segunda-feira, 6 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Menos saúde e segurança, mais Trump

Esqueça saúde, educação, segurança. Esses são temas secundários para Flávio Bolsonaro. Quando não ataca Lula e o petismo, só resta Trump, Trump ou Trump. A tática impulsionada pela estadia de seu irmão Eduardo na terra da Copa de 2026 tem sido desastrosa. Tarifas, sanções, ameaças ao Pix, grupos criminosos classificados como terroristas compõem esse emaranhado de erros. Mesmo assim, o bolsonarismo insiste, como se ainda agitasse a bandeira dos EUA no Sete de Setembro na Avenida Paulista. O ataque à soberania virou método?

Não é novidade. Em diversas ocasiões, enquanto comandava o país, Jair Bolsonaro manifestou alinhamento quase automático à política externa de Donald Trump, inclusive em temas considerados sensíveis para a autonomia diplomática brasileira, como relações com China, meio ambiente e Oriente Médio. É emblemática sua continência à bandeira americana durante a execução de ” The Star-Spangled Banner “. Seu chanceler Ernesto “Pária” Araújo rompeu com a tradição de autonomia do Itamaraty. Os companheiros Sergio Moro e Deltan Dallagnol, durante a Operação Lava Jato, mantiveram intensa cooperação com autoridades estrangeiras, especialmente norte-americanas.


Historicamente, indignados costumavam denunciar violações de direitos humanos em organismos multilaterais, como a ONU ou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. No caso do bolsonarismo, o foco deslocou-se para os republicanos do governo e do Congresso dos Estados Unidos, na tentativa de convencer parlamentares de que o Brasil deixava de ser uma democracia. A nação que nasceu para defender a democracia no mundo precisava agir aqui.

É uma continuação farsesca da política externa dependente que foi consolidada no golpe de 64 e na ditadura militar. Setores da sociedade, militares entre eles, defendem uma aproximação ideológica com o conservadorismo norte-americano, atuam para que os Estados Unidos sejam um aliado político prioritário. Surfam no discurso do anticomunismo e precisam dos ianques para legitimar projetos políticos internos. A balança comercial e os empréstimos davam sentido a essa atuação no passado, hoje, com o multilateralismo e as relações com a China, tudo mudou. Só o poderio bélico justificaria tal submissão.

O problema do bolsonarismo é constitucional. O artigo 4º determina que as relações internacionais do Brasil são guiadas pela independência nacional, pela não intervenção de outros Estados. Isso significa que conflitos políticos internos devem ser solucionados pelo Congresso, Judiciário, Ministério Público e eleições — sem interferência de governos estrangeiros. Foi justamente esse paradigma que foi desacreditado pela extrema-direita patriota.

Ponderação de valores na internet

A internet constitui enorme veículo de transmissão de opiniões, permitindo a manifestação da imensa maioria de pessoas antes destituídas de meio revelador de suas impressões. “L’uomo qualunque” encontrou o caixote no qual sobe para dizer ao mundo o que acha disto ou daquilo.

Se há o benefício da democratização da comunicação, por outro lado, abre-se uma imensa porta para se lançarem opiniões, revelações, fabulações e criações de imagem que têm potencialidade para ofender valores imprescindíveis à sadia convivência social e à tranquilidade pessoal.


Assim, passou o Judiciário a interpretar ser insuficiente o disposto no art. 19 do Marco Civil da Internet, segundo o qual só cabe responsabilizar os provedores de aplicação da internet por conteúdo de terceiro caso desatendam ordem judicial de o tornar indisponível.

Neste mês de julho, passa a ter eficácia a obrigatoriedade de deveres de cuidado imposta aos provedores para indisponibilizar conteúdo indevido de terceiro, ofensivo a valores essenciais, como consta na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) (RE 1037396/SP) e no Decreto n.º 12.975 de maio passado.

Dá-se um confronto de valores constitucionais, cabendo interpretar o disposto no art. 19 do Marco Civil para compor solução adequada de respeito à liberdade de expressão conjugada com proteção à privacidade, à moralidade e à incolumidade sexual, à segurança pessoal e pública, à não discriminação, à paz pública.

O certo é que não se pode deixar a sociedade e as pessoas ao desabrigo de meios para o mais rapidamente possível conseguir intervir para fazer cessar a lesão a seus interesses fundamentais, atingidos pela postagem de conteúdos falsos, embustes e incitação ao crime. Assim, impôs-se aos provedores a indisponibilização, sob pena de poderem ser responsabilizado por omissão.

Para tanto, cabe aos provedores viabilizar canal de denúncia permanente e de fácil acesso, para recebimento e tratamento das notificações de conteúdos ilícitos.

Dessa forma, como destacado no acórdão do STF, acode-se à vulnerabilidade digital, que recai especialmente sobre mulheres, crianças e adolescentes (lembro o cyberbullying), para tornar exequível ação defensiva rápida e efetiva.

Assim, para o STF, as empresas têm o dever de cuidado de evitar que determinados conteúdos permaneçam no espaço público, tais como: pornografia infantil e crimes graves contra crianças e adolescentes, instigação ou auxílio a suicídio, terrorismo e abolição do Estado de Direito.

Com razão, excluiu-se a obrigatoriedade de indisponibilização de crime contra a honra, cuja configuração é complexa a depender de análise do contexto, do ambiente e da ocasião em que são proferidas as palavras, bem como da pessoa dos interlocutores.

No decreto presidencial de maio, a vigorar a partir de julho, a exemplo do acórdão, prevê-se notificação que especifique a possível conduta ilícita, cabendo ao provedor avaliar o dado indicado e, em caso de remoção, comunicar o notificante e o usuário que o publicou. O provedor poderá, após análise diligente e fundamentada, manter a matéria se tiver dúvida razoável sobre o caráter ilícito do conteúdo.

Sensível às conotações do discurso, diz o art. 16-G, § 2.º, do decreto que, para assegurar a liberdade de expressão, o provedor, na aplicação destas medidas, levará em conta o contexto das publicações, a liberdade religiosa, a finalidade informativa, educativa ou de crítica, bem como a sátira e paródia.

Além do mais, conforme o decreto, o responsável pela publicação poderá pedir reconsideração da decisão de indisponibilidade, sendo-lhe cabível, segundo o acórdão, requerer também judicialmente o restabelecimento da notícia suprimida.

Anote-se prever o art. 16-I que a responsabilidade administrativa do provedor de aplicações de internet, pelo descumprimento das medidas acima mencionadas, não pode estar fundada exclusivamente na manutenção ou na remoção isolada de conteúdo objeto de notificação. É preciso que haja falha sistêmica, consistente em falta de diligência no tratamento das notificações recebidas.

Verifica-se, portanto, equilíbrio no modo de aplicação de controles no terreno delicado da liberdade de expressão.

Assim, penso ter-se encontrado justa medida na forma de proteger a dignidade da pessoa humana ao se dar meio de enfrentar publicações lesivas a valores essenciais, sem deixar de haver, contudo, cuidado para que a avaliação da supressão de notícia não seja arbitrária, mas justificada e passível de revisão.

Destarte, ponderação refinada na avaliação do cabimento da indisponibilização é exigida, buscando-se proteger a sociedade dos abusos que a internet viabiliza, sem ferir a liberdade de expressão.

Entregar tão só ao usuário o ônus de judicializar o pedido de exclusão de matéria nociva, ficando os provedores à espera de ordem judicial para retirar conteúdo manifestamente ilícito, é desprezar a pessoa humana e o conjunto da sociedade em favor da exploração cômoda das empresas aplicadoras de internet. O princípio da liberdade de expressão não autoriza esta inversão, que destrói a liberdade ao confundi-la com libertinagem.

O colunismo social que ilustra o Brasil podre

O ex-deputado estadual TH Joias, do Rio, está preso por ser acusado de prestar serviços ao Comando Vermelho etc. Também vendia joias caras a jogadores de futebol, influenciadores e pessoas da música, algumas acusadas de confraternizar com PCC e CV.

Celebridades propagandeiam "bets", essa desgraça. Famosos de internet se enrolaram com "bets", ilegais ou legais, ou foram presos por suspeita de lavar dinheiro para facções, como Deolane Bezerra, com mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.


Jogadores lideram rankings da fama nas redes, seguidos por humoristas e cantores. Depois de Anitta, na lista de campeãs do Instagram aparece Virgínia, 56 milhões de seguidores. Na semana passada, apanhou por incentivar apostas na vitória de Cabo Verde contra a Argentina quando fazia propaganda da Blaze, "bet".

Viih Tube, 25, tem fama e empreende nas redes desde adolescente, é atriz e ex-BBB. Na semana passada, apanhou por promover um reality em que punha seus empregados domésticos para catar moedas no lixo, em disputa de prêmio em dinheiro.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) fez turismo pago por Fernadin OIG, dono de bets. Nogueira era teúdo e manteúdo de Daniel Vorcaro. Vorcaro alugava graúdos da República e pagava festa de uísque e charuto para parte da cúpula da Justiça e da política, que aceitava com avidez arrivista e cafona esse favor em si impróprio.

Vorcaro e TH Joias são exemplos de nós em que se cruzam muitos fios da vida do país.TH Joias era protegido de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), também preso, quase candidato a governador com apoio do inelegível ex-governador do Rio, Cláudio Castro (PL), estado que colocou dinheiro de seus servidores no Master, de Vorcaro. Bicheiros, chefes de gangues homicidas, se infiltraram na Alerj e patrocinam a alegria carnavalesca. Gestoras de fundos faziam negócios para Vorcaro e gangues diversas.

