quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Trump fará mais pela guerra do que pela paz

Na sua primeira reunião, o Conselho da Paz de Donald Trump serviu para dois atos nada pacíficos: ameaçar de guerra o Irã e insinuar que uma organização que só obedece ao narcisismo e megalomania do Presidente dos EUA poderia substituir ou tutelar a ONU.

Embalado pelo rapto de Nicolás Maduro, Trump quer derrubar a teocracia iraniana em nome de quê? O Presidente dos EUA não tem nenhum argumento plausível para atacar o Irão. Foi o próprio que afirmou que a capacidade iraniana de enriquecimento de urânio tinha sido fortemente comprometida após os bombardeamentos em Junho do ano passado, pelo que um segundo ataque, em menos de um ano, contradiz o discurso anterior de vitória.

Contrariamente ao que aconteceu na Venezuela, não há ninguém em Teerã para desempenhar o papel que Delcy Rodríguez desempenha em Caracas. Nem o exilado Reza Pahlavi tem as mesmas condições para desempenhar no futuro do Irã o mesmo papel que Corina Machado pode desempenhar um dia no futuro de Caracas.


Um quase certo ataque ao Irã só favorece o Governo de Benjamin Netanyahu. Thomas L. Friedman, conhecido colunista do New York Times, tem estatuto para dizer o que a outros causaria demasiados incómodos: “Ao mesmo tempo que mantém Trump focado na ameaça nuclear e de mísseis iranianos — que, embora reduzida, ainda é muito real e terá de ser enfrentada diplomática ou militarmente —, Bibi está, fundamentalmente, a ameaçar os interesses mais amplos do EUA no Médio Oriente, sem mencionar a segurança dos judeus em todo o mundo.”

Friedman sustenta que as tentativas claras de anexação da Cisjordânia e de permanência em Gaza, “negando aos palestinianos direitos políticos, é um “empreendimento messiânico”, com consequências para as instituições judaicas em todo o mundo. O argumento é este: as suas semelhanças com o apartheid sul-africano são indistinguíveis e elas só contribuirão para que um “número crescente de jovens democratas e republicanos dos EUA se volte contra Israel e, em alguns casos, contra os judeus em geral”.

Como diz Friedman, o Irã nada tem que ver com os esforços de Netanyahu para limitar o Estado de direito em Israel, com a insistência no afastamento da procuradora-geral, com a isenção total do serviço militar para os judeus ultra ortodoxos, que o mantêm no poder. Nem com o impedimento de uma comissão independente de inquérito às falhas do 7 de outubro de 2023, quando se suspeita de que o mesmo fora avisado dos planos do Hamas para atacar Israel. No fundo, Netanyahu é uma ameaça para o seu próprio país e de nada valem os acordos de Abraão, celebrados ou a celebrar, enquanto israelitas e palestinianos não fizerem a paz.

Este Conselho da Paz, do qual Trump se autointitula presidente vitalício, imaginando-se como presidente do mundo, é uma farsa patética na qual só alinham os subservientes do costume. Israel lá está, ao lado das monarquias do Golfo. O organismo foi anunciado em outubro, na sequência de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e tem servido para encobrir a anexação em curso da Cisjordânia, a continuidade do genocídio lento e silencioso de Gaza e para fazer planos de negócio imobiliário com a reconstrução do enclave destruído, à custa de uma provável deportação forçada.

Zangado com a academia norueguesa, por esta não lhe ter concedido o Prêmio Nobel da Paz, insatisfeito pela atribuição do Prêmio de Paz FIFA, Trump considera que os países que não aceitaram o convite para entrarem no seu clube pacifista estão a “aramar-se em espertos” (Portugal optou pelo estatuto de observador).

O israelita Yuval Noah Harari escrevia no Financial Times que o mantra para resolver o conflito israel-palestino foi o da solução “dois estados para dois povos” e que, se ambos “não puderem ser mais generosos, a solução final para o conflito poderá ser ‘zero estados para zero pessoas’”. Referindo-se à Ucrânia, Harari observava que a “guerra não é vencida por quem conquista mais território, destrói mais cidades ou mata mais pessoas. A guerra é vencida por quem alcança os seus objetivos políticos. E, na Ucrânia, já está claro que Putin falhou em atingir o seu principal objetivo de guerra: a destruição da nação ucraniana. E na Palestina?

Com um presidente como Trump em Washington e num cenário de impotência e desvalorização do papel da ONU, é pouco provável que Netanyahu e Vladimir Putin desistam das guerras que travam e que aceitem uma negociação justa. Dois anos e quatro meses depois, o primeiro não cede na limpeza étnica em curso. E, quatro anos depois da invasão da Ucrânia, o segundo irá até onde lhe for possível para se declarar triunfante. Uma coisa parece certa: o falso clube pacifista de Trump fará mais pela guerra do que pela paz.

Pesadelo palestino

Ninguém poderia imaginar que o fim da Guerra Fria iria mergulhar o mundo em sangrentos conflitos – que saudades da Guerra Fria! Entre os muitos confrontos em meio à Guerra EUA-China em curso, a carnificina em escala industrial no Levante me atinge particularmente, porque a Palestina é a minha terra natal.

Com o fim do Império Otomano, a Palestina foi entregue à Inglaterra por mandato da Liga das Nações, que agenciou a imigração dos judeus do Leste Europeu. Os alemães, por sua vez, expulsaram seus (ex) cidadãos judeus para a Palestina nos anos 1930, Juden raus! Auf nach Palastina! No decorrer da Segunda Guerra Mundial, a Europa promoveu o extermínio em massa dos judeus. Com que direito as Nações Unidas resolveram partilhar a Palestina para despejar os sobreviventes europeus indesejados? Acharam por bem desvestir um santo para vestir outro – enquanto os judeus deixavam os campos de refugiados na Europa, os palestinos foram forçados a deixar as suas casas para se aglomerar nos campos de refugiados na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e ao longo das fronteiras com os países árabes vizinhos.

Durante a catástrofe, Al-Nakba, Israel ocupou uma área superior à designada no Plano de Partilha e 700 mil palestinos foram expulsos de suas terras. Em 1948, 1,3 milhão de árabes vivia na Palestina (900 mil em terras ocupadas por Israel e 400 mil na Cisjordânia e em Gaza). Apenas 200 mil palestinos foram autorizados a permanecer em Israel, o que garantia uma maioria judia no país. Em dezembro de 1948, as Nações Unidas aprovaram a Resolução 194, assegurando o direito de retorno dos refugiados palestinos às suas casas.

A crise causada pela criação do Estado de Israel motivou ainda a expulsão dos judeus que até então conviviam pacificamente com os muçulmanos nos países da África do Norte e do Oriente Médio. O resultado, na ocasião, foi a substituição dos 700 mil palestinos expulsos de suas terras por 700 mil judeus oriundos da Europa (400 mil) e dos países muçulmanos (300 mil).

Israel não restituiu os territórios palestinos designados no Plano de Partilha, nem permitiu o retorno dos 700 mil refugiados. Ao contrário, ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza em 1967 – hoje a Cisjordânia encontra-se reduzida a limitadas áreas entrecortadas por ocupações e estradas controladas por Israel; e Gaza encontra-se totalmente arrasada.

Em sua política oficial de limpeza étnica, enquanto extermina e desterra gradualmente a população nativa da Palestina, o Estado Judeu promove ativamente a imigração e concede cidadania a judeus oriundos de qualquer parte do globo (mais de 1.500.000 russos vivem hoje em Israel, a maioria tendo emigrado nos anos 1990, após a dissolução da União Soviética).

Apesar dos sionistas de esquerda responsabilizarem o atual governo de direita israelense pelas atuais atrocidades, a violência contra os palestinos é centenária. A expulsão do povo nativo em 1948, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza em 1967 e o assentamento de colonos em terras palestinas foram obras dos governos trabalhistas da esquerda sionista, acompanhadas por discursos dissimulados e apaziguadores. A direita no poder representa o coroamento deste processo.

Para a Europa, a criação do Estado de Israel serviu tanto para absorver os sobreviventes indesejados como para exorcizar o seu sentimento de culpa pelo extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial – os palestinos pagaram e continuam pagando o preço pelos crimes que a civilização europeia cometeu em Auschwitz. O mundo ocidental e a maioria dos judeus festejaram as vitórias militares israelenses como atos heroicos que contrarrestavam a imagem do judeu brando e pacífico da diáspora (aventuras militares são efetivamente o avesso da cultura do judeu da diáspora).

Além disso, o antissemitismo judeu na Europa foi substituído pelo antissemitismo muçulmano. Neste sentido, a Europa e Israel têm um inimigo comum. Theodor Herzl, fundador do moderno sionismo político, no final do século XIX, escreveu que os judeus na Palestina deveriam “formar parte de uma fortaleza da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie” (O estado judeu). Historicamente considerados estrangeiros asiáticos na Europa, os judeus são hoje vistos como europeus em território asiático em guerra santa contra o Islão.

O pesadelo palestino foi acirrado após a investida do Hamas em 2023, embora as ofensivas terroristas do Estado de Israel por mais de sete décadas, documentadas tanto pelos palestinos como por historiadores israelenses, tenham sido muito mais bárbaras e cruéis do que a iniciativa de 7 de outubro. A grande maioria dos israelenses apoiou a operação militar do governo em Gaza. Na pesquisa Visão israelense da guerra entre Israel e Hamas, realizada em março e abril de 2024, apenas 4% dos judeus israelenses declararam que a ofensiva foi longe demais. Com base no relatório da pesquisa, que não abre os demais dados entre judeus e árabes israelenses, estima-se que 96% dos judeus israelenses consideravam que a intervenção militar foi adequada (51%) ou mesmo muito branda (45%).

