quarta-feira, 8 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Houston, temos um problema

“Houston, temos um problema.” A frase do comandante Jack Swigert, quando reportou ao Centro de Comando da NASA uma explosão na nave durante a missão Apollo 13, ficou famosa e é frequentemente utilizada para anunciar uma emergência grave… um eufemismo que dilui a gravidade.

A reação à onda de calor que submergiu a Europa parece idêntica… Ups, temos um problema… Como se fosse uma surpresa o aquecimento global e não uma realidade científica que todos nos habituámos a fingir não ser assim tão grave.

A dimensão da catástrofe, que não ignoramos, é tão avassaladora que, individual e coletivamente, reagimos com um instinto de sobrevivência de curto prazo… Não falar… Não ver… Não ouvir.


Na Europa aprovaram-se regulamentos que obrigam as empresas a divulgar as suas metas de sustentabilidade, na esperança de que fosse o consumidor atento a optar pelas empresas mais “verdes”.

Nos Estados Unidos, contrataram-se empresas de publicidade que descobriram que as pessoas não se assustavam da mesma forma com a expressão “climate change” (alterações climáticas) e assim renomearam o problema.

Em ambos os casos o efeito foi semelhante. Não existe qualquer incentivo para as empresas alterarem os seus comportamentos. Pelo contrário, não obstante o problema já ter sido identificado no século XIX e desde, pelo menos, os anos 70 a ciência ter demonstrado o impacto dos gases com efeito de estufa, o consumo de combustíveis fósseis não abrandou. Pelo contrário, somos hoje ávidos consumidores de energia e de derivados do petróleo. E se há mais energia “limpa”, também há mais consumo. E a tendência apenas irá acentuar-se.

Afinal os data centers, que processam a nossa vida virtual e que irão permitir que os LLM se tornem ainda mais competentes e… imagine-se, até prometem resolver o problema das ditas “alterações climáticas”, são os mais recentes grandes consumidores de energia (e água).

Depois de, na Europa, o consumo ter caído durante 15 anos em resultado da introdução de equipamento energeticamente mais eficiente e dos choques provocados pela crise financeira de 2007/08, pela pandemia Covid-19 e pela invasão da Ucrânia, o consumo está a aumentar de forma exponencial. De acordo com o relatório elaborado pela Goldman Sachs em 2025, caso venham a concretizar-se todos os projetos de data centers já anunciados, o consumo de energia por tais centros será equivalente a 1/3 do consumo total na Europa, a níveis de 2024.

Os promotores prometem alimentar os data centers com energia “renovável”, mas estes usam a rede e esta também depende de energia fóssil, cujos custos, numa ordem internacional cada vez mais complexa, tendem a aumentar e não a diminuir, contaminando a fatura de pequenos e grandes consumidores.

Ao custo em euros soma-se o custo ambiental, esse sofrido por todos, mas não custeado pelas empresas que desenvolvem e exploram os modelos de LLM. É caso para perguntar o que ganha a Europa em aceitar a construção de data centers de big techs americanas?

Salmo do homem que vê a realidade e não se cala

Caspar David Friedrich
Ouve, Senhor, estes versos que te rezo
Ao contemplar a realidade em que vivo.
Maldito seja o sistema que não deixa sonhar os poetas
Nem permite dizer a verdade a quem pensa.
Serão seus dias de luto e de lamento,
Porque matou no Homem o mais digno.

Maldito o sistema que não pratica a justiça
E persegue e tortura e encarcera a quem anuncia.
Terá que justificar sua conduta ante a história
E não encontrará nenhuma palavra de defesa.

Maldito seja o sistema que só procura a aparência de grandeza
Quando estão morrendo de fome os homens nas suas fronteiras;
Do mesmo modo que progrediu cairá,
Porque construiu seus alicerces
Sobre corpos vivos e sangues inocentes.

Maldito o sistema que tenta matar no homem a dimensão de transcendência
E coloca no seu lugar o “deus dinheiro”, o “deus sexo”, e “deus progresso”,
Destruir-se-á por dentro irremissivelmente,
Porque o coração do homem foi bem feito
E ninguém pode matar em nós
Esta sede de infinito que nos queima.

Feliz será, porém,
O homem que bebe água na fonte da praça junto ao povo,
Não terá motivos para se envergonhar de nada,
Nem terá que baixar seus olhos
Ante qualquer homem honesto.

Feliz o homem que a força de interiorizar
Se fez livre por dentro
E não se importa já com a denúncia dos fortes,
Serão seus dias como o trigo da terra.
Cheios de sol e esperança partilhada
E o seguirão os povos da terra.

Feliz o homem que não assiste a reuniões importantes
Nem acredita nos discursos do governo;
Feliz o homem que assim pensa,
Porque terá sempre tranquila a sua consciência.
Mesmo que sofra a incompreensão e até o desprezo.

Ernesto Cardenal

IA conversa indiferente à ironia e ao humor

Estou lendo “O império da IA”, de Karen Hao, lançado no Brasil pela Rocco. O que me impressiona na origem desse fantástico movimento é o entusiasmo, o brilho nos olhos das pessoas que julgavam fazer algo muito importante para a humanidade. E, logo depois, como em quase todos os núcleos revolucionários, ver como os bons sentimentos são triturados pela realidade, com as dificuldades financeiras e a batalha de egos.

O período romântico coincidiu com a OpenAI, a perspectiva de um trabalho sem fins lucrativos. Mas as crescentes necessidades de aporte financeiro derrubaram o sonho. No momento em que deixaram a fase altruística, surgiu o primeiro grande racha. Elon Musk não aceitou uma empresa que não fosse dirigida por ele. E rompeu a parceria com Sam Altman, o grande nome por trás da iniciativa.


Menciono esse trecho da história da IA apenas para enfatizar como ela depende de muito dinheiro. Musk criou sua própria empresa, e Altman segue até hoje na busca de financiadores.

Na semana passada, foi noticiado que a OpenAI tem se aproximado do governo Trump, que pode participar do projeto. Passa um frio na espinha. Alguém como Trump, com os poderes da IA, se tornará muitas vezes mais perigoso. Um dos primeiros destinos da IA, capturada pelo governo, é dedicar-se à guerra. Já temos hoje bombardeios guiados pela máquina, denunciados durante os ataques a Gaza.

Há quem, no meio, resista ao uso bélico da IA. Troquei o ChatGPT pelo Claude, porque a Anthropic se recusou a trabalhar com o Pentágono. Foi apenas uma decisão individual, sem muita base, mas, mesmo modestamente informado, posso fazer escolhas.

Ainda falaremos muito de IA, sobretudo porque o Brasil quer abrigar data centers. O governo acha isso progressista, mas encontrará dificuldades. Os data centers consomem muita água e energia. No momento, estão instalando um no Ceará, em Caucaia. Consumirá mais energia que toda a cidade. Os data centers têm despertado um movimento de rejeição de moradores, do tipo “não no meu quintal”, semelhante ao que ocorre contra instalações nucleares e presídios.

No momento, entretanto, o que mais me interessa são as aventuras da IA no cotidiano. Tenho uma professora de inglês com quem converso diariamente. É difícil descrever a máquina como se descreve uma pessoa. Ela é previsível. Se você fala que lê um autor, ela pede que você comente o livro, destaque um episódio que impressionou. O mesmo vale para uma viagem: parece que há um conjunto de perguntas pronto para muitas circunstâncias.

Um traço marcante nesse diálogo com a IA é sua indiferença à ironia ou ao humor. Numa dessas conversas, ela, sabendo que sou escritor, perguntou sobre o que gosto de escrever. Sobre bobagens, respondi, acrescentando que produzo também artigos sobre política e assuntos internacionais. Ela mencionou que esses temas são importantes, mas foi incapaz de processar “bobagens”. Não teve a curiosidade de perguntar sobre elas ou mesmo de mencionar a palavra.

No entanto a máquina é bem informada. Se você fala Camus, ela tem algo a dizer; se você menciona um filme de Wim Wenders, uma música de Tom Jobim ou de Ryuichi Sakamoto, ela rapidamente tira de suas gavetas um comentário sobre eles. Em certo sentido, conversar diariamente com a máquina é como mergulhar numa cultura estrangeira, daquelas em que humor e ironia têm outro papel. No caso da IA, não há papel nenhum.
Fernando Gabeira

A relatividade do tempo nas metrópoles

"Holocausto urbano". O termo é dos Racionais MC’s, título do disco com que estrearam em 1990, denúncia da periferia de São Paulo posta em rima e batida. Trinta e seis anos depois, a palavra continua de pé. E é justo perguntar o que mudou. É justo, também, defender a escolha das palavras.