Essa enumeração caótica é uma coluna social. Muitas das figuras citadas têm voto ou fama nas redes por decisão de massas da população. A vida pública mais e mais é marcada por jogatina, normalização social do crime e corrupção política extensa. A corrupção ajuda a entrincheirar a política da rapina, emendas e lobbies empresariais no Congresso, como o das "bets", um dos mais bem sucedidos.

Até os anos 1990, jornais publicavam "colunas sociais" à moda antiga, notas e fotos que retratavam ricos e agregados, que queriam aparecer e controlar o modo como apareciam. Era campanha de "soft power" de mandões e mandantes desta província. As colunas mais vetustas pareciam imagem editada de salões da elite mais velha, já fazia muito misturada a imigrantes enriquecidos. As mais "modernas" mostravam a vida festeira e mais informal em que se misturavam "artistas", gente de TV e outros admitidos à mesa de ricos, "socialites" e animadores de salão em geral, como doleiros ou vendedores de cocaína e bolinha. Fofocas de famosos de TV e música apareciam mais no que chamavam então de "revista de empregada".

As colunas retratavam a "boa sociedade". Lá apareciam varões que davam golpes na Bolsa, metiam-se nos escândalos financeiros da ditadura ou industriais que viviam de subsídio e protecionismo do "desenvolvimentismo" do "Brasil Grande". O colunismo criado pelo povo das redes pouco trata desses mandantes do poder. A lama muda de cor.
Vinicius Torres Freire

Como dar sentido ao mundo

Tim Harford consegue transformar conceitos difíceis da economia em best-sellers. Seu livro "O Economista Clandestino" vendeu mais de 1 milhão de exemplares no mundo todo, o que não acontece todo dia com obras de divulgação científica.

"How to Make the World Add Up" vai na mesma linha, mas tentando tornar a estatística, mais especificamente as toneladas de dados a que somos submetidos diariamente ao ler um jornal, por exemplo, em algo mais inteligível.


O que eu achei particularmente interessante no livro é que Harford opera mais com a psicologia do que com a matemática propriamente dita. A maior parte das dez regras que ele elabora para nos ajudar a navegar nesse mundo tem mais a ver com o modo pelo qual lemos os dados do que com a forma pela qual eles são produzidos. É um jeito, eu diria, bem bayesiano de lidar com a questão.

Para tornar a discussão mais concreta, a primeira regra de Harford é que devemos avaliar como a estatística anunciada nos afeta emocionalmente. Humanos temos o péssimo hábito de nos apegar a tudo o que reforce aquilo em que já acreditamos e rejeitar, às vezes visceralmente, o que vai contra nossas convicções. É uma receita infalível para não entender o mundo. Apenas nos darmos conta de que esse é um fenômeno que nos afeta diuturnamente já tende a nos tornar melhores intérpretes.

Outros conselhos valiosos de Harford incluem sempre olhar para o contexto em que os dados são apresentados, problematizar as fontes dos números, fazer perguntas sobre a metodologia e desconfiar de gráficos muito bonitinhos. Eles frequentemente embutem armadilhas. Tudo é explicado muito didaticamente e ilustrado por ótimos casos reais.

Também achei legal em "How..." que o autor não adota a fórmula fácil de proclamar-se um arauto da ciência e criticar a plebe ignara que não se sujeita ao método científico. Harford leva o espírito crítico a sério e não hesita em abordar problemas sérios das ciências como a crise de reprodutibilidade e os vieses de publicação dos periódicos.
Hélio Schwartsman

Cuba: morrer na areia

Foi no ano aparentemente distante de 1968, numa manhã a caminho do colégio no meu bairro em Havana, onde eu estudava, que tive uma revelação muito impactante sobre o que um processo revolucionário radical poderia ser. No caminho para a escola, passei pelo que todos conhecíamos como a Armarinho da Fina , onde geralmente encontrávamos, a preços bem razoáveis, alguns dos materiais de que precisávamos. Naquele dia, eu pretendia comprar um lápis e, para minha frustração, vi que o pequeno balcão, situado numa abertura da janela, permanecia fechado no horário em que normalmente estava aberto. Perto dali, vi o velho Serafín, marido da Sra. Fina, e perguntei-lhe por que a loja de ferragens estava fechada. Ele respondeu que o negócio não voltaria a funcionar até que o governo decidisse o contrário: como parte de uma ofensiva revolucionária, a pequena loja havia sido confiscada e, das mãos de Serafín e Fina, tornou-se propriedade do povo, embora na realidade pertencesse ao Estado… E, como logo descobriríamos, não pertenceria a ninguém, porque a loja de ferragens nunca mais existiu e, portanto, parou de vender os lápis (mesmo os cobiçados lápis de duas cores), as borrachas e os cadernos que comprávamos lá durante anos.


A pequena loja de Fina, como todos os pequenos negócios que sobreviveram às intervenções revolucionárias na propriedade privada e nas atividades produtivas e comerciais (um processo que começou em 1959 com as nacionalizações em larga escala), fora considerada pelas políticas econômicas e sociais do país uma forma de exploração capitalista, uma relíquia inaceitável do passado em um estado socialista que almejava um futuro melhor para a nação, até mesmo para a humanidade. Embora na época eu não pudesse questionar quem Serafín e Fina estavam explorando, ou por que o engraxate icônico do bairro, Negro Caridad, agora tinha que trabalhar como funcionário público (com horário fixo e um auxílio de graxa para sapatos, tinta, pincéis e talvez até os panos que usava para engraxar sapatos), logo percebi que agora seria mais difícil, e às vezes impossível, comprar um lápis, tomar um refresco gelado ou engraxar meus sapatos, entre muitas outras opções que haviam diminuído, se deteriorado ou simplesmente desaparecido.

Vinte e cinco anos depois, naquele mesmo país socialista, com os mesmos líderes no poder e no auge de uma crise em que tudo faltava (e digo tudo mesmo ), a abertura de pequenos negócios privados foi permitida, embora sob rigoroso controle. Isso incluía cafés, minúsculos restaurantes (limitados a apenas 12 cadeiras e um único cômodo em uma residência particular) e algumas outras atividades de produção e serviços. Sobrecarregados por restrições e sempre vistos com suspeita, alguns sobreviveram tenazmente, talvez aceitos como um mal necessário, assim como a legalização da posse de moeda estrangeira, que até recentemente era alvo de perseguição e até mesmo punível com anos de prisão.

Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, em meio a uma crise persistente que se mostrou sistêmica, o processo de reabertura das atividades comerciais e econômicas cubanas tem sido turbulento, marcado por controles, desconfiança oficial e, sobretudo, assolado pelo que tem sido o maior temor do governo: a possibilidade de que alguns acumulem riquezas. Pois, embora não declarado abertamente, esse sempre foi o peso político subjacente que oprimiu a sociedade cubana. É sabido que o dinheiro pode influenciar políticas.

Nesse mesmo período recente, e mesmo com reformas tão pequenas, um fenômeno significativo ocorreu na ilha socialista do Caribe: o tecido social coeso criado em 1968 começou a se desfazer, ainda que em duas direções opostas. Enquanto alguns setores da sociedade mostram sinais de prosperidade, outros, a maioria, vivenciaram um empobrecimento desenfreado que, em 2026, reduziu essa vasta população à mera sobrevivência. Prolongados cortes de energia, dificuldades para comprar alimentos (quanto mais para conservá-los ou mesmo processá-los), escassez de medicamentos e, sobretudo, uma palpável perda de esperança emergiram e se enraizaram na vida de milhões de cidadãos. A alternativa mais comum para escapar desse abismo tem sido a emigração, que, em cinco anos, atingiu quase dois milhões de pessoas, aproximadamente 15% da população total do país. E estamos contando aqueles que puderam partir, não aqueles que queriam partir, mas não tinham os recursos necessários para fazê-lo.

E agora, acontece que nesse mesmo país, com o mesmo sistema e praticamente as mesmas pessoas no poder, foi anunciado um pacote substancial de medidas, que, segundo eles, eram necessárias para resolver os problemas socioeconômicos do país. De agora em diante, dizem também, qualquer pessoa pode abrir não apenas uma loja muito maior do que a da Fina — o que já era possível há algum tempo —, mas até mesmo uma fábrica capitalista com muitos trabalhadores e, claro, mais-valia, e até mesmo fundar um banco — e com muito dinheiro. E todos poderão fazer isso, até mesmo pessoas como Fina, Serafín e Negro Caridad, se estivessem vivos e tivessem os meios. Meu falecido pai também poderia ter feito isso, condenado em 1985 a seis meses de prisão por tráfico de moeda, por ter comprado tinta de cabelo para a barbearia — clandestina, é claro — que minha mãe administrava no quintal de casa.

Foi preciso que a sociedade cubana mergulhasse na mais profunda e sombria crise geral para que o inaceitável, o punível, o condenável fossem considerados convenientes, apropriados, justos. Foi necessária uma política de pressão máxima projetada por Washington, incluindo ameaças de ação militar, para reverter o rígido sistema econômico do país e estabelecer uma economia de mercado e uma sociedade do tipo “cada um por si”, com um Estado que, embora se esquive até mesmo das responsabilidades básicas para com a população, certamente pretende preservar sua indústria mais importante e eficiente: o controle. Porque, mesmo agora, em Cuba, pode-se manipular cada elo da corrente, mas (como diz o ditado popular) sem tocar no macaco.

