quinta-feira, 2 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


Esopo na Casa Branca: A moral da história que Trump esqueceu

Cada especialista em Brasil apontou alguma ausência: faltaram pureza racial, um colonizador mais avançado, partidos políticos com valores definidos. Talvez fosse melhor falar do que temos de sobra, como hipocrisia e carisma na sua forma mais degradante: o populismo e uma incurável parcialidade. Entre nós, ignorar a lei e o bom senso é sinal de importância social.

Nosso modo de encarar esse dilema segue um inabalável legalismo. Criamos regras acreditando que um confuso aparelhamento burocrático soluciona problemas de costumes, tal como Donald Trump acredita que seus desmesurados porta-aviões agenciem a rendição do Irã. É a velha ilusão de que foguetes e drones resolvem guerras, destruindo muito e perdendo pouco, pois temos a maior força militar do planeta. Um planeta, aliás, que deixou de ser vivido em sincronia com a natureza.


Lançar foguetes é como usar a “canetada” para salvar colegas ou refazer hierarquias em espaços igualitários. Fica-se na ilusão de que as leis existem, mas elas não são universalmente aplicadas. Não para nós, mas para eles.

No Brasil, nossos drones, foguetes e porta-aviões são as leis produzidas pelo nosso “caga-regrismo”, que até hoje imagina que o poder de legislar opera resolvendo intelectualmente, mas – como os foguetes trumpistas – aumenta frustrações. É muito mais fácil cair na ilusão de que a lei resolve do que discutir o que a lei representa numa sociedade que sabe como sua aplicação é abafada ou simplesmente anulada para certas categorias sociais.

Desde os tempos de Esopo, a fabulação serve como exemplo para intenções, vaidades e pecados humanos. Uma fábula muito conhecida é a dos órgãos do corpo humano que um dia resolveram imitar Donald Trump e determinar qual era o mais poderoso. “Sou eu”, disse o olho. “Não”, berrou a boca, debaixo da discórdia do nariz, ouvidos, estômago, mãos e pés.

Em meio à polêmica, ouviu-se a pequena voz do escondido ânus e, em seguida, a sua imediata expulsão, como a de um cidadão de última categoria. “És”, disse o nariz, “um órgão inferior e sujo; não tens nenhuma importância!”. O humilhado cu retrucou, piscando: “Vou me fechar e vocês verão o meu poder”. Após alguns dias, todos os órgãos que se achavam donos de um indiscutível poder dos fortes pediram perdão ao ânus, que voltou a funcionar, devolvendo – graças ao poder dos fracos – funcionalidade ao corpo.

Assim reza a fábula que, hoje, é literalmente replicada na estreiteza do Estreito de Ormuz – uma passagem estratégica que, se retraída, estrangula a fisiologia do mercado energético planetário. O Estreito de Ormuz ressalta que, antes de sermos países ricos e pobres isolados nos nossos egoísmos coletivos, somos e continuamos a ser, como diz a fábula, parte de um conjunto cuja funcionalidade não pode ser trocada pela selvageria da guerra, a qual nega o que temos de mais sagrado: a nossa humanidade.

Jogando com o extermínio

Segundo uma crença liberal do século passado, as guerras arrefeceriam à medida que as sociedades de mercado prevalecessem e os regimes democráticos, minimamente estáveis, perdurassem. Pois bem, o que se deu foi o contrário, três vezes o contrário.

Primeiro revertério: os regimes democráticos começaram a periclitar e agora claudicam. O relatório anual do Instituto V-Dem, o principal ranking da democracia no mundo, rebaixou os Estados Unidos (até os Estados Unidos). De “democracia liberal”, o país caiu para “democracia eleitoral”. Na terra do tio Trump (o Tio Sam foi deportado), os indicadores de liberdade apodrecem como detritos burocráticos que o caminhão de lixo se esqueceu de recolher.

Marc Chagall

Segundo revertério: o que levava o nome de “sociedade de mercado”, com a livre iniciativa e a livre concorrência dando as cartas, virou uma degenerescência. O que temos para hoje é algo entre o crony capitalism, em que os negócios se viabilizam na base do compadrio de governantes com bilionários (como na Rússia ou, hoje, nos Estados Unidos), e o “tecnofeudalismo” (termo do economista grego Yanis Varoufakis), no qual os reis das big techs comandam a vassalagem generalizada. Podemos falar também em capitalismo superindustrial, como sustenta Fernando Haddad, mas o que importa não é o nome – o que importa é que, das tais sociedades de mercado, só resta uma carcaça decorativa para salvar as aparências (o pessoal gosta de aparências).

Terceiro revertério: as guerras aumentaram em quantidade, intensidade, letalidade e abrangência. O planeta fumega, e não apenas porque o aquecimento global veio nos dar o ar de sua graça febril. O ano 2024, considerado o mais mortífero desde 1945, registrou 129 mil mortes em 61 conflitos armados envolvendo 36 países. O ano de 2026 poderá ser pior, ainda não se sabe. O que se sabe, isto sim, é que o quadro está mais fora de controle do que estava há dois anos. Já não existe um organismo internacional capaz de desarmar o belicismo. A Organização das Nações Unidas (ONU), sem dinheiro, sem autoridade e sem direção, mal se mantém de pé. Muitas vozes pedem reformas no Conselho de Segurança e em toda a entidade. Em vão.

As bestas-feras se desinibiram. Como quem comenta que precisa amarrar o sapato, Putin se declara pronto para acionar seus arsenais atômicos, orgulhoso de sua “tríade nuclear” (ogivas plantadas em três bases diferentes, devidamente engatilhadas: mísseis intercontinentais em terra, outros em submarinos soltos pelos mares e, finalmente, bombas penduradas em monstros supersônicos que cruzam os céus e os infernos a 16 mil metros de altura).

Nós nos convertemos numa civilização que joga com o próprio extermínio. A possibilidade de uma chuva de artefatos mais destrutivos do que aqueles que a Casa Branca despejou em Hiroshima e Nagasaki pode não ser grande, mas é real. A jornalista Annie Jacobsen, autora do livro Guerra nuclear: um cenário, lançado em inglês no ano passado pela Penguin, calcula que, se um desses doidos encastelados (como Putin, Trump ou Netanyahu) disparar uma ogiva carregada contra o inimigo poderá colher um contra-ataque em cadeia que, em 72 minutos, reduzirá os vivos e os mortos a geleia radioativa.

O poder está nas mãos dos mascates de explosivos, menos porque reúnam os meios para construir ou erguer coisas boas, ou mesmo belas, e mais porque detêm as ferramentas para dizimar os seres e as coisas – as feias, inclusive. Chantagistas, terroristas de Estado, eles sequestraram tudo o que respira e cobram o resgate diário em obediência. A seu favor, contam com a solicitude do capital, cujos despachantes se convenceram de que podem prescindir da maior parte dos homens e das mulheres que habitam o planeta. As chances de morticínios consentidos crescem dia a dia.

Um dos vários trabalhos de Marc Chagall expostos no Museu de Arte de Zurique, o Kunsthaus, tem o nome de A Guerra. Foi pintado entre 1964 e 1966, nos Estados Unidos. Casas devoradas pelas chamas, migrações dos desvalidos em carroças, corpos destroçados e crianças assassinadas se espalham sobre a tela. Ao centro, resplandece a cabeça gigante de um cavalo branco, com olhos de fria indiferença. Para mim, o animal evoca o apocalipse.

Em outra sala do mesmo museu, um cavalo branco parecido, mas com o olhar de fúria, domina outro quadro, este de 1897. O título é igual: A Guerra. Ali, o simbolista suíço Arnold Böcklin retratou explicitamente três dos cavaleiros do apocalipse, com feições de ódio e demência.

Consta que Chagall, em meados dos anos 60, pensava no passado: o horror da 2.ª Guerra. Parece que Böcklin, em 1897, não olhou para trás, mas para a frente: a matança que viria no século 20. Chagall viu o Holocausto no pretérito. Böcklin conseguiu antevê-lo no amanhã. Por uma janela ou por outra, as montarias do fim dos tempos assombraram os dois artistas. Hoje, desembestadas, elas mandam avisar: a aniquilação que você chancelou ontem voltará para arrancar a sua cabeça logo ali na esquina. Vai ser assim, num estalar de dedos. Dedos atômicos. Estamos num intervalo efêmero.

'Flávio' descobriu que 'Bolsonaro' é palavrão

Alexandra Moraes, nossa ombudsman, chamou a atenção (14/3) para a familiaridade com que, de repente, a imprensa passou a se referir a Flávio Bolsonaro. Assim que ungido presidenciável, o oleoso senador, portador de um sobrenome sinônimo de violência, insensibilidade e golpismo, tornou-se nas reportagens apenas "Flávio", algo assim como um afável vizinho de porta. Isso em veículos que, para manter a objetividade ou evitar repetições, costumam chamar, digamos, Camila Pitanga de "Pitanga" e Ratinho Junior de "Junior".

Os EUA tiveram Teddy Roosevelt na Casa Branca e, alguns presidentes depois, seu primo Franklin Roosevelt, e nem por isso o The New York Times reduziu o segundo Roosevelt a um coloquial Franklin. Os dois eram chamados de "Mr. Roosevelt". É verdade que não temos o hábito de tratar nossos presidentes por "Sr.", nem eles fazem por merecer, mas chamar um Bolsonaro pelo prenome é um suspeito sinal de simpatia, quase amor.

Quando Bolsonaro assumiu a presidência, em 2019, decidi quase de saída nunca chamá-lo aqui de "Presidente Jair Bolsonaro", nem mesmo de "Jair Bolsonaro" e muito menos de "Jair". Não se tratava de economizar espaço, mas de preservar a dignidade da coluna, já que Bolsonaro não preservava a dele. Com isso, até hoje, sempre o chamei apenas de "Bolsonaro", o que pode ser checado por qualquer leitor. Outra decisão foi a de não aderir ao meigo tratamento dado por alguns aos filhos —Carlos Bolsonaro, de "Carlucho", e Eduardo Bolsonaro, de "Bananinha". E, por respeito ao número zero, evitei chamá-los de "Zero Dois" ou "Zero Três".

