quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Exausto

Não por percorrer distâncias, mas de tanta discussão e canelada. Não pela ansiedade dos prazos, mas pelas amizades desfeitas por política. Menos por subir oito lances de escada, mais por conta da luz que falta a qualquer ameaça de chuva. Não pelo peso de halteres e aparelhos, e sim pela ignorância que se orgulha de sua condição. Nem tanto pela tontura que antes fosse só pela idade, mais por aquela sensação de não pertencimento de três semanas atrás.

Não pelo noticiário na TV e sim por não ter mais criança em casa. Não pelas sete pílulas diárias (mais uma para proteger o estômago), mas pelas evidências escancaradas do aquecimento global. Muito menos pelo pernilongo que atazanou minha noite, senão pelos pesadelos que o sono trazia.

Um peso sobre os ombros que não sei de onde. Um espectro ao fechar os olhos (não fechemos os olhos, jamais). Uma aflição nas praças, bares e trens do metrô, comum a todos.


Menos pela saudade que não se resolve, mais por saber que ninguém do outro lado vai atender o telefone. Não pela feiúra absurda dos fios enrolados nos postes, mas pelas derrotas da delicadeza. Nem pelos fracassos do nosso futebol, mas por tanta gente normalizando o que não se deve. Não só pela glorificação da vulgaridade, mas pelo genocídio em Gaza. Menos pelas ruas vazias de medo às nove da noite, mais pela tentativa de infiltração das milícias em todos os setores.

Mais grave que a exaustão é o cansaço de falar sobre ela. E os algoritmos, sempre tão contra.

Não só pela indiferença dos privilegiados, mas também pela arrogância do sujeito que abriu o vidro do carro para jogar o lixo na rua. Não pelo sumiço dos amigos, mas por vê-los desorientados. Menos pelas relações desencontradas, mais pelas balas perdidas. Não pela demolição das casas simpáticas do bairro, mas pela impossibilidade de hoje abraçar minha filha.

Exausto pela prepotência dos que comandam a tecnologia e lucram com as nossas desavenças. Pela criança comemorando no capô do carro com uma arma na mão. Pelas ofensas naturalizadas. Pelas queimadas provocadas pelo homem. Pelas chicotadas no chão em tom de ameaça. O homem negro desfilando na avenida, acorrentado por um homem branco. Não pelo sim, muito mais pelo não.

Exausto. Mas aliviado.

Flávio, mártir do pau oco, quer criar nova revolta dos Bolsonaros contra o 'sistema'

A fuga de Flávio Bolsonaro dá o que pensar sobre o destino da oposição a Lula 4 e sobre a montagem de um projeto da direita para 2030. Talvez os Bolsonaros se façam de mártires da desdemocratização do Brasil, de vingadores dos oprimidos pelo "sistema", mote fundamental da família e das extremas direitas.

Podem meter os pés pelas mãos se tentarem, com sucesso, apoio do governo americano para campanha qualquer contra o Brasil. Por exemplo, Donald Trump poderia aceitar um processo de asilo político para os Bolsonaros. Diria assim que o regime brasileiro não é democrático, que persegue politicamente cidadãos. Pelo meio do caminho, haveria sanções, políticas ou comerciais.


Quanto ao mais doméstico, imediato e previsível, a escafedida de Flávio Bolsonaro promove tumulto nas fileiras dos partidos adversários de Lula 4, a começar pelo PL. Até segunda (26), esse senador com mandato terminal se coroava líder da oposição. A capacidade de Flávio liderar qualquer coisa, mesmo como estafeta ou garoto de recados do pai, causava certa descrença mesmo no PL e entre bolsonaristas de outros partidos. Agora, Flávio está fugido e não se sabe o que pretende —discursaria ainda nesta semana nos EUA. Sim, acontece de haver líderes de oposição que vivem fora do país deles. Em geral, tentam insurreição contra um governo autoritário, sem política viva.

O PL é um tanto gelatinoso, sem coesão. Há implicâncias com bolsonarismos mais extremados e divergências entre bolsonaristas. Que rumo vai tomar? Embarcaria em um projeto "antissistema"? Na oposição, é preciso pensar mais nos custos e no risco de perder emendas.

Por um lado, a família tem muito poder sobre as bases. Por outro, a fuga, uma campanha antinacional ou até golpista podem enfraquecê-la. Essa hipótese inspira aquelas pessoas que os Bolsonaros chamam de "direita cheirosa": deu ânimo àqueles que pregam a ideia de que a direita deve se afastar do bolsonarismo.

Essa direita terá condição de liderar políticos, grupos sociais e econômicos e a massa da militância, de resto em atrito com os Bolsonaros? Note-se que o evangelismo político, o agro, militares e forças de segurança de diversos tipos juntaram-se ao bolsonarismo, o constituíram ou nele pegaram carona para assumir poder direto de fato, de modo inédito. Mudariam de barco assim, sem mais, para essa hipotética ou fantasiosa nova direita?

Essa nova direita conseguiria disputar com sucesso o comando daquilo que o filósofo político Marcos Nobre chama de "partido digital bolsonarista"? Isto é, um partido informal que se estrutura e sustenta pelas redes e assim também cria organizações de base no mundo dito "real", típicas de um "partido de massas", e que parasita um partido formalmente constituído, que agora é no caso o PL.

Quem defende a tese da direita pós-bolsonarista é muito simpatizante do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Como o governador levaria adiante um projeto eleitoralmente viável sem contar com o eleitor bolsonarista de alma? É a questão de qualquer candidato a líder ou a presidente direitista em 2030. Os Bolsonaros concederiam o lugar de liderança sobre esses eleitores? Tarcísio até apareceu nas redes nesta terça (27), como líder de um "a luta continua", da "união e reconstrução", versão direitista, propondo um programa e dizendo "a eleição passou, o Brasil não". Vai disputar o poder com seus mentores?
Vinicius Torres Freire

Para que serve a polarização?

No domingo, com o seu voto, você ajudou a adormecer uma forma de polaridade: a oposição, burramente vista no Brasil como irreconciliável, entre a direita e a esquerda. Este dualismo, em tese, impede de maneira estúpida qualquer colaboração. Hoje, porém, com um novo presidente eleito, essa polarização terminou para dar lugar a uma oposição que a esquerda e a direita escamoteavam, a saber: a oposição entre a centralidade dos poderosos que vão para os palácios e a situação dos perdedores que são relegados à periferia. Agora, tranquilos, sabemos quem são os mandões e quem são os mandados. Ou seja, voltamos a viver a oposição rotineira entre os que detêm o poder e aqueles que devem se submeter a ele. Recuperamos a concepção tradicional de autoridade e, assim, restauramos o velho reino imperial iniciado com d. João VI e continuado pelos golpes, ditaduras e governos demagógicos.


O mundo político brasileiro voltou ao normal; restabelecemos a divisão entre barões e cidadãos, entre miliardários e remediados, como você e eu. Porque é exatamente dessa maneira que concebemos a política e o poder à brasileira: nele, o Brasil é esquecido e substituído por ideologias que jamais se concretizam. Nesse sistema, os mandões se apropriam da administração pública e controlam não só as leis, mas também o tesouro nacional, impiedosamente saqueado pelas autoridades que deveriam protegê-lo.

As polaridades põem em confronto duas entidades que podem ser políticas, religiosas, geográficas, cosmológicas ou até mesmo familiares. As polaridades dão significado ao mundo. Acabamos de inibir uma oposição trivial entre a mão direita e a mão esquerda; contudo, ingressamos naquela dualidade escondida pela polarização entre esquerda e direita - a oposição capital entre o alto e o baixo, entre o centro e a periferia, entre os poderosos e os comuns, como nós.

Como ensinou Claude Lévi-Strauss em um ensaio da década de 1950, existem, pelo menos, dois tipos de dualismo: o diametral e o concêntrico, já mencionados. Este último revela uma hierarquia que permanece oculta pela oposição entre as mãos: a relação entre a cabeça, que comanda, e os pés e as mãos, que obedecem.

Chegou a hora de sermos menos apaixonados pela disputa entre direita e esquerda e de dedicarmos mais atenção à permanente desigualdade entre senhores e escravos, homens e mulheres, honestos e gatunos da coisa pública.

P.S.: Nesta quarta, dia em que você lê esta crônica, habemus um novo presidente e, obviamente, inaugura-se uma nova etapa, fortemente marcada por aqueles que mandam e por aqueles que obedecem, pois é dessa maneira que concebemos o poder no Brasil. A eleição, repito, é como a coroação de um novo imperador. Que Deus nos proteja.

Poema do Aviso Final

É preciso que haja alguma coisa
alimentando meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança
É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminho

É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana
se firmará a machadadas.

Torquato Neto, "O fato e a coisa"

Olhar sobre o deboche, arma da ultra direita

Eram 14h em um subúrbio do Rio de Janeiro, em outubro de 2022. Um vira-lata, magro, sem dono, pedia comida na manifestação em apoio a Bolsonaro. Um manifestante gritou: “Cuidado com esse cachorro: se Lula ganhar, teremos que chamá-lo de picanha!”. Ao redor, dezenas de pessoas começaram a rir alto, e enriqueceram a piada: “Se Lula ganhar, ele será o primeiro a comê-lo!” gritou um homem vestido de amarelo. “Teremos que tomar cuidado ao comprar um cachorro-quente!”, disse um jovem com uma camiseta de seu líder. Nesse momento, Bolsonaro apareceu no palco. Milhares de bandeiras do Brasil, verdes e amarelas, se levantaram ao grito de “Mito, mito, mito!”, esquecendo o cachorro de rua.


Em outra parte da América Latina, na periferia de Buenos Aires, um seguidor de Milei dizia durante sua campanha em setembro de 2023: “Milei é bom, é um homem que gosta de cães”. “Seus cães fazem parte do seu pensamento”, dizia outro rapaz que havia participado da marcha com sua bicicleta do Uber Eats. “Mas os kirchneristas comem gatos, em breve estaremos comendo cachorros se essa máfia continuar governando!”, exclamou, mais assustado, um homem de meia-idade. “Corremos o risco de ser como a Venezuela, um país risível, um país comunista!”, apontou entre risos e indignação uma mulher idosa.

