quarta-feira, 3 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Nova colônia?

Quando um país interfere nas decisões de outro, a liberdade morre. Convido toda a Colômbia a votar livremente e a não se tornar escrava ou colônia de ninguém

Gustavo Petro, presidente da Colômbia

Os cabos que a guerra pode cortar: Ormuz e a fragilidade digital do mundo

O Estreito de Ormuz é inegavelmente um ponto de estrangulamento global. Por ele trafega um quinto do petróleo mundial e grande parte dos fertilizantes agrícolas que alimentam cadeias produtivas em todos os continentes. Além desses recursos, o estreito também é uma rota vital para insumos da indústria de tecnologia, como o hélio – essencial para o resfriamento de equipamentos que produzem chips. Vale destacar que 64,7% do hélio importado pelo setor de semicondutores da Coreia do Sul é fornecido pelo Catar e escoado, em grande parte, por Ormuz.

Contudo, a relevância do estreito vai muito além das necessidades logísticas. A agência iraniana Tasnim News Agency, alinhada com o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC), publicou uma reportagem sobre os cabos submarinos e a infraestrutura de nuvem do Golfo Pérsico, que exibia um mapa dos sistemas de fibra óptica mais críticos da região, com destaque para o sistema FALCON, e foi interpretada pelo MEMRI e pela Iran International como uma ameaça velada ao corte deliberado dessas infraestruturas. O temor era de que a interrupção simultânea desses cabos pudesse provocar apagões digitais severos com impacto muito além do Oriente Médio.


Ao contrário da percepção comum, o funcionamento da internet não é provido primariamente por satélites, mas sim por mais de seiscentos cabos submarinos que percorrem o fundo dos oceanos. Essas infraestruturas são responsáveis pela transmissão de mais de 99% do tráfego intercontinental de dados: informações pessoais, governamentais e financeiras. Na economia, esses cabos viabilizam mais de 10 trilhões de dólares em transações financeiras diárias. Essa importância é amplificada pela crescente demanda das empresas de tecnologia por dados em escala massiva, essenciais para o treinamento de modelos de inteligência artificial. Por isso, os cabos de fibra óptica intercontinentais tornaram-se o centro de disputas geopolíticas entre potências como Estados Unidos e China, que competem pela instalação, controle e manutenção dessas infraestruturas críticas.

De acordo com dados do International Cable Protection Committee (ICPC), entre 150 e 200 cabos são danificados anualmente por atividade humana acidental, principalmente ancoragem e pesca. Embora a maioria desses rompimentos seja considerada acidental, crescem as suspeitas de sabotagem deliberada. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o número de incidentes no Mar Báltico aumentou de forma sistemática. Em novembro de 2024, o navio chinês Yi Peng 3, que havia partido do porto russo de Ust-Luga, foi investigado pelo rompimento de dois cabos no Mar Báltico em menos de 24 horas: o cabo BCS, que conecta Suécia e Lituânia, cortado em 17 de novembro, e o C-Lion1, que liga Alemanha e Finlândia, cortado no dia seguinte. O ministro da Defesa alemão Boris Pistorius afirmou publicamente que assumia tratar-se de sabotagem. Esses eventos levantaram a suspeita de uma guerra híbrida submarina destinada a fragilizar a economia europeia em meio às tensões do conflito ucraniano. Taiwan, por sua vez, registra um número crescente de incidentes de cabos danificados nas suas águas costeiras, com cinco casos em 2025 contra três em cada um dos dois anos anteriores, segundo o Ministério de Assuntos Digitais de Taipé.

É nesse contexto estratégico e de ameaças que se inserem as infraestruturas submersas no Estreito de Ormuz. Embora a maioria das fibras submarinas intercontinentais apenas contorne o Oriente Médio, algumas entram pelo Estreito de Ormuz e são os “cordões umbilicais” da região.Foto: Domínio público

Entre os cabos mais críticos que atravessam Ormuz, três se destacam pelo impacto potencial de um corte.

O Gulf Bridge International Cable System/Middle East North Africa Cable System (GBICS/MENA), conhecido como GBI, é considerado o cabo mais importante intra-Golfo. Sediado no Catar, ele desenha um “anel” dentro do Golfo Pérsico, conectando todos os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã – além de possuir ligações fundamentais no Iraque (em Al Faw), no Irã e na Índia. Sua conectividade garante também a ligação com o continente europeu.

O sistema Asia Africa Europe-1 (AAE-1), com 25 mil km de extensão, é um dos maiores troncos globais de dados, interligando Ásia, África e Europa. Como parte de seu trajeto atinge o Golfo Pérsico, seu corte teria implicações que vão além da economia regional, impactando significativamente o tráfego de dados para o continente asiático. O FALCON conecta Índia, Omã, países do Golfo e o Egito, e tem sido explicitamente citado por agências de notícias ligadas a militares iranianos como um “alvo estratégico” – tornando-o símbolo mais visível dessa dimensão do conflito em Ormuz. A interrupção de qualquer um desses sistemas teria consequências que vão muito além da conectividade regional.

Embora a arquitetura da internet seja projetada para garantir redundância, o corte de um cabo submarino não afeta apenas serviços de streaming convencionais, mas a própria economia e a defesa globais. As consequências imediatas incluem o atraso nas transações do SWIFT e a degradação da latência em plataformas de nuvem que gerenciam a extração inteligente de petróleo em refinarias e plataformas marítimas, o que pode impactar o preço da energia para o consumidor final.

A dimensão militar é igualmente crítica. A “máquina de guerra” dos Estados Unidos depende maciçamente desses dados, afetando diretamente o Comando Central (CENTCOM) no Catar e a 5ª Frota no Bahrein. Embora as Forças Armadas façam uso de satélites de órbita baixa como o Starlink/Starshield, existe um limite real para o que a banda de satélite consegue suportar: a vigilância por drones de alta resolução e a logística de operações de grande escala ainda exigem a capacidade dos cabos físicos de fibra óptica. Satélites oferecem mobilidade; cabos oferecem volume. Em uma guerra de alta intensidade no Golfo, essa distinção pode ser decisiva.

Nos últimos anos, com o objetivo de transformar suas economias de extrativistas para tecnológicas, os países do Golfo têm atraído pesados investimentos de empresas como Amazon, Microsoft, Google, Oracle e Nvidia. Diante da crescente instabilidade dos mares, cada país revelou uma postura estratégica distinta frente à vulnerabilidade dos cabos.

Os protegidos são aqueles que, por geografia ou planejamento, conseguem contornar o gargalo de Ormuz. Os Emirados Árabes Unidos (EAU) consolidaram-se como o polo de inteligência artificial do Oriente Médio, com empresas como a G42 e o modelo de linguagem Falcon LLM, além do centro financeiro de Dubai – todos demandando larguras de banda colossais. A estratégia dos EAU reside no fato de ser o único país da região banhado pelo Golfo de Omã, o que lhes garante uma saída do Estreito. Isso permitiu concentrar a aterrissagem de cabos em Fujairah: em caso de bloqueio em Ormuz, Abu Dhabi e Dubai permaneceriam conectadas ao mundo, transmitindo dados por terra até o litoral externo. Omã, por sua vez, capitalizou sua localização geográfica com investimentos que transformaram Muscat e Salalah em grandes polos de data centers – como os da Equinix. Estrategicamente, Omã atua como um grande bypass para Europa e Ásia, não sendo diretamente impactado por cortes dentro do Estreito.

Os vulneráveis são aqueles cujos cabos precisam cruzar todas as águas tensionadas do Golfo. O Catar exemplifica essa exposição: apesar de concentrar o Qatar Science & Technology Park e atrair provedores como Google Cloud e Microsoft Azure, vitais para seu setor financeiro e para serviços de mídia como a Al Jazeera, seu confinamento geográfico dentro do Golfo Pérsico o torna altamente frágil. Um corte nos cabos submarinos obrigaria Doha a depender de rotas terrestres que cruzam a Arábia Saudita. A Arábia Saudita, embora geograficamente menos confinada que o Catar, também enfrenta exposição significativa: sua Vision 2030 depende de conectividade digital robusta – o país investiu mais de US$ 1 bilhão em novos cabos submarinos para se tornar hub digital regional –, e seus principais sistemas compartilham as mesmas rotas tensionadas do Golfo e do Mar Vermelho. Kuwait e Iraque, posicionados no extremo norte do Golfo, seriam ainda mais afetados: qualquer sistema que os sirva precisa cruzar todas as águas tensionadas de Ormuz. O Kuwait, em particular, cuja Vision 2035 – o plano “New Kuwait” de transformação da economia em hub tecnológico-financeiro regional – depende criticamente de parcerias com empresas globais de tecnologia e de conectividade externa para ser executado.

Os oportunistas são aqueles que podem transformar a crise em vantagem. O Iraque, através de sua estação de aterrissagem em Al Faw, é visto tanto como um ponto vulnerável quanto como uma rota alternativa. Diante da periculosidade dos mares, cresce o interesse em rotas terrestres alternativas, como o projeto “Development Road” – um corredor de US$ 17 bilhões que ligaria o porto iraquiano de Al Faw à fronteira turca e, daí, à Europa –, concebido originalmente para logística de mercadorias, mas cada vez mais relevante também como possível rota alternativa para cabos terrestres de fibra óptica caso os corredores marítimos de Ormuz e do Mar Vermelho venham a falhar simultaneamente.

A limitação do tráfego naval imposta em Ormuz restringe a movimentação dos navios de manutenção de cabos submarinos, aumentando ainda mais a vulnerabilidade dessas infraestruturas a danos e ataques.

