sexta-feira, 10 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


A guerra no horizonte da política internacional

“O velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno surgem os fenômenos mórbidos mais diversos”, disse o teórico marxista Antonio Gramsci, em circunstâncias históricas semelhantes às que enfrentamos. Hoje, podemos dizer que a ordem mundial que conhecemos, desde pelo menos 1945, está mortalmente ferida, e de suas entranhas em decomposição um outro modus operandi vai se consolidando, não necessariamente novo, pelo contrário. Estamos diante de uma configuração política há muito tempo conhecida pelos estudiosos do fenômeno internacional, marcada pela realpolitik, pelo imperialismo e por uma corrida armamentista de guerra típica dos sistemas multipolares.

Sintomático do momento, o termo realpolitik, antes exclusivo aos círculos acadêmicos, começa a se tornar lugar comum em análises até mais rasteiras. De fato, não seria razoável afirmar que esta forma política – baseada no recurso à força como ativo central da política – tenha sido abandonada nas últimas décadas sob uma suposta e idealista hegemonia das instituições internacionais. O que podemos dizer é que ela passou a conviver com constrangimentos legais que impuseram mínimos limites ao uso da violência como instrumento político. E o que presenciamos agora é o recrudescimento do poder bruto sem nenhuma cerimônia.


O fio condutor deste processo é a decadência do soft power dos EUA, após décadas de intervenções desastrosas e degradação social promovida pelo consenso de Washington (1992), que tem levado a cada vez mais fissuras nas instituições democráticas e nos aparelhos de bem-estar social, especialmente entre países historicamente aliados da superpotência norte-americana.

Como qualquer estudioso da política internacional sabe, a arena doméstica é intrinsicamente ligada à externa, e o aprofundamento do déficit democrático, consequente à demolição do welfare state, contribui para destruir ainda mais o aparato legal que dá freios ao uso da força. Se um sistema multipolar já tende a ser mais friccionado – quanto mais bolas de sinuca numa mesa, mais chances de contato entre elas –, um conduzido por líderes antidemocráticos promete ser ainda mais perigoso. Já vimos esse filme.

O rastro do caos aponta para os EUA. Emergentes da Guerra Fria como única superpotência global, os EUA pavimentaram sua hegemonia com uma rara combinação de poder bruto e poder brando. A fórmula classificada por Joseph Nye como “poder inteligente” (smart power) nada mais é que a combinação entre a capacidade de impor a força e gerar atração, representação contemporânea de uma das formulações mais importantes de um texto seminal da ciência política moderna. Em O Príncipe, Maquiavel afirma que entre ser amado ou temido, na impossibilidade da escolha ideal (de ser amado e temido), era preferível ao Príncipe ser temido, “porque os homens mais facilmente ofendem a quem amam do que a quem temem” (Maquiavel, 1987). Com o enfraquecimento do seu poder de atração, a superpotência está partindo para o ataque, em busca de deter os avanços das potências regionais que desafiam sua hegemonia, elevando tensões, incertezas e desestabilizando a ordem internacional.

Assim, para os EUA, as primeiras duas décadas do pós-Guerra Fria foram um período de rara abundância de capital político, aproximando-se da fórmula “ideal” de Maquiavel e Nye. O país era incontestavelmente uma superpotência militar, com capacidade de projeção de força incomparável, e uma nação líder nos principais fóruns internacionais. Em que pese uma política externa marcada por práticas imperialistas, entre as nações do Ocidente político a influência estadunidense ainda gozava de patamares elevados de popularidade até meados da primeira década do século. Foi a sequência de eventos posteriores ao 11/09 que mudou isso, levando os EUA a serem cada vez mais percebidos como uma ameaça à ordem mundial, e não como seus fiadores, como manda a cartilha do bom hegemon.

Hoje, enfim, vivemos as consequências de três processos: as incursões no Oriente Médio, que violaram normas internacionais que significavam mínimas balizas para o uso da força; o avanço da OTAN sobre as fronteiras russas, traindo os acordos que costuraram o fim da Guerra Fria, e; três décadas de acirrada competição com a China tensionando as relações internacionais não só na Ásia Pacífico, mas em diversas regiões sensíveis geopoliticamente.

Portanto, vivemos um processo de desgaste das estruturas institucionais, políticas e comerciais que mediavam as relações internacionais, e de consolidação de potências regionais capazes de desafiar a supremacia global dos EUA, processos que se articulam e indicam um descompasso político que traz a sombra da guerra de novo para mais perto da política internacional.

A guerra é em um dos principais problemas da humanidade, talvez mesmo o principal. Através dela, cidades, Estados, Impérios e civilizações apareceram e desapareceram. Modos de vida foram consolidados e destruídos. Isso significa que a guerra tem sido – para muitos é – um elemento constitutivo das relações humanas, muitas vezes descrita como uma “sombra” permanente no horizonte da política internacional. Segundo Domingos Neto (2005, p. 1), a guerra é uma “forma de compatibilizar os meios de sobrevivência com o crescimento demográfico, processo de aniquilamento-fusão-afirmação de etnias, culturas e línguas, fonte alimentadora de avanços científicos e tecnológicos, momento de ruptura de ordenamentos socioeconômicos e deformação de valores. Exprimindo disputas por mercados, vontades dominadoras ou projetos libertários, o militar efetiva os banhos de sangue que resultam em grandes mudanças sociais e desenham incessantemente o mapa político mundial. A civilização é impensável sem a guerra e o militar”.

Portanto, compreender a guerra é essencial para analisar o fenômeno internacional.

Para oferecer uma explicação à dialética guerra/paz, a teoria do Realismo Político tem sido, desde os primórdios do estudo das RI, a principal fonte de interpretações para lidar com o problema da guerra na política internacional. Esse modelo teórico emula a premissa do estado de natureza hobbesiano para a política internacional e reitera o paradigma que confere a pretensão do monopólio do uso legítimo da violência aos Estados, entidades autônomas e dotadas de direitos uns em relação aos outros em uma comunidade formada por distintas nações, todas imersas em um estado de insegurança e tensão permanentes que as constrange a disputas violentas entre si, produzindo um equilíbrio baseado no poder e, por isso, sempre volátil.

Essa volatilidade tem sido a marca do sistema internacional moderno, cujo amadurecimento se deu pari passu com a consolidação do Estado Nação, ambos resultantes das guerras totais que devastaram o velho mundo entre os séculos XVII-XX. As relações internacionais foram, durante esse recorte, uma sucessão de conflitos cada vez mais abrangentes e violentos, à medida que a tecnologia e o engajamento social na guerra evoluíam, e de tratados que se tornavam cada vez mais sofisticados para encerrar as contendas e tentar permear as relações interestatais com algo além da pólvora. Mas o conhecido aforisma presente nos canhões de Luiz XIV, “ultima ratio regum” (último argumento dos reis), jamais deixou de traduzir com realismo a estrutura do sistema internacional, consubstanciando a também famosa afirmação de Henry Kissinger, segundo a qual uma diplomacia sem o respaldo de um forte poder militar seria “mero exercício de retórica”.

Assim, o emprego da violência é uma sombra no horizonte da política internacional. Em Politics Among Nations, Hans Morgenthau (2003), uma das obras mais importantes da corrente Realista, estabelece um conjunto de premissas para entender o mundo da política. Seriam Maquiavel e Hobbes os melhores tradutores desse universo, sujeito a uma lógica egoísta, e a política internacional seria baseada em cálculos de custo/benefício à beira da guerra.

No mesmo sentido, enquanto fenômeno político a guerra se apresenta, segundo Clausewitz, como “um ato de força para obrigar o inimigo a fazer a nossa vontade”. E daí tiramos que a guerra é a continuação da política por outros meios. Ela não se trata de um fenômeno independente, mas subordinado à política, que deve determinar o caráter da guerra ao estabelecer as condições e os objetivos pelos quais ela será travada. Depreende-se desse raciocínio que a guerra não tem um fim em si mesma, não tem uma lógica própria, mas uma “gramática” própria que confere à política internacional uma ontologia estratégica.

Decompondo mais sistematicamente o problema, Kenneth Waltz, em O homem, o Estado e a Guerra, estratificou a política internacional em três esferas – ou “imagens”, como anota o autor – e identificou uma razão estrutural para o fenômeno da guerra.

Na primeira “imagem”, temos o sujeito, o animal político nos termos aristotélicos. No domínio do sujeito, a razão divide espaço com pulsões como egoísmo, vingança e ganância. A razão é um “dever ser” que jamais se realiza plenamente, porque as pulsões humanas são, em sua totalidade, irrepreensíveis. Muitos pensadores debruçados sobre o problema identificaram nesta dimensão individual as causas da guerra. Numa pergunta simples: sem Hitler, sem guerra?

A segunda “imagem” é o Estado, estrutura política, social e econômica moderna gestada durante a transição do feudalismo para o modo de produção capitalista, na Europa, mas que poderíamos tomar como qualquer organização política. Em uma palavra, a pólis. Nesta esfera, a política obedece a padrões institucionalizados que devem transcender o sujeito. Outro “dever ser” racional. Mas, na medida em que a política é operada por pessoas, está sujeita às vicissitudes humanas. Razão pela qual teóricos, por séculos, adotaram tom antropomórfico para se referirem ao Estado. Ato contínuo, muitas análises sobre a guerra tratam o Estado em associação orgânica com a primeira imagem. Seguindo este raciocínio, a causa da guerra estaria associada à natureza dos regimes políticos e aos cálculos individuais dos governantes. Nas duas “imagens”, as causas da guerra poderiam ser superadas com transformações no nível político e moral, ou seja, com progressos em direção a uma cultura institucional mais voltada para o império da Lei e da Razão. De forma simplificada, chega-se a uma pergunta tão antiga quanto a teoria política moderna: regimes democráticos tendem à paz?

Por fim, na terceira “imagem” temos o sistema internacional em si. E é aqui que mora, para Waltz e toda a tradição realista que lhe segue, o X do problema.

