domingo, 30 de agosto de 2026
A náusea no caminho das urnas
É oportuna a expressão "baixo astral" para o desalento público com a desmoralização da classe política. "O povo vai meter 300 bandidos no Congresso", diz um presidenciável. "Um manicômio", diagnostica outro, psiquiatra. São sinais do ethos tóxico, agudo diante de eleições cujo parâmetro ético-político é a rejeição dos candidatos. A chamada para o voto de manutenção da democracia representativa debilita-se com a persistente sensação de desamparo social. A saturação dos modelos de governança neoliberal e a decomposição da representação parlamentar suscitam uma insólita náusea coletiva.
Não se trata de nojo, esse mal-estar psicológico que decorre da visão de uma sujidade, de intolerância física ou de repugnância moral frente a um comportamento execrável. Geralmente é individual, mas o nojo coletivo se manifesta em situações aberrantes, como figuras de uma antropologia negativa. Ficou gravada na memória pública a postagem despropositada pelo ex-presidente da República de um vídeo repulsivo, conhecido como "golden shower". O fato e o ato definem-se como asco, nojo absoluto.
A náusea, entretanto, não se confunde com essa abjeção. Trata-se de sensação estranha, o profundo mal-estar existencial categorizado como uma das bases do existencialismo de Sartre, descrito no romance "A Náusea" (1938). O protagonista experimenta a angústia de perceber que não há sentido predeterminado para o mundo. Do choque da existência sem essência nem finalidade, tal e qual ela aparece, advém a náusea.
Essa narrativa filosófica, que sempre trafegou no círculo das altas ideias, tem hoje correspondências com o mundo das significações correntes. Significação é o que se vive na prática de uma estrutura ou de um fenômeno, é o que torna concreto um conceito aplicado à vida. Viver uma realidade é percebê-la e lhe dar uma significação.
O problema atual é que as grandes transformações sociais acarretam mudanças em níveis diversos de consciência, com perturbações profundas nos modelos de percepção da realidade e de elaboração de significações. Algo como se as palavras estivessem anêmicas, perdendo força.
Uma das consequências é a estupidez coletiva como fenômeno das clivagens político-partidárias agravadas pela infecção neofascista, que antes era assintomática. Nesse processo, aberto à ascensão ao poder por aberrações políticas, emerge popularmente uma formação psíquica, patológica ao juízo imediato, mas de fato relacionada ao distúrbio que na Antiguidade Clássica inquietou os estoicos: a estupidez. O indivíduo não reza a um pneu de caminhão porque é louco, e sim porque é idiota ou estúpido.
Para a mentalidade antiga, estoica principalmente, a estupidez era calamidade pública por afetar o laço social, dissolvendo formas de vida comunitárias, familiares e civis. Num plano distinto da loucura, o estúpido não perde a dimensão cognitiva nem moral, mas, incapaz de vínculos construtivos, perverte significações e valores como democracia, liberdade e outros. Entre nós, isso tem se concretizado na boçalidade bolsonarista. É um fenômeno que banaliza a náusea sartreana na figura do eleitor da antidemocracia, besta quadrada da manipulação algorítmica, que vota bovinamente no pasto do nojo moral.
Não se trata de nojo, esse mal-estar psicológico que decorre da visão de uma sujidade, de intolerância física ou de repugnância moral frente a um comportamento execrável. Geralmente é individual, mas o nojo coletivo se manifesta em situações aberrantes, como figuras de uma antropologia negativa. Ficou gravada na memória pública a postagem despropositada pelo ex-presidente da República de um vídeo repulsivo, conhecido como "golden shower". O fato e o ato definem-se como asco, nojo absoluto.
A náusea, entretanto, não se confunde com essa abjeção. Trata-se de sensação estranha, o profundo mal-estar existencial categorizado como uma das bases do existencialismo de Sartre, descrito no romance "A Náusea" (1938). O protagonista experimenta a angústia de perceber que não há sentido predeterminado para o mundo. Do choque da existência sem essência nem finalidade, tal e qual ela aparece, advém a náusea.
Essa narrativa filosófica, que sempre trafegou no círculo das altas ideias, tem hoje correspondências com o mundo das significações correntes. Significação é o que se vive na prática de uma estrutura ou de um fenômeno, é o que torna concreto um conceito aplicado à vida. Viver uma realidade é percebê-la e lhe dar uma significação.
O problema atual é que as grandes transformações sociais acarretam mudanças em níveis diversos de consciência, com perturbações profundas nos modelos de percepção da realidade e de elaboração de significações. Algo como se as palavras estivessem anêmicas, perdendo força.
Uma das consequências é a estupidez coletiva como fenômeno das clivagens político-partidárias agravadas pela infecção neofascista, que antes era assintomática. Nesse processo, aberto à ascensão ao poder por aberrações políticas, emerge popularmente uma formação psíquica, patológica ao juízo imediato, mas de fato relacionada ao distúrbio que na Antiguidade Clássica inquietou os estoicos: a estupidez. O indivíduo não reza a um pneu de caminhão porque é louco, e sim porque é idiota ou estúpido.
Para a mentalidade antiga, estoica principalmente, a estupidez era calamidade pública por afetar o laço social, dissolvendo formas de vida comunitárias, familiares e civis. Num plano distinto da loucura, o estúpido não perde a dimensão cognitiva nem moral, mas, incapaz de vínculos construtivos, perverte significações e valores como democracia, liberdade e outros. Entre nós, isso tem se concretizado na boçalidade bolsonarista. É um fenômeno que banaliza a náusea sartreana na figura do eleitor da antidemocracia, besta quadrada da manipulação algorítmica, que vota bovinamente no pasto do nojo moral.
A insurgência do analógico
Mauro Pinto, um dos fotógrafos moçambicanos com maior projeção internacional, esteve recentemente na Ilha de Moçambique, desenvolvendo um novo projeto. Estranhei vê-lo fotografar em película. Disse-me que não apenas regressara ao analógico como decidira voltar ao laboratório fotográfico, revelando os próprios negativos e ampliando as provas.
— Saber que tenho um número limitado de rolos obriga-me a olhar melhor. A escolher o que quero fotografar…
Mauro não está sozinho. Há cada vez mais fotógrafos optando pelo analógico. Muitos são jovens. Estão descobrindo as tecnologias antigas como se estas fossem revolucionárias — e são.
Porque no contexto atual, em que podemos produzir quase tudo num piscar de olhos, sem o menor esforço, uma imagem única, irrepetível, elaborada na sequência de um processo longo e difícil, seguindo rituais antigos, muito próximos da magia, é um formidável ato de resistência, um luxo, uma afirmação de autoria.
A banda paraibana Papangu foi notícia por ter gravado há poucas semanas um novo álbum, “Celestial”, num estúdio de Berlim, diretamente em fita magnética de duas polegadas. Tudo analógico, incluindo a masterização. Edição em vinil, claro.
Noutros países há outros exemplos. JP Cooper gravou “Just a few folk”, em fevereiro deste ano, em fita, sem recorrer a computadores, e com os músicos tocando juntos numa mesma sala. Cooper explicou que pretendera criar um álbum com todos os sons que um ser humano produz para que a música possa acontecer, da respiração ao deslizar dos dedos nas cordas.
Na literatura começa a desenhar-se uma onda semelhante. Conheço casos de escritores que voltaram a escrever à mão, em pequenos cadernos, num esforço para recuperar a emoção dos primeiros gestos.
Há também um número crescente de romancistas que decidem publicar nas redes sociais evidências físicas do seu labor. A Wired, revista norte-americana especializada em novas tecnologias e no impacto destas na vida política e cultural, publicou uma matéria com escritores mostrando manuscritos, pilhas de notas, cadernos cobertos de gatafunhos.
Quanto a mim, nunca deixei de tomar notas em cadernos. Escrevo e desenho nos lugares mais improváveis. A experiência ensinou-me que escrever à mão me traz a imponderável vantagem do erro. Muitas vezes, ao passar as anotações para o computador, não consigo decifrar o que eu próprio escrevi. Nesse esforço acabo descobrindo caminhos particularmente interessantes.
Escrever num computador é avançar ao longo de uma via expressa. Escrever à mão é passear ao longo de uma estradinha de terra batida, no meio do mato.
Uma escolha não exclui a outra.
A insurgência contra a enxurrada de produtos sem alma que a utilização preguiçosa da IA propiciou parece-me positiva; convém, contudo, não jogar fora o bebê, juntamente com a água suja. A IA continua sendo um instrumento magnífico. Precisamos, isso sim, de reaprender a utilizá-lo, ao mesmo tempo que reabilitamos o erro como instrumento criativo. O que mais me agrada em todo este processo é a demonstração do quanto, por vezes, o arcaico pode ser moderno.
— Saber que tenho um número limitado de rolos obriga-me a olhar melhor. A escolher o que quero fotografar…
Mauro não está sozinho. Há cada vez mais fotógrafos optando pelo analógico. Muitos são jovens. Estão descobrindo as tecnologias antigas como se estas fossem revolucionárias — e são.
Porque no contexto atual, em que podemos produzir quase tudo num piscar de olhos, sem o menor esforço, uma imagem única, irrepetível, elaborada na sequência de um processo longo e difícil, seguindo rituais antigos, muito próximos da magia, é um formidável ato de resistência, um luxo, uma afirmação de autoria.
A banda paraibana Papangu foi notícia por ter gravado há poucas semanas um novo álbum, “Celestial”, num estúdio de Berlim, diretamente em fita magnética de duas polegadas. Tudo analógico, incluindo a masterização. Edição em vinil, claro.
Noutros países há outros exemplos. JP Cooper gravou “Just a few folk”, em fevereiro deste ano, em fita, sem recorrer a computadores, e com os músicos tocando juntos numa mesma sala. Cooper explicou que pretendera criar um álbum com todos os sons que um ser humano produz para que a música possa acontecer, da respiração ao deslizar dos dedos nas cordas.
Na literatura começa a desenhar-se uma onda semelhante. Conheço casos de escritores que voltaram a escrever à mão, em pequenos cadernos, num esforço para recuperar a emoção dos primeiros gestos.
Há também um número crescente de romancistas que decidem publicar nas redes sociais evidências físicas do seu labor. A Wired, revista norte-americana especializada em novas tecnologias e no impacto destas na vida política e cultural, publicou uma matéria com escritores mostrando manuscritos, pilhas de notas, cadernos cobertos de gatafunhos.
Quanto a mim, nunca deixei de tomar notas em cadernos. Escrevo e desenho nos lugares mais improváveis. A experiência ensinou-me que escrever à mão me traz a imponderável vantagem do erro. Muitas vezes, ao passar as anotações para o computador, não consigo decifrar o que eu próprio escrevi. Nesse esforço acabo descobrindo caminhos particularmente interessantes.
Escrever num computador é avançar ao longo de uma via expressa. Escrever à mão é passear ao longo de uma estradinha de terra batida, no meio do mato.
Uma escolha não exclui a outra.
A insurgência contra a enxurrada de produtos sem alma que a utilização preguiçosa da IA propiciou parece-me positiva; convém, contudo, não jogar fora o bebê, juntamente com a água suja. A IA continua sendo um instrumento magnífico. Precisamos, isso sim, de reaprender a utilizá-lo, ao mesmo tempo que reabilitamos o erro como instrumento criativo. O que mais me agrada em todo este processo é a demonstração do quanto, por vezes, o arcaico pode ser moderno.
O Império da Mercadoria
Embora para muitos possa parecer milenar, o capitalismo como sistema tem pouco mais do que dois séculos de vida. Para o decadente Império Americano, que permaneceu como polo hegemônico do capitalismo internacional por menos de um século, parece que é o fim do mundo, coisa de comunista; para o Partido Comunista, que governa a China em nome da Mercadoria, é “socialismo com características chinesas”; e, para quem gosta de contemporizar, a China está além do capitalismo e do comunismo.
O Império Chinês nunca se interessou pela remota e pouco civilizada Europa, mas o contrário não é verdadeiro. A Europa sempre se interessou pela China, como fonte de conhecimento, tecnologia e luxo – invenções da bússola, papel, imprensa, pólvora; produção de chá, porcelana, seda etc. – desde Marco Polo no século XIII, passando pelo Renascimento Europeu, para desembocar na expansão do Capitalismo Industrial no século XIX.
A Inglaterra, em meados do século XIX, submeteu o Império Chinês, que desabou em 1912. Seguiu-se a república, a guerra civil sob as lideranças de Mao Ze Dong e Chiang Kai Shek, a invasão do Japão e, por fim, a Revolução de 1949. A China, então uma sociedade predominantemente agrária, com 90% da população vivendo na zona rural, desenvolveu as suas “forças produtivas” sob a liderança do Partido Comunista, industrializando e urbanizando o país, a ponto de transformá-lo no polo hegemônico do capitalismo internacional nas primeiras décadas do século XXI.
A gênese do Império da Mercadoria, que corresponde à sua pré-história, data do Renascimento europeu e de sua expansão ultramarina iniciada no século XV. O processo de generalização da Mercadoria, propriamente dito, ocorreu durante a Revolução Industrial inglesa, na passagem dos séculos XVIII para o XIX. O eixo hegemônico do sistema capitalista internacional cruzou o Atlântico no século XX e o Pacífico no século XXI… e, assim, completamos a volta ao mundo, voltamos para a China, agora não mais na condição de um império milenar, mas como a nova sede do Império da Mercadoria.
O país que está herdando a hegemonia do capitalismo internacional está em clima de festa. A poderosa elite banha-se em champanha e acende charutos com notas de 100 yuan. O dinheiro não vale mais nada, pode-se gastar, pode-se desperdiçar à vontade. A massiva classe média, mais comedida, segue atrás, refestelando-se com o mundo da Mercadoria às suas mãos, feliz por se libertar da carestia, abraçando o desperdício, ainda que com certo acanhamento. Os camponeses e os migrantes urbanos, mesmo sujeitos à baixa remuneração e restritos direitos trabalhistas e sociais para habitação, saúde, educação etc., são deferentes à autoridade do governo e agradecem o Partido Comunista por lhes garantir a sobrevivência – o apoio popular ao governo (90%) está entre os mais elevados do mundo.
Dedicados operários batem continência, agradecem o governo por lhes oferecer trabalho e se dedicam à produção em prol de garantir a sobrevivência da restaurada soberania da China – suas vidas privadas e familiares são uma abstração. Em maio de 2026, em Shang Hai, por acaso, presenciei, na abertura do expediente de um restaurante, uma gerente falando com oito funcionários em pé, eretos, postados em duas fileiras (como um sargento a seus soldados). Já havia visto cenas semelhantes em vídeos que retratavam operários em unidades industriais e fiquei observando o evento à distância. A gerente falava pelos cotovelos e os garçons, altamente concentrados, nem piscavam. Depois que ela acabou o seu longo discurso, todos levantaram os braços, dispersando e gritando hurra! Pela música, entendi que ela não tinha nada para comunicar, era só um ritual, um exercício de autoritarismo e subserviência (a cena também chamava a atenção pelo empenho da gerente, apesar do reduzido número de subalternos).
Para se ter uma ideia do expediente que impera na China, os comissários de bordo da Air China são “desenhados” acompanhando o layout das aeronaves – idade entre 18 e 25 anos, longilíneos, como só jovens adultos soem ser. Dois tripulantes conseguem transitar tranquilamente lado a lado pelos estreitos corredores; entre os comissários das companhias ocidentais você pode encontrar pessoas com idade avançada e sobrepeso, até com dificuldade de se locomover na aeronave.
A China já está até exportando tecnologia em gerenciamento da classe trabalhadora. A Fuyao Glass Industry Group, que assumiu uma planta industrial nos Estados Unidos, autorizou a filmagem de American Factory acreditando que o documentário registraria uma história de sucesso, a geração de milhares de empregos. Os cineastas independentes, porém, com amplo acesso ao chão de fábrica, reuniões, operários e executivos, nos Estados Unidos e na China, documentaram conflitos trabalhistas, redução de salários, aceleração do ritmo de trabalho, imposição de horas extras, ressentimentos pela restrita vida privada e familiar, cerceamento à organização sindical etc. Ironicamente, a China Comunista está ensinando ao Império Capitalista Americano como fazer seus trabalhadores esquecerem seus parcos direitos trabalhistas conquistados e se submeterem ao capital.
O presidente da Fuyao, Cao De Wang, no final do documentário, disse que a China de sua juventude era pobre, mas que sentia que era mais feliz naquela época. Declarou: “Nas últimas décadas, eu construí inúmeras fábricas. Será que só causei perturbação e destruí o meio ambiente? Não sei se contribuí para o bem ou se sou um criminoso.”
A forte interferência do Estado na economia tem sido usada por algumas organizações de esquerda – que não conseguem sobreviver sem uma “pátria do socialismo” – para identificar a China como comunista. Mas a ingerência do Estado na economia não é algo novo no capitalismo. Durante o século XIX, o capitalismo enfrentava crises econômicas periódicas sem que o Estado interferisse em sua dinâmica. Mas, a partir do século XX, o Estado passou a intervir com maior ou menor intensidade nas economias capitalistas. Uma das mais importantes iniciativas, além de políticas fiscais anticíclicas, foi a substituição do padrão ouro pelo padrão monetário administrado por bancos centrais, com o uso de políticas monetárias.
Diante da Grande Depressão de 1929, sob a presidência de Franklin Roosevelt, os Estados Unidos lançaram o New Deal, com forte intervenção estatal na economia, criação de empregos, regulação financeira e medidas para garantir o bem-estar social. O Estado na Alemanha, sob a liderança de Adolf Hitler, também exerceu forte intervenção na economia – um sucesso do ponto de vista econômico, expressiva reativação industrial e redução do desemprego.
