sexta-feira, 20 de março de 2026
O jornalismo serve para afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos
Ninguém é imparcial. Porque você é obrigado a fazer escolhas a todo momento – e, ao fazer toma partido.
Quando destaco mais uma notícia do que outra, faço uma escolha. Tomo partido.
Quando opino a respeito de qualquer coisa, tomo partido.
Cobre-se do jornalista honestidade.
Não posso inventar nada. Não posso mentir. Não posso manipular fatos.
Mas posso errar – como qualquer um pode. E quando erro devo admitir o erro e me desculpar por ele.
Cobre-se do jornalista independência.
Não posso omitir informações ou subvertê-las para servir aos meus interesses ou a interesses alheios.
Se me limito a dar uma notícia, devo ser objetivo. Cabe aos leitores tirarem suas próprias conclusões.
Se comento uma notícia ou analiso um fato, ofereço minhas próprias conclusões. Cabe aos leitores refletir a respeito, concordar, divergir ou se manter indiferente.
Jornalista é um incômodo. E é assim que deve ser. Se não for, jornalista não é.
O jornalismo serve para afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos.
quinta-feira, 19 de março de 2026
Quando a guerra fala e o clima cala
O mecanismo é simples e recorrente. Começa pelas palavras. Nuclear, terror, sobrevivência, preventivo, cirúrgico. Não são descrições neutras. Funcionam como selos morais. Encolhem o espaço da discordância e empurram o debate para um corredor estreito, onde apoiar vira dever e duvidar soa a fraqueza. O público é conduzido à ideia de inevitabilidade e, quando a guerra parece inevitável, o fóssil reaparece como destino.
Quando o conflito entra neste modo, a energia deixa de ser um tema económico e passa a ser tratada como questão de segurança. A linguagem muda e a política muda com ela. A transição energética, que exige prazo, investimento e estabilidade, perde terreno para a lógica da urgência. O petróleo entra como nervo do sistema, não apenas como combustível, mas como fluxo de navios, de seguros, de crédito e de inflação. Basta uma ameaça credível no estreito de Ormuz, mesmo sem fecho formal, para o risco virar prémio e o prémio virar alta.
O bolso sente antes do relatório. E quando a conta aperta, a exigência ética tende a baixar. A pergunta pública muda de eixo. Deixa de ser se é justo e passa a ser quanto vai custar. A indignação perde prioridade porque o custo de vida ocupa o centro do debate. A guerra deixa de ser avaliada por princípios e passa a ser medida pelo impacto no supermercado.
Trump entende esta lógica como poucos presidentes. Não trata as redes sociais como canal, mas como arma. Usa repetição, ritmo e imagem para produzir disciplina emocional. Frases curtas, promessa fácil, um inimigo total e uma missão moral. Sabe que, na primeira janela do ciclo noticioso, não vence quem prova, vence quem fixa a moldura. Isso não é acaso, é método.
O efeito climático é direto e raramente dito com clareza. A guerra faz o fóssil reaparecer como solução provisória, uma provisoriedade que se alonga e vira infraestrutura. Cada choque incentiva contratos longos, novas perfurações e investimento em ativos fósseis. O resultado é o adiamento da transição energética e a dificuldade crescente de reduzir emissões rapidamente, porque a economia passa a depender de estruturas desenhadas para durar décadas. E o peso dos fósseis no clima é decisivo. Segundo a ONU, o dióxido de carbono proveniente dos combustíveis fósseis e dos processos industriais representa cerca de dois terços das emissões globais de gases com efeito de estufa.
No fundo, nada disto é apenas sobre mísseis. É sobre comando. A narrativa de guerra serve para legitimar a intervenção e organizar o campo político antes de a poeira assentar. Washington e Telavive falam de prevenção e de ameaça nuclear para encurtar o debate e alargar a margem de manobra. Por trás dessa moldura está o velho mapa do poder no Médio Oriente, onde quem lidera controla alianças, bases, rotas e o preço da energia. O Irão é a pedra no sapato porque não cabe nesse desenho. Resiste, arma redes, negoceia com Moscovo e Pequim e mantém capacidade de perturbar o ponto mais sensível do sistema: o petróleo.
É por isso que o barril aparece sempre, mesmo quando ninguém o nomeia. O petróleo regressa como linguagem de segurança, como medo de interrupção, como prémio de risco e como inflação. A guerra passa a ser discutida como fatura e não como escolha. Quem está no terreno paga primeiro em vidas e destruição. Quem está longe paga no bolso, na instabilidade e na normalização do curto prazo.
O clima paga de outra forma. Cada escalada empurra a crise climática para fora do enquadramento e devolve ao fóssil o estatuto de inevitável. A transição, que precisa de continuidade, investimento e atenção pública, é adiada em nome da urgência. E esse adiamento não é neutro. Quando uma guerra recentra o mundo no barril, reforça a dependência que acelera o aquecimento global.
No fim, a ligação é simples e raramente assumida com clareza. A narrativa abre caminho para a guerra, a guerra reabilita o petróleo, o petróleo adia a transição energética e o adiamento aumenta o risco climático que já está a cair sobre todos. O resultado é um século em que se morre no terreno e se perde no planeta. O clima não aceita adiamentos. Cobra sempre. E cobra com juros.
Fábrica de feminicidas
Há 30 anos, quem visita o Distrito Federal surpreende-se com a civilidade dos motoristas que respeitam pedestres quando esses desejam atravessar a rua. O respeito à faixa de pedestre não foi construído pela engenharia de trânsito nem por leis que obrigassem essa postura: nasceu de uma campanha educativa.
Ao longo de alguns meses, em cada faixa foram colocados conscientizadores, com incentivos e mimos aos motoristas que demonstram civilidade. Outros motivadores foram as escolas: as crianças se empolgaram com a ideia e passaram a pressionar pais, mães e responsáveis para que respeitassem os pedestres.
A vergonha do feminicídio precisa ser enfrentada com punição dos bandidos, condenação a anos de cadeia e desapropriação de todos os seus bens. E a experiência do trânsito em Brasília precisa ser lembrada para educar a população masculina desde a infância, de modo a quebrar a arrogância machista que assedia, molesta, violenta e assassina mulheres. A ferramenta imediata para barrar os criminosos da violência contra a mulher é a repressão pela Justiça, pela Polícia e pelo Ministério Público. Mas a guerra contra o machismo não será vencida sem campanha educacional dirigida a todos desde a infância, sobretudo aos meninos.
Os feminicidas decorrem da perversão de milhões de homens que cometem atos machistas e violências contra mulheres e, por fim, a maldade absoluta do feminicídio. Poucos dos meninos que na escola puxam cabelos, fazem bullying, insistem em aproximações recusadas ou expressam ideias de superioridade sobre as colegas meninas tornam-se violentos contra mulheres; mas certamente todos os feminicidas começaram com comportamentos machistas tolerados por parecerem leves, desde quando eram meninos ou adolescentes, anos e décadas antes do feminicídio.
O destino dos facínoras que cometem violência contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser a punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por meio da educação, em duas dimensões: garantir escola de qualidade para todas crianças em horário integral e incluir, em todas escolas, conteúdo humanista que ensine o respeito às meninas. Para os atuais agressores de mulheres, é preciso punir duramente e tirá-los do convívio social; mas, para formar uma consciência humanista na sociedade, especialmente entre os homens, é preciso escola de qualidade pedagógica e conteúdo humanista para todos.
Comemoramos que depois de quase meio século de democracia, praticamente, universalizamos a matrícula, relegando o fato que matrícula não é frequência, que não é assistência, que não é permanência, que não é o aprendizado necessário para os tempos atuais, inclusive criando consciência de solidariedade entre os seres humanos e deles com a natureza. As crianças não permanecem seis a oito horas por dia, 200 dias por ano, durante 11 anos de suas vidas, em escolas que despertam entusiasmo, esperança e respeito ao outro, solidariedade com a natureza e com todos os seres humanos. Sem um sistema educacional sólido de educação básica para todas as crianças, dificilmente construiremos uma geração de homens comprometidos com o respeito pleno às mulheres.
Muitos dos mais violentos feminicidas passaram por escolas que não os educaram. Em geral, os feminicidas têm instrução, mas não educação. Os jovens bandidos que recentemente cometeram estupro contra uma menina no Rio de Janeiro eram alunos de uma de nossas melhores escolas, o Colégio Pedro II, assim como foram alunos do nosso orgulho ITA os que fizeram um jogo eletrônico brincando com a humilhação de mulheres. É impossível termos educação humanista sem um sistema escolar de qualidade para todos; mas esse sistema não terá papel de formação humanista se se limitar a instruir, sem dar formação ética.
A escola, por melhor que seja, terá eficácia limitada se a "escola fora da escola" trabalhar na direção oposta: quando a mídia promove o machismo, ela destrói o que a escola tenta ensinar; discursos religiosos que afirmam supremacia masculina inviabilizam a formação de respeito às mulheres; não adianta escola se as redes sociais têm se transformado em espaços de incentivo à violência contra a mulher.
