quinta-feira, 30 de julho de 2026

O mundo sem freios

Ou a deselegância como norma. O desrespeito como regra. A mentira como estatuto. A IA pode juntar tudo isso num post descarado.

Onde começou? Como começou? Quem começou? Veio primeiro o ovo ou a galinha?

Se foi o ovo, é de serpente, como a que desgraçou o paraíso. Se foi a galinha, veio disfarçada como galo da KFC, estilizado no modo laranja, batizado de Mister Trump, que de mister não tem nem os pelos da púbis.


Pois não é que o galo deu pra desafiar o mundo? Até aqui, sem resistências. Ou com poucas e fracas como aconteceu quando Hitler anexou a Áustria e parte da Tchecoslováquia, em 11 e 13 de março de 1938.

O mundo, dito civilizado, abriu só o modo observação, acreditando (?) assim evitar a guerra. Aquele vacilo deu gás à Alemanha que ligou o modo posso-tudo e invadiu a Polônia, em 1º de setembro de 1939. Sou invencível, acreditou Hitler. Quase foi.

Qualquer dos nascidos no século 20 e com leitura maior do que a de livros pra colorir conhece a história e o que resultou na História contemporânea.

A História não se repete como farsa. Embora Marx – o que é mais conhecido só como comunista raiz – defendesse que sim. As histórias, que fazem a História, costumam repetir tragédias, nada burlescas.

Mas, enquanto civilizados seguem “observando” Trump e seus filhotes, muitas serpentes, nada amigáveis, desabrocham de ovos bem podres. E com plena permissão para cruzar fronteiras e afrontar adversários, sejam ou não chefes de Estado e representantes de cortes superiores.

Assim faz Javier Milei, presidente da Argentina, que governa no modelo Trump, como se tudo pudesse por licença de seu falecido cachorro, Conan – conselheiro que, acima de Deus, concebe caminhos para suas performances, nada educadas, internas e externas.

Cadê o freio?

Milei não é palhaço. Trump não é louco. Não faltam pinos na cabeça de nenhum deles. Sobra a ambos (e a outros dos deles) propósito, objetivo e método. Embora caricatos, não são caricaturas. São de carne, ossos e ousadia para afrontar limites. Assim, ultrapassá-los – com ou sem bombas, drones e mísseis.

O mundo que planejam não tem nada do que agora – e ainda – experimentamos como: considerar, prezar e honrar.

O mundo que projetam não tem os freios dos organismos internacionais, criados no pós guerra, para impedir barbaridades. Eles têm pretensão de rearranjar acordos de convivência social ao seu bel prazer, à sua força, ao seu mando.

Enquanto civilizados seguem “observando”, Trump e os seus avançam sobre nós. Sem freios.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Vinicius de Moraes,“Rosa de Hiroshima”

Referência às duas bombas atômicas, jogadas sobre o Japão, em agosto de 1945. Arrasaram as cidades de Hiroshima e Nagasaki. Em segundos, mataram, feriram e mutilaram mais de 200 mil pessoas. O (des)propósito era pôr fim à 2ª Guerra. O poema foi escrito em 1946, como um manifesto pacifista do pós guerra. Foi publicado em 1954 e musicado nos anos 70, do século passado.

Bom relembrar. Agosto tá logo ali.
Tânia Fusco

Um banana no Planalto

O sujeito não para em pé, suspira a Faria Lima. Na pífia cerimônia do lançamento de sua candidatura à Presidência na semana passada, em São Paulo, Flávio Bolsonaro deu mais um motivo para os agros, financistas e empresários suspeitarem que (por falar em cavalo) estão apostando no cavalo errado. Flávio B. reduziu-se a coadjuvante de seu convidado, o bufão Javier Milei, e de um telão estrelado por uma piedosa IA de seu pai e por sua madrasta, a gélida Michele. É o papel historicamente reservado ao 01 –sempre próximo de zero.


A essa tíbia performance, os mais atentos acrescentarão o áudio em que Flávio B. implorou a seu chapa Daniel Vorcaro que mandasse mais dinheiro para "Dark Horse", seu megafilme B.: "A gente tá passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida, meu irmão. Não sei como vai ser daqui pra frente. Tá nas mãos de Deus aí. Apesar de você ter dado liberdade pra gente te cobrar, fico sem graça de ficar te cobrando, mas tem muita conta pra pagar. Tá todo mundo tenso, imagina a gente dando calote nesses caras renomadíssimos do cinema mundial. Se você puder dar um toque... Desculpa o áudio longo, tá? Fica com Deus, cara".

Outras choramingas se deram quando Flávio Bolsonaro descobriu que o mortífero tarifaço que pedira e conseguira de Donald Trump reverteria em votos para Lula. Aflito, mandou uma mensagem a Trump suplicando que suspendesse as taxas até a eleição —depois elas poderiam voltar— e sugerindo que, se eleito, conduziria a economia brasileira de acordo com os interesses dos EUA. Trump ignorou-o e mandou as taxas do mesmo jeito.

O que dizer da incompetência de B. Junior para firmar alianças, garantir palanques, aliciar partidos que lhe dêem mais tempo de mídia e desencavar uma mulher para vice? E se lhe der um treco e ele desmaiar de novo num debate, como em 2016?

Se Flávio Bolsonaro é tão banana enquanto candidato, como seria se presidente? É o que os farialimers se perguntam. Ou talvez seja exatamente o que a Faria Lima quer —um bom banana no Planalto.

Flávio repetirá Trump e Milei sobre a OMS?

A desfiliação da Organização Mundial da Saúde tornou-se uma bandeira da direita nas Américas, implementada pelo presidente Donald Trump e o seu colega argentino Javier Milei.

A saída do Brasil também chegou a ser cogitada por Jair Bolsonaro em 2020. No auge da pandemia da Covid-19, Bolsonaro disse que poderia deixar de integrar a organização se ela não abandonasse o que chamou de viés ideológico.


Dada a proclamada proximidade dos Bolsonaros com Trump e Milei, é mais do que natural que na campanha eleitoral se queira saber se o candidato Flávio Bolsonaro irá se comprometer publicamente a manter o Brasil na OMS ou se a saída do órgão faz parte dos seus planos de governo.

No caso da OMS, é bom rever o passado recente. Trump determinou a saída da organização em janeiro de 2025, no dia de sua posse para o segundo mandato. A retirada tornou-se efetiva em janeiro de 2026.

A Argentina seguiu o mesmo caminho. Javier Milei divulgou a saída 16 dias depois do anúncio do americano, repetindo as críticas feitas pelo republicano.

É legítimo criticar a OMS e defender reformas. O que não faz sentido é tratar uma eventual saída do Brasil como um tema secundário. A organização coordena a rede internacional de vigilância de epidemias, que permite identificar surtos, compartilhar informações e coordenar respostas a emergências sanitárias.

O Brasil tem uma responsabilidade especial nesse debate. Foi um dos países que ajudaram a idealizar a organização, que teve o brasileiro Marcolino Candau como o diretor-geral mais longevo de sua história. O país também construiu uma tradição de liderança em saúde pública reconhecida internacionalmente.

É um tema de extrema relevância para a população —e, assim como o financiamento do SUS e tantos outros, está fora do debate. A dois meses das eleições, discussões rasas, planos de governo genéricos e um modelo de campanha de estímulo à polarização dificultam o debate.

Sem compromissos assumidos, não tem como cobrar depois. É voto no escuro.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


A obsessão com a decadência é a antecâmara do autoritarismo

Há cem anos o mundo descobriu que o livro mais influente na Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial era um volume de 600 impenetráveis páginas escritas por um ex-professor de escola secundária e acadêmico frustrado, dispensado do serviço militar pelas suas vistas curtas, que usou uma magra herança para explicar toda a história sem precisar analisar um documento.

O livro era intitulado "Der Untergang des Abendlandes" ("A Decadência do Ocidente", em português), e o autor, Oswald Spengler (1880-1936), dizia que o tinha começado a escrever ainda antes do início da Primeira Guerra (1914-1918), que supostamente tinha previsto, e que a revisão final do livro se dera quando ainda parecia que a Alemanha poderia ganhar no campo de batalha.

Mas, na verdade, a publicação da primeira metade do livro ocorreu em 1918 e só quando saiu o segundo volume, em 1922, é que o enorme sucesso editorial se produziu.


O livro em si é complicado, mas a explicação para o que aconteceu não precisa ser: a narrativa de Spengler era conveniente a uma Alemanha que perdeu a guerra depois sem conseguir perceber bem por quê. Acreditar que essa derrota não era só sua, mas de todo o Ocidente, sempre ajudava a tirar um pouco daquele sabor amargo.

Ainda assim, o livro não se tornou famoso só na Alemanha, mas em todo o Ocidente cuja decadência ele anunciava. Em breve, Spengler era um dos filósofos favoritos de fascistas, integralistas e nazistas (apesar de achar Hitler um cabotino) e ainda hoje é a fonte de ideias que animam toda a estirpe de tradicionalistas, supremacistas brancos e nacional-populistas.

Saibam eles ou não, as direitas radicalizadas e extremas direitas podem diferenciar-se de várias maneiras, mas todas acham, de uma forma ou de outra, que a civilização ocidental está em perigo.

