segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Para a minha filha, deixarei a democracia!

Minha filha,

Na madrugada de 25 de outubro, a polícia avançou sobre as pessoas acampadas no Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, em protesto pelo direito à habitação. Houve bastonadas, cães, feridos e detenções. A PSP invocou a necessidade de repor a legalidade. Mas não podemos deixar de perguntar o que acontece a uma democracia quando quem reclama direitos acaba a enfrentar a força do Estado.

Foi a pensar em ti que vi estas imagens. No mundo em que vais nascer. Na facilidade com que nos habituamos a ver direitos postos em causa, governos a aprovarem medidas regressivas e pessoas tratadas como um problema quando tentam denunciar os problemas que não se conseguem resolver.

Porque a habitação também é uma questão de liberdade feminina. É difícil falar de igualdade quando uma mulher não tem condições económicas para sair de uma relação abusiva, quando a precariedade a obriga a adiar a maternidade ou quando a falta de uma casa lhe retira a possibilidade de construir uma vida autónoma. Sem independência económica e sem um lugar seguro a que possa chamar seu, a liberdade de uma mulher pode existir na lei e faltar-lhe na vida.

E este é um dos meus medos, minha filha. Porque serei mãe de uma menina. Porque tu és metade do mundo e não quero que passes a vida a lutar para conquistar aquilo que deveria ser teu: o direito a escolher, a dizer não, a ocupar o teu lugar e a decidir o teu próprio destino.

Assusta-me deixar-te um mundo onde ser mulher ainda signifique ter de provar mais, aceitar menos e resistir sempre. Onde os direitos conquistados pelas mulheres não sejam garantias, mas batalhas que cada geração tem de voltar a travar.

É também por isso que a democracia importa. Não se resume ao voto, nem se mede apenas pela legalidade das decisões de quem governa. Mede-se na capacidade de proteger a dignidade humana, de permitir o protesto e de garantir que ninguém tem de escolher entre a sua segurança, a sua liberdade e o direito a viver com dignidade.

Minha filha, não quero deixar-te um mundo perfeito. Quero deixar-te um mundo onde não precises de pedir licença para ser livre, nem de conquistar todos os dias o direito a ter direitos.

Que herdes a coragem das mulheres que vieram antes de ti, mas não a obrigação de travar eternamente as mesmas batalhas.

Que tenhas uma casa onde possas ser livre, uma voz que possas usar sem medo e uma democracia que não te peça silêncio em troca de segurança.

Talvez seja essa a responsabilidade maior de te amar: não aceitar como inevitável o mundo que te deixo.

Novo coquetel Molotov

O perigo da IA cruzado com a extrema-direita, que não tem limites morais, a ambição desmesurada dos financiadores, dos construtores de armas, que estão a fazer fortunas extraordinárias com o que se passa no mundo, está a criar um inimigo que não conseguimos combater
Alberto Manguel

Bolsonaristas enrolam jornais com roteiro típico de Steve Bannon

"O jornalista precisa investigar. Ficar ouvindo fontes sem apurar é burrice. Flávio Bolsonaro não fugiu sozinho, a imprensa ajudou." A mensagem de um leitor resume outras manifestações críticas ao que teria sido o papel dos veículos de comunicação na estratégia montada para que o senador do PL saísse do Brasil, após a Polícia Federal pedir e o ministro Alexandre de Moraes permitir a apreensão do passaporte do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial.

Se alguém não seguiu os fatos, aí vai: tudo começou à 1h da madrugada da terça-feira, quando o site argentino Infobae afirmou que Flávio partiria para os EUA em um jato particular que decolaria às 2h de Porto Iguaçu. A partir daí, a fuga e algumas histórias sobre a fuga se desenrolaram paralelamente.

O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez

Logo nas primeiras horas do "Big Brother Flávio", o coordenador da campanha presidencial, o senador Rogério Marinho (PL-RN), negou que o candidato tivesse deixado o país. Um piloto afirmou à Folha que Flávio estaria na lista de passageiros do avião das 2h. Aliados do senador declararam que ele havia fugido do Brasil para a Flórida e a PF estaria fazendo rastreamento nos pontos de fronteira "para verificar se a informação é verdadeira".


Cerca de duas horas depois, outro texto do jornal cravava que Flávio "já" estaria "a caminho" dos EUA e que o nome na lista da madrugada era "um despiste".

Já à 1h02 da quarta (28), a Folha noticiou que Flávio "estava escondido na Argentina e acaba de decolar para os EUA, diz canal argentino", atribuindo a informação ao canal de TV C5N. Às 2h06, porém, publicou que ele já estaria desembarcando nos EUA, "diz jornal". A informação era do Financial Times.

Quando o senador pousou em Miami às 10h23, com fotos e vídeos, viu-se que o canal argentino estava certo. O avião era o Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, o mesmo que o Infobae havia revelado que o levaria.

O vaivém não ficou bom para os jornais brasileiros e nem para alguns dos veículos gringos. A estratégia do "despiste" mostra também as armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, desse declaratório em "off": os "aliados", o "entorno" e outros coletivos usados para passar recados via imprensa.

Alguns se insurgiram contra as fontes, mas a responsabilidade pelas publicações sempre é dos jornalistas, é claro. O Globo conta que Eduardo Bolsonaro capitaneou mentiras e desinformação para ajudar na fuga do irmão e que teria sido o ex-policial militar André Porciuncula a fonte que disse a jornalistas que o senador já estava, antes de decolar, em voo para Miami.

O ex-PM, aliás, apareceu em reportagem da Folha sobre o que seria o Ministério da Cultura de Mário Frias. Vale lembrar que vários leitores criticaram a frequência e a estridência dos textos pós-primeiro turno que especulavam sobre a composição do "eventual governo Flávio".

A confusão não se resumia às fontes anônimas ou quase anônimas. Estava também no contexto e no próprio sigilo da decisão sobre o passaporte, revelada pelo candidato derrotado no vídeo da segunda-feira (26) em que afirmou que não sairia do país.

Se a patacoada de Flávio Bolsonaro está longe de ser esclarecida, permanecem também nebulosas questões envolvendo PF e STF, como "PF apontou risco risco concreto de Flávio Bolsonaro fugir do país ao pedir apreensão de passaporte a Moraes" e "restrições sobre passaportes não fazem de Flávio Bolsonaro foragido, diz PF".

Saiu barata também a reação de correligionários de Flávio. O governador Tarcísio de Freitas, que estava acompanhando a apuração com o candidato do PL, foi um dos integrantes da cúpula da campanha que se disseram surpresos com a fuga. Em entrevista ao Estado, porém, Tarcísio afirmou que aconselhou Flávio a não sair do Brasil, embora continuasse negando que soubesse do plano.

Mobilizando o noticiário com seu itinerário, Flávio Bolsonaro se manteve no centro das atenções ao longo de toda a semana da vitória de Lula (PT). Quando seu desembarque poderia ter arrefecido a conversa, veio a carta que combinava a forma trapalhona com o fundo de teor golpista.

O sucesso midiático dos erros, recuos e justificativas para eles ("ChatGPT") mostram como a estratégia "flood the zone" de Steve Bannon continua valendo para a carta e a fuga. O ideólogo trumpista que agora insiste na vitória de Flávio e na narrativa de "fraude" foi quem orientou, ainda durante o primeiro mandato de Trump, abandonar o Partido Democrata como adversário: "
O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma, e conseguiremos fazer as nossas coisas. Bang, bang, bang".

Edinho sobre Lula: 'Qualquer, off sobre a economia é falso'

Estimulado pelas notícias, sempre em “off”, claro!, de que Lula já teria tomado algumas decisões na área econômica, liguei para o presidente do PT, Edinho Silva. Quis saber o que havia de verdade e por que, depois de uma reação fabulosa nas urnas, o partido e o presidente estariam se atrapalhando com informações desencontradas. Bem, a resposta dele não me surpreende. Os mesmos especuladores que decretaram o fim de Lula e tentaram normalizar um eventual governo afascistado de Flávio Bolsonaro, o agora fugitivo — que queria a Presidência apenas como instrumento de impunidade —, continuam em ação. Até parece que o predente reeleito depende da chancela desses sujeitos para exercer o quarto mandato.

A questão também diz respeito ao jornalismo. Existe um personagem com a ambição de mandar no Brasil: a fonte ouvida em “off”, geralmente apresentada como “interlocutora” de alguém com poder de decisão. A falta de escrúpulo chega a tal ponto — e, infelizmente, falo de prática corrente em setores da imprensa — que se revelam “conversas” privadas entre duas pessoas, ainda que ambas neguem o conteúdo... Aí basta escrever algo assim: “Esta coluna (ou assemelhado) conversou com três fontes que asseguram, sob condição de anonimato, que tal coisa aconteceu…”


Bem, isso equivaleria à prova de que Deus existe, não é? Nem São Tomás de Aquino, o homem mais inteligente do mundo, conseguiu tal proeza… Se “A” conversa com “B”, sem terceira pessoa, e se ambos negam ter tratado de determinado assunto, como podem fontes anônimas que não estavam presentes atestar o contrário? Restaria, então, comprovar o fato, a verdadeira prova dos nove. Ela também não aparece.

Perguntei ao presidente do PT, para resposta em “on”, o que há de verdade na algaravia que anda por aí. Sua resposta:

“Absolutamente ninguém está autorizado a falar em nome do presidente Lula nesse processo de transição para seu próximo mandato. Qualquer ‘off’ tem de ser tratado como plantação de notícias falsas, prática inaceitável, principalmente quando se trata de política econômica. Isso interessa a quem aposta contra o governo e o futuro do Brasil.”

