quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


A Internacional Autoritária é a maior ameaça dos nossos tempos

Tem já mais de uma década o debate entre aqueles que alertam para o perigo de uma deriva autoritária nas nossas democracias e quem considera que esse perigo está sendo exagerado. A minha posição nesse debate é clara: acho que o perigo do autoritarismo ainda é subestimado.

Uma coisa é o debate (interessante, mas em boa medida acadêmico) sobre se o novo autoritarismo pode ser comparado com o fascismo do século passado. Alguns puristas consideram que, enquanto não estiverem preenchidas todas as características do fascismo original, não se pode usar a palavra para a sua variante.


 A luta contra a Internacional Autoritária é a luta das nossas vidas, em cada país onde ela se trava. Ela obriga-nos a votar pelo mal menor, a sair para a rua com quem não concordamos e a improvisar para resistir nas redes

Trata-se de uma exigência impossível de atingir: nem no fascismo original todas as suas versões foram idênticas. Mais importante, porém, é entender: o que fariam os tiranos de cem anos atrás com as possibilidades de hoje?

É aí que chegamos à conclusão de que não estamos ainda suficientemente assustados. Os tiranos de cem anos atrás não tinham armas nucleares. Hoje vivemos esperando que Donald Trump e Vladimir Putin não sejam tão loucos quanto aparentam ser.

Os tiranos de cem anos atrás não tinham uma ferramenta de vigilância e controle tão completa quanto são as redes sociais e a internet nos dias de hoje. E a verdade é que nada se consegue fazer atualmente, incluindo lutar contra os autoritários, sem usar as redes sociais e nos expormos aos seus donos, que são eles próprios autoritários ou aliados de autoritários.

Os tiranos de cem anos atrás não dispunham ainda da possibilidade de dominar a inteligência artificial. Hoje veem essa possibilidade ao virar da esquina.

Restou-nos, enfim, quando mais nada dava certo, esperar que os tiranos morressem de morte natural. Há uns anos, contudo, um microfone apanhou uma conversa entre Putin e Xi Jinping sobre a possibilidade de prolongar drasticamente a vida humana. Se lá chegarmos podemos ter a certeza de que os primeiros beneficiários não vão ser os pobres nem os cidadãos comuns, mas os autoproclamados "homens fortes" (e, de fato, quase todos homens) das oligarquias, da alta finança e do poder.

Finalmente, temos de encarar uma realidade: os nossos autoritários estão bem mais unidos do que os tiranos de cem anos atrás. Não interessa qual a ideologia, a nação ou o credo, a cola que os une é a sua profunda e total corrupção.

De Trump a Putin, passando por Binyamin Netanyahu e por todos os seus imitadores pelo mundo fora, com destaque para a América Latina, não há um que não esteja impregnado de um total despudor na hora da roubalheira.

Mais ainda, essa obsessão comum leva-os a coordenarem-se e apoiarem-se mutuamente. Por isso os democratas estão divididos em muitas correntes —sociais-democratas, liberais, ecologistas, progressistas vários— mas os autoritários fazem todos parte da mesma Internacional, mesmo que ela não seja assumida.

Por isso a luta contra a Internacional Autoritária é a luta das nossas vidas, em cada país onde ela se trava. Ela obriga-nos a votar pelo mal menor, a sair para a rua com quem não concordamos e a improvisar para resistir nas redes. Sempre insatisfeitos, de coração nas mãos, com medo pela democracia.

Mas é uma luta gloriosa. A minha gratidão a todos os que a fazem, aí também onde me leem.

Flávio Bolsonaro não consegue dissipar minhas suspeitas

Certamente não são pessoas como eu que Flávio Bolsonaro tenta convencer por meio de posts, discursos, sabatinas e debates. De resto, com a minha aversão ao gregarismo ideológico e o meu natural ceticismo, não devo mesmo ser o público-alvo de qualquer campanha.

Afinal, meu marxismo é mais o de Groucho Marx ("não entro em clubes que aceitem pessoas como eu") que o de Karl, e minha abordagem dos candidatos sempre foi mais parecida com a de um consumidor que com a de um militante apaixonado. E, sim, acredito em coisas que causam repugnância em quem moraliza excessivamente a política, como votar no menos pior disponível —sem guardar meu voto para o candidato ideal como quem se guarda para a mulher da sua vida. Política é outro tipo de negócio.

Dito isso, Flávio Bolsonaro tem fracassado completamente em dissipar uma inquietação essencial sobre os anos da sua eventual Presidência: seu compromisso com a ordem liberal-democrática. Não se trata do vago apelo a "salvar a democracia", de que o lulismo tanto abusou, confundindo frequentemente a defesa da democracia com a defesa da sua própria agenda política, como se não pudesse haver democracia fora da esquerda.


Sei que cada um tem seus temores diante do futuro do país com Lula ou com os Bolsonaros — sim, no plural, porque eles costumam governar os quatro ao mesmo tempo, como vimos da última vez. Sei também que algumas listas de exigências são feitas sob medida para que só caiba nelas um candidato de esquerda, quando não o próprio Lula. Não é o meu caso. Não tenho dificuldade em aceitar que o Brasil seja governado por alguém de direita, conservador ou adversário daquilo em que acredito. A vontade da maioria eleitoral não tem obrigação de coincidir com a minha.

Mas, para confiar a Flávio o governo do país, precisaria de razões para acreditar que ele e seu círculo próximo respeitarão as regras do jogo quando elas contrariarem seus interesses. A democracia liberal não se resume a eleições periódicas. Exige respeito à separação dos Poderes, ao Estado de Direito, aos limites da autoridade presidencial e, sobretudo, à possibilidade de perder eleições e deixar o poder.

Não se trata apenas de saber o que Flávio conhecia ou desconhecia dos planos golpistas do pai. Ele mesmo passou anos defendendo, em livro e discursos, o golpe de 1964, celebrando a ditadura militar e exaltando alguns dos seus mais notórios agentes de repressão. Não é um passado que o condene a pensar assim para sempre, mas, com semelhante histórico pessoal e familiar, caberia a ele, mais do que a qualquer outro, convencer-nos de que se converteu às convicções liberal-democráticas.

Na campanha, ele chegou a prometer que respeitará o resultado das urnas e que não disputará a reeleição. Promessas não são garantias, naturalmente. Ainda mais quando, ao anunciar que não pretende se reeleger, deixa aberta a possibilidade de ser beneficiado por uma extensão do próprio mandato. Mas o problema maior é outro: como conciliar essas declarações com sua atitude diante da tentativa de golpe de Estado pela qual o pai foi condenado?

Flávio não precisaria negar, contra as evidências reconhecidas pela Justiça, o envolvimento de Jair Bolsonaro na tentativa de impedir a alternância de poder. Bastaria convencer-me de que, sob seu governo, não se repetiria coisa semelhante. Em vez disso, trata a condenação do pai como uma injustiça a reparar, promete beneficiá-lo com o perdão presidencial e quer receber dele a faixa na posse. Como símbolo inaugural do novo governo, imagina receber a transmissão da autoridade republicana justamente de quem foi condenado por tentar subvertê-la. Um tapa na cara da democracia.

Não estamos falando de uma divergência sobre decisões do STF, mas de uma tentativa de golpe de Estado que incluiu planos para assassinar o presidente, o vice-presidente e um ministro do Supremo, admitindo até a morte de civis como dano colateral. E de uma ação de sedição, em 8 de janeiro de 2023, que Flávio insiste em tratar como manifestação cívica injustamente punida. Não é uma questão de simpatia pelo Judiciário, mas de compromisso com os limites que nenhuma disputa pelo poder pode legitimamente ultrapassar.

Posso aceitar de um candidato quase qualquer divergência política, por mais profunda que seja, mas não posso transigir, sobretudo em tempos tão turbulentos, quanto ao seu compromisso com o Estado de Direito e com os direitos e garantias fundamentais.

E Flávio Bolsonaro tem feito muito mais para alimentar minhas suspeitas que para dissipá-las.
 Wilson Gomes

Depois da emoção da campanha, uma grande tarefa nos espera

Minha menina: o Brasil vive sua última semana de campanha. Só agora, no segundo turno, assume os traços interessantes do passado.

Há gente na rua, gente fazendo o L, dizendo “vamos virar”, manifestações estudantis, shows. Para dizer a verdade, a animação envolve os dois lados. Vi uma espécie de comício em Capelinha, com milhares de pessoas. É uma cidade de Minas na entrada do Vale do Jequitinhonha, onde estive recentemente. Enfim, há luta eleitoral em toda parte.


