O debate político entre Lula e Flávio Bolsonaro na TV Bandeirantes (Band), no domingo, foi de péssima qualidade. Flávio Bolsonaro não queria discutir problemas, mas apenas, comportando como um moleque, desestabilizar Lula. Parecia uma intriga de botequim. Lula despertou tarde demais. E teve que suportar uma inimaginável falta de respeito e de civilidade. As urnas dirão.
Em todos os casos, nestas eleições de 2026, joga-se o destino do Brasil. Um dos candidatos à Presidência, de forma antipatriótica, propõe um Brasil desavergonhadamente subserviente aos Estados Unidos de Donald Trump. Aplaudiu o tarifaço contra nossa economia. Caso ganhe a eleição – que a desgraça não aconteça – propôs que técnicos norte-americanos ajudem na fase de transição do governo Lula ao seu. Deste modo, o alinhamento à política e aos interesses norte-americanos estaria garantido. Ademais entregaria de bandeja nossas terras ricas e outros minerais com funções estratégicas.
Uma pessoa com intenções neocoloniais e entreguistas jamais poderia apresentar-se como candidato ao mais alto cargo da nação. Se nossa justiça realmente funcionasse menos para os interesses das elites e mais para os coletivos do povo brasileiro, o lugar deste pretendente seria a prisão por crime se corrupção, de lesa-pátria e de traição: Flávio Bolsonaro.
Se esse candidato de viés conservador e até fascista como seu pai – preso por tentativa de golpe – sair eleito, preparemo-nos para o pior, especialmente os submetidos à pobreza, os operários e funcionários públicos. Sofreriam as universidades, os centros técnicos e de pesquisa que veriam seus subsídios encurtados ou anulados. A ecologia, os indígenas, os quilombolas e as mulheres seriam temas rebaixados ou ausentes. Sem falar nas artes e na liberdade de expressão. Voltaríamos à situação de colônia, um país subalternizado, cuja identidade lhe fora sequestrada.
É ponto de honra e sinal de amor à pátria derrotar esse inimigo da pátria, e o projeto antinacional que representa.
O outro candidato, vindo dos fundões do Brasil e sobrevivente da fome e da miséria, já cuidou de nossa gente por três vezes, introduzindo mudanças, jamais feitas em nossa país, em favor dos mais marginalizados com políticas sociais eficazes a ponto de tirar, segundo a ONU, o Brasil do mapa da fome, pois seu antecessor golpista deixara 33 milhões passando fome e vivendo na miséria.
Desmontou em termos culturais, educacionais e trabalhistas e outras políticas públicas quase tudo o que se havia conquistado durante séculos.
O presidente Lula, opositor de Flávio Bolsonaro, comparece como um dos protagonistas do multilateralismo e do conjunto dos países do Grande Sul que compõe os BRICS. Consciente de nossa soberania e da importância estratégico-ecológica de nosso pais, foi, inicialmente, o primeiro chefe de Estado que se opôs à arrogância de Donald Trump,cuja estratégia consiste em submeter os demais países com ameaças econômicas e eventualmente militares. Lula deixou claro que o “Brasil não cabe como quintal de nenhum país”.
Com senso de equilíbrio sustenta relações diplomáticas e comerciais com os EUA e simultaneamente com a China, sem dar nenhum sinal de submissão, mas de soberania e de liberdade ao estabelecer o caminho brasileiro rumo à sua autonomia e desenvolvimento sustentável, preservando o mais que pode a floresta da Amazônia que regula os climas da maioria dos países. Sua proteção é fundamental para o equilíbrio ecológico de todo o planeta.
Negocia com liberdade com dezenas de países. Na arena internacional grangeou mais e mais admiração por sua capacidade de diálogo e de respeitabilidade face às suas sugestões dos problemas da humanidade.
Não poderemos de forma alguma que essa herança política e humanitária se perca e o destino do país seja entregue a alguém que não ama o Brasil e preferiria que fosse parte do destino dos EUA, hoje posto em discussão por seu processo irrefreável de decadência.
A nossa luta é romper com a dependência colonial e neocolonial de outros centros de poder e de fortalecer a fundação de um outro tipo de país, que albergue a todos os seus habitantes com dignidade e esteja aberto, dadas as ameaças que pesam sobre o planeta Terra, às fomes e sedes do mundo inteiro. Daí a importância decisiva da reeleição de Lula. Não é uma questão apenas nacional, mas de dimensões planetárias.
Nossa missão é manter essa luz acessa, alimentá-la e não permitir que trilhemos um caminho que nos levará a um abismo. Esta seria a tragédia, caso seu opositor vencer e que nada fez para o povo brasileiro, senão colocá-lo sob a canga de uma potência militarmente poderosíssima, mas paupérrima em termos de humanidade, de colaboração para um destino feliz para o planeta Terra, para os povos e para o nosso país.
Leonardo Boff
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
'Flávio causaria calote geral de R$ 3 trilhões'
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a proposta de Flávio Bolsonaro de suspender o pagamento de dívidas por seis meses para pessoas físicas e por um ano para empresas provocaria um “calote geral” no sistema de crédito brasileiro. Em entrevista ao programa Agora Metrópoles, do qual este colunista é comentarista, o ministro estimou em R$ 3 trilhões o volume de pagamentos que deixariam de chegar às instituições financeiras nesses períodos. “É muito grave isso que está sendo proposto e é de impossível implementação”, disse.
A crítica de Durigan vai além do custo de uma promessa de campanha. Na avaliação do ministro, interromper os recebimentos dos bancos, fundos e fintechs comprometeria a capacidade dessas instituições de oferecer novos financiamentos e até de honrar compromissos com investidores. A consequência, segundo ele, chegaria a quem precisa financiar uma casa ou obter recursos para a produção rural. “Não vai ter crédito para moradia, não vai ter crédito para o agronegócio financiar a safra”, afirmou.
Durigan também acusou Flávio de copiar iniciativas do governo Lula e acrescentar promessas sem explicar como seriam executadas. Citou a renegociação de dívidas, a proposta apresentada pelo candidato como “Vira Pix” e a defesa da retomada do Perse, programa de benefícios ao setor de eventos. Ao tratar da devolução de impostos às famílias de baixa renda, trouxe espontaneamente à conversa o cashback da reforma tributária. Para o ministro, há uma diferença entre anunciar um benefício na campanha e ter uma medida aprovada pelo Congresso: “Não estamos falando de uma promessa, de um slogan vazio”.
Questionado sobre o pacote de bondades anunciado por Lula na tentativa de virar a eleição, Durigan rejeitou a avaliação de que as medidas tenham caráter eleitoral. Sustentou que o governo encontrou espaço no Orçamento sem mudar as regras fiscais e que os subsídios aos combustíveis são financiados pela arrecadação adicional associada à alta do petróleo. Não apresentou, porém, um valor consolidado para o impacto do conjunto das iniciativas no ano que vem. Afirmou que a proposta orçamentária prevê superávit e já considera os anúncios do presidente.
Na entrevista, o ministro ainda detalhou mudanças voltadas aos pequenos negócios, como a ampliação do teto de faturamento do MEI, dos limites de crédito e da participação de pequenos empreendedores nas compras públicas. A defesa dessas medidas veio acompanhada de uma disputa sobre o legado econômico dos dois governos. Durigan disse que a gestão Lula melhorou as contas públicas em relação à de Jair Bolsonaro e acusou a campanha de Flávio de apresentar propostas incompatíveis com o ajuste defendido por sua própria equipe. Leia a entrevista, editada para clareza.
Ministro, o presidente sancionou a Lei Prospera MEI. O que muda para quem tem um pequeno negócio? A lei prevê um apoio de até R$ 5 mil, com prioridade para as mulheres. Queria entender o porquê disso também. E alguém que trabalha na informalidade, por conta própria, pode se beneficiar dessa lei?
Matheus, ótimo você falar disso. O foco do presidente, que não é de agora, é ampliar o crédito para o pequeno negócio com várias tecnologias de oferecer garantia pública. Uma das dores do pequeno empreendedor do Brasil é acessar o mercado de crédito e, uma vez que acessa, tomar juros em condições razoáveis, condições civilizadas, o que no Brasil sempre foi um desafio. A gente procura estar do lado do empreendedor para oferecer esse tipo de solução.
O que está mudando é a jornada do empreendedor. Quando a gente olha para toda a jornada, estamos fazendo com que a informalidade no Brasil caia, dando opção, dando oportunidade. O mercado de trabalho está aquecido, então tem opção no mercado de trabalho formal para quem quer entrar num modelo mais clássico, como o da CLT. Quem quer empreender no Brasil hoje tem mais facilidade do que em qualquer momento anterior do país.
Com a lei de ontem, o presidente aumenta o teto do MEI. Lembrando que esse projeto de lei o presidente apresentou no começo do ano, ali em março, abril, numa conversa com os líderes do Congresso. Eu participei. O Congresso aprova agora o aumento do limite do MEI, que sai de R$ 81 mil por ano de faturamento para R$ 110 mil em janeiro e, em 2028, vai para R$ 140 mil.
O empreendedor pode crescer, não precisa ter medo de crescer. Pode faturar mais sem ser desenquadrado dessa tributação mais baixa. Lembrando, Matheus, que foi o presidente quem criou esses programas de empreendedorismo no Brasil: o Simples Nacional e depois o MEI.
Neste ano, no Procred e no Pronampe, que são duas linhas de crédito, o limite por operação para o pequeno empreendedor era de R$ 250 mil e foi para R$ 500 mil. Convido o empreendedor que nos assiste a procurar o Banco do Brasil, por exemplo, onde acompanho a execução desses programas.
Por que isso aconteceu? A gente identificou que o endividamento do empreendedor não vinha dessas linhas que têm garantia do governo com o FGO. Vinha porque o empreendedor às vezes precisava tomar um pouco mais de R$ 200 mil e usava linhas caras dos bancos. Ampliamos o limite para que ele tenha acesso a um crédito bom.
O empreendedor que quer crescer pode tomar um crédito bom, faturar mais e agora contratar mais um empregado sem se desenquadrar. Com tudo isso, vamos criando uma jornada de empreendedorismo, incentivando quem tem vontade de abrir o próprio negócio, que é a vontade de muita gente no Brasil: não querer ter patrão, querer prosperar na vida. Isso vai ficando cada vez mais fácil.
E aí adiciono o último item que foi sancionado ontem pelo presidente no Prospera: a obrigação de o poder público contratar o pequeno empreendedor. Quando a gente olha para a nossa sociedade, para o comércio de bairro, para quem tem loja de material de construção, de entrega, de distribuição, todo o poder público — governo federal, estados, municípios e autarquias — tinha que contratar obrigatoriamente um pequeno empreendedor numa licitação de até R$ 80 mil. Expandimos isso para R$ 130 mil.
Em vez de contratar uma grande empresa que eventualmente pode ter ganho de escala, você contrata um pequeno empreendedor para fomentar o comércio de bairro e esses pequenos negócios. Todo o esforço tem sido para dar oportunidade, deixar mais claro, mais simples, mais digital, para que o pequeno empreendedor tenha opções de trabalho.
Ministro, queria trazer outra pergunta para a nossa conversa. O presidente Lula acabou lançando um grande pacote de bondades para tentar virar a eleição: compra de dívidas no Desenrola 3, quitação de dívidas dos MEIs, subsídio aos combustíveis. Não é problemático anunciar essas medidas durante o processo eleitoral? E qual será, de fato, o impacto fiscal desse pacote no ano que vem?
Olha, Matheus, eu tenho uma discrepância com essa avaliação. O que o presidente Lula fez neste ano, ele fez dentro de um marco fiscal, sem alterar as regras fiscais do país, encontrando espaços e definindo prioridades de alocação.
Vamos pensar na questão dos combustíveis. Não foi uma medida eleitoral, porque começamos a fazer isso por causa da guerra do Irã. O que motivou o governo a fazer essa espécie de subvenção e depois desoneração dos tributos para diesel e gasolina, em grande medida, foi esse contexto da guerra do Irã causada pelo Trump.
Está aí todo mundo acompanhando para entender de que lado está o Trump na história, quem está apoiando a guerra e as consequências desastrosas dela para a economia do mundo.
O que nós reparamos? Como o Brasil, em razão de ter pré-sal, biocombustíveis, a política do etanol e do biodiesel, é resiliente, a gente ia arrecadar mais com o aumento do petróleo.
E qual foi a decisão do presidente? Pô, o Estado brasileiro vai arrecadar mais em razão do aumento do preço, mas as pessoas vão ter que pagar um valor muito maior pelo combustível. E não só pelo combustível. A agricultura tem problema com insumos. Foi feita uma lei para dar benefício às empresas de fertilizantes, justamente para manter essa oferta de nitrogenados para o agronegócio.
Quando a gente olha para as pessoas, não é só o combustível: a comida ia ficar mais cara, o transporte público ia ter que ser reajustado, ia criar um problema para as prefeituras das cidades brasileiras.
Então, o que nós fizemos? Usamos esse ganho adicional de receita. Como o Brasil hoje é autossuficiente em petróleo, exportador líquido de óleo, usamos essas entradas. Quem estava vendendo óleo estava pagando royalties para a União. Empresas como a Petrobras, lucrando mais e vendendo óleo mais caro, pagam mais tributos ao governo.
A gente simplesmente destacou essa receita que estava fora da previsão e está fazendo subsídio ou desoneração no diesel e na gasolina. Desde março, abril, fazemos isso. Se você pegar a variação do diesel e da gasolina no mundo, o Brasil está entre os países com menor variação.
Agora tem uma frente de fiscalização muito importante da ANP e dos Procons nos estados para identificar se há distribuidoras e postos fazendo margem abusiva, vendendo mais caro, mesmo com a sociedade brasileira, por meio do governo, fazendo esse tipo de ajuda.
Então, a questão do combustível está equilibrada do ponto de vista fiscal. Sobre o Bolsa Família, muita gente inclusive diz: “Por que vocês não fizeram antes?”. Bom, a gente não fez antes porque não tinha espaço fiscal. Fomos fazendo uma série de revisões e encontramos espaço para recompor a inflação acumulada e garantir o poder de compra dos beneficiários.
É muito diferente do que foi feito em 2022. No governo Bolsonaro, retiraram tributos dos estados sobre combustíveis sem conversar com os estados. Depois, fomos eu e o ministro Haddad que pagamos aos governadores uma restituição em 2023.
Lá em 2022, deram calote em precatórios e aumentaram o benefício de R$ 400 para R$ 600 só no período eleitoral. O Orçamento de 2023 não tinha previsão para manter esse valor.
Tudo o que tem sido feito agora está numa esteira de racionalidade fiscal e de racionalidade do projeto do presidente Lula. Se houve o cancelamento de dívidas dos microempreendedores individuais, foi porque houve uma constatação técnica de que a recuperação daqueles valores inscritos em dívida ativa, com encargos muito elevados, não teria chance de acontecer. Estávamos impedindo o crédito para o pequeno empreendedor sem que ele tivesse condição de pagar essa dívida.
O Desenrola é um projeto de maturação e tratamento dessas dívidas que, de novo, Matheus, começaram lá na pandemia. Imagina o trabalhador informal, o empreendedor que teve que fechar o negócio, que vendia cachorro-quente e precisou parar de vender. O que aconteceu com essas pessoas, sem uma ajuda racional do governo de então? Se endividaram.
Claro que, com a taxa de juros brasileira alta, é difícil sair dessa dívida. As etapas do Desenrola são para tratar essa dívida e dar condições para as pessoas recomeçarem. Esse é o projeto. Fizemos isso em 2023, depois em 2026. Não tem mudança de direção, e seguimos acompanhando para estar do lado do povo que mais precisa.
Temos que reconhecer: se há uma guerra neste ano, como houve em 2022, é responsabilidade do governo atuar de modo responsável para mitigar seus efeitos e não fazer a família pobre brasileira sofrer por uma guerra do Trump, que é apoiado pelo Flávio.
Eu garanto para quem nos assiste que, por mais que exista todo o debate por conta do contexto eleitoral, de que as medidas podem ter um viés eleitoral, elas não tiveram. Têm compatibilidade fiscal e uma lógica de execução. Muitas foram apresentadas antes mesmo de começar o período eleitoral.
Ministro, de fato, concordo com o senhor sobre a herança fiscal que Jair Bolsonaro deixou para o governo Lula. Queria perguntar sobre isso na última questão. Flávio Bolsonaro me parece estar querendo copiar algumas propostas do presidente Lula, como a compra de dívidas com desconto, mas acrescentou o congelamento do saldo restante por seis meses para pessoas físicas e por um ano para empresas. É possível fazer isso? Esse congelamento não teria um impacto fiscal ainda mais elevado?
Olha, Matheus, eu preciso ser muito franco e direto com você e com quem nos acompanha, por honestidade intelectual e de civilidade mesmo. Não teve nada no governo Bolsonaro que se compare ao que a gente fez no governo do presidente Lula. Nada.
Não vou nem ficar falando do quanto tiramos as pessoas da pobreza, da volta da comida ao prato, da educação valorizada. Não vou falar da saúde, de como recuperamos o SUS, da valorização dos profissionais e do próprio atendimento. Sempre com problemas, sempre para avançar, mas melhoramos muito.
O que muita gente às vezes não compreende bem, pelo discurso fácil que vem do Flávio Bolsonaro, é que, na parte fiscal, que parece ser tão cara à dita equipe econômica dele, também fomos melhores que o governo Bolsonaro.
O governo Bolsonaro, para ser franco e direto, recebeu do governo Temer um déficit de algo como R$ 200 bilhões. Entregou para o presidente Lula um déficit de R$ 189 bilhões. Então, assim, do que nós estamos falando? Não teve avanço. Eles não conseguiram implementar uma agenda que apresentaram ao país.
Inclusive, foi uma agenda que não teve ganho para o salário das pessoas. O alimento subiu muito lá atrás. Hoje, se as pessoas reclamam do preço dos alimentos, é porque o patamar subiu bastante durante o governo Bolsonaro. Ainda que suba pouco, com inflação baixa no governo do presidente Lula, ela se acumula sobre o que herdamos.
Também na parte fiscal, estamos entregando uma previsão de superávit para o ano que vem no Orçamento, considerando todas essas medidas que o presidente anunciou. Estamos com um bloqueio no Orçamento deste ano de R$ 16 bilhões. É ano de eleição.
Em vez de dar calote nas pessoas que tinham precatórios a receber, decisões judiciais transitadas em julgado, que ninguém discute e que o Estado tem que pagar, como fez o governo Bolsonaro, estamos falando de outro patamar de resolução de problemas.
Com todas as dificuldades da guerra e do endividamento do país, estamos deixando para o próximo governo, qualquer que seja ele, uma previsão de superávit com tudo colocado. Tudo colocado.