O Brasil precisa fechar a fábrica de feminicídio. Punir os agressores de mulheres, mas também formar um país que deixemos de produzir feminicidas por falta de escola, escola incompleta ou escola sem humanismo.
Ao sair atirando, peça-chave do governo fragiliza Trump na base
O pedido público de demissão, nesta terça-feira, em protesto contra a guerra no Irã, do diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo (NCTC, na sigla em inglês), Joe Kent, escolhido a dedo pelo presidente Donald Trump, pegou o primeiro escalão do governo de surpresa. Ao sair atirando contra o governo, o oficial mais graduado na missão de desbaratar ações terroristas contra os americanos ilustrou como a decisão da Casa Branca de atacar Teerã fraturou a base de modo inédito e ainda deu fôlego para a crítica de parte substantiva da oposição de que as agressões no Oriente Médio, em sua terceira semana, teriam sido teleguiadas por Israel. Os americanos irão às urnas em novembro para decidir quem comandará o Congresso a partir de 2027.
"Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã”, escreveu Kent em rede social. Veterano de guerra do Iraque, ele perdeu sua companheira, Shannon, também militar, na Síria. Ferrenho crítico das incursões americanas no Oriente Médio, juntou-se ao Trump 2.0 por acreditar, como frisa em sua mensagem de despedida, direcionada ao presidente, que “o senhor compreendera que as guerras no Oriente Médio foram armadilhas, responsáveis por subtrair vidas preciosas de nossos patriotas e esgotar a riqueza e a prosperidade de nossa nação”.
Kent também argumentou que Teerã “não representava uma ameaça iminente ao nosso país, e está claro que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby nos EUA”. Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu é dos mais próximos aliados do Trump 2.0. Foi recebido na Casa Branca cinco vezes desde o retorno do republicano ao poder em janeiro de 2025, a mais recente em fevereiro deste ano — além de mais uma em Mar-a-Lago, a residência particular de Trump na Flórida, um recorde absoluto — e tem, de acordo com o próprio presidente, conversas diárias com o parceiro desde o início das agressões ao Irã, em 28 de fevereiro. Indicado em fevereiro de 2025, o diretor do NCTC foi sabatinado e aprovado pela maioria do Senado em julho, quando explicitou sua visão isolacionista, sacerdote do credo dos “EUA Primeiro”. Sentiu-se traído por Trump. Não é o único.
Além da deputada Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, que abandonou sua cadeira ao romper publicamente com a Casa Branca, vozes com amplo poder de mobilização popular, cruciais para o voto em novembro, e alinhadas ao movimento Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês), entre eles o ex-apresentadores da Fox Megyn Kelly e Tucker Carlson, e os podcasters conservadores Matt Walsh e Joe Rogan, também denunciaram publicamente o que classificam como "desvio ideológico" de uma Casa Branca ativa no tabuleiro geopolítico global. E com feições cada vez mais distantes da do vice-presidente JD Vance e mais próximas da do secretário de Estado, Marco Rubio, defensor de intervenções cirúrgicas e arriscadas.
Seu maior tento foi a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, após o asfixiamento econômico do país, tática que busca agora repetir na Cuba de seus antepassados. O Irã, no entanto, se prova missão muito mais complexa, com a resistência feroz de um regime que não acena com a possibilidade de futuras colaborações esdrúxulas com Washington. Ao contrário. Teerã, de acordo com uma fonte do Partido Democrata, tem hoje o potencial de se transformar no que ela traduziu como “a ratoeira do Trump 2.0”.
Principal nome da ainda acéfala oposição para 2028, e às voltas com o lançamento de sua autobiografia, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, foi dos primeiros a questionar se os EUA não travam no Irã uma "guerra de opção", deflagrada quando Washington negociava com Teerã, e as perspectivas de avanço no desbaratamento do aparato nuclear do país eram promissoras. A ala esquerda da sigla já fala, em caso de vitória em novembro, em invesigar se o Irã de fato planejava um ataque a alvos americanos. Se comprovada a falsidade, defendem emparelhara à da invasão americana ao Iraque em 2003, a partir de premissas depois comprovadamente inexistentes do governo George W.Bush, repudiado pelo trumpismo.
Ao dizer, sem meias palavras, que Trump arriscava vidas locais – já são pelo menos 13 americanos mortos desde 28 de fevereiro — para ajudar Netanyahu, Newsom foi acusado de antissemita e, menos grave, mas com potencial real de prejudicar suas ambições políticas, cauteloso em excesso, tal qual a Casa Branca anterior, notadamente sua amiga próxima e ex-vice-presidente Kamala Harris. Como ela, o governador seria incapaz de se aproveitar da possibilidade de destruir um inimigo quando este estava mais débil, caso do Irã hoje.
Daí o peso da crítica devastadora de Joe Kent, um representante puro-sangue da vertente ideológica do Maga. Foi justamente depois dos horrores que viu no Oriente Médio que o militar tentou duas vezes se eleger, sem sucesso, ao Congresso, pelo estado de Washington, localizado na Costa Oeste, um bastião democrata. Militou então nas alas mais extremistas da direita do Partido Republicano.
Para além de colocar, de dentro das hostes trumpistas, o dedo na ferida persa, que não parece, como defendia a Casa Branca, pronto para desabar, sua defecção também tem outra relevância de peso. Até esta terça-feira ele era o responsável por cuidar das estratégias de contraterrorismo do país. E especialistas afirmam que uma das possibilidades mais óbvias em uma guerra estendida com o Irã é o incremento de ataques terroristas contra alvos americanos, ainda que provavelmente não dentro dos EUA, o que poderia afetar os números ainda majoritariamente altos de aprovação da direita ao Trump 2.0.
Ao todo, pelo menos cinco agressões foram registradas na Europa e nos Estados Unidos em menos de duas semanas. Embora nenhuma delas tenha sido atribuída oficialmente ao Irã, serviços de inteligência europeus afirmam que Teerã dispõe hoje de uma rede composta por agentes e criminosos voltada para realizar operações clandestinas mundo afora.
O cientista político Javed Ali, professor da Universidade de Michigan, que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional no primeiro governo Trump argumentou que o ataque devastador ao Irã aumentaria exponencialmente os riscos de ataques terroristas patrocinados pelo Irã contra alvos americanos, o que complicaria ainda mais a situação de Trump, cada vez mais isolado interna e externamente, vide a recusa dos países europeus de enviarem aparato militar para garantir a abertura do Estreito de Ormuz e diminuir o pânico no mercado global de energia:
— Embora o Irã não tenha, hoje, capacidade de atos de terror dentro dos EUA, há possibilidade de ações contra cidadãos e interesses americanos fora do país. Na América do Sul, e não só na Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, os governos devem aumentar a vigilância nos próximos meses — afirmou.
Quando a democracia deixa de importar
O contrato democrático enfraqueceu. Globalmente, observamos que organizações multilaterais como as Nações Unidas e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e as coalizões globais que as apoiam, estão cada vez mais fracas, deslegitimadas e subfinanciadas. Particularmente paradoxal é o fato de os Estados Unidos e seus aliados europeus, outrora os principais impulsionadores de uma ordem global baseada na democracia liberal, estarem agora liderando essa capitulação. O governo Trump retirou-se de órgãos como o Conselho de Direitos Humanos da ONU e fechou por completo a agência de desenvolvimento USAID; os europeus reduziram drasticamente o financiamento para essas agendas, ao mesmo tempo que aumentaram seus orçamentos de defesa e segurança; e a agência canadense de desenvolvimento IDRC acaba de fechar sua divisão de democracia. A Rede de Financiadores de Direitos Humanos estima uma redução de 28% no financiamento nessa área este ano em comparação com 2023. Isso significa menos apoio para organizações da sociedade civil engajadas em litígios estratégicos, para ativistas ambientais, para jornalistas que denunciam injustiças, para uma distribuição mais equitativa de vacinas e muito mais. É preocupante que, pela primeira vez em muito tempo, nenhuma das grandes potências globais esteja promovendo uma ordem mundial baseada na democracia e nos direitos humanos. E se algum governo viola seus princípios, não há apelos urgentes por ação, nem represálias, nem condenações. Lembremos o que aconteceu recentemente na Venezuela. A palavra democracia estava visivelmente ausente.
Mais doloroso ainda é constatar que o apoio popular também diminuiu substancialmente. Governos ou movimentos que atacam as democracias são cada vez mais populares. Aqueles que as defendem estão cada vez mais fracos e se encontram na defensiva. Falar de democracia hoje é falar de um conceito desgastado, quase anacrônico, incapaz de despertar entusiasmo ou mobilizar maiorias. Tornou-se sinônimo de superficialidade, parecendo inofensivo diante das urgentes demandas sociais por empregos, combate ao narcotráfico , guerras comerciais e desastres naturais. Às vezes, parece que desistimos dela.
