sábado, 18 de julho de 2026
A guerra é um presente, mas não para os EUA
À medida que a tensão com o Irã oscila de uma semana para outra, uma tendência fica clara: a China é a maior beneficiária do conflito. Pequim não precisou disparar um único tiro, gastar quantias vultosas ou consumir capital político. No entanto, obteve mais ganhos com a crise do que com qualquer outro país nas últimas três décadas.
O conflito acelerou três objetivos de longa data da China: um Oriente Médio menos dependente dos EUA; um mundo mais dependente de tecnologias chinesas; e a consolidação da reputação de Pequim como uma potência mundial séria e estável.
Pequim não tentou substituir Washington enquanto fiador militar do Oriente Médio – isso exigiria compromissos dispendiosos. Seu objetivo é mais simples e sutil: afastar o Golfo Pérsico da órbita americana. Donald Trump está realizando grande parte desse trabalho para Xi Jinping.
Aliados dos EUA no Golfo viram Washington conduzir a guerra de maneira caótica e com pouca consideração pelos danos causados às cidades, à infraestrutura e às economias da região. O Golfo Pérsico está agora se dividindo em dois blocos. Os Emirados Árabes estão se aproximando de Israel e EUA. No entanto, um grupo maior liderado pela Arábia Saudita, que inclui Catar, Omã e, talvez, Iraque e Turquia, provavelmente buscará segurança no longo prazo por meio de um equilíbrio: manter laços com os EUA, mas também dialogar com o Irã e melhorar as relações com a China.
Essa é precisamente a ordem regional que Pequim quer. Em 2023, a China mediou a restauração das relações entre Arábia Saudita e Irã. Desde então, Riad resiste a aderir a certos projetos liderados pelos EUA sobre data centers e chips. O país comprou mísseis e drones chineses, realizou exercícios com a marinha chinesa e explorou a produção local de drones de combate Wing Loong.
Os países do Golfo foram destino de mais de 80% das exportações chinesas de defesa para o Oriente Médio entre 2016 e 2025. Ninguém está tentando substituir o guarda-chuva de segurança dos EUA, mas eles querem opções – e opções reduzem a influência americana.
A vitória mais impressionante da China é de natureza geoeconômica. À primeira vista, um país que importa 70% de seu petróleo deveria estar entre os maiores perdedores da guerra. No entanto, Pequim resistiu ao choque melhor do que a maioria, porque passou anos se preparando. Diversificou fornecedores, construiu o que se estima ser a maior reserva estratégica de petróleo do mundo, continuou utilizando carvão, expandiu a energia nuclear e eletrificou sua economia em uma escala que nenhum outro país igualou.
A eletricidade responde por 30% do consumo de energia da China, um índice quase 40% superior ao dos EUA ou da Europa. Em 2024, a China foi responsável pela instalação de mais da metade de toda a nova capacidade global de energia eólica e solar. Por todos esses motivos, o país pôde reduzir suas importações de petróleo em 4 milhões de barris por dia durante o conflito.
A guerra tornou-se uma enorme vitrine para as tecnologias estratégicas chinesas. Governos de todo o mundo buscam expandir suas capacidades em energia solar, baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e redes de energia.
A China detém 91% da capacidade global de fabricação de painéis solares e 89% da capacidade de produção de baterias de íon-lítio. Empresas chinesas fabricam 70% de quase todas as tecnologias de energia limpa monitoradas pela Bloomberg. Quanto mais tempo persistir a insegurança energética, mais o mundo recorrerá às indústrias dominadas pelos chineses.
A guerra também promoveu um objetivo fundamental da China: enfraquecer o domínio do dólar sobre o comércio global. Segundo relatos, o Irã permitiu a passagem de alguns navios-tanque pelo Estreito de Ormuz sob a condição de que as transações fossem feitas em renminbi chinês (ou em criptomoedas).
A China e seus parceiros ampliaram o comércio em renminbi para reduzir a exposição às sanções americanas. Essa mudança será gradual, mas a tendência agora é inconfundível: o afastamento da hegemonia do dólar.
Por fim, há o ganho inesperado em termos de reputação. O governo Trump entrou na guerra com objetivos grandiosos: mudança de regime, destruição do programa nuclear do Irã e eliminação de suas capacidades de mísseis balísticos e de seu apoio a grupos aliados na região. Não alcançou nenhum. Em vez disso, espera apenas abrir o Estreito de Ormuz, que já estava aberto antes da guerra.
Trump escolheu esta guerra e, ao fazê-lo, consumiu dezenas de bilhões de dólares, desperdiçou munições, desviou recursos militares da Ásia, desestabilizou aliados e demonstrou que, mesmo com o enorme poder dos EUA, uma estratégia errada e táticas em constante mudança geram maus resultados.
A China fez pouco. Continuou comprando petróleo iraniano, manteve relações com países do Oriente Médio e evitou os custos de defender o Irã ou de patrulhar o Golfo. Essa é a abordagem preferida de Pequim: nada de confrontos, mas sim o acúmulo constante de influência.
Nos últimos 25 anos, os EUA se exauriram em três grandes aventuras militares no Oriente Médio enquanto a China acumulava poder industrial, capacidade tecnológica e relações diplomáticas. Washington age. Pequim aguarda. A China arcou com custos decorrentes desta guerra – preços de energia mais altos, cadeias de abastecimento interrompidas e uma demanda global mais fraca. Mas o poder é sempre relativo. Em comparação aos danos sofridos pelos objetivos, pelas alianças e pela credibilidade dos EUA, a China saiu em vantagem.
Fareed Zakaria
Racismo. Quem não é contra é a favor
Nunca entendi o absurdo do racismo, por isso sempre o odiei. Tive a sorte de ter como melhor amigo desde a infância e por toda a vida, como um irmão e parceiro em vários empreendimentos vitoriosos, um negro, um dos melhores seres humano que conheci, que a cada dia me mostrava o absurdo do racismo.
Em 25 de março de 2026 a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos africanos e a escravização racializada como “crime mais grave contra a Humanidade”. A resolução foi aprovada por123 votos a favor e 3 contra: Estados Unidos, Israel e Argentina.
Não muda nada, mas diz tudo. Depois de importar e usar milhões de escravos africanos, metade da população, a Argentina libertou-os para deixá-los morrer de fome e de doenças, abrindo caminho para o projeto de branqueamento do país com a importação em massa de italianos e espanhóis. Eliminaram os negros, hoje 1% da população, mas não conseguiram exterminar os índios, que continuam “sujando” a sua branquitude com mestiços como vários craques argentinos.
Nos Estados Unidos, dizimaram os indígenas e escravizaram milhões de negros, 600 mil americanos se mataram na Guerra Civil, com o Sul rural e o Norte industrializado lutando pelo fim da escravidão. Hoje os negros americanos são 12% da população e conquistaram imenso poder político e social numa luta permanente contra a discriminação e o preconceito. E muita gente morreu por isso. Mas a cultura negra americana do século XX, nas artes, no esporte, no comportamento, na moda, tornou-se um fenômeno cultural que mudou o mundo, numa colossal derrota do racismo. Mesmo que os supremacistas brancos de Trump digam que qualquer caipira idiota do Texas pode se achar melhor do que o negro mais brilhante.
Mas o que esperar de assassinos como Trump e Netanyahu e um idiota como Milei? Interessante, porque o povo judeu foi vítima do maior holocausto da História. Racismo no rabo dos outros é refresco.
É irônico, porque a combinação de maior sucesso na indústria musical americana foi de artistas negros com executivos judeus, que se harmonizavam na discriminação para conquistar qualidade, vendas e prêmios.
Sempre amei a América, por sua cultura, seu progresso, sua modernidade e liberdade. No more. Hoje o mundo odeia a América de Trump, e a maior parte dos americanos também. E o seu racismo se manifesta no ódio e na inveja patológica de Obama, mas qualquer comparação entre a educação, cultura e elegância do estadista negro com um “white trash” de reality show grosso, ignorante e autoritário é uma fragorosa derrota do racismo.
E também sempre amei a Argentina, por seus escritores e artistas, por seu cinema, seu rock and roll e seu futebol, por seu humor e sua loucura: Buenos Aires é a cidade com mais psicanalistas per capita do mundo. A Argentina não é um bando de racistas ignorantes numa arquibancada de futebol, mas a omissão de suas vozes mais fortes, como o gênio Messi, na luta contra o racismo, diz tanto sobre preconceito como covardia.
Em 25 de março de 2026 a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos africanos e a escravização racializada como “crime mais grave contra a Humanidade”. A resolução foi aprovada por123 votos a favor e 3 contra: Estados Unidos, Israel e Argentina.
Não muda nada, mas diz tudo. Depois de importar e usar milhões de escravos africanos, metade da população, a Argentina libertou-os para deixá-los morrer de fome e de doenças, abrindo caminho para o projeto de branqueamento do país com a importação em massa de italianos e espanhóis. Eliminaram os negros, hoje 1% da população, mas não conseguiram exterminar os índios, que continuam “sujando” a sua branquitude com mestiços como vários craques argentinos.
Nos Estados Unidos, dizimaram os indígenas e escravizaram milhões de negros, 600 mil americanos se mataram na Guerra Civil, com o Sul rural e o Norte industrializado lutando pelo fim da escravidão. Hoje os negros americanos são 12% da população e conquistaram imenso poder político e social numa luta permanente contra a discriminação e o preconceito. E muita gente morreu por isso. Mas a cultura negra americana do século XX, nas artes, no esporte, no comportamento, na moda, tornou-se um fenômeno cultural que mudou o mundo, numa colossal derrota do racismo. Mesmo que os supremacistas brancos de Trump digam que qualquer caipira idiota do Texas pode se achar melhor do que o negro mais brilhante.
Mas o que esperar de assassinos como Trump e Netanyahu e um idiota como Milei? Interessante, porque o povo judeu foi vítima do maior holocausto da História. Racismo no rabo dos outros é refresco.
É irônico, porque a combinação de maior sucesso na indústria musical americana foi de artistas negros com executivos judeus, que se harmonizavam na discriminação para conquistar qualidade, vendas e prêmios.
Sempre amei a América, por sua cultura, seu progresso, sua modernidade e liberdade. No more. Hoje o mundo odeia a América de Trump, e a maior parte dos americanos também. E o seu racismo se manifesta no ódio e na inveja patológica de Obama, mas qualquer comparação entre a educação, cultura e elegância do estadista negro com um “white trash” de reality show grosso, ignorante e autoritário é uma fragorosa derrota do racismo.
E também sempre amei a Argentina, por seus escritores e artistas, por seu cinema, seu rock and roll e seu futebol, por seu humor e sua loucura: Buenos Aires é a cidade com mais psicanalistas per capita do mundo. A Argentina não é um bando de racistas ignorantes numa arquibancada de futebol, mas a omissão de suas vozes mais fortes, como o gênio Messi, na luta contra o racismo, diz tanto sobre preconceito como covardia.
A vida não passa de itens digitalizados
A propósito da trapalhada com os exames nacionais, multiplicaram-se nos canais noticiosos os relatos de professores que tentavam navegar pelo rocambolesco processo. Uma destas participações foi particularmente reveladora. Parafraseio de memória: as respostas, em papel, eram recolhidas dos alunos, transportadas para um local seguro, digitalizadas, colocadas na plataforma, acedidas pelos professores, impressas para facilidade de correção e anotações, digitalizadas e submetidas de novo através da plataforma. É admirável a simplicidade do mundo novo.
Tudo isto ganha dimensão por causa do que está em jogo, mas esta lógica do recurso ao digital como se fosse uma inevitabilidade desejável não será novidade para ninguém. Não são poucas as vezes que temos de dar uma volta maior do que a necessária para acomodar a eficiência digital.
No restaurante que nos obriga a abrir um link através de um código QR para navegar por um menu num ecrã demasiado pequeno para perceber seja o que for, e sem ajuda nem oportunidade para fazer perguntas. No atendimento telefónico de inteligência artificial que tenta fazer à força com que o nosso problema se encaixe nas suas capacidades. Nas caixas de supermercado onde temos de passar as nossas próprias contas, acertar nos códigos, lembrarmo-nos do nome do pão e do tipo de tangerina, esperar pela ajuda humana quando há erro e depois ainda passar o talão para provar que não se é um larápio. Quando se faz o “check-in online” para “evitar complicações e filas” e depois temos de ir para a fila na mesma porque o processo não se completa sem a intervenção de uma pessoa. Quando se pede a pessoas com pouca escolaridade, capacidades físicas reduzidas, pouca familiaridade com o mundo digital que “siga o QR code e faça download da app a partir da appstore e faça login com o seu email”.
Instalou-se um ambiente de obsessão pelo digital. A própria ideia de ter um país com áreas em que o processo de digitalização não está completamente instalado é suficiente para fazer uma pessoa decente ter afrontamentos, que horror.
A sofreguidão que mostramos em nos juntarmos ao mundo digitalizado mostra bem como andamos completamente desnorteados. Em vez de pararmos para pensar, por exemplo, no modelo de educação que queremos para termos cidadãos mais críticos, com maior capacidade de aprendizagem, mais empáticos e mais inseridos numa comunidade viva e solidária, vivemos obcecados em ideias obsoletas e contraproducentes como são a excelência e o mérito.
É à boleia desses lugares comuns que se aceitam acriticamente como evidentes que também se embarca na ideia de que é preciso digitalizar tudo, é preciso pôr tecnologia em tudo e subordinar tudo a esta nova lógica.
Não penso que a solução esteja no regresso à idade da pedra. É óbvio que muitos avanços tecnológicos aumentaram as nossas vidas, tornaram-nas mais cheias e aumentaram aquilo que é possível fazermos enquanto formos vivos com maior conforto. Também é óbvio que muitos avanços tecnológicos nos transformaram em agarrados, drogados do ecrã que gastam tempo e dinheiro que não têm para satisfazer o vício.
Na minha terra eram conhecidas as histórias das pessoas que se endividavam para comprar um carro todo-o-terreno para o passearem aos fins-de-semana pelas marginais da zona e serem vistos naquele monstro gigante de metal. Lá do cimo olhavam cá para baixo, para os comuns mortais imaginando-os cheios de inveja e rancor. Quem lhes dera poder também comprar um jipe para o passearem pelas marginais. Nunca tiveram outro uso para os carros que não esse. Usaram a tração às quatro rodas uma vez, para mostrar ao cunhado a bomba que tinham comprado e pronto, ali estava a bomba. Ninguém tinha uso para elas e toda a gente queria uma.
Assim acontece com a tecnologia. Aceitamo-la como símbolo de sucesso de um país e andamos loucos atrás dela sem sabermos porquê. Na verdade, pouco interessa. A tecnologia é feita por empresas que geram riqueza e postos de trabalho e Deus sabe que não há nada neste mundo que se consiga meter entre um empreendedor e o seu lucro. Fazermos perguntas tontas como “precisamos mesmo disto?” é conversa de velho do Restelo que quer voltar para as cavernas, pá! Conversa de herege que com certeza só está bem a ver Portugal na cauda da Europa.
Precisamos mesmo de exames digitalizados? Mesmo partindo do princípio que a transição poderia ter sido livre de incidentes e todos os problemas são passageiros, para além de se aceitar como óbvia a necessidade da digitalização, não valeria a pena para um pouco para pensar se é mesmo assim. Até poderíamos chegar à conclusão de que assim é, mas parece que ninguém está interessado em fazê-lo.
No meio do imediatismo da espuma, ficam sempre por fazer as perguntas que mais ganharíamos em fazer. Mas quem sou eu? Deixe-se estar tudo assim que prefiro estar aqui no meu sofá agarrado ao telemóvel do que pendurado pelas pernas no pelourinho.
Tudo isto ganha dimensão por causa do que está em jogo, mas esta lógica do recurso ao digital como se fosse uma inevitabilidade desejável não será novidade para ninguém. Não são poucas as vezes que temos de dar uma volta maior do que a necessária para acomodar a eficiência digital.
No restaurante que nos obriga a abrir um link através de um código QR para navegar por um menu num ecrã demasiado pequeno para perceber seja o que for, e sem ajuda nem oportunidade para fazer perguntas. No atendimento telefónico de inteligência artificial que tenta fazer à força com que o nosso problema se encaixe nas suas capacidades. Nas caixas de supermercado onde temos de passar as nossas próprias contas, acertar nos códigos, lembrarmo-nos do nome do pão e do tipo de tangerina, esperar pela ajuda humana quando há erro e depois ainda passar o talão para provar que não se é um larápio. Quando se faz o “check-in online” para “evitar complicações e filas” e depois temos de ir para a fila na mesma porque o processo não se completa sem a intervenção de uma pessoa. Quando se pede a pessoas com pouca escolaridade, capacidades físicas reduzidas, pouca familiaridade com o mundo digital que “siga o QR code e faça download da app a partir da appstore e faça login com o seu email”.