O que "Flávio" precisa ser chamado é a responder pelas "rachadinhas", a compra de mansões com dinheiro vivo, a lavanderia nos fundos da loja de chocolate, a intimidade com milicianos, as informações privilegiadas para garantir impunidade judicial e, surpresa, o possível envolvimento em esquemas do INSS com operações de entidades fantasmas.

"Flávio", com razão, não quer ser chamado de Bolsonaro. Descobriu que agora é um palavrão.

Flávio Bolsonaro segue os passos do pai e planta sementes da desconfiança eleitoral

Para os que ainda têm fé no bolsonarismo moderado, é recomendável assistir ao discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, na Cpac, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos.

No fim de semana, em Dallas (Texas), Flávio seguiu à risca a cartilha do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), disseminando teorias conspiratórias, colocando em xeque a lisura do processo eleitoral brasileiro e vestindo a roupagem do populismo autoritário e antissistema que assola democracias ao redor do mundo.

O discurso contrasta com a imagem de moderação que a pré-campanha do senador tenta construir, em busca do eleitorado independente que será o fiel da balança de uma acirrada disputa eleitoral contra o presidente Lula (PT).


Aos conservadores do Maga ("Make America Great Again", movimento liderado pelo presidente Donald Trump), Flávio Bolsonaro fez um apelo por "pressão diplomática" para garantir eleições livres e justas no Brasil.

"Meu apelo não só à América, mas a todo o mundo livre, é esse: observem as eleições do Brasil com enorme atenção, aprendam sobre e entendam nosso processo eleitoral, monitorem a liberdade de expressão do nosso povo, e apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente", afirmou.

Em sua fala, Flávio disse estar certo da vitória e, assim como o pai e líderes de linhagem populista, como o ditador Nicolás Maduro, que tanto critica, lançou mão do pronome possessivo para se referir ao eleitorado. "Vou vencer porque é a vontade do meu povo", afirmou.

O senador, porém, fez um alerta: para que essa vontade seja preservada, é preciso haver "eleições livres e justas". Isso, segundo ele, é "um grande desafio" e só acontecerá "se nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e os votos forem contados corretamente".

Nos meses anteriores às eleições de 2018, quando enfrentou Fernando Haddad (PT), Bolsonaro afirmou que "a grande preocupação" não era perder no voto, mas sim "perder na fraude". "Isso só pode acontecer por fraude, não por voto, estou convencido", afirmou em transmissão ao vivo nas redes sociais em outubro.

Em seu discurso na Cpac, antes do apelo ao "mundo livre", Flávio ofereceu um meio e um fim para convencer os trumpistas da necessidade de se envolver com os assuntos eleitorais brasileiros.

Primeiro, o meio. Por cinco vezes, mencionou os cartéis de droga do Brasil, afirmando que os grupos criminosos exportam armas e drogas para os Estados Unidos. As acusações de "narcoterrorismo" têm sido utilizadas pelo governo Trump como fundamento para a intervenção americana em outros países, como ocorreu com a destituição de Maduro do poder na Venezuela.

Segundo, o fim. Flávio vendeu a imagem do Brasil como o "campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido", essencial para quebrar a dependência dos EUA das exportações chinesas de minerais críticos. Assim, o senador posicionou o país como um potencial fornecedor de terras raras —grupo de elementos químicos usados em produtos de alta tecnologia e na energia limpa.

"A América precisa de cadeias de suprimento seguras para materiais críticos, um parceiro confiável no hemisfério e um mercado massivo para bens e serviços americanos."

O filho de Jair Bolsonaro se inseriu, com esse discurso, no ecossistema da direita radical global, replicando a teoria conspiratória de que o ex-presidente americano Joe Biden teria financiado a eleição de Lula em 2022. Flávio repetiu por quatro vezes essa acusação sem provas.

Como mostrou a Folha, essa teoria nasceu no início do ano passado, a partir de uma conversa de vídeo gravada entre o ideólogo Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump, e Mike Benz, que se apresentava no X como ex-funcionário do Departamento de Estado e diretor de uma ONG contra a censura.

Nessa gravação, Benz afirmou que a Usaid, uma agência federal posteriormente dissolvida por Trump, havia trabalhado pela eleição de Lula, financiando projetos de combate à desinformação e advogados que teriam atuado junto ao TSE para reprimir conteúdos de Bolsonaro no WhatsApp.

A narrativa foi rapidamente alardeada como um grande escândalo pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que costuma fazer a ponte entre as direitas bolsonarista e trumpista, e que mais uma vez discursou na Cpac.

Em sua fala, Flávio também aludiu a narrativas e termos abraçados pela direita radical americana e europeia, como quando afirmou que lutará contra a "agenda woke" (em referência aos grupos que militam pela redução das disparidades sociais, raciais e de gênero), contra a "agenda ambiental radical" e contra "os interesses da elite global".

O senador fez ainda uma promessa que revela sua descrença em relação à acelerada erosão democrática com a concentração de poderes na Presidência no segundo mandato de Trump, em meio a ataques às agências federais, às universidades, ao Judiciário e à imprensa.

"Trump 2.0 está sendo muito melhor que Trump 1.0, certo? Bolsonaro 2.0 também será muito melhor."

A direita é burra, erra nas suas escolhas e depois se queixa do povo

No mais das vezes, critica-se Lula por caminhar para seu sétimo pleito presidencial. Só não é o oitavo porque em 2018 ele estava preso. A crítica deveria se estender ao povo brasileiro, não lhe parece? Porque foi ele que tornou isso possível, elegendo Lula em três ocasiões. Em outras duas, elegeu Dilma, apoiada por Lula.


Mas pega mal criticar o povo. Então, pau no Lula por qualquer coisa, com ou sem razão. Outro dia, Lula apanhou por ter dito que o brasileiro deveria gastar menos com apostas e cachorros, e por isso tanto se endivida. Mexer com as bets é sempre arriscado. Elas são grandes anunciantes, e a mídia depende de anúncios.

Daqui a 186 dias, o país poderá livrar-se de Lula em definitivo. Basta que vote em outros candidatos, e não nele. Candidatos haverá em grande número, à frente deles Flávio Bolsonaro, filho do único ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, e certamente Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás.

Não se pode dizer que a eleição de Caiado ou de Flávio signifique algum tipo de renovação. Caiado disputou a eleição de 1989 montado em um cavalo branco, a primeira pelo voto popular depois do fim da ditadura. Ficou em nono lugar. Obteve apenas 0,72% dos votos válidos. Flávio é uma cópia encardida do pai.

É o que temos para impedir que Lula se reeleja. A direita de fraque e cartola, que faz cara feia quando ouve falar de Flávio e de Caiado, acabará votando neles para que a esquerda jamais possa voltar ao poder. Esquerda nunca mais, diz Caiado. Por ora, Flávio não diz nada. Posa de moderado. E ensaia dancinhas ridículas.

Não há veto divino nem terreno a candidatos da direita com boas ideias e projetos capazes de seduzir a maioria dos brasileiros. Não há sequer veto de qualquer natureza a candidatos da direita sem ideias nem projetos, como se viu em 2018 quando Bolsonaro se elegeu, e em 2022 quando quase se reelegeu.

A direita é que não os produz e joga a culpa nos outros. A direita é que erra ao fazer suas escolhas. A ela só interessa candidatos que jamais contrariem seus interesses. “O sistema é foda”, diz o Capitão Nascimento no filme “Tropa de Elite”. Disse Tancredo Neves, o presidente eleito em 1985 que morreu sem tomar posse:

“Temos construído esta Nação com êxitos e dificuldades, mas não há dúvida, para quem saiba examinar a História com isenção, de que o nosso progresso político se deveu mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites”.

É isso aí. Lula assinaria embaixo.

Antes de julgar, compreender

“Julgar é, evidentemente, não compreender, pois se compreendêssemos, não poderíamos julgar.” A frase de André Malraux, escrita em 1928 em Les Conquérants, ecoa com uma atualidade desconcertante. Quase um século depois, continuamos reféns de uma máquina de julgar que funciona a todo o vapor, enquanto a compreensão permanece na estação, à espera de um comboio que nunca chega.


Basta olhar em redor. Ou, mais desconfortável ainda, olhar para dentro. No casal, o parceiro chega atrasado e imediatamente saltamos para o veredito: “É irresponsável”, “Não se importa comigo”. Raramente nos ocorre perguntar: “O que se passou? Estás bem?”. Na família, o filho adolescente fecha-se no quarto e lá vamos nós: “É preguiçoso”, “Só quer saber dos amigos”. Quantos de nós tentaram verdadeiramente entender o turbilhão emocional que ele atravessa?

No trabalho, o colega não entrega o relatório a tempo. Julgamos: “É incompetente”, “Não leva o trabalho a sério”. E se estiver sobrecarregado? E se houver algo na vida pessoal que o esteja a consumir? Entre amigos, a situação repete-se. Deixamos de receber mensagens e rapidamente concluímos: “Já não se importa com a nossa amizade”. Antes de perguntar: “Tenho notado que estás mais ausente. Está tudo bem?”.

A tirania da razão rápida

O problema é que julgamos porque é fácil. Julgar é rápido, económico em termos de energia emocional. Exige apenas um instante e uma pitada de certezas. Compreender, por outro lado, é caro. Exige tempo — muito tempo. Exige disponibilidade para estar verdadeiramente presente. Exige empatia, essa capacidade tão rara de nos colocarmos no lugar do outro sem perdermos o nosso. Exige escuta ativa, aquela que silencia a nossa voz interior para dar espaço à do outro.

