terça-feira, 17 de março de 2026
Gostar do nosso país não significa gostar de quem fala em seu nome
É uma grande alegria —e uma grande tristeza– assistir a um documentário como "Mr. Nobody Against Putin", de David Borenstein e Pavel Talankin. Mas quem quiser compreender o autoritarismo pós-moderno terá de passar por ele.
Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.
O controle é parcial, não total. A vigilância é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.
O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.
Também na propaganda houve uma evolução. Já ninguém espera um nazista como Joseph Goebbels ou um fascista como Alessandro Pavolini gritando palavras de ordem pelo rádio ou em praça pública.
A lavagem cerebral deixou de depender da monumentalidade artística, do entusiasmo coreografado ou da repetição de slogans fervorosos. Não se impõe uma crença total; basta dissolver lentamente a capacidade de distinguir entre verdade e narrativa.
Neste mundo, a propaganda não cria fanáticos. Cria conformistas. Não procura transformar radicalmente a natureza humana –a velha ambição utópica. Basta reorganizar lentamente o cotidiano, fragmentando a sociedade e isolando consciências.
É neste contexto que surge Karabash, o palco do documentário. No mapa, é uma terra insignificante: 10 mil habitantes perdidos em algum lugar nos Montes Urais. A esperança média de vida mal chega aos 38 anos. Vou escrever novamente, por extenso, para não haver dúvida: trinta e oito. A poluição explica esse recorde: há uma indústria pesada de fundição de cobre na cidade que vai semeando doença e sofrimento.
Mas a vida segue. Pasha Talankin, professor do ensino médio, gosta do seu pequeno mundo. Gosta dos alunos. Gosta de filmar as cerimônias escolares, como quem preserva a normalidade num frasco.
Até fevereiro de 2022.
A invasão da Ucrânia muda tudo —e muda sobretudo a escola. Como Vladimir Putin declara na televisão, as guerras não se ganham apenas com generais; ganham-se com professores disponíveis para educar as crianças e os adolescentes nas virtudes da "operação militar especial".
Voluntários para o serviço não faltam —e a guerra entra na sala de aula servida em eufemismos: "desmilitarização", "desnazificação". Mentiras e mais mentiras —"ordens de cima", alguém diz, encolhendo os ombros— que Pasha filma, incrédulo, enojado.
Os menores cantam o hino nacional e desfilam em paradas simbólicas, prestando juramento à bandeira e ao regime.
Os mais velhos têm o recrutamento ao virar da esquina —e até o grupo de mercenários Wagner faz uma aparição para os convencer.
Muitos dos alunos de Pasha cedem ao apelo. Raspam o cabelo, despedem-se das famílias como sonâmbulos que marcham rumo ao abismo. Alguns acreditam que a experiência compensa financeiramente.
Pasha sabe que não compensa. Continua filmando: a escola que se esvazia, os alunos que não regressam, suas próprias vigílias noturnas. A câmera se transforma num diário moral.
Um traidor, ele, por contestar o regime?
Não. Apenas o "ninguém" do título, que, apesar da sua condição anônima, consegue distinguir o amor à Rússia do amor a Putin. Gostar do nosso país, mesmo com todos os seus defeitos, não significa gostar de quem fala em seu nome. Uma distinção simples, mas cada vez mais rara, mesmo em democracias.
Que os outros sejam incapazes de vê-la, eis um problema que se vai adensando –até Pasha, sob suspeita, optar por fugir da Rússia levando com ele horas e horas de filmagens heréticas.
A história de Pasha poderia ser ficção —e talvez por isso o cinema contemporâneo tenha voltado a interessar-se tanto pelo impacto do autoritarismo sobre a vida das pessoas comuns. No Oscar deste ano, dois filmes foram exemplares ao tratar do tema: "O Agente Secreto" e "Foi Só um Acidente", do iraniano Jafar Panahi.
Mas "Mr. Nobody Against Putin", vencedor do Oscar de melhor documentário, tem a vantagem de ser um retrato real, imediato, alguns diriam amador, sobre um homem comum que se recusou a viver na mentira. Um zé-ninguém? Precisamente. A liberdade sempre sobreviveu graças a eles.
Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.
O controle é parcial, não total. A vigilância é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.
O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.
Também na propaganda houve uma evolução. Já ninguém espera um nazista como Joseph Goebbels ou um fascista como Alessandro Pavolini gritando palavras de ordem pelo rádio ou em praça pública.
A lavagem cerebral deixou de depender da monumentalidade artística, do entusiasmo coreografado ou da repetição de slogans fervorosos. Não se impõe uma crença total; basta dissolver lentamente a capacidade de distinguir entre verdade e narrativa.
Neste mundo, a propaganda não cria fanáticos. Cria conformistas. Não procura transformar radicalmente a natureza humana –a velha ambição utópica. Basta reorganizar lentamente o cotidiano, fragmentando a sociedade e isolando consciências.
É neste contexto que surge Karabash, o palco do documentário. No mapa, é uma terra insignificante: 10 mil habitantes perdidos em algum lugar nos Montes Urais. A esperança média de vida mal chega aos 38 anos. Vou escrever novamente, por extenso, para não haver dúvida: trinta e oito. A poluição explica esse recorde: há uma indústria pesada de fundição de cobre na cidade que vai semeando doença e sofrimento.
Mas a vida segue. Pasha Talankin, professor do ensino médio, gosta do seu pequeno mundo. Gosta dos alunos. Gosta de filmar as cerimônias escolares, como quem preserva a normalidade num frasco.
Até fevereiro de 2022.
A invasão da Ucrânia muda tudo —e muda sobretudo a escola. Como Vladimir Putin declara na televisão, as guerras não se ganham apenas com generais; ganham-se com professores disponíveis para educar as crianças e os adolescentes nas virtudes da "operação militar especial".
Voluntários para o serviço não faltam —e a guerra entra na sala de aula servida em eufemismos: "desmilitarização", "desnazificação". Mentiras e mais mentiras —"ordens de cima", alguém diz, encolhendo os ombros— que Pasha filma, incrédulo, enojado.
Os menores cantam o hino nacional e desfilam em paradas simbólicas, prestando juramento à bandeira e ao regime.
Os mais velhos têm o recrutamento ao virar da esquina —e até o grupo de mercenários Wagner faz uma aparição para os convencer.
Muitos dos alunos de Pasha cedem ao apelo. Raspam o cabelo, despedem-se das famílias como sonâmbulos que marcham rumo ao abismo. Alguns acreditam que a experiência compensa financeiramente.
Pasha sabe que não compensa. Continua filmando: a escola que se esvazia, os alunos que não regressam, suas próprias vigílias noturnas. A câmera se transforma num diário moral.
Um traidor, ele, por contestar o regime?
Não. Apenas o "ninguém" do título, que, apesar da sua condição anônima, consegue distinguir o amor à Rússia do amor a Putin. Gostar do nosso país, mesmo com todos os seus defeitos, não significa gostar de quem fala em seu nome. Uma distinção simples, mas cada vez mais rara, mesmo em democracias.
Que os outros sejam incapazes de vê-la, eis um problema que se vai adensando –até Pasha, sob suspeita, optar por fugir da Rússia levando com ele horas e horas de filmagens heréticas.
A história de Pasha poderia ser ficção —e talvez por isso o cinema contemporâneo tenha voltado a interessar-se tanto pelo impacto do autoritarismo sobre a vida das pessoas comuns. No Oscar deste ano, dois filmes foram exemplares ao tratar do tema: "O Agente Secreto" e "Foi Só um Acidente", do iraniano Jafar Panahi.
Mas "Mr. Nobody Against Putin", vencedor do Oscar de melhor documentário, tem a vantagem de ser um retrato real, imediato, alguns diriam amador, sobre um homem comum que se recusou a viver na mentira. Um zé-ninguém? Precisamente. A liberdade sempre sobreviveu graças a eles.
O rigor da lei e as leis que não são cumpridas
Nós vivemos num Estado onde essa coisa “não colou”. Onde a aplicação da Lei é cheia de mitigações: polícia não investiga, parquet não denuncia, justiça não pune. Onde se permite que a punição, inclusive com morte, seja decidida e executada por policiais, milicianos, orcrim ou “paisanos”. Onde se pode levar décadas num processo judicial sem que se fale em litigação protelatória. Onde as sentenças não são cumpridas. Onde as prisões estão em “estado de coisas inconstitucional”. Onde um quarto dos presidiários são detidos, isto é, estão em prisão preventiva sem condenação. Onde os ministros do Supremo não podem votar com a Lei, pois não passa na revisão dos que têm fontes. Onde se prega abertamente a extinção da Corte Constitucional — “não era o que eu queria dizer”, diz o jornalista-vedete depois de longa carreira sabendo (?) dizer as coisas.
Abro parênteses: Em novembro/dezembro de 1964 Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, explodiu em destampatórios — a expressão é de editorial do JB da época — contra o STF: o primeiro para cassar o governador de Goiás, Mauro Borges, o segundo para poder adotar o Ato Institucional — na época só havia o primeiro — para passar por cima da Assembleia. Perdeu as duas vezes. O presidente da Corte, Ribeiro da Costa, que no segundo caso rejeitou a suspeição de 4 dos Ministros, foi processado por Lacerda por injúria. Moral: o Supremo sabe resistir a ataques apopléticos. Pelo menos já soube. Fecha parênteses.
Há séculos se diz que o excesso de leis é um dos problemas, o que é verdade. Em tese, o ideal seria que todo cidadão conhecesse todas as leis, o que é impossível no Estado contemporâneo. Bem, essa é uma área em que somos líderes mundiais, imbatíveis. Comecemos com as normas regulatórias: é um truísmo que não é possível a qualquer empresa cumprir corretamente todas as regras fiscais. Haveria mais de 550 mil normas tributárias posteriores à Constituição, com cerca de 1,5 bilhões de palavras. E o nosso dia a dia, como vai? Seriam cerca de 8 milhões de normas, mais de 1 milhão em vigor, portanto absolutamente impossível do melhor computador seguir a Lei — pois decretos e portarias fazem parte dela. Em 1998 a Lei Complementar 95 determinou a consolidação das leis. Você fez? O Congresso também não.
E as leis, como vão? A Lei 15.000/2024 declarou Anísio Teixeira patrono da escola pública (ele merecia era que valorizassem o ensino público). Começamos a atual contagem das leis federais em 1946, mas há muitas leis antigas em vigor, algumas importantes, como o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940. Estamos hoje na número 15.352; este ano já são 31 novas leis. Federais. Se formos ao LexML, o portal das leis, veremos que são 1.716.350 em todo o País. Assim, se você disser ao juiz que não sabia da lei, ele deve acolher sua declaração como verdadeira, mesmo que tenha dúvida sobre sua boa-fé. E todo mundo, em um momento ou outro, acaba desobedecendo a alguma lei.
Salto mortal: vamos para a Constituição. O desconhecimento da Constituição é tão grande que muita gente, instruída por um ex-militar, acredita que ela só tem quatro linhas. Mas não é fácil conhecer seu texto: ele é modificado ao menor pretexto. Agora estamos na Emenda no 138, passada em dezembro passado, e ainda não tivemos nenhuma este ano. O tamanho do texto dos dispositivos permanentes aumentou 70%; o das disposições transitórias, 200%. Há artigo que já mudou de redação 6 vezes.
É claro que tudo começa no Legislativo. Ele deve seguir três leis internas, os regimentos. Então, pensam eles, vamos fazer diferente. É preciso um interstício (um intervalo de tempo) entre os dois turnos exigidos para emendar a Carta? Faz de conta, encerra sessão, abre sessão, repete 5 vezes e conta como tendo passado o intervalo de “5 dias úteis” e mais “três sessões deliberativas ordinárias” para discussão. Pode? Não pode, mas muitas emendas constitucionais passaram assim. Votação simbólica é realizada entre os presentes — a regra é: aprovam os sentados e os contra se levantam, os líderes podendo representar os presentes —; agora os ausentes contam como sentados, independente de como se sabe que votariam — e assim se manifesta a advocacia do Senado, valha-me Deus! Bem, isso de regimento é para banana, quem pode pode, os outros se sacudam. Golpe baixo é o que conta.
Lei é lei. O Código Penal diz que os crimes contra a inviolabilidade dos segredos são cometidos por qualquer pessoa, apenas sujeitando a pena mais grave se forem “informações sigilosas, assim definidas em lei”. Não exclui jornalista. Qualquer um que divulga informação sigilosa deve passar de 2 a 5 anos na cadeia (com a pena aumentada de um a dois terços). Contra a administração pública a ação é incondicionada, isto é, não precisa de representação. Mas há anos se divulga enxurradas de dados sigilosos e ninguém vê o Ministério Público fazer o que manda a Lei, pois nem sempre lei é Lei. Alega-se sigilo da fonte, mas o que é mesmo que isso tem a ver? A lei não obriga o informado a revelar a fonte, apenas a passar um tempo na cadeia. O protegido pela Constituição não é o jornalista, é o comparsa. O art. 5º XIV não suspende o inciso XII — pressuponho que todos sabem a Constituição de cor, se não sabem vão olhar agorinha mesmo, faz bem à saúde. E não se diga que o sigilo já estava quebrado, a divulgação não revoga a definição legal.
Lei é lei. Mesmo internacional. O Trump já passou da hora de ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional. Ah!, mas o Khamenei era um monstro! Há poucos dias vi esta afirmação ser feita ao Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro (centrista) da França. Ele lembrou que existe o caminho legal, o Conselho de Segurança e, se continuar sendo presidido pela Melania (isso eu que digo), a Assembleia Geral da ONU. A outra hipótese leva, segundo ele, a que todo mundo compre uma arma e saia matando os outros na rua.
Que tal, para variar, se cumprir a Lei?
Abro parênteses: Em novembro/dezembro de 1964 Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, explodiu em destampatórios — a expressão é de editorial do JB da época — contra o STF: o primeiro para cassar o governador de Goiás, Mauro Borges, o segundo para poder adotar o Ato Institucional — na época só havia o primeiro — para passar por cima da Assembleia. Perdeu as duas vezes. O presidente da Corte, Ribeiro da Costa, que no segundo caso rejeitou a suspeição de 4 dos Ministros, foi processado por Lacerda por injúria. Moral: o Supremo sabe resistir a ataques apopléticos. Pelo menos já soube. Fecha parênteses.
Há séculos se diz que o excesso de leis é um dos problemas, o que é verdade. Em tese, o ideal seria que todo cidadão conhecesse todas as leis, o que é impossível no Estado contemporâneo. Bem, essa é uma área em que somos líderes mundiais, imbatíveis. Comecemos com as normas regulatórias: é um truísmo que não é possível a qualquer empresa cumprir corretamente todas as regras fiscais. Haveria mais de 550 mil normas tributárias posteriores à Constituição, com cerca de 1,5 bilhões de palavras. E o nosso dia a dia, como vai? Seriam cerca de 8 milhões de normas, mais de 1 milhão em vigor, portanto absolutamente impossível do melhor computador seguir a Lei — pois decretos e portarias fazem parte dela. Em 1998 a Lei Complementar 95 determinou a consolidação das leis. Você fez? O Congresso também não.
E as leis, como vão? A Lei 15.000/2024 declarou Anísio Teixeira patrono da escola pública (ele merecia era que valorizassem o ensino público). Começamos a atual contagem das leis federais em 1946, mas há muitas leis antigas em vigor, algumas importantes, como o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940. Estamos hoje na número 15.352; este ano já são 31 novas leis. Federais. Se formos ao LexML, o portal das leis, veremos que são 1.716.350 em todo o País. Assim, se você disser ao juiz que não sabia da lei, ele deve acolher sua declaração como verdadeira, mesmo que tenha dúvida sobre sua boa-fé. E todo mundo, em um momento ou outro, acaba desobedecendo a alguma lei.
Salto mortal: vamos para a Constituição. O desconhecimento da Constituição é tão grande que muita gente, instruída por um ex-militar, acredita que ela só tem quatro linhas. Mas não é fácil conhecer seu texto: ele é modificado ao menor pretexto. Agora estamos na Emenda no 138, passada em dezembro passado, e ainda não tivemos nenhuma este ano. O tamanho do texto dos dispositivos permanentes aumentou 70%; o das disposições transitórias, 200%. Há artigo que já mudou de redação 6 vezes.
É claro que tudo começa no Legislativo. Ele deve seguir três leis internas, os regimentos. Então, pensam eles, vamos fazer diferente. É preciso um interstício (um intervalo de tempo) entre os dois turnos exigidos para emendar a Carta? Faz de conta, encerra sessão, abre sessão, repete 5 vezes e conta como tendo passado o intervalo de “5 dias úteis” e mais “três sessões deliberativas ordinárias” para discussão. Pode? Não pode, mas muitas emendas constitucionais passaram assim. Votação simbólica é realizada entre os presentes — a regra é: aprovam os sentados e os contra se levantam, os líderes podendo representar os presentes —; agora os ausentes contam como sentados, independente de como se sabe que votariam — e assim se manifesta a advocacia do Senado, valha-me Deus! Bem, isso de regimento é para banana, quem pode pode, os outros se sacudam. Golpe baixo é o que conta.
Lei é lei. O Código Penal diz que os crimes contra a inviolabilidade dos segredos são cometidos por qualquer pessoa, apenas sujeitando a pena mais grave se forem “informações sigilosas, assim definidas em lei”. Não exclui jornalista. Qualquer um que divulga informação sigilosa deve passar de 2 a 5 anos na cadeia (com a pena aumentada de um a dois terços). Contra a administração pública a ação é incondicionada, isto é, não precisa de representação. Mas há anos se divulga enxurradas de dados sigilosos e ninguém vê o Ministério Público fazer o que manda a Lei, pois nem sempre lei é Lei. Alega-se sigilo da fonte, mas o que é mesmo que isso tem a ver? A lei não obriga o informado a revelar a fonte, apenas a passar um tempo na cadeia. O protegido pela Constituição não é o jornalista, é o comparsa. O art. 5º XIV não suspende o inciso XII — pressuponho que todos sabem a Constituição de cor, se não sabem vão olhar agorinha mesmo, faz bem à saúde. E não se diga que o sigilo já estava quebrado, a divulgação não revoga a definição legal.
Lei é lei. Mesmo internacional. O Trump já passou da hora de ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional. Ah!, mas o Khamenei era um monstro! Há poucos dias vi esta afirmação ser feita ao Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro (centrista) da França. Ele lembrou que existe o caminho legal, o Conselho de Segurança e, se continuar sendo presidido pela Melania (isso eu que digo), a Assembleia Geral da ONU. A outra hipótese leva, segundo ele, a que todo mundo compre uma arma e saia matando os outros na rua.
