Bertrand Russell
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Universo sem deus
Bertrand Russell
As mulheres que aplaudem Flávio Bolsonaro
A zanga se dirigia a duas pessoas que ocuparam uma mesa do restaurante Quattrino, nos Jardins, durante um show, no sábado, do comentarista de direita argentino Gustavo Segré, autor da canção “Janjo e Janja”. A dupla protestou, destoando da maior parte da audiência que os pôs para correr. “Foi um sinal de que ele [Segré] está incomodando”, comentou Vera Renzo, empresária de turismo, arriscando um palpite sobre o potencial destrutivo do comentarista argentino, titular de um quadro “Faroeste à Brasileira”, na Revista Oeste.
Na mesa do pré-candidato, além de Karim Miskulin, do grupo Voto, promotor do evento, ficaram Raquel Reis, CEO da SulAmérica Seguros de Saúde, Loren Spíndola, executiva da Philip Morris, e Misa Antonini, CEO do grupo G4 Educação. Nas mesas do salão tomaram assento de dirigentes de empresas, como Claudia Cohn, CEO da Alta Diagnósticos, a diretoras de Assuntos Corporativos, como Juliana Marra, da Unilever, passando por donas de restaurantes, como Sophia Lins (La Cuisine), joalheiras, como Lydia Sayeg (Casa Leão), e integrantes de grupos como o “Clube da Lu”, fundado por Lu Chelegao, especialista em “psicologia positiva” e coordenadora do livro “Mulheres curadas que curam gerações”.
Anette Rivkind, diretora comercial da Breton, fábrica de móveis com 22 lojas por todo o país, oferece a cadeira ao seu lado. Mostra sua foto com Jair Bolsonaro, quatro anos atrás, quando o ex-presidente levou 135 mulheres ao evento que, nesta segunda, atrairia 184. Preferia o pai, mas Flávio é o que se tem à mão para enfrentar “o outro lado que rouba muito e não deixa a gente trabalhar”.
Três mulheres precederam a fala do senador. A primeira foi Misa Antonini, que chegou ao cargo de CEO da G4 Educação depois que Tallis Gomes, fundador e ex-CEO do grupo, declarou, na campanha de 2024, quando apoiou Pablo Marçal: “Deus me livre de CEO mulher”. A executiva disse que os empresários brasileiros são os “verdadeiros heróis” do país e se assemelham a baratas - “porque a gente nada, voa e passa por baixo da porta”. Tascou um “está struggling” (lutando, em inglês) para definir sua atuação.
Apelou, finalmente, ao presidente inaugural do neocon americano, para definir a opção que aquela plateia teria em outubro para reverter o que chamou de “situação impraticável”: “[Ronald] Reagan dizia que, para uma boa opção, basta concordar com 80% do que o candidato fala”.
A expositora que se seguiu, Claudia Scarpa, vice-presidente da Starr, multinacional de seguros para viagem, valeu-se do número anual de turistas na República Dominicana, 11 milhões, maior do que o do Brasil, para pedir segurança, infraestrutura e educação.
Karim Miskulin lembrou o evento de 2022, quando reuniu um grupo mais restrito de executivas com Jair Bolsonaro. Dois anos depois, seu grupo também promoveria o “1 Forum Jurídico: Brasil de Ideias”, no hotel “The Peninsula”, em Londres, com o patrocínio da Souza Cruz, hoje “ British American Tobacco Brasil ”, uma mesa apoiada pelo Master e a presença de três ministros do STF: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.
Karim registrou a defasagem entre a condição majoritária das mulheres no eleitorado e seus cargos de poder antes de dirigir, ao senador, quase um apelo de reconhecimento àquela plateia: “Como um país como o Brasil que quer crescer consegue desperdiçar tanto talento”?
Flávio Bolsonaro decantou a presença de mulheres no seu gabinete e no seu programa de governo - Daniela Marques, secretária-executiva do ex-ministro da Economia Paulo Guedes, estava presente - antes de se dirigir à mulher: “E ali está minha gata, quem transformou o menino em homem foi ela”.
Ao longo de quase duas horas, não se ouviu falar de “Dark Horse” ou Daniel Vorcaro, mas o senador achou por bem se vacinar contra as “narrativas”. Foi aplaudido quatro vezes. Apresentou-se como “empreendedor”, a exemplo da maioria das mulheres presentes, reivindicou o maior investimento das empresas brasileiras em “compliance” como decorrência da denominação de “terroristas” para o PCC e o CV, relatou sua visita a El Salvador para conhecer sua política de segurança. Disse ainda que o roubo de celulares está tão desenfreado que as mulheres “não têm autonomia sobre sua bolsa” e prometeu suspender a reforma tributária. Foi a maior salva de palmas.
Karim lhe perguntou quem seria seu ministro da Economia. “Ou será ministra?”, retrucou. Daniela Marques sairia quase ministra do encontro. “Estou com um bebê de um ano”, despistou. A representante da associação das escolas abertas, Lana Romani, que defendeu a retomada das aulas durante a pandemia, relembrou uma ida ao Palácio do Alvorada às 6h para falar com Bolsonaro, e disse ao filho que o forte da direita não é se comunicar com as mulheres.
“Mulher é mais sensível e distribui mais amor”, disse Flávio antes de se dirigir para a mulher: “Sem você seria impossível”. Fernanda lhe devolveria o afago com os polegares e indicadores fechados em formato de coração.
Que país constróis?
o sol
e o mar…
Porque tens nos olhos
o rio
e também:
o riso
e o fogo
Porque tens no ventre
a raiz de todas
as crianças…
que país constróis
diariamente?
Maria Teresa Horta, "Mulheres de Abril"
Interesses do Brasil devem prevalecer sobre amizade com Trump
Compreendo que Lula tenha certo orgulho da simpatia de Trump. Afinal, o poder de sedução atravessou barreiras ideológicas confirmando seu prestígio internacional. Na hora do vamos ver, a situação se revela com toda a crueza. Ao apresentar sua política para o continente, os Estados Unidos fizeram uma grande reunião na Flórida. Foi lançado o Escudo das Américas, aliança contra o crime organizado e imigração ilegal. O Brasil ficou de fora, assim como Colômbia e México. Em discurso no Congresso, Marco Rubio nomeou os países que não se alinhavam com a política americana. Entre eles estava o Brasil.
É nesse contexto que temos de analisar alguns movimentos da política em relação ao nosso país. Um deles, a classificação de terrorismo imposta a PCC e Comando Vermelho. Não foi uma decisão importante para uma política de Estado. Vinha sendo avaliada havia muito tempo. Mas a oportunidade de sua oficialização deu uma pequena ajuda ao pré-candidato Flávio Bolsonaro, sem dúvida preferido dos americanos. A preferência explícita acabou trazendo grande desgaste a Flávio quando se anunciaram novas tarifas.
Embora seja um discurso muito eficaz de campanha, as tarifas não foram feitas para a família Bolsonaro. Não se pode analisá-las sob essa ótica de quarteirão, como se fossem obra dos Bolsonaros, dos Morales, dos Bertrands, dos Millers, dos Johnsons. Elas são uma política global de Trump. Já foram tentadas de forma autoritária e anuladas pela Suprema Corte. Agora, Trump volta à carga, usando a seção 301 de uma lei comercial para dar verniz legal a sua determinação.
Há muita coisa injusta nas razões que punem o Brasil. Uma delas é a denúncia de trabalho forçado, algo muito combatido num governo de esquerda, assim como o desmatamento. Os americanos não parecem muito preocupados com precisão nem coerência. Tanto que, no caso da carne, abrem uma exceção. Se o trabalho forçado é para produzir carne, então tudo bem.
É evidente que tudo isso será processado pelas narrativas eleitorais. Mas o Brasil precisa manter um olhar frio e uma prática profissional para atenuar o impacto das medidas e compreender a realidade americana como ela é. Nessa luta planetária contra o poder ascendente da China, os americanos podem passar por várias fases.
Nem a devoção da família Bolsonaro nem a química entre Trump e Lula são proteções estratégicas. Precisamos discutir caminhos, e eles estão um pouco ofuscados no valor cultural da amizade, algo que cultivamos no Brasil. Entre países, não há amigos, apenas interesses. Não significa que devamos abandonar o bom humor e a abertura para novas amizades. Sempre ajudam.
Racistas à prisão: Brasil na luta contra a discriminação racial
Especialistas interpretam isso como o início do fim da subnotificação e atribuem o fato a uma combinação de fatores: leis robustas, uma força policial mais bem treinada e, sobretudo, maior conscientização social. O Brasil, último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, possui hoje as leis antirracistas mais avançadas do continente.
Para alguns turistas, isso é uma surpresa. A argentina Agostina Páez foi presa por chamar um funcionário negro de “macaco” e imitar o animal para insultá-lo em um bar. “Há uma lei muito rigorosa no Brasil”, disse ela ao retornar para casa após dois meses em prisão preventiva em um apartamento e depois de pagar fiança de US$ 20.000 para poder voltar à Argentina. Ela agora aguarda julgamento.
Nos últimos meses, multiplicaram-se os casos de estrangeiros presos por racismo. O mais recente envolve mais um argentino que, em um trem turístico, fotografou uma criança e brincou dizendo que queria levá-la para casa como escrava . Ele está atrás das grades há quase duas semanas. Pela lei brasileira, tais palavras são puníveis com pena de dois a cinco anos de prisão. A pena pode ser dobrada se o crime for cometido em grupo ou se for divulgado nas redes sociais.