Essas piadas assustadoras viajaram pelo mundo. Viveram transmutacões e adaptações, até chegar em 2024 ao momento em que Donald Trump afirmou, em um debate presidencial contra Kamala Harris, que os haitianos residentes nos EUA “estão comendo os cães”. A risada de Harris foi sua primeira reação, pois encontrou no discurso do oponente o absurdo retórico que só poderia ser compreendido como chacota. Logo depois, ela mudou de expressão, tentando levar Trump para um terreno mais “sério”.

Neste artigo, analiso o papel que o humor – em especial, sua descaída patife, o deboche — desempenha nos processos de polarização e radicalização política das extremas direitas, especificamente as latino-americanas. Bukele, Milei, Bolsonaro, Kast… não se conectam apenas por seu militarismo, por seu componente autoritário, por seus discursos violentos, pela defesa de várias vertentes de um capitalismo ou pela apropriação do aparato estatal. Eles também o fazem pelo uso do deboche, como influenciadores políticos diretos, e como pontos em torno dos quais seus seguidores constroem relatos humorísticos, principalmente nas redes sociais.

A codificação do discuro a partir das chaves de “seriedade” ou “humor” estrutura-se a partir da suposta dicotomia entre modelos de comunicação opostos. Se o “sério” nos leva a compreender a comunicação de forma direta, de sentido literal, sem interpretação, o humor seria um código comunicativo caracterizado pela interpretação ambígua dos significados, e pela flexibilidade de conceder ou não credibilidade ao conteúdo das informações transmitidas. Elementos humorísticos também podem produzir, com base em sua interpretação múltipla, desinformação e conteúdo falso.

Talvez esse último elemento seja o que melhor representa o perigo que o deboche pode exercer no terreno político. Indicar que as pessoas estão ou estarão em breve comendo cachorros pode ser interpretado de diversas maneiras: ao serem perguntados sobre essa questão, alguns manifestantes no Brasil garantiam, com medo (apesar das risadas anteriores), que não queriam comer cachorros nem qualquer outro animal doméstico; outras pessoas dissecavam o humor, separando o elemento fictício, e indicavam que se tratava apenas de uma zombaria para rir do adversário político. De qualquer uma das interpretações, concluía-se que o humor agia como um potente antidepressivo, construindo amplamente identidades coletivas e normalizando uma violência muito concreta: que a esquerda não teria aquilo que Cardoso de Oliveira chamava de uma “substância moral digna”, e seria um espaço político que não mereceria ser considerado “humano”, pois quebraria o tabu social de se alimentar de animais de estimação e seres com os quais se estabeleceu um vínculo afetivo.

A normalização da violência por meio do deboche tem sido uma técnica eficaz utilizada, às vezes de forma planejada, outras vezes espontânea, pelas chamadas extremas direitas. Tanto os espaços orgânicos desses partidos políticos, quanto as bases militantes (por meio de memes e outras expressões humorísticas em espaços digitais) encontraram no humor uma forma de introduzir na agenda pública e política uma série de temas que, através de códigos “sérios”, não teriam encontrado o espaço ou a oportunidade necessária. Zombar de pessoas que passam fome e estariam dispostas a fazer qualquer coisa para comer, propor a pena de morte por meio de imagens e piadas de guilhotinas com figuras públicas, ridicularizar as violações contra mulheres ou a violência física e psicológica contra a população sem-teto, LGTBIQ+ ou racializada, sempre é mais fácil através do humor.

Esses códigos comunicativos, geralmente considerados pela literatura acadêmica como “códigos suaves”, são, na verdade, a ponta de uma lança contra os direitos humanos: por meio dessas piadas, pode-se fazer a primeira exposição e penetração das ideias mais violentas que podemos ouvir ou ver. Trata-se de um mecanismo de controle social, que investiga novas formas mais arriscadas e violentas de consenso sobre o que é “aceitável”. Isso ocorre porque o humor sempre permite um passo atrás. Se essa violência velada for acusada por alguém, por exemplo, de racismo ou machismo, o transmissor da mensagem humorística poderá sempre se refugiar na ideia de que “é só uma piada”. Ao dizer isso, ele estaria, de um lado, tentando evitar qualquer tipo de responsabilidade moral sobre a mensagem transmitida, enquanto diria à outra pessoa que “não entendeu a piada, que não tem senso de humor”. Não ter senso de humor seria um pequeno estigma, caracterizado pela incapacidade de interpretar as mensagens de forma descontraída, e, com isso, um apontamento à pessoa como carente de habilidades sociais recreativas para compartilhar esses códigos.

A verdade é que, por meio dessas mensagens debochadas, está sendo fortalecida uma série de discursos, metáforas e quadros cognitivos que, posteriormente, uma vez comprovada sua aceitação ou rejeição social, podem ser usados explicitamente na construção da agenda política. Ou seja, a violência velada do deboche ocorre primeiro, para depois ser construída uma violência explícita e direta. O humor, assim, torna-se um potente elemento na transição entre discursos ainda não aceitos socialmente e aqueles que já são, um espaço de liminaridade em que influenciadores, políticos e/ou simpatizantes, haters e trolls testam suas habilidades como criadores e difusores de mensagens de ódio.

Partir da premissa de que o deboche colabora na normalização de várias violências implícitas nos leva a entender esse código como algo legível apenas a partir de sua perspectiva cultural. No caso latino-americano, a condição pós-colonial se torna central para entender as particularidades do uso do humor no contexto da polarização política. Normalizar, por meio de piadas, a ideia de que “um bom bandido é um bandido morto” (Brasil de Bolsonaro), de que um presidente pode ser também “um ditador legal” (El Salvador de Bukele) ou de que “a venda de órgãos é apenas um tipo de mercado” (Argentina de Milei) só pode ser entendido através da compreensão de uma violência histórica caracterizada pela desigualdade, pelo racismo e pelo autoritarismo.

A militarização da esfera pública, relacionada a essa lógica colonial, também tem um efeito humorístico capitalizado pelas extremas direitas: fortalecer a categorização amigo-inimigo, distorcendo as características do “inimigo”, animalizando-o, desumanizando-o e transformando-o em um ser que pode ser fisicamente e/ou socialmente exterminado. Frequentemente, piadas e memes atravessam essa dicotomia de opostos, utilizando figuras que representam autoridade e hiper-masculinidade: policiais, militares ou heróis de Marvel e DC esmagando os oponentes, transformados em animais, como ratos ou baratas, algo que, para muitas pessoas, é “divertido”. Esse foi um dos elementos centrais da propaganda fascista e nazista do século XX, exportado e latinoamericanizado em ditaduras como a de Pinochet ou Videla.

O deboche é, portanto, um código que deve ser analisado e estudado com cautela, especialmente em um contexto de fragilidade democrática, onde os símbolos podem esconder ataques a setores da população e suas instituições. O contexto latino-americano atual, caracterizado por amplos movimentos reacionários, é o terreno perfeito para que o humor se torne um elemento-chave na radicalização política, na construção de uma agenda cultural e identitária própria e nas demandas desestabilizadoras das instituições públicas e democráticas. A internacionalização da cultura debicgada está em andamento na extrema direita latino-americana, tornando urgente estudar formas de regulação e educação sobre o uso desses códigos “suaves”, que desempenham um papel central nos processos de radicalização política.

Vitória para a democracia

Luiz Inácio Lula da Silva protagonizou um retorno sem precedentes nas eleições presidenciais brasileiras, e sua vitória tem repercussões que vão muito além das fronteiras da maior economia da América Latina. O presidente, figura proeminente do progressismo global há décadas , derrotou o senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político de seu pai, o ex-presidente condenado por tentativa de golpe. O resultado representa um impulso de otimismo para a esquerda e demonstra que a ascensão da extrema direita, alinhada ao trumpismo, não é inevitável.


Em nome da democracia e no melhor interesse do país, Flávio Bolsonaro deve reconhecer a derrota e respeitar as regras e a lei. Ao mesmo tempo, é necessário esclarecer a confusão em torno da decisão do Supremo Tribunal Federal de estender o horário de encerramento das urnas em duas horas . O Brasil não pode se dar ao luxo de ter sequer a menor dúvida sobre o processo eleitoral, nem, como há quatro anos, outro ataque às instituições como o perpetrado por Bolsonaro pai.

A vitória inesperada de Lula, conquistada por meio de uma campanha que combinou a defesa de programas sociais com uma mobilização
extraordinária em defesa da democracia que ultrapassou os limites do Partido dos Trabalhadores, oferece lições para os progressistas. Ela também envia uma mensagem poderosa em um contexto internacional dominado por Donald Trump. O presidente dos EUA entrou em conflito com o presidente brasileiro , apoiou candidatos extremistas em todo o continente e reviveu antigas noções do século XIX de que os Estados Unidos são um quintal onde a superpotência faz o que bem entende. A derrota de Bolsonaro é também a derrota de Trump.

Os desafios são enormes. A queda da Bolsa de Valores brasileira na manhã de segunda-feira é um sinal precoce das dificuldades que aguardam Lula. O déficit fiscal se aproxima de 10% do PIB e a dívida ultrapassa 80%, um nível
elevado para uma economia como a brasileira. Soma-se a isso a margem de manobra legislativa muito limitada. Quase metade dos eleitores apoia Flávio Bolsonaro: o movimento fundado por seu pai mantém forte presença social e territorial, e seu partido detém mais cadeiras do que qualquer outro desde a Assembleia Constituinte de 1988. Lula terá que governar um país muito maior do que a coalizão que o reconduziu à presidência.

A defesa da democracia deve se traduzir em respeito às instituições, à independência judicial, à liberdade de imprensa e em garantias para a oposição. A decisão de um ministro do Supremo Tribunal Federal de manter as urnas abertas duas horas a mais do que o estipulado exige total transparência. E Flávio Bolsonaro, que perdeu por mais de quatro milhões de votos, não pode usar isso como desculpa para rejeitar a vitória de seu rival e arrastar o país de volta para o caminho da luta pelo poder. Nesse sentido, é um sinal positivo que líderes da direita latino-americana, como Keiko Fujimori, do Peru, e José Antonio Kast, do Chile , tenham parabenizado o vencedor.