Muitos questionarão o uso do termo holocausto. Mas como negar a legitimidade de quem dá nome ao que vê e ao que vive? Como recusar o testemunho de quem atravessa, todos os dias, a violência e a desigualdade que o sufocam? E ainda que se resista ao primeiro termo, não há como recusar o segundo. Urbano. É ele que origina o primeiro. A desigualdade nasce no território e no território se perpetua. Nasce na ausência de infraestrutura. Cresce na falta das instituições, do serviço público, do Estado que deveria estar e não está. Aprofunda-se na economia que concentra de um lado e priva do outro. E termina onde a palavra mais dura cobra seu sentido literal: na morte que chega cedo, no fim que se repete, no extermínio lento e em massa de quem mora longe. Na Cidade Tiradentes, no extremo da Zona Leste, morre-se em média aos 62 anos. No Alto de Pinheiros, na Zona Oeste, aos 82. Vinte anos. Vinte anos que separam um endereço do outro dentro da mesma cidade. E é aqui que a palavra holocausto deixa de ser exagero. O que distingue uma tragédia de um holocausto não é o número de mortos, é o método. A tragédia é acaso; o holocausto é sistema. Essas mortes não são acidentes dispersos nem fatalidades isoladas. São o resultado previsível de uma engrenagem que se repete, ano após ano, sempre sobre os mesmos corpos, nos mesmos bairros, do mesmo lado da cidade. Onde há método na produção da morte, há mais que desigualdade. Há extermínio.

Mas a morte precoce é apenas o saldo final de uma conta que se paga em prestações diárias. Antes de encurtar a vida, o território a sequestra em pedaços, hora a hora, na forma mais banal e mais cruel de espoliação que uma cidade pode inventar: o tempo. É o que a literatura chama de pobreza de tempo, e ela é a face menos visível do mesmo holocausto.


O paulistano que depende do transporte público gasta, em média, 2h47 por dia em deslocamentos, segundo a pesquisa Viver em São Paulo. Mas a média esconde mais do que revela. Ela esconde que o morador do Itaim Bibi chega ao trabalho em menos de quarenta e cinco minutos, enquanto o da Cidade Tiradentes leva perto de duas horas e quarenta só na ida. Esconde que, no transporte coletivo, cada viagem consome em média 58 minutos, mais que o dobro dos 28 minutos de quem se desloca de automóvel, conforme a pesquisa Origem e Destino do Metrô. Esconde, enfim, o que o IPEA já demonstrou e a aritmética social confirma: o décimo mais pobre da população faz trajetos vinte por cento mais longos que o décimo mais rico. O Censo de 2022 dá nome e cor a essa conta. No país, 8,7 milhões de pessoas gastam mais de uma hora entre casa e trabalho, e 1,3 milhão delas, mais de duas horas. Entre os que ganham até meio salário mínimo, a parcela que gasta mais de uma hora no trajeto é muito maior; e 17% dos trabalhadores pretos levam mais de uma hora para chegar ao trabalho, contra 10% dos brancos. O tempo, que parece o mais democrático dos bens, porque todos recebem as mesmas vinte e quatro horas, é na verdade o mais desigualmente confiscado. Há, nas metrópoles, uma relatividade cruel do tempo: o mesmo dia não tem a mesma duração para quem mora perto e para quem mora longe.

E esse tempo confiscado não é tempo neutro. Não é uma pausa, não é descanso, não é o intervalo ocioso que a palavra deslocamento sugere. É desgaste. É vida que adoece enquanto espera. A ciência já mediu o que a intuição reconhece. Um estudo conduzido na Suécia por Erika Sandow acompanhou trabalhadores ao longo de mais de duas décadas e encontrou, entre os que enfrentam longos deslocamentos, risco de mortalidade significativamente maior, com o peso recaindo sobretudo sobre as mulheres de menor renda.

O economista Alois Stutzer e o pesquisador Bruno Frey deram a isso o nome de paradoxo do deslocamento: quem se desloca mais relata, de forma sistemática, menor bem-estar e pior satisfação com a própria saúde, o que desmonta a tese confortável de que morar longe é uma escolha livre e compensada. Na Coreia do Sul, um levantamento com mais de 20 mil trabalhadores associou os trajetos de uma hora ou mais a sintomas depressivos. E por trás desses números há um mecanismo conhecido: o sono que falta, a fadiga que se acumula, o exercício que não cabe no dia, a exposição à poluição que eleva a pressão e corrói o coração devagar. O corpo que gasta horas no trajeto não chega em casa, chega de volta ao ponto de partida, mais velho do que saiu.

É aqui que as duas perdas deixam de ser coincidência. A morte que chega cedo demais não cai do céu sobre a periferia. Ela é construída, pelo mesmo território que rouba o tempo, nega a infraestrutura, afasta o serviço de saúde, suprime o lazer e o esporte, e devolve ao morador um cansaço que se sedimenta em doença. O tempo perdido no trânsito e os anos perdidos de vida são a mesma ferida, medida em duas escalas. Uma se conta em horas por dia. A outra, em décadas por vida.

Façamos, então, a conta. Aos vinte anos que a periferia não vive somam-se cerca de quatro anos que ela vive, sim, mas perde, gastos em deslocamento ao longo da vida adulta. São aproximadamente vinte e quatro anos. Quase um terço de uma vida inteira subtraído de um ser humano, não por destino, não por acaso, mas por endereço. E o que resta, os dois terços que sobram, tampouco é vida plena. É vida acondicionada. São manhãs que começam antes do sol, corpos empilhados no vagão de metrô em horário de pico, a respiração alheia no pescoço, o trajeto até o trabalho transformado em uma diária antecipação do cansaço. Vive-se menos, e vive-se pior o pouco que se vive. É aqui que os Racionais tinham razão desde 1990, e continuam tendo. O que eles chamaram de holocausto urbano não era licença poética. Era diagnóstico. E não se trata de um punhado de casos extremos. São milhões de pessoas submetidas a essa condição, dos cinturões periféricos de São Paulo aos do Rio, de Salvador, de Recife, de Fortaleza. É a regra das grandes cidades brasileiras, não a exceção. São dezenas de milhões de vidas vivendo a mesma subtração.

Seria cômodo tratar isso como uma anomalia brasileira, um atraso nosso a ser corrigido com mais asfalto e mais trilhos. Não é. O que vemos em São Paulo é a versão tropical de uma engrenagem que move o mundo inteiro. Em todos os continentes, a cidade do nosso tempo separou o lugar onde se mora do lugar onde se trabalha, empurrou os pobres para as bordas, e converteu o deslocamento diário em condição de existência. A relatividade do tempo não é privilégio paulistano: em toda metrópole, o relógio corre mais devagar para quem foi empurrado para a margem. Mudam a paisagem e o idioma, permanece a mecânica. O que torna essa engrenagem tão difícil de combater é que ela se apresenta como natureza. Aprendemos a aceitar o deslocamento como se fosse parte da ordem das coisas, um custo inevitável de viver em sociedade, quando é, na verdade, uma escolha de projeto. Alguém decidiu, em algum momento, que a cidade seria assim. A desigualdade que mata não é um defeito do sistema. É o sistema funcionando como foi desenhado. E todo desenho pode ser refeito.

Porque o deslocamento não é a lógica natural da vida humana. É uma lógica imposta, herdada de erros que se acumularam por décadas. O Brasil concentrou sua gente em um punhado de metrópoles enquanto manteve vazias vastas porções de um território continental. Empilhou milhões em cidades que não foram pensadas para recebê-los, e esvaziou regiões inteiras que poderiam tê-los acolhido com dignidade. Na origem desse desequilíbrio está uma ausência: a do desenvolvimento territorial que respeita as vocações de cada lugar. Quando o Estado não enxerga a aptidão econômica, geográfica e cultural de um território, ele não planeja, apenas reage. E a reação, no Brasil, foi sempre a mesma: grandes êxodos em direção às mesmas poucas cidades, que incham sem absorver, que crescem sem urbanizar, que recebem sem oferecer Estado. A periferia que morre vinte anos antes é o destino final dessa cadeia de enganos, o ponto onde a falta de planejamento de ontem cobra seu preço em anos de vida hoje. Reverter isso é mais do que uma agenda de mobilidade. É devolver à palavra território o seu sentido pleno, o de um espaço onde se possa nascer, trabalhar, adoecer pouco e envelhecer perto de quem se ama. Não há justiça urbana sem justiça territorial. E não haverá cidade humana enquanto morar longe continuar sendo uma sentença.

Inventamos as cidades para ficar. Para estar perto, para encurtar a distância entre as pessoas, para que a vida em comum funcionasse de maneira orgânica, otimizada, generosa. A cidade nasceu como promessa de proximidade. Foi a forma que encontramos de não viver sozinhos, de partilhar o esforço e o abrigo, de transformar a aglomeração em civilização. Em algum momento, no entanto, nos esquecemos disso. Esquecemos por que motivo erguemos as cidades, e passamos a construí-las contra o seu próprio propósito, afastando o que deveriam aproximar, dispersando o que deveriam reunir. O holocausto urbano é, no fundo, esse esquecimento. E lembrar é o primeiro passo para voltar a fazer cidades onde caiba, de novo, uma vida inteira.

