segunda-feira, 29 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


O dever

Passamos as nossas vidas a lutar para conseguir que pessoas ligeiramente mais estúpidas que nós aceitem as verdades que os grandes homens conheceram desde sempre. Já há milhares de anos que eles sabiam que fechar uma pessoa doente num ambiente solitário torna-a ainda pior. Já há milhares de anos que eles sabiam que um homem pobre que é assustado, pelo seu patrão, e pela polícia, é um escravo. Eles sabiam. Nós sabemos. Mas será que a grande massa iluminada dos britânicos o sabem? Não. É o nosso dever, Ella, o teu e o meu, de lhes dizer. Porque os grandes homens são demasiado grandes para serem incomodados. Estão já a descobrir como colonizar Vênus e como irrigar a Lua. Isso é que é o mais importante para o nosso tempo. Tu e eu somos os empurradores da pedra. Todas as nossas vidas, tu e eu, temos que empregar as nossas energias, e todo o nosso talento, a empurrar uma enorme pedra por uma montanha acima. A pedra é a verdade que os grandes homens sabem por instinto, e a montanha é a estupidez da humanidade.

Doris Lessing, "O Carnê Dourado"

Moralidade pública

Escrever sobre a moralidade pública no Brasil significa falar de algo inexistente. Pode-se discorrer sobre duendes, contar suas estórias, sem que daí se siga que sejam reais. Por mais que se procure, torna-se cada vez mais difícil encontrar algo que, no passado, foi considerado um fator essencial da vida política, um eixo a guiar a conduta da sociedade e de seus representantes institucionais e políticos. Na vida social, porém, observa-se que os brasileiros prezam os valores morais e familiares, sendo muito frequentemente conservadores e respeitosos no que diz respeito à honestidade e a comportamentos retos.


Contudo, quando passamos para a vida pública, o descalabro é total. Políticos de esquerda e de direita, em qualquer posição, se empanturram de recursos públicos por meio de emendas às suas bases eleitorais, muitas vezes desviadas para o bolso de alguns, sem nenhum controle público eficaz. Em nome da não contaminação privada da vida política, criaram-se fundos partidários e eleitorais, aumentados ao bel-prazer dos parlamentares, como se o dinheiro dos pagadores de impostos fosse deles. E muitos parlamentares ainda se dão ao luxo de se aproveitarem de recursos de supostos banqueiros – como Daniel Vorcaro –, na verdade criminosos. Ganham, assim, uma vida luxuosa para se tornarem corretores de luxo. Não se deve, todavia, confundir a atividade bancária com atos ilícitos.

Note-se que as posições ideológicas são as mais variadas, mas tendo em comum uma mesma apetência para o enriquecimento ilícito. Nas atividades deste dito “banqueiro”, houve uma contaminação generalizada, cujos efeitos ainda não se esgotaram. O candidato do PL, Flávio Bolsonaro, foi diretamente afetado, assim como o presidente do PP, Ciro Nogueira, e o ex-líder do governo no Senado, Jacques Wagner, numa lista que não se exaure aqui. Mais impressionante ainda, atingiu igualmente dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Os argumentos utilizados, para além do fato de atingirem a inteligência alheia, compartilham de um mesmo padrão: a ausência de moralidade à qual se acrescentam supostos argumentos jurídicos.

Torna-se, então, necessária uma distinção entre valores morais e justificativas jurídicas. Do ponto de vista da moralidade, nada é apresentado, nem padrões mínimos de probidade pública ou impessoalidade. Passa-se por cima de uma questão moral essencial, tal como formulada por Kant, uma ação ou uma regra qualquer, política ou jurídica, deve ser submetida ao seguinte teste: a ação ou a regra em questão pode ser universalizada, tendo validade para qualquer um? É ela válida para a coletividade como um todo?

Em seu lugar, encontramos pretensos argumentos jurídicos, segundo os quais tudo é feito legalmente, havendo sempre uma “interpretação” ou ato administrativo qualquer a validar tal decisão. O Brasil está se tornando o País das interpretações.

Daqui a pouco 2 + 2 não serão mais quatro, mas cinco ou três ou seis, dependendo da “interpretação”, sempre havendo o recurso adicional de decretos e normas internas às corporações estatais. Terminaremos, assim, numa hermenêutica do ilícito justificada legalmente, mandando para o espaço a moralidade e a racionalidade pública.

Pegue-se ainda os penduricalhos do Judiciário, uma verdadeira excrescência, embora os desembargadores e juízes se comprazam em justificar os seus atos com “interpretações”, numa exuberância retórica visando a justificar o injustificável. A Constituição é clara: nenhum funcionário público pode ganhar mais do que estipulado para um ministro do STF. Começam, então, os “argumentos”: a verba não é do tipo X, mas do tipo Y e assim por diante. São “penduricalhos” materiais e linguísticos, os dessa hermenêutica muito criativa.

Jamais se deveria esquecer um fato básico, o de que os recursos ditos públicos são oriundos do setor privado. São os recursos dos contribuintes que foram transferidos para a esfera estatal, sob a condição, evidente, de que deveriam ser utilizados para a totalidade da sociedade e não em benefício de alguns, os privilegiados. Quantos mais recursos são gastos em privilegiar alguns, sejam agentes públicos ou privados, menos recursos haverá para creches, educação, saúde, saneamento e assim por diante. O bolo dos impostos e contribuições é finito. Uma fatia maior para uns resulta numa fatia menor para outros.

E para piorar a situação, vivemos sob um governo perdulário, cuja característica principal é a do descontrole dos gastos públicos, na mais completa irresponsabilidade fiscal. Quem deveria dar o exemplo torna-se partícipe do empobrecimento da sociedade. Procura contornar os limites dos recursos públicos em uma frenética corrida por mais impostos, cujos resultados são aumento da dívida pública, asfixia da atividade econômica e pressão inflacionária.

E o bem comum esvai-se na ausência de moralidade pública, nas “interpretações legais” e na irresponsabilidade institucional e governamental.

A liberdade é não ter medo, ser precário é temer

Quando cheguei a Lisboa para estudar, comecei a usar um caderninho de papel quadriculado para apontar as despesas. De cada vez que ia à mercearia, tomava um café ou comprava um bilhete de metro, gatafunhava a caneta azul os gastos, que iam somando, subtraindo o resultado à mesada que os meus pais me davam. O dinheiro era curto, mas as minhas paciência e capacidade de gestão financeira ainda eram mais. Rapidamente, perdi o hábito de apontar as despesas, até porque me enervava ver aquelas contas de somar a subtrair ao pouco que tinha. E, além disso, tinha mais o que fazer. A falta de método deu-me direito a alguns sustos. Dias em que percebia que só podia comer esparguete com atum ou em que ia ao supermercado fazer contas de cabeça às moedas e às calorias para ver como podia safar o fim de semana antes de me chegar à conta mais uma remessa de dinheiro parental.

O pior de tudo foi quando tive de ir fazer um trabalho para a faculdade à Baixa e percebi que já não tinha dinheiro para o bilhete do metro. Arranjei maneira de passar os torniquetes e lá me enfiei no comboio sem pagar. Claro que não foi preciso andar muito para aparecerem uns fiscais e eu acabar com uma multa grande e uma humilhação ainda maior. Sou pouco dada às pequenas prevaricações não tanto por questões morais (embora elas também me aflijam), mas sobretudo porque tenho a certeza de que vou ser apanhada. Esta pequena história confirma-o e vem dar razão aos motivos que me levaram a nunca ousar levar cábulas ou a copiar num exame.

Sou uma privilegiada. Tive sempre a rede financeira de pais e avós, para ajudar a compor salários magros numa cidade cara. Não tenho a pretensão de saber o que é o susto de viver na angústia de não ter como chegar ao final de cada mês, embora saiba o que é ver uma conta chegar aos zeros. Apesar de todo o privilégio, há uma coisa que sei: não há maior liberdade do que não ter de olhar para o saldo da conta. E não há nada que nos tolha mais do que a incerteza financeira. É ela que nos cala a boca quando queremos reivindicar. É ela que nos prende as pernas quando gostaríamos de arriscar. É ela que nos congela quando sonhamos mudar de vida.

O poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes

Uma vida de precariedade é uma trela curta. A falta de dinheiro é um açaime. O instinto de sobrevivência diz-nos que caladinhos e dóceis é que estamos bem. E assim ficamos, cheios de medo, encolhidos na vidinha, talvez apenas espumando raiva para os que não podem ameaçar-nos, que olhar para cima já é um perigo. Ter os olhos rentes ao chão é tudo o que nos resta.


Vem esta conversa a propósito da palavra “liberdade”. Essa palavra bonita, arejada, ampla e luminosa. Os novos arautos da “liberdade” dizem-nos que a segurança é uma amarra, a flexibilidade é um trampolim e a falta de regras é o que nos fará prosperar. Vêm munidos de motosserras, que em vez de usarem para cortar as amarras da exploração, brandem contra tudo aquilo que protege aqueles que nasceram com pouco. “Que bonita é a liberdade”, dizem-nos. E tendemos a acreditar, porque a sabemos bela e preciosa. Quem não quer, afinal, ser livre?

Começam, então, a deitar paredes abaixo, para que possamos sentir-nos livres. Vão ao chão a Educação, a Saúde e a Habitação. Derrubam-se as pensões e os direitos no trabalho. Fazem-se em pó as prestações sociais. Fica arejado, sim. Mas começamos, depois, a perceber que estamos já sem paredes. E é uma casa muito engraçada, que fica sem teto e fica sem nada.

Mas dizem-nos, aí, que cada um de nós poderá erguer a sua própria mansão. Cada um com o seu esforço e o seu trabalho. Só não nos explicam que há os que já nascem com milhões e os que, agora que tudo foi demolido, nem as migalhas têm para se aguentarem nas pernas. E há os doentes e os velhos e as crianças. Mas não pensem nisso, esforcem-se. Trabalhem e prosperem. Agora, sem Estado a atrapalhar, tudo é caminho. Não há quem nos limite.

Os que estão em cima rejubilam. Os seus milhões parecem fêmeas, reproduzindo-se sobre o trabalho dos que perderam todos os direitos, com as jogadas dos casinos financeiros, com a especulação sobre o que até agora era um direito, com as rendas garantidas pelo Estado que afinal serve só para distribuir contratos milionários. Os de baixo sonham. Talvez um dia, pensam, enquanto aguentam mais uma jornada que não acaba, enquanto percebem que o pão e a casa estão cada vez mais caros. E olham para um ou dois casos de alguém que nada tinha e tudo conseguiu como num golpe de mágica, com criptomoedas ou visualizações de YouTube. Talvez um dia.