Preferimos a razão ao entendimento porque a razão nos dá uma falsa sensação de controlo e de superioridade moral. Quando julgamos, posicionamo-nos no lugar do juiz, do detentor da verdade. Quando tentamos compreender, aceitamos a nossa ignorância, a nossa vulnerabilidade. Admitimos que não sabemos, que precisamos de aprender sobre o outro.

A sabedoria de Montaigne sobre o julgamento

Quatro séculos antes de Malraux, Michel de Montaigne já alertava para esta dificuldade humana nos seus Ensaios. “É coisa difícil estabelecermos o nosso julgamento contrariando as ideias comuns”, escrevia o filósofo francês, reconhecendo como estamos presos aos preconceitos e às primeiras impressões.

Montaigne ia mais longe, confessando: “Não detesto as opiniões contrárias às minhas. Estou muito distante de me assustar ao ver discordâncias entre os meus julgamentos e os dos outros.” Esta humildade intelectual — a capacidade de aceitar que o nosso julgamento não é infalível — é precisamente o que nos falta hoje. Em vez de nos sentirmos ameaçados pelas diferenças, deveríamos vê-las como oportunidades de alargar a nossa compreensão.

O ato de ensaiar — forma literária que Montaigne inventou — era, ele próprio, um exercício de humildade. Ensaiar é tentar, testar, explorar sem pretensão de verdade absoluta. É o oposto do julgamento sumário. Se cultivássemos esta arte do ensaio nas nossas relações, quantos conflitos evitaríamos?
Espinosa: compreender em vez de condenar

Mas é em Baruch Espinosa que encontramos talvez a formulação mais poderosa desta filosofia da compreensão. A sua famosa máxima — “Não rir, nem lamentar-se, nem odiar, mas compreender” — resume um programa ético para a humanidade.

Espinosa não acusa; talvez por isso o tenham chamado de imoral na sua época. Ele quer compreender para poder agir, não para julgar e condenar. Esta posição foi revolucionária: enquanto a moral tradicional se fundava no julgamento do bem e do mal, Espinosa propunha uma ética baseada na compreensão das causas e das necessidades.

Na sua Ética, Espinosa explica que “nos esforçamos, não é senão por compreender; e a mente, à medida que utiliza a razão, não julga ser-lhe útil senão aquilo que a conduz a compreender”. Ou seja: a verdadeira razão não serve para julgar, mas para compreender. Quando usamos a razão para condenar, estamos, na verdade, a traí-la.

Para Espinosa, quando compreendemos as causas que levam alguém a agir de determinada forma, deixamos de reagir com ódio ou desprezo. Passamos a ver a pessoa não como “má” ou “boa”, mas como parte de uma rede complexa de causas e efeitos. Isso não significa justificar tudo, mas sim libertarmo-nos das reações passionais que só geram mais sofrimento.
A revolução da Comunicação Não Violenta

É aqui que a Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolvida por Marshall Rosenberg nos anos 60, surge como uma bússola para esta mudança de paradigma. A CNV ensina-nos a separar observação de avaliação, a identificar sentimentos e necessidades — as nossas e as dos outros — e a fazer pedidos claros em vez de exigências.

Em vez de “Tu és um egoísta” (julgamento), a CNV convida-nos a dizer: “Quando chegaste uma hora depois do combinado sem avisar (observação), senti-me desrespeitada e ansiosa (sentimentos), porque preciso de segurança e consideração (necessidades). Podes comprometer-te a enviar uma mensagem da próxima vez? (pedido).”

A diferença é abismal. O primeiro fecha portas, gera defesa e contra-ataque. O segundo abre espaço para o diálogo e para a compreensão mútua.

Por que continuamos a julgar?

Se Montaigne, Espinosa e Malraux nos alertaram, se a CNV nos oferece ferramentas práticas, porque continuamos presos ao julgamento?

A resposta está na nossa biologia e na nossa cultura. Evolutivamente, o cérebro humano desenvolveu mecanismos rápidos de avaliação para sobreviver. Julgar se algo é perigoso ou seguro, amigo ou inimigo, era essencial na savana africana. Mas o que nos salvou dos predadores tornou-se o nosso próprio predador nas relações sociais.

A cultura digital amplificou este problema. As redes sociais recompensam julgamentos rápidos, condenações sumárias, cancelamentos. Não há tempo nem espaço para a nuance, para a compreensão, para o ensaio. Ou estás connosco ou contra nós. Quem erra é eliminado, não educado.

Além disso, julgar dá-nos uma ilusão de controlo. Se o outro é “mau” ou “incompetente”, o problema está nele, não em nós. Se compreendêssemos, teríamos de aceitar a nossa própria vulnerabilidade, a nossa incapacidade de controlar o mundo. Teríamos de aceitar que somos todos, em última análise, produtos de circunstâncias que não escolhemos — como Espinosa tão bem entendeu.

O custo do julgamento

O julgamento tem um custo altíssimo que raramente calculamos. No casal, cada julgamento é uma pequena traição à confiança. Na família, é um muro que se ergue entre gerações. No trabalho, é um veneno que contamina o clima organizacional. Entre amigos, é uma lâmina que corta os laços.

Mas o custo mais alto é para nós próprios. Cada vez que julgamos, empobrecemos a nossa própria humanidade. Fechamo-nos numa prisão de certezas que nos impede de crescer. Perdemos oportunidades de aprender, de nos surpreender, de nos conectarmos verdadeiramente com o outro.
Mudar o mundo, uma conversa de cada vez

Malraux tinha razão: compreender é o antídoto para julgar. E num mundo cada vez mais polarizado, onde as redes sociais amplificam julgamentos sumários e cancelam sem apelo nem agravo, esta sabedoria é mais urgente do que nunca.

A boa notícia é que não precisamos de mudar a humanidade inteira. Precisamos apenas de começar por nós. No próximo confronto com o parceiro, antes de atacar, perguntemo-nos: “O que estará ele a sentir? Que necessidade não está a ser atendida?”. No trabalho, antes de criticar o colega, tentemos entender os obstáculos que ele enfrenta. Com os amigos, antes de nos afastarmos por um mal-entendido, levantemos o telefone e perguntemos: “Está tudo bem?”.

Podemos começar por praticar a humildade de Montaigne, aceitando que o nosso julgamento não é infalível. Podemos adotar a postura de Espinosa, buscando compreender antes de reagir. Podemos usar as ferramentas da CNV para transformar julgamentos em pedidos de conexão.

Cada vez que escolhemos compreender em vez de julgar, estamos a fazer uma pequena revolução. Estamos a dizer ao outro: “Tu importas. A tua experiência, as tuas vivências são válidas. Quero entender-te! Preciso de te conhecer!” E, no fundo, não é isso que todos procuramos? Ser vistos, ouvidos, compreendidos.

O mundo não vai mudar por decreto. Vai mudar conversa a conversa, relação a relação, escolha a escolha. Como escreveu Espinosa, a mente só julga útil aquilo que a conduz a compreender. Talvez seja altura de levar esta lição a sério.

A pergunta que fica é: hoje, vais julgar ou vais tentar compreender?

Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta, costumava dizer: “Se pensarmos que as pessoas são más, vamos querer puni-las. Se pensarmos que as pessoas têm necessidades não atendidas, vamos querer ajudá-las.” Talvez seja altura de levar esta lição a sério.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


O que fazer quando o 'bem público' da informação se torna nocivo

A criação, comunicação e exploração do conhecimento são as habilidades que definem os seres humanos como animais sociais. Essas capacidades, mais do que qualquer outra coisa, tornaram os seres humanos senhores do planeta. Isso faz com que nossas ferramentas de comunicação —da linguagem à escrita, impressão, telecomunicações, rádio, televisão e agora a internet— sejam as tecnologias definidoras de suas épocas. Sua invenção e uso moldaram não apenas o que podemos fazer em cada momento, mas quem somos.

Novas tecnologias de comunicação transformam a sociedade. Como argumentou Jürgen Habermas, a democracia liberal, hoje em perigo, foi filha do livro, do panfleto e do jornal. As tecnologias digitais de nosso tempo são igualmente transformadoras. Infelizmente, junto com muitos ganhos, elas trazem enormes danos potenciais que hoje ameaçam a saúde de nossas sociedades. Esses danos não são teóricos; são visíveis demais.


O conhecimento é, na linguagem da economia, um "bem público". Isso significa que, se estiver publicamente disponível, será potencialmente acessível a todos e que todos podem tê-lo sem que ninguém seja privado dele: tecnicamente, é "não excludente" e "não rival". O conhecimento, como às vezes se diz, "quer ser livre". De fato, dada a tecnologia atual, o custo marginal de disseminar informação é essencialmente zero.

No entanto, criar informação verdadeira não é nada gratuito. Isso gera uma enorme falha de mercado: a criação e disseminação de informação confiável está em desvantagem econômica em relação à criação e disseminação de informações falsas. O bem público do conhecimento pode facilmente se transformar no mal público da ignorância confiante ou, pior, do preconceito furioso.

Assim, tal como os rios ou o ar, o conhecimento que a sociedade compartilha e usa pode ficar poluído. Pior ainda, esse processo pode ser um negócio muito lucrativo. Não é difícil pensar em exemplos contemporâneos. Acima de tudo, se há uma falha de mercado, a competição sozinha não a curará. A liberdade de expressão é um atributo importante de uma sociedade livre. Mas, por si só, não garante verdade confiável. Rios de mentiras baratas podem facilmente afogar a verdade custosa.

As tecnologias atuais pioram o problema de maneiras fundamentais. Enquanto a criação de informação confiável permanece cara e bastante difícil de monetizar, o motor dos negócios de redes sociais —os editores dominantes de nossa era— é a atenção que as postagens ganham. Disseminar mentiras e fraudes pode ser um bom negócio. Pior, disseminar postagens que tornam a vida das pessoas insuportável pode ser um bom negócio. Não consigo pensar em nenhuma teoria que considere isso uma atividade de mercado legítima. A IA (inteligência artificial) parece propensa a piorar nossa situação coletiva ao criar fraudes "perfeitas" de todos os tipos.

