segunda-feira, 8 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


As interferências na luta eleitoral

Começou a temporada do uso político de Deus, uma manipulação permitida e incentivada por líderes evangélicos. A declaração de Flávio Bolsonaro de que é uma “guerra espiritual” e “uma luta contra o mal”, se referindo à eleição deste ano, no qual ele é um dos pré-candidatos, repete o roteiro de abuso do poder religioso. Pastores, por serem líderes seguidos pela congregação, restringem a liberdade de escolha dos fiéis ao se posicionarem tão explicitamente em uma questão que deveria estar restrita ao campo cívico. O político que se utiliza disso está tendo uma atitude farisaica.

Flávio Bolsonaro não tem qualquer intimidade com a pauta evangélica e faz isso exclusivamente por oportunismo eleitoral. A democracia fica vulnerável quando isso acontece, porque as igrejas se tornam currais eleitorais e a Justiça Eleitoral pouco pode fazer contra essa distorção, sem ser acusada de ferir a liberdade de culto. O direito de professar a fé nada tem a ver com uso político dos púlpitos e sua transformação em palanques. A fronteira difusa que pastores criaram nos cultos e nos atos públicos como a “Marcha para Jesus” nunca foi demarcada pela legislação eleitoral.

O que aconteceu na “Marcha para Jesus” de São Paulo este ano é lamentável sob todos os pontos de vista. A presença de Flávio Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas é campanha antecipada, é uso da religião como estratégia política num país laico, e é mentira. O que está acontecendo este ano no país não é uma guerra espiritual e sim uma disputa de projetos políticos em que cada cidadão e cada cidadã deveria ter o direito de escolher livremente. O constrangimento que muitas denominações evangélicas impõem sobre os seus membros é um ato político-eleitoral. Não deveria ocorrer, não é aceitável, porém não se sabe como neutralizar.

A luta eleitoral por si só é intensa e há muito espaço para a comparação de ideias e projetos. Deveria ficar restrita a este lugar. Mas a direita nos últimos tempos tem imposto a interferência de outros campos na arena política. O conceito de pátria que pertence a todos tem sido apropriado por eles através do sequestro da bandeira e do hino nacional.

Na época da ditadura, os militares se colocavam como detentores do monopólio dos símbolos da pátria. Da mesma forma fez a extrema direita atual. Os manifestantes bolsonaristas abraçavam a bandeira e entoavam o hino enquanto preparavam um golpe de Estado, como se viu no 8 de janeiro. Até o plano de assassinatos de adversários foi definido pelos golpistas como “punhal verde e amarelo”. Este ano em que todos estaremos juntos torcendo pela seleção, eles vestirão a camisa amarela como se ela fosse só deles.

Esse suposto entusiasmo com as cores nacionais ficou comprometido diante do que os líderes bolsonaristas têm feito ao estimular o ataque à economia brasileira. Ao pedir novas tarifas sobre produtos brasileiros, na verdade, trabalham para o enfraquecimento do país.

O ex-presidente Jair Bolsonaro usou as igrejas evangélicas em favor de sua candidatura nas duas disputas presidenciais das quais participou. Foi bem-sucedido na trama. Esse segmento eleitoral, instrumentalizado pelos pastores, votou maciçamente no candidato da extrema direita. Houve até pastores em marchas cristãs fazendo arminha com a mão. Agora seu filho, Flávio Bolsonaro, tem a mesma desfaçatez do pai e tenta usar Deus como parte do seu arsenal de campanha. Ao subir no palanque no dia de Corpus Christi, ele disse que não estava ali como candidato, mas como cristão. Era mentira. As afirmações que fez no mesmo dia mostraram isso. “Vamos orar pelo nosso Brasil, essa guerra é espiritual. E hoje a maior resposta que podemos dar ao mal, que vai ser expulso do governo do Brasil esse ano”, disse ele, claramente manipulando a fé.

A Justiça Eleitoral precisa encontrar uma forma de deter esse uso de símbolos religiosos. O ministro Luiz Edson Fachin tentou tipificar o abuso do poder religioso como um ilícito eleitoral específico que poderia levar à perda do mandato. A maioria do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou a proposta. O tema, contudo, permanecerá na agenda. Cada período eleitoral será temporada da demagogia religiosa em que aparecem os fariseus, os falsos profetas e os vendilhões do templo. Isso restringe a liberdade do voto, por isso é uma questão a ser enfrentada pela Justiça.Isso restringe a liberdade do voto, por isso é uma questão a ser enfrentada pela Justiça.
Míriam Leitão

Nasce um otário por segundo

Perguntaram-me quantos "seguidores" eu calculava que tivesse. Embatuquei: "Sei lá, nunca pensei nisso. Acho que nenhum". O outro insistiu: "Não é possível. Você está na imprensa há milhões de anos, escreve livros, dá entrevistas. É um dos principais influencers do país". Reagi com "Deus me livre, imagine a responsabilidade de influenciar alguém, de ser responsável por algo que uma pessoa faça ou deixe de fazer!". É verdade. Mal consigo dar conta de mim mesmo e meus gatos Bing, Dixie e Bizu acham ridículas minhas tentativas de ensiná-los a miar em francês. Além disso, em que um "influencer" influencia seus "seguidores"?


Não faltou quem me instruísse. Um influencer é alguém que usa instagrams, youtubes, tiktoks e que tais para produzir vídeos, fotos e textos sobre si mesmo e atrair seguidores que se deixam "impactar por suas opiniões, sugestões, rotinas, atitudes e opções de consumo". E que, devidamente impactados, passam a regular por ele suas preferências. Em quê? "Em tudo: moda, games, viagens, gastronomia, até aplicações financeiras". "Sério?", perguntei. E o que o influencer ganha com isso? "Fábulas —é pago pelos serviços e marcas que ‘recomenda’. Descubra quantos o seguem e calcule a grana que isso rende."

No Brasil, me disseram, um influencer que se preze tem de 1 milhão a 100 milhões de seguidores. Quis saber quais eram os principais e ouvi nomes como Neymar, Ronaldinho Gaúcho, Anitta, Vinicius Jr., Ivete Sangalo. Até aí tudo bem —são famosos, com profissão definida, não falta quem queira ser como eles.

Mas quem é Virginia Fonseca, com 56 milhões de seguidores? O que ela faz? E Camila Pudim, Açucena Guerra, Gustavo Tubarão, Pamela Fuego, Andressa Suíta? E sumidades com nomes como Hytalo, Thallysson, Sunaika, Pkllipe, Wueverton e Leuriscleia? Mais importante ainda: quem são os milhões de brasileiros que os seguem?

P.T. Barnum (1810-91), inventor do mafuá de horrores, deixou uma frase que parecia imortal: "Nasce um otário por minuto". Isso já era. Hoje é por segundo.

Engrenagem da distorção política: da Marmita à Inteligência Artificial

Existe alguma coisa de demais em Rosângela Lula da Silva, a Janja, primeira-dama do Brasil, postar de vez em quando vídeos que mostram o marido fazendo exercícios físicos de domingo a domingo? Ah, mas isso é porque os adversários de Lula o acusam de ser velho e incapaz de governar, e Janja quer provar que ele está em boa forma. Deus do céu. Que logo chegue agosto para que tenha início o período oficial de campanha e se possa debater os principais problemas do país, com cada candidato oferecendo soluções para eles. Ou isso de fato não nos interessa? O que nos interessa é pancadaria?

Entra eleição, sai eleição, e as pesquisas de opinião pública apontam que os eleitores, quando perguntados, dizem não à pancadaria e pedem a exposição de ideias que possam melhorar suas vidas. Na teoria, é o que parecem desejar. Na verdade, eles amam conflitos e se sentem atraídos pela troca de desaforos. A emoção é o que define o voto; a razão fica em segundo plano. A imagem vale mais do que mil palavras, embora uma palavra fora do lugar ou uma sentença tirada de contexto possa causar estragos severos.


Em maio de 1998, durante seu primeiro mandato, o presidente Fernando Henrique Cardoso criticou os privilégios do sistema previdenciário e declarou que aqueles que se aposentavam com menos de 50 anos de idade eram “vagabundos”. A frase exata dita por ele foi: “Fiz a reforma da Previdência para que aqueles que se locupletam da Previdência não se locupletem mais, não se aposentem com menos de 50 anos, não sejam vagabundos em um país de pobres e miseráveis”.

Na época, o governo federal tentava aprovar uma reforma da Previdência Social para instituir uma idade mínima para as aposentadorias. O argumento central do presidente era o de que o sistema permitia que pessoas relativamente jovens, muitas vezes com altos salários, se aposentassem cedo demais, gerando um forte déficit financeiro e injustiça social em relação à população mais pobre. Fernando Henrique passou anos explicando o que verdadeiramente quis dizer. Não adiantou.

Histórias semelhantes vêm de longe. O brigadeiro Eduardo Gomes nunca usou a palavra “marmiteiros” em seu discurso. A associação de seu nome a esse termo foi o resultado de uma das primeiras e mais eficazes estratégias de distorção política (ou fake news) da história eleitoral brasileira, ocorrida durante a campanha presidencial de 1945. No dia 19 de novembro daquele ano, em um discurso para as elites cariocas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ele criticou os apoiadores remanescentes do ditador Getúlio Vargas. Ao responder sobre o alinhamento com esses grupos, ele afirmou textualmente que “dispensava o voto da malta de desocupados”.

O que fez o empresário e político Hugo Borghi, que era um forte aliado de Getúlio Vargas e coordenava a propaganda do candidato concorrente, o general Eurico Gaspar Dutra? Buscou o termo “malta” no dicionário e encontrou definições que incluíam tanto “bando de desocupados” quanto “grupo de operários itinerantes que viajavam carregando suas próprias marmitas”. Então, usou sua rede de rádio para desconstruir o favoritismo do brigadeiro. Deu certo.