Contudo, perder essa autonomia não é um luxo que podemos nos dar. Nossas sociedades pagaram um preço alto para construir acordos e instituições políticas que garantem que possamos eleger nossos representantes, circular livremente e nos reunir sem medo de perseguição, expressar nossas preferências políticas e lutar por sociedades mais justas. As contradições, os retrocessos e todas as deficiências não são uma desculpa para eliminá-la, mas sim para superá-la e avançar em direção a versões mais substanciais.
Acontece que as sociedades democráticas são objetivamente melhores. O ganhador do Prêmio Nobel, Daron Acemoglu, demonstrou, em um estudo que analisou 184 países entre 1960 e 2010, que os países que se democratizaram aumentaram seu PIB per capita entre 20% e 25% nos 25 anos seguintes, em comparação com o que teriam ocorrido se tivessem permanecido autoritários. Outro ganhador do Prêmio Nobel, Amartya Sen, destaca que nunca houve uma grande fome em uma democracia devido à pressão da imprensa e da oposição diante de tais crises. Durante o século XX, as transições para a democracia estiveram ligadas a um aumento médio de 3% na expectativa de vida em apenas dez anos após a democratização. Dados do Journal of Democracy mostram que as democracias reduzem a mortalidade infantil de forma muito mais drástica do que as autocracias, já que os gastos públicos tendem a priorizar a atenção primária à saúde em vez de construir elefantes brancos ou aumentar os gastos militares. De forma semelhante, na América Latina e no sul da Europa, o fim dos regimes autoritários nas décadas de 1970 e 1980 impulsionou o aumento do investimento em educação e a expansão dos direitos substantivos para as populações vulneráveis. Além disso, evidências empíricas mostram que as democracias são mais pacíficas entre si, pois priorizam os canais diplomáticos.
A questão fundamental é que precisamos de democracia para construir nosso futuro. Não há agenda de desenvolvimento possível sem democracia. Sem instituições democráticas fortes com apoio social, não temos mecanismos de controle e equilíbrio em um mundo que, apesar de estar cada vez mais rico, vivencia crescente desigualdade e exclusão. A transformação digital sem controle democrático se torna uma infraestrutura para vigilância em massa, extração e manipulação de dados. Não podemos vislumbrar um futuro para a Amazônia sem acordos globais vinculativos, especialmente quando ativistas ambientais são assassinados enquanto Estados que desmantelaram suas instituições de direitos humanos permanecem inertes. Tampouco podemos vislumbrar empregos de qualidade para nossos jovens quando os mercados são controlados por enormes corporações que, sem fiscalização, buscam apenas maximizar os lucros. Muito menos podemos elaborar políticas migratórias sustentáveis se não priorizarmos os migrantes como sujeitos de direitos.
Não podemos ceder aos desesperançosos, e muito menos ao cinismo daqueles que buscam benefícios para uma minoria privilegiada. O voto, o protesto social, a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e a identidade não só têm valor intrínseco, como também são ferramentas insubstituíveis para a construção de sociedades mais prósperas, equitativas, inclusivas e igualitárias. É por isso que, se não agirmos agora, sem eufemismos ou ambivalência, a democracia corre o risco de se tornar um período que nossos netos lerão com perplexidade nos livros de história, um breve experimento na longa história da crueldade do poder.
Crime ou esperteza? Resposta pode ser relativa às circunstâncias
O crime é relativo a muitas circunstâncias. Tirar dinheiro do pai, vender gato por lebre, falsificar documentos ou roubar livros de bibliotecas públicas são espertezas, malandragens e jeitinhos. Tais práticas, feitas por parentes e amigos, serão enquadradas na ética de reciprocidade da “casa” ou da categoria profissional, o que os jornais chamam de “corporativismo”. Ora, o corporativismo tem como base precisamente esse transbordamento pessoal que anula regras igualitárias impessoais em favor de simpatias e favores pessoais, o que leva à desmoralização institucional e à descrença na igualdade, visto que a obrigação de retribuir favores anula normas profissionais. Há um óbvio desequilíbrio entre costumes jamais criticados e normas legais racionais, de modo que não conseguimos ultrapassar a dominação tradicional, efetivando a dominação burocrática.
Dilema que se expressa no batido: se for “nosso”, é esperteza; se for “deles”, é crime!
Nesse axioma cultural há a incontornável força dos hábitos e costumes que – como definiu E.B. Tylor em 1871 – são aprendidos pelos membros de uma sociedade como “cultura”.
Se o nosso sistema moral adota uma ética de ambiguidade, a igualdade como um ideal antiaristocrático sofre aceitação ou rejeição. Se eu roubar numa ciranda financeira impessoal, por intermédio de uma prestigiosa rede pessoal, o crime pode virar esperteza. Mas sem elos políticos importantes a esperteza corre o excepcional risco de virar crime.
Como sair dessa ambiguidade determinada pelo axioma de que a sociedade é feita de doutores e analfabetos, sabidos e trouxas?
Como acabar com pobres e ricos, abandonando a ideia de que são os ricos que vão, nobremente, acabar com os pobres, em vez de pensar num sistema no qual todos possam enriquecer?
É mais fácil alienar o pobre, remediando sua pobreza, do que criar instituições capazes de fazê-lo prosperar. Mas como abrir o cofre das fortunas sociais de modo igualitário e universal?
Será somente pela política, como até hoje insistimos em imaginar? Ou seria pela criação de um movimento de conscientização igualitária, por intermédio de uma simplificação desses legalismos que sustentam um obsoleto sistema cultural incapaz de distinguir crime e esperteza.
El Salvador depois de Bukele
E ele fará mais. E exilará mais pessoas. E reprimirá mais, muito mais. E prenderá mais, muito mais. Quem não quiser ver, que não olhe. Quem não quiser ver, que espere, mais cedo ou mais tarde terá que ver. Bukele tem 44 anos e, aparentemente, muita vontade e energia para continuar fazendo o que bem entender.
Para aqueles de nós que sofremos com esse poder arbitrário, seja no exílio ou naquele país que nada mais é do que a propriedade de Bukele, resta apenas sobreviver e, se possível, continuar fazendo o que levou à nossa perseguição: jornalismo, ativismo, política, arte, engajamento cívico.
Mas nós, como cidadãos oprimidos, também ficamos com algo mais, algo imperativo, mesmo que pareça inatingível; algo criativo em meio à repressão. Ficamos imaginando El Salvador depois de Bukele. Porque as ditaduras chegam ao fim, mesmo que pareçam rochas imortais; elas morrem, desmoronam, e então restam apenas fragmentos, não mais rocha, mas sujeira, desordem.
Voltarei a este tema em outra coluna, pois não se pode imaginar o futuro de uma nação sozinho ou em um curto período de tempo. Posso ser um bom cronista, mas não me atrevo a descrever imagens desse futuro que virá, porque ele virá, mas me atrevo a levantar questões para este presente que devem alimentar o que está por vir.
Como ensinaremos aos futuros policiais, hoje com pouco mais de vinte anos, que não podem prender quem bem entenderem simplesmente para satisfazer a retórica política do líder? Como ensinaremos aos promotores que não podem acusar dezenas de pessoas em um único caso sem qualquer prova? Como ensinaremos aos juízes a condenar apenas se houver provas? Como lembraremos aos patologistas forenses que sejam meticulosos e examinem os corpos liberados da prisão como se fossem os de um irmão, e que escrevam nas autópsias que o ferimento parecia ser resultado de traumatismo contuso, e não de "edema pulmonar", como escrevem em todos esses relatórios? Como obrigaremos os guardas prisionais a eliminar a tortura de seus protocolos?
Como iremos puni-los? Quem iremos punir? Quem iremos perdoar? Porque o perdão será necessário, não se enganem, o perdão será necessário. Quem iremos punir?
E os soldados… Os soldados como… Como faremos a única coisa que precisa ser feita com eles, que é colocá-los de volta nos quartéis? Como os faremos entender que foram necessários 12 anos de guerra sangrenta para impedi-los de vagar pelas ruas prendendo nossas crianças quando bem entendem, cortando seus cabelos ou controlando o Ministério da Educação? E se, agora que estão tão empoderados, ainda se recusarem a entender, como lidaremos com eles e seus fuzis?
E o que diremos aos jornalistas que se tornaram propagandistas da ditadura, funcionários da máquina de mentiras, zombaria e difamação, quando tudo isso acabar? O que diremos quando eles argumentarem que também tiveram medo, que tinham filhos para alimentar? E o que diremos aos acadêmicos que se venderam, que abandonaram toda evidência e metodologia para aplaudir, com sua linguagem rebuscada, a construção de um ditador? Não tínhamos escolha, dirão alguns, quando tantos outros tiveram que ir para o exílio. O que diremos a eles?
E como vamos convencer aqueles artistas que, como é normal, atualmente não se atrevem a fazer arte livre e crítica de protesto, de que o passado acabou, de que queremos que eles sejam críticos, rebeldes e livres novamente?