Segundo Aron (2018), sistema internacional é “o conjunto constituído pelas unidades políticas que mantêm relações regulares entre si e que são suscetíveis de entrarem em uma guerra geral”. O atual SI tem origem com o fim da Guerra dos Trinta Anos (1618-48), que engendrou um notável desenvolvimento da musculatura dos Estados. Expressão disso são as cláusulas do Tratado de Westphalia, que encerrou o conflito, como a criação de embaixadas permanentes – dando à política externa um caráter mais perene e estável –, a definição de limites territoriais entre os Estados e, a partir destes, do conceito de soberania, segundo o qual nenhum Estado tem o direito de intervir nos demais. Foi o começo de um direito internacional público e de um sistema de relações que passou a ser mediado de modo a equilibrar os interesses e gerenciar os conflitos.

Apesar dessa evolução institucional, o uso da força jamais deixou de ser um recurso ativo. E, segundo Waltz, há uma razão estrutural para isso: a anarquia sistêmica, que consiste numa força que compele os Estados à guerra, independente de seus líderes ou regimes políticos. O raciocínio é simples: o fato de não haver uma centralidade política nas relações internacionais, isto é, uma entidade capaz de impor a ordem (como fazem os Estados perante suas sociedades civis), significa que todos se encontram vulneráveis à conquista e precisam, pois, manterem-se em estado de prontidão para a beligerância. Essa situação, eventualmente, ao sabor das oscilações dos equilíbrios de poder tão voláteis quanto imprevisíveis são os cursos do processo histórico, produz dilemas de segurança inegociáveis diplomaticamente que obrigam os atores a travarem guerras independentemente das vontades objetivas que os conduzem. O problema é conhecido na literatura como “dilema de segurança”, e há diversos casos ao longo da História, como o de Esparta, durante a Guerra do Peloponeso (séc. V a.C.), que dá nome caricatural ao dilema: “armadilha de Tucídides”. Ameaçada pelo avanço do Império ateniense, a cidade-estado da Lacedemônia se viu obrigada a entrar numa guerra que não desejava. Algo semelhante ocorre hoje entre Irã x Israel, Rússia x OTAN e EUA x China.

“Tudo na guerra é muito simples, mas a mais simples das coisas é difícil… Incontáveis incidentes menores – do tipo que nunca se pode realmente prever – combinam-se, degradando o desempenho, de tal sorte que se fica sempre aquém do pretendido”. A citação é do general prussiano Carl von Clausewitz (2010), autor de uma das obras mais determinantes do campo dos Estudos Estratégicos.

Clausewitz descreveu o curso da guerra como imerso em uma “névoa”, alegoria que emprega para dar a dimensão do caráter contingente das ações em conflito. Em seu famoso modelo de análise, o acaso e a probabilidade constituem o terreno operacional no qual atuam as forças armadas. É através do conceito de “fricção” que nosso autor traduz todo tipo de intempérie capaz de comprometer uma missão, desvirtuando fins de meios, propósitos de resultados, intenções de ações. A elevação da “fricção” ao patamar de categoria essencial do conflito rompe com uma ampla tendência de cientificizar a guerra, tornando-a controlável, previsível. Ilusão que acometeu e ainda acomete muitas análises.

O imponderável “governa” a guerra porque ela consiste numa dialética de vontades em luta de vida ou morte, essência que lhe confere singularidade sobre todos os demais fenômenos humanos. Todas as ações em circunstâncias de combate, por mais simples que pareçam, podem padecer com imprevistos diversos produzidos pelo engajamento ou pela necessidade de evitar o engajamento inimigo. A melhor estrada passa a ser a pior estrada; o melhor momento para um ataque passa a ser o de piores condições atmosféricas. Tudo para atingir a surpresa que possa deslocar a balança a favor dos seus planos e contra os do inimigo. Todas as ações assumem, assim, um caráter paradoxal que implica em dificuldades desconhecidas fora do terreno do conflito. O planejamento de uma ofensiva pode funcionar perfeitamente na carta de operações, mas encontrar dificuldades impostas pelo inimigo que não puderam ser antecipadas, colocando tudo a perder. O que nos leva a outro aspecto central da obra de Clausewitz, o moral. Os fatores psicológicos, desde os governantes até os soldados, passando pelos comandantes, também são cruciais e explicam porque forças aparentemente superiores muitas vezes não logram o êxito esperado.

A guerra é um confronto, em primeiro lugar, de vontades e está sujeita a toda sorte (ou azar) de circunstâncias impossíveis de controlar. A névoa da guerra começa no exato momento em que ela deixa de ser sombra e se torna situação concreta. Pois, parafraseando um dito comum entre os militares, até os melhores planos podem perecer no primeiro contato com o inimigo.

A guerra jamais deixou de ser um elemento constitutivo das relações internacionais. O que podemos afirmar é que, desde 1945, grandes guerras, do tipo que envolvem grandes potências, se tornaram muito improváveis em função da dissuasão nuclear. As armas nucleares outorgaram uma limitação às fricções entre as potências, o que levou a mudanças substantivas na estratégia e nas categorias do conflito. A Guerra Fria foi, assim, uma era reconhecida por conflitos de natureza não convencional, baixa intensidade e via atores terceirizados – “por procuração” –, com um espraiamento da violência do centro para as regiões mais periféricas do SI. Hoje, a situação, do ponto de estratégico, é a mesma: dissuasão nuclear e conflitos regionais terceirizados pelas grandes potências, que precisam evitar o confronto direto. A diferença é a configuração geopolítica do sistema internacional, que vive uma transição da hegemonia unipolar dos EUA em direção a uma estrutura multipolar.

Como a guerra “irá se comportar” nesse cenário? Será que veremos algo semelhante à Guerra Fria, ou corremos o risco de uma grande guerra entre potências novamente? E, se for este o caso, poderiam elas engajaram-se num conflito limitado, convencional, recusando o emprego de armas nucleares? Isso, além de desafiar sem nenhuma prudência a “névoa da guerra”, contrariaria uma máxima de Clausewitz empiricamente observável ao longo da História: a guerra tende a escalar.

Impossível saber. É razoável, apenas, supor que, se a racionalidade que tem conduzido a estratégia das grandes potências não ceder terreno a aventuras irracionais, há poucas chances de uma guerra entre grandes potências acontecer, pelo risco inerente de destruição mútua assegurada. Mas que há bons sinais para pelo menos suspeitarmos dessa possibilidade, há. Afinal, tudo está muito volátil e a dissuasão nuclear, no limite, não deixa de ser outro “dever ser”. Com a volatilidade pela qual passamos, é preciso ter o cuidado de não tomar o passado como determinação do futuro. Os próximos tempos serão de intensos movimentos internacionais e não é mais possível antever sequer o horizonte de uma década. Onde estaremos em 2036?

Em meio a tanta incerteza, apenas uma coisa é certa: onde já não estamos mais.
João Rafael Gualberto de Souza Morais

O dilema machista

O senhor já quis comer a mulher de um amigo? – perguntou o motorista que me levava ao aeroporto. Surpreendido, tergiversei e tentei dialogar sobre problemas muito mais fáceis de resolver, tipo: se era possível julgar casos nos quais a esposa era advogada do réu; se a última novidade no campo da corrupção era esse banco que rouba dinheiro; sobre a crise climática e a arrogância de Trump.

– Você diz trair uma amizade por machismo?

– Isso mesmo. Comer a mulher do melhor amigo. Ela me contou que o marido entrou numa seita religiosa e não comparecia mais em casa...


– Não vinha para casa? – Não, doutor, ele não trepava! Deixava um baita mulherão sem amor.

– E como você sentiu que dava pé? – perguntei.

– Num almoço, ela passou o tempo todo passando o pé no meu pé. Naquela noite, não dormi e, o pior, é que pensava mais no amigo do que nela. No dia seguinte, voltei e, na varanda, dei um beijo nela, o que só piorou as coisas, porque, com o beijo, eu tinha me obrigado a comer a mulher do meu melhor amigo.

– Você ficou entre a amizade e o amor – resumi.

– Um lado meu queria, mas a amizade me bloqueava.

Na semana dessa confusão do Banco Master e do Supremo, ela disse que ficaria sozinha. O marido ia viajar em penitência. – E aí?

– Bem, doutor – disse o taxista, olhando-me com olhos aflitos, realçados pelo espelho retrovisor –, não era um convite, era uma ordem: se você é homem, venha cá e me coma! Mas, em vez de ficar alegre, fiquei na covardia da dúvida. Como é que eu ia comer a mulher do meu melhor amigo?

– Você foi?

– Fui com muito medo. Consolei-me porque ouvi dizer que o ex-presidente Bolsonaro é imbrochável, mas, ora bolas, eu sou comum!

Parados no estacionamento do aeroporto, perguntei:

– A dúvida passou?

– Que nada. Fui salvo pelo meu anjo da guarda. Bati na porta, ela abriu e foi logo dizendo, meio sem graça, que a peregrinação tinha sido suspensa, e o marido estava em casa. Meu risinho de alívio a deixou com raiva. E, para piorar as coisas, soltei um: “Ótimo, então vamos ver o jogo Brasil x Croácia!”.

– Ótimo, né, seu putinho – ela disse entre dentes –, a merda do jogo é melhor que eu?

Olhei o relógio, paguei e, mais uma vez, vi um brasileiro afligido pelo machismo.

– Será, doutor, que, se eu trair meu amigo, o Lula perde a eleição? – perguntou o patético taxista quando saí do carro.

Aliviado e no avião, pensei em fazer uma crônica sobre o pensamento dos chamados selvagens, uma visão de mundo encantada que liga tudo com tudo. Foi quando me dei conta de que o dilema do meu amigo – adultério ou lealdade, mentira ou honra – era a questão nacional.

O avião levantou voo roncando. Eu, calado, fiquei com essa história.

Vamos matar os pobres?

Uma mulher fala à porta de um prédio. Está com um casaco de penas azul-escuro. É negra. Conta-nos que por baixo do casaco está só de pijama. A polícia chegou e obrigou-a a sair de casa à pressa. “Fui surpreendida por um despejo sem aviso… Estava deitada. Entraram mais de 20 polícias em casa. Seguraram-me a mão na parede. Tiraram-me o telemóvel”, conta ela no vídeo publicado no Instagram do movimento Vida Justa. “Estão a despejar-te porque abrigaste alguém?”, pergunta a voz do homem que filma a cena. “Sim, o meu sobrinho. Abriguei-o porque foi despejado com o pai. O pai está num quarto de solteiro (…) Para o miúdo não ficar na rua, abriguei-o.” Desorientada, sem saber o que fazer, a mulher ainda conta que um dos polícias a mandou para a sua terra.