Barack Obama foi eleito em meio à Crise Financeira de 2008 e, em 2009, seu papel no enfrentamento da crise nos Estados Unidos, que evitou o aprofundamento da crise na Europa, foi o motivo subjacente, não explicitado, de ele receber o Prêmio Nobel da Paz (em 2009, os Estados Unidos estavam militarmente envolvidos em conflitos com o Afeganistão, Iraque, Paquistão, Iêmen e Somália). Obama havia declarado publicamente que ninguém gostava de ajudar os bancos a saírem de uma crise que eles mesmo geraram, mas que as consequências para a sociedade seriam piores se o governo não socorresse as instituições financeiras.
Voltando à interferência do Estado na economia capitalista da Alemanha Nacional-Socialista, seu desempenho econômico foi angariado por uma política estatal racista, expansionista e bélica. Por um momento, isto me fez lembrar a política estatal da atual administração da decadente sociedade norte-americana.
O Império Chinês nunca se interessou pela remota e pouco civilizada Europa, mas o contrário não é verdadeiro. A Europa sempre se interessou pela China, como fonte de conhecimento, tecnologia e luxo – invenções da bússola, papel, imprensa, pólvora; produção de chá, porcelana, seda etc. – desde Marco Polo no século XIII, passando pelo Renascimento Europeu, para desembocar na expansão do Capitalismo Industrial no século XIX.
A Inglaterra, em meados do século XIX, submeteu o Império Chinês, que desabou em 1912. Seguiu-se a república, a guerra civil sob as lideranças de Mao Ze Dong e Chiang Kai Shek, a invasão do Japão e, por fim, a Revolução de 1949. A China, então uma sociedade predominantemente agrária, com 90% da população vivendo na zona rural, desenvolveu as suas “forças produtivas” sob a liderança do Partido Comunista, industrializando e urbanizando o país, a ponto de transformá-lo no polo hegemônico do capitalismo internacional nas primeiras décadas do século XXI.
A gênese do Império da Mercadoria, que corresponde à sua pré-história, data do Renascimento europeu e de sua expansão ultramarina iniciada no século XV. O processo de generalização da Mercadoria, propriamente dito, ocorreu durante a Revolução Industrial inglesa, na passagem dos séculos XVIII para o XIX. O eixo hegemônico do sistema capitalista internacional cruzou o Atlântico no século XX e o Pacífico no século XXI… e, assim, completamos a volta ao mundo, voltamos para a China, agora não mais na condição de um império milenar, mas como a nova sede do Império da Mercadoria.
O país que está herdando a hegemonia do capitalismo internacional está em clima de festa. A poderosa elite banha-se em champanha e acende charutos com notas de 100 yuan. O dinheiro não vale mais nada, pode-se gastar, pode-se desperdiçar à vontade. A massiva classe média, mais comedida, segue atrás, refestelando-se com o mundo da Mercadoria às suas mãos, feliz por se libertar da carestia, abraçando o desperdício, ainda que com certo acanhamento. Os camponeses e os migrantes urbanos, mesmo sujeitos à baixa remuneração e restritos direitos trabalhistas e sociais para habitação, saúde, educação etc., são deferentes à autoridade do governo e agradecem o Partido Comunista por lhes garantir a sobrevivência – o apoio popular ao governo (90%) está entre os mais elevados do mundo.
Dedicados operários batem continência, agradecem o governo por lhes oferecer trabalho e se dedicam à produção em prol de garantir a sobrevivência da restaurada soberania da China – suas vidas privadas e familiares são uma abstração. Em maio de 2026, em Shang Hai, por acaso, presenciei, na abertura do expediente de um restaurante, uma gerente falando com oito funcionários em pé, eretos, postados em duas fileiras (como um sargento a seus soldados). Já havia visto cenas semelhantes em vídeos que retratavam operários em unidades industriais e fiquei observando o evento à distância. A gerente falava pelos cotovelos e os garçons, altamente concentrados, nem piscavam. Depois que ela acabou o seu longo discurso, todos levantaram os braços, dispersando e gritando hurra! Pela música, entendi que ela não tinha nada para comunicar, era só um ritual, um exercício de autoritarismo e subserviência (a cena também chamava a atenção pelo empenho da gerente, apesar do reduzido número de subalternos).
Para se ter uma ideia do expediente que impera na China, os comissários de bordo da Air China são “desenhados” acompanhando o layout das aeronaves – idade entre 18 e 25 anos, longilíneos, como só jovens adultos soem ser. Dois tripulantes conseguem transitar tranquilamente lado a lado pelos estreitos corredores; entre os comissários das companhias ocidentais você pode encontrar pessoas com idade avançada e sobrepeso, até com dificuldade de se locomover na aeronave.
A China já está até exportando tecnologia em gerenciamento da classe trabalhadora. A Fuyao Glass Industry Group, que assumiu uma planta industrial nos Estados Unidos, autorizou a filmagem de American Factory acreditando que o documentário registraria uma história de sucesso, a geração de milhares de empregos. Os cineastas independentes, porém, com amplo acesso ao chão de fábrica, reuniões, operários e executivos, nos Estados Unidos e na China, documentaram conflitos trabalhistas, redução de salários, aceleração do ritmo de trabalho, imposição de horas extras, ressentimentos pela restrita vida privada e familiar, cerceamento à organização sindical etc. Ironicamente, a China Comunista está ensinando ao Império Capitalista Americano como fazer seus trabalhadores esquecerem seus parcos direitos trabalhistas conquistados e se submeterem ao capital.
O presidente da Fuyao, Cao De Wang, no final do documentário, disse que a China de sua juventude era pobre, mas que sentia que era mais feliz naquela época. Declarou: “Nas últimas décadas, eu construí inúmeras fábricas. Será que só causei perturbação e destruí o meio ambiente? Não sei se contribuí para o bem ou se sou um criminoso.”
A forte interferência do Estado na economia tem sido usada por algumas organizações de esquerda – que não conseguem sobreviver sem uma “pátria do socialismo” – para identificar a China como comunista. Mas a ingerência do Estado na economia não é algo novo no capitalismo. Durante o século XIX, o capitalismo enfrentava crises econômicas periódicas sem que o Estado interferisse em sua dinâmica. Mas, a partir do século XX, o Estado passou a intervir com maior ou menor intensidade nas economias capitalistas. Uma das mais importantes iniciativas, além de políticas fiscais anticíclicas, foi a substituição do padrão ouro pelo padrão monetário administrado por bancos centrais, com o uso de políticas monetárias.
Diante da Grande Depressão de 1929, sob a presidência de Franklin Roosevelt, os Estados Unidos lançaram o New Deal, com forte intervenção estatal na economia, criação de empregos, regulação financeira e medidas para garantir o bem-estar social. O Estado na Alemanha, sob a liderança de Adolf Hitler, também exerceu forte intervenção na economia – um sucesso do ponto de vista econômico, expressiva reativação industrial e redução do desemprego.
Barack Obama foi eleito em meio à Crise Financeira de 2008 e, em 2009, seu papel no enfrentamento da crise nos Estados Unidos, que evitou o aprofundamento da crise na Europa, foi o motivo subjacente, não explicitado, de ele receber o Prêmio Nobel da Paz (em 2009, os Estados Unidos estavam militarmente envolvidos em conflitos com o Afeganistão, Iraque, Paquistão, Iêmen e Somália). Obama havia declarado publicamente que ninguém gostava de ajudar os bancos a saírem de uma crise que eles mesmo geraram, mas que as consequências para a sociedade seriam piores se o governo não socorresse as instituições financeiras.
Voltando à interferência do Estado na economia capitalista da Alemanha Nacional-Socialista, seu desempenho econômico foi angariado por uma política estatal racista, expansionista e bélica. Por um momento, isto me fez lembrar a política estatal da atual administração da decadente sociedade norte-americana.
Flávio Bolsonaro renega ajuste fiscal; direita já pode defender a democracia
Ô direitista, não precisa pular a coluna. Hoje o tema te interessa.
Não vou falar dos 145 mil mortos só por falta de vacina durante a pandemia. Não vou falar sobre a tentativa de golpe que quase deu certo e que, se tivesse dado certo, teria matado milhares de opositores de Bolsonaro usando as armas da República. Não vou falar do fato evidente de que os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro seriam recompensa pela licença que os bolsonaristas deram para Vorcaro se tornar banqueiro, bem como pelos bilhões que os governadores bolsonaristas deram de dinheiro de aposentados do Rio de Janeiro e do BRB para o Banco Master. Não vou falar da conspiração bolsonarista pelos tarifaços nem da tentativa de melar a eleição presidencial usando uma superpotência estrangeira.
Pode ficar tranquilo, vou falar do único tema que a direita discute utilizando o conceito adequado de risco: ajuste fiscal.
Ninguém no mercado acha que o risco de crise fiscal é zero até o dia em que o país quebra. Mas é assim que os ricos brasileiros medem o risco que o bolsonarismo representa para a democracia: só admitirão que a democracia corre risco quando os adversários da ditadura de direita já estiverem no pau-de-arara por pelo menos seis meses. E olhe lá.
Enfim, Flávio Bolsonaro foi ao Jornal Nacional e disse que não vai fazer os ajustes que o mercado está pedindo. Disse que vai dar aumento real para o salário mínimo, que não vai desindexar os programas sociais do salário mínimo, que não vai mexer na Previdência. Disse inclusive que vai cortar impostos, o que agravaria o desequilíbrio fiscal.
Também disse que não acredita no aquecimento global. Mas calma, já falei que só vou falar de coisas que você, direitista, acha importantes.
O fato de Flávio no JN ter contrariado sua equipe econômica, em si, não é grave: sua equipe econômica é uma porcaria.
Se alguém na Faria Lima declarar apoio a Flávio Bolsonaro, tenha certeza: é gente da série D do mercado querendo outra boquinha como a que o bolsonarismo ofereceu a Daniel Vorcaro. São patrocinadores em potencial da continuação de "Dark Horse", "The Revenge of Little Banana".
O problema, para Flávio, é que no JN ele aumentou o preço de fazer o ajuste que já prometeu à Faria Lima que fará. Os dois presidentes impichados em nossa história começaram o governo fazendo o que tinham prometido que não fariam.
A única medida de ajuste que Flávio anunciou no JN foi combate à corrupção. Pois é. O Flávio. Combatendo a corrupção. Enfim.
Mesmo se a proposta fosse séria, seria insuficiente. Pergunte para qualquer economista: não é a corrupção que explica nossa taxa de juros, a estagnação de nossa produtividade, o déficit da Previdência ou a trajetória da dívida pública.
E sim, esses assuntos deveriam ocupar uma parte maior de nosso debate público. Eu topo um ajuste fiscal equânime na distribuição de sacrifícios. Mas não contem comigo para discutir economia enquanto anistia aos golpistas, golpe no STF e submissão aos Estados Unidos estiverem sendo discutidos na sala ao lado.
Gosto de contas públicas equilibradas, mas gosto mais de democracia e de soberania nacional. No Jornal Nacional, Flávio não soube defender nenhum dos três. Quem sabe agora você, leitor direitista, comece a se preocupar com os outros dois.
Não vou falar dos 145 mil mortos só por falta de vacina durante a pandemia. Não vou falar sobre a tentativa de golpe que quase deu certo e que, se tivesse dado certo, teria matado milhares de opositores de Bolsonaro usando as armas da República. Não vou falar do fato evidente de que os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro seriam recompensa pela licença que os bolsonaristas deram para Vorcaro se tornar banqueiro, bem como pelos bilhões que os governadores bolsonaristas deram de dinheiro de aposentados do Rio de Janeiro e do BRB para o Banco Master. Não vou falar da conspiração bolsonarista pelos tarifaços nem da tentativa de melar a eleição presidencial usando uma superpotência estrangeira.
Pode ficar tranquilo, vou falar do único tema que a direita discute utilizando o conceito adequado de risco: ajuste fiscal.
Ninguém no mercado acha que o risco de crise fiscal é zero até o dia em que o país quebra. Mas é assim que os ricos brasileiros medem o risco que o bolsonarismo representa para a democracia: só admitirão que a democracia corre risco quando os adversários da ditadura de direita já estiverem no pau-de-arara por pelo menos seis meses. E olhe lá.
Enfim, Flávio Bolsonaro foi ao Jornal Nacional e disse que não vai fazer os ajustes que o mercado está pedindo. Disse que vai dar aumento real para o salário mínimo, que não vai desindexar os programas sociais do salário mínimo, que não vai mexer na Previdência. Disse inclusive que vai cortar impostos, o que agravaria o desequilíbrio fiscal.
Também disse que não acredita no aquecimento global. Mas calma, já falei que só vou falar de coisas que você, direitista, acha importantes.
O fato de Flávio no JN ter contrariado sua equipe econômica, em si, não é grave: sua equipe econômica é uma porcaria.
Se alguém na Faria Lima declarar apoio a Flávio Bolsonaro, tenha certeza: é gente da série D do mercado querendo outra boquinha como a que o bolsonarismo ofereceu a Daniel Vorcaro. São patrocinadores em potencial da continuação de "Dark Horse", "The Revenge of Little Banana".
O problema, para Flávio, é que no JN ele aumentou o preço de fazer o ajuste que já prometeu à Faria Lima que fará. Os dois presidentes impichados em nossa história começaram o governo fazendo o que tinham prometido que não fariam.
A única medida de ajuste que Flávio anunciou no JN foi combate à corrupção. Pois é. O Flávio. Combatendo a corrupção. Enfim.
Mesmo se a proposta fosse séria, seria insuficiente. Pergunte para qualquer economista: não é a corrupção que explica nossa taxa de juros, a estagnação de nossa produtividade, o déficit da Previdência ou a trajetória da dívida pública.
E sim, esses assuntos deveriam ocupar uma parte maior de nosso debate público. Eu topo um ajuste fiscal equânime na distribuição de sacrifícios. Mas não contem comigo para discutir economia enquanto anistia aos golpistas, golpe no STF e submissão aos Estados Unidos estiverem sendo discutidos na sala ao lado.
Gosto de contas públicas equilibradas, mas gosto mais de democracia e de soberania nacional. No Jornal Nacional, Flávio não soube defender nenhum dos três. Quem sabe agora você, leitor direitista, comece a se preocupar com os outros dois.
O partido da mídia
Nas primeiras eleições diretas após o fim da ditadura, Lula, líder de uma agremiação que ainda não completara uma década, passou longe do radar no primeiro turno. Em 1989, a ameaça aos senhores do poder não era o sapo barbudo, mas o ex-governador Leonel Brizola. A ida do sindicalista à segunda volta marcaria o início de uma nova rivalidade. A manipulação pela Rede Globo do debate entre Lula e Fernando Collor, em favor do “caçador dos marajás”, seria a Pedra de Roseta de sucessivas intervenções dos meios de comunicação no processo eleitoral.
Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.
Fábio Luís da Silva, o primogênito apelidado de “Lulinha” pela mídia para criar uma associação direta com o pai, começou a despontar com mais frequência no noticiário e no universo das fake news em 2010. Lulinha, sabe qualquer cidadão de bem, é proprietário de uma Ferrari banhada a ouro e dono da Friboi. Em 2014, no auge da República de Curitiba, a revista Veja, às vésperas das eleições, estampou a capa “Eles sabiam”, ilustrada com as fotos de Lula e da presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição.
A cruzada midiática não impediu as vitórias do PT nas urnas, mas degradou o ambiente político. Dois anos depois, Dilma seria cassada sem cometer crime de responsabilidade. Na sequência, Lula passaria 580 dias atrás das grades. Como era preciso prender e “esculachar”, o então ex-presidente acabaria impedido pelo ministro do STF José Dias Toffoli, acoelhado pela pressão da “opinião pública”, de ir ao enterro do irmão Vavá. E silenciado durante a disputa presidencial de 2018, quando o bolsonarismo emergiu das tubulações.
Em 2022, aturdidos pelas ameaças golpistas de Jair Bolsonaro, os meios de comunicação ficaram entre a cruz e a espada. Mas não demoraram a rodopiar no salão um Sátántangó, o tango com satã. Sem a quimera da “terceira via”, escolheram para a valsa um juiz-torcedor (qualquer semelhança não é mera coincidência) e as viúvas da Lava Jato na PF. Lulinha está de novo sob os holofotes, por meio de vazamentos seletivos, novelizados e desconexos. Já a apuração sobre os 61 milhões doados por Daniel Vorcaro ao clã Bolsonaro merece registros pontuais.
Não se trata exatamente de torcer por Flávio Bolsonaro. Basta conter qualquer ímpeto heterodoxo do atual mandatário. Quanto mais difícil a eventual vitória de Lula, menor a margem de ação do presidente no quarto e derradeiro mandato. Em paralelo, Arminio Fraga encarna Cassandra e vaticina, com ampla cobertura, a derrota da Troia petista. “Recessão, recessão”, repete aos quatro ventos.
Engana-se quem pensa que os adversários de Lula foram no passado os tucanos e são no presente os Bolsonaro. Desde sempre, a oposição é o partido da mídia.
CartaCapital
Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.
Fábio Luís da Silva, o primogênito apelidado de “Lulinha” pela mídia para criar uma associação direta com o pai, começou a despontar com mais frequência no noticiário e no universo das fake news em 2010. Lulinha, sabe qualquer cidadão de bem, é proprietário de uma Ferrari banhada a ouro e dono da Friboi. Em 2014, no auge da República de Curitiba, a revista Veja, às vésperas das eleições, estampou a capa “Eles sabiam”, ilustrada com as fotos de Lula e da presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição.
A cruzada midiática não impediu as vitórias do PT nas urnas, mas degradou o ambiente político. Dois anos depois, Dilma seria cassada sem cometer crime de responsabilidade. Na sequência, Lula passaria 580 dias atrás das grades. Como era preciso prender e “esculachar”, o então ex-presidente acabaria impedido pelo ministro do STF José Dias Toffoli, acoelhado pela pressão da “opinião pública”, de ir ao enterro do irmão Vavá. E silenciado durante a disputa presidencial de 2018, quando o bolsonarismo emergiu das tubulações.