Acho ótimo que as pessoas façam as campanhas. Os candidatos deveriam agradecer a elas não só por carregarem o piano nesta fase final, em que estão já de língua de fora. O ano que vem será difícil para qualquer vencedor. Os economistas acham que faltará dinheiro, além disso o El Niño vem pesado com seus eventos extremos.

Os últimos dias são interessantes também pelo esforço dos candidatos. O nome da direita acabou, para não perder votos, votando numa pauta de esquerda, o fim da escala 6x1, sem dúvida um avanço civilizatório. O candidato da esquerda afirmou que apoia a redução da maioridade penal, uma pauta clássica da direita. Chamo isso de efeito sertão virando mar, mar virando sertão, verso consagrado de nossa música popular.

O governo tem tido vitórias no Parlamento. O dado mais importante é que o desmatamento na Amazônia caiu ao nível mais baixo da História. Há queimadas por causa da seca e também porque os desmatadores se vestem de incendiários. Faz parte de seu show macabro.

Se um dia fosse escrever a história desta campanha, destacaria a grande quantidade de declarações de voto na internet. Conhecidas ou não, as pessoas traçam ligeiramente sua biografia e concluem dizendo em quem votarão.

Lembra aquele português que fomos visitar no Alentejo? Ele me escreveu dizendo que em seu país costumam eleger um Congresso de direita e um presidente de esquerda, ou vice-versa. Só para equilibrar. Os brasileiros fariam o mesmo? Não sei, aqui é presidencialismo, e não há muito esse tipo de cálculo.

Há muitas encruzilhadas, daqui até 2030. Não sei se verei todas. Espero que essa rígida divisão nacional se atenue com o tempo. A derrota da direita na Hungria mostrou que, mesmo com poderes quase absolutos, Viktor Orbán foi para o espaço. As próximas eleições americanas sugerem que Trump perderá pelo menos uma das duas Casas do Parlamento.

O que não significa caminho tranquilo para a esquerda. Nesta fase, o capitalismo é um cavalo bravo que ninguém consegue cavalgar por muito tempo. Será preciso um longo trabalho de revisão, suportando a dor de saber que não se é dono da verdade e que nem existe resposta científica para o rumo da História.

Não importa o resultado, depois da emoção da reta final, uma grande tarefa nos espera. As multidões nas ruas não podem abandonar a cena política, embora tenham de voltar para suas atividades cotidianas. Elas serão um grande termômetro.

Pátria distraída

A língua ferina de Flávio Bolsonaro, no primeiro debate presidencial, não abre espaço para a poesia. Mas o silêncio que adotava diante de perguntas incômodas era como o oposto de um antigo samba que tudo dizia mesmo sem nada falar.

Era o início de 1984, um ano antes da transição para o primeiro governo civil depois de 20 anos da ditadura tão elogiada pelo senador e por seu pai Jair, atualmente preso por tentativa de golpe de Estado.

“Vai passar”, de Chico Buarque, ecoava em todo o país. Vai passar na avenida um samba popular, como dizia a canção. Assim como iria passar o longo período de autoritarismo, cuja memória andava – e anda – desbotada em nossas novas gerações.

“Dormia”, nessa página infeliz da história, “a nossa pátria-mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.


Foram muitas transações, como a história já nos ensinou. Na canção a linguagem era simbólica. Mas os grandes negócios estavam ali. Desde depósitos em contas no exterior ao estímulo de grandes projetos internacionais que deixaram rastros de destruição na Amazônia.

Naquele tempo prosperaram ideias como as de plantar capim para gado onde antes havia floresta nativa. Ou plantar eucalipto na terra aberta por desmatamento.

Agora os interesses são mais sofisticados. A economia digital precisa de novos minérios críticos para fabricar aparelhos eletrônicos de última geração. Assim como as forças armadas do mundo buscam matérias-primas para suas mais recentes armas.

E essas matérias-primas incluem as terras raras, cujas maiores reservas do mundo estão na China. As reservas brasileiras vêm logo atrás. E países como os Estados Unidos estão de olho no subsolo brasileiro.

Durante evento nos Estados Unidos, falando em inglês, Bolsonaro filho já havia prometido portas abertas. O Brasil, a seu ver, poderia ser “a solução para a América”.

Washington gostou e anotou. Com o senador no Palácio do Planalto seria mais fácil negociar do que com o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que defende o beneficiamento e a industrialização dos minérios no Brasil.

Na verdade, as terras raras brasileiras não interessam aos americanos apenas sob o ponto de vista da geopolítica. Também como negócio mesmo. Um negócio que pode vir a beneficiar integrantes das famílias do presidente e do vice-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e J.D. Vance.

Pois no debate presidencial Lula quis saber de Flávio como seria a relação especial com os Estados Unidos prometida pelo senador. E se ele pretendia mesmo entregar aos americanos o controle de jazidas de minerais críticos e terras raras. Silêncio.

Na hora Flávio mudou de assunto, assim como fez quando Lula lhe perguntou por que havia votado contra a extensão da licença maternidade, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ou quando lhe propôs abrir sigilos fiscal e digital.

O senador não quis falar do assunto. Mas este será um dos principais temas logo no início de um possível governo seu.

Um acordo com os Estados Unidos sobre as reservas minerais serviria como uma espécie de passaporte para o clube de aliados preferenciais de Washington. Ou como um novo modelo de subtração da pátria distraída.

Os fãs de Trump são tão ruidosos, no Brasil, que levaram à avenida Paulista, durante manifestação em apoio ao candidato da direita, um míssil inflável onde se lia um pedido para que o presidente americano bombardeasse o Brasil.

Flávio, é claro, acusou “agentes infiltrados” de levar o míssil à avenida. Quem sabe fosse apenas mais um adereço na versão bolsonarista do samba popular. Tudo isso também vai passar?

As urnas do próximo domingo dirão. Se há 40 anos a pátria-mãe dormia, diante de tenebrosas transações, ela agora precisa despertar.

Para encarar de frente os riscos à nossa soberania – política, econômica e tecnológica – e à própria democracia, que as gerações anteriores tanto lutaram para conquistar.

Trumpismo, bolsonarismo e a resistível ascensão da extrema-direita

Nos últimos ciclos eleitorais, as trajetórias políticas dos Estados Unidos e do Brasil têm revelado semelhanças marcantes, especialmente entre os fenômenos do “Trumpismo” e do “Bolsonarismo”.1 A análise de semelhanças e diferenças entre os dois países ajuda a esclarecer questões centrais do nosso tempo: o fortalecimento da extrema-direita pelo mundo, as consequências de seus governos e os caminhos possíveis para a defesa da democracia frente a ameaças de retrocessos. 

Como na surpreendente volta de Trump à Casa Branca em 2024, após a tentativa de insurreição que culminou na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, poucos apostaram numa reviravolta da família Bolsonaro após o plano de golpe que se seguiu à derrota nas eleições de 2022. Esse plano culminou na invasão e depredação de prédios públicos na Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, e na condenação de Jair Bolsonaro por liderar um esquema que incluía planos para assassinar o Presidente e Vice-Presidente da República além de um Ministro do Supremo Tribunal Federal.

Neste ponto, cabe mencionar que há uma clara diferença entre Brasil e os EUA: enquanto a justiça americana falhou ao não dar seguimento em tempo hábil ao processo contra Trump por tentativa de insurreição e outros crimes, deixando o caminho livre para a sua volta à política em 2024, o judiciário brasileiro funcionou com agilidade no julgamento de Bolsonaro e outros envolvidos na tentativa de golpe de 08 de janeiro.

Com a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, a escolha pelo pai do filho mais velho, Flavio, para ser candidato a presidente, levantou diversos questionamentos, inclusive no Partido Liberal (PL) e entre aliados de direita, considerando a sua atuação inexpressiva como parlamentar e histórico de envolvimento com milícias e “rachadinhas” no Rio de Janeiro.


Para melhor entender o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais em 4 de outubro, é importante considerar uma série de fatores, alguns dos quais guardam semelhanças com as eleições presidenciais recentes nos EUA.

Uma das dificuldades inerentes à campanha do Lula, após o exercício de três mandatos, como no caso das candidaturas de Hillary Clinton em 2012 e Joe Biden em 2024, tem sido a superação da pecha de candidato do “establishment”, ou seja, das elites políticas tradicionais.