A delegacia chefiada por Salim é especializada em crimes de racismo e outras formas de discriminação (contra a comunidade LGBTQIA+, contra pessoas com deficiência ou por motivos religiosos). Ela foi inaugurada há oito anos e conta com cerca de vinte policiais. Esse tipo de delegacia, que está começando a ganhar força e já opera em estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia, é um dos principais fatores que contribuem para o aumento dos casos registrados.
Os policiais recebem melhor treinamento, participando de seminários, cursos e conferências, e mantendo contato direto com ONGs e organizações antirracistas. Mesmo assim, qualquer pessoa pode denunciar um crime racista em qualquer delegacia local, onde são feitos esforços para garantir que haja sempre pelo menos um policial especializado nessa área. Salim reconhece que muitas pessoas têm medo de denunciar por receio de serem revitimizadas pelo policial de plantão. “Elas têm medo de ir à delegacia e serem discriminadas novamente. Aqui, trabalhamos para erradicar esse tipo de tratamento intimidatório”, afirma Salim.
As vítimas vêm de origens diversas, independentemente da idade ou classe social, assim como os agressores. No entanto, o comissário de polícia explica que as pessoas mais velhas muitas vezes não têm noção da gravidade da situação. “Às vezes, quando as questionamos, elas usam uma linguagem altamente discriminatória, confirmando o que realmente pensam sem se darem conta… Depois, tentam encobrir a situação alegando que seu melhor amigo é negro ou que têm um parente negro… mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.”
Algo semelhante acontece com estrangeiros que alegam desconhecer a realidade brasileira. Nesses casos, a probabilidade de serem detidos preventivamente é maior, por receio de que tentem fugir do país. Quando alguém é flagrado em delito (geralmente com o auxílio de testemunhas e gravações de celulares), é muito comum o juiz autorizar a prisão preventiva, pois já existem provas suficientes.
O Brasil é o país com a maior população negra fora da África . 56% de seus habitantes se identificam como negros ou mestiços, segundo o último censo. O número de brasileiros que se identificam com suas raízes africanas tem crescido ao longo dos anos, impulsionado pela conscientização antirracista e por políticas de ação afirmativa. Aos poucos, o Brasil está desmantelando o mito da “democracia racial” que se enraizou no inconsciente coletivo — o mito de um paraíso tropical onde a miscigenação de europeus, africanos e indígenas teria criado uma sociedade harmoniosa onde a segregação jamais existiu, ao contrário da África do Sul ou dos Estados Unidos.
Essa nova conscientização, o reconhecimento do próprio racismo estrutural no Brasil, vem modificando o marco legal. Um passo decisivo é a atualização da lei antirracismo, que teve origem na Constituição de 1988. Em 2023, o crime de injúria racial foi equiparado ao crime de racismo. O que antes era uma ofensa à honra de um indivíduo agora é um ataque a todo um grupo. Consequentemente, as penas também foram aumentadas: enquanto uma injúria racial era antes resolvida com prestação de serviços comunitários ou multa, agora é mais provável que resulte em prisão. Além disso, o crime de racismo não prescreve e não pode ser evitado mediante pagamento de fiança.
“Do ponto de vista legislativo, o Brasil está à frente de todos os outros países das Américas”, explica Adilson Moreira, advogado formado em Harvard e um dos maiores especialistas brasileiros em direito antidiscriminatório. Ele foi um dos pioneiros no combate à discriminação racial, quando o humor é usado como forma de discriminação racial. Esse cenário agora é especificamente abordado na legislação, assim como o racismo praticado em contextos esportivos.
Em teoria, o Brasil possui uma forte proteção antirracista, mas a realidade é bem diferente quando se observa o cotidiano. Denúncias, investigações e prisões aumentaram significativamente nos últimos anos, mas as condenações ainda são escassas. No final de março, mais de mil racistas cumpriam pena, sendo 309 deles presos.
O principal desafio, aponta Moreira, reside na mentalidade predominante entre promotores e juízes: “Eles tentam encontrar todo tipo de brecha para impedir que pessoas brancas sejam condenadas por crimes de ódio. Os promotores exigem um nível de comprovação de intenção discriminatória muito maior do que em outros crimes”, lamenta o especialista, que observa que a grande maioria dos juízes brasileiros é branca e tem pouca formação em questões raciais. O comissário Salim também acredita que haveria melhores resultados se o Ministério Público e a Justiça seguissem o exemplo da polícia e criassem unidades especializadas, como já acontece no combate ao crime organizado, por exemplo.
Apesar de tudo, o otimismo prevalece, porque a mudança social está em curso e não dá sinais de retrocesso. As políticas de cotas para estudantes negros, indígenas e de escolas públicas nas universidades vêm diversificando as faculdades de direito, historicamente brancas, há anos, e, há mais de uma década, o movimento antirracista, sempre presente, ocupa um lugar central na mídia, na academia, nas telenovelas e nos livros. O "Pequeno Manual Antirracista", de Djamila Ribeiro, por exemplo, está na lista dos mais vendidos do país há seis anos.
O governo de Lula também fez do combate à discriminação racial uma questão de Estado, especialmente em casos particularmente sensíveis, como os insultos e ameaças contra o jogador de futebol Vinícius Júnior , que quase desencadearam um grave conflito diplomático com a Espanha. “Tudo depende muito da consciência racial do comissário de polícia, do promotor e do juiz, mas as coisas estão progredindo bastante”, resume Moreira, que se despede antes de viajar para dar uma palestra a um grupo de juízes interessados no tema.
Como a Copa cresceu até aqui: geopolítica, boicote e dinheiro explicam expansão do Mundial
Mas, para entender o crescimento da Copa do Mundo, é preciso voltar no tempo e ir além do futebol. Depois de um período inicial com números de participantes variados, o Mundial passou a ter 16 seleções em 1954, na Suíça. Isso perdurou até 1978, na Argentina. O aumento para 24 times em 1982, na Espanha, não veio por acaso. E tem uma assinatura conhecida no mundo do futebol e, especialmente, no Brasil: João Havelange.
Eleito presidente da Fifa em 1974, o histórico dirigente brasileiro, teve como uma de suas plataformas de campanha justamente o aumento de participantes na Copa do Mundo. Mas o que pode soar apenas como uma moeda de troca por votos também veio de um entendimento do cenário geopolítico do mundo naquele momento.
O pós-Segunda Guerra, com o enfraquecimento e a crise vivida pelas potências europeias, que dominavam a Fifa desde a sua fundação, e o processo de descolonização da Ásia e, principalmente, da África, acentuado entre os anos 1950 e 1970, ajudaram a pavimentar o caminho de Havelange para o topo da Fifa. A independência de territórios africanos e asiáticos aumentou consideravelmente o número de membros da entidade. A Fifa passou de 74 filiados em 1950 para 143 em 1974. Em poucos anos, a África passou a ser o continente com mais representantes.
Ainda assim, na 1966, na Inglaterra, por exemplo, a África tinham apenas 0,5 vaga na Copa do Mundo. Ou seja, o melhor colocado nas Eliminatórias deveria enfrentar o vencedor de um confronto entre a Ásia e a Oceania por um lugar no Mundial, o que gerou um boicote dos africanos e parte dos asiáticos — a Coreia do Norte ficou com a vaga ao bater a Austrália no play off. Em 1970, africanos e asiáticos já receberam uma vaga cada, mas a Copa ainda tinha apenas 16 seleções.
Para ser eleito, João Havelange, então presidente da CDB, conseguiu unir a Conmebol e obteve, através de muitas viagens e "agrados", como excursões da seleção e de clubes brasileiros, entre outras moedas de troca, praticamente um apoio maciço da África e de parte significativa da Ásia e do Oriente Médio, o chamado "Terceiro Mundo", contra hegemonia europeia, representada pelo então mandatário da Fifa, o inglês Santley Rous. Para Luiz Guilherme Burlamarqui, professor visitante da George Washington University e autor do livro "A dança das cadeiras: a eleição de João Havelange à presidência da Fifa (1950-1974)", a eleição do dirigente brasileiro representa bem a dinâmica internacional do momento.
— A primeira expansão foi principalmente por conta da descolonização. O ano-chave nessa história é 1964. É o ano da primeira leva da descolonização africana. Houve um congresso em Tóquio, que teve a filiação em massa dessas novas associações africanas, que passam a representar uma grande porcentagem dos países no congresso da Fifa. E começa a pressão pela expansão da Copa. E fazia sentindo expandir. Você teve um aumento grande no número de filiados. Não fazia sentido disputar um torneio com 16 seleções. O Havelange foi eleito como representante desse grupo e uma das promessas dele era aumentar o número de vagas na Copa — disse Luiz Guilherme Burlamarqui.
O processo de aumento de 24 seleções para 32, em 1998, tem a assinatura de duas mãos que eram praticamente uma. E vem com um novo contexto geopolítico, mas também comercial, financeiro e político da Fifa, que transformou o futebol e a Copa em um produto global, com contratos milionários de transmissão e patrocínio. Um dos principais projetos de Havelange na Fifa foi o Programa de Desenvolvimento Técnico, que ajudava a distribuir os recursos da entidade para os seus filiados, com o objetivo de desenvolver o futebol ao redor do mundo, principalmente em países periféricos. Quem comandava este programa era Joseph Blatter, que virou o braço direito do brasileiro na Fifa — não à toa, cresceu, virou secretário-geral, depois CEO e, em 1998, foi eleito presidente, se aproveitando do legado de Havelange. Também não à toa, posteriormente foi revelado uma série de escândalos envolvendo a dupla que gerou condenações na justiça da Suíça, dos Estados Unidos e processos internos na Fifa, que hoje tenta apagar este passado. O atual presidente Gianni Infantino, por exemplo, pouco ou quase nada fala sobre os ex-presidentes da entidade.
