segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A peste limpou as terras

“Deus é inglês”, disse o piedoso John Aylmer, pastor de almas, há uns quantos anos. E John Winthrop, fundador da colônia da baía de Massachusetts, afirma que os ingleses podem apropriar-se das terras dos índios tão legitimamente como Abraão entre os sodomitas: O que é comum a todos não pertence a ninguém. Este povo selvagem mandava sobre vastas terras sem título nem propriedade. Winthrop é o chefe dos puritanos que chegaram no Arbella, há quatro anos. Veio com seus sete filhos.

O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.


Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.

A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.

A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.

Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

Confundir paz com pás

Numa das minhas últimas viagens a Angola, ofereceram-me uma obra já antiga de Pepetela, o romance Parábola do cágado velho (Luanda: Texto ed., 2016). A estória, escrita com a conhecida mestria do autor, reflete a cultura popular e a vida dos camponeses no interior do país, durante a longa guerra civil que se seguiu à independência.

Registei, em especial, uma frase: “(…) ainda não há paz, só se anda à procura dela.” Ou seja, as pessoas desejavam que o conflito terminasse para tocarem a sua vida para a frente, em sossego, mas a realidade de todos os dias ia desmentindo a possibilidade de alcançar a tão almejada paz e a segurança que dela haveria de decorrer.


Depois de os angolanos terem lutado pela libertação do colonizador, não contra o povo português mas sim contra o governo autocrático de Lisboa, guerreavam agora entre si, que é a pior das guerras, irmãos contra irmãos. Nada de novo na História.

O processo político e militar que levou as 13 colónias britânicas da América do Norte a rebelarem-se contra o domínio da Grã-Bretanha ficou conhecido como Revolução Americana (1765-1783), tendo influenciado a Revolução Francesa e movimentos independentistas. Dela resultou a fundação dos Estados Unidos da América, formalizada pela Declaração de Independência de 4 de julho de 1776, e portadora duma nova filosofia política, inspirada nos ideais liberais e iluministas europeus.

Décadas mais tarde, estalou a Guerra da Secessão (1861-1865), um confronto muito mais curto na duração mas muito mais penalizador em vidas humanas. Desse confronto, que opôs o norte industrializado ao sul agrário e esclavagista, resultaram cerca de 600 mil mortos, revelando-se assim muito mais devastador do que o processo da independência.

Como dizia a personagem de Pepetela, é preciso andar à procura da paz até a encontrar. Não é coisa que se descubra debaixo duma pedra, que se colha das árvores ou que se compre numa loja qualquer. A resolução de qualquer conflito parte de atitudes humanas de quem tem o poder. Tem que ser pacientemente tecida com muita determinação e consciência.

A guerra é a atividade humana mais estúpida ao cimo da terra, visto que ninguém ganha com ela, mesmo quando parece que sim. Mas se formos a ver até o vencedor declarado – quando o há – tem que lamber as feridas e pagar o preço de devastação na economia e no edificado, além dos mortos, feridos, estropiados e perturbados mental e emocionalmente. A guerra diminui-nos como seres humanos. Por isso Einstein dizia que “a paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos.”

Isto devia levar os governantes dos países a pensar muito bem antes de iniciar um conflito armado. A administração Trump atirou-se ao Irão e afinal agora não sabe como sair de lá sem dar a ideia de derrota. Não alcançou nenhum dos seus objetivos e, entretanto, a situação ficou bem pior do que antes, como se vê pelo estado em que se encontra o Estreito de Ormuz. Lembremo-nos que a maior potência militar do mundo já antes tinha saído com o rabo entre as pernas do Vietname e, mais recentemente, do Afeganistão.

O Império Britânico não conseguiu impedir a independência dos Estados Unidos, nem da Índia e do Paquistão. O regime desumano do apartheid na África do Sul não conseguiu subsistir. As colónias africanas não puderam continuar a ser mantidas pelas potências europeias desde os anos sessenta. E no entanto todos recorreram à força para evitar o inevitável.

A ideia de que a paz se faz pela guerra é muito questionável. Normalmente, comportamento gera comportamento, e o povo diz que quem semeia ventos colhe tempestades. Segundo John Kennedy, “são precisos dois para fazer a paz.”

E claro, nunca é demais lembrar a afirmação de Jesus Cristo: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27). Mas esta é uma paz suprema, a paz espiritual, que está acima de qualquer outra.

A paz ambicionada não pode continuar a ser confundida com as pás de enterrar os mortos em Gaza, no Líbano, na Ucrânia, na Rússia e em tantos outros lugares de que pouco se fala. Tenham juízo, procurem a paz.

Considerações sobre o ‘interregno’

Como tudo na vida, palavras envelhecem, e talvez seja essa a sensação que nos assalta ao depararmos com o uso reiterado de “interregno” para indicar o atual estado das coisas. Na conhecida formulação de Gramsci, a velha ordem está morta e não mais regula corações e mentes, enquanto a nova ainda não consegue se afirmar. No intervalo entre ambas, o mundo se enche de sintomas mórbidos. Provocadora, a imagem parece explicar o caos ao redor, mas há quem nela observe a persistência de uma certeza anacrônica sobre a nova ordem que viria a se impor por meio da revolução.

Admitida a observação, pode-se ainda teimar em que a metáfora ao menos chama a atenção para os riscos próprios de épocas de transição como a nossa. Não por acaso, circulam por aí ideias-zumbis e figuras extravagantes, que recusam comportamentos baseados em regras, ainda que imperfeitas, e proclamam a lei do mais forte. Os sintomas precisam ser pesquisados, assim como buscados os remédios, todos eles políticos, naturalmente. Essa procura incessante, sem prescindir de analogias, não pode se limitar a elas – os adversários da sociedade aberta não são os mesmos de 1930 nem liquidá-los como “fascistas” nos deixa necessariamente em posição mais segura.


Pode ser que estejamos de novo em plena mudança estrutural do espaço público – mudança que, significativamente, Anton Jäger, pesquisador belga da Universidade de Oxford, descreve em termos de “hiperpolítica” (cf. Hyperpolitics: Extreme Politicization Without Political Consequences, Verso Books). Para onde quer que olhemos, pessoas comuns estão em meio a polêmicas ferozes e a contraposições intratáveis. Parecem se contentar com identidades fixas numa sequência interminável de guerras digitais. Algoritmos invisíveis confinam em guetos até quem, pouco antes da entronização das redes sociais, tocava em paz a vida, imerso no próprio mundo privado. Uma politização inflamada, sem dúvida, mas de modo geral sem engajamento em partido, sindicato ou associação “real”.

De fato, essa não é a política de massas da alta modernidade. Para o bem e para o mal, os partidos eram como que a “nomenclatura das classes”. Partidos conservadores podiam ter uma base popular considerável ou, se fossem democratas cristãos, inseriam uma dimensão solidária no liberalismo.

Partidos trabalhistas ou comunistas enraizavam-se na vida sindical, buscando integrar institucionalmente os “de baixo” ou mobilizá-los para a utópica nova ordem anteriormente mencionada. Tudo somado, um processo amplo de incorporação política, abalado, de tempos em tempos, por choques ideológicos que levaram a sacrifícios enormes e a guerras de violência sem precedentes.

A globalização neoliberal dos anos 1990 significa ruptura radical com este “mundo de ontem”. A revolução assim desencadeada, disseminando a mercantilização de todos ou quase todos os âmbitos da vida, teve uma característica singular: fez da economia o fator de ordenação tendencialmente total. Com Reagan e Thatcher, o capitalismo se reinventa e mais uma vez dissolve no ar tudo o que aparentava solidez. A administração das coisas predomina, as instituições se esvaziam, os partidos apresentam programas que mal se distinguem uns dos outros. Afinal, “não havia alternativa”, uma frase de rara soberba que se proclamava aos quatro ventos.

O século 21, sobretudo a partir da grande crise de 2008, se encarregou de liquidar as ilusões economicistas da “pós política” – e aqui voltamos ao argumento mais original de Jäger sobre o “interregno”. Coletivamente não nos livramos da rarefação institucional anterior, até porque não se interrompeu a individualização frenética da vida. Movemo-nos como átomos, as mobilizações hiperpolíticas podem ser intensas, mas são também fugazes e instáveis. E o drama maior é que não há caminho de volta: impossível, ou inaceitável, voltar às formas organizacionais da maior parte do século passado, que não mais seriam vividas como vetores de liberdade.

A reconstrução da sociedade civil, espaço de mediação entre indivíduo e Estado, é o desafio posto diante das forças democráticas há muito na defensiva. No variado espectro do liberalismo, há gente disposta a experimentar formas inovadoras de mudança e recriação da vida social. E, felizmente, o mesmo pode ser dito dos socialistas que não se curvaram ao canto das sereias populistas e à sua recorrente desconfiança dos procedimentos democráticos. Fazer com que aqui e ali, e ainda que aos poucos, se estabeleçam nexos entre essas duas grandes áreas político-culturais é um objetivo permanente, não uma tática para circunstâncias críticas.

O motor de tal convergência é a constatação de que, no presente “interregno”, o frenesi hiperpolítico e a pobreza institucional formam terreno propício para a recomposição dos poderes fortes e a afirmação dos homens providenciais. Tais processos negativos – é dispensável dizer – constituem o núcleo dos sintomas mórbidos que vêm corroendo por dentro as modernas democracias e o sistema de liberdades que lutas seculares nelas inscreveram.

O lado evangélico da força

A estrutura moral sobre a qual se erguem as religiões é tão rígida que, se não houvesse a figura do perdão, seria humanamente impossível segui-la. Mas os crentes podem ficar descansados porque perfeito só Deus e até Jesus Cristo vacilou na hora da morte quando exclamou: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” Era a solidão extrema a falar, depois de carregar os pecados do mundo. Para os humanos, existe um consolo: podem pecar, são humanos, e arrepender-se depois, alcançando o perdão da bondade divina.

Nos tempos atuais, as contradições entre o que manda a lei divina e o que os crentes pensam parecem ter deixado de ser dilemas morais dilacerantes que exigem arrependimento. Podemos acreditar em Deus e nos seus mandamentos (“Não matarás”) e defender abertamente a pena de morte em público, pregando-a até através dos média.

Não levantar falsos testemunhos, não cometer adultério, não cobiçar as coisas alheias… tudo muito relativo numa lista de mandamentos que devia ser absoluta. A famosa hipocrisia que sempre se atribuiu à Igreja Católica (pregando a humildade e o jejum enquanto os seus representantes se refastelavam em riquezas e banquetes) é o novo normal dos crentes em geral, não só os católicos. E aqui falaremos dos cristãos, católicos e evangélicos, que se dizem guiados pela palavra de Jesus Cristo.


Somos todos irmãos? Mais ou menos. Para a ultradireita religiosa, ciganos, africanos ou indostânicos não são propriamente nossos irmãos, não têm o direito de habitar o nosso país, como um irmão que queremos ver expulso de nossa casa. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra? Especial cuidado com esta, podemos acabar violentamente apedrejados pelo julgamento precipitado de quem não mostra qualquer misericórdia.

Somos contra a imigração, mas aceitamos o apoio de evangélicos brasileiros? Claro, são uma franja importante da direita radical a quem é preciso dar a mão. Deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, integram o novo movimento de mulheres conservadoras, onde se incluem várias brasileiras evangélicas. Não estão lá por acaso, elas têm um papel principal, refletido, aliás, nos vídeos de promoção.

