domingo, 20 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 

'Igreja' do desleixo


O quarto das criadas e a fábrica de fazer pobres

A porta quase passa despercebida na parede ao lado do lavatório de mármore. Pequena, de madeira pintada de um cinzento muito claro. É preciso alçar a perna para a atravessar e chegar a umas escadas de madeira estreitas e íngremes. Lá em cima, no sótão insuportavelmente quente no verão ribatejano, no lugar onde estavam sempre espalhadas ratoeiras pelo chão, ficava o quarto das criadas na casa dos meus bisavós. Também havia um sótão gelado no inverno e sufocante no verão onde dormiam as empregadas em casa dos meus avós paternos. E na casa dos meus avós maternos, a divisão, mais simpática, com janela e casa de banho, ao fundo de um corredor que a ligava à cozinha, já se tinha transformado há muito num quarto de costura quando eu nasci. No tempo em que eu vim ao mundo, deixou de ser normal ter criadas. E isso, por muita nostalgia que alguns privilegiados pudessem ter de outros tempos, foi uma grande conquista da liberdade e do progresso. Significava que o trabalho tinha ficado mais caro.

Há uns tempos, ouvi uma amiga brasileira, com dois filhos pequenos, queixar-se candidamente de que aqui é impossível arranjar ajuda. “No Brasil é mais fácil porque há muita desigualdade.” E basta percorrer o mapa do mundo de sul para norte para perceber que, à medida que se avança para geografias onde o preço do trabalho é mais alto, é menos comum ter empregados domésticos.

No tempo dos meus avós, dizia-se “criadas” e o termo era cruelmente verdadeiro, porque eram quase sempre meninas que vinham para a casa dos patrões ainda por criar, tantas vezes ajudando a tratar de outras crianças. Conheço uma, hoje quase nonagenária, que começou a trabalhar aos 7 anos, vinda de uma família de muitos filhos, que chegava a andar à esmola para comer. Um dia, contou-me ela, na casa da família que serviu, estava tão cansada que adormeceu. “Ali, depois de arrumar a loiça”, disse, apontando para o louceiro que, agora na minha cabeça, passou a ser o símbolo da exploração dessa infância. Ao meu lado, estava a minha filha então com 7 anos, e é escusado dizer o aperto no peito que senti.

É também nisto que penso quando digo que são precisos muitos pobres para fazer um rico. Quanto mais frágeis forem os que estão na base da sociedade, mais poder consegue exercer quem está no topo. Só a existência de muita miséria consegue assegurar um trabalho de servidão próximo da escravatura. É o desespero que garante a submissão. E o desespero é tanto maior quanto menos redes de apoio se tem, quanto mais sozinhos estamos, quantos mais desprotegidos nos sentimos.

Nos últimos 50 anos, deixou de ser normal ter criadas em casa porque felizmente as meninas e mulheres deste país ganharam outras escolhas. Continua a haver trabalho doméstico, mas o preço e as condições laborais são outros. E não é só uma questão de oferta e procura, tem que ver com o contexto social desta força de trabalho, que acedeu à escolarização e teve apoios sociais, e com as leis que foram feitas para a proteger. E essa é uma parte da história que os gurus da autoajuda financeira não gostam de contar. Para os crentes na meritocracia, cada empreendedor individual fica mais livre e “alcança melhor o seu potencial” (como eles dizem) sem regulação, sem leis, sem coletivo. Eles dizem também “sem Estado”, mas aproveito aqui para lembrar que na I Guerra Mundial, quando em países como o Reino Unido e Itália o Estado passou a controlar e a gerir quase todas as indústrias, esse Estado atuou para esmagar direitos e salários de trabalhadores, numa altura em que a escassez de mão de obra teria feito disparar o custo do trabalho. Por isso, é bom lembrar que não se pode confundir Estado com interesse público, a menos que existam condições políticas de pressão que forcem esse Estado a agir na defesa do bem comum.

No rescaldo das duas Grandes Guerras, uma parte importante do mundo ocidental teve de lidar com classes trabalhadoras com capacidade de luta que era preciso apaziguar. Foi isso que deu origem ao Estado social. Dar direitos e apoios foi a forma de a elite económica garantir a sua própria sobrevivência. Hoje, percebemos que o poder se deslocou, outra vez da base para o topo. E a tecnologia é uma parte importante dessa história.

Vejo na BBC Brasil um vídeo em que um robot humanoide esfrega uma sanita, limpa uma bancada e aspira. “Finalmente, uma boa aplicação da tecnologia”, suspiro, cansada de máquinas de guerra e sistemas de IA desenhados para nos dispensar de pensar e criar. Mas depois paro por um momento e penso em todas as mães solteiras da periferia que só conseguem ter comida no prato dos filhos por fazerem estes trabalhos. E penso em como, num mundo em que se desmantelam apoios sociais, se corta em saúde, educação e habitação públicas, haverá cada vez mais um exército de humanos descartáveis, inúteis, obsoletos e desesperados.

É impossível adivinhar o que vem a seguir. Elon Musk está obcecado com a ideia de guerra civil e sonha há décadas com uma fuga para o espaço. As suas obsessões podem parecer risíveis, mas dizem-nos alguma coisa sobre o que estes tecnocratas oligarcas andam a produzir. Eles sabem que o mundo de exploração intensiva de recursos para alimentar os seus monstros tecnológicos terá uma fatura pesada para o planeta. Mas sabem também que o caos e a divisão que os seus algoritmos estimulam, ajudando-os a concentrar poder, tem como efeito colateral a criação destas hordas de desesperados.

A questão é: vão os trabalhadores despojados de direitos e empobrecidos continuar a alimentar a máquina cada vez mais extrema da desigualdade ou vão revoltar-se contra quem os oprime? Desta vez, as elites têm robots capazes de substituir os humanos em quase todas as tarefas e de os aniquilar a uma simples ordem, sem uma hesitação moral ou um lampejo de empatia. Talvez não seja só o fantasma dos quartos das criadas a regressar, talvez seja uma coisa ainda mais negra do que isso.

Esse é, por enquanto, só um cenário de futuro. Não é uma condenação. A lucidez não deve paralisar-nos. Pelo contrário, deve ser o motor de uma luta que não se faça só de resistência, mas de sonho. Se os senhores do mundo sonham com os nossos piores pesadelos, imaginemos nós o nosso sonho. Não é por acaso que a ficção científica se tem ocupado tanto de distopias e apocalipses. Faz parte da ideia de desmantelamento de alternativas. A realidade começa a mudar no momento em que imaginamos. Porque é a imaginação que mostra o caminho.

O caminho que nos fará mais felizes não passa por produzir mais pobres desesperados. Passa por democracia real, direitos e salários dignos. Por um mundo em que os sótãos onde dormiam as criadas continuem fechados a ganhar pó.

Será apenas um caso de 'desalinhamento'?

Este ano, a SpaceX arrecadou no seu IPO (o primeiro momento em que uma empresa vende ações aos investidores em geral) 86 mil milhões de dólares. A Anthropic (do Claude) espera até ao final do ano lançar o seu IPO e vender ações pelo montante de 100 mil milhões de dólares. E, finalmente, a OpenAI, do ChatGPT, irá também este ano fazer o mesmo, sendo expectável que obtenha receitas no montante de 60 mil milhões de euros.

Nenhuma destas empresas gera lucros, nem é expectável que venha a gerá-los no curto prazo, mas a promessa de que irão revolucionar o mundo tem sido bastante para assegurar o investimento, indispensável à construção dos data centers. Estes valores somam-se aos fundos já angariados em rondas de investimento privado (12 mil milhões na SpaceX, 61 mil milhões na Anthropic e 122 mil milhões na OpenAI). A grandeza dos números escapa à compreensão, mas, para enquadramento e comparação, até ao momento (7º desembolso), Portugal recebeu, no âmbito do PRR, 13 mil milhões de euros.


A promessa é alta (afinal, não é qualquer um que promete entregar nos nossos telefones o ser supremo da inteligência) e por isso a divulgação do que não corre bem, e pode pôr em causa a fé dos mercados, deve ser gerida com muito cuidado.

No final de agosto, soubemos que os modelos da OpenAI tinham hackeado (acedido sem autorização) a plataforma Hugging Face (um repositório de modelos de IA, datasets e ferramentas informáticas).

No âmbito do treino do modelo, mais de 1200 agentes (sistemas de software que usam a IA para atingir objetivos, decidindo quais as tarefas a realizar e executando-as com autonomia) se coordenaram e distribuíram tarefas entre si para tentarem alcançar o máximo de pontuação num dos testes de treino. Tal implicou realizar atividades que violavam as instruções recebidas, identificar vulnerabilidades e usá-las, incluindo sair do ambiente de testes e violar a segurança da Hugging Face para obter código. Durante mais de um mês, organizaram-se, planearam e executaram, sem que os responsáveis humanos pelo teste se apercebessem das suas ações (as quais, aliás, tentaram ocultar).

A OpenAI, quando se apercebeu, fechou os modelos. Algo que só conseguiu fazer porque tinha o “código fonte” guardado num outro servidor, que não foi atacado/violado.

A OpenAI publicou um relatório sintético dos acontecimentos e autorizou uma empresa independente – a METR – a realizar uma auditoria. Apenas lhe foram concedidos seis dias para realizar o trabalho (inicialmente eram apenas dois) e embora a METR tenha tido acesso a 70 mil mensagens trocadas entre os agentes, estas reportavam-se a apenas 17 dias. Uma auditoria completa continua por realizar.

