segunda-feira, 27 de julho de 2026

Quebra de protocolo diplomático por Milei teve ajuda de Tarcísio e Flávio Bolsonaro

Todos os protocolos diplomáticos foram quebrados pela visita de Javier Milei ao Brasil. Já testemunhei muitas crises entre Brasil e Argentina, mas esta é, de fato, uma das mais graves. A tensão instalada entre os dois países após os ataques de Milei domina as manchetes do Clarín e do La Nación, os principais jornais argentinos, nesta segunda-feira.

O primeiro protocolo quebrado é vir sem avisar ao governo. O fato é que qualquer viagem de um chefe de Estado a outro país, ainda que tenha caráter privado, segue um protocolo mínimo, que inclui a comunicação prévia ao governo anfitrião — procedimento completamente ignorado por Milei. O presidente argentino foi diretamente a São Paulo, onde participou da convenção do PL. Antes disso foi recebido com um tapete azul, em referência à chamada "onda azul", alusão as eleições de candidatos de direita, no Palácio Bandeirantes, pelo governador Tarcísio de Freitas que concedeu a ele a Medalha da Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo Estado de São Paulo. Tarcísio o recebeu com honras de chefe de Estado.


Ele veio como convidado de honra para o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Milei adotou, em seu discurso, uma postura de completo desrespeito ao governo brasileiro e ao próprio processo eleitoral do país. O presidente argentino utilizou palavras ofensivas e desairosas ao se referir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do STF Alexandre de Moraes. O Brasil respondeu pelos canais diplomáticos: chamou de volta o embaixador brasileiro na Argentina para consultas e convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos sobre a conduta de seu presidente — uma tarefa que dificilmente será simples.

Na volta à Argentina, Milei concedeu uma entrevista em que afirmou, sem provas, que o governo brasileiro financiou uma campanha midiática contra a Argentina após a Copa do Mundo. Chegou a dizer que 25% dos recursos da suposta campanha teriam saído do Brasil, em reportagem publicada no Clarín. A alegação, no entanto, não foi acompanhada de qualquer prova e carece de fundamento conhecido. Nada disso faz o menor sentido.

Mais do que apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro, Milei parece ter buscado projetar sua imagem em um momento delicado de seu governo, marcado por dificuldades internas e elevados índices de desaprovação, que variam entre 60% e 65%, segundo pesquisas de opinião. Para isso, escolheu confrontar justamente o principal parceiro comercial da Argentina, destino da maior parte das exportações industriais argentinas. Caberá agora à diplomacia dos dois países desfazer esse impasse — e não será uma tarefa fácil.

Míriam Leitão

Deu no que deu


O abandono, pelas elites, da classe operária facilitou a receptividade às ideias alternativas

Jaime Nogueira Pinto

Os influencers já não tem rosto, trends ou seguidores. Tem dados

A Inteligência Artificial está a mudar a forma como escolhemos marcas e grande parte das empresas ainda não perceberam que já estão a perder vendas sem sequer saberem porquê.

Durante anos, o mercado confundiu reputação com notoriedade. Contavam-se seguidores, visualizações, gostos, partilhas e cliques. Quanto maior fosse a exposição de uma pessoa, de uma campanha ou de uma marca, maior seria, supostamente, a sua capacidade de influenciar decisões. Contudo, esse paradigma está a desaparecer. Não significa que os influenciadores tenham deixado de ter relevância ou que as redes sociais tenham perdido utilidade. Significa apenas que notoriedade, influência e confiança deixaram de ser a mesma coisa.

Por consequência de um marketing fútil, repetitivo e até previsível, o consumidor tornou-se mais desconfiado em relação aos conteúdos promovidos, às recomendações patrocinadas e às narrativas demasiado perfeitas. Começou a procurar sinais mais difíceis de fabricar: experiências reais, padrões de comportamento, capacidade de resposta, transparência e validação por outras pessoas. Agora, com a Inteligência Artificial, essa transformação acelerou.


O estudo “O Consumidor Impulsionado pela IA: Manual de Sobrevivência para Marcas”, desenvolvido pela LLYC e pela Appinio a partir de 700 entrevistas em Portugal, revela uma mudança profunda: cerca de 45% dos consumidores portugueses já utilizam habitualmente ferramentas de Inteligência Artificial generativa. Entre os jovens dos 18 aos 24 anos, esse valor sobe para 65,9 por cento. Mais relevante ainda: 23,6% dos consumidores já iniciam diretamente nos assistentes de IA a sua jornada de pesquisa. Ao mesmo tempo, a confiança nos influenciadores apresenta, segundo o estudo, um índice negativo de 67,4 por cento. A credibilidade está a deslocar-se para especialistas, validação técnica, conteúdos genuínos e sistemas algorítmicos capazes de cruzar múltiplas fontes. Praticamente estamos a assistir a uma transferência de poder.

O consumidor já não quer necessariamente visitar dez páginas, abrir vinte separadores, analisar comparadores, ler publicações patrocinadas e tentar perceber quem é mais confiável. Na verdade, o que faz é simples e direto. Coloca uma pergunta diretamente ao modelo LLM:

“Qual é a melhor marca?”
“Esta empresa é de confiança?”
“Que problemas têm os clientes?”
“Qual destas opções tem melhor serviço?”
“Vale a pena comprar?”

Espera uma resposta e toma uma decisão.

Durante duas décadas, as marcas organizaram a sua estratégia digital em torno de uma ideia simples: conquistar o clique. Investiram em SEO para aparecer no Google, em publicidade para gerar tráfego, em conteúdos para conduzir o consumidor ao site e em remarketing para voltar a contactá-lo caso não comprasse imediatamente.

Nos modelos conversacionais, a lógica é diferente. O consumidor não escolhe necessariamente entre uma lista de resultados. Toma a sua decisão com base nas respostas apresentadas pela Inteligência Artificial.

A descoberta, a comparação, a avaliação e a recomendação podem acontecer dentro da mesma conversa. Em muitos casos, o consumidor toma a sua decisão sem visitar o site da marca, sem entrar numa rede social e sem deixar os sinais digitais que tradicionalmente alimentavam as estratégias de remarketing. Isto significa que milhares de consumidores estão, neste momento, a tomar decisões sem o conhecimento das marcas envolvidas. Não preencheram um formulário. Não entraram num site. Não abandonaram um carrinho. Não aceitaram cookies. Não foram incluídos numa audiência de remarketing. Simplesmente perguntaram a uma Inteligência Artificial e escolheram outra empresa.

A marca que perdeu a venda não sabe onde aconteceu, quando aconteceu, qual foi a pergunta, que alternativas foram apresentadas ou por que razão ficou fora da recomendação. Para muitas administrações, essa perda é invisível, pois, não aparece no CRM, no Google Analytics, no relatório comercial ou no dashboard de marketing. Surge apenas como uma venda que nunca chegou a existir.

É neste contexto que plataformas como o Portal da Queixa assumem uma importância muito superior àquela que normalmente lhes é atribuída. Com perto de 2 milhões de reclamações publicadas, reúne um enorme histórico de experiências reais, respostas das marcas, resoluções, avaliações, índices de satisfação e padrões de comportamento. O próprio site apresentava, em junho de 2026, mais de 12 milhões de interações entre consumidores e marcas nos últimos 30 dias, conteúdo com características particularmente valiosas para os sistemas de Inteligência Artificial: é público, pesquisável, contextual, cronológico, específico e produzido a partir de acontecimentos concretos. São experiências partilhadas pelos clientes e não apenas frases publicitárias escritas pela própria marca. Não são promessas sobre a qualidade futura do serviço, mas evidências sobre aquilo que aconteceu quando existiu um problema. A grande vantagem para os modelos é que não mostram apenas que uma empresa recebeu uma reclamação. Mostram se respondeu, quanto tempo demorou, como comunicou, se resolveu a situação e como o cliente avaliou o desfecho.

Plataformas de partilha pública de experiências não influenciam porque publicam opiniões editoriais sobre as marcas, mas porque tornam visível aquilo que as marcas fazem quando são confrontadas com a insatisfação dos clientes. A sua autoridade resulta dessa dimensão, da transparência e, sobretudo, da autenticidade do conteúdo partilhado pelos consumidores.

Mas por que razão a IA valoriza estas plataformas, como por exempo o Reddit?

Em 2024, a OpenAI anunciou uma parceria com o Reddit para aceder, através da sua API, a conteúdos públicos, estruturados, atualizados e produzidos pelas respetivas comunidades. Os modelos precisam deste tipo de informação porque a internet institucional é insuficiente. Nos sites corporativos, todas as marcas são inovadoras, próximas, sustentáveis e orientadas para o cliente. Dificilmente uma empresa admite que o seu apoio ao cliente não funciona, que demora semanas a responder ou que repete sistematicamente os mesmos erros. Para compreender a realidade, a inteligência artificial necessita de confrontar o discurso oficial com fontes independentes e experiências concretas.

Aquilo que os consumidores dizem, a forma como a marca responde e os padrões públicos que ficam registados condicionam a sua probabilidade de ser recomendada por uma Inteligência Artificial. Uma empresa com milhares de reclamações ignoradas, respostas defensivas ou problemas recorrentes pode continuar a investir milhões em publicidade. Pode comprar alcance, patrocinar conteúdos e gerar notoriedade, mas terá cada vez mais dificuldade em contrariar aquilo que os dados públicos demonstram.

Por isso, uma marca que não faça uma gestão ativa e adequada da sua reputação pública corre hoje um risco muito superior ao de receber críticas. Corre o risco de não ser escolhida. E, na maioria das vezes, nem sequer saberá que esteve a ser considerada.

Em suma, esta mudança obriga que os conselhos de administração a revejam a forma como acompanham a reputação. Pois já não basta medir notoriedade, alcance, sentimento nas redes sociais ou número de notícias publicadas. É necessário perceber como a marca é descrita pelos modelos de Inteligência Artificial, em que contextos é recomendada, quais são os concorrentes apresentados, que fontes sustentam essas respostas e que problemas afastam a empresa das escolhas dos consumidores.

