segunda-feira, 22 de junho de 2026
A paz tornou-se exceção
As imagens da guerra na Ucrânia continuam a atravessar diariamente os ecrãs europeus. No Médio Oriente, sucessivas escaladas militares recordam a fragilidade de uma das regiões mais voláteis do planeta. No Indo-Pacífico, a rivalidade entre os Estados Unidos e a China redefine alianças, estratégias e prioridades económicas.
À primeira vista, trata-se de crises distintas, separadas por geografias, interesses e protagonistas. Na realidade, todas apontam para a mesma transformação histórica. O mundo entrou numa nova fase das relações internacionais e essa mudança é mais profunda do que qualquer conflito isolado.
Durante mais de três décadas, o Ocidente viveu sob uma convicção que parecia confirmada pelos acontecimentos. A Guerra Fria terminara sem confronto direto entre as grandes potências, a globalização expandia-se a um ritmo sem precedentes, as economias tornavam-se cada vez mais interdependentes e a prosperidade parecia avançar lado a lado com a estabilidade. Persistiam conflitos, crises e ameaças, mas a direção da História parecia definida. A política de poder, que durante séculos moldou as relações internacionais, dava lugar a um mundo regulado por instituições, comércio e cooperação. Hoje, essa convicção está a desfazer-se.
Da Ucrânia ao Médio Oriente, das disputas no Indo-Pacífico à crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, a atualidade internacional é frequentemente apresentada como uma sucessão de crises independentes. Essa leitura ajuda a compreender os acontecimentos, mas não explica a sua verdadeira relevância. O que estamos a testemunhar não é apenas uma acumulação de conflitos. Estamos a assistir ao fim de um período histórico excecional e ao regresso de uma realidade que muitos julgavam ultrapassada: a competição estratégica entre Estados voltou a ocupar o centro da política internacional.
Esta constatação obriga a uma inversão de perspetiva . Durante anos, o debate centrou-se na pergunta errada. A questão nunca foi saber se a globalização eliminaria a geopolítica. A questão era saber durante quanto tempo conseguiria mantê-la em segundo plano.
Os acontecimentos dos últimos anos mostram que as rivalidades estratégicas entre Estados nunca deixaram de moldar o sistema internacional. A competição por influência, recursos, mercados e posições de poder continuou a existir, ainda que disfarçada por um período excepcional de integração económica, expansão comercial e relativa estabilidade. O que hoje parece um regresso da geopolítica é, na verdade, o fim da ilusão de que ela alguma vez deixou de ocupar um lugar central na História.
A estabilidade que marcou as últimas décadas foi frequentemente encarada como um estado natural das relações internacionais. Vista à distância, porém, poderá ter sido precisamente o contrário: uma exceção rara. Poucas vezes na era moderna existiu um período tão prolongado em que as principais potências evitaram confrontações diretas, as cadeias globais de comércio conheceram uma expansão tão intensa e a integração económica avançou com tão reduzida resistência geopolítica.
O que muitos consideraram a nova normalidade pode ter sido, afinal, um breve intervalo num sistema internacional tradicionalmente moldado pela competição, pelo equilíbrio de forças e pela afirmação dos interesses nacionais.
A invasão da Ucrânia pela Rússia tornou essa mudança impossível de ignorar. O seu significado ultrapassa largamente as fronteiras do conflito. Pela primeira vez desde o final da Guerra Fria, uma potência nuclear procurou alterar pela força a arquitetura de segurança europeia e desafiar pressupostos que, durante décadas, foram considerados inquestionáveis. A guerra revelou não apenas a vulnerabilidade de um país, mas também a fragilidade de um conjunto de certezas sobre as quais a Europa construiu a sua visão do mundo.
A relevância desta transformação para os europeus é difícil de exagerar. Durante grande parte das últimas três décadas, a Europa beneficiou de condições estratégicas extraordinariamente favoráveis. Energia relativamente acessível, mercados globais em expansão, segurança garantida pela aliança transatlântica e ausência de ameaças militares diretas permitiram concentrar recursos na prosperidade económica e no desenvolvimento social.
Hoje, praticamente todos esses pressupostos estão sob pressão. A discussão sobre defesa, autonomia estratégica, competitividade industrial e segurança energética deixou de ser um exercício académico para se transformar numa prioridade política.
O mesmo padrão pode ser observado noutras regiões. No Médio Oriente, as tensões recorrentes entre atores regionais e internacionais demonstram que a estabilidade continua a depender de equilíbrios delicados e frequentemente precários. Sempre que a situação se deteriora, os seus efeitos fazem-se sentir muito para além da região. Os mercados energéticos reagem, as rotas comerciais tornam-se mais vulneráveis e a incerteza repercute-se nas economias de todo o mundo. Num sistema profundamente interligado, as consequências da instabilidade deixaram há muito de respeitar fronteiras.
Ao mesmo tempo, a ascensão da China introduziu um elemento novo na equação global. Pela primeira vez desde o fim da União Soviética, os Estados Unidos enfrentam um concorrente com capacidade para disputar influência económica, tecnológica, militar e diplomática à escala planetária.
Esta rivalidade não reproduz mecanicamente os padrões da Guerra Fria. As economias permanecem profundamente ligadas e os incentivos à cooperação continuam significativos. Ainda assim, a lógica estratégica é inequívoca. As duas maiores potências mundiais passaram a encarar-se cada vez mais como concorrentes na definição das regras que moldarão a próxima fase da ordem internacional.
A consequência mais importante desta transformação não é o aumento do número de conflitos. É a erosão gradual dos mecanismos que, durante décadas, ajudaram a limitar esses conflitos. As instituições multilaterais continuam a desempenhar funções essenciais, mas enfrentam dificuldades crescentes para produzir consensos entre atores cujas prioridades estratégicas se afastam progressivamente. O desafio vai além das divergências entre Estados. Reflete uma crescente incapacidade de definir princípios e objetivos comuns para a gestão da ordem internacional.
É aqui que se encontra o verdadeiro desafio do nosso tempo. O debate público concentra-se frequentemente nas crises do momento, nos líderes envolvidos ou nos acontecimentos mais recentes. No entanto, os fenómenos que definem uma época raramente se resumem às manchetes de um dia. O que está em causa é algo mais profundo: a capacidade das estruturas políticas internacionais para gerir rivalidades sem permitir que estas se transformem em confrontações permanentes.
Nada disto significa que o mundo esteja condenado a uma nova guerra global. A História não funciona como uma sequência inevitável de catástrofes. As grandes potências continuam a possuir fortes incentivos para evitar confrontos directos. A diplomacia mantém a sua relevância. A cooperação económica continua a produzir benefícios mútuos. Mas seria igualmente imprudente ignorar os sinais de uma mudança estrutural que se desenrola diante dos nossos olhos.
Durante muitos anos, a principal preocupação das democracias ocidentais consistiu em gerir a prosperidade gerada pela globalização. Hoje, o desafio é mais exigente. Consiste em preservar a estabilidade num mundo onde as rivalidades estratégicas regressaram ao centro das decisões que moldam a política internacional.
Não se trata de um regresso ao século XX nem de uma repetição automática dos seus conflitos. Trata-se da transição para um contexto internacional em que muitas das premissas que orientaram as últimas décadas perderam a solidez que lhes era atribuída.
O século XXI não está a assistir ao colapso da ordem internacional. O que revela é o esgotamento de uma convicção que marcou as últimas décadas. A crença de que a integração económica seria suficiente para neutralizar rivalidades geopolíticas revelou-se mais frágil do que muitos imaginaram. A prosperidade aproximou sociedades e criou oportunidades extraordinárias. Não eliminou, porém, os interesses estratégicos, as ambições nacionais nem a disputa pelo poder.
A transformação já está em curso. O verdadeiro desafio consiste em perceber se os principais centros de poder compreenderam a sua profundidade e as suas implicações. O risco não está em interpretar mal os primeiros sinais de mudança. Está em persistir na convicção de que o contexto continua a ser o mesmo quando já deixou de o ser.
O que os acontecimentos recentes vieram pôr em causa não é a possibilidade de cooperação entre Estados. É a ideia de que essa cooperação seria suficiente para neutralizar rivalidades estratégicas duradouras.
A paz, longe de ser um ponto de chegada definitivo, continua a ser uma construção política frágil, exigente e sempre inacabada. Durante uma geração, muitos acreditaram que ela podia ser tomada como adquirida. Os acontecimentos dos nossos dias recordam-nos o contrário. E talvez essa seja a principal lição geopolítica do nosso tempo.
À primeira vista, trata-se de crises distintas, separadas por geografias, interesses e protagonistas. Na realidade, todas apontam para a mesma transformação histórica. O mundo entrou numa nova fase das relações internacionais e essa mudança é mais profunda do que qualquer conflito isolado.
Durante mais de três décadas, o Ocidente viveu sob uma convicção que parecia confirmada pelos acontecimentos. A Guerra Fria terminara sem confronto direto entre as grandes potências, a globalização expandia-se a um ritmo sem precedentes, as economias tornavam-se cada vez mais interdependentes e a prosperidade parecia avançar lado a lado com a estabilidade. Persistiam conflitos, crises e ameaças, mas a direção da História parecia definida. A política de poder, que durante séculos moldou as relações internacionais, dava lugar a um mundo regulado por instituições, comércio e cooperação. Hoje, essa convicção está a desfazer-se.
Da Ucrânia ao Médio Oriente, das disputas no Indo-Pacífico à crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, a atualidade internacional é frequentemente apresentada como uma sucessão de crises independentes. Essa leitura ajuda a compreender os acontecimentos, mas não explica a sua verdadeira relevância. O que estamos a testemunhar não é apenas uma acumulação de conflitos. Estamos a assistir ao fim de um período histórico excecional e ao regresso de uma realidade que muitos julgavam ultrapassada: a competição estratégica entre Estados voltou a ocupar o centro da política internacional.
Esta constatação obriga a uma inversão de perspetiva . Durante anos, o debate centrou-se na pergunta errada. A questão nunca foi saber se a globalização eliminaria a geopolítica. A questão era saber durante quanto tempo conseguiria mantê-la em segundo plano.
Os acontecimentos dos últimos anos mostram que as rivalidades estratégicas entre Estados nunca deixaram de moldar o sistema internacional. A competição por influência, recursos, mercados e posições de poder continuou a existir, ainda que disfarçada por um período excepcional de integração económica, expansão comercial e relativa estabilidade. O que hoje parece um regresso da geopolítica é, na verdade, o fim da ilusão de que ela alguma vez deixou de ocupar um lugar central na História.
A estabilidade que marcou as últimas décadas foi frequentemente encarada como um estado natural das relações internacionais. Vista à distância, porém, poderá ter sido precisamente o contrário: uma exceção rara. Poucas vezes na era moderna existiu um período tão prolongado em que as principais potências evitaram confrontações diretas, as cadeias globais de comércio conheceram uma expansão tão intensa e a integração económica avançou com tão reduzida resistência geopolítica.
O que muitos consideraram a nova normalidade pode ter sido, afinal, um breve intervalo num sistema internacional tradicionalmente moldado pela competição, pelo equilíbrio de forças e pela afirmação dos interesses nacionais.
A invasão da Ucrânia pela Rússia tornou essa mudança impossível de ignorar. O seu significado ultrapassa largamente as fronteiras do conflito. Pela primeira vez desde o final da Guerra Fria, uma potência nuclear procurou alterar pela força a arquitetura de segurança europeia e desafiar pressupostos que, durante décadas, foram considerados inquestionáveis. A guerra revelou não apenas a vulnerabilidade de um país, mas também a fragilidade de um conjunto de certezas sobre as quais a Europa construiu a sua visão do mundo.
A relevância desta transformação para os europeus é difícil de exagerar. Durante grande parte das últimas três décadas, a Europa beneficiou de condições estratégicas extraordinariamente favoráveis. Energia relativamente acessível, mercados globais em expansão, segurança garantida pela aliança transatlântica e ausência de ameaças militares diretas permitiram concentrar recursos na prosperidade económica e no desenvolvimento social.
Hoje, praticamente todos esses pressupostos estão sob pressão. A discussão sobre defesa, autonomia estratégica, competitividade industrial e segurança energética deixou de ser um exercício académico para se transformar numa prioridade política.
O mesmo padrão pode ser observado noutras regiões. No Médio Oriente, as tensões recorrentes entre atores regionais e internacionais demonstram que a estabilidade continua a depender de equilíbrios delicados e frequentemente precários. Sempre que a situação se deteriora, os seus efeitos fazem-se sentir muito para além da região. Os mercados energéticos reagem, as rotas comerciais tornam-se mais vulneráveis e a incerteza repercute-se nas economias de todo o mundo. Num sistema profundamente interligado, as consequências da instabilidade deixaram há muito de respeitar fronteiras.
Ao mesmo tempo, a ascensão da China introduziu um elemento novo na equação global. Pela primeira vez desde o fim da União Soviética, os Estados Unidos enfrentam um concorrente com capacidade para disputar influência económica, tecnológica, militar e diplomática à escala planetária.
Esta rivalidade não reproduz mecanicamente os padrões da Guerra Fria. As economias permanecem profundamente ligadas e os incentivos à cooperação continuam significativos. Ainda assim, a lógica estratégica é inequívoca. As duas maiores potências mundiais passaram a encarar-se cada vez mais como concorrentes na definição das regras que moldarão a próxima fase da ordem internacional.
A consequência mais importante desta transformação não é o aumento do número de conflitos. É a erosão gradual dos mecanismos que, durante décadas, ajudaram a limitar esses conflitos. As instituições multilaterais continuam a desempenhar funções essenciais, mas enfrentam dificuldades crescentes para produzir consensos entre atores cujas prioridades estratégicas se afastam progressivamente. O desafio vai além das divergências entre Estados. Reflete uma crescente incapacidade de definir princípios e objetivos comuns para a gestão da ordem internacional.
É aqui que se encontra o verdadeiro desafio do nosso tempo. O debate público concentra-se frequentemente nas crises do momento, nos líderes envolvidos ou nos acontecimentos mais recentes. No entanto, os fenómenos que definem uma época raramente se resumem às manchetes de um dia. O que está em causa é algo mais profundo: a capacidade das estruturas políticas internacionais para gerir rivalidades sem permitir que estas se transformem em confrontações permanentes.
Nada disto significa que o mundo esteja condenado a uma nova guerra global. A História não funciona como uma sequência inevitável de catástrofes. As grandes potências continuam a possuir fortes incentivos para evitar confrontos directos. A diplomacia mantém a sua relevância. A cooperação económica continua a produzir benefícios mútuos. Mas seria igualmente imprudente ignorar os sinais de uma mudança estrutural que se desenrola diante dos nossos olhos.
Durante muitos anos, a principal preocupação das democracias ocidentais consistiu em gerir a prosperidade gerada pela globalização. Hoje, o desafio é mais exigente. Consiste em preservar a estabilidade num mundo onde as rivalidades estratégicas regressaram ao centro das decisões que moldam a política internacional.
Não se trata de um regresso ao século XX nem de uma repetição automática dos seus conflitos. Trata-se da transição para um contexto internacional em que muitas das premissas que orientaram as últimas décadas perderam a solidez que lhes era atribuída.
O século XXI não está a assistir ao colapso da ordem internacional. O que revela é o esgotamento de uma convicção que marcou as últimas décadas. A crença de que a integração económica seria suficiente para neutralizar rivalidades geopolíticas revelou-se mais frágil do que muitos imaginaram. A prosperidade aproximou sociedades e criou oportunidades extraordinárias. Não eliminou, porém, os interesses estratégicos, as ambições nacionais nem a disputa pelo poder.
A transformação já está em curso. O verdadeiro desafio consiste em perceber se os principais centros de poder compreenderam a sua profundidade e as suas implicações. O risco não está em interpretar mal os primeiros sinais de mudança. Está em persistir na convicção de que o contexto continua a ser o mesmo quando já deixou de o ser.
O que os acontecimentos recentes vieram pôr em causa não é a possibilidade de cooperação entre Estados. É a ideia de que essa cooperação seria suficiente para neutralizar rivalidades estratégicas duradouras.
A paz, longe de ser um ponto de chegada definitivo, continua a ser uma construção política frágil, exigente e sempre inacabada. Durante uma geração, muitos acreditaram que ela podia ser tomada como adquirida. Os acontecimentos dos nossos dias recordam-nos o contrário. E talvez essa seja a principal lição geopolítica do nosso tempo.
A humilhação diária
Minha amiga Ana Luiza recebeu e me mandou. Num cartum, um idoso de capa, cachecol e bengala está diante de um balcão de informações. A atendente lhe mostra o celular e o instrui: "O senhor baixa o aplicativo e entra em ‘gerar código de acesso’. Aqui tem o certificado digital. Faz o login e clica em ‘escolher o arquivo’. Ele vai pedir um código de liberação do acesso nas extensões JPG, PNG ou PDF... Entendeu?". O cartum é assinado por Tom Cotrim. Mostra uma realidade que está acontecendo neste momento no seu bairro, com macróbios quase centenários como eu ou talvez você.
Sob o cartum, segue-se um texto não assinado: "Uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um smartphone para acessar os seus próprios direitos não é moderna. É uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos. Em 2026, tudo virou um aplicativo, um código, um portal. Mas quem construiu este país com as próprias mãos vê-se hoje analfabeto dentro da própria casa. Para marcar uma consulta ou pagar uma conta, é preciso um filho ou neto, quando existe um".
O texto continua: "Isso é exclusão. A tecnologia deve ajudar, não selecionar quem tem direito à dignidade. Quando deixamos para trás aqueles que vieram antes de nós, não estamos evoluindo —apenas nos tornando mais cômodos e egoístas".
Há anos, no começo da ditadura do smartphone, observei as tentativas de gente da minha geração para se entender com o bicho, assim como se entendia com as novidades da antiga tecnologia. Não queriam parecer velhos ou superados. Mas eles se superestimaram. Não foram capazes de acompanhar a velocidade com que o smartphone evoluiu. Hoje, a tecnologia acha normal que a enorme parcela da população que se recusa a morrer antes da hora —a nossa— seja diariamente humilhada por aquela joça.
Levei a vida me aplicando para escrever direito, ficar atento à história, entender o que lia. Não tenho mais idade, capacidade ou vontade de me converter em engenheiro eletrônico. E acho burro o sistema binário, o do sim ou não. Prefiro o talvez.
Sob o cartum, segue-se um texto não assinado: "Uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um smartphone para acessar os seus próprios direitos não é moderna. É uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos. Em 2026, tudo virou um aplicativo, um código, um portal. Mas quem construiu este país com as próprias mãos vê-se hoje analfabeto dentro da própria casa. Para marcar uma consulta ou pagar uma conta, é preciso um filho ou neto, quando existe um".
