quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Alguma coisa acontece nas avenidas do mundo
Alguma coisa acontece nas praças e avenidas do mundo. Em um tempo marcado por arrogância e cinismo de líderes autoritários como Donald Trump, que hoje enfrenta o teste das eleições no meio do mandato, jovens tomam as ruas para barrar o avanço da extrema direita e pedir melhores condições de vida.
A começar pelos Estados Unidos, onde uma multidão de estudantes da Carolina do Norte marchou unida até as urnas, depois de Trump proibir a instalação de postos de votação dentro de seus campi universitários.
Poucos dias antes, as ruas de Nova York foram tomadas por manifestantes contrários ao presidente americano. As imagens inundaram as redes sociais. O que cantavam? O velho slogan: “o povo unido jamais será vencido”.
Na Europa, os protestos se multiplicam. Com raras exceções, como as da cidade alemã de Frankfurt, onde se registraram cenas de violência, são manifestações pacíficas, que muitas vezes esbarram na truculência das polícias.
Os jovens ocupam as ruas da França há várias semanas. Tudo começou com manifestações de estudantes em busca de melhores condições de ensino. Depois acolheu outros jovens que se queixavam das difíceis condições de vida.
Na Itália, as avenidas têm sido ocupadas por manifestantes que cantam “somos todos antifascistas!”. E que protestam contra o governo de extrema direita de Giorgia Meloni, o mais longevo do país desde a Segunda Guerra Mundial.
E o Brasil tem uma grande contribuição a todo esse movimento. Por aqui, tudo começou na noite de segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições, quando estudantes da Universidade Federal Fluminense tomaram as ruas de Niterói em apoio ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Depois de Niterói, as manifestações tomaram conta das principais cidades do país. E tiveram, juntamente com a movimentação nas redes sociais, papel fundamental na virada do segundo turno e na vitória de Lula.
A conquista do quarto mandato do velho líder de 81 anos ajudou a espalhar pelo mundo o sentimento de que, sim, é possível vencer o avanço da extrema direita, com seus traços autoritários de inspiração fascista.
O exemplo chegou até a eventos esportivos. Logo após a bandeirada final do Grande Prêmio do México de Fórmula Um, a Federação Internacional de Automobilismo autorizou a entrada dos torcedores na pista. E o que eles cantaram? “Olê, olê olê olá, Lula, Lula”.
Aonde chegará tudo isso? Com as exceções de sempre, não vemos pelo mundo barricadas e trocas de agressões, como em 1968. Mas pode-se facilmente constatar o grau de insatisfação, principalmente entre os jovens.
Em visita ao Brasil, para promover um festival de cinema francês, a atriz Alexandra Lamy disse – em entrevista ao Correio Braziliense – compreender a frustração dos jovens em seu país.
“Nós apoiamos muito os estudantes de ensino médio e a juventude em geral, porque isso nos faz lembrar da violência em que eles vivem”, afirmou Alexandra. “Embora estejamos na França, onde se tem a impressão de que as escolas são excelentes, a realidade é que os alunos passam frio, e faltam professores”.
Nos outros países da Europa onde se multiplicam as manifestações, as queixas se repetem: alto custo de vida, alto custo dos aluguéis, falta de oportunidades.
Nos Estados Unidos, a principal queixa está no custo de vida. E isso está diretamente relacionado à guerra que Trump resolveu promover contra o Irã, algo que encareceu os custos de combustíveis em todo o mundo.
Como tudo isso se refletirá nas urnas das maiores democracias ocidentais? A partir dessa terça-feira será possível ter uma ideia da nova composição do Congresso dos Estados Unidos.
A contagem dos votos é manual – como defendem os bolsonaristas – e pode levar semanas. Existe uma grande chance de vitória dos democratas. Mas resta saber se eles conseguirão o controle de uma ou das duas Casas do Congresso.
Se isso acontecer, o Partido Democrata passa a ter chances reais de vitória nas eleições presidenciais de 2028. E os sonhos de grandeza de Donald Trump ficarão registrados apenas no grande salão de baile que ele constrói na Casa Branca.
Muita gente teme que as manifestações na França acabem por estimular o medo junto a eleitores conservadores, abrindo caminho para uma possível vitória na Frente Nacional das eleições do ano que vem.