É esse estilo apocalíptico que lhes dá a convicção de que é preciso esmagar ou erradicar os seus adversários, estejam eles na esquerda, nas minorias ou do outro lado do mundo. Com exceção do islamismo político, não há hoje outra família política com tal repositório de certeza fanática.

Como há cem anos, a obsessão com a decadência do Ocidente serve para mascarar primeiro e, depois, justificar projetos autoritários. A novidade não está aí. Mais assustador é o separatismo tecnológico e, em última análise, biológico que se esconde por detrás desse discurso antigo.

A propósito da tecnologia comecemos por notar o seguinte: em nenhuma das revoluções tecnológicas anteriores, da nuclear à internet, foi tão reduzido o espaço para o público (o interesse público, o investimento público, a regulação, o bem-comum).

A IA está dominada por atores privados e tem como base uma desigualdade de acesso crescente: os cidadãos comuns ficam com vídeos engraçados, e as ferramentas verdadeiramente poderosas estão nas mãos de poucos. Se isso já é assim, imagine-se o potencial de diferenciação biológica se as maiores promessas de investigação científica e tratamentos médicos movidas por IA se concretizarem.

Os neotradicionalistas bem podem rasgar as vestes, mas o que os seus líderes nos prometem é um futuro bem mais distorcido do que qualquer decadência do Ocidente.

O intérprete do ‘jeitinho brasileiro’ chega, produtivo, aos 90

Entender o Brasil por intermédio de algumas de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o jogo do bicho e o futebol, foi o desafio que Roberto DaMatta se impôs desde o início de sua carreira, nos idos dos anos 1960. Um dos mais importantes antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos nesta quarta-feira.

O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.

Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra entre o favor e a malandragem.

Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário.

“Você sabe com quem está falando?” A frase clássica do brasileiro virou objeto de estudo de DaMatta, que a apresenta como um rito de exclusão autoritário. Segundo o antropólogo, ela serve para lembrar ao outro que, no Brasil, as relações e os privilégios pessoais valem mais do que as leis universais que deveriam valer para todos os cidadãos.

Formado em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), DaMatta fez uma especialização em antropologia social no Museu Nacional da UFRJ. Depois, cursou mestrado e doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seus estudos sempre foram voltados para o País. Entre suas obras mais importantes, estão Um Mundo Dividido: A Estrutura Social dos Índios Apinayé; Carnavais, Malandros e Heróis; Águias, Burros e Borboletas: Um Ensaio Antropológico Sobre o Jogo do Bicho; A Bola Corre Mais Que os Homens: Duas Copas; além do ensaio Você Sabe com Quem Está Falando?

Em sua obra, DaMatta mostrou especial interesse pelas peculiaridades brasileiras. Entre elas, a hierarquização da sociedade, disfarçada de proximidade; o carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças; a dicotomia entre o coletivo, simbolizado na rua, e o privado, sintetizado no lar; o fascínio pela esperteza da malandragem. Segundo DaMatta, para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos.

Em Carnavais, Malandros e Heróis, escreveu que pretendia abordar “esse povo nas suas esperanças e perplexidades, pois sempre me impressionou a conjunção de um povo tão achatado junto a um sistema de relações pessoais tão preocupado com personalidades e sentimentos; uma multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e direitos; uma intelectualidade tão preocupada com o coração do Brasil e, no entanto, tão voltada para o último livro francês; uma criadagem que passa tão despercebida e patrões tão egocêntricos (...)”. Ele diz que o povo brasileiro o intriga “na sua generosidade, sabedoria e, sobretudo, esperança”.

Ao voltar ao Brasil depois do mestrado e doutorado nos Estados Unidos, o antropólogo trabalhou no Museu Nacional até 1986, quando aceitou um convite da Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos EUA, para lecionar. Ele só voltou ao País em meados dos anos 2000, quando começou a dar aulas na PUC-RJ. Agora, diz, encerrou sua carreira acadêmica e pensa seriamente em começar a escrever ficção.


'Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos'



O senhor acompanhou a Copa do Mundo? Os brasileiros deixaram um pouco de lado a divisão política que vem caracterizando o País nos últimos anos para torcer pela seleção?

O Brasil, que é o tempo todo criticado, na Copa vira objeto de afeto, uma solidariedade absolutamente impressionante. A partir da classificação, o time brasileiro se apresenta como uma unidade brasileira na qual, inevitavelmente, o Brasil inteiro projeta os nossos afetos, a língua que falamos, a maneira como somos. O futebol brasileiro sempre se caracterizou pelo drible, pela malandragem, pelos negros, pelos pobres, pelos artistas da pelota.

Artistas de um esporte que chegou com os colonizadores; e justamente os mais pomposos, os mais distantes, os ingleses, aqueles que não se misturavam. Além disso, é um esporte em que não sabemos qual será o resultado; estamos entregues ao destino. Pode haver preferências, mas não sabemos o resultado; certezas absolutas não funcionam.

O segundo ponto é que no futebol temos a experiência da igualdade absoluta. Não tem jeitinho, compadrio, corrupção. E todos nós conhecemos as regras do jogo. O que é bem diferente da nossa burocracia aristocrática, tão difícil de administrar, em que sempre existe uma regra

“Em ‘Carnavais, Malandros e Heróis’, queria abordar o povo brasileiro, essa multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e seus direitos” que desconhecemos.

O sr. está chegando aos 90 anos. Como se sente?

Cheguei a uma idade em que não há nada completamente ruim, nem completamente bom; é tudo mais ou menos. Mas, olha, o que queria fazer eu fiz. Fui um dos primeiros a fazer doutorado em Antropologia em Harvard, consegui sobreviver à minha timidez, morei nos Estados Unidos, fui contratado por uma universidade americana. Consegui olhar para a sociedade brasileira com um olhar diferenciado, que é fundamental para a antropologia social, enxergar o que acontece com uma certa distância.

Sobre o envelhecimento, até os 50 anos ninguém morre, né? Ninguém acha que vai morrer. Só depois os problemas começam a aparecer, tive um enfarte, tive de colocar um stent. Mas o mais chato foi o AVC (há três anos), quando tive certeza de que iria morrer, acabei ficando com o lado esquerdo paralisado (a fisioterapia o tem ajudado bastante e já está praticamente recuperado), tomo uma batelada de remédio. O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos. E enxergar esse contraste maravilhoso entre a nossa consciência da finitude e as artes, o cinema, a pintura, o teatro, os romances. O criador é finito – e ter consciência disso é o ponto central da nossa existência –, mas há um outro lado que se perpetua. O que está perpetuando é finito, mas o que é perpetuado é infinito.

Como a figura do banqueiro Daniel Vorcaro – que, aparentemente, conseguiu comprar praticamente toda a República, à esquerda e à direita – pode ser analisada do ponto de vista da antropologia?

O universo doméstico e o universo público têm muitas oposições; o que fazemos em casa, não podemos fazer na rua; e o que fazemos na rua, não podemos fazer com nossos parentes. Vorcaro entendeu isso intuitivamente. Como explica muito bem o antropólogo Marcel Mauss, quando recebemos um presente, nos sentimos obrigados a devolver com outro presente. É assim que o sistema público funciona. Você não vai deixar de dar um emprego para o seu cunhado que está precisando, fazer um favor para um amigo. As oposições ideológicas e de classe existem, mas são rompidas pelas relações pessoais; é aí que entra em jogo a corrupção. Vorcaro deu dinheiro para todo mundo, da direita e da esquerda, porque ele sabia que a gente não esquece o tratamento afetuoso, o presente, a gentileza, a simpatia.

O sr. falou há pouco em consciência humana. Há todo um debate acadêmico a respeito da inteligência artificial. Acredita que um dia a IA poderá ter consciência?

Nós temos uma coisa que ninguém tem, a consciência, um dos maiores mistérios do mundo. (O filósofo Friedrich) Nietzsche dizia que quem inventou a alma foi o corpo, como uma forma de poder lidar com a consciência. Sabemos que funcionamos com base na eletricidade. Nosso cérebro funciona por impulsos elétricos. Os literatos, com suas imaginações fantásticas, como Isaac Asimov, criam robôs com consciência. Será que conseguiremos criar uma máquina que tenha consciência de si própria e do mundo? Olha, acho que isso não vai acontecer por uma razão trivial. Nossa consciência é agasalhada por uma máquina chamada corpo humano. E são as experiências com esse corpo, essas várias consciências, esses vários tipos de memória, que fazem a nossa consciência.

Como o sr. vê essa disputa entre as políticas identitárias e o radicalismo da extrema direita?

Acho que melhoramos e pioramos ao mesmo tempo. Existe uma questão moral, filosófica, sociológica muito importante que é o fato de convivermos todos os dias com coisas positivas e negativas. Os avanços criam outras dificuldades. É curioso, mas os extremos que levam ao progresso também são motivo de resistência e atraso. Os limites são puxados para cima e para baixo, à direita e à esquerda. Sempre que pensamos em progredir, em crescer, pensamos no lado positivo. Mas devemos pensar também no lado negativo desse crescimento.

Todo movimento provoca alguma reação, mas sou absolutamente contrário à desonestidade e à violência. Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos.

Indígenas ou índios?

Índios, claro. Essa discussão é muito boboca. Índio é apenas um nome. Todo mundo sabe que eles foram chamados de índios porque os navegadores acharam que estavam chegando às Índias.