Sim, claro, mas ao menos são livres. Somos livres. Podemos dizer o que queremos, ser o que queremos. Podemos mesmo? Nos EUA acabam de ser presos 15 influencers acusados de “atividades antifascistas” pela forma como expuseram operações do ICE, a polícia anti-imigração de Donald Trump, nas redes sociais. São acusados de conspiração e a acusação considera que independentemente de terem ou não provocado danos reais às atividades do ICE, já incorreram em crimes.

Elon Musk, o grande libertário, também usou esta semana o seu poder financeiro ilimitado para obrigar um canal alemão de televisão a cortar uma peça na qual se fazia a relação entre as suas declarações incendiárias no X e o pogrom feito por racistas que perseguiram, atacaram e incendiaram casas de imigrantes em Belfast na sequência de um crime de esfaqueamento praticado por um imigrante. A Musk, o novo dono da mais colossal das fortunas, devidamente amparada pelos contratos públicos milionários que vai somando, bastou-lhe acenar com a ideia de um processo judicial contra a estação televisiva. O medo fez o resto. O medo faz sempre o resto.

Liberdade é não ter medo. Mas o poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes. Não se pode ser livre sem se ser igual. Não se consegue ser igual perante a lei e nos direitos quando o fosso que nos separa se agiganta ao ponto de alguns ficarem ao nível dos deuses e outros tão rasteiros que deixam de ser humanos.

Quando vierem falar-vos em liberdade, lembrem-se de que ela não é uma palavra vazia. É uma palavra frágil, que definha quando o ar da igualdade se torna rarefeito, que se desfaz quando não a partilhamos. Se queremos a liberdade para nós, temos de saber dá-la aos outros. Se queremos a liberdade para todos, temos de partilhar direitos e redistribuir recursos. Se queremos liberdade, temos de a exigir por inteiro. Sem medo.
Margarida Davim

'Por una cabeza'

Pelas apurações extraoficiais, Abelardo de la Espriella, o candidato da direita radical, foi eleito presidente da Colômbia. As pesquisas já indicavam que Espriella levava vantagem sobre seu rival no segundo turno, o esquerdista Iván Cepeda. O que surpreendeu foi o resultado apertado. Se os números da contagem prévia se confirmarem, o que normalmente acontece, Espriella venceu por uma diferença de apenas um ponto percentual (49,66% a 48,7%). Na Colômbia, os votos em branco são válidos, daí que o vencedor não precisa atingir 50%.


O resultado colombiano vem enquanto o Peru ainda tenta determinar quem venceu o pleito presidencial do dia 7. A também direitista Keiko Fujimori lidera a contagem oficial por margem mínima (50,1% contra 49,9%). É impossível não recordar a vitória apertada de Lula sobre Jair Bolsonaro em 2022, por apenas 1,8 ponto percentual.

O que está acontecendo? As margens de vitórias eleitorais estão se estreitando? É possível que sim, mas é preciso cuidado para não superestimar o alcance desse efeito. Tivemos aqui mesmo na América Latina vários pleitos recentes, como o do Chile e o da Bolívia, que foram vencidos com maiorias bem mais confortáveis. O que parece mais seguro afirmar é que a polarização afetiva em ambiente de rápida circulação de informações (e desinformações) deixa o eleitorado mais arisco e isso, notadamente em disputas de segundo turno em que ambos os candidatos têm alta rejeição, produz as margens apertadas. Mesmo quem não é polarizado e não morre de amores por nenhum dos contenedores é forçado a optar pelo que considera menos ruim.

É interessante notar que essa maior volatilidade afeta também os líderes eleitos por maiorias mais expressivas. O tradicional período de lua de mel dos governantes foi drasticamente encolhido, como mostram os protestos na Bolívia e a rápida deterioração da popularidade de Kast no Chile.

Mesmo que consigamos restaurar o espaço do eleitor moderado, a impaciência algorítmica, creio, veio para ficar.

A política como continuação da guerra pela linguagem

A política moderna, além de se apresentar como espaço do diálogo, da negociação e do pacto, continua falando como se estivesse no campo de batalha. O candidato não disputa uma eleição: “entra na guerra”. O adversário não é concorrente: é inimigo. A campanha não se organiza apenas por ideias: monta “estratégias”, define “táticas”, escolhe “alvos”, concentra “fogo”, prepara “ataques”, executa “manobras”, “ocupa territórios” e busca “aniquilar” a resistência do outro.

A linguagem revela mais do que parece. Quando a política usa palavras da guerra, expõe a natureza conflitiva do poder. Toda campanha é uma disputa por corações, mentes, territórios sociais e simbólicos. Há generais de marketing, soldados de rua, artilharia digital, infantaria partidária, trincheiras ideológicas e bombardeios de versões. O voto transforma-se no território a conquistar.


Sun Tzu, o general-filósofo, que escreveu o livro A Arte da Guerra, há mais de 2.500 anos, ensinava que a vitória superior é vencer sem combater. Na política, isso significa desarmar o adversário antes que ele ataque: ocupar sua agenda, confundir sua base, antecipar seus movimentos, atraí-lo para terreno desfavorável. Miyamoto Musashi, perito na arte desenvolvida pelos samurais (duas espadas presas â faixa da cintura, com a lâmina para cima); recomendava ver o distante como próximo e o próximo com distância. Em seu livro famoso (Um Livro dos Cinco Anéis), oferece lições preciosas para campanhas: perceber o detalhe escondido, a fraqueza invisível, o momento certo de “cruzar o riacho”

Níccolò Machiavelli, considerado o artífice da Ciência Política, famoso por escrever o Principe, mostrou que o poder raramente caminha de mãos limpas. A aparência, a dissimulação, o cálculo e a administração do medo fazem parte do repertório dos que desejam mandar. O cardeal Mazarino, primeiro-ministro da França (1602-1661), um estadista italiano radicado na França, foi ainda mais cru: simular, dissimular, prever antes de agir, falar bem de todos e não confiar em ninguém. É a cartilha amarga da política como arte da sobrevivência.

Karl von Clausewitz, um filósofo da guerra, em seu livro, Da Guerra, publicado por sua esposa em 1832, cunhou a ideia de que a guerra é continuação da política por outros meios. Talvez, hoje, seja possível inverter a frase: a política muitas vezes parece a continuação da guerra por meios verbais, eleitorais e midiáticos. Já Liddell Hart, um ex-capitão e conselheiro do Gabinete inglês, considerado um dos mais respeitados militares do mundo, mostrou, em seu livro Grandes Guerras da História, como a estratégia indireta, ajuda a compreender a política contemporânea: nem sempre o ataque frontal é o mais eficaz. Muitas vezes, vence quem desgasta lentamente, corrói a credibilidade, mina a moral adversária e obriga o inimigo a errar.

O problema é quando a linguagem de guerra deixa de ser metáfora e passa a contaminar a democracia. O adversário vira traidor. A divergência vira ameaça. A negociação vira rendição. A prudência vira covardia. O centro vira pântano. A política, que deveria organizar o conflito civilizadamente, passa a incendiá-lo Campanhas precisam de estratégia, disciplina, método e foco. Mas democracia não é campo de extermínio. O objetivo da política não deveria ser destruir o adversário, mas convencer a sociedade. Não deveria ser esmagar o outro, mas construir maioria legítima. Não deveria ser manipular o eleitor, mas apresentar caminhos.

A política pode aprender com os estrategistas da guerra, desde que não esqueça sua finalidade civilizatória. Estratégia sem ética vira emboscada. Tática sem verdade vira fraude. Comunicação sem responsabilidade vira munição.

No fim, a grande batalha democrática não é contra este ou aquele adversário. É contra a tentação permanente de transformar a política em guerra total. Porque, quando a política abandona a palavra como ponte e a usa como espada, a democracia começa a sangrar.

domingo, 28 de junho de 2026

Pensamento do Dia


 

O centro progressista precisa se radicalizar

Dois eventos recentes, em lados opostos do Atlântico, apontam para o mesmo problema. No Reino Unido, o homem que, segundo as expectativas gerais, deve substituir o imponente Keir Starmer como primeiro-ministro é Andy Burnham, que defende o “socialismo favorável aos negócios” como seu credo. Em Nova York, as eleições primárias democratas resultaram em vitórias impressionantes para os socialistas, sugerindo que a esquerda insurgente encontrou uma maneira de transformar o protesto em poder.

Primeiro, uma ressalva: a esquerda não está caminhando de maneira uniforme em direção ao socialismo. Muitas primárias fora da cidade de Nova York foram vencidas por democratas moderados. Em um distrito nos arredores da cidade, a veterana de guerra Cait Conley venceu com facilidade. Mas um certo tipo de progressismo está perdendo força, confiança e conexão com as pessoas que afirma representar.


No novo livro de Adrian Wooldridge, The Revolutionary Center: The Lost Genius of Liberalism (O Centro Revolucionário: O Gênio Perdido do Liberalismo, na tradução livre), o autor nos lembra que o progressismo já foi a força mais radical da política. Ele atacava os privilégios herdados, o poder monopolista, a censura, a aristocracia, a autoridade clerical e as corporações fechadas. Não era a ideologia do establishment. Era o aríete contra o establishment.

Hoje, o progressismo passou a ser identificado com o poder – grandes universidades, fundações, organizações de mídia, corporações e burocracias. Wooldridge argumenta que isso resultou em duas falhas graves.

A primeira é a passividade. O progressismo moderno, certamente desde a década de 1990, tem exaltado os mercados livres e as pessoas livres. Na prática, isso significou desregulamentar tanto a vida econômica quanto a vida pessoal, tratando as consequências como o preço da liberdade.

Nos mercados, isso permitiu que a consolidação corporativa e a desigualdade se alastrassem descontroladamente. Na vida pessoal, os progressistas passaram a relutar em afirmar que certos comportamentos são socialmente destrutivos.

O resultado é o fatalismo progressista. Pessoas acampam nas ruas das cidades – viciadas e com doenças mentais –, e os progressistas costumam descrever isso como um problema de moradia. Milhões sofrem de doenças relacionadas à obesidade, e os progressistas se sentem mais à vontade culpando os “desertos alimentares” do que enfrentando as empresas que viciam seus clientes em alimentos processados. As empresas de mídia social fazem o mesmo com a atenção de seus consumidores.