Então, o que deve ser feito? Há três opções amplas e complementares: subsídio à criação e disseminação de informação confiável; proteção da propriedade intelectual; e mudança de incentivos.

Os governos já subsidiam a pesquisa científica, como deveriam. Outra área é a mídia. No caso do Reino Unido, duas grandes questões foram levantadas recentemente. Uma, como observou o ex-editor do FT, Lionel Barber, é o futuro da BBC. Na minha opinião, todas as grandes empresas de mídia deveriam ter obrigações de serviço público, porque isso as forçaria a fornecer o bem público da informação de alta qualidade.

Se isso for impossível, temos que proteger a emissora de serviço público que temos. Ela é imperfeita: todas as organizações são. Mas o papel que desempenha continua vital. Eu acrescentaria que, na área de noticiários de TV, também é vital evitar uma versão britânica da Fox News. Mas isso, como argumenta Alan Rusbridger, é o que a GB News está se tornando: uma propagandista autorizada pelo Estado para o partido Reform.

Sobre a criação de propriedade intelectual, é importante que as fontes da criatividade humana sejam nutridas. Isso significa que os agentes de IA que "raspam" dados devem ser obrigados a compensar os detentores dos direitos autorais do conteúdo que utilizam. Eu iria mais longe. Um imposto sobre grandes empresas de IA deveria ser dedicado a apoiar os bens comuns criativos, criados por humanos, dos quais o setor e as sociedades livres dependem, como as artes, ciências e, sim, até o jornalismo.

Por fim, devemos ficar satisfeitos que um júri na Califórnia concluiu que Meta e Google são culpados de "negligência" e de causar danos aos usuários. Tais empresas são negligentes e têm sido protegidas das consequências dos danos que sua indiferença inflige, especialmente às crianças.

A expressão nunca foi completamente livre: difamação, calúnia e incitação à violência são corretamente ilegais. A expressão precisa de limites. O mesmo deveria valer para empresas que disseminam material prejudicial ou propaganda de Estados hostis. Tentamos conter a inundação de poluentes em nossas águas. Deveríamos tentar conter também as inundações de mentiras nos mares do conhecimento.

É proibido esquecer o esquecimento

Com a chegada da primavera, dos dias maiores e com sol, é fácil esquecermo-nos, levianamente, do que aconteceu no último inverno. Não me refiro ao “comboio de tempestades”, aos ventos de mais de 200 km/hora da depressão Kristin ou às cheias como há muito não se viam no Mondego, no Tejo e no Sado. Tudo isso, decerto, ficará nas nossas memórias por muito tempo – pelo menos, até sermos obrigados a enfrentar algo de parecido que sirva como termo de comparação. Refiro-me, isso sim, às populações que, em vários pontos do País, se sentiram esquecidas nesses dias, semanas, em que o céu literalmente desabou sobre as suas cabeças, levou os telhados das suas casas e deixou tantos sem eletricidade, sem vias de comunicação e até sem acesso a água potável.


Embora seja fácil esquecer, a verdade é que não podemos esquecer esses dias de abandono, que milhares sentiram, com as tempestades. E, acima de tudo, não podemos esquecer quem os esqueceu nesses momentos. Especialmente se, por causa da guerra, do aumento do preço dos combustíveis, do regresso da inflação e tudo o mais que a loucura de Trump está a fazer regressar ao mundo, voltarmos a esquecer esses dias de insuportável esquecimento, a que foram votadas essas populações.

Quem, no final de janeiro e de fevereiro, calcorreou muitos desses locais, alguns deles até bem próximos da Grande Lisboa, sede de todos os poderes, percebeu, sem esforço, o abandono em que se sentiram muitas daquelas populações. Até porque foi um abandono a vários níveis: não as informaram, devida e prontamente, em relação à força dos ventos, nomeadamente da Kristin; deixaram-nas isoladas para lá do suportável, nos primeiros dias, como se o resto do País já tivesse regressado à normalidade, após uma noite de chuva e de vento; permaneceram, durante mais dias do que seria admissível, no limbo daquele tipo de esquecimento que é alimentado com promessas de soluções rápidas – mas que demoram demasiado tempo a concretizar-se. Se voltarmos a esquecer essas populações e esses territórios, por causa de novas emergências que tudo ofuscam à sua volta, teremos um futuro traçado: uma clivagem ainda mais profunda na unidade de um território continental, em processo de divisão acelerada entre o País habitado e o País desertificado. Mas não só. É também a divisão entre o País que está continuamente no centro da atenção mediática e o outro que apenas consegue chamar a atenção por causa das tragédias que se abatem sobre as suas gentes. E, no fundo, a divisão entre o País que concentra o poder e o País que tem sido esquecido pelos poderes.

Grande parte desta reflexão surgiu-me depois de ter lido o livro Inteligência do Lugar, agora lançado pelo geólogo e professor universitário Carlos Alberto Cupeto, que é também colunista regular da VISÃO. Nessa obra, em que preconiza a importância dos lugares e da vida local como antídoto para um “colapso global”, provocado pelo esgotamento dos recursos do planeta e dos efeitos das alterações climáticas, ele tem uma frase que me deixou a pensar: “Os lugares sabem mais do que nós sabemos deles.”

É verdade. E, como sabemos, se a Natureza molda as pessoas, também as pessoas são moldadas pelos lugares e pela sua memória. Como escreve Cupeto, a inteligência do lugar é aquela que “vive nos gestos, nos cheiros, nas estações do ano”. Afirma também que ela se manifesta através de rotinas, que passam de geração em geração: “É o saber quando semear, onde recolher a água da nascente, como ler o céu ao fim da tarde para saber se vai chover. É um saber que não é nosso, mas que pertence ao lugar. Nós apenas o escutamos. E, se formos humildes, aprendemos.”

Perceber a inteligência do lugar é fundamental para criar comunidades fortes, enraizadas no território e que sabem responder aos desafios – e que não se limitem a ficar à espera de que outros corram em seu auxílio. Aquilo de que precisamos, cada vez mais, é de comunidades livres e participativas, com uma voz que lhes permita ser ouvidas e respeitadas.

Num mundo em que os algoritmos cavam e lucram com as divisões, em que se volta a instituir, no plano internacional, a lei do mais forte, e em que crescem os sentimentos de rejeição em relação aos “outros” – sejam eles quais forem –, é mais do que nunca necessário voltarmos a ligar-nos ao território em que habitamos, aos lugares que formaram as nossas memórias e à sabedoria avassaladora da Natureza – que será sempre mais forte do que nós. É por isso que, mesmo nesta primavera alegremente ensolarada, não podemos esquecer-nos dos esquecidos do último inverno. Até porque, se não fizermos nada e persistirmos na atitude de sempre, na próxima catástrofe natural pode ser qualquer um de nós a ficar esquecido.

Pode isso?

Não há civis inocentes, nem crianças inocentes em Jenin

Otzma Yehudit, membro do partido de extrema-direita de Israel, após quatro membros da família Odeh terem sido mortos a tiros por forças israelenses na Cisjordânia no início deste mês

Apoio os soldados das Forças de Defesa de Israel em todas as situações. Mesmo que os danos colaterais incluam crianças ou mulheres, isso não importa para mim
Yitzhak Kroizer, deputado do Parlamento israelense

O que é a designada Inteligência Artificial? (E porque considero não devermos estar tão dependentes dela…)

“Saber tudo de tudo. Ou tudo de algum saber. Decerto é impossível e mesmo indesejável. Mas que tu sintas que é bela a luz ou ouvir um pássaro cantar e terás sido absolutamente original. Porque ninguém pode sentir por ti.”
Vergílio Ferreira

(Quase que me sentia tentada a voltar a escrever sobre os múltiplos casos conhecidos esta semana. Contudo, cada um deles, por si mesmo, e a falta de reação acertada não possuem já qualquer encanto da novidade. A verdade é que Portugal continua igual a si próprio, de escândalo em escândalo, apresentado como folhetim de uma qualquer novela, abrangendo quase tudo o espectro do eixo partidário central e a extrema-direita, esta última gozando que uma quase total impunidade, escoltada por um exército de perfis falsos nas redes sociais. Estamos, portanto, aparentemente condenados ao papel de meros espectadores de um tristíssimo espetáculo, para o qual não fomos convidados mas pagámos a custo alto o bilhete, sem que tenhamos qualquer iniciativa.)

Assistimos, na última década, à designada 4ª Revolução Industrial, em que a IA tomou conta das nossas vidas, sem que nos apercebamos dos reais perigos que a mesma encerra. Desde logo, refira-se que a designação Inteligência Artificial é um contrassenso, na medida em que a mesma assenta em algoritmos, criados por humanos, com regras que desconhecemos e que interferem nas escolhas que fazemos. Por outro lado, por via da sua expansão descontrolada, ao contrário do que se faz anunciar, não se abrem múltiplas oportunidades mas, pelo contrário, põem-se em causa vários postos de trabalho, para mais quando o que antes era feito por critérios humanos e, embora por vezes errados, pelo menos conhecidos.

Deixo, como tal, já o meu ponto de partida: o endeusamento acrítico que é feito deste tipo de desenvolvimento causa-me calafrios porque gosto de conhecer as regras do jogo. Não sou por princípio contra a evolução mas o que está a ser feito, sob a aparência de grande modernismos, implicará uma mudança para a qual não creio que estejamos completamente alertas e, menos ainda, preparados.


Por exemplo, como todos já nos apercebemos, cada vez que entramos numa rede social, perante o tempo que gastámos a ver uma ou outra publicação, é estabelecido um perfil nosso e é em função deste que nos passam a mostrar mais ou menos posts ou publicidade daquele tipo. Bastará, por vezes, manter conversas dentro de determinados tópicos com o telemóvel por perto para, de imediato, assim que lhe acedemos, o que vemos é o reflexo do que se disse.

