domingo, 8 de novembro de 2026
Geraldo Alckmin faz 74 anos como fiador discreto da democracia brasileira
Geraldo Alckmin completou 74 anos neste sábado (7/10) numa posição que pouca gente apostaria há cinco anos. Nascido em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, o vice-presidente chega à data menos de duas semanas depois de ter sido reeleito na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, líder do partido que ele derrotou quatro vezes nas urnas paulistas e de quem se tornou um dos auxiliares de maior confiança.
A aproximação que mudou o rumo da eleição de 2022 começou em dezembro de 2021, numa conversa entre Alckmin, Gabriel Chalita e Fernando Haddad, segundo apurou a reportagem. Depois de 33 anos no PSDB, o ex-governador deixou o encontro convencido de que era o nome mais adequado para ocupar a vice numa frente ampla contra Jair Bolsonaro.
Coube a Haddad levar a ideia a Lula, e a tarefa foi mais fácil do que se imaginava nos bastidores. A chapa formada pelos antigos adversários venceu o segundo turno com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro, numa disputa decidida por pouco mais de 2 milhões de votos.
Médico com pós-graduação em anestesiologia, Alckmin coordenou o gabinete de transição e articulou a transferência de poder com integrantes do governo que saía. Em dezembro de 2022, foi nomeado para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, acumulando a pasta com a Vice-Presidência, e ali construiu sem alarde a fama de interlocutor paciente.
O papel ficou evidente quando Donald Trump impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros em 2025 e Alckmin assumiu a linha de frente das conversas com o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e com o representante comercial Jamieson Greer. Longe dos holofotes, ele apostou na negociação em vez da retaliação e levou às reuniões os números que desmontavam a tese americana, como a tarifa média de 2,7% cobrada pelo Brasil e a tarifa zero aplicada a oito dos dez produtos que os Estados Unidos mais vendem ao país.
O resultado apareceu em novembro de 2025, quando a Casa Branca retirou a sobretaxa de 40% sobre 238 itens, entre eles café, carne bovina, cacau e frutas, um alívio decisivo para o agronegócio brasileiro. Fiel ao próprio estilo, o vice evitou reivindicar a conquista, que Washington atribuiu à conversa entre Trump e Lula.
A permanência de Alckmin na chapa de 2026 chegou a ser posta em dúvida quando setores do PT negociaram a vaga de vice com o MDB e o PSD em troca de apoio nacional. Também houve pressão para que ele disputasse o Senado por São Paulo, mas o vice disse a aliados que só entraria na eleição para repetir a dobradinha. Lula encerrou o debate em 31 de março, na reunião ministerial em que anunciou que o companheiro deixaria o ministério para ser candidato “outra vez”.
Hoje a confiança entre os dois é compartilhada e pública, como ficou claro na convenção do PSB, em julho, quando Lula apresentou o vice como uma garantia de que todos precisam. Em 25 de outubro, depois de terminar a primeira rodada atrás de Flávio Bolsonaro, a dupla virou o jogo e deu a Lula um inédito quarto mandato.
Casado desde 1979 com Maria Lúcia Ribeiro Alckmin, a dona Lu, com quem teve três filhos e tem quatro netos, o vice divide a vida pública com uma mulher que construiu uma trajetória própria no trabalho social. Quando assumiu o Fundo Social de Solidariedade de São Paulo, ela implantou como primeiro projeto o Padaria Artesanal, que ensina a fazer pães nutritivos e de bom valor comercial a pessoas em situação de vulnerabilidade e que, segundo dona Lu, já qualificou mais de 100 mil pessoas no estado.
Ao chegar a Brasília com o marido, em janeiro de 2023, ela levou o projeto para paróquias e entidades do Distrito Federal, onde mais de 2,1 mil pessoas aprenderam o ofício só no primeiro ano. Os alunos se tornam multiplicadores, e a meta declarada de dona Lu é espalhar as padarias pelo país inteiro.
A devoção a Nossa Senhora Aparecida acompanha o casal há décadas, e Alckmin frequenta a Basílica no dia 12 de outubro desde a infância. Neste ano, aproveitou a data para anunciar uma calçada de 134 quilômetros ao lado da Via Dutra, entre Arujá e Aparecida, destinada aos romeiros que fazem o caminho a pé até o Santuário Nacional.
Desde a reeleição, a disputa por ministérios movimenta Brasília, e Alckmin tem se mostrado ainda mais reservado do que de costume. Ele não gosta de ver o próprio nome em listas de cotados e não alimenta especulações sobre a Esplanada. Segundo apurou a reportagem, o vice não tem pretensão ministerial para o novo mandato e promete a Lula apenas o que já cumpre há quatro anos, a lealdade.
A aproximação que mudou o rumo da eleição de 2022 começou em dezembro de 2021, numa conversa entre Alckmin, Gabriel Chalita e Fernando Haddad, segundo apurou a reportagem. Depois de 33 anos no PSDB, o ex-governador deixou o encontro convencido de que era o nome mais adequado para ocupar a vice numa frente ampla contra Jair Bolsonaro.
Coube a Haddad levar a ideia a Lula, e a tarefa foi mais fácil do que se imaginava nos bastidores. A chapa formada pelos antigos adversários venceu o segundo turno com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro, numa disputa decidida por pouco mais de 2 milhões de votos.
Médico com pós-graduação em anestesiologia, Alckmin coordenou o gabinete de transição e articulou a transferência de poder com integrantes do governo que saía. Em dezembro de 2022, foi nomeado para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, acumulando a pasta com a Vice-Presidência, e ali construiu sem alarde a fama de interlocutor paciente.
O papel ficou evidente quando Donald Trump impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros em 2025 e Alckmin assumiu a linha de frente das conversas com o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e com o representante comercial Jamieson Greer. Longe dos holofotes, ele apostou na negociação em vez da retaliação e levou às reuniões os números que desmontavam a tese americana, como a tarifa média de 2,7% cobrada pelo Brasil e a tarifa zero aplicada a oito dos dez produtos que os Estados Unidos mais vendem ao país.
O resultado apareceu em novembro de 2025, quando a Casa Branca retirou a sobretaxa de 40% sobre 238 itens, entre eles café, carne bovina, cacau e frutas, um alívio decisivo para o agronegócio brasileiro. Fiel ao próprio estilo, o vice evitou reivindicar a conquista, que Washington atribuiu à conversa entre Trump e Lula.
A permanência de Alckmin na chapa de 2026 chegou a ser posta em dúvida quando setores do PT negociaram a vaga de vice com o MDB e o PSD em troca de apoio nacional. Também houve pressão para que ele disputasse o Senado por São Paulo, mas o vice disse a aliados que só entraria na eleição para repetir a dobradinha. Lula encerrou o debate em 31 de março, na reunião ministerial em que anunciou que o companheiro deixaria o ministério para ser candidato “outra vez”.
Hoje a confiança entre os dois é compartilhada e pública, como ficou claro na convenção do PSB, em julho, quando Lula apresentou o vice como uma garantia de que todos precisam. Em 25 de outubro, depois de terminar a primeira rodada atrás de Flávio Bolsonaro, a dupla virou o jogo e deu a Lula um inédito quarto mandato.
Casado desde 1979 com Maria Lúcia Ribeiro Alckmin, a dona Lu, com quem teve três filhos e tem quatro netos, o vice divide a vida pública com uma mulher que construiu uma trajetória própria no trabalho social. Quando assumiu o Fundo Social de Solidariedade de São Paulo, ela implantou como primeiro projeto o Padaria Artesanal, que ensina a fazer pães nutritivos e de bom valor comercial a pessoas em situação de vulnerabilidade e que, segundo dona Lu, já qualificou mais de 100 mil pessoas no estado.
Ao chegar a Brasília com o marido, em janeiro de 2023, ela levou o projeto para paróquias e entidades do Distrito Federal, onde mais de 2,1 mil pessoas aprenderam o ofício só no primeiro ano. Os alunos se tornam multiplicadores, e a meta declarada de dona Lu é espalhar as padarias pelo país inteiro.
A devoção a Nossa Senhora Aparecida acompanha o casal há décadas, e Alckmin frequenta a Basílica no dia 12 de outubro desde a infância. Neste ano, aproveitou a data para anunciar uma calçada de 134 quilômetros ao lado da Via Dutra, entre Arujá e Aparecida, destinada aos romeiros que fazem o caminho a pé até o Santuário Nacional.
Desde a reeleição, a disputa por ministérios movimenta Brasília, e Alckmin tem se mostrado ainda mais reservado do que de costume. Ele não gosta de ver o próprio nome em listas de cotados e não alimenta especulações sobre a Esplanada. Segundo apurou a reportagem, o vice não tem pretensão ministerial para o novo mandato e promete a Lula apenas o que já cumpre há quatro anos, a lealdade.
Geração TTP
Constanza Peña, filha do ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña, Constanza Peña apelidada de Maria Antonieta do Paraguai, dos Estados Unidos, onde estuda, postou foto na academia com camisa estampada com a frase "Taxem os pobres"
A pornológica dos poderes
Há uma bizarra relação entre "De civilitate morum puerilium" ("Da civilidade dos costumes infantis", 1530), de Erasmo de Roterdã, e o comportamento recente de figura da alta magistratura brasileira. Na pequena ética que ensina às crianças como se conduzir em sociedade, Erasmo visibiliza regras relacionadas às transformações históricas: moderar os gestos, sentar-se à mesa, manter a higiene etc. Um marco importante na história da civilidade europeia: antes, comia-se farofa com a mão, cuspindo no prato.
Algo em Erasmo, porém, viria destoar do bom tom moderno, assinalado pelo "Emílio" (1762), de Jean-Jacques Rousseau, texto fundamental da filosofia da educação. Em vez de etiqueta, Rousseau aborda o desenvolvimento harmônico do indivíduo, sem pressões civilizatórias. É, assim, desafinada a passagem em que Erasmo sugere ao jovem espertezas de como escapar ao pagamento pelos serviços sexuais de uma dama. Um aconselhamento que soa natural no seu tempo, mas incompatível com a moralidade moderna.
Esse, o ponto de ligação entre a permissividade seiscentista e o que hoje é corrupção moral, tipificada no caso brasileiro. O foco incide sobre a notícia de que um magistrado (publicamente, adepto da pauta de costumes) se trancou num quarto com cinco mulheres. Até aí a conduta é só mais rebarbativa do que o famoso flagrante, décadas atrás, de um deputado de cuecas em sua casa. Cassado por isso, aliás.
O elo com o passado está na aceitação presente do incentivo de Erasmo, safadíssimo, no latim "abi sine dominae solutione!", isto é, "vá embora sem pagar à dama". Infantilizada, a autoridade escafedeu-se, a lesada reclamou até ser quitada pelo Master Corruptor. Só uma teria "laborado" dentre as cinco, que pareciam simbolizar ("ubinam gentium!", "quem diria"?) o número regulamentar de uma turma suprema. Um símbolo operativo: também membro dessa turma, o magistrado sentiu-se à vontade para driblar a conta, modesta na fatura da corrupção.
A opinião pública mostra-se acanhada nos comentários sobre os escândalos, seja o relativo à fraude do Banco Master, que ainda relega a responsabilidade por R$ 40,6 bilhões ao FGC, sejam os relativos à dissolução de costumes, pouco analisada. Ambos, porém, fazem par. Costumes morais referem-se a presunções de decência e indecência. É bandeira hipócrita da direita, de torpe tradição: o nazifascismo, dissoluto, fazia da dissolução de fachada um instrumento de denúncia da liberdade sexual, do feminismo e das vanguardas artísticas.
Hoje, os grandes corruptores, cientes de que seu poder consiste em desligar-se dos sistemas, isto é, tornarem-se invisíveis aos mecanismos de controle, precisam controlar os circuitos legais. Daí a naziperversão, que tem duas faces: violência e devassidão exuberante.
No todo, um poder fascista e pornológico: nas bacanais de Vorcaro, o poder orgástico às custas de todos é grife distintiva, como um rolex. As cinco do magistrado dão fé de seu estatuto fálico "distingué". Mas, data vênia, o bom senso pede a palavra para indagar se o cinismo vai se sobrepor à vergonha na instituição que o abriga.
Muniz Sodré
Algo em Erasmo, porém, viria destoar do bom tom moderno, assinalado pelo "Emílio" (1762), de Jean-Jacques Rousseau, texto fundamental da filosofia da educação. Em vez de etiqueta, Rousseau aborda o desenvolvimento harmônico do indivíduo, sem pressões civilizatórias. É, assim, desafinada a passagem em que Erasmo sugere ao jovem espertezas de como escapar ao pagamento pelos serviços sexuais de uma dama. Um aconselhamento que soa natural no seu tempo, mas incompatível com a moralidade moderna.
Esse, o ponto de ligação entre a permissividade seiscentista e o que hoje é corrupção moral, tipificada no caso brasileiro. O foco incide sobre a notícia de que um magistrado (publicamente, adepto da pauta de costumes) se trancou num quarto com cinco mulheres. Até aí a conduta é só mais rebarbativa do que o famoso flagrante, décadas atrás, de um deputado de cuecas em sua casa. Cassado por isso, aliás.
O elo com o passado está na aceitação presente do incentivo de Erasmo, safadíssimo, no latim "abi sine dominae solutione!", isto é, "vá embora sem pagar à dama". Infantilizada, a autoridade escafedeu-se, a lesada reclamou até ser quitada pelo Master Corruptor. Só uma teria "laborado" dentre as cinco, que pareciam simbolizar ("ubinam gentium!", "quem diria"?) o número regulamentar de uma turma suprema. Um símbolo operativo: também membro dessa turma, o magistrado sentiu-se à vontade para driblar a conta, modesta na fatura da corrupção.
A opinião pública mostra-se acanhada nos comentários sobre os escândalos, seja o relativo à fraude do Banco Master, que ainda relega a responsabilidade por R$ 40,6 bilhões ao FGC, sejam os relativos à dissolução de costumes, pouco analisada. Ambos, porém, fazem par. Costumes morais referem-se a presunções de decência e indecência. É bandeira hipócrita da direita, de torpe tradição: o nazifascismo, dissoluto, fazia da dissolução de fachada um instrumento de denúncia da liberdade sexual, do feminismo e das vanguardas artísticas.
Hoje, os grandes corruptores, cientes de que seu poder consiste em desligar-se dos sistemas, isto é, tornarem-se invisíveis aos mecanismos de controle, precisam controlar os circuitos legais. Daí a naziperversão, que tem duas faces: violência e devassidão exuberante.
No todo, um poder fascista e pornológico: nas bacanais de Vorcaro, o poder orgástico às custas de todos é grife distintiva, como um rolex. As cinco do magistrado dão fé de seu estatuto fálico "distingué". Mas, data vênia, o bom senso pede a palavra para indagar se o cinismo vai se sobrepor à vergonha na instituição que o abriga.
Muniz Sodré
Ora, provas para quê? O fantástico mundo de Flávio na América
Era só o que faltava para a família Bolsonaro, seus fiéis seguidores e eleitores de ocasião: Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, reconhecer a vitória de Lula no último dia 25, ou, pelo menos, admitir que o processo eleitoral brasileiro decorreu sem evidências de fraude. Não o fez até hoje. Não está com pinta de que o fará tão cedo.
Como ficariam por lá os fugitivos Flávio e Eduardo? Ou não ficariam? Afinal, ambos dispõem de passaporte italiano que os habilitaria a escapar para a Itália, abrigo temporário ou definitivo da ex-deputada Carla Zambelli. Se tivesse permanecido aqui, ela estaria presa, depois de ser condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Você não lembra mais de Zambelli, ligada a um hacker famoso? Nem do furor provocado por ela no centro da capital paulista ao correr com uma arma em punho à caça de um militante político com quem trocara desaforos no meio da rua? Foi na véspera do segundo turno da eleição de 2022, perdida por Jair Bolsonaro para Lula.
Habituado a culpar os outros por seus próprios erros, o ex-presidente, condenado por tentativa de golpe de Estado, apontou o dedo para Zambelli: sim, se não fosse ela, ele teria sido reeleito. Para tal, faltaram-lhe poucos votos. O ex-deputado Roberto Jefferson também teve culpa, porque recepcionou com tiros e granadas agentes federais que foram dar uma batida em sua casa, no Rio de Janeiro.
À falta do que fazer na América, a não ser divertir-se gastando parte do dinheiro que tomou do ex-banqueiro Daniel Vorcaro supostamente para financiar o filme em memória de seu pai, Flávio ocupou-se, em sua primeira semana por lá, em conceder entrevistas aos jornais The New York Times, Folha de S.Paulo e The Washington Post — uma, cópia quase perfeita da outras, com raros acréscimos. Ele sempre foi bom de decoreba. Dá-se mal quando tem de improvisar.