Wooldridge defende um renascimento do paternalismo progressista. A expressão soa estranha aos ouvidos modernos. Mas uma sociedade liberal deve valorizar os direitos individuais – e também exigir responsabilidade individual. Deve compreender que a liberdade pode ser destruída não apenas pelo Estado, mas também pelo vício, pelo monopólio, pelo crime, pela ignorância e pela dependência.

Isso não é um argumento a favor do socialismo. É um argumento a favor de um progressismo mais autêntico. Os progressistas deveriam valorizar os mercados não porque eles permitem que os fortes dominem ou que a desigualdade aumente, mas porque a concorrência genuína permite que os mais fracos desafiem os fortes.

Um mercado saudável não é aquele em que quatro empresas dividem discretamente um setor e usam advogados, lobistas e algoritmos para manter os concorrentes de fora. É aquele em que novos participantes podem surgir, os consumidores podem escolher, os trabalhadores podem mudar de emprego e os já estabelecidos podem fracassar.

A segunda falha identificada por Wooldridge é mais incômoda, pois diz respeito à própria condição dos progressistas. O progressismo acredita na meritocracia. Historicamente, essa foi uma de suas causas mais nobres. Defendia que as pessoas deveriam ascender por meio do talento e do esforço, e não por nascimento, raça, casta ou classe. Mas, com o passar do tempo, a elite

A saída para a crise do liberalismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical meritocrática se transformou em sua própria aristocracia.

Os progressistas de elite defendem a justiça social, mas fazem pouco para acabar com o sistema de admissão por legado. Eles querem que os pobres subam na escala social, mas não se isso exigir a construção de mais moradias nos bairros arborizados onde eles moram. Eles elogiam o mérito individual, mas criaram uma vasta burocracia da diversidade que, com muita frequência, julga as pessoas com base na identidade de grupo, em vez de no caráter pessoal.

Em nenhum outro lugar isso fica mais claro do que no ensino fundamental e médio. Uma política genuinamente progressista começaria pela criança. Ela atacaria qualquer instituição – sindicato, burocracia, conselho escolar, departamento universitário – que alimente seu próprio poder enquanto falha com as crianças dos EUA.

É aí que os socialistas e os populistas de direita ganham força. Eles entendem que as pessoas querem alguém que lute por elas. Podem oferecer respostas equivocadas – a esquerda com luta de classes, protecionismo e controle estatal, e a direita com protecionismo, ressentimento étnico e nostalgia racial. Mas soam como outsiders dispostos a enfrentar privilégios arraigados e oferecer proteção em um mundo onde a liberdade parece significar caos.

A saída para a crise do progressismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical. Os progressistas devem voltar a ser aqueles que detestam o monopólio, as vantagens herdadas, os sistemas fechados e os jogos viciados. Devem defender a concorrência real, a meritocracia real e a igualdade real de oportunidades. Devem enfrentar o poder corporativo quando ele esmaga os mercados, o poder governamental quando protege os privilegiados e o poder cultural quando cria burocracias que substituem a dignidade individual pela identidade de grupo.

Como argumenta Wooldridge, o centro não pode ser meramente um ponto médio entre a esquerda e a direita. Ele precisa ser revolucionário à sua maneira. A grande promessa do progressismo nunca foi que as pessoas fossem deixadas à própria sorte para definhar na liberdade. Era que as pessoas recebessem as ferramentas, as regras e as responsabilidades necessárias para prosperar. O progressismo começou como uma revolta contra o poder arraigado. Ele só sobreviverá se voltar a ser aquilo que foi em sua origem.

Fareed Zakaria

O barraco de Michelle e o rolo Master de Wagner contam como o país funciona

Um assunto político da semana foi o vídeo de Michelle Bolsonaro, que armou salseiro novo na extrema direita. Pode ter relevância nesta eleição apertada, pois ameaça tirar votos de Flávio Bolsonaro. Além do mais, Michelle pode vir a ter posição política maior do que já tem por causa de seu status na família irreal dos Bolsonaro e de seu apelo de palco gospel. Tem presença virtual eficaz e militância real.

Que figura nacional viaja pelo país a organizar células de base, de resto com mulheres, com um comitê político de comando majoritariamente feminino? Que lideranças nacionais de esquerda, que quase inexistem, têm tamanha organização digital e agregam militantes no chão de fábrica político? Mesmo quem não gosta do que diz Michelle deveria prestar atenção ao que ela faz, um plano de entrincheirar a direita. A querela de Michelle com os Bolsonaro é "pop", porém, por misturar fofoca, novela, barraco familiar, BBB e pinimba de influenciadores, paixões nacionais.


Outro assunto da semana, Jaques Wagner, teve também apelo sensacional, inclusive por servir à contagem de gols contra que direita e esquerda marcam por se envolver com gangue. O Master, porém, é mais: um fato social total do mundo dominante, para dizê-lo com sarcasmo.

Nesta semana ficou mais evidente o interesse de ministros do Supremo de, no mínimo, conter danos do processo contra Daniel Vorcaro, por interesse pessoal e por alianças no Congresso. Já vimos isso antes, o acordão que acabou por enterrar a Lava Jato ou, mais importante, provas de corrupção sistêmica de parte graúda da elite econômica e que ia muito além do PT.

O lavajatismo foi muitas coisas. Além de fraude processual e parte do movimento para acabar com o PT, era uma das revoltas contra um sistema político podre e impermeável. Perdeu, entre outros motivos, porque a política politiqueira ocupou o espaço deixado pela repressão provisória do lulismo-petismo. Partidos dos mais envolvidos na corrupção deste século, como PL e PP, foram ao centro do poder com Jair Bolsonaro. Aí valeram-se do enfraquecimento do Executivo, se apropriaram de mais recursos (fundos, emendas, favores empresariais), ampliaram bancadas, currais e a prestação de serviços ao poder econômico. Pode acontecer de novo.

O caso Master é também tentativa de normalizar o que se pode chamar de corrupção contratual ou cordial: contratos para lobby nebulosamente corrupto e favores bandidos chamados de amizade. Vorcaro e políticos, da direita à esquerda, assim justificam seus rolos.

Evidencia também a institucionalização da finança bandida. O Master se valia de um sistema de fintechs, fundos secretos e fraudulentos, de liberalização financeira tosca e de falta de instrumentos de fiscalização disso tudo, pois o Estado é fraco, por captura e falta de recursos no lugar certo. Esse sistema continua vivo, se reorganiza e está no centro de operações de facções, de sonegação e evasão de divisas, de fundos políticos corruptos, tráfico de drogas, armas, combustíveis, ouro e madeira, grilagem, desmatamento etc.

Pela lente de aumento do Master a gente vê a ruína do STF, o poder renovado do centrão direitão, a compra empresarial do Congresso, a infraestrutura financeira do crime, aluguel de poderosos por contrato, corrupção cordial e o padrão de acordões e perseguições políticas vigente desde 2015.

O caso Master e até o de Michelle contam um tanto de como o país funciona.

As dinâmicas afetivas e a polarização política brasileira

A política brasileira atual costuma ser explicada por uma palavra inevitável: polarização. A expressão ajuda a descrever parte do nosso contexto, mas também pode esconder mais do que revela. Quando se fala em polarização afetiva, a imagem que se forma é a de uma sociedade dividida em dois blocos equivalentes, movidos por paixões opostas e estáveis. O Brasil, porém, parece viver algo mais complexo. Não apenas se polarizou. Também se tornou mais negativo em sua relação com a política.

Essa diferença importa. Polarização afetiva significa gostar de um campo político e rejeitar intensamente o outro. Mas nem toda negatividade se converte em adesão. Há eleitores que rejeitam Lula sem necessariamente gostarem de Bolsonaro. Há eleitores que rejeitam Bolsonaro sem demonstrar entusiasmo por Lula. E há os que olham para os dois campos com frieza, distância ou desconfiança.


A comparação entre dois levantamentos da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) ajuda a enxergar essa mudança. Em 2006, uma pesquisa com 2.400 entrevistas mediu sentimentos em relação a Lula, então presidente, e Geraldo Alckmin, principal nome da oposição. Em maio de 2026, outro levantamento, com 1.500 entrevistas, repetiu a lógica, agora tendo Lula e Bolsonaro como referências dos campos nacionais. Nos dois casos, foram considerados sentimentos positivos, como entusiasmo, esperança e orgulho; e negativos, como raiva, medo e decepção.

O resultado confirma o avanço da polarização, mas aponta para algo além dela. A parcela de eleitores que combina adesão positiva a um campo com rejeição ao adversário passou de 19% para 31%. É um crescimento expressivo. Ainda assim, significa que 69% dos eleitores não se enquadram na polarização afetiva estrita. Isso, porém, não quer dizer que exista uma avenida livre, da mesma dimensão, para uma terceira via. A ausência de polarização pode significar indiferença, desalento, rejeição seletiva ou afastamento da política.

O dado mais revelador talvez esteja em outro lugar. O grupo dos que rejeitam um lado sem aderir positivamente ao outro passou de 6% para 19%. A política, portanto, não se tornou apenas mais polarizada; tornou-se mais movida por recusas. Cresceu o eleitor que se define menos pelo entusiasmo com um projeto e mais pela rejeição a uma alternativa. A negatividade passou a organizar a percepção política mesmo sem identificação forte com o campo oposto.

No sentido inverso, diminuiu a adesão positiva sem rejeição. Em 2006, 32% dos entrevistados gostavam de um campo político sem necessariamente rejeitar o outro. Em 2026, esse grupo caiu para 16%. Tornou-se menos comum preferir sem hostilizar. Também diminuiu a ambivalência, isto é, a presença de sentimentos mistos ou pouco definidos, de 29% para 10%. A política ficou menos cinzenta e menos aberta a zonas intermediárias de afeto.

A indiferença também cresceu: foi de 12% para 19%. A dupla rejeição aumentou de 2% para 5%, permanecendo minoritária, mas simbolicamente relevante. Esses dados mostram que a sociedade brasileira não está apenas dividida entre militantes de campos opostos. Ela também é composta por eleitores reativos, frios, desconfiados ou pouco mobilizados.

A mudança mais importante das últimas duas décadas talvez esteja justamente aí: tornou-se menos comum gostar de um campo sem rejeitar o outro; e tornou-se mais comum rejeitar um campo sem aderir plenamente ao adversário. A política brasileira ficou menos ambígua, mas não necessariamente mais programática. Ficou mais negativa.