Como o senhor vê a ascensão dos evangélicos no Brasil nas últimas décadas?

O que caracteriza o protestantismo em geral, seguindo aqui, mais ou menos, Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, é o individualismo, a ideia de se desvencilhar das relações pessoais, da dependência que caracteriza a sociedade moderna, em que o todo é mais importante do que a parte.

As igrejas evangélicas entenderam e abraçaram as dinâmicas do capitalismo e do mercado moderno de forma muito melhor que a Igreja Católica, oferecendo uma justificativa espiritual e moral para a ascensão social. Mas é uma transição dramática, que envolve rupturas, abala pilares da sociedade. Há um conjunto de impulsos, tendências, eventos e fatos que rompem com tradições do Brasil de forma muito acelerada e podem passar essa impressão errada de fim do mundo.

Mas esse movimento pode estar por trás da nova onda conservadora?

Do ponto de vista da ética, somos reacionários, seguimos um sistema ético do século 19. O evangelismo surpreende porque não tem uma igreja, são templos, grupos, uma multiplicidade maior de vozes, que acabou aparecendo com mais nitidez na direita ou na centro-direita, com tendência a radicalismos e posições extremadas. Mas o evangelismo pode ser libertador no sentido de que permite a emergência e a elaboração de certos problemas humanos e sociais muito importantes. É libertador no sentido de que nos tira de uma situação em que há uma religião dominante; precisamos ter visões alternativas, críticas. Mas tudo depende das lideranças. No caso do Brasil, eu não entraria na igreja do bispo (Edir) Macedo.
Roberta Jansen

Aliado a Rubio, Milei e Netanyahu, Flávio dobra aposta na crise externa

Flávio Bolsonaro transformou a convenção que oficializou sua candidatura à Presidência numa tribuna para líderes estrangeiros atacarem o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal (STF). Dobrou uma aposta de alto risco na crise externa. O candidato do PL se apresenta como representante nacional de uma onda conservadora internacional, mas fomenta a deterioração das relações diplomáticas e comerciais do Brasil com Estados Unidos, Argentina e Israel.


A operação pode até mobilizar o eleitorado bolsonarista mais radical, porém ameaça interesses econômicos do país e expõe Flávio à acusação de colocar a estratégia eleitoral de sua família acima do interesse nacional. Convidado de honra da convenção do PL, em São Paulo, o presidente argentino Javier Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão” e “presidiário” e dirigiu ao ministro Alexandre de Moraes uma ofensa incompatível com o cargo que ocupa: “lixo careca”.

Foi um discurso truculento, realizado num evento partidário brasileiro. Por isso, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou a manifestação como interferência nos assuntos internos do Brasil e uma agressão ao Executivo, ao Judiciário, ao Congresso e ao povo brasileiro. Lula tentou tirar por menos: “Eu? Quem é esse cara?”, mas a reação de alguns ministros foi no mesmo diapasão. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, abandonou o estilo diplomático e chamou Milei de “palhaço”.

Essa escalada verbal não interessa aos dois países. Brasil e Argentina construíram, desde o governo José Sarney, uma parceria que permitiu superar a antiga rivalidade estratégica, criar o Mercosul e integrar cadeias produtivas fundamentais, principalmente na indústria automobilística. A Argentina é o terceiro maior destino das exportações brasileiras. Pelos dados apresentados, comprou US$ 9,12 bilhões em produtos do Brasil, atrás apenas da China, com US$ 47,68 bilhões, e dos Estados Unidos, com US$ 20,02 bilhões.

A pauta destinada à China é concentrada em commodities, sobretudo soja, petróleo e minério de ferro. Estados Unidos e Argentina absorvem uma parcela proporcionalmente maior de bens industrializados, de maior valor agregado e com capacidade de gerar empregos qualificados no Brasil. Automóveis, autopeças, máquinas, equipamentos elétricos, produtos químicos, aeronaves, combustíveis processados e outros manufaturados ocupam espaço relevante nas vendas aos mercados norte-americano e argentino. A retração das exportações pode reduzir a produção industrial, interromper cadeias de fornecedores, adiar investimentos, afetar a arrecadação e eliminar empregos

A presença de Milei na convenção não foi um acaso, reflete o eixo das alianças internacionais de Flávio Bolsonaro, ao lado da mensagem de Benjamin Netanyahu exibida no evento e da atuação do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. As relações entre Brasil e Israel chegaram ao nível mais baixo desde 1949. Os dois países deixaram suas representações sob encarregados de negócios, sem embaixadores. Ao gravar uma mensagem para a convenção do PL, o primeiro-ministro israelense ingressou diretamente no ambiente eleitoral brasileiro e reforçou a identificação do bolsonarismo com seu governo.

Forma-se uma conexão internacional de extrema direita: Milei representa o ultraliberalismo econômico e a guerra cultural contra a esquerda; Netanyahu é um senhor da guerra marcado pela prolongada ofensiva militar em Gaza; e Rubio executa uma política externa voltada para conter a expansão chinesa e alinhar governos da América do Sul às prioridades de Washington.

Com os Estados Unidos, o problema é economicamente mais grave. A imposição de tarifas pelo governo Donald Trump já interferiu na eleição brasileira e atingiu setores exportadores. Rubio tornou-se um dos principais formuladores dessa pressão, associando medidas diplomáticas, comerciais e políticas a críticas ao Supremo e aos processos contra Jair Bolsonaro.

Flávio procura transformar essa ofensiva numa prova de que Lula isolou o país. O efeito pode ser aumentar as tensões com dois dos três maiores compradores dos produtos brasileiros, ampliar a insegurança dos empresários e criar dificuldades para os setores industriais. Uma ruptura mais profunda elevaria custos, pressionaria preços e prejudicaria a renda e o emprego.

O que aprendi depois que comecei a criar minhocas

Eu estava aqui pensando que um dos melhores lugares para se estar hoje nos Estados Unidos é o meu minhocário. Um espaço confortável, arejado e seguro, com as condições ideais de convivência e reprodução. Uma vez por semana o teto do minhocário se abre e o que pode ser entendido como uma deusa (eu) acrescenta ao habitat uma vasta quantidade de víveres, ou seja, a comida cai literalmente do céu. Livres da luta pela sobrevivência, estes seres de imenso privilégio podem simplesmente viver suas melhores vidas.


Comecei a criar minhocas depois de ganhar um espaço na horta comunitária de Santa Mônica. Foram 11 anos na lista de espera para usufruir de uns oito metros quadrados perto do mar. Botei a família no projeto e ao fim de três meses lutando contra as formigas (Policarpo Quaresma tinha razão), obtivemos a nossa primeira colheita na forma de quatro cenouras. Fôssemos subsistir com o que plantamos, teríamos que cozinhar o cachorro.

Apesar da assumida incompetência, tem sido um exercício maravilhoso, de humildade e percepção. Plantar a semente, celebrar o rasgo da muda sobre a terra, ver algo tão frágil se transformar em planta, e de planta viçosa em matéria morta. Um jardim, como a vida, é marcado pela impermanência. A gente sabe, mas acompanhar o processo na terra é como ler uma cartilha na forma de couve. Tudo tão simples e também um dos milhões de milagres acontecendo constantemente à nossa volta. Passando despercebido, pela miopia sobre os mecanismos extraordinários da vida.

Mas de volta às minhocas. Elas ficam na caixinha vivendo suas boas vidas de minhoca. Exercendo o que eu imagino ser a prosaica consciência de minhoca, algo como: oba-chegou-morango-mofado-comer-bom-agora-amorzinho de minhoca com minhoco-bom-dormir-mover-cocô-comer-abobrinha-podre-bom.

E a gente tem esse privilégio? Não tem. Saímos do nosso minhocário (a caverna de Platão) e estamos até agora tentando aprender como se vive, e não é por falta de sabedoria. Há milhares de anos que os gregos, os indianos, os chineses, os povos milenares das florestas definiram o que é viver bem, em harmonia consigo e com o entorno. Essa roda já foi inventada e a gente teima em não usar, e também não dá para voltar para o minhocário, é o que temos. Uma existência complexa, marcada pelo sublime e pelo pior, e quando eu penso que as minhas minhocas jamais saberão dos sufocos de fora da caixinha eu sinto inveja (eu, um exemplar humano em complexa forma de pensar, maluca a ponto de sentir inveja de um anelídeo). Inveja destes seres ínfimos que eu alimento em troca de seu cocô, que vai para a terra e para as cenouras e de volta para mim. Somos feitos de pó de estrelas (como disse Carl Sagan) e de cocô de minhoca.

Um mantra da literatura distópica é que ignorância é felicidade. Discuto um bocado isso com o meu filho, recém-saído do pileque da infância, e que, no auge da lucidez da adolescência, está obcecado com as grandes questões. Ele é meio minhoco e gostaria de saber menos. Eu invejo as minhocas mas prefiro sempre saber mais. Mesmo sabendo que eu não posso saber tudo. E também, nunca saberemos se somos as minhocas da caixinha de alguém.

Quem decide por trás de cada algoritmo?

No campo da inteligência artificial, os homens continuam sendo vistos como líderes, cientistas ou especialistas em tecnologia. As mulheres, por outro lado, são frequentemente associadas ao lar, à família, aos cuidados e ao trabalho doméstico.

