quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Uma leitura filosofante das eleições

1.

Estão se fazendo as mais variadas análises das eleições brasileiras com a ascensão surpreendente da extrema direita, geralmente com categorias de uma sociologia integral. Elas são necessárias. Entretanto a gravidade da crise brasileira que é também planetária é de tal envergadura que nos faltam categorias adequadas para entendê-la. Estimo que precisamos de uma ótica filosofante, pois se trata de ir às raízes para encontrar alguma luz esperançadora.

Parto da percepção generalizada de que o mundo assim como está não pode continuar. Há demasiadas e graves ameaças ao futuro da vida. A continuar, advertia Zygmunt Bauman “vamos engrossar o cortejo dos que estão rumando na direção da vala comum”.


Já antes em 1930 escreveu Freud em O mal estar da cultura concluindo, na última página, com esta frase sombria: “Agora os homens avançaram tanto no domínio das forças da natureza que com sua ajuda será fácil exterminar uns aos outro até o último indivíduo”. Atualmente com o arsenal destrutivo existente, acrescido pela Inteligência artificial autônoma, pode se tornar uma realidade. Há, pois, um mal-estar coletivo no mundo que encontra na ascensão trepidante do fascismo e da extrema direita no Brasil, especialmente nos EUA e alhures, sua inegável comprovação.

De minha parte, diria, como hipótese, que esta atmosfera inimiga da vida e da convivência fraterna entre os humanos e com a natureza, deriva de uma radical decepção que degenerou numa profunda depressão.

A decepção residiria no fracasso de todas as promessas feitas pelas grandes narrativas nos últimos séculos: o iluminismo, o capitalismo, o socialismo, as democracias, as tecno-ciências da comunicação (internet, twitter, facebook etc.) e a Inteligência artificial. As promessas não foram cumpridas.

A decepção generalizada redundou numa grande depressão coletiva: uma onda terrível de ódio, de raiva, de fake news e de violência estão cobrindo o planeta e o Brasil. A depressão nos rouba a alegria de viver.

Crises sempre houve e haverá em todas as culturas. A nossa é singular, por ser planetária. Haverá alguma luz na imensa obra de 12 tomos do historiador inglês Arnold Toynbee, A Study of History? Nela ele mostra como as culturas surgem, se desenvolvem, chegam a seu ápice e morrem substituídas por outras.

Maneja duas categorias básicas: desafio (challange) e resposta (response). Quando o desafio é de pouca monta a civilização responde a ela e florece. Quando o desafio é maior que sua capacidade de resposta, a civilização entra em crise, pode prolongar sua agonia, mas, no fim desaparece. Essa é uma exposição simplificada de uma obra complexa e extremamente erudita.

Talvez seu limite consista em não ter considerado a luta de classes que, queiramos ou não, sempre ocorre em sociedades complexas. Agora estamos sob a regência da incapacidade de resposta, pois o desafio ultrapassa esta nossa capacidade. Irrompe, então, a depressão.

2.

Há alguma saída para esta enroscada? Ou chegou a nossa vez de encerrarmos o nosso ciclo dentro da cosmogênese e vamos desparecer? É notório que todos os seres, depois de terem vivido por milhões de anos sobre este planeta, chegaram ao seu clímax e desapareceram. Também nós teríamos o mesmo destino? Deixo a questão em aberto pois não nos parece improvável nem impossível, pois já nos demos os meios de nos autodestruir.

Meu sentimento do mundo me diz que quando desfalecem as utopias – mesmo as mínimas, de melhoria dentro do sistema imperante – só nos resta voltarmo-nos sobre nós mesmos. Somos uma fonte inesgotável de virtualidades e de uma capacidade ilimitada de relações e de criatividade. Apesar de sermos contraditórios, feitos de luz e de sombras (C. G. Jung), sapientes e dementes (Edgar Morin), (eros:vida) e (thánatos:morte, Freud) podemos potenciar de tal forma nossa positividade, capaz de definir um novo rumo e uma nova esperança.

Nesse sentido é inspiradora a teoria do caos, formulada pelo russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003), prêmio Nobel de Química em 1977 (Order out of Chaos,1948) e de Lorenz/Gleick. O universo se originou de um fantástico caos inicial (Big Bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos originário, criando ordens cada vez mais altas e complexas até irromperem no ser humano com inteligência, sentimento, amor e cuidado.

A natureza do caos é de ser destrutivo e generativo. Ele destrói uma ordem vigente que esgotou suas virtualidades, mas guarda dentro de si seminalmente uma nova ordem. Concluído o processo de destruição, irrompe a nova ordem. Ela inaugura uma outra história até que ela mesma se extenuar e mostrar-se caótica/destrutiva. Mas guarda dentro de si o novo a irromper.

Na atual fase histórica global estamos sob a energia destrutiva do caos, mas dentro dele está germinando uma nova ordem, um novo mundo, que cremos será amigo da vida, da irmandade universal também com os seres na natureza, justo e terno que permitirá melhor conviver e amar. Superaremos o caos destrutivo bolsonarista-fascista, expresso pelo resultado do primeiro turno, pelo caos generativo de Luiz Inácio Lula da Silva que, esperamos, triunfará para levar avante o projeto de inclusão dos pobres.

Então, não desesperemos. Esta leitura que se propõe filosofante, pode nos infundir um renovado esperançar.

A lição de Fernando Henrique que Flávio Bolsonaro escolheu ignorar

Aconteceu nas eleições municipais de São Paulo em 1985, as primeiras pelo voto popular para as capitais após o fim da ditadura militar que durara 21 anos. Fernando Henrique Cardoso, então senador pelo PMDB, liderava as pesquisas de intenção de voto para prefeito contra o ex-presidente da República Jânio Quadros (PTB). O clima da campanha de Fernando Henrique era de vitória garantida.

No dia 14 de novembro de 1985, véspera da votação, o senador participava de um ensaio fotográfico para a revista Veja. Induzido pelos fotógrafos e confiante no resultado, ele aceitou posar no Palácio Anhangabaú (antiga sede da prefeitura), sentado na cadeira do então prefeito Mário Covas. A foto foi publicada naquela semana e interpretada pelos eleitores como um ato de soberba e salto alto.


Contrariando as pesquisas, Jânio venceu a disputa com 37,5% dos votos, enquanto Fernando Henrique ficou com 34,1%. Na época, a eleição era decidida em turno único. No dia 1º de janeiro de 1986, ao assumir o cargo, Jânio imortalizou a gafe: convocou a imprensa, sacou um tubo de inseticida e borrifou a cadeira, declarando que “nádegas indevidas” haviam se sentado ali antes da hora.

Embora o episódio da cadeira tenha ficado marcado no imaginário popular, o próprio Fernando Henrique aponta que outro fator pesado na reta final foi uma entrevista dada ao jornalista Boris Casoy. Questionado se acreditava em Deus, o senador hesitou e preferiu não responder. A hesitação foi amplamente explorada por Jânio, que panfletou a cidade chamando o rival de “ateu e maconheiro”.

Anos mais tarde, Fernando Henrique reconheceu o erro histórico e disse que a icônica foto na cadeira provava que ele “havia merecido perder por ingenuidade”. No fim das contas, a derrota pavimentou o caminho que o levaria a se eleger presidente da República duas vezes – uma em 1994 e a outra em 1998 –, em ambas voando nas asas do Plano Real, que domaria para sempre a inflação.

Na maioria das ocasiões, pelo menos na política, usar salto alto pode ser mortal. É exatamente assim que se comporta Flávio Bolsonaro a 11 dias do segundo turno. No primeiro turno, ele venceu Lula com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. A nova pesquisa da Quaest, a ser divulgada hoje, mostrará se sua vantagem aumentou, diminuiu ou permanece a mesma. Amanhã, o Datafolha divulgará a sua.

Convencido de que está praticamente eleito, Flávio diminuiu o ritmo de sua campanha para se dedicar à negociação com partidos visando à montagem de seu eventual governo. Entregou as ruas a Lula e ao PT. E não parece se preocupar ao vê-las ocupadas por multidões vestidas de vermelho, que gritam com um entusiasmo crescente: “votem no 13”. Acredita piamente que uma virada será impossível.