A influência pertence agora a quem consegue provar que é de confiança. Porque a próxima corrida comercial de uma marca, não vai acontecer no ponto de venda, no site ou no carrinho de compras. Poderá acontecer dentro de uma conversa privada entre um consumidor e uma Inteligência Artificial.

Sem clique. Sem visita. Sem lead. E sem aviso.

O povo está fora do Congresso

Com as convenções partidárias em andamento, começam oficialmente as eleições de 2026. É uma rotina sem tropeços ou obstáculos autoritários desde a derrubada da ditadura. Parece um sonho de verão, só que a realidade de escândalos, a miséria de ideias e a grossa corrupção levam às perguntas:

— Sou representado pelos políticos eleitos para o Congresso?

Ou, mais direto:

— O Congresso é a cara do Brasil?

Para ambas as perguntas, a resposta só pode ser:

— Não.

Nem precisaria de estatística para chegar ao óbvio: basta olhar a estrutura montada com dinheiro público para alçar um cidadão (ou cidadã) ao Parlamento. Aos poucos, os políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado; em resumo, é quase impossível de ser acessado por quem está do lado de fora, sem toda essa mão na roda que é dada a um “irmãozão”.


Como os critérios de assunção à legenda e ao financiamento das candidaturas se encontram na mão dos chefes partidários, pode-se dizer adeus à renovação, salvo milagre. A Constituição de 1988 e a legislação eleitoral deixaram em aberto vários flancos, a começar pela possibilidade de reeleição infinita do parlamentar. Pelo arcabouço institucional, é o próprio Congresso que se autolegisla e, portanto, autobeneficia-se como demonstram os escândalos dos últimos anos.

Nos dados publicados pela Justiça Eleitoral, a sombra e água fresca aparece estampada nos seguintes números:

1. Os 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral devem receber para as eleições de 2026 quase R$ 5 bilhões do fundo eleitoral.

2. O fundo partidário, cujo nome de fato é Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, repassou a 19 partidos, em 2025, R$ 1,1 bilhão.

De acordo com a Lei Eleitoral, retrofitada a cada novo ciclo pelos políticos, cerca de 95% do fundo partidário é distribuído aos partidos na proporção de votos obtidos na eleição para a Câmara dos Deputados. É um sistema de retroalimentação: a votação conseguida com dinheiro público resulta no montante dado à agremiação política para disputar o pleito seguinte.

Parece algo bacana, mas é essa esperta engenharia que faz o Brasil ter uma das piores representações desde a redemocratização. A partir da proibição de doações empresariais, o país passou por duas eleições gerais (2018 e 2022) e três municipais (2016, 2020 e 2024). Sob a nova legislação, o que se viu foi uma baixíssima renovação — além do aumento absurdo das verbas públicas destinadas às agremiações partidárias por iniciativa dos próprios beneficiários.

O novo modelo de financiamento tirou a roupa de um santo para vestir outro. Se o argumento era que somente algumas empresas controlavam as doações — falava-se em 1% delas —, talvez parte da chamada polarização e da vigente miséria intelectual dos parlamentares tenha relação com os bilhões públicos colocados na mão dos dirigentes partidários nos últimos anos (desde 2015). É um dinheiro que não vem por mérito.

Estudo publicado no American Economic Journal: Economic Policy, em 2024, mostrou que a decisão de 1995 na França, semelhante à tomada pelo STF, provocou uma maior radicalização nos discursos de candidatos fora do mainstream da política — segundo Julia Cagé e coautoras em citação no artigo de Manoel Gehrke no site da Transparência Internacional.

Pode ser cedo para cravar no financiamento público, nos moldes costurados pelos políticos, o gosto amargo da polarização. Não custa, porém, colocar os números na mesa. Os maiores beneficiários em 2026 são os dois polos da polarização: o PL, com R$ 881 milhões; e o PT, com R$ 615 milhões. Em seguida, União Brasil, com R$ 526 milhões. Aos fundos destinados às agremiações, se somam os diversos tipos de emendas parlamentares, que vão diretamente aos mandatos individuais — em 2025, R$ 58,4 bilhões.

Sendo dinheiro público, é melhor aprofundar a análise, lembrando os salários anuais dos dirigentes partidários. Entre as melhores remunerações, em números de 2025, estão o conhecidíssimo Ovasco Resende, do famoso PRD, que recebeu R$ 630 mil; José Luiz Penna, do PV, com R$ 501 mil; e Valdemar Costa Neto, do PL, com R$ 404 mil.

Sempre que é citada uma maracutaia na Câmara, Hugo Motta defende que querem criminalizar a política. Como notou Joaquim Falcão em “A oligarquia dos Poderes — E a crise da democracia”, há um arranjo estranho entre os Poderes da República para não cumprir seus deveres — eu diria: um cobrindo o erro do outro. O Congresso é só uma peça dentro do arranjo. É assim que o Brasil deixou de ter um Parlamento que seja a sua cara. Em seu lugar, uma minoria esperta que esfacelou a democracia representativa.
Miguel de Almeida

O ódio é como o dinheiro

O ódio não é só contagioso: é uma moeda. Como o euro, precisa de ser aceite por toda a gente para poder circular à vontade.

Já nem precisamos do papel das notas: aceitamos que aqueles números no écran são dinheiro. E porquê? Porque os outros também aceitam que aqueles dígitos eletrônicos servem para receber e gastar.

Mas o que aconteceria se, de repente, todos exigíssemos aqueles números todos em notas? Ou em ouro?

O ódio precisa do mesmo acordo silencioso: a nossa moeda política agora é o ódio.

O ódio faz mal a quem o sente: isto está mais do que provado. O ódio ocupa a cabeça e a cabeça fica sem lugar para as coisas que fazem bem. O ódio gasta a nossa sensibilidade. O coração deixa de registar as ternuras e miudezas de que precisa para estar aberto à beleza e à bondade.

Odiar quem nos odeia é fazer o jogo deles. É o que os extremistas querem. Querem odiar-nos e, como tal, agradecem quaisquer motivos para odiar-nos que nós lhes possamos dar.

É como o jogo da sardinha: é preciso que a outra pessoa aceite jogar e estique as mãos que vão levar a chapada. Quanto mais forte for a chapada que nos dão, maior a facilidade com que lhes daremos uma chapada igualmente forte.

É assim com toda a violência e todo a política do ódio: resume-se a queixinhas de “ele é que começou” e “ele é que me bateu primeiro na cara”.

Para assistir a estas tristezas, é preciso haver espectadores, e árbitros. E estes não podem odiar. Senão os odiadores nem sequer se procurarão justificar diante deles.

A resposta errada ao ódio é o ódio. O conteúdo quase não interessa. E quase não interessa de que lado é que se está.

A única coisa que interessa é isolar o ódio. É deixá-lo a brincar sozinho. É responder não com amor, não com a oferta da outra face, mas com frieza, com indiferença às causas daquele ódio, porque o ódio tira a razão a quem a tem. Por isso é que o ódio sabe tão bem e é tão perigoso: é uma vingança instantânea e permanente.

Merece a solidão.
Miguel Esteves Cardoso

A democracia degenerada

Em A oligarquia dos Poderes: e a crise da democracia, Joaquim Falcão nos oferece um livro que fará parte do cânone das obras de interpretação do Brasil neste momento de nossa história. Ao mesmo tempo defende e aponta os defeitos da democracia brasileira, apropriada por uma oligarquia que usa o Estado para obter benefícios para seus grupos e parentes. Falcão faz uma espécie de autópsia de como nossa democracia é usada por oligarquias — sejam escravocratas, latifundiários, usineiros, advogados, políticos, juízes, banqueiros, industriais, sindicalistas — que se sucedem sem respeitos aos interesses do povo ou da nação. Ele explicita que a legalidade foi criada e é usada para beneficiar oligarcas, seus grupos e famílias, por meio de manipulações das leis e dos orçamentos que elaboram e operam em benefício próprio.


Com robusta base analítica, lucidez, conhecimento e coragem, o autor mostra a ossatura histórica de nosso sistema político e expõe com tal crueza as entranhas das instituições que nos permite usar o termo degenerada como adjetivo para qualificar nossa democracia. Essa é a impressão que permanece ao longo de uma leitura que deslumbra pelo estilo e assusta pelo conteúdo, desferindo verdadeiros tapas na consciência do leitor brasileiro.

Com estilo leve, mas conteúdo rigoroso e conhecimento profundo, Joaquim Falcão define as características da "democracia originária importada, cujas adaptações a tornaram oligárquica politicamente e degenerada socialmente". Sustenta que as seis intenções originais não sobreviveram no Brasil: pluralidade dos Poderes, independência dos Poderes, freios e contrapesos, existência de uma palavra final, eleições gerais, livres e periódicas e, sobretudo, a necessária adesão social, sem a qual a democracia carece de justificativa ética e de sustentação política.

Embora faça gestos para beneficiar parcelas excluídas da população, nossa democracia nega a adesão social. Mantém a renda concentrada, a desigualdade social, o analfabetismo e uma educação básica sem qualidade nem equidade, ao mesmo tempo em que preserva privilégios como supersalários, isenções fiscais, penduricalhos, aposentadorias especiais, benesses e subsídios e, sobretudo, um sistema de segregação educacional. É um sistema de privilégios construído graças ao que o autor chama de conluio entre grupos e "parentela".

Cada capítulo permite ver a imoralidade política e a maldade social da elite oligárquica que dirige o país nos Três Poderes ao longo da história, inclusive no quase meio século desde a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988. De tempos em tempos, essa democracia degenerada promove uma falsa adesão social: condecora alguns plebeus com títulos de nobreza sem romper os privilégios aristocráticos. É como se, em vez de abolir a senzala, alguns escravos fossem escolhidos para morar na casa-grande. É o que ocorre com as cotas sociais para dar ingresso de alguns pobres no ensino superior sem que os filhos do povo sejam todos alfabetizados e colocados no mesmo sistema nacional de educação básica com qualidade e equidade.

