terça-feira, 29 de setembro de 2026

Eleições: Sonhos frustrados e realizados dividem o Brasil

Em uma análise da vitória recente da extrema direita nas eleições da Alemanha, Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, apontou que a balança comercial favorável e os empregos industriais não foram suficientes para prevenir o ressentimento daqueles que se consideram, em comparação com a média nacional, em desvantagem econômica.

A explicação desse fenômeno foi desenvolvida em um artigo de Laura Carvalho e Guilherme Klein, publicado nesta Ilustríssima, que analisa como bons indicadores da economia brasileira não se convertem em uma avaliação positiva do governo Lula (PT). Os economistas argumentam que a transformação das aspirações dos brasileiros e as novas comparações geradas por esse processo estão no centro da popularidade do presidente.

Analiso, aqui, como a capacidade de aspirar se expandiu dramaticamente entre os brasileiros nas últimas décadas. Essa mudança transformou o país e produziu efeitos não óbvios e contraditórios, cujas consequências políticas ainda não foram plenamente compreendidas, mas certamente vão estar em jogo nestas eleições.


Há quase três décadas, venho documentando os sonhos atrelados ao consumo e ao trabalho dos brasileiros. Desenvolvi o conceito de classes aspiracionais para me referir aos segmentos populares que aprenderam a desejar outros futuros, ampliaram as suas expectativas e, agora, querem —e sentem que merecem— mais.

A ampliação do repertório de aspirações de uma população é um indicador importante do desenvolvimento, porque os sonhos avançam à medida que os horizontes se expandem. Mas isso, sozinho, traz grandes riscos: ao gerar expectativas, pode retroalimentar frustrações e ressentimentos. Consumidores e trabalhadores mais exigentes querem mais e buscam respostas políticas ou para avançar ou para não perder o pouco que conquistaram. Logo, se as aspirações forem atingidas, as políticas de mobilidade social vão bem; senão, a conta chega na forma de radicalização política.

Nestas eleições, o que está em jogo é um Brasil dividido entre os que estão concretizando as suas ambições e os que se ressentem. Isso, no entanto, não significa que a realização das aspirações leve automaticamente à rejeição da extrema direita. A percepção da presença ou da ausência do Estado e do esforço individual nessa trajetória é mais importante que a concretização em si das aspirações.

No Brasil, a expansão da teologia da prosperidade nas igrejas neopentecostais nos anos 1990 e as políticas lulistas dos anos 2000 —ampliação do crédito, inclusão pelo consumo, transferência de renda e ações afirmativas— multiplicaram as aspirações. Na ponte entre os discursos governamental e religioso, o empreendedorismo surgiu como uma promessa de autonomia, prosperidade e ascensão individual.

O padrão se repetiu em outros países do Sul Global, como a Índia e as Filipinas, onde também desenvolvo pesquisas: a economia cresceu nos anos 2000 e milhões de pessoas foram retiradas da pobreza sem um rompimento com o modelo neoliberal.

Pessoas alcançaram alguma mobilidade social e ampliaram a sua capacidade de sonhar, seja conquistando bens, seja vendo pessoas próximas conquistá-los, mas permaneceram presas a novas formas de precarização, como o trabalho plataformizado em aplicativos e redes sociais. Soma-se a isso o incentivo em massa ao empreendedorismo como saída individual para uma crise marcada pela redução das proteções sociais e trabalhistas.

Como resultado, uma contradição insolúvel foi criada: aspirações crescentes, de um lado, e alto endividamento e precariedade econômica e laboral, de outro.

Entre 2009 e 2014, eu e Lucia Scalco pesquisamos o consumo das classes populares de Porto Alegre —a primeira geração que podia comprar objetos cobiçados e rejeitar restos e doações de patroas, por exemplo. O Bolsa Família e as novas possibilidades de crédito facilitavam as compras em lojas.

Sem grandes perspectivas de futuro, essas pessoas apostavam na cidadania por meio do consumo. Acompanhamos muitos casos: um jovem que juntou tudo o que tinha para comprar um tênis Nike à vista no shopping para não ser confundido com bandido; o aprendiz de padeiro que comprou um celular em 12 prestações e foi roubado na parada de ônibus antes mesmo de pagar a primeira; a cuidadora que usou todo o FGTS para realizar o sonho de levar a família ao Outback.

Longe de ser futilidade ou irracionalidade, esses gestos funcionavam como um passaporte para cruzar uma fronteira existencial. As pessoas sonhavam em comprar um produto caro e visível como uma forma de se sentir gente.

Chamamos esse momento de reivindicação do direito a brilhar: o prazer pela aquisição de "coisas boas", o empoderamento individual, a consciência de que a sociedade racista e classista não legitimava aquele consumo e, como resposta, a afronta de andar com a cabeça erguida.

Os rolezinhos de 2014, tão paradigmáticos do direito a brilhar nos anos 2010, marcaram o ponto de virada da primeira geração dos filhos do Bolsa Família, que buscava visibilidade, reivindicava circular em shopping centers e queria comprar por meios formais.

Depois de Junho de 2013 e diante da profunda crise econômica e política que começou em 2014, havia ali o retrato de uma mudança complexa e perturbadora que transformou o Brasil. Não à toa, no estudo "Da Esperança ao Ódio", documentamos, entre 2016 e 2018, como parte desses jovens e dos seus pais, frustrados com a crise econômica, aderiu ao bolsonarismo. O voto expressava uma revolta contra as aspirações frustradas dirigida justamente ao partido que havia aberto essa janela.

Em um livro publicado em 2025, investigamos os sonhos de consumo de brasileiros, chineses, mexicanos e filipinos que saíram da pobreza, mas ainda não chegaram à classe média. Eles viviam em um limbo: tinham alcançado uma vida melhor, mas não conseguiam usufruí-la plenamente por causa de dívidas, da violência urbana e de outras formas de precariedade.

Nossa amostra era composta de pessoas que acessaram políticas de inclusão social e redistribuição de renda —muitos eram profissionais liberais e autônomos. Quando perguntamos a jovens adultos qual era o seu sonho mais ousado, ouvimos respostas como ter uma poupança, alcançar segurança financeira e se alimentar melhor.

No México, muitos queriam reduzir os pedidos de iFood e o consumo de ultraprocessados e incluir orgânicos na dieta. Nesse desejo de comer melhor, também emergiam conflitos familiares, como o caso do personal trainer que saiu da Rocinha para morar em Copacabana, passou a apreciar experiências gastronômicas e já não conseguia lidar com o pai, que "só come frango a passarinho". Esses microconflitos cotidianos evidenciam as grandes rupturas decorrentes da expansão dos horizontes.

Encontramos também o sonho de viajar: para Gramado, Salvador, Paris ou a Disney; para países africanos em busca da própria ancestralidade. Muitos interlocutores, os primeiros da família a andar de avião, já viviam essa jornada. Embora tirassem selfies na janelinha, o prazer não estava na exibição, mas no sentimento arrebatador de ampliar os horizontes.

Outro achado foi encontrar pessoas que ascenderam um pouco ou estavam rompendo com a pobreza e cujo pertencimento já não passava por exibir a sua capacidade de consumo: não ligavam para roupas nem para celulares de marca, e a realização dispensava símbolos de prestígio, riqueza ou branquitude.

Encontramos uma geração de jovens adultos com um estilo de vida mais pé no chão. As políticas públicas, combinadas com o tremendo esforço pessoal, permitiram mudanças sustentáveis entre as gerações. Os sonhos se transformaram em um planejamento de conquistas graduais e realistas. São pessoas que sabem que nada está garantido. Esses grupos não tiveram as suas aspirações castradas, e as suas escolhas políticas rejeitam os extremismos.

Já nos últimos cinco anos, a capacidade de sonhar de certos segmentos populares tem se transformado radicalmente com uma explosão de aspirações mediadas pelas redes sociais, em contraste brutal com a realidade.

Pessoas dizem que vão acumular dezenas de milhões de reais enquanto escondem a parede sem reboco das suas casas, sonham com uma Ferrari, mas não têm dinheiro para pagar uma corrida de moto por aplicativo, passam horas em ônibus e trens e são frequentemente assaltadas ao voltar do emprego e almejam encontrar no trabalho digital uma saída rumo ao conforto e à liberdade.

Esse sonho oferece um alívio: permite imaginar a admiração e o respeito que seriam conquistados com a riqueza. O problema é a dissonância entre esse anseio e as possibilidades concretas de ser realizado.

O sonho digital virou um mercado gigantesco no Brasil. O empreendedorismo online, como Brooke Erin Duffy define, é um trabalho aspiracional: uma promessa de renda e emancipação para quem ainda está longe da mobilidade social. Nos aplicativos e, sobretudo, nas redes sociais, milhões de brasileiros tentam ganhar a vida, obter renda extra ou se tornar influenciadores. Muitos jovens têm deixado a escola nessa ilusão.

Trata-se de um universo mediado por influenciadores e coaches do marketing digital e da prosperidade, cujas credenciais se baseiam em premissas falaciosas, como "se eu consegui, você também consegue" ou "todo o mundo tem as mesmas 24 horas".

Nos últimos três anos, seguimos diariamente 700 influenciadores. Em uma das mentorias, um deles dizia que tinha o código da riqueza de Elon Musk e que os seus mentorados, as 90 mil pessoas do mundo todo que assistiam às suas aulas, seriam parte do novo 1% VIP da humanidade.

Abaixo dos grandes influenciadores, se esconde uma pirâmide de exploração da esperança, alimentada por operários da viralização, como os estudados por Rafael Grohmann, e por aqueles que consomem os seus conteúdos. "O que mais vende são reels que trazem a reza da riqueza", me disse um jovem que sonha em ficar rico na internet.

Nossos levantamentos mostram que 90% dos influenciadores desse ecossistema se alinham à extrema direita. Esse universo é marcado pela fé inabalável na meritocracia e no individualismo, combinada a estilos de vida conservadores.

As redes sociais estão repletas de mantras, técnicas de neurociência e leis da física quântica que prometem atrair riqueza. Terapias prometem curar as feridas familiares que manteriam as pessoas na pobreza. A disciplina e o "mindset" definem tudo.

Os seguidores são ensinados a elevar a sua frequência para que ela corresponda à do reino de Deus ou possa atrair a fortuna magneticamente. Outros são incentivados a preencher quadros com imagens dos seus desejos: casas de dois andares, teto quadrado e Jaguar na garagem, jatinhos e muitos milhões. É preciso, ainda, exibir o "print" do saldo bancário e agradecer a Deus pelas bênçãos.

