sexta-feira, 6 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


Historiador reexamina ascensão de Hitler e aponta riscos às democracias

Como estive doente na última semana, aproveitei os dias de repouso para concluir a leitura de "A Mentalidade Nazi: 12 Avisos da História", o mais recente trabalho do historiador e documentarista britânico Laurence Rees.

Autor de obras como "Hitler e Stálin: os Tiranos e a Segunda Guerra Mundial" e "Auschwitz: os Nazis e a Solução Final", Rees é reconhecido pela seriedade de suas pesquisas e pelo grande número de entrevistas que realizou durante os anos em que atuou na BBC como editor de programas de história.

Em seu novo livro, ele questiona a ideia de que o passado poderia nos oferecer lições e propõe que estudemos eventos históricos a fim de aprendermos a reconhecer tendências.


Diferentemente das lições, que geralmente possuem caráter prescritivo, as tendências mostram como determinadas circunstâncias podem favorecer a emergência de certos fenômenos, mas não determinam as nossas ações. Afinal, como observa o historiador, as respostas do passado raramente se aplicam ao presente com a mesma eficácia e cada nova situação deve ser analisada cuidadosamente, levando em consideração as suas especificidades.

Segundo Rees, o papel da história, especialmente em um momento como o nosso, em que as democracias estão novamente sob ataque, seria o de nos ajudar a identificar a tempo sinais de que tanto as nossas vidas quanto as nossas instituições estão sendo ameaçadas.

Assim, ao reexaminar os acontecimentos que levaram Hitler ao poder e culminaram no Holocausto, cada capítulo do livro recebe como título um dos 12 sinais de alerta identificados pelo autor.

Entre esses sinais, Rees destaca a disseminação de teorias da conspiração racistas e antissemitas, que culpavam os judeus pela derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, e mostra como o receio de uma revolta socialista foi explorado durante a crise econômica e a hiperinflação da década de 1920, aprofundando a fragmentação da sociedade em grupos antagônicos e mutuamente excludentes.

Ele analisa a transformação da figura do herói em modelo de liderança e seu impacto no sucesso da ideologia nazista entre os mais jovens e reflete sobre a participação das elites na ascensão de Hitler. Rees também deixa claro que, desde o início, o regime nazista atacou os direitos humanos, tendo por alvo judeus e outras minorias étnicas e religiosas, bem como pessoas com deficiência e opositores políticos.

O historiador ainda discute como Hitler explorou a devoção de seus apoiadores por meio de discursos visionários que prometiam o retorno a um passado imaginário, porém glorioso. Nesse sentido, ele observa que, durante a guerra, à medida que os recursos se tornavam escassos, muitos desses apoiadores tentavam se convencer de que Hitler era vítima da corrupção de membros de seu próprio gabinete e ignorava as necessidades do povo.

Rees examina como o regime criou inimigos internos e externos para unificar a população restante e relata, por fim, que as violentas disputas entre oficiais nazistas pela atenção de Hitler geraram um ambiente caótico, propício a uma radicalização ainda mais extrema entre seus acólitos.

Nesse cenário, foram tomadas as decisões que resultaram no Holocausto, definido como um evento histórico complexo, marcado por uma sequência gradual de medidas. Esse processo envolveu não apenas a criação de campos de concentração, mas também a implementação de leis raciais e capacitistas, a arianização de bens, a formação de guetos, os fuzilamentos em massa, o aprimoramento de métodos de matança a distância e o desenvolvimento das câmaras de gás.

Ao fim do livro, Rees nos alerta que as instituições responsáveis pela manutenção do nosso bem-estar são muito mais frágeis do que pensamos. Assim, na esperança de que não sejamos mais uma vez surpreendidos pelos acontecimentos, deixo aqui essa sugestão de leitura como um convite à reflexão sobre a vulnerabilidade do mundo em que vivemos.

A lavagem dos colarinhos brancos

Se você é homem, adulto e obrigado a se vestir formalmente, com certeza já dispensou alguns minutos a observar os formatos dos colarinhos. Existe o clássico colarinho francês, com pontas médias e mais fechadas; o italiano, mais curto e com pontas abertas; o americano, de pontas longas, abotoadas à camisa; o tipo padre, com a gola pequena e em pé, exigindo quilos de goma; e o asinha ou tico-tico, com as pontinhas dobradas para fora. Todos são colarinhos brancos. Não significa que seus usuários sejam criminosos. Só alguns.


Mas, embora se fale muito nos "crimes de colarinho branco", é raro ver pessoas com colarinhos dessa cor associados aos ditos crimes. Os criminosos mais presentes na mídia usam camiseta, sem colarinho. São os mais pobres da categoria, ladrões de carteira ou de celular. Como sua ação costuma ser muito rápida, tanto no trânsito quanto numa rua escura, não precisam se preocupar com a apresentação. Sabem que suas vítimas não terão tempo para analisar seus colarinhos, donde uma camiseta comum, mesmo regata, sem mangas, será socialmente aceitável.

Os bandidos mais graduados, que portam armas pesadas, preferem o colarinho mole e casual das camisas polo, estas quase sempre amarelas ou de riscas. Têm a vantagem de expor seus bíceps sarados, produto de horas de malhação em academias ou nas instalações militares a que até havia pouco pertenciam. Não significa que os criminosos de colarinho branco não tenham esses bíceps sarados —é que costumam escondê-los debaixo do paletó, embora isso não impeça que sejam detectados pela largura dos ombros. Recomenda-se atenção na presença de um deles.

E chegamos aos elegantes criminosos nos casos hoje em voga: dos escândalos do Banco Master, das fraudes no INSS, dos desvios de emendas parlamentares, do vazamento de dados no STF, dos mandantes do 8 de Janeiro. Esses, sim, são todos de colarinho branco. Vide Daniel Vorcaro, o Careca do INSS e outros.

Não se pode confiar na alvura de seus colarinhos. São lavados junto com o dinheiro.

A morte de Khamenei, um caso sem precedentes em que um governo assassina o líder de outro país

Ali Khamenei morreu no último sábado, aos 86 anos, em decorrência dos bombardeios lançados contra o Irã pelos Estados Unidos e por Israel. Sua morte é um evento sem precedentes na história contemporânea. Embora não seja a primeira vez que um chefe de Estado ou de governo é assassinado, é a única vez em que a responsabilidade recai sobre outro país. Até sua morte, o Líder Supremo representava a mais alta autoridade no Irã desde 1989, quando seu antecessor e fundador da República Islâmica, Ruhollah Khomeini, faleceu.

Embora as circunstâncias exatas de sua morte sejam desconhecidas, diversos especialistas consultados pelo EL PAÍS concordam que se trata de um caso sem precedentes. “Não me lembro de um caso semelhante à execução de um chefe de Estado por um bombardeio vindo de outro país, sem qualquer declaração de guerra”, afirma Javier Chinchón Álvarez, professor de Direito Internacional e Relações Internacionais da Universidade Complutense de Madrid, em um e-mail.

Detalhes sobre a morte do aiatolá iraniano ainda estão surgindo. Fontes israelenses confirmaram a morte do líder na noite de sábado, afirmando que seu corpo havia sido encontrado em um bunker. Pouco depois, o presidente dos EUA, Donald Trump, corroborou as declarações de seu aliado no Oriente Médio. A televisão iraniana confirmou a morte do líder naquela mesma noite.

Joaquín González Ibáñez, doutor em direito pela mesma faculdade de Madri, disse ao EL PAÍS em uma conversa por WhatsApp que, dos assassinatos anteriores ao de Khamenei de que se lembra, não há nenhum caso comparável aos eventos de sábado. “Eles não são comparáveis ao caso iraniano”, enfatizou. “Trata-se de um crime de agressão sob o direito internacional, cometido por Israel e pelos Estados Unidos, além dos crimes de guerra que já estamos identificando na escola feminina”, opinou o especialista, referindo-se ao ataque conjunto EUA-Israel à escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, que deixou pelo menos 148 mortos.

“Um ato de agressão é um dos quatro crimes internacionais por excelência. [Existem] o crime de agressão, o crime contra a humanidade, o crime de guerra e o genocídio”, explica o médico. González considera este ato o “mais importante”, uma vez que os outros três tipos de crimes (crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio) “são cometidos no âmbito do crime de um ato de agressão”.

Chinchón, por sua vez, considera isso uma “execução extrajudicial”, em consonância com a definição da ONU sobre o assunto, ou seja, “matar deliberadamente uma pessoa fora de qualquer estrutura legal”. “[Israel e os EUA] estão confirmando mais uma vez que agem não apenas fora dos limites do direito internacional vigente, mas em constante, aberta e flagrante violação direta de suas obrigações mais essenciais”, condena ele.

Entre os casos mais semelhantes está a morte, em 2011, do ditador líbio Muammar Gaddafi , que foi capturado em um cano de água nos arredores de Sirte, sua cidade natal, e posteriormente morto a tiros por membros do Conselho Nacional de Transição (CNT), as forças rebeldes da Líbia. A semelhança neste caso reside no fato de que, no momento de sua captura, o ditador já havia sido ferido em um ataque aéreo da OTAN. A OTAN havia apoiado o CNT nos sete meses anteriores à sua morte em seus esforços para derrubar o regime de Gaddafi.

Em agosto do ano passado, Israel também assassinou o primeiro-ministro houthi do Iêmen, Ahmed Ghaleb al-Rahawi , em outro ataque aéreo. O movimento houthi é um dos grupos armados pró-Irã presentes no Oriente Médio, juntamente com a milícia palestina Hamas e o grupo libanês Hezbollah. Os houthis controlam Sana’a, a capital do Iêmen, e o noroeste do país, mas não são reconhecidos pela comunidade internacional, ao contrário do governo iemenita. Portanto, o primeiro-ministro al-Rahawi não era considerado legítimo na época de seu assassinato.

As mortes de Dzhokhar Dudayev, líder da República Chechena da Ichkeria, em 1996, e de seu sucessor, Aslan Maskhadov, em 2005, também revelam semelhanças com o caso de Khamenei. No entanto, a República Chechena da Ichkeria nunca foi reconhecida como um Estado pela comunidade internacional. Após a dissolução da União Soviética em 1991, Dudayev declarou unilateralmente a independência do território. A Federação Russa, então sob a liderança do ex-presidente Boris Yeltsin , jamais reconheceu essa independência. Dudayev morreu em um ataque aéreo russo, lançado por Moscou após ter sido localizado via satélite por meio de uma ligação telefônica. Seu sucessor morreu de forma semelhante, durante uma operação militar russa na Chechênia.