Conta para isso com o apoio dos ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça, respectivamente presidente e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ambos devem sua nomeação a Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, e atuam de forma alinhada aos interesses da candidatura do filho do ex-presidente, enquanto defendem o impeachment do ministro Alexandre de Moraes.

A confiança de Flávio em seu taco é tamanha que ele já anunciou que não comparecerá ao debate com Lula na Rede Bandeirantes de Televisão, marcado para o próximo domingo. Quanto ao último debate, na quinta-feira, promovido pela Rede Globo, ele ainda não garantiu presença. Se de fato faltar a ambos, os púlpitos com seu nome ficarão vazios, e Lula será entrevistado sozinho.

Talvez Flávio ignore que a soberba é um dos sete pecados capitais. Inclusive, dentro da tradição teológica cristã (formalizada por São Tomás de Aquino e pelo Papa Gregório I), ela não é apenas mais um pecado, mas sim considerada a raiz e o princípio de todas as outras falhas humanas.

A mensagem do Brasil para a democracia na América Latina

O senador de extrema-direita e candidato do Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro , de 45 anos, chegou ao segundo turno das eleições presidenciais brasileiras em 25 de outubro com uma vantagem "inesperada" de quase dois pontos percentuais em relação ao primeiro turno. O filho mais velho e herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro promete "reformas constitucionais para redemocratizar o Brasil", e as pesquisas mais recentes mostram sua vantagem ampliada para entre quatro e cinco pontos.

"Este país não pode perder sua democracia", alertou o presidente de esquerda e candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva , de 80 anos. Centenas de milhares de apoiadores se uniram a ele no último fim de semana nas ruas de São Paulo, onde ele conclamou a mobilização dos mais de 30 milhões de brasileiros que não votaram no primeiro turno.

Independentemente de quem vencer, "o comportamento do perdedor e de seu círculo próximo será um teste crucial da resiliência institucional e da qualidade democrática do Brasil", disse à DW a analista argentina Carolina Zaccato, professora de Relações Internacionais da IE University, em Madri. A aceitação do resultado "terá um efeito demonstrativo em uma região onde diversas democracias enfrentam tensões e alta polarização".


As "forças Bolsonaro" saíram fortalecidas das eleições legislativas e locais. Elas detêm o maior bloco tanto no Congresso quanto no Senado, afirmou Elayne Whyte, ex-vice-ministra das Relações Exteriores e ex-embaixadora da Costa Rica na ONU, à DW. Se consolidarem a vitória nas eleições presidenciais, terão "um governo capaz de levar adiante sua agenda sem supervisão política". Essa supervisão teria que ser judicial e jurisdicional, como ocorreu com o governo Trump nos EUA.

E devemos "observar a relação de Flávio Bolsonaro com o Supremo Tribunal Federal e a real autonomia que o Judiciário terá, em particular, no que diz respeito ao destino judicial de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão pela conspiração golpista ", acrescenta Zaccato.

Não se trata de esquerda ou extrema-direita, mas sim de multilateralismo ou antissistema.

Uma vitória de Bolsonaro no Brasil — a maior economia da região e o país mais populoso e extenso — "consolidaria uma guinada regional à direita que já é evidente", observa o especialista argentino em relações internacionais. Diante de um forte voto de protesto contra os governos atuais, da insegurança, da estagnação econômica e da erosão dos partidos tradicionais, apenas México, Guatemala e Uruguai manteriam governos de esquerda democraticamente eleitos (além dos regimes na Venezuela, Cuba e Nicarágua).

No entanto, a projeção internacional dessas forças emergentes não seria definida por seu "signo ideológico", mas por sua "abordagem antissistema", oposta à ordem democrática constitucional , explica Whyte, atualmente professora da Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS) da Universidade Johns Hopkins. "Elas buscam exercer o poder com menos controles políticos, constitucionais e institucionais; com fronteiras mais tênues entre assuntos pessoais e públicos", explica ela.

Em jogo, portanto, no pior cenário possível, estaria a ameaça de o país se retirar do Tribunal Penal Internacional (TPI) , como levantou o presidente Abelardo de la Espriella na Colômbia. Ou sua subordinação às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), da qual os Estados Unidos estão se retirando com suas guerras comerciais, mas que ainda regem mais de 70% do comércio mundial, explica Whyte.

Um retorno de Lula, por outro lado, deixaria um governo politicamente mais limitado, dependente de alianças no Congresso. Mas com "uma grande valorização da ordem multilateral, da soberania e da defesa da democracia", bem como uma visão do Brasil como "uma ponte entre o Sul Global e o Ocidente", resume à DW o especialista brasileiro em economia política e desenvolvimento Samuel Siewers, pesquisador do Instituto GIGA de Estudos Latino-Americanos em Hamburgo.

Outra questão em jogo nesta eleição é a "autonomia estratégica" do Brasil em uma região caracterizada por um "alinhamento assimétrico" com os EUA em segurança, comércio e relações com potências extrarregionais como a China, observa o ex-diplomata Whyte.

"Um Brasil sob Bolsonaro seria um acréscimo significativo ao Escudo das Américas e praticamente consolidaria o domínio dos EUA sobre o hemisfério", prevê Siewers. Assim, o governo brasileiro priorizaria o diálogo com aliados regionais como Javier Milei, na Argentina, e Nayib Bukele, em El Salvador, "sob a direção de Washington", opina ele.

Para Zaccato, é "altamente provável" que uma eleição de Bolsonaro reduza o ímpeto de espaços como a CELAC, ou a dimensão política do Mercosul, ao mesmo tempo que diminua as tensões comerciais com os EUA, buscando avançar uma agenda de exploração e comercialização de minerais críticos e acelerando uma agenda de segurança compartilhada com o governo Trump.

Isso deixaria a região como um bloco mais homogêneo centrado nas prioridades dos EUA, com migração, narcotráfico e competição com a China em seu cerne. Ao mesmo tempo, "a região caminharia para uma maior fragmentação, com alinhamentos bilaterais prevalecendo sobre a coordenação coletiva", prevê a analista argentina. No entanto, ela observa que o Brasil possui interesses estruturais, como seu comércio com a China — também fundamental para grande parte da América Latina —, sua influência no Mercosul e sua tradição de diplomacia independente, que "moderam qualquer mudança abrupta".

Um possível governo Lula — que defende a integração regional e a cooperação Sul-Sul, e que atribuiu especial importância ao acordo Mercosul-UE — manteria uma relação mais conflituosa, embora "pragmática", com os EUA, segundo especialistas.

No entanto, a curto prazo, independentemente de quem vencer no Brasil, uma variável adicional deve ser monitorada, alertam também: as eleições de meio de mandato de 3 de novembro nos Estados Unidos. "O resultado delas pode alterar drasticamente a margem de manobra e ação de Donald Trump e, com isso, a intensidade de sua política em relação à América Latina", prevê Zaccato. Se os democratas retomarem o controle do Capitólio, acrescenta Whyte, os diplomatas latino-americanos podem até ter que negociar em duas frentes.

O dia depois de amanhã e cartas ao futuro: não resistir nunca foi uma opção

A depender do resultado das urnas, só não vale dizer que a gente não sabe como será “O Dia Depois de Amanhã” (2004), para lembrar um dos filmes-catástrofe de Roland Emmerich, especialmente na cúpula dos tribunais superiores. Kássio Nunes Marques e André Mendonça — respectivamente, presidente e vice do TSE e também membros do STF — se oferecem como nossos guias nos círculos eventualmente vindouros do inferno. Se acontecer de a dupla ser o Virgílio que a história nos reserva (Santo Deus!), não haverá nem Beatriz nem Paraíso como promessas de futuro para nós, os Dantes que assistirão à destruição. Se a matéria é Justiça, teremos de falar de duas peças de teatro: “O Inspetor Geral” de Gógol, e “As Bruxas de Salém”, de Arthur Miller.

No filme de Emmerich a que aludi, há redenção e esperança, a exemplo de outros que dirigiu e que vocês podem ter visto: “Independence Day” (1996), “Godzilla” (1998) e “Independence Day – O Ressurgimento” (2016). Desde a Grécia Antiga, a função da tragédia é extremar os males dos indivíduos e do mundo para a expiação coletiva.