Em 2022, aturdidos pelas ameaças golpistas de Jair Bolsonaro, os meios de comunicação ficaram entre a cruz e a espada. Mas não demoraram a rodopiar no salão um Sátántangó, o tango com satã. Sem a quimera da “terceira via”, escolheram para a valsa um juiz-torcedor (qualquer semelhança não é mera coincidência) e as viúvas da Lava Jato na PF. Lulinha está de novo sob os holofotes, por meio de vazamentos seletivos, novelizados e desconexos. Já a apuração sobre os 61 milhões doados por Daniel Vorcaro ao clã Bolsonaro merece registros pontuais.
Não se trata exatamente de torcer por Flávio Bolsonaro. Basta conter qualquer ímpeto heterodoxo do atual mandatário. Quanto mais difícil a eventual vitória de Lula, menor a margem de ação do presidente no quarto e derradeiro mandato. Em paralelo, Arminio Fraga encarna Cassandra e vaticina, com ampla cobertura, a derrota da Troia petista. “Recessão, recessão”, repete aos quatro ventos.
Engana-se quem pensa que os adversários de Lula foram no passado os tucanos e são no presente os Bolsonaro. Desde sempre, a oposição é o partido da mídia.
CartaCapital
O jornalista e o que ele deve fazer diante de um mentiroso compulsivo
Perdão pela frase redundante, mas ela foi dita por Flávio Bolsonaro em entrevista ao Jornal Nacional (JN) na última sexta-feira: “Eu fui bem claro ao dizer que jamais questionei a questão do processo eleitoral”. Insatisfeitos com a resposta, Cesar Tralli e Renata Vasconcellos, os âncoras do programa, insistiram no assunto. Flávio não recuou do que disse, nem quando confrontado com a lembrança de declarações recentes feitas por ele.
Recapitulando: em 2014, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, ele afirmou na tribuna da Assembleia Legislativa que havia desconfiança na população em relação à urna eletrônica, já que ela não podia ser auditada — o que não é verdade. “O que nos une é a desconfiança da urna eletrônica, um programa feito por uma empresa venezuelana, a Smartmatic, que é impossível de ser auditada porque não tem o voto impresso”, disse ele.
No seu perfil no X, em 11 de setembro de 2018, Flávio voltou a dizer que “é impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso”, acrescentando: “Na minha avaliação, alguns institutos de pesquisas podem ser usados, exatamente, para dar um ar de legitimidade ao candidato da urna eletrônica, e não o do eleitor, vencer as eleições”. Em agosto de 2021, no Senado, lamentou a rejeição da proposta de restabelecimento do voto impresso: “Teremos eleições sob suspeita”.
Logo após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, Flávio deu uma entrevista ao jornal O Globo em que afirmou que não houve fraude nas urnas, “mas podia ter acontecido”. Fez menção a um relatório das Forças Armadas sobre a fiscalização do sistema eletrônico de votação. O documento, contudo, encomendado por seu pai, não detectou qualquer falha concreta de segurança que pudesse levar à adulteração de votos.
Finalmente, em julho último, durante o evento “Debatendo o Brasil”, realizado em Brasília com representantes de mais de 40 países, Flávio afirmou falsamente que as urnas eletrônicas brasileiras teriam sido fabricadas pela Smartmatic — empresa que ele associou a suspeitas de fraudes eleitorais na Venezuela utilizando relatórios da CIA, agência de espionagem dos Estados Unidos. Na entrevista ao JN, ele admitiu ter se equivocado ao citar a Smartmatic.
É fato, pois, que Flávio mentiu ao JN ao garantir que jamais questionou “a questão do processo eleitoral”. Mas não foi a única vez que mentiu ao longo da entrevista de 40 minutos. Para driblar as repetidas perguntas sobre suas ligações com Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, ele chegou a criar um diálogo fictício entre Lula e Vorcaro. Nesse ponto, Tralli e Renata poderiam ter falado: “Espera aí, senador, isso não existiu”. Mas não falaram.
Também ouviram em silêncio Flávio dizer que o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da Força Aérea Brasileira à época do governo de seu pai, anda pedindo votos para reeleger Lula. Baptista chamou a afirmação de “leviandade”, dizendo que o comentário foi uma forma de o candidato fugir de uma pergunta dos entrevistadores. A birra de Flávio com o tenente-brigadeiro é porque ele não aderiu ao golpe de 8 de janeiro de 2023.
Perguntado sobre o Pix, e se o manterá caso se eleja presidente da República, Flávio respondeu que sim, informando em seguida que a gratuidade do Pix foi decidida por exigência do seu pai. Mentiu, para variar. A gratuidade foi decidida pelo Banco Central em outubro de 2020. Jair Bolsonaro não fazia a menor ideia do que se tratava. Indagado a respeito por um apoiador que o parabenizou pela medida, Bolsonaro pai disse:
— Não tomei conhecimento. Vou conversar esta semana com o Roberto Campos [presidente do Banco Central].
Se o compromisso número um do jornalista é com a verdade, ele não pode deixar passar mentiras quando entrevista alguém ao vivo ou para posterior divulgação. Se procede assim, associa-se às mentiras e desinforma em vez de informar. Esse é um dos pecados capitais do jornalismo, infelizmente muito em voga.
Recapitulando: em 2014, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, ele afirmou na tribuna da Assembleia Legislativa que havia desconfiança na população em relação à urna eletrônica, já que ela não podia ser auditada — o que não é verdade. “O que nos une é a desconfiança da urna eletrônica, um programa feito por uma empresa venezuelana, a Smartmatic, que é impossível de ser auditada porque não tem o voto impresso”, disse ele.
No seu perfil no X, em 11 de setembro de 2018, Flávio voltou a dizer que “é impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso”, acrescentando: “Na minha avaliação, alguns institutos de pesquisas podem ser usados, exatamente, para dar um ar de legitimidade ao candidato da urna eletrônica, e não o do eleitor, vencer as eleições”. Em agosto de 2021, no Senado, lamentou a rejeição da proposta de restabelecimento do voto impresso: “Teremos eleições sob suspeita”.
Logo após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, Flávio deu uma entrevista ao jornal O Globo em que afirmou que não houve fraude nas urnas, “mas podia ter acontecido”. Fez menção a um relatório das Forças Armadas sobre a fiscalização do sistema eletrônico de votação. O documento, contudo, encomendado por seu pai, não detectou qualquer falha concreta de segurança que pudesse levar à adulteração de votos.
Finalmente, em julho último, durante o evento “Debatendo o Brasil”, realizado em Brasília com representantes de mais de 40 países, Flávio afirmou falsamente que as urnas eletrônicas brasileiras teriam sido fabricadas pela Smartmatic — empresa que ele associou a suspeitas de fraudes eleitorais na Venezuela utilizando relatórios da CIA, agência de espionagem dos Estados Unidos. Na entrevista ao JN, ele admitiu ter se equivocado ao citar a Smartmatic.
É fato, pois, que Flávio mentiu ao JN ao garantir que jamais questionou “a questão do processo eleitoral”. Mas não foi a única vez que mentiu ao longo da entrevista de 40 minutos. Para driblar as repetidas perguntas sobre suas ligações com Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, ele chegou a criar um diálogo fictício entre Lula e Vorcaro. Nesse ponto, Tralli e Renata poderiam ter falado: “Espera aí, senador, isso não existiu”. Mas não falaram.
Também ouviram em silêncio Flávio dizer que o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da Força Aérea Brasileira à época do governo de seu pai, anda pedindo votos para reeleger Lula. Baptista chamou a afirmação de “leviandade”, dizendo que o comentário foi uma forma de o candidato fugir de uma pergunta dos entrevistadores. A birra de Flávio com o tenente-brigadeiro é porque ele não aderiu ao golpe de 8 de janeiro de 2023.
Perguntado sobre o Pix, e se o manterá caso se eleja presidente da República, Flávio respondeu que sim, informando em seguida que a gratuidade do Pix foi decidida por exigência do seu pai. Mentiu, para variar. A gratuidade foi decidida pelo Banco Central em outubro de 2020. Jair Bolsonaro não fazia a menor ideia do que se tratava. Indagado a respeito por um apoiador que o parabenizou pela medida, Bolsonaro pai disse:
— Não tomei conhecimento. Vou conversar esta semana com o Roberto Campos [presidente do Banco Central].
Se o compromisso número um do jornalista é com a verdade, ele não pode deixar passar mentiras quando entrevista alguém ao vivo ou para posterior divulgação. Se procede assim, associa-se às mentiras e desinforma em vez de informar. Esse é um dos pecados capitais do jornalismo, infelizmente muito em voga.
sábado, 29 de agosto de 2026
'Dark Horse', estrangeiro onde?
Flávio Bolsonaro está se jactando de que as especulações sobre "Dark Horse" , filme sobre seu pai, são "página virada". A Ancine (Agência Nacional do Cinema) deu ao filme o registro de "obra estrangeira", o que o põe a salvo de investigações sobre a origem, a trajetória e o destino do dinheiro usado na produção. Com isso, por ser uma produção "americana", ninguém tem nada a ver com o fato de que esse dinheiro, gerado no Brasil, foi dar um passeio pelos EUA e voltou para pagar as contas aqui. Mas será ele, tecnicamente, uma "obra estrangeira"?
Como definir se uma produção cinematográfica é nacional ou estrangeira? Ao contrário do que se pensa, não é pelo nome do produtor que, nos pôsteres, vem logo abaixo dos atores e do diretor. Ele é apenas o produtor executivo, o que contrata os astros e a equipe, supervisiona as filmagens, controla o organograma e acompanha o processo até o último corte e a exibição. É um funcionário, assim como todos que passam às pressas nos créditos ao fim do filme, só um pouco mais graduado. O verdadeiro produtor, cujo nome nem sempre aparece, é o que pôs o dinheiro.
Este é o dono do filme, o proprietário legal do produto final, ou seja, do arquivo ou do negativo original, da distribuição e exibição em outras mídias e, importante, do copyright. Enfim, o produtor é o financiador, aquele que pagou para que o filme fosse possível –e que, certamente, exigirá muita coisa em troca, seja em dinheiro ou, talvez, favores institucionais. Quem botou o dinheiro para filmar "Dark Horse"?
Não me parece plausível que produtores americanos invistam num filme cuja bilheteria é duvidosa até no Brasil. Além disso, o país inteiro escutou Flávio Bolsonaro suplicar milhões a Daniel Vorcaro a fim de pagar os atrasados aos bacanas americanos. Será então Vorcaro o produtor? Nesse caso, "Dark Horse" é uma produção nacional e nos deve satisfações, sim.
Ficam assim informados a Ancine, a Polícia Civil de São Paulo , a PF, a PGR, o STF e o, no caso, descansado ministro André Mendonça.
Como definir se uma produção cinematográfica é nacional ou estrangeira? Ao contrário do que se pensa, não é pelo nome do produtor que, nos pôsteres, vem logo abaixo dos atores e do diretor. Ele é apenas o produtor executivo, o que contrata os astros e a equipe, supervisiona as filmagens, controla o organograma e acompanha o processo até o último corte e a exibição. É um funcionário, assim como todos que passam às pressas nos créditos ao fim do filme, só um pouco mais graduado. O verdadeiro produtor, cujo nome nem sempre aparece, é o que pôs o dinheiro.
Este é o dono do filme, o proprietário legal do produto final, ou seja, do arquivo ou do negativo original, da distribuição e exibição em outras mídias e, importante, do copyright. Enfim, o produtor é o financiador, aquele que pagou para que o filme fosse possível –e que, certamente, exigirá muita coisa em troca, seja em dinheiro ou, talvez, favores institucionais. Quem botou o dinheiro para filmar "Dark Horse"?
Não me parece plausível que produtores americanos invistam num filme cuja bilheteria é duvidosa até no Brasil. Além disso, o país inteiro escutou Flávio Bolsonaro suplicar milhões a Daniel Vorcaro a fim de pagar os atrasados aos bacanas americanos. Será então Vorcaro o produtor? Nesse caso, "Dark Horse" é uma produção nacional e nos deve satisfações, sim.
Ficam assim informados a Ancine, a Polícia Civil de São Paulo , a PF, a PGR, o STF e o, no caso, descansado ministro André Mendonça.
O velho padrão Globo de entrevistar Lula
A proposta de sabatina/entrevista realizada pelo Jornal Nacional com o presidente Lula, na quinta feira 27, em muito se assemelhou à tomada de depoimento de um acusado. Não somente pelo teor das perguntas, mas também pelo encadeamento dos temas e pela condução dos entrevistadores. A pergunta inicial foi, obviamente, sobre as investigações envolvendo Fabio Luís Lula da Silva, filho do presidente que a imprensa chama de “Lulinha”. Pergunta dura feita por César Tralli, à qual Lula respondeu; o apresentador insistiu no mesmo tema com outro viés, desdobrando a pergunta em outra provocação; Lula respondeu; o apresentador retomou o tema; depois, Renata Vasconcelos inquiriu sobre o mesmo assunto – o tema corrupção, no início da entrevista, tomou mais de quatro minutos dos 40 disponíveis para o evento, ou seja, mais de 10% do tempo do candidato foram gastos num único tema, que continha apenas provocação e intimidação. Na verdade, o que estava ali em cena era novamente o uso do repertório corrupção – lembrando que repertórios são temas norteadores da construção da notícia, do noticiário –, que foi deflagrado desde 2014 pelo JN; à época, com os requintes simbólicos do fundo vermelho e um duto enferrujado por onde escorria dinheiro. O interrogatório ao presidente Lula, embalado no formato de entrevista, estava no mesmo molde.
É claro que uma entrevista com candidatos em momento eleitoral decisivo deve explorar todos os temas e realmente questionar aquele candidato sobre propostas, pautas inquietantes, o que ele fez na vida pública, quais são seus projetos. Mas questionamento não é inquérito, esse é o primeiro ponto importante nesta reflexão. O segundo ponto é que a estratégia do uso da corrupção tem um fim muito específico há bastante tempo no sistema midiático em relação a Lula, sobretudo no sistema Globo – ela é um elemento para provocar desestabilização. Não é somente um tema que precisa ser abordado, é um instrumento midiático de constrangimento, um modo de fazer com que aquele personagem fique acuado e não consiga se articular para responder às outras perguntas. Não é aleatório, portanto, é técnica, é algo como “padrão Globo de entrevista com Lula”.
E um terceiro ponto refere-se às ausências propositais. Se uma entrevista/sabatina tem por objetivo mostrar ao eleitor quem é o candidato, quais são suas propostas, o que ele fez na vida pública e apresentar um conjunto robusto de perguntas pelos entrevistadores para avaliar o conhecimento daquele candidato sobre os temas pertinentes, o evento protagonizado pelo Jornal Nacional em nada se assemelha a isso. Lula foi questionado em relação à investigação sobre um filho que não é candidato – investigação sobre a qual pesam denúncias de vazamento seletivo –, foi questionado sobre os problemas de segurança pública do estado da Bahia, do qual ele não é o governador, foi arguido de novo sobre investigações que ele não domina, como no caso do assessor Marcola. Nada se falou sobre o que ele fez, como tirar o país do Mapa da Fome pela segunda vez, ou sobre o que pretende fazer em relação às bets, que estão destruindo o Brasil e fazem propaganda no intervalo de jornais e novelas da Globo.
A entrevista foi muito mal conduzida – Tralli e Renata pareciam aqueles professores em bancas de avaliação que não estão nem um pouco interessados no trabalho apresentado, mas querem mesmo é mostrar que sabem um monte de coisas. Arrogância e despreparo, uma combinação bem perigosa. Mesmo assim, a entrevista teve até momentos bem divertidos e bastante esclarecedores. Por exemplo, quando Lula disse que não havia esquecido o PowerPoint: “A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço do PowerPoint mentiroso contra mim. Eu não esqueço”. O presidente se referia à nefasta apresentação de Deltan Dallagnol ligando o então ex-presidente a toda uma trama de corrupção. César Tralli, ao melhor estilo “vestir a camisa da empresa”, correu a justificar a tática da Organização e respondeu: “O senhor falou do PowerPoint. Eu só quero dizer ao senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint: nos nossos princípios editoriais, nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto. Então, eu peço que a gente siga com a entrevista”. Ele fazia menção a outro PowerPoint supertendencioso contra Lula (que foi apresentado por Andrea Sadi na GloboNews, ligando Lula ao caso Master). Foi quase uma confissão de culpa mesmo.
A mediocridade midiática, fruto da intolerância da imprensa com Lula ao longo de décadas, se mostrou, mais uma vez, na entrevista/sabatina do JN. Em alguns momentos, um inquérito; em outros, um debate entre candidatos, dada a postura arrogante dos apresentadores. Esse tipo de entrevista não é e não pode ser uma conversa entre comadres, de fato. Mas tampouco pode ser transformada num interrogatório em que os jornalistas são advogados de acusação e juízes, ao vivo, em horário nobre na emissora de maior audiência do País.
Por fim, Lula soube se safar das inúmeras tentativas de acuá-lo e de constrangê-lo. Não podemos abusar da euforia e dizer que ele arrasou, tirou de letra etc. Mas é possível dizer que o presidente, atirado à cova dos leões, soube se livrar e achar a saída.
É claro que uma entrevista com candidatos em momento eleitoral decisivo deve explorar todos os temas e realmente questionar aquele candidato sobre propostas, pautas inquietantes, o que ele fez na vida pública, quais são seus projetos. Mas questionamento não é inquérito, esse é o primeiro ponto importante nesta reflexão. O segundo ponto é que a estratégia do uso da corrupção tem um fim muito específico há bastante tempo no sistema midiático em relação a Lula, sobretudo no sistema Globo – ela é um elemento para provocar desestabilização. Não é somente um tema que precisa ser abordado, é um instrumento midiático de constrangimento, um modo de fazer com que aquele personagem fique acuado e não consiga se articular para responder às outras perguntas. Não é aleatório, portanto, é técnica, é algo como “padrão Globo de entrevista com Lula”.
