quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Mendonça usa caos como estratégia eleitoral
O noticiário recente sobre o Supremo se assemelha mais à cobertura esportiva de um ringue de luta livre que à de um tribunal, com todo respeito aos praticantes de luta livre.
André Mendonça emprega o caos institucional como estratégia de impacto eleitoral. Se inocentes fôssemos, poderíamos supor que o ministro o faz de forma a defender prerrogativas judiciais, mas ninguém mais acredita em juízes heróis desde a Lava Jato; Mendonça tem plena consciência de que as condições institucionais dadas o favorecem —a saber, a fragilidade e o ego de Moraes, a opacidade de Fachin e a eleição competitiva do filho do presidente que o nomeou para o cargo.
De jurídico, os atos de Mendonça têm apenas a forma: determina, de ofício, o afastamento da alta cúpula da PF –a mesma que efetivamente melou o esquema de roubo do Vorcaro, por suposto monitoramento de Mendonça pela PF.
Se, para Mendonça, a situação lembra Orwell na distopia "1984", a sua resposta lembra a não menos distópica obra "O Processo", de Kafka, na qual a lei serve apenas de pretexto para o absurdo.
O fato de Mendonça ser o relator do inquérito sobre o qual escolhe o que tornar publico ou não mostra que aprendeu bem na escola de Curitiba de juízes políticos.
É evidente o modo politizado como Mendonça decide. Afasta cautelarmente a liderança da Polícia Federal, após requerimento do partido Novo, mesmo após o presidente do STF, Edson Fachin, corretamente pedir no último dia 3 as manifestações das partes envolvidas e depois de o próprio Mendonça ter indicado, dois dias antes, que a matéria deveria ser analisada em plenário.
Mais que no caos, Mendonça aposta na espetacularização como arma política, o que apenas beneficia o campo político bolsonarista, ao qual foi filiado como jurista no governo Bolsonaro.
Ao selecionar o que, quando e como decidir, conforme o tempo político, com levantamentos seletivos de sigilo a menos de quatro semanas do primeiro turno, Mendonça quer que o eleitorado vote pensando em Moraes e na Polícia Federal.
Não quer que o eleitorado se lembre de como os Bolsonaros e aliados estão profundamente imbricados com Vorcaro nem de como o ex-banqueiro roubou dinheiro público e de pessoas pobres —em um esquema bilionário envolvendo, em sua grande maioria, integrantes da direita nacional. Ele quer, por fim, que o eleitor esqueça como o próprio Mendonça se assemelha mais a Sérgio Moro que a um juiz que age em nome da lei.
André Mendonça emprega o caos institucional como estratégia de impacto eleitoral. Se inocentes fôssemos, poderíamos supor que o ministro o faz de forma a defender prerrogativas judiciais, mas ninguém mais acredita em juízes heróis desde a Lava Jato; Mendonça tem plena consciência de que as condições institucionais dadas o favorecem —a saber, a fragilidade e o ego de Moraes, a opacidade de Fachin e a eleição competitiva do filho do presidente que o nomeou para o cargo.
De jurídico, os atos de Mendonça têm apenas a forma: determina, de ofício, o afastamento da alta cúpula da PF –a mesma que efetivamente melou o esquema de roubo do Vorcaro, por suposto monitoramento de Mendonça pela PF.
Se, para Mendonça, a situação lembra Orwell na distopia "1984", a sua resposta lembra a não menos distópica obra "O Processo", de Kafka, na qual a lei serve apenas de pretexto para o absurdo.
O fato de Mendonça ser o relator do inquérito sobre o qual escolhe o que tornar publico ou não mostra que aprendeu bem na escola de Curitiba de juízes políticos.
É evidente o modo politizado como Mendonça decide. Afasta cautelarmente a liderança da Polícia Federal, após requerimento do partido Novo, mesmo após o presidente do STF, Edson Fachin, corretamente pedir no último dia 3 as manifestações das partes envolvidas e depois de o próprio Mendonça ter indicado, dois dias antes, que a matéria deveria ser analisada em plenário.
Mais que no caos, Mendonça aposta na espetacularização como arma política, o que apenas beneficia o campo político bolsonarista, ao qual foi filiado como jurista no governo Bolsonaro.
Ao selecionar o que, quando e como decidir, conforme o tempo político, com levantamentos seletivos de sigilo a menos de quatro semanas do primeiro turno, Mendonça quer que o eleitorado vote pensando em Moraes e na Polícia Federal.
Não quer que o eleitorado se lembre de como os Bolsonaros e aliados estão profundamente imbricados com Vorcaro nem de como o ex-banqueiro roubou dinheiro público e de pessoas pobres —em um esquema bilionário envolvendo, em sua grande maioria, integrantes da direita nacional. Ele quer, por fim, que o eleitor esqueça como o próprio Mendonça se assemelha mais a Sérgio Moro que a um juiz que age em nome da lei.
A mineração distribui seus produtos pelo mundo, mas deixa seus riscos nos territórios
Uma pessoa vive, trabalha, pesca, planta e constrói sua história em determinado território. Nunca comprou minério, jamais contratou uma mineradora e não participou das decisões sobre a instalação ou o funcionamento de uma barragem.
Ainda assim, quando ocorre o desastre, passa a “consumir” tudo o que aquela atividade econômica deixou para trás: lama, medo, perda de renda, água insegura, adoecimento, deslocamento e incerteza sobre o futuro.
Que relação existe entre uma empresa e as pessoas que nunca contrataram seus serviços, mas foram obrigadas a suportar seus riscos?
Em agosto de 2026, o Superior Tribunal de Justiça ofereceu uma resposta juridicamente relevante. No julgamento do Tema 1.280, a Corte reconheceu que as vítimas do desastre de Brumadinho podem ser consideradas consumidoras por equiparação. Com isso, estabeleceu a aplicação do prazo de cinco anos previsto no Código de Defesa do Consumidor para o ajuizamento das ações indenizatórias abrangidas pelo precedente.
A decisão resolve uma controvérsia sobre prescrição, mas também revela algo maior: a inexistência de contrato não torna a vítima estranha à atividade econômica que a atingiu.
Quando se pretende demonstrar a importância da mineração, sua cadeia produtiva parece não ter fronteiras.
Ela começa na pesquisa, passa pela extração, pelo beneficiamento e pelo transporte, alcança a indústria, a exportação, as tecnologias digitais e a transição energética. Gera divisas, atrai investimentos e conecta o país à economia global.
Tudo está relacionado quando se fala em valor.
Quando ocorre o dano, porém, essa cadeia repentinamente se estreita. As pessoas afetadas passam a ser descritas como terceiros, vizinhos, moradores do entorno, populações indiretamente impactadas ou potenciais beneficiários de programas compensatórios.
A comunidade que era central para viabilizar territorialmente o empreendimento torna-se periférica no momento de exigir reparação.
Para distribuir valor, a cadeia mineral é global. Para distribuir responsabilidade, ela frequentemente tenta tornar-se local, contratual e limitada.
As pessoas atingidas não decidem onde o empreendimento será instalado, quais tecnologias serão empregadas, quanto será investido em segurança ou quais riscos serão considerados aceitáveis. Não controlam os sistemas de monitoramento nem dispõem das mesmas informações técnicas das empresas.
Apesar disso, são elas que podem perder a casa, o trabalho, a água, o acesso ao rio, os vínculos comunitários e a segurança sobre o futuro.
Essa vulnerabilidade não começa no momento do rompimento. É construída antes, pela concentração das informações e do poder de decisão nas mãos de quem explora economicamente a atividade.
O Tema 1.280 rompe parcialmente essa invisibilidade. A pessoa atingida deixa de ser apresentada apenas como alguém que estava no caminho do desastre. Passa a ser reconhecida como sujeito vulnerável diante da atividade econômica que produziu o risco.
A vítima pode não ter consumido o produto colocado no mercado. Foi obrigada, entretanto, a consumir as consequências de sua produção.
Nos grandes processos de reparação, sofrer o dano e ser reconhecido institucionalmente como atingido são acontecimentos diferentes.
Uma pessoa pode perder acesso à água, deixar de pescar, sofrer redução de renda ou ver seu modo de vida desorganizado. Ainda assim, poderá esperar anos até que essas perdas sejam admitidas por um cadastro, programa administrativo, estudo técnico ou decisão judicial.
A condição de atingido precede seu reconhecimento burocrático. Os sistemas de reparação, entretanto, frequentemente invertem essa lógica. Em vez de o responsável identificar integralmente os efeitos de sua atividade, transfere-se à vítima o dever de provar que existe, que pertence ao território e que suas perdas possuem relação com o desastre.
Essa travessia institucional é marcada por documentos, formulários, critérios de elegibilidade, perícias, negativas e reavaliações. Quem teve a vida desorganizada precisa aprender rapidamente a linguagem das matrizes de danos, dos acordos e dos programas de reparação.
Ninguém acessa um direito que não consegue reconhecer como seu.
Entre sofrer o dano e participar efetivamente da reparação, existe um percurso: reconhecer-se como atingido, compreender-se como sujeito de direitos, acessar informações, participar das decisões e acompanhar o cumprimento das medidas prometidas.
O mesmo problema aparece na contagem do tempo. Enquanto o prazo jurídico corre, a pessoa pode estar reconstruindo documentos, buscando nova moradia, tentando recuperar a renda, cuidando da saúde ou esperando estudos que revelem a extensão dos danos.
A ampliação do prazo para cinco anos é importante. Mas não encerra a discussão sobre danos continuados, manifestações tardias e assimetria de informações.
A prescrição pode organizar o sistema de Justiça. Não pode ser utilizada para organizar o esquecimento.
Consumidor é suficiente para nomear quem perdeu um território?
Reconhecer o atingido como consumidor por equiparação amplia sua proteção. Mas a palavra “consumidor” consegue expressar tudo o que se perde em um desastre socioambiental?
O consumidor é tradicionalmente pensado a partir do mercado. A pessoa atingida também é constituída por relações que não cabem nele.
Uma pescadora privada do acesso ao rio não perde somente renda. Perde práticas, conhecimentos e relações construídas em torno da água. Uma comunidade deslocada não perde apenas imóveis. Perde vizinhança, memória e pertencimento. Um povo tradicional privado de seu território não sofre somente um prejuízo patrimonial. Pode ter ameaçada a continuidade de sua identidade.
Nem toda perda pode ser adequadamente convertida em dinheiro. Nem todo dano pode ser individualizado. Nem toda reparação se realiza por meio de indenização.
Por isso, a figura do consumidor por equiparação deve ser entendida como proteção adicional, não como substituição da substituição da identidade jurídica e política da pessoa atingida.
O Direito do Consumidor oferece instrumentos importantes para enfrentar a vulnerabilidade e facilitar o acesso à reparação. Não pode, entretanto, reduzir o desastre a uma soma de acidentes individuais de mercado.
A categoria de consumidor pode ampliar a proteção da vítima. Não deve diminuir a compreensão do desastre.
O julgamento ocorre no momento em que o Brasil procura ampliar sua posição na economia mundial dos minerais críticos.
Lítio, cobre, níquel, grafite e terras raras são apresentados como essenciais para baterias, tecnologias digitais e sistemas de baixo carbono. A nova corrida mineral é justificada pela transição energética, pela soberania tecnológica e pela necessidade de reduzir dependências externas.
Essa transição, contudo, não será justa apenas porque os minerais extraídos serão empregados em tecnologias consideradas limpas.
É preciso perguntar quem decidirá sobre os novos projetos, quais territórios receberão os empreendimentos, quem será consultado, como os benefícios serão distribuídos e quem suportará os riscos.
Nenhum mineral é limpo quando sua cadeia depende da invisibilidade de quem recebe seus impactos.
A transição energética poderá transformar as tecnologias utilizadas pelo mundo sem modificar a estrutura que concentra benefícios e territorializa prejuízos. Se as comunidades continuarem afastadas das decisões e obrigadas a provar reiteradamente seus danos, haverá inovação tecnológica sem transformação democrática.
A mineração do futuro não pode continuar produzindo atingidos submetidos às antigas práticas de invisibilidade, negação e transferência dos riscos.
Atingido também é consumidor?
Juridicamente, o STJ respondeu que sim em relação às ações abrangidas pelo Tema 1.280. Politicamente, a resposta revela um paradoxo.
As comunidades não escolheram o empreendimento, não controlaram seus riscos e não participaram proporcionalmente de seus resultados. Foram incorporadas à cadeia econômica pelo pior caminho: o dano.
A indenização é indispensável, mas não esgota a reparação. Reparar também significa recuperar condições de vida, restabelecer meios de subsistência, proteger vínculos comunitários, garantir acesso à informação e assegurar participação nas decisões sobre o futuro.
Quem foi excluído das escolhas que produziram o risco não pode ser novamente excluído das escolhas sobre a reparação.
O Tema 1.280 amplia o tempo disponível para que as vítimas de Brumadinho busquem seus direitos. Sua mensagem mais profunda, entretanto, atravessa os limites da prescrição.
Nenhuma atividade econômica pode considerar as comunidades externas à sua cadeia quando são elas que recebem seus rejeitos, perdem suas águas, reorganizam suas vidas e carregam seus riscos por gerações.
Se a mineração alcança o território, a responsabilidade também precisa alcançá-lo.
As pessoas atingidas não são acidentes localizados na margem do desenvolvimento. São sujeitos de direitos colocados, sem escolha, no centro de suas consequências.
Ainda assim, quando ocorre o desastre, passa a “consumir” tudo o que aquela atividade econômica deixou para trás: lama, medo, perda de renda, água insegura, adoecimento, deslocamento e incerteza sobre o futuro.
Que relação existe entre uma empresa e as pessoas que nunca contrataram seus serviços, mas foram obrigadas a suportar seus riscos?
Em agosto de 2026, o Superior Tribunal de Justiça ofereceu uma resposta juridicamente relevante. No julgamento do Tema 1.280, a Corte reconheceu que as vítimas do desastre de Brumadinho podem ser consideradas consumidoras por equiparação. Com isso, estabeleceu a aplicação do prazo de cinco anos previsto no Código de Defesa do Consumidor para o ajuizamento das ações indenizatórias abrangidas pelo precedente.
A decisão resolve uma controvérsia sobre prescrição, mas também revela algo maior: a inexistência de contrato não torna a vítima estranha à atividade econômica que a atingiu.
Quando se pretende demonstrar a importância da mineração, sua cadeia produtiva parece não ter fronteiras.
Ela começa na pesquisa, passa pela extração, pelo beneficiamento e pelo transporte, alcança a indústria, a exportação, as tecnologias digitais e a transição energética. Gera divisas, atrai investimentos e conecta o país à economia global.
Tudo está relacionado quando se fala em valor.
Quando ocorre o dano, porém, essa cadeia repentinamente se estreita. As pessoas afetadas passam a ser descritas como terceiros, vizinhos, moradores do entorno, populações indiretamente impactadas ou potenciais beneficiários de programas compensatórios.
A comunidade que era central para viabilizar territorialmente o empreendimento torna-se periférica no momento de exigir reparação.
Para distribuir valor, a cadeia mineral é global. Para distribuir responsabilidade, ela frequentemente tenta tornar-se local, contratual e limitada.
As pessoas atingidas não decidem onde o empreendimento será instalado, quais tecnologias serão empregadas, quanto será investido em segurança ou quais riscos serão considerados aceitáveis. Não controlam os sistemas de monitoramento nem dispõem das mesmas informações técnicas das empresas.
Apesar disso, são elas que podem perder a casa, o trabalho, a água, o acesso ao rio, os vínculos comunitários e a segurança sobre o futuro.
Essa vulnerabilidade não começa no momento do rompimento. É construída antes, pela concentração das informações e do poder de decisão nas mãos de quem explora economicamente a atividade.
O Tema 1.280 rompe parcialmente essa invisibilidade. A pessoa atingida deixa de ser apresentada apenas como alguém que estava no caminho do desastre. Passa a ser reconhecida como sujeito vulnerável diante da atividade econômica que produziu o risco.
A vítima pode não ter consumido o produto colocado no mercado. Foi obrigada, entretanto, a consumir as consequências de sua produção.
Nos grandes processos de reparação, sofrer o dano e ser reconhecido institucionalmente como atingido são acontecimentos diferentes.
Uma pessoa pode perder acesso à água, deixar de pescar, sofrer redução de renda ou ver seu modo de vida desorganizado. Ainda assim, poderá esperar anos até que essas perdas sejam admitidas por um cadastro, programa administrativo, estudo técnico ou decisão judicial.
A condição de atingido precede seu reconhecimento burocrático. Os sistemas de reparação, entretanto, frequentemente invertem essa lógica. Em vez de o responsável identificar integralmente os efeitos de sua atividade, transfere-se à vítima o dever de provar que existe, que pertence ao território e que suas perdas possuem relação com o desastre.
Essa travessia institucional é marcada por documentos, formulários, critérios de elegibilidade, perícias, negativas e reavaliações. Quem teve a vida desorganizada precisa aprender rapidamente a linguagem das matrizes de danos, dos acordos e dos programas de reparação.
Ninguém acessa um direito que não consegue reconhecer como seu.
Entre sofrer o dano e participar efetivamente da reparação, existe um percurso: reconhecer-se como atingido, compreender-se como sujeito de direitos, acessar informações, participar das decisões e acompanhar o cumprimento das medidas prometidas.
O mesmo problema aparece na contagem do tempo. Enquanto o prazo jurídico corre, a pessoa pode estar reconstruindo documentos, buscando nova moradia, tentando recuperar a renda, cuidando da saúde ou esperando estudos que revelem a extensão dos danos.
A ampliação do prazo para cinco anos é importante. Mas não encerra a discussão sobre danos continuados, manifestações tardias e assimetria de informações.
A prescrição pode organizar o sistema de Justiça. Não pode ser utilizada para organizar o esquecimento.
Consumidor é suficiente para nomear quem perdeu um território?
Reconhecer o atingido como consumidor por equiparação amplia sua proteção. Mas a palavra “consumidor” consegue expressar tudo o que se perde em um desastre socioambiental?
O consumidor é tradicionalmente pensado a partir do mercado. A pessoa atingida também é constituída por relações que não cabem nele.
Uma pescadora privada do acesso ao rio não perde somente renda. Perde práticas, conhecimentos e relações construídas em torno da água. Uma comunidade deslocada não perde apenas imóveis. Perde vizinhança, memória e pertencimento. Um povo tradicional privado de seu território não sofre somente um prejuízo patrimonial. Pode ter ameaçada a continuidade de sua identidade.
Nem toda perda pode ser adequadamente convertida em dinheiro. Nem todo dano pode ser individualizado. Nem toda reparação se realiza por meio de indenização.
Por isso, a figura do consumidor por equiparação deve ser entendida como proteção adicional, não como substituição da substituição da identidade jurídica e política da pessoa atingida.
O Direito do Consumidor oferece instrumentos importantes para enfrentar a vulnerabilidade e facilitar o acesso à reparação. Não pode, entretanto, reduzir o desastre a uma soma de acidentes individuais de mercado.
A categoria de consumidor pode ampliar a proteção da vítima. Não deve diminuir a compreensão do desastre.
O julgamento ocorre no momento em que o Brasil procura ampliar sua posição na economia mundial dos minerais críticos.
Lítio, cobre, níquel, grafite e terras raras são apresentados como essenciais para baterias, tecnologias digitais e sistemas de baixo carbono. A nova corrida mineral é justificada pela transição energética, pela soberania tecnológica e pela necessidade de reduzir dependências externas.