Essa negativização afetiva tem consequências para a democracia. A emoção na política não é um problema em si. Democracias precisam de esperança, pertencimento e identificação coletiva. O risco surge quando a emoção predominante deixa de ser a adesão a um projeto comum e passa a ser a hostilidade ao outro. Quando isso acontece, a política se aproxima de uma dinâmica permanente de veto, medo e ressentimento.

Por isso, compreender o Brasil atual exige ir além da imagem de dois blocos simétricos em confronto. A política brasileira é estruturada por campos dominantes, mas ao redor deles há segmentos afetivos distintos: engajados, reativos, indiferentes, ambivalentes e os que rejeitam todos os lados. O país não vive apenas uma polarização entre paixões opostas. Vive também uma expansão da política como experiência negativa.

O Brasil não apenas se polarizou. Ele se negativizou afetivamente. E talvez seja esse o traço mais importante para entender os impasses democráticos dos próximos anos.

A Copa superlativa

A Fifa conseguiu organizar uma Copa do Mundo com números extravagantes: 48 seleções, 1.248 atletas de diferentes credos, etnias e culturas, estádios gigantescos espalhados pelos Estados Unidos, México e Canadá. Consta que a Fifa projeta faturar US$ 8,9 bilhões, tornando a Copa de 2026 a mais lucrativa da história do torneio. Em direitos de transmissão serão US$ 3,9 bilhões. Com ingressos e hospitalidade, outros US$ 3,12 bilhões. Patrocínios e marketing, mais US$ 1,8 bilhão. Com as pausas para hidratação virão US$ 500 milhões em receitas de publicidade.


A Copa 2026 expressa bem a mundialização do esporte mais popular do planeta. Está radicalmente mercantilizada. É uma máquina de fazer dinheiro. Os atletas protagonizam o espetáculo: viabilizam a rentabilidade das marcas e, ao mesmo tempo, exibem suas identidades, seus estilos pessoais, suas chuteiras valiosas. Uns mais, outros menos, todos são stars. A mundialização aprofundou a miscigenação, filha da “diáspora” mais recente. Fugindo das guerras e das más condições de vida em vários países (muitas ex-colônias) da África, da Ásia, do Oriente Médio e do leste europeu, diversas famílias criaram seus filhos no Ocidente e alimentaram tanto as seleções dos países originários quanto das europeias. Tudo se misturou. Seleções “brancas” ficaram multicoloridas.

Essa integração esportiva nivelou o jogo jogado. Não eliminou diferenças: continuam existindo equipes fortíssimas, fortes, medianas e fracas. Mas o equilíbrio aumentou. O milionário futebol europeu se tornou a Meca do esporte. Quem tem talento vai aprender lá. Com isso, atletas de diferentes países passaram a receber treinamentos semelhantes e a assimilar concepções táticas parecidas. Todas as seleções estão bem preparadas, com atletas que sabem o que fazer com a bola. As mais fracas se fecham, as mais fortes assumem riscos. Mas, no futebol, um erro decide. Não se ganha jogos por antecipação ou só pelo peso da camisa. Como observou o professor Paulo Fábio Dantas Neto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), “o futebol é um esporte em que jogadores e times podem substituir sua menor qualidade por mais retranca, garra, entrega, superação, coragem, heroísmo ou qualquer outro nome que se possa dar a zebras e surpresas em geral”.

Coisas importantes continuam a fazer a diferença. A tradição, a identidade e a continuidade do trabalho ao longo de anos. Das grandes escolas futebolísticas, apenas a italiana ficou de fora, mais uma vez. O tempo de preparação, de convívio dos atletas e de assimilação tática, o que produz harmonia e coesão coletiva. Os jogadores decisivos, em torno dos quais gira o jogo. Há vários craques distribuídos pelas seleções mais fortes. A Argentina tem um gênio, Messi. O Brasil tem Vini Jr., mas a seleção busca recuperar a identidade perdida e seu técnico não consegue definir uma equipe. Parece estar melhorando jogo após jogo.

E o que falar das transmissões televisivas, tanto da Globo quanto da novata e poderosa CazéTV? São uma prova de resistência para os espectadores. Carregadas de informações supérfluas e ufanismo. Investem pesado em autopromoção. A CazéTV o faz de forma escrachada, celebrando sua audiência e seus patrocinadores. A Globo é mais contida, mas segue roteiro semelhante. Os profissionais conhecem futebol, mas também atuam como animadores de torcida e garotos-propaganda. As emoções do futebol são amplificadas por discursos passionais. Menospreza-se a qualidade das seleções mais fortes para se exaltar a coragem e a resiliência das mais fracas. Fabricam-se heróis instantâneos (os 15 minutos de fama do goleiro Vozinha, de Cabo Verde) e tropeços ocasionais são transformados em feitos históricos. Há aí um componente de compensação: já que não há uma seleção brasileira competitiva, desconstruamos a imagem das melhores, torcendo contra elas.

Fernando Gabeira lembrou, numa coluna do Estadão (Hora de jogar com a cabeça na Copa, 19/6, A6), que a Copa, concebida como apologia do esporte e do fair-play, teve de conviver com a política migratória e a xenofobia de Trump. Os “ares da guerra contra o Irã foram transplantados para o campo esportivo”. O governo estadunidense passou vexame ao exigir que os iranianos jogassem nos Estados Unidos, mas dormissem no México. O árbitro somali Omar Artan foi barrado ao entrar nos Estados Unidos. Jogadores senegaleses foram submetidos a inspeções rigorosas sob suspeitas paranoicas. A Fifa aceitou.

Agora falta o desfecho. Virá o hexa? Por que não? Afinal, trata-se de futebol. Mas o futebol brasileiro não é mais um bicho-papão, perdeu qualidade e brilhantismo, paga um preço alto por sua desorganização, pelas gestões incompetentes, pelo endividamento dos clubes, pela ruindade da arbitragem. A eliminação precoce da seleção talvez contribua para que se veja a situação a que chegamos e impulsione mudanças importantes: reforma do calendário, aperfeiçoamento da formação de base e maior incorporação de tecnologia. A conquista da Copa, ao contrário, poderá varrer a sujeira e a mediocridade para baixo do tapete.

Só nos resta aguardar.

O eu dos outros

Volta e meia completos estranhos dirigem-se a mim para contestar o que acreditam que eu penso sobre um determinado assunto. Algumas pessoas fazem-no de forma gentil, outras com inacreditável brutalidade, animadas por um terrível ódio e indignação. Há quem me atribua ideias que jamais defenderia, intenções que nunca me ocorreram, frases que não escrevi — eventualmente, romances inteiros.

No início tentava defender-me. Certa ocasião, numa longa viagem aérea, fui reconhecido pelo passageiro ao lado.

— Você não é aquele palhaço?!

E logo me atacou, enterrando na minha alma espantada uma série de insultos afiados, tudo porque eu teria dito isto e aquilo a um determinado jornal. Neguei. Não, eu não pensava assim. O homem espetou-me no peito o indignado dedo indicador:

— Pensa, pensa, palhaço! Só não sabe que pensa!…

Hoje já não me defendo. Escuto com curiosidade. Afinal, quem sou eu para contradizer desconhecidos que me conhecem tão intimamente?


Só porque eu sou eu não significa que me conheça. Os meus inimigos íntimos, pelo contrário, conhecem-me admiravelmente. Não precisam conviver comigo, nem ler as crônicas que escrevo para este jornal, muito menos os meus livros. Basta-lhes passar os olhos por uma frase breve, retirada do contexto; assistir aos cinco primeiros segundos de um vídeo; escutar o comentário áspero do amigo de um amigo.

Antigamente, para conhecer um homem, era preciso jantar com ele, viajar na sua companhia, jogar cartas, passar noites partilhando cervejas, piadas, confissões. No mínimo, frequentar a mesma barbearia.

Hoje basta segui-lo no Instagram.

Com isto, venho descobrindo que, como Fernando Pessoa, escondo em mim um sem-número de personalidades. Todas, graças a Deus!, com opiniões fortes e originais. O mais curioso é que enquanto uns me acusam de uma qualquer heresia, outros acusam-me da heresia oposta. Ou seja, não apenas sou multidões, como sou também multidões contraditórias.

Suspeito que a nossa época resolveu um dos grandes problemas da filosofia. Durante séculos os homens perguntaram-se:

— Quem sou eu?

A resposta revelou-se afinal muito simples: basta consultar as redes sociais.

Existem hoje milhares de especialistas em identidades alheias. São pessoas de extraordinária competência. Conseguem determinar as nossas opiniões políticas a partir de uma simples fotografia; a nossa vida íntima a partir de um adjetivo distraído; as nossas intenções mais profundas através de uma vírgula mal colocada. Alguns, mais talentosos, descobrem até as teses que defenderemos amanhã.

Conheço desconhecidos que sabem exatamente o que penso sobre questões tão complexas como a situação na Palestina, o aborto, a inteligência artificial, o aquecimento global, a metafísica do impedimento e a melhor forma de preparar bacalhau. Enquanto eu hesito, duvido e, muitas vezes, me contradigo, estes meus procuradores espirituais mostram-me ao mundo com uma formidável coleção de firmes convicções bizarras.

Esta ideia me tranquiliza. Aos 65 anos começo a cansar-me de ser eu. É um ofício difícil. Felizmente, estes filantropos estão dispostos a desempenhá-lo por mim. A todos eles deixo aqui a minha infinita gratidão.

Nuremberg das bets no Brasil

Em uma manhã cinzenta de setembro de 2030, havia um silêncio elétrico no tribunal. Todas as atenções tateavam os réus. Reconhecia-se no olhar de alguns deles um sentimento de deslocamento, havia um não-lugar em suas íris; outros suspiravam a mais absoluta surpresa, como se tivessem dormido em um quarto nas Maldivas e de repente acordado ali. Pairava sobre um ou outro uma aura de injustiça. Afinal, se qualquer pessoa faria o mesmo para ganhar milhões de reais, por que eles eram acusados? Lá estavam no banco dos réus Casemiro Miguel, Luciano Huck, Neymar Jr, Virgínia Fonseca, Gusttavo Lima, Ronaldo Fenômeno, Carlinhos Maia, Galvão Bueno, Vinícius Jr entre outros.

