segunda-feira, 20 de julho de 2026
Perdoa, Rei
Meu personagem da semana se chama Edson Arantes do Nascimento.
Na última semana inúmeras heresias foram cometidas contra Edson Arantes. Seu manto real foi profanado, seu nome foi pronunciado em vão, seu trono foi vilipendiado, sua soberania foi questionada.
Perdoa, Rei, porque eles não sabem o que fazem.
Houve hereges brasileiros capazes de ironizar seus vídeos em redes sociais. Para estes podemos oferecer a danação eterna, um chute do Roberto Carlos na região indefesa, quem sabe milho ocasional para o joelho arrependido.
Estudar história é necessário. Houve um, apenas um, que aos 17 anos deu chapéu, matou no peito e fez gol em final de Copa do Mundo. Houve apenas um que ganhou três Copas do Mundo como jogador.
Entendam os amigos argentinos: Messi compete com Maradona – e não sabemos se ganha. Pelé está em outro planeta. Em outra galáxia. Em outra dimensão.
Pelé nunca perdeu uma final da Copa, muito menos duas. Maradona, diga-se, perdeu só uma. Pelé nunca viu seu time ser engolido em final de Copa. Aliás, nas duas finais que disputou, o Brasil ganhou de goleada. Na primeira, o jovem Edson fez o citado gol de almanaque. Na segunda, deu aula de futebol e fez gol mais uma vez. Sua camisa 10 de 1970 deveria estar na entrada da FIFA como uma espécie de santo sudário futebolístico.
Maradona ganhou um título sozinho em 1986. Levou a Argentina nas costas até a final de 1990 – mais ou menos como Messi fez agora. Aquela final em Roma, porém, foi vagamente equilibrada. A partida que vimos ontem em Nova York foi um massacre.
Poucas vezes se viu, numa final de Mundial, domínio tão impressionante. A Argentina só foi finalizar na prorrogação. Parecia um daqueles jogos de Estadual – em que o time grande fica com a bola e o pequeno joga com raça tentando arrumar o gol milagroso num contra-ataque que nunca vem.
Quando o gol espanhol saiu, os argentinos tentaram tirar o improvável coelho da cartola. Messi enfim apareceu no jogo – fazendo duas, três jogadinhas na ponta direita... batendo escanteios perigosos. Houve brio. E pouco mais.
Por um instante me lembrei da musiquinha que ecoou pelos estádios brasileiros em 2014:
- Mil gols, mil gols... só Pelé... só Pelé... Maradona cheirador!
Messi sequer aparecia na canção. Aquela derrota e outras duas em Copa América quase tiraram Messi da seleção argentina. A volta por cima em 2022 foi linda – por mais que ele já não fosse o SuperMessi do Barcelona. Ele já tinha se tornado um Messi estratégico, especialista em encontrar as brechas impossíveis, derivando em campo como um fantasma.
Em 2026, Messi foi ainda mais esse pós-Messi que, não nos enganemos, continua craque, mas longe daquele Messi capaz de destruir qualquer partida a qualquer momento. A vitória em 2022 e essa improvável final alucinaram especialistas e parte da imprensa mundial – que resolveram elegê-lo como o melhor jogador de todos os tempos.
O massacre espanhol talvez desidrate esse descalabro. Messi deve se considerar abençoado pela mera existência da discussão. Mas seu debate é outro – e com outro argentino. Até porque Messi não fez em nenhuma de suas seis Copas o que Maradona fez em 1986. Ou que Garrincha fez em 1962 - para falar de outro gênio.
Então, celebremos o craque infinito, seu currículo, sua história e tudo aquilo que Messi ofereceu ao futebol. Foi um prazer apreciá-lo em campo e é uma pena que não tenhamos mais Copas com ele. Mas não perturbemos o sono real. Deixemos que Edson Arantes descanse em paz na inviolável eternidade de seu trono.
Na última semana inúmeras heresias foram cometidas contra Edson Arantes. Seu manto real foi profanado, seu nome foi pronunciado em vão, seu trono foi vilipendiado, sua soberania foi questionada.
Perdoa, Rei, porque eles não sabem o que fazem.
Houve hereges brasileiros capazes de ironizar seus vídeos em redes sociais. Para estes podemos oferecer a danação eterna, um chute do Roberto Carlos na região indefesa, quem sabe milho ocasional para o joelho arrependido.
Estudar história é necessário. Houve um, apenas um, que aos 17 anos deu chapéu, matou no peito e fez gol em final de Copa do Mundo. Houve apenas um que ganhou três Copas do Mundo como jogador.
Entendam os amigos argentinos: Messi compete com Maradona – e não sabemos se ganha. Pelé está em outro planeta. Em outra galáxia. Em outra dimensão.
Pelé nunca perdeu uma final da Copa, muito menos duas. Maradona, diga-se, perdeu só uma. Pelé nunca viu seu time ser engolido em final de Copa. Aliás, nas duas finais que disputou, o Brasil ganhou de goleada. Na primeira, o jovem Edson fez o citado gol de almanaque. Na segunda, deu aula de futebol e fez gol mais uma vez. Sua camisa 10 de 1970 deveria estar na entrada da FIFA como uma espécie de santo sudário futebolístico.
Maradona ganhou um título sozinho em 1986. Levou a Argentina nas costas até a final de 1990 – mais ou menos como Messi fez agora. Aquela final em Roma, porém, foi vagamente equilibrada. A partida que vimos ontem em Nova York foi um massacre.
Poucas vezes se viu, numa final de Mundial, domínio tão impressionante. A Argentina só foi finalizar na prorrogação. Parecia um daqueles jogos de Estadual – em que o time grande fica com a bola e o pequeno joga com raça tentando arrumar o gol milagroso num contra-ataque que nunca vem.
Quando o gol espanhol saiu, os argentinos tentaram tirar o improvável coelho da cartola. Messi enfim apareceu no jogo – fazendo duas, três jogadinhas na ponta direita... batendo escanteios perigosos. Houve brio. E pouco mais.
Por um instante me lembrei da musiquinha que ecoou pelos estádios brasileiros em 2014:
- Mil gols, mil gols... só Pelé... só Pelé... Maradona cheirador!
Messi sequer aparecia na canção. Aquela derrota e outras duas em Copa América quase tiraram Messi da seleção argentina. A volta por cima em 2022 foi linda – por mais que ele já não fosse o SuperMessi do Barcelona. Ele já tinha se tornado um Messi estratégico, especialista em encontrar as brechas impossíveis, derivando em campo como um fantasma.
Em 2026, Messi foi ainda mais esse pós-Messi que, não nos enganemos, continua craque, mas longe daquele Messi capaz de destruir qualquer partida a qualquer momento. A vitória em 2022 e essa improvável final alucinaram especialistas e parte da imprensa mundial – que resolveram elegê-lo como o melhor jogador de todos os tempos.
O massacre espanhol talvez desidrate esse descalabro. Messi deve se considerar abençoado pela mera existência da discussão. Mas seu debate é outro – e com outro argentino. Até porque Messi não fez em nenhuma de suas seis Copas o que Maradona fez em 1986. Ou que Garrincha fez em 1962 - para falar de outro gênio.
Então, celebremos o craque infinito, seu currículo, sua história e tudo aquilo que Messi ofereceu ao futebol. Foi um prazer apreciá-lo em campo e é uma pena que não tenhamos mais Copas com ele. Mas não perturbemos o sono real. Deixemos que Edson Arantes descanse em paz na inviolável eternidade de seu trono.
Mundo de pastelão
O mundo está assim, uniformizado, massificado. E a uniformidade é o fim. As cadeias de lojas e o urbanismo também. É uma arquitetura do desastre, da repetição, dos caixotes com vidro fumê que eu critico tanto nos meus romances.
É a massificação do capitalismo, o fim das aristocracias todas, das elites pensantes. Não estou lamentando isso, só estou constatando, porque também não sou nostálgico de nada disso. Acho que é uma crise mesmo, é para onde caminha o capitalismo tentacular, tudo vai se parecer, todas as cidades vão ser mais ou menos iguais,
É a massificação do capitalismo, o fim das aristocracias todas, das elites pensantes. Não estou lamentando isso, só estou constatando, porque também não sou nostálgico de nada disso. Acho que é uma crise mesmo, é para onde caminha o capitalismo tentacular, tudo vai se parecer, todas as cidades vão ser mais ou menos iguais,
Trump quer o Brasil
Donald Trump quer, sim, as terras raras do Brasil. Quer regalias para as suas bigtechs e seu etanol, quer o fim do Pix, cujo pecado é ser gratuito. Mas a nova taxação de 25% a produtos brasileiros não se limita a quereres pontuais. Trump quer o Brasil. Quer porque quer esta terra rebelde que não se curvou à sua “química”, insistindo em impedir que ele se torne dono das Américas, plano que imaginava próximo.
Primeiro, Trump jogou com os vizinhos México e Canadá, os dois maiores exportadores e importadores de produtos norteamericanos. A grita interna foi tamanha que ele refluiu parcialmente nas tarifas mexicanas e abandonou a ideia inescrupulosa de transformar o Canadá em 51º estado. Mas mantém ambos sob constante ameaça.
Com algum êxito, avançou na América Central, obrigando a revisão de contratos com chineses na operação do Canal do Panamá, que, para Trump, deveria pertencer aos Estados Unidos. Esmagou a indigesta Cuba, pobre e incapaz de provocar qualquer dano.
Sob alegação nunca comprovada de combater o tráfico de drogas, bombardeou embarcações no Mar do Caribe, operação encerrada logo depois da bem sucedida incursão na Venezuela. Prendeu Nicolás Maduro e domesticou a vice Delcy Rodrigues. Seis meses depois, Trump se vangloria de sorver o petróleo, cujo lucro os venezuelanos não viram.
No Sul, nem foi necessário muito trabalho. Bastaram algumas migalhas aqui e ali em prol de postulantes de direita ou de franco-atiradores para garantir apoio consistente de nada menos de oito dos 12 países da região. Restaram à esquerda apenas o pequeno e desenvolvido Uruguai, a Guiana e o Suriname. E o Brasil – esse estraga prazeres.
Sem o Brasil, décima economia do mundo, que, sozinho, responde por 47,5% do PIB da parte Sul, não há como Trump dominar as Américas.
Depois do desacerto da primeira rodada de tarifas e sanções impostas no ano passado com o claro objetivo de tentar reverter a condenação do ex Jair Bolsonaro, Trump imaginou que avançaria suas garras no Brasil adulando o presidente Lula. Fez caras e bocas, elogios, ofereceu almoço na Casa Branca, paparicou.
Paralelamente, as equipes de negociação dos dois lados não conseguiam avançar. Não por falta de empenho ou de competência dos brasileiros. Mas porque as hipóteses de acordo, desde sempre, eram de mentirinha. O que Trump buscava era a submissão.
Como bobos da corte, o deputado cassado Eduardo, autoexilado no Texas, chegou a comemorar sanções contra o Brasil, e, mais recentemente, defender que o Pix operasse como o sistema americano Zelle, similar, mas sem gratuidade. Seu irmão Flávio, pré-candidato à Presidência pelo PL, foi ainda mais patético ao sugerir não a suspensão, mas o adiamento do tarifaço para depois das eleições, porque sua imposição agora beneficiaria Lula. Fez isso oficialmente por escrito, e presencialmente na audiência pública do Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR).
Agora, Flávio faz malabarismos para se desvencilhar da encrenca. Ele e os seus tentam jogar em Lula a culpa por não haver acordo, o qual os Estados Unidos de Trump, e não o Brasil de Lula, nunca desejou. Isso está estampado com todas as letras em um documento divulgado pelo jornalista Jamil Chade com absurdas exigências de submissão do Brasil, que, se sabia de antemão, eram inaceitáveis.
Mesmo se tratando de Trump, que adora desanunciar no dia seguinte o que anunciou no anterior, dificilmente haverá mudança de rota no tarifaço aos produtos brasileiros. Politicamente, será custoso para ele: lança o Brasil na corrida para outros mercados, ampliando a dependência do país à China, seu maior rival; e dá mais vigor à campanha de Lula, até mesmo junto a parcela significativa do empresariado que torce o nariz para o petista.
Não será a primeira vez que Trump ajuda o lado contrário. Aconteceu no Canadá e na Hungria. De alguma forma também no Brasil de Bolsonaro, quando ambos atacaram as vacinas e defenderam com unhas e dentes o uso da cloroquina para tratar a Covid-19. Safo, Trump se vacinou em segredo, mas entupiu o Brasil com dois milhões de doses do remédio ineficaz. O descaso com a Covid, a postura antivacina e a crença em medicamentos milagrosos contribuíram seriamente para a derrota de Bolsonaro em 2022.
Isso foi no primeiro mandato de Trump, quando sua megalomania chegava, no máximo, a patacoadas como a dita ao então presidente Michel Temer, sugerindo que ele invadisse a Venezuela.
Hoje, Trump parece mais tresloucado. Mas ele tem método. E quer porque quer o Brasil, a pedra que ele não consegue tirar do sapato e que o impede de conquistar as Américas.
Primeiro, Trump jogou com os vizinhos México e Canadá, os dois maiores exportadores e importadores de produtos norteamericanos. A grita interna foi tamanha que ele refluiu parcialmente nas tarifas mexicanas e abandonou a ideia inescrupulosa de transformar o Canadá em 51º estado. Mas mantém ambos sob constante ameaça.
Com algum êxito, avançou na América Central, obrigando a revisão de contratos com chineses na operação do Canal do Panamá, que, para Trump, deveria pertencer aos Estados Unidos. Esmagou a indigesta Cuba, pobre e incapaz de provocar qualquer dano.
Sob alegação nunca comprovada de combater o tráfico de drogas, bombardeou embarcações no Mar do Caribe, operação encerrada logo depois da bem sucedida incursão na Venezuela. Prendeu Nicolás Maduro e domesticou a vice Delcy Rodrigues. Seis meses depois, Trump se vangloria de sorver o petróleo, cujo lucro os venezuelanos não viram.
No Sul, nem foi necessário muito trabalho. Bastaram algumas migalhas aqui e ali em prol de postulantes de direita ou de franco-atiradores para garantir apoio consistente de nada menos de oito dos 12 países da região. Restaram à esquerda apenas o pequeno e desenvolvido Uruguai, a Guiana e o Suriname. E o Brasil – esse estraga prazeres.
Sem o Brasil, décima economia do mundo, que, sozinho, responde por 47,5% do PIB da parte Sul, não há como Trump dominar as Américas.
Depois do desacerto da primeira rodada de tarifas e sanções impostas no ano passado com o claro objetivo de tentar reverter a condenação do ex Jair Bolsonaro, Trump imaginou que avançaria suas garras no Brasil adulando o presidente Lula. Fez caras e bocas, elogios, ofereceu almoço na Casa Branca, paparicou.
Paralelamente, as equipes de negociação dos dois lados não conseguiam avançar. Não por falta de empenho ou de competência dos brasileiros. Mas porque as hipóteses de acordo, desde sempre, eram de mentirinha. O que Trump buscava era a submissão.
Como bobos da corte, o deputado cassado Eduardo, autoexilado no Texas, chegou a comemorar sanções contra o Brasil, e, mais recentemente, defender que o Pix operasse como o sistema americano Zelle, similar, mas sem gratuidade. Seu irmão Flávio, pré-candidato à Presidência pelo PL, foi ainda mais patético ao sugerir não a suspensão, mas o adiamento do tarifaço para depois das eleições, porque sua imposição agora beneficiaria Lula. Fez isso oficialmente por escrito, e presencialmente na audiência pública do Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR).
Agora, Flávio faz malabarismos para se desvencilhar da encrenca. Ele e os seus tentam jogar em Lula a culpa por não haver acordo, o qual os Estados Unidos de Trump, e não o Brasil de Lula, nunca desejou. Isso está estampado com todas as letras em um documento divulgado pelo jornalista Jamil Chade com absurdas exigências de submissão do Brasil, que, se sabia de antemão, eram inaceitáveis.
Mesmo se tratando de Trump, que adora desanunciar no dia seguinte o que anunciou no anterior, dificilmente haverá mudança de rota no tarifaço aos produtos brasileiros. Politicamente, será custoso para ele: lança o Brasil na corrida para outros mercados, ampliando a dependência do país à China, seu maior rival; e dá mais vigor à campanha de Lula, até mesmo junto a parcela significativa do empresariado que torce o nariz para o petista.
Não será a primeira vez que Trump ajuda o lado contrário. Aconteceu no Canadá e na Hungria. De alguma forma também no Brasil de Bolsonaro, quando ambos atacaram as vacinas e defenderam com unhas e dentes o uso da cloroquina para tratar a Covid-19. Safo, Trump se vacinou em segredo, mas entupiu o Brasil com dois milhões de doses do remédio ineficaz. O descaso com a Covid, a postura antivacina e a crença em medicamentos milagrosos contribuíram seriamente para a derrota de Bolsonaro em 2022.
Isso foi no primeiro mandato de Trump, quando sua megalomania chegava, no máximo, a patacoadas como a dita ao então presidente Michel Temer, sugerindo que ele invadisse a Venezuela.
Hoje, Trump parece mais tresloucado. Mas ele tem método. E quer porque quer o Brasil, a pedra que ele não consegue tirar do sapato e que o impede de conquistar as Américas.