Que tal, para variar, se cumprir a Lei?
A terra é nossa
A terra é um bem comum
Que pertence a cada um.
Com o seu poder além,
Deus fez a grande Natura
Mas não passou escritura
Da terra para ninguém.
Se a terra foi Deus quem fez,
Se é obra da criação,
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão.
Quando um agregado solta
O seu grito de revolta,
Tem razão de reclamar.
Não há maior padecer
Do que um camponês viver
Sem terra pra trabalhar.
O grande latifundiário,
Egoísta e usurário,
Da terra toda se apossa
Causando crises fatais
Porém nas leis naturais
Sabemos que a terra é nossa.
Que pertence a cada um.
Com o seu poder além,
Deus fez a grande Natura
Mas não passou escritura
Da terra para ninguém.
Se a terra foi Deus quem fez,
Se é obra da criação,
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão.
Quando um agregado solta
O seu grito de revolta,
Tem razão de reclamar.
Não há maior padecer
Do que um camponês viver
Sem terra pra trabalhar.
O grande latifundiário,
Egoísta e usurário,
Da terra toda se apossa
Causando crises fatais
Porém nas leis naturais
Sabemos que a terra é nossa.
Patativa do Assaré
Já não conseguimos ver este filme
O meu pai começou a gravar os ataques a Bagdade. Ver a guerra na televisão era uma novidade. E ele entusiasmava-se a registar nas cassetes VHS as imagens esverdeadas em que as bombas noturnas a silvar pelos ares do Iraque pareciam foguetes, talvez convencido de que aquelas fitas iam durar no tempo, em vez de se perderem no fundo de uma arrecadação, depois de uma mudança de casa, ou de serem simplesmente apagadas porque precisávamos de gravar por cima uns episódios dos Simpsons. As cassetes ficavam na estante da sala, ao lado das VHS com a Guerra das Estrelas, o ET e mais uns títulos de ficção científica. A guerra era uma coisa de filme, por muito que nos garantissem que estava tudo a acontecer em direto.
O José Rodrigues dos Santos não saía dos estúdios da RTP. Nós começámos a saber nomes de mísseis. A Operação Instant Thunder parecia o título de qualquer coisa com o Darth Vader, a Operação Tempestade no Deserto tinha nome de aventura do Indiana Jones. O vilão era o Saddam, com um bigode cinematográfico, bunkers e palácios. E nem nos passava pela cabeça questionar que os bons eram os americanos. No fim, o Kuwait (que até aí não sabíamos que existia) seria libertado, a democracia chegaria ao Iraque e em breve as crianças do Médio Oriente iriam ter vidas mais parecidas com as nossas, talvez comendo Bollycaos no recreio da tarde e rindo das piadas dos Simpsons ou do Alf, um extraterrestre peludo e simpático, que gostava de comer gatos e do qual eu tinha feito a caderneta toda, conseguindo até aqueles cromos difíceis e prateados.
Não se pode dizer que a primeira guerra da qual tive consciência tenha sido muito traumática. Porque ela foi devidamente embrulhada num invólucro de irrealidade. Naquela época, eu não sabia que a isso se chamava propaganda e nem sequer percebi bem quando um miúdo da escola questionou o facto de eu ter uns jeans com uma bandeira americana no bolso. Para mim, eram só as calças de ganga que melhor me assentavam na altura em que comecei a preocupar-me com isso.
No fim dos filmes, os maus são castigados, os bons dão um beijo na boca e vivem felizes para sempre, o ecrã enche-se de uma lista de nomes e nós somos embalados por uma música alegre e vitoriosa, escolhida para nos fazer acreditar que no fim fica sempre tudo bem. E esse foi o problema da Primeira Guerra do Golfo. E de todas as guerras em que os americanos se meteram depois disso. Não houve um final feliz e os argumentos foram ficando cada vez piores. Quando tentaram convencer-nos de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, em 2003, já se conseguia ver o papelão do cenário numa produção de quinta categoria. A Cimeira das Lajes foi só um momento patético, em que alguns escolheram fingir acreditar, porque às vezes é preciso acreditar em mentiras, mesmo sabendo que são mentiras.
Claro que os EUA foram sempre tentando ficar com o papel do herói, capaz de salvar o mundo, mas a cada bomba lançada, a cada país reduzido a pó, era cada vez mais difícil acreditar que o nosso herói tinha qualquer motivo nobre nas lutas que começava ou que ajudava a que nunca acabassem.
Os soldados americanos começaram a matar à distância, como num videojogo. Muitos deles comandando drones com controlos remotos, num escritório qualquer, enquanto decidiam se premiam o gatilho e matavam uns homens a carregar umas sacas, que podiam ser de algodão ou explosivos, antes de irem para casa jantar com os filhos. A guerra era uma coisa que acontecia aos outros. E só suscitou comoção a sério quando os alvos passaram a ser as crianças loiras de olhos azuis da Ucrânia. Mas só até a repetição dos bombardeamos russos nos anestesiar e nos fazer substituir a raiva pela impaciência com que se pega num comando para mudar de canal se a programação não interessa.
Assim que o genocídio se tornou evidente em Gaza, começaram a aparecer os que queriam convencer-nos de que o que estávamos a ver não era o que estávamos a ver. E que era muito diferente ter uma criança palestiniana morta a tiro na fila do pão de ter uma criança judia eliminada por nazis. Não se preocuparam muito em usar argumentos sofisticados, porque entretanto tudo se tornou uma questão de fé. Quem adere à seita acredita que o povo que está a ser dizimado só tem o que merece. Alguns sonham mesmo em construir resorts e restaurantes de luxo sobre os seus ossos desfeitos em pó.
Quando as coisas chegam a este ponto, Donald Trump já não tem de disfarçar, já não tem de fingir objetivos nobres, já não tem de construir uma narrativa moral. Ele faz o que lhe apetece. Se é preciso tirar um escândalo das notícias, começa-se uma guerra. Se o dólar está em risco, sequestra-se um Presidente e verga-se um país produtor de petróleo, transformando-o num protetorado. Se as eleições estão tremidas, porque há cada vez mais americanos a viver mal e a economia se afunda, aperta-se o garrote da energia para tentar voltar a colonizar Cuba, matando à fome quem for preciso para que isso aconteça. Tudo óbvio, tudo simples, tudo claro.
Há quem se dobre em explicações e alinhave argumentos arrevesados para tentar fingir que tudo isto tem um outro propósito, uma outra racionalidade, uma certa moralidade até. É só triste vê-los a contorcerem-se. O mundo está a ser tomado de assalto por um pequeno grupo de oligarcas, comandado por um pirata. Aprendemos nas séries passadas em liceus americanos que só há duas maneiras de lidar com um bully: ou se lhe dá o dinheiro do almoço e se foge de cabeça baixa ou se abre o peito e se levanta a voz. Em toda a Europa, só Pedro Sánchez conseguiu olhá-lo de frente e mandá-lo passear. Todos os outros foram pondo-se de gatas, mais ou menos contrariados.
A partir daqui, até podemos olhar para os livros de História para tentar adivinhar o futuro. Mas não me parece que encontremos lá as respostas. No passado, houve líderes com coragem, capazes de pensar para lá da sua sobrevivência estratégica, sim. Mas sobretudo a tecnologia de destruição, morte e controlo ainda não tinha atingido o grau de sofisticação totalitária que existe hoje.
A cada minuto, estamos mais perto da III Guerra Mundial. Mas estamos também mais conscientes das histórias de fadas que andaram a vender-nos. As mentiras que nos contam, mesmo com toda a Inteligência Artificial do mundo, são cada vez mais frágeis e evidentes. E talvez esse seja o ponto de esperança que ilumina estes dias sombrios. Começar a ver as coisas tal como elas são é sempre melhor do que viver iludido.
O José Rodrigues dos Santos não saía dos estúdios da RTP. Nós começámos a saber nomes de mísseis. A Operação Instant Thunder parecia o título de qualquer coisa com o Darth Vader, a Operação Tempestade no Deserto tinha nome de aventura do Indiana Jones. O vilão era o Saddam, com um bigode cinematográfico, bunkers e palácios. E nem nos passava pela cabeça questionar que os bons eram os americanos. No fim, o Kuwait (que até aí não sabíamos que existia) seria libertado, a democracia chegaria ao Iraque e em breve as crianças do Médio Oriente iriam ter vidas mais parecidas com as nossas, talvez comendo Bollycaos no recreio da tarde e rindo das piadas dos Simpsons ou do Alf, um extraterrestre peludo e simpático, que gostava de comer gatos e do qual eu tinha feito a caderneta toda, conseguindo até aqueles cromos difíceis e prateados.
Não se pode dizer que a primeira guerra da qual tive consciência tenha sido muito traumática. Porque ela foi devidamente embrulhada num invólucro de irrealidade. Naquela época, eu não sabia que a isso se chamava propaganda e nem sequer percebi bem quando um miúdo da escola questionou o facto de eu ter uns jeans com uma bandeira americana no bolso. Para mim, eram só as calças de ganga que melhor me assentavam na altura em que comecei a preocupar-me com isso.
No fim dos filmes, os maus são castigados, os bons dão um beijo na boca e vivem felizes para sempre, o ecrã enche-se de uma lista de nomes e nós somos embalados por uma música alegre e vitoriosa, escolhida para nos fazer acreditar que no fim fica sempre tudo bem. E esse foi o problema da Primeira Guerra do Golfo. E de todas as guerras em que os americanos se meteram depois disso. Não houve um final feliz e os argumentos foram ficando cada vez piores. Quando tentaram convencer-nos de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, em 2003, já se conseguia ver o papelão do cenário numa produção de quinta categoria. A Cimeira das Lajes foi só um momento patético, em que alguns escolheram fingir acreditar, porque às vezes é preciso acreditar em mentiras, mesmo sabendo que são mentiras.
Claro que os EUA foram sempre tentando ficar com o papel do herói, capaz de salvar o mundo, mas a cada bomba lançada, a cada país reduzido a pó, era cada vez mais difícil acreditar que o nosso herói tinha qualquer motivo nobre nas lutas que começava ou que ajudava a que nunca acabassem.
Os soldados americanos começaram a matar à distância, como num videojogo. Muitos deles comandando drones com controlos remotos, num escritório qualquer, enquanto decidiam se premiam o gatilho e matavam uns homens a carregar umas sacas, que podiam ser de algodão ou explosivos, antes de irem para casa jantar com os filhos. A guerra era uma coisa que acontecia aos outros. E só suscitou comoção a sério quando os alvos passaram a ser as crianças loiras de olhos azuis da Ucrânia. Mas só até a repetição dos bombardeamos russos nos anestesiar e nos fazer substituir a raiva pela impaciência com que se pega num comando para mudar de canal se a programação não interessa.
Assim que o genocídio se tornou evidente em Gaza, começaram a aparecer os que queriam convencer-nos de que o que estávamos a ver não era o que estávamos a ver. E que era muito diferente ter uma criança palestiniana morta a tiro na fila do pão de ter uma criança judia eliminada por nazis. Não se preocuparam muito em usar argumentos sofisticados, porque entretanto tudo se tornou uma questão de fé. Quem adere à seita acredita que o povo que está a ser dizimado só tem o que merece. Alguns sonham mesmo em construir resorts e restaurantes de luxo sobre os seus ossos desfeitos em pó.
Quando as coisas chegam a este ponto, Donald Trump já não tem de disfarçar, já não tem de fingir objetivos nobres, já não tem de construir uma narrativa moral. Ele faz o que lhe apetece. Se é preciso tirar um escândalo das notícias, começa-se uma guerra. Se o dólar está em risco, sequestra-se um Presidente e verga-se um país produtor de petróleo, transformando-o num protetorado. Se as eleições estão tremidas, porque há cada vez mais americanos a viver mal e a economia se afunda, aperta-se o garrote da energia para tentar voltar a colonizar Cuba, matando à fome quem for preciso para que isso aconteça. Tudo óbvio, tudo simples, tudo claro.
Há quem se dobre em explicações e alinhave argumentos arrevesados para tentar fingir que tudo isto tem um outro propósito, uma outra racionalidade, uma certa moralidade até. É só triste vê-los a contorcerem-se. O mundo está a ser tomado de assalto por um pequeno grupo de oligarcas, comandado por um pirata. Aprendemos nas séries passadas em liceus americanos que só há duas maneiras de lidar com um bully: ou se lhe dá o dinheiro do almoço e se foge de cabeça baixa ou se abre o peito e se levanta a voz. Em toda a Europa, só Pedro Sánchez conseguiu olhá-lo de frente e mandá-lo passear. Todos os outros foram pondo-se de gatas, mais ou menos contrariados.
A partir daqui, até podemos olhar para os livros de História para tentar adivinhar o futuro. Mas não me parece que encontremos lá as respostas. No passado, houve líderes com coragem, capazes de pensar para lá da sua sobrevivência estratégica, sim. Mas sobretudo a tecnologia de destruição, morte e controlo ainda não tinha atingido o grau de sofisticação totalitária que existe hoje.
A cada minuto, estamos mais perto da III Guerra Mundial. Mas estamos também mais conscientes das histórias de fadas que andaram a vender-nos. As mentiras que nos contam, mesmo com toda a Inteligência Artificial do mundo, são cada vez mais frágeis e evidentes. E talvez esse seja o ponto de esperança que ilumina estes dias sombrios. Começar a ver as coisas tal como elas são é sempre melhor do que viver iludido.
Até que ponto escolhemos livremente?
Somos mesmo livres! Até que ponto escolhemos livremente? Quando o relógio nos diz para caminhar, beber água ou respirar pausadamente, fomos nós que decidimos — ou apenas seguimos uma indicação?
Quando procuramos um par de ténis e surge um “desconto imperdível”, avançamos porque o algoritmo identificou uma necessidade e a estimulou, ou porque escolhemos aproveitar a oportunidade? Quando o anel informa que o nosso sono é insuficiente e decidimos deitar mais cedo, é autonomia — ou uma rotina moldada por métricas invisíveis?
Onde começa a autodeterminação? Até onde se estende o algoritmo?
Já não se trata de gostos superficiais ou simples hábitos de consumo. Está em causa a recolha sistemática de dados, a discussão sobre neurodireitos e liberdade cognitiva — o direito de pensar sem interferência. Como sustenta Nita Farahany, se reconhecemos como fundamental a proibição da tortura física, também devemos proteger os processos mentais, os mais íntimos, de formas subtis de manipulação.
Preservar a liberdade cognitiva não pode, porém, ficar apenas no plano declarativo. A sua defesa exige enquadramento jurídico claro, limites à exploração de dados neurais e transparência nos sistemas algorítmicos que influenciam decisões individuais. Regular não significa travar a inovação; significa estabelecer garantias mínimas que assegurem que a tecnologia permanece instrumento e não condutora invisível da vontade.
Trata-se, em última instância, de proteger um espaço mental que não esteja permanentemente sujeito a pressões, sugestões ou estímulos calculados. Se a autonomia é um valor fundacional das sociedades democráticas, então a regulação da liberdade cognitiva deixa de ser opcional: torna-se uma condição para que continuemos, de facto, a escolher.
Quando procuramos um par de ténis e surge um “desconto imperdível”, avançamos porque o algoritmo identificou uma necessidade e a estimulou, ou porque escolhemos aproveitar a oportunidade? Quando o anel informa que o nosso sono é insuficiente e decidimos deitar mais cedo, é autonomia — ou uma rotina moldada por métricas invisíveis?
Onde começa a autodeterminação? Até onde se estende o algoritmo?
Já não se trata de gostos superficiais ou simples hábitos de consumo. Está em causa a recolha sistemática de dados, a discussão sobre neurodireitos e liberdade cognitiva — o direito de pensar sem interferência. Como sustenta Nita Farahany, se reconhecemos como fundamental a proibição da tortura física, também devemos proteger os processos mentais, os mais íntimos, de formas subtis de manipulação.
Preservar a liberdade cognitiva não pode, porém, ficar apenas no plano declarativo. A sua defesa exige enquadramento jurídico claro, limites à exploração de dados neurais e transparência nos sistemas algorítmicos que influenciam decisões individuais. Regular não significa travar a inovação; significa estabelecer garantias mínimas que assegurem que a tecnologia permanece instrumento e não condutora invisível da vontade.
Trata-se, em última instância, de proteger um espaço mental que não esteja permanentemente sujeito a pressões, sugestões ou estímulos calculados. Se a autonomia é um valor fundacional das sociedades democráticas, então a regulação da liberdade cognitiva deixa de ser opcional: torna-se uma condição para que continuemos, de facto, a escolher.
A economia como arma de guerra
Duas semanas após o início do conflito, a guerra no Irã entrou em uma fase na qual, além da resposta militar, a estratégia de Teerã envolve travar uma guerra contra a economia global. Mísseis e drones iranianos atacaram instalações de petróleo e gás no Catar, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, e bloquearam o Estreito de Ormuz, fazendo com que os preços do petróleo bruto disparassem, provocando turbulências no mercado de ações e potencialmente desencadeando uma crise econômica global com sérias consequências também para os instigadores do conflito. Neste sábado, os Estados Unidos bombardearam instalações militares na Ilha de Kharg, o principal terminal petrolífero do Irã.
A guerra desencadeada em 28 de fevereiro por Trump e Netanyahu serviu como um lembrete dramático do peso da raiz “geo” na palavra “geopolítica”. O Estreito de Ormuz é uma das principais artérias do sistema energético global. Ao contrário da crise de 2022, após a invasão russa da Ucrânia, que afetou principalmente a Europa, essa estreita passagem de 33 quilômetros transporta aproximadamente 20% do petróleo comercializado no mundo e uma parcela significativa do tráfego global de cargas, incluindo fertilizantes e outros produtos químicos derivados do petróleo (como o enxofre, crucial para a produção de alumínio e níquel para as indústrias automotiva e eletrônica). Seu fechamento prolongado tem efeitos altamente desestabilizadores em toda a economia. Ciente dessa vantagem, o regime dos aiatolás parece determinado a fazer do estreito o principal campo de batalha. Essa situação extremamente arriscada também elevou o custo do frete marítimo e dos prêmios de seguro devido às cláusulas de guerra. Nesse conflito, a geografia importa quase tanto quanto a tecnologia.