É cedo ainda para dizer. Até porque já existe uma multidão de pré-candidatos à sucessão de Emmanuel Macron. O mesmo risco existe na Alemanha, onde tem crescido o apoio à AfD, partido de extrema direita de inspiração nazista.
As ruas e as urnas podem até seguir caminhos diferentes. Mas, como o Brasil mostrou ao resto do mundo, a presença de multidões nas grandes cidades pode ajudar a construir vitórias antes tidas como impossíveis.
A começar pelos Estados Unidos, onde uma multidão de estudantes da Carolina do Norte marchou unida até as urnas, depois de Trump proibir a instalação de postos de votação dentro de seus campi universitários.
Poucos dias antes, as ruas de Nova York foram tomadas por manifestantes contrários ao presidente americano. As imagens inundaram as redes sociais. O que cantavam? O velho slogan: “o povo unido jamais será vencido”.
Na Europa, os protestos se multiplicam. Com raras exceções, como as da cidade alemã de Frankfurt, onde se registraram cenas de violência, são manifestações pacíficas, que muitas vezes esbarram na truculência das polícias.
Os jovens ocupam as ruas da França há várias semanas. Tudo começou com manifestações de estudantes em busca de melhores condições de ensino. Depois acolheu outros jovens que se queixavam das difíceis condições de vida.
Na Itália, as avenidas têm sido ocupadas por manifestantes que cantam “somos todos antifascistas!”. E que protestam contra o governo de extrema direita de Giorgia Meloni, o mais longevo do país desde a Segunda Guerra Mundial.
E o Brasil tem uma grande contribuição a todo esse movimento. Por aqui, tudo começou na noite de segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições, quando estudantes da Universidade Federal Fluminense tomaram as ruas de Niterói em apoio ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Depois de Niterói, as manifestações tomaram conta das principais cidades do país. E tiveram, juntamente com a movimentação nas redes sociais, papel fundamental na virada do segundo turno e na vitória de Lula.
A conquista do quarto mandato do velho líder de 81 anos ajudou a espalhar pelo mundo o sentimento de que, sim, é possível vencer o avanço da extrema direita, com seus traços autoritários de inspiração fascista.
O exemplo chegou até a eventos esportivos. Logo após a bandeirada final do Grande Prêmio do México de Fórmula Um, a Federação Internacional de Automobilismo autorizou a entrada dos torcedores na pista. E o que eles cantaram? “Olê, olê olê olá, Lula, Lula”.
Aonde chegará tudo isso? Com as exceções de sempre, não vemos pelo mundo barricadas e trocas de agressões, como em 1968. Mas pode-se facilmente constatar o grau de insatisfação, principalmente entre os jovens.
Em visita ao Brasil, para promover um festival de cinema francês, a atriz Alexandra Lamy disse – em entrevista ao Correio Braziliense – compreender a frustração dos jovens em seu país.
“Nós apoiamos muito os estudantes de ensino médio e a juventude em geral, porque isso nos faz lembrar da violência em que eles vivem”, afirmou Alexandra. “Embora estejamos na França, onde se tem a impressão de que as escolas são excelentes, a realidade é que os alunos passam frio, e faltam professores”.
Nos outros países da Europa onde se multiplicam as manifestações, as queixas se repetem: alto custo de vida, alto custo dos aluguéis, falta de oportunidades.
Nos Estados Unidos, a principal queixa está no custo de vida. E isso está diretamente relacionado à guerra que Trump resolveu promover contra o Irã, algo que encareceu os custos de combustíveis em todo o mundo.
Como tudo isso se refletirá nas urnas das maiores democracias ocidentais? A partir dessa terça-feira será possível ter uma ideia da nova composição do Congresso dos Estados Unidos.
A contagem dos votos é manual – como defendem os bolsonaristas – e pode levar semanas. Existe uma grande chance de vitória dos democratas. Mas resta saber se eles conseguirão o controle de uma ou das duas Casas do Congresso.
Se isso acontecer, o Partido Democrata passa a ter chances reais de vitória nas eleições presidenciais de 2028. E os sonhos de grandeza de Donald Trump ficarão registrados apenas no grande salão de baile que ele constrói na Casa Branca.
Muita gente teme que as manifestações na França acabem por estimular o medo junto a eleitores conservadores, abrindo caminho para uma possível vitória na Frente Nacional das eleições do ano que vem.