Os influenciadores se aproximam das pessoas comuns e forjam uma identificação com os seus modos de falar e viver. Se a capacidade de aspirar depende de modelos, esses profissionais se apresentam como referências próximas: dizem ter pegado ônibus e começado do zero, produzindo conteúdo em casa com um celular velho. Dessa forma, parecem exemplos alcançáveis e ampliam a imaginação do seu público, embora os seus seguidores nem sempre tenham à mão os recursos materiais e simbólicos necessários para concretizar as ambições.

Com uma base de dados de quase 2 milhões de aspirantes a empreendedores digitais e diversos projetos etnográficos, acompanhamos muitos desses trabalhadores. São pessoas que vivem de bicos, empregos formais mal remunerados ou trabalhos precários e plataformizados. A maioria delas se define, no Instagram, como empresário, empreendedor ou até CEO.

A prosperidade econômica desse segmento que aposta na internet tem sido praticamente nula. É claro que o digital pode oferecer oportunidades a muitos, mas apenas uma minoria alcança o sucesso. A exceção, porém, é vendida como regra e retroalimenta o ciclo da aspiração.

O antropólogo Wagner Guilherme Alves da Silva, que pesquisa empregadas domésticas que usam o Instagram como plataforma de trabalho, mostra como elas se reposicionam como "personal cleaners" e aspiram a deixar de ser "Isauras" e se tornar diamantes. Muitas delas compram mentorias para abandonar velhos hábitos, transformar o corpo, atrair riqueza e até se imaginar na capa da Forbes, mas não deixam de vivenciar a precariedade e a violência.

Ouvimos muitas pessoas que, mesmo passando horas por dia tentando crescer no universo digital sem obter resultados, se culpam pelo fracasso: "O meu mindset está errado". Os reveses são vividos como algo puramente individual, resultado de energia fraca ou esforço insuficiente.

Muitas dessas pessoas são mulheres negras, mães e trabalhadoras com dupla jornada, para as quais a renda extra digital e o home office aparecem como uma saída. Ao não progredir, porém, costumam se endividar para comprar mais uma mentoria com um coach.

Muitos ridicularizam pessoas de baixa renda que desejam empreender, as chamando de "CEO de MEI", referência a microempreendedor individual. A minha proposta é olhar para esse fenômeno sob outro ângulo. Estamos falando de sonhos de realização pessoal, dignidade, tempo livre e conforto: se anseia vender hambúrgueres para comandar a própria vida, controlar o tempo de descanso e se realizar por meio da expressão de quem se é.

Estimamos que cerca de um terço da população economicamente ativa usa redes sociais para empreender. As políticas governamentais e o debate público erram ao reduzir a plataformização ao trabalho por aplicativos, ignorando o fenômeno mais amplo e profundo do trabalho nas redes sociais.

Uma das maiores aspirações dos brasileiros sempre foi ter carteira assinada. Embora pesquisas apontem a predominância desse desejo hoje, cresce a ambição pelo trabalho autônomo. O discurso que associa a CLT à falta de ambição, ao fracasso e à humilhação não domina apenas as redes, mas ganha força na linguagem popular porque toca em uma ferida profunda: o legado de uma cultura de subalternidade associado a uma rotina de "corres" e "perrengues". Isso não significa que os brasileiros não queiram empregos formais. As pessoas não querem mais se sujeitar a empregos ruins.

Trabalhar no digital ou por aplicativo e sonhar com liberdade e autonomia faz sentido em um país que marginalizou os trabalhadores informais e maltratou os formais em empregos mal remunerados e com longas jornadas, que sugaram a sua criatividade e força física e mental. Por trás do desejo de ser CEO no Instagram ou se tornar patrão de si mesmo, está a vontade de controlar o próprio tempo e não ter que obedecer ordens.

Esse Brasil que quer andar de cabeça erguida e ser tratado como diamante tem menos a ver com um ímpeto neoliberal e mais com algo fundamentalmente humano: a busca por visibilidade e respeito em um país que invisibilizou e humilhou os grupos populares e a procura por autonomia e conforto em uma cultura de trabalho que historicamente os explorou.

Essa não é uma explicação romântica para um mal social. O desejo mesquinho, o egoísmo, a ostentação e a exploração existem por todos os lados. A extrema direita surfa nesse desejo de liberdade e o transforma em força ideológica, mas as ausências estruturais são a base desse processo.

Nestas eleições, precisamos entender como as classes aspiracionais votam. A resposta depende menos da concretização ou da frustração das aspirações e mais da forma como o Estado é percebido nesse processo.

Não há um modelo rígido de voto, mas uma tendência se destaca: parte daqueles cujas aspirações foram ampliadas e concretizadas tende a rejeitar a extrema direita e a votar em Lula. São pessoas que guardam uma memória mais viva da presença contínua do Estado ao longo da sua trajetória de melhoria.

Contudo, existe um universo imenso e muito desafiador à compreensão do impacto da expansão das aspirações na adesão ao bolsonarismo. Refiro-me tanto àqueles cujas aspirações seguem frustradas quanto aos que as concretizam por caminhos que julgam ser puramente individuais e meritocráticos, ou seja, sem a influência estatal. Ambos os grupos consideram o Estado ausente, ineficiente e corrupto, que só aparece para taxar e extorquir.

Chamei esse universo social de autoritariado: frações das classes aspiracionais e pobres que, como grande parte da população brasileira à margem do mercado de trabalho formal e das proteções sociais, aprenderam a se virar. O autoritariado é oprimido e opressor. Cada vez mais plataformizado, está encarnado tanto no estereótipo do Uber bolsonarista quanto nos autônomos que, segundo um levantamento do jornal O Globo, representaram 43% dos presos pelo STF por participação no 8 de Janeiro.

Esses segmentos estão cada vez mais alinhados não apenas ao conservadorismo e ao autoritarismo, mas também ao libertarianismo. O autoritariado acredita apenas no seu esforço e vê o Estado como usurpador, mas espera um pulso firme para cortar as mamatas. É seduzido por bets, criptomoedas, imposto zero e figuras como Musk. Não se revolta contra as grandes fortunas e tampouco defende a sua taxação: almeja ser parte das superelites.

O bolsonarismo e os seus aliados, em diferentes graus de radicalidade, têm ganhado de braçada entre o autoritariado. Aqui, voltamos à dimensão comparativa da percepção dos indicadores econômicos. A lógica é esta: "Ao mesmo tempo que percebo o Estado como profundamente ausente para mim, sinto que ele, que nada me deu e muito me tirou, é muito presente e benevolente para os outros".

Carvalho e Klein mencionaram o papel dos feeds na ampliação do repertório de aspirações. De fato, raramente se sonhou tanto e tão alto, mas isso não significa que a raiva e o ressentimento tenham se ampliado na mesma escala. Ao contrário do que se imagina, essas emoções não são dirigidas a um inimigo abstrato, forjado pelas redes sociais.

As redes ampliam os horizontes e preparam o terreno, mas a raiva desce ao chão da vida cotidiana e permanece profundamente paroquial. Se as aspirações se constroem na comparação com os de cima —os ricos e "livres e felizes"—, a raiva nasce da comparação com os rechaçados de baixo. A indignação é com a "vizinha preguiçosa, que não faz nada e só vive do Bolsa Família enquanto eu me mato de trabalhar".

Isso é o que chamo de senso de merecimento precário: diz respeito ao sujeito que conquistou um pouquinho a mais e, por isso, se acha superior em uma narrativa que valoriza o trabalho individual duro. Mais que falta de consciência de classe, se trata de uma forma de desejo de tentar se salvar do estigma da pobreza e repassá-lo para baixo.

Em um "país de vagabundos", o desprezo à pobreza produz a vontade desesperada de não ser reconhecido como pobre —e leva a culpa aos menos privilegiados. A extrema direita, que se caracteriza justamente pela narrativa do "nós contra eles", joga lenha nessa fogueira.

Enquanto os estudos sobre a extrema direita se concentram nas emoções negativas —raiva, ressentimento, frustração, ódio e nostalgia—, tenho preferido olhar para os sentimentos positivos, os sonhos e as aspirações. É um erro achar que o bolsonarismo se assenta somente no ressentimento pelas aspirações frustradas.

O anseio do sujeito de mostrar que é melhor que a "vizinha preguiçosa" e esfregar isso na cara de quem antes o humilhava encontra hoje o seu lugar no empreendedorismo e nas novas formas de trabalho, alimentado por promessas meritocráticas de esforço individual.

O autoritariado vai às urnas

O bolsonarismo e os seus aliados têm falado com esses grupos de muitas formas: exaltando o trabalho duro, desqualificando o Estado e, durante a pandemia, afirmando que o Brasil não podia parar. A extrema direita surfa no desejo legítimo de autonomia e o transforma em liberdade individual. Na campanha, Flávio Bolsonaro (PL) se concentra no poder de compra, no endividamento, no Estado taxador e na violência.

Para além do bolsonarismo, existe um leque de opções que, ainda que não se apresentem diretamente como de extrema direita, ecoam as aspirações do autoritariado. Pablo Marçal (PRTB) e Augusto Cury (Avante), por exemplo, vieram de um mundo político digital muito semelhante. Não à toa, ambos pareceram surgir do nada e alcançaram intenções de voto significativas. Desapercebidos por muitos, estavam falando a milhões de sonhadores havia anos.

Cury, em particular, reina no universo dos coaches de prosperidade e, ainda que não defenda abertamente pautas de extrema direita, é parte do mesmo ecossistema digital, sustentado por uma crença inquestionável na força individual e dirigido a milhões que acreditam apenas em si mesmos e em Deus como caminhos para o crescimento. Ele representa justamente esse novo universo do trabalho que, ao considerar o Estado ausente, vê nas terapias de cura de dores individuais —das perdas e da pobreza— a solução para problemas coletivos.

Para Lula, o desafio é imenso: como gerir o monstro imprevisível que saiu da janela das aspirações —janela também aberta por ele? Para um partido calcado na luta histórica de uma parcela dos trabalhadores, especialmente os sindicalizados, como falar e se conectar com um grupo que se desprende do Estado, vê a saída no indivíduo —não na luta coletiva ou na democracia— e busca autonomia por meio do sucesso empreendedor? Como entender o direito a brilhar sem transformá-lo em políticas neoliberais ainda mais individualizantes e, principalmente, tornar o coletivo e a democracia uma nova aspiração?

É preciso lembrar que a tendência libertária do autoritariado, vinda da revolta contra o Estado, não significa que não se queira o Estado. Ao contrário, as pessoas se ressentem da sua ausência.