E o que diremos àqueles que, sem dúvida, se beneficiaram da ditadura — empresários, parlamentares, funcionários públicos, diplomatas — e que, quando tudo isso terminar, talvez fiquem com os bolsos cheios de moedas? Deixaremos que eles recebam suas moedas?
Como nos tornaremos novamente uma república, onde todos, ou quase todos, se encaixem? Como nos livraremos da raiva e seguiremos em frente sem que o ódio nos prenda?
Vamos nos questionar sobre isso e muito mais. Vamos nos questionar sobre isso, especialmente aqueles que são oprimidos hoje. Vamos resgatar o que nos aconteceu enquanto idealizamos um país que não existe, mas que esperamos que venha a existir. Vamos contar essa história para nós mesmos.
Como faremos isso quando Bukele não for mais todo-poderoso?
Oscar Martinez
Flávio Bolsonaro, um candidato sem ideias ou com medo de expô-las
Atenção, coleguinhas jornalistas: não perguntem a ele. Mas, se perguntarem, não se satisfaçam com a primeira resposta.
Jair Bolsonaro, o golpista condenado e agora enfermo, nunca esteve nem aí para essa história de programa de governo.
Mas quando em 2018, não escondeu de ninguém que lhe faltavam ideias para governar.
No princípio, orientado por seu faro, limitou-se a atacar adversários e a repetir um monte de chavões de sua própria autoria ou da autoria de terceiros.
Como descobriu a tempo que precisaria dizer alguma coisa sobre economia, procurou um economista para falar por ele.
Foi quando entrou em cena o economista Paulo Guedes, que fora professor na Universidade do Chile à época da ditadura do general Augusto Pinochet.
Bolsonaro batizou Guedes de “Posto Ipiranga”, dono do bordão famoso “Pergunta lá no Posto Ipiranga”.
Os coleguinhas deram-se por satisfeitos, mas não só. Empresários, agentes do mercado financeiro e banqueiros, também.
Estava em jogo impedir que o PT voltasse a governar o país. De resto, Guedes jurava que Bolsonaro era um liberal de carteirinha. A direita de todos os matizes aderiu de imediato.
Diga-se a favor de Bolsonaro que ele, em pessoa, jamais escondeu o que era e o que pretendia: “derrubar o sistema” para pôr outro no seu lugar”. Tarefa, no mínimo, para oito anos ou mais.
Palavras ao vento, cada um que as interpretasse ao seu gosto. Mas para Bolsonaro, derrubar o sistema significava derrubar a democracia tal qual a conhecemos. Deu no que vimos.
Flávio é candidato do pai, deverá ao pai os votos que amealhar, mas quer se apresentar como uma versão atualizada do pai. Daí sua preocupação com um programa de governo.
O documento está sendo esboçado, há cinco meses, com consulta a especialistas e formatação pela consultoria GO Associados.
Elenca medidas com apelo popular e outras com diagnóstico sobre problemas a serem enfrentados.
Acontece que o governo Lula instruiu seus aliados a começarem a criticar Flávio desde já para que ele não continue crescendo.
Então, o anúncio do programa do filho do papai ficará para mais adiante, talvez para o final de julho ou começo de agosto.
Se Flávio, hoje, vive um bom momento sem ter que expor suas ideias ou a falta delas, por que estragar o bom momento?
A mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada em 7 de março, mostrou Flávio empatado tecnicamente com Lula em simulação de segundo turno: o presidente tem 46% e ele, 43%.
Dirão os antipetistas: Lula venceu em 2022 sem lançar um programa de governo.
Dirão os petistas: depois de ter disputado a Presidência seis vezes, tendo ganho em duas ocasiões, Lula carecia de um programa de governo para se eleger novamente?
Em linhas gerais, quem não conhece o que Lula pensa?
Não foi por falta de um programa que Lula venceu Bolsonaro por uma minúscula diferença de votos. Foi porque não é fácil derrotar um presidente candidato à reeleição e no exercício do cargo.
Flávio saberá, se já não sabe, que não é fácil.
terça-feira, 17 de março de 2026
Gostar do nosso país não significa gostar de quem fala em seu nome
Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.
O controle é parcial, não total. A vigilância é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.
O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.
Também na propaganda houve uma evolução. Já ninguém espera um nazista como Joseph Goebbels ou um fascista como Alessandro Pavolini gritando palavras de ordem pelo rádio ou em praça pública.
A lavagem cerebral deixou de depender da monumentalidade artística, do entusiasmo coreografado ou da repetição de slogans fervorosos. Não se impõe uma crença total; basta dissolver lentamente a capacidade de distinguir entre verdade e narrativa.
Neste mundo, a propaganda não cria fanáticos. Cria conformistas. Não procura transformar radicalmente a natureza humana –a velha ambição utópica. Basta reorganizar lentamente o cotidiano, fragmentando a sociedade e isolando consciências.
É neste contexto que surge Karabash, o palco do documentário. No mapa, é uma terra insignificante: 10 mil habitantes perdidos em algum lugar nos Montes Urais. A esperança média de vida mal chega aos 38 anos. Vou escrever novamente, por extenso, para não haver dúvida: trinta e oito. A poluição explica esse recorde: há uma indústria pesada de fundição de cobre na cidade que vai semeando doença e sofrimento.
Mas a vida segue. Pasha Talankin, professor do ensino médio, gosta do seu pequeno mundo. Gosta dos alunos. Gosta de filmar as cerimônias escolares, como quem preserva a normalidade num frasco.
Até fevereiro de 2022.
A invasão da Ucrânia muda tudo —e muda sobretudo a escola. Como Vladimir Putin declara na televisão, as guerras não se ganham apenas com generais; ganham-se com professores disponíveis para educar as crianças e os adolescentes nas virtudes da "operação militar especial".
Voluntários para o serviço não faltam —e a guerra entra na sala de aula servida em eufemismos: "desmilitarização", "desnazificação". Mentiras e mais mentiras —"ordens de cima", alguém diz, encolhendo os ombros— que Pasha filma, incrédulo, enojado.
Os menores cantam o hino nacional e desfilam em paradas simbólicas, prestando juramento à bandeira e ao regime.
Os mais velhos têm o recrutamento ao virar da esquina —e até o grupo de mercenários Wagner faz uma aparição para os convencer.
Muitos dos alunos de Pasha cedem ao apelo. Raspam o cabelo, despedem-se das famílias como sonâmbulos que marcham rumo ao abismo. Alguns acreditam que a experiência compensa financeiramente.
Pasha sabe que não compensa. Continua filmando: a escola que se esvazia, os alunos que não regressam, suas próprias vigílias noturnas. A câmera se transforma num diário moral.
Um traidor, ele, por contestar o regime?
Não. Apenas o "ninguém" do título, que, apesar da sua condição anônima, consegue distinguir o amor à Rússia do amor a Putin. Gostar do nosso país, mesmo com todos os seus defeitos, não significa gostar de quem fala em seu nome. Uma distinção simples, mas cada vez mais rara, mesmo em democracias.
Que os outros sejam incapazes de vê-la, eis um problema que se vai adensando –até Pasha, sob suspeita, optar por fugir da Rússia levando com ele horas e horas de filmagens heréticas.
A história de Pasha poderia ser ficção —e talvez por isso o cinema contemporâneo tenha voltado a interessar-se tanto pelo impacto do autoritarismo sobre a vida das pessoas comuns. No Oscar deste ano, dois filmes foram exemplares ao tratar do tema: "O Agente Secreto" e "Foi Só um Acidente", do iraniano Jafar Panahi.
Mas "Mr. Nobody Against Putin", vencedor do Oscar de melhor documentário, tem a vantagem de ser um retrato real, imediato, alguns diriam amador, sobre um homem comum que se recusou a viver na mentira. Um zé-ninguém? Precisamente. A liberdade sempre sobreviveu graças a eles.
O rigor da lei e as leis que não são cumpridas
Abro parênteses: Em novembro/dezembro de 1964 Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, explodiu em destampatórios — a expressão é de editorial do JB da época — contra o STF: o primeiro para cassar o governador de Goiás, Mauro Borges, o segundo para poder adotar o Ato Institucional — na época só havia o primeiro — para passar por cima da Assembleia. Perdeu as duas vezes. O presidente da Corte, Ribeiro da Costa, que no segundo caso rejeitou a suspeição de 4 dos Ministros, foi processado por Lacerda por injúria. Moral: o Supremo sabe resistir a ataques apopléticos. Pelo menos já soube. Fecha parênteses.
