sexta-feira, 29 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Chanchada de Flávio com Trump pode acabar em duplo naufrágio

A chanchada diversionista encenada pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro nos EUA, onde conseguiu aparecer numa foto com Donald Trump tem, como se sabe, o intuito de desviar a atenção dos rolos do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, peça central do escândalo do Banco Master.

Flávio já havia demonstrado sua sabujice antipatriótica ao prometer, caso eleito, contemplar as ambições americanas de controlar reservas estratégicas de terras raras – as do Brasil.

Agora, escoltado por Eduardo, seu brother desertor, resolveu também reforçar a proposta de a potência estrangeira classificar as facções criminosas e mafiosas brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas. Foi o que fez em encontro com Marco Rubio, o secretário de Estado ora empenhado em invadir Cuba, de onde veio sua família.

Aliás, considerando-se o histórico de proximidade do clã Bolsonaro com figuras do mundo crime, não deixa de ser ousada a animação do filhão com a referida proposta.

Flávio demonstrou o que já se sabia: ele, seus parentes e Paulo Figueiredo, neto do ditador que disse preferir cheiro de cavalo a cheiro do povo, têm trânsito nos círculos trumpistas. Natural. Há tempos, desde a época em que Olavo de Carvalho e o tradicionalista fascistoide Steve Bannon pontificavam, são conhecidas as relações da ultradireita bolsonarista com os soldados ideológicos de Trump e seus amigos antiliberais.

Enquanto o servilismo da direita tapada brasileira se exibe em Washington e vira meme, o líder americano perde prestígio e apoio em seu país.

A revista The Economist revelou nesta semana que ele se tornou o presidente mais impopular desde que a pesquisa realizada pela publicação começou, em 2009. A façanha é fruto de um leque de erros cometidos em diversas frentes, da política externa à econômica.

Uma parcela de 58% dos americanos desaprova a atuação do governante, contra 34% que aprovam e 6% que dizem não saber.

O principal motivo de insatisfação é a economia, que está longe de apresentar o desempenho prometido durante a campanha. O aumento dos preços dos combustíveis, provocado pela estúpida guerra movida em parceria com Israel contra o Irã, é um aspecto relevante na percepção de que as finanças pessoais e familiares estão piorando.

Cerca de dois terços dos eleitores consideram que foi um erro entrar nesse conflito e 53% afirmam que a imagem e a posição dos EUA no mundo pioraram desde que ele reassumiu o cargo. Não é demais lembrar que um dos pontos martelados na disputa eleitoral foi a condenação ao envolvimento do país em guerras longínquas e sem motivo claro.

Essa promessa era um dos pilares do slogan "América em primeiro lugar", bandeira de Trump e seus aliados nacionalistas de extrema direita. Não por acaso, a pesquisa aponta para uma sensível perda de apoio do republicano numa base que se mostrava bastante fiel, formada por americanos brancos sem ensino superior.

O modelo de previsão da revista, em parceria com a empresa de pesquisas YouGov, indica que os democratas têm 90% de chance de conquistar o controle da Câmara nas eleições de meio de mandato, em novembro.

Ainda faltam uns bons meses para o pleito tanto lá como cá. No momento, porém, os ventos prenunciam um duplo naufrágio.

Pensamento de manada

O pensamento coletivo é estúpido porque é coletivo: nada passa as barreiras do coletivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

Foto com três radicais é o inverso da moderação pretendida por Flávio Bolsonaro

A construção da imagem de moderado de Flávio Bolsonaro (PL) acaba de levar um desmentido. A foto ao lado do presidente Donald Trump, do irmão Eduardo e do neto do último ditador do regime militar apaga o verniz de sensatez no figurino que o senador andou querendo vestir para se apresentar ao eleitorado.

Trump é um radical orgulhoso do próprio extremismo. O deputado cassado e filho 03 do clã já defendeu punições ao Brasil e, lá atrás, em devaneio autoritário, considerou suficiente a força de um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. O herdeiro de João Figueiredo foi dos incitadores mais ativos ao golpe militar em 2022, detrator dos generais legalistas.


Não são companhias que se possa chamar de moderadas, mas foi com elas que o pretendente a presidente posou no salão oval da Casa Branca, apostando com isso dar por encerrado o assunto dos rolos com Daniel Vorcaro. No relato lido na tela do celular após o encontro, pôs o tema da segurança na pauta, defendendo a inclusão de facções criminosas na categoria de terroristas. Apresentou-se como defensor da libertação dos moradores de áreas controladas pelo crime. Territórios de traficantes e de milicianos aos quais o hoje senador prestou homenagens quando deputado estadual.

São muitas as pontas soltas nessa trajetória eleitoral abalada pelas mentiras e versões desencontradas na história mal contada das relações do candidato com o ex-banqueiro preso. Na mais recente, pediu um mês para que se apresentassem as contas do filme "Dark Horse". Tanto tempo sugere que os comprovantes de despesas não existem e precisam ser fabricados.

Não se sabe qual foi o assunto que fez o senador ir ao encontro do "irmão" atado a uma tornozeleira. Falta explicar também a razão de o dinheiro da filmagem ter passeado por fundo no exterior para pagar a produtora brasileira.

São muitas as dúvidas permeadas pela certeza de que quem gerencia mal uma crise de campanha não dá conta de presidir um país. Isso uma foto na parede não resolve.

É preciso parar de rir e começar a falar a sério

“Você é de direita ou de esquerda?”, pergunta o rapaz num vídeo no Instagram. “Eu sou da direita, porque eu odeio o Lula”, responde a mulher, chapéu, cabelo e t-shirt vermelhos, tudo vermelho, atirando para trás o rosto, de mão na ilharga, enquanto responde ao porquê. “Porque ele é ladrão.” “O que é que ele roubou?”, quer saber o rapaz. “É só você saber lá… Até hoje, ele não deu conta do que ele roubou.” A resposta tem tanto de indefinido como de convicto. “Com o que é que você não concorda do governo da esquerda?”, insiste o entrevistador. “Não concordo. Eu sou da direita e vou ser da direita até morrer.” “Mas o quê?” “Ai, meu Deus do céu! Tanta coisa que eu não concordo da esquerda… Das mentiras, do que eles estão fazendo para o Bolsonaro. Não concordo.” “Porque é que prefere o Bolsonaro?” “Porque não é ladrão.” “E é socialista ou capitalista?” “Eu sou socialista.” “Porquê?” “Porque sou.” “Se fosse Presidente, qual seria a sua primeira mudança?” “O sistema.”


Este pequeno vídeo parece uma piada. Tem uma música de filme de comédia como banda sonora e está ilustrado com os memes da moda, que pretendem sublinhar a ignorância da entrevistada. Quase todos os comentários são a apontar o dedo à estupidez da senhora. Ela parece uma piada. Mas o que ela diz é muito sério. E está na altura de começarmos a perceber porquê.

Este vídeo não é uma bizarria. É um sintoma. Há milhares de vídeos idênticos a circular pelas redes sociais. Muitos são pequenas entrevistas a bolsonaristas assumidos e pobres e o Brasil já inventou um hashtag para eles: pobre de direita. Mas também há brasileiros que se dizem “do centro” e têm um discurso aparentemente irracional de ódio às políticas de redistribuição de riqueza do governo Lula, como o “bolsa família” – que dá acesso a alimentos aos mais pobres –, o programa “Minha Casa, Minha Vida” – com apoios à habitação – ou a intenção de eliminar a escala 6×1, que consiste em acabar com o trabalho com apenas uma folga semanal sem perda de salário. Os entrevistados falam de forma vaga em indicadores económicos que pioraram, sem conseguirem nomear um, e ignorando o facto de o Brasil ter voltado a sair do Mapa da Fome, em 2025, depois de ter regressado a essa lista negra em 2022.

Mas há mais vídeos desses. Há argentinos trabalhadores, que se debatem com problemas de sobrevivência graças aos cortes da política anarcocapitalista em vigor, que vão justificando o voto em Milei com uma vontade de “mudança”, que não sabem como explicar. Há apoiantes de Trump a criticar a corrupção, a pedofilia e o desrespeito por imagens religiosas sem perceberem que estão a atacar o próprio movimento MAGA. Há entrevistas a britânicos votantes no Reform que repudiam, uma a uma, medidas propostas por Nigel Farage, sem perceberem que essas são as políticas do partido em que votam. E tenho a certeza de que noutras latitudes se encontrarão fenómenos semelhantes.

Parece haver cada vez mais pessoas que expressam adesão a movimentos políticos que vão contra os seus interesses e valores. E importa saber porquê. Podemos rotulá-los de ignorantes e arrumar aí a questão. Mas os vídeos mostram que, quando confrontados com as suas contradições ou com dados que comprovam a falsidade do que acabaram de afirmar, estes apoiantes de políticos da extrema-direita não recuam. A reação é mesmo a inversa: insistem na defesa dessas políticas e atacam quem lhes apresenta factos. O entrevistado passa a ser um “esquerdalha” – a mais desqualificante das classificações – ou os institutos citados são instituições vendidas ao poder e sem qualquer tipo de crédito. Eles estão certos, a realidade não.

Este tipo de reação não pode ser apenas fruto da ignorância. A ignorância é uma coisa que se cura com conhecimento. E também não será apenas a reação do orgulho ferido de quem se confronta com as mentiras em que acredita. Se assim fosse, uma vez desligada a câmara e afastado o entrevistador, o entrevistado podia – mesmo sem o assumir publicamente – refletir sobre o erro e mudar de opinião. E as urnas mostram que não é isso que está a acontecer.

O que parece estar a acontecer está mais próximo do domínio da fé. E esse é um terreno em que a racionalidade não consegue lançar raízes. Esse é o terreno das emoções. Podemos dizer que as redes sociais e o ambiente de indignação rápida, atenção curta e saberes superficiais ajudam a que a política resvale para esse terreno. E é verdade. Mas também isso não conta a história toda.