Portanto, em um mundo do trabalho cada vez mais pejotizado e plataformizado, a questão não se limita a recriar narrativas para falar com esses trabalhadores. Em vez disso, escancara o desafio tremendo de desenhar políticas públicas robustas que preservem o desejo legítimo de autonomia e conforto e ampliem a proteção do Estado às classes aspiracionais.
Rosana Pinheiro-Machado, professora titular de estudos globais da University College Dublin, na Irlanda

O sequestro do sagrado e a falência do debate

Enquanto a Santa Senhora Aparecida permanecia imóvel em seu lugar, cumprindo o papel secular de ouvir pedidos de graça e consolo dos aflitos, homens vis, gananciosos e oportunistas decidiram rebaixá-la à condição de mera participante de uma luta pelo poder terreno. O episódio não diz nada sobre a fé, mas diz tudo sobre o nível rasteiro daqueles que usam o sagrado como mercadoria eleitoral.

Em um país profundamente religioso como o Brasil, onde o Estado se define como laico, não é de hoje que isso acontece. É lamentável, porém, que o cenário se repita a cada dois e quatro anos com o mesmo objetivo: enganar os mais crédulos para se apoderar de seus votos. Não se trata de outra coisa. É a tentativa despudorada de sequestro da vontade e, para tanto, mandam-se às favas todos os escrúpulos.


O resultado mais imediato dessa tática rasteira é a completa falência do debate público. Quando a arena política se transforma em um tribunal inquisitório de aparências piedosas, as discussões urgentes que deveriam pautar o país são covardemente asfixiadas. Substituem-se os planos de metas pela contrição fingida; anulam-se os debates sobre saúde, segurança e economia para dar lugar a uma disputa coreografada de quem exibe a maior devoção. A política, que deveria ser o espaço da razão e da construção do futuro, retrocede ao palanque da encenação hipócrita.

Essa saturação do sagrado desidrata qualquer tentativa de propor soluções reais para os problemas estruturais do Brasil. É muito mais fácil e eleitoralmente lucrativo posar para fotos ao lado de altares e de imagens de santos do que debater, com seriedade, reformas estruturantes. Sob o manto da manipulação religiosa, os candidatos esquivam-se do escrutínio técnico e se blindam contra críticas legítimas. Afinal, questionar as propostas — ou a falta delas — de um candidato blindado por símbolos sagrados passa a ser visto, de forma canalha, como um ataque à própria fé.

Diante de um espetáculo tão repetitivo quanto ultrajante, o que mais assombra é a aparente apatia do eleitorado. Parcela significativa dos cidadãos assiste a esse sequestro da fé com uma complacência perturbadora, como se aceitasse a mercantilização do divino como uma regra inevitável do jogo democrático. Há uma normalização do absurdo: o fiel, que deveria ser o primeiro a se indignar com a profanação de seus símbolos, muitas vezes silencia ou, pior, justifica o cinismo do candidato de estimação sob o pretexto pragmático de que “na política vale tudo”.

Essa indiferença, contudo, não é simples cegueira, mas o reflexo de um cansaço crônico e de uma profunda desilusão com as instituições. Calejado por décadas de promessas vazias e traições institucionais, o eleitorado desenvolveu uma espécie de casca cínica, onde o pragmatismo substituiu o idealismo. Tolera-se a mentira porque já não se espera a verdade. Ao fechar os olhos para o estelionato espiritual, o cidadão abdica de sua própria dignidade política e aceita o papel de figurante em uma farsa teatral que se renova a cada ciclo das urnas.

Conclui-se que esse silêncio coletivo cobra um preço altíssimo. Ao não punir nas urnas aqueles que tratam a devoção popular como moeda de troca, a sociedade valida o método e pavimenta o caminho para que o próximo pleito seja ainda mais vazio de propostas e mais denso de hipocrisia. Enquanto a indignação ceder espaço à indiferença, os templos continuarão sendo usados como trampolins e o debate público permanecerá submetido à pequenez dos que só enxergam no sagrado um atalho para o poder.

Pânico moral, fervor evangélico e guerra cultural: a fórmula Bolsonaro

Brasília, 2016. O deputado Jair Messias Bolsonaro dedicou seu voto a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, de esquerda, ao oficial militar que a torturou durante a ditadura, quando ela era guerrilheira. O gesto gerou indignação… e notoriedade. Dois anos depois, o militar, que havia sido afastado do Exército por indisciplina e era um parlamentar medíocre há três décadas, obteve uma vitória retumbante nas eleições presidenciais brasileiras. Ele capitalizou a frustração e a raiva, convencendo seus compatriotas de que lideraria a luta para enterrar as práticas políticas tradicionais e acabar com a corrupção que corrói o sistema desde os tempos coloniais. Posicionou-se como o campeão das guerras culturais contra o feminismo, as minorias e o meio ambiente. O caminho para a vitória foi pavimentado pela prisão de Luiz Inácio Lula da Silva às vésperas das eleições.


Dois mandatos depois, os papéis se inverteram. Bolsonaro, de 71 anos, está na prisão, e Lula, de 80, ocupa a presidência, agora focado em garantir um quarto mandato. Enfrentando-o está o filho de seu grande rival, Flávio Bolsonaro, de 45 anos, uma versão diluída do pai e sem o mesmo carisma. O Brasil realiza eleições no próximo domingo. Se nenhum candidato obtiver mais de 50% dos votos válidos, haverá um segundo turno em 25 de outubro.

Quem acompanhou de perto a evolução dos últimos oito anos percebe uma sociedade exausta, apática e resignada. O entusiasmo que antes eletrizava as multidões evaporou. A incipiente divisão social que dilacerava esta nação conciliadora transformou-se em uma polarização completa, em dois Brasis. O pêndulo oscila, mas a vida não melhora substancialmente. Os problemas estruturais persistem. As mesmas caras de sempre estão no poder, e a corrupção domina os noticiários . De novo. Muitos brasileiros votarão contra um candidato, não por uma visão para o país.

Como explicar que outro Bolsonaro, um candidato tão frágil, consiga angariar o apoio indicado pelas pesquisas? Há semanas, as pesquisas apresentam um quadro consistente: Lula, líder de uma esquerda unida aliada a parte da centro-direita, está empatado com Bolsonaro Jr., o candidato mais forte de uma direita dividida. É improvável, mas já não se descarta a possibilidade de o resultado ser decidido no primeiro turno. O filho mais velho de Bolsonaro ameaça seriamente a reeleição do político mais influente do Brasil e da América Latina no século XXI. Ele é, juntamente com a mexicana Claudia Sheinbaum, o único bastião contra a onda trumpista e conservadora que varre o continente.

Indicado como sucessor por seu pai, o senador Bolsonaro passou metade da vida na política, assim como seus irmãos. O ex-presidente de extrema direita ignorou o establishment, que preferia alguém sem o sobrenome Bolsonaro, menos palatável ao eleitorado moderado. Para piorar a situação, o candidato Bolsonaro está sendo investigado por corrupção e lavagem de dinheiro. E esta nem é a primeira vez que ele está na mira dos tribunais.

A partir daquela vitória em 2018, que pode ter parecido circunstancial, resultado da onda antipolítica do primeiro presidente Donald Trump, o clã Bolsonaro construiu uma identidade com a qual metade do Brasil se identifica, com diferentes graus de intensidade.

Desde o início, deu substância política a uma realidade latente. As aspirações de uma extrema-direita já existente entraram no debate, como aponta David Magalhães, pesquisador do Observatório da Extrema Direita: um populismo violento e reacionário, legado de uma sociedade patriarcal marcada pelo autoritarismo militar e por uma cultura de escravidão. São as pessoas que nunca perdem uma manifestação, sempre agitando a bandeira e vestindo a camisa da seleção nacional de futebol. Algumas delas são a minoria fanática que acompanhou o ex-presidente e os generais na tentativa de golpe para se manterem no poder após a derrota para Lula em 2022.

Mercia Alves, antropóloga política do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), destaca que “Bolsonaro não criou o conservadorismo moral. Ele não incentivou a entrada de amplos setores evangélicos na política, nem criou a extrema-direita brasileira. O que ele fez foi reunir, de forma muito eficaz, esses elementos em torno de uma única candidatura”.

Bolsonaro pai colocou questões morais — aborto, drogas e a chamada ideologia de gênero — no centro de seu discurso; as eleições não girariam mais em torno da economia ou da segurança. Ele elevou, assim, a batalha política ao status de missão divina para derrotar o mal. Autoproclamado instrumento de Deus, soube capitalizar a profunda transformação social provocada pela proliferação de igrejas evangélicas no Brasil, especialmente entre as classes trabalhadoras das periferias urbanas. De vilarejos remotos na Amazônia às cidades mais ricas do sul, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo, pastores evangélicos estão substituindo padres católicos.

Grande parte daquela pobre congregação evangélica, que até 2010 preferia o Partido dos Trabalhadores à direita tradicional, mais liberal e elitista, identificava-se com o discurso de Bolsonaro.

O lema “Deus, pátria, família e liberdade” ressoou naqueles bairros onde a pobreza é abundante e as oportunidades escassas. Os brasileiros que lutam tanto para alimentar seus filhos não votam mais com a carteira, mas com base em seus valores.

Os líderes de muitas igrejas evangélicas adotaram um discurso baseado em falácias que desloca a luta entre o bem e o mal para a arena política, alimentando o pânico moral com uma narrativa sobre uma esquerda imaginária. “Lula ameaça nossa liberdade religiosa, ameaça a segurança de nossas crianças, ameaça nossas famílias e representa a degeneração de nossos valores morais”, é essencialmente esse discurso, explica o cientista político Alves. Pouco importa que os governos de Portugal defendam a liberdade de culto ou evitem o debate sobre o aborto.

A mensagem é incrivelmente poderosa quando vem do líder de uma igreja que transforma vidas com suas promessas de salvação e soluções para problemas cotidianos. E a força motriz por trás da mudança social se personifica na mulher negra pobre para quem a comunidade religiosa oferece uma rede de apoio mais eficaz do que o Estado. Ela é a brasileira cujo marido não a agride mais desde que parou de beber, que aprendeu a ler usando as Escrituras, ou que vê as aulas de violão dos filhos como uma alternativa segura às ruas, onde o crime oferece dinheiro fácil e status.

Michelle Bolsonaro, esposa do patriarca, evangélica e aspirante a política de alto escalão, é um grande trunfo para esse público graças ao empoderamento feminino conservador que prega, com parábolas bíblicas e vídeos no Instagram.