Como no caso de Biden com Trump em 2024, a campanha do Presidente Lula no primeiro turno parece ter subestimado o potencial de crescimento da candidatura de Flávio Bolsonaro, especialmente no sentido de explorar – apesar de melhorias nos indicadores de inflação e desemprego – as frustrações de grande parte do eleitorado com dificuldades econômicas, especialmente o endividamento.

No primeiro turno, a comunicação da campanha do Presidente Lula poderia ter sido mais eficaz em destacar as contribuições de programas do atual governo para a qualidade de vida das pessoas, sem menosprezar as dificuldades econômicas enfrentadas por grande parte da população, assim como um conjunto de propostas inovadoras para o próximo mandato, levando em conta a ansiedade por mudanças dentro do eleitorado.

Enquanto isso, umas das táticas da campanha de Flávio Bolsonaro, seguindo o exemplo de Trump e de seu pai, tem sido a ampla divulgação em redes sociais de notícias distorcidas e falsas, a demonização de adversários e a utilização indevida da religião como arma eleitoral, com o apoio de alguns líderes evangélicos de extrema direita.

A divulgação indevida pelo ministro André Mendonça do STF, de indícios de vínculos entre Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, desviou a atenção dos vínculos entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, como no financiamento do filme Dark Horse e, ao mesmo tempo, motivou a base de extrema direita, ávida por vingança contra o Moraes pelo seu papel na condenação de Jair Bolsonaro e outros responsáveis pela tentativa de golpe.

Claramente, a carência de diálogos e debates com os candidatos à presidência sobre questões fundamentais que afetam a qualidade de vida das pessoas – como a geração de emprego e renda, saúde pública, educação, segurança pública, meio ambiente e mudanças climáticas – no sentido de facilitar comparações entre as propostas dos candidatos, tem prejudicado a qualidade do processo eleitoral, favorecendo, a nosso ver, a campanha de Flávio Bolsonaro.

É difícil estimar a influência de Trump e Rubio, com suas táticas intervencionistas, no primeiro turno das eleições presidenciais. Por um lado, devem ter animado uma parte significativa da base de Bolsonaro. Por outro lado, as investidas da Casa Branca contra a soberania do Brasil, com a anuência e participação de Flávio e Eduardo Bolsonaro, provocaram indignação entre grande parte do eleitorado, o que encontrou eco nas declarações do Presidente Lula na assembleia da ONU, lembrando que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

Na campanha do Presidente Lula, há iniciativas importantes sendo tomadas para superar lacunas e falhas do primeiro turno, a exemplo de melhorias na comunicação, especialmente a articulação entre mobilizações de rua com a utilização das redes sociais, com envolvimento de jovens como a deputada eleita Ana Elisa Santos Silva.

Nas mensagens de campanha do Lula nos próximos dias, além de apontar contradições e omissões nas propostas do Flávio Bolsonaro, lembrando como foi o governo de seu pai em áreas como a saúde pública, é preciso destacar resultados positivos do último mandato e, ao mesmo tempo, apresentar propostas inovadoras para um próximo governo que se conectam diretamente com a qualidade de vida no cotidiano das pessoas – ou seja, “fazer mais e melhor”.

As políticas públicas na área de infraestrutura – como transportes, energia, comunicação e saneamento básico – têm recebido pouca atenção nesse processo eleitoral, apesar de sua enorme relevância para a qualidade de vida das pessoas e o alcance dos objetivos da ONU sobre desenvolvimento sustentável (ODS). O atual governo do Presidente Lula tem demonstrado avanços no sentido de melhor aproximar políticas de infraestrutura das necessidades das pessoas – a exemplo da geração descentralizada de energia solar fotovoltaica entre comunidades rurais isoladas, que antes dependiam de energia oriunda de geradores a óleo diesel. Entretanto, ainda há muito o que fazer. Assumir compromissos com políticas de infraestrutura que priorizam a inclusão social, a sustentabilidade ambiental e a resiliência climática, com transparência e participação social, pode ser uma das inovações de um novo governo do Presidente Lula destacadas nesta reta final do processo eleitoral de 2026.

No caso da campanha do Flávio Bolsonaro, além da ânsia em soltar o pai da prisão domiciliar e promover o impeachment de Alexandre de Moraes, muitas perguntas permanecem sem respostas sobre como será o próximo governo, caso seja eleito, como por exemplo: Como pretende realizar o prometido “tesouraço” nas contas públicas, inspirado no exemplo de Javier Milei, sem provocar graves prejuízos em programas essenciais, em áreas como a saúde pública, educação e previdência social?

Quais as propostas do candidato em relação à garantia de direitos trabalhistas, inclusive em relação à eliminação do regime do 6×1?

Quais as lições aprendidas com a resposta desastrosa do governo de Jair Bolsonaro frente a pandemia da COVID-19, quando morreram mais de 700 mil brasileiros, e quais as medidas que seriam tomadas para evitar uma nova tragédia?

Quais as medidas a serem tomadas para evitar a repetição de graves erros da política ambiental do governo de seu pai, em relação a temas chave como proteção da biodiversidade, gestão das águas e controle da poluição atmosférica?

Quais compromissos o candidato está disposto a assumir em relação aos direitos dos povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais, inclusive seus direitos territoriais e o direito à consulta livre, prévia e informada?

Como o candidato propõe evitar a repetição de tragédias, como o ocorrido com o povo Ianomami durante o governo do pai, como resultado da omissão do governo federal frente à proliferação de garimpos para a exploração ilegal de ouro?

Quais as propostas do candidato em relação à emergência das mudanças climáticas, em termos de prevenção, mitigação e adaptação? Como pretende fortalecer a capacidade dos estados, municípios e comunidades para lidar com os efeitos dos eventos climáticos extremos (enchentes, deslizamentos, secas)?

Quais são as propostas específicas do candidato em relação aos direitos das mulheres, dos idosos, das crianças e adolescentes, e da população LGBTQIA+?

Como propõe viabilizar uma política robusta de segurança pública, inclusive em relação ao crime organizado, tendo em vista o relacionamento histórico do candidato com as milícias no Rio de Janeiro?

Por último, como o candidato explica as posturas da família Bolsonaro de submissão da soberania do Brasil aos interesses do governo Trump, que incluíram um convite para participar de um eventual governo de transição? Qual a sua posição sobre a participação do Brasil no “Escudo das Américas” e a exploração de minerais críticos por empresas americanas no território nacional?

É importante ressaltar que as provocações agressivas do Governo Trump ao Brasil – como a imposição de elevadas tarifas a partir de abril de 2025, a utilização da Lei Magnitsky para criminalizar autoridades brasileiras, a revogação de visto da embaixadora brasileira em Washington e a caracterização do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas – se enquadram na geopolítica “Donroe”, que inclui entre suas prioridades influenciar as eleições brasileiras em favor de Flávio Bolsonaro, mas com implicações que vão desde a exploração de recursos naturais e operações militares em território nacional até a autonomia de instituições financeiras e o PIX no Brasil.  

No que se refere aos debates presidenciais nesta reta final do segundo turno, trata-se de uma das últimas oportunidades para o eleitor poder comparar propostas de governo dos dois candidatos sobre questões fundamentais que mais afetam o seu cotidiano. Infelizmente, o formato do debate na Band, do dia 18 de outubro, facilitou a superficialidade e um comportamento arrogante e desrespeitoso do Flávio Bolsonaro – até o “stalking” atrás de Lula, inspirado no debate de Trump com Hillary Clinton em 2016, em conjunto com táticas de distração que sistematicamente deixaram perguntas sem respostas. Tomara que o formato do debate na Globo, na próxima sexta-feira, contribua para um enfrentamento civilizado de ideias e propostas de governo, e não um circo de distrações e ofensas.

Em qualquer cenário de resultado do segundo turno, a mobilização da sociedade civil vai continuar sendo fundamental frente às ameaças da extrema direita liderada pela família Bolsonaro e ao intervencionismo de Trump e Rubio. Mesmo com uma vitória de virada do Presidente Lula em 25 de outubro, que é plenamente possível, vai ser necessária muita pressão da cidadania sobre o Congresso Nacional, especialmente o Senado Federal, em defesa da Constituição e da democracia brasileira.

Conforme lembrado por Bertolt Brecht em sua paródia teatral sobre a Alemanha nazista (
“A Resistível Ascensão de Arturo Ui”), a ascensão da extrema-direita não é um fato inexorável, mas sujeito à ação da cidadania e à resistência coletiva em prol da democracia, como base fundamental de uma sociedade mais justa, fraterna e sustentável.

