domingo, 18 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


O apelo da dignidade

Na fatigante expectativa do segundo turno, especialistas insistem em que problemas nacionais sejam postos em debate entre os dois candidatos e não se confundam campanhas com exposições biográficas. Todo mundo está cansado de saber que Lula, autodeclarado mais sindicalista que de esquerda, representa estabilidade democrática, ideias de povo próspero e soberano. Por vias populistas, sempre "entregou" benefícios sociais.

Mas até os mal-informados também estão cansados de saber que Flávio Bolsonaro tem mais folha corrida do que biografia publicável em 23 anos de vida parlamentar. Supunha-se que um político da ultradireita em ascensão tivesse algo de pertinente a dizer sobre ajuste fiscal ou sobre um benefício qualquer a "entregar", como senha de trânsito no mercado eleitoral. O que ele diz numa hora, desdiz na outra. É um "flatus" ambulante. De concreto, o projeto de tirar o pai da cadeia. Embora possa facilmente entregar o país.


Há cansaço, sim, "fadiga de material". Mas esse "stress corrosion" (jargão técnico de engenheiro para queda estrutural de ponte ou viaduto) também acomete o arcabouço das explicações de macroestrutura. Não que estejam erradas, são apenas abstratas demais, próprias ao entendimento intelectual, porém deslocadas em tempo e espaço para a média compreensão imediata.

E o problema imediato dos debates é que a massa eleitoral parece não querer saber de coisa alguma. A falha no primeiro turno não foi falta de debates, mas demonstração da falta de vontade de debater. Agito é o que balança as redes. Não apenas os 33 milhões que deixaram de votar, mas principalmente aqueles que, polarizados por uma "mudança" engana-vista, aderem à lógica televisiva do Big Brother.

Por pouco caso que disso façam as explicações por frações de classes de consumo, o reality show oferece um simulacro de parte importante do processo eleitoral. No BBB não se trata de saber, mas de polarizar afetivamente. É modelo de um democratismo tão radical que favorece o homem sem qualidades. Ganha o pior, ou seja, aquele que, exatamente por falta de méritos, catalisa por plebiscito a simpatia majoritária. Criticá-lo desperta a emoção reversa da autopiedade: é como dizer "coitadinho de mim mesmo", tão semelhante.

O rebaixamento nas redes sociais parece hoje prioritário no pleito político. Parlamentares da caixa de gargalhadas, com milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração. Mas o pano de fundo conceitual permanece o do reality show, regido pelo ditado latino "qui vult decipi, decipiatur": quem quer ser enganado, seja. No espelho eletrônico, o pobre empreendedor de si mesmo quer se ver como rico, a vítima como carrasco vingador.

Redes, onde versões precedem fatos, são as ruas movimentadas dessa megalópole-BB chamada internet. No Rio, as semimortas pertencem a neopentecostais, traficantes e milicianos. Debater o quê, com quem? Daí repercutir como contra-hegemonia nas redes o eco das ruas ainda vivas: "fascismo não se discute, se destrói", pois "é difícil defender, só com palavras, a vida" (João Cabral). Cabe mesmo a cada brasileiro sentir no peito o apelo da sua dignidade.

Flávio perde votos quando eleitor o imagina governando

Para Flávio Bolsonaro vencer a eleição, precisa impedir que os brasileiros se lembrem de que, se votarem nele, ele será o presidente do Brasil pelos próximos quatro anos. Ou mais, dependendo do que ele e o pai fizerem com a Constituição que já disseram que esculhambarão.

Não houve campanha eleitoral no primeiro turno: houve noticiário sobre corrupção no STF. Leitores da coluna sabem que votar no PL para punir os corruptos do STF foi votar em 98% da quadrilha Master para usar os outros 2% como bodes expiatórios. Mas muita gente caiu no golpe, e Flávio terminou o primeiro turno na frente de Lula.

Em retrospecto, a liderança pode ter sido ruim para Flávio. Ela forçou o eleitorado a levar a sério a possibilidade de ser governado por Flávio Bolsonaro. Foi quando começou a recuperação de Lula nas pesquisas.


Logo ficou claro que as entrevistas de Daniella Marques eram o equivalente econômico de "Não sei quem é Daniel Vorcaro, quer dizer, sei mas nunca falei com ele, nunca falei com ele a não ser nessas duas vezes, mas tirando essas dez vezes nunca falei nem vi, só vi nessas dez visitas, vi nessas 20 visitas mas nunca viajei no avião dele, nunca viajei no avião dele porque o avião também era meu, sou usuário master da conta da empresa que o Willer Tomaz usou pra virar sócio do Vorcaro na propriedade do avião, se bem que nunca tive conta conjunta com o Willer porque pegaram ele lavando dinheiro para a turma que roubava no INSS, mas quem andou no avião foi o Alexandre de Moraes, e, ok, eu também, mas odeio Alexandre de Moraes apesar de que, sim, ganhamos exatamente a mesma quantia milionária do mesmo ladrão, mas no meu caso foi pra fazer filme, vou mostrar as contas que provam isso, opa, peraí, não vou mostrar não kkk, caraca Daniella para de se debater na missa".

A votação sobre a jornada 6x1 provou o argumento de minha última coluna: quando fala sobre o que fará com o dinheiro dos brasileiros, Flávio tem um discurso para você que vive do seu trabalho (votou a favor da proposta de Lula) e outro discurso para os ricos (prometeu liberar a 6x1 se for eleito).

Quem você acha que terá mais condições de cobrar as promessas de Flávio, os ricos ou você?

Também já tem gente percebendo que a turma que tentou o golpe de 2022 pode voltar ao poder com um STF castrado pela ameaça permanente de impeachment. Se for eleito, Flávio não vai ter só o poder de derrubar Xandão. Com maioria no Senado, poderá derrubar qualquer ministro que se oponha a qualquer um de seus projetos.

Jair Bolsonaro vai sair da cadeia e escolher os ministros militares de Flávio, já sabendo que generais apoiaram sua última tentativa de golpe. Paulo Figueiredo já disse, em vídeo, que pretende dar a um general que disse não ao golpe a função de carregar uma mala cheia de fezes o dia inteiro. Os golpistas, naturalmente, serão promovidos.

Uma vitória de Flávio, enfim, fortaleceria em Jair a convicção de que não precisa fazer qualquer concessão para obter apoio da direita que preferia Tarcísio.

Para vencer, Flávio precisa que os brasileiros continuem indignados, mas sem se perguntar muito sobre que governo lhes faria ganhar mais dinheiro, ou sobre com que governo prefeririam enfrentar uma nova pandemia.

Querem mudar o jeito de escolher o presidente, deputados, e levar bandidos ao poder

As turmas do poder político pretendem mudar formas e modos de governo entre o final deste ano e o começo do próximo. Flávio Bolsonaro (PL) e cia. têm plano nebuloso de "mudar a Constituição para redemocratizar o país". O centrão-direitão quer se defender do avanço da extrema direita e dos políticos digitais. Todos querem mexer no falido STF.

Tais mudanças serão discutidas em momento que pode ser de domínio da extrema direita no governo federal e de grande força no Congresso, com o que tal corrente pode vir a ser hegemônica no partidarizado STF. A extrema direita é composta também de grupos políticos associados ao crime organizado. De resto, a elite no poder foi comprada ou alugada pelo gângster e cafetão Daniel Vorcaro.


Trata-se de:

1. Duração do mandato do presidente e fim da reeleição

2. Sistema de eleição parlamentar passa de proporcional, como hoje, para distrital misto

3. Ministros do STF com mandatos de duração fixa ou idade mínima maior; código de conduta e limites à "monocracia" firmados em lei

Caso eleito, Flávio Bolsonaro vai mandar ao Congresso projeto para estender seu mandato, não se sabe em quais termos. Diz que quer apenas abreviar sua estada no poder (sem reeleição). Flávio é mentiroso contumaz, sem escrúpulo. Faz qualquer negócio, de negar relação com Daniel Vorcaro a renegar seu ajuste fiscal. Pode tentar emplacar no Congresso pacote insidioso de captura do poder à maneira dos autocratas do século 21, de Hungria, Turquia ou Venezuela.

O centrão-direitão assustou-se com o sucesso da extrema direita e dos políticos digitais. Desde 2025, planeja emplacar o voto distrital misto para deputados. Metade deles seria escolhida em distritos (regiões de cada estado de eleitorado de tamanho similar); metade viria de listas de candidatos, a depender da votação de cada partido. Projeto assim foi aprovado em 2017 no Senado e lá ficou. É assunto para outro dia, mas se diga logo que tal sistema pode ser mutretado para favorecer correntes políticas, a depender de regras e distritos.

Em suma, pode haver enorme e rara virada no sistema político. Em geral, tais mudanças fracassam neste país dado a inércia, gradualismo inepto, acordão e transições transadas. Ou então há golpes.

Além de tudo, ano que vem será de crescimento baixo e de transições grandes, como a reforma tributária e o fim da 6x1, reformas que há quem queira abortar. O país estará pendendo entre ajuste fiscal complexo e conflitivo e estagnação ou tumulto econômicos.

No caso de confluência de tantas mudanças e dificuldades, é de se temer crise. Ou golpes e contragolpes.

Como se não bastasse, parte relevante da coalizão da extrema direita é aliada ou comparsa de grupos políticos associados ao crime organizado. Além de laços antigos com milicianos e matadores, o grupo político de Flávio Bolsonaro (PL) é ligado à turma de Cláudio Castro e de quem mandava no governo corrupto dele e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, PL e União Brasil. É gente associada ao Comando Vermelho, outros traficantes, "bets" mafiosas, milicianos, bicheiros, máfia de combustíveis e organizações empresariais criminosas diversas etc. O grupo, na verdade um sistema, agora é comandado pelo governador eleito Douglas Ruas, do PL.

Há o risco de que, eleito, Flávio Bolsonaro transforme o governo do Brasil em um grande Rio de Janeiro sob um sistema político mutretado por reformas autoritárias.