O novo contexto econômico cubano levanta muitas questões, e as respostas são quase sempre alarmantes. Algumas dessas questões variam desde quem confiará em um governo que fomentou a desconfiança até quem investirá seu dinheiro em Cuba agora? Outra questão relacionada é quem, dentro das estruturas de poder, estará em melhor posição para se beneficiar de uma provável desordem nos investimentos. Claramente, a lista de perguntas poderia ser interminável.
Leonardo Padura

domingo, 5 de julho de 2026

Pensamento do Dia

Henrique Monteiro (Portugal)


As favas mal contadas

Do instante da assinatura do Ato Institucional-5 (que passou a legislar por conta própria em 1968, consolidando o golpe militar), ficou marcada na memória social a frase do coronel Jarbas Passarinho: "Às favas os escrúpulos". Meio século depois, essa peça de amoralidade foi incorporada pelo Congresso, ampliando o escopo dos escrúpulos na direção de algo como "às favas o Brasil".


A distância temporal não é significativa. Esses enunciados encontram um ponto de convergência em escusas declarações de "princípios" sopradas pela classe dominante aos sucessivos blocos dirigentes. Princípios do vale-tudo na manutenção e usufruto do poder. Violenta, a frase do coronel transfigurou a duração do ato num instante eterno, isto é, a falta de escrúpulos como uma negativa vontade de poder, destinada a soldar passado e futuro.

Essa morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5. Mas persistiu na reabertura liberal-democrática sob forma de uma infecção da classe política, cuja banda podre foi cultivada pelo regime ditatorial. O raquitismo moral, a sabujice, a degenerescência de caráter dessas lideranças produziram um magno aviltamento coletivo, outro nome para corrupção como prática societária.

O inferno chama pelo inferno. Na memória, como se fosse hoje: logo após anunciado o AI-5, um dos donos de uma empresa editorial carioca entrou na redação aos gritos exultantes de "não mais teremos de pagar indenização aos demitidos". Meio século depois, pequenos empresários confessavam o voto em Bolsonaro por essa mesma expectativa. Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior.

Esse "mesmo" perdurável dá margem à hipótese de que o ponto convergente entre o espírito da frase do coronel e a posterioridade cívica seja a corrupção pura e crua, sem fixa ideologia de fundo. Certo, a máquina metafísica do fascismo funcionou na ausência de projeto nacional coerente e do esvaziamento da dignidade cívica, entendido como vácuo do sentimento de comunidade nacional.

"Às favas os escrúpulos" e "às favas o Brasil" são variações frasais com o mesmo sentido. Não ainda como pleno fascismo, que é forma estrutural de pensamento, dependente, estilo Mussolini, de mitos "fundadores de civilidade". O que há mesmo é aviltamento corruptivo como azeite de relações sociais. Esse é o legado moral e cívico da ditadura. Embora se diga cívico-militar, a banda golpista jamais quis escutar outra coisa de civis senão palavras de bajulação.

Virótica, a corrupção infecciona a esquerda política. Vorcaro é personagem conceitual: assim como a medicina dispõe de marcadores biológicos de saúde, ele se tornou marcador do grau corruptivo do sistema. O escândalo do Master mostra que o crime organizado no país não se limita a facções classificáveis como "terroristas", mas que também se organiza em conluio com altos aparatos dos Poderes. Embora posto às vezes em modo de sobrevivência, como agora, é um ecossistema de teias onde rastejam seres aranhosos, permeáveis à sedução cínica do dinheiro. Brasil, escrúpulos? Às favas.

A insustentável leveza das autocracias

Donald Trump não é o primeiro nem será o último autocrata empenhado em dominar o mundo.

Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norteamericano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.


Mas, claro, a história não termina aqui. Trump é também aliado de unha e carne das outras duas superpotências econômicas e militares – a Rússia de Vladimir Putin e a China de Xi Jinping. Somados, esses três países detêm ogivas nucleares suficientes para destruir nosso planeta centenas de vezes.

Com essa troica pairando sobre nossas cabeças, chega a ser um milagre que um certo grau de democracia ainda seja possível; a razão principal é que um estado de guerra permanente privaria os três protagonistas principais de uma grande parte dos recursos naturais, notadamente alimentos, sem os quais a situação doméstica dos três seria muito mais difícil. A China, por exemplo, mesmo despendendo cifras estonteantes só para manter o terror policial sobre seus cidadãos, não teria como pôr, diariamente, seis refeições na mesa de cada família.

O pano de fundo acima exposto explica em grande parte o vai e vem entre caudilhismos e aspirações democráticas que, bem ou mal, continuamente se repete em toda a América Latina. Assim como há lideranças querendo se afastar de amigos externos que só conhecem a diplomacia do “murro na mesa”, outras há que não se sustentariam sem o ácido carinho que as grandes potências militares lhes prodigalizam. Aqui temos um troca-troca verdadeiramente trágico: um domínio territorial barato para os Trump da vida e um ganho de poder e sobrevivência para autocratas menores de idade que de outra forma pagariam caro pelo comezinho ato de disputar eleições.

Aqui mesmo, em nossa vizinhança, estamos vendo se configurar uma situação como a que acima descrevi. Falo das recentes eleições no Peru e na Colômbia.

O problema, em ambos os países, vai muito além de divergências constitucionais ou ideológicas. Em ambos os casos, um passado de espessa violência. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Fujimori, disputou a Presidência pela quarta vez e venceu, após uma longa e conturbada apuração, com 50,13% dos votos. Num país que teve oito presidentes em dez anos, essa vantagem não soa como um bom augúrio. Ela tem feito gestos de conciliação e convergência – a única coisa sensata que poderia fazer –, mas a questão é se sua atitude e eventual habilidade conseguirão sobrestar o DNA incrustado em seu passado de ódios.

Na Colômbia, o antinomia esquerda vs. direita ressurgiu muito mais carregada, e pelas mesmas razões: guerrilha, tráfico de drogas e uma relação odienta entre setores da elite. Inicialmente, o favorito à sucessão do presidente Gustavo Petro era o alto dirigente comunista Iván Cepeda. Mas uma reviravolta absolutamente inesperada pôs à frente Abelardo de la Espriella – descrito pelo Estadão como representante da “direita populista”. Ainda o Estadão, ibidem: “De 47 anos, é um advogado e empresário milionário que entrou para a política para impedir que a Colômbia seja ‘destruída’ pela esquerda. Ele é admirador do americano Donald Trump e do argentino Javier Milei (...). Vestido com ternos impecáveis e, recentemente, com colete à prova de balas (...), antes de disputar a presidência vivia na cidade italiana de Florença. Promovia seus negócios de rum e vinho, viajava em jatos particulares e cantava ópera”. Sua plataforma, conhecida na América Latina, foi propor “(...) uma aliança militar com EUA e Israel, a construção de megapresídios e medidas para incentivar o porte de armas”. E conclui: “Em meu governo, bandido que não se submeter à Justiça será abatido”.

Os acordes variam, mas a melodia é a mesma. Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira. Quase ninguém acreditava, mas essa é também a história dos EUA na era Trump.

A república da amnésia

Na manhã do dia 7 de abril de 1988, uma forte explosão sacudiu o habitualmente plácido bairro de Sommerschield, em Maputo, capital de Moçambique. Albie Sachs — professor de Direito na Universidade Eduardo Mondlane e destacado opositor do regime do apartheid, na vizinha África do Sul — acabava de ser vítima de um atentado, no qual perdeu um braço e a visão de um olho.

Sachs escreveu sobre essa manhã num testemunho extraordinário, sem qualquer sinal de rancor, que a editora Caminho publicou em Portugal, em 1990, com o título “A suave vingança de um combatente da liberdade”. Poucos anos mais tarde, o homem que a polícia do apartheid tentou matar em Maputo ajudaria a redigir a Constituição da nova África do Sul.

Aquela não foi a primeira vez, nem a última, que os serviços secretos sul-africanos intervieram diretamente em Moçambique. Outros países da região pagaram durante décadas um elevado preço por acolherem combatentes da luta contra o apartheid. Muitos morreram por causa dessa solidariedade.

Lembro-me de ouvir Ruy Mingas — o Chico Buarque angolano — cantar em rodas de amigos uma canção belíssima, sobre a contribuição angolana na luta contra o apartheid. A canção começava assim: “Sou ventre da África Austral/ com os filhos que gerei/ já fui granada do amanhecer na Namíbia,/ do amanhecer no Zimbábue/ e na África do Sul.”


As recentes manifestações contra imigrantes africanos na África do Sul estão sendo recebidas no restante do continente com perplexidade, revolta e um profundo sentimento de injustiça. Moçambique, Angola, Zâmbia e outros países sacrificaram-se para que os sul-africanos alcançassem a liberdade. Como compreender agora este ódio?

Milhares de moçambicanos, zimbabuenses, nigerianos, senegaleses e malianos estão abandonando a África do Sul. Muitos escapam apenas com a roupa que trazem no corpo, deixando para trás lojas, casas, bens diversos e, por vezes, as próprias famílias. O seu desespero é enorme.