É cedo ainda para dizer. Até porque já existe uma multidão de pré-candidatos à sucessão de Emmanuel Macron. O mesmo risco existe na Alemanha, onde tem crescido o apoio à AfD, partido de extrema direita de inspiração nazista.
As ruas e as urnas podem até seguir caminhos diferentes. Mas, como o Brasil mostrou ao resto do mundo, a presença de multidões nas grandes cidades pode ajudar a construir vitórias antes tidas como impossíveis.
A terra treme nas vozes destes povos
Enquanto esperávamos pela Assembleia Popular, no Rossio, perguntei a uma amiga como iria ser chamado este período histórico. “A crise das acampadas”? Desde a crónica da semana passada, ainda em torno da primeira carga policial na Praça D. João I, Portugal já tremeu imenso. A polícia e o Governo assumiram plenamente táticas de violência e repressão inéditas em Portugal contra manifestações pacíficas. Os relatos de manifestantes no Rossio falavam de bastonadas, cães, cercos e perseguições de moto por longa distância. Ações deliberadas que apanharam os “acampados” de surpresa, numa noite que terminou com muitos entre o hospital e a esquadra.
Se sábado foi um dia negro, seguido de mais um dia de protestos no domingo, a segunda-feira amanheceu com notícias globais de esperança. Numa vitória absolutamente histórica, Lula conseguiu deixar para trás o desaire do primeiro turno e, em duas semanas, impôs uma “virada” fenomenal, contra as elites, contra as táticas de supressão de votos, contra influências da Meta e contra todo um movimento tecnofascista global desejoso de o derrubar e colocar no poder a dinastia Bolsonaro. A equipa de Lula provou que é possível derrotar as forças antidemocráticas com organização, união, empenho e convicção.
Mas ocorreu um outro terramoto eleitoral no domingo à noite que apanhou todos de surpresa. Num curto espaço de tempo, a Sérvia tornou-se um caso de estudo mundial. As ruas de Belgrado irromperam no domingo em celebrações com a vitória do movimento estudantil nas eleições legislativas antecipadas, que derrotou o candidato populista pró-russo Aleksandar Vucic. Anos de governação corrupta, repressão brutal e falta de liberdade de expressão levaram a uma mobilização nacional constante e que nunca cedeu terreno. Em 2024, a contestação na Sérvia intensificou-se com um projeto de exploração de lítio da Rio Tinto, mas o momento decisivo foi o desabamento da cobertura da Estação de Novi Sad, em novembro desse ano, que causou 16 mortos. Um dos rostos que emergiram dessa tragédia foi a mãe de uma das vítimas, Dijana Hrka, que nunca deixou de lutar pela responsabilização judicial dos responsáveis pelo desabamento e se juntou, solidária, à causa dos estudantes em protesto. A sua história deu um rosto humano à dimensão da tragédia e às denúncias.
Na sequência das agressões e da repressão brutal, as manifestações começaram a tomar uma forma organizada e alastraram-se por todo o país. Em resumo, e porque deixo de lado muitos detalhes relevantes, a Sérvia convocou eleições antecipadas e o movimento estudantil concorreu com o cardiologista Ilija Srdanovic como cabeça de lista. Num inacreditável volte-face, a lista de estudantes (mas também de académicos e especialistas) acabou por ganhar a maioria absoluta. A Sérvia tem muitas razões para celebrar, mas o verdadeiro desafio político será provar que uma organização colaborativa e horizontal consegue assumir o poder e construir uma nova estrutura democrática, livre da influência russa e dos oligarcas. Não vai faltar interesse em acompanhar o caso da Sérvia nos próximos tempos. É a demonstração de que movimentos populares bem organizados podem fazer a diferença.
E não é só a Sérvia. Na altura em que escrevo esta crónica, ainda não sei qual será o resultado das eleições em Israel, a 27 de outubro, onde também ocorrem enormes manifestações contra o governo de Netanyahu. Chegará finalmente ao fim o seu poder? Terá Israel condições para eleger e formar um governo não extremista e que não apele aos piores fundamentalismos, pondo fim aos crimes contra o povo palestiniano, mas também aos bombardeamentos no Líbano e na região? E já a 3 de novembro saberemos se as eleições intercalares americanas serão dominadas pelos democratas ou se Trump irá pôr em causa a legitimidade do processo democrático. Entre os novos protestos e movimentos que nascem por toda a parte e a resistência das velhas elites, importa não deixar o vazio tomar lugar.