Há séculos se diz que o excesso de leis é um dos problemas, o que é verdade. Em tese, o ideal seria que todo cidadão conhecesse todas as leis, o que é impossível no Estado contemporâneo. Bem, essa é uma área em que somos líderes mundiais, imbatíveis. Comecemos com as normas regulatórias: é um truísmo que não é possível a qualquer empresa cumprir corretamente todas as regras fiscais. Haveria mais de 550 mil normas tributárias posteriores à Constituição, com cerca de 1,5 bilhões de palavras. E o nosso dia a dia, como vai? Seriam cerca de 8 milhões de normas, mais de 1 milhão em vigor, portanto absolutamente impossível do melhor computador seguir a Lei — pois decretos e portarias fazem parte dela. Em 1998 a Lei Complementar 95 determinou a consolidação das leis. Você fez? O Congresso também não.
E as leis, como vão? A Lei 15.000/2024 declarou Anísio Teixeira patrono da escola pública (ele merecia era que valorizassem o ensino público). Começamos a atual contagem das leis federais em 1946, mas há muitas leis antigas em vigor, algumas importantes, como o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940. Estamos hoje na número 15.352; este ano já são 31 novas leis. Federais. Se formos ao LexML, o portal das leis, veremos que são 1.716.350 em todo o País. Assim, se você disser ao juiz que não sabia da lei, ele deve acolher sua declaração como verdadeira, mesmo que tenha dúvida sobre sua boa-fé. E todo mundo, em um momento ou outro, acaba desobedecendo a alguma lei.
Salto mortal: vamos para a Constituição. O desconhecimento da Constituição é tão grande que muita gente, instruída por um ex-militar, acredita que ela só tem quatro linhas. Mas não é fácil conhecer seu texto: ele é modificado ao menor pretexto. Agora estamos na Emenda no 138, passada em dezembro passado, e ainda não tivemos nenhuma este ano. O tamanho do texto dos dispositivos permanentes aumentou 70%; o das disposições transitórias, 200%. Há artigo que já mudou de redação 6 vezes.
É claro que tudo começa no Legislativo. Ele deve seguir três leis internas, os regimentos. Então, pensam eles, vamos fazer diferente. É preciso um interstício (um intervalo de tempo) entre os dois turnos exigidos para emendar a Carta? Faz de conta, encerra sessão, abre sessão, repete 5 vezes e conta como tendo passado o intervalo de “5 dias úteis” e mais “três sessões deliberativas ordinárias” para discussão. Pode? Não pode, mas muitas emendas constitucionais passaram assim. Votação simbólica é realizada entre os presentes — a regra é: aprovam os sentados e os contra se levantam, os líderes podendo representar os presentes —; agora os ausentes contam como sentados, independente de como se sabe que votariam — e assim se manifesta a advocacia do Senado, valha-me Deus! Bem, isso de regimento é para banana, quem pode pode, os outros se sacudam. Golpe baixo é o que conta.
Lei é lei. O Código Penal diz que os crimes contra a inviolabilidade dos segredos são cometidos por qualquer pessoa, apenas sujeitando a pena mais grave se forem “informações sigilosas, assim definidas em lei”. Não exclui jornalista. Qualquer um que divulga informação sigilosa deve passar de 2 a 5 anos na cadeia (com a pena aumentada de um a dois terços). Contra a administração pública a ação é incondicionada, isto é, não precisa de representação. Mas há anos se divulga enxurradas de dados sigilosos e ninguém vê o Ministério Público fazer o que manda a Lei, pois nem sempre lei é Lei. Alega-se sigilo da fonte, mas o que é mesmo que isso tem a ver? A lei não obriga o informado a revelar a fonte, apenas a passar um tempo na cadeia. O protegido pela Constituição não é o jornalista, é o comparsa. O art. 5º XIV não suspende o inciso XII — pressuponho que todos sabem a Constituição de cor, se não sabem vão olhar agorinha mesmo, faz bem à saúde. E não se diga que o sigilo já estava quebrado, a divulgação não revoga a definição legal.
Lei é lei. Mesmo internacional. O Trump já passou da hora de ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional. Ah!, mas o Khamenei era um monstro! Há poucos dias vi esta afirmação ser feita ao Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro (centrista) da França. Ele lembrou que existe o caminho legal, o Conselho de Segurança e, se continuar sendo presidido pela Melania (isso eu que digo), a Assembleia Geral da ONU. A outra hipótese leva, segundo ele, a que todo mundo compre uma arma e saia matando os outros na rua.
Que tal, para variar, se cumprir a Lei?
A terra é nossa
Que pertence a cada um.
Com o seu poder além,
Deus fez a grande Natura
Mas não passou escritura
Da terra para ninguém.
Se a terra foi Deus quem fez,
Se é obra da criação,
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão.
Quando um agregado solta
O seu grito de revolta,
Tem razão de reclamar.
Não há maior padecer
Do que um camponês viver
Sem terra pra trabalhar.
O grande latifundiário,
Egoísta e usurário,
Da terra toda se apossa
Causando crises fatais
Porém nas leis naturais
Sabemos que a terra é nossa.
Já não conseguimos ver este filme
O José Rodrigues dos Santos não saía dos estúdios da RTP. Nós começámos a saber nomes de mísseis. A Operação Instant Thunder parecia o título de qualquer coisa com o Darth Vader, a Operação Tempestade no Deserto tinha nome de aventura do Indiana Jones. O vilão era o Saddam, com um bigode cinematográfico, bunkers e palácios. E nem nos passava pela cabeça questionar que os bons eram os americanos. No fim, o Kuwait (que até aí não sabíamos que existia) seria libertado, a democracia chegaria ao Iraque e em breve as crianças do Médio Oriente iriam ter vidas mais parecidas com as nossas, talvez comendo Bollycaos no recreio da tarde e rindo das piadas dos Simpsons ou do Alf, um extraterrestre peludo e simpático, que gostava de comer gatos e do qual eu tinha feito a caderneta toda, conseguindo até aqueles cromos difíceis e prateados.
Não se pode dizer que a primeira guerra da qual tive consciência tenha sido muito traumática. Porque ela foi devidamente embrulhada num invólucro de irrealidade. Naquela época, eu não sabia que a isso se chamava propaganda e nem sequer percebi bem quando um miúdo da escola questionou o facto de eu ter uns jeans com uma bandeira americana no bolso. Para mim, eram só as calças de ganga que melhor me assentavam na altura em que comecei a preocupar-me com isso.
No fim dos filmes, os maus são castigados, os bons dão um beijo na boca e vivem felizes para sempre, o ecrã enche-se de uma lista de nomes e nós somos embalados por uma música alegre e vitoriosa, escolhida para nos fazer acreditar que no fim fica sempre tudo bem. E esse foi o problema da Primeira Guerra do Golfo. E de todas as guerras em que os americanos se meteram depois disso. Não houve um final feliz e os argumentos foram ficando cada vez piores. Quando tentaram convencer-nos de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, em 2003, já se conseguia ver o papelão do cenário numa produção de quinta categoria. A Cimeira das Lajes foi só um momento patético, em que alguns escolheram fingir acreditar, porque às vezes é preciso acreditar em mentiras, mesmo sabendo que são mentiras.
Claro que os EUA foram sempre tentando ficar com o papel do herói, capaz de salvar o mundo, mas a cada bomba lançada, a cada país reduzido a pó, era cada vez mais difícil acreditar que o nosso herói tinha qualquer motivo nobre nas lutas que começava ou que ajudava a que nunca acabassem.
Os soldados americanos começaram a matar à distância, como num videojogo. Muitos deles comandando drones com controlos remotos, num escritório qualquer, enquanto decidiam se premiam o gatilho e matavam uns homens a carregar umas sacas, que podiam ser de algodão ou explosivos, antes de irem para casa jantar com os filhos. A guerra era uma coisa que acontecia aos outros. E só suscitou comoção a sério quando os alvos passaram a ser as crianças loiras de olhos azuis da Ucrânia. Mas só até a repetição dos bombardeamos russos nos anestesiar e nos fazer substituir a raiva pela impaciência com que se pega num comando para mudar de canal se a programação não interessa.
Assim que o genocídio se tornou evidente em Gaza, começaram a aparecer os que queriam convencer-nos de que o que estávamos a ver não era o que estávamos a ver. E que era muito diferente ter uma criança palestiniana morta a tiro na fila do pão de ter uma criança judia eliminada por nazis. Não se preocuparam muito em usar argumentos sofisticados, porque entretanto tudo se tornou uma questão de fé. Quem adere à seita acredita que o povo que está a ser dizimado só tem o que merece. Alguns sonham mesmo em construir resorts e restaurantes de luxo sobre os seus ossos desfeitos em pó.
Quando as coisas chegam a este ponto, Donald Trump já não tem de disfarçar, já não tem de fingir objetivos nobres, já não tem de construir uma narrativa moral. Ele faz o que lhe apetece. Se é preciso tirar um escândalo das notícias, começa-se uma guerra. Se o dólar está em risco, sequestra-se um Presidente e verga-se um país produtor de petróleo, transformando-o num protetorado. Se as eleições estão tremidas, porque há cada vez mais americanos a viver mal e a economia se afunda, aperta-se o garrote da energia para tentar voltar a colonizar Cuba, matando à fome quem for preciso para que isso aconteça. Tudo óbvio, tudo simples, tudo claro.