Seu filho Flávio, um cristão evangélico apesar do catolicismo do pai, cresceu cercado por famílias militares. Estudou direito e, após 16 anos como vereador no Rio de Janeiro, chegou ao Senado. Embora sua campanha presidencial gire em torno da figura do pai e abrace grande parte da agenda da extrema-direita, o candidato do Partido Liberal é o menos ideológico dos filhos. Ele não compartilha da agressividade ou da grosseria do pai. Apresenta-se como um Bolsonaro moderado, vangloria-se de ter sido vacinado durante a pandemia e de que sua esposa e filhas o reeducaram. Ele sabe muito bem que o sexismo flagrante do pai afasta o eleitorado feminino.

Diferentemente de seus irmãos, ele mantém um diálogo fluido com os partidos ideologicamente neutros que dominam o centro-direita e tradicionalmente detêm o poder de decisão. Mas, refletindo sua fragilidade inicial, nenhum partido concordou em formar uma aliança com ele. Para surpresa de quase todos, Flávio Bolsonaro rapidamente herdou o capital eleitoral de seu pai, mas trata-se de um apoio marcado pela resignação, mesmo entre aqueles que encontraram sentido em suas vidas dentro do universo Bolsonaro.

No último dia 7 de setembro, Dia da Independência, o dia amanheceu cinzento, chuvoso e frio em São Paulo. Um daqueles dias em que os brasileiros não se aventuram a sair de casa, mas foi um dia de mobilização da direita. Sonia Jezabel Monteiro, de 75 anos, bancária aposentada, estava lá, firme e agasalhada. “Flávio é a solução? Ele é a única opção que temos”, confessou, ecoando outros manifestantes que vieram apoiar o candidato. “A primeira opção, claro, é o pai dele, o líder que veio para resgatar os grandes valores ocidentais”, explicou.

Mas o que ela realmente queria discutir era o assunto do momento. E foi então que ela lançou um de seus característicos discursos inflamados contra o Supremo Tribunal Federal e o ministro Alexandre de Moraes, o nêmesis de Bolsonaro e rival de Lula como a personificação do mal. “Somos escravos de um Supremo Tribunal Federal que condena e depois absolve presidentes. Vejam o caso Master. Deveriam ter afastado todos, porque ou são criminosos ou cúmplices, e nomeado pessoas que respeitam a Constituição.” O caso ao qual ela se refere é um grande escândalo de corrupção envolvendo um banco que deixou um rombo de quase 10 bilhões de euros, pelo qual o Supremo Tribunal Federal está investigando o filho de Bolsonaro. A investigação colocou o ministro Moraes sob suspeita de proteger o banqueiro acusado de fraude e implicou metade dos ministros da Suprema Corte.

O apoio dos seguidores de Bolsonaro não é incondicional, alerta Alves. O desprezo pelo sofrimento alheio demonstrado por Bolsonaro pai em sua gestão da pandemia os magoou; muitos detestam armas — Flávio já não as promove — e rejeitam a retórica virulenta. Suspeitas de corrupção alimentam suas dúvidas. Mas, acima de tudo, eles veem os Bolsonaros como os únicos capazes de derrotar o inimigo comum, aquele Lúcifer encarnado em Lula.

O discurso moralista encontrou terreno fértil porque a devoção à fé e à família se destaca entre os poucos traços comuns ao povo brasileiro, um dos mais diversos e desiguais do mundo. A folia desenfreada do Carnaval, a moral sexual liberal e a naturalidade com que abraçam mil estruturas familiares informais projetam uma imagem que pode ofuscar seu conservadorismo profundamente enraizado.

Sempre que a esquerda governou o Brasil, os presidentes foram depostos por golpe militar, pelo Congresso ou presos, após promoverem reformas trabalhistas, tributárias e agrárias, criarem a Comissão da Verdade sobre a ditadura ou redistribuirem a renda.

A política no Brasil se desenrola no ritmo de uma telenovela, com tramas intrincadas que se estendem por vários episódios. Os heróis de hoje são os vilões de amanhã; há traições, reviravoltas… e altas doses de expectativa alimentadas pelo universo midiático-político-judicial até que o escândalo que mudará tudo (ou não) exploda (ou não). E então, para o próximo assunto. Há semanas circula a ideia de que alguma revelação bombástica poderá decidir a eleição presidencial na reta final.

Embora a popularidade de Lula esteja em declínio, ele representa a única esperança para os brasileiros que ainda carecem até mesmo das necessidades mais básicas, para os progressistas e para as minorias. Mas é muito comum um brasileiro que nasceu pobre, recebeu assistência social, emigrou e trabalhou duro com grandes sacrifícios para alcançar um padrão mínimo de vida, falar mal de Lula (em quem talvez tenha votado duas décadas atrás, quando ele personificava a mudança) e criticar seus primos preguiçosos, que “vivem sem trabalhar” graças a subsídios pagos por todos os outros.

E é aí que entra outro ingrediente da identidade política de Bolsonaro: o discurso do individualismo, da meritocracia, a ideia de que o Estado atrapalha… todos elementos centrais da Teologia da Prosperidade pregada por pastores neopentecostais em igrejas, nas redes sociais e por meio de poderosas emissoras de televisão. Os empreendedores se multiplicam, enquanto os mais bem-sucedidos se gabam de serem seus próprios chefes e da liberdade que desfrutam.

A cada nova acusação legal ou escândalo contra os Bolsonaro, a esquerda mais militante esperava que fosse o golpe final, aquele que enterraria o clã. Mas inúmeras previsões se provaram erradas. O cadáver político ressuscitou repetidas vezes. Quando o patriarca foi impedido de exercer cargos públicos e condenado a 27 anos de prisão por liderar uma conspiração golpista, aqueles que estudam o universo Bolsonaro alertaram que seu movimento político era uma realidade consolidada que sobreviveria ao seu criador. Pouco depois, a segunda vitória de Trump injetou nova energia no movimento.

O fato de o juiz Moraes, que liderou a batalha judicial para levar Bolsonaro e os demais golpistas à justiça, ter passado de salvador da democracia a suspeito de corrupção só aprofunda a profunda desconfiança que os brasileiros nutrem pelas instituições que sustentam a democracia. Também alimenta a narrativa de vitimização que os Bolsonaro vêm explorando desde que o pai foi esfaqueado. Magalhães, do Observatório da Extrema Direita, explica que essas suspeitas “alimentam a ideia de que ele é vítima de um sistema que remove um mártir da arena eleitoral”. Em prisão domiciliar na casa da família em Brasília, ele confiou ao filho mais velho a missão de concluir o processo. Caso vença Lula, a prioridade é conceder anistia ao patriarca e inserir o Brasil na aliança diplomático-militar que Trump está promovendo na América Latina.

Pastor protagonizou chute em N. S. Aparecida

Era 12 de outubro de 1995, Dia de Nossa Senhora Aparecida, feriado no Brasil, quando o pastor Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, aproveitou seu programa "O despertar da fé", na TV Record, para criticar a adoração à figura da padroeira do país. Durante um sermão, de microfone na mão, falando para a câmera, ele soca e chuta uma imagem da santa enquanto afirma, exaltado: "Estamos mostrando às pessoas que isso aqui não funciona" e "isso não é santo coisa nenhuma".

"Será que Deus, o Criador do universo, pode ser comparado a um boneco desse, tão feio, tão horrível, tão desgraçado!?", completou o pastor, expressando seu repúdio à chamada idolatria, algo combatido por religiões protestantes desde a época de Martinho Lutero. Foi esse monge e teólogo alemão, líder da Reforma Protestante, que, entre os séculos XV e XVI, começou a criticar a veneração de santos e relíquias em prol da salvação. Para protestantes, Cristo é o único mediador entre nós e Deus.

A atitude de Von Helder gerou comoção. Instituições como a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pronunciaram-se indignadas. A cena foi criticada até na Igreja Universal, cujo fundador, Edir Macedo, pediu perdão aos católicos. O pastor foi processado e chegou a ser condenado à prisão.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Se Flávio Bolsonaro for eleito, Brasil vai virar Venezuela

Por uma dessas ironias latino-americanas, o Brasil vai virar a Venezuela se Flávio Bolsonaro for eleito presidente. Com Lula presidente, nunca virou.

Desde a invasão americana, o regime venezuelano pode ser caracterizado como um madurismo entreguista.

Ora, "madurismo entreguista" e "bolsonarismo" são sinônimos perfeitos.

Se você tirar de Maduro seu anti-imperialismo e seu bigode, ele estará a uma peruca do Jim Caviezel de distância de virar o Jair. Já poderá, inclusive, pedir dinheiro ao Vorcaro.


Ao contrário do que esperava a direita venezuelana, Trump deixou a ditadura madurista em paz, em troca de um acordo que permite aos americanos roubar o petróleo venezuelano ("ao vencedor, os espólios", disse Trump na ONU).

Nenhum governo venezuelano que dependesse de voto popular poderia oferecer a Trump um acordo tão lesivo à Venezuela.

Quando o acordo foi divulgado no dia 28 de agosto, Ricardo Hausmann, professor de economia em Harvard e membro da oposição venezuelana, postou no falecido Twitter: "Secretário Marco Rubio: você acaba de perder qualquer confiança que os venezuelanos tinham em você, e isso ainda voltará para lhe assombrar. Você optou por usar o poder dos Estados Unidos, não para libertar a Venezuela, mas para ir para a cama com nossos opressores".

Por outra dessas ironias latino-americanas, os dois grupos políticos sul-americanos com mais raiva de Marco Rubio neste exato momento devem ser o PT e a direita venezuelana.

Nos últimos meses, antigos assessores de Paulo Guedes andaram pela Faria Lima prometendo cortes de gastos gigantescos se Flávio for eleito. Ignore, por um momento, o quão pereba o sujeito precisa ser para ser reserva no time em que o Guedes é titular. Deixe de lado, também, o fato de que a essa altura, em 2018, o plano econômico do Guedes era zerar a dívida pública em um ano vendendo os imóveis da União.

O verdadeiro programa econômico de Flávio foi escrito em Washington.

Em resumo, a proposta de Trump é que o Brasil compre tudo dos Estados Unidos mesmo que os chineses cobrem mais barato; e vendam tudo para os Estados Unidos mesmo que os chineses aceitem pagar mais caro. Teremos que pedir permissão para vender nossos minérios, desistiremos do Pix e compraremos aviões americanos piores que os feitos pela Embraer. Em outros termos, todos os setores internacionalmente competitivos da economia brasileira terão que começar a trabalhar para enriquecer os americanos.

O próprio Marco Rubio já nos contou que Flávio Bolsonaro concordou em estabelecer um comitê de transição, após as eleições, para implementar o plano.