A cena parece inverossímil para quem não sabe que há regulamentos municipais que consideram motivo de despejo a “hospedagem ilegal”. E o que é a “hospedagem ilegal”? Pode ser receber em casa um sobrinho para que ele não vá dormir para a rua ou uma mãe que vem de fora do País para fazer quimioterapia. Quem não está na ficha da casa municipal não pode estar no imóvel, mesmo que os inquilinos paguem todas as rendas e tenham a casa em boas condições. E só isso mostra como as regras que exigimos aos pobres são tão diferentes das que se aplicam a qualquer outra pessoa. Os pobres têm de ser perfeitos, imaculados, agradecidos, de olhos baixos, trabalhadores, esforçados, de preferência invisíveis. E isto é quando toleramos que existam.

Claro que ninguém pensa em como precisa dos pobres. Pelo menos, até precisar de alguém para lhe limpar a casa ou cuidar dos pais ou dos filhos ou cozinhar no restaurante ou lhe construir uma casa. Aí, rapidamente aparece a indignação porque “ninguém quer trabalhar”. Claro, os pobres são sempre suspeitos de serem preguiçosos ou ladrões ou ambos. Os mesmos que os mandam para a terra deles (ainda que esta seja e sempre tenha sido a sua terra) ficam depois aflitos porque com o que pagam não encontram quem lhes faça as tarefas que na pandemia se convencionou serem “essenciais” mas que entretanto voltámos todos a tratar como descartáveis.

Precisamos dos pobres. Mas onde podem eles viver? Não nos centros das cidades, onde trabalham, porque aí manda o mercado e, claro, nem todos podemos viver nas zonas boas, com transportes, serviços e jardins. Poderão então morar nas periferias? Não, porque para aí mudaram-se os trabalhadores que acham que são da classe média porque até têm os filhos no colégio e carros elétricos, mas depois esmifram-se a trabalhar e claro que não podem morar nas zonas chiques onde estão os nómadas digitais, os reformados americanos e toda a sorte de ricos a quem ninguém se lembra de mandar para a terra deles.

Poderão morar nos bairros municipais? Não, porque para aí têm de ir os trabalhadores que também acham que são da classe média, apesar de terem sempre um mês maior do que o salário e de já não conseguirem há anos fazer duas semanas de férias fora de casa e que também já não conseguem morar nas periferias para onde foram os outros expulsos dos centros, apesar de se acharem portugueses de bem.

Poderão morar em bairros autoconstruídos? Não, porque ninguém quer que haja barracas, a macular as paisagens e a ocupar os terrenos por que anseiam os mercados na sua fome insaciável. Dirão, então, que as construções abarracadas são insalubres, inseguras. Já se sabe que os pobres são porcos, sem noção de estética e mal-agradecidos. E é por isso que devem viver em sítios onde não há recolha do lixo nem parques infantis nem centros de saúde e bons transportes, porque estragam tudo, não sabem usar nada. E são perigosos. Os pobres são perigosos e é por isso que vivem em “bairros problemáticos”. E, de qualquer forma, só podem ocupar esses espaços até alguém descobrir que, afinal, aquela zona era ótima para mais uns condomínios, porque até tem uma vista em que nunca ninguém tinha reparado.

Poderão, finalmente, morar nas ruas? Ficar debaixo de arcadas? Deitar-se no chão ou nos bancos de jardim? Claro que não. Ninguém quer andar a tropeçar em gente andrajosa. Isso dá cabo do turismo e incomoda os milionários que vieram do Dubai à procura de luxo e sossego. E é por isso que se cercam as arcadas com grades, se fecham jardins e miradouros, se plantam espigões de ferro nos sítios que poderiam servir para abrigar alguém e se colocam nas ruas bancos públicos que afinal não são bem bancos, são só sítios onde alguém consegue encostar-se por uns minutos, mas nunca deitar-se para dormir algumas horas.

Onde poderão, então, viver os pobres? Viver talvez seja um verbo excessivo. Um luxo mesmo. E já se sabe que os pobres não podem ter acesso a luxos, sob pena de ficarem mal-habituados e descontrolados. É preciso tê-los domesticados, controlados. Como as pragas dos ratos e das baratas, que eles trazem atrás de si.

Este pensamento sobre a possibilidade da existência dos pobres segue o raciocínio de quem sonha erguer resorts de luxo sobre as ruínas e os mortos de Gaza. A conceção utilitária da vida desemboca numa ideia de genocídio. Exterminam-se os pobres e os vulneráveis porque eles não nos interessam, não têm valor. São tolerados apenas quando são necessários como força de trabalho barata, mas estão totalmente ausentes das preocupações de humanidade e dignidade que deviam ser básicas. Os mesmos que se incomodam com a morte de fetos são completamente indiferentes ao sofrimento de crianças a viver em condições precárias de habitação, passando fome ou sob a ameaça de serem retiradas aos pais por serem… pobres. Há poucos crimes mais perseguidos do que a pobreza.

Caso não pretendam matar os pobres, fiquem a saber que eles já são muitos e que a tendência é para aumentarem. A crise da habitação é uma máquina de produzir pobres. Se não for já por nos sabermos todos humanos, que seja por percebermos que a pobreza pode estar mais perto do que se imagina, à distância de um divórcio, do desemprego inesperado ou de uma reforma que não chegará para pagar tudo. Lembrem-se também que há poucas coisas mais fortes do que sermos muitos. Talvez um dia os pobres percebam que são muitos. Rosseau escreveu: “Quando o povo não tiver mais o que comer, comerá os ricos.” E nós só estamos a aumentar-lhes a fome.

A era dos crimes de guerra voltou

Duas ex-autoridades da justiça militar norte-americana, Margaret Donovan e Rachel VanLandingham, alertam que o presidente Tramp está colocando os militares do seu país numa sinuca que pode ter consequências gravíssimas. As especialistas – ex-advogadas militares que assessoravam na escolha de alvos -, alertam que as ameaças do presidente de “mandar o Iran de volta à idade da Pedra”, e do seu secretário de “não mostrar nenhuma trégua, nenhuma misericórdia”, são claramente ilegais. Além disso, contrariam os princípios morais e legais em que os militares dos EUA são, há décadas, treinados a seguir em suas carreiras.


A recente demissão do chefe do Estado Maior das forças armadas, ordenada pelo fanático secretário da Guerra, Pete Hegseth, pode ter sido motivada exatamente pelo conflito instalado no seio do comando militar norte-americano em razão do descaso do presidente e seus asseclas quanto às normas internacionais que definem crimes de guerra. Aliás, com relação a praticamente todas as normas internacionais!

Tramp e asseclas expurgaram os comandos militares de pessoas que pudessem se opor a eles. No entanto, a doutrina e os exemplos não deixam dúvida quanto à ilegalidade de certas ordens. Todos sabem que bombardear barcos no Caribe e no Pacífico, sem o devido processo legal e completamente sem provas de que seriam traficantes, é crime de guerra. Alguns oficiais da invencível armada norte-americana, para lembrar aquela do rei da Espanha no século XVI, teriam forças para se recusarem a cumprir ordens ilegais?

No EUA mesmo há exemplos de militares que desobedeceram a ordens ilegais e até mesmo que interferiram para impedir crimes de guerra. No julgamento de um dos comandantes do massacre de My Lay – quando, em 16 de março de 1968 militares dos EUA assassinaram 173 crianças, além de mulheres e idosos indefesos somando 504 civis – o tribunal argumentou que o argumento da defesa, de que ele “apenas cumpria ordens”, era inválido, uma vez que as ordens eram “manifestamente ilegais”.

Também em Nuremberg, após a II Guerra Mundial, oficiais nazistas argumentaram que cometeram as barbaridades que fizeram porque “apenas cumpriam ordens”. E não deixaram de ser punidos. Agora, os vencedores de então se creem sempre vencedores, apesar das evidências do Vietnam, Iraque e Afeganistão.

Há, é certo, dúvidas sobre quem colocará o guiso no gato para condenar aqueles que ora cometem crimes de guerra. Até o momento, nem Netanyahu, nem Putin, nem Tramp se preocupam com tal risco. Mas, sabemos, o mundo gira.

Nos EUA há, ou pelo menos havia, instituições capazes de julgar e condenar criminosos, mesmo poderosos. Será que a destruição generalizada provocada pelo Tramp terá dizimado também aquelas instituições? Cometer crime de guerra passará a merecer medalha de honra?

O Exército dos EUA ocultou o massacre da My Lai, que só foi tornado público mais de um ano mais tarde. Apenas um militar foi condenado. Sua pena era de prisão perpétua. Cumpriu três anos em domiciliar e em seguida teve sua sentença comutada. Como pode a era de crimes de guerra voltar se nunca se foi?

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


Na encruzilhada entre a civilização e a barbárie

Nesta hora sombria, uma grande escumalha emerge dos subterrâneos: belicistas, fascistas, nazistas; os que querem dar continuidade e revitalizar a escravidão; os que morrem de medo da ideia da igualdade de direitos e de oportunidades para todos os seres humanos; os que temem o outro, os outros, as outras culturas; esses que se sentem ameaçados pelas diferenças humanas, por diferentes modos de ser; os adoradores do dinheiro e os que aceitam de bom grado a servidão consentida; os que são defensores da exploração sem limites dos trabalhadores pelo capital; os que ganham com a economia de guerra; os especuladores e os que querem revitalizar, a qualquer custo, os grandes impérios decadentes. Neste momento sombrio, o império da morte e da aniquilação vem à luz do dia fazer pilhagens, matar sem dó e sem pudor, como se viu na ascensão do nazismo na Alemanha. Hoje, o massacre de crianças, o assassinato de famílias inteiras, a destruição de territórios e o apagamento de culturas milenares são transmitidos em tempo real e festejados com orgulho. O tempo da vergonha não existe mais.

Zombam dos valores civilizatórios que a humanidade construiu; desprezam a empatia e a ética, desrespeitam todos os princípios que sustentam a vida e a convivência em sociedade. Uma horda de rancorosos, que se ufanam de serem os arautos da morte, faz da violência sua única linguagem. À frente estão aqueles que desejam renovar suas relações imperialistas com o resto do mundo. Trump vem fazendo a pilhagem de fontes de energia, de riquezas minerais e de outros ativos econômicos acreditando que, com isso, reverterá a decadência dos Estados Unidos. Não reverterá. Mas a truculência de seus atos está provocando uma trinca profunda na frágil estabilidade do mundo. Ao não reconhecer os direitos das outras nações, Trump estabelece que a pilhagem é uma prerrogativa de países militarmente mais fortes.