E um terceiro ponto refere-se às ausências propositais. Se uma entrevista/sabatina tem por objetivo mostrar ao eleitor quem é o candidato, quais são suas propostas, o que ele fez na vida pública e apresentar um conjunto robusto de perguntas pelos entrevistadores para avaliar o conhecimento daquele candidato sobre os temas pertinentes, o evento protagonizado pelo Jornal Nacional em nada se assemelha a isso. Lula foi questionado em relação à investigação sobre um filho que não é candidato – investigação sobre a qual pesam denúncias de vazamento seletivo –, foi questionado sobre os problemas de segurança pública do estado da Bahia, do qual ele não é o governador, foi arguido de novo sobre investigações que ele não domina, como no caso do assessor Marcola. Nada se falou sobre o que ele fez, como tirar o país do Mapa da Fome pela segunda vez, ou sobre o que pretende fazer em relação às bets, que estão destruindo o Brasil e fazem propaganda no intervalo de jornais e novelas da Globo.
A entrevista foi muito mal conduzida – Tralli e Renata pareciam aqueles professores em bancas de avaliação que não estão nem um pouco interessados no trabalho apresentado, mas querem mesmo é mostrar que sabem um monte de coisas. Arrogância e despreparo, uma combinação bem perigosa. Mesmo assim, a entrevista teve até momentos bem divertidos e bastante esclarecedores. Por exemplo, quando Lula disse que não havia esquecido o PowerPoint: “A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço do PowerPoint mentiroso contra mim. Eu não esqueço”. O presidente se referia à nefasta apresentação de Deltan Dallagnol ligando o então ex-presidente a toda uma trama de corrupção. César Tralli, ao melhor estilo “vestir a camisa da empresa”, correu a justificar a tática da Organização e respondeu: “O senhor falou do PowerPoint. Eu só quero dizer ao senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint: nos nossos princípios editoriais, nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto. Então, eu peço que a gente siga com a entrevista”. Ele fazia menção a outro PowerPoint supertendencioso contra Lula (que foi apresentado por Andrea Sadi na GloboNews, ligando Lula ao caso Master). Foi quase uma confissão de culpa mesmo.
A mediocridade midiática, fruto da intolerância da imprensa com Lula ao longo de décadas, se mostrou, mais uma vez, na entrevista/sabatina do JN. Em alguns momentos, um inquérito; em outros, um debate entre candidatos, dada a postura arrogante dos apresentadores. Esse tipo de entrevista não é e não pode ser uma conversa entre comadres, de fato. Mas tampouco pode ser transformada num interrogatório em que os jornalistas são advogados de acusação e juízes, ao vivo, em horário nobre na emissora de maior audiência do País.
Por fim, Lula soube se safar das inúmeras tentativas de acuá-lo e de constrangê-lo. Não podemos abusar da euforia e dizer que ele arrasou, tirou de letra etc. Mas é possível dizer que o presidente, atirado à cova dos leões, soube se livrar e achar a saída.
Flávio Bolsonaro quer entregar Brasil a Cristo
Num desafio à lógica, às instituições e à própria higidez das religiões, Flávio Bolsonaro ameaçou: "Eu quero debater com quem não acredita em Deus, porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo".
O primeiro problema com o período flaviano é que ele carrega um imenso "non sequitur". Se você convida alguém para um debate, o pressuposto é o de que pretende persuadi-lo pela força dos seus argumentos, o que entra em contradição com o recurso à canetada, que impõe o dogma sem se importar em obter o consentimento dos que estariam sujeitos à medida.
O segundo problema é que o tal decreto, que já tem algo de etéreo, pois não deixa claro o que significaria para o país "ser" de Cristo, carregaria vício constitucional insanável. André Mendonça até poderia concordar com Flávio, mas quero crer que o hipotético diploma seria rapidamente anulado pelo STF. O artigo 19 da Carta veda ao poder público "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Flávio é advogado. Imagina-se que foi aprovado em direito constitucional.
O terceiro problema é que a tentativa de Flávio de aproximar-se dos evangélicos revela abissal ignorância sobre a história das religiões. O princípio da laicidade estatal que ele se propõe a subverter surgiu para proteger as religiões, não enfraquecê-las. Determinar que o Estado permanecesse neutro em matéria religiosa e assegurasse a liberdade de culto a todos foi a solução que a Europa encontrou para conter as guerras entre católicos e protestantes, dos quais os evangélicos são herdeiros. Ateus, que por definição não cultuamos nenhum deus, não temos maior interesse na liberdade de culto. Basta-nos não ser obrigados a seguir uma religião.
Louve-se em Flávio sua capacidade de, com uma única declaração, escancarar tantas camadas de seu despreparo para o cargo de presidente da República.
O primeiro problema com o período flaviano é que ele carrega um imenso "non sequitur". Se você convida alguém para um debate, o pressuposto é o de que pretende persuadi-lo pela força dos seus argumentos, o que entra em contradição com o recurso à canetada, que impõe o dogma sem se importar em obter o consentimento dos que estariam sujeitos à medida.
O segundo problema é que o tal decreto, que já tem algo de etéreo, pois não deixa claro o que significaria para o país "ser" de Cristo, carregaria vício constitucional insanável. André Mendonça até poderia concordar com Flávio, mas quero crer que o hipotético diploma seria rapidamente anulado pelo STF. O artigo 19 da Carta veda ao poder público "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Flávio é advogado. Imagina-se que foi aprovado em direito constitucional.
O terceiro problema é que a tentativa de Flávio de aproximar-se dos evangélicos revela abissal ignorância sobre a história das religiões. O princípio da laicidade estatal que ele se propõe a subverter surgiu para proteger as religiões, não enfraquecê-las. Determinar que o Estado permanecesse neutro em matéria religiosa e assegurasse a liberdade de culto a todos foi a solução que a Europa encontrou para conter as guerras entre católicos e protestantes, dos quais os evangélicos são herdeiros. Ateus, que por definição não cultuamos nenhum deus, não temos maior interesse na liberdade de culto. Basta-nos não ser obrigados a seguir uma religião.
Louve-se em Flávio sua capacidade de, com uma única declaração, escancarar tantas camadas de seu despreparo para o cargo de presidente da República.
Sobre o desastre
Viveu uma semana a cidade sob a impressão do desastre da Rua da Carioca. A impressão foi tão grande, alagou-se por todas as camadas, que temo não ter sido de tal modo profunda, pois imagino que, quando saírem à luz estas linhas, ela já se tenha apagado de todos os espíritos.
Todos procuraram explicar os motivos do desastre. Os técnicos e os profanos, os médicos e os boticários, os burocratas e os merceeiros, os motorneiros e os quitandeiros, todos tiveram uma opinião sobre a causa da tremenda catástrofe.
Uma coisa, porém, ninguém se lembrou de ver no desastre: foi a sua significação moral, ou antes, social.
Nesse atropelo em que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas, poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equilibrado, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.
O nosso gosto que sempre teve um estalão equivalente à nossa própria pessoa, está querendo passar, sem um módulo conveniente, para o do gigante Golias ou outro qualquer de sua raça.
A brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons.
O Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e, de tal modo o é, que se ir do Meier à Copacabana, é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto, não se saia da zona urbana.
De resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de sky-scrapers.
Porque os fazem então?
E por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a acoraçoada pela filosofia oficial corrente que nos ensina a imitar aquele poderoso país.
Longe de mim censurar a imitação, pois sei bem de que maneira ela é fator da civilização e do aperfeiçoamento individual, mas aprová-la quand même, é que não posso fazer.
O Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes “cabeças-de-porco”, dessas torres babilônicas que irão enfeá-lo, e perturbar os seus lindos horizontes. Se é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área de chão convenientemente proporcional.
Nós não estamos como a maior parte dos senhores de Nova York, apertados, em uma pequena ilha; nós nos podemos desenvolver para muitos quadrantes. Para que esta ambição então? Para que perturbar a majestade da nossa natureza, com a plebeia brutalidade de monstruosas construções?
Abandonemos essa vassalagem aos americanos e fiquemos nós mesmos com as nossas casas de dois ou três andares, construídas lentamente, mas que raramente matavam os seus humildes construtores.
Os inconvenientes dessas almanjarras são patentes. Além de não poderem possuir a mínima beleza, em caso de desastre, de incêndio, por exemplo, não podendo os elevadores dar vazão à sua população, as mortes hão de se multiplicar. Acresce ainda a circunstância que, sendo habitada, por perto de meio a um milhar de pessoas, verdadeiras vilas, a não ser que haja uma polícia especial, elas hão de, em breve favorecer a perpetração de crimes misteriosos.
Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nossos purpurinos crepúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com eles; fiquemos nós com as nossas que matam menos e não ofendem muito à beleza e à natureza.
Sei bem que essas considerações são inatuais. Vou contra a corrente geral, mas creiam, que isso não me amedronta. Admiro muito o imperador Juliano e, como ele, gostaria de dizer, ao morrer: “Venceste Galileu.”
Lima Barreto, Revista da Época (20-7-1917)
Todos procuraram explicar os motivos do desastre. Os técnicos e os profanos, os médicos e os boticários, os burocratas e os merceeiros, os motorneiros e os quitandeiros, todos tiveram uma opinião sobre a causa da tremenda catástrofe.
Uma coisa, porém, ninguém se lembrou de ver no desastre: foi a sua significação moral, ou antes, social.
Nesse atropelo em que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas, poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equilibrado, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.
O nosso gosto que sempre teve um estalão equivalente à nossa própria pessoa, está querendo passar, sem um módulo conveniente, para o do gigante Golias ou outro qualquer de sua raça.
A brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons.
O Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e, de tal modo o é, que se ir do Meier à Copacabana, é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto, não se saia da zona urbana.
De resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de sky-scrapers.
Porque os fazem então?
E por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a acoraçoada pela filosofia oficial corrente que nos ensina a imitar aquele poderoso país.
Longe de mim censurar a imitação, pois sei bem de que maneira ela é fator da civilização e do aperfeiçoamento individual, mas aprová-la quand même, é que não posso fazer.
O Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes “cabeças-de-porco”, dessas torres babilônicas que irão enfeá-lo, e perturbar os seus lindos horizontes. Se é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área de chão convenientemente proporcional.
Nós não estamos como a maior parte dos senhores de Nova York, apertados, em uma pequena ilha; nós nos podemos desenvolver para muitos quadrantes. Para que esta ambição então? Para que perturbar a majestade da nossa natureza, com a plebeia brutalidade de monstruosas construções?
Abandonemos essa vassalagem aos americanos e fiquemos nós mesmos com as nossas casas de dois ou três andares, construídas lentamente, mas que raramente matavam os seus humildes construtores.
Os inconvenientes dessas almanjarras são patentes. Além de não poderem possuir a mínima beleza, em caso de desastre, de incêndio, por exemplo, não podendo os elevadores dar vazão à sua população, as mortes hão de se multiplicar. Acresce ainda a circunstância que, sendo habitada, por perto de meio a um milhar de pessoas, verdadeiras vilas, a não ser que haja uma polícia especial, elas hão de, em breve favorecer a perpetração de crimes misteriosos.
Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nossos purpurinos crepúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com eles; fiquemos nós com as nossas que matam menos e não ofendem muito à beleza e à natureza.
Sei bem que essas considerações são inatuais. Vou contra a corrente geral, mas creiam, que isso não me amedronta. Admiro muito o imperador Juliano e, como ele, gostaria de dizer, ao morrer: “Venceste Galileu.”
Lima Barreto, Revista da Época (20-7-1917)
A expansão dos Estados Unidos pela América do Sul
A Doutrina Monroe, instituída em 1823 pelo Presidente Norte-Americano James Monroe, pode ser resumida pelo lema “A América para os Americanos”, uma política regional que se antepunha ao domínio Europeu de colônias nas Américas. Em 1803, os Estados Unidos compraram a Louisiana da França, que se estendia até o Mississipi, por US$ 15 milhões. Durante os anos de 1819-1821, os Estados Unidos anexaram a Flórida, em conflitos armados, que pertenciam à Espanha. Em 1836, os Americanos residentes no Texas declararam a independência em relação ao México, sendo o Texas anexado aos Estados Unidos em 1945, sob pressão. Após a Guerra Estados Unidos-México de 1846 a 1848, em 1848 os Estados Unidos anexaram a Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México e partes do Colorado e do Wyoming, ratificado pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo. Em 1853, sob pressão militar, o Novo México foi vendido aos Estados Unidos por US$ 10 milhões, ratificado pelo acordo de La Mesilla. Em 1898, Porto Rico, então da Espanha, foi anexado pelos Estados Unidos durante a Guerra Hispano-Americana, ratificado no Tratado de Paris. Hoje, cerca de 2/3 do território Norte-Americano corresponde a terras que outrora foram da Espanha e do México.
Em 1867, os Estados Unidos compraram o Alaska do Império Russo por US$ 7,2 milhões.
As tentativas de anexação por parte dos Estados Unidos de partes do Canadá nunca lograram êxito, como na invasão do Canadá em 1775 durante a Revolução Americana; e na Guerra Estados Unidos-Canadá de 1812 a 1815, com os Estados Unidos incendiando parte de Toronto em 1813, e tropas Britânicas e Canadenses incendiando a Casa Branca e o Capitólio em Washington em 1814, resultando no Tratado de Gante, na manutenção das fronteiras originais.
Hoje, a Doutrina Monroe é reeditada por Donald Trump, no que tem sido chamado de Doutrina “Donroe”.
Diante da atual expansão econômica da China no mundo e na América Latina; diante da perda da liderança Americana sobre a Europa; e diante das recentes ações dos Estados Unidos no Oriente Médio, que pouco resultaram, os Estados Unidos voltam-se para as Américas, como estratégia geopolítica na economia mundial, presente e futura.
Hoje, os Estados Unidos estão militarmente presentes, em maior ou menor grau, em 4 países da América do Sul: na Guiana, desde 2023, onde foram descobertos significativos campos de petróleo a partir de 2015, com empresas americanas na exploração comercial a partir de 2019; na Venezuela, desde a captura de Maduro em janeiro de 2026, país detentor de 18% das reservas mundiais de petróleo; no Paraguai, desde março deste ano de 2026, para o treinamento e combate ao narcotráfico, nos termos do SOFA (Status of Forces Agreement) – país que faz parte da Tríplice Fronteira, Brasil- Argentina- Paraguai; e, agora, no Equador.
Trump comemora o radicalismo de Milei na Argentina, e os governos de direita de Espriella na Colômbia, Kast no Chile, Santiago Peña no Paraguai, Keiko Fujimori no Peru, Rodrigo Paz na Bolívia, e Daniel Noboa no Equador.
O Brasil é repleto de recursos naturais, com florestas, água, minérios, terras raras, petróleo e agropecuária. Embora sejamos a 10ª economia mundial, somos muito frágeis política e economicamente diante das grandes potências. E militarmente estamos desprovidos de capacidade efetiva de dissuasão, não para guerras, mas para a manutenção da paz, no novo jogo geopolítico mundial.
Temos que olhar para o futuro.
Em 1867, os Estados Unidos compraram o Alaska do Império Russo por US$ 7,2 milhões.
As tentativas de anexação por parte dos Estados Unidos de partes do Canadá nunca lograram êxito, como na invasão do Canadá em 1775 durante a Revolução Americana; e na Guerra Estados Unidos-Canadá de 1812 a 1815, com os Estados Unidos incendiando parte de Toronto em 1813, e tropas Britânicas e Canadenses incendiando a Casa Branca e o Capitólio em Washington em 1814, resultando no Tratado de Gante, na manutenção das fronteiras originais.
Hoje, a Doutrina Monroe é reeditada por Donald Trump, no que tem sido chamado de Doutrina “Donroe”.
Diante da atual expansão econômica da China no mundo e na América Latina; diante da perda da liderança Americana sobre a Europa; e diante das recentes ações dos Estados Unidos no Oriente Médio, que pouco resultaram, os Estados Unidos voltam-se para as Américas, como estratégia geopolítica na economia mundial, presente e futura.
Hoje, os Estados Unidos estão militarmente presentes, em maior ou menor grau, em 4 países da América do Sul: na Guiana, desde 2023, onde foram descobertos significativos campos de petróleo a partir de 2015, com empresas americanas na exploração comercial a partir de 2019; na Venezuela, desde a captura de Maduro em janeiro de 2026, país detentor de 18% das reservas mundiais de petróleo; no Paraguai, desde março deste ano de 2026, para o treinamento e combate ao narcotráfico, nos termos do SOFA (Status of Forces Agreement) – país que faz parte da Tríplice Fronteira, Brasil- Argentina- Paraguai; e, agora, no Equador.
Trump comemora o radicalismo de Milei na Argentina, e os governos de direita de Espriella na Colômbia, Kast no Chile, Santiago Peña no Paraguai, Keiko Fujimori no Peru, Rodrigo Paz na Bolívia, e Daniel Noboa no Equador.
O Brasil é repleto de recursos naturais, com florestas, água, minérios, terras raras, petróleo e agropecuária. Embora sejamos a 10ª economia mundial, somos muito frágeis política e economicamente diante das grandes potências. E militarmente estamos desprovidos de capacidade efetiva de dissuasão, não para guerras, mas para a manutenção da paz, no novo jogo geopolítico mundial.
Temos que olhar para o futuro.
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Como o crime gera onda de 'bukelização' na América Latina
Poucos anos atrás, a chamada "onda rosa" parecia consolidar uma nova hegemonia política na América Latina. Impulsionados pela insatisfação popular com desigualdades agravadas pela pandemia de covid-19, governos de esquerda chegaram ao poder em alguns dos principais países da região, incluindo Brasil, Chile, Colômbia e Peru. Em meados da década, porém, o cenário mudou de forma significativa.
