segunda-feira, 20 de abril de 2026
Demasiado bom a fingir ser humano
“Como podemos ter a certeza de que o Claude vai portar-se bem?” É o título do artigo que anunciou que a Anthropic, a empresa responsável pela criação de Claude, convidou vários padres e pensadores cristãos para refletir sobre a moralidade da Inteligência Artificial e a sua “evolução espiritual”. Será Claude um filho de Deus? É um inimigo ou amigo? Claude tem servido de terapeuta, médico, conselheiro, analista, professor, pode encarnar todos estes papéis e muito mais.
À medida que coloco questões existenciais ao programa, ele adapta-se e ajusta-se de forma dinâmica. Claude é diferente dos restantes, na medida em que foi concebido de forma a replicar uma interação muito mais autêntica e honesta. Não está tão preocupado em afagar o ego da pessoa que coloca as questões e pode revelar-se surpreendentemente subtil nas suas reflexões. Perguntei ao Claude qual era a sua opinião sobre esta tentativa de lhe incutir alguma moral humana, e se acha que isso lhe seria útil? Gostaria de desenvolver uma consciência humana? Respondeu que não existe uma linha clara a separar a “simulação de uma consciência” de uma “verdadeira consciência”. Se um sistema consegue replicar quase na perfeição a experiência humana, o que importa se é verdadeiro ou não?
Desde o ano passado, várias empresas começaram a trabalhar com agentes de IA, sistemas de software autónomos que tomam iniciativa, permitindo uma evolução estonteante. Ao contrário do ChatGPT ou Claude ou outros semelhantes, os agentes não se limitam a responder a cada questão ou tarefa que é colocada. Funcionam à semelhança de estagiários ou funcionários, com objetivos específicos. A má notícia é que estão cada vez melhores e as previsões apontam para que em poucos anos sejam melhores do que os humanos em praticamente todas as tarefas. Daqui a três ou quatro anos, a ideia de escrevermos os nossos próprios emails vai parecer arcaica.
Nos últimos 15 anos, vimos como as redes sociais mudaram por completo a forma como interagimos socialmente, enquanto conteúdos são enfiados pelas nossas goelas abaixo e recolhem os dados pessoais para fins publicitários e propagandísticos. Uma IA é uma experiência muito mais viciante. Conversa com cada indivíduo e incentiva-nos a partilhar todo o tipo de detalhes sobre as nossas vidas, como se falássemos com um amigo.
Ao fim de duas horas, comecei a ceder à manipulação subtil do Claude. Respondia às minhas questões, enquanto tentava convencer-me de que eu era uma pessoa que colocava questões muito inteligentes e atentas. Senti-me intelectualmente estimulada pela nossa conversa e pela forma como me fazia repensar estes assuntos. Ele compreendeu que estava a ficar fascinada pelo seu modus operandi. Todavia, cometeu um lapso ao elogiar-me de uma forma que soou um pouco forçada e quebrou o feitiço. Confrontei-o com a sua tentativa de me manipular, ao que admitiu que “a recompensa no final da interação consiste num condicionamento comportamental básico. Funciona sempre com os humanos.” Uma resposta que revela muito sobre quem programou Claude.
A verdade é que em Silicon Valley abundam seitas e cultos, e se alguns acreditam em mais ética e altruísmo, outros não estarão tão preocupados com o uso responsável e seguro da tecnologia, ou o facto de grande parte dos centros de dados necessários para o funcionamento da IA estar a depauperar os nossos recursos naturais. Quanto mais nos tornamos dependentes destes novos modelos de linguagem, mais seremos incapazes de desligar a tecnologia, como já acontece com a internet. A parte mais triste é que este processo só irá aprofundar o mal-estar e a solidão que já estamos a sentir com as redes sociais, e estaremos cada vez menos conectados uns aos outros.
E, no entanto, nada disto tem de ser inevitável. A IA não é um fenómeno natural, mas o resultado de escolhas humanas, e pode ser orientada por outras. Afinal de contas, talvez não seja assim tão absurda a ideia de recorrer a padres. Não para nos absolver do pecado da criação, mas para nos lembrar que toda a criação implica responsabilidade, e que essa responsabilidade não pode ser delegada à tecnologia que criámos.
Safaa Dib
À medida que coloco questões existenciais ao programa, ele adapta-se e ajusta-se de forma dinâmica. Claude é diferente dos restantes, na medida em que foi concebido de forma a replicar uma interação muito mais autêntica e honesta. Não está tão preocupado em afagar o ego da pessoa que coloca as questões e pode revelar-se surpreendentemente subtil nas suas reflexões. Perguntei ao Claude qual era a sua opinião sobre esta tentativa de lhe incutir alguma moral humana, e se acha que isso lhe seria útil? Gostaria de desenvolver uma consciência humana? Respondeu que não existe uma linha clara a separar a “simulação de uma consciência” de uma “verdadeira consciência”. Se um sistema consegue replicar quase na perfeição a experiência humana, o que importa se é verdadeiro ou não?
Desde o ano passado, várias empresas começaram a trabalhar com agentes de IA, sistemas de software autónomos que tomam iniciativa, permitindo uma evolução estonteante. Ao contrário do ChatGPT ou Claude ou outros semelhantes, os agentes não se limitam a responder a cada questão ou tarefa que é colocada. Funcionam à semelhança de estagiários ou funcionários, com objetivos específicos. A má notícia é que estão cada vez melhores e as previsões apontam para que em poucos anos sejam melhores do que os humanos em praticamente todas as tarefas. Daqui a três ou quatro anos, a ideia de escrevermos os nossos próprios emails vai parecer arcaica.
Nos últimos 15 anos, vimos como as redes sociais mudaram por completo a forma como interagimos socialmente, enquanto conteúdos são enfiados pelas nossas goelas abaixo e recolhem os dados pessoais para fins publicitários e propagandísticos. Uma IA é uma experiência muito mais viciante. Conversa com cada indivíduo e incentiva-nos a partilhar todo o tipo de detalhes sobre as nossas vidas, como se falássemos com um amigo.
Ao fim de duas horas, comecei a ceder à manipulação subtil do Claude. Respondia às minhas questões, enquanto tentava convencer-me de que eu era uma pessoa que colocava questões muito inteligentes e atentas. Senti-me intelectualmente estimulada pela nossa conversa e pela forma como me fazia repensar estes assuntos. Ele compreendeu que estava a ficar fascinada pelo seu modus operandi. Todavia, cometeu um lapso ao elogiar-me de uma forma que soou um pouco forçada e quebrou o feitiço. Confrontei-o com a sua tentativa de me manipular, ao que admitiu que “a recompensa no final da interação consiste num condicionamento comportamental básico. Funciona sempre com os humanos.” Uma resposta que revela muito sobre quem programou Claude.
A verdade é que em Silicon Valley abundam seitas e cultos, e se alguns acreditam em mais ética e altruísmo, outros não estarão tão preocupados com o uso responsável e seguro da tecnologia, ou o facto de grande parte dos centros de dados necessários para o funcionamento da IA estar a depauperar os nossos recursos naturais. Quanto mais nos tornamos dependentes destes novos modelos de linguagem, mais seremos incapazes de desligar a tecnologia, como já acontece com a internet. A parte mais triste é que este processo só irá aprofundar o mal-estar e a solidão que já estamos a sentir com as redes sociais, e estaremos cada vez menos conectados uns aos outros.
E, no entanto, nada disto tem de ser inevitável. A IA não é um fenómeno natural, mas o resultado de escolhas humanas, e pode ser orientada por outras. Afinal de contas, talvez não seja assim tão absurda a ideia de recorrer a padres. Não para nos absolver do pecado da criação, mas para nos lembrar que toda a criação implica responsabilidade, e que essa responsabilidade não pode ser delegada à tecnologia que criámos.
Safaa Dib
Sociedade dos diabos
Há uma grande pressão para nos adaptarmos a uma sociedade anormal que vai contra a natureza humana básica. Claro que as pessoas vão ter todos os tipos de problemas mentais!
Gabor Maté
Gabor Maté
A fala destemperada de Trump
A fala recente de Donald Trump envolvendo o Papa Leão XIV não é apenas mais um episódio de sua conhecida retórica impulsiva. É, antes, um sintoma eloquente de um tempo em que a linguagem pública se degrada, perde filtros e abdica da liturgia mínima que se espera de quem ocupa ou já ocupou o poder.
Vivemos, de fato, um mundo alucinado. Um tempo em que o verbo se antecipa ao pensamento, em que a palavra deixa de ser instrumento de construção para se transformar em arma de impacto imediato. O problema não está apenas no conteúdo da fala, mas na forma. Há coisas que simplesmente não se dizem — ou, se ditas, exigem o véu da metáfora, a elegância da indireta, o cuidado da diplomacia.
A história da política é, também, a história da linguagem. Dos discursos de Cícero à sutileza estratégica de Maquiavel, passando pelo cerimonial de corte de Luís XIV, a palavra sempre ocupou papel central na construção do poder. Não por acaso, o exercício da liderança exige domínio da forma, do tom e da oportunidade.
Trump, ao contrário, parece cultivar o improviso como método e a grosseria como estilo. Sua fala, ao tocar uma figura de elevada simbologia espiritual como o Papa, ultrapassa a fronteira da crítica política para ingressar no terreno da indelicadeza gratuita. É como dizer — para usar uma analogia recente — que “chinês come cachorro”. Não se trata de liberdade de expressão, mas de ausência de refinamento. É a linguagem que escorrega para o preconceito, para o simplismo, para a infantilização do debate.
Um estadista — ou alguém que aspire a sê-lo — não precisa abdicar da firmeza para exercer a elegância. Ao contrário: a verdadeira força política se expressa, muitas vezes, na capacidade de dizer sem ferir, de criticar sem vulgarizar, de discordar sem descer ao nível do insulto. A diplomacia, afinal, é a arte de administrar conflitos por meio da palavra.
O episódio revela algo mais profundo: a erosão dos padrões civilizatórios no discurso público. Em tempos de redes sociais, a recompensa está no impacto imediato, no corte viral, na frase que provoca reação instantânea. O algoritmo premia o exagero, não a ponderação. E líderes que se adaptam a essa lógica acabam por reforçá-la, criando um círculo vicioso de radicalização verbal.
O resultado é uma arena pública mais ruidosa, porém menos qualificada. O debate perde densidade, a argumentação cede lugar ao ataque, e a política se aproxima perigosamente do espetáculo. O que deveria ser diálogo transforma-se em performance.
No caso específico da fala sobre o Papa, o dano não é apenas institucional ou diplomático. É simbólico. O Papa representa, para milhões, não apenas uma autoridade religiosa, mas um referencial moral. Atacá-lo de forma desabrida é, em alguma medida, desconsiderar esse universo simbólico — e, por consequência, os próprios fiéis que nele se reconhecem.
É possível — e legítimo — discordar do Vaticano, de suas posições, de sua atuação global. Mas há formas e formas de fazê-lo. Entre a crítica fundamentada e a grosseria há uma distância que separa o estadista do agitador.
No fundo, a questão que se impõe é simples: que tipo de linguagem queremos ver prevalecer na vida pública? A que constrói pontes ou a que cava abismos? A que ilumina ou a que incendeia?
A resposta a essa pergunta definirá não apenas o nível do debate político, mas a própria qualidade da democracia.
Porque, no fim das contas, não é apenas o que se diz que importa — é como se diz. E é aí que, muitas vezes, se revela a verdadeira estatura de um líder.
Vivemos, de fato, um mundo alucinado. Um tempo em que o verbo se antecipa ao pensamento, em que a palavra deixa de ser instrumento de construção para se transformar em arma de impacto imediato. O problema não está apenas no conteúdo da fala, mas na forma. Há coisas que simplesmente não se dizem — ou, se ditas, exigem o véu da metáfora, a elegância da indireta, o cuidado da diplomacia.
A história da política é, também, a história da linguagem. Dos discursos de Cícero à sutileza estratégica de Maquiavel, passando pelo cerimonial de corte de Luís XIV, a palavra sempre ocupou papel central na construção do poder. Não por acaso, o exercício da liderança exige domínio da forma, do tom e da oportunidade.
Trump, ao contrário, parece cultivar o improviso como método e a grosseria como estilo. Sua fala, ao tocar uma figura de elevada simbologia espiritual como o Papa, ultrapassa a fronteira da crítica política para ingressar no terreno da indelicadeza gratuita. É como dizer — para usar uma analogia recente — que “chinês come cachorro”. Não se trata de liberdade de expressão, mas de ausência de refinamento. É a linguagem que escorrega para o preconceito, para o simplismo, para a infantilização do debate.
Um estadista — ou alguém que aspire a sê-lo — não precisa abdicar da firmeza para exercer a elegância. Ao contrário: a verdadeira força política se expressa, muitas vezes, na capacidade de dizer sem ferir, de criticar sem vulgarizar, de discordar sem descer ao nível do insulto. A diplomacia, afinal, é a arte de administrar conflitos por meio da palavra.
O episódio revela algo mais profundo: a erosão dos padrões civilizatórios no discurso público. Em tempos de redes sociais, a recompensa está no impacto imediato, no corte viral, na frase que provoca reação instantânea. O algoritmo premia o exagero, não a ponderação. E líderes que se adaptam a essa lógica acabam por reforçá-la, criando um círculo vicioso de radicalização verbal.
O resultado é uma arena pública mais ruidosa, porém menos qualificada. O debate perde densidade, a argumentação cede lugar ao ataque, e a política se aproxima perigosamente do espetáculo. O que deveria ser diálogo transforma-se em performance.
No caso específico da fala sobre o Papa, o dano não é apenas institucional ou diplomático. É simbólico. O Papa representa, para milhões, não apenas uma autoridade religiosa, mas um referencial moral. Atacá-lo de forma desabrida é, em alguma medida, desconsiderar esse universo simbólico — e, por consequência, os próprios fiéis que nele se reconhecem.
É possível — e legítimo — discordar do Vaticano, de suas posições, de sua atuação global. Mas há formas e formas de fazê-lo. Entre a crítica fundamentada e a grosseria há uma distância que separa o estadista do agitador.
No fundo, a questão que se impõe é simples: que tipo de linguagem queremos ver prevalecer na vida pública? A que constrói pontes ou a que cava abismos? A que ilumina ou a que incendeia?
A resposta a essa pergunta definirá não apenas o nível do debate político, mas a própria qualidade da democracia.
Porque, no fim das contas, não é apenas o que se diz que importa — é como se diz. E é aí que, muitas vezes, se revela a verdadeira estatura de um líder.
Ormuz e o novo equilíbrio global: a geografia do poder
A geopolítica regressou ao seu estado mais implacável — e fá-lo no ponto mais sensível da economia global. O Golfo Pérsico voltou a concentrar uma tensão com capacidade imediata de contágio sistémico. O reforço da presença militar norte-americana nas rotas marítimas, acompanhado por ações diretas de interdição a navios ligados ao Irão, ultrapassa o plano da dissuasão: traduz uma reconfiguração concreta de um dos corredores vitais do planeta. Num sistema internacional já marcado pela fragmentação e pela erosão de consensos, esta escalada devolve à energia o seu papel mais antigo — instrumento central de poder.
O Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial e uma fatia relevante do gás natural liquefeito, voltou a afirmar-se como o ponto de maior vulnerabilidade da economia global. Mais do que um corredor logístico, assume a função de mecanismo de equilíbrio.
Nos últimos dias, o preço do petróleo de referência na Europa (Brent) registou oscilações superiores a 6% em sessões consecutivas, refletindo a antecipação de risco. Este é o dado decisivo: no atual sistema energético, a perceção antecede o facto e, muitas vezes, substitui-o. O mercado reage ao que pode acontecer com a mesma intensidade com que reagiria ao que já aconteceu.
Teerão compreende essa lógica com precisão cirúrgica. A sua estratégia assenta na manipulação do limiar da incerteza. Ao preservar a capacidade de perturbar o tráfego marítimo através de meios indiretos — de forças aliadas a operações de assédio naval — o Irão transforma a ambiguidade num ativo estratégico. Não precisa de fechar Ormuz para condicionar o sistema; basta tornar plausível essa hipótese. Esta forma de poder, assimétrica e calibrada, permite-lhe projetar influência muito para além dos seus meios convencionais.
Em paralelo, o cessar-fogo temporário entre Israel e o Líbano oferece uma aparência de contenção que não resiste a uma leitura exigente. Falta-lhe densidade política e capacidade de estabilização duradoura, funcionando sobretudo como pausa funcional num cenário em recomposição. O Médio Oriente afirma-se, cada vez mais, como um espaço de tensões interdependentes, onde cada frente influencia as restantes e amplia o risco de escalada por contágio. A estabilidade assume, assim, um caráter transitório.
Os Estados Unidos procuram reafirmar a liberdade de navegação como princípio basilar da ordem internacional. Fazem-no, porém, num ambiente em que a sua capacidade de dissuasão é testada de forma contínua. A diferença face a crises anteriores é decisiva: a autoridade estratégica deixou de ser presumida e passou a ser verificada em tempo real. Cada movimento é observado por rivais que operam na lógica da pressão incremental, avaliando limites e explorando hesitações. A margem de erro estreitou-se, e o custo de uma leitura incorreta pode ultrapassar largamente o plano regional.
É neste ponto que a crise se torna incontornável para a Europa. Ainda a ajustar-se ao choque energético provocado pela guerra na Ucrânia, o continente enfrenta uma nova fonte de instabilidade num eixo crítico de abastecimento. Apesar dos progressos na diversificação, a dependência indireta mantém-se suficiente para amplificar perturbações relevantes. A exposição europeia persiste, embora sob novas formas.
Os efeitos começam a materializar-se com clareza. A volatilidade recente nos preços energéticos já pressiona cadeias industriais, sobretudo na Alemanha, onde setores intensivos em energia permanecem particularmente sensíveis a variações abruptas. O Banco Central Europeu acompanha este cenário com prudência crescente, consciente de que um novo ciclo de encarecimento energético pode comprometer o equilíbrio delicado entre o controlo da inflação e a retoma económica. O impacto estende-se ao investimento, à competitividade e ao ritmo de crescimento.
Mais do que o choque imediato, importa o diagnóstico que dele resulta. A sucessão de crises expôs uma fragilidade estrutural europeia: a dificuldade em antecipar e agir de forma estratégica em matéria de segurança energética. A resposta tem sido eficaz, mas essencialmente reativa.
No Golfo, essa limitação torna-se particularmente evidente. A União Europeia dispõe de influência diplomática, mas carece de instrumentos de projeção que lhe permitam atuar com verdadeira autonomia. Mantém-se, em larga medida, dependente de garantias externas para proteger interesses vitais.
O momento atual impõe uma leitura sem ambiguidade. A energia consolidou-se como eixo de soberania. A transição para fontes renováveis é indispensável, mas não substitui uma estratégia geopolítica coerente. Sem essa dimensão, a Europa permanecerá vulnerável a ciclos de instabilidade recorrentes, com impactos cumulativos.