Diz-se que a disseminação de notícias falsas por meios eletrônicos foi o ponto forte da campanha de 2018, que elegeu Jair Bolsonaro presidente — e foi, sem desprezo à facada que ele levou em Juiz de Fora. Pois bem: em tempos de redes sociais e de Inteligência Artificial, preparem-se para saber diferenciar entre fato, distorção e mentira. Não será fácil. E muitos crimes serão cometidos.

Vivemos numa sociedade que testa todos os dias a nossa sanidade

O teatro sempre se apresentou como uma arte de valor, mas nunca foi tão necessário como agora. É o último reservatório da atenção plena. Silenciamos por uma hora, sem olhar para o celular, sem interromper enquanto os outros falam, frente a frente com a vitalidade da existência e aptos a receber de volta uma bala de canhão. Nunca escrevi “bala de canhão” em um texto, e lá se vão quatro décadas de literatura, mas é que ando atordoada, com as pernas frouxas, qualquer emoção me derruba. Está nada fácil resistir ao mundo do jeito que ele se apresenta hoje.


Escrevo inspirada pela peça “O motociclista no globo da morte”, uma combinação de acertos entre Leonardo Netto (texto), Du Moscovis (ator) e Rodrigo Portella (direção). Em tempos difíceis de se colocar um espetáculo em pé, só mesmo tendo uma boa história para contar, de um jeito envolvente e por um ator/atriz que convença a plateia de que é outra pessoa. E como fiquei convencida de estar diante do perplexo Antônio, que viveu o que viveu no Bar do Zeca. Por favor, não perca. “O motociclista” está em turnê pelo país e deve ficar um longo período em carta

O texto é tão rico, com tantas nuances reveladoras sobre o ser humano, que poderia render uma tese, um ensaio, mas tentarei resumir neste restinho de página: trata-se de um combate entre culturas. Por cerca de uma hora, assistimos a luta entre quem tem embasamento civilizatório, através da leitura e da ética, e quem não tem. Mas quem não tem, não está vazio, ao contrário. Está impregnado de machismo, de ignorância e de brutalidade, a única via de ascensão que dispõe. A violência é uma cultura também, que tentamos combater promovendo a paz e a sabedoria. O problema é quando, no limite da exaustão, adotamos o método dela para enfrentá-la. Nossa espinha dorsal, solidamente construída com valores dignos, desaba.

“Nada mais humano do que ser desumano”, reflete o contador dessa história, magnificamente interpretado por Moscovis, que nos faz ver, ouvir, sentir, se horrorizar e ser vingados por tudo o que ele narra diante da plateia, sentado em uma cadeira. Horrorizamo-nos, por sermos pessoas decentes, e ao mesmo tempo nos sentimos vingados porque somos selvagens corteses, que não extravasam a própria animalidade, mas que secretamente se regozijam quando alguém que é boa gente se perde de si mesmo e vai às últimas consequências, caindo no abismo em nosso lugar.

É perturbador viver em uma sociedade doente, que testa, todos os dias, a nossa sanidade. Adoro as saborosas comédias brasileiras, que nos fazem refletir sobre a vida sem sentir dor, mas congratulo a coragem de autores que chamam a nossa dor para conversar bem de perto.

Traidores à vista!

Associamos a traição, em geral, à delação ou à entrega de segredos. Se estes são os casos mais frequentes, os mais graves são os atos contra o Estado. Talvez o primeiro destes, entre nós, tenha sido a indução a que D. Pedro I fechasse a Assembleia Constituinte e Legislativa de 1823.

Inaugurada em maio, ela andava em bom ritmo. A 15 de julho José Bonifácio deixou o comando do governo, na sequência da intriga que já o fizera pedir demissão uma vez. Sentia-se cansado. A 1º de setembro foi apresentado o projeto de Constituição, redigido pela comissão de que ele fazia parte e de que seu irmão Antônio Carlos era o principal redator. A 5 o jornal O Tamoio publicou uma conversa em que falava em se retirar para descansar — quatro anos antes ele pedira demissão de seu cargo de Secretário Perpétuo da Academia de Ciências de Lisboa com este mesmo objetivo: ir para casa, gozar de seus livros e suas coleções mineralógicas. A tarefa constitucional está terminada, nada tem a acrescentar ao projeto apresentado. Pede que um intermediário leve ao Imperador a sugestão de que seja aprovado por aclamação; D. Pedro recusa a proposta.


José Bonifácio tem pronta para apresentar uma Representação sobre a Escravatura. Suas ideias são conhecidas. Diz que o Brasil é a última nação “de sangue europeu” a permitir o tráfico. Propõe emancipação gradual, não abolição imediata. Mas também coisas revolucionárias: que os libertos recebam sesmarias para cultivar, seja corrigida a distribuição de terras; que as mulheres não possam ser separadas dos maridos e dos filhos; que elas tenham um mês de descanso depois do parto; que os senhores sejam responsáveis pelo sustento dos libertos velhos…

Dizia: “Comecemos desde já esta grande obra pela expiação de nossos crimes e pecados velhos.” “Sem a abolição total do infame tráfico da escravatura africana e sem a emancipação sucessiva dos atuais cativos nunca o Brasil firmará sua independência nacional.” “Nossas preciosas matas vão desaparecendo, vítimas do fogo e do machado destruidor, da ignorância e do egoísmo; nossos montes e encostas vão-se escalvando diariamente e com o andar do tempo faltarão as chuvas fecundantes que favoreçam a vegetação e alimentem nossas fontes e rios, sem o que o nosso belo Brasil em menos de dois séculos ficará reduzido aos páramos e desertos áridos da Líbia. Virá então esse dia terrível e fatal em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos.”

Como consequência da Vilafrancada, golpe de Estado absolutista dado por D. Miguel, em junho, D. João VI é novamente aclamado rei. De Lisboa vem um canto de sedução pelo desfazimento da Independência. Há uma natural reação nativista, de que tomam parte os Andrada. Ao mesmo tempo vários inimigos políticos de José Bonifácio se movimentam. Na madrugada de 12 de novembro de 1823 a Assembleia, que está em sessão permanente em razão dos boatos que varrem a cidade, é cercada por soldados e recebe um decreto de dissolução.


Joaquim Nabuco levantou a tese de que a causa real da dissolução da Constituinte foi a ameaça que constituía à escravidão. Não há dúvida que uma pessoa teve participação decisiva no golpe: a amante do Imperador, a quem José Bonifácio só se referia como michela, que enriqueceu intermediando favores imperiais. Se houve uma ou várias conspirações coincidentes não se sabe. O certo é que por seis anos os Andradas e seus colaboradores mais próximos foram afastados da política brasileira e que D. Pedro I, tendo outorgado uma Constituição que previa um parlamento representativo, governou como monarca absoluto. A escravidão sobreviveu quase 65 anos, a reforma agrária demorou mais de 160, a natureza…

Quando há uma busca exacerbada do poder há um maior apelo à traição. Um caso paradigmático é o de Louis Napoleón. Sobrinho do primeiro imperador, participa do exílio da família. Passa a infância na Suíça, sem receber qualquer educação, desfrutando de grande fortuna. A queda de Charles X e a ascensão de Louis-Phillipe não o livra do exílio. Ele e o irmão se metem num golpe contra o Papa, fogem, pegam sarampo — o irmão morre — e ele é resgatado pela mãe. Recebe formação militar e passa a conspirar contra a França. Em 1836 tenta levantar Strasbourg, é rapidamente preso e novamente exilado. Adota um lema: “nação, povo, autoridade”. Sua intensa propaganda faz com que a França exija sua expulsão da Suíça e mantenha grande tropa na fronteira. Vai para Londres. Tenta imitar o tio e desembarca em Boulogne-sur-Mer para marchar para Paris. É novamente preso. Sua “cadeia” é extremamente confortável. Foge. Com a República de 1848 se apresenta como candidato a deputado e é eleito. Lamartine tenta manter seu exílio, mas é derrotado. Pego em nova conspiração, renuncia. Novamente candidato, novamente eleito deputado. Se candidata a presidente da República. É eleito. Passa a usar as insígnias imperiais. Governa em conflito constante com a Assembleia. Em dezembro de 1851 dá um golpe de Estado. Há muitos mortos. Faz um plebiscito: é vitorioso sob um regime de terror. Diz que a “França sai da legalidade para entrar no Direito”, isto é, lhe ser submissa. A nova Constituição lhe dá um mandato de dez anos. Em novembro de 1852 é imperador! Durante 18 anos pensa que é um grande homem. É um asno. Termina prisioneiro dos alemães, a quem entrega um país enfraquecido.

Citei dois casos muito diferentes, poderia citar muitos outros. A lição da História não pode ser mais clara: a traição não faz parte do jogo democrático, ela age à margem e contra ele. Sem regras, ela se aproveita de todas as armas que encontra: vitimização, populismo, mentira, entrega a outros países, crueldade, corrupção, corrupção, corrupção, chantagem, demagogia, religiosidade, vaidade etc. e tal.

O exemplo americano, tão próximo e tão umbilicalmente ligado aos bolsonaro, não nos devia deixar ilusões: se os Estados Unidos, com sua história de democracia consolidada através de traumas terríveis — como a guerra dos escravocratas contra Lincoln, que terminou com a derrota do Mal e o martírio de um homem bom —, estão comendo o pão que o Diabo amassou, as desgraças que podemos sofrer são inimagináveis.

Com os traidores da Democracia é preciso usar todo o rigor da lei, sem clemência, sem pieguice e sem hesitação!