No decorrer da história da humanidade, várias atrocidades foram empreendidas, mas os responsáveis pelos crimes faziam questão de acobertar os seus atos e se empenhavam em negar extermínios promovidos em escala industrial, porque os consideravam vergonhosos. O que estamos presenciando neste momento são povos, que se acreditam civilizados, apoiando ou se abstendo de boicotar uma nação que está promovendo uma carnificina em massa veiculada em tempo real, em que os algozes se orgulham dos crimes cometidos contra a humanidade, inclusive bloqueando ajuda humanitária às suas vítimas. 

Os palestinos e os demais coletivos pró-palestinos fazem questão de declarar que são antissionistas, mas não antissemitas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, instrumentalizando a memória do Holocausto, diz que fala tanto em nome do Estado Judeu como em nome dos judeus da diáspora (o reduzido número de judeus que se posiciona contra o Estado de Israel, inclusive os judeus ortodoxos Satmar e Neturei Karta, é considerado antissemita). Ou seja, o posicionamento do primeiro-ministro estimula o antissemitismo.

Quando e como terminará o pesadelo palestino? Embora somem 14 milhões – 7 milhões na diáspora, 3 milhões na Cisjordânia, 2 milhões em Gaza e 2 milhões em território israelense – o objetivo de Israel é varrer, desterrar a população nativa para provar aos judeus e ao mundo que a Palestina era uma terra sem povo antes da imigração dos judeus. Para os incrédulos que não acreditam que a Palestina era um deserto que foi transformado em oásis, Israel argumenta que os palestinos abandonaram as suas terras em 1948, assim como estão hoje evacuando a faixa de Gaza e as terras ocupadas pelos colonos judeus na Cisjordânia.

A Europa, principalmente a Alemanha, palco do Holocausto, reprime qualquer ato pró-Palestina. A despeito das manifestações em defesa do povo palestino ao redor do mundo, praticamente todos os países não muçulmanos continuam mantendo relações comerciais e diplomáticas com o Estado de Israel, mesmo aqueles que o acusam de estar cometendo genocídio, mesmo os membros do BRICS (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa), que hoje inclui vários outros países emergentes. Israel alardeia que foi criado por determinação das Nações Unidas, embora se recuse sistematicamente a acatar as suas resoluções.

A Torah e a história do povo judeu foram moldadas e escritas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos. Em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência é a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Em 1952, pouco depois da catástrofe que se abateu sobre os palestinos em 1948, Frantz Fanon nos advertiu que os judeus que se instalaram em Israel criariam em menos de cem anos um inconsciente coletivo diferente daquele que possuíam em 1945, nos países de onde foram expulsos. Setenta e quatro anos depois, qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios.
Samuel Kilsztajn

Mercado de IA já contrata por valores de craques de futebol

Um bilhão de dólares por uma contratação. Isso é novo. Semana passada foi a primeira vez em que a imprensa de economia que olha para o mundo digital falou de compra de passe como se fosse jornalismo esportivo. E teve disputa. A Microsoft chamou o desenvolvedor austríaco Peter Steinberger para conversar, a Meta mandou um envelope com proposta. Ao fim, ele topou o convite da OpenAI. E o valor do contrato foi este: US$ 1 bilhão. A OpenAI pode parecer rica, mas, no jogo das três líderes do mercado de inteligência artificial, que inclui também Anthropic e Google, é a que está com o caixa mais pressionado. Não é dinheiro gasto com facilidade. Ainda assim, pagou. Por quê?


Steinberger é o desenvolvedor que, em algumas semanas entre novembro e dezembro, criou o OpenClaw. Neste ano, é a terceira vez que esse software é tema por aqui. Complicado de instalar, com inúmeros problemas de segurança, ele leva a IA para o mundo. Permite criar um robô autônomo dentro de qualquer computador conectado à internet, que usa a rede para fazer o que seu humano mandar. Se não sabe fazer, escreve o programa que lhe permite agir. Nas palavras de Sam Altman, CEO da OpenAI, a missão de Steinberger será liderar o time que fará o mesmo que o OpenClaw, mas de forma que “até minha avó possa usar”. Um sistema assim não está longe de surgir. Coisa de um, dois anos.

Mas o que é? Imagine o smartphone reinventado. Em vez de abrir um app de chamar carro, simplesmente mandar um zap ao robô: “Chama para mim um carro executivo”. Ele não procurará num só aplicativo, procurará em todos e escolherá o mais barato. Ou então mandar outra mensagem: “Quero viajar com a família para a França no ano que vem, qual a melhor época?”. Ele diz quando o clima é melhor, quando as passagens são mais baratas, fala que viajar na quarta traz mais chance de upgrade que na sexta. Desenha o roteiro, modifica conforme o pedido. E, quando todas as decisões estiverem tomadas, escolhe em que época é melhor comprar a passagem, reservar os hotéis. Aí faz os pagamentos.

Ou então volte-se ao mundo corporativo. Grandes empresas trabalham com plataformas caras de software. Gerenciam folha de pagamento, estoque de produtos, relação com fornecedores e consumidores, tudo. Como cada companhia tem suas particularidades, boa parte do ganho dessas fornecedoras está na consultoria que vem junto. É caro montar o pacote para fazer o negócio girar e, todo ano, essas gigantes do software impõem um aumento. Como o custo para trocar fornecedor é sempre muito alto, ficam trancadas na escolha. Quando um robô inteligente pode ir desenvolvendo seu sistema internamente, o gerencia e conserta bugs que apareçam eventualmente, a vida melhora. Melhora muito. Os custos com tecnologia despencam.

Apenas exemplos corriqueiros de como agentes assim, autônomos, são transformadores. Reorganizam a vida de todo mundo e mexem radicalmente na economia física e na digital. Um OpenClaw fácil de usar pode ter muitas interfaces diferentes. Para muitos dos usos atuais de smartphones, ninguém precisará de um paralelepípedo com tela. Chamar um carro? Basta dar a ordem por voz. Isso se resolve com fone, relógio ou par de óculos. O robô da empresa vive na nuvem. Não quer dizer que smartphones deixarão de existir, mas possivelmente não serão mais o centro da vida digital.

E não é só a interface, a forma como interagimos com tecnologia. Para que, exatamente, servirão negócios como agências de turismo? Como empresas aéreas gerenciarão seus preços e disputarão mercado? Como funcionarão investimentos quando todo mundo tiver sistemas equivalentes para escolher no que aplicar dinheiro? Publicidade anunciará de que jeito?

Há uma razão para a Anthropic, dona do Claude, não ter apresentado qualquer proposta para Steinberger. Ela é quem está mais avançada num agente. Seu Cowork funciona por enquanto apenas nos computadores pessoais, já gerencia arquivos fora da janela de chat e abre alguns aplicativos, como Notion ou Excel, e, dentro deles, manipula dados. Tudo a partir de uma ordem dada pelo usuário.

Essa supercontratação deixa evidente parte da loucura que é o mercado de IA. Em outubro, não estava ainda claro que agentes autônomos chegariam tão rápido. Os passos são, muitas vezes, assim. Saltos repentinos. Esse ritmo deverá aumentar.

Lacerdismo volta à política brasileira

O pensador grego Aristóteles, um dos fundadores da filosofia ocidental, que viveu há cerca de 2.500 anos, ensinava que a arte da política consistia na busca do bem comum, pautado por justiça e equidade, por meio de um debate racional, travado franca e abertamente. Esse ideal, que corresponde à própria essência da democracia, embora jamais tenha se concretizado em toda a sua plenitude, sempre pautou a ação daqueles que, filiados a tal tradição, atuaram na arena pública.

Lamentavelmente, de uns tempos para cá, ressurge entre nós, na contramão desse respeitável legado, uma prática nefasta, que julgávamos definitivamente sepultada no passado, que atende pelo nome de “lacerdismo”. Cuida-se de um estilo peculiar de ação política que privilegia uma retórica agressiva e inflamada, pautada num moralismo refalsado, cujo objetivo único é deslegitimar os adversários, destruindo suas reputações.

O lacerdismo tem origem na figura de Carlos Lacerda, político e jornalista que liderava a oposição aos governos trabalhistas nos anos 1950 e 1960. Atuava basicamente por meio de um constante e feroz denuncismo, artificialmente construído, que dispensava qualquer proposta para o país, limitando-se a apontar, com o cinismo e a desfaçatez que lhe eram próprios, supostos atos de corrupção, subversão ou outros desvios de conduta de opositores reais ou imaginários.

Essa prática renasce atualmente, de forma difusa e transversal, sem respeitar diferenças partidárias ou ideológicas, manifestando-se tanto à direita como à esquerda do espectro político. Expressa-se geralmente sob a forma de uma cruzada puritana farisaica, em que os adversários são tratados como inimigos, destinados a proscrição, cadeia ou eliminação física.

A disputa não se trava mais entre projetos ou programas de governo, mas passa por um permanente embate de narrativas morais concorrentes, que, não raro, encontra expressão em comissões parlamentares de inquérito, as quais se arvoram em investigar temas cuja apuração, em geral, já vem sendo realizada por parte dos órgãos constitucionalmente competentes.

De fato, é mais simples denunciar do que propor soluções consistentes. Apresentar propostas estruturadas e coerentes para o país exige esforço intelectual, disposição para o debate e abertura ao compromisso, atributos hoje escassos entre aqueles que atuam nas lides da política.

Não é à toa que o lacerdismo inspirou a atuação da famosa “banda de música”, integrada por parlamentares da extinta União Democrática Nacional (UDN) que fustigaram os governos nacionalistas e populistas entre os anos 1946 e 1964, com discursos afinados e slogans mordazes, levando o presidente Getúlio Vargas ao suicídio, acusado de chafurdar num “mar de lama”.