Luchsinger na CNN: após 37 anos, “Operação Miriam Cordeiro” II pré-debate

Trinta e sete anos depois daquele 1989 fatídico, e com as consequências então conhecidas, apareceu uma candidata a Miriam Cordeiro na sucessão: Roberta Luchsinger. Há, claro, diferenças, como sempre, quando se associam personagens de tempos históricos distintos: aquela falou no horário eleitoral de Fernando Collor; esta concedeu uma estupefaciente entrevista à CNN na noite deste sábado. Tratou-se de uma sessão de insultos dirigidos contra o presidente, sem uma miserável acusação objetiva. Muito pelo contrário: ela admitiu não ter nada. Afirmou, por exemplo, que aceita fazer uma delação premiada, embora diga não ter cometido crime nenhum nem ter contrato com o poder público. Nota: Cordeiro apareceu no horário eleitoral na noite de 12 de dezembro daquele ano; a peça foi repisada no dia 13, e o debate entre os candidatos se deu no dia 14. O primeiro confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro acontece na Band neste domingo.

Roberta, a 'Miriam Cordeiro' da vez

Uma frase resume a entrevista de Luchsinger, além dos xingamentos: “Um homem desse não pode continuar na Presidência da República”. Flávio Bolsonaro certamente concorda com ela. Em 1989, Cordeiro afirmou sobre Lula, com quem teve uma filha, Lurian, que sempre esteve ao lado do pai: “Eu não apoio o Lula e não quero apoiar o Lula porque eu acho que apoiar o Lula seria uma traição a mim mesma. Eu fui uma pessoa que sofreu muito na mão do Lula. […] Eu não posso, sob hipótese nenhuma, apoiar um homem que acabou com a minha vida, tá?”

A lobista, que falou neste sábado, acusa o presidente de ter acabado com o seu negócio. Disse ter perdido clientes que mantinha havia 10 anos, embora não fique claro exatamente o que ela faz. Distribuiu insinuações contra Lulinha, sugerindo que um empresário se deu bem em razão dessa amizade, mas afirmou também não ter conhecimento de irregularidades. Acha que o ex-amigo tem de ser investigado. Por quê?

Não por contratos irregulares que a dupla tenha conquistado no governo. Ela insiste que inexistem os ditos-cujos e que nada fez de errado. Mas aí se saiu com o seguinte truque: se houver, que a polícia diga, e ela se prontificou a colaborar. Talvez não lhe tenham dito como funciona a Lei nº 12.850: o colaborador tem de começar por confessar os próprios crimes. Mas delatar o quê, se ela diz não ter cometido nenhum? Luchsinger confunde uma delação com a simples acusação dos inimigos da hora.

Está obviamente injuriada porque o presidente a chamou de “pilantra”, e chegou até a ensaiar alguns surtos de feminismo seletivo. Contra um adjetivo, uma pilha: “mentiroso, mau-caráter, senil, esclerosado…”. Jurou que era defensora do governo e perguntou: “O que eu recebi em troca?”.

Desse governo, obviamente, nada. Se Flávio vencer, teremos a chance de saber se haverá alguma compensação no próximo.

Num dos momentos que seriam até hilariantes, não fosse tudo bastante melancólico, afirmou que ministros de Estado recorreriam à sua intermediação para conseguir audiência com o presidente da República… Entra na categoria das coisas que nem erradas conseguem ser.

Mas como isso se daria? É tudo confuso — ela estava muito furiosa para pensar com clareza, embora o objetivo da entrevista tenha sido claríssimo —, mas parece que sua amizade com Marcola (Marco Aurélio Ribeiro), ex-chefe de gabinete de Lula, facilitaria o acesso. Pergunta óbvia de resposta idem: por que um ministro de Estado ligaria para ela em vez de passar a mão no telefone e procurar Rui Costa, então chefe da Casa Civil?

É claro que se trata de uma entrevista para tentar interferir na eleição. Cordeiro afirmou em 1989 naquele depoimento absurdo no horário eleitoral de Collor: “Eu peguei a Lurian e entreguei no colo dele e falei: ‘agora você mata; porque, quando ela estava na minha barriga, eu não permiti’.” Luchsinger agora diz que Lula será o responsável por qualquer atentado que venha a sofrer.

Eu não sou ombudsman da imprensa, claro! Mas me pergunto: faz sentido levar ao ar um troço como esse? Ouitra pergunta óbvia de resposta idem: se a extrema direita atentasse contra a vida dela, o responsável seria Lula?

A síntese da entrevista é a seguinte:
– o presidente não gosta dela nem ela do presidente;
– ela não conseguiu fechar nenhuma parceria com o governo;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas afirma querer delatar os outros, o que não tem suporte legal;
– afirma estar sendo perseguida pela “máquina pública”, embora não tenha evidência disso;
– quer saber por que Lulinha não é investigado, embora ele esteja sendo investigado;
– diz não ter cometido crime nenhum, mas sugere que seu ex-amigo pode ter cometido algum, embora não diga qual.

E, como se nota, ela está pedindo proteção. Ingênua não é — o que talvez Cordeiro fosse. Ela fez uma aposta na derrota de Lula. E parece esperar que o futuro lhe seja ameno, uma vez que diz topar uma delação premiada contra os outros e se diz inocente como as flores.

Que a “Operação Luchsinger” não seja bem-sucedida como foi a “Operação Cordeiro”.

Memórias de um foca nos anos de chumbo

Cerca de 18 horas no dia 28 de março de 1968, no Rio de Janeiro, o estudante secundarista Edson Luis de Lima Souto foi baleado e morto durante uma manifestação no Restaurante Calabouço, ponto de encontro de estudantes no Centro da cidade. Os estudantes protestavam contra os altos preços e a péssima qualidade da comida servida no local.

Havia grande alarido no local quando as tropas da Polícia Militar chegaram para reprimir o protesto estudantil e invadiram o restaurante, disparando contra os jovens. Um tiro perfurou o coração de Edson, que morreu poucos instantes após o disparo.

Minutos depois o telefone tocou na redação dos Diários Associados, onde eu dava início à minha carreira de repórter, na Rua do Carmo, a poucas quadras do Calabouço: era alguém comunicando o atentado. Eu já tinha encerrado meu expediente e me preparava para ir embora quando ouvi a voz do Leo Guanabara, nosso chefe de redação: “Luis, Luis, você precisa ir ao Calabouço, a polícia acaba de matar um estudante”. Fui chamado porque todos os outros repórteres já tinham ido embora. A rigor, não seria trabalho para um foca quase sem nenhuma experiência como era o meu caso. Tinha só 23 anos, e há apenas uma semana conseguira o emprego. Mas fui para lá, a pé, correndo, um tanto atordoado, sem saber que aquela seria minha prova de fogo no jornalismo.

No restaurante, ao chegar, instalara-se um clima de pânico e revolta. Os estudante sabiam que, se a polícia ficasse com o corpo de Edson Luis, o crime certamente seria abafado, as evidências seriam destruídas e ele, como tantos outros antes, e também depois, seria transformado em um “desaparecido” ou o caso seria distorcido pelas autoridades.


Para impedir que a polícia sumisse com o corpo, os estudantes agiram rapidamente: eles recolheram Edson do chão do restaurante antes que o local fosse totalmente isolado. Carregaram o corpo nos braços e iniciaram uma passeata espontânea pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro. O destino final foi o palácio da Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara (Alerj). Os estudantes invadiram o local carregando o cadáver e exigiram que o velório fosse realizado ali mesmo, em espaço público, para garantir a segurança e impedir a intervenção do regime militar.

Acompanhei tudo isso, arrastado pelos acontecimentos. Consegui que o gerente de um bar nas proximidades me permitisse usar o telefone. Liguei para a redação algumas vezes e ditei, palavra por palavra, todas as informações que conseguira obter. Ainda não estávamos na era dos celulares e dos computadores. Foi minha primeira reportagem verdadeira, e também minha primeira lição de como e o quanto regimes autocráticos podem ser violentos, injustos e assassinos.

A rotina, nos meses que seguiram, foi a mesma: passeatas, protestos, manifestações que tornaram o Rio, e também São Paulo e outras cidades brasileiras em verdadeiras praças de guerra. No dia 31 de julho daquele mesmo ano eu fazia um duplo expediente no jornal O Paiz. O diretor, Newton Rodrigues, que gostava de mim e decidira se tornar meu guru no jornalismo tomou a decisão de me mandar para a cidade de Corumbá, no Mato Grosso, fronteira com a Bolívia. O ex-presidente Jânio Quadros acabara de ser confinado lá pelos militares.

E lá fiquei eu, durante três meses e meio, hospedado no Hotel Santa Mônica, onde também estavam Jânio, sua esposa Dona Eloá, mais uma pequena comitiva de amigos e jornalistas encarregados de cobrir o confinamento. Todos os dias, ao final da tarde, fazíamos fila para usar o mesmo telefone para ditar notícias aos seus respectivos jornais.

Na metade de novembro me mandaram finalmente de volta para casa, no Rio. E retomei minhas atividades na reportagem geral dos dois jornais, O Paiz e o Diário de São Paulo. No dia 13 de dezembro explode a bomba autoritária que iria mudar – para pior – o destino da nação: o Ato Institucional Número 13. E com ele todo um séquito de atrocidades começaram quase imediatamente. No dia 15 a redação de O Paiz foi invadida e empastelada por um destacamento militar. Destruíram móveis, utensílios, máquinas de escrever. Por sorte não mataram nem prenderam ninguém.

Chegamos bem cedo na manhã seguinte, para arrumar a redação e tocar o barco. No jornalismo, como no teatro, o show não pode parar. As 11 horas eu tentava redigir um texto quando o telefone da mesa ao lado da minha começou a tocar. Fui atender. Era a esposa de um colega redator. Queria falar com o marido. “Mas ele ainda não chegou, eu disse. Tinha uma entrevista marcada para as 10 horas. As pessoas que seriam entrevistadas vieram, esperaram uma meia hora, e foram embora”. “Mas ele saiu muito cedo, disse que tinha de ajudar na arrumação e falou dessa entrevista marcada para as 10 horas. Meu Deus, que terá acontecido?”

Marco desapareceu para sempre. Seu carro foi interceptado no bairro do Botafogo, a caminho do Centro. O Fuska foi encontrado abandonado numa rua do bairro. Soubemos depois que o coleguinha fora preso, levado para depor, torturado e, finalmente, levado de helicóptero para o alto mar e atirado às águas, lá de cima, com uma pedra amarrada aos pés para que afundasse mais rápido. Marco deixou viúva e dois filhos pequenos.