É preciso assumir que os partidos democráticos do sistema andam há décadas a sustentar-se na sua quota-parte de mentiras. É a mentira do mérito, sentida na pele por quem não é herdeiro. É a mentira da lei igual para todos, sentida na pele pelos mais vulneráveis. É a mentira da liberdade de expressão, sentida na pele pelos que ousam ir contra a corrente e (de uma forma ou de outra) sofrem as consequências. É a mentira da representatividade, sentida na pele pelos que veem os partidos em que votaram fazer o que não tinham anunciado. É a mentira de um Estado social, que é cada vez mais desmantelado, com uns a achar que pagam demais pelo que não existe e outros a saber que recebem de menos em relação ao que lhes foi prometido. Enquanto não assumirmos estas mentiras, não conseguimos entrar na discussão. E é muito doloroso assumir mentiras. Até porque muitas vezes acreditamos nelas com o mesmo grau de fé irracional que apontamos aos nossos adversários políticos.

Mas não é só necessário assumir as mentiras. Também é preciso começar a dizer umas verdades. Não as “verdades” do ódio que se cospe à mesa do café e só é capaz de fazer peito feito aos mais fracos. As verdades que doem aos mais poderosos. As verdades que precisam de coragem para ser ditas. As verdades que alguns dirão, de dedo em riste, que são “populismo”. E são. O populismo não é uma ideologia. É um método. E pode ser usado apenas para mostrar que os muitos podem mais do que os poucos, em vez de ser um artifício para recuar a uma época sem direitos, fingindo que se recupera uma “dignidade” que é apenas simbólica, nunca material, e só para uns poucos à custa de todos os outros.

Podem rir-se à vontade da senhora bolsonarista de cabelo vermelho e ar pobre, que diz que é socialista e de direita, sem saber explicar porquê. Ela não precisa de explicar porquê. E enquanto se riem dela, a extrema-direita ri-se de vocês, dos vossos factos, das vossas proclamações, da vossa defesa abstrata da igualdade. É preciso deixar de rir. É preciso olhá-la nos olhos, não para a entender com condescendência, mas para lhe falar de coisas reais que possam empolgá-la com a mesma fé que agora a faz aderir a políticas que a prejudicam. É preciso voltar a falar com energia e emoção de coisas simples, que têm de deixar de ser bandeiras vazias.

A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Não é uma cantiga do passado que prometia o que nunca chegou. Tem de ser um futuro que se constrói hoje, com propostas claras, simples, tão concretas como o tijolo que se encaixa para erguer uma parede, mas com a força do sonho e a energia da promessa. Sem medo de afrontar os poderosos, sem concessões aos que querem fingir que mudam para deixar tudo na mesma. Com verdade e com alegria, reclamando aquilo que nos dizem que é impossível. Não basta ser contra o mal e desmontar mentiras. É preciso mostrar um caminho e oferecer soluções.

Flávio Bolsonaro atenta contra a soberania do Brasil para se eleger

Flávio Bolsonaro, a versão moderada do pai “que o país tanto esperava ver”, morreu ontem quando o governo de Donald Trump classificou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, intervindo assim diretamente em assuntos internos do Brasil. A partir de agora, no limite, os Estados Unidos podem fazer operações militares na Amazônia à revelia do governo brasileiro e bombardear áreas sob o controle do crime organizado. Tudo a pretexto do combate ao terror.

“Grande dia”, celebrou Flávio. “O povo brasileiro de bem agradece a atenção e o compromisso de Donald Trump. Essa luta é de todos nós. Vamos dar um basta nesses grupos!”. Os demais pré-candidatos da direita à Presidência, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (NOVO), aproveitaram a ocasião para reforçar suas críticas a Lula. Zema afirmou que Flávio “foi capaz” de fazer aquilo que Lula “deveria ter feito há muito tempo”. Rogério Marinho, líder do PL no Senado, previu que a partir de 2027 “bandido voltará a temer a lei”.


Lembra-se de que Flávio, em outubro do ano passado, ao ver um vídeo de uma embarcação sendo bombardeada pelos Estados Unidos no Oceano Pacífico, declarou sentir “inveja” da ação? Ele questionou se as autoridades americanas não gostariam de passar alguns meses no Rio combatendo os barcos que, segundo ele, inundam a Baía de Guanabara com drogas. Convocado pela Casa Branca para um encontro com Trump, Flávio passou dois dias em Washington batendo às portas de autoridades, pedindo que os Estados Unidos combatam o crime organizado no Brasil. Pediu ao próprio Trump nos poucos minutos em que esteve com ele para tirar uma selfie.

Flávio não passa de um peão de Trump. Ou dá para acreditar que o governo americano, em menos de 48 horas, atendeu ao pedido dele de intervir em assuntos internos do Brasil? O mais provável é que a decisão de intervir já estivesse tomada, e que Flávio, às voltas com o escândalo do Banco Master — a quem pediu dinheiro para financiar um filme sobre seu pai —, tenha sido chamado para extrair vantagens dela. Com seu gesto, Trump escolheu de que lado ficará nas eleições de outubro próximo; o mesmo lado que o levou a coagir a Justiça brasileira em 2025 para que não condenasse Jair Bolsonaro.

Soberania é a expressão máxima do poder e da independência de um Estado, que garante o direito exclusivo de legislar, administrar a Justiça e conduzir seus assuntos internos e externos sem interferência estrangeira. Lacaio designa uma pessoa que se submete à vontade de outra de forma servil ou bajuladora para obter favores ou vantagens. Sinônimos de lacaio: capacho, sabujo e puxa-saco. Flávio rifou a soberania do Brasil em troca do apoio americano, sem o qual não se elegerá. Comportou-se como um lacaio exemplar.

No último dia 21, em evento no Espírito Santo, Lula profetizou: “Depois que o Trump disse que a Groenlândia é dele, que o Canadá é dele, que o Canal do Panamá é dele, quem garante que ele não vai dizer que a Amazônia é dele?”.
Ricardo Noblat

Leão XIV com um olho na missa e outro na IA

Os Engenheiros do Hawaii tinham razão: “o Papa é pop”. Como bom conterrâneo das big techs, o Santo Padre anunciou sua Encíclica no melhor estilo geração Z. Usou tecnologia de ponta para ler a “Magnifica Humanitas” na TV e nas redes sociais, e aproveitou o embalo para prevenir ao vivo seu um bilhão e meio de seguidores sobre o Armagedom digital.

Ao mesmo tempo, Sua Santidade teve o cuidado de lembrar que esse papo de conspiração das máquinas só engaja em Hollywood. Conhecedor tanto das Escrituras como do Vale do Silício, optou por não julgar a Inteligência Artificial como cavaleiro do apocalipse. Afinal, a IA não é portadora de livre arbítrio que possa selar o futuro da humanidade. Em Roma, o alto clero prefere concordar com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Relatório PNUD 2025, “Pessoas e Possibilidades na Era da IA”).

Na vida real, quem conspira contra a humanidade somos nós mesmos, os humanos. Sabendo disso, o Papa e o PNUD concordam que os impactos produzidos pela IA dependem das escolhas feitas pelas pessoas que projetam e controlam seus algoritmos. Informação é como culinária – quanto melhores os ingredientes, melhor o pudim. Acontece que a IA tem um potencial disruptivo semelhante ao de outras invenções que transformaram a sociedade para sempre, seja a roda ou a fissão nuclear. Por isso, causa tanta insegurança e fantasias.


Sejamos francos, a preocupação do Vaticano, assim como a da ONU, não é satanizar a IA, mas, sim, mostrar que a Inteligência Artificial é um acelerador tão poderoso da produção científica que, mesmo podendo aprofundar algumas crises da humanidade (desigualdade, conflitos e mudança climática), pode servir para a eliminação ou a contenção desses mesmos descaminhos históricos crescentes. Tudo depende das decisões e propósitos dos donos das IAs.

O Relatório PNUD 2025 propõe um foco nas pessoas: “São as pessoas, não as máquinas, que determinam quais tecnologias prosperam e a quem elas servirão”. Na mesma linha, a Encíclica Magnifica Humanitas recomenda “Sejamos humanos”. Ou seja, é possível considerar que a Inteligência Artificial pode potencializar as capacidades criativas das pessoas, bem como facilitar atividades e aumentar a produtividade do trabalho. Até mesmo criar novas modalidades de empregos ou negócios, sem necessariamente provocar desemprego estrutural em larga escala. O uso positivo da IA para o bem-estar social pode se estender também para a formulação, a implantação e gestão de políticas públicas, melhorando seus resultados e transparência.

Por um lado, a publicação do PNUD/ONU exemplifica a concentração de qualificação e acesso à IA: “As respostas do ChatGPT estão mais próximas culturalmente dos países com IDH muito alto do que das pessoas de países com IDH baixo”. Enquanto isso, nas suas redes digitais a Igreja complementa que “é no coração deste território, marcado pelo lucro, competição geopolítica e ambição, que se sente a necessidade de uma voz capaz de resistir, de proferir palavras incômodas, de recordar aquilo que as máquinas jamais possuirão: consciência e senso moral”.

A ONU recomenda ainda que se invista em uma “inovação com propósito”, fortalecendo as capacidades humanas que fazem a diferença, para que a IA cumpra seu papel de catalizadora do bem estar social. Por sua vez, Leão XIV sabe que ser robô não é pecado.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


A ilusão de Babel e a Comunicação Não Violenta

A promessa era simples: mais tecnologia, melhor comunicação. O resultado está à vista: mais ruído, menos sentido. Na sua encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV aponta o diagnóstico com uma clareza desconfortável — não é a Inteligência Artificial que nos ameaça, é a nossa incapacidade crescente de escutar.