Os vídeos de mulheres cristãs conservadoras são uma ferramenta preciosa para os grupos red pill, de homens que odeiam a emancipação feminina. Eles usam-nas justamente para mostrar que as próprias mulheres defendem este regresso a casa e à família, como se alguma vez elas tivessem deixado de ter o trabalho maior em casa e com os filhos. Curioso que muitos destes homens nem sequer têm um salário que lhes permita sustentar sozinhos uma família, mas isso são pormenores, contradições – e talvez a grande causa do seu ódio contra as mulheres independentes.

As mulheres conservadoras cristãs também vivem um paradoxo sem nenhuma lógica. Se defendem que o voto, por exemplo, deve ser familiar (ou seja, um voto por família, centrado no chefe da casa, como pedem tantos movimentos evangélicos), o que andam a fazer em vídeos nas redes sociais ou por que andam a criar movimentos para ter voz? Não devíamos estar a ouvi-las a elas, mas sim aos maridos.

Sem nenhuma coerência entre o que dizem e o que fazem, fica difícil convencer os não crentes. Neste atentado à razão, resta suspirar, como Jesus Cristo: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem.”

Este filme já passou e no fim o bandido morre. Mas se não morrer?

Saudades de quando Flávio Bolsonaro ensaiava, meio sem jeito, dancinhas despojadas de graça e se apresentava como a versão moderada do pai — aquela tão desejada pelo Brasil, segundo ele. Agora, Flávio desfila pelos palcos do país como uma cópia quase perfeita do pai, condenado a 23 anos e sete meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. É uma cópia quase perfeita porque o pai tem carisma e ele não, além de o pai ser muito mais inteligente do que o filho.

O escândalo do Banco Master começou a derrubar a farsa do Flávio bonzinho, educado e conciliador. Uma vez que fracassou na tarefa de atrair o apoio de outros partidos ao seu nome, restou-lhe se conformar com o que de fato é: aliado de milicianos, adepto de práticas heterodoxas no manuseio do dinheiro público, capaz de prestar vassalagem a presidentes estrangeiros e de negociar os interesses nacionais, se preciso for, para se eleger.


Com isso, está de volta o Flávio defensor da retirada de circulação, “em pé ou deitado”, de bandidos, “porque quem tem de andar nas ruas é a população”. Está de volta o Flávio que também promete aprovar no Congresso a castração química para estupradores de crianças e mulheres. “Não gostou? Vote em defensor de bandido”, ele sugere. Está de volta o Flávio que ataca a segurança das urnas eletrônicas e se propõe a reformar, ao seu gosto, o Poder Judiciário.

Esse filme já passou, e no fim o bandido morre. Mas isso foi no tempo em que o espectador sabia distinguir com clareza entre bandido e mocinho. Na era da busca incessante por justiceiros, o bandido pode parecer mais eficaz do que o mocinho de bons modos. Os ritos da democracia costumam ser mais lentos do que os da ditadura, e os golpistas se aproveitam disso para alcançar seus objetivos. Espantoso é que o façam em nome da democracia e da liberdade de expressão.

Por fim, derrotar o bolsonarismo pela segunda vez consecutiva não o sepultará para sempre, mas daqui a quatro anos ele estará mais fraco. Pensem nisso na hora de votar.

Alerta urgente: a água que ainda teimamos em desperdiçar

Há viagens que nos deixam fotografias. Outras deixam-nos uma inquietação que regressa connosco a casa. A viagem que fizemos entre os dias 4 e 14 de agosto, ao longo de cerca de 2.900 quilómetros de estrada, entre Aveiro, Burgos, Toulouse, Carcassonne, Albi, Narbonne, Narbonne-Plage, Gruissan, Bordéus, Valladolid e Tordesilhas, trouxe-me uma certeza física que é difícil ignorar: o clima que durante décadas associei a Cabo Verde, ao Brasil, à Guiné Equatorial, à Tunísia ou a outras geografias de calor e escassez começou a instalar-se dentro da Europa.

Em sucessivos dias, atravessámos temperaturas entre os 36 e os 41 graus Celsius. Em Albi, os registos apontaram para 40 graus nos dias 13 e 14; em Carcassonne, a estação registou 40,6 graus no dia 13; em Bordéus, a Météo-France registou 40,9 graus nesse mesmo dia; e, em Narbonne, as temperaturas máximas chegaram aos 40 e 41 graus. Não são apenas números: são temperaturas que modificam o comportamento, alteram o sono, dificultam o trabalho, tornam penosa a permanência ao ar livre, a respiração e transformam a simples deslocação de uma pessoa numa experiência árdua de resistência física.

Burgos não escapou a esse corredor de calor. No dia 12 de agosto, a estação do aeroporto chegou aos 36 graus durante a tarde. Em Valladolid, a estação da AEMET registou 37,3 graus às 18 horas do dia 12, depois de uma manhã que já começara com temperaturas elevadas; no dia seguinte, as previsões locais apontavam para 39 graus. Em Tordesilhas, onde parámos antes do regresso, a temperatura acompanhava a mesma massa de ar quente que afetava a província de Valladolid. O termómetro pode variar alguns graus entre estações e localidades, mas a sensação no corpo não precisa de uma casa decimal para se tornar evidente: atravessávamos uma Espanha e uma França que nos obrigavam a reorganizar o dia em função do calor.


Em Toulouse, Carcassonne, Albi, Narbonne, Narbonne-Plage, Gruissan e Bordéus, a paisagem continuava magnífica, mas o corpo já não a recebia da mesma maneira. Há um momento em que o calor deixa de ser apenas uma característica do lugar e passa a dominar o lugar. O monumento continua no mesmo sítio, o rio Garonne e o Canal du Midi continuam a correr, a praça continua cheia de história, as vinhas continuam alinhadas no horizonte; mas nós começamos a perguntar-nos quanto tempo podemos permanecer ali. O clima deixa de ser pano de fundo e transforma-se em protagonista.

Conheço essa sensação. Vivi em Cabo Verde, na Tunísia, no Brasil e na Guiné Equatorial. Conheço o que significa viver numa geografia onde a água não é uma evidência quotidiana. Sei o que é passar semanas sem água. Sei o que significa receber na cisterna uma tonelada de água para um mês inteiro e ter de a distribuir pela higiene, pelo banho, pela cozinha, pela roupa, pela limpeza da casa e pelas restantes necessidades essenciais. Uma tonelada são mil litros. Divididos por 30 dias, representam cerca de 33,3 litros por dia. Não 33 litros para beber, porque é impossível por ser perigosa. Não 33 litros para tomar banho. Trinta e três litros para tudo.

Quando se vive assim, a água muda de estatuto. Deixa de ser invisível. Cada banho é uma decisão. Meio copo de água para lavar os dentes. Cada lavagem de roupa implica planeamento. Cada balde tem um destino. Cada litro desperdiçado transforma-se numa perda concreta. Em Cabo Verde, lavavam o meu carro com meio balde de água. Aquilo que um europeu pode interpretar como uma curiosidade ou uma extravagância de contenção era, na realidade, uma resposta racional à escassez. Quando a água pode faltar durante dias ou semanas, desperdiçá-la deixa de ser um comportamento banal e passa a ser uma forma de irresponsabilidade.

É impossível transportar essa experiência para a Europa sem fazer uma pergunta incómoda: quanto gastamos nós?

Um residente europeu utiliza, em média, cerca de 124 litros de água por pessoa e por dia no abastecimento doméstico, embora existam diferenças muito significativas entre países e regiões. Isto significa que o consumo doméstico médio europeu é aproximadamente 3,7 vezes superior aos 33,3 litros diários com que aprendi a viver em situações de escassez. A diferença é tão grande que deveria bastar para nos obrigar a repensar a palavra “normalidade”. O que chamamos consumo normal numa sociedade de abundância seria, noutro contexto, um luxo difícil de imaginar.

Há, porém, uma segunda conta, muito mais perturbadora. Os 124 litros não representam a água escondida nos alimentos que comemos, na energia que consumimos ou nos bens que compramos. Quando se calcula a pegada hídrica associada ao consumo de um cidadão médio da União Europeia, incluindo a água incorporada nos processos de produção, a estimativa chega a cerca de 5.011 litros por pessoa e por dia. Desses, aproximadamente 3.687 litros correspondem à alimentação. Não estamos, portanto, perante cinco mil litros que cada europeu abre diariamente numa torneira. Estamos perante água incorporada naquilo que consumimos, grande parte dela invisível para o consumidor final. A dimensão desta diferença é decisiva: os 33 litros da escassez e os 124 litros do uso doméstico tornam-se quase incompreensíveis quando os comparamos com uma pegada hídrica de milhares de litros por dia.

É precisamente nesta água invisível que começa uma parte fundamental da discussão sobre o desperdício.

Quando deitamos fora comida, estamos também a desperdiçar a água utilizada para a produzir. Quando compramos mais alimentos do que aqueles que conseguimos consumir, não estamos apenas a desperdiçar euros. Desperdiçamos água, solo, energia, trabalho agrícola, transporte e tempo. Quando exigimos frutas e legumes disponíveis durante todo o ano, indiferentes à estação, ao território e à disponibilidade hídrica, estamos a transferir o custo ambiental para regiões onde a água já é escassa. Quando consumimos produtos agrícolas produzidos em contextos de forte pressão sobre os recursos hídricos, a água continua a fazer parte do produto, embora já não esteja diante dos nossos olhos.

A água que não vemos é, muitas vezes, a água que mais desperdiçamos.

É por isso que a questão climática não pode ficar confinada à temperatura do ar. Os 41 graus que sentimos em determinados momentos da viagem são apenas uma parte da equação. A outra está debaixo dos nossos pés: nos solos secos, nos aquíferos pressionados, nos rios com caudais reduzidos, nas culturas agrícolas que precisam de água precisamente quando a evaporação é maior, nos agricultores que olham para o céu e sabem que uma semana sem chuva pode significar uma parte substancial do rendimento anual perdida.

Os dados do Joint Research Centre da Comissão Europeia mostram precisamente esse problema. As ondas de calor e a precipitação limitada têm afetado a humidade dos solos e a produção agrícola em várias regiões europeias, com revisões em baixa das previsões para diferentes culturas, incluindo milho e girassol. A agricultura está a entrar numa nova relação com o clima: não basta saber se choverá; é necessário saber quando choverá, quanto choverá, durante quanto tempo o solo conseguirá reter essa água e se a temperatura permitirá que a planta complete o seu ciclo.

O agricultor encontra-se no centro deste dilema. É ele quem recebe a primeira fatura de um clima alterado. Uma indústria pode, dentro de determinados limites, mudar processos, deslocar horários, instalar sistemas de refrigeração. A agricultura não pode simplesmente mandar uma planta esperar que a temperatura desça. O trigo, o milho, o girassol, a vinha, a oliveira, as árvores de fruto e as hortaliças têm ciclos biológicos. Uma cultura não negoceia com o calendário económico. Precisa de água numa determinada fase, de temperaturas compatíveis com a floração, de solos capazes de reter humidade e de condições que permitam a maturação.