Antes, Edinho já havia publicado nas redes o seguinte texto:

“As especulações na área econômica não colaboram com o país e só fazem o jogo dos especuladores, dos oportunistas do mercado, aqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país. O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan."
Edinho Silva, presidente do PT Nacional

Volto. As apostas estavam feitas. O povo deu uma grande rasteira em quem confundiu a própria torcida com os fatos. Os derrotados se organizam agora para impor ao presidente sua agenda, como se ele lhes devesse a eleição — desta feita, diga-se, foi mesmo o movimento progressista que acordou.

As redações deveriam respeitar um pouco mais leitores, telespectadores, ouvintes e internautas. O jornalismo de bastidor, os “offs”, as falas que precisam ser entendidas nas entrelinhas… Tudo isso continua essencial para que se chegue à verdade possível. Desde que nada disso esteja a serviço de quem tenta definir preços na economia e governar em lugar daquele que foi eleito.

É preciso cuidado para que tal prática, a pretexto de buscar a tal verdade, não sirva de mero instrumento da especulação e da mentira interessada.

Do outro lado do Atlântico, um cravo pela democracia brasileira

Um acontecimento histórico surpreendente marcou a segunda volta das eleições presidenciais brasileiras: a vitória popular perante os grandes conglomerados de comunicação social, as big techs, a elite empresarial da Avenida Faria Lima, os setores evangélicos neopentecostais e a extrema-direita, representada pelo bolsonarismo. E importa acrescentar: foi também uma vitória contra a interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral, numa tentativa de pôr em causa a soberania nacional, e contra a parcialidade da Presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em favor de um dos candidatos.

O dia das eleições ficou marcado pelo boicote aos transportes públicos em algumas cidades do país, numa clara tentativa de golpe contra a democracia, destinada a impedir os brasileiros de exercerem o seu direito de cidadania. Felizmente, os responsáveis por essa iniciativa não conseguiram travar a força da população. Assistiu-se, em vários pontos do país, a uma comovente união de gerações contra as forças obscurantistas da extrema-direita.


Os jovens e os estudantes mobilizaram-se nas ruas e nas redes sociais, enquanto os mais velhos se deslocaram às urnas, acompanhados pelos mais novos. Que imagens emocionantes as dos filhos e netos a levarem ao colo os pais e avós, muitos deles debilitados pela idade avançada ou por doenças crónicas.

Esta foi a resposta das urnas às provocações do então candidato Flávio Bolsonaro, que troçou da idade de Lula da Silva, pôs em causa a sua lucidez e fez comentários sobre a sua voz rouca, alterada pelo cancro da laringe que o tinha afetado. Quando, durante o debate eleitoral, fez uma observação infeliz sobre os nove dedos de Lula, atingiu também as pessoas com deficiência e os trabalhadores que sofreram amputações em acidentes de trabalho. A resposta ao preconceito chegou pelas urnas, com uma diferença superior a quatro milhões de votos a favor de Lula.

Foi uma vitória que ficará na memória! Uma verdadeira celebração da cidadania, expressa também na diminuição da abstenção e dos votos brancos e nulos. A maioria dos eleitores quis demonstrar, através do voto, a sua oposição a qualquer tentativa de golpe e a sua disposição para defender a Constituição e o Estado de Direito democrático.

É inegável que André Janones, deputado federal pelo estado de Minas Gerais, teve um papel determinante nas redes sociais e nas plataformas digitais, ao mobilizar uma comunidade virtual de mais de dez milhões de pessoas para contornar os mecanismos de distribuição de conteúdos da Meta. Mas esta vitória pertence a todos os que acreditam que ainda é possível construir um país mais justo e menos desigual. Foi uma vitória sem precedentes na história republicana do país.

O dia 25 de outubro de 2026 evoca a Revolução dos Cravos, ocorrida a 25 de abril de 1974, quando o povo português, em adesão ao Movimento das Forças Armadas (MFA), saiu à rua e contribuiu decisivamente para derrubar uma das mais longas ditaduras da história europeia.

Lembrei-me de Chico Buarque e da sua canção Tanto Mar, na qual celebra essa revolução em Portugal: “Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente, ainda guardo renitente, um cravo para mim…”. O cravo vermelho tornou-se, assim, o símbolo da vitória.

Viva a democracia e a soberania nacional! E, como historiador, termino este texto evocando a bela letra do Hino da Independência do Brasil (1824), que proclama: “Brava gente brasileira, longe vá temor servil, ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil!”

O futuro mora na porta ao lado

Podemos ter uma casa e não ter a quem bater à porta. Podemos conhecer as desgraças do mundo e ignorar o sofrimento do vizinho. Enquanto fazemos contas ao futuro, há uma pobreza que cresce sem entrar nas estatísticas: a de já não contarmos uns com os outros.

Há uma pergunta que devia acompanhar os anúncios das casas: se eu desaparecer durante três dias, alguém neste prédio dará pela minha falta? Entre os metros quadrados, a eficiência energética e a proximidade do metro, seria uma informação preciosa. Uma casa pode ter uma vista magnífica e ninguém que olhe por nós.

Perguntamos o que desejamos do futuro e respondemos com aquilo que nos falta: habitação, melhores salários, segurança, uma escola onde os filhos possam aprender sem sobressaltos. Queremos deixar de fazer contas no corredor do supermercado, de olhar para o preço dos combustíveis como quem consulta uma ameaça, de trabalhar um mês inteiro para descobrir que a vida ficou novamente por pagar. São desejos legítimos, urgentes. Porém, há uma falta que não aparece no recibo do vencimento: a de sentirmos que a nossa existência importa a alguém para lá da porta de casa.


Pascal Chabot oferece-nos uma imagem perturbadora para pensar esta condição. Em Nos Vies Encapsulées, interroga a vida nas “cápsulas”: espaços fechados, protegidos e conectados, onde a existência decorre numa relativa indiferença ao exterior. A proteção e a ligação ao mundo podem, afinal, coexistir com um profundo afastamento dele.

Basta seguir um dia possível. Saímos de casa, entramos no automóvel, chegamos ao trabalho, regressamos ao automóvel e voltamos a casa. Pelo caminho, um ecrã acompanha-nos, informa-nos, distrai-nos. Podemos atravessar a cidade inteira sem uma conversa que não tenha uma finalidade. No elevador, baixamos os olhos para o telemóvel. Temos acesso imediato a uma guerra distante e ignoramos que a vizinha do terceiro andar começou a jantar sozinha.

A cápsula é confortável. Permite escolher a temperatura, a música, as notícias, as pessoas a quem respondemos. Lá fora há o imprevisto: alguém demora, discorda, pede ajuda, traz uma tristeza para a qual não tínhamos reservado tempo. Aos poucos, podemos começar a tratar a presença dos outros como uma falha no funcionamento do nosso dia. A campainha toca e, antes da curiosidade, chega a irritação.

Não tenho saudades de uma aldeia imaginária onde toda a gente era boa. A proximidade também vigiava, sufocava, castigava a diferença. Houve vidas que precisaram de partir para poderem finalmente respirar. A privacidade foi uma conquista, mas essa conquista não nos obriga a escolher entre a intromissão e a indiferença. Podemos respeitar uma porta fechada e continuar disponíveis para quando ela se abrir.

É esse espírito de vizinhança que me inquieta ver enfraquecer. O bairro enquanto lugar onde alguém conhece o nosso nome, reconhece uma ausência, segura uma chave, acompanha uma criança. Uma convivência imperfeita, com discussões e embirrações, mas suficientemente humana para que o outro não se reduza ao barulho que faz através da parede.

Há uma diferença imensa entre morar ao lado de alguém e ser seu vizinho.

A crise da habitação também deve ser pensada a esta luz. Quando uma família é obrigada a abandonar o lugar onde construiu a vida, perde mais do que uma morada. Pode perder a pessoa que ia buscar o filho à escola numa emergência, o comerciante que estranhava a ausência, a amiga com quem repartia o peso dos dias. Essas relações não cabem nas caixas das mudanças. Uma cidade pode valorizar os seus imóveis enquanto empobrece a vida de quem a habita.

Também os salários baixos e o cansaço têm consequências na disponibilidade para os outros. Quem chega a casa exausto nem sempre consegue oferecer atenção. Quem receia não conseguir pagar o essencial pode começar a olhar para tudo o que é atribuído a alguém como se, a si, lhe tivesse sido retirado. Seria injusto chamar egoísmo a toda a forma de retraimento. Há pessoas que se fecham porque já não suportam mais uma solicitação. Precisam, elas próprias, de encontrar uma porta aberta.

É neste terreno que a política tem uma responsabilidade enorme. Pode ajudar-nos a compreender as causas de uma dificuldade ou entregar-nos um rosto sobre o qual descarregar a frustração. O imigrante, o professor, o funcionário público, o beneficiário de um apoio: alguém há de servir para tornar a nossa angústia mais simples. O vizinho converte-se em concorrente; o concorrente, em suspeito. Não nos tornámos todos inimigos, mas arriscamo-nos a aprender a viver como se o fôssemos.

E há uma estranha facilidade nessa aprendizagem. Para odiar uma categoria, basta uma frase. Para conhecer uma pessoa, é preciso tempo. É preciso descobrir que aquele homem de quem desconfiávamos também não dorme por causa de um filho, que aquela mulher tida por antipática cuida sozinha da mãe, que atrás de uma resposta brusca pode existir um dia que desconhecemos. Saber isto não resolve todos os conflitos. Impede, porém, que o julgamento ocupe sozinho o lugar do encontro.