Você pega os precatórios, os subsídios aos combustíveis, o reajuste da inflação do Bolsa Família, as propostas que o presidente apresentou agora, como o passe livre no fim de semana, que tem que ser custeado com emenda parlamentar. Está dada a fonte de receita. Não tem irresponsabilidade fiscal em nenhum momento.
Quando o Congresso foi irresponsável do ponto de vista fiscal, fomos ao Supremo e ganhamos. Também do ponto de vista fiscal, melhoramos em R$ 200 bilhões a conta do Brasil em relação ao governo Bolsonaro, que não mexeu a agulha do que recebeu do governo Temer.
Então, do que estamos falando agora? De seguir confiando em quem entrega, em quem tem capacidade de diálogo e de construção de resultado concreto para as pessoas.
Uma das coisas que o Flávio falou, que você mencionou: primeiro, ele copiou o que a gente já fez no Desenrola. Eu vi que ele comentou: “Vai ter parcelas menores que cabem no bolso”. Bom, isso o Desenrola já fez há muito tempo. Não tem novidade. É basicamente copiar o que o Lula fez.
Quando ele fala que vai propor que pessoa física fique seis meses sem pagar suas dívidas e pessoa jurídica fique um ano sem pagar, está basicamente propondo um calote geral para o sistema de crédito brasileiro. Não é possível fazer isso.
Nenhum governo tem essa condição de dizer que todas as empresas do sistema financeiro, sejam os grandes bancos, sejam os pequenos fundos, os FIDCs, as fintechs, qualquer que seja… Se você quebra o fluxo esperado de recebimentos dessas empresas, elas não vão dar crédito para nada.
Então, não vai ter crédito para moradia, não vai ter crédito para o agronegócio financiar a safra. Mais que isso: como os bancos e as instituições financeiras deixam de receber o que estão esperando — e estou falando de R$ 3 trilhões, considerando seis meses sem pagamentos de pessoas físicas e um ano de pessoas jurídicas —, você coloca inclusive o sistema financeiro em dificuldade para honrar obrigações básicas.
Pagar um CDB de um investidor pessoa física, pagar um investimento com vencimento próximo. Isso é um grande calote na economia brasileira. É muito grave o que está sendo proposto e é de impossível implementação. Te digo isso.
Então, de novo, mais uma vez ele apareceu com outra proposta, falando do “Vira Pix”. Ninguém entendeu o que é, quem vai ter direito, quanto vai ser esse benefício, enquanto a gente já aprovou em emenda constitucional e em lei o cashback da reforma tributária.
E o cashback da reforma tributária? Como funciona?
Quando falo cashback, é devolver o dinheiro da família de baixa renda que pagou tributos no dia a dia. O que fizemos na reforma tributária? Pô, a tributação do consumo no Brasil é muito regressiva. Todo mundo fala isso. Eu lembro inclusive de ex-ministro do Bolsonaro falando.
O que isso quer dizer? Quem é pobre e quem é rico pagam nominalmente o mesmo valor quando consomem, mas isso pesa muito mais proporcionalmente para o mais pobre. Então, o mais pobre paga proporcionalmente mais tributo no Brasil do que o mais rico.
Na nossa reforma tributária do consumo, tiramos o tributo da cesta básica para todo mundo. Não vai ter tributo estadual nem federal nos itens da cesta básica, inclusive a carne. Isso já garante poder de compra para quem tem que comprar comida.
Para a família de baixa renda, tem devolução. É um Pix na conta da família que paga por algumas coisas que ainda terão tributo no consumo. Vamos devolver o tributo para o sistema ser menos regressivo.
Por fim, nas contas de água, luz, esgoto e na compra do botijão de gás para a família de baixa renda, vamos isentar do imposto federal. Vamos redistribuindo a carga tributária para que quem tem um pouco mais pague um pouco mais, e quem tem menos, quem recebe menos, pague um pouco menos.
Esse tipo de coisa já é lei. Não estamos falando de uma promessa, de um slogan vazio numa caravana, num bloquinho. Estamos falando de uma emenda constitucional já aprovada pelo Congresso, inclusive com o voto da centro-direita responsável e com apoio de vários setores da economia.
Matheus Leitão
A crítica de Durigan vai além do custo de uma promessa de campanha. Na avaliação do ministro, interromper os recebimentos dos bancos, fundos e fintechs comprometeria a capacidade dessas instituições de oferecer novos financiamentos e até de honrar compromissos com investidores. A consequência, segundo ele, chegaria a quem precisa financiar uma casa ou obter recursos para a produção rural. “Não vai ter crédito para moradia, não vai ter crédito para o agronegócio financiar a safra”, afirmou.
Durigan também acusou Flávio de copiar iniciativas do governo Lula e acrescentar promessas sem explicar como seriam executadas. Citou a renegociação de dívidas, a proposta apresentada pelo candidato como “Vira Pix” e a defesa da retomada do Perse, programa de benefícios ao setor de eventos. Ao tratar da devolução de impostos às famílias de baixa renda, trouxe espontaneamente à conversa o cashback da reforma tributária. Para o ministro, há uma diferença entre anunciar um benefício na campanha e ter uma medida aprovada pelo Congresso: “Não estamos falando de uma promessa, de um slogan vazio”.
Questionado sobre o pacote de bondades anunciado por Lula na tentativa de virar a eleição, Durigan rejeitou a avaliação de que as medidas tenham caráter eleitoral. Sustentou que o governo encontrou espaço no Orçamento sem mudar as regras fiscais e que os subsídios aos combustíveis são financiados pela arrecadação adicional associada à alta do petróleo. Não apresentou, porém, um valor consolidado para o impacto do conjunto das iniciativas no ano que vem. Afirmou que a proposta orçamentária prevê superávit e já considera os anúncios do presidente.
Na entrevista, o ministro ainda detalhou mudanças voltadas aos pequenos negócios, como a ampliação do teto de faturamento do MEI, dos limites de crédito e da participação de pequenos empreendedores nas compras públicas. A defesa dessas medidas veio acompanhada de uma disputa sobre o legado econômico dos dois governos. Durigan disse que a gestão Lula melhorou as contas públicas em relação à de Jair Bolsonaro e acusou a campanha de Flávio de apresentar propostas incompatíveis com o ajuste defendido por sua própria equipe. Leia a entrevista, editada para clareza.
Ministro, o presidente sancionou a Lei Prospera MEI. O que muda para quem tem um pequeno negócio? A lei prevê um apoio de até R$ 5 mil, com prioridade para as mulheres. Queria entender o porquê disso também. E alguém que trabalha na informalidade, por conta própria, pode se beneficiar dessa lei?
Matheus, ótimo você falar disso. O foco do presidente, que não é de agora, é ampliar o crédito para o pequeno negócio com várias tecnologias de oferecer garantia pública. Uma das dores do pequeno empreendedor do Brasil é acessar o mercado de crédito e, uma vez que acessa, tomar juros em condições razoáveis, condições civilizadas, o que no Brasil sempre foi um desafio. A gente procura estar do lado do empreendedor para oferecer esse tipo de solução.
O que está mudando é a jornada do empreendedor. Quando a gente olha para toda a jornada, estamos fazendo com que a informalidade no Brasil caia, dando opção, dando oportunidade. O mercado de trabalho está aquecido, então tem opção no mercado de trabalho formal para quem quer entrar num modelo mais clássico, como o da CLT. Quem quer empreender no Brasil hoje tem mais facilidade do que em qualquer momento anterior do país.
Com a lei de ontem, o presidente aumenta o teto do MEI. Lembrando que esse projeto de lei o presidente apresentou no começo do ano, ali em março, abril, numa conversa com os líderes do Congresso. Eu participei. O Congresso aprova agora o aumento do limite do MEI, que sai de R$ 81 mil por ano de faturamento para R$ 110 mil em janeiro e, em 2028, vai para R$ 140 mil.
O empreendedor pode crescer, não precisa ter medo de crescer. Pode faturar mais sem ser desenquadrado dessa tributação mais baixa. Lembrando, Matheus, que foi o presidente quem criou esses programas de empreendedorismo no Brasil: o Simples Nacional e depois o MEI.
Neste ano, no Procred e no Pronampe, que são duas linhas de crédito, o limite por operação para o pequeno empreendedor era de R$ 250 mil e foi para R$ 500 mil. Convido o empreendedor que nos assiste a procurar o Banco do Brasil, por exemplo, onde acompanho a execução desses programas.
Por que isso aconteceu? A gente identificou que o endividamento do empreendedor não vinha dessas linhas que têm garantia do governo com o FGO. Vinha porque o empreendedor às vezes precisava tomar um pouco mais de R$ 200 mil e usava linhas caras dos bancos. Ampliamos o limite para que ele tenha acesso a um crédito bom.
O empreendedor que quer crescer pode tomar um crédito bom, faturar mais e agora contratar mais um empregado sem se desenquadrar. Com tudo isso, vamos criando uma jornada de empreendedorismo, incentivando quem tem vontade de abrir o próprio negócio, que é a vontade de muita gente no Brasil: não querer ter patrão, querer prosperar na vida. Isso vai ficando cada vez mais fácil.
E aí adiciono o último item que foi sancionado ontem pelo presidente no Prospera: a obrigação de o poder público contratar o pequeno empreendedor. Quando a gente olha para a nossa sociedade, para o comércio de bairro, para quem tem loja de material de construção, de entrega, de distribuição, todo o poder público — governo federal, estados, municípios e autarquias — tinha que contratar obrigatoriamente um pequeno empreendedor numa licitação de até R$ 80 mil. Expandimos isso para R$ 130 mil.
Em vez de contratar uma grande empresa que eventualmente pode ter ganho de escala, você contrata um pequeno empreendedor para fomentar o comércio de bairro e esses pequenos negócios. Todo o esforço tem sido para dar oportunidade, deixar mais claro, mais simples, mais digital, para que o pequeno empreendedor tenha opções de trabalho.
Ministro, queria trazer outra pergunta para a nossa conversa. O presidente Lula acabou lançando um grande pacote de bondades para tentar virar a eleição: compra de dívidas no Desenrola 3, quitação de dívidas dos MEIs, subsídio aos combustíveis. Não é problemático anunciar essas medidas durante o processo eleitoral? E qual será, de fato, o impacto fiscal desse pacote no ano que vem?
Olha, Matheus, eu tenho uma discrepância com essa avaliação. O que o presidente Lula fez neste ano, ele fez dentro de um marco fiscal, sem alterar as regras fiscais do país, encontrando espaços e definindo prioridades de alocação.
Vamos pensar na questão dos combustíveis. Não foi uma medida eleitoral, porque começamos a fazer isso por causa da guerra do Irã. O que motivou o governo a fazer essa espécie de subvenção e depois desoneração dos tributos para diesel e gasolina, em grande medida, foi esse contexto da guerra do Irã causada pelo Trump.
Está aí todo mundo acompanhando para entender de que lado está o Trump na história, quem está apoiando a guerra e as consequências desastrosas dela para a economia do mundo.
O que nós reparamos? Como o Brasil, em razão de ter pré-sal, biocombustíveis, a política do etanol e do biodiesel, é resiliente, a gente ia arrecadar mais com o aumento do petróleo.
E qual foi a decisão do presidente? Pô, o Estado brasileiro vai arrecadar mais em razão do aumento do preço, mas as pessoas vão ter que pagar um valor muito maior pelo combustível. E não só pelo combustível. A agricultura tem problema com insumos. Foi feita uma lei para dar benefício às empresas de fertilizantes, justamente para manter essa oferta de nitrogenados para o agronegócio.
Quando a gente olha para as pessoas, não é só o combustível: a comida ia ficar mais cara, o transporte público ia ter que ser reajustado, ia criar um problema para as prefeituras das cidades brasileiras.
Então, o que nós fizemos? Usamos esse ganho adicional de receita. Como o Brasil hoje é autossuficiente em petróleo, exportador líquido de óleo, usamos essas entradas. Quem estava vendendo óleo estava pagando royalties para a União. Empresas como a Petrobras, lucrando mais e vendendo óleo mais caro, pagam mais tributos ao governo.
A gente simplesmente destacou essa receita que estava fora da previsão e está fazendo subsídio ou desoneração no diesel e na gasolina. Desde março, abril, fazemos isso. Se você pegar a variação do diesel e da gasolina no mundo, o Brasil está entre os países com menor variação.
Agora tem uma frente de fiscalização muito importante da ANP e dos Procons nos estados para identificar se há distribuidoras e postos fazendo margem abusiva, vendendo mais caro, mesmo com a sociedade brasileira, por meio do governo, fazendo esse tipo de ajuda.
Então, a questão do combustível está equilibrada do ponto de vista fiscal. Sobre o Bolsa Família, muita gente inclusive diz: “Por que vocês não fizeram antes?”. Bom, a gente não fez antes porque não tinha espaço fiscal. Fomos fazendo uma série de revisões e encontramos espaço para recompor a inflação acumulada e garantir o poder de compra dos beneficiários.
É muito diferente do que foi feito em 2022. No governo Bolsonaro, retiraram tributos dos estados sobre combustíveis sem conversar com os estados. Depois, fomos eu e o ministro Haddad que pagamos aos governadores uma restituição em 2023.
Lá em 2022, deram calote em precatórios e aumentaram o benefício de R$ 400 para R$ 600 só no período eleitoral. O Orçamento de 2023 não tinha previsão para manter esse valor.
Tudo o que tem sido feito agora está numa esteira de racionalidade fiscal e de racionalidade do projeto do presidente Lula. Se houve o cancelamento de dívidas dos microempreendedores individuais, foi porque houve uma constatação técnica de que a recuperação daqueles valores inscritos em dívida ativa, com encargos muito elevados, não teria chance de acontecer. Estávamos impedindo o crédito para o pequeno empreendedor sem que ele tivesse condição de pagar essa dívida.
O Desenrola é um projeto de maturação e tratamento dessas dívidas que, de novo, Matheus, começaram lá na pandemia. Imagina o trabalhador informal, o empreendedor que teve que fechar o negócio, que vendia cachorro-quente e precisou parar de vender. O que aconteceu com essas pessoas, sem uma ajuda racional do governo de então? Se endividaram.
Claro que, com a taxa de juros brasileira alta, é difícil sair dessa dívida. As etapas do Desenrola são para tratar essa dívida e dar condições para as pessoas recomeçarem. Esse é o projeto. Fizemos isso em 2023, depois em 2026. Não tem mudança de direção, e seguimos acompanhando para estar do lado do povo que mais precisa.
Temos que reconhecer: se há uma guerra neste ano, como houve em 2022, é responsabilidade do governo atuar de modo responsável para mitigar seus efeitos e não fazer a família pobre brasileira sofrer por uma guerra do Trump, que é apoiado pelo Flávio.
Eu garanto para quem nos assiste que, por mais que exista todo o debate por conta do contexto eleitoral, de que as medidas podem ter um viés eleitoral, elas não tiveram. Têm compatibilidade fiscal e uma lógica de execução. Muitas foram apresentadas antes mesmo de começar o período eleitoral.
Ministro, de fato, concordo com o senhor sobre a herança fiscal que Jair Bolsonaro deixou para o governo Lula. Queria perguntar sobre isso na última questão. Flávio Bolsonaro me parece estar querendo copiar algumas propostas do presidente Lula, como a compra de dívidas com desconto, mas acrescentou o congelamento do saldo restante por seis meses para pessoas físicas e por um ano para empresas. É possível fazer isso? Esse congelamento não teria um impacto fiscal ainda mais elevado?
Olha, Matheus, eu preciso ser muito franco e direto com você e com quem nos acompanha, por honestidade intelectual e de civilidade mesmo. Não teve nada no governo Bolsonaro que se compare ao que a gente fez no governo do presidente Lula. Nada.
Não vou nem ficar falando do quanto tiramos as pessoas da pobreza, da volta da comida ao prato, da educação valorizada. Não vou falar da saúde, de como recuperamos o SUS, da valorização dos profissionais e do próprio atendimento. Sempre com problemas, sempre para avançar, mas melhoramos muito.
O que muita gente às vezes não compreende bem, pelo discurso fácil que vem do Flávio Bolsonaro, é que, na parte fiscal, que parece ser tão cara à dita equipe econômica dele, também fomos melhores que o governo Bolsonaro.
O governo Bolsonaro, para ser franco e direto, recebeu do governo Temer um déficit de algo como R$ 200 bilhões. Entregou para o presidente Lula um déficit de R$ 189 bilhões. Então, assim, do que nós estamos falando? Não teve avanço. Eles não conseguiram implementar uma agenda que apresentaram ao país.
Inclusive, foi uma agenda que não teve ganho para o salário das pessoas. O alimento subiu muito lá atrás. Hoje, se as pessoas reclamam do preço dos alimentos, é porque o patamar subiu bastante durante o governo Bolsonaro. Ainda que suba pouco, com inflação baixa no governo do presidente Lula, ela se acumula sobre o que herdamos.
Também na parte fiscal, estamos entregando uma previsão de superávit para o ano que vem no Orçamento, considerando todas essas medidas que o presidente anunciou. Estamos com um bloqueio no Orçamento deste ano de R$ 16 bilhões. É ano de eleição.
Em vez de dar calote nas pessoas que tinham precatórios a receber, decisões judiciais transitadas em julgado, que ninguém discute e que o Estado tem que pagar, como fez o governo Bolsonaro, estamos falando de outro patamar de resolução de problemas.
Com todas as dificuldades da guerra e do endividamento do país, estamos deixando para o próximo governo, qualquer que seja ele, uma previsão de superávit com tudo colocado. Tudo colocado.
Você pega os precatórios, os subsídios aos combustíveis, o reajuste da inflação do Bolsa Família, as propostas que o presidente apresentou agora, como o passe livre no fim de semana, que tem que ser custeado com emenda parlamentar. Está dada a fonte de receita. Não tem irresponsabilidade fiscal em nenhum momento.
Quando o Congresso foi irresponsável do ponto de vista fiscal, fomos ao Supremo e ganhamos. Também do ponto de vista fiscal, melhoramos em R$ 200 bilhões a conta do Brasil em relação ao governo Bolsonaro, que não mexeu a agulha do que recebeu do governo Temer.
Então, do que estamos falando agora? De seguir confiando em quem entrega, em quem tem capacidade de diálogo e de construção de resultado concreto para as pessoas.
Uma das coisas que o Flávio falou, que você mencionou: primeiro, ele copiou o que a gente já fez no Desenrola. Eu vi que ele comentou: “Vai ter parcelas menores que cabem no bolso”. Bom, isso o Desenrola já fez há muito tempo. Não tem novidade. É basicamente copiar o que o Lula fez.