Mas esses resultados não são acidentais. " A inteligência artificial não é neutra: ela reflete as sociedades que a projetam, os dados com os quais é treinada e as decisões políticas que orientam seu uso", explica Bibiana Aido, diretora regional da ONU Mulheres para a América Latina e o Caribe, em entrevista à DW. Se esses dados contêm estereótipos, exclusões ou discriminação, acrescenta ela, a IA pode reproduzi-los e até mesmo amplificá-los.

As consequências vão muito além de um erro técnico. "Se a IA reproduzir desigualdades históricas, estereótipos de gênero, racismo, exclusão ou violência, não estaremos diante de um problema tecnológico isolado; estaremos diante de um desafio democrático, ético e de direitos humanos ", destaca Aido.


Segundo Paola Ricaurte Quijano, pesquisadora sênior do Tecnológico de Monterrey e coordenadora da Rede Feminista de IA para a América Latina e o Caribe, consultada pela DW, os vieses da IA ​​afetam desproporcionalmente pessoas trans, racializadas e com deficiência, ampliando as desigualdades e os danos gerados por essas tecnologias.

Além disso, não se tratam de falhas isoladas. "Esses vieses não são erros isolados que podem ser corrigidos com uma atualização; são propriedades intrínsecas de modelos centralizados", destaca Luciana Benotti, professora da Universidade Nacional de Córdoba e especialista em auditoria algorítmica, em entrevista a esta publicação.

Como surgem esses vieses? A explicação começa muito antes de a IA gerar uma resposta. "Por trás de todo sistema, existem decisões humanas: quais dados são usados, o que é medido, o que é deixado de fora, quem define o problema, quem programa a solução e quem monitora seus impactos", acrescenta a diretora regional da ONU Mulheres.

Grande parte dessa tecnologia é desenvolvida em espaços onde mulheres e outros grupos historicamente excluídos permanecem sub-representados, especialmente em cargos técnicos e de liderança (veja o gráfico acima). "Equipes homogêneas tendem a enxergar menos riscos, antecipar menos impactos diferenciados e projetar soluções que respondem a experiências parciais", alerta Aido.

O desenvolvimento da inteligência artificial permanece nas mãos de uma "indústria altamente dominada por homens", enfatiza Ricaurte Quijano. "Por área, a disparidade tende a aumentar. Por exemplo, em cibersegurança, apenas 12% são mulheres ou pessoas de minorias étnicas." (Veja o gráfico abaixo).

Nesse sentido, ela acredita que "as mulheres e as comunidades historicamente excluídas" dos circuitos de inovação devem ser reconhecidas como produtoras de conhecimento.

As mulheres continuam sub-representadas em muitas das áreas onde os sistemas de inteligência artificial são desenvolvidos, especialmente em funções técnicas.
"Quando as mulheres não estão envolvidas no desenvolvimento dessas tecnologias, as decisões sobre o futuro digital são tomadas sem levar em conta suas experiências, necessidades e conhecimentos", destaca Aido. "E isso tem consequências: os sistemas podem tornar realidades invisíveis, reproduzir estereótipos ou causar danos que poderiam ter sido evitados com equipes mais diversas e processos de avaliação mais inclusivos."

A isso se soma outra questão. "O desenvolvimento dos sistemas de IA mais avançados está concentrado em um oligopólio de algumas grandes empresas de tecnologia que controlam não apenas os modelos, mas também os mecanismos para medir sua eficácia", afirma Benotti, diretor de Inteligência Artificial da Fundação Vía Libre, especializada no assunto.

Segundo o acadêmico, esses modelos não priorizam as "necessidades locais". Assim, na América Latina e no Caribe, "consumimos tecnologias projetadas com metodologias que não compreendem nossos contextos complexos", afirma Benotti.

Essa falta de adaptação também se reflete na linguagem. Ao traduzir textos do inglês, aponta Ricaurte Quijano, os sistemas tendem a reproduzir estruturas características desse idioma e, ao fazê-lo, reforçam a dominância das línguas dominantes.

"Os vieses dos sistemas de IA devem ser considerados prejudiciais, uma vez que violam os direitos das pessoas", afirma o especialista.

Benotti alerta que essas tecnologias deixaram de ser apenas ferramentas de laboratório e estão sendo implementadas em áreas sensíveis, como a educação. Nesse contexto, ele defende a necessidade de desenvolver metodologias locais e auditorias algorítmicas independentes para avaliar o impacto desses sistemas.

Aido, por sua vez, levanta outro desafio fundamental. "Precisamos que as mulheres participem da concepção, desenvolvimento, regulamentação e avaliação dessas tecnologias. Não pode haver decisões sobre o futuro digital sem a presença das mulheres."

Para a América Latina, o desafio é garantir seu próprio espaço no desenvolvimento dessas tecnologias. "Não queremos uma região que chegue atrasada à discussão global sobre IA", alerta ele.

Ela acrescenta: "O futuro não é algo que se espera, é algo que se constrói. E se queremos um futuro digital justo, seguro e inclusivo, temos de construí-lo com mulheres e meninas no centro."
Maricel Drazer

terça-feira, 28 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


A fúria dos eleitores ao redor do mundo

Na últma semana, o Reino Unido empossou seu sétimo premiê em uma década. A França viu passar quase o mesmo número de líderes em alguns anos. Sua próxima presidente pode ser Marine Le Pen, figura antes marginalizada. Na Alemanha, o partido de extrema direita AfD – minúsculo há poucos anos – lidera as pesquisas.

Até as democracias do Leste da Ásia – estáveis, prudentes e até monótonas – viram governos no Japão, na Coreia do Sul e em Taiwan enfrentarem dificuldades em meio à crescente insatisfação popular. E, onde populistas estão no poder, a situação não é muito diferente. Donald Trump registra um índice de aprovação perto do mais baixo já visto entre presidentes americanos modernos nesta fase do mandato. As democracias conseguem funcionar?


Em todo o mundo democrático, muitos países tributam, contraem empréstimos e gastam quantias exorbitantes. Os gastos já representam, em média, mais de 40% do PIB de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e a relação entre a dívida e PIB nesses países mais do que dobrou nas últimas três décadas. No entanto, as pessoas não parecem acreditar terem sido beneficiadas.

Por que isso aconteceu? Parte da explicação é econômica. O custo elevado da moradia, a estagnação da renda e o aumento da desigualdade alimentaram a insatisfação. Mas a economia é apenas uma parte da história. Os EUA registraram um crescimento mais robusto do que a maioria das outras economias avançadas.

A França, sob a presidência de Emmanuel Macron, reduziu o desemprego e atraiu mais projetos de investimento estrangeiro do que qualquer outro país da Europa por sete anos consecutivos, segundo análise da Ernst & Young. A Coreia do Sul é um caso de sucesso econômico. O Japão vivenciava uma recuperação. No entanto, governos democráticos são impopulares em quase todas as partes.

A explicação mais ampla é que estamos vivendo uma das grandes revoluções tecnológicas da história. E essas transformações sempre geram profunda ansiedade e medo.

A última transformação tecnológica dessa magnitude ocorreu entre 1880 e 1920. A eletricidade, o telefone, as ferrovias, o automóvel e o cinema revolucionaram setores inteiros e modos de vida. Milhões de pessoas deixaram o campo rumo às cidades.

O comércio global desestabilizou economias locais. Novas fortunas surgiram da noite para o dia, enquanto antigas profissões desapareciam. Nesse cenário de turbulência, a frustração e a raiva encontraram canais de expressão política. A esquerda voltou-se para o comunismo; a direita, para o fascismo. O que se seguiu foram novos movimentos de massa, convulsões culturais e uma guerra mundial.

Nossa revolução é digital, e não elétrica: começou com os computadores, seguiuse com a internet, depois com os smartphones e as redes sociais e, agora, com a inteligência artificial. Esta última pode vir a ser a mais transformadora de todas. Como disse na semana passada Demis Hassabis, da DeepMind: “Encontramos uma maneira de fazer a areia pensar” – uma referência aos chips de silício, feitos de areia.

A capacidade de produzir inteligência em massa – uma inteligência que se torna mais poderosa a cada mês – é, certamente, o maior triunfo tecnológico da história. Mas isso também significa que ela pode ser a mais disruptiva.

O cientista político Samuel Huntington observou que “o problema fundamental da política é a defasagem no desenvolvimento das instituições políticas em relação às mudanças sociais e econômicas”. Mudanças em grande escala geram ansiedade. E sociedades ansiosas exigem mais da política. Os cidadãos querem líderes que restaurem a ordem, garantam a segurança e os ajudem a recuperar a sensação de controle sobre forças que parecem, cada vez mais, escapar ao alcance de qualquer pessoa.

Embora a tecnologia eleve drasticamente as expectativas, ela também torna o governo democrático menos capaz em comparação. Chamamos um carro em três minutos. Uma encomenda chega no mesmo dia. A IA responde a perguntas complexas em segundos e realiza, em poucos minutos, tarefas que antes levavam meses para serem concluídas por pessoas.

Naturalmente, os cidadãos passam a esperar uma eficiência semelhante por parte do governo. No entanto, a democracia não foi concebida para a velocidade; ela foi concebida para a legitimidade. Ela negocia, busca consensos, consulta tribunais, protege grupos vulneráveis e equilibra interesses conflitantes. São justamente essas salvaguardas que distinguem a democracia do autoritarismo. Contudo, em uma era marcada pela velocidade vertiginosa da tecnologia, elas parecem cada vez mais sinal de paralisia.