Ao Post, a mais recente, ele afirmou que o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), “não sabe do que está falando” quando diz que não houve fraude nas eleições brasileiras. Flávio foi quem indicou Nunes Marques ao pai para uma vaga de ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ao cabo do primeiro encontro com Jair no Palácio da Alvorada, Nunes Marques saiu de lá na condição de próximo ministro do STF.
“Eu garanto a vocês que ele [Nunes Marques] não sabe do que está falando. Nem eu, nem vocês, nem ninguém que esteja assistindo, nem o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, pode afirmar com 100% de certeza que não houve fraude”, disse Flávio ao jornal norte-americano. Cadê as provas disso?
Ora, provas para quê? Flávio escora-se em Trump. Citou duas declarações de seu guia e protetor. A primeira: “O pleito foi uma fraude”. A segunda: “Foi uma vergonha”. Trump não apresentou provas para sustentar o que disse, mas não importa. Flávio assegurou que Trump “está convencido de que o Brasil não é mais uma democracia plena”.
Como cerca de 60 milhões de eleitores foram capazes de votar para presidente da República em um candidato sem qualificação alguma para exercer qualquer mandato eletivo e cuja história de vida é salpicada de lama? Investigado pelo STF por meia dúzia de crimes, se Flávio puser os pés no Brasil, será preso. Aqui, sua ausência só será cada vez mais festejada. Em breve, não falaremos mais dele.
Como ficariam por lá os fugitivos Flávio e Eduardo? Ou não ficariam? Afinal, ambos dispõem de passaporte italiano que os habilitaria a escapar para a Itália, abrigo temporário ou definitivo da ex-deputada Carla Zambelli. Se tivesse permanecido aqui, ela estaria presa, depois de ser condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Você não lembra mais de Zambelli, ligada a um hacker famoso? Nem do furor provocado por ela no centro da capital paulista ao correr com uma arma em punho à caça de um militante político com quem trocara desaforos no meio da rua? Foi na véspera do segundo turno da eleição de 2022, perdida por Jair Bolsonaro para Lula.
Habituado a culpar os outros por seus próprios erros, o ex-presidente, condenado por tentativa de golpe de Estado, apontou o dedo para Zambelli: sim, se não fosse ela, ele teria sido reeleito. Para tal, faltaram-lhe poucos votos. O ex-deputado Roberto Jefferson também teve culpa, porque recepcionou com tiros e granadas agentes federais que foram dar uma batida em sua casa, no Rio de Janeiro.
À falta do que fazer na América, a não ser divertir-se gastando parte do dinheiro que tomou do ex-banqueiro Daniel Vorcaro supostamente para financiar o filme em memória de seu pai, Flávio ocupou-se, em sua primeira semana por lá, em conceder entrevistas aos jornais The New York Times, Folha de S.Paulo e The Washington Post — uma, cópia quase perfeita da outras, com raros acréscimos. Ele sempre foi bom de decoreba. Dá-se mal quando tem de improvisar.
Ao Post, a mais recente, ele afirmou que o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), “não sabe do que está falando” quando diz que não houve fraude nas eleições brasileiras. Flávio foi quem indicou Nunes Marques ao pai para uma vaga de ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ao cabo do primeiro encontro com Jair no Palácio da Alvorada, Nunes Marques saiu de lá na condição de próximo ministro do STF.
“Eu garanto a vocês que ele [Nunes Marques] não sabe do que está falando. Nem eu, nem vocês, nem ninguém que esteja assistindo, nem o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, pode afirmar com 100% de certeza que não houve fraude”, disse Flávio ao jornal norte-americano. Cadê as provas disso?
Ora, provas para quê? Flávio escora-se em Trump. Citou duas declarações de seu guia e protetor. A primeira: “O pleito foi uma fraude”. A segunda: “Foi uma vergonha”. Trump não apresentou provas para sustentar o que disse, mas não importa. Flávio assegurou que Trump “está convencido de que o Brasil não é mais uma democracia plena”.
Como cerca de 60 milhões de eleitores foram capazes de votar para presidente da República em um candidato sem qualificação alguma para exercer qualquer mandato eletivo e cuja história de vida é salpicada de lama? Investigado pelo STF por meia dúzia de crimes, se Flávio puser os pés no Brasil, será preso. Aqui, sua ausência só será cada vez mais festejada. Em breve, não falaremos mais dele.
A fantasia de Flávio está rasgada
Em 1973, Ivo Pitanguy vivia o auge do prestígio internacional. Considerado o "rei da cirurgia plástica", o "Michelangelo do bisturi" e o brasileiro mais famoso do mundo na época, ao lado de Pelé, ele comprou uma ilha em Angra dos Reis. Para o povaréu, era um sinal de status e de riqueza inquestionável.
Se quisesse construir um grande complexo hoteleiro na Ilha dos Porcos Grandes, ninguém o impediria. O médico manteve intocada a vegetação de mata atlântica. A casa principal e os bangalôs foram projetados para sumir no meio das árvores —um esconderijo perfeito para visitantes e pacientes, entre os quais Brigitte Bardot e Jackie Onassis.
De lá para cá, Angra dos Reis, com sua natureza sempre ameaçada, mudou bastante. A ilha de Pitanguy está à venda, os herdeiros pedem US$ 100 milhões. Um preço estratosférico, mas quem sabe o advogado Willer Tomaz, investigado no Supremo Tribunal Federal junto com Flávio Bolsonaro por suspeita de evasão de divisas e lavagem de dinheiro em plataformas de jogatina online, possa topar ou intermediar o negócio.
O amigo e sócio do filho 01 tem outras cinco casas em ilhas de Angra, além da mansão que virou alvo de disputa com o jogador Richarlison. À exceção de uma, elas foram compradas entre 2021 e 2022, quando Flávio apresentou no Senado um projeto de lei para estimular empreendimentos na região da Costa Verde, flexibilizando as regras de proteção ambiental e permitindo a exploração econômica. Na mesma época, Flávio Bolsonaro foi o relator da PEC das Praias, cujo texto propõe extinguir e transferir a propriedade de terrenos de marinha. Sua tramitação está estrategicamente vinculada ao projeto de lei que legaliza jogos de azar e cassinos no país.
Amparado no roteiro autocrata de poder, o clã Bolsonaro é uma fábrica de acumular dinheiro desde a primeira eleição do patriarca. Após a prisão de Jair, o esquema passou a ser chefiado por Flávio. O "exílio" nos Estados Unidos nada tem a ver com política. Fugiu para não ser investigado, denunciado e julgado.
Se quisesse construir um grande complexo hoteleiro na Ilha dos Porcos Grandes, ninguém o impediria. O médico manteve intocada a vegetação de mata atlântica. A casa principal e os bangalôs foram projetados para sumir no meio das árvores —um esconderijo perfeito para visitantes e pacientes, entre os quais Brigitte Bardot e Jackie Onassis.
De lá para cá, Angra dos Reis, com sua natureza sempre ameaçada, mudou bastante. A ilha de Pitanguy está à venda, os herdeiros pedem US$ 100 milhões. Um preço estratosférico, mas quem sabe o advogado Willer Tomaz, investigado no Supremo Tribunal Federal junto com Flávio Bolsonaro por suspeita de evasão de divisas e lavagem de dinheiro em plataformas de jogatina online, possa topar ou intermediar o negócio.
O amigo e sócio do filho 01 tem outras cinco casas em ilhas de Angra, além da mansão que virou alvo de disputa com o jogador Richarlison. À exceção de uma, elas foram compradas entre 2021 e 2022, quando Flávio apresentou no Senado um projeto de lei para estimular empreendimentos na região da Costa Verde, flexibilizando as regras de proteção ambiental e permitindo a exploração econômica. Na mesma época, Flávio Bolsonaro foi o relator da PEC das Praias, cujo texto propõe extinguir e transferir a propriedade de terrenos de marinha. Sua tramitação está estrategicamente vinculada ao projeto de lei que legaliza jogos de azar e cassinos no país.
Amparado no roteiro autocrata de poder, o clã Bolsonaro é uma fábrica de acumular dinheiro desde a primeira eleição do patriarca. Após a prisão de Jair, o esquema passou a ser chefiado por Flávio. O "exílio" nos Estados Unidos nada tem a ver com política. Fugiu para não ser investigado, denunciado e julgado.
Bolsonarismo como herdeiro do fascismo e integralismo
Tendo em vista que o principal apoio internacional do bolsonarismo ficará, no mínimo, enfraquecido com a esmagadora derrota de Donald Trump na eleição de meio de mandato nos EUA, e levando em conta a derrota de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, é hora de retomar a discussão sobre a natureza e o destino do bolsonarismo no Brasil.
Ao contrário de alguns autores que destacam o caráter inédito do bolsonarismo no Brasil, entendo ser mais adequado afirmar que o bolsonarismo é o integralismo ressignificado pelo neoliberalismo. A linha reta que liga o integralismo ao bolsonarismo foi interrompida e redirecionada pelo neoliberalismo.
Assim, a proposta de Estado forte herdada do fascismo clássico pelo integralismo se transforma, por influência do neoliberalismo, em prioridade ao mercado e às ações individuais, restando ao Estado uma política repressiva nas áreas de segurança, cultura, educação e outras de caráter não diretamente econômico.
A reflexão de Umberto Eco sobre o chamado fascismo eterno constitui uma importante referência para compreender o crescimento da extrema-direita na contemporaneidade e, particularmente, o fenômeno do bolsonarismo no Brasil. Em seu ensaio O fascismo eterno (1995), Umberto Eco argumenta que o fascismo não deve ser entendido apenas como uma experiência histórica delimitada, associada aos regimes de Mussolini e Hitler, mas como uma mentalidade política capaz de reaparecer em diferentes contextos, adaptando seus discursos, símbolos e estratégias às circunstâncias de cada época.
A partir dessa perspectiva, o bolsonarismo pode ser analisado como uma manifestação contemporânea de autoritarismo que recupera e ressignifica elementos do integralismo brasileiro, movimento de inspiração fascista surgido na década de 1930. Entretanto, essa relação não representa uma reprodução direta do integralismo, mas a atualização de determinados valores nacionalistas, conservadores, anticomunistas e autoritários em um contexto marcado pelo neoliberalismo, pela crise de representação política e pela expansão das tecnologias digitais.
Uma das principais características dessa atualização é a combinação entre a defesa de um Estado forte na segurança, na disciplina social e na imposição de valores morais conservadores e, simultaneamente, a defesa de um Estado reduzido em suas responsabilidades econômicas e sociais. Essa articulação permite compreender tanto as especificidades do bolsonarismo quanto sua permanência na política brasileira para além de uma liderança individual.
Em sua análise, Umberto Eco identifica 14 características do que denomina “Ur-fascismo”, ou “fascismo eterno”. Entre elas estão o culto à tradição, a rejeição do pensamento crítico, o medo da diferença, o nacionalismo, a valorização da ação em detrimento da reflexão, a construção de inimigos internos e o culto a um líder apresentado como representante exclusivo da vontade popular.
Essas características não precisam aparecer simultaneamente nem reproduzir exatamente os modelos fascistas do século XX. Sua permanência ocorre justamente pela capacidade de adaptação a diferentes realidades históricas. No bolsonarismo, podem ser identificados elementos dessa mentalidade política, especialmente na construção de uma sociedade dividida entre aqueles considerados defensores da nação e grupos apresentados como ameaças aos seus valores.
A esquerda, o comunismo, os movimentos sociais, as universidades, a imprensa e as instituições democráticas foram frequentemente associados a supostos projetos de destruição da ordem nacional.
Outro elemento é a centralidade da figura do líder. Jair Bolsonaro construiu sua identidade política apresentando-se como alguém externo ao sistema tradicional, capaz de representar diretamente o povo e combater os inimigos que, segundo essa narrativa, controlariam as instituições. Essa personalização da política aproxima-se do culto ao líder identificado por Umberto Eco.
Também se destaca a valorização de uma tradição nacional associada à família patriarcal, ao cristianismo conservador, à autoridade militar e à defesa de uma ordem social hierarquizada. Dessa forma, o bolsonarismo atualiza características do fascismo eterno por meio de discursos religiosos, nacionalistas, anticomunistas e contrários ao pluralismo democrático.
A compreensão das raízes históricas do bolsonarismo exige recuperar a experiência da Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 por Plínio Salgado. Principal movimento de inspiração fascista organizado no Brasil, o integralismo defendia o nacionalismo exacerbado, o anticomunismo, a hierarquia social, a autoridade e a organização da sociedade em torno de um Estado forte. Seu lema, “Deus, Pátria e Família”, sintetizava seus principais valores políticos e ideológicos.
O integralismo apresentava-se como alternativa tanto ao liberalismo quanto ao comunismo. Rejeitava o individualismo liberal e combatia o socialismo, propondo uma organização autoritária baseada na unidade nacional, na disciplina e na subordinação dos interesses individuais a um projeto coletivo.
É possível identificar aproximações entre essa matriz ideológica e o bolsonarismo, especialmente na recuperação do lema integralista, na valorização das Forças Armadas, no conservadorismo religioso, no anticomunismo e na representação da esquerda como inimiga da nação. A idealização de um passado nacional supostamente mais ordeiro e a desconfiança em relação ao pluralismo também constituem pontos de aproximação.
Entretanto, não se deve estabelecer uma identidade absoluta entre os dois movimentos. O integralismo possuía uma estrutura organizacional e uma concepção de Estado próprias da década de 1930, enquanto o bolsonarismo reúne diferentes segmentos sociais, como militares, empresários, grupos religiosos, setores das classes médias e militantes digitais. Sua unidade depende menos de uma doutrina sistematizada do que de valores compartilhados, identificações políticas e inimigos comuns.
A principal diferença encontra-se na dimensão econômica. Enquanto o integralismo defendia um Estado nacional forte, centralizador e corporativista, o bolsonarismo incorporou uma agenda neoliberal. Privatizações, austeridade fiscal, desregulamentação e redução das políticas públicas passaram a integrar seu projeto econômico. Assim, preservam-se elementos autoritários e conservadores do passado, mas reorganizados em torno de uma concepção econômica distinta.
O neoliberalismo e a ressignificação do integralismo
A associação entre bolsonarismo e neoliberalismo representa uma das características centrais do fenômeno. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), a agenda econômica foi marcada pela defesa das privatizações, pela reforma da Previdência, pela flexibilização de normas trabalhistas e ambientais e pela contenção dos gastos públicos.
Entretanto, a redução do Estado não significou o desaparecimento de sua capacidade de intervenção. O Estado neoliberal transforma suas prioridades: reduz sua responsabilidade na garantia de direitos sociais e na redistribuição de renda, mas permanece atuante na proteção da propriedade privada, na organização do mercado, na manutenção da ordem e no controle social. Sua dimensão social e redistributiva é restringida, enquanto suas funções coercitivas, policiais e de manutenção da ordem podem ser fortalecidas.
Essa contradição permite compreender como o bolsonarismo combina a defesa da liberdade econômica com a reivindicação de maior autoridade estatal na segurança pública e na imposição de valores morais conservadores. A liberdade é valorizada principalmente no campo econômico, mas convive com discursos que procuram restringir direitos relacionados à diversidade, à educação, à cultura e aos costumes.
Além disso, o discurso neoliberal tende a deslocar a responsabilidade pelos problemas sociais das estruturas econômicas para os indivíduos, apresentando a desigualdade como resultado de escolhas pessoais ou de uma suposta dependência excessiva do poder público. Paralelamente, o discurso autoritário oferece explicações simplificadas para problemas complexos, identificando inimigos internos e prometendo restaurar uma ordem considerada ameaçada.
Portanto, a ressignificação do integralismo pelo bolsonarismo não consiste na recuperação integral de seu projeto econômico, mas na preservação de mecanismos de exclusão, hierarquização e mobilização autoritária, agora articulados à racionalidade neoliberal.
A permanência do bolsonarismo para além da Presidência de Jair Bolsonaro demonstra que o movimento não está limitado à figura de seu principal líder. Os acontecimentos posteriores às eleições de 2022, especialmente os atos de 8 de janeiro de 2023, quando grupos de apoiadores invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, evidenciaram a continuidade de uma mobilização política marcada pela contestação das instituições democráticas e pela rejeição dos resultados eleitorais.
O movimento também manteve sua presença institucional por meio do Partido Liberal (PL), de lideranças religiosas, parlamentares, influenciadores digitais e diferentes setores conservadores que asseguraram a sobrevivência e a reorganização do movimento para além de seu principal representante. Os resultados eleitorais de 2026 também permitem observar essa permanência.
A derrota de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial para Lula demonstrou, entre outros fatores, os limites eleitorais da tentativa de continuidade familiar. Entretanto, a votação expressiva alcançada pela candidatura bolsonarista, próxima de 60 milhões de votos, evidencia a manutenção de uma base social significativa.