Mas, voltando ao número de participantes da Copa do Mundo, Havelange e Blatter, por vias controvérsias, foram responsáveis pelo boom comercial e financeiro da Fifa e da Copa do Mundo. Além disso, o fim da União Soviética e a fragmentação da Iugoslávia no começo dos anos 1990 levaram a um novo aumento considerável de países filiados a Fifa. Assim, em 1998, a Copa passou a ter 32 participantes.
— A segunda expansão vem com o fim da Guerra Fria. Ali você também teve um aumento significativo no número de países filiados. Até 1991, Croácia, Sérvia e outros países eram um só, a Iugoslávia. A mesma coisa com os países da União Soviética. Esse processo de expansão da Fifa também levou a Copa para a Ásia em 2002, a primeira fora do eixo Europa-América — disse o doutor em História.
Se nestes outros dois momentos o aumento no número de filiados da Fifa serviu como pano de fundo para o crescimento da Copa do Mundo, o mesmo não se observa na decisão de Infantino, eleito presidente da entidade em 2016. Neste século, o número de membros pouco cresceu. Os últimos associados, que fizeram a Fifa chegar a 211 filiados, foram Gilbraltar e Kosovo, justamente em 2016. Ainda assim, a ideia de um futebol cada vez mais globalizado segue viva e é importante para aumentar cada vez mais os recursos da Fifa e das próprias federações nacionais. Neste ciclo para a Copa do Mundo de 2026, a Fifa anunciou ter distribuído 1,05 bilhão de dólares (R$ 5,4 bilhões) para os seus filiados.
— Um dos programas do Havelange que continua até hoje é o Programa de Desenvolvimento da Fifa (hoje chamado de "Fifa Foward"). O Infantino, além de anunciar o aumento de vagas, também anunciou um aumento dos repasses da Fifa aos países associados. É também uma questão política de para onde vão os recursos. E com mais países na Copa, você tem mais dinheiro. E você tem mais dinheiro justamente para as federações nacionais. Cada federação recebe 5 milhões de dólares por ano. Para o Brasil, por exemplo, não é muita coisa. Mas pensa numa federação como Curaçao, como Haiti, Ilhas Fiji... Eles recebem a mesma quantidade de dinheiro. Para fazer a roda econômica girar, isso é muito importante — concluiu Luiz Guilherme Burlamaqui.
segunda-feira, 8 de junho de 2026
As interferências na luta eleitoral
Começou a temporada do uso político de Deus, uma manipulação permitida e incentivada por líderes evangélicos. A declaração de Flávio Bolsonaro de que é uma “guerra espiritual” e “uma luta contra o mal”, se referindo à eleição deste ano, no qual ele é um dos pré-candidatos, repete o roteiro de abuso do poder religioso. Pastores, por serem líderes seguidos pela congregação, restringem a liberdade de escolha dos fiéis ao se posicionarem tão explicitamente em uma questão que deveria estar restrita ao campo cívico. O político que se utiliza disso está tendo uma atitude farisaica.
Flávio Bolsonaro não tem qualquer intimidade com a pauta evangélica e faz isso exclusivamente por oportunismo eleitoral. A democracia fica vulnerável quando isso acontece, porque as igrejas se tornam currais eleitorais e a Justiça Eleitoral pouco pode fazer contra essa distorção, sem ser acusada de ferir a liberdade de culto. O direito de professar a fé nada tem a ver com uso político dos púlpitos e sua transformação em palanques. A fronteira difusa que pastores criaram nos cultos e nos atos públicos como a “Marcha para Jesus” nunca foi demarcada pela legislação eleitoral.
O que aconteceu na “Marcha para Jesus” de São Paulo este ano é lamentável sob todos os pontos de vista. A presença de Flávio Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas é campanha antecipada, é uso da religião como estratégia política num país laico, e é mentira. O que está acontecendo este ano no país não é uma guerra espiritual e sim uma disputa de projetos políticos em que cada cidadão e cada cidadã deveria ter o direito de escolher livremente. O constrangimento que muitas denominações evangélicas impõem sobre os seus membros é um ato político-eleitoral. Não deveria ocorrer, não é aceitável, porém não se sabe como neutralizar.
A luta eleitoral por si só é intensa e há muito espaço para a comparação de ideias e projetos. Deveria ficar restrita a este lugar. Mas a direita nos últimos tempos tem imposto a interferência de outros campos na arena política. O conceito de pátria que pertence a todos tem sido apropriado por eles através do sequestro da bandeira e do hino nacional.
Na época da ditadura, os militares se colocavam como detentores do monopólio dos símbolos da pátria. Da mesma forma fez a extrema direita atual. Os manifestantes bolsonaristas abraçavam a bandeira e entoavam o hino enquanto preparavam um golpe de Estado, como se viu no 8 de janeiro. Até o plano de assassinatos de adversários foi definido pelos golpistas como “punhal verde e amarelo”. Este ano em que todos estaremos juntos torcendo pela seleção, eles vestirão a camisa amarela como se ela fosse só deles.
Esse suposto entusiasmo com as cores nacionais ficou comprometido diante do que os líderes bolsonaristas têm feito ao estimular o ataque à economia brasileira. Ao pedir novas tarifas sobre produtos brasileiros, na verdade, trabalham para o enfraquecimento do país.
O ex-presidente Jair Bolsonaro usou as igrejas evangélicas em favor de sua candidatura nas duas disputas presidenciais das quais participou. Foi bem-sucedido na trama. Esse segmento eleitoral, instrumentalizado pelos pastores, votou maciçamente no candidato da extrema direita. Houve até pastores em marchas cristãs fazendo arminha com a mão. Agora seu filho, Flávio Bolsonaro, tem a mesma desfaçatez do pai e tenta usar Deus como parte do seu arsenal de campanha. Ao subir no palanque no dia de Corpus Christi, ele disse que não estava ali como candidato, mas como cristão. Era mentira. As afirmações que fez no mesmo dia mostraram isso. “Vamos orar pelo nosso Brasil, essa guerra é espiritual. E hoje a maior resposta que podemos dar ao mal, que vai ser expulso do governo do Brasil esse ano”, disse ele, claramente manipulando a fé.
A Justiça Eleitoral precisa encontrar uma forma de deter esse uso de símbolos religiosos. O ministro Luiz Edson Fachin tentou tipificar o abuso do poder religioso como um ilícito eleitoral específico que poderia levar à perda do mandato. A maioria do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou a proposta. O tema, contudo, permanecerá na agenda. Cada período eleitoral será temporada da demagogia religiosa em que aparecem os fariseus, os falsos profetas e os vendilhões do templo. Isso restringe a liberdade do voto, por isso é uma questão a ser enfrentada pela Justiça.Isso restringe a liberdade do voto, por isso é uma questão a ser enfrentada pela Justiça.
Míriam Leitão
Nasce um otário por segundo
Não faltou quem me instruísse. Um influencer é alguém que usa instagrams, youtubes, tiktoks e que tais para produzir vídeos, fotos e textos sobre si mesmo e atrair seguidores que se deixam "impactar por suas opiniões, sugestões, rotinas, atitudes e opções de consumo". E que, devidamente impactados, passam a regular por ele suas preferências. Em quê? "Em tudo: moda, games, viagens, gastronomia, até aplicações financeiras". "Sério?", perguntei. E o que o influencer ganha com isso? "Fábulas —é pago pelos serviços e marcas que ‘recomenda’. Descubra quantos o seguem e calcule a grana que isso rende."
No Brasil, me disseram, um influencer que se preze tem de 1 milhão a 100 milhões de seguidores. Quis saber quais eram os principais e ouvi nomes como Neymar, Ronaldinho Gaúcho, Anitta, Vinicius Jr., Ivete Sangalo. Até aí tudo bem —são famosos, com profissão definida, não falta quem queira ser como eles.
Mas quem é Virginia Fonseca, com 56 milhões de seguidores? O que ela faz? E Camila Pudim, Açucena Guerra, Gustavo Tubarão, Pamela Fuego, Andressa Suíta? E sumidades com nomes como Hytalo, Thallysson, Sunaika, Pkllipe, Wueverton e Leuriscleia? Mais importante ainda: quem são os milhões de brasileiros que os seguem?
P.T. Barnum (1810-91), inventor do mafuá de horrores, deixou uma frase que parecia imortal: "Nasce um otário por minuto". Isso já era. Hoje é por segundo.
Engrenagem da distorção política: da Marmita à Inteligência Artificial
Entra eleição, sai eleição, e as pesquisas de opinião pública apontam que os eleitores, quando perguntados, dizem não à pancadaria e pedem a exposição de ideias que possam melhorar suas vidas. Na teoria, é o que parecem desejar. Na verdade, eles amam conflitos e se sentem atraídos pela troca de desaforos. A emoção é o que define o voto; a razão fica em segundo plano. A imagem vale mais do que mil palavras, embora uma palavra fora do lugar ou uma sentença tirada de contexto possa causar estragos severos.