Sucede que estes milhões de meta dados não servem apenas para isto (e já não seria pouco…), na medida em que permitem a direcção de publicidade em termos que nunca foi feita.

Servem, também e como já foi feito em Portugal, para selecionar trabalhadores para despedimentos, refira-se que com erros claros na construção do dito algoritmo, ou para avaliar perfis de trabalhadores ideais, escolhidos não pela sua capacidade de desenvolver a tarefa em causa mas pelo que foram expressando ao longo da dia, nas suas redes sociais ou em comentários em caixas de comentários de notícias, procurando-se desta forma afastar os mais contestatários.

É certo que este tipo de seleções sempre foi efetuado mas o grau de vigilância era, necessariamente, menor e menos intenso, desde logo porque efetuado por mão e vista humana.

Por outro lado ainda, apesar de indubitavelmente nos facilitar a vida em muitas ocasiões, abre também as portas a burlas e à total vulnerabilidade dos nossos dados pessoais, da mesma forma que conduz a um tipo de (des) conhecimento completamente padronizado, em que os que não se alinham são afastados.

Last but not the least, sob a capa de uma aparente fonte de conexão, o que, por exemplo, as redes sociais vieram trazer a nu foi a brutalidade humana, expressa muitas vezes nas caixas de comentários e em posts e uma quase total, mas errada, associação entre o mundo real e o virtual, onde as pessoas são eliminadas por um mero clique e as ditas “amizades” se findam pelo simples ato de remoção.

Sendo facto notório que a dita inteligência artificial e o mundo virtual vieram para ficar, o que desejo é que não se pense que pode substituir a real, em que o cheiro de uma rosa ou um bom livro nos podem trazer emoções e fazem de nós o que realmente somos: seres humanos.
Rita Garcia Pereira

Golpismo da direita permanece no centro da disputa eleitoral

O golpismo da direita continua sendo o problema da eleição. Da mesma forma que foi nas duas disputas presidenciais anteriores. O senador Flávio Bolsonaro, como seu pai, não tem credencial democrática, e já demonstrou desrespeito institucional. Infelizmente, outras forças da direita não quiseram condenar o golpismo. O PSD, de Gilberto Kassab, teve uma chance com o governador Eduardo Leite, que demonstrou ter entendido o ponto central. Neste fim de semana, Flávio Bolsonaro repetiu o pai e pôs em dúvida, diante de uma plateia estrangeira, a lisura do processo eleitoral brasileiro. Hoje, 62 anos depois do golpe militar, estamos de volta à quadra um.


Dia 31 de março precisa ser tempo de reflexão no Brasil. O país viveu uma dor política que atravessou 21 anos. Dos escombros, os constituintes escreveram um novo pacto democrático baseado no repúdio à ditadura. Na economia, o autoritarismo deixou hiperinflação e superendividamento externo. Este novo pacto deveria ter sido para sempre, mas Jair Bolsonaro chegou ao poder desprezando a democracia e, no governo, bombardeou as instituições. Uma das armas usadas foi dizer que a eleição pelo voto eletrônico era fraudada.

Para surpresa de ninguém, Flávio Bolsonaro começa a mesma ladainha. No Texas, na Conferência de Ação Política Conservadora, o senador pediu “pressão diplomática para que nossas instituições funcionem corretamente”. Quer acompanhamento externo para as eleições. O Tribunal Superior Eleitoral sempre convidou observadores. Mas não é disso que ele está falando. Afirmou que é para “assegurar que a vontade do povo será preservada”. E concluiu: “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”. Na versão que ele apresentou no encontro da ultradireita internacional, seu pai está preso “por defender nossos valores conservadores” e não por ter sido condenado por uma tentativa de golpe de Estado.

O pré-candidato do PL já exibiu várias vezes os mesmos maus propósitos institucionais do pai. Em junho do ano passado defendeu à Folha de S. Paulo, a eleição de alguém que enquadre o Supremo Tribunal Federal. E foi explícito: “a gente está falando da possibilidade do uso da força”.

No 8 de janeiro e no julgamento dos golpistas ficaram explícitas as provas da conspiração contra a democracia por parte de Bolsonaro e seus asseclas militares e civis. Diante disso, o natural seria as forças políticas, de direita, de centro-direita, demarcarem o terreno que as separa da extrema-direita bolsonarista. Não foi o que aconteceu. A ambiguidade, o apoio disfarçado ou explícito continuou imperando.

O governador Ronaldo Caiado teve pelo menos duas chances de se diferenciar. Durante a pandemia, quando por ser médico defendeu a vacina, e na eleição municipal em que enfrentou o candidato do ex-presidente e venceu. Apesar disso, esteve em palanques bolsonaristas, e nunca condenou o golpismo.

O governador Eduardo Leite foi direto e contundente ao se apresentar. No programa de Júlia Duailibi, da GloboNews, na semana passada, Leite disse que o que está faltando nesta eleição é o centro. “Com todo o respeito ao governador Caiado, o que ele busca representar já tem representante.” Criticou o governo Lula, mas acrescentou: “presidente da República que articula movimento golpista, que busca uma ruptura institucional como o presidente Bolsonaro, na investigação ficou demonstrado que fez, tem que ser julgado e preso”.

Caiado repetiu ontem que “o meu primeiro ato será a anistia ampla, geral e irrestrita”. Em discurso este ano, ele elogiou Bolsonaro. “Esse homem que conseguiu levantar o Brasil e dizer em alto e bom som: vamos caminhar pela liberdade e democracia plena”. Em entrevista ao Roda Viva no ano passado, questionado se houve ditadura, respondeu que houve um “tempo de restrição por atos institucionais” mas relativizou: “os dois lados cometerem excessos”. Ontem, ele disse que “democracia no Brasil é uma falácia”. Falava do necessário combate ao crime organizado, mas não valoriza o que o país construiu.

Dois dos três pré-candidatos da eleição de 2026 não mostram apreço pela democracia. Flávio Bolsonaro é de uma família que sempre defendeu a ditadura, e quer sua repetição. Caiado nunca condenou a de 1964, nem o último golpe. Por isso, a questão democrática permanece no centro da política brasileira.
Míriam Leitão

terça-feira, 31 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


A contradição entre o moderado Flávio e o radicalismo no palco dos EUA

A política brasileira é fértil em espetáculos, mas raramente no picadeiro da subserviência. Porém, o que se viu recentemente nos Estados Unidos ultrapassa os limites do razoável.

Flávio Bolsonaro, que muitos tentam empacotar e vender como a face “moderada” do clã, resolveu chutar o balde e a lógica em um evento conservador no Texas.


Ao microfone, com um inglês claudicante e um esforço visível para agradar, o senador não apenas pediu socorro, ele ofereceu o Brasil de bandeja.

Não é de hoje que os Bolsonaro buscam no estrangeiro a validação que o voto popular lhes retirou. Mas Flávio foi além do pai. Enquanto Jair se limitava a cochichos de pé de ouvido com autoridades americanas, o filho resolveu escancarar a serventia em público, diante de câmeras e de uma plateia ávida por retórica reacionária.

O senador chegou ao ponto de sugerir que Brasil e EUA nasceram um para o outro e que temos muito para dar em troca de… “ajuda”. Minerais Críticos, por exemplo. É a entrega total da soberania por um afago político.

Mais grave ainda é o ataque sistemático às nossas instituições. Flávio foi dizer lá fora que não temos democracia por aqui, ignorando (ou fingindo ignorar) que rankings internacionais seríssimos, como o da Universidade de Gotemburgo, colocam o Brasil hoje à frente dos próprios Estados Unidos em solidez democrática. Ele joga com a dúvida, tenta sabotar a confiança nas urnas e sinaliza que, se perder a eleição, é por contagem errada de votos.

Ao atacar a China, nosso maior parceiro comercial, e se colocar como um “vendedor” das riquezas nacionais, Flávio mostra um amadorismo perigoso.

É o velho método bolsonarista de dar tiro no próprio pé, mas, desta vez, o cano da arma está apontado para os interesses estratégicos do Estado brasileiro.

A moderação era apenas uma máscara que caiu no Texas. Surpresa? Zero.

Cidadãos! Por que fazemos tão pouco uso da democracia?

Num país, após os primeiros anos de introdução da democracia, a percentagem das abstenções não cessa de aumentar, mantendo-se geralmente à volta dos 50%. Os cidadãos de países com modelos de democracia muito pouco democráticos constatam, eleição após eleição, que nenhum governo ou poder local faz aquilo com que se comprometeu durante a campanha eleitoral. Todos eles fazem o que muito bem lhes apetece ou convém, de acordo com os seus interesses particulares ou com os interesses dos grupos que os financiam.


A possibilidade dos cidadãos participarem na tomada de decisões do Poder Central é nula. Pela mesma razão, a participação destes nas assembleias municipais e de freguesia é insignificante. Acresce que absolutamente nada na sociedade tem um caráter democrático: todas as estruturas e organizações do país, sejam elas públicas ou privadas, desde os serviços públicos aos estabelecimentos de ensino, incluindo todas as empresas privadas, hospitais e centros de saúde (que deveriam ser cooperativas), têm uma organização fortemente hierárquica e estão fechadas à democracia e ao cidadão.

Chamem a isto o que quiserem, mas não democracia.

Em toda a Europa, a confiança dos cidadãos nos governos e nas instituições está no seu nível mais baixo de sempre.

Em democracia, o poder máximo e a responsabilidade final das decisões e compromissos tomados pelos órgãos de poder, residem, de facto, no coletivo de todos os cidadãos. É em nome dos cidadãos que as decisões são tomadas, são os cidadãos que encaixam as consequências e tudo pagam.