Havia outros personagens ausentes e com acusações diversas nesse julgamento imaginário. O ex-presidente Jair Bolsonaro e outros integrantes de seu governo foram indiciados por omissão, já que deixou deixar o prazo expirar para a lei da regulamentação, não editou normas e assistiu o mercado explodir sem controle algum. Segundo a filósofa alemã Hannah Arendt, a omissão administrativa também pode permitir a consolidação de sistemas socialmente nocivos.

Talvez devesse começar esse texto com um aviso. Não se trata de uma comparação direta entre bets e nazismo e o Julgamento de Nuremberg, que entre 1945 e 1946, julgou os principais líderes dos crimes contra a humanidade Apostas são um atentado à saúde pública. A analogia se dá entre as engrenagens políticas, econômicas e sociais que produzem uma barbaridade; está na visão de Arendt: em vez de burocratas, os réus são influenciadores e comunicadores que apenas cumprem funções, ganham seu dinheiro trabalhando, como qualquer outro. Esse julgamento hipotético responderia a uma pergunta: quem são os responsáveis pelos danos causados pelas bets?

Não estou torcendo para ninguém ser preso. Mas por que essas celebridades são julgadas e não os donos das bets? Aí é que está. Quem são os donos? Onde vivem? Como se alimentam? Os famosos são a ponta do iceberg, estão ali por uma questão de jurisdição e exposição.

Durante o julgamento de Adolff Eichmann, um dos principais responsáveis pela organização logística do Holocausto, Hannah Arendt ficou aterrorizada ao não perceber sobre ele as sombras do fanatismo e do cinismo, enxergou apenas uma submissão cega à lei, o cumprimento rigoroso do dever, sem qualquer reflexão sobre uma ordem recebida – o que torna o mal banal.

As empresas pagam impostos, os influenciadores fazem publicidade, tvs e plataformas oferecem entretenimento, o Congresso regulamenta, os bancos processam as transações. Quem tem culpa? Quem é responsabilizado frente a uma população apunhalada por agrotóxicos, microplásticos, álcool, antibióticos, tabaco, algoritmos e toda sorte de poluição?

Uma de nossas crises é essa, o mercado deixou de ser instrumento, uma parte da sociedade, e passou a organizar toda a vida social. O verdadeiro tribunal não é apenas jurídico, mas moral e político. O debate não é apenas se as bets são legais, mas se uma sociedade pode considerar legítima uma atividade cuja prosperidade depende da desgraça de milhões.
Marco Miguel

sábado, 27 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 



O homem apagado

Não era apenas um objeto. O homem largado sobre a cadeira de rodas era um ser humano. Repleto de sonhos, de frustrações. Quem sabe de amores perdidos ao longo da vida? Talvez por ser uma pessoa em situação de rua, o homem foi apagado aos olhos dos outros. Morreu dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Recanto das Emas, em circunstâncias que estão sendo apuradas. De repente, o homem deixou este mundo. Parou de respirar. O corpo, inerte sobre a cadeira de rodas, somente foi percebido tempos depois por uma mulher, enfermeira, que estava na sala de espera com o marido. Mas era tarde demais.


O homem apagado estava sem sinais vitais. Virou número, estatística, dado que provavelmente será usado para evitar novos apagamentos em unidades de saúde. No dia seguinte, ganhou identidade pelas autoridades: Vilmar da Silva, 49 anos. Antes de morrer, contou a um grupo de religiosos que não se alimentava havia 15 dias. Acredita-se que estivesse ali para se proteger do frio e para aliviar a sede. Dessa vez, parece ter sido ignorado. Até partir.

Outros homens, mulheres e crianças apagados cobram o preço de sua mera existência mundo afora. Os palestinos sofrem apagamento quase diariamente. Bombardeios israelenses arrastaram para a morte dezenas de milhares de moradores da Faixa de Gaza. E o mundo se cala, parece acostumado à política de matança. Dia desses me deparei no Instagram com a história de um palestino assassinado em ataque aéreo enquanto buscava os convites de seu casamento. Quase diariamente, nós, jornalistas, recebemos fotos das agências de notícias em que pais e mães da Palestina se desesperam e se debruçam sobre os corpos dos filhos envoltos em mortalha. Assim como Vilmar, que morreu sobre uma cadeira de rodas na UPA de Recanto das Emas, retiraram-lhes o direito de viver.

Mas não é preciso ir tão longe para ver homens anulados pela sociedade. Muitos de nós estamos presos ao individualismo, ao egoísmo, à busca do enriquecimento e da prosperidade. Nós nos preocupamos tanto conosco e não olhamos para o próximo, para o lado. Quantos filhos abandonam seus pais em asilos e os apagam da própria história? Tantas vezes, quando o fazem, levam meses ou anos sem uma visita. O idoso alimenta aquela esperança, irreal, a cada fim de semana. Do outro lado, muitos encontram silêncio, desprezo e esquecimento em vida. Também quantos pais ignoram a existência de seus filhos e não lhes oferecem o mínimo suporte afetivo e financeiro? Destroem a saúde psicológica de quem deveriam amar.

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade. Estão nos semáforos, nas portas dos supermercados, sob as pontes e os viadutos, lançados na sarjeta. Dependem unicamente da empatia alheia, que quase sempre inexiste. Quando o Estado lhes dá atenção, normalmente é para sepultá-las.

Intervenção assumida

Observamos seu otimismo em relação às próximas eleições de outubro e sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição caso o senhor seja eleito.

Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos 

Livro XI


I
. Devo considerar o meu vínculo com os homens e que fomos feitos uns para os outros. Sob outra perspectiva, fui concebido para pastorar, como um carneiro que chefia o rebanho ou um touro que conduz a manada. Devo examinar a questão a partir das primeiras convicções: caso não existam somente átomos, a natureza ordena tudo. Assim sendo, as coisas inferiores existem para o benefício das superiores, e essas para o bem umas das outras.

II. Devo avaliar quais tipos de homens são na mesa, na cama e assim por diante. Particularmente, a quais compulsões estão sujeitos devido às suas opiniões e o quanto se orgulham das suas ações.

III. Caso os homens façam o que é certo, não devemos nos descontentar. Caso não, agem por falta de consciência e por ignorância. Nenhuma alma é voluntariamente privada da verdade ou tolhida da aptidão para lidar com os homens conforme seus méritos. Esse é o motivo de se chatearem quando são chamados de injustos, ingratos e gananciosos e, em especial, malfeitores dentre seus vizinhos.

IV. Também erro e sou um homem como qualquer outro. Embora não incorra em certas falhas, ainda estou inclinado a cometê-las — mesmo que a covardia, o apego à reputação ou outras motivações vis me previnam de falhar.

V. Nem sequer sei se os homens estão agindo errado ou não, porque muitas ações são realizadas proporcionalmente às circunstâncias. Um homem precisa saber muito para ser capaz de julgar corretamente as ações do outro.

VI.Caso esteja aborrecido ou aflito, devo ponderar: a vida do homem é um breve instante e logo estaremos todos mortos.

VII. O que nos perturba não são os atos dos homens — pois esses se fundamentam nas suas faculdades hegemônicas —, mas sim nossas próprias opiniões acerca dos atos. Portanto, remova a sua opinião. Pare de julgar um ato como doloroso e sua dor cessará.

“Como, então, remover essas opiniões?”

Basta reconhecer que nenhum ato errôneo sofrido por você é vergonhoso. Afinal de contas, se o que é vergonhoso fosse apenas mau, você cometeria muitos erros, seria um ladrão e tudo mais.

VIII. A dor é causada mais pela cólera e pelo aborrecimento em resposta aos atos do que  pelos atos em si.

IX. Uma boa disposição é invencível quando é genuína—quando o sorriso não é falso ou fingido. Não há nada que o homem mais violento possa fazer caso você continue tratando-o gentilmente, admoestando-o e calmamente corrigindo-o quando tentar prejudicá-lo. Diga a ele: “Não é assim, meu filho. Fomos constituídos por natureza para outro propósito. Você prejudica não a mim, mas a você mesmo.” Mostre-o, com tato e recorrendo a convicções abrangentes, que nem as abelhas nem quaisquer animais gregários agem como ele. Você deve se dirigir a ele de modo afetuoso, sem sarcasmo ou reprimenda e sem guardar rancor na sua alma. Você deve admoestá-lo não como se fosse um professor ou como se pretendesse impressionar espectadores, mas sim como se ele estivesse sozinho — ainda que outros estejam presentes.

Receba essas nove regras como se fossem dádivas das nove Musas.

Comece, enquanto ainda vive, a ser um homem. Evite, na mesma medida, tagarelar e se aborrecer com os outros, porque ambos são comportamentos antissociais e danosos. Quando encolerizado, retenha esta verdade: ser movido pela paixão não é viril. A brandura e a gentileza, por estarem mais em consonância com a natureza humana, são mais viris. Quem possui essas duas qualidades demonstra força, nervos e coragem, diferente do homem sujeito ao ímpeto da paixão e do descontentamento. Ao passo que se liberta das paixões, o homem se fortalece. A raiva é uma característica da fraqueza tanto quanto o sofrimento. Quem cede à ira está tão ferido e rendido quanto quem cede à dor.

Por fim, caso queira, receba uma décima dádiva do líder das Musas:

X. Esperar que homens maus não façam o mal é insanidade, pois significa expectar o impossível. Permitir que se comportem dessa maneira com o outro mas não com você é irracional e tirânico.
Marco Aurélio, "Meditações"

Por que ainda as chamamos de redes sociais?

Certa vez, tive um professor no ensino médio famoso por suas aulas intermináveis. Entre bocejos, ele repetia um aviso que, na época, parecia óbvio: “Nunca se esqueçam de que o que acontece na televisão é ficção, não realidade”. Anos depois, vendo o que as redes sociais se tornaram , esse aviso ressoa com uma relevância inesperada.

O termo “rede social” tornou-se comum em meados dos anos 2000, coincidindo com a ascensão de plataformas como Facebook, Twitter e YouTube. Durante seus primeiros anos, a expressão descrevia com bastante precisão o que acontecia ali: espaços digitais onde as pessoas compartilhavam conteúdo, mantinham contato com amigos e familiares e reconstruíam relacionamentos enfraquecidos pelo tempo ou pela distância. O que importava não era apenas o conteúdo, mas a conexão que ele fomentava: comentar uma foto, responder a uma publicação. Essa dimensão relacional alimentou uma ilusão coletiva sobre o potencial dessas plataformas para fortalecer a solidariedade e democratizar a comunicação.