É mais fácil e cômodo repetir palavras de ordem curtas e simples, revestidas de uma indignação hipócrita, porém contundente, preferencialmente através de mídias digitais, perpetuando a polarização e o confronto, do que propor soluções que permitam o desenvolvimento social, cultural e econômico da sociedade.

O lacerdismo hoje redivivo, que atinge tanto os que atuam na vida pública como aqueles que se encontram fora dela, corresponde à antipolítica, por empobrecer o debate democrático, fomentar a descrença nas instituições e estimular a equivocada convicção segundo a qual apenas soluções extravagantes — judiciais, tecnocráticas ou autoritárias — são capazes de resolver os problemas nacionais, cuja origem, aliás, remonta à própria colonização do Brasil.
Ricardo Lewandowski

De fascismo a fascismo

Alguns lembrarão que houve Umberto Eco. Que falta ele faz para rirmos o bom riso! Eco explicava o fascismo eterno, que é uma combinação de certos pontos, entre eles o culto das tradições (interpretadas de uma maneira própria), a recusa da modernidade e da razão, o irracionalismo e o culto da ação pela ação, a rejeição das críticas e do espírito crítico, o medo da diversidade e o racismo, a obsessão com as conspirações, a ideia de guerra permanente, o desprezo pelos fracos, o uso de uma neolíngua (como descrevia Orwell). Se você vê pessoas e grupos com essas características, já sabe: é lícito dizer que são fascistas.

Eco nos ensinava também que a internet é um instrumento do fascismo contemporâneo e que as redes sociais “dão a palavra a uma legião de imbecis que falavam no bar sobre um copo de vinho e agora têm o mesmo direito de palavra dos Prêmio Nobel”. Outro italiano, Alberto Brandolini, descobriu uma lei: “A quantidade de energia necessária para refutar bullshit é de uma ordem de grandeza maior que a necessária para produzi-lo.” E Jonathan Koomey: “Um idiota pode criar mais merda do que você jamais pode ter a esperança de refutar.”


Nada disso é tão relevante quanto a emergência do twosidism, que faz os jornais dizerem que têm de publicar as opiniões divergentes com o mesmo rigor, mesmo se uma é de que a Terra é plana. Mas hoje o que vemos é outra coisa: é a ressurgência de um delírio que quase destruiu o Brasil, a lavajato. Disfarçada de moral e bons costumes, ela — inominada — tomou agora como foco a destruição do Supremo Tribunal Federal. Como já disse, a “operação linchamento” tem duas motivações: a primeira é o processo de Sérgio Moro, cujo relator é Dias Toffoli; a segunda é a desqualificação do julgamento de Bolsonaro. É claro que ambas fazem parte do mesmo discurso fascista, no falso adágio maquiavélico de que o fim justifica os meios.

Para a destruição das reputações vale tudo, inclusive, sob a proteção do sigilo das fontes (art. 5º, XIV), quebrar os sigilos pessoais (art. 5º, XII) dos ministros. Ambos são sagrados, mas divulgar informações sigilosas é crime (Código Penal, art. 154, 1 a 4 anos; art. 154A, para dispositivo informático, §3º e 4º, 2 a 5 anos, mais 2/3; art.154B, se contra a administração pública dispensa representação; art. 325, §2º, violação de sigilo com dano, 2 a 6 anos). Isto é, a pessoa não precisa revelar quem lhe deu a informação, mas comete um crime. E essas penas são acrescidas de multa, sem definição exata de valor. Se fosse na França a multa seria de 300 mil euros, doeria na parte sensível do corpo capitalista.

Mas, assumindo o comando as redes sociais, os caras que quebraram os sigilos passaram a ser uns heróis, coitados, estão fazendo o mesmo que tantos heróis já fizeram, como Silvério dos Reis e outros praticantes do dedodurismo anônimo. Por outro lado, os donos dos IP que divulgam o neolavajatismo certamente não se importam que quebrem os deles, que só estão exercendo a liberdade de expressão.

Aliás, destruído o STF, o soluçante reinstalado no Alvorada, as cadeias e os cemitérios cheios de discordantes, eleições unânimes o elegerão pelos séculos dos séculos e depois o 01, o 02 e assim por diante. Episódios como o dessa semana na França, quando um agitador de extrema-direita foi linchado por agitadores de extrema-esquerda, não acontecerão, porque os milicianos terão exclusividade nos linchamentos. Viva Deus Pátria Família!

Expressão por expressão, acho curioso que o Brasil, que já teve um dos cleros mais avançados do mundo — conheci D. Helder já magrelo e ainda bispo auxiliar — tenha agora um dos mais retrógrados, com D. Orani bancando um Lefebvre social: tomou o partido dos evangélicos que vestiram a carapuça, reprovou “a utilização de símbolos da fé cristã e da instituição familiar em manifestações culturais de maneira que compreendemos como ofensiva”. Enquanto isso, os bispos americanos, considerados dos mais reacionários, estão trabalhando valentemente contra a guerra miliciana que o Trump faz contra quem não é ku klux klan — o que inclui deportar ou matar os seres inferiores, como mulheres, crianças, lgbt+, não branquelos, que não falam inglês etc. É claro que eles, bispos, são influenciados pelo papa peruano e imigrante que nasceu americano, ¿que tal?

É verdade que a ala 22, quase fechando a escola que homenageava o Lula — sacrilégio! — tinha umas fantasias de lata de conserva e, falo por ler, que não consegui ver, umas bíblias na mão — horror, deviam estar com o livrinho vermelho de Mao ou o verde do Khomeini. Não era algo puro, como desfilar com o troço de fora, com uma estrelinha cobrindo a coisa, fantasiado de diabo e outras delicadezas que fazem parte das boas manifestações culturais.

Realmente a família, a boa, fascista, da agronegociata, de bíblia e bala, estava sendo atacada. Pelo menos segundo a excelsa michela — assim chamava José Bonifácio à Domitila, significando o registrado pelo Houaiss, Brasil tabu prostituta, meretriz, tadinha dela que não era nada disso, só cobrava dos clientes —, que classificou de “um escárnio”. Já que estou indo de dicionário, escárnio é: 1 aquilo que é objeto de desdém, ironia ou sarcasmo | 2 o que é feito ou dito com intenção de provocar riso ou hilariedade acerca de alguém ou algo; caçoada, troça, zombaria | 3 atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo, por vezes indignado.

Ih!, acho que escarneci de umas pessoas. Será que serei excomungado? Deus me livre.

Pedro Costa

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Louco é quem não sonha

Comemoram-se este ano os 500 anos da publicação da “Utopia”, de Thomas More. A data está a servir de pretexto para uma série de iniciativas, não apenas para lembrar More e a sua obra, mas também (ou sobretudo) para celebrar a ideia de utopia. Utopias e distopias são poderosos exercícios de imaginação que nos ajudam a compreender os erros dos atuais modelos políticos e a projetar e construir melhores modelos.

Atravessamos tempos convulsos. Tempos de incerteza. Depois de Barack Obama, um modelo de elegância e inteligência, concorde-se ou não com as suas ideias, ninguém acreditava que os EUA pudessem regredir até alguém (alguma coisa) tão ruim quanto, por exemplo, George W. Bush — e foi então que surgiu Donald Trump. No início parecia apenas um pequeno erro do sistema, um divertimento antes da ação a sério, como os palhaços, no circo, antecedendo a entrada dos trapezistas. Agora começa a parecer-se com o que sempre foi — um pesadelo.

No Brasil, cujo processo de democratização acompanhei com entusiasmo, que vi crescer, prosperar, vencer a inflação e o desemprego — antes da crise atual —, há quem saia para as ruas clamando pelo regresso dos militares. Olhando a partir de fora custa a compreender. Olhando a partir de dentro custa ainda mais.

Desistir da democracia porque alguns políticos são corruptos é como cortar a cabeça para acalmar uma enxaqueca. As ditaduras tendem a ser muitíssimo mais corruptas do que as democracias. A diferença entre uma ditadura e uma democracia, no que diz respeito à corrupção, é que numa democracia os corruptos nem sempre conseguem dormir, com receio de que polícia lhes entre em casa a meio da noite, enquanto numa ditadura são as pessoas honestas que não conseguem dormir — com receio de que a polícia lhes entre em casa a meio da noite. Uma democracia é tanto mais avançada quando mais capaz for de combater a corrupção e, em particular, a corrupção no mundo da política. Creio mesmo que uma democracia é tanto mais avançada quanto menos ricos forem os seus políticos. Gosto da Holanda porque o primeiro-ministro vai para o emprego de bicicleta. Amo Cabo Verde, entre tantos outros bons motivos, porque o governo fica na Praia, e porque, entrando num boteco qualquer, nunca saberemos se o sujeito sentado ao nosso lado, tocando cavaquinho, é um humilde pedreiro ou o presidente da República.

Não há ditaduras boas, da mesma forma que não há doenças boas. Há democracias avançadas e vigorosas e há democracias em crise, democracias frágeis, democracias necessitadas de um novo começo. O que não há com toda a certeza é democracias que possam ser substituídas com proveito por uma qualquer ditadura. Nenhuma democracia é tão má que consiga ser pior do que a melhor ditadura.

Quando se analisam, à distância de séculos, tempos de incerteza e convulsão verifica-se, tantas vezes, que estes assinalam importantes avanços na História. As pessoas que acordaram em Paris, naquela manhã de 14 de julho de 1789, não podiam imaginar que os confrontos desse dia, que culminaram na tomada da Bastilha, iriam dar origem não só a mudanças políticas fundamentais, mas, mais importante, a alterações positivas de mentalidade, em particular ao enraizamento da noção de que todos os homens nascem livres e são iguais em direitos e deveres. Para muitos franceses aqueles foram dias de puro terror. Dias em que um mundo acabou. Mas hoje, olhando para trás, o que vemos é um mundo novo a começar.