Lula, que completou 81 anos nesta terça-feira, encara o início de seu quarto e último mandato com uma responsabilidade à altura de sua vitória. Ele tem uma
oportunidade inesperada de consolidar instituições e preparar uma transição política que não dependa de sua liderança pessoal. A democracia brasileira demonstrou nesta campanha e nestas eleições que pode resolver uma disputa de enorme intensidade e significado nas urnas. Seu legado dependerá de se essa democracia emergirá dos próximos quatro anos menos vulnerável às tentações autoritárias.
 Editorial do El País

O voto que se perdeu e a fuga de um covarde

Não me espanta que mais um criminoso tenha fugido do país com medo de ser preso. Espanta-me, sim, que o meliante em questão, 48 horas antes, tenha obtido quase 60 milhões de votos para se eleger presidente do Brasil.

As pessoas não sabiam que ele era investigado pelo Supremo Tribunal Federal por evasão de divisas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa? Sabiam ou deveriam saber. Era público e notório. Mas pouco importou.

Essa conivência das urnas expõe um profundo cinismo institucional e o enfraquecimento do nosso pacto democrático. Ao chancelar o nome de alguém que despreza o próprio sistema legal que pretendia chefiar, o eleitorado normalizou a ideia de que as leis só se aplicam aos adversários. O resultado é a erosão do princípio republicano fundamental de que ninguém está acima da lei, substituído por um pragmatismo amoral que corrói a confiança nas regras do jogo democrático.


Na verdade, a polarização política cegou o discernimento ético, transformando o candidato em um símbolo de guerra cultural intocável. Para os seus eleitores, os crimes de colarinho branco e o desvio de recursos públicos foram relativizados e justificados sob o pretexto de uma suposta perseguição, provando que a paixão cega por um líder há muito substituiu o compromisso com a moralidade pública.

Não sabiam que ele, se derrotado, tentaria evadir-se? Claro que sim. Um irmão dele que vive nos Estados Unidos, em entrevista a um podcast na semana passada, antecipara que ele fugiria, caso não se elegesse. Antes do golpe de 8 de janeiro de 2023, o pai dele também voou em busca de proteção em terra alheia.

Família que bate continência para a bandeira americana compartilha dos mesmos
valores e, por mais que brigue entre si, permanece unida. “Deus, pátria e família” acima de tudo – aqui ou em qualquer outro lugar. Faltou incluir dinheiro, de preferência muito e sujo.

O que assistimos ontem não foi apenas a fuga covarde de um indivíduo que tem contas a pagar com a justiça, mas o retrato de um país anestesiado, onde metade do eleitorado escolheu fechar os olhos para o abismo e continua insanamente a ampliá-lo.

Validar nas urnas quem já desprezava as leis e só defendia a ordem bruta e o tacão é a prova cabal de que a nossa crise moral é muito mais profunda e crônica do que qualquer crise política ou econômica.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Pensamento do Dia (que seja eterno por décdas)

 


Uma frente ampla pela democracia

O deputado André Janones afirmou, em uma das últimas mensagens que dirigiu antes do segundo turno aos apoiadores virtuais de Lula que organizou nas redes sociais, que o próprio Lula dissera a ele que, "nas eleições anteriores, tinha sido eleito por um partido, mas agora seria eleito pelo povo". O futuro da governabilidade do país depende de que Lula esteja realmente convencido do que disse.

A significativa vitória no segundo turno, com números muito expressivos, não terá sido motivada por adesão a uma agenda apresentada por ele. Se assim fosse, teria impactado as urnas já no primeiro turno. A grande virada decorre, fundamentalmente, da (auspiciosa) rejeição do extremismo autoritário por parte de uma majoritária parcela da população que é muito maior do que o eleitorado de qualquer partido ou coligação. Felizmente, a maioria da população tomou consciência a tempo do risco que corria a democracia e transformou o segundo turno num plebiscito a favor da democracia.


Resta esperar que Lula tenha aprendido a lição (mesmo que com quatro anos de atraso). Sua candidatura não foi uma lista partidária: no segundo turno, tornou-se — ainda que não reconhecida explicitamente — uma "frente ampla", no sentido clássico do termo: união de forças políticas bastante diferentes em defesa de um núcleo de valores centrais que está sob grave ameaça — no caso, a democracia e o Estado de Direito. Por conseguinte, a maioria eleitoral não autoriza o eleito a perseguir unilateralmente seu programa político; seu mandato é o de articulador de um acordo nacional, produto de um pacto entre os diferentes segmentos da sociedade que pretendem viver sob a democracia e o Estado de Direito: partidos, sindicatos, associações profissionais e empresariais, organizações da sociedade civil.

Somente uma pauta estruturante negociada de forma autêntica e transparente com todos esses atores sociais permitirá superar os enormes obstáculos que estão na volta da esquina e que ameaçam fazer derreter o futuro governo na paralisia decisória e na ameaça de uso partidário do instrumento do impeachment. Não são perigos triviais: uma maioria de direita (dividida entre uma fração profundamente clientelista e outra fração extremista) em ambas as Casas do Legislativo, maioria essa que tem incentivos ao bloqueio de qualquer iniciativa de política pública de natureza redistributiva ou de resgate dos padrões de legalidade e moralidade na vida pública; um ajuste fiscal que se vai impor independentemente da vontade do governo de turno (seja por meio de medidas de política fiscal, seja por meio de desvalorização cambial e inflação); uma fragilidade financeira do setor público que compromete toda e qualquer iniciativa de enfrentamento dos problemas nacionais pelo governo federal.

Sem pactuar com segmentos sociais relevantes uma agenda mínima, em troca do apoio ativo desses mesmos segmentos pressionando as instâncias institucionais (em especial legislativas e judiciárias) em defesa dos pontos acordados, o caminho do futuro governo é tortuoso e frágil. Somente a pressão social externa, vinda da sociedade organizada, poderá remover os obstáculos impostos às políticas modernizadoras, desde o interior das instituições, pelos grupos de interesses especiais e pela polarização ideológica.

O que se propõe aqui não é um estelionato eleitoral, nem ignorar o programa escolhido pelas urnas: as urnas escolheram uma configuração de poderes que, se observadas as regras procedimentais da democracia (das quais Lula é inequivocamente um defensor), não apenas impedirá quaisquer propostas que tenha a coligação vencedora, mas imporá severos retrocessos em políticas públicas e regras institucionais. O papel histórico de Lula será, ao contrário, atuar dentro dessas regras democráticas (e sob essa correlação de forças conjuntural desfavorável) para preservar, na máxima extensão possível, as conquistas sociais que ficarão sob ameaça.

Somente uma articulação social ampla, captando apoios fora da coalizão do Executivo, permitirá conter a pressão do poder econômico para que o custo do ajuste recaia sobre os mais pobres; somente uma coligação com a sociedade civil permitirá avançar medidas de restauração do caráter republicano do funcionamento de muitos aspectos de instituições como o judiciário, as big techs ou as emendas orçamentárias. Ignorar essa realidade, e pretender que os recursos de poder isolados do Executivo levarão a resultados nessas arenas fundamentais, significaria abrir mão da única possibilidade de que o interesse público e a proteção aos mais vulneráveis sejam defendidos com alguma eficácia no novo quadro sombrio que se avizinha.

Essa necessidade de buscar pactos sociais traz consigo uma consequência instrumental: para viabilizar a interlocução com os demais agentes, Lula necessita abrir o núcleo decisório do governo às forças que autenticamente compuseram essa frente ampla, para que os agentes que falam em seu nome reflitam na prática essa intenção. Isto traria ainda um imenso benefício adicional: ao dar protagonismo decisório real a novos agentes, fora do núcleo duro partidário que controlou o terceiro mandato, Lula poderia finalmente entregar como legado histórico um conjunto de líderes, localizados em vários pontos do espectro ideológico, que seria capaz de continuar conduzindo a bandeira da democracia. Ao dar espaço real a essas novas gerações, Lula diminuiria o risco de reencontrar daqui a quatro anos os extremistas autoritários estando em posição ainda mais frágil e arriscada do que a que superou nesta eleição.
Ysadora Monteiro e Adrian Albala. Núcleo de Estudos sobre Bicameralismo e Instituições Comparadas (Nebic) da UnB

O povo se levanta e traz a democracia consigo!

Todas as probabilidades apontavam contra a democracia e o pensamento social. Os facínoras emplacavam na melhor posição do primeiro turno, assim como nas pesquisas subsequentes. O Congresso e o Senado foram varridos por extremistas desqualificados. Com um presidente de extrema-direita, a catástrofe seria iminente: direitos seriam perdidos, laços sociais se deteriorariam, as florestas minguariam… Não menos gravoso, correu-se o risco de as garras de urubu da milícia usurparem o governo federal. Mas, em vez de desanimar, o povo não se deixou convencer pelos maus ventos. Se diziam que nunca, na história, um presidente que perdeu no primeiro turno havia vencido no segundo, o povo preferiu responder: os autores do futuro somos nós! A história está em aberto e, assim, aberta a novas possibilidades! Disseram em alto e bom som: basta de derrotismo e de sentimento desmobilizador.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala com eleitores após a vitória e reeleição nas Eleições 2026, na avenida Paulista.


Uma insurreição espontânea explodiu… O povo se levantou e trouxe a democracia consigo!

No sábado, dia 24 de outubro, a Avenida Paulista se nutriu com um fluxo infindável de gente, que não parava. Das ruas adjacentes, pululavam mais pessoas para alimentar a multidão. Um forte clima de coletividade se instalou. O prenúncio de uma vitória!

O maior esforço foi o do Brasil Profundo. Canoas e rabetas, barcos e balsas irrompiam pelas vias fluviais, pontilhadas de bandeiras vermelhas que apontavam para o céu. Ônibus e vans lotaram. O povo brasileiro decidiu não se prostrar e, ao se movimentar, encurtando distâncias e driblando obstáculos, trouxe a democracia consigo. Indígenas, ribeirinhos, quilombolas e o povo comum também carregavam o motor da história, o fazer da democracia, e, assim, inverteram tendências e dissiparam o pessimismo. Os autores do futuro somos nós!