O gênero, no entanto, também nos reserva o deboche sem saída de “Não Olhe para Cima” (2021), de Adam McKay, e o espetacular “Melancolia” (2011), do polêmico, para dizer pouco, Lars von Trier. Note que, nesse caso, o fim dos tempos é, na verdade, uma metáfora da desesperança e do niilismo, ainda que o mundo fosse um doce de coco. É uma sorte que Von Trier tenha mantido algumas besteiras que diz em entrevistas longe de seus filmes.

Não está escrito em lugar nenhum, em suma, que, no fim, tudo dará certo. “Está, sim, Reinaldo! Lá, no Apocalipse de João.” Huuummm… A que preço! Os que investem em saídas apocalípticas estão sempre convictos de que, no fim da história, estarão alinhados com os vencedores. Sei… Para esses, ofereço como advertência “Saturno Devorando um Filho”, do espanhol Francisco de Goya.


“Ah, Reinaldo, entendi. Vai tentar mudar votos de leitores acenando com o desastre…” Eu??? Acho que sou bem mais modesto do que talvez aparente. Não tenciono interferir na escolha de ninguém. E, como resta óbvio, a minha é muito clara. O que falo e escrevo circula bastante nas redes e na tal “mídia” sem pretender arrebanhar almas. Ademais, creio que a totalidade dos que me acompanham já fez a sua escolha. “E por que escreve?”

Porque é uma espécie de carta para o futuro, com todas as suas ousadias e erros. Ainda estamos aqui, afinal. Em “Cartas a Milena”, reunião das missivas de Kafka à tradutora tcheca Milena Jesenská, o autor observa — vocês encontram uma tradução no Kindle:

“(…) escrever cartas significa expor-se nu diante dos fantasmas, que esperam por isso com avidez. Os beijos escritos não chegam a seu destino, mas são bebidos no caminho pelos fantasmas. Por meio desse alimento farto é que eles se multiplicam de modo tão descomunal. A humanidade pressente isso e luta contra. Ela inventou — para, na medida do possível, eliminar o fantasmagórico entre as pessoas e alcançar o trato natural — a paz das almas, a ferrovia, o automóvel, o aeroplano, mas não adianta nada. (…) Os espíritos não passarão fome, mas nós pereceremos.”

A excelente tradução de Torrieri Guimarães (ilustração no alto) só nos sebos, se houver.

Aparentemente, leitores, demorei um tanto para chegar ao objeto do texto, anunciado lá no primeiro parágrafo. Talvez seja uma forma de resistência à miséria intelectual que nos ameaça, como uma enchente lamacenta. De verdade, nunca saí do tema. Estou no modo “alerta”.

Já escrevi sobre o despropósito praticado por “Kássio com K” ao tirar do ar o canal “Exército de Lula” — decisão suspensa pelo ministro Ricardo Villas Bôas Cueva; o plenário do TSE dará a palavra final. Não basta dizer que o presidente do tribunal aplicou censura sem ler. Isso é pouco. É até besteira sustentar que a não leitura está na raiz de um equívoco. Não se trata de descuido, mas de método. Ele também está mandando uma carta fantasmagórica para o que aposta ser o futuro. O conjunto, a seu modo, é… kafkiano.

O que um russo do século 19 e um americano do pós-guerra têm a ver com a canetada do ministro Kássio? Tudo, meus caros!

Em “O Inspetor Geral”, de Gógol (1836), um vilarejo no interior profundo da Rússia é alertado de que um auditor do governo central desembarcará disfarçado na região. O prefeito, o magistrado, o chefe do hospital e o supervisor de ensino — todos agarrados a seus desmandos — entram em desespero. Acabam confundindo um burocrata insignificante de São Petersburgo, o pobretão Khlestakov, que visita o local, com a temida autoridade.

O rapaz, percebendo a patuscada, é esperto o bastante para sustentar o mal-entendido, passando a embolsar subornos camuflados de “empréstimos”. Ninguém precisou desmascarar os líderes locais: eles próprios se entregaram.

Dentre essas autoridades, a figura mais asquerosa é o juiz Ammos Fiódorovitch Liapkin-Tiápkin. O magistrado ostenta um chicote de montaria na antessala do tribunal, tolera gansos caminhando entre os cidadãos e aceita de bom grado filhotes de cães de caça como “presentes” inofensivos em troca de seus vereditos. Não enxerga nenhuma imoralidade em sua conduta. O juízo dele opera por conveniência, capricho e dissimulação.

O farsante acaba enviando uma carta a um amigo mangando dos larápios, mas a mensagem é interceptada e lida em voz alta pelo chefe dos Correios, um notório bisbilhoteiro. Ocorre que, logo em seguida, um oficial de justiça aparece e faz um pronunciamento: por ordem expressa do imperador, o verdadeiro inspetor geral, vindo de São Petersburgo, acaba de chegar à hospedaria local e exige a presença dos bacanas. E a peça termina com todos congelados de medo.a

Supõe-se que o juiz de chanchada se encontrará com o seu destino. Ao menos ali…

Se Gógol trata a degradação do Judiciário e dos costumes como comédia de erros, a tragédia dá as caras em As Bruxas de Salém, de Arthur Miller. Olhe-se de perto parta para as persogens Elizabeth Proctor e para o juiz Danforth.

Trata-se de uma mulher decente, casada com John Proctor. Ocorre que o marido teve um caso amoroso no passado com a jovem Abigail Williams. Movida por um misto de vingança, ciúme e sadismo, a ex-amante percebe que a histeria coletiva contra a bruxaria, que tomava a cidade, é a arma perfeita para atingir aquela que considerava sua rival.

Ela descobre que a criada de Elizabeth, Mary Warren, costurou uma boneca de pano no tribunal e deixou uma agulha espetada na barriga do brinquedo para guardá-la. Sabendo disso, Abigail espeta uma agulha na própria barriga durante um jantar na casa do juiz e alega que o espírito de Elizabeth a havia atacado. Quando a polícia vai revistar a casa dos Proctor e encontra a tal agulha cravada na boneca, o tribunal aceita o objeto como uma “prova de feitiçaria”. A partir daí, o absurdo assume o controle da máquina judicial. O tribunal passa a tratar o delírio conspiratório e as alegações histéricas de Abigail como evidências absolutas, enquanto a racionalidade de Elizabeth é lida como frieza satânica. Quem assume uma culpa inexistente e chancela a narrativa oficial sobrevive; quem, como Elizabeth, sustenta a dignidade da verdade é condenada à morte. Ela só escapa do enforcamento porque está grávida.

John desmascara a farsa, mas esbarra num tribunal que já tem a sentença antes dos fatos. A peça, escrita no ápice do macartismo nos EUA dos anos 1950, culmina no dilema do marido de Elizabeth: ele aceita, inicialmente, assinar uma confissão falsa para salvar a própria vida, mas rejeita que o documento seja pregado à porta da igreja. Recusa a institucionalização da mentira, que destruiria o nome de sua família. Destrói o papel e caminha para a execução.

Nessa trama de horror, destaca-se o juiz Danforth. Ele comanda o tribunal convicto de ser o próprio instrumento da vontade divina na Terra. Rejeita por princípio a dúvida razoável porque isso implicaria admitir a possibilidade do erro. Prefere enforcar inocentes a admitir que o tribunal foi ludibriado. Os que dizem julgar sob inspiração divina servem apenas à própria certeza. Um sistema judicial que ignora o rito, que atropela o direito de defesa e que se guia por crenças ideológicas prévias não faz justiça: investe deliberadamente na barbárie.

Volto, então, ao começo, porque nunca saí dele. Se Kássio e Mendonça forem mesmo os Virgílios que a história nos reserva, convém que nós cheguemos ao inferno sabendo quem nos guia.

A depender do que aconteça, o dia depois de amanhã já foi escrito pela história, pela literatura, pelo drama. Mando esta carta ao futuro, ainda que venha a ser bebida por fantasmas. E daí? Mantenho o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade. Não resistir não é e nunca foi uma opção.