E a partir daí, dia após dia, a sarabanda do terror não mais parou. Dois ou três dias depois, Leo Guanabara me chamou na sua sala e perguntou: “Luis, você está envolvido com algum grupo contrarrevolucionário, de ações contra a ditadura? Um repórter que faz a cobertura jornalística dentro do DOPS, a polícia política, bateu os olhos numa lista de jornalistas que serão chamados para depor. Seu nome faz parte dela. E, você sabe, a metade dos que entram lá para depor não saem mais. Não sabemos o que eles estão fazendo com as pessoas. Você corre sério perigo, terá de sair do país o mais rápido possível”. E eu disse a verdade: “Não estou envolvido em nada, Leo. Só no meu trabalho de reportagem. De qualquer forma, tenho passaporte, mas não tenho visto de saída. Você sabe que o visto é o próprio DOPS que dá. Mas se eu aparecer lá e disser que quero viajar posso ser preso na mesma hora”. Leo pensou um pouco e disse: “Já sei, você vai sair de navio. Tenho um conhecido na Polícia Marítima que me deve uns favores, vou pedir a ele que lhe dê o visto. Enquanto eu o localizo, vá buscar o seu passaporte. Siga direto para a Praça XV, procure esse cara, ele já estará sabendo do que se trata.”

E, para encurtar a história, foi isso que fiz. Saí do prédio histórico da Polícia Marítima com meu passaporte com visto carimbado e assinado, e a recomendação do policial amigo do Leo ecoando nos meus ouvidos: “Suba no primeiro navio que puder e desapareça do país. E lembre-se: eu não te conheço e você não me conhece”.

E assim foi: poucos dias depois subi no navio espanhol Cabo de San Roque, com destino a Barcelona. De lá segui para Paris e lá, graças ao jornalista Ney Sroulevitch, diretor do escritório da revista Manchete, consegui emprego.

Só voltei ao Brasil em novembro de 1974, no governo Geisel, quando as coisas estavam mais amenas. Fui me hospedar na casa de uma amiga, em Copacabana. A primeira coisa que ela me disse foi: “Luis, não diga nada, não abra a boca em dois lugares aqui no Rio: dentro dos elevadores, pois quase todos, inclusive os do nosso prédio, tem gravadores para registrar as conversas; mesma coisa dentro dos taxis, boa parte dos taxistas são informantes da ditadura.”

Sim, eu tinha voltado ao Brasil. Continuava, como continuo até hoje, sem saber por que meu nome estava naquela lista de jornalistas que seriam chamados para depor no DOPS. Correndo o risco de virar comida para peixes, no fundo do mar, com um tijolo amarrado aos pés.

Por isso, e muito mais, pense bem antes de votar. No próximo final de semana, não dê seu voto a quem segue a cartilha do pai Jair, aquele que, em alto e bom som, considerou que o Coronel Carlos Brilhante Ustra – o maior e mais cruel torturador da ditadura – é um herói nacional, digno de todas as homenagens e reverências.

Palavra de quem viveu, sofreu e testemunhou os Anos de Chumbo: ser vítima do autoritarismo é a pior coisa que nos pode acontecer.

Uma utopia tropical

O filósofo português Agostinho da Silva manifestou sempre uma enorme paixão pelo Brasil, onde viveu durante 22 anos, entre 1947 e 1969. Durante a sua permanência no país, adquiriu a nacionalidade brasileira.

Espírito livre, inquieto, subversivo, um mestre da ironia bem-humorada, Agostinho da Silva imaginou uma sociedade utópica, o Quinto Império, na qual os recursos seriam partilhados; o poder perderia a sua natureza opressiva; o trabalho deixaria de ser uma forma de servidão, e os seres humanos poderiam dedicar-se mais livremente ao conhecimento, à contemplação e à criação.

Na visão do filósofo português, a infância seria um modelo de existência, não pela ignorância, mas pela capacidade de brincar, imaginar, descobrir e maravilhar-se: “Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do (Quinto) Império.”


O Brasil ocupa um lugar central na utopia de Agostinho da Silva. Ele via na mestiçagem brasileira uma proposta nova para o funcionamento do mundo e a compreensão da existência. Interessava-lhe, em particular, a forma como a sociedade brasileira é capaz de abraçar e integrar todo o gênero de influências externas. Além disso, Agostinho valorizava o improviso, a festa, a brincadeira, a imaginação, e intuía nas manifestações populares — do carnaval ao bumba-meu-boi, passando pelas rodas de capoeira — uma antecipação da sociedade livre que ansiava construir. Para ele, o Brasil seria o esboço de uma civilização alternativa aos modelos ocidentais.

Nos últimos dias venho pensando muito em Agostinho da Silva. Encontrei-o numa tarde remota, lendo, à sombra do imenso cedro, cuja larga copa cobre uma parte do jardim do Príncipe Real, em Lisboa. Eu era então um jovem estudante de Engenharia Florestal, que lia com entusiasmo todos os grandes pensadores anarquistas, ecologistas e pacifistas. Agostinho da Silva, com o seu inconformismo frente ao aparelho do Estado (orgulhava-se de não ter carteira de identidade nem número de contribuinte), era um dos meus heróis. Aproximei-me, timidamente. O filósofo ergueu os olhos:

— Sim?!

Queria resumir numa frase toda a minha admiração. Porém, só fui capaz de perguntar:

— Desculpe, que horas são?

O velho filósofo mostrou-me o pulso nu:

— Nenhumas…

Agostinho da Silva formulou as ideias fundamentais da sua utopia antes do golpe militar de 1964, mas continuou a desenvolvê-las e a defendê-las já em plena ditadura. Ou seja, foi capaz de perceber dentro da triste escuridão da ditadura o outro Brasil no qual nunca deixou de acreditar — essa grande e intensa nação afro-indígena-latina, luminosa, amorosa, generosa, acolhedora, cuja alegria encanta e comove o mundo inteiro.

Talvez esta seja uma das grandes lições que Agostinho da Silva nos deixou: nunca confundir a temporária escuridão de uma época com o destino de um país.

Volto a encontrar o velho filósofo, à sombra do gigantesco cedro do Príncipe Real. Pergunto-lhe:

— Que horas são?

Agostinho mostra-me o pulso nu:

— Todas.

Fome e fascismo

A trajetória da fome no Brasil nas últimas duas décadas evidencia que esse não é um fenômeno natural nem inevitável, mas uma realidade socialmente produzida que responde a projetos políticos concretos. Em 2004, durante o primeiro governo Lula, 35,8 milhões de brasileiros estavam em situação de fome. Nove anos depois, em meio ao primeiro governo Dilma, esse número havia caído praticamente pela metade, isto é, para 17,5 milhões. Com Temer a trajetória se inverteu e a fome voltou a crescer, alcançando 28,9 milhões em 2018, ou seja, mesmo antes da crise sanitária da Covid. Com Bolsonaro e já em meio à pandemia, um surto de fome se somou à fome crônica que pesa de forma constante e oculta sobre uma parcela significativa da sociedade brasileira. Em 2022, 67,5 milhões de pessoas foram submetidas à privação alimentar, de longe o maior patamar da série histórica. A volta de Lula ao governo reverteu a tendência e, em 2024, a fome caiu para 16,3 milhões, o menor nível já registrado no país. Em que pesem os impactos da pandemia, aspecto que discuto adiante, essa trajetória expressa a diferença entre um projeto político progressista, que reconhece a fome como um problema a ser enfrentado, e projetos de caráter neoconservador, que tenderam a negar sua existência enquanto intensificavam a sua produção.


A privação de alimentos é socialmente produzida e estruturalmente articulada às desigualdades de classe, raça e gênero. Trata-se de uma privação que corrói a vida de uma parcela expressiva da população mesmo quando há alimentos disponíveis. O gráfico acima distingue fome e risco de fome, mas as duas categorias formam um contínuo. Sob o risco de fome, as pessoas passam a conviver com a ansiedade, o estresse e o medo de que os alimentos acabem antes que possam comprar mais. A preocupação com as próximas refeições se instala no cotidiano e a qualidade da alimentação se deteriora. A fome propriamente dita começa quando as pessoas passam a sentir as primeiras sensações físicas e psíquicas provocadas pela privação de alimentos, e se aprofunda dependendo da intensidade e duração dessa privação. Isso significa que, ao contrário do que definições restritivas insistem em afirmar, ela começa muito antes da inanição ou de diagnósticos clínicos ou nutricionais. Entendida como processo, a fome compromete de maneira progressiva e interligada o corpo, a psique e os laços sociais. Sua dimensão biológica não a reduz a um fenômeno natural. É essa compreensão da fome como processo socialmente produzido que sustenta a análise.

Os governos progressistas reduziram a fome, mas não foram capazes de erradicá-la. Avanços reais, mensuráveis e sem precedentes na história recente de um país marcado pela fome ocorreram em um contexto macroeconômico de altas taxas de crescimento. Foram conquistados sobretudo pela melhor inserção dos trabalhadores no mercado de trabalho, com destaque para a valorização do salário mínimo, a maior estabilidade e a formalização, e complementados por políticas públicas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Ainda que os menores níveis de fome tenham sido registrados em 2013 (8,7% da população) e 2024 (7,7%), ambos em gestões petistas, é preciso reconhecer que a fome e o risco de fome juntos nunca caíram abaixo de um quarto da população. Esse é um limite da perspectiva progressista, que não prioriza nem realiza reformas estruturais. É uma abordagem que, na prática, não se efetiva sequer como reformista. Nesse sentido, o horizonte dos governos progressistas é a gestão da fome. Trata-se de um limite que, na maior parte das vezes, sequer é reconhecido como tal, porque as transformações necessárias para superar a fome não cabem nesse horizonte

Essa crítica, no entanto, não nivela os campos. A diferença entre progressistas e neoconservadores é de natureza, não de grau. Apesar de seus limites intrínsecos, o campo progressista busca enfrentar a fome e aposta em políticas públicas e alguma regulação da economia para mitigá-la. Já o campo conservador, que combina fundamentalismo de mercado e autoritarismo, tende a minimizar ou até mesmo negar a existência da fome. Tratando-a como fenômeno excepcional, comumente recorre ao viés moral e individualizante e desloca o debate sobre a fome do terreno das relações sociais para o da responsabilidade individual. É desse campo que emerge o fascismo, sobretudo quando a crise da reprodução do capital ameaça a estabilidade da ordem social. O fascismo não supera as contradições do capitalismo. Ele reorganiza as relações de dominação para preservar os interesses de determinadas frações do capital. Nesse processo, a fome deixa de ser apenas um produto da crise e pode converter-se também em instrumento de dominação, mobilizando-a de forma mais intensa e aberta para disciplinar, hierarquizar e descartar parcelas da população.