Uma nova onda conservadora avança pelo continente. De Buenos Aires a Bogotá, passando por Santiago, Quito e Lima, candidatos de direita e de perfil populista vêm conquistando espaço ao prometer soluções rápidas para problemas que há décadas desafiam os governos latino-americanos: violência, crime organizado, imigração irregular e crescimento econômico insuficiente.
A eleição do colombiano Abelardo de la Espriella se tornou o episódio mais recente desse movimento. Uma vitória que confirmou uma tendência já observada em países como Argentina, Chile, Equador e Peru, onde lideranças conservadoras conseguiram capitalizar o descontentamento popular com a situação econômica e a sensação crescente de insegurança.
O principal combustível da atual guinada à direita é a segurança pública. Embora a taxa média de homicídios na América Latina tenha diminuído em relação aos níveis registrados uma década atrás, a expansão do crime organizado e o crescimento de delitos como extorsão, sequestros e tráfico de drogas transformaram a segurança na principal preocupação do eleitorado em muitos países.
A natureza do crime também mudou. Organizações criminosas já não dependem apenas do tráfico internacional de cocaína. Hoje controlam minas ilegais, redes de extorsão, rotas migratórias e economias paralelas inteiras em bairros urbanos e regiões periféricas.
No Peru, comerciantes e transportadores enfrentam cobranças sistemáticas de grupos criminosos. No Equador, gangues ligadas a cartéis mexicanos e colombianos desencadearam uma escalada de violência sem precedentes. Na Colômbia, grupos armados continuam ocupando regiões pouco controladas pelo Estado.
Diante desse cenário, propostas de longo prazo defendidas por setores progressistas – como reformas policiais, fortalecimento da Justiça, prevenção da violência e inclusão social – passaram a competir com promessas mais imediatas e de forte apelo popular.
Foi nesse ambiente que Nayib Bukele, presidente de El Salvador, se transformou em modelo para parte da direita latino-americana. Seu combate agressivo às gangues, baseado em prisões em massa e forte militarização da segurança, reduziu drasticamente os índices de violência no país e lhe garantiu índices recordes de aprovação.
Mesmo enfrentando críticas de organizações de direitos humanos, o chamado "modelo Bukele" passou a inspirar candidatos em diversos países da região.
Discursos de campanha apresentando os imigrantes como criminosos e defendendo estratégias rigorosas de segurança popularizadas por Bukele garantiram a candidatos conservadores o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e mobilizaram eleitores descontentes, apesar das preocupações de que essas táticas possam incentivar violações dos direitos humanos ou ameaçar a democracia.
"Há uma nova direita emergente que colabora intensamente em toda a região e com os Estados Unidos por meio do movimento Maga, que também usa o combate ao crime como bandeira para mobilização política", afirmou Enrique Roig, vice-presidente da organização sem fins lucrativos Human Rights First e ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA. "É mais fácil vender a ideia de prender pessoas do que lidar com as razões pelas quais principalmente jovens ingressam em gangues em países como El Salvador."
Embora o populismo tenha obtido sucesso em diferentes espectros políticos, apenas a direita tem oferecido soluções de curto prazo para a segurança, que fazem os eleitores "se sentirem mais seguros em seis meses", mesmo que isso exija "sacrificar a democracia e os direitos humanos", avalia Adam Isacson, diretor de supervisão de defesa da organização Washington Office on Latin America (Wola).
Segundo ele, propostas da esquerda, como programas comunitários de prevenção da violência, melhor treinamento policial e reformas no sistema judiciário e prisional, levam mais tempo para produzir resultados.
"É exatamente o que deveria ser feito, mas a paciência das pessoas acaba", resalta Isacson sobre as propostas de longo prazo. "Então surgem os Bukeles do mundo dizendo: 'Quer se sentir melhor? Deixe conosco.'"
No Peru, onde os casos de extorsão aumentaram cinco vezes nos últimos cinco anos, Keiko Fujimori avançou rapidamente para o segundo turno presidencial de 7 de junho com uma plataforma baseada em lei e ordem. Ela prometeu empregar as Forças Armadas nas prisões e nas fronteiras, apoiando-se no legado autoritário de seu falecido pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, cuja trajetória permanece controversa.
Na Costa Rica, abalada por níveis recordes de homicídios relacionados ao narcotráfico, os eleitores escolheram, em fevereiro, a populista conservadora Laura Fernández, atraídos por sua plataforma de combate rigoroso ao crime. Em Honduras, o empresário Nasry Asfura venceu as eleições de dezembro após receber o apoio de Trump como aliado na luta contra os chamados "narcocomunistas".
Segundo a organização InSight Crime, especializada no estudo do crime organizado nas Américas, a taxa média de homicídios na América Latina e no Caribe caiu mais de 5% no último ano em comparação com 2024, atingindo uma média de aproximadamente 17,6 homicídios por 100 mil habitantes.
No entanto, existem exceções importantes. As mortes relacionadas ao narcotráfico aumentaram no Peru e na Colômbia, os maiores produtores de cocaína do mundo, assim como no Equador, cujos principais portos são vistos pelos traficantes como uma porta de entrada para os mercados europeus.
No ano passado, as autoridades registraram 2.400 homicídios no Peru e 14.780 na Colômbia, os maiores números observados em ambos os países desde pelo menos 2020. No Equador, os assassinatos cresceram expressivos 31% em relação ao ano anterior, chegando a 9.216 casos.
Grande parte da violência no Equador é atribuída às gangues criminosas. Durante a pandemia, cartéis do México, da Colômbia e dos Bálcãs ampliaram suas operações no país e recrutaram habitantes locais, desencadeando uma disputa sangrenta pelas rotas do tráfico de drogas. Os confrontos também se estenderam ao sistema prisional, onde centenas de detentos foram mortos desde 2021.
As autoridades equatorianas registraram ainda mais de 16.100 casos de extorsão no ano passado – uma redução em relação aos 23 mil registrados em 2024 – embora especialistas alertem que esse tipo de crime continua amplamente subnotificado.
Há quatro anos, os eleitores chilenos rejeitaram o político ultraconservador José Antonio Kast e elegeram o ex-presidente Gabriel Boric, um jovem ex-líder estudantil que prometia enfrentar as desigualdades sociais históricas do Chile.
No ano passado, porém, o temor diante do aumento da criminalidade – frequentemente associado pela mídia ao crescimento da população de imigrantes venezuelanos – favoreceu Kast e contribuiu para seu retorno ao poder.
À medida que organizações criminosas venezuelanas, como a gangue Tren de Aragua, aproveitaram a onda de migração em massa para expandir suas atividades e se infiltrar em redes de tráfico de pessoas após a pandemia, o Chile, tradicionalmente considerado um dos países mais seguros da América Latina, passou a registrar uma explosão sem precedentes de roubos de veículos, sequestros e tiroteios.
De acordo com o Ministério do Interior chileno, a taxa de homicídios no país aumentou 30%, alcançando o pico de 6,7 por 100 mil habitantes entre 2021 e 2022. Embora tenha diminuído desde então, permanece acima dos níveis anteriores a 2021. Outros crimes violentos continuam em alta, especialmente os sequestros, que cresceram quase 180% nos últimos quatro anos.
Inspirado por Bukele – e após visitar suas megaprisões em El Salvador durante a campanha – Kast derrotou com ampla margem sua adversária de esquerda em dezembro, prometendo construir um grande muro na fronteira, endurecer as condições carcerárias para membros de gangues e deportar centenas de milhares de imigrantes em situação irregular.
Em troca das promessas de segurança, muitos eleitores minimizaram suas posições contrárias ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como sua defesa da ditadura de Augusto Pinochet.
No Peru, apesar do legado controverso do condenado Alberto Fujimori, a candidatura de sua filha se beneficiou da escalada da criminalidade violenta, quatro anos após sua derrota para o professor Pedro Castillo.
Com o slogan "Peru com ordem", Keiko Fujimori obteve a maior votação no primeiro turno realizado em abril. Com mais de 99% das urnas apuradas do segundo turno, realizado em 7 de junho, ela tinha ligeira vantagem sobre Roberto Sánchez, herdeiro político do preso Pedro Castillo, de cerca de 40 mil votos.
Especialistas afirmam que o apetite popular por medidas rígidas – historicamente associadas às ditaduras de direita do século 20 na região – cresceu à medida que diminuía a confiança da população nas instituições estatais e aumentava a insatisfação com a democracia.
"O raciocínio costuma ser: 'a democracia não conseguiu manter minha família e eu seguros, então talvez a própria democracia seja parte do problema'", afirmou Eduardo Moncada, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia.
Isso representa um desafio significativo para a esquerda latino-americana, que em muitos países tem enfrentado economias estagnadas, escândalos de corrupção e dificuldades para cumprir promessas de reforma social.
Até mesmo políticos progressistas, como Jeannette Jara, no Chile, e Roberto Sánchez, no Peru, adaptaram seus discursos ao novo contexto político. O presidente uruguaio Yamandú Orsi descreveu o modelo de Bukele como um exemplo digno de estudo. Já o governo de centro-esquerda da Guatemala decretou estado de emergência para combater a violência das gangues e recebeu apoio da administração Trump no combate ao narcotráfico.
Mas as ambições linha-dura dos governantes recém-eleitos têm esbarrado nas dificuldades práticas de administrar democracias complexas e com limitações orçamentárias, como Equador e Chile. Esses países diferem bastante de El Salvador, onde o partido de Bukele possui ampla maioria no Legislativo.
Durante sua campanha de 2023, o presidente equatoriano Daniel Noboa prometeu prender líderes de gangues em prisões flutuantes e construir megaprisões. Após assumir o cargo, abandonou a proposta das embarcações-prisão, e seu governo levou até novembro para inaugurar a primeira megaprisão.
"Construir megaprisões não tem sido tão simples nem tão direto porque o país atravessa uma situação financeira muito difícil e porque Noboa ainda se vê como um democrata", explica Beatriz García Nice, analista de políticas públicas do centro de pesquisa Stimson Center.
No Chile, o governo de José Antonio Kast já enfrenta desgaste diante da dificuldade de cumprir promessas de deportações em massa e soluções rápidas para a criminalidade. Quase três meses após a sua posse, pesquisas indicam que uma parcela cética da população não percebe grandes diferenças entre sua política de segurança e a de seu antecessor de esquerda.
Seu governo realizou apenas dois voos de deportação, apesar de ter prometido deter e expulsar imediatamente mais de 300 mil imigrantes sem status legal. Além disso, seu discurso tornou-se mais moderado. No mês passado, ele foi alvo de críticas ao afirmar que a promessa de deportação em massa era apenas "uma metáfora".
Mesmo ao anunciar novas medidas de segurança em um discurso realizado em 1º de junho – incluindo a proibição de benefícios sociais para condenados por agressão a policiais – Kast procurou reduzir as expectativas de seus apoiadores.
"Governar, como muitos de vocês sabem, significa assumir responsabilidade diante da realidade, especialmente quando ela é difícil", declarou. "Estou avançando passo a passo porque isso não é algo que acontece da noite para o dia."
Déficits descambam em protestos
Líderes de direita na Argentina, Chile, Peru e Colômbia ganharam apoio com promessas de cortes de impostos, redução do tamanho do governo e flexibilização das regras para mineração e combustíveis fósseis. No entanto, muitos enfrentam déficits orçamentários, o que os obriga a implementar cortes de gastos impopulares que têm provocado protestos.
A Bolívia declarou estado de emergência em junho e começou a remover bloqueios que haviam paralisado o país por mais de 50 dias, enquanto sindicatos e outros grupos protestavam contra as medidas de austeridade adotadas pelo presidente de centro-direita Rodrigo Paz.
No Chile, o índice de aprovação de Kast despencou após a guerra com o Irã que levou seu governo a aumentar os preços dos combustíveis, enquanto as medidas de austeridade do presidente argentino Javier Milei têm sido recebidas com protestos recorrentes.
Os desafios de segurança persistem, apesar das promessas de combate rigoroso ao crime. No Equador, os homicídios aumentaram 30% no ano passado, e o governo de Noboa atribuiu o aumento às disputas territoriais entre facções criminosas dissidentes que competem pelo controle.
Os homicídios também cresceram na Costa Rica sob o governo do populista de direita Rodrigo Chaves. Sua sucessora, Laura Fernández, prometeu uma guerra contra o crime, mas os índices de homicídio continuam elevados, à medida que o pequeno país da América Central se tornou um importante ponto de trânsito para a cocaína sul-americana destinada aos Estados Unidos e à Europa.
Na Colômbia, Abelardo de la Espriella assume um país marcado pela presença de grupos armados, economias ilegais e profundas divisões políticas. Sua vitória apertada e um Congresso fragmentado indicam que a implementação de uma agenda de mudanças encontrará obstáculos significativos.
O mesmo desafio vale para o Peru, onde Keiko Fujimori, chega ao poder prometendo restaurar a ordem em um país cada vez mais impactado pela violência e pela instabilidade institucional.
Uma nova onda conservadora avança pelo continente. De Buenos Aires a Bogotá, passando por Santiago, Quito e Lima, candidatos de direita e de perfil populista vêm conquistando espaço ao prometer soluções rápidas para problemas que há décadas desafiam os governos latino-americanos: violência, crime organizado, imigração irregular e crescimento econômico insuficiente.
A eleição do colombiano Abelardo de la Espriella se tornou o episódio mais recente desse movimento. Uma vitória que confirmou uma tendência já observada em países como Argentina, Chile, Equador e Peru, onde lideranças conservadoras conseguiram capitalizar o descontentamento popular com a situação econômica e a sensação crescente de insegurança.
O principal combustível da atual guinada à direita é a segurança pública. Embora a taxa média de homicídios na América Latina tenha diminuído em relação aos níveis registrados uma década atrás, a expansão do crime organizado e o crescimento de delitos como extorsão, sequestros e tráfico de drogas transformaram a segurança na principal preocupação do eleitorado em muitos países.
A natureza do crime também mudou. Organizações criminosas já não dependem apenas do tráfico internacional de cocaína. Hoje controlam minas ilegais, redes de extorsão, rotas migratórias e economias paralelas inteiras em bairros urbanos e regiões periféricas.
No Peru, comerciantes e transportadores enfrentam cobranças sistemáticas de grupos criminosos. No Equador, gangues ligadas a cartéis mexicanos e colombianos desencadearam uma escalada de violência sem precedentes. Na Colômbia, grupos armados continuam ocupando regiões pouco controladas pelo Estado.
Diante desse cenário, propostas de longo prazo defendidas por setores progressistas – como reformas policiais, fortalecimento da Justiça, prevenção da violência e inclusão social – passaram a competir com promessas mais imediatas e de forte apelo popular.
Foi nesse ambiente que Nayib Bukele, presidente de El Salvador, se transformou em modelo para parte da direita latino-americana. Seu combate agressivo às gangues, baseado em prisões em massa e forte militarização da segurança, reduziu drasticamente os índices de violência no país e lhe garantiu índices recordes de aprovação.
Mesmo enfrentando críticas de organizações de direitos humanos, o chamado "modelo Bukele" passou a inspirar candidatos em diversos países da região.
Discursos de campanha apresentando os imigrantes como criminosos e defendendo estratégias rigorosas de segurança popularizadas por Bukele garantiram a candidatos conservadores o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e mobilizaram eleitores descontentes, apesar das preocupações de que essas táticas possam incentivar violações dos direitos humanos ou ameaçar a democracia.
"Há uma nova direita emergente que colabora intensamente em toda a região e com os Estados Unidos por meio do movimento Maga, que também usa o combate ao crime como bandeira para mobilização política", afirmou Enrique Roig, vice-presidente da organização sem fins lucrativos Human Rights First e ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA. "É mais fácil vender a ideia de prender pessoas do que lidar com as razões pelas quais principalmente jovens ingressam em gangues em países como El Salvador."
Embora o populismo tenha obtido sucesso em diferentes espectros políticos, apenas a direita tem oferecido soluções de curto prazo para a segurança, que fazem os eleitores "se sentirem mais seguros em seis meses", mesmo que isso exija "sacrificar a democracia e os direitos humanos", avalia Adam Isacson, diretor de supervisão de defesa da organização Washington Office on Latin America (Wola).
Segundo ele, propostas da esquerda, como programas comunitários de prevenção da violência, melhor treinamento policial e reformas no sistema judiciário e prisional, levam mais tempo para produzir resultados.
"É exatamente o que deveria ser feito, mas a paciência das pessoas acaba", resalta Isacson sobre as propostas de longo prazo. "Então surgem os Bukeles do mundo dizendo: 'Quer se sentir melhor? Deixe conosco.'"
No Peru, onde os casos de extorsão aumentaram cinco vezes nos últimos cinco anos, Keiko Fujimori avançou rapidamente para o segundo turno presidencial de 7 de junho com uma plataforma baseada em lei e ordem. Ela prometeu empregar as Forças Armadas nas prisões e nas fronteiras, apoiando-se no legado autoritário de seu falecido pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, cuja trajetória permanece controversa.
Na Costa Rica, abalada por níveis recordes de homicídios relacionados ao narcotráfico, os eleitores escolheram, em fevereiro, a populista conservadora Laura Fernández, atraídos por sua plataforma de combate rigoroso ao crime. Em Honduras, o empresário Nasry Asfura venceu as eleições de dezembro após receber o apoio de Trump como aliado na luta contra os chamados "narcocomunistas".
Segundo a organização InSight Crime, especializada no estudo do crime organizado nas Américas, a taxa média de homicídios na América Latina e no Caribe caiu mais de 5% no último ano em comparação com 2024, atingindo uma média de aproximadamente 17,6 homicídios por 100 mil habitantes.
No entanto, existem exceções importantes. As mortes relacionadas ao narcotráfico aumentaram no Peru e na Colômbia, os maiores produtores de cocaína do mundo, assim como no Equador, cujos principais portos são vistos pelos traficantes como uma porta de entrada para os mercados europeus.