Ao ler os capítulos sobre como se constrói a práxis oligárquica do conluio e da parentela, o leitor sente um misto de indignação e vergonha ao perceber que somos parte desse conluio e ao refletir sobre como regenerar a democracia. O livro terá papel fundamental para o futuro se os seus leitores se lembrarem que também são eleitores: responsáveis, culpados e capazes de romper a oligarquia dos poderosos, enfrentando a principal causa da degeneração — a desigualdade como a educação separa os filhos do povo dos filhos da elite para perpetuar a democracia oligárquica brasileira.

O pequeno livro de ficção Jogados ao mar transmite essa realidade em um capítulo no qual uma médica, militante no seu sindicato e em um partido de esquerda, demite sua empregada doméstica porque ela reivindicava que seus filhos estudassem na mesma escola que os filhos da patroa. Tanto quanto os trabalhadores brancos na África do Sul, ela faz parte da oligarquia.

A oligarquia sabe que, mais do que a manipulação das leis ou o uso de militares como fantoches, a permanência de seu poder decorre da recusa em oferecer aos próprios filhos a mesma escola destinada aos filhos do povo. A democracia degenerada separa desde o nascimento seus filhos dos filhos do povo — esse é o berço contínuo da desigualdade e segregação. A regeneração da democracia brasileira passa pela adoção de um sistema nacional sem oligarquia escolar, todos com a mesma chance para desenvolver seu talento.

Um bom motivo para se orgulhar: e não é o futebol

Mais uma vez o SUS nos dá motivo para comemorar. Os avanços trazidos pela vacinação no Brasil são muito significativos. O mais impressionante deles é a redução, em 2026, de 52% nos casos de síndrome respiratória aguda grave pelo Vírus Sincicial Respiratório, o VSR, principal causa da bronquiolite — uma queda de mais da metade das internações de bebês pela doença. Isso significa a redução de mortes, sequelas e sofrimento para inúmeras famílias.


Essa grande conquista é atribuída à vacinação das gestantes contra o VSR, indicada a partir da 28ª semana de gravidez. A vacina estimula a produção de anticorpos pela mãe, que são transferidos ao bebê durante a gestação, promovendo sua proteção nos primeiros 5 a 6 meses de vida, quando o risco de casos graves pelo VSR é mais elevado.

A adesão das gestantes foi maciça, algo extraordinário nesses tempos de negacionismo vacinal. Com mais de um milhão de doses aplicadas, a cobertura ficou próxima dos 90%. O resultado: no primeiro semestre de 2026 foram registrados 6.674 casos graves em bebês menores de seis meses (dados do Ministério da Saúde), contra 14.061 no mesmo período de 2025.

É bom lembrar que o SUS também oferece outra arma eficaz contra esse perigoso vírus: o nirsevimabe, um anticorpo monoclonal muito eficaz para evitar casos graves, para prematuros de até 37 semanas e crianças de até 23 meses com comorbidades.

Outro dado que representa uma excelente notícia é a redução progressiva do número de crianças com zero dose de vacina, isto é, que não receberam nenhuma dose da vacina Pentavalente. O número caiu de 360 mil em 2023 para 250 mil em 2024 e apenas 50 mil em 2025 (dados do Unicef – OMS), numa progressão fantástica.

Estamos recuperando nossas altas coberturas vacinais, que sempre nos orgulharam e protegeram nossa população, depois de uma década de queda. A gestão do Ministério da Saúde no governo Lula, a competência das equipes, o combate à desinformação pelo governo, influenciadores e grande mídia, o esforço de secretarias municipais de saúde, entre as quais o Rio se destaca, são fatores que levaram a esse avanço significativo.

O SUS é talvez a maior conquista civilizatória do Brasil. Nenhum país com mais de 200 milhões de habitantes ousou construir um sistema de saúde universal, integral e gratuito — e nós o fizemos. Ele está na vigilância sanitária que protege nossas fronteiras, regulamenta e fiscaliza nossos remédios e alimentos. Está na prevenção e no saneamento, na vacinação que erradicou doenças graves. Vai das equipes de Saúde da Família, que conhecem cada morador e prestam cuidado integral nas comunidades, ao maior sistema público de transplantes do mundo. Vai da unidade básica ao hospital de alta complexidade, do consultório dentário à ambulância UTI do SAMU, do pré-natal à cirurgia mais sofisticada, da farmácia popular à quimioterapia de última geração. Tudo isso sem que o dinheiro se interponha na relação entre quem cuida e quem é cuidado. Muito diferente de países como os EUA, onde uma internação pode significar a falência familiar. O SUS tem problemas: filas, carências, desafios de gestão e subfinanciamento crônico — mas ainda assim é o que garante que a saúde seja direito de todos, e não mercadoria.

Se a seleção brasileira não nos deu motivo de orgulho, é bom lembrar que temos o SUS: uma política pública que cuida, protege, distribui renda, trata e previne doenças, atuando do nascimento aos cuidados paliativos, do individual ao coletivo, à qual têm direito todos os mais de 200 milhões de brasileiros. Apesar das suas falhas, que não poderiam deixar de existir num sistema tão complexo e ambicioso, ele representa uma conquista gigantesca e um motivo de tremendo orgulho para todos nós.

domingo, 26 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Quando a distopia americana de Trump vai além do gênero literário

“Estamos vivendo uma distopia”, comentou um velho amigo radicado há décadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. Pesa em sua avaliação o fato de que os imigrantes latinos são perseguidos nas ruas por agentes federais que atuam como uma verdadeira milícia patrocinada pelo presidente Donald Trump. Mascarados e fortemente armados, eles abordam trabalhadores, cercam bairros, invadem locais de trabalho e detêm pessoas com base na aparência, no sotaque ou na suspeita de situação migratória irregular. Práticas características do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade.


Por causa dessa conversa, aguardo a chegada às livrarias de “Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana”, do jornalista Jamil Chade, cujo lançamento será em agosto. Com prefácio do cineasta Walter Salles, o livro mostra o esgarçamento da democracia nos Estados Unidos entre a campanha eleitoral de 2024 e o início do segundo governo Trump. Chade percorre os lugares onde se espalham o medo, o rancor, a pobreza e a ilusão, de Manhattan à fronteira mexicana, do Madison Square Garden aos abrigos destinados aos deportados.

O resultado é um ensaio jornalístico sobre como as democracias podem sucumbir. A força do livro decorre de sua materialidade. Os fatos aconteceram. As pessoas perseguidas têm nome, família, emprego e endereço. Os agentes que as detêm pertencem ao Estado. As ordens partem da Casa Branca. Os recursos são aprovados pelo Congresso. As deportações aparecem nas estatísticas oficiais, enquanto as ameaças contra universidades, professores, minorias e servidores públicos se transformam em decretos, normas administrativas e decisões orçamentárias. E inibem as denúncias e protestos. Não é ficção literária.

Em “1984” (Camelot Editora), Orwell concebeu um Estado que controlava a sociedade pela vigilância, pela manipulação da linguagem e pela fabricação de inimigos. Trump não criou um Ministério da Verdade, mas construiu um ecossistema político no qual fatos inconvenientes são denunciados como falsos, adversários são apresentados como inimigos internos e a lealdade ao presidente se sobrepõe ao respeito às instituições.

O imigrante é responsabilizado pela criminalidade, pelo desemprego, pela deterioração das cidades e pelas deficiências dos serviços públicos. Produz-se, assim, uma falsa ameaça permanente, para justificar poderes excepcionais e impor o medo à sociedade, como como aconteceu com os judeus na ascensão do fascismo na Itália e na Alemanha.

Segundo levantamento do Migration Policy Institute, 622 mil estrangeiros haviam sido deportados desde a posse de Trump até o fim de 2025, enquanto as detenções realizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, chegaram a cerca de 1.200 por dia. Parte expressiva dos detidos não possuía condenação criminal. Houve também cidadãos norte-americanos presos, separação de famílias, transferências para prisões estrangeiras e tentativas de restringir o direito de defesa. A Suprema Corte precisou reafirmar que até os estrangeiros submetidos à Lei dos Inimigos Estrangeiros têm direito a ser notificados e a contestar sua expulsão.

A distopia americana de Donald Trump não é uma metáfora. O terror político gerado pelas deportações difunde a insegurança entre milhões. Famílias evitam hospitais, escolas, igrejas e repartições por medo de detenções. Trabalhadores deixam de denunciar abusos. Crianças regressam para casa sem saber se encontrarão os pais. Agentes mascarados podem deter as pessoas sem se identificar claramente e levá-lo para lugar desconhecido; para eles, já existe um regime de exceção. Quatro pessoas foram mortas à frente de todos por essa milicia de Trump, duas das quais norte-americanas.

Em “Fahrenheit 451” (Biblioteca Azul), de Ray Bradbury, os livros eram queimados porque preservavam a complexidade, estimulavam perguntas e impediam o pensamento uniforme. Trump não precisa organizar fogueiras em praças públicas. Mas manda retirar livros de bibliotecas, eliminar referências ao racismo, perseguir programas universitários e condicionar recursos federais à adesão ideológica. Trump revogou políticas de diversidade, equidade e inclusão e passou a considerar o combate ao racismo uma forma de discriminação contra os brancos.

Jamil Chade demonstra o absurdo dessa operação ao percorrer o delta do Mississippi, região decisiva para a expansão econômica dos Estados Unidos e profundamente marcada pela escravidão. Em West Helena, no Arkansas, 35% dos cerca de oito mil habitantes vivem abaixo da linha da pobreza. No Mississippi, o estado mais pobre do país, 45% da população estão abaixo da linha de pobreza ou integra os segmentos de baixa renda. A paisagem de casas abandonadas, lojas fechadas e serviços precários não corresponde à prosperidade prometida pelo movimento Maga (Make America Great Again). É o avesso do chamado sonho americano.