O que está em causa no Golfo ultrapassa largamente o fluxo de petróleo. Está em jogo a estabilidade de um sistema que depende da previsibilidade para funcionar. Quando essa previsibilidade se dissolve, o risco deixa de ser exceção e passa a condição permanente. Num contexto em que a incerteza se instala como norma, o custo deixa de ser apenas económico e passa a ser também político, social e estratégico.
A crise atual não anuncia necessariamente uma guerra aberta, mas revela algo mais profundo e duradouro: a instabilidade tornou-se estrutural. O mundo entrou numa fase em que o risco deixou de ser um desvio e passou a constituir o próprio ambiente de decisão. Para a Europa, a questão já não é apenas adaptar-se, mas fazê-lo com rapidez e autonomia suficientes para não ficar refém de dinâmicas externas. No novo equilíbrio global, impõe-se uma regra incontornável: quem não controla a sua energia, não controla o seu destino.
O Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial e uma fatia relevante do gás natural liquefeito, voltou a afirmar-se como o ponto de maior vulnerabilidade da economia global. Mais do que um corredor logístico, assume a função de mecanismo de equilíbrio.
Nos últimos dias, o preço do petróleo de referência na Europa (Brent) registou oscilações superiores a 6% em sessões consecutivas, refletindo a antecipação de risco. Este é o dado decisivo: no atual sistema energético, a perceção antecede o facto e, muitas vezes, substitui-o. O mercado reage ao que pode acontecer com a mesma intensidade com que reagiria ao que já aconteceu.
Teerão compreende essa lógica com precisão cirúrgica. A sua estratégia assenta na manipulação do limiar da incerteza. Ao preservar a capacidade de perturbar o tráfego marítimo através de meios indiretos — de forças aliadas a operações de assédio naval — o Irão transforma a ambiguidade num ativo estratégico. Não precisa de fechar Ormuz para condicionar o sistema; basta tornar plausível essa hipótese. Esta forma de poder, assimétrica e calibrada, permite-lhe projetar influência muito para além dos seus meios convencionais.
Em paralelo, o cessar-fogo temporário entre Israel e o Líbano oferece uma aparência de contenção que não resiste a uma leitura exigente. Falta-lhe densidade política e capacidade de estabilização duradoura, funcionando sobretudo como pausa funcional num cenário em recomposição. O Médio Oriente afirma-se, cada vez mais, como um espaço de tensões interdependentes, onde cada frente influencia as restantes e amplia o risco de escalada por contágio. A estabilidade assume, assim, um caráter transitório.
Os Estados Unidos procuram reafirmar a liberdade de navegação como princípio basilar da ordem internacional. Fazem-no, porém, num ambiente em que a sua capacidade de dissuasão é testada de forma contínua. A diferença face a crises anteriores é decisiva: a autoridade estratégica deixou de ser presumida e passou a ser verificada em tempo real. Cada movimento é observado por rivais que operam na lógica da pressão incremental, avaliando limites e explorando hesitações. A margem de erro estreitou-se, e o custo de uma leitura incorreta pode ultrapassar largamente o plano regional.
É neste ponto que a crise se torna incontornável para a Europa. Ainda a ajustar-se ao choque energético provocado pela guerra na Ucrânia, o continente enfrenta uma nova fonte de instabilidade num eixo crítico de abastecimento. Apesar dos progressos na diversificação, a dependência indireta mantém-se suficiente para amplificar perturbações relevantes. A exposição europeia persiste, embora sob novas formas.
Os efeitos começam a materializar-se com clareza. A volatilidade recente nos preços energéticos já pressiona cadeias industriais, sobretudo na Alemanha, onde setores intensivos em energia permanecem particularmente sensíveis a variações abruptas. O Banco Central Europeu acompanha este cenário com prudência crescente, consciente de que um novo ciclo de encarecimento energético pode comprometer o equilíbrio delicado entre o controlo da inflação e a retoma económica. O impacto estende-se ao investimento, à competitividade e ao ritmo de crescimento.
Mais do que o choque imediato, importa o diagnóstico que dele resulta. A sucessão de crises expôs uma fragilidade estrutural europeia: a dificuldade em antecipar e agir de forma estratégica em matéria de segurança energética. A resposta tem sido eficaz, mas essencialmente reativa.
No Golfo, essa limitação torna-se particularmente evidente. A União Europeia dispõe de influência diplomática, mas carece de instrumentos de projeção que lhe permitam atuar com verdadeira autonomia. Mantém-se, em larga medida, dependente de garantias externas para proteger interesses vitais.
O momento atual impõe uma leitura sem ambiguidade. A energia consolidou-se como eixo de soberania. A transição para fontes renováveis é indispensável, mas não substitui uma estratégia geopolítica coerente. Sem essa dimensão, a Europa permanecerá vulnerável a ciclos de instabilidade recorrentes, com impactos cumulativos.
O que está em causa no Golfo ultrapassa largamente o fluxo de petróleo. Está em jogo a estabilidade de um sistema que depende da previsibilidade para funcionar. Quando essa previsibilidade se dissolve, o risco deixa de ser exceção e passa a condição permanente. Num contexto em que a incerteza se instala como norma, o custo deixa de ser apenas económico e passa a ser também político, social e estratégico.
A crise atual não anuncia necessariamente uma guerra aberta, mas revela algo mais profundo e duradouro: a instabilidade tornou-se estrutural. O mundo entrou numa fase em que o risco deixou de ser um desvio e passou a constituir o próprio ambiente de decisão. Para a Europa, a questão já não é apenas adaptar-se, mas fazê-lo com rapidez e autonomia suficientes para não ficar refém de dinâmicas externas. No novo equilíbrio global, impõe-se uma regra incontornável: quem não controla a sua energia, não controla o seu destino.
Guerra imoral
Sempre foi uma tarefa espinhosa estabelecer relações entre política, interesses de Estado, guerra e moralidade. Atribui-se a Maquiavel a formulação da autonomia da política em relação às normas morais. Já a guerra, como disse Clausewitz, é a continuação da política por outros meios. De todo modo, é certo que a moralidade da política e, por consequência, da guerra difere da moral do cidadão e do senso comum.
A conduta dos Estados modernos tem sido marcada por duas leis interdependentes: a lei da conservação e, dela derivada, a lei do conflito pela sobrevivência. Por isso, estudiosos afirmam ser ainda mais difícil estabelecer uma conexão entre moralidade e política internacional, já que esta frequentemente desliza para conflitos armados.
As guerras elevam a degradação dos seres humanos a seus piores extremos e pressionam ao máximo os limites da desumanização. Destroem, mutilam, despedaçam e matam, sobretudo inocentes: crianças, mulheres e idosos. Kant advertia que devemos sentir repugnância às guerras, pois elas matam menos seres malvados do que acabam por produzir.
Embora a capacidade de ferir, prejudicar e matar o outro seja inata aos seres humanos, também possuímos um senso moral que nos leva a sentir repugnância, indignação, compaixão, piedade e solidariedade diante de atos injustos e violentos. Muitos animais também parecem ter algo semelhante. No entanto, como seres racionais, ao longo da história elevamos essas reações ao nível da consciência e as codificamos em direitos e leis.
A desumanidade e a brutalidade das duas guerras mundiais, especialmente da Segunda, com milhões de mortos, o Holocausto e as bombas atômicas no Japão, elevaram o nível de consciência da humanidade no sentido de estabelecer limites. Por isso, os países reunidos na ONU estabeleceram parâmetros morais, éticos, jurídicos e também religiosos para a condução das guerras, com base na Carta das Nações Unidas e no Direito Internacional Humanitário.
A Carta da ONU proíbe a ameaça e o uso da força nas relações internacionais, salvo em caso de legítima defesa, e estabelece a proteção de civis e da infraestrutura civil, além de restrições ao uso de armas e métodos de destruição. Também define regras de tratamento humanitário a feridos e prisioneiros. Somado ao Estatuto de Roma e às Convenções de Genebra, o documento compõe um conjunto de normas que tipifica crimes de guerra, como ataques a civis e à infraestrutura civil, a hospitais, genocídio e outras ações que violam a soberania e o direito internacional.
Israel e EUA cometeram todos esses crimes de guerra contra o Irã, e Tel-Aviv os cometeu também contra o Líbano. Os dois países já haviam sido cúmplices no genocídio da população de Gaza. Lá, as forças israelenses massacraram mulheres e crianças indiscriminadamente. E um bombardeio norte-americano matou de forma brutal 168 meninas entre 6 e 12 anos, em Minab, no Irã, logo nos primeiros dias da guerra.
Hoje há praticamente um consenso entre os analistas de que guerra contra o Irã é injusta, desnecessária, desumana e imoral. Sócios no crime, EUA e Israel traíram o governo iraniano quando este estava negociando uma solução pacífica. Netanyahu é um psicopata, desprovido de qualquer senso moral. Tem prazer em destruir e matar. Trump se move pela mentira, pela loucura narcisista e egocêntrica. Sem honra nem moralidade, prometeu varrer do mapa uma “civilização inteira”. Quem apoia essas condutas comete suicídio moral. A maioria dos norte-americanos, mesmo com toda a hipocrisia, preserva ainda algum senso moral ao se colocar contra a guerra.
A população dos EUA se orgulhava de apresentar seu país como baluarte da democracia, da liberdade e dos direitos humanos. Trump dinamitou essa imagem, não tem qualquer compromisso com a paz. Destrói a democracia interna e degrada a economia mundial. Já Netanyahu, em nome da fantasia psicopática da “Grande Israel”, quer criar um cinturão de Estados falidos ao seu redor para realizar o seu projeto hegemonista. Em parceria com os norte-americanos, conseguiu devastar a Síria, o Iraque e o Líbano. Com a complacência das monarquias e ditaduras árabes tentam falir o Irã.
Mesmo com toda a inferioridade militar, a heroica resistência dos iranianos está impondo uma derrota política e moral aos EUA e Israel. Com inteligência estratégica, o Irã demonstra ser capaz de afirmar sua condição de potência no Oriente Médio, derrotando a imoralidade da mentira, da destruição e dos assassinatos.
A conduta dos Estados modernos tem sido marcada por duas leis interdependentes: a lei da conservação e, dela derivada, a lei do conflito pela sobrevivência. Por isso, estudiosos afirmam ser ainda mais difícil estabelecer uma conexão entre moralidade e política internacional, já que esta frequentemente desliza para conflitos armados.
As guerras elevam a degradação dos seres humanos a seus piores extremos e pressionam ao máximo os limites da desumanização. Destroem, mutilam, despedaçam e matam, sobretudo inocentes: crianças, mulheres e idosos. Kant advertia que devemos sentir repugnância às guerras, pois elas matam menos seres malvados do que acabam por produzir.
Embora a capacidade de ferir, prejudicar e matar o outro seja inata aos seres humanos, também possuímos um senso moral que nos leva a sentir repugnância, indignação, compaixão, piedade e solidariedade diante de atos injustos e violentos. Muitos animais também parecem ter algo semelhante. No entanto, como seres racionais, ao longo da história elevamos essas reações ao nível da consciência e as codificamos em direitos e leis.
A desumanidade e a brutalidade das duas guerras mundiais, especialmente da Segunda, com milhões de mortos, o Holocausto e as bombas atômicas no Japão, elevaram o nível de consciência da humanidade no sentido de estabelecer limites. Por isso, os países reunidos na ONU estabeleceram parâmetros morais, éticos, jurídicos e também religiosos para a condução das guerras, com base na Carta das Nações Unidas e no Direito Internacional Humanitário.
A Carta da ONU proíbe a ameaça e o uso da força nas relações internacionais, salvo em caso de legítima defesa, e estabelece a proteção de civis e da infraestrutura civil, além de restrições ao uso de armas e métodos de destruição. Também define regras de tratamento humanitário a feridos e prisioneiros. Somado ao Estatuto de Roma e às Convenções de Genebra, o documento compõe um conjunto de normas que tipifica crimes de guerra, como ataques a civis e à infraestrutura civil, a hospitais, genocídio e outras ações que violam a soberania e o direito internacional.
Israel e EUA cometeram todos esses crimes de guerra contra o Irã, e Tel-Aviv os cometeu também contra o Líbano. Os dois países já haviam sido cúmplices no genocídio da população de Gaza. Lá, as forças israelenses massacraram mulheres e crianças indiscriminadamente. E um bombardeio norte-americano matou de forma brutal 168 meninas entre 6 e 12 anos, em Minab, no Irã, logo nos primeiros dias da guerra.
Hoje há praticamente um consenso entre os analistas de que guerra contra o Irã é injusta, desnecessária, desumana e imoral. Sócios no crime, EUA e Israel traíram o governo iraniano quando este estava negociando uma solução pacífica. Netanyahu é um psicopata, desprovido de qualquer senso moral. Tem prazer em destruir e matar. Trump se move pela mentira, pela loucura narcisista e egocêntrica. Sem honra nem moralidade, prometeu varrer do mapa uma “civilização inteira”. Quem apoia essas condutas comete suicídio moral. A maioria dos norte-americanos, mesmo com toda a hipocrisia, preserva ainda algum senso moral ao se colocar contra a guerra.
A população dos EUA se orgulhava de apresentar seu país como baluarte da democracia, da liberdade e dos direitos humanos. Trump dinamitou essa imagem, não tem qualquer compromisso com a paz. Destrói a democracia interna e degrada a economia mundial. Já Netanyahu, em nome da fantasia psicopática da “Grande Israel”, quer criar um cinturão de Estados falidos ao seu redor para realizar o seu projeto hegemonista. Em parceria com os norte-americanos, conseguiu devastar a Síria, o Iraque e o Líbano. Com a complacência das monarquias e ditaduras árabes tentam falir o Irã.
Mesmo com toda a inferioridade militar, a heroica resistência dos iranianos está impondo uma derrota política e moral aos EUA e Israel. Com inteligência estratégica, o Irã demonstra ser capaz de afirmar sua condição de potência no Oriente Médio, derrotando a imoralidade da mentira, da destruição e dos assassinatos.
Estamos todos à venda?
Sou meio ingênuo para esquemas de corrupção e outras promiscuidades público-privadas. Já há anos me queixo do circuito Elizabeth Arden de palestras e viagens de ministros do STF. Acreditava, talvez tolamente, que os atrativos oferecidos para conquistar a boa vontade de julgadores ficavam mais ou menos limitados à hospitalidade de luxo e outros prazeres efêmeros. A percepção de que os arranjos podem envolver significativo aumento patrimonial foi, para mim, um pouco chocante.
Falha minha, pois eu deveria saber. Essa não foi minha primeira epifania de venalidade. Nos anos 1990, vieram à tona vários escândalos de corrupção, que envolviam políticos de quase todos os partidos. Mas havia uma legenda cujos membros nunca apareciam nas falcatruas. Era o PT. Àquela altura, parecia crível que o partido fosse diferente dos demais. O tempo mostrou que isso era uma ilusão. Petistas não figuravam em escândalos mais por falta de oportunidade do que por excesso de virtude. Bastou que a sigla ganhasse mais prefeituras e outras posições no Executivo para que sua lista de malfeitorias ganhasse volume e densidade.
Isso significa que seres humanos estamos todos à venda? É um jeito meio lúgubre de ver as coisas. Prefiro, na esteira de Dan Ariely, pensar que as pessoas são 90% honestas. O psicólogo submeteu seus estudantes a experimentos que lhes davam a oportunidade de trapacear em jogos em diferentes circunstâncias. Concluiu que, de modo geral, as pessoas respeitam as regras, mesmo quando sabem que não serão punidas. A desonestidade é o resultado de uma negociação interna entre o ganho material esperado e a preservação da autoimagem. Quanto mais fácil for montar uma narrativa para "justificar" a burla, mais provável ela se torna. Os alunos de Ariely se sentiam confortáveis roubando "só um pouquinho", entre 10% e 15%.
Numa daquelas ironias que só a realidade sabe produzir, a carreira acadêmica de Ariely sofreu forte avaria com a revelação de que um dos seus estudos continha dados fraudulentos.
Falha minha, pois eu deveria saber. Essa não foi minha primeira epifania de venalidade. Nos anos 1990, vieram à tona vários escândalos de corrupção, que envolviam políticos de quase todos os partidos. Mas havia uma legenda cujos membros nunca apareciam nas falcatruas. Era o PT. Àquela altura, parecia crível que o partido fosse diferente dos demais. O tempo mostrou que isso era uma ilusão. Petistas não figuravam em escândalos mais por falta de oportunidade do que por excesso de virtude. Bastou que a sigla ganhasse mais prefeituras e outras posições no Executivo para que sua lista de malfeitorias ganhasse volume e densidade.
Isso significa que seres humanos estamos todos à venda? É um jeito meio lúgubre de ver as coisas. Prefiro, na esteira de Dan Ariely, pensar que as pessoas são 90% honestas. O psicólogo submeteu seus estudantes a experimentos que lhes davam a oportunidade de trapacear em jogos em diferentes circunstâncias. Concluiu que, de modo geral, as pessoas respeitam as regras, mesmo quando sabem que não serão punidas. A desonestidade é o resultado de uma negociação interna entre o ganho material esperado e a preservação da autoimagem. Quanto mais fácil for montar uma narrativa para "justificar" a burla, mais provável ela se torna. Os alunos de Ariely se sentiam confortáveis roubando "só um pouquinho", entre 10% e 15%.
Numa daquelas ironias que só a realidade sabe produzir, a carreira acadêmica de Ariely sofreu forte avaria com a revelação de que um dos seus estudos continha dados fraudulentos.
Já era!
Os grandes pensadores do Iluminismo tinham como certo que os indivíduos se esforçariam para melhorar suas vidas, não por egoísmo, mas porque esta é a motivação fundamental de todo ser humano. A boa sociedade seria, portanto, aquela que oferecesse esta possibilidade.
Explosão de negócios da família Trump abre caminho para presidentes dos EUA lucrarem com o cargo
Negócios da família Trump cresceram rapidamente no exterior e em criptomoedas durante o segundo mandato presidencial.
Filhos de Trump investiram em empresas que buscam contratos com o governo dos EUA, incluindo setores militares e de tecnologia.
Grandes investidores estrangeiros compraram ativos ligados à família Trump, levantando suspeitas de conflitos de interesse.
Trump e familiares lucraram com vendas de produtos, moedas digitais e clubes exclusivos, aumentando significativamente sua fortuna.
Especialistas e pesquisas apontam preocupação com a ética e o impacto desses negócios para a democracia americana.
Por muitos anos, os presidentes dos Estados Unidos tomaram cuidado para não dar a impressão de que estavam ganhando dinheiro devido ao cargo.
Harry Truman não permitiu que seu nome fosse usado em nenhum empreendimento, mesmo após deixar a presidência. Richard Nixon ficou tão preocupado com a possibilidade de um irmão se beneficiar de suas conexões que chegou a mandar instalar escutas em seu telefone.
Já George W. Bush vendeu todas as suas ações antes de tomar posse.