Polícia não pode ser responsável por tudo
Imagine uma ocorrência de embriaguez e desordem em um sábado à noite. A polícia chega para conter a confusão e encontra uma mulher agredida, crianças vivendo em um ambiente de violência e uma família abandonada pelo poder público. Quando a ocorrência termina e todos chegam à delegacia, aparece uma das grandes distorções do nosso sistema. O homem que provocou a violência passa a responder também como vítima, alegando lesão corporal, invasão de domicílio ou prisão ilegal. A mulher e os filhos, que precisavam da intervenção do Estado para interromper o ciclo de violência, tornam-se testemunhas. E o policial chamado para proteger a família passa a ocupar o banco dos réus. Não discuto a responsabilização de abusos policiais quando eles existem. O que essa situação revela é outra coisa: a ausência das demais políticas públicas empurra a polícia para resolver, sozinha, problemas que nunca foram só policiais.
Essa cena ajuda a entender por que o debate sobre segurança pública no Brasil costuma começar no lugar errado. Transformamos problemas de saúde, assistência social, álcool e drogas, educação, urbanismo e proteção à infância em ocorrências policiais. Depois, discutimos apenas a atuação da polícia, enquanto as causas da violência permanecem praticamente intocadas.
Durante décadas criamos falsas escolhas, como se o país tivesse de optar entre mais polícia ou mais políticas sociais. Também se difundiu a ideia de que endurecer penas, prender mais pessoas ou reduzir a maioridade penal bastaria para conter a violência. O Brasil já possui uma das maiores populações prisionais do mundo e continua convivendo com índices elevados de criminalidade. Se o encarceramento resolvesse o problema, nossa realidade seria
O próprio sistema penitenciário, marcado por superlotação, condições degradantes e baixa capacidade de recuperação, acabou fortalecendo as facções criminosas. Organizações que nasceram nos presídios encontraram ali as condições para se estruturar, recrutar integrantes e se expandir pelo país.
Também é uma injustiça com os profissionais da segurança. O Estado permanece anos ausente de um território. Faltam escolas, saúde, cultura, esporte, oportunidades de trabalho, urbanização e atendimento às famílias. Depois retorna apenas por meio da polícia e espera que ela resolva, sozinha, problemas acumulados por décadas. Nenhuma profissão conseguiria cumprir essa missão.
Foi sobre esse tema que conversei recentemente com Rodrigo Pimentel no podcast Papo de Elite. Nossas trajetórias são diferentes e continuamos divergindo em vários pontos, o que tornou o diálogo mais rico. Não se tratava de convencer um ao outro, mas de colocar experiências distintas em diálogo. Quem conhece o território enxerga aspectos que nem sempre aparecem nos relatórios. Quem vive a segurança pública revela desafios pouco visíveis para quem está fora dela.
Segurança não pode continuar como responsabilidade quase exclusiva das polícias. Ela depende da articulação entre educação, saúde, assistência social, desenvolvimento econômico, urbanismo, cultura, esporte e um sistema penitenciário capaz de recuperar pessoas, em vez de fortalecer organizações criminosas. Recuperar territórios exige recuperar a presença do Estado por inteiro. Enquanto insistirmos em cobrar da polícia respostas para problemas produzidos pela ausência das demais políticas públicas, continuaremos administrando consequências quando deveríamos enfrentar as causas.
Essa cena ajuda a entender por que o debate sobre segurança pública no Brasil costuma começar no lugar errado. Transformamos problemas de saúde, assistência social, álcool e drogas, educação, urbanismo e proteção à infância em ocorrências policiais. Depois, discutimos apenas a atuação da polícia, enquanto as causas da violência permanecem praticamente intocadas.
Durante décadas criamos falsas escolhas, como se o país tivesse de optar entre mais polícia ou mais políticas sociais. Também se difundiu a ideia de que endurecer penas, prender mais pessoas ou reduzir a maioridade penal bastaria para conter a violência. O Brasil já possui uma das maiores populações prisionais do mundo e continua convivendo com índices elevados de criminalidade. Se o encarceramento resolvesse o problema, nossa realidade seria
O próprio sistema penitenciário, marcado por superlotação, condições degradantes e baixa capacidade de recuperação, acabou fortalecendo as facções criminosas. Organizações que nasceram nos presídios encontraram ali as condições para se estruturar, recrutar integrantes e se expandir pelo país.
Também é uma injustiça com os profissionais da segurança. O Estado permanece anos ausente de um território. Faltam escolas, saúde, cultura, esporte, oportunidades de trabalho, urbanização e atendimento às famílias. Depois retorna apenas por meio da polícia e espera que ela resolva, sozinha, problemas acumulados por décadas. Nenhuma profissão conseguiria cumprir essa missão.
Foi sobre esse tema que conversei recentemente com Rodrigo Pimentel no podcast Papo de Elite. Nossas trajetórias são diferentes e continuamos divergindo em vários pontos, o que tornou o diálogo mais rico. Não se tratava de convencer um ao outro, mas de colocar experiências distintas em diálogo. Quem conhece o território enxerga aspectos que nem sempre aparecem nos relatórios. Quem vive a segurança pública revela desafios pouco visíveis para quem está fora dela.
Segurança não pode continuar como responsabilidade quase exclusiva das polícias. Ela depende da articulação entre educação, saúde, assistência social, desenvolvimento econômico, urbanismo, cultura, esporte e um sistema penitenciário capaz de recuperar pessoas, em vez de fortalecer organizações criminosas. Recuperar territórios exige recuperar a presença do Estado por inteiro. Enquanto insistirmos em cobrar da polícia respostas para problemas produzidos pela ausência das demais políticas públicas, continuaremos administrando consequências quando deveríamos enfrentar as causas.
A escravidão do êxtase
Ando há uns dias a pensar em escalar. Quero escalar o Mont Blank. O K2. O Shishapangma. Sim, quero. Li agora mesmo que registam as taxas de mortalidade mais altas do mundo. É lá que os alpinistas morrem e há em mim algo que precisa de morte.
Posso ficar-me pela crista do Shishapangma, sim, apesar de ser apenas a décima quarta montanha mais elevada do mundo. Eu morreria a trepar o muro da casa da minha avó e a descer o escorrega vermelho do parque infantil a trezentos metros do meu apartamento. Nunca escalei e o meu cu não caberia naquele escorrega elegante. Mas, seguindo com a escalada, confesso-vos que ando a pensar em subir montanhas por causa de algo que não sabia que tinha nome, mas descobri esta semana: adaptação hedónica.
Ora, estas duas palavras, juntas, basicamente querem dizer que o humano sabe adaptar-se a tudo, por isso, aquilo que é êxtase num momento, logo deixa de o ser. É como fazer sexo sempre com o mesmo parceiro. No fundo, precisamos de novo parceiro, desculpem, novo êxtase, e assim sucessivamente até andarmos de gatas e língua no chão, quem sabe a lamber mijo de rato.
Trata-se de uma espécie de “Ambrósio, apetece-me algo”, só que mais complexo, porque agora apetece-nos algo a toda a hora, e bem mais bizarro que um bombom com picos. Apetece-nos algo ao ponto de não nos apetecer quase nada pela fadiga que é apetecer-nos quase tudo, e tudo extenuantemente excêntrico.
E o que é excentricidade ou sentir êxtase? Por exemplo, pode passar por comprar um peido engarrafado da Stephanie Matto no Only Fans ou virar um eremita que se maquilha para milhares de seguidores no Instagram, no mato grosso da imbecilidade da sua solidão, para falar de livros que nunca leu.
E quem sabe esta seja a maior tragédia da contemporaneidade: a adaptação hedónica, ou como dizia o visionário Santo Agostinho, “o desejo não tem descanso”.
Eu, por exemplo, estou tão cheia de êxtases que começaram a sair pelas bordas. Mas, porque também estou cheia de buracos, dei por mim vazia-vazia-vazia. Sem gota. Então, sim, o Shishapangma é perfeito. Depois, também é preciso morrer com estilo para ter alguma dignidade na posteridade do post, porque é preciso chamar a atenção no scroll. E Shishapangma é nome exótico. Já estou a ver a minha lápide. Que pintarola! Já agora, que cor fica bem a um morto? Convém saber o que vestir.
Mas esperem, ou ide, que eu não saio daqui tão cedo. Estou agora para aqui a pensar se o meu desejo de escalada e o tamanho do meu cu não terão vindo do streaming. Terá sido isso? De querer o êxtase de outros? Gostei tanto de ver aquele filme… Como se chamava? Apex! Sim! A magra da Charlize Theron, linda, a esfolar os joelhos na pedra… Oh!, mas eu queria era o papel do Taron Egerton, o de predador canibal.
Pensando melhor, não, não estou certa se ando com vontades de morrer ou antes de matar. Preciso sentir-me perigosa. Quero! Não fazer mal a ninguém dá má reputação. Quem sabe não compre uma arma de plástico, e faça aqueles guinchinhos do Taron num reel. Quem sabe… quem sabe… foda-se!
Tenho de aprender a sair do sofá onde me deitei estafada de êxtases.
Oh!, o que eu gostava dos tempos em que jogar à bisca, bastava. O que eu gostava do Tito, o espinhoso. Onde andam os espinhosos? Os feios. As velhas. As gordas. Os que não visitaram o mundo em fast forward e não mandam mensagens feitas pelo ChatGPT enquanto incham o bíceps e tiram um doutoramento em engenharia aeroespacial, remotamente.
Agora mesmo, vejo uma aparição: José Tolentino Mendonça no meu telemóvel, dizendo: “Os computadores não choram”. José, eu tenho a certeza que não, verti as lágrimas todas e nenhuma veio do ecrã.
Quando é que esta escravidão por nós armada acaba?
Posso ficar-me pela crista do Shishapangma, sim, apesar de ser apenas a décima quarta montanha mais elevada do mundo. Eu morreria a trepar o muro da casa da minha avó e a descer o escorrega vermelho do parque infantil a trezentos metros do meu apartamento. Nunca escalei e o meu cu não caberia naquele escorrega elegante. Mas, seguindo com a escalada, confesso-vos que ando a pensar em subir montanhas por causa de algo que não sabia que tinha nome, mas descobri esta semana: adaptação hedónica.
Ora, estas duas palavras, juntas, basicamente querem dizer que o humano sabe adaptar-se a tudo, por isso, aquilo que é êxtase num momento, logo deixa de o ser. É como fazer sexo sempre com o mesmo parceiro. No fundo, precisamos de novo parceiro, desculpem, novo êxtase, e assim sucessivamente até andarmos de gatas e língua no chão, quem sabe a lamber mijo de rato.
Trata-se de uma espécie de “Ambrósio, apetece-me algo”, só que mais complexo, porque agora apetece-nos algo a toda a hora, e bem mais bizarro que um bombom com picos. Apetece-nos algo ao ponto de não nos apetecer quase nada pela fadiga que é apetecer-nos quase tudo, e tudo extenuantemente excêntrico.
E o que é excentricidade ou sentir êxtase? Por exemplo, pode passar por comprar um peido engarrafado da Stephanie Matto no Only Fans ou virar um eremita que se maquilha para milhares de seguidores no Instagram, no mato grosso da imbecilidade da sua solidão, para falar de livros que nunca leu.
E quem sabe esta seja a maior tragédia da contemporaneidade: a adaptação hedónica, ou como dizia o visionário Santo Agostinho, “o desejo não tem descanso”.
Eu, por exemplo, estou tão cheia de êxtases que começaram a sair pelas bordas. Mas, porque também estou cheia de buracos, dei por mim vazia-vazia-vazia. Sem gota. Então, sim, o Shishapangma é perfeito. Depois, também é preciso morrer com estilo para ter alguma dignidade na posteridade do post, porque é preciso chamar a atenção no scroll. E Shishapangma é nome exótico. Já estou a ver a minha lápide. Que pintarola! Já agora, que cor fica bem a um morto? Convém saber o que vestir.
Mas esperem, ou ide, que eu não saio daqui tão cedo. Estou agora para aqui a pensar se o meu desejo de escalada e o tamanho do meu cu não terão vindo do streaming. Terá sido isso? De querer o êxtase de outros? Gostei tanto de ver aquele filme… Como se chamava? Apex! Sim! A magra da Charlize Theron, linda, a esfolar os joelhos na pedra… Oh!, mas eu queria era o papel do Taron Egerton, o de predador canibal.
Pensando melhor, não, não estou certa se ando com vontades de morrer ou antes de matar. Preciso sentir-me perigosa. Quero! Não fazer mal a ninguém dá má reputação. Quem sabe não compre uma arma de plástico, e faça aqueles guinchinhos do Taron num reel. Quem sabe… quem sabe… foda-se!
Tenho de aprender a sair do sofá onde me deitei estafada de êxtases.
Oh!, o que eu gostava dos tempos em que jogar à bisca, bastava. O que eu gostava do Tito, o espinhoso. Onde andam os espinhosos? Os feios. As velhas. As gordas. Os que não visitaram o mundo em fast forward e não mandam mensagens feitas pelo ChatGPT enquanto incham o bíceps e tiram um doutoramento em engenharia aeroespacial, remotamente.
Agora mesmo, vejo uma aparição: José Tolentino Mendonça no meu telemóvel, dizendo: “Os computadores não choram”. José, eu tenho a certeza que não, verti as lágrimas todas e nenhuma veio do ecrã.
Quando é que esta escravidão por nós armada acaba?
O vento sopra para Lula e um vídeo assombra a candidatura de Flávio
Embora só tenha confessado a poucos amigos, Lula acha que poderá se eleger no primeiro turno e trabalha intensamente para isso. Seria algo inédito em sua história e um fecho de ouro para sua biografia.
Na primeira eleição presidencial que disputou, em 1989, acabou sendo derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, hoje condenado por corrupção e em prisão domiciliar em Maceió. Na segunda (1994) e na terceira (1998), perdeu para Fernando Henrique Cardoso em turno único. Das vezes em que se elegeu (2002, 2006 e 2022), o sucesso só veio no segundo turno.
A velha guarda do PT não acredita que Lula se elegerá no primeiro turno. A nova guarda e os aliados de ocasião acreditam que sim. Em um eventual segundo turno, contudo, a direita deverá se unir contra ele.
Na eleição passada, Lula escolheu Jair Bolsonaro como adversário, desprezando os outros. Feliz de quem pode escolher seu oponente preferencial e acerta ao fazê-lo, embora, por pouco, Bolsonaro não tenha se elegido.
Ninguém mais do que Lula torce para que a candidatura de Flávio vá até o fim e sem definhar, a ponto de ser ultrapassada por qualquer uma das outras que, por ora, não a ameaçam e apenas patinam. Lula respirou aliviado quando Jair, no Natal de 2025, anunciou em carta que Flávio o substituiria como candidato e herdeiro de seus votos. Enfrentar Tarcísio de Freitas seria mais difícil.
Enfrentar Michelle, a ex-primeira-dama, também seria. Mas Jair, além de abertamente misógino, não confia nela. Confiáveis são os filhos. Flávio é o “Zero Um”, daí sua preferência por ele. De resto, Eduardo, o “Zero Três”, migrara para os Estados Unidos a pretexto de convencer Donald Trump a tentar salvar seu pai da condenação. Já para Carlos, o “Zero Dois”, a política não é sua praia.
No modo de Lula ver as coisas, os ventos sopram a seu favor. Em São Paulo, Fernando Haddad poderá superar o desempenho que teve há quatro anos como candidato ao governo estadual. No Rio de Janeiro, com a ajuda de Eduardo Paes — líder de todas as pesquisas de intenção de voto até aqui para governador —, Lula considera que poderá bater Flávio com razoável folga.
Em Minas Gerais, o terceiro maior colégio eleitoral do país, será Lula quem empurrará para o alto Patrus Ananias, seu ex-ministro, e não o contrário. Ali, a montagem do palanque de Flávio segue complicada.
Quanto a participar de debates no rádio e na televisão com os demais candidatos, Lula ainda não decidiu. Todos irão para cima dele. No primeiro turno da eleição de 2006, por exemplo, ele não foi a nenhum. Talvez vá ao da Rede Bandeirantes de Televisão, marcado para 16 de agosto, por ser o primeiro. E certamente irá ao último, no dia 1º de outubro, promovido pela Rede Globo, que detém a maior audiência.
Por fim, está para vir à luz a qualquer momento um vídeo que causará sérios embaraços para a candidatura de Flávio. Se dependesse de Lula, a gravação não surgiria tão cedo.
Na primeira eleição presidencial que disputou, em 1989, acabou sendo derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, hoje condenado por corrupção e em prisão domiciliar em Maceió. Na segunda (1994) e na terceira (1998), perdeu para Fernando Henrique Cardoso em turno único. Das vezes em que se elegeu (2002, 2006 e 2022), o sucesso só veio no segundo turno.
A velha guarda do PT não acredita que Lula se elegerá no primeiro turno. A nova guarda e os aliados de ocasião acreditam que sim. Em um eventual segundo turno, contudo, a direita deverá se unir contra ele.
Na eleição passada, Lula escolheu Jair Bolsonaro como adversário, desprezando os outros. Feliz de quem pode escolher seu oponente preferencial e acerta ao fazê-lo, embora, por pouco, Bolsonaro não tenha se elegido.
Ninguém mais do que Lula torce para que a candidatura de Flávio vá até o fim e sem definhar, a ponto de ser ultrapassada por qualquer uma das outras que, por ora, não a ameaçam e apenas patinam. Lula respirou aliviado quando Jair, no Natal de 2025, anunciou em carta que Flávio o substituiria como candidato e herdeiro de seus votos. Enfrentar Tarcísio de Freitas seria mais difícil.