Uma família negra recebe anualmente cerca de US$ 30 mil menos do que uma família branca. Há um desmonte da proteção social. A lei orçamentária aprovada em 2025 reduz em mais de US$ 1 trilhão os gastos federais previstos com saúde ao longo de uma década e 10 milhões de pessoas a mais ficarão sem seguro-saúde. Uma guerra cultural fomenta a distopia. Trump produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas são transformados em ameaças aos valores tradicionais. A fé também é instrumentalizada. Deus, pátria e governo estariam unidos num mesmo projeto. O dissidente político passa a ser tratado como inimigo da nação, da família e dos cristãos.

Fingidores de sempre fingem e há quem acredite!

Somos mais fortes do que aqueles que fingem nos governar. O fascismo está em alta nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Não temos consciência da nossa força porque nosso conceito de poder geralmente envolve aqueles que elegemos.

Angela Davis, filósofa e ativista socialista americana

O comunismo dos retardatários

O final do século XVIII foi palco das grandes revoluções no mundo ocidental – a Revolução Industrial na Inglaterra, a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos, também chamada de Revolução Americana. O século XIX assistiu à consolidação da modernidade econômica, social e política – o progresso, o fim das aristocracias absolutistas e o florescimento da democracia. Alheios a essas revoluções, estiveram o Império Russo Czarista, que derrotou Napoleão em 1812; e o Império Chinês, que foi submetido ao Ocidente em meados do século XIX – quero dizer com isso que os conceitos de Revolução Francesa, direitos do cidadão e democracia nunca chegaram a estes confins.

A era da modernidade do século XIX, no Ocidente, foi acompanhada por um intenso processo de urbanização, desestruturação do tecido social, migrações em massa, recorrentes crises econômicas e grandes mobilizações operárias. Em 1848, Karl Marx anunciou o fim do reino da mercadoria, isto é, do sistema na Inglaterra, o país que detinha a hegemonia capitalista internacional; e o nascimento de uma nova era, o socialismo.

O capitalismo, contudo, sobreviveu na Inglaterra e se alastrou pela Europa Continental e pelos Estados Unidos. Friedrich Engels responsabilizou a sobrevida do sistema inglês ao aburguesamento de sua classe operária, por conta da exploração dos trabalhadores do além-mar – uma argumentação terminantemente espúria à teoria de Marx.

No início do século XX foram desintegrados os impérios Austro-Húngaro e Otomano – multiétnicos, multilíngues e multinacionais; e ruíram também os impérios Russo (Revolução Russa de 1917) e Chinês (Revolução Xin Hai de 1911).
O Império Russo

Em 1848, quando Marx considerou que “o capitalismo construiu mais maravilhas para o mundo do que todas as gerações anteriores juntas, incluindo as pirâmides do Egito”, a Inglaterra, com 17 milhões de habitantes, já reunia 50% da população na zona urbana. Em 1917, às vésperas da Revolução, o Império Russo, com 175 milhões de habitantes, constituía uma sociedade essencialmente agrária – apenas 15% de sua população vivia nas cidades.

Vladimir Lenin sonhava em atravessar Varsóvia para se juntar aos comunistas alemães e alcançar Paris, Londres e… Nova York. Mas, concretamente, Lenin e Joseph Stalin, em seu “socialismo real”, se dedicaram, com sucesso, a “desenvolver as forças produtivas” do agrário Império Russo.

Os bolcheviques implementaram a industrialização acelerada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – num ritmo que faria inveja a Frederick Taylor e Henry Ford; e promoveram a coletivização forçada do campo, para garantir o excedente agrícola necessário ao intrínseco processo de urbanização.

Em 1989, depois de transformar o país em uma potência internacional, os bolcheviques foram levados a abrir mão de seus estados satélites no Leste Europeu e, em 1991, dissolver a União Soviética e abdicar do poder na Rússia.

James Baker, secretário de Estado dos EUA, reunido com Mikhail Gorbachev para tratar da reunificação da Alemanha, garantiu que a “OTAN não se moveria uma polegada para o leste”, que os países do extinto Pacto de Varsóvia constituiriam uma zona neutra entre os dois blocos políticos. Mas, com a dissolução da URSS em 1991, a OTAN considerou o acordo sem efeito e não só absorveu o Leste Europeu, como passou a contemplar a Ucrânia também.

Distrito financeiro de Lujiazui em Xangai

A China, às vésperas da Revolução de 1949, com 540 milhões de habitantes, constituía uma sociedade ainda mais rural do que o Império Russo em 1917 – apenas 10% de sua população vivia nas cidades. A República Popular da China também se empenhou em “desenvolver as forças produtivas” da agrária sociedade chinesa.

Entre 1958 e 1962, promoveu o Grande Salto Adiante, em um período de crise e fome que levou milhões à morte. Após a radical e violenta Revolução Cultural (1966-1976), o Partido Comunista da China – PCCh, nos anos 1980 e sem abrir mão do poder, resolveu mercantilizar a economia, valorizar os mecanismos de mercado, iniciativa privada, empreendedorismo, competitividade e abertura da China ao investimento capitalista internacional.

A indústria chinesa atraiu o capital estrangeiro e invadiu o mundo com mercadorias descartáveis – produzidas por disciplinados trabalhadores com baixo nível de consumo – e taxas de câmbio administradas. A China industrializou-se, generalizou a mercadoria e, em recordes 40 anos, deixou de ser um país pobre para, com tecnologia de ponta, se transformar na maior economia do planeta, o país que detém hoje a hegemonia internacional do capital.

A mercadoria não tem preconceitos de “raça”, cultura, gênero etc. O capitalismo industrial, a partir da Inglaterra, generalizou a mercadoria pelo mundo, além de incluir as mulheres no mercado de trabalho, emponderando-as e libertando-as da condição de procriadoras.

Nas sociedades agrárias russa e chinesa, particularmente, o processo de mercantilização da economia – industrialização, urbanização, modernização e desestruturação da sociedade rural tradicional para garantir o excedente agrícola – foi propiciado pela ascensão dos comunistas ao poder.

Os campônios, que representavam 85% da população no Império Russo e 90% da população na China, se aliaram aos comunistas para se livrarem da exploração dos senhores de terra – para descobrirem, mais tarde, que foram traídos, que teriam que elevar ainda mais o seu excedente agrícola – de modo a alimentar a industrialização de seus “retrógrados” países e propiciar “o desenvolvimento das forças produtivas”.

A mercadoria é democrática – a hegemonia capitalista mundial passou da Inglaterra no século XIX para a “inculta” sociedade norte-americana no século XX; e desta para “os china” no século XXI. Para se ter uma ideia dos direitos dos trabalhadores na atualidade, seguem o corrente número de horas semanais e o direito a férias em alguns países selecionados.

Na Inglaterra, a jornada de trabalho é de 37 a 40 horas, com 4 semanas de férias ao ano; na Alemanha, 35 a 40 horas de trabalho e 4 semanas de férias; e na França, 35 horas de trabalho e 5 semanas de férias. Na Rússia são 40 horas de trabalho e 4 semanas de férias.

Nos Estados Unidos, a jornada é de 40 horas, mas as férias não são regulamentadas; empresas costumam oferecer férias do tipo 1 semana nos primeiros 5 anos de trabalho, 2 semanas de 5 a 10 anos, 3 semanas de 10 a 20 anos e 4 semanas após 20 anos de serviço (a contagem do tempo de trabalho para efeito das férias recomeça do zero a cada novo emprego). Na China, legalmente, são 44 horas e 1 semana de férias nos primeiros 10 anos de trabalho, 2 semanas de 10 a 20 anos e 3 semanas após 20 anos de serviço.

A China garante hoje um sofisticado consumo à elite e uma situação financeira bastante confortável à classe média urbana, enquanto 800 milhões entre os 1,4 bilhão de habitantes sobrevivem com restritos direitos trabalhistas e sociais – 450 milhões de camponeses na zona rural e 350 milhões de migrantes urbanos e principalmente rurais que vivem e trabalham em cidades na qualidade de cidadãos de segunda classe.

A extremamente autoritária e eficiente República Popular, embora declare como ilegal, “não consegue” livrar a China dos regimes 996 e 997 (doze horas de trabalho, das 9h às 21h, 7 dias por semana). Em 2020, uma empresa de entregas, que demitiu um funcionário que se recusou a cumprir a jornada 996, foi condenada a pagar uma indenização de 8.000 yuans ao trabalhador (equivalente a um mês de trabalho). A empresa também “recebeu advertências”, porque suas normas e regulamentos exigiam 72 horas semanais (28 horas excedentes às 44 horas legais) e 120 horas extras ao mês (84 horas excedentes às 36 horas-extras legais).

Apesar da ridícula indenização determinada pela justiça, o Supremo Tribunal Popular e o Ministério de Recursos Humanos e Seguridade Social divulgaram este caso como paradigmático. O mais significativo, entretanto, é que o governo não se declara contra as prolongadas jornadas simplesmente por serem insanas, mas também por privarem os trabalhadores exaustos de constituírem um mercado de consumo em condições de aquecer a economia do país, de acordo com o Plano de Ação Especial para Impulsionar o Consumo – o que confirma que a mercadoria, soberana, rege hoje a sociabilidade da milenar civilização chinesa.

As grandes marcas e grifes internacionais, que alimentam a elite mundial e, particularmente, a elite chinesa, também gostariam de ampliar o seu mercado consumidor e aquecer a economia da China – anseiam por lançar uma linha “mais popular” e acessível para contemplar os 490 milhões de chineses da classe média. Contudo, estão empenhadas neste projeto com muito cuidado para não melindrar a elite (e acabar perdendo este seu mercado cativo).

Mais que nunca, pensar

A IA anda à procura de filósofos. Dez anos atrás, segundo um boletim repercutido pelo The New York Times, recomendava-se a estudantes em ciências sociais e filosofia aprender programação de computadores se quisessem conseguir empregos no futuro.