Quando ele fala que vai propor que pessoa física fique seis meses sem pagar suas dívidas e pessoa jurídica fique um ano sem pagar, está basicamente propondo um calote geral para o sistema de crédito brasileiro. Não é possível fazer isso.
Nenhum governo tem essa condição de dizer que todas as empresas do sistema financeiro, sejam os grandes bancos, sejam os pequenos fundos, os FIDCs, as fintechs, qualquer que seja… Se você quebra o fluxo esperado de recebimentos dessas empresas, elas não vão dar crédito para nada.
Então, não vai ter crédito para moradia, não vai ter crédito para o agronegócio financiar a safra. Mais que isso: como os bancos e as instituições financeiras deixam de receber o que estão esperando — e estou falando de R$ 3 trilhões, considerando seis meses sem pagamentos de pessoas físicas e um ano de pessoas jurídicas —, você coloca inclusive o sistema financeiro em dificuldade para honrar obrigações básicas.
Pagar um CDB de um investidor pessoa física, pagar um investimento com vencimento próximo. Isso é um grande calote na economia brasileira. É muito grave o que está sendo proposto e é de impossível implementação. Te digo isso.
Então, de novo, mais uma vez ele apareceu com outra proposta, falando do “Vira Pix”. Ninguém entendeu o que é, quem vai ter direito, quanto vai ser esse benefício, enquanto a gente já aprovou em emenda constitucional e em lei o cashback da reforma tributária.
E o cashback da reforma tributária? Como funciona?
Quando falo cashback, é devolver o dinheiro da família de baixa renda que pagou tributos no dia a dia. O que fizemos na reforma tributária? Pô, a tributação do consumo no Brasil é muito regressiva. Todo mundo fala isso. Eu lembro inclusive de ex-ministro do Bolsonaro falando.
O que isso quer dizer? Quem é pobre e quem é rico pagam nominalmente o mesmo valor quando consomem, mas isso pesa muito mais proporcionalmente para o mais pobre. Então, o mais pobre paga proporcionalmente mais tributo no Brasil do que o mais rico.
Na nossa reforma tributária do consumo, tiramos o tributo da cesta básica para todo mundo. Não vai ter tributo estadual nem federal nos itens da cesta básica, inclusive a carne. Isso já garante poder de compra para quem tem que comprar comida.
Para a família de baixa renda, tem devolução. É um Pix na conta da família que paga por algumas coisas que ainda terão tributo no consumo. Vamos devolver o tributo para o sistema ser menos regressivo.
Por fim, nas contas de água, luz, esgoto e na compra do botijão de gás para a família de baixa renda, vamos isentar do imposto federal. Vamos redistribuindo a carga tributária para que quem tem um pouco mais pague um pouco mais, e quem tem menos, quem recebe menos, pague um pouco menos.
Esse tipo de coisa já é lei. Não estamos falando de uma promessa, de um slogan vazio numa caravana, num bloquinho. Estamos falando de uma emenda constitucional já aprovada pelo Congresso, inclusive com o voto da centro-direita responsável e com apoio de vários setores da economia.
Matheus Leitão
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
No segundo turno, o Brasil dança à beira do abismo
As democracias liberais enfrentam um desafio que, não sendo de todo inédito, hoje adquire proporções nunca vistas. Antigos ou relativamente novos, os sistemas democráticos são postos à prova pela ascensão eleitoral de forças de extrema direita, que colocam em xeque as instituições que os definem e sustentam —em especial aquelas que limitam o poder dos líderes eleitos e garantem a liberdade das oposições. No passado, o fascismo e o nazismo foram a tradução totalitária desse projeto antidemocrático. Outro era o mundo, e bem menor o território das democracias.
Hoje, o assédio extremista ocorre em quase todos os países onde o sistema liberal representativo deitou raízes —dos EUA à Índia, da Alemanha à Argentina, da França à Turquia, da Áustria ao Brasil. Em alguns destes, a ultradireita é importante força de oposição, apequenando os partidos conservadores tradicionais. Em outros, já chegou ao governo triunfando em eleições competitivas.
Por se tratar de desastre em curso, ainda não se sabe ao certo qual o efeito, para a continuidade do regime liberal democrático, da chegada do extremismo de direita ao poder. Embora bem se conheça seu declarado propósito de destruí-lo, ao concentrar poder no Executivo e subjugar os que podem limitá-lo, a partir do Estado —Judiciário, Legislativo, agências públicas e burocracia— ou da sociedade —partidos, meios de comunicação, universidades, organizações civis.
Os exemplos disponíveis indicam dois caminhos. Em um deles, o extremismo se impõe, enfraquecendo significativamente os freios e contrapesos ao exercício arbitrário do poder do líder, até a destruição dos instrumentos que asseguram eleições efetivamente livres e competitivas.
Hoje como hoje, ainda há poucos exemplos disso: na Rússia, Putin perpetua-se no poder; na Hungria, Viktor Orbán permaneceu 16 anos na cadeira de primeiro-ministro até ser desbancado no último pleito. O segundo caminho é uma certa adaptação ao regime democrático que convive com ameaças às liberdades e a realização de políticas de cunho reacionário. Esse parecem ser os casos da Itália e da Polônia, onde governos extremistas se alternaram com outros de direita moderada.
Em artigo publicado na segunda em O Estado de S. Paulo, o cientista político Oliver Stuenkel chama a atenção para a diversidade dos governos de extrema direita na América Latina. Além de terem políticas econômicas diferentes, variam na intensidade do assédio às instituições liberal-democráticas.
Não sabemos ainda o que torna possível um ou outro caminho. Em ambos, o dano institucional é grande. O Brasil passou por essa experiência no governo de Jair Bolsonaro. A democracia venceu a tentativa de destruí-la, mas as instituições de controle, como o STF, pagaram preço alto. Assim como os órgãos responsáveis pela segurança pública, meio ambiente e proteção dos direitos da cidadania.
Na incerteza, devolver o governo do país ao extremismo de direita é como dançar à beira do abismo. Mais ainda quando seu candidato é incapaz de dizer a que veio, tem os dois pés no submundo do crime e escarnece das regras mínimas de um debate civilizado, quanto mais daquelas da política democrática.
Hoje, o assédio extremista ocorre em quase todos os países onde o sistema liberal representativo deitou raízes —dos EUA à Índia, da Alemanha à Argentina, da França à Turquia, da Áustria ao Brasil. Em alguns destes, a ultradireita é importante força de oposição, apequenando os partidos conservadores tradicionais. Em outros, já chegou ao governo triunfando em eleições competitivas.
Por se tratar de desastre em curso, ainda não se sabe ao certo qual o efeito, para a continuidade do regime liberal democrático, da chegada do extremismo de direita ao poder. Embora bem se conheça seu declarado propósito de destruí-lo, ao concentrar poder no Executivo e subjugar os que podem limitá-lo, a partir do Estado —Judiciário, Legislativo, agências públicas e burocracia— ou da sociedade —partidos, meios de comunicação, universidades, organizações civis.
Os exemplos disponíveis indicam dois caminhos. Em um deles, o extremismo se impõe, enfraquecendo significativamente os freios e contrapesos ao exercício arbitrário do poder do líder, até a destruição dos instrumentos que asseguram eleições efetivamente livres e competitivas.
Hoje como hoje, ainda há poucos exemplos disso: na Rússia, Putin perpetua-se no poder; na Hungria, Viktor Orbán permaneceu 16 anos na cadeira de primeiro-ministro até ser desbancado no último pleito. O segundo caminho é uma certa adaptação ao regime democrático que convive com ameaças às liberdades e a realização de políticas de cunho reacionário. Esse parecem ser os casos da Itália e da Polônia, onde governos extremistas se alternaram com outros de direita moderada.
Em artigo publicado na segunda em O Estado de S. Paulo, o cientista político Oliver Stuenkel chama a atenção para a diversidade dos governos de extrema direita na América Latina. Além de terem políticas econômicas diferentes, variam na intensidade do assédio às instituições liberal-democráticas.
Não sabemos ainda o que torna possível um ou outro caminho. Em ambos, o dano institucional é grande. O Brasil passou por essa experiência no governo de Jair Bolsonaro. A democracia venceu a tentativa de destruí-la, mas as instituições de controle, como o STF, pagaram preço alto. Assim como os órgãos responsáveis pela segurança pública, meio ambiente e proteção dos direitos da cidadania.
Na incerteza, devolver o governo do país ao extremismo de direita é como dançar à beira do abismo. Mais ainda quando seu candidato é incapaz de dizer a que veio, tem os dois pés no submundo do crime e escarnece das regras mínimas de um debate civilizado, quanto mais daquelas da política democrática.
A volta de programa que abriu brechas para lavagem de dinheiro pelo PCC
O Perse é o maior programa de lavagem de dinheiro e sonegação do país. Não é a coluna quem afirma. São os investigadores que há pelo menos três anos apuram as irregularidades possibilitadas pelas brechas nas regras do benefício tributário, criado pelo governo Jair Bolsonaro para socorrer o setor de eventos dos prejuízos com a pandemia da Covid-19.
Em 2024, a Folha revelou que fiscais da Receita tinham encontrado no programa indícios de operações de lavagem de dinheiro de atividades ilícitas no país, após o custo do benefício tributário explodir no ano anterior.
Em março daquele mesmo ano, a Polícia Federal e a Receita Federal lançaram uma ofensiva para fechar o cerco contra os crimes cometidos por empresas beneficiárias do Perse. Empresas investigadas na operação Latus Actio eram suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC.
As empresas utilizadas para lavagem de dinheiro se valeram do Perse para não pagar imposto. O benefício se tornou um atrativo para que firmas do setor de eventos, ou registradas como se fossem atuantes na área, fossem utilizadas para ilegalidades.
As operações Jogo de Sombras, Arena e Conto da Sorte deste ano apuraram o uso de empresas de eventos para a lavagem de dinheiro de bets.
Apesar de o programa ser uma porta aberta para fraudes, o Perse foi renovado com apoio de parlamentares do alto clero do Congresso e ganhou um teto de R$ 15 bilhões de renúncia fiscal. Em abril do ano passado, o programa foi encerrado porque o limite foi atingido rapidamente.
Mesmo com todo esse histórico nefasto, Flávio Bolsonaro anunciou que vai ressuscitar o Perse.
É mais uma medida na direção oposta à do programa de ajuste fiscal prometido pela sua equipe econômica, de cortar renúncias para reduzir a dívida pública.
Não é mera coincidência que no mesmo dia o candidato tenha se reunido com mais de 30 sertanejos em Goiânia. Eles foram os grandes beneficiários dessa farra tributária. Não há privilégio maior: pagar zero de imposto para desfilar por aí em seus jatinhos.
Adriana Fernandes
Em 2024, a Folha revelou que fiscais da Receita tinham encontrado no programa indícios de operações de lavagem de dinheiro de atividades ilícitas no país, após o custo do benefício tributário explodir no ano anterior.
Em março daquele mesmo ano, a Polícia Federal e a Receita Federal lançaram uma ofensiva para fechar o cerco contra os crimes cometidos por empresas beneficiárias do Perse. Empresas investigadas na operação Latus Actio eram suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC.
As empresas utilizadas para lavagem de dinheiro se valeram do Perse para não pagar imposto. O benefício se tornou um atrativo para que firmas do setor de eventos, ou registradas como se fossem atuantes na área, fossem utilizadas para ilegalidades.
As operações Jogo de Sombras, Arena e Conto da Sorte deste ano apuraram o uso de empresas de eventos para a lavagem de dinheiro de bets.
Apesar de o programa ser uma porta aberta para fraudes, o Perse foi renovado com apoio de parlamentares do alto clero do Congresso e ganhou um teto de R$ 15 bilhões de renúncia fiscal. Em abril do ano passado, o programa foi encerrado porque o limite foi atingido rapidamente.
Mesmo com todo esse histórico nefasto, Flávio Bolsonaro anunciou que vai ressuscitar o Perse.
É mais uma medida na direção oposta à do programa de ajuste fiscal prometido pela sua equipe econômica, de cortar renúncias para reduzir a dívida pública.
Não é mera coincidência que no mesmo dia o candidato tenha se reunido com mais de 30 sertanejos em Goiânia. Eles foram os grandes beneficiários dessa farra tributária. Não há privilégio maior: pagar zero de imposto para desfilar por aí em seus jatinhos.
Adriana Fernandes
Uma tarde no lago
Às 20h30 da noite de 16 de julho de 2020, o consórcio montado por veículos de imprensa para contabilizar as vítimas da Covid registrava um marco trágico: 1.299 mortos apenas naquele dia. No total, 76.822 brasileiros já tinham morrido em decorrência do vírus, e os números não paravam de crescer. Poucos minutos depois desse registro público, mais precisamente às 20h49, o jatinho de prefixo PR-SAD decolou do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com destino a Brasília.
O jato executivo Embraer Phenom 300, que pertencia à empresa Prime You e já teve Daniel Vorcaro como um de seus usuários, havia sido destacado para transportar dois empresários: Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, diretor institucional e dono da Precisa Medicamentos, respectivamente. Os dois diziam representar o laboratório indiano Bharat Biotech, responsável pelo desenvolvimento da vacina Covaxin, e queriam fechar um acordo com o governo de Jair Bolsonaro para produzir vacinas para o Brasil.
Embora, àquela altura, as vacinas ainda não fossem uma realidade palpável no mundo, havia uma corrida para sua pesquisa, produção e comercialização. Contratos começavam a ser firmados. Como o Brasil tinha um presidente negacionista, o país estava fora do páreo. Tanto a americana Pfizer quanto a chinesa Sinovac tentavam negociar com o Ministério da Saúde, mas nada avançava. A Precisa Medicamentos já era uma grande fornecedora do governo, a quem vendia de testes rápidos de Covid a preservativos femininos. Mas a empresa via a oportunidade de aumentar seus laços com a gestão de Jair Bolsonaro.
Para azeitar a perspectiva de bons negócios, Danilo Trento e Francisco Maximiano decidiram promover um passeio cujo objetivo era agradar ao primogênito do então presidente, o senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência da República pelo PL. A dupla recorreu então a um procedimento de praxe: procurou seu agente de viagens, Raphael Barão, dono da Barão Turismo, e o encarregou de organizar um churrasco a bordo de uma lancha, no Lago Paranoá, em Brasília. O principal atrativo do passeio, porém, não seria a picanha, mas três garotas de programa trazidas de São Paulo.
Havia seis pessoas a bordo naquele voo na noite de 16 de julho de 2020. Eram elas: os empresários Danilo Trento e Francisco Maximiano, o agente de viagens Raphael Barão e três garotas, duas loiras e uma morena. A aeronave aterrissou no aeroporto de Brasília às 22h12. De lá, todos os seis se dirigiram ao hotel Meliá Brasil 21, localizado no setor hoteleiro Sul da capital federal. O evento na lancha só ocorreria no dia seguinte.
Os jornais amanheceram em 17 de julho como de costume: tomados por notícias sobre mortos, infectados e desvios de recursos que deveriam ser usados para tratar os doentes. Por volta das 10h30 da manhã, um carro estacionou em um dos decks com acesso ao Lago Paranoá. O automóvel estava carregado com bebidas, como vodca, gim e cerveja, além de petiscos, destinados a abastecer a lancha de uma cabina, com cerca de 20 metros de comprimento, que estava atracada à beira do lago.
Entraram na embarcação Danilo Trento, as três garotas e o condutor da lancha. Logo em seguida, chegou o convidado principal da festa: Flávio Bolsonaro, que veio acompanhado de seu amigo, Alexandre Santini. Àquela época, Santini era sócio de Flávio Bolsonaro na operação da franquia da célebre loja da Kopenhagen, no Rio de Janeiro. (De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, a loja foi usada para lavar dinheiro oriundo da prática de rachadinha operacionalizada por Fabricio Queiroz, ex-PM e operador da família. O MP estima que 1,6 milhão de reais em espécie, devolvidos por assessores da Alerj, foram lavados por meio da loja de chocolates. O caso foi arquivado depois que o STF anulou as provas, em 2021).
Quando a lancha zarpou, pararam no Alô Grau, um restaurante flutuante no lago, onde compraram mais comida e bebida. A conta, paga por Barão, ficou em 1.949 reais. O barco então circulou pelo Lago Paranoá. O Sol era inclemente e os tripulantes temiam que algum drone do entorno os registrasse em seu veraneio pandêmico. Santini e Flávio Bolsonaro ficaram sem camisa. Santini exagerou na bebida. À certa altura, Flávio desceu à cabina com uma das garotas. Ela não foi a única a fazer esse caminho acompanhada do senador naquela tarde. Santini e Trento não desceram. Passaram a maior parte do tempo na proa da embarcação.
O passeio de barco se encerrou por volta de 15 horas. Mas havia ainda uma surpresa. Com o barco já atracado no deck, Danilo Trento, o interessado em vender vacina para o governo, quis presentear Flávio Bolsonaro com um mimo. Ele tirou de seu pulso um relógio Rolex, com pulseira em tom prateado, e colocou no pulso do senador. Flávio Bolsonaro foi embora usando o novo presente.
Terminado o passeio, era hora de partir. Amigo e sócio de Flávio Bolsonaro, Santini pediu carona para voar de Brasília para São Paulo no mesmo jatinho em que estavam os dois empresários, o agente de turismo e as garotas. Ele então foi até o hotel onde estava hospedado, o Royal Tulip Brasília Alvorada, localizado próximo ao Palácio da Alvorada, para pegar as suas coisas.
A aeronave decolou de Brasília às 17h55 e aterrissou em São Paulo às 19h13. Pouco tempo depois, às 20h30, o consórcio de imprensa divulgaria os dados de óbitos por Covid naquele dia: 1.110 pessoas.
Ainda que aprimorada, ramificada e institucionalizada por Daniel Vorcaro, que contava com uma equipe de três promoters para oferecer serviços sexuais a autoridades, de políticos a ministro do Supremo Tribunal Federal, a prostituição como engrenagem de lobby e corrupção não foi inventada pelo dono do Banco Master. Em Brasília, a moeda extrapola reais e dólares e contempla também encontros privativos e discretos em lanchas e hotéis. “Esses eventos acontecem em dias de semana, que são menos concorridos. Em geral, os barcos ficam parados ao final da barragem, quando não há outros barcos nem sequer fiscalização”, diz um ex-assessor parlamentar que frequentou algumas festas em lanchas com prostitutas, duas delas na presença do próprio Flávio Bolsonaro (“uma antes e outra durante a pandemia”).