Tempos como aqueles que vivemos são susceptíveis de engendrar monstros. Contudo, também são capazes de gerar sonhos enormes e poderosos. Mais do que nunca é urgente revisitar utopias antigas e projetar novas. A obra de Thomas More inspirou, entre outros, Pierre-Joseph Proudhon, um dos pais do anarquismo. Mesmo quem nunca ouviu falar em Proudhon conhece certamente a mais famosa das suas proclamações, “a propriedade é um roubo”, e muitos a repetem, ainda que a não compreendam. Algumas das ideias antiautoritárias de Proudhon são hoje mais atuais — e menos “utópicas” — do que quando este as produziu.

O comunismo morreu e o capitalismo ameaça matar-nos a todos. A corrupção da classe política, as crises de refugiados, o aquecimento global, tudo isto são problemas decorrentes da própria natureza do sistema capitalista. É urgente procurar outros caminhos. Sonhar não é loucura. Loucura, hoje, é não sonhar. Na certeza, porém, de que esses caminhos, esses sonhos, só podem ser encontrados por meios pacíficos e democráticos. A democracia, essa utopia primordial, não pode ser posta em causa. Todos somos poucos para a defender.
José Eduardo Agualusa (crônica de 2016)

Isto é Verdun (ainda 110 anos depois)

Verdun, uma palavra terrível! Incontáveis pessoas, jovens e cheias de esperança, tiveram de entregar aqui suas vidas; seus ossos agora apodrecem em algum lugar, entre posições, em valas comuns, em cemitérios. O front oscila: hoje o inimigo está na colina, amanhã [seremos] nós; sempre há aqui um combate desesperado. Alguns, que ainda há pouco se alegravam com o sol quente, logo ouviam urros e choros se aproximando de algum lugar. Acabaram‑se todos os sonhos de paz e lar; o homem vira verme e procura o buraco mais profundo. Campos de bombardeio e de batalha onde nada se vê além de fumaça sufocante, gás, torrões de terra e trapos voando pelo ar, rodopiando selvagemente: isto é Verdun.
Paul Boelicke, de 20 anos, em carta à sua família

O último dos bolsonaristas

Num aprazível condomínio da região serrana do Rio vive o que me apontaram como "o último bolsonarista". Uma hipérbole, senão mero exagero; basta conferir as pesquisas eleitorais. Mas ele representa todo conjunto onde ninguém mais admite publicamente conexão com Bolsonaro, embora guarde ativo o fetiche do nome. Como um palavrão silencioso. "Último" também metaforiza aqui o inglês "ultimate", que designa atitude extrema, de ir até o fim.


O exemplo em pauta emergiu do silêncio de um adepto notório, pela violação de seu tabu condominial: o filho de 6 anos do zelador, residente no local, molhou os pés na piscina comum. Ele exige agora proibição formal, para constrangimento da maioria, pois o acesso é franqueado pela convenção. Mantidas as proporções, é fato análogo ao do ex-ministro da Fazenda bolsonarista, ultrajado por viagem de empregada doméstica à Disney. Hoje é guru do filho 01, viajante tão frequente que parece fazer campanha nos EUA pela presidência do Brasil.

O nome Bolsonaro, grife posta no mercado partidário, virou lubrificante para que a máquina neofascista persista nos corpos biopolíticos dos adeptos. Essa "máquina" não é um objeto técnico, mas um dispositivo sociopolítico que conecta fragmentos ideológicos da ultradireita contemporânea. Ela avança nos fenômenos de atração e repulsa sociais, cujos tópicos de insatisfação incidem sobre as mudanças nos costumes e a ascensão de minorias ao plano visível da sociabilidade.

Séculos antes, no "Hamlet", Shakespeare concebia genialmente uma "destilação leprosa" na consciência. E ao falar do fascismo como "mutação antropológica", o cinepoeta Pasolini enxergou verdadeira transformação "genética". O que hoje faz a máquina neofascista é intensificar a coordenação psíquica dos indivíduos, liberando-os para seguir os próprios instintos por mais persecutórios e violentos que sejam. Todas as variações de uma região do mundo para outra podem se encaixar numa lista de repulsas em que figuram o pobre, o preto, o gênero divergente.

Daí uma incongruência na atitude do citado "último": a família visada tem pele clara, escolaridade superior e fino trato. Uma explicação provável é a inerência do sujeito a uma fantasia pessoal, uma identidade guardada no fundo de si mesmo, ao modo de uma igualdade de estirpe que o impediria, por secreta hierarquia, de reconhecer um zelador como socius. É a shakespeareana "destilação leprosa" que, entre nós, conduz à rejeição antipetista. Não tem a ver com realidade econômica (desemprego baixo, inflação controlada) nem política (estabilização democrática), mas com o temor ressentido de que a identidade pessoal esteja ameaçada.

O "último bolsonarista" não é uma ficção e vale como paradigma do homúnculo moral, cuja benignidade é apenas tempo de espera de carta branca para humilhar o zelador, a doméstica, o vulnerável. Enquanto isso, nas prospecções eleitorais, contam-se em 32% os eleitores independentes, ditos "pêndulos", dos quais pouco se sabe sobre o potencial de autonomia frente à máquina neofascista, sempre ativa. Para desgosto dos "últimos", entretanto, as pesquisas indicam que o retorno da marca Bolsonaro inspira aversão popular maior do que a dirigida ao petismo.

A história da Palestina que tentam apagar

Passado, presente, futuro — a história de Gaza e da Palestina anda revolta em três tempos, simultaneamente. São tempos interligados, que têm em comum o apagamento da pegada histórica, física e cultural de todo um povo. Na mesma semana em que o venerando Museu Britânico removeu o termo “Palestina” de parte de seu acervo permanente sobre o Oriente Médio, a menção à situação em Gaza despencou para 1,5% do noticiário nas mídias dos Estados Unidos, e Donald Trump estreou em Washington seu Comitê de Paz para tornar o enclave mais desfrutável (e rentável) no futuro.


Começando pelo passado. A coleção permanente do museu londrino dedicada à história, arte e cultura das civilizações é uma das maiores do mundo — conta com mais de 8 milhões de peças que documentam os passos da Humanidade, dos primórdios até hoje. Os textos, painéis informativos e mapas alterados na semana passada encontram-se na ala destinada à História do Oriente Médio, que inclui os territórios do antigo Levante e do Egito antes da Era Cristã. Nessa seção, a costa leste do Mediterrâneo era identificada como “Palestina”, e os povos que lá viviam como “de ascendência palestina”. Em seu lugar, agora são referidos como “Canaã” e “de ascendência cananeia”.

Canaã costuma ser empregado por historiadores para a região que englobava o que é hoje Palestina, Israel, Síria e Jordânia. O termo foi criado em referência aos primeiros habitantes de Jericó, que hoje integra a Cisjordânia ocupada por Israel. No Velho Testamento, Canaã também é referida como a terra prometida por Deus ao povo judeu. Ou seja, encrenca milenar.

A troca na nomenclatura foi comemorada pelo grupo de advogados UK Lawyers for Israel (UKLFI), que exercera pressão forte para a mudança argumentado, entre outros motivos, que o nome “Palestina” poderia minimizar a existência dos antigos reinos israelitas. A reação contrária veio de pronto, com abaixo-assinado pela reversão da medida, firmado por milhares de integrantes do próprio museu.

— É ridículo o Museu Britânico remover a palavra “Palestina” quando ela tem antiguidade maior que a palavra “Britânico” — escreveu o historiador de arte escocês William Dalrymple, que situa a primeira referência ao termo a um monumento egípcio de 1186 a.C.

Dificilmente se verá reversão, pois o próprio museu considera que o termo deixou de ser “historicamente neutro”. Ou seja, tornou-se tóxico. A Palestina não está a salvo nem no seu passado milenar.

No presente, 4 mil anos depois, o apagamento se agrava desde outubro de 2025, quando Trump anunciou um cessar-fogo que já matou mais de 600 civis palestinos.

— A guerra em Gaza acabou — decretou o presidente.

A imprensa dos Estados Unidos parece ter acreditado, pois, segundo dados do instituto Fairness & Accuracy In Reporting (Fair), o noticiário sobre o lento morrer no enclave encolheu brutalmente. Chegou a ocupar 4,5% do espaço; hoje mal alcança 1,3%. O fato de o governo Benjamin Netanyahu proibir acesso ao que resta de Gaza a toda e qualquer mídia estrangeira independente apenas acentua o esquecimento e o silêncio mundial. Em paralelo, o Comitê de Proteção a Jornalistas documentou a detenção por Israel de 94 repórteres palestinos (32 em Gaza, 60 na Cisjordânia ocupada e dois em Israel) e expôs as condições prisionais degradantes a que são submetidos. Eram deles as únicas vozes ainda ativas no infernal cotidiano da vida palestina presente.

— É fácil manifestar cinismo ou desesperança sobre o estado das artes do jornalismo — escreveu a crítica de mídia Margaret Sullivan — quando nos sentimos frustrados, atolados em desinformação e em dúvida sobre o sentido da profissão. Mas é por meio do jornalismo que o viver de um povo é contado, que o poder é desafiado, a História é registrada, mudanças são empurradas.

O general Dwight Eisenhower disse mais ou menos a mesma coisa em abril de 1945, apenas em tom de urgência necessária à ocasião — as tropas sob seu comando haviam libertado o campo de concentração nazista de Ohrdruf, pouco antes:

— Registrem tudo agora. Filmem tudo. Chamem as testemunhas. Pois, em algum ponto do fio da História, algum canalha se erguerá e dirá que isso jamais aconteceu.