A derrota na disputa presidencial não significa necessariamente o desaparecimento do bolsonarismo, pois o conservadorismo permanece influente na política brasileira, com presença de representantes no Legislativo, em governos estaduais e municipais, e a circulação de discursos antissistema nas redes sociais.
Esses elementos favorecem a reprodução de uma cultura política bolsonarista. A derrota eleitoral de seu representante familiar pode abrir espaço para disputas pela liderança da direita, sem necessariamente eliminar a identidade política construída em torno do bolsonarismo.
Assim, é importante distinguir o enfraquecimento de uma liderança específica da permanência de um fenômeno social e ideológico. O bolsonarismo representa não apenas uma organização eleitoral, mas uma identidade política associada ao conservadorismo nos costumes, ao antipetismo, ao nacionalismo de direita, à desconfiança das instituições e à valorização de lideranças personalistas.
A análise do bolsonarismo a partir da noção de fascismo eterno de Umberto Eco permite compreender como práticas autoritárias podem permanecer na sociedade mesmo após a derrota de governos e lideranças políticas. Essas práticas adaptam seus discursos e estratégias às transformações econômicas, culturais e tecnológicas.
O bolsonarismo recupera e ressignifica elementos presentes no integralismo brasileiro, especialmente o nacionalismo excludente, o anticomunismo, o conservadorismo moral, a valorização da autoridade e a construção de inimigos internos. Sua especificidade histórica, entretanto, está na articulação desses elementos com o neoliberalismo, que redefine as funções do Estado, restringindo sua atuação social e redistributiva, mas preservando e fortalecendo suas dimensões repressivas e de manutenção da ordem.
Os acontecimentos políticos recentes em relação ao bolsonarismo demonstram que sua permanência eleitoral, parlamentar e cultural revela a consolidação de uma identidade política que ultrapassa os limites de uma candidatura ou de uma organização partidária. Assim, um dos principais desafios para a democracia brasileira está na naturalização de práticas e valores autoritários de extrema-direita dentro do próprio sistema democrático.
Quando o antipluralismo, a intolerância, o descrédito das instituições e a deslegitimação dos adversários passam a ser incorporados como elementos normais da disputa política, criam-se condições para a reprodução daquilo que Umberto Eco denomina fascismo eterno.
Conclui-se, portanto, que o bolsonarismo não pode ser considerado definitivamente superado por suas derrotas eleitorais. Sua trajetória expressa contradições estruturais da sociedade brasileira, especialmente a desigualdade social, a fragilidade da cultura democrática e a articulação entre interesses econômicos neoliberais e conservadorismo autoritário.
Como adverte Umberto Eco, o fascismo não precisa retornar com os mesmos símbolos e instituições do passado: pode reaparecer sob discursos de liberdade, defesa da família, patriotismo e combate aos inimigos da nação. Reconhecer essas continuidades históricas é fundamental para compreender os desafios contemporâneos da democracia brasileira.
Ao contrário de alguns autores que destacam o caráter inédito do bolsonarismo no Brasil, entendo ser mais adequado afirmar que o bolsonarismo é o integralismo ressignificado pelo neoliberalismo. A linha reta que liga o integralismo ao bolsonarismo foi interrompida e redirecionada pelo neoliberalismo.
Assim, a proposta de Estado forte herdada do fascismo clássico pelo integralismo se transforma, por influência do neoliberalismo, em prioridade ao mercado e às ações individuais, restando ao Estado uma política repressiva nas áreas de segurança, cultura, educação e outras de caráter não diretamente econômico.
A reflexão de Umberto Eco sobre o chamado fascismo eterno constitui uma importante referência para compreender o crescimento da extrema-direita na contemporaneidade e, particularmente, o fenômeno do bolsonarismo no Brasil. Em seu ensaio O fascismo eterno (1995), Umberto Eco argumenta que o fascismo não deve ser entendido apenas como uma experiência histórica delimitada, associada aos regimes de Mussolini e Hitler, mas como uma mentalidade política capaz de reaparecer em diferentes contextos, adaptando seus discursos, símbolos e estratégias às circunstâncias de cada época.
A partir dessa perspectiva, o bolsonarismo pode ser analisado como uma manifestação contemporânea de autoritarismo que recupera e ressignifica elementos do integralismo brasileiro, movimento de inspiração fascista surgido na década de 1930. Entretanto, essa relação não representa uma reprodução direta do integralismo, mas a atualização de determinados valores nacionalistas, conservadores, anticomunistas e autoritários em um contexto marcado pelo neoliberalismo, pela crise de representação política e pela expansão das tecnologias digitais.
Uma das principais características dessa atualização é a combinação entre a defesa de um Estado forte na segurança, na disciplina social e na imposição de valores morais conservadores e, simultaneamente, a defesa de um Estado reduzido em suas responsabilidades econômicas e sociais. Essa articulação permite compreender tanto as especificidades do bolsonarismo quanto sua permanência na política brasileira para além de uma liderança individual.
Em sua análise, Umberto Eco identifica 14 características do que denomina “Ur-fascismo”, ou “fascismo eterno”. Entre elas estão o culto à tradição, a rejeição do pensamento crítico, o medo da diferença, o nacionalismo, a valorização da ação em detrimento da reflexão, a construção de inimigos internos e o culto a um líder apresentado como representante exclusivo da vontade popular.
Essas características não precisam aparecer simultaneamente nem reproduzir exatamente os modelos fascistas do século XX. Sua permanência ocorre justamente pela capacidade de adaptação a diferentes realidades históricas. No bolsonarismo, podem ser identificados elementos dessa mentalidade política, especialmente na construção de uma sociedade dividida entre aqueles considerados defensores da nação e grupos apresentados como ameaças aos seus valores.
A esquerda, o comunismo, os movimentos sociais, as universidades, a imprensa e as instituições democráticas foram frequentemente associados a supostos projetos de destruição da ordem nacional.
Outro elemento é a centralidade da figura do líder. Jair Bolsonaro construiu sua identidade política apresentando-se como alguém externo ao sistema tradicional, capaz de representar diretamente o povo e combater os inimigos que, segundo essa narrativa, controlariam as instituições. Essa personalização da política aproxima-se do culto ao líder identificado por Umberto Eco.
Também se destaca a valorização de uma tradição nacional associada à família patriarcal, ao cristianismo conservador, à autoridade militar e à defesa de uma ordem social hierarquizada. Dessa forma, o bolsonarismo atualiza características do fascismo eterno por meio de discursos religiosos, nacionalistas, anticomunistas e contrários ao pluralismo democrático.
A compreensão das raízes históricas do bolsonarismo exige recuperar a experiência da Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 por Plínio Salgado. Principal movimento de inspiração fascista organizado no Brasil, o integralismo defendia o nacionalismo exacerbado, o anticomunismo, a hierarquia social, a autoridade e a organização da sociedade em torno de um Estado forte. Seu lema, “Deus, Pátria e Família”, sintetizava seus principais valores políticos e ideológicos.
O integralismo apresentava-se como alternativa tanto ao liberalismo quanto ao comunismo. Rejeitava o individualismo liberal e combatia o socialismo, propondo uma organização autoritária baseada na unidade nacional, na disciplina e na subordinação dos interesses individuais a um projeto coletivo.
É possível identificar aproximações entre essa matriz ideológica e o bolsonarismo, especialmente na recuperação do lema integralista, na valorização das Forças Armadas, no conservadorismo religioso, no anticomunismo e na representação da esquerda como inimiga da nação. A idealização de um passado nacional supostamente mais ordeiro e a desconfiança em relação ao pluralismo também constituem pontos de aproximação.
Entretanto, não se deve estabelecer uma identidade absoluta entre os dois movimentos. O integralismo possuía uma estrutura organizacional e uma concepção de Estado próprias da década de 1930, enquanto o bolsonarismo reúne diferentes segmentos sociais, como militares, empresários, grupos religiosos, setores das classes médias e militantes digitais. Sua unidade depende menos de uma doutrina sistematizada do que de valores compartilhados, identificações políticas e inimigos comuns.
A principal diferença encontra-se na dimensão econômica. Enquanto o integralismo defendia um Estado nacional forte, centralizador e corporativista, o bolsonarismo incorporou uma agenda neoliberal. Privatizações, austeridade fiscal, desregulamentação e redução das políticas públicas passaram a integrar seu projeto econômico. Assim, preservam-se elementos autoritários e conservadores do passado, mas reorganizados em torno de uma concepção econômica distinta.
O neoliberalismo e a ressignificação do integralismo
A associação entre bolsonarismo e neoliberalismo representa uma das características centrais do fenômeno. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), a agenda econômica foi marcada pela defesa das privatizações, pela reforma da Previdência, pela flexibilização de normas trabalhistas e ambientais e pela contenção dos gastos públicos.
Entretanto, a redução do Estado não significou o desaparecimento de sua capacidade de intervenção. O Estado neoliberal transforma suas prioridades: reduz sua responsabilidade na garantia de direitos sociais e na redistribuição de renda, mas permanece atuante na proteção da propriedade privada, na organização do mercado, na manutenção da ordem e no controle social. Sua dimensão social e redistributiva é restringida, enquanto suas funções coercitivas, policiais e de manutenção da ordem podem ser fortalecidas.
Essa contradição permite compreender como o bolsonarismo combina a defesa da liberdade econômica com a reivindicação de maior autoridade estatal na segurança pública e na imposição de valores morais conservadores. A liberdade é valorizada principalmente no campo econômico, mas convive com discursos que procuram restringir direitos relacionados à diversidade, à educação, à cultura e aos costumes.
Além disso, o discurso neoliberal tende a deslocar a responsabilidade pelos problemas sociais das estruturas econômicas para os indivíduos, apresentando a desigualdade como resultado de escolhas pessoais ou de uma suposta dependência excessiva do poder público. Paralelamente, o discurso autoritário oferece explicações simplificadas para problemas complexos, identificando inimigos internos e prometendo restaurar uma ordem considerada ameaçada.
Portanto, a ressignificação do integralismo pelo bolsonarismo não consiste na recuperação integral de seu projeto econômico, mas na preservação de mecanismos de exclusão, hierarquização e mobilização autoritária, agora articulados à racionalidade neoliberal.
A permanência do bolsonarismo para além da Presidência de Jair Bolsonaro demonstra que o movimento não está limitado à figura de seu principal líder. Os acontecimentos posteriores às eleições de 2022, especialmente os atos de 8 de janeiro de 2023, quando grupos de apoiadores invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, evidenciaram a continuidade de uma mobilização política marcada pela contestação das instituições democráticas e pela rejeição dos resultados eleitorais.
O movimento também manteve sua presença institucional por meio do Partido Liberal (PL), de lideranças religiosas, parlamentares, influenciadores digitais e diferentes setores conservadores que asseguraram a sobrevivência e a reorganização do movimento para além de seu principal representante. Os resultados eleitorais de 2026 também permitem observar essa permanência.
A derrota de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial para Lula demonstrou, entre outros fatores, os limites eleitorais da tentativa de continuidade familiar. Entretanto, a votação expressiva alcançada pela candidatura bolsonarista, próxima de 60 milhões de votos, evidencia a manutenção de uma base social significativa.
A derrota na disputa presidencial não significa necessariamente o desaparecimento do bolsonarismo, pois o conservadorismo permanece influente na política brasileira, com presença de representantes no Legislativo, em governos estaduais e municipais, e a circulação de discursos antissistema nas redes sociais.
Esses elementos favorecem a reprodução de uma cultura política bolsonarista. A derrota eleitoral de seu representante familiar pode abrir espaço para disputas pela liderança da direita, sem necessariamente eliminar a identidade política construída em torno do bolsonarismo.
Assim, é importante distinguir o enfraquecimento de uma liderança específica da permanência de um fenômeno social e ideológico. O bolsonarismo representa não apenas uma organização eleitoral, mas uma identidade política associada ao conservadorismo nos costumes, ao antipetismo, ao nacionalismo de direita, à desconfiança das instituições e à valorização de lideranças personalistas.
A análise do bolsonarismo a partir da noção de fascismo eterno de Umberto Eco permite compreender como práticas autoritárias podem permanecer na sociedade mesmo após a derrota de governos e lideranças políticas. Essas práticas adaptam seus discursos e estratégias às transformações econômicas, culturais e tecnológicas.
O bolsonarismo recupera e ressignifica elementos presentes no integralismo brasileiro, especialmente o nacionalismo excludente, o anticomunismo, o conservadorismo moral, a valorização da autoridade e a construção de inimigos internos. Sua especificidade histórica, entretanto, está na articulação desses elementos com o neoliberalismo, que redefine as funções do Estado, restringindo sua atuação social e redistributiva, mas preservando e fortalecendo suas dimensões repressivas e de manutenção da ordem.
Os acontecimentos políticos recentes em relação ao bolsonarismo demonstram que sua permanência eleitoral, parlamentar e cultural revela a consolidação de uma identidade política que ultrapassa os limites de uma candidatura ou de uma organização partidária. Assim, um dos principais desafios para a democracia brasileira está na naturalização de práticas e valores autoritários de extrema-direita dentro do próprio sistema democrático.
Quando o antipluralismo, a intolerância, o descrédito das instituições e a deslegitimação dos adversários passam a ser incorporados como elementos normais da disputa política, criam-se condições para a reprodução daquilo que Umberto Eco denomina fascismo eterno.
Conclui-se, portanto, que o bolsonarismo não pode ser considerado definitivamente superado por suas derrotas eleitorais. Sua trajetória expressa contradições estruturais da sociedade brasileira, especialmente a desigualdade social, a fragilidade da cultura democrática e a articulação entre interesses econômicos neoliberais e conservadorismo autoritário.
Como adverte Umberto Eco, o fascismo não precisa retornar com os mesmos símbolos e instituições do passado: pode reaparecer sob discursos de liberdade, defesa da família, patriotismo e combate aos inimigos da nação. Reconhecer essas continuidades históricas é fundamental para compreender os desafios contemporâneos da democracia brasileira.
sábado, 7 de novembro de 2026
Os livros, a IA, as manifestações e o Mal
Pensar o tempo em que vivemos implica convocar um conceito que, sendo da ordem da filosofia e da religião, é também da ordem política e educativa: o Mal. Como acontecimento bíblico, o Mal é o espírito oposto ao de Cristo, é a palavra de simulacro (Lúcifer, pela serpente, engana Eva). Para Jérôme Porée, o Mal é, na senda de Santo Agostinho, a impossibilidade de a razão primeira, Deus, ter eco nos corações humanos. Na filosofia, di-lo Ricoeur e lembra-o Gabriel Marcel, o Mal é a mentira estabelecida como programa da desrazão, o fim do pensamento. Se o Homem foi animal que pensa, o Mal propõe um homem todo instinto e fúria, tomado pela inconsciência. Na política, o Mal concretiza-se por meio do terrorismo de Estado: as cargas policiais escondem o vazio da ação política.
As manifestações contra a nova lei das rendas – PSD, CH, e IL suportados pela abstenção absurda e contranatura do PS – são legítimas e necessárias para que o Mal não se estabeleça na sociedade portuguesa. O Mal como benefício dos poderosos, desrazão e totalitarismo – não é isso que está em marcha um pouco por todo o mundo? Não é o esmagamento dos povos e das democracias? Há o artigo 45º da Constituição, que urge fazer lembrar aos políticos e aos comentadores que insistem em inventar restrições às liberdades e garantias a todos os portugueses; liberdades e garantias consignadas na Constituição e, por isso, vinculativas a políticos e a polícias. Eis o artigo que políticos e polícias não podem ferir sem eles próprios serem criminalmente responsabilizados: “consagra o direito de reunião e de manifestação: Nº 1 (Direito de reunião): Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização. Nº 2 (Direito de manifestação): A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação. Sem autorização prévia: Para exercer este direito em espaços públicos, os cidadãos não precisam de pedir autorização ao Estado ou à polícia. […].”
O Mal é anticristão. Não é que uma visão escatológica da História esteja hoje em processo. Ou, se estiver, que a leitura apocalíptica do humano esteja a cumprir-se. Patmos, o lugar, e João, a pessoa, porém, existiram. Essa profecia existe. Por isso paira no ar o pressentimento do fim. A IA destrói milhares de milhões de livros. Apropria-se de todo o conhecimento humano e prepara-se para ter o poder totalitário. São as grandes empresas de Silicon Valley, é Elon Musk e o sonho não de um III Reich onde a barbárie é lei, mas de um Reich digital onde a figura do nerd é juiz de todos os outros, decidindo pela força dos seus biliões de biliões de dólares, as políticas totalitárias a seguir.