Quanto a nós, talvez ainda não seja possível saber como vamos chamar a este período histórico em Portugal, mas o seu nome também depende de quem se recusar a ser apenas testemunha. Vem-me à cabeça a estrofe de José Mário Branco: “Sobre as águas calmas um vulcão de fogo / Toda a terra treme nas vozes deste povo / Mesmo no silêncio sabemos cantar / Povo por extenso é unidade popular.”
Se sábado foi um dia negro, seguido de mais um dia de protestos no domingo, a segunda-feira amanheceu com notícias globais de esperança. Numa vitória absolutamente histórica, Lula conseguiu deixar para trás o desaire do primeiro turno e, em duas semanas, impôs uma “virada” fenomenal, contra as elites, contra as táticas de supressão de votos, contra influências da Meta e contra todo um movimento tecnofascista global desejoso de o derrubar e colocar no poder a dinastia Bolsonaro. A equipa de Lula provou que é possível derrotar as forças antidemocráticas com organização, união, empenho e convicção.
Mas ocorreu um outro terramoto eleitoral no domingo à noite que apanhou todos de surpresa. Num curto espaço de tempo, a Sérvia tornou-se um caso de estudo mundial. As ruas de Belgrado irromperam no domingo em celebrações com a vitória do movimento estudantil nas eleições legislativas antecipadas, que derrotou o candidato populista pró-russo Aleksandar Vucic. Anos de governação corrupta, repressão brutal e falta de liberdade de expressão levaram a uma mobilização nacional constante e que nunca cedeu terreno. Em 2024, a contestação na Sérvia intensificou-se com um projeto de exploração de lítio da Rio Tinto, mas o momento decisivo foi o desabamento da cobertura da Estação de Novi Sad, em novembro desse ano, que causou 16 mortos. Um dos rostos que emergiram dessa tragédia foi a mãe de uma das vítimas, Dijana Hrka, que nunca deixou de lutar pela responsabilização judicial dos responsáveis pelo desabamento e se juntou, solidária, à causa dos estudantes em protesto. A sua história deu um rosto humano à dimensão da tragédia e às denúncias.
Na sequência das agressões e da repressão brutal, as manifestações começaram a tomar uma forma organizada e alastraram-se por todo o país. Em resumo, e porque deixo de lado muitos detalhes relevantes, a Sérvia convocou eleições antecipadas e o movimento estudantil concorreu com o cardiologista Ilija Srdanovic como cabeça de lista. Num inacreditável volte-face, a lista de estudantes (mas também de académicos e especialistas) acabou por ganhar a maioria absoluta. A Sérvia tem muitas razões para celebrar, mas o verdadeiro desafio político será provar que uma organização colaborativa e horizontal consegue assumir o poder e construir uma nova estrutura democrática, livre da influência russa e dos oligarcas. Não vai faltar interesse em acompanhar o caso da Sérvia nos próximos tempos. É a demonstração de que movimentos populares bem organizados podem fazer a diferença.
E não é só a Sérvia. Na altura em que escrevo esta crónica, ainda não sei qual será o resultado das eleições em Israel, a 27 de outubro, onde também ocorrem enormes manifestações contra o governo de Netanyahu. Chegará finalmente ao fim o seu poder? Terá Israel condições para eleger e formar um governo não extremista e que não apele aos piores fundamentalismos, pondo fim aos crimes contra o povo palestiniano, mas também aos bombardeamentos no Líbano e na região? E já a 3 de novembro saberemos se as eleições intercalares americanas serão dominadas pelos democratas ou se Trump irá pôr em causa a legitimidade do processo democrático. Entre os novos protestos e movimentos que nascem por toda a parte e a resistência das velhas elites, importa não deixar o vazio tomar lugar.
Quanto a nós, talvez ainda não seja possível saber como vamos chamar a este período histórico em Portugal, mas o seu nome também depende de quem se recusar a ser apenas testemunha. Vem-me à cabeça a estrofe de José Mário Branco: “Sobre as águas calmas um vulcão de fogo / Toda a terra treme nas vozes deste povo / Mesmo no silêncio sabemos cantar / Povo por extenso é unidade popular.”