O presidente Donald Trump tem seguido um caminho diferente. A empresa de imóveis de sua família está crescendo internacionalmente em um ritmo nunca visto desde que foi criada, há um século, com os acordos potencialmente influenciando decisões que vão desde tarifas a ajuda militar.
Comandados pelos filhos de Trump, Eric e Donald Jr., os negócios da família passaram a incluir criptomoedas. Essas novas atividades trouxeram bilhões de dólares, mas também levantaram dúvidas sobre possíveis vantagens dadas a grandes investidores.
Os irmãos também se juntaram ou investiram em várias empresas que buscam fazer negócios com o governo comandado por seu pai.
Recentemente, Eric e Donald Jr. conseguiram uma parte milionária em uma empresa que fabrica drones armados e que tenta vender seus produtos tanto para o Pentágono quanto para países do Golfo, que dependem da proteção militar dos Estados Unidos.
A Casa Branca e a Trump Organization negam qualquer problema ético. Quando foi perguntado sobre o tema em um evento de criptomoedas, Donald Jr. respondeu: “Francamente, isso já cansou.
O problema dos conflitos de interesse remonta à primeira eleição de Trump.
Especialistas em ética governamental e historiadores argumentam, no entanto, que o tema é mais preocupante do que nunca. Segundo eles, os conflitos se acumulam no segundo mandato e são considerados sem precedentes, flagrantes e perigosos para a democracia.
“Não acho que haja atualmente qualquer linha entre decisões políticas, cálculos políticos e o interesse da família Trump”, disse Julian Zelizer, historiador presidencial da Universidade de Princeton.
Durante o primeiro mandato de Trump, a Trump Organization não fechou nenhum acordo fora dos Estados Unidos. Pouco mais de um ano depois do início do segundo mandato, já são oito negócios.
Segundo a empresa, todos eles estão seguindo a regra criada pela própria Trump Organization de não negociar diretamente com governos estrangeiros.
No entanto, em países onde o governo tem muito poder, é difícil que não haja algum tipo de influência, principalmente quando o dono do negócio é o presidente em exercício.
No Catar, por exemplo, um clube de golfe e casas de luxo com o nome Trump está sendo construído em parte por uma empresa do próprio governo do país.
No Vietnã, segundo o The New York Times, agricultores foram retirados de suas terras pelo governo para dar espaço a um resort Trump, e o acordo foi aprovado em uma cerimônia oficial com a presença do vice-primeiro-ministro.
Já na Arábia Saudita, um resort chamado “Trump Plaza” está sendo erguido no Mar Vermelho por uma empresa próxima à família real.
Não dá para saber ao certo se esses negócios mudaram decisões dos Estados Unidos para beneficiar esses países, mas eles conseguiram o que buscavam: o Qatar teve acesso à tecnologia americana, o Vietnã conseguiu redução de impostos e a Arábia Saudita recebeu aviões de combate.
A Trump Organization também saiu ganhando, recebendo dezenas de milhões de dólares em taxas.
Quando perguntada sobre esses projetos, a Trump Organization afirmou que não fez negócios com governos, dizendo que a empresa da Arábia Saudita é privada e que está apenas “colaborando” com a empresa do Catar, sem criar uma “parceria” que contrariaria suas próprias regras.
Outro negócio que gera dúvidas sobre conflitos de interesse foi revelado em uma reportagem do Wall Street Journal em janeiro, um ano depois de ter sido fechado.
Pouco antes da posse, a família Trump vendeu quase metade da empresa de criptomoedas World Liberty Financial para uma companhia ligada ao governo dos Emirados Árabes Unidos, comandada por um membro da família real, por US$ 500 milhões.
Outro grupo dos Emirados, um fundo do governo, investiu na plataforma de criptomoedas Binance usando US$ 2 bilhões em uma moeda digital criada pela World Liberty.
Com isso, a empresa de Trump pôde aplicar esse dinheiro em investimentos considerados seguros, como títulos públicos, e ficou com dezenas de milhões de dólares em juros.
Pouco tempo depois, o governo Trump cancelou uma regra do governo de Joe Biden e permitiu que os Emirados Árabes Unidos comprassem chips avançados dos Estados Unidos.
Mais tarde, o fundador da Binance, Changpeng Zhao, recebeu um perdão de Trump, mesmo após ter se declarado culpado por não impedir o uso da plataforma por criminosos que movimentavam dinheiro de casos envolvendo abuso sexual infantil, tráfico de drogas e terrorismo.
Questionado, o advogado de Zhao negou qualquer relação entre os negócios da Binance com a família Trump e o perdão recebido.
“Qualquer alegação de troca de favores por parte da Binance ou Changpeng Zhao, ou tratamento financeiro preferencial, é uma clara distorção do registro público”, disse Teresa Goody Guillen.
Sobre o perdão, a Casa Branca afirmou que Zhao foi punido de forma injusta pelas autoridades federais, em uma “guerra da administração Biden contra as criptomoedas”.
A World Liberty também negou qualquer conflito de interesse, dizendo que o negócio com os Emirados Árabes Unidos não tinha ligação com a decisão sobre os chips.
A World Liberty também criou outra forma de renda para uma nova empresa de Trump, vendendo “tokens de governança”. Esses tokens dão ao comprador direito a voto, mas não o tornam dono da empresa. Só no ano passado, foram arrecadados US$ 2 bilhões.
Com isso, a família Trump ganhou centenas de milhões de dólares por sua participação na World Liberty e por um acordo que garante parte dessas vendas.
Um dos principais compradores desses tokens foi Justin Sun, um bilionário do setor de criptomoedas que, por ser estrangeiro, é proibido pela lei dos EUA de fazer doações a políticos americanos. Entre a eleição e a posse de Trump, Sun gastou US$ 75 milhões nesses tokens.
Em fevereiro de 2025, um processo federal contra Sun por enganar investidores foi suspenso. O caso terminou no mês passado, com uma multa de US$ 10 milhões.
Outro produto lançado foram as moedas “meme” com o rosto de Trump, colocadas à venda pouco antes de ele começar o segundo mandato.
Nos quatro meses seguintes, essas moedas renderam US$ 320 milhões, a maioria indo para empresas ligadas a Trump, segundo a empresa Chainalysis, que monitora transações em blockchain.
Esse valor é mais que o dobro do que foi arrecadado em quatro anos com o hotel Trump International, em Washington D.C., durante o primeiro mandato.
Ao contrário de lobistas ou doadores de campanha que tentam influenciar Trump, quem compra essas moedas pode fazer isso sem se identificar.
Justin Sun está entre os que optaram por tornar sua aquisição pública, gastando US$ 200 milhões nas moedas e conseguindo participar de uma festa exclusiva com Trump para os maiores compradores.
Outro empreendimento da família, a American Bitcoin, abriu capital em setembro, o que deu a Donald Jr. e Eric um valor estimado de US$ 1 bilhão em ações na época.
Meses antes, Trump anunciou a criação de uma reserva nacional de bitcoin, o que fez o preço da moeda disparar.
Os negócios do presidente não são totalmente imunes à notória volatilidade das criptomoedas.
O valor do bitcoin e de outros tokens digitais despencou desde então, assustando investidores. Tanto as ações da American Bitcoin quanto o valor das moedas meme de Trump perderam 90% do valor desde o pico.
No mês passado, Trump disse que faria mais um jantar com os maiores compradores de suas moedas meme, o que fez o valor das moedas subir antes de cair de novo.
“Quaisquer restrições que existiam no primeiro mandato parecem ter desaparecido completamente”, diz o historiador da Universidade Columbia Timothy Naftali.
Quando perguntada sobre a reportagem, a Casa Branca afirmou que Trump age de “maneira ética” e que qualquer sugestão diferente é “mal informada ou maliciosa”.
A porta-voz Anna Kelly reforçou que os bens de Trump estão sob a administração dos filhos e disse que ele “não tem envolvimento” nos negócios da família. “Não há conflitos de interesse”, afirmou.
Em outro comunicado, a Trump Organization disse estar “totalmente em conformidade com todas as leis aplicáveis de ética e conflitos de interesse” e acrescentou que “a insinuação de que a política enriqueceu a família Trump é infundada.”
Em janeiro, Trump declarou ao The New York Times que, sobre possíveis conflitos de interesse, “eu descobri que ninguém se importava, e eu posso”, fazendo referência à exceção que o presidente tem na lei federal que impede funcionários públicos de manterem interesses financeiros em negócios afetados por decisões do governo.
Não está claro se Trump está certo ou errado sobre o que pensam os americanos, mas essa opinião parece estar mudando, até mesmo entre os republicanos.
Em uma pesquisa feita pelo Pew Research Center em janeiro, 42% dos eleitores republicanos disseram confiar que Trump age de forma ética, número menor do que os 55% registrados no início do segundo mandato, um ano antes.
A revista Forbes calcula que a fortuna de Trump agora chega a US$ 6,3 bilhões, um aumento de 60% em comparação ao período antes de ele voltar à presidência, o que chama atenção diante das dificuldades que a Trump Organization enfrentou no passado.
Filhos de Trump investiram em empresas que buscam contratos com o governo dos EUA, incluindo setores militares e de tecnologia.
Grandes investidores estrangeiros compraram ativos ligados à família Trump, levantando suspeitas de conflitos de interesse.
Trump e familiares lucraram com vendas de produtos, moedas digitais e clubes exclusivos, aumentando significativamente sua fortuna.
Especialistas e pesquisas apontam preocupação com a ética e o impacto desses negócios para a democracia americana.
Por muitos anos, os presidentes dos Estados Unidos tomaram cuidado para não dar a impressão de que estavam ganhando dinheiro devido ao cargo.
Harry Truman não permitiu que seu nome fosse usado em nenhum empreendimento, mesmo após deixar a presidência. Richard Nixon ficou tão preocupado com a possibilidade de um irmão se beneficiar de suas conexões que chegou a mandar instalar escutas em seu telefone.
Já George W. Bush vendeu todas as suas ações antes de tomar posse.
O presidente Donald Trump tem seguido um caminho diferente. A empresa de imóveis de sua família está crescendo internacionalmente em um ritmo nunca visto desde que foi criada, há um século, com os acordos potencialmente influenciando decisões que vão desde tarifas a ajuda militar.
Comandados pelos filhos de Trump, Eric e Donald Jr., os negócios da família passaram a incluir criptomoedas. Essas novas atividades trouxeram bilhões de dólares, mas também levantaram dúvidas sobre possíveis vantagens dadas a grandes investidores.
Os irmãos também se juntaram ou investiram em várias empresas que buscam fazer negócios com o governo comandado por seu pai.
Recentemente, Eric e Donald Jr. conseguiram uma parte milionária em uma empresa que fabrica drones armados e que tenta vender seus produtos tanto para o Pentágono quanto para países do Golfo, que dependem da proteção militar dos Estados Unidos.
A Casa Branca e a Trump Organization negam qualquer problema ético. Quando foi perguntado sobre o tema em um evento de criptomoedas, Donald Jr. respondeu: “Francamente, isso já cansou.
O problema dos conflitos de interesse remonta à primeira eleição de Trump.
Especialistas em ética governamental e historiadores argumentam, no entanto, que o tema é mais preocupante do que nunca. Segundo eles, os conflitos se acumulam no segundo mandato e são considerados sem precedentes, flagrantes e perigosos para a democracia.
“Não acho que haja atualmente qualquer linha entre decisões políticas, cálculos políticos e o interesse da família Trump”, disse Julian Zelizer, historiador presidencial da Universidade de Princeton.
Durante o primeiro mandato de Trump, a Trump Organization não fechou nenhum acordo fora dos Estados Unidos. Pouco mais de um ano depois do início do segundo mandato, já são oito negócios.
Segundo a empresa, todos eles estão seguindo a regra criada pela própria Trump Organization de não negociar diretamente com governos estrangeiros.
No entanto, em países onde o governo tem muito poder, é difícil que não haja algum tipo de influência, principalmente quando o dono do negócio é o presidente em exercício.
No Catar, por exemplo, um clube de golfe e casas de luxo com o nome Trump está sendo construído em parte por uma empresa do próprio governo do país.
No Vietnã, segundo o The New York Times, agricultores foram retirados de suas terras pelo governo para dar espaço a um resort Trump, e o acordo foi aprovado em uma cerimônia oficial com a presença do vice-primeiro-ministro.
Já na Arábia Saudita, um resort chamado “Trump Plaza” está sendo erguido no Mar Vermelho por uma empresa próxima à família real.
Não dá para saber ao certo se esses negócios mudaram decisões dos Estados Unidos para beneficiar esses países, mas eles conseguiram o que buscavam: o Qatar teve acesso à tecnologia americana, o Vietnã conseguiu redução de impostos e a Arábia Saudita recebeu aviões de combate.
A Trump Organization também saiu ganhando, recebendo dezenas de milhões de dólares em taxas.
Quando perguntada sobre esses projetos, a Trump Organization afirmou que não fez negócios com governos, dizendo que a empresa da Arábia Saudita é privada e que está apenas “colaborando” com a empresa do Catar, sem criar uma “parceria” que contrariaria suas próprias regras.
Outro negócio que gera dúvidas sobre conflitos de interesse foi revelado em uma reportagem do Wall Street Journal em janeiro, um ano depois de ter sido fechado.
Pouco antes da posse, a família Trump vendeu quase metade da empresa de criptomoedas World Liberty Financial para uma companhia ligada ao governo dos Emirados Árabes Unidos, comandada por um membro da família real, por US$ 500 milhões.
Outro grupo dos Emirados, um fundo do governo, investiu na plataforma de criptomoedas Binance usando US$ 2 bilhões em uma moeda digital criada pela World Liberty.
Com isso, a empresa de Trump pôde aplicar esse dinheiro em investimentos considerados seguros, como títulos públicos, e ficou com dezenas de milhões de dólares em juros.
Pouco tempo depois, o governo Trump cancelou uma regra do governo de Joe Biden e permitiu que os Emirados Árabes Unidos comprassem chips avançados dos Estados Unidos.
Mais tarde, o fundador da Binance, Changpeng Zhao, recebeu um perdão de Trump, mesmo após ter se declarado culpado por não impedir o uso da plataforma por criminosos que movimentavam dinheiro de casos envolvendo abuso sexual infantil, tráfico de drogas e terrorismo.
Questionado, o advogado de Zhao negou qualquer relação entre os negócios da Binance com a família Trump e o perdão recebido.
“Qualquer alegação de troca de favores por parte da Binance ou Changpeng Zhao, ou tratamento financeiro preferencial, é uma clara distorção do registro público”, disse Teresa Goody Guillen.
Sobre o perdão, a Casa Branca afirmou que Zhao foi punido de forma injusta pelas autoridades federais, em uma “guerra da administração Biden contra as criptomoedas”.
A World Liberty também negou qualquer conflito de interesse, dizendo que o negócio com os Emirados Árabes Unidos não tinha ligação com a decisão sobre os chips.
A World Liberty também criou outra forma de renda para uma nova empresa de Trump, vendendo “tokens de governança”. Esses tokens dão ao comprador direito a voto, mas não o tornam dono da empresa. Só no ano passado, foram arrecadados US$ 2 bilhões.
Com isso, a família Trump ganhou centenas de milhões de dólares por sua participação na World Liberty e por um acordo que garante parte dessas vendas.
Um dos principais compradores desses tokens foi Justin Sun, um bilionário do setor de criptomoedas que, por ser estrangeiro, é proibido pela lei dos EUA de fazer doações a políticos americanos. Entre a eleição e a posse de Trump, Sun gastou US$ 75 milhões nesses tokens.
Em fevereiro de 2025, um processo federal contra Sun por enganar investidores foi suspenso. O caso terminou no mês passado, com uma multa de US$ 10 milhões.
Outro produto lançado foram as moedas “meme” com o rosto de Trump, colocadas à venda pouco antes de ele começar o segundo mandato.
Nos quatro meses seguintes, essas moedas renderam US$ 320 milhões, a maioria indo para empresas ligadas a Trump, segundo a empresa Chainalysis, que monitora transações em blockchain.
Esse valor é mais que o dobro do que foi arrecadado em quatro anos com o hotel Trump International, em Washington D.C., durante o primeiro mandato.
Ao contrário de lobistas ou doadores de campanha que tentam influenciar Trump, quem compra essas moedas pode fazer isso sem se identificar.
Justin Sun está entre os que optaram por tornar sua aquisição pública, gastando US$ 200 milhões nas moedas e conseguindo participar de uma festa exclusiva com Trump para os maiores compradores.
Outro empreendimento da família, a American Bitcoin, abriu capital em setembro, o que deu a Donald Jr. e Eric um valor estimado de US$ 1 bilhão em ações na época.
Meses antes, Trump anunciou a criação de uma reserva nacional de bitcoin, o que fez o preço da moeda disparar.
Os negócios do presidente não são totalmente imunes à notória volatilidade das criptomoedas.
O valor do bitcoin e de outros tokens digitais despencou desde então, assustando investidores. Tanto as ações da American Bitcoin quanto o valor das moedas meme de Trump perderam 90% do valor desde o pico.
No mês passado, Trump disse que faria mais um jantar com os maiores compradores de suas moedas meme, o que fez o valor das moedas subir antes de cair de novo.
“Quaisquer restrições que existiam no primeiro mandato parecem ter desaparecido completamente”, diz o historiador da Universidade Columbia Timothy Naftali.
Quando perguntada sobre a reportagem, a Casa Branca afirmou que Trump age de “maneira ética” e que qualquer sugestão diferente é “mal informada ou maliciosa”.
A porta-voz Anna Kelly reforçou que os bens de Trump estão sob a administração dos filhos e disse que ele “não tem envolvimento” nos negócios da família. “Não há conflitos de interesse”, afirmou.
Em outro comunicado, a Trump Organization disse estar “totalmente em conformidade com todas as leis aplicáveis de ética e conflitos de interesse” e acrescentou que “a insinuação de que a política enriqueceu a família Trump é infundada.”
Em janeiro, Trump declarou ao The New York Times que, sobre possíveis conflitos de interesse, “eu descobri que ninguém se importava, e eu posso”, fazendo referência à exceção que o presidente tem na lei federal que impede funcionários públicos de manterem interesses financeiros em negócios afetados por decisões do governo.
Não está claro se Trump está certo ou errado sobre o que pensam os americanos, mas essa opinião parece estar mudando, até mesmo entre os republicanos.
Em uma pesquisa feita pelo Pew Research Center em janeiro, 42% dos eleitores republicanos disseram confiar que Trump age de forma ética, número menor do que os 55% registrados no início do segundo mandato, um ano antes.
A revista Forbes calcula que a fortuna de Trump agora chega a US$ 6,3 bilhões, um aumento de 60% em comparação ao período antes de ele voltar à presidência, o que chama atenção diante das dificuldades que a Trump Organization enfrentou no passado.
O Trump International Hotel em Washington, D.C., nunca teve lucro antes de ser vendido em 2022. Duas redes de hotéis da marca Trump, voltadas para a classe média, fecharam no primeiro mandato por falta de clientes.