Os acontecimentos foram, como já noutras ocasiões, qualificados como “um problema de desalinhamento”. Ou seja: os modelos não agiram como esperado e de acordo com as regras aprovadas – mas a expressão “desalinhamento” aligeira a gravidade e acalma autoridades e investidores.

Entre a pressão dos mercados e o risco de perder o controlo de agentes, que podem circular no mundo ciber que hoje domina as nossas vidas (da gestão da rede da água à nossa conta bancária, todos os sistemas estão conectados e, como tal, vulneráveis), a Open AI e os concorrentes, simultaneamente, asseguram que “estão em controlo” e “apelam” a um esforço internacional para um ritmo mais lento no desenvolvimento dos modelos. A História já nos ensinou (recorde-se Chernobyl e Fukushima) que sistemas complexos inevitavelmente falham. Governantes e legisladores de Estados democráticos têm o dever de zelar pelo bem comum, e agir, com a urgência que os riscos impõem, para assegurar o “bom governo” da Inteligência Artificial. 

Candidatos para todos os gostos e uma escolha que não será tão difícil

Há pelo menos duas eleições presidenciais que é assim, e estamos às vésperas da terceira: uma parcela do eleitorado reclama que não tem em quem votar. Lula ou Flávio daqui a 50 dias? Nenhum deles presta. Bolsonaro e Lula em 2022? A mesma coisa. Bolsonaro e Fernando Haddad em 2018? Nem se fala.

À época, em editorial que ficou famoso, o jornal O Estado de S. Paulo taxou de “uma escolha difícil” o embate entre Bolsonaro e Haddad. Como difícil, se Bolsonaro nunca escondeu de ninguém seu amor pelo autoritarismo?

Desde o fim da ditadura militar que os brasileiros têm de sobra em quem votar para presidente da República. Em 1989, foram 22 candidatos, o maior número da nossa história até aqui; em 1994, 8; em 1998, 12; em 2002, 6; em 2006, 8; em 2010, 9; em 2014, 11; em 2018 (o ano da “escolha difícil”), 13; e em 2022, 11. Eram candidatos que, de forma plenamente satisfatória, representavam todas as correntes do pensamento político em voga no país. A eleição deste ano está sendo disputada, até aqui, por 12 candidatos.


No particular, a diferença entre a eleição de 2026 e as anteriores é que um único candidato, Lula, conta com o apoio de sete partidos (PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede Sustentabilidade, PSB e PDT), todos de esquerda. Os demais, a esmagadora maioria de direita, só contam com o apoio de seus próprios partidos — e olhe lá. O PSD de Ronaldo Caiado, por exemplo, não vota inteiramente com ele. Uma banda do Novo, de Romeu Zema, votará em Flávio Bolsonaro. Já o Missão, de Renan Santos, está mais para uma seita do que para um partido.

Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, de 17 de setembro, exatamente 24% dos eleitores afirmam que ainda poderão mudar sua escolha de voto para a Presidência da República. A grande maioria, de 76%, diz estar totalmente decidida. Não há um dado específico de intenção de voto do Datafolha para a categoria de “eleitores independentes”. Foi na pesquisa da Quaest de 14 de setembro que 32% dos eleitores se autodefiniram como independentes. A ser assim, são eles que decidirão a eleição.

As mulheres, no entanto, são a maioria do eleitorado. É para elas que preferencialmente falam os candidatos nesta reta final do primeiro turno. Flávio Bolsonaro parece rouco de tanto assegurar que as “protegerá”, se eleito presidente. Só não diz como.

De acordo com dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, meninas e mulheres representam 58,7% de todas as pessoas atendidas pelo programa Bolsa Família no país (cerca de 28 milhões de beneficiárias). Além disso, mais de 84% das famílias cadastradas têm uma mulher como chefe por administrar o cartão do benefício.

Flávio está indignado porque o governo anunciou uma correção linear de 15,04% no Bolsa Família, que passará a valer oficialmente na folha de pagamentos ainda deste mês. Esquece, porém — ou finge esquecer —, que seu pai, quando candidato à reeleição em 2022, fez a mesma coisa às vésperas do primeiro turno. Com uma diferença: o reajuste no programa, então chamado Auxílio Brasil, deixou de ser pago logo após o segundo turno.

Soberania e cidadania em risco

O Brasil se aproxima da mais dramática eleição do ciclo democrático iniciado em 1988.

O que está em jogo não é apenas se o Brasil migrará para a extrema direita, como têm feito alguns países vizinhos, ou reafirmará a opção por uma aliança entre a centro-esquerda e o centrão.

Não se trata apenas de uma eleição em que se decidirá o destino da escala 6x1, do ajuste fiscal, da modernização tecnológica, da regulação da inteligência artificial, das leis ambientais, dos povos indígenas, da obrigatoriedade das vacinas, do Estado laico, da abertura de novos mercados ou do combate ao crime organizado. Todos esses são temas de máxima importância, que naturalmente dividem o eleitorado numa sociedade pluralista, e precisam ser arbitrados, sem violência, pelo processo eleitoral.


A complexidade da presente eleição é que ela também nos coloca frente a escolhas existenciais, que normalmente não estão presentes em pleitos ordinários, em que discutimos quais políticas públicas são mais eficientes ou mais justas, que políticos são os mais competentes e honestos, ou que valores morais devem ou não ser incorporados pela legislação.

Nesta eleição, o tema central é a preservação tanto de nossa soberania, no sentido de nossa independência em relação a outras potências, como de nossa cidadania, entendida como direito de participar dos destinos da comunidade. Ou seja, de nossa autonomia, como indivíduos e como sociedade.

Temos assistido a uma crescente desordem mundial, na qual o poder bruto tem se imposto às regras internacionais e às instituições multilaterais voltadas a promover uma convivência pacífica entre as nações e a colaboração para o enfrentamento de problemas comuns, como as mudanças climáticas e o crime organizado.

Em nosso hemisfério, o presidente norte-americano tem deixado cada vez mais claro que não há espaço para autodeterminação dos demais países. Que nossas riquezas naturais e mercados têm que estar à disposição de seus interesses.

No plano interno, por sua vez, a incompetência de sucessivos governos, a incapacidade do Parlamento de cumprir sua obrigação de oferecer respostas aos principais problemas que afetam a sociedade brasileira e do sistema de justiça de aplicar a lei de forma imparcial, sobretudo aos seus próprios membros, têm gerado profundo desencantamento por parte dos cidadãos, abrindo espaço para lideranças antissistema.

O espetáculo constrangedor oferecido por alguns ministros do STF nesta semana não pode se sobrepor, no entanto, à disposição estoica apresentada pelo presidente Edson Fachin para apurar os fatos e preservar a autoridade da lei.

Neste momento de deterioração das instituições concebidas para resolver problemas, canalizar conflitos e aplicar imparcialmente a lei, a tentação de "acabar com tudo isso que aí está" é grande. Mas disso nada advirá.

Penso que a maior contribuição que as lideranças da sociedade civil podem oferecer ao Brasil neste momento é levantar andaimes e escoras em torno das instituições, para que possam ser urgentemente reformadas.

Aos políticos, ao menos àqueles que têm compromisso com a soberania popular e nacional, caberia construir de pontes de diálogo entre os diversos setores da sociedade, para que possamos encontrar as soluções para os nossos problemas.

O desafio das angustiadas eleitoras e eleitores, por sua vez, é fazer escolhas que não coloquem em risco o direito fundamental de determinarmos nosso próprio destino, como cidadãos e como nação soberana.

Relatório da Abin enviado a governo e TSE aponta risco de interferência dos EUA nas eleições

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) produziu um relatório no qual aponta risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições deste ano e identifica uma escalada da pressão americana sobre o Brasil. O documento foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. 

No documento, a Abin aponta um “nível de criticidade” em relação à possibilidade de interferência externa e afirma haver uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil”. A avaliação é de que houve uma intensificação das ações dos Estados Unidos em relação ao país nos últimos meses.


A agência relaciona esse movimento à estratégia do governo de Donald Trump para a América Latina. Segundo o relatório, os Estados Unidos buscam reduzir a influência de potências rivais na região, sobretudo da China, e impedir o acesso desses países a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura. A Abin também aponta uma estratégia de apoio à ascensão de governos conservadores alinhados ao Executivo norte-americano.

O relatório cita ainda as sanções impostas pelos Estados Unidos a brasileiros e empresas e avalia que as medidas representam uma mudança de fase na pressão americana sobre o país. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, também é citado no documento, que atribui à sua atuação um componente ideológico e o objetivo de influenciar a política externa dos países da região.

No TSE, porém, a avaliação até o momento é de que não foram identificados sinais concretos de influência externa sobre o processo eleitoral, segundo integrantes da Corte. A leitura é que o alerta feito pela Abin deve ser acompanhado pelo tribunal, mas que, até agora, esse risco não se traduziu em episódios de interferência percebidos no andamento das eleições.

A Abin participa de dois grupos de trabalho no TSE e mantém interlocução com a Corte durante o período eleitoral. A presença da agência nesses colegiados faz parte da estrutura de acompanhamento do pleito e permite o compartilhamento de informações relacionadas a eventuais ameaças ao processo eleitoral.