Quando tudo isso falha, perdemos mais do que uma colheita. Perdemos alimento. E quando perdemos alimento, aumentam os preços. Quando aumentam os preços dos alimentos, a inflação deixa de ser um conceito macroeconómico e passa a entrar diretamente no orçamento das famílias.

A França oferece um exemplo evidente. A seca e o calor de agosto afetaram fortemente as culturas de milho, com estimativas de quebra significativa da produção nacional. O problema não termina no campo francês: a redução da produção de um grande produtor europeu altera os equilíbrios de mercado, aumenta a necessidade de importações e pode repercutir-se na alimentação animal, nos preços e em toda a cadeia agroalimentar.

Precisamos de compreender esta cadeia antes de dizermos que a água é apenas uma questão ambiental. A água é agricultura. A agricultura é alimentação. A alimentação é economia. A economia é estabilidade social. E a estabilidade social é política.

Uma seca prolongada pode começar num aquífero e acabar numa eleição.

É por isso que o editorial de Rui Tavares Guedes, publicado na VISÃO de 19 de agosto, merece ser lido como um sinal de mudança de escala. O clima deixou de ser uma preocupação que podíamos projetar para um futuro distante ou atribuir a regiões pobres e vulneráveis do planeta. A seca e o calor estão agora a atingir diretamente a Europa rica, com consequências económicas que o próprio editorial estima em dezenas ou mesmo centenas de milhares de milhões de euros. O clima voltou a ser urgente porque já deixou de ser abstrato.

Mas falta acrescentar uma palavra que, na minha opinião, deve ocupar o centro desta discussão: desperdício.

Enquanto agricultores enfrentam restrições de água, continuamos a alimentar uma cultura de consumo excessivo. Enquanto rios e aquíferos suportam pressão, aceitamos usos de água que poderiam ser substituídos ou reduzidos. Enquanto discutimos a seca, continuamos a lavar automóveis com água potável, a limpar pavimentos com mangueiras, a manter jardins que exigem rega intensa, a encher piscinas e a comportarmo-nos como se cada verão fosse garantidamente igual ao anterior.

A Agência Europeia do Ambiente chama a atenção para um dado igualmente relevante: o turismo pode representar consumos muito superiores ao uso doméstico dos residentes em determinadas regiões. A estimativa citada pela Agência situa o consumo turístico entre 300 e 2.000 litros por pessoa e por dia, devido sobretudo a hotéis, piscinas, restauração, espaços verdes e outros serviços. O problema torna-se particularmente sensível em áreas mediterrânicas, onde a pressão turística coincide precisamente com os meses de maior escassez de água.

A pergunta torna-se inevitável: que sentido faz continuar a tratar a água como um recurso barato e praticamente ilimitado precisamente nos lugares e nos meses em que ela é mais escassa?

Não defendo uma cultura de privação. Defendo uma cultura de inteligência. Não precisamos de voltar ao meio balde de água para lavar um carro. Precisamos de aprender com a lógica que existe por detrás dele: usar apenas aquilo que é necessário.

Há uma enorme diferença entre austeridade e eficiência. A austeridade é imposta pela falta. A eficiência é construída antes da falta. Essa diferença deveria orientar a política de água, como prioridade e urgência absoluta.

Precisamos de redes de abastecimento com menos perdas. Precisamos de reutilizar águas residuais tratadas sempre que isso seja tecnicamente e sanitariamente seguro. Precisamos de recolher água da chuva. Precisamos de sistemas de rega mais eficientes. Precisamos de culturas agrícolas adaptadas às características hídricas de cada território. Precisamos de solos ricos em matéria orgânica, capazes de reter água durante mais tempo. Precisamos de proteger zonas húmidas, rios, nascentes e aquíferos. Precisamos de cidades desenhadas para absorver e guardar água e não apenas para a escoar rapidamente para longe.

E precisamos de começar a discutir sem tabus aquilo que a escassez obrigará a discutir mais tarde: prioridades.

Quando a água não chega para todos, quem tem prioridade? A água para beber ou a água para uma piscina? A água para produzir alimentos ou a água para manter um jardim ornamental? A água para uma comunidade ou a água para uma atividade económica altamente consumidora?

Estas perguntas não podem ser adiadas até ao momento em que os depósitos estejam vazios. Uma política de água responsável estabelece critérios antes da emergência.

Também os agricultores precisam de uma política de transição. Não podemos pedir-lhes que mudem culturas, sistemas de rega, variedades de sementes e técnicas agrícolas sem financiamento, conhecimento e assistência técnica. Não podemos exigir alimentos baratos e abundantes e, simultaneamente, deixar o produtor sozinho perante uma transformação climática que não provocou.

A agricultura de amanhã terá de produzir mais alimento com menos água, mas isso não acontecerá por decreto. Exigirá ciência, tecnologia, investigação agronómica, seleção genética, gestão dos solos, agricultura de precisão, conhecimento local e investimento. Exigirá também uma mudança no consumidor. Comprar local, respeitar a sazonalidade, reduzir desperdício alimentar e aceitar que determinados produtos podem tornar-se mais caros ou menos disponíveis constituem formas concretas de participar nessa adaptação.

A escola também terá de mudar.

Uma criança portuguesa deveria saber que a água que sai da torneira não nasce na torneira. Deveria compreender o ciclo hidrológico, conhecer o conceito de bacia hidrográfica, perceber a importância dos aquíferos, saber quanto custa tratar água e compreender a relação entre aquilo que come e a água utilizada para produzir esse alimento. Deve ainda possuir uma família inteligente, sábia, esclarecida.

Devemos ensinar que deitar comida fora é também deitar água fora. Devemos ensinar que um jardim não precisa necessariamente de plantas importadas de climas húmidos. Devemos ensinar que abrir uma torneira durante cinco minutos não é um gesto neutro. Uma torneira aberta durante cinco minutos pode desperdiçar entre 45 e 60 litros de água. Devemos ensinar que a água é um bem comum antes de ser um serviço. E devemos ensinar uma palavra que durante décadas confundimos com privação: contenção.

Conter não é viver pior. Conter é saber distinguir o necessário do excessivo.

A Europa construiu um modelo de vida baseado na disponibilidade permanente. Água disponível. Energia disponível. Alimentos disponíveis. Transporte disponível. Consumo disponível. Esse modelo funcionou enquanto os recursos pareceram abundantes e os seus custos ambientais permaneceram escondidos. A crise climática está a revelar o preço que não quisemos ver.

É neste ponto que o estudo associado ao MIT e ao modelo World3 precisa de ser lido sem exageros. A notícia do canal francês TF1, no dia 19 de agosto, apresentou o tema sob um enquadramento alarmista, sugerindo um eventual colapso da civilização em 15 anos. O estudo científico não afirma que a civilização terminará numa data concreta. O que a investigação fez foi recalibrar o modelo com dados empíricos mais recentes e verificar que, num cenário de continuidade das tendências, persiste uma dinâmica de overshoot and collapse: crescimento para além dos limites do sistema, seguido de deterioração de algumas variáveis fundamentais. O valor do estudo não está numa profecia apocalíptica, mas na demonstração de que sistemas complexos podem ultrapassar limites antes de a sociedade perceber que os ultrapassou.

Esta diferença é fundamental. O futuro não é uma data marcada num calendário. É uma consequência. E as consequências começam com milhões de decisões aparentemente pequenas.

Uma torneira aberta. Uma piscina cheia. Um jardim regado durante as horas de maior evaporação. Um carro lavado com água potável. Uma cultura agrícola plantada num lugar onde a água já não chega. Uma floresta sem capacidade de retenção. Um solo empobrecido. Um alimento comprado e depois deitado fora. Uma rede de abastecimento que perde água antes de ela chegar a casa.

Cada ato isolado parece pequeno. O sistema de muitos milhões de atos deixa de ser pequeno.

Foi isso que compreendi ao regressar de uma viagem em que atravessei Espanha e França sob temperaturas que o meu corpo reconheceu, mas que o meu imaginário europeu ainda não estava preparado para aceitar como rotina. De Aveiro a Burgos, de Burgos a Toulouse, de Toulouse a Carcassonne e Albi, de Albi a Narbonne e à costa mediterrânica, de Narbonne a Bordéus, e depois novamente para Valladolid, Tordesilhas e Aveiro, a paisagem foi mudando. A sensação permaneceu.

Calor. Secura. Cansaço. Necessidade de procurar sombra. Necessidade de água.

E uma pergunta cada vez mais insistente: quanto tempo conseguimos continuar a viver como se a água nunca fosse faltar?

Não considero a Europa condenada. Considero-a atrasada na aprendizagem.

Há milhões de pessoas no mundo que sabem viver com muito menos água do que nós porque foram obrigadas a fazê-lo. Aprenderam a guardar, reutilizar, selecionar, conter. Aprenderam que um recurso escasso merece outra relação.

Eu próprio aprendi isso com uma tonelada de água. Mil litros. Trinta e três litros por dia.

Hoje, diante de uma Europa que consome, em média, cerca de 124 litros por pessoa diariamente, apenas no uso doméstico, e cuja pegada hídrica associada ao consumo pode ultrapassar os 5.000 litros por dia, essa experiência deixou de ser apenas uma memória pessoal. Tornou-se uma unidade de medida moral.

Não precisamos de viver com 33 litros por dia. Precisamos de deixar de viver como se tivéssemos água infinita. Essa é a verdadeira urgência.

Não basta combater as alterações climáticas. Temos de aprender a adaptar-nos ao clima que já mudou e, ao mesmo tempo, reduzir tudo aquilo que aumenta a pressão sobre os recursos.

Não basta pedir chuva. Temos de proteger a água quando ela chega. Não basta pedir aos agricultores que poupem. Temos de mudar a agricultura. Não basta pedir aos cidadãos que fechem a torneira. Temos de transformar as cidades e as redes de abastecimento. Não basta falar de sustentabilidade. Temos de transformar hábitos, políticas públicas, agricultura, educação e economia.

A água não é o futuro. A água é o presente. O futuro depende da forma como decidimos tratá-la hoje.

E quando, depois de quase três mil quilómetros de estrada, regressamos a casa e abrimos uma torneira, deveríamos lembrar-nos de que há pessoas para quem esse gesto continua a ser um privilégio.

Foi isso que Cabo Verde, a Tunísia e outros lugares onde vivi me ensinaram. A escassez não começa quando a torneira deixa de deitar água. Começa muito antes. Começa no momento em que deixamos de compreender o valor de cada litro, cada gota.

Fica aqui o desafio ao leitor dos 33,3 litros por dia.

Linchamento em Copacabana é o fundo do poço


Não chega a ser novidade a banalização da vida. No Rio de Janeiro. No Brasil. No mundo. Discute-se intensamente quais são os corpos suscetíveis à morte, deixados para morrer, matáveis. Cartão-postal carioca, território do maior réveillon do planeta, cenário de atrações internacionais todo mês de maio, bairro do hotel mais famoso do país, Copacabana agora é também palco da barbárie nua e crua. Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, foi espancado até a morte, em via pública, por quatro assassinos, por supostamente ter subtraído a bicicleta com que saíra para passear na noite de terça-feira, 11 de agosto.