Em maio de 1998, durante seu primeiro mandato, o presidente Fernando Henrique Cardoso criticou os privilégios do sistema previdenciário e declarou que aqueles que se aposentavam com menos de 50 anos de idade eram “vagabundos”. A frase exata dita por ele foi: “Fiz a reforma da Previdência para que aqueles que se locupletam da Previdência não se locupletem mais, não se aposentem com menos de 50 anos, não sejam vagabundos em um país de pobres e miseráveis”.
Na época, o governo federal tentava aprovar uma reforma da Previdência Social para instituir uma idade mínima para as aposentadorias. O argumento central do presidente era o de que o sistema permitia que pessoas relativamente jovens, muitas vezes com altos salários, se aposentassem cedo demais, gerando um forte déficit financeiro e injustiça social em relação à população mais pobre. Fernando Henrique passou anos explicando o que verdadeiramente quis dizer. Não adiantou.
Histórias semelhantes vêm de longe. O brigadeiro Eduardo Gomes nunca usou a palavra “marmiteiros” em seu discurso. A associação de seu nome a esse termo foi o resultado de uma das primeiras e mais eficazes estratégias de distorção política (ou fake news) da história eleitoral brasileira, ocorrida durante a campanha presidencial de 1945. No dia 19 de novembro daquele ano, em um discurso para as elites cariocas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ele criticou os apoiadores remanescentes do ditador Getúlio Vargas. Ao responder sobre o alinhamento com esses grupos, ele afirmou textualmente que “dispensava o voto da malta de desocupados”.
O que fez o empresário e político Hugo Borghi, que era um forte aliado de Getúlio Vargas e coordenava a propaganda do candidato concorrente, o general Eurico Gaspar Dutra? Buscou o termo “malta” no dicionário e encontrou definições que incluíam tanto “bando de desocupados” quanto “grupo de operários itinerantes que viajavam carregando suas próprias marmitas”. Então, usou sua rede de rádio para desconstruir o favoritismo do brigadeiro. Deu certo.
Diz-se que a disseminação de notícias falsas por meios eletrônicos foi o ponto forte da campanha de 2018, que elegeu Jair Bolsonaro presidente — e foi, sem desprezo à facada que ele levou em Juiz de Fora. Pois bem: em tempos de redes sociais e de Inteligência Artificial, preparem-se para saber diferenciar entre fato, distorção e mentira. Não será fácil. E muitos crimes serão cometidos.
Vivemos numa sociedade que testa todos os dias a nossa sanidade
Escrevo inspirada pela peça “O motociclista no globo da morte”, uma combinação de acertos entre Leonardo Netto (texto), Du Moscovis (ator) e Rodrigo Portella (direção). Em tempos difíceis de se colocar um espetáculo em pé, só mesmo tendo uma boa história para contar, de um jeito envolvente e por um ator/atriz que convença a plateia de que é outra pessoa. E como fiquei convencida de estar diante do perplexo Antônio, que viveu o que viveu no Bar do Zeca. Por favor, não perca. “O motociclista” está em turnê pelo país e deve ficar um longo período em carta
O texto é tão rico, com tantas nuances reveladoras sobre o ser humano, que poderia render uma tese, um ensaio, mas tentarei resumir neste restinho de página: trata-se de um combate entre culturas. Por cerca de uma hora, assistimos a luta entre quem tem embasamento civilizatório, através da leitura e da ética, e quem não tem. Mas quem não tem, não está vazio, ao contrário. Está impregnado de machismo, de ignorância e de brutalidade, a única via de ascensão que dispõe. A violência é uma cultura também, que tentamos combater promovendo a paz e a sabedoria. O problema é quando, no limite da exaustão, adotamos o método dela para enfrentá-la. Nossa espinha dorsal, solidamente construída com valores dignos, desaba.
“Nada mais humano do que ser desumano”, reflete o contador dessa história, magnificamente interpretado por Moscovis, que nos faz ver, ouvir, sentir, se horrorizar e ser vingados por tudo o que ele narra diante da plateia, sentado em uma cadeira. Horrorizamo-nos, por sermos pessoas decentes, e ao mesmo tempo nos sentimos vingados porque somos selvagens corteses, que não extravasam a própria animalidade, mas que secretamente se regozijam quando alguém que é boa gente se perde de si mesmo e vai às últimas consequências, caindo no abismo em nosso lugar.
É perturbador viver em uma sociedade doente, que testa, todos os dias, a nossa sanidade. Adoro as saborosas comédias brasileiras, que nos fazem refletir sobre a vida sem sentir dor, mas congratulo a coragem de autores que chamam a nossa dor para conversar bem de perto.
Traidores à vista!
Inaugurada em maio, ela andava em bom ritmo. A 15 de julho José Bonifácio deixou o comando do governo, na sequência da intriga que já o fizera pedir demissão uma vez. Sentia-se cansado. A 1º de setembro foi apresentado o projeto de Constituição, redigido pela comissão de que ele fazia parte e de que seu irmão Antônio Carlos era o principal redator. A 5 o jornal O Tamoio publicou uma conversa em que falava em se retirar para descansar — quatro anos antes ele pedira demissão de seu cargo de Secretário Perpétuo da Academia de Ciências de Lisboa com este mesmo objetivo: ir para casa, gozar de seus livros e suas coleções mineralógicas. A tarefa constitucional está terminada, nada tem a acrescentar ao projeto apresentado. Pede que um intermediário leve ao Imperador a sugestão de que seja aprovado por aclamação; D. Pedro recusa a proposta.
José Bonifácio tem pronta para apresentar uma Representação sobre a Escravatura. Suas ideias são conhecidas. Diz que o Brasil é a última nação “de sangue europeu” a permitir o tráfico. Propõe emancipação gradual, não abolição imediata. Mas também coisas revolucionárias: que os libertos recebam sesmarias para cultivar, seja corrigida a distribuição de terras; que as mulheres não possam ser separadas dos maridos e dos filhos; que elas tenham um mês de descanso depois do parto; que os senhores sejam responsáveis pelo sustento dos libertos velhos…
Dizia: “Comecemos desde já esta grande obra pela expiação de nossos crimes e pecados velhos.” “Sem a abolição total do infame tráfico da escravatura africana e sem a emancipação sucessiva dos atuais cativos nunca o Brasil firmará sua independência nacional.” “Nossas preciosas matas vão desaparecendo, vítimas do fogo e do machado destruidor, da ignorância e do egoísmo; nossos montes e encostas vão-se escalvando diariamente e com o andar do tempo faltarão as chuvas fecundantes que favoreçam a vegetação e alimentem nossas fontes e rios, sem o que o nosso belo Brasil em menos de dois séculos ficará reduzido aos páramos e desertos áridos da Líbia. Virá então esse dia terrível e fatal em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos.”
Como consequência da Vilafrancada, golpe de Estado absolutista dado por D. Miguel, em junho, D. João VI é novamente aclamado rei. De Lisboa vem um canto de sedução pelo desfazimento da Independência. Há uma natural reação nativista, de que tomam parte os Andrada. Ao mesmo tempo vários inimigos políticos de José Bonifácio se movimentam. Na madrugada de 12 de novembro de 1823 a Assembleia, que está em sessão permanente em razão dos boatos que varrem a cidade, é cercada por soldados e recebe um decreto de dissolução.
Joaquim Nabuco levantou a tese de que a causa real da dissolução da Constituinte foi a ameaça que constituía à escravidão. Não há dúvida que uma pessoa teve participação decisiva no golpe: a amante do Imperador, a quem José Bonifácio só se referia como michela, que enriqueceu intermediando favores imperiais. Se houve uma ou várias conspirações coincidentes não se sabe. O certo é que por seis anos os Andradas e seus colaboradores mais próximos foram afastados da política brasileira e que D. Pedro I, tendo outorgado uma Constituição que previa um parlamento representativo, governou como monarca absoluto. A escravidão sobreviveu quase 65 anos, a reforma agrária demorou mais de 160, a natureza…
Quando há uma busca exacerbada do poder há um maior apelo à traição. Um caso paradigmático é o de Louis Napoleón. Sobrinho do primeiro imperador, participa do exílio da família. Passa a infância na Suíça, sem receber qualquer educação, desfrutando de grande fortuna. A queda de Charles X e a ascensão de Louis-Phillipe não o livra do exílio. Ele e o irmão se metem num golpe contra o Papa, fogem, pegam sarampo — o irmão morre — e ele é resgatado pela mãe. Recebe formação militar e passa a conspirar contra a França. Em 1836 tenta levantar Strasbourg, é rapidamente preso e novamente exilado. Adota um lema: “nação, povo, autoridade”. Sua intensa propaganda faz com que a França exija sua expulsão da Suíça e mantenha grande tropa na fronteira. Vai para Londres. Tenta imitar o tio e desembarca em Boulogne-sur-Mer para marchar para Paris. É novamente preso. Sua “cadeia” é extremamente confortável. Foge. Com a República de 1848 se apresenta como candidato a deputado e é eleito. Lamartine tenta manter seu exílio, mas é derrotado. Pego em nova conspiração, renuncia. Novamente candidato, novamente eleito deputado. Se candidata a presidente da República. É eleito. Passa a usar as insígnias imperiais. Governa em conflito constante com a Assembleia. Em dezembro de 1851 dá um golpe de Estado. Há muitos mortos. Faz um plebiscito: é vitorioso sob um regime de terror. Diz que a “França sai da legalidade para entrar no Direito”, isto é, lhe ser submissa. A nova Constituição lhe dá um mandato de dez anos. Em novembro de 1852 é imperador! Durante 18 anos pensa que é um grande homem. É um asno. Termina prisioneiro dos alemães, a quem entrega um país enfraquecido.