No entanto, as mesmas plataformas que facilitavam a conexão tornaram-se amplificadoras de desinformação, assédio e polarização, enquanto a lógica da viralização recompensa conteúdo extremo ou falso. Mas, além desses problemas amplamente documentados, ocorreu uma transformação mais profunda e menos visível: uma mudança na forma como as pessoas usam as redes sociais. Dados da Pesquisa Global de Consumidores sobre o Uso de Redes Sociais mostram que cada vez mais usuários priorizam o consumo de conteúdo em detrimento da interação. Além disso, a natureza desse conteúdo mudou. As postagens que dominam os feeds não são mais, em sua maioria, espontâneas, mas sim peças cuidadosamente elaboradas com uma intenção clara: capturar a atenção.


Essa evolução decorre de um modelo econômico específico. O ativista Cory Doctorow o descreve da seguinte forma: uma vez que as plataformas conquistam a fidelidade do público oferecendo serviços gratuitos, elas gradualmente priorizam outros interesses, orientando o ambiente primeiro para os anunciantes e depois para a maximização do lucro, mesmo que isso prejudique a experiência do usuário. Nesse processo, a sociabilidade, a força motriz inicial dessas redes, torna-se um recurso explorável: as interações deixam de ser o objetivo final e passam a ser o meio para capturar e manter a atenção, o bem mais disputado no ecossistema midiático atual.

O resultado é um ambiente onde a visibilidade é profundamente hierárquica. Um pequeno grupo de criadores comanda a atenção , enquanto a maioria adota um papel passivo: não se trata mais tanto de conversar com outras pessoas, mas sim de seguir aqueles que estão constantemente produzindo. O que emerge não é uma rede social no sentido original, mas algo mais próximo de um sistema de relações unilaterais. Esse tipo de conexão, em que uma das partes conhece (ou pelo menos acredita conhecer) a outra sem qualquer interação real, é chamado de parassocial. Não é um fenômeno novo: já existia entre o público e as celebridades da televisão ou do rádio. A diferença é que agora se tornou a forma dominante de interação em plataformas que ainda chamamos de sociais.

Nada disso significa que a ficção seja inerentemente negativa; ela pode ser uma fonte de entretenimento e aprendizado. O problema surge quando ela substitui os laços que envolvem reciprocidade e presença mútua. Uma coisa é acompanhar a vida de alguém através de uma tela , e outra bem diferente é fazer parte de uma rede de relacionamentos que pode nos apoiar quando precisamos. A primeira entretém; a segunda constrói o tecido social. Hoje, grande parte do tempo gasto nas redes sociais é dedicada à primeira, ativamente reforçada por algoritmos que priorizam conteúdo que maximiza o tempo gasto online. Como resultado, aqueles que ainda valorizam uma conexão mais autêntica estão se refugiando em espaços mais limitados: grupos de mensagens privadas, comunidades fechadas e ambientes baseados em assinatura, onde a confiança importa mais do que a escala.

Vale, portanto, retornar à questão inicial. Se o que acontece nesses espaços se assemelha cada vez mais a um sistema de consumo de conteúdo do que a uma rede de relacionamentos, ainda faz sentido chamá-los de “redes sociais”? Nomear não é um ato trivial. As palavras que usamos para descrever a realidade condicionam a nossa compreensão dela . Continuar falando em redes sociais pode nos fazer esquecer a transformação pela qual essas plataformas passaram e dificultar a reflexão crítica sobre o seu funcionamento atual. Se a sua natureza mudou, também devem mudar as categorias que usamos para pensar e analisá-las. Não se trata apenas de terminologia: trata-se de reconhecer que o que domina esses espaços hoje não é precisamente a conexão entre iguais.

Aquele professor nos disse para não confundirmos a tela da televisão com a realidade. Hoje, quando a tela cabe no bolso e a levamos para todo lugar, seu aviso já não soa óbvio. Soa urgente.
Marta Fraile

Um país que só existe hoje e até a esquina

Faça um teste com qualquer pessoa das que lhe prestam serviços, em sua casa, no seu prédio ou na rua. Pergunte-lhe se sabe o que aconteceu no Brasil em 1964. Ou sobre qual veio primeiro, se a Segunda Guerra ou a Guerra do Paraguai. Ou em que ano foi proclamada a República, 1822 ou 1889. Não quero antecipar nada, mas temo que as respostas não sejam muito animadoras. Converso com muita gente, de todas as classes e categorias, e sinto nelas um distanciamento crescente entre as premências da vida real e um conhecimento básico do país. É como se, para elas, o Brasil só existisse hoje e até a esquina.


Todos recebemos com satisfação os dados do recente levantamento do IBGE, que registrou a queda do analfabetismo para, pela primeira vez, abaixo de 5% da população. É uma vitória –há cerca de 100 anos, a taxa era de monstruosos 80%. Um fator fundamental para a escalada da alfabetização foi a transferência da população rural para as cidades nas décadas de 1960 e 1970. Mais da metade dos 4,9% atuais que não sabem ler nem escrever tem acima de 60 anos, o que confere com o dado anterior. São os brasileiros que ficaram para trás, e os governos não foram até a eles para alfabetizá-los.

Mas, para mim, o chocante são os 29% da população entre 15 e 60 anos, hoje, que sabem identificar as palavras e os números, mas não conseguem entender textos pouco além da cartilha nem multiplicar 3 vezes 9 ou dividir 12 por 4. Chama-se a isso analfabetismo funcional e atinge até quem está nas faculdades. Pode-se aceitar que 12% dos atuais matriculados no ensino superior sejam analfabetos funcionais? Serão esses os nossos profissionais do futuro?

Dos 16 anos que se exigem de alguém para se educar (nove no ensino fundamental, três no médio e quatro no superior), o brasileiro passa só dez anos na escola. O americano, 14. Sim, temos bolhas de alta realização –sempre as tivemos. Só que todos os países também as têm e, na média, mais do que nós.

Mas chega de pessimismo. Neste momento, há um livro vendendo aos milhões no país: o álbum de figurinhas da Copa.

Ameaças que pairam sobre nós

No dia 3 de janeiro deste ano, Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, em uma ação militar espetacular que quebrou todas as resistências e retirou de seu país o presidente da Venezuela, sem nenhuma baixa norte-americana.

No dia 15 de janeiro, Lula convocou uma reunião emergencial com os chefes das Forças Armadas e perguntou se temos como nos defender de uma ação similar no Brasil. A resposta é frágil, e volta à tona a falta de investimentos em modernização e armamento.

A questão da defesa do país já se colocava em razão dos atritos com os Estados Unidos ocorridos em 2025. Em 3 de novembro de 2025, depois da aprovação do PL pelo Senado, a Câmara dos Deputados aprovou o repasse de R$ 30 bilhões para reaparelhar e modernizar Exército, Marinha e Aeronáutica. Dinheiro extra, fora das regras do arcabouço fiscal.

A Marinha encomendou oito fragatas da classe Tamandaré, equipadas para guerra antiaérea, antissubmarino e de superfície, e reforçou seu programa do submarino nuclear. A Aeronáutica impulsiona a construção no Brasil dos caças Gripen, comprados da Suécia e com uma linha de montagem no Brasil. O Exército impulsiona a fabricação de carros de combate blindados e sistemas de inteligência. Todas as Forças compram munições e encomendam drones e mísseis. A indústria bélica brasileira ganha impulso.


Na avaliação do governo, há um risco crescente de conflitos militares com os Estados Unidos e os demais países que constituíram recentemente o Escudo das Américas, em uma reunião no dia 7 de março de 2026. Eles formam uma coalizão política e militar comandada pelos Estados Unidos, com a participação de outros 17 países latino-americanos. A Doutrina Donroe (“As Américas para os norte-americanos”) se propõe a combater toda forma de expressão de autonomia ou soberania nacional diante das imposições dos Estados Unidos.

Em 10 de março deste ano, o Congresso do Paraguai aprovou um acordo com os Estados Unidos que permite a presença de militares norte-americanos e de membros do Departamento de Defesa no país. O mesmo tratado permite a livre circulação de aeronaves, barcos e veículos operados pelo Departamento de Defesa. Fica acordado que os Estados Unidos terão uma base militar no país.

A Argentina fez acordo por cinco anos com a Quarta Frota do Comando Sul dos Estados Unidos para cooperação militar no patrulhamento do Atlântico Sul. Do acordo constam transferência de tecnologia, treinamento e interferência direta norte-americana contra eventuais “ameaças”. Em construção, uma base militar norte-americana na Patagônia argentina. No momento, a base militar de Ushuaia permite a presença de forças especiais navais norte-americanas, por força de um decreto administrativo do governo Milei.

No Equador, os Estados Unidos já atuam na luta contra o “terrorismo”.

Na região Norte, o Exército brasileiro já deslocou efetivos e reforçou sua presença na fronteira com a Venezuela, hoje um protetorado norte-americano. Além disso, seguindo a proposta da Política de Transformações (modernização e maior eficiência), o Exército determinou que 20% de seu efetivo esteja em elevado grau de prontidão para cenários de defesa e de resposta rápida, e designou cinco brigadas para essa condição – ao todo, são cerca de 25 mil soldados.6

Mesmo com todo esse esforço, nossa vulnerabilidade é enorme. E podemos ter problemas caso se efetive o pedido de Flavio Bolsonaro para que Trump classifique o PCC e o CV como organizações terroristas, uma vez que a legislação americana permite a intromissão em outros países para combater o terrorismo.

A realidade é que a América do Sul se militariza, e o que antes era um território de paz hoje se converte em um território de disputas no qual os Estados Unidos já praticam uma guerra híbrida, isto é, um conflito que combina táticas militares com ações não convencionais para derrotar um adversário sem necessidade de um confronto bélico. Combinam-se ações de manipulação de notícias e fake news, roubo de dados, ciberguerra, pressão econômica, financiamento das oposições, influência em processos eleitorais, lawfare (guerra jurídica). Mas o confronto bélico sempre está no horizonte, como forma de pressão.

Não tenhamos dúvidas de que o Brasil está sendo atacado. Trump não aceita nossa defesa da soberania, nosso esforço de defesa do multilateralismo para sair de sua dependência, nosso esforço de industrialização, nosso esforço de integração latino-americana e com o Brics.

Os Estados Unidos, associados às plataformas digitais, vão tentar interferir em nossas eleições, como já ameaçou Elon Musk, que teve sua empresa X suspensa temporariamente de operar no Brasil em 2024 por recusar-se a obedecer à legislação brasileira.