Enfrentar Michelle, a ex-primeira-dama, também seria. Mas Jair, além de abertamente misógino, não confia nela. Confiáveis são os filhos. Flávio é o “Zero Um”, daí sua preferência por ele. De resto, Eduardo, o “Zero Três”, migrara para os Estados Unidos a pretexto de convencer Donald Trump a tentar salvar seu pai da condenação. Já para Carlos, o “Zero Dois”, a política não é sua praia.
No modo de Lula ver as coisas, os ventos sopram a seu favor. Em São Paulo, Fernando Haddad poderá superar o desempenho que teve há quatro anos como candidato ao governo estadual. No Rio de Janeiro, com a ajuda de Eduardo Paes — líder de todas as pesquisas de intenção de voto até aqui para governador —, Lula considera que poderá bater Flávio com razoável folga.
Em Minas Gerais, o terceiro maior colégio eleitoral do país, será Lula quem empurrará para o alto Patrus Ananias, seu ex-ministro, e não o contrário. Ali, a montagem do palanque de Flávio segue complicada.
Quanto a participar de debates no rádio e na televisão com os demais candidatos, Lula ainda não decidiu. Todos irão para cima dele. No primeiro turno da eleição de 2006, por exemplo, ele não foi a nenhum. Talvez vá ao da Rede Bandeirantes de Televisão, marcado para 16 de agosto, por ser o primeiro. E certamente irá ao último, no dia 1º de outubro, promovido pela Rede Globo, que detém a maior audiência.
Por fim, está para vir à luz a qualquer momento um vídeo que causará sérios embaraços para a candidatura de Flávio. Se dependesse de Lula, a gravação não surgiria tão cedo.
domingo, 19 de julho de 2026
EUA apostam em testosterona para vencer
O operador de teleprompter Gabriel Pérez trabalhou para Donald Trump por dez anos. Conseguia engordar o salário de US$ 170 mil anuais fazendo apostas na Kalshi (maior concorrente da Polymarket) sobre a duração, os temas e determinadas palavras que o chefe usaria em discursos. A barbada tinha lucro garantido, pois são notórias a esqualidez, vulgaridade superlativa e previsibilidade do vocabulário de Trump.
A jogatina do funcionário foi descoberta poucas horas antes da fala presidencial da semana passada, levando à sua demissão. De todo modo, Pérez teria perdido a aposta. O discurso anunciado por Trump como de importância capital e com revelações tonitruantes durou menos de meia hora em horário nobre —uma merreca para a verborragia habitual. Sequer foi transmitido na íntegra por Fox News, ABC e CNN. É possível que o próprio Trump não aguentasse ouvir por mais tempo sua ladainha de que houve fraude na eleição de 2020, em benefício do democrata Joe Biden. Em fala arrastada, listou um cipoal de “evidências novas” de interferência da China, com respingos até contra a infeliz Venezuela, e deu o recado central: diante da falência do sistema eleitoral americano, será preciso antecipar-se às inevitáveis fraudes no pleito de novembro próximo. Tradução: vale tudo para impedir que os democratas reconquistem maioria na Câmara e/ou no Senado, como apontam as pesquisas de opinião mais recentes.
O secretário da Defesa, Pete Hegseth, sempre pronto a superar o mestre em falatório muscular, apresentou a sua receita para reverter a incapacidade de Trump de ganhar as guerras que inicia ou de conquistar a paz pela força: testosterona.
Em livro publicado dois anos atrás, Hegseth já havia alertado para o perigo de as Forças Armadas se tornarem “afeminadas, apologéticas demais” em relação a seu papel no mundo. Uma vez instalado no Pentágono, ele passou a bloquear a promoção de mulheres oficiais, demitiu a primeira mulher a comandar a Marinha e ordenou uma revisão do papel feminino em frentes de combate. Na semana passada, em vídeo de dois minutos que ressaltava o rosto angular cuidadosamente enquadrado, ele se dirigiu “olho no olho” aos 2,8 milhões de fardados do país:
— Você faz parte da maior elite de guerreiros da face da Terra. Todo santo dia você está sendo exigido no limite absoluto de sua capacidade física e mental. Investimos muito em sistemas e armamento bélico, mas nosso instrumento mais decisivo é e sempre será o guerreiro individual (...) Por isso autorizo a partir de hoje o levantamento do nível de testosterona das nossas Forças Armadas. (...) Sob supervisão de profissionais de saúde de nível mundial, guerreiros de mais de 30 anos passarão a ser testados anualmente. (...) Não se trata de um aprimoramento artificial e sim de otimizar a sua capacidade natural, proteger sua longevidade, e garantir que você tenha os fundamentos biológicos para prosseguir a luta.
Não se sabe se Hegseth, de 46 anos, toma o esteroide cuja presença no corpo humano decresce naturalmente na meia-idade. Mas é mais do que sabido que a terapia de reposição de testosterona suprime a produção natural do hormônio e desacelera a produção de esperma. Aplicá-lo em larga escala para militares que ainda teriam anos de fertilidade possível, em troca de ganho de musculatura, estâmina e fôlego, é o retrato de um governo doente, obcecado com masculinidade.
O estapafúrdio anúncio de Hegseth, que fez carreira na televisão, talvez tenha sido inspirado na Segunda Guerra Mundial, quando as divisões de panzer nazistas, pilotos e soldados da Wehrmacht operaram à base de anfetaminas para suportar a marcha de Hitler. Apesar da retórica estritamente contrária ao uso de drogas do regime nazista, o Terceiro Reich foi movido a dependência química — em especial o estimulante metanfetamina, patenteado à época com o nome de Pervitin. Somente entre abril e julho de 1940, os militares nazistas consumiram mais de 35 milhões de comprimidos da droga. A Blitzkrieg exigiu que a infantaria acompanhasse o assalto a Holanda, Bélgica e França em 11 dias praticamente sem comer, beber ou dormir. Tomavam quatro doses diárias da droga, relata o historiador Norman Ohler, autor de “Drugs in the Third Reich”. O próprio Hitler, como se sabe, foi se desintegrando em narcóticos — começou com injeções de vitaminas e culminou num coquetel de opioides à base de oxicodona, além da cocaína.
— Não precisamos de fracos, queremos apenas os fortes — decretou Hitler.
Hegseth está apenas brincando de guerra com testosterona. Enquanto isso, Trump vai ficando cada vez mais irracional contra o Irã. O importante, agora, é não perder também a eleição.
Que tempos!
A jogatina do funcionário foi descoberta poucas horas antes da fala presidencial da semana passada, levando à sua demissão. De todo modo, Pérez teria perdido a aposta. O discurso anunciado por Trump como de importância capital e com revelações tonitruantes durou menos de meia hora em horário nobre —uma merreca para a verborragia habitual. Sequer foi transmitido na íntegra por Fox News, ABC e CNN. É possível que o próprio Trump não aguentasse ouvir por mais tempo sua ladainha de que houve fraude na eleição de 2020, em benefício do democrata Joe Biden. Em fala arrastada, listou um cipoal de “evidências novas” de interferência da China, com respingos até contra a infeliz Venezuela, e deu o recado central: diante da falência do sistema eleitoral americano, será preciso antecipar-se às inevitáveis fraudes no pleito de novembro próximo. Tradução: vale tudo para impedir que os democratas reconquistem maioria na Câmara e/ou no Senado, como apontam as pesquisas de opinião mais recentes.
O secretário da Defesa, Pete Hegseth, sempre pronto a superar o mestre em falatório muscular, apresentou a sua receita para reverter a incapacidade de Trump de ganhar as guerras que inicia ou de conquistar a paz pela força: testosterona.
Em livro publicado dois anos atrás, Hegseth já havia alertado para o perigo de as Forças Armadas se tornarem “afeminadas, apologéticas demais” em relação a seu papel no mundo. Uma vez instalado no Pentágono, ele passou a bloquear a promoção de mulheres oficiais, demitiu a primeira mulher a comandar a Marinha e ordenou uma revisão do papel feminino em frentes de combate. Na semana passada, em vídeo de dois minutos que ressaltava o rosto angular cuidadosamente enquadrado, ele se dirigiu “olho no olho” aos 2,8 milhões de fardados do país:
— Você faz parte da maior elite de guerreiros da face da Terra. Todo santo dia você está sendo exigido no limite absoluto de sua capacidade física e mental. Investimos muito em sistemas e armamento bélico, mas nosso instrumento mais decisivo é e sempre será o guerreiro individual (...) Por isso autorizo a partir de hoje o levantamento do nível de testosterona das nossas Forças Armadas. (...) Sob supervisão de profissionais de saúde de nível mundial, guerreiros de mais de 30 anos passarão a ser testados anualmente. (...) Não se trata de um aprimoramento artificial e sim de otimizar a sua capacidade natural, proteger sua longevidade, e garantir que você tenha os fundamentos biológicos para prosseguir a luta.
Não se sabe se Hegseth, de 46 anos, toma o esteroide cuja presença no corpo humano decresce naturalmente na meia-idade. Mas é mais do que sabido que a terapia de reposição de testosterona suprime a produção natural do hormônio e desacelera a produção de esperma. Aplicá-lo em larga escala para militares que ainda teriam anos de fertilidade possível, em troca de ganho de musculatura, estâmina e fôlego, é o retrato de um governo doente, obcecado com masculinidade.
O estapafúrdio anúncio de Hegseth, que fez carreira na televisão, talvez tenha sido inspirado na Segunda Guerra Mundial, quando as divisões de panzer nazistas, pilotos e soldados da Wehrmacht operaram à base de anfetaminas para suportar a marcha de Hitler. Apesar da retórica estritamente contrária ao uso de drogas do regime nazista, o Terceiro Reich foi movido a dependência química — em especial o estimulante metanfetamina, patenteado à época com o nome de Pervitin. Somente entre abril e julho de 1940, os militares nazistas consumiram mais de 35 milhões de comprimidos da droga. A Blitzkrieg exigiu que a infantaria acompanhasse o assalto a Holanda, Bélgica e França em 11 dias praticamente sem comer, beber ou dormir. Tomavam quatro doses diárias da droga, relata o historiador Norman Ohler, autor de “Drugs in the Third Reich”. O próprio Hitler, como se sabe, foi se desintegrando em narcóticos — começou com injeções de vitaminas e culminou num coquetel de opioides à base de oxicodona, além da cocaína.
— Não precisamos de fracos, queremos apenas os fortes — decretou Hitler.
Hegseth está apenas brincando de guerra com testosterona. Enquanto isso, Trump vai ficando cada vez mais irracional contra o Irã. O importante, agora, é não perder também a eleição.
Que tempos!
Um conto ao pé da letra
"O Conto da Aia", uma das ficções mais influentes da literatura distópica contemporânea, é, em princípio, uma crítica de Margaret Atwood aos regimes totalitários, com foco no controle político sobre o corpo feminino, na perda dos direitos civis e na dominação religiosa. A história: na República de Gilead, teocracia que substituiu o governo americano após um golpe, uma grave crise de fertilidade obriga mulheres férteis a se tornarem "aias", reprodutoras de membros da elite dirigente.
Mas a literatura, como a ironia, se perfaz na escuta. Intenção crítica pode ser interpretada às avessas, a depender do contexto receptivo. Da leitura, escrita e audiovisual dessa distopia parecem aflorar no imaginário da direita dos EUA significações até então submersas na esfera do não-dito, do subconsciente. Embora oculto, esse nível de consciência abriga uma forma de perceber e dar sentido às coisas. Não à toa, "O Conto da Aia" ganha veracidade na trama político-social norte-americana, com irradiações na sabujice misógina de extremistas sul-americanos.
O alvo do ataque inicial é o voto feminino. Não mais um dos disparates regurgitados por Trump, mas algo consistente no âmbito da Secretaria de Defesa, comandada por Pete Hegseth: a abolição da emenda 19 à Constituição dos EUA, um dos baluartes dos direitos políticos e da luta pela igualdade de gênero. Ventríloquo do pastor Doug Wilson, voz extrema da direita cristã, Hegseth não tem pejo em afirmar que mulheres não deveriam votar. Fica assim explicada a origem da frase de Paulo Figueiredo, guru e cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro, homiziado nos EUA: "mulheres votam mal, especialmente as solteiras".
O mais grave de toda essa situação é que as próprias mulheres possam concordar com essa bárbara autodestruição da liberdade: viável é a hipótese de que a insatisfação com a condição feminina leve à autopunição.
O fenômeno já tinha sido observado por Erich Fromm no auge do fascismo europeu ao assinalar que "alguns indivíduos só ficam verdadeiramente felizes quando podem assujeitar-se e submeter-se a uma autoridade, e tanto mais quanto é ela mais severa e cruel" (em "Estudos sobre a autoridade e a família", 1936). De fato, esposas de direita têm-se disposto a abrir mão do livre sufrágio em favor dos maridos, que então votariam pela família. Bíblias em punho, mas aderentes à sura 4:34 do Alcorão: "Os homens são superiores às mulheres porque Deus favoreceu uns em relação a outros".
Caberia a uma sociopsicanálise avaliar o grau de transformação psicótica implicada na incorporação individual de uma estrutura autoritária. À sociopolítica cabe, entretanto, ponderar sobre um brutalismo que conjuga, no modo colonial, masculinidade e racismo. Misoginia é uma variante do ódio racial. Não que sejam fortes as suas possibilidades de abolir conquistas civis. Disso bem sabe a ultradireita, por ora focada na mensagem sádica de que mulheres são apenas seres carnais a serviço do patriarcado branco. "O Conto da Aia" é mera antecipação do recado num país em que a infertilidade é problema real.
Muniz Sodré
Mas a literatura, como a ironia, se perfaz na escuta. Intenção crítica pode ser interpretada às avessas, a depender do contexto receptivo. Da leitura, escrita e audiovisual dessa distopia parecem aflorar no imaginário da direita dos EUA significações até então submersas na esfera do não-dito, do subconsciente. Embora oculto, esse nível de consciência abriga uma forma de perceber e dar sentido às coisas. Não à toa, "O Conto da Aia" ganha veracidade na trama político-social norte-americana, com irradiações na sabujice misógina de extremistas sul-americanos.
O alvo do ataque inicial é o voto feminino. Não mais um dos disparates regurgitados por Trump, mas algo consistente no âmbito da Secretaria de Defesa, comandada por Pete Hegseth: a abolição da emenda 19 à Constituição dos EUA, um dos baluartes dos direitos políticos e da luta pela igualdade de gênero. Ventríloquo do pastor Doug Wilson, voz extrema da direita cristã, Hegseth não tem pejo em afirmar que mulheres não deveriam votar. Fica assim explicada a origem da frase de Paulo Figueiredo, guru e cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro, homiziado nos EUA: "mulheres votam mal, especialmente as solteiras".
O mais grave de toda essa situação é que as próprias mulheres possam concordar com essa bárbara autodestruição da liberdade: viável é a hipótese de que a insatisfação com a condição feminina leve à autopunição.
O fenômeno já tinha sido observado por Erich Fromm no auge do fascismo europeu ao assinalar que "alguns indivíduos só ficam verdadeiramente felizes quando podem assujeitar-se e submeter-se a uma autoridade, e tanto mais quanto é ela mais severa e cruel" (em "Estudos sobre a autoridade e a família", 1936). De fato, esposas de direita têm-se disposto a abrir mão do livre sufrágio em favor dos maridos, que então votariam pela família. Bíblias em punho, mas aderentes à sura 4:34 do Alcorão: "Os homens são superiores às mulheres porque Deus favoreceu uns em relação a outros".
Caberia a uma sociopsicanálise avaliar o grau de transformação psicótica implicada na incorporação individual de uma estrutura autoritária. À sociopolítica cabe, entretanto, ponderar sobre um brutalismo que conjuga, no modo colonial, masculinidade e racismo. Misoginia é uma variante do ódio racial. Não que sejam fortes as suas possibilidades de abolir conquistas civis. Disso bem sabe a ultradireita, por ora focada na mensagem sádica de que mulheres são apenas seres carnais a serviço do patriarcado branco. "O Conto da Aia" é mera antecipação do recado num país em que a infertilidade é problema real.
Muniz Sodré
A arma de Ormuz
Durante décadas, o Ocidente acreditou que a principal ameaça estratégica do Irão estava escondida nas profundezas das instalações nucleares de Natanz, Fordow ou Arak. A guerra recente obrigou-nos a olhar para outro lugar. A verdadeira arma iraniana não está enterrada sob montanhas nem protegida por betão armado. Flutua à superfície das águas do golfo Pérsico. Chama-se estreito de Ormuz.
Foi essa a grande conclusão estratégica dos últimos meses e, provavelmente, a razão pela qual o memorando de entendimento entre Washington e Teerão estava condenado desde o primeiro dia.
O mundo assistiu ao acordo como quem observa o início de uma descompressão. Os mercados reagiram positivamente. O preço da energia estabilizou. As bolsas recuperaram parte das perdas. As seguradoras marítimas reduziram os prémios de risco. A sensação geral era a de que a crise tinha entrado numa fase de controlo.
Mas aquilo que existia nunca foi paz.
O memorando não nasceu para resolver o conflito entre os EUA e o Irão. Nasceu para gerir as suas consequências imediatas. Foi uma ferramenta de estabilização, não uma solução política. Serviu para ganhar tempo, acalmar os mercados e evitar que uma guerra regional se transformasse numa crise económica global.