Quando a administração e a gestão de um país funcionam mal, ou muitíssimo mal, durante um longo período, é expectável que a credibilidade do sistema político seja praticamente nula e que a prevalência da angústia, da depressão e da sensação de revolta sejam elevadas. A sociedade torna-se cruel e doentia, muito penosa e difícil de suportar para a maioria das pessoas, particularmente para as crianças e as mulheres.

Democratizar a sociedade é fazê-la mais humana, social e eficiente, é torná-la menos tóxica e stressante.

Os municípios e as juntas de freguesia têm todo o interesse em se tornarem entidades legítimas, do ponto de vista social e ético. Para tal precisam de pedir, de suplicar aos cidadãos que ajudem a definir e a implementar o que acham que é, realmente importante. Sem uma sociedade civil viva e sem cidadãos independentes e ativos, não há uma democracia que mereça esse nome.

A sociedade civil, viva e livre, é o motor e o coração da democracia, é o garante da justiça, da liberdade e do bem-estar de todos os cidadãos.

O que as freguesias e os municípios têm de fazer:

Democracia representativa. As reuniões do executivo das freguesias e dos municípios são presenciais e abertas a todos os cidadãos. O executivo organiza-se de forma a obter uma elevada presença e participação dos cidadãos, particularmente dos jovens e das mulheres. Nestas reuniões, existe sempre um ponto da ordem de trabalhos reservado às intervenções dos cidadãos;As reuniões da assembleia das freguesias e dos municípios são mensais, presenciais e abertas a todos os cidadãos. A assembleia organiza-se de forma a obter uma elevada presença e participação dos cidadãos, particularmente dos jovens e das mulheres. Em cada reunião da assembleia há um tema, acordado de antemão e tornado público, de discussão e debate aprofundado entre todos os presentes, membros da assembleia e cidadãos. A assembleia prepara o debate e faculta a informação necessária. Os cidadãos organizam-se como muito bem entenderem ou participam individualmente. O debate encerra com conclusões e um plano de ação.

Democracia direta. O executivo das freguesias e dos municípios elabora e coordena a discussão pública de um plano anual para motivar, apoiar e facilitar reuniões, não partidárias, de cidadãos, incentivar e facilitar a constituição de grupos de trabalho de cidadãos, a criação de organizações de cidadãos, cooperativas e associações, a organização de debates e palestras entre cidadãos (À conversa com …). Os cidadãos organizam-se como muito bem entenderem (por ex. associações informais) ou participam individualmente, onde e quando quiserem. Estas são iniciativas independentes, de cidadãos, abertas a todos os cidadãos, de todas as idades, particularmente aos jovens e às mulheres. Os cidadãos elaboram, de forma autónoma, as suas respostas, aos seus problemas e integram-nas na vida democrática da sociedade através de ações cívicas, locais ou nacionais.

Formar, nas organizações cívicas locais, as novas gerações de políticos, autarcas e governantes.

Fazer IA é caro mesmo para fortunas do Vale do Silício

Na planilha, a Anthropic planeja chegar ao azul em 2028 — daqui a dois anos. A OpenAI, em 2030. Para chegar ao azul, a primeira companhia espera gastar US$ 22 bilhões de seus investidores. Fazer inteligência artificial é bastante caro. A OpenAI, que pretende chegar dois anos depois ao azul, acredita precisar gastar US$ 200 bilhões. Fazer IA pode ser até muito mais que bastante caro. E, até aqui, os dois modelos das duas companhias, Claude e GPT, são equivalentes. É virtualmente impossível, para quem usa ambos pesadamente, dizer que um é realmente melhor que o outro. Então onde está a diferença? O que se compra com US$ 200 bi que US$ 20 bi não pagam?


Na última semana, a OpenAI tirou do ar o Sora, seu modelo de vídeo por inteligência artificial. Quando foi lançado, há um ano, era o mais revolucionário sistema para criar vídeos. Hoje, pelo menos dois modelos chineses são superiores, e o VEO, do Google, é melhor em alguns aspectos. Mas, graças ao Sora, a Disney havia se comprometido a investir US$ 1 bilhão na companhia. Ainda assim, os números não fecham.

O negócio da inteligência artificial gasta dinheiro de duas maneiras. Uma é treinando um modelo — qualquer modelo. Modelo de texto, de música, de imagem, de vídeo. Muito caro e, quanto mais sofisticado, mais caro. Mas esse é o custo pequeno. O custo realmente alto está no uso. Uma pergunta a uma IA de ponta pode custar até 50 vezes uma pergunta feita ao Google. E o preço já caiu. Em 2023, chegava a cem vezes. Esse valor é uma soma de eletricidade para processamento e refrigeração, custo do equipamento e o necessário para operar um data center.

Então, qual a diferença entre OpenAI e Anthropic? A diferença é que todo mundo já ao menos ouviu falar do ChatGPT, mas só quem está um pouco mais atento conhece o Claude. No fim, é isso que US$ 180 bilhões compram. A OpenAI teve sorte e, dentro dessa sorte, desenhou uma estratégia. A sorte foi o ChatGPT.

Um modelo de linguagem pode ter muitos usos distintos. Poderia ser um botão para resumir textos, uma janela de busca para encontrar respostas. Quando ligou seu modelo GPT a uma janela de chat, a OpenAI bolou um truque para demonstrar o potencial da tecnologia. Só que o ChatGPT deu muito certo. O jeito de demonstrar se tornou tão popular que, para muita gente, IA só existe na forma de chat. E o termo ChatGPT virou uma marca com a força de Gilette ou Google. É sinônimo de uma tecnologia.

A maneira tradicional de empresas do Vale do Silício crescerem é pegar dinheiro dos investidores e usar para atrair uma base extensa de clientes. A esperança é que, quando reunir gente o suficiente, via propaganda ou assinatura, o investimento se paga. Busca virou negócio assim, redes sociais idem. Só que IA é muitas vezes mais cara.

Ainda assim, nos primeiros dois anos, a OpenAI não economizou recursos. Desenvolveu um excelente modelo de linguagem, um excelente modelo de imagem, um excelente modelo de vídeo e fez bastante para que todos pudessem usar de graça. Gastou ainda outro tanto comprando uma empresa que desenhará máquinas de IA — para os ouvidos, para as mãos, para pendurar no pescoço ou colocar na cara. Ninguém sabe bem como serão.

Enquanto isso, a Anthropic foi crescendo devagarinho, buscando principalmente clientes corporativos. Investindo quase inteiramente num modelo de linguagem, sem imagem, sem vídeo. Com o objetivo principal não de resolver as dúvidas de pessoas físicas, mas de encarar os dilemas de grandes empresas. Sua aposta foi no mercado corporativo. Assim, tendo gastado incrivelmente menos, com uma conta gratuita muito limitada, o Claude chega a 2026 tão bom quanto o GPT, e a Anthropic muito mais competitiva que a OpenAI.

Não está dado que a empresa mais famosa perderá a partida, mas ela está em maus lençóis. Tentou oferecer um GPT gratuito com propaganda — e a concorrente fez propaganda ironizando. Pegou tão mal a ideia de pôr publicidade na IA que a OpenAI voltou atrás. Ao menos por enquanto.

O dinheiro do Vale do Silício é enorme, mas tem limite. A OpenAI depende, como nunca, de o mundo adotar IA o mais rápido possível.

Fazendo retrospectiva de um país complicado

Esta é a minha última coluna para a Deutsche Welle Brasil. Por causa de cortes impostos pelo governo alemão à DW, minha contribuição mensal foi encerrada.

Durante cerca de oito anos, escrevi, em média, uma coluna por mês – e sou sinceramente grato por isso. Esse trabalho sempre me fez pensar sobre o Brasil, esse país que não é para iniciantes. E também me deu a chance de compartilhar minhas impressões como um alemão que vive aqui, com um público às vezes maior, às vezes menor – sempre curioso pelas reações. Algumas colunas circularam bastante. Recebi apoio, mas também fui xingado: já fui chamado de comunista que deveria ir para Cuba e de nazista que deveria voltar para a Alemanha. Fiquei no Brasil.

De vez em quando – e essas eram as mensagens que eu mais gostava – havia leitores que realmente liam o texto inteiro (e não só o título, como parece ser o padrão hoje em dia), apontavam erros ou acrescentavam algo interessante. Algumas colunas chegaram até a provocar reações na política brasileira: o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, por exemplo, se irritou com um texto; já Fernando Haddad, então candidato à presidência, concordou com outro – o que levou Jair Bolsonaro a contestá-lo.

Ao longo desses anos, algumas coisas ficaram claras para mim. Uma delas: bastava aparecer o nome Bolsonaro para os cliques e comentários dispararem. Já quando o assunto era meio ambiente ou povos indígenas o interesse costumava ser bem menor. Outra constatação curiosa: há certas ideias que unem direita e esquerda, como a convicção de que os parlamentos brasileiros estão cheio de figuras corruptas. Mas apesar desse consenso, nada muda – e os eleitores continuam escolhendo essas mesmas figuras, de novo e de novo.

Vivo aqui há mais de 13 anos e viajei por quase todo o país: de aldeias indígenas isoladas na Amazônia aos vinhedos do Rio Grande do Sul, do Pantanal a Salvador. Para mim, como jornalista, o Brasil sempre foi um lugar generoso, porque sempre havia algo acontecendo, algo que valia a pena contar – e que despertava interesse na Europa.

Quando cheguei, o Brasil ainda era visto como "o país do futuro". Era aqui que o século 21 iria acontecer. Falava-se de uma futura superpotência econômica, de um país com peso crescente na política internacional, com influência cultural e esportiva em expansão – e de uma sociedade miscigenada que poderia servir de exemplo para o mundo.

Naquela época, o Brasil era o país convidado da maior feira do livro do mundo, em Frankfurt, e o novo papa argentino vinha ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude. Copa do Mundo e Jogos Olímpicos estavam a caminho. O mundo inteiro olhava para o Brasil.