Alguns prédios de apartamentos tiraram o nome Trump das fachadas porque perceberam que, em vez de atrair compradores, estavam afastando-os.
Nenhum novo prédio residencial nos Estados Unidos está usando o nome Trump na entrada durante o segundo mandato, mas em Washington, onde há muitos negócios com o governo, o nome ainda tem valor.
Donald Jr., o filho mais velho de Trump, abriu um clube privado em Georgetown, Washington, cobrando até US$ 500 mil de quem quer ser membro fundador.
Poucos clubes cobram valores parecidos, como o Yellowstone Club, em Montana, que oferece acesso a resorts, pistas de esqui e muitos restaurantes em uma área exclusiva.
Chamado de “Executive Branch” (“Poder Executivo”), o clube de Donald Jr. fica no subsolo de um prédio, mas oferece algo diferente: estar perto do centro do poder.
Outros presidentes e suas famílias também já buscaram lucros de formas que prejudicaram a imagem do cargo.
Hunter Biden foi pago como diretor de uma empresa de gás ucraniana enquanto seu pai, Joe, era vice-presidente.
A Fundação Clinton recebeu doações de outros países, mas isso foi depois que Bill Clinton deixou a presidência. Já o irmão de Jimmy Carter, Billy, ganhou dinheiro usando o nome da família para vender cerveja.
No caso de Trump, ele mesmo está vendendo produtos como Bíblias “God Bless the USA” por US$ 59,99, tênis “Never Surrender” por US$ 399 e guitarras elétricas que podem custar até US$ 11.500 —frete não incluído — para quem quiser um modelo autografado pelo presidente.
Nos primeiros meses do segundo ano de Trump de volta à presidência, o ritmo dos negócios continuou forte.
Em janeiro, a Trump Organization anunciou o terceiro acordo com a Arábia Saudita em menos de um ano, desta vez para construir mansões, um hotel e um campo de golfe perto da capital, Riad.
Agora, a “colaboração” é com uma empresa ainda mais ligada ao governo, pois pertence ao fundo soberano do país, comandado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.
Quando questionada pela AP se esse projeto desrespeita a promessa de não fazer negócios com governos estrangeiros, a Trump Organization respondeu que não “faz negócios com nenhuma entidade governamental”, mas não comentou sobre esse caso em particular.
Enquanto isso, a nova empresa de drones de Eric e Donald Jr. tenta fechar contratos com o Pentágono. Outras empresas que têm acordos com o governo e que receberam investimentos dos irmãos no último ano estão recebendo dezenas de milhões de dólares em dinheiro público.
Entre elas estão uma fabricante de motores de foguetes, uma fornecedora de chips de inteligência artificial e uma empresa de análise de dados, de acordo com registros oficiais.
Quando perguntado sobre possíveis conflitos depois do acordo dos drones, Eric afirmou: “Tenho um orgulho enorme de investir em empresas nas quais acredito.”
Um representante de Donald Jr. disse que ele não “interage” com o governo sobre as empresas em que investe, e acrescentou que “a ideia de que ele deveria parar de viver sua vida e sustentar seus cinco filhos só porque seu pai é presidente é, francamente, um padrão risível e ridículo.”
Uma nova empresa de investimentos, da qual os irmãos se tornaram conselheiros no ano passado, arrecadou US$ 345 milhões em uma oferta pública inicial para comprar partes de empresas americanas que devem ajudar o pai deles a fortalecer a indústria dos Estados Unidos.
Alguns prédios de apartamentos tiraram o nome Trump das fachadas porque perceberam que, em vez de atrair compradores, estavam afastando-os.
Nenhum novo prédio residencial nos Estados Unidos está usando o nome Trump na entrada durante o segundo mandato, mas em Washington, onde há muitos negócios com o governo, o nome ainda tem valor.
Donald Jr., o filho mais velho de Trump, abriu um clube privado em Georgetown, Washington, cobrando até US$ 500 mil de quem quer ser membro fundador.
Poucos clubes cobram valores parecidos, como o Yellowstone Club, em Montana, que oferece acesso a resorts, pistas de esqui e muitos restaurantes em uma área exclusiva.
Chamado de “Executive Branch” (“Poder Executivo”), o clube de Donald Jr. fica no subsolo de um prédio, mas oferece algo diferente: estar perto do centro do poder.
Outros presidentes e suas famílias também já buscaram lucros de formas que prejudicaram a imagem do cargo.
Hunter Biden foi pago como diretor de uma empresa de gás ucraniana enquanto seu pai, Joe, era vice-presidente.
A Fundação Clinton recebeu doações de outros países, mas isso foi depois que Bill Clinton deixou a presidência. Já o irmão de Jimmy Carter, Billy, ganhou dinheiro usando o nome da família para vender cerveja.
No caso de Trump, ele mesmo está vendendo produtos como Bíblias “God Bless the USA” por US$ 59,99, tênis “Never Surrender” por US$ 399 e guitarras elétricas que podem custar até US$ 11.500 —frete não incluído — para quem quiser um modelo autografado pelo presidente.
Nos primeiros meses do segundo ano de Trump de volta à presidência, o ritmo dos negócios continuou forte.
Em janeiro, a Trump Organization anunciou o terceiro acordo com a Arábia Saudita em menos de um ano, desta vez para construir mansões, um hotel e um campo de golfe perto da capital, Riad.
Agora, a “colaboração” é com uma empresa ainda mais ligada ao governo, pois pertence ao fundo soberano do país, comandado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.
Quando questionada pela AP se esse projeto desrespeita a promessa de não fazer negócios com governos estrangeiros, a Trump Organization respondeu que não “faz negócios com nenhuma entidade governamental”, mas não comentou sobre esse caso em particular.
Enquanto isso, a nova empresa de drones de Eric e Donald Jr. tenta fechar contratos com o Pentágono. Outras empresas que têm acordos com o governo e que receberam investimentos dos irmãos no último ano estão recebendo dezenas de milhões de dólares em dinheiro público.
Entre elas estão uma fabricante de motores de foguetes, uma fornecedora de chips de inteligência artificial e uma empresa de análise de dados, de acordo com registros oficiais.
Quando perguntado sobre possíveis conflitos depois do acordo dos drones, Eric afirmou: “Tenho um orgulho enorme de investir em empresas nas quais acredito.”
Um representante de Donald Jr. disse que ele não “interage” com o governo sobre as empresas em que investe, e acrescentou que “a ideia de que ele deveria parar de viver sua vida e sustentar seus cinco filhos só porque seu pai é presidente é, francamente, um padrão risível e ridículo.”
Uma nova empresa de investimentos, da qual os irmãos se tornaram conselheiros no ano passado, arrecadou US$ 345 milhões em uma oferta pública inicial para comprar partes de empresas americanas que devem ajudar o pai deles a fortalecer a indústria dos Estados Unidos.
Associated Press
sexta-feira, 17 de abril de 2026
A queda do império americano
Nunca imaginei que um dia veria, em tempo real, a queda do império americano. Em pouco mais de um ano de Trump no poder, os Estados Unidos se tornaram a nação mais odiada, e temida, do mundo. Perderam o respeito, a confiança e a admiração da comunidade internacional. Embora uma boa parte do povo americano seja de gente competente, trabalhadora, empreendedora e pacífica, vanguarda acadêmica e científica, produção artística e cultural, e até políticos como o prefeito muçulmano de Nova York, Zohran Mamdani, um democrata socialista que está cumprindo suas promessas de campanha, com creches para todos, mercados públicos baratos e taxação de bilionários. Assim como o Brasil, os Estados Unidos estão radicalmente divididos, e esta é sua maior fraqueza, apesar de seu imenso poder militar.
Desde 1945, os Estados Unidos entraram em cinco guerras longas e sangrentas, quando não estavam ameaçados, que custaram trilhões de dólares e a vida de milhares de americanos. E, apesar de seu poder de fogo, perderam todas, não ganharam nada com elas, só destruíram cidades e mataram milhões de pessoas. De lá para cá os Estados Unidos mantêm 800 bases militares espalhadas pelo mundo. Para quê? A maioria não tem importância para conter ameaças diretas aos Estados Unidos, serve só para controle dos seus interesses na região e para seu vício de ser polícia do mundo. Mas esse mundo está mudando rapidamente. Trump apoiou e mandou o vice, J. D. Vance, à Hungria para fazer campanha para o ultradireitista Viktor Orbán, mas acabou queimando seu filme e dando vitória estrondosa ao adversário.
No mesmo período, a China não entrou em nenhuma guerra, investiu essa dinheirama em educação e tecnologia, inventou um comuno-capitalismo de sucesso e se tornou uma das três grandes potências econômicas e militares. E muito mais moderna que Estados Unidos e Rússia. As tarifas, os insultos e as grosserias de Trump com aliados e parceiros comerciais os levaram para os braços da China. Enquanto Trump esbraveja e ameaça, os chineses fazem negócios no mundo inteiro, crescem geometricamente, ganham prestígio e popularidade com suas cidades futuristas e sua vanguarda tecnológica e científica, têm as melhores universidades do mundo. O número de turistas nos Estados Unidos desabou dramaticamente, o custo de vida subiu, o governo tem 60% de desaprovação, 70% estão contra a guerra.
Não se sabe se o novo mundo que está se desenhando vai ser melhor ou pior que o velho, com um novo mapa do poder econômico e tecnológico, em que o império americano perdeu dinheiro, prestígio e parceiros comerciais — mas tudo pode mudar se Trump for deposto pelo Congresso depois de derrotado nas eleições de novembro, que vai tentar cancelar, alegar fraude, insuflar a revolta popular e até provocar uma nova guerra civil.
Enquanto isso, a China olha tudo de longe com os olhos bem abertos e espalha pelo mundo o seu progresso com obras monumentais, modernas e futuristas, trens ultravelozes, serviços de saúde pública de qualidade e educação de alto nível.
Desde 1945, os Estados Unidos entraram em cinco guerras longas e sangrentas, quando não estavam ameaçados, que custaram trilhões de dólares e a vida de milhares de americanos. E, apesar de seu poder de fogo, perderam todas, não ganharam nada com elas, só destruíram cidades e mataram milhões de pessoas. De lá para cá os Estados Unidos mantêm 800 bases militares espalhadas pelo mundo. Para quê? A maioria não tem importância para conter ameaças diretas aos Estados Unidos, serve só para controle dos seus interesses na região e para seu vício de ser polícia do mundo. Mas esse mundo está mudando rapidamente. Trump apoiou e mandou o vice, J. D. Vance, à Hungria para fazer campanha para o ultradireitista Viktor Orbán, mas acabou queimando seu filme e dando vitória estrondosa ao adversário.
No mesmo período, a China não entrou em nenhuma guerra, investiu essa dinheirama em educação e tecnologia, inventou um comuno-capitalismo de sucesso e se tornou uma das três grandes potências econômicas e militares. E muito mais moderna que Estados Unidos e Rússia. As tarifas, os insultos e as grosserias de Trump com aliados e parceiros comerciais os levaram para os braços da China. Enquanto Trump esbraveja e ameaça, os chineses fazem negócios no mundo inteiro, crescem geometricamente, ganham prestígio e popularidade com suas cidades futuristas e sua vanguarda tecnológica e científica, têm as melhores universidades do mundo. O número de turistas nos Estados Unidos desabou dramaticamente, o custo de vida subiu, o governo tem 60% de desaprovação, 70% estão contra a guerra.
Não se sabe se o novo mundo que está se desenhando vai ser melhor ou pior que o velho, com um novo mapa do poder econômico e tecnológico, em que o império americano perdeu dinheiro, prestígio e parceiros comerciais — mas tudo pode mudar se Trump for deposto pelo Congresso depois de derrotado nas eleições de novembro, que vai tentar cancelar, alegar fraude, insuflar a revolta popular e até provocar uma nova guerra civil.
Enquanto isso, a China olha tudo de longe com os olhos bem abertos e espalha pelo mundo o seu progresso com obras monumentais, modernas e futuristas, trens ultravelozes, serviços de saúde pública de qualidade e educação de alto nível.
Crônica de uma guerra estúpida
Ormuz estava aberto para cargueiros de todas as bandeiras. Os preços do petróleo mantinham-se em patamar estável, o que favorecia compradores asiáticos, vendedores árabes e o mercado global. Eis que Netanyahu convence Trump de que chegara o momento de aniquilar os aiatolás, que teriam perdido apoio popular ao reprimir os protestos populares de fevereiro. Movido por empáfia e hubris, Trump despejou bombas no território iraniano e matou Khamenei. Só que o filho assumiu e, em vez de se render, fechou as duas pontas do Estreito.
Possesso, o ministro da Defesa Pete Hegseth ameaçou fazer o Irã regredir à idade da pedra. Mais bombas caíram, atingindo também escolas, hospitais e outros alvos civis. Nem assim os iranianos se renderam. Pelo contrário, demonstraram força para atacar países aliados dos EUA no Golfo Pérsico. Nos EUA, a economia começou a dar sinais de enfraquecimento. Ato contínuo, pesquisas registraram nova queda de popularidade do governo.
Dia 7, foi a vez de Trump trovejar num tuíte apocalíptico que, caso Ormuz continuasse fechado, "uma civilização inteira desaparecerá para sempre na noite de hoje". Como? Explodindo bombas atômicas? Matando 90 milhões de pessoas?
No seu triunfalismo midiático, Trump vai logo cantando vitória e exigindo a subserviência dos adversários. Desta vez, porém, patenteou-se a miopia de sua estratégia. A dificuldade para vencer mais uma guerra que não deveria ter começado evidencia os limites do poder americano.

O regime iraniano sai até fortalecido pela extraordinária demonstração de resiliência. Ganhou consciência, ademais, de que o estreito de Ormuz pode ser um trunfo a seu favor, detalhe que Trump parecia desconhecer, e os russos conheciam de sobra. Nas negociações que se iniciam em Islamabad, o Irã dispõe da boa vontade e eventual assistência de Putin, que sai vencedor nesse imbróglio.
A Europa perde. Uma das mais preocupantes consequências da guerra é o agravamento das relações entre os EUA e a Otan. Ao negarem ajuda para desobstruir Ormuz, os europeus expuseram-se a uma confrontação com o imprevisível Trump. Assim, a retirada americana do bloco passa a ser uma hipótese real. Num tal cenário, quem se beneficiaria, mais uma vez, seria Putin.
Outra consequência com que a Casa Branca não contava é que o fechamento de Ormuz expôs a fragilidade do sistema baseado em combustíveis fósseis. Os países asiáticos estão apressando compras de maquinário de energia renovável. Os EUA perdem competitividade comercial para a China, que domina a tecnologia da energia limpa.
Trump embrulhou-se com problemas imprevistos. A segurança dos cidadãos americanos entra em jogo. Nas Filipinas, por exemplo, onde foi decretado estado de emergência devido ao desabastecimento de petróleo, manifestações na frente da embaixada americana fizeram lembrar o tempo da guerra no Vietnã. Até na Austrália se fala em rever o Aukus, aliança estratégica trilateral com os EUA e o Reino Unido para conter a China no Indo-Pacífico.
Essa evolução na política interna australiana sugere que a China, sem dar um tiro, emergiu como a principal beneficiária da guerra. O próprio Trump confirmou que a diplomacia chinesa ajudou a convencer os iranianos a negociar a paz. A confirmação aumenta o trânsito diplomático chinês. Entre os países árabes, vários porta-vozes árabes já manifestaram de público que passaram a ter uma visão mais favorável da China.
Trump perdeu. Colou na sua imagem a manipulação por Netanyahu. Os prognósticos Democratas com relação às eleições parlamentares de 4 de novembro tornaram-se muito mais otimistas, e Trump já revelou receios de que uma derrota Republicana redunde no seu impeachment pelo Congresso americano. A campanha será acirrada e, nesse contexto, as eleições do último domingo na Hungria devem ser escrutinizadas, sobretudo para se aferir a influência da utilização da tecnologia da IA nos resultados eleitorais.
Por fim, impõe-se lembrar que o Tribunal de Nuremberg deitou jurisprudência segundo a qual palavras que estimulam a destruição de um povo equivalem a um crime. Juristas internacionais começam a emitir pareceres de que, no âmbito do direito internacional moderno, o tuíte de Trump seria o caso mais evidente da intenção de genocídio. Ou seja, além da possibilidade de um impeachment, Trump pode ter de se preocupar com um processo no Tribunal Penal Internacional.
Possesso, o ministro da Defesa Pete Hegseth ameaçou fazer o Irã regredir à idade da pedra. Mais bombas caíram, atingindo também escolas, hospitais e outros alvos civis. Nem assim os iranianos se renderam. Pelo contrário, demonstraram força para atacar países aliados dos EUA no Golfo Pérsico. Nos EUA, a economia começou a dar sinais de enfraquecimento. Ato contínuo, pesquisas registraram nova queda de popularidade do governo.
Dia 7, foi a vez de Trump trovejar num tuíte apocalíptico que, caso Ormuz continuasse fechado, "uma civilização inteira desaparecerá para sempre na noite de hoje". Como? Explodindo bombas atômicas? Matando 90 milhões de pessoas?
No seu triunfalismo midiático, Trump vai logo cantando vitória e exigindo a subserviência dos adversários. Desta vez, porém, patenteou-se a miopia de sua estratégia. A dificuldade para vencer mais uma guerra que não deveria ter começado evidencia os limites do poder americano.
O regime iraniano sai até fortalecido pela extraordinária demonstração de resiliência. Ganhou consciência, ademais, de que o estreito de Ormuz pode ser um trunfo a seu favor, detalhe que Trump parecia desconhecer, e os russos conheciam de sobra. Nas negociações que se iniciam em Islamabad, o Irã dispõe da boa vontade e eventual assistência de Putin, que sai vencedor nesse imbróglio.
A Europa perde. Uma das mais preocupantes consequências da guerra é o agravamento das relações entre os EUA e a Otan. Ao negarem ajuda para desobstruir Ormuz, os europeus expuseram-se a uma confrontação com o imprevisível Trump. Assim, a retirada americana do bloco passa a ser uma hipótese real. Num tal cenário, quem se beneficiaria, mais uma vez, seria Putin.
Outra consequência com que a Casa Branca não contava é que o fechamento de Ormuz expôs a fragilidade do sistema baseado em combustíveis fósseis. Os países asiáticos estão apressando compras de maquinário de energia renovável. Os EUA perdem competitividade comercial para a China, que domina a tecnologia da energia limpa.
Trump embrulhou-se com problemas imprevistos. A segurança dos cidadãos americanos entra em jogo. Nas Filipinas, por exemplo, onde foi decretado estado de emergência devido ao desabastecimento de petróleo, manifestações na frente da embaixada americana fizeram lembrar o tempo da guerra no Vietnã. Até na Austrália se fala em rever o Aukus, aliança estratégica trilateral com os EUA e o Reino Unido para conter a China no Indo-Pacífico.