Em muitos aspetos, cumpriu esse objetivo. Os EUA conseguiram apresentar uma pausa estratégica após uma campanha militar que pretendiam transformar numa vitória política. O Irão conseguiu aliviar parte da pressão económica e alimentar a expectativa de que o levantamento das sanções pudesse abrir uma nova etapa. Os mercados obtiveram aquilo que mais valorizam: previsibilidade.
O problema é que os interesses fundamentais de ambas as partes nunca mudaram.
As divergências concentravam-se sobretudo em dois pontos. O primeiro era o artigo 5º, relacionado com o estreito de Ormuz. O segundo era o artigo 11º, relativo aos ativos iranianos congelados e ao levantamento das sanções.
Para Teerão, Ormuz é mais do que uma passagem marítima. É um instrumento de poder. É a capacidade de transformar geografia em influência política. É a possibilidade de lembrar ao mundo que uma parte significativa da energia global continua dependente de um corredor marítimo cuja estabilidade pode ser posta em causa.
Para Washington, essa visão é inaceitável. Nenhuma superpotência marítima pode aceitar que uma das principais artérias energéticas do planeta seja utilizada como instrumento de pressão estratégica. A liberdade de navegação não é apenas uma questão comercial. É uma questão de poder.
Foi aqui que as leituras começaram a divergir de forma irreconciliável.
O Irão interpretava o memorando como um reconhecimento implícito da sua capacidade de influência regional. Os EUA encaravam-no como uma pausa temporária destinada a reduzir riscos e a ganhar margem de manobra. Ambos assinavam o mesmo documento, mas liam-no de formas completamente diferentes.
O mesmo acontecia com o artigo 11º. A liderança iraniana via o acesso aos ativos congelados e o levantamento das sanções como uma condição essencial para estabilizar a economia e responder a uma população cada vez mais desgastada por décadas de dificuldades económicas. Washington aceitava discutir essa possibilidade, mas apenas dentro de limites muito mais restritivos.
Entre ambas as interpretações existia um fosso demasiado profundo para ser ultrapassado.
A questão central, contudo, não está no texto do memorando. Está naquilo que cada lado acreditava sobre o outro.
Ao longo destes meses, o regime iraniano pareceu partir de uma convicção simples: a sua capacidade de resistência económica seria superior à capacidade de resistência política dos EUA. Em Teerão acreditava-se que Washington acabaria por recuar primeiro. Que a pressão dos mercados, a subida dos preços da energia, a inflação e o desgaste político interno acabariam por limitar a determinação americana.
A lógica não era absurda.
Os EUA carregam ainda as memórias do Iraque e do Afeganistão. Donald Trump regressou à Casa Branca prometendo prosperidade económica, energia acessível e menos conflitos externos. As eleições intercalares aproximam-se. Qualquer choque petrolífero significativo teria inevitavelmente consequências políticas.
Mas foi precisamente aqui que ocorreu o principal erro de cálculo iraniano.
A Administração americana parece ter chegado a uma conclusão diferente. Em vez de considerar que o tempo favorece Teerão, acredita que o tempo favorece Washington. Acredita que a economia iraniana necessita mais do levantamento das sanções do que os EUA necessitam de um acordo rápido. Acredita que as fragilidades económicas do regime são mais profundas do que aparentam. E acredita que a pressão acumulada acabará por produzir efeitos políticos.
A queda do memorando representa, por isso, muito mais do que o fracasso de uma negociação. Representa a passagem para uma nova fase da estratégia americana.
Não estamos perante os preparativos para uma invasão ou para uma guerra convencional de grande escala. Estamos perante algo mais subtil e potencialmente mais eficaz. Uma campanha prolongada de pressão seletiva destinada a limitar progressivamente as capacidades militares iranianas associadas ao golfo Pérsico e ao controlo de Ormuz.
Washington procurará justificar essas ações como necessárias para garantir a segurança marítima internacional, proteger a liberdade de navegação e prevenir futuras ameaças ao comércio global. Independentemente do debate jurídico que inevitavelmente surgirá, a lógica estratégica é evidente: reduzir a capacidade iraniana de transformar Ormuz numa arma económica.
Para Israel, esta evolução é amplamente favorável.
O memorando introduzia ambiguidades e constrangimentos políticos. O seu desaparecimento devolve clareza estratégica. Jerusalém vê reforçada a possibilidade de manter uma política de contenção permanente sobre o regime iraniano e sobre a sua rede de aliados regionais.
Para os Estados árabes do golfo, a situação é mais delicada. Partilham muitas das preocupações de Washington relativamente ao comportamento iraniano, mas conhecem melhor do que ninguém os custos económicos da instabilidade. Beneficiam da proteção americana, mas dependem igualmente da estabilidade dos mercados energéticos.
É por isso que o Médio Oriente entra agora numa fase particularmente perigosa. Não uma fase de guerra aberta. Não uma fase de paz. Mas uma fase intermédia, marcada por operações limitadas, pressão económica, demonstrações de força e confrontação permanente.
O memorando serviu um propósito. Evitou uma escalada imediata e deu aos mercados o tempo de que necessitavam para recuperar confiança. Mas nunca resolveu a questão essencial. A grande disputa deixou de ser apenas nuclear.
Durante anos, acreditámos que o centro da rivalidade estava nas centrifugadoras iranianas. Hoje percebemos que a verdadeira questão é mais ampla. Trata-se de saber quem controla a principal alavanca energética do planeta e quem tem capacidade para transformar essa alavanca numa arma política.
O programa nuclear continua a ser importante. Continua a preocupar Washington, Jerusalém e os seus aliados. Mas a guerra revelou algo que muitos preferiam ignorar.
A bomba mais poderosa do Irão pode não estar escondida num complexo subterrâneo. Pode estar, simplesmente, nas águas de Ormuz.
Foi essa a grande conclusão estratégica dos últimos meses e, provavelmente, a razão pela qual o memorando de entendimento entre Washington e Teerão estava condenado desde o primeiro dia.
O mundo assistiu ao acordo como quem observa o início de uma descompressão. Os mercados reagiram positivamente. O preço da energia estabilizou. As bolsas recuperaram parte das perdas. As seguradoras marítimas reduziram os prémios de risco. A sensação geral era a de que a crise tinha entrado numa fase de controlo.
Mas aquilo que existia nunca foi paz.
O memorando não nasceu para resolver o conflito entre os EUA e o Irão. Nasceu para gerir as suas consequências imediatas. Foi uma ferramenta de estabilização, não uma solução política. Serviu para ganhar tempo, acalmar os mercados e evitar que uma guerra regional se transformasse numa crise económica global.
Em muitos aspetos, cumpriu esse objetivo. Os EUA conseguiram apresentar uma pausa estratégica após uma campanha militar que pretendiam transformar numa vitória política. O Irão conseguiu aliviar parte da pressão económica e alimentar a expectativa de que o levantamento das sanções pudesse abrir uma nova etapa. Os mercados obtiveram aquilo que mais valorizam: previsibilidade.
O problema é que os interesses fundamentais de ambas as partes nunca mudaram.
As divergências concentravam-se sobretudo em dois pontos. O primeiro era o artigo 5º, relacionado com o estreito de Ormuz. O segundo era o artigo 11º, relativo aos ativos iranianos congelados e ao levantamento das sanções.
Para Teerão, Ormuz é mais do que uma passagem marítima. É um instrumento de poder. É a capacidade de transformar geografia em influência política. É a possibilidade de lembrar ao mundo que uma parte significativa da energia global continua dependente de um corredor marítimo cuja estabilidade pode ser posta em causa.
Para Washington, essa visão é inaceitável. Nenhuma superpotência marítima pode aceitar que uma das principais artérias energéticas do planeta seja utilizada como instrumento de pressão estratégica. A liberdade de navegação não é apenas uma questão comercial. É uma questão de poder.
Foi aqui que as leituras começaram a divergir de forma irreconciliável.
O Irão interpretava o memorando como um reconhecimento implícito da sua capacidade de influência regional. Os EUA encaravam-no como uma pausa temporária destinada a reduzir riscos e a ganhar margem de manobra. Ambos assinavam o mesmo documento, mas liam-no de formas completamente diferentes.
O mesmo acontecia com o artigo 11º. A liderança iraniana via o acesso aos ativos congelados e o levantamento das sanções como uma condição essencial para estabilizar a economia e responder a uma população cada vez mais desgastada por décadas de dificuldades económicas. Washington aceitava discutir essa possibilidade, mas apenas dentro de limites muito mais restritivos.
Entre ambas as interpretações existia um fosso demasiado profundo para ser ultrapassado.
A questão central, contudo, não está no texto do memorando. Está naquilo que cada lado acreditava sobre o outro.
Ao longo destes meses, o regime iraniano pareceu partir de uma convicção simples: a sua capacidade de resistência económica seria superior à capacidade de resistência política dos EUA. Em Teerão acreditava-se que Washington acabaria por recuar primeiro. Que a pressão dos mercados, a subida dos preços da energia, a inflação e o desgaste político interno acabariam por limitar a determinação americana.
A lógica não era absurda.
Os EUA carregam ainda as memórias do Iraque e do Afeganistão. Donald Trump regressou à Casa Branca prometendo prosperidade económica, energia acessível e menos conflitos externos. As eleições intercalares aproximam-se. Qualquer choque petrolífero significativo teria inevitavelmente consequências políticas.
Mas foi precisamente aqui que ocorreu o principal erro de cálculo iraniano.
A Administração americana parece ter chegado a uma conclusão diferente. Em vez de considerar que o tempo favorece Teerão, acredita que o tempo favorece Washington. Acredita que a economia iraniana necessita mais do levantamento das sanções do que os EUA necessitam de um acordo rápido. Acredita que as fragilidades económicas do regime são mais profundas do que aparentam. E acredita que a pressão acumulada acabará por produzir efeitos políticos.
A queda do memorando representa, por isso, muito mais do que o fracasso de uma negociação. Representa a passagem para uma nova fase da estratégia americana.
Não estamos perante os preparativos para uma invasão ou para uma guerra convencional de grande escala. Estamos perante algo mais subtil e potencialmente mais eficaz. Uma campanha prolongada de pressão seletiva destinada a limitar progressivamente as capacidades militares iranianas associadas ao golfo Pérsico e ao controlo de Ormuz.
Washington procurará justificar essas ações como necessárias para garantir a segurança marítima internacional, proteger a liberdade de navegação e prevenir futuras ameaças ao comércio global. Independentemente do debate jurídico que inevitavelmente surgirá, a lógica estratégica é evidente: reduzir a capacidade iraniana de transformar Ormuz numa arma económica.
Para Israel, esta evolução é amplamente favorável.
O memorando introduzia ambiguidades e constrangimentos políticos. O seu desaparecimento devolve clareza estratégica. Jerusalém vê reforçada a possibilidade de manter uma política de contenção permanente sobre o regime iraniano e sobre a sua rede de aliados regionais.
Para os Estados árabes do golfo, a situação é mais delicada. Partilham muitas das preocupações de Washington relativamente ao comportamento iraniano, mas conhecem melhor do que ninguém os custos económicos da instabilidade. Beneficiam da proteção americana, mas dependem igualmente da estabilidade dos mercados energéticos.
É por isso que o Médio Oriente entra agora numa fase particularmente perigosa. Não uma fase de guerra aberta. Não uma fase de paz. Mas uma fase intermédia, marcada por operações limitadas, pressão económica, demonstrações de força e confrontação permanente.
O memorando serviu um propósito. Evitou uma escalada imediata e deu aos mercados o tempo de que necessitavam para recuperar confiança. Mas nunca resolveu a questão essencial. A grande disputa deixou de ser apenas nuclear.
Durante anos, acreditámos que o centro da rivalidade estava nas centrifugadoras iranianas. Hoje percebemos que a verdadeira questão é mais ampla. Trata-se de saber quem controla a principal alavanca energética do planeta e quem tem capacidade para transformar essa alavanca numa arma política.
O programa nuclear continua a ser importante. Continua a preocupar Washington, Jerusalém e os seus aliados. Mas a guerra revelou algo que muitos preferiam ignorar.
A bomba mais poderosa do Irão pode não estar escondida num complexo subterrâneo. Pode estar, simplesmente, nas águas de Ormuz.
Se é isso que a direita faz com o Brasil acima de tudo, o Deus acima de todos que se cuide
Toda vez que Flávio Bolsonaro cai nas pesquisas, pede para a Casa Branca punir os brasileiros. Do jeito que a coisa vai, temo que o Brasil seja alvo de um ataque nuclear americano se vazarem vídeos do filho do Jair pelado na festa do Vorcaro.
Os sucessivos tarifaços americanos são a maior agressão à soberania brasileira desde que os nazistas afundaram navios em nossa costa. O bolsonarismo é o único movimento da história brasileira que tentou roubar uma eleição presidencial por intervenção aberta de superpotência estrangeira.
E o máximo que pode acontecer a essa turma é perder dois ou três pontos nas pesquisas presidenciais.
Agora imaginem o seguinte. O que aconteceria se o tarifaço tivesse sido imposto a pedido de um candidato de esquerda?
Se o tarifaço fosse de esquerda, todas as legendas mais ou menos progressistas já teriam perdido seu registro como partido político com base no artigo 28, inciso II, da Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995, que estabelece que partidos não podem ser subordinados a entidades estrangeiras. A regra foi feita para dificultar a vida dos velhos partidos comunistas, que tinham vínculos com Moscou ou Pequim.
Deixo para os historiadores debaterem se os vínculos da direita brasileira contemporânea com Washington são mais fortes ou mais fracos do que os dos velhos comunistas com suas naves-mães. Imagino que a resposta varie conforme o momento da Guerra Fria com que se compare o atual período.
Se o tarifaço fosse de esquerda, o Congresso Nacional, dominado pela direita porque construímos nossa democracia com a classe política da ditadura, já teria instaurado CPI para achar culpados. Toda a bancada mais ou menos progressista perderia o mandato. Novas leis seriam feitas para combater potenciais focos de infiltração estrangeira nos sindicatos, nas ONGs, nas universidades públicas. Qualquer sem-teto com um pedaço de pau na mão seria considerado vanguarda do Exército de Libertação Popular chinês.
Se o tarifaço fosse de esquerda, os formadores de opinião que quisessem manter sua reputação de equilibrados, razoáveis etc. se estapeariam no ar, nas páginas, nas redes, para saber quem desde sempre denunciou a esquerda com mais entusiasmo.
Os que já tivessem, em algum momento, defendido qualquer coisa vagamente iluminista e hoje considerada marxismo (voto feminino, sei lá) fariam um campeonato de autocrítica que faria a revolução cultural chinesa parecer um sóbrio colóquio acadêmico.
Isso tudo aconteceria se o tarifaço fosse de esquerda. Mas o tarifaço é de direita. Por isso, não vai acontecer nada.
Mesmo se Flávio Bolsonaro perder para Lula, a turma do Master e do tarifaço vai eleger a esmagadora maioria dos governadores e a esmagadora maioria dos congressistas. Ser de direita no Brasil é o maior barato.
Se o pessoal conseguiu emplacar o discurso "caso Master afeta igualmente esquerda e direita", vão acabar dando um jeito de dizer que a culpa pelo tarifaço tem que ser dividida entre a família Bolsonaro e algum vizinho esquerdista que os obrigou a se tornarem fascistas porque ficava ouvindo Chico Buarque no último volume até tarde da noite.
Se é isso que a direita faz com o "Brasil acima de tudo", o "Deus acima de todos" que se cuide.
Os sucessivos tarifaços americanos são a maior agressão à soberania brasileira desde que os nazistas afundaram navios em nossa costa. O bolsonarismo é o único movimento da história brasileira que tentou roubar uma eleição presidencial por intervenção aberta de superpotência estrangeira.
E o máximo que pode acontecer a essa turma é perder dois ou três pontos nas pesquisas presidenciais.
Agora imaginem o seguinte. O que aconteceria se o tarifaço tivesse sido imposto a pedido de um candidato de esquerda?
Se o tarifaço fosse de esquerda, todas as legendas mais ou menos progressistas já teriam perdido seu registro como partido político com base no artigo 28, inciso II, da Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995, que estabelece que partidos não podem ser subordinados a entidades estrangeiras. A regra foi feita para dificultar a vida dos velhos partidos comunistas, que tinham vínculos com Moscou ou Pequim.
Deixo para os historiadores debaterem se os vínculos da direita brasileira contemporânea com Washington são mais fortes ou mais fracos do que os dos velhos comunistas com suas naves-mães. Imagino que a resposta varie conforme o momento da Guerra Fria com que se compare o atual período.
Se o tarifaço fosse de esquerda, o Congresso Nacional, dominado pela direita porque construímos nossa democracia com a classe política da ditadura, já teria instaurado CPI para achar culpados. Toda a bancada mais ou menos progressista perderia o mandato. Novas leis seriam feitas para combater potenciais focos de infiltração estrangeira nos sindicatos, nas ONGs, nas universidades públicas. Qualquer sem-teto com um pedaço de pau na mão seria considerado vanguarda do Exército de Libertação Popular chinês.
Se o tarifaço fosse de esquerda, os formadores de opinião que quisessem manter sua reputação de equilibrados, razoáveis etc. se estapeariam no ar, nas páginas, nas redes, para saber quem desde sempre denunciou a esquerda com mais entusiasmo.