O Oriente Médio ficou incrivelmente rico exportando petróleo pelos mares. Mas seu futuro na economia digital pode ser refém dos mesmos corredores. Para mitigar essa dependência, a solução emergente poderia ser o enterramento de cabos terrestres pelo deserto (interligando Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã e Jordânia), já que os mares se tornaram militarmente voláteis demais para as fibras ópticas responsáveis por mais de 99% do tráfego intercontinental de dados e, com ele, a maior parte da economia digital do planeta.

Se os oceanos se tornaram zonas de guerra híbrida, a pergunta que permanece é geopolítica antes de ser técnica: a prioridade será aprimorar a segurança e a governança dos vulneráveis cabos submarinos, ou a disputa será focada em quem controlará as rotas terrestres do futuro digital, traçadas pelos desertos? A resposta pode definir o equilíbrio de poder do século XXI tanto quanto o petróleo definiu o do século XX.

Os ataques online estão mais inteligentes e a culpa também é nossa

A curiosidade sempre foi o motor do hacker. Era verdade nos anos 80, quando tive contacto com a minha primeira linha de código, e continua a ser verdade hoje, mesmo que o contexto tenha mudado radicalmente.

O meu primeiro computador foi um ZX Spectrum. Entre jogos simples e gráficos rudimentares, muitos de nós acabámos por descobrir a programação quase por acidente. Queríamos perceber como tudo funcionava, principalmente os jogos, explorar possibilidades e, claro, tentar “enganar o jogo” para obter a maior pontuação possível. Talvez seja justo dizer que aprendi a programar precisamente por causa dessa curiosidade.


Hoje, provavelmente, bastaria abrir, por exemplo, o ChatGPT e escrever algo como: “Cria um código em BASIC para vencer o Chuckie Egg.” A Inteligência Artificial daria a solução em segundos. O objetivo seria atingido, mas o caminho seria completamente diferente. E é precisamente aí que encontramos uma das maiores transformações desta nova era.

Fico, aliás, com uma dúvida curiosa: teria aprendido realmente a programar se tivesse crescido com Inteligência Artificial disponível à distância de um simples prompt?

A Inteligência Artificial entrou em praticamente todas as áreas da nossa vida: trabalho, saúde, lazer e, inevitavelmente, cibersegurança. Os algoritmos atuais conseguem analisar padrões, escrever código, gerar imagens realistas e até simular vozes humanas com uma precisão impressionante. Tudo isto traz vantagens enormes, mas também riscos enormes. E os atacantes perceberam rapidamente o potencial.

O que antes exigia tempo, conhecimento técnico e alguma experiência, hoje pode ser automatizado e acelerado com IA. Vemos isso em ataques de phishing cada vez mais convincentes, escritos sem erros e adaptados à vítima. Vemos isso também na criação de palavras-passe prováveis com base em informação pública e nos deepfakes de áudio e vídeo, capazes de simular vozes e rostos com uma precisão difícil de distinguir da realidade.

Mas talvez a mudança mais importante seja outra: a IA tornou os ataques mais pessoais.

Grande parte da informação utilizada nestes ataques vem de nós próprios. Das redes sociais, das fotografias, das rotinas que partilhamos online sem pensar muito nisso. Publicamos viagens, aniversários, preferências pessoais, nomes de familiares e até detalhes aparentemente irrelevantes do nosso dia a dia. Isoladamente, parece tudo inofensivo. Junto, transforma-se em matéria-prima perfeita para ataques personalizados e emocionalmente eficazes,.

As redes sociais deixaram de ser apenas espaços de partilha. São também enormes bases de dados comportamentais. E quanto mais informação entregamos, mais fácil se torna construir ataques convincentes, credíveis e difíceis de detetar.

O problema é que continuamos a olhar para a cibersegurança como um tema técnico, quando muitos dos ataques continuam a explorar algo muito mais simples: distração, confiança excessiva, impulsividade e excesso de exposição online.

A tecnologia mudou. O alvo continua a ser a pessoa.

E é isso que torna esta nova era particularmente desafiante. Porque já não basta desconfiar de links estranhos ou emails mal escritos. Hoje, a fraude pode ter a voz de alguém que conhecemos, pode parecer legítima e pode ser praticamente indistinguível da realidade.

Os ataques cresceram em velocidade, escala e sofisticação. E vão continuar a crescer. A diferença é que, daqui para a frente, serão cada vez mais difíceis de reconhecer, porque serão construídos à nossa medida, com a informação que nós próprios fornecemos.

Por isso, a verdadeira defesa já não passa apenas por tecnologia. Passa por hábitos, consciência e literacia digital. Perceber o que devemos fazer, mas sobretudo o que devemos evitar tornou-se tão importante quanto qualquer firewall.

No fundo, talvez a melhor defesa seja a mesma que me levou a aprender a programar: a curiosidade de perceber como as coisas funcionam, antes de alguém as usar contra nós.

Trump apoia De la Espriella e Petro defende votação livre

O presidente dos EUA, Donald Trump, ofereceu ontem seu apoio na terça-feira ao candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella, que disputará a presidência da Colômbia no segundo turno das eleições, em 21 de junho, contra o esquerdista Iván Cepeda.

"Os resultados desta eleição são muito importantes para o futuro da Colômbia e para o seu relacionamento com os Estados Unidos. Pelas suas grandes conquistas na vida e pelo apoio que me deu pessoalmente, tenho a honra de conceder a Abelardo o meu total e irrestrito apoio", escreveu Trump na Truth Social.

Trump descreveu De la Espriella como um líder "inteligente, forte e determinado" que luta pelo seu país e garantiu que, se ele se tornasse presidente, promoveria o crescimento econômico, a criação de empregos, o comércio, o combate ao crime e ao tráfico de drogas, bem como a restauração da "lei e da ordem".

O presidente dos EUA também destacou a importância do segundo turno para o futuro da Colômbia e para a relação bilateral com os Estados Unidos, observando que o candidato colombiano enfrentará um candidato do que ele chama de "esquerda radical" nas eleições finais.

Trump também afirmou que era uma "honra" dar seu apoio a De la Espriella, citando tanto suas conquistas profissionais quanto seu apoio político ao presidente dos EUA, e concluiu garantindo que "El Tigre" não decepcionaria o povo colombiano.

As felicitações do republicano surgem horas depois de o Registro Nacional da Colômbia ter confirmado que 99,94% dos resultados da contagem preliminar foram apurados, colocando de la Espriella como o mais votado, seguido pelo esquerdista Iván Cepeda, o que significa que ambos disputarão a Presidência no segundo turno, em 21 de junho.

A Missão de Observação Eleitoral da União Europeia (EU EOM) descartou hoje "qualquer manipulação" dos dados, tanto na contagem preliminar quanto na contagem final dos votos do primeiro turno das eleições presidenciais , e enfatizou que as eleições foram realizadas de forma "ordenada, transparente e fluida".

O chefe da missão e vice-presidente do Parlamento Europeu, Esteban González Pons, garantiu que uma auditoria do software utilizado na contagem preliminar dos votos foi encomendada a uma organização internacional e que os partidos que a solicitaram receberam as conclusões "dois dias antes das eleições".

Contrariando as afirmações do presidente Gustavo Petro, ele disse ter "provas concretas de possível fraude", que entregará às autoridades competentes.

Petro visitou Trump em Washington em fevereiro passado, num contexto de tensão regional devido às ameaças diretas do republicano de intervir na Colômbia, tal como fizera com a Venezuela.

Após tomar conhecimento do apoio de Trump a De la Espriella, Petro criticou seu homólogo americano e pediu aos cidadãos que "votassem com total liberdade".

A esse respeito, o presidente colombiano disse ao seu homólogo americano: "Toda uma geração de jovens homens e mulheres de Nova Granada lutou ao lado de (os heróis Simón) Bolívar e (Antonio) Nariño para nos dar Liberdade e Soberania. Se o coração do mundo perder sua liberdade e soberania, a esperança do mundo e da Colômbia se extinguirá."

O inesperado “L” feito por Donald Trump

A intenção de Donald Trump certamente não era essa, mas não exagera quem diz que ele fez o “L” de Lula ao anunciar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. Tarifaço ou, se preferirem, “Tariflávio”, como passou a ser chamado nas redes sociais para desespero do inexperiente e sem ideias senador Flávio Bolsonaro, candidato do seu pai à Presidência da República e herdeiro dos seus votos, pelo menos até aqui. Amanhã, talvez perca uma parte deles, nunca se sabe. Flávio sangra desde que se envolveu no escândalo do Banco Master, amiguinho de unha e carne de Daniel Vorcaro, que está preso. Está ameaçado de seguir sangrando. A política tem dessas coisas.

O PIX foi criado pelo Banco Central no governo de Jair Bolsonaro, o qual, a princípio, não soube dizer do que se tratava. Quando o informaram, explorou-o a seu favor na campanha para se reeleger. Em janeiro de 2025, a direita propagandeou que Lula taxaria o PIX — notícia falsa, mas que derrubou a popularidade de Lula. O primeiro tarifaço de Trump serviu para que Lula se enrolasse na bandeira nacional, passasse a defender a soberania do Brasil e recuperasse pontos perdidos. Ora, vejam só: agora é Trump, depois de ser visitado por Flávio na Casa Branca, que quer acabar com o PIX. Coitado do Flávio.

Perguntou-se até ontem: afinal, quando Lula e o PT começariam a bater duramente em Flávio, que há meses vem batendo duramente em Lula e no PT? O dia chegou com mais uma tentativa de Trump de intervir nos assuntos internos do Brasil. Flávio foi obrigado a defender-se publicamente três vezes no curto período de 24 horas.


Na primeira, em um vídeo, negou que tivesse pedido a Trump para punir o Brasil com um novo tarifaço, e culpou Lula pelo que Trump fez, acusando-o de se distanciar dos Estados Unidos. Não colou. Então, Flávio divulgou uma carta que diz ter enviado a Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos, na qual pede a suspensão do tarifaço e agradece a equiparação de organizações criminosas do Brasil a organizações terroristas — coisa que elas não são. Não bastou.