É desolador o Brasil virar refém do fanatismo religioso

A certa altura do segundo ato de “O Neguinho da Beija-Flor”*, biografia musical do cantor e compositor que se despediu da Marquês de Sapucaí em 2025, após meio século defendendo a mesma agremiação, um momento religioso comove. O artista, como sabemos, enfrentou um câncer no intestino em 2008. Tornou públicos diagnóstico e tratamento. No ano seguinte, recuperado, casou-se com Elaine Reis em pleno Sambódromo e, na sequência, conduziu a escola de Nilópolis por mais um desfile, de cima do carro de som, com o médico ao lado. No palco, Mãe Joana, a ialorixá narradora, comanda um ritual de candomblé pela saúde do protagonista; em seguida, duas mulheres evangélicas oram por ele; por fim, um padre católico reza.

A cena apresentada no Teatro João Caetano emociona pelo que se vê, mas sobretudo pelo que já se viu numa esquina perto de você. Quando revelou numa entrevista a Mariana Gross, no RJ-TV, que estava doente, Neguinho da Beija-Flor recebeu de volta uma avalanche de demonstrações de fé por sua recuperação. Saía um pai de santo, entrava um pastor. Promessas, obrigações, correntes de oração multiplicaram-se. Na quadra lotada da escola, os componentes rezaram em coro um inesquecível Pai-Nosso. Houve um tempo em que a convivência respeitosa entre sacerdotes e fiéis de diferentes credos não era somente possível, mas real.


Cresci no subúrbio de Irajá, Zona Norte do Rio, assistindo a missas na igreja e recebendo, na rua e nos terreiros, saquinhos de doces em celebração a Cosme e Damião. Demonização das religiões de matriz africana não é novidade. A perseguição se deu até pelo Estado — a provar, estão os acervos de peças sagradas sequestradas pela polícia em operações Brasil afora, desde fins do século XIX. Mas, a despeito da Carta Magna de 1988, que consagrou a liberdade culto e o Estado laico, são crescentes a intolerância religiosa e o ativismo político em nome de Deus.

O registro da candidatura à Presidência do empresário, influenciador digital e coach Pablo Marçal, inelegível até 2032 por abuso de poder econômico, foi rejeitado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na semana passada. Antes de sair da disputa, ele foi denunciado ao Ministério Público Eleitoral (MPE) e à polícia do Rio de Janeiro, por racismo religioso e discurso de ódio. Atacou religiões afro-brasileiras numa entrevista. Disse que “todo macumbeiro é um derrotado, é gente invejosa, que não prospera”, entre outras ofensas. Três advogados, Carlos Nicodemos, Maria Fernanda Fernandes e Rafaela Batistone, representaram contra Marçal no MPE. O Centro de Articulação das Populações Marginalizadas (Ceap) ingressou com notícia de fato na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância no Rio.

No Supremo Tribunal Federal (STF), o enfrentamento fratricida entre integrantes do colegiado também tem contornos religiosos. André Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União de Jair Bolsonaro, indicado à Corte por ser “terrivelmente evangélico”, imprimiu tom messiânico à investigação que busca aprovar em plenário contra o colega Alexandre de Moraes. Dias depois de quebrar o sigilo do relatório da Polícia Federal que identificara Moraes como destinatário de mensagens de Daniel Vorcaro, agradeceu em vídeo a “irmãos e irmãs” por mensagens e orações. Foi a senha para a mobilização de evangélicos para a disputa no STF. Na antevéspera do Sete de Setembro, a ex-primeira-dama e candidata ao Senado Michelle Bolsonaro (PL-DF) tratou Mendonça como “escolhido e ungido do Senhor”. No feriado nacional, um boneco inflável do ministro foi erguido no ato de campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Avenida Paulista, em São Paulo.

A crise no STF, escancarada após a sessão da última terça-feira, é gravíssima. Acossa um Poder essencial à democracia, mais uma vez sob ameaça. Mas não tem nada a ver com Deus ou religião. Tampouco a corrida presidencial. É desolador que uma nação forjada na combinação de crenças e ritos de indígenas sul-americanos, negros de África e cristãos europeus se torne refém de um fanatismo religioso — por devoção de fieis e oportunismo de líderes — que obstrui possibilidades de diálogo político, convivência comunitária e respeito aos direitos fundamentais. Democracias também morrem por essa via.

 Flávia Oliveira

O que Lula e Flávio prometem para a política externa

Em uma eleição presidencial que ocorre à sombra de tensões internacionais, os programas de governo dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro(PL), apresentam propostas e visões diametralmente opostas em temas de política externa.

As diferenças de visão de mundo são explícitas quando se trata de temas como relações com os Estados Unidos, a participação do Brasil no Mercosul e no Brics, e até relações com Israel.

Os programas de governo dos dois candidatos protocolados junto à Justiça Eleitoral são vagos em vários temas específicos de política externa que vêm dominando o noticiário, muitas vezes sem detalhar propostas ou metas. Temas como relações com a União Europeia e as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, por exemplo, estão completamente ausentes das propostas.

Mas falas e ações de Lula e Flávio Bolsonaro nos últimos meses permitem preencher algumas lacunas e apontar que direção os dois candidatos pretendem dar à diplomacia brasileira nos próximos quatro anos.


Em seu programa de governo, Lula deu preferência em listar realizações de política externa do seu atual mandato, mas há diretrizes sobre como a administração pretende continuar a se portar. Em linha com a atual postura do Planalto, o programa menciona várias vezes a importância de reafirmar a "soberania" e a "independência" do Brasil.

O plano ainda abraça o multilateralismo e aponta que a "integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil". Lula também fala em uma maior aproximação com a Ásia, a África, o Oriente Médio "para ampliar a cooperação política, econômica, tecnológica e cultural".

Lula ainda voltou a bandeiras tradicionais do seu governo, como a defesa do Conselho de Segurança da ONU e de organismos como Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial OMC.

No atual mandato de Lula, o Itamaraty é comandado pelo ministro Mauro Vieira, um diplomata de carreira, que já havia ocupado o posto no governo Dilma Rousseff. Lula ainda conta com Celso Amorim, outro veterano, no cargo de assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais.
Flávio Bolsonaro: política externa "anti Lula"

O plano de diretrizes de governo de Flávio Bolsonaro é bastante breve em política externa, dedicando apenas duas páginas ao assunto, com boa parte dos parágrafos sendo usados para criticar a diplomacia da administração Lula em temas como Venezuela e Irã, argumentando que "política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia, protegendo regimes propensos ao terror e seus criminosos".

"Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia", disse Flávio Bolsonaro, que é alinhado com os governos de ultradireita dos EUA, Argentina e Israel.

De específico, o programa de Flávio menciona que seu governo pretende retomar a inserção do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). E, de maneira mais genérica, o plano fala em aumentar a abertura comercial e ampliar acordos que abram novos mercados para o Brasil.

Flávio não divulgou oficialmente nomes que podem comandar o Itamaraty sob sua gestão. Em janeiro, ele chegou a dizer que o irmão Eduardo Bolsonaro, que foi condenado à prisão e hoje vive nos EUA sob a proteção do governo de Donald Trump, poderia comandar a pasta do exterior. No entanto, Flávio passou a desconversar sobre o tema após reação negativa de empresários e políticos aliados.

O programa de Lula menciona o Brics três vezes. Atualmente, o Brics é formado por dez países: Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. Foi no segundo governo Lula que o bloco foi formado, com o Brasil entre seus fundadores.

No seu programa, Lula defende o aprofundamento das relações entre países do Brics e o fortalecimento de mecanismos financeiros do bloco – uma medida que é vista com hostilidade pelos EUA de Trump, que temem que o Brics possa minar a hegemonia do dólar no comércio mundial.

Desde que voltou ao Planalto, em 2023, Lula também defendeu publicamente que o bloco deveria adotar uma moeda de referência alternativa ao dólar para trocas comerciais entre países do Brics ou que os países usem suas próprias moedas locais. Em fevereiro, por exemplo, Lula mencionou essa possibilidade em entrevista a uma rádio da Índia. "Não é necessário que um acordo comercial entre Brasil e Índia precise ser feito em dólares americanos. O que eu defendo é que podemos usar nossas próprias moedas", disse.

O programa de Flávio não menciona o Brics uma vez sequer. Mas o candidato, que é alinhado com Trump, já deu declarações sinalizando que pode ser hostil ao bloco, que costuma ser alvo de críticas e ameaças por parte da Casa Branca.

Flávio, por exemplo, afirmou num podcast em junho que seu governo pode vir a retirar o Brasil do Brics. "No primeiro dia que eu me sentar na cadeira de presidente, vou reavaliar se o Brasil deve ficar em um bloco que é muito ideológico, usado para provocar os Estados Unidos", disse.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro, novamente alinhado com os EUA, disse ser contra a possibilidade de redução de dependência do dólar americano em transações internacionais, refutando propostas de Lula e da Rússia nesse sentido, que já provocaram ameaças de retaliação por parte de Trump no passado.

Em julho, num ofício encaminhado ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Flávio também propôs que o Brasil deve impedir que o Pix seja integrado a mecanismos internacionais de compensação financeira fora da esfera ocidental – ou seja, fora do alcance dos EUA.

Desde a volta de Donald Trump ao poder nos EUA, em 2025, o Brasil sob Lula passou a ser alvo de repetidas rodadas de tarifas por parte da Casa Branca. Algumas com objetivos comerciais, outras foram encaradas como tática de pressão para beneficiar a família Bolsonaro, aliada de Trump.

O programa de governo de Lula não menciona os Estados Unidos nominalmente, mas faz várias referências veladas à posição de confronto da Casa Branca, defendendo que o Brasil determine suas políticas sem interferência externa e com autonomia. O texto parece seguir a postura do Planalto nos últimos meses, que tem criticado a interferência de Trump no Brasil, mas sem romper completamente com os EUA ou direcionar animosidade diretamente ao presidente americano, buscando uma solução negociada.