Os que já tivessem, em algum momento, defendido qualquer coisa vagamente iluminista e hoje considerada marxismo (voto feminino, sei lá) fariam um campeonato de autocrítica que faria a revolução cultural chinesa parecer um sóbrio colóquio acadêmico.
Isso tudo aconteceria se o tarifaço fosse de esquerda. Mas o tarifaço é de direita. Por isso, não vai acontecer nada.
Mesmo se Flávio Bolsonaro perder para Lula, a turma do Master e do tarifaço vai eleger a esmagadora maioria dos governadores e a esmagadora maioria dos congressistas. Ser de direita no Brasil é o maior barato.
Se o pessoal conseguiu emplacar o discurso "caso Master afeta igualmente esquerda e direita", vão acabar dando um jeito de dizer que a culpa pelo tarifaço tem que ser dividida entre a família Bolsonaro e algum vizinho esquerdista que os obrigou a se tornarem fascistas porque ficava ouvindo Chico Buarque no último volume até tarde da noite.
Se é isso que a direita faz com o "Brasil acima de tudo", o "Deus acima de todos" que se cuide.
A democracia da desconfiança
Há um erro de diagnóstico que se tornou quase consensual no debate público europeu: a convicção de que vivemos uma crise do regime democrático. A expressão repete-se com tanta frequência que raramente é questionada. Mas talvez o problema seja outro.
Portugal não assiste ao colapso das suas instituições democráticas. As eleições realizam-se regularmente, a alternância política permanece assegurada, os tribunais conservam a sua autonomia e as liberdades fundamentais continuam protegidas. O que se deteriora não é a democracia enquanto regime, mas a confiança na sua capacidade para interpretar uma sociedade em rápida transformação.
A distinção é decisiva. Uma democracia pode sobreviver a governos impopulares, parlamentos divididos ou sucessivas crises políticas. O que dificilmente resiste é ao enfraquecimento da convicção de que os representantes compreendem aqueles em nome de quem decidem. A legitimidade democrática nunca dependeu apenas do voto; sempre assentou na perceção de que existe uma relação de reconhecimento entre governantes e governados. É precisamente esse vínculo que hoje se fragiliza.
Durante demasiado tempo, atribuiu-se o crescimento da abstenção, da fragmentação partidária ou do populismo às crises económicas, aos escândalos de corrupção ou ao desgaste natural dos governos. Todos estes fatores contribuíram para o cenário atual, mas nenhum explica um fenómeno que atravessa democracias com desempenhos económicos muito distintos.
Os estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que o apoio à democracia continua elevado, ao mesmo tempo que diminui a confiança na capacidade dos governos para responder de forma eficaz, previsível e transparente. O Eurobarómetro identifica uma tendência semelhante. A crise não é da democracia; é da representação.
Durante grande parte do século XX, os partidos desempenharam uma função que hoje parece distante. Não eram apenas organizações eleitorais. Eram instituições de mediação. Organizavam interesses, agregavam identidades e davam coerência às expectativas da sociedade, convertendo reivindicações dispersas em projetos políticos reconhecíveis. A representação era um vínculo cívico antes de ser um mecanismo institucional.
Esse modelo foi progressivamente desfeito pela globalização, pela integração europeia e pela revolução digital. Os Estados perderam margem para controlar processos económicos decisivos, enquanto a política deixou de deter o monopólio da construção das narrativas públicas. Hoje disputa a atenção dos cidadãos com plataformas digitais, comentadores, influenciadores e algoritmos concebidos para privilegiar a emoção em detrimento da reflexão.
Daí nasce um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca foi tão fácil comunicar com os cidadãos; nunca foi tão difícil representá-los. A proximidade tecnológica criou a ilusão da proximidade política. Os responsáveis políticos tornaram-se mais acessíveis, mas não necessariamente mais credíveis. A exposição permanente não reforçou a confiança; tornou apenas mais evidentes os limites da ação política perante problemas cuja escala ultrapassa largamente as fronteiras nacionais.
O Reuters Institute tem demonstrado que a confiança na informação permanece sob pressão em grande parte da Europa. A dificuldade já não resulta da escassez de notícias, mas da crescente dificuldade em distinguir informação, opinião, propaganda e entretenimento. Quando desaparece um espaço comum de factos, torna-se igualmente mais difícil construir consensos duradouros. A quebra de confiança compromete, assim, não apenas a política, mas o próprio fundamento da democracia.
Seria, contudo, um erro atribuir esta transformação exclusivamente às redes sociais. Elas aceleraram um processo que começou muito antes. A questão decisiva reside no crescente desfasamento entre aquilo que os cidadãos esperam dos governos nacionais e aquilo que estes efetivamente conseguem concretizar.
Nunca se exigiu tanto da política quando ela dispõe de tão poucos instrumentos para moldar a realidade.
Os cidadãos continuam a esperar dos governos respostas para desafios que já não conhecem fronteiras. A habitação, a imigração, a produtividade, a transição energética, a inteligência artificial ou a competitividade económica dependem hoje de mercados globais, decisões europeias, inovação tecnológica e tensões geopolíticas que escapam, em larga medida, ao controlo de qualquer executivo.
Ainda assim, é sobre os governos nacionais que recai a responsabilidade política. É deste desencontro entre expectativas e capacidade de ação que nasce a desconfiança.
Portugal constitui um exemplo particularmente elucidativo. A sucessão de governos minoritários, crises parlamentares e eleições antecipadas costuma ser apresentada como a causa da instabilidade. É, sobretudo, a sua manifestação. A dificuldade está na crescente incapacidade de produzir reformas consistentes num ambiente dominado pela urgência permanente. Governar passou a significar responder ao ciclo noticioso quando os desafios estruturais exigem continuidade, previsibilidade e tempo político.
É neste vazio que prosperam os discursos populistas. A sua vantagem não reside necessariamente na qualidade das soluções, mas na clareza da narrativa. Enquanto a democracia liberal é obrigada a reconhecer limites, negociar compromissos e administrar complexidades, o populismo promete devolver uma soberania plena que nenhum governo contemporâneo possui. Simplifica problemas que não admitem soluções simples e transforma a frustração em mobilização política.
Seria, porém, insuficiente reduzir este fenómeno ao confronto entre democracia liberal e populismo. O desafio é mais profundo. Os eleitores continuam a preferir a democracia, mas começam a duvidar da sua aptidão para produzir mudanças percetíveis. Quando a alternância política deixa de produzir alterações reconhecíveis na vida das pessoas, instala-se uma sensação persistente de impotência que desgasta qualquer governo, independentemente da sua orientação ideológica.
É por isso que a confiança se tornou o ativo mais valioso — e também o mais escasso — das democracias europeias. Não se recupera através de campanhas de comunicação nem de estratégias de marketing político. Reconstrói-se pela coerência entre discurso e ação, pela estabilidade das regras, pela transparência das decisões e pela capacidade de explicar não apenas o que é possível fazer, mas também os limites impostos por um mundo em que o poder deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados.
As investigações do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Fundação Francisco Manuel dos Santos convergem precisamente neste ponto: a legitimidade democrática constrói-se diariamente. Depende da previsibilidade das instituições, da imparcialidade das regras, da igualdade perante a lei e da convicção de que o poder permanece sujeito ao escrutínio público. Quando essa perceção enfraquece, a confiança não desaparece de forma abrupta; dissolve-se lentamente, até que o cinismo substitui a participação e a suspeita ocupa o lugar da esperança.
Talvez seja este o maior desafio das democracias europeias. Não apenas defender as suas instituições, mas recuperar a capacidade de dar expressão a sociedades cada vez mais diversas, exigentes e fragmentadas. A democracia nunca prometeu eliminar o conflito. A sua força sempre residiu na capacidade de transformar divergências em compromissos reconhecidos como legítimos, mesmo por quem deles discorda.
O futuro da democracia dependerá menos da solidez formal das suas instituições do que da confiança que forem capazes de inspirar. As constituições protegem direitos, organizam poderes e estabelecem regras. Mas nenhuma Constituição consegue preservar, por si só, um regime cujos cidadãos deixaram de acreditar que alguém os compreende antes de decidir, lhes dá voz antes de governar e lhes oferece uma razão credível para continuarem a confiar.
Portugal não assiste ao colapso das suas instituições democráticas. As eleições realizam-se regularmente, a alternância política permanece assegurada, os tribunais conservam a sua autonomia e as liberdades fundamentais continuam protegidas. O que se deteriora não é a democracia enquanto regime, mas a confiança na sua capacidade para interpretar uma sociedade em rápida transformação.
A distinção é decisiva. Uma democracia pode sobreviver a governos impopulares, parlamentos divididos ou sucessivas crises políticas. O que dificilmente resiste é ao enfraquecimento da convicção de que os representantes compreendem aqueles em nome de quem decidem. A legitimidade democrática nunca dependeu apenas do voto; sempre assentou na perceção de que existe uma relação de reconhecimento entre governantes e governados. É precisamente esse vínculo que hoje se fragiliza.
Durante demasiado tempo, atribuiu-se o crescimento da abstenção, da fragmentação partidária ou do populismo às crises económicas, aos escândalos de corrupção ou ao desgaste natural dos governos. Todos estes fatores contribuíram para o cenário atual, mas nenhum explica um fenómeno que atravessa democracias com desempenhos económicos muito distintos.
Os estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que o apoio à democracia continua elevado, ao mesmo tempo que diminui a confiança na capacidade dos governos para responder de forma eficaz, previsível e transparente. O Eurobarómetro identifica uma tendência semelhante. A crise não é da democracia; é da representação.
Durante grande parte do século XX, os partidos desempenharam uma função que hoje parece distante. Não eram apenas organizações eleitorais. Eram instituições de mediação. Organizavam interesses, agregavam identidades e davam coerência às expectativas da sociedade, convertendo reivindicações dispersas em projetos políticos reconhecíveis. A representação era um vínculo cívico antes de ser um mecanismo institucional.
Esse modelo foi progressivamente desfeito pela globalização, pela integração europeia e pela revolução digital. Os Estados perderam margem para controlar processos económicos decisivos, enquanto a política deixou de deter o monopólio da construção das narrativas públicas. Hoje disputa a atenção dos cidadãos com plataformas digitais, comentadores, influenciadores e algoritmos concebidos para privilegiar a emoção em detrimento da reflexão.
Daí nasce um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca foi tão fácil comunicar com os cidadãos; nunca foi tão difícil representá-los. A proximidade tecnológica criou a ilusão da proximidade política. Os responsáveis políticos tornaram-se mais acessíveis, mas não necessariamente mais credíveis. A exposição permanente não reforçou a confiança; tornou apenas mais evidentes os limites da ação política perante problemas cuja escala ultrapassa largamente as fronteiras nacionais.
O Reuters Institute tem demonstrado que a confiança na informação permanece sob pressão em grande parte da Europa. A dificuldade já não resulta da escassez de notícias, mas da crescente dificuldade em distinguir informação, opinião, propaganda e entretenimento. Quando desaparece um espaço comum de factos, torna-se igualmente mais difícil construir consensos duradouros. A quebra de confiança compromete, assim, não apenas a política, mas o próprio fundamento da democracia.
Seria, contudo, um erro atribuir esta transformação exclusivamente às redes sociais. Elas aceleraram um processo que começou muito antes. A questão decisiva reside no crescente desfasamento entre aquilo que os cidadãos esperam dos governos nacionais e aquilo que estes efetivamente conseguem concretizar.
Nunca se exigiu tanto da política quando ela dispõe de tão poucos instrumentos para moldar a realidade.
Os cidadãos continuam a esperar dos governos respostas para desafios que já não conhecem fronteiras. A habitação, a imigração, a produtividade, a transição energética, a inteligência artificial ou a competitividade económica dependem hoje de mercados globais, decisões europeias, inovação tecnológica e tensões geopolíticas que escapam, em larga medida, ao controlo de qualquer executivo.
Ainda assim, é sobre os governos nacionais que recai a responsabilidade política. É deste desencontro entre expectativas e capacidade de ação que nasce a desconfiança.
Portugal constitui um exemplo particularmente elucidativo. A sucessão de governos minoritários, crises parlamentares e eleições antecipadas costuma ser apresentada como a causa da instabilidade. É, sobretudo, a sua manifestação. A dificuldade está na crescente incapacidade de produzir reformas consistentes num ambiente dominado pela urgência permanente. Governar passou a significar responder ao ciclo noticioso quando os desafios estruturais exigem continuidade, previsibilidade e tempo político.
É neste vazio que prosperam os discursos populistas. A sua vantagem não reside necessariamente na qualidade das soluções, mas na clareza da narrativa. Enquanto a democracia liberal é obrigada a reconhecer limites, negociar compromissos e administrar complexidades, o populismo promete devolver uma soberania plena que nenhum governo contemporâneo possui. Simplifica problemas que não admitem soluções simples e transforma a frustração em mobilização política.
Seria, porém, insuficiente reduzir este fenómeno ao confronto entre democracia liberal e populismo. O desafio é mais profundo. Os eleitores continuam a preferir a democracia, mas começam a duvidar da sua aptidão para produzir mudanças percetíveis. Quando a alternância política deixa de produzir alterações reconhecíveis na vida das pessoas, instala-se uma sensação persistente de impotência que desgasta qualquer governo, independentemente da sua orientação ideológica.
É por isso que a confiança se tornou o ativo mais valioso — e também o mais escasso — das democracias europeias. Não se recupera através de campanhas de comunicação nem de estratégias de marketing político. Reconstrói-se pela coerência entre discurso e ação, pela estabilidade das regras, pela transparência das decisões e pela capacidade de explicar não apenas o que é possível fazer, mas também os limites impostos por um mundo em que o poder deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados.
As investigações do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Fundação Francisco Manuel dos Santos convergem precisamente neste ponto: a legitimidade democrática constrói-se diariamente. Depende da previsibilidade das instituições, da imparcialidade das regras, da igualdade perante a lei e da convicção de que o poder permanece sujeito ao escrutínio público. Quando essa perceção enfraquece, a confiança não desaparece de forma abrupta; dissolve-se lentamente, até que o cinismo substitui a participação e a suspeita ocupa o lugar da esperança.
Talvez seja este o maior desafio das democracias europeias. Não apenas defender as suas instituições, mas recuperar a capacidade de dar expressão a sociedades cada vez mais diversas, exigentes e fragmentadas. A democracia nunca prometeu eliminar o conflito. A sua força sempre residiu na capacidade de transformar divergências em compromissos reconhecidos como legítimos, mesmo por quem deles discorda.
O futuro da democracia dependerá menos da solidez formal das suas instituições do que da confiança que forem capazes de inspirar. As constituições protegem direitos, organizam poderes e estabelecem regras. Mas nenhuma Constituição consegue preservar, por si só, um regime cujos cidadãos deixaram de acreditar que alguém os compreende antes de decidir, lhes dá voz antes de governar e lhes oferece uma razão credível para continuarem a confiar.
sábado, 18 de julho de 2026
A guerra é um presente, mas não para os EUA
À medida que a tensão com o Irã oscila de uma semana para outra, uma tendência fica clara: a China é a maior beneficiária do conflito. Pequim não precisou disparar um único tiro, gastar quantias vultosas ou consumir capital político. No entanto, obteve mais ganhos com a crise do que com qualquer outro país nas últimas três décadas.
O conflito acelerou três objetivos de longa data da China: um Oriente Médio menos dependente dos EUA; um mundo mais dependente de tecnologias chinesas; e a consolidação da reputação de Pequim como uma potência mundial séria e estável.
Pequim não tentou substituir Washington enquanto fiador militar do Oriente Médio – isso exigiria compromissos dispendiosos. Seu objetivo é mais simples e sutil: afastar o Golfo Pérsico da órbita americana. Donald Trump está realizando grande parte desse trabalho para Xi Jinping.
Aliados dos EUA no Golfo viram Washington conduzir a guerra de maneira caótica e com pouca consideração pelos danos causados às cidades, à infraestrutura e às economias da região. O Golfo Pérsico está agora se dividindo em dois blocos. Os Emirados Árabes estão se aproximando de Israel e EUA. No entanto, um grupo maior liderado pela Arábia Saudita, que inclui Catar, Omã e, talvez, Iraque e Turquia, provavelmente buscará segurança no longo prazo por meio de um equilíbrio: manter laços com os EUA, mas também dialogar com o Irã e melhorar as relações com a China.
Essa é precisamente a ordem regional que Pequim quer. Em 2023, a China mediou a restauração das relações entre Arábia Saudita e Irã. Desde então, Riad resiste a aderir a certos projetos liderados pelos EUA sobre data centers e chips. O país comprou mísseis e drones chineses, realizou exercícios com a marinha chinesa e explorou a produção local de drones de combate Wing Loong.
Os países do Golfo foram destino de mais de 80% das exportações chinesas de defesa para o Oriente Médio entre 2016 e 2025. Ninguém está tentando substituir o guarda-chuva de segurança dos EUA, mas eles querem opções – e opções reduzem a influência americana.
A vitória mais impressionante da China é de natureza geoeconômica. À primeira vista, um país que importa 70% de seu petróleo deveria estar entre os maiores perdedores da guerra. No entanto, Pequim resistiu ao choque melhor do que a maioria, porque passou anos se preparando. Diversificou fornecedores, construiu o que se estima ser a maior reserva estratégica de petróleo do mundo, continuou utilizando carvão, expandiu a energia nuclear e eletrificou sua economia em uma escala que nenhum outro país igualou.