Outros assassinatos notáveis de chefes de Estado incluem o do líder congolês Patrice Lumumba, em 1961, executado por um pelotão de fuzilamento em uma floresta na região leste de Katanga. Na época de sua morte, Lumumba já havia sido deposto em um golpe orquestrado pela CIA — a agência de espionagem dos EUA — e pela Bélgica. “Nem serve como um reflexo da situação dos ataques iranianos”, reconhece González.

Os primeiros-ministros indianos Indira Gandhi e Rajiv Gandhi, mãe e filho, também morreram vítimas de disparos de arma de fogo. Ela foi baleada por três membros de sua guarda pessoal, incluindo seu guarda-costas Beant Singh, em 1984. Seu assassinato foi resultado da Operação Estrela Azul, uma intervenção militar que coincidiu com um importante evento religioso sikh. Vários civis foram mortos no ataque.

Quanto ao filho de Gandhi, ele estava em campanha para as eleições gerais de 1991 como o principal líder da oposição quando um homem-bomba detonou um explosivo em um atentado orquestrado pelos Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE), um grupo separatista armado do Sri Lanka. Ele já não estava no poder na época de seu assassinato.

O ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri também morreu em um atentado a bomba em 2005, juntamente com outras 21 pessoas, quando um carro-bomba atingiu o comboio em que viajava em Beirute. A única pessoa condenada pelo ataque, julgada à revelia pelo Tribunal Especial para o Líbano , foi Salim Hamil Ayyash, membro da organização política e militar xiita Hezbollah. Vinte e um anos depois, o tribunal ainda não encontrou provas de que a Síria ou a milícia estivessem diretamente envolvidas no atentado, embora tenha reconhecido a existência de possíveis motivações. Os outros três réus no ataque — Hussein Hassan Oneissi, Assad Hassan Sabra e Hassan Habib Merhi — foram absolvidos.

O assassinato do então presidente haitiano Jovenel Moïse em 2021 por cerca de vinte pistoleiros colombianos é mais um exemplo de assassinatos políticos do século XXI. Uma investigação do The New York Times revelou que ele foi morto por tentar enviar aos Estados Unidos uma lista de políticos e empresários envolvidos com o narcotráfico. A identidade do mandante do assassinato de Moïse permanece desconhecida.
Hannah Slack

Donald Trump é o mordomo da vez

Pode crer. O Trump é só o mensageiro. Os mandachuvas continuam aqueles, desde quando a América relançou a democracia, no séc. XVIII: magnatas do petróleo e carvão, bancos, fábricas de armas e, dessa vez, as big techs. Quando proclamaram a independência, os EUA deram uma mão de pintura no mercantilismo colonial do séc. XVI, que havia embarcado nas caravelas da monarquia europeia. Instalada a república moderna, os norte-americanos notaram rapidamente que nem tudo no imperialismo europeu era uma má ideia para os lucros. Pelo contrário, ainda daria pra ganhar uma boa grana mantendo os negros na escravidão e entrando no mercado global da colonização. O ‘berço democrático’ tornou-se logo na largada candidato ao ranking de maior império da história.


O cineasta Oliver Stone revela os bastidores desse roteiro em seu surpreendente livro “A história não contada dos Estados Unidos”. Ele percorre a construção geopolítica do país, confrontando o mito do “destino manifesto americano” com uma expansão imperialista obsessiva nesses 200 anos de existência. Stone demonstra como a ‘América’ partiu a galope para a conquista do mundo, sob o mantra de que o Tio Sam era o mocinho que batizaria a humanidade com a água benta da liberdade (e do mercado, é claro).

Nessa toada, a Casa Branca – habitada por republicanos ou democratas – ganhou alvará de balcão do ideário capitalista liberal. O que é bom para as grandes empresas é bom para o país. A depender do partido e das circunstâncias, a balança pende um pouquinho mais para os ricos ou para a plebe. O livro de Stone detona a lenda da Pax Americana com o desabafo do General Fuzileiro Smedley Butler, herói condecorado das principais investidas imperialistas dos EUA na América Latina, Pacífico e Ásia já no comecinho do séc. XX: “Passei 33 anos da minha carreira militar servindo como capanga de luxo das grandes empresas, Wall Street e banqueiros […] eu era um gângster a serviço do capitalismo”.

Servindo sob a presidência de William McKinley (eleito em 1900) e do seu sucessor Theodore Roosevelt, o General Butler descreve como os EUA haviam tomado o controle das Filipinas, Porto Rico, Cuba, Guam, Pago Pago, Midway, Honduras, Nicarágua, Panamá, Guatemala, República Dominicana, Haiti, tendo ainda anexado o Havaí e metade do território do México, e atacado até mesmo a China e a Colômbia. O General relatava que “a guerra era um negócio ilícito”, em benefício de corporações conhecidas, como City Bank, Standard Oil, Ford, Winchester Arms, Brown Brothers, J P Morgan, Rockefeller, Du Pont, Remington, Rotchild, entre outras.

Oliver Stone prossegue, acrescentando que a I Guerra Mundial foi a virada de chave para o protagonismo militar e econômico dos EUA, saindo do conflito como o maior credor de empréstimos do mundo e principal potência bélica. A II Guerra consolidou o País como império global e a Guerra Fria arrematou, ressignificando o mercado numa globalização alinhavada pelo multilateralismo obediente, pelas cadeias de comércio e finanças, a onipresença da US Navy e o arsenal nuclear. Continuou assim nas recentes Guerras do Golfo, Iraque, Líbia e Síria, apesar do susto no Vietnam e Afeganistão.

É bem verdade que Trump é devoto de Pedro Malasartes, salpicando mundo afora suas mirabolâncias, enquanto, em casa, desmonta políticas sociais e legislações incômodas. Embolou o Tio Sam na Ucrânia, Gaza, Venezuela e Irã sem planejamento nem explicação. Sejamos justos, ele ouviu dizer que Wall Street e o Vale do Silício toleram quem peca por excesso, desde que o caixa feche no azul.

Operações secretas, consentimento fabricado e a glória do Irã

Durante décadas, a política externa dos Estados Unidos operou não apenas por meio da diplomacia e da guerra declarada, mas também por meio de uma vasta arquitetura de operações secretas. Da América Latina à África e ao Oriente Médio, a atividade de inteligência frequentemente precedeu e preparou a justificativa pública para ações militares ostensivas. Compreender os eventos contemporâneos em torno do Irã exige situá-los dentro de um padrão histórico mais amplo de desestabilização secreta, manipulação narrativa e guerra ideológica funcionando em conjunto.

A intervenção secreta tem sido um componente estrutural da política externa dos EUA pelo menos desde a Guerra Fria. Documentos desclassificados mostram que a CIA orquestrou operações secretas para moldar resultados políticos no exterior, incluindo esforços para remover ou minar governos percebidos como hostis aos interesses dos EUA.


Por exemplo, o Projeto FUBELT envolveu esforços secretos da CIA para impedir que o presidente chileno Salvador Allende governasse e para promover o golpe militar que acabou instalando Augusto Pinochet.

Os programas secretos dos EUA no Congo buscavam depor o primeiro-ministro Patrice Lumumba e instalar uma liderança mais pró-Ocidente, em meio a temores de influência e controle soviéticos sobre recursos estratégicos.

As operações não se limitavam à mudança de regime no exterior. Programas como a Operação CHAOS monitoravam movimentos políticos e dissidências, ilustrando como a lógica da inteligência enquadrava os próprios protestos como um campo de batalha geopolítico.

Esses casos demonstram uma doutrina recorrente de ação secreta como um estágio inicial de gestão geopolítica, moldando as condições antes que a intervenção aberta se torne politicamente viável.

Ironicamente, após décadas de interferência em regimes globais e em meio a assassinatos cometidos pelo ICE, a narrativa dominante propagada por Washington é a de que o Irã precisa de uma mudança de regime porque reprime a dissidência.

O Irã há muito tempo é um palco central para a competição entre serviços de inteligência. Analistas reconhecem a profunda infiltração da inteligência israelense no Irã. Relatórios indicam que agências de inteligência israelenses realizaram operações de sabotagem, assassinatos e campanhas de infiltração, incluindo o contrabando de drones e armas para o território iraniano e o uso de redes locais para atacar infraestrutura militar.

Em relação aos recentes movimentos de protesto, alguns analistas de defesa argumentam que agências de inteligência estrangeiras exploram ou até mesmo alimentam surtos internos. Especialistas citados pela Al Jazeera sugerem que agentes israelenses provavelmente atuam durante os protestos, coletando informações e amplificando as manifestações por meio de apoio à comunicação e estratégias de exposição.

Isso não significa que os protestos não tenham queixas internas genuínas. O Irã tem vivenciado dificuldades econômicas reais e repressão política. Em vez disso, a doutrina de inteligência historicamente trata a agitação como uma oportunidade, demonstrando total desrespeito pela população local, já que ela exacerba a violência e a instabilidade para criar brechas para operações de influência.

A atividade secreta muitas vezes funciona como preparação política. As operações de inteligência enfraquecem materialmente os adversários, ao mesmo tempo que moldam narrativas que fazem com que uma ação militar posterior pareça necessária ou inevitável.

A Operação Mongoose da CIA contra Cuba combinou explicitamente campanhas de propaganda com redes de inteligência e planejamento paramilitar, concebidos para gerar apoio à mudança de regime. A integração de propaganda e ação secreta ilustra como os objetivos militares são precedidos pela gestão da percepção.

Reportagens recentes sobre os ataques EUA-Israel contra o Irã mostram líderes apelando abertamente à população iraniana para que se levante contra o governo, enquanto o planejamento militar já estava em andamento há meses. Essa mensagem reflete um padrão familiar de intervenção disfarçada de libertação.

Os interesses geopolíticos, em oposição à preocupação humanitária, são os principais motivadores do confronto ocidental com o Irã. 

O Irã ocupa uma posição estratégica singular, pois detém grandes reservas de petróleo e está situado ao lado do Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo mundial. O controle sobre a região e suas estruturas de alianças, portanto, influencia os cálculos políticos.

As sanções dos EUA contra as redes petrolíferas e as capacidades militares iranianas visam explicitamente restringir o poder econômico e regional do Irã. Os analistas consistentemente enquadram o Irã como um rival estratégico, e não como uma crise humanitária que exige proteção.