A Copa de Trump não ama as pessoas: Fifa cumprirá nos EUA mais uma etapa de flerte com autoritarismo

A partir de quinta-feira, quando começarem os jogos, as imagens serão replicadas mundo afora: multidões reunidas, cenas de delírio ou decepção. As pessoas amam a Copa do Mundo. Pena que estamos às vésperas de uma Copa do Mundo que não ama as pessoas. Após a teocracia catari, a falsa democracia russa e antes do encontro marcado para 2034 com a sanguinária ditadura saudita, a Fifa cumprirá nos Estados Unidos mais uma etapa de seu flerte com o autoritarismo. Já se foi o tempo em que nos chocávamos com a falta de pudor com que a dona do futebol mundial impunha suas regras a quem era agraciado com a chance de receber a Copa. Desta vez, vemos como nunca antes a Fifa curvada a um governo. A Copa acontece sob as regras de Trump, ainda que o preço seja todo tipo de constrangimento possível imposto ao que orgulhosamente a entidade chama de “família do futebol”.


Não é preciso fechar os olhos à tirania do regime iraniano para se estarrecer com o fato de que, pela primeira vez, um país vai sediar um Mundial enquanto bombardeia uma nação visitante. É verdade que a agressão ao Irã foi posterior ao infame Prêmio da Paz criado por Infantino para bajular Trump. Mas, àquela altura, o regime americano já bombardeava embarcações no Caribe, ameaçava anexar a Groenlândia, prometia ações militares em diversos pontos das Américas e espalhava focos de tensão onde quer que visse seus interesses contrariados. O sorteio dos grupos da Copa fez o futebol servir de palco à constrangedora cerimônia em que Infantino deu um troféu de consolação ao presidente que falhara em sua campanha de autopromoção ao Prêmio Nobel da Paz.

Agora, a contagem regressiva para a Copa vê o futebol refém da política de Trump. A Fifa se vê incapaz de proteger seu torneio, a isonomia esportiva ou a dignidade dos participantes para conservar laços políticos e econômicos com Trump. A única condição para que a seleção iraniana dispute o torneio é uma aberração esportiva: o time ficará concentrado no México, jogará suas partidas nos Estados Unidos, mas não poderá pernoitar no país. Ou seja, terá que viajar e regressar à sua base no mesmo dia dos jogos. Enquanto isso, um jogador iraquiano passou sete horas retido na imigração ao desembarcar para a Copa. Jornalistas do Irã e de diversos países da África, embora credenciados pela Fifa, tiveram vistos negados.

Recente reportagem do site The Athletic apontou a decepção do setor hoteleiro americano com a demanda por quartos. A vilã é a política migratória de Trump e a sensação, corroborada por organismos como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch, de que esta pode não ser uma Copa segura para visitantes. Na quinta-feira, o Mundial começa num país que impôs o banimento de entrada a cidadãos de quatro países que disputam o torneio: Irã, Senegal, Haiti e Costa do Marfim. Além disso, torcedores que quisessem sair de Argélia, Cabo Verde ou Tunísia enfrentavam exigências como o pagamento de cauções que podiam chegar a US$ 15 mil por pessoa.

Infantino e a Fifa silenciaram diante das políticas divisivas, das extradições e da violência contra imigrantes, das ameaças de intervenções militares e demais atrocidades do governo americano. E repetem o gesto enquanto obstáculos são impostos para que torcedores assistam ao maior evento de futebol do planeta, ou enquanto o Irã adiava seu embarque durante a interminável espera por um visto: sinal de uma entidade acuada em seus agrados a um chefe de estado imprevisível, como cartada para evitar ainda mais danos à Copa. Há um ano, Trump dividiu o pódio com os jogadores do Chelsea na mais embaraçosa cena do Mundial de Clubes. Na Copa do Mundo, a sensação é que o espaço dado a Trump será aquele que ele decidir ocupar.

domingo, 7 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Tecnologia transformou as pessoas em matéria-prima econômica, e a humanidade virou negócio

Uma cena muito comum hoje é um casal com uma filha durante o almoço, num restaurante, quando o pai e mãe estão entretidos com os seus smartphones e a criança assistindo a um vídeo. A imagem pode num primeiro instante se mostrar lúdica, afinal a criança está distraída, não dando trabalho algum, e os pais, também, distraídos, envoltos consigo mesmos. Quadro que ilustra bem o argumento trazido por Eugênio Bucci no seu artigo O Papa e a técnica, quando ele diz que uma criança diante de uma tela não está apenas consumindo mídia; está participando de uma engrenagem econômica que transforma atenção em receita; dados, em valor; e comportamento, em lucro.


Assim, havendo a transformação da própria experiência humana em matéria-prima econômica. O texto trata da primeira encíclica do Papa Leão XIV, 135 anos depois da Rerum Novarum, publicada pelo Papa Leão XIII – considerada o marco inaugural da Doutrina Social da Igreja. Em 1891, a encíclica perguntava o que fazer diante da riqueza produzida pelas fábricas e concentrada nas mãos de poucos industriais. Em 2026, a Magnifica Humanitas parece formular uma pergunta semelhante: o que fazer quando a riqueza passa a ser produzida pela atenção, pelos dados e pelo comportamento de bilhões de pessoas conectadas? Hoje as Magnificent Seven – as sete maiores companhias de tecnologia do mundo – representam algo próximo a US$ 24 trilhões de valor de mercado, cerca de 45% do valor do índice S&P 500 e mais da metade do Nasdaq.

Nunca na história moderna um grupo tão pequeno de empresas concentrou tamanho peso econômico e financeiro. Em 2010, esse grupo de empresas valia em torno de US$ 1 trilhão. Em 2025, esse grupo devolveu aos acionistas cerca de US$ 277 bilhões em recompras de ações e dividendos. Ao mesmo tempo, pagaram aproximadamente US$ 122 bilhões em impostos sobre renda.

A economia da atenção não apenas financia inovação. A questão não é que as big techs enriqueceram criando tecnologia. A questão é que elas transformaram comportamento humano – inclusive infantil – em ativo econômico. Em que momento a tecnologia deixou de servir às pessoas e passou a transformar as pessoas em matéria-prima econômica? Talvez a pergunta não seja apenas o que as big techs farão com os trilhões de dólares acumulados a partir da economia da atenção. A pergunta é o que nós faremos com uma geração que aprende a deslizar telas antes de aprender a conversar.

Se a humanidade virou negócio, a responsabilidade não é apenas das plataformas. É também nossa. Afinal, nenhuma tecnologia consegue ocupar o lugar de um pai, de uma mãe ou de uma família – a menos que nós mesmos entreguemos esse espaço.

As veias abertas do Brasil: trabalho e pulsão de morte

“A pobreza não está escrita nas estrelas”
Eduardo Galeano

I

O século gira como um cachorro lento: demora cem anos para morder o próprio rabo e depois repete. Repete. Repete. 2026 é mais uma dolorosa mordida – somos o cão e os dentes do cão e o rabo mordido do cão e o sangue secular empapando os nossos nomes. Giramos juntos o turbilhão da morte. Parece ser este o trabalho imposto pelos donos do mundo: todos os dias, derrotar o pensamento; e, com ele, a inteligência.

Nos poemas de Trabalhar cansa (1936), Cesare Pavese retoma as vidas mordidas pelo grande cachorro do século XX: camponeses, prostitutas, ladrões, pobres, bêbados e outros desvalidos da sociedade. Nas palavras de Frantz Fanon (1961), são os condenados da terra: pessoas que precisam criar uma coincidência – dura e precária – entre o trabalho e a própria vida. Ainda não fui preso por regimes fascistas e, oficialmente, não me condenaram por comunista. Entretanto, como nos personagens daqueles poemas, sei que na minha carne também cravaram os dentes do trabalho. Comecei aos 14 anos, num sacolão da região metropolitana de Belo Horizonte. A minha lembrança mais nítida dessa época é a alegria paterna ao saber que enfim o filho seria produtivo, enfim deixaria de espetar as mandíbulas nas costas do pai. Nos anos seguintes, o trabalho me obrigou a estudar à noite, o mínimo possível para conseguir um diploma do Ensino Médio.


Alguma percepção de anormalidade surgiu desde o início da minha Carteira de Trabalho e Previdência Social, este livro de estreia que escrevi a muitas mãos. O que era apenas uma intuição consolidou-se muitos anos – e diplomas – depois. Entre 2015 e 2016, fui professor de Leitura e Escrita de Textos Acadêmicos no Instituto de Ciências Econômicas e Gerenciais da PUC Minas. Na época, o departamento incentivava que os semestres fossem organizados em torno de temas específicos, com o objetivo de evitar que a universidade se transformasse em mais um espaço de asfixia do pensamento. Era uma boa estratégia.

Em um desses semestres, escolhi o trabalho como tema central. Ao investigar a origem da palavra – porque professor aprende mais do que ensina – descobri que uma de suas possíveis raízes está no tripalium, instrumento de suplício utilizado na Antiguidade para punir condenados ou escravos fugitivos. Tratava-se de uma estrutura de madeira formada por três estacas: duas cruzadas em X e uma terceira fincada verticalmente no chão. Semelhante a um asterisco, ela servia para imobilizar a pessoa durante castigos que podiam variar de chicotadas à morte na fogueira.

Com o passar do tempo, a ideia associada ao tripalium teria sido vinculada ao esforço extremo, ao sofrimento e ao sacrifício, dando origem, segundo essa interpretação etimológica, ao conceito de trabalho. Talvez daí venha uma noção tão persistente e difundida: a do trabalho como forma de tortura.