A regra tácita em todas as festas desse tipo, em que circulam políticos, juízes, desembargadores e outros poderosos em atividades subterrâneas, é que as garotas de programa passem por uma revista. O uso de celular é vetado e, para não haver risco de vazamentos, as bolsas das profissionais são confiscadas. Em geral, nesses encontros, há mais mulheres que homens. “Uma média de duas a três mulheres por convidado”, diz uma participante que pede para não ter seu nome divulgado por temer por sua segurança. “As lanchas têm dois andares, com uma ou duas cabines.”
Em setembro deste ano, o jornalista Rodrigo Rangel publicou uma reportagem no site PlatôBR mostrando como Alexandre Santini, que estava no passeio de lancha no Paranoá, promoveu encontros de Flávio Bolsonaro com garotas de programa. Em uma outra coincidência, a reportagem de Rangel também noticia que o senador recebeu o mesmo mimo: um relógio Rolex. De acordo com o material do PlatôBR, tratava-se de um relógio modelo Submariner Date, avaliado em 305 mil reais. Foi comprado pelo advogado Alan Belaciano, que representava interesses privados junto a autoridades de Brasília.
Para reconstituir o passeio de lancha do dia 17 de julho de 2020, a piauí conversou com uma pessoa que estava na embarcação sob a condição de não revelar sua identidade, cruzou quebras de sigilo de Barão, Maximiano e Trento enviados às CPIs da Pandemia, do INSS e do Crime Organizado, ouviu dois pilotos, um ex-deputado, três assessores parlamentares e uma garota de programa que não participou daquele evento, mas já esteve em outros similares. A reportagem ainda confrontou os dados aéreos obtidos na apuração com os de uma plataforma de rastreamento de voos em tempo real.
Raphael Barão funcionava como uma espécie de concierge das viagens de Trento e Maximiano. Além de organizar a logística, também viajava junto. Apenas em 2020, ano em que aconteceu o passeio de lancha no Paranoá, a Barão Turismo recebeu cerca de 4 milhões de reais das empresas que integravam o grupo econômico da Precisa Medicamentos. Quando a turma da Precisa viajou à Índia para negociar com a Bharat Biotech, Barão também organizou a viagem e dela participou. Como o grupo em torno da Precisa tornou-se alvo da CPI da Pandemia e a prestação de serviços de turismo não foi devidamente comprovada no período por Barão, as autoridades acabaram quebrando seu sigilo e o de sua agência, assim como os de Maximiano e Trento, altamente envolvidos nas suspeitas de irregularidades na compra da vacina.
Nas sessões da CPI realizadas em agosto e setembro de 2021, um ano depois do passeio de lancha, o senador Randolfe Rodrigues afirmou que Barão mantinha uma empresa nos Estados Unidos usada para lavar dinheiro de Trento. O empresário negou. O senador Renan Calheiros quis saber de Maximiano se Flávio Bolsonaro havia intermediado o acesso da Precisa ao alto escalão do Ministério da Saúde. Maximiano negou. Calheiros perguntou, então, se fora Flávio quem aproximara a empresa do presidente Jair Bolsonaro, para que ele telefonasse ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e referendasse o negócio com a Bharat Biotech. Maximiano não respondeu, invocando o direito ao silêncio. Randolfe Rodrigues então perguntou a Trento se ele conhecia alguém da família Bolsonaro. Houve, enfim, uma resposta afirmativa. “Já estive em eventos institucionais com o senador Flávio”, disse Trento, antes de se corrigir: “Eventos públicos, não institucionais, desculpa.”
O jato executivo Embraer Phenom 300, que pertencia à empresa Prime You e já teve Daniel Vorcaro como um de seus usuários, havia sido destacado para transportar dois empresários: Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, diretor institucional e dono da Precisa Medicamentos, respectivamente. Os dois diziam representar o laboratório indiano Bharat Biotech, responsável pelo desenvolvimento da vacina Covaxin, e queriam fechar um acordo com o governo de Jair Bolsonaro para produzir vacinas para o Brasil.
Embora, àquela altura, as vacinas ainda não fossem uma realidade palpável no mundo, havia uma corrida para sua pesquisa, produção e comercialização. Contratos começavam a ser firmados. Como o Brasil tinha um presidente negacionista, o país estava fora do páreo. Tanto a americana Pfizer quanto a chinesa Sinovac tentavam negociar com o Ministério da Saúde, mas nada avançava. A Precisa Medicamentos já era uma grande fornecedora do governo, a quem vendia de testes rápidos de Covid a preservativos femininos. Mas a empresa via a oportunidade de aumentar seus laços com a gestão de Jair Bolsonaro.
Para azeitar a perspectiva de bons negócios, Danilo Trento e Francisco Maximiano decidiram promover um passeio cujo objetivo era agradar ao primogênito do então presidente, o senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência da República pelo PL. A dupla recorreu então a um procedimento de praxe: procurou seu agente de viagens, Raphael Barão, dono da Barão Turismo, e o encarregou de organizar um churrasco a bordo de uma lancha, no Lago Paranoá, em Brasília. O principal atrativo do passeio, porém, não seria a picanha, mas três garotas de programa trazidas de São Paulo.
Havia seis pessoas a bordo naquele voo na noite de 16 de julho de 2020. Eram elas: os empresários Danilo Trento e Francisco Maximiano, o agente de viagens Raphael Barão e três garotas, duas loiras e uma morena. A aeronave aterrissou no aeroporto de Brasília às 22h12. De lá, todos os seis se dirigiram ao hotel Meliá Brasil 21, localizado no setor hoteleiro Sul da capital federal. O evento na lancha só ocorreria no dia seguinte.
Os jornais amanheceram em 17 de julho como de costume: tomados por notícias sobre mortos, infectados e desvios de recursos que deveriam ser usados para tratar os doentes. Por volta das 10h30 da manhã, um carro estacionou em um dos decks com acesso ao Lago Paranoá. O automóvel estava carregado com bebidas, como vodca, gim e cerveja, além de petiscos, destinados a abastecer a lancha de uma cabina, com cerca de 20 metros de comprimento, que estava atracada à beira do lago.
Entraram na embarcação Danilo Trento, as três garotas e o condutor da lancha. Logo em seguida, chegou o convidado principal da festa: Flávio Bolsonaro, que veio acompanhado de seu amigo, Alexandre Santini. Àquela época, Santini era sócio de Flávio Bolsonaro na operação da franquia da célebre loja da Kopenhagen, no Rio de Janeiro. (De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, a loja foi usada para lavar dinheiro oriundo da prática de rachadinha operacionalizada por Fabricio Queiroz, ex-PM e operador da família. O MP estima que 1,6 milhão de reais em espécie, devolvidos por assessores da Alerj, foram lavados por meio da loja de chocolates. O caso foi arquivado depois que o STF anulou as provas, em 2021).
Quando a lancha zarpou, pararam no Alô Grau, um restaurante flutuante no lago, onde compraram mais comida e bebida. A conta, paga por Barão, ficou em 1.949 reais. O barco então circulou pelo Lago Paranoá. O Sol era inclemente e os tripulantes temiam que algum drone do entorno os registrasse em seu veraneio pandêmico. Santini e Flávio Bolsonaro ficaram sem camisa. Santini exagerou na bebida. À certa altura, Flávio desceu à cabina com uma das garotas. Ela não foi a única a fazer esse caminho acompanhada do senador naquela tarde. Santini e Trento não desceram. Passaram a maior parte do tempo na proa da embarcação.
O passeio de barco se encerrou por volta de 15 horas. Mas havia ainda uma surpresa. Com o barco já atracado no deck, Danilo Trento, o interessado em vender vacina para o governo, quis presentear Flávio Bolsonaro com um mimo. Ele tirou de seu pulso um relógio Rolex, com pulseira em tom prateado, e colocou no pulso do senador. Flávio Bolsonaro foi embora usando o novo presente.
Terminado o passeio, era hora de partir. Amigo e sócio de Flávio Bolsonaro, Santini pediu carona para voar de Brasília para São Paulo no mesmo jatinho em que estavam os dois empresários, o agente de turismo e as garotas. Ele então foi até o hotel onde estava hospedado, o Royal Tulip Brasília Alvorada, localizado próximo ao Palácio da Alvorada, para pegar as suas coisas.
A aeronave decolou de Brasília às 17h55 e aterrissou em São Paulo às 19h13. Pouco tempo depois, às 20h30, o consórcio de imprensa divulgaria os dados de óbitos por Covid naquele dia: 1.110 pessoas.
Ainda que aprimorada, ramificada e institucionalizada por Daniel Vorcaro, que contava com uma equipe de três promoters para oferecer serviços sexuais a autoridades, de políticos a ministro do Supremo Tribunal Federal, a prostituição como engrenagem de lobby e corrupção não foi inventada pelo dono do Banco Master. Em Brasília, a moeda extrapola reais e dólares e contempla também encontros privativos e discretos em lanchas e hotéis. “Esses eventos acontecem em dias de semana, que são menos concorridos. Em geral, os barcos ficam parados ao final da barragem, quando não há outros barcos nem sequer fiscalização”, diz um ex-assessor parlamentar que frequentou algumas festas em lanchas com prostitutas, duas delas na presença do próprio Flávio Bolsonaro (“uma antes e outra durante a pandemia”).
A regra tácita em todas as festas desse tipo, em que circulam políticos, juízes, desembargadores e outros poderosos em atividades subterrâneas, é que as garotas de programa passem por uma revista. O uso de celular é vetado e, para não haver risco de vazamentos, as bolsas das profissionais são confiscadas. Em geral, nesses encontros, há mais mulheres que homens. “Uma média de duas a três mulheres por convidado”, diz uma participante que pede para não ter seu nome divulgado por temer por sua segurança. “As lanchas têm dois andares, com uma ou duas cabines.”
Em setembro deste ano, o jornalista Rodrigo Rangel publicou uma reportagem no site PlatôBR mostrando como Alexandre Santini, que estava no passeio de lancha no Paranoá, promoveu encontros de Flávio Bolsonaro com garotas de programa. Em uma outra coincidência, a reportagem de Rangel também noticia que o senador recebeu o mesmo mimo: um relógio Rolex. De acordo com o material do PlatôBR, tratava-se de um relógio modelo Submariner Date, avaliado em 305 mil reais. Foi comprado pelo advogado Alan Belaciano, que representava interesses privados junto a autoridades de Brasília.
Para reconstituir o passeio de lancha do dia 17 de julho de 2020, a piauí conversou com uma pessoa que estava na embarcação sob a condição de não revelar sua identidade, cruzou quebras de sigilo de Barão, Maximiano e Trento enviados às CPIs da Pandemia, do INSS e do Crime Organizado, ouviu dois pilotos, um ex-deputado, três assessores parlamentares e uma garota de programa que não participou daquele evento, mas já esteve em outros similares. A reportagem ainda confrontou os dados aéreos obtidos na apuração com os de uma plataforma de rastreamento de voos em tempo real.
Raphael Barão funcionava como uma espécie de concierge das viagens de Trento e Maximiano. Além de organizar a logística, também viajava junto. Apenas em 2020, ano em que aconteceu o passeio de lancha no Paranoá, a Barão Turismo recebeu cerca de 4 milhões de reais das empresas que integravam o grupo econômico da Precisa Medicamentos. Quando a turma da Precisa viajou à Índia para negociar com a Bharat Biotech, Barão também organizou a viagem e dela participou. Como o grupo em torno da Precisa tornou-se alvo da CPI da Pandemia e a prestação de serviços de turismo não foi devidamente comprovada no período por Barão, as autoridades acabaram quebrando seu sigilo e o de sua agência, assim como os de Maximiano e Trento, altamente envolvidos nas suspeitas de irregularidades na compra da vacina.
Nas sessões da CPI realizadas em agosto e setembro de 2021, um ano depois do passeio de lancha, o senador Randolfe Rodrigues afirmou que Barão mantinha uma empresa nos Estados Unidos usada para lavar dinheiro de Trento. O empresário negou. O senador Renan Calheiros quis saber de Maximiano se Flávio Bolsonaro havia intermediado o acesso da Precisa ao alto escalão do Ministério da Saúde. Maximiano negou. Calheiros perguntou, então, se fora Flávio quem aproximara a empresa do presidente Jair Bolsonaro, para que ele telefonasse ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e referendasse o negócio com a Bharat Biotech. Maximiano não respondeu, invocando o direito ao silêncio. Randolfe Rodrigues então perguntou a Trento se ele conhecia alguém da família Bolsonaro. Houve, enfim, uma resposta afirmativa. “Já estive em eventos institucionais com o senador Flávio”, disse Trento, antes de se corrigir: “Eventos públicos, não institucionais, desculpa.”
Flávio Bolsonaro, por sua vez, saiu publicamente em defesa da Precisa Medicamentos durante a CPI. Na oitiva de Emanuela Medrades, diretora da empresa, chegou a congratulá-la: “Cabe aqui um parabéns também público, pelo fato de a senhora, ao representar o laboratório indiano, ter batalhado para que fosse economizado dinheiro público”, afirmou. O elogio destoava dos valores negociados: o contrato da Covaxin previa o pagamento de 80 reais por dose, enquanto a Pfizer oferecia sua vacina por cerca de 56,30 reais e a AstraZeneca, por 18 reais.
As negociações haviam despertado suspeitas no servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, irmão do então deputado Luis Miranda, que denunciou publicamente as irregularidades. O contrato acabou sem que o primeiro pagamento fosse realizado. Flávio, porém, ironizava o escândalo. “É a primeira vez que eu vejo, na minha vida, um desvio de dinheiro público em que não tem um real que foi pago. Que dinheiro público? Então, eu fico satisfeito e até concordo com a oposição quando eles dizem que esse é o maior escândalo de corrupção do governo Bolsonaro, porque, no maior escândalo de governo, de corrupção, segundo eles, não houve corrupção.”
O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 78 pessoas, entre elas Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano.
Em 20 de outubro de 2020, três meses depois do passeio de lancha, a proximidade com Flávio já havia rendido à dupla Trento e Maximiano uma demonstração concreta de prestígio. O senador abriu caminho para que Maximiano e outro executivo de sua empresa fossem recebidos pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano. A reunião, realizada virtualmente em razão da pandemia, tinha como objetivo discutir linhas de financiamento para uma nova empresa de Maximiano no setor de telecomunicações. Para deixar claro que endossava a empreitada, Flávio participou da ligação.
Quando a agenda veio a público, numa reportagem da Veja, o BNDES explicou que haviam ocorrido duas reuniões, uma delas com a presença de Montezano, e que nenhum financiamento fora contratado. Flávio, por sua vez, publicou um vídeo em que admitia ter “amigos em comum” com Maximiano em Brasília, mas negava manter com ele qualquer “relação comercial ou financeira”. “O que eu fiz sim foi pedir ao presidente do BNDES que ouvisse uma boa ideia que foi trazida pelo senhor Maximiano, para que o BNDES pudesse entender e, quem sabe, dar algum suporte para levar internet para o Norte e Nordeste”, justificou.
A reunião com Maximiano foi o único encontro oficial de Flávio com o BNDES, na condição de autoridade e sem outros parlamentares, desde o início da gestão de Montezano, em julho de 2019, até aquele momento. Para o presidente do banco, tampouco se tratava de uma agenda corriqueira. Montezano recebia com frequência deputados e senadores, individualmente ou em grupo. O incomum era que chegassem acompanhados de um empresário amigo, interessado em financiamento público.
Àquela altura, Flávio Bolsonaro já demonstrava interesse pelo mercado de telecomunicações. Frequentava viagens promovidas pelo senador Ciro Nogueira e pelo então ministro das Comunicações, Fábio Faria, para eventos internacionais do setor. Os parlamentares que integravam o grupo de trabalho responsável por acompanhar o leilão do 5G no Brasil, porém, não eram convidados para essas viagens.
Uma das viagens internacionais de Flávio como senador, a Las Vegas, em janeiro de 2020, coincidiu com a de Danilo Trento. Foi antes da pandemia e do passeio de lancha. A viagem custou 12,5 mil reais aos cofres do Senado apenas em diárias. Na programação, Flávio visitou o ateliê de Romero Britto, almoçou com executivos de uma empresa de navios turísticos e hotéis-cassinos e fez “visitas técnicas” acompanhado do então presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, o sanfoneiro. Encontrou-se até com Sheldon Adelson, magnata dos cassinos que morreria no ano seguinte. No pedido de autorização da viagem ao Senado, Flávio declarara que seu objetivo era “promover o turismo brasileiro no mercado internacional”, atrair cruzeiros e estimular o “investimento e instalação de novos resorts”.
Como Trento também estivera em Las Vegas exatamente naquele período, a CPI da Pandemia interessou-se em saber se ele havia viajado na companhia de algum senador. “Sr. Senador, com todo o respeito e baseado no meu habeas corpus, eu irei permanecer em silêncio”, respondeu. Diante da recusa de Trento em esclarecer o episódio, Flávio apressou-se em divulgar uma nota: “O senador nunca se reuniu com o Sr. Danilo Berndt Trento em Las Vegas, nem possui vínculo de qualquer espécie com o mesmo.”
Las Vegas não seria a última ocasião em que Flávio Bolsonaro apareceria associado ao universo dos cassinos. Em janeiro de 2025, segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, o senador passou o fim de semana anterior à posse de Donald Trump em Miami, no Hard Rock Hotel & Casino. Estava acompanhado do amigo Willer Tomaz, com quem é suspeito de manter uma sociedade oculta numa bet, conforme revelou a piauí. Segundo Jardim, a dupla passou a madrugada numa sala de jogos reservada. Flávio acompanhou Tomaz até o caixa do cassino ao fim da noitada, às 6h30. Lá, o amigo sacou 236 mil dólares em dinheiro vivo.
Na noite da última terça-feira, 20 de outubro, O Globo revelou que Tomaz havia pago a um site para desativar links com informações que o desagradavam. Um deles remetia a uma notícia cujo título, à luz dessas viagens, ganhava especial interesse: “Flávio Bolsonaro é contra PL dos Jogos, mas frequenta cassinos e se reúne com operadoras em Las Vegas.”
Até o fechamento desta reportagem, Flavio Bolsonaro não se manifestou. Também procurado, Danilo Trento não atendeu às ligações da piauí e, por mensagem, pediu para antecipar o assunto por estar em uma “call”. Uma vez informado sobre os detalhes da pauta – os voos, a confraternização na lancha e o Rolex –, interrompeu a comunicação. A reportagem também procurou os advogados de Francisco Maximiliano, por mensagem de WhatsApp e por e-mail, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
As negociações haviam despertado suspeitas no servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, irmão do então deputado Luis Miranda, que denunciou publicamente as irregularidades. O contrato acabou sem que o primeiro pagamento fosse realizado. Flávio, porém, ironizava o escândalo. “É a primeira vez que eu vejo, na minha vida, um desvio de dinheiro público em que não tem um real que foi pago. Que dinheiro público? Então, eu fico satisfeito e até concordo com a oposição quando eles dizem que esse é o maior escândalo de corrupção do governo Bolsonaro, porque, no maior escândalo de governo, de corrupção, segundo eles, não houve corrupção.”