O texto continua: "Isso é exclusão. A tecnologia deve ajudar, não selecionar quem tem direito à dignidade. Quando deixamos para trás aqueles que vieram antes de nós, não estamos evoluindo —apenas nos tornando mais cômodos e egoístas".
Há anos, no começo da ditadura do smartphone, observei as tentativas de gente da minha geração para se entender com o bicho, assim como se entendia com as novidades da antiga tecnologia. Não queriam parecer velhos ou superados. Mas eles se superestimaram. Não foram capazes de acompanhar a velocidade com que o smartphone evoluiu. Hoje, a tecnologia acha normal que a enorme parcela da população que se recusa a morrer antes da hora —a nossa— seja diariamente humilhada por aquela joça.
Levei a vida me aplicando para escrever direito, ficar atento à história, entender o que lia. Não tenho mais idade, capacidade ou vontade de me converter em engenheiro eletrônico. E acho burro o sistema binário, o do sim ou não. Prefiro o talvez.
Ao desconcerto do mundo
Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.
Luís de Camões
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.
Luís de Camões
Em Brasília, acha-se normal o que é totalmente anormal
A cena se passa em Brasília, em meados de 2024, pouco antes do evento promovido em Lisboa pelo ministro do Supremo Gilmar Mendes — o famoso Gilmarpalooza. Participam do diálogo o senador pelo Piauí, Ciro Nogueira, presidente do PP, e o deputado pela Paraíba, Hugo Motta, do Republicanos. Quem relata a conversa é Hugo Motta, numa entrevista ao Estadão:
— Ciro me chamou: “Vamos para o evento do Gilmar”. Eu disse: “Ciro, não comprei passagem e tal, e eu tenho que voltar”, porque era a época da festa junina lá nossa. Ele disse: “Não, pô, vamos com o Daniel de carona”. Conhecia o Daniel, fomos de carona. Chegou lá, o Daniel tinha reservado o hotel. Também não vejo problema nisso, é um evento corporativo. Se você falar com qualquer pessoa, é normal você convidar uma pessoa, botar no hotel.
O Daniel é o Vorcaro, claro. A carona é num jatinho. O hotel é o cinco estrelas Four Seasons de Lisboa. De maneira que temos um senador e um deputado federal pegando uma boca-livre de um banqueiro que tinha questões de interesse tramitando no Congresso Nacional — questões que seriam analisadas e votadas pelos parlamentares.
Tudo normal, não é mesmo? Uma situação corriqueira no ambiente de Brasília. Onde mais seria normal “você convidar uma pessoa, botar no hotel”? Sendo que a “pessoa”, no caso, é uma autoridade, e o patrocinador, interessado em negócios com dinheiro público. Todo mundo sabe disso. Reparem no comentário de Hugo Motta, quando ele justifica a boca-livre: “se você falar com qualquer pessoa...”. Quer dizer: se você falar com qualquer pessoa em Brasília, ela dirá que é normal.
Motta também esteve presente num fórum jurídico promovido por Vorcaro em Nova York. Entre os exaustivos debates, participantes tiveram direito a momentos de relaxamento: uma degustação de uísque e charutos num clube de luxo. Diz Motta: “Eu fui também ... Os ministros estavam. Não foi escondido isso. Tinha gente da imprensa lá, de todo mundo. Não era um negócio secreto, vamos nos disfarçar aqui. Não, não. Foi à luz do dia”.
Vorcaro ainda não tinha sido apanhado pela Polícia Federal. Era um banqueiro que conhecia todo mundo em Brasília, onde também promovia jantares, festas e “experiências” — como elas, autoridades, chamam um banquete comandado por chef badalado.
Hoje presidente da Câmara, Motta diz que os parlamentares recebem empresários dos diversos setores, banqueiros, líderes políticos, autoridades de outros Poderes — sempre para discutir temas nacionais. Qual o problema nisso? Nenhum, desde que as conversas se deem formalmente, nos gabinetes, com agenda marcada e publicada. Deveriam ser audiências formais. O que é muito diferente de um papo regado a uísque de 30 anos.
Parlamentares podem, é claro, participar de eventos no exterior que considerem relevantes. Recebem até diárias para custear as viagens, pagas em dólares. Isso para que o parlamentar possa viajar com independência, ele mesmo escolhendo sua agenda e dedicando-se exclusivamente a ela. Ao trabalho. E por quê? Porque é pago com dinheiro público, o nosso dinheiro. E, se tem a diária, ninguém precisa pegar carona em jatinho nem ter um amigo para “botar no hotel”.
A sinceridade, a simplicidade de Motta impressionam por isso. Ele considera normal o que é totalmente anormal, ou deveria ser, numa República. Jatinhos, festas, hospedagens em hotéis internacionais ou resorts locais, mesadas em dinheiro, presentes, incluindo apartamentos — tudo isso parece normal. Os presenteados por Vorcaro dizem que não sabiam o que ele fazia. Ora, mesmo que fosse o banqueiro mais ortodoxo do mundo, também não podia.
Motta, um político mais novo, falou como alguém que usufrui alegremente aquilo tudo. Muitos outros também usufruem, mas se calam. Mesmo quando apanhados, não fornecem qualquer explicação ao público que paga seus salários. Até sentem-se ofendidos quando solicitados a falar. Nos bastidores, manobram para bloquear as investigações.
— Ciro me chamou: “Vamos para o evento do Gilmar”. Eu disse: “Ciro, não comprei passagem e tal, e eu tenho que voltar”, porque era a época da festa junina lá nossa. Ele disse: “Não, pô, vamos com o Daniel de carona”. Conhecia o Daniel, fomos de carona. Chegou lá, o Daniel tinha reservado o hotel. Também não vejo problema nisso, é um evento corporativo. Se você falar com qualquer pessoa, é normal você convidar uma pessoa, botar no hotel.
O Daniel é o Vorcaro, claro. A carona é num jatinho. O hotel é o cinco estrelas Four Seasons de Lisboa. De maneira que temos um senador e um deputado federal pegando uma boca-livre de um banqueiro que tinha questões de interesse tramitando no Congresso Nacional — questões que seriam analisadas e votadas pelos parlamentares.
Tudo normal, não é mesmo? Uma situação corriqueira no ambiente de Brasília. Onde mais seria normal “você convidar uma pessoa, botar no hotel”? Sendo que a “pessoa”, no caso, é uma autoridade, e o patrocinador, interessado em negócios com dinheiro público. Todo mundo sabe disso. Reparem no comentário de Hugo Motta, quando ele justifica a boca-livre: “se você falar com qualquer pessoa...”. Quer dizer: se você falar com qualquer pessoa em Brasília, ela dirá que é normal.
Motta também esteve presente num fórum jurídico promovido por Vorcaro em Nova York. Entre os exaustivos debates, participantes tiveram direito a momentos de relaxamento: uma degustação de uísque e charutos num clube de luxo. Diz Motta: “Eu fui também ... Os ministros estavam. Não foi escondido isso. Tinha gente da imprensa lá, de todo mundo. Não era um negócio secreto, vamos nos disfarçar aqui. Não, não. Foi à luz do dia”.
Vorcaro ainda não tinha sido apanhado pela Polícia Federal. Era um banqueiro que conhecia todo mundo em Brasília, onde também promovia jantares, festas e “experiências” — como elas, autoridades, chamam um banquete comandado por chef badalado.
Hoje presidente da Câmara, Motta diz que os parlamentares recebem empresários dos diversos setores, banqueiros, líderes políticos, autoridades de outros Poderes — sempre para discutir temas nacionais. Qual o problema nisso? Nenhum, desde que as conversas se deem formalmente, nos gabinetes, com agenda marcada e publicada. Deveriam ser audiências formais. O que é muito diferente de um papo regado a uísque de 30 anos.
Parlamentares podem, é claro, participar de eventos no exterior que considerem relevantes. Recebem até diárias para custear as viagens, pagas em dólares. Isso para que o parlamentar possa viajar com independência, ele mesmo escolhendo sua agenda e dedicando-se exclusivamente a ela. Ao trabalho. E por quê? Porque é pago com dinheiro público, o nosso dinheiro. E, se tem a diária, ninguém precisa pegar carona em jatinho nem ter um amigo para “botar no hotel”.
A sinceridade, a simplicidade de Motta impressionam por isso. Ele considera normal o que é totalmente anormal, ou deveria ser, numa República. Jatinhos, festas, hospedagens em hotéis internacionais ou resorts locais, mesadas em dinheiro, presentes, incluindo apartamentos — tudo isso parece normal. Os presenteados por Vorcaro dizem que não sabiam o que ele fazia. Ora, mesmo que fosse o banqueiro mais ortodoxo do mundo, também não podia.
Motta, um político mais novo, falou como alguém que usufrui alegremente aquilo tudo. Muitos outros também usufruem, mas se calam. Mesmo quando apanhados, não fornecem qualquer explicação ao público que paga seus salários. Até sentem-se ofendidos quando solicitados a falar. Nos bastidores, manobram para bloquear as investigações.
O futebol e seus oportunistas
Creio que foi Jorge Valdano quem disse isso (e acredito nisso com base em simples estatísticas: quando algo interessante é dito sobre futebol no meu idioma, é muito provável que seja Valdano o responsável). A reflexão foi mais ou menos assim: nunca antes a Copa do Mundo pareceu tão venal, tão comercializada, tão elitista, tão questionável em seu desejo de encobrir autocracias; e, no entanto, a próxima começará, e os torcedores de futebol do mundo todo estarão lá, diante da tela verde, sentindo as mesmas emoções primordiais e insubstituíveis que sentimos desde os tempos da inocência. E, de fato, foi exatamente o que aconteceu. Esta Copa do Mundo com os três países começou tão bem, com tanto futebol de qualidade, tantos gols e tantas satisfações, grandes e pequenas, que corremos o risco de acreditar que estamos assistindo ao mesmo futebol de sempre. Mas não é o caso.
Sob a presidência de Gianni Infantino, essa figura nefasta que se dedicou a usar o esporte mais belo para encobrir os regimes mais inescrupulosos, a Copa do Mundo foi realizada na Rússia de Putin e no Catar da era da sharia , e agora está sendo realizada nos Estados Unidos de Trump. E o país anfitrião, que recebe cerca de cinquenta nações, é um governo abertamente xenófobo que tenta diariamente minar a ordem internacional e destruir as instituições que defendem o multilateralismo. Tudo isso é grotesco por si só: ninguém pode descartar o risco de que o ICE, uma estrutura paramilitar que assassina cidadãos inocentes à luz do dia, use os estádios da Copa do Mundo como uma armadilha para caçar imigrantes; ninguém pode ignorar o cinismo de um presidente que embarca em uma guerra ilegal contra o Irã e depois escreve sobre a seleção nacional daquele país: “Eles podem jogar na Copa do Mundo, mas não acho apropriado que o façam, para sua própria segurança e suas próprias vidas.”
Há uma ironia nesta Copa do Mundo que nunca deixa de me fascinar (digo isso por educação e para evitar dizer que me causa repulsa). É a seguinte: o país anfitrião de uma Copa do Mundo que não existiria sem a imigração latino-americana é um regime que persegue imigrantes latino-americanos com particular ferocidade e crueldade. Aqueles de nós que já vivenciaram Copas do Mundo suficientes sabem como tem sido difícil interessar o americano médio por este esporte, que é profundamente alheio aos seus gostos e prioridades: este esporte onde uma partida pode terminar, para o desespero dos fãs de basquete, sem que nenhuma das equipes tenha marcado um único ponto; este esporte onde não há cantores, nem sorteios, nem bichos de pelúcia gigantes no intervalo para entreter os espectadores. A lógica dos esportes americanos, o entretenimento constante, não se encaixa bem com o futebol, que para muitas pessoas nem sequer é entretenimento. “Algumas pessoas pensam que futebol é uma questão de vida ou morte”, disse o velho Bill Shankly, técnico do Liverpool. “Essa atitude me decepciona: futebol é muito, muito mais importante.”
Foram necessárias décadas para que os empresários do futebol, que há muito reconheceram o potencial econômico inesgotável do esporte mais popular do mundo, o integrassem ao vasto shopping center que é a sociedade americana. As tentativas começaram no início dos anos 70, quando o New York Cosmos trouxe Pelé e Beckenbauer ao país para ver se conseguiam semear o futebol naquelas terras áridas: não tiveram sucesso. Cerca de vinte anos depois, os Estados Unidos sediaram sua primeira Copa do Mundo , e hoje a lembramos por uma das finais mais tediosas da história (e pela vergonhosa tragédia de um jogador colombiano assassinado por mafiosos após marcar um gol contra). Mas foi preciso tempo e ondas de imigração latino-americana, cujos filhos têm filhos que entendem menos espanhol do que entendem de futebol, para que tudo o que faz o futebol ser o que é no resto do mundo emergisse de fato: tradição, memória, lealdade a um time que também é lealdade a uma comunidade, ou àquela rara forma de comunidade que é a infância. Em resumo: tudo isso é tão difícil de explicar para quem nunca sentiu.
O problema é que o futebol, no esforço que seus donos financeiros fizeram para forçá-lo a entrar na cultura americana , pode estar perdendo sua essência. Ou melhor: é possível que os aproveitadores do futebol, como o Sr. Infantino, estejam dispostos, por pura ganância, a transformar o esporte em algo que ele não é. Não me refiro apenas a troféus idiotas como o Prêmio da Paz da FIFA, que Infantino inventou para dar a Trump — talvez o ato de bajulação mais vergonhoso do século. Isso não é exatamente novidade: Mussolini inventou a Coppa del Duce em 1934 para que o verdadeiro troféu não o ofuscasse, e a única diferença é que não havia um Infantino para entregá-lo a ele naquela época. Mas me refiro, acima de tudo, à transformação desse esporte de rua, nascido em terrenos baldios e genuinamente popular, em uma atividade entregue à exploração econômica de seus mínimos aspectos. O preço obsceno dos ingressos para esta Copa do Mundo é o menor dos problemas: até as regras estão mudando.
Agora vemos partidas divididas em quatro quartos — como no basquete — em vez dos tradicionais dois tempos, e chamar esses intervalos de pausas para hidratação não disfarça o fato de que são, na verdade, intervalos comerciais: para que os anúncios preencham esses minutos nas transmissões internacionais. Dizem que esta final da Copa do Mundo terá um intervalo de 30 minutos em vez de 15, e durante ele haverá um show , músicas serão cantadas e pessoas dançarão para que a partida de futebol se assemelhe ao Super Bowl: não importa que, nesse meio tempo, os jogadores se refresquem e a tensão se dissipe. Toda vez que o VAR intervém para anular um gol porque um computador detectou a ponta de uma chuteira do outro lado da linha, ou porque um braço está em posição de impedimento mesmo que as pernas comecem mais atrás, eu penso a mesma coisa: em um esporte que nasceu nas ruas e campos abertos, qualquer coisa que os quatro pares de olhos de quatro árbitros bem treinados não consigam detectar não deveria existir. O VAR nos roubou a emoção , a espontaneidade e a astúcia; Em contrapartida, isso só enriqueceu os fabricantes de uma tecnologia que teria tirado do mundo o gol de Maradona em 1986.
Sim, eu sinto — e não estou sozinho — que estamos sendo roubados. A única decisão positiva que os especuladores do futebol tomaram para 2026 foi a expansão do torneio: com 48 seleções, esta Copa do Mundo é verdadeiramente global. Em uma competição onde a tradição pesa muito — 80 seleções jogaram a Copa do Mundo desde 1930, mas apenas oito foram campeãs —, os estreantes nos deram mais de um motivo para comemorar. O empate de Cabo Verde com a Espanha , mesmo indo contra meus próprios interesses, me lembrou algo que outro treinador lendário disse. “A bola é redonda e as partidas duram 90 minutos”, disse Sepp Herberger em 1954. “Até aqui, nada de certezas. O resto é teoria.”
Juan Gabriel Vásquez
Sob a presidência de Gianni Infantino, essa figura nefasta que se dedicou a usar o esporte mais belo para encobrir os regimes mais inescrupulosos, a Copa do Mundo foi realizada na Rússia de Putin e no Catar da era da sharia , e agora está sendo realizada nos Estados Unidos de Trump. E o país anfitrião, que recebe cerca de cinquenta nações, é um governo abertamente xenófobo que tenta diariamente minar a ordem internacional e destruir as instituições que defendem o multilateralismo. Tudo isso é grotesco por si só: ninguém pode descartar o risco de que o ICE, uma estrutura paramilitar que assassina cidadãos inocentes à luz do dia, use os estádios da Copa do Mundo como uma armadilha para caçar imigrantes; ninguém pode ignorar o cinismo de um presidente que embarca em uma guerra ilegal contra o Irã e depois escreve sobre a seleção nacional daquele país: “Eles podem jogar na Copa do Mundo, mas não acho apropriado que o façam, para sua própria segurança e suas próprias vidas.”
Há uma ironia nesta Copa do Mundo que nunca deixa de me fascinar (digo isso por educação e para evitar dizer que me causa repulsa). É a seguinte: o país anfitrião de uma Copa do Mundo que não existiria sem a imigração latino-americana é um regime que persegue imigrantes latino-americanos com particular ferocidade e crueldade. Aqueles de nós que já vivenciaram Copas do Mundo suficientes sabem como tem sido difícil interessar o americano médio por este esporte, que é profundamente alheio aos seus gostos e prioridades: este esporte onde uma partida pode terminar, para o desespero dos fãs de basquete, sem que nenhuma das equipes tenha marcado um único ponto; este esporte onde não há cantores, nem sorteios, nem bichos de pelúcia gigantes no intervalo para entreter os espectadores. A lógica dos esportes americanos, o entretenimento constante, não se encaixa bem com o futebol, que para muitas pessoas nem sequer é entretenimento. “Algumas pessoas pensam que futebol é uma questão de vida ou morte”, disse o velho Bill Shankly, técnico do Liverpool. “Essa atitude me decepciona: futebol é muito, muito mais importante.”
Foram necessárias décadas para que os empresários do futebol, que há muito reconheceram o potencial econômico inesgotável do esporte mais popular do mundo, o integrassem ao vasto shopping center que é a sociedade americana. As tentativas começaram no início dos anos 70, quando o New York Cosmos trouxe Pelé e Beckenbauer ao país para ver se conseguiam semear o futebol naquelas terras áridas: não tiveram sucesso. Cerca de vinte anos depois, os Estados Unidos sediaram sua primeira Copa do Mundo , e hoje a lembramos por uma das finais mais tediosas da história (e pela vergonhosa tragédia de um jogador colombiano assassinado por mafiosos após marcar um gol contra). Mas foi preciso tempo e ondas de imigração latino-americana, cujos filhos têm filhos que entendem menos espanhol do que entendem de futebol, para que tudo o que faz o futebol ser o que é no resto do mundo emergisse de fato: tradição, memória, lealdade a um time que também é lealdade a uma comunidade, ou àquela rara forma de comunidade que é a infância. Em resumo: tudo isso é tão difícil de explicar para quem nunca sentiu.
