de Israel, a guerra ilegal no Irã, a devastação que ela está causando naquele país e o prejuízo financeiro que se espalha pelo mundo, tornam possível que os EUA entreguem a próxima era da política mundial à China em tempo real. A China está prestes a se tornar a superpotência preeminente do mundo, e praticamente não precisa fazer nada.
É importante compreender os danos a longo prazo que essas ações estão causando. Mesmo que o trumpismo morra após Trump, o resto do mundo talvez nunca mais volte a confiar plenamente nos EUA, porque agora sabe que basta outro presidente extremista do MAGA assumir o poder e subverter a ordem global mais uma vez.
Os primeiros a morrer
Se quiserem instituir datas em memória das vítimas de outras tragédias brasileiras, 25 de janeiro marcaria a morte da médica Marcelle Porto Cangussu, 35 anos, o primeiro corpo reconhecido pelas autoridades no rompimento da barragem de Brumadinho (MG), em 2019. Ela representaria os outros 271 soterrados pelo despejo de 11 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração e nos alertaria para o fato de que os responsáveis ainda não foram nem julgados.
Já o dia 8 de maio lembraria o primeiro morto sob tortura pela ditadura militar. Ou talvez o primeiro cujo registro não foi possível esconder: o sargento Manoel Alves de Oliveira, no Hospital Central do Exército, em Triagem (RJ), em 1964, 37 dias depois do golpe, por violências sofridas naquela unidade. Mas Manuel foi somente o primeiro morto sob tortura. A primeira vítima do golpe foi a dona de casa Labile Abduch, 65 anos, síria naturalizada brasileira, morta por disparos contra um grupo que protestava na Cinelândia, vindos do defronte Clube Militar, no próprio dia 1º de abril.
E, em outubro de 1944 (não se sabe o dia), morreu o primeiro pracinha brasileiro na Itália, o aspirante niteroiense José Gerônimo de Mesquita, 19 anos. Há uma placa com seu nome no Monumento aos Pracinhas, no aterro do Flamengo. Foi o que coube aos rapazes da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que deixaram a vida no campo de batalha. Os que voltaram foram abandonados pelo ditador Getúlio Vargas.
Se o Brasil tende a ignorar os vivos, que passe a lembrar seus mortos.
O fascismo como futuro
Safatle parte de um diagnóstico de época: “A última década deixou claro como vivemos no interior de uma conjunção inédita de crises: ecológica, demográfica, social, econômica, política, psíquica e epistêmica. A isso podemos chamar de “crises conexas”, pois estão conectadas e se retroalimentam”. Essas crises, imanente ao próprio modo de produção capitalista, garantem a força e a persistência do fascismo.
Entretanto, em seu rastreio das condições de possibilidade do fascismo, Safatle encontra-as no cerne do próprio sujeito moderno. Segundo ele, fascismo não pode ser usado apenas para se referir a uma ordem político-econômica (aquela que emergiu na Europa do entre guerras), mas que descrevesse “uma forma específica de violência e dessensibilização social assentada na expressão aberta e generalizada de traços fundamentais da estrutura própria à personalidade da individualidade moderna”. Desta maneira, seria possível compreender que a individualidade que é socialmente produzida pela ordem liberal, é necessariamente agressiva, rígida, autoritária. Em suas palavras: “como se a personalidade do indivíduo moderno portasse o germe de sua própria realização como fascismo”.
Esse é o ponto que me parece mais interessante do livro do professor Safatle. Sua contribuição reside na possibilidade de compreender o núcleo estrutural por trás da racionalidade fascista, que nunca desapareceu – lembremos. Por um lado, esse procedimento acaba achatando diferenças importantes entre as formas historicamente específicas pelas quais tal princípio emerge – o fascismo histórico possui particularidades que o diferenciam do fascismo contemporâneo e certamente ambos não são a mesma coisa que o horror do colonialismo. Entretanto, por outro lado, o mérito de Safatle está exatamente em explorar as conexões entre “violência racial ordinária, extermínio colonial e fascismo”.
Desta maneira, Safatle evita as interpretações do fascismo que pouco colaboram na compreensão do fenômeno, pois interpreta-o como um fenômeno puramente psicologizante, embora possa ser materialmente informado. Isto é, dizer que tal sujeito é fascista porque ressentido, porque não pensa direito, porque apenas segue o líder, não ajuda em entender o fascismo, mas “só serviam para alimentar nossas ilusões narcísicas de superioridade moral, em vez de fornecer alguma arma teórica eficaz para lutar contra o pior”. Sua leitura, portanto, ajuda a compreender como o mesmo impulso da modernização, que pretendia civilizar, educar, desenvolver, carrega em seu cerne a matriz violenta do fascismo.