Citei dois casos muito diferentes, poderia citar muitos outros. A lição da História não pode ser mais clara: a traição não faz parte do jogo democrático, ela age à margem e contra ele. Sem regras, ela se aproveita de todas as armas que encontra: vitimização, populismo, mentira, entrega a outros países, crueldade, corrupção, corrupção, corrupção, chantagem, demagogia, religiosidade, vaidade etc. e tal.
O exemplo americano, tão próximo e tão umbilicalmente ligado aos bolsonaro, não nos devia deixar ilusões: se os Estados Unidos, com sua história de democracia consolidada através de traumas terríveis — como a guerra dos escravocratas contra Lincoln, que terminou com a derrota do Mal e o martírio de um homem bom —, estão comendo o pão que o Diabo amassou, as desgraças que podemos sofrer são inimagináveis.
Com os traidores da Democracia é preciso usar todo o rigor da lei, sem clemência, sem pieguice e sem hesitação!
A Copa de Trump não ama as pessoas: Fifa cumprirá nos EUA mais uma etapa de flerte com autoritarismo
Não é preciso fechar os olhos à tirania do regime iraniano para se estarrecer com o fato de que, pela primeira vez, um país vai sediar um Mundial enquanto bombardeia uma nação visitante. É verdade que a agressão ao Irã foi posterior ao infame Prêmio da Paz criado por Infantino para bajular Trump. Mas, àquela altura, o regime americano já bombardeava embarcações no Caribe, ameaçava anexar a Groenlândia, prometia ações militares em diversos pontos das Américas e espalhava focos de tensão onde quer que visse seus interesses contrariados. O sorteio dos grupos da Copa fez o futebol servir de palco à constrangedora cerimônia em que Infantino deu um troféu de consolação ao presidente que falhara em sua campanha de autopromoção ao Prêmio Nobel da Paz.
Agora, a contagem regressiva para a Copa vê o futebol refém da política de Trump. A Fifa se vê incapaz de proteger seu torneio, a isonomia esportiva ou a dignidade dos participantes para conservar laços políticos e econômicos com Trump. A única condição para que a seleção iraniana dispute o torneio é uma aberração esportiva: o time ficará concentrado no México, jogará suas partidas nos Estados Unidos, mas não poderá pernoitar no país. Ou seja, terá que viajar e regressar à sua base no mesmo dia dos jogos. Enquanto isso, um jogador iraquiano passou sete horas retido na imigração ao desembarcar para a Copa. Jornalistas do Irã e de diversos países da África, embora credenciados pela Fifa, tiveram vistos negados.
Recente reportagem do site The Athletic apontou a decepção do setor hoteleiro americano com a demanda por quartos. A vilã é a política migratória de Trump e a sensação, corroborada por organismos como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch, de que esta pode não ser uma Copa segura para visitantes. Na quinta-feira, o Mundial começa num país que impôs o banimento de entrada a cidadãos de quatro países que disputam o torneio: Irã, Senegal, Haiti e Costa do Marfim. Além disso, torcedores que quisessem sair de Argélia, Cabo Verde ou Tunísia enfrentavam exigências como o pagamento de cauções que podiam chegar a US$ 15 mil por pessoa.
Infantino e a Fifa silenciaram diante das políticas divisivas, das extradições e da violência contra imigrantes, das ameaças de intervenções militares e demais atrocidades do governo americano. E repetem o gesto enquanto obstáculos são impostos para que torcedores assistam ao maior evento de futebol do planeta, ou enquanto o Irã adiava seu embarque durante a interminável espera por um visto: sinal de uma entidade acuada em seus agrados a um chefe de estado imprevisível, como cartada para evitar ainda mais danos à Copa. Há um ano, Trump dividiu o pódio com os jogadores do Chelsea na mais embaraçosa cena do Mundial de Clubes. Na Copa do Mundo, a sensação é que o espaço dado a Trump será aquele que ele decidir ocupar.
domingo, 7 de junho de 2026
Tecnologia transformou as pessoas em matéria-prima econômica, e a humanidade virou negócio
Assim, havendo a transformação da própria experiência humana em matéria-prima econômica. O texto trata da primeira encíclica do Papa Leão XIV, 135 anos depois da Rerum Novarum, publicada pelo Papa Leão XIII – considerada o marco inaugural da Doutrina Social da Igreja. Em 1891, a encíclica perguntava o que fazer diante da riqueza produzida pelas fábricas e concentrada nas mãos de poucos industriais. Em 2026, a Magnifica Humanitas parece formular uma pergunta semelhante: o que fazer quando a riqueza passa a ser produzida pela atenção, pelos dados e pelo comportamento de bilhões de pessoas conectadas? Hoje as Magnificent Seven – as sete maiores companhias de tecnologia do mundo – representam algo próximo a US$ 24 trilhões de valor de mercado, cerca de 45% do valor do índice S&P 500 e mais da metade do Nasdaq.
Nunca na história moderna um grupo tão pequeno de empresas concentrou tamanho peso econômico e financeiro. Em 2010, esse grupo de empresas valia em torno de US$ 1 trilhão. Em 2025, esse grupo devolveu aos acionistas cerca de US$ 277 bilhões em recompras de ações e dividendos. Ao mesmo tempo, pagaram aproximadamente US$ 122 bilhões em impostos sobre renda.
A economia da atenção não apenas financia inovação. A questão não é que as big techs enriqueceram criando tecnologia. A questão é que elas transformaram comportamento humano – inclusive infantil – em ativo econômico. Em que momento a tecnologia deixou de servir às pessoas e passou a transformar as pessoas em matéria-prima econômica? Talvez a pergunta não seja apenas o que as big techs farão com os trilhões de dólares acumulados a partir da economia da atenção. A pergunta é o que nós faremos com uma geração que aprende a deslizar telas antes de aprender a conversar.
Se a humanidade virou negócio, a responsabilidade não é apenas das plataformas. É também nossa. Afinal, nenhuma tecnologia consegue ocupar o lugar de um pai, de uma mãe ou de uma família – a menos que nós mesmos entreguemos esse espaço.
As veias abertas do Brasil: trabalho e pulsão de morte
O século gira como um cachorro lento: demora cem anos para morder o próprio rabo e depois repete. Repete. Repete. 2026 é mais uma dolorosa mordida – somos o cão e os dentes do cão e o rabo mordido do cão e o sangue secular empapando os nossos nomes. Giramos juntos o turbilhão da morte. Parece ser este o trabalho imposto pelos donos do mundo: todos os dias, derrotar o pensamento; e, com ele, a inteligência.
Nos poemas de Trabalhar cansa (1936), Cesare Pavese retoma as vidas mordidas pelo grande cachorro do século XX: camponeses, prostitutas, ladrões, pobres, bêbados e outros desvalidos da sociedade. Nas palavras de Frantz Fanon (1961), são os condenados da terra: pessoas que precisam criar uma coincidência – dura e precária – entre o trabalho e a própria vida. Ainda não fui preso por regimes fascistas e, oficialmente, não me condenaram por comunista. Entretanto, como nos personagens daqueles poemas, sei que na minha carne também cravaram os dentes do trabalho. Comecei aos 14 anos, num sacolão da região metropolitana de Belo Horizonte. A minha lembrança mais nítida dessa época é a alegria paterna ao saber que enfim o filho seria produtivo, enfim deixaria de espetar as mandíbulas nas costas do pai. Nos anos seguintes, o trabalho me obrigou a estudar à noite, o mínimo possível para conseguir um diploma do Ensino Médio.
Alguma percepção de anormalidade surgiu desde o início da minha Carteira de Trabalho e Previdência Social, este livro de estreia que escrevi a muitas mãos. O que era apenas uma intuição consolidou-se muitos anos – e diplomas – depois. Entre 2015 e 2016, fui professor de Leitura e Escrita de Textos Acadêmicos no Instituto de Ciências Econômicas e Gerenciais da PUC Minas. Na época, o departamento incentivava que os semestres fossem organizados em torno de temas específicos, com o objetivo de evitar que a universidade se transformasse em mais um espaço de asfixia do pensamento. Era uma boa estratégia.
Em um desses semestres, escolhi o trabalho como tema central. Ao investigar a origem da palavra – porque professor aprende mais do que ensina – descobri que uma de suas possíveis raízes está no tripalium, instrumento de suplício utilizado na Antiguidade para punir condenados ou escravos fugitivos. Tratava-se de uma estrutura de madeira formada por três estacas: duas cruzadas em X e uma terceira fincada verticalmente no chão. Semelhante a um asterisco, ela servia para imobilizar a pessoa durante castigos que podiam variar de chicotadas à morte na fogueira.
Com o passar do tempo, a ideia associada ao tripalium teria sido vinculada ao esforço extremo, ao sofrimento e ao sacrifício, dando origem, segundo essa interpretação etimológica, ao conceito de trabalho. Talvez daí venha uma noção tão persistente e difundida: a do trabalho como forma de tortura.