O clima das mobilizações era de solidariedade, apoio mútuo e união de esforços em torno de uma causa comum. Idosos eram carregados, enquanto choravam de emoção. Ou, livres, se apoiavam em bengalas, arrastavam andadores… Não importa, uma rede espontânea de solidariedade foi posta em andamento. Muito diferente da tônica das manifestações do outro lado: palavras odiosas, clima de hostilidade, misoginia e racismo – em um desses escabrosos atos, um homem negro, vestido de vermelho, andava acorrentado a um homem branco.

Nem a deliberada obstrução eleitoral foi capaz de conter a rede de solidariedade democrática que se ergueu. Por exemplo, o lado contrário, valendo-se da máquina pública, indisponibilizou frotas de ônibus. Vias foram bloqueadas e alguns chegaram a depredar urnas para impedir que se digitassem os números 1 e 3. Nada disso adiantou, fizemos história!

Lição: “A única luta que se perde é aquela que se abandona”. O povo é resiliente. Mesmo diante da interferência dos EUA, por meio da manipulação de algoritmos nas redes sociais, mesmo diante da máquina pública dos governadores de direita montada para nos sabotar e mesmo diante de um sistema inteiro contra nós, pelo menos metade da população disse: FLÁVIO BOLSONARO JAMAIS!

Virada histórica terá impacto nos próximos anos

Ainda é cedo para muitas conclusões. A extraordinária mobilização popular que tirou Lula de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no segundo certamente não será esquecida.

Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula. Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os eleitores de uma volta da família Bolsonaro.

Se isso for interpretado corretamente, nunca mais teremos um Bolsonaro disputando uma eleição majoritária. A direita poderá se libertar dessa liderança. Isso não significa que ela desaparecerá. Apenas ocupará um lugar mais modesto, compatível com seu nível de radicalidade.


No discurso da vitória, Lula mencionou a questão digital, que teve grande papel na sua vitória. Usará as redes sociais para se comunicar e, possivelmente, todo o governo seguirá seu caminho. Com o tempo, o governo perceberá que o meio digital precisa dominar todas as suas instâncias. Não se trata apenas de melhorar a imagem de governantes. Trata-se principalmente de tornar mais fácil a vida de cidadãos e empresas que necessitam dos serviços públicos.

A adesão da campanha à disputa nas redes sociais mostrou também que houve avanço nesse campo. Isso graças ao trabalho de André Janones, cuja eficácia reconheço, apesar de divergir de seus métodos.

No discurso da vitória, Lula mencionou o sucesso no combate ao desmatamento, sinal de que fortalecerá sua política ambiental. A derrota de Flávio Bolsonaro pelo menos espantou o fantasma de perdermos décadas de trabalho para construir uma das melhores legislações ambientais do planeta.

O perigo ainda existe num Congresso dominado por negacionistas. Mas o antídoto está aí: a união da minoria eleita com boas intenções com a opinião pública mobilizada pode dar uma chance de resistência vitoriosa. Foi assim na lei que, de certa forma, ameaçava privatizar as praias. Nada está totalmente decidido no ano que entra. Haverá luta, mas ela acontecerá num novo contexto.

Lula não falou mais das emendas parlamentares usadas pelo Congresso. Disse apenas que lançaria mão delas para financiar o transporte gratuito aos fins de semana. Sabemos que isso não é fácil. Para atenuar o impacto negativo das emendas, serão necessárias a vigilância da Justiça e forças-tarefas da Polícia Federal. São quase R$ 60 bilhões, indispensáveis para um plano de governo. Quando esse problema será resolvido? A mobilização histórica e a própria eleição se enfraquecem se o governo central não pode usar o Orçamento de forma racional.

Finalmente, o discurso da vitória fala nos data centers que o Brasil poderia atrair. Precisamos de um ou outro. Mas o paraíso dos data centers seria um inferno para os moradores, porque eles usam energia e água em grande quantidade. A resistência a eles é grande tema político nos Estados Unidos.

Tudo isso pode esperar. O governo se prepara neste fim de ano, e o fim das eleições é um alívio. Inclusive para nós que estamos saudosos de novos temas.
Fernando Gabeira

Lula, a epopeia do mundo à esquerda

É difícil encontrar, entre os 120 líderes mundiais que discursaram nas Nações Unidas em setembro, uma vida e uma trajetória política tão singulares e épicas quanto a do filho de Dona Lindu. Sua mãe ocupa um lugar de destaque na narrativa que Luiz Inácio Lula da Silva (80 anos, Garanhuns, Pernambuco) construiu sobre sua vida. Em seu décimo discurso perante a Assembleia Geral, o presidente do Brasil (2003-2009 e desde 2023) falou de grandes conceitos como soberania, democracia e multilateralismo, mas em comícios, gosta de mergulhar no pessoal. E de contar como sua mãe lhe ensinou, por meio de seu exemplo diário, as lições que forjaram seu caráter. “Dona Lindu, analfabeta, mãe de oito filhos pequenos, teve a coragem de deixar meu pai. Morou num barraco, criou oito filhos e transformou Lulinha nesta bela pessoa que fala com vocês hoje”, lembrou o veterano político no início de sua sétima campanha presidencial, em agosto. O cenário era uma homenagem nostálgica ao passado, naquele estádio que reuniu os trabalhadores contra a ditadura.

No domingo, ele enfrentou mais uma batalha decisiva. A enésima. Dona Lindu também lhe ensinou a nunca desistir. Uma perseverança que ele demonstrou nas três semanas desde o choque da derrota no primeiro turno. O senador Flávio Bolsonaro, herdeiro do clã da extrema-direita, o derrotou por 47% a 45% . Bolsonaro Jr. provou ser um adversário mais difícil do que o esperado. Mas Lula escreveu mais um capítulo heroico em sua biografia com uma virada no segundo turno que ninguém previa. Ele obteve, assim, sua terceira reeleição não consecutiva e, na maior democracia da América Latina, interrompeu o avanço regional da extrema-direita na região.


Em seu comício de lançamento de campanha, ele agradeceu aos compatriotas por depositarem sua confiança, por três vezes, em um homem com quase nenhuma formação acadêmica para liderar o país. A última vez, após uma excepcional ressurreição política . Nestas eleições, proclamou na ONU, “vamos decidir entre democracia e negacionismo, se o Brasil caminha rumo a maiores oportunidades ou retorna a um passado de exclusão”. Os resultados eleitorais amplificam o legado do líder do Partido dos Trabalhadores (PT) após seis décadas na política, o combustível que o sustenta. Tirar milhões da pobreza é a maior conquista de sua vida. Ele teve que lidar, no entanto, com o cansaço entre seus compatriotas após cinco governos do PT em um quarto de século.

Lula possui uma capacidade de trabalho árduo e um otimismo que o impedem de sucumbir às piores adversidades, sejam elas a prisão, a viuvez ou as três derrotas eleitorais que precederam sua ascensão histórica ao poder no início do século. Ele também se recuperou de um câncer. E, tendo superado o choque de não ter conseguido uma vitória parcial desta vez, reagrupou-se e alcançou uma mobilização da esquerda sem precedentes em muitos anos.

Poucos democratas governaram por tanto tempo. Ele cumpriu três mandatos (2003-2010 e 2023-2026) em um país tão complexo e diverso, com 214 milhões de habitantes. Entre os governantes brasileiros, apenas o imperador Pedro II e Getúlio Vargas permaneceram no poder por mais tempo que Lula.

Sua história de vida é amplamente conhecida e sua trajetória ainda inspira os brasileiros mais desfavorecidos (embora metade do Brasil nutra um profundo ódio por ele). Ele deixou a fábrica metalúrgica onde perdeu o dedo mínimo da mão esquerda para lutar dentro do sindicato. Fundou o PT (Partido dos Trabalhadores) em 1980, após perceber que não havia trabalhadores no Congresso, nem ninguém defendendo os direitos das massas que construíram a economia.

De lá, ele foi para o palácio presidencial com a missão, então quase revolucionária, de “incluir os pobres no orçamento”. Lula dedicou sua vida política à redistribuição de renda com o objetivo de superar injustiças históricas. Os governos do PT criaram oportunidades inimagináveis para outros brasileiros que, como ele, nasceram na pobreza e na fome . Como gosta de lembrar, os filhos de empregadas domésticas e porteiros agora podem se tornar médicos ou diplomatas.

Frei Betto é um amigo próximo que mantém desde os tempos em que era inimaginável que Lula um dia entraria para a história. Eles se conheceram quando o escritor e frade dominicano liderava o ministério dos trabalhadores na zona industrial de São Paulo e o pernambucano liderava o sindicato dos metalúrgicos. O frade, agora com 82 anos, faz campanha para Lula, mas apoia candidatos mais à esquerda e acaba de publicar o livro * Anatomia do Poder*. É assim que ele explica a fórmula de Lula: “Ele exerce o poder com muita tolerância, sempre aberto ao compromisso. É algo que vem de sua época como líder sindical, quando lidava com os patrões da indústria. Isso exigia muita perspicácia política.”

Ele é um pragmático nato . E depois há o seu lendário charme pessoal, que lhe permitiu conviver bem com um líder tão agressivo e ideologicamente oposto como Donald Trump. O seu amigo não se surpreende. “Ele é muito habilidoso; mesmo aqueles que não gostam dele mudam de opinião quando o conhecem”, diz. “Ele não fala apenas com a voz: é muito afetuoso, toca nos braços das pessoas.”

Mesmo uma interação mínima com ele basta para confirmar que o presidente olha nos olhos de seu interlocutor, seja ele o presidente de um país minúsculo, um morador de rua, um agricultor da região mais pobre do Brasil ou o chefe de uma multinacional. Ele cumprimenta com um toque de braço, chama outros chefes de Estado de ” companheiro” e adora quebrar o gelo em ambientes mais formais com piadas ou anedotas de futebol. É torcedor do Corinthians, o time de Sócrates Brasileiro, e da Democracia Coríntia, um movimento da ditadura que seria impensável hoje em dia.