Há quem se dobre em explicações e alinhave argumentos arrevesados para tentar fingir que tudo isto tem um outro propósito, uma outra racionalidade, uma certa moralidade até. É só triste vê-los a contorcerem-se. O mundo está a ser tomado de assalto por um pequeno grupo de oligarcas, comandado por um pirata. Aprendemos nas séries passadas em liceus americanos que só há duas maneiras de lidar com um bully: ou se lhe dá o dinheiro do almoço e se foge de cabeça baixa ou se abre o peito e se levanta a voz. Em toda a Europa, só Pedro Sánchez conseguiu olhá-lo de frente e mandá-lo passear. Todos os outros foram pondo-se de gatas, mais ou menos contrariados.
A partir daqui, até podemos olhar para os livros de História para tentar adivinhar o futuro. Mas não me parece que encontremos lá as respostas. No passado, houve líderes com coragem, capazes de pensar para lá da sua sobrevivência estratégica, sim. Mas sobretudo a tecnologia de destruição, morte e controlo ainda não tinha atingido o grau de sofisticação totalitária que existe hoje.
A cada minuto, estamos mais perto da III Guerra Mundial. Mas estamos também mais conscientes das histórias de fadas que andaram a vender-nos. As mentiras que nos contam, mesmo com toda a Inteligência Artificial do mundo, são cada vez mais frágeis e evidentes. E talvez esse seja o ponto de esperança que ilumina estes dias sombrios. Começar a ver as coisas tal como elas são é sempre melhor do que viver iludido.
Até que ponto escolhemos livremente?
Quando procuramos um par de ténis e surge um “desconto imperdível”, avançamos porque o algoritmo identificou uma necessidade e a estimulou, ou porque escolhemos aproveitar a oportunidade? Quando o anel informa que o nosso sono é insuficiente e decidimos deitar mais cedo, é autonomia — ou uma rotina moldada por métricas invisíveis?
Onde começa a autodeterminação? Até onde se estende o algoritmo?
Já não se trata de gostos superficiais ou simples hábitos de consumo. Está em causa a recolha sistemática de dados, a discussão sobre neurodireitos e liberdade cognitiva — o direito de pensar sem interferência. Como sustenta Nita Farahany, se reconhecemos como fundamental a proibição da tortura física, também devemos proteger os processos mentais, os mais íntimos, de formas subtis de manipulação.
Preservar a liberdade cognitiva não pode, porém, ficar apenas no plano declarativo. A sua defesa exige enquadramento jurídico claro, limites à exploração de dados neurais e transparência nos sistemas algorítmicos que influenciam decisões individuais. Regular não significa travar a inovação; significa estabelecer garantias mínimas que assegurem que a tecnologia permanece instrumento e não condutora invisível da vontade.
Trata-se, em última instância, de proteger um espaço mental que não esteja permanentemente sujeito a pressões, sugestões ou estímulos calculados. Se a autonomia é um valor fundacional das sociedades democráticas, então a regulação da liberdade cognitiva deixa de ser opcional: torna-se uma condição para que continuemos, de facto, a escolher.
A economia como arma de guerra
A guerra desencadeada em 28 de fevereiro por Trump e Netanyahu serviu como um lembrete dramático do peso da raiz “geo” na palavra “geopolítica”. O Estreito de Ormuz é uma das principais artérias do sistema energético global. Ao contrário da crise de 2022, após a invasão russa da Ucrânia, que afetou principalmente a Europa, essa estreita passagem de 33 quilômetros transporta aproximadamente 20% do petróleo comercializado no mundo e uma parcela significativa do tráfego global de cargas, incluindo fertilizantes e outros produtos químicos derivados do petróleo (como o enxofre, crucial para a produção de alumínio e níquel para as indústrias automotiva e eletrônica). Seu fechamento prolongado tem efeitos altamente desestabilizadores em toda a economia. Ciente dessa vantagem, o regime dos aiatolás parece determinado a fazer do estreito o principal campo de batalha. Essa situação extremamente arriscada também elevou o custo do frete marítimo e dos prêmios de seguro devido às cláusulas de guerra. Nesse conflito, a geografia importa quase tanto quanto a tecnologia.
Apesar da esmagadora superioridade militar dos EUA, os drones e lanchas rápidas iranianas conferem à República Islâmica uma vantagem sem precedentes: ela não precisa vencer a guerra aérea — que já perdeu —; basta tornar a vitória insustentavelmente cara para seu adversário. A suposta mudança de regime no Irã, que tanto Trump quanto Netanyahu alegavam estar buscando, parece, duas semanas depois, apenas mais uma promessa vazia. Estamos testemunhando uma guerra sem objetivos concretos, na qual apenas Israel parece ter algo a ganhar: tomar a hegemonia regional do Irã, por mais frágil que seja a estabilidade da região.
Trump está ciente da ameaça representada pela estratégia do Irã, especialmente em um ano eleitoral em que a crise de acessibilidade — a capacidade dos cidadãos de arcar com o custo de vida — desempenhará um papel decisivo na determinação do voto. Os altos preços do petróleo encarecem o abastecimento dos carros, aumentam o preço dos alimentos e tornam praticamente impossíveis os tão desejados cortes nas taxas de juros antes das eleições de meio de mandato. Daí a decisão da Casa Branca de suspender as sanções ao petróleo russo, uma medida que injeta US$ 150 milhões extras por dia nos cofres de Moscou e provocou indignação na União Europeia devido às suas implicações para a segurança europeia. Isso representa uma tábua de salvação para um Kremlin em dificuldades financeiras devido à guerra na Ucrânia e constitui mais uma irresponsabilidade geopolítica por parte do governo Trump. Sua disputa com a China para privá-lo da energia barata do Golfo permanece sem solução.
Até o momento, os mercados reagiram com relativa moderação, apesar do forte aumento nos preços da energia. A liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas pela Agência Internacional de Energia — a maior medida desse tipo na história — revela a magnitude do desafio, embora uma guerra de desgaste possa esgotar essas reservas sem resolver o problema subjacente. Mas é importante lembrar que a turbulência do mercado provou ser praticamente o único fator de dissuasão para Trump. Isso já aconteceu duas vezes em 2025 (abril e julho) com as tarifas, quando o rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA se aproximou de 5%, e aconteceu novamente no início desta semana, quando ele declarou a guerra comercial praticamente encerrada após uma semana de perdas nos mercados.
A crise de 2022 ensinou várias lições aos governos europeus, que agora estão preparando medidas para mitigar o impacto deste novo conflito — medidas que devem ser bem direcionadas, temporárias e não comprometer as finanças públicas. Acima de tudo, porém, os altos preços da energia destacaram a necessidade de garantir a independência energética e aceleraram a busca por fontes alternativas, como as renováveis. Embora alguns progressos tenham sido feitos nos últimos anos, as metas ainda estão longe de serem alcançadas. A crise iraniana serve como um forte lembrete de que o petróleo continua sendo a força vital da economia global e ressalta o longo caminho a percorrer na busca pela descarbonização e pela independência energética estratégica.
segunda-feira, 16 de março de 2026
O quintal sob vigilância
Trump interrompeu sua agenda bélica no Irã para encontrar líderes do continente e lançar o “Escudo das Américas”. Oficialmente, trata-se de uma aliança entre Washington e uma dezena de países da região, entre eles Argentina, Chile, Paraguai e Panamá. Na prática, o “Escudo” representa uma subordinação ao poderio militar dos EUA. O republicano não escondeu, em seu discurso, sua disposição de alocar mísseis e usá-los, se necessário.
Se a aliança foi estabelecida para lutar contra o narcotráfico na região, vozes do governo brasileiro destacam que esse argumento parece frágil quando se nota que nem Colômbia nem México, dois dos centros de atuação de grupos criminosos, foram convidados ou consultados.
A ofensiva da Casa Branca ainda inclui a classificação de facções criminosas, ao estilo do PCC e do Comando Vermelho, como grupos terroristas, o que abriria caminho para o governo Trump “justificar” eventuais operações em território brasileiro. Mais de uma dezena de organizações criminosas da região ganharam esse status.
Observadores e diplomatas destacaram, porém, que a iniciativa parece o início da tradução, na prática, das políticas enumeradas nos documentos sobre estratégia de defesa nacional divulgados no fim de 2025 por Washington. A ambição declarada da Casa Branca era criar um arcabouço político que pudesse frear o avanço chinês na região. Para isso, a militarização do continente era um dos pilares.
Um dos acordos nessa direção foi assinado com o Paraguai. Pelo tratado, os EUA ficam autorizados a estabelecer uma base militar no país sul-americano. Os termos do tratado ainda revelam o grau de submissão do governo de Assunção. Pelo entendimento, se um integrante das forças armadas norte-americanas violar a lei paraguaia, poderá ser julgado apenas em seu próprio país e só obedecerá às ordens de seus comandantes. Militares e civis entrarão em território paraguaio com imunidade total, o que lhes permite portar armas e burlar os controles locais. Também não pagarão impostos ou taxas.