Nesse contexto, as alegações de que a intervenção busca principalmente defender civis iranianos revelam-se secundárias a objetivos mais amplos de segurança e economia.

A teoria do modelo de propaganda de Noam Chomsky e Edward Herman, desenvolvida em Manufacturing Consent (A Fabricação do Consenso), explica como os sistemas de mídia podem ajudar a gerar aprovação pública para agendas de política externa. O modelo argumenta que pressões estruturais – propriedade, dependência da publicidade, fornecimento de informações a instituições oficiais e enquadramento ideológico – moldam a cobertura jornalística e fabricam o consentimento para os interesses das elites.

Chomsky argumentou que a mídia distingue entre vítimas “dignas” e “indignas” dependendo do alinhamento geopolítico, amplificando os abusos cometidos por inimigos e minimizando aqueles cometidos por aliados. Essa assimetria ajuda a normalizar políticas intervencionistas.

Após a Guerra Fria, estudiosos influenciados por essa estrutura observam que a “guerra ao terror” substituiu o anticomunismo como filtro ideológico dominante, posicionando as sociedades muçulmanas como principais objetos de medo e suspeita.

O discurso da mídia ocidental mostra estereótipos persistentes de muçulmanos e do Islã nas narrativas jornalísticas. Uma análise baseada em corpus de jornais britânicos e americanos identificou enquadramentos de propaganda recorrentes que retratam muçulmanos por meio de imagens ameaçadoras e centradas em conflitos.

Estudos sobre mídias sociais após ataques terroristas também encontraram ondas substanciais de discurso culpando o Islã coletivamente, originárias de países ocidentais.

A islamofobia, portanto, funciona não apenas como preconceito, mas como um ambiente narrativo político no qual a violência militar se torna mais fácil de justificar. Quando populações são retratadas como inerentemente perigosas ou atrasadas, a guerra parece defensiva em vez de agressiva.

Muçulmanos e iranianos na diáspora enfrentam um dilema profundo. Muitos se opõem ao governo do Irã, mas permanecem cautelosos com a intervenção estrangeira de estados historicamente hostis à sua região e ao seu povo.

As evidências não sustentam uma narrativa simplista de que ‘os iranianos estão celebrando’ a intervenção ocidental ou israelense. Embora algumas vozes da oposição acolham a pressão sobre o regime, as reações são diversas e profundamente divididas, refletindo o medo da guerra, o nacionalismo e a desconfiança em relação às potências estrangeiras. A dissidência interna e a intervenção externa são vivenciadas como realidades separadas, e não como causas unificadas.

Essa ambiguidade gera tensão emocional e política na oposição ao autoritarismo e na resistência à dominação geopolítica.

Estudiosos da mídia e do discurso argumentam repetidamente que o público ocidental se depara com as sociedades muçulmanas principalmente por meio de narrativas de conflito desvinculadas do contexto cultural. O modelo de propaganda sugere que incentivos estruturais favorecem uma simplificação moral em detrimento de uma compreensão credível.

Práticas condenadas no exterior são frequentemente julgadas de forma diferente quando ocorrem em democracias ocidentais, uma discrepância que Chomsky destacou em comparações da cobertura midiática de estados aliados versus estados adversários.

Portanto, vale a pena questionar a autoridade moral de nações predominantemente cristãs, como os EUA, que condenam a repressão por parte de estados do mundo muçulmano, enquanto empregam policiamento agressivo, vigilância, normas ou legislações sexistas e políticas coercitivas em âmbito nacional ou internacional.

Além da geopolítica, existe uma civilização muito mais antiga que os conflitos modernos. O Irã é herdeiro das tradições persas que moldaram a matemática, a poesia, a arquitetura, a filosofia e a música ao longo dos séculos. Suas principais cidades carregam camadas de história que conectam impérios antigos à vida contemporânea. A língua persa, cuja literatura é uma das mais antigas, influenciou a estética global, desde a poesia mística até a pintura e as tradições da música clássica.

O Irã também possui uma longa e complexa história de movimentos políticos feministas. Essas lutas são frequentemente apropriadas tanto pelas elites nacionais quanto por potências estrangeiras que buscam justificativas morais para a intervenção. Quando a libertação das mulheres se torna um slogan dissociado das próprias vozes iranianas, corremos o risco de transformar lutas genuínas em meras estratégias de marketing geopolítico.

A verdadeira solidariedade exige escuta, e não imposição de soluções. Políticas formuladas como resgate podem reproduzir uma hierarquia antiga que posiciona o Ocidente como civilizacionalmente superior e as sociedades muçulmanas como objetos a serem corrigidos ou controlados.

Respeitar os iranianos significa reconhecer sua capacidade de ação, sua diversidade de pensamento político e seu direito de determinar seu próprio futuro. Qualquer coisa inferior a isso corre o risco de repetir a mesma lógica que justificou a intervenção, a dominação e a violência por gerações.

O caminho a seguir não é a dominação disfarçada de libertação, mas a humildade – o reconhecimento de que a compreensão deve preceder a ação e que a dignidade não pode ser conquistada por bombas ou propaganda.

Como Espinosa encontrou Exu

Venho pensando muito num antigo provérbio iorubá: “Exu matou um pássaro, ontem, com uma pedra que lançou hoje.”

Gostamos de imaginar o tempo como uma seta que corre em direção ao futuro. Estamos certos de que a causa precede o efeito. No início temos o gesto — a seguir, a consequência. Exu, senhor das encruzilhadas, ri-se às gargalhadas desta ingênua ilusão. O que nos diz o famoso ditado africano é que o ontem pode ser reescrito por aquilo que acontece agora.

A física quântica, com a sua defesa da retrocausalidade — a ideia de que decisões presentes afetam estados passados de partículas —, ecoa o pensamento iorubá.


Também Baruch Espinosa, o filósofo holandês de origem judaico-portuguesa, defendeu no século XVII um conjunto de ideias que se aproximam das filosofias animistas — sejam africanas ou indígenas brasileiras. Na concepção de Espinosa, Deus e Natureza são dois nomes para a mesma realidade. Todo o resto — a Humanidade incluída — são expressões temporárias dessa realidade. Não existem consciências autônomas. Há formas que surgem, se entrelaçam e se desfazem.

Espinosa não conhecia Exu. Contudo, as suas ideias dialogam harmoniosamente com a cosmogonia africana, para a qual tudo está ligado a tudo. Não somos ilhas. Somos simples nós numa extensa rede de forças. Convivemos com os que nos antecederam, dialogamos com os que ainda não nasceram, respiramos juntos, numa continuidade onde o passado permanece ativo.

Nesta ordem de ideias, o princípio de Ubuntu — “eu sou porque nós somos” — impõe-se não apenas como uma ética social, mas como ontologia.

Espinosa suspeitava que acolhendo estas ideias estaríamos pondo em causa o livre-arbítrio. Se somos formas de uma única substância, se existimos numa trama onde todos os instantes coexistem, que significa escolher? Talvez não possamos sair do plano. Mas podemos ser o lugar onde o plano se torna consciente de si.

A liberdade deixa então de ser a possibilidade de fazer diferente e passa a ser a experiência de participar. Não escolhemos o território, mas sentimos a encruzilhada. Essa sensação é real. A dúvida faz parte da arquitetura do mundo.

Também a responsabilidade muda de lugar. Ao ferirmos alguém não estamos, nesta perspectiva, a ofender uma lei imposta por um deus remoto — estamos diminuindo a potência da própria rede. Amar, ao contrário, é a forma que temos de expandir a realidade.

Exu não destrói a ordem. Revela que a ordem é apenas uma versão possível do movimento. Espinosa não nega Deus. Dissolve-o na Natureza inteira. Ambos, cada um à sua maneira, retiram o Homem do centro do palco.

Espinosa irritou os teólogos judeus ao expor-nos como simples personagens numa tapeçaria que não começa nem termina conosco. O ontem ainda está acontecendo, e continuará acontecendo amanhã. O futuro, pelo seu lado, tem raízes vivas, bem fincadas no presente.

Contudo, continuamos a escolher o que iremos comer no café da manhã, as palavras de amor ou de ódio, os pequenos e grandes gestos. Continuamos lançando pedras — hoje — sem saber que pássaros já tombaram ontem.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Quando a guerra ignora limites: a urgência de reafirmar o direito internacional

O direito internacional humanitário (DIH) representa o esforço mais consistente da comunidade internacional para preservar a dignidade humana em meio à guerra. Não impede conflitos, mas estabelece limites jurídicos claros e universais à condução das hostilidades. Seu propósito é essencial: proteger civis, restringir métodos e meios de combate e assegurar que, mesmo em cenários extremos, a humanidade permaneça como parâmetro mínimo de conduta entre Estados e demais atores armados.


O desafio contemporâneo não reside na ausência de normas. As convenções de Genebra e seus protocolos adicionais constituem um arcabouço jurídico sólido, amplamente ratificado e consolidado ao longo de décadas. A dificuldade está na aplicação efetiva, imparcial e consistente dessas regras diante de conflitos complexos, múltiplos grupos armados, tecnologias militares sofisticadas e operações híbridas, que ampliam a distância entre decisões operacionais e impactos humanitários.

Os conflitos atuais tendem a ser assimétricos, urbanos e prolongados. A distinção entre combatentes e civis tornou-se mais tênue, sobretudo em áreas densamente povoadas, onde infraestruturas essenciais se confundem com objetivos militares. Tecnologias de precisão coexistem com ataques cibernéticos e sistemas remotos de combate, submetendo princípios de distinção, proporcionalidade e necessidade militar a testes permanentes. A sofisticação tecnológica não elimina riscos para populações civis nem reduz a obrigação de cautela jurídica, reafirmando a necessidade de aplicação rigorosa do DIH.

Em diversos contextos, argumentos de segurança ou de combate a ameaças transnacionais têm sido utilizados para relativizar salvaguardas humanitárias. Embora respondam a perigos reais, a invocação recorrente e ampla de exceções enfraquece a previsibilidade e a autoridade da norma. A aplicação seletiva ou politizada do DIH compromete padrões civilizatórios consolidados ao longo do século 20. Ataques indiscriminados, deslocamentos forçados e restrições à assistência humanitária evidenciam a distância entre compromissos assumidos e sua implementação concreta.

Em um cenário de tensões regionais intensas e convulsões humanitárias recentes, civis enfrentam riscos elevados, afetando milhões de pessoas, incluindo deslocamentos forçados, interrupção de serviços essenciais e impactos sociais e econômicos de longo prazo. Esses desafios reforçam a urgência do cumprimento do DIH sem identificar países ou atores específicos, preservando neutralidade, relevância e universalidade e sublinhando o papel da comunidade internacional na defesa de padrões humanitários e na proteção de gerações futuras.