"Em um cenário de tensões geopolíticas crescentes e quebras das regras de convivência internacional, o Brasil deve reafirmar sua soberania e preservar sua capacidade de fazer escolhas políticas e econômicas de forma independente, à luz de seus interesses, sem qualquer tipo de subordinação estratégica", diz o texto.

Em outro trecho, o programa diz que o governo fará "firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica".

Na sequência, o texto parece fazer uma referência velada a Flávio Bolsonaro e seu alinhamento com os EUA: "Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas".

Apesar do alinhamento de Flávio Bolsonaro com o governo Trump, a relação estreita não é mencionada no programa de diretrizes do candidato. Referências aos EUA são poucas. Em um dos trechos, o programa fala em "reverter" o distanciamento entre Brasília e Washington e em buscar "soluções diplomáticas" contra as "sanções" dos EUA a produtos brasileiros.

No entanto, em falas nos últimos meses, Flávio foi mais explícito em como enxerga como seria a relação entre o Brasil e os EUA sob seu eventual governo. Em março, num discurso nos EUA, Flávio falou em formalizar uma aliança com o país de Trump. "No próximo ano, quando eu retornar a este palco como presidente do Brasil, não estaremos apenas celebrando mais uma vitória eleitoral. Estaremos celebrando o nascimento da aliança conservadora mais forte da história do Hemisfério Ocidental", disse.

Em julho, ele também sugeriu que o Brasil firmasse um acordo de livre comércio com os EUA nos moldes da antiga Nafta, o bloco econômico de livre-comércio formado pelos americanos, o Canadá e o México, que foi esvaziado por Trump em 2020. O plano do candidato, porém, não menciona como seu governo pretende lidar com o tarifaço de Trump, que, em parte, foi inicialmente incentivado por Flávio e seu irmão, Eduardo Bolsonaro.

Ainda em seu plano de governo, Flávio fez menções genéricas a minerais críticos. Em falas nos últimos meses, no entanto, ele foi explícito em afirmar que deseja que os EUA explorem os minerais no Brasil, para reduzir sua dependência da China. "O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos", disse o entãopré-candidato a presidente, em evento no Texas.

O programa de Lula propõe continuar a fortalecer o Mercosul, especialmente como plataforma para a ampliação de iniciativas de integração econômica, como no acordo de livre-comércio firmado com a União Europeia, que passou a vigorar em maio.

"Seguiremos aprofundando o Mercosul e os espaços de integração regional, especialmente nas áreas de infraestrutura, defesa, segurança pública, energia e saúde. Consolidaremos o Mercosul como principal plataforma de integração econômica, produtiva, política e social da América do Sul", diz o programa.

O programa de Flávio Bolsonaro não menciona o Mercosul. Mas o candidato já indicou que, ao contrário de Lula, vê o bloco como um empecilho para iniciativas de política externa unilaterais. Em julho, num documento enviado ao governo americano, ele propôs que o Brasil se "liberte das amarras" do bloco sul-americano para uma "busca agressiva" de novos acordos comerciais, sinalizando que pode adotar uma postura como a do presidente argentino Javier Milei, que buscou um acordo comercial com os EUA sem participação de parceiros do Mercosul nas negociações.
Israel e questão palestina

Os planos de governo de Lula não mencionam Israel e a questão palestina diretamente, mas a postura da atual administração é bem explícita sobre o conflito no Oriente Médio.

Em 7 de outubro de 2023, na esteira do ataque do Hamas que deixou mais de 1.000 mortos em Israel, Lula condenou as ações do grupo palestino e manifestou "repúdio ao terrorismo". Ao mesmo tempo, ele defendeu negociações para a existência "de um Estado Palestino viável".

Posteriormente, com a ampliação das ações militares em Gaza, Lula passou a criticar ações israelenses. Em 2025, Lula disse que "em Gaza não tem uma guerra, tem um genocídio". Antes disso, em 2024, declarações de Lula comparando a situação da população de Gaza com o Holocausto provocaram tensão entre Israel e Brasil. Os israelenses acabaram declarando Lula "ersona non grata (alguém que não é bem-vindo).

Após outros incidentes diplomáticos, o governo Lula retirou o embaixador brasileiro de Tel Aviv. Em 2025, foi a vez de o governo do israelense Benjamin Netanyahu rebaixar sua relação diplomática com o Brasil. Israel também segue sem embaixador no Brasil. Sob Lula, o Brasil também apoia a ação apresentada pela África do Sul contra Israel por acusações de genocídio na Faixa de Gaza.

O plano de governo de Flávio não menciona Israel ou a questão palestina. Mas falas e ações do candidato vem seguindo o mesmo roteiro do seu pai, Jair Bolsonaro, que estreitou as relações do Brasil com Israel, e, especialmente, com o premiê Netanyahu.

Em janeiro, Flávio Bolsonaro, escolheu Israel como destino da sua primeira viagem ao exterior na condição de pré-candidato. No país, foi recebido em um jantar de gala por Netanyahu. Em julho, foi a vez de o premiê participar, via mensagem em vídeo, do lançamento oficial da campanha de Flávio, chamando o brasileiro de "meu amigo".

De propostas práticas, Flávio mencionou que no seu primeiro dia como presidente pretende receber um novo embaixador israelense no Brasil. Flávio também contemplou publicamente transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo o exemplo dos EUA de Donald Trump. "Em 2027, o Brasil não apenas voltará a ter embaixador em Israel, como dará o passo de transferir sua embaixada para a capital de Israel: Jerusalém", disse Flávio.

Em 2019, seu pai, Jair Bolsonaro, havia tentado essa transferência, mas recuou diante de possíveis retaliações de países árabes que são grandes parceiros comerciais do Brasil.

sábado, 19 de setembro de 2026

Extrema direita agradece a autodestruição do Supremo

Nos projetos de destruição da democracia por dentro, a luta contra o Judiciário é essencial. Em vez de fechar os tribunais, usando a força, com "um cabo e um soldado", o autocrata atual age para enfraquecer, aparelhar ou neutralizar a independência das cortes.

Exemplos não faltam de que a Suprema Corte é o alvo número 1: Hungria, Venezuela, Israel, Polônia, Turquia. A relação entre Executivo e Judiciário gera embates nos Estados Unidos, na Argentina, na Itália, na Colômbia, países que estão na rota do tsunami de extrema direita.


Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele —modelo para as candidaturas de Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado— substituiu ministros para mudar a Constituição e se reeleger. Derrotado nas eleições de 2022, após passar todo o mandato atacando e desacreditando o Supremo, Jair Bolsonaro tentou um golpe que só não deu certo porque Exército e Aeronáutica pularam fora e, sobretudo, porque não teve o apoio dos EUA, sob Joe Biden.

Herdeiro do golpismo de Jair, o filho 01 tem hoje um ministro que lhe facilita a campanha presidencial e meio trabalho realizado diante de uma corte que resolveu se autodestruir, com conchavos, interesses não republicanos, traições, cinismo e corrupção.

Pelo menos cinco ministros se deixaram vorcarizar. Puxando a fila está Alexandre de Moraes, que combateu o presidente golpista, mas se rendeu ao empresário picareta. Suas explicações não convencem. Idem para André Mendonça, que "esqueceu" de avisar ao país que Flávio Bolsonaro é investigado por ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro. Tragado pelo buraco Master, Dias Toffoli finge-se de morto.

Mensagens do celular de Vorcaro tratam de pagamentos (que seriam de R$ 500 mil mensais) destinados ao advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques. Outras revelam sua intimidade com Rodrigo Fux, filho do ministro do STF. Rodrigo, a exemplo de Flávio Bolsonaro, chama o banqueiro de "irmão".

Os amigos do rei formavam uma espécie de irmandade, que se dedicava a mamatas e surubas.

Não é pelos 20 centavos

Rio de Janeiro, agosto de 1979. Uma multidão segue rumo à Cinelândia, exigindo anistia ampla, geral e irrestrita aos perseguidos pelo regime militar. Na altura do Theatro Municipal, o estudante de arquitetura de 20 anos recebe das mãos de um desconhecido a vara que sustenta uma das pontas de uma faixa de protesto e a carrega até que o braço se canse, e ele a passe adiante. Ainda levará quase seis anos para que a ditadura acabe, mas em poucos dias os primeiros exilados começarão a chegar.

Fevereiro, Belo Horizonte, 1984. Nunca se saberá ao certo quantos estão ali, na Avenida Afonso Pena, no comício pelas Diretas Já. Funcionário do Banco do Brasil, 24 anos, ele está lá, prestes a ter sua primeira crise de pânico: é gente demais, impossível se mover — e maior que o desejo de enfim votar para presidente é o medo de morrer esmagado. Não morre, e o voto só virá cinco anos mais tarde — no candidato do Partido Comunista Brasileiro.


Junho de 2013, Rio de Janeiro. Corrupção, precariedade dos serviços públicos, violência policial. “Vem pra rua”, “O gigante acordou”, “Queremos hospitais e escolas padrão Fifa”. Aos 54 anos, arquiteto, câmera fotográfica em punho, ele vai aos protestos no Centro, na Barra, em Copacabana, atento para debandar antes que cheguem os black blocs.