Em entrevista recente ao ICL, o cientista político Steve Levitsky, autor, com Daniel Ziblatt, do já clássico "Como as Democracias Morrem", afirmou que há um risco real de Trump não reconhecer uma vitória eleitoral de Lula.

Isso daria margem a novas ofensivas da extrema direita global contra a democracia brasileira.

Afinal, Trump vê o autoritarismo da família Bolsonaro como uma vantagem, pelos mesmos motivos que o fazem gostar do autoritarismo madurista. Nenhum governo brasileiro que dependa de voto popular poderá oferecer a Trump um acordo tão lesivo ao Brasil quanto o que Flávio já prometeu aceitar.

As mentiras de Flávio Bolsonaro sobre as apostas online

Em uma eleição, costuma-se dizer, que a primeira vítima é a verdade. Então a construção de uma versão que não corresponde a fatos acontece. Mas no caso do senador Flávio Bolsonaro as mentiras são grandes demais e viram uma forma de engodo e manipulação.

Sobre as apostas esportivas a verdade é que a permissão foi aprovada no governo de Michel Temer para serem regulamentadas no governo seguinte. Jair Bolsonaro não regulamentou de propósito, as empresas não queriam limitações, nem o pagamento de impostos. O lobby era este. Nessa terra sem lei, que foi o governo de Jair Bolsonaro, elas cresceram sem regulamentação.


O governo Lula decidiu regulamentar e cobrar impostos. Enfrentou um duro lobby no Congresso. A autorização para os cassinos tipo Jogo do Tigrinho, foi incluída na Câmara dos Deputados. O Senado tentou tirar, mas a Câmara restabeleceu. O governo Lula propôs 18% de impostos e o Congresso baixou para 12%. Esses são os fatos.

A questão é que, mesmo regulamentadas, o que se vê agora é que essas empresas estão provocando um problema econômico e social, o que tornou o tema crucial na campanha eleitoral. A expectativa é que o presidente Lula assine nesta sexta-feira uma Medida Provisória que passará a proibir a atividade no Brasil, mas isso não encerrará a questão. Isso porque a medida provisória vai tramitar no Congresso, precisa ser aprovada pelos parlamentares e, se isso não acontecer, perde a validade. Então, vamos ver, nos próximos meses, qual será o resultado final. As bets têm um lobby muito forte no Congresso, e já se sabe que essa não será uma batalha simples.

O que está claro é que as bets precisam de contenção.

Flávio e a milícia

Em um debate na quarta-feira, Simone Tebet (PSB), candidata ao Senado por São Paulo, pôs o dedo na ferida: “o país corre o risco de colocar a milícia do Rio de Janeiro na Presidência da República”. O alerta provocou reações veementes de apoiadores de Flávio Bolsonaro, mas, curiosamente, não foi contestado pelos advogados da campanha do senador, que costumam litigar por pelo em ovo. Uma forma de evitar o tema na última semana antes do primeiro turno das eleições, visto que as ligações de Flávio com milicianos são incontestáveis.

Os vínculos de Flávio com a milícia são antigos. Os mais vistoso deles com o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, chefe do “Escritório do Crime” – uma gangue de matadores de aluguel que atuava junto às milícias de Rio das Pedras e Muzema, Zona Oeste do Rio -, morto (ou apagado) em um confronto policial na Bahia, há seis anos.


Estreante como deputado estadual do Rio, o primogênito de Jair Bolsonaro apresentou uma moção de louvor a Adriano. Acusado de homicídio, ele já estava em prisão preventiva havia mais de um ano quando, em 2005, Flávio não só lhe concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria do Estado, como foi pessoalmente entregá-la no Batalhão Especial Prisional da Polícia Militar.

Em sua defesa, Flávio diz que tudo isso faz mais de 20 anos e que à época Adriano era “louvado por bravura”. Mentira pura, como tantas outras do Zero Um, que continua sem ter como explicar a condecoração a um criminoso. Amparou também a família de Adriano, contratando a mulher do ex-capitão, Danielle Nóbrega, e a mãe, Raimunda Vera Magalhães, para o seu gabinete em 2010 e 2015, respectivamente. Elas só deixaram os cargos em 2018, ano em que eclodiu o escândalo das rachadinhas – desvios comprovados mas varridos para debaixo do tapete por firulas judiciais.

Em 2008, durante os debates em torno da criação da CPI das Milícias na Assembleia do Rio, Flávio chegou a defender o poder de polícia paralelo. Dizia que os grupos paramilitares se organizavam “para impedir que o tráfico imperasse nas regiões” e que policiais faziam segurança privada para complementar o salário.

De iniciativa do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), hoje candidato à Câmara Federal, a CPI das Milícias só contou com dois votos contrários: de Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão, condenado, ao lado do irmão Chiquinho, como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Os irmãos Brazão tiveram penas fixadas em 76 anos e três meses pelos crimes de duplo homicídio qualificado e organização criminosa armada.

O fantasma de Marielle voltou a assombrar Flávio na semana passada. Segundo investigações da Polícia Federal, o senador negociou emenda parlamentar de quase R$ 200 mil para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, também na Zona Oeste do Rio. O repasse teria sido articulado por Robson Calixto, miliciano conhecido como Peixe, assessor de Domingos Brazão. Cabe repetir: o mesmo Domingos Brazão, mentor do assassinato da vereadora e de seu motorista, e que, ao lado de Flávio, votou contra a criação da CPI das Milícias. Em nota, Flávio negou qualquer ilicitude, mas não deu um pio quanto aos diálogos incriminadores entre Peixe e Maria de Fátima, sua secretária.

Desde muito jovem, Flávio tem vida pública no mínimo controversa. Iniciou sua carreira como funcionário fantasma do PPB na Câmara dos Deputados, partido pelo qual seu pai se elegeu à época. Tinha 19 anos, estudava Direito no Rio e recebia salário em Brasília. Dois anos mais tarde, chegou ao Legislativo fluminense e lá ficou por quatro mandatos, com atuação voltada à segurança pública e, como se viu, por vezes em defesa da parte podre das polícias.

Está no Senado há quase sete anos, com baixíssimo rendimento – apenas um projeto aprovado e outro em análise na Câmara. Não apareceu para votar a proposta trumpista, afinal derrotada, de enquadrar facções criminosas como terroristas, agora incluída em seu programa de governo. E como presidente da Comissão de Segurança da Casa faltou em dois terços das sessões. De 2024 para cá, enrolou-se com o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, a quem pediu R$ 130 milhões e recebeu mais de R$ 60 milhões para, supostamente, custear o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o pai.

Seu currículo definitivamente não combina com a explosiva multiplicação de seu patrimônio. Em 2002, Flávio declarou possuir apenas um carro popular. Em 2018, R$ 1,76 milhão, que saltaram nada menos do que 370%, batendo em R$ 8,1 milhões em 2026. Diz ele que a fortuna se deve à sua atuação como advogado e empresário, embora não seja de conhecimento público causas judiciais defendidas por ele, ou negócios rentáveis além da franquia da loja de chocolates que ele detinha.

Enriquecer não é pecado. Mas no caso de homens públicos a declaração de renda tem de vir acompanhada de confissão, sob pena de alimentar suspeições. Mais ainda quando o histórico inclui relações próximas com criminosos condenados.

Ao fazer o alerta, Simone Tebet acertou em cheio.

Daqui a dias

Falta pouco para as eleições e o clima anda tenso. Há um medo generalizado de que o brasileiro vote errado e ponha tudo a perder, mergulhando o país num futuro incerto, desastroso para a maioria.

Somos esperançosos por natureza, mas o marketing do lado de lá é de boa qualidade e pode iludir os incautos. Como convencê-los de que o que foi conquistado a duras penas pode desaparecer, se o candidato da oposição vencer, seja ele quem for, pois todos rezam na mesma cartilha?

E mais: não adianta apenas elegermos o presidente ideal, se Câmara e Senado permanecerem nas mãos de oposicionistas nebulosos, dispostos a boicotar qualquer medida progressista que traga mais prestígio aos governantes e novos benefícios para o povo. Diminuir a distância entre as diversas camadas sociais é a meta da esquerda, mas manter cada uma em sua casta faz parte dos planos nada secretos da direita.


Há outros riscos, igualmente assustadores. O namoro com Trump pode se tornar casamento e o dote serão nossas terras raras, nosso modelo independente de economia, nossa soberania até agora preservada, sem falar na anistia geral e irrestrita aos lesa-pátria que tanto nos prejudicaram e ainda prejudicarão.

Na acirrada disputa, os idosos tornam-se a bola da vez: todos querem seus votos que podem ser decisivos. Os que estrearão como eleitores igualmente estão na mira dos candidatos. E há, ainda, os indecisos cuja quantidade diminui a cada pesquisa prévia, sem tornar mais nítido o cenário. Impossível prever quantos serão os votos nulos ou em branco…

Tenho assistido a vários depoimentos de eleitores sobre sua preferência partidária. Alguns se dizem desesperados com a concorrência mentirosa e desleal que desfila ante nossos olhos, prometendo maravilhas. Outros, aturam o horário gratuito eleitoral à procura de candidaturas aceitáveis, mas a velha fórmula deixada por Tiririca e afins fez escola e expõe seu show de horrores duas vezes ao dia.

Nossos ídolos ainda são os mesmos, mais idosos a cada eleição. Velhas raposas também sobrevivem à passagem do tempo, pregando credibilidade com seus cabelos brancos. Cínicos profissionais tentam passar jovialidade com promessas vazias e muitos fazem uso de jargões tradicionais que envolvem crianças, deficientes, minorias, sem apresentar medidas efetivas em sua defesa.

Vivemos um tempo de promessas que só poderemos cobrar após a definição dos escolhidos. Que frases de efeito não nos impressionem e nossa escolha seja consciente, consequente.

JB Carvalho defendeu em livro retirar NS Aparecida como padroeira do Brasil

A informação de que Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil é uma fake news e isso foi amplamente divulgado. O candidato, inclusive, negou a existência deste plano.

Mas há um fato documentado que precisa ser distinguido desta falsa acusação: JB Carvalho, pastor da igreja frequentada por Flávio e onde ele e a esposa foram batizados, defendeu expressamente a retirada do reconhecimento nacional de Aparecida e registrou esta posição em livro.

Em A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicado em 2001, o bispo não se limita a criticar a devoção católica. Ele questiona a legalidade do feriado de 12 de outubro, defende que Aparecida deixe de ser reconhecida como padroeira e convoca cristãos e parlamentares a se mobilizarem pela mudança.