O governo Bolsonaro representou a radicalização do campo neoconservador e fez do fascismo política de Estado. Durante a pandemia, deixou que milhões de brasileiros fossem submetidos à privação de alimentos. Nesse contexto, em 2022, mais da metade da população brasileira estava submetida à fome (30,7%) ou ao risco de fome (28%). Tamanha privação de alimentos constituiu uma das dimensões do massacre social durante a pandemia. Cabe destacar que tanto a fome como o risco de fome serviram como meio para impedir que milhões de pessoas pudessem fazer o distanciamento social necessário, expondo-as ainda mais ao vírus e à morte. O auxílio emergencial chegou tarde e, para muitas famílias, não foi suficiente para garantir que as pessoas pudessem ficar em casa sem passar fome. Programas como o Pnae e o PAA sofreram cortes profundos ou não foram reajustados. Portanto, não se tratou de acidente ou omissão, mas de uma forma de dominação que faz da fome um de seus mecanismos de governo. Essa forma de governo, que se retira da proteção social, deixa a população à própria sorte e trata a vida como descartável, é a face concreta do fascismo.

Se os números revelam a extensão do massacre, as filas dos ossos e a crise humanitária Yanomami explicitaram de que modo o fascismo mobiliza a fome e determina quais vidas podem ser descartadas. As cenas de pessoas esperando por ossos, aparas e restos que normalmente seriam descartados sintetizaram o que o país havia se tornado durante a pandemia. Em um país que figura entre os maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, as filas não eram apenas a expressão do desespero de quem não encontrava alternativas para se alimentar, mas a imagem de uma política que naturalizou o sofrimento socialmente produzido pela privação de alimentos. Nas filas dos ossos não estavam quaisquer pessoas. Compostas por trabalhadores precarizados ou desempregados, em sua maioria negros, e com forte presença de mulheres, sobre as quais recai a gestão da escassez dentro de casa, as filas revelavam que a fome não se abate indistintamente sobre a população. Sua produção e seus efeitos são atravessados pelas relações de classe, raça e gênero, que determinam quem está mais exposto à privação e sobre quem recai o trabalho cotidiano de enfrentá-la.

No caso dos Yanomami, a fome tornou-se um dos meios pelos quais se ameaçou a própria existência de um povo. O garimpo ilegal, atividade defendida e incentivada pelo governo Bolsonaro como projeto de desenvolvimento, invadiu o território Yanomami e comprometeu suas condições de reprodução da vida. Os garimpeiros contaminaram os rios com mercúrio, afugentaram os animais de caça e abriram crateras que favoreceram a proliferação dos mosquitos transmissores da malária, privando os Yanomami das condições de caçar, pescar, coletar e plantar. A fome que se seguiu, portanto, não pode ser entendida como efeito involuntário dessa economia extrativista, mas como parte de um projeto mais amplo de enfraquecimento da proteção dos territórios indígenas, vistos como obstáculos à exploração dos recursos naturais neles existentes. A fome expressa, assim, a subordinação das condições de reprodução da vida Yanomami aos interesses de exploração econômica de seu território. O fascismo não apenas tolera a fome. Ele a converte em instrumento de uma política de morte.

A ascensão do fascismo não é um fenômeno nacional. Netanyahu utiliza o alimento como arma de guerra para conduzir o genocídio em Gaza. Em 2024, toda a população do território, cerca de 2,2 milhões de pessoas, enfrentava uma grave crise de fome (famine). Para metade dela, a situação era ainda mais extrema: 1,1 milhão de pessoas estavam em condições de catástrofe alimentar, marcadas pela privação extrema e pelo risco de desnutrição aguda e morte. Trump, por sua vez, intensificou o bloqueio contra Cuba, agravando as restrições ao abastecimento de combustível e dificultando a entrada de outras mercadorias essenciais à vida da população. A situação alimentar dos cubanos se deteriora gradativamente, e eles pagam com a fome o preço de resistir ao imperialismo. Não se trata de personalizar o fascismo em Bolsonaro, Netanyahu ou Trump, mas de reconhecer que esses projetos, embora situados em contextos distintos, convergem em seus métodos de instrumentalização da fome. Se o fascismo é uma forma de dominação capitalista que emerge quando a crise se aprofunda, a fome revela-se como um de seus meios de impor a dominação.

O segundo turno das eleições presidenciais coloca em disputa projetos distintos para o país e, com eles, diferentes perspectivas para o enfrentamento da fome. A reeleição de Lula abre a possibilidade de dar continuidade (e talvez ampliar) as políticas de combate à fome e de proteção social, embora permaneça o desafio de enfrentar as relações sociais que produzem e reproduzem a privação de alimentos. A eleição de Flávio Bolsonaro, por sua vez, abre caminho para o aprofundamento de um projeto que subordina ainda mais as condições de reprodução da vida aos interesses da acumulação capitalista e pode converter a fome em instrumento de dominação. A fome não decorre da incapacidade de a sociedade produzir o necessário à vida, mas das relações sociais que determinam como a riqueza é produzida, distribuída e apropriada. Em uma sociedade capaz de produzir abundância, a persistência da privação alimentar expõe a contradição de uma ordem que subordina a satisfação das necessidades humanas à reprodução do capital. O fascismo leva essa contradição ao extremo quando transforma a privação em instrumento de dominação.
José Raimundo Sousa Ribeiro Junior

'Morto, amordaçado, volta a incomodar'

Em 8 de janeiro de 2023, Jair Messias Bolsonaro, do Partido Liberal, tentou tomar o poder por meio de um golpe fracassado, que o levou à prisão. Nas eleições de 2026, o Partido Liberal tornou-se o maior partido tanto na Câmara dos Deputados, com 121 das 513 cadeiras; como no Senado, com uma bancada de 28 dos 81 parlamentares.

Em 8 de novembro de 1923, Adolf Hitler, do Partido Nazista, também tentou tomar o poder por meio de um golpe fracassado, que o levou à prisão. Nas eleições de 1932, o Partido Nazista tornou-se o maior partido do Parlamento alemão, com 230 das 608 cadeiras. Em 1933, a partir de negociações com as elites conservadoras, Hitler foi nomeado chanceler e o Parlamento aprovou, em total desacordo com a ordem constitucional, uma lei que conferiu a Hitler plenos poderes para legislar e governar o país sem o consentimento parlamentar. A Lei de Plenos Poderes ao chanceler foi aprovada sob condições de repressão e intimidação dos parlamentares e abriu caminho para o completo desmantelamento da democracia alemã.

O III Reich, concebido para durar um milênio, durou intermináveis 12 anos e mergulhou a Alemanha e o mundo em uma das maiores catástrofes da história, destruição, morte e um rastro de sofrimento que invadiu a humanidade. Embora tenha nascido depois da Segunda Guerra Mundial, vivi os horrores da guerra desde sempre, sendo filho de dois sobreviventes de uma família que perdeu nove em cada dez de seus membros – ele como escravo em campos de concentração, ela deportada para a Sibéria.

Por obra do destino, nos últimos dias de 1953, ancoramos no Novo Mundo, nestas terras de imigrantes, que, de nativos, só têm os indígenas – quando aqui chegamos, nem sequer sabíamos que existia um país com o nome de Brasil. Poucos meses depois Getúlio Vargas se suicidou e, em 1961, fomos surpreendidos pela crise política desencadeada pela renúncia de Jânio Quadros. Meus pais pouco entendiam o que aqui se passava e, para desgosto deles, seu filho, que aqui escreve, aos dezesseis anos de idade, envolveu-se em política e acabou preso e torturado durante a Ditadura Militar que tomou conta do país por longos 21 anos.

No sábado, 10 de outubro de 2026, entre os dois turnos da eleição presidencial, voltando do Parque da Água Branca, fui fisgado pela "Revelação", que o motorista do ônibus ia cantarolando enquanto seguia pela Avenida São João: “quando a gente tenta, de toda maneira, dele se guardar, sentimento ilhado, morto, amordaçado, volta a incomodar”.


O que há de errado com a democracia quando ela elege deputados e senadores que apoiam um governo que valoriza a ditadura, debocha da Constituição, arquiteta um golpe fracassado e, ainda assim, conquista maioria no Congresso?

O que buscam os eleitores? Sonham com o bezerro de ouro? Querem se apossar da Amazônia e acossar ainda mais uma vez os povos indígenas exterminados desde o “descobrimento” e, mais recentemente, com a ocupação do Planalto Central, a construção de um museu futurista a céu aberto, a expansão da fronteira agrícola e a abertura da Transamazônica? Querem flexibilizar as regras ambientais e favorecer o garimpo, o agronegócio e a exploração dos recursos naturais? Querem suprimir os já parcos direitos trabalhistas e sociais e privatizar o Estado? Querem escolas cívico-militares e facilitar o acesso às armas? Querem utilizar o voto para extinguir o próprio voto e instaurar um regime militar? Servem-se do voto para acabar com as eleições e a democracia? Um voto suicida?

O que há de errado com uma democracia quando o voto é usado para abolir as próprias regras do jogo democrático? Acordei no meio da noite impelido a escrever este texto e agora me deu um cansaço medonho…

… saio para fazer aula de Tai Chi – isto deve me fazer bem. Mas, no caminho, lembro que estou sem a roupa apropriada e a sapatilha. Mas não faz mal, isso se ajeita. Também estou sem o documento que devo apresentar para fazer a aula e sequer lembro o meu número de matrícula. Consegui o número de matrícula e vou apanhar o ônibus que vai me levar à aula de Tai Chi. Mas agora não lembro mais o número de matrícula, não sei qual ônibus devo tomar, nem onde fica a academia. Mas não faz mal…

… fico angustiado. Não faz mal? Isso poderia ser corriqueiro para uma pessoa normal, não para mim, que sou extremamente metódico, que é a forma que me faz sobreviver neste mundo caótico. Então acordo do sonho e volto a escrever este texto para dizer que não estou com a roupa apropriada, estou sem a minha carteira, não sei meu número de matrícula, qual é o ônibus que devo apanhar, nem qual é o caminho que devo seguir…

Nota: Durante as eleições municipais de outubro de 2024, eu estava viajando. Na volta, levei os cartões de embarque e fiquei na fila para justificar o meu (não) voto. Mas a funcionária da Justiça Eleitoral disse: “Meu senhor, com a sua idade, o senhor não precisa mais justificar o seu (não) voto”. No dia 4 de outubro de 2026, tive um problema com a burocracia estatal: levei meu título de eleitor original e a cópia autenticada da carteira de identidade que carrego comigo. O mesário disse que a minha foto (de 1982), na cópia, estava irreconhecível. Informou que eu poderia apresentar a carteira de trabalho, desde que fosse original (e eu expliquei que a foto na carteira era de boa qualidade, mas que eu tinha então 17 anos de idade). Voltei para casa e trouxe a carteira de trabalho, mas ele não aceitou. Dentro dela, contudo, estava minha carteira de identidade original, que acabou sendo aceita. Mas não acabou por aí: ele queria a digital; informei que não funcionava; tentaram várias vezes e, por fim, a mesária usou a digital dela, que funcionou (achei estranho, mas faz parte das normas) e consegui votar. Agora, para o segundo turno, já sei, devo levar a carteira de identidade original.