Faz tempo que a história universal coincide com a história do trabalho. A ação de transformar recursos para sobreviver foi empurrando o mundo no tempo, estabelecendo os seus cimentos no espaço e instituindo ordens sociais que, com o surgimento da Modernidade, passaram a ser chamadas de civilização – um significante que não envelheceu e cujo significado Friedrich Nietzsche (1873) expandiu ao propor a categoria de edifício da civilização: camadas e camadas de regras, códigos e deveres que cimentam a vida social (os direitos, é claro, chegaram tarde).
Eduardo Galeano escreveu As veias abertas da América Latina (1971) não apenas para provar que a nossa história coletiva não pertence às narrativas europeias. O escritor uruguaio fez muito mais: com palavras, ergueu diante de nós essas veias destroçadas e o seu – o nosso – sangue ainda quente jorrando no horizonte. Cada leitura dessa obra é incômoda, tanto pela sua verdade odiosa quanto pelas consequências da rapinagem colonial, que segue roubando a nossa paz.
A biografia pindorama também coincide com a história do trabalho, mas com uma peculiaridade importante: “a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já foi dito, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial” (Galeano, 1971: 19). É neste quadro que a escravidão deve ser entendida como a primeira experiência massiva de trabalho e de capitalismo global. Foi pela espoliação dos povos negros e indígenas que se levantou a inominável acumulação de mão de obra (forçada) e de recursos pelos quais Espanha e Portugal não pagaram, bem como os lucros pornográficos obtidos por aquelas monarquias. Para melhor explicar a dimensão mercantil do projeto colonial, Eduardo Galeano chamou-a de acumulação originária – o conceito fala por si.
Como nada escapa à roda dentada do capitalismo, o trabalho, é muito transformado em produto, agora é vendido como pulsão criativa: você pode fazer o que gosta, a sua profissão pode dar prazer; seja livre e dono do seu negócio; se você realmente quer, você consegue. Por que não?
Por que não? Eu respondo: não, porque esse é um privilégio de pessoas ricas que, via de regra, não trabalham (nos sentidos etimológico e concreto da palavra); não, porque, embora possível, essa será sempre a exceção das exceções; não, porque o trabalho escravo é um projeto que atravessa as eras históricas, persiste da Antiguidade à Pós-Modernidade; não, porque trabalhar cansa e, enquanto viver for o equivalente a trabalhar para o enriquecimento alheio, a vida seguirá sendo cansativa. E, ao contrário do que a grande boca neoliberal anuncia, a suposta pulsão de vida gera pulsão de morte, essa força que “leva o sujeito a se colocar repetitivamente em situações dolorosas” (Roudinesco & Plon, 1998: 631). Os condenados da terra brasilis de ontem e de hoje trabalham para viver e, ao mesmo tempo, morrem de trabalhar. Esse ouroboros é o motor das forças pulsionais destrutivas que causam o mal-estar coletivo, sobretudo depois de jornadas extenuantes e mal remuneradas.
Posso elencar muitos outros motivos para demonstrar por que não podemos aceitar a romantização do trabalho: a reforma trabalhista aprovada por Javier Milei na Argentina, a assimetria salarial assentada em desigualdades de gênero, raça e classe, o custo de vida sempre por cima das possibilidades salariais, a vida estrangulada por todos os lados. Muitas pessoas perdem um pedaço do bolo para que poucas levem a maior parte – esta é a regra mais básica do capitalismo. No caso do Brasil e de outros países que foram colonizados, a exploração de recursos minerais e a escravização dos povos africanos e originários potencializaram essa regra mercantil e fizeram da Europa aquilo que ela é hoje: um conjunto de nações fundadas sobre a riqueza que não produziram, com um orgulho estratosférico e uma patética relevância política em 2026. Além disso, a Europa é também responsável por alimentar o cachorro do século XXI com visitinhas ao campo de golf dele na Escócia ou concessões frente ao assassinato de milhares de inocentes. Enquanto isso, o cachorrão ladra e morde a carne do mundo – é por isso que as veias seguem em franca abertura. Parece que o único trabalho possível, agora, é estancar tanto sangue.
O conto do vigário do terror
Terror é um sentimento de pavor ou de ansiedade extrema, geralmente causado por violência ou ameaças. É uma forma radicalizada do medo, que excede a capacidade de controle e paralisa os mecanismos de defesa do indivíduo. Não se confunde com o simples temor, que não afeta a possibilidade de pensar e reagir. O terror emerge dos momentos de repressão desenfreada de um regime político ou das ações movidas pelo fanatismo, no passado e no presente. O Irgun (dissidência da Haganah, organização paramilitar sionista), que explodiu um hotel de ingleses em 1946, matando 91 pessoas, era terrorista. A Al-Qaeda é polo centralizador do terrorismo árabe. Os grupos de supremacia branca nos EUA, como os Proud Boys e a Ku Klux Klan, são estruturalmente terroristas.
Em princípio, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) não têm nada a ver com essas descrições. São máfias voltadas para o contrabando de armas, tráfico de drogas, extorsão, lavagem de dinheiro, assaltos, torturas e execuções. Nelas, porém, inexiste a dinâmica de suicídio inerente às fantasias identitárias que sustentam a mitologia de uma divindade onipotente, de um regressivo califado ou mesmo de uma branquitude unitária. Nem a matriz vingativa que rege as necropolíticas da extrema direita.
Vingança, uma pulsão propriamente terrorista, responde em parte pelo que vem acontecendo nos EUA. Trump é pretexto para que as elites brancas e os rednecks empobrecidos concretizem o seu histórico ressentimento contra imigrantes, negros, mulheres, asiáticos e latinos. Nem sequer as Forças Armadas norte-americanas escapam ao escrutínio discriminatório: as promoções de oficiais de alta patente têm excluído negros e mulheres, de modo sistemático.
O neofascismo emergente nos EUA é a face terrorista do neoliberalismo. Compreende-se, assim, que essa dimensão velada pelo marketing da democracia de exportação tente projetar sobre outros, por interesses econômico-financeiros momentâneos, a pecha do terror. Essa oblíqua classificação é decisão política, e não técnica, de um sistema imperial. O que se quer mesmo é desmoralizar a soberania jurídica brasileira, torpedeando o Pix, à sombra de escusos desígnios eleitorais. Combate ao crime é ambígua tela de fundo para uma chantagem deslavada.
Colar seriamente o rótulo sancionado a tumores sociais como PCC e CV (que os governos nacionais, sim, irresponsavelmente, deixaram crescer) implicaria auscultar a urbanidade periférica, cujo cotidiano oscila entre o medo e o terror impostos por essas facções. Ou seja, escutar politicamente a voz das comunidades submetidas. Terrorismo, se há, é só para os desamparados: são vidas paralisadas pela ditadura do crime.
Quase inverno
Ia a caminho da feira quando um deles me abordou, pedindo que lhe comprasse uma bolacha. Expliquei que não portava dinheiro, só cartão, mas ele insistiu: aqui eles aceitam, mostrando um pequeno mercado. Entramos e o deixei à vontade para escolher. Voltou rápido, com um pote de macarrão instantâneo, um refrigerante e a tal bolacha.
Tudo isso? – perguntou a moça do caixa, com irritação. Vai comer ou vai vender?
Falei que estava tudo bem, podia cobrar. Cheia de razão, ela avisou: vou abrir tudo, assim ele não vende. Fiquei tão chocada que não respondi, enquanto ela violava as embalagens e destampava a bebida. Ele pediu uma sacola de plástico para embalar tudo e partiu, agradecendo muito: era o almoço dele e da esposa que o aguardava mais adiante.
A atendente, ainda arrogante, dizia que fazia sempre assim, “cada vez que um desses aparece por aqui”. Respondi que não interessava o que ele ia fazer com as compras, pois minha parte estava feita. Ela pareceu não concordar, mas se calou.
Num degrau mais acima, estão os pobres. Moram mal, mas têm teto. Vivem mal, mas alimentam os filhos, batalham subempregos, recorrem a todo tipo de ajuda institucional. Vejo muitos deles no metrô, a maioria com os pés expostos em chinelos de borracha. Vejo pedreiros, com as roupas manchadas de tinta ou cimento, sem casacos e muito menos, meias. Vejo pais de família com sua prole, todos de chinelos. Vejo cegos pedindo esmola, enquanto os fiscais não chegam. Vejo músicos também desafiando a vigilância, entre uma estação e outra.
Há tantos brasis neste Brasil, mesmo na cidade mais rica do país. E o inverno ainda nem chegou…
Madô Martins
'Cuba está sangrando rumo ao colapso'
"O que é significativo aqui é que a pressão dos EUA finalmente forçou empresas estrangeiras com um longo histórico de envolvimento em Cuba a recuarem", disse Ricardo Torres, economista cubano da American University. No último mês, a empresa de navegação alemã Hapag-Lloyd e a francesa CMA CGM foram adicionadas a essa lista . Anteriormente, a companhia aérea espanhola Iberia e a mineradora canadense Sherritt, entre outras, também haviam anunciado sua retirada .
O embargo de petróleo imposto à ilha em janeiro de 2026 foi seguido por diversas rodadas de sanções contra organizações governamentais, políticas e empresariais, bem como altos funcionários e alguns de seus familiares — incluindo o presidente Miguel Díaz-Canel e membros da família Castro. O mais recente endurecimento das medidas também ameaça com sanções secundárias contra entidades que mantêm laços com os sancionados.
Consequentemente, o Banco Central de Cuba anunciou ontem a suspensão dos serviços financeiros internacionais da Visa e da Mastercard . O banco estrangeiro que processava os pagamentos — cujo nome não foi divulgado — rompeu sua relação com a FINCIMEX SA, braço financeiro da GAESA , grupo empresarial das Forças Armadas Revolucionárias (FAR) que está no centro das sanções de Washington.