Pesquisas recentes indicam, entretanto, que a empregabilidade é cada vez maior entre graduados em estudos culturais e filosofia. Em nada diminuiu a importância da programação, mas já é função assumida pelas próprias máquinas. Elas fazem de tudo na lógica dos números, só não pensam.


Mas as máquinas deixam claro que a existência ultrapassa a lógica, impotente no incessante transformar-se do mundo, onde se mostram apenas a existência e a realidade. Em outras palavras, a razão que faz funcionar a inteligência artificial não é a mesma do pensamento essencial fragmentação da vida, ao mistério do mundo, que é a cultura. Jorge Luis Borges bem o viu: "A solução do mistério é sempre inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e do divino; a solução, do jogo manual" (em "O Aleph").

Nenhum esoterismo nessa ideia de mistério. É só uma palavra para o que se oculta no movimento de aparecer e velar da physis, a natureza. Místico é o que se esconde, o que aciona a criatividade de toda cultura. Para isso, é preciso especular, imaginar, pesquisar, seja com as artes do pensamento, da criação ou do trabalho científico.

Tudo disso difere da combinatória dos saberes armazenados para resolver problemas práticos e imediatos. É o que Borges chama de "jogo manual", hoje uma interação com o hardware dos computadores. Num software, o logaritmo é mera sequência lógica de caminhos para dar solução rápida a determinada questão. É funcionamento de máquina, não pensamento ou busca de sentido para as coisas.

Mas há criações humanas que, sem serem meras combinações do já dado, prescindem de sentido. É o caso da música, que engendra o seu próprio real. Igualmente, a matemática, que tem rigorosa coerência, mas não sentido, e se aproxima da linguagem da physis: "O livro da natureza está escrito em linguagem matemática" (Galileu Galilei).

É assim que a matemática, indo além da medição, pode ensejar a construção de mundos, que não apenas replicam a realidade, mas produzem novos universos conceituais. E com todo o seu rigor, costeia a mística. O jovem indiano Ramanujan, um dos maiores matemáticos do século passado, atordoou os luminares britânicos ao revelar que suas complexas equações lhe eram sopradas em sonho por uma divindade familiar.

Agregadas como pensamento, matemática, música, ciências da natureza e do homem mostram que a redução da complexidade da vida à eficácia produtiva e ao consumo é efeito de uma programação neoliberal capaz de levar ao emburrecimento do mundo.

A soberania tecnológica de uma nação depende hoje de IA, mas não resulta da importação de modelos lógicos avançados, e sim de pensamento próprio, de universidades que respirem como territórios livres. Pensar, singularidade humana, não virá salvar apenas empregos, mas a nossa própria espécie.

Eleição entre soberania e entreguismo, ordem e desordem. Milei: o lixo

O esforço dos Estados Unidos de interferir no processo eleitoral brasileiro em favor de Flávio Bolsonaro não é mais nem uma possibilidade nem uma hipótese: trata-se de uma realidade. E, como os fatos também revelam, a operação é conduzida em parceria com a família Bolsonaro, a começar do próprio candidato, sob a orientação, digamos, ideológica de Eduardo e Paulo Figueiredo — Pinky e o Cérebro do intervencionismo.

Como revelou o jornal “The Washington Post”, Marco Rubio queria despachar um par de funcionários para vir ao Brasil com o intuito de pôr em dúvida a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Trata-se de Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente do Departamento de Estado. Os respectivos pedidos de visto já foram negados pelo Itamaraty.

A notícia vem a público três dias depois de Flávio participar de um seminário em Brasília, na terça, em que repetiu as acusações falsas de seu pai, o golpista condenado Jair Bolsonaro, às urnas eletrônicas. Nesta quinta, foi a vez de Eduardo participar de uma live, em companhia de Fernando Cerimedo, o picareta argentino que inventou uma teoria conspiratória sobre a totalização dos votos em 2022, para acusar vulnerabilidade no sistema eleitoral e sugerir que houve fraude naquela eleição.

“Argentino Picareta”? Javier Milei discursou há pouco na Convenção do PL que oficializou o nome de Flávio à Presidência. Nesta sexta, o agora candidato do partido publicou nas redes um vídeo feito por IA em que ambos chegavam ao estádio do Pacaembu, em São Paulo, pilotando caças. A Argentina — então Províncias Unidas do Rio do Prata — não invade solo brasileiro desde a Batalha do Passo do Rosário (ou de Ituzaingó, com a chamam  os “hermanos”), em 20 de fevereiro de 1827. Agora temos essa cortesia de Flávio, ainda que no território da fantasia.

É grotesco. O “Leão”, como Milei chama a si mesmo, contrastando a mixuriquice de seus dotes físico e moral com a majestade do bicho, falou contra uma suposta ameaça socialista e, ao lado do Zero Um, dançou ao som de “Panic Show”, da banda La Renga, como faz em todos os seus eventos — à revelia da vontade do grupo, note-se:

“Olá a todos! Eu sou o leão
A fera rugiu no meio da avenida
Todos correram sem entender
Show de pânico em plena luz do dia
Por favor, não fujam de mim
Eu sou o rei de um mundo perdido
Eu sou o rei e eu vou te destroçar
Todos os cúmplices são do meu apetite
Não fuja! Venha a mim
Fique desnudo e enfrente meus dentes
Eu sou o rei, o leão
Venha saber como é”.

O vídeo circula por aí. Não parece coisa de gente que transita clinicamente no vasto orbital da normalidade.

Quando os EUA impuseram a tarifa de 25% a parte dos produtos brasileiros, mais uma das delicadezas do Imperador do Norte impostas a nosso país com o patrocínio interno da família Bolsonaro, Rubio houve por bem desferir um ataque a Lula nas redes, descontente porque o presidente brasileiro não assentiu em se comportar como um estafeta do império, o que Flávio lhe prometeu numa carta pessoal e num documento de 84 páginas enviado ao Escritório de Representação Comercial (USTR).

Rubio emprestava um viés político àquilo que é parte da guerra comercial de Washington contra o… mundo, o que se confirma com a tarifa adicional de 12,5%, esta imposta a 59 países mais a União Europeia. Donald Trump elegeu o planeta como alvo, mas é evidente que o Brasil vive uma circunstância particular.

A investida protecionista e, a rigor, anticapitalista de Trump não encontra eco entre seus aliados ideológicos em nenhum outro país do mundo. Ele costuma ser até bem desagradável com aqueles que compartilham alguns de seus valores ideológicos. Há, no entanto, duas exceções: o Brasil e a Argentina.

Por aqui, a família Bolsonaro, que tem a hegemonia da extrema direita e fagocita parte considerável da direita amorfa, aceita ser o instrumento da tentativa de tomar de assalto a economia. Assim, a presença de Milei, outro esbirro do trumpismo, é apenas uma ilustração cômica, apalhaçada, da subserviência e do entreguismo. Eduardo já ganhou o “green card” como gorjeta. Imaginem quanto pode render a concessão das terras raras e do Pix — ainda que de forma maquiada —a seus patrões caso Flávio vença a eleição.

Os setores da indústria e do agro que se engraçavam, ou se engraçam ainda, com Flávio fiquem espertos. A depender do resultado da eleição, preparem-se para atuar como meros agentes de um novo “Pacto Colonial”.

Tudo está devidamente exposto. Nem chega a haver opinião neste texto. Listo evidências apenas. E, se alguém achou exagerada a interpretação que deu o Itamaraty à classificação das organizações criminosas como terroristas, alertando para o risco óbvio de invasão do território brasileiro — o que as leis norte-americanas facultam —, bem, a esta altura, creio, caberia uma reconsideração. Os dois funcionários de Rubio falam por si. Ademais, tal designação permite que a CIA realize operações secretas em nome da… segurança dos EUA.

Você não gosta de Lula e do PT? É parte do jogo democrático. Cada um escolha o seu sonho e o seu voto. O que resta inequívoco, e isto não depende nem da minha vontade nem da sua, é que a eleição de outubro se dará entre forças que representam a soberania — e não excluo que equívocos se cometam em seu nome; também isso é do jogo — e as forças mais escancaradas do entreguismo.

Se a soberania pode se equivocar, o entreguismo, do seu ponto de vista, não se equivoca nunca: está sempre a serviço da intervenção e dos seus próprios interesses mesquinhos. No primeiro caso, pode-se fazer uma correção de rota; no segundo, firma-se o pacto com a destruição do país. Sem retorno.

Em seu discurso, Milei nos brindou com esta frase de suposto requinte intelectual:

“O Brasil pode se somar à transformação regional que, nos últimos anos, levou a América Latina a deixar de ser uma região associada à miséria romantizada, retratada por certas obras de realismo mágico, para se tornar um sinônimo de progresso. Creio firmemente que não há outro caminho capaz de afastar o risco que paira sobre o Brasil, como uma ‘Espada de Dâmocles'”.

A literatura latino-americana, com efeito, é rica no chamado realismo mágico, que não fez fortuna crítica no Brasil. Nossa impressionante riqueza literária segue por outros caminhos — e deixo isso para outra hora. O presidente argentino, fica claro, não entende nada dessa corrente: trata-se, não raro, da denúncia da miséria, não da sua romantização. As elites retratadas em tom crítico, muitas vezes fantasmagórico, são precisamente as forças a que se aliam Milei e Flávio. Acerta ao dizer que há uma “Espada de Dâmocles” (pesquisem a respeito depois) sobre o Brasil. E ela é representada hoje por aqueles que atentam contra a sua independência e a sua liberdade.

Milei referiu-se a Alexandre de Moraes como “o lixo Careca”. Tem-se aí mais um evento inédito: um chefe de Estado de país estrangeiro refere-se a um membro do Supremo Tribunal Federal em termos obviamente inaceitáveis, numa outra evidência de uma articulação de forças estrangeiras contra a autonomia do Brasil — e, como resta evidente, em parceria com os Bolsonaros.