Essa transição, contudo, não será justa apenas porque os minerais extraídos serão empregados em tecnologias consideradas limpas.
É preciso perguntar quem decidirá sobre os novos projetos, quais territórios receberão os empreendimentos, quem será consultado, como os benefícios serão distribuídos e quem suportará os riscos.
Nenhum mineral é limpo quando sua cadeia depende da invisibilidade de quem recebe seus impactos.
A transição energética poderá transformar as tecnologias utilizadas pelo mundo sem modificar a estrutura que concentra benefícios e territorializa prejuízos. Se as comunidades continuarem afastadas das decisões e obrigadas a provar reiteradamente seus danos, haverá inovação tecnológica sem transformação democrática.
A mineração do futuro não pode continuar produzindo atingidos submetidos às antigas práticas de invisibilidade, negação e transferência dos riscos.
Atingido também é consumidor?
Juridicamente, o STJ respondeu que sim em relação às ações abrangidas pelo Tema 1.280. Politicamente, a resposta revela um paradoxo.
As comunidades não escolheram o empreendimento, não controlaram seus riscos e não participaram proporcionalmente de seus resultados. Foram incorporadas à cadeia econômica pelo pior caminho: o dano.
A indenização é indispensável, mas não esgota a reparação. Reparar também significa recuperar condições de vida, restabelecer meios de subsistência, proteger vínculos comunitários, garantir acesso à informação e assegurar participação nas decisões sobre o futuro.
Quem foi excluído das escolhas que produziram o risco não pode ser novamente excluído das escolhas sobre a reparação.
O Tema 1.280 amplia o tempo disponível para que as vítimas de Brumadinho busquem seus direitos. Sua mensagem mais profunda, entretanto, atravessa os limites da prescrição.
Nenhuma atividade econômica pode considerar as comunidades externas à sua cadeia quando são elas que recebem seus rejeitos, perdem suas águas, reorganizam suas vidas e carregam seus riscos por gerações.
Se a mineração alcança o território, a responsabilidade também precisa alcançá-lo.
As pessoas atingidas não são acidentes localizados na margem do desenvolvimento. São sujeitos de direitos colocados, sem escolha, no centro de suas consequências.
Decisão sobre Andrei é ilegal; Mendonça, Savonarola e face do golpe
As eleições no Brasil estão sob intervenção de um juiz do Supremo. A evidência é escancarada. O ministro André Mendonça, do STF, afasta do cargo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, provocado por uma petição do Partido Novo, divulga as 33 páginas de sua decisão — lidas, não se encontra ali nenhuma miserável razão que a justificasse, ainda que legal fosse —, e obtém, em nove minutos, o apoio de dois outros integrantes da Segunda Turma: Luiz Fux e Nunes Marques. Ou por outra: a decisão antecede os motivos apontados. Gilmar Mendes pediu vista. Dias Toffoli não deve votar. Vamos ver que encaminhamento dará Jorge Messias, advogado-geral da União. Andrei estava marcado por Mendonça havia algum tempo — já escrevi a respeito —, e Messias parecia assistir à crise de camarote.
Recapitulação rápida. No dia 24 de agosto, Mendonça determinou que a PF investigasse Alexandre de Moraes. Duas agressões à legalidade: 1) chamava para si funções de polícia e 2) ignorava o próprio tribunal que integra, onde o relator da tramoia golpista tem foro, como evidenciou a Procuradoria-geral da República.
Mas não fez só isso: enviou sua petição ao STF, não aguardando nem mesmo a manifestação do Ministério Público, suspendeu o sigilo e expôs Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues à execração pública. O bolsonarismo se inflamou. O 7 de setembro convocado por Flávio estava condenado a ser um mico. Ainda assim, já escrevi a respeito, foi. Não por falta de ajuda de Mendonça: no domingo, ganhou títulos anunciando que seu voto estava pronto para exame da Segunda Turma.
A “flopada” do ato da Avenida Paulista nem chegou a ser notícia direito porque eis que uma pesquisa Quaest tomava o noticiário, com um empate rigoroso entre Lula e Flávio em 41% no segundo turno. Há cinco dias, 42% a 41% para o petista. Vale dizer: de uma pesquisa para outra, nada aconteceu. A margem de erro é de dois pontos. Mas se produziu quase uma dezena de títulos com “dados internos” do levantamento, apontando como tudo era ruim para o petista. Sendo a coisa tão trágica, resta o mistério de saber por que só um ponto separa um levantamento de outro — alguma boa notícia o petista pode ter haurido…
Mendonça virou o senhor absoluto da investigação, numa intervenção jamais havida na Polícia Federal. Seu aparato tem controle dos dados brutos extraídos de celulares, e os conteúdos são vazados pelo “VILMO” — VAZADOR DE INFORMES CONTRA LULINHA E MORAES — ao arrepio dos próprios delegados que comandam as as Operações Compliance Zero e Sem Desconto. A imprensa chegou a publicar detalhes que nem entraram depois nos dados da investigação. Há uma óbvia quebra da cadeia de custódia de provas.
Mendonça chama os relatórios de inteligência a que apelou Moraes de “clandestinos”, mas deve considerar — porque seus desmandos têm sido aplaudidos — que suas investidas, ao arrepio da lei, contra seu antípoda interno e contra Rodrigues são verdadeiras odes ao devido processo legal. Como sabem os leitores que me acompanham desde 2014, ano de criação da Lava Jato, eu não esperava outro desdobramento. Sempre que um herói se alevanta acima da legalidade, como aconteceu com Sergio Moro então, para fazer justiça com a própria toga, as primeiras vítimas são o devido processo legal e as instituições.
Deve-se admitir o óbvio: Mendonça não quer afastar Moraes em razão de seu suposto envolvimento com o Master. Para tanto, diga-se, teria de apontar os crimes cometidos e apresentar as provas. Ou porque, ainda que sem imputação, vislumbrasse alguma relação promíscua. Fosse assim, teria de se insurgir também contra Dias Toffoli, Nunes Marques e Luiz Fux. E noto: não estou aqui a fazer acusações. Indago os critérios de atuação do ministro e seus princípios. Dois desses três votaram em favor do afastamento de Andrei. Pergunta óbvia: a quem interessa tirá-lo da PF?
Mais: fosse mesmo o caso Master a raiz do ódio a Alexandre — de Mendonça e dos demais bolsonaristas —, o ex-ministro da Justiça de Bolsonaro não teria sido cantado em prosa e verso no ato na Paulista. Há pouco, nas redes sociais, Flávio Bolsonaro comemorou o afastamento de Andrei. Sim, o mesmo Flávio dos US$ 13 milhões de Vorcaro para supostamente fazer um filme… O que se tem é um ajuste de contas.
Há tempos tenho chamado a atenção aqui e em toda parte: vaza tudo dos dois inquéritos contra Lulinha que estão sob a relatoria de Mendonça. O “aparato” que ele criou, como mostra um dos relatórios de inteligência, explica por quê. A investigação ilegal contra Moraes também buscava o terremoto político. Tudo devidamente feito na boca da urna.
Há dois outros detalhes perversos nas 33 páginas redigidas por este homem santo. Ele faz questão de recuperar decisões de Moraes do passado, que nada têm a ver com o caso em tela, como a dizer: “Estou fazendo o mesmo”. E há quem esteja caindo na esparrela. Alguém se lembra de intervenção dessa natureza na Polícia Federal? O único que meteu a mão grande lá foi Bolsonaro.
Mendonça também alude a um voto da ministra Cármen Lúcia que considerou ilegal o monitoramento ideológico, pela Polícia Federal, de professores e servidores. Para lembrar: a Secretaria de Operações Integradas (Seopi) do Ministério da Justiça fez um relatório sigiloso, em junho de 2020, sobre o monitoramento ilegal de um grupo de 579 servidores públicos. Entre os monitorados, considerados integrantes do “movimento antifascismo”, havia professores universitários, além de policiais civis e federais críticos ao governo Bolsonaro. O caso foi revelado pelo UOL. Quem era ministro? Mendonça. Que assumiu a pasta em 29 de abril de 2020, depois de Bolsonaro anunciar que interviria, sim, na Polícia Federal. E interveio.
Leandro Almada, o diretor de Inteligência também afastado, era o Superintendente da PF da Bahia que disse “não” a Anderson Torres, então ministro da Justiça, que está preso, quando recebeu a determinação de barrar potenciais eleitores de Lula na Bahia, em 2022. Silvinei Vasques, então diretor da Polícia Rodoviária Federal, topou a parada. Também está em cana.
Está em curso, reitero, um óbvio “ajuste de contas”. Como Mendonça se tornou o novo ungido, inclusive por setores da imprensa, contra a corrução, então ele se concede todas as licenças, inclusive a do caos. E isso nada tem a ver com investigação.
Procurem saber quem foi Savonarola (1452-1498), o frade dominicano que aterrorizou Florença por um tempo e que nos legou a “fogueira das vaidades”. Considerava-se o inimigo número um da aristocracia corrupta de então e acabou governando a cidade por um tempo sob a égide do terror moralista. Não deu certo nem para os florentinos pobres nem para ele. Ora vejam: Savonarola considerava que o papa Alexandre VI (Rodrigo Borgia) era o grande inimigo da “verdadeira fé”. O frade decidiu, então, para enfrenta-lo, comportar-se como se fosse Alexandre Magno.
Os estudos são ambíguos a respeito do porra-louca. Há dúvidas sobre se acreditava mesmo nos absurdos que dizia ou fazia ou apenas se aproveitava do prestígio de que gozava para o exercício do poder. Uma coisa é certa: não media consequências e parece que não sabia distinguir direito aliados de adversários, tão imerso estava em seu fanatismo.
Desse mal em particular, convenham, não se deve acusar Mendonça. Os seus alvos podem até ter muitos lados. MAS LHE FALTA UM LADO SÓ… Há um esforço para tirar do eleitor o poder de escolha. Trata-se de uma nova face do golpismo, com o apoio de setores da imprensa. E também isso, na história, não é novo.
Recapitulação rápida. No dia 24 de agosto, Mendonça determinou que a PF investigasse Alexandre de Moraes. Duas agressões à legalidade: 1) chamava para si funções de polícia e 2) ignorava o próprio tribunal que integra, onde o relator da tramoia golpista tem foro, como evidenciou a Procuradoria-geral da República.
Mas não fez só isso: enviou sua petição ao STF, não aguardando nem mesmo a manifestação do Ministério Público, suspendeu o sigilo e expôs Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues à execração pública. O bolsonarismo se inflamou. O 7 de setembro convocado por Flávio estava condenado a ser um mico. Ainda assim, já escrevi a respeito, foi. Não por falta de ajuda de Mendonça: no domingo, ganhou títulos anunciando que seu voto estava pronto para exame da Segunda Turma.
A “flopada” do ato da Avenida Paulista nem chegou a ser notícia direito porque eis que uma pesquisa Quaest tomava o noticiário, com um empate rigoroso entre Lula e Flávio em 41% no segundo turno. Há cinco dias, 42% a 41% para o petista. Vale dizer: de uma pesquisa para outra, nada aconteceu. A margem de erro é de dois pontos. Mas se produziu quase uma dezena de títulos com “dados internos” do levantamento, apontando como tudo era ruim para o petista. Sendo a coisa tão trágica, resta o mistério de saber por que só um ponto separa um levantamento de outro — alguma boa notícia o petista pode ter haurido…
Mendonça virou o senhor absoluto da investigação, numa intervenção jamais havida na Polícia Federal. Seu aparato tem controle dos dados brutos extraídos de celulares, e os conteúdos são vazados pelo “VILMO” — VAZADOR DE INFORMES CONTRA LULINHA E MORAES — ao arrepio dos próprios delegados que comandam as as Operações Compliance Zero e Sem Desconto. A imprensa chegou a publicar detalhes que nem entraram depois nos dados da investigação. Há uma óbvia quebra da cadeia de custódia de provas.
Mendonça chama os relatórios de inteligência a que apelou Moraes de “clandestinos”, mas deve considerar — porque seus desmandos têm sido aplaudidos — que suas investidas, ao arrepio da lei, contra seu antípoda interno e contra Rodrigues são verdadeiras odes ao devido processo legal. Como sabem os leitores que me acompanham desde 2014, ano de criação da Lava Jato, eu não esperava outro desdobramento. Sempre que um herói se alevanta acima da legalidade, como aconteceu com Sergio Moro então, para fazer justiça com a própria toga, as primeiras vítimas são o devido processo legal e as instituições.
Deve-se admitir o óbvio: Mendonça não quer afastar Moraes em razão de seu suposto envolvimento com o Master. Para tanto, diga-se, teria de apontar os crimes cometidos e apresentar as provas. Ou porque, ainda que sem imputação, vislumbrasse alguma relação promíscua. Fosse assim, teria de se insurgir também contra Dias Toffoli, Nunes Marques e Luiz Fux. E noto: não estou aqui a fazer acusações. Indago os critérios de atuação do ministro e seus princípios. Dois desses três votaram em favor do afastamento de Andrei. Pergunta óbvia: a quem interessa tirá-lo da PF?
Mais: fosse mesmo o caso Master a raiz do ódio a Alexandre — de Mendonça e dos demais bolsonaristas —, o ex-ministro da Justiça de Bolsonaro não teria sido cantado em prosa e verso no ato na Paulista. Há pouco, nas redes sociais, Flávio Bolsonaro comemorou o afastamento de Andrei. Sim, o mesmo Flávio dos US$ 13 milhões de Vorcaro para supostamente fazer um filme… O que se tem é um ajuste de contas.
Há tempos tenho chamado a atenção aqui e em toda parte: vaza tudo dos dois inquéritos contra Lulinha que estão sob a relatoria de Mendonça. O “aparato” que ele criou, como mostra um dos relatórios de inteligência, explica por quê. A investigação ilegal contra Moraes também buscava o terremoto político. Tudo devidamente feito na boca da urna.
Há dois outros detalhes perversos nas 33 páginas redigidas por este homem santo. Ele faz questão de recuperar decisões de Moraes do passado, que nada têm a ver com o caso em tela, como a dizer: “Estou fazendo o mesmo”. E há quem esteja caindo na esparrela. Alguém se lembra de intervenção dessa natureza na Polícia Federal? O único que meteu a mão grande lá foi Bolsonaro.
Mendonça também alude a um voto da ministra Cármen Lúcia que considerou ilegal o monitoramento ideológico, pela Polícia Federal, de professores e servidores. Para lembrar: a Secretaria de Operações Integradas (Seopi) do Ministério da Justiça fez um relatório sigiloso, em junho de 2020, sobre o monitoramento ilegal de um grupo de 579 servidores públicos. Entre os monitorados, considerados integrantes do “movimento antifascismo”, havia professores universitários, além de policiais civis e federais críticos ao governo Bolsonaro. O caso foi revelado pelo UOL. Quem era ministro? Mendonça. Que assumiu a pasta em 29 de abril de 2020, depois de Bolsonaro anunciar que interviria, sim, na Polícia Federal. E interveio.
Leandro Almada, o diretor de Inteligência também afastado, era o Superintendente da PF da Bahia que disse “não” a Anderson Torres, então ministro da Justiça, que está preso, quando recebeu a determinação de barrar potenciais eleitores de Lula na Bahia, em 2022. Silvinei Vasques, então diretor da Polícia Rodoviária Federal, topou a parada. Também está em cana.
Está em curso, reitero, um óbvio “ajuste de contas”. Como Mendonça se tornou o novo ungido, inclusive por setores da imprensa, contra a corrução, então ele se concede todas as licenças, inclusive a do caos. E isso nada tem a ver com investigação.
Procurem saber quem foi Savonarola (1452-1498), o frade dominicano que aterrorizou Florença por um tempo e que nos legou a “fogueira das vaidades”. Considerava-se o inimigo número um da aristocracia corrupta de então e acabou governando a cidade por um tempo sob a égide do terror moralista. Não deu certo nem para os florentinos pobres nem para ele. Ora vejam: Savonarola considerava que o papa Alexandre VI (Rodrigo Borgia) era o grande inimigo da “verdadeira fé”. O frade decidiu, então, para enfrenta-lo, comportar-se como se fosse Alexandre Magno.
Os estudos são ambíguos a respeito do porra-louca. Há dúvidas sobre se acreditava mesmo nos absurdos que dizia ou fazia ou apenas se aproveitava do prestígio de que gozava para o exercício do poder. Uma coisa é certa: não media consequências e parece que não sabia distinguir direito aliados de adversários, tão imerso estava em seu fanatismo.
Desse mal em particular, convenham, não se deve acusar Mendonça. Os seus alvos podem até ter muitos lados. MAS LHE FALTA UM LADO SÓ… Há um esforço para tirar do eleitor o poder de escolha. Trata-se de uma nova face do golpismo, com o apoio de setores da imprensa. E também isso, na história, não é novo.
Vorcaro, Cosimo e a verdadeira virtú de Maquiavel
Preparando a minha aula de ética e política sobre o príncipe de Maquiavel abro os jornais e observo a granada de mão jogada pelo ministro do STF no campo da opinião pública. É fascinante e, ao mesmo tempo, tragicômico, ver a tampa do esgoto ser aberta na praça dos três poderes. De um lado, um ministro pressionado puxa o pino de segurança do artefato bélico e, como bem observou meu amigo analista do campo político, infringe a única lei implícita do corporativismo jurídico e dedura seus próprios colegas de toga. Violou a omertà do magistrado.
Algo que se compara ao assassinato de Francisco Ferdinando em 1914 – estopim da Primeira Guerra, o tiro à queima roupa do ministro do STF culminará, ao ver de muitos, na maior crise política das instituições republicanas nesse grande ano eleitoral de 2026. Mais engraçadas ainda são as ramificações de outros atores do cenário institucional: cenas que envolvem whisky escocês, charutos e assentos em jatinho. Tudo isso me fez pensar o quanto o agente político Daniel Vorcaro, uma peça importante desse tabuleiro, se assemelha ao que Maquiavel chamara de virtù de Cosimo de Médici.
Maquiavel é visto por aqueles que entendem de teoria política como o pensador que inaugura o Realismo Político, a realpolitik e a raison d’état. Palavras bonitas que demonstram, a meu ver, que a contemplação dos affairs institucionais inaugura um tratado muito importante sobre a ação e a ética na vida e na conduta política. Sua principal obra é O príncipe, que fala exatamente disso: a manutenção do poder, interesse nu e a insana e errônea percepção que os meios justificariam os fins. Muita gente por aí lê esta obra e deduz que o príncipe, para manter seu território, deve fazer o que for possível dentro e fora do limite ético – da boa moralidade – para se manter no controle do seu território.
Daniel Vorcaro nunca foi um príncipe de Maquiavel nessa interpretação comum, não só porque ele falhou na missão de conquistar o poder político e mantê-lo, mas também porque está atrás das grades. Nem se pode afirmar que ele agiu com boas intenções, ou seja, não estamos falando de um indivíduo de boa moral na opinião pública. No entanto, ouso afirmar que Vorcaro possuía a famosa reputazione. O caso Master exemplifica, como bem comentou meu outro amigo de política, que, no Brasil de Raymundo Faoro, como ninguém tem, quem tem manda em todo mundo. Mas o que políticos querem ter? No caso, estamos falando de caronas em aviões particulares, de charutos – provavelmente cubanos pois são os mais estimados pelo seu alto valor inflacionado –, e whiskys Macallan que, por possuírem uma poderosa campanha de marketing, são alvos preferidos dos ricos e abastados.