No ano passado, as autoridades registraram 2.400 homicídios no Peru e 14.780 na Colômbia, os maiores números observados em ambos os países desde pelo menos 2020. No Equador, os assassinatos cresceram expressivos 31% em relação ao ano anterior, chegando a 9.216 casos.
Grande parte da violência no Equador é atribuída às gangues criminosas. Durante a pandemia, cartéis do México, da Colômbia e dos Bálcãs ampliaram suas operações no país e recrutaram habitantes locais, desencadeando uma disputa sangrenta pelas rotas do tráfico de drogas. Os confrontos também se estenderam ao sistema prisional, onde centenas de detentos foram mortos desde 2021.
As autoridades equatorianas registraram ainda mais de 16.100 casos de extorsão no ano passado – uma redução em relação aos 23 mil registrados em 2024 – embora especialistas alertem que esse tipo de crime continua amplamente subnotificado.
Há quatro anos, os eleitores chilenos rejeitaram o político ultraconservador José Antonio Kast e elegeram o ex-presidente Gabriel Boric, um jovem ex-líder estudantil que prometia enfrentar as desigualdades sociais históricas do Chile.
No ano passado, porém, o temor diante do aumento da criminalidade – frequentemente associado pela mídia ao crescimento da população de imigrantes venezuelanos – favoreceu Kast e contribuiu para seu retorno ao poder.
À medida que organizações criminosas venezuelanas, como a gangue Tren de Aragua, aproveitaram a onda de migração em massa para expandir suas atividades e se infiltrar em redes de tráfico de pessoas após a pandemia, o Chile, tradicionalmente considerado um dos países mais seguros da América Latina, passou a registrar uma explosão sem precedentes de roubos de veículos, sequestros e tiroteios.
De acordo com o Ministério do Interior chileno, a taxa de homicídios no país aumentou 30%, alcançando o pico de 6,7 por 100 mil habitantes entre 2021 e 2022. Embora tenha diminuído desde então, permanece acima dos níveis anteriores a 2021. Outros crimes violentos continuam em alta, especialmente os sequestros, que cresceram quase 180% nos últimos quatro anos.
Inspirado por Bukele – e após visitar suas megaprisões em El Salvador durante a campanha – Kast derrotou com ampla margem sua adversária de esquerda em dezembro, prometendo construir um grande muro na fronteira, endurecer as condições carcerárias para membros de gangues e deportar centenas de milhares de imigrantes em situação irregular.
Em troca das promessas de segurança, muitos eleitores minimizaram suas posições contrárias ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como sua defesa da ditadura de Augusto Pinochet.
No Peru, apesar do legado controverso do condenado Alberto Fujimori, a candidatura de sua filha se beneficiou da escalada da criminalidade violenta, quatro anos após sua derrota para o professor Pedro Castillo.
Com o slogan "Peru com ordem", Keiko Fujimori obteve a maior votação no primeiro turno realizado em abril. Com mais de 99% das urnas apuradas do segundo turno, realizado em 7 de junho, ela tinha ligeira vantagem sobre Roberto Sánchez, herdeiro político do preso Pedro Castillo, de cerca de 40 mil votos.
Especialistas afirmam que o apetite popular por medidas rígidas – historicamente associadas às ditaduras de direita do século 20 na região – cresceu à medida que diminuía a confiança da população nas instituições estatais e aumentava a insatisfação com a democracia.
"O raciocínio costuma ser: 'a democracia não conseguiu manter minha família e eu seguros, então talvez a própria democracia seja parte do problema'", afirmou Eduardo Moncada, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia.
Isso representa um desafio significativo para a esquerda latino-americana, que em muitos países tem enfrentado economias estagnadas, escândalos de corrupção e dificuldades para cumprir promessas de reforma social.
Até mesmo políticos progressistas, como Jeannette Jara, no Chile, e Roberto Sánchez, no Peru, adaptaram seus discursos ao novo contexto político. O presidente uruguaio Yamandú Orsi descreveu o modelo de Bukele como um exemplo digno de estudo. Já o governo de centro-esquerda da Guatemala decretou estado de emergência para combater a violência das gangues e recebeu apoio da administração Trump no combate ao narcotráfico.
Mas as ambições linha-dura dos governantes recém-eleitos têm esbarrado nas dificuldades práticas de administrar democracias complexas e com limitações orçamentárias, como Equador e Chile. Esses países diferem bastante de El Salvador, onde o partido de Bukele possui ampla maioria no Legislativo.
Durante sua campanha de 2023, o presidente equatoriano Daniel Noboa prometeu prender líderes de gangues em prisões flutuantes e construir megaprisões. Após assumir o cargo, abandonou a proposta das embarcações-prisão, e seu governo levou até novembro para inaugurar a primeira megaprisão.
"Construir megaprisões não tem sido tão simples nem tão direto porque o país atravessa uma situação financeira muito difícil e porque Noboa ainda se vê como um democrata", explica Beatriz García Nice, analista de políticas públicas do centro de pesquisa Stimson Center.
No Chile, o governo de José Antonio Kast já enfrenta desgaste diante da dificuldade de cumprir promessas de deportações em massa e soluções rápidas para a criminalidade. Quase três meses após a sua posse, pesquisas indicam que uma parcela cética da população não percebe grandes diferenças entre sua política de segurança e a de seu antecessor de esquerda.
Seu governo realizou apenas dois voos de deportação, apesar de ter prometido deter e expulsar imediatamente mais de 300 mil imigrantes sem status legal. Além disso, seu discurso tornou-se mais moderado. No mês passado, ele foi alvo de críticas ao afirmar que a promessa de deportação em massa era apenas "uma metáfora".
Mesmo ao anunciar novas medidas de segurança em um discurso realizado em 1º de junho – incluindo a proibição de benefícios sociais para condenados por agressão a policiais – Kast procurou reduzir as expectativas de seus apoiadores.
"Governar, como muitos de vocês sabem, significa assumir responsabilidade diante da realidade, especialmente quando ela é difícil", declarou. "Estou avançando passo a passo porque isso não é algo que acontece da noite para o dia."
Déficits descambam em protestos
Líderes de direita na Argentina, Chile, Peru e Colômbia ganharam apoio com promessas de cortes de impostos, redução do tamanho do governo e flexibilização das regras para mineração e combustíveis fósseis. No entanto, muitos enfrentam déficits orçamentários, o que os obriga a implementar cortes de gastos impopulares que têm provocado protestos.
A Bolívia declarou estado de emergência em junho e começou a remover bloqueios que haviam paralisado o país por mais de 50 dias, enquanto sindicatos e outros grupos protestavam contra as medidas de austeridade adotadas pelo presidente de centro-direita Rodrigo Paz.
No Chile, o índice de aprovação de Kast despencou após a guerra com o Irã que levou seu governo a aumentar os preços dos combustíveis, enquanto as medidas de austeridade do presidente argentino Javier Milei têm sido recebidas com protestos recorrentes.
Os desafios de segurança persistem, apesar das promessas de combate rigoroso ao crime. No Equador, os homicídios aumentaram 30% no ano passado, e o governo de Noboa atribuiu o aumento às disputas territoriais entre facções criminosas dissidentes que competem pelo controle.
Os homicídios também cresceram na Costa Rica sob o governo do populista de direita Rodrigo Chaves. Sua sucessora, Laura Fernández, prometeu uma guerra contra o crime, mas os índices de homicídio continuam elevados, à medida que o pequeno país da América Central se tornou um importante ponto de trânsito para a cocaína sul-americana destinada aos Estados Unidos e à Europa.
Na Colômbia, Abelardo de la Espriella assume um país marcado pela presença de grupos armados, economias ilegais e profundas divisões políticas. Sua vitória apertada e um Congresso fragmentado indicam que a implementação de uma agenda de mudanças encontrará obstáculos significativos.
O mesmo desafio vale para o Peru, onde Keiko Fujimori, chega ao poder prometendo restaurar a ordem em um país cada vez mais impactado pela violência e pela instabilidade institucional.
Defender linchamento é pôr o mundo de ponta-cabeça
Na última terça-feira, um estudante foi espancado por colegas na UFRJ. Os agressores lincharam um rapaz que usava camiseta com simbologia associada ao nazismo. O vídeo da agressão, reproduzido pela imprensa, mostra o estudante caído no chão, chutado por dez colegas. O rapaz consegue então se levantar e escapar do prédio, mas é alcançado pela turba e agredido novamente na calçada. Por que esse linchamento violento e covarde num campus universitário não é amplamente condenado? Por que, ao contrário, é endossado e aplaudido?
O Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ fez uma nota de repúdio ambígua. A nota não denuncia inequivocamente o linchamento, apenas repudia “qualquer forma de violência, discriminação ou manifestação de caráter nazista”. Não distingue a violência física sofrida pelo estudante da manifestação tida como nazista. A referência à “violência” pode ser lida como condenação à agressão, mas também como atribuição da violência ao nazismo — e, nesse caso, condena a vítima, alegadamente nazista, e não os linchadores.
A nota oficial da UFRJ também foi ambígua:
— A Universidade repudia manifestações de apologia ao nazismo, ao fascismo, ao racismo, ao antissemitismo, ao machismo e a todas as formas de intolerância e discriminação. Reafirma, ao mesmo tempo, que agressões físicas e outras formas de violência não podem ser admitidas como resposta a provocações, conflitos ou divergências.
A nota condena primeiro o nazismo, depois a agressão, insinuando que as agressões foram “resposta a provocações” — a palavra “provocações” introduz uma lógica causal que atribui parte da responsabilidade pelas agressões à vítima. Nenhuma das notas oficiais condenou inequivocamente o linchamento.
O Centro Acadêmico de Ciências Sociais também publicou uma manifestação, mas, nesse caso, sem qualquer ambiguidade:
— Os estudantes do IFCS-IH deram o recado que lugar de nazista não é na universidade.
Centenas de posts nas redes sociais com cenas da agressão celebraram o linchamento e foram curtidos por professores e estudantes. Os comentários incluíam “nazismo não se cria”, “em nazista é porrada”, “nazismo não se debate, se combate”, “o único erro é que não tinha mais gente pra bater”, “o cara foi fazer apologia ao nazismo no IFCS e esperava o quê?”, “mais imagens, que delícia!” e “apanhou foi pouco”.
Tudo indica que o estudante não era nazista. Usava até um broche antinazista — mas isso não deveria ser relevante. O linchamento é uma brutalidade execrável em qualquer circunstância e não passa a ser escusável se a vítima é acusada de nazismo.
Em certos ambientes, já não conseguimos separar a condenação moral do nazismo da licença para agredir quem é acusado de professá-lo. Nossa obsessão em sermos política e moralmente puros nos impede de distinguir a gravidade das condutas e de graduar as respostas a elas.
Uma coisa é usar uma camiseta com simbologia ambígua. Outra é professar uma crença preconceituosa. Outra ainda é discriminar alguém de fato. E matar minorias é algo completamente diferente. Entender essa gradação não é “passar pano para o nazismo”, é defender o Estado de Direito. É também exercer o juízo crítico. No linchamento, não há direito de defesa, não há julgamento equilibrado e não há sentença proporcional. É a justiça popular em sua faceta mais brutal.
O imperativo de demonstrar pureza e credenciais antifascistas irrepreensíveis dificulta a condenação inequívoca da violência porque qualquer ponderação pode ser lida como complacência com o nazismo. As instituições tornam-se incapazes de condenar o linchamento. Professores e estudantes passam a endossar e a celebrar a justiça popular — tudo em nome do combate ao preconceito e à discriminação.
O mundo vira de ponta-cabeça: um linchamento nas dependências de uma universidade deixa de ser um ato bárbaro, violento e covarde e passa a ser celebrado como defesa dos direitos humanos.
O Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ fez uma nota de repúdio ambígua. A nota não denuncia inequivocamente o linchamento, apenas repudia “qualquer forma de violência, discriminação ou manifestação de caráter nazista”. Não distingue a violência física sofrida pelo estudante da manifestação tida como nazista. A referência à “violência” pode ser lida como condenação à agressão, mas também como atribuição da violência ao nazismo — e, nesse caso, condena a vítima, alegadamente nazista, e não os linchadores.
A nota oficial da UFRJ também foi ambígua:
— A Universidade repudia manifestações de apologia ao nazismo, ao fascismo, ao racismo, ao antissemitismo, ao machismo e a todas as formas de intolerância e discriminação. Reafirma, ao mesmo tempo, que agressões físicas e outras formas de violência não podem ser admitidas como resposta a provocações, conflitos ou divergências.
A nota condena primeiro o nazismo, depois a agressão, insinuando que as agressões foram “resposta a provocações” — a palavra “provocações” introduz uma lógica causal que atribui parte da responsabilidade pelas agressões à vítima. Nenhuma das notas oficiais condenou inequivocamente o linchamento.
O Centro Acadêmico de Ciências Sociais também publicou uma manifestação, mas, nesse caso, sem qualquer ambiguidade:
— Os estudantes do IFCS-IH deram o recado que lugar de nazista não é na universidade.
Centenas de posts nas redes sociais com cenas da agressão celebraram o linchamento e foram curtidos por professores e estudantes. Os comentários incluíam “nazismo não se cria”, “em nazista é porrada”, “nazismo não se debate, se combate”, “o único erro é que não tinha mais gente pra bater”, “o cara foi fazer apologia ao nazismo no IFCS e esperava o quê?”, “mais imagens, que delícia!” e “apanhou foi pouco”.
Tudo indica que o estudante não era nazista. Usava até um broche antinazista — mas isso não deveria ser relevante. O linchamento é uma brutalidade execrável em qualquer circunstância e não passa a ser escusável se a vítima é acusada de nazismo.
Em certos ambientes, já não conseguimos separar a condenação moral do nazismo da licença para agredir quem é acusado de professá-lo. Nossa obsessão em sermos política e moralmente puros nos impede de distinguir a gravidade das condutas e de graduar as respostas a elas.
Uma coisa é usar uma camiseta com simbologia ambígua. Outra é professar uma crença preconceituosa. Outra ainda é discriminar alguém de fato. E matar minorias é algo completamente diferente. Entender essa gradação não é “passar pano para o nazismo”, é defender o Estado de Direito. É também exercer o juízo crítico. No linchamento, não há direito de defesa, não há julgamento equilibrado e não há sentença proporcional. É a justiça popular em sua faceta mais brutal.
O imperativo de demonstrar pureza e credenciais antifascistas irrepreensíveis dificulta a condenação inequívoca da violência porque qualquer ponderação pode ser lida como complacência com o nazismo. As instituições tornam-se incapazes de condenar o linchamento. Professores e estudantes passam a endossar e a celebrar a justiça popular — tudo em nome do combate ao preconceito e à discriminação.
O mundo vira de ponta-cabeça: um linchamento nas dependências de uma universidade deixa de ser um ato bárbaro, violento e covarde e passa a ser celebrado como defesa dos direitos humanos.
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
E se pensássemos num Ministério da População?
Durante décadas, as contas foram sempre as mesmas e simples de fazer. Todos os anos, havia mais nascimentos do que mortes. E, naturalmente, entravam mais pessoas no mercado de trabalho do que aquelas que o abandonavam, por aposentação. Além de uma outra característica: com o crescimento da economia e a inflação, os salários de entrada em cada profissão também progrediam a um ritmo considerável, permitindo existir excedente para todos os meses pagar aos pensionistas – numa era em que a esperança média de vida era muito inferior à dos nossos dias.
Agora, tudo é diferente, embora tenhamos dificuldade em admiti-lo – de tal forma que ainda continuamos a chamar pirâmide etária a uma realidade demográfica que, em termos geométricos, passou a ter a configuração de um pentágono, visto que as crianças e jovens, que formavam a base do triângulo, deixaram de ser o sector mais numeroso da população. Esta é uma realidade transversal a quase todos os países desenvolvidos, onde as taxas de nascimento caem a pique, o crescimento económico é anémico em comparação com o de outras eras e, particularmente na Europa, a riqueza vem mais por herança do que por iniciativa empresarial, com todos os problemas de desigualdade que isso acarreta.
O Estado social e a nossa economia foram construídos no pressuposto de que a população iria sempre aumentar, que nunca perderíamos a base que alimenta o topo da pirâmide. O que sabemos, agora, é que a proporção dos idosos na população total está a crescer, enquanto a população ativa tende a diminuir cada vez mais. Essa realidade tem reflexos no sistema de pensões, mas também nos cuidados de saúde, no ordenamento do território, na educação e na economia em geral.
Até ao momento, o que se tem tentado fazer é olhar para cada uma das consequências de forma isolada. Como se fossem problemas de gestão sectoriais, quando, afinal, se trata de uma alteração muito mais profunda da sociedade e do nosso modo de vida. É preciso, urgentemente, mudar essa forma de olhar para a realidade. A demografia tem de passar a estar no centro das políticas e deixar de ser vista como um acessório ou uma nota de rodapé. E a política tem de voltar ao seu centro vital: servir as populações em vez de apenas querer ganhar os seus votos.
Tradicionalmente, a regra tem sido a de olhar para as políticas demográficas de forma sectorial, segundo a estrutura habitual de cada ministério. A Saúde preocupa-se com a natalidade e a longevidade, a Educação procura gerir os movimentos de matrículas, o Trabalho tem o foco na escassez ou no excesso de mão de obra e o Ambiente, tantas vezes, olha mais para a natureza do que para os movimentos populacionais. Para piorar as coisas, a recente onda populista no mundo tem procurado atirar os fluxos migratórios para os braços da Administração Interna e das forças de segurança, inquinando e impedindo o debate que era necessário.
A verdade é que só há três formas de fazer aumentar a população ativa, cada uma delas com prazos diferentes de concretização. Estimular e fazer aumentar os nascimentos é uma solução óbvia, mas qualquer política nesse campo demorará gerações a apresentar resultados. Elevar a idade da reforma ou aumentar a percentagem de idosos ativos, como se faz no Japão, será sempre um programa de médio prazo. Finalmente, a única solução que existe para resolver a equação depressa é importar mão de obra – acolher imigrantes e integrá-los convenientemente e com dignidade.