Na escola, o futuro também se decide nessa disponibilidade. Queremos alunos capazes, autónomos, preparados. Convém perguntar se estamos a ajudá-los a reconhecer quando alguém precisa deles. Uma criança pode aprender a disputar cada décima e nunca descobrir a alegria de explicar uma matéria a um colega. Pode crescer rodeada de mensagens e não saber como se aproximar de quem passa o intervalo sozinho. A educação tem de deixar espaço para essa aprendizagem sem classificação: perceber que a presença de outra pessoa nos diz respeito.

Nada disto dispensa políticas públicas, casas acessíveis ou salários dignos. A solidariedade de uma escada não substitui um Estado responsável. Contudo, seria uma derrota conseguirmos melhores condições de vida e usá-las apenas para aperfeiçoar o nosso isolamento. Comprar uma cápsula maior, mais silenciosa, mais bem equipada, onde já não precisássemos de encontrar ninguém.

O que desejamos mesmo do futuro, afinal? Pela minha parte, desejo que ainda possa surpreender-nos uma visita. Que haja tempo para puxar uma cadeira sem consultar a agenda. Que possamos pedir ajuda antes de o desespero nos retirar a voz. E que a felicidade inclua esta confiança discreta: algures, perto de nós, existe alguém a quem podemos fazer falta.

A farsa de Miami e o herói de papelão

A primeira semana pós-vitória de Lula, reeleito para seu quarto mandato presidencial, infelizmente foi sequestrada por Flávio Bolsonaro com a rocambolesca fuga que empreendeu na direção à América de Donald Trump, temeroso de ser preso aqui por tudo o que fez de indecente ao longo de sua vida desde que, pela primeira vez, se elegeu deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

Parecia impossível que o Bolsonaro moderado, vacinado, fosse capaz de dar “uma banana” para os quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele no segundo turno. Goste-se ou não, ele era o escolhido para liderar a oposição ao governo Lula e, quem sabe, daqui a quatro anos, concorrer outra vez à Presidência da República. Não haveria outro nome da direita, até lá, a fazer-lhe sombra.


Em menos de sete dias, porém, Flávio jogou fora seu futuro por inépcia e covardia. Recusou-se a enfrentar as investigações da Justiça sobre os supostos crimes que cometeu, ao contrário de Lula quando condenado e preso pelo ex-juiz Sergio Moro. Lula julgou-se inocente, foi preso, amargou 580 dias em uma cela da Polícia Federal e acabou sendo solto pelo Supremo Tribunal Federal. Flávio escafedeu-se.

Não bastasse, ao desembarcar em Miami acompanhado da mulher e de suas filhas, protagonizou mais um episódio ridículo e vergonhoso ao lançar um manifesto em que, na primeira versão, se dizia “presidente do Brasil”, e na segunda, “líder”. Comparou-se ao general Charles de Gaulle, herói da resistência francesa à invasão de seu país pelos nazistas, e prometeu resgatar a democracia perdida pelo Brasil.

Embora negue, assim agiu aconselhado por seu pai, logo após ser intimado a entregar o passaporte. O documento era o que lhe garantia livre trânsito, e a iminência da retenção precipitou a debandada. Flávio era a esperança de Jair para recuperar sua liberdade por meio de um indulto presidencial. Essa foi a única razão plausível para que o pai o lançasse candidato. Os dois governariam juntos o país a partir de 5 de janeiro próximo. O sonho acabou.

O de Lula mal está começando, graças à determinação da maioria dos brasileiros de impor-lhe mais uma vitória. No primeiro turno, Lula perdeu para ele mesmo; ganhou o segundo de maneira inquestionável – e para sua própria surpresa. Agora, o presidente reeleito está em débito com todos os setores que o socorreram. Só não poderá decepcioná-los. Ai dele se, ao final, não for bem-sucedido. A porta da rua é a serventia da casa.

Virada histórica terá impacto nos próximos anos

Ainda é cedo para muitas conclusões. A extraordinária mobilização popular que tirou Lula de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no segundo certamente não será esquecida.

Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula. Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os eleitores de uma volta da família Bolsonaro.

Se isso for interpretado corretamente, nunca mais teremos um Bolsonaro disputando uma eleição majoritária. A direita poderá se libertar dessa liderança. Isso não significa que ela desaparecerá. Apenas ocupará um lugar mais modesto, compatível com seu nível de radicalidade.


No discurso da vitória, Lula mencionou a questão digital, que teve grande papel na sua vitória. Usará as redes sociais para se comunicar e, possivelmente, todo o governo seguirá seu caminho. Com o tempo, o governo perceberá que o meio digital precisa dominar todas as suas instâncias. Não se trata apenas de melhorar a imagem de governantes. Trata-se principalmente de tornar mais fácil a vida de cidadãos e empresas que necessitam dos serviços públicos.

A adesão da campanha à disputa nas redes sociais mostrou também que houve avanço nesse campo. Isso graças ao trabalho de André Janones, cuja eficácia reconheço, apesar de divergir de seus métodos.

No discurso da vitória, Lula mencionou o sucesso no combate ao desmatamento, sinal de que fortalecerá sua política ambiental. A derrota de Flávio Bolsonaro pelo menos espantou o fantasma de perdermos décadas de trabalho para construir uma das melhores legislações ambientais do planeta.

O perigo ainda existe num Congresso dominado por negacionistas. Mas o antídoto está aí: a união da minoria eleita com boas intenções com a opinião pública mobilizada pode dar uma chance de resistência vitoriosa. Foi assim na lei que, de certa forma, ameaçava privatizar as praias. Nada está totalmente decidido no ano que entra. Haverá luta, mas ela acontecerá num novo contexto.

Lula não falou mais das emendas parlamentares usadas pelo Congresso. Disse apenas que lançaria mão delas para financiar o transporte gratuito aos fins de semana. Sabemos que isso não é fácil. Para atenuar o impacto negativo das emendas, serão necessárias a vigilância da Justiça e forças-tarefas da Polícia Federal. São quase R$ 60 bilhões, indispensáveis para um plano de governo. Quando esse problema será resolvido? A mobilização histórica e a própria eleição se enfraquecem se o governo central não pode usar o Orçamento de forma racional.

Finalmente, o discurso da vitória fala nos data centers que o Brasil poderia atrair. Precisamos de um ou outro. Mas o paraíso dos data centers seria um inferno para os moradores, porque eles usam energia e água em grande quantidade. A resistência a eles é grande tema político nos Estados Unidos.

Tudo isso pode esperar. O governo se prepara neste fim de ano, e o fim das eleições é um alívio. Inclusive para nós que estamos saudosos de novos temas.

domingo, 1 de novembro de 2026

Pensamento do Dia

 


A polarização é menor do que se imaginava

A imagem que temos dos EUA é a de um país profundamente dividido, separado pela educação, pela classe social e pela cultura em dois campos rivais que não se suportam. Quando se observa Donald Trump em campanha eleitoral ou se dá uma olhada nas redes sociais, essa percepção é constantemente reforçada.

Mas as pesquisas, à medida que nos aproximamos das eleições de meio de mandato, sugerem que talvez tenhamos deixado passar algo muito importante sobre os EUA de hoje. Trata-se de um país em transformação, com grande parte da população inquieta quanto ao futuro e incerta quanto a quaisquer lealdades políticas. Em outras palavras, o país está politicamente em aberto.


Observe as mudanças em relação a apenas dois anos atrás. Em 2024, Trump conquistou 44% dos votos hispânicos, segundo o jornal The New York Times. Em uma pesquisa recente do Times, apenas 31% deles disseram que pretendem votar em um republicano para o Congresso nas eleições de terça-feira.

Há dois anos, Trump reduziu a enorme diferença dos republicanos entre os eleitores jovens para menos de 10 pontos porcentuais. Hoje, essa diferença é maior do que era durante a eleição de Barack Obama, em 2008, chegando a 44 pontos em favor dos democratas para o Congresso. Trata-se de mudanças radicais que raramente ocorrem em um período tão curto como dois anos.

Muitos estão trocando os partidos tradicionais por outros radicais, de direita e de esquerda

Mas o tempo acelerou, e movimentos que antes levavam anos agora podem levar meses, ou até mesmo semanas. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições presidenciais, atrás de Flávio Bolsonaro, por mais de 2 milhões de votos.

Em três semanas, Lula conseguiu convencer mais 10 milhões de eleitores a apoiá-lo, vencendo o segundo turno com facilidade. Nunca antes, nas eleições presidenciais brasileiras, o candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno havia conseguido mudar a opinião de um número suficiente de eleitores para vencer no segundo turno.

Vivemos em uma era de ansiedade, e isso significa que as pessoas estão inseguras quanto às filiações políticas. Por toda a Europa, elas abandonaram os partidos tradicionais em favor de novos, muitas vezes mais radicais, tanto à direita quanto à esquerda.

Em parte, isso é uma reação ao fato de que os partidos de centro, tanto de direita quanto de esquerda, falharam em lidar com algumas questões importantes, como a imigração ilegal e o colapso do sistema de asilo.

Eles eram vistos como relutantes em defender a assimilação à cultura dominante e como meros administradores de um Estado de bem-estar social que se tornara disfuncional e desgastado.