As quatro maiores cadeias hoteleiras estrangeiras em Cuba reduziram ou encerraram suas operações, ameaçadas por sanções dos EUA.
O dia 5 de junho de 2026 marcou o prazo estabelecido pelos Estados Unidos para que empresas estrangeiras com negócios em Cuba liquidem as "operações envolvendo a GAESA", que controla grandes setores da economia cubana (entre 40 e 70 por cento, dependendo da fonte).
Ao sancionar a GAESA, os Estados Unidos "tornam muito difícil, senão impossível, para muitas empresas estrangeiras continuarem suas atividades econômicas em Cuba", especialmente no setor de turismo, explica o economista político Paolo Spadoni, especialista em turismo cubano da Universidade de Augusta e coautor de "A Indústria do Turismo Cubano: Evolução, Desafios e Perspectivas".
"É um golpe muito duro para uma economia já muito frágil", que tem o turismo, as remessas e as exportações de serviços como suas principais fontes de divisas, explica Spadoni. Ele também destaca que o governo Trump já havia criado obstáculos para as remessas de migrantes nos EUA e forçado brigadas médicas cubanas a deixarem diversos países.
À medida que os Estados Unidos demonstram sua disposição em exercer pressão máxima e o governo da ilha fica sem opções para contornar as sanções, a população cubana verá uma "intensificação da escassez e das dificuldades diárias", alerta Ricardo Torres, de Washington.
"Desta vez, as sanções visam estrangular o país, o que afeta a população, embora aparentemente sejam direcionadas apenas a funcionários sancionados", observa Mauricio de Miranda, economista cubano, professor da Universidade Javeriana em Cali, Colômbia, e codiretor do think tank CubaxCuba .
“Trump está tentando sufocar Cuba para que haja agitação social e ele tenha um pretexto para intervir”, disse o presidente cubano Miguel Díaz-Canel em entrevista ao elDiario.es . “A UE e a Espanha devem proteger suas empresas e seus cidadãos. Não podem permitir que leis extraterritoriais lhes sejam impostas por outro país”, afirmou.
Díaz-Canel também afirmou que seu governo está estudando "diferentes modelos de negócios, com cubanos que queiram investir e administrar hotéis" e pessoas de outros países ou entidades que não tenham contas ou dependência dos EUA. Mas "quem gostaria de administrar hotéis sem demanda e sem uma perspectiva clara de recuperação?", questiona Ricardo Pérez.
"Somente negociações em condições desfavoráveis, com concessões substanciais, podem mudar a situação", afirma o economista da Universidade de Washington. Cuba não pode se recuperar sem um acordo para aliviar ou suspender as sanções americanas. "E precisa ser um acordo definitivo e de longo prazo para restabelecer a segurança", diz ele. Entre outros motivos, porque o apoio de aliados importantes da ilha, como a China e a Rússia, permanecerá em grande parte simbólico.
"Desta vez, as sanções visam estrangular o país, o que afeta a população", observa o economista cubano Mauricio de Miranda.
Mas as negociações parecem ter chegado a um impasse. Os Estados Unidos priorizam a mudança de regime em detrimento de reformas econômicas de longo prazo que trariam mudanças políticas, como propuseram inicialmente. E o regime cubano, obviamente, resiste. A ideia de um acordo com compromissos mútuos agora parece "altamente improvável", avalia Paolo Spadoni, pessimista.
A situação mudou radicalmente em apenas alguns meses, observa o economista político da Universidade de Augusta. As tentativas de negociação deram lugar à ameaça de ação militar. E a "uma forma muito cruel" de promover a mudança política através da máxima pressão econômica, com o risco de colapso econômico e de uma grande crise humanitária. "É um país que está sangrando lentamente rumo ao colapso." E uma mudança de regime imposta dessa forma "leva à violência e à instabilidade", alerta Spadoni.
Segundo De Miranda, existem poucas soluções à vista, "além de uma transição pacífica para um sistema democrático, não porque o governo dos EUA o exija, mas porque o país precisa dele".
O governo cubano, no entanto, não só se recusa a ceder à pressão externa, apesar das ameaças de intervenção militar dos Estados Unidos e da acusação de assassinato contra o ex-líder Raúl Castro, como também se recusa a ceder à pressão interna: mantém centenas de presos políticos atrás das grades e continua a reprimir o descontentamento popular, que não deixou de se manifestar publicamente desde os protestos históricos e massivos de 2021.
"É a nação cubana que precisa fazer a transição para uma sociedade democrática", insiste De Miranda. "Não apoiarei nenhuma invasão, mas também não aceito a repressão do governo aos protestos. O governo perdeu muitas oportunidades. Não tem mais tempo para comprar. É hora de assumir suas responsabilidades para com a sociedade. Se não o fizer, a história não o absolverá, nem a justiça da humanidade."
Os Bolsonaro e a crônica dos soluços oportunos
Relatório médico entregue ao Supremo Tribunal Federal na sexta-feira diz que Bolsonaro voltou a sofrer de crises de soluço “acima da média” nos últimos sete dias. Algo extemporâneo? Não. Ele vive, há muito tempo, de crise de soluço em crise de soluço, fora outras anomalias. É um paciente crônico desde a facada que levou em Juiz de Fora, em 6 de setembro de 2018.
A coincidência está em que, no próximo dia 25, vence o prazo fixado pelo ministro Alexandre de Moraes para reavaliar sua decisão de transferir Bolsonaro da “Papudinha” — um espaço, digamos, VIP do Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal — para a prisão domiciliar. O ex-presidente Fernando Collor, condenado por corrupção, cumpre a pena em domicílio à beira-mar, em Maceió. Bolsonaro ainda não tem garantia alguma de que poderá cumprir a sua em definitivo.
Todo cuidado com os Bolsonaro é pouco, e Moraes está cansado de saber disso — e é bom jamais esquecer. Eles mentem despudoradamente em seu favor e em desfavor de seus adversários. Espalham notícias falsas e são capazes de fazer qualquer coisa, até mesmo conspirar no estrangeiro contra os interesses nacionais.
Outro membro da família deverá ser condenado este mês pelo crime de coação no curso do processo: o deputado cassado Eduardo. Já Flávio, em troca de apoio para se eleger presidente da República, ofereceu-se a Donald Trump para servir de biombo aos efeitos perversos da nova taxação a produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos.
Eleitores de carteirinha de Bolsonaro pai justificam tudo o que a família propaga, inclusive que Lula é o verdadeiro culpado pela má vontade de Trump com o Brasil. Renovo meus votos de boa saúde e vida longa a Bolsonaro para que ele pague por tudo de ruim que fez ao país.
sábado, 6 de junho de 2026
A primeira vítima
No primeiro momento, a imprensa dos Estados Unidos anunciou que a defesa do adversário estava destruída. Depois, os jornais verificaram que a realidade não era aquela. Em seguida, os jornais foram obrigados a reconhecer que o dispositivo nuclear daquele país está preservado. Trump anunciou o desaparecimento de um império, em referência à Pérsia, ofereceu sucessivos prazos para que o conflito terminasse. E não aconteceu nada. O Estreito de Ormuz continua fechado. O preço do barril de petróleo, que é a única expressão da verdade, persiste muito elevado.
No livro, Phillip Knightley conta a história de magnata da imprensa norte-americana que enviou seu melhor repórter para cobrir a guerra em Cuba, no século 19. O repórter desembarcou e procurou a guerra. Não encontrou nada. Preocupado, entrou em contato com o chefe para informar que não havia nada parecido com conflito naquele país. O chefe respondeu: "Faça seu trabalho, a guerra eu providencio". Esse exemplo é muito elucidativo dos problemas atuais da relação do Brasil com os Estados Unidos. O governo de Washington não gosta de Luiz Inácio Lula da Silva. Não é segredo para ninguém. A turma que está no poder é direita radical, inclusive na sua versão religiosa. Além disso, eles se julgam donos do mundo por decisão divina e porque possuem o mais poderoso exército do planeta.
Não há contencioso entre Brasília e Washington, mas o governo dos Estados Unidos está tentando de todas as formas providenciar a guerra comercial. Usa e abusa de falsidades e meias verdades para alcançar seu objetivo. É importante ressaltar que a América do Sul é área desconhecida nos Estados Unidos. Segundo o americano médio, todos no continente falam espanhol, como os mexicanos, que constituem o retrato do latino naquele país. A noção comum é de um Brasil onde animais selvagens andam soltos nas ruas, fugidos das grandes florestas, mas existem boas praias e mulheres lindas, com biquínis mínimos. Não fazem ideia de que o país está entre as 10 maiores economias do mundo. E tem um Produto Interno Bruto maior que o da Rússia ou do Canadá.
A ignorância é proposital. O Brasil não consta das preocupações imediatas da política externa do grande irmão do Norte. Não foi sempre assim. Quando, na Segunda Guerra Mundial, os nazistas estiveram perto de conquistar o norte da África, o comando militar dos Estados Unidos se apressou em negociar com Getúlio Vargas. Fizeram concessões importantes: construíram os aeroportos das capitais brasileiras do Norte e do Nordeste, a maior base norte-americana fora da Europa em Natal, além de conceder financiamento e tecnologia para a construção da siderúrgica de Volta Redonda. Já no governo JK, os gringos foram contra o plano de metas e a transferência da capital. No governo Geisel, manifestaram seu desagrado com a política externa brasileira que apoiou a independência de Angola e Moçambique. Naquele período, o governo brasileiro rompeu o acordo militar em vigor desde o final da grande guerra.