Alguns analistas recusam o termo xenofobia. Não se trata de simples hostilidade contra estrangeiros. As comunidades de origem europeia ou asiática raramente são alvo destes ataques. Talvez a palavra mais exata seja afrofobia: o medo e o ódio dirigidos aos próprios africanos.

O que mais surpreende é a amnésia.

Durante décadas, sul-africanos perseguidos atravessaram fronteiras em busca de abrigo. Encontraram refúgio em Luanda, em Maputo, em Lusaca, em Dar es Salaam. Muitos viveram durante anos longe de casa. Outros, como Albie Sachs, quase morreram. Hoje a viagem faz-se em sentido contrário. São os moçambicanos que atravessam a fronteira para sul. E encontram homens que lhes dizem: voltem para casa.

Retorno à canção de Ruy Mingas. Nos versos finais ele cantava: “Quero,/ hoje eu quero mil vulcões,/ tempestades no deserto,/ quero a chuva mais perto/ de todos os furacões.”

A África do Sul democrática, o país do arco-íris, nasceu da solidariedade africana. Agora, ao trair o continente, volta a ficar isolada. A grande questão é — a quem interessa tal isolamento? Quem, na sombra, está fomentando a divisão?

sábado, 4 de julho de 2026

O apoio dos latinos aos republicanos está diminuindo nos EUA

Quando Donald Trump venceu a eleição presidencial de 2024, ele o fez com o apoio de milhões de eleitores latinos. Na época, isso foi descrito como uma demonstração histórica de apoio dessa comunidade, que lhe concedeu cerca de 46% dos votos, tornando esses votos um fator decisivo para a vitória do atual presidente dos EUA.

Mas o entusiasmo inicial pela administração republicana diminuiu. Após quase um ano e meio no poder, os latinos parecem estar desiludidos. Muitos até se arrependeram de ter votado em Trump. Isso foi demonstrado por diversas pesquisas que tentam acompanhar possíveis mudanças no comportamento dos eleitores latinos, que somam mais de 36 milhões nos Estados Unidos.

A pesquisa apresentada pela organização latina UnidosUS, divulgada em maio e que coletou a opinião de três mil eleitores latinos, detalha que um em cada quatro desses eleitores que votaram em Trump não votaria nele novamente. Enquanto isso, 67% dos entrevistados desaprovam o desempenho do presidente americano.


Ao longo de suas três campanhas presidenciais, Donald Trump conseguiu aumentar sua porcentagem de votos entre os latinos, passando de 28% para 46% de apoio nesse grupo. Ele alcançou esse resultado reforçando sua promessa de campanha de melhorar a economia , uma questão que afeta diretamente os latinos, que são em grande parte uma população da classe trabalhadora. Portanto, se buscarmos razões para o declínio no apoio latino observado durante o governo Trump, um dos principais fatores é a inflação.

O cientista político e professor da Universidade de Houston, Jerónimo Cortina, explicou à DW que "na última eleição presidencial, em 2014, vimos um voto de protesto contra o contexto econômico e político que estávamos vivenciando. Em contraste, hoje observamos uma desilusão com as promessas feitas, que eram muito simples. Disseram aos eleitores: sua qualidade de vida vai melhorar, os empregos vão melhorar, os salários vão aumentar, os preços nos supermercados vão cair, os preços dos combustíveis vão diminuir, a economia vai crescer. No entanto, agora, no segundo ano do governo, vemos que isso não se concretizou totalmente. É verdade que a macroeconomia nos Estados Unidos está em expansão, mas o eleitor médio, incluindo os latinos, não viu esse ganho macroeconômico se traduzir em benefícios tangíveis para suas famílias."

Outro aspecto fundamental da insatisfação com Trump reside na política de imigração implementada por seu governo. "As operações de imigração realizadas pelo ICE marcaram profundamente os sentimentos dos eleitores, especialmente os latinos, que foram particularmente afetados. O tom usado contra eles, independentemente de serem cidadãos ou não, e as ações tomadas que separaram famílias, as mortes de imigrantes indocumentados e até mesmo de cidadãos americanos, têm um efeito direto nas intenções de voto desse grupo de eleitores", acrescenta o analista político Julio Sevilla.

O próximo grande teste para o governo Trump são as eleições de meio de mandato em 3 de novembro, que renovarão a Câmara dos Representantes e parte do Senado. Portanto, o declínio dos votos latinos e, de forma mais geral, entre os grupos minoritários no eleitorado americano, volta a ser de particular importância.

Embora ainda faltem vários meses para a votação, analistas acreditam que os votos extras que Trump obteve das minorias latina, asiática e afro-americana já estão perdidos.

Julio Sevilla, professor da Universidade da Geórgia, disse à DW que "o apoio dos latinos aos republicanos e a Trump vai se inverter; mesmo pesquisas como a do Pew Research Center mostram que o apoio dessa comunidade ao governo está atualmente abaixo de 30%, e embora o número de eleitores não seja tão grande nem sejam um grupo decisivo nas eleições de meio de mandato, acho que a queda nesses votos será sentida."

Ele acrescenta: "Na minha opinião, é tarde demais para reverter a tendência de queda no apoio dos latinos aos republicanos. Assim como aconteceu com Biden, a percepção de que este é um governo fracassado já está estabelecida, e mesmo que tentem mudar essa ideia, a eleição está logo ali."

Jerónimo Cortina compartilha da visão de um cenário difícil para os republicanos . "O resultado da próxima eleição dependerá, por um lado, da participação eleitoral, de qual partido conseguir levar o maior número de pessoas às urnas. É provável que os republicanos não se saiam muito bem, especialmente considerando a baixíssima popularidade do presidente Trump. Além disso, se analisarmos o que historicamente aconteceu nas eleições de meio de mandato, o partido na Casa Branca geralmente perde cadeiras tanto no Senado quanto na Câmara dos Representantes. Isso torna ainda mais provável que isso se repita."

Sem futuro?

No fim dos anos 1980, um chinês próximo dos 50 anos chamado Chen Yizi acompanhou uma delegação do seu país em visita oficial ao Brasil. Ele era uma pessoa influente e respeitada na China. Assessor especial do primeiro-ministro e do secretário-geral do Partido Comunista, foi protagonista nas reformas econômicas de Deng Xiaoping naquela década.

Em 2013, em exílio após demitir-se em protesto pelo Massacre da Praça da Paz Celestial, Yizi escreveu um livro de memórias, no qual contou detalhes daquela visita ao Brasil. Segundo ele, a delegação chinesa ficou fascinada com a capital modernista Brasília, as rodovias, os prédios estilosos, as fábricas, as moradias de vanguarda, os carros compactos para as massas. Especulou que o Brasil deveria ter, naquele momento, uma renda per capita dez vezes superior à da China. Não era para tanto, mas a reação é reveladora.


Em 2019, passados apenas cinco anos de sua morte, sua terra natal superou o país que o havia deixado fascinado três décadas atrás. Era questão de tempo. Desde 1990, a renda per capita brasileira cresceu 1,3% ao ano, em média, enquanto a da China, que aprendeu uma coisa ou outra com o Brasil, avançou 8,1%. Não só isso: o fosso brasileiro em relação ao mundo desenvolvido se alargou. As nações consideradas de alta renda cresceram 1,5% ao ano. Tínhamos 36% da renda deles. Agora, temos 34%.

Mantida a tendência, o “país do futuro” não apenas se tornará um sonho cada vez mais distante, como também perdemos a esperança nele. Mas em que magnitude deveríamos repensar a nossa estratégia nacional de desenvolvimento? Dados sugerem que a mudança terá de ser radical.

Se quisermos atingir a renda per capita média dos países ricos, precisamos crescer em patamares muito superiores aos atuais. Para atingi-la em uma geração (25 anos), teremos de acelerar o nosso crescimento de 1,3% para 5,9% ao ano. Para se ter uma ideia, somente uma vez desde 1990 crescemos acima disso – em 2010, após a chamada “Crise do Subprime”, cujos impactos se concentraram nos dois anos anteriores.

A tarefa não ficará fácil se reduzirmos a ansiedade. Caso aguardemos ­duas gerações (50 anos), nosso crescimento precisará ser de 3,7%. Nem mesmo na nossa melhor década recente, no auge do boom das commodities entre 2004 e 2013, chegamos nesse patamar (3,1% em média). Quatro gerações (um século) exigirão 2,6% ao ano, o dobro do nosso desempenho atual. Doze gerações (300 anos!) demandarão um crescimento de 1,9% ao ano, ainda assim com uma aceleração de 50% em relação ao ritmo atual.

A intenção não é desanimar quem acredita no Brasil, ainda mais em tempos de Copa do Mundo. Pelo contrário, como no caso da Seleção Brasileira de futebol, nossa própria história nos dá motivos para otimismo.

Recordemos que a alcunha de “País do Futuro” não surgiu do nada. Em 1941, em livro homólogo, o escritor austríaco Stefan­ Zweig, que chegou ao Brasil fugido do regime nazista na Europa, relatou com entusiasmo as características brasileiras que considerava promissoras. Além das nossas riquezas naturais, “de uma opulência perturbadora”, o autor não deixou de notar o “desenvolvimento nitidamente crescente da indústria, que produz, em proporções cada vez maiores, no próprio país e com material seu, grande parte do que anteriormente tinha de importar”.