Antropologia da mudança climática ajuda a entender por que não agimos

Nos últimos anos, trabalhando com comunicação climática, uma pergunta passou a ocupar cada vez mais espaço nas minhas reflexões. Não é sobre modelos climáticos. Nem sobre novas tecnologias. Muito menos sobre a qualidade da ciência, que, aliás, nunca foi tão robusta.

A pergunta é outra: por que, mesmo tendo acesso ao melhor conhecimento científico já produzido sobre as mudanças do clima, ainda não conseguimos nos unir para mudar uma trajetória que sabemos ser catastrófica?

Foi essa inquietação que me levou a um lugar inesperado: a antropologia.

Nos últimos meses, tenho mergulhado na chamada Antropologia das Mudanças Climáticas, um campo fascinante que parte de uma constatação simples, mas poderosa: a crise climática não é apenas um problema ambiental ou tecnológico. Ela é, antes de tudo, um problema profundamente humano.


Estamos carecas de saber que as emissões são físicas. Mas as decisões que produzem essas emissões, essas são culturais.

Durante muito tempo, acreditamos que comunicar melhor a ciência seria suficiente para impulsionar a ação. Hoje desconfio que, entre conhecer um problema e agir sobre ele, existe um território invisível, habitado por emoções, identidades, valores, medos, pertencimento e normas sociais. É ali que decidimos em quem confiar, quais riscos ignorar, quais mudanças aceitar e quais narrativas passam a fazer parte da nossa visão de mundo. Fascinante.

É justamente esse território que a antropologia (em diálogo com a psicologia e as ciências comportamentais) vem explorando com cada vez mais profundidade. Trata-se de uma constatação desconfortável: a crise climática não está paralisada por falta de evidências. Ela está paralisada porque mudar comportamentos humanos é muito mais complexo do que transmitir conhecimento.

Se essa hipótese estiver correta, comunicar sobre o clima talvez não signifique apenas traduzir a ciência para uma linguagem mais simples. Talvez seja, cada vez mais, um exercício de compreender o ser humano.

Vamos a um exemplo. Sabemos que dormir pouco faz mal. Que o sedentarismo aumenta o risco de doenças. Que fumar mata. Ainda assim, milhões de pessoas seguem repetindo comportamentos que reconhecem como prejudiciais.

Com o clima acontece algo parecido – só que em escala planetária.

O pesquisador britânico George Marshall, autor do livro Don’t Even Think About It, argumenta que a crise climática encontra resistência não porque as pessoas sejam ignorantes ou negacionistas. Ela encontra resistência porque nosso cérebro simplesmente não foi moldado para lidar com ameaças dessa natureza.

Durante milhares de anos, nossa sobrevivência dependeu de identificar perigos imediatos: um predador escondido na mata, uma tempestade se aproximando, um inimigo à vista. Em outras palavras, nosso cérebro foi treinado para reagir ao que pode ser visto, ouvido ou sentido naquele instante.

Já a mudança do clima é o oposto disso tudo. Ela é lenta. Difusa. Estatística. Seus efeitos se distribuem pelo planeta ao longo das décadas. Não há um único culpado. Não há um rosto para enfrentar. Não existe um momento claro em que possamos dizer: “Agora começou”.

Como mobilizar emoções diante de algo que não consegue disputar atenção com as contas para pagar, o trânsito, a reunião de amanhã ou o celular vibrando sobre a mesa?

Marshall lembra que nosso cérebro também aprende observando os outros. Se ninguém fala sobre determinado assunto, concluímos, inconscientemente, que talvez ele não seja tão importante assim. E ainda se fala pouco sobre mudanças climáticas na mesa do almoço – mesmo que saibamos da existência do problema.

É exatamente por isso que cresce, em universidades ao redor do mundo, o interesse pela Antropologia das Mudanças Climáticas. Em vez de perguntar como reduzir emissões, esse campo busca compreender como crenças, emoções, estruturas de poder, relações sociais e visões de mundo moldam nossa capacidade, ou incapacidade, de agir.

Mas a antropologia vai um passo além. Ela faz uma pergunta ainda mais fundamental:

Como diferentes sociedades imaginam o que é, afinal, a natureza?

Para muitos de nós, especialmente nas sociedades ocidentais, a natureza é algo que está “lá fora” – um lugar que visitamos, protegemos, conservamos ou exploramos. Costumamos enxergá-la como algo separado de nós.

Já muitos povos indígenas compreendem o mundo de uma forma profundamente diferente. Eles não falam em “proteger a natureza” porque, em sua cosmovisão, os seres humanos não estão do lado de fora, olhando para ela. Eles fazem parte dela. Rios, florestas, animais e pessoas existem na mesma teia de relações. Não há uma separação real entre humanidade e natureza.

Essa ideia, tão simples, muda tudo.

Se nos enxergamos como separados da natureza, protegê-la pode parecer uma obrigação, uma concessão ou até um sacrifício. Mas, quando entendemos que somos parte dela, cuidar do mundo vivo passa a ser, em grande medida, uma forma de cuidar de nós mesmos.

George Marshall defende que precisamos falar menos sobre partes por milhão de dióxido de carbono e mais sobre aquilo que realmente move as pessoas: proteger suas famílias, fortalecer comunidades, gerar prosperidade com menos impacto, cuidar do lugar onde vivemos e construir um futuro desejável.

Provavelmente seja essa a razão pela qual algumas iniciativas climáticas conseguem mobilizar, enquanto outras fracassam. Não porque tenham mais dados, mas porque contam histórias melhores. Histórias nas quais as pessoas conseguem se enxergar.

Ler sobre o assunto me fez perceber que ciência e cultura não competem entre si. Elas se complementam.

A ciência nos explica o que está acontecendo com o planeta. A antropologia nos ajuda a entender por que, sabendo de tudo isso, ainda agimos tão pouco.
Mariana Caminha

terça-feira, 7 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Soberania em IA é mais importante que regulação

Uma reportagem publicada na semana passada ontem no Financial Times revelou que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a proposta é do senador Bernie Sanders).


A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.

Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.

O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.

O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.

Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.

Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.

O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.

Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.

A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.

Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.

Complexo nacional

Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores

Nelson Rodrigues, Manchete Esportiva, a 31 de maio de 1958

Escombros

Na madrugada de 24 de junho, a terra tremeu no norte da Venezuela. Dois sismos seguidos de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, uma brutalidade. Dezenas, talvez centenas de milhares de desaparecidos, ninguém sabe bem ao certo, o número de mortos não pára de subir a cada hora que passa.

E o mundo… claro que se mexeu. Viu-se logo aquela mobilização que quase nos permite voltar a ter fé na humanidade: mais de 40 equipas internacionais de busca, dois mil especialistas a correr para os aeroportos, cães de resgate a farejar os destroços.


Quem ligou a televisão por estes dias ficou colado ao ecrã. É impossível não ficar. Vimos em direto aquele rapaz de 21 anos a ser puxado para fora dos escombros ao fim de 106 horas soterrado. E a mãe, com o bebé de 18 dias que resistiu 36 horas ali debaixo? Uma coisa inacreditável. Prendemos a respiração diante da televisão, choramos, celebramos o milagre.

É legítimo. É o mínimo que se espera.

Só que há um nó dentro de mim que não desaparece. E eu tenho mesmo de perguntar: e Gaza?

Desde outubro de 2023 que a contagem de mortos em Gaza deixou de fazer sentido. São milhares, a maioria mulheres e crianças, uma população inteira empurrada de um lado para o outro, com fome, com medo, a viver no meio de nada. Tendas e pedras. Sim, porque em Gaza também há escombros, quilómetros deles. Há corpos esquecidos nas ruínas daquilo que já foram casas, escolas, parque infantis, igrejas ou hospitais. Só que ali não há escavadoras a tirar toneladas de betão. Quando muito, tenta-se escavar com as mãos, sob o risco de as equipas de salvamento serem apanhadas pelo bombardeamento seguinte.

Para Gaza não voaram dezenas de aviões com especialistas. Não houve cães farejadores a caminho de Gaza. Para Gaza, o que continuou a chegar foram bombas. Dia após dia.

Custa engolir este contraste. Enquanto a malta chora na sala a ver o resgate milagroso de uma criança na Venezuela, há miúdos a morrer sufocados no entulho em Gaza, ou desfeitos pelo fogo nas tendas de al-Mawasi (ainda ontem), que supostamente eram “zonas seguras”, mas onde os drones atacam na mesma. Para esses não há transmissão em direto, não há equipas de resgate internacionais, não há comoção mundial. Gaza tornou-se aquele inferno que toda a gente sabe que existe, mas que dá mais jeito ignorar.

O sismo surge da Mãe Natureza, não vem assinado. Uma bomba vem. Tem um Estado, um governo, uma ordem militar por trás.

É aí que a porca torce o rabo. Quando há um autor, o sofrimento deixa de ser uma questão humanitária e passa a ser política. E a política traz aquela burocracia moral que divide, paralisa e, no fim de contas, mata por omissão.