A eletricidade responde por 30% do consumo de energia da China, um índice quase 40% superior ao dos EUA ou da Europa. Em 2024, a China foi responsável pela instalação de mais da metade de toda a nova capacidade global de energia eólica e solar. Por todos esses motivos, o país pôde reduzir suas importações de petróleo em 4 milhões de barris por dia durante o conflito.
A guerra tornou-se uma enorme vitrine para as tecnologias estratégicas chinesas. Governos de todo o mundo buscam expandir suas capacidades em energia solar, baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e redes de energia.
A China detém 91% da capacidade global de fabricação de painéis solares e 89% da capacidade de produção de baterias de íon-lítio. Empresas chinesas fabricam 70% de quase todas as tecnologias de energia limpa monitoradas pela Bloomberg. Quanto mais tempo persistir a insegurança energética, mais o mundo recorrerá às indústrias dominadas pelos chineses.
A guerra também promoveu um objetivo fundamental da China: enfraquecer o domínio do dólar sobre o comércio global. Segundo relatos, o Irã permitiu a passagem de alguns navios-tanque pelo Estreito de Ormuz sob a condição de que as transações fossem feitas em renminbi chinês (ou em criptomoedas).
A China e seus parceiros ampliaram o comércio em renminbi para reduzir a exposição às sanções americanas. Essa mudança será gradual, mas a tendência agora é inconfundível: o afastamento da hegemonia do dólar.
Por fim, há o ganho inesperado em termos de reputação. O governo Trump entrou na guerra com objetivos grandiosos: mudança de regime, destruição do programa nuclear do Irã e eliminação de suas capacidades de mísseis balísticos e de seu apoio a grupos aliados na região. Não alcançou nenhum. Em vez disso, espera apenas abrir o Estreito de Ormuz, que já estava aberto antes da guerra.
Trump escolheu esta guerra e, ao fazê-lo, consumiu dezenas de bilhões de dólares, desperdiçou munições, desviou recursos militares da Ásia, desestabilizou aliados e demonstrou que, mesmo com o enorme poder dos EUA, uma estratégia errada e táticas em constante mudança geram maus resultados.
A China fez pouco. Continuou comprando petróleo iraniano, manteve relações com países do Oriente Médio e evitou os custos de defender o Irã ou de patrulhar o Golfo. Essa é a abordagem preferida de Pequim: nada de confrontos, mas sim o acúmulo constante de influência.
Nos últimos 25 anos, os EUA se exauriram em três grandes aventuras militares no Oriente Médio enquanto a China acumulava poder industrial, capacidade tecnológica e relações diplomáticas. Washington age. Pequim aguarda. A China arcou com custos decorrentes desta guerra – preços de energia mais altos, cadeias de abastecimento interrompidas e uma demanda global mais fraca. Mas o poder é sempre relativo. Em comparação aos danos sofridos pelos objetivos, pelas alianças e pela credibilidade dos EUA, a China saiu em vantagem.
Fareed Zakaria
Racismo. Quem não é contra é a favor
Nunca entendi o absurdo do racismo, por isso sempre o odiei. Tive a sorte de ter como melhor amigo desde a infância e por toda a vida, como um irmão e parceiro em vários empreendimentos vitoriosos, um negro, um dos melhores seres humano que conheci, que a cada dia me mostrava o absurdo do racismo.
Em 25 de março de 2026 a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos africanos e a escravização racializada como “crime mais grave contra a Humanidade”. A resolução foi aprovada por123 votos a favor e 3 contra: Estados Unidos, Israel e Argentina.
Não muda nada, mas diz tudo. Depois de importar e usar milhões de escravos africanos, metade da população, a Argentina libertou-os para deixá-los morrer de fome e de doenças, abrindo caminho para o projeto de branqueamento do país com a importação em massa de italianos e espanhóis. Eliminaram os negros, hoje 1% da população, mas não conseguiram exterminar os índios, que continuam “sujando” a sua branquitude com mestiços como vários craques argentinos.
Nos Estados Unidos, dizimaram os indígenas e escravizaram milhões de negros, 600 mil americanos se mataram na Guerra Civil, com o Sul rural e o Norte industrializado lutando pelo fim da escravidão. Hoje os negros americanos são 12% da população e conquistaram imenso poder político e social numa luta permanente contra a discriminação e o preconceito. E muita gente morreu por isso. Mas a cultura negra americana do século XX, nas artes, no esporte, no comportamento, na moda, tornou-se um fenômeno cultural que mudou o mundo, numa colossal derrota do racismo. Mesmo que os supremacistas brancos de Trump digam que qualquer caipira idiota do Texas pode se achar melhor do que o negro mais brilhante.
Mas o que esperar de assassinos como Trump e Netanyahu e um idiota como Milei? Interessante, porque o povo judeu foi vítima do maior holocausto da História. Racismo no rabo dos outros é refresco.
É irônico, porque a combinação de maior sucesso na indústria musical americana foi de artistas negros com executivos judeus, que se harmonizavam na discriminação para conquistar qualidade, vendas e prêmios.
Sempre amei a América, por sua cultura, seu progresso, sua modernidade e liberdade. No more. Hoje o mundo odeia a América de Trump, e a maior parte dos americanos também. E o seu racismo se manifesta no ódio e na inveja patológica de Obama, mas qualquer comparação entre a educação, cultura e elegância do estadista negro com um “white trash” de reality show grosso, ignorante e autoritário é uma fragorosa derrota do racismo.
E também sempre amei a Argentina, por seus escritores e artistas, por seu cinema, seu rock and roll e seu futebol, por seu humor e sua loucura: Buenos Aires é a cidade com mais psicanalistas per capita do mundo. A Argentina não é um bando de racistas ignorantes numa arquibancada de futebol, mas a omissão de suas vozes mais fortes, como o gênio Messi, na luta contra o racismo, diz tanto sobre preconceito como covardia.
Em 25 de março de 2026 a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos africanos e a escravização racializada como “crime mais grave contra a Humanidade”. A resolução foi aprovada por123 votos a favor e 3 contra: Estados Unidos, Israel e Argentina.
Não muda nada, mas diz tudo. Depois de importar e usar milhões de escravos africanos, metade da população, a Argentina libertou-os para deixá-los morrer de fome e de doenças, abrindo caminho para o projeto de branqueamento do país com a importação em massa de italianos e espanhóis. Eliminaram os negros, hoje 1% da população, mas não conseguiram exterminar os índios, que continuam “sujando” a sua branquitude com mestiços como vários craques argentinos.
Nos Estados Unidos, dizimaram os indígenas e escravizaram milhões de negros, 600 mil americanos se mataram na Guerra Civil, com o Sul rural e o Norte industrializado lutando pelo fim da escravidão. Hoje os negros americanos são 12% da população e conquistaram imenso poder político e social numa luta permanente contra a discriminação e o preconceito. E muita gente morreu por isso. Mas a cultura negra americana do século XX, nas artes, no esporte, no comportamento, na moda, tornou-se um fenômeno cultural que mudou o mundo, numa colossal derrota do racismo. Mesmo que os supremacistas brancos de Trump digam que qualquer caipira idiota do Texas pode se achar melhor do que o negro mais brilhante.
Mas o que esperar de assassinos como Trump e Netanyahu e um idiota como Milei? Interessante, porque o povo judeu foi vítima do maior holocausto da História. Racismo no rabo dos outros é refresco.
É irônico, porque a combinação de maior sucesso na indústria musical americana foi de artistas negros com executivos judeus, que se harmonizavam na discriminação para conquistar qualidade, vendas e prêmios.
Sempre amei a América, por sua cultura, seu progresso, sua modernidade e liberdade. No more. Hoje o mundo odeia a América de Trump, e a maior parte dos americanos também. E o seu racismo se manifesta no ódio e na inveja patológica de Obama, mas qualquer comparação entre a educação, cultura e elegância do estadista negro com um “white trash” de reality show grosso, ignorante e autoritário é uma fragorosa derrota do racismo.
E também sempre amei a Argentina, por seus escritores e artistas, por seu cinema, seu rock and roll e seu futebol, por seu humor e sua loucura: Buenos Aires é a cidade com mais psicanalistas per capita do mundo. A Argentina não é um bando de racistas ignorantes numa arquibancada de futebol, mas a omissão de suas vozes mais fortes, como o gênio Messi, na luta contra o racismo, diz tanto sobre preconceito como covardia.
A vida não passa de itens digitalizados
A propósito da trapalhada com os exames nacionais, multiplicaram-se nos canais noticiosos os relatos de professores que tentavam navegar pelo rocambolesco processo. Uma destas participações foi particularmente reveladora. Parafraseio de memória: as respostas, em papel, eram recolhidas dos alunos, transportadas para um local seguro, digitalizadas, colocadas na plataforma, acedidas pelos professores, impressas para facilidade de correção e anotações, digitalizadas e submetidas de novo através da plataforma. É admirável a simplicidade do mundo novo.
Tudo isto ganha dimensão por causa do que está em jogo, mas esta lógica do recurso ao digital como se fosse uma inevitabilidade desejável não será novidade para ninguém. Não são poucas as vezes que temos de dar uma volta maior do que a necessária para acomodar a eficiência digital.
No restaurante que nos obriga a abrir um link através de um código QR para navegar por um menu num ecrã demasiado pequeno para perceber seja o que for, e sem ajuda nem oportunidade para fazer perguntas. No atendimento telefónico de inteligência artificial que tenta fazer à força com que o nosso problema se encaixe nas suas capacidades. Nas caixas de supermercado onde temos de passar as nossas próprias contas, acertar nos códigos, lembrarmo-nos do nome do pão e do tipo de tangerina, esperar pela ajuda humana quando há erro e depois ainda passar o talão para provar que não se é um larápio. Quando se faz o “check-in online” para “evitar complicações e filas” e depois temos de ir para a fila na mesma porque o processo não se completa sem a intervenção de uma pessoa. Quando se pede a pessoas com pouca escolaridade, capacidades físicas reduzidas, pouca familiaridade com o mundo digital que “siga o QR code e faça download da app a partir da appstore e faça login com o seu email”.
Instalou-se um ambiente de obsessão pelo digital. A própria ideia de ter um país com áreas em que o processo de digitalização não está completamente instalado é suficiente para fazer uma pessoa decente ter afrontamentos, que horror.
A sofreguidão que mostramos em nos juntarmos ao mundo digitalizado mostra bem como andamos completamente desnorteados. Em vez de pararmos para pensar, por exemplo, no modelo de educação que queremos para termos cidadãos mais críticos, com maior capacidade de aprendizagem, mais empáticos e mais inseridos numa comunidade viva e solidária, vivemos obcecados em ideias obsoletas e contraproducentes como são a excelência e o mérito.
É à boleia desses lugares comuns que se aceitam acriticamente como evidentes que também se embarca na ideia de que é preciso digitalizar tudo, é preciso pôr tecnologia em tudo e subordinar tudo a esta nova lógica.
Não penso que a solução esteja no regresso à idade da pedra. É óbvio que muitos avanços tecnológicos aumentaram as nossas vidas, tornaram-nas mais cheias e aumentaram aquilo que é possível fazermos enquanto formos vivos com maior conforto. Também é óbvio que muitos avanços tecnológicos nos transformaram em agarrados, drogados do ecrã que gastam tempo e dinheiro que não têm para satisfazer o vício.
Na minha terra eram conhecidas as histórias das pessoas que se endividavam para comprar um carro todo-o-terreno para o passearem aos fins-de-semana pelas marginais da zona e serem vistos naquele monstro gigante de metal. Lá do cimo olhavam cá para baixo, para os comuns mortais imaginando-os cheios de inveja e rancor. Quem lhes dera poder também comprar um jipe para o passearem pelas marginais. Nunca tiveram outro uso para os carros que não esse. Usaram a tração às quatro rodas uma vez, para mostrar ao cunhado a bomba que tinham comprado e pronto, ali estava a bomba. Ninguém tinha uso para elas e toda a gente queria uma.
Assim acontece com a tecnologia. Aceitamo-la como símbolo de sucesso de um país e andamos loucos atrás dela sem sabermos porquê. Na verdade, pouco interessa. A tecnologia é feita por empresas que geram riqueza e postos de trabalho e Deus sabe que não há nada neste mundo que se consiga meter entre um empreendedor e o seu lucro. Fazermos perguntas tontas como “precisamos mesmo disto?” é conversa de velho do Restelo que quer voltar para as cavernas, pá! Conversa de herege que com certeza só está bem a ver Portugal na cauda da Europa.
Precisamos mesmo de exames digitalizados? Mesmo partindo do princípio que a transição poderia ter sido livre de incidentes e todos os problemas são passageiros, para além de se aceitar como óbvia a necessidade da digitalização, não valeria a pena para um pouco para pensar se é mesmo assim. Até poderíamos chegar à conclusão de que assim é, mas parece que ninguém está interessado em fazê-lo.
No meio do imediatismo da espuma, ficam sempre por fazer as perguntas que mais ganharíamos em fazer. Mas quem sou eu? Deixe-se estar tudo assim que prefiro estar aqui no meu sofá agarrado ao telemóvel do que pendurado pelas pernas no pelourinho.
Tudo isto ganha dimensão por causa do que está em jogo, mas esta lógica do recurso ao digital como se fosse uma inevitabilidade desejável não será novidade para ninguém. Não são poucas as vezes que temos de dar uma volta maior do que a necessária para acomodar a eficiência digital.
No restaurante que nos obriga a abrir um link através de um código QR para navegar por um menu num ecrã demasiado pequeno para perceber seja o que for, e sem ajuda nem oportunidade para fazer perguntas. No atendimento telefónico de inteligência artificial que tenta fazer à força com que o nosso problema se encaixe nas suas capacidades. Nas caixas de supermercado onde temos de passar as nossas próprias contas, acertar nos códigos, lembrarmo-nos do nome do pão e do tipo de tangerina, esperar pela ajuda humana quando há erro e depois ainda passar o talão para provar que não se é um larápio. Quando se faz o “check-in online” para “evitar complicações e filas” e depois temos de ir para a fila na mesma porque o processo não se completa sem a intervenção de uma pessoa. Quando se pede a pessoas com pouca escolaridade, capacidades físicas reduzidas, pouca familiaridade com o mundo digital que “siga o QR code e faça download da app a partir da appstore e faça login com o seu email”.
A tecnologia é uma solucionadora. Soluciona tão completamente que chega a solucionar o problema que deveras não está presente
Instalou-se um ambiente de obsessão pelo digital. A própria ideia de ter um país com áreas em que o processo de digitalização não está completamente instalado é suficiente para fazer uma pessoa decente ter afrontamentos, que horror.
A sofreguidão que mostramos em nos juntarmos ao mundo digitalizado mostra bem como andamos completamente desnorteados. Em vez de pararmos para pensar, por exemplo, no modelo de educação que queremos para termos cidadãos mais críticos, com maior capacidade de aprendizagem, mais empáticos e mais inseridos numa comunidade viva e solidária, vivemos obcecados em ideias obsoletas e contraproducentes como são a excelência e o mérito.
É à boleia desses lugares comuns que se aceitam acriticamente como evidentes que também se embarca na ideia de que é preciso digitalizar tudo, é preciso pôr tecnologia em tudo e subordinar tudo a esta nova lógica.
Não penso que a solução esteja no regresso à idade da pedra. É óbvio que muitos avanços tecnológicos aumentaram as nossas vidas, tornaram-nas mais cheias e aumentaram aquilo que é possível fazermos enquanto formos vivos com maior conforto. Também é óbvio que muitos avanços tecnológicos nos transformaram em agarrados, drogados do ecrã que gastam tempo e dinheiro que não têm para satisfazer o vício.
Na minha terra eram conhecidas as histórias das pessoas que se endividavam para comprar um carro todo-o-terreno para o passearem aos fins-de-semana pelas marginais da zona e serem vistos naquele monstro gigante de metal. Lá do cimo olhavam cá para baixo, para os comuns mortais imaginando-os cheios de inveja e rancor. Quem lhes dera poder também comprar um jipe para o passearem pelas marginais. Nunca tiveram outro uso para os carros que não esse. Usaram a tração às quatro rodas uma vez, para mostrar ao cunhado a bomba que tinham comprado e pronto, ali estava a bomba. Ninguém tinha uso para elas e toda a gente queria uma.
Assim acontece com a tecnologia. Aceitamo-la como símbolo de sucesso de um país e andamos loucos atrás dela sem sabermos porquê. Na verdade, pouco interessa. A tecnologia é feita por empresas que geram riqueza e postos de trabalho e Deus sabe que não há nada neste mundo que se consiga meter entre um empreendedor e o seu lucro. Fazermos perguntas tontas como “precisamos mesmo disto?” é conversa de velho do Restelo que quer voltar para as cavernas, pá! Conversa de herege que com certeza só está bem a ver Portugal na cauda da Europa.
Precisamos mesmo de exames digitalizados? Mesmo partindo do princípio que a transição poderia ter sido livre de incidentes e todos os problemas são passageiros, para além de se aceitar como óbvia a necessidade da digitalização, não valeria a pena para um pouco para pensar se é mesmo assim. Até poderíamos chegar à conclusão de que assim é, mas parece que ninguém está interessado em fazê-lo.
No meio do imediatismo da espuma, ficam sempre por fazer as perguntas que mais ganharíamos em fazer. Mas quem sou eu? Deixe-se estar tudo assim que prefiro estar aqui no meu sofá agarrado ao telemóvel do que pendurado pelas pernas no pelourinho.