Mas, quando o resultado é a raiva da esquerda que se transforma em tumultos nas ruas, a direita historicamente se beneficia. Parece que esse padrão se repetirá na França, à medida que o país se aproxima de sua eleição presidencial, no próximo ano.

A verdade é que, hoje, mais pessoas têm lealdades políticas fracas. Uma pesquisa recente do Pew revelou que um quarto dos eleitores de Trump, em 2024, agora têm uma visão desfavorável do Partido Republicano.

Desses, cerca de metade afirmou que apoiaria seu candidato republicano ao Congresso nas eleições de meio de mandato. Quase metade da população se identifica como independente atualmente. E aqueles que tendem a apoiar um partido não o fazem necessariamente por profunda devoção a ele.

A pesquisa do Pew revelou que 64% dos independentes com tendência democrata citaram os danos causados pelas políticas republicanas como principal motivo de sua preferência, enquanto apenas 27% citaram os benefícios trazidos pelas políticas democratas.

Os independentes com tendência republicana apresentaram um padrão semelhante. De acordo com pesquisa recente do Wall Street Journal, 52% dos democratas queriam que seu partido se tornasse mais moderado ou permanecesse como está, enquanto apenas 37% queriam que ele se tornasse mais progressista.

Os problemas dos republicanos são, em grande parte, causados por eles mesmos. Os eleitores observam as tarifas de Trump e a guerra contra o Irã e as associam diretamente ao aumento dos preços e à crise de acessibilidade financeira.

Outros aplaudem o fechamento de fronteiras, mas não as batidas cruéis da Agência de Imigração e Alfândega (ICE) contra imigrantes sem documentação. Para outros, a natureza aberta e flagrante da corrupção no segundo mandato de Trump tem sido insuportável. Mas nada disso sugere que eles tenham virado as costas aos princípios fundamentais da agenda trumpista.

Um candidato trumpista que se mantivesse mais coerente com sua ideologia e não fosse narcisista nem corrupto poderia reconquistar esses republicanos desiludidos.

Há aqui uma oportunidade para o centro político, mas ela não se concretizará simplesmente afirmando que os adultos estão de volta e vão responsabilizar Trump e consertar o que ele estragou. Eles precisam de uma agenda positiva capaz de acalmar alguns dos temores em relação ao futuro.

A melhor agenda seria uma que incorporasse elementos da esquerda e da direita. Manter a fronteira fechada e reformular o sistema de asilo para que milhões de pessoas não possam usar brechas para entrar no país. Combater os altos custos da saúde utilizando novas tecnologias, mas também empregando o poder do governo para manter os custos baixos e ampliar o acesso (o que pode andar de mãos dadas, pois quanto mais pessoas saudáveis houver no sistema, mais viável ele se torna).

Transformar a educação – com o incentivo e a coordenação das escolas públicas – utilizando o poder da inteligência artificial para proporcionar a todos um tutor pessoal. Construir moradias em todos os lugares. Tributar mais o capital e menos os salários e a mão de obra.

Oferecer aos americanos uma agenda que eles considerem atraente, que lhes dê a sensação de que o futuro pode ser construído e de que eles terão um lugar nele. Fazer isso poderia garantir não apenas o voto deles na próxima semana, mas também sua lealdade por muitos anos.

Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista

Em 1932, o Código Eleitoral criou a cabine indevassável para encerrar o voto de cabresto. Noventa e quatro anos depois, esse espaço segue intacto — quer dizer, mais ou menos, porque já temos vigias de gestual tentando adivinhar pelo movimento do braço ou do dedo se o sujeito digitou 13 ou 22. Ainda assim, o problema maior acontece do lado de fora.

Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista. Basta abrir o noticiário para ver de onde parte a chantagem do desemprego. É a mesma turma que bate no peito pela liberdade de recusar vacina, guardar fuzil em casa ou negociar direto com o patrão a jornada e o salário. Porém, essa autonomia toda some quando o subordinado resolve apertar o 13 na urna. Aí a escolha pessoal vira motivo de justa causa.


No Rio, a deputada estadual mais votada, Índia Armelau (PL), sugeriu que empresários vasculhassem as redes dos funcionários para conferir quem "fez o L" e agissem de acordo. Pelo Paraná, a campeã de votos Jessicão, do mesmo partido, desenhou a regra: doméstica petista, rua; amigo, adeus. Em Goiás, o dono de um frigorífico ofereceu viagem paga a Caldas Novas para mil eleitores de Lula, desde que ficassem longe da seção. No Maranhão, até prefeito avisou que servidor alinhado ao presidente seria demitido.

O Ministério Público do Trabalho somou quase quatro mil denúncias de assédio eleitoral até agora. O grupo de WhatsApp faz as vezes de curral, enquanto o capataz dá print em postagens e monta listas de padarias, restaurantes ou lojistas que precisam quebrar.

Há algo muito perverso em usar a fome como argumento de campanha. Demitir a faxineira ou o caixa de supermercado que precisa do pagamento para comprar arroz e feijão não é disputa política, mas simples covardia contra quem não tem como se defender. Na mesma toada, surgiram anúncios de cortes de doações a ONGs e projetos sociais —justamente aqueles que chegam onde a maioria dos governos jamais pisou— por vingança diante do resultado das urnas. Punir quem depende de marmita comunitária para dar lição ao eleitorado mostra bem o tamanho dessa gente.

Mas o bolsonarismo não detém o monopólio da patrulha. Enquanto uma trincheira persegue quem declarou o voto, uma ala barulhenta da esquerda caçou os que preferiram ficar calados. O cantor João Gomes é o retrato acabado desse cerco. Em 2022, após puxar coro contra Bolsonaro no Rock in Rio, viu o Sindicato Rural de Imperatriz barrar seu show no parque de exposições. Agora, quatro anos depois, apanhou do lado oposto por escolher o silêncio. Sua mulher, Ary Mirelle, contou que ele toma antidepressivos desde a disputa anterior por causa de ataques e ameaças mirando até os dois filhos pequenos do casal.

Acuado, o rapaz acabou lendo uma mensagem no palco para tentar acalmar a patrulha. Tinha as mãos e a voz trêmulas. Ao assistir àquela cena, fiquei pensando: o que existe de democrático em coagir alguém que, seja pelo motivo que for, preferiu se calar? Transformar um artista jovem, visivelmente assustado e medicado, em refém de um tribunal de internet para arrancar um manifesto sob pressão não tem nada de progressista; é pura tortura psicológica fantasiada de consciência social.

Um humorista ainda achou graça em publicar montagens de inteligência artificial estampando os rostos de João, Vini Jr., Gisele Bündchen e Selton Mello em caixas de leite, como pessoas desaparecidas. Do ator que viveu Rubens Paiva no cinema, que perdeu o pai, Dalton, em julho, cobraram pedágio: como ousava viver o luto quieto após ganhar dinheiro com aquele filme?

Quando fãs e colegas colocam celebridades contra a parede, não cometem delito trabalhista, mas recorrem a um método velho conhecido de regimes autoritários: a coação. A lei protege o cidadão na frente da urna e tenta salvar o emprego do operário, só que deixa qualquer pessoa desamparada diante da multidão. Como resumiu o sanfoneiro Mestrinho, parceiro de palco e eleitor declarado de Lula, quem mais exige posicionamento alheio costuma ser o primeiro a cancelar quem pensa diferente. Tem muita gente precisando lavar a boca com sabão antes de falar em democracia.

Imagens fortes de uma campanha

É possível que, na origem latina, imagem signifique apenas a aparência de alguma coisa. Com seu domínio no mundo atual, porém, ela tanto representa algo existente como permite uma compreensão da realidade. Isso vem a propósito de duas imagens destinadas a ficar na história crítica das campanhas pela última eleição presidencial. Uma, na passeata bolsonarista na Barra da Tijuca (RJ), mostrava um negro fantasiado de diabo, em cores vermelhas, tridente na mão, acorrentado por um branco, que invectivava contra satanás e o PT. A outra, na avenida Paulista (SP), coberta de bandeiras e roupas vermelhas, exaltava Lula.


Visibilizando muitas coisas de uma só vez, toda imagem é sintética. A cena carioca, em sua chocante sordidez, apreende o brutalismo do poder escravista remanescente na lembrança escrita, ainda quando condenatória. Depois, a atual hierarquização racial, subsistente na contratação de um negro para uma teatralização degradante. No todo, a concretização de um conceito: o fascismo da cor.

Já a cena paulista, talvez a maior manifestação urbana avaliada em termos numéricos (14 quarteirões), é também sinóptica por mostrar na enorme multidão diversidade etária, gestualidade expressiva e alegria nos rostos. Não era gente em busca de curtidas, mas uma imagem de povo politicamente ativo como subjetividade histórica. "Há política a partir do momento em que existe a esfera de aparecimento de um sujeito, o povo, cujo atributo particular é ser diferente de si mesmo, internamente dividido" (Jacques Rancière).

É verdade que Marx desmontou, com a luta de classes, a mitologia liberal do povo. Mas qualquer que seja o nome atribuído a essa pretensa unidade ("povo" é o preferido pelo Estado democrático moderno, vocacionado a persistir em sua substância parlamentar), crucial é perceber que a política não prescinde de um sujeito coletivo.

Esse sujeito é uma forma dinâmica. Mais do que ser, povo é tornar-se, um processo que produz seu próprio sujeito. Foi o que sintetizou a imagem da avenida Paulista: o rompimento da anterior paralisia popular, evidenciado em cenas de igual intensidade no Rio de Janeiro, em Salvador, nas capitais nordestinas e em numerosas outras cidades. O povo produziu-se nas ruas e nas redes.