Sob a batuta de Trump, “mileis”, “bolsonaros” e que tais, uma escumalha – o que há de pior entre os seres humanos – está sendo mobilizada nos quatro cantos do planeta para tocar o terror. Essa onda semeia o medo, a falta de perspectiva e a desconfiança; promove o terror e o caos. Cresce se alimentando da insegurança geral para se impor e submeter a todos aos seus desmandos.

Nesse contexto assombroso, a fala de Lula nos fóruns mundiais adquire uma grande importância e legitimidade. É um bálsamo, um sopro de vento fresco para os que estão apreensivos, percebendo que a insanidade está conquistando terreno. A voz de Lula se espalha por todas as latitudes e longitudes, indicando alternativas, enquanto os fascistas, nazistas e todos os supremacistas tentam recuperar as energias exauridas na derrota da Segunda Grande Guerra. Estão, neste momento, ameaçando de muitas maneiras as democracias e atacando direitos individuais e coletivos na tentativa de enfraquecer e desmoralizar os Estados nacionais, suas normas e instituições.

São arautos da destruição e inimigos de tudo o que é bom para os seres humanos. Representam a morte e a degradação. Desejam botar fogo, demolir, degradar, até que não reste mais nada do mundo que construímos. São inimigos de todos os direitos, valores e relações civilizadas conquistados com muita luta no decorrer da História.

Atacam sistematicamente a institucionalidade das nações, não para aprimorá-las, mas para aumentar a insegurança e transformar os países em terra sem lei, onde o caos e a insegurança predominem para que escapem de qualquer controle político e social.


Aqui mesmo, no Brasil, temos a dura missão de enfrentar as novas investidas dessa turba que insiste em impor o retrocesso, o entreguismo, a morte, a ignorância, o racismo, a misoginia, a discriminação e o ressentimento cego. Seres alienados, carregam dentro de si o complexo de inferioridade. Como já demonstraram, capazes de destruir todo o patrimônio social, econômico e cultural conquistado pelo povo brasileiro. Paradoxalmente, defendem com orgulho aqueles que lhes desprezam e subestimam. Numa total insanidade, seguem seus verdadeiros algozes, prontos para demolir toda a estrutura de organização, proteção e emancipação social, iludidos por uma falsa ideia de liberdade e de crescimento por mérito pessoal. Caminham alegremente para o cadafalso e, junto com eles, tentam levar toda a sociedade como um tsunami que arrasa a terra por onde passa.

Lula nos representa ao chamar a atenção para o mal que ameaça e se impõe sobre toda a humanidade. Nosso presidente tornou-se uma voz com legitimidade global ao representar os interesses de todos os seres vivos. Ele é a voz lúcida e corajosa que aponta para a urgência e a viabilidade da construção de um ambiente de paz entre as nações. Com sua confiança e sensatez, Lula indica a possibilidade de um futuro feliz para todos. Suas palavras são a faísca de esperança da qual o mundo necessita para resistir e seguir em frente.

A Europa está com dificuldade de mobilizar sua energia vital causando decepção ao se submeter à lógica distópica imposta ao mundo. Da mesma forma, a democracia norte-americana não tem demonstrado ser capaz de deter a marcha insana capitaneada por seu próprio presidente. O sinal inequívoco de que a sanha destruidora segue sem obstáculos e a parceria de Trump, Netanyahu e o Estado sionista de Israel para perpetrar o genocídio calculado do povo palestino e rapinar as fontes de energia dos países do Oriente Médio e da América Latina. Tudo debaixo dos olhos atônitos de um ocidente inerte. Estão impondo a lei do cão.

Não podemos ter ilusões: os Estados nacionais dos países europeus, com honrosas exceções, como a Espanha, foram capturados ou estão submetidos a essa onda reacionária contagiosa. Toda a ordem mundial está ruindo, causando uma reação ao estilo “salve-se quem puder”. Ocorre que, se Trump, Netanyahu e seus assemelhados forem bem sucedidos, somente os países que possuem a bomba atômica e aqueles que têm uma coesão nacional que lhes garanta soberania e resistência terão alguma chance de sobreviver.

Estamos diante de um desafio sem precedentes. Não há exemplo na história da humanidade para o qual possamos olhar em busca de uma inspiração. Teremos que inventar algo novo que nos torne fortes e maleáveis a ponto de vencer um inimigo desgovernado que detém o maior poderio bélico do planeta e conta uma horda de adoradores infiltrados entre nós, atuando nas famílias, nas instituições, nas escolas, nas igrejas, nas redes e nas ruas.

Frente a um cerco dessas proporções, os povos despertos de todo o mundo terão que desenvolver uma espécie de cidadania planetária, sem fronteiras, sem barreiras, no verdadeiro espírito “ninguém larga a mão de ninguém” para resistir ao tsunami de baixo astral que vem crescendo no horizonte.

Os organismos internacionais estão neutralizados. A ONU perdeu a capacidade de contribuir para a solução dos conflitos, desconcertada diante de criminosos que não respeitam as normas internacionais e desprezam qualquer iniciativa de governança global. Cabe aos cidadãos e às nações soberanas, juntos e conscientes da gravidade do momento, desempenhar o papel de defender e zelar pela paz mundial, pelo respeito entre os povos, pelos direitos de todos os seres vivos, pelo futuro da humanidade, pela sobrevivência do planeta e da vida na Terra.

Civilização ou barbárie? Eis o centro da contradição no mundo, neste momento.
Juca Ferreira

A 'invasão de Taiwan' segue dentro de momentos…

Ao contrário do que o diretor da CIA tinha alertado, “os líderes chineses não planeiam executar uma invasão de Taiwan em 2027, nem têm um calendário fixo para conseguir a unificação”, diz o relatório anual dos Serviços de Informações dos EUA sobre “os riscos de segurança”, divulgado a 19 de março. Mais: “eles preferem” alcançar a unificação “sem o uso da força”.

Os crónicos prognósticos acerca de uma invasão chinesa de Taiwan tornaram-se mais insistentes depois de a Rússia invadir a Ucrânia, em 2022. Imaginando a liderança chinesa inteiramente alinhada com Moscovo, alguns comentadores anteciparam que Xi Jinping iria imitar o homólogo russo: “Hoje, a Ucrânia; amanhã, Taiwan.” “Sabemos que o Presidente Xi Jinping instruiu o Exército Popular de Libertação (EPL) para estar pronto para invadir Taiwan em 2027”, disse há três anos o então diretor da CIA, William Burns. A data coincide com o centenário do EPL, que é, ainda hoje, o nome oficial das Forças Armadas chinesas.

Taiwan − ou Formosa, como lhe chamaram os navegadores portugueses − entrou no imaginário europeu no século XVI. Situada a cerca de 150 quilómetros do continente chinês, aquela ilha da Ásia-Pacífico está no centro da rivalidade sino-americana. A geografia, fustigada por frequentes sismos e tufões, é conhecida; a História, nem por isso.


Depois dos portugueses, vieram os espanhóis e, a seguir, os holandeses, que dominaram a ilha durante quase 20 anos, até 1662. No século XIX, os franceses também tentaram anexá-la, procurando repetir o que os ingleses fizeram em Hong Kong. A China estava em declínio. Em 1895, teve de ceder Taiwan ao Japão, uma anexação que durou até ao fim da II Guerra Mundial. No continente, o país resistiu unido à ocupação japonesa, mas a seguir entrou de novo em guerra civil.

Após a vitória comunista e a fundação da República Popular, em 1949, o que restava da antiga república, com capital em Nanjing, ficou reduzida a Taiwan e a três pequenos arquipélagos: Penghu, Mazu e Kinmen. Este último fica a meia hora de barco da costa chinesa. A nacionalidade indicada no bilhete de identidade dos seus 23,5 milhões de habitantes é “República da China” (sem o adjetivo “popular”).

Tudo somado, Taiwan vive há 130 anos fora do controlo de Pequim. Nas últimas décadas, a China transformou-se no maior parceiro comercial da ilha, absorvendo mais de um terço das suas exportações. Politicamente, porém, a separação acentuou-se a partir dos anos 90, depois de Taiwan abolir a lei marcial, autorizar o multipartidarismo e eleições por sufrágio direto. Para o Partido Comunista Chinês, o processo de democratização não alterou o estatuto da ilha: trata-se de uma província chinesa e não de uma entidade política soberana. Apenas 12 países, quase todos pequenos Estados do Pacífico, da América Central e da Caraíbas, mantêm relações diplomáticas com aquela “província”.

Mais de uma década antes do colapso da União Soviética e da emergência de um mundo unipolar dominado pelos EUA, a China já defendia a “reunificação pacífica” com Taiwan, só admitindo “usar a força” se as autoridades locais declararem a independência. A ilha, entretanto, passou a ser governada por um partido pró-separatista, cujo atual líder, Lai Ching-te, considera a China “uma força estrangeira hostil”. O principal partido da oposição, pelo contrário, duvida de que a reunificação desejada pelo PCC ocorra por via militar. “Não acredito que Pequim queira isso”, afirmou a presidente do Partido Nacionalista, Cheng Li-wen. “Afinal, eles veem os taiwaneses como compatriotas. Seriam realmente tão tolos que caíssem numa armadilha americana que nos levaria a massacrar-nos uns aos outros e a destruir Taiwan?” Os dois partidos da oposição têm a maioria no Parlamento, mas não conseguiram apresentar uma candidatura comum às eleições de 2024, permitindo que Lai Ching-te fosse eleito com 40% dos votos.

A reação do governo chinês ao último relatório dos EUA também não mudou: “A questão de Taiwan é um assunto interno da China, e a forma de a resolver é da exclusiva competência do povo chinês, não admitindo qualquer interferência de forças externas”, disse um porta-voz dos Negócios Estrangeiros. “Os EUA devem corrigir a sua compreensão acerca da China e parar de exagerar a teoria da ameaça chinesa.”