Outro mérito do livro de Safatle é a mobilização dos recursos conceituais da psicanálise para interpretar o fascismo, alinhando-se já há uma longa tradição de crítica, mas avançando em relação a ela. Apoiado nas interpretações da primeira geração da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno, Safatle afirma que a violência fascista não é caracterizada por um excesso de destrutividade, “mas, paradoxalmente, excesso de preservação”. Trata-se de uma tentativa violenta de preservar a personalidade narcísica e a identidade dela com o mundo falso. Contudo, a preservação tem como condição necessária a eliminação do outro que ameaça essa identidade. Por isso o fascismo possui um impulso genocidário.
Por outro lado, essa identidade em colapso com o mundo falso movimenta também o “desejo social de autodestruição”. Apoiado na leitura de Paul Virilio do Estado Suicidário, Safatle vai perceber que a lógica de autopreservação dá no seu contrário: diante de uma destruição dos princípios da identificação fetichista do eu com o mundo experimentado como catástrofe uma narrativa é construída que seja “capaz de dar sentido heroico à degradação da vida cotidiana”. Uma espécie de auto-sacrifício para sustentar seus ideais narcísicos.
Ou seja, o fascismo baseia-se, ao mesmo tempo, na eliminação do outro e de si próprio, instaurando um regime duplo: genocidário e suicidário. Dessa maneira, ocorre, como descreve Safatle, uma militarização das subjetividades como forma de se referir à estratégia de defesa do Eu dessa personalidade unidimensional que conecta o mundo corporativo do empreendedorismo de si ao mundo militar de culto às armas. É nesse ponto, escreve o autor, “o masculinismo aparece em toda sua força, como uma formação defensiva diante da impotência social real” .
Como Safatle afirma, o fascismo se tornou uma resposta realista às crises, pois elas reforçam a identidade destrutiva dessas crises, dependem dela e com ela avançam. Não é à toa que Edward Luttwak dizia ser o fascismo a onda do futuro. Para impedir que esse futuro se confirme, “então não deveríamos temer afirmar que só um irrealismo delirante pode nos salvar. Há momentos históricos nos quais o delírio é a única saída consequente”. Talvez só assim, o fascismo não seja o nosso derradeiro horizonte.
Thiago Canettieri
Os duros não dançam, mas levam baile
Nas últimas semanas, tivemos dois bons exemplos dessa forma de ação. Primeiro, com o discurso proferido por Carlos III, de Inglaterra, perante o Congresso dos EUA: uma intervenção em que o humor foi usado como técnica para desengatilhar sentimentos hostis. Mas também um discurso em que as evocações históricas permitiram definir claramente as distâncias entre Londres e Washington e em que, finalmente, a ironia funcionou como um grito poderoso e mordaz, que deixou o alvo subliminar – Donald Trump − encurralado entre duas alternativas: ficar calado ou, se respondesse, cair no ridículo. O mais importante, mesmo assim, foi que ao celebrar os valores do Iluminismo e a defesa intransigente da democracia perante as ameaças autocráticas do século XXI, o discurso lido pelo rei acabou por ser uma lição de como a identidade e os valores podem funcionar como cimento político, mesmo em tempos conturbados.
O segundo momento, ocorreu na visita do mesmo Donald Trump a Pequim, com os dirigentes chineses, em momentos pacientemente coreografados, a saberem vincar as diferenças colossais entre uma civilização milenar e um país que, por mais poderoso que seja, só agora se prepara para completar 250 anos de história. Por isso, Xi fez questão de mostrar ao seu convidado, como anteriormente já fizera com Putin, as árvores muito mais antigas do que os EUA que se encontram no antigo jardim imperial de Zhongnanhai, que hoje alberga os gabinetes e as salas de reuniões dos dirigentes do Partido Comunista Chinês. Depois, nas declarações públicas, Xi soube envolver Trump na pompa imperial, estabeleceu as suas linhas vermelhas, nomeadamente em relação a Taiwan, e assumiu o papel de liderança na gestão de risco de uma possível escalada de tensão entre os dois países. E quando, de uma forma surpreendente, evocou a “armadilha de Tucídides”, fê-lo num exercício de retórica que sabe evocar a Antiguidade Clássica, mas também o momento exato em que se iniciou a mudança estratégica dos EUA em relação à China, quando Trump ainda nem pensava seriamente ocupar a Sala Oval da Casa Branca. A teoria da quase inevitabilidade de uma guerra entre a potência dominante e a potência emergente, como sucedeu frequentemente ao longo da História, começou a circular, pela pena de um investigador e professor de Harvard, Graham Allison, em 2015, durante a Presidência de Obama, que virou o eixo estratégico dos EUA para a região da Ásia-Pacífico. O aviso de Xi, neste momento, significa muito mais do que uma figura de estilo. É, antes, uma movimentação inteligente num jogo de xadrez que se irá prolongar para lá do mandato de Donald Trump. Mas que lhe permitiu delimitar o espaço de manobra do adversário, através de uma jogada de cortesia institucional.