Cortes orçamentários de Flávio Bolsonaro poupam a classe política

Se eleito, o filho 01 vai aproveitar o embalo e pôr em prática os planos de "reformar" o Supremo Tribunal Federal nos primeiros meses de governo. O primeiro ato prevê o impeachment de ministros que resistiram ao projeto autocrata do pai e o condenaram por tentativa de golpe. Um espetáculo para saciar a sede de vingança, provavelmente com Jair Bolsonaro já em liberdade assistindo na primeira fila ao rolar das cabeças.


O segundo propõe transferir a competência criminal do Supremo para tribunais inferiores, impedindo que o STF toque investigações envolvendo políticos. Adeus inquéritos sobre desvios de verbas parlamentares.

É a reedição da PEC da Blindagem, aprovada por maioria na Câmara, em 2025, com o argumento falacioso de garantir aos parlamentares o direito de emitir opiniões. Na verdade, era um carimbo de impunidade. A proposta só não foi adiante devido à pressão popular, com protestos nas capitais, milhares de pessoas nas ruas e mobilização nas redes sociais.

Protegidos e impunes, deputados e senadores vão legislar em causa própria e trabalhar no que lhes interessa: a disparada das emendas, uma disfuncionalidade que dura mais de dez anos. O butim abocanhou bilhões do Orçamento para uso paroquial, desequilibrou a harmonia entre os Poderes e instituiu um mecanismo sem transparência, via Pix, que funciona na base do clientelismo e da corrupção. Potencialmente é o maior esquema de corrupção em curso no país.

Em suas andanças pós-primeiro turno, Flávio Bolsonaro se reuniu com representantes dos partidos fisiológicos que se escondem sob o apelido de centrão e defendeu as emendas parlamentares, indicando que não pretende mexer no desenho de pagamento. Nem precisava fazer o afago. O Congresso já tem pronta a proposta orçamentária, com as emendas crescendo num ritmo três vezes maior que as despesas escolhidas pelo Executivo.

Pelo jeito, os cortes de gastos prometidos pelo 01 não atingem a classe política. Ele sabe que, se o dinheiro não entrar no bolso, a ideologia acaba na hora.
Alvaro Costa e Silva

Asfixia constitucional

"Todo homem investido no poder é tentado a dele abusar (…) para viver em liberdade é necessário que o poder freie o poder". A máxima de Montesquieu deveria servir, ao menos para aqueles que se creem liberais, com um alerta sobre o que está em jogo na eleição do próximo domingo.

A promessa de Flávio Bolsonaro de mudar a Constituição para "democratizar o país" teria gerado menos apreensão não fosse o alinhamento de três elementos: a origem e o histórico antidemocrático do clã político a que pertence; o crescimento da direita não liberal na composição do Congresso Nacional e dos governos de Estado; o dramático declínio da autoridade do Supremo, que, para piorar, terá sua maioria recomposta pelo próximo mandatário.


Para agravar a situação, se eleito, Bolsonaro governará em um contexto internacional em que as instituições liberais e democráticas estão sendo submetidas a imensas pressões e a um deliberado processo de erosão por políticos extremistas. Em resumo, será um governo sem contenção, que disporá de ampla discricionariedade para moldar a política e as instituições brasileiras em função de seus interesses e concepções de mundo.

O Brasil já adotou a mais democrática de suas constituições, em 1988. A atual Constituição foi uma clara reação da sociedade brasileira a um passado de autoritarismo e injustiça que marcou a nossa história. Somente no século 20, o Brasil experimentou dois longos períodos de exceção. Um de natureza militar e outro de matiz populista. Em comum, ambas as ditaduras promoveram a demolição do sistema de freios e contrapesos. Subordinaram o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal; restringiram e violaram direitos, especialmente dos seus inimigos; manipularam o processo eleitoral para se perpetuar no poder.

A Constituição de 1988 devolveu aos cidadãos o direito de escolherem periodicamente seus governantes, além das liberdades essenciais à vida democrática. Adotou um robusto sistema de freios e contrapesos, de forma a dificultar a concentração de poderes numa só pessoa, facção ou partido. Reconheceu um amplo rol de direitos, voltados a corrigir históricas injustiças que estruturaram nossa sociedade. Para proteger esses valores, limitou por meio de cláusulas pétreas o poder de maiorias eventuais que, em momentos de fúria ou irracionalidade, podem ficar tentadas a abrir mão das próprias condições que habilitam democracia.

Esse complexo edifício institucional, no entanto, ficará vulnerável se um mesmo grupo ou facção política tiver oportunidade objetiva de neutralizar o sistema de freio e contrapesos. Com isso, não sofrerá restrições ao manipular o processo eleitoral, violar direitos ou promover a erosão do próprio Estado de Direito.

Como demonstram as experiências de Venezuela, Rússia, Hungria, El Salvador, Turquia ou Índia, o declínio da democracia não decorre mais apenas de golpes, como o tentado por Jair Bolsonaro após ser derrotado nas urnas, mas também de sucessivos processos de mudança constitucional e legal, que levam à subversão da própria natureza liberal e democrática da Constituição.

Esses processos de erosão institucional se aprofundam, sobretudo, quando temos um segundo mandato de líderes ou grupos autoritários. A mudança de regras e estruturas institucionais, além da ocupação das instituições com pessoas leais e dispostas a tudo para aprofundar e prolongar o exercício do poder, toma tempo.

O Brasil precisa de mudanças, mas não daquelas que asfixiem nossa democracia constitucional.

sábado, 17 de outubro de 2026

A mídia sufoca a liberdade

Os poderosos da Grande Mídia nativa não cobriram, mas encobriram, por todos os meios e modos, a manifestação pró-Lula na Avenida Paulista. Nas tevês, durante a programação noticiosa, o telespectador ficou à mercê do excesso de gesticulação de âncoras e quetais, contorcionismos que denunciavam o mal-estar com a negação dos fatos que ocupavam as ruas. Não raro, os diálogos entre apresentadores e repórteres se encerravam com ataques ao vernáculo: “brigado”.


Na mídia impressa – jornais e revistas – a cobertura foi sovina, senão hostil, aos manifestantes da Paulista. Não espanta: na edição de sexta-feira, a revista Veja editou matéria que acusava Lula de ter recebido grana do indefectível Daniel Vorcaro. A acusação apoiava-se em uma narrativa obtida no celular do ex-banqueiro. A Polícia Federal não apurou tais increpações no celular do indigitado Faria Limer.

Luis Nassif há tempos publicou o livro O Caso Veja. A obra revela suas preo­cupações com os rumos da mídia brasileira. A exposição é magnífica. Vou apresentar um excerto do livro que atesta a prática jornalística de Veja.

1. Levantam-se alguns dados verdadeiros, mas irrelevantes ou que nada tenham a ver com o contexto da denúncia, mas que passem a sensação de que o jornalista acompanhou em detalhes o episódio narrado.

2. Depois juntam-se os pontos, cria-se um roteiro de filme, muitas vezes totalmente inverossímil, calçado em alguns fatos irrelevantes, supostamente verdadeiros.

3. Para “esquentar” a matéria, ou se inventam frases que não foram pronunciadas, ou se tiram frases do contexto, ou se confere tratamento de escândalo a fatos banais.

A propósito da imprensa e de suas liberdades, julguei oportuno reproduzir nesta coluna o relatório final da Comissão sobre a Liberdade de Imprensa, nomeada em 1947 pelo Congresso dos Estados Unidos. Considero o texto um exemplo de equilíbrio e acuidade no tratamento do tema “liberdade de imprensa”.

Diz o relatório: "Existe uma razão inversamente proporcional entre a vasta influência da imprensa na atualidade e os grupos sociais que podem utilizá-la para expressar suas opiniões. Enquanto a importância da imprensa para o povo aumentou enormemente com o seu desenvolvimento como meio de comunicação de massa, “diminuiu em grande escala a proporção de pessoas que podem expressar suas opiniões e ideias através da imprensa”.

O relatório procurou apontar “o que a sociedade tem direito de exigir de sua imprensa”. Definiu duas regras essenciais para o legítimo exercício da liberdade de informação e opinião: 1. “Todos os pontos de vista importantes e todos os interesses da sociedade devem estar representados nos organismos de comunicação de massa”; 2. “É necessário que a imprensa dê uma ideia dos grupos que constituem a sociedade. Dizer a verdade a respeito de qualquer grupo social – sem excluir suas debilidades e vícios – inclui também reconhecer os seus valores, suas aspirações, seu caráter humano”.

As recomendações exaradas no relatório da Comissão sobre a ­Liberdade de Imprensa refletem o espírito do tempo nos Estados Unidos e na Europa Ocidental: a aposta no aperfeiçoamento dos processos de controle democrático sobre o Estado e sobre o poder privado. O trauma das duas Guerras Mundiais e da Grande Depressão saturou o ambiente intelectual dos anos 40 do século XX da rejeição aos totalitarismos, seja o despotismo do mercado descontrolado, seja o dos chefes providenciais.

O sociólogo Karl Mannheim, um pensador representativo de sua época, escreveu em 1950, no livro Liberdade, Poder e Planejamento Democrático: … “Não devemos restringir o nosso conceito de poder ao poder político. Trataremos do poder econômico e administrativo assim como do poder de persuasão que se manifesta através da religião, da educação e dos meios de comunicação de massa, tais como a imprensa, o cinema e a radiodifusão”. Mannheim dizia temer menos os governos, que podemos controlar e substituir, e muito mais os poderes privados que exercem sua influência no “interior” das sociedades modernas. Não é preciso ter lido Michel Foucault para suspeitar de truculências que não dizem o seu nome e são impiedosamente exercidas nas “malhas do poder”, tecidas em silêncio no interior das sociedades.