A tecnologia é uma solucionadora. Soluciona tão completamente que chega a solucionar o problema que deveras não está presente
Instalou-se um ambiente de obsessão pelo digital. A própria ideia de ter um país com áreas em que o processo de digitalização não está completamente instalado é suficiente para fazer uma pessoa decente ter afrontamentos, que horror.
A sofreguidão que mostramos em nos juntarmos ao mundo digitalizado mostra bem como andamos completamente desnorteados. Em vez de pararmos para pensar, por exemplo, no modelo de educação que queremos para termos cidadãos mais críticos, com maior capacidade de aprendizagem, mais empáticos e mais inseridos numa comunidade viva e solidária, vivemos obcecados em ideias obsoletas e contraproducentes como são a excelência e o mérito.
É à boleia desses lugares comuns que se aceitam acriticamente como evidentes que também se embarca na ideia de que é preciso digitalizar tudo, é preciso pôr tecnologia em tudo e subordinar tudo a esta nova lógica.
Não penso que a solução esteja no regresso à idade da pedra. É óbvio que muitos avanços tecnológicos aumentaram as nossas vidas, tornaram-nas mais cheias e aumentaram aquilo que é possível fazermos enquanto formos vivos com maior conforto. Também é óbvio que muitos avanços tecnológicos nos transformaram em agarrados, drogados do ecrã que gastam tempo e dinheiro que não têm para satisfazer o vício.
Na minha terra eram conhecidas as histórias das pessoas que se endividavam para comprar um carro todo-o-terreno para o passearem aos fins-de-semana pelas marginais da zona e serem vistos naquele monstro gigante de metal. Lá do cimo olhavam cá para baixo, para os comuns mortais imaginando-os cheios de inveja e rancor. Quem lhes dera poder também comprar um jipe para o passearem pelas marginais. Nunca tiveram outro uso para os carros que não esse. Usaram a tração às quatro rodas uma vez, para mostrar ao cunhado a bomba que tinham comprado e pronto, ali estava a bomba. Ninguém tinha uso para elas e toda a gente queria uma.
Assim acontece com a tecnologia. Aceitamo-la como símbolo de sucesso de um país e andamos loucos atrás dela sem sabermos porquê. Na verdade, pouco interessa. A tecnologia é feita por empresas que geram riqueza e postos de trabalho e Deus sabe que não há nada neste mundo que se consiga meter entre um empreendedor e o seu lucro. Fazermos perguntas tontas como “precisamos mesmo disto?” é conversa de velho do Restelo que quer voltar para as cavernas, pá! Conversa de herege que com certeza só está bem a ver Portugal na cauda da Europa.
Precisamos mesmo de exames digitalizados? Mesmo partindo do princípio que a transição poderia ter sido livre de incidentes e todos os problemas são passageiros, para além de se aceitar como óbvia a necessidade da digitalização, não valeria a pena para um pouco para pensar se é mesmo assim. Até poderíamos chegar à conclusão de que assim é, mas parece que ninguém está interessado em fazê-lo.
No meio do imediatismo da espuma, ficam sempre por fazer as perguntas que mais ganharíamos em fazer. Mas quem sou eu? Deixe-se estar tudo assim que prefiro estar aqui no meu sofá agarrado ao telemóvel do que pendurado pelas pernas no pelourinho.
Tarifaço indica que objetivos de Trump vão além de interferir em política do Brasil
O novo tarifaço decretado pelo presidente americano Donald Trump contra o Brasil claramente tem potencial de beneficiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida eleitoral. Essa correlação foi mencionada pelo próprio senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em sua exposição no início do mês no Congresso americano e evidentemente não é desconhecida da Casa Branca.
A opção de fazê-lo, e fazê-lo agora, e de forma a vinculá-lo diretamente a Lula, como deixou claro a postagem do secretário de Estado Marco Rubio nas redes sociais, indica que seu objetivo vai além de questões políticas conjunturais brasileiras. O que tudo indica é que está em curso uma confrontação de fôlego maior, para os próximos anos. A postagem de Rubio torna improvável um aperto de mãos entre Lula e Trump como houve em outubro do ano passado. Ele responsabilizou nominalmente o presidente brasileiro. Queimou os galeões.
A pressão contra Lula ocorre no mesmo ano em que os Estados Unidos intervêm militarmente na Venezuela, reforça o bloqueio econômico contra Cuba e criam condições para uma ação direta contra México e Brasil, em nome de combate a grandes cartéis do crime organizado. O ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência Hussein Kalout lembra ainda de outros componentes, como o projeto de instalação de uma base militar no Paraguai, que vão compondo uma espécie de avanço na América Latina que potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da região. O Brasil, na visão dele, é o verdadeiro alvo da doutrina Donroe. O objetivo seria cortar a autonomia de voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União Europeia, quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério Ocidental.
Ao comparecer ao Congresso dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro fez uma manobra de alto risco. Ele lá compareceu oficialmente para falar contra um tarifaço que era mais do que provável, mas usou na ocasião de argumentos políticos, e não técnicos. Em vez de se distanciar, reforçou o vínculo com um presidente francamente hostil ao governo brasileiro que age para prejudicar a economia do país. Tal estratégia só reverteria em ganho para Flávio se ele fosse alçado a uma posição negociadora, o que não se deu.
O tarifaço americano de agora também é mais perigoso para Lula do que foi o do ano passado. Quando Trump sancionou o Brasil pela primeira vez, exatamente há um ano, estabeleceu como alvo preferencial o Judiciário brasileiro, o que não alijava Lula do papel de mediador. Desta vez nada indica que as sanções não entrarão efetivamente em vigor. Caso os prejuízos à economia desçam para o cotidiano do eleitor antes de outubro, não há narrativa política que possa contrabalançar. O eleitor tende a cobrar medidas concretas para resolver o estrago.
César Felício
A opção de fazê-lo, e fazê-lo agora, e de forma a vinculá-lo diretamente a Lula, como deixou claro a postagem do secretário de Estado Marco Rubio nas redes sociais, indica que seu objetivo vai além de questões políticas conjunturais brasileiras. O que tudo indica é que está em curso uma confrontação de fôlego maior, para os próximos anos. A postagem de Rubio torna improvável um aperto de mãos entre Lula e Trump como houve em outubro do ano passado. Ele responsabilizou nominalmente o presidente brasileiro. Queimou os galeões.
A pressão contra Lula ocorre no mesmo ano em que os Estados Unidos intervêm militarmente na Venezuela, reforça o bloqueio econômico contra Cuba e criam condições para uma ação direta contra México e Brasil, em nome de combate a grandes cartéis do crime organizado. O ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência Hussein Kalout lembra ainda de outros componentes, como o projeto de instalação de uma base militar no Paraguai, que vão compondo uma espécie de avanço na América Latina que potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da região. O Brasil, na visão dele, é o verdadeiro alvo da doutrina Donroe. O objetivo seria cortar a autonomia de voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União Europeia, quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério Ocidental.
Ao comparecer ao Congresso dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro fez uma manobra de alto risco. Ele lá compareceu oficialmente para falar contra um tarifaço que era mais do que provável, mas usou na ocasião de argumentos políticos, e não técnicos. Em vez de se distanciar, reforçou o vínculo com um presidente francamente hostil ao governo brasileiro que age para prejudicar a economia do país. Tal estratégia só reverteria em ganho para Flávio se ele fosse alçado a uma posição negociadora, o que não se deu.
O tarifaço americano de agora também é mais perigoso para Lula do que foi o do ano passado. Quando Trump sancionou o Brasil pela primeira vez, exatamente há um ano, estabeleceu como alvo preferencial o Judiciário brasileiro, o que não alijava Lula do papel de mediador. Desta vez nada indica que as sanções não entrarão efetivamente em vigor. Caso os prejuízos à economia desçam para o cotidiano do eleitor antes de outubro, não há narrativa política que possa contrabalançar. O eleitor tende a cobrar medidas concretas para resolver o estrago.
César Felício
O racismo em código
“O fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis.” A advertência de Umberto Eco, escrita há quase trinta anos, parece ter encontrado uma imagem definitiva no vagão de um metrô em Washington. Durante as comemorações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, uma mulher negra permaneceu sentada enquanto dezenas de homens mascarados, integrantes da organização supremacista Patriot Front, ocupavam o mesmo espaço. A fotografia, registrada pela Reuters, viralizou porque condensava, em um único enquadramento, um dos maiores paradoxos do nosso tempo: aqueles que defendem a superioridade branca escondem o próprio rosto, enquanto a vítima potencial da violência é a única plenamente identificável.
A imagem não retrata apenas um episódio isolado. Ela sintetiza uma transformação profunda na forma como a extrema direita contemporânea comunica suas ideias. Diferentemente do século XX, quando movimentos fascistas e nazistas exibiam seus símbolos de maneira ostensiva, a supremacia branca do século XXI compreendeu que sobreviver politicamente exige mudar de linguagem. O objetivo permanece o mesmo. O método, porém, tornou-se mais sofisticado.
Stuart Hall ensinou que o racismo nunca foi apenas um conjunto de crenças biológicas. Trata-se de um sistema de produção de significados que acompanha as transformações históricas das sociedades. Quando determinados discursos deixam de ser socialmente aceitáveis, eles não desaparecem; reorganizam-se. Mudam as palavras, preservam-se as hierarquias. A linguagem adapta-se aos limites morais de cada época sem abandonar sua função política.
É exatamente esse movimento que observamos na expansão contemporânea dos grupos supremacistas. Em entrevista recente, o historiador Odilon Caldeira Neto, disse que o supremacismo branco contemporâneo deve ser compreendido como um “amálgama” de organizações com referências ideológicas variadas, que compartilham uma linguagem comum, ainda que possuam diferenças entre si. Nesse campo encontram-se nacionalistas brancos, grupos identitários, setores da direita alternativa e organizações neonazistas.
Essa mudança não significa que o racismo tenha diminuído. Significa que ele aprendeu a operar por meio de códigos.
Os chamados dog whistles (apito de cachorro), expressão utilizada para designar mensagens compreendidas apenas por determinados grupos, tornaram-se parte importante dessa estratégia. Funcionam como um apito inaudível para a maioria das pessoas, mas perfeitamente reconhecível por aqueles que compartilham o mesmo repertório ideológico. O pesquisador explicou que esses símbolos cumprem exatamente essa função: permitem o reconhecimento entre extremistas ao mesmo tempo em que dificultam sua responsabilização pública.
Não por acaso, Roland Barthes lembrava que os signos nunca são inocentes. Em Mitologias, mostrou que objetos, imagens e gestos cotidianos podem ser apropriados pela ideologia e passar a carregar significados muito além de sua aparência imediata. Um gesto deixa de ser apenas um gesto quando passa a funcionar como linguagem política.
Foi exatamente isso que a Copa do Mundo de 2026 colocou em evidência.
Antes da partida entre Alemanha e Curaçao, o árbitro de vídeo australiano Shaun Evans foi acusado de realizar um gesto associado ao White Power. A FIFA abriu investigação, concluiu que o movimento havia sido involuntário e encerrou o caso sem qualquer punição. A decisão, do ponto de vista disciplinar, encerrou o processo. Do ponto de vista sociológico, entretanto, inaugurou um debate muito mais relevante.
O problema nunca esteve apenas na intenção individual do árbitro.
O episódio tornou visível algo maior: determinados símbolos passaram a ocupar uma zona cinzenta na comunicação contemporânea. São suficientemente conhecidos para despertar suspeitas e suficientemente ambíguos para impedir conclusões definitivas. Essa ambiguidade constitui precisamente sua força política.
O Brasil conheceu uma situação semelhante em março de 2021, quando Filipe Martins, então assessor especial para Assuntos Internacionais do então presidente da república Jair Bolsonaro, realizou gesto idêntico durante uma sessão do Senado Federal. O caso provocou intensa repercussão política e jurídica, culminando em condenação pela Justiça Federal por racismo e incitação ao preconceito racial. Não foi apenas o desenho formado pelos dedos que esteve em julgamento, mas o contexto político em que o gesto foi realizado.
Pierre Bourdieu ajuda a compreender esse fenômeno. Os símbolos não possuem eficácia por si mesmos. Seu poder decorre da posição social de quem os emite, das instituições que os legitimam e do universo cultural em que circulam. O mesmo gesto pode significar aprovação em uma situação e representar adesão a uma ideologia extremista em outra. É o contexto que produz o sentido.
Também por isso seria um equívoco interpretar qualquer gesto semelhante como manifestação automática de supremacismo branco. Mas seria igualmente ingênuo ignorar que movimentos extremistas se apropriam deliberadamente de símbolos cotidianos para dificultar sua identificação.
A Copa do Mundo revelou outro aspecto igualmente inquietante.
Dentro dos gramados, o protocolo oficial da FIFA contra o racismo foi acionado apenas uma vez, durante a partida entre Argentina e Egito. Fora deles, entretanto, o cenário foi completamente distinto. O sistema de monitoramento digital da entidade registrou aumento de aproximadamente 1.200% nas mensagens de ódio em relação ao Mundial anterior. Das cerca de 89 mil publicações abusivas identificadas durante a fase de grupos, aproximadamente 11% continham conteúdo explicitamente racista. Mais de uma centena de postagens atingiu os critérios necessários para subsidiar medidas judiciais.
Essa discrepância revela uma transformação decisiva.
O racismo contemporâneo nem sempre se manifesta diante das câmeras. Muitas vezes ele migra para o ambiente digital, onde encontra anonimato, velocidade de circulação e comunidades dispostas a compartilhar a mesma gramática simbólica.
Achille Mbembe observa que a raça permanece como uma das principais tecnologias de organização do poder moderno, mesmo quando deixa de aparecer de maneira explícita. Em outras palavras, o desaparecimento do vocabulário biológico não implica o desaparecimento das estruturas de exclusão. Elas apenas assumem novas formas discursivas.
O futebol oferece um exemplo eloquente dessa transformação. As seleções nacionais tornaram-se, talvez como nunca antes, retratos da diversidade étnica de seus países. Atletas negros, descendentes de imigrantes e integrantes de diferentes grupos culturais passaram a representar as cores nacionais. É justamente essa diversidade que movimentos supremacistas procuram combater ao defender uma identidade nacional homogênea, branca e excludente.
Não por acaso, episódios de racismo envolvendo jogadores, torcedores e dirigentes continuam a surgir em diferentes países, inclusive na América do Sul. A recorrência desses casos demonstra que a disputa não acontece apenas em torno de um resultado esportivo. O que está em jogo é a própria definição de pertencimento nacional.
Norbert Elias mostrou que sociedades constroem continuamente fronteiras simbólicas entre “estabelecidos” e “outsiders”. O racismo constitui uma das formas mais eficientes de produzir essa separação. Ao definir quem pertence e quem deve permanecer à margem, reforça relações de poder que ultrapassam muito o campo esportivo.
É nesse ponto que a reflexão de Odilon Caldeira Neto ganha dimensão internacional. Segundo o pesquisador, seria um erro tratar a supremacia branca como um problema exclusivamente norte-americano. A extrema direita contemporânea desenvolveu uma intensa capacidade transnacional de circulação de símbolos, discursos e estratégias. As redes sociais reduziram fronteiras, aceleraram o compartilhamento de códigos e ampliaram extraordinariamente a capacidade de recrutamento desses movimentos.
Hannah Arendt advertia que os regimes totalitários não surgem apenas da violência organizada. Eles dependem, antes de tudo, da naturalização de categorias que distinguem quem merece pertencer plenamente à comunidade política e quem passa a ser visto como ameaça permanente. Antes da exclusão jurídica, instala-se a exclusão simbólica.
Talvez seja exatamente isso que a fotografia do metrô em Washington nos obrigue a enxergar. Ela não mostra apenas homens mascarados. Mostra uma ideologia que aprendeu a esconder o rosto sem abandonar o preconceito. Mostra uma linguagem que já não necessita repetir abertamente a superioridade racial para continuar produzindo seus efeitos. Mostra que, na sociedade das plataformas digitais, a supremacia branca compreendeu que símbolos podem ser mais eficazes do que discursos, gestos podem circular mais rapidamente do que manifestos e códigos podem recrutar com maior eficiência do que palavras de ordem.