Era o início do período conhecido como nacional-desenvolvimentista, tradicionalmente situado entre 1930 e 1980, quando o Brasil adotou sucessivos planos de desenvolvimento liderados pelo Estado, crescentemente capacitado para tal, e que tinha na industrialização o seu objetivo prioritário. Instituições-chave como o BNDES, a Petrobras, a Eletrobras e a Embraer foram criadas. Conhecido pelos ciclos de exploração de ­commodities, como pau-brasil, açúcar, ouro, borracha e café, o Brasil passou a produzir aço, petroquímicos, máquinas, automóveis e até aviões. Grandes obras de infraestrutura, como rodovias interestaduais, usinas nucleares e a maior hidrelétrica do mundo, foram realizadas.

Foram as entregas desse período que deixaram os chineses fascinados no início dos anos 1980. Durante aquelas cinco décadas, o Brasil foi o terceiro país que mais cresceu no mundo, a uma taxa per capita de 3,7% ao ano. Naquele ritmo, atingiríamos a renda média dos países ricos em 50 anos. Se fosse mantido aquele ritmo, hoje já teríamos a renda da Itália.

Aquela época não foi livre de contradições e erros. Além de suprimir as liberdades individuais e impedir o exercício da democracia, a ditadura impediu uma reforma agrária profunda, que esteve na base do “milagre econômico” do Leste Asiático, com relativa igualdade. Também em contraste com os casos de sucesso da Ásia, ficamos excessivamente dependentes de capitais estrangeiros, com aumento da vulnerabilidade externa (raiz da década perdida) e o comprometimento da construção de capacidades nacionais e de coalizões de apoio a projetos verdadeiramente nacionais.

O problema é que o período posterior, marcado pela hegemonia neoliberal, pautado pelos interesses de curto prazo do mercado financeiro e, como nos primórdios, refém dos ciclos de ­commodities, não solucionou essas questões. Pior ainda, alguns governos atuaram deliberadamente para aprofundar esses erros e destruir os legados positivos.

O resultado foi a mais grave desindustrialização precoce do mundo, grande dificuldade de gerar empregos estáveis, de qualidade e com bons salários, crescente dependência externa e a perda das características que um dia nutriram o sonho do “País do Futuro”: liderança, fortalecimento e planejamento estatal, desenvolvimento das capacidades produtivas, ambição e ousadia.

Convém relembrar as palavras de Zweig: “Já não se encontra um brasileiro que deseje voltar para o Velho Mundo… essa ambição de se desenvolver por si só… nada é demasiado ousado… este país aprendeu a pensar de acordo com as dimensões de sua própria vastidão e a contar com suas­ possibilidades ilimitadas como se fossem uma realidade em breve atingível”. Se provarmos, ainda que tardiamente, que o austríaco não estava errado, talvez a geração que viverá o sonho de um Brasil desenvolvido já esteja entre nós.
Felipe Augusto Machado

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Terremotos remodelam a relação entre os EUA e a Venezuela

Os terremotos de 24 de junho de 2026 alteraram as prioridades da relação entre os Estados Unidos e a Venezuela . O que até poucos dias atrás era uma estratégia focada na estabilização política e econômica do país passou a um segundo plano devido à emergência humanitária causada pelos terremotos.

Antes de 24 de junho, já existiam dúvidas sobre o plano de três fases do governo Trump: estabilização, recuperação e transição. Após o desastre, o secretário de Estado Marco Rubio admitiu que a estratégia havia sofrido um revés. Enquanto isso, o encarregado de negócios dos EUA na Venezuela, John Barrett, afirmou que o plano continua em vigor, embora "apresente algumas diferenças".

"Os terremotos interrompem esse plano porque causaram um dos piores desastres naturais que a Venezuela já enfrentou em mais de um século", disse Carolina Jiménez Sandoval, presidente do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA). Em sua opinião, os terremotos comprometem o caminho traçado por Washington e tornam uma transição política "organizada e gradual" muito mais difícil.


Phil Gunson, analista sênior para a região andina do International Crisis Group, concorda que o plano está, por ora, suspenso. "Todas as energias do governo e da sociedade civil precisam estar concentradas em uma reconstrução que, obviamente, levará anos", explicou Gunson. Ele também lembrou que, mesmo antes dos terremotos, o plano não estava progredindo sem problemas: "Havia dúvidas, críticas, atrasos e uma grande falta de informações sobre o andamento, especialmente em questões políticas."

Por outro lado, a tragédia também reabre a questão do grau de influência que Washington exerce sobre a Venezuela, num contexto em que Donald Trump chegou mesmo a sugerir que o país poderia tornar-se o 51.º estado dos Estados Unidos .

“Não sabemos até que ponto isso é uma piada”, observa Gunson, “mas se for o caso, a maior responsabilidade pelo resgate e reconstrução recai sobre os EUA”. Em sua relação com a Venezuela, os Estados Unidos escolhem seus interlocutores e o momento . Como exemplo, Phil Gunson lembra que, antes da catástrofe, a líder política Dinorah Figuera, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela eleita em 2015, viajou a convite dos EUA para se encontrar com Delcy Rodríguez e discutir as condições para futuras eleições. “Washington dita as discussões: o que fazer, quando negociar e quem se senta para negociar”, enfatiza Gunson.

Por outro lado, o governo Trump apoiou o governo interino de Delcy Rodríguez desde o início , mas esse apoio pode se complicar em um momento em que crescem as críticas públicas à controversa resposta do governo aos terremotos. "A rejeição por parte dos venezuelanos pode se traduzir em uma demanda maior por mudanças políticas mais tarde. Isso terá repercussões em Washington", alerta Jiménez Sandoval.

Na frente econômica, o desafio é enorme. Os terremotos agravam uma crise humanitária que já dura mais de uma década. A essa situação somam-se agora os custos exorbitantes da reconstrução.

Washington prometeu cerca de 300 milhões de dólares para esforços de ajuda emergencial, um valor insuficiente dada a magnitude das necessidades. "O dinheiro oferecido pelos Estados Unidos está muito aquém das necessidades econômicas que existiam antes do desastre", afirma Phil Gunson, que destaca que a Venezuela já vivenciava o que especialistas chamam de "emergência humanitária complexa" antes dos terremotos, com serviços públicos em colapso, infraestrutura deteriorada e grave escassez de saúde e nutrição.

Nos últimos seis meses, após a prisão de Maduro, a Venezuela aumentou suas vendas de petróleo, mas Gunson destaca que Washington controla essas transações e deposita os lucros em uma conta administrada pelo governo dos EUA, que decide quanto dinheiro enviar para a Venezuela e quando. "Não se sabe quanto há nessa conta ou quanto dinheiro foi enviado", enfatiza ele, observando que os democratas no Congresso vêm exigindo transparência há meses, sem sucesso. Além disso, surge a questão de quanto desse dinheiro realmente chega ao povo venezuelano .

Por fim, Gunson menciona o regime de sanções imposto à Venezuela pelos Estados Unidos, que ele descreve como "quase o mais forte do mundo inteiro": "Por que as sanções não estão sendo suspensas?", pergunta o especialista.

O terremoto também interrompeu os planos da figura mais proeminente da oposição venezuelana. María Corina Machado expressou, em um vídeo, seu desejo de retornar ao país para apoiar a população afetada, mas afirmou que o governo a impede de fazê-lo, mantendo o espaço aéreo fechado. A resposta de Washington a essa questão foi clara: o governo Trump declarou que seu foco principal é a resposta humanitária e acredita que abordar questões políticas agora seria contraproducente.

Philip Gunson questiona o momento escolhido pela líder da oposição. Ele reconhece que a relação entre Machado e Washington está "seriamente prejudicada, com culpa de ambos os lados", e admite ter dúvidas sobre a adequação de seu retorno à Venezuela neste momento, dada a discrepância entre os objetivos de Machado e o que os Estados Unidos consideram prioritário. "Este não é o momento de introduzir um elemento de discórdia em uma situação já trágica", argumenta Gunson, acrescentando que Machado "estaria melhor ocupada estimulando e organizando ajuda externa do que na Venezuela", um país cujo governo a considera uma terrorista e onde o bem-estar da população deveria ser a única prioridade.

Empurrados para o digital

É outro vídeo que recebi, este de meu amigo Luiz Fernando Janot. Não sabemos quem o escreveu ou interpretou. Mas sabemos que cada cena e cada palavra que contém são verdadeiras. As imagens mostram idosos em bancos e hospitais, tentando conviver com seu pior inimigo: o smartphone. O texto, na voz de uma mulher, diz:

"Quando uma tecnologia não respeita a biologia humana ela não é inovação. É o descaso fantasiado de modernidade. E a punição para quem não consegue passar pela barreira da tela é o abandono. Agências vazias, portas fechadas e a recusa de um atendimento presencial.

"O Brasil é o segundo país mais avançado do mundo digitalmente. Mas de que adianta o sistema ser brilhante se ele negligencia e isola a sua própria população? Hoje somos 35 milhões de idosos no Brasil. Em quatro anos, seremos 41 milhões, quase 18% da população. Mas as empresas e o Estado estão empurrando todo mundo para o digital. E, quando o idoso não consegue, o Estado lava as mãos e joga nos ombros dos familiares uma responsabilidade que deveria ser das instituições.