O problema é que o futebol, no esforço que seus donos financeiros fizeram para forçá-lo a entrar na cultura americana , pode estar perdendo sua essência. Ou melhor: é possível que os aproveitadores do futebol, como o Sr. Infantino, estejam dispostos, por pura ganância, a transformar o esporte em algo que ele não é. Não me refiro apenas a troféus idiotas como o Prêmio da Paz da FIFA, que Infantino inventou para dar a Trump — talvez o ato de bajulação mais vergonhoso do século. Isso não é exatamente novidade: Mussolini inventou a Coppa del Duce em 1934 para que o verdadeiro troféu não o ofuscasse, e a única diferença é que não havia um Infantino para entregá-lo a ele naquela época. Mas me refiro, acima de tudo, à transformação desse esporte de rua, nascido em terrenos baldios e genuinamente popular, em uma atividade entregue à exploração econômica de seus mínimos aspectos. O preço obsceno dos ingressos para esta Copa do Mundo é o menor dos problemas: até as regras estão mudando.
Agora vemos partidas divididas em quatro quartos — como no basquete — em vez dos tradicionais dois tempos, e chamar esses intervalos de pausas para hidratação não disfarça o fato de que são, na verdade, intervalos comerciais: para que os anúncios preencham esses minutos nas transmissões internacionais. Dizem que esta final da Copa do Mundo terá um intervalo de 30 minutos em vez de 15, e durante ele haverá um show , músicas serão cantadas e pessoas dançarão para que a partida de futebol se assemelhe ao Super Bowl: não importa que, nesse meio tempo, os jogadores se refresquem e a tensão se dissipe. Toda vez que o VAR intervém para anular um gol porque um computador detectou a ponta de uma chuteira do outro lado da linha, ou porque um braço está em posição de impedimento mesmo que as pernas comecem mais atrás, eu penso a mesma coisa: em um esporte que nasceu nas ruas e campos abertos, qualquer coisa que os quatro pares de olhos de quatro árbitros bem treinados não consigam detectar não deveria existir. O VAR nos roubou a emoção , a espontaneidade e a astúcia; Em contrapartida, isso só enriqueceu os fabricantes de uma tecnologia que teria tirado do mundo o gol de Maradona em 1986.
Sim, eu sinto — e não estou sozinho — que estamos sendo roubados. A única decisão positiva que os especuladores do futebol tomaram para 2026 foi a expansão do torneio: com 48 seleções, esta Copa do Mundo é verdadeiramente global. Em uma competição onde a tradição pesa muito — 80 seleções jogaram a Copa do Mundo desde 1930, mas apenas oito foram campeãs —, os estreantes nos deram mais de um motivo para comemorar. O empate de Cabo Verde com a Espanha , mesmo indo contra meus próprios interesses, me lembrou algo que outro treinador lendário disse. “A bola é redonda e as partidas duram 90 minutos”, disse Sepp Herberger em 1954. “Até aqui, nada de certezas. O resto é teoria.”
Juan Gabriel Vásquez
domingo, 21 de junho de 2026
Conflito com Irã faz EUA encolherem como superpotência
"Navios do mundo, liguem seus motores", disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no último domingo ao anunciar um acordo com o Irã para encerrar o conflito que ele iniciou junto com Israel há mais de três meses.
Na quinta-feira, foi a vez de Estados Unidos e Irã assinarem o documento. Trump o fez durante um evento no Palácio de Versalhes, na França, local da assinatura do tratado que cristalizou a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.
O acordo foi saudado pelo líder do Hezbollah, Naim Qassem, aliado do Irã, como uma "grande vitória". Já o principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou: "O acordo é um registro do fracasso dos EUA. As pessoas verão isso e julgarão".
Ao defender o acordo, Trump disse que nenhum presidente dos EUA havia sido tão duro com o Irã e que "a alternativa seria uma depressão mundial", argumentando que, se não tivesse fechado o acordo, "o estreito [de Ormuz] jamais teria sido aberto".
Terminada a assinatura do acordo, ficou claro que os Estados Unidos não conseguiram impor condições ao Irã em relação a uma série de objetivos anunciados no início da guerra, apesar de sua enorme superioridade militar.
Além disso, a capacidade do Irã de usar drones, minas e pequenas embarcações para interromper a livre circulação no transporte marítimo trouxe à tona questões desconfortáveis sobre o papel do poder dos EUA na proteção da liberdade de navegação e na garantia do livre comércio.
"A guerra com o Irã mostrou a extraordinária capacidade militar dos EUA – e sua incapacidade de transformar essas capacidades em algo que se aproxime de uma vitória estratégica", avalia Rebecca Lissner, pesquisadora sênior de política externa dos EUA e diretora da iniciativa Future of American Strategy no think tank Conselho de Relações Exteriores (CFR).
"Isso é um golpe na imagem dos EUA como superpotência global e enfraquece seu status como garantidor da liberdade de navegação. Essa guerra deixou os Estados Unidos em uma posição mais fraca do que no início do conflito", diz ela.
Trump apresentou uma série de objetivos ao iniciar a guerra, incluindo a "aniquilação" da marinha convencional do Irã. Esse objetivo, pelo menos, parece ter sido alcançado – o think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) avaliou que "o Irã perdeu a maior parte de sua capacidade naval em menos de 10 dias".
Mas o Irã não precisava de uma marinha convencional para manter o tráfego marítimo em Ormuz sob ameaça. Seus ataques assimétricos baseados em drones contra instalações energéticas no Golfo provaram ser uma forma eficaz de dissuasão contra a escalada dos EUA. Os aliados do Irã no Iêmen e no Líbano também continuam sendo uma ameaça.
Os ataques aéreos dos EUA e de Israel também eliminaram grande parte da liderança da República Islâmica e enfraqueceram suas forças militares. Ao mesmo tempo, o conflito dificultou muito a vida dos iranianos comuns, que haviam enfrentado uma repressão brutal ao protestar contra o regime poucas semanas antes da guerra. Trump não menciona o destino deles, nem a ideia de "mudança de regime", desde as primeiras semanas do conflito.
Na região, as relações entre Teerã e os Estados do Golfo vizinhos também foram prejudicadas, sinalizando uma instabilidade prolongada. Esses países também passaram a questionar a confiabilidade da proteção de segurança dos EUA, já que suas infraestruturas civis e instalações energéticas ficaram vulneráveis.
Ainda assim, a principal questão estratégica daqui para frente é o Estreito de Ormuz, com o mundo aguardando para ver se os EUA concederão ao Irã nos próximos meses algum controle, mesmo que parcial, sobre o tráfego na via marítima.
O acordo assinado prevê que o "Irã providenciará a passagem segura de navios comerciais, sem custos, por 60 dias". Mas fica em aberto o que acontecerá após esse prazo.
"Mesmo que o acordo consiga reabrir o estreito, o Irã agora tem um poder de negociação que não tinha antes", disse Lissner.
"Os Estados Unidos mostraram que são incapazes ou não estão dispostos a forçar o Irã a reabrir o estreito, o que significa que o mundo viverá com o risco de o Irã poder fechá-lo novamente a qualquer momento", acrescentou.
E, tendo bloqueado o fornecimento global de energia por meses, ainda não está claro por que o regime iraniano abriria mão dessa vantagem sem receber algo em troca.
O Irã, por sua vez, confirmou que não tentará cobrar taxas de passagem por 60 dias, mas, segundo a agência de notícias Tasnim — um veículo estatal semioficial do país —, passará a "cobrar dos navios por serviços após esse período".
O Irã, juntamente com Omã, vem elaborando planos concretos para controlar o tráfego marítimo nessa via navegável estratégica. As duas nações realizaram pelo menos uma conversa sobre o tema nas últimas semanas, e o Irã chegou a criar uma Autoridade para o Estreito do Golfo Pérsico.
E, enquanto os mercados globais respiram aliviados, ainda há dúvidas se o transporte marítimo por Ormuz voltará ao normal.
"Esse acordo parece propenso a, na prática, consolidar o controle iraniano sobre o estreito, criando um mecanismo para que o Irã cobre taxas de embarcações que transitam por lá", disse Lissner.
Na quinta-feira, foi a vez de Estados Unidos e Irã assinarem o documento. Trump o fez durante um evento no Palácio de Versalhes, na França, local da assinatura do tratado que cristalizou a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.
O acordo foi saudado pelo líder do Hezbollah, Naim Qassem, aliado do Irã, como uma "grande vitória". Já o principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou: "O acordo é um registro do fracasso dos EUA. As pessoas verão isso e julgarão".
Ao defender o acordo, Trump disse que nenhum presidente dos EUA havia sido tão duro com o Irã e que "a alternativa seria uma depressão mundial", argumentando que, se não tivesse fechado o acordo, "o estreito [de Ormuz] jamais teria sido aberto".
Terminada a assinatura do acordo, ficou claro que os Estados Unidos não conseguiram impor condições ao Irã em relação a uma série de objetivos anunciados no início da guerra, apesar de sua enorme superioridade militar.
Além disso, a capacidade do Irã de usar drones, minas e pequenas embarcações para interromper a livre circulação no transporte marítimo trouxe à tona questões desconfortáveis sobre o papel do poder dos EUA na proteção da liberdade de navegação e na garantia do livre comércio.
"A guerra com o Irã mostrou a extraordinária capacidade militar dos EUA – e sua incapacidade de transformar essas capacidades em algo que se aproxime de uma vitória estratégica", avalia Rebecca Lissner, pesquisadora sênior de política externa dos EUA e diretora da iniciativa Future of American Strategy no think tank Conselho de Relações Exteriores (CFR).
"Isso é um golpe na imagem dos EUA como superpotência global e enfraquece seu status como garantidor da liberdade de navegação. Essa guerra deixou os Estados Unidos em uma posição mais fraca do que no início do conflito", diz ela.
Trump apresentou uma série de objetivos ao iniciar a guerra, incluindo a "aniquilação" da marinha convencional do Irã. Esse objetivo, pelo menos, parece ter sido alcançado – o think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) avaliou que "o Irã perdeu a maior parte de sua capacidade naval em menos de 10 dias".
Mas o Irã não precisava de uma marinha convencional para manter o tráfego marítimo em Ormuz sob ameaça. Seus ataques assimétricos baseados em drones contra instalações energéticas no Golfo provaram ser uma forma eficaz de dissuasão contra a escalada dos EUA. Os aliados do Irã no Iêmen e no Líbano também continuam sendo uma ameaça.
Os ataques aéreos dos EUA e de Israel também eliminaram grande parte da liderança da República Islâmica e enfraqueceram suas forças militares. Ao mesmo tempo, o conflito dificultou muito a vida dos iranianos comuns, que haviam enfrentado uma repressão brutal ao protestar contra o regime poucas semanas antes da guerra. Trump não menciona o destino deles, nem a ideia de "mudança de regime", desde as primeiras semanas do conflito.
Na região, as relações entre Teerã e os Estados do Golfo vizinhos também foram prejudicadas, sinalizando uma instabilidade prolongada. Esses países também passaram a questionar a confiabilidade da proteção de segurança dos EUA, já que suas infraestruturas civis e instalações energéticas ficaram vulneráveis.
Ainda assim, a principal questão estratégica daqui para frente é o Estreito de Ormuz, com o mundo aguardando para ver se os EUA concederão ao Irã nos próximos meses algum controle, mesmo que parcial, sobre o tráfego na via marítima.
O acordo assinado prevê que o "Irã providenciará a passagem segura de navios comerciais, sem custos, por 60 dias". Mas fica em aberto o que acontecerá após esse prazo.
"Mesmo que o acordo consiga reabrir o estreito, o Irã agora tem um poder de negociação que não tinha antes", disse Lissner.
"Os Estados Unidos mostraram que são incapazes ou não estão dispostos a forçar o Irã a reabrir o estreito, o que significa que o mundo viverá com o risco de o Irã poder fechá-lo novamente a qualquer momento", acrescentou.
E, tendo bloqueado o fornecimento global de energia por meses, ainda não está claro por que o regime iraniano abriria mão dessa vantagem sem receber algo em troca.
O Irã, por sua vez, confirmou que não tentará cobrar taxas de passagem por 60 dias, mas, segundo a agência de notícias Tasnim — um veículo estatal semioficial do país —, passará a "cobrar dos navios por serviços após esse período".
O Irã, juntamente com Omã, vem elaborando planos concretos para controlar o tráfego marítimo nessa via navegável estratégica. As duas nações realizaram pelo menos uma conversa sobre o tema nas últimas semanas, e o Irã chegou a criar uma Autoridade para o Estreito do Golfo Pérsico.
E, enquanto os mercados globais respiram aliviados, ainda há dúvidas se o transporte marítimo por Ormuz voltará ao normal.
"Esse acordo parece propenso a, na prática, consolidar o controle iraniano sobre o estreito, criando um mecanismo para que o Irã cobre taxas de embarcações que transitam por lá", disse Lissner.
Por décadas, os pilares centrais do poder dos EUA foram sua superioridade militar e o compromisso com a manutenção do que Washington chama de "ordem baseada em regras", junto a aliados com ideias semelhantes. No comércio global, isso significava que o poder americano poderia garantir a liberdade de navegação e o fluxo eficiente de mercadorias, como o petróleo, ao redor do mundo.
Os EUA projetaram esse sistema global e foram seus maiores beneficiários. Donald Trump, no entanto, sempre foi cético em relação a ele, retratando-o como um sistema em que o mundo "explora" os Estados Unidos em troca de pouco. Essa rejeição ficou evidente na imposição errática de tarifas no ano passado, que continuam gerando incerteza na economia global, mesmo com sua redução recente.
O primeiro acordo nuclear com o Irã, em 2015, negociado pelo governo de Barack Obama, foi um exemplo de multilateralismo liderado pelos EUA. Ele foi construído com cooperação cuidadosa de aliados europeus, além da China e da Rússia. Apesar de imperfeito, permitiu que a pressão sobre o Irã fosse aplicada de forma gradual e coordenada, evitando que divergências se transformassem em conflito aberto.
Trump abandonou o acordo durante seu primeiro mandato, em 2018, e ainda parece acreditar que pode usar a força dos EUA para pressionar o Irã a aceitar algo melhor. Na segunda-feira, Trump afirmou que Obama estava "basicamente pagando o Irã" e que seu governo "negociou a partir de uma posição de força".
Lissner, junto com outros analistas como o historiador Timothy Snyder, classificou a abordagem da administração Trump em política externa como um "suicídio de superpotência".
Sob a liderança de Trump, os EUA têm "desmantelado progressivamente o sistema que Washington construiu, junto com seus aliados, para se manter poderoso e próspero", disse ela.
"A guerra com o Irã apenas acelerou essa tendência, enfraquecendo ainda mais a ordem baseada em regras e afastando aliados americanos. Esses passos apontam para uma 'nova desordem mundial', caracterizada por crescente violência e instabilidade."
Os EUA projetaram esse sistema global e foram seus maiores beneficiários. Donald Trump, no entanto, sempre foi cético em relação a ele, retratando-o como um sistema em que o mundo "explora" os Estados Unidos em troca de pouco. Essa rejeição ficou evidente na imposição errática de tarifas no ano passado, que continuam gerando incerteza na economia global, mesmo com sua redução recente.
O primeiro acordo nuclear com o Irã, em 2015, negociado pelo governo de Barack Obama, foi um exemplo de multilateralismo liderado pelos EUA. Ele foi construído com cooperação cuidadosa de aliados europeus, além da China e da Rússia. Apesar de imperfeito, permitiu que a pressão sobre o Irã fosse aplicada de forma gradual e coordenada, evitando que divergências se transformassem em conflito aberto.
Trump abandonou o acordo durante seu primeiro mandato, em 2018, e ainda parece acreditar que pode usar a força dos EUA para pressionar o Irã a aceitar algo melhor. Na segunda-feira, Trump afirmou que Obama estava "basicamente pagando o Irã" e que seu governo "negociou a partir de uma posição de força".
Lissner, junto com outros analistas como o historiador Timothy Snyder, classificou a abordagem da administração Trump em política externa como um "suicídio de superpotência".
Sob a liderança de Trump, os EUA têm "desmantelado progressivamente o sistema que Washington construiu, junto com seus aliados, para se manter poderoso e próspero", disse ela.
"A guerra com o Irã apenas acelerou essa tendência, enfraquecendo ainda mais a ordem baseada em regras e afastando aliados americanos. Esses passos apontam para uma 'nova desordem mundial', caracterizada por crescente violência e instabilidade."
O fator Master nesta eleição
O Banco Master já é um fator relevante na eleição de 2026. Estará na mente do eleitor. O que houve na última semana não igualou tudo, apenas deu a todos os participantes da peleja eleitoral a chance de entender que a crise provocada pelo banqueiro que queria comprar todo mundo é mais profunda. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, precisa se defender com argumentos que fiquem de pé. O pré-candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, não será salvo pela tese fraca de que era “dinheiro privado”. Daniel Vorcaro assediava autoridades no pressuposto de que o dinheiro público e as leis iriam socorrê-lo. Nunca foi dinheiro privado.
Para entender o caso, é preciso voltar à quadra um: as agências de controle no governo Lula impuseram todas as derrotas que Daniel Vorcaro e seus cúmplices amargaram. O Banco Central recusou o negócio que seria a salvação do Master, a compra pelo BRB. Se a operação fosse permitida, o rombo provocado pela gestão fraudulenta do ex-banqueiro estaria todo no colo do setor público. A direção do BRB, no governo do bolsonarista Ibaneis Rocha, comprou uma carteira do Master. Foi o suficiente para deixar o banco estadual em frangalhos.
O Banco Central vetou o negócio dos sonhos de Vorcaro, identificou indícios de crime na atuação do Master e de má conduta de dois servidores graduados. Entregou tudo ao Ministério Público e afastou os funcionários. Com base nessa notícia-crime, o assunto foi levado à Polícia Federal que tem investigado. Na nona fase, a operação Compliance Zero chegou a Jaques Wagner, mas já havia atingido o senador Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, o ex-governador bolsonarista Cláudio Castro e integrantes da família Bolsonaro na esteira do estranho financiamento ao filme propaganda Dark Horse. O presidente da Câmara, Hugo Motta, teve contas de viagem internacional pagas pelo ex-banqueiro e reagiu: “Não vejo problemas”. Pois é. O problema está em não vê-los.