O racismo não desapareceu. Ele apenas aprendeu uma nova gramática. E reconhecê-la talvez seja uma das tarefas mais urgentes das democracias contemporâneas.
A imagem não retrata apenas um episódio isolado. Ela sintetiza uma transformação profunda na forma como a extrema direita contemporânea comunica suas ideias. Diferentemente do século XX, quando movimentos fascistas e nazistas exibiam seus símbolos de maneira ostensiva, a supremacia branca do século XXI compreendeu que sobreviver politicamente exige mudar de linguagem. O objetivo permanece o mesmo. O método, porém, tornou-se mais sofisticado.
Stuart Hall ensinou que o racismo nunca foi apenas um conjunto de crenças biológicas. Trata-se de um sistema de produção de significados que acompanha as transformações históricas das sociedades. Quando determinados discursos deixam de ser socialmente aceitáveis, eles não desaparecem; reorganizam-se. Mudam as palavras, preservam-se as hierarquias. A linguagem adapta-se aos limites morais de cada época sem abandonar sua função política.
É exatamente esse movimento que observamos na expansão contemporânea dos grupos supremacistas. Em entrevista recente, o historiador Odilon Caldeira Neto, disse que o supremacismo branco contemporâneo deve ser compreendido como um “amálgama” de organizações com referências ideológicas variadas, que compartilham uma linguagem comum, ainda que possuam diferenças entre si. Nesse campo encontram-se nacionalistas brancos, grupos identitários, setores da direita alternativa e organizações neonazistas.
Essa mudança não significa que o racismo tenha diminuído. Significa que ele aprendeu a operar por meio de códigos.
Os chamados dog whistles (apito de cachorro), expressão utilizada para designar mensagens compreendidas apenas por determinados grupos, tornaram-se parte importante dessa estratégia. Funcionam como um apito inaudível para a maioria das pessoas, mas perfeitamente reconhecível por aqueles que compartilham o mesmo repertório ideológico. O pesquisador explicou que esses símbolos cumprem exatamente essa função: permitem o reconhecimento entre extremistas ao mesmo tempo em que dificultam sua responsabilização pública.
Não por acaso, Roland Barthes lembrava que os signos nunca são inocentes. Em Mitologias, mostrou que objetos, imagens e gestos cotidianos podem ser apropriados pela ideologia e passar a carregar significados muito além de sua aparência imediata. Um gesto deixa de ser apenas um gesto quando passa a funcionar como linguagem política.
Foi exatamente isso que a Copa do Mundo de 2026 colocou em evidência.
Antes da partida entre Alemanha e Curaçao, o árbitro de vídeo australiano Shaun Evans foi acusado de realizar um gesto associado ao White Power. A FIFA abriu investigação, concluiu que o movimento havia sido involuntário e encerrou o caso sem qualquer punição. A decisão, do ponto de vista disciplinar, encerrou o processo. Do ponto de vista sociológico, entretanto, inaugurou um debate muito mais relevante.
O problema nunca esteve apenas na intenção individual do árbitro.
O episódio tornou visível algo maior: determinados símbolos passaram a ocupar uma zona cinzenta na comunicação contemporânea. São suficientemente conhecidos para despertar suspeitas e suficientemente ambíguos para impedir conclusões definitivas. Essa ambiguidade constitui precisamente sua força política.
O Brasil conheceu uma situação semelhante em março de 2021, quando Filipe Martins, então assessor especial para Assuntos Internacionais do então presidente da república Jair Bolsonaro, realizou gesto idêntico durante uma sessão do Senado Federal. O caso provocou intensa repercussão política e jurídica, culminando em condenação pela Justiça Federal por racismo e incitação ao preconceito racial. Não foi apenas o desenho formado pelos dedos que esteve em julgamento, mas o contexto político em que o gesto foi realizado.
Pierre Bourdieu ajuda a compreender esse fenômeno. Os símbolos não possuem eficácia por si mesmos. Seu poder decorre da posição social de quem os emite, das instituições que os legitimam e do universo cultural em que circulam. O mesmo gesto pode significar aprovação em uma situação e representar adesão a uma ideologia extremista em outra. É o contexto que produz o sentido.
Também por isso seria um equívoco interpretar qualquer gesto semelhante como manifestação automática de supremacismo branco. Mas seria igualmente ingênuo ignorar que movimentos extremistas se apropriam deliberadamente de símbolos cotidianos para dificultar sua identificação.
A Copa do Mundo revelou outro aspecto igualmente inquietante.
Dentro dos gramados, o protocolo oficial da FIFA contra o racismo foi acionado apenas uma vez, durante a partida entre Argentina e Egito. Fora deles, entretanto, o cenário foi completamente distinto. O sistema de monitoramento digital da entidade registrou aumento de aproximadamente 1.200% nas mensagens de ódio em relação ao Mundial anterior. Das cerca de 89 mil publicações abusivas identificadas durante a fase de grupos, aproximadamente 11% continham conteúdo explicitamente racista. Mais de uma centena de postagens atingiu os critérios necessários para subsidiar medidas judiciais.
Essa discrepância revela uma transformação decisiva.
O racismo contemporâneo nem sempre se manifesta diante das câmeras. Muitas vezes ele migra para o ambiente digital, onde encontra anonimato, velocidade de circulação e comunidades dispostas a compartilhar a mesma gramática simbólica.
Achille Mbembe observa que a raça permanece como uma das principais tecnologias de organização do poder moderno, mesmo quando deixa de aparecer de maneira explícita. Em outras palavras, o desaparecimento do vocabulário biológico não implica o desaparecimento das estruturas de exclusão. Elas apenas assumem novas formas discursivas.
O futebol oferece um exemplo eloquente dessa transformação. As seleções nacionais tornaram-se, talvez como nunca antes, retratos da diversidade étnica de seus países. Atletas negros, descendentes de imigrantes e integrantes de diferentes grupos culturais passaram a representar as cores nacionais. É justamente essa diversidade que movimentos supremacistas procuram combater ao defender uma identidade nacional homogênea, branca e excludente.
Não por acaso, episódios de racismo envolvendo jogadores, torcedores e dirigentes continuam a surgir em diferentes países, inclusive na América do Sul. A recorrência desses casos demonstra que a disputa não acontece apenas em torno de um resultado esportivo. O que está em jogo é a própria definição de pertencimento nacional.
Norbert Elias mostrou que sociedades constroem continuamente fronteiras simbólicas entre “estabelecidos” e “outsiders”. O racismo constitui uma das formas mais eficientes de produzir essa separação. Ao definir quem pertence e quem deve permanecer à margem, reforça relações de poder que ultrapassam muito o campo esportivo.
É nesse ponto que a reflexão de Odilon Caldeira Neto ganha dimensão internacional. Segundo o pesquisador, seria um erro tratar a supremacia branca como um problema exclusivamente norte-americano. A extrema direita contemporânea desenvolveu uma intensa capacidade transnacional de circulação de símbolos, discursos e estratégias. As redes sociais reduziram fronteiras, aceleraram o compartilhamento de códigos e ampliaram extraordinariamente a capacidade de recrutamento desses movimentos.
Hannah Arendt advertia que os regimes totalitários não surgem apenas da violência organizada. Eles dependem, antes de tudo, da naturalização de categorias que distinguem quem merece pertencer plenamente à comunidade política e quem passa a ser visto como ameaça permanente. Antes da exclusão jurídica, instala-se a exclusão simbólica.
Talvez seja exatamente isso que a fotografia do metrô em Washington nos obrigue a enxergar. Ela não mostra apenas homens mascarados. Mostra uma ideologia que aprendeu a esconder o rosto sem abandonar o preconceito. Mostra uma linguagem que já não necessita repetir abertamente a superioridade racial para continuar produzindo seus efeitos. Mostra que, na sociedade das plataformas digitais, a supremacia branca compreendeu que símbolos podem ser mais eficazes do que discursos, gestos podem circular mais rapidamente do que manifestos e códigos podem recrutar com maior eficiência do que palavras de ordem.
O racismo não desapareceu. Ele apenas aprendeu uma nova gramática. E reconhecê-la talvez seja uma das tarefas mais urgentes das democracias contemporâneas.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Soberania começa na periferia
Há uma contradição brutal no centro da política brasileira. A extrema-direita que passou anos falando em pátria, bandeira, soberania, família e liberdade agora recorre ao poder de uma potência estrangeira para constranger as instituições do próprio país. Quando perde no voto, desacredita nas urnas. Quando é julgada, ataca o Judiciário. Quando sua maior liderança é responsabilizada por tentativa de golpe, seus herdeiros políticos buscam em Washington aquilo que não conseguiram obter da sociedade brasileira: uma forma externa de manter viva a estrutura interna do golpismo.
Não se trata de divergência diplomática comum. Trata-se de um movimento político mais grave: transformar uma derrota democrática interna em chantagem internacional. Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado, e, em 2026, reportagens internacionais registraram sua permanência em prisão domiciliar enquanto Flávio Bolsonaro buscava interlocução em Washington em meio à disputa sobre tarifas contra o Brasil. Lula acusou a família Bolsonaro de acionar força estrangeira contra interesses nacionais; Flávio negou ter provocado as medidas. Ainda assim, o fato político permanece: a extrema-direita brasileira internacionalizou sua crise porque não conseguiu vencê-la dentro da democracia brasileira.
É nesse ponto que a denúncia de Lula ganha densidade histórica. O presidente reage ao risco de que o Brasil seja empurrado para aquilo que pode ser compreendido como uma forma de intervenção norte-americana sobre a soberania de países latino-americanos. A expressão é forte, mas não nasce do vazio. John Coatsworth registrou, em estudo publicado pela Harvard ReVista, que, entre 1898 e 1994, os Estados Unidos intervieram com sucesso para mudar governos na América Latina ao menos 41 vezes. A história do continente conhece esse método: Cuba, Chile, Guatemala, Nicarágua, Panamá e República Dominicana. Em cada um desses casos, as elites locais descobriram que, quando não conseguem submeter o povo pelo consenso, podem tentar fazê-lo com o apoio da força externa.
Mas a soberania brasileira não está ameaçada apenas de fora. Ela também é corroída por dentro, nos territórios onde o Estado se retirou como direito e retornou deformado como violência, corrupção ou abandono. A milícia é a expressão mais madura dessa tragédia. Ela não é apenas crime organizado. É Estado privatizado. É polícia convertida em mercado. É administração armada da escassez. Cobra por gás, transporte, internet, lote, moradia, segurança, voto e silêncio. Onde a Constituição não chega como serviço público, alguém chega como domínio.
Por isso o Rio de Janeiro não pode ser lido como exceção folclórica. Ele é laboratório nacional. A execução de Marielle Franco e Anderson Gomes revelou a profundidade da captura territorial, política e institucional. Em 2026, Domingos Brazão e Chiquinho Brazão foram condenados pelo STF pelo assassinato, em caso que expôs relações entre poder político, interesses imobiliários, milícias, agentes de segurança e obstrução investigativa. Marielle não foi morta apenas por incomodar indivíduos. Foi executada porque sua existência política ameaçava um modo de governar territórios: mulher negra, socialista, cria da Maré, denunciava a violência de Estado e os negócios do abandono.
A milícia compreendeu antes de muitos governos uma verdade elementar: território é poder. Quem controla a rua controla a circulação. Quem controla a circulação controla o comércio. Quem controla o comércio controla renda.
Quem controla renda controla voto. Quem controla voto negocia com o Estado. Quando esse circuito se estabiliza, o crime deixa de ser apenas desvio. Torna-se governo paralelo, mercado armado e partido informal do medo.
Os números confirmam a escala da crise. O Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pelo GENI/UFF e pelo Instituto Fogo Cruzado, registrou cerca de 4 milhões de moradores sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio em 2024 – 34,9% da população da região.
Entre 2007 e 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130,4%. Isso não é problema de polícia. É crise de soberania interna.
Aqui se unem as duas faces do mesmo impasse. De um lado, uma extrema-direita que aciona Washington contra o Brasil quando perde a disputa democrática. De outro, poderes armados internos que substituem o Estado nos territórios populares. O império pressiona por fora; a milícia captura por dentro. Ambos se alimentam da mesma fragilidade: a incapacidade de fazer da soberania popular uma realidade material na vida do povo.
Por isso, combater o crime organizado não pode significar apenas multiplicar operações policiais. O Brasil precisa de inteligência financeira, rastreamento patrimonial, controle externo das polícias, proteção de testemunhas, responsabilização de agentes públicos e desmonte das redes econômicas do crime. Mas precisa, com a mesma força, de creches integrais, saneamento, urbanização, escola pública viva, saúde da família, CAPS, transporte digno, cultura, esporte e regularização fundiária sob controle democrático. A viatura não substitui a creche. O caveirão não substitui o saneamento. A prisão do soldado não desmonta a economia política do medo.
O debate fiscal entra exatamente aqui. Um Estado que economiza em periferia paga mais caro em violência, encarceramento, adoecimento, evasão escolar, corrupção policial e destruição democrática. A austeridade, quando aplicada mecanicamente aos territórios abandonados, não é técnica neutra. É produção de vácuo. E, no Brasil real, o vácuo nunca fica vazio. Ele é ocupado por quem tem arma, dinheiro, mandato, fé instrumentalizada, influência policial ou todos esses elementos juntos.
Saneamento é segurança. Creche é segurança. Escola integral é segurança. Saúde mental pública é segurança. Transporte público é segurança. Urbanização é segurança. Cultura é segurança. Não porque substituam a lei penal, mas porque retiram do crime a administração cotidiana da escassez. O gasto social estruturante deve ser tratado como investimento em soberania nacional.
A esquerda precisa enfrentar esse tema sem medo. Não pode entregar a segurança pública ao punitivismo da direita, nem esconder a dor popular atrás de fórmulas abstratas. O povo trabalhador quer viver sem bala, sem extorsão, sem milícia, sem facção, sem humilhação policial e sem abandono. Segurança democrática não é concessão conservadora. É condição concreta da liberdade popular.
A soberania brasileira, portanto, não será decidida apenas em Brasília, Washington, Pequim ou nos fóruns internacionais. Ela será decidida também na Maré, em Rio das Pedras, na Baixada, nas periferias de Fortaleza, Salvador, Recife, Belém, São Paulo e em cada território onde o povo precisa saber quem manda antes de saber quais direitos possui.
Um país soberano não aceita que famílias derrotadas recorram a potências estrangeiras para constranger suas instituições. Um país soberano não aceita que bairros inteiros sejam governados por mercados armados. Um país soberano não aceita que a democracia exista no discurso, mas desapareça na esquina onde a milícia cobra pedágio da vida.
A extrema-direita revelou seu verdadeiro limite histórico: quando a pátria deixou de servir ao seu projeto de poder, tentou entregar a pátria à pressão externa. Contra isso, não basta indignação. É preciso defender o Brasil por fora e reconstruí-lo por dentro.
Onde o Estado não chega como direito, alguém chega como domínio. Onde a democracia não vira serviço público, o medo se organiza como governo. E onde uma liderança golpista busca socorro no império contra o próprio país, a resposta deve ser firme: o Brasil não é propriedade de família, de milícia, de mercado armado nem de potência estrangeira. O Brasil só será soberano quando seu povo também for.
Não se trata de divergência diplomática comum. Trata-se de um movimento político mais grave: transformar uma derrota democrática interna em chantagem internacional. Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado, e, em 2026, reportagens internacionais registraram sua permanência em prisão domiciliar enquanto Flávio Bolsonaro buscava interlocução em Washington em meio à disputa sobre tarifas contra o Brasil. Lula acusou a família Bolsonaro de acionar força estrangeira contra interesses nacionais; Flávio negou ter provocado as medidas. Ainda assim, o fato político permanece: a extrema-direita brasileira internacionalizou sua crise porque não conseguiu vencê-la dentro da democracia brasileira.
É nesse ponto que a denúncia de Lula ganha densidade histórica. O presidente reage ao risco de que o Brasil seja empurrado para aquilo que pode ser compreendido como uma forma de intervenção norte-americana sobre a soberania de países latino-americanos. A expressão é forte, mas não nasce do vazio. John Coatsworth registrou, em estudo publicado pela Harvard ReVista, que, entre 1898 e 1994, os Estados Unidos intervieram com sucesso para mudar governos na América Latina ao menos 41 vezes. A história do continente conhece esse método: Cuba, Chile, Guatemala, Nicarágua, Panamá e República Dominicana. Em cada um desses casos, as elites locais descobriram que, quando não conseguem submeter o povo pelo consenso, podem tentar fazê-lo com o apoio da força externa.