O contraste entre as máquinas diplomáticas chinesa e britânica face à atual administração Trump é de um contraste absoluto. De um lado, temos equipas altamente profissionais, com séculos de história atrás de si e um profundo conhecimento do mundo e, acima de tudo, daquilo que deve ser dito em cada e determinado contexto. Do outro, é aquilo que se torna cada vez mais evidente: um Presidente que confia cegamente no seu instinto, rodeado de pessoas escolhidas apenas pela sua lealdade cega a Trump, e não pelas suas especiais competências ou aptidões para o cargo. E, em grande parte dos casos, pessoas sem “mundo”, sem conhecimentos de História e apenas habituados aos discursos mais básicos – que podem ter muita tração nas redes sociais, mas que, no contexto internacional, por mais ameaçadores que possam ser, apenas fazem quebrar os laços de confiança de quem os escuta.
Em dois momentos diferentes e embora cada um com o seu arsenal, Carlos III e Xi demonstraram como se deve falar com Trump e a atual administração dos EUA: ditaram as regras, selecionaram as palavras que mais pesam e ignoraram qualquer pose intimidatória do oponente. Ou seja, dançaram a música que escolheram para ser posta a tocar. Essa é a lição que deve ser aprendida pelas várias diplomacias, neste momento. Porque quem optar pela subserviência acabará, no final, por ter de dançar, apenas e só, a música do mais forte.
Até onde a elite vai com os Bolsonaro?
A forma como parte da elite econômica e política espera para ver se a candidatura de Flávio Bolsonaro fica de pé diante das evidências quase diárias de uma relação constante com Daniel Vorcaro escancara um fenômeno conhecido, mas que se renova a despeito dos fatos: a enorme condescendência desses estamentos com todo tipo de instabilidade que a família Bolsonaro é capaz de provocar, algo inexistente em relação a qualquer outro grupo político.
A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, se deu a despeito da profusão de evidências de evolução patrimonial do patriarca e dos filhos incompatível com a atividade parlamentar de todos eles, do histórico antiliberal do “capitão” recém-associado a Paulo Guedes e de outras inconsistências.
Os quatro anos de mandato de Bolsonaro trouxeram à tona detalhes da relação do ex-deputado estadual Flávio, então já senador, com seu ex-braço direito Fabrício Queiroz, evidências de prática de rachadinha em seu gabinete, de mais movimentações financeiras apontadas pelo Coaf como suspeitas, de relacionamento com ex-policiais ligados à milícia, mais compra de patrimônio imobiliário em transações milionárias e em dinheiro vivo — e tudo foi aceito.
A gestão da pandemia expôs um presidente avesso à ciência, disposto a dinamitar o Programa Nacional de Imunizações, incentivando que se “passasse a boiada” em desmonte ambiental aproveitando o isolamento, zombando de medidas sanitárias e de mortes, trocando ministros da Saúde como quem mudava de camisa do Brasil. Houve abalo a sua imagem, mas ele quase foi reeleito.
Vieram o 8 de janeiro de 2023 e aquela destruição sem precedentes em Brasília, por uma turba mantida em acampamentos em frente a quartéis por meses, incentivada por um presidente que abdicou do exercício do cargo desde a derrota no segundo turno, depois deixou o país sem passar o cargo ao sucessor. Houve repúdio generalizado de imediato, mas logo depois passou-se a relativizar a gravidade do que aconteceu, como se fosse apenas coisa de donas de casa armadas de batom.
Por fim, o processo da trama golpista expôs a realização de uma reunião ministerial gravada em vídeo em que se discutiram opções até para melar as eleições. Vieram à tona um plano para matar autoridade e minutas de diferentes estados de exceção. O primeiro ex-presidente do Brasil foi condenado por tramar um golpe de Estado.
E, ainda assim, uma parcela majoritária de nossos tomadores de decisão permanece aferrada aos desígnios desse líder, agora preso, a ponto de rapidamente assimilar aquilo que não queria: um presidenciável da própria família. Foi escolhida a segunda opção, porque o primeiro cogitado estava nos Estados Unidos havia meses obtendo sanções econômicas e políticas contra o Brasil.
Agora, diante de um áudio reconhecido pelo próprio pré-candidato como autêntico, pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro já enrolado para um filme sobre o pai, com recursos geridos por um fundo sem nenhuma transparência, existe uma torcida silenciosa para que a tempestade passe, e a motociata siga.