Todas essas três vias precisam de ser discutidas e debatidas dentro de uma política geral de população e de desenvolvimento do País. Se o fizermos, estaremos de certeza mais próximos de encontrar respostas sérias acerca da sustentabilidade da Segurança Social e até do próprio futuro do Estado-providência.
A demografia devia ser central na política dos nossos dias, com a taxa de fecundidade e as variações populacionais a serem debatidas com o mesmo fervor que se usa em relação ao défice orçamental ou ao valor da inflação. Se calhar, criar um Ministério da População poderia ser o primeiro passo para pôr a demografia no centro do debate. Com uma grande virtude: alinhar, dessa forma, a economia, o território, o trabalho, a educação, a imigração e a família sob uma mesma bússola estratégica. Planear em vez de nos limitarmos a reagir.
Rui Tavares Guedes
Agora, tudo é diferente, embora tenhamos dificuldade em admiti-lo – de tal forma que ainda continuamos a chamar pirâmide etária a uma realidade demográfica que, em termos geométricos, passou a ter a configuração de um pentágono, visto que as crianças e jovens, que formavam a base do triângulo, deixaram de ser o sector mais numeroso da população. Esta é uma realidade transversal a quase todos os países desenvolvidos, onde as taxas de nascimento caem a pique, o crescimento económico é anémico em comparação com o de outras eras e, particularmente na Europa, a riqueza vem mais por herança do que por iniciativa empresarial, com todos os problemas de desigualdade que isso acarreta.
O Estado social e a nossa economia foram construídos no pressuposto de que a população iria sempre aumentar, que nunca perderíamos a base que alimenta o topo da pirâmide. O que sabemos, agora, é que a proporção dos idosos na população total está a crescer, enquanto a população ativa tende a diminuir cada vez mais. Essa realidade tem reflexos no sistema de pensões, mas também nos cuidados de saúde, no ordenamento do território, na educação e na economia em geral.
Até ao momento, o que se tem tentado fazer é olhar para cada uma das consequências de forma isolada. Como se fossem problemas de gestão sectoriais, quando, afinal, se trata de uma alteração muito mais profunda da sociedade e do nosso modo de vida. É preciso, urgentemente, mudar essa forma de olhar para a realidade. A demografia tem de passar a estar no centro das políticas e deixar de ser vista como um acessório ou uma nota de rodapé. E a política tem de voltar ao seu centro vital: servir as populações em vez de apenas querer ganhar os seus votos.
Tradicionalmente, a regra tem sido a de olhar para as políticas demográficas de forma sectorial, segundo a estrutura habitual de cada ministério. A Saúde preocupa-se com a natalidade e a longevidade, a Educação procura gerir os movimentos de matrículas, o Trabalho tem o foco na escassez ou no excesso de mão de obra e o Ambiente, tantas vezes, olha mais para a natureza do que para os movimentos populacionais. Para piorar as coisas, a recente onda populista no mundo tem procurado atirar os fluxos migratórios para os braços da Administração Interna e das forças de segurança, inquinando e impedindo o debate que era necessário.
A verdade é que só há três formas de fazer aumentar a população ativa, cada uma delas com prazos diferentes de concretização. Estimular e fazer aumentar os nascimentos é uma solução óbvia, mas qualquer política nesse campo demorará gerações a apresentar resultados. Elevar a idade da reforma ou aumentar a percentagem de idosos ativos, como se faz no Japão, será sempre um programa de médio prazo. Finalmente, a única solução que existe para resolver a equação depressa é importar mão de obra – acolher imigrantes e integrá-los convenientemente e com dignidade.
Todas essas três vias precisam de ser discutidas e debatidas dentro de uma política geral de população e de desenvolvimento do País. Se o fizermos, estaremos de certeza mais próximos de encontrar respostas sérias acerca da sustentabilidade da Segurança Social e até do próprio futuro do Estado-providência.
A demografia devia ser central na política dos nossos dias, com a taxa de fecundidade e as variações populacionais a serem debatidas com o mesmo fervor que se usa em relação ao défice orçamental ou ao valor da inflação. Se calhar, criar um Ministério da População poderia ser o primeiro passo para pôr a demografia no centro do debate. Com uma grande virtude: alinhar, dessa forma, a economia, o território, o trabalho, a educação, a imigração e a família sob uma mesma bússola estratégica. Planear em vez de nos limitarmos a reagir.
Rui Tavares Guedes
Quem vai prender a IA do Trump no drone do Putin?
Aconteceu finalmente! Um drone russo pilotado por uma IA dos EUA decidiu, por si próprio, matar três civis na Ucrânia. A palavra-chave aqui é “decidiu”. A pergunta-chave é “por que?”. Ou seja, por que uma arma decide que três pessoas abastecendo o carro representam uma ameaça de guerra a ser bombardeada? Foi uma tragédia histórica. Um ponto de virada. Uma máquina decide que seres humanos representam um risco e simplesmente atira contra eles, sem submeter sua decisão a nenhuma autorização superior humana.
Seis especialistas deram seis respostas diferentes: O próprio drone como efeito colateral; o operador do drone; o fabricante do drone; o fabricante do chip IA; o comandante da operação; a autoridade que comprou o drone… Uma pergunta foi frequente nas conversas: quem é o culpado quando alguém é morto por uma pistola, ou um míssil? Porém, no ataque na Ucrânia tem um detalhe que muda tudo. A máquina decidiu matar aquelas pessoas. Uma pistola e uma bomba não decidem matar pessoas. Não se dá voz de prisão a um revólver, nem mesmo ao seu fabricante, se a arma estiver em perfeito estado de funcionamento.
Aqui temos outra questão delicada no debate das armas autônomas. Que critérios um chip com IA utiliza para avaliar se alguém ou algo representa uma ameaça passível de eliminação? Por que um chip de uma empresa norte americana (Nvidia), implantado em um drone militar russo, sobrevoando a Ucrânia, concluiu que três pessoas comuns tocando seu dia a dia urbano deveriam ser bombardeadas? Pior ainda, a IA avaliou que aquelas pessoas seriam uma ameaça a quem? À Rússia? Ao drone? Ao chip? À Nvidia? Aos EUA? À humanidade? À vida? Ou representariam alguma espécie de ameaça aleatória genérica? Que características e atitudes sutis aquelas pessoas apresentavam naquele instante que fizeram com que a IA de Trump no drone de Putin identificasse uma ameaça digna de assassinato?
Os chips de IA, dotados de capacidade de aprendizado (machine learning), são fabricados e treinados para aprenderem respeitando parâmetros, critérios e propósitos pré-estabelecidos. Uma IA médica não toma decisões sobre engenharia hidráulica. Sendo assim, que tipo de ensinamento o fabricante do chip IA, o fabricante o drone, o comandante da operação, o ministro da Defesa, ou o presidente do País, estão introduzindo nos seus armamentos? Que acontece se a polícia utilizar drones autônomos em operações nas favelas e um chip com IA decidir que as crianças num parquinho representam uma ameaça a ser executada? Será que pobres e negros, por exemplo, parecerão mais ameaçadores? Tomara que aprendamos a lição com 2001 Uma Odisseia no Espaço e Matrix (antes que a IA o faça).
Um louco na Sala Oval
A verdade é que as coisas só têm piorado, o delírio agrava-se a olhos vistos e a tendência é para um agravamento progressivo. Uma das últimas pérolas trumpistas é a ameaça pública de que os Estados Unidos irão bombardear Omã “até à exaustão”, um país que é seu aliado no Médio Oriente, caso este acorde com a república islâmica uma rota de navegação segura através do estreito de Ormuz.
E nós a pensar que a atual crise na região se deveria ultrapassar através da diplomacia, de modo a acabar com o estrangulamento do estreito que está a afetar gravemente a economia mundial.
O louco da Sala Oval pensa que pode acordar um dia, maldisposto, e mandar bombardear não apenas um país inimigo, mas também um país amigo e aliado como o sultanato árabe de Omã, localizado no sudeste da Península Arábica, onde até tem uma base militar sua. E também acha que pode anunciar tal coisa ao mundo sem correr o risco de vir a ser internado num hospício.
Já sabemos que Trump se está a borrifar para o Direito Internacional e os tratados existentes ou a diplomacia e a ordem internacional. Já disse que o seu limite se reduz à sua consciência. Ora, a consciência de um louco deixa muito a desejar, por isso a lei considera os loucos como inimputáveis.
Mas a questão é esta, se o louco da Sala Oval ameaça bombardear um país aliado no Médio Oriente, o que fará com os europeus por quem repetidamente demonstra o seu desprezo e que insultou, ameaçou e atacou politicamente através do movimento MAGA, ao apoiar os seus adversários radicais?
Bem, poderíamos dizer que Trump é um problema dos estadunidenses. Foram eles que o levaram ao poder pelo voto, por isso agora aturem-no. Só que os Estados Unidos não são um país qualquer, muito embora esteja em acentuado declínio e em perda de influência global. Mas é evidente que ainda influencia o mundo ocidental, neste momento mais para o mal do que para o bem.
Por outro lado, existe um descontentamento interno cada vez maior com a política económica do presidente norte-americano e com o custo de vida no país. Segundo o Jornal de Negócios, “A menos de três meses das eleições intercalares de novembro, a sondagem nacional realizada pela Focaldata para o Finantial Times revelou que ‘mais de 53 por cento dos eleitores registados dizem que a sua situação financeira se deteriorou desde que Trump regressou à Casa Branca’, em janeiro de 2025.”
Além disso, a dívida pública do país ultrapassou, pela primeira vez na sua história, os 40 biliões de dólares (34,2 biliões de euros). A popularidade de Trump está incrivelmente baixa, rondando os 30 por cento.
Uma das últimas habilidades foi o regresso da reunião da NATO na Turquia quando, perante uma suposta ameaça, o presidente saiu às escondidas do avião oficial para não correr perigo mas deixou os seus colaboradores e jornalistas servirem de isco, entre eles a sua porta-voz que tinha sido mãe há poucas semanas e se demitiu de seguida.
A próxima jogada parece ser retirar aos estados as competências eleitorais a poucas semanas do ato eleitoral, de modo a manipulá-lo à vontade e tentar alterar a lei para correr de novo à Casa Branca. Em suma, Trump está a transformar um país de referência numa república das bananas.
Mas não podemos concentrar-nos em culpar apenas o louco da Sala Oval. Todo o seu círculo próximo tem elevada responsabilidade no estado a que chegou a Casa Branca. E nem sequer os jornalistas são capazes de tomar uma posição conjunta de boicotar a informação da Casa Branca enquanto o cavalheiro os continua a insultar em todas as conferências de imprensa.
É uma vergonha ver um governante dum país (ainda) democrático mandar calar os profissionais da informação e insultá-los com epítetos como “porca”, “falsa” e “uma desgraça”. Ninguém está a ver qualquer presidente republicano ou democrata a fazer nada que se pareça. Basta lembrar Obama, Biden, Clinton, Bush ou George W. Bush para não ir mais para trás.
Trump é o tipo de pessoa altamente tóxica com quem eu nunca deixaria que filhos meus ainda pequenos convivessem, por razões de higiene mental e moral.
E nós a pensar que a atual crise na região se deveria ultrapassar através da diplomacia, de modo a acabar com o estrangulamento do estreito que está a afetar gravemente a economia mundial.
O louco da Sala Oval pensa que pode acordar um dia, maldisposto, e mandar bombardear não apenas um país inimigo, mas também um país amigo e aliado como o sultanato árabe de Omã, localizado no sudeste da Península Arábica, onde até tem uma base militar sua. E também acha que pode anunciar tal coisa ao mundo sem correr o risco de vir a ser internado num hospício.
Já sabemos que Trump se está a borrifar para o Direito Internacional e os tratados existentes ou a diplomacia e a ordem internacional. Já disse que o seu limite se reduz à sua consciência. Ora, a consciência de um louco deixa muito a desejar, por isso a lei considera os loucos como inimputáveis.
Mas a questão é esta, se o louco da Sala Oval ameaça bombardear um país aliado no Médio Oriente, o que fará com os europeus por quem repetidamente demonstra o seu desprezo e que insultou, ameaçou e atacou politicamente através do movimento MAGA, ao apoiar os seus adversários radicais?
Bem, poderíamos dizer que Trump é um problema dos estadunidenses. Foram eles que o levaram ao poder pelo voto, por isso agora aturem-no. Só que os Estados Unidos não são um país qualquer, muito embora esteja em acentuado declínio e em perda de influência global. Mas é evidente que ainda influencia o mundo ocidental, neste momento mais para o mal do que para o bem.
Por outro lado, existe um descontentamento interno cada vez maior com a política económica do presidente norte-americano e com o custo de vida no país. Segundo o Jornal de Negócios, “A menos de três meses das eleições intercalares de novembro, a sondagem nacional realizada pela Focaldata para o Finantial Times revelou que ‘mais de 53 por cento dos eleitores registados dizem que a sua situação financeira se deteriorou desde que Trump regressou à Casa Branca’, em janeiro de 2025.”
Além disso, a dívida pública do país ultrapassou, pela primeira vez na sua história, os 40 biliões de dólares (34,2 biliões de euros). A popularidade de Trump está incrivelmente baixa, rondando os 30 por cento.
Uma das últimas habilidades foi o regresso da reunião da NATO na Turquia quando, perante uma suposta ameaça, o presidente saiu às escondidas do avião oficial para não correr perigo mas deixou os seus colaboradores e jornalistas servirem de isco, entre eles a sua porta-voz que tinha sido mãe há poucas semanas e se demitiu de seguida.
A próxima jogada parece ser retirar aos estados as competências eleitorais a poucas semanas do ato eleitoral, de modo a manipulá-lo à vontade e tentar alterar a lei para correr de novo à Casa Branca. Em suma, Trump está a transformar um país de referência numa república das bananas.
Mas não podemos concentrar-nos em culpar apenas o louco da Sala Oval. Todo o seu círculo próximo tem elevada responsabilidade no estado a que chegou a Casa Branca. E nem sequer os jornalistas são capazes de tomar uma posição conjunta de boicotar a informação da Casa Branca enquanto o cavalheiro os continua a insultar em todas as conferências de imprensa.
É uma vergonha ver um governante dum país (ainda) democrático mandar calar os profissionais da informação e insultá-los com epítetos como “porca”, “falsa” e “uma desgraça”. Ninguém está a ver qualquer presidente republicano ou democrata a fazer nada que se pareça. Basta lembrar Obama, Biden, Clinton, Bush ou George W. Bush para não ir mais para trás.
Trump é o tipo de pessoa altamente tóxica com quem eu nunca deixaria que filhos meus ainda pequenos convivessem, por razões de higiene mental e moral.
Esperanças e utopias
Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-lo a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.
José Saramago, "O caderno"
José Saramago, "O caderno"
O juiz de Deus
O salário, ainda que seja um bom salário, não te dá condições de ter uma vida sem preocupações financeiras. A gente tem que controlar a despesa no dia a dia.
André Mendonça, ministro do Supremo, ganha R$ 46 mil de subsídio por mês
André Mendonça, ministro do Supremo, ganha R$ 46 mil de subsídio por mês
A gramática da catástrofe e o fim do mundo
Há muito tempo aprendemos a reconhecer o fim do mundo. Ele tem uma gramática.
No Apocalipse, chega a cavalo. Conquista, guerra, fome e morte atravessam a Terra como sinais de que o tempo se esgota. A literatura cristã ocidental transformou essa gramática da catástrofe em uma poderosa narrativa de futuro: haverá um dia em que aquilo que conhecemos terminará. Um último dia. Um último julgamento. Um último mundo.
Séculos passaram e continuamos reconhecendo os cavaleiros.
Eles atravessam cidades bombardeadas, campos devastados, rios secos, florestas incendiadas. Chegam com a fome, as epidemias, os deslocamentos forçados, as violências que se acumulam e se sobrepõem. Mudam os cavalos, as armas, as fronteiras, as tecnologias. A gramática permanece. Guerra, fome, peste, seca, morte. E agora, a emergência climática.
A profecia parece estranhamente familiar porque o fim do mundo nunca pertenceu apenas ao futuro.
Em um conto de Dezső Kosztolányi (O fim do mundo), Kornél Esti pergunta a seu interlocutor se ele costuma sonhar com o fim do mundo. A resposta surpreende menos pela frequência do que pela naturalidade. Cinco ou seis vezes por ano ele acaba com o mundo em seus sonhos. E conclui: “Parece que precisamos disso.”
Precisamos imaginar o fim.
A literatura faz isso há séculos. O cinema, a tv e as redes sociais, há menos tempo, porém, com majestática habilidade. Narram o fim, destroem cidades, exterminam civilizações, inventam dilúvios, pestes, alienígenas, monstros e guerras. Derrubam o céu para experimentar o que restaria depois. Kosztolányi parece compreender que imaginar o fim também é uma maneira de pensar sobre o mundo que construímos.
Julio Cortázar escolhe outro caminho. Em "O fim do mundo do fim", o apocalipse perde solenidade e ganha burocracia. A humanidade escreve. Escreve cada vez mais.
Os leitores tornam-se escribas. Multiplicam-se as fábricas de papel e tinta. Os escribas trabalham durante o dia, as máquinas imprimem durante a noite. A produção cresce até ocupar o espaço disponível. Livros acumulam-se, invadem territórios, chegam ao mar.
Cortázar inventou uma imagem quase perfeita do nosso tempo.
Produzir tornou-se uma espécie de prova de existência. Produzimos textos, dados, relatórios, mercadorias, indicadores, imagens, resíduos, informações, metas, avaliações. Criamos os produtores de conteúdo, como se alguém produzisse algo sem ele. Nunca escrevemos tantas mensagens, stories e reels. Produzimos conhecimento e também ruído. Registramos a vida enquanto a vida acontece. Medimos o mundo enquanto o consumimos.