"Estão esquecendo que o atendimento presencial e humano é garantido no Estatuto do Idoso. Há milhões de brasileiros sem acesso à internet ou com limitações físicas severas que tornam impossível o uso de aplicativos. E não é só para pagar uma conta ou acessar o banco. O agendamento de uma consulta médica pelo SUS passa pela mesma barreira"

O texto conclui com um apelo que deveria ser levado em consideração pelas autoridades e por todos nós: "Esse vídeo não é só um desabafo. É um manifesto. O atendimento humano presencial e capacitado não pode ser um favor. É um direito do cidadão, independentemente da idade ou do status social. É preciso que os bancos atentem para o fim social que têm. Eles têm que atender ao interesse da sociedade. Faço aqui um apelo direto aos órgãos do governo, às associações de classe, às comissões dos direitos dos idosos. Unam-se a nós nessa cobrança. Compartilhem esse manifesto. Não podemos aceitar a exclusão e o silêncio".

As primeiras provas de que o RJ está no rumo de ser um narcoestado

Tráfico de drogas e de armas, lavagem de dinheiro, Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP), Amigo dos Amigos (ADA), policiais corruptos, bicheiros, padrinhos bandidos do Carnaval, roubança de dinheiro público e seus agregados políticos de direita arruínam o poder estadual do Rio de Janeiro —note-se, porém, que políticos de vários partidos podem estar na lista da mesada do crime.

Talvez o crime já tenha se infiltrado no comando de outros estados. Não o sabemos. No caso do Rio, temos as primeiras evidências de um narcoestado no Brasil. O termo "narco" talvez seja limitado para descrever o poder de organizações criminosas diversas sobre Legislativo, Executivo e Judiciário fluminenses. O problema, de qualquer modo, é aterrorizante, e tem conexão federal, por meio do PL, o partido do senador Flávio Bolsonaro, e de ramos do centrão.


Qual a novidade? A nova prisão de Rodrigo Bacellar, nesta quinta. Esse sujeito foi secretário de Governo do ex-governador Cláudio Castro (PL) e presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) de 2023 a 2025. Foi preso quando era deputado estadual pelo União Brasil, embora tivesse sido reeleito pelo PL. Até julho de 2025, era o pré-candidato de Flávio Bolsonaro e de Cláudio Castro ao governo do estado do Rio. Castro é inelegível, condenado por abuso de poder.

Bacellar foi apenas formalmente preso de novo. Já estava em Bangu 8 desde março, acusado de tentar ajudar o deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (então MDB) a fugir da polícia e de atrapalhar uma operação contra o CV. Esse deputado, vulgo TH Joias, era joalheiro, vendendo adereços para celebridades populares, como jogadores de futebol e gente da música. Quando deixou a suplência para assumir cadeira na Alerj, em 2024, já havia sido preso preventivamente e condenado a 14 anos por lavagem de dinheiro e de operar com CV, TCP e ADA etc.

Segundo a polícia, foi avisado por Bacellar de que seria alvo de operação da PF, em setembro de 2025. Em dezembro, Bacellar foi por isso preso, para ser liberado por um tempo por votação da Alerj (42 votos a 21). TH Joias nomeou gente das facções para cargos na Alerj. Ainda lavaria dinheiro e faria câmbio de milhões para chefões do tráfico. Aproximou-se da política por meio de Marcos Falcon, presidente da Portela e candidato a vereador no Rio pelo PP quando foi assassinado em seu escritório de campanha, em 2016.

Além de Bacellar, foram presos nesta quinta Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho ("represo"), e o pastor Márcio Poncio (Igreja da Nuvem), fabricante de cigarros e integrante de uma família de influencers novelescos. Adilsinho é patrono do Salgueiro, bicheiro, dono de caça-níqueis, traficante de cigarros e acusado de chefiar gangue de homicídios. Segundo a polícia, lava dinheiro para o tráfico e tinha planilhas de pagamento de subornos e doações eleitorais para políticos. Em sessão do Supremo de abril deste ano, o ministro Gilmar Mendes disse ter ouvido da PF que 32 ou 34 deputados estaduais do Rio (de um total de 70) receberiam "mesada" de bicheiros, atualmente chefes de gangues com negócios variados. Outros secretários de Cláudio Castro caíram, acusados de corrupção ou também de envolvimento com o crime organizado; um desembargador foi preso.

Há mais. Não cabe aqui. O resumo da ópera é que o comando político do Rio foi tomado pelo crime e o país todo corre esse risco.
Vinicius Torres Freire

A ganância de Trump

A capacidade de Washington e do resto do mundo de se indignarem com o desrespeito de Donald Trump por protocolos, instituições e pela política como serviço público foi testada mais uma vez na terça-feira com a divulgação do relatório anual de bens do presidente americano. Em seu primeiro ano na Casa Branca, sua renda disparou para mais de US$ 1 bilhão, proveniente principalmente de negócios com criptomoedas. Isso ocorreu depois que Trump promoveu investimentos em criptomoedas e alinhou descaradamente o governo, a promotoria e o órgão regulador do mercado de valores mobiliários com o mundo das criptomoedas, que, por sua vez, contribuiu com milhões de dólares para sua campanha e para a celebração de sua posse.

A renda exorbitante que Trump e sua família obtiveram com negócios em criptomoedas soma-se a doações corporativas multimilionárias, dinheiro proveniente de acordos judiciais para evitar processos a critério do presidente e outros empreendimentos comerciais, como produtos com sua marca. Essas novas revelações também surgem no dia em que Trump fará seu voo inaugural em um avião presidencial presenteado pelo Catar e avaliado em US$ 400 milhões . Não se trata de um presente para a Casa Branca, mas para o próprio Trump: ele anunciou sua intenção de levar o avião consigo quando deixar o cargo.


Em janeiro, o The New York Times publicou uma estimativa da renda de Trump em seu primeiro ano de volta a Washington, que foi de pelo menos US$ 1,4 bilhão, superando em muito os lucros de seu império imobiliário antes de assumir a presidência. Nada disso foi feito em segredo. Os negócios dos filhos e do genro de Trump, ligados à política externa do presidente, são conduzidos abertamente. A alegação de que seus negócios são administrados por seus filhos e que ele não tem influência sobre eles simplesmente não é crível.

Esse comportamento não deveria surpreender ninguém. Os Estados Unidos elegeram um empresário como presidente cuja bússola moral pode ser resumida por uma declaração que ele fez anos atrás, quando se gabou de que, dado seu status de celebridade e estrela de televisão, tinha permissão para agredir mulheres. Esse mesmo princípio se aplica à presidência hoje. Trump acredita que, como presidente, pode usar as instituições como bem entender. Pelas suas próprias declarações, sabemos que ele não vê nada de errado em usar sua posição para se enriquecer. Quando foi criticado anos atrás por seus esquemas de sonegação fiscal, respondeu que isso o tornava “inteligente”. Talvez ele não entenda toda essa polêmica.

Uma característica invejável da democracia americana é o tratamento reverencial que dispensa às instituições, especialmente ao presidente. Embora essa obsessão com rituais, tradições e a dignificação do cargo nunca tenha sido isenta de hipocrisia, ela é tão importante quanto as próprias leis para o funcionamento do sistema. Contudo, essa cultura democrática foi substituída por uma cultura de corrupção que emana da Casa Branca e, graças à passividade das maiorias republicanas no Congresso, que abdicaram de seu papel de contrapeso, está corroendo o restante da estrutura institucional.

A ganância de Trump não conhece limites, e há momentos em que parece duvidoso que a democracia seja capaz de impor limites a ele.
Editorial do El País

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


As chamas

As chamas brilhavam há mais de um mês na fornalha do soprador de vidro, onde eram feitos vidros e garrafas.

Um dia viram aproximar-se uma vela colocada num castiçal fino e brilhante. Imediatamente, com um desejo ardente, as chamas tentaram aproximar-se da linda vela.

Uma delas, saltando da brasa que a alimentava, virou-se de costas para a fornalha e, passando através de uma pequenina fresta, atirou-se para cima da vela, devorando-a sofregamente.

Porém a ávida chama logo consumiu a pobre vela e, não desejando morrer com ela, tentou voltar para a fornalha de onde havia fugido.

Porém não conseguiu desgrudar-se da cera amolecida e, em vão, gritou para as outras chamas, pedindo socorro.

A chama rebelde transformou-se numa sufocante fumaça, e deixou todas suas irmãs resplandecentes, com a perspectiva de uma vida longa e brilhante.

Moral: A ganância, o egoísmo e a busca por prazeres imediatos destroem aquilo que cobiçam e isolam o indivíduo de sua fonte de segurança.

Leonardo da Vinci. Fábulas

A vida, a liberdade e a busca da felicidade

Entre os dias 11 e 28 de junho de 1776, no apartamento de segundo andar que alugara em Filadélfia, Thomas Jefferson trabalhou nas hora vagas — era delegado ao Congresso e, como a maioria dos colegas, assíduo ao trabalho — no texto de uma declaração a ser feita pelo II Congresso Continental. Era conhecido por sua dificuldade em socializar e por sua facilidade em escrever frases sonoras. Ele e quatro outros haviam sido nomeados como Comitê de Redação; os outros, entre eles John Adams e Benjamin Franklin, lhe repassaram a tarefa. No dia 28 submeteu um esboço de quatro páginas a Adams e Franklin.