Contudo, voltemos a revisitar a história italiana e do porquê eu considero esta específica similitude. Por ironia da história, Cosimo foi um banqueiro e conduziu, depois do seu pai, o banco Médici, uma das principais instituições bancárias da Europa. Percebemos, ao ler O príncipe, que o sujeito, para alcançar o poder, deve, sobretudo, ter em posse a espada. Francesco Sforza – força na tradução – é o maior exemplo que Maquiavel dá acerca dessa virtù armada. Militar e condottiere italiano, virou duque de Milão pelo uso da força em 1450; nem pela fortuna ou por herança, alçou seu lugar ao sol por sua própria virtù. Porém, essa não é a história toda. Como escreveu Maquiavel em Discursos e histórias florentinas, Sforza precisou da ajuda financeira de um banqueiro muito abastado, que via com bons olhos a tomada de Milão – Cosimo de Médici.
Cosimo reinou em Florença por trinta anos sem ocupar nenhum cargo público. Ele conquistou isso através do dinheiro que investia nas instituições públicas, que gerou o acúmulo do que Maquiavel chama de reputazione. Se engraçou com políticos, foi generoso e fez boas ações, pagou casamentos e obras públicas, mediou conflitos e através disso converteu os seus beneficiários em partidários das suas ações generosas. Quem bancou a produção de um filme da história do ex-presidente? Quem pagou viagem e emprestou aeronaves para membros do judiciário? Quem provavelmente deu de presente caixas de charutos Cohiba e garrafas de destilado escocês?
Estamos diante do que Maquiavel entende como sucesso – mesmo que passageiro – da virtù desarmada. Cosimo não fingiu ser bom nem “bancou o herói”, ele, ao contrário, realmente praticava boas ações que lhe davam reputação. E, na época, a lei não permitia a condenação pública de tamanha generosidade, o que deixou seus rivais impotentes. Maquiavel fala aqui na ampliação da concepção de poder para além da força bruta, a incorporação da dominação através do consentimento fabricado por normas culturais. Algo que posteriormente Max Weber e Antonio Gramsci chamariam de hegemonia.
Temos no Brasil um Cosimo oportunista fichado pela Política Federal e a maior elite do atraso de que nos demos conta, que quer ter o que não tem. Só Deus sabe do que será daqueles que venderam a sua alma por charutos Montecristo, whisky Macallan e assentos em aeronaves para viagens de compras luxuosas. Como disse outra vez o principal ministro envolvido nesse episódio tragicômico: de tédio e monotonia ninguém irá morrer neste ano de eleições, cada dia uma aventura.
Algo que se compara ao assassinato de Francisco Ferdinando em 1914 – estopim da Primeira Guerra, o tiro à queima roupa do ministro do STF culminará, ao ver de muitos, na maior crise política das instituições republicanas nesse grande ano eleitoral de 2026. Mais engraçadas ainda são as ramificações de outros atores do cenário institucional: cenas que envolvem whisky escocês, charutos e assentos em jatinho. Tudo isso me fez pensar o quanto o agente político Daniel Vorcaro, uma peça importante desse tabuleiro, se assemelha ao que Maquiavel chamara de virtù de Cosimo de Médici.
Maquiavel é visto por aqueles que entendem de teoria política como o pensador que inaugura o Realismo Político, a realpolitik e a raison d’état. Palavras bonitas que demonstram, a meu ver, que a contemplação dos affairs institucionais inaugura um tratado muito importante sobre a ação e a ética na vida e na conduta política. Sua principal obra é O príncipe, que fala exatamente disso: a manutenção do poder, interesse nu e a insana e errônea percepção que os meios justificariam os fins. Muita gente por aí lê esta obra e deduz que o príncipe, para manter seu território, deve fazer o que for possível dentro e fora do limite ético – da boa moralidade – para se manter no controle do seu território.
Daniel Vorcaro nunca foi um príncipe de Maquiavel nessa interpretação comum, não só porque ele falhou na missão de conquistar o poder político e mantê-lo, mas também porque está atrás das grades. Nem se pode afirmar que ele agiu com boas intenções, ou seja, não estamos falando de um indivíduo de boa moral na opinião pública. No entanto, ouso afirmar que Vorcaro possuía a famosa reputazione. O caso Master exemplifica, como bem comentou meu outro amigo de política, que, no Brasil de Raymundo Faoro, como ninguém tem, quem tem manda em todo mundo. Mas o que políticos querem ter? No caso, estamos falando de caronas em aviões particulares, de charutos – provavelmente cubanos pois são os mais estimados pelo seu alto valor inflacionado –, e whiskys Macallan que, por possuírem uma poderosa campanha de marketing, são alvos preferidos dos ricos e abastados.
Contudo, voltemos a revisitar a história italiana e do porquê eu considero esta específica similitude. Por ironia da história, Cosimo foi um banqueiro e conduziu, depois do seu pai, o banco Médici, uma das principais instituições bancárias da Europa. Percebemos, ao ler O príncipe, que o sujeito, para alcançar o poder, deve, sobretudo, ter em posse a espada. Francesco Sforza – força na tradução – é o maior exemplo que Maquiavel dá acerca dessa virtù armada. Militar e condottiere italiano, virou duque de Milão pelo uso da força em 1450; nem pela fortuna ou por herança, alçou seu lugar ao sol por sua própria virtù. Porém, essa não é a história toda. Como escreveu Maquiavel em Discursos e histórias florentinas, Sforza precisou da ajuda financeira de um banqueiro muito abastado, que via com bons olhos a tomada de Milão – Cosimo de Médici.
Cosimo reinou em Florença por trinta anos sem ocupar nenhum cargo público. Ele conquistou isso através do dinheiro que investia nas instituições públicas, que gerou o acúmulo do que Maquiavel chama de reputazione. Se engraçou com políticos, foi generoso e fez boas ações, pagou casamentos e obras públicas, mediou conflitos e através disso converteu os seus beneficiários em partidários das suas ações generosas. Quem bancou a produção de um filme da história do ex-presidente? Quem pagou viagem e emprestou aeronaves para membros do judiciário? Quem provavelmente deu de presente caixas de charutos Cohiba e garrafas de destilado escocês?
Estamos diante do que Maquiavel entende como sucesso – mesmo que passageiro – da virtù desarmada. Cosimo não fingiu ser bom nem “bancou o herói”, ele, ao contrário, realmente praticava boas ações que lhe davam reputação. E, na época, a lei não permitia a condenação pública de tamanha generosidade, o que deixou seus rivais impotentes. Maquiavel fala aqui na ampliação da concepção de poder para além da força bruta, a incorporação da dominação através do consentimento fabricado por normas culturais. Algo que posteriormente Max Weber e Antonio Gramsci chamariam de hegemonia.
Temos no Brasil um Cosimo oportunista fichado pela Política Federal e a maior elite do atraso de que nos demos conta, que quer ter o que não tem. Só Deus sabe do que será daqueles que venderam a sua alma por charutos Montecristo, whisky Macallan e assentos em aeronaves para viagens de compras luxuosas. Como disse outra vez o principal ministro envolvido nesse episódio tragicômico: de tédio e monotonia ninguém irá morrer neste ano de eleições, cada dia uma aventura.
Deus escreve reto com linhas tortas
Parecem uma onda, um tsunami. Os Estados Unidos, a Itália, a Argentina, a França, a Espanha, a Colômbia, El Salvador e mais signatários: cada um desses países — e outros — tenta nos convencer de que formam uma espécie de internacional fascista e que, portanto, o poder de cada um se multiplica pelo poder dos outros, de todos juntos.
Isso não é verdade, claro: nem isto. O choque entre o protecionismo arraigado de Trump e as políticas de livre comércio de Milei ou Bukele, por exemplo, seria suficiente para desencadear várias guerras. Mas hoje eu queria me concentrar, sobretudo, na diferença entre seus modelos pessoais. Porque acredito que cada um deles é um representante digno, e ao mesmo tempo indigno, da cultura que, infelizmente, o gerou: uma síntese de sua sociedade.
E eis que chegam, já na passarela onde desfilam uma após a outra, com o braço direito estendido ou apenas a mãozinha:
A mulher italiana é como um mero floreio, um detalhe numa estátua de Bernini, uma surpresa efêmera: onde a história e a lógica fascistas sugerem uma figura austera, com cabelos ralos e um semblante belicoso, os italianos nos oferecem uma loira. Algo como o completo oposto: uma tentativa de mostrar que se pode ser de extrema-direita e, ao mesmo tempo, uma pessoa moderna, amigável e sorridente. Que a extrema-direita é para todos, que eles não são mais aqueles tiranos antiquados; que pode ser qualquer um, você e eu, aquela jovem. É uma tentativa louvável, mas italiana: desmorona rapidamente. Um dia ela finge confrontar Trump; dois dias depois, responde-lhe com “sim, senhor”.
O americano é o epítome da leveza, a bolha: em contraste com aqueles cavalheiros que levavam tudo tão a sério, que transformavam a vida num conjunto de regras invioláveis — um verdadeiro saco —, agora temos um velho despreocupado , com o cabelo e a pele tingidos, que dá passinhos de dança imitando minha avó para que você não se esqueça de que ele também é isso, um estuprador condenado que nunca foi preso, alguém que faz o que quer, quando quer, porque quer. A leveza reside no fato de que não é preciso fazer beicinho ao matar centenas de meninas em escolas distantes. Que podemos fazer isso como se não nos importássemos, simplesmente porque podemos: porque nós — tentam dizer — ainda estamos no comando. O problema é o exagero deles: acabamos acreditando no contrário.
O argentino é um espelho: ele concluiu que, se a sociedade argentina era um caos inextricável, ele seria tão ruim quanto — ou pior —, é claro. Porque a essência da caricatura é exagerar aquilo que caricatura. Funcionou para ele no início, e milhões se identificaram com ele: “Ele sabe que isso não está certo, ele sabe disso por experiência própria”. Mas é difícil manter o ritmo: o caos, se continuar, torna-se a norma, e doses cada vez maiores são necessárias para continuar produzindo o mesmo Efeito Caos. E chega um ponto em que o mecanismo sai do controle, e o pobre palhaço que trabalhava tanto mimando quanto minando seu país se torna um fantoche quebrado. É triste vê-lo nesse estado. (Ver a nós mesmos nesse estado é mais do que triste: é humilhante.)
A francesa é outra forma de caricatura: aquela que não admite, a bonequinha. Bonecas são assustadoras porque são exatamente o que deveriam ser: são assim de uma forma imutável, sempre as mesmas, sempre as mesmas. Marine Le Pen se apresenta como uma boneca — uma caricatura involuntária — da típica burguesa francesa, uma mulher enérgica, mas sensata, uma daquelas que precisam viver para conter a violência do marido — que, neste caso, é o pai dela. Essa é a sua arma mais poderosa: ela se aproveita da comparação. Ela será sempre um pouco menos brutal que o pai e tão francesa e tão defensora das tradições antigas quanto ele. Embora ela tenha um problema: aquelas senhoras, naqueles salões, geralmente não usavam tornozeleiras eletrônicas como as de prisioneiras.
O salvadorenho é uma construção astuta de opostos: um jovem elegante, com sua barba por fazer, seu sorriso, seus bonés ao estilo de Miami — todo aquele charme mimado e herdado, plantado sobre a base de centenas de corpos empilhados e arruinados, restos mortais despojados de sua própria essência. Em uma cultura de confronto, um país que mata há décadas, Bukele encena o desfecho dessa guerra: os vilões finalmente perdem porque ele está disposto a estripá-los, a transformá-los em carniça. O presidente sozinho é insignificante; o presidente em pé sobre aqueles restos mortais despedaçados é uma imagem aterradora. Bukele usa a astúcia de parecer triunfante o tempo todo: ele cairá quando, através de Goya ou Faro , todos nós testemunharmos os Caprichos de sua guerra, suas garras carnívoras.
O colombiano não poderia ser mais apropriado: o homem parece ser a expressão quintessencial — falsificada na China — de uma sociedade que se tornou aspiracional quando alguns comerciantes de classe média obtiveram tanto sucesso que se viram com uma quantia exorbitante de dinheiro e tiveram que inventar novas e exóticas maneiras de usá-lo, dedicando incontáveis esforços e hipopótamos à tarefa. Ao fazer isso, eles também inundaram seu mercado interno com dinheiro e mais dinheiro, e a cultura local com a ideia de que o sucesso só vale a pena se você puder esfregá-lo na cara do seu vizinho. E que só existe sucesso no triunfo individual. Aí reside a piada: se alguém grita que seu triunfo consiste em prejudicar todos os outros, como os outros podem escolhê-lo, presumindo que ele não os prejudicará? De qualquer forma, a armadilha está armada: eventualmente, entenderemos que esse homem personifica — involuntariamente — a crítica mais extrema a uma cultura que pressupõe que, quando você pode escolher o que realmente deseja, você escolhe ser inútil.
E isso nos deixa, por hoje, com o espanhol, um caso bem menor, um funcionário público que trabalha para algum partido de direita há 25 anos. Parece que o homem ou não queria ou não conseguia pensar: que se rendeu sem resistência ao suposto literalismo ibérico. Na Espanha, dizem, as coisas devem ser o que são. O Sr. Abascal é um fascista, exatamente como os fascistas devem ser nos sonhos de suas mães fascistas, céus: um homem grande, um pouco acima do peso, que sempre usa roupas tão apertadas que ficam à mostra, com cara de vilão de filme ruim, barba de barbeiro barato e a expressão perpetuamente severa de quem carrega muitos destinos nos ombros e uma espingarda de brinquedo. O Sr. Abascal é, de cabo a rabo, um vilão de brinquedo. Tudo é um brinquedo: seu destino depende da infantilidade de seus compatriotas.
Alguns estão aqui, outros estão desaparecidos. Todos querem tirar proveito de alguma característica de seus países e culturas. Eles procuram, buscam uns aos outros: todos falam muito sobre seu deus, mas nenhum deles acredita que seu deus os tenha feito como são. Eles sabem — todos sabem — que seu deus escreve reto com linhas tortas.
Isso não é verdade, claro: nem isto. O choque entre o protecionismo arraigado de Trump e as políticas de livre comércio de Milei ou Bukele, por exemplo, seria suficiente para desencadear várias guerras. Mas hoje eu queria me concentrar, sobretudo, na diferença entre seus modelos pessoais. Porque acredito que cada um deles é um representante digno, e ao mesmo tempo indigno, da cultura que, infelizmente, o gerou: uma síntese de sua sociedade.
E eis que chegam, já na passarela onde desfilam uma após a outra, com o braço direito estendido ou apenas a mãozinha:
A mulher italiana é como um mero floreio, um detalhe numa estátua de Bernini, uma surpresa efêmera: onde a história e a lógica fascistas sugerem uma figura austera, com cabelos ralos e um semblante belicoso, os italianos nos oferecem uma loira. Algo como o completo oposto: uma tentativa de mostrar que se pode ser de extrema-direita e, ao mesmo tempo, uma pessoa moderna, amigável e sorridente. Que a extrema-direita é para todos, que eles não são mais aqueles tiranos antiquados; que pode ser qualquer um, você e eu, aquela jovem. É uma tentativa louvável, mas italiana: desmorona rapidamente. Um dia ela finge confrontar Trump; dois dias depois, responde-lhe com “sim, senhor”.
O americano é o epítome da leveza, a bolha: em contraste com aqueles cavalheiros que levavam tudo tão a sério, que transformavam a vida num conjunto de regras invioláveis — um verdadeiro saco —, agora temos um velho despreocupado , com o cabelo e a pele tingidos, que dá passinhos de dança imitando minha avó para que você não se esqueça de que ele também é isso, um estuprador condenado que nunca foi preso, alguém que faz o que quer, quando quer, porque quer. A leveza reside no fato de que não é preciso fazer beicinho ao matar centenas de meninas em escolas distantes. Que podemos fazer isso como se não nos importássemos, simplesmente porque podemos: porque nós — tentam dizer — ainda estamos no comando. O problema é o exagero deles: acabamos acreditando no contrário.
O argentino é um espelho: ele concluiu que, se a sociedade argentina era um caos inextricável, ele seria tão ruim quanto — ou pior —, é claro. Porque a essência da caricatura é exagerar aquilo que caricatura. Funcionou para ele no início, e milhões se identificaram com ele: “Ele sabe que isso não está certo, ele sabe disso por experiência própria”. Mas é difícil manter o ritmo: o caos, se continuar, torna-se a norma, e doses cada vez maiores são necessárias para continuar produzindo o mesmo Efeito Caos. E chega um ponto em que o mecanismo sai do controle, e o pobre palhaço que trabalhava tanto mimando quanto minando seu país se torna um fantoche quebrado. É triste vê-lo nesse estado. (Ver a nós mesmos nesse estado é mais do que triste: é humilhante.)
A francesa é outra forma de caricatura: aquela que não admite, a bonequinha. Bonecas são assustadoras porque são exatamente o que deveriam ser: são assim de uma forma imutável, sempre as mesmas, sempre as mesmas. Marine Le Pen se apresenta como uma boneca — uma caricatura involuntária — da típica burguesa francesa, uma mulher enérgica, mas sensata, uma daquelas que precisam viver para conter a violência do marido — que, neste caso, é o pai dela. Essa é a sua arma mais poderosa: ela se aproveita da comparação. Ela será sempre um pouco menos brutal que o pai e tão francesa e tão defensora das tradições antigas quanto ele. Embora ela tenha um problema: aquelas senhoras, naqueles salões, geralmente não usavam tornozeleiras eletrônicas como as de prisioneiras.
O salvadorenho é uma construção astuta de opostos: um jovem elegante, com sua barba por fazer, seu sorriso, seus bonés ao estilo de Miami — todo aquele charme mimado e herdado, plantado sobre a base de centenas de corpos empilhados e arruinados, restos mortais despojados de sua própria essência. Em uma cultura de confronto, um país que mata há décadas, Bukele encena o desfecho dessa guerra: os vilões finalmente perdem porque ele está disposto a estripá-los, a transformá-los em carniça. O presidente sozinho é insignificante; o presidente em pé sobre aqueles restos mortais despedaçados é uma imagem aterradora. Bukele usa a astúcia de parecer triunfante o tempo todo: ele cairá quando, através de Goya ou Faro , todos nós testemunharmos os Caprichos de sua guerra, suas garras carnívoras.
O colombiano não poderia ser mais apropriado: o homem parece ser a expressão quintessencial — falsificada na China — de uma sociedade que se tornou aspiracional quando alguns comerciantes de classe média obtiveram tanto sucesso que se viram com uma quantia exorbitante de dinheiro e tiveram que inventar novas e exóticas maneiras de usá-lo, dedicando incontáveis esforços e hipopótamos à tarefa. Ao fazer isso, eles também inundaram seu mercado interno com dinheiro e mais dinheiro, e a cultura local com a ideia de que o sucesso só vale a pena se você puder esfregá-lo na cara do seu vizinho. E que só existe sucesso no triunfo individual. Aí reside a piada: se alguém grita que seu triunfo consiste em prejudicar todos os outros, como os outros podem escolhê-lo, presumindo que ele não os prejudicará? De qualquer forma, a armadilha está armada: eventualmente, entenderemos que esse homem personifica — involuntariamente — a crítica mais extrema a uma cultura que pressupõe que, quando você pode escolher o que realmente deseja, você escolhe ser inútil.