O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 78 pessoas, entre elas Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano.
Em 20 de outubro de 2020, três meses depois do passeio de lancha, a proximidade com Flávio já havia rendido à dupla Trento e Maximiano uma demonstração concreta de prestígio. O senador abriu caminho para que Maximiano e outro executivo de sua empresa fossem recebidos pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano. A reunião, realizada virtualmente em razão da pandemia, tinha como objetivo discutir linhas de financiamento para uma nova empresa de Maximiano no setor de telecomunicações. Para deixar claro que endossava a empreitada, Flávio participou da ligação.
Quando a agenda veio a público, numa reportagem da Veja, o BNDES explicou que haviam ocorrido duas reuniões, uma delas com a presença de Montezano, e que nenhum financiamento fora contratado. Flávio, por sua vez, publicou um vídeo em que admitia ter “amigos em comum” com Maximiano em Brasília, mas negava manter com ele qualquer “relação comercial ou financeira”. “O que eu fiz sim foi pedir ao presidente do BNDES que ouvisse uma boa ideia que foi trazida pelo senhor Maximiano, para que o BNDES pudesse entender e, quem sabe, dar algum suporte para levar internet para o Norte e Nordeste”, justificou.
A reunião com Maximiano foi o único encontro oficial de Flávio com o BNDES, na condição de autoridade e sem outros parlamentares, desde o início da gestão de Montezano, em julho de 2019, até aquele momento. Para o presidente do banco, tampouco se tratava de uma agenda corriqueira. Montezano recebia com frequência deputados e senadores, individualmente ou em grupo. O incomum era que chegassem acompanhados de um empresário amigo, interessado em financiamento público.
Àquela altura, Flávio Bolsonaro já demonstrava interesse pelo mercado de telecomunicações. Frequentava viagens promovidas pelo senador Ciro Nogueira e pelo então ministro das Comunicações, Fábio Faria, para eventos internacionais do setor. Os parlamentares que integravam o grupo de trabalho responsável por acompanhar o leilão do 5G no Brasil, porém, não eram convidados para essas viagens.
Uma das viagens internacionais de Flávio como senador, a Las Vegas, em janeiro de 2020, coincidiu com a de Danilo Trento. Foi antes da pandemia e do passeio de lancha. A viagem custou 12,5 mil reais aos cofres do Senado apenas em diárias. Na programação, Flávio visitou o ateliê de Romero Britto, almoçou com executivos de uma empresa de navios turísticos e hotéis-cassinos e fez “visitas técnicas” acompanhado do então presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, o sanfoneiro. Encontrou-se até com Sheldon Adelson, magnata dos cassinos que morreria no ano seguinte. No pedido de autorização da viagem ao Senado, Flávio declarara que seu objetivo era “promover o turismo brasileiro no mercado internacional”, atrair cruzeiros e estimular o “investimento e instalação de novos resorts”.
Como Trento também estivera em Las Vegas exatamente naquele período, a CPI da Pandemia interessou-se em saber se ele havia viajado na companhia de algum senador. “Sr. Senador, com todo o respeito e baseado no meu habeas corpus, eu irei permanecer em silêncio”, respondeu. Diante da recusa de Trento em esclarecer o episódio, Flávio apressou-se em divulgar uma nota: “O senador nunca se reuniu com o Sr. Danilo Berndt Trento em Las Vegas, nem possui vínculo de qualquer espécie com o mesmo.”
Las Vegas não seria a última ocasião em que Flávio Bolsonaro apareceria associado ao universo dos cassinos. Em janeiro de 2025, segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, o senador passou o fim de semana anterior à posse de Donald Trump em Miami, no Hard Rock Hotel & Casino. Estava acompanhado do amigo Willer Tomaz, com quem é suspeito de manter uma sociedade oculta numa bet, conforme revelou a piauí. Segundo Jardim, a dupla passou a madrugada numa sala de jogos reservada. Flávio acompanhou Tomaz até o caixa do cassino ao fim da noitada, às 6h30. Lá, o amigo sacou 236 mil dólares em dinheiro vivo.
Na noite da última terça-feira, 20 de outubro, O Globo revelou que Tomaz havia pago a um site para desativar links com informações que o desagradavam. Um deles remetia a uma notícia cujo título, à luz dessas viagens, ganhava especial interesse: “Flávio Bolsonaro é contra PL dos Jogos, mas frequenta cassinos e se reúne com operadoras em Las Vegas.”
Até o fechamento desta reportagem, Flavio Bolsonaro não se manifestou. Também procurado, Danilo Trento não atendeu às ligações da piauí e, por mensagem, pediu para antecipar o assunto por estar em uma “call”. Uma vez informado sobre os detalhes da pauta – os voos, a confraternização na lancha e o Rolex –, interrompeu a comunicação. A reportagem também procurou os advogados de Francisco Maximiliano, por mensagem de WhatsApp e por e-mail, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
A democracia já está a arder?
Não sabemos exatamente o que aí vem. Mas sabemos que a democracia parece estar cada vez mais moribunda em todo o mundo. As pessoas subverteram o sentido do exercício democrático do voto.
Como se sabe, as pessoas já não votam em propostas políticas nem em candidatos. Pelo contrário, vota-se num exercício de puro protesto, de modo a dar vazão ao ressentimento pessoal e à frustração social. Num mundo onde a riqueza está cada vez mais concentrada num ínfimo grupo de pessoas, a esmagadora maioria da população luta para sobreviver, enquanto a fome e a pobreza crescem de forma avassaladora. Sabe-se que cerca de metade da população portuguesa em pobreza persistente tem emprego, mas não consegue sair dessa situação.
Ainda há dias, inúmeros eleitores de outro país foram questionados na rua, durante um período eleitoral, sobre o seu sentido de voto e, desafiados a nomear algum projeto do candidato que disseram apoiar nas urnas, nenhum deles soube citar nem sequer um único exemplo. A desculpa invariavelmente apresentada para a sua intenção de voto foi que seria necessário mudar o governo.
Quando lhes perguntaram por que razão apostavam na mudança, afirmaram que estava tudo pior. Confrontados com diversas medidas que esse governo tinha tomado indo ao encontro dos seus interesses e que beneficiaram claramente a maioria da população, ficaram gaguejantes, desconfortáveis e voltaram ao mantra da mudança sem mais argumentos.
Verifica-se, portanto, que o voto deixou de ser um exercício livre de cidadania para passar a ser um grito de socorro nalguns casos, e uma expressão de raiva ancorada em boatos, chavões, notícias falsas e manipulação daqueles que se deixam influenciar pelas redes sociais.
O voto tornou-se, sobretudo, uma resposta em linha com o discurso de ódio da direita radical populista e da extrema-direita. Cada vez vota-se mais de forma emocional e não racional. A política tornou-se uma espécie de futebol, onde não há espaço nem tempo para a racionalidade, mas apenas emoção, e por isso se cavam trincheiras.
Este populismo de tipo clubista ataca as instituições, tal como o populismo político, neste caso a arbitragem e, se necessário, agridem-se até fisicamente os homens do apito, que representam a autoridade instituída dentro das quatro linhas.
Mas o problema é antigo. Goethe pensava que “a democracia não corre, mas chega segura ao objetivo.” Só que os cidadãos habituaram-se a limitar a sua intervenção política ao exercício do direito de voto, de quatro em quatro anos, e demitiram-se de uma cidadania ativa. Não compreendem que deviam começar por se responsabilizar a si próprios pela passividade e não apenas a responsabilizar quem elegem em cada momento.
Durante o processo de democratização em Portugal, dizia-se que “o voto é a arma do povo”. Pois agora a arma democrática do voto está a ser usada não com vista à construção duma sociedade mais digna, fraterna, coesa e próspera, assente nos direitos humanos, mas sim com o objetivo confessado de semear o ódio e a exclusão.
Aqui na Europa, parece que não aprendemos nada com estas décadas de paz, prosperidade e estado social. Está tudo posto em causa, os direitos dos mais pobres e vulneráveis, das minorias e os progressos alcançados na igualdade de género. Entretidos em ascender e manter o poder, os governos adormeceram e descuidaram as tarefas de promover nos eleitorados a crença no processo e nas instituições democráticas. Sem habitação, sem trabalho, sem dinheiro e com um futuro incerto, dificilmente se conseguem manter as pessoas numa postura de bem com a República.
A cabeça diz que não dá para acreditar nos modernos apregoadores dos amanhãs que cantam, mas as emoções puxam para aí, porque as pessoas precisam de esperança como de pão para a boca. Aqui chegados é preciso que os partidos realmente democráticos parem para refletir sobre como ressuscitar a esperança na população, e transformem isso em palavras, atos e projetos de esperança. Caso contrário, é a democracia que fica a arder e emergirão de seguida os homens providenciais e as ditaduras, que trarão consigo muito mais dores e cujo fim já conhecemos.
Albert Einstein definiu a democracia como ideal político, “para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado.” Mas hoje temos quem seja aclamado pelo povo como mito, aos gritos, dentro das igrejas. São os novos tempos. Afinal, nada como um poeta para clarificar o que parece confuso: “Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder” (Carlos Drummond de Andrade).
Como se sabe, as pessoas já não votam em propostas políticas nem em candidatos. Pelo contrário, vota-se num exercício de puro protesto, de modo a dar vazão ao ressentimento pessoal e à frustração social. Num mundo onde a riqueza está cada vez mais concentrada num ínfimo grupo de pessoas, a esmagadora maioria da população luta para sobreviver, enquanto a fome e a pobreza crescem de forma avassaladora. Sabe-se que cerca de metade da população portuguesa em pobreza persistente tem emprego, mas não consegue sair dessa situação.
Ainda há dias, inúmeros eleitores de outro país foram questionados na rua, durante um período eleitoral, sobre o seu sentido de voto e, desafiados a nomear algum projeto do candidato que disseram apoiar nas urnas, nenhum deles soube citar nem sequer um único exemplo. A desculpa invariavelmente apresentada para a sua intenção de voto foi que seria necessário mudar o governo.
Quando lhes perguntaram por que razão apostavam na mudança, afirmaram que estava tudo pior. Confrontados com diversas medidas que esse governo tinha tomado indo ao encontro dos seus interesses e que beneficiaram claramente a maioria da população, ficaram gaguejantes, desconfortáveis e voltaram ao mantra da mudança sem mais argumentos.
Verifica-se, portanto, que o voto deixou de ser um exercício livre de cidadania para passar a ser um grito de socorro nalguns casos, e uma expressão de raiva ancorada em boatos, chavões, notícias falsas e manipulação daqueles que se deixam influenciar pelas redes sociais.
O voto tornou-se, sobretudo, uma resposta em linha com o discurso de ódio da direita radical populista e da extrema-direita. Cada vez vota-se mais de forma emocional e não racional. A política tornou-se uma espécie de futebol, onde não há espaço nem tempo para a racionalidade, mas apenas emoção, e por isso se cavam trincheiras.
Este populismo de tipo clubista ataca as instituições, tal como o populismo político, neste caso a arbitragem e, se necessário, agridem-se até fisicamente os homens do apito, que representam a autoridade instituída dentro das quatro linhas.
Mas o problema é antigo. Goethe pensava que “a democracia não corre, mas chega segura ao objetivo.” Só que os cidadãos habituaram-se a limitar a sua intervenção política ao exercício do direito de voto, de quatro em quatro anos, e demitiram-se de uma cidadania ativa. Não compreendem que deviam começar por se responsabilizar a si próprios pela passividade e não apenas a responsabilizar quem elegem em cada momento.
Durante o processo de democratização em Portugal, dizia-se que “o voto é a arma do povo”. Pois agora a arma democrática do voto está a ser usada não com vista à construção duma sociedade mais digna, fraterna, coesa e próspera, assente nos direitos humanos, mas sim com o objetivo confessado de semear o ódio e a exclusão.
Aqui na Europa, parece que não aprendemos nada com estas décadas de paz, prosperidade e estado social. Está tudo posto em causa, os direitos dos mais pobres e vulneráveis, das minorias e os progressos alcançados na igualdade de género. Entretidos em ascender e manter o poder, os governos adormeceram e descuidaram as tarefas de promover nos eleitorados a crença no processo e nas instituições democráticas. Sem habitação, sem trabalho, sem dinheiro e com um futuro incerto, dificilmente se conseguem manter as pessoas numa postura de bem com a República.
A cabeça diz que não dá para acreditar nos modernos apregoadores dos amanhãs que cantam, mas as emoções puxam para aí, porque as pessoas precisam de esperança como de pão para a boca. Aqui chegados é preciso que os partidos realmente democráticos parem para refletir sobre como ressuscitar a esperança na população, e transformem isso em palavras, atos e projetos de esperança. Caso contrário, é a democracia que fica a arder e emergirão de seguida os homens providenciais e as ditaduras, que trarão consigo muito mais dores e cujo fim já conhecemos.
Albert Einstein definiu a democracia como ideal político, “para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado.” Mas hoje temos quem seja aclamado pelo povo como mito, aos gritos, dentro das igrejas. São os novos tempos. Afinal, nada como um poeta para clarificar o que parece confuso: “Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder” (Carlos Drummond de Andrade).
Ainda somos os mesmos?
Republiquei "Como Nossos Pais", de Belchior, na voz de Elis Regina, no Instagram depois do primeiro turno das eleições presidenciais. Não fui a única. A canção, gravada há cinquenta anos, voltou a circular entre pessoas que procuravam expressar o espanto diante de um resultado que, para muitas delas, parecia difícil de imaginar. Flávio Bolsonaro havia recebido mais de 56 milhões de votos e terminado à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto acompanhava as reações, percebi que também havia recorrido à música para formular uma pergunta que não conseguia responder. O que exatamente esperávamos que o Brasil tivesse aprendido com sua própria história?
Em 1976, quando Elis Regina lançou Falso Brilhante, o país vivia sob uma ditadura militar que já atravessara mais de uma década. A repressão havia alcançado universidades, jornais, sindicatos, organizações políticas e a vida de milhares de famílias. Prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos faziam parte de uma realidade que o regime procurava ocultar ou justificar. Foi nesse ambiente que a composição de Belchior encontrou, na interpretação de Elis, uma das expressões mais reconhecíveis do desencanto de uma geração que havia acreditado na possibilidade de transformar o mundo e começava a reconhecer a persistência daquilo que desejara superar.
No espetáculo Falso Brilhante, concebido com elementos do circo e do teatro, havia bonecos de pano acomodados numa arquibancada, formando uma plateia dentro da própria encenação. Ao terminar "Como Nossos Pais", Elis permanecia diante daqueles espectadores imóveis. A imagem é perturbadora: uma cantora que acabara de dar voz à desilusão de sua geração observava figuras incapazes de responder. Belchior escrevera sobre a distância entre as promessas da juventude e a vida que se construíra depois delas. Elis transformava essa descoberta em uma experiência quase física, como se a pergunta alcançasse também quem estivesse sentado do outro lado do palco.
Cinquenta anos depois, já conhecemos o desfecho histórico daquele regime. A ditadura terminou, a Constituição de 1988 reorganizou a vida institucional brasileira, testemunhos foram reunidos e arquivos foram abertos. A Comissão Nacional da Verdade documentou graves violações de direitos humanos e identificou estruturas de repressão que haviam atravessado sucessivos governos militares. Sabemos mais sobre aquele período do que sabiam muitos dos brasileiros que o viveram, quando a censura, o medo e a ausência de informações impediam até mesmo que as famílias conhecessem o destino de seus desaparecidos.
Ainda assim, conhecer a história e reconhecer suas consequências são operações diferentes. Uma sociedade pode reunir documentos sobre a violência de Estado e continuar dividida sobre o significado político daquela violência. Pode ensinar a existência da tortura nas escolas enquanto parte de seus cidadãos considera aceitável que autoridades públicas a defendam. Pode preservar as instituições democráticas e conviver com discursos que relativizam o autoritarismo. O conhecimento histórico permanece disponível, mas a maneira como é recebido depende também das disputas políticas e das experiências de quem o encontra.
Penso nisso porque pertenço a uma geração que não viveu a ditadura brasileira. Conheci aquele período pelos livros, pelos depoimentos de sobreviventes, pelas decisões judiciais e pelo trabalho de pessoas que dedicaram suas vidas a impedir que determinados acontecimentos desaparecessem da memória pública. Estudar a história da repressão me permitiu compreender experiências que jamais vivi. Também me fez reconhecer a dimensão da responsabilidade envolvida em transmitir acontecimentos cuja lembrança, para muitas famílias, permanece inseparável da perda de alguém.
Há uma reflexão de José Mujica, registrada em sua entrevista para o documentário Human, de Yann Arthus-Bertrand, que me acompanha quando penso nessa transmissão. O ex-presidente uruguaio, que passou anos preso durante a ditadura de seu país, recorda as expectativas políticas de sua juventude e as derrotas que obrigaram sua geração a reconsiderar a maneira como imaginava transformar a sociedade. Entre as descobertas que descreve está a dificuldade de modificar uma cultura, mesmo quando se consegue alterar suas condições materiais. Sua própria vida havia sido atravessada por acontecimentos históricos cuja compreensão dificilmente poderia ser separada da experiência de tê-los vivido.
A lembrança dessa entrevista me leva a pensar na distância entre a história que recebemos e aquela que experimentamos pessoalmente. Quem nasceu depois de uma ditadura pode reconhecer a violência daquele período, mas dificilmente sentirá a mesma coisa que alguém que esperou por um familiar desaparecido ou aprendeu a medir as próprias palavras por medo de ser denunciado. A transmissão da memória exige que experiências individuais adquiram significado para pessoas que não estavam presentes. É um trabalho necessariamente incompleto, porque cada geração encontra o passado a partir das perguntas, dos conflitos e das preocupações do seu próprio tempo.
Seria possível, então, compreender a permanência de certas disposições autoritárias no Brasil como resultado dessa distância entre gerações. Muitos dos que votam hoje nasceram depois de 1985. Outros eram crianças quando a ditadura terminou. Para eles, o regime militar pertence a uma história recebida, reconstruída por narrativas familiares, registros públicos, disputas ideológicas e instituições de ensino. A passagem do tempo altera a relação afetiva com os acontecimentos, e a memória daqueles que sofreram diretamente a repressão não alcança necessariamente seus descendentes com a mesma intensidade.
Mas essa explicação encontra um obstáculo: nós vivemos a pandemia.