Vale refletir sobre por que isso só ocorreu no segundo turno eleitoral. Houve, certo, clara mudança de protagonismo, com o avassalador "exército do Lula", que inflamou em uníssono as redes e as ruas: os 10 milhões de "soldados" corresponderam ao número da diferença vitoriosa.

Mas um fato sensível despertou a massa de sua letargia. Antes, a consciência progressista estava tomada pelo cansaço de palavras gastas, que já não faziam mais efeito, inclusive a noção abstrata de luta contra a extrema direita ou o fascismo. De repente, porém, a presença concreta do perigo fascista, por lucidez plural, corporificou-se como imagem viva, mobilizando o medo. Jovens e idosos compreenderam. Então a massa, tornada povo por espontânea estratégia das ruas, pautou o Brasil, se não o mundo, contra a catástrofe de uma dinastia miliciana.

Tese vigarista da polarização levou a imprensa a tolerar um Flávio golpista

Derrotado no domingo passado, Flávio Bolsonaro foi intimado pela Polícia Federal a entregar os passaportes na segunda, cruzou a fronteira com a Argentina na terça e, já em solo norte-americano na quarta, divulgou uma carta em que se proclamava “presidente eleito”. O PL, seu próprio partido, havia reconhecido a vitória de Lula. Quando a Casa Branca, segundo relatos, fez saber do incômodo, o texto foi reescrito até que o título autoproclamado sumisse. Rir do personagem é fácil agora. Mas era difícil enxergá-lo antes? Por que tanta omissão? A verdade é que a tese intelectualmente vigarista da polarização rende um “Ensaio sobre a cegueira” na imprensa e na análise política.


É preciso lembrar a condescendência com que foram tratados os arroubos autoritários do senador. Em 14 de junho do ano passado, por exemplo, em entrevista à “Folha”, ele avisou que o candidato de seu pai teria de garantir, se vitorioso, o indulto ao próprio Bolsonaro e aos condenados do 8 de janeiro de 2023, ainda que o Supremo o anulasse e fosse preciso recorrer à força contra a Corte. O noticiário tratou do assunto como quem diz “hoje é sexta-feira”.

Em 28 de março, no CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora), encontro de reacionários realizado no Texas, Flávio declarou que venceria se as eleições fossem livres e justas.

A frase parece só um truísmo, mas carrega a semente do golpismo. Ao condicionar a lisura do pleito à vitória, Flávio converte de antemão qualquer derrota em prova de fraude, já que só o triunfo atestaria a higidez do sistema. É um argumento que não admite refutação: o resultado deixa de ser um fato e se torna um veredicto contra quem apura os votos caso se frustre a expectativa do candidato. Foi o que se viu depois do segundo turno.

Flávio nem sequer era questionado a sério sobre seu plano de governo. A quantidade de besteiras que dizia era assombrosa, sem falar no seu, digamos, aporte ético: aquele que prometia soltar golpistas e encarcerar adolescentes de 14 anos se definia.

No que respeita à fuga, a exemplo do que ocorre com o irmão Eduardo, ninguém sabe com que recursos Flávio viverá fora do país. Eduardo já está condenado; Flávio foge de duas investigações: uma sobre lavagem de dinheiro, que alcança tanto ele quanto o advogado Willer Tomaz por meio de empresas de apostas e plataformas de pagamento, e outra sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, com os milhões doados por Daniel Vorcaro.

Por que tanta complacência com um candidato fascistoide e sedicioso? A tese da polarização congelou a análise política e a fez esquecer o Brasil. Polos são necessariamente opostos. Sendo o bolsonarismo, que é disruptivo, um deles, seria forçoso que o outro, o lulismo, também o fosse, só que à esquerda. E isso é mentira.

No início, essa tese intelectualmente vigarista serviu de pretexto para tentar excluir da política institucional tanto um como o outro. A ambição era impor uma terceira via, uma direita mais ao gosto do grande capital, visto que os Bolsonaro são grotescos. Não deu certo porque o bolsonarismo fagocitou a direita e porque o PT é o único ente da vida pública que pode ser chamado propriamente de “partido”.

Logo, a crítica à tal “polarização” consistia e consiste, na verdade, em um esforço para tirar o PT do jogo e empurrar o país para uma disputa entre uma direita higienizada e a extrema direita. A manobra até agora falhou.

Uma das grandes derrotadas deste pleito, note-se, foi a imprensa que comprou essa leitura, esgrimindo o pesquisismo que tenta administrar o debate público por meio de sondagens supostamente científicas.

Se o bolsonarismo é patético — e é —, se Flávio é golpista até o último fio de cabelo — e é —, por que os editoriais se encarregam de dizer isso só agora? Por que se permitiu que o óbvio ficasse restrito à voz e à pena de meia dúzia, rapidamente confundida com militância petista? Não que ela seja um mal em si. É que, desse modo, só se chancelava a maliciosa teoria da polarização, como se a verdadeira divisão do país se desse entre o lulismo e o bolsonarismo, e não entre a democracia, representada por Lula, e o golpismo fascistizado, encarnado pelos Bolsonaro.

Por covardia, conivência e interesse objetivo, deixou-se que Flávio corresse sem resistência ativa até a beira do pódio. Levantaram-se contra ele, felizmente, os setores populares e os progressistas. A imprensa, como expressão de um pensamento que se pretende liberal, ou silenciou ou igualou o que é desigual em nome de uma suposta neutralidade. O meio-termo entre a democracia e o fascismo será sempre o fascismo por inteiro, pois não existe democracia pela metade.

Volto ao começo: agora é fácil desqualificar Flávio. Difícil era fazê-lo quando o tomavam por “Bolsonaro vacinado” ou expressão do “bolsonarismo moderado”.

E, como se esperava, a “Operação Tarcísio” já começou: a tentativa de apresentar o governador paulista, Tarcísio de Freitas, como herdeiro palatável da direita. Talleyrand, o diplomata francês, disse dos Bourbon, ao voltarem ao trono, que não tinham aprendido nada nem esquecido nada. A elite brasileira, sobretudo a parcela cujos interesses se abrigam na imprensa tradicional, parece caber nesse figurino. Essa mistura de obtusidade e reacionarismo tem sido, de algum modo, até útil ao petismo. Lula fura bolhas, desmonta predições e humilha o pesquisismo, que confunde o eleitorado com um salame cortado em fatias.

E em 2030, quando Lula não puder disputar? Vamos ver. Debater uma eleição com quatro anos de antecedência?! Tenho de adaptar a frase de Talleyrand aos nossos “Bourbon”: não aprendem nada e esquecem tudo. Há seis dias, o “presidente eleito” se chamava… Flávio Bolsonaro! E, no entanto, “brilha uma estrela, Lula lá…” E já se escolhe quem ocupará o lugar do petista com quatro anos de antecedência? Penso que algo ainda por definir — novo, pois — começou no segundo turno desta eleição. Mais uma vez, Tarcísio já é tratado como pré-presidente. Hum…

Proponho o desafio: eu e ele caminharmos pelo Pelourinho, no centro histórico de Salvador, e vermos quem será convidado a fazer “selfies”. E olhem que sou candidato apenas a algumas provocações gentis.

sábado, 31 de outubro de 2026

Quando o choro da derrota vira violência até contra indígenas

Enquanto grande parte do mundo celebra a virada que garantiu a Lula seu quarto mandato presidencial, aqui segue a choradeira dos inconformados com a derrota de Flávio Bolsonaro no último domingo.

Foram quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele. Uns por acreditarem em sua palavra de que, uma vez eleito, faria deste um país melhor; outros por desejarem, pura e simplesmente, se livrar de Lula e do PT. O período de luto dessas pessoas deve ser respeitado. Que elas enterrem em paz sua frustração ou revisem suas ideias.

O que não se pode tolerar, porém, é que o choro dê lugar a atos de violência contra quem quer que seja. Infelizmente, é isso o que está acontecendo. Há mortos e feridos entre os que se limitaram a digitar o 13 nas urnas. Nem os povos originários são poupados, e há a pregação escancarada do boicote aos negócios dos vencedores.


Como sempre, o mau exemplo vem do alto. Cito apenas um para não cansá-los: o governo de Tarcísio de Freitas demitiu Silvana Gimenes do cargo de coordenadora de Desenvolvimento de Programas da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Seu “crime” foi criticar a fala de Flávio, durante o debate da TV Globo, sobre o fato de Lula ter perdido um dedo em um acidente de trabalho quando era jovem.

Tarcísio aspira se eleger presidente daqui a quatro anos. Se dependesse para isso apenas do apoio dos donos das maiores fortunas do Brasil, dos milionários do agronegócio e da chamada grande mídia, estaria eleito desde agora. Ou melhor: teria sido eleito há quase uma semana.

Mas faltou coragem a Tarcísio para confrontar a família Bolsonaro, a quem devota lealdade. Seguirá assim nos próximos anos também por não dispor de votos suficientes para se eleger por conta própria. Se os bolsonaristas lhe derem as costas, tchau, tchau.

Na ausência de dois dos seus enteados, Flávio e Eduardo, que não voltarão tão cedo de Miami para não serem presos, a recém-eleita senadora Michelle Bolsonaro saiu em defesa de Tarcísio. Reconduzida à posição de porta-voz do marido condenado por tentativa de golpe de Estado, ela acolheu os que mais se envolveram de perto na segunda aventura consecutiva e fracassada do clã para recuperar o poder. Michelle ambiciona ser vice de Tarcísio em 2030.