À noite, em Belo Horizonte, disse que processará Lula por ter desejado sua morte por enforcamento. Aproveitou para comparar-se a Tiradentes, o líder da Inconfidência Mineira e herói nacional, morto enforcado e cujo corpo foi esquartejado. Lula chamou Flávio de “imbecil” e de “vendilhão da Pátria”, referindo-se a Joaquim Silvério dos Reis, que traiu os inconfidentes, como alguém que teria sido morto enforcado. Confundiu-se. O único enforcado foi Tiradentes. Se Flávio pensa que isso subtrairá votos de Lula, insista em vitimar-se para ver no que vai dar: em nada.

Os torpedos disparados por Trump contra o Brasil atingiram todos, em cheio, a Flávio. Trump definiu Flávio como “um rapaz esperto que ama seu país”; divulgou uma foto na qual Flávio aparece reunido com ele na Casa Branca; designou para embaixador dos Estados Unidos no Brasil um deputado da Flórida que reza pela cartilha de Rubio; e disse que apoia à presidência da Colômbia a candidatura do advogado ultradireitista Abelardo de la Espriella, por sinal um admirador de Jair Bolsonaro.

Em depoimento a uma comissão do Congresso, Rubio citou Cuba, Nicarágua, Venezuela, Colômbia e Brasil como países não amigos dos Estados Unidos. Embora não confesse, Lula está grato, gratíssimo a Trump pelo apoio subliminar à sua candidatura.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Queremos continuar a ser humanos na era da IA?

Num mundo dominado pela rapidez de decisões e pela emotividade das reações, ainda bem que há quem continue a insistir em pensar demoradamente sobre os assuntos, a refletir sobre os vários caminhos que podem ser tomados e, no final, a ser capaz de o transmitir através de um texto extenso, mas muito bem estruturado, repleto de citações e de referências confiáveis. Para um não católico como eu, foi isso que mais me inspirou – ou quase emocionou – quando comecei a ler a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), divulgada na manhã de segunda-feira, poucas horas antes do fecho desta edição. São mais de 43 mil palavras, na sua versão em português, em que, sob o subtítulo Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial, o líder de uma das mais importantes religiões do planeta procura alertar a Humanidade para o tempo delicado em que vivemos. E para a urgência que deve impelir, cada um de nós, independentemente da sua crença, a impedir a desumanização galopante, impulsionada pelo capitalismo tecnológico global.

Alguns dos princípios vertidos agora para o texto já haviam sido proferidos por Robert Prevost, há um ano, nas suas primeiras intervenções públicas como Papa. “A tecnologia não pode ser uma ferramenta ao serviço do fanatismo ou da divisão. Ela deve aproximar-nos, não afastar-nos”, afirmou, no seu primeiro encontro com os jornalistas.

Agora, na primeira publicação marcante de seu papado, após 12 meses alucinantes no desenvolvimento e na popularização das ferramentas de Inteligência Artificial, nomeadamente a sua utilização permanente e massiva em cenários de guerra, Leão XIV é mais eloquente, abordando a ameaça que ela representa para os trabalhadores, a justiça social e, acima de tudo, para “a dignidade das pessoas”.


O Papa apela explicitamente à regulação internacional das grandes empresas tecnológicas que, em muitos casos, detêm um poder que rivaliza ou até já ultrapassa o dos próprios Estados soberanos. E, nesse sentido, Leão XIV transmite uma mensagem profunda que é hoje absolutamente imperativa: “É preciso desarmar a Inteligência Artificial.”

Como o fazer? As suas reflexões deviam, no mínimo, convocar ao debate. Primeiro, a IA deve ser subtraída da competição em que está inserida atualmente, em que “a corrida ao algoritmo mais eficaz e ao banco de dados mais vasto” apenas tem como objetivo ganhar ou consolidar “uma vantagem geopolítica ou comercial sobre todos os outros”. Nesse campo, Leão XIV é categórico: “Retirar a IA dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável, devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e das formas de vida.”

Porque é isto urgente? Simplesmente, porque devemos querer todos continuar a ser humanos, mesmo com os nossos erros e imperfeições. Ou seja, devemos querer continuar a ter a capacidade de, entre outras coisas, “saber cuidar uns dos outros”. E não de nos transformarmos em seres que, quando não correspondem a um arquétipo de perfeição, parece que têm defeitos que precisam de ser corrigidos pela tecnologia – sejam esses “defeitos” a incapacidade, a doença, a velhice, o sofrimento ou a vulnerabilidade.

Na encíclica, Leão XIV não cita nomes, mas é fácil perceber como Donald Trump e alguns dos seus mais próximos apoiantes, como Elon Musk e Peter Thiel, bem como muitos líderes da extrema-direita, estão entre os alvos dos seus avisos. Para o Papa, “vivemos numa época de notável cegueira espiritual e cultural”, em que já se chega ao ponto de “um falso pragmatismo nos convidar a cortar as raízes da memória”, fazendo muitos acreditar “ilusoriamente que as atrocidades do século XX não podem mais ser repetidas”.

Por isso, o Papa faz questão de nos avivar a memória. E de recordar alguns princípios que muitos consideram estar em desuso, mas que são aquilo que nos torna humanos: a importância do trabalho digno, a solidariedade, o respeito pela imigração, a recusa em normalizar as guerras, e uma série de outros pontos dignos de reflexão.

Numa era de discussão em Portugal do chamado pacote laboral, há uma frase de Leão XIV que deveria ser levada à mesa da concertação: “É necessário conceber sistemas centrados na pessoa e não apenas no desempenho.”

O apelo, portanto, não é contra a IA, mas pela regulação urgente da IA – que não pode ficar na posse de meia dúzia de multimilionários, para quem a Humanidade é um brinquedo, que podem usar a seu bel-prazer. Ainda bem, por isso, que um líder religioso que tem este peso se indigna com um futuro em que o trabalho corre o risco de se tornar novamente escravo e em que a capacidade de compaixão é ditada por algoritmos. O risco está à vista, como refere Leão XIV: “Quando a eficiência se torna a medida do valor, o ser humano é tentado a pensar-se como um projeto a otimizar, mais do que como uma criatura chamada à relação e à comunhão”, escreve. No mínimo, cabe-nos, a nós, agora, manter esse debate vivo e deixarmos de ser apenas espectadores passivos de uma evolução controlada apenas pelos mais poderosos.

A trágica mutação do sionismo

O prestígio acumulado era imenso, aparentemente inesgotável. Agora, sinais alarmantes não deixam margem para engano. Na melhor das hipóteses, a nação judaica e o sionismo, sua ideologia fundadora, desceram ao mesmo nível de qualquer outro nacionalismo, sujeitos ao escrutínio quanto ao respeito pelos princípios e valores democráticos e às salvaguardas que todos os excepcionalismos merecem ao conceder a uma nação direitos particulares acima de outras. Na pior das hipóteses, já foram condenados pela opinião internacional após as guerras desencadeadas desde 2023, não apenas pela escala dos massacres, mas sobretudo por seus objetivos inegáveis, denunciados como genocidas por inúmeras instituições e países e provisoriamente relegados ao inferno das ideologias e estados párias, aguardando apenas os veredictos que os tribunais um dia proferirão.


O diagnóstico foi escrito em 1967, quando Israel ocupou Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, transformando o território sob seu controle em uma região de população mista, metade judaica e metade palestina. Os primeiros gozavam de plenos direitos e liberdades, enquanto os últimos viviam sob um regime militar sem qualquer proteção aos seus direitos individuais ou coletivos. Não havia outra opção senão reconhecer a igualdade de todos como cidadãos de um único Estado compartilhado ou retirar-se dos territórios ocupados para que os palestinos pudessem desfrutar da cidadania em seu próprio Estado. Se Israel recusasse qualquer uma dessas opções, não poderia manter seu status de democracia liberal, reduzindo-se a uma democracia étnica com um segmento despossuído da população vivendo sob um regime de apartheid ou dominação colonial.

Tal foi o resultado democrático dos Acordos de Oslo em 1993, cujo objetivo era a devolução dos territórios em troca da paz, um esforço imediatamente frustrado pelo assassinato de seu arquiteto israelense, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, pelas mãos de um militante sionista radical violento, da mesma linha de pensamento de Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir, os dois ministros do governo Netanyahu. Com esse processo de paz agora extinto e a ocupação expandida pelas ações dos colonos na Cisjordânia e pela destruição de Gaza, nada resta a ser oferecido aos palestinos, exceto sua expulsão gradual do território remanescente de sua pátria perdida.

A menos que haja uma mudança política e eleitoral repentina em outubro próximo, o abismo em que o sionismo caiu ameaçará até mesmo o futuro de Israel, um país do qual muitos desejarão fugir, em vez de permanecer como a pátria atraente para os judeus que foi ao longo de sua história. Seu caráter cada vez mais autoritário e iliberal, seu governo de extrema-direita, messiânico e supremacista, e seu estado perpétuo de guerra o tornam um lugar inóspito para qualquer pessoa. Mesmo nos Estados Unidos, seu aliado e protetor incondicional, as pesquisas detectaram um colapso em seu prestígio, especialmente entre os jovens, inclusive em círculos conservadores e trumpistas.

Pela primeira vez, o governo israelense está perdendo a batalha da propaganda, auxiliado por imagens apocalípticas de destruição e assassinatos; pelos maus-tratos infligidos a prisioneiros por seu exército, incluindo ativistas pró-Palestina das flotilhas de solidariedade capturados no mar; e pelos relatos estarrecedores de tortura generalizada, abuso sexual e estupro de homens e mulheres em suas prisões . Só faltou a reinstalação da pena de morte exclusivamente para terroristas palestinos e a perspectiva de um julgamento em massa contra combatentes do Hamas — entre duzentos e trezentos detidos que participaram do ataque israelense de 7 de outubro de 2023 — cuja provável execução apenas reforçará a imagem de um Estado que busca vingança, não a paz.