Tarifaço indica que objetivos de Trump vão além de interferir em política do Brasil
O novo tarifaço decretado pelo presidente americano Donald Trump contra o Brasil claramente tem potencial de beneficiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida eleitoral. Essa correlação foi mencionada pelo próprio senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em sua exposição no início do mês no Congresso americano e evidentemente não é desconhecida da Casa Branca.
A opção de fazê-lo, e fazê-lo agora, e de forma a vinculá-lo diretamente a Lula, como deixou claro a postagem do secretário de Estado Marco Rubio nas redes sociais, indica que seu objetivo vai além de questões políticas conjunturais brasileiras. O que tudo indica é que está em curso uma confrontação de fôlego maior, para os próximos anos. A postagem de Rubio torna improvável um aperto de mãos entre Lula e Trump como houve em outubro do ano passado. Ele responsabilizou nominalmente o presidente brasileiro. Queimou os galeões.
A pressão contra Lula ocorre no mesmo ano em que os Estados Unidos intervêm militarmente na Venezuela, reforça o bloqueio econômico contra Cuba e criam condições para uma ação direta contra México e Brasil, em nome de combate a grandes cartéis do crime organizado. O ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência Hussein Kalout lembra ainda de outros componentes, como o projeto de instalação de uma base militar no Paraguai, que vão compondo uma espécie de avanço na América Latina que potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da região. O Brasil, na visão dele, é o verdadeiro alvo da doutrina Donroe. O objetivo seria cortar a autonomia de voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União Europeia, quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério Ocidental.
Ao comparecer ao Congresso dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro fez uma manobra de alto risco. Ele lá compareceu oficialmente para falar contra um tarifaço que era mais do que provável, mas usou na ocasião de argumentos políticos, e não técnicos. Em vez de se distanciar, reforçou o vínculo com um presidente francamente hostil ao governo brasileiro que age para prejudicar a economia do país. Tal estratégia só reverteria em ganho para Flávio se ele fosse alçado a uma posição negociadora, o que não se deu.
O tarifaço americano de agora também é mais perigoso para Lula do que foi o do ano passado. Quando Trump sancionou o Brasil pela primeira vez, exatamente há um ano, estabeleceu como alvo preferencial o Judiciário brasileiro, o que não alijava Lula do papel de mediador. Desta vez nada indica que as sanções não entrarão efetivamente em vigor. Caso os prejuízos à economia desçam para o cotidiano do eleitor antes de outubro, não há narrativa política que possa contrabalançar. O eleitor tende a cobrar medidas concretas para resolver o estrago.
César Felício
A opção de fazê-lo, e fazê-lo agora, e de forma a vinculá-lo diretamente a Lula, como deixou claro a postagem do secretário de Estado Marco Rubio nas redes sociais, indica que seu objetivo vai além de questões políticas conjunturais brasileiras. O que tudo indica é que está em curso uma confrontação de fôlego maior, para os próximos anos. A postagem de Rubio torna improvável um aperto de mãos entre Lula e Trump como houve em outubro do ano passado. Ele responsabilizou nominalmente o presidente brasileiro. Queimou os galeões.
A pressão contra Lula ocorre no mesmo ano em que os Estados Unidos intervêm militarmente na Venezuela, reforça o bloqueio econômico contra Cuba e criam condições para uma ação direta contra México e Brasil, em nome de combate a grandes cartéis do crime organizado. O ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência Hussein Kalout lembra ainda de outros componentes, como o projeto de instalação de uma base militar no Paraguai, que vão compondo uma espécie de avanço na América Latina que potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da região. O Brasil, na visão dele, é o verdadeiro alvo da doutrina Donroe. O objetivo seria cortar a autonomia de voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União Europeia, quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério Ocidental.
Ao comparecer ao Congresso dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro fez uma manobra de alto risco. Ele lá compareceu oficialmente para falar contra um tarifaço que era mais do que provável, mas usou na ocasião de argumentos políticos, e não técnicos. Em vez de se distanciar, reforçou o vínculo com um presidente francamente hostil ao governo brasileiro que age para prejudicar a economia do país. Tal estratégia só reverteria em ganho para Flávio se ele fosse alçado a uma posição negociadora, o que não se deu.
O tarifaço americano de agora também é mais perigoso para Lula do que foi o do ano passado. Quando Trump sancionou o Brasil pela primeira vez, exatamente há um ano, estabeleceu como alvo preferencial o Judiciário brasileiro, o que não alijava Lula do papel de mediador. Desta vez nada indica que as sanções não entrarão efetivamente em vigor. Caso os prejuízos à economia desçam para o cotidiano do eleitor antes de outubro, não há narrativa política que possa contrabalançar. O eleitor tende a cobrar medidas concretas para resolver o estrago.
César Felício
O racismo em código
“O fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis.” A advertência de Umberto Eco, escrita há quase trinta anos, parece ter encontrado uma imagem definitiva no vagão de um metrô em Washington. Durante as comemorações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, uma mulher negra permaneceu sentada enquanto dezenas de homens mascarados, integrantes da organização supremacista Patriot Front, ocupavam o mesmo espaço. A fotografia, registrada pela Reuters, viralizou porque condensava, em um único enquadramento, um dos maiores paradoxos do nosso tempo: aqueles que defendem a superioridade branca escondem o próprio rosto, enquanto a vítima potencial da violência é a única plenamente identificável.
A imagem não retrata apenas um episódio isolado. Ela sintetiza uma transformação profunda na forma como a extrema direita contemporânea comunica suas ideias. Diferentemente do século XX, quando movimentos fascistas e nazistas exibiam seus símbolos de maneira ostensiva, a supremacia branca do século XXI compreendeu que sobreviver politicamente exige mudar de linguagem. O objetivo permanece o mesmo. O método, porém, tornou-se mais sofisticado.
Stuart Hall ensinou que o racismo nunca foi apenas um conjunto de crenças biológicas. Trata-se de um sistema de produção de significados que acompanha as transformações históricas das sociedades. Quando determinados discursos deixam de ser socialmente aceitáveis, eles não desaparecem; reorganizam-se. Mudam as palavras, preservam-se as hierarquias. A linguagem adapta-se aos limites morais de cada época sem abandonar sua função política.
É exatamente esse movimento que observamos na expansão contemporânea dos grupos supremacistas. Em entrevista recente, o historiador Odilon Caldeira Neto, disse que o supremacismo branco contemporâneo deve ser compreendido como um “amálgama” de organizações com referências ideológicas variadas, que compartilham uma linguagem comum, ainda que possuam diferenças entre si. Nesse campo encontram-se nacionalistas brancos, grupos identitários, setores da direita alternativa e organizações neonazistas.
Essa mudança não significa que o racismo tenha diminuído. Significa que ele aprendeu a operar por meio de códigos.
Os chamados dog whistles (apito de cachorro), expressão utilizada para designar mensagens compreendidas apenas por determinados grupos, tornaram-se parte importante dessa estratégia. Funcionam como um apito inaudível para a maioria das pessoas, mas perfeitamente reconhecível por aqueles que compartilham o mesmo repertório ideológico. O pesquisador explicou que esses símbolos cumprem exatamente essa função: permitem o reconhecimento entre extremistas ao mesmo tempo em que dificultam sua responsabilização pública.
Não por acaso, Roland Barthes lembrava que os signos nunca são inocentes. Em Mitologias, mostrou que objetos, imagens e gestos cotidianos podem ser apropriados pela ideologia e passar a carregar significados muito além de sua aparência imediata. Um gesto deixa de ser apenas um gesto quando passa a funcionar como linguagem política.
Foi exatamente isso que a Copa do Mundo de 2026 colocou em evidência.
Antes da partida entre Alemanha e Curaçao, o árbitro de vídeo australiano Shaun Evans foi acusado de realizar um gesto associado ao White Power. A FIFA abriu investigação, concluiu que o movimento havia sido involuntário e encerrou o caso sem qualquer punição. A decisão, do ponto de vista disciplinar, encerrou o processo. Do ponto de vista sociológico, entretanto, inaugurou um debate muito mais relevante.
O problema nunca esteve apenas na intenção individual do árbitro.
O episódio tornou visível algo maior: determinados símbolos passaram a ocupar uma zona cinzenta na comunicação contemporânea. São suficientemente conhecidos para despertar suspeitas e suficientemente ambíguos para impedir conclusões definitivas. Essa ambiguidade constitui precisamente sua força política.
O Brasil conheceu uma situação semelhante em março de 2021, quando Filipe Martins, então assessor especial para Assuntos Internacionais do então presidente da república Jair Bolsonaro, realizou gesto idêntico durante uma sessão do Senado Federal. O caso provocou intensa repercussão política e jurídica, culminando em condenação pela Justiça Federal por racismo e incitação ao preconceito racial. Não foi apenas o desenho formado pelos dedos que esteve em julgamento, mas o contexto político em que o gesto foi realizado.
Pierre Bourdieu ajuda a compreender esse fenômeno. Os símbolos não possuem eficácia por si mesmos. Seu poder decorre da posição social de quem os emite, das instituições que os legitimam e do universo cultural em que circulam. O mesmo gesto pode significar aprovação em uma situação e representar adesão a uma ideologia extremista em outra. É o contexto que produz o sentido.
Também por isso seria um equívoco interpretar qualquer gesto semelhante como manifestação automática de supremacismo branco. Mas seria igualmente ingênuo ignorar que movimentos extremistas se apropriam deliberadamente de símbolos cotidianos para dificultar sua identificação.
A Copa do Mundo revelou outro aspecto igualmente inquietante.
Dentro dos gramados, o protocolo oficial da FIFA contra o racismo foi acionado apenas uma vez, durante a partida entre Argentina e Egito. Fora deles, entretanto, o cenário foi completamente distinto. O sistema de monitoramento digital da entidade registrou aumento de aproximadamente 1.200% nas mensagens de ódio em relação ao Mundial anterior. Das cerca de 89 mil publicações abusivas identificadas durante a fase de grupos, aproximadamente 11% continham conteúdo explicitamente racista. Mais de uma centena de postagens atingiu os critérios necessários para subsidiar medidas judiciais.
Essa discrepância revela uma transformação decisiva.
O racismo contemporâneo nem sempre se manifesta diante das câmeras. Muitas vezes ele migra para o ambiente digital, onde encontra anonimato, velocidade de circulação e comunidades dispostas a compartilhar a mesma gramática simbólica.
Achille Mbembe observa que a raça permanece como uma das principais tecnologias de organização do poder moderno, mesmo quando deixa de aparecer de maneira explícita. Em outras palavras, o desaparecimento do vocabulário biológico não implica o desaparecimento das estruturas de exclusão. Elas apenas assumem novas formas discursivas.
O futebol oferece um exemplo eloquente dessa transformação. As seleções nacionais tornaram-se, talvez como nunca antes, retratos da diversidade étnica de seus países. Atletas negros, descendentes de imigrantes e integrantes de diferentes grupos culturais passaram a representar as cores nacionais. É justamente essa diversidade que movimentos supremacistas procuram combater ao defender uma identidade nacional homogênea, branca e excludente.
Não por acaso, episódios de racismo envolvendo jogadores, torcedores e dirigentes continuam a surgir em diferentes países, inclusive na América do Sul. A recorrência desses casos demonstra que a disputa não acontece apenas em torno de um resultado esportivo. O que está em jogo é a própria definição de pertencimento nacional.
Norbert Elias mostrou que sociedades constroem continuamente fronteiras simbólicas entre “estabelecidos” e “outsiders”. O racismo constitui uma das formas mais eficientes de produzir essa separação. Ao definir quem pertence e quem deve permanecer à margem, reforça relações de poder que ultrapassam muito o campo esportivo.
É nesse ponto que a reflexão de Odilon Caldeira Neto ganha dimensão internacional. Segundo o pesquisador, seria um erro tratar a supremacia branca como um problema exclusivamente norte-americano. A extrema direita contemporânea desenvolveu uma intensa capacidade transnacional de circulação de símbolos, discursos e estratégias. As redes sociais reduziram fronteiras, aceleraram o compartilhamento de códigos e ampliaram extraordinariamente a capacidade de recrutamento desses movimentos.
Hannah Arendt advertia que os regimes totalitários não surgem apenas da violência organizada. Eles dependem, antes de tudo, da naturalização de categorias que distinguem quem merece pertencer plenamente à comunidade política e quem passa a ser visto como ameaça permanente. Antes da exclusão jurídica, instala-se a exclusão simbólica.
Talvez seja exatamente isso que a fotografia do metrô em Washington nos obrigue a enxergar. Ela não mostra apenas homens mascarados. Mostra uma ideologia que aprendeu a esconder o rosto sem abandonar o preconceito. Mostra uma linguagem que já não necessita repetir abertamente a superioridade racial para continuar produzindo seus efeitos. Mostra que, na sociedade das plataformas digitais, a supremacia branca compreendeu que símbolos podem ser mais eficazes do que discursos, gestos podem circular mais rapidamente do que manifestos e códigos podem recrutar com maior eficiência do que palavras de ordem.
O racismo não desapareceu. Ele apenas aprendeu uma nova gramática. E reconhecê-la talvez seja uma das tarefas mais urgentes das democracias contemporâneas.
A imagem não retrata apenas um episódio isolado. Ela sintetiza uma transformação profunda na forma como a extrema direita contemporânea comunica suas ideias. Diferentemente do século XX, quando movimentos fascistas e nazistas exibiam seus símbolos de maneira ostensiva, a supremacia branca do século XXI compreendeu que sobreviver politicamente exige mudar de linguagem. O objetivo permanece o mesmo. O método, porém, tornou-se mais sofisticado.
Stuart Hall ensinou que o racismo nunca foi apenas um conjunto de crenças biológicas. Trata-se de um sistema de produção de significados que acompanha as transformações históricas das sociedades. Quando determinados discursos deixam de ser socialmente aceitáveis, eles não desaparecem; reorganizam-se. Mudam as palavras, preservam-se as hierarquias. A linguagem adapta-se aos limites morais de cada época sem abandonar sua função política.
É exatamente esse movimento que observamos na expansão contemporânea dos grupos supremacistas. Em entrevista recente, o historiador Odilon Caldeira Neto, disse que o supremacismo branco contemporâneo deve ser compreendido como um “amálgama” de organizações com referências ideológicas variadas, que compartilham uma linguagem comum, ainda que possuam diferenças entre si. Nesse campo encontram-se nacionalistas brancos, grupos identitários, setores da direita alternativa e organizações neonazistas.
Essa mudança não significa que o racismo tenha diminuído. Significa que ele aprendeu a operar por meio de códigos.
Os chamados dog whistles (apito de cachorro), expressão utilizada para designar mensagens compreendidas apenas por determinados grupos, tornaram-se parte importante dessa estratégia. Funcionam como um apito inaudível para a maioria das pessoas, mas perfeitamente reconhecível por aqueles que compartilham o mesmo repertório ideológico. O pesquisador explicou que esses símbolos cumprem exatamente essa função: permitem o reconhecimento entre extremistas ao mesmo tempo em que dificultam sua responsabilização pública.
Não por acaso, Roland Barthes lembrava que os signos nunca são inocentes. Em Mitologias, mostrou que objetos, imagens e gestos cotidianos podem ser apropriados pela ideologia e passar a carregar significados muito além de sua aparência imediata. Um gesto deixa de ser apenas um gesto quando passa a funcionar como linguagem política.
Foi exatamente isso que a Copa do Mundo de 2026 colocou em evidência.
Antes da partida entre Alemanha e Curaçao, o árbitro de vídeo australiano Shaun Evans foi acusado de realizar um gesto associado ao White Power. A FIFA abriu investigação, concluiu que o movimento havia sido involuntário e encerrou o caso sem qualquer punição. A decisão, do ponto de vista disciplinar, encerrou o processo. Do ponto de vista sociológico, entretanto, inaugurou um debate muito mais relevante.
O problema nunca esteve apenas na intenção individual do árbitro.
O episódio tornou visível algo maior: determinados símbolos passaram a ocupar uma zona cinzenta na comunicação contemporânea. São suficientemente conhecidos para despertar suspeitas e suficientemente ambíguos para impedir conclusões definitivas. Essa ambiguidade constitui precisamente sua força política.
O Brasil conheceu uma situação semelhante em março de 2021, quando Filipe Martins, então assessor especial para Assuntos Internacionais do então presidente da república Jair Bolsonaro, realizou gesto idêntico durante uma sessão do Senado Federal. O caso provocou intensa repercussão política e jurídica, culminando em condenação pela Justiça Federal por racismo e incitação ao preconceito racial. Não foi apenas o desenho formado pelos dedos que esteve em julgamento, mas o contexto político em que o gesto foi realizado.
Pierre Bourdieu ajuda a compreender esse fenômeno. Os símbolos não possuem eficácia por si mesmos. Seu poder decorre da posição social de quem os emite, das instituições que os legitimam e do universo cultural em que circulam. O mesmo gesto pode significar aprovação em uma situação e representar adesão a uma ideologia extremista em outra. É o contexto que produz o sentido.
Também por isso seria um equívoco interpretar qualquer gesto semelhante como manifestação automática de supremacismo branco. Mas seria igualmente ingênuo ignorar que movimentos extremistas se apropriam deliberadamente de símbolos cotidianos para dificultar sua identificação.
A Copa do Mundo revelou outro aspecto igualmente inquietante.