Essa evolução na política interna australiana sugere que a China, sem dar um tiro, emergiu como a principal beneficiária da guerra. O próprio Trump confirmou que a diplomacia chinesa ajudou a convencer os iranianos a negociar a paz. A confirmação aumenta o trânsito diplomático chinês. Entre os países árabes, vários porta-vozes árabes já manifestaram de público que passaram a ter uma visão mais favorável da China.
Trump perdeu. Colou na sua imagem a manipulação por Netanyahu. Os prognósticos Democratas com relação às eleições parlamentares de 4 de novembro tornaram-se muito mais otimistas, e Trump já revelou receios de que uma derrota Republicana redunde no seu impeachment pelo Congresso americano. A campanha será acirrada e, nesse contexto, as eleições do último domingo na Hungria devem ser escrutinizadas, sobretudo para se aferir a influência da utilização da tecnologia da IA nos resultados eleitorais.
Por fim, impõe-se lembrar que o Tribunal de Nuremberg deitou jurisprudência segundo a qual palavras que estimulam a destruição de um povo equivalem a um crime. Juristas internacionais começam a emitir pareceres de que, no âmbito do direito internacional moderno, o tuíte de Trump seria o caso mais evidente da intenção de genocídio. Ou seja, além da possibilidade de um impeachment, Trump pode ter de se preocupar com um processo no Tribunal Penal Internacional.
Sportswashing: de Hitler a Trump
Quando se iniciaram os Jogos Olímpicos de Berlim, no dia 1º de agosto de 1936, muitos eram os Tarnschriften, panfletos camuflados usados para denunciar os horrores do III Reich, distribuídos pelas ruas alemãs. Meses antes, nos Estados Unidos, ocorriam manifestações explícitas contrárias à realização dos jogos em território nazista, já sob vigência das leis antissemitas de Nuremberg, o que dava o tom da tensão presente naquele ano no mundo.
Jeremiah Mahoney, presidente da União Atlética Amadora (AAU), liderava o movimento pelo boicote à participação da delegação estadunidense em Berlim. Além da solidariedade aos judeus, denunciava que cristãos não arianos, comunistas e todo tipo de oposição ao regime alemão também eram alvo de perseguição. O pleito de Mahoney por muito pouco não foi aprovado, sendo derrotado em votação na AAU por apenas dois votos. Avery Brundage, chefe do Comitê Olímpico Americano (AOC), foi o protagonista na defesa da legitimidade dos Jogos e da participação de seu país, contando também com a inércia de Roosevelt, fiel à Lei de Neutralidade de 1935.
Na Europa, a resistência a Hitler parecia mobilizar mais corações e mentes. Carregando a bandeira dos verdadeiros ideais olímpicos de paz e fraternidade, fora criado um Comitê Olímpico Popular em 1º de maio de 1936, Dia dos Trabalhadores. Este comitê organizaria a Olimpíada Popular em Barcelona, com início marcado para o dia 19 de julho daquele ano. Cerca de 10 mil atletas e 25 mil espectadores se deslocaram à Catalunha para estar nesse evento, que contava com o apoio financeiro e institucional também da Espanha e da França.
Dois dias antes do início dos jogos alternativos, um levante, liderado por Francisco Franco e Emílio Mola, começou no Protetorado de Marrocos e se estendeu por todo o território espanhol. A tentativa de golpe de Estado fascista resultou na Guerra Civil Espanhola, que durou até 1939, culminando na vitória dos golpistas e na destruição tanto do governo popular de Santiago Quiroga, quanto do governo autônomo catalão de Lluís Companys.
Cerca de duzentos a trezentos atletas ficaram em Barcelona para apoiar o governo republicano contra o golpe fascista. Foram peças-chave para a formação das Brigadas Internacionais, destacamentos de soldados estrangeiros que atuaram em solidariedade aos ibéricos. Somaram-se a atletas catalães, como Antonio Cánovas, jovem nadador do movimento desportivo operário local, que atuou em diversas frentes de batalha até 1939.
Os livros de história pouco falam da resistência esportiva ao nazismo e ao fascismo dos anos 1930, mas lembram muito a política de não intervenção das maiores potências europeias, crucial para consolidar o franquismo na Península Ibérica. Enquanto Hitler não hesitava em apoiar Franco, mesmo tendo assinado o Pacto de Não Intervenção de 1936, Léon Blum, presidente do Conselho de Ministros da França, seria impedido de apoiar a Segunda República Espanhola, tanto por pressão de alas conservadoras francesas como do governo britânico, que preferiam ver a República sucumbir aos golpistas a arriscar uma aliança dos espanhóis com os soviéticos.
A chamada política de não intervenção europeia e neutralidade norte-americana foi uma das principais razões, senão a principal, para que o expansionismo nazista até 1939 fizesse da Segunda Guerra Mundial a maior tragédia humanitária da história, com cerca de 80 milhões de mortos. Uma aliança pelo boicote às Olimpíadas em solo alemão entre países como Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética, se tivesse ocorrido já em 1936, possivelmente teria antecipado o inevitável confronto da humanidade com sua barbárie em forma de regime.
O que vimos em Berlim é o que chamamos hoje de sportswashing (lavagem, ou limpeza, pelo esporte), que ocorre quando um determinado regime ou governo utiliza o esporte como forma de melhorar sua imagem ou, no caso de Hitler, blindá-la diante dos absurdos que estaria cometendo no período das Olimpíadas e do que faria em seguida – do apoio a Franco ao Holocausto.
Ao longo da história, é possível constatar que, antes e depois de Hitler, a prática de usar a visibilidade positiva dos esportes para esconder medidas e regimes impopulares foi frequente e explorada de diversas formas. Para Mussolini, a vitória na Copa do Mundo da Itália, em 1934, era uma demonstração da eficácia do regime fascista. Em 1970, a vitória da Seleção Brasileira na Copa do Mundo no México, associada à ferrenha censura da imprensa no país, silenciou a insatisfação popular com a ditadura civil-militar, estratégia repetida e ampliada pelos argentinos em 1978.
Outros exemplos, já no período recente, devem ser mencionados. Mansour bin Zayed al Nahyan, acionista majoritário do Abu Dhabi United Group, dos Emirados Árabes Unidos (EAU), comprou, em 2008, o clube inglês Manchester City por 200 milhões de libras. De lá para cá, o City se consolidou como uma das mais fortes equipes de futebol do planeta, vencendo diversos torneios nacionais e internacionais. Enquanto isso, os EAU conquistaram, em 2024, o “título” de ter realizado o segundo maior julgamento injusto da história, criminalizando ativistas por democracia e direitos humanos.
A Qatar Sports Investments (QSI) é a pessoa jurídica criada pelo Governo do Catar para investimentos em esportes ou, podemos assumir, a operadora do sportswashing catari. Fundada em 2004, ela comprou o Paris Saint-Germain por 50 milhões de euros em 2011. Desde então, investiram cerca de R$ 2,2 bilhões somente em contratações de jogadores, a exemplo de Messi, Mbappé e Neymar, o que eventualmente culminou na primeira conquista da Liga dos Campeões do clube, em 2025. Nesse período, o país manteve uma dura repressão à comunidade LGBTQIAP+, a tutela masculina e a submissão jurídica das mulheres aos homens de sua família, além de acumular inúmeras denúncias de violações humanitárias contra migrantes nas obras preparatórias da Copa do Mundo de 2022.
Se o esporte é eficaz como instrumento para esconder a verdadeira face de tiranias, as resistências a esses regimes também são capazes de entrar em campo a fim de anular a agenda perversa que alia opressão a ilusão, coerção a consenso, e violência a disfarce.
A menos de seis meses do início da 23ª Copa do Mundo de seleções de futebol masculino, a jornalista do UOL, Milly Lacombe, defendeu o boicote ao evento, justificado pela prisão de Nicolás Maduro – à época presidente venezuelano – e pela exigência de coerência da Fifa, que baniu a Rússia de suas competições por conta da agressão à Ucrânia.
O caso russo de sportswashing chama a atenção por denotar a apropriação do conceito como forma de contrapropaganda a um adversário econômico e armamentista dos Estados Unidos. Os holofotes voltados às contradições do regime de Vladimir Putin nos noticiários estadunidenses não foram, até o momento, minimamente replicados diante dos atos de profunda beligerância de Trump, em menos de dezoito meses de seu segundo mandato.
Dois momentos em 2025 reforçam o conceito de esporte como instrumento de soft power, o exercício do poder geopolítico fora do uso militar. Um mês antes de invadir a Venezuela e sequestrar Maduro, no dia 3 de janeiro deste ano, Trump havia recebido o “Prêmio da Paz da Fifa”, entregue pessoalmente pelo presidente da entidade, Gianni Infantino.
Logo após o incidente venezuelano, Trump declarou, em 9 de janeiro, que os Estados Unidos precisavam “fazer alguma coisa na Groenlândia, quer eles gostem ou não”, confirmando comunicados da assessoria da Casa Branca que apontavam para um plano estadunidense de anexação do território, atualmente pertencente à Dinamarca. Justificando que sua ação evitaria que o local fosse tomado por chineses ou russos, o presidente estadunidense fez uma ameaça inédita a um país associado à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Alguns analistas podem apontar uma mera coincidência entre a legitimação da maior entidade esportiva do mundo – que organiza um torneio com 5 bilhões de telespectadores, números drasticamente superiores aos do Super Bowl – e a escalada violenta do governo estadunidense. Contudo, mesmo sendo belicamente inferiores aos Estados Unidos, os europeus foram capazes de obrigar Trump a mudar seu discurso sobre a Groenlândia no dia 21 de janeiro, no Fórum Econômico Mundial, assumindo que não iria usar a força no território e sinalizando um possível acordo pacífico bilateral (obviamente rejeitado pelos europeus).
A inferioridade bélica europeia pouco importou diante da poderosa ameaça de boicote de seleções como França, Inglaterra e Alemanha à Copa do Mundo nos Estados Unidos. Mesmo políticos conservadores do Velho Continente foram resolutos no enfrentamento à ameaça de invasão à Groenlândia. Simon Hoare, do Reino Unido, ao ser indagado sobre os riscos de um boicote de sua seleção nacional, cravou: “agora precisamos combater fogo com fogo”.
Após o vergonhoso recuo na questão europeia, a Casa Branca mudou seu foco para um país menos relevante no futebol mundial: o Irã. Classificado para o torneio, o país solicitou à Fifa que seus jogos fossem realizados fora dos Estados Unidos, no México ou no Canadá, que também sediam o evento. Sendo alvo de ataques dos estadunidenses desde 28 de fevereiro, o país sequer solicitou a punição devida para seus agressores, o banimento de competições de futebol internacionais. Mesmo o pedido em prol da segurança iraniana foi devidamente negado e não se sabe o que os iranianos decidirão. Nem mesmo Trump garantiu a segurança de seus inimigos durante a Copa e ainda sugeriu que desistissem de viajar[6]. Para quem já ameaçou acabar com toda uma civilização em apenas uma noite, capturar uma delegação ou permitir que sejam atacados não nos soa como algo moralmente reprovável para o presidente yankee.
A campanha até o momento desastrosa da aliança israelo-americana contra o país islâmico torna a limpeza de imagem da Copa ainda mais relevante para o Tio Sam. Com o menor índice de popularidade desde que retornou a Washington como presidente, o republicano de extrema-direita caiu de 47% para 25% de aprovação em menos de dois anos. Considerando ainda que, ao final de 2026, estão previstas as eleições de midterm, focadas na renovação do Congresso, Trump precisa muito que a competição mundial de seleções seja perfeita; e, mesmo assim, ainda que Infantino invente um novo Prêmio da Paz para ele, dificilmente o presidente se recuperará da vergonha na Pérsia.
Apenas quatro dias foi o intervalo entre o primeiro míssil lançado pelos russos na Ucrânia, no dia 24 de fevereiro de 2022, e a decisão da Fifa e da Uefa de banir a seleção russa e seus clubes de competições mundiais e europeias. A ferocidade dos jornais norte-americanos e europeus à época é destacável como exemplo singular na discussão sobre sportswashing. Pela cobertura jornalística ianque, a Copa do Mundo na Rússia em 2018 representou um formidável exemplo de limpeza de imagem pelo esporte — conforme apontou Musa Okwonga no artigo “This World Cup, Remember the Russian People” para o New York Times, em que localiza o evento como uma vitória de relações públicas para Putin, enquanto este silenciava opositores e minorias. Ao menos nesse caso, toda a pressão possível do mundo do esporte foi feita para forçar os russos a abandonarem sua ofensiva militar.
No exemplo de Trump, embora já seja possível mapear vozes dissonantes denunciando o uso da Copa do Mundo para esconder as mazelas de seu governo, não há qualquer perspectiva de boicote ao torneio por seleções protagonistas, justificada pelo covarde bombardeio ao Irã. Pelo contrário: no dia 5 de março, uma semana depois de iniciada a ofensiva ilegal trumpista, o capitão da última campeã da Copa do Mundo, o argentino Lionel Messi, juntou-se a outros atletas para entregar a Trump uma bola comemorativa e uma camisa do Inter Miami, atual campeão da Major League Soccer.
Ainda que a atitude aparentemente bajuladora de Messi e cia. em relação ao presidente tenha sido defendida por muitos pelo seu caráter protocolar – visto tratar-se de uma tradição da liga de futebol do país –, o discurso de Trump não deu brechas para que o evento fosse tratado como tal. Na frente de diversos ídolos latinos, ele defendeu a ofensiva contra os iranianos e sugeriu uma invasão a Cuba.
O silêncio dos campeões da MLS foi o cenário perfeito para legitimar e normalizar o que está por vir para o continente americano. Além da possível e até provável invasão militar a Cuba – que hoje enfrenta o pior bloqueio econômico de sua história desde a revolução de 1959 –, a Casa Branca declarou recentemente que facções criminosas brasileiras, como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), são organizações terroristas de alcance regional. Esse cenário, associado a um acordo de cooperação firmado em agosto de 2025 entre Estados Unidos e Paraguai para combater o terrorismo e o crime organizado na região (o que inclui a construção de uma base militar em solo paraguaio), são sintomas de um novo estágio do big stick. Trata-se do imperialismo clássico de Theodore Roosevelt, do início do século XX, e que se apresentou em diversas versões de lá para cá: desde os golpes militares durante a Guerra Fria até a política de tarifaço de Trump no ano passado, adotada como retaliação à condenação de Jair Bolsonaro.
Considerando que estamos em ano eleitoral no Brasil – com as pesquisas apontando, no momento em que publicamos este artigo, um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro –, e que o centro da propaganda eleitoral no país passa hoje pelas redes sociais (quase todas controladas por aliados do presidente estadunidense), o cenário é crítico. Se a megalomania de Trump culminar em uma intervenção direta na soberania nacional brasileira, seja militarmente pelo Paraguai ou interferindo nos algoritmos de Facebook, Instagram, etc., deveremos “agradecer” a Infantino e a Messi por bajularem o tirano, tal qual conservadores franceses, ingleses e norte-americanos fizeram com Hitler, estendendo-lhe um tapete vermelho, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.
Jeremiah Mahoney, presidente da União Atlética Amadora (AAU), liderava o movimento pelo boicote à participação da delegação estadunidense em Berlim. Além da solidariedade aos judeus, denunciava que cristãos não arianos, comunistas e todo tipo de oposição ao regime alemão também eram alvo de perseguição. O pleito de Mahoney por muito pouco não foi aprovado, sendo derrotado em votação na AAU por apenas dois votos. Avery Brundage, chefe do Comitê Olímpico Americano (AOC), foi o protagonista na defesa da legitimidade dos Jogos e da participação de seu país, contando também com a inércia de Roosevelt, fiel à Lei de Neutralidade de 1935.
Na Europa, a resistência a Hitler parecia mobilizar mais corações e mentes. Carregando a bandeira dos verdadeiros ideais olímpicos de paz e fraternidade, fora criado um Comitê Olímpico Popular em 1º de maio de 1936, Dia dos Trabalhadores. Este comitê organizaria a Olimpíada Popular em Barcelona, com início marcado para o dia 19 de julho daquele ano. Cerca de 10 mil atletas e 25 mil espectadores se deslocaram à Catalunha para estar nesse evento, que contava com o apoio financeiro e institucional também da Espanha e da França.
Dois dias antes do início dos jogos alternativos, um levante, liderado por Francisco Franco e Emílio Mola, começou no Protetorado de Marrocos e se estendeu por todo o território espanhol. A tentativa de golpe de Estado fascista resultou na Guerra Civil Espanhola, que durou até 1939, culminando na vitória dos golpistas e na destruição tanto do governo popular de Santiago Quiroga, quanto do governo autônomo catalão de Lluís Companys.
Cerca de duzentos a trezentos atletas ficaram em Barcelona para apoiar o governo republicano contra o golpe fascista. Foram peças-chave para a formação das Brigadas Internacionais, destacamentos de soldados estrangeiros que atuaram em solidariedade aos ibéricos. Somaram-se a atletas catalães, como Antonio Cánovas, jovem nadador do movimento desportivo operário local, que atuou em diversas frentes de batalha até 1939.
Os livros de história pouco falam da resistência esportiva ao nazismo e ao fascismo dos anos 1930, mas lembram muito a política de não intervenção das maiores potências europeias, crucial para consolidar o franquismo na Península Ibérica. Enquanto Hitler não hesitava em apoiar Franco, mesmo tendo assinado o Pacto de Não Intervenção de 1936, Léon Blum, presidente do Conselho de Ministros da França, seria impedido de apoiar a Segunda República Espanhola, tanto por pressão de alas conservadoras francesas como do governo britânico, que preferiam ver a República sucumbir aos golpistas a arriscar uma aliança dos espanhóis com os soviéticos.
A chamada política de não intervenção europeia e neutralidade norte-americana foi uma das principais razões, senão a principal, para que o expansionismo nazista até 1939 fizesse da Segunda Guerra Mundial a maior tragédia humanitária da história, com cerca de 80 milhões de mortos. Uma aliança pelo boicote às Olimpíadas em solo alemão entre países como Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética, se tivesse ocorrido já em 1936, possivelmente teria antecipado o inevitável confronto da humanidade com sua barbárie em forma de regime.
O que vimos em Berlim é o que chamamos hoje de sportswashing (lavagem, ou limpeza, pelo esporte), que ocorre quando um determinado regime ou governo utiliza o esporte como forma de melhorar sua imagem ou, no caso de Hitler, blindá-la diante dos absurdos que estaria cometendo no período das Olimpíadas e do que faria em seguida – do apoio a Franco ao Holocausto.
Ao longo da história, é possível constatar que, antes e depois de Hitler, a prática de usar a visibilidade positiva dos esportes para esconder medidas e regimes impopulares foi frequente e explorada de diversas formas. Para Mussolini, a vitória na Copa do Mundo da Itália, em 1934, era uma demonstração da eficácia do regime fascista. Em 1970, a vitória da Seleção Brasileira na Copa do Mundo no México, associada à ferrenha censura da imprensa no país, silenciou a insatisfação popular com a ditadura civil-militar, estratégia repetida e ampliada pelos argentinos em 1978.