Outro campo de testes passou a ser o Equador, destacado pelo Secretário de Guerra, Pete Hegseth, como um dos focos norte-americanos. Um dia antes do encontro na Flórida, os dois países realizaram, pela primeira vez, ataques coordenados contra grupos do narcotráfico, inclusive na selva amazônica. Em fevereiro, representantes das forças navais dos dois países realizaram uma rodada de negociações em Quito. O objetivo é traduzir as políticas de segurança em ações concretas por meio do compartilhamento de informações, planejamento conjunto e metas mensuráveis em segurança marítima.
Além da militarização, a ofensiva inclui “cenouras”. Ou seja, benefícios para determinados setores. No caso do Equador, o governo de Quito está prestes a fechar um acordo comercial com os EUA para ampliar as exportações. “Esse acordo representa uma nova plataforma para promover a prosperidade. Sua rápida entrada em vigor ajudará a expandir e diversificar o comércio e o investimento bilaterais para o benefício mútuo de ambos os países e seus povos”, afirmou Jamieson Greer, representante de Comércio dos EUA.
Argentina, El Salvador e Guatemala também assinaram acordos comerciais que vetam esses países de fazer certos negócios com a China. Em alguns deles, os governos locais se comprometem a não entrar em tratados de cooperação espacial com Pequim.
Analistas alertam, porém, para o fato de que essa reocupação geográfica pode ser mais difícil do que se imagina. O governo chinês criou uma “força-tarefa” para tentar preservar sua posição diplomática na região e antecipar ações dos EUA.
A realidade é que deslocar o dragão chinês pode não ser uma tarefa das mais simples. O comércio da China com a região atingiu o recorde de 518 bilhões de dólares em 2024, com Pequim emprestando mais de 120 bilhões a governos no Hemisfério Ocidental.
Os chineses contam com o apoio de uma extensa rede portuária, com mais de três dezenas de portos, mais infraestrutura espacial do que qualquer outra região do mundo fora da China continental, e a empresa estatal Huawei se inseriu em ao menos uma dúzia de redes de telecomunicações em toda a região. Em 2025, mesmo com toda a ofensiva de Trump, o comércio entre a China e a América Latina cresceu 7%. A disputa pela região está em curso
Ser criança é difícil
Insensibilidade e falta de senso
Se quisermos ser rigorosos e independentes, não existe qualquer circunstância em que o bombardeamento de uma escola, provocando a morte de mais de uma centena de crianças e dos seus professores, possa deixar de ser considerado um escândalo mundial, merecendo a imediata condenação unânime e conduzindo a um rápido e conclusivo apuramento de responsabilidades. Numa guerra geograficamente próxima de nós ou em que as vítimas fossem parecidas connosco, com os mesmos traços físicos e culturais, seria isso que logo aconteceria. E, se calhar, se fosse na Ucrânia, já haveria um novo pacote de sanções económicas a caminho, contra o invasor russo − e muito bem.
O massacre ocorreu, no entanto, na escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no Irão, logo nas primeiras horas da ofensiva dos EUA e de Israel. Embora ainda não se saiba o número exato de vítimas, ninguém duvida de que foi mais de uma centena, quase todas meninas entre os 7 e os 12 anos. Também sabemos que a escola ficava situada junto a uma base da Guarda Revolucionária Islâmica, o tenebroso braço armado do regime dos aiatolas. Segundo o New York Times, há imagens de satélite que indicam que o prédio da escola esteve anteriormente conectado com as instalações militares, mas foi posteriormente isolado com muros.
O secretário de Guerra dos EUA, e antigo apresentador da Fox News, Pete Hegseth, tem-se esforçado por desmentir que o ataque tenha sido perpetrado por americanos, mesmo quando se acumulam evidências a esse respeito, nomeadamente entre peritos das Nações Unidas, e se sabe que alguns dos alvos da Operação Fúria Épica foram definidos através de Inteligência Artificial − porventura incapaz, sem intervenção humana, de deslindar se o edifício da escola continuava ou não integrado nas instalações militares.
O problema, no entanto, nem sequer é a insensibilidade de Hegseth e da restante Administração em Washington − Donald Trump, claro, já assegurou que os EUA não têm qualquer responsabilidade e fê-lo com a veemência habitual: a mesma que lhe permitiu, no espaço de uma semana, enunciar sete objetivos diferentes para esta guerra, quase todos antagónicos uns dos outros. Na verdade, de Trump e dos seus súbditos MAGA não se esperaria outra coisa.
O problema é mesmo a falta de senso que se generalizou e que leva a que uma situação destas já não suscite a indignação e a repulsa que merecia. Até porque isso tem consequências profundas: banaliza-nos a violência e o horror da guerra, levando-nos a olhar para as atrocidades como se fossem naturais. E, como ocorrem em locais distantes, criando até a sensação de que pouco ou nada têm a ver connosco.
A realidade nua e crua sobre o estado atual do mundo é esta: milhões de pessoas ficam mais alarmadas com o aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que com a morte de mais de uma centena de crianças no bombardeamento de uma escola.
Este é um sintoma do que acontece quando os líderes começam a desprezar os valores mais básicos em que deviam assentar o relacionamento humano e o respeito pelo próximo e pelo semelhante. O direito internacional, nomeadamente com a definição de regras para as guerras, é um dos pilares do progresso da Humanidade. Desrespeitá-lo é fazer regressar o mundo à lei da selva, em que o mais forte manda e os outros obedecem ou são eliminados. É plausível que o ataque à escola de Minab não tenha sido uma ação intencional dos EUA − ao contrário dos muitos assassínios de mulheres e crianças perpetrados pelo regime de Teerão, ao longo dos últimos anos. Mas quando falha a sensibilidade para perceber que este é um caso que devia ser esclarecido o mais depressa possível é porque, de facto, já se desceu demasiado fundo em termos de valores e de respeito pelos direitos humanos. O erro, nesse caso, não foi do bombardeiro, mas de quem, no comando, não teve coragem para assumir a sua culpa. E os culpados, no fundo, somos também todos nós, que vemos este caso apenas como mais uma ocorrência “normal” de guerra e não como uma consequência do estado a que chegámos, enquanto sociedade.
A paz é inconveniente
Quando, a 28 de fevereiro, os Estados Unidos bombardearam o Irão, percebeu-se rapidamente que o Médio Oriente voltaria a entrar em polvorosa. À medida que acumulamos anos e experiência, vamos compreendendo que há ciclos que se repetem. Tal como existem ciclos económicos, também existem ciclos de conflito.
A minha consciência política surgiu no início do milénio, com a invasão do Iraque, na era Bush. Hoje percebo que existe um padrão histórico que se repete. Se isto soa frio, soa. Mas talvez seja precisamente essa frieza analítica que nos permite reconhecer como os conflitos regressam, década após década.
Ainda assim, qualquer guerra — especialmente nos dias que correm — soa a despropósito. Estamos em pleno século XXI. Temos inteligência artificial a entrar nas nossas vidas, tecnologias capazes de transformar economias e sociedades inteiras, e continuamos, paradoxalmente, a assistir a homens poderosos que gostam de “brincar” às guerras para afirmar posições geopolíticas os escamotear questões “domésticas”.
O problema é que essas “brincadeiras” não acontecem em tabuleiros abstratos. O facto de homens poderosos gostarem de “brincar” às guerras não seria particularmente grave se o fizessem nos seus quintais, com espadas. A realidade, porém, é outra: quem paga o preço são os inocentes. Quem morre, quem perde a casa, quem vê a sua vida suspensa são pessoas que não têm voz nem voto nas decisões que lhes destroem o quotidiano.
É neste contexto que surge aquilo que, em termos económicos e políticos, se designa por economia de guerra. Tradicionalmente, o conceito refere-se à reorganização das economias para sustentar conflitos: produção industrial orientada para armamento, mobilização de recursos estratégicos e concentração de poder económico e político. No entanto, no mundo contemporâneo, a economia de guerra tornou-se também um sistema que se alimenta da própria instabilidade.
Serve para afastar milhões de pessoas de uma vida digna. Serve para desestabilizar países ricos em recursos naturais, que acabam depois explorados em condições pouco dignas. Serve para alimentar cadeias de mão de obra barata — por vezes quase escrava. E serve, inevitavelmente, para gerar lucros para quem investe neste sistema. Porque há uma elite económica e financeira que investe nesta economia e que, em certa medida, precisa dela para continuar a prosperar.
O resultado é conhecido: gerações inteiras privadas de uma vida em paz. Povos que continuam sem voz, sem dignidade e sem liberdade, muitas vezes enquanto se invocam intervenções externas em nome da “libertação”.