Apesar da esmagadora superioridade militar dos EUA, os drones e lanchas rápidas iranianas conferem à República Islâmica uma vantagem sem precedentes: ela não precisa vencer a guerra aérea — que já perdeu —; basta tornar a vitória insustentavelmente cara para seu adversário. A suposta mudança de regime no Irã, que tanto Trump quanto Netanyahu alegavam estar buscando, parece, duas semanas depois, apenas mais uma promessa vazia. Estamos testemunhando uma guerra sem objetivos concretos, na qual apenas Israel parece ter algo a ganhar: tomar a hegemonia regional do Irã, por mais frágil que seja a estabilidade da região.
Trump está ciente da ameaça representada pela estratégia do Irã, especialmente em um ano eleitoral em que a crise de acessibilidade — a capacidade dos cidadãos de arcar com o custo de vida — desempenhará um papel decisivo na determinação do voto. Os altos preços do petróleo encarecem o abastecimento dos carros, aumentam o preço dos alimentos e tornam praticamente impossíveis os tão desejados cortes nas taxas de juros antes das eleições de meio de mandato. Daí a decisão da Casa Branca de suspender as sanções ao petróleo russo, uma medida que injeta US$ 150 milhões extras por dia nos cofres de Moscou e provocou indignação na União Europeia devido às suas implicações para a segurança europeia. Isso representa uma tábua de salvação para um Kremlin em dificuldades financeiras devido à guerra na Ucrânia e constitui mais uma irresponsabilidade geopolítica por parte do governo Trump. Sua disputa com a China para privá-lo da energia barata do Golfo permanece sem solução.
Até o momento, os mercados reagiram com relativa moderação, apesar do forte aumento nos preços da energia. A liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas pela Agência Internacional de Energia — a maior medida desse tipo na história — revela a magnitude do desafio, embora uma guerra de desgaste possa esgotar essas reservas sem resolver o problema subjacente. Mas é importante lembrar que a turbulência do mercado provou ser praticamente o único fator de dissuasão para Trump. Isso já aconteceu duas vezes em 2025 (abril e julho) com as tarifas, quando o rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA se aproximou de 5%, e aconteceu novamente no início desta semana, quando ele declarou a guerra comercial praticamente encerrada após uma semana de perdas nos mercados.
A crise de 2022 ensinou várias lições aos governos europeus, que agora estão preparando medidas para mitigar o impacto deste novo conflito — medidas que devem ser bem direcionadas, temporárias e não comprometer as finanças públicas. Acima de tudo, porém, os altos preços da energia destacaram a necessidade de garantir a independência energética e aceleraram a busca por fontes alternativas, como as renováveis. Embora alguns progressos tenham sido feitos nos últimos anos, as metas ainda estão longe de serem alcançadas. A crise iraniana serve como um forte lembrete de que o petróleo continua sendo a força vital da economia global e ressalta o longo caminho a percorrer na busca pela descarbonização e pela independência energética estratégica.
A guerra desencadeada em 28 de fevereiro por Trump e Netanyahu serviu como um lembrete dramático do peso da raiz “geo” na palavra “geopolítica”. O Estreito de Ormuz é uma das principais artérias do sistema energético global. Ao contrário da crise de 2022, após a invasão russa da Ucrânia, que afetou principalmente a Europa, essa estreita passagem de 33 quilômetros transporta aproximadamente 20% do petróleo comercializado no mundo e uma parcela significativa do tráfego global de cargas, incluindo fertilizantes e outros produtos químicos derivados do petróleo (como o enxofre, crucial para a produção de alumínio e níquel para as indústrias automotiva e eletrônica). Seu fechamento prolongado tem efeitos altamente desestabilizadores em toda a economia. Ciente dessa vantagem, o regime dos aiatolás parece determinado a fazer do estreito o principal campo de batalha. Essa situação extremamente arriscada também elevou o custo do frete marítimo e dos prêmios de seguro devido às cláusulas de guerra. Nesse conflito, a geografia importa quase tanto quanto a tecnologia.
Apesar da esmagadora superioridade militar dos EUA, os drones e lanchas rápidas iranianas conferem à República Islâmica uma vantagem sem precedentes: ela não precisa vencer a guerra aérea — que já perdeu —; basta tornar a vitória insustentavelmente cara para seu adversário. A suposta mudança de regime no Irã, que tanto Trump quanto Netanyahu alegavam estar buscando, parece, duas semanas depois, apenas mais uma promessa vazia. Estamos testemunhando uma guerra sem objetivos concretos, na qual apenas Israel parece ter algo a ganhar: tomar a hegemonia regional do Irã, por mais frágil que seja a estabilidade da região.
Trump está ciente da ameaça representada pela estratégia do Irã, especialmente em um ano eleitoral em que a crise de acessibilidade — a capacidade dos cidadãos de arcar com o custo de vida — desempenhará um papel decisivo na determinação do voto. Os altos preços do petróleo encarecem o abastecimento dos carros, aumentam o preço dos alimentos e tornam praticamente impossíveis os tão desejados cortes nas taxas de juros antes das eleições de meio de mandato. Daí a decisão da Casa Branca de suspender as sanções ao petróleo russo, uma medida que injeta US$ 150 milhões extras por dia nos cofres de Moscou e provocou indignação na União Europeia devido às suas implicações para a segurança europeia. Isso representa uma tábua de salvação para um Kremlin em dificuldades financeiras devido à guerra na Ucrânia e constitui mais uma irresponsabilidade geopolítica por parte do governo Trump. Sua disputa com a China para privá-lo da energia barata do Golfo permanece sem solução.
Até o momento, os mercados reagiram com relativa moderação, apesar do forte aumento nos preços da energia. A liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas pela Agência Internacional de Energia — a maior medida desse tipo na história — revela a magnitude do desafio, embora uma guerra de desgaste possa esgotar essas reservas sem resolver o problema subjacente. Mas é importante lembrar que a turbulência do mercado provou ser praticamente o único fator de dissuasão para Trump. Isso já aconteceu duas vezes em 2025 (abril e julho) com as tarifas, quando o rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA se aproximou de 5%, e aconteceu novamente no início desta semana, quando ele declarou a guerra comercial praticamente encerrada após uma semana de perdas nos mercados.
A crise de 2022 ensinou várias lições aos governos europeus, que agora estão preparando medidas para mitigar o impacto deste novo conflito — medidas que devem ser bem direcionadas, temporárias e não comprometer as finanças públicas. Acima de tudo, porém, os altos preços da energia destacaram a necessidade de garantir a independência energética e aceleraram a busca por fontes alternativas, como as renováveis. Embora alguns progressos tenham sido feitos nos últimos anos, as metas ainda estão longe de serem alcançadas. A crise iraniana serve como um forte lembrete de que o petróleo continua sendo a força vital da economia global e ressalta o longo caminho a percorrer na busca pela descarbonização e pela independência energética estratégica.
segunda-feira, 16 de março de 2026
O quintal sob vigilância
O governo de Donald Trump deu os primeiros passos para implementar uma estratégia deliberada de militarização do continente, incentivado pelo êxito do sequestro de Nicolás Maduro e o controle do governo venezuelano. O anúncio da ofensiva regional não poderia ter ocorrido em outro lugar a não ser na Flórida, bunker da extrema-direita latino-americana e foco da busca dos republicanos pelo voto latino.
Trump interrompeu sua agenda bélica no Irã para encontrar líderes do continente e lançar o “Escudo das Américas”. Oficialmente, trata-se de uma aliança entre Washington e uma dezena de países da região, entre eles Argentina, Chile, Paraguai e Panamá. Na prática, o “Escudo” representa uma subordinação ao poderio militar dos EUA. O republicano não escondeu, em seu discurso, sua disposição de alocar mísseis e usá-los, se necessário.
Se a aliança foi estabelecida para lutar contra o narcotráfico na região, vozes do governo brasileiro destacam que esse argumento parece frágil quando se nota que nem Colômbia nem México, dois dos centros de atuação de grupos criminosos, foram convidados ou consultados.
A ofensiva da Casa Branca ainda inclui a classificação de facções criminosas, ao estilo do PCC e do Comando Vermelho, como grupos terroristas, o que abriria caminho para o governo Trump “justificar” eventuais operações em território brasileiro. Mais de uma dezena de organizações criminosas da região ganharam esse status.
Observadores e diplomatas destacaram, porém, que a iniciativa parece o início da tradução, na prática, das políticas enumeradas nos documentos sobre estratégia de defesa nacional divulgados no fim de 2025 por Washington. A ambição declarada da Casa Branca era criar um arcabouço político que pudesse frear o avanço chinês na região. Para isso, a militarização do continente era um dos pilares.
Um dos acordos nessa direção foi assinado com o Paraguai. Pelo tratado, os EUA ficam autorizados a estabelecer uma base militar no país sul-americano. Os termos do tratado ainda revelam o grau de submissão do governo de Assunção. Pelo entendimento, se um integrante das forças armadas norte-americanas violar a lei paraguaia, poderá ser julgado apenas em seu próprio país e só obedecerá às ordens de seus comandantes. Militares e civis entrarão em território paraguaio com imunidade total, o que lhes permite portar armas e burlar os controles locais. Também não pagarão impostos ou taxas.
Outro campo de testes passou a ser o Equador, destacado pelo Secretário de Guerra, Pete Hegseth, como um dos focos norte-americanos. Um dia antes do encontro na Flórida, os dois países realizaram, pela primeira vez, ataques coordenados contra grupos do narcotráfico, inclusive na selva amazônica. Em fevereiro, representantes das forças navais dos dois países realizaram uma rodada de negociações em Quito. O objetivo é traduzir as políticas de segurança em ações concretas por meio do compartilhamento de informações, planejamento conjunto e metas mensuráveis em segurança marítima.
Além da militarização, a ofensiva inclui “cenouras”. Ou seja, benefícios para determinados setores. No caso do Equador, o governo de Quito está prestes a fechar um acordo comercial com os EUA para ampliar as exportações. “Esse acordo representa uma nova plataforma para promover a prosperidade. Sua rápida entrada em vigor ajudará a expandir e diversificar o comércio e o investimento bilaterais para o benefício mútuo de ambos os países e seus povos”, afirmou Jamieson Greer, representante de Comércio dos EUA.
Argentina, El Salvador e Guatemala também assinaram acordos comerciais que vetam esses países de fazer certos negócios com a China. Em alguns deles, os governos locais se comprometem a não entrar em tratados de cooperação espacial com Pequim.
Analistas alertam, porém, para o fato de que essa reocupação geográfica pode ser mais difícil do que se imagina. O governo chinês criou uma “força-tarefa” para tentar preservar sua posição diplomática na região e antecipar ações dos EUA.
A realidade é que deslocar o dragão chinês pode não ser uma tarefa das mais simples. O comércio da China com a região atingiu o recorde de 518 bilhões de dólares em 2024, com Pequim emprestando mais de 120 bilhões a governos no Hemisfério Ocidental.
Os chineses contam com o apoio de uma extensa rede portuária, com mais de três dezenas de portos, mais infraestrutura espacial do que qualquer outra região do mundo fora da China continental, e a empresa estatal Huawei se inseriu em ao menos uma dúzia de redes de telecomunicações em toda a região. Em 2025, mesmo com toda a ofensiva de Trump, o comércio entre a China e a América Latina cresceu 7%. A disputa pela região está em curso
Trump interrompeu sua agenda bélica no Irã para encontrar líderes do continente e lançar o “Escudo das Américas”. Oficialmente, trata-se de uma aliança entre Washington e uma dezena de países da região, entre eles Argentina, Chile, Paraguai e Panamá. Na prática, o “Escudo” representa uma subordinação ao poderio militar dos EUA. O republicano não escondeu, em seu discurso, sua disposição de alocar mísseis e usá-los, se necessário.
Se a aliança foi estabelecida para lutar contra o narcotráfico na região, vozes do governo brasileiro destacam que esse argumento parece frágil quando se nota que nem Colômbia nem México, dois dos centros de atuação de grupos criminosos, foram convidados ou consultados.
A ofensiva da Casa Branca ainda inclui a classificação de facções criminosas, ao estilo do PCC e do Comando Vermelho, como grupos terroristas, o que abriria caminho para o governo Trump “justificar” eventuais operações em território brasileiro. Mais de uma dezena de organizações criminosas da região ganharam esse status.
Observadores e diplomatas destacaram, porém, que a iniciativa parece o início da tradução, na prática, das políticas enumeradas nos documentos sobre estratégia de defesa nacional divulgados no fim de 2025 por Washington. A ambição declarada da Casa Branca era criar um arcabouço político que pudesse frear o avanço chinês na região. Para isso, a militarização do continente era um dos pilares.
Um dos acordos nessa direção foi assinado com o Paraguai. Pelo tratado, os EUA ficam autorizados a estabelecer uma base militar no país sul-americano. Os termos do tratado ainda revelam o grau de submissão do governo de Assunção. Pelo entendimento, se um integrante das forças armadas norte-americanas violar a lei paraguaia, poderá ser julgado apenas em seu próprio país e só obedecerá às ordens de seus comandantes. Militares e civis entrarão em território paraguaio com imunidade total, o que lhes permite portar armas e burlar os controles locais. Também não pagarão impostos ou taxas.
Outro campo de testes passou a ser o Equador, destacado pelo Secretário de Guerra, Pete Hegseth, como um dos focos norte-americanos. Um dia antes do encontro na Flórida, os dois países realizaram, pela primeira vez, ataques coordenados contra grupos do narcotráfico, inclusive na selva amazônica. Em fevereiro, representantes das forças navais dos dois países realizaram uma rodada de negociações em Quito. O objetivo é traduzir as políticas de segurança em ações concretas por meio do compartilhamento de informações, planejamento conjunto e metas mensuráveis em segurança marítima.
Além da militarização, a ofensiva inclui “cenouras”. Ou seja, benefícios para determinados setores. No caso do Equador, o governo de Quito está prestes a fechar um acordo comercial com os EUA para ampliar as exportações. “Esse acordo representa uma nova plataforma para promover a prosperidade. Sua rápida entrada em vigor ajudará a expandir e diversificar o comércio e o investimento bilaterais para o benefício mútuo de ambos os países e seus povos”, afirmou Jamieson Greer, representante de Comércio dos EUA.
Argentina, El Salvador e Guatemala também assinaram acordos comerciais que vetam esses países de fazer certos negócios com a China. Em alguns deles, os governos locais se comprometem a não entrar em tratados de cooperação espacial com Pequim.
Analistas alertam, porém, para o fato de que essa reocupação geográfica pode ser mais difícil do que se imagina. O governo chinês criou uma “força-tarefa” para tentar preservar sua posição diplomática na região e antecipar ações dos EUA.
A realidade é que deslocar o dragão chinês pode não ser uma tarefa das mais simples. O comércio da China com a região atingiu o recorde de 518 bilhões de dólares em 2024, com Pequim emprestando mais de 120 bilhões a governos no Hemisfério Ocidental.
Os chineses contam com o apoio de uma extensa rede portuária, com mais de três dezenas de portos, mais infraestrutura espacial do que qualquer outra região do mundo fora da China continental, e a empresa estatal Huawei se inseriu em ao menos uma dúzia de redes de telecomunicações em toda a região. Em 2025, mesmo com toda a ofensiva de Trump, o comércio entre a China e a América Latina cresceu 7%. A disputa pela região está em curso
Ser criança é difícil
Dia a dia nega-se às crianças o direito de ser criança. Os fatos, que zombam desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana. O mundo trata os meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o dinheiro atua. O mundo trata os meninos pobres como se fossem lixo, para que se transformem em lixo.
E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os atados à mesa do televisor, para que aceitem, desde cedo, como destino, a vida prisioneira. Muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças.
Eduardo Galeano
Insensibilidade e falta de senso
Mesmo quando os factos são os mesmos ou, no mínimo, semelhantes, as nossas reações perante eles estão sempre dependentes de diversos fatores: o nosso ponto de vista, o grau de proximidade, o nível de confiança na informação que recebemos e, naturalmente, os vieses ideológicos, sociais ou até religiosos que temos, mesmo sem nos darmos conta deles. É por tudo isto que, quando somos confrontados com o relato de atrocidades, nem sempre reagimos da mesma forma − até quando elas são tão brutais e violentas que nem sequer deveriam suscitar qualquer tipo de compreensão ou desculpa sobre quem as perpetrou.
Se quisermos ser rigorosos e independentes, não existe qualquer circunstância em que o bombardeamento de uma escola, provocando a morte de mais de uma centena de crianças e dos seus professores, possa deixar de ser considerado um escândalo mundial, merecendo a imediata condenação unânime e conduzindo a um rápido e conclusivo apuramento de responsabilidades. Numa guerra geograficamente próxima de nós ou em que as vítimas fossem parecidas connosco, com os mesmos traços físicos e culturais, seria isso que logo aconteceria. E, se calhar, se fosse na Ucrânia, já haveria um novo pacote de sanções económicas a caminho, contra o invasor russo − e muito bem.
O massacre ocorreu, no entanto, na escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no Irão, logo nas primeiras horas da ofensiva dos EUA e de Israel. Embora ainda não se saiba o número exato de vítimas, ninguém duvida de que foi mais de uma centena, quase todas meninas entre os 7 e os 12 anos. Também sabemos que a escola ficava situada junto a uma base da Guarda Revolucionária Islâmica, o tenebroso braço armado do regime dos aiatolas. Segundo o New York Times, há imagens de satélite que indicam que o prédio da escola esteve anteriormente conectado com as instalações militares, mas foi posteriormente isolado com muros.
O secretário de Guerra dos EUA, e antigo apresentador da Fox News, Pete Hegseth, tem-se esforçado por desmentir que o ataque tenha sido perpetrado por americanos, mesmo quando se acumulam evidências a esse respeito, nomeadamente entre peritos das Nações Unidas, e se sabe que alguns dos alvos da Operação Fúria Épica foram definidos através de Inteligência Artificial − porventura incapaz, sem intervenção humana, de deslindar se o edifício da escola continuava ou não integrado nas instalações militares.
O problema, no entanto, nem sequer é a insensibilidade de Hegseth e da restante Administração em Washington − Donald Trump, claro, já assegurou que os EUA não têm qualquer responsabilidade e fê-lo com a veemência habitual: a mesma que lhe permitiu, no espaço de uma semana, enunciar sete objetivos diferentes para esta guerra, quase todos antagónicos uns dos outros. Na verdade, de Trump e dos seus súbditos MAGA não se esperaria outra coisa.
O problema é mesmo a falta de senso que se generalizou e que leva a que uma situação destas já não suscite a indignação e a repulsa que merecia. Até porque isso tem consequências profundas: banaliza-nos a violência e o horror da guerra, levando-nos a olhar para as atrocidades como se fossem naturais. E, como ocorrem em locais distantes, criando até a sensação de que pouco ou nada têm a ver connosco.