O Congresso discutia a moção de Richard Henry Lee, apresentada no dia 7 de junho, de que fosse feita uma Declaração de Independência. No dia 2 de julho, por unanimidade dos votos, salvo a abstenção da delegação de Nova York (ainda não havia o Mandani mandando nem o Tammany Hall), ela foi aprovada. O plenário passou a rever a fair copy do texto — destruída, possivelmente, no processo de impressão. Cortou um quinto dele, diz Joseph Ellis. Aceitou sem problemas o preâmbulo começado com as mágicas palavras:


Consideramos esta verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade. — Que para assegurar esses direitos governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados.

Fala-se em inspiração no Second Treatise of Government (1690) de John Locke: “mutual preservation of their lives, liberties and estates, which I call by the general name, property”. O gênio de Jefferson foi trocar essa coisa detestável, propriedade, por essa coisa desejável, felicidade, para todos uma eterna busca.

Jefferson lamentou especialmente a retirada de um único parágrafo da lista de agravos cometidos pelo rei da Inglaterra:

O rei fez guerra cruel contra a própria natureza humana, violando seus mais sagrados direitos de vida e liberdade nas pessoas de um povo distante que nunca o ofendeu, capturando-o e levando-o em escravatura a um outro hemisfério, ou para sofrer morte miserável no próprio transporte para ali. Essa guerra prática, o opróbrio dos poderes individuais, é a guerra do rei CRISTÃO da Grã-Bretanha. Determinado a manter aberta como mercado onde HOMENS podem ser comprados e vendidos, ele tem prostituído sua negativa de suprimir toda tentativa legislativa de suprimir esse comércio execrável. E para que esse conjunto de horrores não receba de nenhuma maneira morte distinta, ele está agora excitando aqueles mesmos a pegar em armas contra nós e comprar aquela liberdade de que os privou por tornando o povo em que os impôs, assim pagando seus crimes anteriores de um povo com crimes que ele os incita a cometer contra a VIDA de outro povo.

Jefferson culpava, com razão, a pressão da Carolina do Sul e da Geórgia, mas também os estados do Norte, que lucravam com o tráfico. Não lembrava que Virgínia, seu Estado, tinha razões cruéis para ser contra o tráfico: ter um excesso de escravizados, uma população de origem africana maior que a de origem inglesa — ou “americanos”. Dizia que seu manuscrito tinha sido mutilado — mangled. Em 1822 ele escreveria para Madison — seu alter ego na redação da Nova Constituição de 1787, já que estava na Inglaterra, e a quem o ligavam o amor da contradição, o deleite na inconsistência e a “propriedade” de seres humanos:

Nada está escrito com mais certeza no livro do destino do que que estas pessoas serão livres. Realmente tremo por nosso país quando reflito que Deus é justo, que sua justiça não pode dormir para sempre, que considerando apenas números, natureza e meios naturais, uma volta da roda da fortuna, uma mudança de situação, está entre os eventos possíveis… O Todo-Poderoso não tem como ficar do nosso lado num caso destes.

Não olhemos para Jefferson com o julgamento dos olhos de hoje. Lembremos o mundo em que ele vivia. O ícone da integridade, George Washington, logo que assumiu o comando geral do exército de libertação, surpreso de ver negros servindo ao lado de brancos, emitiu uma ordem proibindo a presença de escravos e de quaisquer negros; algumas semanas depois, ante o choque da realidade de que sem os negros a vitória seria impossível, revogou sua ordem — “se o Congresso aprovar”. Os abolicionistas ingleses ainda estavam em gestação — o Slave Trade Act de Wilberforce e Clarkson é de 1807, e seus primeiros movimentos da década de 1780. Em 1780 o debate para acabar com a escravidão na Pensilvânia — em sua honrosa prioridade — deixava a emancipação para o futuro, quando as crianças nascidas de mãe escravizada teriam 28 anos de idade. Mas logo a abolição em Massachusetts (1783) é real.

No ano seguinte o Congresso, por pequena margem, derrota a proposta de Jefferson de abolição nos treze Estados a partir de 1800. Já na França, compartilhando a responsabilidade dos acordos diplomáticos com John Adams, Thomas Jefferson publica seu único livro, Notas sobre o Estado de Virgínia, e recebe uma mensagem do amigo, incapaz de entender a própria existência da escravidão: “As Passagens sobre a escravatura são Diamantes. Elas terão mais efeitos que Volumes escritos por meros Filósofos.” Estava errado. As coisas vão piorar.

Pouco depois o espírito da Convenção de Filadélfia é empurrar para baixo do tapete tudo que não possa ser consensuado. James Madison é grande por ter conseguido, com o auxílio do monarquista Alexander Hamilton, o impossível: num encontro (quase) inconvocado e (quase) informal de 55 homens, escrever um pacto social que dura mais de duzentos anos, com compromissos — ou, se preferirem, checks and balances — imorais que tornaram moral o resultado. Mas considerar os escravizados como 3/5 de pessoas para dar força aos Estados escravocratas, proibir o fim do tráfico de escravos até 1808 — será Jefferson, como presidente, o responsável pela passagem do Act to Prohibit the Importation of Slaves — são alucinações que explicam que, em Monticello, eram “como os sinos de alarme de incêndio na noite, [que] me acordam e enchem de terror. Eu considero [a escravidão] como o dobrar do sino da morte da União”.

Por volta de 1820 a ideia de fim da escravidão era postergada e qualquer solução pacífica se tornava cada vez mais distante e improvável. Se os quakers já em 1790 propõem ao Congresso a abolição, se uma vela se acende quando em 1792 a Dinamarca se torna o primeiro país a proibir a escravidão, em 1793 um primeiro Fugitive Slave Act trata da devolução dos que escaparam. A divisão dos Estados é nítida: o Sul é escravocrata, o Norte abolicionista. E a cada novo Estado se joga um balanço com a vida: um livre tem que ser compensado com um escravocrata, seguindo um “Missouri Compromise”, a linha de escravidão abaixo de 36º e 30’.

Se em 1832 um neto de Jefferson propõe — inutilmente — a emancipação gradual, em 1835 se peticiona a proibição de que circule propaganda abolicionista pelos Correios. Desde 1836 a Câmara resolve, no início de cada sessão legislativa, tratar de escravidão, e John Quincy Adams começa sua longa jornada de tentar quebrar a Gag Rule — ele morrerá no plenário sempre defendendo a abolição. Há 500 sociedades abolicionistas ativas, mas o jornalista Elijah Lovejoy é linchado e sua prensa empastelada. Em 1838 se forma a Underground Railroad para dar fuga aos escravos e um primeiro abolicionista é eleito para o Congresso. A ascensão de John Calhoun é a grande marca do poder do Sul: segundo ele, o Congresso tem a obrigação de proteger a escravidão e o Sul tem o direito de deixar a União.

Em março de 1857 a Suprema Corte se levanta como a pior da História americana — até a atual. Ela decide que Dred Scott, um homem livre, é negro e, portanto, não pode ser cidadão, é escravo. O presidente do tribunal sustenta que “todos os homens são criados iguais” exclui os negros. Estes “seres de uma ordem inferior” não têm “qualquer direito que o homem branco deva respeitar”. A reação da Nova Inglaterra foi firme: todos os Estados declaram livres todos os homens em seus territórios.

Chega a hora de Abraham Lincoln. Ele percorre Illinois — estado do Norte com um black code draconiano — debatendo com Frederick Douglas, defensor por $$$ dos direitos dos escravocratas. Diz que a sorte dos escravizados parecia ir melhorando, mas que os fundadores da República, se levantassem de seus túmulos, não a reconheceriam:

Eles queriam dizer o que disseram. Eles não queriam sustentar a óbvia inverdade de que todos os homens gozavam da igualdade, ainda não, que estava para ser conferida sobre todos. Na realidade eles não tinham esse poder. Eles simplesmente queriam declarar o direito de modo que sua garantia avançasse tão rapidamente quando as circunstâncias permitissem. Queriam fixar um padrão máximo para uma sociedade livre […] nunca perfeitamente alcançável, constantemente aproximado, e, portanto, se espalhando e aumentando sua influência e aumentando a felicidade e o valor da vida para todas as pessoas de todas as cores em toda parte.

A questão era de princípios: certo ou errado. Ninguém poderia ser indiferente. Por isso, “toda a honra a Jefferson — ao homem que, na pressão concreta da luta pela independência nacional de um povo teve a tranquilidade, a previsão e a capacidade de introduzir num mero documento revolucionário uma verdade abstrata, aplicável a todos os homens em todos os tempos!

Para se definir Lincoln dissera que “costumava ser um escravo” — literalmente, já que seu pai vendia seus serviços e recebia a remuneração deles, o filho não tinha qualquer direito. Da escravidão subiu à Presidência da República, venceu a secessão, fez a abolição, instituiu o governo do povo pelo povo para o povo e lançou o maior projeto de igualdade da História. Pelo que fez, pelo que pretendeu fazer pagou o preço da própria vida.

Mas a luta não terminou no martírio de Abraham Lincoln. Vieram os anos das leis “Jim Crown”: a segregação com toda a sua violência, a Ku-Klux-Klan. Veio novamente a luta pelos direitos civis. O martírio de Martin Luther King, o compromisso de Johnson de passar os projetos Kennedy. Finalmente um negro chegou à Presidência. O 4 de julho — o dia em que foi assinado o texto de Jefferson —se tornava realidade. E então…

E então o dragão da maldade ressurge na figura laranjada de Donald Trump. A Constituição é novamente estuprada com o endosso da Suprema Corte. Mas o povo americano, embora tarde, reage com coragem. Assim, nosso tempo verá novamente a luta para que todos, naquela terra, tenham direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade.