Cláudio Rafael não era ladrão. A bicicleta com que saíra de Botafogo, outro bairro da Zona Sul, para Copacabana pertencia a uma de suas irmãs. Inocente, foi vítima do ódio homicida de quatro criminosos, dois deles disfarçados de seguranças privados — eufemismo Zona Sul para aqueles que, no subúrbio e na favela, são denominados milicianos — e os demais, de entregadores do iFood. Em seis minutos, o quarteto desferiu 57 pauladas, chutes, pisões e socos num homem neurodivergente. Cláudio permaneceu em agonia na calçada por meia hora, até ser resgatado por bombeiros. No hospital, faleceu.

O sangue da vítima ficou no calçamento. Dias atrás, depois que a família denunciou o assassinato, a polícia passou pelo local em busca de vestígios e imagens. Os registros não deixam dúvidas sobre a covardia. O delegado encarregado do caso, Ângelo Lages, titular da 12ª DP, classificou o crime como homicídio triplamente qualificado: por motivo fútil, cometido com crueldade e sem chance de defesa da vítima.


A barbaridade cometida pela gangue é infinitamente mais grave que o pretenso furto ou roubo da bicicleta, fosse Cláudio Rafael um assaltante. Tiraram a vida de um inocente. Mas linchamento, pena capital, execução sumária não são punições previstas no Código Penal para furto simples (um a quatro anos de detenção), qualificado (dois a oito anos), nem para roubo (quatro a dez anos), ainda que com lesão corporal (sete a 18) ou morte (20 a 30 anos).

Uma sociedade que permite linchamento está, ela própria, adoecida; se pactua com o justiçamento, está ferida de morte. No corpo inerte de Cláudio Rafael ficaram as digitais dos quatro homicidas. Mas há sangue nas mãos da gente que contrata e autoriza milícia privada a imputar crime, condenar e punir, à margem do Estado Democrático de Direito. Há sangue nas mãos de quem passou pela rua e nada fez; de quem assistiu da janela e não gritou. Há sangue nas mãos de quem não chamou a polícia; que valoriza patrimônio em detrimento da vida. Há responsabilidade de um Estado que, detentor do monopólio da força, se mostra incapaz de dar segurança aos cidadãos.

O Brasil anda tomado pela violência desmedida, por dolo ou indiferença. O Rio de Janeiro, em particular, parece entorpecido pelo sequestro longevo do poder público pelo crime. O estado teve seis governadores presos ou investigados. Há cinco meses, é governado e faxinado pelo presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ). O Tribunal Superior Eleitoral condenou à inelegibilidade Cláudio Castro, o governador que se reelegeu em 2022 abusando do poder econômico; renunciou para não ser cassado; e, hoje, é suspeito de envolvimento com Ricardo Magro, dono da refinaria Refit, maior devedora e sonegadora de impostos do país, e com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, protagonista da maior fraude bancária da História. Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, foi retirado da linha sucessória por envolvimento com o Comando Vermelho. Está preso em penitenciária federal. Foi tornado réu pela Primeira Turma do STF nesta semana.

Um dos maiores intelectuais do Brasil, Muniz Sodré, professor emérito da UFRJ, autor de dezenas de livros, em entrevista ao “Angu de Grilo”, podcast que mantenho com a jornalista Isabela Reis, minha filha, disse que a política perdeu o sentido. Por girar em torno dos próprios interesses, esvaziou-se. Ele se referia à morte, em junho, da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 21 anos, lançada sem amarras da Ponte do Esqueleto, entre Limeira e Cordeirópolis (SP), no que seria um salto de rope jump.

— Eu realmente fiquei estomagado com aquilo. Como é que três pessoas seguram uma moça, ela própria não percebeu também que não tinha cordas, e a lançam? Isso é o Brasil. As pessoas não percebem que é preciso cordas, porque é preciso vínculo. Vínculo é diferente de relação. Temos relações sociais, mas vínculo é diferente. Passa pelo corpo, pela perna, pelo coração, pelo braço. Estamos numa crise da vinculação, que é ao mesmo tempo uma crise da política, da política sem amarras. Então, de repente, se abre o buraco para o pior.

É o fundo do poço.

domingo, 23 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Um pacto nacional contra o crime

Transparece no noticiário um crescimento da violência urbana em estados governados pelo PT. Mas inferências generalizantes por números de ocorrências ainda fornecem uma imagem desfocada da criminalidade vivida em todo o país. É sem dúvida insuportável a proliferação dos assaltos armados, balas perdidas, até drones explosivos nas metrópoles brasileiras. Entretanto, apenas estatísticas de mortes violentas não caracterizam insegurança maior numa região. Organizado, o crime altera o paradigma de abordagem do fenômeno.


O foco tradicional incide sobre o modelo de confronto entre Estado e facções criminosas, adequado a países da centralidade capitalista, com forte sociedade civil e corrupção controlada. Para nações periféricas, porém, vale evocar o conceito de Estado ampliado, em que Gramsci faz a crítica da identificação do Estado apenas com seus aparelhos coercitivos (governo, Forças Armadas, polícia e tribunais). E amplia com sociedade civil, que engloba as instituições (escolas, igrejas, mídia etc.) responsáveis pelo consenso de ideias, valores e crenças.

Acontece que esse modelo de Estado ampliado, sustentado pela hegemonia do bloco dirigente, pode se fragilizar devido a crises de confiança no pacto consensual entre povo e poder estatal. A descrença nas políticas públicas e o aumento desmesurado dos índices criminais são alarmantes. O anseio de paz e proteção desperta pulsões vingativas de segurança por repressão ilimitada ou matanças. Vale então ponderar o conceito de reversão (Jean Baudrillard, em "A Troca Simbólica e a Morte"), segundo o qual todo sistema que se expande sem limites tende a produzir um movimento contrário, que o desestabiliza. O excesso de segurança produziria maior insegurança.

É o caso da hipersegurança armada. Jamais funcionou nas potências, muito menos na periferia do grande capital, em que o povo sempre foi matéria-prima (com escasso valor agregado) de exploração do Estado e, agora, refém do crime. A visão extremista para o problema, em chavões como "bandido bom é bandido morto", só comprova a inanidade institucional da sociedade civil. Hoje, afim ao pretexto trumpista para construção do "escudo das Américas", versão armada da internacional direitista.

Na época de Gramsci, o Estado não enfrentava a crise de uma sociedade civil drogada pelo consumo de química e mídia nem atravessada pelo acidente histórico de uma criminalidade cuja intensidade corruptiva faz colapsar o equilíbrio institucional da ampliação Estado/sociedade civil. Uma crise incrementada pelo custo adicional da economia criminosa para o mercado formal.

O pensamento progressista atual não apreende o risco representado pela ruptura do equilíbrio social. Ao afetar qualitativamente o sistema, o acidente da emergência brutal do crime organizado assume proporções de mudança social disruptiva, despercebida pelos anacrônicos quadros cognitivos das militâncias, aquém da era digital.

Entre nós, essa emergência permeia instituições, empresas e altos poderes, em tal escala que Estado coercitivo e sociedade civil se tornam, eles próprios, criminogênicos. Ou seja, chegou-se à metástase social do crime. Daí o embaraço da classe política, parte do problema, com a questão. Daí a urgência de um magno pacto nacional de reajuste da ação social.

Programa de Flávio: extermínio, entrega de minerais críticos, vida desde a concepção e respeito a todos os arranjos familiares

O programa de Flávio Bolsonaro apresentado ao TSE, Para o Brasil vencer o atraso, registra formalmente um conjunto de moderações que o candidato já anunciava. Traz uma frase impensável no bolsonarismo de 2018 – “Este Plano respeita todos os arranjos familiares” – e uma série de acenos: manter os programas sociais (“nenhum brasileiro fica para trás”); tratar o meio ambiente como “ativo”; zerar o desmatamento ilegal; dar “autonomia” a povos indígenas e quilombolas (que já não são medidos em arrobas, como fez seu pai); proteger as mulheres com o que anuncia como o maior programa da história. E não fala em armamento: o marcador identitário central de anos atrás sai da vitrine.

Aliás, nos quatro planos de governo da direita registrados no TSE, os termos que definiram o ciclo anterior – “globalismo”, “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, “kit gay” – praticamente desapareceram. Em seu lugar, uma gramática punitivista-gerencial: “narcoterrorismo”, “terrorismo doméstico”, “Direito Penal do Inimigo”, “implacável”, “tesouraço”.

O desaparecimento desse léxico não significa que a guerra cultural acabou – significa que seus fronts se decidiram de forma desigual: na agenda de diversidade e ambiental, a direita e suas variantes extremas recuaram no vocabulário para não perder o centro; na punição, a extrema direita tem conseguido impor seu repertório.

Então uma pergunta se impõe: ainda estamos diante de um candidato de extrema direita?


A literatura internacional chama de normalização um traço definidor da onda contemporânea da extrema direita, e que significa duas coisas. Na Europa, o fato de os partidos criados à margem serem aos poucos incorporados na arena eleitoral ordinária. No campo das ideias, mais difusamente, o processo pelo qual suas bandeiras migram das margens para o centro do debate.

Há também um outro tipo de normalização dessa extrema direita, que é a incorporação de uma face moderna a líderes que defendem expressamente ou que já defenderam pautas contra legados básicos do iluminismo.

O caso clássico é a dédiabolisation, de Marine Le Pen: expulsar o pai, abandonar o antissemitismo explícito, profissionalizar o discurso, tudo sem alterar o núcleo do programa. Meloni governa dentro das metas fiscais da União Europeia; Bardella é o rosto palatável do lepenismo; Kast suavizou o tom no Chile. O programa de Flávio Bolsonaro é a tradução brasileira dessa gramática.

Se a desdiabolização é justamente a arte de mudar o que se diz e como se diz, o critério para classificar a extrema direita não pode estar apenas no vocabulário.

A posição dos atores no sistema político não se define apenas por ideias professadas – menos ainda pelas adotadas por conveniência. O lugar de extrema direita no espectro político é ocupado pela relação efetiva dos atores com a democracia constitucional: sua disposição de aceitar, justificar ou promover a sua interrupção. É o que eu, Isabela Kalil e Letícia Cesarino defendemos em livro sobre o conceito de extrema direita, que está prestes a ser lançado pela Editora Contracorrente.

Flávio silencia sobre o 8 de janeiro e sobre a anistia – e não precisa defendê-la expressamente, como faz Ronaldo Caiado. Ele é filho de Jair Bolsonaro: o preso, o pivô, o inelegível cuja absolvição é a razão de ser da própria candidatura. O sobrenome carrega o compromisso que o texto cala.

A relação com a democracia define a fronteira do campo. Mas o campo tem também um conteúdo.

O campo da direita brasileira se organiza em torno de três eixos de longa duração – o privatismo patrimonial e religioso, o patriotismo subalterno e o punitivismo seletivo –, atravessados por um quarto elemento, o antipluralismo, todos contra o programa da Constituição de 1988. A gradação política que vai da direita, passa pela extrema direita e chega à direita ultrarradical é a gradação da menor ou maior radicalização desses elementos. Este também é arranjo conceitual que propomos no livro que mencionei.

Estão todos esses elementos no programa de Flávio Bolsonaro.

Não é à toa: a demanda por segurança é imensa e totalmente legítima – provavelmente a mais legítima e popular das demandas brasileiras hoje. A extrema direita captura esse problema com o espetáculo punitivo, que não é uma política de segurança, antes é a sua canibalização.