O Mal tem como sonho final o nada. “A grande amnésia”, escreveu David Mourão-Ferreira num poema dos anos 60. Estudantes que nada estudaram porque o ChatGPT fez tudo por eles; universidades transformadas, como as escolas, em meros centros de dados, onde a Humanidade despreza o saber e a reflexão, detestar saber é um sintoma do Mal. O Mal é uma máquina trituradora de direitos humanos: é a planificação organizada do tudo igual para todos: salário mínimo global, a promessa do dolce far niente porque todos terão robots a pensar e a trabalhar por nós. O Mal é, como fenómeno, o fim das diferenças próprias da natureza. Uma imagem talvez explique melhor: o Mal é a terraplanagem da Amazónia, são os painéis solares ao longo de milhares de quilómetros em vez de árvores na sua multiplicidade de espécies. O Mal é a promessa do individualismo, o império do ego. O Mal é a turba egoica, a massa egoísta, a uniformização, escreveu Karl Kraus.
As democracias falharam ao colocarem as leis do mercado, as agências de rating, a financeirização da economia, acima das leis do humano, acima da economia real das pessoas. As democracias falharam ao destruírem a exigência no ensino. Ao fazerem da democracia o festival de banalidades em que esse regime se transformou, a democracia estupidificou tudo e todos. Nos últimos 30, 40 anos, a Europa foi traída, as promessas da democracia foram postas na gaveta. Os jovens são violentos? É a única linguagem que têm, fomos nós que os esvaziámos de utopia. Nada de idealismos, só o mais feroz pragmatismo. Sem utopia e sem esperança, o desespero assiste ao Mal. O desespero é a gasolina que alimenta os fascismos. Os portugueses estão desesperados. Como é que Costa, Ursula, Macron, Rutte, Montenegro, entre outros burocratas e carreiristas, não veem o óbvio? E o óbvio é que são eles os responsáveis pelo fim da democracia na Europa. Eles e outros antes deles. O Mal é a vaidade do poder. É o deus-dinheiro.
Aqui chegados, só há uma saída: defender o direito à manifestação do Bem: a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação.
As manifestações contra a nova lei das rendas – PSD, CH, e IL suportados pela abstenção absurda e contranatura do PS – são legítimas e necessárias para que o Mal não se estabeleça na sociedade portuguesa. O Mal como benefício dos poderosos, desrazão e totalitarismo – não é isso que está em marcha um pouco por todo o mundo? Não é o esmagamento dos povos e das democracias? Há o artigo 45º da Constituição, que urge fazer lembrar aos políticos e aos comentadores que insistem em inventar restrições às liberdades e garantias a todos os portugueses; liberdades e garantias consignadas na Constituição e, por isso, vinculativas a políticos e a polícias. Eis o artigo que políticos e polícias não podem ferir sem eles próprios serem criminalmente responsabilizados: “consagra o direito de reunião e de manifestação: Nº 1 (Direito de reunião): Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização. Nº 2 (Direito de manifestação): A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação. Sem autorização prévia: Para exercer este direito em espaços públicos, os cidadãos não precisam de pedir autorização ao Estado ou à polícia. […].”
O Mal é anticristão. Não é que uma visão escatológica da História esteja hoje em processo. Ou, se estiver, que a leitura apocalíptica do humano esteja a cumprir-se. Patmos, o lugar, e João, a pessoa, porém, existiram. Essa profecia existe. Por isso paira no ar o pressentimento do fim. A IA destrói milhares de milhões de livros. Apropria-se de todo o conhecimento humano e prepara-se para ter o poder totalitário. São as grandes empresas de Silicon Valley, é Elon Musk e o sonho não de um III Reich onde a barbárie é lei, mas de um Reich digital onde a figura do nerd é juiz de todos os outros, decidindo pela força dos seus biliões de biliões de dólares, as políticas totalitárias a seguir.
O Mal tem como sonho final o nada. “A grande amnésia”, escreveu David Mourão-Ferreira num poema dos anos 60. Estudantes que nada estudaram porque o ChatGPT fez tudo por eles; universidades transformadas, como as escolas, em meros centros de dados, onde a Humanidade despreza o saber e a reflexão, detestar saber é um sintoma do Mal. O Mal é uma máquina trituradora de direitos humanos: é a planificação organizada do tudo igual para todos: salário mínimo global, a promessa do dolce far niente porque todos terão robots a pensar e a trabalhar por nós. O Mal é, como fenómeno, o fim das diferenças próprias da natureza. Uma imagem talvez explique melhor: o Mal é a terraplanagem da Amazónia, são os painéis solares ao longo de milhares de quilómetros em vez de árvores na sua multiplicidade de espécies. O Mal é a promessa do individualismo, o império do ego. O Mal é a turba egoica, a massa egoísta, a uniformização, escreveu Karl Kraus.
As democracias falharam ao colocarem as leis do mercado, as agências de rating, a financeirização da economia, acima das leis do humano, acima da economia real das pessoas. As democracias falharam ao destruírem a exigência no ensino. Ao fazerem da democracia o festival de banalidades em que esse regime se transformou, a democracia estupidificou tudo e todos. Nos últimos 30, 40 anos, a Europa foi traída, as promessas da democracia foram postas na gaveta. Os jovens são violentos? É a única linguagem que têm, fomos nós que os esvaziámos de utopia. Nada de idealismos, só o mais feroz pragmatismo. Sem utopia e sem esperança, o desespero assiste ao Mal. O desespero é a gasolina que alimenta os fascismos. Os portugueses estão desesperados. Como é que Costa, Ursula, Macron, Rutte, Montenegro, entre outros burocratas e carreiristas, não veem o óbvio? E o óbvio é que são eles os responsáveis pelo fim da democracia na Europa. Eles e outros antes deles. O Mal é a vaidade do poder. É o deus-dinheiro.
Aqui chegados, só há uma saída: defender o direito à manifestação do Bem: a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação.
O planeta não é um grande almoxarifado
Na semana passada, enquanto navegava pelas águas escuras do Rio Negro, no Amazonas, aproveitei para ler Futuro Ancestral, de Ailton Krenak. Não poderia ter escolhido cenário mais apropriado. Cercada por uma paisagem que parece existir em outra dimensão do tempo, encontrei nas palavras do pensador indígena uma explicação desconcertante para a crise ambiental que enfrentamos.
Krenak diz que nossas crianças, aos sete ou oito anos, já estão sendo treinadas para ignorar o meio ambiente. Somos educados para manter distância da natureza, para desconfiar dela. Aprendemos desde cedo que a terra é suja, que não devemos colocar a mão no barro, que uma batata arrancada diretamente do chão precisa ser vista com suspeita. Melhor encontrá-la limpa, embalada e organizada na prateleira do supermercado.
É o que ele chama de uma educação sanitária. Uma educação que, em nome da higiene, da segurança e da civilização, vai progressivamente nos separando do mundo natural. Crescemos acreditando que a natureza é algo que está lá fora, distante de nós, e não aquilo de que somos parte.
Essa desconexão, argumenta Krenak, está na origem de uma visão de mundo que transforma o planeta em um gigantesco almoxarifado. Um depósito de recursos à disposição da humanidade, de onde podemos retirar tudo aquilo de que precisamos, como se as prateleiras fossem infinitas.
Pensei muito nisso durante minha passagem por Manaus, onde tive o privilégio de conhecer de perto o trabalho da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e conversar longamente com seu fundador, o professor Virgílio Viana.
A FAS é um exemplo concreto de como a conservação da floresta pode caminhar lado a lado com a melhoria das condições de vida de quem nela habita. A organização atua em centenas de comunidades amazônicas, desenvolvendo projetos que vão da geração de renda e educação à saúde, energia limpa e conectividade. Seu trabalho alcança mais de 20 mil famílias e contribui para a conservação de milhões de hectares de floresta.
Mas o que mais me chamou a atenção durante a conversa com Virgílio não foram apenas os números ou a diversidade das iniciativas. Foram os desafios de transformar experiências bem-sucedidas em soluções capazes de ganhar escala.
Conversamos sobre o papel do financiamento climático, especialmente sobre as possibilidades e limitações do mercado de títulos verdes e sustentáveis para apoiar projetos na Amazônia. Como fazer com que os bilhões movimentados pelos mercados financeiros internacionais cheguem às comunidades que estão, todos os dias, na linha de frente da conservação?
Porque existe um paradoxo difícil de ignorar. Nunca se falou tanto em financiamento climático. Nunca tivemos tantos instrumentos financeiros, compromissos internacionais, fundos e títulos sustentáveis. E, ainda assim, fazer com que esse dinheiro chegue efetivamente às comunidades que protegem a floresta continua sendo um enorme desafio.
O mercado de títulos verdes e sustentáveis, que acompanho há anos, demonstrou que é possível mobilizar grandes volumes de capital para investimentos com benefícios ambientais e sociais. Mas projetos comunitários, muitas vezes pequenos, dispersos geograficamente e com retornos que não cabem facilmente nas planilhas tradicionais do mercado financeiro, enfrentam barreiras importantes para acessar esses recursos.
Como financiar aquilo cujo valor não pode ser medido apenas em dinheiro? Quanto vale uma floresta em pé? Quanto vale o conhecimento de uma comunidade que há gerações sabe conviver com ela? Quanto vale um rio saudável?
E foi impossível não estabelecer uma conexão entre o que ouvi de Virgílio Viana e o que lia nas páginas de Krenak.
Um dos nossos maiores equívocos, acredito, é tentar resolver a crise ambiental exclusivamente com as ferramentas de uma mentalidade que ajudou a produzi-la. Criamos mercados para atribuir valor à natureza, mecanismos para compensar emissões, instrumentos financeiros para financiar sua proteção. Tudo isso é necessário. Mas será suficiente se continuarmos olhando para a floresta como um estoque de ativos, e não como um sistema vivo do qual dependemos?
A resposta não está em abandonar a economia, muito menos em rejeitar o financiamento climático. Está em reconhecer seus limites e, principalmente, em mudar aquilo que escolhemos valorizar.
Na próxima semana, Virgílio Viana e eu estaremos na Turquia, participando da COP31, a conferência do clima das Nações Unidas. O encontro acontece em um momento particularmente simbólico para a governança climática global.
Nesta semana, completaram-se dez anos da entrada em vigor do Acordo de Paris, o mais importante pacto internacional já firmado para enfrentar o aquecimento global. Uma década depois, a distância entre o que os países prometeram e aquilo que efetivamente entregaram continua preocupante.
Por isso, a palavra que precisa orientar as negociações em Antalya é implementação. Já sabemos, com razoável precisão, o que precisa ser feito. Conhecemos os riscos do aquecimento global, temos tecnologias disponíveis, instrumentos financeiros e evidências científicas suficientes. O grande desafio é transformar compromissos em investimentos concretos, políticas públicas e resultados que possam ser percebidos na vida das pessoas.
Isso significa fazer o dinheiro chegar onde ele é necessário. Significa financiar adaptação, resiliência, conservação e desenvolvimento sustentável. Significa reconhecer que uma comunidade amazônica não pode continuar esperando enquanto o mundo discute, pela enésima vez, como mobilizar recursos para protegê-la.
Precisamos reaprender a relação com o mundo natural. Precisamos de uma educação que permita às crianças colocar as mãos na terra, compreender de onde vem o alimento, reconhecer a vida que existe nos rios e nas florestas. Uma educação que não transforme a natureza em ameaça, mercadoria ou cenário, mas que nos ensine a pertencer a ela.
A COP31 poderá produzir avanços importantes. Espero que produza. Mas nenhuma conferência internacional, por mais ambiciosa que seja, será capaz de resolver sozinha uma crise que também é de imaginação, de valores e de pertencimento.
Dez anos depois da entrada em vigor do Acordo de Paris, temos muito a fazer. E talvez uma parte desse trabalho comece justamente onde Krenak nos convida a olhar: na infância, antes que alguém nos ensine que a terra é suja e que o mundo não passa de um almoxarifado.
Krenak diz que nossas crianças, aos sete ou oito anos, já estão sendo treinadas para ignorar o meio ambiente. Somos educados para manter distância da natureza, para desconfiar dela. Aprendemos desde cedo que a terra é suja, que não devemos colocar a mão no barro, que uma batata arrancada diretamente do chão precisa ser vista com suspeita. Melhor encontrá-la limpa, embalada e organizada na prateleira do supermercado.
É o que ele chama de uma educação sanitária. Uma educação que, em nome da higiene, da segurança e da civilização, vai progressivamente nos separando do mundo natural. Crescemos acreditando que a natureza é algo que está lá fora, distante de nós, e não aquilo de que somos parte.
Essa desconexão, argumenta Krenak, está na origem de uma visão de mundo que transforma o planeta em um gigantesco almoxarifado. Um depósito de recursos à disposição da humanidade, de onde podemos retirar tudo aquilo de que precisamos, como se as prateleiras fossem infinitas.
Pensei muito nisso durante minha passagem por Manaus, onde tive o privilégio de conhecer de perto o trabalho da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e conversar longamente com seu fundador, o professor Virgílio Viana.
A FAS é um exemplo concreto de como a conservação da floresta pode caminhar lado a lado com a melhoria das condições de vida de quem nela habita. A organização atua em centenas de comunidades amazônicas, desenvolvendo projetos que vão da geração de renda e educação à saúde, energia limpa e conectividade. Seu trabalho alcança mais de 20 mil famílias e contribui para a conservação de milhões de hectares de floresta.
Mas o que mais me chamou a atenção durante a conversa com Virgílio não foram apenas os números ou a diversidade das iniciativas. Foram os desafios de transformar experiências bem-sucedidas em soluções capazes de ganhar escala.
Conversamos sobre o papel do financiamento climático, especialmente sobre as possibilidades e limitações do mercado de títulos verdes e sustentáveis para apoiar projetos na Amazônia. Como fazer com que os bilhões movimentados pelos mercados financeiros internacionais cheguem às comunidades que estão, todos os dias, na linha de frente da conservação?
Porque existe um paradoxo difícil de ignorar. Nunca se falou tanto em financiamento climático. Nunca tivemos tantos instrumentos financeiros, compromissos internacionais, fundos e títulos sustentáveis. E, ainda assim, fazer com que esse dinheiro chegue efetivamente às comunidades que protegem a floresta continua sendo um enorme desafio.
O mercado de títulos verdes e sustentáveis, que acompanho há anos, demonstrou que é possível mobilizar grandes volumes de capital para investimentos com benefícios ambientais e sociais. Mas projetos comunitários, muitas vezes pequenos, dispersos geograficamente e com retornos que não cabem facilmente nas planilhas tradicionais do mercado financeiro, enfrentam barreiras importantes para acessar esses recursos.
Como financiar aquilo cujo valor não pode ser medido apenas em dinheiro? Quanto vale uma floresta em pé? Quanto vale o conhecimento de uma comunidade que há gerações sabe conviver com ela? Quanto vale um rio saudável?
E foi impossível não estabelecer uma conexão entre o que ouvi de Virgílio Viana e o que lia nas páginas de Krenak.
Um dos nossos maiores equívocos, acredito, é tentar resolver a crise ambiental exclusivamente com as ferramentas de uma mentalidade que ajudou a produzi-la. Criamos mercados para atribuir valor à natureza, mecanismos para compensar emissões, instrumentos financeiros para financiar sua proteção. Tudo isso é necessário. Mas será suficiente se continuarmos olhando para a floresta como um estoque de ativos, e não como um sistema vivo do qual dependemos?
A resposta não está em abandonar a economia, muito menos em rejeitar o financiamento climático. Está em reconhecer seus limites e, principalmente, em mudar aquilo que escolhemos valorizar.
Na próxima semana, Virgílio Viana e eu estaremos na Turquia, participando da COP31, a conferência do clima das Nações Unidas. O encontro acontece em um momento particularmente simbólico para a governança climática global.
Nesta semana, completaram-se dez anos da entrada em vigor do Acordo de Paris, o mais importante pacto internacional já firmado para enfrentar o aquecimento global. Uma década depois, a distância entre o que os países prometeram e aquilo que efetivamente entregaram continua preocupante.
Por isso, a palavra que precisa orientar as negociações em Antalya é implementação. Já sabemos, com razoável precisão, o que precisa ser feito. Conhecemos os riscos do aquecimento global, temos tecnologias disponíveis, instrumentos financeiros e evidências científicas suficientes. O grande desafio é transformar compromissos em investimentos concretos, políticas públicas e resultados que possam ser percebidos na vida das pessoas.
Isso significa fazer o dinheiro chegar onde ele é necessário. Significa financiar adaptação, resiliência, conservação e desenvolvimento sustentável. Significa reconhecer que uma comunidade amazônica não pode continuar esperando enquanto o mundo discute, pela enésima vez, como mobilizar recursos para protegê-la.
Precisamos reaprender a relação com o mundo natural. Precisamos de uma educação que permita às crianças colocar as mãos na terra, compreender de onde vem o alimento, reconhecer a vida que existe nos rios e nas florestas. Uma educação que não transforme a natureza em ameaça, mercadoria ou cenário, mas que nos ensine a pertencer a ela.
A COP31 poderá produzir avanços importantes. Espero que produza. Mas nenhuma conferência internacional, por mais ambiciosa que seja, será capaz de resolver sozinha uma crise que também é de imaginação, de valores e de pertencimento.