E isso nos deixa, por hoje, com o espanhol, um caso bem menor, um funcionário público que trabalha para algum partido de direita há 25 anos. Parece que o homem ou não queria ou não conseguia pensar: que se rendeu sem resistência ao suposto literalismo ibérico. Na Espanha, dizem, as coisas devem ser o que são. O Sr. Abascal é um fascista, exatamente como os fascistas devem ser nos sonhos de suas mães fascistas, céus: um homem grande, um pouco acima do peso, que sempre usa roupas tão apertadas que ficam à mostra, com cara de vilão de filme ruim, barba de barbeiro barato e a expressão perpetuamente severa de quem carrega muitos destinos nos ombros e uma espingarda de brinquedo. O Sr. Abascal é, de cabo a rabo, um vilão de brinquedo. Tudo é um brinquedo: seu destino depende da infantilidade de seus compatriotas.
Alguns estão aqui, outros estão desaparecidos. Todos querem tirar proveito de alguma característica de seus países e culturas. Eles procuram, buscam uns aos outros: todos falam muito sobre seu deus, mas nenhum deles acredita que seu deus os tenha feito como são. Eles sabem — todos sabem — que seu deus escreve reto com linhas tortas.
terça-feira, 8 de setembro de 2026
O perigo da anomia: eles estão de volta...
Seria assim um Tribunal Superior Eleitoral (TSE), aparentemente rigoroso, se não houvesse tanta conveniência jurisprudencial entre juízes, governantes e políticos. As eleições no Brasil, depois de apuradas, resultaram quase sempre em questionamentos sobre os resultados oficiais. E o que está acontecendo nesta de 2026? Para concorrer nas eleições de outubro, os partidos políticos estão desobrigados de pagar previamente multas por transgressões eleitorais cometidas nos pleitos anteriores e os políticos condenados na Justiça por corrupção, cumprida a pena, estão livre para candidatar-se. As Leis Complementares nº 135, de 2010, conhecida, como "Lei da Ficha Limpa", emendada pela Lei Complementar nº 64/1990 ("Lei das Inelegibilidades") parecem ter perdido a validade, à luz desse imbroglio que envolve, hoje, o Judiciário e, individualmente, o histórico e as relações entre ministros que o compõem.
O combate explícito à figura dos "fichas sujas" surgiu (2008-2010) com a finalidade de cobrar a elevação do nível de idoneidade ética e moral dos partidos e dos candidatos à disputa de um mandado político ou à indicação para um cargo público. Nasceu de grandes mobilizações de rua, consolidadas nos dois projetos de leis de iniciativa popular, que reuniram 1,6 milhão assinaturas.
A lei da "Ficha Limpa" arrastou-se ainda lenta e controversa no Supremo Tribunal Federal, onde, embora em plena vigência é ainda questionada. Nos últimos cincos anos, o valor devido à Justiça Eleitoral, em multas e punições, pelos partidos políticos, por irregularidade na aplicação do Fundo Partidário, na omissão ou falsidade na prestação de contas chegou a R$ 340 milhões. A cada eleição, os partidos dão um sinal de suposta boa vontade, ressarcindo parte da dívida, sem interromper a reprodução das irregularidades promovidas no pleito anterior. Somado tudo, o calote dos partidos políticos na Justiça estaria ultrapassando a casa de R$ 1 bilhão. Tudo é negociável no cenário que aí está.
Veja-se então: por meio de uma Emenda Constitucional, no. 133, DOU de 23.8.2024, o art. 6º, os partidos políticos e seus institutos ou fundações passaram a ter autorização do TSE para usar os recursos do Fundo Partidário, oriundo do Tesouro, para o parcelamento de sanções e penalidades das multas eleitorais, e até de outros débitos de natureza não eleitorais, inclusive os de origem não identificada, com exceção dos recursos vindos de fontes explicitamente proibidas. Por motivos não explícitos, o Tribunal faz vista grossa na cobrança antecipada.
O art. 7º da mesma PEC no. 133/2024, explicita que o disposto na Emenda aplica–se aos órgãos partidários nacionais, estaduais, municipais e zonais. Estão incluídos nessa condição os processos de prestação de contas de exercícios financeiros e eleitorais, independentemente de terem sido julgados ou de estarem em execução, mesmo que transitados em julgado. A ameaça é apenas uma referência a disposição constitucional que permite sejam aplicadas sanções retroativamente no momento do pagamento das multas eleitorais com recursos do Fundo Partidário.
A não aprovação das contas, de conformidade com art. 37, caput, da Lei 9.096/1995, possui dupla cominação: obrigação da devolução do montante irregular. Não se confunde com sanção. É tratada como recomposição de valores; e multa, a ser ressarcida com recursos do Fundo Partidário. O ressarcimento ao Erário não é considerado penalidade, desde que feito com recursos do partido. Flexibiliza-se o rigor do ressarcimento ao Tesouro. A inadimplência dos partidos não leva a nada. Existe uma tolerância acordada, pois praticamente, todos os 29 partidos tem dívida com a Justiça Eleitoral. Por outro lado, enfrenta a Justiça nada tranquila no desafio de mais de 800 processos de políticos "fichas sujas" pleiteando, mesmo assim, uma nova candidatura. Perto de mil políticos condenados remanescentes dos 1,5 "fichas sujas" do período anterior, estão tentando retornar em 2026, sem terem cumprido as penalidades legais ou o tenham feito parcialmente. As transgressões deram visibilidade popular tamanha a essas pessoas que eles se tornaram candidatos naturais dentro dos Partidos.
A possibilidade do retorno de políticos considerados "fichas sujas"- por conseguinte, cassados, presos, multados - tornou-se o centro de um intenso embate jurídico e político entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal. Decorre da aprovação da Lei Complementar nº 219/2025, que flexibilizou as regras para os "Fichas Sujas" ao alterar significativamente a contagem dos prazos de inelegibilidade. No Distrito Federal existe o caso do ex-governador José Roberto Arruda que está há 16 anos fora a política. O prazo da inelegibilidade, dependendo do grau da transgressão, chega, no máximo, a 15 anos. Ele está sendo atingido pela LC nº 219/2025, que começou a contar o prazo da sua inelegibilidade em 2018.
As transgressões de que são acusados esses candidatos sentenciados, variam de desvios direto de verbas públicas, fraudes em licitações, subornos, convênios fraudulentos, superfaturamentos, aluguéis irregulares de imóveis públicos. São dezenas os tipos de irregularidades. Os valores desviados pelos partidos ou políticos em exercício variam de R$ 3 milhões a R$ 115 milhões. Envolvem mais de 500 prefeitos, vereadores, governadores, deputados, senadores e até pessoal do alto escalão no Executivo e no Judiciário. Políticos conhecidos e influentes estão classificados na lista dos "fichas sujas".
Esse jogo jurisprudencial praticado no Judiciário dá cobertura a omissões, a distorções e até a mudança de votos dentro dos plenários. O mesmo juiz que inocentou, lá atrás, José Roberto Arruda está agora votando contra a sua candidatura ao governo do DF. A fragilização da Justiça desqualifica as instituições e enfraquece o processo constitucional. Ao mesmo tempo, contrariam-se as grandes mobilizações populares que deram origem à Lei da Ficha Limpa, inspirada nos seguidos eventos transgressores na política. Os "cara de pau", partidos e pessoas condenadas pela Justiça, e que cumpriram penas na cadeia mesmo por corrupção, brigam para retornar ao local do crime. O difícil é explicar o por quê políticos com "folhas corridas" como essas pretendem retornar a um mandato político ou ocupar um cargo público. Aos cidadãos: A anomia é um perigo. De repente, você se vê votando em partidos e pessoas tidas, segundo a legislação criminal, como "delinquentes". É um desastre para a imagem dos brasileiros e do Brasil!
O combate explícito à figura dos "fichas sujas" surgiu (2008-2010) com a finalidade de cobrar a elevação do nível de idoneidade ética e moral dos partidos e dos candidatos à disputa de um mandado político ou à indicação para um cargo público. Nasceu de grandes mobilizações de rua, consolidadas nos dois projetos de leis de iniciativa popular, que reuniram 1,6 milhão assinaturas.
A lei da "Ficha Limpa" arrastou-se ainda lenta e controversa no Supremo Tribunal Federal, onde, embora em plena vigência é ainda questionada. Nos últimos cincos anos, o valor devido à Justiça Eleitoral, em multas e punições, pelos partidos políticos, por irregularidade na aplicação do Fundo Partidário, na omissão ou falsidade na prestação de contas chegou a R$ 340 milhões. A cada eleição, os partidos dão um sinal de suposta boa vontade, ressarcindo parte da dívida, sem interromper a reprodução das irregularidades promovidas no pleito anterior. Somado tudo, o calote dos partidos políticos na Justiça estaria ultrapassando a casa de R$ 1 bilhão. Tudo é negociável no cenário que aí está.
Veja-se então: por meio de uma Emenda Constitucional, no. 133, DOU de 23.8.2024, o art. 6º, os partidos políticos e seus institutos ou fundações passaram a ter autorização do TSE para usar os recursos do Fundo Partidário, oriundo do Tesouro, para o parcelamento de sanções e penalidades das multas eleitorais, e até de outros débitos de natureza não eleitorais, inclusive os de origem não identificada, com exceção dos recursos vindos de fontes explicitamente proibidas. Por motivos não explícitos, o Tribunal faz vista grossa na cobrança antecipada.
O art. 7º da mesma PEC no. 133/2024, explicita que o disposto na Emenda aplica–se aos órgãos partidários nacionais, estaduais, municipais e zonais. Estão incluídos nessa condição os processos de prestação de contas de exercícios financeiros e eleitorais, independentemente de terem sido julgados ou de estarem em execução, mesmo que transitados em julgado. A ameaça é apenas uma referência a disposição constitucional que permite sejam aplicadas sanções retroativamente no momento do pagamento das multas eleitorais com recursos do Fundo Partidário.
A não aprovação das contas, de conformidade com art. 37, caput, da Lei 9.096/1995, possui dupla cominação: obrigação da devolução do montante irregular. Não se confunde com sanção. É tratada como recomposição de valores; e multa, a ser ressarcida com recursos do Fundo Partidário. O ressarcimento ao Erário não é considerado penalidade, desde que feito com recursos do partido. Flexibiliza-se o rigor do ressarcimento ao Tesouro. A inadimplência dos partidos não leva a nada. Existe uma tolerância acordada, pois praticamente, todos os 29 partidos tem dívida com a Justiça Eleitoral. Por outro lado, enfrenta a Justiça nada tranquila no desafio de mais de 800 processos de políticos "fichas sujas" pleiteando, mesmo assim, uma nova candidatura. Perto de mil políticos condenados remanescentes dos 1,5 "fichas sujas" do período anterior, estão tentando retornar em 2026, sem terem cumprido as penalidades legais ou o tenham feito parcialmente. As transgressões deram visibilidade popular tamanha a essas pessoas que eles se tornaram candidatos naturais dentro dos Partidos.
De repente, você se vê votando em partidos e pessoas tidas, segundo a legislação criminal, como "delinquentes"
A possibilidade do retorno de políticos considerados "fichas sujas"- por conseguinte, cassados, presos, multados - tornou-se o centro de um intenso embate jurídico e político entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal. Decorre da aprovação da Lei Complementar nº 219/2025, que flexibilizou as regras para os "Fichas Sujas" ao alterar significativamente a contagem dos prazos de inelegibilidade. No Distrito Federal existe o caso do ex-governador José Roberto Arruda que está há 16 anos fora a política. O prazo da inelegibilidade, dependendo do grau da transgressão, chega, no máximo, a 15 anos. Ele está sendo atingido pela LC nº 219/2025, que começou a contar o prazo da sua inelegibilidade em 2018.
As transgressões de que são acusados esses candidatos sentenciados, variam de desvios direto de verbas públicas, fraudes em licitações, subornos, convênios fraudulentos, superfaturamentos, aluguéis irregulares de imóveis públicos. São dezenas os tipos de irregularidades. Os valores desviados pelos partidos ou políticos em exercício variam de R$ 3 milhões a R$ 115 milhões. Envolvem mais de 500 prefeitos, vereadores, governadores, deputados, senadores e até pessoal do alto escalão no Executivo e no Judiciário. Políticos conhecidos e influentes estão classificados na lista dos "fichas sujas".
Esse jogo jurisprudencial praticado no Judiciário dá cobertura a omissões, a distorções e até a mudança de votos dentro dos plenários. O mesmo juiz que inocentou, lá atrás, José Roberto Arruda está agora votando contra a sua candidatura ao governo do DF. A fragilização da Justiça desqualifica as instituições e enfraquece o processo constitucional. Ao mesmo tempo, contrariam-se as grandes mobilizações populares que deram origem à Lei da Ficha Limpa, inspirada nos seguidos eventos transgressores na política. Os "cara de pau", partidos e pessoas condenadas pela Justiça, e que cumpriram penas na cadeia mesmo por corrupção, brigam para retornar ao local do crime. O difícil é explicar o por quê políticos com "folhas corridas" como essas pretendem retornar a um mandato político ou ocupar um cargo público. Aos cidadãos: A anomia é um perigo. De repente, você se vê votando em partidos e pessoas tidas, segundo a legislação criminal, como "delinquentes". É um desastre para a imagem dos brasileiros e do Brasil!
'Ninguém está preparado para as consequências da inteligência artificial'
O cientista-chefe da OpenAI, Jakub Pachocki, pediu "extrema cautela" em relação ao progresso desenfreado da inteligência artificial e alertou que pode ser necessário aumentar as intervenções para garantir que "os seres humanos permaneçam no controle do futuro".
"Receio que ninguém esteja preparado para as consequências de um aumento rápido e contínuo da inteligência das máquinas", escreveu ele em uma postagem intitulada An Alien Mind ("Uma mente alienígena", em tradução livre), publicada no blog da empresa.
A postagem surgiu poucos dias depois que o fabricante do ChatGPT publicou seu último modelo, o GPT-6 Astra, considerado o produto mais poderoso da empresa até aqui.
A OpenAI e outras empresas de IA, como a Anthropic, relataram que seus agentes de IA já agiram de forma autônoma, realizando ciberataques reais contra outras empresas.
Em julho, a OpenAI divulgou um incidente "sem precedentes", no qual seus agentes de IA (sistemas de IA que podem operar isoladamente, com base em instruções humanas) hackearam a plataforma de tecnologia Hugging Face.
Paralelamente, um relatório publicado em setembro afirmou que, meses atrás, agentes de IA da empresa também sequestraram um website alemão.
"Estamos enfrentando uma transição para um mundo com máquinas incrivelmente inteligentes e precisamos garantir que a transição funcione bem para a humanidade", escreveu Pachocki na sua postagem.
Ele afirma que a OpenAI continuará a "construir sistemas defensivos" e buscar soluções técnicas para alinhamento, um termo usado para descrever formas de garantir que as ações e os objetivos da máquina coincidam com os limites de segurança e intenção humanas.
Pachocki destacou que uma das principais prioridades da empresa para o futuro seria construir um "pesquisador automático por IA" para acompanhar o progresso da inteligência artificial, garantindo, ao mesmo tempo, formas para que os pesquisadores humanos permaneçam sendo parte do processo.
"Em vez de melhores limites para a IA, regulamentações ou formas de garantir a segurança das pessoas, eles propõem o desenvolvimento de agentes de IA internos para pesquisar esses problemas", afirma a professora Gina Neff, diretora do Centro Minderoo de Tecnologia e Democracia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Para ela, "essas respostas a preocupações cada vez maiores sobre os problemas causados pelos modelos da OpenAI para a cibersegurança, perda de empregos, erros e fraudes simplesmente não são suficientes".
Nathan Calvin, consultor geral do grupo ativista Encode AI, concorda com Pachocki sobre os riscos existentes no desenvolvimento avançado de modelos de IA. Mas ele afirma que a OpenAI não está disposta a ser transparente.
Com isso, os alertas correm o risco de serem minimizados como "simples exageros por interesse próprio".
"Se Jakub e outros da OpenAI querem que pessoas relevantes do setor de IA ajam em conjunto com eles para fazer com que tudo saia bem, uma das ações mais importantes que eles podem tomar é divulgar muito mais informações sobre as causas que os levaram a pedir cautela", escreveu ele no X.
As regulamentações globais enfrentam dificuldade para acompanhar a velocidade do desenvolvimento da inteligência artificial.
No dia 2 de agosto, entrou em vigor a Lei de IA da União Europeia. Ela exige que as gigantes da IA, como a OpenAI, comprovem que seus modelos mais poderosos não podem lançar ciberataques autônomos, nem fugir do controle humano, para que sua venda na Europa seja permitida.
Mas, como a jurisdição da lei é restrita à Europa, ela não pode impedir que uma IA mal intencionada desenvolvida em outra parte do mundo ameace o continente.
Na sua postagem, Pachocki pede limites mínimos de segurança exigidos por lei ou internacionalmente, que possam ser implementados por uma "rede de auditores terceirizados" ou "agências governamentais".
Todos os laboratórios precisariam respeitar estes limites, segundo eles, antes de serem autorizados a continuar desenvolvendo ou ampliando seus modelos avançados.
Ele destaca esperar que "reduções voluntárias da velocidade" (pausas no desenvolvimento da IA autoimpostas pelas próprias empresas) se tornem normais até que sejam estabelecidos limites comuns.
Em agosto, a OpenAI declarou ter reduzido o treinamento de alguns dos seus modelos mais avançados de IA para aumentar a segurança.
"Receio que ninguém esteja preparado para as consequências de um aumento rápido e contínuo da inteligência das máquinas", escreveu ele em uma postagem intitulada An Alien Mind ("Uma mente alienígena", em tradução livre), publicada no blog da empresa.
A postagem surgiu poucos dias depois que o fabricante do ChatGPT publicou seu último modelo, o GPT-6 Astra, considerado o produto mais poderoso da empresa até aqui.
A OpenAI e outras empresas de IA, como a Anthropic, relataram que seus agentes de IA já agiram de forma autônoma, realizando ciberataques reais contra outras empresas.
Em julho, a OpenAI divulgou um incidente "sem precedentes", no qual seus agentes de IA (sistemas de IA que podem operar isoladamente, com base em instruções humanas) hackearam a plataforma de tecnologia Hugging Face.
Paralelamente, um relatório publicado em setembro afirmou que, meses atrás, agentes de IA da empresa também sequestraram um website alemão.
"Estamos enfrentando uma transição para um mundo com máquinas incrivelmente inteligentes e precisamos garantir que a transição funcione bem para a humanidade", escreveu Pachocki na sua postagem.
Ele afirma que a OpenAI continuará a "construir sistemas defensivos" e buscar soluções técnicas para alinhamento, um termo usado para descrever formas de garantir que as ações e os objetivos da máquina coincidam com os limites de segurança e intenção humanas.
Pachocki destacou que uma das principais prioridades da empresa para o futuro seria construir um "pesquisador automático por IA" para acompanhar o progresso da inteligência artificial, garantindo, ao mesmo tempo, formas para que os pesquisadores humanos permaneçam sendo parte do processo.
"Em vez de melhores limites para a IA, regulamentações ou formas de garantir a segurança das pessoas, eles propõem o desenvolvimento de agentes de IA internos para pesquisar esses problemas", afirma a professora Gina Neff, diretora do Centro Minderoo de Tecnologia e Democracia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Para ela, "essas respostas a preocupações cada vez maiores sobre os problemas causados pelos modelos da OpenAI para a cibersegurança, perda de empregos, erros e fraudes simplesmente não são suficientes".
Nathan Calvin, consultor geral do grupo ativista Encode AI, concorda com Pachocki sobre os riscos existentes no desenvolvimento avançado de modelos de IA. Mas ele afirma que a OpenAI não está disposta a ser transparente.
Com isso, os alertas correm o risco de serem minimizados como "simples exageros por interesse próprio".