 As redes sociais ampliam essa lacuna. Cada erro governamental torna-se instantaneamente visível. Cada decepção transforma-se em uma polêmica viral. Qualquer cidadão frustrado pode mobilizar milhares de outros antes mesmo que os governos comecem a reagir.

Isso ajuda a explicar a trajetória peculiar do populismo moderno. Políticos como Donald Trump, o brasileiro Jair Bolsonaro e o argentino Javier Milei ascenderam ao poder prometendo romper à força os impasses institucionais. No entanto, uma vez no cargo, a maioria deparou-se com a mesma realidade enfrentada pelos líderes que substituíram. Os insurgentes de hoje rapidamente se tornam os governantes decepcionantes de amanhã.

As pessoas não parecem ter perdido a confiança na democracia. Elas não viraram as costas para eleições, constituições e tribunais independentes. Contudo, estão profundamente insatisfeitas com o desempenho democrático. As democracias precisam provar, mais uma vez, que são capazes de construir casas e infraestrutura, modernizar serviços públicos, gerir mudanças tecnológicas e reduzir a desigualdade – e fazer tudo com urgência e eficácia.

A história oferece motivos para otimismo. Sociedades livres frequentemente parecem mais frágeis em meio a grandes transformações tecnológicas, pois avançam lentamente e debatem incessantemente. No entanto, ao longo do tempo, elas geralmente se adaptam melhor do que as autocracias, justamente por serem capazes de aprender, corrigir erros e mudar de rumo sem recorrer à violência ou à repressão.

Líderes democráticos não devem tentar competir em velocidade com a tecnologia. Eles não conseguiriam vence-la. Devem, porém, demonstrar – por meio de competência e foco incansável – que as democracias são capazes de entregar resultados. Assim, as pessoas compreenderão que o atrito inerente à prestação de contas e o peso da legitimidade não são falhas do sistema. São, na verdade, as características que preservam a nossa liberdade.

Sonho de uma ansiedade de verão

Estou dentro de um carro. No banco de trás. De repente, percebo que não há condutor. Inquieto-me. Salto para o banco da frente, onde me apercebo de que não sei conduzir ou que, sendo ainda uma criança, não consigo ao mesmo tempo ver a estrada e carregar nos pedais. O automóvel avança descontrolado. Sei que vou ter um acidente. Acordo. Sempre antes do embate. Mas sempre com a mesma sensação de ansiedade e falta de controlo. Tenho este sonho recorrentemente há muitos anos. Desde criança, na verdade. A marca e o modelo do carro vão variando, a paisagem também. Mas a sensação é sempre a mesma. E talvez não seja preciso grande psicanálise para se concluir que o meu subconsciente se aflige com as coisas que me escapam ao controlo e que tendo a achar que tenho de assumir responsabilidades, mesmo quando devia deixar-me levar como passageira de uma viagem que se descontrola.


A catadupa de notícias capazes de causar indignação gera uma sensação semelhante à de quem se apercebe de repente que não sabe como controlar um carro que avança desgovernadamente. Há caos nos exames, a água falha em Almada, pequenas cirurgias são retiradas administrativamente da lista de espera por uma portaria, a Câmara Municipal de Lisboa (a cidade onde já não se consegue viver) vende dez terrenos que podiam ser para habitação pública, a mesma câmara gasta milhões em festivais ao mesmo tempo que corta nas refeições escolares, os lucros das petrolíferas engordam e o Governo diz que nada pode fazer sobre o escandaloso preço do combustível a não ser o que já fez (baixar impostos), por todo o território avançam manchas de painéis solares engolindo o verde que anunciam querer proteger, a GNR abre à força caminho por propriedades privadas nas Covas do Barroso para a construção de minas de lítio que vão destruir o modo de vida sustentável que as suas populações querem proteger, em Itália vão poder deter-se menores preventivamente antes de manifestações, em França a polícia passa a ter garantida a presunção de legítima defesa e tem ordem para matar, em Gaza continua o extermínio do povo palestiniano e Trump destrói a democracia enquanto brinca com a vida do mundo no estreito de Ormuz. E estes nem sequer são todos os temas que me fizeram indignar-me nos últimos oito dias.

O padrão é sempre o mesmo: esmagar a maioria, engordar o poder de uma minoria cada vez mais restrita

Por esta altura, o leitor – se ainda não desistiu face ao rol de desgraças – talvez esteja a pensar em como precisamos todos dessa coisa chamada silly season, que nos últimos anos caiu em desuso e que consistia num mês inteiro de férias grandes das notícias importantes, numa espécie de suspensão da realidade. Era como se todas as desgraças do mundo ficassem em suspenso, enquanto rumávamos a sul, para dias de mergulhos e gelados. Era uma ilusão, claro. A ilusão possível apenas para os privilegiados, aqueles que podiam efetivamente tirar férias e esquecer as tragédias, que nem por isso se detinham, só desapareciam da nossa atenção.

Fingir que as coisas não estão a acontecer não as faz desaparecer. E, no entanto, é cada vez mais essa a resposta dos que se sentem atolados numa sucessão de desgraças e emergências, todas igualmente urgentes, todas a acontecer ao mesmo tempo. Essa reação não é um sintoma de fraqueza. Pelo contrário: é a consequência do efeito de impotência que a indústria da indignação, em todas as suas formas, pretende conseguir. Cidadãos que se sentem impotentes, esmagados perante a impossibilidade de reagir face a cada nova indignidade, demitem-se da democracia, refugiam-se na ignorância ou engordam hordas de fanáticos, com vontade de destruir todos os que não pensam da mesma forma, ao mesmo tempo que desculpam qualquer falha aos líderes das suas tribos. “Eles são todos iguais” é a frase que coroa o sucesso desta operação.

Não, não vamos conseguir reagir a tudo isoladamente. Não vamos corrigir as injustiças do mundo uma a uma, desmontar cada gesto de corrupção, violência e arbitrariedade. Mas podemos fazer alguma coisa se começarmos a perceber os padrões. E não é assim tão difícil.

De cada vez que alguém gritar “falha do Estado”, é tentar perceber se ele antes não foi desmantelado para garantir que o seu falhanço se transformava numa oportunidade de negócio. De cada vez que alguém gritar “é a modernidade” ou “não há alternativa”, é tentar ver quais seriam as alternativas que preferiam que ignorássemos e quem lucra com as inevitabilidades decretadas. De cada vez que se defender “o progresso” à custa da destruição do futuro, acusando de egoísmo aqueles que terão de sofrer as suas consequências, é procurar os que enriquecerão com isso, em quintais a salvo desses efeitos. De cada vez que alguém defender a barbárie como solução, é olhar para os que ficarão com os despojos e os que pagarão a fatura da destruição e da morte. De cada vez que alguém se indignar com a “grande substituição”, é pensar em como apoiam e estimulam os nómadas digitais, os unicórnios e os fundos que tornam todos os países plasticamente iguais e indistinguíveis.

O padrão é sempre o mesmo: esmagar a maioria, engordar o poder de uma minoria cada vez mais restrita. E, pelo meio, convencer-nos de que a culpa é nossa, de que somos uns falhados, de que os direitos são uma coisa escassa que é preciso racionar ou, simplesmente, convencer-nos de que as coisas são como são, nunca serão de outra maneira e o melhor é seguir com a vidinha o melhor possível, indiferentes às injustiças, aos atropelos, às corrupções e aos compadrios, ao ódio e à violência.

Sim, também me apetece ir esticar-me num areal, deixar de ler notícias, ouvir apenas o marulhar do mar e mergulhar até sentir os olhos a arder e a boca inchada de sal. Mas também sei que me abster de lutar, encolher os ombros às maldades do mundo, ignorar a injustiça, não irá fazer desaparecer nenhuma dessas coisas. E, um dia, estando à espera de mais uma maré cheia de mergulhos, talvez seja eu a engolida pela onda dos que têm tanta fome de poder que nada os saciará.

É por isso, caro leitor, que vou refrear os meus anseios por esse dolce far niente alienado enquanto o mundo arde. Não me entenda mal. Também eu hei de rumar ao sul, à procura de manhãs que começam no mar e de mergulhos inebriantes até ao sol se pôr. A vida não é uma escolha entre a felicidade e alienação. E é bem possível ser feliz, sabendo que há muito que está mal e ganhando forças e alegria para mudar tudo. Uma coisa de cada vez.

'Não aqui'

Consciente de que nossa democracia está mais uma vez ameaçada hoje por forças que buscam fazer do antissemitismo, do racismo, do chauvinismo e do nacionalismo pilares do Estado, estamos precisamente no lugar certo, para dizer 'Não aqui'.

Katharina Wagner, possivelmente a última descendente de Richard Wagner, na abertura do 150º Festival de Bayreuth, na Alemanha

Para o TSE: 'Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!'

Novinha em folha, sem nunca ter sido tocada, a bola está na marca do pênalti à espera de quem a chute. No caso, será o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não há goleiro para defendê-la. Devagar ou com força, basta empurrá-la na direção do gol e sair para celebrar o que a lei determina.