“Vivemos tempos difíceis. Precisamos refletir e só depois agir”, ela afirmou. “O meu marido ressalta que é momento de união e não de procurar culpados. Não caiamos nas enganações daqueles que sempre semeiam o ódio, a mentira e provocam a nossa divisão em troca de likes e engajamento. Deus está conosco e a Ele cabe o Julgamento e a Justiça”.

Pelo jeito, Deus não se deu ao trabalho de prestar atenção no avanço do “Exército de Lula”, sob o comando de André Janones.

O legítimo representante de Deus na Terra, Leão XIV, ainda não disse uma palavra sobre o que se passou no Brasil. O país é o reduto da maior população católica do mundo, estimada em cerca de 182 milhões de fiéis — aproximadamente 13% de todos os católicos do planeta, segundo dados do Anuário Pontifício do Vaticano.

Ele é o primeiro Papa da história a votar numa eleição – no caso, a do seu país de nascimento, os Estados Unidos. Votou por correspondência, e certamente não foi no Partido Republicano de Donald Trump.

Assim as redes sociais sitiam o espaço público

O tema é essencial: o impacto da conectividade global manipulada por gigantes planetários de gestão da informação, o chamado GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft), gerando uma capacidade de influenciar comportamentos em escala radicalmente nova, atingindo bilhões de pessoas em todo o planeta. Há muita discussão sobre fake-news, mas a imensa maioria utiliza as mídias sociais de maneira pouco consciente, e em todo caso desconhecendo o uso da Inteligência Artificial, a função dos algoritmos, o interesse dos anunciantes, e as articulações políticas, em particular com os sistemas de segurança norte-americanos. É um universo novo, que transforma a economia, a política, as relações sociais, a cultura, o uso do tempo, as relações de trabalho. Nesse sentindo, o estudo de Max Fisher é uma leitura necessária. Fisher é jornalista do New York Times, com prêmio Pulitzer, e fez a lição de casa. Viajou para todos os países onde pesquisou os impactos desta “máquina do caos”, inclusive no Brasil, entrevistou líderes de movimentos de diferentes posicionamentos políticos, pesquisadores, e os líderes mundiais como Zuckerberg e outros. Consultou material de pesquisas internas das próprias corporações de mídias sociais. Em outros termos, temos uma primeira visão de conjunto das dinâmicas que representa esse novo universo. As fontes são detalhadas de maneira muito profissional – 40 páginas de notas e referências – que tornam esse livro uma ferramenta importante. A escrita flui de maneira agradável, é um jornalista, escreve de maneira simples e direta, tem dados suficientes para não precisar embelezar.


Inteligência artificial manipulada por estupidez natural

É importante lembrar que esse universo que absorve horas do nosso tempo diariamente é imensamente rentável. Estamos falando das maiores fortunas e das maiores corporações do mundo. O dinheiro vem essencialmente da publicidade. É importante lembrar que os acessos são gratuitos, mas toda a publicidade que alimenta as fortunas dos gigantes da comunicação é financiada pelas empresas que produzem os bens e serviços que compramos, e é incorporada nos preços que pagamos. Em outros termos, este gigante corporativo mundial é financiado por nós, no pagamento extra que custeamos. A opção é “transformar todos os usuários em renda, vendendo anúncios…E, conforme o fornecimento de anúncios de internet aumenta, o preço cai. Em um memorando de 2014, o CEO da Microsoft anunciou que ‘cada vez mais, a commodity realmente escassa é a atenção do ser humano.’” A filosofia básica? “Eles iam vender anúncios, todo mundo ia ficar rico”.

A batalha, portanto, é por nossa atenção, e o “engajamento”, ou seja, a geração de um vínculo emotivo o mais forte possível, amarrando as pessoas na telinha. O método é simples. Usando AI e algoritmos, a análise do uso das mídias pela população é permanentemente analisado, em detalhe, e as mensagens que mais captam atenção, likes, comentários, compartilhamentos, têm o seu conteúdo analisado e categorizado, identificando os conteúdos e formatos que mais “engajam” as pessoas. Selecionando o que mais captura a atenção, entre bilhões de mensagens, o algoritmo evolui para outra seleção entre seleções, e assim sucessivamente, até concentrar a reprodução no tipo de conteúdo que mais amarra as pessoas, e essas mensagens é que passam a aparecer a cada passo, para cada usuário, segundo o perfil identificado.

De certa forma, não somos mais nós que escolhemos o que ver, somos alimentados com o que gostamos de ver. “Em questão de meses, com uma equipe pequena, tínhamos um algoritmo que aumentava o tempo assistido e gerava milhões de dólares de receita extra em publicidade”, diz um participante. “Foi muito, muito empolgante”. Em termos de impacto, o sistema, sem consciência dos usuários, passou a canalizar a atenção das pessoas, e a confirmar visões cada vez mais estreitas, por confirmações repetidas de diversas fontes. É o que chamamos de “bolhas”, e que Fisher chama de “tocas de coelho”.

A gestão baseada em algoritmos que priorizam o que maximiza a atenção, utiliza pontuação. No Facebook, “comentários curtos ganhavam quinze pontos, recompartilhamentos e comentários longos ganhavam trinta, recompensando tudo que provocasse uma discussão longa e emotiva.” Um relatório interno alertou que “os conteúdos com desinformação, veneno e violência são excessivamente dominantes entre os recompartilhamentos.” O próprio Zuckerberg escreveu que “quando deixamos sem controle, as pessoas se envolverão de modo desproporcional com conteúdo mais sensacionalista e provocador.” A deformação ficava clara, mas o que prevaleceu foi o interesse comercial: como o envolvimento emocional, em particular carregado de ódio, era é que gerava mais adesão e multiplicação de mensagens, e, portanto, mais interesse publicitário, os algoritmos foram instruídos a reforçar as polarizações.

Ainda que Trump, Bolsonaro e outros líderes utilizassem empresas como a Cambridge Analytica e outras empresas de difusão direcionada por algoritmos, a realidade é que, no quadro da política de maximização de atenção das próprias plataformas, as pessoas eram levadas à polarização e a reações fanáticas, de tanto ver os seus preconceitos reproduzidos e compartilhados. As plataformas geraram na realidade um sistema de seleção negativa. Uma pesquisa de 300 milhões de comentários descobriu “como tratar pessoas e fatos em termos moral-emotivos aguçados traz à tona os instintos de aversão e violência no público – que é afinal de contas, exatamente o que as plataformas sociais fazem, em uma escala de bilhões, a cada minuto de todos os dias…Sociedades inteiras estimuladas para o conflito, a polarização e a fuga da realidade – para algo como o trumpismo.” 

Importante insistir no mecanismo, que fica claro nas análises e nos exemplos: para vender mais espaço publicitário, busca-se maximizar o compartilhamento, e os algoritmos são instruídos para canalizar, estimular ou abafar as mensagens de bilhões de usuários segundo este critério, com a IA ajudando a encontrar as reorientações necessárias. Como as polarizações emotivas, em particular os sentimentos de identidade grupal e de ódio tribal são poderosos motivadores, terminam por dominar as mídias sociais. Em outros termos, a deformação é embutida, e inteligentemente construída pelo próprio critério de maximização, guiado por sua vez pelo interesse geral de maximização de retorno financeiro. “Em linhas gerais, é algo inconsciente, quase animalista, e por isso facilmente manipulado por líderes oportunistas ou por algoritmos em busca de lucro.” Provavelmente ambos. 

Boa parte da força do livro resulta do fato de ser recente: nos últimos anos, universidades e centro de pesquisa de vários países realizaram estudos quantitativos e qualitativas, que são aqui sintetizadas. Temos realmente agora um dimensionamento do impacto frequentemente catastrófico, em particular no caso do Youtube, que inflamou ódios e conflitos raciais em diversas partes do mundo. “O feito dos sistemas do YouTube de conseguir analisar e organizar bilhões de horas de vídeo em tempo real, depois direcionar bilhões de usuários pela rede, com esse nível de precisão e consistência, era incrível para a tecnologia e demonstrava a sofisticação e a potência do algoritmo.” O YouTube, comenta um pesquisador, “havia criado uma nova identidade coletiva”.

Fisher dedica capítulos a Myanmar, onde o ódio entre comunidades de religiões diferentes levou a massacres de minorias, mas também no Sri Lanka, apresenta o caso dos Estados Unidos, do Brasil, da Índia, da Alemanha e outras regiões europeias com subida do fascismo ou de movimentos neonazistas. De repente, frustrados ideológicos encontram não só caminhos para falar para o mundo, mas algoritmos que potencializam os seus discursos de forma desproporcional. Em dezembro 2022, o Facebook informava ter 2,96 bilhões de usuários mensais.

É importante notar, e isso aparece em numerosas partes do livro, a que ponto as deformações continuam sem enfrentamento, sem regulação, apesar de muitas denúncias, e evidências claras do papel nefasto para o convívio social. Deixem-me lembrar que estive na Tunísia nos momentos da Primavera Árabe, e jovens me explicavam como as mídias sociais os haviam ajudado a se articularem online. Alguns anos depois, essas mesmas pessoas lamentavam a inversão de valores que essas mídias haviam gerado. Continuamos no limbo. Inteligência artificial manipulada por estupidez natural.

Os irmãos Koch miram a América Latina

Há uma rede multidimensional de instituições e grupos políticos que difundem o ideário “libertariano”, atuando sobre a formação de jovens. Nessa rede, os jovens são vistos como novas lideranças empreendedoras, perfeitos na operação de modificações estruturais na sociedade, entre elas, a alteração de fundamentos republicanos de forma ampla e a mudança no funcionamento da educação pública, de forma específica.