No capítulo 10, intitulado A Rainha dos Céus no Brasil, Carvalho argumenta que o reconhecimento nacional de Aparecida seria incompatível com a separação entre Igreja e Estado. No livro, afirma que a lei que estabelece a padroeira é ilegal e sustenta que Jesus Cristo seja reconhecido como único Senhor do Brasil. Trata-se da interpretação jurídica do pastor, não de uma declaração de inconstitucionalidade feita pela Justiça.

A proposta reaparece na nota final da obra. JB Carvalho convoca os cristãos a protestarem contra o que considera a institucionalização da adoração pagã no país. Ele também pede que deputados e senadores se manifestem para que Aparecida deixe de ser reconhecida como padroeira nacional.

A relação entre JB Carvalho e Flávio Bolsonaro vai além de uma participação ocasional em eventos religiosos.

Em 2024, Flávio e sua esposa, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações, igreja fundada pelo bispo em Brasília. O senador passou a frequentar os cultos e manteve sua ligação pública com a instituição.

Em 7 de dezembro de 2025, dois dias depois de anunciar sua pré-candidatura à Presidência da República, Flávio escolheu a mesma igreja para sua primeira aparição pública após o anúncio.

A proximidade religiosa também alcança outros integrantes da família Bolsonaro. Em novembro de 2025, Flávio levou ao pai, Jair Bolsonaro, um exemplar de Metanoia: A chave está em sua mente, escrito por JB Carvalho. Em janeiro de 2026, Michelle Bolsonaro também levou ao marido outra obra do bispo, A jornada de meninos a homens.

Esses episódios documentam a relação entre o pastor e a família Bolsonaro. Não demonstram, entretanto, que Flávio tenha adotado todas as posições religiosas ou políticas publicadas por Carvalho.

Em vídeo divulgado em agosto de 2026, Flávio Bolsonaro prometeu que, se fosse eleito presidente, um de seus primeiros atos seria decretar que o Brasil pertence a Jesus Cristo.

A declaração se aproxima da formulação utilizada por JB Carvalho em seu livro.

Há, porém, uma diferença decisiva: enquanto o pastor defendeu expressamente a retirada do reconhecimento nacional de Aparecida, Flávio não mencionou a padroeira em sua declaração.

A relação entre ambos torna pertinente perguntar se o candidato conhece a proposta do bispo e se concorda com ela, mas a semelhança entre as declarações não comprova que exista um plano conjunto.

Diante da repercussão de publicações que lhe atribuíam apoio a uma proposta para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida, Flávio Bolsonaro negou que pretendesse adotar essa medida.

Em meio à controvérsia, a campanha de Flávio também realizou uma transmissão ao vivo com representantes de diferentes religiões, incluindo Sérgio Pina, pai de santo do candomblé.
Matheus Leitão

domingo, 27 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


'Monopólio total'

Apoiadora fiel de Donald Trump e mulher mais rica da Austrália, a bilionária Gina Rinehart está por trás de uma mineradora estrangeira que quer explorar terras raras na Bahia. O plano é vendido como uma oportunidade de desenvolvimento econômico e social para o estado.

O projeto, no entanto, quer explorar até em área de preservação ambiental e pressiona moradores de uma comunidade rural a venderem seus terrenos no Vale do Jiquiriçá, na região sul do recôncavo baiano.

Além disso, tem a intenção de explorar urânio na região – o que omite da comunidade, que teme o risco de contaminação radioativa. E tem mais: a iniciativa mira implantar uma refinaria de terras raras de escala industrial para destinar a produção para combater o domínio da China, algo que interessa diretamente aos Estados Unidos.

Batizada de Monte Alto, a iniciativa é uma das maiores de exploração de terras raras no Brasil. É liderada pela empresa australiana Brazilian Rare Earths, a BRE, que já declarou se tratar da “descoberta de terras raras mais significativa do mundo”.


Rinehart, que é propagadora da ideologia MAGA (Make America Great Again ou Tornar a América Grande Novamente, em tradução livre), é a maior investidora em elementos de terras raras fora da China. Por meio de sua empresa Hancock Prospecting, ela é uma das acionistas da BRE, que no Brasil é representada pela subsidiária Borborema Recursos Estratégicos.

As terras raras são um um grupo de elementos químicos cada vez mais valorizados por sua importância estratégica, em especial para a produção de tecnologia, o que inclui desde telefones e carros elétricos até aparatos militares, e para desenvolver a inteligência artificial.

O Brasil é alvo de uma ofensiva estrangeira porque tem mais de 20% das reservas mundiais de terras raras – fica atrás só da China. Não à toa os Estados Unidos investiram mais de 1 bilhão de dólares, inclusive com financiamento do governo Trump, para comprar a única mineradora especializada já em operação no nosso país: a Serra Verde, localizada em Goiás.

Mas é a Bahia quem lidera as pesquisas por terras raras no Brasil. Um levantamento do Intercept Brasil feito a partir dos dados do Sistema de Informações Geográficas da Mineração da Agência Nacional de Mineração, a ANM, mostra que o estado alcança quase um em cada três processos minerários ativos dessas substâncias no país – são 1.204 no total, o equivalente a 31% dos registros. Destes, mais da metade estão na região do Vale do Jiquiriçá, território onde moram cerca de 20 mil famílias da agricultura familiar, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia.

“Vivenciamos uma nova corrida, o chamado neoextrativismo. Isso perpetua a situação do Brasil como um país dependente da exploração de matérias-primas e da mercantilização da natureza. A Bahia está no centro desse foco”, pontua Lucas Zenha Antonino, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, a UFRB, e pesquisador do grupo Geografar, da Universidade Federal da Bahia, a UFBA.

Neste cenário, a BRE não está perdendo tempo. Sozinha, a empresa responde por 230 requisições que envolvem a mineração de terras raras – 19,1% dos processos ativos na Bahia. De todas, a lavra mais próxima de começar a exploração é a do projeto Monte Alto, batizado pela Borborema com o mesmo nome da comunidade que pode ser expulsa da região.

Até o momento, o avanço do projeto tem recebido o aval do governo da Bahia e dos órgãos federais responsáveis. A ANM liberou a extração de lavra experimental, que está agora em análise pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, o Inema, órgão ambiental baiano.

De competência federal, o licenciamento ambiental para a extração comercial depende de aprovação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama, que informou ao Intercept ainda estar no aguardo do estudo e do relatório de impacto ambiental da mineradora.

Por ter minerais radioativos, o empreendimento também tem um processo em tramitação na Autoridade Nacional de Segurança Nuclear, a ANSN. Segundo a autarquia, ele está em fase inicial de avaliação regulatória.

A BRE informa publicamente que 167,6 mil hectares estão sob o seu controle na região, com pesquisas minerárias ativas liberadas pela ANM. Elas fazem parte do que a mineradora chama de Província Mineral Rocha da Rocha, zona com 124 processos minerários ativos.

A região tem minérios com teores de terras raras cuja concentração chega a até 100 vezes acima na comparação com a Serra Verde, única operação em produção comercial no Brasil, em Minaçu, Goiás – o que, na prática, significa que são encontradas em maior quantidade, de acordo com o parâmetro de concentração de Óxidos de Terras Raras Totais, o TREO.

Para se ter uma ideia, a Serra Verde opera com 0,12% de TREO, enquanto, em Monte Alto, o teor médio chega a 11,3%, de acordo com um estudo de escopo publicado pela BRE no dia 13 de agosto.

Mas o que empolga a BRE não é motivo de alegria na comunidade rural de Monte Alto. Nós fomos até lá e ouvimos dos moradores que a circulação de caminhões e máquinas de sonda, o barulho e o alargamento da estrada já estão mudando o cotidiano e causando transtornos.

Berenice*, uma moradora que pediu para não ter o seu nome revelado porque teme represálias, relatou ao Intercept que as investidas da mineradora para comprar os terrenos da comunidade estão “causando medo, pressão psicológica, até mesmo o adoecimento”.

Das cerca de 120 famílias que vivem na comunidade Monte Alto, 17 já venderam seus imóveis para a Borborema, de acordo com os moradores. A reportagem pediu esses números à mineradora, mas a empresa não os informou. “Enquanto eles avançam, sentimos o peso de deixar para trás nossas vidas, a nossa paz e a separação de várias famílias”, conta Berenice.

A comunidade tem resistido como pode. Já chegou até a entregar um manifesto no escritório da Borborema, em abril, reiterando a “insatisfação coletiva” com a mineradora, por gerar “insegurança”, “desinformação” e “desgaste social”.

Outra preocupação é com o impacto ambiental. No caso do projeto Monte Alto, a poligonal minerária – delimitação geográfica da área sobre a qual uma empresa requisita o direito para minerar – não está em um lugar qualquer. Cerca de metade dela está sobreposta à Área de Preservação Ambiental, ou APA, Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, com nascentes e quedas d’água como a cachoeira do Guigó.

A lei não veda a exploração mineral em APA, desde que autorizada – no caso, pela ANM, uma autarquia federal vinculada ao Ministério de Minas e Energia, o MME, e pelo órgão ambiental responsável. Mas o apetite da BRE vai além e chega até a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães, uma unidade de proteção integral em que a mineração é proibida por lei.

A preocupação é crescente na região porque, apesar de o projeto estar na fase do “direito de requerer lavra” – a terceira de cinco etapas para a concessão do direito de exploração comercial das terras raras —, a Borborema já conseguiu um atalho para antecipar o início dos trabalhos.

Em março deste ano, a ANM concedeu uma Guia de Utilização à mineradora. Na prática, isso permite que a lavra comece a ser explorada antes do licenciamento definitivo. Assim, foi autorizada a extração de 2 mil toneladas de minério por ano, ao longo de três anos. 

Procurada pelo Intercept, a Borborema garantiu que ainda não começou a extração. Apenas informou que a operação depende das “autorizações ambientais e radiológicas aplicáveis”. O caso está em análise pelo governo da Bahia – sob gestão de Jerônimo Rodrigues, do PT, candidato à reeleição –, que nos explicou que a “lavra experimental” só poderá começar a ser explorada após receber autorização.

Ainda que a operação não tenha iniciado oficialmente, um cronograma da BRE feito em agosto deste ano prevê a entrega do Estudo de Impacto Ambiental, o EIA/RIMA, ao Ibama entre o fim de 2026 e o primeiro semestre de 2027. Na projeção feita pela mineradora australiana aos seus investidores, a licença para instalar a infraestrutura física da mina deve sair entre 2028 e 2029. Já a concessão definitiva de lavra, entre 2029 e 2031.