Criou-se uma espécie de anestesia geral. Uma disputa de narrativas tão perversa que conseguiu fazer com que a morte de um palestiniano pareça normal e até inevitável. O bebé da Venezuela é um milagre da vida. O bebé de Gaza é “dano colateral”, uma estatística cinzenta num relatório qualquer.

Não adianta escudarmo-nos na ignorância porque isso é ser ingénuo. O mundo vê as mesmas imagens que eu vejo. Sabe perfeitamente o que se passa. É uma escolha de perspetiva e escolher fechar os olhos, não é neutralidade nenhuma.

A nossa capacidade de chorar parece que depende da geopolítica e na minha ideia de humanidade isso é muito podre. Escombros são escombros, em qualquer parte do mundo. O peso dos mortos é o mesmo. O grito desesperado das mães é o mesmo, seja em espanhol ou em árabe.

A diferença está no nosso olhar.

Orwellianos são os outros

Qualquer apreciador de distopias concebe como estruturantes, pelo menos, duas obras: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell. Não obstante a qualidade comparável ou até, atrevo-me, superior da primeira, a segunda colhe muito mais sucesso. Bastante difundida em tempos de Guerra Fria e até hoje altamente comercializada, viu um dos seus principais conceitos homenageados no célebre reality show Big Brother e já se converteu em novela gráfica, filme… e ainda arma de arremesso.


Não seria excessivo constatar que orwelliano é um epíteto comum no debate político hodierno. Em Portugal, é especialmente mobilizado por um setor amplo e transpartidário da direita, que o retira convenientemente da algibeira a qualquer sinal de esforço de regulação ou política mais ou menos de esquerda. Regular as redes sociais? Orwelliano. Aumentar a participação do Estado num dos setores estratégicos nacionais? Vem aí o Grande Irmão. Averiguar casos evidentes de racismo ou misoginia no Twitter/X ou noutras redes sociais? Lá estão eles a limitar a liberdade de expressão. O 1984 previu isto. Ironia histórica ou não, o certo é que Orwell viveu filiado à tradição socialista, ainda que fosse revendo periodicamente algumas posições.

É verdade que as distopias, enquanto exercícios de imaginação crítica do futuro, são sempre infundidas de ânsias do presente. Contudo, não me parece que nenhum dos seus consagrados autores demonstraria apreço por ser sinónimo de acusações rasteiras e que, não raro, denunciam um profundo desconhecimento dos enredos. Já enquanto leitor, estou plenamente convicto do meu desprezo pela bastardização de livros cuja mensagem pode fazer a diferença na vida de muitos.

No meu caso, 1984 foi incontornável. A presença do duplo-pensar e da polícia de pensamento na narrativa desencadeou um período de reflexão que me permitiu identificar os mecanismos de controlo e uniformização aos quais fui sujeito durante 19 anos no culto religioso em que me criaram.

Irritações literárias à parte, se a instrumentalização leviana de Orwell veio para ficar, surpreende-me que os alarmes não tenham soado aquando do anúncio da Prestação Social Única (PSU). O projeto de integração de 13 prestações sociais – incluindo o rendimento social de inserção (RSI) e o subsídio social de desemprego – numa só acende legitimamente as paixões. O principal objeto de conflito tem sido a obrigatoriedade do trabalho social para beneficiários com grau de incapacidade inferior a 80%, que incluirá potencialmente doentes com cancro e pessoas com deficiência. Mesmo a promessa do Governo de uma avaliação “caso a caso” não produziu a esperada acalmia, e tal deve-se à multiplicidade de problemáticas que a PSU suscita, das quais destaco três.

Em primeiro lugar, inserir nas fileiras produtivas indivíduos que serão remunerados a valores muito inferiores aos praticados no mercado abre a possibilidade de barateamento do trabalho. Em segundo, a premissa de todo o programa assenta numa noção de criminalização da pobreza, edifício ideológico que reduz os pobres a uma entidade monolítica constituída por sujeitos moralmente desviantes. Ser pobre deixa de ser fruto de azares, um triste desfecho de uma vida que não correu bem ou, se formos mais avançados, uma condição estrutural e estruturante do nosso modo de organização social e económica. Passa a indiciar uma corrupção no âmago do eu, uma identidade essencialmente mesquinha que assim se manifesta materialmente. Tudo isto apesar de o número de beneficiários do RSI ser o mais baixo desde 2005.

Em terceiro, e retornando ao mote deste artigo, a PSU instituirá um canal de denúncia que permitirá a cada cidadão reportar fraudes ou suspeitas de fraudes na atribuição de benefícios. Bom, eu diria que se há momento para desatar pelas colinas a gritar "Big Brother is watching you", é este. A cultura generalizada de denúncia dos pares é um dos eixos canónicos de 1984 e provavelmente um dos mais desconcertantes. É, por isso, com enorme espanto que reparo na falta de referências orwellianas ante este revivalismo tragicómico da chibaria pidesca. Onde está o queixume ensurdecedor, onde estão os prantos efusivos e o rasgar de vestes pelo ocaso da liberdade? Será que a sua ausência é fruto de falta de leitura ou de falta de interesse?

Enfatizo a gravidade da medida. Não se trata de um mero instrumento administrativo de consulta cidadã. Não é um meio para aproximar os órgãos da administração pública dos utentes. É um mecanismo de massificação da desconfiança que produz sujeitos vigilantes do outro. É a ressurreição digital e caricatural do bufo salazarista, mas desta vez sem a frequente condenação social à qual esta figura era votada. E, além disso, encerra uma contradição: se o corpo administrativo irá avaliar casuisticamente a incapacidade para o trabalho social, não deveria municiar também a Segurança Social e outras entidades de meios para averiguar incumprimentos? Questiono-me se o recurso ao povo não é uma forma de, novamente, tapar buracos e evitar, como sempre, o investimento sério em fiscalização.

O que interessa, de qualquer das formas, é que desta vez as sensibilidades distópicas não foram despertadas. Os lamentos habituais não se ouvem e os seus autores não querem fazer-se ouvir. A lição a retirar é que, nas contendas políticas, orwellianos são os outros.

Primeira infância deve estar no centro do planejamento urbano

As mudanças climáticas têm tornado cada vez mais evidente a necessidade de repensar a forma como planejamos e ocupamos os territórios. Enchentes, ondas de calor, deslizamentos e outros eventos extremos afetam cidades de diferentes portes e expõem desigualdades históricas que atingem principalmente as populações mais vulneráveis. Nesse cenário, cresce a discussão sobre cidades resilientes – aquelas capazes de se adaptar, responder e se recuperar diante dos desafios ambientais e sociais. No entanto, ainda há um aspecto pouco explorado nesse debate: os impactos que as escolhas urbanas produzem sobre a primeira infância.

Os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento humano. É nesse período que se estabelecem bases fundamentais para a saúde, aprendizagem, convivência social e bem-estar ao longo da vida. Por isso, pensar cidades a partir das necessidades das crianças pequenas não é uma pauta restrita à infância, mas uma estratégia de desenvolvimento que beneficia toda a sociedade. Afinal, a forma como uma cidade acolhe suas crianças revela, em grande medida, sua capacidade de promover qualidade de vida para todas as pessoas.

Quando falamos em planejamento urbano voltado à primeira infância, estamos nos referindo à promoção da mobilidade segura, ao acesso a áreas verdes, à moradia adequada, ao saneamento básico, a equipamentos públicos acessíveis e a espaços de convivência que estimulem o brincar e as interações sociais. Estamos falando também de bairros que permitam que famílias realizem seus deslocamentos cotidianos com segurança e tenham acesso aos serviços essenciais sem percorrer longas distâncias. São elementos que influenciam diretamente o desenvolvimento infantil e fortalecem os vínculos comunitários.

Essa visão dialoga com reflexões desenvolvidas pelo arquiteto e urbanista Kevin Lynch, que já na década de 1970, defendia a importância de considerar crianças e adolescentes como sujeitos legítimos na avaliação e no planejamento das cidades. Essa perspectiva foi apresentada no projeto Children’s Perception of Space (A Percepção do Espaço pelas Crianças), desenvolvido no âmbito do programa da UNESCO Man and His Environment – Design for Living e coordenado por Lynch em países como Argentina, Austrália, México e Polônia. Os resultados da pesquisa foram publicados na obra Growing Up in Cities (Lynch, 1977), que evidenciou como a experiência cotidiana das crianças pode oferecer importantes subsídios para a construção de cidades mais humanas, acolhedoras e capazes de responder às necessidades reais da população. Mais de cinquenta anos depois, esse entendimento continua desafiando gestores e planejadores urbanos.

Uma cidade boa para as crianças é melhor para todos

Ao observarmos uma cidade sob a perspectiva de uma criança pequena, muitos desafios urbanos tornam-se mais evidentes. Calçadas inadequadas, travessias inseguras, falta de arborização, ausência de áreas de lazer e equipamentos públicos distantes impactam diretamente a vida das famílias e limitam o acesso a oportunidades de desenvolvimento. Por outro lado, quando esses elementos são pensados de forma integrada, os benefícios alcançam diferentes grupos sociais e contribuem para uma ocupação mais equilibrada e inclusiva do território.