Redução da maioridade penal, bandido que “vai virar pó”, cinco novos presídios de segurança máxima, batizados de TREVA, que seguirão, nas palavras do próprio texto, “o modelo adotado por El Salvador” – um país de cerca de 6 milhões de habitantes. Transpor esse arranjo para 213 milhões de brasileiros, em dimensão continental e com facções nacionalizadas há décadas, não é política pública: é fantasia de escala com custo constitucional – e de classe e raça – embutido.

O neoliberalismo distingue a extrema direita da América Latina de seus pares do norte global. O programa de Flávio é coerente com isso. Fala em retomada das desestatizações, corte de dez ministérios, vouchers para creche e escola, negociado sobre o legislado, cruzada contra a “República Sindical” e o “Tesouraço” como bandeira-síntese. O vocabulário da “prosperidade” – a CAIXA rebatizada de “Banco da Prosperidade” – dá nome à subjetividade que esse projeto fabrica: o indivíduo como empresa de si, responsável exclusivo pelo próprio êxito e pelo próprio fracasso. O capítulo “Brasil que Prospera” formula com clareza rara a individualização do risco social: a jornada é a que o cidadão “percorre pelas próprias pernas”. Até o que soa como aceno tem tradução privatista: o meio ambiente vira “ativo”, e a “autonomia” prometida a indígenas e quilombolas é a de “decidir sobre atividades produtivas em suas terras” – a abertura econômica dos territórios com vocabulário de autodeterminação.

Mas o programa faz com um giro notável também alinhado ao movimento transnacional. O trumpismo é inspirado pela corrente paleoconservadora da direita norte-americana, especialmente por Pat Buchanan, que propunha tarifas, protecionismo e nacionalismo econômico para proteger os “americanos esquecidos”. No programa de Flávio, não há protecionismo – há, sim, a linhagem do “privatizar tudo que for possível”. Mas existe uma inspiração retórica.

O texto promete que “nenhum brasileiro fica para trás”, fala ao povo “humilhado ao frequentar os supermercados” e invoca a gramática dos esquecidos que o MAGA de 2016 consagrou. A coesão que, lá, cabe ao nacionalismo econômico ou ao chauvinismo de bem-estar – o que aproxima o trumpismo da extrema direita europeia – coube, aqui, como sempre, à moral e à segurança.

Os mimetismos com a esquerda são uma tônica da extrema direita contemporânea, que copia dos adversários métodos e linguagens para pô-los a serviço de fins opostos. Este é mais um: falar aos “deixados para trás” é uma linguagem de proteção da classe trabalhadora que não existiria sem a esquerda que a criou. O programa a mimetiza sem os instrumentos – sem protecionismo, sem política social como direito e com o entreguismo como política externa.

O programa dedica seções inteiras à soberania, mas a define assim: “a soberania começa na porta da sua casa”. Esvaziada de conteúdo econômico e geopolítico – a família Bolsonaro insiste em subordinar o Brasil aos EUA –, a soberania vira sinônimo de segurança pública – e o que sobra da política externa é o alinhamento. O texto lamenta que as relações com Estados Unidos e Israel tenham sido “levadas ao limite do rompimento”, promete entregar minerais críticos e terras raras ao “capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo” e, diante das sanções norte-americanas a produtos brasileiros, oferece apenas “soluções diplomáticas eficazes”.

Ali se promete declarar PCC, CV e milícias “organizações narcoterroristas”. A categoria não é neutra. O “narcoterrorismo” é uma fórmula que circula pelo repertório transnacional da extrema direita das Américas – de Donald Trump a Nayib Bukele e Javier Milei – e cumpre dupla função: funde o crime organizado à esquerda política e, ao enquadrar facções brasileiras na moldura do terrorismo internacional, abre caminho para atuação norte-americana em território nacional, de sanções a pressões militares, e vem constituindo uma verdadeira estratégia de lawfare. Um programa que dedica um capítulo inteiro à palavra “soberania” adota, na sua primeira página programática, a categoria que mais a fragiliza.

O quarto elemento atravessa o documento em doses medidas. A escola será “livre de doutrinação político-partidária”, os professores formados “para ensinar bem, e não para militar em sala de aula”, as escolas cívico-militares ampliadas. A contradição merece ser dita: condena-se a suposta doutrinação ideológica e propõe-se a doutrinação literal – fardada, hierárquica, institucionalizada.

E o “Tesouraço na Censura”, contra o suposto “Ministério da Verdade” do governo atual – referência à Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD) –, mostra o mimetismo que marca o campo: a captura do vocabulário da liberdade de expressão, historicamente caro à esquerda e ao liberalismo político, como arma de guerra cultural.

O privatismo religioso e societal, por sua vez, comparece sem disfarce: o documento põe a “vida desde a concepção” entre os valores inegociáveis e define que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”. E nenhuma palavra sobre direitos reprodutivos, em um programa que se anuncia feito para as mulheres. A autoridade do pai sobre a família como espelho da autoridade do mercado sobre a sociedade.

A extrema direita é, por definição, a força que avança sobre os princípios básicos do liberalismo político – direitos universais, contrapesos, pluralismo – mesmo quando adota a sua língua. O vocabulário está lá; o conteúdo igualitário, não.

Deixaria de ser extrema direita o programa que abandonasse a fabricação do inimigo interno; que desradicalizasse os eixos que estruturam o campo; e que parasse de tensionar a democracia constitucional. Este documento não passa em nenhum dos três testes.

Mantém todos os inimigos: a “República Sindical”, as ONGs de “dinheiro estrangeiro”, os professores “militantes”, as facções fundidas à esquerda pelo “narcoterrorismo”. Definir-se pelo combate a adversários não é um monopólio da extrema direita: o campo progressista também se organiza contra algo – a concentração de renda, a exploração do trabalho, a dominação de gênero. A diferença está no estatuto do antagonista. Os alvos da esquerda são estruturas; os inimigos da extrema direita são particularizados. E é justamente essa inexistência que o torna indestrutível: cada desmentido é lido como prova de que o complô funciona.

O programa radicaliza os eixos: promete extermínio, exceção salvadorenha, entrega de minerais críticos e Estado mínimo. É a marca da direita radical: não rompe com a democracia constitucional; tensiona-a por dentro. E não é textual sobre a vertente ultrarradical – a que promove a abolição do Estado de direito – porque o filho de Bolsonaro não precisa dizê-lo.

A moderação é sinal de que o eleitorado radical é insuficiente e já está integralmente capturado e que é preciso novamente acenar a algum centro. É sinal, também, de que as pautas dos movimentos feminista, LGBTQIA+ e ambiental se tornaram majoritárias demais para serem confrontadas de frente.

A moderação, portanto, não revela uma extrema direita que mudou. A ambiguidade é calculada: incorporar o vocabulário liberal para esvaziar a esquerda, não para adotar sua agenda.

Telefonema entre Trump e Lula mostra que relações não estão abaladas

O telefonema entre Lula e Donald Trump na sexta-feira confirma o que minhas fontes no governo americano sempre me dizem: não existe animosidade pessoal do presidente americano para com o brasileiro. E abre oportunidade no momento em que Trump precisa de boas notícias na política externa.

Um presidente americano não dedica 1h20 de seu tempo, perto de eleições cruciais para o Congresso, se não tiver interesse em cultivar o relacionamento com um governante estrangeiro. A iniciativa da conversa foi de Lula, e parece ter sido em ambiente de cordialidade.

Quem mudou não foi Trump, mas a estratégia de Lula. Ele parece ter chegado à conclusão de que um embate com o presidente americano, que lhe rendeu popularidade no ano passado, pode ser menos interessante, neste momento de tarifaço contra o Brasil, do que demonstrar estatura política para falar com Trump, como fez seu adversário Flávio Bolsonaro em maio ao visitar a Casa Branca.

Lula aparentemente atingiu seu principal objetivo na conversa: retomar as negociações comerciais, encerradas em julho com o fim do período de um ano das investigações da Seção 301, que resultaram em alíquota adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Mas não adianta retomá-las, se o Brasil não estiver disposto a fazer concessões.

O Escritório do Representante Comercial dos EUA apenas executa a ordem de Trump de melhorar as condições de comércio com os parceiros do mundo inteiro. Não é algo dirigido contra o Brasil. Mas atinge produtos brasileiros em cheio por causa das altas barreiras protecionistas praticadas pelo País.

Segundo o relato do governo brasileiro, Trump perguntou sobre o processo eleitoral. Lula defendeu a integridade do sistema de votação e o presidente americano não fez comentários. Ou seja, mesmo o interesse de Trump de tracionar a tese de fraude eleitoral que prejudica a direita não evoluiu para um desgaste entre os presidentes.

A recusa de vistos para funcionários americanos que pretendiam averiguar o processo eleitoral, combinada com a falta do agrément para o embaixador Daniel Perez, nomeado por Trump, levou a uma grave crise diplomática, com a retirada do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O assunto nem sequer foi tratado.

Esses atritos diplomáticos não são provocados por Trump, mas por seu poderoso secretário de Estado, Marco Rubio, hostil a governos de esquerda da América Latina. Lula criticou a designação do crime organizado como terrorismo e defendeu a cooperação entre os dois países no seu combate. Outro tema caro a Trump, que não causou irritação na conversa.

EUA ameaçam suspender vistos na Argentina devido a compras da Huawei

A alta direção da Cooperativa Calf, que fornece eletricidade, gás, água e fibra óptica para Neuquén - a nona maior cidade da Argentina e a maior da Patagônia - viajou em abril para a sede da empresa chinesa de tecnologia Huawei, e alguns meses depois eclodiu um conflito diplomático entre Washington e Pequim.

Executivos da empresa argentina, que presta serviços à principal cidade próxima ao rico campo de petróleo e gás de Vaca Muerta, foram conhecer ferramentas de inteligência para monitoramento de redes elétricas e soluções de fibra óptica para Wi-Fi.

Em julho, diplomatas da embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires reagiram enviando mensagens de WhatsApp aos executivos da Calf , alertando-os de que negariam ou revogariam, conforme o caso, os vistos de turista e de negócios dos 18 principais executivos da cooperativa se eles contratassem a Huawei.

Em 2018, durante seu primeiro mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, proibiu a entrada da empresa chinesa Huawei no país, alegando que ela representava um risco à segurança nacional. O governo de seu sucessor, Joe Biden, deu continuidade à campanha contra a Huawei e recomendou que países como a Argentina não firmassem contratos com a empresa. Diversas nações aderiram à proibição da empresa chinesa: Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Japão, Alemanha, Lituânia, Portugal, Letônia e Paraguai, entre outras.


Em 29 de julho, Marcelo Severini, presidente da Calf, enviou uma carta ao embaixador dos EUA na Argentina, Peter Lamelas, questionando se as mensagens informais do WhatsApp refletiam a posição oficial dos EUA e quais eram as objeções técnicas relativas à segurança cibernética e à proteção de dados contra a Huawei. Sem obter resposta, em 4 de agosto, solicitou a intervenção do Ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, e tornou a denúncia pública.

Até o momento, o governo argentino permanece em silêncio, mesmo em resposta às perguntas da DW. A Huawei, fornecedora de grandes empresas de telecomunicações que operam na Argentina, como a Telecom Argentina e a Claro (pertencente à América Móvil), também permanece em silêncio.