Há apenas alguns anos, acompanhávamos diariamente a divulgação do número de mortos pela Covid-19. Hospitais ficaram sobrecarregados, famílias perderam pessoas sem conseguir se despedir, profissionais de saúde trabalharam sob condições extremas e milhões de brasileiros reorganizaram suas vidas em torno do medo de adoecer ou transmitir o vírus a alguém próximo. O país ultrapassou a marca de 700 mil mortes oficialmente registradas pela doença. Aquela experiência ocorreu diante de nós, acompanhada por boletins epidemiológicos, imagens de hospitais, debates públicos e investigações parlamentares.
Também acompanhamos a conduta de Jair Bolsonaro. Em abril de 2020, questionado sobre o número de mortes, o então presidente respondeu que não era coveiro. Ao longo da emergência sanitária, suas declarações sobre a gravidade da doença, as vacinas e os tratamentos contrariaram repetidamente orientações científicas. Em 2021, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia investigou ações e omissões do governo federal e aprovou um relatório que recomendava, entre outras providências, seu indiciamento. Flávio Bolsonaro, então senador, esteve entre os defensores políticos do pai durante aqueles trabalhos e chegou a classificar a investigação como uma grande perda de tempo.
É evidente que Flávio e Jair Bolsonaro são pessoas distintas, com trajetórias e responsabilidades próprias. Sigo firme na minha posição de que não devemos culpar os filhos pelos erros dos seus pais. Mas a candidatura presidencial do filho também se apresenta como continuidade de um movimento político construído em torno da figura do pai. A associação envolve uma herança eleitoral, uma identidade pública e a defesa de parte de seu legado. Quando mais de 56 milhões de brasileiros escolheram Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026, portanto, o resultado exigiu uma reflexão que alcança também a memória política dos anos da pandemia.
O que fazemos com uma experiência que todos atravessamos, mas da qual não guardamos a mesma lembrança?
Para algumas pessoas, aqueles anos estão associados à perda de familiares e ao sentimento de abandono diante das autoridades públicas. Para outras, permanecem ligados ao desemprego, ao fechamento de pequenos negócios, à interrupção da vida escolar ou às restrições impostas à circulação. Houve quem atribuísse ao governo federal responsabilidade pelas consequências da crise, quem concentrasse suas críticas nos governadores e prefeitos e quem interpretasse as medidas sanitárias como uma ameaça à liberdade individual. Estávamos expostos à mesma emergência, mas nossa percepção do que acontecia era atravessada por condições materiais, convicções políticas, fontes de informação e experiências pessoais muito diferentes.
A pandemia demonstra, assim, um limite particularmente difícil daquilo que esperamos da memória. Ter vivido um acontecimento não determina a interpretação que faremos dele. Duas pessoas podem recordar os mesmos meses e discordar profundamente sobre quem agiu corretamente, quais medidas foram necessárias e quem deve ser responsabilizado. A existência de provas documentais permite confrontar afirmações falsas e investigar responsabilidades, mas nem sempre dissolve os vínculos afetivos e políticos por meio dos quais cada pessoa organiza suas lembranças.
Talvez por isso seja insuficiente afirmar que os eleitores simplesmente esqueceram. O esquecimento existe, assim como a desinformação e a tentativa deliberada de reescrever acontecimentos recentes. Mas há também aqueles que se lembram e atribuem ao que viveram outro significado, ou que reconhecem determinados erros e, ainda assim, consideram outras preocupações mais urgentes. A rejeição ao Partido dos Trabalhadores, o descontentamento econômico, as expectativas sobre segurança pública, os valores religiosos e a identificação com o conservadorismo podem adquirir um peso maior do que a avaliação retrospectiva da pandemia. Reconhecer essa diversidade de motivações ajuda a compreender como se constitui uma escolha eleitoral, embora não encerre a discussão sobre suas consequências políticas.
A surpresa diante do primeiro turno merece, por isso, ser examinada com a mesma atenção que dedicamos ao resultado. Entre as pessoas que compartilharam Elis Regina, havia quem estivesse convencido de que Flávio Bolsonaro dificilmente chegaria tão longe. Também vi manifestações de artistas e eleitores que, diante da necessidade de um segundo turno, passaram a discutir o voto estratégico em Lula. A incredulidade parece nascer de uma expectativa bastante humana: imaginamos que certas experiências, por sua gravidade, deveriam produzir consequências morais suficientemente profundas para orientar as escolhas futuras.
Essa expectativa tem algo de compreensível. Se a história da ditadura não bastou para estabelecer um consenso sobre a violência autoritária, talvez a proximidade da pandemia devesse ter produzido uma consciência diferente sobre o exercício do poder. Entretanto, a convivência com uma catástrofe tampouco garante acordo sobre suas causas ou responsabilidades. A memória de uma sociedade é formada por lembranças que competem entre si, por acontecimentos que recebem interpretações divergentes e por pessoas que lutam para estabelecer quais versões do passado terão reconhecimento público.
É justamente por isso que a preservação da memória continua necessária. As investigações, os arquivos, os testemunhos e o trabalho de educação histórica permitem que uma sociedade confronte suas próprias justificativas e mantenha acessíveis fatos que interesses políticos procuram minimizar. A memória não oferece imunidade contra a repetição. Sua importância está também na possibilidade de contestar publicamente a maneira como o passado é narrado, identificar responsabilidades e transmitir experiências que, sem esse trabalho, poderiam ser perdidas ou deliberadamente apagadas.
Volto, então, à canção que compartilhei. Quando Belchior escreveu sobre a semelhança entre sua geração e a de seus pais, havia uma dor particular no reconhecimento de que a juventude também podia envelhecer dentro das estruturas que prometera transformar. A força da interpretação de Elis talvez esteja em conservar essa descoberta sem oferecer ao ouvinte o conforto de uma solução. Cinquenta anos depois, seguimos recorrendo àquela voz quando o presente parece desmentir o futuro que imaginávamos possível.
Mas, desde que republiquei a música, outra pergunta passou a me incomodar: quem está incluído naquele nós?
Pensei inicialmente nos brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro, nas continuidades políticas que reconheço em sua candidatura e na dificuldade de compreender por que os acontecimentos recentes não foram suficientes para afastar tantos eleitores desse projeto. Agora penso também em quem, como eu, acreditou que a história da ditadura e a experiência da pandemia teriam tornado esse resultado menos provável. Talvez a pergunta de Belchior permaneça tão desconfortável porque alcança também a nossa maneira de compreender o país. Compartilhamos Elis Regina para lamentar que tantas coisas pareçam continuar iguais. Ainda precisamos compreender por que esperávamos que fossem diferentes.Estéfany Rocha Monteiro
Em 1976, quando Elis Regina lançou Falso Brilhante, o país vivia sob uma ditadura militar que já atravessara mais de uma década. A repressão havia alcançado universidades, jornais, sindicatos, organizações políticas e a vida de milhares de famílias. Prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos faziam parte de uma realidade que o regime procurava ocultar ou justificar. Foi nesse ambiente que a composição de Belchior encontrou, na interpretação de Elis, uma das expressões mais reconhecíveis do desencanto de uma geração que havia acreditado na possibilidade de transformar o mundo e começava a reconhecer a persistência daquilo que desejara superar.
No espetáculo Falso Brilhante, concebido com elementos do circo e do teatro, havia bonecos de pano acomodados numa arquibancada, formando uma plateia dentro da própria encenação. Ao terminar "Como Nossos Pais", Elis permanecia diante daqueles espectadores imóveis. A imagem é perturbadora: uma cantora que acabara de dar voz à desilusão de sua geração observava figuras incapazes de responder. Belchior escrevera sobre a distância entre as promessas da juventude e a vida que se construíra depois delas. Elis transformava essa descoberta em uma experiência quase física, como se a pergunta alcançasse também quem estivesse sentado do outro lado do palco.
Cinquenta anos depois, já conhecemos o desfecho histórico daquele regime. A ditadura terminou, a Constituição de 1988 reorganizou a vida institucional brasileira, testemunhos foram reunidos e arquivos foram abertos. A Comissão Nacional da Verdade documentou graves violações de direitos humanos e identificou estruturas de repressão que haviam atravessado sucessivos governos militares. Sabemos mais sobre aquele período do que sabiam muitos dos brasileiros que o viveram, quando a censura, o medo e a ausência de informações impediam até mesmo que as famílias conhecessem o destino de seus desaparecidos.
Ainda assim, conhecer a história e reconhecer suas consequências são operações diferentes. Uma sociedade pode reunir documentos sobre a violência de Estado e continuar dividida sobre o significado político daquela violência. Pode ensinar a existência da tortura nas escolas enquanto parte de seus cidadãos considera aceitável que autoridades públicas a defendam. Pode preservar as instituições democráticas e conviver com discursos que relativizam o autoritarismo. O conhecimento histórico permanece disponível, mas a maneira como é recebido depende também das disputas políticas e das experiências de quem o encontra.
Penso nisso porque pertenço a uma geração que não viveu a ditadura brasileira. Conheci aquele período pelos livros, pelos depoimentos de sobreviventes, pelas decisões judiciais e pelo trabalho de pessoas que dedicaram suas vidas a impedir que determinados acontecimentos desaparecessem da memória pública. Estudar a história da repressão me permitiu compreender experiências que jamais vivi. Também me fez reconhecer a dimensão da responsabilidade envolvida em transmitir acontecimentos cuja lembrança, para muitas famílias, permanece inseparável da perda de alguém.
Há uma reflexão de José Mujica, registrada em sua entrevista para o documentário Human, de Yann Arthus-Bertrand, que me acompanha quando penso nessa transmissão. O ex-presidente uruguaio, que passou anos preso durante a ditadura de seu país, recorda as expectativas políticas de sua juventude e as derrotas que obrigaram sua geração a reconsiderar a maneira como imaginava transformar a sociedade. Entre as descobertas que descreve está a dificuldade de modificar uma cultura, mesmo quando se consegue alterar suas condições materiais. Sua própria vida havia sido atravessada por acontecimentos históricos cuja compreensão dificilmente poderia ser separada da experiência de tê-los vivido.
A lembrança dessa entrevista me leva a pensar na distância entre a história que recebemos e aquela que experimentamos pessoalmente. Quem nasceu depois de uma ditadura pode reconhecer a violência daquele período, mas dificilmente sentirá a mesma coisa que alguém que esperou por um familiar desaparecido ou aprendeu a medir as próprias palavras por medo de ser denunciado. A transmissão da memória exige que experiências individuais adquiram significado para pessoas que não estavam presentes. É um trabalho necessariamente incompleto, porque cada geração encontra o passado a partir das perguntas, dos conflitos e das preocupações do seu próprio tempo.
Seria possível, então, compreender a permanência de certas disposições autoritárias no Brasil como resultado dessa distância entre gerações. Muitos dos que votam hoje nasceram depois de 1985. Outros eram crianças quando a ditadura terminou. Para eles, o regime militar pertence a uma história recebida, reconstruída por narrativas familiares, registros públicos, disputas ideológicas e instituições de ensino. A passagem do tempo altera a relação afetiva com os acontecimentos, e a memória daqueles que sofreram diretamente a repressão não alcança necessariamente seus descendentes com a mesma intensidade.
Mas essa explicação encontra um obstáculo: nós vivemos a pandemia.
Há apenas alguns anos, acompanhávamos diariamente a divulgação do número de mortos pela Covid-19. Hospitais ficaram sobrecarregados, famílias perderam pessoas sem conseguir se despedir, profissionais de saúde trabalharam sob condições extremas e milhões de brasileiros reorganizaram suas vidas em torno do medo de adoecer ou transmitir o vírus a alguém próximo. O país ultrapassou a marca de 700 mil mortes oficialmente registradas pela doença. Aquela experiência ocorreu diante de nós, acompanhada por boletins epidemiológicos, imagens de hospitais, debates públicos e investigações parlamentares.
Também acompanhamos a conduta de Jair Bolsonaro. Em abril de 2020, questionado sobre o número de mortes, o então presidente respondeu que não era coveiro. Ao longo da emergência sanitária, suas declarações sobre a gravidade da doença, as vacinas e os tratamentos contrariaram repetidamente orientações científicas. Em 2021, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia investigou ações e omissões do governo federal e aprovou um relatório que recomendava, entre outras providências, seu indiciamento. Flávio Bolsonaro, então senador, esteve entre os defensores políticos do pai durante aqueles trabalhos e chegou a classificar a investigação como uma grande perda de tempo.
É evidente que Flávio e Jair Bolsonaro são pessoas distintas, com trajetórias e responsabilidades próprias. Sigo firme na minha posição de que não devemos culpar os filhos pelos erros dos seus pais. Mas a candidatura presidencial do filho também se apresenta como continuidade de um movimento político construído em torno da figura do pai. A associação envolve uma herança eleitoral, uma identidade pública e a defesa de parte de seu legado. Quando mais de 56 milhões de brasileiros escolheram Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026, portanto, o resultado exigiu uma reflexão que alcança também a memória política dos anos da pandemia.
O que fazemos com uma experiência que todos atravessamos, mas da qual não guardamos a mesma lembrança?
Para algumas pessoas, aqueles anos estão associados à perda de familiares e ao sentimento de abandono diante das autoridades públicas. Para outras, permanecem ligados ao desemprego, ao fechamento de pequenos negócios, à interrupção da vida escolar ou às restrições impostas à circulação. Houve quem atribuísse ao governo federal responsabilidade pelas consequências da crise, quem concentrasse suas críticas nos governadores e prefeitos e quem interpretasse as medidas sanitárias como uma ameaça à liberdade individual. Estávamos expostos à mesma emergência, mas nossa percepção do que acontecia era atravessada por condições materiais, convicções políticas, fontes de informação e experiências pessoais muito diferentes.
A pandemia demonstra, assim, um limite particularmente difícil daquilo que esperamos da memória. Ter vivido um acontecimento não determina a interpretação que faremos dele. Duas pessoas podem recordar os mesmos meses e discordar profundamente sobre quem agiu corretamente, quais medidas foram necessárias e quem deve ser responsabilizado. A existência de provas documentais permite confrontar afirmações falsas e investigar responsabilidades, mas nem sempre dissolve os vínculos afetivos e políticos por meio dos quais cada pessoa organiza suas lembranças.
Talvez por isso seja insuficiente afirmar que os eleitores simplesmente esqueceram. O esquecimento existe, assim como a desinformação e a tentativa deliberada de reescrever acontecimentos recentes. Mas há também aqueles que se lembram e atribuem ao que viveram outro significado, ou que reconhecem determinados erros e, ainda assim, consideram outras preocupações mais urgentes. A rejeição ao Partido dos Trabalhadores, o descontentamento econômico, as expectativas sobre segurança pública, os valores religiosos e a identificação com o conservadorismo podem adquirir um peso maior do que a avaliação retrospectiva da pandemia. Reconhecer essa diversidade de motivações ajuda a compreender como se constitui uma escolha eleitoral, embora não encerre a discussão sobre suas consequências políticas.
A surpresa diante do primeiro turno merece, por isso, ser examinada com a mesma atenção que dedicamos ao resultado. Entre as pessoas que compartilharam Elis Regina, havia quem estivesse convencido de que Flávio Bolsonaro dificilmente chegaria tão longe. Também vi manifestações de artistas e eleitores que, diante da necessidade de um segundo turno, passaram a discutir o voto estratégico em Lula. A incredulidade parece nascer de uma expectativa bastante humana: imaginamos que certas experiências, por sua gravidade, deveriam produzir consequências morais suficientemente profundas para orientar as escolhas futuras.
Essa expectativa tem algo de compreensível. Se a história da ditadura não bastou para estabelecer um consenso sobre a violência autoritária, talvez a proximidade da pandemia devesse ter produzido uma consciência diferente sobre o exercício do poder. Entretanto, a convivência com uma catástrofe tampouco garante acordo sobre suas causas ou responsabilidades. A memória de uma sociedade é formada por lembranças que competem entre si, por acontecimentos que recebem interpretações divergentes e por pessoas que lutam para estabelecer quais versões do passado terão reconhecimento público.
É justamente por isso que a preservação da memória continua necessária. As investigações, os arquivos, os testemunhos e o trabalho de educação histórica permitem que uma sociedade confronte suas próprias justificativas e mantenha acessíveis fatos que interesses políticos procuram minimizar. A memória não oferece imunidade contra a repetição. Sua importância está também na possibilidade de contestar publicamente a maneira como o passado é narrado, identificar responsabilidades e transmitir experiências que, sem esse trabalho, poderiam ser perdidas ou deliberadamente apagadas.
Volto, então, à canção que compartilhei. Quando Belchior escreveu sobre a semelhança entre sua geração e a de seus pais, havia uma dor particular no reconhecimento de que a juventude também podia envelhecer dentro das estruturas que prometera transformar. A força da interpretação de Elis talvez esteja em conservar essa descoberta sem oferecer ao ouvinte o conforto de uma solução. Cinquenta anos depois, seguimos recorrendo àquela voz quando o presente parece desmentir o futuro que imaginávamos possível.
Mas, desde que republiquei a música, outra pergunta passou a me incomodar: quem está incluído naquele nós?
Pensei inicialmente nos brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro, nas continuidades políticas que reconheço em sua candidatura e na dificuldade de compreender por que os acontecimentos recentes não foram suficientes para afastar tantos eleitores desse projeto. Agora penso também em quem, como eu, acreditou que a história da ditadura e a experiência da pandemia teriam tornado esse resultado menos provável. Talvez a pergunta de Belchior permaneça tão desconfortável porque alcança também a nossa maneira de compreender o país. Compartilhamos Elis Regina para lamentar que tantas coisas pareçam continuar iguais. Ainda precisamos compreender por que esperávamos que fossem diferentes.
Prosperidade: fácil de vender, difícil de entregar
A nova rodada da pesquisa Meio/Ideia, a última antes do segundo turno, traz uma chave para entender o voto em Flávio Bolsonaro e também um alerta para o dia seguinte caso o candidato do PL confirme seu favoritismo e vença a eleição: ela reside na promessa de prosperidade, essa palavra carregada de possibilidades, mas de difícil entrega.
A detalhe aparece numa pergunta nova: o que significa melhorar de vida para você? Para 43,3% dos entrevistados, é ter o próprio negócio, trabalhar por conta própria, enquanto apenas 32% sonham com carteira assinada e direitos trabalhistas. A direita percebeu essa aspiração antes da esquerda, tanto que vem trabalhando promessas para esse público pelo menos desde 2024.