Mas a soberania brasileira não está ameaçada apenas de fora. Ela também é corroída por dentro, nos territórios onde o Estado se retirou como direito e retornou deformado como violência, corrupção ou abandono. A milícia é a expressão mais madura dessa tragédia. Ela não é apenas crime organizado. É Estado privatizado. É polícia convertida em mercado. É administração armada da escassez. Cobra por gás, transporte, internet, lote, moradia, segurança, voto e silêncio. Onde a Constituição não chega como serviço público, alguém chega como domínio.
Por isso o Rio de Janeiro não pode ser lido como exceção folclórica. Ele é laboratório nacional. A execução de Marielle Franco e Anderson Gomes revelou a profundidade da captura territorial, política e institucional. Em 2026, Domingos Brazão e Chiquinho Brazão foram condenados pelo STF pelo assassinato, em caso que expôs relações entre poder político, interesses imobiliários, milícias, agentes de segurança e obstrução investigativa. Marielle não foi morta apenas por incomodar indivíduos. Foi executada porque sua existência política ameaçava um modo de governar territórios: mulher negra, socialista, cria da Maré, denunciava a violência de Estado e os negócios do abandono.
A milícia compreendeu antes de muitos governos uma verdade elementar: território é poder. Quem controla a rua controla a circulação. Quem controla a circulação controla o comércio. Quem controla o comércio controla renda.
Quem controla renda controla voto. Quem controla voto negocia com o Estado. Quando esse circuito se estabiliza, o crime deixa de ser apenas desvio. Torna-se governo paralelo, mercado armado e partido informal do medo.
Os números confirmam a escala da crise. O Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pelo GENI/UFF e pelo Instituto Fogo Cruzado, registrou cerca de 4 milhões de moradores sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio em 2024 – 34,9% da população da região.
Entre 2007 e 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130,4%. Isso não é problema de polícia. É crise de soberania interna.
Aqui se unem as duas faces do mesmo impasse. De um lado, uma extrema-direita que aciona Washington contra o Brasil quando perde a disputa democrática. De outro, poderes armados internos que substituem o Estado nos territórios populares. O império pressiona por fora; a milícia captura por dentro. Ambos se alimentam da mesma fragilidade: a incapacidade de fazer da soberania popular uma realidade material na vida do povo.
Por isso, combater o crime organizado não pode significar apenas multiplicar operações policiais. O Brasil precisa de inteligência financeira, rastreamento patrimonial, controle externo das polícias, proteção de testemunhas, responsabilização de agentes públicos e desmonte das redes econômicas do crime. Mas precisa, com a mesma força, de creches integrais, saneamento, urbanização, escola pública viva, saúde da família, CAPS, transporte digno, cultura, esporte e regularização fundiária sob controle democrático. A viatura não substitui a creche. O caveirão não substitui o saneamento. A prisão do soldado não desmonta a economia política do medo.
O debate fiscal entra exatamente aqui. Um Estado que economiza em periferia paga mais caro em violência, encarceramento, adoecimento, evasão escolar, corrupção policial e destruição democrática. A austeridade, quando aplicada mecanicamente aos territórios abandonados, não é técnica neutra. É produção de vácuo. E, no Brasil real, o vácuo nunca fica vazio. Ele é ocupado por quem tem arma, dinheiro, mandato, fé instrumentalizada, influência policial ou todos esses elementos juntos.
Saneamento é segurança. Creche é segurança. Escola integral é segurança. Saúde mental pública é segurança. Transporte público é segurança. Urbanização é segurança. Cultura é segurança. Não porque substituam a lei penal, mas porque retiram do crime a administração cotidiana da escassez. O gasto social estruturante deve ser tratado como investimento em soberania nacional.
A esquerda precisa enfrentar esse tema sem medo. Não pode entregar a segurança pública ao punitivismo da direita, nem esconder a dor popular atrás de fórmulas abstratas. O povo trabalhador quer viver sem bala, sem extorsão, sem milícia, sem facção, sem humilhação policial e sem abandono. Segurança democrática não é concessão conservadora. É condição concreta da liberdade popular.
A soberania brasileira, portanto, não será decidida apenas em Brasília, Washington, Pequim ou nos fóruns internacionais. Ela será decidida também na Maré, em Rio das Pedras, na Baixada, nas periferias de Fortaleza, Salvador, Recife, Belém, São Paulo e em cada território onde o povo precisa saber quem manda antes de saber quais direitos possui.
Um país soberano não aceita que famílias derrotadas recorram a potências estrangeiras para constranger suas instituições. Um país soberano não aceita que bairros inteiros sejam governados por mercados armados. Um país soberano não aceita que a democracia exista no discurso, mas desapareça na esquina onde a milícia cobra pedágio da vida.
A extrema-direita revelou seu verdadeiro limite histórico: quando a pátria deixou de servir ao seu projeto de poder, tentou entregar a pátria à pressão externa. Contra isso, não basta indignação. É preciso defender o Brasil por fora e reconstruí-lo por dentro.
Onde o Estado não chega como direito, alguém chega como domínio. Onde a democracia não vira serviço público, o medo se organiza como governo. E onde uma liderança golpista busca socorro no império contra o próprio país, a resposta deve ser firme: o Brasil não é propriedade de família, de milícia, de mercado armado nem de potência estrangeira. O Brasil só será soberano quando seu povo também for.
Sequestro do Orçamento e passividade nacional
O Orçamento brasileiro está fora de controle. Isso quer dizer que não se sabe como é usado todo o dinheiro arrecadado com impostos. O mais interessante é que esse descontrole é vivido com uma grande indiferença. As notícias da semana dão conta da principal origem desse descontrole: as emendas parlamentares. Num só dia, ficamos sabendo que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se conhecessem os autores das emendas. Ficamos sabendo também que Valdemar Costa Neto manipulou a remessa de R$ 119 milhões, sem ser deputado. Da mesma forma, Eduardo Cunha, que foi cassado, dirigiu R$ 6,5 milhões para cidades mineiras, de onde pretende ressurgir como candidato.
R$ 1,3 bilhão foram as chamadas emendas de comissão. Um espanto. O que são as comissões senão réplicas parlamentares dos ministérios? Comissão de educação, de saúde, de transportes. Elas existem para formular e fiscalizar políticas. Quem as executa são os ministérios.
O Brasil é talvez o único país do mundo onde o governo não domina o gasto do Orçamento. Tem de dividi-lo com o Congresso, que usa o dinheiro de forma aleatória, basicamente para garantir a reeleição de deputados.
Uma irracionalidade.
A tentativa de corrigir algumas aberrações vem de longe, do tempo do chamado orçamento secreto, criado por Arthur Lira, no governo Bolsonaro. A então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, tentou intervir. Afinal, orçamento secreto é inconstitucional. As despesas públicas têm de ser transparentes. O que se viu depois disso foi uma briga de gato e rato, o Congresso sempre achando uma fórmula de não atender às corretas exigências de Rosa Weber.
As chamadas emendas de comissão foram um dos caminhos para se manter o anonimato em torno da autoria. Na verdade, são uma forma de dividir o dinheiro entre os deputados que compõem a comissão. Esse tipo de emenda foi denunciado pelo deputado Glauber Braga, que acabou recebendo uma suspensão de seis meses, em parte pelo seu comportamento, mas principalmente por denunciar o mecanismo. O que dizer do controle de Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha de parte do Orçamento? Atribui-se a uma articulação deles com uma funcionária chamada Mariângela Fialek. Mas é uma simples funcionária. Jamais destinaria milhões sem a autorização de seus chefes, Arthur Lira e Hugo Motta.
Não há saída no horizonte. A Polícia Federal investiga, o Supremo processa. Mas tanto a PF como o Supremo não podem abarcar a extensão do problema. Suas atuações são pontuais, pedagógicas, como se isso pudesse mesmo intimidar os deputados.
No Rio de Janeiro, a situação é mais clara politicamente. O Estado é governado por bandidos, sendo que os bandidos armados ocupam metade do território urbano. Não há mistério. Apenas a vida que segue, como se isso fosse natural. Certamente, uma investigação científica irá mais longe na compreensão dessa naturalização e passividade diante do sequestro do Orçamento. Os políticos usam o dinheiro sem critério, porque dinheiro público parece algo abstrato, existe para gastar mesmo. Essa indiferença se estende também às pessoas comuns. Afinal, por que protestar por um dinheiro que não é seu, é apenas uma grande fortuna que pertence a todos? É o chamado cofre da viúva, feito para ser violado sem pudor.
As coisas estão feitas para durar. O dinheiro que os deputados usam serve para sua reeleição. Não haverá espaço para a renovação, sobretudo se as campanhas presidenciais monopolizarem a atenção. Os mesmos deputados seguirão usando o Orçamento da forma que quiserem, elegendo presidentes que se comprometem com a divisão do butim. Os deputados serão substituídos pelos seus filhos, amigos de fé, assessores e a tradição de gastar parte do Orçamento seguirá tempo afora.
Pode ser uma visão pessimista, abrandada apenas pela possibilidade de eleger alguns bons deputados nas metrópoles. Mas serão incapazes de fazer algo sem amplo apoio da opinião pública. Não tenho medo de parecer pessimista ao saber que, mesmo sem mandato, pessoas como Valdemar Costa Neto e
Eduardo Cunha estão manipulando o Orçamento nacional. Acho simplesmente o fim da picada, mas me impressiono muito com a pouca repercussão. Será que os candidatos à Presidência se conformam com tudo o que vemos por aí? Será que pretendem ser presidentes pela metade, sem os recursos necessários para cumprir seus programas de campanha?
Pode ser que vivamos até um futuro em que os governos se conformem em governar sem plano. Governar por governar, o poder pelo poder, até nos chocarmos com o grande iceberg.
A alternativa é tentar fazer uma bancada de deputados que dê a mínima possibilidade de luta; é criar uma força-tarefa que fiscalize, de fato, o uso do dinheiro e tentar progressivamente adaptar o Brasil ao mundo, onde governos executam e deputados legislam e também fiscalizam o governo. Como ocorre nos outros países democráticos.
Só para começar, precisamos descartar as lendas urbanas, como essa de que o dinheiro é mal usado por causa de uma mulher chamada Mariângela. Como se não bastasse o desastre político-financeiro, ainda vivemos uma grande deficiência cognitiva.
R$ 1,3 bilhão foram as chamadas emendas de comissão. Um espanto. O que são as comissões senão réplicas parlamentares dos ministérios? Comissão de educação, de saúde, de transportes. Elas existem para formular e fiscalizar políticas. Quem as executa são os ministérios.
O Brasil é talvez o único país do mundo onde o governo não domina o gasto do Orçamento. Tem de dividi-lo com o Congresso, que usa o dinheiro de forma aleatória, basicamente para garantir a reeleição de deputados.
Uma irracionalidade.
A tentativa de corrigir algumas aberrações vem de longe, do tempo do chamado orçamento secreto, criado por Arthur Lira, no governo Bolsonaro. A então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, tentou intervir. Afinal, orçamento secreto é inconstitucional. As despesas públicas têm de ser transparentes. O que se viu depois disso foi uma briga de gato e rato, o Congresso sempre achando uma fórmula de não atender às corretas exigências de Rosa Weber.
As chamadas emendas de comissão foram um dos caminhos para se manter o anonimato em torno da autoria. Na verdade, são uma forma de dividir o dinheiro entre os deputados que compõem a comissão. Esse tipo de emenda foi denunciado pelo deputado Glauber Braga, que acabou recebendo uma suspensão de seis meses, em parte pelo seu comportamento, mas principalmente por denunciar o mecanismo. O que dizer do controle de Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha de parte do Orçamento? Atribui-se a uma articulação deles com uma funcionária chamada Mariângela Fialek. Mas é uma simples funcionária. Jamais destinaria milhões sem a autorização de seus chefes, Arthur Lira e Hugo Motta.
Não há saída no horizonte. A Polícia Federal investiga, o Supremo processa. Mas tanto a PF como o Supremo não podem abarcar a extensão do problema. Suas atuações são pontuais, pedagógicas, como se isso pudesse mesmo intimidar os deputados.
No Rio de Janeiro, a situação é mais clara politicamente. O Estado é governado por bandidos, sendo que os bandidos armados ocupam metade do território urbano. Não há mistério. Apenas a vida que segue, como se isso fosse natural. Certamente, uma investigação científica irá mais longe na compreensão dessa naturalização e passividade diante do sequestro do Orçamento. Os políticos usam o dinheiro sem critério, porque dinheiro público parece algo abstrato, existe para gastar mesmo. Essa indiferença se estende também às pessoas comuns. Afinal, por que protestar por um dinheiro que não é seu, é apenas uma grande fortuna que pertence a todos? É o chamado cofre da viúva, feito para ser violado sem pudor.
As coisas estão feitas para durar. O dinheiro que os deputados usam serve para sua reeleição. Não haverá espaço para a renovação, sobretudo se as campanhas presidenciais monopolizarem a atenção. Os mesmos deputados seguirão usando o Orçamento da forma que quiserem, elegendo presidentes que se comprometem com a divisão do butim. Os deputados serão substituídos pelos seus filhos, amigos de fé, assessores e a tradição de gastar parte do Orçamento seguirá tempo afora.
Pode ser uma visão pessimista, abrandada apenas pela possibilidade de eleger alguns bons deputados nas metrópoles. Mas serão incapazes de fazer algo sem amplo apoio da opinião pública. Não tenho medo de parecer pessimista ao saber que, mesmo sem mandato, pessoas como Valdemar Costa Neto e
Eduardo Cunha estão manipulando o Orçamento nacional. Acho simplesmente o fim da picada, mas me impressiono muito com a pouca repercussão. Será que os candidatos à Presidência se conformam com tudo o que vemos por aí? Será que pretendem ser presidentes pela metade, sem os recursos necessários para cumprir seus programas de campanha?
Pode ser que vivamos até um futuro em que os governos se conformem em governar sem plano. Governar por governar, o poder pelo poder, até nos chocarmos com o grande iceberg.
A alternativa é tentar fazer uma bancada de deputados que dê a mínima possibilidade de luta; é criar uma força-tarefa que fiscalize, de fato, o uso do dinheiro e tentar progressivamente adaptar o Brasil ao mundo, onde governos executam e deputados legislam e também fiscalizam o governo. Como ocorre nos outros países democráticos.
Só para começar, precisamos descartar as lendas urbanas, como essa de que o dinheiro é mal usado por causa de uma mulher chamada Mariângela. Como se não bastasse o desastre político-financeiro, ainda vivemos uma grande deficiência cognitiva.
Gentalha à solta
Em um mundo medíocre, defende-se melhor quem mais se prepara para lidar com os sujeitos de escassa personalidade, especialmente aqueles que ostentam algum poder
Cícero Nogueira
Cícero Nogueira
Muletas para pobres, burcas, ciganos e as ficções que engolimos
Ele parece velho. As costas curvadas, a barriga protuberante, as calças beges, o casaco azul-escuro de malha clássico. O jeito pausado e definitivo de falar. Não fossem as marcas do acne ainda recente e os olhos azuis quase infantis no rosto muito redondo e nada diria que tem apenas 25 anos. Conheci-o em Curitiba, onde me serviu de guia para a empresa turística onde trabalha desde os 14 anos, um emprego infantil que a lei brasileira permite ao abrigo dos “estágios mirins”, que obrigam a que os menores tenham bom aproveitamento escolar e horários compatíveis com as atividades letivas para poderem desempenhar funções administrativas remuneradas e com descontos. Filho da classe trabalhadora, furou a vida com o método irrepreensível com que regista todas as atividades do dia e as notas das reuniões no seu Moleskine preto e o ímpeto de trabalho que o fez não ter fins de semana nem folgas durante um ano e meio seguido.
O esforço compensou. Hoje tem um cargo de gestão na empresa, está na maçonaria, trata com familiaridade os funcionários do governo estadual e da prefeitura e viaja muito para a Europa em trabalho. Não é estranho que acredite no mérito, porque a sua história é feita de um suor que está a dar frutos. E, claro, tornou-se um jovem conservador de direita, que classifica o PT de Lula como um partido de extrema-esquerda. De extrema-esquerda?, interrogo-o, pedindo-lhe que me aponte uma política do Presidente do Brasil que tenha posto em causa o sistema capitalista, a democracia representativa ou a livre iniciativa de mercado. Sempre muito definitivo, desta vez hesita, para depois me falar dos “programas sociais” que são, no seu entender, “muletas para pobres”.