"Se Jakub e outros da OpenAI querem que pessoas relevantes do setor de IA ajam em conjunto com eles para fazer com que tudo saia bem, uma das ações mais importantes que eles podem tomar é divulgar muito mais informações sobre as causas que os levaram a pedir cautela", escreveu ele no X.
As regulamentações globais enfrentam dificuldade para acompanhar a velocidade do desenvolvimento da inteligência artificial.
No dia 2 de agosto, entrou em vigor a Lei de IA da União Europeia. Ela exige que as gigantes da IA, como a OpenAI, comprovem que seus modelos mais poderosos não podem lançar ciberataques autônomos, nem fugir do controle humano, para que sua venda na Europa seja permitida.
Mas, como a jurisdição da lei é restrita à Europa, ela não pode impedir que uma IA mal intencionada desenvolvida em outra parte do mundo ameace o continente.
Na sua postagem, Pachocki pede limites mínimos de segurança exigidos por lei ou internacionalmente, que possam ser implementados por uma "rede de auditores terceirizados" ou "agências governamentais".
Todos os laboratórios precisariam respeitar estes limites, segundo eles, antes de serem autorizados a continuar desenvolvendo ou ampliando seus modelos avançados.
Ele destaca esperar que "reduções voluntárias da velocidade" (pausas no desenvolvimento da IA autoimpostas pelas próprias empresas) se tornem normais até que sejam estabelecidos limites comuns.
Em agosto, a OpenAI declarou ter reduzido o treinamento de alguns dos seus modelos mais avançados de IA para aumentar a segurança.
Reprimenda ao 'burro'
Está na moda o candidato chegar na televisão e falar do futuro. Quando alguém falar de futuro, você precisa estudar a vida de quem está falando para saber o que ele fez. Quem não fez nada no passado não vai fazer nada no futuro. É preciso que vocês conheçam a história.
Lula
Lula
Você está com medo?
O medo está no ar, como o amor estava naquela canção boba dos anos setenta. O medo nos persegue, e eu diria que sua presença se intensificou neste verão. “Você não tem medo?”, vários amigos me perguntaram, naquele jeito tímido com que expressamos algo que não queremos admitir. Será que temos medo? Ouvi Antonio Scurati, autor do monumental romance *M*, o grande romance sobre Mussolini, se referir ao medo como a principal semelhança entre aqueles anos e estes. Naquela época, as pessoas se identificavam apenas com cores fortes, vermelho e preto, quando se esperava que alguém se conectasse com a pior parte dos italianos, suas entranhas, suas vísceras, a fonte do medo, do descontentamento, da desilusão, do abandono e da traição. É a mesma aposta, diz Scurati, que a extrema direita está fazendo hoje. Incitar o medo é tão perigoso que muitas vezes se torna um sentimento estéril. De que adianta o medo se somos incapazes de perceber como os destruidores da nossa convivência estão colonizando nossas mentes? Isso não nos impressiona; nos rendemos ao seu poder diariamente, usando as redes sociais ou a inteligência artificial (IA) como se nossas ações não fossem inerentemente contrárias a uma resistência cívica na qual gostaríamos de acreditar, mas que, por enquanto, só expressamos nos Stories do Instagram . Somos como o sindicato vertical: alimentamos a estrutura de poder. E em meio a incêndios e guerras híbridas, o artigo de Timothy Garton Ash, “Estamos caminhando para uma Hiroshima da IA?”, foi esquecido neste verão. Seu grito de alarme não gerou um único comentário nas inúmeras discussões que povoam o cenário midiático. O que não é discutido não existe. Garton Ash alerta para uma possível tragédia causada pela IA desregulamentada, algo iminente. O que é assustador, segundo o autor, é que talvez essa seja a única maneira pela qual os poderes constituídos reagirão, ou nós reagiremos, ou nem isso, se o cataclismo estiver tão distante que não possamos sentir seu impacto.
Foi isso que a historiadora Margaret MacMillan escreveu em uma reflexão publicada pelo The New York Times, ” Uma Nova Ordem Está Chegando. Não Estamos Preparados”: “Enquanto pedimos à IA que pense por nós, que nos diga como treinar um animal de estimação ou escrever uma carta, esperamos que as guerras terminem, que as instituições e alianças sejam reconstruídas e que o mundo como o conhecemos se recupere e perdure.” A história, diz MacMillan, nos mostra precisamente como as convulsões às quais o curso dos acontecimentos nos submete sempre pegaram os poderosos de surpresa: aqueles que entregaram o trono a Hitler ingenuamente pensaram que o controlariam; nem os czares nem a monarquia francesa pressentiram a chegada da revolução. A vaidade dos poderosos é fabulosa; eles acreditam que o povo os ama e quer que permaneçam no trono. Não é isso que Trump pensa? O que incomoda é que o historiador aponta conflitos que nos afetam e nos conectam a todos e que só serão resolvidos, ao menos a ponto de garantir nossa sobrevivência, se houver acordos entre a comunidade internacional, hoje sujeita a oscilações imprevisíveis e a uma velocidade inadequada para a mente humana (mas não para a artificial).
Esses pensamentos, sendo um alerta urgente do que está por vir, sempre me deixam com a sensação de que, para aliviar esse medo bem fundamentado, alguém poderia oferecer ideias sobre o que podemos fazer a partir da nossa posição de cidadãos impotentes em uma sociedade tão mal organizada (exceto em shows da Shakira). O diagnóstico está correto, mas não sabemos o tratamento, a cura imediata para evitar o desastre. Como diz o provérbio, enquanto o sábio vê o perigo e o evita, o tolo ignora os sinais de alerta. Hoje, o tolo os ignora, entre outras coisas, porque poucas pessoas leem com afinco. Como, então, vamos nos proteger dessa ignorância que alimenta o medo?
Foi isso que a historiadora Margaret MacMillan escreveu em uma reflexão publicada pelo The New York Times, ” Uma Nova Ordem Está Chegando. Não Estamos Preparados”: “Enquanto pedimos à IA que pense por nós, que nos diga como treinar um animal de estimação ou escrever uma carta, esperamos que as guerras terminem, que as instituições e alianças sejam reconstruídas e que o mundo como o conhecemos se recupere e perdure.” A história, diz MacMillan, nos mostra precisamente como as convulsões às quais o curso dos acontecimentos nos submete sempre pegaram os poderosos de surpresa: aqueles que entregaram o trono a Hitler ingenuamente pensaram que o controlariam; nem os czares nem a monarquia francesa pressentiram a chegada da revolução. A vaidade dos poderosos é fabulosa; eles acreditam que o povo os ama e quer que permaneçam no trono. Não é isso que Trump pensa? O que incomoda é que o historiador aponta conflitos que nos afetam e nos conectam a todos e que só serão resolvidos, ao menos a ponto de garantir nossa sobrevivência, se houver acordos entre a comunidade internacional, hoje sujeita a oscilações imprevisíveis e a uma velocidade inadequada para a mente humana (mas não para a artificial).
Esses pensamentos, sendo um alerta urgente do que está por vir, sempre me deixam com a sensação de que, para aliviar esse medo bem fundamentado, alguém poderia oferecer ideias sobre o que podemos fazer a partir da nossa posição de cidadãos impotentes em uma sociedade tão mal organizada (exceto em shows da Shakira). O diagnóstico está correto, mas não sabemos o tratamento, a cura imediata para evitar o desastre. Como diz o provérbio, enquanto o sábio vê o perigo e o evita, o tolo ignora os sinais de alerta. Hoje, o tolo os ignora, entre outras coisas, porque poucas pessoas leem com afinco. Como, então, vamos nos proteger dessa ignorância que alimenta o medo?
O incessante aumento da proibição de livros nas escolas públicas dos EUA
Nicole mora no condado de Pinellas, no Estado americano da Flórida. Ela ficou sabendo há cinco anos que certos livros estavam sendo retirados das escolas dos seus filhos.
As próprias crianças perceberam que alguns títulos não estavam mais disponíveis e ela confirmou a informação, conversando com professores e bibliotecários.
Frente a esta realidade, Nicole decidiu comprar por sua conta, para seus quatro filhos, os livros que eles não conseguiam mais encontrar na escola. Mas ela reconhece que sua realidade está longe da maioria das famílias.
"Existem comunidades inteiras que não têm dinheiro para comprar livros", lamenta ela. "Existem pais e avós que não podem levar seus filhos para as bibliotecas públicas porque estão trabalhando."
Nicole explica que retirar os livros da escola, na maior parte dos casos, faz a diferença entre o acesso ou não das crianças àquele material.
"Assim como há falta de alimentos, também existem comunidades em que há falta de livros", destaca ela.
As bibliotecas das escolas públicas dos Estados Unidos passaram a ser o campo de uma intensa batalha ideológica sobre quais livros devem ser oferecidos para as crianças. Dela fazem parte pais de família, professores, bibliotecários, grupos de ativistas e políticos.
O Escritório para a Liberdade Intelectual da Associação das Bibliotecas dos Estados Unidos (ALA, na sigla em inglês) indica que, somente em 2025, 6.588 livros foram censurados em alguma escola pública do país. Este número representa um aumento dramático em relação à média de 70 obras censuradas anualmente, entre 2001 e 2020.
As organizações que acompanham este fenômeno acreditam que os números reais podem ser muito maiores, pois grande parte da censura passa despercebida.
"Nunca tantas crianças foram privadas de acesso a tantas histórias", destaca o mais recente relatório da organização PEN América, dedicada a defender a liberdade de expressão, que acompanha a censura de livros.
Este aumento inédito ocorreu paralelamente à aprovação de dezenas de leis estaduais, além de algumas federais, restringindo o acesso a livros considerados inadequados nas escolas públicas.
"O que estamos observando agora é uma escalada muito diferente", explica Gianmarco Antosca, da Coalizão Nacional contra a Censura.
"O fenômeno saiu do âmbito das escolas. Observamos que a proibição de livros chegou aos legislativos estaduais e até ao âmbito federal."
Em outras palavras, o que começou como uma tendência promovida por certos grupos conservadores já se transformou em longas listas de livros que circulam pelas mesas de trabalho e correios eletrônicos de políticos e funcionários públicos.
Na grande maioria dos casos, os livros são retirados das escolas sem mesmo que seu conteúdo completo seja revisado.
As organizações que promovem este tipo de restrições e os funcionários que as permitem destacam que seu único interesse é evitar que as crianças sejam expostas a material inadequado para sua idade. Eles defendem o direito dos pais de decidir sobre a educação dos seus filhos.
"Lutamos para proteger as crianças contra conteúdo sexual explícito e material ideológico nas bibliotecas escolares, que não seja apropriado para sua idade", declarou em comunicado enviado pelo seu representante à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) Tina Descovich, diretora-executiva e fundadora do grupo Moms for Liberty ("Mães pela Liberdade", em tradução livre), um dos mais ativos no questionamento de livros nos Estados Unidos.
A questão ainda sem resposta é quem pode decidir, e de que forma, qual literatura é adequada para ser incluída nas bibliotecas das escolas.
As proibições de livros nas escolas públicas dos Estados Unidos não ocorrem de maneira uniforme ao longo do país e nem sempre da mesma forma.
Os Estados da Flórida e do Texas, por exemplo, concentram centenas de casos, segundo os cálculos da ALA e da PEN América. Outros Estados, como Oklahoma e Novo México, não registraram nenhuma proibição.
Segundo o processo habitual para conseguir banir um livro de uma escola pública, se um pai de família ou outro cidadão o considerar inadequado, ele deve apresentar uma objeção frente à autoridade educacional do condado.
Existem diferenças de um Estado para outro, mas as objeções geralmente são analisadas por um comitê de especialistas, que publica um parecer técnico. Com base nele, a autoridade do condado toma a decisão de manter ou retirar o livro das escolas.
Nos últimos anos, este tipo de objeção disparou e também surgiram outras formas de proibir livros.
Nos Estados de Utah e Carolina do Sul, por exemplo, existem atualmente listas de livros que não devem ser lidos, que se aplicam a todo o Estado. Esta medida surgiu graças a leis recentes, que buscam evitar a exposição das crianças a material considerado prejudicial, indecente ou pornográfico.
Estas listas incluem livros como O Conto da Aia, de Margaret Atwood; Pessoas Normais, de Sally Rooney; As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky; a saga Corte de Espinhos e Rosas, de Sara J. Maas; e O Lado Feio do Amor, de Colleen Hover.
Após a inclusão de quatro romances de Stephen King, no último dia 6 de julho, a lista de livros proibidos em todo o Estado de Utah chegou a 36 obras, enquanto, na Carolina do Sul, o número atinge 22.
Outro caso que chama a atenção é o do condado de Hillsborough, na Flórida, onde fica a cidade de Tampa.
Em meados do ano passado, a imprensa local noticiou que dois altos funcionários do Estado enviaram cartas pressionando o superintendente de Hillsborough a retirar livros considerados "pornográficos" das escolas do condado. Um deles é Me Chame pelo Seu Nome, de André Aciman.
O superintendente foi posteriormente submetido a um intenso interrogatório. Nele, uma participante da Junta de Educação da Flórida acusou os bibliotecários do condado de Hillsborough de serem "abusadores de crianças" e sugeriu que eles não saberiam ler.
Com isso, o superintendente concordou em retirar imediatamente dezenas de livros das escolas do condado e centenas de outros foram colocados em revisão.
A organização de pais Projeto Liberdade para Ler da Flórida (FFTRP, na sigla em inglês) afirma que muitos destes livros nunca haviam sido questionados por pais de família do condado.
Além disso, não foi seguido o procedimento normal, que inclui um comitê técnico. Na verdade, os livros foram retirados diretamente por pressão dos funcionários estaduais.
Na gravação da audiência, pode-se ver os membros da Junta de Educação da Flórida, nomeados pelo governador republicano Ron DeSantis, pedindo que o superintendente de Hillsborough ignore o procedimento e aja com urgência para retirar os livros.
A BBC News Mundo entrou em contato com alguns deles pedindo sua versão dos fatos, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Uma porta-voz do distrito escolar do condado de Hillsborough confirmou à BBC que 59 livros foram retirados das escolas do condado. Mas ela não respondeu qual teria sido o procedimento para chegar a esta decisão, nem se os livros que foram colocados em revisão já estavam novamente disponíveis para os estudantes.
Sobre este assunto, Stephana Ferrell, do FFTRP, destaca que "não se trata de uma comunidade decidindo por si própria qual é o padrão e debatendo a decisão de negar a cidadãos jovens o acesso a um livro ou ideia específica".
"Trata-se de um comitê em nível estadual, que não foi eleito, ditando quais ideias são permitidas nas estantes", segundo ela.
Entre os 59 livros proibidos, estão o multipremiado romance histórico O Caminho de Casa, de Yaa Gyasi. A obra conta a história de duas irmãs nascidas na África ocidental no século 18 e seus descendentes.
Outro livro proibido é A Fúria dos Reis, o segundo volume da saga As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, que inspirou a série de sucesso Game of Thrones.
Para o diretor do escritório da PEN América na Flórida, William Johnson, as repercussões do caso foram muito além do condado de Hillsborough.
Depois das cartas e do interrogatório do superintendente, "a PEN América documentou que pelo menos nove distritos escolares da Flórida, além do de Hillsborough, retiraram centenas de livros das salas de aula e bibliotecas antes do início do ano escolar, sem que fosse completado o processo habitual de revisão dos materiais, para evitar o risco de sanções por parte do Estado".
Este é um exemplo do chamado efeito inibidor (chilling effect, em inglês). Os professores, bibliotecários e diretores das escolas decidem retirar ou substituir certos livros para evitar problemas, especialmente aqueles que eles sabem que podem gerar controvérsias.
Os livros que incluem personagens da comunidade LGBTQIA+ ou que abordam temas de gênero, raça e sexualidade, por exemplo, recebem tentativas de censura desproporcionalmente maiores. Cerca de 39% dos títulos questionados em 2025 incluíam histórias de pessoas LGBTQIA+ ou de minorias, segundo a ALA.
Para Gianmarco Antosca, o efeito inibidor ocorre porque vários Estados aprovaram leis contra a obscenidade e a pornografia nas escolas, que incluem conceitos amplos e vagos, que não deixam claro o que está aprovado e o que não está.
"Eles recorrem a termos amplos e alarmistas, como 'conteúdo sexualmente explícito', 'pornografia' ou, mais recentemente, expressões como 'confusão de gênero' ou 'transgênero', para justificar a censura de um grande número de livros, gerando um clima de medo e efeito inibidor sobre a liberdade de expressão", explica Antosca.
Os educadores e bibliotecários podem, então, ser submetidos ao escrutínio público e até investigações judiciais. Por isso, eles decidem simplesmente evitar este processo, como ocorreu com o superintendente de Hillsborough.
"Em vez de se arriscarem a tomar a decisão equivocada, as escolas preferem primeiro retirar os livros e depois perguntar", explica Johnson.
A tendência à proibição de livros nas escolas públicas americanas nos últimos anos não tem um promotor isolado. O que existe é uma coordenação de organizações conservadoras, que invocam os chamados "direitos dos pais" para questionar livros e fazer lobby.
Por direitos dos pais, eles se referem especificamente ao poder de decisão sobre a educação dos seus filhos.
Tramita atualmente no Congresso americano um projeto de lei, apresentado por parlamentares republicanos, que ameaça retirar o financiamento das escolas que "fornecerem ou promoverem livros ou outros materiais que incluam conteúdo de caráter sexual para menores de 18 anos".
Gianmarco Antosca destaca que "o propósito das escolas, das bibliotecas e da educação não é proteger as crianças do mundo até o dia em que elas completarem 18 anos e, depois, lançá-las de um só golpe à vida adulta. Sua missão deveria ser prepará-las para o mundo real."
"Os estudantes deveriam ter acesso às ideias que inevitavelmente encontrarão fora da escola", prossegue ele. "E a educação deveria ser um espaço onde elas podem explorar, de forma segura e reflexiva, diferentes ideias e diferentes pontos de vista."
Para Stephana Ferrell, a consequência mais grave do auge da proibição de livros nos Estados Unidos "é a aceitação silenciosa de que as bibliotecas, a literatura e a liberdade de ler não merecem mais ser defendidas".
"Normalizamos a ideia de que evitar controvérsias é mais importante do que expor os estudantes a ideias desafiadoras e que não se pode confiar que os adultos exerçam seus critérios ou ajudem os jovens a enfrentar conversas difíceis."
"Quando aqueles que detêm a autoridade de proteger essas liberdades optam por se retirar, a perda vai muito além dos livros", conclui Ferrell.
As próprias crianças perceberam que alguns títulos não estavam mais disponíveis e ela confirmou a informação, conversando com professores e bibliotecários.
Frente a esta realidade, Nicole decidiu comprar por sua conta, para seus quatro filhos, os livros que eles não conseguiam mais encontrar na escola. Mas ela reconhece que sua realidade está longe da maioria das famílias.
"Existem comunidades inteiras que não têm dinheiro para comprar livros", lamenta ela. "Existem pais e avós que não podem levar seus filhos para as bibliotecas públicas porque estão trabalhando."
Nicole explica que retirar os livros da escola, na maior parte dos casos, faz a diferença entre o acesso ou não das crianças àquele material.
"Assim como há falta de alimentos, também existem comunidades em que há falta de livros", destaca ela.
As bibliotecas das escolas públicas dos Estados Unidos passaram a ser o campo de uma intensa batalha ideológica sobre quais livros devem ser oferecidos para as crianças. Dela fazem parte pais de família, professores, bibliotecários, grupos de ativistas e políticos.