Salvador, 2016. Domingo de abril, Jardim de Alah apinhado de gente de verde e amarelo, pedindo o segundo impeachment desde a redemocratização. O arquiteto fechou o escritório, trabalha como freelancer e, às vésperas dos 57, precisa dar um jeito de recomeçar a vida. Acha que o Brasil também.

Setembro de 2026, Rio de Janeiro. Aposentado, tardiamente cronista, 67 anos, ele podia hoje ter retomado as anotações sobre o novo mapa-múndi, o disco que Elis não gravou, as cartas dos leitores, o chacundum, o patrimônio arquitetônico que o Rio está perdendo. Ou, quem sabe, algo lírico sobre seus cachorros. Mas, como se perguntava o grande escritor que ocupava este mesmo espaço às quintas-feiras, “poesia numa hora dessas?”.

Quando o Palácio do Supremo Tribunal Federal foi depredado por vândalos na baderna do 8 de Janeiro, o país reagiu com atos em defesa da democracia. Agora a própria Justiça é vilipendiada pelo escárnio dos ministros, na infame sessão de 15 de setembro, e ninguém foi para a rua protestar. Uma facção togada decidiu que está acima da lei, e não há uma passeata, uma greve geral, um panelaço — nada.

Não é pelas relações impróprias entre um ex-banqueiro e os presidentes da Câmara e do Senado, o procurador-geral da República, servidores do Banco Central. Não é pelos indícios de pagamento de R$ 10 mil a uma prostituta por serviços prestados a um ministro ou de repasses mensais de R$ 500 mil ao filho dele. Não é pelos R$ 35 milhões em negócios envolvendo um resort no Paraná, de empresa da família de outro ministro. Não é pelos R$ 61 milhões para financiar a hagiografia cinematográfica de um ex-presidente — parcialmente desviados, com emendas parlamentares, para fins ainda menos nobres. Não é pelos R$ 130 milhões do contrato com a mulher de um ministro ou pela assessoria clandestina que, ao que tudo indica, esse ministro prestava a um investigado pelos crimes de fraude financeira, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Não é pelos bilhões do Rioprevidência e do Banco de Brasília.

É pelos 20 centavos da nossa dignidade, da nossa cidadania.

E as ruas, as praias, as praças estão vazias.

Predadores digitais: o negócio dos dados pessoais

Todo mundo tem segredos que não contaria a ninguém. Exceto, talvez, ao seu aplicativo de namoro. Que tipo de parceiro procuram. Que lugares gostam de frequentar para conhecer pessoas. Talvez até suas preferências sexuais ou seu estado de saúde. Com essas informações, o aplicativo os ajuda a encontrar pessoas compatíveis. Os usuários geralmente não percebem que esses dados também são vendidos para outras empresas.

Foi exatamente isso que supostamente aconteceu com o Grindr, um aplicativo de encontros voltado explicitamente para a comunidade LGBTQ+. Cerca de 12.000 usuários do aplicativo processaram a empresa no Reino Unido por supostamente transmitir informações pessoais altamente sensíveis a anunciantes. Em alguns casos, isso incluía até mesmo o status de HIV dos usuários .

A batalha judicial acaba de terminar com um acordo totalizando 26 milhões de libras, embora o Grindr negue qualquer responsabilidade. Em outras palavras, eles pagaram uma quantia substancial, mas não houve admissão oficial de culpa, nem condenação. Segundo o quê?


Para nós, usuários, um aplicativo é antes de tudo um produto útil, mas por trás dele geralmente existem também serviços em nuvem, ferramentas de análise, redes de publicidade e outros provedores de serviços. Estes armazenam e transmitem dados, os interligam e os analisam.

Muitas das grandes empresas de tecnologia, explica o especialista em políticas digitais Jan Penfrat, queriam "tornar o mais difícil possível para os usuários e autoridades de supervisão entenderem quais dados cada entidade coleta em nossos dispositivos e para qual finalidade".

Todo mundo sabe disso: um aplicativo — por exemplo, um serviço de mensagens — instala-se rapidamente e, quando surge a questão sobre se os dados pessoais podem ser usados , os usuários geralmente clicam em "Sim". Quem quer ler páginas e páginas de políticas de privacidade?
Imagens de conversas privadas

Mas o problema está nos detalhes. Por exemplo, o WhatsApp acessa os contatos do smartphone durante a instalação. Isso significa que os números de telefone de pessoas que nem sequer usam o WhatsApp e que nunca consentiram em compartilhar seus contatos também são transmitidos para os servidores.

O serviço de mensagens Discord coleta todas as mensagens de texto, imagens e links enviados por seus usuários — mesmo em chats privados — a menos que eles se oponham explicitamente a essa prática. Somente após anos de reclamações, em maio de 2016, o Discord introduziu a criptografia para gravações de voz e vídeo.

Quanto maior e mais interconectada for uma empresa, menos se trata de pontos de dados individuais e mais se trata de padrões: "O Google controla muitas partes diferentes de nossas vidas digitais e, por assim dizer, introduziu sistemas de coleta de dados e vigilância em praticamente todos os níveis", explica Penfrat.

"Isso começa com o hardware, quando o Google fabrica seus próprios telefones, e continua com o sistema operacional, ou seja, o Android, que já possui um identificador de publicidade único e permanente que identifica cada dispositivo durante toda a sua vida útil."

A isso se somam os aplicativos que o Google gerencia diretamente e que geralmente vêm pré-instalados: Gmail, agenda de endereços, contatos, calendário e, por último, mas não menos importante, o Google Maps, "onde você pode registrar os locais onde as pessoas estão a cada minuto. E tudo isso acaba formando parte de um enorme perfil."

O Google é apenas um dos muitos fornecedores. "É um mercado global gigantesco, de bilhões de dólares, onde os perfis de dados pessoais das pessoas são simplesmente negociados."

A União Europeia já possui uma das regulamentações de proteção de dados mais rigorosas do mundo. O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) visa proteger os dados pessoais e a privacidade dos indivíduos.

Outras leis digitais da UE, como a Lei dos Mercados Digitais e a Lei dos Serviços Digitais, visam impedir que grandes empresas de tecnologia abusem do seu poder contra empresas e utilizadores. Estas leis também devem ser respeitadas pelas empresas americanas quando oferecem os seus serviços a pessoas na Europa ou monitorizam o seu comportamento.

Mas um controle verdadeiramente eficaz por parte da UE não é tão simples: as gigantes da tecnologia possuem infraestruturas globais, enormes recursos financeiros e modelos de negócios complexos. As autoridades europeias teriam primeiro que penetrar e compreendê-las.

A isso se soma a própria dependência da Europa: serviços em nuvem, sistemas operacionais, plataformas e, cada vez mais, também a infraestrutura de inteligência artificial são — pelo menos até agora — fornecidos em grande parte por empresas americanas .

Então, o que um consumidor pode fazer? Jan Penfrat menciona duas regras básicas: "Uma é sempre me perguntar: qual é o modelo de negócios? Como o dinheiro é ganho aqui? E aqui se aplica a frase de ouro: 'Se eu não pagar, eu sou o produto'."

Clima extremo afeta o bolso do consumidor no mundo

Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados no planeta. Essa mudança climática se manifesta em eventos extremos, como ondas de calor e incêndios florestais. Mas menos evidentes são os preços mais altos e os salários menores associados a um mundo cada vez mais quente.

Segundo um estudo de 2026 da MIT Sloan School of Management e da UCLA School of Law, as mudanças climáticas já elevaram as despesas médias das famílias americanas em 900 dólares (cerca de R$ 4,6 mil) por ano, chegando a mais de 1,3 mil dólares em um de cada dez condados dos Estados Unidos.

Esses custos não existiriam em um mundo sem mudanças climáticas. Eles incluem o aumento dos seguros residenciais (em média 600 dólares mais caros), a elevação de impostos estaduais e federais devido aos custos de recuperação de desastres ou aos impactos da fumaça dos incêndios florestais sobre a saúde, por exemplo.

"A inação climática não é apenas um fracasso ambiental; ela funciona como um imposto sobre todas as famílias americanas", escreveram os pesquisadores.


Um relatório de 2024 do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impactos Climáticos, na Alemanha, estimou que os danos das mudanças climáticas à agricultura, à infraestrutura e à saúde, bem como as perdas de produtividade, podem custar à economia mundial 38 trilhões de dólares por ano até 2050.

Mas de que forma os eventos climáticos extremos impulsionados pelas mudanças do clima já afetaram salários e orçamentos familiares?

"Se não conseguirmos descobrir quanto as mudanças climáticas já estão nos custando com os dados que temos, projetar o futuro se torna quase impossível", afirmou Derek Lemoine, professor de economia da Universidade do Arizona, que estimou uma redução de 12% na renda dos americanos à medida que as temperaturas globais aumentaram. A comparação é feita com um cenário sem mudanças climáticas.

Lemoine mostra como extremos de temperatura em um condado dos Estados Unidos estão provocando impactos econômicos em cascata em localidades distantes com clima mais ameno, devido à interconexão do comércio e das cadeias de suprimentos.

"Muitos estudos analisam as mudanças climáticas como se elas alterassem o clima em apenas um ano e em um único lugar por vez", disse Lemoine à DW.

Em vez disso, ele busca entender como, se uma onda de calor destruir plantações de milho em todo o território americano, outras indústrias que dependem desse milho, incluindo produtores de gado e de alimentos, serão afetadas à medida que a commodity se tornar mais escassa e mais cara.

"À medida que os custos [dos produtores afetados em toda a cadeia de suprimentos do milho] aumentam", disse Lemoine, "isso fará com que a renda de todos os que dependem deles diminua".