Flávio Bolsonaro promete liberdade na terra, mas esquece a Constituição

Ao prometer que o produtor rural poderá fazer “o que quiser na sua terra”, Flávio Bolsonaro esbarrou num limite que um candidato à Presidência deveria conhecer: a Constituição. Em Marabá, no Pará, nesta segunda-feira (19/10), o senador afirmou:

“Eu vou fazer a maior regularização fundiária que o Pará já viu. Sua terra vai ser sua no papel. Vamos respeitar a propriedade privada, você vai poder plantar, criar gado, vai fazer o que quiser na sua terra e o que você explorar da terra é seu! Esses entraves que existem, ambientais, principalmente por razões ideológicas, isso vai acabar.”

A Constituição de 1988 define o meio ambiente ecologicamente equilibrado como “bem de uso comum do povo” e determina que o poder público e a coletividade o preservem para as gerações presentes e futuras. O artigo 186 estabelece, ainda, que a função social da propriedade rural exige a utilização adequada dos recursos naturais e a preservação ambiental. A escritura não coloca ninguém acima dessas obrigações.

Um presidente pode propor mudanças nas leis e buscar apoio do Congresso para aprová-las. Não pode, por vontade própria, revogar a Constituição ou dispensar seu cumprimento. Mesmo alterações na legislação ambiental precisam respeitar os limites constitucionais. A promessa de que o proprietário poderá fazer qualquer coisa em sua terra não se sustenta.


Há consequências concretas. O Código Florestal exige a manutenção de reserva legal, uma parcela do imóvel rural cuja vegetação nativa deve ser conservada. Nas áreas de floresta da Amazônia Legal, a regra é de 80%, ressalvadas as hipóteses previstas na legislação. Ser dono da terra não significa ter autorização para derrubar toda a mata.

O mesmo vale para a água, que é um bem de domínio público. Um rio não vira propriedade particular ao atravessar uma fazenda. O proprietário não pode despejar veneno na água porque ela passa dentro de seus limites: a contaminação segue adiante e pode atingir outras comunidades. O dano não respeita a cerca.

O histórico do candidato ajuda a entender a declaração. Em 2019, o próprio Flávio apresentou, ao lado de Marcio Bittar, hoje senador do PL pelo Acre e integrante do bolsonarismo, um projeto para extinguir a reserva legal. A proposta foi retirada pelos autores e arquivada naquele mesmo ano. Portanto, a ideia já esteve no papel, com a assinatura de quem agora promete liberdade irrestrita para explorar a terra.

Na mesma passagem por Marabá, Flávio prometeu a maior regularização fundiária que o Pará já viu. Regularizar ocupações legítimas e dar segurança jurídica a quem tem direito à terra é necessário. Num estado marcado por conflitos fundiários e grilagem, porém, uma promessa dessa dimensão exige a apresentação de critérios e salvaguardas.

O risco é que o anúncio seja entendido como sinal de que ocupar uma área pública hoje poderá render um título amanhã. A expectativa de regularização futura pode estimular novas ocupações ilegais. É esse incentivo à grilagem que o candidato precisa afastar, explicando quem será beneficiado e sob quais condições.

A declaração ocorre poucos dias depois de o governo Lula anunciar o menor desmatamento da Amazônia Legal desde o início da série histórica, em 1988, no governo José Sarney, que também criou o Ibama: 3.335 quilômetros quadrados entre agosto de 2025 e julho de 2026, queda de 41,8% sobre o período anterior. O monitoramento é feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Para esta coluna, esta tem sido a campanha mais pobre em ideias e debates relevantes desde a redemocratização. A questão ambiental, decisiva para a economia, a saúde e o futuro do país, ficou à margem. O resultado alcançado no governo Lula deveria provocar uma discussão séria sobre como preservar e ampliar esse avanço. A fala de Flávio aponta para o risco de retrocesso.

A promessa não autoriza legalmente o desmatamento, mas pode ser ouvida como licença política para avançar sobre a floresta. Quem disputa a Presidência precisa saber a diferença entre defender a propriedade e prometer que, dentro dela, vale tudo.

Matheus Leitão

A crise histórica e o aparecimento dos 'monstros'

“Com a ‘marcha sobre Roma’ [1922], que pressiona a monarquia, os fascistas chegam ao governo, com a nomeação de Mussolini para a chefia do gabinete. Começa para o PCI [Partido Comunista Italiano]um período de ilegalidade de fato. No Partido, como Trotski recordará em 1932, ninguém admitia a possibilidade de uma ditadura fascista ‘salvo Gramsci’.
“Cronologia da vida de A. Gramsci”, Cadernos do Cárcere, 2004.

Em texto com data provável de 1930, Antonio Gramsci observa o fenômeno crise histórica para afirmar que seu caráter está, precisamente, no fato de que o “velho morre e o novo não consegue nascer: nesse interregno verificam-se os mais variados fenômenos mórbidos”. Ou, na versão mais conhecida (retirada da tradução francesa), “o velho mundo está morrendo, o novo tarda a aparecer e, nesse claro-escuro, surgem os monstros”.


O autor de Cadernos do Cárcere está, evidentemente, a refletir sobre a Europa de então. Sua Itália já estava sob o jugo fascista (desde 1922), e na Alemanha o nazismo avançava marchando com botas de sete léguas. Hitler, como é sabido, conquistaria a chancelaria em 1933. O que se segue, inclusive entre nós, é história consabida, e nada edificante.

O “claro-escuro” gramsciano precisa o intervalo histórico entre os estertores da velha ordem, quando ela perde a capacidade de reprodução, e uma nova ordem sucessora ainda não conseguiu impor-se. Karl Marx (prefácio à Contribuição à crítica da economia política, 1859) explica como, em determinada etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção. Quando isso ocorre, as relações de produção deixam de cumprir com seu papel de fator de desenvolvimento e passam a atuar como entraves.

A crise de hegemonia, em sentido gramsciano — descendente da análise marxista do bonapartismo —, ocorre quando a classe dominante não consegue mais construir um consenso em torno de seu projeto. O Estado (“um comitê para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa”) perde a capacidade de representar como interesses universais da sociedade os interesses particulares do capital. É o momento em que “o velho está morrendo e o novo não pode nascer”.

Entra em crise a capacidade de a classe dominante exercer sua liderança ideológica (“as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante”) sobre a sociedade, essencial para o exercício do mando; a ordem burguesa vê diluírem-se as condições necessárias de funcionamento e legitimação. O momento seguinte é o de falência de sua capacidade de constituição de uma ordem alternativa, necessária para intentar sua sobrevida, ainda que em outros termos.

A crise de autoridade e de hegemonia abre espaço para fenômenos políticos reacionários, e a desagregação da ordem política favorece a adesão a soluções patológicas, dentre as quais a mais significativa é a via totalitária ou autoritária, por definição regressiva.

Ela não carece de ação revolucionária e pode mesmo realizar-se nos marcos da legalidade formal, como é, no caso brasileiro, a ameaça presente do neofascismo. De outra parte, nossa história é fecunda em exemplos de alteração da ordem para que a ordem permaneça a mesma. Neste sentido, é exemplar o golpe de Estado da madrugada de 1º de abril de 1964. Em 1889, o golpe da Proclamação da República também serviu para manter no poder a ordem do latifúndio arcaico, que sobreviveria até pelo menos 1930.

A classe dominante perde a adesão das grandes massas, e sua hegemonia (desconsiderada a análise respeitante a qualquer sorte de legitimidade) é posta em xeque. Quando isso ocorre, a ordem passa a depender da força coercitiva do Estado, à qual se associa a instrumentalização dos partidos e de forças sociais, inclusive movimentos religiosos e organizações políticas mobilizados em defesa do statu quo, ou do recuo histórico, como se observa, entre nós, no bolsonarismo e em setores da direita evangélica.

A ordem vigente entra em crise, mas conserva ainda forças para impedir que uma nova ordem emerja e, frente ao impasse, a desagregação política abre o largo espaço por onde trafegam as soluções autoritárias e messiânicas. Foi assim, na Argentina eamSão sempre exemplos históricos a ascensão do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha.

Foi em ambiente de crise que emergiram as formações totalitárias do século passado, percorrendo os caminhos abertos pelo fracasso da social-democracia. Não só na Europa como na América Latina, e entre nós, com o Estado Novo, que derrogou a Constituição democrática de 1934, tentativa frustrada de normatizar o movimento de 1930. Em 1946 o cel. Perón é eleito na Argentina. Outro exemplo, em nosso Continente, para ficarmos em poucos, é oferecido pelo Peru. Em 1990 Alberto Fujimori é eleito Presidente, para, em 1992, com apoio das Forças Armadas, comandar um autogolpe e impor uma ditadura que sobreviveria até 2000.