Todos os países da NATO reconhecem Pequim como “o único representante do povo chinês”. Os EUA, no entanto, nunca deixaram de vender armas a Taiwan e comprometeram-se a assegurar “os meios necessários para a sua defesa”. O antecessor de Donald Trump na Casa Branca, Joe Biden, garantiu que os EUA interviriam se a China invadisse Taiwan. O atual Presidente, neste aspeto, tem-se mostrado menos ameaçador, mas nunca se sabe o que fará a seguir…

Estamos todos cansados e não é por acaso

Há uma fila para pagar. Mas não me aproximo das caixas automáticas, vazias àquela hora, evitadas por todos os que vivem no bairro e aproveitam para dar dois dedos de conversa com os operadores enquanto as compras rolam pelo tapete. A senhora que está a atender trabalha ali há muitos anos, conhece quem conta nas mãos as moedas enquanto olha com ansiedade para a soma registada pela máquina, quem se atrapalha com as mãos trémulas pela idade a fazer os trocos, quem tenta gerir as compras e os filhos pequenos ao mesmo tempo que fala ao telefone. Sei de tudo isso e de como ela, e vários outros que aqui trabalham, se tornam figuras reconhecidas com quem se fala de tudo e de nada. Mas tenho quase a certeza de que a senhora que estava à minha frente a ser atendida não a conhecia particularmente. E talvez isso torne ainda mais incrível o que lhe disse. “Como está?”, perguntou a operadora, com um sorriso, fazendo deslizar os códigos de barras pela máquina. Sem grande hesitação, a mulher respondeu: “Muito cansada. Psicologicamente muito cansada.”


Ainda não tinha reparado nela, ocupada que estava a descarregar o carrinho sobre o tapete rolante. Ergui os olhos, procurando a dona desta resposta desabrida e honesta, inesperada o suficiente para provocar uma pausa. A operadora parou também por instantes o que estava a fazer. Apenas um ou dois segundos. Olhou-a. E, sem vestígio de condenação, respondeu com bondade e empatia. “Pois. Isto está muito difícil.” A outra tinha já moedas entre os dedos. Parou de frente para a caixa. Tinha o cabelo em desalinho e a cara demasiado envelhecida para a idade, uma t-shirt puída, gasta sobre a saliência do ventre, as costas tortas debaixo de um casaco de malha. “É uma colega lá do trabalho. Faz-me a vida num inferno”, desabafou, explicando quase de rajada que trabalha numa cozinha. “Não sei se vou aguentar muito tempo”, disse mesmo antes de rodar sobre os pés para sair com os sacos das compras.

Fiquei a pensar naquilo. No cansaço. Em como o carregamos às costas, em como nos verga os ombros, em como nos tolda a compreensão e a paciência. Andamos cansados. Todos. Exaustos. Arrastamo-nos de tarefa em tarefa. Corremos atrás das horas. Sem pausa. Sem um momento que seja em que não estejamos a fazer nada. Existir é uma coisa que demora demasiado tempo. Fazemos. Cumprimos. Resolvemos. A cada passo consultando o telefone, com as mensagens, as notificações, as chamadas, os emails. É tudo urgente. É tudo importante. Temos de responder, temos de aparecer, temos de fazer. Os dias esgotam-se depressa como se os engolíssemos de um trago. São pequenos fósforos a arder entre os dedos até os sentirmos queimar. Chegamos à cama com um misto de alívio e culpa. Este dia já foi, pensamos. Este dia já era, lamentamos. Mas sabemos que temos de adormecer depressa. O relógio já nos engole as poucas horas de descanso, enquanto nos enrolamos nos lençóis e nas ideias do que ficou por fazer. É preciso descansar. O sono tornou-se um imperativo que perseguimos ansiosos e não a resposta de um corpo que procura repousar.

O cansaço que nos tolhe não é individual. Quando nos queixamos dele, achamos que sim. Pensamos que talvez tenha que ver com as nossas más escolhas. Até nisso o neoliberalismo é eficaz: responsabiliza-nos, dividindo-nos entre os bem-sucedidos e os falhados, como antes a religião nos dividia entre os bem-aventurados e os pecadores. A culpa que carregamos faz parte do processo. Sempre fez.

O cansaço que nos tolhe não é individual, dizia eu. Estamos cansados porque temos de vender muitas horas de trabalho só para conseguir viver, num sistema que nos impinge a ideia de que o nosso valor intrínseco se mede pelo que conseguimos fazer e ter e não pelo que somos. Estamos cansados porque vivemos cada vez mais longe do trabalho, dos amigos, da família. Estamos cansados porque ficamos sem rede que nos ajude a cuidar dos filhos e dos pais. Estamos cansados porque a ansiedade da incerteza e da precariedade cansa. Estamos cansados porque até os encontros sociais se tornam um momento de consumo, desligado do prazer simples de estar com aqueles de quem gostamos, transformado em mais uma possibilidade de negócio que faz com que manter amizades custe demasiado dinheiro. Estamos cansados porque parar é um luxo. Estamos cansados porque somos nós o produto final, explorados numa economia da atenção, desenhada para nos manter colados aos ecrãs e às redes, enquanto minera os nossos dados. Estamos cansados porque desligar tem um preço demasiado alto.

Estamos cansados para que nos vendam detox e retiros, férias e massagens, livros de autoajuda e medicação, saídas à noite e entradas no ginásio, escapadinhas e chás, cremes e sonhos.

Estou a pensar nisso enquanto saio do supermercado. Tenho à frente um parque infantil. Passa pouco das quatro da tarde e a praceta enche-se de mulheres e crianças pequenas. Olhando com atenção, percebo que as mulheres que ali estão são todas negras e as crianças brancas e loiras. Algumas das mulheres estão fardadas. É evidente que não são as mães. Vigiam as crianças, mais ou menos atentas, enquanto elas brincam. Algumas delas, distraindo-se com conversas entre si, outras olhando para os telefones, outras ainda enchendo os pequenos de mimos e atenção.

Esta é uma das primeiras tardes de primavera e as árvores enchem o ar de um cheiro doce. Devia ser uma alegria apanhar este sol seguindo os pequenos passos curiosos destas crianças. Mas há uma evidência que me esmaga: estas não são as mães. Noutro ponto da cidade, hão de estar mulheres, talvez esmagadas pela culpa, trabalhando fechadas longe desta brisa primaveril. Noutro ponto da cidade, hão de estar crianças, vigiadas por outros olhos, enquanto os braços das suas mães carregam os filhos das outras. E todos andam nesta mesma roda-viva que transforma a vida num ato de sobrevivência e a afasta do prazer que todos devíamos instintivamente procurar. Temos mesmo de desligar.

Os pobres pagam pela crise mundial

Para desconsolo de operadores do mercado financeiro, a ganhadora do Prêmio Nobel de Economia de 2019, a francesa Esther Duflo, tem vindo ao Brasil e falado sobre o País com mais frequência do que gostariam. Duflo tem discorrido sobre temas que a tornaram reconhecida mundialmente, como pobres, combate à pobreza, taxação dos muitos ricos, políticas sociais inclusivas. São temas perturbadores aos que se dedicam a acumular riquezas, para si ou para terceiros.


Na sua mais recente vinda ao País, há duas semanas, Duflo participou de eventos ligados à Fundação Lemann, que, em seu slogan, diz: “Por um Brasil que acredita nas pessoas; por pessoas que acreditam no Brasil”. O principal idealizador da Fundação é Jorge Paulo Lemann, provavelmente o mais conhecido dos empresários brasileiros que conquistaram prestígio e poder no mundo e certamente um dos ídolos dos que trabalham na área financeira. Mas Esther Duflo veio para falar sobre os temas de que tem tratado. Pior: ela deu uma aula magna em Brasília na Escola Nacional de Administração Pública, realizada em parceria com a Fundação Lemann. A ação do Estado assusta parte das pessoas que lidam com muito dinheiro; o susto deve aumentar quando uma instituição privada, com palestras como estas, contribui para aperfeiçoar e modernizar a atuação do poder público.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Duflo afirmou que os pobres pagam a conta das guerras, como a que hoje envolve Estados Unidos, Israel e Irã. O impacto do conflito sobre o orçamento dos pobres vem pelo aumento dos combustíveis (que afeta os demais preços) e dos alimentos (impacto direto). “São sempre os pobres que pagam. A guerra da Ucrânia é um resumo disso: levou a um grande aumento dos preços de alimentos, o que foi ruim para todos e um desastre para o custo de vida das pessoas pobres da África”, lembrou.

Em outra entrevista, esta para o Estadão há cerca de um ano (26/4/2025), Duflo falou do papel dos ricos no agravamento das mudanças climáticas e dos que arcam com os custos ambientais. Referindo-se à sua proposta de taxação das 2 mil ou 3 mil pessoas com patrimônio superior a US$ 1 bilhão, que a tem levado a viajar o mundo, disse que os recursos arrecadados seriam destinados aos mais pobres do planeta afetados por eventos extremos, pois essas pessoas são “as maiores vítimas das mudanças climáticas e não contribuíram em nada para que o aquecimento global acontecesse”.

Uma justificativa sobre a proposta foi apresentada por ela em entrevista que concedeu em 2024 à BBC News Brasil. Eis o que disse: “A dupla crueldade das alterações climáticas é que as emissões responsáveis por elas, tanto historicamente como ainda hoje, se devem às pessoas ricas do mundo, que se encontram majoritariamente em países ricos, embora haja pessoas ricas em países de renda média. Mas as principais vítimas são as pessoas pobres do mundo, que se encontram majoritariamente em países pobres, embora haja pessoas pobres nos países ricos”. E completou: “Você não pode seguir em frente e dizer que está tudo bem”.

Daí ela falar em “dívida moral” dos bilionários que poluem mais do que ninguém, mas em nada arcam com os custos da degradação ambiental e, sobretudo, mal pagam impostos, quando pagam. E daí mais um argumento para sua proposta de taxação dos bilionários.

Quanto ao Brasil, Duflo disse que o País tem posição destacada no debate das mudanças climáticas, mas, quanto à questão socioeconômica, precisa evoluir na taxação dos muitos ricos para avançar no combate à pobreza. “Há uma coisa com que, eu acho, todos concordam: a situação fiscal do Brasil é complexa”, disse.