Uma fonte do governo Lula enfatiza sua autenticidade. “Ele realmente não muda entre suas viagens ao exterior para se encontrar com líderes estrangeiros e seu comportamento no Brasil. Ele diz o que pensa; não tem muitos filtros.” Sua maneira de exercer o poder “é muito democrática. Ele é muito inclinado ao compromisso, à busca de consenso. Mas desde que saiu da prisão, não ouve mais ninguém”, lamenta a fonte.

O doloroso calvário da prisão (580 dias por um caso arquivado por questões processuais) não azedou seu humor. Seu amigo sente que Lula está mais sozinho. Ele lamenta que Lula não tenha mais o pequeno grupo de amigos próximos que o acompanhou durante seu primeiro mandato no poder. Alguns faleceram, outros se distanciaram.

“Esses amigos até lhe disseram coisas que ele não queria ouvir, mas esse grupo já não existe. Não sei com quem ele conversa em momentos de dúvida”, observa o frade dominicano. Ele acredita que o problema não está em Lula em si, mas nas pessoas ao seu redor: “Acho que ele ouve, mas sinto que às vezes as pessoas ao seu redor não se atrevem a lhe dizer certas coisas”. Ele acrescenta que sempre conversou com Lula “como ele conversava com Fidel [Castro], livremente, sem se preocupar em agradá-lo ou não”.

Sim, ele ouve muito a esposa, segundo o próprio presidente. Janja da Silva, socióloga e membro do Partido dos Trabalhadores (PT), já não goza da enorme proeminência política de outrora. Além de influenciar a visão do marido sobre certos temas, como o feminicídio, sua terceira esposa supervisiona de perto sua rotina. Ela garante que ele se alimente bem e descanse o suficiente. A idade começa a pesar, embora Lula pratique exercícios (rotina que adotou na prisão), algo que recomenda a todos os brasileiros.

Todas as manhãs, antes de ir para o escritório, ele levanta pesos e caminha em ritmo acelerado na academia. Sua esposa e seu fotógrafo pessoal transformam essas sessões em vídeos aparentemente informais, parte de uma estratégia cuidadosamente elaborada para projetar uma imagem ativa e jovial do presidente, que completará 81 anos após as eleições.

Sua idade é irrelevante para a grande maioria do eleitorado (exceto para o filho de Bolsonaro, que o acusa de estar “ultrapassado”). Sua idade e saúde foram ignoradas nesta campanha, que se concentrou em diversos escândalos de corrupção, incluindo um caso envolvendo um de seus cinco filhos: Fábio Luís da Silva, da Lulinha, está sendo investigado por tráfico de influência .

Em 2021, o líder da esquerda brasileira sofreu um grave problema de saúde. Ele passou por uma cirurgia de emergência após sofrer uma hemorragia cerebral, consequência de uma queda em casa. Recuperou-se sem sequelas. Este ano, fez radioterapia para tratar um câncer de pele. Por isso, está usando boné. De perto, parece em boa forma, com ocasionais sinais de cansaço. A reta final da campanha, com eventos em vários estados em um único dia e viagens de milhares de quilômetros em avião particular, exauriria qualquer um.

Embora tenha afirmado durante a campanha de 2022 que não concorreria à reeleição, seu amigo Frei Betto recebeu a declaração com considerável ceticismo. Ele deixou isso bem claro quando, após receber a faixa presidencial pela terceira vez e cumprimentar as autoridades estrangeiras convidadas, o chefe de Estado dedicou 40 minutos a sós com ele no final do dia, no Ministério das Relações Exteriores.

—Presidente, quero parabenizá-lo pela sua penúltima campanha.

—O quê, penúltimo? Você está exagerando — ele me disse, rindo.

Frei Betto estava convencido de que em 2026 Lula lançaria outra candidatura presidencial por uma razão óbvia, clara para todos verem, mas da qual ninguém fala nesta campanha ou no círculo íntimo de Lula. “O PT não preparou nenhum outro líder para o futuro. Um problema sério”, enfatiza o escritor. O octogenário Lula ainda não tem um sucessor claro à vista, por sua própria escolha. É uma questão que ele sempre adiou. Enquanto isso, em comícios, ele brinca dizendo que tem um pacto com Deus para viver até os 120 anos.
Naiara Galarraga Gortázar

Amasso de Lula muda o cenário das paixões políticas

Na vida e nas eleições — a experiência e a fábula de Esopo ensinam — não se deve contar com o ovo dentro da galinha. Ainda mais quando o adversário é Lula, um animal político de 80 anos e sete campanhas presidenciais.

Atordoado pela derrota no morno primeiro turno, Lula publicou no dia 7 de outubro um vídeo em formato selfie, talvez o primeiro que tenha feito como candidato. Muita gente riu do velhinho de voz rouca, sem jeito com a tecnologia, vestindo uma camisa social azul. Mas a mensagem, simples e que se mostraria infalível, estava lá: "Bora, gente, pra rua".


Foi usando as redes sociais e recuperando a participação popular nas ruas, dois terrenos em que o bolsonarismo levou vantagem nos últimos anos, que o petista conseguiu a histórica remontada de votos no segundo turno. O deputado federal André Janones —um grande personagem das eleições de 2026— criou no WhatsApp o canal "Exército do Lula", alcançando mais de 10 milhões de seguidores; o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, fez de tudo para tirá-lo do ar, sem conseguir.

Enquanto Flávio Bolsonaro exibia-se em cima das tamancas ("Acabou a era PT") e perdia dois debates seguidos na televisão por soberba, deboche e decoreba de propostas, uma multidão de lulistas, a maioria jovens, lotou por duas vezes a avenida Paulista e a orla de Copacabana, uma maré que não se via desde a campanha das Diretas. O cenário das paixões políticas, sequestrado pela extrema direita, mudou de lado.

A rejeição ao filho 01 cresceu, conseguindo neutralizar o antipetismo de chegada. As taxas de abstenção e de votos inválidos sofreram uma queda recorde e atingiram os níveis mais baixos em 20 anos. As urnas, mais do que falar, gritaram: Lula saiu de uma desvantagem de 2,2 milhões de para uma vantagem de 4,4 milhões, uma virada de 6,6 milhões de votos na diferença entre os candidatos. Um amasso nacional (até na cidade do Rio, quem diria?).

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Mercado fez bet em Flávio, perdeu e vai cobrar a conta do governo

O governo que acorda nesta segunda-feira (26/10) não mudou desde sexta. Nenhuma medida foi anunciada, nenhum ministro deixou o cargo e nenhum indicador piorou no fim de semana. A diferença entre os dois dias está no resultado de uma bet que boa parte do mercado financeiro fez na eleição presidencial.

Durante semanas, grandes investidores se posicionaram para a vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Lula (PT) foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21%, e a fatura apareceu antes mesmo da abertura da B3. Na noite de domingo, o EWZ, fundo de ações brasileiras negociado em Nova York, chegou a cair 18,29% no pregão noturno. Em Chicago, o real recuou mais de 11% no mercado futuro, com dólar implícito perto de R$ 5,50. Como o EWZ é cotado em dólar, a queda dele soma o tombo das ações e o da moeda.


O próprio mercado batizou o movimento de trade eleitoral, nome dado às estratégias de curto prazo montadas em cima do cenário político. Ele ganhou força em setembro, quando as pesquisas passaram a mostrar empate técnico, e deixou rastro nos números. Os contratos de opção que ganham com o Ibovespa a 200 mil pontos depois do segundo turno aumentaram em 4,5 milhões num único dia e chegaram a 5,6 milhões em aberto. Naquele momento, o índice ainda rondava os 175 mil. Segundo a B3, o volume médio diário das opções semanais mais que dobrou, de R$ 50 milhões em 2025 para R$ 106 milhões neste ano.

Quem operava não escondia a natureza do jogo. Ao comentar a entrada de estrangeiros de olho numa troca de governo, o chefe da corretora de um banco estrangeiro no Brasil admitiu publicamente que se tratava de uma aposta.

Flávio terminou o primeiro turno, em 4 de outubro, à frente de Lula, com 47,03% contra 45,16%. No pregão seguinte, o Ibovespa disparou 7,70% e passou pela primeira vez dos 200 mil pontos, enquanto o dólar caiu 4,12%. Os estrangeiros colocaram R$ 10 bilhões na bolsa naquele dia, o maior aporte diário desde o início da série, em 2012. J.P. Morgan e Morgan Stanley elevaram a recomendação para o Brasil, o Citi aumentou sua exposição e o Morgan Stanley chegou a projetar o Ibovespa em 250 mil pontos. Ao mesmo tempo, investidores desmontaram as proteções em dólar e reforçaram as apostas na alta depois do segundo turno.

Entre os dois turnos, o Ibovespa subiu 6,9% e bateu recorde de 209 mil pontos, e o dólar caiu 4,4%, para R$ 4,98. Tudo isso com as pesquisas apontando uma disputa de cara ou coroa. O último Datafolha mostrava empate em 50% dos votos válidos. Mesmo assim, boa parte do dinheiro foi para um lado só.

A bet tinha como premissa que Flávio faria um ajuste fiscal. O candidato, porém, passou a reta final prometendo gastar. No debate da Globo, na sexta-feira (23), declarou apoio à tarifa zero nos ônibus aos fins de semana, bandeira lançada por Lula e que ele próprio havia ironizado oito dias antes. Não disse de onde sairia o dinheiro. A NTU, que reúne as empresas de ônibus, estima o custo de uma tarifa zero nacional aos sábados, domingos e feriados em R$ 20,8 bilhões por ano. Flávio também prometeu reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação, inclusive os benefícios rurais. Auxiliares da campanha, porém, tinham discutido limitar esses reajustes à inflação.

A lista seguia com outros compromissos. Flávio garantiu o piso de R$ 600 do Bolsa Família e uma transição para quem conseguisse emprego formal. Prometeu ainda um voucher para creches privadas, sem valor definido, e o Vira Pix, que devolveria a todos os brasileiros parte do que pagam via Pix em contas de luz, prestações e taxas. A campanha não informou percentual nem custo do Vira Pix, que nem constava do plano de governo registrado no TSE. Havia também a retomada do Perse, programa de socorro ao setor de eventos, a promessa de comprar dívidas de endividados e o pedágio zero para motociclistas nas rodovias concedidas.