A Polícia Federal no governo Bolsonaro foi alvo explícito de intervenção do então presidente. Agora tem investigado com autonomia, olhando para todos os lados.
Voltemos a setembro do ano passado. No dia 2, os partidos do Centrão — PP, União Brasil, PL, Republicanos — e o PSB assinaram pedido de urgência para um projeto do PP que dava ao Congresso o poder de demitir dirigentes do Banco Central. Era intimidação. Não funcionou. No dia 3, o Banco Central negou autorização para a compra do Master pelo BRB. No dia 4, o enteado do senador Jaques Wagner disse em conversa com o banqueiro Augusto Lima “Amanhã vence os boletos e são altos”. O sócio de Vorcaro avisou que o cenário estava “crítico" e, segundo a PF, “vinculou a dificuldade financeira ao insucesso da operação Banco Master/BRB”. No dia 8, Flávio Bolsonaro mandou um áudio para Daniel Vorcaro. Solidário e cobrador. “E você eu sei que está passando por um momento dificílimo”… “tem muita parcela para trás, cara, tá todo mundo tenso (…) já tem muita conta para pagar esse mês”.
O negócio que jogaria nos cofres públicos toda a lambança — farras, shows, apartamentos, jatinhos, advogados, extravagâncias em Nova York, Paris, Lisboa, Los Angeles e Courchevel — seria a compra do Master pelo BRB. O Banco Central frustrou a manobra e pagou um preço alto. Enfrentou pressões do Centrão através do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União, e do ministro Dias Toffoli, o primeiro relator do caso.
No capítulo mais recente, mas não o último dessa investigação, o atingido foi o senador Jaques Wagner. O relator, ministro André Mendonça, não avisou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre a operação, mas não aceitou o pedido da Polícia Federal de fazer busca e apreensão no Senado. Wagner, diante das trocas de mensagens que teve com Augusto Lima sobre a compra de um apartamento, disse que teria pedido ao “Guga" para comprar o apartamento que depois ele recompraria. Quem no mundo tem um amigo banqueiro a quem possa pedir a compra provisória de um apartamento? Um detalhe meio novelesco. Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, é casado com Flávia ex-Arruda que foi ministra da secretaria de Governo de Jair Bolsonaro.
O que é o caso Master? Uma chance, uma enorme oportunidade de fixar a fronteira do que é inaceitável nas relações entre autoridades e endinheirados. Isso é o que realmente interessa ao Brasil.
Para entender o caso, é preciso voltar à quadra um: as agências de controle no governo Lula impuseram todas as derrotas que Daniel Vorcaro e seus cúmplices amargaram. O Banco Central recusou o negócio que seria a salvação do Master, a compra pelo BRB. Se a operação fosse permitida, o rombo provocado pela gestão fraudulenta do ex-banqueiro estaria todo no colo do setor público. A direção do BRB, no governo do bolsonarista Ibaneis Rocha, comprou uma carteira do Master. Foi o suficiente para deixar o banco estadual em frangalhos.
O Banco Central vetou o negócio dos sonhos de Vorcaro, identificou indícios de crime na atuação do Master e de má conduta de dois servidores graduados. Entregou tudo ao Ministério Público e afastou os funcionários. Com base nessa notícia-crime, o assunto foi levado à Polícia Federal que tem investigado. Na nona fase, a operação Compliance Zero chegou a Jaques Wagner, mas já havia atingido o senador Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, o ex-governador bolsonarista Cláudio Castro e integrantes da família Bolsonaro na esteira do estranho financiamento ao filme propaganda Dark Horse. O presidente da Câmara, Hugo Motta, teve contas de viagem internacional pagas pelo ex-banqueiro e reagiu: “Não vejo problemas”. Pois é. O problema está em não vê-los.
A Polícia Federal no governo Bolsonaro foi alvo explícito de intervenção do então presidente. Agora tem investigado com autonomia, olhando para todos os lados.
Voltemos a setembro do ano passado. No dia 2, os partidos do Centrão — PP, União Brasil, PL, Republicanos — e o PSB assinaram pedido de urgência para um projeto do PP que dava ao Congresso o poder de demitir dirigentes do Banco Central. Era intimidação. Não funcionou. No dia 3, o Banco Central negou autorização para a compra do Master pelo BRB. No dia 4, o enteado do senador Jaques Wagner disse em conversa com o banqueiro Augusto Lima “Amanhã vence os boletos e são altos”. O sócio de Vorcaro avisou que o cenário estava “crítico" e, segundo a PF, “vinculou a dificuldade financeira ao insucesso da operação Banco Master/BRB”. No dia 8, Flávio Bolsonaro mandou um áudio para Daniel Vorcaro. Solidário e cobrador. “E você eu sei que está passando por um momento dificílimo”… “tem muita parcela para trás, cara, tá todo mundo tenso (…) já tem muita conta para pagar esse mês”.
O negócio que jogaria nos cofres públicos toda a lambança — farras, shows, apartamentos, jatinhos, advogados, extravagâncias em Nova York, Paris, Lisboa, Los Angeles e Courchevel — seria a compra do Master pelo BRB. O Banco Central frustrou a manobra e pagou um preço alto. Enfrentou pressões do Centrão através do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União, e do ministro Dias Toffoli, o primeiro relator do caso.
No capítulo mais recente, mas não o último dessa investigação, o atingido foi o senador Jaques Wagner. O relator, ministro André Mendonça, não avisou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre a operação, mas não aceitou o pedido da Polícia Federal de fazer busca e apreensão no Senado. Wagner, diante das trocas de mensagens que teve com Augusto Lima sobre a compra de um apartamento, disse que teria pedido ao “Guga" para comprar o apartamento que depois ele recompraria. Quem no mundo tem um amigo banqueiro a quem possa pedir a compra provisória de um apartamento? Um detalhe meio novelesco. Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, é casado com Flávia ex-Arruda que foi ministra da secretaria de Governo de Jair Bolsonaro.
O que é o caso Master? Uma chance, uma enorme oportunidade de fixar a fronteira do que é inaceitável nas relações entre autoridades e endinheirados. Isso é o que realmente interessa ao Brasil.
A foto ofusca o filme
Vista como foto, a violência parece diminuir com a redução da maioridade penal; vista como filme, ela pode se agravar. Com base no momento, explica-se a opinião favorável à redução da maioridade penal; mas, vista como filme, sabe-se que essa redução tende a aumentar a criminalidade, porque muitos adolescentes presos cairão nas garras do crime organizado. No longo prazo, o aumento no tempo de permanência na escola tem melhor efeito na segurança pública do que a redução da maioridade penal. Há sessenta anos, Darcy Ribeiro dizia que “se não fizermos escolas hoje, vamos precisar fazer cadeias no futuro”; na época, preferimos a foto ao filme e, agora, repetimos o erro, construindo mais cadeias para novos condenados adolescentes.
Pesquisa recente de opinião sobre as preocupações da população indica que em primeiro lugar está a violência (27%), seguida da corrupção (20%), dos problemas sociais (18%), da saúde (13%), da economia (9%) e, em último lugar, da educação (6%). Essa hierarquia mostra a lucidez da população no momento da pesquisa. Mas, se no lugar da foto fizermos um filme, a ordem se inverte. A luta contra a violência imediata depende da ineficiência do aparato policial e jurídico para reprimir e punir o crime, inclusive de menores de idade — mas também depende da qualidade e universalização da educação básica.
A saúde é muito mais urgente que a educação e depende de saneamento e da atenção médica, mas a pessoa educada cuida melhor da própria saúde e da saúde pública. A desigualdade no acesso à educação provoca ou acirra a desigualdade social, que, por sua vez, pressiona a violência nas ruas como meio de sobrevivência. A corrupção depende da impunidade com os corruptos eleitos, mas há uma correlação direta entre a universalização da educação e a prática política com valores éticos na escolha de prioridades e na conduta dos políticos.
Embora o emprego dependa do crescimento econômico e este dependa da infraestrutura eficiente e da estabilidade jurídica e monetária, sabe-se que a produtividade e a competitividade dependem do grau de educação da população e que uma pessoa educada tem mais chances de conseguir emprego. O desequilíbrio ecológico decorre de um propósito equivocado de crescimento e da falta de regras para um sistema econômico em harmonia com a natureza. Mas o desenvolvimento sustentável depende, sobretudo, de uma mudança de mentalidade proporcionada pela educação. A soberania precisa de Forças Armadas preparadas, mas, em sua base, está o povo educado. É difícil haver soberania efetiva com população despreparada e até incapaz de reconhecer a inscrição “Ordem e Progresso” na bandeira nacional.
Cada problema depende de outros fatores — o atraso científico e tecnológico decorre da falta de qualidade do ensino superior e da estabilidade no financiamento de pesquisas; a instabilidade democrática decorre da falta de solidez das instituições; o combate à pobreza depende de transferências de renda e da estabilidade monetária — mas a solução para esses problemas requer também educação para todos. Quando conhecemos a história, percebemos que a ausência da educação está na origem e na continuidade de todos os problemas.
Pesquisa recente de opinião sobre as preocupações da população indica que em primeiro lugar está a violência (27%), seguida da corrupção (20%), dos problemas sociais (18%), da saúde (13%), da economia (9%) e, em último lugar, da educação (6%). Essa hierarquia mostra a lucidez da população no momento da pesquisa. Mas, se no lugar da foto fizermos um filme, a ordem se inverte. A luta contra a violência imediata depende da ineficiência do aparato policial e jurídico para reprimir e punir o crime, inclusive de menores de idade — mas também depende da qualidade e universalização da educação básica.
A saúde é muito mais urgente que a educação e depende de saneamento e da atenção médica, mas a pessoa educada cuida melhor da própria saúde e da saúde pública. A desigualdade no acesso à educação provoca ou acirra a desigualdade social, que, por sua vez, pressiona a violência nas ruas como meio de sobrevivência. A corrupção depende da impunidade com os corruptos eleitos, mas há uma correlação direta entre a universalização da educação e a prática política com valores éticos na escolha de prioridades e na conduta dos políticos.
Embora o emprego dependa do crescimento econômico e este dependa da infraestrutura eficiente e da estabilidade jurídica e monetária, sabe-se que a produtividade e a competitividade dependem do grau de educação da população e que uma pessoa educada tem mais chances de conseguir emprego. O desequilíbrio ecológico decorre de um propósito equivocado de crescimento e da falta de regras para um sistema econômico em harmonia com a natureza. Mas o desenvolvimento sustentável depende, sobretudo, de uma mudança de mentalidade proporcionada pela educação. A soberania precisa de Forças Armadas preparadas, mas, em sua base, está o povo educado. É difícil haver soberania efetiva com população despreparada e até incapaz de reconhecer a inscrição “Ordem e Progresso” na bandeira nacional.
Cada problema depende de outros fatores — o atraso científico e tecnológico decorre da falta de qualidade do ensino superior e da estabilidade no financiamento de pesquisas; a instabilidade democrática decorre da falta de solidez das instituições; o combate à pobreza depende de transferências de renda e da estabilidade monetária — mas a solução para esses problemas requer também educação para todos. Quando conhecemos a história, percebemos que a ausência da educação está na origem e na continuidade de todos os problemas.
Master: extrema direita se anima com corrupção da esquerda
Quem sobra para criticar Estado tomado por corruptos, facções e orcrims empresariais?
As corrupções da política ainda vão ser tema relevante da campanha para presidente? A imundície está tão espalhada que dificilmente haverá flagrante grandioso o suficiente para tirar o país da resignação com a sujeira.
Não se trata de dizer que todo mundo é corrupto ou que todas as turmas políticas contem com corruptos de igual grandeza. Mas há rolo bastante para que candidaturas relevantes se joguem imundícies umas nas outras, em particular pelas redes. Sendo assim, as campanhas talvez deixem o assunto para lá. Será o consenso da podridão.
O lamento não é udenismo, lavajatismo ou demagogia picareta que o valha. Governos do país apodrecem rapidamente, o crime chegou ao poder em alguns estados, entramos na rota de sermos um Estado fracassado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perdeu quantidade de pontos importantes, longe de letal, quando foi pego pedinchando dinheiro a Daniel Vorcaro e por ter mentido sem parar sobre seu caso de amor fraterno com o gangster. Mumunhas e delinquências recentes de sua família, como as do irmão Eduardo, não fizeram estrago maior.
A ficha corrida de Flávio e família poderia reemergir na campanha eleitoral. Os tropeços levaram até gente aliada da direita a plantar em jornais que se estuda alternativa à candidatura Flávio. Com imundície generalizada, as mutretas ainda vão fazer diferença, ameaçar candidaturas?
O senador Jaques Wagner (PT-BA) não é candidato a presidente. Apesar de amigão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-ministro de governos petistas e líder do governo no Senado, mal é conhecido fora da Bahia. A Polícia Federal acaba de tirar uns pedaços de corpos de gavetas de Wagner. Não se compara às covas coletivas dos Bolsonaro. Nem mesmo ao caso do também senador Ciro Nogueira (PP-PI), teúdo e manteúdo de Vorcaro, ex-ministro de Jair Bolsonaro e que até o início do ano queria ser vice de Flávio. Não refresca para Wagner.
O senador petista alega que ajudava a filha a comprar um apartamento, pedindo, digamos, uma espécie de empréstimo-ponte a um sujeito da turma de Vorcaro. Que fosse apenas isso. Imagine-se gente comum (e com alguma sorte na vida), que junta dinheiro de trabalho, vende carro e pede empréstimo a banco para comprar casa. O que vai achar? E quem não tem nada?
No mínimo, Wagner e pares preferem dever favor à ralé endinheirada, pegam carona em jatinho e confraternizam com escroques naquelas cafajestadas cafonas e arrivistas de fumar charuto e tomar uísque. Sim, isso é fichinha. Vide como o Congresso aprova medidas destrutivas da economia nacional, dando dezenas de bilhões a empresários suspeitos do setor elétrico, como está para fazer de novo. Quanto vai custar? Bem mais do que um charuto.
Há muito cadáver para sair do armário da corrupção. Política e Estado apodrecem sem parar. Afora policiais e promotores, pouca gente mais liga para o desastre do Rio de Janeiro. A Assembleia Legislativa do estado (Alerj) estava infiltrada até a cúpula por facções, como Comando Vermelho ou Terceiro Comando. Quem mandava na Alerj e no governo era a turma do PL e aliados, turma de Flávio Bolsonaro.
No entanto, no mínimo, Wagner entrou em uma barca do inferno de Vorcaro. A extrema direita, que ganhou força também por velhas corrupções petistas, pode agora pensar em empatar o jogo da imundície ao menos no campo virtual. Se está todo mundo na lama ou assim parece, não é por aí que o eleitorado vai se decidir.
Vinicius Torres Freire
As corrupções da política ainda vão ser tema relevante da campanha para presidente? A imundície está tão espalhada que dificilmente haverá flagrante grandioso o suficiente para tirar o país da resignação com a sujeira.
Não se trata de dizer que todo mundo é corrupto ou que todas as turmas políticas contem com corruptos de igual grandeza. Mas há rolo bastante para que candidaturas relevantes se joguem imundícies umas nas outras, em particular pelas redes. Sendo assim, as campanhas talvez deixem o assunto para lá. Será o consenso da podridão.
O lamento não é udenismo, lavajatismo ou demagogia picareta que o valha. Governos do país apodrecem rapidamente, o crime chegou ao poder em alguns estados, entramos na rota de sermos um Estado fracassado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perdeu quantidade de pontos importantes, longe de letal, quando foi pego pedinchando dinheiro a Daniel Vorcaro e por ter mentido sem parar sobre seu caso de amor fraterno com o gangster. Mumunhas e delinquências recentes de sua família, como as do irmão Eduardo, não fizeram estrago maior.
A ficha corrida de Flávio e família poderia reemergir na campanha eleitoral. Os tropeços levaram até gente aliada da direita a plantar em jornais que se estuda alternativa à candidatura Flávio. Com imundície generalizada, as mutretas ainda vão fazer diferença, ameaçar candidaturas?
O senador Jaques Wagner (PT-BA) não é candidato a presidente. Apesar de amigão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-ministro de governos petistas e líder do governo no Senado, mal é conhecido fora da Bahia. A Polícia Federal acaba de tirar uns pedaços de corpos de gavetas de Wagner. Não se compara às covas coletivas dos Bolsonaro. Nem mesmo ao caso do também senador Ciro Nogueira (PP-PI), teúdo e manteúdo de Vorcaro, ex-ministro de Jair Bolsonaro e que até o início do ano queria ser vice de Flávio. Não refresca para Wagner.
O senador petista alega que ajudava a filha a comprar um apartamento, pedindo, digamos, uma espécie de empréstimo-ponte a um sujeito da turma de Vorcaro. Que fosse apenas isso. Imagine-se gente comum (e com alguma sorte na vida), que junta dinheiro de trabalho, vende carro e pede empréstimo a banco para comprar casa. O que vai achar? E quem não tem nada?
No mínimo, Wagner e pares preferem dever favor à ralé endinheirada, pegam carona em jatinho e confraternizam com escroques naquelas cafajestadas cafonas e arrivistas de fumar charuto e tomar uísque. Sim, isso é fichinha. Vide como o Congresso aprova medidas destrutivas da economia nacional, dando dezenas de bilhões a empresários suspeitos do setor elétrico, como está para fazer de novo. Quanto vai custar? Bem mais do que um charuto.
Há muito cadáver para sair do armário da corrupção. Política e Estado apodrecem sem parar. Afora policiais e promotores, pouca gente mais liga para o desastre do Rio de Janeiro. A Assembleia Legislativa do estado (Alerj) estava infiltrada até a cúpula por facções, como Comando Vermelho ou Terceiro Comando. Quem mandava na Alerj e no governo era a turma do PL e aliados, turma de Flávio Bolsonaro.
No entanto, no mínimo, Wagner entrou em uma barca do inferno de Vorcaro. A extrema direita, que ganhou força também por velhas corrupções petistas, pode agora pensar em empatar o jogo da imundície ao menos no campo virtual. Se está todo mundo na lama ou assim parece, não é por aí que o eleitorado vai se decidir.
Vinicius Torres Freire
Insônia e dor de cabeça são o custo implacável e invisível dos data centers de IA
O batimento cardíaco da economia da inteligência artificial soa como o zumbido de baixa frequência de um aparelho central de ar-condicionado do vizinho, um avião voando em grande altitude ou o motor de um caminhão funcionando em marcha lenta na estrada.