Não é opinião, são os fatos

A democracia correrá riscos em um possível governo Flávio Bolsonaro. Isso não é opinião. É o resultado da análise dos fatos, matéria-prima do jornalismo. O pai dele quando esteve no governo tentou dar um golpe de Estado. A família Bolsonaro tem diversas brigas internas, mas total concordância sobre alguns pontos: acham que a ditadura militar foi boa, admiram o Coronel Brilhante Ustra e seus métodos de tortura e morte de adversários políticos, elogiam o Ato Institucional número 5, aprovam as decisões e palavras do ex-presidente Jair Bolsonaro e negam que durante aquele governo tenha havido conspiração para um golpe, que terminou com a quebra física dos prédios dos Três Poderes.


O brigadeiro Carlos Baptista Júnior, que comandou a Aeronáutica na administração de Jair Bolsonaro, publicou um livro contando o que houve no governo. Sobre a reunião do dia 5 de julho de 2022, aquela na qual o general Heleno defendeu que era preciso virar a mesa antes das eleições, o brigadeiro diz: “Mais do que declarações isoladas, aquele encontro revelou algo que começava a se tornar cada vez mais preocupante: a naturalização, dentro de determinados círculos de poder, da ideia de que o resultado eleitoral poderia deixar de ser aceito caso contrariasse as expectativas do governo”.

O brigadeiro prestou depoimento como testemunha na ação penal do golpe. No livro “Eu disse não. Uma trincheira antigolpista”, o ex-comandante da Aeronáutica relatou muitos fatos, alguns já conhecidos, mas pelo ângulo de quem comandava uma das Forças. O difícil quando se fala das ações de Jair Bolsonaro contra a democracia é escolher de quais fatos tratar. São muitos.

Quando Flávio Bolsonaro falou em usar o crescimento da direita no Congresso para mudar a Constituição, muita gente se assustou no Brasil. Todos os presidentes apresentaram propostas de emenda constitucional. Não era disso que ele falava, porque completou a frase informando que iria mudar a Constituição “para redemocratizar o país”.

“A Constituição não é perfeita. Ela própria o confessa”, disse Ulysses Guimarães, na promulgação da Carta, ao falar da possibilidade de emenda constitucional. Fernando Henrique, ao assumir, propôs uma PEC para acabar com o monopólio estatal na telefonia e no petróleo. Assim, ele privatizou as telefônicas e concedeu áreas de exploração de petróleo. Jair Bolsonaro, ao assumir, propôs uma PEC para a Reforma da Previdência. Lula em 2023 aprovou a PEC da Reforma Tributária. Ninguém achou que fosse golpe de Estado. O que pega desta vez é que Flávio falou em mudar a Constituição para “redemocratizar o país”. O que não se pode mudar na Constituição? Exatamente isso: as cláusulas pétreas que sustentam a democracia em vigor no país.

Em julho de 2025, quando ainda não tinha sido lançado pelo PL à presidência, Flávio Bolsonaro disse em uma entrevista à Folha de S. Paulo que um candidato ao cargo só receberia apoio do seu grupo político se manifestasse compromisso com anistia a seu pai e a outros condenados, e que garantisse essa anistia mesmo que o Supremo Tribunal Federal fosse contra. E foi mais específico: “a gente está falando de possibilidade e de uso da força. A gente está falando da possibilidade de interferência direta entre Poderes. Tudo o que ninguém quer”.

O STF está fragilizado em parte pelos seus próprios erros. Mas quando Flávio disse isso — ou quando fala agora em “redemocratizar” o país — ele não estava se referindo à prerrogativa do Senado de julgar o impeachment de algum ministro do Supremo. Ele estava falando exatamente em mexer no que é inalterável na Constituição: os pilares da democracia.

O país pode escolher ignorar todo o histórico familiar e levá-lo ao Planalto. Só que os fatos até aqui permitem dizer que haverá o mesmo clima de tensão constante sobre o Estado Democrático de Direito que houve no governo de Jair Bolsonaro, agravado pelo fato de que seria uma administração mais capaz de formar maiorias no Congresso, e as instituições teriam menos defesa, pela crise interna do STF.

A democracia não é um ponto de programa de governo. É a única base de todos os governos desde 1985, os bons e os ruins. O único regime que garante a alternância de poder, o sistema de freios e contrapesos e os direitos individuais. Na última vez que suprimiu a democracia, o país atravessou 21 anos de enorme sofrimento cívico. Nada disso é opinião. São os fatos.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Nem luz própria

Hoje estamos vivendo em um Brasil feio. Não gosto do Brasil em que vivo hoje. Um Brasil que só fala de números. O Brasil vai bem porque a economia vai bem. Mas e nós, o povo? Nós estamos bem? Estamos seguros, respeitados? Estamos dignamente humanos? Temos uma escola boa, uma saúde boa? Temos uma segurança boa? O Brasil vai bem porque a economia vai bem. Mas e eu não conto? Sou apenas um número? Estudei na física que o planeta não tem nem luz própria. Olha que coisa terrível morar em um planeta que não tem nem luz própria. Estamos em uma periferia do cão. E para ter o dia e a noite você nem precisa de uma estrela de primeira grandeza. Uma estrela de quinta grandeza, como o Sol, serve. Resolve isso numa boa. E ainda temos alguma verdade para dizer? É só a dúvida que nos une, que nos aproxima. É só disso que precisamos. Precisamos de amparo com a nossa dúvida. E a literatura nos ampara. Tenho muito medo da verdade. Não acredito que haja nada verdadeiro.

Tive um professor de filosofia, o padre Henrique Vaz, para quem eu perguntei “o que era a fé”. Ele me respondeu que a fé é a dúvida. Tem dias que você tem muita, tem dias que tem pouca, tem dias que não tem nenhuma. Isso se chama fé, porque nos é possível somente a dúvida. Hoje, estamos com muita gente encontrando a verdade. Quando uma pessoa encontra a verdade, a única coisa que ela adquire é a impossibilidade de escutar o outro. Ela só fala, não escuta mais. Quem encontra a verdade só fala.
Bartolomeu Campos de Queirós

É corrupto, mas é o meu corrupto

Faz todo o sentido que o eleitorado rejeite a corrupção. Até algumas décadas atrás, ainda havia uma corrente de economistas que descrevia o fenômeno em termos mais benignos, como uma "graxa" que lubrificaria engrenagens travadas por instituições disfuncionais ou por excesso de regulação. Mas essas ideias, que já caíram em descrédito na academia, nunca fizeram muito sentido quando consideradas do ponto de vista do cidadão, que é a parte prejudicada pelos desvios, seja pela subtração direta de recursos públicos, seja pela perda de eficiência em sua alocação.


Não sou eu, portanto, quem vai condenar a revolta de segmentos da população com os escândalos do mensalão e do petrolão ocorridos sob a égide do PT. Algo parecido vale para Lula. Ainda que suas condenações criminais pelo caso do tríplex e pelo sítio tenham sido anuladas, o problema ético subsiste. Lula colocou-se num relacionamento com empresários que não passa nem no mais grosseiro teste de integridade republicana. No mínimo, ele recebeu tratamento especial e benesses que jamais poderia ter aceitado.

O que se esperaria de um eleitor racional e justo é que aplicasse a todos os partidos e políticos aquilo que exige do PT e de Lula. Não parece ser isso, porém, o que estamos presenciando. É verdade que Ciro Nogueira e ACM Neto, flagrados em relações incestuosas com o irmão Vorcaro, foram gongados pelo eleitor. Esse não deve ter sido o único fator, mas quero crer que foi um deles. Mas vários outros políticos metidos no escândalo ganharam novos mandatos. É o caso de Mario Frias, Hugo Motta e Antônio Rueda. Pela esquerda, Jaques Wagner cai nessa categoria.

A situação mais escandalosa, contudo, é a de Flávio Bolsonaro. Ele pediu ao ex-banqueiro R$ 134 milhões e recebeu mais ou menos a metade disso. Traz ainda em seu currículo suspeitas nunca explicadas envolvendo rachadinhas, lavagem de dinheiro e patrimônio maior que a renda.

Inconsistências desse calibre só se explicam por uma perversa combinação de hipocrisia com autoengano.

Escolhas políticas fazem a diferença no prato dos brasileiros

Muito se fala, atualmente, sobre os preços dos alimentos. De fato, o país enfrenta diversos desafios externos, muitas vezes alheios à ação do governo, como a crise climática, os conflitos geopolíticos, a elevada demanda internacional por determinados produtos, a força dos oligopólios supermercadistas e a transformação dos alimentos em commodities. Nesse processo, a busca pelo lucro se sobrepõe à soberania alimentar, fazendo com que os preços internos sejam influenciados pelos valores praticados no mercado internacional.