A responsabilização internacional continua central. Tribunais e mecanismos investigativos reafirmam que violações graves não podem ser naturalizadas nem tratadas como efeitos colaterais inevitáveis. Apesar de limitações políticas e operacionais, esses instrumentos sustentam que a proteção de civis não é mera recomendação moral, mas obrigação jurídica vinculante, reforçando a legitimidade e a credibilidade da ordem internacional.

A ONU permanece como espaço central de coordenação e supervisão multilateral. Resoluções, operações de paz, missões políticas e mecanismos de monitoramento buscam documentar violações e fortalecer a proteção de populações vulneráveis. Sua efetividade depende da convergência política entre Estados-membros, especialmente quando interesses estratégicos dificultam consensos no Conselho de Segurança, exigindo respostas coordenadas, firmes e sustentáveis para garantir segurança e dignidade a civis.

Reafirmar o DIH não significa ignorar preocupações legítimas de segurança. Significa reconhecer que proteger civis e limitar meios de combate não constitui obstáculo à segurança, mas condição de sua legitimidade. A estabilidade duradoura depende não apenas da dissuasão, mas da observância coerente de normas compartilhadas que preservem a dignidade humana mesmo em contextos de violência intensa.

Mesmo diante da guerra, a humanidade do outro permanece como parâmetro mínimo que distingue contenção de barbárie. Defender esse princípio não é gesto retórico, mas condição indispensável para que o direito cumpra sua função civilizatória. A observância consistente das normas humanitárias não apenas protege vidas, mas reforça a credibilidade da ordem internacional e sustenta a legitimidade do multilateralismo. Preservar esses limites é imperativo ético, político e estratégico: é o que garante que, mesmo nos cenários mais extremos, a guerra não se transforme em total ausência de civilidade.

De como vamos salvar os media (sem fingir que ainda não estão a arder)

Há uma ironia deliciosa — e um pouco desesperada — no facto de estarmos a discutir como salvar os media ao mesmo tempo que consumimos mais informação do que nunca. Nunca houve tantas notícias, tantas opiniões, tantos “especialistas”, tantos vídeos a explicar o mundo em 30 segundos. E, no entanto, raramente parece que percebemos melhor o que se passa. O ruído aumentou, a clareza diminuiu. A economia da atenção venceu a economia da verdade. E os media tradicionais, aqueles que supostamente deveriam organizar o caos, passaram a viver dentro dele.

O caso recente da campanha de crowdfunding da VISÃO não é apenas uma história portuguesa sobre uma revista que quer sobreviver. É um sintoma global. Um laboratório. Um aviso. E, possivelmente, uma pista para o futuro. Quando uma redação decide tentar comprar o próprio título para garantir independência editorial, está implicitamente a dizer duas coisas: que o modelo antigo falhou e que o novo ainda não está totalmente inventado.


Durante décadas, os media viveram de publicidade, influência e escala. Quem tinha mais páginas, mais antena ou mais tempo de emissão ganhava. A internet prometeu democratizar tudo, mas acabou por concentrar quase tudo nas plataformas. Hoje, a maior parte da receita publicitária não vai para quem produz jornalismo, mas para quem distribui distração. A informação tornou-se matéria-prima gratuita para algoritmos que não distinguem uma investigação de meses de um boato inventado num quarto.

É aqui que entra a ideia — quase revolucionária por parecer tão básica — de que o jornalismo deve ser financiado por quem o valoriza. Não por quem quer manipulá-lo, nem por quem quer apenas vender anúncios ao lado dele. O crowdfunding da VISÃO, tal como outras experiências internacionais, sugere que há leitores dispostos a pagar não apenas pelo conteúdo, mas pela existência do próprio jornalismo. Não é caridade. É investimento democrático.

A economista Julia Cagé — autora de Saving the Media-Capitalism, Crownfounding, and Democracy — defende há anos que o problema central dos media é estrutural: quem paga manda. Se os donos são conglomerados ou bilionários com agendas paralelas, a independência torna-se uma ficção elegante. O modelo que propõe — organizações sem fins lucrativos com participação de leitores e jornalistas — tenta resolver isso redistribuindo poder. Não é uma solução mágica, mas é uma tentativa de alinhar interesses: quem financia quer informação credível, não propaganda.

Ao mesmo tempo, surgem plataformas como a Substack, onde jornalistas criam relações diretas com leitores. Não é um paraíso — há desigualdades, bolhas e muito narcisismo digital — mas prova que existe público para jornalismo que não depende de cliques histéricos. A promessa é simples: menos intermediários, mais responsabilidade direta. O risco é transformar tudo em micro-nichos onde cada um lê apenas aquilo que confirma o que já pensa.

Salvar os media não é apenas encontrar dinheiro. É redefinir a função do jornalismo. Durante anos, as redacções habituaram-se a medir sucesso por audiências massivas e imediatas. Isso favorece conflito, escândalo e indignação permanente. A negatividade não é uma conspiração — é um reflexo de como as notícias sempre funcionaram — mas tornou-se um vício industrial. O jornalismo construtivo, defendido por gente como o jornalista dinamarquês Ulrik Haagerup, e o seu “jornalismo construtivo” que tenta introduzir uma certa nuance sem virar propaganda otimista. Não se trata de dar boas notícias, mas de dar notícias completas.

O problema é que a nuance não viraliza tão bem como indignação. E indignação (“o que sangra, vende”) paga contas, pelo menos a curto prazo.

Outro fator negativo dos media é a precariedade. As redações encolheram, os freelancers multiplicaram-se e a profissão perdeu estabilidade. Sem tempo e recursos, o jornalismo transforma-se em reescrita de comunicados. Depois perguntam porque é que o público desconfia. A confiança não desapareceu por acaso; evaporou com despedimentos, concentração empresarial e erros públicos amplificados pelas redes.

Mesmo assim, há sinais de esperança. O sucesso de assinaturas digitais em jornais como o The New York Times ou o francês Le Monde mostra que as pessoas pagam quando percebem valor e qualidade. Não pagam apenas por informação, pagam por credibilidade, contexto e continuidade. Pagam para que alguém faça perguntas difíceis.

O crowdfunding da Visão encaixa nessa lógica: não é nostalgia pelo papel, é defesa de uma função pública. Jornalismo como serviço essencial, mesmo quando não dá lucro imediato. Como a educação ou a saúde, a informação de qualidade é um bem público, mesmo quando é produzida por privados.

Mas convém não romantizar. Nem todo crowdfunding resulta. Nem toda independência editorial resiste à pressão económica. Nem todo jornalista quer ser empreendedor. E nem todos os leitores querem pagar. O futuro dos media será inevitavelmente híbrido: assinaturas, eventos, financiamento coletivo, parcerias e, sim, alguma publicidade. O segredo não é eliminar modelos antigos, mas impedir que um só controle tudo.

Salvar os media implica aceitar uma verdade incómoda: não há jornalismo gratuito. Alguém paga sempre. A questão é quem e com que interesses.

Talvez a resposta esteja em algo mais simples do que teorias grandiosas: comunidades. Quando leitores se sentem parte de um projeto, defendem-no. Quando jornalistas sentem que respondem a leitores e não a acionistas invisíveis, trabalham de forma diferente. A relação deixa de ser consumo e passa a ser compromisso.

No fundo, salvar os media é recolocar pessoas acima de plataformas. Significa trocar algoritmos por confiança, escala por relevância, velocidade por profundidade. Não é voltar ao passado é inventar um futuro onde o jornalismo volta a ser necessário e não apenas barulhento.

O crowdfunding da VISÃO não vai resolver tudo. Mas lembra algo essencial: o jornalismo só sobrevive se alguém acreditar nele o suficiente para o sustentar. E isso, num tempo de cinismo generalizado, já é quase um milagre.

Salvar os media não será um gesto heróico nem uma tecnologia milagrosa. Será um processo lento, imperfeito e cheio de contradições. Mas começa sempre da mesma forma: alguém decide que vale a pena continuar a contar histórias verdadeiras e alguém decide que vale a pena ouvi-las.

O Nobel de pólvora de Trump no Irã

Donald Trump sempre gostou de vender a imagem do negociador implacável que traria a paz ao mundo. Pois bem, o figurino caiu.

Em um pronunciamento unilateral – sem o incômodo de jornalistas fazendo perguntas -, Trump tentou justificar os ataques ao Irã com um amontoado de meias verdades e a velha retórica do “perigo nuclear”.

O que Trump não disse é que os ataques ocorreram na antivéspera de uma rodada crucial de negociações em Viena. Enquanto diplomatas se preparavam para tentar restabelecer o acordo nuclear, os mísseis americanos e israelenses trataram de “decapitar” a liderança iraniana em Teerã.

A gravidade do lance reside na ausência de lastro factual. Não foram apresentadas provas de que o programa nuclear do Irã havia sido descongelado ou de que o país possuía mísseis prontos para um ataque iminente.


Sem evidências e sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, Trump resolveu agir por conta própria, ignorando ritos e atropelando aliados.

Esta é uma guerra que parece interessar muito mais ao governo de Israel do que aos próprios Estados Unidos. Trump, que pleiteava o Prêmio Nobel da Paz por supostamente interromper conflitos, agora mergulha o planeta em uma incerteza perigosa.

O que era para ser uma “operação rapidíssima” já virou, nas palavras do próprio presidente, uma guerra que pode durar semanas – ou meses.

A máscara de “pacificador” ficou no chão do Salão Oval. No xadrez do Oriente Médio, Trump preferiu o xeque-mate sangrento à paciência da diplomacia. O mundo, que esperava a estabilidade prometida em campanha, agora assiste ao espetáculo da destruição transmitido ao vivo.

Certamente não é a paz mundial quem ganha com isso.

Porque caíram na asneira de o eleger?

Segundo estudos recentes do Pew Research Center realizados em finais de janeiro, os cidadãos norte-americanos olham de forma mais negativa do que positiva para o Presidente e alguns membros importantes da sua administração. Quase 60% dos inquiridos declararam ter uma visão desfavorável de Donald Trump enquanto 40% têm uma visão favorável.