Mas a sensação é a de uma pulsação vibrante e rítmica de um subwoofer (tipo de alto-falante) vindo de uma festa que nunca termina. Sim, a nuvem tem um som, e algumas das pessoas que vivem mais perto dos data centers que emitem esse ruído chegaram ao limite de sua paciência tentando bloqueá-lo.
Mês passado, moradores de três pequenas cidades entraram com processos contra data centers especificamente por causa do barulho.
Os Estados Unidos possuem mais de 3 mil data centers em operação e outros 1.500 em desenvolvimento, segundo uma análise do Centro de Pesquisas Pew. Eles têm sido a espinha dorsal da economia da informação por décadas, operando em grande parte nos bastidores da vida cotidiana.
As demandas da inteligência artificial(IA), de quantidades muito maiores de poder computacional e infraestrutura de refrigeração, provocaram uma explosão na construção de novos data centers.
Hoje, quase 40% das residências estão localizadas a menos de 8 quilômetros de pelo menos um centro de dados em funcionamento, segundo o Pew, e cada vez mais deles estão se aproximando das áreas residenciais.
O zumbido dos sistemas de refrigeração, o ronco dos geradores e o ruído das ventoinhas podem ser ouvidos — e sentidos — a centenas de metros de distância e até meso a mais de um quilômetro.
— A pegada acústica é simplesmente diferente em ordens de magnitude —disse Les Blomberg, diretor executivo da organização sem fins lucrativos Noise Pollution Clearinghouse.
Parte desse ruído consiste em infrassom, ondas sonoras de frequência extremamente baixa que ficam abaixo do limiar da audição humana.
Em vez de ouvirem essas frequências muito baixas, as pessoas as sentem fisicamente com flutuações de pressão, semelhantes à vibração profunda de batidão sacudindo o corpo durante um show, explicou Scott Hamilton, membro da Sociedade Acústica da América e consultor em projetos de centros de dados.
Isso pode fazer com que os indicadores tradicionais de ruído e as soluções para atenuá-lo se mostrem inadequados para atender às necessidades modernas.
Moradores que vivem próximos a fontes de infrassom frequentemente relatam privação crônica de sono e insônia, dores de cabeça, pressão interna nos ouvidos e ansiedade.
Muitas vezes, a legislação não ajuda.
A poluição sonora é regulamentada em nível local por uma complexa rede de leis de zoneamento, originalmente elaboradas para lidar com festas barulhentas, cães latindo ou ruídos de construção, e não com o zumbido industrial constante de um centro de dados funcionando 24 horas por dia.
Também não há muito amparo em nível federal, porque o governo Reagan retirou o financiamento do Escritório de Controle e Redução de Ruído da Agência de Proteção Ambiental (EPA) no início da década de 1980.
Embora existam regulamentações, “não há ninguém na EPA efetivamente encarregado de aplicá-las”, disse Richard Neitzel, professor de ciências da saúde ambiental da Universidade de Michigan.
— Eles usaram esse escritório como exemplo de excesso regulatório, como se o governo não tivesse o direito de me dizer quão barulhento meu cortador de grama pode ser — afirmou.
Agora, os moradores estão tentando preencher essa lacuna regulatória.
Os três processos argumentam que, embora os data centers geralmente cumpram os códigos básicos de zoneamento, o zumbido constante e as vibrações causam desvalorização significativa dos imóveis e a perda do direito ao sossego dos proprietários vizinhos.
Os autores das ações querem indenizações pelos danos e também obrigar as empresas a melhorar as medidas de controle de ruído.
Em Vineland, Nova Jersey, um grupo de proprietários entrou com uma ação na Justiça Federal motivado, em parte, pelo receio de que ainda mais ruído esteja por vir.
— Há um ruído constante de máquinas funcionando, que é mais perceptível à noite quando tentamos dormir — declarou Stefanie Bartiromo, moradora da região, referindo-se às três salas de servidores já em operação, segundo o processo. — Parece um helicóptero que nunca sai do lugar e, às vezes, um caminhão pesado funcionando sem parar.
A ação foi movida contra a DataOne USA, que está expandindo seu campus em Vineland. Quando concluído, o complexo da empresa terá cerca de 241 mil metros quadrados e exigirá 300 megawatts de energia, o suficiente para abastecer uma cidade de porte médio.
A DataOne afirmou que já adotou medidas para reduzir o ruído e que continuará fazendo isso à medida que a expansão for concluída.
"Continuamos comprometidos com um diálogo construtivo e com o papel de membro valioso e responsável da comunidade a longo prazo", disse um porta-voz da empresa em comunicado.
A companhia afirmou que pretende gerar empregos e impulsionar a economia local. O mesmo argumento econômico foi apresentado pelas outras empresas processadas por causa do ruído, anos depois de terem reaproveitado antigos terrenos industriais em Dowagiac, Michigan, e Lowell, Massachusetts.
Moradores de Dowagiac vinham reclamando de um data center de 30 megawatts instalado em um prédio que anteriormente era usado principalmente para armazenar barcos e veículos recreativos.
A proprietária do data center, Alliance Cloud Services, comprou recentemente mais 50 acres de área florestal, pois planeja ampliar sua capacidade de consumo de energia de 30 para 300 megawatts. Parte dessa área servirá como uma barreira natural contra os impactos do empreendimento, segundo a empresa.
Para combater o ruído, o setor está migrando para sistemas de refrigeração líquida. Em vez de utilizar ventiladores barulhentos para impulsionar o ar, os servidores são submersos em fluidos especiais não condutores ou equipados com placas frias refrigeradas por líquido instaladas sobre os processadores que geram calor.
Isso pode reduzir o ruído de um centro de dados em mais de 50%, mas o custo de instalação é muito maior.
Dowagiac, uma cidade de 5.700 habitantes, possuía uma lei geral sobre ruídos, como muitas comunidades, mas recentemente estabeleceu limites de decibéis para o ruído ambiente em zonas residenciais, comerciais e industriais.
A maioria das comunidades define seus padrões utilizando a escala de decibéis ponderada em A, projetada para imitar a audição humana em ambientes silenciosos e que reduz significativamente — ou ignora — sons de baixa frequência emitidos pelos data centers, segundo especialistas.
Já a escala ponderada em C foi criada para captar ruídos de baixa frequência.
Essa distinção é especialmente importante ao medir o ruído de data centers, dominado por zumbidos de baixa frequência produzidos por enormes ventiladores de equipamentos de refrigeração, explicou Neitzel.
Como consequência, afirmou Blomberg, uma fonte sonora que claramente domina a percepção auditiva de uma pessoa pode não ser registrada como um problema em um medidor de decibéis convencional.
O CEO da Hyperscale Data, empresa controladora da Alliance, afirmou que suas operações estão dentro dos limites de decibéis permitidos pela cidade e que utilizam sistemas que minimizam o consumo de energia.
O executivo, William B. Horne, disse que participaria de uma reunião do conselho municipal para conversar com os moradores e ressaltou seu compromisso em ser um parceiro confiável.
— Ofereceríamos comprar essas propriedades pelo valor de mercado e fornecer um subsídio para ajudar a cobrir os custos da mudança — afirmou, referindo-se aos residentes que vivem ao lado do centro de dados.
O cerne do problema, segundo Neitzel, é que muitas fontes tradicionais de ruído comunitário — como aeroportos e rodovias — tendem a diminuir de intensidade durante a noite.
Não é o caso dos data centers. Em Lowell, Diana Streete afirmou que o ruído “interfere regularmente na capacidade da minha família de dormir, descansar, relaxar e aproveitar confortavelmente nossa casa”.
— Os quartos dos meus filhos ficam voltados para a área de entrada, onde circulam caminhões e ocorrem atividades da instalação, o que torna o ruído especialmente perturbador — disse.
Lowell, uma cidade de 115 mil habitantes, foi fundada como um polo têxtil no século XIX, mas suas fábricas fecharam no início do século XX. O local onde hoje funciona o data center abrigou anteriormente a Lowell Bleachery and Dye Works e, posteriormente, durante seis décadas, a fábrica da Prince Spaghetti.
O data center, com cerca de 32,5 mil metros quadrados, fica ao lado de residências e instalações recreativas, incluindo um parque e um campo de beisebol.
Sua proprietária, a Markley, afirmou que o complexo sustenta a infraestrutura digital de órgãos de segurança pública, universidades, hospitais locais e outras instituições regionais.
Trata-se de um data center de colocalização, uma instalação compartilhada onde várias empresas alugam espaço para abrigar seus equipamentos computacionais. Isso é diferente dos data centers de hiperescala, construídos para atender às necessidades de grandes empresas globais de tecnologia.
Um porta-voz da Markley afirmou que os geradores são testados semanalmente e que o som produzido permanece dentro dos limites estabelecidos.
Hamilton observou que existe uma ampla variedade de sons e, igualmente ampla, é a forma como as pessoas os percebem. Segundo ele, os padrões atuais são desenvolvidos para a pessoa comum.
— Mas, quando você trabalha tempo suficiente nessa área, acaba encontrando — ou experimentando — pessoas ultrassensíveis — disse Hamilton. — Essas pessoas realmente percebem sons, vibrações e intensidades que o ser humano médio considera irrelevantes e pensa: "Isso não é um problema, não sei do que você está falando". Mas elas são genuinamente atormentadas por isso.
Mas a sensação é a de uma pulsação vibrante e rítmica de um subwoofer (tipo de alto-falante) vindo de uma festa que nunca termina. Sim, a nuvem tem um som, e algumas das pessoas que vivem mais perto dos data centers que emitem esse ruído chegaram ao limite de sua paciência tentando bloqueá-lo.
Mês passado, moradores de três pequenas cidades entraram com processos contra data centers especificamente por causa do barulho.
Amazon consumiu 273,3 milhões de litros de água em 2025 no Brasil, mas defende que economiza mais que os concorrentes
Os Estados Unidos possuem mais de 3 mil data centers em operação e outros 1.500 em desenvolvimento, segundo uma análise do Centro de Pesquisas Pew. Eles têm sido a espinha dorsal da economia da informação por décadas, operando em grande parte nos bastidores da vida cotidiana.
As demandas da inteligência artificial(IA), de quantidades muito maiores de poder computacional e infraestrutura de refrigeração, provocaram uma explosão na construção de novos data centers.
Hoje, quase 40% das residências estão localizadas a menos de 8 quilômetros de pelo menos um centro de dados em funcionamento, segundo o Pew, e cada vez mais deles estão se aproximando das áreas residenciais.
O zumbido dos sistemas de refrigeração, o ronco dos geradores e o ruído das ventoinhas podem ser ouvidos — e sentidos — a centenas de metros de distância e até meso a mais de um quilômetro.
— A pegada acústica é simplesmente diferente em ordens de magnitude —disse Les Blomberg, diretor executivo da organização sem fins lucrativos Noise Pollution Clearinghouse.
Parte desse ruído consiste em infrassom, ondas sonoras de frequência extremamente baixa que ficam abaixo do limiar da audição humana.
Em vez de ouvirem essas frequências muito baixas, as pessoas as sentem fisicamente com flutuações de pressão, semelhantes à vibração profunda de batidão sacudindo o corpo durante um show, explicou Scott Hamilton, membro da Sociedade Acústica da América e consultor em projetos de centros de dados.
Isso pode fazer com que os indicadores tradicionais de ruído e as soluções para atenuá-lo se mostrem inadequados para atender às necessidades modernas.
Moradores que vivem próximos a fontes de infrassom frequentemente relatam privação crônica de sono e insônia, dores de cabeça, pressão interna nos ouvidos e ansiedade.
Muitas vezes, a legislação não ajuda.
A poluição sonora é regulamentada em nível local por uma complexa rede de leis de zoneamento, originalmente elaboradas para lidar com festas barulhentas, cães latindo ou ruídos de construção, e não com o zumbido industrial constante de um centro de dados funcionando 24 horas por dia.
Também não há muito amparo em nível federal, porque o governo Reagan retirou o financiamento do Escritório de Controle e Redução de Ruído da Agência de Proteção Ambiental (EPA) no início da década de 1980.
Embora existam regulamentações, “não há ninguém na EPA efetivamente encarregado de aplicá-las”, disse Richard Neitzel, professor de ciências da saúde ambiental da Universidade de Michigan.
— Eles usaram esse escritório como exemplo de excesso regulatório, como se o governo não tivesse o direito de me dizer quão barulhento meu cortador de grama pode ser — afirmou.
Agora, os moradores estão tentando preencher essa lacuna regulatória.
Os três processos argumentam que, embora os data centers geralmente cumpram os códigos básicos de zoneamento, o zumbido constante e as vibrações causam desvalorização significativa dos imóveis e a perda do direito ao sossego dos proprietários vizinhos.
Os autores das ações querem indenizações pelos danos e também obrigar as empresas a melhorar as medidas de controle de ruído.
Em Vineland, Nova Jersey, um grupo de proprietários entrou com uma ação na Justiça Federal motivado, em parte, pelo receio de que ainda mais ruído esteja por vir.
— Há um ruído constante de máquinas funcionando, que é mais perceptível à noite quando tentamos dormir — declarou Stefanie Bartiromo, moradora da região, referindo-se às três salas de servidores já em operação, segundo o processo. — Parece um helicóptero que nunca sai do lugar e, às vezes, um caminhão pesado funcionando sem parar.
A ação foi movida contra a DataOne USA, que está expandindo seu campus em Vineland. Quando concluído, o complexo da empresa terá cerca de 241 mil metros quadrados e exigirá 300 megawatts de energia, o suficiente para abastecer uma cidade de porte médio.
A DataOne afirmou que já adotou medidas para reduzir o ruído e que continuará fazendo isso à medida que a expansão for concluída.
"Continuamos comprometidos com um diálogo construtivo e com o papel de membro valioso e responsável da comunidade a longo prazo", disse um porta-voz da empresa em comunicado.
A companhia afirmou que pretende gerar empregos e impulsionar a economia local. O mesmo argumento econômico foi apresentado pelas outras empresas processadas por causa do ruído, anos depois de terem reaproveitado antigos terrenos industriais em Dowagiac, Michigan, e Lowell, Massachusetts.
Moradores de Dowagiac vinham reclamando de um data center de 30 megawatts instalado em um prédio que anteriormente era usado principalmente para armazenar barcos e veículos recreativos.
A proprietária do data center, Alliance Cloud Services, comprou recentemente mais 50 acres de área florestal, pois planeja ampliar sua capacidade de consumo de energia de 30 para 300 megawatts. Parte dessa área servirá como uma barreira natural contra os impactos do empreendimento, segundo a empresa.
Para combater o ruído, o setor está migrando para sistemas de refrigeração líquida. Em vez de utilizar ventiladores barulhentos para impulsionar o ar, os servidores são submersos em fluidos especiais não condutores ou equipados com placas frias refrigeradas por líquido instaladas sobre os processadores que geram calor.
Isso pode reduzir o ruído de um centro de dados em mais de 50%, mas o custo de instalação é muito maior.
Dowagiac, uma cidade de 5.700 habitantes, possuía uma lei geral sobre ruídos, como muitas comunidades, mas recentemente estabeleceu limites de decibéis para o ruído ambiente em zonas residenciais, comerciais e industriais.
A maioria das comunidades define seus padrões utilizando a escala de decibéis ponderada em A, projetada para imitar a audição humana em ambientes silenciosos e que reduz significativamente — ou ignora — sons de baixa frequência emitidos pelos data centers, segundo especialistas.
Já a escala ponderada em C foi criada para captar ruídos de baixa frequência.
Essa distinção é especialmente importante ao medir o ruído de data centers, dominado por zumbidos de baixa frequência produzidos por enormes ventiladores de equipamentos de refrigeração, explicou Neitzel.
Como consequência, afirmou Blomberg, uma fonte sonora que claramente domina a percepção auditiva de uma pessoa pode não ser registrada como um problema em um medidor de decibéis convencional.
O CEO da Hyperscale Data, empresa controladora da Alliance, afirmou que suas operações estão dentro dos limites de decibéis permitidos pela cidade e que utilizam sistemas que minimizam o consumo de energia.
O executivo, William B. Horne, disse que participaria de uma reunião do conselho municipal para conversar com os moradores e ressaltou seu compromisso em ser um parceiro confiável.
— Ofereceríamos comprar essas propriedades pelo valor de mercado e fornecer um subsídio para ajudar a cobrir os custos da mudança — afirmou, referindo-se aos residentes que vivem ao lado do centro de dados.
O cerne do problema, segundo Neitzel, é que muitas fontes tradicionais de ruído comunitário — como aeroportos e rodovias — tendem a diminuir de intensidade durante a noite.
Não é o caso dos data centers. Em Lowell, Diana Streete afirmou que o ruído “interfere regularmente na capacidade da minha família de dormir, descansar, relaxar e aproveitar confortavelmente nossa casa”.
— Os quartos dos meus filhos ficam voltados para a área de entrada, onde circulam caminhões e ocorrem atividades da instalação, o que torna o ruído especialmente perturbador — disse.
Lowell, uma cidade de 115 mil habitantes, foi fundada como um polo têxtil no século XIX, mas suas fábricas fecharam no início do século XX. O local onde hoje funciona o data center abrigou anteriormente a Lowell Bleachery and Dye Works e, posteriormente, durante seis décadas, a fábrica da Prince Spaghetti.
O data center, com cerca de 32,5 mil metros quadrados, fica ao lado de residências e instalações recreativas, incluindo um parque e um campo de beisebol.
Sua proprietária, a Markley, afirmou que o complexo sustenta a infraestrutura digital de órgãos de segurança pública, universidades, hospitais locais e outras instituições regionais.
Trata-se de um data center de colocalização, uma instalação compartilhada onde várias empresas alugam espaço para abrigar seus equipamentos computacionais. Isso é diferente dos data centers de hiperescala, construídos para atender às necessidades de grandes empresas globais de tecnologia.
Um porta-voz da Markley afirmou que os geradores são testados semanalmente e que o som produzido permanece dentro dos limites estabelecidos.
Hamilton observou que existe uma ampla variedade de sons e, igualmente ampla, é a forma como as pessoas os percebem. Segundo ele, os padrões atuais são desenvolvidos para a pessoa comum.
— Mas, quando você trabalha tempo suficiente nessa área, acaba encontrando — ou experimentando — pessoas ultrassensíveis — disse Hamilton. — Essas pessoas realmente percebem sons, vibrações e intensidades que o ser humano médio considera irrelevantes e pensa: "Isso não é um problema, não sei do que você está falando". Mas elas são genuinamente atormentadas por isso.
sábado, 20 de junho de 2026
Para que queremos a realidade se a simulação rende mais?