De fato, o equilíbrio das contas públicas é a grande preocupação que tem alimentado o debate entre economistas de prestígio no País – e tem colocado o governo na defensiva. São frequentes projeções de crise das finanças públicas em futuro próximo, com risco para a sustentação de importantes programas, especialmente na área social, o que afetaria os que mais necessitam do apoio do governo, os pobres. Evitar isso exige aumento de arrecadação, com a taxação maior sobre quem pode muito e paga pouco.

O sistema tributário brasileiro, como observou Duflo, é incapaz de enfrentar esse problema. De forma mais direta, seria necessário dizer que o sistema é socialmente injusto. Duflo lembrou que o Bolsa Família, grande responsável pela redução da pobreza no Brasil, foi basicamente financiado pela classe média, que por isso faz restrições ao programa. E a origem dessa conta para a classe média, como provam muitos estudos, vários citados nesses artigos, é o fato de que os ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que os demais contribuintes. E os muito ricos pagam proporcionalmente menos ainda. Não é tema que interesse parte das pessoas com poder de decisão. Isso torna difícil a melhora do quadro. A conta não mudará de mãos.

Pesadelo judeu

A identidade, tanto de um indivíduo como de um povo, é uma construção atualizada historicamente. Nomes, então, são variáveis aleatórias. No Leste Europeu, onde meus antepassados viveram por um milênio, as fronteiras moviam-se quase que por encanto – ia-se dormir em um país e acordava-se em outro. O idioma oficial variava entre o polonês, o alemão falado na Prússia, no Império Austro-húngaro, o russo etc. Meu nome poderia variar, ir e vir, entre Szmil Kilsztajn, Samuel Külstein ou Самуил Кильштейн.

Nasci em Jaffa, uma cidade que, mesmo de acordo com o despótico Plano de Partilha das Nações Unidas, estava reservada aos palestinos. Para me manter íntegro, hoje me identifico como palestino budista e assumi o nome Samy El Khalili. E como, além de budista, sou anarquista, não vou me dar ao trabalho de alterar o nome no registro civil. Para todos os efeitos, sou eu que determino a minha identidade e o meu nome – e não os outros. Então é como humanista, internacionalista e pacifista que me atrevo a discorrer sobre o pesadelo judeu que ora se descortina diante de nós.

Com a aprovação do Plano de Partilha da Palestina em novembro de 1947, enquanto o pai de Amós Oz comemorava a profecia de Herzl, “o Estado Judeu bate à porta”, sua mãe dizia, “não bate, não há porta alguma, o que há é um precipício.” Em 1948, às vésperas da criação do Estado de Israel, Hannah Arendt publicou um artigo prenunciando a possibilidade de uma ruptura entre os judeus israelenses e os da diáspora. As relações dos israelenses “com o judaísmo mundial se tornariam problemáticas, já que seus interesses de defesa poderiam entrar em conflito a qualquer momento com os de outros países onde vivem grandes contingentes de judeus. O judaísmo palestino acabaria por se separar do corpo maior do judaísmo mundial e, em seu isolamento, se desenvolveria em um povo inteiramente novo.” Mas a realidade foi muito mais cruel – o sionismo capturou o judaísmo e se transformou oficialmente em sua nova identidade tanto em Israel quanto na diáspora, apesar dos protestos de algumas organizações judaicas antissionistas.


O artigo reflete o clima entre os judeus anterior à criação do Estado de Israel, em que “o terrorismo e o crescimento de métodos totalitários são tolerados silenciosamente e secretamente aplaudidos”. Hannah Arendt, embora considere que os palestinos “em vez de concluir pelo menos acordos de trégua locais, decidiram evacuar cidades e vilas inteiras a permanecer em território dominado por judeus”, cita, no decorrer do texto, o lançamento de uma bomba contra uma fila de trabalhadores árabes em Haifa, o ataque a Jaffa e o massacre de Deir Yassin, em que aldeões, embora tenham feito acordos com os judeus, foram atacados e assassinados, “incutindo na população árabe o medo aos judeus” (episódios anteriores a 14 de maio de 1948).

Por ocasião da criação do Estado de Israel, as autoridades acharam por bem que seus cidadãos esquecessem a Segunda Guerra Mundial e se desfizessem da cultura da diáspora e de seu “jargão”, o Yiddish. O Holocausto exterminou os pais dos sobreviventes; mas como Israel poderia exterminar a sua língua materna? Como poderiam eles se desfazer de sua língua, a língua na qual expressavam seus sentimentos, a língua em que pensavam, a língua na qual sonhavam? Em Israel, falar yiddish nas ruas era mal visto, quase uma contravenção. O poeta Menke Katz, depois de ter sido conduzido à prisão em Israel por falar yiddish com seu filho na rua, fez as malas mais uma vez e remigrou para os Estados Unidos.

No início dos anos 1950, milhares de sobreviventes do Holocausto, que foram levados a acreditar que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra, começaram a abandonar a Terra Prometida. Para estancar esse êxodo, os Estados Unidos, a Alemanha e Israel arquitetaram um escândalo internacional em Munich. O Brasil, na época, foi chamado a cooperar e abrir os portos para esses refugiados indesejados tanto na Europa como nos Estados Unidos. E lá estavam eu e meus pais, encalhados em Munich, alcunhados como Returnees e presos como imigrantes ilegais – testemunhas oculares dessa história. Ancoramos em Santos sem nunca ter ouvido falar que existisse um país com o nome de Brasil.

Neste período, os sionistas, que achavam que os sobreviventes deveriam se esquecer de sua cultura humanista, internacionalista e pacifista, resolveram ainda instrumentalizar o Holocausto em favor do Estado de Israel. Em 1960, o Mossad capturou e contrabandeou o nazista Eichmann. Seu julgamento foi amplamente divulgado, televisionado e transmitido internacionalmente para mostrar ao mundo os crimes dos nazistas durante o Holocausto. Em 1963, tanto os israelenses como os judeus da diáspora amaldiçoaram Hannah Arendt por seu texto publicado em The New Yorker, Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal.

Seguiu-se a ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia em 1967 e, depois do Massacre de Sabra e Chatila de 1982, o militante sobrevivente Primo Levi declarou que Israel foi um erro em termos históricos e que “Como judeu da diáspora, que se sente muito mais italiano do que judeu, eu preferiria que o centro de gravidade do judaísmo ficasse fora de Israel… acredito que a principal corrente do judaísmo está mais bem preservada em outros lugares do que em Israel.” Contudo, efetivamente, o judaísmo da diáspora foi oficialmente capturado pelo sionismo.

Em Pesadelo palestino, mencionei que a Torah e a história do povo judeu foram moldadas e redigidas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos, e que qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios. O artigo foi postado em 23 de fevereiro de 2026, às vésperas da atual ofensiva de Israel contra o Iran, em conjunto com os Estados Unidos, que já transformou o genocídio palestino em guerra regional e corre ainda o risco de se alastrar para além do Oriente Médio.

O verdadeiro inimigo de Israel e do povo judeu não é o Hamas, o Hezbollah, o povo palestino ou os iranianos. O verdadeiro inimigo não é um oponente externo, é aquele que vive dentro de nós. A última vez que estive na Palestina foi em abril de 2023, seis meses antes da investida de Israel em 7 de outubro do mesmo ano. 

Em Jaffa, redigido em maio e publicado em junho de 2023, escrevi que os israelenses vivem no primeiro mundo, presos a uma armadilha, ricos, alegres, orgulhosos, arrogantes, escravos de sua opulência e de seu “poder” militar, refestelando-se e rindo-se da pobreza de seus arcaicos vizinhos palestinos e maldizendo os muçulmanos “sanguinários que vivem se esfaqueando uns aos outros em todas as partes do mundo”. Como não achei ninguém que pudesse fazer a apresentação, apresentei o livro eu mesmo, usando como autor o pseudônimo Shmuel e o sobrenome Yored, que significa traidor em hebraico.

E se Trump quiser um golpe para se tornar ditador?

A guerra no Irã está a ser desencadeada em nome de Deus (até o Papa teve que vir mandar calar a Administração Trump. A guerra no Irã tem como objetivo fazer retornar os iranianos à “Idade da Pedra, que é o seu lugar”. O Presidente americano promete o “inferno” ao país que invadiu e ameaça com mais crimes de guerra, além dos já levados a cabo em escolas e outras infraestruturas civis: agora vai rebentar mais pontes.


No momento em que escrevo, domingo de Páscoa, um dia sagrado no calendário cristão, o último post de Trump na sua rede social pode traduzir-se assim: “Terça-feira é o dia das centrais eléctricas e o dia das pontes [que Trump promete destruir]. Abram o maldito [tradução simpática da palavra ‘fucking’] estreito, seus filhos da mãe [também tradução algo benévola de ‘bastards’] loucos, ou viverão no inferno. VÃO VER [assim, em maiúsculas]. Rezem a Alá.” O declínio mental deveria ser obrigatória razão para “impeachment”. Alguém que o faça.

A quadra pascal serviu para o bêbado (e abusador de mulheres, segundo a sua própria mãe) Peter Hegseth, com experiência de defesa ligeiramente acima de zero, “ministro da guerra” de Trump, demitir a todo o vapor o chefe do Estado-Maior e vários outros generais experientes, alegadamente por defenderam as políticas de diversidade de que Trump não gosta, mas porque alguns também se opunham à loucura sem saída à vista que tomou Washington.

O homem que nos Estados Unidos detém os códigos do armamento nuclear levou o país para uma guerra em nome do carniceiro de Telavive, que devia estar a responder por crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional, Benjamin Netanyahu. Existe o dinheiro: Trump tem conseguido ficar mais rico e os seus sequazes também (a suspeita de “inside trading”). Mas a quantidade de contradições em que Trump já caiu, dizendo uma coisa e desmentindo-a no mesmo dia, desde as famosas declarações em que afirmava que tinha derrubado o regime logo nos primeiros dias de guerra até à ideia de que os americanos não precisavam do estreito de Ormuz, mostra alguém que não tem a menor ideia do que está a fazer

Trump está a perder a guerra (e a Rússia a ganhar, o que terá repercussões na Ucrânia) e a levar o mundo para uma recessão de proporções ainda impossíveis de imaginar. A popularidade do presidente americano está a bater no fundo. As eleições “midterm”, no próximo novembro, têm todos os ingredientes para se transformarem numa gigantesca humilhação para Trump.