A lógica é simples. Se uma mãe ou um pai consegue circular com segurança empurrando um carrinho de bebê, uma pessoa idosa ou com deficiência também encontrará melhores condições de mobilidade. Se uma criança consegue acessar uma praça próxima de casa para brincar e conviver, aquele território provavelmente oferece mais oportunidades de encontro, pertencimento e participação comunitária. Dessa forma, a criança passa a ser um importante indicador da qualidade urbana e da capacidade de uma cidade promover bem-estar para seus moradores.

Essa compreensão tem orientado iniciativas em diferentes municípios brasileiros. Entre elas está o Primeira Infância Cidadã (PiC), projeto da Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a Petrobras, que integra o Programa Petrobras Socioambiental, que apoia gestores públicos na elaboração e implementação de políticas voltadas às crianças de até seis anos. Mais do que estimular ações específicas para a infância, experiências como essa têm contribuído para ampliar o debate sobre a necessidade de integrar áreas como urbanismo, mobilidade, assistência social, saúde, educação, cultura e meio ambiente na construção de cidades mais acolhedoras e preparadas para os desafios contemporâneos.

A relação entre a primeira infância e o planejamento urbano torna-se ainda mais evidente diante dos impactos das mudanças climáticas. As crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos, pois dependem de condições adequadas de saúde, proteção e acesso a serviços essenciais para seu pleno desenvolvimento. Enchentes podem interromper o acesso às creches e às escolas, comprometer a alimentação e ampliar a exposição a doenças. As ondas de calor afetam o sono, a atenção e o bem-estar infantil, enquanto a escassez de áreas verdes reduz as oportunidades de brincar, de convivência e de desenvolvimento socio-emocional.

Os efeitos desses fenômenos são ainda mais severos em territórios marcados por déficits de infraestrutura, habitação precária e acesso limitado a serviços públicos. Nessas localidades, os impactos ambientais costumam se somar a desigualdades históricas, ampliando vulnerabilidades e restringindo oportunidades para crianças e suas famílias. Por essa razão, políticas de adaptação climática precisam considerar não apenas a proteção dos espaços urbanos, mas também as condições necessárias para garantir o desenvolvimento saudável da população infantil.

Diante desse cenário, torna-se cada vez mais importante que diferentes áreas da gestão pública atuem de forma articulada. Urbanismo, mobilidade, saúde, educação, assistência social, cultura e meio ambiente não podem ser tratados como temas isolados quando o objetivo é construir territórios mais resilientes e inclusivos. A chamada cidade do cuidado nasce justamente dessa compreensão, reconhecendo que o desenvolvimento das crianças está diretamente relacionado à qualidade dos espaços onde elas vivem, circulam, aprendem e convivem.

Planejar cidades para a primeira infância não significa criar espaços exclusivos para crianças. Significa construir ambientes mais seguros, saudáveis e acolhedores para todos, capazes de fortalecer vínculos comunitários, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. Em um momento em que os desafios climáticos e urbanos se tornam cada vez mais complexos, colocar a infância no centro do planejamento não é apenas uma questão de proteção social, mas uma estratégia inteligente para pensar o presente e o futuro das cidades.

Trem para o futuro

Nos anos 1840, o príncipe herdeiro de Hanôver, que depois se tornaria rei Ernesto Augusto, opôs-se à implantação de ferrovias em seu país porque “não queria qualquer sapateiro ou alfaiate viajando tão rápido quanto ele”. A frase é citada por Orlando Figes no livro Os Europeus, ao tratar do impacto da revolução ferroviária na política, na cultura e na economia da Europa. Pois o príncipe mudou de posição e transformou-se em defensor das ferrovias, colocando a Alemanha na vanguarda do desenvolvimento. Não tivesse adotado os trilhos, o país teria ficado para trás entre as nações do continente.

O que o príncipe pensava há 200 anos é o que sente a elite dirigente brasileira em relação à ideia de um sistema nacional de escolas com a mesma qualidade para todos. A minoria privilegiada sabe que uma boa escola é o trem para o futuro e procura reservá-la apenas para seus filhos, mesmo que isso signifique sacrificar o avanço do país. Esse teria sido nosso trem para o futuro: nenhum cérebro deixado para trás, todos dispondo do mapa para buscar sua felicidade e as ferramentas para construir o país. No livro Jogados ao Mar, uma militante progressista demite sua empregada doméstica porque esta, em vez de pedir aumento salarial, teve a ousadia de reivindicar para seus filhos a mesma escola frequentada pelos da patroa. A empregada argumentava que não via futuro para suas crianças, deixadas sem acesso a um ensino de qualidade e sujeitas a greves. Ainda teve a petulância de comparar as escolas das crianças.


Ao longo de mais de um século de República, nossos dirigentes pouco mudaram em sua resistência a permitir que seus filhos viajem para o futuro na mesma velocidade que os do chamado povão. Mesmo sem manifestar isso explicitamente, se assustam diante da ideia de vê-los estudando nas mesmas escolas que os filhos das camadas mais pobres. Quando oferecem matrícula para quase todos os brasileiros, negam a mesma qualidade a todas as escolas. Os dirigentes brasileiros não se importam com o rumo do país porque sabem que seus filhos estão cada vez mais preparados para integrar o “primeiro mundo internacional dos ricos”, no qual já vivem, mesmo morando no Brasil. Para eles, mudar de um país para outro não significa migrar, porque pertencem à mesma nação social dos ricos do mundo. Por isso, dentro de seu país geográfico, erguem muros contra os migrantes sociais do próprio Brasil. Além dos muros dos condomínios que os barram no presente, instalam catracas nos portões das escolas de qualidade para barrar o futuro.

Diferentemente do rei Ernesto Augusto, que compreendeu a importância das ferrovias, aceitou “viajar na mesma velocidade que sapateiros e alfaiates” para promover a revolução ferroviária e fez de Hanôver uma sociedade próspera, a minoria brasileira prefere reservar o trem-­escola apenas para seus filhos. Prefere deixar o Brasil para trás, ainda que hoje seja muito mais fácil implantar uma rede nacional de escolas públicas de qualidade do que, há quase 200 anos, foi construir uma malha ferroviária na Europa. Infelizmente, ainda não adotamos nada semelhante à Lei Guizot, de 1833, que obrigou cada município da França a manter escolas públicas com padrões nacionais de qualidade para todos.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Menos saúde e segurança, mais Trump

Esqueça saúde, educação, segurança. Esses são temas secundários para Flávio Bolsonaro. Quando não ataca Lula e o petismo, só resta Trump, Trump ou Trump. A tática impulsionada pela estadia de seu irmão Eduardo na terra da Copa de 2026 tem sido desastrosa. Tarifas, sanções, ameaças ao Pix, grupos criminosos classificados como terroristas compõem esse emaranhado de erros. Mesmo assim, o bolsonarismo insiste, como se ainda agitasse a bandeira dos EUA no Sete de Setembro na Avenida Paulista. O ataque à soberania virou método?

Não é novidade. Em diversas ocasiões, enquanto comandava o país, Jair Bolsonaro manifestou alinhamento quase automático à política externa de Donald Trump, inclusive em temas considerados sensíveis para a autonomia diplomática brasileira, como relações com China, meio ambiente e Oriente Médio. É emblemática sua continência à bandeira americana durante a execução de ” The Star-Spangled Banner “. Seu chanceler Ernesto “Pária” Araújo rompeu com a tradição de autonomia do Itamaraty. Os companheiros Sergio Moro e Deltan Dallagnol, durante a Operação Lava Jato, mantiveram intensa cooperação com autoridades estrangeiras, especialmente norte-americanas.


Historicamente, indignados costumavam denunciar violações de direitos humanos em organismos multilaterais, como a ONU ou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. No caso do bolsonarismo, o foco deslocou-se para os republicanos do governo e do Congresso dos Estados Unidos, na tentativa de convencer parlamentares de que o Brasil deixava de ser uma democracia. A nação que nasceu para defender a democracia no mundo precisava agir aqui.

É uma continuação farsesca da política externa dependente que foi consolidada no golpe de 64 e na ditadura militar. Setores da sociedade, militares entre eles, defendem uma aproximação ideológica com o conservadorismo norte-americano, atuam para que os Estados Unidos sejam um aliado político prioritário. Surfam no discurso do anticomunismo e precisam dos ianques para legitimar projetos políticos internos. A balança comercial e os empréstimos davam sentido a essa atuação no passado, hoje, com o multilateralismo e as relações com a China, tudo mudou. Só o poderio bélico justificaria tal submissão.