Os inocentes do Leblon não sabem de você
Foi no auge da década de 1980 que Marina Lima, ao lado de seu irmão, o letrista, poeta e filósofo, Antônio Cícero, deu voz à canção Virgem. Entre seus versos, uma referência direta a Carlos Drummond de Andrade: “os inocentes do Leblon”.
Anos depois, Cícero contaria que a expressão fazia parte de suas lembranças de infância, quando seu pai costumava chamar assim os filhos que saíam do mar, nas praias cariocas. Uma memória afetiva que, curiosamente, evocava outra vivência, anterior àquela família e à própria canção.
Aqui, recorremos brevemente a Michel Foucault, que, na abertura do seu livro, A ordem do discurso, manifesta o desejo de encontrar uma voz que já o precedesse. De acordo com ele, não inauguramos os discursos que pronunciamos, mas ocupamos lugares em uma trama de sentidos, histórias e relações de poder que existiam muito antes de nós.
Foi o que Antônio Cícero fez convocando Drummond para sua própria lírica? Ao recuperar “os inocentes do Leblon”, a expressão foi realocada para o território da experiência amorosa, onde o mundo continua existindo, indiferente às nossas perdas. Entretanto, o verso original traz consigo uma história menos romântica.
Publicado em 1940, em Sentimento do mundo, o poema de Drummond surge em meio ao avanço do fascismo e à Segunda Guerra Mundial. Nele, os inocentes não percebem a chegada de um navio, não sabem o que transporta, quem chega ou o que acontece para além da praia. Estão ocupados com o calor da areia, o óleo sobre as costas e a tranquilidade de quem pode se dar ao luxo de não olhar para o horizonte. Lá, na cadência proposta pelo poeta, o mundo parece estar em convulsão. O bronzeado, todavia, não pode esperar.
Eis, então, que surge a primeira de muitas perguntas que aqui nos interessa: quem são e será que os inocentes do Leblon são mesmo tão inocentes assim?
Há algo na classe média brasileira que remete continuamente a esses personagens, não exatamente pela localização geográfica, embora o Leblon seja uma metáfora bastante conveniente para pensar os privilégios no Brasil, mas pela relação que determinados segmentos estabelecem com a própria condição de classe.
Isso porque a classe média brasileira parece ter desenvolvido uma extraordinária capacidade de se reconhecer em tudo aquilo que não é. Não é pobre, porque comprou um apartamento financiado. Não é trabalhadora, porque ocupa um cargo de gestão. Não é proletária, porque tem diploma universitário, carro, plano de saúde e, eventualmente, alguém que trabalha em sua casa. Ela também não é burguesa, embora faça um esforço admirável para pensar como se fosse.
A grande ironia é que basta perder o emprego para descobrir que o banco, o condomínio e a operadora do plano de saúde não reconhecem distinções tão sofisticadas – e é justamente nessa contradição que a leitura marxista se torna incontornável.
Para Marx, a alienação está inscrita das e nas próprias relações de trabalho, quando aquele que produz a riqueza não controla plenamente as condições de sua produção. Mas há outra dimensão dessa discussão que nos interessa particularmente, a saber, a maneira como determinadas relações sociais e ideológicas contribuem para que trabalhadores se identifiquem com posições de classe que não ocupam.
É o caso de parcelas da classe média que dependem do próprio salário, mas encontram no diploma, no cargo e no padrão de consumo motivos suficientes para se imaginar mais próximas da burguesia do que dos demais trabalhadores.
Diante disso, podemos inferir que o problema não está em a classe média reconhecer seus privilégios, mas em confundi-los com uma mudança de classe e, nessa confusão, terminar por defender os interesses de quem controla o capital, enquanto se empenha em manter distância daqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Esta maneira de compreender a própria posição social possui uma história, e ela não vem de agora…
A classe média urbana brasileira já existia antes de 1930, mas sua expansão acompanhou as transformações econômicas desencadeadas pela industrialização e pelo crescimento do Estado. A partir da Era Vargas, a reorganização das relações de trabalho, a ampliação do funcionalismo público e o desenvolvimento de ocupações técnicas e administrativas contribuíram para a formação de novos segmentos assalariados. A Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, tornou-se um marco dessa reorganização, embora suas garantias não tenham alcançado todos os trabalhadores da mesma maneira.