Embora isso ainda dependa de validação, o diretor-geral e CEO da BRE, Bernardo da Veiga, vangloriou-se, em entrevista ao canal canadense Investor News, que a empresa tem “um monopólio total dessa província de terras raras”, tendo passado de 40 mil para 400 mil hectares sob seu controle em três anos. E foi além: disse que o Brasil é excelente para os negócios porque “é uma jurisdição de baixo custo, com baixo custo de energia e mão de obra barata”.

“Trouxemos investidores muito importantes, investidores de peso, por assim dizer. Eles nos financiaram para adquirir toda aquela província”, afirmou Veiga, citando nominalmente a bilionária Gina Rinehart. “Somos muito honrados por ter alguém tão importante e, além disso, tão qualificado em nosso quadro de acionistas”.

Por meio da Hancock Prospecting, Rinehart detinha uma participação de 6,4% na BRE em fevereiro de 2025 – embora o site Investing.com, que disponibiliza dados do mercado financeiro, indique que a parcela seja de 4,89%. A bilionária, que construiu sua fortuna com grandes ativos de minério de ferro no oeste da Austrália, integra um grupo de mulheres ricas e influentes autodenominado “trumpettes”.

Pela afinidade ideológica e pelo estilo, aliados do grupo passaram a chamar Rinehart de “Donald Trump feminina”. Ela chegou até mesmo a redesenhar a sede da Hancock Prospecting, em Perth, com elementos da estética MAGA.

Na noite da eleição estadunidense em 2024, a bilionária participou da festa da vitória de Trump na residência do republicano, em Mar-a-Lago.

Dias antes, ela já havia aparecido no mesmo local com Tiffany Trump, filha do presidente, segurando um cartaz com o slogan “drill, baby, drill” (“perfure, baby, perfure”, em tradução livre), que passou a usar para incentivar o aumento da exploração de petróleo e da mineração.

Entusiasta da exploração de carvão e gás, Rinehart defende que a Austrália abandone o Acordo de Paris sobre o clima e afirma que as energias renováveis são pouco confiáveis.

Além da BRE, a Hancock Prospecting tornou-se a maior acionista da St George Mining, empresa australiana que desenvolve o Projeto Araxá, de terras raras e nióbio, em Minas Gerais. Em junho de 2026, a Hancock investiu mais 20 milhões de dólares australianos na empresa, elevando sua participação para cerca de 10,5% após a conclusão da operação.

Já nos Estados Unidos, a empresa de Rinehart tornou-se a maior acionista da MP Materials, empresa que opera Mountain Pass, na Califórnia, o maior depósito de terras raras do país.

Procurada pelo Intercept, a Hancock Prospecting não quis se manifestar sobre o andamento do Projeto Monte Alto. A empresa de Rinehart se resumiu a dizer que, por ser “uma pequena acionista” da Brazilian Rare Earths, “questões dessa natureza devem ser direcionadas à Brazilian Rare Earths, que é responsável por administrar e conduzir o projeto”.
Moradores se mobilizam após pressão da mineradora

Para o plano da BRE com apoio da bilionária trumpette sair do papel, a subsidiária Borborema precisa ser dona das terras de Monte Alto. No caminho, entretanto, está uma comunidade tradicional.

Moradores contaram ao Intercept que a empresa não foi transparente quando chegou à região. “Em alguns lugares, pediam autorização para fazer coleta de solo para análise. Depois, chegaram as sondas, que faziam furos maiores. E aí foram tentando adquirir propriedades por preços muito abaixo, não deixando claro para as pessoas o que tinha no solo e o porquê da pressa”, conta Berenice.

Segundo ela, a Borborema comprou um imóvel na região, onde montou sua sede. Depois, outros três. A empresa não confirmou essa informação ao Intercept. “E aí começaram a criar um cerco”, afirma a moradora que, como seus bisavós, avós e pais, nasceu e se criou ali.

Quem trafega por Monte Alto percebe que o alargamento das ruas de terra é recente. Entre as casas espaçadas e plantações de cacau, circulam caminhões e caminhonetes com os logos da Borborema e da consultora Synergia Socioambiental. Tendo entre seus clientes o Banco Mundial, a Braskem, a Vale e a Hydro, a Synergia foi contratada pela Borborema para intermediar as negociações fundiárias com a comunidade.

“A primeira equipe chegou usando pressão psicológica. [Disseram] que eles só fariam três visitas para adquirir o terreno e, caso isso não fosse possível, partiriam para processo judicial”, relata Berenice. “Criaram um abismo entre comunidade e empresa”, complementa.

Em abril deste ano, um manifesto com a assinatura de 104 das 117 famílias de Monte Alto foi entregue à Borborema com críticas à atuação da mineradora.

O documento, ao qual o Intercept teve acesso, ainda cita que houve “pressão excessiva” da Synergia para “fechamento de acordo”, bem como “abordagens que geram constrangimento” e “falta de clareza e transparência nas informações prestadas”.

Os moradores de Monte Alto disseram, ainda, que a Synergia passou a “conduzir as tratativas com foco exclusivo na compra das propriedades, sem abertura para diálogo sobre alternativas”.

Manifestando “profunda preocupação” com os “impactos ambientais do empreendimento”, a carta termina informando que “a comunidade e os proprietários rurais” estão “formalmente organizados, buscando garantir seus direitos”.

A mobilização, explica João*, outro morador de Monte Alto, ocorreu após se darem conta do risco de os moradores saírem “do conforto para a miséria”. “A gente era tido como roceiros, ignorantes, pessoas sem conhecimento, fácil de serem manipulados. E eles viram que não somos”, enfatiza Berenice.

Os moradores também contam que, após a entrega do manifesto, pessoas vistas como impulsionadoras da mobilização foram chamadas para conversas particulares com representantes da mineradora. “Eles têm medo que a comunidade se inflame”, diz Luciene*, outra moradora de Monte Alto. “Os mais velhos falaram para a gente: ‘Vocês tenham cuidado com a vida de vocês’”, relata.

Em resposta ao manifesto, a Borborema marcou uma reunião com os moradores em maio deste ano. Entre as demandas, ouviu que a Synergia fosse destituída – mas não acatou. De acordo com moradores, as únicas mudanças foram a troca da equipe e uma melhora “ínfima” nos valores oferecidos para comprar os terrenos.

Edgar*, agricultor de Monte Alto visitado pelo Intercept, tem cerca de 15 hectares dedicados ao cacau e outros cultivos. Segundo ele, a proposta da Borborema pela área foi de R$ 50 mil. Somando os secadores de cacau e a casa existente, que tem três quartos e uma suíte, a oferta chegou a R$ 800 mil. Até o momento, ele não quis.

“No início, falaram que a terra seria indenizada por seu valor minerário, não rural. Depois, quando questionei, falaram que não tinha isso e que a proposta é feita de acordo com o valor da terra nua e as benfeitorias”, critica Berenice. “Estão nessas investidas. Passam duas, três vezes na semana na casa das pessoas”, conta.

Berenice também pontua que as pessoas que aceitaram vender seus imóveis o fizeram, em sua maioria, por medo de permanecer e por acreditarem que vai ser impossível barrar o avanço da mineração.

Firmino*, agricultor que vive do cacau que vende em um armazém em Jiquiriçá, diz que a mineradora já argumentou que os moradores não podem ficar na área. “O povo se junta, mas eles falam que deu minério e vai ter que explorar”, afirma. “A gente tem medo, porque a gente já nasceu, foi criado aqui. Para sair, acostumar lá fora… Aqui é sossegado, é bom demais”, pontua. 

Questionada pelo Intercept, a Borborema informou, em nota, que “não admite pressão, constrangimento ou conduta inadequada por parte de empregados, prestadores de serviços ou representantes”. Ainda disse estar “disponível para apurar formalmente qualquer relato dessa natureza” e tomar “as providências cabíveis”.

A Borborema destacou que “as negociações são realizadas de forma individualizada, com base em avaliações técnicas”. Segundo a companhia, “eventuais direitos legais do proprietário da superfície relacionados a uma futura produção mineral permanecem preservados e são distintos da negociação imobiliária”. A Synergia não respondeu aos questionamentos feitos pelo Intercept. 

Além do impasse com moradores, os impactos ambientais do projeto da BRE e da Borborema também são alvo de polêmica. Em maio de 2025, o Ibama inspecionou o local e apontou em relatório que “a cava prevista impactará nascente e curso d’água, além de atingir remanescentes de Mata Atlântica e áreas próximas a sete comunidades”.

Mas tem mais: a área do processo minerário do projeto Monte Alto inclui cerca de 18,4% da APA Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, abrangendo 42,2 mil hectares. Um levantamento feito pelo Intercept com dados da ANM mostra haver 29 requisições minerárias da Borborema no local.

Além da sua relevância ecológica e hídrica, a área é a morada de animais considerados ameaçados de extinção pelo Inema. Entre eles, estão o tamanduá-mirim, o bicho-preguiça, o quati e o mico-estrela.

A lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, o SNUC, que rege as unidades de conservação, exige que todas tenham um plano de manejo. Apesar de ter sido criada em 2003, a APA Caminhos Ecológicos da Boa Esperança até hoje não tem um. Questionado, o governo da Bahia informou que “a elaboração ainda não foi iniciada”, sem explicar por que tanta demora.

Embora a lei do SNUC não vete a exploração mineral em uma APA, desde que haja autorização prévia, existe um pequeno pedaço do terreno da Caminhos Ecológicos da Boa Esperança que não pode ser utilizado de jeito nenhum para este fim: os 2,4 mil hectares que compõem a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães.

O motivo é que este local, a cerca de 30 quilômetros da comunidade de Monte Alto, é uma unidade de proteção integral dentro da APA. Na prática, isso significa que ali não só a mineração como até mesmo a visitação pública são proibidas pela lei do SNUC.

Apesar disso, há quatro processos minerários ativos na ANM sobrepostos à Estação Ecológica Wenceslau Guimarães – todos da Borborema. Os dois mais avançados visam a exploração de terras raras, e estão na etapa do “direito de requerer lavra” – terceira de cinco fases do processo.

Questionada, a ANM afirmou que, se chegar o momento de a mineradora requisitar o aval para fazer a lavra, a autarquia fará a análise dos “procedimentos de retirada de interferências com as áreas em que eventualmente a mineração não é permitida”. A extração, reiterou a ANM, só é autorizada “mediante a devida a licença ambiental expedida pelo órgão ambiental competente”. Neste caso, por ser uma unidade de conservação estadual, seria o Inema.