O problema do bolsonarismo é constitucional. O artigo 4º determina que as relações internacionais do Brasil são guiadas pela independência nacional, pela não intervenção de outros Estados. Isso significa que conflitos políticos internos devem ser solucionados pelo Congresso, Judiciário, Ministério Público e eleições — sem interferência de governos estrangeiros. Foi justamente esse paradigma que foi desacreditado pela extrema-direita patriota.

Ponderação de valores na internet

A internet constitui enorme veículo de transmissão de opiniões, permitindo a manifestação da imensa maioria de pessoas antes destituídas de meio revelador de suas impressões. “L’uomo qualunque” encontrou o caixote no qual sobe para dizer ao mundo o que acha disto ou daquilo.

Se há o benefício da democratização da comunicação, por outro lado, abre-se uma imensa porta para se lançarem opiniões, revelações, fabulações e criações de imagem que têm potencialidade para ofender valores imprescindíveis à sadia convivência social e à tranquilidade pessoal.


Assim, passou o Judiciário a interpretar ser insuficiente o disposto no art. 19 do Marco Civil da Internet, segundo o qual só cabe responsabilizar os provedores de aplicação da internet por conteúdo de terceiro caso desatendam ordem judicial de o tornar indisponível.

Neste mês de julho, passa a ter eficácia a obrigatoriedade de deveres de cuidado imposta aos provedores para indisponibilizar conteúdo indevido de terceiro, ofensivo a valores essenciais, como consta na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) (RE 1037396/SP) e no Decreto n.º 12.975 de maio passado.

Dá-se um confronto de valores constitucionais, cabendo interpretar o disposto no art. 19 do Marco Civil para compor solução adequada de respeito à liberdade de expressão conjugada com proteção à privacidade, à moralidade e à incolumidade sexual, à segurança pessoal e pública, à não discriminação, à paz pública.

O certo é que não se pode deixar a sociedade e as pessoas ao desabrigo de meios para o mais rapidamente possível conseguir intervir para fazer cessar a lesão a seus interesses fundamentais, atingidos pela postagem de conteúdos falsos, embustes e incitação ao crime. Assim, impôs-se aos provedores a indisponibilização, sob pena de poderem ser responsabilizado por omissão.

Para tanto, cabe aos provedores viabilizar canal de denúncia permanente e de fácil acesso, para recebimento e tratamento das notificações de conteúdos ilícitos.

Dessa forma, como destacado no acórdão do STF, acode-se à vulnerabilidade digital, que recai especialmente sobre mulheres, crianças e adolescentes (lembro o cyberbullying), para tornar exequível ação defensiva rápida e efetiva.

Assim, para o STF, as empresas têm o dever de cuidado de evitar que determinados conteúdos permaneçam no espaço público, tais como: pornografia infantil e crimes graves contra crianças e adolescentes, instigação ou auxílio a suicídio, terrorismo e abolição do Estado de Direito.

Com razão, excluiu-se a obrigatoriedade de indisponibilização de crime contra a honra, cuja configuração é complexa a depender de análise do contexto, do ambiente e da ocasião em que são proferidas as palavras, bem como da pessoa dos interlocutores.

No decreto presidencial de maio, a vigorar a partir de julho, a exemplo do acórdão, prevê-se notificação que especifique a possível conduta ilícita, cabendo ao provedor avaliar o dado indicado e, em caso de remoção, comunicar o notificante e o usuário que o publicou. O provedor poderá, após análise diligente e fundamentada, manter a matéria se tiver dúvida razoável sobre o caráter ilícito do conteúdo.

Sensível às conotações do discurso, diz o art. 16-G, § 2.º, do decreto que, para assegurar a liberdade de expressão, o provedor, na aplicação destas medidas, levará em conta o contexto das publicações, a liberdade religiosa, a finalidade informativa, educativa ou de crítica, bem como a sátira e paródia.

Além do mais, conforme o decreto, o responsável pela publicação poderá pedir reconsideração da decisão de indisponibilidade, sendo-lhe cabível, segundo o acórdão, requerer também judicialmente o restabelecimento da notícia suprimida.

Anote-se prever o art. 16-I que a responsabilidade administrativa do provedor de aplicações de internet, pelo descumprimento das medidas acima mencionadas, não pode estar fundada exclusivamente na manutenção ou na remoção isolada de conteúdo objeto de notificação. É preciso que haja falha sistêmica, consistente em falta de diligência no tratamento das notificações recebidas.

Verifica-se, portanto, equilíbrio no modo de aplicação de controles no terreno delicado da liberdade de expressão.

Assim, penso ter-se encontrado justa medida na forma de proteger a dignidade da pessoa humana ao se dar meio de enfrentar publicações lesivas a valores essenciais, sem deixar de haver, contudo, cuidado para que a avaliação da supressão de notícia não seja arbitrária, mas justificada e passível de revisão.

Destarte, ponderação refinada na avaliação do cabimento da indisponibilização é exigida, buscando-se proteger a sociedade dos abusos que a internet viabiliza, sem ferir a liberdade de expressão.

Entregar tão só ao usuário o ônus de judicializar o pedido de exclusão de matéria nociva, ficando os provedores à espera de ordem judicial para retirar conteúdo manifestamente ilícito, é desprezar a pessoa humana e o conjunto da sociedade em favor da exploração cômoda das empresas aplicadoras de internet. O princípio da liberdade de expressão não autoriza esta inversão, que destrói a liberdade ao confundi-la com libertinagem.

O colunismo social que ilustra o Brasil podre

O ex-deputado estadual TH Joias, do Rio, está preso por ser acusado de prestar serviços ao Comando Vermelho etc. Também vendia joias caras a jogadores de futebol, influenciadores e pessoas da música, algumas acusadas de confraternizar com PCC e CV.

Celebridades propagandeiam "bets", essa desgraça. Famosos de internet se enrolaram com "bets", ilegais ou legais, ou foram presos por suspeita de lavar dinheiro para facções, como Deolane Bezerra, com mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.


Jogadores lideram rankings da fama nas redes, seguidos por humoristas e cantores. Depois de Anitta, na lista de campeãs do Instagram aparece Virgínia, 56 milhões de seguidores. Na semana passada, apanhou por incentivar apostas na vitória de Cabo Verde contra a Argentina quando fazia propaganda da Blaze, "bet".

Viih Tube, 25, tem fama e empreende nas redes desde adolescente, é atriz e ex-BBB. Na semana passada, apanhou por promover um reality em que punha seus empregados domésticos para catar moedas no lixo, em disputa de prêmio em dinheiro.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) fez turismo pago por Fernadin OIG, dono de bets. Nogueira era teúdo e manteúdo de Daniel Vorcaro. Vorcaro alugava graúdos da República e pagava festa de uísque e charuto para parte da cúpula da Justiça e da política, que aceitava com avidez arrivista e cafona esse favor em si impróprio.

Vorcaro e TH Joias são exemplos de nós em que se cruzam muitos fios da vida do país.TH Joias era protegido de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), também preso, quase candidato a governador com apoio do inelegível ex-governador do Rio, Cláudio Castro (PL), estado que colocou dinheiro de seus servidores no Master, de Vorcaro. Bicheiros, chefes de gangues homicidas, se infiltraram na Alerj e patrocinam a alegria carnavalesca. Gestoras de fundos faziam negócios para Vorcaro e gangues diversas.

Essa enumeração caótica é uma coluna social. Muitas das figuras citadas têm voto ou fama nas redes por decisão de massas da população. A vida pública mais e mais é marcada por jogatina, normalização social do crime e corrupção política extensa. A corrupção ajuda a entrincheirar a política da rapina, emendas e lobbies empresariais no Congresso, como o das "bets", um dos mais bem sucedidos.

Até os anos 1990, jornais publicavam "colunas sociais" à moda antiga, notas e fotos que retratavam ricos e agregados, que queriam aparecer e controlar o modo como apareciam. Era campanha de "soft power" de mandões e mandantes desta província. As colunas mais vetustas pareciam imagem editada de salões da elite mais velha, já fazia muito misturada a imigrantes enriquecidos. As mais "modernas" mostravam a vida festeira e mais informal em que se misturavam "artistas", gente de TV e outros admitidos à mesa de ricos, "socialites" e animadores de salão em geral, como doleiros ou vendedores de cocaína e bolinha. Fofocas de famosos de TV e música apareciam mais no que chamavam então de "revista de empregada".

As colunas retratavam a "boa sociedade". Lá apareciam varões que davam golpes na Bolsa, metiam-se nos escândalos financeiros da ditadura ou industriais que viviam de subsídio e protecionismo do "desenvolvimentismo" do "Brasil Grande". O colunismo criado pelo povo das redes pouco trata desses mandantes do poder. A lama muda de cor.
Vinicius Torres Freire

Como dar sentido ao mundo

Tim Harford consegue transformar conceitos difíceis da economia em best-sellers. Seu livro "O Economista Clandestino" vendeu mais de 1 milhão de exemplares no mundo todo, o que não acontece todo dia com obras de divulgação científica.