II

Faz tempo que a história universal coincide com a história do trabalho. A ação de transformar recursos para sobreviver foi empurrando o mundo no tempo, estabelecendo os seus cimentos no espaço e instituindo ordens sociais que, com o surgimento da Modernidade, passaram a ser chamadas de civilização – um significante que não envelheceu e cujo significado Friedrich Nietzsche (1873) expandiu ao propor a categoria de edifício da civilização: camadas e camadas de regras, códigos e deveres que cimentam a vida social (os direitos, é claro, chegaram tarde).

Eduardo Galeano escreveu As veias abertas da América Latina (1971) não apenas para provar que a nossa história coletiva não pertence às narrativas europeias. O escritor uruguaio fez muito mais: com palavras, ergueu diante de nós essas veias destroçadas e o seu – o nosso – sangue ainda quente jorrando no horizonte. Cada leitura dessa obra é incômoda, tanto pela sua verdade odiosa quanto pelas consequências da rapinagem colonial, que segue roubando a nossa paz.

A biografia pindorama também coincide com a história do trabalho, mas com uma peculiaridade importante: “a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já foi dito, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial” (Galeano, 1971: 19). É neste quadro que a escravidão deve ser entendida como a primeira experiência massiva de trabalho e de capitalismo global. Foi pela espoliação dos povos negros e indígenas que se levantou a inominável acumulação de mão de obra (forçada) e de recursos pelos quais Espanha e Portugal não pagaram, bem como os lucros pornográficos obtidos por aquelas monarquias. Para melhor explicar a dimensão mercantil do projeto colonial, Eduardo Galeano chamou-a de acumulação originária – o conceito fala por si.

III

Como nada escapa à roda dentada do capitalismo, o trabalho, é muito transformado em produto, agora é vendido como pulsão criativa: você pode fazer o que gosta, a sua profissão pode dar prazer; seja livre e dono do seu negócio; se você realmente quer, você consegue. Por que não?

Por que não? Eu respondo: não, porque esse é um privilégio de pessoas ricas que, via de regra, não trabalham (nos sentidos etimológico e concreto da palavra); não, porque, embora possível, essa será sempre a exceção das exceções; não, porque o trabalho escravo é um projeto que atravessa as eras históricas, persiste da Antiguidade à Pós-Modernidade; não, porque trabalhar cansa e, enquanto viver for o equivalente a trabalhar para o enriquecimento alheio, a vida seguirá sendo cansativa. E, ao contrário do que a grande boca neoliberal anuncia, a suposta pulsão de vida gera pulsão de morte, essa força que “leva o sujeito a se colocar repetitivamente em situações dolorosas” (Roudinesco & Plon, 1998: 631). Os condenados da terra brasilis de ontem e de hoje trabalham para viver e, ao mesmo tempo, morrem de trabalhar. Esse ouroboros é o motor das forças pulsionais destrutivas que causam o mal-estar coletivo, sobretudo depois de jornadas extenuantes e mal remuneradas.

Posso elencar muitos outros motivos para demonstrar por que não podemos aceitar a romantização do trabalho: a reforma trabalhista aprovada por Javier Milei na Argentina, a assimetria salarial assentada em desigualdades de gênero, raça e classe, o custo de vida sempre por cima das possibilidades salariais, a vida estrangulada por todos os lados. Muitas pessoas perdem um pedaço do bolo para que poucas levem a maior parte – esta é a regra mais básica do capitalismo. No caso do Brasil e de outros países que foram colonizados, a exploração de recursos minerais e a escravização dos povos africanos e originários potencializaram essa regra mercantil e fizeram da Europa aquilo que ela é hoje: um conjunto de nações fundadas sobre a riqueza que não produziram, com um orgulho estratosférico e uma patética relevância política em 2026. Além disso, a Europa é também responsável por alimentar o cachorro do século XXI com visitinhas ao campo de golf dele na Escócia ou concessões frente ao assassinato de milhares de inocentes. Enquanto isso, o cachorrão ladra e morde a carne do mundo – é por isso que as veias seguem em franca abertura. Parece que o único trabalho possível, agora, é estancar tanto sangue.

O conto do vigário do terror

Não são terroristas as duas maiores organizações criminosas nacionais sancionadas pelo governo norte-americano. Não por lhes faltarem motivações ideológicas ou religiosas, como se vem apontando. O terrorismo internacional que derrubou as torres gêmeas nos EUA, explode bombas em lugares públicos e incita à autoimolação de fanáticos tem uma singularidade: não negocia. Ou seja, não é político-ideológico. Nem espiritual, pois seu apelo ao divino é mero rótulo para a vingança. Terrorismo é guerra civil permanente de desterrados.


Terror é um sentimento de pavor ou de ansiedade extrema, geralmente causado por violência ou ameaças. É uma forma radicalizada do medo, que excede a capacidade de controle e paralisa os mecanismos de defesa do indivíduo. Não se confunde com o simples temor, que não afeta a possibilidade de pensar e reagir. O terror emerge dos momentos de repressão desenfreada de um regime político ou das ações movidas pelo fanatismo, no passado e no presente. O Irgun (dissidência da Haganah, organização paramilitar sionista), que explodiu um hotel de ingleses em 1946, matando 91 pessoas, era terrorista. A Al-Qaeda é polo centralizador do terrorismo árabe. Os grupos de supremacia branca nos EUA, como os Proud Boys e a Ku Klux Klan, são estruturalmente terroristas.

Em princípio, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) não têm nada a ver com essas descrições. São máfias voltadas para o contrabando de armas, tráfico de drogas, extorsão, lavagem de dinheiro, assaltos, torturas e execuções. Nelas, porém, inexiste a dinâmica de suicídio inerente às fantasias identitárias que sustentam a mitologia de uma divindade onipotente, de um regressivo califado ou mesmo de uma branquitude unitária. Nem a matriz vingativa que rege as necropolíticas da extrema direita.

Vingança, uma pulsão propriamente terrorista, responde em parte pelo que vem acontecendo nos EUA. Trump é pretexto para que as elites brancas e os rednecks empobrecidos concretizem o seu histórico ressentimento contra imigrantes, negros, mulheres, asiáticos e latinos. Nem sequer as Forças Armadas norte-americanas escapam ao escrutínio discriminatório: as promoções de oficiais de alta patente têm excluído negros e mulheres, de modo sistemático.

O neofascismo emergente nos EUA é a face terrorista do neoliberalismo. Compreende-se, assim, que essa dimensão velada pelo marketing da democracia de exportação tente projetar sobre outros, por interesses econômico-financeiros momentâneos, a pecha do terror. Essa oblíqua classificação é decisão política, e não técnica, de um sistema imperial. O que se quer mesmo é desmoralizar a soberania jurídica brasileira, torpedeando o Pix, à sombra de escusos desígnios eleitorais. Combate ao crime é ambígua tela de fundo para uma chantagem deslavada.

Colar seriamente o rótulo sancionado a tumores sociais como PCC e CV (que os governos nacionais, sim, irresponsavelmente, deixaram crescer) implicaria auscultar a urbanidade periférica, cujo cotidiano oscila entre o medo e o terror impostos por essas facções. Ou seja, escutar politicamente a voz das comunidades submetidas. Terrorismo, se há, é só para os desamparados: são vidas paralisadas pela ditadura do crime.

Quase inverno

Quando esfria assim como agora, durmo cheia de culpa, pensando na população de rua, cada vez mais abundante por aqui. Para piorar, estou lendo “Menos que um”, de Patrícia Melo, uma abordagem honesta e sensível sobre o assunto, que me fez olhar para essas pessoas com mais atenção e menos julgamento, tentando enxergar por trás da aparência de cada um. O que será que a vida fez com elas, para torná-las esse amontoado de carne e trapos que impede a passagem nas calçadas, toma conta de alguns trechos de rua, circula pelas praças e entradas do metrô, de supermercados, de bancos? Como sobrevivem a tanto desamparo?

Ia a caminho da feira quando um deles me abordou, pedindo que lhe comprasse uma bolacha. Expliquei que não portava dinheiro, só cartão, mas ele insistiu: aqui eles aceitam, mostrando um pequeno mercado. Entramos e o deixei à vontade para escolher. Voltou rápido, com um pote de macarrão instantâneo, um refrigerante e a tal bolacha.

Tudo isso? – perguntou a moça do caixa, com irritação. Vai comer ou vai vender?

Falei que estava tudo bem, podia cobrar. Cheia de razão, ela avisou: vou abrir tudo, assim ele não vende. Fiquei tão chocada que não respondi, enquanto ela violava as embalagens e destampava a bebida. Ele pediu uma sacola de plástico para embalar tudo e partiu, agradecendo muito: era o almoço dele e da esposa que o aguardava mais adiante.

A atendente, ainda arrogante, dizia que fazia sempre assim, “cada vez que um desses aparece por aqui”. Respondi que não interessava o que ele ia fazer com as compras, pois minha parte estava feita. Ela pareceu não concordar, mas se calou.

Num degrau mais acima, estão os pobres. Moram mal, mas têm teto. Vivem mal, mas alimentam os filhos, batalham subempregos, recorrem a todo tipo de ajuda institucional. Vejo muitos deles no metrô, a maioria com os pés expostos em chinelos de borracha. Vejo pedreiros, com as roupas manchadas de tinta ou cimento, sem casacos e muito menos, meias. Vejo pais de família com sua prole, todos de chinelos. Vejo cegos pedindo esmola, enquanto os fiscais não chegam. Vejo músicos também desafiando a vigilância, entre uma estação e outra.