No tempo futuro, será inevitável a obliteração das raízes de Gaza caso a “reconstrução” do enclave siga a distopia planejada por Trump. O que até outubro de 2023 era a Cidade Velha, lar da Grande Mesquita de Omari, foi redesenhado para se tornar um “complexo industrial”; 180 torres turísticas à beira-mar devem cortar o acesso à orla para a população local; as outrora férteis terras agrícolas e dois imensos campos de refugiados serão ocupados por centros de dados, sem ligação com as comunidades originais; as 400 mil novas moradias prometidas na semana passada — designadas como “comunidades seguras alternativas” — serão fortemente vigiadas, com os moradores submetidos a monitoramento biométrico e verificação por parte de Israel — escreveu Muhammad Shehada, pesquisador do European Council on Foreign Relations.

Nessa toada, o futuro palestino se anuncia pior que o passado; e, do presente, poucos querem se lembrar.
Dorrit Harazim

A vida psíquica quando o lucro se torna a medida de tudo

Quais são os impactos psicológicos de viver em um sistema no qual o valor é estritamente medido pelo lucro? Essa pergunta, que por muito tempo pôde permanecer amortecida por promessas de progresso e estabilidade, hoje se impõe com uma força quase insuportável. Muitas pessoas parecem experimentar, talvez pela primeira vez, a percepção de que certas ilusões – a neutralidade das instituições, a racionalidade moral do Ocidente, a separação entre economia, política e vida cotidiana – sempre foram ilusões, embora não fossem reconhecidas como tal.

Essa ruptura não ocorre no vazio. Ela se dá diante do que governos realizam em nosso nome, frequentemente com recursos públicos, e diante do papel desempenhado por corporações multinacionais e por uma mídia que, em muitos casos, administra o sofrimento alheio como dano colateral aceitável. Quando a cumplicidade se torna impossível de negar, a questão que emerge não é apenas política ou moral, mas profundamente psíquica e existencial: como continuar vivendo neste mundo?


Omar El Akkad formula essa pergunta de modo brutal ao expor o paradoxo central daquilo que ainda chamamos de “mundo civilizado”. Para que seus valores sejam preservados, afirma ele, torna-se aceitável incendiar bibliotecas, explodir mesquitas, arrancar oliveiras, destruir universidades, saquear casas, humilhar corpos, prender e matar crianças. A violência não aparece como desvio, mas como requisito. Tudo é feito – paradoxalmente – em nome da civilização, da ordem, da segurança, do progresso. Caso contrário, sugere a lógica dominante, “o mundo incivilizado pode vencer”.

Do ponto de vista psicológico, essa inversão produz efeitos devastadores. Quando a barbárie é apresentada como necessidade moral, o sujeito é convocado a recalcar sua própria capacidade de sentir. A empatia passa a ser tratada como fraqueza, ameaça ou erro cognitivo. Hoje, demonstrar solidariedade aos palestinos pode significar perder o emprego, ser silenciado, banido de espaços públicos ou profissionais. Não se trata apenas de repressão política, mas de uma pedagogia afetiva que ensina quais vidas merecem luto e quais podem ser descartadas sem escândalo.

O que acontece com uma sociedade que aprende a desconfiar da empatia? Que custo psíquico tem viver em um mundo onde sentir com o outro se torna perigoso? A resposta não se limita ao sofrimento das vítimas diretas da violência. Todos adoecem. A normalização da crueldade produz cinismo, dissociação, apatia moral, culpa difusa e um sentimento persistente de impotência. A vida psíquica se empobrece quando o laço social é corroído e quando a ética é substituída por cálculos de eficiência.

Naomi Klein, em sua palestra Let Them Drown: The Violence of Othering in a Warming World, aprofunda essa análise ao mostrar como a lógica da desumanização se intensifica em um mundo marcado por crises climáticas e colapsos ecológicos. À medida que os recursos se tornam escassos, o sistema responde não com solidariedade, mas com fronteiras mais rígidas, políticas de exclusão e a produção ativa de “outros” descartáveis. “Deixem-nos afogar” não é apenas uma metáfora: é uma política que define quem deve viver e quem pode morrer para que a ordem econômica permaneça intacta.

Nesse cenário, o capitalismo tardio revela sua dimensão necropolítica: algumas vidas são protegidas a qualquer custo; outras são administradas como excesso, risco ou obstáculo. Palestinos hoje, migrantes climáticos amanhã. O sofrimento deixa de ser um acidente e se torna parte estrutural de um sistema que coloca o lucro acima das pessoas, refinando continuamente suas tecnologias de controle, vigilância e violência.

Viver sob essa lógica tem consequências psíquicas profundas. Quando aprendemos que certos corpos podem ser humilhados, torturados ou exterminados sem que isso abale a ordem moral do mundo, algo essencial se rompe na experiência humana compartilhada. A sensação de pertencimento se fragiliza, a confiança no outro se dissolve, e a própria ideia de futuro se torna ameaçada. O trauma deixa de ser apenas individual e passa a ser coletivo.

Diante disso, a pergunta de El Akkad – como devemos continuar vivendo neste mundo? – não admite respostas fáceis. O que se desenha, no entanto, tanto em sua escrita quanto nas reflexões de Naomi Klein, é a possibilidade de uma ética que não pode ser reconhecida pelo império: uma ética fundada no vínculo, na memória, na recusa da desumanização. Um amor entre povos que não se orienta pelo lucro, mas pela dignidade compartilhada.

Talvez o caminho para alguma forma de cura – individual e coletiva – comece justamente aí: na recusa em aceitar a violência como norma, na insistência em preservar a empatia como força política e psíquica, e no reconhecimento de que pessoas comuns, em seus gestos cotidianos, também participam da manutenção ou da ruptura dessas estruturas. Em um mundo que mede tudo em termos de lucro, sustentar a humanidade do outro não é ingenuidade. É resistência.

Metáforas: as lentes invisíveis do poder

Na política, há duas maneiras de dizer a mesma coisa: pela régua da razão ou pelo pincel da imaginação. A primeira mede; a segunda mobiliza. E, entre medir e mobilizar, vence quem consegue traduzir a aridez dos conceitos em imagens que falem ao coração do eleitor. É nesse território que a metáfora se transforma em ferramenta de poder.

A política é, por natureza, abstrata. Fala de déficit, soberania, arcabouço fiscal, governança, inflação inercial, pacto federativo. Conceitos que não moram no cotidiano do cidadão comum. O eleitor não toma café da manhã com a Lei de Responsabilidade Fiscal, nem leva para o trabalho a taxa Selic. Mas entende o que significa dizer que “o país está à deriva”, que “o governo perdeu o leme”, que “a economia patina” ou que “a inflação corrói o salário”.

 


A metáfora cumpre, assim, uma função pedagógica: simplifica o complexo. Quando se afirma que “o Brasil é um navio em mar revolto”, não se está apenas ornamentando o discurso. Está-se oferecendo ao público uma moldura cognitiva para compreender a instabilidade política e econômica. O governante vira capitão. A oposição, tempestade. O mercado, correnteza. E o eleitor, passageiro — ora apreensivo, ora esperançoso.

Mais do que explicar, a metáfora orienta. Ela indica culpados e sugere saídas. Ao dizer que “o Estado é um paquiderme lento”, o orador já está insinuando a necessidade de reformas. Ao afirmar que “a corrupção é um câncer”, legitima-se a ideia de extirpação radical. Ao tratar a polarização como “um campo minado”, adverte-se sobre os riscos do confronto. Cada imagem carrega uma agenda implícita.

Campanhas não se vencem apenas com dados, mas com narrativas. E narrativas são tecidas com metáforas. O “caçador de marajás”, o “pai dos pobres”, a “mãe do PAC”, o “mito”. Cada rótulo condensa uma história inteira em duas ou três palavras. É a economia simbólica do discurso.

Mas há perigos nesse recurso. Metáforas não apenas iluminam; também ocultam. Ao comparar a política a uma guerra, por exemplo, naturaliza-se o inimigo, a trincheira, o combate sem quartel. O adversário deixa de ser concorrente e passa a ser ameaça existencial. O debate vira batalha; o parlamento, campo de confronto; o voto, munição. E, nesse ambiente, o compromisso soa como rendição.

George Lakoff, linguista americano, demonstrou que as metáforas estruturam nosso modo de pensar. Quando a política é vista como jogo, aceita-se a trapaça como estratégia. Quando é tratada como mercado, tudo vira negociação. Quando se converte em espetáculo, a performance supera o conteúdo. A escolha da imagem não é inocente: molda percepções e comportamentos.

No Brasil de 2026, marcado pela radical polarização, as metáforas tendem a se tornar ainda mais bélicas. Fala-se em “tomar o poder”, “resistir ao avanço”, “derrotar o inimigo”, “defender a democracia”. O vocabulário é de quartel. E o risco é que, ao militarizar a linguagem, militarize-se também a prática política.

Cabe, portanto, ao comunicador público — jornalista, marqueteiro ou líder — usar a metáfora com responsabilidade. Em vez de incendiar, pode-se iluminar. Em vez de dividir, pode-se conectar. A política não precisa ser sempre um ringue; pode ser uma ponte. Não precisa ser um tabuleiro de xadrez; pode ser uma mesa de negociação. Não precisa ser um campo de batalha; pode ser uma arena de consensos.

A metáfora é inevitável. O desafio é escolher imagens que ampliem a compreensão sem reduzir a complexidade; que inspirem ação sem estimular o ódio; que traduzam a realidade sem deformá-la. Afinal, como ensinava Aristóteles, metáfora é ver o semelhante no dessemelhante. E, na política, ver bem é metade do caminho para governar melhor.

Gaudêncio Torquato

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 

Gergely Bacsa

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

Bertolt Brecht

Grito do Ipiranga

Escutámos Mark Carney em Davos, e depois Ursula von der Leyen e Emmanuel Macron e sentimos que era o momento “Grito do Ipiranga” da Europa (e do resto do mundo democrático). Reconhecemos a realidade e seguimos empenhados na construção da nossa autonomia, com os custos a que tal obriga. Mas, assim como no processo de independência do Brasil, não será nem simples nem imediato.