Para muitos sionistas, nada é mais cruel e insuportável do que enfrentar acusações de crimes contra palestinos, crimes legalmente definidos como muito semelhantes aos sofridos pelos cidadãos judeus europeus nas mãos do nazismo. É como se, por um efeito inverso, as ideias que serviram para a emancipação e a autodeterminação nacional dos judeus europeus tivessem se transformado “em uma ideologia etnonacionalista de um Estado militarista, centralizado, expansionista, racista e até genocida”, como escreveu o historiador israelense Omer Bartov.

Um intenso debate envolve intelectuais e acadêmicos israelenses que se opõem ao governo Netanyahu. Alguns acreditam que a tragédia atual era inerente aos ideais sionistas originais, outros ainda aspiram a reviver um sionismo liberal, e outros ainda lamentam a perda da última oportunidade de retificação com o fracasso de Oslo. Um prestigiado intelectual francês como Alain Finkielkraut, um defensor ferrenho de Israel e brilhante combatente do antissemitismo de esquerda, embora a favor do reconhecimento do Estado palestino, expressou com propriedade a consternação que agora toma conta dos amigos de Israel: “Pela primeira vez na história, devemos confrontar o ódio sem o conforto da inocência.”

Erros e mentiras não bastam para derrubar Flávio Bolsonaro

Dê-me uma razão, uma só, para que um bolsonarista raiz, de carteirinha, abandone Flávio e vote em outro candidato a presidente da República capaz de derrotar Lula.

Ah, mas Flávio mentiu ao dizer que mal conhecia Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e financiador do filme de exaltação a Jair Bolsonaro. E daí? Qual político não mente?


De resto, não está provado que Flávio e Vorcaro fossem unha e carne. Não está provado que parte do dinheiro tenha sido desviada para encher os bolsos de Flávio ou pagar as contas de Eduardo, irmão dele, refugiado nos Estados Unidos.

Ah, mas Flávio apoiou o tarifaço de Donald Trump contra os produtos brasileiros e bateu à porta dele na Casa Branca para pedir que Trump declarasse o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) organizações terroristas.

Há uma diferença enorme entre organizações criminosas e organizações terroristas: as primeiras querem enriquecer por meio da venda de drogas; as segundas, derrubar governos, defender ideologias, e não se furtam a fazer isso às custas de muitas vidas inocentes.

O bolsonarista raiz, de carteirinha, simplesmente não acredita nisso; história contada pela esquerda para enganar os tolos. Organizações criminosas disseminam o terror para lucrar mais. O governo do PT é aliado delas ao se negar a combatê-las.

Flávio, um homem de coragem, oriundo de um estado, o Rio de Janeiro, onde o terror impera, fez o certo: pediu ajuda a Trump e ele o atendeu. Nem vem com a conversinha de que ele desrespeitou a soberania do Brasil. Outro dia, ao se referir ao CV e ao PCC, Lula chamou-os de “nossos terroristas”. Ou não foi?

Sim, mas e se, por qualquer razão, Flávio continuar a perder pontos nas pesquisas de intenção de voto? E se um dos demais candidatos da direita avançar nas pesquisas e ameaçar tomar o seu lugar?

A mais recente Pesquisa Real Time Big Data, divulgada ontem, mostra que Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, e Romeu Zema (NOVO), ex-governador de Minas Gerais, empatam ou chegam perto de Lula num eventual segundo turno, enquanto Flávio (PL) perde por cinco pontos.

Os dois já se comprometeram a anistiar Bolsonaro e os demais condenados pela tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023.

O bolsonarista arguto (eu sei que não existem tantos) lembrará que, para disputar o segundo turno, Caiado ou Zema terá que passar pelo primeiro e, para isso, terá que ser mais votado do que Flávio. Por que acreditar que isso será possível?

Por que votar numa cópia envergonhada de Bolsonaro se se pode votar numa cópia quase tão perfeita, no caso Flávio, o filho do homem, que jamais trairia o pai?

Se a direita não bolsonarista, apenas oportunista, deseja voltar ao poder, que espere até 2030. A vez agora não é dela. Ou então que reze em silêncio e atue discretamente para que Lula derrote Flávio.

Porque, se Flávio se eleger, tentará se reeleger. Lula, não. Daqui a quatro anos, ele terá que ir para casa, goste ou não.

Imoralidade tributária

O Brasil não vai dar certo. Falta-nos o sentido de comunidade. Se um dia já circulou por aqui a ideia de que os custos para a manutenção do Estado precisam ser divididos de forma mais ou menos equânime entre todos, pessoas e instituições, essa é uma noção que foi abandonada.

Mais um eloquente exemplo disso foi dado pelos deputados na semana passada, quando aprovaram uma emenda constitucional que amplia para níveis absurdos a imunidade tributária das igrejas. Pela PEC, que ainda precisa passar pelo Senado, o poder público fica impedido de cobrar impostos sobre tudo o que elas possuem, pelos serviços que contratam e até por itens que consomem. É isso mesmo, templos não pagariam um centavo de imposto seja sobre os jatinhos que compram para espalhar a palavra de Deus, seja sobre a comida com que saciam a fome de seus ministros, do pão ázimo ao caviar.


E fica pior. Os deputados não se limitaram a ampliar o rol das isenções. Também as estenderam para entidades assistenciais ligadas a igrejas, como creches, escolas, comunidades terapêuticas, hospitais. No limite, até um banco operado por instituição clerical ficaria livre de tributos. O risco de perdição das contas públicas só não é imediato porque a PEC exige a elaboração de uma lei complementar para regulamentar a matéria.

Não é só de imoralidade tributária que estamos falando. A extensão dos benefícios a entidades vinculadas a igrejas introduz graves distorções concorrenciais. Uma escola ligada a religiosos teria custos transubstancialmente menores do que os de um colégio particular. Se todos os agentes econômicos agirem racionalmente, eles se converterão em entidades religiosas ou se associarão a uma. Como já demonstrei no passado com a criação de uma igreja, fazê-lo é muito fácil e barato.

A prosperar essa lógica, em pouco tempo o poder público não teria mais de quem cobrar tributos. O lado bom é que isso limitaria o poder de congressistas de torrar com emendas parlamentares. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Gaza e o desgaste moral do Ocidente

Quando ativistas europeus surgiram algemados após a interceção israelita da flotilha humanitária que tentava aproximar-se de Gaza, o impacto político das imagens foi imediato em várias capitais europeias. Não apenas pelo incidente diplomático em si, mas porque aquele episódio expôs, de forma particularmente desconfortável para o Ocidente, uma realidade cada vez mais difícil de ignorar desde o início da guerra: a de que o conflito deixou há muito de ser apenas uma questão regional do Médio Oriente e passou a transformar-se num teste decisivo à credibilidade moral e política das democracias ocidentais.

Pela primeira vez em muitos meses, cidadãos europeus surgiam expostos, ainda que momentaneamente, à mesma lógica de vulnerabilidade e impotência que passou a marcar o quotidiano em Gaza. O episódio condensou simbolicamente uma inquietação crescente dentro da Europa, onde aumenta o receio de que o custo internacional da guerra já ultrapasse largamente os limites da dimensão militar e humanitária do conflito.


A verdadeira dimensão geopolítica da guerra talvez resida precisamente nesse ponto. Gaza transformou-se num espelho desconfortável das contradições da ordem internacional construída pelos Estados Unidos e pela Europa após a II Guerra Mundial.

Durante décadas, o poder ocidental não assentou apenas na superioridade militar, tecnológica ou financeira, mas sobretudo na capacidade de apresentar os seus valores políticos como referências universais de legitimidade internacional. Direitos humanos, legalidade multilateral, proteção de civis, defesa da democracia liberal e respeito pelo direito internacional converteram-se em instrumentos centrais de influência global. Foi essa autoridade moral que permitiu ao Ocidente condenar invasões, impor sanções e definir, em larga medida, os parâmetros éticos da política internacional contemporânea.

Existem momentos históricos em que a distância entre os princípios proclamados e a realidade observada se torna demasiado visível para continuar a ser administrada diplomaticamente. Gaza poderá estar a tornar-se exatamente esse momento. A devastação humanitária acumulada ao longo dos últimos meses, o colapso das infraestruturas civis, a dimensão das mortes, as deslocações forçadas e a perceção crescente de punição coletiva começaram a produzir um desgaste político internacional muito superior ao inicialmente previsto pelas principais capitais ocidentais.

A dificuldade tornou-se particularmente delicada porque o conflito expôs uma contradição estrutural profundamente desconfortável para as democracias liberais. Desde o 7 de outubro de 2023, governos europeus e norte-americanos procuraram equilibrar duas realidades politicamente difíceis de conciliar: o reconhecimento do trauma provocado pelos ataques do Hamas e das preocupações de segurança israelitas; e, ao mesmo tempo, a crescente incapacidade de justificar, perante parte significativa da comunidade internacional, a dimensão da destruição humanitária produzida pela guerra.

Esse equilíbrio deteriorou-se à medida que bairros inteiros reduzidos a ruínas, civis encurralados e hospitais colapsados passaram a dominar o espaço mediático internacional. O problema deixou então de ser exclusivamente militar ou diplomático. Tornou-se moral, narrativo e civilizacional.

Em grande parte do Sul Global — particularmente em países africanos, árabes, asiáticos e latino-americanos — consolidou-se a perceção de que o Ocidente aplica os princípios do direito internacional de forma seletiva, condicionando frequentemente a defesa dos direitos humanos aos seus interesses estratégicos e às suas alianças políticas.