Se existe tanto poder concentrado numa percentagem mínima da população mundial, seria legítimo esperar que esse poder fosse usado para promover a paz. No entanto, o argumento de que um conflito pode ser um “mal menor” para alcançar estabilidade lembra a velha máxima romana: o povo contenta-se com pão e circo.
Num país com 90 milhões de habitantes, onde cerca de 80% da população se posiciona contra o regime, capacitar o povo para que a democracia nasça das suas próprias mãos não parece ser o caminho mais lucrativo. Afinal, como se testa arsenal militar? Como se alimenta a indústria da defesa? Como se exploram recursos num país informado e com um povo verdadeiramente capaz?
Talvez seja precisamente por isso que, tantas vezes, a paz se torne tão inconveniente.
Proposta de Trump de militarizar combate aos cartéis dificilmente funcionará
A iniciativa reuniu uma dúzia de governos latino-americanos alinhados a Washington e tem como objetivo ampliar a cooperação em segurança e combater cartéis de drogas e redes de tráfico na região. Durante o encontro, Trump deixou claro que a militarização do combate ao narcotráfico é o eixo central de sua estratégia para a região. Ele defendeu que os países do hemisfério recorram mais ao uso das forças armadas para enfrentar organizações criminosas e incentivou líderes latinos a permitir operações militares conjuntas com os EUA em seus territórios. “Assim como formamos uma coalizão para derrotar o Estado Islâmico no Oriente Médio, agora precisamos fazer o mesmo para erradicar os cartéis aqui no nosso hemisfério”, disse. Numerosos cartéis da América Latina e do Caribe foram classificados como organizações terroristas estrangeiras pelo governo dos EUA, e ataques contra lanchas supostamente usadas para transportar drogas deixaram, ao longo do último ano, cerca de 150 mortos.
A nova coalizão reúne, em grande parte, governos ideologicamente próximos do presidente americano, incluindo líderes de Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Honduras, Panamá, Costa Rica, República Dominicana, Guiana, Trinidad e Tobago e Bolívia, além do presidente eleito do Chile. O encontro, no entanto, excluiu alguns dos principais países da região, como Brasil, México e Colômbia, cujos governos não foram convidados.
Não é apenas a exclusão desses três países que levanta dúvidas sobre a eficácia da iniciativa. Da mesma forma, a designação de cartéis como grupos terroristas não considera que narcotraficantes têm estratégias e objetivos muito diferentes de terroristas da Al-Qaeda. O maior problema é que, como Matias Spektor e Oto Montagner mostram em
artigo recente no New York Times, a ideia de derrotar cartéis por meio da força militar parte de um equívoco fundamental sobre como o crime organizado opera hoje. Os grandes grupos criminosos da América Latina já não estão confinados a um território específico: eles operam como redes transnacionais integradas a cadeias globais de comércio ilícito, que conectam produtores, intermediários financeiros e mercados consumidores em diferentes partes do mundo.
RESILIÊNCIA. Nesse contexto, destruir bases ou eliminar líderes – como ocorreu no México, onde o narcotraficante “El Mencho” foi morto – dificilmente desmonta essas redes. A experiência mostra que operações militares tendem apenas a deslocar a atividade criminosa ou torná-la mais fragmentada e difícil de rastrear. Além disso, enquanto houver forte demanda global por drogas, a repressão armada frequentemente aumenta o valor do mercado ilegal, tornando os cartéis ainda mais lucrativos e adaptáveis. Da mesma forma, Robert Muggah observa que estratégias baseadas principalmente em operações militares costumam produzir efeitos de deslocamento, não de eliminação do problema. A pressão sobre uma rota ou território frequentemente apenas eleva os preços e incentiva novas formas de adaptação por parte das organizações criminosas.
Dados recentes reforçam esse diagnóstico. Meio século após o lançamento da chamada “guerra às drogas” pelos EUA, a produção e o consumo global de cocaína continuam em níveis recordes. Cadeias de suprimento ilícitas tornaram-se mais diversificadas e resilientes. Mesmo quando operações policiais ou militares interrompem determinadas rotas, o fluxo tende a se deslocar rapidamente para outras regiões.
Para Spektor e Montagner, o combate exige algo diferente: cooperação internacional de inteligência, integração de dados financeiros e logísticos e ações coordenadas para desarticular as redes que sustentam o crime transnacional. Transformar a América Latina em um novo teatro de operações militares terá um custo humano e econômico enorme, mas dificilmente resolverá o problema.
Oliver Stuenkel
'Metrópolis', de Fritz Lang: o futuro é agora
A história se passa em 2026, ou seja, nos dias atuais. Uma de suas personagens centrais é Maria, uma das primeiras "mulheres-robô" do cinema. Essa humanoide personifica o que hoje chamamos de inteligência artificial (IA) . Muitos dos temores atuais em relação a essa tecnologia já estavam, de certa forma, prenunciados em sua personagem há quase um século.
Como humana, Maria alerta os trabalhadores sobre os abusos dos poderosos. O governante de Metrópolis decide então copiar sua aparência e transferi-la para um robô, um Maschinenmensch (homem-máquina), com a ajuda de um cientista obcecado que persegue seus próprios objetivos. Transformada em uma máquina com forma humana, Maria deve manipular os trabalhadores para que os poderosos possam explorá-los ainda mais. E como os trabalhadores não conseguem distinguir entre a mulher real e o androide, o plano parece funcionar.
Quando Fritz Lang imaginou sua visão distópica do trabalho em 2026, ele visualizou um mundo onde humanos serviriam às máquinas. Hoje, quase diariamente surgem reportagens em que especialistas especulam sobre quais empregos poderiam desaparecer devido à inteligência artificial. Recentemente, por exemplo, o empresário americano Matt Schumer alertou na rede social X sobre possíveis demissões em massa: em um ou dois anos, disse ele, nenhum emprego de escritório estaria realmente seguro.
Androides no cinema
No cinema, a "máquina humana" muitas vezes tem um lado sombrio. Maria, de Metrópolis, tornou-se um modelo para muitas histórias de ficção científica em que as pessoas acabam sendo vítimas de suas próprias criações.
Em "O Exterminador do Futuro ", de James Cameron, um robô viaja no tempo para garantir um futuro onde as máquinas dominem a humanidade. Com seus esqueletos de aço, eles enxergam os humanos que os criaram como uma ameaça.
Os "replicantes" em "Blade Runner", de Ridley Scott , foram projetados para realizar trabalhos perigosos durante a colonização do espaço. A Terra tornou-se um lugar inóspito: poluída, superpovoada e constantemente castigada por chuvas torrenciais. Para permitir que os humanos aspirem a uma vida melhor em outros planetas, esses androides são designados primeiro para as tarefas mais árduas. Mas, como desenvolvem suas próprias emoções ao longo do tempo — e com elas a capacidade de se rebelar —, sua expectativa de vida é limitada a quatro anos. Mesmo assim, alguns se recusam a obedecer e desafiam seus criadores.
Sejam eles "exterminadores" ou "replicantes", são quase sempre indistinguíveis do Homo sapiens, como a robô Maria em Metrópolis . Apenas raramente os robôs aparecem como aliados dos humanos. Um exemplo é C-3PO, o androide de "Star Wars" criado por George Lucas, um assistente útil e pacífico.
Aqueles que defendem o desenvolvimento da inteligência artificial vislumbram algo semelhante hoje: androides vivendo ao nosso lado e auxiliando em tarefas cotidianas, como cuidar de idosos, atender crianças ou realizar tarefas domésticas. Os críticos, no entanto, alertam para os riscos dessa tecnologia e comparam seu avanço à invenção da bomba atômica.
Em "Metrópolis", a cidade não é destruída por uma guerra nuclear, mas por uma enorme inundação que causa inúmeras mortes. A culpada é a robô Maria, que incita os trabalhadores a se rebelarem e destruírem o sistema.
Nesse sentido, Fritz Lang encarava as máquinas com tanta desconfiança quanto diretores como Cameron ou Scott encarariam décadas depois. Um androide perfeito como Maria, do filme, ainda não existe. Mas outras ideias que apareceram em "Metrópolis" se tornaram realidade: por exemplo, o monotrilho ou as videochamadas.
Essas ferramentas se tornaram uma necessidade cotidiana. Com um smartphone, não apenas ouvimos a pessoa com quem estamos falando, como também a vemos. Equipes espalhadas pelo mundo se reúnem diariamente em videoconferências como se estivessem na mesma sala. E desligar a câmera pode levantar suspeitas: Será que ainda estão de pijama? Ou será que têm olheiras depois de uma longa noite de sono?
Talvez Fritz Lang, há quase um século, não estivesse simplesmente mostrando o progresso, mas também as potenciais armadilhas que ele acarreta. Seja qual for a interpretação, hoje ninguém pode dizer que as visões de Metrópolis não têm nada a ver com nossas vidas atuais. O futuro já chegou.
