De igual modo, mais de metade dos cidadãos vê também o vice-presidente JD Vance de forma desfavorável, e apenas menos de 40% dizem ter uma opinião positiva. Curiosamente, quase um em cada dez afirmam que nunca ouviram falar dele. Vance protagonizou um dos mais notáveis golpes de rins da política americana, uma vez que em tempos considerava que as propostas políticas de Trump eram “imorais e absurdas” e que ele era “inadequado” para presidente. Chamou-lhe “heroína cultural”, “idiota” e “Hitler da América”. Afirmou “Nunca gostei dele” e “Não tenho estômago para o Trump”.

Mas o panorama castiga igualmente alguns outros membros importantes do governo de Washington, como o inenarrável secretário da Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., pois 48% dos inquiridos têm uma opinião desfavorável da sua ação política. O secretário de Estado Marco Rubio também perde na opinião pública (44% contra e 34% a favor). Cerca de dois em cada dez dizem que nunca ouviram falar dele. Provavelmente é mais conhecido fora dos Estados Unidos do que dentro. Apesar de conhecerem menos bem o Secretário de Defesa Pete Hegseth – já que cerca de um terço (31%) diz nunca ter ouvido falar dele – a verdade é que mesmo assim só consegue reunir 41% de opiniões positivas contra 26% negativas.

Donald Trump chega ao fim de um ano de mandato com a economia a patinar e os consumidores americanos a pagar do seu bolso as taxas que inventou para tentar punir os países que não alinham com a sua política. Além disso, empreendeu diversas ações para controlar a imprensa, e destratar jornalistas e órgãos de comunicação tornou-se o pão nosso de cada dia. Tem às costas a morte de vários migrantes às mãos do ICE, uma espécie de SS nazi a qual, de caminho, assassinou cidadãos americanos pacíficos.

Trump deitou para o lixo os famosos equilíbrios de poder – “checks and balances” – do sistema político americano, transfigurando o regime cada vez mais numa autocracia. É conhecido o fascínio que tem por Putin e no fundo gostava de governar com as mãos completamente livres como o ditador russo.

Ele afronta a imprensa, os tribunais, as universidades, os adversários políticos, a Reserva Federal, insulta reiteradamente anteriores presidentes, em especial Biden e Obama, exige receber o Nobel da Paz, e apesar de atolado até às orelhas no caso Epstein, mandou esconder as provas documentais que o iriam comprometer. Está rodeado duma corja de vira-casacas e yes men.

Já declarou querer anexar a Gronelândia, ameaçou fazer o mesmo com o Canadá, tomar posse do Canal do Panamá, destrata constantemente a Europa e humilhou Zelensky na Sala Oval perante o mundo. O seu Board of Peace, que é uma excrescência do direito internacional, apenas se destina a destruir a ONU e a potenciar negócios pessoais e da família. Continua a mentir, sustentando que ganhou as eleições a Biden. E se puder tentará contornar a lei, candidatar-se de novo e manter-se no poder até ao fim da vida.

Este comportamento errático, imprevisível e perigoso quando se trata do país mais poderoso do mundo, já levou um grupo de psiquiatras dos EUA a sugerir que o Presidente devia ser submetido a um exame mental, para aferir das suas faculdades.

Quase sete em cada dez americanos (69%) dizem que Trump está a tentar exercer mais poder do que os antecessores, o que é mau para o país. Menos de um ano depois de iniciar o segundo mandato, o Presidente já tinha emitido mais decretos executivos do que em todo o primeiro mandato. Mais de metade dos cidadãos dizem que as ações do governo foram piores do que esperavam. A sua taxa de aprovação continua a descer, está em 37%, abaixo dos 40% registados no outono. A maioria considera que Trump está a piorar claramente o funcionamento do governo.

Como não resiste ao cheiro a petróleo, fez o que fez em Caracas e iniciou agora uma guerra contra o Irão, a meses de umas eleições que lhe podem condicionar o poder, guerra que a maioria do povo norte-americano reprova.

A pergunta que se impõe é esta: por que razão os norte-americanos arriscaram elegê-lo de novo, depois do desastre do seu primeiro mandato? Agora torcem a orelha. Temos pena.
José Brissos-Lino

segunda-feira, 2 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


Ouçam só o que vos digo

Não confiem nos vossos olhos. A mulher que veem a sorrir para o polícia que a mata está a ameaçá-lo. O homem baleado no chão várias vezes depois de ter sido desarmado era um perigo. Toda a gente sabe que quem não deve não teme. Se os agentes os mataram, a culpa foi deles. Não confiem em quem vos manipula. Duvidem de tudo. Duvidem sempre. Só não duvidem do que vos diz aquele que é a voz do povo.

A voz do povo só tem um intérprete. Um escolhido. Um eleito. Eleito por Deus, primeiro, e pelos vossos votos depois. A ordem é esta. Nunca se esqueçam da ordem. A ordem é uma coisa muito importante. Sem ordem é tudo uma bandalheira. Mas calma. Há coisas que se podem proibir e outras que não. Porque, senão, qualquer dia já não se pode dizer nada. Quem sabe o que se pode dizer e o que não se deve sequer pensar? O eleito, claro. Devemos sempre confiar em quem é eleito, mas nem sempre nas eleições. As eleições são a expressão da voz do povo quando o eleito as conquista, mas não valem nada e são manipuladas quando o eleito as perde. Porque o que conta é ser escolhido por Deus. E por isso é que ele é eleito.

Não confiem nos vossos ouvidos. Se ouviram dizer uma coisa e depois outra, é porque entretanto as coisas mudaram ou uma voz divina guiou o eleito noutra direção. A voz divina é a voz do povo. Por isso, o povo já não precisa de falar. Tem os seus ventríloquos. E pode trabalhar e meter-se na sua vida. Porque a política é uma coisa suja, a não ser que seja feita pelo eleito, claro. Nesse caso, nem se lhe pode bem chamar política. É só fazer o que está certo.

Às vezes, o que está certo causa vítimas. Há uns bandidos que morrem ou uns preguiçosos que perdem o trabalho ou a casa. Isso não muda nada. Toda a gente sabe que Deus escreve direito por linhas tortas. E as linhas do Excel podem ser muito tortas, mesmo que pareçam uma quadrícula perfeita. Se as contas batem certo, que se lixem as pessoas. Toda a gente sabe que só não prospera quem não trabalha, só morre à fome quem se pôs a jeito, só definha por falta de cuidados quem não merece viver. É a seleção natural. A ordem natural das coisas. E a ordem é muito importante.


Não confiem nos vossos instintos. O vizinho de turbante que vos parece simpático e pacífico está a enganar-vos. O cigano que trabalha é uma exceção. O imigrante que foi ajudar nos incêndios ou nas cheias é uma criação de Inteligência Artificial. Tudo falso. Falso como todas as mentiras a que chamam notícias e factos e estatísticas. O que é que valem as estatísticas quando se conhece um caso que as desmonta? O que é que vale a ciência, feita por um bando de vendidos? O que é que interessa que tenha sido o progresso científico a aumentar a esperança de vida? Balelas. Toda a gente tem uma avó que viveu rija que nem um pero até aos 100 sem precisar de nada disso.

E o que é que interessam as crianças que agonizam em Gaza? E as do Sudão? E as da Ucrânia? Há tantos lugares onde as crianças agonizam. Quantos mais houver, menos se liga a cada um deles. E assim é que está bem. Temos de cuidar dos nossos primeiro. Os nossos, sim, os nossos. Os nossos que são tão brancos como nós, apesar de haver uns mais brancos do que nós que nos acham escuros e inferiores, mas isso não vem ao caso.

É preciso salvar as crianças. Não as que morrem da guerra e da fome. As que tomam vacinas e as que vão à escola para serem endoutrinadas. Qualquer dia estão todas a ir às mesmas casas de banho. E já se sabe que é assim que se dá a pedofilia. Sim, em casa usam todas as mesmas casas de banho e os jornais estão cheios de notícias de pais, tios e avôs abusadores. E às vezes até um ou outro eleito. Mas isso são coisas que escrevem para nos distrair dos perigos verdadeiros. Tudo jornalixo feito por vendidos do sistema.

Temos de deitar abaixo o sistema. E é por isso que contamos com o apoio dos mais ricos dos mais ricos, que entretanto garantem que ficam ainda mais ricos. É claro que eles estão também contra o sistema. Sim, eles têm dinheiro e poder quase infinito. Mas estão contra os que andam a mamar. Sim, eles acumulam milhões em contratos públicos, subsídios e benefícios fiscais, mas é porque merecem. Só são ricos porque se esforçaram. Podem ter herdado, mas não esbanjaram tudo como aqueles que recebem apoios sociais e passam a tarde a beber minis no café. Podem ser pouco mais de 200 euros, mas é um roubo. Roubam-nos a nós que nos esfalfamos a trabalhar para pagar impostos. Sim, os mais ricos não pagam impostos quase nenhuns, mas é porque são espertos.

É preciso é ser esperto. Somos contra os tachos. Mas se um dos eleitos é apanhado a roubar ou nomear a namorada, a tia e a sobrinha é porque os outros também o fazem. Eles são todos iguais. Escolhemos os eleitos porque estamos fartos de que sejam iguais. Mas aceitamos que sejam iguais, porque essa é a ordem natural das coisas. Já vos disse que a ordem é muito importante?

A ordem é a base de tudo. Mas primeiro é preciso criar a desordem. É preciso que não se saiba no que acreditar, que tudo pareça precário, incerto e inseguro. As ovelhas com medo são as que mais facilmente seguem o pastor. E é tudo pelo nosso bem. Já vos disse que o eleito foi escolhido por Deus.

Deus, Pátria e Família. Deus, porque é preciso haver quem mande. E a quem temer. Sem medo, isto é tudo uma bandalheira. Pátria, porque é preciso fingir que há uma coisa maior que une os mais poderosos dos poderosos aos miseráveis que os seguem alegremente. É preciso ter inimigos e as fronteiras são boas para isso. Há os de cá e os de lá. O que é que interessa que haja uns poucos no topo e milhões espezinhados na base? E a família, claro. Porque é a família que tem de nos cuidar quando precisamos. Não há cá direitos garantidos. Querem ajuda? Peçam à família. E na família manda o pai, claro, ele próprio um eleito à sua pequena escala, com livre passe para descarregar na mulher e nos filhos a frustração acumulada, que isto um homem não é de ferro. E se tudo continua mal, ao menos há futebol e pimba, que já ninguém liga ao fado e Fátima é coisa para mulheres se entreterem e perceberem o seu lugar.