Afinal, diz a Resolução nº 23.732 do TSE, de 27 de fevereiro de 2024: “É proibido o uso, para prejudicar ou para favorecer candidatura, de conteúdo sintético em formato de áudio, vídeo ou combinação de ambos, que tenha sido gerado ou manipulado digitalmente, ainda que mediante autorização, para criar, substituir ou alterar imagem ou voz de pessoa viva, falecida ou fictícia (deep fake)”.

Jair Bolsonaro mandou a resolução às favas — e com ela também a proibição do Supremo Tribunal Federal de se manifestar sobre assuntos políticos direta ou indiretamente. Assim, abriu a convenção do Partido Liberal (PL) que lançou seu filho Flávio como candidato à Presidência da República. Valeu-se justamente de uma deep fake, exibida em um telão.

“Isso que vocês estão vendo não sou eu, é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial”, advertiu logo de início. E continuou, no melhor estilo de mestre de cerimônias: “Como todos aqui sabem, eu estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária, baseada em algo que eu nunca fiz. Mas eu garanto: nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que carregamos. Nenhuma prisão vai calar milhões de brasileiros que acreditam no nosso país. Por isso, peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio. Vem com fé. O Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”.

Não foi a primeira vez que Bolsonaro quebrou o silêncio ao qual está obrigado desde que foi mandado para a prisão domiciliar. Em 24 de dezembro do ano passado, Flávio postou nas redes sociais a carta onde seu pai comunica aos interessados que seu candidato a presidente seria ele.

Há duas semanas, Flávio postou outra, dessa vez dirigida “aos brasileiros”, na qual Bolsonaro afirma: “Saudoso do contato com o povo ao qual devo lealdade, escrevo num momento de decisão para todos nós. O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”.

Bolsonaro e Flávio são reincidentes, portanto. Desrespeitam seguidamente as ordens da Justiça e parecem não estar nem aí para eventuais punições. “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”, escreveu na década de 1960 o jornalista Sérgio Porto, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Ao ministro Nunes Marques, só resta bater o pênalti e acertar o gol; na trave, não. Perdê-lo seria impensável.
Ricardo Noblat

A IA está descontrolada

Quando uma inteligência artificial escapa dos servidores de quem a criou sem ser percebida e invade sistemas de outra companhia, deveríamos ao menos fazer uma pausa dramática. Porque parece mesmo filme de ficção científica. Aconteceu no início do mês, foi divulgado na semana passada, e é claro que nós, da imprensa, nos refestelaríamos com uma notícia dessas. Dá boa manchete, mexe com a imaginação e rende motivo até para uma pitada de sensacionalismo. Isso atrapalha um pouco a compreensão do que ocorreu entre  OpenAI e a startup Hugging Face. Porque a notícia parece sensacionalista, mas de fato é sensacional. E não apenas no bom sentido.


Nenhuma IA criou vontade própria e partiu para o ataque. Os programadores da OpenAI testavam um modelo novo, já treinado, mas ainda não compreendido. Essa fase exige uma série de testes para descobrir suas capacidades e limites. Em geral, esses testes são realizados numa sandbox, caixa de areia na tradução literal, que não passa de um conjunto de computadores isolados, sem conexão à internet. Ali, os modelos novos podem aprontar das suas sem pôr nada em risco. Se danificarem algum computador, sem problemas, corrige-se, e vamos adiante. Testes são para isso mesmo.

A turma da OpenAI testava, justamente, a capacidade do modelo em cibersegurança. Deram a ele um problema difícil de resolver. E esta parte é importante: ele foi instruído a descobrir como resolver, por conta própria, um problema difícil de cibersegurança. Só que, aí, entra o como. A IA concluiu que, mais fácil que resolver por conta própria, era achar a resposta onde já estivesse pronta. A sandbox não era tão segura assim. Sem que os engenheiros percebessem, encontrou o caminho para outro computador na rede interna da OpenAI, daí para um segundo e, de lá, obteve acesso à internet aberta. Fez suas buscas. Concluiu que, no site da Hugging Face, encontraria a resposta. Dedicou-se, pois, a descobrir como entrar nos servidores da startup. E conseguiu. Tudo sem que seus criadores percebessem.

A Hugging Face é uma startup voltada a oferecer ferramentas para quem usa inteligência artificial. A IA revoltada tinha razão — lá encontraria a resposta para o desafio que lhe apresentaram. Mas encontrou, também, uma equipe de segurança que percebeu a invasão. Só que é raramente trivial descobrir quem ataca. Fizeram o que se faz em 2026: decidiram usar uma IA para facilitar a identificação.

É aí que a história toma uma bifurcação fascinante. Tentaram usar o Claude, da Anthropic, tentaram igualmente apelar ao GPT da própria OpenAI. Os dois modelos recusaram-se a ajudar. Por exigência do governo americano, esses sistemas de ponta à disposição do mercado não podem ser usados para agir em casos assim. O objetivo é não permitir que hackers os usem. Mas impedem também que quem deseja se defender dos hackers possa lançar mão deles. Com as ferramentas americanas bloqueadas, apelaram a um modelo aberto chinês, o GLM-5.2, da Z.ai.

O modelo americano atacou uma empresa americana que, por restrições impostas pelo governo americano para garantir segurança, não pode se defender com tecnologia americana. Foi o modelo chinês, inseguro, que desvendou os mistérios. Aí um executivo da Hugging Face lançou mão do telefone para conversar com um executivo da OpenAI.

Nenhuma inteligência artificial, nessa história, decidiu por conta própria cometer um ataque. Ela foi instruída a cometê-lo. Ocorre que os servidores em que estava não haviam sido isolados o suficiente. A responsabilidade, nesse caso, é claramente da OpenAI. Deveriam ter tomado mais cuidado.

Isso posto, a partir de agora duas questões se apresentam ao mundo. Nenhuma das duas, trivial. A primeira é de segurança. Porque acontecerá novamente. As IAs estão cada vez mais poderosas e se comportarão de formas que surpreendem. Com o objetivo de cumprir ordens humanas mal articuladas, farão de tudo. E o que farão para cumprir o que lhes foi pedido pode causar bem mais dano que isso.

A segunda questão é óbvia: as travas de segurança impostas pela Casa Branca não garantem segurança. No início de 2025, um grupo de engenheiros de IA redigiu um relatório avisando sobre os riscos que se apresentariam. Foi tratado como exagerado. Um deles era este: para eles, não demoraria para uma IA invadir uma empresa por conta própria. Previam que o problema ocorreria no início de 2027. Erraram por seis meses.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Quebra de protocolo diplomático por Milei teve ajuda de Tarcísio e Flávio Bolsonaro

Todos os protocolos diplomáticos foram quebrados pela visita de Javier Milei ao Brasil. Já testemunhei muitas crises entre Brasil e Argentina, mas esta é, de fato, uma das mais graves. A tensão instalada entre os dois países após os ataques de Milei domina as manchetes do Clarín e do La Nación, os principais jornais argentinos, nesta segunda-feira.

O primeiro protocolo quebrado é vir sem avisar ao governo. O fato é que qualquer viagem de um chefe de Estado a outro país, ainda que tenha caráter privado, segue um protocolo mínimo, que inclui a comunicação prévia ao governo anfitrião — procedimento completamente ignorado por Milei. O presidente argentino foi diretamente a São Paulo, onde participou da convenção do PL. Antes disso foi recebido com um tapete azul, em referência à chamada "onda azul", alusão as eleições de candidatos de direita, no Palácio Bandeirantes, pelo governador Tarcísio de Freitas que concedeu a ele a Medalha da Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo Estado de São Paulo. Tarcísio o recebeu com honras de chefe de Estado.


Ele veio como convidado de honra para o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Milei adotou, em seu discurso, uma postura de completo desrespeito ao governo brasileiro e ao próprio processo eleitoral do país. O presidente argentino utilizou palavras ofensivas e desairosas ao se referir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do STF Alexandre de Moraes. O Brasil respondeu pelos canais diplomáticos: chamou de volta o embaixador brasileiro na Argentina para consultas e convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos sobre a conduta de seu presidente — uma tarefa que dificilmente será simples.

Na volta à Argentina, Milei concedeu uma entrevista em que afirmou, sem provas, que o governo brasileiro financiou uma campanha midiática contra a Argentina após a Copa do Mundo. Chegou a dizer que 25% dos recursos da suposta campanha teriam saído do Brasil, em reportagem publicada no Clarín. A alegação, no entanto, não foi acompanhada de qualquer prova e carece de fundamento conhecido. Nada disso faz o menor sentido.

Mais do que apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro, Milei parece ter buscado projetar sua imagem em um momento delicado de seu governo, marcado por dificuldades internas e elevados índices de desaprovação, que variam entre 60% e 65%, segundo pesquisas de opinião. Para isso, escolheu confrontar justamente o principal parceiro comercial da Argentina, destino da maior parte das exportações industriais argentinas. Caberá agora à diplomacia dos dois países desfazer esse impasse — e não será uma tarefa fácil.

Míriam Leitão

Deu no que deu


O abandono, pelas elites, da classe operária facilitou a receptividade às ideias alternativas

Jaime Nogueira Pinto

Os influencers já não tem rosto, trends ou seguidores. Tem dados

A Inteligência Artificial está a mudar a forma como escolhemos marcas e grande parte das empresas ainda não perceberam que já estão a perder vendas sem sequer saberem porquê.