Já a Borborema informou que este direito minerário integra o projeto Amargosa/Alurion, em análise para ser cedido pela companhia. Sem entrar em mais detalhes, a mineradora reforçou que o fato de ser titular deste processo ativo na ANM não quer dizer que ela já está autorizada a fazer mineração na área.

“A gente tem observado, a partir dos dados oficiais, a expansão da fronteira mineral para a Bahia em um ritmo muito acelerado”, pontua a pesquisadora e professora do Instituto Federal Baiano, Valdirene Rocha.

Segundo ela, entre 2021 e 2025, houve um aumento de mais de 46% das autorizações de pesquisa mineral no estado. “Atualmente, são 22.875 processos com autorização de pesquisa mineral e outros 1.075 requerimentos de pesquisa. Esses números continuam em crescente e estão associados ao discurso da transição energética”, destaca Rocha, que é também pesquisadora do Geografar, da UFBA.

A Borborema tem falado pouco à imprensa e nada às famílias de Monte Alto de que o seu interesse não está apenas nos minérios de terras raras – como neodímio, praseodímio, ítrio e térbio. Há, também, a intenção de explorar urânio na região – o que exige cuidados especiais diante do risco de contaminação radioativa.

Em áudios enviados no WhatsApp e cartazes espalhados por Monte Alto, a Borborema informa prezar pelo diálogo e garantir uma “conversa aberta” com a comunidade.

A própria subsidiária da BRE disse ao Intercept que “a presença natural de urânio e tório associados à mineralização” está sendo “abordada nas atividades de relacionamento com a comunidade”. Mas moradores ouvidos pela reportagem relataram que o tema não foi debatido nas reuniões.

A empresa ainda garantiu que “Monte Alto não é uma mina de urânio e não produzirá o concentrado de urânio, nem realizará enriquecimento ou processamento químico de urânio no local”. 

No mais recente encontro que a empresa convocou com a comunidade, em 24 de julho, foram apresentadas “informações sobre a formação geológica dos minerais identificados na região”, conforme a ata. Mas a palavra urânio não consta no documento – e moradores que estavam na reunião disseram ao Intercept que o assunto não foi discutido.

Embora não converse com a comunidade sobre isso, o CEO da BRE, Bernardo da Veiga, fala abertamente a respeito do tema com a imprensa estrangeira. Em entrevista a um veículo do Canadá voltado a investidores, ele citou que a região de Monte Alto tem “níveis muito elevados de urânio”.

A constatação, relatou Veiga na entrevista, foi crucial para atrair investidores. “Nós sempre soubemos que não seria um problema. O Brasil é um país nuclear e está confortável com o urânio”, afirmou o empresário.

De acordo com a BRE, o urânio será um coproduto no projeto Monte Alto, e testes metalúrgicos confirmaram que poderá ser transformado em yellow cake – uma etapa na cadeia da produção do combustível nuclear. O urânio, porém, não aparece no processo minerário registrado pela Borborema na ANM. Questionada, a autarquia federal disse que “vai verificar a situação”.

Ao Intercept, a Borborema informou que a produção, o enriquecimento e o processamento químico de urânio não vão acontecer no local da mina de Monte Alto. “A potencial recuperação de urânio na forma de concentrado de urânio está prevista apenas para uma futura planta industrial centralizada em Camaçari”, disse a empresa.

“Essa planta dependerá de estudos adicionais, do licenciamento, das autorizações da ANSN [Autoridade Nacional de Segurança Nuclear], dos acordos necessários com a INB [Indústrias Nucleares do Brasil] e da decisão final de investimento”, destacou a Borborema.

A ANSN – autarquia reguladora que responde pelo licenciamento de processos minerários quando envolvem material radioativo – afirmou à reportagem que existe um processo da Borborema em “fase inicial de avaliação regulatória”, mas que “não emitiu autorização para produção de concentrado de urânio no empreendimento Monte Alto”.

Em um de seus relatórios, no entanto, a mineradora afirma que já obteve autorização de operação da ANSN para a planta-piloto em Camaçari e que a ANSN aprovou a categorização do projeto, permitindo que a BRE avance com o relatório de análise de segurança nuclear.

Já a Indústrias Nucleares do Brasil, a INB, empresa estatal que representa a União na cadeia do urânio e combustível nuclear no país, disse que firmou um “protocolo de intenções” com a BRE. O objetivo, informou a INB, é “avaliar e desenvolver conjuntamente o potencial de aproveitamento do urânio como coproduto dos projetos de terras raras da empresa”.

O plano da BRE é beneficiar os minerais de terras raras extraídos em Monte Alto por britagem no próprio Vale do Jiquiriçá. O concentrado, então, vai ser transportado por cerca de 260 quilômetros até o Complexo Industrial de Camaçari, que fica próximo ao Porto de Aratu.

Perto dali, em Salvador, a mineradora está construindo uma planta piloto, com 58% do financiamento vindo do Senai Cimatec por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, a Embrapii, uma organização social movida a contratos de gestão com o governo federal.

A partir dela, a BRE quer implantar uma refinaria de terras raras de escala industrial. A ideia da mineradora é produzir óxido de neodímio-praseodímio (NdPr), concentrado de terras raras pesadas (HRE+) e yellowcake de urânio.

O destino principal da produção é a França. Mas, em um relatório de julho deste ano, a BRE destaca, além da Europa, o Japão e os Estados Unidos como possíveis rotas. Os indícios de que os minérios vão para o país adorado pela trumpette são fortes.

Em outubro de 2025, a BRE inclusive assinou um acordo com a empresa francesa Carester que é, em parte, da estadunidense USA Rare Earth. A parceria prevê que, na próxima década, o concentrado de terras raras pesadas produzido pela BRE vai ser comprado pela Carester.

Além disso, a empresa francesa se comprometeu a prestar serviços de engenharia e assistência para a futura refinaria da BRE em Camaçari, que tem a pretensão de ser a primeira unidade a fazer separação de óxidos de terras raras em escala industrial no Brasil.

Isso é estratégico porque aumenta o valor agregado da produção e, em nível global, fortalece a Carester na rivalidade direta com a China. Mas também pode atender a interesses dos EUA, já que o Departamento de Guerra do país declarou que os ímãs permanentes de terras raras, em especial o térbio – escasso no mundo e presente em grande quantidade na região de Monte Alto –, são fundamentais para seus sistemas militares, incluindo submarinos, drones, mísseis e bombas.

Falta uma carta nesta campanha

O senador Flávio Bolsonaro nunca assinou uma carta compromisso com a democracia, nem dele foi exigido. Devia ter sido. Estamos a uma semana do primeiro turno. Ele tem chances reais de ser eleito e carrega um enorme passivo autoritário, decorrente dos atos e palavras dele e da família toda. Em 2002, o país exigiu do então candidato Lula da Silva que se comprometesse com as bases econômicas do Plano Real. Havia dúvidas razoáveis sobre o programa econômico do PT. Lula escreveu a “Carta aos Brasileiros” e a cumpriu.

Há dúvidas razoáveis sobre o candidato do PL. O senador teve relações com integrantes da facção criminosa conhecida como milícia, está sendo investigado pelo dinheiro recebido do ex-banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, teve uma loja de chocolate com faturamento atípico, nunca ficou claro como conseguiu comprar uma mansão em Brasília. Sua amizade estreita com o advogado Willer Tomaz é outro foco de incerteza. Willer é reincidente em casos de corrupção. Chegou a ser preso por envolvimento na Operação Greenfield, em 2017, que apurou fraudes com fundos de pensão, e agora é investigado no caso do INSS.


Esse currículo de dúvidas sobre o senador já seria suficiente para ele ser escrutinado com mais objetividade. No entanto, Flávio Bolsonaro foge das explicações necessárias, com a velha artimanha de atacar como se não tivesse enorme telhado de vidro.

De todas as questões que pesam sobre o senador Flávio Bolsonaro, a maior é o seu déficit democrático. Ele professa o mesmo ideário autoritário do pai e dos irmãos. Nisso, a família é bem unida. O Brasil não pode alegar desconhecimento desse risco, porque viu o projeto em ação. Foram anos de ataques sistemáticos às instituições, de defesa da ditadura militar, de demanda pela volta do AI-5, de tentativa de sedução das lideranças militares, de mobilização dos seus seguidores para não respeitar o resultado das urnas de 2022. A investigação da tentativa de golpe de 8 de janeiro revelou que a conspiração havia ido mais longe do que se pensara. Não cabe o benefício da dúvida quando os fatos são tão sólidos.

A pátria caminha para as urnas distraída. A extrema direita sempre foi muito competente em usar as ferramentas digitais para criar realidades paralelas. Em 2018, houve a onda das fake news. A partir de 2019, o chamado “gabinete do ódio” instalou-se no Palácio do Planalto e disparou contra todos os que via como adversários. Os jornalistas, principalmente as mulheres, foram alvo preferencial. Na pandemia, as mentiras contra a ciência elevaram o número de mortes e reduziram a cobertura vacinal de várias doenças. Até hoje o país luta contra as sequelas do atentado à confiança no programa de imunização. A urna eletrônica sobreviveu a um bombardeio, cujo objetivo era minar o processo eleitoral. Sabedor de tudo isso, o Brasil não pode subestimar o risco.

Em 2002, o medo principal era o retrocesso na economia. O país havia vencido a hiperinflação depois de uma luta muito árdua, de anos. O programa econômico do PT tinha propostas que poderiam abalar as bases da política econômica que mantinha a inflação sob controle. Era chamado de risco Lula. O mercado financeiro, então, exigiu um compromisso com a estabilização da moeda e Lula fez algo mais amplo. Falou para o país como um todo, na “Carta aos Brasileiros”. Acertou. O medo de perder o Real era da população em geral e não apenas dos gestores de investimento.

O risco democrático nunca preocupou o mercado financeiro. Deveria. Não há liberdade econômica, sem liberdade política. O poder sem limites, sem o sistema de freios e contrapesos, é um risco econômico também.

O senador Flávio Bolsonaro disse em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, que o eleito em 2026 tinha que se comprometer com o “uso da força” contra o Supremo, caso o STF considerasse inconstitucional o indulto aos condenados pelo 8 de janeiro. Ele não falava de impeachment de ministros dentro de um processo constitucional. Queria algo mais forte. “A gente está falando do uso da força. A gente está falando de interferência direta entre os poderes”. O senador Bolsonaro sempre negou ter havido tentativa de golpe, trata de forma anedótica o ataque físico e institucional aos poderes, promete subir a rampa com o pai. Nunca fez qualquer esforço para aplacar essas dúvidas. Esse é o risco Flávio Bolsonaro.
Míriam Leitão