— E nós teremos o dever de garantir que aqui também se tornem verdade.
Pedro Costa

Flávio tem força, na Casa Branca

Adélio Bispo de Oliveira esfaqueou Jair Bolsonaro no dia 6 de setembro de 2018. Ninguém pode garantir que a facada de Juiz de Fora tenha decidido a eleição, mas, um mês depois, Bolsonaro conseguiu 46% dos votos no primeiro turno. Fernando Haddad ficou com 29%. A eleição estava decidida, e no segundo turno o ex-capitão correu para o abraço, com 55% dos votos.

Não foi Bolsonaro quem ganhou, foram Haddad e o PT que perderam. Lula estava preso em Curitiba, o juiz Sergio Moro e os procuradores da Operação Lava-Jato faziam o que queriam. Nada disso estará no pano verde na eleição de outubro.

Lula terá governado por quatro anos sem maiores sobressaltos, e quem está preso é Bolsonaro. As tensões que ele espargiu, insultando um ministro do Supremo Tribunal Federal, opondo-se a um programa de vacinação durante uma pandemia que matou mais de 700 mil pessoas, viraram má lembrança.


A eleição de 2018 foi o apogeu do antipetismo. Em 2026, lida-se com o antibolsonarismo. Assim como, em 2018, a soberba petista detonou Haddad, agora a soberba bolsonarista poderá detonar Flávio Bolsonaro, e as pesquisas apontam nessa direção. A candidatura do senador tem um sabor dinástico, agravado pelo deserto de ideias de seu campo. Sem a facada de Juiz de Fora e as turbinas da Lava-Jato, como a divulgação da delação do ex-ministro Antonio Palocci às vésperas do primeiro turno, o antipetismo não dá caldo.

A essas adversidades somou-se a autofagia bolsonarista. A mulher de Bolsonaro fez um estudado vídeo, em que o sujeito oculto de suas críticas é Flávio. Qual é a raiz dessa quizília? A política cearense e a preterição de uma vereadora que aspirava a disputar o Senado. É pouco para tanto barulho.

O repórter Luis Felipe Azevedo mostrou que, na Bahia, em Pernambuco, Ceará e Maranhão, os candidatos do arco oposicionista evitam partilhar palanques com a campanha de Flávio. Tratando-se do principal reduto lulista, essa ausência é mau presságio. Os erros da famiglia certamente explicam em parte esse movimento. Contudo o principal fator está além deles. O antipetismo, cimento da vitória de 2018, dissolveu-se no ar, abrindo espaço a um novo anti, o antibolsonarismo.

Flávio é forte na Casa Branca, fraco em Pindorama. A ideia de jactar-se da imposição do primeiro tarifaço de Donald Trump foi um caso raro de um só tiro acertando os dois pés. Naquele tarifaço, a patrulha bolsonarista acampada em Washington pode ter exercido alguma influência. No próximo, a despeito da carta de Flávio ao secretário de Estado, Marco Rubio, pedindo que o Brasil seja poupado, essa janela de oportunidade encolheu.

O tarifaço de 2025 foi concebido com o voluntarismo da Casa Branca. Basta lembrar a tarifa imposta a uma ilha de pinguins. Desta vez, o novo tarifaço será essencialmente técnico. Enviesado, porém com verniz técnico.

Novas tarifas virão, transformando-se numa bola de ferro amarrada a um pé dos Bolsonaros. Eles cometeram o mesmo erro que o bilionário Elon Musk, que em poucos meses passou de gênio a maluco e acabou defenestrado da Casa Branca. Em sua fase de delírio, Musk tentou morar na Casa Branca.

O trôpego pedestal da soberba humana

Algumas décadas atrás – talvez cinco ou mais – houve uma matança de uma colônia de gatos no Passeio Público do Rio de Janeiro, por um grupo de adolescentes, armados de pedaços de paus. À época a única pessoa que veio a público lamentar o episódio foi o jornalista e escritor Paulo Alberto de Barros, o Arthur da Távola, em sua coluna em um jornal do Rio de Janeiro. Ressaltou que os bichanos não mereciam isso porque “o gato é um bicho zen”. Mais ou menos uma década depois, o programa Fantástico mostrou uma reportagem acrítica sobre um homem no interior do Amazonas que costumava colocar armadilhas para prender uma das patas das onças, e daí eliminá-las a pauladas. Nenhum destes dois casos causou indignação, passando despercebidos pela sociedade brasileira.


Já a recente tortura e morte do cachorro Orelha, em janeiro deste ano em Florianópolis, tem causado uma comoção em todo o país. Como entender essa mudança, em apenas algumas décadas, no humor da população? Aqueles que acham que está havendo demasiada atenção para a morte de um cão, em um país com múltiplos problemas como o Brasil, certamente estão perdendo o famoso bonde da história. Toda esta revolta em torno da morte do Orelha, na realidade, revela uma transformação, ainda que sutil e vagarosa, na autocompreensão dos seres humanos sobre seu lugar e relação com o mundo.

Na origem do pensamento ocidental, o homem colocou-se em um pedestal acima da natureza e de todos os demais seres viventes por possuir aquela faculdade que lhe dava a mais importante das vantagens para sua sobrevivência e dominação: a Razão. E não só sobre a natureza e os animais, mas também sobre aqueles humanos – bárbaros, escravos, etc. que supostamente, por não deterem a Razão, eram meros “instrumentos vivos” e portanto condenados aos trabalhos corporais e à escravidão, como expressou-se Aristóteles em seu tratado A Política.

A prepotência da Razão informou o cristianismo por meio da patrística e da escolástica, municiando a fé cristã de explicações lógicas e reforçando a ideia do homem “criado à imagem de Deus”. Finalmente, a Razão desembocou no secularismo iluminista e no seu lema kantiano: “sapere aude” (ouse saber). Tal trajetória teórica foi adotada pelas principais correntes políticas da era moderna – o marxismo e o liberalismo – que levaram à prática, cada uma a seu modo, o que já estava inscrito no destino do ser humano racional: dominar a natureza, inclusive todos os demais seres viventes, colocando-os a seu serviço. Além disso, extrair dela o que for útil para o homem, destruir o que não pode ser aproveitável e, desse modo, desenvolver as “forças produtivas” para criar as bases materiais e espirituais da civilização humana moderna.

Certo é que esse projeto delirante encontrou inúmeros obstáculos e gerou visíveis contradições, já que a razão humana, ao contrário do que pregavam as teorias originadas a partir dela, nunca impediu inúmeras guerras de conquista, tentativas de aniquilamento de populações inteiras (do qual a destruição da faixa de Gaza pelo governo de Israel é um exemplo recente), e a conquista e colonização de territórios de outros povos considerados “inferiores” e “irracionais”. Enquanto enaltecia as artes e obras arquitetônicas geradas pela sua criatividade, o homem ao mesmo tempo desenvolvia armas e instrumentos de guerra cada vez mais mortíferos, que multiplicavam exponencialmente as ondas de destruição e morte.

Todo esse lado sombrio da era do Antropoceno era justificado racionalmente – afinal de contas, o homem tinha de dominar a natureza para sobreviver, sendo as guerras sempre legitimadas por necessidades de defesa, eliminação de inimigos ameaçadores, etc. A Primeira Guerra Mundial chegou até a ser defendida como uma suposta causa nobre: dar um fim definitivo aos conflitos humanos. Seria, dessa forma, “a guerra para acabar com todas as guerras”. E o impacto das mortes era sempre amenizado por um humanismo choramingão e filisteu.

Claro está que os descaminhos da Razão não passaram desapercebidos nas obras de arte, na poesia, em movimentos culturais diversos, e nas disciplinas sociais. Os filósofos da Escola de Frankfurt, só para citar um exemplo, dedicaram vários estudos críticos à racionalidade humana. Jurgen Habermas apontou como a parte “instrumental” da Razão – que busca o sucesso e a dominação, e opera pela técnica e a relação meio-fins – veio a predominar sobre a “razão comunicativa”, voltada para o potencial humano de entendimento.

Mas talvez tenha sido Freud quem melhor sintetizou a fragilidade do palanque em que se apoiava o amor-próprio do homem, ao apontar as três descobertas científicas, ou “feridas narcísicas”, em sua expressão, que relativizaram o poder da razão humana: a descoberta de Nicolau Copérnico, que demonstrou que a terra não era o centro do universo mas um mero planeta girando em torno do sol; a teoria da evolução de Charles Darwin, que provou que o homem não é uma criação divina, mas um descendente dos primatas; e a sua própria descoberta do inconsciente, que demonstrou que o pensamento humano é influenciado por desejos e impulsos que o próprio homem não controla.

Como viu muito bem Hannah Arendt, são fatos, e não teorias, que transformam o mundo. O caso do cão Orelha é um desses fatos. Ele pode ser politizado à esquerda ou à direita, mas isso faz parte do jogo político. Não vai deixar de refletir, e em sua tragicidade encorajar, a tomada de consciência que o ser humano compartilha um mundo em comum com outros seres, mundo este que ele tem de preservar até para sua própria sobrevivência. E que a Razão não pode ser substituída pela paixão das irracionalidades, como gostariam algumas seitas moderninhas ou pós-qualquer-coisa, mas ajudar o homem a tornar-se o que um controverso filósofo chamou certa vez de “pastor” do mundo existente.