Essa leitura não se disseminou apenas entre governos tradicionalmente hostis a Washington ou Bruxelas. Espalhou-se igualmente por universidades, organizações internacionais, fóruns diplomáticos e setores da sociedade civil que durante décadas olharam para a Europa e para os Estados Unidos como referências relativamente estáveis de legitimidade democrática.

A crescente pressão no espaço político europeu para o reconhecimento formal do Estado palestiniano reflete precisamente esse desconforto. Nos bastidores de Bruxelas tornou-se evidente o receio de que a continuidade do conflito provoque um dano estrutural à imagem internacional do continente, sobretudo junto das novas gerações e dos países emergentes.

O reconhecimento da Palestina deixou gradualmente de ser encarado apenas como uma questão diplomática relacionada com o Médio Oriente e começou a assumir, em várias capitais ocidentais, o significado político de uma tentativa de recuperar parte da credibilidade internacional perdida ao longo da guerra.

Essa erosão de legitimidade tornou-se ainda mais sensível porque ocorre num momento de fragilidade crescente das próprias democracias ocidentais. A polarização política, a ascensão dos populismos, a radicalização digital e a perda de confiança institucional já fragilizavam a autoridade moral do Ocidente muito antes de Gaza ocupar o centro do debate internacional. A guerra funcionou, nesse contexto, como um acelerador brutal de tendências que já estavam em curso.

Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, parte significativa da opinião pública internacional começou a questionar não apenas decisões concretas da política externa ocidental, mas a própria coerência do modelo político e moral que sustentou durante décadas a liderança internacional dos Estados Unidos e da Europa.

A China percebeu rapidamente o alcance estratégico dessa transformação. A Rússia também. Pequim explora de forma sistemática o desgaste moral do Ocidente para reforçar a ideia de uma ordem internacional multipolar menos subordinada aos critérios políticos definidos por Washington.

Moscovo utiliza o conflito para denunciar aquilo que descreve como incoerência estrutural das democracias liberais sempre que interesses estratégicos entram em colisão com princípios humanitários. Ambos compreenderam que, num sistema internacional cada vez mais fragmentado, a perda de legitimidade narrativa pode produzir efeitos geopolíticos tão relevantes quanto crises económicas ou derrotas militares.

Mas talvez o aspeto mais significativo desta transformação esteja a ocorrer dentro das próprias sociedades ocidentais. Entre sectores mais jovens das elites académicas, mediáticas e políticas, Gaza passou gradualmente a simbolizar uma rutura geracional mais profunda: a erosão da convicção de que o Ocidente atuaria, apesar das suas contradições, como referência relativamente coerente da ordem liberal internacional construída após a Guerra Fria.

O poder internacional nunca depende apenas de força militar ou capacidade económica. Depende igualmente da confiança que uma potência consegue projetar sobre os valores que afirma defender. Quando essa confiança começa a deteriorar-se, o desgaste ultrapassa rapidamente o plano diplomático e instala-se no próprio imaginário político internacional.

É precisamente esse tipo de fragilidade que o conflito em Gaza parece hoje expor de forma particularmente incómoda para o Ocidente.

Gaza poderá vir a ser recordada não apenas pela dimensão da devastação humanitária que produziu, mas pelo impacto político e moral que este conflito provocou na perceção global sobre o Ocidente. À medida que a guerra avançava, tornou-se progressivamente mais difícil para os Estados Unidos e para a Europa convencerem parte significativa da comunidade internacional da coerência dos princípios que durante décadas sustentaram a sua influência política e diplomática.

O que ocorre nos EUA é mais profundo do que parece

Na viagem de Trump à China, Trump escutou de Xi Jinping para que não entre em Taiwan, que a Guerra contra o Irã é uma guerra equivocada que não deveria ter ocorrido, e que os Estados Unidos são uma potência declinante, com a ascensão da China; e que os Estados Unidos não incorram no erro de retaliar com uma guerra como fizeram nações anteriores nesta situação.

Simon Commander, que foi Professor da London Business School e Consultor do Banco Europeu, agora com a sua revista eletrônica “Modern Autocracy”, mostra em seus artigos que 2/3 da população mundial hoje vive sob Autocracias Modernas, com a China, Rússia e Índia, e outros países.

As Autocracias Modernas se mostram como tendência mundial, com o declínio econômico das classes médias e acúmulo da riqueza social em mãos de poucos. Estudo do Banco UBS mostra que 2.500 famílias detêm hoje o equivalente a cerca de 12% do valor do PIB mundial. E o “The World Inequality Report” mostra a queda da remuneração das classes médias a partir de 1980.


De 1960 a 2025, o PIB dos Estados Unidos diminuiu de 40% para 21% em sua participação mundial, Europa de 21% para 18%, China de 4% para 17%, com tendência crescente. Segundo o Goldman Sachs, o PIB da China deverá ultrapassar o PIB dos Estados Unidos em 2035-2036.

Historicamente, todo processo de substituição de um país por outro na hegemonia mundial resultou em guerra, como no caso da imposição por parte da Inglaterra de tarifas alfandegárias à Alemanha na virada dos anos de 1900, quando a Inglaterra perdia as suas colônias e a Alemanha se industrializava, resultando em duas Guerras Mundiais.

Para sobreviver, os Estados Unidos tendem a abraçar a Autocracia como estratégia mundial. Mas as Autocracias, como indica Simon Commander, limitam a economia de mercado e a distribuição de renda nos países, pelo gerenciamento dos Governantes através de benefícios para grupos econômicos específicos, em troca de favores.

Trump foi eleito com 49,5% do total do eleitorado, contra 48,0% de Kamala Harris. Na primeira pesquisa Reuters/IPSOS em janeiro de 2025, Trump obteve 47% de aprovação de seu governo no total da população, agora em maio de 2026 em 35%. Os Estados Unidos foram fundados como uma Democracia, baseada nos valores da liberdade e do mercado, e não como uma Autocracia. Mas se o mercado hoje não agrada, e a Autocracia não funciona, o que fazer?

A ambivalência entre a Democracia e a Autocracia é autodestrutiva.

É terrível o dilema americano.

Que Deus tenha piedade de nós!

'Corrupção honesta' e criminalidade violenta

Há mais de dois anos escrevi sobre a Tammany Hall: uma espécie de confraria que dominou o partido democrata em Nova York por 40 anos, inspirou filmes e livros, e acabou virando símbolo de máquina política corrupta. Foi desmantelada nos anos trinta do século passado, mas na literatura especializada em corrupção é o exemplo paradigmático de corrupção política. Ao contrário do que afirmava um dos seus líderes, em uma fórmula célebre, não se tratava apenas do que chamou "corrupção honesta" —ou seja, aquela que envolve apenas "conflito de interesses", fraudes em licitações e blindagem contra punições. O esquema corrupto envolveu paulatinamente "corrupção desonesta" por "saqueadores" (desvios) e se entrelaçou com a criminalidade violenta liderada pelo capo Lucky Luciano.


Tammany Hall talvez deixe de ser o exemplo paradigmático de corrupção política para ceder lugar ao Rio de Janeiro. A magnitude dos esquemas recentemente revelados é tamanha que alcança praticamente toda a estrutura institucional —dos três Poderes à Procuradoria e a órgãos do Estado, organizações privadas. E, como se a realidade buscasse imitar a ficção que consagrou Nova York como cenário clássico da máfia, um dos supostos chefões da organização vive em Miami.

Tammany Hall inspira três reflexões.

A primeira é que o estado —e mais importante, o país— está perdendo a guerra contra a corrupção. Afinal, todos os governadores eleitos no Rio de Janeiro nos últimos 30 anos foram presos ou destituídos do cargo. O caso Sérgio Cabral é emblemático. O que autoriza essa conclusão forte é que muitos protagonistas de casos notórios de corrupção reaparecem em denúncias recentes. E não só em relação ao caso do Rio de Janeiro. Isto vale para a Lava Jato e o Mensalão. The Economist repercutiu internacionalmente a degradação institucional do estado. E dedicou mais de uma matéria ao caso Master.

A segunda é que o caso Master e sua colossal capilaridade colocam a questão de que a degradação institucional sistêmica escalou para o nível nacional. Afinal, as denúncias chegaram na Corte mais importante do país. A questão dos custos reputacionais envolvidos adquiriu agora enorme importância. As decisões recentes do governo americano sobre a classificação das organizações criminosas brasileiras levam o problema a outro nível. No entanto, quanto pior a reputação das instituições brasileiras, menor sua capacidade de efetivamente responder ao desafio que enfrenta.

A terceira é que o que havia em comum entre a "corrupção honesta" e a "desonesta" em Tammany Hall era sobretudo as formas de lavagem de dinheiro. As oriundas de negociatas políticas e de crimes violentos se entrelaçavam e contaminavam reciprocamente. Exatamente como ocorre no Master, especialmente no caso da Reag.

Como ocorreu com outras decisões tomadas por Trump (aplicação da Magnitsky, de tarifas punitivas etc.), a nova classificação dada a organizações criminosas brasileiras inscreve-se em sua tática transacional de maximizar ameaças para garantir ganhos estratégicos. Sua repercussão no país é maximizada pela sua exploração eleitoral. Provavelmente o efeito real será muito menor que o alegado nas narrativas políticas.

Brasil experimenta o que é estar na zona de influência americana

Em dezembro de 2025, a Casa Branca publicou suas diretrizes de segurança para o continente americano, o que foi chamado à época de “Corolário Trump à Doutrina Monroe”.

Em janeiro de 2026, no texto “Trump lembra ao Brasil que a Geografia Importa”, analisamos os recados direitos que estavam endereçados no documento.


A mensagem geral era a de que os EUA passaram a considerar eventos regionais como questões que importam à sua segurança interna, se permitindo tomar decisões sobre outros países sem ter que percorrer a via diplomática.

Olhando em perspectiva, quando o governo de Donald Trump decide classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, pode-se dizer que o país experimenta pela primeira vez o que significa estar na zona de influência americana.