O mote desse grupo é alterar a noção de “educação como direito” e tornar a noção de “educação como mercadoria” um senso comum. Agem, principalmente, por dois meios: primeiro, disseminando a desconfiança em relação à escola pública e os seus professores, acusando-os de fabricar ideologias, instigando uma cultura da delação; segundo, disseminando a adoção de vouchers em larga escala, a gestão privada de aparelhos públicos, defendendo a liberação do homeschooling, e até mesmo o unschooling, que é o direito de não escolarização. Segundo o ideário libertariano, crianças que não podem ir à escola são melhor aproveitadas no mundo do trabalho.


Os libertarianos hasteiam a bandeira da liberdade, porém o termo é usado como sinônimo de livre mercado. Fazem a defesa radical da liberdade individual, o que eventualmente pode ter relação com a liberação do aborto, a liberação das drogas, em nome das liberdades sexuais etc. Mas o que está claro é o manifesto em nome do “indivíduo”. Da vontade do indivíduo emana todo o poder social. Aborto, drogas, sexo são temas secundários quando se pensa que o indivíduo é a célula primeva da sociedade. Pensar as cadeias de interdependências entre o indivíduo e o coletivo, é impossível pela mentalidade desses quadros. Para eles, a sociedade é a somatória absoluta de elementos únicos, separados por vontades e mérito.

Frequentemente, os libertarianos fazem aliança com grupos conservadores, são aqueles que se descrevem como “liberais no que diz respeito à economia e conservadores no que diz respeito aos costumes”. Por exemplo, no caso da expansão do homeschooling, fazem estreitas alianças com grupos religiosos que militam por escolarizar as crianças em casa aos moldes dos valores de suas religiões, na esmagadora maioria das vezes de orientação cristã, muitas vezes promovendo o negacionismo científico e revisionismos históricos que relativizam violências.

Como pensam e agem pela primazia da propriedade, partem da ideia de que o corpo é a nossa primeira propriedade e daí derivam seu axioma, de que o individualismo e a propriedade capitalista é fundada pela natureza ou por Deus. E a partir dessa ideia são disseminados os valores contrários aos movimentos sociais com seus interesses coletivos e comunitários. Pregam esse espírito de pureza do elemento individual que não se deixa levar pelo fracasso das utopias. A vida é pensada na rusticidade da competência de cada um de nós, separadamente, desconsiderando os processos históricos de acumulação. Libertarianos simplesmente não se envergonham de serem ingratos com os pais, professores, amigos, seus possíveis formadores, e não compreenderem absolutamente nada sobre cultura.

Esse ideário é financiado por uma plutocracia bilionária.

Os irmãos Koch podem ser entendidos como um ponto de partida para compreender a organização estratégica e os modos de financiamento na construção histórica de uma rede com programa expansionista desse ideário político-social.

Por uma perspectiva histórica, entende-se que a rede plutocrática da família Koch se inicia com o avô, Harry Koch, seguida pelo pai, Fred Koch, e os irmãos, David e Charles Koch. O avô adquiriu um monopólio da mídia em sua cidade. Fred Koch introduziu a família no universo dos think tanks. Herdeiros da Koch Industries, empresa do ramo petrolífero, os irmãos Koch vêm multiplicando seu patrimônio desde então, hoje avaliado em mais de 100 bilhões. Eles atuam em diversos segmentos de produção, desde steak para ração, a derivados de petróleo em geral, como botões para equipamentos eletrônicos, tapetes e etc.

Trata-se de uma história escalonar que conta sobre o aumento do patrimônio financeiro, o aumento da difusão ideológica, presa ao enriquecimento e a meritocracia, concentrando esforços no sentido de moldar a mentalidade social. Mas não é só na atuação industrial e de comunicação que os Koch vêm expandindo e se diversificando como instituição.

Em 1992, Charles Koch fez uma declaração ao National Journal, dizendo que o seu conceito geral de vida “é minimizar o papel do governo e maximizar o papel da economia privada e maximizar as liberdades pessoais“ii, justificando a sua ação direta, filantrópica, para diferentes instituições “sem fins lucrativos” de modo a ampliar os efeitos da ideia de supervalorização do indivíduo e da economia privada. Desse modo os irmãos Koch promovem a sua visão de mundo com muito dinheiro em uma série de projetos e instituições, principalmente de cunho educativo.

A John Birch Society (JBS) que, entre outras coisas, busca na Bíblia argumentos para se opor à democracia, difunde teorias da conspiração e apoia o homeschooling do tipo cristão, foi o think thank de estreia da família Koch. Trabalharam junto ao Libertarian Party (LP), tentativa frustrada de ingresso dos irmãos na política partidária, quando David Koch concorreu como candidato a vice-presidente de Ed Clark, com propostas de desregulamentação para todos os setores sociais, para avançar na minimização do papel do estado na economia. O cargo eletivo direto, plano inicial, passou a ser secundário quando perderam a eleição, e perceberam na juventude o melhor caminho para difundir seu ideário, pensando em uma formação libertariana desde as bases. E o caminho foi permear os centros de pesquisa, as universidades com thinks tanks produtoras de conhecimento e financiadoras de ações, com o objetivo de estabelecer uma nova subjetividade.

Partiram à “guerra de ideias” para fomentar a desconfiança concernente ao Estado e agir pela educação passou a ser um dos principais caminhos do programa. A educação não é apenas um meio para se ganhar dinheiro, um negócio. A escola pública, republicana, entendida como tecnologia emissora de ideais, conceitos e valores acabou se transformando no principal mecanismo de estruturação neoliberal pela visão desses sujeitos.

Por isso é muito comum encontrar financiamento deste grupo no ensino superior em diferentes países. As think tanks dos irmãos Koch financiam departamentos de pesquisa e bolsas de estudo que buscam de soluções para questões sociais orientadas pela defesa do livre mercado e produzem conhecimento sobre empreendedorismo, privatização e a “filosofia da liberdade”. Chamados de filantropos, pagam por análises conjunturais por essa perspectiva, treinando pessoas para a replicarem, produzindo pesquisas nas áreas das ciências humanas, econômicas e na formação docente. Existe, inclusive, consultoria para acadêmicos, que queiram orientar suas publicações, afinando-se ideologicamente por referências bibliográficas interessadas em contabilizar as menções a autores libertarianos.

Impetuoso na década de 1970, o movimento de expansão libertariana se concretiza por meio de um golpe de estado e posterior instauração da ditadura no Chile. Naquele momento, intelectuais orgânicos da Mont Pelerin Society (MPS), fundada pelo economista Friedrich Hayek, produtores das ideologias distribuídas pelos think tanks mantidos pelos Koch, participaram ativamente da construção do novo regime. Libertarianos recorrem ao estado máximo no que tange à repressão, ao uso de recursos como golpes de estado e lawfare, para evitar o que entendem como “excessos democráticos”.

Para Hayek, “a democracia ilimitada traria resultados tão ruins que seria necessário um período de transição com uma ditadura, para que a sociedade tivesse assegurada sua liberdade individual e assim, pudesse voltar para um sistema democrático com regras e restrições ao poder governamental”. Isto é, o economista defendeu a necessidade de uma “ditadura transicional”, ao falar sobre o regime de Pinochet, no Chile, onde teve papel relevanteiii. E a educação foi usada como meio para o estabelecimento do regime, instrumentalizada à implantação dos instrumentos neoliberais de educação (1980-1988), para garantir a fase seguinte, o “consenso privatizador” (1988-1990)iv.

Por reunirem alguns fatores como garantirem maior longevidade ao ideário, os jovens são vistos como sujeitos principais da ação libertariana. Nas palavras de Frank Chodorovv, na década de 1950, “O individualismo pode ser revivido implantando-se as ideias já nas mentes das gerações vindouras… É, em suma, um projeto de cinquenta anos”vi. Além disso, a juventude, passa ares de inovação ao movimento.

Desde então, a América Latina vai sendo desbravada, de modo a formar um contingente libertariano juvenil importante. Por meio de militância e intercâmbio de jovens, a rede se expande. Atualmente, as doações dos Koch afluem por meio da Atlas Network e do Students for Liberty (SFL), dentre outras instituições. O SFL é a maior organização estudantil “pró-liberdade” no planeta. Está sediado na Virgínia, tem um grande número de sucursais pelo mundo. Sua missão é “educar, desenvolver e empoderar a próxima geração de líderes da liberdade”, num modelo único de educação. No Brasil, o número de parceiros não para de crescer, atualmente são 15, de acordo com o site da Atlasvii.

Um exemplo que interliga educação e juventude a maneira libertariana é o Gloria Álvarez, militante guatemalteca que ganhou popularidade no final de 2014, quando o vídeo de sua fala, na sua exposição durante o parlamento Ibero-americano da juventudeviii, viralizou nas redes sociais. No referido vídeo, a militante ataca o que chama de “populismo” na América Latina, reiterando afirmações que desenvolveu ao longo de sua formação na Universidade Francisco Marroquín (UFM). A UFM é uma universidade que segue os princípios libertarianos, única do mundo que há mais de três décadas forma seus alunos na “filosofia da liberdade”. Segundo eles, a ideia é combater o “vitimismo” latino-americano dependente do populismo de todo governo que se proponha a garantir direitos sociais.