O Escritório para a Liberdade Intelectual da Associação das Bibliotecas dos Estados Unidos (ALA, na sigla em inglês) indica que, somente em 2025, 6.588 livros foram censurados em alguma escola pública do país. Este número representa um aumento dramático em relação à média de 70 obras censuradas anualmente, entre 2001 e 2020.
As organizações que acompanham este fenômeno acreditam que os números reais podem ser muito maiores, pois grande parte da censura passa despercebida.
"Nunca tantas crianças foram privadas de acesso a tantas histórias", destaca o mais recente relatório da organização PEN América, dedicada a defender a liberdade de expressão, que acompanha a censura de livros.
Este aumento inédito ocorreu paralelamente à aprovação de dezenas de leis estaduais, além de algumas federais, restringindo o acesso a livros considerados inadequados nas escolas públicas.
"O que estamos observando agora é uma escalada muito diferente", explica Gianmarco Antosca, da Coalizão Nacional contra a Censura.
"O fenômeno saiu do âmbito das escolas. Observamos que a proibição de livros chegou aos legislativos estaduais e até ao âmbito federal."
Em outras palavras, o que começou como uma tendência promovida por certos grupos conservadores já se transformou em longas listas de livros que circulam pelas mesas de trabalho e correios eletrônicos de políticos e funcionários públicos.
Na grande maioria dos casos, os livros são retirados das escolas sem mesmo que seu conteúdo completo seja revisado.
As organizações que promovem este tipo de restrições e os funcionários que as permitem destacam que seu único interesse é evitar que as crianças sejam expostas a material inadequado para sua idade. Eles defendem o direito dos pais de decidir sobre a educação dos seus filhos.
"Lutamos para proteger as crianças contra conteúdo sexual explícito e material ideológico nas bibliotecas escolares, que não seja apropriado para sua idade", declarou em comunicado enviado pelo seu representante à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) Tina Descovich, diretora-executiva e fundadora do grupo Moms for Liberty ("Mães pela Liberdade", em tradução livre), um dos mais ativos no questionamento de livros nos Estados Unidos.
A questão ainda sem resposta é quem pode decidir, e de que forma, qual literatura é adequada para ser incluída nas bibliotecas das escolas.
As proibições de livros nas escolas públicas dos Estados Unidos não ocorrem de maneira uniforme ao longo do país e nem sempre da mesma forma.
Os Estados da Flórida e do Texas, por exemplo, concentram centenas de casos, segundo os cálculos da ALA e da PEN América. Outros Estados, como Oklahoma e Novo México, não registraram nenhuma proibição.
Segundo o processo habitual para conseguir banir um livro de uma escola pública, se um pai de família ou outro cidadão o considerar inadequado, ele deve apresentar uma objeção frente à autoridade educacional do condado.
Existem diferenças de um Estado para outro, mas as objeções geralmente são analisadas por um comitê de especialistas, que publica um parecer técnico. Com base nele, a autoridade do condado toma a decisão de manter ou retirar o livro das escolas.
Nos últimos anos, este tipo de objeção disparou e também surgiram outras formas de proibir livros.
Nos Estados de Utah e Carolina do Sul, por exemplo, existem atualmente listas de livros que não devem ser lidos, que se aplicam a todo o Estado. Esta medida surgiu graças a leis recentes, que buscam evitar a exposição das crianças a material considerado prejudicial, indecente ou pornográfico.
Estas listas incluem livros como O Conto da Aia, de Margaret Atwood; Pessoas Normais, de Sally Rooney; As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky; a saga Corte de Espinhos e Rosas, de Sara J. Maas; e O Lado Feio do Amor, de Colleen Hover.
Após a inclusão de quatro romances de Stephen King, no último dia 6 de julho, a lista de livros proibidos em todo o Estado de Utah chegou a 36 obras, enquanto, na Carolina do Sul, o número atinge 22.
Outro caso que chama a atenção é o do condado de Hillsborough, na Flórida, onde fica a cidade de Tampa.
Em meados do ano passado, a imprensa local noticiou que dois altos funcionários do Estado enviaram cartas pressionando o superintendente de Hillsborough a retirar livros considerados "pornográficos" das escolas do condado. Um deles é Me Chame pelo Seu Nome, de André Aciman.
O superintendente foi posteriormente submetido a um intenso interrogatório. Nele, uma participante da Junta de Educação da Flórida acusou os bibliotecários do condado de Hillsborough de serem "abusadores de crianças" e sugeriu que eles não saberiam ler.
Com isso, o superintendente concordou em retirar imediatamente dezenas de livros das escolas do condado e centenas de outros foram colocados em revisão.
A organização de pais Projeto Liberdade para Ler da Flórida (FFTRP, na sigla em inglês) afirma que muitos destes livros nunca haviam sido questionados por pais de família do condado.
Além disso, não foi seguido o procedimento normal, que inclui um comitê técnico. Na verdade, os livros foram retirados diretamente por pressão dos funcionários estaduais.
Na gravação da audiência, pode-se ver os membros da Junta de Educação da Flórida, nomeados pelo governador republicano Ron DeSantis, pedindo que o superintendente de Hillsborough ignore o procedimento e aja com urgência para retirar os livros.
A BBC News Mundo entrou em contato com alguns deles pedindo sua versão dos fatos, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Uma porta-voz do distrito escolar do condado de Hillsborough confirmou à BBC que 59 livros foram retirados das escolas do condado. Mas ela não respondeu qual teria sido o procedimento para chegar a esta decisão, nem se os livros que foram colocados em revisão já estavam novamente disponíveis para os estudantes.
Sobre este assunto, Stephana Ferrell, do FFTRP, destaca que "não se trata de uma comunidade decidindo por si própria qual é o padrão e debatendo a decisão de negar a cidadãos jovens o acesso a um livro ou ideia específica".
"Trata-se de um comitê em nível estadual, que não foi eleito, ditando quais ideias são permitidas nas estantes", segundo ela.
Entre os 59 livros proibidos, estão o multipremiado romance histórico O Caminho de Casa, de Yaa Gyasi. A obra conta a história de duas irmãs nascidas na África ocidental no século 18 e seus descendentes.
Outro livro proibido é A Fúria dos Reis, o segundo volume da saga As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, que inspirou a série de sucesso Game of Thrones.
Para o diretor do escritório da PEN América na Flórida, William Johnson, as repercussões do caso foram muito além do condado de Hillsborough.
Depois das cartas e do interrogatório do superintendente, "a PEN América documentou que pelo menos nove distritos escolares da Flórida, além do de Hillsborough, retiraram centenas de livros das salas de aula e bibliotecas antes do início do ano escolar, sem que fosse completado o processo habitual de revisão dos materiais, para evitar o risco de sanções por parte do Estado".
Este é um exemplo do chamado efeito inibidor (chilling effect, em inglês). Os professores, bibliotecários e diretores das escolas decidem retirar ou substituir certos livros para evitar problemas, especialmente aqueles que eles sabem que podem gerar controvérsias.
Os livros que incluem personagens da comunidade LGBTQIA+ ou que abordam temas de gênero, raça e sexualidade, por exemplo, recebem tentativas de censura desproporcionalmente maiores. Cerca de 39% dos títulos questionados em 2025 incluíam histórias de pessoas LGBTQIA+ ou de minorias, segundo a ALA.
Para Gianmarco Antosca, o efeito inibidor ocorre porque vários Estados aprovaram leis contra a obscenidade e a pornografia nas escolas, que incluem conceitos amplos e vagos, que não deixam claro o que está aprovado e o que não está.
"Eles recorrem a termos amplos e alarmistas, como 'conteúdo sexualmente explícito', 'pornografia' ou, mais recentemente, expressões como 'confusão de gênero' ou 'transgênero', para justificar a censura de um grande número de livros, gerando um clima de medo e efeito inibidor sobre a liberdade de expressão", explica Antosca.
Os educadores e bibliotecários podem, então, ser submetidos ao escrutínio público e até investigações judiciais. Por isso, eles decidem simplesmente evitar este processo, como ocorreu com o superintendente de Hillsborough.
"Em vez de se arriscarem a tomar a decisão equivocada, as escolas preferem primeiro retirar os livros e depois perguntar", explica Johnson.
A tendência à proibição de livros nas escolas públicas americanas nos últimos anos não tem um promotor isolado. O que existe é uma coordenação de organizações conservadoras, que invocam os chamados "direitos dos pais" para questionar livros e fazer lobby.
Por direitos dos pais, eles se referem especificamente ao poder de decisão sobre a educação dos seus filhos.
Descovich, da organização Mães pela Liberdade, defende que "os pais têm o direito e a responsabilidade fundamental de garantir que seus filhos sejam protegidos de conteúdos que prejudiquem sua inocência ou promovam ideologias que possam gerar confusão".
Da mesma forma, um documento do grupo Citizens for Freedom ("Cidadãos para a Liberdade"), outro coletivo ativo nesta causa, afirma que os pais — não o Estado, nem a escola — detêm a autoridade "outorgada por Deus" de "criar, educar e formar moralmente seus filhos".
Mas vem se discutindo abertamente se, na verdade, são os pais de família quem realmente está por trás destas tentativas de retirar livros das estantes das escolas.
Segundo o Escritório para a Liberdade Intelectual da ALA, 92% dos questionamentos de livros em 2025 foram iniciados por grupos de pressão e funcionários do governo.
"O que temos documentado é que uma quantidade relativamente reduzida de pessoas e grupos organizados de defesa de determinadas causas apresentou uma proporção excessivamente alta das objeções", destaca Johnson, da PEN América.
Além de diretora do FFTRP, Ferrell é mãe de dois filhos que são alunos de escolas públicas do condado de Orange, na Flórida. Ela destaca que "nunca houve provas de que as ações tenham se originado de pais e mães com filhos realmente matriculados em escolas públicas".
"Este movimento, desde o princípio, é liderado por grupos de interesse, com poucos vínculos com o sistema de educação pública", afirma ela.
A BBC News Mundo solicitou entrevista à Mães pela Liberdade para confirmar esta informação, entre outros pontos, sem sucesso.
Nicole, a mãe de quatro filhos que mora no condado de Pinellas, contou à BBC que, exatamente por acreditar nos "direitos dos pais", não concorda com a proibição de livros nas escolas.
"Muitas das pessoas que promovem a retirada dos livros afirmam que agem em defesa dos direitos dos pais. Mas, ao proibir livros, eles também estão decidindo o que é melhor para outras crianças que não são seus filhos."
"Por isso, eles estão passando por cima dos direitos de outros pais", afirma ela.
Nicole considera que quem tenta proibir livros não quer decidir apenas sobre a educação que seus próprios filhos recebem, mas também "controlar o que e como as pessoas aprendem".
Os opositores à proibição de livros também destacam que os "direitos dos pais" não diminuem a autoridade dos bibliotecários profissionais de construir catálogos idealizados para atrair as crianças para a leitura, conforme seu conhecimento técnico e o da sua comunidade.
São eles, segundo Johnson, quem tem "capacidade para avaliar os livros em função da sua idoneidade para cada idade, do desenvolvimento infantil, dos objetivos educacionais e seu mérito literário", embora os pais possam continuar oferecendo suas opiniões e recomendações.
A legislação federal americana determina que os materiais que circulam nas escolas devem ser avaliados com o teste de Miller, que pondera o nível de obscenidade de um livro, ao lado do seu valor literário, informativo, intelectual e cultural.
Como leitora e como mãe, Nicole lamenta que as proibições de livros nas escolas retirem das crianças "uma janela, um espelho e a capacidade de pensamento crítico sobre o mundo em que elas vivem".
Seus dois filhos maiores já se formaram e os dois menores estão no ensino médio. Alguns são leitores ávidos e outros, nem tanto.
Mas ela se encarregou de fazer com que eles sempre tenham à mão esta "janela", para observar outras realidades, e este "espelho", para observar a si próprios.
Mas nem todos os seus colegas de escola tiveram esta possibilidade. O índice da PEN América indica que foram realizadas 62 ações de censura de livros em bibliotecas escolares no condado de Pinellas.
Em 2023, o governo do ex-presidente Joe Biden (2021-2025) lançou ações para pesquisar o fenômeno da proibição de livros nas escolas públicas e dissuadir as instituições de limitar o acesso a livros controversos.
Mas, assim que Donald Trump assumiu a presidência, no início do ano passado, o Departamento de Educação dos Estados Unidos desconsiderou as denúncias existentes. O órgão qualificou o fenômeno de mito, defendendo que os livros retirados eram "inadequados", "sexualmente explícitos" ou "obscenos".
O Departamento de Educação anunciou que deixaria de ter uma pessoa encarregada de investigar estas medidas.
Cedendo ao discurso dos defensores dos "direitos dos pais", o então secretário interino adjunto do Escritório dos Direitos Civis, Craig Trainor, afirmou que, "ao desconsiderar estas denúncias e eliminar o cargo e as atribuições do chamado 'coordenador de proibições de livros', este departamento começa a restabelecer o direito fundamental dos pais de dirigir a educação dos seus filhos".
Da mesma forma, um documento do grupo Citizens for Freedom ("Cidadãos para a Liberdade"), outro coletivo ativo nesta causa, afirma que os pais — não o Estado, nem a escola — detêm a autoridade "outorgada por Deus" de "criar, educar e formar moralmente seus filhos".
Mas vem se discutindo abertamente se, na verdade, são os pais de família quem realmente está por trás destas tentativas de retirar livros das estantes das escolas.
Segundo o Escritório para a Liberdade Intelectual da ALA, 92% dos questionamentos de livros em 2025 foram iniciados por grupos de pressão e funcionários do governo.
"O que temos documentado é que uma quantidade relativamente reduzida de pessoas e grupos organizados de defesa de determinadas causas apresentou uma proporção excessivamente alta das objeções", destaca Johnson, da PEN América.
Além de diretora do FFTRP, Ferrell é mãe de dois filhos que são alunos de escolas públicas do condado de Orange, na Flórida. Ela destaca que "nunca houve provas de que as ações tenham se originado de pais e mães com filhos realmente matriculados em escolas públicas".
"Este movimento, desde o princípio, é liderado por grupos de interesse, com poucos vínculos com o sistema de educação pública", afirma ela.
A BBC News Mundo solicitou entrevista à Mães pela Liberdade para confirmar esta informação, entre outros pontos, sem sucesso.
Nicole, a mãe de quatro filhos que mora no condado de Pinellas, contou à BBC que, exatamente por acreditar nos "direitos dos pais", não concorda com a proibição de livros nas escolas.
"Muitas das pessoas que promovem a retirada dos livros afirmam que agem em defesa dos direitos dos pais. Mas, ao proibir livros, eles também estão decidindo o que é melhor para outras crianças que não são seus filhos."
"Por isso, eles estão passando por cima dos direitos de outros pais", afirma ela.
Nicole considera que quem tenta proibir livros não quer decidir apenas sobre a educação que seus próprios filhos recebem, mas também "controlar o que e como as pessoas aprendem".
Os opositores à proibição de livros também destacam que os "direitos dos pais" não diminuem a autoridade dos bibliotecários profissionais de construir catálogos idealizados para atrair as crianças para a leitura, conforme seu conhecimento técnico e o da sua comunidade.
São eles, segundo Johnson, quem tem "capacidade para avaliar os livros em função da sua idoneidade para cada idade, do desenvolvimento infantil, dos objetivos educacionais e seu mérito literário", embora os pais possam continuar oferecendo suas opiniões e recomendações.
A legislação federal americana determina que os materiais que circulam nas escolas devem ser avaliados com o teste de Miller, que pondera o nível de obscenidade de um livro, ao lado do seu valor literário, informativo, intelectual e cultural.
Como leitora e como mãe, Nicole lamenta que as proibições de livros nas escolas retirem das crianças "uma janela, um espelho e a capacidade de pensamento crítico sobre o mundo em que elas vivem".
Seus dois filhos maiores já se formaram e os dois menores estão no ensino médio. Alguns são leitores ávidos e outros, nem tanto.
Mas ela se encarregou de fazer com que eles sempre tenham à mão esta "janela", para observar outras realidades, e este "espelho", para observar a si próprios.
Mas nem todos os seus colegas de escola tiveram esta possibilidade. O índice da PEN América indica que foram realizadas 62 ações de censura de livros em bibliotecas escolares no condado de Pinellas.
Em 2023, o governo do ex-presidente Joe Biden (2021-2025) lançou ações para pesquisar o fenômeno da proibição de livros nas escolas públicas e dissuadir as instituições de limitar o acesso a livros controversos.
Mas, assim que Donald Trump assumiu a presidência, no início do ano passado, o Departamento de Educação dos Estados Unidos desconsiderou as denúncias existentes. O órgão qualificou o fenômeno de mito, defendendo que os livros retirados eram "inadequados", "sexualmente explícitos" ou "obscenos".
O Departamento de Educação anunciou que deixaria de ter uma pessoa encarregada de investigar estas medidas.
Cedendo ao discurso dos defensores dos "direitos dos pais", o então secretário interino adjunto do Escritório dos Direitos Civis, Craig Trainor, afirmou que, "ao desconsiderar estas denúncias e eliminar o cargo e as atribuições do chamado 'coordenador de proibições de livros', este departamento começa a restabelecer o direito fundamental dos pais de dirigir a educação dos seus filhos".
Tramita atualmente no Congresso americano um projeto de lei, apresentado por parlamentares republicanos, que ameaça retirar o financiamento das escolas que "fornecerem ou promoverem livros ou outros materiais que incluam conteúdo de caráter sexual para menores de 18 anos".
Gianmarco Antosca destaca que "o propósito das escolas, das bibliotecas e da educação não é proteger as crianças do mundo até o dia em que elas completarem 18 anos e, depois, lançá-las de um só golpe à vida adulta. Sua missão deveria ser prepará-las para o mundo real."
"Os estudantes deveriam ter acesso às ideias que inevitavelmente encontrarão fora da escola", prossegue ele. "E a educação deveria ser um espaço onde elas podem explorar, de forma segura e reflexiva, diferentes ideias e diferentes pontos de vista."
Para Stephana Ferrell, a consequência mais grave do auge da proibição de livros nos Estados Unidos "é a aceitação silenciosa de que as bibliotecas, a literatura e a liberdade de ler não merecem mais ser defendidas".
"Normalizamos a ideia de que evitar controvérsias é mais importante do que expor os estudantes a ideias desafiadoras e que não se pode confiar que os adultos exerçam seus critérios ou ajudem os jovens a enfrentar conversas difíceis."
"Quando aqueles que detêm a autoridade de proteger essas liberdades optam por se retirar, a perda vai muito além dos livros", conclui Ferrell.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Voto em Flávio Bolsonaro expressa ideia perdida de nação
A resenha de uma biografia de Hannah Arendt recentemente publicada nos Estados Unidos me remeteu à incrível entrevista que ela deu a Günter Gaus, na televisão alemã, em 1964, e que eu nunca tinha visto, embora esteja há anos disponível no YouTube.
Arendt escapou da Alemanha em 1933, aos 26 anos, quando, em suas próprias palavras, só um idiota seria incapaz de perceber que os nazistas (e muitos alemães que os apoiavam direta ou indiretamente) eram inimigos dos judeus. E isso bem antes da instalação do terror, precedida por um período de abandono e vazio.
O problema na verdade não eram só os inimigos, mas os "amigos", gente que acabaria caindo na própria armadilha, no que ela chama de "coordenação", ou deslealdade, dos intelectuais. "Eu não tinha a menor vontade de ficar perambulando pela Alemanha como cidadã de segunda classe."