A realidade nua e crua sobre o estado atual do mundo é esta: milhões de pessoas ficam mais alarmadas com o aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que com a morte de mais de uma centena de crianças no bombardeamento de uma escola.
Este é um sintoma do que acontece quando os líderes começam a desprezar os valores mais básicos em que deviam assentar o relacionamento humano e o respeito pelo próximo e pelo semelhante. O direito internacional, nomeadamente com a definição de regras para as guerras, é um dos pilares do progresso da Humanidade. Desrespeitá-lo é fazer regressar o mundo à lei da selva, em que o mais forte manda e os outros obedecem ou são eliminados. É plausível que o ataque à escola de Minab não tenha sido uma ação intencional dos EUA − ao contrário dos muitos assassínios de mulheres e crianças perpetrados pelo regime de Teerão, ao longo dos últimos anos. Mas quando falha a sensibilidade para perceber que este é um caso que devia ser esclarecido o mais depressa possível é porque, de facto, já se desceu demasiado fundo em termos de valores e de respeito pelos direitos humanos. O erro, nesse caso, não foi do bombardeiro, mas de quem, no comando, não teve coragem para assumir a sua culpa. E os culpados, no fundo, somos também todos nós, que vemos este caso apenas como mais uma ocorrência “normal” de guerra e não como uma consequência do estado a que chegámos, enquanto sociedade.
Se quisermos ser rigorosos e independentes, não existe qualquer circunstância em que o bombardeamento de uma escola, provocando a morte de mais de uma centena de crianças e dos seus professores, possa deixar de ser considerado um escândalo mundial, merecendo a imediata condenação unânime e conduzindo a um rápido e conclusivo apuramento de responsabilidades. Numa guerra geograficamente próxima de nós ou em que as vítimas fossem parecidas connosco, com os mesmos traços físicos e culturais, seria isso que logo aconteceria. E, se calhar, se fosse na Ucrânia, já haveria um novo pacote de sanções económicas a caminho, contra o invasor russo − e muito bem.
O massacre ocorreu, no entanto, na escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no Irão, logo nas primeiras horas da ofensiva dos EUA e de Israel. Embora ainda não se saiba o número exato de vítimas, ninguém duvida de que foi mais de uma centena, quase todas meninas entre os 7 e os 12 anos. Também sabemos que a escola ficava situada junto a uma base da Guarda Revolucionária Islâmica, o tenebroso braço armado do regime dos aiatolas. Segundo o New York Times, há imagens de satélite que indicam que o prédio da escola esteve anteriormente conectado com as instalações militares, mas foi posteriormente isolado com muros.
O secretário de Guerra dos EUA, e antigo apresentador da Fox News, Pete Hegseth, tem-se esforçado por desmentir que o ataque tenha sido perpetrado por americanos, mesmo quando se acumulam evidências a esse respeito, nomeadamente entre peritos das Nações Unidas, e se sabe que alguns dos alvos da Operação Fúria Épica foram definidos através de Inteligência Artificial − porventura incapaz, sem intervenção humana, de deslindar se o edifício da escola continuava ou não integrado nas instalações militares.
O problema, no entanto, nem sequer é a insensibilidade de Hegseth e da restante Administração em Washington − Donald Trump, claro, já assegurou que os EUA não têm qualquer responsabilidade e fê-lo com a veemência habitual: a mesma que lhe permitiu, no espaço de uma semana, enunciar sete objetivos diferentes para esta guerra, quase todos antagónicos uns dos outros. Na verdade, de Trump e dos seus súbditos MAGA não se esperaria outra coisa.
O problema é mesmo a falta de senso que se generalizou e que leva a que uma situação destas já não suscite a indignação e a repulsa que merecia. Até porque isso tem consequências profundas: banaliza-nos a violência e o horror da guerra, levando-nos a olhar para as atrocidades como se fossem naturais. E, como ocorrem em locais distantes, criando até a sensação de que pouco ou nada têm a ver connosco.
A realidade nua e crua sobre o estado atual do mundo é esta: milhões de pessoas ficam mais alarmadas com o aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que com a morte de mais de uma centena de crianças no bombardeamento de uma escola.
Este é um sintoma do que acontece quando os líderes começam a desprezar os valores mais básicos em que deviam assentar o relacionamento humano e o respeito pelo próximo e pelo semelhante. O direito internacional, nomeadamente com a definição de regras para as guerras, é um dos pilares do progresso da Humanidade. Desrespeitá-lo é fazer regressar o mundo à lei da selva, em que o mais forte manda e os outros obedecem ou são eliminados. É plausível que o ataque à escola de Minab não tenha sido uma ação intencional dos EUA − ao contrário dos muitos assassínios de mulheres e crianças perpetrados pelo regime de Teerão, ao longo dos últimos anos. Mas quando falha a sensibilidade para perceber que este é um caso que devia ser esclarecido o mais depressa possível é porque, de facto, já se desceu demasiado fundo em termos de valores e de respeito pelos direitos humanos. O erro, nesse caso, não foi do bombardeiro, mas de quem, no comando, não teve coragem para assumir a sua culpa. E os culpados, no fundo, somos também todos nós, que vemos este caso apenas como mais uma ocorrência “normal” de guerra e não como uma consequência do estado a que chegámos, enquanto sociedade.
A paz é inconveniente
O facto de homens poderosos gostarem de “brincar” às guerras não seria particularmente grave se o fizessem nos seus quintais, com espadas. A realidade, porém, é outra: quem paga o preço são os inocentes. Quem morre, quem perde a casa, quem vê a sua vida suspensa são pessoas que não têm voz nem voto nas decisões que lhes destroem o quotidiano
A minha consciência política surgiu no início do milénio, com a invasão do Iraque, na era Bush. Hoje percebo que existe um padrão histórico que se repete. Se isto soa frio, soa. Mas talvez seja precisamente essa frieza analítica que nos permite reconhecer como os conflitos regressam, década após década.
Ainda assim, qualquer guerra — especialmente nos dias que correm — soa a despropósito. Estamos em pleno século XXI. Temos inteligência artificial a entrar nas nossas vidas, tecnologias capazes de transformar economias e sociedades inteiras, e continuamos, paradoxalmente, a assistir a homens poderosos que gostam de “brincar” às guerras para afirmar posições geopolíticas os escamotear questões “domésticas”.
O problema é que essas “brincadeiras” não acontecem em tabuleiros abstratos. O facto de homens poderosos gostarem de “brincar” às guerras não seria particularmente grave se o fizessem nos seus quintais, com espadas. A realidade, porém, é outra: quem paga o preço são os inocentes. Quem morre, quem perde a casa, quem vê a sua vida suspensa são pessoas que não têm voz nem voto nas decisões que lhes destroem o quotidiano.
É neste contexto que surge aquilo que, em termos económicos e políticos, se designa por economia de guerra. Tradicionalmente, o conceito refere-se à reorganização das economias para sustentar conflitos: produção industrial orientada para armamento, mobilização de recursos estratégicos e concentração de poder económico e político. No entanto, no mundo contemporâneo, a economia de guerra tornou-se também um sistema que se alimenta da própria instabilidade.
Serve para afastar milhões de pessoas de uma vida digna. Serve para desestabilizar países ricos em recursos naturais, que acabam depois explorados em condições pouco dignas. Serve para alimentar cadeias de mão de obra barata — por vezes quase escrava. E serve, inevitavelmente, para gerar lucros para quem investe neste sistema. Porque há uma elite económica e financeira que investe nesta economia e que, em certa medida, precisa dela para continuar a prosperar.
O resultado é conhecido: gerações inteiras privadas de uma vida em paz. Povos que continuam sem voz, sem dignidade e sem liberdade, muitas vezes enquanto se invocam intervenções externas em nome da “libertação”.
Se existe tanto poder concentrado numa percentagem mínima da população mundial, seria legítimo esperar que esse poder fosse usado para promover a paz. No entanto, o argumento de que um conflito pode ser um “mal menor” para alcançar estabilidade lembra a velha máxima romana: o povo contenta-se com pão e circo.
Num país com 90 milhões de habitantes, onde cerca de 80% da população se posiciona contra o regime, capacitar o povo para que a democracia nasça das suas próprias mãos não parece ser o caminho mais lucrativo. Afinal, como se testa arsenal militar? Como se alimenta a indústria da defesa? Como se exploram recursos num país informado e com um povo verdadeiramente capaz?
Talvez seja precisamente por isso que, tantas vezes, a paz se torne tão inconveniente.
Quando, a 28 de fevereiro, os Estados Unidos bombardearam o Irão, percebeu-se rapidamente que o Médio Oriente voltaria a entrar em polvorosa. À medida que acumulamos anos e experiência, vamos compreendendo que há ciclos que se repetem. Tal como existem ciclos económicos, também existem ciclos de conflito.
A minha consciência política surgiu no início do milénio, com a invasão do Iraque, na era Bush. Hoje percebo que existe um padrão histórico que se repete. Se isto soa frio, soa. Mas talvez seja precisamente essa frieza analítica que nos permite reconhecer como os conflitos regressam, década após década.
Ainda assim, qualquer guerra — especialmente nos dias que correm — soa a despropósito. Estamos em pleno século XXI. Temos inteligência artificial a entrar nas nossas vidas, tecnologias capazes de transformar economias e sociedades inteiras, e continuamos, paradoxalmente, a assistir a homens poderosos que gostam de “brincar” às guerras para afirmar posições geopolíticas os escamotear questões “domésticas”.
O problema é que essas “brincadeiras” não acontecem em tabuleiros abstratos. O facto de homens poderosos gostarem de “brincar” às guerras não seria particularmente grave se o fizessem nos seus quintais, com espadas. A realidade, porém, é outra: quem paga o preço são os inocentes. Quem morre, quem perde a casa, quem vê a sua vida suspensa são pessoas que não têm voz nem voto nas decisões que lhes destroem o quotidiano.
É neste contexto que surge aquilo que, em termos económicos e políticos, se designa por economia de guerra. Tradicionalmente, o conceito refere-se à reorganização das economias para sustentar conflitos: produção industrial orientada para armamento, mobilização de recursos estratégicos e concentração de poder económico e político. No entanto, no mundo contemporâneo, a economia de guerra tornou-se também um sistema que se alimenta da própria instabilidade.
Serve para afastar milhões de pessoas de uma vida digna. Serve para desestabilizar países ricos em recursos naturais, que acabam depois explorados em condições pouco dignas. Serve para alimentar cadeias de mão de obra barata — por vezes quase escrava. E serve, inevitavelmente, para gerar lucros para quem investe neste sistema. Porque há uma elite económica e financeira que investe nesta economia e que, em certa medida, precisa dela para continuar a prosperar.
O resultado é conhecido: gerações inteiras privadas de uma vida em paz. Povos que continuam sem voz, sem dignidade e sem liberdade, muitas vezes enquanto se invocam intervenções externas em nome da “libertação”.
Se existe tanto poder concentrado numa percentagem mínima da população mundial, seria legítimo esperar que esse poder fosse usado para promover a paz. No entanto, o argumento de que um conflito pode ser um “mal menor” para alcançar estabilidade lembra a velha máxima romana: o povo contenta-se com pão e circo.
Num país com 90 milhões de habitantes, onde cerca de 80% da população se posiciona contra o regime, capacitar o povo para que a democracia nasça das suas próprias mãos não parece ser o caminho mais lucrativo. Afinal, como se testa arsenal militar? Como se alimenta a indústria da defesa? Como se exploram recursos num país informado e com um povo verdadeiramente capaz?
Talvez seja precisamente por isso que, tantas vezes, a paz se torne tão inconveniente.
Proposta de Trump de militarizar combate aos cartéis dificilmente funcionará
Depois de derrubar o presidente venezuelano Maduro e impor um bloqueio ao regime cubano, o governo dos EUA formalizou, no sábado, mais um elemento-chave da chamada Doutrina Donroe, que busca alcançar a supremacia de Washington na América Latina. Donald Trump anunciou a criação de uma nova coalizão regional chamada Escudo das Américas durante uma cúpula em Miami.
A iniciativa reuniu uma dúzia de governos latino-americanos alinhados a Washington e tem como objetivo ampliar a cooperação em segurança e combater cartéis de drogas e redes de tráfico na região. Durante o encontro, Trump deixou claro que a militarização do combate ao narcotráfico é o eixo central de sua estratégia para a região. Ele defendeu que os países do hemisfério recorram mais ao uso das forças armadas para enfrentar organizações criminosas e incentivou líderes latinos a permitir operações militares conjuntas com os EUA em seus territórios. “Assim como formamos uma coalizão para derrotar o Estado Islâmico no Oriente Médio, agora precisamos fazer o mesmo para erradicar os cartéis aqui no nosso hemisfério”, disse. Numerosos cartéis da América Latina e do Caribe foram classificados como organizações terroristas estrangeiras pelo governo dos EUA, e ataques contra lanchas supostamente usadas para transportar drogas deixaram, ao longo do último ano, cerca de 150 mortos.
A nova coalizão reúne, em grande parte, governos ideologicamente próximos do presidente americano, incluindo líderes de Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Honduras, Panamá, Costa Rica, República Dominicana, Guiana, Trinidad e Tobago e Bolívia, além do presidente eleito do Chile. O encontro, no entanto, excluiu alguns dos principais países da região, como Brasil, México e Colômbia, cujos governos não foram convidados.
Não é apenas a exclusão desses três países que levanta dúvidas sobre a eficácia da iniciativa. Da mesma forma, a designação de cartéis como grupos terroristas não considera que narcotraficantes têm estratégias e objetivos muito diferentes de terroristas da Al-Qaeda. O maior problema é que, como Matias Spektor e Oto Montagner mostram em
artigo recente no New York Times, a ideia de derrotar cartéis por meio da força militar parte de um equívoco fundamental sobre como o crime organizado opera hoje. Os grandes grupos criminosos da América Latina já não estão confinados a um território específico: eles operam como redes transnacionais integradas a cadeias globais de comércio ilícito, que conectam produtores, intermediários financeiros e mercados consumidores em diferentes partes do mundo.
RESILIÊNCIA. Nesse contexto, destruir bases ou eliminar líderes – como ocorreu no México, onde o narcotraficante “El Mencho” foi morto – dificilmente desmonta essas redes. A experiência mostra que operações militares tendem apenas a deslocar a atividade criminosa ou torná-la mais fragmentada e difícil de rastrear. Além disso, enquanto houver forte demanda global por drogas, a repressão armada frequentemente aumenta o valor do mercado ilegal, tornando os cartéis ainda mais lucrativos e adaptáveis. Da mesma forma, Robert Muggah observa que estratégias baseadas principalmente em operações militares costumam produzir efeitos de deslocamento, não de eliminação do problema. A pressão sobre uma rota ou território frequentemente apenas eleva os preços e incentiva novas formas de adaptação por parte das organizações criminosas.
Dados recentes reforçam esse diagnóstico. Meio século após o lançamento da chamada “guerra às drogas” pelos EUA, a produção e o consumo global de cocaína continuam em níveis recordes. Cadeias de suprimento ilícitas tornaram-se mais diversificadas e resilientes. Mesmo quando operações policiais ou militares interrompem determinadas rotas, o fluxo tende a se deslocar rapidamente para outras regiões.
Para Spektor e Montagner, o combate exige algo diferente: cooperação internacional de inteligência, integração de dados financeiros e logísticos e ações coordenadas para desarticular as redes que sustentam o crime transnacional. Transformar a América Latina em um novo teatro de operações militares terá um custo humano e econômico enorme, mas dificilmente resolverá o problema.
Oliver Stuenkel
A iniciativa reuniu uma dúzia de governos latino-americanos alinhados a Washington e tem como objetivo ampliar a cooperação em segurança e combater cartéis de drogas e redes de tráfico na região. Durante o encontro, Trump deixou claro que a militarização do combate ao narcotráfico é o eixo central de sua estratégia para a região. Ele defendeu que os países do hemisfério recorram mais ao uso das forças armadas para enfrentar organizações criminosas e incentivou líderes latinos a permitir operações militares conjuntas com os EUA em seus territórios. “Assim como formamos uma coalizão para derrotar o Estado Islâmico no Oriente Médio, agora precisamos fazer o mesmo para erradicar os cartéis aqui no nosso hemisfério”, disse. Numerosos cartéis da América Latina e do Caribe foram classificados como organizações terroristas estrangeiras pelo governo dos EUA, e ataques contra lanchas supostamente usadas para transportar drogas deixaram, ao longo do último ano, cerca de 150 mortos.
A nova coalizão reúne, em grande parte, governos ideologicamente próximos do presidente americano, incluindo líderes de Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Honduras, Panamá, Costa Rica, República Dominicana, Guiana, Trinidad e Tobago e Bolívia, além do presidente eleito do Chile. O encontro, no entanto, excluiu alguns dos principais países da região, como Brasil, México e Colômbia, cujos governos não foram convidados.
Não é apenas a exclusão desses três países que levanta dúvidas sobre a eficácia da iniciativa. Da mesma forma, a designação de cartéis como grupos terroristas não considera que narcotraficantes têm estratégias e objetivos muito diferentes de terroristas da Al-Qaeda. O maior problema é que, como Matias Spektor e Oto Montagner mostram em
artigo recente no New York Times, a ideia de derrotar cartéis por meio da força militar parte de um equívoco fundamental sobre como o crime organizado opera hoje. Os grandes grupos criminosos da América Latina já não estão confinados a um território específico: eles operam como redes transnacionais integradas a cadeias globais de comércio ilícito, que conectam produtores, intermediários financeiros e mercados consumidores em diferentes partes do mundo.
RESILIÊNCIA. Nesse contexto, destruir bases ou eliminar líderes – como ocorreu no México, onde o narcotraficante “El Mencho” foi morto – dificilmente desmonta essas redes. A experiência mostra que operações militares tendem apenas a deslocar a atividade criminosa ou torná-la mais fragmentada e difícil de rastrear. Além disso, enquanto houver forte demanda global por drogas, a repressão armada frequentemente aumenta o valor do mercado ilegal, tornando os cartéis ainda mais lucrativos e adaptáveis. Da mesma forma, Robert Muggah observa que estratégias baseadas principalmente em operações militares costumam produzir efeitos de deslocamento, não de eliminação do problema. A pressão sobre uma rota ou território frequentemente apenas eleva os preços e incentiva novas formas de adaptação por parte das organizações criminosas.