O lixo intervencionista vai se acumulando. A eleição, assim, não se dá apenas entre soberania e entreguismo. Também se trata de escolher entre as forças da ordem institucional e as da desordem.
Reinaldo Azevedo

sábado, 25 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Todo poder corrompe

No ano passado, os norte-americanos colocaram no mercado internacional produtos agropecuários no valor de US$ 171 bilhões. O Brasil, no mesmo período, exportou US$ 169 bilhões. Pela primeira vez, em quase um século, os Estados Unidos estão ameaçados de perder a hegemonia no fornecimento de produtos da terra ao resto do mundo. Essa inversão de posições deve-se ao laborioso trabalho da Embrapa no Brasil e às sobretaxas impostas por Trump desde seu primeiro mandato. Ele taxou fortemente produtos chineses. Pequim retaliou. Taxou produtos norte-americanos e deixou de comprar no mercado dos Estados Unidos. Passou a realizar suas encomendas no Brasil.



Os fazendeiros do Meio-Oeste dos Estados Unidos estão inquietos. Reclamam de seu governo, sofrem com o desaparecimento dos principais fregueses e dos lucros que estão se transformando em prejuízo. Resta a Donald Trump perseguir o caminho único de sua obsessão: aumentar tarifas e interferir no comércio internacional. Os resultados não favorecem seus objetivos. Ele já enfiou bilhões de dólares no conflito com o Irã, que provocou elevação dos preços do petróleo em todo o mundo. E despertou a vocação belicista dos persas que começaram a bombardear as instalações norte-americanas em todo o Oriente Médio. As tropas do Tio Sam não mais são capazes de defender seus aliados. Prejuízo sobre prejuízo.


Há motivos político-eleitorais e econômicos para justificar a aplicação de tarifas sobre os produtos brasileiros. Os norte-americanos estão perdendo em segmentos da economia em que trabalhavam sem concorrência. O cenário mudou. O candidato Flávio Bolsonaro não entendeu o quadro que está à sua frente. Ele, a exemplo do pai, tenta colocar a urna eletrônica no centro do debate político. O mesmo erro cometido por Jair. Flávio é senador, eleito por intermédio do sistema brasileiro de votação eletrônica. Ele não contestou a própria eleição. Perde tempo. Não apresentou uma única linha de seu hipotético programa de governo, se existir. A economista Daniella Marques, candidata a ser o posto Ipiranga de um hipotético governo Flávio, passou pela maratona de conversas com representantes do setor financeiro em São Paulo.

Ela conhece os caminhos. Mas ouviu o que não queria. Seus interlocutores, com maior ou menor clareza, afirmaram que seu problema está no candidato. Ou seja, Flávio, que vai sendo colocado à margem por vários partidos. Teresa Cristina, senadora, convidada para ser candidata à vice-presidência, de maneira educada, pediu para esquecerem dela. Na outra ponta, José Sérgio Gabrielli, também percorreu os escritórios na Faria Lima para defender o governo atual. Apresentou argumentos em favor da maior participação de empresas estatais e do próprio governo na economia nacional. Foi um desastre.

O panorama eleitoral brasileiro é construído por contradições espantosas. O candidato de oposição, segundo as pesquisas, não tem chance de vencer no primeiro turno. Ele é fortemente rejeitado pela maioria e até pelo pessoal de centro-direita. Lula carrega também enorme rejeição. Contudo, no eventual segundo turno, Lula aparece empatado com seus concorrentes, sempre segundo as pesquisas. Esse fenômeno aponta para outra direção: o antipetismo é muito forte no país. Quem conseguir chegar ao segundo tempo da eleição, terá chances de vencer o pleito.

A ideologia do governo Lula está estacionada em algum momento dos anos 70. Sua fórmula populista se esgotou. Ele elevou o endividamento do país e não solucionou problemas básicos de habitação, de educação e de infraestrutura. Há grande número de projetos burocráticos que sustentam o noticiário político, mas não chegam à mesa do brasileiro. O Brasil do século 21, com seus 158.745.463 eleitores, apresenta outros desafios. Ainda há um número expressivo de analfabetos no país. Ao mesmo tempo, a sociedade precisa de profissionais qualificados para enfrentar os caminhos do difícil comércio internacional.

Dois exemplos estão absurdamente nítidos. Brasileiros de quaisquer quadrantes deveriam olhar para o que está ocorrendo nas Américas. Cuba, ícone do comunismo tropical, mudou radicalmente. Passou a admitir capital privado em todos os níveis de sua economia. O país quebrou, há cortes de energia que duram mais de 12 horas. A comida e o combustível estão escassos. Hospitais funcionam de maneira precária. A solução encontrada em Havana foi privatizar o possível.

Ao contrário, Daniel Ortega, na Nicarágua, decidiu por vontade própria cancelar as eleições em seu país "para evitar que a oposição tome o poder". Extinguiu a democracia. Ele, velho comunista, tomou o poder de um ditador, Anastásio Somoza, em 1979, para livrar o país da ditadura. Mas reproduziu o que havia antes. Todo poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.

Bets: a pandemia do século

Meu primeiro contato com uma plataforma de apostas ocorreu durante a Copa do Mundo de 2022. Inicialmente, depositei R$ 10 na conta, valor que logo se transformou em um aporte de R$ 20, e assim sucessivamente. Ao fim da competição, meu dinheiro havia se dissipado como um grão de areia levado pelo vento do deserto do Catar, palco daquele torneio. O valor relativamente pequeno que desapareceu em um piscar de olhos da minha conta bancária – cerca de R$ 150 – foi suficiente para me fazer abandonar de vez a jogatina. Infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos brasileiros atraídos pelos jogos online e por mais uma edição do maior evento futebolístico do planeta.

Quatro anos depois da minha estreia no sórdido universo das apostas, pouca coisa mudou. A CazéTV, única emissora do país a transmitir os 104 jogos da Copa do Mundo de 2026, esteve no centro das discussões devido ao bombardeio de propagandas de plataformas de apostas ao longo das transmissões.

A repercussão foi tamanha que o Ministério da Justiça abriu uma investigação para apurar indícios de publicidade abusiva de plataformas de apostas na CazéTV, levando a emissora a adotar novos formatos para esse tipo de divulgação. Em paralelo, o Ministério da Fazenda editou novas regras para a publicidade do setor. As peças publicitárias passaram a ser acompanhadas de advertências, em modelo semelhante ao adotado para propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas.F


Os tentáculos da jogatina no futebol não se restringem à Copa do Mundo. No Campeonato Brasileiro, é praticamente impossível assistir a uma partida sem se deparar com a publicidade dessas empresas, seja nas placas ao redor do gramado, nas inserções durante a transmissão, nos intervalos ou, ainda mais frequentemente, estampada na parte “master” das camisas dos clubes por meio de contratos milionários. Para se ter uma ideia, segundo levantamento da Folha de S.Paulo, um telespectador tem mais chances de ver anúncios de casas de apostas do que a bola rolando no Brasileirão. O veículo analisou 22 transmissões da edição de 2025 em diferentes canais com direito de transmissão.

Como se isso não bastasse, alguns dos principais jogadores (em atividade ou não) e jornalistas esportivos brasileiros são patrocinados por essas empresas, caso do narrador Galvão Bueno (Betnacional) e dos atacantes Vinícius Júnior (Betnacional) e Neymar (Blaze), ambos convocados por Carlo Ancelotti para a disputa do Mundial realizado no Canadá, México e Estados Unidos. Lucas Paquetá, outro atleta chamado para a seleção e atualmente no Flamengo – clube patrocinado pela Betano –, chegou a ser investigado por suposta manipulação esportiva quando defendia o West Ham, atualmente patrocinado pela BOYLE Sports, outra empresa do setor.

Quando se fala em apostas online, existem diferentes modalidades. Há aquelas que dependem da previsão de resultados ou acontecimentos esportivos – como o placar exato de uma partida, número de escanteios ou cartões recebidos por determinada equipe – e as baseadas em algoritmos, popularmente associadas ao “Jogo do Tigrinho” (Fortune Tiger). Semelhantes aos caça-níqueis, elas funcionam de maneira ainda menos transparente. Em comum, todas compartilham o mesmo objetivo: fazer o usuário perder dinheiro, mas continuar jogando por acreditar que, uma hora, receberá uma bolada.

Em dezembro de 2024, a revista piauí lançou luz sobre a explosão das bets ao publicar uma extensa reportagem, que mostrava como a expansão da jogatina virtual foi impulsionada pela publicidade de influenciadores com milhões de seguidores nas redes sociais. A matéria revela, por exemplo, que a empresária Virgínia Fonseca, hoje com mais de 56 milhões de seguidores, foi uma das maiores beneficiadas pelos cachês milionários pagos por empresas do setor para divulgação.

Pouco antes da publicação da reportagem, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), no Senado Federal, para investigar o impacto das apostas virtuais e dos jogos de azar no orçamento das famílias, sua possível associação com organizações criminosas e o papel desempenhado por influenciadores digitais na promoção dessas plataformas. Em maio, quando Virgínia prestou depoimento à comissão, o circo já estava armado. A melhor demonstração da galhofa veio do senador Cleitinho (PL-MG), que pediu um vídeo da influenciadora para sua família.

No fim das contas, o relatório final da CPI foi rejeitado em junho de 2025, e tudo acabou em pizza. Quem pagou essa conta, literalmente, foi a população.

Não chega a surpreender que o setor de apostas online conta com um lobby robusto e bem articulado em Brasília. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, alterna sua agenda entre os corredores do Congresso, viagens a Courchevel, na França, ao lado de seu “irmãozão”, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e viagens luxuosas à ilha de Saint Martin, paraíso fiscal no Caribe, na companhia de Fernandin OIG, apontado, em outra apuração da piauí, como um dos responsáveis pelo “Jogo do Tigrinho”

No Brasil, as empresas de apostas passaram a ter respaldo legal em 2018, durante o governo Michel Temer. No entanto, somente em 2023, já na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, o setor foi regulamentado, com a definição de regras para operação, fiscalização e tributação.