A entrada da SpaceX na bolsa de valores, com a consequente ascensão de Elon Musk ao pináculo dos milionários (ultrapassando a barreira do “trillion” de dólares, na contagem americana), quase em simultâneo com o anúncio, em tom vitorioso, de Donald Trump em relação a um acordo de cessar-fogo com o Irão, são dois episódios aparentemente sem conexão um com o outro. Mas partilham a mesma origem: a substituição da realidade material pela supremacia da narrativa.
Claro que Elon Musk é absolutamente rico e agora até ficou incrivelmente mais rico. Mas o recente salto na sua fortuna não se ficou a dever às leis normais da economia, aquelas que regeram as nossas vidas no último século. Nem à entrada de uma montanha de investidores no capital da SpaceX justificada pelos resultados da companhia que quer criar uma colónia em Marte. Afinal, as contas oficiais indicam que a empresa espacial fechou o último o ano com um prejuízo líquido de 4,9 mil milhões de dólares – um valor que seria suficiente para fazer qualquer um entrar na lista dos bilionários da Forbes. E outros 4,3 mil milhões de dólares foram dados como perdidos pela companhia só no primeiro trimestre deste ano.
O que o êxito bolsista de Elon Musk demonstra é que vivemos no tempo em que já não se liga ao presente e apenas se joga com a ilusão do futuro. Quem ganha não é obrigatoriamente quem obtém os melhores resultados, mas aqueles que conseguem desenvolver uma narrativa ilusória, que promete muitos lucros no futuro.
Os ingredientes estão todos reunidos para essa simulação: o poder pertence a quem controlar as grandes tecnológicas, a quem conseguir chegar primeiro ao domínio da Inteligência Artificial, a quem for capaz de manipular tudo e todos. Ainda por cima, sem precisarem de ser eleitos e ficarem, por isso, quase imunes ao controlo e à regulação democrática.
Esta riqueza acumulada em bolsa tem um efeito perverso inevitável: mesmo que seja artificialmente, a SpaceX passou a ser uma das empresas mais valorizadas e, como tal, alvo da cobiça dos investidores – mesmo dos que podem não acreditar em Elon Musk, mas que precisam, igualmente, de dividendos, nem que seja através da especulação de curto prazo.
Com os resultados que se conhecem. E, depois de Musk, vamos assistir à erupção de uma nova vaga de multimilionários, de uma dimensão nunca vista, mas que Salman Rushdie sintetiza de forma genial no seu último livro: “Ricos-ricos a valer, para a qual ‘rico’ é uma palavra demasiado pobre.”
O filme está à vista de todos, mesmo dos que optam por fechar os olhos: os muito ricos estão a tornar-se ainda mais ricos, a uma velocidade muito superior àquela que deixa os muitos pobres um bocadinho menos pobres.
No tabuleiro geopolítico, Donald Trump opera sob a mesma lógica de Musk, mas substitui as ações da bolsa por capital político. Só isso explica que, depois iniciar um conflito armado com o Irão, em fevereiro, sob a promessa de uma “rendição incondicional” e do colapso do regime de Teerão, tenha sido agora obrigado a aceitar uma espécie de acordo de paz – sujeito ainda a 60 dias de negociações… − que ele apresenta como uma grande vitória da Casa Branca e da sua particular “arte” para o negócio.
São estas as duas faces da moeda que começa a ser usada nos negócios e na política – e, nós por cá, embora num patamar muito inferior, estamos também repletos de exemplos e de estratégias que valorizam muito mais a simulação do que a realidade.
O que os últimos dias revelam é que uma empresa que acumula prejuízos pode valer muitos milhões, graças a um líder capaz de se “vender” como génio da ficção científica, além de fazer todos os “jogos sujos” que lhe ocorrerem – já que ninguém tenta detê-lo. Por outro lado, dentro do mesmo nível de embuste de discursos virados exclusivamente para os seus apoiantes fiéis, o líder da nação mais poderosa consegue transformar um recuo geopolítico humilhante num troféu de paz. Um ignora as regras básicas da economia, o outro ignora qualquer noção de ética política. É nisto que estamos: quem controla a ficção também pode controlar o mundo. E só agora começou…
Claro que Elon Musk é absolutamente rico e agora até ficou incrivelmente mais rico. Mas o recente salto na sua fortuna não se ficou a dever às leis normais da economia, aquelas que regeram as nossas vidas no último século. Nem à entrada de uma montanha de investidores no capital da SpaceX justificada pelos resultados da companhia que quer criar uma colónia em Marte. Afinal, as contas oficiais indicam que a empresa espacial fechou o último o ano com um prejuízo líquido de 4,9 mil milhões de dólares – um valor que seria suficiente para fazer qualquer um entrar na lista dos bilionários da Forbes. E outros 4,3 mil milhões de dólares foram dados como perdidos pela companhia só no primeiro trimestre deste ano.
O que o êxito bolsista de Elon Musk demonstra é que vivemos no tempo em que já não se liga ao presente e apenas se joga com a ilusão do futuro. Quem ganha não é obrigatoriamente quem obtém os melhores resultados, mas aqueles que conseguem desenvolver uma narrativa ilusória, que promete muitos lucros no futuro.
Os ingredientes estão todos reunidos para essa simulação: o poder pertence a quem controlar as grandes tecnológicas, a quem conseguir chegar primeiro ao domínio da Inteligência Artificial, a quem for capaz de manipular tudo e todos. Ainda por cima, sem precisarem de ser eleitos e ficarem, por isso, quase imunes ao controlo e à regulação democrática.
Esta riqueza acumulada em bolsa tem um efeito perverso inevitável: mesmo que seja artificialmente, a SpaceX passou a ser uma das empresas mais valorizadas e, como tal, alvo da cobiça dos investidores – mesmo dos que podem não acreditar em Elon Musk, mas que precisam, igualmente, de dividendos, nem que seja através da especulação de curto prazo.
Com os resultados que se conhecem. E, depois de Musk, vamos assistir à erupção de uma nova vaga de multimilionários, de uma dimensão nunca vista, mas que Salman Rushdie sintetiza de forma genial no seu último livro: “Ricos-ricos a valer, para a qual ‘rico’ é uma palavra demasiado pobre.”
O filme está à vista de todos, mesmo dos que optam por fechar os olhos: os muito ricos estão a tornar-se ainda mais ricos, a uma velocidade muito superior àquela que deixa os muitos pobres um bocadinho menos pobres.
No tabuleiro geopolítico, Donald Trump opera sob a mesma lógica de Musk, mas substitui as ações da bolsa por capital político. Só isso explica que, depois iniciar um conflito armado com o Irão, em fevereiro, sob a promessa de uma “rendição incondicional” e do colapso do regime de Teerão, tenha sido agora obrigado a aceitar uma espécie de acordo de paz – sujeito ainda a 60 dias de negociações… − que ele apresenta como uma grande vitória da Casa Branca e da sua particular “arte” para o negócio.
São estas as duas faces da moeda que começa a ser usada nos negócios e na política – e, nós por cá, embora num patamar muito inferior, estamos também repletos de exemplos e de estratégias que valorizam muito mais a simulação do que a realidade.
O que os últimos dias revelam é que uma empresa que acumula prejuízos pode valer muitos milhões, graças a um líder capaz de se “vender” como génio da ficção científica, além de fazer todos os “jogos sujos” que lhe ocorrerem – já que ninguém tenta detê-lo. Por outro lado, dentro do mesmo nível de embuste de discursos virados exclusivamente para os seus apoiantes fiéis, o líder da nação mais poderosa consegue transformar um recuo geopolítico humilhante num troféu de paz. Um ignora as regras básicas da economia, o outro ignora qualquer noção de ética política. É nisto que estamos: quem controla a ficção também pode controlar o mundo. E só agora começou…
Copa do Mundo como gatilho para o vício em apostas
A Copa do Mundo é um dos maiores eventos esportivos do planeta. Durante os 39 dias, 48 seleções se enfrentarão. A competição se torna assunto de milhões de pessoas e o que não faltam são palpites. O bolão entre amigos, a aposta valendo cerveja no bar e, cada vez mais, as plataformas de apostas, as chamadas bets.
E as bets têm se mostrado uma presença incessante. As marcas estão presentes em comerciais durante as partidas, patrocinam programas esportivos, jogadores, influenciadores digitais e campanhas nas redes sociais.
Embora pareçam uma versão digital dos conhecidos bolões, as apostas online durante a Copa do Mundo preocupam especialistas em saúde mental. Eles alertam que esse cenário pode representar um gatilho importante para pessoas que sofrem com ludopatia, também conhecido como transtorno do jogo.
Essa preocupação se justifica. Pesquisa da empresa Kantar aponta que sete em cada dez brasileiros pretendem acompanhar a competição. Além da transmissão clássica, os torcedores buscam outros conteúdos sobre o campeonato como notícias (68%), memes e redes sociais (50%), vídeos de melhores momentos (38%) estatísticas e análises (32%).
Os dados mostram também que 37% dos brasileiros pretendem fazer apostas em bets durante o Mundial. Entre os tipos de aposta preferidos estão resultado das partidas (51%), número de gols (26%), campeão da Copa (18%), lances específicos (10%) e no artilheiro (8%).
Há um aumento expressivo da exposição aos jogos, às campanhas publicitárias das casas de apostas e às conversas sobre o tema.
Esse ambiente pode reativar o desejo de apostar, especialmente em indivíduos que ainda apresentam vulnerabilidade ao comportamento compulsivo. Além disso, o clima de entusiasmo coletivo pode reduzir a percepção de risco e favorecer decisões impulsivas", explica Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, psicóloga e psicoterapeuta especialista em saúde mental e presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).
O Brasil vive uma explosão do setor de apostas esportivas. Segundo o estudo Análise do Mercado de Bets no Brasil, feito pela Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting+Technology, as apostas movimentaram cerca de R$37 bilhões em receita bruta em 2025.
O setor já alcança mais de 25 milhões de usuários e opera em escala nacional, se consolidando como uma das áreas de maior crescimento dentro da economia digital brasileira.
Outros números ajudam a dimensionar o fenômeno das bets no país. Dados do Instituto Locomotiva, divulgados em 2024, apontam que aproximadamente 52 milhões de brasileiros com mais de 18 anos realizaram apostas esportivas. Entre eles, 79% pertencem às classes C, D e E.
O levantamento também identificou um dado considerado preocupante por especialistas: 64% dos apostadores afirmaram utilizar a principal fonte de renda para financiar as apostas. Em outras palavras, o dinheiro destinado ao orçamento familiar frequentemente é direcionado para jogos de azar.
Para especialistas ouvidos pela reportagem da DW, a combinação entre ampla oferta, facilidade de acesso por smartphones, forte investimento em publicidade e familiaridade dos brasileiros com o tema futebol cria um ambiente ainda mais favorável ao aumento dos casos de dependência nesse tipo de aposta durante a Copa do Mundo.
"O apostador acredita que, por 'entender de futebol', pode prever o resultado dos jogos, o que é um erro cognitivo clássico da ludopatia. A sucessão rápida de partidas impede que o cérebro saia do estado de alerta, mantendo o sistema de recompensa constantemente ativado. O jogo passa a ser visto como normal nestas ocasiões, parte da celebração, o que dificulta a imposição de limites", explica Cíntia Sayd, psiquiatra, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).
A ludopatia, ou transtorno do jogo, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um problema de saúde mental. Assim como ocorre em outras dependências comportamentais, determinados estímulos podem desencadear impulsos difíceis de controlar para quem sofre com o vício em jogos de azar e apostas.
Entre esses estímulos estão propagandas, notificações de aplicativos, comentários sobre apostas e conteúdo que associam o jogo à ideia de sucesso financeiro ou diversão garantida. Durante a Copa do Mundo, esses elementos se tornam ainda mais constantes e praticamente inevitáveis de se ter contato.
A situação é agravada pelo fato de que as apostas oferecem oportunidades múltiplas. Não se trata apenas de apostar na seleção vencedora de uma partida, é possível apostar em número de gols, escanteios, cartões, desempenho individual de jogadores e dezenas de outros eventos que ocorrem ao longo dos 90 minutos.
Essa dinâmica mantém o usuário conectado por períodos prolongados e favorece comportamentos compulsivos.
"A exposição constante às 'bets' durante as transmissões causa o que chamamos de ‘reatividade a pistas'. Estímulos visuais e sonoros usados em publicidade ativam os mesmos circuitos dopaminérgicos que o ato de apostar em si. Para um ex-apostador, isso gera uma ‘fissura' intensa, que desativa momentaneamente o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento crítico e tomada de decisão, o que pode levar à recaída", detalha Sayd.
Um dos aspectos mais estudados pelos especialistas é a chamada "ilusão de controle". Muitos apostadores acreditam que seu conhecimento sobre futebol aumenta as chances de lucro.
Na prática, entretanto, os resultados permanecem sujeitos a fatores imprevisíveis.
A familiaridade com seleções, atletas e estatísticas pode gerar uma falsa sensação de domínio da situação. Durante a Copa do Mundo, quando o interesse pelo esporte atinge níveis máximos, esse efeito tende a ser potencializado.
Outro fator que representa um dos mecanismos mais perigosos do transtorno é a crença de que é possível recuperar perdas com novas apostas.
Após uma sequência de derrotas, muitos jogadores aumentam os valores apostados na tentativa de compensar prejuízos anteriores. O comportamento frequentemente leva ao endividamento e ao agravamento dos problemas financeiros.
"Para quem sofre com essa dependência, apostar não é só uma atividade prazerosa, ela vem com ‘fissura' e com dificuldade de controlar o impulso. Essa tentativa de recuperar as perdas, é muito ruim e cria um ciclo. E além disso, a pessoa pode ter a falsa sensação de controle, pensando que por entender de futebol ela consegue prever o resultado", explica Thiago Rodrigues de Castro, psiquiatra supervisor no ambulatório de transtorno de impulso do Instituto de psiquiatria da USP e professor na Faculdade Santa Marcelina.
Embora qualquer pessoa possa desenvolver um transtorno relacionado às apostas, alguns grupos apresentam maior vulnerabilidade. Entre eles estão jovens adultos, pessoas com histórico de impulsividade, transtornos de ansiedade, depressão, TDAH, uso problemático de álcool ou outras substâncias, além de indivíduos com histórico familiar de dependências.
"Pessoas que enfrentam dificuldades financeiras também podem ser mais suscetíveis, especialmente quando passam a enxergar as apostas como uma solução para problemas econômicos", diz Pertusi.
A recomendação é atenção a alguns comportamentos que podem indicar desenvolvimento de um problema relacionado às apostas.
Entre os principais sinais estão a necessidade de apostar valores cada vez maiores, dificuldade de interromper o hábito, tentativas frustradas de controle, mentiras para familiares sobre gastos e utilização de recursos essenciais para continuar jogando.
Também merece atenção a sensação de irritação ou ansiedade quando a pessoa tenta reduzir as apostas. O diagnóstico deve ser realizado por profissionais especializados, mas a identificação precoce dos sintomas pode facilitar a busca por ajuda.
"A prevenção precisa combinar informação, educação e acesso ao tratamento. É fundamental desenvolver campanhas permanentes de conscientização sobre os riscos das apostas, capacitar profissionais da atenção primária para identificar precocemente sinais de dependência e ampliar a oferta de atendimento especializado. Também é importante promover educação financeira e saúde mental, principalmente entre adolescentes e jovens adultos, além de estimular pesquisas que permitam monitorar a evolução desse problema no país", diz Pertusi.
No Brasil é possível que qualquer pessoa bloqueie o acesso às plataformas de apostas online com apenas um cadastro, que é unificado.
A Plataforma Centralizada de Autoexclusão do Ministério da Fazenda é uma ferramenta do Governo Federal, lançada em dezembro do ano passado. Apenas nos cinco primeiros meses de 2026, mais de 574 mil pessoas solicitaram o bloqueio automático do acesso a todas as casas de apostas vinculadas ao CPF do usuário.
Entre elas, 207 mil usuários (41%) afirmaram que a solicitação foi motivada pela perda de controle sobre o jogo e pelos impactos negativos na vida pessoal, familiar e social. Os dados são do Ministério da Saúde.
Pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e bets podem buscar atendimento gratuito no SUS (Sistema único de Saúde). O serviço funciona de forma online e busca ampliar o acesso ao cuidado em saúde mental, principalmente para quem sente vergonha ou dificuldade em procurar ajuda presencial.
As consultas acontecem por vídeo e fazem parte de um ciclo de tratamento onde cada paciente pode realizar até 13 sessões, individuais ou em grupo com familiares. O atendimento conta com psicólogos, terapeutas ocupacionais e médicos psiquiatras.
"O vício pode gerar ansiedade, culpa, irritabilidade, insônia, vergonha, depressão, e na parte um pouco mais prática, endividamento e pedido de empréstimo" acrescenta Castro.
Simone Machado
E as bets têm se mostrado uma presença incessante. As marcas estão presentes em comerciais durante as partidas, patrocinam programas esportivos, jogadores, influenciadores digitais e campanhas nas redes sociais.
Embora pareçam uma versão digital dos conhecidos bolões, as apostas online durante a Copa do Mundo preocupam especialistas em saúde mental. Eles alertam que esse cenário pode representar um gatilho importante para pessoas que sofrem com ludopatia, também conhecido como transtorno do jogo.
Essa preocupação se justifica. Pesquisa da empresa Kantar aponta que sete em cada dez brasileiros pretendem acompanhar a competição. Além da transmissão clássica, os torcedores buscam outros conteúdos sobre o campeonato como notícias (68%), memes e redes sociais (50%), vídeos de melhores momentos (38%) estatísticas e análises (32%).
Os dados mostram também que 37% dos brasileiros pretendem fazer apostas em bets durante o Mundial. Entre os tipos de aposta preferidos estão resultado das partidas (51%), número de gols (26%), campeão da Copa (18%), lances específicos (10%) e no artilheiro (8%).
Há um aumento expressivo da exposição aos jogos, às campanhas publicitárias das casas de apostas e às conversas sobre o tema.
Esse ambiente pode reativar o desejo de apostar, especialmente em indivíduos que ainda apresentam vulnerabilidade ao comportamento compulsivo. Além disso, o clima de entusiasmo coletivo pode reduzir a percepção de risco e favorecer decisões impulsivas", explica Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, psicóloga e psicoterapeuta especialista em saúde mental e presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).
O Brasil vive uma explosão do setor de apostas esportivas. Segundo o estudo Análise do Mercado de Bets no Brasil, feito pela Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting+Technology, as apostas movimentaram cerca de R$37 bilhões em receita bruta em 2025.
O setor já alcança mais de 25 milhões de usuários e opera em escala nacional, se consolidando como uma das áreas de maior crescimento dentro da economia digital brasileira.