Para este rapaz vindo da classe trabalhadora, os apoios dados pelos programas para a ajuda à compra de casa ou para escapar à fome para os mais pobres são “muletas”. Mas como teria ele conseguido subir na escada social sem essa “muleta” da escola pública que frequentou sempre e que lhe permitiu tirar “três faculdades”, como diz com orgulho antes de chegar aos 30? A minha pergunta provoca-lhe um trejeito no rosto. É a favor da escola pública, claro. E começa com a história da “minha vizinha” para apontar um abuso. Para todos os casos há exemplos, cada um escolhe o que quer. E é óbvio que a minha arenga sobre a importância de redistribuir a riqueza através de serviços públicos de uso universal e gratuito, sustentados pelos impostos dos que mais têm, não vai fazê-lo mudar de ideias. Mas insisto, ainda assim, na esperança de que, olhando-se ao espelho, perceba que tem mais que ver com os pobres que considera uns falhados do que com os ricos que quer imitar.
No dia seguinte, aterro em Lisboa. Vinda do frio do inverno do Paraná e após 12h30 de voo, o calor deixa-me impaciente e corro para um táxi, onde, poucos minutos depois de me ter sentado, o motorista já se confessava admirador da extrema-direita nacional e me dizia com um sorriso triunfante: “Proibimos as burcas.” Soltei uma gargalhada pouco sensata para a situação em que me encontrava, mas ele tinha começado por elogiar a minha “boa energia” e eu, apesar do cansaço da viagem, arrisquei comentar: “Com tantos problemas no País, que diferença faz a lei das burcas, se não for só para nos distrair dos nossos problemas?” Eu nunca vi uma burca em Lisboa. Será que ele tinha visto uma burca? Para meu alívio, sorriu-me pelo retrovisor e lá confessou que não há muitas, não. Mas, por acaso, até viu uma mulher toda tapada na praia um dia e aquilo não lhe pareceu bem. Afinal, quando as “nossas mulheres vão lá ao país deles” também não podem usar decotes. “Sabe o que é que vai acontecer a essa mulher que viu na praia? Não vai deixar de usar burca. Vai deixar de ir à praia”, ousei, animada pela simpatia do taxista, que me respondeu com um riso abafado que eu traduzi como a confissão de que o regozijo dele com a nova lei não se prende com a vontade de ajudar as mulheres que são oprimidas pelo machismo, mas só com o desejo de não ver o que acha diferente.
A minha oposição não o fez acabar a conversa. Senti que tinha simpatizado comigo e não tinha nada a opor ao discurso que fiz sobre como andam a vender o País aos imigrantes ricos que tornam tudo insuportavelmente caro enquanto nos entretêm com a história das burcas. Por isso, passou para novo tópico: a queixa sobre como os polícias não fazem nada para controlar os ciganos que estão à saída do aeroporto a angariar clientes para os Uber e preferem perseguir os taxistas e andar constantemente a pará-los por coisas menores. Decidi não dizer que nunca tinha visto esses ciganos ali à saída do aeroporto, mas perguntei-lhe se já lhe tinha acontecido ser parado pela polícia. Pelo relato exaltado que fazia, ia jurar que seria um acontecimento, se não diário, pelo menos semanal. “Nunca aconteceu”, respondeu de rompante. “Mas há colegas a quem está sempre acontecer.” E logo sacou de uma inverosímil história sobre um taxista que teria ido a tribunal por ter cobrado um euro a mais numa corrida.
A partir daí, a conversa foi para tópicos mais leves. E acabei a agradecer-lhe genuinamente a simpatia com que fez o serviço. Mas saí do carro a pensar em como a conversa se tornou um terreno minado, quase impossível, onde cada um dos interlocutores se agarra ao seu chão e não se afasta um milímetro das suas convicções iniciais. Não me interpretem mal: não me sinto acima disso. Na verdade, estou quase sempre demasiado cheia de certezas e, demasiadas vezes, atiro-as para cima de quem está à minha frente ainda antes que aquele com quem falo consiga acabar sequer uma frase.
A conversa tornou-se um combate. Sair ilesa, sem despertar a fúria daqueles com quem converso, é já uma vitória. O ódio está quase sempre a pairar sobre as mais banais trocas de palavras entre estranhos, como uma substância altamente inflamável, à espera de iniciar a sua combustão. Por isso, acabar a conversa entre sorrisos e cumprimentos de simpatia é já uma vitória que celebro. Mas como é que se pula o muro das convicções absolutas? Como é que se passa do caso da “minha vizinha” para um terreno feito de realidades e não só de perceções? Como é que se convence o outro? Como é que nos deixamos convencer? Não é só a democracia que está em causa quando se perdem essas capacidades, é a própria vida em sociedade que se torna impossível.
Não tenho uma resposta definitiva para este problema, que me parece um dos mais sérios que enfrentamos neste mundo de hoje, feito de grandes indignações, que se esfumam à velocidade de um vídeo no TikTok, de verdades absolutas alicerçadas em sensações, de ódios e amores divididos por tribos e seitas. Mas há uma coisa que a minha experiência me tem demonstrado: quando optamos por não virar as costas a quem não pensa como nós, há uma porta que se entreabre. Quando não tratamos o outro como um monstro, aproximamo-nos. Quando tentamos compreender aquilo que nos parece inaceitável, não abdicamos das nossas convicções, mas cortamos caminho ao ódio. E isso, não sendo tudo, é já alguma coisa.
O esforço compensou. Hoje tem um cargo de gestão na empresa, está na maçonaria, trata com familiaridade os funcionários do governo estadual e da prefeitura e viaja muito para a Europa em trabalho. Não é estranho que acredite no mérito, porque a sua história é feita de um suor que está a dar frutos. E, claro, tornou-se um jovem conservador de direita, que classifica o PT de Lula como um partido de extrema-esquerda. De extrema-esquerda?, interrogo-o, pedindo-lhe que me aponte uma política do Presidente do Brasil que tenha posto em causa o sistema capitalista, a democracia representativa ou a livre iniciativa de mercado. Sempre muito definitivo, desta vez hesita, para depois me falar dos “programas sociais” que são, no seu entender, “muletas para pobres”.
Para este rapaz vindo da classe trabalhadora, os apoios dados pelos programas para a ajuda à compra de casa ou para escapar à fome para os mais pobres são “muletas”. Mas como teria ele conseguido subir na escada social sem essa “muleta” da escola pública que frequentou sempre e que lhe permitiu tirar “três faculdades”, como diz com orgulho antes de chegar aos 30? A minha pergunta provoca-lhe um trejeito no rosto. É a favor da escola pública, claro. E começa com a história da “minha vizinha” para apontar um abuso. Para todos os casos há exemplos, cada um escolhe o que quer. E é óbvio que a minha arenga sobre a importância de redistribuir a riqueza através de serviços públicos de uso universal e gratuito, sustentados pelos impostos dos que mais têm, não vai fazê-lo mudar de ideias. Mas insisto, ainda assim, na esperança de que, olhando-se ao espelho, perceba que tem mais que ver com os pobres que considera uns falhados do que com os ricos que quer imitar.
No dia seguinte, aterro em Lisboa. Vinda do frio do inverno do Paraná e após 12h30 de voo, o calor deixa-me impaciente e corro para um táxi, onde, poucos minutos depois de me ter sentado, o motorista já se confessava admirador da extrema-direita nacional e me dizia com um sorriso triunfante: “Proibimos as burcas.” Soltei uma gargalhada pouco sensata para a situação em que me encontrava, mas ele tinha começado por elogiar a minha “boa energia” e eu, apesar do cansaço da viagem, arrisquei comentar: “Com tantos problemas no País, que diferença faz a lei das burcas, se não for só para nos distrair dos nossos problemas?” Eu nunca vi uma burca em Lisboa. Será que ele tinha visto uma burca? Para meu alívio, sorriu-me pelo retrovisor e lá confessou que não há muitas, não. Mas, por acaso, até viu uma mulher toda tapada na praia um dia e aquilo não lhe pareceu bem. Afinal, quando as “nossas mulheres vão lá ao país deles” também não podem usar decotes. “Sabe o que é que vai acontecer a essa mulher que viu na praia? Não vai deixar de usar burca. Vai deixar de ir à praia”, ousei, animada pela simpatia do taxista, que me respondeu com um riso abafado que eu traduzi como a confissão de que o regozijo dele com a nova lei não se prende com a vontade de ajudar as mulheres que são oprimidas pelo machismo, mas só com o desejo de não ver o que acha diferente.
A minha oposição não o fez acabar a conversa. Senti que tinha simpatizado comigo e não tinha nada a opor ao discurso que fiz sobre como andam a vender o País aos imigrantes ricos que tornam tudo insuportavelmente caro enquanto nos entretêm com a história das burcas. Por isso, passou para novo tópico: a queixa sobre como os polícias não fazem nada para controlar os ciganos que estão à saída do aeroporto a angariar clientes para os Uber e preferem perseguir os taxistas e andar constantemente a pará-los por coisas menores. Decidi não dizer que nunca tinha visto esses ciganos ali à saída do aeroporto, mas perguntei-lhe se já lhe tinha acontecido ser parado pela polícia. Pelo relato exaltado que fazia, ia jurar que seria um acontecimento, se não diário, pelo menos semanal. “Nunca aconteceu”, respondeu de rompante. “Mas há colegas a quem está sempre acontecer.” E logo sacou de uma inverosímil história sobre um taxista que teria ido a tribunal por ter cobrado um euro a mais numa corrida.
A partir daí, a conversa foi para tópicos mais leves. E acabei a agradecer-lhe genuinamente a simpatia com que fez o serviço. Mas saí do carro a pensar em como a conversa se tornou um terreno minado, quase impossível, onde cada um dos interlocutores se agarra ao seu chão e não se afasta um milímetro das suas convicções iniciais. Não me interpretem mal: não me sinto acima disso. Na verdade, estou quase sempre demasiado cheia de certezas e, demasiadas vezes, atiro-as para cima de quem está à minha frente ainda antes que aquele com quem falo consiga acabar sequer uma frase.
A conversa tornou-se um combate. Sair ilesa, sem despertar a fúria daqueles com quem converso, é já uma vitória. O ódio está quase sempre a pairar sobre as mais banais trocas de palavras entre estranhos, como uma substância altamente inflamável, à espera de iniciar a sua combustão. Por isso, acabar a conversa entre sorrisos e cumprimentos de simpatia é já uma vitória que celebro. Mas como é que se pula o muro das convicções absolutas? Como é que se passa do caso da “minha vizinha” para um terreno feito de realidades e não só de perceções? Como é que se convence o outro? Como é que nos deixamos convencer? Não é só a democracia que está em causa quando se perdem essas capacidades, é a própria vida em sociedade que se torna impossível.
Não tenho uma resposta definitiva para este problema, que me parece um dos mais sérios que enfrentamos neste mundo de hoje, feito de grandes indignações, que se esfumam à velocidade de um vídeo no TikTok, de verdades absolutas alicerçadas em sensações, de ódios e amores divididos por tribos e seitas. Mas há uma coisa que a minha experiência me tem demonstrado: quando optamos por não virar as costas a quem não pensa como nós, há uma porta que se entreabre. Quando não tratamos o outro como um monstro, aproximamo-nos. Quando tentamos compreender aquilo que nos parece inaceitável, não abdicamos das nossas convicções, mas cortamos caminho ao ódio. E isso, não sendo tudo, é já alguma coisa.
'A submissão do Brasil é o prêmio mais valioso disponível'
"Quem enxerga nas tarifas aplicadas pelo governo Donald Trump o protagonismo do embate eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro assistiu apenas o trailer desse filme", diz o analista de relações internacionais Uriã Fancelli. Ele afirma que a relação de Trump com as tarifas é muito anterior ao Brasil e antecede até mesmo sua vida política. Para Fancelli, o que mudou neste segundo mandato foi a finalidade da ferramenta. Segundo ele, Trump passou a usar as tarifas para forçar submissão, sobretudo na América Latina, e essa estratégia virou documento oficial. A Estratégia de Defesa publicada em janeiro determina a aplicação do que a Casa Branca batizou de Corolário Trump à Doutrina Monroe, com o objetivo de restaurar a preeminência americana no hemisfério. O analista observa ainda que o próprio presidente americano adotou o apelido criado pela imprensa para essa estratégia: "Doutrina Donroe".
— Digo submissão, e não alinhamento ideológico, por uma razão simples. Washington convive muito bem com Delcy Rodríguez, na Venezuela, hoje talvez a maior representante da continuidade do chavismo no continente, porque ela entrega obediência. O Telegraph mostrou que aliados de Trump venceram todas as sete eleições presidenciais realizadas na região desde a sua posse. Nesse tabuleiro, acredito que a submissão do Brasil é o prêmio mais valioso disponível. Estamos falando da maior economia da América Latina, de um país com protagonismo no Brics, que criou o Pix e enfrentou os americanos na OMC no debate sobre economia digital. Um país desse tamanho decidindo sozinho é justamente o que essa doutrina não tolera.
Na avaliação do analista, esse contexto desmonta a narrativa do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que atribuiu o tarifaço ao ego de Lula.
— E o detalhe saboroso é que quem desmente o secretário é o próprio governo dele, por meio do parecer técnico publicado pelo USTR, que abre afirmando que as práticas brasileiras prejudicam os Estados Unidos há décadas. Décadas abrangem os governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Jair Bolsonaro. Basta olhar cada um dos alvos para entender. O Pix, formalmente acusado de ser gratuito demais, foi criado em 2020, ainda no governo anterior. As decisões do Judiciário que tanto incomodam Washington não mudam com eleições, porque nossas instituições são independentes. A presença do Brasil na lista americana de observação sobre propriedade intelectual existe desde 2007, cinco presidentes atrás. E os acordos do Mercosul com México e Índia levaram décadas para ser negociados. Ou seja, o documento descreve essencialmente políticas de Estado, por mais questionáveis que possam ser. Nenhum desses alvos nasceu no governo atual, e nenhum deles desaparecerá quando houver mudança de governo.
A pergunta que fica, diz Fancelli, é: por que personalizar tudo em Lula? Na visão do analista, a resposta é que essa personalização blinda Flávio Bolsonaro da responsabilidade política pelo tarifaço, enquanto Washington entende que a submissão que procura sairia mais barata com ele no Planalto.
— Foi o próprio Flávio Bolsonaro quem afirmou, em carta, ter uma equipe de transição à disposição de Trump. A família dele comemorou o tarifaço do ano passado antes de calcular o custo político desse gesto. E foi ele quem abraçou publicamente a hipótese de operações militares americanas na Baía de Guanabara. No fim, a lógica se fecha sozinha. Se cada um dos alvos das tarifas sobrevive a qualquer troca de governo, o motivo delas precisa estar em outro lugar. Está no tamanho do Brasil e no incômodo que esse tamanho causa.
Fancelli lembra que, em 1987, quando ainda era apenas um empresário, Trump pagou anúncios de página inteira nos principais jornais americanos acusando os aliados dos Estados Unidos de enriquecerem à sombra da proteção militar americana. Desde então, passou décadas repetindo, em entrevistas, que taxar importações resolveria esse problema. O analista afirma ainda que a convicção de Trump em relação às tarifas permaneceu inalterada, apesar do acúmulo de evidências sobre os efeitos negativos dessa estratégia para a economia americana.
— Tarifa é imposto de importação. Ela é recolhida na alfândega americana e diluída no preço pago pelo consumidor. Uma análise do Cato Institute, um centro de pesquisa liberal que ninguém acusaria de antitrumpismo, encontrou repasse de até 96% desse custo ao consumidor americano. Eu acredito, inclusive, que a paixão dele pelo instrumento é genuína. O problema é que se trata de uma paixão comprovadamente ineficiente, cuja fatura acaba chegando ao carrinho de compras do próprio eleitor que ele jura proteger.
— Digo submissão, e não alinhamento ideológico, por uma razão simples. Washington convive muito bem com Delcy Rodríguez, na Venezuela, hoje talvez a maior representante da continuidade do chavismo no continente, porque ela entrega obediência. O Telegraph mostrou que aliados de Trump venceram todas as sete eleições presidenciais realizadas na região desde a sua posse. Nesse tabuleiro, acredito que a submissão do Brasil é o prêmio mais valioso disponível. Estamos falando da maior economia da América Latina, de um país com protagonismo no Brics, que criou o Pix e enfrentou os americanos na OMC no debate sobre economia digital. Um país desse tamanho decidindo sozinho é justamente o que essa doutrina não tolera.
Na avaliação do analista, esse contexto desmonta a narrativa do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que atribuiu o tarifaço ao ego de Lula.