Nos anos seguintes, a industrialização, a urbanização e a expansão dos serviços ampliaram essas ocupações. O crescimento econômico durante a ditadura militar também favoreceu determinados segmentos médios, ao mesmo tempo que aprofundou desigualdades e concentrou renda. Bem mais adiante, após o período ditatorial, a redemocratização, a estabilização monetária com o Plano Real e, posteriormente, a ampliação do emprego formal, do crédito e do acesso à educação contribuíram, em momentos distintos, para modificar as condições de vida e as possibilidades de ascensão social.
Embora essa trajetória não tenha sido linear, tampouco universal, ela auxilia na compreensão de como o emprego estável, a formação profissional e o acesso ao consumo se tornaram referências importantes para a identidade de parcelas da classe média brasileira.
Entretanto, o que aqui importa não é reconstituir toda essa história, mas observar o que acontece quando as condições de trabalho que ajudaram a sustentar determinadas expectativas de estabilidade começam a se transformar.
Durante boa parte do século XX, a expansão do trabalho assalariado formal esteve associada, para determinados grupos, à possibilidade de construir uma carreira, acumular patrimônio e projetar alguma segurança para o futuro. A empresa, a instituição pública ou a profissão ofereciam uma referência relativamente estável de pertencimento.
Todavia, é importante registrar que essa estabilidade nunca foi uma experiência generalizada no Brasil. O trabalho doméstico, a informalidade, a desigualdade racial e a precariedade das ocupações rurais permaneceram como características estruturais do mercado de trabalho. Ainda assim, a promessa de uma carreira protegida e de ascensão pela escolarização exerceu enorme influência sobre o imaginário das classes médias urbanas.
Nas últimas décadas, essa promessa passou a conviver com transformações profundas na organização do trabalho.
A flexibilização das relações contratuais, a terceirização, a expansão do trabalho por demanda, a contratação por pessoa jurídica e o crescimento das plataformas digitais modificaram a maneira como empresas e trabalhadores se relacionam. A especialização profissional, antes frequentemente associada à estabilidade, passou a coexistir com vínculos mais instáveis, competição permanente e exigências contínuas de atualização.
O neoliberalismo não inventou a precariedade do trabalho brasileiro – ela é muito anterior a ele, isso é fato –, mas a reorganização econômica e institucional das últimas décadas contribuiu para produzir novas formas de insegurança, inclusive entre profissionais que, historicamente, se percebiam relativamente protegidos.
A Reforma Trabalhista de 2017, durante o governo Temer, é um marco importante desse processo. Ao mesmo tempo, a expansão das plataformas digitais tornou mais visíveis formas de organização do trabalho nas quais a promessa de autonomia convive com mecanismos intensos de controle, dependência econômica e transferência de riscos.
O trabalhador passa a ser estimulado a se perceber como uma empresa de si mesmo. Precisa administrar a própria carreira, investir continuamente em qualificações, construir uma marca pessoal e assumir os riscos de sua inserção profissional. A ausência de estabilidade ganha o nome de liberdade, a perda de garantias vira flexibilidade, e trabalhar cada vez mais passa a ser celebrado como espírito empreendedor. Eis uma das grandes ironias do capitalismo contemporâneo, a de que o trabalhador perde direitos, mas ganha um título de empresário para chamar de seu.
É nesse cenário que a meritocracia cumpre uma função bastante conveniente. O sucesso passa a ser apresentado como resultado exclusivo do esforço individual, enquanto o fracasso é atribuído à incapacidade de acompanhar as exigências do mercado. Pouco importa que as oportunidades continuem profundamente condicionadas pela origem social, escolaridade e relações de poder. A responsabilidade é sempre do indivíduo, nunca das estruturas que organizam sua existência.
A contradição se torna ainda mais evidente quando observamos a classe média brasileira. Acostumada a encontrar no diploma, na profissão e no consumo elementos de distinção social, ela passa a enfrentar um mercado de trabalho que já não oferece as mesmas garantias de estabilidade e ascensão. O diploma permanece na parede, o cargo profissional é estampado no LinkedIn, mas a segurança econômica que deveria acompanhar essas conquistas se torna cada vez mais incerta.