Há tantos brasis neste Brasil, mesmo na cidade mais rica do país. E o inverno ainda nem chegou…

Madô Martins

'Cuba está sangrando rumo ao colapso'

As quatro maiores cadeias hoteleiras estrangeiras em Cuba — as espanholas Meliá e Iberostar, a canadense Blue Diamond e a indonésia Archipelago International — reduziram ou encerraram suas operações na ilha esta semana, em meio à crescente pressão dos Estados Unidos de Donald Trump para forçar uma mudança de regime em Havana.

"O que é significativo aqui é que a pressão dos EUA finalmente forçou empresas estrangeiras com um longo histórico de envolvimento em Cuba a recuarem", disse Ricardo Torres, economista cubano da American University. No último mês, a empresa de navegação alemã Hapag-Lloyd e a francesa CMA CGM foram adicionadas a essa lista . Anteriormente, a companhia aérea espanhola Iberia e a mineradora canadense Sherritt, entre outras, também haviam anunciado sua retirada .

O embargo de petróleo imposto à ilha em janeiro de 2026 foi seguido por diversas rodadas de sanções contra organizações governamentais, políticas e empresariais, bem como altos funcionários e alguns de seus familiares — incluindo o presidente Miguel Díaz-Canel e membros da família Castro. O mais recente endurecimento das medidas também ameaça com sanções secundárias contra entidades que mantêm laços com os sancionados.

Consequentemente, o Banco Central de Cuba anunciou ontem a suspensão dos serviços financeiros internacionais da Visa e da Mastercard . O banco estrangeiro que processava os pagamentos — cujo nome não foi divulgado — rompeu sua relação com a FINCIMEX SA, braço financeiro da GAESA , grupo empresarial das Forças Armadas Revolucionárias (FAR) que está no centro das sanções de Washington.

As quatro maiores cadeias hoteleiras estrangeiras em Cuba reduziram ou encerraram suas operações, ameaçadas por sanções dos EUA.


O dia 5 de junho de 2026 marcou o prazo estabelecido pelos Estados Unidos para que empresas estrangeiras com negócios em Cuba liquidem as "operações envolvendo a GAESA", que controla grandes setores da economia cubana (entre 40 e 70 por cento, dependendo da fonte).

Ao sancionar a GAESA, os Estados Unidos "tornam muito difícil, senão impossível, para muitas empresas estrangeiras continuarem suas atividades econômicas em Cuba", especialmente no setor de turismo, explica o economista político Paolo Spadoni, especialista em turismo cubano da Universidade de Augusta e coautor de "A Indústria do Turismo Cubano: Evolução, Desafios e Perspectivas".

"É um golpe muito duro para uma economia já muito frágil", que tem o turismo, as remessas e as exportações de serviços como suas principais fontes de divisas, explica Spadoni. Ele também destaca que o governo Trump já havia criado obstáculos para as remessas de migrantes nos EUA e forçado brigadas médicas cubanas a deixarem diversos países.

À medida que os Estados Unidos demonstram sua disposição em exercer pressão máxima e o governo da ilha fica sem opções para contornar as sanções, a população cubana verá uma "intensificação da escassez e das dificuldades diárias", alerta Ricardo Torres, de Washington.

"Desta vez, as sanções visam estrangular o país, o que afeta a população, embora aparentemente sejam direcionadas apenas a funcionários sancionados", observa Mauricio de Miranda, economista cubano, professor da Universidade Javeriana em Cali, Colômbia, e codiretor do think tank CubaxCuba .

“Trump está tentando sufocar Cuba para que haja agitação social e ele tenha um pretexto para intervir”, disse o presidente cubano Miguel Díaz-Canel em entrevista ao elDiario.es . “A UE e a Espanha devem proteger suas empresas e seus cidadãos. Não podem permitir que leis extraterritoriais lhes sejam impostas por outro país”, afirmou.

Díaz-Canel também afirmou que seu governo está estudando "diferentes modelos de negócios, com cubanos que queiram investir e administrar hotéis" e pessoas de outros países ou entidades que não tenham contas ou dependência dos EUA. Mas "quem gostaria de administrar hotéis sem demanda e sem uma perspectiva clara de recuperação?", questiona Ricardo Pérez.

"Somente negociações em condições desfavoráveis, com concessões substanciais, podem mudar a situação", afirma o economista da Universidade de Washington. Cuba não pode se recuperar sem um acordo para aliviar ou suspender as sanções americanas. "E precisa ser um acordo definitivo e de longo prazo para restabelecer a segurança", diz ele. Entre outros motivos, porque o apoio de aliados importantes da ilha, como a China e a Rússia, permanecerá em grande parte simbólico.

"Desta vez, as sanções visam estrangular o país, o que afeta a população", observa o economista cubano Mauricio de Miranda.

Mas as negociações parecem ter chegado a um impasse. Os Estados Unidos priorizam a mudança de regime em detrimento de reformas econômicas de longo prazo que trariam mudanças políticas, como propuseram inicialmente. E o regime cubano, obviamente, resiste. A ideia de um acordo com compromissos mútuos agora parece "altamente improvável", avalia Paolo Spadoni, pessimista.

A situação mudou radicalmente em apenas alguns meses, observa o economista político da Universidade de Augusta. As tentativas de negociação deram lugar à ameaça de ação militar. E a "uma forma muito cruel" de promover a mudança política através da máxima pressão econômica, com o risco de colapso econômico e de uma grande crise humanitária. "É um país que está sangrando lentamente rumo ao colapso." E uma mudança de regime imposta dessa forma "leva à violência e à instabilidade", alerta Spadoni.

Segundo De Miranda, existem poucas soluções à vista, "além de uma transição pacífica para um sistema democrático, não porque o governo dos EUA o exija, mas porque o país precisa dele".

O governo cubano, no entanto, não só se recusa a ceder à pressão externa, apesar das ameaças de intervenção militar dos Estados Unidos e da acusação de assassinato contra o ex-líder Raúl Castro, como também se recusa a ceder à pressão interna: mantém centenas de presos políticos atrás das grades e continua a reprimir o descontentamento popular, que não deixou de se manifestar publicamente desde os protestos históricos e massivos de 2021.

"É a nação cubana que precisa fazer a transição para uma sociedade democrática", insiste De Miranda. "Não apoiarei nenhuma invasão, mas também não aceito a repressão do governo aos protestos. O governo perdeu muitas oportunidades. Não tem mais tempo para comprar. É hora de assumir suas responsabilidades para com a sociedade. Se não o fizer, a história não o absolverá, nem a justiça da humanidade."

Os Bolsonaro e a crônica dos soluços oportunos

Há pouco mais de um mês, para ser exato no último dia 4 de maio, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro “agradeceu ao nosso amado Pai” o fato de o “Galego” estar sem soluços e “conseguindo fazer a fisioterapia”. “Galego” é como ela habitualmente se refere ao marido, Jair Bolsonaro, condenado e preso em casa por tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Relatório médico entregue ao Supremo Tribunal Federal na sexta-feira diz que Bolsonaro voltou a sofrer de crises de soluço “acima da média” nos últimos sete dias. Algo extemporâneo? Não. Ele vive, há muito tempo, de crise de soluço em crise de soluço, fora outras anomalias. É um paciente crônico desde a facada que levou em Juiz de Fora, em 6 de setembro de 2018.

A coincidência está em que, no próximo dia 25, vence o prazo fixado pelo ministro Alexandre de Moraes para reavaliar sua decisão de transferir Bolsonaro da “Papudinha” — um espaço, digamos, VIP do Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal — para a prisão domiciliar. O ex-presidente Fernando Collor, condenado por corrupção, cumpre a pena em domicílio à beira-mar, em Maceió. Bolsonaro ainda não tem garantia alguma de que poderá cumprir a sua em definitivo.


É o que Michelle e sua família tanto suplicam. E não somente eles: os milhares de presos em todas as partes do país que padecem de condições precárias de saúde e que não dispõem de atendimento médico adequado também gostariam de obter tal benefício. Afinal, a lei deveria ser igual para todos, mas não é; ela distingue entre pobres e ricos.

Todo cuidado com os Bolsonaro é pouco, e Moraes está cansado de saber disso — e é bom jamais esquecer. Eles mentem despudoradamente em seu favor e em desfavor de seus adversários. Espalham notícias falsas e são capazes de fazer qualquer coisa, até mesmo conspirar no estrangeiro contra os interesses nacionais.

Outro membro da família deverá ser condenado este mês pelo crime de coação no curso do processo: o deputado cassado Eduardo. Já Flávio, em troca de apoio para se eleger presidente da República, ofereceu-se a Donald Trump para servir de biombo aos efeitos perversos da nova taxação a produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos.

Eleitores de carteirinha de Bolsonaro pai justificam tudo o que a família propaga, inclusive que Lula é o verdadeiro culpado pela má vontade de Trump com o Brasil. Renovo meus votos de boa saúde e vida longa a Bolsonaro para que ele pague por tudo de ruim que fez ao país.

sábado, 6 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


A primeira vítima

Há um livro clássico sobre o exercício do jornalismo em tempo de guerra. Seu título é A primeira vítima, do autor inglês Phillip Knightley, publicado em 1978 pela editora Nova Fronteira. É um ótimo trabalho de pesquisa, recomendável para quem gosta de estudar a ação dos jornalistas em momentos tumultuados. O autor não alivia: em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dá razão ao autor. Ele diz e desdiz, dia após dia, o que ocorre na sua guerra contra o Irã.

No primeiro momento, a imprensa dos Estados Unidos anunciou que a defesa do adversário estava destruída. Depois, os jornais verificaram que a realidade não era aquela. Em seguida, os jornais foram obrigados a reconhecer que o dispositivo nuclear daquele país está preservado. Trump anunciou o desaparecimento de um império, em referência à Pérsia, ofereceu sucessivos prazos para que o conflito terminasse. E não aconteceu nada. O Estreito de Ormuz continua fechado. O preço do barril de petróleo, que é a única expressão da verdade, persiste muito elevado.