Arendt é categórica ao declarar que, "se você é atacado como judeu, deve se defender como judeu, não como alemão ou cidadão do mundo ou defensor dos direitos humanos, ou o que quer que seja".
Nesse momento, o entrevistador pede que ela então explique o que queria dizer quando declarou: "Nunca amei nenhum povo ou grupo coletivo, nem alemães, nem franceses, nem americanos, nem a classe operária nem nada desse gênero. Só posso amar meus amigos. O amor pelos judeus seria suspeito, porque sou judia".
E ela esclarece: "Pertencer a um grupo por nascimento é da condição humana. Agora, pertencer a um grupo organizado politicamente é uma coisa completamente diversa. As pessoas se organizam politicamente por interesses comuns em relação ao mundo. O que chamamos de amor, e que pode existir no amor propriamente dito e também na amizade, é uma relação pessoal direta, que não está baseada em interesses comuns em relação ao mundo. [...] O amor é apolítico e desinteressado".
Arendt associa esse amor à condição judaica, à humanidade própria dos párias, que se perdeu com a criação do Estado de Israel. E lamenta: "A liberdade cobra um preço alto".
O amor desinteressado aparece na literatura, segundo ela, quando Homero decide cantar não apenas o vencedor, mas os vencidos; quando Heródoto conta os feitos dos gregos e também dos bárbaros. "Toda ciência nasce desse espírito. Se você é incapaz de imparcialidade, porque pretende amar seu próprio povo a ponto de comprometer a verdade, então não há o que fazer."
O interesse comum é da ordem política. É a condição das nações. O resultado das pesquisas, mostrando Flávio Bolsonaro encostado em Lula no segundo turno das eleições presidenciais em outubro, com tudo o que seu nome, seu pai e sua família representam contra os brasileiros, acrescido do passivo de subserviência a uma potência estrangeira com interesses contrários aos do país, faz pensar que estejamos cercados não só pelo cinismo de inimigos declarados, mas pelos que Arendt considerava "amigos desleais" que, em nome de interesses aparentemente comuns, nacionais, e muitas vezes sem se dar conta da extensão suicida de suas ações, preparam uma armadilha que, essa sim, será comum e fatal.
Não seria de todo descabido ver na política internacional aparentemente errática de Donald Trump, para além da ganância pessoal, um desmonte deliberado das nações, com a cumplicidade de grupos oportunistas internos compartilhando interesses em redes supranacionais de desregulação e corrupção.
Por mais contraintuitivo que pareça à primeira vista, a autocracia é a condição do esfacelamento nacional. A aliança do governo americano com a extrema direita na América Latina faz parte de uma política de espoliação, fundamental no seu confronto com a China, única potência capaz de lhe fazer frente.
Que significa quase metade dos eleitores declarar o voto em Flávio Bolsonaro senão uma ideia perdida de nação? O eco insistente de um governo funesto cujo lema —"Deus acima de todos..."— trazia embutida uma conclusão tácita e interessada: "...e cada um por si".
Arendt escapou da Alemanha em 1933, aos 26 anos, quando, em suas próprias palavras, só um idiota seria incapaz de perceber que os nazistas (e muitos alemães que os apoiavam direta ou indiretamente) eram inimigos dos judeus. E isso bem antes da instalação do terror, precedida por um período de abandono e vazio.
O problema na verdade não eram só os inimigos, mas os "amigos", gente que acabaria caindo na própria armadilha, no que ela chama de "coordenação", ou deslealdade, dos intelectuais. "Eu não tinha a menor vontade de ficar perambulando pela Alemanha como cidadã de segunda classe."
Arendt é categórica ao declarar que, "se você é atacado como judeu, deve se defender como judeu, não como alemão ou cidadão do mundo ou defensor dos direitos humanos, ou o que quer que seja".
Nesse momento, o entrevistador pede que ela então explique o que queria dizer quando declarou: "Nunca amei nenhum povo ou grupo coletivo, nem alemães, nem franceses, nem americanos, nem a classe operária nem nada desse gênero. Só posso amar meus amigos. O amor pelos judeus seria suspeito, porque sou judia".
E ela esclarece: "Pertencer a um grupo por nascimento é da condição humana. Agora, pertencer a um grupo organizado politicamente é uma coisa completamente diversa. As pessoas se organizam politicamente por interesses comuns em relação ao mundo. O que chamamos de amor, e que pode existir no amor propriamente dito e também na amizade, é uma relação pessoal direta, que não está baseada em interesses comuns em relação ao mundo. [...] O amor é apolítico e desinteressado".
Arendt associa esse amor à condição judaica, à humanidade própria dos párias, que se perdeu com a criação do Estado de Israel. E lamenta: "A liberdade cobra um preço alto".
O amor desinteressado aparece na literatura, segundo ela, quando Homero decide cantar não apenas o vencedor, mas os vencidos; quando Heródoto conta os feitos dos gregos e também dos bárbaros. "Toda ciência nasce desse espírito. Se você é incapaz de imparcialidade, porque pretende amar seu próprio povo a ponto de comprometer a verdade, então não há o que fazer."
O interesse comum é da ordem política. É a condição das nações. O resultado das pesquisas, mostrando Flávio Bolsonaro encostado em Lula no segundo turno das eleições presidenciais em outubro, com tudo o que seu nome, seu pai e sua família representam contra os brasileiros, acrescido do passivo de subserviência a uma potência estrangeira com interesses contrários aos do país, faz pensar que estejamos cercados não só pelo cinismo de inimigos declarados, mas pelos que Arendt considerava "amigos desleais" que, em nome de interesses aparentemente comuns, nacionais, e muitas vezes sem se dar conta da extensão suicida de suas ações, preparam uma armadilha que, essa sim, será comum e fatal.
Não seria de todo descabido ver na política internacional aparentemente errática de Donald Trump, para além da ganância pessoal, um desmonte deliberado das nações, com a cumplicidade de grupos oportunistas internos compartilhando interesses em redes supranacionais de desregulação e corrupção.
Por mais contraintuitivo que pareça à primeira vista, a autocracia é a condição do esfacelamento nacional. A aliança do governo americano com a extrema direita na América Latina faz parte de uma política de espoliação, fundamental no seu confronto com a China, única potência capaz de lhe fazer frente.
Que significa quase metade dos eleitores declarar o voto em Flávio Bolsonaro senão uma ideia perdida de nação? O eco insistente de um governo funesto cujo lema —"Deus acima de todos..."— trazia embutida uma conclusão tácita e interessada: "...e cada um por si".
Extrema direita na Alemanha: isolar, proibir ou deixar governar?
A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, mais que o dobro da CDU, de centro-direita, partido do chanceler, Friedrich Merz, que ficou em segundo com 17%. A AfD, classificada pelo serviço de inteligência doméstica como extremista de direita, obteve o melhor resultado de uma sigla desse campo na Alemanha desde 1945.
A eleição intensifica um dos debates já dominantes na política alemã: por que tantos cidadãos votam em um partido radical, e o que fazer? A explicação padrão para o voto na AfD, a de um leste pobre e abandonado, perdedor da modernização, resiste cada vez menos aos dados.
O poder de compra de Magdeburg ou Halle supera o de quase todo o sul e o leste da Europa; as aposentadorias de quem contribuiu por mais de 35 anos equivalem a 95% das pagas no oeste, e produtividade e salários chegam a 84% do nível ocidental, diferença que reflete sobretudo o caráter mais rural da região.
A infraestrutura não fica atrás da de regiões comparáveis do continente: por exemplo, cerca de 30 dos quase 80 teatros de ópera do país estão no leste, que abriga um quinto da população. Ainda assim, 75% dos alemães orientais dizem que o que separa as duas partes do país pesa mais que o que as une, o maior índice desde 2004.
Um novo estudo da Universidade do Sarre conclui que renda e escolaridade quase nada explicam: o que prevê o voto na AfD é a preocupação com a imigração, e ela pesa tanto para ricos quanto pobres. E isso em um Estado onde estrangeiros são apenas 8% da população, menos da metade da média nacional e bem abaixo do que se vê em Hesse ou Hamburgo. Os autores tiram a conclusão incômoda: mais transferências e políticas de igualdade não trarão os eleitores de volta.
O segundo debate é o que fazer a respeito da ascensão do partido. Desde a fundação da AfD, em 2013, todos os partidos tradicionais mantêm o Brandmauer, o “muro cortafogo” erguido para jamais cooperar com a AfD. O muro cumpriu o que prometia, como lembra Thorsten Benner, do Global Public Policy Institute, em Berlim, pois a AfD até hoje nunca chegou a governar um Estado. Mas fica cada vez mais evidente que fracassou como estratégia de contenção, e há algo paradoxal nisso: governar desgasta, e a AfD passou uma década sem governar nada.
Enquanto CDU, SPD e Verdes se consumiam em coalizões improváveis, a legenda cresceu sem nunca ter sido testada, e hoje lidera as pesquisas nacionais com quase 30%. Benner vai além e sustenta que o muro ajuda a explicar por que a AfD, ao contrário de outras siglas de extrema direita na Europa, se tornou mais radical à medida que crescia: sem perspectiva de poder, moderar-se não lhe traz nada.
Uma proposta é converter o veto absoluto em condições verificáveis, como expulsar Björn Höcke, seu dirigente mais influente no leste do país, que foi condenado duas vezes por usar, em eventos de campanha, um slogan das tropas de assalto de Hitler, cujo uso é crime na Alemanha. Romper com esse tipo de quadro e de discurso seria o preço do diálogo, e a própria AfD teria de decidir se está disposta a pagá-lo.
Outros defendem a proibição do partido. Boris Pistorius, ministro da Defesa e há anos o político mais popular do país, pediu, ao lado de Cem Özdemir, chefe de governo de Baden-Württemberg, que se abra um processo de banimento das seções da AfD no leste alemão, entre elas a da SaxôniaAnhalt.
O argumento é o mesmo do serviço de inteligência, que em 2025 classificou a AfD como “comprovadamente extremista de direita”, por defender uma concepção étnica de povo incompatível com a Constituição alemã. Os críticos respondem que um processo desses levaria anos e daria à AfD o papel que ela mais gosta de encenar, o de vítima.
Há uma terceira via, que decorre do próprio diagnóstico de Benner: deixar a AfD governar um Estado e expor sua incapacidade. O partido defende um nacionalismo de slogans, mais definido pelo que rejeita do que pelo que propõe.
Um episódio quase cômico ilustra a aposta. Em 2021, Tino Chrupalla, hoje copresidente do partido, defendia em um programa infantil da TV pública que as escolas ensinassem mais canções populares e poesia clássica alemã. O repórter mirim quis saber, então, qual era seu poema alemão favorito. Chrupalla hesitou, disse que precisaria pensar e admitiu que nenhum lhe vinha à cabeça. Instado a citar ao menos um poeta, apontou Heinrich Heine, de origem judaica, exilado em Paris e cujos livros os nazistas queimaram em 1933.
Deixar governar foi, é verdade, o erro que a Alemanha cometeu nos anos 1930. Em 1930, juristas do governo da Prússia recomendaram por escrito a proibição do partido nazista. O chanceler Heinrich Brüning preferiu enfrentá-lo politicamente, temendo alimentar seu vitimismo, e menos de três anos depois Hitler chegava ao poder.
A comparação tem limites óbvios. Um Estado não é o país inteiro, e uma AfD obrigada a administrar escolas, hospitais e orçamentos deixaria de ser um partido de protesto para virar um governo cobrado por resultados, ofício bem menos glamouroso do que denunciar o sistema. Nenhuma das três saídas é isenta de risco. O que a eleição de ontem mostrou é que a atual estratégia de simplesmente isolar o partido deixou de ser uma opção.
A eleição intensifica um dos debates já dominantes na política alemã: por que tantos cidadãos votam em um partido radical, e o que fazer? A explicação padrão para o voto na AfD, a de um leste pobre e abandonado, perdedor da modernização, resiste cada vez menos aos dados.
O poder de compra de Magdeburg ou Halle supera o de quase todo o sul e o leste da Europa; as aposentadorias de quem contribuiu por mais de 35 anos equivalem a 95% das pagas no oeste, e produtividade e salários chegam a 84% do nível ocidental, diferença que reflete sobretudo o caráter mais rural da região.
A infraestrutura não fica atrás da de regiões comparáveis do continente: por exemplo, cerca de 30 dos quase 80 teatros de ópera do país estão no leste, que abriga um quinto da população. Ainda assim, 75% dos alemães orientais dizem que o que separa as duas partes do país pesa mais que o que as une, o maior índice desde 2004.
Um novo estudo da Universidade do Sarre conclui que renda e escolaridade quase nada explicam: o que prevê o voto na AfD é a preocupação com a imigração, e ela pesa tanto para ricos quanto pobres. E isso em um Estado onde estrangeiros são apenas 8% da população, menos da metade da média nacional e bem abaixo do que se vê em Hesse ou Hamburgo. Os autores tiram a conclusão incômoda: mais transferências e políticas de igualdade não trarão os eleitores de volta.
O segundo debate é o que fazer a respeito da ascensão do partido. Desde a fundação da AfD, em 2013, todos os partidos tradicionais mantêm o Brandmauer, o “muro cortafogo” erguido para jamais cooperar com a AfD. O muro cumpriu o que prometia, como lembra Thorsten Benner, do Global Public Policy Institute, em Berlim, pois a AfD até hoje nunca chegou a governar um Estado. Mas fica cada vez mais evidente que fracassou como estratégia de contenção, e há algo paradoxal nisso: governar desgasta, e a AfD passou uma década sem governar nada.
Enquanto CDU, SPD e Verdes se consumiam em coalizões improváveis, a legenda cresceu sem nunca ter sido testada, e hoje lidera as pesquisas nacionais com quase 30%. Benner vai além e sustenta que o muro ajuda a explicar por que a AfD, ao contrário de outras siglas de extrema direita na Europa, se tornou mais radical à medida que crescia: sem perspectiva de poder, moderar-se não lhe traz nada.
Uma proposta é converter o veto absoluto em condições verificáveis, como expulsar Björn Höcke, seu dirigente mais influente no leste do país, que foi condenado duas vezes por usar, em eventos de campanha, um slogan das tropas de assalto de Hitler, cujo uso é crime na Alemanha. Romper com esse tipo de quadro e de discurso seria o preço do diálogo, e a própria AfD teria de decidir se está disposta a pagá-lo.
Outros defendem a proibição do partido. Boris Pistorius, ministro da Defesa e há anos o político mais popular do país, pediu, ao lado de Cem Özdemir, chefe de governo de Baden-Württemberg, que se abra um processo de banimento das seções da AfD no leste alemão, entre elas a da SaxôniaAnhalt.
O argumento é o mesmo do serviço de inteligência, que em 2025 classificou a AfD como “comprovadamente extremista de direita”, por defender uma concepção étnica de povo incompatível com a Constituição alemã. Os críticos respondem que um processo desses levaria anos e daria à AfD o papel que ela mais gosta de encenar, o de vítima.
Há uma terceira via, que decorre do próprio diagnóstico de Benner: deixar a AfD governar um Estado e expor sua incapacidade. O partido defende um nacionalismo de slogans, mais definido pelo que rejeita do que pelo que propõe.
Um episódio quase cômico ilustra a aposta. Em 2021, Tino Chrupalla, hoje copresidente do partido, defendia em um programa infantil da TV pública que as escolas ensinassem mais canções populares e poesia clássica alemã. O repórter mirim quis saber, então, qual era seu poema alemão favorito. Chrupalla hesitou, disse que precisaria pensar e admitiu que nenhum lhe vinha à cabeça. Instado a citar ao menos um poeta, apontou Heinrich Heine, de origem judaica, exilado em Paris e cujos livros os nazistas queimaram em 1933.
Deixar governar foi, é verdade, o erro que a Alemanha cometeu nos anos 1930. Em 1930, juristas do governo da Prússia recomendaram por escrito a proibição do partido nazista. O chanceler Heinrich Brüning preferiu enfrentá-lo politicamente, temendo alimentar seu vitimismo, e menos de três anos depois Hitler chegava ao poder.
A comparação tem limites óbvios. Um Estado não é o país inteiro, e uma AfD obrigada a administrar escolas, hospitais e orçamentos deixaria de ser um partido de protesto para virar um governo cobrado por resultados, ofício bem menos glamouroso do que denunciar o sistema. Nenhuma das três saídas é isenta de risco. O que a eleição de ontem mostrou é que a atual estratégia de simplesmente isolar o partido deixou de ser uma opção.
O custo de ser responsável
Em março deste ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução classificando o tráfico transatlântico de escravos como o crime mais grave contra a Humanidade. O documento foi aprovado com 123 votos a favor. Três países votaram contra (Estados Unidos da América, Israel e Argentina) e 52 abstiveram-se (entre os quais, todos os 27 países da União Europeia, Reino Unido, Canadá, Austrália, etc.).
É, de facto, difícil pensar num crime maior do que este contra a Humanidade, embora os representantes da União Europeia, e especificamente da Alemanha, se tenham manifestação contra a formulação jurídica de haver uma hierarquia de crimes. Seria o tráfico de escravos mais grave do que o Holocausto? No Holocausto, morreram seis milhões de pessoas; no tráfico transatlântico de escravos, que decorreu até à segunda metade do século XIX, foram embarcadas 12,5 milhões de pessoas – dessas, 10,7 milhões terão chegado ao destino, tendo as restantes morrido na viagem. Os números são da Slave Voyages, uma base de dados académica de acesso público. Em terra, durante as capturas, os historiadores calculam que terão morrido entre um e dois milhões de pessoas.
A votação da resolução, geograficamente dividida de forma bem nítida, entende-se sob outra perspetiva. O documento não se limita a classificar o crime, pede que os países envolvidos assumam a responsabilidade, ora em forma de pedidos de desculpa oficiais, ora em forma de compensações financeiras, algo que os países responsáveis não estão dispostos a fazer. No caso do Holocausto, a Alemanha pagou e continua a pagar indemnizações e reparações às vítimas e a organizações judaicas.
Na semana passada, a ONU voltou à carga: o Comité das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial emitiu uma resolução defendendo que os países envolvidos, direta ou indiretamente, no tráfico transatlântico de escravos têm a obrigação de conceder reparações pelos danos que causaram. Este crime, diz o documento, “distorceu as relações económicas globais ao distribuir riqueza acumulada injustamente por todas as sociedades e fronteiras, criando uma responsabilidade partilhada pelos seus efeitos duradouros”.
De facto, podemos não nos sentir responsáveis como sociedade por aquilo que fizeram os nossos antepassados. Mas é como um filho que herda dinheiros sujos – ele não cometeu o crime, mas vive à custa dele, beneficia do crime. Porque é inegável a desigualdade que ainda hoje persiste – e persistirá por muito tempo –, consequência do tráfico de escravos.
Quem são os pobres e quem são os ricos? Quem, na nossa sociedade, continua a sofrer todo o tipo de discriminação e impedimentos de aceder aos serviços e aos direitos que damos por garantidos? E quem construiu e desenvolveu Estados com riquezas que não lhe pertenciam?
Como sociedade, somos herdeiros deste privilégio, usufruímos dele e dizemos, ao mesmo tempo, que isso não nos pertence, que o passado já lá vai e a obrigação de o corrigir não nos cabe. Como o “filhinho de papai” incapaz de assumir a idade adulta. Os custos da responsabilidade podem até ser penosos, mas se forem justos permitem-nos existir com mais dignidade. Há heranças que pesam, ainda que façamos tudo por ignorar o fardo que representam.