Esses desafios estão no horizonte do governo Lula, que vem adotando políticas específicas para conter a elevação dos preços, apesar dos interesses dos grandes grupos dos setores de abastecimento e varejo. Entre essas iniciativas estão a importação de alimentos para ampliar a concorrência com produtos nacionais encarecidos; a recomposição dos estoques reguladores, desmantelados durante os governos Temer e Bolsonaro; e o investimento contínuo na agricultura familiar e em programas de aquisição e distribuição de alimentos. Essas medidas contribuem para garantir uma alimentação diversificada e de qualidade à população, além de fortalecer os pequenos produtores.


O governo também atua na ampliação da renda, com reajustes do salário mínimo acima da inflação, ampliação do Bolsa Família e assegurando a paridade do piso previdenciário com o salário mínimo. Essas políticas garantem, por lei, um ganho real e ajudam a preservar o poder de compra das famílias mais afetadas pela alta dos preços dos alimentos, especialmente as de baixa renda.Ilustra: Vitor Flynn

Além disso, o governo Lula demonstra preocupação com os efeitos das mudanças climáticas, que elevam os custos de produção e, consequentemente, os preços dos alimentos. Nesse sentido, suas diretrizes incluem a implementação de um programa destinado a orientar a política climática nacional até 2035, a criação de políticas de proteção e fiscalização ambiental e a redução das emissões de gases de efeito estufa, entre outras ações.

A importância das políticas do atual governo pode ser observada no comportamento dos preços. Durante o governo Bolsonaro, o quilo da carne bovina de primeira passou de R$ 23,35, em dezembro de 2018, para R$ 41,23, em dezembro de 2022, o que representa uma alta de 77,4% nas dezessete capitais abrangidas pela Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos realizada pelo Departamento Intersindical Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e, desde 2024, em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No governo Lula, por sua vez, o aumento foi de 21,9%. Isso demonstra que a percepção de preços elevados já existia antes do início do atual governo.

O preço do arroz aumentou 62,5% durante o governo Bolsonaro, que chegou a atribuir a alta ao consumo excessivo e à formação de estoques pela população. No governo Lula, mesmo diante das enchentes na Região Sul, principal área produtora de arroz do país, a ação do governo fez com que a alta acumulada fosse de apenas 1,2%.

Para quem assistiu a vídeos do candidato da direita criticando a alta do café em pó no governo Lula, é importante lembrar que, durante o governo Bolsonaro, o preço do produto passou de R$ 18,75 para R$ 34,51, uma elevação de 84%, considerando-se a média das dezessete capitais. No governo Lula, mesmo diante das incertezas provocadas pelo aumento de tarifas, pela grande especulação nas bolsas internacionais e pelas ameaças de Donald Trump, a alta foi de 61,3%, e o produto custava R$ 55,67 em setembro.

Também chama a atenção o comportamento do preço do feijão carioca. Durante o governo Bolsonaro, o aumento foi de 134,2%. No governo Lula, com a adoção de políticas específicas, como a realização de leilões e a importação de feijão-preto, a alta foi de 3,8%.

ProdutosBolsonaro         Lula
Preço médio (R$)Preço médio (R$)VariaçãoPreço médio (R$)Preço médio (R$)Variação
dez/18dez/22%dez/22set/26%
Batata 2,876,28118,76,287,1313,6
Café em pó18,7534,5184,034,5155,6761,3
Carne 1a bovina23,2541,2377,441,2350,2421,9
Tomate5,527,4034,27,409,0922,8
Pão Francês10,9215,3340,415,3317,8716,5
Banana4,378,5495,58,549,086,3
Manteiga39,6860,2952,060,2961,532,1
Óleo de soja3,558,98153,28,988,10-9,8
Arroz3,044,9462,54,945,001,2
Farinha de Trigo 3,195,7780,95,774,51-21,8
Farinha de Mandioca 4,517,1658,87,166,79-5,1
Açúcar Cristal 2,014,09103,64,093,34-18,4
Açúcar Refinado2,414,4082,24,403,84-12,7
Feijão Preto 4,637,3659,27,366,98-5,3
Feijão Carioca 3,838,96134,28,969,303,8
Leite UHT3,766,2666,56,267,0112,0

Fonte: Dieese/Conab. Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos. 

Os preços aumentaram muito mais durante o governo Bolsonaro. Por quê? Porque as políticas adotadas não priorizavam o bem-estar social. O preço do petróleo foi atrelado às cotações internacionais, e os consumidores arcaram, nos governos Temer e Bolsonaro, com reajustes frequentes dos combustíveis. Consequentemente, a distribuição dos alimentos tornou-se mais cara por causa dos aumentos no preço do diesel. Além disso, houve o enfraquecimento da Companhia Nacional de Abastecimento e o desmonte dos silos que mantinham estoques de alimentos destinados à regulação dos preços de mercado. Privilegiou-se a exportação dos alimentos de melhor qualidade, enquanto parte da população brasileira enfrentava a fome e formava filas para ter acesso a ossos bovinos.

Também foram reduzidos drasticamente os investimentos na agricultura familiar e os incentivos à produção de alimentos de qualidade. Ao mesmo tempo, ampliou-se o uso de fertilizantes e agrotóxicos prejudiciais à saúde e incentivou-se a produção de soja e milho voltada à exportação. O resultado pode ser observado no patamar de preços apresentado na tabela acima e no retorno do Brasil ao Mapa da Fome.

Desde o início, o governo Lula demonstrou a intenção de governar em favor dos brasileiros e da soberania nacional, priorizando medidas destinadas a garantir à população uma alimentação de qualidade e nutricionalmente equilibrada. Instituiu um plano nacional de abastecimento que considera a preservação ambiental, prevê ações para enfrentar os efeitos dos eventos climáticos e amplia os investimentos na agricultura familiar.

O resultado, até o momento, é uma elevação de preços proporcionalmente menor do que a registrada no governo anterior, além de uma preocupação constante com o bem-estar da população brasileira.

Em pouco tempo de políticas e atividades para produção e abastecimento de alimentos, o Brasil saiu novamente do mapa da fome. A manutenção dessas políticas e seu reforço, em particular, o desenvolvimento de técnicas e tecnologias que mitiguem os efeitos da crise climática e medidas de soberania alimentar são fundamentais para que a fome não retorne nunca mais para o Brasil.

A jogada master de Kassio Nunes Marque

Por suposto, Kassio Nunes Marques, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) nomeado por Jair Bolsonaro e, no momento, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), só enxerga um caminho para salvar a própria pele depois de descobertas suas ligações com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, o protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil: ajudar Flávio Bolsonaro a derrotar Lula no dia 25.

Daí ter vetado, em junho, a divulgação de pesquisa que apontava queda nas intenções de voto em Flávio. Daí, no último domingo (11), a pedido da campanha de Flávio, ter determinado a suspensão do canal de WhatsApp “Exército de Lula”, administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG), acusado de disseminar notícias falsas. O pedido, segundo a área técnica do tribunal, carecia de provas.


Caso alcance seu objetivo, o ministro não parará por aí. O passo seguinte será julgar a ação que pede a soltura de Bolsonaro pai por meio de uma decisão liminar. Se lhe faltar ousadia para tal, levará a ação para julgamento no plenário do TSE, onde espera contar com a maioria dos votos a seu favor. Com Flávio eleito e o pai dele em liberdade, a obra de Nunes Marques estará completa – ou quase.

De camarote, assistirá à abertura, pelo novo Senado, do processo de impeachment do seu colega Alexandre de Moraes, considerado o algoz da primeira família presidencial brasileira, devolvida ao poder pela segunda vez. Se a cabeça de Moraes rolar, levando-se em conta o que manda o regimento do STF, Nunes Marques assumirá a presidência do tribunal em setembro de 2027. Obra concluída.

O STF adota uma tradição histórica em que o plenário elege como presidente o ministro mais antigo que ainda não tenha exercido o cargo. Na atual linha de sucessão, o ministro Edson Fachin é o presidente (com mandato até setembro de 2027) e Alexandre de Moraes é o atual vice-presidente, sendo, portanto, o próximo natural da fila para assumir o comando da Corte.