Dez anos depois da entrada em vigor do Acordo de Paris, temos muito a fazer. E talvez uma parte desse trabalho comece justamente onde Krenak nos convida a olhar: na infância, antes que alguém nos ensine que a terra é suja e que o mundo não passa de um almoxarifado.
Um país para depois da vitória
Na noite de 25 de outubro, poucas horas depois de confirmada sua vitória, Lula disse que, encerrada a eleição, já não tinha mais adversários: precisava governar para 215 milhões de brasileiros. Ninguém era obrigado a gostar do presidente eleito, acrescentou, mas ele teria de governar para todos. A frase parece simples. Não é. Uma eleição termina quando os votos são contados. As divisões que revelou não desaparecem na mesma noite. Vencedores e vencidos continuam morando nas mesmas cidades, trabalhando lado a lado e dependendo das mesmas instituições. O adversário derrotado continua sendo cidadão no dia seguinte.
O que significa, então, governar para 215 milhões? A pergunta importa ainda mais porque esta eleição produziu algo que não aparece nas planilhas de resultados. Entre os dois turnos, muita gente que recebera com desalento o resultado de 4 de outubro voltou a agir. Estudantes foram às ruas, redes se organizaram, pessoas procuraram amigos, parentes e colegas, discutiram, convenceram, buscaram votos. Muitos descobriram que sua participação podia alterar o curso de uma eleição.
Seria um enorme desperdício se essa energia se dissipasse. Uma eleição democrática precisa terminar. A cidadania que ela despertou, não. O desafio é preservá-la sem preservar a lógica da guerra eleitoral.
Como transformar, então, a energia de uma vitória política em força para construir um país que continue pertencendo também aos que foram derrotados?
Trinta e dois anos atrás, em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas, Nelson Mandela enfrentou uma versão extrema desse desafio. Após 27 anos na prisão, tomou posse como presidente da África do Sul, em 1994. O apartheid deixara mortos, presos, exilados, famílias destruídas e uma sociedade organizada pela segregação racial e pela exclusão da maioria negra do poder político. Mandela tinha razões pessoais para o ressentimento e legitimidade política suficiente para fazer dele um instrumento de poder. Escolheu outro caminho.
Seu governo incluiu antigos adversários. F. W. de Klerk, último presidente do regime do apartheid, tornou-se um dos vice-presidentes da nova África do Sul. Isso não apagou as diferenças entre os dois. Mandela continuou a confrontá-lo e a denunciar as responsabilidades da ordem que o mantivera preso. Trabalhar juntos era uma necessidade. Sua reconciliação não dependia de esquecer quem fizera o quê, mas de reconhecer que antigos inimigos continuariam pertencendo ao mesmo país. Democracias precisam de adversários. O perigo começa quando deixamos de reconhecer no adversário o direito de pertencer à mesma comunidade política.
A África do Sul mostrou também que reconciliação não é esquecimento. A Comissão da Verdade e Reconciliação ouviu vítimas, investigou violações, propôs reparações e examinou pedidos de anistia. Se a memória diz de onde viemos, a reconciliação pergunta se, sabendo disso, ainda conseguiremos construir juntos.
Mandela compreendia, porém, que nem isso bastava. Em 1997, afirmou que não poderia haver reconciliação sem reconstrução e desenvolvimento. A história posterior da África do Sul transformaria a frase numa advertência.
A transição política foi extraordinária. Já a transformação das estruturas materiais herdadas do apartheid, muito menos. Três décadas depois, a África do Sul continua entre as sociedades mais desiguais do mundo: seu índice de Gini – numa escala em que zero representa igualdade perfeita e 1, desigualdade máxima – é de 0,541. O do Brasil, ele próprio profundamente desigual, é de 0,503. A igualdade perante a lei avançou muito mais rapidamente do que a igualdade das condições de vida.
Até onde uma sociedade consegue se reconciliar politicamente quando aquilo que materialmente separa seus cidadãos permanece quase intacto? Talvez uma reconciliação duradoura exija mais que tolerância. Exija pertencimento. É aí que a frase de Lula sobre os 215 milhões deixa de ser apenas uma declaração de boas intenções.
Governar para todos não significa abandonar o programa que venceu as eleições. Significa governar segundo um projeto sem transformar aqueles que votaram contra ele em estrangeiros dentro do próprio país. Quando um cidadão entra numa unidade do SUS e é atendido sem que ninguém lhe pergunte em quem votou, há ali algo maior do que a prestação de um serviço. Quando uma criança encontra numa escola pública professores, ciência, cultura e oportunidades que sua família talvez não pudesse lhe oferecer, acontece algo semelhante. O país lhes está dizendo: este país também é seu. Talvez devêssemos pensar essas instituições também como infraestruturas de pertencimento. Isso não exige que conservadores e progressistas concordem sobre impostos, segurança, costumes, meio ambiente ou o papel do Estado. Uma democracia saudável não é uma sociedade sem conflitos. É uma sociedade capaz de tê-los sem transformar cada divergência numa guerra entre pessoas que deixaram de se reconhecer como concidadãs.
Talvez a melhor maneira de reduzir a polarização não seja pedir aos brasileiros que esqueçam suas diferenças, mas oferecer-lhes coisas importantes para construir juntos. É também por isso que a mobilização do segundo turno não deveria desaparecer. Pessoas que descobriram que sua ação podia mudar uma eleição podem descobrir que ela também consegue mudar uma escola, um bairro, uma cidade.
Durante muito tempo, acostumamo-nos a ouvir que o Brasil era o “país do futuro”. A expressão de Stefan Zweig, originalmente esperançosa, adquiriu uma ironia que seu autor certamente não imaginava: o futuro brasileiro parecia estar sempre alguns anos adiante. Talvez esteja na hora de aposentar a expressão. Não porque o futuro tenha finalmente chegado. Nenhum futuro chega sozinho. Mas porque, entre os dois turnos, milhões descobriram que sua ação podia mudar o rumo do país.
Essa experiência pode desaparecer na memória de mais uma campanha. Ou produzir uma descoberta mais duradoura: participação não precisa ser convocada apenas quando chega a hora de votar. Mandela mostrou que sociedades podem escapar de destinos que pareciam inevitáveis. A África do Sul mostrou que nenhuma vitória política termina o trabalho da história.
O país precisa preservar a energia dos que se mobilizaram sem transformá-la em combustível para uma guerra permanente contra os que perderam. Precisa lembrar sem fazer da memória uma prisão e governar segundo o programa escolhido pela maioria sem transformar a minoria em estrangeira dentro do próprio país. Governar para 215 milhões não significa imaginar que todos passarão a pensar da mesma maneira. Significa construir um país em que possamos discordar profundamente e continuar pertencendo ao mesmo futuro. Talvez o Brasil deixe de ser o eterno país do futuro no dia em que compreendermos que o futuro não é um lugar para onde estamos indo. É aquilo que 215 milhões de brasileiros forem capazes de construir juntos.
O que significa, então, governar para 215 milhões? A pergunta importa ainda mais porque esta eleição produziu algo que não aparece nas planilhas de resultados. Entre os dois turnos, muita gente que recebera com desalento o resultado de 4 de outubro voltou a agir. Estudantes foram às ruas, redes se organizaram, pessoas procuraram amigos, parentes e colegas, discutiram, convenceram, buscaram votos. Muitos descobriram que sua participação podia alterar o curso de uma eleição.
Seria um enorme desperdício se essa energia se dissipasse. Uma eleição democrática precisa terminar. A cidadania que ela despertou, não. O desafio é preservá-la sem preservar a lógica da guerra eleitoral.
Como transformar, então, a energia de uma vitória política em força para construir um país que continue pertencendo também aos que foram derrotados?
Trinta e dois anos atrás, em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas, Nelson Mandela enfrentou uma versão extrema desse desafio. Após 27 anos na prisão, tomou posse como presidente da África do Sul, em 1994. O apartheid deixara mortos, presos, exilados, famílias destruídas e uma sociedade organizada pela segregação racial e pela exclusão da maioria negra do poder político. Mandela tinha razões pessoais para o ressentimento e legitimidade política suficiente para fazer dele um instrumento de poder. Escolheu outro caminho.
Seu governo incluiu antigos adversários. F. W. de Klerk, último presidente do regime do apartheid, tornou-se um dos vice-presidentes da nova África do Sul. Isso não apagou as diferenças entre os dois. Mandela continuou a confrontá-lo e a denunciar as responsabilidades da ordem que o mantivera preso. Trabalhar juntos era uma necessidade. Sua reconciliação não dependia de esquecer quem fizera o quê, mas de reconhecer que antigos inimigos continuariam pertencendo ao mesmo país. Democracias precisam de adversários. O perigo começa quando deixamos de reconhecer no adversário o direito de pertencer à mesma comunidade política.
A África do Sul mostrou também que reconciliação não é esquecimento. A Comissão da Verdade e Reconciliação ouviu vítimas, investigou violações, propôs reparações e examinou pedidos de anistia. Se a memória diz de onde viemos, a reconciliação pergunta se, sabendo disso, ainda conseguiremos construir juntos.
Mandela compreendia, porém, que nem isso bastava. Em 1997, afirmou que não poderia haver reconciliação sem reconstrução e desenvolvimento. A história posterior da África do Sul transformaria a frase numa advertência.
A transição política foi extraordinária. Já a transformação das estruturas materiais herdadas do apartheid, muito menos. Três décadas depois, a África do Sul continua entre as sociedades mais desiguais do mundo: seu índice de Gini – numa escala em que zero representa igualdade perfeita e 1, desigualdade máxima – é de 0,541. O do Brasil, ele próprio profundamente desigual, é de 0,503. A igualdade perante a lei avançou muito mais rapidamente do que a igualdade das condições de vida.
Até onde uma sociedade consegue se reconciliar politicamente quando aquilo que materialmente separa seus cidadãos permanece quase intacto? Talvez uma reconciliação duradoura exija mais que tolerância. Exija pertencimento. É aí que a frase de Lula sobre os 215 milhões deixa de ser apenas uma declaração de boas intenções.
Governar para todos não significa abandonar o programa que venceu as eleições. Significa governar segundo um projeto sem transformar aqueles que votaram contra ele em estrangeiros dentro do próprio país. Quando um cidadão entra numa unidade do SUS e é atendido sem que ninguém lhe pergunte em quem votou, há ali algo maior do que a prestação de um serviço. Quando uma criança encontra numa escola pública professores, ciência, cultura e oportunidades que sua família talvez não pudesse lhe oferecer, acontece algo semelhante. O país lhes está dizendo: este país também é seu. Talvez devêssemos pensar essas instituições também como infraestruturas de pertencimento. Isso não exige que conservadores e progressistas concordem sobre impostos, segurança, costumes, meio ambiente ou o papel do Estado. Uma democracia saudável não é uma sociedade sem conflitos. É uma sociedade capaz de tê-los sem transformar cada divergência numa guerra entre pessoas que deixaram de se reconhecer como concidadãs.
Talvez a melhor maneira de reduzir a polarização não seja pedir aos brasileiros que esqueçam suas diferenças, mas oferecer-lhes coisas importantes para construir juntos. É também por isso que a mobilização do segundo turno não deveria desaparecer. Pessoas que descobriram que sua ação podia mudar uma eleição podem descobrir que ela também consegue mudar uma escola, um bairro, uma cidade.
Durante muito tempo, acostumamo-nos a ouvir que o Brasil era o “país do futuro”. A expressão de Stefan Zweig, originalmente esperançosa, adquiriu uma ironia que seu autor certamente não imaginava: o futuro brasileiro parecia estar sempre alguns anos adiante. Talvez esteja na hora de aposentar a expressão. Não porque o futuro tenha finalmente chegado. Nenhum futuro chega sozinho. Mas porque, entre os dois turnos, milhões descobriram que sua ação podia mudar o rumo do país.
Essa experiência pode desaparecer na memória de mais uma campanha. Ou produzir uma descoberta mais duradoura: participação não precisa ser convocada apenas quando chega a hora de votar. Mandela mostrou que sociedades podem escapar de destinos que pareciam inevitáveis. A África do Sul mostrou que nenhuma vitória política termina o trabalho da história.
O país precisa preservar a energia dos que se mobilizaram sem transformá-la em combustível para uma guerra permanente contra os que perderam. Precisa lembrar sem fazer da memória uma prisão e governar segundo o programa escolhido pela maioria sem transformar a minoria em estrangeira dentro do próprio país. Governar para 215 milhões não significa imaginar que todos passarão a pensar da mesma maneira. Significa construir um país em que possamos discordar profundamente e continuar pertencendo ao mesmo futuro. Talvez o Brasil deixe de ser o eterno país do futuro no dia em que compreendermos que o futuro não é um lugar para onde estamos indo. É aquilo que 215 milhões de brasileiros forem capazes de construir juntos.
sexta-feira, 6 de novembro de 2026
Antes de crise bancária, bolsonarismo vendia Paraguai como 'exemplo para a América Latina'
O chamado foi feito por Luciano Hang, dono das lojas Havan. “Empresários brasileiros, venham para o Paraguai!”, conclamou. “Aqui empresário não paga a ineficiência do governo. Aqui você paga poucos impostos. Pode se desenvolver, pode crescer”, animou-se o bilionário catarinense.
O Louro José do bolsonarismo estava empolgado. Convidado pelo presidente Santiago Peña, aproveitou a viagem para propagandear as maravilhas de Assunção. “Olha só os prédios. Muita modernidade! Você nota nas ruas e nas pessoas a alegria. Parabéns, Paraguai!”, derramou-se.
Os áulicos de Peña devem ter se enciumado. Em visita ao palácio presidencial, Hang descreveu a gestão de direita como um “exemplo para toda a América Latina”. “Fiquei impressionado. Eles estão no governo para servir o país”, enalteceu, estendendo as loas a ministros e assessores.
Até a vitória da seleção paraguaia sobre a Alemanha, uma das maiores zebras da Copa, virou pretexto para bajular o presidente. “Fazendo o certo, dá certo”, enalteceu o dono da Havan. A sabujice não deu sorte aos anfitriões. O Paraguai foi eliminado no jogo seguinte, ao perder para a França. Peña renunciou ontem, quatro meses depois da visita de Hang.
O presidente caiu em meio a uma onda de protestos pela quebra do Ueno Bank. O escândalo deixa o caso Master no chinelo. Em três anos, o banco paraguaio acumulou quase 3 milhões de correntistas, o equivalente a 60% da população adulta do país.
Peña tem tudo a ver com a crise. Acionista do Ueno até o ano passado, entregou o comando do Banco Central do Paraguai a um ex-diretor do conglomerado. Apesar dos aportes de dinheiro público, o banco maquiava balanços para esconder sua insolvência.
O autodenominado Véio da Havan não foi o único brasileiro a vender a ilusão paraguaia. Em campanha ao Planalto, Flávio Bolsonaro elogiou o aliado de Donald Trump por “modernizar o Estado” e “investir em governo digital”. “Parabéns ao Paraguai pela visão de futuro”, exaltou. Se escapar da cadeia, Peña é candidato a reencontrá-lo em breve. Na Flórida.
O Louro José do bolsonarismo estava empolgado. Convidado pelo presidente Santiago Peña, aproveitou a viagem para propagandear as maravilhas de Assunção. “Olha só os prédios. Muita modernidade! Você nota nas ruas e nas pessoas a alegria. Parabéns, Paraguai!”, derramou-se.
Os áulicos de Peña devem ter se enciumado. Em visita ao palácio presidencial, Hang descreveu a gestão de direita como um “exemplo para toda a América Latina”. “Fiquei impressionado. Eles estão no governo para servir o país”, enalteceu, estendendo as loas a ministros e assessores.
Até a vitória da seleção paraguaia sobre a Alemanha, uma das maiores zebras da Copa, virou pretexto para bajular o presidente. “Fazendo o certo, dá certo”, enalteceu o dono da Havan. A sabujice não deu sorte aos anfitriões. O Paraguai foi eliminado no jogo seguinte, ao perder para a França. Peña renunciou ontem, quatro meses depois da visita de Hang.
O presidente caiu em meio a uma onda de protestos pela quebra do Ueno Bank. O escândalo deixa o caso Master no chinelo. Em três anos, o banco paraguaio acumulou quase 3 milhões de correntistas, o equivalente a 60% da população adulta do país.
Peña tem tudo a ver com a crise. Acionista do Ueno até o ano passado, entregou o comando do Banco Central do Paraguai a um ex-diretor do conglomerado. Apesar dos aportes de dinheiro público, o banco maquiava balanços para esconder sua insolvência.
O autodenominado Véio da Havan não foi o único brasileiro a vender a ilusão paraguaia. Em campanha ao Planalto, Flávio Bolsonaro elogiou o aliado de Donald Trump por “modernizar o Estado” e “investir em governo digital”. “Parabéns ao Paraguai pela visão de futuro”, exaltou. Se escapar da cadeia, Peña é candidato a reencontrá-lo em breve. Na Flórida.