O Parlamento Europeu suspendeu a ratificação do Acordo de Tarifas negociado com os Estados Unidos da América, no verão. Havia sido um acordo controverso. Houve augúrios de que era uma vassalagem que não impediria novos ataques, mas compreende-se que uma Europa, fundada no primado da lei e na relação transatlântica, tudo tentasse para preservar uma ordem que lhe garantiu paz e prosperidade durante 80 anos. A recente divulgação da proposta da Comissão Europeia de uma nova legislação para o setor das telecomunicações (Digital Networks Act) confirma o limbo em que, ainda, nos encontramos.

A internet parece etérea, mas os cabos de fibra e antenas que a sustentam não são. E os investimentos necessários para manter e atualizar a rede são astronómicos.

A Europa já investiu 160 mil milhões de euros na rede 5G, mas até 2030 será necessário investir mais 175 mil milhões de euros. O custo é suportado pelo consumidor (e a longo prazo). Os grandes beneficiários são as big tech. Utilizam sem custo acrescido a rede, não obstante gerarem mais de metade de todo o tráfego (imagem e som).

Ao contrário do que acontece com outras infraestruturas, onde quem mais usa paga mais (pense, por exemplo, na diferença de preço numa portagem de um carro ligeiro versus um camião), tal não acontece na infraestrutura de telecomunicações.

A razão é histórica. Aquando do grande boom da internet, o legislador preocupou-se em garantir igualdade de acesso a todos os utilizadores: o “princípio da neutralidade”. A rede seria agnóstica a quem a usava ou à informação transmitida (sem censura). Todos os conteúdos beneficiariam da mesma qualidade de serviço. Para tal não poderiam existir preços diferenciados.

O mundo de 1990 era muito diferente da atualidade. Não existiam plataformas (Instagram e TikTok), nem motores de busca (Google) ou de resposta (ChatGPT). Não existia YouTube, Netflix ou AppleTV.

O mundo mudou, mas a legislação não. O atual modelo é vantajoso apenas para as big tech, que utilizam sem custo a rede, de cuja existência dependem para gerar lucros incomparáveis com qualquer outro serviço ou indústria. Para manterem o statu quo, promovem, junto do público, o discurso da liberdade de expressão: que um preço do serviço diferenciado poderia ser utilizado como um instrumento de censura. Mas é sobretudo na Administração Trump que encontram o seu maior apoiante.

No verão, aquando da negociação do acordo de tarifas, além de pretender que a União Europeia revogasse o Regulamento de Inteligência Artificial e o Regulamento de Serviços Digitais (o que não conseguiu), Trump exigiu, e conseguiu, que as big tech não tivessem de passar a contribuir para os custos de investimento da infraestrutura de telecomunicações.

Da proposta ora divulgada não consta de facto essa obrigação, mas um mecanismo para negociação de uma eventual colaboração. Não é um repúdio ao acordado no verão, mas também não é o desejado pelas big tech.

A Europa vive o seu momento Ipiranga. Embora no famoso quadro de Pedro Américo, D. Pedro estivesse em pose altiva, montado num cavalo branco rodeado de tropas, da imagem apenas o riacho Ipiranga era verdadeiro. Segundo os documentos da época, o príncipe deslocava-se de mula, estava adoentado e não havia tropas em uniformes brilhantes. A realidade é muito mais difícil do que a Conferência de Davos.

Deixem-nos morrer de fome

Todo esse tempo que passamos assistindo impassíveis, dia após dia, ao massacre em Gaza, contribuiu para nossa desumanização. Apesar da censura, as imagens nos atingiram como flechas, mas seu fluxo constante acaba por nos dessensibilizar ao horror. O suposto acordo de paz não conteve as baixas civis que, segundo fontes oficiais, ultrapassam 70.000. Na Ucrânia, a pressão exercida pelo inimigo cada vez mais cruel, com cidades inteiras sem eletricidade, força a população civil a viver em condições extremas. As negociações para um cessar-fogo parecem igualmente paralisadas. Congelar inocentes até a morte começa a nos parecer mais um ato estratégico de ousadia do que o crime que é. No Irã, sob o jugo férreo da ditadura religiosa, vislumbramos uma das repressões mais brutais já perpetradas por um governo contra seu próprio povo. Enquanto isso, aceitamos cada vez mais a ideia de que poderes autoritários são uma solução para o caráter fraco de cidadãos distraídos e moralmente falidos.


Esta é a realidade tenebrosa que nos cerca. Dizem que a palavra “pesadelo” vem daquele peso insuportável no peito que nos sufoca durante o sono e desencadeia nossa tendência ao sofrimento e à angústia. Para dormir em paz, somos tentados a deslocar esse peso invisível para longe, o mais longe possível, a nos desapegarmos de tudo. Mas os pesadelos são combatidos abrindo os olhos, despertando. Agora é a vez de Cuba. Durante o cerco de Gaza, para nossa surpresa, a estratégia medieval de matar a população de fome foi usada novamente . Já havíamos notado, há algum tempo, uma estranha mudança no tratamento dos imigrantes. Parece que, para eles, nenhum ditame de direitos humanos é vinculativo. Essa regressão da sensibilidade, para dizer o mínimo, retorna agora com uma brutalidade aberrante. O cerco econômico da ilha, uma espécie de bloqueio final, abala as pessoas como se fossem peões em um jogo estratégico.

A suspensão das exportações de petróleo da Venezuela e do México está finalmente sufocando o funcionamento precário e lamentável de Cuba. Aqueles de nós que passamos anos denunciando o sistema falido que os impediu de evoluir rumo a formas aceitáveis de sobrevivência não podem fechar os olhos para este ataque final orquestrado pelo mentor da política externa dos EUA, Marco Rubio. Com um presidente que mal consegue nomear países corretamente, quanto mais apontá-los em um mapa, movimentos erráticos são movidos por impulso. Se o regime cubano ainda não caiu, é porque a maioria de seus cidadãos, muitos deles idosos, olha para os países vizinhos e valoriza muito o fato de não sofrerem com a violência de gangues, cartéis de drogas, máfias ou jovens ignorantes que se tornam pistoleiros. Eles vivem das remessas enviadas pela vasta comunidade de exilados e suportam condições de vida deploráveis, enquanto esperam que uma transição racional ainda seja possível.

O bloqueio de medicamentos, alimentos e serviços essenciais é um ato de guerra que os cubanos não merecem, por mais tirânico e antiquado que seja seu governo. Essa disfunção em que vivemos, onde inocentes podem ser estrangulados para derrubar líderes locais autoritários, deveria provocar uma rejeição visceral. Crescemos ouvindo histórias de cercos de guerra que nos davam pesadelos. Agora, dormimos profundamente depois de mexer um pouco em nossos celulares.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Os genes egoístas de Trump

Trocar as lentes que utilizamos para interpretar fenômenos pode esclarecer muita coisa. Richard Dawkins promoveu uma pequena revolução conceitual na biologia ao destacar, em 1976, que são os genes, e não o indivíduo ou a espécie, a unidade fundamental sujeita à seleção natural. São os genes que buscam perpetuar-se e, ao contrário de indivíduos e espécies, que têm data mais ou menos marcada para morrer ou extinguir-se, podem perdurar pelo tempo em que existir vida na Terra.


A mudança de lentes explica o que antes parecia inexplicável. Um bom exemplo é a homossexualidade. Para o indivíduo que a pratica de forma exclusiva, é um beco sem saída reprodutivo. Mas, se pensarmos em termos de genes, tudo muda de figura. As mesmas sequências genéticas que levam uma pessoa gay a não ter filhos podem conferir vantagem reprodutiva a seus irmãos do sexo oposto. Com isso, esses genes se fixam no pool da humanidade mesmo que prejudiquem a reprodução de indivíduos específicos.

Stacie Goddard e Abraham Newman sugerem uma troca de óculos para entender Donald Trump. Para a dupla, ações e atitudes do presidente americano que aparentemente desafiam a lógica ficam menos malucas se as virmos como voltadas para beneficiar não os EUA nem grupos econômicos fortes do país, mas para satisfazer suas próprias necessidades egoicas, ajudar nos negócios da família e de seus colaboradores próximos.

O modelo não é Metternich nem Maquiavel, mas Henrique 8º ou os Borgias. A unidade de seleção é a corte trumpiana. Os autores chamam esse estilo de administração de neorrealista ("neoroyalist" em inglês, que é menos ambíguo).

O interessante nessa abordagem é que ela permite entender a facilidade com que Trump sacrifica interesses de longo prazo dos americanos e eventualmente até se alia a Putin ou Xi, tradicionalmente vistos como competidores dos EUA, se a parceria servir a seus interesses paroquiais.

A teoria tem corroboração empírica. Neste ano de Presidência, a família Trump já ficou US$ 1,4 bilhão mais rica.

O terremoto causado pela versão mais recente da IA

“Estamos enfrentando algo muito, muito maior do que a Covid”, alertou Matt Schumer esta semana. Este renomado programador, que trabalha com inteligência artificial (IA), acaba de publicar um artigo intitulado “Algo Grande Está Acontecendo”, no qual alerta sobre as ameaças que os novos modelos de IA representam para milhões de empregos de escritório em todo o mundo. Seu ensaio viralizou, acumulando mais de 80 milhões de visualizações desde terça-feira.

“O motivo pelo qual tantas pessoas no setor estão soando o alarme agora é porque isso já aconteceu conosco ”, explica Shumer, que relata como empresas de IA estão demitindo cientistas da computação e desenvolvedores porque as ferramentas que eles criaram agora estão se reprogramando para se tornarem mais inteligentes. “Não estamos fazendo previsões. Estamos contando a eles o que já aconteceu em nossos próprios trabalhos e os alertando de que serão os próximos”, destaca.