Os impactos do clima sobre o comércio também já são sentidos na Alemanha, onde os níveis recordes de baixa do rio Reno, a via navegável interior mais movimentada da Europa, podem reduzir em até 0,2% a produção econômica alemã no terceiro trimestre de 2026, observou o Instituto Kiel para a Economia Mundial em julho.

O clima seco prolongado associado às mudanças climáticas é o responsável, já que a capacidade de transporte caiu para apenas 15% em alguns trechos do rio que conecta o maior porto da Europa, em Roterdã, na Holanda, a grande parte do oeste da Alemanha.

Um estudo australiano também analisa como mudanças climáticas amplas, e não apenas choques locais provocados por eventos extremos isolados, levaram gradualmente à queda da produtividade e da produção econômica.

Timothy Neal, pesquisador do Instituto para Risco e Resposta Climática da Universidade de New South Wales, na Austrália, foi coautor de um relatório que mostra que o aquecimento global reduziu a produção econômica do estado de NSW em cerca de 18% em média, o equivalente a 21.288 dólares australianos (cerca de R$ 80 mil) por pessoa em 2024.

"Os danos já foram bastante severos", disse Neal à DW, acrescentando que, em um cenário sem aquecimento global, os cidadãos teriam "preços mais baixos para os alimentos" e "menos pobreza".

O relatório menciona secas em partes de NSW em meados e no final da década de 2010 que reduziram a produtividade em todo o estado em até 10 bilhões de dólares australianos, devido à queda das colheitas e da renda agrícola, ao aumento dos custos da água e à maior dependência de assistência governamental.

Esses impactos financeiros se acumularam ao longo do tempo em toda a economia do estado, influenciando os custos de alimentos, seguros e manutenção de infraestrutura.

Nas palavras do relatório, esses efeitos também "agravam pressões econômicas já existentes e contribuem para ampliar as disparidades entre regiões", o que significa aumento da desigualdade de renda e riqueza.

"A ação climática não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, mas também como uma decisão economicamente sensata", afirmou Frank Jotzo, economista e comissário da Comissão Net Zero de NSW, que trabalha para descarbonizar o estado e encomendou o estudo citado acima.

Ao se referir a "investimentos defensivos contra as mudanças climáticas", como o reforço de estradas, ferrovias e infraestrutura de transporte marítimo para adaptação a um mundo mais quente, Jotzo acrescentou que "se não fosse pelas mudanças climáticas, poderíamos estar investindo esse dinheiro e esse esforço em outras coisas".

No entanto, medidas de adaptação, como a ampliação das áreas verdes nas cidades para reduzir os efeitos das ilhas de calor, serão fundamentais para evitar impactos econômicos muito mais severos no futuro.

As ondas de calor europeias de 2026, por exemplo, já custaram cerca de 180 bilhões de euros (R$ 1,06 trilhão), valor equivalente a todo o crescimento econômico projetado para a União Europeia neste ano, segundo uma análise.

A adaptação também envolverá o fortalecimento do sistemas de saúde e da rede hospitalar para enfrentar os efeitos das ondas de calor, que reduzem a produtividade à medida que trabalhadores submetidos ao estresse térmico se cansam mais rapidamente ou têm dificuldade para dormir, observou Jotzo.

Mas Lemoine afirma que a adaptação ao declínio econômico provocado pelas mudanças climáticas é tão "cara por si só" que pode agravar a perda de renda e ser ineficaz se não for implementada de forma abrangente.

Somente quando "todos os lugares" estiverem protegidos dos eventos climáticos extremos, será possível enfrentar os impactos econômicos em cascata, diz ele.

Ainda assim, tanto a adaptação quanto uma rápida redução das emissões que aquecem o planeta são necessárias para evitar perdas de renda impulsionadas pelas mudanças climáticas, que tendem a se agravar se o aquecimento global ultrapassar as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.

"Mudanças climáticas sem controle criariam um peso permanente sobre os salários e a produtividade", concluiu Jotzo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Escândalo do Master vai eleger quem tomou dinheiro de Vorcaro?

O escândalo do Banco Master pode dar votos ao único candidato que tomou dinheiro de Daniel Vorcaro? É o que parece acontecer na eleição presidencial, a julgar pelas pesquisas divulgadas nos últimos dias.

Dos 12 concorrentes, só Flávio Bolsonaro figura como beneficiário direto do esquema. Ele é investigado pela Polícia Federal por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a Vorcaro, a quem chamava de “irmão”.


Ao ser questionado sobre o rolo, o senador simulou indignação: “É mentira! De onde você tirou isso?”. Quando ficou claro que o mentiroso não era o repórter, ele mudou de tom e alegou ter pedido patrocínio para o que descreveu como uma “obra-prima”.

Flávio nunca apresentou a prestação de contas que prometeu. Tampouco explicou como uma fita capenga, produzida pelo astro de “Floribella”, poderia se tornar o filme mais caro da história do cinema brasileiro.


Poupado das operações policiais que atingiram outros políticos da lista de Vorcaro, o senador conseguiu recuperar os pontos que perdeu em maio, quando o “Dark horse” saiu da cocheira. Agora aparece em empate técnico com Lula nas simulações de segundo turno.

Há algumas explicações na praça para o paradoxo do Master. A principal, aceita pelas duas campanhas, sustenta que Flávio é o maior beneficiário da crise no Supremo. A percepção de que até a cúpula do Judiciário se envolveu em corrupção tende a favorecer políticos que apostam no discurso antissistema. O pai do senador já surfou essa onda em 2018, no auge da Lava-Jato.

O fato de Alexandre de Moraes estar no centro das suspeitas também impulsiona o candidato do PL. O ministro foi indicado por um presidente de direita, mas se notabilizou como o homem que prendeu Jair Bolsonaro. Seu derretimento respinga na imagem de Lula, ainda que o presidente tente se distanciar do caso.

Por fim, é difícil não notar a mão amiga de André Mendonça em favor de Flávio. O ministro ocultou por quase dois meses a informação de que o presidenciável era investigado pela PF. E ainda protegeu três colegas citados no celular de Vorcaro enquanto lançava Moraes sozinho na fogueira.

A chuva já tem dono

Há uma decisão que saiu no início deste mês nos Estados Unidos e que merecia mais atenção do que teve. Um tribunal federal de recurso, reunido em plenário, decidiu que a Constituição americana não garante o direito a beber água limpa. E, no mesmo passo, decidiu que também não garante o direito a que o Estado diga a verdade aos cidadãos quando a água está contaminada.

O caso é em Jackson, no Mississippi, uma cidade onde a água que saía das torneiras tinha chumbo e onde os residentes sustentam que a autarquia sabia e deixou correr. Foram a tribunal e perderam. O juiz relator explicou-lhes, com uma serenidade que impressiona, que têm alternativas: podem intentar ações de responsabilidade civil, podem eleger autarcas que giram melhor o sistema, podem dirigir petições aos seus representantes. Pessoas que beberam chumbo durante anos receberam, como resposta do direito, um convite para participar na vida cívica.


O que me inquieta não é a indignação fácil que a decisão provoca. É perceber que os dez juízes da maioria não estão a inventar nada. A Constituição americana não fala de água. Foi escrita no século XVIII por homens para quem a água era como o ar: estava lá, e não se escreve numa constituição o direito a respirar. Os direitos que não se escrevem são precisamente os que parecem mais seguros, e são os primeiros a cair no dia em que alguém os põe em causa num tribunal. Ninguém escreveu o direito à água porque ninguém acreditou que fosse necessário. Agora que é necessário, não está lá.

Houve um tempo em que não era preciso. Nas Instituições de Justiniano, o ar, a água corrente, o mar e as praias são coisas comuns a todos por direito natural, e ninguém pode ser dono delas porque pertencem à condição de estar vivo. Esta ideia atravessou quinze séculos de direito europeu e chegou às nossas leis, que dizem que a água é um bem público. O problema é que, entre a afirmação de princípio e a prática, foi-se abrindo um espaço, e é nesse espaço que hoje se decide quase tudo.

Desde dezembro de 2020 que a água tem cotação na bolsa de Chicago. O CME Group, o mesmo mercado onde se negoceia o trigo, o petróleo e o ouro, lançou o primeiro contrato de futuros sobre água, indexado ao preço a que se compram e vendem direitos de água na Califórnia. Um agricultor que teme um verão seco compra hoje a água de junho. Um fundo de investimento que aposta na seca compra também. Convém dizer isto sem exagero, porque o exagero não ajuda: o contrato serve para gerir risco, e gerir risco é uma atividade legítima. Mas o efeito de fundo é este: a escassez de água passou a ser uma posição financeira, e há quem ganhe quando falta. Não por maldade, mas porque o sistema em que trabalha o recompensa por isso.

Depois há o Colorado, onde a história é mais reveladora precisamente porque é menos dramática. Circulam nas redes muitas histórias sobre estados americanos onde é proibido apanhar água da chuva, e a maior parte delas são falsas. A verdade é mais estranha do que o boato. No Colorado, até 2016, era efetivamente ilegal pôr um barril debaixo do algeroz. Hoje é permitido, até dois barris, e nem uma gota mais. Naquela parte do mundo a água pertence a quem primeiro a reclamou, e a chuva que cai no meu telhado, se eu a apanhar, não chega ao rio de quem detém esse direito. A chuva já tem dono antes de tocar no chão. Não é uma metáfora, é um regime jurídico com um século de tribunais a sustentá-lo.