Donald Trump e sua turma criam obstáculos com objetivo de sobretaxar produtos brasileiros no mercado interno norte-americano. Naturalmente, seus negociadores retiraram da lista produtos que são importantes para eles, como café, suco de laranja, carnes e aviões — os da Embraer fazem sucesso lá. É uma negociação estranha, porque não se fundamenta em nenhum fato. Os Estados Unidos, para espanto de qualquer negociador isento, mantêm confortável superavit na relação comercial com o Brasil.
Na verdade, o pessoal da Casa Branca quer se infiltrar na eleição brasileira para prejudicar Lula e favorecer Flávio Bolsonaro. A diplomacia brasileira, que é experiente, está diante de problema quase insolúvel. Não há controvérsias para serem resolvidas. Existe uma questão política e ideológica. Trump invadiu a Venezuela, sequestrou Nicolás Maduro. Fez a guerra contra o Irã, isolou Cuba, mas terá dificuldades em proceder da mesma maneira contra o Brasil. O país é muito grande para se tornar mais um estado norte-americano. O tempo tende a ficar ruim nas relações entre os dois países até a realização da eleição no Brasil. E, se Lula vencer o pleito, pode piorar, porque Marco Rubio, o cubano ressentido, trabalha para suceder Donald Trump.
Patrulha no quintal
O argumento do combate ao narcotráfico abre, portanto, a porta para justificar certas ações e militarizar a América Latina integra a Estratégia de Defesa Nacional, publicada no fim de 2025. O que impressiona diplomatas é a velocidade de implementação da ofensiva que vem sendo efetivada. Em março, Trump desviou a atenção do conflito no Irã e anunciou a criação do Escudo das Américas, aliança militar com aliados submissos. O pacto, apelidado de “Otan das Américas” em certos círculos diplomáticos, envolve alguns dos governos mais leais à extrema-direita latino-americana.
Durante uma audiência discreta e sem alarde em um subcomitê do Congresso norte-americano, ainda em 17 de março, o vice-secretário do Departamento de Guerra, Joseph Humire, dimensionou o avanço. “Desde novembro de 2025”, elencou, “o Departamento de Guerra obteve compromissos bilaterais da Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, expressando nossa intenção compartilhada de cooperar em relação à segurança de fronteiras, ao combate ao narcoterrorismo e à proteção de infraestruturas e ativos críticos contra o controle maligno.” Mais: “O Departamento de Guerra está empenhado em engajar-se ativamente com esses e outros parceiros regionais para identificar oportunidades de expandir nosso acesso, bases e sobrevoos”.
Os acordos ampliam e traduzem essa estratégia em ações concretas. O governo de Honduras seria o próximo. Depois de ter vencido a eleição com apoio de Trump, o presidente Tito Asfura anunciou a permissão para a atuação de forças militares dos EUA no país. Em uma reunião com Humire, em maio, Asfura iniciou as discussões de um plano bilateral de combate ao crime transnacional cometido em território hondurenho. Ele não nega a intenção de submeter os interesses nacionais à estratégia de segurança de Trump. Para tanto, acelerou a aprovação no Congresso de uma lei que declara integrantes de cartéis de drogas como “terroristas”. O projeto, não por acaso, foi elogiado por Washington.
O governo Trump ainda conseguiu convencer a Guatemala a permitir ações “conjuntas” das forças armadas dos dois países em território centro-americano. Mais uma vez, o argumento é de combate ao narcotráfico. Segundo o jornal The New York Times, o presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, concordou com ataques aéreos e outras ações militares em uma ligação telefônica com o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, em 19 de maio. As operações podem começar no próximo mês. “A Guatemala solicitou formalmente “cooperação em operações lideradas pelas forças de segurança guatemaltecas contra organizações de narcotráfico” em uma carta a Hegseth, destacou o gabinete do presidente em um comunicado. Confirmados os ataques, o país se tornaria o segundo da região a permitir ações militares conjuntas contra grupos criminosos em suas fronteiras. No começo do ano, o Equador fechou um acordo similar e os primeiros atos supostamente “conjuntos” foram realizados.
O foco na Guatemala e em Honduras não se dá por acaso. Segundo o Times, o objetivo é pressionar o México a concordar com operações conjuntas de combate ao narcotráfico. Por enquanto, a proposta é rejeitada pela presidente mexicana, Claudia Sheinbaum.
Mais ao Sul, outra prioridade é uma aproximação militar com o Chile, governado pela extrema-direita herdeira de Augusto Pinochet. Há poucas semanas, Santiago e Washington assinaram dois acordos estratégicos. Um deles permitia que os EUA “cooperassem” na exploração de minerais críticos. O segundo ia além e abria as portas para um pacto de segurança. “Assinamos dois instrumentos que, embora diferentes em seus temas, expressam a mesma convicção, a de que a cooperação bilateral profunda, fundada em valores compartilhados e benefícios mútuos, é o caminho para enfrentar os desafios do século XXI”, anunciou o ministro das Relações Exteriores, Francisco Pérez Mackenna. Segundo ele, trata-se de “um passo substancial no relacionamento entre o Chile e os EUA”. O evento contou com a presença do subsecretário de Estado norte-americano para Controle de Armas e Segurança Internacional, Thomas DiNanno, numa demonstração da importância do acordo.
Na prática, o novo pacto de segurança altera o Acordo sobre Controle de Narcóticos e Aplicação da Lei entre os dois países. Oficialmente, fortalece a capacidade do Estado chileno de combater o crime organizado transnacional. Mas permite, de fato, que dinheiro do Departamento de Estado chegue ao país, com a contrapartida de que a decisão sobre o uso dos recursos fique sob controle de Washington. Ou seja, estabelece-se a total ingerência norte-americana.
O mapa inclui um acordo assinado e ratificado com o Paraguai que transforma o vizinho brasileiro em uma extensão dos EUA. Uma base pode ser estabelecida nas proximidades de Assunção e os militares norte-americanos estão livres de responder às leis paraguaias. Com a Argentina, um acordo foi anunciado no mês passado, abrindo caminho para um “patrulhamento” do Atlântico Sul e a declaração do oceano que também banha o Brasil como um “bem comum global”. O acerto com o governo de Javier Milei foi duramente denunciado pela oposição, que alertou que o mar territorial da Argentina não é um “bem comum global”. Para a ala progressista, o Estado argentino tem a obrigação de exercer a jurisdição sobre o local e a “custódia dos recursos naturais”.
Enquanto diplomatas da região e mesmo de fora tentam decifrar os próximos passos, o depoimento quase reservado de Humire, em março, serve de guia. Fica claro que os cartéis são apenas uma desculpa para conter a presença de potências estrangeiras adversárias. “O presidente Trump promoveu uma mudança monumental na política externa e na segurança nacional dos EUA. Além da atividade dos cartéis, a iniciativa reflete a crescente preocupação com a influência da China, da Rússia e do Irã na região”, afirmou Humire. “A expansão dos investimentos chineses em infraestrutura com potencial de uso duplo, as redes ligadas ao Irã, associadas a financiamento ilícito e atividades por procuração, e as campanhas de desinformação russas são ameaças importantes à estabilidade regional.”
Uma operação, portanto, foi criada por Trump para desmontar essa suposta influência. “Para combater esses esforços, o Pentágono aumentou a cooperação em inteligência com governos aliados, expandiu as iniciativas conjuntas de segurança cibernética e apoiou os esforços para proteger a infraestrutura crítica do controle ou da exploração estrangeira”, adiantou. “Os compromissos militares também foram ampliados para reforçar o alinhamento com as prioridades estratégicas dos EUA.” Um dos exemplos dados por Humire foi o Panamá, que logo nas primeiras semanas do governo Trump tornou-se alvo de um processo intenso de chantagem e pressão. “Desde que o secretário Hegseth e o secretário Rubio foram ao Panamá no ano passado, a influência da China no país diminuiu significativamente. Eles perderam o acesso aos portos e não estão mais avançando com seus investimentos.”
A operação que sequestrou Nicolás Maduro na Venezuela, em 3 de janeiro, foi além de uma manobra para levar um suspeito aos tribunais por conta de seu suposto papel no tráfico de drogas. “O sucesso da operação teve múltiplos efeitos recíprocos na região, incluindo conversas de alto nível dos EUA com Cuba, a obtenção de conformidade da Nicarágua e a mudança do Caribe em uma direção favorável aos interesses dos EUA”, explicou o vice-secretário. Humire conclui: controlar a América Latina é parte central da estratégia de defesa dos EUA. “Do Ártico ao extremo-sul das Américas, a defesa da pátria dos EUA e a segurança do Hemisfério Ocidental são uma só. Em todos os domínios, o Departamento de Guerra está pronto para garantir a defesa de nossa nação, operando com base no princípio da paz por meio da força. Nossas ações demonstram uma clara determinação em proteger os interesses americanos e fazer cumprir a aplicação moderna do ‘Corolário Trump’ da Estratégia de Segurança Nacional à Doutrina Monroe.”
A guerra contra as drogas nunca foi contra as drogas. E, uma vez mais, a região constata a instrumentalização do tema para garantir uma hegemonia dos EUA na América Latina. Se necessário, à força.