Então vieram, de repente, as manifestações de 2013 – e todo mundo, inclusive os próprios brasileiros, se perguntava: o que está acontecendo aqui? De onde vem tanta insatisfação? Por que esse levante às vésperas da Copa? E por que tanta violência, especialmente por parte da polícia militar? A partir daí, passei boa parte do tempo tentando explicar aos leitores na Alemanha, Áustria e Suíça como o Brasil funciona – bem mais conservador do que muitos imaginam, sobretudo aqueles que conhecem apenas os clichês do Carnaval, que têm bossa nova e samba no ouvido e talvez tenham visto um filme de Walter Salles. Para mim também foi um aprendizado ver como protestos que começaram à esquerda, impulsionados por estudantes, acabaram desembocando em pedidos por um golpe militar.

Veio então o 7 a 1 – um momento que, de certa forma, resumiu o sentimento de muitos brasileiros: decepção, frustração, raiva. E, ao mesmo tempo, algo muito típico apareceu ali: a capacidade do brasileiro de rir da própria desgraça. Ainda no intervalo, com 5 a 0 no placar, já circulavam piadas – e até cerveja grátis.
Caixa de Pandora

No ano seguinte, Dilma Rousseff venceu novamente as eleições – apenas para pouco depois enfrentar um processo de impeachment bastante forçado. Era o período em que os enormes escândalos de corrupção envolvendo Petrobras e Odebrecht vinham à tona, revelando mais uma vez a profundidade das relações criminosas entre política e grandes empresas.

O Centrão, que sempre tem grande influência nos bastidores, achou que poderia se beneficiar da queda de Dilma. Na prática, acabou abrindo a caixa de Pandora. Dela saiu, como um personagem improvável, Jair Bolsonaro – um político de extrema direita que, em condições normais, dificilmente seria aceitável – mas que conquistou muitos brasileiros com seu discurso ignorante, violento e de um individualismo radical.

Passei então a explicar aos leitores europeus esse fenômeno. Era preciso falar do crescimento das igrejas evangélicas conservadoras, do peso do agronegócio, da música sertaneja, da visão muitas vezes positiva da ditadura militar e das posições bastante conservadoras de boa parte da sociedade em temas como armas, aborto e direitos LGBTI.

Talvez o momento mais intenso tenha sido em 2019, quando a Amazônia parecia estar em chamas. A fumaça chegou a escurecer o céu de São Paulo. Bolsonaro parecia disposto a cumprir sua promessa de abrir a floresta a um suposto progresso a qualquer custo. Nunca trabalhei tanto quanto naquela época. E isso também revela um contraste: na Europa, tudo o que envolve a Amazônia interessa muito; no Brasil, nem sempre. No fim, Bolsonaro não caiu por sua política ambiental, mas pela condução desastrosa da pandemia de covid-19, que matou mais de 700 mil brasileiros e derrubou o real a níveis históricos.

Com a eleição de Lula – que hoje, em certos aspectos, lembra um caudilho que não quer largar o poder – o Brasil voltou a uma certa normalidade. Para jornalistas, isso raramente é boa notícia. E, de fato, o interesse europeu pelo país diminuiu bastante desde então.

Ao longo desses anos, acompanhei inúmeras tragédias: o incêndio da boate Kiss, os desastres – muitos dizem crimes – de Mariana e Brumadinho, o incêndio do Museu Nacional no Rio, as enchentes no Rio Grande do Sul, a crise humanitária do povo Yanomami, entre tantas outras.

Algumas dessas catástrofes também tinham a ver com a tendência brasileira de se contentar com a improvisação, algo que, como alemão, também me chamou atenção repetidas vezes no dia a dia. O proprietário do primeiro apartamento que aluguei, por exemplo, insistia em sempre instalar o mesmo modelo barato de descarga – que não resistia mais do que alguns meses por causa da pressão da água. No fim, acabava gastando mais do que teria gasto se tivesse optado por um produto de qualidade. Ainda assim, não havia meio de convencê-lo disso, e ele continuava comprando o mesmo modelo.

Outra impressão minha é de que o Brasil gira em círculos, condenado a se repetir eternamente. Fui assaltado três vezes no Rio ao longo dos anos como quase todos que vivem aqui: com faca, com arma e à força (cinco contra um). Parece ser uma velha tradição carioca. É claro, já tive o celular roubado no Carnaval. Em várias ocasiões cometi o erro clássico de quem chega ao Brasil: emprestar dinheiro a brasileiros e esperar que, apesar de juramentos solenes, um dia fosse devolvido. Em vez disso, fui bloqueado ou insultado sempre que perguntei pelo dinheiro. Na segurança pública, a rotina parece imutável: operações policiais nas favelas que repetidamente aumentam o número de mortos, sem melhorar a vida de ninguém.

A mesmice domina também quando ligo a televisão ou o rádio: há mais de uma década vejo e ouço na Globo as mesmas faces e vozes que interpretam o mundo para os brasileiros, como se não existissem rostos novos – mais jovens, mais dinâmicos, com perspectivas mais surpreendentes.

Outro círculo eterno: quando chove forte e venta no meu bairro, no Rio, a luz cai com regularidade e os transformadores explodem com um estrondo. A ideia de que os cabos elétricos deveriam estar enterrados parece, em muitos bairros cariocas, um segredo guardado a sete chaves. Nas chuvas intensas, o centro do Rio continua alagando, como pude experimentar pela primeira vez já em 2013, quando o atravessei a rua com água até os joelhos. Falando de ruas: a rua em frente à minha casa foi totalmente recapeada há quatro anos – e já voltou a apresentar buracos, ondulações e incontáveis irregularidades. No trânsito, a regra parece ser não parar na faixa de pedestres quando alguém quer atravessar. Prefere-se correr o risco de atropelar a frear com prudência.

Prosseguindo com as calamidades do cotidiano: a água que sai da minha torneira é, às vezes, amarelada, às vezes acastanhada, apesar de uma conta de água bastante salgada. O brasileiro gosta de ir à praia, gosta de exercícios e de se exibir, gosta de estar ao sol, gosta de uma aparência pessoal e em casa impecável. Mas o espaço público lhe importa bem menos. Em Copacabana e em Ipanema, as praias, após qualquer fim de semana ensolarado, transformam-se em verdadeiros lixões – e só voltam ao que deveriam ser graças aos heróis sem nome da Comlurb.

Reconheço: embora emblemáticas, essas observações são aparentemente irrelevantes e desconexas diante do maior escândalo de todos. Após duas décadas de governos do PT, as escolas públicas brasileiras continuam sendo um desastre – e seus alunos, em sua maioria mais pobres, mal têm chance de chegar à universidade. O fato de Lula jamais ter feito um esforço federal consistente para mudar isso é, para mim, a principal crítica a ser feita. É aí que o potencial do Brasil está soterrado – não no agronegócio, que consome terras e devasta florestas e rios. O volume de talento desperdiçado nas escolas públicas brasileiras é a grande tragédia deste país.

Às vezes, tenho a impressão de que os brasileiros não percebem isso porque, de algum modo, se habituaram a ser enganados por suas elites arrogantes e culturalmente empobrecidas. Mas também é verdade que a indignação ruidosa com a corrupção alheia, com frequência, não passa de inveja por não estar perto dos cofres.

E ainda assim, nada disso traduz o que o Brasil é em sua essência mais profunda. Para mim, é a musicalidade intensa e difusa dos brasileiros, a imensa alegria de viver, a generosidade tão frequente, a extraordinária capacidade de se comunicar, a criatividade vibrante e a necessidade constante de se expressar, além da abertura ao outro.

É também a resiliência dos mais pobres, a solidariedade espontânea e a disposição de ajudar e a gentileza que muitos brasileiros demonstram nos momentos que realmente importam. E é, sobretudo, esse humor inabalável e a convicção de que o amanhã será melhor – mesmo quando o ontem foi difícil.

E com isso, me despeço.

Líbano, o próximo reality show

Israel alega buscar o controle militar de 10% do Líbano. Fala em “zona de segurança”, “medida defensiva” e “operação de estabilização” para evitar nomear o que todos podemos ver: a invasão de um Estado soberano reconhecido pela comunidade internacional, com seu próprio governo, seu próprio exército e que declarou explicitamente não querer essa guerra. O Líbano não atacou Israel. O Hezbollah atacou, mas o Hezbollah não é o Estado libanês. E esta não é a primeira vez. Agora sabemos que Gaza não é apenas um genocídio: é um laboratório. Israel aprendeu que demolir um território, deslocar uma população, ocupar a Faixa de Gaza e ignorar as resoluções do Conselho de Segurança, da Corte Internacional de Justiça e da Assembleia Geral pode ser feito sem consequências. O custo político é administrável. O Ministro da Defesa israelense afirma isso abertamente: o objetivo é aplicar “o modelo de Gaza” no Líbano. E o que isso significa exatamente? Primeiro, destruir a infraestrutura essencial, depois forçar o deslocamento da população e, finalmente, ocupar um território esvaziado. Não se trata de uma operação militar; é engenharia demográfica: a segunda fase de uma experiência cuja primeira fase ninguém interrompeu.


E por que não o impedimos? A escritora turca Ece Temelkuran tem uma resposta perturbadora. Não é que não tenhamos visto o que estava acontecendo. Gaza é o primeiro genocídio transmitido ao vivo, por mais de dois anos, em nossos celulares. Vimos tudo, e todos viram. Como escreveu Maruja Torres do Líbano: “Todos sabíamos que algo ia acontecer. Agora todos sabemos que algo aconteceu”. O problema, como Temelkuran aponta, é que construímos um sistema tão eficaz para normalizar o horror que ordens e censura não são mais necessárias. Ninguém nos diz para ignorar; simplesmente nos oferecem distrações enquanto “a ideia de humanidade é despedaçada”. A questão não é tanto a falta de consciência, mas um ambiente saturado de estímulos triviais que dispersam nossa atenção moral. O terrível não está escondido; está diluído em meio a milhares de conteúdos banais. É a distração como mecanismo para enfraquecer nossa capacidade de reagir ao sofrimento alheio. Não é que estejamos distraídos pelo meme do momento: o sistema gera uma nova crise todos os dias justamente para que não vejamos a conexão.