O artigo de Schumer coincide com uma semana turbulenta em Wall Street. Os investidores penalizaram as empresas que correm maior risco de serem afetadas pela ascensão dessa tecnologia. Empresas de software , desenvolvedoras de videogames e de computadores sofreram um revés significativo no mercado de ações, à medida que se espalham notícias sobre as capacidades avançadas dos novos modelos de IA e o risco que representam para milhões de empregos. Especialistas afirmam que uma criança poderá dar instruções para criar um videogame personalizado. E programas de linguagem criados por pessoas com conhecimentos limitados de informática estão se proliferando.

Mas os investidores também veem a automação prestes a se expandir para outros setores menos óbvios, como logística, seguros e consultoria. Com apenas alguns comandos, será possível criar um programa de planejamento tributário ou um chatbot de atendimento ao cliente que supere a interação humana.


“O rápido progresso das ferramentas de IA está alimentando temores generalizados de disrupção em setores mais expostos à difusão dessa tecnologia na economia do conhecimento, particularmente em modelos de negócios que não exigem uso intensivo de capital, com as empresas de software na vanguarda”, explica Yves Bonzon, chefe de investimentos do banco suíço Julius Baer. “As preocupações dos investidores com o impacto disruptivo da IA continuam a pesar sobre as ações americanas, desde corretoras de seguros e serviços imobiliários até logística”, explica o banco de investimentos suíço UBS, que, no entanto, adota um tom otimista para os investidores : “Embora o impacto geral nesses setores e empresas individuais ainda esteja por ser visto, consideramos [esse processo] uma validação do potencial de monetização da IA. Os avanços reforçam sua natureza transformadora.”

“Esta onda de automação é diferente de qualquer outra anterior, e preciso que vocês entendam o porquê”, começa Shumer, apresentando um relato inquietante que repercutiu entre diversos executivos do setor. “A IA não substitui uma habilidade específica. Ela é um substituto geral para o trabalho cognitivo. Ela aprimora tudo simultaneamente. Quando as fábricas foram automatizadas, um trabalhador demitido podia se requalificar para trabalhar como auxiliar de escritório. Quando a internet revolucionou o varejo, os trabalhadores migraram para a logística ou para os serviços. Mas a IA não deixa uma lacuna fácil de preencher. Seja qual for a habilidade, ela também está se aprimorando nela”, acrescenta.

Os alarmes estão soando à medida que as principais empresas de tecnologia intensificam seus investimentos em tecnologias disruptivas. Somente em 2026, as quatro maiores gigantes globais da tecnologia — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — planejam investir mais de US$ 650 bilhões em inteligência artificial . Este é o maior valor já investido em um único ano em qualquer outro desenvolvimento tecnológico; nem mesmo a expansão das ferrovias no final do século XIX, os programas espaciais da NASA ou a bolha da internet no início do século XXI consumiram tantos recursos em tão pouco tempo.

Essas gigantes da tecnologia, com orçamentos maiores que os de alguns países, estão envolvidas em uma corrida frenética para desenvolver IA . Elas precisam treinar seus modelos computacionais em milhares de computadores equipados com a última geração de microprocessadores. Esses computadores são armazenados em gigantescos armazéns — centros de dados — com centenas de servidores para que o sistema possa continuar aprendendo. E elas precisam de usinas de energia especiais para suprir seu enorme consumo energético.

Schumer pinta um quadro assustador. Ele explica como, nos últimos anos, as melhorias nos modelos cognitivos criados por algoritmos alcançaram um progresso exponencial. Mas as versões mais recentes da OpenAI, criadora do popular ChatGPT, ou da Anthopic, que desenvolve o modelo Claude , “não são melhorias incrementais. É algo completamente diferente”, alerta ele.

“A IA não substitui empregos humanos específicos, mas sim o trabalho humano em geral”, argumenta Dario Amodei, CEO da Anthropic, empresa fundada por ex-pesquisadores da OpenAI. Há algumas semanas, Amodei publicou um artigo instigante, “ A Adolescência da Tecnologia: Como Confrontar e Superar os Riscos da IA Poderosa”, sobre os riscos que uma tecnologia dessa magnitude, ou IA Geral (IAG) — capaz de pensar por si mesma — trará. O executivo estima que metade de todos os empregos de escritório no mundo desaparecerá dentro de um a cinco anos. Após analisar as consequências dessa revolução no artigo, ele conclui: “O choque a curto prazo será de magnitude sem precedentes”.

Esta semana, a empresa atingiu uma avaliação de US$ 380 bilhões após sua última rodada de financiamento, na qual arrecadou US$ 30 bilhões. A Anthropic se posiciona como uma das empresas de tecnologia mais preocupadas com a segurança. Ela afirma que seu modelo é treinado seguindo princípios éticos para prevenir manipulação e engano.

Esta semana, a Public First anunciou a criação de um SPAC (Special Purpose Acquisition Company), uma ferramenta de abertura de capital na bolsa de valores, com um aporte de US$ 20 milhões, para promover a transparência e a segurança em modelos de inteligência artificial. A empresa busca influenciar legisladores para que estabeleçam regulamentações e salvaguardas para a IA que previnam abusos. Na realidade, sua estratégia é direcionada contra sua concorrente OpenAI, que utiliza táticas mais agressivas.

O ensaio de Schumer também coincide com a renúncia de dois executivos da OpenAI e da Anthropic, alertando para as profundas mudanças que o mundo enfrenta, não apenas no ambiente de trabalho. “O mundo está em perigo. E não apenas por causa da IA ou das armas biológicas, mas por causa de toda uma série de crises interconectadas que estão se desenrolando neste momento”, escreveu Mrinank Sharma, pesquisador de segurança de IA que deixou a Anthropic para se mudar para o Reino Unido, escrever poesia e “tornar-se invisível”.

Sharma trabalhou em uma área focada em garantir a segurança da IA para combater os riscos do bioterrorismo assistido por IA e investigar “como os assistentes de IA poderiam nos tornar menos humanos”. Ele diz que está saindo com um certo sentimento de resignação.

Na quarta-feira, Zoe Hitzig, pesquisadora da OpenAI, criadora do popular ChatGPT, publicou um artigo no The New York Times expressando suas preocupações sobre a nova prática de empresas de IA de oferecer publicidade. Hitzig, que possui doutorado em Economia por Harvard, escreveu: “Tenho sérias reservas sobre a estratégia da OpenAI”. No dia seguinte, ela renunciou ao cargo. No artigo, ela explica como muitas pessoas usam ferramentas de IA como terapeutas, para compartilhar suas emoções ou simplesmente para conversar. O sistema obtém vantagem ao oferecer publicidade, e Hitzig levanta questões éticas.

Existem também riscos de segurança. Amodei dá o exemplo de um novo país composto pelas 50 milhões de mentes mais brilhantes do mundo. Elas pensam de 10 a 100 vezes mais rápido do que qualquer ser humano. Nunca dormem. Podem usar a internet, controlar robôs, realizar experimentos e operar qualquer coisa com uma interface digital. O especialista alerta que isso representaria “a ameaça à segurança nacional mais séria que enfrentamos em um século, possivelmente em toda a nossa história”.

Recuperando sanidade e verdade na democracia digital

A esfera pública está em crise, física e digital, e expõe um mal-estar civilizatório: relações humanas e democracia definham, não por falta de tecnologia, mas por exaustão psíquica, conformismo criativo e comunicação abusiva, atravessando o indivíduo, sociedade, organizações, famílias e os sistemas coletivos.

O debate cresceu em volume e alcance, mas encolheu em qualidade e tolerância. A pergunta “o que as plataformas fizeram com a política?” é tímida: o que fizeram com a vida mental, o repertório cívico e a imaginação coletiva responsável? Por que tantas lideranças, políticas, organizacionais e familiares, parecem “surtar” aos olhos dos cidadãos, alimentando insegurança cívica?

Voltar à praça pública, à ágora de Atenas antiga, ajuda como laboratório de virtudes públicas, cívicas e políticas nas relações humanas. Ágora, “lugar de encontro”, era onde a população se reunia para ver e ser vista, falar e ouvir, concordar e divergir: a política na potência da palavra como arte do mundo comum. Quando esse lugar de encontro se perde – ou se torna instável, insano, opaco e reativo – o político transborda.

A questão contemporânea é que a infraestrutura do mundo migrou da presença – praça, sala de estar, clube e roda de conversa – para as telas. A ágora física foi substituída pela digital, mediada por algoritmos e incentivos de engajamento, a engenharia da visibilidade. O elemento decisivo também mudou: o discurso público depende menos de presença e virtudes e mais da captura da atenção e de recompensas rápidas. O algoritmo se aperfeiçoa, manipula mentes despreparadas e instrumentaliza lideranças que “escorregam” no limite entre a insanidade e “sua” interpretação de realidade, favorecendo o adoecimento coletivo.

Sem espaços públicos de deliberação, o “político” migra para onde há convivência real: casa, trabalho, escola, lazer, sem mediação ou treino. O que antes era metabolizado por instituições e rituais públicos recai sobre pais, líderes, educadores e cidadãos, sobrecarregando relações e desgastando confiança. Microambientes que deveriam ser mais assépticos em humores e mais harmônicos por função, viram arenas permanentes. O resultado: a esfera pública é empurrada para dentro dos espaços privados e organizacionais.


Aqui Atenas volta como laboratório: precisamos recuperar dois pilares do ideal da ágora democrática: isegoria e parresía.

Isegoria (isos, igual/ agoreuein, falar na ágora) é a igualdade no direito à fala pública: voz ouvida como condição de participação, não como favor e nem silenciada por hierarquia ou intimidação. Parresía (pan, tudo/rhema, dizer) é a honestidade pública: coragem ética de dizer o que precisa ser dito, assumindo riscos com compromisso com o verdadeiro e responsabilidade pelo que se, accountability.