Há qualquer coisa de profundamente irónico no nosso tempo: nunca tivemos tantas ferramentas para comunicar e, ainda assim, nunca foi tão difícil compreender o outro.

A nova encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial, entra neste paradoxo com a lucidez de quem percebe que o problema não é a tecnologia — é o modo como a deixámos redefinir o humano. Logo na abertura, a imagem é frontal: a humanidade está perante uma escolha — “erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”.

Não é apenas teologia. É um diagnóstico civilizacional.


Babel já não é uma torre; é um ecossistema. Funciona em silêncio, num ritmo vertiginoso, com a aparência de neutralidade — mas, como recorda o Papa, a tecnologia “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. O problema, portanto, não está nas máquinas, mas na consciência — ou na ausência dela.

A encíclica alerta para um deslocamento subtil: começamos por utilizar ferramentas e acabamos por pensar como elas. Quando se aceita que sistemas “desprovidos de experiências, valores e sentimentos” participem em decisões humanas, o risco não é apenas técnico — é ético e antropológico.

E manifesta-se, antes de mais, na linguagem.

Leão XIV fala de uma necessária “ecologia da comunicação”. A expressão devia inquietar-nos mais. Porque, tal como o ambiente natural, também o espaço simbólico das palavras está poluído: excesso de ruído, défice de sentido, velocidade que impede a reflexão. Comunicamos em fluxo contínuo, mas raramente em profundidade.

É aqui que a encíclica cruza uma urgência concreta do nosso tempo: a necessidade de reaprender a comunicar. E isso já não é apenas uma questão espiritual ou cultural — é uma questão educativa e social.

A Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolvida por Marshall Rosenberg e hoje aprofundada em práticas formativas em contexto escolar e comunitário — como as que vêm sendo partilhadas em plataformas de reflexão como o blogue Comunicação Não Violenta / Portugal — https://comunicacaonaoviolenta.blogspot.com — propõe algo radicalmente simples: voltar a escutar para compreender, e não apenas para responder.

Num mundo onde se reage antes de pensar, a CNV reintroduz quatro gestos esquecidos: observar sem julgar, reconhecer sentimentos, identificar necessidades e formular pedidos claros. Não é uma técnica — é uma ética da relação.

E é precisamente isso que falta à nossa Babel contemporânea.

A crise da comunicação não se resolve com mais aplicações nem com algoritmos mais sofisticados. Resolve-se com pessoas mais conscientes. Educadores preparados para mediar conflitos, professores capazes de criar espaços de escuta, alunos treinados na empatia e famílias que recuperem o valor da palavra dita — e ouvida — com tempo.

A encíclica aponta, aliás, para uma “aliança educativa” na era digital, sublinhando a centralidade da escola e da formação integral. Não como um lugar de transmissão de conteúdos, mas como espaço de construção de humanidade.

Porque é aí que tudo se decide. Se a educação continuar a privilegiar o desempenho em detrimento da relação, a rapidez em detrimento da compreensão e a competição em detrimento da cooperação, então estaremos a formar excelentes operadores de sistemas — mas péssimos cidadãos do mundo.

E, nesse cenário, Babel não será uma metáfora. Será o destino.

Leão XIV insiste: é preciso “permanecer humanos.” A frase parece simples, mas é talvez a mais exigente de todas. Permanecer humano hoje implica resistir: ao imediatismo, à superficialidade, à despersonalização. Implica escolher o encontro num tempo que favorece o isolamento.

Entre Babel e Jerusalém, a diferença não está na tecnologia, mas na qualidade das relações. Em Babel, fala-se muito e compreende-se pouco. Em Jerusalém, escuta-se — e é isso que torna possível uma comunidade.

A pergunta que fica não é ingénua: queremos um mundo que funcione ou um mundo que faça sentido?

Se quisermos o segundo, teremos de investir menos em velocidade e mais em educação, menos em controlo e mais em relação, menos em respostas e mais em perguntas.

E, talvez, reaprender a dizer — com verdade, com tempo, com humanidade — aquilo que nenhuma máquina poderá jamais substituir: eu escuto-te.

O Brasil entre o fascismo e a liberdade

A presença fascista é uma questão concreta na vida republicana brasileira. De um lado, ela toma por base toda uma tradição autoritária desenvolvida no país desde os tempos da escravidão. Tivemos um governo imperial que se prolongou por quase cinquenta anos. E, depois, apresentamos uma prática republicana nem tão republicana assim. E isso desde os seus primórdios. Basta citar a repressão aos revoltosos de Canudos, na última década do século XIX, e também aos comunistas, logo que estes se organizaram em partido político.


Mas o fascismo vai além do Absolutismo ou do próprio autoritarismo republicano. Ou seja, não é uma ditadura qualquer. Implica a dominação do capital sobre o mundo do trabalho pelo terror, sem dúvida, mas se compõe de vários outros elementos. Trata-se de uma direita "popular", disputando a classe trabalhadora com as forças progressistas. Adolf Hitler dizia que os nazistas tinham que se valer das bandeiras vermelhas em seus comícios... E para isso, organizou, inclusive, um partido forte.

Entre outras características suas, o fascismo despreza as instituições democráticas, cultua lideranças carismáticas, apela ao nacionalismo extremado quando lhe convém, acena demagogicamente para as bases sindicais e tenta o contato direto com as massas populares, passando por cima e mesmo corrompendo o arcabouço institucional. Tudo isso, com uma característica nova naquele momento: o fascismo representava a aliança dos setores mais marginais da sociedade, o lumpesinato, com os detentores do grande capital. E como se isso não fosse suficiente, revelava um comportamento irracional, o que se materializa, por exemplo, em posicionamentos de cunho racial, na exclusão do outro.

Como podemos observar, o populismo presente na América Latina assimilou muito dessas práticas fascistas.

E essas práticas despontam entre nós toda vez que nos deparamos com crises de corte institucional. Daí estarem presentes hoje na vida brasileira. As ambiguidades do governo Vargas, em seu início, contribuíram para o surgimento do Integralismo, por exemplo. Evidentemente, havia o quadro internacional, com a ascensão de Mussolini e seu agrupamento fascista ao poder na Itália, no começo da década de 20. Logo em seguida, viria a tomada do poder pelos hitleristas na Alemanha, em 1933. Porém, esse contexto internacional não explica tudo.

Eu escrevi certa vez que o nazismo me intrigava muito, tendo levado cerca de 20 anos para entender a sua natureza. Morei na Alemanha na primeira metade dos anos 70 e procurava ver, na Cinemateca da cidade de Colônia, os documentários e reportagens da época nazista. Difícil de compreender como o povo alemão caiu naquela esparrela.

Afinal, a Alemanha era um país industrializado e dotado de uma grande tradição cultural; a terra de Wolfgang von Goethe, Karl Marx e Hermann Hesse. Com o tempo, fui percebendo que a Inglaterra também era um país desenvolvido economicamente - a pátria da Revolução Industrial - , possuindo ainda uma invejável tradição cultural, e cito aqui nomes como William Shakespeare, Jane Austen e Charles Darwin. Como explicar, então, que a Inglaterra não tenha sucumbido à praga nazista? Só encontro uma resposta: as instituições liberais-democráticas se mantiveram de pé, contrariamente ao que ocorrera na Alemanha, durante a República de Weimar. Ou a Inglaterra não viu surgir em seu solo o Liberalismo? As ideias de John Locke, por exemplo, datam do século XVII, quando não havia sequer burguesia industrial - mas o país sofria com o Absolutismo. O Liberalismo representou então uma afirmação do indivíduo diante da sanha do Estado.

No Brasil não seria diferente: a crise das nossas instituições, com o apodrecimento da chamada República Velha e o próprio desprezo pelos direitos humanos e pela Democracia manifestado pelo getulismo e seu corolário de torturas, serviu de caldo de cultura para o movimento integralista, a meu juízo. Com uma observação: muitos se sentiram atraídos pela Ação Integralista Brasileira mais por sua identificação com o nacionalismo do que com o autoritarismo. Tanto isso é verdade que um número considerável de integralistas deixou posteriormente esse movimento.

De qualquer forma, é muito impressionante a força demonstrada pelo Integralismo. Isso talvez tenha que ver com a referência que fiz acima ao quadro internacional. E convém não esquecer que aquela era uma época de Estados fortes, centralizadores. O próprio socialismo que estava sendo construído na União Soviética partia do Estado para a sociedade civil e não o contrário.

Contudo, havia, também, entre nós, um contraponto forte ao Integralismo, qual seja, a Aliança Nacional Libertadora (ANL). Movimento de corte progressista, propunha a reforma agrária e o aprofundamento das reformas democráticas, com destaque ainda para a Educação e a Cultura. Enquanto isso, um líder como Plínio Salgado, apesar de comungar de algumas ideias dos modernistas da Semana de Arte de 1922, escreveu versos como "Sou um caboclo do Brasil / Que odeia Portugal / Que me ensinou a ler..."

O Levante de Novembro de 1935 se deu em uma época de profunda crise disciplinar no Exército brasileiro, com toda uma série de escaramuças militares se espalhando por todo o país, sobretudo após o episódio conhecido por Dezoito do Forte , em 1922, no Rio de Janeiro. Os militares percebiam, até por intermédio dos seus armamentos obsoletos, as carências do país em matéria de industrialização. Com a Coluna Prestes, muitos deles se inteiraram da miséria que reinava no campo brasileiro, em sua extraordinária marcha por cerca de 24 mil quilômetros através do país. E essas questões se refletiram na ANL, integrada também pelos comunistas, tanto de origem militar quanto civil.