Dados recentes reforçam esse diagnóstico. Meio século após o lançamento da chamada “guerra às drogas” pelos EUA, a produção e o consumo global de cocaína continuam em níveis recordes. Cadeias de suprimento ilícitas tornaram-se mais diversificadas e resilientes. Mesmo quando operações policiais ou militares interrompem determinadas rotas, o fluxo tende a se deslocar rapidamente para outras regiões.
Para Spektor e Montagner, o combate exige algo diferente: cooperação internacional de inteligência, integração de dados financeiros e logísticos e ações coordenadas para desarticular as redes que sustentam o crime transnacional. Transformar a América Latina em um novo teatro de operações militares terá um custo humano e econômico enorme, mas dificilmente resolverá o problema.
Oliver Stuenkel
'Metrópolis', de Fritz Lang: o futuro é agora
Veículos voadores cortam o céu diante de enormes fachadas de vidro e aço. Em imponentes arranha-céus vive uma elite cercada de luxo. Abaixo, nas entranhas da cidade, trabalhadores labutam incansavelmente para sustentar a riqueza dos poderosos. Eles mantêm em funcionamento as máquinas que garantem a operação de Metrópolis, a cidade que o cineasta alemão Fritz Lang imaginou em seu visionário filme de 1927, escrito em parceria com sua esposa, a romancista e roteirista Thea von Harbou.
A história se passa em 2026, ou seja, nos dias atuais. Uma de suas personagens centrais é Maria, uma das primeiras "mulheres-robô" do cinema. Essa humanoide personifica o que hoje chamamos de inteligência artificial (IA) . Muitos dos temores atuais em relação a essa tecnologia já estavam, de certa forma, prenunciados em sua personagem há quase um século.
Como humana, Maria alerta os trabalhadores sobre os abusos dos poderosos. O governante de Metrópolis decide então copiar sua aparência e transferi-la para um robô, um Maschinenmensch (homem-máquina), com a ajuda de um cientista obcecado que persegue seus próprios objetivos. Transformada em uma máquina com forma humana, Maria deve manipular os trabalhadores para que os poderosos possam explorá-los ainda mais. E como os trabalhadores não conseguem distinguir entre a mulher real e o androide, o plano parece funcionar.
Quando Fritz Lang imaginou sua visão distópica do trabalho em 2026, ele visualizou um mundo onde humanos serviriam às máquinas. Hoje, quase diariamente surgem reportagens em que especialistas especulam sobre quais empregos poderiam desaparecer devido à inteligência artificial. Recentemente, por exemplo, o empresário americano Matt Schumer alertou na rede social X sobre possíveis demissões em massa: em um ou dois anos, disse ele, nenhum emprego de escritório estaria realmente seguro.
Androides no cinema
No cinema, a "máquina humana" muitas vezes tem um lado sombrio. Maria, de Metrópolis, tornou-se um modelo para muitas histórias de ficção científica em que as pessoas acabam sendo vítimas de suas próprias criações.
Em "O Exterminador do Futuro ", de James Cameron, um robô viaja no tempo para garantir um futuro onde as máquinas dominem a humanidade. Com seus esqueletos de aço, eles enxergam os humanos que os criaram como uma ameaça.
Os "replicantes" em "Blade Runner", de Ridley Scott , foram projetados para realizar trabalhos perigosos durante a colonização do espaço. A Terra tornou-se um lugar inóspito: poluída, superpovoada e constantemente castigada por chuvas torrenciais. Para permitir que os humanos aspirem a uma vida melhor em outros planetas, esses androides são designados primeiro para as tarefas mais árduas. Mas, como desenvolvem suas próprias emoções ao longo do tempo — e com elas a capacidade de se rebelar —, sua expectativa de vida é limitada a quatro anos. Mesmo assim, alguns se recusam a obedecer e desafiam seus criadores.
Sejam eles "exterminadores" ou "replicantes", são quase sempre indistinguíveis do Homo sapiens, como a robô Maria em Metrópolis . Apenas raramente os robôs aparecem como aliados dos humanos. Um exemplo é C-3PO, o androide de "Star Wars" criado por George Lucas, um assistente útil e pacífico.
Aqueles que defendem o desenvolvimento da inteligência artificial vislumbram algo semelhante hoje: androides vivendo ao nosso lado e auxiliando em tarefas cotidianas, como cuidar de idosos, atender crianças ou realizar tarefas domésticas. Os críticos, no entanto, alertam para os riscos dessa tecnologia e comparam seu avanço à invenção da bomba atômica.
Em "Metrópolis", a cidade não é destruída por uma guerra nuclear, mas por uma enorme inundação que causa inúmeras mortes. A culpada é a robô Maria, que incita os trabalhadores a se rebelarem e destruírem o sistema.
Nesse sentido, Fritz Lang encarava as máquinas com tanta desconfiança quanto diretores como Cameron ou Scott encarariam décadas depois. Um androide perfeito como Maria, do filme, ainda não existe. Mas outras ideias que apareceram em "Metrópolis" se tornaram realidade: por exemplo, o monotrilho ou as videochamadas.
Essas ferramentas se tornaram uma necessidade cotidiana. Com um smartphone, não apenas ouvimos a pessoa com quem estamos falando, como também a vemos. Equipes espalhadas pelo mundo se reúnem diariamente em videoconferências como se estivessem na mesma sala. E desligar a câmera pode levantar suspeitas: Será que ainda estão de pijama? Ou será que têm olheiras depois de uma longa noite de sono?
Talvez Fritz Lang, há quase um século, não estivesse simplesmente mostrando o progresso, mas também as potenciais armadilhas que ele acarreta. Seja qual for a interpretação, hoje ninguém pode dizer que as visões de Metrópolis não têm nada a ver com nossas vidas atuais. O futuro já chegou.
A história se passa em 2026, ou seja, nos dias atuais. Uma de suas personagens centrais é Maria, uma das primeiras "mulheres-robô" do cinema. Essa humanoide personifica o que hoje chamamos de inteligência artificial (IA) . Muitos dos temores atuais em relação a essa tecnologia já estavam, de certa forma, prenunciados em sua personagem há quase um século.
Como humana, Maria alerta os trabalhadores sobre os abusos dos poderosos. O governante de Metrópolis decide então copiar sua aparência e transferi-la para um robô, um Maschinenmensch (homem-máquina), com a ajuda de um cientista obcecado que persegue seus próprios objetivos. Transformada em uma máquina com forma humana, Maria deve manipular os trabalhadores para que os poderosos possam explorá-los ainda mais. E como os trabalhadores não conseguem distinguir entre a mulher real e o androide, o plano parece funcionar.
Quando Fritz Lang imaginou sua visão distópica do trabalho em 2026, ele visualizou um mundo onde humanos serviriam às máquinas. Hoje, quase diariamente surgem reportagens em que especialistas especulam sobre quais empregos poderiam desaparecer devido à inteligência artificial. Recentemente, por exemplo, o empresário americano Matt Schumer alertou na rede social X sobre possíveis demissões em massa: em um ou dois anos, disse ele, nenhum emprego de escritório estaria realmente seguro.
Androides no cinema
No cinema, a "máquina humana" muitas vezes tem um lado sombrio. Maria, de Metrópolis, tornou-se um modelo para muitas histórias de ficção científica em que as pessoas acabam sendo vítimas de suas próprias criações.
Em "O Exterminador do Futuro ", de James Cameron, um robô viaja no tempo para garantir um futuro onde as máquinas dominem a humanidade. Com seus esqueletos de aço, eles enxergam os humanos que os criaram como uma ameaça.
Os "replicantes" em "Blade Runner", de Ridley Scott , foram projetados para realizar trabalhos perigosos durante a colonização do espaço. A Terra tornou-se um lugar inóspito: poluída, superpovoada e constantemente castigada por chuvas torrenciais. Para permitir que os humanos aspirem a uma vida melhor em outros planetas, esses androides são designados primeiro para as tarefas mais árduas. Mas, como desenvolvem suas próprias emoções ao longo do tempo — e com elas a capacidade de se rebelar —, sua expectativa de vida é limitada a quatro anos. Mesmo assim, alguns se recusam a obedecer e desafiam seus criadores.
Sejam eles "exterminadores" ou "replicantes", são quase sempre indistinguíveis do Homo sapiens, como a robô Maria em Metrópolis . Apenas raramente os robôs aparecem como aliados dos humanos. Um exemplo é C-3PO, o androide de "Star Wars" criado por George Lucas, um assistente útil e pacífico.
Aqueles que defendem o desenvolvimento da inteligência artificial vislumbram algo semelhante hoje: androides vivendo ao nosso lado e auxiliando em tarefas cotidianas, como cuidar de idosos, atender crianças ou realizar tarefas domésticas. Os críticos, no entanto, alertam para os riscos dessa tecnologia e comparam seu avanço à invenção da bomba atômica.
Em "Metrópolis", a cidade não é destruída por uma guerra nuclear, mas por uma enorme inundação que causa inúmeras mortes. A culpada é a robô Maria, que incita os trabalhadores a se rebelarem e destruírem o sistema.
Nesse sentido, Fritz Lang encarava as máquinas com tanta desconfiança quanto diretores como Cameron ou Scott encarariam décadas depois. Um androide perfeito como Maria, do filme, ainda não existe. Mas outras ideias que apareceram em "Metrópolis" se tornaram realidade: por exemplo, o monotrilho ou as videochamadas.
Essas ferramentas se tornaram uma necessidade cotidiana. Com um smartphone, não apenas ouvimos a pessoa com quem estamos falando, como também a vemos. Equipes espalhadas pelo mundo se reúnem diariamente em videoconferências como se estivessem na mesma sala. E desligar a câmera pode levantar suspeitas: Será que ainda estão de pijama? Ou será que têm olheiras depois de uma longa noite de sono?
Talvez Fritz Lang, há quase um século, não estivesse simplesmente mostrando o progresso, mas também as potenciais armadilhas que ele acarreta. Seja qual for a interpretação, hoje ninguém pode dizer que as visões de Metrópolis não têm nada a ver com nossas vidas atuais. O futuro já chegou.
Quando o mundo escolhe quem merece luto: a nossa cumplicidade na morte das crianças
Rabindranath Tagore (1861–1941) muitas vezes chamado de “Bardo de Bengala”, nascido em Calcutá, foi um polímata bengali, uma das figuras literárias e filosóficas mais influentes do início do século XX e o primeiro não‑europeu a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1913.
Tagore escreveu que “Every child comes with the message that God is not yet discouraged of man”, lembrando‑nos que cada criança é uma promessa, um sopro de esperança que renova o sentido da humanidade. Ao evocarmos estas palavras, somos confrontados com a ideia de que a vida infantil é o mais puro gesto de confiança no futuro. Quando uma criança morre — sobretudo de forma violenta — essa confiança é traída, e uma parte essencial do nosso próprio significado coletivo é destruída.
É à luz desta verdade simples e luminosa que o editorial de Rui Tavares Guedes, publicado a 11 de março de 2026 na VISÃO (Edição 1723), se torna ainda mais insuportável e mais necessário. Guedes recorda-nos que o mundo reage com mais veemência a um aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que ao bombardeamento de uma escola no Irão, onde mais de uma centena de meninas entre os 7 e os 12 anos perderam a vida. Esta constatação não é apenas um diagnóstico jornalístico: é uma acusação moral.
O autor descreve como os nossos vieses – geográficos, ideológicos, culturais ou simplesmente afetivos – moldam a forma como sentimos ou deixamos de sentir a dor dos outros. Mesmo perante evidências crescentes de que o ataque poderá ter sido perpetrado pelos Estados Unidos e Israel, especialistas das Nações Unidas insistem num apuramento rigoroso de responsabilidades, enquanto grande parte do mundo continua indiferente.
O problema, como sublinha o jornalista, não se limita à tragédia em si, mas à desigualdade do luto. A mesma atrocidade, ocorrida na Europa ou num país culturalmente próximo, provocaria condenação imediata, ações diplomáticas coordenadas e um coro global de indignação. No entanto, quando as vítimas têm outros rostos, outras línguas, outras paisagens, a urgência moral desvanece-se — como se o sofrimento também tivesse nacionalidade. Esta seletividade emocional revela mais sobre nós do que sobre os factos: demonstra o quanto normalizámos a violência à distância, o quanto deixámos de reconhecer a humanidade onde ela permanece inteira.
E é precisamente aqui que regressamos a Martin Luther King Jr., cuja convicção ribomba como um eco incontornável: “Injustice anywhere is a threat to justice everywhere.”. As palavras de King recordam-nos que cada injustiça — sobretudo quando recai sobre aqueles que nada fizeram para merecê-la — corrói o edifício moral que sustenta a convivência humana. A morte de crianças, seja onde for, é a forma mais absoluta dessa injustiça. Não existe equilíbrio ético possível enquanto aceitarmos que existam vítimas toleráveis e vítimas intoleráveis; enquanto permitirmos que a dor seja hierarquizada e a indignação, seletiva.
O editorial do Rui Tavares Guedes é, assim, um alarme urgente — e profundamente atual — à re-humanização do olhar, à superação dos nossos vieses morais e à recusa firme da normalização da morte de inocentes, onde quer que aconteça. Recorda-nos que a compaixão não pode ser geográfica; que a empatia não pode depender do idioma em que se grita; que a vida de uma criança iraniana vale tanto como a de uma criança europeia ou de qualquer outro lugar do mundo.
É um apelo para recuperarmos aquilo que nos faz humanos: a capacidade de reconhecermos a dor alheia como nossa, de recusarmos a indiferença como resposta, de não aceitarmos que o mundo continue a girar como se nada fosse quando o futuro — porque as crianças são sempre o futuro — é destruído a sangue-frio.
Tagore escreveu que “Every child comes with the message that God is not yet discouraged of man”, lembrando‑nos que cada criança é uma promessa, um sopro de esperança que renova o sentido da humanidade. Ao evocarmos estas palavras, somos confrontados com a ideia de que a vida infantil é o mais puro gesto de confiança no futuro. Quando uma criança morre — sobretudo de forma violenta — essa confiança é traída, e uma parte essencial do nosso próprio significado coletivo é destruída.
É à luz desta verdade simples e luminosa que o editorial de Rui Tavares Guedes, publicado a 11 de março de 2026 na VISÃO (Edição 1723), se torna ainda mais insuportável e mais necessário. Guedes recorda-nos que o mundo reage com mais veemência a um aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que ao bombardeamento de uma escola no Irão, onde mais de uma centena de meninas entre os 7 e os 12 anos perderam a vida. Esta constatação não é apenas um diagnóstico jornalístico: é uma acusação moral.
O autor descreve como os nossos vieses – geográficos, ideológicos, culturais ou simplesmente afetivos – moldam a forma como sentimos ou deixamos de sentir a dor dos outros. Mesmo perante evidências crescentes de que o ataque poderá ter sido perpetrado pelos Estados Unidos e Israel, especialistas das Nações Unidas insistem num apuramento rigoroso de responsabilidades, enquanto grande parte do mundo continua indiferente.
O problema, como sublinha o jornalista, não se limita à tragédia em si, mas à desigualdade do luto. A mesma atrocidade, ocorrida na Europa ou num país culturalmente próximo, provocaria condenação imediata, ações diplomáticas coordenadas e um coro global de indignação. No entanto, quando as vítimas têm outros rostos, outras línguas, outras paisagens, a urgência moral desvanece-se — como se o sofrimento também tivesse nacionalidade. Esta seletividade emocional revela mais sobre nós do que sobre os factos: demonstra o quanto normalizámos a violência à distância, o quanto deixámos de reconhecer a humanidade onde ela permanece inteira.
E é precisamente aqui que regressamos a Martin Luther King Jr., cuja convicção ribomba como um eco incontornável: “Injustice anywhere is a threat to justice everywhere.”. As palavras de King recordam-nos que cada injustiça — sobretudo quando recai sobre aqueles que nada fizeram para merecê-la — corrói o edifício moral que sustenta a convivência humana. A morte de crianças, seja onde for, é a forma mais absoluta dessa injustiça. Não existe equilíbrio ético possível enquanto aceitarmos que existam vítimas toleráveis e vítimas intoleráveis; enquanto permitirmos que a dor seja hierarquizada e a indignação, seletiva.
O editorial do Rui Tavares Guedes é, assim, um alarme urgente — e profundamente atual — à re-humanização do olhar, à superação dos nossos vieses morais e à recusa firme da normalização da morte de inocentes, onde quer que aconteça. Recorda-nos que a compaixão não pode ser geográfica; que a empatia não pode depender do idioma em que se grita; que a vida de uma criança iraniana vale tanto como a de uma criança europeia ou de qualquer outro lugar do mundo.
É um apelo para recuperarmos aquilo que nos faz humanos: a capacidade de reconhecermos a dor alheia como nossa, de recusarmos a indiferença como resposta, de não aceitarmos que o mundo continue a girar como se nada fosse quando o futuro — porque as crianças são sempre o futuro — é destruído a sangue-frio.
terça-feira, 10 de março de 2026
Não há cantiga de intervenção que embale a formiga no carreiro
O sol voltou a Lisboa. Já não nos lembrávamos de como é azul este céu. O motorista do Uber faz um comentário sobre o tempo. Falar sobre meteorologia é como esticar um pé e metê-lo no mar. Serve para medir a temperatura. A minha resposta é o sinal que faltava para mergulharmos na conversa, que vai direta ao Brasil, embalada pelo sotaque dele. Pergunto-lhe de onde é. “Do Pantanal”, responde, antes de acrescentar que os pais são portugueses, mas nasceram em África, como se fosse preciso justificar alguma coisa. “Ser português é isso. É ser mistura”, respondo-lhe, deixando-o à vontade para, entre as curvas do caminho, me falar dos seus planos e de tudo o que já fez por cá.
Ainda mal entrámos na A5 e já ele me conta que está de saída. Um amigo que se vai casar e quer voltar ao Brasil arranjou-lhe casa e trabalho como motorista de pesados em Espanha. Já tem a carta de condução especial, já fez as contas todas e o desvio na rota de imigração vai fazê-lo chegar mais rapidamente ao sonho de voltar ao Brasil. “Antes do final do ano, a casa no Pantanal fica paga.” O plano está feito: pôr a casa de Lisboa a arrendar, acabar de pagar a que tem no Brasil, pôr tudo a render. Talvez comprar mais uma ou duas por Terras de Vera Cruz. “Tem muitos leilões por lá. Casas baratas. Bastam umas obras, que eu mesmo faço.” Em Espanha, com salários mais altos e preços mais baixos, conta poupar uns milhares por ano. Ouço-o a falar com desenvoltura em números e contas e vou-me enterrando no banco de trás do carro, prostrada com a minha falta de jeito para os negócios.