Flávio falava em cortes amplos de gastos sem dizer onde, enquanto propunha pensões maiores, isenções tributárias e reembolsos ao consumidor. Na reta final, os dois candidatos defendiam as mesmas bandeiras caras, mas só um deles virou bet na bolsa.

Com a reeleição confirmada, a conta chegou. Operadores preveem circuit breaker logo na abertura, com queda acima de 10% do Ibovespa, e estouro dos limites de oscilação no dólar e nos juros futuros.

Ninguém foi pego de surpresa. Numa pesquisa do Citi, 79,5% dos investidores esperavam queda de mais de 5% do Ibovespa em caso de vitória de Lula. As casas de análise chamavam a segunda-feira de binária, com rali para um resultado e devolução para o outro. O mercado sabia que estava escolhendo um lado.

O que muda de sexta para segunda é o preço de posições que só faziam sentido com outro presidente. Operadores ligam o risco de circuit breaker à alavancagem montada na própria sexta, quando o dólar caiu e a bolsa subiu na véspera da votação. Quem estava comprado em Flávio precisa sair ao mesmo tempo e pela mesma porta, e é isso que amplia a queda.

Parte do movimento é apenas volta ao ponto de partida. Em 2 de outubro, antes do primeiro turno, o Ibovespa estava em 192 mil pontos e o dólar em R$ 5,22. Citi e Goldman Sachs já previam a reversão do rali se Lula fosse reeleito. Os preços no exterior vão além disso, como costuma acontecer quando apostas alavancadas são desfeitas às pressas. A perda existe, mas é de quem fez a bet.

Vinicius, o Brasil é raro demais para tanto ódio

Vinicius, nesta sexta-feira de outubro, voltei ao seu poema “Pátria minha”. Li devagar, como quem abre uma carta recebida há muito tempo e encontra nela alguma coisa que ainda precisa ser respondida. Você estava em Los Angeles, distante do Brasil, olhando o filho adormecido. Na respiração daquela criança, descobriu uma imagem da pátria. Imagino a solidão daquele quarto, a saudade do Rio de Janeiro e você, homem feito, chorando por um país.

Sempre me comoveu sua maneira de amar o Brasil. Enquanto outros o celebravam com palavras grandiosas, você desejava acariciar-lhe os cabelos, beijar-lhe os olhos, niná-lo como uma filha pequena. Sua pátria tinha corpo, sentimentos, necessidades. E aquela pobreza que nos acostumamos a traduzir em estatísticas aparecia em três versos de uma delicadeza quase insuportável:

“De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!”


Preciso lhe contar uma lembrança, poeta. Dessas que os anos preservam com tamanha nitidez que parecem ter acontecido ontem.

Era quarta-feira, 9 de julho de 1980. Eu dirigia um departamento do Banco do Nordeste, na Rua do Rosário, no centro do Rio de Janeiro. A Rádio JB anunciou sua morte. A notícia percorreu as mesas, interrompeu conversas, alcançou os corredores. Recordo a tristeza nos rostos, o silêncio inesperado, aquela sensação de perda que nos aproxima mesmo quando mal nos conhecemos.

Naquele dia, o banco pareceu fechar para balanço. Um balanço diferente de todos os outros. Contas, saldos, títulos, aplicações e relatórios perderam a importância habitual. Era um balanço emocional. Nenhum número conseguiria expressar o que sentíamos. Nenhuma rubrica permitiria registrar o tamanho daquela ausência. A morte de um poeta havia conseguido suspender, por algumas horas, a rigorosa disciplina de uma instituição financeira.

Na manhã seguinte, mais da metade dos meus colegas apareceu vestida de preto, num luto ostensivo. Outros prenderam à roupa, com pequenos alfinetes, pedaços de pano negro. Vivíamos ainda sob a ditadura militar. Aqueles sinais de pesar, discretos em alguns, eloquentes em tantos outros, constituíam uma homenagem que nenhum cerimonial poderia reproduzir. Ali estavam funcionários, chefes, auxiliares, pessoas habituadas a conversar sobre juros e negócios, reunidas pela tristeza de perder alguém que lhes ensinara a amar através das palavras.

Esqueci centenas de documentos que passaram por minhas mãos. Mas nunca esqueci aqueles retalhos pretos. Hoje compreendo melhor o que testemunhei. Havia entre nós uma espécie de fraternidade nascida da admiração, uma consciência compartilhada de que perder um poeta significava perder também uma maneira singular de compreender a vida.

Pois bem, Vinicius. Preciso atualizar suas notícias do Brasil.


A menina cresceu. Aprendeu a fabricar aviões, transplantar corações, produzir ciência respeitada internacionalmente e desenvolver tecnologias que você dificilmente conseguiria imaginar. Somos uma das dez maiores economias do planeta, com a oitava posição projetada para 2027. Entretanto, continuamos convivendo com crianças famintas, mulheres agredidas, trabalhadores humilhados e famílias que precisam escolher quais necessidades poderão atender com o dinheiro disponível.

Há uma perversidade nessa convivência entre abundância e privação. A riqueza nacional avança pelos gráficos enquanto milhões de brasileiros ainda aguardam sua parte nas promessas de prosperidade. Como jornalista, conheço a linguagem dos relatórios econômicos. Sei quanto uma porcentagem pode esclarecer. Sei também quanto sofrimento humano consegue esconder.

E há uma coisa que gostaria de lhe dizer com especial orgulho. O Brasil é cobiçado por ser raro, Vinicius, e não apenas por possuir terras raras. Há minerais estratégicos no subsolo, rios imensos, florestas preciosas e riquezas naturais disputadas por interesses poderosos. Mas nosso maior patrimônio inclui a diversidade dos povos, a sabedoria indígena, a herança africana, a música, a literatura e a criatividade de uma população que conseguiu construir uma cultura extraordinária.

Somos um país de singularidades que nenhum inventário mineral conseguiria descrever. Talvez por isso me cause tanta indignação perceber quantas vezes nossas riquezas despertam mais atenção que nossos habitantes. Disputam nossas reservas naturais, nossos mercados, nossa capacidade de produzir alimentos e energia. Entretanto, o valor de uma criança brasileira continua sendo frequentemente esquecido nos cálculos daqueles que decidem sobre o futuro.

Você também encontraria um mundo estranho, poeta.Agora temos redes sociais. Milhões de pessoas podem conversar simultaneamente, publicar opiniões, compartilhar conhecimentos, atravessar fronteiras sem sair de casa. Parecia uma oportunidade extraordinária de democratizar a palavra. Mas parte desse território foi sequestrada por uma epidemia de estupidez, intolerância e violência.

Ali prosperam manifestações de inspiração fascista, ataques misóginos, ameaças e humilhações públicas. A mentira circula com impressionante velocidade. A crueldade encontra seguidores. Há quem confunda agressividade com inteligência e preconceito com liberdade. Mulheres são perseguidas por manifestar opiniões, jornalistas recebem ameaças, pessoas comuns tornam-se alvos de campanhas de difamação.

Imagino você diante dessas telas, tentando compreender por que tantos seres humanos passaram a sentir prazer em ferir desconhecidos. Você, que conheceu as contradições do amor, as fragilidades humanas e a beleza das imperfeições, encontraria uma época em que a delicadeza frequentemente precisa defender-se da brutalidade.

Não quero, contudo, entregar-lhe apenas notícias tristes.

A alegria brasileira continua vivendo nas canções, nas festas populares, nos encontros familiares, nas crianças que inventam brincadeiras em qualquer pedaço de chão. Conheço professores que compram livros para seus alunos, vizinhos que dividem o almoço, mulheres que sustentam famílias inteiras trabalhando até a exaustão. Mas aprendi a desconfiar de quem transforma a resistência dos pobres numa virtude nacional. Ninguém deveria precisar demonstrar heroísmo diariamente para exercer direitos elementares.

Tenho netas, Vinicius: Cecília, Lua, Nina, Jade, Clarissa, Eva.

Conheço a emoção de sentir a mão pequena de uma criança procurando a minha. Aprendi que uma pergunta infantil pode ser mais exigente que muitos tratados de filosofia. Talvez por isso me doa tanto pensar nas meninas brasileiras que crescem aprendendo a distinguir o que lhes é permitido sonhar daquilo que suas condições de vida lhes oferecem.

E agora chegamos à notícia que mais gostaria de lhe contar. Aquela menina que você encontrou descalça tornou-se avó. Tem 77 anos.

Imagine-a, poeta. Os cabelos embranqueceram. O rosto conserva as marcas de alegrias e sofrimentos. Os pés guardam cicatrizes de uma caminhada difícil. Ela conheceu o medo da repressão, assistiu ao retorno da democracia, viu nascer novas gerações e descobriu que algumas conquistas exigem vigilância permanente. Carrega fotografias antigas, lembranças de pessoas queridas e a saudade particular de quem já viveu o bastante para compreender a fragilidade das coisas.

Pois neste domingo, 25 de outubro, imagino essa menina-avó caminhando em direção às urnas, trazendo pela mão seis netas, com idades entre 16 e 25 anos.

Gostaria que você pudesse vê-las.

São jovens que nasceram cercadas de tecnologias, cresceram ouvindo discussões sobre direitos humanos, mudanças climáticas, democracia e inteligência artificial. Possuem ideias próprias, fazem perguntas difíceis, discordam umas das outras. Conhecem um mundo que seria quase irreconhecível para sua geração. Mas continuam desejando aquilo que sempre moveu os seres humanos: liberdade, segurança, respeito, oportunidades e o direito de construir a própria felicidade.

A avó caminha devagar. Uma das moças lhe oferece o braço. Outra pergunta se trouxe o documento. A mais jovem se adianta para verificar onde fica a seção eleitoral. Gosto de imaginar esses pequenos gestos. Há neles uma ternura que dispensa discursos. E uma continuidade entre gerações que me comove particularmente.