A liberdade de opinião e informação transformada em infalibilidade dos meios de comunicação revela o suave endurecimento dos métodos de controle social e político

O vírus da intolerância midiática se desenvolve rapidamente na estufa da autocomplacência, sob a forma perigosa e letal do silêncio cúmplice especializado na perseguição aos “inimigos”, na desqualificação e intimidação da opinião divergente, na prática do serial ­character assassination, no descumprimento do direito de resposta.

A liberdade de opinião e de informação transformada em (quase) infalibilidade da mídia revela o suave endurecimento dos métodos de controle social e político nas sociedades contemporâneas.

Mas não é sábio exagerar no pessimismo: nos próximos anos, a luta política vai decidir se as tecnologias de comunicação da terceira revolução industrial, a internet e a convergência dos meios, vão nos conduzir ao totalitarismo consentido, à moda de George Orwell, ou ao aperfeiçoamento democrático da ágora informatizada capaz de corrigir as distorções dos poderes que se escondem sob as máscaras da liberdade.

Quem manda mesmo não aparece em cena. Essa função estratégica da grande mídia foi fortalecida no regime militar e não sofreu qualquer percalço depois da chamada redemocratização. Pior: olham o passado como juízes do tribunal da história. São eles que decidem quem tem o poder de julgar e quem deve se sentar nos bancos dos réus.

A liberdade de imprensa só se justifica enquanto realização da liberdade de expressão dos cidadãos livres e iguais, os legítimos titulares do sagrado e inviolável direito à opinião livre e desimpedida.

Neoliberais e ultradireita: o tronco único

Um relato obstinado sobre os últimos anos afirma que o surgimento da ultradireita é uma reação social contra algo chamado neoliberalismo. O neoliberalismo é frequentemente definido como um certo fundamentalismo de mercado ou como a crença em um conjunto básico de ideias: tudo neste mundo tem um preço, as fronteiras são obsoletas, a economia mundial deve substituir os Estados-nação e a vida humana é redutível a um ciclo de ganhar, gastar, tomar crédito e morrer. Pelo contrário, a “nova” direita acreditaria no povo, na soberania nacional e na importância dos valores culturais conservadores. Hoje, com os partidos tradicionais perdendo cada vez mais votos, as elites que promoveram o neoliberalismo estariam colhendo os frutos da desigualdade e da erosão da democracia que semearam.


Mas esse relato é falso. Na verdade, é suficiente olhar com atenção para notar que algumas facções importantes da direita emergente são cepas mutantes do neoliberalismo. Afinal, os chamados partidos “populistas de direita”, dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da Áustria, não são anjos vingadores que teriam sido enviados para destruir a globalização econômica. Eles não têm planos de subjugar o capital financeiro, restaurar as garantias trabalhistas da “era de ouro” ou acabar com a liberalização comercial.


Em linhas gerais, os projetos desses chamados populistas de privatizar, desregulamentar e cortar impostos provêm do mesmo roteiro que os donos do mundo vêm seguindo há trinta anos. Entender o neoliberalismo como um hipermercado apocalíptico do mundo é um erro e só gera desorientação.

Como muitos autores demonstram, longe de evocar o capitalismo apátrida, os neoliberais que se organizaram na Sociedade Mont Pelerin, fundada por Friedrich Hayek — que na década de 1950 usou o termo “neoliberalismo” para descrever suas próprias ideias —, refletiram por quase um século sobre como reformular o Estado para restringir a democracia sem eliminá-la, assim como sobre o papel das instituições nacionais e supranacionais na proteção da concorrência e do intercâmbio. Quando entendemos que o neoliberalismo consiste num projeto de reestruturação do Estado para salvar o capitalismo, sua suposta oposição ao populismo de direita começa a se dissolver.

Tanto os neoliberais quanto a nova direita desprezam o igualitarismo, a justiça econômica global e qualquer tipo de solidariedade que se estenda além das fronteiras nacionais. Ambos percebem o capitalismo como inevitável e julgam os cidadãos por padrões de produtividade e eficiência. De modo mais surpreendentemente, ambos alimentam seus espíritos no mesmo panteão dos heróis do “livre mercado”. Um bom exemplo é Hayek, uma figura que permanece inquestionável em ambos os lados da suposta fenda entre neoliberais e ultradireitistas.

Em um discurso em 2018, Steve Bannon, ao lado de Marine Le Pen, num congresso da Frente Nacional, condenou as “elites” e os “globalistas”. Empregou, também, a metáfora do caminho da servidão, invocando assim a autoridade e o nome desse mestre da direita.

Bannon já havia citado Hayek na semana anterior. Eis que ele fora chamado para um evento por Roger Köppel, editor da revista Wirtschaftswoche e membro do Partido Popular Suíço e da Sociedade Friedrich Hayek. Durante esse encontro, Köppel mostrou a Bannon uma das primeiras edições da revista e acrescentou que era “de 1933”, época em que a publicação promovia o golpe nazista.

“Que os chamem de racistas”, disse Bannon, sem hesitar, ao público presente: “deixem que eles os chamem de xenófobos. Deixem também que os chamem de nacionalistas. Usem essas palavras como crachás.” O objetivo dos ultradireitistas, disse ele, não é maximizar o valor dos acionistas, mas “maximizar primeiro o valor dos cidadãos”. Isso soou menos como uma rejeição ao neoliberalismo do que um aprofundamento de sua lógica econômica no próprio coração da identidade coletiva. Em vez de descartar a ideia neoliberal do capital humano, os populistas a combinam com a identidade nacional em um discurso sobre a nação com letras maiúsculas.

Antes de deixar a Europa, Bannon também teve a oportunidade de se encontrar com Alice Weidel, ex-consultora do banco Goldman Sachs, líder do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) e membro da Sociedade Hayek até o início de 2021. Outro representante da AfD é Peter Boehringer: ex-blogueiro libertariano e consultor, também membro da Sociedade Hayek e agora representante da Baviera no Bundestag e presidente do comitê de orçamento do parlamento.

Em setembro de 2017, o Breitbart, um site de notícias do qual Bannon era presidente executivo, entrevistou Beatrix von Storch, deputada e dirigente do AfD, que é também membro da Sociedade Hayek. Ela [que viria a se encontrar com Jair Bolsonaro em 26/7/2021] aproveitou para dizer que Hayek a inspirou em seu compromisso com a “recuperação da família”. Na cidade vizinha da Áustria, Barbara Kolm, encarregada de negociar a coalizão de curta duração entre o Partido da Liberdade e o Partido Popular, foi diretora do Instituto Hayek em Viena, um membro da comissão que procurou criar zonas especiais desregulamentadas em Honduras e membro da Sociedade Mont Pelerin.

Em suma, tudo isso para dizer que, ao longo dos últimos anos, não se testemunha um choque de tendências opostas, mas sim o surgimento de uma velha disputa do lado capitalista, que gira em torno dos meios necessários para manter vivo o mercado livre. Ironicamente, o conflito que separou os chamados “globalistas” dos ultradireitistas eclodiu na década de 1990, quando muitos pensavam que o neoliberalismo havia conquistado o mundo.

O neoliberalismo é muitas vezes considerado como um conjunto de soluções, um plano de dez pontos para destruir a solidariedade social e o estado de bem-estar social. Naomi Klein define-o como uma “doutrina do choque”: ataca em tempos de desastre, esvazia e vende serviços públicos e transfere poder do Estado para as empresas.

O Consenso de Washington, criado em 1989 pelo economista John Williamson, é o exemplo mais famoso do neoliberalismo como receita: uma lista de deveres a serem seguidos pelos países em desenvolvimento, que vão desde reformas fiscais até privatizações, passando por diferentes tipos de abertura comercial. Nessa perspectiva, o neoliberalismo parece um livro de receitas, uma panaceia e uma fórmula que se aplica em todos os casos.

Mas as obras dos intelectuais neoliberais fornecem um quadro muito diferente e, se quisermos explicar as manifestações políticas aparentemente contraditórias da direita, é preciso estudá-las. Então se descobre que o pensamento neoliberal não consiste de soluções, mas de problemas. Juízes, ditadores, banqueiros ou empresários são guardiões confiáveis da ordem econômica? Quê instituições devem ser criadas e desenvolvidas? Como se faz para que as pessoas aceitem os mercados mesmo que eles sejam muitas vezes cruéis?

O problema que mais incomodou os neoliberais nos últimos setenta anos é o do equilíbrio entre o capitalismo e a democracia. O sufrágio universal – julgam – fortaleceu as massas; e estas estão sempre prontas para inviabilizar a economia de mercado por meio do voto. Por meio dele, elas “extorquem” os políticos, obtendo favores e, assim, drenam os cofres do Estado. Muitos neoliberais costumam pensar que a democracia tem inerentemente um viés pró-socialista.

Portanto, as suas discordâncias giravam principalmente em torno da escolha de instituições capazes de salvar o capitalismo da democracia. Alguns argumentaram por um retorno ao padrão-ouro, enquanto que outros argumentavam que o valor das moedas nacionais deveria flutuar livremente. Alguns lutaram por políticas antitruste agressivas, enquanto outros achavam que certas formas de monopólio eram aceitáveis. Alguns achavam que as ideias deveriam circular livremente, enquanto outros defendiam os direitos de propriedade intelectual. Alguns achavam que a religião era uma condição necessária para a prosperidade numa sociedade liberal, enquanto outros acreditavam que ela poderia ser dispensada.

A maioria considerava a família tradicional como a unidade social e econômica básica, mas outros discordavam. Alguns perceberam o neoliberalismo como uma forma de criar a melhor constituição possível, enquanto outros julgaram que uma constituição democrática era — usando aqui uma metáfora com distinguível conotação machista — “um cinto de castidade cuja chave está sempre ao alcance de quem o usa”.

No entanto, em comparação com outros movimentos intelectuais e políticos, o movimento neoliberal sempre foi caracterizado por uma surpreendente ausência de divisões sectárias. Da década de 1940 até a década de 1980, o seu núcleo permaneceu mais ou menos intacto.

O único grande conflito interno ocorreu na década de 1960, quando um dos principais representantes desse núcleo dele se distanciou. O economista alemão Wilhelm Röpke, muitas vezes considerado o pai intelectual da economia de mercado social, abandonou os seus pares, já que defendia abertamente o apartheid sul-africano. Ele passara a adotar certas teorias biológicas racistas que argumentavam que a herança genética ocidental era uma pré-condição para o funcionamento da sociedade capitalista. Essa posição foi um prenúncio dos conflitos que se seguiram.