“É preciso pôr o dinheiro a trabalhar por nós”, afirma, taxativo, no para-arranca do trânsito. As tatuagens no pescoço, os óculos escuros, o boné enfiado até aos olhos, a t-shirt preta apertada, o jeito gingão, não são bem o que se espera de um guru de finanças. Mas só para quem não tem paciência para fazer conversa com motoristas de TVDE. Esta frase sobre o dinheiro como nosso empregado é o novo “isto só lá vai com um Salazar”, que antigamente ouvíamos nas corridas de táxi e agora aparece no prime time das televisões.
Ao volante de cada Uber há um empreendedor. Uma vez, houve um que me explicou mesmo como usava a Inteligência Artificial para jogar em vários mercados financeiros e ia gerindo as suas horas de acordo com os horários de abertura das bolsas. Ele explicou, mas eu não percebi nem metade. A minha incompetência financeira é demasiado grande e a minha fé nos mercados, nenhuma.
Apesar da minha inaptidão e da minha descrença, estas conversas fascinam-me. Em parte, precisamente, devido à minha inaptidão e à minha descrença, claro. Mas sobretudo porque elas me ajudam a perceber o que noutras alturas me é incompreensível: como é que uma parte tão grande da população está disponível para perder direitos e, sobretudo, se sente mais próxima de um multimilionário com tendências autoritárias do que das pessoas com quem convive quase todos os dias e por quem quase sempre tem tão pouca empatia. A chave está neste sistema de fé aspiracional, já completamente desligado da ideia de trabalho. Sim, porque toda a gente já percebeu que não se enriquece a trabalhar, mas sim a ser rentista. No fundo, é isso. É isso que quer dizer “pôr o dinheiro a trabalhar”.
O mais extraordinário deste pensamento é que ele deixa gente da classe trabalhadora a salivar com aumentos de rendas e baixas de impostos sobre propriedade e capital. Mesmo que os juros pagos ao banco esmaguem as ambições de muitos, que problemas com inquilinos furem planos ou que os negócios simplesmente não sejam tão rentáveis como parecia quando se estavam a fazer as contas na toalha de papel do restaurante. Se alguma coisa falhar, a culpa é do Estado, que só atrapalha, que é um peso. Até porque muitas destas pessoas vivem precárias, são demasiado abonadas para ter apoios e demasiado pobres para ser ricas, e sabem que têm de gastar parte dos seus rendimentos em seguros, se quiserem ter acesso à saúde, e em escolas, para garantir um futuro melhor aos filhos ou, pelo menos, para lhes dar acesso aos conhecimentos sociais certos para esse futuro.
E é este mecanismo que é fascinante. O desmantelar do Estado social que a Europa construiu no pós-Guerra, que só chegou a Portugal em 1974, e com que parte dos Estados Unidos sonhava, é a melhor forma de garantir que ele continua a ser desmantelado. As classes mais ricas conseguem com este sistema que os mais pobres façam tudo para lhes manter os privilégios. Eles já se veem a si próprios como proprietários rentistas, mesmo que continuem a conduzir um Uber 12 horas por dia, que se especializem em engenharias financeiras de tostões e que tenham de aguentar dores de dentes ou óculos sem as dioptrias suficientes até conseguirem juntar dinheiro para isso.
Esta dismorfia social faz com que o pobre se veja como rico e o precário como empreendedor. Já tive mesmo uma conversa com um desempregado, que andou anos a trabalhar precário na indústria dos moldes, que falava como um capitalista desiludido com os preguiçosos que não querem trabalhar e lamentava como era difícil despedir. Quando ousei falar-lhe de exploração e de distribuição de riqueza, a resposta foi desarmante. “Se eu fosse patrão, também queria ter o máximo de lucros.” Conversa arrumada, pus a viola no saco. Não há cantiga de intervenção que embale as formigas que gostam de andar pelo carreiro, mesmo debaixo de uma rajada de inseticida.
Será esta uma vitória final dos mais ricos e poderosos, cada vez mais a salvo de qualquer política redistributiva que possa beliscar-lhes os privilégios? Não creio. O esmagamento contínuo de quem está na base vai acabar por quebrar este encantamento aspiracional. A dúvida é: que narrativa enformará esses estilhaços? Estarão os desiludidos convencidos de que o seu falhanço é da sua exclusiva responsabilidade? Continuarão a alimentar a ideia de que os que são ainda mais pobres são os seus inimigos? Ou perceberão, afinal, que foram enganados? A história escreve-se todos os dias. Não há finais fechados, vitórias absolutas nem derrotas eternas. Nunca devemos esquecer-nos disso.
Margarida Davim
Ainda mal entrámos na A5 e já ele me conta que está de saída. Um amigo que se vai casar e quer voltar ao Brasil arranjou-lhe casa e trabalho como motorista de pesados em Espanha. Já tem a carta de condução especial, já fez as contas todas e o desvio na rota de imigração vai fazê-lo chegar mais rapidamente ao sonho de voltar ao Brasil. “Antes do final do ano, a casa no Pantanal fica paga.” O plano está feito: pôr a casa de Lisboa a arrendar, acabar de pagar a que tem no Brasil, pôr tudo a render. Talvez comprar mais uma ou duas por Terras de Vera Cruz. “Tem muitos leilões por lá. Casas baratas. Bastam umas obras, que eu mesmo faço.” Em Espanha, com salários mais altos e preços mais baixos, conta poupar uns milhares por ano. Ouço-o a falar com desenvoltura em números e contas e vou-me enterrando no banco de trás do carro, prostrada com a minha falta de jeito para os negócios.
“É preciso pôr o dinheiro a trabalhar por nós”, afirma, taxativo, no para-arranca do trânsito. As tatuagens no pescoço, os óculos escuros, o boné enfiado até aos olhos, a t-shirt preta apertada, o jeito gingão, não são bem o que se espera de um guru de finanças. Mas só para quem não tem paciência para fazer conversa com motoristas de TVDE. Esta frase sobre o dinheiro como nosso empregado é o novo “isto só lá vai com um Salazar”, que antigamente ouvíamos nas corridas de táxi e agora aparece no prime time das televisões.
Ao volante de cada Uber há um empreendedor. Uma vez, houve um que me explicou mesmo como usava a Inteligência Artificial para jogar em vários mercados financeiros e ia gerindo as suas horas de acordo com os horários de abertura das bolsas. Ele explicou, mas eu não percebi nem metade. A minha incompetência financeira é demasiado grande e a minha fé nos mercados, nenhuma.
Apesar da minha inaptidão e da minha descrença, estas conversas fascinam-me. Em parte, precisamente, devido à minha inaptidão e à minha descrença, claro. Mas sobretudo porque elas me ajudam a perceber o que noutras alturas me é incompreensível: como é que uma parte tão grande da população está disponível para perder direitos e, sobretudo, se sente mais próxima de um multimilionário com tendências autoritárias do que das pessoas com quem convive quase todos os dias e por quem quase sempre tem tão pouca empatia. A chave está neste sistema de fé aspiracional, já completamente desligado da ideia de trabalho. Sim, porque toda a gente já percebeu que não se enriquece a trabalhar, mas sim a ser rentista. No fundo, é isso. É isso que quer dizer “pôr o dinheiro a trabalhar”.
O mais extraordinário deste pensamento é que ele deixa gente da classe trabalhadora a salivar com aumentos de rendas e baixas de impostos sobre propriedade e capital. Mesmo que os juros pagos ao banco esmaguem as ambições de muitos, que problemas com inquilinos furem planos ou que os negócios simplesmente não sejam tão rentáveis como parecia quando se estavam a fazer as contas na toalha de papel do restaurante. Se alguma coisa falhar, a culpa é do Estado, que só atrapalha, que é um peso. Até porque muitas destas pessoas vivem precárias, são demasiado abonadas para ter apoios e demasiado pobres para ser ricas, e sabem que têm de gastar parte dos seus rendimentos em seguros, se quiserem ter acesso à saúde, e em escolas, para garantir um futuro melhor aos filhos ou, pelo menos, para lhes dar acesso aos conhecimentos sociais certos para esse futuro.
E é este mecanismo que é fascinante. O desmantelar do Estado social que a Europa construiu no pós-Guerra, que só chegou a Portugal em 1974, e com que parte dos Estados Unidos sonhava, é a melhor forma de garantir que ele continua a ser desmantelado. As classes mais ricas conseguem com este sistema que os mais pobres façam tudo para lhes manter os privilégios. Eles já se veem a si próprios como proprietários rentistas, mesmo que continuem a conduzir um Uber 12 horas por dia, que se especializem em engenharias financeiras de tostões e que tenham de aguentar dores de dentes ou óculos sem as dioptrias suficientes até conseguirem juntar dinheiro para isso.
Esta dismorfia social faz com que o pobre se veja como rico e o precário como empreendedor. Já tive mesmo uma conversa com um desempregado, que andou anos a trabalhar precário na indústria dos moldes, que falava como um capitalista desiludido com os preguiçosos que não querem trabalhar e lamentava como era difícil despedir. Quando ousei falar-lhe de exploração e de distribuição de riqueza, a resposta foi desarmante. “Se eu fosse patrão, também queria ter o máximo de lucros.” Conversa arrumada, pus a viola no saco. Não há cantiga de intervenção que embale as formigas que gostam de andar pelo carreiro, mesmo debaixo de uma rajada de inseticida.
Será esta uma vitória final dos mais ricos e poderosos, cada vez mais a salvo de qualquer política redistributiva que possa beliscar-lhes os privilégios? Não creio. O esmagamento contínuo de quem está na base vai acabar por quebrar este encantamento aspiracional. A dúvida é: que narrativa enformará esses estilhaços? Estarão os desiludidos convencidos de que o seu falhanço é da sua exclusiva responsabilidade? Continuarão a alimentar a ideia de que os que são ainda mais pobres são os seus inimigos? Ou perceberão, afinal, que foram enganados? A história escreve-se todos os dias. Não há finais fechados, vitórias absolutas nem derrotas eternas. Nunca devemos esquecer-nos disso.
Margarida Davim
Tenho medo
Aflige-me ver homens e mulheres em cafés, supermercados e caixas de comentários de redes sociais — que, lamento, são cada vez mais um fiel reflexo das pessoas que se cruzam connosco na rua — que, observando os desenvolvimentos do mundo e perspetivando o futuro, sentem conforto e confiança.
Em tempos idos, poderíamos retirar algum conforto da certeza de que os exércitos de perfis falsos davam uma ideia distorcida da realidade fazendo parecer que a barbárie e a boçalidade estavam sobrerrepresentadas e não correspondiam aos verdadeiros sentimentos prevalecentes. Mas a verdade é que a vida real tem-se tornado cada vez mais parecida com a realidade das caixas de comentários.
O avanço de forças políticas autoritárias e musculadas parece inspirar uma sensação de segurança que faz estes homens e estas mulheres aninharem-se aconchegados, debaixo das mantas, telemóvel na mão, embalados pela gritaria, a distribuir emojis de riso por tudo quanto é notícia trágica que apareça no seu feed.
Agora, sentem, é que vai ser. Os criminosos vão presos, os não brancos vão para a terra deles, os ditadores maus vão para o galheiro, os bons saem reforçados para defender o seu povo, os poderosos são todos presos por pedofilia, os julgamentos tornam-se mera formalidade, faz frio no inverno e calor no verão.
Sente-se um desejo vago de vingança dirigido contra incertos que é satisfeito através da violência. As agressões de polícias a imigrantes servem para matar essa sede, como servem os bombardeamentos que por esse mundo fora rebentam com inocentes em nome de uma ideia difusa de justiça. Há um prazer sádico que percorre o mundo.
Essa sede de vingança estava ali à mão de semear e foi direcionada contra todos os movimentos de natureza progressista que trouxeram mudanças significativas à nossa vida. Falo de sindicatos, grupos feministas, movimentos pelos direitos de pessoas não heterossexuais, ambientalistas ou movimentos antirracistas.
Todos eles são alvo de fúria tão incontida quanto orgulhosamente ignorante e, por isso, intransponível. A forma como os movimentos ambientalistas são ridicularizados, apesar de a natureza das suas reivindicações ser universal e não a favor de um determinado grupo específico, é particularmente desconcertante. Afinal de contas, como é que se conversa com alguém que está disposto a apostar a vida de toda a humanidade com base numa publicação que leu no Reddit ou num vídeo que viu no Youtube?
A brutalidade das imagens que ocupam os canais noticiosos, e que deveriam causar uma sensação de repulsa, aparentam ter o efeito contrário. As direções editoriais parecem sabê-lo e dividem o ecrã entre alguém que comenta a barbárie e imagens da carnificina em repetição perpétua. Como dependentes que vão aumentando a tolerância à substância, precisamos de doses cada vez maiores, mais sangrentas e mais brutais até ficarmos completamente dormentes.
Na verdade, a vida política e social foi hollywoodizada a tal ponto que não só entendemos a realidade que nos rodeia com o simplismo dual que separa os bons dos maus num filme do Chuck Norris, como aprendemos a celebrar as mortes do outro lado. Quanto mais sangrentas, melhor. A ver se aprendem.
Mas também fomos aceitando, à boleia desta hollywoodização, a ideia de que as leis e as regras nacionais e internacionais são um empecilho burocrático destinado a dificultar a vida dos bons que até querem impedir o ataque terrorista mas, coitados, não podem torturar ninguém. Malditos burocratas!
Então, perante o avanço desta cultura política da violência, e para minha absoluta perplexidade, há todo um exército que se ergue para a receber de braços abertos. É claro que este desejo de que venha alguém, de preferência que assuma a figura de pai austero, para resolver todos os nossos problemas não é novo. Uma pessoa mais aventureira poderia discorrer sobre como isso quer dizer que somos todos adultos mal resolvidos e inseguros à espera que um paizinho nos diga o que fazer.
Não sou essa pessoa. Sou, antes, a pessoa que diz que estou com medo e se calhar devíamos estar todos com medo. Meia dúzia de tipos com poder resolveram aproveitar esta repentina maré de ressentimento e de repente temos o mundo a fazer marcha à ré a toda a velocidade.
O medo de que falo não é novo. É só novo para uma parte do mundo que estava habituada a estar do lado que não precisa de ter medo. Para o resto da humanidade, esta é uma sensação com a qual há muito tiveram que se habituar a conviver.
De repente, o bully com o qual não tínhamos grande problema porque não implicava connosco começou a implicar connosco e ninguém está a salvo. Os liberais centristas anseiam por um regresso a uma normalidade em que só o Sul global tinha de viver aterrorizado e todos aceitamos sem chinfrim que o eleitorado norte-americano possa decidir o futuro da humanidade.
O mundo borbulha caoticamente e há quem não tenha medo. Pelo contrário, vejo tanta gente a clamar por um paizinho e custa-me ver os paizinhos deste mundo a fazer fila para roubar a mesada dos filhos, darem-lhes na boca e abandonarem-nos.
É por isso que tenho medo. Não deveríamos ter todos?
Em tempos idos, poderíamos retirar algum conforto da certeza de que os exércitos de perfis falsos davam uma ideia distorcida da realidade fazendo parecer que a barbárie e a boçalidade estavam sobrerrepresentadas e não correspondiam aos verdadeiros sentimentos prevalecentes. Mas a verdade é que a vida real tem-se tornado cada vez mais parecida com a realidade das caixas de comentários.
O avanço de forças políticas autoritárias e musculadas parece inspirar uma sensação de segurança que faz estes homens e estas mulheres aninharem-se aconchegados, debaixo das mantas, telemóvel na mão, embalados pela gritaria, a distribuir emojis de riso por tudo quanto é notícia trágica que apareça no seu feed.
Agora, sentem, é que vai ser. Os criminosos vão presos, os não brancos vão para a terra deles, os ditadores maus vão para o galheiro, os bons saem reforçados para defender o seu povo, os poderosos são todos presos por pedofilia, os julgamentos tornam-se mera formalidade, faz frio no inverno e calor no verão.
Sente-se um desejo vago de vingança dirigido contra incertos que é satisfeito através da violência. As agressões de polícias a imigrantes servem para matar essa sede, como servem os bombardeamentos que por esse mundo fora rebentam com inocentes em nome de uma ideia difusa de justiça. Há um prazer sádico que percorre o mundo.
Essa sede de vingança estava ali à mão de semear e foi direcionada contra todos os movimentos de natureza progressista que trouxeram mudanças significativas à nossa vida. Falo de sindicatos, grupos feministas, movimentos pelos direitos de pessoas não heterossexuais, ambientalistas ou movimentos antirracistas.
Todos eles são alvo de fúria tão incontida quanto orgulhosamente ignorante e, por isso, intransponível. A forma como os movimentos ambientalistas são ridicularizados, apesar de a natureza das suas reivindicações ser universal e não a favor de um determinado grupo específico, é particularmente desconcertante. Afinal de contas, como é que se conversa com alguém que está disposto a apostar a vida de toda a humanidade com base numa publicação que leu no Reddit ou num vídeo que viu no Youtube?
A brutalidade das imagens que ocupam os canais noticiosos, e que deveriam causar uma sensação de repulsa, aparentam ter o efeito contrário. As direções editoriais parecem sabê-lo e dividem o ecrã entre alguém que comenta a barbárie e imagens da carnificina em repetição perpétua. Como dependentes que vão aumentando a tolerância à substância, precisamos de doses cada vez maiores, mais sangrentas e mais brutais até ficarmos completamente dormentes.
Na verdade, a vida política e social foi hollywoodizada a tal ponto que não só entendemos a realidade que nos rodeia com o simplismo dual que separa os bons dos maus num filme do Chuck Norris, como aprendemos a celebrar as mortes do outro lado. Quanto mais sangrentas, melhor. A ver se aprendem.
Mas também fomos aceitando, à boleia desta hollywoodização, a ideia de que as leis e as regras nacionais e internacionais são um empecilho burocrático destinado a dificultar a vida dos bons que até querem impedir o ataque terrorista mas, coitados, não podem torturar ninguém. Malditos burocratas!
Então, perante o avanço desta cultura política da violência, e para minha absoluta perplexidade, há todo um exército que se ergue para a receber de braços abertos. É claro que este desejo de que venha alguém, de preferência que assuma a figura de pai austero, para resolver todos os nossos problemas não é novo. Uma pessoa mais aventureira poderia discorrer sobre como isso quer dizer que somos todos adultos mal resolvidos e inseguros à espera que um paizinho nos diga o que fazer.