Toda a gente tem um lugar. Há os que são de cá e os que são de fora. Há os que estão em cima e os que estão em baixo. O quê? Isso parece o sistema? Que conversa de comunas! Caladinhos. Vão ver como as coisas lhes mordem quando houver uma limpeza. Acabam-se os disparates, que a conversa do “isto agora não se pode dizer nada” é só quando nos convém. Perdão. Quando convém à ordem. Somos contra o sistema, mas queremos manter tudo como estava desde os tempos do Adão e da Eva. Já vos disse que a ordem é muito importante?

Trump sendo Trump no Discurso do Estado da União

Discursos do Estado da União fazem parte do rito anual de todo presidente dos Estados Unidos. Costumam ser longos e enfadonhos. Servem, em teoria, para o mandatário prestar contas ao Congresso sobre o que fez e pretende fazer. O desempenho de Donald Trump na noite de terça-feira foi um exercício de embevecimento fascista com a própria voz. Durante uma hora e 47 minutos, embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos e transformou o plenário do Capitólio em claque de auditório.

O Grande Comunicador sabia ter em mãos um trunfo que obliteraria a canseira dos presentes. Dois dias antes, o time masculino de hóquei no gelo derrotara o arqui-inimigo Canadá de forma espetacular em Milão-Cortina. Comemoravam o cobiçado ouro olímpico no vestiário da Arena Santagiulia quando Trump adentrou a festança pelo celular do diretor do FBI, Kash Patel, que atravessara o Atlântico para assistir à final:

— Inacreditável! Fantástico! Teremos o discurso do Estado da União na terça-feira. Posso mandar um avião militar ou qualquer outra coisa, se vocês quiserem. Vai ser a noite mais cool — convidou Trump no viva-voz.

Na gravação que se tornou pública, ouve-se um animado “estamos dentro” de alguém do grupo. O presidente, fiel a seus instintos mais enraizados, ainda acrescentou uma gracinha que deve ter achado espirituosíssima:

— Teremos de trazer também o time feminino, vocês sabem. [Senão] acredito que provavelmente sofrerei impeachment — acrescentou, gerando risos no vestiário em Milão.

O episódio diz montes sobre o que o ocupante da Casa Branca realmente pensa das duas condenações de impeachment que sofreu no primeiro mandato, mas foram rejeitadas pelo Senado. E abre um flanco a mais na baixa aprovação junto ao eleitorado feminino e ao voto independente. Três dias antes do ouro masculino, a equipe olímpica feminina dos Estados Unidos já havia eletrizado o país vencendo de virada, também na prorrogação, a sempre campeoníssima equipe do Canadá. Na ocasião, não recebeu convite de Trump. Quando finalmente recebeu, declinou polidamente.

Em entrevista à ESPN americana, Hilary Knight, capitã da equipe vitoriosa, deu uma aula de civilidade. Com dois ouros e três pratas olímpicas na gaveta, foi serena e classuda nas respostas. Alertou sobre a situação difícil da equipe masculina diante da “vergonhosa piada” de Trump, sem minimizar o “momentâneo lapso de julgamento” dos colegas olímpicos:

— É uma pena que essa história ofusque a conexão e apoio mútuo que (as duas equipes) sempre mantiveram — disse a camisa 21.

Declarou-se orgulhosa da vitória masculina e lamentou as duas equipes não celebrarem em conjunto. De quebra, confirmou com alegria seu noivado com a patinadora de velocidade Brittany Bowe (mais de uma dezena de vezes medalhista em mundiais) e informou que a comemoração pela medalha terá local e data decididos pela equipe.

Da presença de Patel, ela certamente não sentiu falta em Milão. O vídeo que vazou do diretor do FBI na euforia do vestiário masculino — garrafa de cerveja numa mão e esmurrando a mesa com a outra — foi a versão real do que parece ser uma fantasia trumpista. Na rasteira do ouro de domingo, a página oficial de Trump publicou um meme dele dando as tacadas finais contra o Canadá e, ao final, esmurrando um dos jogadores adversários. O ideal olímpico da turma é MMA. Segundo explicações fornecidas a posteriori, Patel estava em missão ao embarcar para Milão num jato da Força Aérea: avaliar o papel do FBI na segurança dos atletas, reunir-se com seus pares italianos e ouvir o embaixador americano na Itália. Beleza. Só que chegou ao país faltando apenas três dias para o encerramento dos Jogos.

Não que lhe faltassem problemas agudos em casa. Na mesma semana de sua escapadela, um homem armado tentara invadir o resort de Trump em Mar-a-Lago e fora morto por agentes do Serviço Secreto; o Departamento de Estado emitira um alerta a cidadãos americanos para a onda de violência desencadeada no México pelos cartéis; o país acompanhava avidamente o misterioso sequestro da mãe de uma apresentadora de televisão, com o FBI tateando às cegas havia mais de três semanas. Sem falar no estado de combustão permanente implementado pelos agentes do ICE no país.

Em seu discurso no Congresso, Trump adotou um tom francamente mussoliniano ao anunciar a entrada da equipe olímpica:

— As pessoas me dizem o tempo todo, por favor, por favor, por favor, não aguentamos mais vencer todas; até o senhor chegar à Presidência, perdíamos todas... Então eu digo: “não, não, não”. Vamos continuar ganhando grande, vamos ganhar tudo. Estamos ganhando tanto que não sabemos mais o que fazer com tudo isso... e, para provar meu ponto, temos aqui esta noite o time que dá orgulho à nação toda.

A ala republicana se pôs de pé e, entre aplausos estrondosos, entoou “U-S-A, U-S-A”. Aos democratas, restou o silêncio envergonhado de não ter contido antes o Grande Comunicador.

Guerras do ópio na era das big tech

Um detalhe histórico para os ocidentais, um evento marcante para os chineses. No século XIX, o volume das exportações para a Europa de chá, seda e porcelana assegurava à China um balanço comercial positivo. A empresa inglesa East India Company (EIC) – à data, a maior empresa do mundo, com o seu próprio Exército – dedicou-se à produção de ópio no subcontinente indiano, que vendia aos chineses. O consumo de ópio tornou-se um problema social relevante e um custo económico significativo. Sucessivos imperadores chineses proibiram o comércio, mas o contrabando e o consumo continuaram a aumentar. Quando, em 1839, o imperador chinês ordenou a destruição de uma carga de ópio, o responsável máximo da EIC, Charles Elliot, apelou ao governo inglês e Inglaterra respondeu com uma força armada, que rapidamente impôs uma derrota militar aos chineses. A Primeira Guerra do Ópio terminou com um acordo que impunha à China o pagamento de reparações, a cedência da ilha de Hong Kong e a eliminação de tarifas sobre os produtos ingleses (incluindo o ópio, que se tornou legal). Nas escolas chinesas, o período entre o final da Primeira Guerra do Ópio e o final da II Guerra Mundial é denominado “Século de Humilhação”, e ainda hoje condiciona a perceção e a postura da China face ao mundo ocidental.


Na defesa dos seus interesses económicos, as big tech comportam-se como a EIC. Arregimentam o apoio do governo americano, que pressiona a Europa a rever a sua legislação sobre redes sociais e Inteligência Artificial, sob a ameaça de tarifas e a retirada de apoio militar (na Ucrânia, mas de forma mais geral minando a confiança de que os Estados Unidos da América serão solidários, caso um país da NATO seja alvo de ataque). Potenciam a divisão, seja via algoritmos que promovem a difusão de posições extremistas nas redes sociais, e cujas configurações recusam alterar, seja apoiando, de forma clara, políticos e partidos antidemocráticos. Fazem-no com campanhas de propaganda, com apoio financeiro, com a promoção de desinformação que causa a perda de confiança no Estado e nos representantes eleitos. Recusam participar nos custos de infraestrutura necessários ao seu próprio negócio – seja estruturas de fornecimento de água e luz necessárias à laboração dos data centers, seja cabos de fibra e antenas que permitem que, no computador e no telemóvel, os conteúdos que difundem possam ser acedidos. Roubam propriedade intelectual para treinar LLM. Resistem a uma tributação efetiva dos lucros gerados na União Europeia.

A Europa é a nova colónia do século XXI, e nós − os utilizadores das redes sociais e dos motores de busca e resposta − somos as novas minas de ouro, cujos dados pessoais são extraídos e tratados para fins comerciais. Em troca, recebemos redes sociais que nos entretêm até à morte e chats (GPT ou outros) com quem optamos por conversar, porque é mais simples do que cultivar relações humanas verdadeiras, mas por vezes complicadas.

Mas se sabemos isto tudo, porque não reagimos? Porque tardamos em proibir o scrolling, o feed, as notificações automáticas, o botão do like, o autoplay? Porque não responsabilizamos penalmente os donos das plataformas pelos conteúdos maliciosos e ilegais que promovem via feeds automáticos? Não seria censura, pois não se trata de impedir ninguém de divulgar os seus pensamentos e posições, mas apenas de aplicar às big tech as mesmas regras que aplicamos aos dirigentes de televisões e de jornais. Até o fazermos, medidas como o bloqueio das redes sociais a crianças podem ajudar, mas não protegem a saúde mental de adultos, nem a sociedade democrática, cuja construção tantas vidas custou. 

Vaga-lumes e iluminação pública

Luminárias antigas sempre me encantaram. Se são eficientes? Hoje em dia, talvez não mais, mas com certeza, trazem um toque de charme à paisagem urbana. O que se sabe é que, ao longo da história, a noite sempre foi vista com temor e reservas. Aliás, é fácil imaginar como seriam as cidades na Idade Média, com ruas estreitas, escuras e desertas, enquanto vigílias noturnas, quando existiam, patrulhavam as ruas. Quem quisesse sair à noite deveria usar tochas ou esperar a noite de lua cheia. Nada de bom poderia advir desse mundo de trevas, certo? A literatura é rica em detalhes sobre os cantos sombrios, assustadores e perigosos dos núcleos urbanos de então.

Sabe-se que, nos séculos XV e XVI, houve várias tentativas de melhor iluminar as ruas das cidades europeias. Um exemplo foi a emissão de decretos cobrando a instalação de lanternas estendidas por uma barra de ferro para reduzir a escuridão das vias públicas. Mas foi só com a iluminação pública, à base de lampiões a óleo, que tudo começou a mudar. Devagar, é certo, mas começou. Se, para nós, habitantes do século XXI, as cidades já eram escuras com os lampiões, imagine sem eles, só com aquelas lanternas…

Nesse quesito, a Grã-Bretanha também foi pioneira: o The Mall, em Londres, em 1807, foi a primeira área urbana a ser iluminada com gás. Entre as décadas de 1870 e 1880, outras capitais europeias instalaram lâmpadas de arco, o primeiro tipo de luz elétrica prático, ao longo de algumas das suas principais ruas comerciais.