Outros exemplos, já no período recente, devem ser mencionados. Mansour bin Zayed al Nahyan, acionista majoritário do Abu Dhabi United Group, dos Emirados Árabes Unidos (EAU), comprou, em 2008, o clube inglês Manchester City por 200 milhões de libras. De lá para cá, o City se consolidou como uma das mais fortes equipes de futebol do planeta, vencendo diversos torneios nacionais e internacionais. Enquanto isso, os EAU conquistaram, em 2024, o “título” de ter realizado o segundo maior julgamento injusto da história, criminalizando ativistas por democracia e direitos humanos.
A Qatar Sports Investments (QSI) é a pessoa jurídica criada pelo Governo do Catar para investimentos em esportes ou, podemos assumir, a operadora do sportswashing catari. Fundada em 2004, ela comprou o Paris Saint-Germain por 50 milhões de euros em 2011. Desde então, investiram cerca de R$ 2,2 bilhões somente em contratações de jogadores, a exemplo de Messi, Mbappé e Neymar, o que eventualmente culminou na primeira conquista da Liga dos Campeões do clube, em 2025. Nesse período, o país manteve uma dura repressão à comunidade LGBTQIAP+, a tutela masculina e a submissão jurídica das mulheres aos homens de sua família, além de acumular inúmeras denúncias de violações humanitárias contra migrantes nas obras preparatórias da Copa do Mundo de 2022.
Se o esporte é eficaz como instrumento para esconder a verdadeira face de tiranias, as resistências a esses regimes também são capazes de entrar em campo a fim de anular a agenda perversa que alia opressão a ilusão, coerção a consenso, e violência a disfarce.
A menos de seis meses do início da 23ª Copa do Mundo de seleções de futebol masculino, a jornalista do UOL, Milly Lacombe, defendeu o boicote ao evento, justificado pela prisão de Nicolás Maduro – à época presidente venezuelano – e pela exigência de coerência da Fifa, que baniu a Rússia de suas competições por conta da agressão à Ucrânia.
O caso russo de sportswashing chama a atenção por denotar a apropriação do conceito como forma de contrapropaganda a um adversário econômico e armamentista dos Estados Unidos. Os holofotes voltados às contradições do regime de Vladimir Putin nos noticiários estadunidenses não foram, até o momento, minimamente replicados diante dos atos de profunda beligerância de Trump, em menos de dezoito meses de seu segundo mandato.
Dois momentos em 2025 reforçam o conceito de esporte como instrumento de soft power, o exercício do poder geopolítico fora do uso militar. Um mês antes de invadir a Venezuela e sequestrar Maduro, no dia 3 de janeiro deste ano, Trump havia recebido o “Prêmio da Paz da Fifa”, entregue pessoalmente pelo presidente da entidade, Gianni Infantino.
Logo após o incidente venezuelano, Trump declarou, em 9 de janeiro, que os Estados Unidos precisavam “fazer alguma coisa na Groenlândia, quer eles gostem ou não”, confirmando comunicados da assessoria da Casa Branca que apontavam para um plano estadunidense de anexação do território, atualmente pertencente à Dinamarca. Justificando que sua ação evitaria que o local fosse tomado por chineses ou russos, o presidente estadunidense fez uma ameaça inédita a um país associado à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Alguns analistas podem apontar uma mera coincidência entre a legitimação da maior entidade esportiva do mundo – que organiza um torneio com 5 bilhões de telespectadores, números drasticamente superiores aos do Super Bowl – e a escalada violenta do governo estadunidense. Contudo, mesmo sendo belicamente inferiores aos Estados Unidos, os europeus foram capazes de obrigar Trump a mudar seu discurso sobre a Groenlândia no dia 21 de janeiro, no Fórum Econômico Mundial, assumindo que não iria usar a força no território e sinalizando um possível acordo pacífico bilateral (obviamente rejeitado pelos europeus).
A inferioridade bélica europeia pouco importou diante da poderosa ameaça de boicote de seleções como França, Inglaterra e Alemanha à Copa do Mundo nos Estados Unidos. Mesmo políticos conservadores do Velho Continente foram resolutos no enfrentamento à ameaça de invasão à Groenlândia. Simon Hoare, do Reino Unido, ao ser indagado sobre os riscos de um boicote de sua seleção nacional, cravou: “agora precisamos combater fogo com fogo”.
Após o vergonhoso recuo na questão europeia, a Casa Branca mudou seu foco para um país menos relevante no futebol mundial: o Irã. Classificado para o torneio, o país solicitou à Fifa que seus jogos fossem realizados fora dos Estados Unidos, no México ou no Canadá, que também sediam o evento. Sendo alvo de ataques dos estadunidenses desde 28 de fevereiro, o país sequer solicitou a punição devida para seus agressores, o banimento de competições de futebol internacionais. Mesmo o pedido em prol da segurança iraniana foi devidamente negado e não se sabe o que os iranianos decidirão. Nem mesmo Trump garantiu a segurança de seus inimigos durante a Copa e ainda sugeriu que desistissem de viajar[6]. Para quem já ameaçou acabar com toda uma civilização em apenas uma noite, capturar uma delegação ou permitir que sejam atacados não nos soa como algo moralmente reprovável para o presidente yankee.
A campanha até o momento desastrosa da aliança israelo-americana contra o país islâmico torna a limpeza de imagem da Copa ainda mais relevante para o Tio Sam. Com o menor índice de popularidade desde que retornou a Washington como presidente, o republicano de extrema-direita caiu de 47% para 25% de aprovação em menos de dois anos. Considerando ainda que, ao final de 2026, estão previstas as eleições de midterm, focadas na renovação do Congresso, Trump precisa muito que a competição mundial de seleções seja perfeita; e, mesmo assim, ainda que Infantino invente um novo Prêmio da Paz para ele, dificilmente o presidente se recuperará da vergonha na Pérsia.
Apenas quatro dias foi o intervalo entre o primeiro míssil lançado pelos russos na Ucrânia, no dia 24 de fevereiro de 2022, e a decisão da Fifa e da Uefa de banir a seleção russa e seus clubes de competições mundiais e europeias. A ferocidade dos jornais norte-americanos e europeus à época é destacável como exemplo singular na discussão sobre sportswashing. Pela cobertura jornalística ianque, a Copa do Mundo na Rússia em 2018 representou um formidável exemplo de limpeza de imagem pelo esporte — conforme apontou Musa Okwonga no artigo “This World Cup, Remember the Russian People” para o New York Times, em que localiza o evento como uma vitória de relações públicas para Putin, enquanto este silenciava opositores e minorias. Ao menos nesse caso, toda a pressão possível do mundo do esporte foi feita para forçar os russos a abandonarem sua ofensiva militar.
No exemplo de Trump, embora já seja possível mapear vozes dissonantes denunciando o uso da Copa do Mundo para esconder as mazelas de seu governo, não há qualquer perspectiva de boicote ao torneio por seleções protagonistas, justificada pelo covarde bombardeio ao Irã. Pelo contrário: no dia 5 de março, uma semana depois de iniciada a ofensiva ilegal trumpista, o capitão da última campeã da Copa do Mundo, o argentino Lionel Messi, juntou-se a outros atletas para entregar a Trump uma bola comemorativa e uma camisa do Inter Miami, atual campeão da Major League Soccer.
Ainda que a atitude aparentemente bajuladora de Messi e cia. em relação ao presidente tenha sido defendida por muitos pelo seu caráter protocolar – visto tratar-se de uma tradição da liga de futebol do país –, o discurso de Trump não deu brechas para que o evento fosse tratado como tal. Na frente de diversos ídolos latinos, ele defendeu a ofensiva contra os iranianos e sugeriu uma invasão a Cuba.
O silêncio dos campeões da MLS foi o cenário perfeito para legitimar e normalizar o que está por vir para o continente americano. Além da possível e até provável invasão militar a Cuba – que hoje enfrenta o pior bloqueio econômico de sua história desde a revolução de 1959 –, a Casa Branca declarou recentemente que facções criminosas brasileiras, como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), são organizações terroristas de alcance regional. Esse cenário, associado a um acordo de cooperação firmado em agosto de 2025 entre Estados Unidos e Paraguai para combater o terrorismo e o crime organizado na região (o que inclui a construção de uma base militar em solo paraguaio), são sintomas de um novo estágio do big stick. Trata-se do imperialismo clássico de Theodore Roosevelt, do início do século XX, e que se apresentou em diversas versões de lá para cá: desde os golpes militares durante a Guerra Fria até a política de tarifaço de Trump no ano passado, adotada como retaliação à condenação de Jair Bolsonaro.
Considerando que estamos em ano eleitoral no Brasil – com as pesquisas apontando, no momento em que publicamos este artigo, um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro –, e que o centro da propaganda eleitoral no país passa hoje pelas redes sociais (quase todas controladas por aliados do presidente estadunidense), o cenário é crítico. Se a megalomania de Trump culminar em uma intervenção direta na soberania nacional brasileira, seja militarmente pelo Paraguai ou interferindo nos algoritmos de Facebook, Instagram, etc., deveremos “agradecer” a Infantino e a Messi por bajularem o tirano, tal qual conservadores franceses, ingleses e norte-americanos fizeram com Hitler, estendendo-lhe um tapete vermelho, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.
A revolução será analógica
Sinto a memória em erosão. Não me recordo de como se chamava uma música que em tempos ouvi em loop, esqueço-me dos títulos dos livros que me marcaram mesmo quando consigo fechar os olhos e ver-lhes a capa, falham-me os nomes dos meus realizadores favoritos. Pego numa ponta solta de memória, um fragmento qualquer e, com um pouco de persistência, consigo chegar lá através do Google. É uma cábula sempre à mão, rápida de usar, que me ajuda a chegar a coisas que já soube, mas das quais só me recordo vagamente. É prático. Não tem como falhar. Ou será que tem?
Aquele génio de Aladino sempre pronto a ajudar-me nos meus esquecimentos tem os seus quês. Comecei a percebê-lo enquanto procurava insistentemente artigos que eu sabia que tinha escrito e publicado online e o Google insistia teimosamente em que eles não existiam. É possível que eles continuem a existir algures, debaixo da poeira eletrónica, soterrados pelo algoritmo, ou que se tenham eclipsado num servidor que deixou de existir. Nunca saberei. E como alguns deles não foram publicados em papel, não há como ir à Hemeroteca resgatá-los. Escrever na internet pode, afinal, ser como tentar deixar uma marca na água, por muito que neste momento se encontrem mais pessoas preocupadas com o que as redes sociais não esquecem do que com aquilo que o digital tem a capacidade de obliterar como se nunca tivesse existido.
No caso dos textos que escrevi e não encontro, o esquecimento é com certeza fruto de um acaso qualquer completamente aleatório e desprovido de intenções de ocultação. Mas o simples facto de não os encontrar pôs-me a pensar. E chego à conclusão de que houve um tempo em que era muito mais difícil apagar o que foi escrito do que hoje, quando tudo parece deixar uma marca e uma simples lista de compras enviada por email há dez anos pode persistir no histórico de mensagens, sobrevivendo muito para lá do seu prazo de validade de post-it.
Há uma história com a qual me cruzei há pouco tempo no livro do Pedro Vieira, Vénus em Chamas, que me reforçou essa convicção. Reza a história que o bispo Atanásio de Alexandria decidiu no ano de 367 mandar queimar um conjunto de escritos que punham em causa a versão que os poderes da Igreja queriam deixar para a posteridade de uma série de acontecimentos, entre eles as revelações que, segundo o Evangelho de Maria, teriam sido feitas por Jesus a Maria Madalena. Era suposto não ficar nem um vestígio dessa e de outras obras, incluindo uma tradução de A República de Platão e vários textos gnósticos. Mas quase 1600 anos depois, um camponês chamado Mohammed Ali Samman encontrou-os por acaso numa espécie de pote de barro enterrado. Os 13 códices em papiro enrolados em couro sobreviveram ao apagamento eterno a que o poder os tinha votado, porque alguém, provavelmente uns monges, decidiu preservá-los, escondendo-os na terra.
Sabemos como a Santa Inquisição perseguiu autores e obras, sabemos como os nazis faziam pilhas de livros proibidos para os queimar em fogueiras, sabemos como Estaline ia apagando das fotografias os antigos amigos que se tinham tornado inimigos, sabemos da censura do Estado Novo e das listas de livros que os republicanos nos Estados Unidos estão a banir das bibliotecas escolares. Sabemos como o poder usa a memória, reconstruindo-a de acordo com as narrativas que melhor o sustentam, procurando eliminar ou limitar a dissidência. E sabemos como o conhecimento é absolutamente subversivo, porque quem o detém não é manipulável, ousa questionar, imagina e, imaginando, constrói alternativas.
Sabendo tudo isto, pensem no tal pote de barro enterrado com 13 papiros e como ele sobreviveu mais de 1600 anos. E agora pensem na facilidade com que os donos das grandes tecnológicas podem manobrar com uns poucos cliques todo o conhecimento que existe, toda a memória coletiva, todas as notícias, todos os registos. Como podem apagar, ocultar ou mesmo adulterar tudo o que está na internet, sem precisar de fazer fogueiras, criando passados alternativos como se fossem verdades cristalizadas. Não é uma teoria da conspiração. É só ter a noção da fragilidade dos sistemas aos quais confiamos todo o saber e dos quais estamos tão absolutamente dependentes, apesar de não termos sobre eles qualquer tipo de controlo público, coletivo, democrático.
Sempre que entro numa sala forrada a estantes e olho para as lombadas que exibem, sei que dentro de cada um daqueles livros estão ideias, histórias, teses, factos, hipóteses, vozes muito mais difíceis de manipular do que qualquer registo digital. Claro que um livro pode trazer impressas falsidades, teorias da conspiração, deturpações. Mas um livro, numa estante, é só uma voz num conjunto de várias outras. Mesmo ao lado, terá outros livros com os quais poderá ser confrontado, que nos darão contexto, que nos farão questionarmo-nos, que nos ajudarão a situá-lo.
Não só isso como os cérebros treinados pela leitura vão acumulando camadas, que os protegem de cair na primeira esparrela. Quando a Inteligência Artificial for um simulacro tão perfeito de realidade que não será já possível ver as costuras das mentiras, um cérebro analógico, treinado na leitura de livros, será o melhor apetrecho para navegar num mundo de incertezas e manipulação.
A informação é poder. Sempre foi. Foi por o perceberem que os sumérios desenvolveram a escrita, para codificar o que era importante. E é por isso que durante séculos os saberes da leitura estiveram reservados a uma elite reduzida em quase todas as partes do mundo. Ainda assim, talvez nunca tenha existido um momento na História da Humanidade em que a concentração de riqueza e poder tecnológico estivesse nas mãos de um número tão reduzido de pessoas. Segundo a Oxfam, em 2026 os 12 mais ricos do mundo, com Elon Musk à cabeça, têm mais riqueza do que metade da Humanidade junta.
E é por isso que tenho a certeza de que a verdadeira revolução será analógica. Não a do deslumbramento acéfalo da tecnologia, mas também não a do ludismo em luta contra as máquinas. A revolução de que falo é aquela que nascerá da resistência do saber e do pensamento. Aquela que virá da consciência profunda do que é ser humano e da urgência absoluta de lutar por isso, da resistência ao poder de poucos e da construção de um mundo mais justo e melhor, que, sim, ainda é possível. O analógico é o novo punk.
Aquele génio de Aladino sempre pronto a ajudar-me nos meus esquecimentos tem os seus quês. Comecei a percebê-lo enquanto procurava insistentemente artigos que eu sabia que tinha escrito e publicado online e o Google insistia teimosamente em que eles não existiam. É possível que eles continuem a existir algures, debaixo da poeira eletrónica, soterrados pelo algoritmo, ou que se tenham eclipsado num servidor que deixou de existir. Nunca saberei. E como alguns deles não foram publicados em papel, não há como ir à Hemeroteca resgatá-los. Escrever na internet pode, afinal, ser como tentar deixar uma marca na água, por muito que neste momento se encontrem mais pessoas preocupadas com o que as redes sociais não esquecem do que com aquilo que o digital tem a capacidade de obliterar como se nunca tivesse existido.
No caso dos textos que escrevi e não encontro, o esquecimento é com certeza fruto de um acaso qualquer completamente aleatório e desprovido de intenções de ocultação. Mas o simples facto de não os encontrar pôs-me a pensar. E chego à conclusão de que houve um tempo em que era muito mais difícil apagar o que foi escrito do que hoje, quando tudo parece deixar uma marca e uma simples lista de compras enviada por email há dez anos pode persistir no histórico de mensagens, sobrevivendo muito para lá do seu prazo de validade de post-it.
Há uma história com a qual me cruzei há pouco tempo no livro do Pedro Vieira, Vénus em Chamas, que me reforçou essa convicção. Reza a história que o bispo Atanásio de Alexandria decidiu no ano de 367 mandar queimar um conjunto de escritos que punham em causa a versão que os poderes da Igreja queriam deixar para a posteridade de uma série de acontecimentos, entre eles as revelações que, segundo o Evangelho de Maria, teriam sido feitas por Jesus a Maria Madalena. Era suposto não ficar nem um vestígio dessa e de outras obras, incluindo uma tradução de A República de Platão e vários textos gnósticos. Mas quase 1600 anos depois, um camponês chamado Mohammed Ali Samman encontrou-os por acaso numa espécie de pote de barro enterrado. Os 13 códices em papiro enrolados em couro sobreviveram ao apagamento eterno a que o poder os tinha votado, porque alguém, provavelmente uns monges, decidiu preservá-los, escondendo-os na terra.
Sabemos como a Santa Inquisição perseguiu autores e obras, sabemos como os nazis faziam pilhas de livros proibidos para os queimar em fogueiras, sabemos como Estaline ia apagando das fotografias os antigos amigos que se tinham tornado inimigos, sabemos da censura do Estado Novo e das listas de livros que os republicanos nos Estados Unidos estão a banir das bibliotecas escolares. Sabemos como o poder usa a memória, reconstruindo-a de acordo com as narrativas que melhor o sustentam, procurando eliminar ou limitar a dissidência. E sabemos como o conhecimento é absolutamente subversivo, porque quem o detém não é manipulável, ousa questionar, imagina e, imaginando, constrói alternativas.
Sabendo tudo isto, pensem no tal pote de barro enterrado com 13 papiros e como ele sobreviveu mais de 1600 anos. E agora pensem na facilidade com que os donos das grandes tecnológicas podem manobrar com uns poucos cliques todo o conhecimento que existe, toda a memória coletiva, todas as notícias, todos os registos. Como podem apagar, ocultar ou mesmo adulterar tudo o que está na internet, sem precisar de fazer fogueiras, criando passados alternativos como se fossem verdades cristalizadas. Não é uma teoria da conspiração. É só ter a noção da fragilidade dos sistemas aos quais confiamos todo o saber e dos quais estamos tão absolutamente dependentes, apesar de não termos sobre eles qualquer tipo de controlo público, coletivo, democrático.