E o que Flávio Bolsonaro tem a ver com isso?

O candidato do PL não tem responsabilidade direta, mas cumpriu um papel.

Flávio Bolsonaro foi, de fato, convidado oficialmente a visitar Donald Trump sem ter feito nada para tanto. Aos seus círculos próximos, ele confessava, na véspera da viagem, a surpresa pela agenda inesperada e que não tinha ideia do que se tratava.

O anúncio logo após a sua visita mostra que Trump usou Flávio para dar legitimidade a um anúncio que já estava pronto. Quando um dos principais candidatos da oposição vai diretamente ao líder de outro país pedir pela medida, isso confere a ela alguma sustentação e ameniza críticas pela sua unilateralidade: “foram vocês (ou uma parte de vocês) que pediram”.

Trata-se de um aprendizado para o Brasil.

É ingenuidade de Lula ou de Flávio acharem que podem influenciar ou até manipular governos americanos a fazerem qualquer coisa. Nesse novo normal, é preciso compreender mais seriamente o que significa estar nessa zona americana e compreender as possibilidades e restrições de ação que estão no pacote.

domingo, 31 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Os patriotas pelo avesso

 Talvez o momento mais verdadeiro do nacionalismo da direita tenha ocorrido quando manifestantes bolsonaristas estenderam a bandeira norte-americana na Avenida Paulista em pleno dia da pátria brasileira. Eles se denominam “patriotas” e se cobrem de verde e amarelo, mas comemoram barreiras contra as exportações brasileiras, pedem intervenção americana nas eleições nacionais e, agora, tratam como uma vitória o que é um evidente risco para o país e suas instituições.

É um patriotismo pelo avesso. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, chegou a colocar o boné com a marca “Make America Great Again” na época da posse de Donald Trump. Mas já estava claro para qualquer pessoa que, na visão trumpista, os Estados Unidos só podem ser grandes em detrimento de outros países. A conta não tardou muito, em abril do ano passado, o presidente norte-americano anunciou o tarifaço contra o mundo. O Brasil ficou com uma das maiores tarifas e elas feriram duramente as empresas do estado governado por Tarcísio. Foi o governo Lula que dissolveu a maior parte desse ônus para a economia brasileira.

O patriotismo histriônico e estigmatizado que berra, agarra a bandeira, militariza os símbolos nacionais em atos patéticos não tem nada a ver com o verdadeiro e sereno amor à pátria ou o entendimento de quais são os reais interesses dos que nasceram nesta terra ou a escolheram como sua.

São muitos os riscos decorrentes da definição das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Uma das primeiras consequências práticas pode ser o enfraquecimento dos mecanismos atuais de cooperação no combate a essas quadrilhas. O Brasil perde interlocução com o FBI e o assunto passa para a alçada da CIA. Combater o tráfico de drogas e armas deixa de ser uma questão policial, em que organismos dos dois países podem trocar informações. O tema passa ser uma questão da segurança nacional americana, portanto, entregue aos espiões. A partir dessa decisão do governo americano, ficam legalmente permitidas missões de espionagem da CIA no Brasil, sem a anuência ou conhecimento do governo brasileiro.

Há ameaças econômicas também. Num mercado financeiro globalizado, bancos nacionais operam o tempo todo no mercado americano. Qualquer dúvida que paire sobre instituições brasileiras pode se transformar em limitação para as suas operações. Empresas também que tenham negócios com firmas americanas podem encontrar constrangimentos.

O senador Flávio Bolsonaro comemorou a decisão do governo Trump como uma vitória política. O ato é visto como uma tábua de salvação para uma candidatura que está em apuros pela revelação da intimidade que ele mantinha com o banqueiro corruptor Daniel Vorcaro. Como a decisão do governo americano ocorreu logo após seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro pode reivindicar autoria do atentado.

O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital são de fato terríveis organizações, extremamente perigosas, que se expandem. Qualquer pessoa pode se sentir ameaçada pelo terror que elas espalham com suas ações e concluir que faz sentido defini-las como terroristas. Não é a definição em si o problema, e sim o que isso implica do ponto de vista legal.

Vale a esta altura da comemoração bolsonarista perguntar a Flávio Bolsonaro: e as milícias, senador? Curiosamente, ele guarda silêncio sobre a organização criminosa que também aterroriza cidadãos do Rio de Janeiro. No passado recente, ele já elogiou, empregou e condecorou milicianos e seus familiares.

Há um fio que liga as patriotadas do governo militar e o comportamento dos líderes bolsonaristas. Tanto na ditadura quanto agora, a direita declara ser a detentora única do amor à pátria quando na verdade é capaz das maiores traições. Tanto o ataque ao patrimônio natural do país, quanto os acordos entreguistas que beneficiam outros países em detrimento do Brasil. Têm ainda em comum a devoção à potência estrangeira.

O assunto se presta a muita confusão, manipulação e falsidade. E é a essa tarefa que Flávio Bolsonaro está dedicado no momento. Ele está usando o sentimento natural de repúdio das pessoas contra as organizações criminosas, e tratando a decisão do governo americano como um serviço ao país. O que isso pode significar na prática, contudo, não lhe interessa. Flávio Bolsonaro continuará no seu show de bajulação ao presidente dos Estados Unidos. E chamará a isso patriotismo.

Míriam Leitão

O medo da Inteligência Artificial está a tornar-se mais perigoso do que a própria tecnologia

Há uma ironia quase trágica nos tempos modernos. A Humanidade passou séculos a criar máquinas para aliviar sofrimento, acelerar conhecimento, aproximar pessoas e ampliar capacidades humanas. Mas quando finalmente surge uma tecnologia capaz de democratizar informação, auxiliar na educação, acelerar diagnósticos médicos, melhorar acessibilidade, otimizar energia, combater isolamento e até apoiar pessoas com deficiência, a reação de muitos parece resumir-se a um grito coletivo: “Desarmem essa porcaria!”

A frase é irónica, claro. Mas reflete uma realidade cada vez mais evidente. A Inteligência Artificial transformou-se, para muitos, numa espécie de novo “inimigo público”, tratado quase como uma ameaça existencial inevitável, uma arma prestes a destruir empregos, criatividade, relações humanas e até a própria civilização. Como sempre acontece na História, o medo chega primeiro do que a compreensão.


É legítimo discutir riscos. É saudável exigir regulação, ética, transparência e responsabilidade. Mas outra coisa completamente diferente é alimentar uma espécie de histeria tecnológica coletiva, quase apocalíptica, que ignora deliberadamente os benefícios gigantescos que esta revolução já está a trazer ao mundo.

Curiosamente, muitas das pessoas que criticam ferozmente a Inteligência Artificial utilizam diariamente algoritmos para navegar, trabalhar, comunicar, estudar, comprar, ver filmes, ouvir música ou receber recomendações médicas. Vivemos rodeados de IA há anos. A diferença é que agora ela começou a falar connosco de forma mais visível — e isso assusta.

O próprio Papa Leão XIV admitiu recentemente que o mundo poderia talvez ser melhor sem Inteligência Artificial. A preocupação moral merece respeito. A Igreja tem historicamente um papel importante na reflexão ética das grandes transformações humanas. Contudo, talvez a questão correta não seja “um mundo sem IA”, mas sim: que tipo de Humanidade queremos construir utilizando esta ferramenta?

Porque a verdade é que a IA não possui consciência, ambição política, ódio ou desejo de destruição. Quem possui isso continua a ser o ser humano. Uma tecnologia pode servir para curar ou manipular, educar ou desinformar, integrar ou excluir. Tal como aconteceu com a eletricidade, a televisão, a internet ou até a imprensa.

Em áreas como a saúde, a Inteligência Artificial poderá representar uma revolução extraordinária. Diagnósticos mais rápidos, apoio à investigação científica, medicina personalizada, deteção precoce de doenças, melhoria de próteses auditivas e implantes cocleares, sistemas automáticos de legendagem e acessibilidade em tempo real — tudo isto já está a acontecer. Para milhares de pessoas com deficiência auditiva, visual ou motora, a IA não é uma ameaça abstrata. É independência, inclusão e qualidade de vida.

Também no combate às alterações climáticas, na eficiência energética, na gestão de tráfego urbano, na prevenção de incêndios ou na optimização de redes eléctricas, a IA pode tornar-se uma aliada decisiva. O problema não está necessariamente na tecnologia. Está na ausência de visão política, ética e social para a acompanhar.

Há ainda outra contradição fascinante: muitos dos que mais condenam a IA parecem não ter demonstrado o mesmo nível de preocupação perante guerras, desinformação política, exploração laboral, manipulação mediática, corrupção ou desigualdades sociais profundas. Como se uma ferramenta digital fosse automaticamente mais perigosa do que décadas de falhas humanas perfeitamente reais.

Talvez o maior risco da Inteligência Artificial não seja ela própria. Talvez seja a nossa tendência histórica para reagir ao desconhecido com medo, exagero e radicalismo. A Humanidade sempre receou aquilo que não compreendia. E quase sempre acabou por integrar essas mudanças no quotidiano.

Por isso, talvez não seja a IA que devamos “desarmar”. Talvez devêssemos, isso sim, desarmar o alarmismo, a ignorância tecnológica e a incapacidade colectiva de discutir inovação com equilíbrio, racionalidade e visão de futuro.o. A Humanidade sempre receou aquilo que não compreendia. E quase sempre acabou por integrar essas mudanças no quotidiano.

Por isso, talvez não seja a IA que devamos “desarmar”. Talvez devêssemos, isso sim, desarmar o alarmismo, a ignorância tecnológica e a incapacidade colectiva de discutir inovação com equilíbrio, racionalidade e visão de futuro.