E, em vez de reconhecer nessa precarização uma condição que a aproxima dos demais trabalhadores, parte da classe média insiste em preservar a distância simbólica que acredita separá-la deles. A ampliação do acesso à universidade, a conquista de direitos ou a ascensão dos mais pobres, costumeiramente, são percebidas como ameaças ao próprio prestígio. Afinal, de que vale ocupar uma posição privilegiada se aqueles que antes estavam excluídos começam a frequentar os mesmos espaços?
O resultado disso soa como uma inversão bastante reveladora. O trabalhador que perde garantias encontra no trabalhador que conquista direitos um adversário, enquanto continua a reconhecer naquele que controla o capital um modelo de sucesso. A disputa se desloca das relações entre capital e trabalho para uma competição entre pessoas que, apesar das diferenças reais de renda e prestígio, compartilham a dependência do próprio trabalho. E, assim, a classe média consegue a proeza de se afastar simbolicamente de sua condição de classe sem jamais conseguir escapar materialmente dela.
A história eleitoral brasileira oferece exemplos bastante reveladores dessa contradição. Desde a redemocratização, a classe média esteve longe de constituir um bloco político homogêneo. Mas, especialmente a partir das eleições de 2006, quando Lula consolidou seu apoio eleitoral entre os segmentos de menor renda, parcelas da classe média e dos estratos superiores passaram a se identificar mais fortemente com candidaturas de oposição ao PT. Esse movimento assumiu novas configurações nas eleições seguintes e encontrou, na ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, uma expressão particularmente significativa da combinação entre conservadorismo moral, antipetismo e liberalismo econômico.
Evidentemente, ninguém vota apenas de acordo com sua posição nas relações de produção. Religião, segurança pública, valores morais e experiências individuais também orientam escolhas políticas. Mas há uma ironia difícil de ignorar quando trabalhadores assalariados defendem a flexibilização de direitos, profissionais precarizados celebram a ausência de vínculo empregatício como liberdade e pequenos empresários se identificam com os interesses de grandes grupos econômicos que, não raramente, também os pressionam na estrutura social.
É justamente aí que a ideologia encontra terreno fértil. A liberdade de quem controla o capital passa a ser confundida com a liberdade de quem precisa vender sua força de trabalho. Parte da classe média, ao incorporar como seus os interesses daqueles que ocupam posições superiores na estrutura econômica, acaba por defender relações que também sustentam sua própria subordinação. Em outras palavras, ela trabalha como assalariada, consome como classe média e, em determinadas circunstâncias, imagina o mundo como burguesa.
Eis então a grande contradição! Parte da classe média teme perder o lugar que ocupa, mas dirige sua hostilidade a quem tenta alcançá-lo, não a quem controla as condições de acesso a ele. O trabalhador mais pobre se transforma em concorrente, enquanto o grande empresário, em referência de sucesso. E o conflito que poderia revelar interesses compartilhados entre trabalhadores acaba reorganizado como uma disputa por quem merece permanecer alguns degraus acima dos demais.
É nessa antítese que podemos tentar entender a classe média através de uma posição particularmente perversa: a de vítima e algoz. Vítima porque se ilude com a ideia de pertencer à burguesia, confundindo determinados privilégios e sinais de prestígio com a posse efetiva do capital. Afinal, integrar uma elite econômica ou intelectual não significa, necessariamente, pertencer à classe que controla os meios de produção. E a própria burguesia se encarrega de estabelecer os limites dessa identificação, sobretudo quando o emprego desaparece e a renda deixa de sustentar a aparência de pertencimento.
Algoz porque, mesmo submetida a essa relação de dependência, parte da classe média reproduz as hierarquias que a subordinam, oprime os trabalhadores que ocupam posições inferiores e transforma a própria insegurança em instrumento de exclusão. Ela não consegue ser reconhecida por aqueles a quem deseja se igualar, mas insiste em negar o reconhecimento àqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Por essa via de análise, é possível concluir também que a inocência deixa de ser uma questão de desconhecimento. Afinal, reconhecer a própria condição de classe não significa, necessariamente, desejar transformar as relações que a sustentam, sobretudo quando determinados privilégios dependem da permanência de outros trabalhadores em posições inferiores.
Talvez, por isso, o poema de Drummond permaneça tão atual. O navio chegou, o mundo mudou, as relações de trabalho se transformaram, mas os inocentes continuam ocupados demais para perceber o que acontece além da praia. Afinal, reconhecer a própria vulnerabilidade exige um esforço consideravelmente maior do que preservar a confortável ilusão de pertencimento à classe dominante.