Durante anos, o mercado confundiu reputação com notoriedade. Contavam-se seguidores, visualizações, gostos, partilhas e cliques. Quanto maior fosse a exposição de uma pessoa, de uma campanha ou de uma marca, maior seria, supostamente, a sua capacidade de influenciar decisões. Contudo, esse paradigma está a desaparecer. Não significa que os influenciadores tenham deixado de ter relevância ou que as redes sociais tenham perdido utilidade. Significa apenas que notoriedade, influência e confiança deixaram de ser a mesma coisa.

Por consequência de um marketing fútil, repetitivo e até previsível, o consumidor tornou-se mais desconfiado em relação aos conteúdos promovidos, às recomendações patrocinadas e às narrativas demasiado perfeitas. Começou a procurar sinais mais difíceis de fabricar: experiências reais, padrões de comportamento, capacidade de resposta, transparência e validação por outras pessoas. Agora, com a Inteligência Artificial, essa transformação acelerou.


O estudo “O Consumidor Impulsionado pela IA: Manual de Sobrevivência para Marcas”, desenvolvido pela LLYC e pela Appinio a partir de 700 entrevistas em Portugal, revela uma mudança profunda: cerca de 45% dos consumidores portugueses já utilizam habitualmente ferramentas de Inteligência Artificial generativa. Entre os jovens dos 18 aos 24 anos, esse valor sobe para 65,9 por cento. Mais relevante ainda: 23,6% dos consumidores já iniciam diretamente nos assistentes de IA a sua jornada de pesquisa. Ao mesmo tempo, a confiança nos influenciadores apresenta, segundo o estudo, um índice negativo de 67,4 por cento. A credibilidade está a deslocar-se para especialistas, validação técnica, conteúdos genuínos e sistemas algorítmicos capazes de cruzar múltiplas fontes. Praticamente estamos a assistir a uma transferência de poder.

O consumidor já não quer necessariamente visitar dez páginas, abrir vinte separadores, analisar comparadores, ler publicações patrocinadas e tentar perceber quem é mais confiável. Na verdade, o que faz é simples e direto. Coloca uma pergunta diretamente ao modelo LLM:

“Qual é a melhor marca?”
“Esta empresa é de confiança?”
“Que problemas têm os clientes?”
“Qual destas opções tem melhor serviço?”
“Vale a pena comprar?”

Espera uma resposta e toma uma decisão.

Durante duas décadas, as marcas organizaram a sua estratégia digital em torno de uma ideia simples: conquistar o clique. Investiram em SEO para aparecer no Google, em publicidade para gerar tráfego, em conteúdos para conduzir o consumidor ao site e em remarketing para voltar a contactá-lo caso não comprasse imediatamente.

Nos modelos conversacionais, a lógica é diferente. O consumidor não escolhe necessariamente entre uma lista de resultados. Toma a sua decisão com base nas respostas apresentadas pela Inteligência Artificial.

A descoberta, a comparação, a avaliação e a recomendação podem acontecer dentro da mesma conversa. Em muitos casos, o consumidor toma a sua decisão sem visitar o site da marca, sem entrar numa rede social e sem deixar os sinais digitais que tradicionalmente alimentavam as estratégias de remarketing. Isto significa que milhares de consumidores estão, neste momento, a tomar decisões sem o conhecimento das marcas envolvidas. Não preencheram um formulário. Não entraram num site. Não abandonaram um carrinho. Não aceitaram cookies. Não foram incluídos numa audiência de remarketing. Simplesmente perguntaram a uma Inteligência Artificial e escolheram outra empresa.

A marca que perdeu a venda não sabe onde aconteceu, quando aconteceu, qual foi a pergunta, que alternativas foram apresentadas ou por que razão ficou fora da recomendação. Para muitas administrações, essa perda é invisível, pois, não aparece no CRM, no Google Analytics, no relatório comercial ou no dashboard de marketing. Surge apenas como uma venda que nunca chegou a existir.

É neste contexto que plataformas como o Portal da Queixa assumem uma importância muito superior àquela que normalmente lhes é atribuída. Com perto de 2 milhões de reclamações publicadas, reúne um enorme histórico de experiências reais, respostas das marcas, resoluções, avaliações, índices de satisfação e padrões de comportamento. O próprio site apresentava, em junho de 2026, mais de 12 milhões de interações entre consumidores e marcas nos últimos 30 dias, conteúdo com características particularmente valiosas para os sistemas de Inteligência Artificial: é público, pesquisável, contextual, cronológico, específico e produzido a partir de acontecimentos concretos. São experiências partilhadas pelos clientes e não apenas frases publicitárias escritas pela própria marca. Não são promessas sobre a qualidade futura do serviço, mas evidências sobre aquilo que aconteceu quando existiu um problema. A grande vantagem para os modelos é que não mostram apenas que uma empresa recebeu uma reclamação. Mostram se respondeu, quanto tempo demorou, como comunicou, se resolveu a situação e como o cliente avaliou o desfecho.

Plataformas de partilha pública de experiências não influenciam porque publicam opiniões editoriais sobre as marcas, mas porque tornam visível aquilo que as marcas fazem quando são confrontadas com a insatisfação dos clientes. A sua autoridade resulta dessa dimensão, da transparência e, sobretudo, da autenticidade do conteúdo partilhado pelos consumidores.

Mas por que razão a IA valoriza estas plataformas, como por exempo o Reddit?

Em 2024, a OpenAI anunciou uma parceria com o Reddit para aceder, através da sua API, a conteúdos públicos, estruturados, atualizados e produzidos pelas respetivas comunidades. Os modelos precisam deste tipo de informação porque a internet institucional é insuficiente. Nos sites corporativos, todas as marcas são inovadoras, próximas, sustentáveis e orientadas para o cliente. Dificilmente uma empresa admite que o seu apoio ao cliente não funciona, que demora semanas a responder ou que repete sistematicamente os mesmos erros. Para compreender a realidade, a inteligência artificial necessita de confrontar o discurso oficial com fontes independentes e experiências concretas.

Aquilo que os consumidores dizem, a forma como a marca responde e os padrões públicos que ficam registados condicionam a sua probabilidade de ser recomendada por uma Inteligência Artificial. Uma empresa com milhares de reclamações ignoradas, respostas defensivas ou problemas recorrentes pode continuar a investir milhões em publicidade. Pode comprar alcance, patrocinar conteúdos e gerar notoriedade, mas terá cada vez mais dificuldade em contrariar aquilo que os dados públicos demonstram.

Por isso, uma marca que não faça uma gestão ativa e adequada da sua reputação pública corre hoje um risco muito superior ao de receber críticas. Corre o risco de não ser escolhida. E, na maioria das vezes, nem sequer saberá que esteve a ser considerada.

Em suma, esta mudança obriga que os conselhos de administração a revejam a forma como acompanham a reputação. Pois já não basta medir notoriedade, alcance, sentimento nas redes sociais ou número de notícias publicadas. É necessário perceber como a marca é descrita pelos modelos de Inteligência Artificial, em que contextos é recomendada, quais são os concorrentes apresentados, que fontes sustentam essas respostas e que problemas afastam a empresa das escolhas dos consumidores.

A influência pertence agora a quem consegue provar que é de confiança. Porque a próxima corrida comercial de uma marca, não vai acontecer no ponto de venda, no site ou no carrinho de compras. Poderá acontecer dentro de uma conversa privada entre um consumidor e uma Inteligência Artificial.

Sem clique. Sem visita. Sem lead. E sem aviso.

O povo está fora do Congresso

Com as convenções partidárias em andamento, começam oficialmente as eleições de 2026. É uma rotina sem tropeços ou obstáculos autoritários desde a derrubada da ditadura. Parece um sonho de verão, só que a realidade de escândalos, a miséria de ideias e a grossa corrupção levam às perguntas:

— Sou representado pelos políticos eleitos para o Congresso?

Ou, mais direto:

— O Congresso é a cara do Brasil?

Para ambas as perguntas, a resposta só pode ser:

— Não.

Nem precisaria de estatística para chegar ao óbvio: basta olhar a estrutura montada com dinheiro público para alçar um cidadão (ou cidadã) ao Parlamento. Aos poucos, os políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado; em resumo, é quase impossível de ser acessado por quem está do lado de fora, sem toda essa mão na roda que é dada a um “irmãozão”.


Como os critérios de assunção à legenda e ao financiamento das candidaturas se encontram na mão dos chefes partidários, pode-se dizer adeus à renovação, salvo milagre. A Constituição de 1988 e a legislação eleitoral deixaram em aberto vários flancos, a começar pela possibilidade de reeleição infinita do parlamentar. Pelo arcabouço institucional, é o próprio Congresso que se autolegisla e, portanto, autobeneficia-se como demonstram os escândalos dos últimos anos.

Nos dados publicados pela Justiça Eleitoral, a sombra e água fresca aparece estampada nos seguintes números:

1. Os 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral devem receber para as eleições de 2026 quase R$ 5 bilhões do fundo eleitoral.

2. O fundo partidário, cujo nome de fato é Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, repassou a 19 partidos, em 2025, R$ 1,1 bilhão.