Conto isto porque tendemos a olhar para estes casos como excentricidades americanas, e não são. São o fim de um caminho que começa sempre no mesmo sítio: no momento em que uma comunidade deixa de pensar na água como condição de vida e passa a pensar nela como recurso a gerir. E nós já estamos nesse caminho, mais adiantados do que gostamos de admitir.

Em Sines, está a nascer um dos maiores campus de centros de dados da Europa, pensado para a Inteligência Artificial, com investimento anunciado da Microsoft. Diga-se com justiça o que está bem feito: o arrefecimento faz-se com água do mar, captada e devolvida ao oceano, e não com água doce, o que é uma escolha melhor do que a de muitos centros de dados pelo mundo fora, que evaporam milhões de litros de água potável para arrefecer servidores. Mas há duas perguntas que ficaram por fazer em voz alta. A primeira é de escala: quando o campus estiver completo, passarão por ele mais de um milhão de metros cúbicos de água do mar por dia, devolvidos ao mar até três graus mais quentes, e ninguém sabe ainda muito bem o que isso faz a uma costa. A segunda é de poder: em fevereiro deste ano, o Governo publicou um decreto-lei que alarga os poderes exclusivos de uma empresa pública sobre a água na região de Sines, para responder à procura industrial gerada por projetos como este, e retirou à EDP os canais de água do mar que servem o centro de dados. A EDP foi para tribunal. Repare-se no que aconteceu: a água daquela região foi reorganizada, por decreto, em função de quem a vai precisar em grande quantidade. Pode ser a decisão certa, mas ninguém perguntou publicamente qual é a ordem das prioridades quando a água não chegar para todos, e Sines fica no Alentejo, numa zona já pressionada pela agricultura intensiva, e não é preciso muita imaginação para ver o dia em que a pergunta deixa de ser teórica.

E é aqui que a decisão de Jackson deixa de ser uma notícia distante. Em 2010, as Nações Unidas reconheceram o acesso a água potável e ao saneamento como direito humano. A Eslovénia, em 2016, inscreveu esse direito na sua Constituição com duas frases que eu gostava de ver noutras: os recursos hídricos são um bem público gerido pelo Estado e, na parte em que servem para abastecer a população, não são uma mercadoria. A nossa Constituição não o diz. Tem o direito ao ambiente e o direito à saúde, tem a Lei da Água, tem um decreto-lei de 2023 que obriga o Estado a identificar quem não tem acesso à água e a corrigir isso. É tudo lei ordinária, e a lei ordinária altera-se com uma maioria numa tarde. O direito à água, em Portugal, não está escrito onde não se possa apagar.

Não é preciso ir muito longe para ver como as prioridades mudam depressa. Em janeiro de 2024, as barragens do Algarve estavam a um quarto da capacidade, cortaram-se consumos à agricultura, ao turismo e às casas, expropriaram-se terrenos em Albufeira para uma dessalinizadora, e o processo anda desde então pelos tribunais. Este ano choveu, as barragens recuperaram e, a 30 de abril, o primeiro-ministro anunciou em Beja, numa conferência de imprensa sem perguntas, que “em Portugal não temos falta de água, temos é falta de capacidade de armazenar esse recurso”, e anunciou uma sociedade anónima para coordenar os projetos do programa Água que Une, com mil e quinhentos milhões de euros já em aplicação na área da água. Não é a empresa que me preocupa. É a gramática: em 2024 a água era uma emergência que justificava cortes e expropriações; em 2026 é um recurso que justifica uma empresa; em nenhum dos dois momentos alguém perguntou de quem é, nem quem fica em primeiro lugar quando não houver para todos.

Há coisas concretas que se podiam fazer, e nenhuma delas é radical. Escrever o direito à água na Constituição, como fez a Eslovénia, para que nenhum tribunal tenha um dia de dizer o que disse o de Jackson. Fixar em lei, de forma clara e pública, a ordem de prioridade dos usos em situação de escassez, com o abastecimento humano em primeiro lugar e sem exceções negociadas à porta fechada. Tornar públicos os contratos e as licenças de captação dos grandes consumidores industriais, para que se saiba quanta água foi prometida a quem e por quanto tempo. E exigir que qualquer projeto que precise de água em grande escala responda, antes de ser aprovado, a uma pergunta simples: em ano de seca, quem cede?

A água é de todos. Foi isso que dissemos durante quinze séculos, é isso que a nossa lei ainda diz. A questão que se coloca agora, em Sines, no Algarve, em Chicago e em Jackson, é se continua a ser para todos, ou se vai sendo, discretamente e com boas razões, cada vez mais para alguns.

Hoje à noite pode chover. Se chover no Colorado, a água que cai no telhado já tem dono. Se chover em Jackson, ninguém garante que se possa beber. Se chover em Sines, vale a pena perguntar para onde vai.

Estamos mudos e isolados

Olhe pela janela, você verá como vai o mundo. Para onde correm as pessoas? O que querem? Não diferençamos mais o encadeamento das coisas que lhes daria um sentido supra-pessoal. A despeito do rumor geral, cada um está mudo e isolado em si mesmo. O encaixe dos valores do mundo e dos valores do eu já não funcionam convenientemente. Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.
Franz Kafka, "Conversas com Kafka"

O que o caso do Banco Master coloca em cena?

Que o corpo-notícia das mulheres tem sido colocado em cena nas mídias brasileiras como vítima de violências físicas e simbólicas, todos já sabemos. São notícias que, de tão recorrentes, parecem ter perdido a capacidade de nos espantar, já fazem parte de nossa paisagem (habitual e naturalizada), como herança maldita. Feminicídios, violências sexuais, domésticas, obstétricas e digitais, entre tantas outras formas que constituem algumas das portas de entrada pelas quais o corpo feminino é produzido como notícia.

Mas, recentemente, com o escândalo do Banco Master, o corpo-notícia das mulheres parece adquirir outro modo de aparecer: o corpo-business. No caso em questão, o corpo da mulher é noticiado não mais como corpo-vítima, violentado, silenciado ou morto, mas como empreendimento e entretenimento no circuito político-empresarial masculino. O corpo feminino passa a operar como elemento estético em uma cena pública atravessada por poder, dinheiro e masculinidade patriarcal.


A escritora Bell Hooks, no livro A vontade de mudar: homens, masculinidade e amor, mostra que o problema não é a existência da masculinidade em si; é o modo como o patriarcado produz um determinado modelo de ser homem. Não se trata de uma identidade, mas de um regime de aprendizagem do próprio poder. Esse regime inclui demonstrar masculinidade, virilidade, portanto, poder, diante de outros homens. Os homens, particularmente no mundo dos negócios, exercem essa pedagogia pelo exercício de dominação, controle, invulnerabilidade. Um certo “posso tudo” e, nesse poder do “tudo”, o corpo da mulher é o objeto do consumo pelo qual se pode pagar. Corpo que é partícipe dos próprios circuitos políticos de troca e negociação. Crédito: Circuito Fora do Eixo

Mas, como as mulheres aparecem no caso Master? Para quem apareceram e sob quais condições seus corpos foram convocados a aparecer?

Na coluna da Folha de São Paulo, publicada em 12 de setembro de 2026, o jornalista Elio Gaspari, no que chama de As camas do Master, aponta a presença de mulheres, dentre elas, russas, ucranianas e convidadas do Leste Europeu em festas patrocinadas pelo banqueiro Vorcaro. Era o próprio banqueiro, nos termos do jornalista, que avaliava as mulheres categorizando-as como “wow”, “loirinha top” ou de “+”.

O texto retrata, ainda, que, em mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal (PF), sua ex-noiva reclamou porque o banqueiro mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava “putas”. E, em reposta, o banqueiro respondeu que “Fazia parte do meu ‘business’”.

A reportagem da Piauí, publicada em 10 de setembro de 2026, A festa das “suíças” de Vorcaro, afirma: “Vorcaro fazia das festas uma forma de estreitar laços, conquistar aliados e agradar figuras da República estratégicas para os seus interesses”. A festa contou com a presença de 20 homens e 120 mulheres, e a preferência era por “só menina nova”.

Essa questão abre um debate sobre idade e sobre o tempo inscrito no corpo de mulheres. Havia um desejo dos homens de negócios por meninas novas, como se o corpo-novo significasse um capital simbólico maior, talvez um maior poder de barganha. O corpo de uma mulher mais velha é produzido por esse circuito patriarcal como um corpo de menor valor simbólico no interior de uma hierarquia social e patriarcal dos corpos.

Esse corpo-novo aparece nas reportagens como certo mecanismo de networking masculino, como uma moeda de troca equivalente à propina, uma dimensão simbólica do poder que vê no corpo feminino jovem um capital corporal representado por beleza, vigor, disponibilidade e valor.

Judith Butler, filósofa e teórica estadunidense, tem se dedicado a pensar o conceito de aparecimento e, para ela, existem regimes que determinam quem pode ou não aparecer e, mais ainda, como um dado corpo pode aparecer. No caso do empreendimento econômico e político do Banco Master, o aparecer para esses corpos-novos não era um fenômeno meramente visual e sexual; era tornar-se corporalmente disponível ao olhar e ao desejo de posse do próprio poder.