"How to Make the World Add Up" vai na mesma linha, mas tentando tornar a estatística, mais especificamente as toneladas de dados a que somos submetidos diariamente ao ler um jornal, por exemplo, em algo mais inteligível.


O que eu achei particularmente interessante no livro é que Harford opera mais com a psicologia do que com a matemática propriamente dita. A maior parte das dez regras que ele elabora para nos ajudar a navegar nesse mundo tem mais a ver com o modo pelo qual lemos os dados do que com a forma pela qual eles são produzidos. É um jeito, eu diria, bem bayesiano de lidar com a questão.

Para tornar a discussão mais concreta, a primeira regra de Harford é que devemos avaliar como a estatística anunciada nos afeta emocionalmente. Humanos temos o péssimo hábito de nos apegar a tudo o que reforce aquilo em que já acreditamos e rejeitar, às vezes visceralmente, o que vai contra nossas convicções. É uma receita infalível para não entender o mundo. Apenas nos darmos conta de que esse é um fenômeno que nos afeta diuturnamente já tende a nos tornar melhores intérpretes.

Outros conselhos valiosos de Harford incluem sempre olhar para o contexto em que os dados são apresentados, problematizar as fontes dos números, fazer perguntas sobre a metodologia e desconfiar de gráficos muito bonitinhos. Eles frequentemente embutem armadilhas. Tudo é explicado muito didaticamente e ilustrado por ótimos casos reais.

Também achei legal em "How..." que o autor não adota a fórmula fácil de proclamar-se um arauto da ciência e criticar a plebe ignara que não se sujeita ao método científico. Harford leva o espírito crítico a sério e não hesita em abordar problemas sérios das ciências como a crise de reprodutibilidade e os vieses de publicação dos periódicos.
Hélio Schwartsman

Cuba: morrer na areia

Foi no ano aparentemente distante de 1968, numa manhã a caminho do colégio no meu bairro em Havana, onde eu estudava, que tive uma revelação muito impactante sobre o que um processo revolucionário radical poderia ser. No caminho para a escola, passei pelo que todos conhecíamos como a Armarinho da Fina , onde geralmente encontrávamos, a preços bem razoáveis, alguns dos materiais de que precisávamos. Naquele dia, eu pretendia comprar um lápis e, para minha frustração, vi que o pequeno balcão, situado numa abertura da janela, permanecia fechado no horário em que normalmente estava aberto. Perto dali, vi o velho Serafín, marido da Sra. Fina, e perguntei-lhe por que a loja de ferragens estava fechada. Ele respondeu que o negócio não voltaria a funcionar até que o governo decidisse o contrário: como parte de uma ofensiva revolucionária, a pequena loja havia sido confiscada e, das mãos de Serafín e Fina, tornou-se propriedade do povo, embora na realidade pertencesse ao Estado… E, como logo descobriríamos, não pertenceria a ninguém, porque a loja de ferragens nunca mais existiu e, portanto, parou de vender os lápis (mesmo os cobiçados lápis de duas cores), as borrachas e os cadernos que comprávamos lá durante anos.


A pequena loja de Fina, como todos os pequenos negócios que sobreviveram às intervenções revolucionárias na propriedade privada e nas atividades produtivas e comerciais (um processo que começou em 1959 com as nacionalizações em larga escala), fora considerada pelas políticas econômicas e sociais do país uma forma de exploração capitalista, uma relíquia inaceitável do passado em um estado socialista que almejava um futuro melhor para a nação, até mesmo para a humanidade. Embora na época eu não pudesse questionar quem Serafín e Fina estavam explorando, ou por que o engraxate icônico do bairro, Negro Caridad, agora tinha que trabalhar como funcionário público (com horário fixo e um auxílio de graxa para sapatos, tinta, pincéis e talvez até os panos que usava para engraxar sapatos), logo percebi que agora seria mais difícil, e às vezes impossível, comprar um lápis, tomar um refresco gelado ou engraxar meus sapatos, entre muitas outras opções que haviam diminuído, se deteriorado ou simplesmente desaparecido.

Vinte e cinco anos depois, naquele mesmo país socialista, com os mesmos líderes no poder e no auge de uma crise em que tudo faltava (e digo tudo mesmo ), a abertura de pequenos negócios privados foi permitida, embora sob rigoroso controle. Isso incluía cafés, minúsculos restaurantes (limitados a apenas 12 cadeiras e um único cômodo em uma residência particular) e algumas outras atividades de produção e serviços. Sobrecarregados por restrições e sempre vistos com suspeita, alguns sobreviveram tenazmente, talvez aceitos como um mal necessário, assim como a legalização da posse de moeda estrangeira, que até recentemente era alvo de perseguição e até mesmo punível com anos de prisão.

Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, em meio a uma crise persistente que se mostrou sistêmica, o processo de reabertura das atividades comerciais e econômicas cubanas tem sido turbulento, marcado por controles, desconfiança oficial e, sobretudo, assolado pelo que tem sido o maior temor do governo: a possibilidade de que alguns acumulem riquezas. Pois, embora não declarado abertamente, esse sempre foi o peso político subjacente que oprimiu a sociedade cubana. É sabido que o dinheiro pode influenciar políticas.

Nesse mesmo período recente, e mesmo com reformas tão pequenas, um fenômeno significativo ocorreu na ilha socialista do Caribe: o tecido social coeso criado em 1968 começou a se desfazer, ainda que em duas direções opostas. Enquanto alguns setores da sociedade mostram sinais de prosperidade, outros, a maioria, vivenciaram um empobrecimento desenfreado que, em 2026, reduziu essa vasta população à mera sobrevivência. Prolongados cortes de energia, dificuldades para comprar alimentos (quanto mais para conservá-los ou mesmo processá-los), escassez de medicamentos e, sobretudo, uma palpável perda de esperança emergiram e se enraizaram na vida de milhões de cidadãos. A alternativa mais comum para escapar desse abismo tem sido a emigração, que, em cinco anos, atingiu quase dois milhões de pessoas, aproximadamente 15% da população total do país. E estamos contando aqueles que puderam partir, não aqueles que queriam partir, mas não tinham os recursos necessários para fazê-lo.

E agora, acontece que nesse mesmo país, com o mesmo sistema e praticamente as mesmas pessoas no poder, foi anunciado um pacote substancial de medidas, que, segundo eles, eram necessárias para resolver os problemas socioeconômicos do país. De agora em diante, dizem também, qualquer pessoa pode abrir não apenas uma loja muito maior do que a da Fina — o que já era possível há algum tempo —, mas até mesmo uma fábrica capitalista com muitos trabalhadores e, claro, mais-valia, e até mesmo fundar um banco — e com muito dinheiro. E todos poderão fazer isso, até mesmo pessoas como Fina, Serafín e Negro Caridad, se estivessem vivos e tivessem os meios. Meu falecido pai também poderia ter feito isso, condenado em 1985 a seis meses de prisão por tráfico de moeda, por ter comprado tinta de cabelo para a barbearia — clandestina, é claro — que minha mãe administrava no quintal de casa.

Foi preciso que a sociedade cubana mergulhasse na mais profunda e sombria crise geral para que o inaceitável, o punível, o condenável fossem considerados convenientes, apropriados, justos. Foi necessária uma política de pressão máxima projetada por Washington, incluindo ameaças de ação militar, para reverter o rígido sistema econômico do país e estabelecer uma economia de mercado e uma sociedade do tipo “cada um por si”, com um Estado que, embora se esquive até mesmo das responsabilidades básicas para com a população, certamente pretende preservar sua indústria mais importante e eficiente: o controle. Porque, mesmo agora, em Cuba, pode-se manipular cada elo da corrente, mas (como diz o ditado popular) sem tocar no macaco.

O novo contexto econômico cubano levanta muitas questões, e as respostas são quase sempre alarmantes. Algumas dessas questões variam desde quem confiará em um governo que fomentou a desconfiança até quem investirá seu dinheiro em Cuba agora? Outra questão relacionada é quem, dentro das estruturas de poder, estará em melhor posição para se beneficiar de uma provável desordem nos investimentos. Claramente, a lista de perguntas poderia ser interminável.
Leonardo Padura

domingo, 5 de julho de 2026

Pensamento do Dia

Henrique Monteiro (Portugal)


As favas mal contadas

Do instante da assinatura do Ato Institucional-5 (que passou a legislar por conta própria em 1968, consolidando o golpe militar), ficou marcada na memória social a frase do coronel Jarbas Passarinho: "Às favas os escrúpulos". Meio século depois, essa peça de amoralidade foi incorporada pelo Congresso, ampliando o escopo dos escrúpulos na direção de algo como "às favas o Brasil".


A distância temporal não é significativa. Esses enunciados encontram um ponto de convergência em escusas declarações de "princípios" sopradas pela classe dominante aos sucessivos blocos dirigentes. Princípios do vale-tudo na manutenção e usufruto do poder. Violenta, a frase do coronel transfigurou a duração do ato num instante eterno, isto é, a falta de escrúpulos como uma negativa vontade de poder, destinada a soldar passado e futuro.