No livro, Phillip Knightley conta a história de magnata da imprensa norte-americana que enviou seu melhor repórter para cobrir a guerra em Cuba, no século 19. O repórter desembarcou e procurou a guerra. Não encontrou nada. Preocupado, entrou em contato com o chefe para informar que não havia nada parecido com conflito naquele país. O chefe respondeu: "Faça seu trabalho, a guerra eu providencio". Esse exemplo é muito elucidativo dos problemas atuais da relação do Brasil com os Estados Unidos. O governo de Washington não gosta de Luiz Inácio Lula da Silva. Não é segredo para ninguém. A turma que está no poder é direita radical, inclusive na sua versão religiosa. Além disso, eles se julgam donos do mundo por decisão divina e porque possuem o mais poderoso exército do planeta.

Não há contencioso entre Brasília e Washington, mas o governo dos Estados Unidos está tentando de todas as formas providenciar a guerra comercial. Usa e abusa de falsidades e meias verdades para alcançar seu objetivo. É importante ressaltar que a América do Sul é área desconhecida nos Estados Unidos. Segundo o americano médio, todos no continente falam espanhol, como os mexicanos, que constituem o retrato do latino naquele país. A noção comum é de um Brasil onde animais selvagens andam soltos nas ruas, fugidos das grandes florestas, mas existem boas praias e mulheres lindas, com biquínis mínimos. Não fazem ideia de que o país está entre as 10 maiores economias do mundo. E tem um Produto Interno Bruto maior que o da Rússia ou do Canadá.

A ignorância é proposital. O Brasil não consta das preocupações imediatas da política externa do grande irmão do Norte. Não foi sempre assim. Quando, na Segunda Guerra Mundial, os nazistas estiveram perto de conquistar o norte da África, o comando militar dos Estados Unidos se apressou em negociar com Getúlio Vargas. Fizeram concessões importantes: construíram os aeroportos das capitais brasileiras do Norte e do Nordeste, a maior base norte-americana fora da Europa em Natal, além de conceder financiamento e tecnologia para a construção da siderúrgica de Volta Redonda. Já no governo JK, os gringos foram contra o plano de metas e a transferência da capital. No governo Geisel, manifestaram seu desagrado com a política externa brasileira que apoiou a independência de Angola e Moçambique. Naquele período, o governo brasileiro rompeu o acordo militar em vigor desde o final da grande guerra.

Donald Trump e sua turma criam obstáculos com objetivo de sobretaxar produtos brasileiros no mercado interno norte-americano. Naturalmente, seus negociadores retiraram da lista produtos que são importantes para eles, como café, suco de laranja, carnes e aviões — os da Embraer fazem sucesso lá. É uma negociação estranha, porque não se fundamenta em nenhum fato. Os Estados Unidos, para espanto de qualquer negociador isento, mantêm confortável superavit na relação comercial com o Brasil.

Na verdade, o pessoal da Casa Branca quer se infiltrar na eleição brasileira para prejudicar Lula e favorecer Flávio Bolsonaro. A diplomacia brasileira, que é experiente, está diante de problema quase insolúvel. Não há controvérsias para serem resolvidas. Existe uma questão política e ideológica. Trump invadiu a Venezuela, sequestrou Nicolás Maduro. Fez a guerra contra o Irã, isolou Cuba, mas terá dificuldades em proceder da mesma maneira contra o Brasil. O país é muito grande para se tornar mais um estado norte-americano. O tempo tende a ficar ruim nas relações entre os dois países até a realização da eleição no Brasil. E, se Lula vencer o pleito, pode piorar, porque Marco Rubio, o cubano ressentido, trabalha para suceder Donald Trump.

Patrulha no quintal

A América Latina, “quintal” dos Estados Unidos, nunca esteve tão vigiada. Em apenas 17 meses no poder, Donald Trump impôs acordos bilaterais a 17 países do subcontinente para garantir aliança militar, uso do espaço aéreo, instalação de bases, imunidade para soldados e espiões e troca de informações dos serviços de inteligência. A decisão de declarar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas não foi gesto isolado. Desde o ano passado, o objetivo de Washington é retomar, de qualquer maneira, a influência política, militar e econômica na região, palco da nova disputa com a China.


O argumento do combate ao narcotráfico abre, portanto, a porta para justificar certas ações e militarizar a América Latina integra a Estratégia de Defesa Nacional, publicada no fim de 2025. O que impressiona diplomatas é a velocidade de implementação da ofensiva que vem sendo efetivada. Em março, Trump desviou a atenção do conflito no Irã e anunciou a criação do Escudo das Américas, aliança militar com aliados submissos. O pacto, apelidado de “Otan das Américas” em certos círculos diplomáticos, envolve alguns dos governos mais leais à extrema-direita latino-americana.

Durante uma audiência discreta e sem alarde em um subcomitê do Congresso norte-americano, ainda em 17 de março, o vice-secretário do Departamento de Guerra, Joseph Humire, dimensionou o avanço. “Desde novembro de 2025”, elencou, “o Departamento de Guerra obteve compromissos bilaterais da Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, ­Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru e ­Trinidad e ­Tobago, expressando nossa intenção compartilhada de cooperar em relação à segurança de fronteiras, ao combate ao narcoterrorismo e à proteção de infraestruturas e ativos críticos contra o controle maligno.” Mais: “O Departamento de Guerra está empenhado em engajar-se ativamente com esses e outros parceiros regionais para identificar oportunidades de expandir nosso acesso, bases e sobrevoos”.

Os acordos ampliam e traduzem essa estratégia em ações concretas. O governo de Honduras seria o próximo. Depois de ter vencido a eleição com apoio de Trump, o presidente Tito Asfura anunciou a permissão para a atuação de forças militares dos EUA no país. Em uma reunião com Humire, em maio, Asfura iniciou as discussões de um plano bilateral de combate ao crime transnacional cometido em território hondurenho. Ele não nega a intenção de submeter os interesses nacionais à estratégia de segurança de Trump. Para tanto, acelerou a aprovação no Congresso de uma lei que declara integrantes de cartéis de drogas como “terroristas”. O projeto, não por acaso, foi elogiado por Washington.

O governo Trump ainda conseguiu convencer a Guatemala a permitir ações “conjuntas” das forças armadas dos dois países em território centro-americano. Mais uma vez, o argumento é de combate ao narcotráfico. Segundo o jornal The New York Times, o presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, concordou com ataques aéreos e outras ações militares em uma ligação telefônica com o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, em 19 de maio. As operações podem começar no próximo mês. “A Guatemala solicitou formalmente “cooperação em operações lideradas pelas forças de segurança guatemaltecas contra organizações de narcotráfico” em uma carta a Hegseth, destacou o gabinete do presidente em um comunicado. Confirmados os ataques, o país­ se tornaria o segundo da região a permitir ações militares conjuntas contra grupos criminosos em suas fronteiras. No começo do ano, o Equador fechou um acordo similar e os primeiros atos supostamente “conjuntos” foram realizados.

O foco na Guatemala e em Honduras não se dá por acaso. Segundo o Times, o objetivo é pressionar o México a concordar com operações conjuntas de combate ao narcotráfico. Por enquanto, a proposta é rejeitada pela presidente mexicana, Claudia Sheinbaum.

Mais ao Sul, outra prioridade é uma aproximação militar com o Chile, governado pela extrema-direita herdeira de Augusto Pinochet. Há poucas semanas, Santiago e Washington assinaram dois acordos estratégicos. Um deles permitia que os EUA “cooperassem” na exploração de minerais críticos. O segundo ia além e abria as portas para um pacto de segurança. “Assinamos dois instrumentos que, embora diferentes em seus temas, expressam a mesma convicção, a de que a cooperação bilateral profunda, fundada em valores compartilhados e benefícios mútuos, é o caminho para enfrentar os desafios do século XXI”, anunciou o ministro das Relações Exteriores, Francisco Pérez Mackenna. Segundo ele, trata-se de “um passo substancial no relacionamento entre o Chile e os EUA”. O evento contou com a presença do subsecretário de Estado norte-americano para Controle de Armas e Segurança Internacional, Thomas DiNanno, numa demonstração da importância do acordo.

Na prática, o novo pacto de segurança altera o Acordo sobre Controle de Narcóticos e Aplicação da Lei entre os dois países. Oficialmente, fortalece a capacidade do Estado chileno de combater o crime organizado transnacional. Mas permite, de fato, que dinheiro do Departamento de Estado chegue ao país, com a contrapartida de que a decisão sobre o uso dos recursos fique sob controle de ­Washington. Ou seja, estabelece-se a total ingerência norte-americana.

O mapa inclui um acordo assinado e ratificado com o Paraguai que transforma o vizinho brasileiro em uma extensão dos EUA. Uma base pode ser estabelecida nas proximidades de Assunção e os militares norte-americanos estão livres de responder às leis paraguaias. Com a Argentina, um acordo foi anunciado no mês passado, abrindo caminho para um “patrulhamento” do Atlântico Sul e a declaração do oceano que também banha o Brasil como um “bem comum global”. O acerto com o governo de Javier Milei foi duramente denunciado pela oposição, que alertou que o mar territorial da Argentina não é um “bem comum global”. Para a ala progressista, o Estado argentino tem a obrigação de exercer a jurisdição sobre o local e a “custódia dos recursos naturais”.