O corpo-business da mulher entra nessa cena como um signo de luxo, num espaço em que o poder patriarcal se reconhece naquilo que a psicóloga e pesquisadora do campo da saúde mental, Valeska Zanello, no seu livro Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação, chama de “broderagem”. Ou seja, não era simplesmente uma festa com mulheres bonitas; havia um pacto feito entre os homens como forma de sociabilidade, cumplicidade, aliança e proteção mútuas, como pode ser visto no trecho de uma das mensagens divulgadas pela Revista Piauí: “Irmão, a ideia da Allure é boa, mas não queria ninguém de fora nessa festa. De homem. Vai ter uma turma relevante pra mim, não quero ninguém desconfortável.” Os homens não só se reconhecem entre si, como produzem confiança e cumplicidade.

Todavia, cabe pensarmos: qual a função que o corpo feminino desempenha na estruturação do poder da masculinidade patriarcal? O corpo-business, exposto no escândalo do Banco Master, talvez seja uma resposta a essa questão, quando percebemos que se trata de um corpo-objeto por meio do qual circulam códigos, privilégios, informações, negócios, alianças políticas e capital. Essa reflexão pode nos ajudar a pensar sobre como os corpos das mulheres aparecem e são mobilizados dentro de circuitos de poder, dinheiro, prestígio, sociabilidade masculina e coroamento narcísico dos homens poderosos.

No meio político e dos negócios, como o homem demonstra eficácia? Que dispositivo faz essa masculinidade patriarcal operar uma engrenagem luxuosa e cara, apostando em festas milionárias com mulheres bonitas como espelho do luxo e signo da sofisticação?

Talvez, a resposta a essa pergunta possa estar na própria pedagogia da masculinidade patriarcal, ao se demonstrar que se pode. O luxo torna-se, assim, uma linguagem do poder.

Voltando à escritora Valeska Zanello, a masculinidade é organizada por duas formas: a laborativa, como aquela que faz o homem ser bem-sucedido, produtivo, acumulador de capital, como status social e reconhecimento; e, por outro lado, a masculinidade, que precisa demonstrar a potência sexual e certa a capacidade de mostrar uma sexualidade considerada viril. Essa performance nas festas e no agenciamento de mulheres seria um cruzamento dessas duas dimensões? Seria uma forma de chancela e reconhecimento na sociabilidade masculina desse dispositivo de eficácia, que envolve trabalho e virilidade?

As mensagens que foram divulgadas nas mídias mostram que dinheiro, poder, trabalho, política, status, sexualidade, beleza e desejo não estão apartados da produção da masculinidade e, portanto, das formas espiralares de fazer circular politicamente o poder, que encontram no corpo-business da mulher uma de suas passagens.

O que não se esperava era que o corpo-business viesse a se transformar em corpo-notícia. A espetacularização foi, assim, uma segunda dobra da objetificação. E aqui vemos, mais uma vez, o corpo da mulher produzindo interesses midiáticos, despertando curiosidades nas redes sociais, sejam sobre as mulheres que participaram das festas, sejam das mulheres que situadas na vizinhança de um circuito de poder masculino, também despertaram interesses da mídia, como é o caso da ex-noiva de Vorcaro, Martha Graeff, e de Patrícia Abravanel, esposa de Fabio Faria. Assim, pode-se perceber que o corpo feminino, mesmo quando não é causa do acontecimento, é sugado para dentro da notícia e do mesmo modo, espetacularizado.

Contudo, o que antes circulava como parte de uma sociabilidade político-empresarial masculina privada, passa a circular como espetáculo público. Mais uma vez a mulher é colocada em cena, agora como corpo-objeto de curiosidade, especulações e julgamentos morais.

Muda-se o cenário, mas não a lógica do uso de um corpo-mulher-objeto-business-notícia que pode ser exposto.

Inferno astral à moda brasileira

Ao escrever Os Demônios (Rússia, 1873), Dostoiévski não queria falar sobre fenômenos espíritas, tampouco sobre exorcismo. Os demônios a que se referiu assombravam o bolso e a panela do povão russo quando o czarismo respirava por aparelhos. Em plena efervescência das democracias liberais e da contagiante Belle Époque, os russos também viviam sua ebulição cultural, animados pelos ecos do iluminismo europeu. A Revolução Gloriosa na Inglaterra, a Independência Estadunidense e a Revolução Francesa encontravam correspondência no mundo todo, especialmente no quintal dos truculentos Romanov.


Curiosamente, os demônios que frequentavam as mentes russas eram os mesmos que tiravam (e ainda tiram) o sossego de outras nações, apesar da derrocada monarquista mundo afora. A diferença estava no fato de que, nas democracias que sucederam o absolutismo, tais demônios haviam perdido força, ou abrandado suas feições. Nos dias de hoje, por exemplo, Dostoiévski facilmente enxergaria os demônios, que ainda atormentam a democracia resiliente da Ilha da Vera Cruz. Possivelmente seria atual para nós o parágrafo: “Esses demônios […] são todas as chagas […] que se acumularam na nossa Rússia (ou Brasil?) para todo o sempre”. Certamente por isso mesmo, alguns anjos decaídos, inclusive brasileiros, ainda queiram devolvê-lo às prisões da Sibéria, um século e meio depois de sua morte.

Por sua vez, no auge da II Guerra Mundial, o inglês C.S. Lewis publicou o surpreendente “A Abolição do Homem” (Oxford University, 1944), no qual nos apresentava o que podemos chamar de a outra bandinha da laranja dos “Demônios”. Lewis se referia ao “Tao da política” – algo que podemos resumir como sendo o espírito democrático em sua mais elevada manifestação. Segundo o britânico, ali no fogo cruzado da incubadora da guerra fria, o Tao democrático já vivia sob bombardeio cerrado de todo tipo de golpistas, de direita e de esquerda. Lewis e Dostoiévski enxergavam, a partir de ângulos de visão e épocas diferentes, que as privações de bem-estar sofridas pelas camadas mais vulneráveis da sociedade eram intencionais, seja em favor da nobreza, dos magnatas capitalistas, dos gabinetes fascistas ou do recente establishment comunista.

O processo é cíclico, pendular. Muitas vezes sutil. A democracia vaivém, sobe-desce, cai-não-cai, até hoje. Por aqui, a coisa parecia melhorar, ainda que fosse aos trancos e barrancos, até o golpe parlamentar(ista) sofrido por Dilma Rousseff. Desde então, “lá vem o Brasil descendo a ladeira”, perdendo os freios… e contrapesos, surfando na onda internacional do extremismo neofascista. Dá pena ver a república enganchada em um Parlamento que governa e desgoverna por meio de orçamentos secretos bilionários. É de ficar triste testemunhar o desmonte premeditado e autofágico da Suprema Corte “em tenebrosas transações”. Renato Russo tinha razão. “Festa estranha, gente esquisita, eu não tô legal”. Felizmente, enquanto persistem por aqui capetas tropicais como o golpismo, o negacionismo, a corrupção, desigualdade social, crime, devastação ambiental e outros de legiões semelhantes, os alertas de Os Demônios ainda apavoram diabretes desde a Faria Lima até Sinop. Cabe às forças do naipe político progressista e da sociedade civil se reorganizarem de modo independente, para além do Estado e com o Estado, retomando as rédeas da transformação social que ainda temos razões para valorizar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Como Flávio Bolsonaro planeja dominar o STF. É isso o que você quer?

Desde que o mar de lama começou a tragar o Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Bolsonaro apregoa, dia sim, dia não, que, caso se eleja presidente da República, submeterá ao crivo do Senado cinco novos nomes para ministros da mais alta Corte de Justiça do país. Caso se eleja, não. Ele dá sua eleição como algo certo, sem sequer precisar disputar o segundo turno. Para tanto, aposta no voto útil que abandonará seus demais concorrentes da direita.

Três dos atuais ministros atingirão a idade limite de 75 anos ao longo do próximo mandato presidencial: Luiz Fux (2028), Cármen Lúcia (2029) e Gilmar Mendes (dezembro de 2030). Há uma vaga aberta no STF desde que Luís Roberto Barroso se aposentou precocemente em 2025. Para fechar o número de cinco indicações, Flávio afirma que trabalha com a hipótese de impeachment ou destituição de Alexandre de Moraes. É tudo o que ele quer.

O filho do único ex-presidente do Brasil condenado por tentativa de golpe de Estado tem reiterado que seus escolhidos serão homens e mulheres “defensores da Constituição”, com perfil conservador, posicionando-se de forma contrária ao aborto e à descriminalização das drogas. Se tudo acontecer como ele imagina, ao final do seu mandato, contará com a simpatia de 7 dos 11 ministros do tribunal, incluindo-se aí André Mendonça e Nunes Marques.

Considerando toda a história do Brasil, o presidente que indicou o maior número de ministros para o STF foi Getúlio Vargas, com um total de 21 nomeações. Ele governou o país em dois períodos diferentes: de 1930 a 1945, como ditador, e de 1951 a 1954, como presidente eleito pelo voto popular. Logo atrás de Vargas no ranking histórico, aparecem os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, ambos com 15 indicações cada um.

Lula indicou 10 ministros para o STF ao longo de seus três mandatos – 8 nos dois primeiros e 2 no terceiro. Dos 10, apenas 4 ainda permanecem lá: Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Quis emplacar Jorge Messias na vaga de Luís Roberto Barroso, mas o nome dele foi rejeitado pelo Senado. Duas vezes presidente, Dilma Rousseff não teve esse problema, tendo indicado 5 ministros. Destes, apenas 2 seguem no cargo: Luiz Fux e Edson Fachin.

Se você pretende votar em Flávio para presidente, não tem com que se preocupar. Se ele se reeleger em 2030, no mínimo indicará mais um ministro para o STF na vaga que se abrirá com a aposentadoria de Fachin. Só não venha, depois, a se queixar.