De acordo com a Lei Eleitoral, retrofitada a cada novo ciclo pelos políticos, cerca de 95% do fundo partidário é distribuído aos partidos na proporção de votos obtidos na eleição para a Câmara dos Deputados. É um sistema de retroalimentação: a votação conseguida com dinheiro público resulta no montante dado à agremiação política para disputar o pleito seguinte.

Parece algo bacana, mas é essa esperta engenharia que faz o Brasil ter uma das piores representações desde a redemocratização. A partir da proibição de doações empresariais, o país passou por duas eleições gerais (2018 e 2022) e três municipais (2016, 2020 e 2024). Sob a nova legislação, o que se viu foi uma baixíssima renovação — além do aumento absurdo das verbas públicas destinadas às agremiações partidárias por iniciativa dos próprios beneficiários.

O novo modelo de financiamento tirou a roupa de um santo para vestir outro. Se o argumento era que somente algumas empresas controlavam as doações — falava-se em 1% delas —, talvez parte da chamada polarização e da vigente miséria intelectual dos parlamentares tenha relação com os bilhões públicos colocados na mão dos dirigentes partidários nos últimos anos (desde 2015). É um dinheiro que não vem por mérito.

Estudo publicado no American Economic Journal: Economic Policy, em 2024, mostrou que a decisão de 1995 na França, semelhante à tomada pelo STF, provocou uma maior radicalização nos discursos de candidatos fora do mainstream da política — segundo Julia Cagé e coautoras em citação no artigo de Manoel Gehrke no site da Transparência Internacional.

Pode ser cedo para cravar no financiamento público, nos moldes costurados pelos políticos, o gosto amargo da polarização. Não custa, porém, colocar os números na mesa. Os maiores beneficiários em 2026 são os dois polos da polarização: o PL, com R$ 881 milhões; e o PT, com R$ 615 milhões. Em seguida, União Brasil, com R$ 526 milhões. Aos fundos destinados às agremiações, se somam os diversos tipos de emendas parlamentares, que vão diretamente aos mandatos individuais — em 2025, R$ 58,4 bilhões.

Sendo dinheiro público, é melhor aprofundar a análise, lembrando os salários anuais dos dirigentes partidários. Entre as melhores remunerações, em números de 2025, estão o conhecidíssimo Ovasco Resende, do famoso PRD, que recebeu R$ 630 mil; José Luiz Penna, do PV, com R$ 501 mil; e Valdemar Costa Neto, do PL, com R$ 404 mil.

Sempre que é citada uma maracutaia na Câmara, Hugo Motta defende que querem criminalizar a política. Como notou Joaquim Falcão em “A oligarquia dos Poderes — E a crise da democracia”, há um arranjo estranho entre os Poderes da República para não cumprir seus deveres — eu diria: um cobrindo o erro do outro. O Congresso é só uma peça dentro do arranjo. É assim que o Brasil deixou de ter um Parlamento que seja a sua cara. Em seu lugar, uma minoria esperta que esfacelou a democracia representativa.
Miguel de Almeida

O ódio é como o dinheiro

O ódio não é só contagioso: é uma moeda. Como o euro, precisa de ser aceite por toda a gente para poder circular à vontade.

Já nem precisamos do papel das notas: aceitamos que aqueles números no écran são dinheiro. E porquê? Porque os outros também aceitam que aqueles dígitos eletrônicos servem para receber e gastar.

Mas o que aconteceria se, de repente, todos exigíssemos aqueles números todos em notas? Ou em ouro?

O ódio precisa do mesmo acordo silencioso: a nossa moeda política agora é o ódio.

O ódio faz mal a quem o sente: isto está mais do que provado. O ódio ocupa a cabeça e a cabeça fica sem lugar para as coisas que fazem bem. O ódio gasta a nossa sensibilidade. O coração deixa de registar as ternuras e miudezas de que precisa para estar aberto à beleza e à bondade.

Odiar quem nos odeia é fazer o jogo deles. É o que os extremistas querem. Querem odiar-nos e, como tal, agradecem quaisquer motivos para odiar-nos que nós lhes possamos dar.

É como o jogo da sardinha: é preciso que a outra pessoa aceite jogar e estique as mãos que vão levar a chapada. Quanto mais forte for a chapada que nos dão, maior a facilidade com que lhes daremos uma chapada igualmente forte.

É assim com toda a violência e todo a política do ódio: resume-se a queixinhas de “ele é que começou” e “ele é que me bateu primeiro na cara”.

Para assistir a estas tristezas, é preciso haver espectadores, e árbitros. E estes não podem odiar. Senão os odiadores nem sequer se procurarão justificar diante deles.

A resposta errada ao ódio é o ódio. O conteúdo quase não interessa. E quase não interessa de que lado é que se está.

A única coisa que interessa é isolar o ódio. É deixá-lo a brincar sozinho. É responder não com amor, não com a oferta da outra face, mas com frieza, com indiferença às causas daquele ódio, porque o ódio tira a razão a quem a tem. Por isso é que o ódio sabe tão bem e é tão perigoso: é uma vingança instantânea e permanente.

Merece a solidão.
Miguel Esteves Cardoso

A democracia degenerada

Em A oligarquia dos Poderes: e a crise da democracia, Joaquim Falcão nos oferece um livro que fará parte do cânone das obras de interpretação do Brasil neste momento de nossa história. Ao mesmo tempo defende e aponta os defeitos da democracia brasileira, apropriada por uma oligarquia que usa o Estado para obter benefícios para seus grupos e parentes. Falcão faz uma espécie de autópsia de como nossa democracia é usada por oligarquias — sejam escravocratas, latifundiários, usineiros, advogados, políticos, juízes, banqueiros, industriais, sindicalistas — que se sucedem sem respeitos aos interesses do povo ou da nação. Ele explicita que a legalidade foi criada e é usada para beneficiar oligarcas, seus grupos e famílias, por meio de manipulações das leis e dos orçamentos que elaboram e operam em benefício próprio.


Com robusta base analítica, lucidez, conhecimento e coragem, o autor mostra a ossatura histórica de nosso sistema político e expõe com tal crueza as entranhas das instituições que nos permite usar o termo degenerada como adjetivo para qualificar nossa democracia. Essa é a impressão que permanece ao longo de uma leitura que deslumbra pelo estilo e assusta pelo conteúdo, desferindo verdadeiros tapas na consciência do leitor brasileiro.

Com estilo leve, mas conteúdo rigoroso e conhecimento profundo, Joaquim Falcão define as características da "democracia originária importada, cujas adaptações a tornaram oligárquica politicamente e degenerada socialmente". Sustenta que as seis intenções originais não sobreviveram no Brasil: pluralidade dos Poderes, independência dos Poderes, freios e contrapesos, existência de uma palavra final, eleições gerais, livres e periódicas e, sobretudo, a necessária adesão social, sem a qual a democracia carece de justificativa ética e de sustentação política.

Embora faça gestos para beneficiar parcelas excluídas da população, nossa democracia nega a adesão social. Mantém a renda concentrada, a desigualdade social, o analfabetismo e uma educação básica sem qualidade nem equidade, ao mesmo tempo em que preserva privilégios como supersalários, isenções fiscais, penduricalhos, aposentadorias especiais, benesses e subsídios e, sobretudo, um sistema de segregação educacional. É um sistema de privilégios construído graças ao que o autor chama de conluio entre grupos e "parentela".

Cada capítulo permite ver a imoralidade política e a maldade social da elite oligárquica que dirige o país nos Três Poderes ao longo da história, inclusive no quase meio século desde a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988. De tempos em tempos, essa democracia degenerada promove uma falsa adesão social: condecora alguns plebeus com títulos de nobreza sem romper os privilégios aristocráticos. É como se, em vez de abolir a senzala, alguns escravos fossem escolhidos para morar na casa-grande. É o que ocorre com as cotas sociais para dar ingresso de alguns pobres no ensino superior sem que os filhos do povo sejam todos alfabetizados e colocados no mesmo sistema nacional de educação básica com qualidade e equidade.

Ao ler os capítulos sobre como se constrói a práxis oligárquica do conluio e da parentela, o leitor sente um misto de indignação e vergonha ao perceber que somos parte desse conluio e ao refletir sobre como regenerar a democracia. O livro terá papel fundamental para o futuro se os seus leitores se lembrarem que também são eleitores: responsáveis, culpados e capazes de romper a oligarquia dos poderosos, enfrentando a principal causa da degeneração — a desigualdade como a educação separa os filhos do povo dos filhos da elite para perpetuar a democracia oligárquica brasileira.

O pequeno livro de ficção Jogados ao mar transmite essa realidade em um capítulo no qual uma médica, militante no seu sindicato e em um partido de esquerda, demite sua empregada doméstica porque ela reivindicava que seus filhos estudassem na mesma escola que os filhos da patroa. Tanto quanto os trabalhadores brancos na África do Sul, ela faz parte da oligarquia.

A oligarquia sabe que, mais do que a manipulação das leis ou o uso de militares como fantoches, a permanência de seu poder decorre da recusa em oferecer aos próprios filhos a mesma escola destinada aos filhos do povo. A democracia degenerada separa desde o nascimento seus filhos dos filhos do povo — esse é o berço contínuo da desigualdade e segregação. A regeneração da democracia brasileira passa pela adoção de um sistema nacional sem oligarquia escolar, todos com a mesma chance para desenvolver seu talento.