Se o Senado aprovar o impeachment de Moraes, ocorre a vacância definitiva de sua vaga e a consequente perda de seus direitos políticos e de suas funções. Sem Moraes na composição da Corte, ele é removido da linha de sucessão. Como os ministros que entrou antes de Nunes Marques já presidiram o STF no passado, ele passa a ser o próximo magistrado mais antigo que ainda não ocupou a presidência.

As ligações entre Nunes Marques e Vorcaro, hoje preso no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, surgiram a partir de relatórios e mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro. A investigação aponta para uma rede de influência que envolveria decisões judiciais milionárias favoráveis a Vorcaro e vantagens pessoais obtidas em troca pelo ministro. Nesse aspecto, há de tudo.

Entre os episódios citados estão mensagens que mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil associados ao filho do ministro, Kevin de Carvalho Marques; uma hospedagem em uma mansão no Rio de Janeiro durante o Carnaval de 2025; e uma viagem de avião particular de Brasília a Maceió, em novembro daquele ano, custeada por uma advogada que atuava para o Banco Master.

Quem mexerá com Nunes Marques se Flávio suceder a Lula? É bom lembrar que foi Flávio quem apresentou Nunes Marques ao pai. Se as ligações com Vorcaro depõem contra o ministro, por que não depõem da mesma maneira contra um candidato a presidente investigado pelo STF pelos crimes de evasão de divisas, corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa?

“Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”, como disse nos anos 1960 o jornalista, escritor e humorista carioca Sérgio Porto, sob o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta.

Culpados de crimes contra a humanidade não faltam

Se nós, de um dia para o outro, nos descobríssemos bons, os problemas do mundo estariam resolvidos. Claro que isso nem é uma utopia, é um disparate. Mas a consciência de que isso não acontecerá, não nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princípios éticos. Pelo menos a sua passagem pelo este mundo não terá sido inútil e, mesmo que não seja extremamente útil, não terá sido perniciosa. Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática ação perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes.
José Saramago

Bolsonarismo 'moderado'? O que mudou de Jair para Flávio

Flávio Bolsonaro (PL), ao lado do pai, Jair Bolsonaro, pilota um avião militar que sobrevoa o oceano, em um vídeo de inteligência artificial (IA) divulgado em junho nas redes sociais bolsonaristas. Nele, duas lanchas militares – uma do PCC e outra do Comando Vermelho – aparecem sobre as águas. Flávio sai do cockpit e, com uma metralhadora, explode ambas as embarcações. Mas há uma terceira, logo atrás: a do PT, que dá meia-volta e foge pelo mar, enquanto o candidato do PL observa, com um sorriso no rosto.

Para o herdeiro de um líder político que afirmou, na campanha de 2018, que iria "fuzilar a petralhada", a atitude de poupar, seis anos depois, o barco do principal adversário do bolsonarismo parece indicar uma modulação no discurso do primeiro colocado no primeiro turno das eleições presidenciais deste ano. E não a única: militares e o golpe de 1964, tão presentes nas falas de Jair, também estão ausentes nas falas de Flávio.

"Eu já vi gente começar a dizer: 'Ah, agora, o Flávio, com esse Congresso com ampla maioria, ele vai fazer o que o pai dele não fez'. Vamos parar de mentir, vamos aterrissar no mundo real", disse no dia 5 o filho do ex-presidente, que está em prisão domiciliar após ter sido condenado por tentativa de golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).


A fala ocorreu numa coletiva junto a partidos aliados no dia seguinte ao resultado do primeiro turno e das eleições legislativas, que garantiram superioridade do PL tanto na Câmara quanto no Senado, além da vantagem de Flávio sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No pronunciamento, o filho de Jair explicava o que queria dizer sobre "mudar a Constituição" – o que, segundo ele, ocorreria, entre outros, com alterações no STF, fim da reeleição e consequente extensão dos mandatos de quatro para cinco anos. Vice de Lula, Geraldo Alckmin (PSB) comparou a mudança na Carta Magna ao que a ditadura militar fez após o golpe, ao impor uma Constituição "totalmente autoritária".

"O Flávio sempre foi aquele representante da família com a fala mais mansa. Ele tem esse perfil de político mais conciliatório que dialoga, mas na essência compartilha das mesmas visões e das ideias dos pais e do restante da família", diz Caio Barbosa, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP).

Segundo ele, o senador tem se afastado de discursos mais radicalizados do pai por estratégia de campanha: ao se apresentar mais como uma alternativa ao PT do que uma continuidade do governo do pai, ele apela ao antipetismo de parte eleitorado, diz Barbosa.

"Mas, na essência não dá para esperar um governo menos radical, menos extremista que o governo do pai", acrescenta o pesquisador. "Na verdade, o que nos vemos na ciência política é que esses populistas de direita tendem a se radicalizar a partir do segundo mandato. Uma vez referendados pelas urnas, colocam o projeto autoritário em vigor. Vimos isso com o Viktor Orbán na Hungria e estamos vendo com Donald Trump nos EUA, que no segundo mandato veio mais autoritário. É o que podemos esperar."

Uma mudança geracional parecida também ocorreu na França, na família Le Pen, principal bastião da ultradireita no país. Por lá, Marine Le Pen expulsou da Frente Nacional (hoje Reunião Nacional) o pai, Jean-Marie Le Pen, por causa de declarações antissemitas dele.

Logicamente, Flávio não vai tão longe, pois precisa de grande parte dos votos do pai, ao menos por enquanto. De acordo com Caio Barbosa, esse eleitor "bolsonarista raiz", que inclusive apoia as tentativas de golpe de 8 de janeiro, representa cerca de um terço do total. "Mas você não ganha a eleição com esse número. Tem que atrair aquele que é independente, sem adesão fiel a um dos campos políticos, embora mais à direita", diz o cientista político. A questão, acrescenta ele, é que os riscos antidemocráticos não estão no radar dessa parcela da população.

Mas, aí, também há outro mecanismo discursivo em ação, a "negação" ("disavowal", em inglês), aponta o cientista político Renato Duarte Caetano, pesquisador de pós-doutorado vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD) com base na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Essa estratégia, diz ele, ocorre quando, por exemplo, Flávio não só nega flertes autoritários como transfere essa responsabilidade para o campo político oposto. "Ele vai falar que é contra a ditadura e jogá-la para o PT, falar que a ditadura é do PT. Isso funciona para inverter o discurso, projetando a violência e intolerância para o outro", complementa.

Ele atribui parte disso ao fato de que Jair Bolsonaro, assim como Trump, consegue jogar com a paródia, o que fazia com que, no seu discurso, "fuzilar a petralhada" prejudicasse menos a própria imagem. Flávio, por sua vez, é menos carismático; logo, precisa moderar mais, explica o pesquisador da UFMG.

"O [Jair] Bolsonaro era capaz de complementar essa violência dele com uma dimensão do ridículo. Assim, o eleitor conseguia acreditar no autoritarismo dele, mas, ao mesmo tempo, duvidar. Ele pensava: 'Ele tem essas coisas autoritárias, mas é o tio do pavê'", diz. "Como o Flávio não tem essa dimensão da paródia, qualquer alusão à violência feita por ele vai empurrar para longe o eleitor médio. Ele não é capaz de contrabalancear isso. O discurso do tio do pavê, que é brutal, é levado de uma forma diferente, porque ele é o tio do pavê."

Caetano afirma que essa estratégia vem sendo usada também pelo partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD). Líder do partido, Alice Weidel fez um vídeo assinando a revista Der Spiegel cuja capa a colocava como "inimiga da Constituição" e chamando a edição de "melhor propaganda eleitoral possível".

Mas, em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, Caetano e Barbosa concordam: não deverá haver moderação na tentativa de corroer as instituições democráticas. "Talvez seja pior. A diferença é que agora eles têm experiência de governo. Pode ser um governo muito mais brutal do ponto de vista institucional, do desmonte. Como tem sido o de Trump", conclui Caetano.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Ressentimentos individuais alimentam o autoritarismo

Fiquei aterrorizada com essa conversa sobre "mudar a Constituição" com vistas a "redemocratizar o Brasil". O assombro se fundamenta na certeza de que nossa estrutura institucional estabelecida atualmente garante, em regra, o respeito à Lei Maior do país. Salvo melhor juízo, há 41 anos este país é uma democracia.