À altura dos farialimers
Um dos textos mais importantes deste ano foi publicado na revista piauí de 1º de outubro último: "O que esses brasileiros sabem", do jornalista e cineasta João Moreira Salles. Tratava da tendência de parte da elite brasileira a "desviar o olhar" dos riscos à democracia pela então possível, até provável, vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, em troca de seus interesses empresariais e financeiros. Moreira Salles, ex-acionista do Banco Itaú, faz parte dessa elite — mas não dessa parte da elite.
Em seu artigo, ele observou a compreensível preocupação da Faria Lima com a situação fiscal do país, os gastos públicos e a dívida interna, mas que isso não justificava a aproximação dos farialimers com um candidato que, assim como o pai, o ex-presidente e presidiário Jair Bolsonaro, defendeu a prática da tortura na ditadura militar. Segundo Moreira Salles, a elite sabe bem do apreço do clã Bolsonaro por rupturas democráticas, mas isso não lhes faria maior diferença desde que a economia os favorecesse.
Numa atitude quase inédita por aqui, Moreira Salles deu os nomes de 28 empresários e executivos a quem atribuiu o flerte com o bolsonarismo — um deles, CEO do próprio banco controlado por sua família. Dias depois, às vésperas do segundo turno, seu artigo gerou uma contundente resposta de outro empresário (não citado na lista), o qual argumentou que "aproximar-se de um candidato e conhecer suas ideias não significa apoiá-lo". Mas, na última linha, o autor da resposta deixou escapar que aprovava as ditas ideias, ao sugerir, "em nome da alternância no poder, a troca de Lula por Flávio".
Apesar deles, a troca não se deu, e os farialimers terão de sobreviver a mais um governo Lula, talvez com um ou outro bilhão de reais a menos em seus bolsos. O que me intriga é saber o que estão achando dos destemperos, despautérios e desatinos com que Flávio Bolsonaro reagiu à derrota, comportando-se como o charlatão invertebrado que sempre foi.
E se Flávio continua a lhes parecer à altura de presidi-los.
Em seu artigo, ele observou a compreensível preocupação da Faria Lima com a situação fiscal do país, os gastos públicos e a dívida interna, mas que isso não justificava a aproximação dos farialimers com um candidato que, assim como o pai, o ex-presidente e presidiário Jair Bolsonaro, defendeu a prática da tortura na ditadura militar. Segundo Moreira Salles, a elite sabe bem do apreço do clã Bolsonaro por rupturas democráticas, mas isso não lhes faria maior diferença desde que a economia os favorecesse.
Numa atitude quase inédita por aqui, Moreira Salles deu os nomes de 28 empresários e executivos a quem atribuiu o flerte com o bolsonarismo — um deles, CEO do próprio banco controlado por sua família. Dias depois, às vésperas do segundo turno, seu artigo gerou uma contundente resposta de outro empresário (não citado na lista), o qual argumentou que "aproximar-se de um candidato e conhecer suas ideias não significa apoiá-lo". Mas, na última linha, o autor da resposta deixou escapar que aprovava as ditas ideias, ao sugerir, "em nome da alternância no poder, a troca de Lula por Flávio".
Apesar deles, a troca não se deu, e os farialimers terão de sobreviver a mais um governo Lula, talvez com um ou outro bilhão de reais a menos em seus bolsos. O que me intriga é saber o que estão achando dos destemperos, despautérios e desatinos com que Flávio Bolsonaro reagiu à derrota, comportando-se como o charlatão invertebrado que sempre foi.
E se Flávio continua a lhes parecer à altura de presidi-los.
Brasil, Sérvia Israel e EUA: o futuro das Autocracias
No Brasil, Flávio Bolsonaro perde para Lula. Na Sérvia, o partido “Student List”, inusitadamente formado por estudantes e professores, ganha as eleições, destronando 14 anos de poder. Em Israel, Netanyahu não consegue formar a maioria no Parlamento, dependendo de composição com os Partidos Árabes. Nos Estados Unidos, Trump, com somente 31% de aprovação de seu governo na pesquisa IPSOS/Reuters, o menor percentual de todas as épocas da história dos Estados Unidos após dois anos de governo, perde as Midterms Elections, em fragorosa derrota.
Este será o futuro das Autocracias?
A lógica da formação das Autocracias Modernas é simples. Até 1980, todas as classes prosperaram. A partir de 1980, dispara a renda dos mais ricos, mantém-se a renda da classe baixa, diminuindo a renda da classe média. Hoje, 3.300 famílias detêm em patrimônio o equivalente a cerca de 13% do PIB mundial.
A classe média, aversa a políticas sociais e desgostosa com o sistema eleitoral representativo, que não redistribuiu renda, dá suporte a líderes de extrema direita, na expectativa de resolverem os seus problemas.
Entretanto, as Autocracias Modernas privilegiam somente a um grupo determinado em sua volta, nem mesmo à classe produtiva em geral, sem, portanto, solucionar os problemas da classe que os elegeu. Assim, Viktor Orbán foi destronado na Hungria, depois de 16 anos no poder.
Então, voltando à questão, seria esse o futuro das Autocracias Modernas?
O problema é que, uma vez destituídos, quem os substitui teria que suprir as necessidades econômicas e de reposição da renda da população, impossível devido à lógica atual de concentração da renda nas sociedades. Em não se resolvendo, tudo tende a voltar atrás.
Adicione-se o problema ecológico, que do ponto de vista empresarial significa a diminuição dos recursos naturais, como input para a concentração de poder e da renda, sem a solução do problema social.
Se não for resolvido o problema da renda, o extremismo da direita radical deverá voltar, tendendo para práticas autoritárias e ditatoriais, mais definitivas, a longo prazo.
“Oh, Deus! Este é o nosso destino?”
Este será o futuro das Autocracias?
A lógica da formação das Autocracias Modernas é simples. Até 1980, todas as classes prosperaram. A partir de 1980, dispara a renda dos mais ricos, mantém-se a renda da classe baixa, diminuindo a renda da classe média. Hoje, 3.300 famílias detêm em patrimônio o equivalente a cerca de 13% do PIB mundial.
A classe média, aversa a políticas sociais e desgostosa com o sistema eleitoral representativo, que não redistribuiu renda, dá suporte a líderes de extrema direita, na expectativa de resolverem os seus problemas.
Entretanto, as Autocracias Modernas privilegiam somente a um grupo determinado em sua volta, nem mesmo à classe produtiva em geral, sem, portanto, solucionar os problemas da classe que os elegeu. Assim, Viktor Orbán foi destronado na Hungria, depois de 16 anos no poder.
Então, voltando à questão, seria esse o futuro das Autocracias Modernas?
O problema é que, uma vez destituídos, quem os substitui teria que suprir as necessidades econômicas e de reposição da renda da população, impossível devido à lógica atual de concentração da renda nas sociedades. Em não se resolvendo, tudo tende a voltar atrás.
Adicione-se o problema ecológico, que do ponto de vista empresarial significa a diminuição dos recursos naturais, como input para a concentração de poder e da renda, sem a solução do problema social.
Se não for resolvido o problema da renda, o extremismo da direita radical deverá voltar, tendendo para práticas autoritárias e ditatoriais, mais definitivas, a longo prazo.
“Oh, Deus! Este é o nosso destino?”
A democracia recupera esperança. Mas recupera força?
O mundo acorda com sinais de esperança. Nos Estados Unidos, os democratas recuperam terreno e, no Brasil, uma alternativa conquista as eleições. Parece que a democracia volta a respirar. Mas será que estamos a recuperar a força democrática ou apenas a escolher o mal menor?
Há uma diferença entre votar em alguém em cujo projeto nos revemos e votar porque sentimos que o outro lado representa algo que não podemos aceitar. Quando a rejeição do adversário se torna mais mobilizadora do que a capacidade de apresentar um novo projeto de sociedade, alguma coisa se perde. A democracia não pode viver permanentemente da repulsa. Precisa de alternativas, de ideias e de projetos capazes de responder à complexidade dos desafios que a Humanidade enfrenta.
E é aqui que a esperança eleitoral se cruza com uma inquietação maior. Temos um Estado Social fragilizado, um tecido social desgastado e uma crescente dificuldade em garantir que os direitos se concretizam. Sabemos quem elegemos, mas sabemos quem condiciona as decisões? Terão os políticos força para enfrentar interesses económicos instalados, que não conhecemos nem elegemos, mas que determinam muito do panorama mundial?
Não basta conquistar o poder. É preciso ter capacidade para o exercer. Porque uma democracia que vive apenas da rejeição corre o risco de perder a capacidade de construir, enquanto os poderes que não respondem perante os cidadãos continuam a ganhar influência.
A democracia não se fortalece apenas quando impedimos que vença quem rejeitamos. Fortalece-se quando somos capazes de construir alternativas, recuperar a confiança e garantir que o poder permanece ao serviço do bem comum.
É aqui que precisamos de recuperar a grandeza da pessoa humana. Não como uma expressão abstrata, mas como fundamento das decisões políticas, económicas e sociais. A pessoa não pode ser reduzida à sua produtividade, ao seu mérito individual ou à sua capacidade de competir num mundo profundamente desigual.
O verdadeiro desafio não é apenas saber quem ganha eleições. É saber se continuamos a ter força coletiva para decidir o nosso futuro e garantir que o Estado existe para servir a pessoa humana, e não interesses que se sobrepõem à democracia.
Há uma diferença entre votar em alguém em cujo projeto nos revemos e votar porque sentimos que o outro lado representa algo que não podemos aceitar. Quando a rejeição do adversário se torna mais mobilizadora do que a capacidade de apresentar um novo projeto de sociedade, alguma coisa se perde. A democracia não pode viver permanentemente da repulsa. Precisa de alternativas, de ideias e de projetos capazes de responder à complexidade dos desafios que a Humanidade enfrenta.
E é aqui que a esperança eleitoral se cruza com uma inquietação maior. Temos um Estado Social fragilizado, um tecido social desgastado e uma crescente dificuldade em garantir que os direitos se concretizam. Sabemos quem elegemos, mas sabemos quem condiciona as decisões? Terão os políticos força para enfrentar interesses económicos instalados, que não conhecemos nem elegemos, mas que determinam muito do panorama mundial?
Não basta conquistar o poder. É preciso ter capacidade para o exercer. Porque uma democracia que vive apenas da rejeição corre o risco de perder a capacidade de construir, enquanto os poderes que não respondem perante os cidadãos continuam a ganhar influência.
A democracia não se fortalece apenas quando impedimos que vença quem rejeitamos. Fortalece-se quando somos capazes de construir alternativas, recuperar a confiança e garantir que o poder permanece ao serviço do bem comum.
É aqui que precisamos de recuperar a grandeza da pessoa humana. Não como uma expressão abstrata, mas como fundamento das decisões políticas, económicas e sociais. A pessoa não pode ser reduzida à sua produtividade, ao seu mérito individual ou à sua capacidade de competir num mundo profundamente desigual.
O verdadeiro desafio não é apenas saber quem ganha eleições. É saber se continuamos a ter força coletiva para decidir o nosso futuro e garantir que o Estado existe para servir a pessoa humana, e não interesses que se sobrepõem à democracia.
Baile de máscaras
Não sei os motivos profundos do fenômeno, mas este existe e se faz cada vez mais forte e espalhado: hoje, no Brasil, é comum o profissional que desconhece da sua profissão as regrinhas mais banais, as habilidades mais elementares à prática desse ofício ou dessa arte. E não é só isso, não; já é bastante chique praticar uma profissão sem saber praticá-la. As qualidades negativas, por um imponderabilíssimo segredo, passaram a ser mais recomendáveis que as qualidades positivas.
Por que não dizer mais? Direi mais: houve em nossa terra nestes últimos anos uma sutil e vitoriosa conspiração em favor da burrice, da ignorância e da incompetência. E da desonestidade, poderia acrescentar, não fosse mudar de área. É o que sempre se chamou “inversão de valores”; isso antigamente não passava de figura de retórica; tornou-se realidade.
Imaginemos um santo sacerdote que não soubesse o catecismo, que ficasse embatucado se lhe perguntássemos de repente qual é o sinal do cristão ou que começasse a contar nos dedos as pessoas da Santíssima Trindade. Não, esse padre ainda não existe, mas a analogia nos serve: há muitos sujeitos por aí que, dentro das ciências que professam, ignoram qual o sinal do cristão ou que fazem demorado esforço de memória para dizer quais as pessoas da Trindade.
Estamos vivendo uma divertida comédia social, mas ainda não chegamos à apoteose, isto é, ao momento da guerra de pastelões. Por enquanto, o baile de máscaras continua muito a sério, fingindo todos que estão a acreditar nos personagens travestidos. Aqui do nosso canto, podemos apreciar a grande festa.
Olha ali um pintor, calça de veludo, blusa manchada de óleo, um copo de bebida forte na mão, a dar gargalhadas aprendidas em Paris, dizendo palavrões às damas e demonstrando através de todos os seus gestos que a vida fora da arte não tem o menor sentido. Evidentemente, trata-se dum artista genial. Por isso mesmo, não lhe peça nunca para pintar uma banana, que ele é capaz de fechar o baile. Quem sabe pintar banana (a expressão é dele) é uma besta quadrada. Para não ser besta quadrada, o nosso artista comprou um bonito compasso e pinta círculos pretos sobre fundo branco, semicírculos cinzentos, formas inatacáveis e eternas em sua pureza absoluta.
Perto do pintor há um belo rapaz, alto, robusto, corado, um poeta, naturalmente. Erramos. Pois a crítica mais avançada afirma que esse formidável miúra não é um poeta, mas o poeta, autor aliás dum arquipoema famoso, que só posso citar integralmente: “V”. É isso mesmo, leitor distraído, o poema é “V”. Os melhores espíritos do país sabem que, nessa consoante labiodental fricativa sonora, o poeta resumiu plasticamente todo o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. É o máximo em poesia.
Mas passemos rapidamente a vista por mais alguns fantasiados. Nem todas as fantasias são igualmente sublimes. Vai ali, por exemplo, uma cozinheira que nunca fez um bife com sinceridade, mas todos reconhecem que seria capaz de fazer grandes papéis secundários no teatro.
Conversando com aquela bonita senhora fantasiada de elegante, vemos um colunista célebre, respeitado e bem pago. Descobriram a sua esmagadora vocação jornalística no dia em que escreveu “sociedade” com Ç. Riram-se dele os colegas. O moço corrigiu logo, trocando o Ç por um S cedilhado. Aí não se riram mais. Um homem capaz de inventar um S cedilhado tem garantido um feérico futuro no colunismo social. Coisa muito séria.
Máscara que dá muito em nosso baile é a de político. Debaixo dessas fisionomias cívicas de papelão pintado existem contrabandistas, cangaceiros, mascates, ex-vereadores etc. Mas não vamos estragar a festa; façamos de conta que eles estão mesmo a salvar o nosso Brasil.
Há mais. Naquele canto, um “médico” diz a uma jovem que o “complexo B” foi uma das grandes descobertas de Freud. O cômico a contar anedotas nunca fez rir a ninguém: bossa nova. Em matéria de ponte, aquele engenheiro só conhece a ponte aérea, mas de avião é que ele não viaja, pois, diz ele, o homem não foi feito para voar. O rapaz falando fino e fanhoso é cantor. O cara de boné de coach de baseball pensa que é técnico de futebol. O imponente cavalheiro a medir ângulos com as mãos já convenceu a todos de que é o maior cineasta do mês. No mês que vem, demitido pela opinião pública; outro tomará o seu lugar.
Sem falar, porque não há espaço, nos fabulosos técnicos eletrônicos, nos advogados, que Deus me perdoe, nas paralíticas vestidas de bailarina, nas respeitáveis vovozinhas brincando de vedetes, nos humanistas que de latim conhecem mal e mal as páginas cor-de-rosa do Larousse, nos sambistas duros de orelhas, nos milionários do papagaio, nos public-relations detestados pela cidade inteira etc. etc.
Atrás daquele jarrão, mascarado de cronista, está este seu criado, mas, por favor, não espalhe, não espalhe.
Paulo Mendes Campos, "O homem que odiava ilhas"
Por que não dizer mais? Direi mais: houve em nossa terra nestes últimos anos uma sutil e vitoriosa conspiração em favor da burrice, da ignorância e da incompetência. E da desonestidade, poderia acrescentar, não fosse mudar de área. É o que sempre se chamou “inversão de valores”; isso antigamente não passava de figura de retórica; tornou-se realidade.