No sábado de Páscoa, Timothy Snyder (historiador, autor do famoso Sobre a Tirania) fez um texto interessantíssimo no Substack onde colocava uma questão que pode mudar o curso daquilo a que ainda se vai chamando “a democracia na América”.

“Estamos a sete meses das mais importantes eleições intercalares na história dos Estados Unidos. Entretanto, estamos em guerra. Estas são condições que podem ser estruturais para uma tentativa de golpe em que o presidente tentará acabar com as eleições e ficar no poder como ditador.” Snyder põe a hipótese de Trump vir a ser bem-sucedido no golpe de Estado que acabaria com a democracia na América. Afinal, como o historiador lembra, Trump já tentou um golpe de Estado, em janeiro de 2021, com o assalto ao Capitólio. Dessa vez, o golpe falhou. Quando regressou ao poder, Trump anistiou os “seus” golpistas.

O mundo de ontem não era perfeito, mas agora entrámos em território desconhecido e imprevisível.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


A realidade que mina a esperança da Páscoa

A ideia era fazer uma pausa neste domingo de Páscoa — arquivar por um mísero dia qualquer noticiário de guerra e deixar falar a poesia. A intenção brotou do acaso, em meio à inescapável leitura sobre a insanidade do confronto no Irã. Um dos analistas da atualidade citava um poeta persa do século XII, Attar de Nishapur, e sua obra mais célebre, “A conferência dos pássaros”. Nela, o poeta narra a história de todos os pássaros do mundo que, por não terem rei, partem em revoada à procura de um soberano. Cada alado representa uma das falhas humanas que impedem o mundo de encontrar sua luz. Em conjunto, escolhem por guia uma poupa de grande sabedoria, que lhes informa qual será o teste de determinação: atravessar sete vales místicos. São eles os vales da Busca, do Amor, do Conhecimento, do Desapego, da União, do Maravilhamento, da Pobreza e Aniquilação.


Muitos pássaros se recusam até a levantar voo, outros desistem a meio caminho, e tantos mais morrem ao longo do percurso. Restam apenas 30 para vislumbrar o monte sagrado que procuravam. Ao chegarem a seu destino, contudo, descobrem não um rei a sua espera, e sim um espelho. Moral da história: o que os pássaros buscavam jamais esteve distante deles. Procuravam encontrar a si mesmos, juntos. No poema de Attar, a certeza de quem somos no coletivo define nossa humanidade. Sozinhos, nos agarramos a algo que torna a jornada impossível, seja por amor, apego, medo, aniquilação, ódio. Ou cinismo.

Enquanto o mundo só se revela por meio do nosso engajamento com ele (é nessa adesão que repousa a experiência humana plena), o cinismo age como sua mais perfeita negação. Talvez seja o sentimento mais corrosivo em um ser humano — de aparência passiva, o cinismo esconde uma capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade. Dentre os poetas mais refinados da música, o australiano Nick Cave dedica parte de seu tempo refletindo sobre a coragem de ter esperança como anteparo a essa praga. Continuou a fazer música enquanto convivia com a perda de um filho adolescente — o garoto de 15 anos havia ingerido LSD e caíra de um precipício em Brighton, na Inglaterra — e, sete anos mais tarde, com a morte de outro, mais velho, que acabara de sair de uma prisão em Melbourne.

— De certa forma, meu trabalho se tornou uma rejeição explícita ao cinismo e à negatividade — diz o músico em seus escritos. — Não tenho tempo para isso, nem para censura ou condenação implacável. Não tenho estômago para todo o ciclo de culpa perpétua. A vida é curta demais para não nos maravilharmos. Permaneço cautelosamente otimista.

Cave ainda acredita numa “espécie de corrente subterrânea de preocupação e conectividade, movimento radical e coletivo em direção a uma existência mais empática e aprimorada”. Em homenagem à Páscoa e a ele, a coluna estava inclinada a prosseguir explorando diferentes noções de otimismo e esperança — esse anseio sincero por melhoria do mundo — que cada um de nós nomeia de acordo com referenciais próprios. Não mais.

Um homem corpulento em júbilo, quipá na cabeça, garrafa de champanhe nas mãos e pin dourado em forma de forca na lapela celebrava uma conquista que perseguia havia anos. Era Itamar Ben-Gvir, ministro de Segurança Nacional de Israel, feroz defensor do extremismo de direita, comemorando a aprovação da pena de morte para palestinos condenados por atos terroristas letais contra israelenses. Julgada por tribunais militares, a execução se dará por enforcamento.

— Em breve vamos contá-los um por um — garante o ministro em vídeo que circula nas redes sociais.

O inverso não foi sequer cogitado: pena semelhante não se aplica a israelenses responsáveis pela morte de palestinos. Dessa forma, para além da eliminação de mais de 70 mil civis em Gaza e a caçada às terras e vidas palestinas ainda remanescentes na Cisjordânia ocupada, Israel agora se aproxima da barbárie fundamentalista do arqui-inimigo Irã.

O editorial do diário Haaretz que tratou do assunto fala em ascensão do terrorismo judaico e precipício dos fundamentos democráticos e morais do Estado. Mas o texto não foi escrito no convencional estilo do jornal. Intitulado “A canção do carrasco”, está em verso de seis estrofes e rimas internas. A linguagem é bíblica, sombria, lírica. Começa assim: Céus — tende piedade de mim/Não há Deus em vós, nem decreto guia/Escolheram-me, gélido e cru/No escuro sangrento do serviço prisional.

Talvez só mesmo a poesia nos salve, enquanto os homens-pássaros em revoada não encontrarem seu caminho interior.

O fim da era dos grupos de mídia nacionais

Está chegando ao fim, no Brasil, a era em que poucos grupos nacionais de comunicação conseguiam se apresentar como intérpretes naturais da nação, árbitros da respeitabilidade pública e fiadores do regime político.

Esse ciclo está se esgotando por razões econômicas, tecnológicas e históricas. A publicidade migrou fortemente para o ambiente digital — que já representava 60% da receita publicitária total no Brasil em 2024, com projeção de chegar a 70% em 2029 —, enquanto o consumo de notícias se fragmentou e o engajamento com TV, impresso e sites jornalísticos tradicionais segue em queda. No Brasil, a confiança nas notícias medida pelo Reuters Institute ficou em 42% em 2025, num patamar estabilizado, mas longe da autoridade quase sacerdotal que os grandes grupos exerceram por décadas.

Democracias precisam de uma imprensa forte. O problema brasileiro foi outro: a formação de um sistema altamente concentrado, cartelizado, familiar, patrimonialista e politicamente orgânico às classes dominantes do momento, apesar de a própria Constituição de 1988 vedar monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social.


Sempre me intrigou o fato da mídia jamais ter se proposto a ser a voz de novos grupos que surgiam no país, como resultado de mudanças econômicas e sociais.

Sempre minimizou a era das grandes indústrias, deixou de lado os movimentos de apoio às pequenas e médias empresas, ignorou por muito tempo a própria revolução agrícola.

Em vários momentos da história, colocou-se contra qualquer projeto de soberania nacional ou de inclusão social.

Conspirou contra o segundo governo Vargas e denunciou diuturnamente o governo JK, usando para ambos denúncias de corrupção – que se revelaram totalmente falsas.

Ora, ambos os governos estavam lançando as bases de uma nova elite empresarial e social. Havia uma demanda por otimismo excepcional. O papel de qualquer mídia inteligente seria captar esses movimentos e se tornar seu porta voz. No curto período em que entendeu essa dinâmica, na campanha das diretas, a Folha de S. Paulo tornou-se o jornal mais influente do país.

Mas se a fórmula funcionou, porque em todos os demais momentos históricos, a mídia preferiu apostar no velho e matar o novo?

A razão é simples. O imediatismo e a falta de visão estratégica da imprensa, a impede de apostar no novo. Ela aposta no poder imediato. E o poder imediato sempre é o poder de ontem, até que seja desbancado pelo novo. Ela só adere ao novo, depois que este se torna poder.

Desse modo, ela atua como estratificadora de todas as eras político-econômicas de um país. O novo sempre terá dificuldades, devido à resistência da mídia. Só depois que ele consegue se impor, apesar da mídia, ele passará a receber seu apoio.

Nos anos 90, a mídia atingiu seu apogeu, não apenas econômico como político. Eram 4 grandes diários, no eixo Rio-São Paulo, que faziam a pauta nacional. O que diziam era reproduzido por agências de notícias, se espraiavam pelo noticiário de rádio e pela imprensa regional.

Cada tiro era uma bomba.

Vivi esse período e percebi, no espaço de uma coluna que mantinha na Folha, o enorme poder transformador da mídia, desperdiçado, deixado de lado. Na minha coluna, ajudei a disseminar os programas de qualidade total, as políticas científico-tecnológicas, a importância da indústria cultural, da digitalização do Judiciário, da criação de uma indústria de defesa.

Ficava imaginando o que seria possível se, em vez de uma coluna, o jornal inteiro abraçasse uma visão modernizante para o país. Acelerariam em décadas o grande salto nacional.

Mas foi inútil. Até o Estadão, que em priscas eras representou uma elite conservadora culta, o jornal que trouxe a USP, perdeu totalmente seu clã modernizador.

A própria Constituição de 1988 vedava monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social. O texto constitucional também determina finalidades educativas, culturais, informativas e estímulo à produção independente e regional; o país, porém, jamais regulou de forma efetiva esse mandamento. O resultado foi um espaço público sequestrado por poucos conglomerados, capazes de confundir liberdade de imprensa com liberdade de empresa — e interesse público com interesse acionário.

Agora, com a vinda das redes sociais e das grandes plataformas, há o fim de uma era e a entrada de uma nova era, com todos os vícios da anterior: concentração da propriedade, direcionamento do discurso, falta de controle social.

Tem-se um país sem rumo e com a bússola, em vez de organizar o trajeto, montando armadilhas para jogar o navio em direção ao iceberg.

Mundo indiferente

Estamos nos acostumando com a violência, nos resignando a ela e nos tornando indiferentes.

Indiferentes à morte de milhares de pessoas.