O radialista, o produtor e o banqueiro: histórias frias da direita brasileira

Em 1950, Carlos Frias parecia ter encontrado no rádio uma passagem direta para a política. Locutor conhecido das rádios Tupi e Tamoio, voz identificada com a campanha brigadeirista e defensor declarado da União Democrática Nacional, Frias foi eleito vereador na então Capital Federal como um dos poucos nomes do rádio alinhados ao antigetulismo. A condição era rara. A UDN do Rio carioca consolidava base em camadas médias urbanas, mas pouco penetrava na classe radiofônica, majoritariamente getulista. Carlos Frias era apresentado na revista como o melhor candidato udenista a vencer a “gaiola de ouro”, termo utilizado pelos próprios radialistas em referência à Câmara dos Vereadores.

Mas a carreira política do locutor começou atravessada por uma reviravolta. Antes mesmo da posse, eis que uma notícia explodiu nas páginas da imprensa radiofônica. Carlos Frias havia sido preso e acusado de falência fraudulenta. A Revista do Rádio tratou o caso com o vocabulário dramático que reservava às grandes comoções do mundo artístico. A notícia, dizia o periódico, “estourou como uma bomba”, abalando fãs, políticos e artistas. A metáfora pertencia à gramática do escândalo midiático que o semanário mobilizava em outras ocasiões para tratar separações de cantoras e brigas de bastidor. Importava a temperatura emocional do enquadramento, não a precisão jurídica do que ocorrera. O radialista, eleito pelo voto popular, via-se subitamente impedido de exercer o mandato por força de uma condenação judicial.

A revista se colocou em cena como mediadora da crise. Dizia agir “em defesa dos radialistas” e atender à curiosidade de seus leitores. A revista não falava de Carlos Frias apenas como candidato político. Era um dos seus, um trabalhador da voz, um personagem do rádio, alguém cuja queda política podia ser narrada como injustiça contra o meio radiofônico. Esse pertencimento profissional precedia o posicionamento ideológico. Anselmo Domingos, diretor-chefe e ele próprio escritor de radionovelas, organizava o periódico para defender a categoria antes de tomar partido. A clivagem getulismo versus udenismo cedia momentaneamente à clivagem entre o radialista e o tribunal. O mesmo periódico que pouco espaço lhe concedera enquanto candidato antigetulista passou a acompanhar, com atenção redobrada, o drama jurídico que ameaçava retirar-lhe o mandato.

A Constituição de 1946 oferecia o enquadramento do impasse. A condenação por falência fraudulenta tornava problemática sua diplomação, pois a perda ou suspensão dos direitos políticos atingia diretamente as condições de elegibilidade. Os artigos 132 e 138, combinados, tornavam inalistáveis e inelegíveis os privados de direitos políticos. Não havia gradação. Bastava a condenação em primeira instância para que a porta da Câmara se fechasse. O caso Carlos Frias não era somente uma fofoca de bastidor radiofônico. Seu causo condensava uma pergunta importante para a democracia brasileira sobre até que ponto o voto poderia ser interrompido pela Justiça quando a biografia judicial de um eleito se chocava com as exigências legais da representação política.

O desfecho favoreceu o locutor. Após decisão judicial que anulou a sentença, Frias pôde ser diplomado em 1951. Em entrevista à Revista do Rádio, fez questão de afirmar que a política não o afastaria do microfone. A volta ao estúdio fazia parte do programa político, não era seu intervalo. Continuar locutor garantia que a base de votantes permanecesse ouvinte. No Brasil dos anos 1950, rádio e política não eram mundos separados. O microfone fazia candidatos, a Câmara oferecia tribuna e a imprensa especializada transformava a trajetória desses homens públicos em um grande espetáculo.


Mais de sete décadas depois, outro Frias reaparece no noticiário político brasileiro. Mário Frias, deputado federal pelo Partido Liberal de São Paulo e ex-secretário especial de Cultura, tornou-se um dos personagens das controvérsias em torno de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Sua posição é tripla. Atua como produtor executivo do longa, integra o elenco como ator, e responde no Supremo na condição de parlamentar destinador de emendas. Em maio de 2026, o ministro Flávio Dino abriu apuração no STF para investigar emendas parlamentares destinadas por ele e por dois outros parlamentares, após representação dos deputados Tabata Amaral e Henrique Vieira. Estão sob escrutínio R$ 2 milhões destinados pelo ex-secretário especial de Cultura ao Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à produtora Go Up Entertainment.

A produção contou com R$ 61 milhões aportados pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em compromisso original de R$134 milhões, conforme apuração do Intercept Brasil. As tentativas de notificação de Frias pelo STF, em 31 de março, 7 e 14 de abril e 18 de maio de 2026, foram frustradas. Oficiais de justiça encontraram endereços vazios, e o gabinete informou “missão internacional” sem previsão de retorno. O parlamentar, em momento anterior, havia negado qualquer aporte de Vorcaro à produção, versão que precisou corrigir depois que o senador Flávio Bolsonaro reconheceu o pagamento de R$71 milhões, atribuindo então o repasse a um fundo de investimentos ligado ao banqueiro. A fuga, no entanto, não pertence à fórmula de Carlos Frias, que enfrentou a acusação em juízo e foi absolvido. Num caso, discutia-se a posse de um vereador eleito à luz da Constituição de 1946. No outro, ainda se está muito antes de qualquer condenação, pois trata-se de uma investigação em curso, marcada por intimações frustradas e pela disputa sobre a rastreabilidade dos recursos.

A Constituição de 1988 substituiu o regime automático por outro. O artigo 14, parágrafo 9º, transferiu à lei complementar a fixação das hipóteses de inelegibilidade, e a Lei Complementar 135 de 2010, conhecida como Ficha Limpa, fixou prazo de oito anos contados de decisão por órgão colegiado, sem exigência de trânsito em julgado. A lógica de 1946, em que a condenação valia como suspensão imediata dos direitos políticos, foi substituída por sistema graduado por tipo de delito. Mário Frias hoje não enfrenta nada disso. Sua situação está em apuração preliminar no Supremo Tribunal Federal, fase muito anterior a qualquer condenação. A comparação institucional não se sustenta no plano do dispositivo, e sim no padrão midiático em torno da figura sob suspeita.

Entre Carlos Frias e Mário Frias não há, necessariamente, uma linhagem familiar. Há, porém, uma coincidência histórica, na qual ambos são personagens políticos que ingressam na vida pública amparados pela retórica moral e pela capacidade de transformar suspeitas em narrativa de perseguição. Carlos Frias, radialista udenista, teve sua diplomação ameaçada por uma condenação judicial por falência fraudulenta. Mário Frias, produtor executivo de um filme bolsonarista, aparece hoje em uma apuração preliminar sobre o percurso de emendas parlamentares e as relações entre dinheiro público e produção audiovisual, ainda que Flávio Bolsonaro insista em apresentar Dark Horse como projeto exclusivamente privado, posição contestada em representação do Ministério Público junto ao TCU, que pediu em maio de 2026 a abertura de investigação sobre a origem dos aportes.

Em janeiro de 1951, a Revista do Rádio não relatava a acusação contra Carlos Frias, combatia-a, recorrendo à categoria do “lamentável equívoco” prestes a ser elucidado. Os fãs, registrava o próprio periódico, duvidavam da veracidade da notícia. A função de defesa que Anselmo Domingos exercia em um semanário de circulação nacional se distribui hoje por canais de YouTube, perfis bolsonaristas no X e produtoras audiovisuais que fabricam cinebiografias hagiográficas. A diferença é estrutural. A operação retórica é a mesma. Em 1951, a “bomba” da prisão virou narrativa de perseguição contra o radialista udenista. Em 2026, a ausência diante do oficial de justiça virou “missão internacional” do deputado bolsonarista. A operação política, descrita por Bourdieu como luta pelo monopólio do discurso legítimo no campo, segue idêntica. Resta saber se o desfecho da investigação no STF se aproximará da absolvição que beneficiou o radialista de Anselmo Domingos ou produzirá outro encerramento, ainda em aberto, que apenas o tempo da apuração permitirá dimensionar.

A força da verdade

Sou remanescente dos melhores momentos do jornalismo no Brasil, época em que os repórteres dos jornais diários não eram obrigados a competir com as notícias 24 horas da tv a cabo. Os jornalistas tinham a possibilidade de viajar para qualquer lugar em que houvesse chance de uma boa reportagem. No meu tempo de Veja, por exemplo, anos setenta, fui de avião pequeno, teco-teco alugado, ao encontro dos índios gigantes nas margens do rio Peixoto de Azevedo, na divisa dos estados do Amazonas e Mato Grosso.

Hoje no local existe uma cidade. Na época, era selva amazônica. Dormi no mato, com os índios. Tive a rara oportunidade de presenciar o primeiro contato de selvagens com os brancos, representados por Cláudio Villas Boas, personagem de outro planeta, filósofo, tranquilo e profundo conhecedor do Brasil. A reportagem virou matéria de capa da Veja e ocupou mais de seis páginas da revista.


O jornalismo atual foi invadido pelas mesas redondas de especialistas e jornalistas que começam a responder a qualquer pergunta com as palavras mais mortais no mundo da imprensa: “eu acho”. O país está saturado por notícias falsas, informações exageradas, incompletas, afirmações sem fundamento que aparecem nos noticiários de televisão e são corrigidos nas edições seguintes. Não é um fenômeno brasileiro, é universal. Estamos todos submetidos à pressa, ao trabalho de apuração malfeito, a preguiça que invadiu as redações, além de definições das ideologias e dos modismos em vigor. No caso de Brasília, as entrevistas pessoais foram substituídas pela conversa ao telefone celular. Tudo é improviso, submetido aos rigores do espaço disponível e dos humores do jornalismo ao vivo.