Também é preciso levar em conta que o bolsonarismo pede o apoio de Trump em sua campanha eleitoral, chegando a desfraldar a bandeira norte-americana em manifestações de rua. Parte do empresariado se coloca contra o governo petista e em apoio a Flavio Bolsonaro.

A disputa eleitoral será renhida, e do resultado depende a sobrevivência da democracia ou seu fim.

A diplomacia da vassalagem: Flávio Bolsonaro e a submissão aos EUA

Faltam exatos 99 dias para 4 de outubro de 2026, data em que será realizado o primeiro turno das eleições. E, justo neste momento, a política externa da extrema-direita brasileira, liderada por Flávio Bolsonaro, rende mais um capítulo vergonhoso de submissão aos interesses econômicos dos Estados Unidos.

Revelada por Paulo Figueiredo — neto do último ditador do Brasil, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, e assessor do ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro —, uma carta de Marco Rubio, secretário do Departamento de Estado dos Estados Unidos, volta a deixar Flávio em maus lençóis. Nela, Rubio registra a “generosa oferta” que teria sido feita por Flávio para “colocar uma equipe de transição” à disposição do governo americano, caso este se eleja presidente da República.


Ocorre que, pela legislação brasileira, a equipe de transição funciona unicamente para facilitar a passagem do governo que sai para o governo que entra. Regulamentada em 2002 por decreto do então presidente Fernando Henrique Cardoso, a lei prevê a criação de até 50 cargos comissionados para recolher dados junto a órgãos da administração pública federal, com o objetivo de preparar os primeiros atos do futuro governo.

Flávio recebeu a carta de Rubio no último dia 23. No mesmo dia, enviou ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) um pedido para participar da audiência pública sobre as tarifas propostas pelo governo Donald Trump contra o Brasil, marcada para 6 de julho. O novo tarifaço foi anunciado dois dias depois da última reunião de Flávio com Trump na Casa Branca.

Tarifaço ou “Tariflávio”, tanto faz. Flávio jura que nada tem a ver com a imposição de tarifas a produtos brasileiros. Diz que só pediu a Trump para declarar como organizações terroristas, de acordo com a legislação americana, as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC). Foi atendido de imediato.

Quando do primeiro tarifaço, em março do ano passado, Flávio o apoiou, assim como fizeram seu irmão Eduardo e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Além disso, quando Trump começou a bombardear barcos com drogas no Caribe, Flávio sugeriu que fizesse o mesmo com embarcações que navegam na Baía de Guanabara.

Cópias encardidas do pai, Flávio e Eduardo se comportam como vassalos de Trump. É o que de fato são.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Pensamento diário

 


A inteligência artificial e a nova fratura metabólica do capital



A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma promessa de eficiência, produtividade e libertação do trabalho humano. Fala-se em automação, modelos generativos, medicina preditiva, educação personalizada, transição energética, racionalização de processos e democratização do conhecimento. Mas essa narrativa, quando separada da crítica da economia política, encobre uma contradição decisiva: a IA não nasce fora da história. Ela nasce dentro do capitalismo, financiada por capitais concentrados, orientada por mercados monopolizados, dependente de infraestrutura material pesada e subordinada à lógica da valorização.

Este é o ponto de partida necessário para compreender a inteligência artificial não como simples ferramenta, mas como expressão de uma nova etapa da crise civilizatória do capital. Se o primeiro movimento desta trilogia tratou da macroeconomia, da financeirização e da tentativa de contenção da crise por meio do capital fictício; se o segundo examinou a IA como limite histórico, filosófico e político do capitalismo; este terceiro precisa enfrentar a consequência mais profunda: a inteligência artificial revela que o capitalismo já não ameaça apenas o trabalho, a subjetividade e a democracia. Ele ameaça também o metabolismo ecológico da vida.

A chamada “nuvem” não flutua sobre a Terra. Ela está fincada em data centers, cabos submarinos, mineração, terras raras, semicondutores, energia elétrica, água, sistemas de refrigeração, galpões industriais, vigilância informacional e trabalho humano invisibilizado. A IA é apresentada como abstração, mas sua existência é brutalmente material. Por trás da leveza aparente de uma resposta gerada em segundos, há uma cadeia mundial de extração, processamento e consumo energético. O algoritmo parece imaterial apenas porque sua materialidade foi deslocada para longe do olhar do usuário.

Atribuir inteligência às máquinas pode servir para reduzir o valor da inteligência humana, naturalizar a substituição de trabalhadores, justificar decisões automatizadas e enfraquecer a exigência de responsabilidade política pelos sistemas técnicos 

Kate Crawford é decisiva nesse ponto. Em Atlas of AI, ela demonstra que a inteligência artificial deve ser compreendida como uma tecnologia de extração: extrai minerais da terra, energia dos sistemas elétricos, trabalho humano precarizado, dados dos sujeitos e padrões da vida social. Sua contribuição desloca o debate de uma “ética da IA” abstrata para uma crítica material da infraestrutura que torna a IA possível. A inteligência artificial não é apenas código, modelo ou linguagem matemática. É uma rede planetária de poder, trabalho, natureza e capital.

Essa materialidade já aparece nos dados internacionais. A Agência Internacional de Energia estimou que os data centers consumiram cerca de 415 TWh em 2024, aproximadamente 1,5% da eletricidade mundial. A mesma agência projeta que esse consumo pode mais do que dobrar até 2030, chegando a cerca de 945 TWh – valor superior ao consumo atual de eletricidade do Japão. A IA aparece como um dos principais vetores desse crescimento, ao lado da expansão geral dos serviços digitais. O dado é politicamente decisivo: a infraestrutura da IA deixou de ser marginal e passou a disputar energia com setores industriais inteiros.

A Universidade das Nações Unidas também chama atenção para um ponto essencial: não basta medir a pegada de carbono da IA. É preciso medir conjuntamente carbono, água e terra. A localização dos data centers, a matriz energética utilizada, os sistemas de refrigeração, o uso operacional dos modelos e a expansão da inferência cotidiana alteram profundamente o impacto ambiental da tecnologia. O problema não está apenas em treinar grandes modelos uma única vez, mas em operá-los milhões ou bilhões de vezes, todos os dias, em cadeias de consumo energético permanentes.

A isso se soma o lixo eletrônico. O Global E-waste Monitor 2024 registrou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022, com projeção de 82 milhões de toneladas em 2030. Apenas uma fração minoritária desse volume é adequadamente coletada e reciclada. A economia digital, portanto, não elimina a materialidade da produção: ela apenas a desloca para minas, fábricas, aterros, periferias ambientais e cadeias globais de descarte.

A categoria marxiana de metabolismo entre sociedade e natureza ganha aqui nova atualidade. John Bellamy Foster mostrou que o capitalismo produz uma fratura metabólica: rompe o intercâmbio racional entre humanidade e natureza ao subordinar esse metabolismo à acumulação. Kohei Saito, ao recuperar o Marx ecológico no contexto do Antropoceno, aprofunda esse diagnóstico: o capitalismo não resolve suas contradições ecológicas; ele as desloca, as amplia e as reorganiza em escala superior.

A inteligência artificial aprofunda essa fratura em novo patamar. Não se trata apenas da indústria poluente clássica, da fábrica ou da mineração tradicional. Trata-se de uma infraestrutura digital que promete substituir ou reorganizar atividades humanas enquanto amplia a demanda por energia, água, minerais, semicondutores e capacidade computacional. A IA é apresentada como solução racional para a crise, mas pode se converter em novo acelerador da crise se permanecer submetida à concorrência privada, ao segredo industrial, à guerra geopolítica e à acumulação monopolista.

Shoshana Zuboff ajuda a compreender o segundo eixo dessa crise: a transformação da experiência humana em matéria-prima comportamental. No capitalismo de vigilância, a vida cotidiana é convertida em dado, o dado em previsão e a previsão em produto. Mas a etapa atual é ainda mais delicada. A IA generativa não apenas observa comportamentos; ela passa a mediar o acesso ao conhecimento. O buscador tradicional listava caminhos. A IA começa a entregar respostas.

Essa mudança altera a estrutura pública da verdade. Quando a resposta substitui a busca, quem controla a resposta controla parte decisiva da percepção social da realidade. Esse é o perigo civilizatório: a informação pode deixar de circular como disputa pública visível e passar a ser reorganizada por sistemas opacos de ranqueamento, recomendação, patrocínio, personalização e influência. A velha publicidade separava, ao menos formalmente, conteúdo e anúncio. A nova economia das respostas tende a borrar fronteiras entre informação, recomendação, reputação, consumo e indução comportamental.

Esse risco não exige imaginar uma conspiração. Basta observar a lógica econômica. Plataformas privadas precisam monetizar atenção, tráfego, reputação e dependência. À medida que a IA se torna a nova porta de entrada da internet, empresas, governos, grupos econômicos e elites informacionais passam a disputar não apenas anúncios, mas o próprio enquadramento das respostas. A questão deixa de ser apenas “quem aparece primeiro no resultado de busca?” e se torna: “quem será apresentado pela IA como fonte confiável, resposta provável ou solução recomendada?”.

O perigo é ainda maior porque a resposta automatizada aparece revestida de neutralidade técnica. Mas nenhum sistema treinado em bases históricas desiguais, controlado por empresas privadas, monetizado por publicidade e protegido por segredo industrial pode ser considerado neutro. A IA pode reorganizar visibilidade, autoridade e legitimidade. Pode tornar determinados autores, países, empresas, mercadorias e interpretações mais visíveis, enquanto torna outros sujeitos e perspectivas praticamente inexistentes.

Essa é uma nova forma de poder. Não se trata apenas de censurar. Trata-se de ordenar o mundo. A IA pode selecionar o que merece atenção, o que parece verdadeiro, o que surge como razoável, o que é classificado como extremado, irrelevante ou duvidoso. Em sociedades profundamente desiguais, essa mediação tende a favorecer quem já possui capacidade econômica, influência institucional, domínio tecnológico e poder de adaptação aos critérios das plataformas.

Por isso, a crise ambiental da IA não pode ser separada da crise democrática da informação. A mesma infraestrutura que consome energia e água também organiza visibilidade. A mesma plataforma que promete responder perguntas pode direcionar consumo, moldar preferências, reduzir pluralidade e deslocar o debate público para ambientes privados. A mesma tecnologia que promete eficiência pode consolidar uma nova forma de governo algorítmico da vida cotidiana.