Dentro dos gramados, o protocolo oficial da FIFA contra o racismo foi acionado apenas uma vez, durante a partida entre Argentina e Egito. Fora deles, entretanto, o cenário foi completamente distinto. O sistema de monitoramento digital da entidade registrou aumento de aproximadamente 1.200% nas mensagens de ódio em relação ao Mundial anterior. Das cerca de 89 mil publicações abusivas identificadas durante a fase de grupos, aproximadamente 11% continham conteúdo explicitamente racista. Mais de uma centena de postagens atingiu os critérios necessários para subsidiar medidas judiciais.
Essa discrepância revela uma transformação decisiva.
O racismo contemporâneo nem sempre se manifesta diante das câmeras. Muitas vezes ele migra para o ambiente digital, onde encontra anonimato, velocidade de circulação e comunidades dispostas a compartilhar a mesma gramática simbólica.
Achille Mbembe observa que a raça permanece como uma das principais tecnologias de organização do poder moderno, mesmo quando deixa de aparecer de maneira explícita. Em outras palavras, o desaparecimento do vocabulário biológico não implica o desaparecimento das estruturas de exclusão. Elas apenas assumem novas formas discursivas.
O futebol oferece um exemplo eloquente dessa transformação. As seleções nacionais tornaram-se, talvez como nunca antes, retratos da diversidade étnica de seus países. Atletas negros, descendentes de imigrantes e integrantes de diferentes grupos culturais passaram a representar as cores nacionais. É justamente essa diversidade que movimentos supremacistas procuram combater ao defender uma identidade nacional homogênea, branca e excludente.
Não por acaso, episódios de racismo envolvendo jogadores, torcedores e dirigentes continuam a surgir em diferentes países, inclusive na América do Sul. A recorrência desses casos demonstra que a disputa não acontece apenas em torno de um resultado esportivo. O que está em jogo é a própria definição de pertencimento nacional.
Norbert Elias mostrou que sociedades constroem continuamente fronteiras simbólicas entre “estabelecidos” e “outsiders”. O racismo constitui uma das formas mais eficientes de produzir essa separação. Ao definir quem pertence e quem deve permanecer à margem, reforça relações de poder que ultrapassam muito o campo esportivo.
É nesse ponto que a reflexão de Odilon Caldeira Neto ganha dimensão internacional. Segundo o pesquisador, seria um erro tratar a supremacia branca como um problema exclusivamente norte-americano. A extrema direita contemporânea desenvolveu uma intensa capacidade transnacional de circulação de símbolos, discursos e estratégias. As redes sociais reduziram fronteiras, aceleraram o compartilhamento de códigos e ampliaram extraordinariamente a capacidade de recrutamento desses movimentos.
Hannah Arendt advertia que os regimes totalitários não surgem apenas da violência organizada. Eles dependem, antes de tudo, da naturalização de categorias que distinguem quem merece pertencer plenamente à comunidade política e quem passa a ser visto como ameaça permanente. Antes da exclusão jurídica, instala-se a exclusão simbólica.
Talvez seja exatamente isso que a fotografia do metrô em Washington nos obrigue a enxergar. Ela não mostra apenas homens mascarados. Mostra uma ideologia que aprendeu a esconder o rosto sem abandonar o preconceito. Mostra uma linguagem que já não necessita repetir abertamente a superioridade racial para continuar produzindo seus efeitos. Mostra que, na sociedade das plataformas digitais, a supremacia branca compreendeu que símbolos podem ser mais eficazes do que discursos, gestos podem circular mais rapidamente do que manifestos e códigos podem recrutar com maior eficiência do que palavras de ordem.
O racismo não desapareceu. Ele apenas aprendeu uma nova gramática. E reconhecê-la talvez seja uma das tarefas mais urgentes das democracias contemporâneas.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Soberania começa na periferia
Há uma contradição brutal no centro da política brasileira. A extrema-direita que passou anos falando em pátria, bandeira, soberania, família e liberdade agora recorre ao poder de uma potência estrangeira para constranger as instituições do próprio país. Quando perde no voto, desacredita nas urnas. Quando é julgada, ataca o Judiciário. Quando sua maior liderança é responsabilizada por tentativa de golpe, seus herdeiros políticos buscam em Washington aquilo que não conseguiram obter da sociedade brasileira: uma forma externa de manter viva a estrutura interna do golpismo.
Não se trata de divergência diplomática comum. Trata-se de um movimento político mais grave: transformar uma derrota democrática interna em chantagem internacional. Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado, e, em 2026, reportagens internacionais registraram sua permanência em prisão domiciliar enquanto Flávio Bolsonaro buscava interlocução em Washington em meio à disputa sobre tarifas contra o Brasil. Lula acusou a família Bolsonaro de acionar força estrangeira contra interesses nacionais; Flávio negou ter provocado as medidas. Ainda assim, o fato político permanece: a extrema-direita brasileira internacionalizou sua crise porque não conseguiu vencê-la dentro da democracia brasileira.
É nesse ponto que a denúncia de Lula ganha densidade histórica. O presidente reage ao risco de que o Brasil seja empurrado para aquilo que pode ser compreendido como uma forma de intervenção norte-americana sobre a soberania de países latino-americanos. A expressão é forte, mas não nasce do vazio. John Coatsworth registrou, em estudo publicado pela Harvard ReVista, que, entre 1898 e 1994, os Estados Unidos intervieram com sucesso para mudar governos na América Latina ao menos 41 vezes. A história do continente conhece esse método: Cuba, Chile, Guatemala, Nicarágua, Panamá e República Dominicana. Em cada um desses casos, as elites locais descobriram que, quando não conseguem submeter o povo pelo consenso, podem tentar fazê-lo com o apoio da força externa.
Mas a soberania brasileira não está ameaçada apenas de fora. Ela também é corroída por dentro, nos territórios onde o Estado se retirou como direito e retornou deformado como violência, corrupção ou abandono. A milícia é a expressão mais madura dessa tragédia. Ela não é apenas crime organizado. É Estado privatizado. É polícia convertida em mercado. É administração armada da escassez. Cobra por gás, transporte, internet, lote, moradia, segurança, voto e silêncio. Onde a Constituição não chega como serviço público, alguém chega como domínio.
Por isso o Rio de Janeiro não pode ser lido como exceção folclórica. Ele é laboratório nacional. A execução de Marielle Franco e Anderson Gomes revelou a profundidade da captura territorial, política e institucional. Em 2026, Domingos Brazão e Chiquinho Brazão foram condenados pelo STF pelo assassinato, em caso que expôs relações entre poder político, interesses imobiliários, milícias, agentes de segurança e obstrução investigativa. Marielle não foi morta apenas por incomodar indivíduos. Foi executada porque sua existência política ameaçava um modo de governar territórios: mulher negra, socialista, cria da Maré, denunciava a violência de Estado e os negócios do abandono.
A milícia compreendeu antes de muitos governos uma verdade elementar: território é poder. Quem controla a rua controla a circulação. Quem controla a circulação controla o comércio. Quem controla o comércio controla renda.
Quem controla renda controla voto. Quem controla voto negocia com o Estado. Quando esse circuito se estabiliza, o crime deixa de ser apenas desvio. Torna-se governo paralelo, mercado armado e partido informal do medo.
Os números confirmam a escala da crise. O Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pelo GENI/UFF e pelo Instituto Fogo Cruzado, registrou cerca de 4 milhões de moradores sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio em 2024 – 34,9% da população da região.
Entre 2007 e 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130,4%. Isso não é problema de polícia. É crise de soberania interna.
Aqui se unem as duas faces do mesmo impasse. De um lado, uma extrema-direita que aciona Washington contra o Brasil quando perde a disputa democrática. De outro, poderes armados internos que substituem o Estado nos territórios populares. O império pressiona por fora; a milícia captura por dentro. Ambos se alimentam da mesma fragilidade: a incapacidade de fazer da soberania popular uma realidade material na vida do povo.
Por isso, combater o crime organizado não pode significar apenas multiplicar operações policiais. O Brasil precisa de inteligência financeira, rastreamento patrimonial, controle externo das polícias, proteção de testemunhas, responsabilização de agentes públicos e desmonte das redes econômicas do crime. Mas precisa, com a mesma força, de creches integrais, saneamento, urbanização, escola pública viva, saúde da família, CAPS, transporte digno, cultura, esporte e regularização fundiária sob controle democrático. A viatura não substitui a creche. O caveirão não substitui o saneamento. A prisão do soldado não desmonta a economia política do medo.
O debate fiscal entra exatamente aqui. Um Estado que economiza em periferia paga mais caro em violência, encarceramento, adoecimento, evasão escolar, corrupção policial e destruição democrática. A austeridade, quando aplicada mecanicamente aos territórios abandonados, não é técnica neutra. É produção de vácuo. E, no Brasil real, o vácuo nunca fica vazio. Ele é ocupado por quem tem arma, dinheiro, mandato, fé instrumentalizada, influência policial ou todos esses elementos juntos.
Saneamento é segurança. Creche é segurança. Escola integral é segurança. Saúde mental pública é segurança. Transporte público é segurança. Urbanização é segurança. Cultura é segurança. Não porque substituam a lei penal, mas porque retiram do crime a administração cotidiana da escassez. O gasto social estruturante deve ser tratado como investimento em soberania nacional.
A esquerda precisa enfrentar esse tema sem medo. Não pode entregar a segurança pública ao punitivismo da direita, nem esconder a dor popular atrás de fórmulas abstratas. O povo trabalhador quer viver sem bala, sem extorsão, sem milícia, sem facção, sem humilhação policial e sem abandono. Segurança democrática não é concessão conservadora. É condição concreta da liberdade popular.
A soberania brasileira, portanto, não será decidida apenas em Brasília, Washington, Pequim ou nos fóruns internacionais. Ela será decidida também na Maré, em Rio das Pedras, na Baixada, nas periferias de Fortaleza, Salvador, Recife, Belém, São Paulo e em cada território onde o povo precisa saber quem manda antes de saber quais direitos possui.
Um país soberano não aceita que famílias derrotadas recorram a potências estrangeiras para constranger suas instituições. Um país soberano não aceita que bairros inteiros sejam governados por mercados armados. Um país soberano não aceita que a democracia exista no discurso, mas desapareça na esquina onde a milícia cobra pedágio da vida.
A extrema-direita revelou seu verdadeiro limite histórico: quando a pátria deixou de servir ao seu projeto de poder, tentou entregar a pátria à pressão externa. Contra isso, não basta indignação. É preciso defender o Brasil por fora e reconstruí-lo por dentro.
Onde o Estado não chega como direito, alguém chega como domínio. Onde a democracia não vira serviço público, o medo se organiza como governo. E onde uma liderança golpista busca socorro no império contra o próprio país, a resposta deve ser firme: o Brasil não é propriedade de família, de milícia, de mercado armado nem de potência estrangeira. O Brasil só será soberano quando seu povo também for.
Não se trata de divergência diplomática comum. Trata-se de um movimento político mais grave: transformar uma derrota democrática interna em chantagem internacional. Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado, e, em 2026, reportagens internacionais registraram sua permanência em prisão domiciliar enquanto Flávio Bolsonaro buscava interlocução em Washington em meio à disputa sobre tarifas contra o Brasil. Lula acusou a família Bolsonaro de acionar força estrangeira contra interesses nacionais; Flávio negou ter provocado as medidas. Ainda assim, o fato político permanece: a extrema-direita brasileira internacionalizou sua crise porque não conseguiu vencê-la dentro da democracia brasileira.
É nesse ponto que a denúncia de Lula ganha densidade histórica. O presidente reage ao risco de que o Brasil seja empurrado para aquilo que pode ser compreendido como uma forma de intervenção norte-americana sobre a soberania de países latino-americanos. A expressão é forte, mas não nasce do vazio. John Coatsworth registrou, em estudo publicado pela Harvard ReVista, que, entre 1898 e 1994, os Estados Unidos intervieram com sucesso para mudar governos na América Latina ao menos 41 vezes. A história do continente conhece esse método: Cuba, Chile, Guatemala, Nicarágua, Panamá e República Dominicana. Em cada um desses casos, as elites locais descobriram que, quando não conseguem submeter o povo pelo consenso, podem tentar fazê-lo com o apoio da força externa.
Mas a soberania brasileira não está ameaçada apenas de fora. Ela também é corroída por dentro, nos territórios onde o Estado se retirou como direito e retornou deformado como violência, corrupção ou abandono. A milícia é a expressão mais madura dessa tragédia. Ela não é apenas crime organizado. É Estado privatizado. É polícia convertida em mercado. É administração armada da escassez. Cobra por gás, transporte, internet, lote, moradia, segurança, voto e silêncio. Onde a Constituição não chega como serviço público, alguém chega como domínio.
Por isso o Rio de Janeiro não pode ser lido como exceção folclórica. Ele é laboratório nacional. A execução de Marielle Franco e Anderson Gomes revelou a profundidade da captura territorial, política e institucional. Em 2026, Domingos Brazão e Chiquinho Brazão foram condenados pelo STF pelo assassinato, em caso que expôs relações entre poder político, interesses imobiliários, milícias, agentes de segurança e obstrução investigativa. Marielle não foi morta apenas por incomodar indivíduos. Foi executada porque sua existência política ameaçava um modo de governar territórios: mulher negra, socialista, cria da Maré, denunciava a violência de Estado e os negócios do abandono.
A milícia compreendeu antes de muitos governos uma verdade elementar: território é poder. Quem controla a rua controla a circulação. Quem controla a circulação controla o comércio. Quem controla o comércio controla renda.
Quem controla renda controla voto. Quem controla voto negocia com o Estado. Quando esse circuito se estabiliza, o crime deixa de ser apenas desvio. Torna-se governo paralelo, mercado armado e partido informal do medo.
Os números confirmam a escala da crise. O Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pelo GENI/UFF e pelo Instituto Fogo Cruzado, registrou cerca de 4 milhões de moradores sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio em 2024 – 34,9% da população da região.
Entre 2007 e 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130,4%. Isso não é problema de polícia. É crise de soberania interna.
Aqui se unem as duas faces do mesmo impasse. De um lado, uma extrema-direita que aciona Washington contra o Brasil quando perde a disputa democrática. De outro, poderes armados internos que substituem o Estado nos territórios populares. O império pressiona por fora; a milícia captura por dentro. Ambos se alimentam da mesma fragilidade: a incapacidade de fazer da soberania popular uma realidade material na vida do povo.
Por isso, combater o crime organizado não pode significar apenas multiplicar operações policiais. O Brasil precisa de inteligência financeira, rastreamento patrimonial, controle externo das polícias, proteção de testemunhas, responsabilização de agentes públicos e desmonte das redes econômicas do crime. Mas precisa, com a mesma força, de creches integrais, saneamento, urbanização, escola pública viva, saúde da família, CAPS, transporte digno, cultura, esporte e regularização fundiária sob controle democrático. A viatura não substitui a creche. O caveirão não substitui o saneamento. A prisão do soldado não desmonta a economia política do medo.
O debate fiscal entra exatamente aqui. Um Estado que economiza em periferia paga mais caro em violência, encarceramento, adoecimento, evasão escolar, corrupção policial e destruição democrática. A austeridade, quando aplicada mecanicamente aos territórios abandonados, não é técnica neutra. É produção de vácuo. E, no Brasil real, o vácuo nunca fica vazio. Ele é ocupado por quem tem arma, dinheiro, mandato, fé instrumentalizada, influência policial ou todos esses elementos juntos.
Saneamento é segurança. Creche é segurança. Escola integral é segurança. Saúde mental pública é segurança. Transporte público é segurança. Urbanização é segurança. Cultura é segurança. Não porque substituam a lei penal, mas porque retiram do crime a administração cotidiana da escassez. O gasto social estruturante deve ser tratado como investimento em soberania nacional.
A esquerda precisa enfrentar esse tema sem medo. Não pode entregar a segurança pública ao punitivismo da direita, nem esconder a dor popular atrás de fórmulas abstratas. O povo trabalhador quer viver sem bala, sem extorsão, sem milícia, sem facção, sem humilhação policial e sem abandono. Segurança democrática não é concessão conservadora. É condição concreta da liberdade popular.
A soberania brasileira, portanto, não será decidida apenas em Brasília, Washington, Pequim ou nos fóruns internacionais. Ela será decidida também na Maré, em Rio das Pedras, na Baixada, nas periferias de Fortaleza, Salvador, Recife, Belém, São Paulo e em cada território onde o povo precisa saber quem manda antes de saber quais direitos possui.
Um país soberano não aceita que famílias derrotadas recorram a potências estrangeiras para constranger suas instituições. Um país soberano não aceita que bairros inteiros sejam governados por mercados armados. Um país soberano não aceita que a democracia exista no discurso, mas desapareça na esquina onde a milícia cobra pedágio da vida.
A extrema-direita revelou seu verdadeiro limite histórico: quando a pátria deixou de servir ao seu projeto de poder, tentou entregar a pátria à pressão externa. Contra isso, não basta indignação. É preciso defender o Brasil por fora e reconstruí-lo por dentro.
Onde o Estado não chega como direito, alguém chega como domínio. Onde a democracia não vira serviço público, o medo se organiza como governo. E onde uma liderança golpista busca socorro no império contra o próprio país, a resposta deve ser firme: o Brasil não é propriedade de família, de milícia, de mercado armado nem de potência estrangeira. O Brasil só será soberano quando seu povo também for.
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