Outros números ajudam a dimensionar o fenômeno das bets no país. Dados do Instituto Locomotiva, divulgados em 2024, apontam que aproximadamente 52 milhões de brasileiros com mais de 18 anos realizaram apostas esportivas. Entre eles, 79% pertencem às classes C, D e E.
O levantamento também identificou um dado considerado preocupante por especialistas: 64% dos apostadores afirmaram utilizar a principal fonte de renda para financiar as apostas. Em outras palavras, o dinheiro destinado ao orçamento familiar frequentemente é direcionado para jogos de azar.
Para especialistas ouvidos pela reportagem da DW, a combinação entre ampla oferta, facilidade de acesso por smartphones, forte investimento em publicidade e familiaridade dos brasileiros com o tema futebol cria um ambiente ainda mais favorável ao aumento dos casos de dependência nesse tipo de aposta durante a Copa do Mundo.
"O apostador acredita que, por 'entender de futebol', pode prever o resultado dos jogos, o que é um erro cognitivo clássico da ludopatia. A sucessão rápida de partidas impede que o cérebro saia do estado de alerta, mantendo o sistema de recompensa constantemente ativado. O jogo passa a ser visto como normal nestas ocasiões, parte da celebração, o que dificulta a imposição de limites", explica Cíntia Sayd, psiquiatra, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).
A ludopatia, ou transtorno do jogo, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um problema de saúde mental. Assim como ocorre em outras dependências comportamentais, determinados estímulos podem desencadear impulsos difíceis de controlar para quem sofre com o vício em jogos de azar e apostas.
Entre esses estímulos estão propagandas, notificações de aplicativos, comentários sobre apostas e conteúdo que associam o jogo à ideia de sucesso financeiro ou diversão garantida. Durante a Copa do Mundo, esses elementos se tornam ainda mais constantes e praticamente inevitáveis de se ter contato.
A situação é agravada pelo fato de que as apostas oferecem oportunidades múltiplas. Não se trata apenas de apostar na seleção vencedora de uma partida, é possível apostar em número de gols, escanteios, cartões, desempenho individual de jogadores e dezenas de outros eventos que ocorrem ao longo dos 90 minutos.
Essa dinâmica mantém o usuário conectado por períodos prolongados e favorece comportamentos compulsivos.
"A exposição constante às 'bets' durante as transmissões causa o que chamamos de ‘reatividade a pistas'. Estímulos visuais e sonoros usados em publicidade ativam os mesmos circuitos dopaminérgicos que o ato de apostar em si. Para um ex-apostador, isso gera uma ‘fissura' intensa, que desativa momentaneamente o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento crítico e tomada de decisão, o que pode levar à recaída", detalha Sayd.
Um dos aspectos mais estudados pelos especialistas é a chamada "ilusão de controle". Muitos apostadores acreditam que seu conhecimento sobre futebol aumenta as chances de lucro.
Na prática, entretanto, os resultados permanecem sujeitos a fatores imprevisíveis.
A familiaridade com seleções, atletas e estatísticas pode gerar uma falsa sensação de domínio da situação. Durante a Copa do Mundo, quando o interesse pelo esporte atinge níveis máximos, esse efeito tende a ser potencializado.
Outro fator que representa um dos mecanismos mais perigosos do transtorno é a crença de que é possível recuperar perdas com novas apostas.
Após uma sequência de derrotas, muitos jogadores aumentam os valores apostados na tentativa de compensar prejuízos anteriores. O comportamento frequentemente leva ao endividamento e ao agravamento dos problemas financeiros.
"Para quem sofre com essa dependência, apostar não é só uma atividade prazerosa, ela vem com ‘fissura' e com dificuldade de controlar o impulso. Essa tentativa de recuperar as perdas, é muito ruim e cria um ciclo. E além disso, a pessoa pode ter a falsa sensação de controle, pensando que por entender de futebol ela consegue prever o resultado", explica Thiago Rodrigues de Castro, psiquiatra supervisor no ambulatório de transtorno de impulso do Instituto de psiquiatria da USP e professor na Faculdade Santa Marcelina.
Embora qualquer pessoa possa desenvolver um transtorno relacionado às apostas, alguns grupos apresentam maior vulnerabilidade. Entre eles estão jovens adultos, pessoas com histórico de impulsividade, transtornos de ansiedade, depressão, TDAH, uso problemático de álcool ou outras substâncias, além de indivíduos com histórico familiar de dependências.
"Pessoas que enfrentam dificuldades financeiras também podem ser mais suscetíveis, especialmente quando passam a enxergar as apostas como uma solução para problemas econômicos", diz Pertusi.
A recomendação é atenção a alguns comportamentos que podem indicar desenvolvimento de um problema relacionado às apostas.
Entre os principais sinais estão a necessidade de apostar valores cada vez maiores, dificuldade de interromper o hábito, tentativas frustradas de controle, mentiras para familiares sobre gastos e utilização de recursos essenciais para continuar jogando.
Também merece atenção a sensação de irritação ou ansiedade quando a pessoa tenta reduzir as apostas. O diagnóstico deve ser realizado por profissionais especializados, mas a identificação precoce dos sintomas pode facilitar a busca por ajuda.
"A prevenção precisa combinar informação, educação e acesso ao tratamento. É fundamental desenvolver campanhas permanentes de conscientização sobre os riscos das apostas, capacitar profissionais da atenção primária para identificar precocemente sinais de dependência e ampliar a oferta de atendimento especializado. Também é importante promover educação financeira e saúde mental, principalmente entre adolescentes e jovens adultos, além de estimular pesquisas que permitam monitorar a evolução desse problema no país", diz Pertusi.
No Brasil é possível que qualquer pessoa bloqueie o acesso às plataformas de apostas online com apenas um cadastro, que é unificado.
A Plataforma Centralizada de Autoexclusão do Ministério da Fazenda é uma ferramenta do Governo Federal, lançada em dezembro do ano passado. Apenas nos cinco primeiros meses de 2026, mais de 574 mil pessoas solicitaram o bloqueio automático do acesso a todas as casas de apostas vinculadas ao CPF do usuário.
Entre elas, 207 mil usuários (41%) afirmaram que a solicitação foi motivada pela perda de controle sobre o jogo e pelos impactos negativos na vida pessoal, familiar e social. Os dados são do Ministério da Saúde.
Pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e bets podem buscar atendimento gratuito no SUS (Sistema único de Saúde). O serviço funciona de forma online e busca ampliar o acesso ao cuidado em saúde mental, principalmente para quem sente vergonha ou dificuldade em procurar ajuda presencial.
As consultas acontecem por vídeo e fazem parte de um ciclo de tratamento onde cada paciente pode realizar até 13 sessões, individuais ou em grupo com familiares. O atendimento conta com psicólogos, terapeutas ocupacionais e médicos psiquiatras.
"O vício pode gerar ansiedade, culpa, irritabilidade, insônia, vergonha, depressão, e na parte um pouco mais prática, endividamento e pedido de empréstimo" acrescenta Castro.
Simone Machado
sexta-feira, 19 de junho de 2026
O trilionário e a falência da escala humana
Existe algo de curioso na reação pública diante do surgimento do primeiro trilionário da história. A notícia costuma ser recebida com fascínio. Jornais produzem gráficos coloridos. Influenciadores discutem estratégias de investimento. Admiradores celebram mais uma prova da genialidade empresarial contemporânea. Quase ninguém parece notar o elemento mais importante da história: um trilionário é uma figura economicamente absurda.
A palavra “absurda” não deve ser entendida como um insulto. Deve ser entendida em seu sentido literal. Trata-se de algo que rompe os parâmetros normais de compreensão. Um trilhão de dólares não é apenas muito dinheiro. É uma quantidade de riqueza que escapa à imaginação humana comum. A diferença entre um milionário e um bilionário já é gigantesca. A diferença entre um bilionário e um trilionário pertence a outra ordem de grandeza.
O problema é que os seres humanos não foram feitos para pensar nessas escalas. Nossa experiência cotidiana opera em distâncias curtas, grupos limitados e relações relativamente visíveis. Conseguimos compreender uma casa, uma empresa, uma cidade ou mesmo um país. Um trilhão de dólares não corresponde a nenhuma dessas coisas. Corresponde a uma concentração tão extrema de recursos que deixa de possuir significado intuitivo.
Talvez por isso exista tanto entusiasmo em torno dos bilionários. Eles funcionam como personagens mitológicos. Ninguém consegue realmente imaginar a vida econômica que levam. Suas fortunas são grandes demais para serem compreendidas e justamente por isso se tornam objetos de fantasia. O bilionário já ocupa uma posição quase lendária. O trilionário completa a transformação. Ele deixa de parecer um ser humano excepcional e começa a parecer um fenômeno da natureza.
Imagine alguém dizendo que encontrou uma montanha de cinco quilômetros de altura surgindo no meio de Brasília. A reação imediata seria perguntar o que aconteceu. Quais forças produziram algo tão desproporcional? Curiosamente, quando surge uma fortuna equivalente à riqueza anual de países inteiros, a reação predominante não é investigar a estrutura que a produziu. A reação é admirar o proprietário da montanha.
Essa inversão é uma das maiores vitórias ideológicas do capitalismo contemporâneo. A atenção se concentra no indivíduo. Discute-se sua inteligência, sua personalidade, seus hábitos de trabalho e suas excentricidades. Uma sociedade que tornou possível uma concentração dessa magnitude desaparece da análise. A montanha permanece. O interesse volta-se exclusivamente para o alpinista.
Marx enxergaria a situação de forma bastante diferente. A questão fundamental não seria o talento do proprietário. Seria a estrutura que permitiu a acumulação. Uma fortuna dessa escala não surge porque alguém trabalhou muito. Nenhum ser humano trabalha um trilhão de dólares. Nenhum ser humano produz individualmente um trilhão de dólares. Uma riqueza dessa magnitude representa o resultado acumulado de processos sociais envolvendo milhões de pessoas, múltiplas gerações, instituições públicas, infraestrutura coletiva e sistemas produtivos globais.
O trilionário não é uma prova da força do indivíduo. É uma prova da força das estruturas que concentram capital. Sua fortuna expressa uma quantidade extraordinária de trabalho social apropriado sob a forma de propriedade privada. Quanto maior a fortuna, menos sentido faz explicá-la por características individuais. Ninguém tenta explicar o oceano através da biografia de uma gota d’água.
Existe ainda outro aspecto revelador. O capitalismo costuma ser apresentado como um sistema baseado na competição. A imagem clássica é a de inúmeros agentes econômicos competindo entre si em condições relativamente abertas. O trilionário conta uma história diferente. Ele mostra o resultado histórico da concentração. Mostra o que acontece quando sucessivas décadas de fusões, monopólios, centralização financeira e expansão corporativa acumulam poder em um número cada vez menor de mãos.
O surgimento de um trilionário não demonstra o sucesso da concorrência. Demonstra seu desaparecimento progressivo. Ele é o monumento erguido sobre o túmulo do mercado competitivo que os ideólogos liberais tanto celebram. A livre concorrência termina produzindo estruturas que tornam a própria concorrência cada vez menos relevante. O trilionário surge no final desse percurso como uma espécie de troféu involuntário da concentração.
Diante desse cenário, a resposta mais comum costuma ser a defesa de impostos sobre grandes fortunas. A proposta possui sua suposta utilidade. Pode financiar serviços públicos, reduzir excessos patrimoniais e amenizar certas desigualdades. O problema é que ela frequentemente trata como causa aquilo que é apenas consequência.
A questão central não é a distribuição final da riqueza. A questão central é a forma pela qual a riqueza é produzida, apropriada e controlada. Um trilionário não surge porque os impostos são insuficientes. Ele surge porque enormes parcelas da capacidade produtiva da sociedade estão organizadas sob formas privadas de propriedade. Sua fortuna não representa apenas dinheiro acumulado. Representa poder econômico acumulado.
Por essa razão, uma tributação mais elevada pode reduzir a dimensão da fortuna sem alterar a lógica que a produz. O trilionário pode transformar-se em um bilionário ligeiramente menos rico. O mecanismo permanece funcionando. As decisões estratégicas continuam concentradas. A propriedade continua concentrada. O controle sobre investimentos, tecnologias, infraestrutura e recursos produtivos continua concentrado.
É justamente aqui que a crítica radical se afasta da maior parte das críticas liberais à desigualdade. O centro da questão não é a redistribuição. É a socialização da riqueza produzida socialmente. Se milhões participam da produção, por que as decisões fundamentais sobre essa produção permanecem sob controle de uma minoria ínfima? Se a riqueza é resultado de um processo coletivo, por que ela aparece como propriedade privada de indivíduos específicos?
O debate distributivo pergunta como dividir o bolo. A crítica marxista pergunta quem controla a cozinha, quem escolhe os ingredientes, quem define a receita e quem decide para onde o bolo será enviado. Trata-se de uma questão de poder antes de ser uma questão de renda.
Nesse sentido, o trilionário é uma figura particularmente reveladora. Ele expõe o limite das soluções puramente distributivas. Nenhuma sociedade produz trilionários porque distribui mal a riqueza. Produz trilionários porque concentra previamente o controle da riqueza social. O problema aparece na origem do processo econômico. A desigualdade extrema surge depois, como manifestação visível de uma concentração muito mais profunda.
Talvez o aspecto mais perturbador seja a naturalidade com que tudo isso é tratado. Uma fortuna dessa magnitude deveria produzir estranhamento. Deveria ser encarada como um evento histórico extraordinário. Em vez disso, é apresentada como mais um recorde a ser batido, como se estivéssemos acompanhando uma competição esportiva. A sociedade observa uma concentração inédita de poder econômico e reage da mesma forma que reagiria ao lançamento de um novo smartphone.
É nesse ponto que a figura do trilionário se torna importante. Não porque ele seja o principal problema do mundo. Não porque seja moralmente pior que outros ricos. Sua relevância está em revelar algo que normalmente permanece oculto. Ele expõe a falência da escala humana dentro da economia contemporânea. Expõe um sistema que produz riquezas, empresas e centros de poder tão gigantescos que deixam de caber na imaginação das pessoas comuns.
O trilionário não representa apenas uma fortuna extrema. Representa uma economia que ultrapassou os limites da própria compreensão social. Quando uma sociedade passa a considerar normal a existência de patrimônios comparáveis à riqueza de nações inteiras, talvez o problema já não seja a quantidade de dinheiro concentrada. Talvez o problema seja que o senso de proporção desapareceu muito antes.
O surgimento do primeiro trilionário não revela apenas uma desigualdade extraordinária. Revela o grau de privatização alcançado pela riqueza coletiva da humanidade. O escândalo não está em alguém possuir dinheiro demais. O escândalo está em uma sociedade inteira produzir coletivamente e continuar organizando os frutos dessa produção como propriedade de poucos. Talvez seja por isso que a chegada do trilionário devesse causar menos admiração e mais perplexidade. Não porque ele venceu o jogo econômico, e sim porque sua existência revela a natureza das regras sob as quais o jogo passou a funcionar.
A palavra “absurda” não deve ser entendida como um insulto. Deve ser entendida em seu sentido literal. Trata-se de algo que rompe os parâmetros normais de compreensão. Um trilhão de dólares não é apenas muito dinheiro. É uma quantidade de riqueza que escapa à imaginação humana comum. A diferença entre um milionário e um bilionário já é gigantesca. A diferença entre um bilionário e um trilionário pertence a outra ordem de grandeza.
O problema é que os seres humanos não foram feitos para pensar nessas escalas. Nossa experiência cotidiana opera em distâncias curtas, grupos limitados e relações relativamente visíveis. Conseguimos compreender uma casa, uma empresa, uma cidade ou mesmo um país. Um trilhão de dólares não corresponde a nenhuma dessas coisas. Corresponde a uma concentração tão extrema de recursos que deixa de possuir significado intuitivo.
Talvez por isso exista tanto entusiasmo em torno dos bilionários. Eles funcionam como personagens mitológicos. Ninguém consegue realmente imaginar a vida econômica que levam. Suas fortunas são grandes demais para serem compreendidas e justamente por isso se tornam objetos de fantasia. O bilionário já ocupa uma posição quase lendária. O trilionário completa a transformação. Ele deixa de parecer um ser humano excepcional e começa a parecer um fenômeno da natureza.
Imagine alguém dizendo que encontrou uma montanha de cinco quilômetros de altura surgindo no meio de Brasília. A reação imediata seria perguntar o que aconteceu. Quais forças produziram algo tão desproporcional? Curiosamente, quando surge uma fortuna equivalente à riqueza anual de países inteiros, a reação predominante não é investigar a estrutura que a produziu. A reação é admirar o proprietário da montanha.
Essa inversão é uma das maiores vitórias ideológicas do capitalismo contemporâneo. A atenção se concentra no indivíduo. Discute-se sua inteligência, sua personalidade, seus hábitos de trabalho e suas excentricidades. Uma sociedade que tornou possível uma concentração dessa magnitude desaparece da análise. A montanha permanece. O interesse volta-se exclusivamente para o alpinista.
Marx enxergaria a situação de forma bastante diferente. A questão fundamental não seria o talento do proprietário. Seria a estrutura que permitiu a acumulação. Uma fortuna dessa escala não surge porque alguém trabalhou muito. Nenhum ser humano trabalha um trilhão de dólares. Nenhum ser humano produz individualmente um trilhão de dólares. Uma riqueza dessa magnitude representa o resultado acumulado de processos sociais envolvendo milhões de pessoas, múltiplas gerações, instituições públicas, infraestrutura coletiva e sistemas produtivos globais.
O trilionário não é uma prova da força do indivíduo. É uma prova da força das estruturas que concentram capital. Sua fortuna expressa uma quantidade extraordinária de trabalho social apropriado sob a forma de propriedade privada. Quanto maior a fortuna, menos sentido faz explicá-la por características individuais. Ninguém tenta explicar o oceano através da biografia de uma gota d’água.
Existe ainda outro aspecto revelador. O capitalismo costuma ser apresentado como um sistema baseado na competição. A imagem clássica é a de inúmeros agentes econômicos competindo entre si em condições relativamente abertas. O trilionário conta uma história diferente. Ele mostra o resultado histórico da concentração. Mostra o que acontece quando sucessivas décadas de fusões, monopólios, centralização financeira e expansão corporativa acumulam poder em um número cada vez menor de mãos.
O surgimento de um trilionário não demonstra o sucesso da concorrência. Demonstra seu desaparecimento progressivo. Ele é o monumento erguido sobre o túmulo do mercado competitivo que os ideólogos liberais tanto celebram. A livre concorrência termina produzindo estruturas que tornam a própria concorrência cada vez menos relevante. O trilionário surge no final desse percurso como uma espécie de troféu involuntário da concentração.