Em vez disso, as mensagens das embaixadas chinesa e americana começaram a se intensificar por meio da plataforma X. Em 5 de agosto, a embaixada chinesa comentou: "Essas práticas refletem plenamente a arrogância e o preconceito dos EUA, constituem uma grave violação da soberania de outros países e prejudicam seriamente os princípios do livre mercado". No dia seguinte, o embaixador Lamelas respondeu: "Negar ou revogar um visto não é um privilégio; é uma decisão para proteger a segurança e os interesses do país". No dia 12, ele se reuniu com executivos da Calf.

"O embaixador reiterou as mensagens intimidatórias", disse Sergio Fernández Novoa, gerente de Tecnologia da Informação e Comunicação da Calf, à DW. "O que lhe dissemos foi que compramos de marcas americanas, europeias e asiáticas. No caso de uma rede para Neuquén, a Huawei tem algumas características que consideramos vantajosas em termos de preço, qualidade e financiamento. Mas estamos abertos a ouvir propostas. Não vamos deixar de comprar de todas as empresas das quais compramos atualmente", acrescentou o gerente da Calf.

No dia seguinte ao encontro com os executivos da cooperativa, Lamelas participou de um fórum de empresas norte-americanas sobre energia na Argentina e declarou que a Huawei espiona para o Partido Comunista Chinês e que isso poderia afetar os investimentos em Vaca Muerta. A embaixada chinesa respondeu novamente por meio do canal X: "O governo chinês nunca pede, nem jamais pedirá, que empresas forneçam, coletem ou armazenem dados em violação das leis locais. O que os EUA estão fazendo é motivado por uma mentalidade da Guerra Fria."

"Não me lembro de os Estados Unidos jamais terem demonstrado tanta sensibilidade em relação às atividades de uma cooperativa no Sul Global, mas trata-se de uma região muito sensível devido à energia", observa Gustavo Girado, diretor do Centro de Pesquisa Sino-Latino-Americana da Universidade de Lanús. "A lei de defesa chinesa estipula que as informações devem ser fornecidas mediante solicitação do regime de partido único, mas o Departamento de Estado também pode fazer o mesmo", argumenta Girado.

"A Argentina não respondeu porque, em fevereiro, assinou um acordo de comércio e investimento com os Estados Unidos que a compromete a coordenar esforços para combater políticas antimercado em outros países", explicou Federico Merke, professor da Universidade de San Andrés, à DW. "Mas os Estados Unidos também não oferecem uma alternativa mais barata", acrescentou.

"Estão a começar investimentos vultosos em áreas estratégicas, como Vaca Muerta, e em centros de dados de inteligência artificial na Patagônia, uma vez que os Estados Unidos têm interesse em garantir que esta região não fique sob jurisdição eletrônica chinesa", afirma Fabián Calle, professor das universidades UCA e UCEMA.

Seu colega em ambas as universidades, Ignacio Labaqui, observa que, embora os métodos variem, os EUA, com ou sem Trump, têm suas "linhas vermelhas" em relação à infraestrutura chinesa na América Latina, mas não em relação ao comércio.

Prova disso é que, nas recentes licitações para dragagem do Rio Paraná, para obras elétricas e para a privatização de ferrovias, o governo Milei proibiu a participação de empresas cujos acionistas sejam Estados estrangeiros, em clara alusão à China, mas promove suas exportações para o gigante asiático, abre o mercado para seus produtos e acaba de renovar um acordo de swap cambial para fortalecer as reservas de seu banco central.

André Mendonça será o novo Sergio Moro?

Em abril de 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça atirando. Acusou o então presidente Jair Bolsonaro de interferir na Polícia Federal para blindar o filho Flávio, investigado no escândalo da rachadinha. Para o lugar de Moro, o capitão escalou um auxiliar mais discreto, que chefiava a Advocacia-Geral da União. Era André Mendonça, que se notabilizaria por usar o cargo para abrir inquéritos contra críticos e opositores do chefe.

Em seis anos, Moro reatou com o bolsonarismo, virou senador e agora disputa o governo do Paraná pelo PL. Seu substituto na Justiça foi alçado a ministro do Supremo Tribunal Federal. Hoje é relator de dois casos com potencial para influir no resultado da eleição.


Estão nas mãos de Mendonça o caso Master, que arranhou a imagem de Flávio Bolsonaro, e dois inquéritos do caso Lulinha, que ameaça os planos do presidente. As investigações parecem andar em ritmos diferentes. Uma não produz fatos novos desde maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a intimidade do senador com Daniel Vorcaro. A outra ocupa o noticiário com vazamentos em série, pautando a eleição a seis semanas do primeiro turno.

Ninguém deve se sair bem dessas histórias. Flávio foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro preso por aplicar golpes, subornar políticos e atuar como chefe de máfia. Fábio Luís, o Lulinha, recebia favores e mordomias da lobista Roberta Luchsinger, que buscava negócios com o governo do pai dele.

Os escândalos devem servir de munição para as duas campanhas, como é próprio da política. A questão é saber se o árbitro vai apitar o jogo com imparcialidade, sem vestir a camisa de um dos times.

Mendonça não costuma dar entrevistas, mas seu gabinete fala pelos cotovelos. Na quinta-feira, soube-se que a Procuradoria-Geral da República pediu o envio do caso Lulinha à primeira instância. Argumentou que a investigação não cita autoridades com foro privilegiado, o que justificaria a permanência no Supremo. Assim que o pedido veio a público, Mendonça fez circular a informação de que vai recusá-lo. A informação foi atribuída a “interlocutores” do ministro — método de divulgação judicial que fez escola na Lava-Jato.

Em 2018, a caneta de Moro desequilibrou a eleição presidencial em favor de Bolsonaro. Depois de prender o candidato que liderava as pesquisas, o juiz interrompeu as férias para impedir o cumprimento de uma decisão que mandava soltá-lo. A seis dias do primeiro turno, divulgou uma delação de alto impacto contra o PT. O titular da 13ª Vara Federal de Curitiba desfrutava uma imagem de herói, depois demolida pela anulação de suas sentenças.

Em declarações a um podcast de seu próprio instituto, Mendonça prometeu conduzir todos os inquéritos com “rigor técnico” e “imparcialidade”, por entender que corrupção “não tem cor partidária”. Bonitas palavras, mas melhor seria demonstrá-las na prática.

Nesta quinta, Flávio disse considerar seu envolvimento no caso Master uma “página virada”. O candidato do PL tem razões para se sentir protegido. Desde que as conversas com Vorcaro vieram à tona, nada lhe aconteceu. Ele permanece a salvo de novos vazamentos, operações de busca ou intimações para se explicar à polícia.

sábado, 22 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Relatório da Oxfam mostra como os super-ricos dominam a democracia

Existe uma engrenagem política que preserva a desigualdade e faz da democracia um delivery dos interesses dos super-ricos brasileiros. A riqueza proporciona melhores condições para disputar eleições. A vitória eleitoral oferece acesso ao Legislativo e aos órgãos que definem políticas públicas. Paralelamente, o lobby mantém canais permanentes de pressão. E assim, limita-se a representação de grupos historicamente excluídos. Esse é um dos destaques do relatório: “Retratos das Desigualdades Brasileiras : Poder, Privilégio e a Captura da Democracia”, publicado pela Oxfam Brasil no dia 19.

O relatório deste ano dialoga diretamente com o do ano passado. Em 2025, a Oxfam afirmou que os super-ricos estavam construindo uma nova aristocracia. Em 2026, o documento evidencia como essa elite se apodera da democracia. “A riqueza ela não é só uma questão econômica, ela também vai se constituir como um poder político. Quanto mais riqueza, mais poder político você tem”, resume Viviana Santiago, diretora executiva da organização civil.

Segundo o documento, um candidato super-rico tem 4.000 vezes mais chances de se eleger do que um cidadão comum. Nenhuma candidatura que declarou patrimônio inferior a R$ 100 mil conseguiu se eleger em 2022, enquanto candidatos milionários, embora representassem menos de 32% do total, corresponderam a quase 58% dos eleitos.


Esse dado influencia também quem é considerado pelos partidos como uma candidatura “viável”. Para Viviana, candidaturas negras enfrentam uma barreira adicional porque foram afastadas historicamente dos mecanismos de acumulação patrimonial. Cria-se um círculo difícil de romper: os mais ricos têm mais recursos para disputar uma eleição, por isso recebem mais verbas dos partidos. Com mais recursos, elegem-se. Essa “viabilidade” acaba reproduzindo os mesmos padrões históricos de classe, raça e gênero que já estruturam o poder brasileiro. O relatório recomenda a discussão sobre reparação histórica e reserva de vagas, além da fiscalização da distribuição dos recursos partidários.

Não é coincidência o perfil médio dos candidatos na eleição deste ano, segundo o TSE: homens, brancos, casados, com ensino superior completo, entre 40 e 59 anos, empresários.

Para quem já é rico, o cargo político representa uma oportunidade de ampliar o patrimônio. É também a chance de enriquecer rapidamente. Exemplos não faltam nas declarações apresentadas ao TSE. O patrimônio do candidato a deputado federal Felipe Cecílio (PSDB-GO) saltou de R$ 20 mil em 2022 para R$ 86,8 milhões neste ano, segundo matéria do ICL. . O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) viu seu patrimônio crescer de R$ 36 mil para R$ 3,8 milhões ao longo de seu mandato na Câmara.

Para quem não possui riqueza, o caminho é outro. Antes de transformar poder político em patrimônio, é preciso superar as barreiras econômicas que dificultam a própria chegada ao poder. Teve grande repercussão a deputada Erika Hilton declarar um patrimônio de cerca de 15 mil reais. A parlamentar do Psol afirmou que “é impossível enriquecer na política sendo honesta, arrimo de família e tendo bom gosto pra se vestir”. “Desculpem a decepção”, ironizou

A defesa dos interesses dos mais ricos não se limita ao plenário e à promulgação de leis. Ela desfila por comissões parlamentares e espaços de decisão de temas econômicos. A desigualdade se mantém porque aqueles que se beneficiam da estrutura do Estado também possuem maior capacidade de influenciar sua manutenção.

É a “porta giratória”, a circulação de pessoas entre cargos estratégicos do Estado e posições de destaque em empresas privadas. Um executivo que sai de uma corporação para ocupar um cargo em um agência de regulação ou ministério, e depois volta para o mercado.

Ela chama atenção para esse “acúmulo de conhecimento das dinâmicas internas” que acompanha o trânsito entre os dois mundos. Um dado explicativo: duas em cada três pessoas que trabalham para as Big Techs teriam ocupado anteriormente cargos estratégicos no governo ou em empresas estatais, segundo reportagem da Pública. O fenômeno, portanto, não precisa envolver corrupção explícita para produzir um dilema democrático.

O relatório defende períodos de quarentena mais longos para pessoas que deixam funções públicas estratégicas antes de assumirem posições diretamente relacionadas aos interesses que regulavam ou supervisionavam. Também sugere aperfeiçoar os mecanismos de identificação de conflitos de interesse. “O objetivo não é impedir que profissionais transitem entre governo e empresas durante toda a vida. É criar regras que reduzam a possibilidade de que essa circulação seja utilizada para transformar capital político e conhecimento institucional em vantagem econômica privada”, pontua Viviana.