A eleição presidencial brasileira é notável, neste sentido. Só há candidatos de direita, contra um senhor de mais de 80 anos, que, teoricamente, representa a esquerda. A campanha se sustenta, pela falta de ideias, no desfilar de escândalos. O banqueiro que corrompeu boa parte dos poderosos brasileiros, infiltrou-se em todos os lugares. Tem até uma parte da sociedade que comanda um clube de futebol em Minas Gerais. Daqui a pouco vão descobrir este pedaço de escândalo. De escândalo em escândalo, o debate eleitoral não chega a lugar nenhum. Aliás, nenhum dos candidatos apresentou alguma proposta parecida com programa de governo. Ninguém projeta o futuro. A única preocupação é garantir vantagens pessoais para seu grupo. Nem o atual presidente conseguiu apresentar seu projeto de país para os próximos quatro anos.

O extremista procura se colocar sob a asa de Donald Trump, o que é lamentável porque a eleição vai ocorrer no Brasil, não nos Estados Unidos. O governo norte-americano agora administra o futuro da Venezuela. Deve servir de horizonte para o filho de Jair, se for eleito. Mas ninguém se lembrou de fazer as perguntas certas ao candidato. Mesmo porque é de conhecimento público que ele não tem as respostas.

É lamentável chegar a este nível de descompromisso com a notícia. Tempos atrás, anos sessenta, neste mesmo Correio Braziliense, era um foca iniciante que fazia o turno da noite. Chegava no jornal as 18 horas e saia depois da meia noite, quando a primeira página era concluída. Meu chefe era o Alfredo Obliziner, editor de saudosa memória, ótimo jornalista e grande companheiro. Quando irritado, ficava vermelho de raiva. Parecia que ia explodir.

Minha função era auxiliar no fechamento da primeira página. Fazia títulos, reescrevia matérias e produzia legendas. Numa determinada noite encontrei Alfredo a ponto de estourar. Havia um militar na redação. Não me lembro da patente. Estava uniformizado. Entregava o material ao Alfredo e ele passava ao militar. Depois o texto voltava para minha apreciação todo rabiscado. Censura.

O militar dizia o que podia e que não podia ser publicado. Censura de corpo presente. O devaneio da ditadura. Ninguém consegue impedir a narrativa da história, nem o correr dos fatos. Mas os censores tinham a pretensão de reescrever a realidade. O espaço é pequeno para assunto tão controverso. A atividade dos censores resultou em muita confusão. Uma edição inteira do Correio chegou a ser empastelada. O pessoal ficou preso na redação toda a noite.

Mas, um dia o vento muda. E mudou. Os militares voltaram para os quartéis e o Brasil se reencontrou com a democracia. A realidade costuma prevalecer sobre as fantasias dogmáticas, sejam de caráter político, ideológico ou simples modismos de última hora. As narrativas perdem a validade diante das verdades universais. Não há alternativa para a realidade. Estive em 1980 na União Soviética. Na época era o seu esplendor. Fui de Moscou a Tashkent, na Ásia. Comunismo por todos os lados. Relatei minha experiência numa série de oito reportagens que foi publicada neste Correio. Um dia o vento virou e aquilo tudo foi demolido pela força dos fatos. A verdade pode demorar a chegar, mas prevalece.

Entre as ruas e as superpotências na disputa global por minerais críticos

A escalada de tensões na Bolívia, marcada por protestos generalizados contra a escassez de combustíveis e por conflitos agrários, coloca o governo atual sob intensa pressão popular. Para além das reivindicações salariais imediatas e dos pedidos de renúncia presidencial, a crise boliviana carrega implicações geopolíticas mais amplas. O colapso da estabilidade interna impacta diretamente a segurança energética da América do Sul e atrai o olhar de potências globais, atentas ao futuro das maiores reservas de lítio do planeta.

Para compreender esse cenário, é necessário recuar no tempo. Por quase duas décadas, a Bolívia foi governada sob um modelo de forte presença estatal e nacionalismo econômico, liderado por Evo Morales (2006–2019) e Luis Arce (2020–2025). Inseridas em um contexto de alta dos preços das commodities, ambas as gestões apostaram na industrialização de recursos estratégicos, como o lítio e o gás, revertendo parte significativa desses ganhos em políticas de redistribuição de renda. Programas como o Bono Juancito Pinto e o Bono Juana Azurduy tornaram-se pilares desse arranjo, promovendo inclusão social, incentivando a permanência escolar e fortalecendo o acompanhamento materno-infantil.

No plano internacional, esse ciclo foi acompanhado por uma mudança geopolítica relevante. Desde a chegada do Movimento ao Socialismo (MAS) ao poder, a Bolívia reduziu de forma significativa sua histórica dependência em relação aos Estados Unidos. O distanciamento diplomático de Washington materializou-se na expulsão de embaixadores e da agência antidrogas norte-americana (DEA), sob acusações de interferência em assuntos internos. Em contrapartida, o país aprofundou suas relações com parceiros extrarregionais, como Rússia e China, ao mesmo tempo em que reforçou iniciativas de integração latino-americana.

Embora esse modelo tenha garantido anos de crescimento e relativa estabilidade social, passou a enfrentar limites estruturais cada vez mais evidentes. O principal deles reside na queda das exportações de gás natural, historicamente responsáveis por sustentar o caixa estatal. Com a diminuição das receitas externas, as reservas cambiais se deterioraram rapidamente, restringindo a capacidade do Estado de financiar políticas públicas e manter subsídios, especialmente no setor de combustíveis. Esse estrangulamento financeiro abriu caminho para a vitória eleitoral de Rodrigo Paz, que rompeu a hegemonia do MAS ao propor uma agenda de reformas liberais e maior abertura econômica. Para amplos setores populares e sindicais, fortemente vinculados ao modelo anterior, essa mudança é percebida como uma ruptura do pacto social, o que ajuda a explicar por que as ruas se tornaram o principal palco de resistência contra a nova orientação econômica do país.

Diante desse cenário, a posse de Rodrigo Paz e a onda de protestos que se seguiu dificilmente podem ser tratadas como mais um episódio recorrente da instabilidade política sul-americana. Trata-se de um fenômeno com ramificações globais. Ao adotar uma agenda de orientação neoliberal, Paz recoloca a Bolívia no centro de disputas geopolíticas mais amplas, nas quais interesses internos e externos passam a se entrelaçar de forma evidente. Nesse contexto, o país, detentor de minerais críticos, especialmente o lítio (importante para baterias, carros elétricos e transição energética global), transforma-se em um espaço estratégico no tabuleiro internacional, marcado pela crescente competição entre potências globais.


Nesse tabuleiro mais amplo, o apoio dos Estados Unidos ao governo de Rodrigo Paz não pode ser lido apenas como um gesto diplomático circunstancial, mas como parte de uma estratégia mais definida de reposicionamento na região. Ao classificar os protestos como movimentos de viés golpista e supostamente vinculados ao narcotráfico, Washington desloca o sentido da crise: o que antes poderia ser analisado como conflito social passa a ser tratado como ameaça à ordem. É justamente esse deslocamento que caracteriza o processo de securitização, isto é, quando uma questão política ou social é reinterpretada como problema de segurança, legitimando respostas mais duras, como maior presença militar ou a atuação de agências de inteligência no território boliviano. Nesse enquadramento, consolidam-se agendas securitárias, nas quais a estabilidade passa a ser buscada não por meio da mediação política, mas pela lógica do controle e da contenção. Sob esse prisma, abre-se espaço para o aprofundamento da cooperação em defesa e para a presença indireta de estruturas estrangeiras no país, sob o argumento da estabilização.

No entanto, por trás dessa narrativa, opera um cálculo geopolítico mais amplo: conter o avanço da China na infraestrutura e na mineração sul-americana. Projetos como a ferrovia transoceânica, que pretende ligar o Brasil ao porto de Chancay, no Peru, ilustram esse cenário ao ampliar as possibilidades de inserção da Bolívia nos fluxos comerciais com a Ásia. Essa conexão tende a facilitar o escoamento não apenas de minerais críticos, como o lítio, mas também de recursos como zinco, prata e estanho, reforçando o papel do país como peça-chave na geopolítica contemporânea.

Por essa razão, a consolidação de uma agenda liberal sob Rodrigo Paz desperta incertezas no cálculo estratégico de Pequim. Nos últimos anos, consórcios estatais chineses injetaram US$ 1,4 bilhão (R$ 7,9 bilhões) na industrialização do lítio boliviano, assegurando contratos de exploração de longo prazo em áreas estratégicas, como os salares de Uyuni e Pastos Grandes, em Potosí. Diante das promessas de privatização e desregulamentação do novo governo, o temor da diplomacia chinesa é que esses acordos firmados sob a vigência do MAS sejam revistos ou que o mercado seja aberto a concorrentes ocidentais. Para a China, portanto, a estabilidade de seus investimentos em minerais críticos na Bolívia não é apenas uma questão comercial, mas uma salvaguarda para a sua própria liderança na transição energética global.

Ao fim, a crise boliviana deixa de ser apenas uma disputa entre projetos econômicos ou alinhamentos geopolíticos e passa a revelar seus efeitos mais concretos sobre a vida cotidiana da população. Entre a escassez de combustíveis, a alta do custo de vida e a instabilidade política permanente, são os setores mais vulneráveis que experimentam, de forma mais direta, o peso dessa reconfiguração em curso. Inserida em um território rico em recursos estratégicos e atravessada por interesses externos, a Bolívia corre o risco de ver suas tensões internas serem progressivamente capturadas por agendas que ultrapassam suas próprias fronteiras. Nesse contexto, a questão central já não é apenas se o governo de Rodrigo Paz conseguirá sustentar sua agenda de reformas, mas a que custo social e sob quais condicionantes externos isso ocorrerá. Estaria o país diante de um novo ciclo de instabilidade estrutural ou caminhando para se tornar um espaço de disputa indireta entre grandes potências, onde a soberania nacional cede lugar a contornos cada vez mais globais?