No Brasil, o Rio de Janeiro, então Capital Federal, instalou os primeiros lampiões a óleo (de mamona, de peixe ou de baleia), no final do século XVIII. Depois do óleo, gás de hulha e querosene alimentaram os lampiões.

Na segunda metade do século XIX, em 1869, a The San Paulo Gas Company Ltd, fundada em Londres, passou a ser responsável pela exploração dos serviços de iluminação pública a gás, em São Paulo. Em 1870, a Várzea do Carmo, no Brás, foi escolhida como o local ideal para a construção da fábrica de gás de carvão, o Gasômetro. O edifício que se tornaria a Casa das Retortas, típico exemplo da arquitetura fabril inglesa, é hoje tombado pelos órgãos de patrimônio do estado e da cidade. Em tempo, retorta é o nome dos grandes recipientes que recebiam o carvão para a produção de gás.


Para quem não se lembra, a Casa das Retornas foi desativada em 1972, restaurada em 1978, com projeto de Paulo Mendes da Rocha e, durante alguns anos, abrigou o Departamento de Informação e Documentação Artísticas (IDART) e o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Mais tarde, uma proposta, do início dos anos 2000, de abrigar o Museu da História de São Paulo acabou não se concretizando e, em 2023, decidiu-se que o local seria um centro gastronômico e de moda. O prazo para conclusão das obras venceu em 2015. E como estará hoje aquele belo exemplo de arquitetura fabril?

Voltando aos lampiões a gás. Eram acesos diariamente ao anoitecer; ao nascer do sol, eram apagados, os vidros eram limpos e as lamparinas, reabastecidas. Quem cuidava desse serviço eram os acendedores de lampiões, conhecidos como “vaga-lumes”. Se você perguntar a uma criança hoje, ela não vai saber o que era um lampião e, muito menos, o que os tais acendedores acendiam. Talvez ela nem saiba o que é um vaga-lume de verdade… E graças aos lampiões e aos denominados “vaga-lumes”, as ruas, até então desertas à noite, passaram a ser utilizadas. Foi uma grande ocasião para as cidades, ainda que, num primeiro momento, só para as maiores.

Depois dos lampiões, só após a famosa invenção (lâmpada elétrica) de Thomas Alva Edison (1847-1931) é que veio a iluminação elétrica. Nova York foi a primeira cidade a ter iluminação pública elétrica, em 1882. No Brasil, Campos dos Goytacazes (RJ), em 1883, e depois o Rio de Janeiro. Mesmo assim, o sistema a gás e o elétrico coexistiram por décadas. Aqui, as primeiras experiências foram feitas no Rio de Janeiro (1879), mas foi só a partir de 1906 que essa tecnologia se expandiu pelas nossas cidades. Os últimos lampiões a gás ainda conviveram com os elétricos até o final da década de 1920, mas foram apagados definitivamente em 1933, no Rio, e em 1938, em São Paulo.

Data dessa época a instalação de diversos modelos de postes na capital paulista, sendo que inúmeros resistem até hoje. A maioria era de ferro fundido, tornando-se uma marca dos novos tempos, a transição entre a cidade provinciana e a modernidade. Esses postes marcaram época e até foram tema para vários poetas, como Oswald de Andrade, com o seu “Postes da Light”.

Aos poucos, a eletricidade substituiu de vez o sistema a gás e, com o tempo, a tecnologia foi mudando na busca por cidades mais claras, mais seguras e com equipamentos de menor impacto ambiental. Depois das incandescentes, surgiram as lâmpadas fluorescentes, as de vapor de mercúrio (brancas), as de sódio (amarelas) e, finalmente, as de LED.

Hoje, como antigamente, o design das luminárias é um elemento essencial no planejamento e no desenho urbanos, mas, convenhamos, o charme dos antigos postes e luminárias é imbatível.pos, a transição entre a cidade provinciana e a modernidade. Esses postes marcaram época e até foram tema para vários poetas, como Oswald de Andrade, com o seu “Postes da Light”.

Aos poucos, a eletricidade substituiu de vez o sistema a gás e, com o tempo, a tecnologia foi mudando na busca por cidades mais claras, mais seguras e com equipamentos de menor impacto ambiental. Depois das incandescentes, surgiram as lâmpadas fluorescentes, as de vapor de mercúrio (brancas), as de sódio (amarelas) e, finalmente, as de LED.

Hoje, como antigamente, o design das luminárias é um elemento essencial no planejamento e no desenho urbanos, mas, convenhamos, o charme dos antigos postes e luminárias é imbatível.

Não é o Irã que ameaça a paz no mundo. É Trump que ameaça

Pau que bate em Chico também bate em Francisco. Está ok?

Não está. Depende de quem maneja o pau. E de quem seja Chico ou Francisco. Se Chico é forte e Francisco não, Francisco é quem apanha. Chico escapa ileso ou com pequenas escoriações.

Aplique-se o ensinamento ao que ocorre desde tempos imemoriais no Oriente Médio. Ou pelo menos desde a criação do Estado de Israel em terras que pertenciam aos palestinos.


A criação de Israel, em maio de 1948, se deu no rastro do Holocausto de 6 milhões de judeus e de outras minorias promovido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

À época, as maiores potências ocidentais prometeram criar um estado para os palestinos chamarem de seu. A promessa não saiu do papel. E não há sinais de que sairá um dia.

Israel, hoje, controla de 78% a 97% da Palestina histórica, dependendo se o cálculo inclui a ocupação da Cisjordânia, a administração de Jerusalém Oriental e áreas da Faixa de Gaza.

E funciona como um braço armado dos Estados Unidos. O ex-presidente Joe Biden já disse que Israel é o maior porta-aviões dos Estados Unidos estacionado no Oriente Médio. E assim é.

O pau está comendo nas costas do Francisco da vez – no caso, o Irã, coração do antigo Império Persa, um dos maiores da história. O motivo: o Irã é uma ameaça à segurança do Ocidente.

Em 1953, a CIA e a inteligência britânica (MI6) derrubaram o primeiro-ministro democraticamente eleito do Irã para proteger os interesses petrolíferos ocidentais, e instalaram o Xá.

Mohammad Rezā Shāh Pahlavi, o Xá, governou o Irã de 16 de setembro de 1941 até à sua deposição pela Revolução Iraniana, em de fevereiro de 1979. Comportou-se como um ditador sanguinário.

Seu regime era escandalosamente corrupto e violento. Sua polícia secreta torturava e matava dissidentes com o conhecimento e o apoio financeiro dos Estados Unidos e de outros países.

Já sob o jugo cruel do aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini, que sucedeu ao Xá, o Irã foi invadido pelo Iraque do ditador Saddam Hussein. Os Estados Unidos apoiaram a invasão. Mas não só.

Os Estados Unidos fecharam os olhos enquanto Saddam usava armas químicas contra os iranianos. Morreram até um milhão deles. As leis da guerra proíbem o uso de armas químicas.

Tanto que, a pretexto de que Saddam acumulava armas de destruição em massa, os Estados Unidos, em 2003, invadiram o Iraque, capturaram Saddam e o mataram. Não havia armas.

Por décadas, os Estados Unidos esmagaram os iranianos comuns com sanções que destruíram sua economia, enquanto o regime dos aiatolás permanecia intocado. Tudo pelo petróleo. Sempre foi.

Em 2015, a diplomacia deu esperança aos iranianos. O acordo nuclear assinado por eles com os Estados Unidos ia bem. As sanções diminuíram. Até que em 2018, Trump o desmantelou.

E agora bombardeia o país. É o que o povo iraniano vê quando olha para os EUA. “Setenta anos de promessas quebradas, traição e destruição”, segundo a blogueira americana Heather Reese.

A Constituição americana é explícita, como observa Reese. O Artigo I, Seção 8, concede ao Congresso, e somente ao Congresso, o poder de declarar guerra. Trump sequer consultou o Congresso.

A Resolução sobre Poderes de Guerra, de 1973, permite que o presidente mobilize forças militares sem a aprovação do Congresso apenas quando houver uma ameaça iminente ao país.

Trump não apresentou provas sobre ameaça iminente. Porque não as tem. Porque não há nenhuma. Porque o Irã não representa ameaça. Quem tem bombas atômicas é Israel, seu aliado.

Trump é quem ameaça a paz no mundo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Trump fará mais pela guerra do que pela paz

Na sua primeira reunião, o Conselho da Paz de Donald Trump serviu para dois atos nada pacíficos: ameaçar de guerra o Irã e insinuar que uma organização que só obedece ao narcisismo e megalomania do Presidente dos EUA poderia substituir ou tutelar a ONU.

Embalado pelo rapto de Nicolás Maduro, Trump quer derrubar a teocracia iraniana em nome de quê? O Presidente dos EUA não tem nenhum argumento plausível para atacar o Irão. Foi o próprio que afirmou que a capacidade iraniana de enriquecimento de urânio tinha sido fortemente comprometida após os bombardeamentos em Junho do ano passado, pelo que um segundo ataque, em menos de um ano, contradiz o discurso anterior de vitória.

Contrariamente ao que aconteceu na Venezuela, não há ninguém em Teerã para desempenhar o papel que Delcy Rodríguez desempenha em Caracas. Nem o exilado Reza Pahlavi tem as mesmas condições para desempenhar no futuro do Irã o mesmo papel que Corina Machado pode desempenhar um dia no futuro de Caracas.


Um quase certo ataque ao Irã só favorece o Governo de Benjamin Netanyahu. Thomas L. Friedman, conhecido colunista do New York Times, tem estatuto para dizer o que a outros causaria demasiados incómodos: “Ao mesmo tempo que mantém Trump focado na ameaça nuclear e de mísseis iranianos — que, embora reduzida, ainda é muito real e terá de ser enfrentada diplomática ou militarmente —, Bibi está, fundamentalmente, a ameaçar os interesses mais amplos do EUA no Médio Oriente, sem mencionar a segurança dos judeus em todo o mundo.”