As instituições de controle, apesar das imperfeições próprias da ação humana, estão em pleno funcionamento. A ponto de conseguirem conter uma tentativa de golpe de Estado e punir os envolvidos na maior investida antidemocrática que o país enfrentou desde a década de 1980.

A Constituição é um conjunto de normas que organizam o Estado e a divisão de poder, determinando limites de ação e direitos e deveres da população. A Carta de 1988, conhecida como Constituição Cidadã, representa um marco nacional na consolidação do Estado democrático de Direito após 21 anos de ditadura militar.

Ela introduziu inovações e avanços inéditos em termos de direitos civis, direitos sociais e direitos das minorias. E essas garantias fazem da nossa Carta Magna um diploma legal importantíssimo para a proteção dos direitos humanos.

Num cenário de ascensão política de segmentos da direita e da extrema direita, falar em mudança da Constituição é coisa que apavora quem preza pela manutenção de conquistas civilizatórias num país tão desigual em múltiplos aspectos, como é o nosso.

Lembrei do filme "Anniversary", dirigido pelo cineasta polonês Jan Komasa, que explora a maneira como ressentimentos individuais alimentam o autoritarismo, contaminando a sociedade e corroendo laços afetivos e de solidariedade.

Tudo em decorrência de um governo radical instalado a partir da tese de um livro chamado "A Mudança: o Novo Contrato Social", que prevê a abolição do sistema pluripartidário em favor de um regime autoritário de partido único.

Trata-se, claro, de uma obra de ficção, mas a semelhança com a realidade global é sinistra. E não é uma questão de esquerda ou direita, mas de autoritarismo.

Flávio Bolsonaro quer destruir o que faz do Brasil, um dos lugares mais maravilhosos do mundo

Eu estou com medo. Estou com medo porque Flávio Bolsonaro pode vencer a eleição para presidente no Brasil, e o que ele quer é destruir tudo o que faz do país um dos lugares mais maravilhosos do mundo.

Eu só estive algumas vezes no Brasil. Passei apenas algumas semanas neste país. Não pretendo compreender toda sua complexidade. Eu não conheço em detalhes a história do Brasil nem sua geografia ou o conjunto das culturas que o compõem. Há tanta gente no mundo, a começar pelos próprios brasileiros, que têm muito mais a dizer do que eu sobre este lugar do planeta.

No entanto, apesar das limitações do meu conhecimento, eu sei de uma coisa: tudo que eu vi em minhas viagens ao Brasil, tudo que testemunhei, tudo que constitui a beleza, a força e a singularidade desse país, Bolsonaro quer destruir.


A sublime e misteriosa floresta amazônica, sem a qual a humanidade não pode sobreviver, e graças à qual o oxigênio do planeta é respirável, e que Flávio Bolsonaro, assim como seu pai fez antes dele, quer devastar para vendê-la ao capitalismo mais destruidor.

A alegria que explode quando, no samba, à noite, os homens e as mulheres cantam em uma só voz, homens brancos, mulheres negras, homens negros e mulheres brancas, todos ao redor dos músicos da roda de samba, sonhando com um mundo melhor e nos provando que podemos viver, cantar e sonhar juntos, todos esses corpos que Bolsonaro vai tentar colocar uns contra os outros, separar uns dos outros por meio de suas políticas racistas, da perseguição das populações negras das favelas, de todo o poder que ele vai dar à polícia, que, no mundo inteiro, nós sabemos, tem como alvo prioritário as pessoas não brancas.

O Brasil é também todas as vezes em que vi dois homens se beijando, ou duas mulheres, com total liberdade, na praia, em frente ao mar nas noites de verão, nos bares no Rio ou nas ruas quentes de São Paulo à noite, no samba do trabalhador ou nas areias de Paraty durante o festival da Flip.

Toda essa liberdade, que existe em tão poucos países no mundo, Flávio Bolsonaro tentará apagar, dando cada vez mais espaço ao fundamentalismo religioso, opondo-se aos direitos das pessoas transgênero, gays e lésbicas, como fez tantas vezes no Senado ao longo dos últimos anos.

Todas as vezes em que observei, nas praias do Rio, pela manhã, amigos bebendo água de coco para se recuperar dos efeitos do álcool, depois de uma noite de festas, risadas e encontros. Essa cultura da alegria, da amizade e da celebração popular contra a qual a família Bolsonaro sempre declarou guerra abertamente, ao atacar o Carnaval ou os desfiles de rua, supostamente ameaçadores à ordem e à "família tradicional".

O Brasil é, ainda, uma cultura musical imensa, o Brasil é todas as vezes em que eu ouvi brasileiros cantando Gilberto Gil ou Caetano Veloso, enquanto em 2022, durante a Copa do Mundo de futebol, apoiadores de Jair Bolsonaro perseguiram Gil em público, ameaçando-o e insultando-o, os mesmos apoiadores que hoje defendem Flávio Bolsonaro, que, por sua vez, defende o legado político de seu pai.

Brasil é uma literatura grandiosa que conquistou o mundo. Machado de Assis, Clarice Lispector, Victor Heringer, todos esses grandes autores que fazem a cultura brasileira brilhar mundo afora, que vieram das margens ou pertenciam a parcelas da população odiadas pela extrema direita conservadora. Machado de Assis era descendente de escravizados, Heringer era homossexual, Lispector era mulher.

Bolsonaro, ao cortar os gastos do Estado e, em consequência, os serviços públicos, tornará a vida dos pobres mais difícil, e os reduzirá, enfim, ao silêncio. Bolsonaro, que fez muitas declarações machistas e misóginas e vangloria a família tradicional, dificultará a emancipação das mulheres. Bolsonaro, ao colocar em curso políticas repressivas que terão como alvo a população mais vulnerável, e, portanto, em grande parte, a população não branca, silenciará a diversidade.

Num mundo bolsonarista, não existiria Lispector nem Machado de Assis nem Heringer. Não existiria literatura.

Eu tenho plena consciência de que, ao evocar minhas lembranças do Brasil e meu conhecimento muito limitado do país, não estou mencionando os problemas enfrentados pela sociedade brasileira, as desigualdades, a violência, a pobreza, a corrupção.

Mas, justamente, Flávio Bolsonaro vai agravar todos esses problemas. Bolsonaro quer uma sociedade do medo, da violência, da prisão, do ódio, da polarização, do desmonte do Estado. Uma sociedade da família conservadora, da brutalidade, da ordem, da desigualdade, da reprodução das classes sociais, uma sociedade onde cada um permanecerá em seu lugar, enquanto o clã Bolsonaro continuará a enriquecer com seus esquemas de corrupção.

A autora francesa Marguerite Duras certa vez escreveu que a direita e a morte são sinônimos. O Brasil que Bolsonaro quer é um Brasil morto. Um Brasil sem alegria, sem liberdade, sem música, sem negros, sem cultura, vocês percebem?

Um Brasil sem solidariedade, sem amor, sem arte, sem música, sem mulheres, sem poder beijar quem vocês quiserem, sem poder dançar quando e onde vocês quiserem. Um Brasil sem paixão, sem diversidade, sem Nordeste, ou com um Nordeste silenciado. Um Brasil sem Candido Portinari, sem literatura, sem partilha, sem Amazônia, um Brasil sem Gilberto Gil, sem sonhos, sem progresso.

O que Flávio Bolsonaro quer é um Brasil sem Brasil, ou seja, um Brasil esvaziado de tudo que constitui a força e a grandeza do Brasil, sua identidade.

O sonho de Flávio Bolsonaro é um Brasil submisso aos Estados Unidos e a serviço deles, um Brasil em que os bilionários possam continuar a desviar dinheiro do povo, um Brasil de prisões, jaulas e armas de fogo, um Brasil em que o medo reinará, um Brasil em que os brancos terão medo dos negros, os negros da polícia, um Brasil em que os pobres terão medo dos pobres, em que os jornalistas terão medo de se expressar.

Como disse recentemente um professor da Universidade de São Paulo, não deixem Bolsonaro fazer vocês acreditarem que o Brasil precisa se tornar triste para se tornar forte.