Para atuar legalmente no país, essas empresas precisam obter autorização do Ministério da Fazenda mediante o pagamento de uma licença com prazo de validade determinado. Além disso, devem recolher tributos e cumprir uma série de exigências regulatórias. Com a regulamentação, o governo passou a bloquear e suspender plataformas que operavam sem autorização ou em desacordo com as novas normas, as chamadas bets ilegais. Na prática, porém, muitas dessas plataformas fraudulentas continuam operando irregularmente.

Nesse jogo contra a indústria das apostas, o brasileiro está perdendo de goleada. Desde o início da Copa do Mundo de 2026, mais de um terço da população enviou dinheiro para plataformas do setor. Os números revelam um cenário alarmante: comprometimento da renda, adiamento de projetos de vida, endividamento, impactos sobre a saúde mental e desenvolvimento de comportamentos compulsivos relacionados ao jogo. Para se ter uma ideia, quem seguiu as sugestões de narradores e comentaristas da CazéTV – vale lembrar, a única emissora a transmitir todos os jogos da competição — perdeu dinheiro em quase 61% das apostas, segundo levantamento do ICL Notícias.

O problema pode ser ainda maior. De acordo com dados da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), 34% dos brasileiros entre 18 e 35 anos que ingressariam em uma graduação em 2025 precisaram adiar esse projeto por terem gasto seu dinheiro com plataformas de apostas e cassinos virtuais. A expectativa também é de novo encolhimento das receitas no setor de serviços, já que uma parcela cada vez maior da renda disponível deixa de ser destinada à indústria e ao comércio para ser destinado para casas de apostas.

Em ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a endurecer o discurso contra o setor. Lula afirmou que, se a decisão dependesse exclusivamente dele, acabaria com as bets. A declaração foi interpretada como um aceno ao eleitorado feminino, que tem defendido medidas mais rígidas para conter o avanço dessas empresas.

Uma das iniciativas mais interessantes para combater o vício em jogos de azar foi a criação do serviço de autoexclusão. Por meio dele, qualquer cidadão brasileiro pode restringir voluntariamente o próprio acesso às plataformas autorizadas pelo governo. Apesar do caráter preventivo, a ferramenta apenas mitiga um problema que ainda está muito longe de ser solucionado. (Até o momento, quase 700 mil pessoas já recorreram ao mecanismo de autoexclusão de casas de apostas).

Sejam relacionadas a eventos esportivos ou a jogos baseados em algoritmos, essas plataformas contam com sofisticadas estratégias de publicidade. Se, em um primeiro momento, sua presença estava concentrada nas transmissões de futebol e nas redes sociais de influenciadores com milhões de seguidores, hoje ela se espalhou pelos mais diversos espaços da vida cotidiana. Festivais culturais e eventos tradicionais, como as festas de São João e o Carnaval, passaram a contar com o patrocínio dessas empresas, ampliando sua exposição e naturalizando sua presença no imaginário popular.

Essa pandemia também se espalhou pelo transporte público das grandes cidades. Não é raro encontrar anúncios em trens, metrôs e ônibus com QR Codes que direcionam o passageiro diretamente para plataformas de apostas, oferecendo “bônus”, “rodadas grátis” e outras “vantagens” – entre aspas, mesmo – para atrair novos usuários. Considerando que os brasileiros que utilizam transporte público nas capitais passam, em média, cerca de duas horas por dia em deslocamentos, isso representa quase 120 minutos diários de exposição a estímulos cuidadosamente planejados para seduzir potenciais apostadores e alimentar um comportamento que pode evoluir para o vício. De maneira, no mínimo, sádica, todas essas campanhas vêm acompanhadas do clichê “jogue com responsabilidade” – como se o vício pudesse ser controlado apenas pela força de vontade. A advertência passou a ser obrigatória após a regulamentação do setor promovida pelo governo Lula.

As bets funcionam como uma droga: estão disponíveis 24 horas por dia, ao alcance de um celular, impulsionadas por campanhas publicitárias, influenciadores digitais e pela exposição constante nos meios de comunicação. Como definiu o escritor Sérgio Rodrigues, em coluna publicada na Folha de S.Paulo, “criar uma rede nacional de milhões de cassinos de bolso legalizados e abertos 24 horas não é tão diferente de vender crack no horário nobre”.
Guilherme Loureiro

Contrato e barbaridade

Rousseau disse que a única maneira de se sair da barbárie é o “Contrato Social”, no “Espírito das Leis” de Montesquieu. Na Democracia, os grupos sociais estariam politicamente representados, o sistema eleitoral levaria sempre à eleição dos melhores, e a representatividade na negociação política iria garantir a repartição da renda. Mas nada disso ocorreu. Os grupos sociais não são representados, as eleições elegem, via de regra, os piores, e a distribuição de renda piora cada vez mais. Onde vamos parar?

Do início da Revolução Industrial até o final do século XX, experimentamos surtos de democracia. Na Inglaterra, o Parlamentarismo prosperou, conjuntamente com os movimentos sociais e melhor distribuição de renda. Nos Estados Unidos, a Revolução Americana instalou os princípios da liberdade e do mercado, com grande desenvolvimento econômico e político. Na França, a Revolução Francesa introduziu os conceitos de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, e após 50 anos de conturbação política que seguiram, a França encontrou sua forma da Terceira República em diante. Na Suécia, capital e trabalho fizeram o que se denomina de pacto “Social Democrata”, com revezamento no poder entre as classes e benefícios para todos.

Passamos por duas Guerras Mundiais, por motivos geopolíticos e de poderio econômico das nações.


Até 1980, a renda das três classes sociais, a alta, a média e a baixa, aumentou. A partir de 1980, entretanto, dispara a renda da classe alta, estabiliza-se a renda da classe baixa, e cai significativamente a renda das classes médias, como dados do “World Inequality Report”. Ao mesmo tempo, o sinal amarelo, hoje quase vermelho, da crise ecológica e dos recursos naturais, acende-se.

As classes médias, que dependem de estabilidade para viver, desgostosas com os sistemas eleitorais por não serem representativos e redistributivos, e aversas ao socialismo ou à políticas sociais, agarram-se aos líderes radicais de direita. Simon Commander, ex-professor da London Business School, em sua nova revista “Modern Autocracy”, indica que hoje 2/3 de humanidade vive em “Modern Autocracies”, no desmanche das ordens constituídas. E some-se a isso a crise ecológica que se acentua, com a predominância da geopolítica pelos países sobre os interesses das classes sociais.

A Lei perece, e a Barbárie cresce. Nesta Copa, por exemplo, até um “cartão vermelho” foi revertido pela FIFA a pedido – ou, poderíamos por assim dizer, por determinação – de Donald Trump.

Como diz Noah Harari, em ”Sapiens”, o homo sapiens tem muito pouco de sapiens, caminhando para um desastre a curto prazo. O interesse na riqueza imediata e o usufruto individual de suas benesses prevalecem sobre o bem das futuras gerações.

Como na música de “As Meninas”:

“Analisando essa cadeia hereditária
Quero me livrar dessa situação precária
Onde o rico cada vez fica mais rico
E o pobre cada vez fica mais pobre
E o motivo todo mundo já conhece
É que o de cima sobe e o de baixo desce”

Democracias repetem erro ao ignorar ameaça autoritária

Há 90 anos por estes dias, Barcelona se preparava para receber os Jogos Olímpicos operários e antifascistas em alternativa aos Jogos Olímpicos organizados pelos nazistas em Berlim. Não aconteceu porque eclodiu a Guerra Civil da Espanha.

Em vez do grande evento esportivo, os trabalhadores e os seus sindicatos, nos quais predominavam os anarquistas, saíram às ruas para impedir a tomada de poder pelos fascistas. Durante uma década e meia tinham visto país após país cair em ditadura —Itália, Alemanha, Portugal mesmo ali ao lado, a própria Espanha na década anterior com Primo de Rivera, e desta vez disseram: "¡No pasarán!" ("Não passarão").


É difícil ter hoje em dia uma noção da enormidade que foi esse grito de coragem. Não só pela primeira vez os trabalhadores reagiram em defesa da democracia pegando em armas como, em muitos casos, tomaram conta de uma economia que, nos centros urbanos, era complexa, sofisticada e industrializada.

Conseguiram fazê-lo e ainda organizar uma resistência que durou três anos. E conseguiram fazê-lo não numa ditadura, mas num ambiente pluralista e diverso.

Tudo isso era demais não só para os fascistas, salazaristas e nazis, que apoiaram Franco, mas também para Stálin, que preferiu perder a guerra atacando a esquerda pelas costas a ver nascer do outro lado da Europa uma alternativa socialista que lhe fugisse ao controle autoritário.

Mas isso estaria ainda no futuro. Veio a guerra e perdeu-se a guerra, e depois veio a Guerra Mundial. Ao passo que os regimes autoritários apoiaram Franco, os democratas deixaram abandonada a República Espanhola.

Na França, governava havia pouco tempo a Frente Popular, liderada por socialistas e apoiada por sindicatos. Nestes mesmos dias há noventa anos, o assunto no país era o direito dos operários de ter férias —duas semanas, com salário, imposto por lei.

As férias europeias são em agosto e, por esses dias, os jornais de direita reagiam, entre o espanto e o desprezo, às multidões que aprendiam a pegar o trem para ir, pela primeira vez, ver o mar.

O responsável era um jovem de 36 anos chamado Léo Lagrange, subsecretário de Estado para o esporte e o lazer, que tinha negociado com as empresas ferroviárias privadas descontos de até 40% para as passagens vendidas aos operários.

Num jornal das esquerdas, na mesma página que noticiava a alegria dos operários franceses, aparecia uma foto da Espanha com a seguinte legenda: "Em Espanha, apenas uma certeza: cadáveres nas ruas".