Enquanto, na década de 1960, a defesa da branquitude era uma posição bastante periférica, nas décadas seguintes começou a fragmentar os neoliberais.

Embora, de início, a combinação entre xenofobia e o ataque aos imigrantes com o neoliberalismo possa parecer algo contraditório — pois essa suposta filosofia defenderia a abertura das fronteiras — este não foi de forma alguma o caso na Grã-Bretanha de Thatcher, precisamente o local onde essa doutrina mais prosperou.

Hayek, que se tornou um cidadão britânico depois de emigrar da Áustria fascista, escreveu, em 1978, uma série de artigos em apoio ao apelo de Thatcher para “acabar com a imigração”. Foram lançados durante a campanha política que a levaria a ocupar o cargo de primeira-ministra.

Para defender essa posição, Hayek lembrou das dificuldades enfrentadas por Viena, a capital onde nasceu em 1899, quando “grandes contingentes de galegos e judeus poloneses” chegaram do Leste antes da Primeira Guerra Mundial e enfrentaram grandes obstáculos para se integrar.

É triste, mas muito real, escreveu Hayek: “não importa o quanto o homem moderno se comprometa com o ideal de que as mesmas regras devem se aplicar a todos os homens, ele de fato as aplica apenas àqueles que considera seres como ele mesmo, e é apenas muito lentamente que aprende a expandir o conjunto daqueles que aceita como seus semelhantes”.

Embora longe de ser definitiva, a sugestão de que uma cultura comum ou identidade de grupo era necessária para garantir o funcionamento do mercado implicava já uma mudança de rota da sociedade neoliberal, fundada que estava na noção universalista de que as mesmas leis deveriam se aplicar a todos os seres humanos.

Esta nova atitude restritiva encontrou alguma ressonância, particularmente entre os neoliberais britânicos que, ao contrário das tendências liberais dos americanos, sempre se inclinaram para os conservadores. Deve-se lembrar que Enoch Powell, de quem pode se suspeitar muitas coisas menos de sua antipatia pela imigração de não-brancos, era membro da Sociedade Mont Pelerin e tomou a palavra em muitas de suas reuniões.

No entanto, uma das novidades da década de 1970 foi que a retórica de Hayek que elogiava os valores conservadores começou a se combinar com a influência de uma nova filosofia: a sociobiologia, que por sua vez foi nutrida pela teoria cibernética, etologia e a teoria dos sistemas. A sociobiologia ganhou esse nome do título de um livro de E. O. Wilson, um biólogo de Harvard. Essa obra argumentou que o comportamento humano individual poderia ser explicado pela mesma lógica evolutiva que a de animais e outros organismos. Todos nós procuramos maximizar a reprodução de nosso material genético. Os caracteres humanos cabiam todos no mesmo esquema: as pressões da seleção erradicam os traços menos úteis e multiplicam os mais úteis.

A sociobiologia seduziu Hayek, mas o austríaco não se esquivou de questionar o fato que esse saber havia posto ênfase nos genes. Em vez disso, ele argumentou que as mudanças no humano eram melhor explicadas por certos processos que chamou de “evolução cultural”. Assim como, nas décadas de 1950 e 1960, os conservadores nos Estados Unidos haviam promovido o chamado “fusionismo” entre o liberalismo libertariano e o conservadorismo cultural — um projeto que se condensou na revista National Review de William F. Buckley —, a inclinação científica de Hayek acabou criando um novo fusionismo e este criou um espaço conceitual capaz de receber empréstimos diversos seja da psicologia evolutiva, seja da antropologia cultural e até mesmo de uma cientificidade centrada na raça. Durante as décadas seguintes, as cepas do neoliberalismo foram combinadas em diferentes ocasiões com as cepas do neonaturalismo.

No início da década de 1980, Hayek começou a dizer que a tradição era um ingrediente necessário da “boa sociedade”. Em 1982, diante de uma audiência na Heritage Foundation, ele alegou que “nossa herança moral” era a base de uma sociedade de mercado saudável. Em 1984, ele escreveu que “devemos voltar a um mundo no qual não apenas a razão, mas a razão e a moralidade, como parceiros de direitos iguais, devem governar nossas vidas, e onde a verdade da moralidade é simplesmente uma tradição moral específica, a do Ocidente Cristão, a origem da moralidade da civilização moderna”.

A conclusão era óbvia. Algumas sociedades desenvolveram certos traços culturais característicos, como responsabilidade pessoal, engenhosidade, ação racional e alguma preferência temporal, enquanto outras não.

Como esses traços não eram facilmente compráveis ou transplantáveis, essas sociedades culturalmente menos evoluídas — ou seja, o mundo “em desenvolvimento” – deveriam passar por um longo período de aprendizado antes de alcançar o Ocidente – embora sem garantias de sucesso.

Em 1989, a história interveio na cultura e o Muro de Berlim caiu. Após este evento inesperado, a questão de saber se as culturas típicas do capitalismo poderiam ser transplantadas ou se deveriam crescer organicamente tornou-se muito relevante. A “transiciologia” tornou-se um novo campo de estudo para os especialistas em ciências sociais que se envolveram no problema da conversão dos países comunistas ao capitalismo.

Em 1991, Hayek recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade dada por George H. W. Bush. O ex-presidente o descreveu naquela ocasião como um “visionário” cujas ideias tinham sido “validadas diante dos olhos de todo o mundo”. Poder-se-ia pensar, por isso, que os neoliberais passaram o resto da década chafurdando em sua complacência e polindo os bustos de Ludwig von Mises para exibição em todas as universidades e livrarias da Europa Oriental.

No entanto, aconteceu o contrário. Lembremos que o principal inimigo dos neoliberais desde a década de 1930 não era a União Soviética, mas a social-democracia ocidental. A queda do comunismo significava que o verdadeiro inimigo tinha novos campos para se expandir. Como disse James M. Buchanan, presidente da sociedade Mont Pelerin, em 1990, “o socialismo está morto, mas o Leviatã vive”.

Para os neoliberais, a década de 1990 levantou três eixos de reflexão. Em primeiro lugar, poderia o bloco comunista recentemente “libertado” tornar-se um agente de mercado responsável da noite para o dia? O que seria necessário para que isto ocorresse? Em segundo lugar, a integração europeia era o prenúncio de um continente neoliberal ou era simplesmente a expansão de um superestado que promoveria políticas de bem-estar, direitos trabalhistas e redistribuição? E, finalmente, havia a questão das transformações demográficas: uma população branca cada vez mais velha versus uma população não branca que não parava de crescer. Será que existem algumas culturas – e até mesmo algumas raças – mais predispostas ao mercado do que outras?

A década de 1990 abriu uma fenda no campo neoliberal que separou aqueles que acreditavam em instituições supranacionais, como a União Europeia, a Organização Mundial do Comércio e as leis internacionais sobre o investimento — pode-se chamá-las de orientação “globalista” — daqueles que achavam que a soberania nacional — ou talvez a criação de unidades soberanas menores — melhor cumpriria os objetivos do neoliberalismo. Parece que aqui se gerou a base sobre a qual os populistas e os libertarianos que lideraram a campanha do Brexit se encontraram muitos anos depois.

A crescente influência das ideias de Hayek sobre a evolução cultural, assim como a popularidade aumentada da neurociência e da psicologia evolutiva, fez com que muitas pessoas no campo separatista do Reino Unido começassem a prestar atenção às ciências ditas duras. Para alguns, as pesquisas sobre os fundamentos do mercado precisavam “mergulhar no cérebro” – este, aliás, é o título de um artigo de 2000 escrito por Charles Murray, membro da Mont Pelerin Society.

As crises que se seguiram a 2008 puseram à tona as tensões entre os dois campos neoliberais. Durante 2015, a chegada de mais de um milhão de refugiados na Europa criou as condições para o surgimento de um novo híbrido político triunfante, o qual combinava xenofobia com valores de livre mercado. É importante ser muito claro no separar entre o que há de novo na direita e o que é um legado do passado recente.

A campanha de direita do Brexit, por exemplo, foi baseada em uma base política construída pela própria Margareth Thatcher. Em um famoso discurso de 1988 em Bruges, Thatcher declarou que “não empurramos para trás as fronteiras do Estado na Grã-Bretanha apenas para ficar de lado enquanto a Europa as repõe por meio de um superestado que controla tudo de Bruxelas”.

No ano seguinte, inspirado no discurso de Lorde Ralph Harris, ex-membro da Sociedade Mont Pelerin e fundador do Instituto de Assuntos Econômicos, ela criou o Grupo Bruges. Atualmente, o site do grupo afirma orgulhosamente ter sido a “ponta de lança na batalha intelectual que levou à conquista dos votos para deixar a União Europeia”. É evidente, neste caso, que os ultradireitistas vêm diretamente das fileiras neoliberais.

Enquanto os defensores do Brexit exaltam principalmente a nação, na Alemanha e na Áustria a referência à natureza é ressaltada. Talvez o mais impressionante sobre esse novo fusionismo seja a forma como combina suposições neoliberais sobre o mercado com uma psicologia social duvidosa. Há uma certa fixação no tema da inteligência. Embora se tenda a associar o termo “capital cognitivo” com teóricos marxistas italianos e franceses, o neoliberal Charles Murray usou-o em seu livro The Bell Curve, publicado em 1994. Empregou-o para descrever o que ele considerava serem as diferenças parcialmente hereditárias de grupos no campo da inteligência, capazes de serem quantificados pelo chamado QI.

Outro caso é do sociólogo alemão Erich Weede, co-fundador da Sociedade Hayek — e também premiado com a Medalha Hayek em 2012. Eis que ele segue o teórico da raça Richard Lynn para argumentar que a inteligência é o principal determinante do crescimento econômico. Ou Thilo Sarrazin, para quem a riqueza e a pobreza das nações não são explicadas pela história, mas por uma série de qualidades complexas que determinam suas populações. O livro deste ex-membro do Bundesbank, intitulado Germany Does Itself In (A Alemanha se lastima a si mesma), vendeu quase um milhão e meio de exemplares na Alemanha e contribuiu para o sucesso de partidos islamofóbicos como o AfD. Sarrazin também cita Lynn e outros investigadores do quociente de inteligência para argumentar contra a imigração de países de maioria muçulmana com base no suposto QI.