Sempre que entro numa sala forrada a estantes e olho para as lombadas que exibem, sei que dentro de cada um daqueles livros estão ideias, histórias, teses, factos, hipóteses, vozes muito mais difíceis de manipular do que qualquer registo digital. Claro que um livro pode trazer impressas falsidades, teorias da conspiração, deturpações. Mas um livro, numa estante, é só uma voz num conjunto de várias outras. Mesmo ao lado, terá outros livros com os quais poderá ser confrontado, que nos darão contexto, que nos farão questionarmo-nos, que nos ajudarão a situá-lo.
Não só isso como os cérebros treinados pela leitura vão acumulando camadas, que os protegem de cair na primeira esparrela. Quando a Inteligência Artificial for um simulacro tão perfeito de realidade que não será já possível ver as costuras das mentiras, um cérebro analógico, treinado na leitura de livros, será o melhor apetrecho para navegar num mundo de incertezas e manipulação.
A informação é poder. Sempre foi. Foi por o perceberem que os sumérios desenvolveram a escrita, para codificar o que era importante. E é por isso que durante séculos os saberes da leitura estiveram reservados a uma elite reduzida em quase todas as partes do mundo. Ainda assim, talvez nunca tenha existido um momento na História da Humanidade em que a concentração de riqueza e poder tecnológico estivesse nas mãos de um número tão reduzido de pessoas. Segundo a Oxfam, em 2026 os 12 mais ricos do mundo, com Elon Musk à cabeça, têm mais riqueza do que metade da Humanidade junta.
E é por isso que tenho a certeza de que a verdadeira revolução será analógica. Não a do deslumbramento acéfalo da tecnologia, mas também não a do ludismo em luta contra as máquinas. A revolução de que falo é aquela que nascerá da resistência do saber e do pensamento. Aquela que virá da consciência profunda do que é ser humano e da urgência absoluta de lutar por isso, da resistência ao poder de poucos e da construção de um mundo mais justo e melhor, que, sim, ainda é possível. O analógico é o novo punk.
Quando a palavra se endurece e o país se estilhaça
Houve um tempo em que as palavras tinham a leveza da água. Não era metáfora gratuita, era experiência concreta da vida comum. Elas passavam entre as pessoas sem pedir licença, tocavam sem ferir, dissolviam o que havia de áspero. Lavavam pequenas dores, carregavam impurezas invisíveis, seguiam adiante. Como rios que não conheciam o cansaço de serem rios. Como se falar fosse ainda uma forma de estar junto.
Hoje, não. Hoje as palavras pesam. Endureceram. São pedras. E não apenas porque ferem, mas porque delimitam. Porque se acumulam em estruturas rígidas. Porque constroem muros onde antes havia passagem. Há uma arquitetura da linguagem em curso, feita de blocos duros, de frases que não dialogam, de afirmações que não se abrem. Fala-se como quem ocupa território. Fala-se para marcar posição. Conversar deixou de ser um gesto cotidiano e se converteu em uma operação tensa, quase militar. Cada frase pode explodir. Cada palavra pode denunciar.
E o silêncio, que já foi abrigo, que já foi pausa necessária, tornou-se trincheira. Um lugar de cálculo. Um espaço de proteção diante da ameaça constante do outro. O país não se fala. O país se mede, se vigia, se testa o tempo inteiro.
Há algo que se infiltrou nas relações mais íntimas. Não chegou de repente. Foi se acomodando aos poucos, como poeira que ninguém percebe até cobrir tudo. Nos rostos mais próximos, onde antes se reconhecia confiança, nasce uma sombra. Pequena no início. Depois persistente. Depois inevitável. Entre mãos que já se apertaram com afeto, cresce uma espécie de espinho invisível. Uma recusa silenciosa. Uma intolerância que não se explica completamente, mas se manifesta em gestos mínimos. No desvio do olhar. Na palavra não dita. Na ironia que substitui o cuidado.
O tempo não resolve. O tempo acumula.
O afeto, submetido ao regime das convicções absolutas, começa a apodrecer. Não desaparece de imediato. Se deforma. Ganha outra textura. Outro cheiro. Amar alguém que pensa diferente passa a carregar um peso moral. Uma suspeita latente. Como se o amor precisasse de autorização. Como se fosse necessário justificar o vínculo. Quem atravessa essa fronteira simbólica é visto como traidor. Quem hesita é fraco. Quem escuta é ingênuo. E o amor, esse território indisciplinado que nunca se deixou organizar por doutrinas, é capturado. Enquadrado. Julgado.
Há algo de brutal nisso.
Dentro das casas, o cenário também mudou. Não de forma espetacular. De forma lenta, quase imperceptível. O pão ainda chega à mesa, mas já não tem o mesmo significado. O riso aparece, mas não permanece. As refeições deixaram de ser encontro e se transformaram em zonas sensíveis. Lugares onde tudo pode acontecer e, ao mesmo tempo, onde nada se resolve.
Há dias em que se mastiga apenas o que não se diz. Em que se engole o incômodo junto com a comida. Em que se brinda, sem perceber, ao afastamento.
A mesa, que já foi espaço de partilha, torna-se um campo de pequenas disputas simbólicas. O afeto, comprimido, ganha caráter inflamável. A memória deixa de ser lembrança e passa a ser arma. O passado é reorganizado conforme a necessidade do presente. O presente se fragmenta. O futuro desaparece do horizonte comum.
O nós se rompe.
E o que resta são indivíduos fechados em si, protegidos por certezas que funcionam como armaduras. Pesadas. Rígidas. Ineficazes para o encontro.
Morreu o tempo da dúvida. E não morreu de forma digna. Não houve vigília, não houve despedida, não houve sequer reconhecimento de sua importância. Foi sepultado sem velas, sem luto, sem silêncio respeitoso. Como um cadáver barato abandonado à pressa, sem nome, sem história, sem direito à memória. Enterrado não por acidente, mas por conveniência.
E no lugar da dúvida, que inquietava, que deslocava, que obrigava a pensar, ergueu-se um sistema de respostas prontas. Um repertório fechado. Um altar onde se cultuam certezas como se fossem verdades definitivas. Não se pergunta mais. Afirma-se. Não se busca compreender. Classifica-se.
Pensar tornou-se uma atividade incômoda.
Porque pensar desloca. E deslocar exige coragem. Pensar desorganiza aquilo que parecia estável. E há um custo em admitir que não se sabe. Por isso, evita-se. Por isso, combate-se. Por isso, se substitui o pensamento pela repetição.
Não há espaço para nuance onde se exige alinhamento. Não há espaço para respiração onde tudo precisa estar trancado, fechado, definido. O ar circula com dificuldade. O país respira pouco. Respira mal.
E há uma sensação difusa de que pensar junto é arriscado. De que escutar pode comprometer. De que o silêncio, mesmo desconfortável, é mais seguro do que a palavra exposta.
As janelas foram fechadas. Não de uma vez, mas progressivamente. E com elas se fechou também a possibilidade de circulação do diferente. O que entra agora é o eco. O próprio eco. Cada um se recolhe ao interior de sua própria caverna simbólica. Ali, reafirma o que já sabe, o que já acredita, o que já decidiu que é verdade. E o som retorna. Amplificado. Deformado. Convincente.
Há uma ilusão de universalidade que se constrói nesse circuito fechado.
A política, que deveria ser espaço de mediação, de negociação, de construção coletiva, torna-se outra coisa. Um teatro contínuo. Uma encenação exaustiva. Não há plateia porque todos estão em cena. Todos atuam. Todos reagem. Todos disputam.
E pouco se transforma.
Os sonhos, expulsos desse ambiente saturado, recuam. Não desaparecem por completo. Se escondem. Se alojam em lugares mais discretos. No olhar de quem ainda observa com alguma lentidão. No gesto de quem ainda não se rendeu completamente à lógica do confronto.
Há resistência. Pequena. Fragmentada. Mas há.
Talvez ela esteja em uma frase que escapa ao padrão. Em uma palavra dita sem cálculo. Em um gesto que não busca aprovação. Talvez esteja no cansaço. No cansaço de gritar. No cansaço de sustentar certezas o tempo inteiro. No cansaço de não poder errar, de não poder recuar, de não poder simplesmente escutar.
Talvez alguém, em algum momento, desça do seu próprio palanque íntimo. Talvez alguém aceite o risco do encontro sem garantias. Sem roteiro. Sem controle total.
E talvez, apenas talvez, o afeto volte a circular. Não como consenso, mas como possibilidade. O desacordo pode reaparecer sem carregar a ameaça da ruptura. Escutar pode voltar a ser prática cotidiana. Não como estratégia. Como condição.
Se isso acontecer, ainda que de forma irregular, sem ordem, sem simetria, o país pode ensaiar um retorno. Não a um passado idealizado, que nunca existiu de fato, mas a uma forma mais aberta de convivência. Imperfeita. Tensa. Contraditória.
Mas viva.
Uma conversa possível. Uma conversa que não resolve tudo, mas que não destrói tudo. Uma conversa que reconhece o outro não como inimigo a ser eliminado, mas como presença inevitável na construção da vida comum.
E isso, hoje, já seria muito.
Hoje, não. Hoje as palavras pesam. Endureceram. São pedras. E não apenas porque ferem, mas porque delimitam. Porque se acumulam em estruturas rígidas. Porque constroem muros onde antes havia passagem. Há uma arquitetura da linguagem em curso, feita de blocos duros, de frases que não dialogam, de afirmações que não se abrem. Fala-se como quem ocupa território. Fala-se para marcar posição. Conversar deixou de ser um gesto cotidiano e se converteu em uma operação tensa, quase militar. Cada frase pode explodir. Cada palavra pode denunciar.
E o silêncio, que já foi abrigo, que já foi pausa necessária, tornou-se trincheira. Um lugar de cálculo. Um espaço de proteção diante da ameaça constante do outro. O país não se fala. O país se mede, se vigia, se testa o tempo inteiro.
Há algo que se infiltrou nas relações mais íntimas. Não chegou de repente. Foi se acomodando aos poucos, como poeira que ninguém percebe até cobrir tudo. Nos rostos mais próximos, onde antes se reconhecia confiança, nasce uma sombra. Pequena no início. Depois persistente. Depois inevitável. Entre mãos que já se apertaram com afeto, cresce uma espécie de espinho invisível. Uma recusa silenciosa. Uma intolerância que não se explica completamente, mas se manifesta em gestos mínimos. No desvio do olhar. Na palavra não dita. Na ironia que substitui o cuidado.
O tempo não resolve. O tempo acumula.
O afeto, submetido ao regime das convicções absolutas, começa a apodrecer. Não desaparece de imediato. Se deforma. Ganha outra textura. Outro cheiro. Amar alguém que pensa diferente passa a carregar um peso moral. Uma suspeita latente. Como se o amor precisasse de autorização. Como se fosse necessário justificar o vínculo. Quem atravessa essa fronteira simbólica é visto como traidor. Quem hesita é fraco. Quem escuta é ingênuo. E o amor, esse território indisciplinado que nunca se deixou organizar por doutrinas, é capturado. Enquadrado. Julgado.
Há algo de brutal nisso.
Dentro das casas, o cenário também mudou. Não de forma espetacular. De forma lenta, quase imperceptível. O pão ainda chega à mesa, mas já não tem o mesmo significado. O riso aparece, mas não permanece. As refeições deixaram de ser encontro e se transformaram em zonas sensíveis. Lugares onde tudo pode acontecer e, ao mesmo tempo, onde nada se resolve.
Há dias em que se mastiga apenas o que não se diz. Em que se engole o incômodo junto com a comida. Em que se brinda, sem perceber, ao afastamento.
A mesa, que já foi espaço de partilha, torna-se um campo de pequenas disputas simbólicas. O afeto, comprimido, ganha caráter inflamável. A memória deixa de ser lembrança e passa a ser arma. O passado é reorganizado conforme a necessidade do presente. O presente se fragmenta. O futuro desaparece do horizonte comum.
O nós se rompe.
E o que resta são indivíduos fechados em si, protegidos por certezas que funcionam como armaduras. Pesadas. Rígidas. Ineficazes para o encontro.
Morreu o tempo da dúvida. E não morreu de forma digna. Não houve vigília, não houve despedida, não houve sequer reconhecimento de sua importância. Foi sepultado sem velas, sem luto, sem silêncio respeitoso. Como um cadáver barato abandonado à pressa, sem nome, sem história, sem direito à memória. Enterrado não por acidente, mas por conveniência.
E no lugar da dúvida, que inquietava, que deslocava, que obrigava a pensar, ergueu-se um sistema de respostas prontas. Um repertório fechado. Um altar onde se cultuam certezas como se fossem verdades definitivas. Não se pergunta mais. Afirma-se. Não se busca compreender. Classifica-se.
Pensar tornou-se uma atividade incômoda.
Porque pensar desloca. E deslocar exige coragem. Pensar desorganiza aquilo que parecia estável. E há um custo em admitir que não se sabe. Por isso, evita-se. Por isso, combate-se. Por isso, se substitui o pensamento pela repetição.
Não há espaço para nuance onde se exige alinhamento. Não há espaço para respiração onde tudo precisa estar trancado, fechado, definido. O ar circula com dificuldade. O país respira pouco. Respira mal.
E há uma sensação difusa de que pensar junto é arriscado. De que escutar pode comprometer. De que o silêncio, mesmo desconfortável, é mais seguro do que a palavra exposta.
As janelas foram fechadas. Não de uma vez, mas progressivamente. E com elas se fechou também a possibilidade de circulação do diferente. O que entra agora é o eco. O próprio eco. Cada um se recolhe ao interior de sua própria caverna simbólica. Ali, reafirma o que já sabe, o que já acredita, o que já decidiu que é verdade. E o som retorna. Amplificado. Deformado. Convincente.
Há uma ilusão de universalidade que se constrói nesse circuito fechado.
A política, que deveria ser espaço de mediação, de negociação, de construção coletiva, torna-se outra coisa. Um teatro contínuo. Uma encenação exaustiva. Não há plateia porque todos estão em cena. Todos atuam. Todos reagem. Todos disputam.
E pouco se transforma.
Os sonhos, expulsos desse ambiente saturado, recuam. Não desaparecem por completo. Se escondem. Se alojam em lugares mais discretos. No olhar de quem ainda observa com alguma lentidão. No gesto de quem ainda não se rendeu completamente à lógica do confronto.
Há resistência. Pequena. Fragmentada. Mas há.
Talvez ela esteja em uma frase que escapa ao padrão. Em uma palavra dita sem cálculo. Em um gesto que não busca aprovação. Talvez esteja no cansaço. No cansaço de gritar. No cansaço de sustentar certezas o tempo inteiro. No cansaço de não poder errar, de não poder recuar, de não poder simplesmente escutar.
Talvez alguém, em algum momento, desça do seu próprio palanque íntimo. Talvez alguém aceite o risco do encontro sem garantias. Sem roteiro. Sem controle total.
E talvez, apenas talvez, o afeto volte a circular. Não como consenso, mas como possibilidade. O desacordo pode reaparecer sem carregar a ameaça da ruptura. Escutar pode voltar a ser prática cotidiana. Não como estratégia. Como condição.
Se isso acontecer, ainda que de forma irregular, sem ordem, sem simetria, o país pode ensaiar um retorno. Não a um passado idealizado, que nunca existiu de fato, mas a uma forma mais aberta de convivência. Imperfeita. Tensa. Contraditória.
Mas viva.
Uma conversa possível. Uma conversa que não resolve tudo, mas que não destrói tudo. Uma conversa que reconhece o outro não como inimigo a ser eliminado, mas como presença inevitável na construção da vida comum.
E isso, hoje, já seria muito.
Esquecida e sem acordo de paz, Gaza permanece em limbo
Há vários meses, esforços de mediação internacional tentam estabelecer um cessar-fogo estável entre o Hamas e Israel na Faixa de Gaza. Mais recentemente, no domingo, uma delegação do grupo viajou ao Cairo para se reunir com mediadores egípcios sobre os próximos passos no processo para pôr fim às hostilidades.
O foco está nas questões pendentes da – ainda – primeira fase do acordo de cessar-fogo alcançado há mais de seis meses, e em saber se a segunda fase – e, sobretudo, a fase final – seria de fato viável.
O Hamas, classificado como organização terrorista pela Alemanha, União Europeia (UE), Estados Unidos e outros países, desencadeou uma guerra em Gaza ao realizar seus ataques terroristas em Israel em 7 de outubro de 2023, aos quais Israel respondeu com uma devastadora ofensiva aérea e terrestre. Um frágil cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025, embora seja repetidamente violado por ataques isolados.
Especialistas consideram preocupante o saldo do cessar-fogo. As negociações políticas estagnaram e, com elas, a perspectiva de uma estabilização duradoura. Seis meses depois, essa "promessa esperançosa permanece em grande parte não cumprida", segundo uma análise do Conselho Norueguês para Refugiados.
Os esforços para encontrar uma solução e mediar o conflito, atualmente ofuscados pelos efeitos da guerra no Irã, têm apresentado poucos avanços. O trabalho do Conselho de Paz – iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – tem sido amplamente ineficaz. Lançado com grandes aspirações políticas para fazer concorrência com a ONU, teve até agora pouco impacto. Embora estruturas institucionais tenham sido estabelecidas e promessas de bilhões de dólares tenham sido feitas, muitos desses fundos, segundo relatórios de agências, estão sendo liberados com relutância ou simplesmente não foram enviados.
Peter Lintl, especialista em Israel e Oriente Médio do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP) em Berlim, descreve a situação de maneira cautelosa. "No momento, tudo parece estar fora de controle" e, em torno disso, as questões cruciais – o desarmamento do Hamas, a futura administração de Gaza e a retirada das tropas israelenses – permanecem há meses sem solução. Ao mesmo tempo, há uma falta de mecanismos funcionais para garantir o cumprimento de quaisquer acordos que possam ser alcançados, disse Lintl à DW.
Simon Wolfgang Fuchs, especialista em estudos islâmicos da Universidade Hebraica de Jerusalém, vê as coisas de modo semelhante. Ele também observa que as negociações não estão progredindo e os prazos têm sido repetidamente ultrapassados. De modo geral, aumenta a impressão de que há um impasse diplomático. Segundo Fuchs, a dinâmica é caracterizada mais por desconfiança do que por reaproximação.
Não se trata apenas de detalhes, mas de questões fundamentais – e também da sequência de eventos relacionados às questões complexas a serem resolvidas. Por exemplo, as partes em conflito permanecem divididas sobre o que deve ocorrer primeiro, o desarmamento do Hamas ou a retirada das tropas israelenses.
"Observadores internacionais e independentes monitorarão o processo de desmilitarização da Faixa de Gaza", declarou o embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, no início do ano. Embora tais planos demonstrem que existem algumas ideias concretas para uma transição, essa proposta pressupõe que ambos os lados façam concessões fundamentais – e é justamente isso que tem faltado até agora.