Ao perseguir a ANL, tornando-a ilegal, em 1935, Getúlio Vargas, de nítidas simpatias fascistas, de certa forma empurrou o movimento para a clandestinidade quase absoluta. Com ela, veio um certo desespero ou precipitação. Como os quartéis estavam desarrumados, muitos aliancistas foram tentados pela ideia do levante. Mas os erros também ensinam, talvez até mais do que os acertos em determinadas circunstâncias: o exemplo dos aliancistas ficou para a História como o primeiro protesto armado contra o avanço do fascismo no mundo.

Milhares de pessoas foram presas e torturadas após o Levante de Novembro. Um advogado como Heráclito Sobral Pinto chegou a recorrer à Lei de Proteção dos Animais em sua defesa de presos políticos como Luiz Carlos Prestes e Harry Berger, tamanha a desumanidade praticada contra eles, pior do aquela imposta aos animais. Naturalmente, a sociedade brasileira ia tomando consciência dessas barbaridades. A tal ponto que, já em 1942, na Bahia, os estudantes desciam às ruas para pedir o fim do Estado Novo e a entrada do Brasil na Guerra, contra o nazifascismo, ao lado das forças democráticas. A Força Expedicionária Brasileira, composta de 25 mil homens, é fruto dessa luta, contribuindo para derrotar o fascismo. Luiz Carlos Prestes Filho estabelece, com toda razão, uma ligação entre a ANL e a luta contra o fascismo na Itália. Eu diria que essa foi a página mais significativa escrita pelas Forças Armadas brasileiras ao longo de toda sua História.

Na volta dos pracinhas ao Brasil, a situação da ditadura Vargas ficou incontornável e o ditador não teve outra escolha a não ser decretar anistia e legalizar as forças políticas presentes na sociedade brasileira, dos liberais da UDN aos comunistas do PCB. Não fazia sentido nenhum combater uma ditadura lá fora e continuar mantendo uma ditadura aqui dentro.

Em 1964, houve influência também dos antigos integralistas. Nunca é demais lembrar que um dos generais da trama golpista foi Olímpio Mourão Filho, que mobilizou tropas em Juiz de Fora, Minas Gerais, avançando em direção ao Rio de Janeiro. Além disso, esse militar integralista forjou o Plano Cohen, em 1937, o qual alegava que os comunistas tinham por objetivo empalmar, a qualquer preço, o poder no Brasil. Em tempo: o PCB já se encontrava completamente desbaratado desde o Levante Aliancista de novembro de 1935. Getúlio Vargas se valeu de falso Plano Cohen para decretar o Estado Novo, uma das piores ditaduras que o Brasil já teve.

Eu nasci em 1952, sete anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Mas conheci e, mesmo, convivi, com vários protagonistas entre nós daquele período tão tenebroso. Além de Prestes, eu poderia citar ainda Agliberto Vieira de Azevedo, Gregório Bezerra, Giocondo Dias, Salomão Malina, Armênio Guedes e Renato Oliveira da Motta. Com esses personagens, e não apenas a partir da leitura dos livros de História, aprendi o valor real da liberdade e do sacrifício imenso feito pelos milhares de cidadãos brasileiros com ela comprometidos.

Vale dizer, a luta não foi em vão; nenhuma luta o é. A História recente do Brasil demonstra que quanto mais ampla uma frente democrática é, mais liberdade se tem. E quem ganha com isso é o povo do país - e quem perde com isso é o próprio fascismo.

A encíclica de Prevost e o tema oculto da eleição no Brasil

Levou um ano para Robert Prevost sair da sombra do carismático Francisco e começar a imprimir, ao seu papado, sua marca. A primeira encíclica, “Humanidade Magnífica”, não é apenas o clamor de uma inteligência artificial guiada pela ética. É uma exortação à sua regulação. Prevost recorre a uma palavra de sua língua materna, sem tradução, para definir o que vê como imperativo das grandes empresas que dominam o setor: “accountability”.

Fez quase um plano de trabalho: “Não basta invocar genericamente a ética. São necessários quadros jurídicos adequados, vigilância independente, educação dos utilizadores, uma política que não renuncie à sua missão. Caso contrário, a mudança será governada somente por lógicas tecnocráticas e apresentada como necessária e inevitável, acabando por impor regras efetivas, ditadas por quem detém dados, infraestruturas e capacidade de processamento”.


O embate político não se deu apenas no conteúdo mas também na forma. Em vez do embate “nós contra eles” chamou um deles para participar da apresentação da encíclica, Christopher Olah, da Anthropic, uma das gigantes da IA mundial. É bem verdade que, assim como Prevost, Olah é contendor de Donald Trump. Trava, nos tribunais americanos, uma batalha para impedir que o Pentágono faça uso militar irrestrito de suas ferramentas.

Nesta segunda, Olah foi direto ao assunto: “Toda a fronteira da IA, incluindo Anthropic, opera um conjunto de incentivos e constrangimentos que, algumas vezes, pode entrar em conflito com a coisa certa a ser feita”. Fez eco a quase toda a pregação do papa, como a substituição a ser promovida pela IA de grandes contingentes de trabalhadores e a concentração geográfica e social de seus benefícios. Restringir sua presença no evento, o discurso de agradecimento ao papa e seus apelos a uma jogada de marketing é desprezar o que está em jogo. Inclusive no Brasil.

Olah deixou a universidade para estudar de maneira autônoma graças a uma bolsa da fundação criada por Peter Thiel, fundador da PayPal e da Palantir, outra gigante de IA. Thiel, um empresário americano de origem alemã, é próximo do vice JD Vance, um convertido ao catolicismo. Tem feito encontros fechados para promover a ideia de que uma governança global das tecnologias de ponta provém de um “Anticristo”.

Parece estar a um passo de associá-lo a Prevost, mas a ideia extrapola, e muito, o Vaticano. Contamina até a bíblia cor-de-rosa do capitalismo mundial. Numa entrevista recente, a editora-chefe do “Financial Times”, Roula Khalaf, disse que sempre sai de seus encontros com lideranças da indústria de tecnologia com a mesma indagação: “Quem lhes deu mandato para que moldem a humanidade a partir de sua visão de mundo”?

A encíclica de Prevost foi publicada no mesmo dia em que o senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou em Washington para o que foi anunciado como uma visita a Trump. Se esse encontro vier a acontecer, o que o pré-candidato do PL pode vir a conseguir, no limite, é uma foto com o presidente americano, mas o tarifaço já ensinou que não se pode desprezar a disposição do bolsonarismo de se colocar a serviço dos interesses dos EUA.

Em entrevista a Patrícia Campos Mello, da Folha, Anne Applebaum, jornalista americana premiada por seu trabalho sobre o autoritarismo de extrema-direita no mundo, disse não ter dúvidas de que o governo Trump vai continuar a tentar influenciar eleições de governantes ao redor do mundo que não pretendam regular as “big techs”.

A regulação brasileira da inteligência artificial não ficará indiferente ao resultado eleitoral. O PL de Flávio Bolsonaro não foi capaz de impedir que o projeto que regula IA passasse pelo Senado e, na Câmara, fosse entregue ao mesmo relator que jogou junto com o governo na reforma tributária, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). Se o projeto estancou na Câmara se deveu mais à pressão das empresas do que à capacidade de obstrução do bolsonarismo. Não há dúvida, porém, que, numa eventual vitória de Flávio Bolsonaro, o projeto morreria por inanição.

Um quarto governo Luiz Inácio Lula da Silva, porém, tampouco dá demonstrações de como seria capaz de escapar da influência exercida por ministros do Supremo Tribunal Federal na regulação do setor, seja na nomeação de postos-chave para a governança digital no Executivo, seja na Agência Nacional de Proteção de Dados. O que resultaria desta influência desenfreada, se alinhavada aos interesses da CBF e das “apostas digitais”, tudo junto e misturado, permanece no campo da incerteza.

Só a “Faria Lima”, como se diz naquela Corte, poderia vir a balançar o coreto. Semanas atrás, por ocasião do lançamento da Enter, a primeira empresa latino-americana de IA a alcançar a avaliação de US$ 1 bilhão, Peter Thiel passou pelo Brasil. Investidor na empresa, que é comandada por um advogado-prodígio de Brasília, Thiel encontrou um grande banqueiro brasileiro na tentativa de atraí-lo para o negócio.

O que, à primeira vista, parece ser uma ameaça apenas à advocacia de massa, pode, num segundo momento, adentrar a relação advogado-cliente, aumentar o poder dos relatores de inquéritos na obtenção de provas e colocar em xeque os “embargos auriculares” que fazem a festa da advocacia brasiliense nos tribunais.

Semana no Congresso foi de causar revolta

Chego a Brasília, e o carro desliza por longas avenidas vazias de gente. Fiz esse trajeto durante 16 anos. Ele termina num lugar onde os hotéis estão próximos uns dos outros. De seu quarto de hotel, você parte para o Congresso, um imenso ringue onde se ataca, se defende, às vezes se insulta e se é insultado, tomando rios de café em copinhos de plástico. Volta para o hotel sem saber direito o que produziu. Toma uma sopa. Amanhã recomeça.

Essas lembranças me ocupavam no caminho até que encontrei uma amiga, jornalista, com décadas de experiência em Brasília. Perguntei se estava tudo bem, e ela me respondeu: parece que vivo noutro planeta. Fiquei preocupado, pois, quando uma antiga moradora de Brasília se sente noutro planeta, o homem comum deve se sentir noutra galáxia.


Mais uma vez, os deputados aprontaram. Resolveram neutralizar a fiscalização do desmatamento por satélite. Ela é efetiva em 90% do território amazônico. Não se pode multar ninguém nem embargar nada baseado apenas nos dados de satélite. É preciso encontrar o dono das terras e notificá-lo. Isso significa que terá tempo para concluir o desmatamento ou fugir, se for o caso.