É difícil compreender, apenas à luz da ideologia, tal complacência. Não foi vista em escândalos envolvendo políticos do PT ou mesmo do PSDB. Basta ver a descida ao inferno de Aécio Neves por muito menos que esse acervo do “azarão” e sua prole.
O resultado econômico e fiscal sob Bolsonaro e Guedes não explica tal devoção imune a fatos. O antigo teto de gastos foi seguidamente excedido, houve a pedalada com precatórios e toda sorte de medida eleitoreira, inclusive elevando despesas assistenciais — um dos pecados sempre apontado nas gestões petistas.
As pesquisas e as novas revelações (que não param de aparecer, a despeito das velas acesas na Faria Lima) dirão se Flávio se segura. Mas a disposição a passar pano com desinfetante para tudo o que tenha o sobrenome Bolsonaro é um traço distópico dos nossos tempos que precisará ser explicado nos livros de História, com as consequências dela decorrentes.Vera Magalhães
quarta-feira, 20 de maio de 2026
De Trump à AfD: redes amplificam retórica anti-imigração
Referências sobre "substituição" costumam fazer parte de uma teoria conspiratória propagada em círculos extremistas que descreve como supostas elites estariam agindo de maneira obscura para "substituir" as populações étnicas da Europa e dos Estados Unidos.
Em 13 de maio, a Casa Branca repetiu a mensagem com uma nova publicação, visualizada mais de 3,7 milhões de vezes. A reação na extrema-direita alemã foi de celebração.
"Para aqueles que tinham pouca ou nenhuma ligação com a política antes do presidente Trump: vocês provavelmente não têm ideia do quão monumental é este momento – o fato de o Departamento de Estado dos EUA usar o termo 'migração de substituição' – e anunciar a remigração para a América e todo o Ocidente", escreveu Eugen Andres, um político local do partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD).
A Deutsche Welle monitorou um conjunto de dados com mais de 150 políticos e contas da AfD para acompanhar as suas reações. O Departamento de Estado publicou o seu tweet durante a madrugada na Europa. Por volta das 7h da manhã, no horário da Alemanha, o primeiro político da AfD já tinha notado a publicação e começado a partilhá-la.
Às 8h da manhã, um político local da AfD escreveu que "o fato de a 'migração de substituição', ou 'substituição populacional', ser oficialmente abordada por um governo ocidental pela primeira vez é um sucesso."
A comemoração rapidamente ultrapassou os limites da plataforma X. Buscas por palavras-chave em canais do Telegram em alemão revelaram capturas de tela da declaração original, juntamente com comentários comemorativos sobre a remigração.
Um tradutor baseado em Bruxelas compartilhou uma versão em alemão da notícia, que passou a circular amplamente entre os canais alemães do Telegram relacionados ao QAnon – teoria conspiratória surgida nos EUA que afirma a existência de uma elite secreta criminosa e de um plano oculto para combatê-la.
No início da tarde, a mensagem já havia chegado ao topo da liderança da AfD. Alice Weidel, co-líder do partido, escreveu no X: "exatamente o que a AfD vem alertando há anos. Conversa franca de Washington."
O governo Trump fez a publicação ao abordar a revisão do Pacto Global da ONU sobre Migração, que ocorria em meio a uma série de discussões e mesas-redondas em Nova York, entre 5 e 8 de maio.
Adotado em 2018, o pacto é uma estrutura voluntária e não vinculativa criada pelos Estados-membros da ONU. Desde a sua adoção, é bastante debatido se o pacto busca principalmente regular a migração ou se incentiva e facilita o aumento desse fenômeno social.
Mas as Nações Unidas afirmam explicitamente que o pacto não se destina a substituir as políticas migratórias nacionais de nenhum país ou a criar um "direito à migração". Em vez disso, contém uma lista de objetivos, focados em metas como minimizar os fatores que forçam as pessoas a migrar, criar mais vias legais para a migração e combater o tráfico de seres humanos.
O Pacto Global se tornou motivo de agitação na extrema-direita. Em 2018, grupos marginais argumentaram que o pacto era "prova" da conspiração da "grande substituição". O discurso chegou à AfD, que o levou ao Bundestag (Parlamento alemão).
"Isso foi um grande sucesso porque fontes confiáveis, parlamentares, de fato deram atenção a essa ideia", afirmou à DW Kilian Bühling, especialista em dinâmicas de redes entre grupos antidemocráticos e teóricos da conspiração na esfera digital, no Instituto Weizenbaum da Universidade de Berlim, na Alemanha.