Gaza, porém, não fica impune por indiferença passiva. Fica impune porque o Ocidente optou pela cumplicidade ativa: o veto, o armamento, a cobertura diplomática. Agora, o Líbano está trilhando o mesmo caminho pelo mesmo motivo: o Irã já capturou os holofotes , e todos aguardamos ansiosamente o próximo reality show . Porque a cadeia de atrocidades não é uma tragédia: é uma técnica. O acúmulo de conflitos não funciona apenas como uma série de dramas independentes; é uma dinâmica que fragmenta a atenção e reduz a pressão pública sobre cada caso individual. E a resposta não pode ser simplesmente mais indignação.

Judith Butler destacou isso em relação a Trump: a indignação é precisamente o que essa técnica consome e neutraliza com uma eficiência surpreendente. O que precisamos é exatamente o oposto: nomear a conexão. Não enxergar cada atrocidade separadamente, mas sim ver e denunciar o padrão que as une. Gaza, Líbano, Cisjordânia. Essas não são três crises. São três aplicações do mesmo método, sustentadas pela mesma impunidade, financiadas pelos mesmos atores e toleradas pelo mesmo silêncio. O deles, mas também o nosso.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Pensamento do Dia



Brasil passou à frente dos EUA em ranking global de democracia,

A democracia americana está doente. O check-up feito pelo V-Dem apontou disfunção no sistema judicial, falência múltipla de liberdades civis e hipertrofia da Presidência da República, sintomas causados por um vírus chamado Donald Trump.

O instituto rebaixou os Estados Unidos à categoria de democracia eleitoral, uma espécie de segunda divisão dos regimes de liberdade. Na pontuação final, ficou atrás de países como Coreia do Sul, Japão, Portugal e Brasil.

Rankings de democracia como o V-Dem, o mais utilizado em pesquisas acadêmicas na área de ciência política, há muito tempo saltaram o muro das universidades e entraram na corrente sanguínea do debate público. Nas redes sociais brasileiras, nossa colocação à frente dos EUA gerou um questionamento: como podemos ter uma boa pontuação se estamos mergulhados em uma crise institucional, em que um escândalo financeiro abala a credibilidade do Judiciário e joga os Poderes uns contra os outros?

Para responder a essa pergunta, é necessário entender como funcionam os rankings de democracia, para que servem e como, ao longo dos anos, vêm mostrando que nada tem mais peso para a deterioração dos regimes de liberdade que a existência de um líder com tendências autoritárias.


Donald Trump motivou um capítulo à parte no relatório do V-Dem, da mesma maneira que, em edições anteriores, mereceram destaque o húngaro Viktor Orbán, o indiano Narendra Modi, o polonês Jaroslaw Kaczynski e Jair Bolsonaro.

As eleições constituem o momento central nos regimes de liberdade. Desde pelo menos os anos 1950, no entanto, os cientistas políticos entendem que as democracias são processos contínuos. Entre um pleito e outro, partidos políticos negociam, Legislativos fiscalizam Executivos, ONGs e o poder econômico fazem seus lobbies, a sociedade civil se mobiliza, a academia e a imprensa municiam o debate público —e quanto mais esses atores exercem seus papéis e interagem, mesmo com alto grau de fricção, maior é a qualidade da democracia.

A essa vibração cívica algo caótica, o cientista político Robert Dahl (1915-2014) deu o nome de poliarquia. Resumindo em uma frase uma ideia complexa, poliarquia seria a tradução para o mundo real do conceito original de democracia, um regime em que, em tese, todos teriam o mesmo peso e a mesma influência nas decisões coletivas, um ideal por definição inatingível.

A partir desse insight, Larry Diamond e Leonardo Morlino sistematizaram, na virada do século 21, a ideia de que os regimes de liberdade se aproximariam desse ideal à medida que obedeciam a vários pré-requisitos, indo muito além das eleições livres e justas. Estava dado o alicerce teórico para os rankings de democracia.

O V-Dem reúne dados sobre diversos desses aspectos definidos pelos teóricos da política. Em uma democracia, deve prevalecer a vontade da maioria —a dimensão eleitoral— ao mesmo tempo que são garantidos os direitos de todos —a dimensão liberal.

A alta participação política deve ser valorizada, assim como a capacidade de os cidadãos efetivamente interferirem nos resultados das políticas públicas —os aspectos participativo e deliberativo. Por último, a assimetria de poder e de recursos entre os cidadãos conspira contra o ideal democrático, o que faz o V-Dem valorizar uma quinta dimensão, chamada de igualitária.

O instituto hospedado na cidade sueca de Gotemburgo tabula notas de 4.000 especialistas espalhados pelo mundo. Há sempre, como é óbvio, algo de subjetivo nas avaliações. Os resultados, no entanto, mostram que não há captura política por um ou outro campo ideológico. O processo permite identificar, nos diferentes países, tendências autoritárias de esquerda e de direita, da Venezuela à Índia, da Hungria ao México.

Outra vantagem é que os dados quantitativos permitem acompanhar a evolução dos países. Um artigo publicado em 2019 pelo sueco Staffan Lindberg, diretor do V-Dem, e pela cientista política alemã Anna Lührmann estabeleceu o conceito de autocratização, processo que se verifica empiricamente quando as notas de democracia de um país vão diminuindo recorrentemente.

No artigo, eles propõem que vivemos uma era de autocratização que se segue à terceira onda de democratização definida pelo cientista político americano Samuel Huntington (1927-2008) —a que começou com a Revolução dos Cravos em Portugal e continuou com a queda dos regimes militares latino-americanos e das ditaduras comunistas do Leste Europeu.

Os sucessivos relatórios do V-Dem —e de outros levantamentos similares, como o da Freedom House americana e o da revista britânica The Economist— vêm infelizmente confirmando a tendência.

Os processos de autocratização, no entanto, não começam, como no passado, com quarteladas militares ou revoluções armadas. No livro "Como as Democracias Morrem", Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como os autoritarismos modernos se instalam aos poucos, como doenças insidiosas, promovidos na maioria das vezes por forças políticas que, paradoxalmente, chegam ao poder de forma democrática, pelo voto.

É essa precisamente a principal utilidade dos rankings de democracia. Como na metáfora do início deste texto, eles medem os sinais vitais dos regimes de liberdade, rastreando tendências de deterioração em curto e em longo prazo. Identificam também os fatores que levam a essa deterioração.

A sequência dos relatórios chama a atenção para alguns padrões. Sempre que um líder de tendências autoritárias é reeleito, ganha carta branca para aprofundar o processo de autocratização. Isso aconteceu na Índia com Narendra Modi, que, em seu segundo mandato, aprovou leis que praticamente inviabilizam o jornalismo investigativo. Vem também ocorrendo recorrentemente com Viktor Orbán, na Hungria.

Marcadas para o próximo dia 12 de abril, as eleições húngaras determinarão se Orbán irá conquistar um quinto mandato. Em quatro períodos consecutivos de quatro anos cada, o premiê húngaro estabeleceu uma espécie de "playbook" da autocratização, tendo entre seus seguidores o próprio Donald Trump.

Orbán consagrou, entre outros, o procedimento de cortar verbas de universidades capazes de produzir conhecimento crítico ao governo, algo que vem ocorrendo nos EUA e é apontado, no relatório deste ano do V-Dem, como um dos indícios mais fortes da deterioração democrática americana.

Lidos em conjunto, os relatórios do V-Dem mostram que as doenças da democracia costumam ter nome e sobrenome: os dos líderes que usam o seu poder para corroer as instituições.

Na visão de outro cientista político, o alemão Yascha Mounk, esses presidentes e primeiros-ministros, em geral classificados como populistas, usam o pilar eleitoral das democracias para solapar os seus aspectos liberais. Em outras palavras, se valem da legitimidade conquistada pelo voto para confiscar direitos, como os de imigrantes e grupos minorizados, e restringir liberdades, como as de expressão, imprensa e pensamento acadêmico.

Os relatórios do V-Dem apontam vários casos em que líderes autoritários pioraram a qualidade da democracia nos países em que governaram. O oposto também ocorreu: quando esses presidentes ou primeiros-ministros saíram do poder, as notas dos seus países melhoraram. À esquerda, um caso bastante estudado é o de Rafael Correa, no Equador. À direita, o de Jair Bolsonaro, no Brasil.

O caso brasileiro aponta para um último e importante aspecto: a capacidade das democracias de identificar a deterioração e punir tentativas de golpe.

Em outro livro, "Como Salvar as Democracias", Levitsky e Ziblatt comparam o processo movido contra Jair Bolsonaro com as alegações jurídicas contra Donald Trump no final do seu primeiro mandato. Ambos os presidentes questionaram as urnas e não reconheceram o resultado das eleições. Um perdeu temporariamente os direitos políticos e, mais tarde, foi julgado, condenado e preso por tentativa de golpe. O outro seguiu o seu caminho político e se reelegeu. O resultado está expresso no relatório atual do V-Dem.

É inegável que a democracia brasileira sofre com escândalos de corrupção e guerra entre Poderes. Como no episódio recente da tentativa de golpe, o país precisa demonstrar maturidade e punir os responsáveis —sejam eles governantes eleitos ou juízes do STF—, de forma a preservar as instituições.

No histórico do V-Dem, as maiores ameaças à saúde das democracias não são episódios de corrupção ou brigas de poder, mas, é preciso frisar, as doenças que têm nome e sobrenome e, paradoxalmente, chegam ao poder pelo voto.