A porta-giratória se conecta a outra atividade sem transparência e antidemocrática, o lobby, que consiste na tentativa organizada de influenciar decisões públicas. O problema, segundo o relatório, é a enorme diferença de capacidade de atuação entre os grupos econômicos e a sociedade civil.

Grandes corporações possuem equipes especializadas, recursos financeiros e acesso contínuo aos centros de decisão. Movimentos sociais e organizações da sociedade civil frequentemente ficam do lado de fora. O setor de apostas é um exemplo. Segundo Viviana, representantes das bets participaram de mais de 78 reuniões com representantes do governo para discutir alíquotas. E funcionou. As empresas de apostas são taxadas em 13% sobre a receita bruta e a alíquota subirá para 14% em 2027 e chegará a 15% em 2028. O governo defendia uma progressão de 18% a 24%. O lobby venceu.

“É preciso mais transparência, saber quem consegue fazer lobby, com que frequência, com quais recursos e com qual acesso aos responsáveis pelas decisões”, frisa a diretora da Oxfam. Mas a transparência é um elemento. Seria necessário também garantir proporcionalidade no acesso. Uma empresa consegue se reunir dezenas de vezes com autoridades enquanto uma organização da sociedade civil não consegue sequer uma audiência. A solução passa, portanto, por combinar transparência, regulamentação e participação social.

Nesse cenário, o relatório defende o fortalecimento dos conselhos e de outros mecanismos de participação popular. Quanto mais atores participarem da formulação das políticas públicas, menor a possibilidade de que um único grupo controle a agenda. “Quanto mais espaço de participação, mais escrutínio”, afirma Viviana.

Quem paga a conta quando o voto vira mercadoria?

Muito se fala que, no Brasil, o povo não sabe votar, que vota muito mais por amizade do que propostas. Além disso, pesquisas comprovam que a compra e venda de votos é ainda comum no país. Em 2010, após a aprovação da Lei da Ficha Limpa, uma pesquisa foi feita pelo IBOPE, demonstrando que “43% dos eleitores conhecem políticos que já compraram votos e 41% sabem de casos de gente que já vendeu seu voto”. A informação completava: pessoas com menor poder aquisitivo são as que têm mais contato com esse tipo de crime. Deve-se ressaltar que, tanto a compra como a venda de votos é considerada crime pela legislação brasileira, Lei nº 9.840, de 28 de setembro de 1999. O artigo 299 do Código Eleitoral pune do mesmo modo o comprador e o vendedor, sendo que pode resultar em até 4 anos de pena de reclusão, além de multa.

Essa prática de compra e venda de votos não é de hoje e sempre colocou em cheque a representatividade política no Brasil. José Murilo de Carvalho, no prefácio de sua autoria à sétima edição do livro Coronelismo, enxada e voto, de Vítor Nunes Leal, aponta que o autor deste clássico da Ciência Política brasileira “via nele [coronelismo] um dos sintomas do falseamento da representação”, afastando-nos de um verdadeiro sistema representativo. Por que esta representação se vê ameaçada? Pela estrutura que o coronelismo coloca em movimento e que garante a troca de favores entre os líderes locais, regionais e nacionais, baseados no poder econômico, principalmente na propriedade da terra, desde o período colonial. No prefácio da segunda edição de Coronelismo, enxada e voto, Barbosa Lima Sobrinho lembra que Antonil já escrevia em 1711, em Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas, que “o ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram, porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos” e apoia seu poder em uma base sólida: a propriedade territorial.

Hoje, o poder territorial ainda é importante, pois o Brasil apresenta uma das maiores concentrações de terras no mundo, sendo que 1% das maiores propriedades rurais concentra cerca de 47,5% de todas as terras produtivas, isto equivale a um índice Gini agrário de 0,73. O índice Gini de concetração das terras urbanas fica um pouco abaixo, em 0,70. O país, de dimensões continentais, é ainda a terra do latifúndio agro-exportador que, agora aliado ao capital financeiro, alavanca a concentração de renda e, consequentemente, a desigualdade social. Esses dois elementos – latifúndio agro-exportador e o capital financeiro – geram um sistema político extremamente elitista e excludente. As camadas mais vulneráveis da sociedade brasileira, a partir do momento que conquistaram o direito de participar do processo eleitoral, foram levadas a transformar o seu voto em um instrumento de barganha, muitas vezes para resolver problemas emergenciais ou crônicos em suas vidas ou, ainda, para sobreviver frente à violência política dos poderosos, tanto na cidade como no campo.


A prática da compra e venda de voto está bem retratada no filme Curral, de Marcelo Brennand. E não apenas no filme que este fato se evidencia, a realidade aparece de forma cristalina no nosso cotidiano, como o depoimento abaixo, de 12 de fevereiro de 2026, demonstra:

“Vivi em uma cidade próxima de Garanhuns, em Pernambuco. Muita gente de minha família ainda mora lá, na cidade de Capoeiras. Há 20 (vinte) anos isso acontece lá, eles oferecem material de construção, como tijolos e cimento e até cobertor e colchão em troca de voto”. Perguntei quem são eles e ela me respondeu: “Eles, os vereadores e candidatos a prefeito. Eles vão nas casas das pessoas, nos sítios e oferecem isso em troca do voto ou as próprias pessoas os procuram, dizendo do que precisam. Isso só na época da política, das eleições. Isso continua acontecendo. No ano passado, na Semana Santa os políticos atuais foram oferecer peixe de graça para as pessoas. A própria Prefeitura e candidatos a prefeito fizeram e fazem isso”.

Mário de Andrade, em sua obra Macunaíma, discute a formação da identidade e do caráter nacional, às vezes de forma irônica, mas sempre com forte crítica social. E é esse caráter nacional e essa identidade que perpassam o processo eleitoral brasileiro. Na construção da nossa identidade, entraram os elementos mais autoritários e excludentes de uma sociedade patriarcal – misógina e racista –, patrimonialista, concentradora de riqueza, de poder econômico e prestígio social e, consequentemente, concentradora também do poder político. É nesse contexto que a compra e a venda do voto se mostra cruel, pois a aparente vantagem recebida pelo eleitor em troca de seu apoio a um candidato, esvai-se em pouco tempo; pois, quando no poder, o eleito dificilmente irá criar políticas públicas que favoreçam a maioria da população, alimentando o fisiologismo. Desta feita, a compra e a venda de votos corrompe “um dos maiores bens da sociedade, qual seja, a democracia”.

* * *

Para analisar essa realidade profundamente enraizada na cultura política e social brasileira, deve-se primeiro conceituar o que é a prática de compra e venda de voto. Segundo o Código Eleitoral, no artigo 299, a prática de compra de voto é considerada crime de corrupção eleitoral (Lei nº 4.737/1965). Segundo o Ministério Público Federal:

“A compra de voto acontece quando um candidato doa, oferece, promete ou entrega dinheiro, um bem material ou serviço (…) ao eleitor em troca de voto. A oferta também pode envolver vantagem pessoal, incluindo emprego ou um cargo público. (…) Só a promessa já basta para caracterizar o delito. Além disso, não é necessário o pedido explícito de votos para que a conduta seja caracterizada como crime, caso haja evidências da tentativa de compra de votos.”

Deve-se ressaltar que como bem material, entende-se dinheiro, materiais de construção, dentadura e qualquer outro tipo de mercadoria que envolva a obtenção de uma vantagem ao eleitor, como serviços, incluindo liberação de pendências em órgãos do Estado (prefeituras, cartórios, autarquias, etc).

Isto posto, deve-se lembrar que, na História brasileira, eleições ocorriam desde o período colonial e até 1821 votava-se apenas para as câmaras municipais, não existiam partidos políticos, o voto era aberto e apenas os homens livres podiam votar. Os eleitores, os homens bons, eram aqueles “de linhagem nobre, senhores de engenho, e os membros da alta burocracia militar, a esses se acrescentando os homens novos, burgueses enriquecidos pelo comércio”. Essas eleições eram marcadas por fraudes, pois o voto era indireto, aberto e o processo eleitoral era repleto de detalhes facilmente contornáveis. Formavam-se nove listas tríplices, que depois eram rearranjadas em três listas pelo juiz mais velho da comarca, e estas listas eram guardadas em uma arca com três cadeados, cujas chaves eram guardadas pelos três vereadores em exercício. No início do novo ano, quando acabavam os mandatos dos vereadores, havia uma reunião em que era feito o sorteio da lista com os três nomes daqueles que iriam exercer a vereança por um ano.

A primeira Constituição brasileira de 1824, outorgada por Dom Pedro I, mudou o sistema eleitoral e determinava que os deputados (tanto das assembleias provinciais como da Câmara dos Deputados) e os senadores seriam eleitos de uma forma indireta. As fraudes eleitorais eram frequentes, pois havia o voto por procuração. A participação eleitoral nessa época dependia de uma renda mínima para exercer o direito ao voto (voto censitário), era indireto, aberto (não secreto) e para homens com mais de 25 anos; os analfabetos que se enquadravam nestes outros critérios também votavam. Somente em 1875, o voto ficou restrito aos alfabetizados e as eleições tornaram-se diretas. Estavam excluídos de qualquer participação política os escravizados, as mulheres, os indígenas e os assalariados.

No início do período regencial, em 1831, a criação da Guarda Nacional ocorreu para garantir a ordem dos grandes proprietários de terras – que sufocaram as revoltas populares ocorridas neste período – e, em consequência a este uso da força, esses proprietários de terras passaram a ter o controle das eleições. Por ser formada por cidadãos-eleitores e comandada pela elite agrária (os “coronéis”), esta milícia foi usada para fraudar votações, coagir o eleitorado e garantir a eleição de candidatos alinhados à oligarquia. Isso se perpetuou na ordem republicana da República Velha (1889 a 1930), pois as elites agrárias regionais passaram a ter o controle completo da máquina política de seus respectivos estados. No governo central, dominavam as oligarquias mais ricas, dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (política café-com-leite), que negociavam com as outras oligarquias regionais, estabelcendo-se a chama Política dos Governadores.

Esse sistema garantia o controle férreo do sistema político e social pela elite agrária, que o exercia e perpetuava-se no poder através dos mecanismos do voto de cabresto, clientelismo e fraudes eleitorais.

O voto de cabresto surgiu em decorrência da autoridade armada da Guarda Nacional, que a exercia no âmbito local. Os coronéis utilizavam esse poder das armas para intimidar os eleitores de regiões rurais e, com o voto aberto, asseguravam a vitória de seus apadrinhados políticos. O clientelismo era a troca de favores (empregos, remédios, petições, etc) por apoio político e votos. As fraudes eleitorais consolidavam-se na falsificação das atas das mesas eleitorais, garantindo a manipulação dos resultados e evitando a vitória da oposição. Como pode-se observar neste trecho de Victor Nunes Leal:

“Qualquer que seja, entretanto, o chefe municipal, o elemento primário desse tipo de liderança é o coronel, que comanda discricionariamente um lote considerável de votos de cabresto. A força eleitoral empresta-lhe prestígio político, natural coroamento de sua privilegiada situação econômica e social de dono de terras. Dentro da esfera própria de influência, o coronel como que resume em sua pessoa, sem substituí-las, importantes instituições sociais. Exerce, por exemplo, uma ampla jurisdição sobre seus dependentes, compondo rixas e desavenças e proferindo, às vezes, verdadeiros arbitramentos, que os interessados respeitam. Também se enfeixam em suas mãos, com ou sem caráter oficial, extensas funções policiais, de que frequentemente se desintumesce com a sua pura ascendência social, mas que eventualmente pode tornar efetivas com auxílio de empregados, agregados ou capangas”.