Não sou essa pessoa. Sou, antes, a pessoa que diz que estou com medo e se calhar devíamos estar todos com medo. Meia dúzia de tipos com poder resolveram aproveitar esta repentina maré de ressentimento e de repente temos o mundo a fazer marcha à ré a toda a velocidade.
O medo de que falo não é novo. É só novo para uma parte do mundo que estava habituada a estar do lado que não precisa de ter medo. Para o resto da humanidade, esta é uma sensação com a qual há muito tiveram que se habituar a conviver.
De repente, o bully com o qual não tínhamos grande problema porque não implicava connosco começou a implicar connosco e ninguém está a salvo. Os liberais centristas anseiam por um regresso a uma normalidade em que só o Sul global tinha de viver aterrorizado e todos aceitamos sem chinfrim que o eleitorado norte-americano possa decidir o futuro da humanidade.
O mundo borbulha caoticamente e há quem não tenha medo. Pelo contrário, vejo tanta gente a clamar por um paizinho e custa-me ver os paizinhos deste mundo a fazer fila para roubar a mesada dos filhos, darem-lhes na boca e abandonarem-nos.
É por isso que tenho medo. Não deveríamos ter todos?
Trump ou Tramp?
Inacreditável!!!! Em maio de 2025, diante de uma sala cheia de dirigentes árabes, o presidente Trump declarou que a era da mudança de regime orquestrada pelos EUA havia acabado. “No fim das contas, aqueles que afirmam construir nações destruíram muito mais do que construíram”, disse ele naquele dia em Riad, zombando dos “intervencionistas ocidentais que ensinam lições sobre como viver e como administrar seus próprios assuntos”.
Face aos fatos recentes na Venezuela, Iran e, em breve, Cuba, a fala parece falsa, mas é real e justifica aquele senhor ser chamado Tramp, e não Trump. Na internet é fácil encontrar a tradução da palavra uma vez a vogal tenha sido alterada! O Frank Sinatra cantava uma bela canção que dizia: “The lady is a tramp”, e não se referia à companheira do Epstein, amigo do Tramp!
Vemos então que poucos meses após sua segunda posse, o Tramp foi visitar o príncipe saudita – aquele, mui amigo do jornalista que nunca mais saiu inteiro do consulado do seu país! – e fez tal declaração, buscando, supõe-se, granjear simpatia e confiança junto aos seus aliados, nada democráticos, diga-se. Se os aliados acreditaram então, hoje se consideram ingênuos e passaram a duvidar da aliança! Vitória de quem?
Em política, terreno instável, incerto, escorregadio e cheio de traições, manter promessas feitas aos eleitores não é importante, mas cumprir os compromissos com os pares é fundamental! Esta regra é básica na política; descumpri-la desacredita o agente político em seu próprio meio; sem credibilidade, perde força, fica ferido e sem capacidade de articulação e de assumir novos compromissos. Nessa privação, apequena-se e se esvai. Ou, então, apela à força bruta!
Ocorre que animais feridos com frequência encontram forças inimagináveis e fazem coisas impensáveis! Um político desacreditado é exatamente tal tipo de animal ferido. No caso Tramp, assessorado apenas por yes men, a sua verdade é seu único guia, por mais enviesada que seja.
A poucos dias do início da guerra, que pode não ser dele e sim daquele asqueroso primeiro-ministro israelense, grande número de analistas afirma que as previsões iniciais dos atacantes falharam, exceto pela morte de dirigentes iranianos, e os objetivos não foram alcançados. Acreditam, também, que os esforços conjuntos de armar os curdos para que estes provoquem a queda do regime que governa o Iran terá pouco efeito adicional, exceto evidenciar que os agressores fustigam grupos que espalham terror. Assim como esses paladinos do Ocidente afirmam fazer o regime iraniano.
Perspectivas sombrias para a humanidade, enquanto tantos tramps governarem o mundo.
Face aos fatos recentes na Venezuela, Iran e, em breve, Cuba, a fala parece falsa, mas é real e justifica aquele senhor ser chamado Tramp, e não Trump. Na internet é fácil encontrar a tradução da palavra uma vez a vogal tenha sido alterada! O Frank Sinatra cantava uma bela canção que dizia: “The lady is a tramp”, e não se referia à companheira do Epstein, amigo do Tramp!
Vemos então que poucos meses após sua segunda posse, o Tramp foi visitar o príncipe saudita – aquele, mui amigo do jornalista que nunca mais saiu inteiro do consulado do seu país! – e fez tal declaração, buscando, supõe-se, granjear simpatia e confiança junto aos seus aliados, nada democráticos, diga-se. Se os aliados acreditaram então, hoje se consideram ingênuos e passaram a duvidar da aliança! Vitória de quem?
Em política, terreno instável, incerto, escorregadio e cheio de traições, manter promessas feitas aos eleitores não é importante, mas cumprir os compromissos com os pares é fundamental! Esta regra é básica na política; descumpri-la desacredita o agente político em seu próprio meio; sem credibilidade, perde força, fica ferido e sem capacidade de articulação e de assumir novos compromissos. Nessa privação, apequena-se e se esvai. Ou, então, apela à força bruta!
Ocorre que animais feridos com frequência encontram forças inimagináveis e fazem coisas impensáveis! Um político desacreditado é exatamente tal tipo de animal ferido. No caso Tramp, assessorado apenas por yes men, a sua verdade é seu único guia, por mais enviesada que seja.
A poucos dias do início da guerra, que pode não ser dele e sim daquele asqueroso primeiro-ministro israelense, grande número de analistas afirma que as previsões iniciais dos atacantes falharam, exceto pela morte de dirigentes iranianos, e os objetivos não foram alcançados. Acreditam, também, que os esforços conjuntos de armar os curdos para que estes provoquem a queda do regime que governa o Iran terá pouco efeito adicional, exceto evidenciar que os agressores fustigam grupos que espalham terror. Assim como esses paladinos do Ocidente afirmam fazer o regime iraniano.
Perspectivas sombrias para a humanidade, enquanto tantos tramps governarem o mundo.
Com a IA, presidentes poderão vigiar cidadãos se quiserem
Porque o Brasil está derretendo, não estamos atentos a uma imensa batalha política em curso nos Estados Unidos. Uma batalha que definirá o rumo das democracias e que nos afeta diretamente caso Flávio Bolsonaro vença a eleição e decida governar com o mesmo espírito que guiou o pai. Um governo tem o direito de criar, com base em dados públicos, um perfil detalhado de cada cidadão? Com a capacidade de definir quem é adversário político e quem joga no mesmo time? É o que o governo Donald Trump tenta fazer.
A guerra tensa entre Anthropic, a empresa que criou o modelo Claude de inteligência artificial (IA), e a OpenAI, que criou o GPT, diz respeito a isso. Um truque retórico usado nos discursos públicos mascara o debate. Está na expressão mass surveillance, difícil de traduzir, mas que fica em algum lugar entre “vigilância em massa” e “espionagem em massa”. Basta pensar no Grande Irmão de George Orwell.
Legalmente, surveillance é espionagem. Escutas telefônicas, quebra de sigilo bancário e fiscal, câmeras secretas no interior de apartamentos privados. Democracias jamais permitem o uso maciço desse tipo de expediente. Juízes podem, porém, autorizar um ou outro desses instrumentos, contra indivíduos específicos, quando convencidos pela polícia ou por promotores de que há risco de crimes ou para investigá-los.
Mas, se esse é o sentido legal de surveillance, não é o que boa parte dos falantes de inglês compreende. No uso corrente da língua, qualquer tipo de vigilância entra no jogo. Inclusive as legais. Há câmeras de segurança espalhadas nas ruas, e as imagens podem ser compradas ou são publicamente distribuídas. Câmeras de trânsito são públicas. Nos Estados Unidos, o registro eleitoral de cada cidadão, e em que partido é registrado, é igualmente público e acessível. Assinaturas de revistas e jornais, hábitos de compra, níveis de endividamento. Há muita informação espalhada sobre cada um de nós. Informação que não é, necessariamente, secreta. E, lá, não há uma Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Até aqui, o fato de esses grandes bancos de dados existirem nunca foi tão preocupante. Com IA, isso muda radicalmente. A versão pública do Claude ou do ChatGPT não permitem trabalhar com quantidade tão colossal de dados. Mas a tecnologia vendida para empresas e governos pode permitir. Com esses dados públicos, ainda mais se incluído o que publicamos em redes sociais, é possível criar um perfil muito detalhado de cada cidadão. É possível tirar conclusões sobre onde somos frágeis, sobre o que nos mobiliza emocionalmente. Um ditador pode criar uma nota de “confiabilidade” para cada um.
Esse debate está no centro da briga entre Pentágono e Anthropic em torno do contrato. A empresa incluiu uma cláusula vetando o uso da tecnologia para construir esses perfis detalhados. O Pentágono pediu para tirá-la. A OpenAI entrou no lugar e concedeu essa licença às Forças Armadas americanas. Escondeu-se atrás da definição legal da expressão. O governo Trump não quebrará sigilo em massa. Seria flagrantemente ilegal mesmo sem contrato. Seu plano é outro. É partir para a espionagem usando bases públicas ou comerciais. Espionagem de seus próprios cidadãos.
Que fique claro: ninguém na Casa Branca afirmou que esse é o objetivo final. Sabemos de concreto apenas que o governo escolheu ameaçar a própria existência da Anthropic se ela não permitisse esse uso bastante específico de seu modelo. O CEO, Dario Amodei, preferiu reiterar o “não” e partir para o embate político e jurídico. Recorreu à Justiça. Sam Altman, da OpenAI, topou as condições. É um ponto de atenção relevante.
No Brasil, a LGPD confere a nós, cidadãos, uma proteção que os americanos não têm. Mas, ainda assim, um presidente que quiser coletar bases de dado vazadas na internet e reuni-las a bases estatais como Imposto de Renda, perfil de endividamento ou histórico policial, somando câmeras de vigilância e trânsito, pode. Ele constrói um Grande Irmão na hora que desejar.
Jair Bolsonaro construiu uma Abin paralela e preparou relatórios extensos a respeito de adversários. Não foi muito longe por incompetência, mas também porque jamais foi trivial cruzar dados de duzentos e tantos milhões de pessoas. O próximo presidente poderá fazer isso com ajuda da IA. Se a OpenAI não vender a tecnologia, a xAI de Elon Musk vende. Na pior das hipóteses, o modelo da Meta pode ser usado livremente.
Pedro Doria
A guerra tensa entre Anthropic, a empresa que criou o modelo Claude de inteligência artificial (IA), e a OpenAI, que criou o GPT, diz respeito a isso. Um truque retórico usado nos discursos públicos mascara o debate. Está na expressão mass surveillance, difícil de traduzir, mas que fica em algum lugar entre “vigilância em massa” e “espionagem em massa”. Basta pensar no Grande Irmão de George Orwell.
Legalmente, surveillance é espionagem. Escutas telefônicas, quebra de sigilo bancário e fiscal, câmeras secretas no interior de apartamentos privados. Democracias jamais permitem o uso maciço desse tipo de expediente. Juízes podem, porém, autorizar um ou outro desses instrumentos, contra indivíduos específicos, quando convencidos pela polícia ou por promotores de que há risco de crimes ou para investigá-los.
Mas, se esse é o sentido legal de surveillance, não é o que boa parte dos falantes de inglês compreende. No uso corrente da língua, qualquer tipo de vigilância entra no jogo. Inclusive as legais. Há câmeras de segurança espalhadas nas ruas, e as imagens podem ser compradas ou são publicamente distribuídas. Câmeras de trânsito são públicas. Nos Estados Unidos, o registro eleitoral de cada cidadão, e em que partido é registrado, é igualmente público e acessível. Assinaturas de revistas e jornais, hábitos de compra, níveis de endividamento. Há muita informação espalhada sobre cada um de nós. Informação que não é, necessariamente, secreta. E, lá, não há uma Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Até aqui, o fato de esses grandes bancos de dados existirem nunca foi tão preocupante. Com IA, isso muda radicalmente. A versão pública do Claude ou do ChatGPT não permitem trabalhar com quantidade tão colossal de dados. Mas a tecnologia vendida para empresas e governos pode permitir. Com esses dados públicos, ainda mais se incluído o que publicamos em redes sociais, é possível criar um perfil muito detalhado de cada cidadão. É possível tirar conclusões sobre onde somos frágeis, sobre o que nos mobiliza emocionalmente. Um ditador pode criar uma nota de “confiabilidade” para cada um.
Esse debate está no centro da briga entre Pentágono e Anthropic em torno do contrato. A empresa incluiu uma cláusula vetando o uso da tecnologia para construir esses perfis detalhados. O Pentágono pediu para tirá-la. A OpenAI entrou no lugar e concedeu essa licença às Forças Armadas americanas. Escondeu-se atrás da definição legal da expressão. O governo Trump não quebrará sigilo em massa. Seria flagrantemente ilegal mesmo sem contrato. Seu plano é outro. É partir para a espionagem usando bases públicas ou comerciais. Espionagem de seus próprios cidadãos.
Que fique claro: ninguém na Casa Branca afirmou que esse é o objetivo final. Sabemos de concreto apenas que o governo escolheu ameaçar a própria existência da Anthropic se ela não permitisse esse uso bastante específico de seu modelo. O CEO, Dario Amodei, preferiu reiterar o “não” e partir para o embate político e jurídico. Recorreu à Justiça. Sam Altman, da OpenAI, topou as condições. É um ponto de atenção relevante.
No Brasil, a LGPD confere a nós, cidadãos, uma proteção que os americanos não têm. Mas, ainda assim, um presidente que quiser coletar bases de dado vazadas na internet e reuni-las a bases estatais como Imposto de Renda, perfil de endividamento ou histórico policial, somando câmeras de vigilância e trânsito, pode. Ele constrói um Grande Irmão na hora que desejar.
Jair Bolsonaro construiu uma Abin paralela e preparou relatórios extensos a respeito de adversários. Não foi muito longe por incompetência, mas também porque jamais foi trivial cruzar dados de duzentos e tantos milhões de pessoas. O próximo presidente poderá fazer isso com ajuda da IA. Se a OpenAI não vender a tecnologia, a xAI de Elon Musk vende. Na pior das hipóteses, o modelo da Meta pode ser usado livremente.
Pedro Doria
segunda-feira, 9 de março de 2026
Pouca imagnação
Um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados através da história esfumaçam-se na imaginação.
Albert Camus
O absurdo poder absoluto
Em meados de janeiro, em plena crise da Gronelândia, Donald Trump enviou uma carta ao primeiro-ministro da Noruega. Como lhe é habitual, o documento seguiu repleto de autoelogios, muitas inverdades e as usuais ameaças. Entre outras coisas, o Presidente dos EUA queixava-se do governo norueguês por este não lhe ter atribuído o Prémio Nobel da Paz – que, por acaso, é decidido pelo Comité Nobel e não pelo executivo de Oslo, o qual também não tem jurisdição na Gronelândia, que é um território autónomo da Dinamarca…
Ao sentir-se desrespeitado, Trump assinalou, nessa carta, uma conclusão que, conforme sublinhou, fez questão de tornar pública e que, agora, à luz dos últimos acontecimentos, merece ser lida com nova atenção: “Considerando que o seu país decidiu não me conceder o Prémio Nobel da Paz por ter impedido mais de oito guerras, já não me sinto obrigado a pensar apenas na paz, embora ela seja sempre predominante, mas agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América.”
Se ficámos a saber, desde a “perda” do Nobel, que Trump deixou de pensar na paz, agora subsistem muitas dúvidas sobre se ele pensa sequer acerca das guerras que inicia. Em especial, quando decidiu avançar para aquele que pode tornar-se o conflito mais violento dos últimos anos, no momento em que tinha representantes em negociações diplomáticas com o Irão, através de um ataque-surpresa, sem cumprir as leis dos EUA e, mais uma vez, a obliterar tudo aquilo em que assentou o direito internacional instituído nas últimas décadas. Mas não só: seguindo o mesmo guião já utilizado na subida das tarifas, Trump avançou com o maior envolvimento de meios militares da História recente sem procurar nenhum tipo de concertação com os países aliados, ao arrepio das normas democráticas e sem a mínima avaliação das consequências económicas que um conflito à escala regional no Médio Oriente implica. Apenas e só, a região do mundo mais decisiva para o atual sistema energético, um poderoso centro de capital financeiro com ramificações em vários pontos do planeta e, ainda por cima, um espaço crítico para o comércio marítimo mundial.
A ação militar desencadeada na manhã de 28 de fevereiro teve um único e claro motivo: decapitar a liderança da República Islâmica e, em seguida, provocar uma mudança de regime – tarefa que, no entanto, terá de caber ao já martirizado povo iraniano. E algo neste ponto também parece evidente: mais do que do interesse dos EUA, essa ação é, há muito, um dos objetivos principais de Israel – o único aliado que Trump parece respeitar e com quem deseja colaborar ativamente.
Ainda é cedo para se fazer qualquer previsão sobre a duração e a dimensão desta guerra. Mas existem cada vez mais razões para desconfiar de que Donald Trump entrou nela com a mesma sobranceria com que Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia: convencido de que tudo se resolveria rapidamente e, por isso, sem avaliar convenientemente todas as consequências. Embora o líder espiritual Ali Khamenei possa ter sido eliminado à mesma velocidade de Nicolás Maduro, o Irão não é a Venezuela. E o barril de pólvora do Médio Oriente tem, ao contrário daquilo que sucede na América do Sul, o poder de incendiar o mundo, fazer renascer uma série de conflitos adormecidos, atiçar os vários poderes regionais que ali se cruzam e lançar ondas de choque que atingem todas as economias do planeta – com reflexos no custo de vida e nas carteiras de milhares de milhões de pessoas.
É exatamente para evitar decisões individuais deste tipo, como a de iniciar uma guerra sem uma declaração nem uma aprovação prévia do Parlamento, que as democracias criaram mecanismos de controlo dos seus governantes. A erosão do sistema democrático americano, que Donald Trump tem laboriosamente aplicado com os seus apoiantes MAGA, tem esta consequência: um Presidente que se acha dono e senhor de um poder absoluto, capaz de decidir sem freios nem contrapesos, que procura controlar os tribunais, os serviços públicos e até os fluxos de informação, como se tivesse um mandato divino e, por isso mesmo, inquestionável.