Imaginemos um santo sacerdote que não soubesse o catecismo, que ficasse embatucado se lhe perguntássemos de repente qual é o sinal do cristão ou que começasse a contar nos dedos as pessoas da Santíssima Trindade. Não, esse padre ainda não existe, mas a analogia nos serve: há muitos sujeitos por aí que, dentro das ciências que professam, ignoram qual o sinal do cristão ou que fazem demorado esforço de memória para dizer quais as pessoas da Trindade.
Estamos vivendo uma divertida comédia social, mas ainda não chegamos à apoteose, isto é, ao momento da guerra de pastelões. Por enquanto, o baile de máscaras continua muito a sério, fingindo todos que estão a acreditar nos personagens travestidos. Aqui do nosso canto, podemos apreciar a grande festa.
Olha ali um pintor, calça de veludo, blusa manchada de óleo, um copo de bebida forte na mão, a dar gargalhadas aprendidas em Paris, dizendo palavrões às damas e demonstrando através de todos os seus gestos que a vida fora da arte não tem o menor sentido. Evidentemente, trata-se dum artista genial. Por isso mesmo, não lhe peça nunca para pintar uma banana, que ele é capaz de fechar o baile. Quem sabe pintar banana (a expressão é dele) é uma besta quadrada. Para não ser besta quadrada, o nosso artista comprou um bonito compasso e pinta círculos pretos sobre fundo branco, semicírculos cinzentos, formas inatacáveis e eternas em sua pureza absoluta.
Perto do pintor há um belo rapaz, alto, robusto, corado, um poeta, naturalmente. Erramos. Pois a crítica mais avançada afirma que esse formidável miúra não é um poeta, mas o poeta, autor aliás dum arquipoema famoso, que só posso citar integralmente: “V”. É isso mesmo, leitor distraído, o poema é “V”. Os melhores espíritos do país sabem que, nessa consoante labiodental fricativa sonora, o poeta resumiu plasticamente todo o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. É o máximo em poesia.
Mas passemos rapidamente a vista por mais alguns fantasiados. Nem todas as fantasias são igualmente sublimes. Vai ali, por exemplo, uma cozinheira que nunca fez um bife com sinceridade, mas todos reconhecem que seria capaz de fazer grandes papéis secundários no teatro.
Conversando com aquela bonita senhora fantasiada de elegante, vemos um colunista célebre, respeitado e bem pago. Descobriram a sua esmagadora vocação jornalística no dia em que escreveu “sociedade” com Ç. Riram-se dele os colegas. O moço corrigiu logo, trocando o Ç por um S cedilhado. Aí não se riram mais. Um homem capaz de inventar um S cedilhado tem garantido um feérico futuro no colunismo social. Coisa muito séria.
Máscara que dá muito em nosso baile é a de político. Debaixo dessas fisionomias cívicas de papelão pintado existem contrabandistas, cangaceiros, mascates, ex-vereadores etc. Mas não vamos estragar a festa; façamos de conta que eles estão mesmo a salvar o nosso Brasil.
Há mais. Naquele canto, um “médico” diz a uma jovem que o “complexo B” foi uma das grandes descobertas de Freud. O cômico a contar anedotas nunca fez rir a ninguém: bossa nova. Em matéria de ponte, aquele engenheiro só conhece a ponte aérea, mas de avião é que ele não viaja, pois, diz ele, o homem não foi feito para voar. O rapaz falando fino e fanhoso é cantor. O cara de boné de coach de baseball pensa que é técnico de futebol. O imponente cavalheiro a medir ângulos com as mãos já convenceu a todos de que é o maior cineasta do mês. No mês que vem, demitido pela opinião pública; outro tomará o seu lugar.
Sem falar, porque não há espaço, nos fabulosos técnicos eletrônicos, nos advogados, que Deus me perdoe, nas paralíticas vestidas de bailarina, nas respeitáveis vovozinhas brincando de vedetes, nos humanistas que de latim conhecem mal e mal as páginas cor-de-rosa do Larousse, nos sambistas duros de orelhas, nos milionários do papagaio, nos public-relations detestados pela cidade inteira etc. etc.
Atrás daquele jarrão, mascarado de cronista, está este seu criado, mas, por favor, não espalhe, não espalhe.
Paulo Mendes Campos, "O homem que odiava ilhas"
A armadilha da autocrítica: por que só o PT deve confessar seus pecados?
Tem sido assim desde que o partido foi criado: entra eleição e sai eleição — ganhe ou perca o Partido dos Trabalhadores (PT) —, e seus críticos mais duros cobram da legenda a conversão à autocrítica. Exigem que ela seja feita em público para que, só assim, o partido possa ser perdoado por seus muitos erros, sendo cobrado mais tarde caso os repita. Igual tratamento, contudo, não se aplica às demais agremiações. Por que será?
Ora, responderão alguns: porque desde a redemocratização do país, com a posse do presidente José Sarney em 15 de março de 1985, se passaram exatamente 41 anos, 7 meses e 22 dias até a data de hoje. Desse total, o PT governou o Brasil por 16 anos, 10 meses e 5 dias. Já o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) governou por 8 anos, enquanto o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) ocupou a liderança recentemente por pouco mais de dois anos com Michel Temer.
Embora o ato individual de avaliar as próprias ações exista desde a filosofia antiga, a transformação da autocrítica em uma ferramenta política coletiva e institucional ocorreu de forma bastante específica na história. O termo e a prática ganharam força logo após a Revolução Russa de 1917, consolidando-se como doutrina partidária oficial entre 1921 e 1924, por obra e graça do ditador Joseph Stalin.
Lavar roupa suja em público não é algo que se peça a um partido político, a não ser que o objetivo seja, de fato, enfraquecê-lo — algo de que, naturalmente, se aproveitariam seus adversários. A Igreja Católica, por exemplo, recomenda aos seus fiéis que confessem seus pecados como sinal de arrependimento; em troca, porém, garante não os revelar em nenhuma hipótese, salvaguardados pelo segredo de confissão.
O antigo Partido Social Democrático (PSD), criado pelo então presidente Getúlio Vargas em julho de 1945, no contexto do fim do Estado Novo, tinha por hábito só se reunir publicamente depois que suas divergências internas tivessem sido devidamente aplacadas. A estratégia servia para que a sigla se mostrasse como um bloco unido, sólido e confiável. O segredo era a alma do negócio, pois a exposição de fraturas não beneficia vencedores nem vencidos.
De volta ao PT: quantos ajustamentos ou revisões na sua forma de pensar as coisas e de atuar o partido já não promoveu ao longo de sua história? É por isso que tem se dado bem, pelo menos até aqui, obtendo resultados melhores do que os de seus oponentes. A conjuntura não pode ser desconsiderada por nenhum governo que mire o sucesso. Quando o é, por erro de análise ou de soberba, o resultado deságua no cenário que estamos testemunhando hoje nos Estados Unidos de Donald Trump.
Lula é frequentemente criticado por ter dito, um dia, que é uma “metamorfose ambulante”. No fundo, a frase define alguém que sabe adaptar-se a um mundo em constante transformação. Na eleição concluída em 25 de outubro último, o candidato da mudança foi ele, e não Flávio Bolsonaro, que acenava com uma volta ao passado. Resta alguma dúvida sobre isso?
Ora, responderão alguns: porque desde a redemocratização do país, com a posse do presidente José Sarney em 15 de março de 1985, se passaram exatamente 41 anos, 7 meses e 22 dias até a data de hoje. Desse total, o PT governou o Brasil por 16 anos, 10 meses e 5 dias. Já o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) governou por 8 anos, enquanto o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) ocupou a liderança recentemente por pouco mais de dois anos com Michel Temer.
Embora o ato individual de avaliar as próprias ações exista desde a filosofia antiga, a transformação da autocrítica em uma ferramenta política coletiva e institucional ocorreu de forma bastante específica na história. O termo e a prática ganharam força logo após a Revolução Russa de 1917, consolidando-se como doutrina partidária oficial entre 1921 e 1924, por obra e graça do ditador Joseph Stalin.
Lavar roupa suja em público não é algo que se peça a um partido político, a não ser que o objetivo seja, de fato, enfraquecê-lo — algo de que, naturalmente, se aproveitariam seus adversários. A Igreja Católica, por exemplo, recomenda aos seus fiéis que confessem seus pecados como sinal de arrependimento; em troca, porém, garante não os revelar em nenhuma hipótese, salvaguardados pelo segredo de confissão.
O antigo Partido Social Democrático (PSD), criado pelo então presidente Getúlio Vargas em julho de 1945, no contexto do fim do Estado Novo, tinha por hábito só se reunir publicamente depois que suas divergências internas tivessem sido devidamente aplacadas. A estratégia servia para que a sigla se mostrasse como um bloco unido, sólido e confiável. O segredo era a alma do negócio, pois a exposição de fraturas não beneficia vencedores nem vencidos.
De volta ao PT: quantos ajustamentos ou revisões na sua forma de pensar as coisas e de atuar o partido já não promoveu ao longo de sua história? É por isso que tem se dado bem, pelo menos até aqui, obtendo resultados melhores do que os de seus oponentes. A conjuntura não pode ser desconsiderada por nenhum governo que mire o sucesso. Quando o é, por erro de análise ou de soberba, o resultado deságua no cenário que estamos testemunhando hoje nos Estados Unidos de Donald Trump.
Lula é frequentemente criticado por ter dito, um dia, que é uma “metamorfose ambulante”. No fundo, a frase define alguém que sabe adaptar-se a um mundo em constante transformação. Na eleição concluída em 25 de outubro último, o candidato da mudança foi ele, e não Flávio Bolsonaro, que acenava com uma volta ao passado. Resta alguma dúvida sobre isso?
'Dark Horse', só na nuvem; se não chover
Que pena, estamos ameaçados de nunca ver a obra-prima "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro, numa tela de cinema! Obra-prima é como o filme foi classificado por seu produtor-associado, levantador de dinheiro, filho do personagem e talvez receptador de parte do orçamento, Flávio Bolsonaro. Não sei das credenciais do ex-futuro presidente da República como crítico de cinema, mas sua insistência em dizer que "Dark Horse" é uma obra-prima nos faria ir correndo conferir. Obras-primas do cinema —algumas— são "Em Busca do Ouro" (1925), de Chaplin, "Ladrões de Bicicletas" (1948), de Vittorio de Sica, "Um Corpo que Cai" (1958), de Hitchcock. Estaria "Dark Horse" nesse time?
A chamada Sétima Arte está cheia de possíveis obras-primas que seus diretores levaram anos tentando filmar e, por vários motivos — um deles, falta de dinheiro—, nunca conseguiram terminar ou mesmo começar. Exemplos são "Que Viva México!", de Eisenstein, "Dom Quixote", de Orson Welles, "Napoleão", de Stanley Kubrick. Dinheiro não foi problema para "Dark Horse" — Daniel Vorcaro prometeu a Flávio R$ 134 milhões dos bilhões que desviou de aposentados e mandou-lhe R$ 61 milhões, quase metade da bufunfa.
Mas, se você pensa que isso é suficiente para realizar uma obra-prima, é porque não entende nada de cinema. Imagine o custo da peruca usada pelo subastro Jim Caviezel para interpretar o velho Bolsonaro — tanto que Flávio, numa famosa mensagem gravada, arrastou-se pedindo a Vorcaro que lhe mandasse mais. Como parte do dinheiro já recebido tinha ido para os EUA a fim de ser lavado por uma firma no Texas e nunca voltou, faltou aqui para os sanduíches da equipe.
E, agora, o problema. Surrado no segundo turno da eleição e investigado exatamente por lavar dinheiro, Flávio foi para os EUA com a família, sem data para voltar. O salário de senador que receberá até janeiro sem trabalhar não bastará para se manter. Precisará sacar da verba de "Dark Horse" depositada lá.
E, com isso, só teremos o filme na nuvem — se não chover.
A chamada Sétima Arte está cheia de possíveis obras-primas que seus diretores levaram anos tentando filmar e, por vários motivos — um deles, falta de dinheiro—, nunca conseguiram terminar ou mesmo começar. Exemplos são "Que Viva México!", de Eisenstein, "Dom Quixote", de Orson Welles, "Napoleão", de Stanley Kubrick. Dinheiro não foi problema para "Dark Horse" — Daniel Vorcaro prometeu a Flávio R$ 134 milhões dos bilhões que desviou de aposentados e mandou-lhe R$ 61 milhões, quase metade da bufunfa.
Mas, se você pensa que isso é suficiente para realizar uma obra-prima, é porque não entende nada de cinema. Imagine o custo da peruca usada pelo subastro Jim Caviezel para interpretar o velho Bolsonaro — tanto que Flávio, numa famosa mensagem gravada, arrastou-se pedindo a Vorcaro que lhe mandasse mais. Como parte do dinheiro já recebido tinha ido para os EUA a fim de ser lavado por uma firma no Texas e nunca voltou, faltou aqui para os sanduíches da equipe.
E, agora, o problema. Surrado no segundo turno da eleição e investigado exatamente por lavar dinheiro, Flávio foi para os EUA com a família, sem data para voltar. O salário de senador que receberá até janeiro sem trabalhar não bastará para se manter. Precisará sacar da verba de "Dark Horse" depositada lá.
E, com isso, só teremos o filme na nuvem — se não chover.
A luta
Querer pensar que um cidadão tem que cumprir uma lei injusta, ou que deve comer e calar, ou reduzir-se à sua insignificância mesmo em situações de gritante insensibilidade social, incompetência governativa e desprezo pelos mais vulneráveis, é tolice
Os governantes em geral não estão sensibilizados para as necessidades dos governados, em especial dos mais fracos, pobres e vulneráveis, porque costumam viver numa bolha. Não sentem as suas necessidades e dores nem são sensíveis aos seus sacrifícios, que muitas vezes desconhecem.
Por isso, é melhor esperar sentado que as elites desçam à terra para acudir às populações, ainda que no caso das democracias tenham sempre algum cuidado em falar uma linguagem de simpatia e compreensão, fazendo promessas eleitorais com vista a obter o voto.
A história comprova à saciedade que todas as mudanças estruturais resultaram de movimentos sociais, durante os quais os cidadãos se manifestaram frequentemente contra leis injustas.
Aconteceu assim nos Estados Unidos com a luta pelos direitos civis, com Rosa Park, que desobedeceu a uma lei racista, e tantos outros como Martin Luther King que acabou assassinado.
Aconteceu assim na África do Sul, em pleno aparthaid, um regime racista e ignóbil que matou indiscriminadamente, encarcerando Nelson Mandela durante 27 anos.
Aconteceu assim com as sufragistas inglesas no início do século XX, que reivindicavam o direito democrático das mulheres ao voto.
Aconteceu assim com a luta pelos direitos do trabalho, em Chicago, que ficou conhecida como Massacre de Haymarket, em 1886, quando milhares de operários exigiram a redução da jornada de trabalho de até 18 horas para oito horas diárias, tendo a polícia disparado então contra os grevistas na fábrica McCormick, matando vários trabalhadores. Deu-se então origem ao Dia Internacional dos Trabalhadores, celebrado a 1 de maio de cada ano.
Outro caso dramático foi o do incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, ocorrido a 25 de março de 1911, em Nova Iorque, onde proprietários inescrupulosos obrigavam as operárias a condições desumanas de trabalho, o que contribuiu para uma tragédia. Os patrões cometeram o crime de mandar trancar as portas, de modo que quando o fogo deflagrou, as operárias ficaram encurraladas. Morreram 146, das quais 123 eram jovens mulheres imigrantes.
Aconteceu assim com a luta pacifista da Índia britânica pela independência, sob inspiração de Mahatma Gandhi, que dizia: “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita.”
Aconteceu assim com a queda das ditaduras fascistas e comunistas, com o sacrifício de tantas vidas.
Querer pensar que um cidadão tem que cumprir uma lei injusta, ou que deve comer e calar, ou reduzir-se à sua insignificância mesmo em situações de gritante insensibilidade social, incompetência governativa e desprezo pelos mais vulneráveis, é tolice.
Milan Kundera lembra ainda que “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. Ou seja, o poder, normalmente, tem memória fraca e precisa sempre de ser lembrado por alguém.
Confrontado com a luta, quem está no poder tentará sempre desacreditar os que lutam a fim de os deslegitimar. Caso não consiga tentará a ameaça e a intimidação. Se isso ainda não chegar para fazer calar os que lutam, partirá para a repressão com base numa qualquer lei injusta ou mesmo sem o respaldo da lei e da constituição.
Restará então aos que lutam por uma causa justa assumir a divisa de Santo Agostinho: “Enquanto houver vontade de lutar haverá esperança de vencer.”
As dúvidas que as urnas deixaram
O Brasil saiu das eleições presidenciais tão dividido quanto nelas entrou. Assim continuará? Depende muito do que acontecer com a extrema-direita e do que o governo e as forças democráticas fizerem para garantir a normalidade política.