O Brasil é forte porque está vivo.

Eu estou com medo, mas eu peço a vocês que não tenham medo e que lutem nesse segundo turno das eleições.

Estou com vocês.
Édouard Louis, escritor francês, é autor de 'O Fim de Eddy', 'História da Violência' e 'Mudar: Método'

O Tribunal do Ofício Nada Santo de Kássio e Mendonça censura até a imprensa

Os ministros Kássio Nunes Marques e André Mendonça, respectivamente presidente e vice-presidente do TSE e membros do STF, resolveram se comportar como inquisidores do Tribunal do Ofício Nada Santo da Igreja Bolsonarista. Como Tomás de Torquemada (1420-1498), que mandava para a fogueira tudo o que a sua ortodoxia interesseira não tolerava, os dois passaram a tratar a campanha eleitoral de Lula como heresia a ser extirpada e punida. Atenção: Eestá em curso uma forma indireta de censura à imprensa, uma vez que até dados colhidos de reportagens — nada além de fatos, da mais inquestionável objetividade — estão sendo banidos quando reproduzidos pela chapa petista.

E isso se dá, até agora, sob o silêncio cúmplice de muitos “valentões” do colunismo, que se apresentam como defensores incondicionais da liberdade de expressão quando se trata de mensagens nas redes que fazem apologia do golpe ou pregam o rompimento do Estado de direito. Digo de novo: na prática, ambos aplicam uma forma derivada de cerceamento da imprensa e de ataque à livre manifestação do pensamento, violando os artigos 5º (Incisos IV e IX) e 220 (parágrafos 1º e 2º) da Constituição..


Neste domingo, Kássio determinou que o WhatsApp suspenda o canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones, atendendo a um pedido de Flávio Bolsonaro — decisão depois tornada sem efeito. Segundo o ministro, a estrutura orientava seguidores a reproduzir conteúdos que a Justiça Eleitoral já havia considerado falsos, inclusive sobre as comprovadas relações do senador com Adriano da Nóbrega, um chefão da milícia, morto em 9 de fevereiro de 2020 em confronto com a Polícia Militar da Bahia. Que o miliciano foi homenageado por Flávio é apenas um fato. Em 2005, o então deputado estadual propôs a Medalha Tiradentes ao ex-PM e empregou a mãe e a ex-mulher do criminoso em seu gabinete. Foram pagas com recursos da “rachadinha”. O próprio candidato admitiu a homenagem na sabatina do Jornal Nacional de 28 de agosto e em entrevista ao programa Roda Viva no dia 8 de abril de 2024

A suspensão do canal “Exército de Lula” valia até a homologação do resultado do segundo turno. Há um detalhe que escancara um método: no sábado, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, havia dado 72 horas para que os bolsonaristas apresentassem esclarecimentos sobre o pedido feito. O presidente do TSE não quis esperar. Atropelou o prazo fixado por Cueva, a quem cabia conduzir a questão, e cassou uma tribuna de mais de três milhões de seguidores. Parece que Kássio com K, pai de Kevin com K, anda sem paciência com o devido processo legal. Não é a primeira vez. Na sexta, o líder da “Turma do KN” já havia mandado remover publicações de Lula e de aliados, a pedido do adversário do presidente. Cueva derrubou a censura imposta pelo presidente do TSE, restabeleceu o canal e enviou o caso para o pleno.

Mendonça, por seu turno, ordenou que se apagassem do Instagram dois vídeos da campanha petista. Um deles tratava do corte de gastos num eventual governo Flávio. A alegação: o dito-cujo não consta do programa do filho de Bolsonaro. É um escândalo!

Entusiastas renomados do dito Zero Um falam abertamente de um enxugamento de despesas entre R$ 250 bilhões e R$ 300 bilhões. Há pilhas de reportagens a respeito. Como o postulante da extrema direita não explica, afinal, de onde sairia, ou não sairia, esse dinheiro, o ministro passa a atuar, então, como um coordenador de campanha que livra seu orientando de explicações difíceis. O silêncio da imprensa — que, pois, também está sendo censurada, ainda que indiretamente — grita.

Pergunta óbvia de resposta idem: este misto de deusa Têmis, da Justiça, com o rei Salomão se ocupou de ler o programa de Lula para confrontá-lo com as peças publicitárias do PL?

Querem mais? O ministro determinou a retirada do vídeo com o bordão “Se Flávio vence, você perde”. O incansável Kássio baniu propaganda eleitoral que relacionava o “Flávio do Dark Horse” a Daniel Vorcaro e ao caso Master. Também está proibido lembrar que o candidato do PL é, oficialmente, um investigado. Esses dois notáveis magistrados não veem nada demais em que o filho daquele que os indicou para o Supremo saia por aí a decretar “o fim da era PT”. Como se percebe, reproduzir notícias veiculadas pela imprensa constitui, para ambos, um possível crime eleitoral. Pregar o extermínio do adversário lhes parece coisa normal.

E olhem que o herdeiro político do golpista Jair Bolsonaro ainda não venceu a eleição. Imaginem a circunstância em que essa gente teria a Presidência e o domínio da Câmara, do Senado e do Supremo…

Os apoiadores de Jair acusavam Alexandre de Moraes de censurar sua campanha em 2022. As decisões do ministro, não custa lembrar, miravam especialmente desinformação sobre o sistema eleitoral, jamais notícias veiculadas pela própria imprensa. Olavo de Carvalho, que serviu de guru do bolsonarismo, atribuía a Lênin a seguinte frase: “Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é”. É o terraplanismo das citações. Lênin nunca escreveu essa porcaria. A partir desta campanha, os bolsonaristas, incluindo os dois ministros, podem adotar o lema como seu.

A letargia da imprensa diante da censura impressiona. Não se conhece ainda o vencedor da disputa eleitoral, e parece que já estamos às portas de uma concepção de poder com laivos de Andrei Jdanov, o comissário de Stálin que ditava os rumos do pensamento; de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, mestre da mentira repetida até virar verdade; e do já citado Torquemada, o inquisidor-geral da Espanha que fez do fanatismo religioso uma política de Estado.

Que admirável mundo velho se pode vislumbrar, a depender do que aconteça nas urnas! A divergência seria sufocada pela manipulação dos que dominam a máquina do Estado, com tudo pautado pela farsa convincente e temperado pela teologia da morte a serviço do poder.

Há, sem dúvida, os que defendem abertamente esse modelo. E, ainda assim, não conseguem ser tão abjetos como aqueles que, sem coragem de enfrentar a máquina bolsonarista, mas posando de seus críticos, preferem voltar o dedo acusador contra o próprio Lula: seria o responsável pelo eventual desastre. Eles próprios, os que se calaram ou foram coniventes com o golpismo, bem… são inocentes como as flores. Há dois tipos morais que estão sempre de braços dados com os algozes: os traidores e os covardes.

Já é um clichê, eu sei, mas obrigatório. Valem as palavras do pastor Niemöller sobre o nazismo:

Primeiro vieram buscar os comunistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era comunista.

Depois vieram buscar os socialistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era socialista.

Depois vieram buscar os sindicalistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era sindicalista.

Depois vieram buscar os judeus.
E eu não me manifestei
Porque eu não era judeu

Depois vieram me buscar.
E já não havia ninguém
Para se manifestar por mim


Tendo lutado na Primeira Guerra e sendo um nacionalista conservador, Niemöller chegou a simpatizar com o movimento nazista nos seus primórdios. Ao se dar conta do que estava em curso, passou a se opor ferrenhamente àquela bestialidade. Foi preso em 1937 e só saiu em 1945. Foi condenado a uma pena leve, mas Hitler não aceitou o veredito. Considerava-o seu prisioneiro pessoal. Tiranias não têm por que respeitar nem seu próprio aparato legal!

Que coisa! Um “nacionalista conservador” teve a coragem de fazer o que era certo. Hoje, alguns que até pagam de progressistas para agitar a “galera” dizem que política é suja, qualquer que seja o lado. Trata-se de uma “gente limpinha” que flertaria com campo de concentração em nome da sua “independência e isenção”. Querem saber como seria a face jurídica de um eventual governo Flávio? A fusão de Kássio com Mendonça até dá uma pista. Mas estejam certos: pode ser muito pior.
Reinaldo Azevedo