"Para Israel, está claro que deve ocorrer primeiro o desarmamento, depois a retirada. Para o Hamas, é exatamente o oposto", afirma Fuchs ao descrever o dilema. Ambos os lados estão, portanto, presos em posições que são atualmente quase impossíveis de conciliar, acrescentou.
No entanto, todo o desenvolvimento futuro depende de um acordo sobre essa questão. Ao mesmo tempo, apesar do seu enfraquecimento militar, o Hamas continua a ser um ator relevante. Suas estruturas persistem apesar da dura campanha militar de Israel, que resultou em dezenas de milhares de mortes e assassinatos seletivos de membros do Hamas. O grupo continua a controlar partes da Faixa de Gaza e atua efetivamente como a autoridade dominante e a força da ordem na região – fato este que complica ainda mais qualquer solução política.
A situação militar permanece tensa, enquanto Israel continua a recorrer a ataques direcionados contra líderes do Hamas. No entanto, civis são atingidos repetidamente nesses ataques – o que diminui ainda mais as perspectivas de uma paz duradoura. Segundo uma análise recente da organização internacional de ajuda humanitária Oxfam, o plano de cessar-fogo do governo Trump está à beira do colapso.
Outros elementos-chave do plano para Gaza também ainda não foram implementados. Por exemplo, o órgão tecnocrático planejado para a administração civil da Faixa de Gaza ainda não está em funcionamento.
O financiamento da reconstrução também permanece incerto – principalmente devido à situação tensa em toda a região. Os Estados do Golfo, que deveriam cobrir grande parte dos custos de reconstrução da Faixa de Gaza, estão sob pressão devido aos danos causados pela nova guerra envolvendo o Irã. "Refinarias, campos de petróleo e terminais de exportação danificados por ataques de foguetes e drones precisarão de meses – e, em alguns casos, anos – para reparos", de acordo com um relatório analítico da agência de notícias Reuters. Consequentemente, os fundos para Gaza provavelmente serão escassos.
Enquanto isso, os civis continuam a sofrer as consequências. A situação humanitária na Faixa de Gaza permanece precária e, em muitos lugares, está se deteriorando novamente.
Escassez de suprimentos, aumento de preços e infraestruturas danificadas são parte do cotidiano. O especialista Fuchs descreve os acontecimentos como uma "espiral descendente". Mesmo onde a ajuda humanitária consegue chegar, a insegurança permanece em alta. "As experiências de escassez anteriores, especialmente a fome de 2025, têm impacto duradouro e reforçam a sensação de ameaça constante", afirma Fuchs.
Ao mesmo tempo, o clima político na Faixa de Gaza é difícil de avaliar externamente. Segundo Peter Lintl, relatos indicam que qualquer crítica ao Hamas continua sendo brutalmente reprimida nas áreas controladas pelo grupo. Isso complica ainda mais uma avaliação confiável. Ao mesmo tempo, os palestinos nutrem temores persistentes de deslocamentos forçados permanentes impostos por Israel.
Peter Lintl vê com ceticismo a possibilidade de uma solução em curto prazo. Os custos políticos para ambos os lados são atualmente muito altos, afirma. Bloqueios estruturais também persistem. Muitos analistas internacionais compartilham da visão de que, embora exista um cessar-fogo que, apesar das inúmeras mortes, deslocamentos e destruição, proporcione algum alívio para o cotidiano da população, ele é apenas parcialmente eficaz – e uma solução política sustentável ainda não está à vista.
Por ora, a Faixa de Gaza parece permanecer em um estado que não é nem de guerra nem de paz. Isso não é, de forma alguma, seguro, pois significa que uma nova escalada permanece possível a qualquer momento.
O foco está nas questões pendentes da – ainda – primeira fase do acordo de cessar-fogo alcançado há mais de seis meses, e em saber se a segunda fase – e, sobretudo, a fase final – seria de fato viável.
O Hamas, classificado como organização terrorista pela Alemanha, União Europeia (UE), Estados Unidos e outros países, desencadeou uma guerra em Gaza ao realizar seus ataques terroristas em Israel em 7 de outubro de 2023, aos quais Israel respondeu com uma devastadora ofensiva aérea e terrestre. Um frágil cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025, embora seja repetidamente violado por ataques isolados.
Especialistas consideram preocupante o saldo do cessar-fogo. As negociações políticas estagnaram e, com elas, a perspectiva de uma estabilização duradoura. Seis meses depois, essa "promessa esperançosa permanece em grande parte não cumprida", segundo uma análise do Conselho Norueguês para Refugiados.
| O que restou do hospital Al-Schifa |
Os esforços para encontrar uma solução e mediar o conflito, atualmente ofuscados pelos efeitos da guerra no Irã, têm apresentado poucos avanços. O trabalho do Conselho de Paz – iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – tem sido amplamente ineficaz. Lançado com grandes aspirações políticas para fazer concorrência com a ONU, teve até agora pouco impacto. Embora estruturas institucionais tenham sido estabelecidas e promessas de bilhões de dólares tenham sido feitas, muitos desses fundos, segundo relatórios de agências, estão sendo liberados com relutância ou simplesmente não foram enviados.
Peter Lintl, especialista em Israel e Oriente Médio do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP) em Berlim, descreve a situação de maneira cautelosa. "No momento, tudo parece estar fora de controle" e, em torno disso, as questões cruciais – o desarmamento do Hamas, a futura administração de Gaza e a retirada das tropas israelenses – permanecem há meses sem solução. Ao mesmo tempo, há uma falta de mecanismos funcionais para garantir o cumprimento de quaisquer acordos que possam ser alcançados, disse Lintl à DW.
Simon Wolfgang Fuchs, especialista em estudos islâmicos da Universidade Hebraica de Jerusalém, vê as coisas de modo semelhante. Ele também observa que as negociações não estão progredindo e os prazos têm sido repetidamente ultrapassados. De modo geral, aumenta a impressão de que há um impasse diplomático. Segundo Fuchs, a dinâmica é caracterizada mais por desconfiança do que por reaproximação.
Não se trata apenas de detalhes, mas de questões fundamentais – e também da sequência de eventos relacionados às questões complexas a serem resolvidas. Por exemplo, as partes em conflito permanecem divididas sobre o que deve ocorrer primeiro, o desarmamento do Hamas ou a retirada das tropas israelenses.
"Observadores internacionais e independentes monitorarão o processo de desmilitarização da Faixa de Gaza", declarou o embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, no início do ano. Embora tais planos demonstrem que existem algumas ideias concretas para uma transição, essa proposta pressupõe que ambos os lados façam concessões fundamentais – e é justamente isso que tem faltado até agora.
"Para Israel, está claro que deve ocorrer primeiro o desarmamento, depois a retirada. Para o Hamas, é exatamente o oposto", afirma Fuchs ao descrever o dilema. Ambos os lados estão, portanto, presos em posições que são atualmente quase impossíveis de conciliar, acrescentou.
No entanto, todo o desenvolvimento futuro depende de um acordo sobre essa questão. Ao mesmo tempo, apesar do seu enfraquecimento militar, o Hamas continua a ser um ator relevante. Suas estruturas persistem apesar da dura campanha militar de Israel, que resultou em dezenas de milhares de mortes e assassinatos seletivos de membros do Hamas. O grupo continua a controlar partes da Faixa de Gaza e atua efetivamente como a autoridade dominante e a força da ordem na região – fato este que complica ainda mais qualquer solução política.
A situação militar permanece tensa, enquanto Israel continua a recorrer a ataques direcionados contra líderes do Hamas. No entanto, civis são atingidos repetidamente nesses ataques – o que diminui ainda mais as perspectivas de uma paz duradoura. Segundo uma análise recente da organização internacional de ajuda humanitária Oxfam, o plano de cessar-fogo do governo Trump está à beira do colapso.
Outros elementos-chave do plano para Gaza também ainda não foram implementados. Por exemplo, o órgão tecnocrático planejado para a administração civil da Faixa de Gaza ainda não está em funcionamento.
O financiamento da reconstrução também permanece incerto – principalmente devido à situação tensa em toda a região. Os Estados do Golfo, que deveriam cobrir grande parte dos custos de reconstrução da Faixa de Gaza, estão sob pressão devido aos danos causados pela nova guerra envolvendo o Irã. "Refinarias, campos de petróleo e terminais de exportação danificados por ataques de foguetes e drones precisarão de meses – e, em alguns casos, anos – para reparos", de acordo com um relatório analítico da agência de notícias Reuters. Consequentemente, os fundos para Gaza provavelmente serão escassos.
Enquanto isso, os civis continuam a sofrer as consequências. A situação humanitária na Faixa de Gaza permanece precária e, em muitos lugares, está se deteriorando novamente.
Escassez de suprimentos, aumento de preços e infraestruturas danificadas são parte do cotidiano. O especialista Fuchs descreve os acontecimentos como uma "espiral descendente". Mesmo onde a ajuda humanitária consegue chegar, a insegurança permanece em alta. "As experiências de escassez anteriores, especialmente a fome de 2025, têm impacto duradouro e reforçam a sensação de ameaça constante", afirma Fuchs.
Ao mesmo tempo, o clima político na Faixa de Gaza é difícil de avaliar externamente. Segundo Peter Lintl, relatos indicam que qualquer crítica ao Hamas continua sendo brutalmente reprimida nas áreas controladas pelo grupo. Isso complica ainda mais uma avaliação confiável. Ao mesmo tempo, os palestinos nutrem temores persistentes de deslocamentos forçados permanentes impostos por Israel.
Peter Lintl vê com ceticismo a possibilidade de uma solução em curto prazo. Os custos políticos para ambos os lados são atualmente muito altos, afirma. Bloqueios estruturais também persistem. Muitos analistas internacionais compartilham da visão de que, embora exista um cessar-fogo que, apesar das inúmeras mortes, deslocamentos e destruição, proporcione algum alívio para o cotidiano da população, ele é apenas parcialmente eficaz – e uma solução política sustentável ainda não está à vista.
Por ora, a Faixa de Gaza parece permanecer em um estado que não é nem de guerra nem de paz. Isso não é, de forma alguma, seguro, pois significa que uma nova escalada permanece possível a qualquer momento.
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Como mulher religiosa, compartilho a culpa. Nossas mãos não estão limpas
No final das festas de outono de 2000, no início da Segunda Intifada, passei o Shabat com amigos em uma das fazendas do outro lado da Linha Verde. Meus anfitriões, cabeludos e descalços, buscavam redimir a terra e implementar a "Torat Eretz Yisrael" ("Torá da Terra de Israel") em uma leitura desprovida de interpretação e sem levar em conta a diversidade de opiniões no pensamento judaico. Eles se apegavam ao significado literal dos textos bíblicos: "olho por olho, dente por dente" e "não tenham misericórdia deles".
Trump tornou-se um ativo tóxico
A derrota de Viktor Orbán, na Hungria, foi um duro golpe para Vladimir Putin e para a sua estratégia de enfraquecimento, por dentro, da União Europeia. Mas foi também a confirmação eloquente de que, nos dias que correm, ser amigo ou ter o apoio de Donald Trump se tornou uma desvantagem eleitoral.
A tendência manifestou-se pela primeira vez, há cerca de um ano, no Canadá, quando o primeiro-ministro Mark Carney, em funções havia pouco tempo, em substituição de um desgastado Justin Trudeau, conseguiu inverter, em apenas um par de meses, um resultado anunciado como desastroso pelas sondagens numa retumbante vitória e conquistar uma grande vaga de apoio popular. O seu segredo? Enfrentar Donald Trump sem rodeios, devolvendo, com a mesma veemência, cada uma das ameaças que este, do outro lado da fronteira, dirigia ao Canadá, com a pretensão de o incorporar como 51º estado americano. Na noite de vitória, Carney não se esqueceu de “agradecer” a Trump o impulso que lhe deu para conquistar os votos da maioria dos canadianos. “O Presidente Trump está a tentar destruir-nos para que os EUA fiquem com as nossas terras, os nossos recursos, a nossa água, o nosso país”, declarou. “Isso nunca irá acontecer”, sublinhou, soltando uma longa ovação da multidão. E antecipou, em linhas gerais, alguns dos pontos que, já no início deste ano, iriam estar no centro do seu muito elogiado discurso em Davos: o fim da relação com os EUA baseada numa “integração crescente e constante” e o início de uma nova era alicerçada no fortalecimento de “relações com parceiros confiáveis na Europa, na Ásia e noutros lugares”.
Mais recentemente, a pretensão ativa de Trump em relação à “compra” ou à invasão da Gronelândia, nos moldes habitualmente desproporcionados e ainda mais indelicados que o caracterizam, acabou por facilitar a vida da primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen, quando o seu governo de centro-esquerda estava a sofrer um desgaste de popularidade, visível nas sondagens. O braço de ferro de Frederiksen com o Presidente dos EUA e a sua determinação em não ceder às pressões do “amigo americano” funcionaram como uma espécie de poção mágica para o seu partido. E ela capitalizou o momento, com a mestria de uma veterana política: convocou eleições antecipadas e, embora não tenha alcançado a maioria absoluta com a qual chegou a sonhar, conseguiu ser eleita para um terceiro mandato como chefe de governo.
Agora, na Hungria, tudo indica que o apoio declarado de Donald Trump acabou por gerar a onda que fez transbordar o dique iliberal que Viktor Orbán construiu ao longo dos últimos 16 anos, com sucessivos atropelos à democracia. A sua submissão a Moscovo era já conhecida dos húngaros − e, é preciso reconhecê-lo, até muito apoiada por vários setores da população. Aliás, Orbán não o escondia e usava isso como trunfo eleitoral, para vincar a sua oposição a Bruxelas e aos ditames da União Europeia. Quer se queira, quer não, existe afinidade histórica, e até cultural, entre Budapeste e Moscovo, alicerçada mesmo em sonhos imperiais do passado e em glórias guerreiras do antigo leste europeu. Algo completamente diferente é, neste momento, mostrar-se aliado de um Presidente dos EUA que não inspira um pingo de confiança em ninguém, que se sabe apenas estar interessado na sua afirmação pessoal e que a qualquer momento, como se tem visto, pode mudar as regras do jogo, ameaçar com tarifas ou proclamar mais uma “obliteração” total.
As consequências estão à vista. Enfrentar Trump, no plano político, passou a ser uma medalha de bons serviços. Aceitar ser seu súbdito significa perder duas vezes: primeiro, a honra e, depois, os eleitores. As eleições na Hungria confirmam também um outro sinal positivo: começa a ser manifestamente difícil, com um Trump em roda livre contra tudo e contra todos, a exportação do movimento MAGA para países com tradição, História e cultura. Muita da extrema-direita europeia, aliás, já o percebeu e tem feito questão de se desmarcar de Washington em muito pontos, como já fizeram Marine Le Pen, em França, e Alice Weidel (AfD), na Alemanha – por cá, André Ventura prefere o silêncio… No entanto, algum do centro-direita continua a não querer ver o óbvio e permanece agarrado à ilusão de que tem de prestar vassalagem a todo e qualquer inquilino da Casa Branca. É um erro… tóxico.
A tendência manifestou-se pela primeira vez, há cerca de um ano, no Canadá, quando o primeiro-ministro Mark Carney, em funções havia pouco tempo, em substituição de um desgastado Justin Trudeau, conseguiu inverter, em apenas um par de meses, um resultado anunciado como desastroso pelas sondagens numa retumbante vitória e conquistar uma grande vaga de apoio popular. O seu segredo? Enfrentar Donald Trump sem rodeios, devolvendo, com a mesma veemência, cada uma das ameaças que este, do outro lado da fronteira, dirigia ao Canadá, com a pretensão de o incorporar como 51º estado americano. Na noite de vitória, Carney não se esqueceu de “agradecer” a Trump o impulso que lhe deu para conquistar os votos da maioria dos canadianos. “O Presidente Trump está a tentar destruir-nos para que os EUA fiquem com as nossas terras, os nossos recursos, a nossa água, o nosso país”, declarou. “Isso nunca irá acontecer”, sublinhou, soltando uma longa ovação da multidão. E antecipou, em linhas gerais, alguns dos pontos que, já no início deste ano, iriam estar no centro do seu muito elogiado discurso em Davos: o fim da relação com os EUA baseada numa “integração crescente e constante” e o início de uma nova era alicerçada no fortalecimento de “relações com parceiros confiáveis na Europa, na Ásia e noutros lugares”.
Mais recentemente, a pretensão ativa de Trump em relação à “compra” ou à invasão da Gronelândia, nos moldes habitualmente desproporcionados e ainda mais indelicados que o caracterizam, acabou por facilitar a vida da primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen, quando o seu governo de centro-esquerda estava a sofrer um desgaste de popularidade, visível nas sondagens. O braço de ferro de Frederiksen com o Presidente dos EUA e a sua determinação em não ceder às pressões do “amigo americano” funcionaram como uma espécie de poção mágica para o seu partido. E ela capitalizou o momento, com a mestria de uma veterana política: convocou eleições antecipadas e, embora não tenha alcançado a maioria absoluta com a qual chegou a sonhar, conseguiu ser eleita para um terceiro mandato como chefe de governo.
Agora, na Hungria, tudo indica que o apoio declarado de Donald Trump acabou por gerar a onda que fez transbordar o dique iliberal que Viktor Orbán construiu ao longo dos últimos 16 anos, com sucessivos atropelos à democracia. A sua submissão a Moscovo era já conhecida dos húngaros − e, é preciso reconhecê-lo, até muito apoiada por vários setores da população. Aliás, Orbán não o escondia e usava isso como trunfo eleitoral, para vincar a sua oposição a Bruxelas e aos ditames da União Europeia. Quer se queira, quer não, existe afinidade histórica, e até cultural, entre Budapeste e Moscovo, alicerçada mesmo em sonhos imperiais do passado e em glórias guerreiras do antigo leste europeu. Algo completamente diferente é, neste momento, mostrar-se aliado de um Presidente dos EUA que não inspira um pingo de confiança em ninguém, que se sabe apenas estar interessado na sua afirmação pessoal e que a qualquer momento, como se tem visto, pode mudar as regras do jogo, ameaçar com tarifas ou proclamar mais uma “obliteração” total.
As consequências estão à vista. Enfrentar Trump, no plano político, passou a ser uma medalha de bons serviços. Aceitar ser seu súbdito significa perder duas vezes: primeiro, a honra e, depois, os eleitores. As eleições na Hungria confirmam também um outro sinal positivo: começa a ser manifestamente difícil, com um Trump em roda livre contra tudo e contra todos, a exportação do movimento MAGA para países com tradição, História e cultura. Muita da extrema-direita europeia, aliás, já o percebeu e tem feito questão de se desmarcar de Washington em muito pontos, como já fizeram Marine Le Pen, em França, e Alice Weidel (AfD), na Alemanha – por cá, André Ventura prefere o silêncio… No entanto, algum do centro-direita continua a não querer ver o óbvio e permanece agarrado à ilusão de que tem de prestar vassalagem a todo e qualquer inquilino da Casa Branca. É um erro… tóxico.
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