A presença mais marcante do coach Pablo Marçal na campanha de Flávio no segundo turno, inclusive como preparador para o debate da Band, embute a ideia de que é preciso acenar a esse contingente. O truque do candidato de falar direto para a câmera e perguntar ao espectador se a vida dele melhorou ou piorou no governo Lula vai direto ao ponto, é a pergunta anterior à incluída na pesquisa.
Nesse grupo de aspirantes a empreendedor, Flávio aparece com 62,3%, segundo o Ideia. Dos que sonham com a CLT, 65,4% vão de Lula. Numa campanha praticamente empatada, esse recorte mostra uma bifurcação crucial para desenhar o que serão os próximos quatro anos do Brasil.
Principalmente porque Flávio promete que a vida dessas pessoas mudará radicalmente, rápido e sem que ninguém perca direitos, uma conta que, como todo mundo sabe, não fecha, mas ninguém entre os encastelados nos escritórios da Faria Lima parece muito preocupado em explicar aos clientes como fechará.
A mistura de linguajar de coach com o de pregador religioso que Flávio introjetou com base em muito media training, pôs em prática na entrevista da Globo e, principalmente, no debate é a receita do embuste: confie em mim que tudo dará certo.
Ao falar de um plano mirabolante de moratória nos boletos, ele misturou alhos com bugalhos, não foi questionado por Lula e não gerou nenhum pânico nos analistas de mercado sempre tão horrorizados com as decisões do governo do PT.
Esse papinho à Pablo Marçal costuma convencer aqueles que legitimamente sonham com o passaporte para a vida sem patrão. Assim como convenceu gente sem nenhum treinamento a escalar o Pico dos Marins, há alguns anos, e levou outro grupo de incautos a participar de um triatlo no Paraguai de onde muitos precisaram ser resgatados porque não conseguiam nadar em águas revoltas, Marçal está treinando um presidenciável para os debates e é candidatíssimo a virar ministro da Prosperidade.
Vender um amanhã maravilhoso, que só depende da sua vontade, é fácil. Com a ajuda das redes sociais, então, sopa no mel. O difícil é entregar a tal prosperidade num país complexo, desigual e profundamente dividido como o Brasil.
O segundo turno devolveu às ruas uma esquerda que parecia ter abdicado a elas desde o impeachment de Dilma Rousseff. Ressurgiu, sobretudo, o jovem de esquerda, cuja presença digital era menos perceptível que a do jovem de direita, talvez por ser menos estridente.
As manifestações do segundo turno foram engrossadas ainda por aquele eleitor de centro que se sentiu meio peixe fora d’água no governo Lula 3, mas que, ainda assim, entende que a volta do bolsonarismo ao poder é um risco para os direitos civis, a democracia, o meio ambiente e outros pilares civilizacionais.
Ainda que não consigam a virada em nome da qual saíram de casa, esses grupos não deixarão a arena pública, ainda mais porque, num Congresso com predomínio inédito das forças de direita, caberá em grande medida a eles puxar o tal freio que as instituições normalmente são responsáveis por operar.
Flávio, se eleito, terá em seu cangote os aspirantes a empreendedor cobrando a entrega rápida da prosperidade prometida, os beneficiários de programas sociais que prometeu não desassistir, o mercado que conta com a tesoura escondida no segundo turno e essa oposição revigorada dos exércitos digitais e das ruas. Não será o passeio que o salto alto dele e de seu entorno e a truculência que seus apoiadores já começam a demonstrar em atos violentos país afora parecem fazer crer.
A detalhe aparece numa pergunta nova: o que significa melhorar de vida para você? Para 43,3% dos entrevistados, é ter o próprio negócio, trabalhar por conta própria, enquanto apenas 32% sonham com carteira assinada e direitos trabalhistas. A direita percebeu essa aspiração antes da esquerda, tanto que vem trabalhando promessas para esse público pelo menos desde 2024.
A presença mais marcante do coach Pablo Marçal na campanha de Flávio no segundo turno, inclusive como preparador para o debate da Band, embute a ideia de que é preciso acenar a esse contingente. O truque do candidato de falar direto para a câmera e perguntar ao espectador se a vida dele melhorou ou piorou no governo Lula vai direto ao ponto, é a pergunta anterior à incluída na pesquisa.
Nesse grupo de aspirantes a empreendedor, Flávio aparece com 62,3%, segundo o Ideia. Dos que sonham com a CLT, 65,4% vão de Lula. Numa campanha praticamente empatada, esse recorte mostra uma bifurcação crucial para desenhar o que serão os próximos quatro anos do Brasil.
Principalmente porque Flávio promete que a vida dessas pessoas mudará radicalmente, rápido e sem que ninguém perca direitos, uma conta que, como todo mundo sabe, não fecha, mas ninguém entre os encastelados nos escritórios da Faria Lima parece muito preocupado em explicar aos clientes como fechará.
A mistura de linguajar de coach com o de pregador religioso que Flávio introjetou com base em muito media training, pôs em prática na entrevista da Globo e, principalmente, no debate é a receita do embuste: confie em mim que tudo dará certo.
Ao falar de um plano mirabolante de moratória nos boletos, ele misturou alhos com bugalhos, não foi questionado por Lula e não gerou nenhum pânico nos analistas de mercado sempre tão horrorizados com as decisões do governo do PT.
Esse papinho à Pablo Marçal costuma convencer aqueles que legitimamente sonham com o passaporte para a vida sem patrão. Assim como convenceu gente sem nenhum treinamento a escalar o Pico dos Marins, há alguns anos, e levou outro grupo de incautos a participar de um triatlo no Paraguai de onde muitos precisaram ser resgatados porque não conseguiam nadar em águas revoltas, Marçal está treinando um presidenciável para os debates e é candidatíssimo a virar ministro da Prosperidade.
Vender um amanhã maravilhoso, que só depende da sua vontade, é fácil. Com a ajuda das redes sociais, então, sopa no mel. O difícil é entregar a tal prosperidade num país complexo, desigual e profundamente dividido como o Brasil.
O segundo turno devolveu às ruas uma esquerda que parecia ter abdicado a elas desde o impeachment de Dilma Rousseff. Ressurgiu, sobretudo, o jovem de esquerda, cuja presença digital era menos perceptível que a do jovem de direita, talvez por ser menos estridente.
As manifestações do segundo turno foram engrossadas ainda por aquele eleitor de centro que se sentiu meio peixe fora d’água no governo Lula 3, mas que, ainda assim, entende que a volta do bolsonarismo ao poder é um risco para os direitos civis, a democracia, o meio ambiente e outros pilares civilizacionais.
Ainda que não consigam a virada em nome da qual saíram de casa, esses grupos não deixarão a arena pública, ainda mais porque, num Congresso com predomínio inédito das forças de direita, caberá em grande medida a eles puxar o tal freio que as instituições normalmente são responsáveis por operar.
Flávio, se eleito, terá em seu cangote os aspirantes a empreendedor cobrando a entrega rápida da prosperidade prometida, os beneficiários de programas sociais que prometeu não desassistir, o mercado que conta com a tesoura escondida no segundo turno e essa oposição revigorada dos exércitos digitais e das ruas. Não será o passeio que o salto alto dele e de seu entorno e a truculência que seus apoiadores já começam a demonstrar em atos violentos país afora parecem fazer crer.
Você consegue imaginar Flávio Bolsonaro eleito presidente?
Negue. Negue tudo o que possa prejudicá-lo. Negue até mesmo o que você acabou de dizer ou escreveu outro dia. Valha-se, para isso, de qualquer desculpa — seja ela convincente ou inverossímil — ou de nenhuma. E siga em frente, sem se deixar abater.
O que importa é alcançar o seu objetivo. Uma vez alcançado, o passado incômodo vira pó e as pessoas, salvo raras exceções, desistem de relembrá-lo.
Memória duradoura só existe em celulares e nas nuvens. Políticos sábios de antigamente não falavam nada de sério ao telefone; era só olho no olho.
Veja a tremenda confusão em que se meteu Flávio Bolsonaro, aquele que nada aprendeu e nada esqueceu. Na condição de candidato a presidente da República, é natural que seja gravado tudo o que diz ou disse. E ele costuma dizer coisas das quais se arrepende depois.
Na sabatina da TV Globo, ao ser interrogado sobre o projeto que apoia para acabar com a rastreabilidade das munições usadas por policiais, ele respondeu tratar-se de um mero “detalhezinho”.
Sem a marcação nas munições, grande parte dos homicídios não seria esclarecida. O da vereadora Marielle Franco talvez não fosse. Certamente não teria sido o da juíza Patrícia Acioli, assassinada em Niterói com 21 tiros.
O crime organizado agradece a Flávio o que ele chama de “detalhezinho”. Por sinal, as facções vivem em débito com ele e com seu pai, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. Os fabricantes de armas também.
No governo de Jair Bolsonaro, 17 decretos, 19 portarias, duas resoluções e três instruções normativas foram assinados para flexibilizar o acesso a armas e munições, segundo o Instituto Sou da Paz. Resultado: em dois anos, o número de armas particulares atingiu a marca de uma para cada 100 brasileiros.
Matadores de aluguel igualmente são gratos a Jair e aos seus filhos. No caso de Flávio, por suas relações próximas e amigáveis com eles, e por sua presteza em ajudá-los ao empregar seus familiares na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Pela primeira vez na história do Brasil, um investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pelos crimes de evasão de divisas, corrupção passiva e ativa e lavagem de dinheiro está perto de se eleger presidente.
Também pela primeira vez, um defensor de milicianos poderá subir a rampa do Palácio do Planalto e nomear quatro ministros da mais alta Corte de Justiça do país. Que tal? Se a ideia lhe agrada, vote nele. Se não, ainda dá tempo de derrotá-lo. Pela primeira vez na história, um defensor de milicianos e investigado por corrupção está prestes a subir a rampa e desenhar o futuro do STF
Também pela primeira vez, um defensor de milicianos poderá subir a rampa do Palácio do Planalto e nomear quatro ministros da mais alta Corte de Justiça do país. Que tal? Se a ideia lhe agrada, vote nele. Se não, ainda dá tempo de derrotá-lo.
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
A Internacional Autoritária é a maior ameaça dos nossos tempos
Tem já mais de uma década o debate entre aqueles que alertam para o perigo de uma deriva autoritária nas nossas democracias e quem considera que esse perigo está sendo exagerado. A minha posição nesse debate é clara: acho que o perigo do autoritarismo ainda é subestimado.
Uma coisa é o debate (interessante, mas em boa medida acadêmico) sobre se o novo autoritarismo pode ser comparado com o fascismo do século passado. Alguns puristas consideram que, enquanto não estiverem preenchidas todas as características do fascismo original, não se pode usar a palavra para a sua variante.
Trata-se de uma exigência impossível de atingir: nem no fascismo original todas as suas versões foram idênticas. Mais importante, porém, é entender: o que fariam os tiranos de cem anos atrás com as possibilidades de hoje?
É aí que chegamos à conclusão de que não estamos ainda suficientemente assustados. Os tiranos de cem anos atrás não tinham armas nucleares. Hoje vivemos esperando que Donald Trump e Vladimir Putin não sejam tão loucos quanto aparentam ser.
Os tiranos de cem anos atrás não tinham uma ferramenta de vigilância e controle tão completa quanto são as redes sociais e a internet nos dias de hoje. E a verdade é que nada se consegue fazer atualmente, incluindo lutar contra os autoritários, sem usar as redes sociais e nos expormos aos seus donos, que são eles próprios autoritários ou aliados de autoritários.
Os tiranos de cem anos atrás não dispunham ainda da possibilidade de dominar a inteligência artificial. Hoje veem essa possibilidade ao virar da esquina.
Restou-nos, enfim, quando mais nada dava certo, esperar que os tiranos morressem de morte natural. Há uns anos, contudo, um microfone apanhou uma conversa entre Putin e Xi Jinping sobre a possibilidade de prolongar drasticamente a vida humana. Se lá chegarmos podemos ter a certeza de que os primeiros beneficiários não vão ser os pobres nem os cidadãos comuns, mas os autoproclamados "homens fortes" (e, de fato, quase todos homens) das oligarquias, da alta finança e do poder.
Finalmente, temos de encarar uma realidade: os nossos autoritários estão bem mais unidos do que os tiranos de cem anos atrás. Não interessa qual a ideologia, a nação ou o credo, a cola que os une é a sua profunda e total corrupção.
De Trump a Putin, passando por Binyamin Netanyahu e por todos os seus imitadores pelo mundo fora, com destaque para a América Latina, não há um que não esteja impregnado de um total despudor na hora da roubalheira.
Mais ainda, essa obsessão comum leva-os a coordenarem-se e apoiarem-se mutuamente. Por isso os democratas estão divididos em muitas correntes —sociais-democratas, liberais, ecologistas, progressistas vários— mas os autoritários fazem todos parte da mesma Internacional, mesmo que ela não seja assumida.
Por isso a luta contra a Internacional Autoritária é a luta das nossas vidas, em cada país onde ela se trava. Ela obriga-nos a votar pelo mal menor, a sair para a rua com quem não concordamos e a improvisar para resistir nas redes. Sempre insatisfeitos, de coração nas mãos, com medo pela democracia.
Mas é uma luta gloriosa. A minha gratidão a todos os que a fazem, aí também onde me leem.
Uma coisa é o debate (interessante, mas em boa medida acadêmico) sobre se o novo autoritarismo pode ser comparado com o fascismo do século passado. Alguns puristas consideram que, enquanto não estiverem preenchidas todas as características do fascismo original, não se pode usar a palavra para a sua variante.
A luta contra a Internacional Autoritária é a luta das nossas vidas, em cada país onde ela se trava. Ela obriga-nos a votar pelo mal menor, a sair para a rua com quem não concordamos e a improvisar para resistir nas redes
Trata-se de uma exigência impossível de atingir: nem no fascismo original todas as suas versões foram idênticas. Mais importante, porém, é entender: o que fariam os tiranos de cem anos atrás com as possibilidades de hoje?
É aí que chegamos à conclusão de que não estamos ainda suficientemente assustados. Os tiranos de cem anos atrás não tinham armas nucleares. Hoje vivemos esperando que Donald Trump e Vladimir Putin não sejam tão loucos quanto aparentam ser.
Os tiranos de cem anos atrás não tinham uma ferramenta de vigilância e controle tão completa quanto são as redes sociais e a internet nos dias de hoje. E a verdade é que nada se consegue fazer atualmente, incluindo lutar contra os autoritários, sem usar as redes sociais e nos expormos aos seus donos, que são eles próprios autoritários ou aliados de autoritários.
Os tiranos de cem anos atrás não dispunham ainda da possibilidade de dominar a inteligência artificial. Hoje veem essa possibilidade ao virar da esquina.
Restou-nos, enfim, quando mais nada dava certo, esperar que os tiranos morressem de morte natural. Há uns anos, contudo, um microfone apanhou uma conversa entre Putin e Xi Jinping sobre a possibilidade de prolongar drasticamente a vida humana. Se lá chegarmos podemos ter a certeza de que os primeiros beneficiários não vão ser os pobres nem os cidadãos comuns, mas os autoproclamados "homens fortes" (e, de fato, quase todos homens) das oligarquias, da alta finança e do poder.
Finalmente, temos de encarar uma realidade: os nossos autoritários estão bem mais unidos do que os tiranos de cem anos atrás. Não interessa qual a ideologia, a nação ou o credo, a cola que os une é a sua profunda e total corrupção.
De Trump a Putin, passando por Binyamin Netanyahu e por todos os seus imitadores pelo mundo fora, com destaque para a América Latina, não há um que não esteja impregnado de um total despudor na hora da roubalheira.
Mais ainda, essa obsessão comum leva-os a coordenarem-se e apoiarem-se mutuamente. Por isso os democratas estão divididos em muitas correntes —sociais-democratas, liberais, ecologistas, progressistas vários— mas os autoritários fazem todos parte da mesma Internacional, mesmo que ela não seja assumida.
Por isso a luta contra a Internacional Autoritária é a luta das nossas vidas, em cada país onde ela se trava. Ela obriga-nos a votar pelo mal menor, a sair para a rua com quem não concordamos e a improvisar para resistir nas redes. Sempre insatisfeitos, de coração nas mãos, com medo pela democracia.
Mas é uma luta gloriosa. A minha gratidão a todos os que a fazem, aí também onde me leem.
Flávio Bolsonaro não consegue dissipar minhas suspeitas
Certamente não são pessoas como eu que Flávio Bolsonaro tenta convencer por meio de posts, discursos, sabatinas e debates. De resto, com a minha aversão ao gregarismo ideológico e o meu natural ceticismo, não devo mesmo ser o público-alvo de qualquer campanha.
Afinal, meu marxismo é mais o de Groucho Marx ("não entro em clubes que aceitem pessoas como eu") que o de Karl, e minha abordagem dos candidatos sempre foi mais parecida com a de um consumidor que com a de um militante apaixonado. E, sim, acredito em coisas que causam repugnância em quem moraliza excessivamente a política, como votar no menos pior disponível —sem guardar meu voto para o candidato ideal como quem se guarda para a mulher da sua vida. Política é outro tipo de negócio.
Dito isso, Flávio Bolsonaro tem fracassado completamente em dissipar uma inquietação essencial sobre os anos da sua eventual Presidência: seu compromisso com a ordem liberal-democrática. Não se trata do vago apelo a "salvar a democracia", de que o lulismo tanto abusou, confundindo frequentemente a defesa da democracia com a defesa da sua própria agenda política, como se não pudesse haver democracia fora da esquerda.
Sei que cada um tem seus temores diante do futuro do país com Lula ou com os Bolsonaros — sim, no plural, porque eles costumam governar os quatro ao mesmo tempo, como vimos da última vez. Sei também que algumas listas de exigências são feitas sob medida para que só caiba nelas um candidato de esquerda, quando não o próprio Lula. Não é o meu caso. Não tenho dificuldade em aceitar que o Brasil seja governado por alguém de direita, conservador ou adversário daquilo em que acredito. A vontade da maioria eleitoral não tem obrigação de coincidir com a minha.
Mas, para confiar a Flávio o governo do país, precisaria de razões para acreditar que ele e seu círculo próximo respeitarão as regras do jogo quando elas contrariarem seus interesses. A democracia liberal não se resume a eleições periódicas. Exige respeito à separação dos Poderes, ao Estado de Direito, aos limites da autoridade presidencial e, sobretudo, à possibilidade de perder eleições e deixar o poder.
Não se trata apenas de saber o que Flávio conhecia ou desconhecia dos planos golpistas do pai. Ele mesmo passou anos defendendo, em livro e discursos, o golpe de 1964, celebrando a ditadura militar e exaltando alguns dos seus mais notórios agentes de repressão. Não é um passado que o condene a pensar assim para sempre, mas, com semelhante histórico pessoal e familiar, caberia a ele, mais do que a qualquer outro, convencer-nos de que se converteu às convicções liberal-democráticas.