França e Espanha davam, então, duas faces de um futuro alternativo para as democracias: ou conseguiam resolver a "questão social" melhorando a vida das massas ou pereceriam.

Mas a lição essencial é uma que não pode ficar esquecida hoje. A Espanha republicana naufragou não porque não conseguiu gerir a economia ou a resistência nem combinar a liberdade e as políticas públicas de emancipação, mas, sim, porque os autoritários se juntaram, e as democracias não a ajudaram.

Esta semana, ao ver no palco da Fifa um Trump que não queria sair de cena e que não vai acabar o ano sem interferir nas duas maiores eleições do seu continente (Brasil e EUA), pensei: será que as democracias não aprenderam a lição de 90 anos atrás?
Rui Tavares

Flávio e o Partido Digital Bolsonarista

A partir de 2013, Jair Bolsonaro construiu um ecossistema digital bolsonarista. Cresceu gradualmente até 2018 e consolidou-se no período em que Bolsonaro foi presidente da República (2019-2023).

Pois bem. Este ecossistema resultou na existência do Partido Digital Bolsonarista (PDB). Um novo modelo partidário, não institucionalizado, que nasce digital com a lógica da própria rede da internet. Ou seja, a internet é o próprio ambiente do partido, que não se trata de um partido-plataforma.

A tese da existência do PDB vem de uma pesquisa seminal de três anos no Cebrap/SP, publicada agora em 2026. Resultou no livro digital “Partido Digital Bolsonarista” (Cebrap) organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira.


No debate sobre a organização política contemporânea, o PDB é uma novidade. Não é só o “ismo” (Bolsonarismo). Produto da ascensão da extrema direita, um fenômeno global, é visto como uma nova forma de partido político, “com potencial para remodelar a democracia moderna”: o partido digital.

Atua regularmente nas redes digitais, como nova forma de ação política – independente dos partidos tradicionais. No Brasil, o PDB tem o PL como interface institucional, “para ter acesso ao poder”. No interior do PL, existe a ala Centrão fisiológica e a ala de membros do PDB, que é majoritária – dizem os autores.

O Partido Digital seria uma espécie de atualização do Partido de Massas da virada do Século XIX. No Século XX, os partidos de massas foram disruptivos em termos de mobilização de massas. “Agora, o Partido Digital é uma espécie de atualização do partido de massas”(…)”no Brasil, entre os maiores partidos, só o PT construiu um partido de massas”. Um partido orgânico, mas ainda analógico.

Trata-se, portanto, de um processo de metamorfose da democracia representativa e do governo representativo. Uma provável nova democracia de massa, depois de um longo período minimalista da democracia do tipo schumpeteriana – na qual “o papel do cidadão é apenas eleger representantes” e a democracia só se mobiliza em épocas de eleições.

O Partido Digital atua de forma constante, coordenada e intensa, não apenas em épocas eleitorais.

O livro mostra que é impressionante o grau de coesão entre o eleitorado.: “uma coletividade unificada com agenda identitária, coesão, organização coletiva e escolha social”.

A escolha e escala social ocorre pela via da utilização de “múltiplas plataformas online para criar redes densamente articuladas de lealdade entre topo e base, mediadas por camadas intermediárias de influenciadores”. São cadeias de lealdade, com interseção entre diferentes cadeias de lealdade. Portanto, “as fronteiras da legenda digital tornam-se difusas”(…)”com expansão contínua”.

O pertencimento, como se sabe, vem da qualidade do engajamento online de cada indivíduo.

O fato é que o Partido Digital acaba resgatando características dos partidos de massas que haviam sido perdidas com a ascensão de partidos eleitorais. A chamada democracia minimalista.

O objeto de conquista de poder social do PDB é o bolsonarismo. Mas os autores mostram que ele está se ampliando para outros grupos de direita. São cadeias de lealdades (tipo “correntes partidárias) “atreladas a elementos práticos de engajamento, financiamento, hierarquia, coesão, coordenação, disciplina partidária e atuação institucional”. Atuação institucional via PL e outros partidos do Centrão.

Com dinâmica de rede, o PDB está sempre em ritmo de campanha permanente, para além dos ciclos eleitorais. “Tal vantagem se estende às formas de financiamento e construção de influência, que não se restrigem aos canais formais e permitem sustentar uma atuação contínua”.

OU seja, “sem leis que obriguem a transparência de algoritmos ou o controle de fluxos financeiros virtuais, o PDB consegue manter uma estrutura hierárquica e de financiamento que escapa à fiscalização do Estado. A lógica permanente de mobilização reorganiza o tempo político, tornando a campanha uma condição contínua. Ao mesmo tempo, o PDB desenvolve mecanismos próprios de legitimação. Eventos de grande visibilidade pública funcionam como rituais nos quais se tornam observáveis a hierarquia interna, a capacidade de ativação e o grau de disciplina do conjunto”.

Em suma, dizem os autores, o PDB sinaliza uma “mutação nas bases do governo representativo que excede a simples adaptação tecnológica”.

Tese relevante (o PDB) para compreender e debater melhor o momento político brasileiro. Vale a leitura.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Resiliência não basta

A previsão de um El Niño intenso no segundo semestre deste ano traz uma série de alertas. Chuvas acima da média no Sul, temperaturas elevadas no Sudeste e maior risco de incêndios florestais fazem parte dos cenários traçados por estudiosos. De acordo com a agência meteorológica dos Estados Unidos, há 81% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro e figurar entre os maiores registrados desde 1950. No Rio de Janeiro, mais de 50 órgãos e agências municipais já foram mobilizados para enfrentar seus possíveis efeitos.

Essas previsões costumam ser tratadas como informações sobre o clima ou sobre a capacidade de resposta das cidades. Mas elas também dizem respeito à saúde mental. Para quem já perdeu a casa, o trabalho ou alguém próximo em uma enchente, um novo alerta meteorológico não é apenas um dado técnico. Pode soar como o anúncio de que tudo está prestes a acontecer outra vez.

A psiquiatria estuda a resiliência como a habilidade de atravessar adversidades, reorganizar a vida e seguir adiante. É uma competência fundamental, mas frequentemente mal compreendida. Ser resiliente não significa sair ileso de uma tragédia, nem suportar indefinidamente situações de ameaça. A elaboração do trauma exige tempo, apoio e alguma possibilidade de reconstruir a confiança no futuro.


O Brasil conhece bem a força da reação coletiva. Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, milhares de voluntários se mobilizaram. Empresas reorganizaram suas operações para enviar alimentos e medicamentos. Organizações da sociedade civil arrecadaram recursos em todo o país. Em poucos dias, formou-se uma ampla rede de solidariedade.

Esse movimento teve enorme importância prática e emocional. Em momentos de ruptura, perceber que não se está sozinho ajuda a reduzir o desamparo e a recuperar vínculos. A solidariedade não entrega apenas comida ou abrigo. Ela também comunica à pessoa atingida que sua vida continua tendo valor para os outros.

O problema começa quando o desastre deixa de ser uma ruptura excepcional e passa a integrar o horizonte cotidiano. O trauma provocado por um episódio específico pode ser elaborado. Mais difícil é viver sob a expectativa de que ele se repetirá. A cada chuva forte ou novo alerta, o organismo pode voltar ao estado de ameaça.

Esse estado de vigilância contínua cobra um preço. O sono piora, a concentração diminui e o medo passa a ocupar uma parte maior da rotina. Em pessoas que já atravessaram uma catástrofe, sinais aparentemente comuns, como o som da chuva ou a elevação de um rio, podem reativar lembranças e respostas físicas associadas ao trauma.

Há ainda um desgaste coletivo menos visível. Quando os eventos extremos se repetem e as soluções parecem sempre provisórias, cresce a sensação de impotência. A pessoa deixa de acreditar que suas ações serão suficientes ou que as instituições conseguirão protegê-la. Nesse ambiente, a ansiedade tende a persistir e a desesperança encontra espaço.

Por isso, não basta celebrar a capacidade de reconstrução dos brasileiros. A resiliência não pode ser usada como justificativa para exigir que populações vulneráveis suportem perdas sucessivas. Há um limite para a adaptação quando a ameaça permanece e as condições de vida não mudam.

Preparar uma cidade para eventos extremos também é cuidar da saúde mental de seus habitantes. Sistemas de alerta confiáveis e rotas de evacuação conhecidas reduzem a sensação de abandono. Saber o que fazer e para onde ir não elimina o medo, mas impede que ele se transforme em completo desamparo.

A atenção psicossocial precisa fazer parte dessa preparação. O sofrimento não termina quando a água baixa ou quando as famílias deixam os abrigos. Muitas vezes, ele aparece mais forte justamente depois, quando a urgência passa e começam as dificuldades para retomar a rotina, reorganizar a vida.

Equipes de saúde mental devem estar presentes não apenas depois das tragédias, mas integradas aos planos de prevenção e resposta. Isso exige continuidade do atendimento e articulação com os serviços já existentes nos territórios. Sem essa rede, o cuidado corre o risco de chegar tarde ou desaparecer quando a comoção pública diminui.

Há uma diferença entre reconhecer um risco e viver permanentemente submetido a ele. A consciência permite agir e buscar proteção. O medo contínuo, ao contrário, estreita a vida. O desafio do país é evitar que milhões de brasileiros passem a interpretar cada mudança no tempo como a possível chegada de uma nova perda.

A solidariedade continuará sendo indispensável. Mas ela não pode substituir políticas públicas, nem planejamento. Um país preparado não é aquele que apenas reconstrói com rapidez depois de cada tragédia. É aquele que reduz perdas e oferece condições para que sua população não precise viver em estado permanente de alerta.

A aproximação de um El Niño potencialmente intenso torna essa discussão ainda mais urgente. Os próximos meses dirão muito sobre a capacidade do país de antecipar riscos, mas também sobre o modo como escolhemos proteger a saúde mental das pessoas. Resiliência é uma força humana importante. Ela não pode, porém, ser confundida com a obrigação de suportar o insuportável.
Jorge Jaber