— E o detalhe saboroso é que quem desmente o secretário é o próprio governo dele, por meio do parecer técnico publicado pelo USTR, que abre afirmando que as práticas brasileiras prejudicam os Estados Unidos há décadas. Décadas abrangem os governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Jair Bolsonaro. Basta olhar cada um dos alvos para entender. O Pix, formalmente acusado de ser gratuito demais, foi criado em 2020, ainda no governo anterior. As decisões do Judiciário que tanto incomodam Washington não mudam com eleições, porque nossas instituições são independentes. A presença do Brasil na lista americana de observação sobre propriedade intelectual existe desde 2007, cinco presidentes atrás. E os acordos do Mercosul com México e Índia levaram décadas para ser negociados. Ou seja, o documento descreve essencialmente políticas de Estado, por mais questionáveis que possam ser. Nenhum desses alvos nasceu no governo atual, e nenhum deles desaparecerá quando houver mudança de governo.
A pergunta que fica, diz Fancelli, é: por que personalizar tudo em Lula? Na visão do analista, a resposta é que essa personalização blinda Flávio Bolsonaro da responsabilidade política pelo tarifaço, enquanto Washington entende que a submissão que procura sairia mais barata com ele no Planalto.
— Foi o próprio Flávio Bolsonaro quem afirmou, em carta, ter uma equipe de transição à disposição de Trump. A família dele comemorou o tarifaço do ano passado antes de calcular o custo político desse gesto. E foi ele quem abraçou publicamente a hipótese de operações militares americanas na Baía de Guanabara. No fim, a lógica se fecha sozinha. Se cada um dos alvos das tarifas sobrevive a qualquer troca de governo, o motivo delas precisa estar em outro lugar. Está no tamanho do Brasil e no incômodo que esse tamanho causa.
Fancelli lembra que, em 1987, quando ainda era apenas um empresário, Trump pagou anúncios de página inteira nos principais jornais americanos acusando os aliados dos Estados Unidos de enriquecerem à sombra da proteção militar americana. Desde então, passou décadas repetindo, em entrevistas, que taxar importações resolveria esse problema. O analista afirma ainda que a convicção de Trump em relação às tarifas permaneceu inalterada, apesar do acúmulo de evidências sobre os efeitos negativos dessa estratégia para a economia americana.
— Tarifa é imposto de importação. Ela é recolhida na alfândega americana e diluída no preço pago pelo consumidor. Uma análise do Cato Institute, um centro de pesquisa liberal que ninguém acusaria de antitrumpismo, encontrou repasse de até 96% desse custo ao consumidor americano. Eu acredito, inclusive, que a paixão dele pelo instrumento é genuína. O problema é que se trata de uma paixão comprovadamente ineficiente, cuja fatura acaba chegando ao carrinho de compras do próprio eleitor que ele jura proteger.
Tarifaço: a conexão Trump-Bolsonaro que custa bilhões ao Brasil
Países não têm amigos, mas interesses. E quando interesses de uns e de outros entram em choque, eles tentam negociar ou então vão à guerra. Pode ser por meio de aplicações de tarifas mútuas, que levem o lado mais fraco a ceder, embora ele nem sempre ceda. Pode ser também por meio de armas, o que produz mortes.
No momento, os Estados Unidos combatem nos dois terrenos: o comercial, via imposição de tarifas a quase todos os países do mundo sem poupar sequer seus aliados históricos, e o sanguinolento, haja vista o que se passa no Oriente Médio, onde o Irã continua debaixo de fogo letal e reage atacando bases militares norte-americanas.
As relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos têm mais de 202 anos. Elas começaram em 26 de maio de 1824, quando os Estados Unidos reconheceram oficialmente a independência do Brasil, proclamada dois anos antes por Dom Pedro I. O Brasil e os Estados Unidos nunca guerrearam entre si.
De lado a lado, barreiras comerciais e disputas tarifárias ocorrem continuamente por meio de centenas de processos individuais de antidumping, subsídios e medidas de salvaguarda. No entanto, a imposição de pacotes generalizados de sobretaxas (os chamados “tarifaços”) só se deu em ocasiões muito marcantes.
Há cerca de 40 anos, durante o governo de Ronald Reagan, os Estados Unidos aplicaram uma tarifa de 100% sobre diversos eletrônicos e produtos manufaturados brasileiros como retaliação à chamada “Lei de Informática”, que restringia a entrada em nosso mercado de computadores americanos. Pressionado, o Brasil recuou.
Sob a administração de Donald Trump, em agosto do ano passado, os Estados Unidos aplicaram uma taxação de 50% sobre mais de 3,8 mil itens brasileiros, incluindo café, calçados e tecidos. Parte dessa cobrança sobre itens agrícolas foi revogada temporariamente em novembro daquele ano por decisão da Suprema Corte americana.
Ontem, o governo americano oficializou uma sobretaxa de 25% baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A medida atinge produtos como açúcar de cana, etanol, gasolina e máquinas pesadas. Ficaram de fora da lista grandes motores da pauta brasileira de exportação, como suco de laranja, carne bovina, café e aviões.
Vida que segue — ou que seguiria —, se por trás do novo tarifaço não estivesse o desejo indisfarçável de Trump de influir nos resultados das eleições brasileiras de outubro próximo para beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Somente este ano, Flávio foi seis vezes aos Estados Unidos para suplicar ajuda a Trump.
Quando do tarifaço de 2025, Trump escreveu uma carta a Lula ordenando que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendesse “imediatamente” o julgamento dos golpistas do 8 de janeiro, entre eles Jair Bolsonaro. Se não bastasse, proibiu a entrada nos Estados Unidos de ministros do STF e do governo federal.
A essa altura, não há mais como descolar a imagem dos Bolsonaro dos tarifaços de Trump. O de agora atinge diretamente US$ 7,4 bilhões em mercadorias (cerca de 18% de tudo o que o Brasil vende para os Estados Unidos), gerando uma perda potencial de até US$ 11 bilhões (cerca de R$ 52 bilhões) nas exportações brasileiras.
Em vídeo postado nas redes sociais, Flávio culpou Lula pelo tarifaço e não se opôs a ele para não desagradar a Trump. Pelo contrário: reproduziu parte da fala de Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, que disse:
— Lula não negociou de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Ele colocou seu ego à frente de um acordo, e essas tarifas são o preço por isso.
Ricardo Noblat
No momento, os Estados Unidos combatem nos dois terrenos: o comercial, via imposição de tarifas a quase todos os países do mundo sem poupar sequer seus aliados históricos, e o sanguinolento, haja vista o que se passa no Oriente Médio, onde o Irã continua debaixo de fogo letal e reage atacando bases militares norte-americanas.
As relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos têm mais de 202 anos. Elas começaram em 26 de maio de 1824, quando os Estados Unidos reconheceram oficialmente a independência do Brasil, proclamada dois anos antes por Dom Pedro I. O Brasil e os Estados Unidos nunca guerrearam entre si.
De lado a lado, barreiras comerciais e disputas tarifárias ocorrem continuamente por meio de centenas de processos individuais de antidumping, subsídios e medidas de salvaguarda. No entanto, a imposição de pacotes generalizados de sobretaxas (os chamados “tarifaços”) só se deu em ocasiões muito marcantes.
Há cerca de 40 anos, durante o governo de Ronald Reagan, os Estados Unidos aplicaram uma tarifa de 100% sobre diversos eletrônicos e produtos manufaturados brasileiros como retaliação à chamada “Lei de Informática”, que restringia a entrada em nosso mercado de computadores americanos. Pressionado, o Brasil recuou.
Sob a administração de Donald Trump, em agosto do ano passado, os Estados Unidos aplicaram uma taxação de 50% sobre mais de 3,8 mil itens brasileiros, incluindo café, calçados e tecidos. Parte dessa cobrança sobre itens agrícolas foi revogada temporariamente em novembro daquele ano por decisão da Suprema Corte americana.
Ontem, o governo americano oficializou uma sobretaxa de 25% baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A medida atinge produtos como açúcar de cana, etanol, gasolina e máquinas pesadas. Ficaram de fora da lista grandes motores da pauta brasileira de exportação, como suco de laranja, carne bovina, café e aviões.
Vida que segue — ou que seguiria —, se por trás do novo tarifaço não estivesse o desejo indisfarçável de Trump de influir nos resultados das eleições brasileiras de outubro próximo para beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Somente este ano, Flávio foi seis vezes aos Estados Unidos para suplicar ajuda a Trump.
Quando do tarifaço de 2025, Trump escreveu uma carta a Lula ordenando que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendesse “imediatamente” o julgamento dos golpistas do 8 de janeiro, entre eles Jair Bolsonaro. Se não bastasse, proibiu a entrada nos Estados Unidos de ministros do STF e do governo federal.
A essa altura, não há mais como descolar a imagem dos Bolsonaro dos tarifaços de Trump. O de agora atinge diretamente US$ 7,4 bilhões em mercadorias (cerca de 18% de tudo o que o Brasil vende para os Estados Unidos), gerando uma perda potencial de até US$ 11 bilhões (cerca de R$ 52 bilhões) nas exportações brasileiras.
Em vídeo postado nas redes sociais, Flávio culpou Lula pelo tarifaço e não se opôs a ele para não desagradar a Trump. Pelo contrário: reproduziu parte da fala de Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, que disse:
— Lula não negociou de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Ele colocou seu ego à frente de um acordo, e essas tarifas são o preço por isso.
Ricardo Noblat
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Trump e o 'tariflávio'
A ameaça de tarifas de Donald Trump enquadra os esforços do Brasil para proteger sua democracia como uma prática comercial desleal — e confere ao bolsonarismo um palco em Washington.
Lula quer que o Brasil tenha capacidade de fiscalizar a desinformação antidemocrática [dentro do país]. Trump acredita que os EUA deveriam ter jurisdição sobre o espaço informacional do país,
Trump rebatizou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a embarcar nessa narrativa.
Editorial do The Guardian
Lula quer que o Brasil tenha capacidade de fiscalizar a desinformação antidemocrática [dentro do país]. Trump acredita que os EUA deveriam ter jurisdição sobre o espaço informacional do país,
Trump rebatizou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a embarcar nessa narrativa.
Editorial do The Guardian
Os caminhos da extrema direita
"Bolsonaro tem os votos", constatou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, ao avaliar a importância da carta na qual o ex-presidente, em prisão domiciliar, reiterou seu apoio à candidatura do primogênito. A declaração vale para o momento, mas também retrata a dependência das forças da direita tradicional da musculatura eleitoral de sua expressão política mais extremada.
A mudança do centro de gravidade do campo direitista nesse rumo não é peculiaridade brasileira. A extrema direita avança no Ocidente, observa Sérgio Fausto, diretor-geral da Fundação Fernando Henrique Cardoso, em lúcido artigo publicado em O Estado de S. Paulo, na segunda-feira.
Por toda parte, a direita aclimatada ao jogo democrático vai perdendo primazia para partidos e lideranças populistas que desdenham das regras do sistema. Nos Estados Unidos, chegaram ao poder com Donald Trump, depois de tomar de assalto o Partido Republicano. Na Europa, a extrema direita governa a Itália e participa das coalizões governantes na Finlândia, na Croácia e na Eslováquia. Já se transformou na segunda força em nada menos que sete países: Espanha, Portugal, Alemanha, França, Áustria, Bélgica e Suécia.
A mudança do centro de gravidade do campo direitista nesse rumo não é peculiaridade brasileira. A extrema direita avança no Ocidente, observa Sérgio Fausto, diretor-geral da Fundação Fernando Henrique Cardoso, em lúcido artigo publicado em O Estado de S. Paulo, na segunda-feira.
Por toda parte, a direita aclimatada ao jogo democrático vai perdendo primazia para partidos e lideranças populistas que desdenham das regras do sistema. Nos Estados Unidos, chegaram ao poder com Donald Trump, depois de tomar de assalto o Partido Republicano. Na Europa, a extrema direita governa a Itália e participa das coalizões governantes na Finlândia, na Croácia e na Eslováquia. Já se transformou na segunda força em nada menos que sete países: Espanha, Portugal, Alemanha, França, Áustria, Bélgica e Suécia.
Na vizinhança, populistas de direita levaram a melhor, neste ano, no Equador, no Peru e na Colômbia –não bastassem as vitórias precedentes no Chile, na Bolívia e na Argentina. A Venezuela, embora invadida pelos Estados Unidos, continua nas mãos do establishment chavista, uma variante de esquerda do populismo. Só o Uruguai e o Brasil — além da Guiana e do Suriname — continuam sob governos plenamente fiéis aos valores e regras da democracia representativa.
Seria um engano ver no ciclo eleitoral do entorno apenas a recorrente alternância no poder entre esquerda e direita, por meio da qual frustrados eleitores desalojam os incumbentes e premiam seus opositores. Pois faz toda a diferença de que opositores se trata.
A ascensão dos populismos extremistas inaugura uma situação de incerteza, diferente daquela que caracteriza os sistemas democráticos. Estes funcionam quando suas instituições asseguram que a disputa eleitoral não seja um jogo de cartas marcadas cujo resultado, por suposto, é sabido de antemão —daí a incerteza. E a eleição de populistas extremados torna imponderável o futuro da própria democracia.
Levados ao governo pelo voto, líderes populistas têm dois caminhos: Podem aferrar-se ao poder manipulando as regras do jogo —no limite solapando a democracia. Essa foi a escolha de Jair Bolsonaro, que, derrotado nas urnas, quis dar um golpe de Estado e fracassou. Liquidar a democracia representativa parece ser também a trilha que vai seguindo Donald Trump.
Mas não está excluído que líderes de extrema direita se adaptem às instituições democráticas; no poder, abandonem suas promessas mais radicais e optem por políticas de direita, que, mesmo regressivas, são compatíveis com o regime liberal representativo.
Esse parece ser o caso da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Ainda não há exemplos suficientes para entender o que pode levar a um ou outro desenlace. Melhor não saber, torcendo para que os populistas extremados percam eleições.
Seria um engano ver no ciclo eleitoral do entorno apenas a recorrente alternância no poder entre esquerda e direita, por meio da qual frustrados eleitores desalojam os incumbentes e premiam seus opositores. Pois faz toda a diferença de que opositores se trata.
A ascensão dos populismos extremistas inaugura uma situação de incerteza, diferente daquela que caracteriza os sistemas democráticos. Estes funcionam quando suas instituições asseguram que a disputa eleitoral não seja um jogo de cartas marcadas cujo resultado, por suposto, é sabido de antemão —daí a incerteza. E a eleição de populistas extremados torna imponderável o futuro da própria democracia.
Levados ao governo pelo voto, líderes populistas têm dois caminhos: Podem aferrar-se ao poder manipulando as regras do jogo —no limite solapando a democracia. Essa foi a escolha de Jair Bolsonaro, que, derrotado nas urnas, quis dar um golpe de Estado e fracassou. Liquidar a democracia representativa parece ser também a trilha que vai seguindo Donald Trump.
Mas não está excluído que líderes de extrema direita se adaptem às instituições democráticas; no poder, abandonem suas promessas mais radicais e optem por políticas de direita, que, mesmo regressivas, são compatíveis com o regime liberal representativo.
Esse parece ser o caso da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Ainda não há exemplos suficientes para entender o que pode levar a um ou outro desenlace. Melhor não saber, torcendo para que os populistas extremados percam eleições.
A sobrevivência também se aprende
Sabe o que deve fazer no momento em que um incêndio florestal se aproximar perigosamente do local onde se encontra? E como deve atuar, de imediato, se for surpreendido por um terramoto? Ou como deve proteger-se na iminência de uma tempestade violenta, com ventos fortes e risco de inundação rápida? Não se preocupe em responder, pois só há uma maneira de ter respostas prontas, quase automáticas, a cada uma dessas perguntas: sermos treinados para saber como enfrentar o perigo e o que fazer em caso de emergência. Algo que não se faz com avisos banais nem através de mensagens para o telemóvel que, na maioria dos casos, se limitam a dizer: “Proteja-se.” A verdadeira proteção exige educação contínua, a realização de exercícios frequentes e a calendarização de simulacros que permitam, efetivamente, testar situações de perigo e não sejam apenas burocráticos.
Trazer esta conversa hoje para discussão pública não deve ser considerado alarmismo ou um assunto desligado da realidade. Muito pelo contrário. Este é um tema urgente e que precisa de ser debatido pela sociedade, a todos os níveis, tendo em conta tudo aquilo que se observa pelo mundo, em termos de fenómenos extremos.
Algumas das piores consequências das alterações climáticas, de que ouvimos falar nas últimas duas décadas, já não são apenas cenários para um futuro mais ou menos distante. Em qualquer estação do ano, acumulam-se já sinais que deveriam obrigar-nos a uma mudança de atitude em matéria de prevenção, mas também de adaptação ao “novo normal” para o qual temos de estar vigilantes e preparados.