Miguel Nicolelis acrescenta uma dimensão decisiva a esse debate. Sua crítica não parte apenas da economia política, mas da neurociência. Ao longo de sua trajetória, Nicolelis tornou-se uma das principais referências mundiais em interfaces cérebro-máquina, neuroengenharia e estudos sobre a atividade coletiva dos neurônios. Justamente por conhecer profundamente a relação entre cérebro, corpo, plasticidade e ação, sua crítica à inteligência artificial possui peso especial: ela não nasce de recusa abstrata à tecnologia, mas da compreensão científica de que o cérebro vivo não é uma máquina digital.

Essa distinção é fundamental para o argumento civilizatório. A inteligência humana não é simples processamento de informação. Ela emerge de um organismo situado, de um corpo sensível, de uma história biológica, afetiva, social e cultural. O cérebro não funciona como computador isolado que recebe dados, calcula respostas e entrega resultados. Ele é um sistema vivo, plástico, incorporado, relacional, atravessado por emoção, memória, percepção, movimento, linguagem, desejo, medo, imaginação e vínculo social.

Por isso, a crítica de Nicolelis atinge o centro do fetiche contemporâneo da IA. Quando empresas e governos chamam modelos estatísticos de “inteligentes”, produzem uma confusão politicamente útil. Atribuir inteligência às máquinas pode servir para reduzir o valor da inteligência humana, naturalizar a substituição de trabalhadores, justificar decisões automatizadas e enfraquecer a exigência de responsabilidade política pelos sistemas técnicos. A máquina aparece como sujeito, enquanto os sujeitos reais – trabalhadores, programadores, usuários, populações exploradas e territórios impactados – desaparecem da cena.

A formulação de Nicolelis permite afirmar com mais precisão: a IA não é uma mente exterior à humanidade. Ela é uma técnica produzida por humanos, treinada sobre dados humanos, sustentada por trabalho humano, energia, mineração e infraestrutura material. Sua suposta autonomia encobre as intenções, interesses e poderes que a organizam. A inteligência artificial, portanto, não deve ser analisada como consciência emergente das máquinas, mas como sistema técnico-social comandado por grupos econômicos, Estados, mercados financeiros e projetos geopolíticos.

Essa distinção também é decisiva para a democracia. Se tratarmos a IA como uma inteligência superior, tenderemos a aceitar suas respostas como autoridade. Se a compreendermos como sistema estatístico, histórico e politicamente orientado, poderemos exigir auditoria, transparência, contestação, responsabilidade e controle público. A crítica de Nicolelis, portanto, não diminui a importância da IA. Ao contrário: mostra que ela é importante demais para ser entregue ao mito de que máquinas pensam por nós.

Nesse ponto, Nicolelis dialoga diretamente com Crawford, Zuboff e Michael Löwy. Crawford mostra a materialidade extrativa da IA: minas, energia, água, trabalho e dados. Zuboff revela a captura comportamental da experiência humana pelo capitalismo de vigilância. Nicolelis acrescenta o fundamento neurocientífico: a inteligência viva não pode ser reduzida à computação, e a humanidade não pode aceitar que sua capacidade de pensar, sentir e decidir seja rebaixada à lógica operacional das máquinas. Löwy oferece a saída ecossocialista: subordinar a técnica às necessidades sociais, ao equilíbrio ecológico e ao planejamento democrático.

Essa contribuição é central para o fechamento da trilogia. A crise civilizatória não consiste apenas no risco de a IA consumir energia, concentrar renda ou direcionar informações para quem paga mais. Consiste também no risco de a própria ideia de humanidade ser rebaixada. O capitalismo digital não quer apenas automatizar tarefas; ele tende a automatizar decisões, preferências, diagnósticos, recomendações, julgamentos e formas de reconhecimento social. Nesse processo, o ser humano pode passar a ser medido, previsto e administrado como se fosse um conjunto de dados.

A crítica de Nicolelis permite recusar essa redução. A inteligência humana é inseparável do corpo, da vida, da experiência e da liberdade. Nenhuma sociedade democrática pode permitir que sistemas privados, opacos e orientados por lucro assumam a mediação central da verdade, do trabalho, da educação, da saúde, da guerra e da política sob o pretexto de possuírem uma inteligência superior. O problema não é a existência de máquinas capazes de realizar operações complexas. O problema é uma civilização que começa a tratar máquinas como sujeitos e sujeitos humanos como peças substituíveis de uma engrenagem computacional.

É aqui que Michael Löwy se torna indispensável. O ecossocialismo, em sua formulação, não é uma ecologia decorativa nem uma simples política de compensação ambiental. É uma alternativa civilizatória ao “progresso destrutivo” do capital. Sua força está em recusar duas ilusões: a ilusão liberal de que o mercado poderá salvar o planeta sem enfrentar a acumulação; e a ilusão produtivista de que basta desenvolver forças produtivas sem perguntar a quem servem, que necessidades atendem e que destruição carregam.

O ecossocialismo propõe recolocar a economia sob critérios de necessidade social, equilíbrio ecológico, igualdade substantiva e planejamento democrático. Aplicado à inteligência artificial, isso significa perguntar: quais usos da IA são socialmente necessários? Quais apenas aceleram consumo, vigilância, desemprego, obsolescência e manipulação? Quais aplicações deveriam ser públicas, auditáveis e orientadas por finalidades coletivas? Quais deveriam ser proibidas ou severamente limitadas? Que data centers podem ser admitidos em determinado território? Com qual matriz energética? Com qual uso de água? Com qual retorno social? Com qual controle popular?

A questão ecossocialista não é “mais tecnologia” ou “menos tecnologia” em abstrato. É planejamento democrático da tecnologia. Não há racionalidade ecológica quando a infraestrutura da IA é decidida por fundos, big techs, contratos militares, bolsas de valores e estratégias privadas de domínio de mercado. Se a IA reorganiza trabalho, educação, saúde, comunicação, energia e democracia, então ela não pode ser tratada como propriedade estratégica de poucas corporações.

Essa formulação permite escapar tanto do entusiasmo ingênuo quanto do medo paralisante. A inteligência artificial pode ampliar capacidades humanas, acelerar pesquisas científicas, apoiar políticas públicas, melhorar diagnósticos, fortalecer acessibilidade, ajudar no planejamento climático e reduzir desperdícios. Mas esses usos emancipatórios não emergem automaticamente do mercado. Eles dependem de finalidade social, controle público, transparência, soberania tecnológica, proteção de dados, direitos trabalhistas e limites ecológicos.

Sob o capitalismo, porém, a tendência dominante é outra. Os ganhos de produtividade são apropriados por acionistas. Os custos ambientais são socializados. Os trabalhadores são pressionados por automação, vigilância e intensificação. Os territórios pobres oferecem energia, água, minerais e descarte. Os usuários produzem dados e dependência. As plataformas concentram renda, infraestrutura e poder de mediação.

A periferia global corre risco especial. Países como o Brasil podem ser convocados a fornecer energia renovável, minerais estratégicos, território para data centers, dados populacionais e mão de obra barata, enquanto o comando tecnológico, as patentes, os modelos, as receitas e o poder de decisão permanecem concentrados no Norte global e nas grandes corporações. O discurso da “vantagem competitiva verde” pode esconder uma nova dependência: exportar natureza, energia e dados; importar plataformas, vigilância e subordinação tecnológica.

Essa é a nova fronteira da dependência. Não basta perguntar se um país terá data centers. É preciso perguntar quem os controla, para que servem, quanta energia consomem, quanta água utilizam, que empregos geram, que soberania tecnológica constroem e que danos ambientais deixam. Sem política pública, transparência e controle social, a infraestrutura da IA pode se tornar uma nova forma de enclave: altamente intensiva em recursos, pouco distributiva em benefícios e profundamente subordinada ao capital transnacional.

A inteligência artificial, nesse sentido, condensa a crise civilizatória do capitalismo. Ela promete abundância, mas nasce da escassez produzida. Promete inteligência, mas pode reduzir a autonomia humana. Promete eficiência, mas amplia a pressão energética. Promete acesso ao conhecimento, mas pode privatizar a mediação da verdade. Promete libertar o trabalho, mas pode intensificar desemprego, vigilância e sofrimento psíquico. Promete sustentabilidade, mas depende de uma infraestrutura material cada vez mais pesada.

O fechamento da trilogia, portanto, deve ser político e civilizatório: a IA não pode ser abandonada às forças cegas do mercado. A inteligência social acumulada pela humanidade não pode ser convertida em monopólio privado. Os dados produzidos pela vida coletiva não podem servir apenas à predição comercial e ao controle comportamental. A energia, a água, os territórios e o trabalho humano não podem ser subordinados a uma corrida tecnológica sem deliberação democrática.

A inteligência artificial deve ser recolocada em seu devido lugar: não como destino da humanidade, mas como instrumento. Não como consciência, mas como técnica. Não como autoridade, mas como objeto de deliberação pública. Não como substituta da inteligência viva, mas como ferramenta que só pode ser legitimada quando subordinada à vida, ao trabalho digno, à democracia, à justiça social e ao equilíbrio ecológico.

A IA não é uma nova consciência que supera a humanidade. É uma técnica produzida pela humanidade, mas capturada por uma forma social que tenta transformar inteligência viva, natureza, trabalho e verdade pública em mercadoria. Por isso, a tarefa civilizatória não é obedecer às máquinas, mas libertar a técnica do capital e devolvê-la ao governo democrático da vida.

Isso exige soberania tecnológica, auditoria pública, redução da jornada de trabalho, proteção social, transparência algorítmica, regulação ambiental dos data centers, controle democrático dos dados, investimento público em ciência aberta e prioridade absoluta aos usos socialmente necessários da tecnologia.

Sem isso, a IA será apenas mais uma promessa capturada pela história real do capitalismo: transformar toda potência humana em valor, todo valor em propriedade, toda propriedade em poder e todo poder em capacidade de decidir, em nome de poucos, o destino comum da humanidade.

A crise da inteligência artificial é, no fundo, a crise de quem governa a inteligência social. E essa pergunta não é técnica. É civilizatória.

A IA não é o fim da crise do capital. Ela é a tentativa de automatizar a própria contenção da crise – transferindo seus custos para trabalhadores, territórios, subjetividades e ecossistemas. A questão final, portanto, não é se o capitalismo conseguirá usar a IA para sobreviver à própria crise. A questão é se a humanidade conseguirá impedir que essa sobrevivência seja obtida contra a vida.
Flaviano Correia Cardoso