No meio de todo esse absurdo de absolutismo no exercício do poder, Trump acaba por revelar a ausência da sua estratégia e, pior ainda, de qualquer plano. Os sinais que deu nos primeiros dias foram claros: tão depressa disse que os ataques iriam demorar dias como semanas; afirmou que tinha substitutos pensados para o lugar de Khamenei, mas acabou por reconhecer que todos eles foram mortos também nos primeiros ataques; adiantou que estava disponível para conversar com o novo poder iraniano, mas logo a seguir ameaçou com bombardeamentos ainda mais fortes e “nunca vistos”. O único plano de Donald Trump é o de demonstrar, perante todas as nações, que é o comandante do Exército mais poderoso do planeta, que possui um poder absoluto absurdo e sem igual. E isso só diz uma coisa: que ele não é de confiança.
Ao sentir-se desrespeitado, Trump assinalou, nessa carta, uma conclusão que, conforme sublinhou, fez questão de tornar pública e que, agora, à luz dos últimos acontecimentos, merece ser lida com nova atenção: “Considerando que o seu país decidiu não me conceder o Prémio Nobel da Paz por ter impedido mais de oito guerras, já não me sinto obrigado a pensar apenas na paz, embora ela seja sempre predominante, mas agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América.”
Se ficámos a saber, desde a “perda” do Nobel, que Trump deixou de pensar na paz, agora subsistem muitas dúvidas sobre se ele pensa sequer acerca das guerras que inicia. Em especial, quando decidiu avançar para aquele que pode tornar-se o conflito mais violento dos últimos anos, no momento em que tinha representantes em negociações diplomáticas com o Irão, através de um ataque-surpresa, sem cumprir as leis dos EUA e, mais uma vez, a obliterar tudo aquilo em que assentou o direito internacional instituído nas últimas décadas. Mas não só: seguindo o mesmo guião já utilizado na subida das tarifas, Trump avançou com o maior envolvimento de meios militares da História recente sem procurar nenhum tipo de concertação com os países aliados, ao arrepio das normas democráticas e sem a mínima avaliação das consequências económicas que um conflito à escala regional no Médio Oriente implica. Apenas e só, a região do mundo mais decisiva para o atual sistema energético, um poderoso centro de capital financeiro com ramificações em vários pontos do planeta e, ainda por cima, um espaço crítico para o comércio marítimo mundial.
A ação militar desencadeada na manhã de 28 de fevereiro teve um único e claro motivo: decapitar a liderança da República Islâmica e, em seguida, provocar uma mudança de regime – tarefa que, no entanto, terá de caber ao já martirizado povo iraniano. E algo neste ponto também parece evidente: mais do que do interesse dos EUA, essa ação é, há muito, um dos objetivos principais de Israel – o único aliado que Trump parece respeitar e com quem deseja colaborar ativamente.
Ainda é cedo para se fazer qualquer previsão sobre a duração e a dimensão desta guerra. Mas existem cada vez mais razões para desconfiar de que Donald Trump entrou nela com a mesma sobranceria com que Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia: convencido de que tudo se resolveria rapidamente e, por isso, sem avaliar convenientemente todas as consequências. Embora o líder espiritual Ali Khamenei possa ter sido eliminado à mesma velocidade de Nicolás Maduro, o Irão não é a Venezuela. E o barril de pólvora do Médio Oriente tem, ao contrário daquilo que sucede na América do Sul, o poder de incendiar o mundo, fazer renascer uma série de conflitos adormecidos, atiçar os vários poderes regionais que ali se cruzam e lançar ondas de choque que atingem todas as economias do planeta – com reflexos no custo de vida e nas carteiras de milhares de milhões de pessoas.
É exatamente para evitar decisões individuais deste tipo, como a de iniciar uma guerra sem uma declaração nem uma aprovação prévia do Parlamento, que as democracias criaram mecanismos de controlo dos seus governantes. A erosão do sistema democrático americano, que Donald Trump tem laboriosamente aplicado com os seus apoiantes MAGA, tem esta consequência: um Presidente que se acha dono e senhor de um poder absoluto, capaz de decidir sem freios nem contrapesos, que procura controlar os tribunais, os serviços públicos e até os fluxos de informação, como se tivesse um mandato divino e, por isso mesmo, inquestionável.
No meio de todo esse absurdo de absolutismo no exercício do poder, Trump acaba por revelar a ausência da sua estratégia e, pior ainda, de qualquer plano. Os sinais que deu nos primeiros dias foram claros: tão depressa disse que os ataques iriam demorar dias como semanas; afirmou que tinha substitutos pensados para o lugar de Khamenei, mas acabou por reconhecer que todos eles foram mortos também nos primeiros ataques; adiantou que estava disponível para conversar com o novo poder iraniano, mas logo a seguir ameaçou com bombardeamentos ainda mais fortes e “nunca vistos”. O único plano de Donald Trump é o de demonstrar, perante todas as nações, que é o comandante do Exército mais poderoso do planeta, que possui um poder absoluto absurdo e sem igual. E isso só diz uma coisa: que ele não é de confiança.
'Não à guerra' e algo mais
Nenhuma guerra jamais resolveu nada em lugar nenhum; no máximo, reorganizou o cenário geopolítico, redefiniu as relações de poder e estabeleceu novas fronteiras — as cicatrizes da história. O que não é pouca coisa, mas depois das atrocidades do século XX, da escalada nuclear e da destruição absoluta que poderia dizimar toda a humanidade, parecia que tínhamos chegado a um consenso unânime de que existem outras maneiras de resolver conflitos.
Um consenso, porém, desmentido pela existência de violência em muitos países durante esse período que chamamos de paz. Paz de quem? Quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia, repetiu-se à exaustão que era a primeira guerra em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial, como se a Bósnia pertencesse a outro continente .
Os conflitos que ocorrem em outros países também não conseguem destruir essa ilusão tão prevalente no imaginário ocidental. O slogan “não à guerra”, nesse sentido, parece uma proclamação maleável brandida de acordo com os interesses do momento. Muitos pacifistas não são pacifistas em todos os aspectos. E a atenção da mídia também parece ser condicionada por interesses variáveis, e não pela gravidade dos conflitos.
Play Video
Eu também digo “não à guerra”, mas não apenas à guerra armada e imperialista, e sim às invasões estrangeiras que ocupam países soberanos, camuflando interesses econômicos sob supostos princípios democráticos (rio enquanto escrevo isso, pensando em Donald Trump). Digo também “não à guerra” travada contra os cidadãos de ditaduras tão atrozes quanto a do Irã. Ouvimos isso das vítimas que levantam suas vozes, pagando um preço terrível: prisão, tortura, pena de morte . O que o Ocidente fez nas últimas décadas para contribuir para essa paz, que é a liberdade e o respeito aos direitos humanos? Para minha vergonha como cidadão europeu, creio que muito pouco. Sanções para armas nucleares, mas nenhuma teocracia misógina é sancionada por maltratar mulheres. Basta ver as boas relações que a Espanha mantém com Marrocos (onde o adultério ainda é crime, onde as filhas herdam metade do que os filhos herdam e o casamento infantil ainda existe) ou com a Arábia Saudita (onde dançar em um vídeo do TikTok pode levar à prisão).
São sempre os homens, de terno escuro e amordaçados pela formalidade da diplomacia, que falam de uma paz que ignora a paz das mulheres. Nunca falam daquela guerra. É a guerra normal, aquela que sempre existiu.
Um consenso, porém, desmentido pela existência de violência em muitos países durante esse período que chamamos de paz. Paz de quem? Quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia, repetiu-se à exaustão que era a primeira guerra em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial, como se a Bósnia pertencesse a outro continente .
Os conflitos que ocorrem em outros países também não conseguem destruir essa ilusão tão prevalente no imaginário ocidental. O slogan “não à guerra”, nesse sentido, parece uma proclamação maleável brandida de acordo com os interesses do momento. Muitos pacifistas não são pacifistas em todos os aspectos. E a atenção da mídia também parece ser condicionada por interesses variáveis, e não pela gravidade dos conflitos.
Play Video
Eu também digo “não à guerra”, mas não apenas à guerra armada e imperialista, e sim às invasões estrangeiras que ocupam países soberanos, camuflando interesses econômicos sob supostos princípios democráticos (rio enquanto escrevo isso, pensando em Donald Trump). Digo também “não à guerra” travada contra os cidadãos de ditaduras tão atrozes quanto a do Irã. Ouvimos isso das vítimas que levantam suas vozes, pagando um preço terrível: prisão, tortura, pena de morte . O que o Ocidente fez nas últimas décadas para contribuir para essa paz, que é a liberdade e o respeito aos direitos humanos? Para minha vergonha como cidadão europeu, creio que muito pouco. Sanções para armas nucleares, mas nenhuma teocracia misógina é sancionada por maltratar mulheres. Basta ver as boas relações que a Espanha mantém com Marrocos (onde o adultério ainda é crime, onde as filhas herdam metade do que os filhos herdam e o casamento infantil ainda existe) ou com a Arábia Saudita (onde dançar em um vídeo do TikTok pode levar à prisão).
São sempre os homens, de terno escuro e amordaçados pela formalidade da diplomacia, que falam de uma paz que ignora a paz das mulheres. Nunca falam daquela guerra. É a guerra normal, aquela que sempre existiu.
Um caso espetacular de ascensão política sem ascensão social
Manchete de uma chamada num desses canais eletrônicos, em dias passados, dizia que um brasileiro fizera um discurso em inglês, em Nova York, e fora aplaudido de pé. Dava a entender que o aplauso era pelo inglês, e não pelo conteúdo do discurso.
Tive minha estreia na língua inglesa do modo mais estranho e humilhante. Foi pelo fim da década de 1940, quando minha família morava na roça, em Guaianases. Eventualmente vínhamos a São Paulo de trem. Na entrada da estação do Norte, no Brás, havia uma banca de jornal que exibia uma revista americana, com belas fotografias em preto e branco.
Perguntei ao jornaleiro quanto custava a revista Life. “É Laife”, respondeu agressivamente. “Mas está escrito Life”, justifiquei-me. “Em inglês se escreve de um jeito e se fala de outro, seu tonto.”
Quase no fim de minha adolescência, o meu melhor amigo era um baiano de Campo Formoso. De uma das muitas famílias de migrantes atraídos pelo começo do “boom” da indústria automobilística na região do ABC. Muitíssima gente vinda do Nordeste e todas definidas como baianas.
Meu amigo fazia questão de diferençar os verdadeiros baianos, como ele, dos outros “baianos” que não o eram. Gostava de lembrar aos que o rodeavam nas conversas que Rui Barbosa era baiano, culto e inteligente, mais que a imensa maioria dos brasileiros. Tão inteligente que até fora à Inglaterra ensinar inglês aos ingleses.
E tinha mais: em 1907, fora enviado à Segunda Conferência de Paz, em Haia, como representante do Brasil. Opusera-se com veemência à exclusão dos países menos influentes por parte das grandes potências. Ficou conhecido como o Águia de Haia.
Aberta a sessão em que Rui deveria falar, deu-lhe o presidente a palavra. Ele perguntou: “Em que língua quereis que vos fale?”. “Fala na tua língua”, respondeu-lhe o presidente. Ele, então, fez um veemente discurso, em língua nheengatu, derivada do tupi antigo, sobre direito internacional. Falava inglês, mas era patriota. Tinha baixa estatura, mas o Romualdo esclarecia: “É nos pequenos frascos que estão as grandes essências”.
Aí por 1955, realizou-se em São Paulo o 7º Congresso Mundial de Evangelismo. Alguns amigos e eu resolvemos acompanhar os cultos em diferentes igrejas. Imaginávamos que aquilo seria o inesperado. Ouviríamos inglês ao vivo, falado por gente de carne e osso, as bocas se abrindo na nossa frente. Comentava-se que os americanos fariam milagres, coisa que jamais havíamos visto.
Acabamos descobrindo que o “mundial” do Congresso era principalmente texano. E todos os pregadores eram pentecostais. Além disso, foi uma descoberta, muitos deles falavam as bíblicas “línguas estranhas”, um dom do Espírito Santo. Não era para qualquer um. Para que os brasileiros entendessem as pregações, havia intérpretes que faziam a tradução do inglês para o português. Multidões compareceram aos diferentes templos em que tudo aquilo acontecia. Em alguns bairros, grandes tendas foram montadas, as tendas da cura divina.
Hoje sei que São Paulo chegara à pós-modernidade antes de chegar ao mundo moderno. Dava para entender o moto paulista muito difundido: “São Paulo não pode parar”. Pressa de chegar ao depois sem chegar ao antes.
Um senhor ao meu lado, numa dessas pregações, comentou com a mulher, depois que um dos americanos recebera o Espírito Santo e falara em língua estranha: “Agora, eu sei porque não sabemos o que Deus quer de nós: Deus fala inglês”.
Após um mês de americanos espalhando inglês pela cidade e pelo subúrbio, os texanos foram embora. Algum tempo depois, começaram a surgir nas igrejas evangélicas pregadores brasileiros que falavam português de periferia com acentuado sotaque, pretensamente americano. Outros, aos pares, dividiam o trabalho. Um fazia a voz do Espírito Santo, em língua estranha, e o outro, com sotaque inglês, “traduzia”.
Foi ficando claro para muitíssimos que Deus falava uma língua que podia ser traduzida. Diferentemente do Deus católico, que falava latim e não tinha tradução que só o padre sabia. Uma bobagem dessas talvez explique a expansão das igrejas e seitas evangélicas entre nós.
O brasileiro que falou inglês em Nova York e foi aplaudido de pé é um que está refugiado nos EUA, sujeito a prisão se voltar ao Brasil. É um desses casos notáveis de ascensão social. Anos atrás emigrara para a América e fora trabalhar como chapeiro de hambúrguer numa lanchonete. Ouvi uma de suas falas daquela época. Seu inglês era muito pobre. A notícia de agora tem suas conexões explicativas. No caso de que seu irmão seja eleito presente da República, ele irá para o Itamaraty. Será o Barão do Rio Branco da pós-modernidade. Um caso espetacular de ascensão política sem ascensão social.
José de Souza Martins
Tive minha estreia na língua inglesa do modo mais estranho e humilhante. Foi pelo fim da década de 1940, quando minha família morava na roça, em Guaianases. Eventualmente vínhamos a São Paulo de trem. Na entrada da estação do Norte, no Brás, havia uma banca de jornal que exibia uma revista americana, com belas fotografias em preto e branco.
Perguntei ao jornaleiro quanto custava a revista Life. “É Laife”, respondeu agressivamente. “Mas está escrito Life”, justifiquei-me. “Em inglês se escreve de um jeito e se fala de outro, seu tonto.”
Quase no fim de minha adolescência, o meu melhor amigo era um baiano de Campo Formoso. De uma das muitas famílias de migrantes atraídos pelo começo do “boom” da indústria automobilística na região do ABC. Muitíssima gente vinda do Nordeste e todas definidas como baianas.
Meu amigo fazia questão de diferençar os verdadeiros baianos, como ele, dos outros “baianos” que não o eram. Gostava de lembrar aos que o rodeavam nas conversas que Rui Barbosa era baiano, culto e inteligente, mais que a imensa maioria dos brasileiros. Tão inteligente que até fora à Inglaterra ensinar inglês aos ingleses.
E tinha mais: em 1907, fora enviado à Segunda Conferência de Paz, em Haia, como representante do Brasil. Opusera-se com veemência à exclusão dos países menos influentes por parte das grandes potências. Ficou conhecido como o Águia de Haia.
Aberta a sessão em que Rui deveria falar, deu-lhe o presidente a palavra. Ele perguntou: “Em que língua quereis que vos fale?”. “Fala na tua língua”, respondeu-lhe o presidente. Ele, então, fez um veemente discurso, em língua nheengatu, derivada do tupi antigo, sobre direito internacional. Falava inglês, mas era patriota. Tinha baixa estatura, mas o Romualdo esclarecia: “É nos pequenos frascos que estão as grandes essências”.
Aí por 1955, realizou-se em São Paulo o 7º Congresso Mundial de Evangelismo. Alguns amigos e eu resolvemos acompanhar os cultos em diferentes igrejas. Imaginávamos que aquilo seria o inesperado. Ouviríamos inglês ao vivo, falado por gente de carne e osso, as bocas se abrindo na nossa frente. Comentava-se que os americanos fariam milagres, coisa que jamais havíamos visto.
Acabamos descobrindo que o “mundial” do Congresso era principalmente texano. E todos os pregadores eram pentecostais. Além disso, foi uma descoberta, muitos deles falavam as bíblicas “línguas estranhas”, um dom do Espírito Santo. Não era para qualquer um. Para que os brasileiros entendessem as pregações, havia intérpretes que faziam a tradução do inglês para o português. Multidões compareceram aos diferentes templos em que tudo aquilo acontecia. Em alguns bairros, grandes tendas foram montadas, as tendas da cura divina.
Hoje sei que São Paulo chegara à pós-modernidade antes de chegar ao mundo moderno. Dava para entender o moto paulista muito difundido: “São Paulo não pode parar”. Pressa de chegar ao depois sem chegar ao antes.
Um senhor ao meu lado, numa dessas pregações, comentou com a mulher, depois que um dos americanos recebera o Espírito Santo e falara em língua estranha: “Agora, eu sei porque não sabemos o que Deus quer de nós: Deus fala inglês”.
Após um mês de americanos espalhando inglês pela cidade e pelo subúrbio, os texanos foram embora. Algum tempo depois, começaram a surgir nas igrejas evangélicas pregadores brasileiros que falavam português de periferia com acentuado sotaque, pretensamente americano. Outros, aos pares, dividiam o trabalho. Um fazia a voz do Espírito Santo, em língua estranha, e o outro, com sotaque inglês, “traduzia”.
Foi ficando claro para muitíssimos que Deus falava uma língua que podia ser traduzida. Diferentemente do Deus católico, que falava latim e não tinha tradução que só o padre sabia. Uma bobagem dessas talvez explique a expansão das igrejas e seitas evangélicas entre nós.
O brasileiro que falou inglês em Nova York e foi aplaudido de pé é um que está refugiado nos EUA, sujeito a prisão se voltar ao Brasil. É um desses casos notáveis de ascensão social. Anos atrás emigrara para a América e fora trabalhar como chapeiro de hambúrguer numa lanchonete. Ouvi uma de suas falas daquela época. Seu inglês era muito pobre. A notícia de agora tem suas conexões explicativas. No caso de que seu irmão seja eleito presente da República, ele irá para o Itamaraty. Será o Barão do Rio Branco da pós-modernidade. Um caso espetacular de ascensão política sem ascensão social.
José de Souza Martins
Assinar:
Comentários (Atom)






















.jpg?itok=Z4ENK_hs)
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/V/S/m0BYouRUeHtEtfmoGg9Q/social-06mar.jpg)