Enquanto diplomatas da região e mesmo de fora tentam decifrar os próximos passos, o depoimento quase reservado de Humire, em março, serve de guia. Fica claro que os cartéis são apenas uma desculpa para conter a presença de potências estrangeiras adversárias. “O presidente Trump promoveu uma mudança monumental na política externa e na segurança nacional dos EUA. Além da atividade dos cartéis, a iniciativa reflete a crescente preocupação com a influência da China, da Rússia e do Irã na região”, afirmou Humire. “A expansão dos investimentos chineses em infraestrutura com potencial de uso duplo, as redes ligadas ao Irã, associadas a financiamento ilícito e atividades por procuração, e as campanhas de desinformação russas são ameaças importantes à estabilidade regional.”

Uma operação, portanto, foi criada por Trump para desmontar essa suposta influência. “Para combater esses esforços, o Pentágono aumentou a cooperação em inteligência com governos aliados, expandiu as iniciativas conjuntas de segurança cibernética e apoiou os esforços para proteger a infraestrutura crítica do controle ou da exploração estrangeira”, adiantou. “Os compromissos militares também foram ampliados para reforçar o alinhamento com as prioridades estratégicas dos EUA.” Um dos exemplos dados por Humire foi o Panamá, que logo nas primeiras semanas do governo Trump tornou-se alvo de um processo intenso de chantagem e pressão. “Desde que o secretário Hegseth e o secretário Rubio foram ao Panamá no ano passado, a influência da China no país diminuiu significativamente. Eles perderam o acesso aos portos e não estão mais avançando com seus investimentos.”

A operação que sequestrou Nicolás Maduro na Venezuela, em 3 de janeiro, foi além de uma manobra para levar um suspeito aos tribunais por conta de seu suposto papel no tráfico de drogas. “O sucesso da operação teve múltiplos efeitos recíprocos na região, incluindo conversas de alto nível dos EUA com Cuba, a obtenção de conformidade da Nicarágua e a mudança do Caribe em uma direção favorável aos interesses dos EUA”, explicou o vice-secretário. Humire conclui: controlar a América Latina é parte central da estratégia de defesa dos EUA. “Do Ártico ao extremo-sul das Américas, a defesa da pátria dos EUA e a segurança do Hemisfério Ocidental são uma só. Em todos os domínios, o Departamento de Guerra está pronto para garantir a defesa de nossa nação, operando com base no princípio da paz por meio da força. Nossas ações demonstram uma clara determinação em proteger os interesses americanos e fazer cumprir a aplicação moderna do ‘Corolário Trump’ da Estratégia de Segurança Nacional à Doutrina Monroe.”

A guerra contra as drogas nunca foi contra as drogas. E, uma vez mais, a região constata a instrumentalização do tema para garantir uma hegemonia dos EUA na América Latina. Se necessário, à força.

Bolsonaros são soldados do trumpismo

A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.


É preciso compreender essas três dimensões da relação entre o bolsonarismo e o trumpismo. Boa parte da cobertura jornalística deu a impressão de que Flávio e Eduardo Bolsonaro mudaram a cabeça de Washington. Sem dúvida que eles pressionaram e tentaram gerar um timing adequado para a designação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas. Mas eles não comandam o pacote completo da política trumpista para a América Latina. Em vez disso, adaptam-se erraticamente ao projeto de Trump para a região, já que Flávio Bolsonaro foi escolhido como candidato oficial do governo americano à Presidência do Brasil.

A maior prova disso é que, embora soubessem que Trump ainda preparava mais maldades ao Brasil, Eduardo e Flávio não tinham total consciência do projeto de retaliação comercial, que envolveu diretamente o ataque ao extremamente popular Pix e a setores econômicos nacionais que apoiaram o bolsonarismo recentemente, mas que agora poderão perder riqueza graças à aliança entre a família Bolsonaro e o governo americano.

Por isso, após comemorar a definição de terrorismo para o crime organizado brasileiro, Flávio Bolsonaro ficou atônito e teme um efeito político similar ao do tarifaço do ano passado. Ele e seu irmão são cúmplices nessa tramoia, porém, em grande medida ocupam esse papel porque aceitaram ser liderados de forma subserviente pelo governo americano, que quer definir os rumos do Brasil. Neste sentido, são traidores da pátria que esperam ter benefícios políticos diretos tornando-se marionetes do trumpismo.

Ainda é cedo para dizer quais serão todos os efeitos dessa aliança de subordinação. Só que se houver de fato consequências econômicas do novo tarifaço, ainda mais com pressão para acabar com o Pix, Flávio perderá uma parte dos eleitores de direita, mas não numa parcela tão grande que permita a ascensão de Caiado e Zema, pois estes se contentam em ficar como linhas de apoio envergonhado ao bolsonarismo. O problema maior é outra conta: nunca mais recuperarão a maior parcela dos votos dos independentes, favorecendo claramente a candidatura de Lula.

Flávio chegaria, assim, ao segundo turno com poucas chances de vitória, a não ser que haja intervenção maior do governo americano na política brasileira. Essa última hipótese parece absurda, mas ela passa pela cabeça dos irmãos, sobretudo Eduardo, que é o grande ideólogo da família e que pretende recuperar em algum momento a cidadania brasileira, mesmo que a vida americana tenha tido um financiamento invejável para um fugitivo político.

Uma pergunta se impõe aqui: por que Flávio Bolsonaro trocou um plano que estava dando certo por outro tão incerto e que lhe imprime uma visão sórdida de traidor da pátria? Afinal, o projeto do Bolsonaro moderado, que tomava vacina e não falava palavrões, tinha fortalecido sua candidatura. Desde que fora lançado e adotou esse figurino, o Zero Um crescera nas pesquisas, tanto no primeiro como no segundo turno. Eleitores da direita não bolsonarista migraram nas pesquisas em peso para ele, que também estava abocanhando grande parte dos independentes, inclusive muitos que tinham votado em Lula em 2022. Parecia que ele conseguiria realizar a revanche do pai.

O estouro do escândalo de suas relações promíscuas com Daniel Vorcaro parece ser o fato principal. E muitas revelações ainda podem surgir dessa história envolvendo o enrolado caso de financiamento do filme “Dark Horse”, inclusive um “videozinho”, como o próprio Flávio já profetizou. O flanco da corrupção não para por aí, porque cada vez mais será conhecido o funcionamento da cleptocracia montada pelos bolsonaristas no governo do Rio, e esse lamaçal tem grandes chances de alcançar a família Bolsonaro.

Falcatruas e relações não republicanas com o mundo da política e do crime já eram conhecidas por muitos que acompanham as peripécias da família Bolsonaro desde a década de 1990. Mas o mais visado entre eles era justamente Flávio, conhecido pela rachadinha e pela contratação ou condecoração de milicianos, fatos de sua época como deputado estadual da Alerj. Mesmo assim, a aposta no bolsonarismo moderado estava ganhando tração eleitoral. Decerto que o tamanho do escândalo envolvendo sua irmandade com Vorcaro pegou muita gente de surpresa, especialmente os eleitores independentes que começavam a acreditar no novo Flávio.

Sem querer tirar o peso dos escândalos na mudança de estratégia da família Bolsonaro, talvez fosse impossível manter até o final da eleição o perfil pretensamente moderado porque isso não corresponde ao âmago do bolsonarismo. Em algum momento isso viria à tona, mesmo que de forma menos desastrosa, desde que as conversas íntimas com Vorcaro apareceram na mídia. É preciso voltar às três dimensões enunciadas no primeiro parágrafo: a nacional, a internacional e a da geopolítica trumpista para a América Latina.

No plano nacional, o bolsonarismo é marcado por ser a face da extrema direita local, defensora da ditadura militar e de seus torturadores, da tentativa de golpe de Estado, do uso de um discurso agressivo para destruir inimigos e ex-amigos pelas redes sociais, e dos motes que lhe davam maior popularidade: Deus, pátria, família e liberdade. O patriotismo das manifestações de rua, todos com camisas da seleção, era o espetáculo principal de sua ideologia. Fechando o enredo estava Jair Bolsonaro, um líder popular que odiava as instituições democráticas.

Parte desse roteiro se perdeu no meio do caminho, principalmente com o fracasso do 8 de janeiro e pelo julgamento e posterior prisão de Jair. Sobraram os filhos para sucedê-lo, mas Eduardo foi para os EUA para tentar dar um golpe de fora para dentro, ao passo que Flávio teria o papel de segurar o leme na política interna, tornando-se, ao final, o herdeiro da dinastia com a candidatura presidencial. Há a figura ascendente de Michele, mas ela não chefiará o clã enquanto o marido estiver vivo.

Toda essa história política e familiar dos Bolsonaros não se esgota nas suas relações com o Brasil. E aqui entra a segunda dimensão que sempre esteve presente: o bolsonarismo faz parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita, que atua em várias partes do mundo, principalmente nas Américas e na Europa. Um grupo político de combate à democracia e de defesa de um reacionarismo enorme frente a temas como imigração, família, religião e contra discursos progressistas de minorias, como as mulheres e os negros.

A Internacional da Extrema Direita teve como grande baluarte Steve Bannon, um dos principais inspiradores da visão política de Trump. Continua forte na Europa, com desempenhos impressionantes como recentemente nas eleições locais no Reino Unido, mas tem tido dificuldades por conta das mudanças geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e os conflitos cada vez maiores com os EUA. Daí que hoje o principal impulso a esse movimento vem da política trumpista, particularmente no âmbito da América Latina. Essa é a terceira dimensão que afeta o bolsonarismo profundo e constitui o farol da família Bolsonaro.

O segundo governo Trump é mais do que uma forma política de extrema direita. É expansionista, beligerante e intervencionista. Para a América Latina, o modelo geopolítico é a tentativa de reavivar a Doutrina Monroe - a América para os (norte-)americanos. O Brasil e o México são os maiores obstáculos a esse projeto, seja pela força política e econômica de ambos, seja em razão de suas lideranças presidenciais, que não abaixaram a cabeça e nem querem entregar o país como deseja a família Bolsonaro.