Dessa forma, os neoliberais de direita atribuem médias de inteligência a diferentes países de forma a tornar coletivamente inato o conceito de “capital humano”. A sua fala é complementada por alusões a valores e tradições, que são impossíveis de compreender em termos estatísticos e através das quais recriam noções de caráter nacional e essência.

O novo fusionismo entre neoliberalismo e neonaturalismo fornece uma linguagem que propõe, não um universalismo panhumanista de mercado, mas uma visão de mundo segmentada de acordo com a cultura e biologia.

As consequências dessa nova concepção da natureza humana vão muito além dos partidos de ultradireita, alastrando-se pelo separatismo da direita alternativa e pelo nacionalismo branco.

Nem todos os neoliberais abraçaram essa mudança em direção a esses conceitos excludentes de cultura e raça. Há também aqueles que a criticam como uma apropriação indébita do legado cosmopolita de Hayek e Mises, feita por uma horda de xenófobos intolerantes. No entanto, a veemência de seus protestos mascara o fato de que esses bárbaros populistas que agora batem nos portões da cidade foram alimentados por seus produtos.

Um exemplo marcante é o do tcheco Václav Klaus, um dos favoritos do movimento neoliberal dos anos 1990 em virtude das políticas que implementou como ministro das finanças, primeiro-ministro e presidente da República Tcheca pós-comunista. Klaus, um membro da Sociedade Mont Pelerin e um professor frequente em suas reuniões, foi um firme defensor da terapia de choque durante a transição ao capitalismo. Ele sempre disse que Hayek era seu intelectual favorito. Em 2013, Klaus tornou-se um dos principais investigadores do Instituto Cato, um reduto do liberalismo libertário cosmopolita.

No entanto, é interessante observar sua trajetória. Começou na década de 1990, combinando a demanda por um Estado forte no momento da transição com a típica declaração hayekiana a respeito da incognoscibilidade do mercado. Na década seguinte, apontou suas armas principalmente para as políticas ambientais da União Europeia. No início dos anos 2000, ele havia se tornado um negador absoluto das mudanças climáticas, um assunto sobre o qual escreveu um livro em 2008: Blue Planet in Green Shackles (O planeta azul e as manilhas verdes).

Na década de 2010, Klaus se apaixonou pelo movimento ultradireitista e começou a exigir o fim da União Europeia, o retorno do Estado-nação e o fechamento das fronteiras em face da imigração.

Mas, o seu vacilante retorno à direita não o levou a romper com o movimento neoliberal organizado. Apresentou-se, por exemplo, na Sociedade Mont Pelerin, com uma palestra sobre “a ameaça populista à boa sociedade”. E em uma das reuniões daquele mesmo ano, Klaus argumentou que “a migração em massa na Europa […] ameaça destruir a sociedade europeia, criando assim uma nova Europa, a qual será muito diferente daquela do passado e das ideias da Sociedade Mont Pelerin.” Ao mesmo tempo em que desenha linhas intransponíveis nas quais tranca certas pessoas, Klaus defende, juntamente com os partidos de extrema direita com os quais colabora no Parlamento Europeu, o livre mercado e o livre fluxo de capital.

Em suma, os ideólogos do tipo Klaus são melhor descritos como libertarianos xenófobos em vez de ultradireitistas. Eles não são supostos inimigos do neoliberalismo, que avançam pelo campo com tochas e ancinhos, mas seus próprios filhos, alimentados por décadas com as conversas e debates sobre as alavancas que o capitalismo precisa para sobreviver.

A nova cepa pensa que a questão está na raça, na cultura e na nação: uma filosofia pró-mercado que deixou de confiar na ideia de que somos todos iguais, para argumentar que somos essencialmente diferentes. Mas, além do furor gerado pela ascensão de uma suposta nova direita, a verdade é que a geometria do nosso tempo não mudou. Exagerar a ruptura implica perder de vista sua continuidade elementar.

Fim da 6X1: Joaquim Nabuco, a escravidão, Flávio e lixo de um senador do PL

O placar de 75 a 1 em favor do fim da jornada 6 X 1 não diz o que está em curso. Se Flávio Bolsonaro (PL) vencer a eleição, dará o grande truque para contornar o que é uma conquista histórica dos trabalhadores: aprovar a proposta do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador político de sua candidatura à Presidência, que institui a contratação por horas trabalhadas. Seria, na verdade, a superação do primeiro entrave para o fim da CLT. Barbárie pouca é bobagem.

Oferecer-se-iam as duas opções: ou jornada 5X2 ou contratação/hora, restando a trabalhadores e empregadores a livre negociação para a escolha. Os reaças chamam isso de “liberdade”. Sim: ser livre tem como condição imanente o poder de escolha. No caso, o empregador é livre para contratar aquele que lhe for mais vantajoso. E o candidato a empregado? Se decidiu entrar na fila do desemprego, não se pode dizer que foi coagido a tanto, não é mesmo?

Antes que avance, noto: entendo, sim, a preocupação desses ou daqueles setores com a PEC aprovada. Desagrada-me muito o argumento, a meu ver intelectualmente terrorista, que acena para o caos. Isso é um padrão que se repete. A toda mudança, a reação responde com risco de Apocalipse, mas sem o triunfo dos bons no fim da história. É vasta a bibliografia sobre as predições dos males que decorreriam do fim da escravidão.

O Brasil tem a notável figura de José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu (1756-1835), um liberal improvável naqueles dias, leitor de Adam Smith, capaz de digressões sobre as mazelas da escravidão, mas sempre reconhecendo a imprescindibilidade da mão de obra escrava, sem a qual a economia entraria em colapso… Há uma hora em que o discernimento e a inteligência requerem o aporte moral, que pode fazer a diferença.


O catastrofismo sempre comparece, porque também este é uma constante histórica, diante de qualquer avanço. Está até em “Os Lusíadas”. Lá, o Velho do Restelo adverte para os desastres que a expansão ultramarina acarretaria. Aparece na Mitologia Grega — de fato, em qualquer uma. Fim da escala 6 X 1? Só a ruína nos contempla, asseguram alguns empresários — e aí Flávio e o plano de Marinho parecem a solução…

Joaquim Nabuco (1849-1910), no texto “Massangana” — num livro quase inacreditável por sua grandeza: “Minha Formação” (1900), escreveu — e Caetano Veloso pôs música no disco Noites do Norte:

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte… É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.”

Pois é. Eu me lembrei de Nabuco quando o senador Carlos Portinho (PL-RJ) — que acabou votando na quarta em favor do fim da 6X1, mas é contra, esperando que Flávio vença e torne, na prática, a medida sem efeito — explicou as dificuldades que advirão com o lixo do seu prédio. Disse o gigante:

“Na vida do trabalhador, eu não tenho dúvida, será positivo. É um sonho trabalhar menos e receber a mesma coisa. Mas eu quero lembrar que não há empregado sem empregador, não há trabalhador sem trabalho, e a gente tem que olhar, em algum momento, para os dois lados da mesa.

Eu moro em um edifício pequeno, de cinco apartamentos. Levo na ponta do lápis para não aumentar a despesa dos meus condôminos. Preciso do meu porteiro, zelador que tá lá há 20 anos, o Seu Francisco. Eu preciso dele no sábado só por uma razão: porque a Prefeitura me obriga um horário específico para ele botar o lixo para fora. É caro viver em apartamento.

Aí eu perguntei ao meu vizinho, que é eleitor do Lula, defende a PEC, mas não quer que o condomínio dele aumente e também não quer descer para botar o lixo dele para fora no sábado: ‘Como é que a gente faz?’ Se eu tiver que registrar outro funcionário para trabalhar um dia na semana, as contas do prédio não fecham.

Sabe o que vai acontecer? Eu não vou contratar outro funcionário com carteira assinada. Eu vou contratar o diarista. Que não recolhe INSS, que não contribui para o seu FGTS e que não tem garantia nenhuma trabalhista. Isso é o trabalho precário, que a falta de um debate profundo sobre os impactos econômicos reais vai acabar gerando na prática.”

Chegou a dizer que seu vizinho petista é gente boa, mas não quer saber de levar o lixo… Ele, Portinho, do PL, em certo sentido, deve ter mais intimidade com a coisa… Mas o ponto não está na minha ironia. É um sestro da extrema direita transformar uma conquista social num empecilho individual para privilegiados. Imaginem como o fim da escravidão pode ter chateado a vida dos nhonhôs e iaiás, não é verdade? De resto, quem disse que o fim da escala impede a contratação de diaristas?

Ademais, ninguém deixará de ser um funcionário contratado pela 5 X 2 para fazer um bico, que não será proibido. A questão dele é falsa como nota de R$ 3. Em última análise, ele está a dizer, ainda que não tenha se dado conta, que talvez seja obrigado a fazer trabalho de preto e pobre — embora tenha jogado o mau espírito nas costas de seu vizinho… “petista”. A elite brasileira, com raras exceções, é mesmo um lixo.

Se Flávio vencer, o PL e seus aliados, de modo mais amplo, armam a tramoia de aprovar a contratação por hora como “alternativa”, que vai virar a regra. A ditadura fez isso. Resumo. E depois vem a minha memória pessoal.

Aprovou-se a Lei nº 5.107 em 13 de setembro de 1966, no governo Castello Branco. Criou o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) como alternativa à estabilidade depois de 10 anos de trabalho, então prevista na CLT, hipótese em que alguém só poderia ser demitido por falta grave. Atenção! Em tese, o trabalhador era livre para escolher. Facilitavam-se as demissões, enfraquecendo os sindicatos, e se ofereciam as “vantagens” do fundo. E surgiu então um binômio de que se falava muito: a “Lei Nova” contra a “Lei Velha”. Rúbens, meu pai, escolheu a estabilidade depois de seis anos na então indústria Rhodia. Uma semana depois da “escolha”, foi demitido. E só conseguiu um novo emprego, muito pior, sob a “Lei Nova”. Quem mandou não fazer a escolha certa? Ele era, afinal, “livre”…

“Esse Reinaldo… Com alguma frequência, vai de Camões ao seu pai…” Fato. A história da humanidade está em mim e no que li. A minha se perde nela, como uma gota “bebida pelos fantasmas”, para citar Kafka de novo. Minha trajetória não tem importância. Camões, Nabuco e Kafka têm. E, claro, longe de mim causar embaraços para Portinho saber onde põe o seu lixo. No geral, faz isso com invejável desenvoltura.