Na campanha, ele chegou a prometer que respeitará o resultado das urnas e que não disputará a reeleição. Promessas não são garantias, naturalmente. Ainda mais quando, ao anunciar que não pretende se reeleger, deixa aberta a possibilidade de ser beneficiado por uma extensão do próprio mandato. Mas o problema maior é outro: como conciliar essas declarações com sua atitude diante da tentativa de golpe de Estado pela qual o pai foi condenado?
Flávio não precisaria negar, contra as evidências reconhecidas pela Justiça, o envolvimento de Jair Bolsonaro na tentativa de impedir a alternância de poder. Bastaria convencer-me de que, sob seu governo, não se repetiria coisa semelhante. Em vez disso, trata a condenação do pai como uma injustiça a reparar, promete beneficiá-lo com o perdão presidencial e quer receber dele a faixa na posse. Como símbolo inaugural do novo governo, imagina receber a transmissão da autoridade republicana justamente de quem foi condenado por tentar subvertê-la. Um tapa na cara da democracia.
Não estamos falando de uma divergência sobre decisões do STF, mas de uma tentativa de golpe de Estado que incluiu planos para assassinar o presidente, o vice-presidente e um ministro do Supremo, admitindo até a morte de civis como dano colateral. E de uma ação de sedição, em 8 de janeiro de 2023, que Flávio insiste em tratar como manifestação cívica injustamente punida. Não é uma questão de simpatia pelo Judiciário, mas de compromisso com os limites que nenhuma disputa pelo poder pode legitimamente ultrapassar.
Posso aceitar de um candidato quase qualquer divergência política, por mais profunda que seja, mas não posso transigir, sobretudo em tempos tão turbulentos, quanto ao seu compromisso com o Estado de Direito e com os direitos e garantias fundamentais.
E Flávio Bolsonaro tem feito muito mais para alimentar minhas suspeitas que para dissipá-las.
Wilson Gomes
Afinal, meu marxismo é mais o de Groucho Marx ("não entro em clubes que aceitem pessoas como eu") que o de Karl, e minha abordagem dos candidatos sempre foi mais parecida com a de um consumidor que com a de um militante apaixonado. E, sim, acredito em coisas que causam repugnância em quem moraliza excessivamente a política, como votar no menos pior disponível —sem guardar meu voto para o candidato ideal como quem se guarda para a mulher da sua vida. Política é outro tipo de negócio.
Dito isso, Flávio Bolsonaro tem fracassado completamente em dissipar uma inquietação essencial sobre os anos da sua eventual Presidência: seu compromisso com a ordem liberal-democrática. Não se trata do vago apelo a "salvar a democracia", de que o lulismo tanto abusou, confundindo frequentemente a defesa da democracia com a defesa da sua própria agenda política, como se não pudesse haver democracia fora da esquerda.
Sei que cada um tem seus temores diante do futuro do país com Lula ou com os Bolsonaros — sim, no plural, porque eles costumam governar os quatro ao mesmo tempo, como vimos da última vez. Sei também que algumas listas de exigências são feitas sob medida para que só caiba nelas um candidato de esquerda, quando não o próprio Lula. Não é o meu caso. Não tenho dificuldade em aceitar que o Brasil seja governado por alguém de direita, conservador ou adversário daquilo em que acredito. A vontade da maioria eleitoral não tem obrigação de coincidir com a minha.
Mas, para confiar a Flávio o governo do país, precisaria de razões para acreditar que ele e seu círculo próximo respeitarão as regras do jogo quando elas contrariarem seus interesses. A democracia liberal não se resume a eleições periódicas. Exige respeito à separação dos Poderes, ao Estado de Direito, aos limites da autoridade presidencial e, sobretudo, à possibilidade de perder eleições e deixar o poder.
Não se trata apenas de saber o que Flávio conhecia ou desconhecia dos planos golpistas do pai. Ele mesmo passou anos defendendo, em livro e discursos, o golpe de 1964, celebrando a ditadura militar e exaltando alguns dos seus mais notórios agentes de repressão. Não é um passado que o condene a pensar assim para sempre, mas, com semelhante histórico pessoal e familiar, caberia a ele, mais do que a qualquer outro, convencer-nos de que se converteu às convicções liberal-democráticas.
Na campanha, ele chegou a prometer que respeitará o resultado das urnas e que não disputará a reeleição. Promessas não são garantias, naturalmente. Ainda mais quando, ao anunciar que não pretende se reeleger, deixa aberta a possibilidade de ser beneficiado por uma extensão do próprio mandato. Mas o problema maior é outro: como conciliar essas declarações com sua atitude diante da tentativa de golpe de Estado pela qual o pai foi condenado?
Flávio não precisaria negar, contra as evidências reconhecidas pela Justiça, o envolvimento de Jair Bolsonaro na tentativa de impedir a alternância de poder. Bastaria convencer-me de que, sob seu governo, não se repetiria coisa semelhante. Em vez disso, trata a condenação do pai como uma injustiça a reparar, promete beneficiá-lo com o perdão presidencial e quer receber dele a faixa na posse. Como símbolo inaugural do novo governo, imagina receber a transmissão da autoridade republicana justamente de quem foi condenado por tentar subvertê-la. Um tapa na cara da democracia.
Não estamos falando de uma divergência sobre decisões do STF, mas de uma tentativa de golpe de Estado que incluiu planos para assassinar o presidente, o vice-presidente e um ministro do Supremo, admitindo até a morte de civis como dano colateral. E de uma ação de sedição, em 8 de janeiro de 2023, que Flávio insiste em tratar como manifestação cívica injustamente punida. Não é uma questão de simpatia pelo Judiciário, mas de compromisso com os limites que nenhuma disputa pelo poder pode legitimamente ultrapassar.
Posso aceitar de um candidato quase qualquer divergência política, por mais profunda que seja, mas não posso transigir, sobretudo em tempos tão turbulentos, quanto ao seu compromisso com o Estado de Direito e com os direitos e garantias fundamentais.
E Flávio Bolsonaro tem feito muito mais para alimentar minhas suspeitas que para dissipá-las.
Wilson Gomes
Depois da emoção da campanha, uma grande tarefa nos espera
Minha menina: o Brasil vive sua última semana de campanha. Só agora, no segundo turno, assume os traços interessantes do passado.
Há gente na rua, gente fazendo o L, dizendo “vamos virar”, manifestações estudantis, shows. Para dizer a verdade, a animação envolve os dois lados. Vi uma espécie de comício em Capelinha, com milhares de pessoas. É uma cidade de Minas na entrada do Vale do Jequitinhonha, onde estive recentemente. Enfim, há luta eleitoral em toda parte.
Acho ótimo que as pessoas façam as campanhas. Os candidatos deveriam agradecer a elas não só por carregarem o piano nesta fase final, em que estão já de língua de fora. O ano que vem será difícil para qualquer vencedor. Os economistas acham que faltará dinheiro, além disso o El Niño vem pesado com seus eventos extremos.
Os últimos dias são interessantes também pelo esforço dos candidatos. O nome da direita acabou, para não perder votos, votando numa pauta de esquerda, o fim da escala 6x1, sem dúvida um avanço civilizatório. O candidato da esquerda afirmou que apoia a redução da maioridade penal, uma pauta clássica da direita. Chamo isso de efeito sertão virando mar, mar virando sertão, verso consagrado de nossa música popular.
O governo tem tido vitórias no Parlamento. O dado mais importante é que o desmatamento na Amazônia caiu ao nível mais baixo da História. Há queimadas por causa da seca e também porque os desmatadores se vestem de incendiários. Faz parte de seu show macabro.
Se um dia fosse escrever a história desta campanha, destacaria a grande quantidade de declarações de voto na internet. Conhecidas ou não, as pessoas traçam ligeiramente sua biografia e concluem dizendo em quem votarão.
Lembra aquele português que fomos visitar no Alentejo? Ele me escreveu dizendo que em seu país costumam eleger um Congresso de direita e um presidente de esquerda, ou vice-versa. Só para equilibrar. Os brasileiros fariam o mesmo? Não sei, aqui é presidencialismo, e não há muito esse tipo de cálculo.
Há muitas encruzilhadas, daqui até 2030. Não sei se verei todas. Espero que essa rígida divisão nacional se atenue com o tempo. A derrota da direita na Hungria mostrou que, mesmo com poderes quase absolutos, Viktor Orbán foi para o espaço. As próximas eleições americanas sugerem que Trump perderá pelo menos uma das duas Casas do Parlamento.
O que não significa caminho tranquilo para a esquerda. Nesta fase, o capitalismo é um cavalo bravo que ninguém consegue cavalgar por muito tempo. Será preciso um longo trabalho de revisão, suportando a dor de saber que não se é dono da verdade e que nem existe resposta científica para o rumo da História.
Não importa o resultado, depois da emoção da reta final, uma grande tarefa nos espera. As multidões nas ruas não podem abandonar a cena política, embora tenham de voltar para suas atividades cotidianas. Elas serão um grande termômetro.
Há gente na rua, gente fazendo o L, dizendo “vamos virar”, manifestações estudantis, shows. Para dizer a verdade, a animação envolve os dois lados. Vi uma espécie de comício em Capelinha, com milhares de pessoas. É uma cidade de Minas na entrada do Vale do Jequitinhonha, onde estive recentemente. Enfim, há luta eleitoral em toda parte.
Acho ótimo que as pessoas façam as campanhas. Os candidatos deveriam agradecer a elas não só por carregarem o piano nesta fase final, em que estão já de língua de fora. O ano que vem será difícil para qualquer vencedor. Os economistas acham que faltará dinheiro, além disso o El Niño vem pesado com seus eventos extremos.
Os últimos dias são interessantes também pelo esforço dos candidatos. O nome da direita acabou, para não perder votos, votando numa pauta de esquerda, o fim da escala 6x1, sem dúvida um avanço civilizatório. O candidato da esquerda afirmou que apoia a redução da maioridade penal, uma pauta clássica da direita. Chamo isso de efeito sertão virando mar, mar virando sertão, verso consagrado de nossa música popular.
O governo tem tido vitórias no Parlamento. O dado mais importante é que o desmatamento na Amazônia caiu ao nível mais baixo da História. Há queimadas por causa da seca e também porque os desmatadores se vestem de incendiários. Faz parte de seu show macabro.
Se um dia fosse escrever a história desta campanha, destacaria a grande quantidade de declarações de voto na internet. Conhecidas ou não, as pessoas traçam ligeiramente sua biografia e concluem dizendo em quem votarão.
Lembra aquele português que fomos visitar no Alentejo? Ele me escreveu dizendo que em seu país costumam eleger um Congresso de direita e um presidente de esquerda, ou vice-versa. Só para equilibrar. Os brasileiros fariam o mesmo? Não sei, aqui é presidencialismo, e não há muito esse tipo de cálculo.
Há muitas encruzilhadas, daqui até 2030. Não sei se verei todas. Espero que essa rígida divisão nacional se atenue com o tempo. A derrota da direita na Hungria mostrou que, mesmo com poderes quase absolutos, Viktor Orbán foi para o espaço. As próximas eleições americanas sugerem que Trump perderá pelo menos uma das duas Casas do Parlamento.
O que não significa caminho tranquilo para a esquerda. Nesta fase, o capitalismo é um cavalo bravo que ninguém consegue cavalgar por muito tempo. Será preciso um longo trabalho de revisão, suportando a dor de saber que não se é dono da verdade e que nem existe resposta científica para o rumo da História.
Não importa o resultado, depois da emoção da reta final, uma grande tarefa nos espera. As multidões nas ruas não podem abandonar a cena política, embora tenham de voltar para suas atividades cotidianas. Elas serão um grande termômetro.
Pátria distraída
A língua ferina de Flávio Bolsonaro, no primeiro debate presidencial, não abre espaço para a poesia. Mas o silêncio que adotava diante de perguntas incômodas era como o oposto de um antigo samba que tudo dizia mesmo sem nada falar.
Era o início de 1984, um ano antes da transição para o primeiro governo civil depois de 20 anos da ditadura tão elogiada pelo senador e por seu pai Jair, atualmente preso por tentativa de golpe de Estado.
“Vai passar”, de Chico Buarque, ecoava em todo o país. Vai passar na avenida um samba popular, como dizia a canção. Assim como iria passar o longo período de autoritarismo, cuja memória andava – e anda – desbotada em nossas novas gerações.
“Dormia”, nessa página infeliz da história, “a nossa pátria-mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.
Foram muitas transações, como a história já nos ensinou. Na canção a linguagem era simbólica. Mas os grandes negócios estavam ali. Desde depósitos em contas no exterior ao estímulo de grandes projetos internacionais que deixaram rastros de destruição na Amazônia.
Naquele tempo prosperaram ideias como as de plantar capim para gado onde antes havia floresta nativa. Ou plantar eucalipto na terra aberta por desmatamento.
Agora os interesses são mais sofisticados. A economia digital precisa de novos minérios críticos para fabricar aparelhos eletrônicos de última geração. Assim como as forças armadas do mundo buscam matérias-primas para suas mais recentes armas.
E essas matérias-primas incluem as terras raras, cujas maiores reservas do mundo estão na China. As reservas brasileiras vêm logo atrás. E países como os Estados Unidos estão de olho no subsolo brasileiro.
Durante evento nos Estados Unidos, falando em inglês, Bolsonaro filho já havia prometido portas abertas. O Brasil, a seu ver, poderia ser “a solução para a América”.
Washington gostou e anotou. Com o senador no Palácio do Planalto seria mais fácil negociar do que com o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que defende o beneficiamento e a industrialização dos minérios no Brasil.
Na verdade, as terras raras brasileiras não interessam aos americanos apenas sob o ponto de vista da geopolítica. Também como negócio mesmo. Um negócio que pode vir a beneficiar integrantes das famílias do presidente e do vice-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e J.D. Vance.
Pois no debate presidencial Lula quis saber de Flávio como seria a relação especial com os Estados Unidos prometida pelo senador. E se ele pretendia mesmo entregar aos americanos o controle de jazidas de minerais críticos e terras raras. Silêncio.
Na hora Flávio mudou de assunto, assim como fez quando Lula lhe perguntou por que havia votado contra a extensão da licença maternidade, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ou quando lhe propôs abrir sigilos fiscal e digital.
O senador não quis falar do assunto. Mas este será um dos principais temas logo no início de um possível governo seu.
Um acordo com os Estados Unidos sobre as reservas minerais serviria como uma espécie de passaporte para o clube de aliados preferenciais de Washington. Ou como um novo modelo de subtração da pátria distraída.
Os fãs de Trump são tão ruidosos, no Brasil, que levaram à avenida Paulista, durante manifestação em apoio ao candidato da direita, um míssil inflável onde se lia um pedido para que o presidente americano bombardeasse o Brasil.
Flávio, é claro, acusou “agentes infiltrados” de levar o míssil à avenida. Quem sabe fosse apenas mais um adereço na versão bolsonarista do samba popular. Tudo isso também vai passar?
As urnas do próximo domingo dirão. Se há 40 anos a pátria-mãe dormia, diante de tenebrosas transações, ela agora precisa despertar.
Para encarar de frente os riscos à nossa soberania – política, econômica e tecnológica – e à própria democracia, que as gerações anteriores tanto lutaram para conquistar.
Era o início de 1984, um ano antes da transição para o primeiro governo civil depois de 20 anos da ditadura tão elogiada pelo senador e por seu pai Jair, atualmente preso por tentativa de golpe de Estado.
“Vai passar”, de Chico Buarque, ecoava em todo o país. Vai passar na avenida um samba popular, como dizia a canção. Assim como iria passar o longo período de autoritarismo, cuja memória andava – e anda – desbotada em nossas novas gerações.
“Dormia”, nessa página infeliz da história, “a nossa pátria-mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.
Foram muitas transações, como a história já nos ensinou. Na canção a linguagem era simbólica. Mas os grandes negócios estavam ali. Desde depósitos em contas no exterior ao estímulo de grandes projetos internacionais que deixaram rastros de destruição na Amazônia.
Naquele tempo prosperaram ideias como as de plantar capim para gado onde antes havia floresta nativa. Ou plantar eucalipto na terra aberta por desmatamento.
Agora os interesses são mais sofisticados. A economia digital precisa de novos minérios críticos para fabricar aparelhos eletrônicos de última geração. Assim como as forças armadas do mundo buscam matérias-primas para suas mais recentes armas.
E essas matérias-primas incluem as terras raras, cujas maiores reservas do mundo estão na China. As reservas brasileiras vêm logo atrás. E países como os Estados Unidos estão de olho no subsolo brasileiro.
Durante evento nos Estados Unidos, falando em inglês, Bolsonaro filho já havia prometido portas abertas. O Brasil, a seu ver, poderia ser “a solução para a América”.
Washington gostou e anotou. Com o senador no Palácio do Planalto seria mais fácil negociar do que com o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que defende o beneficiamento e a industrialização dos minérios no Brasil.
Na verdade, as terras raras brasileiras não interessam aos americanos apenas sob o ponto de vista da geopolítica. Também como negócio mesmo. Um negócio que pode vir a beneficiar integrantes das famílias do presidente e do vice-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e J.D. Vance.
Pois no debate presidencial Lula quis saber de Flávio como seria a relação especial com os Estados Unidos prometida pelo senador. E se ele pretendia mesmo entregar aos americanos o controle de jazidas de minerais críticos e terras raras. Silêncio.
Na hora Flávio mudou de assunto, assim como fez quando Lula lhe perguntou por que havia votado contra a extensão da licença maternidade, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ou quando lhe propôs abrir sigilos fiscal e digital.
O senador não quis falar do assunto. Mas este será um dos principais temas logo no início de um possível governo seu.
Um acordo com os Estados Unidos sobre as reservas minerais serviria como uma espécie de passaporte para o clube de aliados preferenciais de Washington. Ou como um novo modelo de subtração da pátria distraída.
Os fãs de Trump são tão ruidosos, no Brasil, que levaram à avenida Paulista, durante manifestação em apoio ao candidato da direita, um míssil inflável onde se lia um pedido para que o presidente americano bombardeasse o Brasil.
Flávio, é claro, acusou “agentes infiltrados” de levar o míssil à avenida. Quem sabe fosse apenas mais um adereço na versão bolsonarista do samba popular. Tudo isso também vai passar?
As urnas do próximo domingo dirão. Se há 40 anos a pátria-mãe dormia, diante de tenebrosas transações, ela agora precisa despertar.
Para encarar de frente os riscos à nossa soberania – política, econômica e tecnológica – e à própria democracia, que as gerações anteriores tanto lutaram para conquistar.
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