Friedman sustenta que as tentativas claras de anexação da Cisjordânia e de permanência em Gaza, “negando aos palestinianos direitos políticos, é um “empreendimento messiânico”, com consequências para as instituições judaicas em todo o mundo. O argumento é este: as suas semelhanças com o apartheid sul-africano são indistinguíveis e elas só contribuirão para que um “número crescente de jovens democratas e republicanos dos EUA se volte contra Israel e, em alguns casos, contra os judeus em geral”.

Como diz Friedman, o Irã nada tem que ver com os esforços de Netanyahu para limitar o Estado de direito em Israel, com a insistência no afastamento da procuradora-geral, com a isenção total do serviço militar para os judeus ultra ortodoxos, que o mantêm no poder. Nem com o impedimento de uma comissão independente de inquérito às falhas do 7 de outubro de 2023, quando se suspeita de que o mesmo fora avisado dos planos do Hamas para atacar Israel. No fundo, Netanyahu é uma ameaça para o seu próprio país e de nada valem os acordos de Abraão, celebrados ou a celebrar, enquanto israelitas e palestinianos não fizerem a paz.

Este Conselho da Paz, do qual Trump se autointitula presidente vitalício, imaginando-se como presidente do mundo, é uma farsa patética na qual só alinham os subservientes do costume. Israel lá está, ao lado das monarquias do Golfo. O organismo foi anunciado em outubro, na sequência de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e tem servido para encobrir a anexação em curso da Cisjordânia, a continuidade do genocídio lento e silencioso de Gaza e para fazer planos de negócio imobiliário com a reconstrução do enclave destruído, à custa de uma provável deportação forçada.

Zangado com a academia norueguesa, por esta não lhe ter concedido o Prêmio Nobel da Paz, insatisfeito pela atribuição do Prêmio de Paz FIFA, Trump considera que os países que não aceitaram o convite para entrarem no seu clube pacifista estão a “aramar-se em espertos” (Portugal optou pelo estatuto de observador).

O israelita Yuval Noah Harari escrevia no Financial Times que o mantra para resolver o conflito israel-palestino foi o da solução “dois estados para dois povos” e que, se ambos “não puderem ser mais generosos, a solução final para o conflito poderá ser ‘zero estados para zero pessoas’”. Referindo-se à Ucrânia, Harari observava que a “guerra não é vencida por quem conquista mais território, destrói mais cidades ou mata mais pessoas. A guerra é vencida por quem alcança os seus objetivos políticos. E, na Ucrânia, já está claro que Putin falhou em atingir o seu principal objetivo de guerra: a destruição da nação ucraniana. E na Palestina?

Com um presidente como Trump em Washington e num cenário de impotência e desvalorização do papel da ONU, é pouco provável que Netanyahu e Vladimir Putin desistam das guerras que travam e que aceitem uma negociação justa. Dois anos e quatro meses depois, o primeiro não cede na limpeza étnica em curso. E, quatro anos depois da invasão da Ucrânia, o segundo irá até onde lhe for possível para se declarar triunfante. Uma coisa parece certa: o falso clube pacifista de Trump fará mais pela guerra do que pela paz.

Pesadelo palestino

Ninguém poderia imaginar que o fim da Guerra Fria iria mergulhar o mundo em sangrentos conflitos – que saudades da Guerra Fria! Entre os muitos confrontos em meio à Guerra EUA-China em curso, a carnificina em escala industrial no Levante me atinge particularmente, porque a Palestina é a minha terra natal.

Com o fim do Império Otomano, a Palestina foi entregue à Inglaterra por mandato da Liga das Nações, que agenciou a imigração dos judeus do Leste Europeu. Os alemães, por sua vez, expulsaram seus (ex) cidadãos judeus para a Palestina nos anos 1930, Juden raus! Auf nach Palastina! No decorrer da Segunda Guerra Mundial, a Europa promoveu o extermínio em massa dos judeus. Com que direito as Nações Unidas resolveram partilhar a Palestina para despejar os sobreviventes europeus indesejados? Acharam por bem desvestir um santo para vestir outro – enquanto os judeus deixavam os campos de refugiados na Europa, os palestinos foram forçados a deixar as suas casas para se aglomerar nos campos de refugiados na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e ao longo das fronteiras com os países árabes vizinhos.

Durante a catástrofe, Al-Nakba, Israel ocupou uma área superior à designada no Plano de Partilha e 700 mil palestinos foram expulsos de suas terras. Em 1948, 1,3 milhão de árabes vivia na Palestina (900 mil em terras ocupadas por Israel e 400 mil na Cisjordânia e em Gaza). Apenas 200 mil palestinos foram autorizados a permanecer em Israel, o que garantia uma maioria judia no país. Em dezembro de 1948, as Nações Unidas aprovaram a Resolução 194, assegurando o direito de retorno dos refugiados palestinos às suas casas.

A crise causada pela criação do Estado de Israel motivou ainda a expulsão dos judeus que até então conviviam pacificamente com os muçulmanos nos países da África do Norte e do Oriente Médio. O resultado, na ocasião, foi a substituição dos 700 mil palestinos expulsos de suas terras por 700 mil judeus oriundos da Europa (400 mil) e dos países muçulmanos (300 mil).

Israel não restituiu os territórios palestinos designados no Plano de Partilha, nem permitiu o retorno dos 700 mil refugiados. Ao contrário, ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza em 1967 – hoje a Cisjordânia encontra-se reduzida a limitadas áreas entrecortadas por ocupações e estradas controladas por Israel; e Gaza encontra-se totalmente arrasada.

Em sua política oficial de limpeza étnica, enquanto extermina e desterra gradualmente a população nativa da Palestina, o Estado Judeu promove ativamente a imigração e concede cidadania a judeus oriundos de qualquer parte do globo (mais de 1.500.000 russos vivem hoje em Israel, a maioria tendo emigrado nos anos 1990, após a dissolução da União Soviética).

Apesar dos sionistas de esquerda responsabilizarem o atual governo de direita israelense pelas atuais atrocidades, a violência contra os palestinos é centenária. A expulsão do povo nativo em 1948, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza em 1967 e o assentamento de colonos em terras palestinas foram obras dos governos trabalhistas da esquerda sionista, acompanhadas por discursos dissimulados e apaziguadores. A direita no poder representa o coroamento deste processo.

Para a Europa, a criação do Estado de Israel serviu tanto para absorver os sobreviventes indesejados como para exorcizar o seu sentimento de culpa pelo extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial – os palestinos pagaram e continuam pagando o preço pelos crimes que a civilização europeia cometeu em Auschwitz. O mundo ocidental e a maioria dos judeus festejaram as vitórias militares israelenses como atos heroicos que contrarrestavam a imagem do judeu brando e pacífico da diáspora (aventuras militares são efetivamente o avesso da cultura do judeu da diáspora).

Além disso, o antissemitismo judeu na Europa foi substituído pelo antissemitismo muçulmano. Neste sentido, a Europa e Israel têm um inimigo comum. Theodor Herzl, fundador do moderno sionismo político, no final do século XIX, escreveu que os judeus na Palestina deveriam “formar parte de uma fortaleza da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie” (O estado judeu). Historicamente considerados estrangeiros asiáticos na Europa, os judeus são hoje vistos como europeus em território asiático em guerra santa contra o Islão.

O pesadelo palestino foi acirrado após a investida do Hamas em 2023, embora as ofensivas terroristas do Estado de Israel por mais de sete décadas, documentadas tanto pelos palestinos como por historiadores israelenses, tenham sido muito mais bárbaras e cruéis do que a iniciativa de 7 de outubro. A grande maioria dos israelenses apoiou a operação militar do governo em Gaza. Na pesquisa Visão israelense da guerra entre Israel e Hamas, realizada em março e abril de 2024, apenas 4% dos judeus israelenses declararam que a ofensiva foi longe demais. Com base no relatório da pesquisa, que não abre os demais dados entre judeus e árabes israelenses, estima-se que 96% dos judeus israelenses consideravam que a intervenção militar foi adequada (51%) ou mesmo muito branda (45%).

No decorrer da história da humanidade, várias atrocidades foram empreendidas, mas os responsáveis pelos crimes faziam questão de acobertar os seus atos e se empenhavam em negar extermínios promovidos em escala industrial, porque os consideravam vergonhosos. O que estamos presenciando neste momento são povos, que se acreditam civilizados, apoiando ou se abstendo de boicotar uma nação que está promovendo uma carnificina em massa veiculada em tempo real, em que os algozes se orgulham dos crimes cometidos contra a humanidade, inclusive bloqueando ajuda humanitária às suas vítimas. 

Os palestinos e os demais coletivos pró-palestinos fazem questão de declarar que são antissionistas, mas não antissemitas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, instrumentalizando a memória do Holocausto, diz que fala tanto em nome do Estado Judeu como em nome dos judeus da diáspora (o reduzido número de judeus que se posiciona contra o Estado de Israel, inclusive os judeus ortodoxos Satmar e Neturei Karta, é considerado antissemita). Ou seja, o posicionamento do primeiro-ministro estimula o antissemitismo.

Quando e como terminará o pesadelo palestino? Embora somem 14 milhões – 7 milhões na diáspora, 3 milhões na Cisjordânia, 2 milhões em Gaza e 2 milhões em território israelense – o objetivo de Israel é varrer, desterrar a população nativa para provar aos judeus e ao mundo que a Palestina era uma terra sem povo antes da imigração dos judeus. Para os incrédulos que não acreditam que a Palestina era um deserto que foi transformado em oásis, Israel argumenta que os palestinos abandonaram as suas terras em 1948, assim como estão hoje evacuando a faixa de Gaza e as terras ocupadas pelos colonos judeus na Cisjordânia.

A Europa, principalmente a Alemanha, palco do Holocausto, reprime qualquer ato pró-Palestina. A despeito das manifestações em defesa do povo palestino ao redor do mundo, praticamente todos os países não muçulmanos continuam mantendo relações comerciais e diplomáticas com o Estado de Israel, mesmo aqueles que o acusam de estar cometendo genocídio, mesmo os membros do BRICS (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa), que hoje inclui vários outros países emergentes. Israel alardeia que foi criado por determinação das Nações Unidas, embora se recuse sistematicamente a acatar as suas resoluções.

A Torah e a história do povo judeu foram moldadas e escritas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos. Em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência é a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Em 1952, pouco depois da catástrofe que se abateu sobre os palestinos em 1948, Frantz Fanon nos advertiu que os judeus que se instalaram em Israel criariam em menos de cem anos um inconsciente coletivo diferente daquele que possuíam em 1945, nos países de onde foram expulsos. Setenta e quatro anos depois, qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios.
Samuel Kilsztajn