As maiores barbaridades estavam reservadas para as questões partidárias e eleitorais. Para começar, a proibição de gastar dinheiro nos períodos eleitorais caiu. Agora é possível doar bens, valores ou benefícios para turbinar campanhas. A semana foi chamada também de “liberou geral”. A minirreforma eleitoral praticamente blindou os partidos políticos em suas falcatruas. A multa máxima que podem pagar será de R$30 mil, eles que movimentam bilhões do fundo partidário. Ainda assim, poderão pagar a multa com o mesmo dinheiro público que malbarataram. Partidos endividados, ao se fundirem com outros, terão as dívidas perdoadas. Agora é possível o disparo maciço de propaganda pela internet, mesmo sem consentimento do eleitor.

Tudo isso divulgado pela imprensa me trouxe uma preocupação ao falar do assunto. Minha pergunta é esta: eles fazem barbaridades, nós protestamos, e a vida segue na mesma. Como se as barbaridades e nossos protestos fizessem parte do mesmo sistema, uns legitimando as outras.

Há alguma esperança? Honestamente, é preciso admitir que a sociedade terá de subir uma montanha para se liberar dessa gente que se move unicamente no sentido de se perpetuar no poder. Tudo é feito para que possam usar mais dinheiro e ganhar todas as eleições, deixando espaço mínimo para a renovação. É preciso renovação de qualidade, pois, quando você olha o quadro de votações dessas medidas indecentes, esquerda, direita e centro estão unidos, de mãos dadas.

Quando deixei Brasília, no fim de semana, o aeroporto estava cheio. Uma pequena multidão nervosa parecia, como eu, buscar uma pausa desse espaço asfixiante. A funcionária diante dos detectores de metal gritava: “Quem tem marca-passo, por aqui, por aqui”. Em poucos minutos, com ou sem marca-passo, estávamos nos ares, pensando no fim de semana, almoços, jogão no Maracanã, todas essas pequenas alegrias da enorme prisão em que vivemos, dominados por aquela gente a fazer o que quer de nossas leis, imersos num mundo revelado pelo escândalo do Master. Não sou mais menino. Sei o preço da revolta. Mas pagamos um preço enorme ao nos acomodarmos. Onde está o caminho?

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Morro abaixo

Algo está pra lá de torto em um país que afrouxa a cobrança de multas dos partidos políticos e dos candidatos, autorizando recursos dos fundos partidário e eleitoral para condenados. Que autoriza o uso de robôs na comunicação online dos postulantes a cargos públicos, inviabilizando qualquer tipo de controle; que libera doações até de cestas básicas nas vésperas das eleições e ainda suspende a proibição de repasses de recursos para cidades inadimplentes. Tudo isso em uma única semana. Embora a natural falta de escrúpulos de boa parte dos políticos não surpreenda, ela escancara a profunda erosão moral em que o Brasil se encontra.

Flávio Bolsonaro personifica essa degradação.

Um mentiroso contumaz, enrolado com a milícia e “rachadinhas”, que disse nunca ter feito contato e muito menos recebido milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro – e mesmo assim colhe poucos danos à sua imagem, com delitos considerados administráveis por seus pares.


Na sexta-feira, gente de sua turma comemorou a pesquisa Datafolha, com números menos desastrosos do que imaginavam. No primeiro turno, a diferença em favor de Lula aumentou de 3 para 9 pontos percentuais. No segundo a oscilação foi ainda menor. De um empate em 45% na penúltima rodada, no levantamento atual o senador caiu apenas dois pontos percentuais. Ainda que à frente – 47% a 43% -, Lula pontua no limite da margem de erro.

Pela pesquisa, o conhecimento do imbróglio Flávio-Vorcaro é de 64%, número idêntico ao dos que acham que o senador errou ao se meter com o ex-banqueiro, mas ainda baixo perto da dimensão do escândalo. Para o time de Flávio isso é o suficiente para reorganizar a campanha. O eleitor, mesmo fora da bolha bolsonarista, pode até não gostar, mas teria engolido a balela de que os contatos se deram para o financiamento do filme do papai. E que mesmo machucado, o senador ainda se sai melhor do que qualquer outro candidato da oposição, incluindo a madrasta Michelle, preferida do dono do PL Valdemar Costa Neto, mas em atrito permanente com o clã.

Os resultados tidos como positivos da pesquisa teriam enterrado a hipótese de substituição de Flávio. Nessa altura, seus apoiadores imaginam que nem o PT de Lula, que o tem como opositor ideal, insistirá nas explicações do inexplicável.

Podem surgir novas histórias e dificuldades para o candidato, embora, estranhamente, a Polícia Federal tenha iniciado diligências sobre transferências de dinheiro para o irmão Eduardo, autoexilado nos Estados Unidos, sem sequer ter ameaçado investigar Flávio.

Há questões tão óbvias que até parecem não terem sido feitas para proteger a candidatura dele. Por exemplo: no áudio, Flávio pede a Vorcaro para honrar as parcelas de financiamento do filme Dark Horse. O ex-banqueiro já havia colocado R$ 61 milhões (U$ 12 milhões) dos R$ 134 milhões prometidos para a brincadeira. Dias depois do vazamento do diálogo, Karina Ferreira Gama, produtora do filme, disse que a cinebiografia estava quase pronta – teria custado U$ 13 milhões, 90% bancados por Vorcaro. Ora, e para o que mesmo Flávio queria os R$ 63 milhões restantes? Ninguém perguntou?

Mesmo sem as respostas mínimas, Flávio tem a seu favor a armadura paterna que o blinda e a cegueira de milhões de fieis mantidos sob a lei da desinformação multiplicada nas redes sociais. Ele não é o único.

Nesse Brasil ao avesso, a transgressão tem vencido. Reduzem-se penas para golpistas condenados, concedem-se privilégios para criminosos que têm como custear as mais caras bancas de advocacia. Fazem-se vistas grossas para delitos supremos, permitem-se salários estratosféricos para uma casta. Perdoam-se devedores contumazes, pune-se quem paga as contas em dia.

O cidadão comum é o trouxa que paga impostos enquanto os grandes e espertos sonegam. Só o enrolado Grupo Refit deve R$ 26 bilhões ao fisco, a Ambev, das cervejas, mais de R$ 6 bilhões, a Vivo, quase R$ 4 bilhões. É o cidadão comum quem financia os R$ 1,5 bilhão do fundo partidário e os quase R$ 5 bilhões do fundão eleitoral que custeiam políticos, a maioria deles só de olho em seus próprios umbigos.

Refém da violência cotidiana, sem serviços públicos dignos e carente do mínimo, esse cidadão, impotente diante da intensidade dos abusos, torna-se um descrente total – alvo perfeito para ser cooptado por falsos herois e mentirosos.

Talvez essa seja a aposta do Zero Um.

Jogos nada olímpicos em Las Vegas

Começou em Las Vegas um experimento humano criado por um punhado de venture capitalists obcecados em retardar a finitude da vida — no caso, a deles em primeiro lugar. Batizado por seus fundadores de Enhanced Games (algo como jogos aprimorados, ou turbinados), o experimento em forma de competição esportiva reúne 50 atletas de alto rendimento que disputarão provas de atletismo, natação e levantamento de peso. Mas apenas as modalidades mais extremas e cintilantes desses esportes: a corrida de 100m rasos, os 50m e 100m nados livre e borboleta e o levantamento de até 510 quilos. Tudo movido a um inédito regime de doping declarado, com premiação milionária aos atletas-cobaias.

Peter Thiel

Para os financiadores do projeto, trata-se de acelerar a expansão da economia, com suas startups voltadas à extensão da vida, embrulhar o pacote num espetáculo esportivo macho alfa e levar os espectadores a consumir os milagrosos produtos que haverão de ser anunciados.

Ao longo dos últimos três meses, 37 dos 50 atletas admitidos para a competição se submeteram a um intensivão de treinos e doping individualizados, sob supervisão de um corpo médico contratado pela organização. Confinados num resort cinco estrelas em Abu Dhabi, voluntariam seus corpos para o experimento com testosterona, esteroides anabolizantes, drogas de crescimento como HGH e EPO, moduladores metabólicos, hormônios, estimulantes como Adderall — tudo o que é proibidíssimo em olimpíadas, mundiais ou pela sempre fraudada ética da competição limpa.

O que leva um atleta de alto rendimento a participar desse evento quando sabe que estará automaticamente barrado de qualquer olimpíada ou competição esportiva convencional? O dinheiro. Além do dinheiro, a chance de compensar os muitos anos de treino inglório. E a permanente suspeita de doping não detectado, ou detectado tardiamente, em determinadas delegações.

Tome-se o exemplo do nadador greco-búlgaro Kristian Gkolomeev. Em três olimpíadas recentes (Londres, Rio, Japão), ele quase chegou ao pódio nos 50m nado livre. Treinou mais quatro anos para Paris 2024, mas novamente perdeu a medalha de bronze por 0,03 segundo. Estava com 30 anos, um filho pequeno e diante de uma vitória cada vez mais fugidia. Fez as contas e percebeu que, somados seus rendimentos com o esporte ao longo de 14 anos, ganhou menos do que se tivesse trabalhado num McDonald’s.

Pois bem, em fevereiro de 2025, Gkolomeev havia se juntado à turma do Enhanced Games e nadou turbinado por um coquetel medicamentoso, enfiado num maiô inteiro de poliuretano, que reduz o atrito na água e está proibido desde 2010 pela Federação Internacional de Natação (Fina). Longe dos holofotes e da homologação oficial, bateu o recorde mundial que já durava 16 anos por 0,02 segundo. Foi recompensado com um cheque de US$ 1 milhão. De lá para cá, o mesmo recorde foi novamente batido, sem doping, pelo australiano Cameron McEvoy em evento na China não homologado pela Fina. Não recebeu um tostão.