É cedo para dizer o que será do extremismo depois de sua segunda derrota. Muito menos o que será de sua liderança, com Bolsonaro-pai na cadeia e o filho-herdeiro acoitado por Trump. O bolsonarismo continuará sendo seu sinônimo ou outros líderes lhe darão novo nome e sobrevida? Neste caso, manterão os ultra a capacidade de aglutinar o vasto campo das direitas nas disputas pelo Palácio do Planalto?
A formidável vitória do presidente Lula não apaga o fato de que cerca de 60 milhões de eleitores preferiram um candidato de retórica extremista, cujas ideias eram tão desconhecidas quanto sabidas eram suas relações com o mundo do crime carioca e com o afamado Daniel Vorcaro — já não bastasse a forma pouco ortodoxa mediante a qual ele fez fortuna e acumulou patrimônio.
Como em 2022, a polarização política não resultou só da regra eleitoral que no segundo turno força o eleitor a optar entre dois concorrentes. Então, como agora, já na primeira volta as preferências dos cidadãos se concentraram em dois polos situados a grande distância ideológica e programática —um deles nas mãos da ultra, o outro ocupado pela esquerda democrática e moderada.
A competição eleitoral naturalmente radicaliza as diferenças entre os contendores. Ainda mais quando um deles, seguindo o roteiro da extrema destra, ativa medos e ressentimentos nas ruas e nas redes, estimulando o oponente a fazer o mesmo. Difícil imaginar que o "Exército do Lula" pudesse ter a mesma força, não tivesse mobilizado o temor real de milhões de pessoas ao retorno do bolsonarismo à Presidência.
Ainda assim, pesquisas dos institutos Quaest e Ideia, feitas antes das eleições, mostraram que só uma minoria se identificava com o bolsonarismo: 12% dos entrevistados. Já entre 21% e 26%, conforme cada instituto, se declararam de direita não bolsonarista. Parcela significativa se definia como independente: 32% (Quaest) e 28% (Ideia). Um em cada três eleitores se considerava parte da esquerda petista ou não-petista.
Da mesma forma, outros levantamentos, comentados pelo jornalista Pedro Doria no Canal Meio na terça-feira indicam que o apoio a alguns temas, como o fim da jornada 6x1, é de tal ordem que necessariamente reúne cidadãos de diferentes campos políticos. Ou seja: há, sim, questões aptas a produzir consensos, rompendo a polarização construída no campo eleitoral.
O encarcerado Jair e o fugitivo Flávio podem engendrar o encolhimento do movimento que leva seus sobrenomes a seu efetivo tamanho na preferência dos brasileiros. Pode, mas não é certo. Terão grande importância as escolhas das lideranças direitistas e sua disposição de não apostar de novo em quem é desafeto da democracia. Pesarão também as decisões do presidente reeleito; sua capacidade de conceber políticas que beneficiem as maiorias e caibam no orçamento; a prontidão para falar com os que nele não votaram e entender suas aspirações — além do permanente exercício da sua comprovada capacidade de negociação.
É cedo para dizer o que será do extremismo depois de sua segunda derrota. Muito menos o que será de sua liderança, com Bolsonaro-pai na cadeia e o filho-herdeiro acoitado por Trump. O bolsonarismo continuará sendo seu sinônimo ou outros líderes lhe darão novo nome e sobrevida? Neste caso, manterão os ultra a capacidade de aglutinar o vasto campo das direitas nas disputas pelo Palácio do Planalto?
A formidável vitória do presidente Lula não apaga o fato de que cerca de 60 milhões de eleitores preferiram um candidato de retórica extremista, cujas ideias eram tão desconhecidas quanto sabidas eram suas relações com o mundo do crime carioca e com o afamado Daniel Vorcaro — já não bastasse a forma pouco ortodoxa mediante a qual ele fez fortuna e acumulou patrimônio.
Como em 2022, a polarização política não resultou só da regra eleitoral que no segundo turno força o eleitor a optar entre dois concorrentes. Então, como agora, já na primeira volta as preferências dos cidadãos se concentraram em dois polos situados a grande distância ideológica e programática —um deles nas mãos da ultra, o outro ocupado pela esquerda democrática e moderada.
A competição eleitoral naturalmente radicaliza as diferenças entre os contendores. Ainda mais quando um deles, seguindo o roteiro da extrema destra, ativa medos e ressentimentos nas ruas e nas redes, estimulando o oponente a fazer o mesmo. Difícil imaginar que o "Exército do Lula" pudesse ter a mesma força, não tivesse mobilizado o temor real de milhões de pessoas ao retorno do bolsonarismo à Presidência.
Ainda assim, pesquisas dos institutos Quaest e Ideia, feitas antes das eleições, mostraram que só uma minoria se identificava com o bolsonarismo: 12% dos entrevistados. Já entre 21% e 26%, conforme cada instituto, se declararam de direita não bolsonarista. Parcela significativa se definia como independente: 32% (Quaest) e 28% (Ideia). Um em cada três eleitores se considerava parte da esquerda petista ou não-petista.
Da mesma forma, outros levantamentos, comentados pelo jornalista Pedro Doria no Canal Meio na terça-feira indicam que o apoio a alguns temas, como o fim da jornada 6x1, é de tal ordem que necessariamente reúne cidadãos de diferentes campos políticos. Ou seja: há, sim, questões aptas a produzir consensos, rompendo a polarização construída no campo eleitoral.
O encarcerado Jair e o fugitivo Flávio podem engendrar o encolhimento do movimento que leva seus sobrenomes a seu efetivo tamanho na preferência dos brasileiros. Pode, mas não é certo. Terão grande importância as escolhas das lideranças direitistas e sua disposição de não apostar de novo em quem é desafeto da democracia. Pesarão também as decisões do presidente reeleito; sua capacidade de conceber políticas que beneficiem as maiorias e caibam no orçamento; a prontidão para falar com os que nele não votaram e entender suas aspirações — além do permanente exercício da sua comprovada capacidade de negociação.
A força e a fraqueza da direita
A direita saiu das urnas com um capital político nada desprezível. Mesmo derrotado por mais de quatro milhões de votos no segundo turno, seu candidato à Presidência amealhou cerca de 60 milhões de votos. No Parlamento, houve crescimento expressivo, particularmente do PL. A legenda comandada por Valdemar Costa Neto elegeu 121 deputados e terá 28 senadores, aproximadamente um terço da Casa. Essa é sua força. Sua fraqueza está na dificuldade de transformar esse patrimônio em um projeto nacional que ultrapasse o bolsonarismo.
A direita não é um campo uniforme, embora tenha se subordinado à liderança da família Bolsonaro nos últimos oito anos. A derrota presidencial e a postura de Flávio diante do resultado expuseram os limites dessa submissão. Pela segunda eleição presidencial consecutiva, a família que lidera o movimento recusou-se a reconhecer a decisão dos brasileiros expressa por meio do voto.
Há diferenças importantes no campo conservador, e nem mesmo o PL terá atuação homogênea no Congresso. União Brasil, PP e setores do MDB que estiveram no palanque de Flávio já ensaiam aproximações com o quarto governo Lula, em troca, claro, de espaço no poder. O alinhamento na eleição não significou identidade política nem compromisso duradouro com o bolsonarismo.
É preciso, porém, distinguir movimentos de acomodação da construção de uma alternativa. Negociar cargos no governo demonstra pragmatismo, mas não constitui uma renovação da direita. Uma oposição com identidade própria exige projeto, organização e disposição para enfrentar também os setores autoritários de seu próprio campo.
O reconhecimento do resultado eleitoral por governadores que apoiaram Flávio é um sinal relevante. Segundo levantamento publicado por O Globo em 1º de novembro, 13 dos 15 governadores eleitos considerados na reportagem reconheceram expressamente a vitória de Lula. A necessidade de manter relações institucionais com a União certamente pesa nessa atitude. Ainda assim, ela estabelece uma diferença em relação à contestação promovida pelo candidato derrotado.
Nesse cenário, merece destaque a postura de Tarcísio de Freitas. Ao reconhecer o resultado eleitoral, o governador de São Paulo diferenciou-se da contestação promovida por Flávio e sinalizou que é possível exercer uma oposição firme sem desrespeitar a decisão das urnas. Por partir de uma liderança ligada à família Bolsonaro, o gesto tem significado político e abre espaço para uma atuação mais autônoma.
A crise de liderança abre uma disputa pela representação desse eleitorado. A radicalização, a hostilidade às instituições e a ideia de que só é legítimo o resultado eleitoral favorável fazem parte da identidade que o bolsonarismo construiu. Sua moderação encontra aí um obstáculo: não basta trocar o tom dos discursos ou substituir personagens sem enfrentar os fundamentos dessa prática política.
É nessa dificuldade que se abre uma oportunidade para o país: o fortalecimento de uma direita com projeto de governo e compromisso inequívoco com as regras do regime democrático. Parte expressiva dos eleitores de Flávio não é necessariamente bolsonarista, tampouco deseja uma ruptura institucional. Pode ter votado por conservadorismo, rejeição ao PT, insatisfação com o governo ou expectativas em relação à economia e à segurança.
Disputar esse eleitorado exige levar suas preocupações a sério. Uma liderança conservadora precisa mostrar que pode defender segurança pública, responsabilidade fiscal, liberdade econômica e valores de seus eleitores sem aceitar o autoritarismo como preço da unidade.
A existência dessa direita é uma necessidade para a democracia brasileira. Regimes sólidos precisam de forças capazes de disputar o poder, representar seu eleitorado e exercer a oposição sem ameaçar as instituições ou transformar adversários em inimigos. A alternância só é saudável quando todos aceitam que a vitória não confere propriedade permanente do Estado e que a derrota não autoriza o desrespeito às urnas.
Nos últimos oito anos, lideranças que poderiam representar essa alternativa atrelaram seu destino ao bolsonarismo. No primeiro turno, candidatos que se apresentavam como opções conservadoras adotaram discursos praticamente indistinguíveis do de Flávio, por vezes disputando quem era mais radical no antipetismo. Em vez de construir identidade própria, preferiram disputar a bênção da família.
A derrota presidencial não elimina esse mecanismo de submissão. O bolsonarismo conserva votos, mandatos, capacidade de mobilização e instrumentos de pressão sobre seus aliados. Romper sua hegemonia exigirá disputar a base social que o sustenta, enfrentar acusações de traição e oferecer resultados que deem credibilidade a outro caminho.
No Congresso, essa disputa terá consequências concretas. A bancada do PL é numerosa, mas não representa uma maioria ideológica coesa. Interesses partidários, prioridades regionais e diferentes lealdades políticas estarão em disputa no Legislativo. Lideranças de centro-direita com autonomia poderão construir maiorias para enfrentar os problemas do país e barrar propostas que ameacem as instituições. Na sociedade, empresários, lideranças religiosas e eleitores conservadores precisam encontrar representação sem se subordinar ao radicalismo.
Tarcísio, na opinião de muitos analistas, reúne condições para ocupar um papel importante nessa renovação e aparece como um dos possíveis candidatos à Presidência em 2030. O governo de São Paulo lhe oferece uma oportunidade de demonstrar capacidade administrativa, construir alianças e dar dimensão nacional a um projeto próprio. Seu desafio será ampliar sua autonomia e reunir conservadores e setores de centro em torno de uma alternativa comprometida com princípios democráticos.
A força desse campo está nos votos, nos governos estaduais e nas cadeiras conquistadas no Congresso. Sua fraqueza está em continuar dependente de uma liderança familiar que limita sua capacidade de ampliar alianças e governar o país. As urnas abriram uma oportunidade de mudança. Aproveitá-la exige das lideranças conservadoras a coragem de conquistar sua autonomia e disputar o futuro sem pedir licença ao bolsonarismo.
A direita não é um campo uniforme, embora tenha se subordinado à liderança da família Bolsonaro nos últimos oito anos. A derrota presidencial e a postura de Flávio diante do resultado expuseram os limites dessa submissão. Pela segunda eleição presidencial consecutiva, a família que lidera o movimento recusou-se a reconhecer a decisão dos brasileiros expressa por meio do voto.
Há diferenças importantes no campo conservador, e nem mesmo o PL terá atuação homogênea no Congresso. União Brasil, PP e setores do MDB que estiveram no palanque de Flávio já ensaiam aproximações com o quarto governo Lula, em troca, claro, de espaço no poder. O alinhamento na eleição não significou identidade política nem compromisso duradouro com o bolsonarismo.
É preciso, porém, distinguir movimentos de acomodação da construção de uma alternativa. Negociar cargos no governo demonstra pragmatismo, mas não constitui uma renovação da direita. Uma oposição com identidade própria exige projeto, organização e disposição para enfrentar também os setores autoritários de seu próprio campo.
O reconhecimento do resultado eleitoral por governadores que apoiaram Flávio é um sinal relevante. Segundo levantamento publicado por O Globo em 1º de novembro, 13 dos 15 governadores eleitos considerados na reportagem reconheceram expressamente a vitória de Lula. A necessidade de manter relações institucionais com a União certamente pesa nessa atitude. Ainda assim, ela estabelece uma diferença em relação à contestação promovida pelo candidato derrotado.
Nesse cenário, merece destaque a postura de Tarcísio de Freitas. Ao reconhecer o resultado eleitoral, o governador de São Paulo diferenciou-se da contestação promovida por Flávio e sinalizou que é possível exercer uma oposição firme sem desrespeitar a decisão das urnas. Por partir de uma liderança ligada à família Bolsonaro, o gesto tem significado político e abre espaço para uma atuação mais autônoma.
A crise de liderança abre uma disputa pela representação desse eleitorado. A radicalização, a hostilidade às instituições e a ideia de que só é legítimo o resultado eleitoral favorável fazem parte da identidade que o bolsonarismo construiu. Sua moderação encontra aí um obstáculo: não basta trocar o tom dos discursos ou substituir personagens sem enfrentar os fundamentos dessa prática política.
É nessa dificuldade que se abre uma oportunidade para o país: o fortalecimento de uma direita com projeto de governo e compromisso inequívoco com as regras do regime democrático. Parte expressiva dos eleitores de Flávio não é necessariamente bolsonarista, tampouco deseja uma ruptura institucional. Pode ter votado por conservadorismo, rejeição ao PT, insatisfação com o governo ou expectativas em relação à economia e à segurança.
Disputar esse eleitorado exige levar suas preocupações a sério. Uma liderança conservadora precisa mostrar que pode defender segurança pública, responsabilidade fiscal, liberdade econômica e valores de seus eleitores sem aceitar o autoritarismo como preço da unidade.
A existência dessa direita é uma necessidade para a democracia brasileira. Regimes sólidos precisam de forças capazes de disputar o poder, representar seu eleitorado e exercer a oposição sem ameaçar as instituições ou transformar adversários em inimigos. A alternância só é saudável quando todos aceitam que a vitória não confere propriedade permanente do Estado e que a derrota não autoriza o desrespeito às urnas.
Nos últimos oito anos, lideranças que poderiam representar essa alternativa atrelaram seu destino ao bolsonarismo. No primeiro turno, candidatos que se apresentavam como opções conservadoras adotaram discursos praticamente indistinguíveis do de Flávio, por vezes disputando quem era mais radical no antipetismo. Em vez de construir identidade própria, preferiram disputar a bênção da família.
A derrota presidencial não elimina esse mecanismo de submissão. O bolsonarismo conserva votos, mandatos, capacidade de mobilização e instrumentos de pressão sobre seus aliados. Romper sua hegemonia exigirá disputar a base social que o sustenta, enfrentar acusações de traição e oferecer resultados que deem credibilidade a outro caminho.
No Congresso, essa disputa terá consequências concretas. A bancada do PL é numerosa, mas não representa uma maioria ideológica coesa. Interesses partidários, prioridades regionais e diferentes lealdades políticas estarão em disputa no Legislativo. Lideranças de centro-direita com autonomia poderão construir maiorias para enfrentar os problemas do país e barrar propostas que ameacem as instituições. Na sociedade, empresários, lideranças religiosas e eleitores conservadores precisam encontrar representação sem se subordinar ao radicalismo.
Tarcísio, na opinião de muitos analistas, reúne condições para ocupar um papel importante nessa renovação e aparece como um dos possíveis candidatos à Presidência em 2030. O governo de São Paulo lhe oferece uma oportunidade de demonstrar capacidade administrativa, construir alianças e dar dimensão nacional a um projeto próprio. Seu desafio será ampliar sua autonomia e reunir conservadores e setores de centro em torno de uma alternativa comprometida com princípios democráticos.
A força desse campo está nos votos, nos governos estaduais e nas cadeiras conquistadas no Congresso. Sua fraqueza está em continuar dependente de uma liderança familiar que limita sua capacidade de ampliar alianças e governar o país. As urnas abriram uma oportunidade de mudança. Aproveitá-la exige das lideranças conservadoras a coragem de conquistar sua autonomia e disputar o futuro sem pedir licença ao bolsonarismo.
Assinar:
Postagens (Atom)




