Essa morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5. Mas persistiu na reabertura liberal-democrática sob forma de uma infecção da classe política, cuja banda podre foi cultivada pelo regime ditatorial. O raquitismo moral, a sabujice, a degenerescência de caráter dessas lideranças produziram um magno aviltamento coletivo, outro nome para corrupção como prática societária.

O inferno chama pelo inferno. Na memória, como se fosse hoje: logo após anunciado o AI-5, um dos donos de uma empresa editorial carioca entrou na redação aos gritos exultantes de "não mais teremos de pagar indenização aos demitidos". Meio século depois, pequenos empresários confessavam o voto em Bolsonaro por essa mesma expectativa. Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior.

Esse "mesmo" perdurável dá margem à hipótese de que o ponto convergente entre o espírito da frase do coronel e a posterioridade cívica seja a corrupção pura e crua, sem fixa ideologia de fundo. Certo, a máquina metafísica do fascismo funcionou na ausência de projeto nacional coerente e do esvaziamento da dignidade cívica, entendido como vácuo do sentimento de comunidade nacional.

"Às favas os escrúpulos" e "às favas o Brasil" são variações frasais com o mesmo sentido. Não ainda como pleno fascismo, que é forma estrutural de pensamento, dependente, estilo Mussolini, de mitos "fundadores de civilidade". O que há mesmo é aviltamento corruptivo como azeite de relações sociais. Esse é o legado moral e cívico da ditadura. Embora se diga cívico-militar, a banda golpista jamais quis escutar outra coisa de civis senão palavras de bajulação.

Virótica, a corrupção infecciona a esquerda política. Vorcaro é personagem conceitual: assim como a medicina dispõe de marcadores biológicos de saúde, ele se tornou marcador do grau corruptivo do sistema. O escândalo do Master mostra que o crime organizado no país não se limita a facções classificáveis como "terroristas", mas que também se organiza em conluio com altos aparatos dos Poderes. Embora posto às vezes em modo de sobrevivência, como agora, é um ecossistema de teias onde rastejam seres aranhosos, permeáveis à sedução cínica do dinheiro. Brasil, escrúpulos? Às favas.

A insustentável leveza das autocracias

Donald Trump não é o primeiro nem será o último autocrata empenhado em dominar o mundo.

Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norteamericano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.


Mas, claro, a história não termina aqui. Trump é também aliado de unha e carne das outras duas superpotências econômicas e militares – a Rússia de Vladimir Putin e a China de Xi Jinping. Somados, esses três países detêm ogivas nucleares suficientes para destruir nosso planeta centenas de vezes.

Com essa troica pairando sobre nossas cabeças, chega a ser um milagre que um certo grau de democracia ainda seja possível; a razão principal é que um estado de guerra permanente privaria os três protagonistas principais de uma grande parte dos recursos naturais, notadamente alimentos, sem os quais a situação doméstica dos três seria muito mais difícil. A China, por exemplo, mesmo despendendo cifras estonteantes só para manter o terror policial sobre seus cidadãos, não teria como pôr, diariamente, seis refeições na mesa de cada família.

O pano de fundo acima exposto explica em grande parte o vai e vem entre caudilhismos e aspirações democráticas que, bem ou mal, continuamente se repete em toda a América Latina. Assim como há lideranças querendo se afastar de amigos externos que só conhecem a diplomacia do “murro na mesa”, outras há que não se sustentariam sem o ácido carinho que as grandes potências militares lhes prodigalizam. Aqui temos um troca-troca verdadeiramente trágico: um domínio territorial barato para os Trump da vida e um ganho de poder e sobrevivência para autocratas menores de idade que de outra forma pagariam caro pelo comezinho ato de disputar eleições.

Aqui mesmo, em nossa vizinhança, estamos vendo se configurar uma situação como a que acima descrevi. Falo das recentes eleições no Peru e na Colômbia.

O problema, em ambos os países, vai muito além de divergências constitucionais ou ideológicas. Em ambos os casos, um passado de espessa violência. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Fujimori, disputou a Presidência pela quarta vez e venceu, após uma longa e conturbada apuração, com 50,13% dos votos. Num país que teve oito presidentes em dez anos, essa vantagem não soa como um bom augúrio. Ela tem feito gestos de conciliação e convergência – a única coisa sensata que poderia fazer –, mas a questão é se sua atitude e eventual habilidade conseguirão sobrestar o DNA incrustado em seu passado de ódios.

Na Colômbia, o antinomia esquerda vs. direita ressurgiu muito mais carregada, e pelas mesmas razões: guerrilha, tráfico de drogas e uma relação odienta entre setores da elite. Inicialmente, o favorito à sucessão do presidente Gustavo Petro era o alto dirigente comunista Iván Cepeda. Mas uma reviravolta absolutamente inesperada pôs à frente Abelardo de la Espriella – descrito pelo Estadão como representante da “direita populista”. Ainda o Estadão, ibidem: “De 47 anos, é um advogado e empresário milionário que entrou para a política para impedir que a Colômbia seja ‘destruída’ pela esquerda. Ele é admirador do americano Donald Trump e do argentino Javier Milei (...). Vestido com ternos impecáveis e, recentemente, com colete à prova de balas (...), antes de disputar a presidência vivia na cidade italiana de Florença. Promovia seus negócios de rum e vinho, viajava em jatos particulares e cantava ópera”. Sua plataforma, conhecida na América Latina, foi propor “(...) uma aliança militar com EUA e Israel, a construção de megapresídios e medidas para incentivar o porte de armas”. E conclui: “Em meu governo, bandido que não se submeter à Justiça será abatido”.

Os acordes variam, mas a melodia é a mesma. Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira. Quase ninguém acreditava, mas essa é também a história dos EUA na era Trump.

A república da amnésia

Na manhã do dia 7 de abril de 1988, uma forte explosão sacudiu o habitualmente plácido bairro de Sommerschield, em Maputo, capital de Moçambique. Albie Sachs — professor de Direito na Universidade Eduardo Mondlane e destacado opositor do regime do apartheid, na vizinha África do Sul — acabava de ser vítima de um atentado, no qual perdeu um braço e a visão de um olho.

Sachs escreveu sobre essa manhã num testemunho extraordinário, sem qualquer sinal de rancor, que a editora Caminho publicou em Portugal, em 1990, com o título “A suave vingança de um combatente da liberdade”. Poucos anos mais tarde, o homem que a polícia do apartheid tentou matar em Maputo ajudaria a redigir a Constituição da nova África do Sul.

Aquela não foi a primeira vez, nem a última, que os serviços secretos sul-africanos intervieram diretamente em Moçambique. Outros países da região pagaram durante décadas um elevado preço por acolherem combatentes da luta contra o apartheid. Muitos morreram por causa dessa solidariedade.

Lembro-me de ouvir Ruy Mingas — o Chico Buarque angolano — cantar em rodas de amigos uma canção belíssima, sobre a contribuição angolana na luta contra o apartheid. A canção começava assim: “Sou ventre da África Austral/ com os filhos que gerei/ já fui granada do amanhecer na Namíbia,/ do amanhecer no Zimbábue/ e na África do Sul.”


As recentes manifestações contra imigrantes africanos na África do Sul estão sendo recebidas no restante do continente com perplexidade, revolta e um profundo sentimento de injustiça. Moçambique, Angola, Zâmbia e outros países sacrificaram-se para que os sul-africanos alcançassem a liberdade. Como compreender agora este ódio?

Milhares de moçambicanos, zimbabuenses, nigerianos, senegaleses e malianos estão abandonando a África do Sul. Muitos escapam apenas com a roupa que trazem no corpo, deixando para trás lojas, casas, bens diversos e, por vezes, as próprias famílias. O seu desespero é enorme.

Alguns analistas recusam o termo xenofobia. Não se trata de simples hostilidade contra estrangeiros. As comunidades de origem europeia ou asiática raramente são alvo destes ataques. Talvez a palavra mais exata seja afrofobia: o medo e o ódio dirigidos aos próprios africanos.

O que mais surpreende é a amnésia.

Durante décadas, sul-africanos perseguidos atravessaram fronteiras em busca de abrigo. Encontraram refúgio em Luanda, em Maputo, em Lusaca, em Dar es Salaam. Muitos viveram durante anos longe de casa. Outros, como Albie Sachs, quase morreram. Hoje a viagem faz-se em sentido contrário. São os moçambicanos que atravessam a fronteira para sul. E encontram homens que lhes dizem: voltem para casa.

Retorno à canção de Ruy Mingas. Nos versos finais ele cantava: “Quero,/ hoje eu quero mil vulcões,/ tempestades no deserto,/ quero a chuva mais perto/ de todos os furacões.”

A África do Sul democrática, o país do arco-íris, nasceu da solidariedade africana. Agora, ao trair o continente, volta a ficar isolada. A grande questão é — a quem interessa tal isolamento? Quem, na sombra, está fomentando a divisão?