A expectativa maior em Las Vegas estará na prova outrora considerada a mais pura, bela, clara, primal, universalmente compreensível e intuitiva a qualquer bípede: a corrida de 100m rasos. O jamaicano Usain Bolt fez dela uma arte, transformou-a em cultura, imortalizou-a na marca de 9s58, com seu corpo estalando de sadio. Para o australiano Aron D’Souza, um dos fundadores do Enhanced Games, o queixo do mundo haverá de cair quando ficar provado que o Übermensch em produção nos laboratórios das startups é melhor que o ser humano natural.

Quem mais está na origem do experimento? O cavernoso Peter Thiel, é claro, com sua obsessão transumanista que tantas vezes já se revelou anti-humanista. E Donald Trump Jr., sempre à espreita de um novo negócio, além do rei da biotecnologia alemã Christian Angermayer, e do príncipe saudita Khaled bin Alwaleed Al Saud. Cripto brothers também não haverão de faltar, assim como a Big Pharma, de olho em novas fronteiras de pesquisa. Bryan Johnson, outro multimilionário associado aos Enhanced Games, sustenta que, aos 48 anos, consegue manter a mesma idade biológica de seus anos de juventude. Será o comentarista da transmissão, sob medida para vender o sonho da juventude eterna e da virilidade indomável. Só faltou Elon Musk, cujos 14 filhos foram gerados para garantir a reprodução de seus genes. Em suma, o retrato da elite que comanda o mundo de hoje.

O show de encerramento do experimento estará a cargo da banda The Killers. Tudo a ver.

Resistir à impossível vida moderna

Atualmente, conhecem alguém que não esteja a atravessar um momento difícil a nível pessoal ou profissional? À nossa volta parece haver cada vez mais pessoas que estão a lidar com alguma coisa que lhes causa uma aflição interna, um estado de alerta constante, uma espiral de preocupação sem fim. Não interessa a razão, pode ser separação e divórcio, luto, relações difíceis com familiares, trabalho precário e insatisfatório, motivos financeiros, complicações de saúde, desgosto amoroso, emigração. A lista é longa. Claro que há quem encontre equilíbrio e até esperança genuína neste tempo. Mas mesmo essas vidas parecem hoje atravessadas por uma sensação persistente de instabilidade.

É uma sociedade traumatizada pela pandemia da Covid, mas não só. O que se seguiu foi um agravamento silencioso, com um contexto político cada vez mais polarizado e agreste. Há uma dessensibilização progressiva que nos foi tornando indiferentes ao que antes nos horrorizava. Mas é nas pequenas lutas diárias que notamos um desgaste maior, seja na incapacidade de desligar do trabalho, no medo constante de instabilidade financeira ou na exaustão e na saturação que sentimos pelos fluxos infinitos de informação à nossa volta. Todos os dias parece surgir mais um motivo para olharmos para o futuro com apreensão.

Chegados a este ponto, não é de estranhar a sensação de perda e desorientação. De lutarmos contra forças maiores que não controlamos. De sentirmos que há dias em que vivemos num tempo de desconcerto absoluto. O que me leva à grande questão que me tem perseguido: como nos tornamos funcionais numa sociedade que vive num estado de permanente crise aguda? Funcionar parece fácil, se as peças estiverem todas montadas para esse efeito. Mas o que acontece quando as peças começam a soltar-se? Quando a nossa mente começa a ficar menos oleada? Quando as engrenagens do nosso corpo começam a rodar mais lentamente face à ansiedade e ao alarme? Quando não conseguimos controlar as emoções, as frustrações, a tristeza avassaladora? A psicologia e a psiquiatria têm procurado dar respostas, mas por vezes parece ser apenas o suficiente para resistirmos a esta impossível vida moderna em que nos vemos aprisionados.


Ser funcional hoje em dia é um grande ato de coragem e determinação. Não é um exagero dizê-lo, porque a nossa capacidade de adaptação é formidável, mas também nos leva a adaptarmo-nos a coisas que deveriam ser recusadas. Recordo-me sempre de Bartleby, o escrivão, a personagem criada por Herman Melville em 1853. Já então Melville descrevia a figura de um funcionário em Wall Street como o símbolo de uma vida em piloto automático, que, pouco depois de ser contratado, começa a recusar pedidos com a frase “I prefer not to”. Lentamente, Bartleby entra num processo de resistência passiva perante o materialismo e a prepotência burguesa da sua chefia. Chefia esta que falha em compreender as motivações, o isolamento e a recusa extrema de viver de Bartleby.

Para uma história escrita no séc. XIX, é extraordinariamente presciente. Mas não temos de recusar o mundo como Bartleby e ceder ao niilismo. Ele escolheu a recusa total. Nós, por razões que nem sempre conseguimos articular, escolhemos ficar. Não porque sejamos mais corajosos ou mais capazes, mas porque há uma escolha de continuar a estar presentes, mesmo sem garantias.

Todos os dias há pequenos gestos de teimosia silenciosa, de quem se recusa a baixar os braços. O gesto de telefonar a um amigo. De fazer o jantar. De ir trabalhar de manhã mesmo quando tudo parece demasiado pesado.

Ser funcional, nesse sentido, não é um triunfo. É um gesto quotidiano, repetido, muitas vezes sem glória. Mas há qualquer coisa de notável e profundamente humano em prosseguirmos, mesmo sem descortinarmos o horizonte. Continuar a amar, a criar, a protestar, a fazer planos que podem não se concretizar. Não por ingenuidade, mas porque é dessa insistência teimosa, e não das grandes certezas, que a vida se faz. Melville sabia onde estava o problema. A resposta, essa, temos de a encontrar nós.

Grandes batalhas do século

Sem democracia não pode haver direitos humanos, mas sem direitos humanos também não haverá democracia. Estamos numa situação em que se fala muito de democracia e nada de direitos humanos. Creio que essas são as duas grandes batalhas para este século. E, se não nos lançarmos nelas, o século será um desastre.

José Saramago, "As palavras de Saramago"

Uma demanda de limpeza ética

"Malandro demais se atrapalha", rezam as rodas de brasilidade, onde sabedoria é experiência vivida. Isso se revela na profilaxia administrativa operada pelo governo interino do Rio de Janeiro. Pode-se rir ou chorar ao tomar conhecimento, por exemplo, de que o ex-governador Cláudio Castro tinha criado uma Subsecretaria de Gastronomia, com nada menos do que uma "Superintendência de Demandas Cotidianas". E dirigida por ninguém menos que Pazuello, o general-ministro bolsonarista da pandemia.


Malandro, porém, se atrapalha mesmo. Tantas fez e cargos inventou o ex-governador para multiplicar favores a prefeitos, legisladores e dono de refinaria que o pote de espertezas transbordou como vaso sanitário. Garantido pelo STF, o interino Ricardo Couto comanda uma reorganização que já limpou um terço das secretarias e cerca de 1.700 cargos comissionados. A maioria não precisava sequer comparecer ao trabalho. Inexistente, por sinal, como dita a lei da malandragem.

Em princípio, seria chover no molhado qualquer análise das engrenagens de um desgoverno, considerando-se que a corrosão da função pública transparece sem filtros no apodrecimento ético dos dirigentes. Podre, aliás, não é metáfora gratuita: assim o mercado financeiro chama papel sem nenhum valor. Cláudio Castro investiu neles R$ 1 bilhão do fundo de pensão do estado para ajudar o Banco Master.

Abismo chama abismo. Essa é a saga ominosa de 30 anos de governos cariocas finalizados na prisão, com desenredo especial pelo oxímoro Castro: inelegível, mas aspirante ao Senado. Ele tornou mais visível o epílogo de um longo e ruinoso percurso político, não só no nível das finanças públicas, mas também das consequências sociais das gestões corruptas. A varredura atual é alvissareira, embora provisória e assediada por clãs, ávidos por uma marcha-a-ré.

Com os velhos caciques, o Rio era uma feitoria político-social. Hoje, uma malfeitoria estrutural. No balanço das governanças impolíticas, transparece um estado afetado por déficit fiscal insanável e pela voracidade de grupos em torno da apropriação dos recursos públicos. Não mais caciquismo político, e sim uma malandragem tóxica constituída por clãs, híbridos de famílias com delinquentes. Cargos oficiais são criados e canibalizados por interesses temporários. Uma subsecretaria de bem-comer e por que não uma superintendência de demandas gourmets? Malandro sugeriu, fez-se.

Há disso tudo noutras regiões, mas o Rio virou laboratório de graves patologias sociais. Primeiro, a síndrome dos territórios, demarcados por milhares de barricadas e defendidos com armas de guerra e mercenários de know-how ucraniano. Bicheiros, milicianos, traficantes e policiais dão-se as mãos ou se engalfinham ante o pano de fundo cenográfico da mídia que envelopa a cidade. Depois, o tecido social criminogênico que, desde "zonas de influência" ilegalistas, favorece o recrutamento para a bandidagem e a malignidade dos clãs políticos, cujos rebentos almejam no Estado-nação o status de malandros federais.

É desanimador. Mas, como no mito, Hércules limpou com rios as estribarias do rei, a sujeira moral e cívica acumulada no Rio poderia ser lavada em urnas reais. Quando a sociedade civil acordasse.

Mudança para inglês ver

Há frases que atravessam o tempo porque encerram uma contradição permanente da condição humana. “É preciso que tudo mude para que tudo continue como está” — a célebre sentença atribuída ao jovem Tancredi Falconere, personagem do romance O Leopardo (de Giuseppe di Lampedusa), tornou-se uma das mais agudas metáforas da política, da sociedade e das instituições. A frase parece paradoxal, mas descreve com precisão muitos dos movimentos do nosso tempo.