"Isto está acontecendo agora: se houver mais ideias ou palavras marginais que sejam repetidas e recebam atenção de figuras como o presidente dos EUA ou sua administração, isso as torna mais legítimas."
A "remigração" é a resposta política para os adeptos da extrema-direita que alertam sobre a teoria da conspiração da "grande substituição". O termo implica enviar residentes não brancos de volta aos seus países de origem – desde migrantes recém-chegados até cidadãos com histórico de migração, dependendo de quem propaga a ideia.
Já foi uma palavra proibida na política alemã – a extrema-direita alemã se viu em apuros depois que jornalistas investigativos descobriram que políticos da AfD participaram de uma conferência em Potsdam sobre o tema "remigração".
A proposta debatida na conferência, segundo o Correctiv – um portal alemão de jornalismo investigativo independente –, incluía a deportação de cidadãos alemães com histórico de migração, o que é inconstitucional segundo a lei alemã.
O envolvimento da AfD na conferência levou centenas de milhares de pessoas às ruas em todo o país em protestos pró-democracia. Isso também gerou um debate sobre rotular o partido como extremista de direita e tentar impedi-lo de participar das eleições.
Desde então, a AfD dobrou a aposta na "remigração", mas esclareceu que sua política oficial não inclui cidadãos alemães. Apesar disso, algumas figuras do partido continuaram a usar retórica sobre remoções em massa e revogação da cidadania de determinados grupos.
"Quando as pessoas no discurso político alemão os acusam de serem anticonstitucionais, extremistas de direita e antidemocráticos, pode ser de grande ajuda se a liderança da maior e mais antiga democracia do Ocidente usar exatamente o mesmo termo", disse Bühling.
"Remigração" é um conceito defendido pelo ativista austríaco de extrema direita Martin Sellner. Após a reunião de Potsdam, a Alemanha o proibiu de entrar no país. Mas, na segunda-feira, a política que ele ajudou a popularizar recebeu um importante apoio de Trump.
"A Casa Branca publicou isso hoje", escreveu Sellner no Telegram para seus 74 mil seguidores, com um link para a postagem de Trump. "Ninguém poderá mais ignorar o assunto. A substituição populacional é real."
A cooperação entre a extrema-direita europeia e americana é bem organizada. Desde 1973, ativistas dos dois países se reúnem na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada anualmente nos EUA. Weidel, inclusive, foi a palestrante convidada do ano passado.
Embora haja um longo histórico de ideias de extrema-direita atravessando o Atlântico, segundo Bühling, "a velocidade e as possibilidades de conexão e fluxo de informações aumentaram com a internet e as plataformas de mídia social".
O bezerro da América
Supõe-se que estes religiosos certamente fizeram as suas orações ao deus Baal. O bezerro de ouro da América é Donald Trump, o alvo da idolatria de parte do espetro evangélico conservador dos EUA, que é uma das principais bases políticas do movimento MAGA. Só que, tal como a “divindade” que pretende adorar, é fake. Só é de ouro por fora, por dentro é de bronze.
O bezerro de ouro da tradição judaico-cristã, terá sido construído por Arão enquanto Moisés estava ausente no monte Sinai a receber as tábuas da lei. Provavelmente seria uma reprodução tosca da divindade egípcia Boi Ápis. Face às dificuldades iniciais do percurso no ambiente inóspito do deserto, embora livres, muitos hebreus pressionaram o irmão de Moisés a reproduzir a divindade egípcia, na ideia de reconduzir o povo de volta à terra de onde tinham sido libertados.
É a velha ambivalência entre liberdade e provisão. Ainda hoje muitos pensam que é melhor viver sob opressão e ter o pão mais ou menos garantido, do que assumir a liberdade e fazer pela vida, o que explica a presente emergência das autocracias por todo o mundo.
Em linguagem corrente, a expressão “bezerro de ouro” simboliza um falso ídolo, ou falso deus. Neste caso Trump representa o deus do nacionalismo cristão norte-americano que surge como “escolhido” por Deus. Por isso Trump tem intensificado cada vez mais a simbologia religiosa na comunicação política.
A verdade é que a inauguração da estátua provocou fortes reações contrárias no meio cristão americano e não só. A associação entre simbolismo religioso e apoio político foi a base das críticas, tendo alguns líderes evangélicos manifestado a sua frontal discordância ao considerar o ato como uma prática de idolatria.
Há muito que boa parte da igreja americana vendeu o seu direito de primogenitura, leia-se a sua legitimidade profética, qual Esaú, por um prato de lentilhas, isto é, pela proximidade do poder político. Por este andar vai acabar por ficar sem uma nem outra, ou seja, com uma mão sem nada e outra com coisa nenhuma.