É, de facto, difícil pensar num crime maior do que este contra a Humanidade, embora os representantes da União Europeia, e especificamente da Alemanha, se tenham manifestação contra a formulação jurídica de haver uma hierarquia de crimes. Seria o tráfico de escravos mais grave do que o Holocausto? No Holocausto, morreram seis milhões de pessoas; no tráfico transatlântico de escravos, que decorreu até à segunda metade do século XIX, foram embarcadas 12,5 milhões de pessoas – dessas, 10,7 milhões terão chegado ao destino, tendo as restantes morrido na viagem. Os números são da Slave Voyages, uma base de dados académica de acesso público. Em terra, durante as capturas, os historiadores calculam que terão morrido entre um e dois milhões de pessoas.
A votação da resolução, geograficamente dividida de forma bem nítida, entende-se sob outra perspetiva. O documento não se limita a classificar o crime, pede que os países envolvidos assumam a responsabilidade, ora em forma de pedidos de desculpa oficiais, ora em forma de compensações financeiras, algo que os países responsáveis não estão dispostos a fazer. No caso do Holocausto, a Alemanha pagou e continua a pagar indemnizações e reparações às vítimas e a organizações judaicas.
Na semana passada, a ONU voltou à carga: o Comité das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial emitiu uma resolução defendendo que os países envolvidos, direta ou indiretamente, no tráfico transatlântico de escravos têm a obrigação de conceder reparações pelos danos que causaram. Este crime, diz o documento, “distorceu as relações económicas globais ao distribuir riqueza acumulada injustamente por todas as sociedades e fronteiras, criando uma responsabilidade partilhada pelos seus efeitos duradouros”.
De facto, podemos não nos sentir responsáveis como sociedade por aquilo que fizeram os nossos antepassados. Mas é como um filho que herda dinheiros sujos – ele não cometeu o crime, mas vive à custa dele, beneficia do crime. Porque é inegável a desigualdade que ainda hoje persiste – e persistirá por muito tempo –, consequência do tráfico de escravos.
Quem são os pobres e quem são os ricos? Quem, na nossa sociedade, continua a sofrer todo o tipo de discriminação e impedimentos de aceder aos serviços e aos direitos que damos por garantidos? E quem construiu e desenvolveu Estados com riquezas que não lhe pertenciam?
Como sociedade, somos herdeiros deste privilégio, usufruímos dele e dizemos, ao mesmo tempo, que isso não nos pertence, que o passado já lá vai e a obrigação de o corrigir não nos cabe. Como o “filhinho de papai” incapaz de assumir a idade adulta. Os custos da responsabilidade podem até ser penosos, mas se forem justos permitem-nos existir com mais dignidade. Há heranças que pesam, ainda que façamos tudo por ignorar o fardo que representam.
O que proteger em tempos extremos
Os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal carregaram bombas para dentro da instituição. O perigo não é mais externo. É interno. O presidente Luiz Edson Fachin terá que conduzir com sabedoria salomônica o fim da maior crise da história do Supremo. O foco tem que ser, o que se quer salvar. É de novo a democracia. O ministro Alexandre de Moraes quis usar o inquérito das fake news contra o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça extrapolou de suas funções ao direcionar a investigação, e ao avançar sobre atribuições da Polícia Federal.
A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.
O depoimento de Daniel Vorcaro no gabinete de André Mendonça é uma óbvia tentativa de manipulação. As acusações sem lastro ao diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são para confundir, para tirar proveito da briga entre o ministro e o comando da Polícia Federal.
Qualquer delação premiada de Daniel Vorcaro tem que começar com ele respondendo às perguntas: onde está o dinheiro, quando e como você vai devolver? Ele nunca respondeu. Essa é a explicação para o fato de a delação premiada do ex-banqueiro não ter progredido nem na Polícia Federal, nem no Ministério Público. Vorcaro não admite sequer que cometeu crimes. Ele se comporta como se fosse vítima. E tentou neste depoimento ao juiz substituto do ministro Mendonça mais uma vez alimentar a tese de que é um perseguido. Vorcaro é o criminoso, tem direito às garantias constitucionais mantidas na democracia, mas não pode manipular o sistema judiciário.
Os fatos são importantes. Vorcaro tentava falar com todo mundo que pudesse ter interesse para ele na estrutura de poder no Brasil. Muitos falaram. O erro não está em ter tido contato com ele, mas no que houve na relação entre o agente público e o banqueiro corruptor. O contrato milionário entre o escritório da família de Alexandre de Moraes com ele, revelado por Malu Gaspar, é um fato incontornável. Os diálogos divulgados pelo relatório da Polícia Federal, tornado público pelo ministro André Mendonça na terça-feira passada, trazem indícios contra Moraes que precisam ser esclarecidos.
O dinheiro de Vorcaro não era privado. Ele deu golpes em fundos de pensão de servidores públicos e colocou um rombo num banco público, o BRB. O senador Flávio Bolsonaro não tem razão quando diz que o dinheiro de Vorcaro era privado. Ele se capitalizou saqueando dinheiro público. Um senador da República não pode fazer o que Flávio fez: correr atrás de dinheiro de Vorcaro, sonegar informações de como os recursos foram usados, mentir sobre o volume de dinheiro que recebeu.
O que Vorcaro tenta agora é aproveitar os conflitos e escapar de alguma forma. Tenta criar suspeição sobre Andrei porque a Polícia Federal o prendeu, o interrogou e vai pedir seu indiciamento em breve. A suspeição sobre a PF daria a ele a nulidade do procedimento original.
Uma autoridade que acompanhou os momentos nervosos que levaram Vorcaro a ser apanhado em quase fuga diz que o diretor geral foi essencial desde o primeiro momento. “Eu sei o que ele fez para não deixar o cara escapar naquela noite”.
A estratégia de Daniel Vorcaro neste momento é evidente. Ele está preso, seu pai, seu cunhado e seu primo estão presos. Ele não conseguiu fazer delação premiada porque não entregou informações relevantes, nem quis devolver o dinheiro que escondeu. Está aproveitando a crise entre as instituições — e dentro delas — e a hora da ferrenha disputa eleitoral para fazer seu jogo. Vorcaro vai tentar de tudo agora.
As próximas semanas serão muito tensas. Fachin tem sobre seus ombros de juiz a carga mais pesada. Moraes não pode ser protegido. Mendonça não pode conduzir de forma seletiva sua relatoria. Em Provérbios há um versículo que orienta sobre o que é essencial em tempos turvos. “Sobretudo o que se deve guardar, guarde o seu coração porque dele procedem as fontes da vida”. Não é preciso ser religioso para valorizar a mensagem e entender que o bem mais precioso a guardar neste momento é a democracia.
A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.
O depoimento de Daniel Vorcaro no gabinete de André Mendonça é uma óbvia tentativa de manipulação. As acusações sem lastro ao diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são para confundir, para tirar proveito da briga entre o ministro e o comando da Polícia Federal.
Qualquer delação premiada de Daniel Vorcaro tem que começar com ele respondendo às perguntas: onde está o dinheiro, quando e como você vai devolver? Ele nunca respondeu. Essa é a explicação para o fato de a delação premiada do ex-banqueiro não ter progredido nem na Polícia Federal, nem no Ministério Público. Vorcaro não admite sequer que cometeu crimes. Ele se comporta como se fosse vítima. E tentou neste depoimento ao juiz substituto do ministro Mendonça mais uma vez alimentar a tese de que é um perseguido. Vorcaro é o criminoso, tem direito às garantias constitucionais mantidas na democracia, mas não pode manipular o sistema judiciário.
Os fatos são importantes. Vorcaro tentava falar com todo mundo que pudesse ter interesse para ele na estrutura de poder no Brasil. Muitos falaram. O erro não está em ter tido contato com ele, mas no que houve na relação entre o agente público e o banqueiro corruptor. O contrato milionário entre o escritório da família de Alexandre de Moraes com ele, revelado por Malu Gaspar, é um fato incontornável. Os diálogos divulgados pelo relatório da Polícia Federal, tornado público pelo ministro André Mendonça na terça-feira passada, trazem indícios contra Moraes que precisam ser esclarecidos.
O dinheiro de Vorcaro não era privado. Ele deu golpes em fundos de pensão de servidores públicos e colocou um rombo num banco público, o BRB. O senador Flávio Bolsonaro não tem razão quando diz que o dinheiro de Vorcaro era privado. Ele se capitalizou saqueando dinheiro público. Um senador da República não pode fazer o que Flávio fez: correr atrás de dinheiro de Vorcaro, sonegar informações de como os recursos foram usados, mentir sobre o volume de dinheiro que recebeu.
O que Vorcaro tenta agora é aproveitar os conflitos e escapar de alguma forma. Tenta criar suspeição sobre Andrei porque a Polícia Federal o prendeu, o interrogou e vai pedir seu indiciamento em breve. A suspeição sobre a PF daria a ele a nulidade do procedimento original.
Uma autoridade que acompanhou os momentos nervosos que levaram Vorcaro a ser apanhado em quase fuga diz que o diretor geral foi essencial desde o primeiro momento. “Eu sei o que ele fez para não deixar o cara escapar naquela noite”.
A estratégia de Daniel Vorcaro neste momento é evidente. Ele está preso, seu pai, seu cunhado e seu primo estão presos. Ele não conseguiu fazer delação premiada porque não entregou informações relevantes, nem quis devolver o dinheiro que escondeu. Está aproveitando a crise entre as instituições — e dentro delas — e a hora da ferrenha disputa eleitoral para fazer seu jogo. Vorcaro vai tentar de tudo agora.
As próximas semanas serão muito tensas. Fachin tem sobre seus ombros de juiz a carga mais pesada. Moraes não pode ser protegido. Mendonça não pode conduzir de forma seletiva sua relatoria. Em Provérbios há um versículo que orienta sobre o que é essencial em tempos turvos. “Sobretudo o que se deve guardar, guarde o seu coração porque dele procedem as fontes da vida”. Não é preciso ser religioso para valorizar a mensagem e entender que o bem mais precioso a guardar neste momento é a democracia.
O grande desafio alimentar que as mudanças climáticas trazem
O sistema alimentar global está sob crescente pressão , e novas pesquisas apontam para áreas específicas onde isso pode levar a conflitos.
Secas severas e eventos climáticos extremos estão prejudicando as colheitas em muitas regiões. O fenômeno El Niño, em desenvolvimento , ameaça agravar a escassez de alimentos para milhões de pessoas no próximo ano. Ao mesmo tempo, guerras e tensões geopolíticas estão interrompendo as cadeias de suprimentos que garantem o transporte de alimentos e produtos agrícolas.
Especialistas alertam há tempos que o aumento da insegurança alimentar pode levar à instabilidade. Quando as pessoas não conseguem mais alimentar suas famílias, elas lutam por terra, água e outros recursos, ou são deslocadas. Em países frágeis, essas pressões podem contribuir para a agitação social e até mesmo para conflitos armados.
O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (CADI, na sigla em inglês), desenvolvido por Hannes Mueller e seus colegas, mostra como as mudanças climáticas estão transformando a produtividade agrícola em todo o mundo. "As perdas mais severas estão ocorrendo nas regiões tropicais", afirma Mueller, pesquisador do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona.
As mudanças climáticas já estão reduzindo a produção de alimentos em muitas partes do mundo. Centenas de milhões de pessoas vivem em áreas onde as colheitas são menores do que eram há 30 anos. Mueller menciona Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador como países onde as perdas agrícolas já estão sendo sentidas. Nos próximos 25 anos, quase metade da população mundial poderá estar vivendo em áreas onde as fazendas produzem menos alimentos.
Essas pressões podem enfraquecer governos, alimentar a migração e facilitar o recrutamento de combatentes por grupos armados. Em sociedades já instáveis, esses fatores podem levá-las à crise.
No entanto, a pesquisa da CADI aponta para uma realidade surpreendente: o aumento da produtividade agrícola também parece aumentar o risco de violência. Mueller explica que a questão fundamental não é apenas a escassez, mas a mudança. A crise climática e outras perturbações não estão simplesmente empobrecendo algumas regiões. Em alguns lugares, terras antes marginais estão se tornando mais produtivas e valiosas. E isso atrai investidores e cria competição pela propriedade e pelo acesso.
Portanto, países que aparentam se beneficiar de forma geral podem enfrentar novas tensões. O Sudão, por exemplo, tem previsão de aumentar sua produção de alimentos com as mudanças climáticas. Mas, embora algumas áreas possam se tornar mais produtivas, outras podem sofrer perdas, criando novos vencedores e perdedores dentro do país e aumentando o risco de conflitos.
Essa instabilidade iminente também afeta áreas onde a mudança na produtividade ainda nem ocorreu. "Se soubermos que sua terra será mais produtiva, podemos querer tomá-la de você hoje mesmo. É exatamente aí que as negociações fracassam e a violência irrompe."
Uma das descobertas mais surpreendentes da equipe do CADI é que as mudanças na agricultura têm maior probabilidade de desencadear conflitos em países não democráticos. “As democracias podem parecer irritantes e burocráticas. Nada acontece tão rápido quanto as pessoas gostariam. Mas isso é fantástico, porque incentiva a comunicação entre as pessoas”, afirma Mueller. “Existe uma plataforma para negociação. Existem instituições que ajudam as pessoas a negociar. Esse processo de busca constante por soluções é fundamental para prevenir conflitos.”
Enquanto a Índia realiza seu censo populacional, pesquisadores alertam que as mudanças climáticas podem dificultar a produção de alimentos suficientes para uma população crescente em algumas áreas do país.
“Não damos a devida atenção às ameaças que pairam sobre a fonte de nossos meios de subsistência”, afirma Abdullah Fahimi, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP). “As regiões às quais precisamos prestar mais atenção são o Sul da Ásia e o Sahel, onde a vulnerabilidade climática e o rápido crescimento populacional significam que o número de pessoas afetadas pode aumentar drasticamente.”
À medida que a insegurança alimentar se agrava, as consequências sociais e políticas podem se multiplicar. "Quando a escassez de recursos ou os efeitos das mudanças climáticas forçam as pessoas a buscar outros meios de subsistência, elas às vezes acabam sendo recrutadas por grupos terroristas", enfatiza Fahimi, que cita exemplos da Nigéria e do Afeganistão. Em outros casos, a frustração pública se volta contra os governos se estes não conseguirem mitigar o impacto sobre os meios de subsistência das pessoas; sua legitimidade é questionada, e isso pode degenerar em conflitos violentos.
Isso corrobora a conclusão geral de Mueller. Mudanças climáticas, guerras e interrupções no comércio não levam automaticamente a conflitos. A questão fundamental é se as sociedades possuem instituições capazes de gerenciar essas mudanças. Onde governos, tribunais e instituições locais conseguem ajudar as comunidades a lidar com as novas realidades, será possível mitigar os impactos. Onde essas instituições são frágeis, a pressão sobre os sistemas alimentares pode se tornar uma ameaça à própria paz.
Secas severas e eventos climáticos extremos estão prejudicando as colheitas em muitas regiões. O fenômeno El Niño, em desenvolvimento , ameaça agravar a escassez de alimentos para milhões de pessoas no próximo ano. Ao mesmo tempo, guerras e tensões geopolíticas estão interrompendo as cadeias de suprimentos que garantem o transporte de alimentos e produtos agrícolas.
Especialistas alertam há tempos que o aumento da insegurança alimentar pode levar à instabilidade. Quando as pessoas não conseguem mais alimentar suas famílias, elas lutam por terra, água e outros recursos, ou são deslocadas. Em países frágeis, essas pressões podem contribuir para a agitação social e até mesmo para conflitos armados.
O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (CADI, na sigla em inglês), desenvolvido por Hannes Mueller e seus colegas, mostra como as mudanças climáticas estão transformando a produtividade agrícola em todo o mundo. "As perdas mais severas estão ocorrendo nas regiões tropicais", afirma Mueller, pesquisador do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona.
As mudanças climáticas já estão reduzindo a produção de alimentos em muitas partes do mundo. Centenas de milhões de pessoas vivem em áreas onde as colheitas são menores do que eram há 30 anos. Mueller menciona Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador como países onde as perdas agrícolas já estão sendo sentidas. Nos próximos 25 anos, quase metade da população mundial poderá estar vivendo em áreas onde as fazendas produzem menos alimentos.
Essas pressões podem enfraquecer governos, alimentar a migração e facilitar o recrutamento de combatentes por grupos armados. Em sociedades já instáveis, esses fatores podem levá-las à crise.
No entanto, a pesquisa da CADI aponta para uma realidade surpreendente: o aumento da produtividade agrícola também parece aumentar o risco de violência. Mueller explica que a questão fundamental não é apenas a escassez, mas a mudança. A crise climática e outras perturbações não estão simplesmente empobrecendo algumas regiões. Em alguns lugares, terras antes marginais estão se tornando mais produtivas e valiosas. E isso atrai investidores e cria competição pela propriedade e pelo acesso.
Portanto, países que aparentam se beneficiar de forma geral podem enfrentar novas tensões. O Sudão, por exemplo, tem previsão de aumentar sua produção de alimentos com as mudanças climáticas. Mas, embora algumas áreas possam se tornar mais produtivas, outras podem sofrer perdas, criando novos vencedores e perdedores dentro do país e aumentando o risco de conflitos.
Essa instabilidade iminente também afeta áreas onde a mudança na produtividade ainda nem ocorreu. "Se soubermos que sua terra será mais produtiva, podemos querer tomá-la de você hoje mesmo. É exatamente aí que as negociações fracassam e a violência irrompe."
Uma das descobertas mais surpreendentes da equipe do CADI é que as mudanças na agricultura têm maior probabilidade de desencadear conflitos em países não democráticos. “As democracias podem parecer irritantes e burocráticas. Nada acontece tão rápido quanto as pessoas gostariam. Mas isso é fantástico, porque incentiva a comunicação entre as pessoas”, afirma Mueller. “Existe uma plataforma para negociação. Existem instituições que ajudam as pessoas a negociar. Esse processo de busca constante por soluções é fundamental para prevenir conflitos.”
Enquanto a Índia realiza seu censo populacional, pesquisadores alertam que as mudanças climáticas podem dificultar a produção de alimentos suficientes para uma população crescente em algumas áreas do país.
“Não damos a devida atenção às ameaças que pairam sobre a fonte de nossos meios de subsistência”, afirma Abdullah Fahimi, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP). “As regiões às quais precisamos prestar mais atenção são o Sul da Ásia e o Sahel, onde a vulnerabilidade climática e o rápido crescimento populacional significam que o número de pessoas afetadas pode aumentar drasticamente.”
À medida que a insegurança alimentar se agrava, as consequências sociais e políticas podem se multiplicar. "Quando a escassez de recursos ou os efeitos das mudanças climáticas forçam as pessoas a buscar outros meios de subsistência, elas às vezes acabam sendo recrutadas por grupos terroristas", enfatiza Fahimi, que cita exemplos da Nigéria e do Afeganistão. Em outros casos, a frustração pública se volta contra os governos se estes não conseguirem mitigar o impacto sobre os meios de subsistência das pessoas; sua legitimidade é questionada, e isso pode degenerar em conflitos violentos.
Isso corrobora a conclusão geral de Mueller. Mudanças climáticas, guerras e interrupções no comércio não levam automaticamente a conflitos. A questão fundamental é se as sociedades possuem instituições capazes de gerenciar essas mudanças. Onde governos, tribunais e instituições locais conseguem ajudar as comunidades a lidar com as novas realidades, será possível mitigar os impactos. Onde essas instituições são frágeis, a pressão sobre os sistemas alimentares pode se tornar uma ameaça à própria paz.
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