No entanto, apesar desta aceleração brutal da realidade, a nossa postura coletiva e individual continua perigosamente ancorada numa letargia burocrática, que não acompanha as mudanças na atmosfera, mas também as que têm ocorrido no território e na demografia. E, ainda por cima, começa a disseminar-se a ideia de que a tecnologia pode resolver tudo. Como se o alerta lançado pela Proteção Civil ou o aviso emitido por um smartphone fossem as armas suficientes para que uma população fique alerta e em segurança. Um aviso sonoro emitido por um algoritmo no ecrã do nosso telemóvel é útil, mas não constitui uma apólice de seguro contra a catástrofe. O aviso apenas anuncia a iminência da tragédia, não nos ensina a sobreviver a ela.
O trágico incêndio florestal ocorrido recentemente na zona de Los Gallardos, em Almería, no sul de Espanha, deve servir-nos como aviso. Não só as imagens nos fazem lembrar a catástrofe de Pedrógão, mas também a forma explosiva como o fogo se propagou nos remete para a memória desse fatídico ano de 2017. Em Los Gallardos como em Pedrógão, a terrível visão de veículos calcinados nas estradas deixou uma mesma lição: o pânico gera a autoevacuação desordenada, que é o pior inimigo da sobrevivência. Sem saber o que fazer, as pessoas fogem ao acaso e entram diretamente na boca do lobo. Quando o fogo se descontrola, não há fuga possível através da improvisação.
Da mesma forma, o recente duplo sismo que abalou a Venezuela recorda-nos que a fúria da Terra não avisa por SMS com minutos de antecedência. Num terramoto, a janela de oportunidade para tomar decisões que separam a vida da morte mede-se em escassos segundos. O reflexo de procurar abrigo sob uma estrutura resistente, o conhecimento exato das saídas de emergência e a manutenção da calma coletiva dentro de edifícios altos não surgem por intuição divina. Como o Japão, um país altamente ameaçado por sismos, já demonstrou, são o resultado direto de anos de exercícios repetidos à exaustão, integrados no currículo escolar, nas empresas e nas rotinas familiares. Quando a terra treme ou o fogo avança, a mente humana bloqueia a capacidade de raciocínio lógico complexo; o que nos salva é o automatismo do treino prévio.
Ninguém sabe quando será a próxima catástrofe, mas sabemos que a probabilidade de ela ocorrer está a aumentar. É preciso, por isso, transformar a proteção civil numa disciplina viva e comunitária. Os simulacros de sismo e de incêndio não podem ser eventos festivos ou meras formalidades de calendário para cumprir legislação laboral. Têm de ser exigentes, rotineiros e realistas. Só quando o comportamento seguro face ao perigo for um reflexo automatizado pelo treino, e não uma recomendação lida à pressa num ecrã, estaremos verdadeiramente preparados para sobreviver a esta nova era de extremos. E, de uma vez por todas, convinha que em Portugal se começasse a falar mais sobre prevenção, antes das catástrofes, ao invés de se passar depois dias a discutir sobre o que correu mal – e tudo continuar na mesma.
Trazer esta conversa hoje para discussão pública não deve ser considerado alarmismo ou um assunto desligado da realidade. Muito pelo contrário. Este é um tema urgente e que precisa de ser debatido pela sociedade, a todos os níveis, tendo em conta tudo aquilo que se observa pelo mundo, em termos de fenómenos extremos.
Algumas das piores consequências das alterações climáticas, de que ouvimos falar nas últimas duas décadas, já não são apenas cenários para um futuro mais ou menos distante. Em qualquer estação do ano, acumulam-se já sinais que deveriam obrigar-nos a uma mudança de atitude em matéria de prevenção, mas também de adaptação ao “novo normal” para o qual temos de estar vigilantes e preparados.
No entanto, apesar desta aceleração brutal da realidade, a nossa postura coletiva e individual continua perigosamente ancorada numa letargia burocrática, que não acompanha as mudanças na atmosfera, mas também as que têm ocorrido no território e na demografia. E, ainda por cima, começa a disseminar-se a ideia de que a tecnologia pode resolver tudo. Como se o alerta lançado pela Proteção Civil ou o aviso emitido por um smartphone fossem as armas suficientes para que uma população fique alerta e em segurança. Um aviso sonoro emitido por um algoritmo no ecrã do nosso telemóvel é útil, mas não constitui uma apólice de seguro contra a catástrofe. O aviso apenas anuncia a iminência da tragédia, não nos ensina a sobreviver a ela.
O trágico incêndio florestal ocorrido recentemente na zona de Los Gallardos, em Almería, no sul de Espanha, deve servir-nos como aviso. Não só as imagens nos fazem lembrar a catástrofe de Pedrógão, mas também a forma explosiva como o fogo se propagou nos remete para a memória desse fatídico ano de 2017. Em Los Gallardos como em Pedrógão, a terrível visão de veículos calcinados nas estradas deixou uma mesma lição: o pânico gera a autoevacuação desordenada, que é o pior inimigo da sobrevivência. Sem saber o que fazer, as pessoas fogem ao acaso e entram diretamente na boca do lobo. Quando o fogo se descontrola, não há fuga possível através da improvisação.
Da mesma forma, o recente duplo sismo que abalou a Venezuela recorda-nos que a fúria da Terra não avisa por SMS com minutos de antecedência. Num terramoto, a janela de oportunidade para tomar decisões que separam a vida da morte mede-se em escassos segundos. O reflexo de procurar abrigo sob uma estrutura resistente, o conhecimento exato das saídas de emergência e a manutenção da calma coletiva dentro de edifícios altos não surgem por intuição divina. Como o Japão, um país altamente ameaçado por sismos, já demonstrou, são o resultado direto de anos de exercícios repetidos à exaustão, integrados no currículo escolar, nas empresas e nas rotinas familiares. Quando a terra treme ou o fogo avança, a mente humana bloqueia a capacidade de raciocínio lógico complexo; o que nos salva é o automatismo do treino prévio.
Ninguém sabe quando será a próxima catástrofe, mas sabemos que a probabilidade de ela ocorrer está a aumentar. É preciso, por isso, transformar a proteção civil numa disciplina viva e comunitária. Os simulacros de sismo e de incêndio não podem ser eventos festivos ou meras formalidades de calendário para cumprir legislação laboral. Têm de ser exigentes, rotineiros e realistas. Só quando o comportamento seguro face ao perigo for um reflexo automatizado pelo treino, e não uma recomendação lida à pressa num ecrã, estaremos verdadeiramente preparados para sobreviver a esta nova era de extremos. E, de uma vez por todas, convinha que em Portugal se começasse a falar mais sobre prevenção, antes das catástrofes, ao invés de se passar depois dias a discutir sobre o que correu mal – e tudo continuar na mesma.
O que separa o perigoso do diferente?
Tolerância social e imunidade institucional: o que o corpo nos inspira
Duas tradições de pensamento, vindas de campos de saberes distintos, sugerem que essa polarização é, em boa parte, um problema de critério mal definido. A saída não estaria em escolher um dos extremos, mas em mudar a pergunta que se faz diante de cada situação.
Em 1945, o filósofo austríaco Karl Popper descreveu o que chamou de paradoxo da tolerância, uma ideia que permanece atual: uma sociedade que estende tolerância irrestrita, inclusive a quem usa essa liberdade para destruir a própria tolerância, corre o risco de vê-la desaparecer. Grosso modo, se tolero o intolerável, já estou doente. Por isso, argumentava Popper, sociedades abertas precisam se reservar o direito de não tolerar a intolerância ativa – valorizar, respeitar e buscar aprender com a diversidade e as diferenças – sob pena de serem destruídas, de dentro, por ela.
O argumento voltou ao centro do debate público em discussões sobre moderação de discurso, financiamento de movimentos antidemocráticos por meios democráticos e combate à infodemia na saúde pública. Mas o paradoxo, isolado, não resolve o problema prático mais difícil: quem decide o que conta como “intolerância ativa” o suficiente para justificar um limite – e com qual critério?
Um modelo emprestado da imunologia ajuda a entender essa questão. No início dos anos 2000, a pesquisadora franco-americana Polly Matzinger propôs que o sistema imunológico não reage apenas ao que é estranho, mas principalmente ao que é perigoso e causa dano.
Se o corpo atacasse tudo o que é diferente, e não apenas o que causa dano, destruiria tecidos saudáveis, como ocorre na autoimunidade. Nossa alimentação ilustra essa diferença: leite, ovos, carne e vegetais vêm de fora e nos nutrem, enquanto rejeitamos alimentos estragados, contaminados ou com odor de podridão, pois podem causar doenças. A evolução nos ensinou que tolerar não é aceitar tudo, mas distinguir o que nos faz bem do que pode nos causar dano.
A analogia com instituições é direta: sistema, organização ou democracia que trata toda diferença, discordância ou heterodoxia como ameaça pode atacar o que a mantém saudável: a diversidade, o debate e a correção de erros. É uma “autoimunidade institucional”. Já um sistema que reage com firmeza a danos reais como fraude, violência, corrupção e violação de regras essenciais, preserva a diversidade que não ameaça seu funcionamento.
É nesse ponto que a obra do jurista italiano Norberto Bobbio complementa a de Popper. ao lembrar que a democracia depende menos de quais ideias prevalecem e mais das regras que permitem o debate entre ideias diferentes: quem decide, como decide e quais limites todos devem respeitar. É possível discordar, desde que se cumpra a mesma regra do jogo. Quando alguém a burla ou cria exceções para si, a convivência democrática se transforma em predação.
Distinguir as regras do jogo do conteúdo do jogo evita a falsa escolha entre tolerar tudo e restringir demais.
O limite legítimo não deve atingir a diversidade de ideias, mas as ações que impedem uma disputa justa: fraude, violência, conluio, captura ilegal de instituições e desrespeito às regras comuns.
Bobbio também mostrou que a democracia pode ser enfraquecida por dentro, quando alguém usa as próprias liberdades democráticas para destruir as regras que as sustentam. Nesse ponto, sua reflexão complementa o paradoxo da tolerância de Popper.
Em Como as Democracias Morrem, os cientistas políticos de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram que o colapso democrático contemporâneo costuma ocorrer de forma gradual e legalista, liderado por governantes eleitos que usam as próprias instituições para minar o sistema por dentro.
Os autores apontam quatro sinais desse processo: rejeição das regras democráticas, deslegitimação dos adversários, tolerância à violência política e restrição das liberdades civis. Essa erosão se consolida quando regras como tolerância entre rivais e autocontenção no uso do poder legal são abandonadas pelas elites políticas.
A biologia ajuda aqui também: é parecido com o câncer, que tem a habilidade de neutralizar o sistema imune, evitando ser reconhecido como algo a eliminar. Passado um tempo, a célula cancerígena se reproduz mais rápido que a célula sadia e toma seu lugar. Em muitos casos, o câncer se torna fatal porque tecidos e órgãos deixam de cumprir suas funções. Quando o sistema imune é silenciado, adoecemos.
Transposta para organizações e lideranças, a distinção é igualmente operativa: o que deve ser protegido não é a opinião da liderança, mas as regras que permitem discordar de forma produtiva: transparência, liberdade para questionar sem retaliação e critérios claros para decidir. Discordar faz parte do jogo. Violar as regras é o que exige limite.
Colocando essas referências em conjunto, emerge um critério operacional: Diante de uma crítica, discordância ou posição minoritária, a pergunta não deve ser “isso é diferente do esperado?”, mas “isso viola as regras do debate ou é apenas o uso legítimo do direito de discordar?”.
A liderança que trata toda discordância como ameaça confunde diferença com dano. Com o tempo, desmotiva as pessoas e perde sinais importantes de problemas reais, pois ninguém mais se sente seguro para alertar.
No extremo oposto, uma liderança que tolera violações claras das regras enfraquece o próprio espaço de diálogo. Como alertou Popper, quem não respeita as regras pode ocupar esse espaço até eliminar a pluralidade. A biologia ensina justamente esse equilíbrio: não atacar toda diferença, mas reagir com firmeza ao que causa dano.
As regras do jogo, em democracias e organizações, não devem ser imutáveis. Elas precisam prever formas legítimas de revisão, sem depender apenas de crises ou disputas específicas, quando aumenta o risco de mudanças em benefício de quem está no poder.
Na prática, isso exige revisões periódicas, canais permanentes para apontar distorções e critérios claros para distinguir discordância de violação das regras.
É como a vigilância após tratamento de um câncer: consultas e exames são programados mesmo sem sinais de doença, para identificar alterações precocemente e preservar os resultados alcançados.
Um critério confiável orienta, embora não elimine as ambiguidades da vida real. Ainda assim, ajuda a superar a falsa e perigosa escolha entre tolerar tudo e controlar demais.
As referências convergem para um princípio de sanidade: bons limites devem proteger as regras que permitem a diversidade, e não impedir a própria diversidade.
Reconhecer essa diferença e manter essas regras sob revisão é uma condição concreta para que famílias, organizações, democracias e culturas cívicas pratiquem os valores que afirmam defender.
Fica o convite: antes de aderir a uma ideia, pergunte-se – ela apenas me impressiona ou também me oferece boas razões?
Rubens Harb Bollos
O Brasil além dos candidatos
O Brasil caminha para sua terceira eleição presidencial consecutiva marcada mais pela rejeição do que pela esperança. Em vez de discutir projetos nacionais, o debate público continua dominado por nomes, temperamentos e biografias. Ao final, muitos eleitores sentem-se condenados a escolher apenas o mal menor.
Trata-se de um círculo vicioso que dificilmente será rompido por geração espontânea ou pela iniciativa dos grupos políticos que mais se beneficiam dele. Lulismo e bolsonarismo passaram a alimentar-se mutuamente desde 2018, transformando a eleição em um permanente plebiscito sobre líderes, e não sobre ideias.
Nesse contexto, merece atenção a iniciativa coordenada pelo ex-presidente Michel Temer, de reunir especialistas de diferentes áreas como Marcos Lisboa, Nelson Jobim, Rubens Barbosa, Raul Cutait, Flávia Piovesan, José Pastore, Blairo Maggi, entre outros, para elaborar o documento Estrada para o Futuro. A iniciativa representa uma contribuição importante para recolocar a disputa presidencial no terreno programático.
O documento procura deslocar o debate eleitoral da disputa de nomes para a comparação entre projetos de país, estimulando os candidatos a apresentar propostas concretas para os principais desafios nacionais. Se conseguir influenciar a campanha, oferecerá ao eleitor critérios mais consistentes para avaliar programas de governo, e não apenas simpatias ou rejeições pessoais. Mas isso, por si só, não basta.
Nenhum projeto se realiza sem um ambiente de estabilidade política e um mínimo de entendimento em torno das prioridades permanentes do Estado. As grandes transformações brasileiras nasceram quando o país conseguiu construir consensos mínimos em torno de objetivos permanentes, preservando a disputa democrática sobre os diferentes caminhos para alcançá-los. Foi assim em momentos decisivos da história brasileira, como a Constituição de 1988, o Plano Real e o projeto desenvolvimentista sintetizado por Juscelino Kubitschek no lema “Cinquenta anos em cinco”
A polarização que passou a dominar a política brasileira transformou-se em poderoso fator de paralisia institucional. Ela contamina o debate público, radicaliza posições, reduz os espaços de negociação e compromete a capacidade do Estado de formular políticas de longo prazo. Um país dividido permanentemente entre vencedores e inimigos dificilmente conseguirá superar a armadilha da renda média, elevar sua produtividade, melhorar seus indicadores sociais e recuperar a confiança dos investidores e da própria população.
Foi precisamente sobre esse ponto que Michel Temer concentrou uma das mensagens mais relevantes de sua recente entrevista ao Estadão. Segundo ele, nos primeiros dias de governo, o presidente eleito deveria convocar os chefes dos demais Poderes, representantes da sociedade civil e até mesmo a oposição para construir um grande pacto republicano. “O Brasil precisa de um pacto e não dessa divisão”, afirmou. A proposta vai além de um gesto protocolar de conciliação. Ela parte do reconhecimento de que nenhuma agenda de reformas prosperará se o país continuar vivendo em permanente estado de beligerância política.