Parece estar encontrado o “boi Ápis” da direita religiosa norte-americana. Aguarda-se que surja um Moisés contemporâneo que acabe com esta tonta blasfémia, e obrigue estes adoradores de bezerros a engolir o ouro derretido. O Moisés bíblico mandou derreter e misturar com água o ídolo profano, forçando-os a bebê-lo. Mostrou assim a impotência do Boi Ápis que passou pelo corpo do povo até ser defecado. Aquela beberragem desagradável funcionou como uma espécie de punição física, mas também como uma representação da amargura e das consequências da idolatria que Iavé abominava.
Ao menos o bezerro de ouro do Sinai era maciço, fundido a partir dos brincos, pulseiras e demais adornos de ouro que os hebreus haviam trazido durante o Êxodo, entregues pelos próprios egípcios em pânico, que se queriam livrar da maldição das pragas que se haviam abatido sobre o território.
Ainda assim, o bezerro de ouro dos hebreus não era falso como este, que só é dourado por fora, tal e qual como a figura humana que representa.
País rico
Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico…
Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.
Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:
-Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?
O governo responde:
– Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.
E o Brasil é um país rico, muito rico…
As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não tem cavalos, etc; etc.
– Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?
O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:
– Não há verba; o governo não tem dinheiro
– E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.
O Brasil é um país rico…
As ilusões que não perdi. O bolsomaster em filme
Inato ou adquirido pela (des)educação paterna, ele era desde cedo um desses personagens típicos do baixo-clero que assola os legislativos de todo o Brasil: seguidor fanático da lei de Gérson — coitado, o grande jogador deu nome a esta lei dizendo uma frase estúpida num comercial estúpido —, tirava vantagem em tudo, a começar no salário dos falsos funcionários, pastoreados pelo bandido confesso e impune que atende pelo nome de Fabrício Queirós. Como o pai, aprendera a negociar com as milícias e com os milicianos de todo naipe, executivos ou executores, como o Capitão Adriano (mãe e irmã nomeadas para seu gabinete), sócio nas rachadinhas, o Major Ronald — ambos líderes do “Escritório do Crime” — ou Ronnie Lessa — o assassino de Marielle Franco vizinho de Jair Bolsonaro. Como o pai, seus mais expressivos projetos de lei eram de homenagem a assassinos.
Inexpressivo na assembleia estadual — não dá para colocar em iniciais maiúsculas um valhacouto como esse — do Rio de Janeiro, inexpressivou-se com mais ênfase no Senado Federal, onde gosta de apresentar projetos punitivistas. Para compreender o que passa na cabeça do jovem senador (tá bom, tá bom, também eu sei que é …), cito alguns de seus projetos: o 2362/19 acabaria com a Reserva Legal estabelecida no Código Florestal; o 2393/19 acrescentaria aos “excludentes de ilicitude”, isto é, à licença para matar, a legítima defesa ao direito à segurança pública; o 4640/19 idem ao “suicídio por policial” (isso mesmo está escrito); o 3132/19 acabaria com os atenuantes aos crimes cometidos por menor de 21 anos…
Como seu pai, o 01 tem certa dificuldade de dizer lé com cré, mas nem por isso se notabilizou menos por sua atividade de bastidores: foi, durante o governo do pai, o grande acertador de nomeações e ajustes $$$. Entre suas obras-primas está a nomeação de Kassio com K para o Supremo Tribunal Federal — como se pode constatar, o K é brilhante. Pelo sim pelo não, conseguiu desfazer a investigação sobre as rachadinhas em seu gabinete no Rio, sendo de supor que, diante do sucesso, continuou rachando no Senado.
Mas interessante mesmo são suas ideias (?) como candidato a presidente da República. Ele diz que vai reduzir em 90% o número das estatais — viva a sabesp & cia — e torrar o patrimônio da União para fazer caixa — o moço é especialista em dinheiro em caixa, tanto assim que já comprou 57 imóveis em dinheiro vivo, dinheiro que certamente estava em caixa e provavelmente foi levado em caixa, como nos bons negócios da vida (há uma certa atrapalhada entre valor de compra e valor de mercado, mas quem liga para isso?). Ele promete uma redução de despesas considerável — o pai prometeu e acabou com a verba de ministérios dispensáveis como da educação, da saúde, do desenvolvimento social, do meio ambiente, para não falar no da cultura, que só serve para as falcatruas da “lei ruaneid” — e, também como o pai, as aumentaria sem nenhum escrúpulo, desde que para os negócios amigos; o modelo é o ditado pelo estadista africânder Elon Musk. Está certo de que encontrará, entre as hostes de farialimers, um novo posto Ipiranga; se não der, vai com o velho mesmo.