Essa estrutura de poder gerou grande exclusão social e concentração de renda, deixando a maior parte da população urbana e rural marginalizada. Ao longo das primeiras décadas do século XX, a população urbana cresceu no Brasil, houve a diversificação da economia e a ânsia pela participação política ampliou, mas o sistema oligárquico não dava margem para isso. A insatisfação da população não demorou a produzir grandes revoltas populares e messiânicas pelo país, greves operárias, a Revolta da Vacina e o movimento tenentista.

Esse sistema oligárquico, que desde o início dos anos 1900 demonstrava grandes fragilidades estruturais, entrou em colapso na eleição de 1930, quando o presidente Washington Luís rompeu a aliança do “café com leite” ao lançar outro paulista (Júlio Prestes) para a sucessão. Este foi o estopim para “uma ruptura institucional, com grandes consequências para a vida nacional, cujos marcos orientadores foram: maior participação de novos atores sociais no jogo político e modernização do país por meio do desenvolvimento industrial”. E, com isso, uma profunda mudança na estrutura eleitoral fez-se necessária e foi criada a Justiça Eleitoral.

* * *

O movimento que levou ao fim a Primeira República, chamado de Revolução de 1930, foi na realidade um golpe de Estado e logo atuou para contemplar uma das maiores reivindicações do movimento tenentista, já que muitas lideranças deste movimento aderiram ao golpe de 1930. Aliás, um dos primeiros atos do Governo Provisório de Getúlio Vargas foi criar uma comissão de reforma do sistema eleitoral vigente, para exatamente garantir sua sustentação, além de tentar neutralizar em parte o poder das oligarquias derrotadas pelas forças golpistas. Esta comissão elaborou o primeiro Código Eleitoral do Brasil (1932) e também trouxe o gerenciamento das eleições centralizado no Poder Judiciário. A partir dessa data, “a Justiça Eleitoral tornou-se a responsável por todos os trabalhos eleitorais: alistamento, organização das mesas de votação, apuração dos votos, reconhecimento e proclamação dos eleitos, bem como o julgamento de questões que envolviam matéria eleitoral”.

Neste novo período da história do país, o Código Eleitoral trouxe muitas inovações, as principais foram: o voto feminino facultativo; o voto secreto; a representação proporcional, a regulação em todo país das eleições federais, estaduais e municipais; o registro prévio, feito pelos partidos, de todas as candidaturas; e a possibilidade de candidaturas independentes. Permaneceram as restrições de voto aos analfabetos, aos mendigos e aos cabos e soldados.

Na esteira da nova Constituição de 1934, houve alteração no Código Eleitoral. As principais alterações foram: redução da idade mínima para votar de 21 para 18 anos; obrigatoriedade de voto das mulheres que exerciam função pública remunerada. Esse Código Eleitoral nunca foi aplicado, pois em 1937, tivemos o golpe que instaurou o Estado Novo. Uma nova Constituição foi outorgada por Getúlio Vargas, que extinguiu a Justiça eleitoral, os partidos políticos existentes e suspendeu as eleições. Entre 1937 e 1945, não houve eleições no Brasil. Houve a dissolução das casas legislativas instituídas e a ditadura impôs interventores nos estados.

* * *

Em 1945, houve o fim do Estado Novo, acarretado pelo término da Segunda Guerra Mundial, tendo em vista a contradição do governo em apoiar os Aliados contra o nazifascismo enquanto mantinha uma ditadura interna, a forte pressão popular e das elites pela democracia e o próprio desgaste político de Getúlio Vargas.

Foi nesse cenário político que a Justiça Eleitoral foi definitivamente reinstalada. O Código Eleitoral passou a regulamentar, em todo o país, o alistamento eleitoral e as eleições. Sua principal novidade foi a obrigatoriedade de os candidatos estarem vinculados a partidos políticos. Estabeleceu-se a obrigatoriedade do voto a partir dos 18 anos para homens e mulheres alfabetizados, além das restrições ao voto para cabos e soldados, analfabetos e mendigos. Também foram instituídas eleições diretas para todos os cargos nos três níveis de governo.

Entre o fim do Estado Novo, em 1945, e o golpe militar de 1964, o Brasil teve uma normalidade democrática dentro da ordem estabelecida, mas alguns movimentos tentaram romper com essa estabilidade institucional. De forma bem simples, pode-se dizer que o movimento que conduziu ao golpe de Estado ocorrido em 1964 foi tentado antes em 1951, quando os setores mais conservadores procuraram impedir a posse de Getúlio Vargas após as eleições presidenciais em que saiu vencedor; em 1954, com a tentativa desses setores conservadores em depor Getúlio Vargas, algo que foi abortado pelo suicídio do próprio; em 1956, com a Revolta de Jacareacanga (PA), levante militar liderado por oficiais da Aeronáutica; em 1958, com o levante, também liderado por oficiais da Aeronáutica, em Aragarças (GO); em 1961, com a tentativa de impedir a posse de João Goulart, então vice-presidente, após a renúncia de Jânio Quadros. Essa última tentativa foi impedida pela famosa Rede da Legalidade liderada por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul.

Durante este período (1945-1964), a legislação eleitoral continuou a trazer novos elementos à cena política, pois com a ampliação do universo de eleitores e a obrigatoriedade do voto em sufrágio universal estabeleceram-se novas relações entre os candidatos e o eleitorado. Nesse período, as campanhas eleitorais passaram a ter cada vez mais importância, uma estratégia dos partidos políticos para cativar um universo de eleitores cada vez maior, principalmente com o avanço da industrialização e o êxodo rural. Novas práticas eleitorais surgiram: “os panfletos de manifestos políticos passaram a ser panfletos de propaganda, os comícios microfonados se tornaram parte do cenário urbano, os candidatos começaram a distribuir apertos de mão e sorrisos”
 e a imagem do candidato passou a ter crucial importância.

Mas a compra e a venda de votos não deixou de ocorrer mesmo no universo urbano, nem após oito anos de Estado Novo e a supressão das eleições, nem com a mudança do universo eleitoral. A troca do voto por sapatos, dentaduras, ou empregos continuou no processo eleitoral brasileiro, prática profundamente arraigada nas raízes das instituições nacionais.

A elite política e econômica conservadora, ao longo dos anos 1950 e início dos anos 1960, aliada ao grande capital internacional no contexto da Guerra Fria, acabou por articular o golpe militar para expurgar da cena nacional políticos que propunham amplas reformas de base – agrária, urbana, educacional, bancária, fiscal e eleitoral – que colocariam em risco a hegemonia do grande latifundio e do grande capital sobre a sociedade brasileira e suas instituições.

O golpe se concretizou e muitas pessoas tiveram seus direitos políticos cassados e foram para o exílio. As eleições para o Executivo federal, estadual e das capitais de estado foram suspensas; as eleições eram indiretas (no caso da Presidência da República) e governadores e prefeitos das capitais passaram a ser indicados pelo governo central. O Legislativo continuou a existir, mas com prerrogativas limitadas e períodos de fechamento compulsório implantado pelos quartéis. Neste período, 1964 e 1985, a concentração de renda se intensificou e a renda apropriada pelos 1% mais ricos saltou de 10%, em 1965, para 16%, em 1968; houve um arrocho salarial sobre a os trabalhadores, sendo que cerca de 70% dos trabalhadores não tiveram ganhos reais expressivos durante o período de maior expansão do PIB, no chamado período do “milagre econômico” (1968-1973).

Nesse cenário brasileiro – Estado autoritário e aumento da pobreza – o clientelismo não foi abandonado. Os candidatos que ajudavam a manter a ordem autoritária sempre tiveram apoio institucional e financeiro e os eleitores encontravam nessa prática, voluntariamente ou coersitivamente, uma forma de garantir alguma ajuda em tempos tão difíceis.

No final da década de 1970, o movimento pela anistia mobilizou a sociedade brasileira. A Lei de Anistia, de 28 de agosto de 1979, trouxe de volta à vida política centenas de cassados durante a ditadura, os exilados e banidos também retornaram ao país. Neste mesmo ano, houve uma reforma partidária e o bipartidarismo foi abolido. Esta movimentação cresceu o movimento pela normalidade democrática. Em 1982, os governadores voltaram a ser eleitos pelo sufrágio popular. Em 1983, a tentativa de passar, no Congresso Nacional, o voto direto para a Presidência da República (Emenda Dante de Oliveira) ganhou as ruas do país.

A tentativa foi derrotada, por um Congresso moldado pela maioria de deputados e senadores ligados ao governo militar, mas em 1985 a chapa governista – formada por Paulo Maluf e Flávio Marcílio – para a Presidência da República no colégio eleitoral foi vencida pela chapa de oposição – formada por Tancredo Neves e José Sarney – encerrando o governo militar.

A redemocratização e a nova Constituição (1988) não conseguiram erradicar a prática de compra e venda de votos. A prática continua e em épocas de insegurança, o clientalismo retoma sua agenda. O crescimento do extremismo de direita que mina as bases das instituições democráticas, com seu discurso de ódio, usando uma agenda desestabilizadora da economia, da segurança pública e da dinâmica social e política, leva ao aumento dessa prática que corrompe a normalidade do pleito. Aos extremistas, juntam-se os políticos do chamado Centrão, que vivem de olho nas emendas parlamentares, procurando satisfazer interesses pessoais e de grupos específicos, que fazem pressão sobre o Executivo, para abocanhar o orçamento federal. Não agem em prol da coisa pública. Têm a percepção de que o povo é completamente manipulável, sem importância a não ser em época de voto, um voto sem consciência e dentro da lógica clientelista.

Entretanto, a lei de iniciativa popular chamada de Lei da Ficha Limpa (2010), que obteve mais de 1,6 milhão de assinaturas, depois de ampla mobilização da sociedade civil, demonstra como a população brasileira anseia por candidatos para os cargos eletivos que tenham práticas transparentes e com retidão. Em 2025, a Lei da Ficha Limpa esteve sob ataque, exatamente por aqueles que se aproveitam de práticas ilícitas para vencer as eleições. As modificações realizadas pelo Congresso levaram os movimentos sociais, entidades de transparência e juristas a criticarem essas alterações por considerarem as medidas um retrocesso e uma tentativa de abrandar punições a políticos. Ações de inconstitucionalidade foram ajuizadas no Supremo Tribunal Federal, argumentando falhas formais na tramitação e ofensa aos princípios da moralidade e da vedação ao retrocesso em direitos coletivos.

A mobilização popular, tendo em vista estas tentativas de retrocesso institucional, colocou em andamento uma ampla campanha nacional contra a compra e a venda de votos, campanha que não termina em 2026, mas será de longa duração até 2030. Os mais diversos setores vém aderindo à campanha, que agora lança um selo para candidatos que se comprometem a não usar esta prática.

Para erradicarmos as práticas clientelistas, toda a sociedade deve se comprometer com esta pauta, não basta reclamar, precisamos todos nos mobilizarmos e atuarmos para o seu fim. Pois, os princípios para a defesa do Estado democrático de Direito e a manutenção da equidade, transparência, inclusão e soberania nacional devem ser apoiados por todos.