Esse quadro certamente ajuda a explicar a erosão democrática que percorre o mundo no desdobramento da crise estrutural do capitalismo, e que chega de forma quase avassaladora ao nosso continente, tocada a partir da Casa Branca, acicatada pelos impasses que se colocam para sua hegemonia, mesmo no mundo ocidental. A crise geopolítica é ainda alimentada pelo esgotamento de sua economia, ponto de partida para a crise política, da qual o trumpismo é a mais evidente consequência. Este é o caráter ostensivo da crise do capitalismo, que hoje, mais do que nunca, depende de sua liderança, não só política e econômica, mas, antes de tudo, de sua salvaguarda militar. Sua agressividade não deve ser tributada à patologia de seu presidente.

Não é esta, porém, a única via que a história registra como alternativa à crise de hegemonia.

Com Marx, sabemos que as contradições não produzem necessariamente uma crise terminal do capitalismo. A história vem demonstrando, à saciedade, os recursos desse sistema para administrar suas contradições/seus conflitos, reorganizar a produção, conquistar novos mercados, alterar as relações de trabalho (aprofundando a exploração de que se nutre) e, saltando para a política, alterar a atuação do Estado. Por isso mesmo, a crise do capitalismo, que também pode ser vista como fenômeno a ele imanente, não significa, ipso facto, seu fim.

É prudente não confundir determinismo histórico com fatalismo: as condições históricas revelam a crise, mas não a resolvem. Não basta que a sociedade produza desigualdade, que o Estado seja instrumento de opressão dos interesses das classes subalternizadas pelo capital; essas são condições necessárias, mas não suficientes para a luta de classes. Gramsci nos dirá que a crise não consiste simplesmente no fato de que o velho perdeu força. Consiste também em que o novo não adquiriu capacidade suficiente para substituí-lo. As contradições do capitalismo, tão bem identificadas por Marx, se convertem em crise de direção, mas essa crise não conduz necessariamente a uma alternativa emancipatória.

O salto qualitativo entre a passividade e a consciência política, ponte para a luta de classe, não resulta, automaticamente, naturalmente, deterministicamente, da existência proletária: é fruto do processo social. O avanço político se realiza quando as classes subalternas – avançando sobre as reivindicações econômicas, que no entanto desempenham essencial papel pedagógico --- entendem que seus interesses, aparentemente particulares, devem se tornar interesses de outros grupos subalternizados. É quando, retomamos Gramsci, o proletariado se vê capaz de elaborar um projeto político para toda a sociedade e disputar a hegemonia; é quando os sindicatos se legitimam e se politizam.

A crise política brasileira de nossos dias contagia a institucionalidade e se debruça sobre o Poder Judiciário, no qual a cidadania não sabe se com ele pode contar para a defesa de seus direitos. Mas nada é mais contundente do que os números do pleito de 4 de outubro passado, de que resultou a formação de um Congresso majoritariamente de direita, apto a romper com o pacto social que nos deu a Constituição liberal de 1988 e, assim, jogar por terra as conquistas sociais amealhadas pela sociedade ao longo de sua história republicana. Ademais, e mais facilmente do que em 2016, poderá decretar o impeachment do futuro Presidente. Lula, reeleito, corre o risco de governar sob esta verdadeira espada de Dámocles.

Se a direita abocanhar a Presidência da República, terá sob suas rédeas, os três poderes da República, o que nem mesmo a ditadura militar, de que o bolsonarismo é herdeiro, logrou alcançar. Porque, além do Executivo e do Congresso, controlará o Poder Judiciário, de fio a pavio: o próximo Presidente indicará, em seu mandato, pelo menos quatro novos ministros para o STF. Poderão ser mais quatro ministros “terrivelmente evangélicos” que se juntarão aos seus dois péssimos espécimes que já lá estão. A soma mostra seis ministros em um colegiado de onze!

O novo Congresso é fruto da crise de representação, que põe em risco a República. Ela resulta da percepção da classe dominante de que o projeto de centro-esquerda, representado pelos governos liderados pelo PT, cobra concessões que ela não está disposta a fazer. Justiça seja feita à Faria Lima: desde 2013 ela dá mostras de insatisfação, sinais que nos recusámos a identificar, mesmo depois do golpe parlamentar que depôs a presidente Dilma Rousseff, e ainda mesmo depois das eleições de 2018!

Mesmo após a dificílima eleição de Lula em 2022, nos revelámos incapazes de construir “uma nova maioria”, como reclama Marcio Pochmann, e assim se explicam nossas dificuldades de enfrentar o avanço da onda reacionária.
Este foi o preço cobrado pelo “pacto de conciliação”, inarredavelmente conservador.

De um lado, perfila-se a classe dominante para impor sua vontade, primeiro pelo voto. Conquistado o pódio, avançará sobre a ordem democrática e os direitos sociais e fará deste país uma extensão do poder imperial de Washington.
As classes subalternas brasileiras ainda não se encontram em condições de construir uma alternativa de hegemonia. A resistência à ditadura, a luta pelas Diretas Já, as greves do ABC, a reconstitucionalização liberal, configuram momentos de festejada politização, que, no entanto, vive o risco de ser posta a pique pela avalanche da direita.

Mas há algo de novo a registrar, e muito precioso: o verdadeiro levante popular que, nos últimos 15 ou 20 dias, tomou as ruas de todo o país, em defesa da democracia, neste transe reorientada pela necessidade histórica de reeleger o presidente Lula, o dique que a sociedade pode construir para conter a ameaça neofascista.

Este levante é, por si só, o fato mais notável desta quadra, e o que mais ressalta é o caráter inusitado de sua espontaneidade. Desapartada dos partidos, ou independentemente deles, a juventude veio às ruas numa mobilização que, entre nós, superou os idos de 1968, empolgou o país, animou o que talvez possamos chamar de “alma nacional” e possivelmente definirá o pleito.

A emergência dos jovens na política, pondo por terra a apatia em que parecia adormecida a sociedade, traz de volta a esperança, pois revela um alto nível de politização que perdurará para além do pleito, indicando a construção de uma nova sociedade, disposta a construir sua história.

Não estamos mais, passivos, condenados a assistir à emergência dos monstros.

***

Os Trumps parecem uma família boazinha do subúrbio perto do clã Bolsonaro — Sob esse título (Gegen den Bolsonaro-Clan wirken die Trumps wie eine brave Vorstadtfamilie!), a revista alemã Stern publicou, em setembro, extensa reportagem sobre o clã Bolsonaro e o processo eleitoral brasileiro. O professor Pedricto Rocha preparou um resumo da matéria, também repercutida por Luiz Carlos Azenha. Com sarcasmo, a revista considera “especialmente grotesca” a pretensão de Flávio Bolsonaro, herdeiro político do clã, de apresentar-se como “inimigo do sistema”, quando sua trajetória sempre esteve vinculada à política familiar. A reportagem aborda a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, as relações com milícias armadas e o esquema das “rachadinhas”, além do enriquecimento da família, que teria transformado a política em negócio lucrativo, acumulando patrimônio por meio de salários públicos, verbas de gabinete e transações suspeitas, incluindo a aquisição de 51 imóveis com dinheiro vivo. Para a Stern, a eventual volta do clã ao poder representaria um constrangimento internacional para o Brasil. A revista retrata Flávio Bolsonaro como figura politicamente incapaz, sem ideias próprias ou projeto a oferecer ao país.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Como o fim da marcação de munições alimenta o crime organizado

Em debates eleitorais, certas declarações revelam muito mais do que simples gafes de palanque: expõem a fragilidade de projetos políticos inteiros. Na sabatina do Jornal Nacional, de 16 de outubro de 2026, o candidato a presidente, Flávio Bolsonaro foi confrontado pela jornalista Renata Lo Prete sobre sua defesa do Projeto de Lei 3.723/2019. O texto retira do Estatuto do Desarmamento, a obrigatoriedade de marcação de lotes nas munições compradas por órgãos públicos e forças de segurança. Questionado repetidamente sobre como a polícia poderá investigar crimes graves se perder essa ferramenta, o senador fugiu das explicações práticas e chamou a medida de um mero “detalhezinho”, prometendo compensar o vácuo com investimentos em inteligência artificial e penas mais altas.