Entretanto, qualquer pacto nacional somente terá credibilidade se estiver assentado sobre um princípio inegociável: a observância rigorosa da Constituição por todos os Poderes da República. Não apenas pelo Executivo, tradicional alvo das cobranças, mas igualmente pelo Legislativo e pelo Judiciário. A estabilidade democrática depende do respeito aos limites constitucionais, da separação de competências e do sistema de freios e contrapesos concebido pelos constituintes de 1988. Quando um Poder invade a esfera de atuação do outro, ainda que movido pelas melhores intenções, abre-se espaço para insegurança institucional e para a erosão gradual da confiança na democracia.
Essa reflexão encontra eco no recente livro A oligarquia dos Três Poderes e a crise da democracia, do jurista Joaquim Falcão. A obra chama atenção para os riscos da excessiva concentração de poder nas cúpulas institucionais e reafirma uma premissa essencial: a democracia depende de instituições que respeitem os limites constitucionais e preservem o equilíbrio entre os Poderes.
É justamente nessa direção que o documento Estrada para o Futuro insiste na necessidade de fortalecer as instituições, aprimorar a gestão pública, promover responsabilidade fiscal, ampliar investimentos em educação, ciência e inovação, elevar a produtividade da economia, reduzir desigualdades regionais, modernizar a infraestrutura e construir um ambiente de maior segurança jurídica.
São propostas que podem receber críticas, aperfeiçoamentos ou até discordâncias, mas que têm o mérito de enfrentar questões permanentes do desenvolvimento brasileiro, em vez de se limitar às disputas conjunturais que dominam as redes sociais e os palanques.
O país necessita recuperar a capacidade de discutir o Brasil para além da próxima eleição. Nações que conseguiram dar saltos de desenvolvimento foram capazes de construir acordos duradouros em torno de objetivos permanentes, preservando naturalmente o espaço para a alternância democrática e para a divergência política. Divergir faz parte da democracia; transformar o adversário em inimigo permanente é que compromete sua vitalidade.
Independentemente do destino que venha a ter o documento Estrada para o Futuro, a iniciativa já terá prestado um relevante serviço ao debate público. Ela recoloca em evidência uma verdade que o país parece ter esquecido: democracias maduras escolhem governantes, mas também discutem projetos nacionais. Nomes passam. Projetos permanecem. E somente um projeto de país, construído dentro dos limites da Constituição e sustentado por instituições respeitadas, poderá oferecer ao Brasil um horizonte de estabilidade institucional, crescimento econômico e uma convivência democrática menos polarizada.
Trata-se de um círculo vicioso que dificilmente será rompido por geração espontânea ou pela iniciativa dos grupos políticos que mais se beneficiam dele. Lulismo e bolsonarismo passaram a alimentar-se mutuamente desde 2018, transformando a eleição em um permanente plebiscito sobre líderes, e não sobre ideias.
Nesse contexto, merece atenção a iniciativa coordenada pelo ex-presidente Michel Temer, de reunir especialistas de diferentes áreas como Marcos Lisboa, Nelson Jobim, Rubens Barbosa, Raul Cutait, Flávia Piovesan, José Pastore, Blairo Maggi, entre outros, para elaborar o documento Estrada para o Futuro. A iniciativa representa uma contribuição importante para recolocar a disputa presidencial no terreno programático.
O documento procura deslocar o debate eleitoral da disputa de nomes para a comparação entre projetos de país, estimulando os candidatos a apresentar propostas concretas para os principais desafios nacionais. Se conseguir influenciar a campanha, oferecerá ao eleitor critérios mais consistentes para avaliar programas de governo, e não apenas simpatias ou rejeições pessoais. Mas isso, por si só, não basta.
Nenhum projeto se realiza sem um ambiente de estabilidade política e um mínimo de entendimento em torno das prioridades permanentes do Estado. As grandes transformações brasileiras nasceram quando o país conseguiu construir consensos mínimos em torno de objetivos permanentes, preservando a disputa democrática sobre os diferentes caminhos para alcançá-los. Foi assim em momentos decisivos da história brasileira, como a Constituição de 1988, o Plano Real e o projeto desenvolvimentista sintetizado por Juscelino Kubitschek no lema “Cinquenta anos em cinco”
A polarização que passou a dominar a política brasileira transformou-se em poderoso fator de paralisia institucional. Ela contamina o debate público, radicaliza posições, reduz os espaços de negociação e compromete a capacidade do Estado de formular políticas de longo prazo. Um país dividido permanentemente entre vencedores e inimigos dificilmente conseguirá superar a armadilha da renda média, elevar sua produtividade, melhorar seus indicadores sociais e recuperar a confiança dos investidores e da própria população.
Foi precisamente sobre esse ponto que Michel Temer concentrou uma das mensagens mais relevantes de sua recente entrevista ao Estadão. Segundo ele, nos primeiros dias de governo, o presidente eleito deveria convocar os chefes dos demais Poderes, representantes da sociedade civil e até mesmo a oposição para construir um grande pacto republicano. “O Brasil precisa de um pacto e não dessa divisão”, afirmou. A proposta vai além de um gesto protocolar de conciliação. Ela parte do reconhecimento de que nenhuma agenda de reformas prosperará se o país continuar vivendo em permanente estado de beligerância política.
Entretanto, qualquer pacto nacional somente terá credibilidade se estiver assentado sobre um princípio inegociável: a observância rigorosa da Constituição por todos os Poderes da República. Não apenas pelo Executivo, tradicional alvo das cobranças, mas igualmente pelo Legislativo e pelo Judiciário. A estabilidade democrática depende do respeito aos limites constitucionais, da separação de competências e do sistema de freios e contrapesos concebido pelos constituintes de 1988. Quando um Poder invade a esfera de atuação do outro, ainda que movido pelas melhores intenções, abre-se espaço para insegurança institucional e para a erosão gradual da confiança na democracia.
Essa reflexão encontra eco no recente livro A oligarquia dos Três Poderes e a crise da democracia, do jurista Joaquim Falcão. A obra chama atenção para os riscos da excessiva concentração de poder nas cúpulas institucionais e reafirma uma premissa essencial: a democracia depende de instituições que respeitem os limites constitucionais e preservem o equilíbrio entre os Poderes.
É justamente nessa direção que o documento Estrada para o Futuro insiste na necessidade de fortalecer as instituições, aprimorar a gestão pública, promover responsabilidade fiscal, ampliar investimentos em educação, ciência e inovação, elevar a produtividade da economia, reduzir desigualdades regionais, modernizar a infraestrutura e construir um ambiente de maior segurança jurídica.
São propostas que podem receber críticas, aperfeiçoamentos ou até discordâncias, mas que têm o mérito de enfrentar questões permanentes do desenvolvimento brasileiro, em vez de se limitar às disputas conjunturais que dominam as redes sociais e os palanques.
O país necessita recuperar a capacidade de discutir o Brasil para além da próxima eleição. Nações que conseguiram dar saltos de desenvolvimento foram capazes de construir acordos duradouros em torno de objetivos permanentes, preservando naturalmente o espaço para a alternância democrática e para a divergência política. Divergir faz parte da democracia; transformar o adversário em inimigo permanente é que compromete sua vitalidade.
Independentemente do destino que venha a ter o documento Estrada para o Futuro, a iniciativa já terá prestado um relevante serviço ao debate público. Ela recoloca em evidência uma verdade que o país parece ter esquecido: democracias maduras escolhem governantes, mas também discutem projetos nacionais. Nomes passam. Projetos permanecem. E somente um projeto de país, construído dentro dos limites da Constituição e sustentado por instituições respeitadas, poderá oferecer ao Brasil um horizonte de estabilidade institucional, crescimento econômico e uma convivência democrática menos polarizada.
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Quando a 'pequena política' põe em risco o papel do Estado Democrático
A reação do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, às decisões do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), revela algo mais profundo do que uma disputa judicial em torno de emendas parlamentares. Ao tratar como natural a participação de um dirigente partidário sem mandato na indicação de verbas públicas — prática também atribuída pela Polícia Federal ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha —, Valdemar expõe uma cultura política dominante no Congresso Nacional que passou a considerar o Orçamento da União patrimônio compartilhado por cúpulas partidárias, líderes do Congresso e operadores instalados na máquina legislativa.
Segundo a investigação, 21 emendas relacionadas ao dirigente do PL movimentariam R$ 119,2 milhões, dos quais cerca de R$ 104 milhões já teriam sido pagos. A defesa nega dolo, fraude e obtenção de vantagem pessoal e anuncia que contestará as medidas. No caso de Eduardo Cunha, são investigadas 29 emendas, no valor de R$ 6,1 milhões, registradas como indicações da liderança do Republicanos, embora o ex-deputado não exerça mandato. Cunha também nega irregularidades.
Em ambos os episódios, a questão central não é o diálogo político, mas a possível existência de “cotas orçamentárias informais” administradas por agentes sem competência constitucional para dispor do Orçamento. A decisão mais recente de Dino reafirma que a indicação de emendas é um ato funcional e personalíssimo. Emendas não são propriedade particular, não podem ser cedidas, emprestadas ou vendidas, nem administradas por ex-parlamentares, dirigentes partidários, empresários ou intermediários.
Depois do fim do orçamento secreto, coibido pelo Supremo, a opacidade voltou a se instalar por outros caminhos. E não se resume às suspeitas envolvendo Valdemar ou Cunha, nem pode ser atribuído exclusivamente ao PL ou ao Republicanos. Trata-se de uma prática generalizada, que beneficia principalmente os grandes partidos, do PL ao PT, passando pelas legendas do Centrão.
É um iceberg. Auditoria da Controladoria-Geral da União examinou R$ 20,7 bilhões em emendas Pix distribuídas, entre 2020 e 2024, a 5.335 municípios — 95% das cidades brasileiras. Numa amostra de 15 municípios, 12 apresentaram transparência e rastreabilidade inadequadas. Entre as 14 prefeituras que já haviam executado os recursos, nove apresentaram irregularidades graves, como indícios de direcionamento de contratações, sobrepreço e superfaturamento.
Na saúde, 75 auditorias do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde, realizadas em 48 municípios de 23 unidades da Federação, identificaram impacto financeiro de R$ 25,9 milhões sobre R$ 53,3 milhões fiscalizados. Desse total, R$ 20,6 milhões foram classificados como danos efetivos ao erário e R$ 5,3 milhões como desvios de recursos.
Não se trata de demonizar as emendas. Uma coisa é atender necessidades locais ignoradas pela burocracia federal e aproximar o Orçamento das demandas dos municípios. Outra é transformar um instrumento complementar no eixo dominante da política fiscal e eleitoral. Quando a distribuição deixa de obedecer a planejamento nacional, critérios técnicos, transparência e avaliação de resultados, o Estado passa a ser fragmentado, mas ninguém se responsabiliza pela efetiva execução dos recursos nem com a política a que servem.
O pensador italiano Antônio Gramsci distinguia a “pequena política” — feita de intrigas, articulações de bastidores e interesses fisiológicos — da “grande política”, relacionada à organização do Estado, às estruturas econômicas e sociais e aos grandes interesses nacionais. No Brasil, as emendas inverteram essa hierarquia. A pequena política apropriou-se de parcela tão expressiva do Orçamento que se transformou numa questão de Estado, ou seja, da grande política.Se antes foram os “anões do Orçamento”, agora é o colégio de líderes de bancada.
Em 2024, o conjunto das emendas chegou a aproximadamente R$ 47,4 bilhões, valor próximo dos R$ 55 bilhões destinados ao Programa de Aceleração do Crescimento, em 2024. O volume executado dessas emendas atingiu R$ 9,3 bilhões em 2025 e chegou a R$ 12,1 bilhões no Orçamento de 2026. A Transparência Brasil identificou R$ 1,3 bilhão executado em 2025 por meio de 1.341 emendas registradas apenas em nome de líderes partidários. A Comissão de Saúde concentrou R$ 818,1 milhões dessas indicações sem autoria nominal.
Em vez de desaparecer, o orçamento secreto mudou de nome, de modalidade e de operador. PP, União Brasil, Republicanos, PL, Avante, Podemos e Solidariedade utilizaram as chamadas emendas de liderança em 2025. Em 2026, o PT também passou a empregar o modelo. A generalização explica a resistência do Congresso. A consequência eleitoral é uma disparidade de armas quase intransponível entre quem tem e quem não tem mandato e a formação de um regime no qual um pequeno grupo de líderes de bancada detém o controle da maior parte dos investimentos da União. E que coloca em risco o processo democrático, ao manipular a competitividade nas eleições parlamentares.
Segundo a investigação, 21 emendas relacionadas ao dirigente do PL movimentariam R$ 119,2 milhões, dos quais cerca de R$ 104 milhões já teriam sido pagos. A defesa nega dolo, fraude e obtenção de vantagem pessoal e anuncia que contestará as medidas. No caso de Eduardo Cunha, são investigadas 29 emendas, no valor de R$ 6,1 milhões, registradas como indicações da liderança do Republicanos, embora o ex-deputado não exerça mandato. Cunha também nega irregularidades.
Em ambos os episódios, a questão central não é o diálogo político, mas a possível existência de “cotas orçamentárias informais” administradas por agentes sem competência constitucional para dispor do Orçamento. A decisão mais recente de Dino reafirma que a indicação de emendas é um ato funcional e personalíssimo. Emendas não são propriedade particular, não podem ser cedidas, emprestadas ou vendidas, nem administradas por ex-parlamentares, dirigentes partidários, empresários ou intermediários.
Depois do fim do orçamento secreto, coibido pelo Supremo, a opacidade voltou a se instalar por outros caminhos. E não se resume às suspeitas envolvendo Valdemar ou Cunha, nem pode ser atribuído exclusivamente ao PL ou ao Republicanos. Trata-se de uma prática generalizada, que beneficia principalmente os grandes partidos, do PL ao PT, passando pelas legendas do Centrão.
É um iceberg. Auditoria da Controladoria-Geral da União examinou R$ 20,7 bilhões em emendas Pix distribuídas, entre 2020 e 2024, a 5.335 municípios — 95% das cidades brasileiras. Numa amostra de 15 municípios, 12 apresentaram transparência e rastreabilidade inadequadas. Entre as 14 prefeituras que já haviam executado os recursos, nove apresentaram irregularidades graves, como indícios de direcionamento de contratações, sobrepreço e superfaturamento.
Na saúde, 75 auditorias do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde, realizadas em 48 municípios de 23 unidades da Federação, identificaram impacto financeiro de R$ 25,9 milhões sobre R$ 53,3 milhões fiscalizados. Desse total, R$ 20,6 milhões foram classificados como danos efetivos ao erário e R$ 5,3 milhões como desvios de recursos.
Não se trata de demonizar as emendas. Uma coisa é atender necessidades locais ignoradas pela burocracia federal e aproximar o Orçamento das demandas dos municípios. Outra é transformar um instrumento complementar no eixo dominante da política fiscal e eleitoral. Quando a distribuição deixa de obedecer a planejamento nacional, critérios técnicos, transparência e avaliação de resultados, o Estado passa a ser fragmentado, mas ninguém se responsabiliza pela efetiva execução dos recursos nem com a política a que servem.
O pensador italiano Antônio Gramsci distinguia a “pequena política” — feita de intrigas, articulações de bastidores e interesses fisiológicos — da “grande política”, relacionada à organização do Estado, às estruturas econômicas e sociais e aos grandes interesses nacionais. No Brasil, as emendas inverteram essa hierarquia. A pequena política apropriou-se de parcela tão expressiva do Orçamento que se transformou numa questão de Estado, ou seja, da grande política.Se antes foram os “anões do Orçamento”, agora é o colégio de líderes de bancada.
Em 2024, o conjunto das emendas chegou a aproximadamente R$ 47,4 bilhões, valor próximo dos R$ 55 bilhões destinados ao Programa de Aceleração do Crescimento, em 2024. O volume executado dessas emendas atingiu R$ 9,3 bilhões em 2025 e chegou a R$ 12,1 bilhões no Orçamento de 2026. A Transparência Brasil identificou R$ 1,3 bilhão executado em 2025 por meio de 1.341 emendas registradas apenas em nome de líderes partidários. A Comissão de Saúde concentrou R$ 818,1 milhões dessas indicações sem autoria nominal.
Em vez de desaparecer, o orçamento secreto mudou de nome, de modalidade e de operador. PP, União Brasil, Republicanos, PL, Avante, Podemos e Solidariedade utilizaram as chamadas emendas de liderança em 2025. Em 2026, o PT também passou a empregar o modelo. A generalização explica a resistência do Congresso. A consequência eleitoral é uma disparidade de armas quase intransponível entre quem tem e quem não tem mandato e a formação de um regime no qual um pequeno grupo de líderes de bancada detém o controle da maior parte dos investimentos da União. E que coloca em risco o processo democrático, ao manipular a competitividade nas eleições parlamentares.
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