Os Bolsonaros sustentam suas ideias e projeto de poder não só no território nacional. Eles têm seus alicerces principais fora do Brasil, seja na Internacional da Extrema Direita, seja cada vez mais na sua ligação subserviente com o governo Trump. A família Bolsonaro é soldada do trumpismo, e fará tudo para agradá-lo, a fim de ter o apoio do governo americano, das mais diferentes formas, para a eleição presidencial brasileira.

Flávio Bolsonaro foi chamado inicialmente de preposto do pai. Mas hoje se percebe, depois do tour em Washington pago com dinheiro público brasileiro e das decisões do governo Trump contra o Brasil, que no momento é Eduardo Bolsonaro o verdadeiro chefe da estratégia política do clã bolsonarista. Acabou-se o bolsonarismo moderado e restou a extrema direita pura comandada pelo trumpismo.

As fronteiras começam na nossa cabeça e é aí que as temos de cancelar

Não é, com certeza, por acaso, que Vila Nova de Cerveira acolhe em 2026 a XXIV Bienal Internacional de Arte sob o mote “Territórios sem Fronteira”. Cai mesmo no momento certo, numa altura em que no mundo há quem tudo faça para erguer mais muros.

Ao homenagear Silvestre Pestana, um artista madeirense, poeta, performer e pioneiro da videoarte em Portugal, que faz da transgressão de fronteiras políticas, tecnológicas, disciplinares e geográficas, a matéria da sua arte, a Bienal desafia-nos a olhar para a fronteira de outra forma.


Não como um risco qualquer num mapa, mas como um lugar onde entram em disputa a memória e a identidade. Onde se cruzam o conflito, o reconhecimento, o que nos é familiar e o que nos assusta por ser desconhecido. Obriga-nos a perguntar: que formato terão os nossos mapas quando deixarmos de aceitar que a humanidade se possa dividir em parcelas, como num atlas?

Ao ler sobre a Bienal, lembrei-me que nos meus tempos de criança, eu achava que as fronteiras eram linhas grossas desenhadas nos mapas da escola, daquelas traçadas com régua que separam o mundo por cores.

Não percebia por que razão não podíamos simplesmente passar de um lado para o outro. Afinal, dos dois lados havia pessoas que riam e choravam, miúdos com os mesmos medos e a mesmíssima vontade de brincar.

Mais tarde, caí na realidade e percebi que aquelas linhas tinham muita história. Eram decisões frias, tomadas em gabinetes muito longe de quem realmente trabalhava a terra e das vozes que nela entoavam os seus cantares. Percebi que havia gente a ser arrancada de casa, não por querer ir embora, mas porque alguém, algures, decretou que ali já não era o seu lugar. Fui aprendendo que as fronteiras se desenham com tinta ou com arame farpado, mas também se constroem com o medo, com burocracia e com uma dose enorme de silêncio e neutralidade.

Com o tempo, a coisa tornou-se ainda mais clara: há fronteiras que nem sequer cabem num mapa. São aquelas que se levantam contra quem vem de fora, as que tratam os corpos dos migrantes como um problema estatístico, e não como pessoas à procura de um lugar e uma oportunidade para viver.

E há ainda outras, quase invisíveis, que nos tentam encurralar o pensamento.

Hoje em dia, dou por mim a reparar em como a própria tecnologia e a Inteligência Artificial começam, de mansinho, a decidir por nós. Escolhem o que vemos, o que lemos, o que pensamos. Às vezes, dão a ilusão de que a criatividade humana se tornou dispensável.

Se calhar, esta é que é a fronteira mais perigosa de todas: aquela que se instala sem darmos por isso.

Se calhar, crescer enquanto indivíduos e enquanto sociedade é precisamente isto: aprender a ver onde estão os muros e recusar o hábito de viver com eles.

As fronteiras nunca foram uma inevitabilidade. São escolhas. São construções. São histórias que nos contam vezes sem conta até acharmos que sempre funcionou assim.

Há quem as defina e há quem se mude para as atravessar. Há quem as aceite e há quem desconfie delas.

E depois há quem teime simplesmente em imaginar o que existirá quando as linhas deixarem de ser mais fortes do que as pessoas que tentam separar.

É um sonho antigo, que passa de geração em geração. Talvez o meu seja o de deixar aos meus netos, e aos netos de todos nós, um mundo onde o mapa não mande mais do que a vida. Exatamente como John Lennon imaginou e cantou: um lugar sem barreiras perante a dignidade humana.

Para onde o homem caminha

Acho que Noah Harari é hoje, se não o mais importante, um dos mais significativos pensadores da atualidade. Em seu livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, Noah diz que o homem é um “acidente biológico”, e que deve desaparecer, devido a sua irracionalidade, possivelmente em “um século ou mais”, dado os problemas e riscos que gera para si mesmo.

Nós nos auto denominamos como “Homo Sapiens”, em contraposição à todos os seres vivos do planeta.

Lutamos contra os “Neandertais”. O “Homem de Neandertal” era alto, forte, olhos verdes, e acordava cedo. O “Homo Sapiens” era mais baixo, mais fraco, olhos castanhos e negros, e acordava mais tarde. Um pouco preguiçoso. O “primeiro inglês”, há 10.000 anos atrás, como na mostra do Museu de História Natural de Londres, tinha pele negra, começando a clarear, cabelos enrolados, olhos azulados, na transformação do negro para o branco pela despigmentação da pele por mudanças alimentares da carne para o peixe e menor incidência do sol. Desbotou-se.


Miscigenamos com os “Neandertais” há 50 mil anos atrás, e os eliminamos 2 mil anos depois. Éramos mais inteligentes e mais ágeis, nossas lanças eram mais leves e perfurantes. Nossa primeira guerra territorial e geopolítica de proporções. Tomamos o planeta para nós.

Segundo o livro “What every person should know about war”, de Chris Hedges, dos últimos 3.400 anos da história tivemos somente 268 anos de paz, 8% do tempo total dos tempos da eterna guerra.

Por sinal, a ideia de racionalidade e progresso surge com Francis Bacon na Inglaterra na virada do século XVI e se acentua durante a Revolução Industrial, conforme descrito nos artigos de Paulo Paiva. O Iluminismo Francês pressupõe uma racionalidade que não temos, e coloca-nos em situação de amargo diante do infortúnio das limitações ecológicas com as quais nos deparamos, inexoravelmente, rumo à nossa autodestruição.

Somos um belo planeta, com terra, água e ar, estes dois últimos cada vez mais rarefeitos. A ecologia não é uma preocupação para o homem, posto que o lucro imediato supera a expectativa do encurtamento futuro da sobrevivência dos nossos descendentes, ou decadentes.

O “Relógio do Juízo Final”, ou o “Doomsday Clock”, originalmente criado em 1947 por Cientistas da Universidade de Chicago que participaram do Projeto Manhattan, aponta hoje que estamos a 85 segundos da “Meia Noite”, a marca mais próxima até hoje do marco hipotético para a destruição do mundo, devido às armas nucleares e crise climática, nesta ordem. O desespero puxa o gatilho.

Talvez fiquemos no futuro como os hominídeos do filme “A Máquina do Tempo”, de 1960, de George Pal baseado no livro de H.G. Wells, onde o homem fica reduzido a um estado monstruoso ou letárgico, como bem caracterizado no filme.

Chamar de “Sapiens” o devaneio atual é atribuir a ideia de “racionalidade” àquilo que não se tem. “O homem é o lobo do homem”, nas palavras de Hobbes, no rumo da auto destruição, onde o homem mata o homem, e cria as próprias condições que finalmente o eliminem

Só nos resta, para aqueles que conseguem ainda rir, somente cantar.

Como na música de Gilberto Gil,

“Poetas, seresteiros, namorados, correi,
É chegada a hora de escrever e cantar,
Talvez as derradeiras noites de luar”

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Nossos ingratos amigos

Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump — só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.

Começou pela viagem do ex-presidente Theodore Roosevelt à Amazônia, em 1913. Escoltado pelo general Rondon, Roosevelt passou sete meses na floresta fazendo mapeamento estratégico, cartografando rios e coletando um mundo de plantas e animais para seus museus e instituições. Pegou diarreia, malária, infecções e quase levou a breca, mas voltou com um conhecimento dos recursos do Brasil de que até então ninguém por lá suspeitava.

Os americanos logo souberam que não éramos uma república de bananas. Um empreendedor chamado Percival Farquhar veio para cá no começo do século 20 e, pelos 30 anos seguintes, tomou nossos setores de energia elétrica, navegação, extração de minério, criação de gado, abertura de estradas e, por causa destas, derrubou milhões de acres de floresta nativa para explorar madeira. Aliás, o minério e a energia elétrica foram dois setores que os americanos levaram décadas para nos devolver. Era ou não era ser amigo dos EUA?

Minha geração foi tão amiga dos EUA que aprendemos tudo sobre Flecha Ligeira e nada sobre Arariboia. Apaixonamo-nos por Chaplin, Louis Armstrong, Duke Ellington, Bing Crosby, Fred Astaire, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, os Irmãos Marx, Glenn Miller, Frank Sinatra, Humphrey Bogart, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Doris Day, Gene Kelly, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk etc. etc. etc. até Woody Allen.

Somos um país de jeans, tênis e boné ao contrário, comendo cheeseburger. Na verdade, de tanto amor pelos EUA, tudo que queremos é ser americanos. Flávio Bolsonaro, amigo do Rubio, já conseguiu.