Mudanças costumam ser anunciadas com fanfarra. Trocam-se nomes, slogans, bandeiras, equipes, discursos, cores e métodos de comunicação. Reformam-se fachadas. Multiplicam-se promessas de renovação. Mas, por trás do palco iluminado, os mecanismos profundos do poder permanecem intactos. A mudança, nesse caso, não passa de adaptação estética destinada a preservar estruturas. É algo, como se diz: “mudança para inglês ver”. A política oferece exemplos abundantes. A palavra mudança “teve papel central” no discurso de posse de Lula.

Em 1º de janeiro de 2023, na abertura de sua fala ao Congresso Nacional, Lula procurou marcar simbolicamente o retorno ao governo, associando-o à ideia de reconstrução e transformação do país. Começou assim: “A mensagem que quero deixar ao povo brasileiro é a de esperança e reconstrução “A grande mensagem do Brasil é a de mudança”.


Será mesmo que o Brasil mudou? A avaliação negativa de seu terceiro mandato é superior à avaliação positiva com dez pontos de diferença.

E, agora, presidente? Caso seja eleito, a palavra mudança continuará a ser a palavra-chave de um eventual quarto mandato? Ou será que a mudança será meramente cenográfica?

Partidos se reorganizam, alianças mudam de endereço ideológico, lideranças surgem com o discurso do novo, mas acabam reproduzindo velhos costumes: centralização decisória, loteamento de espaços, culto à personalidade e apego ao aparelho estatal. O eleitor, muitas vezes, percebe a troca de embalagem, mas encontra o mesmo produto na prateleira.

Esse fenômeno não é exclusivo da política. Empresas falam em inovação enquanto conservam modelos hierárquicos rígidos. Organizações anunciam revoluções tecnológicas sem alterar práticas de gestão. Universidades incorporam novas plataformas digitais, mas mantêm métodos pedagógicos herdados de séculos passados. Até as relações humanas experimentam o paradoxo: mudam as formas de comunicação, permanecem as angústias, os afetos e os conflitos.

A era digital intensificou esse mecanismo. Nunca houve tanta velocidade na circulação de informações. Nunca se produziram tantas narrativas de ruptura. E, paradoxalmente, poucas vezes o mundo pareceu tão preso a padrões repetitivos. As redes aceleram a aparência de mudança, mas nem sempre transformam substâncias. O espetáculo da novidade pode esconder a permanência das desigualdades, dos privilégios e dos vícios institucionais. Há, porém, outra leitura possível da frase. Nem toda mudança para conservar é negativa.

Algumas transformações são necessárias exatamente para proteger valores essenciais. Uma democracia precisa renovar instituições para preservar a liberdade. Uma sociedade precisa atualizar leis para manter a justiça. Uma empresa precisa inovar para conservar competitividade. Uma família muda hábitos para preservar vínculos.

O desafio está em distinguir mudança verdadeira de mudança cenográfica. As grandes transformações históricas não ocorreram porque se trocaram personagens; ocorreram quando se alteraram relações, regras, mentalidades e expectativas coletivas. A abolição não foi apenas o fim formal da escravidão; foi o início de uma lenta reconstrução social. A redemocratização não consistiu apenas em substituir governantes; exigiu reerguer instituições e restaurar a confiança pública.

Vivemos um tempo em que a palavra mudança se tornou moeda corrente. Todos prometem mudar. Poucos explicam o que desejam conservar. E talvez a pergunta decisiva seja justamente esta: mudar para quê? Porque há mudanças que apenas reciclam o passado e há mudanças que inauguram futuros.

No fim das contas, a frase continua atual porque revela um traço permanente da história: os sistemas resistem, adaptam-se e sobrevivem. Mas a sociedade, quando desperta, descobre que não basta trocar os móveis da sala. Às vezes, é preciso reconstruir a casa.
Gaudêncio  Torquato

sábado, 23 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


O grande Rio de Janeiro

Chico Buarque disse, com sua boa música e melhor poesia, que o Brasil poderia se transformar em imenso Portugal. A brincadeira poético-musical era elogiosa, porque a pátria mãe, que durante muitos anos foi vista como um país no norte da África, foi aceita pela União Europeia e se transformou. Passou a contar com bons hotéis, melhores restaurantes e grandes centros de compras. O país deixou de ser o local apenas para comer bacalhau e passou a oferecer múltiplas oportunidades. Os brasileiros fazem a festa por lá.


Essa imagem me veio à cabeça porque o candidato Flávio Bolsonaro, com suas trapalhadas e suas amizades escandalosas, sugere que o Brasil se transforme no grande Rio de Janeiro. Machuca muito escrever isso. Nasci perto do Rio de Janeiro e cresci na cidade. Desfrutei das praias, do bom futebol e dos restaurantes. Temporada feliz. Mas aquele Rio de Janeiro não existe mais. Depois do surgimento veloz e feroz da chamada Zona Oeste, a criminalidade tomou conta de boa parte da cidade. O tráfico de drogas assumiu grandes áreas, as grandes favelas se transformaram em territórios autônomos para proteger quadrilhas de assaltantes de vários tipos e categorias. Meu filho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi obrigado a se proteger, algumas vezes, dentro da sala de aula, do tiroteio que corria solto lá fora. Foi assaltado, confrontado com arma na mão, dentro do campus.

Histórias de policiais envolvidos com a criminalidade são muitas. Às vezes são até folclóricas, como a do sujeito que teve a sua moto roubada e procurou a polícia. Na delegacia, recebeu o endereço dos três maiores ladrões de motos do Rio. Com a sugestão de que ele procurasse o ladrão e pagasse pela liberação da própria motocicleta. O delegado naturalmente receberia algum pela corretagem. Os apontadores do jogo do bicho fazem parte da paisagem carioca. Eles mandam nas ruas da cidade. Ninguém pode estacionar em local em que estão trabalhando. Eles chamam a polícia. É isso mesmo. Os bicheiros mandam os reboques do Detran, que levam seu carro. Depois, o proprietário deve pagar uma série de benefícios para liberar o veículo.

O poder público foi envolvido pela corrupção. E a cidade dominada pelas milícias, pelos comandos criminosos que se estruturaram nas favelas e passaram a lidar com quantias financeiras consideráveis. Começaram a importar armas pesadas capazes de fazer enfrentamentos, de igual para igual, com Polícia e Exército. Nada disso aconteceu por acaso. Os últimos cinco governadores do estado do Rio de Janeiro foram presos por corrupção e leniência com o crime organizado.

O último ainda não foi preso, apenas cassado, pretendia ser candidato a senador, mas a Justiça interrompeu sua carreira. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é um antro dominado pela criminalidade. Flávio Bolsonaro reinou ali, onde implantou o sistema da rachadinha. Vários deputados foram presos. Alguns, cassados. Por causa de sucessivos impedimentos, o atual governador do Rio de Janeiro é o desembargador Ricardo Couto. Ele, que não é ligado a nenhum grupo criminoso, promove uma limpa no governo do estado, o que ocorre pela primeira vez nas últimas décadas.

Esse é o mundo Bolsonaro. O universo de atuação da família, cuja residência em condomínio horizontal na Barra da Tijuca irradiou sua influência pela região. Por via da política, tentou controlar todo o país. Militares desinformados chegaram a apoiar a loucura do golpe de Estado no país, para evitar novas eleições. E entronizar as milícias no poder no Brasil. Jair, ex-presidente, já demonstrara seu profundo desprezo pelas massas quando abandonou o povo no momento da pandemia. Ele não se dignou a visitar um hospital, nem lamentou as 700 mil mortes. Exerceu o poder para colocar a mão no dinheiro. A avidez com que Flávio, o candidato, se lançou sobre as posses, furtadas, de Daniel Vorcaro é autoexplicativa. Eles gostam muito de dinheiro em qualquer circunstância.

O perfil de Flávio Bolsonaro é nítido. Ele é produto da família que se comporta como uma famiglia mafiosa italiana de filme norte-americano. O pai manda, os filhos obedecem e se espalham pelo país, para tentar eleições em diversos estados. Eles fazem o discurso contra as elites para destruir as elites. O Brasil já viu candidatos como esses, destinados a limpar, passar a vassoura e construir nova sociedade. Todos, desde Jânio Quadros, terminam demonstrando sua tendência autoritária. Flávio Bolsonaro é apenas um arrivista, rápido na ação de amealhar dinheiro com a mão grande, que pretende se passar por reformista, coisa que ele nem sabe o significado. É o desastre anunciado na tentativa de criar o grande Rio de Janeiro.

Do próprio veneno

Ninguém nasce odiando. O ódio é ensinado. A extrema-direita foi além e colocou o ódio como um instrumento político, como arma de mobilização.

Hoje, com as redes sociais, milícias digitais assassinam reputações, assediam e transformam a vida de jornalistas, acadêmicos, ativistas ou qualquer um que represente uma ameaça ao pensamento reacionário.



Nos últimos dias, foi justamente, porém, a extrema-direita que descobriu a dimensão do seu próprio veneno. Em postagens, personagens ultraconservadores e que por anos têm promovido ideias golpistas e ataques contra a democracia foram alvos de ofensas abomináveis. A operação não veio da oposição. Quem liderou a tentativa de intimidação foi justamente uma ala da extrema-direita brasileira inconformada com o posicionamento dos ex-aliados e vozes que se apresentavam como as grandes referências do movimento autoritário. O motivo: terem ousado dizer o óbvio sobre Flávio Bolsonaro e suas mentiras cinematográficas.



Uma dessas vozes do bolsonarismo contou, inclusive, como havia sofrido ataques por alguns que, antes, oravam por ele. E chegou a questionar a fé desses “patriotas”. Só agora? E quando o ódio era contra a oposição, a religiosidade deles estava intacta?

Depois de fazer listas de nomes a serem banidos, defender atos antidemocráticos, conspirar e disseminar mentiras de forma deliberada, executar reputações, destilar misoginia e intolerância, eles realmente acreditam que, então, existe uma linha vermelha que não pode ser cruzada?