No conto, quando os livros finalmente ocupam espaço demais, encontra-se uma solução perfeitamente racional: lançá-los ao mar. Enquanto isso, presidentes das repúblicas refugiam-se em transatlânticos transformados em ilhas, celebrando grandes festas e trocando mensagens entre si. Na Terra, os escribas sobrevivem precariamente.
É difícil encontrar uma metáfora mais adequada para uma civilização capaz de produzir as condições de sua própria destruição e continuar chamando esse movimento de progresso. Aqui podemos enxergar os bilionários dos combustíveis fósseis e dos data centers, as fazendas de sacrifício de milhões de animais criados para nos alimentar.
Durante muito tempo, aprendemos que a história caminhava para a frente. Desenvolvimento social, crescimento econômico, ciência e tecnologia pareciam conduzir inevitavelmente a mais conhecimento, mais conforto, mais liberdade, mais futuro. A própria ideia de progresso organizou uma linha do tempo na qual alguns povos estavam adiante e outros permaneciam atrás. Os que viviam de outras maneiras receberam nomes conhecidos: atrasados, primitivos, arcaicos, subdesenvolvidos.
O problema dessa linha é que ela termina sempre no mesmo lugar.
Existe um único destino desejável, uma única forma de desenvolvimento, uma única relação possível com a natureza, uma única ideia de riqueza, uma única medida de sucesso. Para chegar até lá, florestas podem cair, rios podem morrer, povos podem desaparecer. Tudo cabe na contabilidade do progresso.
É uma curiosa pedagogia do fim do mundo. Ensina-se que destruir certos mundos é o preço necessário para construir o mundo. Por isso a pergunta precisa mudar. De que mundo estamos falando quando falamos do fim do mundo?
Para muitos povos, o mundo já acabou. Acabou quando perderam seus territórios. Quando suas línguas desapareceram. Quando suas crianças foram arrancadas de suas comunidades. Quando seus conhecimentos foram tratados como superstição. Quando seus deuses receberam o nome de demônios. Quando suas maneiras de viver foram transformadas em atraso e suas terras, em recursos.
O fim do mundo, para milhões de pessoas, nunca foi uma hipótese distante. É experiência histórica e ameaça cotidiana: o desaparecimento de línguas, culturas, cosmovisões, práticas, saberes, territórios, identidades e, no limite, dos próprios corpos.
É por isso que Ailton Krenak respondeu de maneira tão desconcertante quando lhe perguntaram, em 2018, como os povos indígenas sobreviveriam àquilo que se anunciava no Brasil. Há quinhentos anos os povos indígenas resistem, respondeu. Sua preocupação era outra: como os brancos escapariam dessa?
A resposta-pergunta, astuta e disruptiva, inverte a gramática da catástrofe.
Quem imaginava estar conduzindo a humanidade ao futuro descobre-se incapaz de garantir o próprio futuro. Quem foi inúmeras vezes declarado condenado ao desaparecimento conhece há séculos tecnologias de sobrevivência, memória e resistência.
O fim do mundo muda de lugar. E muda também de tempo.
Ele deixa de ser apenas o grande acontecimento futuro que encerrará a história e passa a ser compreendido como experiência repetida. Mundos acabam todos os dias. Alguns desaparecem silenciosamente. Outros sobrevivem porque alguém conta uma história, ensina uma língua, preserva uma memória, planta novamente, canta, dança, escreve, cuida, lembra.
É nesse ponto que a gramática da catástrofe encontra outra gramática: a gramática do adiamento.
Ailton Krenak propõe adiar o fim do mundo ampliando nossa experiência, reconhecendo outras formas de estar aqui, contando mais uma história. Adiar significa abrir espaço para outros presentes e, com eles, outros futuros. Chama atenção para essa possibilidade de ampliar o presente, retirando do futuro único o poder de condenar todas as experiências que seguem outros caminhos.
É aqui que entram as escolas.
Todos os dias, milhões de crianças e jovens entram em salas de aula levando mundos consigo. Levam histórias de suas famílias, territórios, religiões, culturas, músicas, medos, desejos, conhecimentos, palavras e perguntas. Encontram professores que também carregam seus mundos. E dessa conversa, sempre imperfeita, surgem conhecimentos que nenhum documento curricular conseguiria prever por inteiro.
Currículo é também isso: o encontro entre mundos, o fim de uns mundos e o sonho com outros. Sonhar com outros mundos possíveis é parte do currículo escolar todos os dias.
Uma professora altera o planejamento porque uma criança fez uma pergunta. Uma história contada por uma avó entra na sala. Um evento climático extremo na cidade muda a aula. Uma palavra desconhecida obriga todos a pesquisar. Um conflito exige conversa. Uma memória reaparece. Um conhecimento que permanecia do lado de fora encontra lugar.
São acontecimentos pequenos diante dos cavaleiros do Apocalipse.
Ainda assim, carregam uma enorme força política.
A escola pode funcionar como máquina de repetição da história única, ensinando que existe um conhecimento legítimo, uma cultura superior, um caminho correto e um futuro já desenhado. Também pode transformar-se em lugar onde muitas histórias encontram condições de existir. Contar histórias é também enfrentar genocídios porque todo genocídio começa ou se completa tentando apagar histórias.
Essa segunda escola interessa especialmente quando o mundo parece diminuir.
Nos cotidianos escolares, professores criam currículos aproveitando as ocasiões que aparecem, inventando aquilo que cada circunstância pede e possibilita. Seus currículos são feitos de conhecimentos pessoais, sociais e culturais colocados em conversa. É nessa criação cotidiana que a escola amplia o mundo em vez de reduzi-lo.
Podemos chamá-las de escolas da gramática do adiamento.
Uma escola que conta para conhecer e conta para existir. Que entende cada história como presença e cada presença como possibilidade de mundo. Uma escola capaz de ensinar que nenhuma narrativa esgota a experiência humana e que o futuro permanece aberto enquanto pudermos imaginar mais de um.
Contar histórias, nesse sentido, é enfrentar apagamentos.
É guardar mundos e adiar seu fim.
É oferecer às crianças aquilo que toda gramática da catástrofe tenta sequestrar primeiro: a possibilidade de imaginar futuro.
Há uma ironia bonita em voltar, então, a Cortázar. Seus escribas escreveram tanto que acabaram soterrados pela própria escrita. As escolas da gramática do adiamento fazem outro movimento. Escrever para circular. Contar para encontrar. Escutar para aprender. Guardar aquilo que merece atravessar o tempo e abrir espaço para aquilo que ainda não foi contado.
Porque o fim do mundo é antigo. A sabedoria está em aprender a adiá-lo.
Krenak lembra que povos submetidos a sucessivos fins do mundo continuam aqui. Empurraram o céu para cima, produziram resistência, preservaram histórias e inventaram maneiras de continuar. Em nossos trabalhos sobre educação, essa imagem já nos levou a pensar escolas e outros espaços educativos como lugares capazes de empurrar o céu para cima e adiar o fim do mundo.
Essa é uma das tarefas mais bonitas da educação.
Ensinar que o mundo pode ser contado de muitas maneiras.
Fazer circular histórias que sobreviveram às tentativas de apagamento.
Criar condições para que histórias ainda desconhecidas possam nascer. Assim fizemos nas escolas, quando, ainda recentemente, a pandemia de Covid acabava com o mundo de forma catastrófica e, nas escolas, tentávamos adiar seu fim, fosse contando sobre os vivos, ou homenageando os mortos.
E, enquanto os velhos cavaleiros apocalípticos continuam atravessando o presente, manter aberta uma escola onde caibam muitos mundos é uma gramática anti-catástrofe.
Contar mais uma história pode ser apenas isso: adiar o fim do mundo por mais um dia.
Maria Luiza Süssekind
No Apocalipse, chega a cavalo. Conquista, guerra, fome e morte atravessam a Terra como sinais de que o tempo se esgota. A literatura cristã ocidental transformou essa gramática da catástrofe em uma poderosa narrativa de futuro: haverá um dia em que aquilo que conhecemos terminará. Um último dia. Um último julgamento. Um último mundo.
Séculos passaram e continuamos reconhecendo os cavaleiros.
Eles atravessam cidades bombardeadas, campos devastados, rios secos, florestas incendiadas. Chegam com a fome, as epidemias, os deslocamentos forçados, as violências que se acumulam e se sobrepõem. Mudam os cavalos, as armas, as fronteiras, as tecnologias. A gramática permanece. Guerra, fome, peste, seca, morte. E agora, a emergência climática.
A profecia parece estranhamente familiar porque o fim do mundo nunca pertenceu apenas ao futuro.
Em um conto de Dezső Kosztolányi (O fim do mundo), Kornél Esti pergunta a seu interlocutor se ele costuma sonhar com o fim do mundo. A resposta surpreende menos pela frequência do que pela naturalidade. Cinco ou seis vezes por ano ele acaba com o mundo em seus sonhos. E conclui: “Parece que precisamos disso.”
Precisamos imaginar o fim.
A literatura faz isso há séculos. O cinema, a tv e as redes sociais, há menos tempo, porém, com majestática habilidade. Narram o fim, destroem cidades, exterminam civilizações, inventam dilúvios, pestes, alienígenas, monstros e guerras. Derrubam o céu para experimentar o que restaria depois. Kosztolányi parece compreender que imaginar o fim também é uma maneira de pensar sobre o mundo que construímos.
Julio Cortázar escolhe outro caminho. Em "O fim do mundo do fim", o apocalipse perde solenidade e ganha burocracia. A humanidade escreve. Escreve cada vez mais.
Os leitores tornam-se escribas. Multiplicam-se as fábricas de papel e tinta. Os escribas trabalham durante o dia, as máquinas imprimem durante a noite. A produção cresce até ocupar o espaço disponível. Livros acumulam-se, invadem territórios, chegam ao mar.
Cortázar inventou uma imagem quase perfeita do nosso tempo.
Produzir tornou-se uma espécie de prova de existência. Produzimos textos, dados, relatórios, mercadorias, indicadores, imagens, resíduos, informações, metas, avaliações. Criamos os produtores de conteúdo, como se alguém produzisse algo sem ele. Nunca escrevemos tantas mensagens, stories e reels. Produzimos conhecimento e também ruído. Registramos a vida enquanto a vida acontece. Medimos o mundo enquanto o consumimos.
No conto, quando os livros finalmente ocupam espaço demais, encontra-se uma solução perfeitamente racional: lançá-los ao mar. Enquanto isso, presidentes das repúblicas refugiam-se em transatlânticos transformados em ilhas, celebrando grandes festas e trocando mensagens entre si. Na Terra, os escribas sobrevivem precariamente.
É difícil encontrar uma metáfora mais adequada para uma civilização capaz de produzir as condições de sua própria destruição e continuar chamando esse movimento de progresso. Aqui podemos enxergar os bilionários dos combustíveis fósseis e dos data centers, as fazendas de sacrifício de milhões de animais criados para nos alimentar.
Durante muito tempo, aprendemos que a história caminhava para a frente. Desenvolvimento social, crescimento econômico, ciência e tecnologia pareciam conduzir inevitavelmente a mais conhecimento, mais conforto, mais liberdade, mais futuro. A própria ideia de progresso organizou uma linha do tempo na qual alguns povos estavam adiante e outros permaneciam atrás. Os que viviam de outras maneiras receberam nomes conhecidos: atrasados, primitivos, arcaicos, subdesenvolvidos.
O problema dessa linha é que ela termina sempre no mesmo lugar.
Existe um único destino desejável, uma única forma de desenvolvimento, uma única relação possível com a natureza, uma única ideia de riqueza, uma única medida de sucesso. Para chegar até lá, florestas podem cair, rios podem morrer, povos podem desaparecer. Tudo cabe na contabilidade do progresso.
É uma curiosa pedagogia do fim do mundo. Ensina-se que destruir certos mundos é o preço necessário para construir o mundo. Por isso a pergunta precisa mudar. De que mundo estamos falando quando falamos do fim do mundo?
Para muitos povos, o mundo já acabou. Acabou quando perderam seus territórios. Quando suas línguas desapareceram. Quando suas crianças foram arrancadas de suas comunidades. Quando seus conhecimentos foram tratados como superstição. Quando seus deuses receberam o nome de demônios. Quando suas maneiras de viver foram transformadas em atraso e suas terras, em recursos.
O fim do mundo, para milhões de pessoas, nunca foi uma hipótese distante. É experiência histórica e ameaça cotidiana: o desaparecimento de línguas, culturas, cosmovisões, práticas, saberes, territórios, identidades e, no limite, dos próprios corpos.
É por isso que Ailton Krenak respondeu de maneira tão desconcertante quando lhe perguntaram, em 2018, como os povos indígenas sobreviveriam àquilo que se anunciava no Brasil. Há quinhentos anos os povos indígenas resistem, respondeu. Sua preocupação era outra: como os brancos escapariam dessa?
A resposta-pergunta, astuta e disruptiva, inverte a gramática da catástrofe.
Quem imaginava estar conduzindo a humanidade ao futuro descobre-se incapaz de garantir o próprio futuro. Quem foi inúmeras vezes declarado condenado ao desaparecimento conhece há séculos tecnologias de sobrevivência, memória e resistência.
O fim do mundo muda de lugar. E muda também de tempo.
Ele deixa de ser apenas o grande acontecimento futuro que encerrará a história e passa a ser compreendido como experiência repetida. Mundos acabam todos os dias. Alguns desaparecem silenciosamente. Outros sobrevivem porque alguém conta uma história, ensina uma língua, preserva uma memória, planta novamente, canta, dança, escreve, cuida, lembra.
É nesse ponto que a gramática da catástrofe encontra outra gramática: a gramática do adiamento.
Ailton Krenak propõe adiar o fim do mundo ampliando nossa experiência, reconhecendo outras formas de estar aqui, contando mais uma história. Adiar significa abrir espaço para outros presentes e, com eles, outros futuros. Chama atenção para essa possibilidade de ampliar o presente, retirando do futuro único o poder de condenar todas as experiências que seguem outros caminhos.
É aqui que entram as escolas.
Todos os dias, milhões de crianças e jovens entram em salas de aula levando mundos consigo. Levam histórias de suas famílias, territórios, religiões, culturas, músicas, medos, desejos, conhecimentos, palavras e perguntas. Encontram professores que também carregam seus mundos. E dessa conversa, sempre imperfeita, surgem conhecimentos que nenhum documento curricular conseguiria prever por inteiro.
Currículo é também isso: o encontro entre mundos, o fim de uns mundos e o sonho com outros. Sonhar com outros mundos possíveis é parte do currículo escolar todos os dias.
Uma professora altera o planejamento porque uma criança fez uma pergunta. Uma história contada por uma avó entra na sala. Um evento climático extremo na cidade muda a aula. Uma palavra desconhecida obriga todos a pesquisar. Um conflito exige conversa. Uma memória reaparece. Um conhecimento que permanecia do lado de fora encontra lugar.
São acontecimentos pequenos diante dos cavaleiros do Apocalipse.
Ainda assim, carregam uma enorme força política.
A escola pode funcionar como máquina de repetição da história única, ensinando que existe um conhecimento legítimo, uma cultura superior, um caminho correto e um futuro já desenhado. Também pode transformar-se em lugar onde muitas histórias encontram condições de existir. Contar histórias é também enfrentar genocídios porque todo genocídio começa ou se completa tentando apagar histórias.
Essa segunda escola interessa especialmente quando o mundo parece diminuir.
Nos cotidianos escolares, professores criam currículos aproveitando as ocasiões que aparecem, inventando aquilo que cada circunstância pede e possibilita. Seus currículos são feitos de conhecimentos pessoais, sociais e culturais colocados em conversa. É nessa criação cotidiana que a escola amplia o mundo em vez de reduzi-lo.
Podemos chamá-las de escolas da gramática do adiamento.
Uma escola que conta para conhecer e conta para existir. Que entende cada história como presença e cada presença como possibilidade de mundo. Uma escola capaz de ensinar que nenhuma narrativa esgota a experiência humana e que o futuro permanece aberto enquanto pudermos imaginar mais de um.
Contar histórias, nesse sentido, é enfrentar apagamentos.
É guardar mundos e adiar seu fim.
É oferecer às crianças aquilo que toda gramática da catástrofe tenta sequestrar primeiro: a possibilidade de imaginar futuro.
Há uma ironia bonita em voltar, então, a Cortázar. Seus escribas escreveram tanto que acabaram soterrados pela própria escrita. As escolas da gramática do adiamento fazem outro movimento. Escrever para circular. Contar para encontrar. Escutar para aprender. Guardar aquilo que merece atravessar o tempo e abrir espaço para aquilo que ainda não foi contado.
Porque o fim do mundo é antigo. A sabedoria está em aprender a adiá-lo.
Krenak lembra que povos submetidos a sucessivos fins do mundo continuam aqui. Empurraram o céu para cima, produziram resistência, preservaram histórias e inventaram maneiras de continuar. Em nossos trabalhos sobre educação, essa imagem já nos levou a pensar escolas e outros espaços educativos como lugares capazes de empurrar o céu para cima e adiar o fim do mundo.
Essa é uma das tarefas mais bonitas da educação.
Ensinar que o mundo pode ser contado de muitas maneiras.
Fazer circular histórias que sobreviveram às tentativas de apagamento.
Criar condições para que histórias ainda desconhecidas possam nascer. Assim fizemos nas escolas, quando, ainda recentemente, a pandemia de Covid acabava com o mundo de forma catastrófica e, nas escolas, tentávamos adiar seu fim, fosse contando sobre os vivos, ou homenageando os mortos.
E, enquanto os velhos cavaleiros apocalípticos continuam atravessando o presente, manter aberta uma escola onde caibam muitos mundos é uma gramática anti-catástrofe.
Contar mais uma história pode ser apenas isso: adiar o fim do mundo por mais um dia.
Maria Luiza Süssekind
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