Classificar a identificação de cartuchos como um detalhe sem importância ignora a realidade do trabalho policial e da perícia científica. Em uma cena de homicídio ou confronto, a cápsula deixada no chão costuma ser o único vestígio físico capaz de ligar o autor do disparo ao contrato de compra daquele projétil. Tratar esse mecanismo como burocracia descartável não apenas enfraquece a elucidação de crimes, mas garante proteção prévia a redes de corrupção que desviam arsenais oficiais para o crime organizado.


A ideia conveniente de que o poder de fogo das facções brasileiras vem exclusivamente do contrabando internacional foi desfeita por dados empíricos. O relatório De onde vem o tiro?, produzido pelo Instituto Sou da Paz, analisou 31.699 cartuchos de fuzil apreendidos com o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, entre 2018 e 2025. A pesquisa revelou que a indústria brasileira é a principal fornecedora da facção: 40,9% de todas as munições foram fabricadas no país pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC). Mais grave ainda: entre essas munições nacionais, 51,9% traziam códigos que comprovavam sua compra original por Forças Armadas ou policiais. Em termos gerais, mais de um quinto (21,2%) do arsenal de fuzil nas mãos do tráfico carioca saiu diretamente dos depósitos do próprio Estado.

O estudo também derruba a tese de que esses desvios seriam sobras esquecidas de governos passados. Das munições com data de fabricação identificada, 39,9% tinham sido fabricadas em até dois anos antes da apreensão policial. Isso demonstra que o desvio é recente e contínuo. Essa rota de abastecimento ficou evidente na Operação Contenção, em outubro de 2025, na qual cápsulas do lote ETU03, entregue ao Exército em Barueri (SP), em 2022, foram disparadas contra policiais no Rio de Janeiro, a centenas de quilômetros de distância. Apesar disso, as investigações esbarram no sigilo das próprias autoridades: dos 119 códigos de lote encontrados pela pesquisa, apenas 34 foram identificados, porque o Exército se recusa a informar quem comprou os outros 85 registros.

Se o controle já falha no setor público, no mercado privado ele praticamente não existe. A lei brasileira exige marcação nos cartuchos comprados pelo Estado, mas deixa as munições vendidas a cidadãos comuns e a Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) em total anonimato. No primeiro semestre de 2025, os CACs compraram cerca de 1 milhão de balas para fuzis, dois terços de todo o consumo nacional desses calibres de guerra, o que equivale a mais de 5 mil cartuchos de alto impacto entregues por dia a civis sem qualquer código que identifique o comprador final.

Essa brecha alimenta um comércio ilegal paralelo. O Sou da Paz apontou que 20,7% dos casos de abastecimento da facção ocorreram pela revenda de cotas legais por CACs e agentes de segurança corrompidos. O método mais comum é o uso de “laranjas”: pessoas sem antecedentes criminais compram grandes volumes legais a preço de fábrica e revendem com lucro alto ao crime organizado. Crimes históricos da crônica policial brasileira, como o assassinato da juíza Patrícia Acioli, em 2011, e as mortes da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes, em 2018, só foram esclarecidos porque as munições usadas pertenciam a lotes públicos marcados. Se tivessem sido compradas no mercado civil comum, os estojos seriam anônimos e os mandantes permaneceriam impunes.

Fuzis são peças de metal que duram décadas, mas armas não atiram sem munição. As facções dependem do fornecimento contínuo de projéteis para sustentar disputas territoriais. A polícia rodoviária apreende volumes expressivos dessas cargas nas estradas, foram 27.850 cartuchos apreendidos em transporte, contra pouco mais de 2.300 recolhidos em tiroteios diretos. No entanto, quando a carga interceptada não tem marcação, a punição recai apenas sobre o motorista do veículo. A polícia não consegue descobrir quem comprou a mercadoria na fábrica nem quem autorizou sua entrega, deixando os verdadeiros fornecedores intocados.

Defender o fim da marcação de munições públicas e normalizar o anonimato das compras privadas é uma contradição insanável na segurança pública. Prometer investimentos em inteligência artificial não resolve o problema: nenhum computador consegue decifrar o que foi deliberadamente apagado da lei. Da mesma forma, aumentar as penas de prisão não reduz a violência se as provas materiais continuam sendo destruídas na origem. Ao tratar a rastreabilidade como um “detalhezinho”, o discurso punitivista revela que não tem planos reais contra o crime. Criar um apagão sobre a origem das balas não protege o cidadão de bem; apenas garante que o crime organizado continue armado até os dentes sem deixar rastros.

A mídia privada, os anunciantes e a independência editorial

Até agora, o escândalo do Banco Master estava concentrado principalmente nas relações corruptas e criminosas entre agentes econômicos e autoridades da política e do Judiciário. Mas as novas revelações da semana passada, que trazem à tona o envolvimento do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com executivos de meios de comunicação, mais especificamente do portal Metrópoles e do Grupo Globo, apontam para uma dimensão tanto ou mais perigosa para a democracia, por ser difícil de identificar e punir. Vale ressaltar que relações suspeitas de financiamento, patrocínio e suposta interferência editorial envolvendo o caso Master já haviam sido atribuídas também aos portais DCM, CartaCapital, Brazil Journal, IstoÉ e PlatôBR.


Todos esses casos não devem ser interpretados apenas pela perspectiva de desvio de conduta individual. Eles são reveladores de um problema estrutural: o que acontece com o direito à informação quando os interesses comerciais de uma empresa de comunicação se confundem com os interesses de seus anunciantes? Ou, dito de outra forma: é possível compatibilizar o interesse público que deveria revestir o trabalho jornalístico com a dependência econômica de um veículo por anúncio publicitário?

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), segue sendo um farol da promoção de uma conduta ética de alto padrão profissional. Ele é explícito ao estabelecer que o compromisso com a informação deve prevalecer sobre os interesses econômicos das empresas. Cabe aos veículos garantir condições para que esse princípio seja respeitado na prática.

Além disso, como bem ressaltam as entidades sindicais do campo do jornalismo, é fundamental distinguir as responsabilidades de proprietários e dirigentes das empresas de comunicação daquelas dos profissionais que trabalham nas redações. Jornalistas não podem ser responsabilizados por decisões tomadas à sua revelia, nem pressionados a modificar ou omitir informações para atender a interesses particulares.

Porém, mais do que respostas pontuais, esses graves episódios de desvio ético evidenciam os limites de um sistema de comunicação, como é o caso do brasileiro, excessivamente dominado por poucos grandes conglomerados empresariais e de suas relações com anunciantes. Quem paga, manda? Se a informação é um direito fundamental, e não uma mera mercadoria, sua produção e circulação não podem ficar condicionadas à capacidade de gerar receitas ou atender a interesses privados.

A resposta democrática passa, portanto, não apenas pela cobrança de transparência e responsabilidade das empresas jornalísticas, mas também pelo fortalecimento de um ecossistema de mídia efetivamente plural. Isso inclui meios públicos dotados de autonomia editorial, governança independente e financiamento estável. Passa também por políticas que favoreçam a sustentabilidade de mídias comunitárias, alternativas e sem fins lucrativos. 

Não se trata de substituir um modelo privado por outro estatal ou público, mas de assegurar que diferentes vozes, perspectivas e interesses sociais tenham condições reais de participar do debate público. Como previsto na própria Constituição Federal de 1988, tão atacada na boca de políticos autoritários. O artigo 223, já clássico na defesa da democratização das comunicações, aponta a obrigação de complementaridade entre os sistemas público, privado e estatal de radiodifusão.

Esse princípio expressa que a pluralidade não é apenas uma suposta diversidade de opiniões dentro de um mesmo grupo empresarial. É também a existência de diferentes formas de propriedade e de financiamento. Meios públicos autônomos, veículos comunitários e organizações jornalísticas sem fins lucrativos ampliam a diversidade de vozes e reduzem a dependência de interesses comerciais concentrados. Porém, isso exige políticas de financiamento transparentes, critérios públicos de distribuição de recursos e salvaguardas contra interferências políticas ou econômicas.

Não basta garantir liberdade de imprensa às empresas jornalísticas. Um Estado democrático deve assegurar as condições materiais para que o direito à informação seja exercido com independência e pluralidade, em favor do conjunto da sociedade. É nesse sentido que o fortalecimento da comunicação pública e das emissoras comunitárias deixa de ser uma pauta setorial e passa a integrar a agenda de aprofundamento da democracia.