Indiferentes às consequências do ódio e da divisão semeados pelos conflitos.
Papa Leão XIV

A sanha intervencionista do “Grande Irmão” está longe do fim

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os EUA respondem por algo como 80 intervenções militares em outro tanto de países, até então soberanos. Tudo em nome de uma farisaica “defesa da democracia”, disfarce da disputa estratégica com a URSS. O ponto de partida dessa fase do imperialismo, que guarda rigorosa coerência com sua história, desde a formação colonial até nossos dias, foi dado pelo que se passou a chamar de “Doutrina Truman” (1947), porque proclamada pelo presidente que lançara duas bombas atômicas sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki, quando a guerra já estava perdida pelo Japão. Ela estabelecia o princípio do containment do comunismo, com apoio político, econômico e militar a países de sua órbita. O Plano Marshall de reconstrução da Europa Ocidental, do mesmo ano, fornece a base econômica. A doutrina militar se corporifica na OTAN, criada em 1949. Seu alvo era a defesa coletiva contra a URSS. São os três pilares sobre os quais se assentará a estratégia global dos EUA no pós-guerra.

Sua primeira intervenção remonta a 1947, no apoio militar à monarquia grega — fustigada pela guerrilha republicana de esquerda — e à Turquia, carente de apoio para conservar sua soberania sobre os estreitos de Bósforo e Dardanelos, quando a URSS reivindicava o direito de acesso ao mar Mediterrâneo.

Mas as bases ideológicas da Guerra Fria, dos tempos de confronto com a URSS, comandada no lado ocidental pelos EUA, já haviam sido formuladas por Winston Churchill em discurso no Westminster College (1946): “De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente.” Era o início de uma política intervencionista global, e a justificativa para ingerência em outros países.

A Guerra Fria toma a forma de confronto universal à “ameaça comunista” (que muitos milhões de dólares rendeu à indústria da guerra), implicando a missão de fazer face a todas as formas de luta social e às guerras de libertação nacional que iluminavam o mundo subdesenvolvido. O papel dos EUA, isoladamente ou comandando a OTAN, aliados de sempre ou aliados de ocasião, passa a ser o de contrarrevolucionário, e, para desempenhá-lo, se tornam a principal guarda do colonialismo retardatário, contra o qual firmara, lá atrás, em1823, a defesa continental (a “América para os americanos”), que, nominalmente dizendo não a novas intervenções europeias nas Américas, terminou reinterpretada como a doutrina da hegemonia estadunidense, servindo de base ideológica para intervenções na América Latina, seja no século XX, seja no século XXI.

O fato objetivo é que se tratava (esquecidas, como se verá, quaisquer preferências entre ditaduras e democracias) de conter a URSS, que se apresentava ao mundo como potência militar após o sucesso na guerra contra o Eixo. Apresentar-se ao mundo era ocupar o espaço que entendia como seu.

Finda uma guerra, começam outras.


As intervenções por procuração, as sabotagens, o apoio político e a ajuda militar e econômica às insurgências de direita não mais cessariam, e logo se espalham por todos os continentes, de par com a intervenção militar direta. Os EUA se fazem atores globais do confronto. A nova grande guerra é uma constelação de conflitos de toda ordem, políticos, econômicos, diplomáticos e militares, à sombra do guarda-chuva nuclear das duas superpotências, que ao menos tiveram o bom senso de evitar o suicídio coletivo.

De princípio, o método corretivo foram as intervenções pontuais, que acima nomeamos como operadas “por procuração”, levadas a cabo por governos títeres ou pela OTAN. Sem que esse artifício seja descartado, logo se impõe a ação direta, espécie que chega aos nossos dias na Venezuela, em Gaza e no Irã, nos dois últimos casos com a participação direta do sionismo. Agora mesmo, Washington reclama de seus aliados europeus a ausência no campo de batalha de uma guerra que Trump e seus cúmplices ainda não souberam explicar.

A folha corrida de crimes de guerra é extensa, percorre o mundo, conhece o Panamá, a Guerra do Golfo, a guerra contra o Iraque, as guerras do Kosovo, do Afeganistão, da Síria e da Líbia. Todas, guerras norte-americanas. Por razões óbvias, é indisponível a estatística das sabotagens, dos assassinatos e dos golpes de Estado intentados e levados a cabo, quase sempre com sucesso, pelos serviços secretos dos EUA em todo o mundo nesse mesmo período. Contra a vida do líder cubano Fidel Castro, estima-se que a CIA tenha atentado ao menos 638 vezes.

As análises disponíveis estimam um mínimo de 80 intervenções conhecidas, percorrendo todos os continentes. As mais relevantes são o golpe de Estado no Irã, com a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, abrindo caminho para o absolutismo da dinastia Reza Pahlavi (pró-Ocidente), posta ao chão em 1979 pela revolução republicana liderada pelos aiatolás. Com o golpe, abre-se a interminável tragédia presente da antiga Pérsia, uma civilização de mais de 4 mil anos, que o atual inquilino da Casa Branca diz pertencer à “pedra lascada”, para cuja idade promete devolvê-la em duas semanas, “sob fogo terrível”.

Os EUA, por todos os meios, se fazem atores na Guerra da Coreia (1950–1953) e, em seguida, na guerra do Vietnã (1955–1975), de onde sairiam batidos, para, em seguida, fazerem a guerra do Afeganistão. Em 1965, promovem a queda de Sukarno, dirigente da Indonésia (maior país do Sudeste Asiático), e fazem ascender ao poder o general Suharto, alinhado com a política de “contenção” da Guerra Fria, que leva a extremos, mediante massacres em massa (1965–1966), com centenas de milhares de mortos, incontáveis – como incontáveis são as vítimas do genocídio promovido por Israel (com apoio de algo como 70/75% de sua população) dos povos de Gaza, da Cisjordânia e da Palestina. Como são incontáveis as vítimas civis das agressões ao Líbano.

No rastro de suas intervenções (é impossível nomeá-las neste espaço), frutificou a barbárie.

Na América do Sul, sofremos os crimes covardes (e em nosso caso, impunes), das ditaduras, no Brasil, na Argentina e no Chile, com seu rol de torturados e assassinados. São, nos tempos recentes, ditaduras legadas pelo imperialismo.

Mas elas, não obstante o que de hediondo apresentaram contra nossos países e nossa gente, são ainda uns poucos itens numa longa listagem que parece não ter fim, e não terá, se a esquerda brasileira e as forças progressistas não tiverem clareza sobre as ameaças que rondam a democracia brasileira, conquistada a tão duras penas e a tão duras penas trazida até aqui. Os idos de janeiro de 2022 ainda estão presentes, e as forças que os animaram permanecem em seus postos, fortalecidas pelo apoio do grande capital e pela ameaçadora ascensão da direita nos EUA, que, para a consolidação de sua preeminência na América do Sul, precisa de um Brasil dócil. A tragédia é esta: nossa importância estratégica. O México sabe o que é isto (custou-lhe 55% do território), a Venezuela conhece, e não de agora, o preço a pagar ao Império por conter em suas entranhas a maior reserva de petróleo do mundo. Somos o maior e mais rico país do continente. Somos um espaço estratégico que pode se transformar em alvo de disputas geopolíticas ausentes de nossos interesses e de nossa afirmação como povo, nação e país que aspira à condição de potência regional.

A saga latino-americana revela os percalços dos países renitentes ao torniquete de Washington. Para não mais lembrar a rapina de que foi vítima o México, vejamos alguns casos, tentando identificar os mais expressivos, como a deposição, em 1954, do presidente Jacobo Árbenz, da Guatemala, responsável por uma reforma agrária que afetou os interesses da americana United Fruit, motivação que voltaria à cena quando Cuba, em 1960, nacionaliza empresas americanas (açúcar, petróleo, bancos). Seguem-se, numa escalada, as intervenções na República Dominicana para depor o presidente Juan Bosch, em 1965; em 1983, a invasão de Granada; e, em 1989, a agressão ao Panamá para o sequestro do presidente Manuel Noriega, ex-agente da CIA.

Invasões e golpes de Estado que são apenas a outra face do mesmo processo coercitivo que tem sido o apoio sistemático a todas as ditaduras na América do Sul e Caribe, como os regimes de Somoza (Nicarágua) e Stroessner (Paraguai), o apoio aos “Contras” na Nicarágua pós-revolucionária e as intervenções diretas e indiretas em El Salvador, que se repetem sob Trump, com o apoio da velhacaria nativa. Por sem dúvida, o Brasil não poderia ficar à deriva: com o substancioso empenho do grande capital e a ação das forças armadas, os EUA desestabilizaram o governo Vargas (1954) e, apenas dez anos passados, conduziram o golpe de Estado de 1º de abril, a que devemos 21 anos de uma ditadura luciferina, de cujas piores consequências ainda não nos livramos, como conta a emergência do neofascismo caboclo, reacionário como suas matrizes alemãs e italianas, mas, ao contrário delas, exasperadamente antinacionalista (entreguista), como se observa nos pronunciamentos dos ícones do bolsonarismo.

O outro lado desta guerra sem quartel pela hegemonia mundial se dá fora dos teatros clássicos das batalhas, operado por todos os demais meios conhecidos, econômicos, políticos e culturais-ideológicos, que chegam aos nossos dias classificados pela ciência política como “guerra híbrida”, vencida largamente pelos EUA, objeto de análise anterior neste espaço. Está em toda parte, faz a consciência da classe dominante.

A História, mais uma vez, se repete, e desta vez não foi como farsa: o Irã foi invadido e está sendo agredido pelos EUA (com a ajuda do sionismo), não porque tenha armas nucleares, mas exatamente por não possui-las. Foi assim com a Líbia de Muammar Kadhafi, foi assim com o Iraque. E continuará assim, até que se altere a correlação de poder militar que governa a ordem internacional, de um mundo que mais e mais se aproxima do caos, graças à irresponsabilidade dos EUA.

A lógica desta guerra ensina ao mundo porque o Irã, que não ameaça e jamais ameaçou os EUA, está sendo bombardeado pela maior potência militar jamais conhecida pela humanidade, enquanto, por exemplo, a pequena e resistente Coreia do Norte, aparentemente isolada do mundo, não é atacada, e que jamais o seja, embora lance rotineiramente mísseis balísticos ao mar do Japão, capazes de atingir a Coreia do Sul e até territórios dos EUA.

Os EUA dizem aos países que ainda aspiram à sua integridade física e política, decididos a preservar a soberania nacional herdada, muitas vezes ao preço de incontáveis e dolorosos sacrifícios humanos, que a única dissuasão possível contra agressores poderosos é a defesa nuclear.

E isto é muito perigoso.