Dentro da cabine, cada uma escreverá uma nova estrofe do seu belo poema. Serão versos diferentes, nascidos de consciências livres. Não precisam rimar entre si. A democracia permite que pessoas que se amam discordem profundamente sobre o futuro. E talvez uma de suas maiores exigências seja justamente aprender a preservar o afeto sem exigir a renúncia às convicções.

A velha menina conhece o preço dessa liberdade. Sabe o que significa viver numa sociedade em que o medo alcança as palavras, as reuniões, os livros e até as conversas familiares. Suas netas receberam uma herança que precisam compreender para poder preservar. Nenhuma delas deveria conhecer a experiência de ter os próprios pensamentos submetidos à autorização dos poderosos.

Queria conversar com você sobre isso, Vinicius. Sobre a responsabilidade de transmitir às novas gerações alguma coisa além de nossas decepções. Sobre a necessidade de ensinar-lhes que a dignidade humana vale mais que qualquer vitória circunstancial. E sobre o perigo de permitir que o ódio se torne uma linguagem habitual entre pessoas que continuarão vivendo no mesmo país depois das eleições.

Fico imaginando o instante em que a avó terminará de votar. Retirará os óculos, guardará o documento e procurará as netas. Por alguns segundos, talvez recorde outras eleições, antigas esperanças, rostos que desapareceram de sua vida. Depois seguirá em direção à porta, onde as moças estarão esperando.

Gostaria que você estivesse ali, sob a claridade de uma tarde brasileira, para reconhecer a criança dos seus versos naquela mulher envelhecida.

Eu me aproximaria discretamente. Contaria que estava no Banco do Nordeste no dia de sua morte, que nunca esqueci os colegas vestidos de preto, que sua poesia continuou me acompanhando durante décadas. Talvez conversássemos sobre nossas famílias, sobre o Rio de Janeiro, sobre essa estranha capacidade que temos de amar profundamente um país que tantas vezes nos entristece.

Então as sete mulheres seguiriam pela calçada. Uma delas contaria alguma coisa engraçada. A avó sorriria. Outra lhe seguraria a mão. Você observaria aquela pequena família afastar-se e compreenderia que sua menina havia atravessado o tempo conservando alguma coisa da infância.

Lembro que você desejava beijar os pés da pátria. Penso nos pés cansados daquela avó, nas longas distâncias que percorreu, nas feridas que ninguém tratou. E penso nas netas, que agora podem ajudá-la a caminhar.

Vinicius, naquele julho distante, nós vestimos preto porque havíamos perdido um poeta. Neste outubro, desejo que as novas gerações encontrem razões para vestir o Brasil com as cores da esperança, sem esquecer as injustiças que ainda precisam enfrentar.

E se você me perguntasse o que mais desejo para nossa menina, responderia sem hesitar: que um dia possa envelhecer sem assistir à fome de seus filhos, à humilhação de suas mulheres e ao desperdício do futuro de suas crianças.

Porque, poeta, a menina do seu poema já envelheceu. O que ainda nos falta é crescer à altura dela.

' Lulinha não vai querer outro mandato, mas vou terminar esse mandato inteiraço'

Feliz o presidente que tem um vice da qualidade, da lisura de comportamento e da lealdade que eu tenho no [Geraldo] Alckmin [PSB]. A primeira coisa é que hoje a minha fala para a imprensa é agradecimento. Nós tivemos o menor número de abstenções da história desse país. Nós tivemos o menor número de votos nulos deste país.

E eu tenho que fazer um agradecimento às pessoas que coordenaram a nossa campanha, aos partidos que participaram junto conosco, mas eu queria agradecer ao povo brasileiro, a generosidade que eles têm comigo há muito tempo. E nesse segundo turno, agradecer a generosidade da juventude brasileira que foi para a rua, foi para rua para defender a democracia.

Quero agradecer às pessoas idosas. Eu vi cenas hoje de pessoas sendo carregadas pelos seus netos para ir votar, pessoas impossibilitadas de se locomover, pessoas com câncer e com outros tipos de doença. E as pessoas foram votar porque nós conseguimos convencê-las de que o voto era muito importante para assegurar a democracia no país. Quero agradecer à sociedade como um todo.

Essa eleição foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência de que um crime no mundo digital tem que ser tratado igual a um crime na vida real. Nós não podemos ter empresas monstruosas de grande, ganhando bilhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país.

Essa eleição foi uma derrota do negacionismo, foi uma derrota da mentira. E eu confesso a vocês que cada vez que eu ia em um debate eu ficava constrangido, porque eu já debati com muita gente, já participei de muitas eleições, me reúno todo ano com G20, com os Brics, com G7, me reúno todo ano com os principais presidentes do mundo discutindo os principais assuntos do mundo, mas eu nunca pensei em me deparar com um representante genuíno do milicianismo desse país. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez. Como se não tivesse dentro dele uma célula de humanismo. Parece tudo falso.

Eu estou dizendo isso porque vocês sabem que o que eu vi nesse segundo turno dessas eleições, o que eu vi em todos os estados brasileiros, mas sobretudo o que eu vi na avenida Paulista ontem, é algo que eu não acredito –que o Alckmin, que foi governador, que participou da campanha das Diretas–, a gente nunca conseguiu ver, não só pela quantidade de gente, mas pelo entusiasmo.

E eu fiquei muito emocionado porque me deu vontade de pedir na frente do Masp (Museu de Arte de São Paulo), pra cantar o Hino da Independência. E eu fiquei boquiaberto de ver o entusiasmo das pessoas cantando o Hino da Independência, sobretudo quando falava “brava gente brasileira, ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”, numa demonstração de que esse país não aceita ser quintal de ninguém.

Como disse uma vez o meu cantor preferido, Chico Buarque de Hollanda, ele gostava do nosso governo porque o nosso governo não falava grosso com a Bolívia e não falava fino com os Estados Unidos. A gente falava igual com todo mundo.

Eu quero agradecer a esse companheiro aqui, o [André] Janones, [deputado federal por Minas Gerais], nosso general que teve um papel exponencial nessa campanha para levantar diariamente, de manhã, de tarde e de noite, a moral da nossa tropa. Não vou falar aqui para vocês, mas essas eleições me ensinou (sic) muitas lições. Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país. Quero dizer para vocês que nós vamos fazer o povo participar mais nas nossas decisões.

E quero dizer para vocês que a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo. Eu inclusive já ganhei um celular do meu comandante Rafael [Fonteles], governador do Piauí. Já estou aprendendo a conversar com meu general e pode ficar certo que daqui pra frente eu vou conversar muito com o povo brasileiro, muitas vezes por dia, diretamente. Não vou ficar permitindo ser interpretado por jornalista com má-fé. Não vou. Eu vou dizer o que eu penso, o que eu faço.

Nessas eleições, eu quero que vocês saibam que uma das coisas que mais me motivou é a gente não permitir que essa gente ganhasse para privatizar o nosso SUS [Sistema Único de Saúde].

Mais uma vez quero dizer para vocês que na medida que a gente ganha as eleições, a gente não tem mais adversário. Eu tenho que governar para 215 milhões, tenho que governar para todas as idades. Mas no próximo mandato eu vou levar muito a sério a política de cuidado com os nossos velhinhos, que são responsáveis pela nossa existência. Quero dizer para vocês que as mulheres serão tratadas com muito mais respeito pelas políticas públicas brasileiras.

Quero dizer para vocês que as religiões serão todas respeitadas em igualdade de condição. Eu não tenho preferência por nenhuma religião. Eu tenho preferência pelo respeito à fé do povo brasileiro. E que eles exerçam a sua fé e a sua espiritualidade do jeito que eles quiserem. Ao Estado laico cabe garantir a liberdade religiosa plena para que as pessoas possam exercitar a sua fé com plenitude.

Quero dizer para vocês que eu vou continuar fazendo a revolução na educação brasileira. Nós iremos universalizar escola de tempo integral nesse país até o ensino médio. Nós vamos universalizar o Pé-de-Meia para o ensino médio e vamos criar o Pé-de-Meia universitário para que nenhum jovem, nenhuma menina desistam de estudar porque tem que trabalhar.

Iremos ensinar mais matemática, mais engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana, eu quero criar uma brasileira.

Nós temos que aproveitar o potencial energético de um país que talvez seja o que tenha mais capacidade de energia renovável para trazer para cá os data centers necessário para acumular também o nosso dado para o Brasil. E essa gente vai ter que deixar uma parte do data center para informações brasileiras.

Nós queremos fazer desse país um país que pare de ser um país em vias de desenvolvimento e se transforme num país desenvolvido. Como diria o Rafael [Fonteles], muito investimento na economia digital, na economia verde e na economia criativa.

Este país vai ser construído não por mim, porque muitas das coisas que eu estou falando aqui eu nem sei, é por vocês. Porque nós vamos exercitar o potencial criativo desse povo a deixar de ser um país periférico. Nós queremos ser um país central nas decisões políticas, econômicas e nas decisões pela paz.


E nós vamos ensinar ao mundo como é que se trata as políticas climáticas nesse país. E esse ano é a primeira vez que a gente consegue reduzir o desmatamento quatro anos consecutivos nesse país. Por isso eu quero agradecer a nossa companheira Marina [Silva, ex-ministra do Meio Ambiente], ao nosso companheiro João Paulo Capobianco [atual ministro do Meio Ambiente], que tiveram um trabalho extraordinário.

Mas sobretudo, gente, nós vamos continuar, companheiro [Alexandre Padilha], fazendo a revolução do SUS. Eu estou convencido de que logo o Brasil será o país do mundo com maior percentual de tratamento de câncer.

Nós temos a nossa querida companheira Ludhmila [Hajjar], cuidando do nosso hospital inteligente, financiado pela companheira Dilma Rousseff, presidente do [Banco dos] Brics, junto com a USP [Universidade de São Paulo]. E vamos ter 15 UTIs [unidades de terapia intensiva] inteligentes nesse país para a gente não permitir que as pessoas morram por falta de tratamento.

Este país está pronto para ser construído. Eu não vou falar a palavra unidade nacional porque essa palavra nem sempre cabe nesse país, mas eu quero que vocês saibam: se depender de mim, esse país só tem que ser civilizado. Esse país tem uma Constituição.

Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos e ele foi eleito para governar com base no respeito à Constituição. Na relação, na relação com o Congresso. Porque já tem gente falando: “o Lula vai ter muita dificuldade para governar porque o Congresso está mais conservador”. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas.

Eu quero dizer para vocês que eu tenho um orgulho muito grande. Primeiro porque eu sou o único presidente da República, um metalúrgico, sem diploma universitário, eleito quatro vezes democraticamente aqui no país. No mundo nós tivemos o [Franklin Delano] Roosevelt, [presidente dos Estados Unidos por quatro mandatos incompletos] que foi eleito quatro anos (sic), mas ele não conseguiu terminar o seu mandato porque ele tinha uma doença muito grave.

Agora, o Lulinha não vai querer outro mandato, mas vou terminar esse mandato inteiraço, correndo mais do que qualquer um de vocês, porque o respeito, o respeito que eu adquiri pelo esse povo e o carinho que esse povo tem dedicado a mim.

As manifestações de carinho que eu tenho recebido, sobretudo das mulheres brasileiras, é uma coisa que eu jamais imaginei, jamais imaginei que um político poderia receber a quantidade de carinho, de homenagem e de palavras carinhosas. Eu devo isso a vocês.

Eu sempre acho que Deus foi muito generoso comigo, porque tem tanta gente mais preparada que eu, tanta gente com mais diploma que eu, tanta gente que já leu mais livros do que eu, tanta gente que já estudou mais do que eu. E por que eu fui escolhido por Deus? Eu fui escolhido por Deus porque eu sempre acho que tem o dedo de Deus na minha cabeça. Eu sempre acho. Então eu quero agradecer a Deus e agradecer a vocês, homens e mulheres desse país, pela força que vocês demonstraram.

Não fui eu e o Alckmin que ganhamos essas eleições. Essas eleições foi a honradez, o nacionalismo, a democracia e o futuro que vocês querem para os filhos de vocês que fez a gente virar. Diz que foi a primeira vez que a gente virou. É importante saber que é a primeira vez que virou, [mas eu] não sei o que virou, porque eu nunca ganhei eleição no meu 1º turno, mas nunca perdi nenhuma no 2º turno.

Eu tenho dois meses pela frente para discutir o governo. Quero me reunir com os empresários, quero me reunir com os educadores, quero me reunir com os cientistas, quero me reunir com as mulheres, vou me reunir com o Corinthians também. Porque porra, o Corinthians já perdeu outra, cara. Aonde que a gente vai? Tá parecendo o Bolsonaro, só perde, porra.

Então, gente, é o seguinte: pode ficar certo que eu quero que vocês anotem o que eu vou dizer aqui. Depois da amanhã, dia 27, eu completo 81 anos de idade, e eu quero assumir um compromisso na frente da imprensa e na frente de vocês: vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na história desse país. Podem ficar certos. Vou dedicar 24 horas por dia para fazer desse país o país que todo mundo sonha, um país em que as pessoas saibam que vão dormir e vão acordar com muita tranquilidade.

O governo federal nunca teve responsabilidade com segurança pública porque a Constituição de 1988 transferiu toda a responsabilidade para os estados. Agora está provado que os estados não dão conta. Nós vamos entrar agora, vamos entrar para devolver, para devolver às mulheres, aos homens, aos trabalhadores, a tranquilidade e a paz que eles precisam. Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão. Um abraço, gente.

Eu vou para a [Avenida] Paulista só para agradecer. E eu quero aproveitar o meu general Janones aqui e dizer o seguinte: eu duvido que a Rússia, que a China e que os Estados Unidos tenham um exército vitorioso como o exército da democracia desse país. Um abraço aos soldados e às soldadas do nosso exército.
Discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na conquista do tetra presidencial

Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva

Com 99,85% dos votos apurados, Lula, do PT, venceu a eleição presidencial com 51,76% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro, do PL, ficou com 48,24%. A catástrofe anunciada, “O Dia Depois de Amanhã”, não veio. Mas o filme não acabou. Vamos ver a sanha com que a extrema direita batida nas urnas tentará reescrever o resultado, deslegitimar o vencedor e manter viva a lógica que enxerga adversários como inimigos a destruir, com todos os riscos institucionais que isso acarreta. “Não sabendo ser impossível, Lula foi lá e fez.” Ou será que o deputado André Janones (Rede-MG) sabia ser possível? Ao quarto mandato, o presidente soma outro ineditismo: nunca ninguém havia vencido uma eleição chegando em segundo lugar no primeiro turno. Aconteceu.


Os sinais da campanha do herdeiro político de Jair Bolsonaro — condenado por tentativa de golpe e hoje em prisão domiciliar — foram péssimos, assim como a barbárie moral promovida por seus seguidores nas redes. A resistência democrática, que ganhou volume na corrida do segundo turno, mostrou que tem fôlego. Ainda assim, como dizem, “a luta continua”.

A democracia brasileira recuou, por ora, da linha de risco. Felizmente, não preciso de malabarismos retóricos para criticar a ideologia mixuruca hoje dominante na análise política, a do “nem-nem” entre a civilização e a fascistização. Se as duas opções se equivaliam, por que tanta gente viveu esta eleição como decisiva?

A pergunta que se coloca agora aos democratas é como lidar com uma mistura exótica que não desapareceu com a derrota: a soma da Internacional da Extrema Direita, que assola todas as democracias, com a vocação — como direi? — dinástica de uma família que fagocitou a direita e confunde o país com o quintal de casa. A derrota do dito “Zero Um” é mais do que um resultado eleitoral: é o freio ao triunfo do ressentimento e da vendeta de golpistas. Mas freio não é fim.

Alguém poderia indagar: “Ah, Reinaldo, isso significa que todos os que votaram em Flávio são tomados por esse ressentimento?” É certo que não. Quase metade dos que votaram o escolheu. Aqui se abre outra chave para entender estes tempos: por que tantos votam contra os próprios interesses?

A resposta está nos clássicos. “A Ideologia Alemã”, de Marx e Engels, ainda é a melhor obra sobre o modo como uma guerra de valores pode mascarar disputas objetivas e distorcer a percepção da realidade. O livro foi escrito entre 1845 e 1846, mas o texto completo só veio a público em 1932. Nele se lê:

“A produção das ideias, das representações e da consciência está, de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui como emanação direta de seu comportamento material. O mesmo vale para a produção espiritual, tal como esta se manifesta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica etc. de um povo. OS HOMENS SÃO OS PRODUTORES DE SUAS REPRESENTAÇÕES, DE SUAS IDEIAS ETC., MAS [SÃO] OS HOMENS REAIS E ATIVOS, TAL COMO SÃO CONDICIONADOS POR UM DETERMINADO DESENVOLVIMENTO DE SUAS FORÇAS PRODUTIVAS E PELO INTERCÂMBIO QUE A ESTE CORRESPONDE, ATÉ SUAS FORMAÇÕES MAIS AMPLAS. A consciência não pode ser jamais outra coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real.

E se, em toda a ideologia, os homens e suas relações aparecem invertidos como numa câmara escura, tal fenômeno decorre de seu processo histórico de vida, do mesmo modo que a inversão dos objetos na retina decorre de seu processo de vida diretamente físico.”

Chamo a atenção para o trecho que decidi transcrever em letras maiúsculas. O pensamento progressista precisa aproximar-se desse homem real e, no governo, terá meios para isso, se quiser usá-los. Com ou sem algoritmos, os instrumentos de manipulação estão entre nós, como dado estrutural da vida social e política, desde as primeiras formas de dominação. Nunca foram, é verdade, tão eficientes.

Daí outro desafio da resistência democrática, que passa a ser também responsabilidade de governo: organizar-se no território sem lei dos algoritmos, colonizados de longa data pela direita radical, com o estímulo mais do que explícito das “big techs”. A um cenário que se afigura distópico será preciso responder com uma forma de organização ainda um tanto estranha ao próprio PT, que seguirá sendo o núcleo do enfrentamento a essa voragem e que, depois de ganhar, não pode confundir triunfo eleitoral com hegemonia.

Para os devotos do “Capitão”, a democracia e o Estado de Direito sempre foram estorvos, meras formalidades a serem superadas por atos de vontade. O projeto era de uma clareza solar e de uma vulgaridade espantosa: conquistar a maioria do Congresso para aparelhar os órgãos de controle democrático, muito especialmente o Judiciário. Lula terá grandes dificuldades, especialmente no Senado. Aqui, de novo, a vigilância cívica será indispensável.

Há em “O Leopardo”, de Lampedusa, a máxima célebre de Tancredi: “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. Alguém poderia dizer: “Bem, os bolsonaristas estão nessa!” Não, queridos! O troço é bem mais complexo. Na reta final da campanha, Flávio e seus seguidores até falaram a linguagem comportada do respeito às regras. Era um “gattopardismo” pelo avesso: em vez de fingir mudança para preservar privilégios, o bolsonarismo fingiu normalidade para promover a ruptura, usando eleições, instituições e o vocabulário da legalidade para esvaziá-las por dentro. Fora do poder, será testado: a linguagem comportada sobrevive ao resultado ou era só figurino de campanha? Os ministros André Mendonça e Nunes Marques seguirão sendo os melhores exemplos desse método, com a conivência de amplos setores da imprensa.

O bolsonarismo continuará na oposição a partir de 5 de janeiro, e oposição é papel legítimo numa democracia. Ilegítimo é não reconhecer as regras do jogo. Os que se mobilizaram no segundo turno em favor de Lula demoraram um tanto para despertar, mas o fizeram a tempo de saber que a empreitada é possível. O resultado demonstrou que há energia para o embate, mas essa mobilização tem de se estruturar em vigilância jurídica e combate cotidiano. Quem ganhou não pode se desmobilizar.

Não há espaço para o otimismo ingênuo dos que acham que o triunfo de Lula vai moderar os reacionários. A hidra da extrema direita não se domestica nem morre numa eleição: corta-se uma cabeça, e outras nascem. É insaciável. Nós, os democratas, também temos de ser.