São estas garantias civilizatórias que devem guiar um debate sério, suscitado por esses lamentáveis casos de desvio de conduta, que têm implicações muito mais sérias do que apenas relações espúrias entre um ou dois profissionais da mídia e um anunciante, como ressaltamos. Estamos diante de uma grave evidência de anomalia no interior da democracia brasileira, que não é de agora. Não há democracia sem um ambiente de mídia efetivamente desconcentrado, descentralizado e independente dos poderes políticos e econômicos.

Perigo para o humanismo

Está se tornando cada vez mais óbvio que não é a fome, nem os micróbios, nem o câncer, mas o próprio homem o maior perigo para a Humanidade, porque ele não dispõe de proteção adequada contra epidemias psíquicas, infinitamente mais devastadoras, em seus efeitos, do que as maiores catástrofes naturais.
C. G. Jung, "O Homem Moderno em Busca de uma Alma"

Duas promessas de Flávio Marçal, o coach bolsonarista

Prosperidade qualquer um almeja. Então, por que não criar um ministério que abrace a causa? Tem orçamento, metas ou objetivos? Claro que não. Mas o que importa? A proposta de Flávio Bolsonaro tem a cara do discurso de coach de Pablo Marçal, que assumiu o papel de estrategista da campanha nesta reta final. O estelionato eleitoral transforma a prosperidade individual em promessa de governo, usando palavras genéricas como empreender, crescer e vencer, mas sem apresentar qualquer desenho administrativo.

Flávio propõe reunir qualificação profissional, crédito e incentivo aos pequenos negócios. Também afirmou que manterá o Bolsa Família, inclusive para quem conseguir emprego. “Para esse governo, Bolsa Família é o máximo. Para mim, é só o começo”, boa frase, mas já se sabe o final.


O problema, bem pequeno, é que o plano de governo de Flávio não prevê a nova pasta. Ao contrário, promete extinguir pelo menos dez ministérios para reduzir gastos. Não existe prosperidade quando o governo, o principal indutor de desenvolvimento e crescimento no país, fecha a torneira dos gastos. A prosperidade é apenas um slogan que jamais se tornará política pública.

Sejamos justos, o plano do candidato possui um eixo denominado “Brasil que Prospera”, com propostas como a prioridade de beneficiários de programas sociais em ações de qualificação profissional, o incentivo à abertura de pequenos negócios e a transformação da Caixa Econômica Federal em um “Banco da Prosperidade”. Pobre Caixa.

Chamou atenção outra promessa vazia de Flávio no debate. Se Lula anuncia bilhões em bondades eleitorais atropeladas sem saber como bancá-las, Flávio se viu autorizado a fazer o mesmo. Quis emular o Desenrola com o perdão da dívida para MEIs. “Para você que é pessoa física, vai ficar seis meses parada a sua dívida. Você não vai pagar boleto nenhum. E para você que é pessoa jurídica, esse prazo vai ser de um ano”.

Mais uma vez, a proposta não está em seu plano de governo e evidentemente, o senador não detalhou como seria financiada a compra das dívidas, critérios para selecionar os beneficiários ou as condições de pagamento. Coisa de debate. Se não for eleito, senador fica sem mandato, mas não ficará sem emprego. Poderá seguir o caminho dos coachs, como seu estrategista Pablo Marçal.

O Brasil quer um presidente. A TV dá um inimigo

Se Hitler, Stalin e Pol Pot desembarcassem no Brasil, sem conhecer nossa eleição, poderiam imaginar que estamos escolhendo o responsável pelo fim do mundo e eles também achariam que estamos substituindo-os com muita competência. Cada campanha apresenta seu guerreiro como a última esperança da humanidade e o ninja adversário como uma mistura de assombração, cobrador e criador da Covid. Falta explicar, aos brasileirinhos, quem e como é que vai governar quando o terror passar.


Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.

Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.

O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.

Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?

Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!

No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.

Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.

Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.

Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!

O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.

O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.

Roberto Caminha Filho, economista, perguntará, aos dois, após as honoráveis propostas: Como farás e pagarás essa obra, Excelência? Sempre com muito respeito.
Roberto Caminha Filho

Fascismo, crise climática e desinformação: sinais de um mundo em colapso

O livro é “A paixão pela mentira — A família e as tiranias”, do psicanalista Paulo Schiller. Lançado em 2025, discute as angústias e traumas infantis que resultam no adulto que nos tornamos. Como o título e o subtítulo indicam, o livro denuncia as narrativas estrambólicas que sustentam o fascismo desde sua origem, no âmbito familiar. A leitura é atrativa a leitores de qualquer espectro político, mas abri o livro justo neste frenético outubro de 2026, e ele me ajudou a entender a razão de estarmos tão assustados com a possibilidade de sermos governados por uma família que se encaixa exemplarmente na análise profissional e isenta do autor.


Faltavam apenas 50 páginas para eu terminar a leitura quando minha filha mais nova saiu do quarto determinada a me convencer a assistir a “Digger”, em cartaz apenas nos cinemas. Sério? Logo esse filme que, dizem, é um fracasso de bilheteria? “Sério, mãe”. Você escuta isso de uma garota que nasceu de seu ventre e, se tiver juízo, vai conferir a razão de ela ter deixado o celular de lado para conversar com você sobre uma obra de arte. Dois nomes da ficha técnica bastariam para credibilizar o filme: Tom Cruise está assombroso, candidatíssimo ao Oscar de 2027, e o diretor Alejandro Iñárritu, mais uma vez, não passa despercebido pela telona. São motivo suficiente para sair de casa.

“Digger” é uma experiência cinematográfica. Reúne comédia, tragédia, farsa, cinema, teatro, realidade, fantasia, tecnologia, tudo sacudido na mesma coqueteleira. Extravagante, aborda nossa dependência do petróleo, “o leite materno da Terra” (como define um personagem), e as insanidades feitas em seu nome. Ao mesmo tempo, dá palco ao aquecimento global, que acabará por afogar a ânsia inconsequente pelo poder. Batemos no teto? Chegamos ao fim da linha? Irá tudo por água abaixo?

E aí entra a vida. Entre a leitura do livro e a ida ao cinema, fui surpreendida pelas imagens da lama invadindo o bairro de Las Condes, em Santiago do Chile, cidade em que morei. Lembro bem do arroio que corta suas vias. Foi chocante ver o transbordamento arrastando carros, os transeuntes em pânico. Cortesia da chuva intensa e do derretimento da Cordilheira dos Andes, da mesma forma que se deu no Himalaia, no Nepal, poucos meses atrás, assim como tem acontecido com geleiras e calotas polares — afundaremos todos, é isso mesmo?

Sobreviverá quem estiver no lucro. E não falo de dinheiro, e sim do lucro de ter vivido bastante, cercado por livros, informação e consciência do momento presente.

Agora imagina quem não lê, quem não vai ao cinema, nem respeita a ciência e o conhecimento. Desfocado da realidade, só lhe resta acreditar em miragens.

Trumpistas fogem do mundo real

Há quem goste de qualificar Stephen Miller como a éminence grise de Donald Trump. O epíteto não lhe faz justiça. Seu poder é mais vasto do que o do frade de batina cinza Leclerc du Tremblay, braço direito de Richelieu nos tempos de Luís XIII. Miller é o homem que transforma em política pública os impulsos mais incivilizados de Trump. Imprime sua ideologia raivosa com métodos de inquisidor, não aceita desculpas nem abre espaço a dissenso. É temido não pela fisionomia que lembra Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, mas por deter um poder de ação e persuasão imenso na Casa Branca. Não por acaso, escolheu a dedo um cargo que não quer dizer nada (e, portanto, pode significar tudo) e não exige ser sabatinado pelo Senado: vice-chefe de Gabinete para Políticas Públicas. Opera melhor nas sombras do que à luz do dia, e poucos no universo Make America Great Again (Maga) se aventuram a contrariá-lo.


Fora da bolha, a história é outra. Até outubro do ano passado, Stephen, sua mulher, Katie, e os quatro filhos pequenos moravam numa daquelas deliciosas mansões arborizadas de Arlington, na Virgínia, a não mais de 15 quilômetros da Casa Branca. Ali, a vizinhança democrata lhes pareceu hostil. Surgiram pichações no asfalto contra as mudanças da vida cívica implantadas por Trump. O incômodo da vizinhança com o excesso de agentes e seguranças nas redondezas (Miller é o único funcionário de segundo escalão com direito a guarda-costas do Serviço Secreto) acabou levando o casal a vender a propriedade.