Não se diga que ele é ingrato, pois defende a anistia ampla, total e indenizada para o pai e seus companheiros de condenação — não sei se extensiva aos cúmplices não condenados. E já esclareceu: como sabe que é inconstitucional e que o Supremo a vetará, será preciso não aceitar isso e tomar as medidas — pedir ao irmão um cabo e um jipe para fechar a área do pênalti — para que sua decisão seja cumprida.
Não é o único rasgar da quatro-linhas que anuncia: também acabaria com a maioridade penal aos dezoito anos. Como o art. 288 da Constituição é cláusula pétrea, cabo e jipe. É um apelo à sede de linchamento de parte relevante da população — inclusive entre evangélicos e católicos, que dizem crer em Nosso Senhor Jesus Cristo, mas não nessa besteira de outra face.
Na linha das obsessões escatológicas de seu pai, promete também criar mais meio milhão de vagas nos presídios. Seu objetivo não é acabar com o “estado de coisas inconstitucional”, mas passar a terra do Trump: como nem todos sabem, os EUA têm 1800 mil presos, 542/100 mil habitantes; a China, 1700 mil, 119/100 mil; o Brasil, 900 mil, 416/100 mil; a Índia, 530 mil, 37/100 mil. Em números absolutos ainda faltará um pouco, mas se bolsonarizarmos por 20 anos chegaremos lá. Nos bukelerizaremos (El Salvador tem 1620/100 mil), como explicitou o 01 depois de visitar o pobre país em companhia do 02 bananinha.
É claro que não poderemos deixar de acrescentar à lista de crimes do Novo Bolsonaro — como sabem, é crime a incitação ao crime —, ao lado da proposta de abolição violenta do Estado de Direito que configuram suas declarações propondo o fechamento do STF, o pedido de bombardeio, por forças norte-americanas, de embarcações na Baía de Guanabara (outubro 2025) — art. 142, não da Constituição, do Código Penal Militar, com pena de reclusão de quinze a trinta anos.
Mas voltemos ao bolsomaster. Foram divulgadas mensagens do muito esperto ao chefe da quadrilha-que-está-com-dificuldade-de-acertar-a-delação. O que se sabe até agora: a) que o Vorcaro deu — não “emprestou” dinheiro — 61 milhões de uma promessa de 134, que não conseguiu cumprir pois foi encanado; b) que se fala de um filme brazuca-americano com orçamento muitas vezes maior que os mais caros filmes brasileiros; c) que é difícil de acreditar que o dinheiro dado tenha sido dado para o filme; d) que é difícil de acreditar que o dinheiro dado não tenha um qui-pro-quò, nos dois sentidos; e) que o ilustre ator-secretário-da-cultura, assumindo-se produtor do dito filme, disse que o filme recebeu/não-recebeu um tostão do Vorcaro; f) que o STF tenta citar o dito ator pela destinação de 2 milhões em emendas para a ong Instituto Conhecer Brasil, da produtora do dito filme; g) que a ICB contratou com a prefeitura de S. Paulo 108 milhões para instalar 5 mil pontos de wi-fi, assunto que está sob exame do Tribunal de Contas dos Municípios, com mais de 20 irregularidades; h) que o O2 mexeu/não-mexeu no dinheiro que foi para os EUA; i) que há um pouco de cláusulas de confidencialidade a mais para a produção de um filme, pois pela primeira vez os patrocinadores (privados?) de um filme (privado?) não querem aparecer; j) que o 01 negou, confirmou, não foi bem assim, acusou, rebolou e se enrolou mais que rebolador de bambolê.
Bem, nada de ilusões: os bolsonaristas, os farialimers (não sei se há distinção, mas vá que haja) et caterva virão com tudo contra o resto dos brasileiros — nós, pobres de nós — nós, que sabemos que Deus é brasileiro e ainda vai jogar outros bambolês nos pés deles.
terça-feira, 19 de maio de 2026
O relógio do vosso consumismo vai explodir
Para quem não está a par, explico. A Swatch lançou um relógio a um preço modesto (?) de mais ou menos 400 paus, em conjunto com uma marca de luxo, a Audemars Piguet – de que eu nunca tinha ouvido falar, mas eu também não nasci com talento algum para rico.
É um relógio de bolso às cores, e nada mais interessa saber sobre o objeto em si, honestamente. O que precisam de saber, pessoas que me leem e que deduzo estarem curiosas com o sucedido, é que este lançamento de uma coisa onde dá para ver as horas (tem números e ponteiros) gerou o caos um pouco por todo o mundo, com a ideia de que seria um produto de luxo, mas não assim tanto porque é também para as massas, e que não haveria assim tantas unidades, parecendo assim que a sua compra seria um alcançar de estatuto pela posse de uma raridade. E por este bocadinho do estatuto (???) adquirido por se ser detentor de um bocadinho de plástico que serve para – repito – ver as horas, houve gente a dormir à porta das lojas, houve raiva, desespero, porrada e até gás pimenta para dispersar multidões.