Quando nações são consumidas pelo ódio, como a Alemanha na década de 1930 ou o Sul dos EUA durante a segregação racial, o resultado, invariavelmente, é a destruição da sociedade civil e sua substituição por sistemas políticos, sociais e jurídicos baseados na violência.

Nos Estados Unidos, Donald Trump usou o ódio como ferramenta de campanha e mobilização. Vi como comícios eram regidos pela construção do outro como uma ameaça. Os mexicanos eram “estupradores”, enquanto o discurso desumanizador era usado para descrever imigrantes, mulheres e oponentes políticos. Vi como aquela estratégia eletrizava a plateia. O ódio é intoxicante. Ele reduz questões complexas a simples dualidades baseadas na busca de bodes expiatórios entre os odiados. A decadência econômica passa a ser culpa dos imigrantes, não da falta de investimentos em educação ou inovação. A mudança cultural torna-se uma conspiração das elites e alas progressistas. Os fracassos pessoais tornam-se o resultado de um sistema supostamente manipulado.

O discurso do ódio é estrategicamente planejado. Opera em conjunto com a desinformação, a vigilância e os ataques técnicos para silenciar indivíduos específicos. É calculado, contínuo e transnacional. Para esses grupos, o ódio não serve para expressar um preconceito. Ele tem a missão de garantir o controle político sobre uma massa. Esse discurso instrumentalizado por forças políticas funciona como um mecanismo de governança. Normaliza a exclusão, asfixia a oposição pelo medo e cria uma “espiral do silêncio” que elimina completamente as vozes críticas. Um genocídio não começa no primeiro disparo, mas quando o ódio é autorizado, aplaudido e até recompensado.

Vi nos Estados Unidos e no Brasil como ele cresce quando as instituições democráticas são atacadas. Quando um presidente diz que a imprensa é “inimiga do povo” ou sugere que as Forças Armadas devem ser leais ao líder, não à Constituição.

Mas o ódio também é frágil. Sua utilidade política contém, nela mesma, as sementes de sua própria destruição. A história revela que movimentos construídos sob o ódio acabam se autodestruindo.

A Revolução Francesa devorou com ­suas guilhotinas seus próprios filhos à medida que o fervor revolucionário se transformava em expurgos internos. O macarthismo entrou em colapso sob o peso de seus próprios excessos. A Revolução Cultural na China destruiu os líderes históricos do movimento que, em 1949, chegou ao poder.

Como vemos entre os bolsonaristas, a paranoia que alimenta os movimentos de ódio cria fraturas internas à medida que antigos aliados se tornam novos alvos. E desmorona a coerência do grupo.

Talvez, nesse sentido, James Baldwin tenha razão quando alerta que “uma das razões pelas quais as pessoas se apegam aos seus ódios com tanta obstinação é porque pressentem que, uma vez que o ódio desapareça, serão forçadas a lidar com a dor”.

Vai passar?

Acho que esta onda de extremismo se consumirá a si mesma, porque as promessas dos populistas serão confrontadas pela sua incapacidade de criar um mundo melhor e mais seguro
Mia Couto

Os ricos também choram

Elas encolhem-se nos vestidos de alta-costura, eles estugam o passo, empertigados nos fatos escuros, agarrados elas e eles pelo braço, tentando ignorar os que estão fartos de ser ignorados. As imagens das entradas na Met Gala, uma das mais decadentemente exclusivas festas de Nova Iorque, mostram gente comum e invisibilizada falando alto aos que acham que podem tudo. É curioso que se tenha começado a usar a palavra “decadente” como sinónimo de luxo indulgente, quando começa a ser evidente que os milhões de poucos são conseguidos à custa da exploração de muitos milhões. Os trabalhadores da Amazon deixaram isso muito claro, quando projetaram as suas imagens no Chrysler Building, agigantando-se até olharem para baixo e verem, muito pequeno, o patrão Jeff Bezos, para lhe gritarem em stereo que deve envergonhar-se de como os explora e que tudo o que tem lhes deve, a eles.


No lobby da festa apareceram pequenas garrafinhas, daquelas que costumam ser usadas para servir bebidas, cheias de urina, com a cabeça calva de Bezos no rótulo, numa alusão às regras da Amazon que tornam um inferno uma simples ida à casa de banho durante um turno. Junto à passadeira vermelha, os manifestantes gritaram uma frase que resume bem o momento em que as descidas de impostos aos mais ricos se traduzem diretamente na falta de cuidados a todos os outros. “We need healthcare, not a another billionaire.”

Os vestidos de caudas impossíveis, os corpetes ao estilo de armaduras, as maquilhagens exageradas e os cabelos meticulosamente penteados ficaram subitamente expostos ao seu ridículo vazio. Era possível vê-lo nas caras dos convidados, que tentavam fugir rapidamente ao protesto que se desenrolava à porta. “Devias ter vergonha, Jeff Bezos”, lançava, com uma dignidade atordoante, uma mulher negra de 72 anos, que continua a ter de trabalhar num armazém da Amazon para viver, apesar da idade avançada. “Nós merecemos essa festa, nós merecemos muito mais do que recebemos”, avisava Mary Hill, projetada no arranha-céus, sem medo de ameaçar um dos senhores do mundo. “Há força nos números e há muitos mais de nós do que de vocês, bilionários.” Na rua, as pessoas comuns passavam e olhavam com um sorriso de admiração para aquela mulher franzina que subitamente tinha alcançado o tamanho de um gigante e, com a sua força, reduzia o multimilionário à sua imensa fragilidade de homem sozinho, capaz de ser esmagado pelos mesmos que oprime e explora.

O protesto não mudou o mundo. Um protesto sozinho nunca muda nada. Mas alguma coisa tremeu. E a prova disso chegou, pouco depois, quando o milionário CEO da empresa americana Vornado, Steven Roth, mostrou o quão temida e poderosa é esta mensagem ao comparar o slogan “tax the rich” a – imagine-se – um “discurso de ódio”. Roth teve a infelicidade de denunciar este ódio de classe na mesma semana em que saiu nos Estados Unidos um estudo que mostra que cerca de metade dos americanos não ganha, trabalhando, o suficiente para viver. “Os ricos”, disse ele ao New York Times, “são o epíteto do sonho americano. Estão no topo da pirâmide económica americana por uma razão. Deviam ser louvados e alvo de gratidão”, defendeu o milionário, para quem a simples ideia de que a sua riqueza deve ser taxada é semelhante a uma “tirada racista”.

A desfaçatez com que se compara um pedido de justiça social a ataques racistas só é possível graças a uma construção ideológica que associa riqueza – mesmo a mais desmedida – a mérito, ao mesmo tempo que se cria a ilusão de que a fortuna é um estatuto acessível a quem se esforce. A última década foi a era da pornografia da riqueza. Os média e as redes sociais encheram-se de imagens a que chamaram “aspiracionais”, ao mesmo tempo que as marcas de luxo encontravam formas de vender produtos aos menos abonados para que de alguma maneira eles se sentissem parte de um clube no qual nunca iriam verdadeiramente entrar. Os restaurantes passaram a ser gourmet. Os hotéis transformaram-se em boutiques. E uma massa de gente da classe trabalhadora ganhou assim a ilusão de estar mais perto de ser rica.

Esse é o truque. Que penses que és rico porque compraste um Tesla ou um BMW, porque foste de férias para um resort qualquer, porque podes dar-te ao luxo de ir aos restaurantes da moda, porque tens um salário de diretor, seguro de saúde e regalias. Isso não é ser rico. Parece que é, sobretudo quando há tanta gente que mal chega ao final do mês, tanta gente a adiar consultas médicas porque não pode pagá-las, tanta gente sem ter como pagar uma casa. Mas este truque é tão bem feito que até esses, tantas vezes muito perto de serem pobres, se sentem quase ricos, porque esgotaram as poupanças num iPhone ou andaram a amealhar o ano inteiro para uma semana em regime de “tudo incluído”.

E esse truque é importante precisamente por aquilo que nos disse Mary Hill, a trabalhadora que arrasta a sua velhice num armazém da Amazon para viver. “Porque há força nos números.” Porque há milhões e milhões de trabalhadores e apenas 12 pessoas que concentram mais de metade da riqueza da Humanidade. Repitam comigo: 12 pessoas. E pensem sobre isso de cada vez que acharem que são ricos ou que um dia vão ser ricos. Porque essa ideia é o que vos tem empobrecido. É graças a essa ideia que todos os dias perdemos direitos no trabalho, na saúde, na educação, na habitação. É essa ideia que permite que mais de metade da riqueza do mundo esteja nas mãos de uma dúzia.

O algoritmo do Instagram começou a mostrar-me memes sobre como os níveis de desigualdade regressaram a um ponto só comparável com o período antes da Revolução Francesa. Lembram-se da Revolução Francesa da “igualdade, liberdade, fraternidade” e das guilhotinas? O tal CEO americano deve ter-se lembrado e, por isso, tremeu. E por isso acusou de racismo quem só pede um mundo um pouco mais justo, quem só pede que haja uma maior distribuição da riqueza que existe e é criada todos os dias por quem trabalha. Quando pela primeira vez em décadas alguém aparece e os desafia de frente, a primeira reação é gritar “crime de ódio”, sem se lembrarem das vezes que escarneceram os “wokes” que lutavam contra a discriminação de minorias. Afinal, não existe minoria mais minoritária do que a dos milionários.

Na TVI, passa agora uma telenovela com o título Os Ricos Também Choram. É uma versão de um drama mexicano que se estreou em 1979, precisamente quando começou no mundo a onda que há mais de 40 anos tenta desmantelar as políticas públicas de redistribuição da riqueza. O título é comovente. Mas talvez o “também” esteja a mais. Afinal, humanos são só aqueles que ascendem ao topo da pirâmide. Louvemos o seu mérito e estejamos gratos pela sua existência.