— Éramos ótimos vizinhos, até aumentamos o valor dos terrenos da redondeza — contou Katie Miller no podcast Ruthless. — O lugar deixou de ser seguro para nossos filhos brincarem no gramado de casa.

Mudaram-se para uma instalação militar fortemente protegida, em Washington D.C. Ali, ocupam uma das residências historicamente reservadas a oficiais de alta patente, transformada numa espécie de assentamento Maga. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, o secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, e outros integrantes da bolha Trump também se mudaram para esse Xanadu fortificado, onde se sentem em segurança por viverem intramuros.

— Agora as crianças estão tão felizes, podem brincar e correr em liberdade. Elas adoram ver os soldados, é uma experiência única na vida delas — festejou a senhora Miller.

Logo no início de seu segundo mandato, Trump havia declarado estado de emergência criminal na capital do país. Batizou a ação de “Dia da Libertação” e decretou a federalização da polícia municipal. Designou tropas da Guarda Nacional com fuzis M4 e blindados para erradicar a criminalidade que dizia ver em todas as esquinas da cidade — o contingente chegou a mobilizar 4.600 militares e deve marcar presença em Washington até o fim do mandato. A empreitada — que também conta com agentes do FBI, do ICE e de delegados federais — resultou em mais de 16 mil prisões até agora e trombeteia índices questionáveis de eficácia.

Ainda assim, os Millers, os Hegseths, os Rubios não se sentem seguros, ou não querem ser incomodados, a ponto de conviver com a população local, blindando-se da sociedade que acreditam conhecer e governar. Não é síndrome nova. Ela adquire facetas variadas, mas tem um denominador comum: o medo do conhecimento da realidade. A apoteose dessa síndrome já recebeu atenção neste espaço em 2009, por ocasião da inauguração da nova embaixada americana em Bagdá, capital do Iraque. Os Estados Unidos haviam invadido o país em 2003 sob falso pretexto e não conseguiam mais sair daquela terra islâmica de 48 milhões de árabes (80%) e curdos (20%).

Primeiro, demarcaram uma “Zona Verde” de 10 quilômetros em pleno centro de Bagdá e a transformaram em minicidade estanque e inviolável. Ali funcionavam órgãos do governo e embaixadas, entre outros. Cidadãos iraquianos comuns eram proibidos de acessar ou transitar pelo perímetro. Arame farpado, barreiras de concreto e tanques, revistas físicas minuciosas mesmo para credenciados faziam parte do controle. Mas nem isso bastou para que se sentissem seguros na cidade por eles ocupada. Ergueram, então, um mastodonte emparedado de 21 edificações às margens do Rio Tigre, dentro da tal Zona Verde, e lá criaram um mundo estanque e ficcional.

Idealizado para abrigar até 16 mil ocupantes (entre funcionários diplomáticos, equipe de segurança, administradores e pessoal terceirizado), o projeto previu restaurantes, cinemas, piscinas, campo de beisebol, shopping, escolas, usina elétrica e hidráulica à prova de morteiros e foguetes. Só não previu a marcha da História. Os Estados Unidos deixaram o Iraque em frangalhos, as instalações pantagruélicas não têm um décimo da ocupação imaginada, e até o posto de embaixador continua vago. A ver se as próximas eleições americanas apontarão para uma debandada trumpista.

A luta contra o desmatamento

A queda do desmatamento na Amazônia ao menor número nos 38 anos em que o INPE faz o monitoramento é uma vitória cuja dimensão só se entende através de uma viagem no tempo. Não poderia ser colhida se não houvesse uma decisão do governo seguida zelosamente por todas as equipes dos órgãos públicos envolvidos na missão. O presidente Lula repete o feito dos primeiros dois mandatos em que também derrubou fortemente o desmatamento na Amazônia. Dessa vez, há outra boa notícia a comemorar. O Cerrado, o bioma que vem sendo mais atacado, também teve o seu melhor número.


A Amazônia começou a ser monitorada pelo INPE em 1988, usando os dados coletados pelos satélites que cruzam nossos céus. Era o governo José Sarney, o desmatamento havia aumentado muito e o ambientalista Chico Mendes havia sido assassinado. A resposta do governo foi criar o Ibama, lançar um programa chamado Nossa Natureza e pedir ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para iniciar o monitoramento. Os primeiros movimentos dessa supervisão foram difíceis, quase épicos. A tecnologia na época era rudimentar perto da que temos hoje.

Várias vezes, os desmatadores testaram governos. Os bons governos reagiram defendendo a lei e o meio ambiente. No começo da primeira gestão Fernando Henrique, a destruição da Amazônia atingiu o pior número da história, 29 mil km². A reação de FHC foi aprovar a Lei de Crimes Ambientais e elevar a reserva legal da Amazônia para 80%. A taxa caiu nos anos seguintes, depois voltou a subir. No início do primeiro governo Lula, o desmatamento teve novo pico, o segundo pior da história, 27 mil km². A resposta, comandada pela ministra Marina Silva, foi a criação de um plano que integrava vários ministérios, o PPCDAm. Por anos, a taxa caiu até atingir 4,5 mil km² em 2012. Oscilou e voltou a subir no governo Bolsonaro.

O melhor resumo da política ambiental de Jair Bolsonaro foi dado pelo então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles naquela trágica reunião de abril de 2020. O “vamos passar a boiada” era um crime duplo, porque o contexto era do início da pandemia, o país amedrontado, o governo omisso diante do que seria a maior tragédia sanitária do país com 700 mil mortos. Aquela reunião ministerial deveria ser para organizar a estratégia de enfrentar o vírus, mas não foi este o tema. Bolsonaro tinha uma preocupação: evitar que sua família fosse investigada, especialmente seu filho Flávio. Ele disse que demitiria um ministro se não fosse obedecido. O ministro Sergio Moro saiu denunciando a interferência na Polícia Federal. Hoje ele faz parte do bolsonarismo. O que Salles propôs naquela reunião foi aproveitar “que a atenção da imprensa está voltada exclusiva quase que exclusivamente pro Covid”, para fazer o desmonte da legislação ambiental. Eles realizaram o plano e passaram a boiada. A taxa de desmatamento na Amazônia subiu até 13 mil km² em 2021.

Quando Marina Silva assumiu novamente o Ministério do Meio Ambiente encontrou o próprio órgão devastado. Um sinal pequeno dessa devastação foi vista na secretaria-executiva. A mesa de reunião era tão pequena que João Paulo Capobianco decidiu medir. Tinha 80 centímetros. Dava para quatro cadeiras. Foi preciso consertar o desmonte praticado deliberadamente pelo governo Bolsonaro e trabalhar com muita determinação para chegar ao resultado divulgado na sexta-feira. O desmatamento caiu 71, 2% em quatro anos e atingiu o nível mais baixo da História a 3,3 mil km². Isso torna possível sonhar com o fim do desmatamento até 2030.

As decisões de Brasília, seja no executivo, seja no Congresso, têm consequências concretas na vida do país. São árvores que deixam de ser derrubadas, gases de efeito estufa que deixam de ser emitidos, é o país que fica mais forte para enfrentar a emergência climática.

Em fevereiro de 2023, perguntei a Capobianco, que hoje é o ministro do Meio Ambiente, qual havia sido a diferença entre assumir a pasta, em 2003 e em 2023. Ele disse que foi totalmente diferente. O governo Fernando Henrique deixou tudo preparado. “O secretário anterior me aguardava, a mesa estava coberta de processos, de encaminhamentos, havia trabalho em andamento. Desta vez, não houve transição, ninguém nos esperava, a mesa estava limpa, nada havia”. Em 2023, foi um recomeçar sobre terra arrasada. Por isso, a vitória anunciada na sexta, do menor desmatamento da história, é tão valiosa. Ela mostra que é possível vencer a destruição.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Pensamento 'Bomba na Cara'

 


O Brasil quer um presidente. A TV dá um inimigo

Se Hitler, Stalin e Pol Pot desembarcassem no Brasil, sem conhecer nossa eleição, poderiam imaginar que estamos escolhendo o responsável pelo fim do mundo e eles também achariam que estamos substituindo-os com muita competência. Cada campanha apresenta seu guerreiro como a última esperança da humanidade e o ninja adversário como uma mistura de assombração, cobrador e criador da Covid. Falta explicar, aos brasileirinhos, quem e como é que vai governar quando o terror passar.

Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.


Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.

O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.

Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?

Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!

No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.

Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.

Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.

Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!

O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.

O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.