Diante desse cenário, a resposta mais comum costuma ser a defesa de impostos sobre grandes fortunas. A proposta possui sua suposta utilidade. Pode financiar serviços públicos, reduzir excessos patrimoniais e amenizar certas desigualdades. O problema é que ela frequentemente trata como causa aquilo que é apenas consequência.
A questão central não é a distribuição final da riqueza. A questão central é a forma pela qual a riqueza é produzida, apropriada e controlada. Um trilionário não surge porque os impostos são insuficientes. Ele surge porque enormes parcelas da capacidade produtiva da sociedade estão organizadas sob formas privadas de propriedade. Sua fortuna não representa apenas dinheiro acumulado. Representa poder econômico acumulado.
Por essa razão, uma tributação mais elevada pode reduzir a dimensão da fortuna sem alterar a lógica que a produz. O trilionário pode transformar-se em um bilionário ligeiramente menos rico. O mecanismo permanece funcionando. As decisões estratégicas continuam concentradas. A propriedade continua concentrada. O controle sobre investimentos, tecnologias, infraestrutura e recursos produtivos continua concentrado.
É justamente aqui que a crítica radical se afasta da maior parte das críticas liberais à desigualdade. O centro da questão não é a redistribuição. É a socialização da riqueza produzida socialmente. Se milhões participam da produção, por que as decisões fundamentais sobre essa produção permanecem sob controle de uma minoria ínfima? Se a riqueza é resultado de um processo coletivo, por que ela aparece como propriedade privada de indivíduos específicos?
O debate distributivo pergunta como dividir o bolo. A crítica marxista pergunta quem controla a cozinha, quem escolhe os ingredientes, quem define a receita e quem decide para onde o bolo será enviado. Trata-se de uma questão de poder antes de ser uma questão de renda.
Nesse sentido, o trilionário é uma figura particularmente reveladora. Ele expõe o limite das soluções puramente distributivas. Nenhuma sociedade produz trilionários porque distribui mal a riqueza. Produz trilionários porque concentra previamente o controle da riqueza social. O problema aparece na origem do processo econômico. A desigualdade extrema surge depois, como manifestação visível de uma concentração muito mais profunda.
Talvez o aspecto mais perturbador seja a naturalidade com que tudo isso é tratado. Uma fortuna dessa magnitude deveria produzir estranhamento. Deveria ser encarada como um evento histórico extraordinário. Em vez disso, é apresentada como mais um recorde a ser batido, como se estivéssemos acompanhando uma competição esportiva. A sociedade observa uma concentração inédita de poder econômico e reage da mesma forma que reagiria ao lançamento de um novo smartphone.
É nesse ponto que a figura do trilionário se torna importante. Não porque ele seja o principal problema do mundo. Não porque seja moralmente pior que outros ricos. Sua relevância está em revelar algo que normalmente permanece oculto. Ele expõe a falência da escala humana dentro da economia contemporânea. Expõe um sistema que produz riquezas, empresas e centros de poder tão gigantescos que deixam de caber na imaginação das pessoas comuns.
O trilionário não representa apenas uma fortuna extrema. Representa uma economia que ultrapassou os limites da própria compreensão social. Quando uma sociedade passa a considerar normal a existência de patrimônios comparáveis à riqueza de nações inteiras, talvez o problema já não seja a quantidade de dinheiro concentrada. Talvez o problema seja que o senso de proporção desapareceu muito antes.
O surgimento do primeiro trilionário não revela apenas uma desigualdade extraordinária. Revela o grau de privatização alcançado pela riqueza coletiva da humanidade. O escândalo não está em alguém possuir dinheiro demais. O escândalo está em uma sociedade inteira produzir coletivamente e continuar organizando os frutos dessa produção como propriedade de poucos. Talvez seja por isso que a chegada do trilionário devesse causar menos admiração e mais perplexidade. Não porque ele venceu o jogo econômico, e sim porque sua existência revela a natureza das regras sob as quais o jogo passou a funcionar.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
O regresso da vanguarda
Os programas de IA para detectar quais são os textos – e partes de texto – que são escritos com IA ainda são muito caros. Os que há por aí não são de fiar, já que se fartam de dar falsos positivos.
Estes falsos positivos, note-se, beneficiam a própria IA. Se consideram IA um texto original escrito por um só ser humano a partir do zero, quem é que fica bem vista? A IA, claro.
Quando eu peço à IA para me escrever uma crónica, uso o resultado para me precaver. Fujo a sete pés do que encontro. A IA é o meu passado a perseguir-me. E eu não posso deixar-me apanhar. Sou forçado a ser o fugitivo. A IA pode ser o futuro, mas é inteiramente constituída pelo passado. É uma regurgitação do que já foi dito. Mas é uma regurgitação cada vez mais bem feita.
O problema é que nós, os seres humanos, temos uma tendência 100% natural de nos regurgitarmos a nós próprios. Há milénios que já somos a nossa própria IA, repetindo e canibalizando as nossas gracinhas populares, para dar ao povo o que quer. E o povo, já se sabe, é como as criancinhas antes de adormecer: quer sempre ouvir as mesmas histórias.
Se os seres humanos fossem sempre originais – se pensassem coisas que não pensaram antes, e as escrevessem de uma maneira diferente –, a IA seria sempre muito pouco convincente. Seria um fracasso.
A IA triunfa onde aquilo que copia já era escrito por copiões: os textos burocráticos, sejam eles estritamente burocráticos ou de aplicação legal, académica, jornalística ou literária. O que pode ser escrito a metro por um ser humano, copiado de cópias anteriores que também a metro foram escritas, pode – nada sensacionalmente – ser escrito a metro pela IA.
A música grátis não matou os espectáculos e a escrita IA não matará a escrita original. Pelo contrário: a excelência do artificial ajudará a dar valor à falibilidade e à frescura do genuíno.
O que pode ser copiado pode ter muito valor, mas nada tem tanto valor como o que nunca existiu antes.
Miguel Esteves Cardoso
Estes falsos positivos, note-se, beneficiam a própria IA. Se consideram IA um texto original escrito por um só ser humano a partir do zero, quem é que fica bem vista? A IA, claro.
Quando eu peço à IA para me escrever uma crónica, uso o resultado para me precaver. Fujo a sete pés do que encontro. A IA é o meu passado a perseguir-me. E eu não posso deixar-me apanhar. Sou forçado a ser o fugitivo. A IA pode ser o futuro, mas é inteiramente constituída pelo passado. É uma regurgitação do que já foi dito. Mas é uma regurgitação cada vez mais bem feita.
O problema é que nós, os seres humanos, temos uma tendência 100% natural de nos regurgitarmos a nós próprios. Há milénios que já somos a nossa própria IA, repetindo e canibalizando as nossas gracinhas populares, para dar ao povo o que quer. E o povo, já se sabe, é como as criancinhas antes de adormecer: quer sempre ouvir as mesmas histórias.
Se os seres humanos fossem sempre originais – se pensassem coisas que não pensaram antes, e as escrevessem de uma maneira diferente –, a IA seria sempre muito pouco convincente. Seria um fracasso.
A IA triunfa onde aquilo que copia já era escrito por copiões: os textos burocráticos, sejam eles estritamente burocráticos ou de aplicação legal, académica, jornalística ou literária. O que pode ser escrito a metro por um ser humano, copiado de cópias anteriores que também a metro foram escritas, pode – nada sensacionalmente – ser escrito a metro pela IA.
A música grátis não matou os espectáculos e a escrita IA não matará a escrita original. Pelo contrário: a excelência do artificial ajudará a dar valor à falibilidade e à frescura do genuíno.
O que pode ser copiado pode ter muito valor, mas nada tem tanto valor como o que nunca existiu antes.
Miguel Esteves Cardoso
O primeiro trilionário e a pobreza fabricada
A humanidade acaba de cruzar um marco simbólico. Um único indivíduo acumula fortuna superior a US$ 1 trilhão. O posto de Elon Musk foi celebrado como a consagração da inovação, da tecnologia e da capacidade empreendedora do capitalismo contemporâneo.
Mas há uma segunda notícia, muito menos comentada, que merece atenção. Estudo recente liderado por Thomas Piketty e Joseph Stiglitz, sustenta que a pobreza não é uma fatalidade histórica nem resultado inevitável da escassez. Ela é produzida por escolhas econômicas, políticas e institucionais.
A tese desafia uma das crenças mais arraigadas do nosso tempo: a de que a riqueza extrema seria apenas fruto do mérito, enquanto a pobreza decorreria exclusivamente de falhas individuais. Para os autores, o problema central não está na capacidade do mundo de gerar riqueza, mas na forma como ela é distribuída.
A constatação é desconfortável. Nunca a humanidade produziu tanto. Nunca dispôs de tamanha capacidade tecnológica. Ainda assim, bilhões de pessoas continuam privadas do básico.
O debate ganha relevância porque ocorre em um contexto no qual os compromissos internacionais parecem cada vez mais distantes da realidade. Em 2015, os países-membros da ONU assumiram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O primeiro deles prevê a erradicação da pobreza; o segundo, da fome. Ambos partem de uma premissa simples: esses problemas podem ser resolvidos.
O obstáculo não é tecnológico. Não é produtivo. É político.
O Brasil oferece um exemplo eloquente dessa contradição. A Constituição de 1988 estabelece como objetivo fundamental da República erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais. Não se trata de uma recomendação moral, mas de um compromisso constitucional.
É verdade que houve avanços importantes. A pobreza e a extrema pobreza atingiram recentemente os menores níveis da série histórica. Ainda assim, cerca de um quarto da população brasileira vive abaixo da linha da pobreza. Em uma das maiores economias do planeta, dezenas de milhões de pessoas seguem enfrentando dificuldades para acessar direitos elementares.
O mesmo sistema capaz de criar fortunas trilionárias pode acelerar mudanças para sistemas tributários mais progressivos, proteção social mais robusta e investimentos públicos mais amplos e eficazes. No Brasil, esse debate ganhou novo fôlego com a reforma tributária em curso. Embora seu objetivo principal seja simplificar o sistema e reduzir distorções econômicas, ela também incorpora mecanismos que caminham na direção da justiça fiscal.
Durante décadas, a tributação brasileira concentrou seu peso sobre o consumo, fazendo com que famílias de baixa renda destinassem proporcionalmente mais recursos ao pagamento de tributos do que os mais ricos. A reforma busca corrigir parte dessa distorção ao prever instrumentos como a devolução de tributos para famílias de menor renda e a tributação progressiva de doações e heranças. São medidas que reconhecem uma premissa elementar: tratar igualmente situações profundamente desiguais não produz justiça.
Naturalmente, a reforma tributária não resolverá sozinha o problema da desigualdade. A concentração de renda e patrimônio exige um conjunto mais amplo de políticas públicas. Ainda assim, ela representa um passo importante ao aproximar o sistema tributário brasileiro de um princípio amplamente adotado nas democracias contemporâneas: quem tem maior capacidade contributiva deve participar de forma proporcionalmente maior do financiamento das políticas públicas.
Num ambiente global onde se celebra o fato de uma pessoa acumular, sozinha, mais de US$ 1 trilhão, a questão mais urgente talvez seja outra. Não se a humanidade é capaz de produzir riqueza em escala inédita – ela já demonstrou que é. Mas se será capaz de reunir a mesma determinação para cumprir um objetivo muito mais antigo: reduzir a pobreza e a desigualdade.
Mas há uma segunda notícia, muito menos comentada, que merece atenção. Estudo recente liderado por Thomas Piketty e Joseph Stiglitz, sustenta que a pobreza não é uma fatalidade histórica nem resultado inevitável da escassez. Ela é produzida por escolhas econômicas, políticas e institucionais.
A tese desafia uma das crenças mais arraigadas do nosso tempo: a de que a riqueza extrema seria apenas fruto do mérito, enquanto a pobreza decorreria exclusivamente de falhas individuais. Para os autores, o problema central não está na capacidade do mundo de gerar riqueza, mas na forma como ela é distribuída.
A constatação é desconfortável. Nunca a humanidade produziu tanto. Nunca dispôs de tamanha capacidade tecnológica. Ainda assim, bilhões de pessoas continuam privadas do básico.
O debate ganha relevância porque ocorre em um contexto no qual os compromissos internacionais parecem cada vez mais distantes da realidade. Em 2015, os países-membros da ONU assumiram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O primeiro deles prevê a erradicação da pobreza; o segundo, da fome. Ambos partem de uma premissa simples: esses problemas podem ser resolvidos.
O obstáculo não é tecnológico. Não é produtivo. É político.
O Brasil oferece um exemplo eloquente dessa contradição. A Constituição de 1988 estabelece como objetivo fundamental da República erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais. Não se trata de uma recomendação moral, mas de um compromisso constitucional.
É verdade que houve avanços importantes. A pobreza e a extrema pobreza atingiram recentemente os menores níveis da série histórica. Ainda assim, cerca de um quarto da população brasileira vive abaixo da linha da pobreza. Em uma das maiores economias do planeta, dezenas de milhões de pessoas seguem enfrentando dificuldades para acessar direitos elementares.
O mesmo sistema capaz de criar fortunas trilionárias pode acelerar mudanças para sistemas tributários mais progressivos, proteção social mais robusta e investimentos públicos mais amplos e eficazes. No Brasil, esse debate ganhou novo fôlego com a reforma tributária em curso. Embora seu objetivo principal seja simplificar o sistema e reduzir distorções econômicas, ela também incorpora mecanismos que caminham na direção da justiça fiscal.
Durante décadas, a tributação brasileira concentrou seu peso sobre o consumo, fazendo com que famílias de baixa renda destinassem proporcionalmente mais recursos ao pagamento de tributos do que os mais ricos. A reforma busca corrigir parte dessa distorção ao prever instrumentos como a devolução de tributos para famílias de menor renda e a tributação progressiva de doações e heranças. São medidas que reconhecem uma premissa elementar: tratar igualmente situações profundamente desiguais não produz justiça.
Naturalmente, a reforma tributária não resolverá sozinha o problema da desigualdade. A concentração de renda e patrimônio exige um conjunto mais amplo de políticas públicas. Ainda assim, ela representa um passo importante ao aproximar o sistema tributário brasileiro de um princípio amplamente adotado nas democracias contemporâneas: quem tem maior capacidade contributiva deve participar de forma proporcionalmente maior do financiamento das políticas públicas.
Num ambiente global onde se celebra o fato de uma pessoa acumular, sozinha, mais de US$ 1 trilhão, a questão mais urgente talvez seja outra. Não se a humanidade é capaz de produzir riqueza em escala inédita – ela já demonstrou que é. Mas se será capaz de reunir a mesma determinação para cumprir um objetivo muito mais antigo: reduzir a pobreza e a desigualdade.
A estupidez no comando
O 11 de setembro marca a história moderna: primeiro, na derrubada de Allende e as milhares de torturas e mortes que se seguiram; também com os 3.000 mortos em Nova Iorque em 2001. Como reação aos ataques o presidente dos EUA, menos de um mês após, invadiu o Afeganistão, numa guerra que durou vinte anos e matou 6.000 militares norte-americanos, além de dezenas de milhares de afegãos.
Na mesma “guerra ao terror” os EUA, em seguida, com base em mentiras, invadiram o Iraque. Foram mais de 8.000 concidadãos e dezenas de milhares de iraquianos mortos. Adotaram, então, a tortura como método de investigação e declararam a Convenção de Genebra inaplicável ao seu combate.
Noutra linha, logo após o 9/11, aprovaram a Lei Patriota, permitindo a vigilância generalizada dos cidadãos de todos os países pelo governo dos EUA, que, desde então, acusa seus adversários (China e Rússia) de vigiarem seus cidadãos!
A estupidez continuou com Obama, Biden e o Laranja, com o uso intenso de drones para matar pessoas sem qualquer processo judicial, e com as “provas” dessas vinculações ao “terrorismo” mantidas secretas. A estupidez se avoluma ao apoiarem o genocídio perpetrado por Israel em sua busca da “solução final” ao “problema” palestino, eco evidente do que se dizia na Alemanha nazista com relação aos judeus!
Aliaram-se esses genocidas para atacar o Irã, baseado em falsas expectativas, evidenciando estupidez acima do que se poderia esperar!
Segue a estultice no comando, afrontando, sem contestar, as evidências científicas sobre o mal que a queima de petróleo e outros combustíveis fósseis causam a todas as formas de vida. Continua a bestialidade ao desmontar instituições que fornecem dados sobre a saúde, ou falta de, do ambiente em que vivemos e do qual dependemos.
A estupidez no comando não é inevitável; após 1903, Theodoro Roosevelt baseou sua campanha e seu governo numa ideia que hoje nos faz falta: a busca do “acordo justo” (“a square deal”), cujas bases eram três “Cs”: proteção ao Consumidor, regulação das Corporações, e Conservação da natureza.
Por que e como permitimos tal degradação de nossos governantes? Qual “acordo justo” propor e como implantá-lo no atual século?
Na mesma “guerra ao terror” os EUA, em seguida, com base em mentiras, invadiram o Iraque. Foram mais de 8.000 concidadãos e dezenas de milhares de iraquianos mortos. Adotaram, então, a tortura como método de investigação e declararam a Convenção de Genebra inaplicável ao seu combate.
Noutra linha, logo após o 9/11, aprovaram a Lei Patriota, permitindo a vigilância generalizada dos cidadãos de todos os países pelo governo dos EUA, que, desde então, acusa seus adversários (China e Rússia) de vigiarem seus cidadãos!
A estupidez continuou com Obama, Biden e o Laranja, com o uso intenso de drones para matar pessoas sem qualquer processo judicial, e com as “provas” dessas vinculações ao “terrorismo” mantidas secretas. A estupidez se avoluma ao apoiarem o genocídio perpetrado por Israel em sua busca da “solução final” ao “problema” palestino, eco evidente do que se dizia na Alemanha nazista com relação aos judeus!
Aliaram-se esses genocidas para atacar o Irã, baseado em falsas expectativas, evidenciando estupidez acima do que se poderia esperar!
Segue a estultice no comando, afrontando, sem contestar, as evidências científicas sobre o mal que a queima de petróleo e outros combustíveis fósseis causam a todas as formas de vida. Continua a bestialidade ao desmontar instituições que fornecem dados sobre a saúde, ou falta de, do ambiente em que vivemos e do qual dependemos.
A estupidez no comando não é inevitável; após 1903, Theodoro Roosevelt baseou sua campanha e seu governo numa ideia que hoje nos faz falta: a busca do “acordo justo” (“a square deal”), cujas bases eram três “Cs”: proteção ao Consumidor, regulação das Corporações, e Conservação da natureza.
Por que e como permitimos tal degradação de nossos governantes? Qual “acordo justo” propor e como implantá-lo no atual século?
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