Querem mais? Eu digo-vos mais. Há relatos de estafetas de aplicação a serem pagos para ficar na fila, e histórias de pessoas que conseguiram comprar aquele cagalhoto colorido com ponteiros, para o tentarem vender segundos depois pelo triplo do preço, a quem não o conseguiu obter em loja.
“Ai ó Faro, mas ainda te espantas com estas coisas?”. É pá, se calhar não devia, é verdade. E eu sei que uma das maiores vitórias do capitalismo é fazer-nos um buraco na alma, para depois fazer-nos acreditar que a solução para o preencher de novo é adquirindo bens materiais de que precisamos tanto como de levar um pontapé nas costas todos os dias ao acordar. Mas mesmo assim, sim, ainda fico espantado. Ainda me contorço todo em vergonha alheia com o quão patéticas e absurdas as pessoas conseguem ser por causa de coisas e coisinhas. Com esta demência de se achar que aquele objeto nos confere essa exclusividade de sermos diferentes (superiores) aos demais, e por isso, felicidade.
Reparem, ao que parece, e para fechar aqui este círculo glorioso da estupidez humana, já tem havido um monte de queixas de detentores de relógios Audermars Piguet, porque a marca perdeu valor ao juntar-se à Swatch e ter este relógio mais “popularucho”. Não é genial?
Eu adorava que estas pessoas todas conseguissem sair por uns momentos da sua demência consumista, e olhassem para tudo isto de fora. Talvez elas próprias achassem que realmente, mais valia levaram um pontapé nas costas.
A direita e seu longo deserto
Desde que me entendo por gente, a direita sempre perdeu eleições para candidatos populares. Por isso tenho visto tantos golpes, fracassados ou não. A redemocratização trouxe novidades. Collor foi uma delas. Passagem meteórica pelo governo. Bolsonaro, em 2018, foi outra. Passagem quase meteórica, pois não se reelegeu.
Em 2018, no auge da luta identitária, Bolsonaro conseguiu algo que a direita tradicional não conseguia ter: um grande eleitorado. Soube encontrar o caminho explorando sentimentos como machismo e homofobia. Nas mesmas circunstâncias, Carlos Lacerda não teria o talento adequado. Mais intelectual, o brilhante polemista teria sido incapaz de encarnar os sentimentos que Bolsonaro mobilizou.
A verdade é que a direita encontrou um caminho mais popular e trabalha com certa sensação de cansaço com os governos do período democrático, expressa também no antipetismo. Apesar de tudo isso, sempre afirmei, em artigos e comentários, que Lula é o favorito. Outro dia, em Nova York, agências americanas também afirmaram o favoritismo de Lula; nem citaram as candidaturas adversárias. Nossas previsões coincidem. Para mim, imerso na realidade brasileira, não é nenhuma vantagem.
A realidade com que trabalho tem orientado meus artigos. Dedico-me, em textos mais longos, a falar de programa de governo, numa esperança de que o ritmo do próximo mandato seja maior. A idade do presidente não é um fator tão importante quanto a possibilidade de buscar um gran finale, pois será seu último mandato.
Movimentos como a transição energética podem ser continuados em velocidade maior. Ela já existe, e o governo trabalha com a realidade das mudanças climáticas.
Uma aceitação maior da revolução digital na prática do governo seria importante para facilitar a vida de cidadãos e empresas. Além do mais, poderia tornar a máquina mais leve e eficaz. Racionalizar a máquina é um ponto importante não só para a reforma administrativa. Isso liberaria mais recursos e ajudaria a reduzir a pressão pelo equilíbrio fiscal.
É preciso fugir da redução de investimentos pela economia de gastos da própria máquina. Uma política fiscal severa e lógica abre uma brecha para o declínio de visões do tipo social-democrata e para a ascensão do populismo de direita. O próprio Lula reconheceu isso com muita lucidez em seu discurso de Barcelona, que, infelizmente, teve pouca repercussão por aqui.
Claro que modernizar a máquina estatal não basta. Será essencial uma reforma política que, entre outras coisas, corrija a aberração de o Congresso usar uma parte considerável do Orçamento.
A vida não será fácil a partir de 2027. Se não forem tomadas medidas audaciosas que revigorem a democracia, em 2030 o cansaço poderá trazer novidades. E não será razoável culpar quem clama por mudanças.