Álvarez afirma que o “livre mercado é o remédio para todos os males”. Diz que nenhum habitante do planeta está livre do egoísmo. A musa libertariana se opõe a tudo o que é público, reafirmando que todo político luta por interesse próprioix. Ironicamente, tornou-se presidenciável em 2019, pleiteando um cargo público, talvez tendo em vista o cumprimento dos seus próprios objetivos.

Essa jovem também atuou de maneira intensificada, no Brasil, durante as manifestações de oposição à presidenta Dilma Rousseff. Financiada por fundações latino-americanas parceiras da Rede Atlas, Álvarez foi à Avenida Paulista discursar a favor do impeachment, no palanque do grupo “Vem pra Rua”x, paramentada com a bandeira do Brasil estampada na camiseta. Há sucursais da Atlas Network espalhadas por toda América Latina.

Em 1 de abril de 2015, a Atlas publicou uma matéria elogiando a atuação do Movimento Brasil Livre (MBL), dizendo que havia um parceiro da Atlas Network e do Students for Liberty, estrela libertária em ascensão à frente do movimento. Este é Kim Kataguiri, um dos líderes que passa a aplicar o que aprendeu no terreno onde vive e trabalhaxi.

Para atuar nas manifestações que ficaram conhecidas como Jornadas de Junho, em 2013, membros do “Estudantes pela Liberdade” (EPL) forjaram a marca MBL, porque como membros de instituições mantidas por doações estrangeiras, eles não poderiam atuar diretamente na política brasileira. Entretanto, como a marca ganhou projeção nacional, foi reaproveitada para atuar nas manifestações de oposição ao governo petistaxii. E, como sabemos, foi peça importante na difusão do antipetismo.

De acordo com a Reason TV, da Reason Foundation, think tank parceiro da Atlas, a deposição da presidenta teria fracassado sem a força propulsora do MBL. Não parece coincidência que essa rede de quadros juvenis esteja tão apegada ao processo de impeachment, estimulando a espetacularização do rito. Inclusive, aproveitando-se da pauta de procedimentos frequentemente chamada de “pós-verdade”.

Steve Tesich que, ao que tudo indica, foi um dos primeiros sujeitos a empregar o termo em 1992, explica que a novidade deste fenômeno social é que “a verdade não é falsificada ou contestada, mas passa a ser de importância secundária”. Isso é, há de se compreender que um coletivo juvenil brasileiro, o MBL passou também à história como produtor de pós-verdade do tipo “libertariana”. Porque são notórios produtores de desinformação replicando as mesmas pautas dos think tanks libertaristas. No campo educativo, procuram destruir o projeto iluminista de escola pública, tentando alterar a função da escola. No campo político, justificam o neoliberalismo econômico, fazendo movimento em nome da remoção de entraves para o seu avançar. No plano econômico, lutam pelas alterações das leis de seguridade social e trabalhistas.

As ações do MBL chegam ao grande remate dos Koch no campo social: financiar a produção de “movimentos populares”. Essa tática foi desenvolvida pelo alto funcionário de Charles Koch, Richard Fink, em sua tese “Structure of social changes”. O autor identifica a necessidade de financiar ativistas, para vencer a “guerra de ideias” como em uma linha de produção.

O que se vê claramente como associação de ideias é sistematizado no primeiro Congresso Nacional do MBL em 2015. Vemos propostas que pregam pela reforma empresarial da educação; aliança com movimentos conservadores, em busca da “Escola sem Partido”; movimentos de destruição do ensino público. É oferecida à sociedade uma carta de produtos como caminhos “para maior igualdade social e eficiência da escola”, embora já exista uma profusão de pesquisas que concluem o contrário.

Não chega a ser problema para o grupo ser arauto de um mundo em “concorrência universal”. Neste caso, a ideia de que o “novo sempre vem” porque se é jovem, nos mostra que ser jovem não é prerrogativa para ser progressista.

Flávio tira a máscara na carta golpista e revela os isentões sem disfarce

Como este mundo pode ser divertido! O colunismo isentão, equilibrista entre a democracia e o afascistamento, levou Flávio Bolsonaro a cometer o mais grotesco dos erros: dizer quem realmente é.

Uma nota: esse falso centrismo me enoja mais do que o reaça que baba até a última gota de ódio. Este é, afinal, mais identificável do que um piruá numa vistosa tigela de pipocas. O ambíguo e anfíbio não. Encarna o papel de um prudente impostor. Não é bom o bastante para o Céu nem mau o bastante para brilhar no Inferno. Dante reservou a esse tipo um castigo terrível no “Vestíbulo”. Procurem. Mas volto.

O valentão que foge sentiu-se acolhido pela turma do nem-nem e escreveu uma carta golpista. Quem o conduziu ao Inferno foram esses bacanas… Vá lá: tiveram utilidade uma vez na vida ao menos. Vamos ver.


Alexandre de Moraes fez a coisa certa ao atender ao pedido da Polícia Federal e mandar recolher os passaportes do candidato derrotado à Presidência. Mas logo apareceram os “isentistas” — aqueles sempre no meio do caminho entre a corda e o pescoço — para dizer que, de novo, o ministro havia exagerado. Sempre escarneço de formulações que começam assim: “Especialistas se dividem…”. Bem, os experts muitas vezes não se entenderam nem sobre as virtudes ou os malefícios do ovo… Adiante.

O tal Zero Um animou-se. Sentiu que, quem sabe?, teria uma vez mais setores da imprensa a seu lado e então assumiria a condição de vítima do Xandão. Vocês sabem: é aquele cuja cabeça André Mendonça tentou cortar com ilegalidades flagrantes, pautando o primeiro turno das eleições e tornando-se o grande fornecedor de manchetes para uma imprensa involuntariamente — ou nem tanto — bolsonarizada, quando não afascistada.

Quase o Lobo Mau passou por Chapeuzinho — “e o nosso chapeuzinho jamais será vermelho!”… Aprendi em alguns editoriais muito doutos que o petista até poderia ser melhor em democracia e programas sociais, mas o senador do PL zelaria mais pelo rigor fiscal, ainda que tivesse alguns defeitos… Ninguém teve a delicadeza de mencionar que, entre eles, contavam-se a tentativa de soltar sediciosos e a de encarcerar adolescentes de 14 anos. Se 1964 se desse em 2026, não tenham dúvida: boa parte desses valentes moralistas estaria de novo do lado errado da história…

Mas o que faria de tal gênio um disciplinado fiscal? Vai ver ele confidenciou isso apenas a devotados exegetas. E estes nunca explicaram por quê. Talvez ele tenha feito promessas clandestinas aos finórios no escurinho do cinema, enquanto chupavam dropes de anis. O motivo não está no programa, não está nas entrevistas, não está nos debates.

Flávio resolveu roubar do pai o papel de mártir do terrível magistrado e pôs em prática um plano de fuga que arquitetara havia tempos para o caso de derrota. De novo, os adoradores da Seita do Santo Mendonça dos Últimos Dias preparavam-se para pedir a cabeça vocês sabem de quem… Pelo visto, até gente do governo andou falando porcaria — deve ser aquela parte do PT que quase perdeu a eleição por medo de enfrentar quem tem de ser enfrentado, o que inclui o “consenso” do colunismo-pesquisismo picareta…

Ocorre que um Bolsonaro sempre será um Bolsonaro. Sentindo-se seguro em Miami — e Pateta que se cuide porque pode perder o emprego —, o derrotado houve por bem dizer o que realmente pensa. E redigiu um manifesto em que não reconhece o resultado das eleições. Não conseguiu nem sequer a adesão dos pares que ficaram por aqui, enquanto ele se mandava em grande estilo para os EUA, onde, em companhia do irmão, terá vida de milionário.

Os que ensaiavam o coro contra Moraes ficaram boquiabertos. Se a fuga já parecia coisa de covarde, a carta foi além do limite do tolerável. Estava tudo errado ali, a começar pelo brasão. Fugiu porque sabe o que fez no verão passado e tem ciência de que seus folguedos com o tal Willer Tomaz começaram a vir a público. A eventual vitória era seu passaporte para a impunidade. Sem ela, intui que a Papuda o aguarda.

Então resolveu escrever aquele troço. E aí os isentões o abandonaram. Nas linhas que escreveu, ele se mostrava inteiro. Justamente quando decidiu envergar as vestes de perseguido e herói, caiu do cavalo (ops!). Só ali, para recorrer a uma passagem célebre de Karl Marx em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, é que “se tornou a vítima da sua própria concepção do mundo: o bufão sério que já não toma a história universal por uma comédia, mas a própria comédia pela história universal”.

Suponho que até os governistas porventura contrariados com Moraes tenham percebido que, ao cumprir sua obrigação, o ministro fez surgir o fascistoide que se escondia na fantasia do moderado. E notem: o ministro não lhe forneceu o roteiro. O próprio Flávio assumiu a personagem que realmente lhe cabia na história.

Há coisas que só um Bolsonaro legítimo pode fazer por si mesmo. E até por nós…

Ao tentar posar de herói trágico com o aval da patota do “nem-nem”, o Bonaparte de poltrona acabou tragado pela própria pantomima e desmascarou, de quebra, os seus avalistas de plantão. A patota do nem-nem, que ensaiava niná-lo para manter o charme da neutralidade anfíbia, agora finge olhar para o outro lado, espantada com o cheiro de enxofre do golpismo.

No fim das contas, a peça encerra-se com cada personagem no seu devido lugar: o bufão isolado em sua farsa, e os covardes do meio do caminho, despachados, sem direito a recurso, diretamente para o Vestíbulo…