Quando esses dois eixos se degradam, perdemos civilidade (do latim civis/civitas, cidadão e corpo cívico): o tecido de convivência pública que permite desacordos e evolução sem barbárie. Por isso, a crise do debate aproximou-se da clínica: ela impacta o que chamamos de sanidade (do latim sanus/sanitas): a integridade e o que salva a vida, nossa saúde. Sem um mundo comum praticável, a mente coletiva perde repouso, horizonte e imaginação, emergem ideologias e ficções e advém a crise mental e de identidade do mundo atual. The Acropolis in Athens, Greece.

E qual a justa medida do falar público? Em Ética a Nicômaco o filósofo grego Aristóteles, descreve dois desvios: a submedida (eiron), quando se dissimula e se diz “pela metade” e a sobremedida (alazon), quando se exagera, fanfarreia e dramatiza. Nem adulação ou desabafo, nem “sincericídio” nem verborragia. A virtude está no meio: a veracidade (aletheia), regulada pela prudência (phronesis): saber quando, como e quanto dizer a verdade ao outro e sustentá-la em público com franqueza responsável, a parresía. E estamos carentes dela: evitamos fricções, debates e quando surgem, não sabemos lidar, adoecemos, deprimimos e culpas são expiadas “no outro”.

E quando a isegoria adoece? Pelo excesso e seu efeito colateral. A visibilidade virou recurso escasso, distribuído por arquiteturas que maximizam engajamento e premiam reatividade emocional, simplificação e polarização. Se antes a democracia na ágora era presença, reciprocidade e deliberação, hoje se diz que a isegoria está “garantida” porque todos podem postar. Mas postar não é participar e participar não é ser considerado. Sobra solidão, a outra crise na saúde.

O paradoxo é simples: é fácil falar, mas difícil ser ouvido. A visibilidade é filtrada por sistemas que premiam choque e reatividade e punem ponderação. O direito à palavra vira disputa por alcance; debate vira desempenho; esfera pública vira excitação. Assim, a isegoria – que deveria proteger a pluralidade – vira “tirania da visibilidade”: todos falam, se expõem e ninguém sustenta escuta real. O efeito é ruído, desgaste mental, erosão de confiança e fadiga cívica.

Para um debate fértil e saudável, a esfera pública precisa funcionar como um espaço onde ideias são testadas sem medo de aniquilação simbólica e/ou real. D.W. Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, chamou isso de “espaço potencial”: zona que o sujeito pode brincar, testar, criar e revisar, sustentado por um “ambiente suficientemente bom”, favorecendo a saúde mental e a criatividade. Escolas, clubes, praças e vizinhanças, que antes ofereciam este amparo, tornaram-se “ambientes suficientemente hostis”.

Quando o ambiente é persecutório, brincar vira defesa; a criatividade se retrai e falar vira máscara. Se o digital gera medo de humilhação, linchamento ou cancelamento, muitos recuam para bolhas, personas/avatares e autocensura: perde-se empatia coletiva e ganha-se identitarismo; participar deixa de ser ato cívico e vira hostilidade predatória e risco reputacional. Quando este risco sobe, o debate empobrece: menos nuances, imaginação, coragem de revisar e maturidade para suportar tensão. No fim, sofremos, adoecemos e, pior, nos calamos, omissos.

O hiper estímulo e a exposição digital geram cansaço. O filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han, descreve como regime por desempenho produz sociedade superficial e fadigada, exposta a “vírus digitais” como intolerância, preconceito, infodemia e desinformação. Nas redes, o cidadão cansado fala para “existir” e reage para não desaparecer: compreende e decide menos e desaprende a relacionar-se. A isegoria vira exaustão: respostas automáticas, burnout cívico e corrosão da saúde mental coletiva. Sem pausa, escuta e regras de dissenso, a política perde a capacidade de transformar conflito em elaboração e a democracia passa a ser vivida como ameaça constante, não como construção comum.

É aqui que a parresía reaparece como antídoto, não somente como liberdade de expressão e direito passivo contra coerção, mas como virtude cívica: falar consequente, responsável, vinculada ao cidadão. Em A Coragem da Verdade, o filósofo francês Michel Foucault, interpreta a parresía como prática ética e de vida: o sujeito recusa duplicidade e faz da fala um compromisso com sua própria integridade. Em tempos de discursos calculados para agradar, de máscaras algorítmicas, perfis performáticos, isso ganha peso civilizatório e clínico.

Também a saúde mental depende da coerência entre pensar, sentir e comunicar. Quando a vida pública incentiva a encenação permanente, cresce a fragmentação psíquica e a incoerência: diz-se uma coisa, pensa-se outra, sente-se uma terceira. Predominam ressentimento e tendência ao adoecimento, o inverso do que A.Antonovsky, pesquisador israelense, descreveu ao estudar sobre a resiliência humana e a salutogênese, o que gera saúde e nos faz sobreviventes. Aqui a parresía nos aponta para a alteridade: uma imunidade social, afetiva e ética.

Todos dizem querer ordem, respeito e verdade. O problema é que, sem treino de fala e escuta, liberdade vira ruído que gera guerra moralista. Recuperar isegoria e parresía exige mais método e menos pressa, justamente o que a economia da atenção tenta eliminar. Aqui cinco propostas práticas para treinar isegoria e parresía nas nossas ágoras diárias e virtuais: Domine a reatividade (prudência): antes de reagir, pare e pergunte: “Entendi ou me ofendi?”. Garanta escuta (justiça): antes de discordar, resuma o que entendeu e peça confirmação: “É isso?” e só então responda. Separe pessoa de ideia (civilidade): discuta o ponto, a evidência e as consequências; envergonhe-se de xingamentos, insultos e humilhação. Fale sua verdade com responsabilidade (parresía): diga com clareza e segurança o que ocorreu, por que importa e o que propõe. Direito à retratação (força moral): crie espaços “suficientemente bons” para duvidar, revisar, desculpar e mudar de ideia, sem linchamento.

Treinar maturidade cívica é uma urgência sanitária. Evoluir ideias com base em fatos é sinal de caráter saudável. Sem isso, honestidade vira performance e participação, medo – e nada evolui. Se quisermos que a democracia sobreviva no século XXI, precisaremos formar cidadãos capazes de falar com clareza, ouvir com coerência, protegendo as condições psíquicas e educacionais que tornam isso possível, sobretudo para nossas crianças. Este é um outro movimento a ser definido na nova paideia.

O jornalismo que ignora ou distorce os fatos é tudo, menos jornalismo

Há quase 60 anos no batente, aprendi que o editorial expressa a posição oficial de um veículo de comunicação sobre temas relevantes e atuais, sem assinatura individual.

Caracteriza-se por argumentação consistente, linguagem formal e impessoal, servindo para influenciar o público e definir a linha editorial da instituição.

A página dos editoriais abria espaço para artigos de opinião assinados por nomes de peso nas letras e no espectro político, desde que não radicalmente discrepantes das do jornal.

Aos poucos, no embalo das idas e vindas da democracia, a página dos editoriais passou a abrigar artigos que contradiziam em muitos aspectos a opinião do próprio jornal. Foi um avanço.


Aprendi com o tempo que não era, e que não é bem assim. A opinião do dono do veículo se impõe também na hora de se escolher o que se publica, e no destaque que se dá aos fatos.

A grande mídia, por exemplo, não gosta de Lula, jamais gostou ou gostará faça ele o que for. Mas gosta de Tarcísio de Freitas e não disfarça sua irritação por vê-lo fora da sucessão presidencial.

Então, protege Tarcísio na medida do possível, e hostiliza Lula com assiduidade.

Leio em títulos: “Desfile sobre Lula abre brecha para condenação por ilícito eleitoral, dizem especialistas”. Ao ler a notícia, vejo que os ditos especialistas se dividem quanto ao assunto.

Como os leitores, cada vez mais, se limitam a ler títulos, e nas redes sociais só se interessam por vídeos curtos, o que está no título vira verdade. Desenforma-se a pretexto de informar.

A chacina de 122 pessoas no Complexo do Alemão, no Rio, foi tratada pela mídia como uma “megaoperação” policial contra o crime organizado, e não como chacina ou massacre, o que é crime.

Por que foi assim? Para não se indispor com a opinião pública que apoiou a matança por achar que bandido bom é bandido morto? Ou por que compartilha da mesma opinião?

Antigamente, os jornalistas detestavam a interferência dos leitores no seu ofício, um erro. Hoje, a valorizam em excesso. Querem likes. Renderam-se à ditadura dos algoritmos. É mais cômodo.

O Hamas, que governou Gaza e invadiu Israel, é chamado de grupo terrorista pela grande mídia. Mas o revide desproporcional de Israel nunca foi chamado de terrorismo de Estado, o que é.

Lula taxou de genocídio a morte em Gaza de mais de 70 mil palestinos, a maioria mulheres e crianças. Israel segue os matando por lá. Por aqui, o mundo desabou sobre a cabeça de Lula.

Se aqui o jornalismo não vive ameaçado por Lula, nos Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, ocorre justamente o oposto. No berço da democracia, ele está sendo sufocado.

Não foi por encomenda, não há provas, que a escola Acadêmico de Niterói exaltou Lula na avenida. Por mais que se busque provas com lupa, nenhuma foi encontrada de que Lula violou as leis.

Mas deseja-se condená-lo a qualquer preço para enfraquecê-lo e – quem sabe? – derrotá-lo nas próximas eleições.

Qualquer um de nós é livre, e deve ser, para ter sua opinião. Eu tenho as minhas e as exponho às críticas. Mas o jornalismo que ignora fatos ou que os distorce não é jornalismo digno desse nome.

É outra coisa. Um negócio como outro qualquer.