Ainda assim, parte dessa classe prefere responsabilizar aqueles que estão abaixo na hierarquia social por uma insegurança que não foi produzida por eles. O problema nunca parece estar nas relações econômicas que a subordinam, mas no trabalhador que conquistou direitos, no pobre que ingressou na universidade ou naquele que passou a frequentar espaços antes reservados a poucos. A classe média teme perder seus privilégios, mas, frequentemente, se incomoda mais com quem começa a conquistá-los do que com quem efetivamente controla sua distribuição.
Retomemos então a alienação nas relações de trabalho, tal como discutida por Marx. Se as condições materiais de existência contribuem para moldar a maneira como os sujeitos compreendem a si mesmos e o mundo, isso não os isenta de participar da reprodução das relações que os subordinam. A classe média pode ser alienada em sua condição de trabalhadora e, ao mesmo tempo, encontrar na preservação das desigualdades uma forma de sustentar seus próprios privilégios. Sua inocência, portanto, carrega também uma parcela de responsabilidade.
Em Virgem, de Cícero e Marina, o mundo segue indiferente às nossas expectativas. As coisas não necessitam de nós. Mas, diante dos inocentes de Drummond, a pergunta é outra: por que determinados grupos insistem em agir como se não precisassem compreender o mundo que os cerca?
Há uma diferença considerável entre não perceber a chegada de um navio e construir toda uma visão de mundo para continuar ignorando sua presença. A primeira situação pode ser distração, a segunda já se aproxima bastante de uma conveniência política.
Talvez os inocentes do Leblon não sejam tão inocentes assim. Sua “ingenuidade” também pode ser uma posição social, uma maneira de interpretar a realidade e, sobretudo, de escolher a quem atribuir a responsabilidade pelas próprias contradições.
Afinal, o navio continua chegando. E a areia, para alguns, permanece suficientemente quente para que não seja necessário olhar para o mar.
Anos depois, Cícero contaria que a expressão fazia parte de suas lembranças de infância, quando seu pai costumava chamar assim os filhos que saíam do mar, nas praias cariocas. Uma memória afetiva que, curiosamente, evocava outra vivência, anterior àquela família e à própria canção.
Aqui, recorremos brevemente a Michel Foucault, que, na abertura do seu livro, A ordem do discurso, manifesta o desejo de encontrar uma voz que já o precedesse. De acordo com ele, não inauguramos os discursos que pronunciamos, mas ocupamos lugares em uma trama de sentidos, histórias e relações de poder que existiam muito antes de nós.
Foi o que Antônio Cícero fez convocando Drummond para sua própria lírica? Ao recuperar “os inocentes do Leblon”, a expressão foi realocada para o território da experiência amorosa, onde o mundo continua existindo, indiferente às nossas perdas. Entretanto, o verso original traz consigo uma história menos romântica.
Publicado em 1940, em Sentimento do mundo, o poema de Drummond surge em meio ao avanço do fascismo e à Segunda Guerra Mundial. Nele, os inocentes não percebem a chegada de um navio, não sabem o que transporta, quem chega ou o que acontece para além da praia. Estão ocupados com o calor da areia, o óleo sobre as costas e a tranquilidade de quem pode se dar ao luxo de não olhar para o horizonte. Lá, na cadência proposta pelo poeta, o mundo parece estar em convulsão. O bronzeado, todavia, não pode esperar.
Eis, então, que surge a primeira de muitas perguntas que aqui nos interessa: quem são e será que os inocentes do Leblon são mesmo tão inocentes assim?
Há algo na classe média brasileira que remete continuamente a esses personagens, não exatamente pela localização geográfica, embora o Leblon seja uma metáfora bastante conveniente para pensar os privilégios no Brasil, mas pela relação que determinados segmentos estabelecem com a própria condição de classe.
Isso porque a classe média brasileira parece ter desenvolvido uma extraordinária capacidade de se reconhecer em tudo aquilo que não é. Não é pobre, porque comprou um apartamento financiado. Não é trabalhadora, porque ocupa um cargo de gestão. Não é proletária, porque tem diploma universitário, carro, plano de saúde e, eventualmente, alguém que trabalha em sua casa. Ela também não é burguesa, embora faça um esforço admirável para pensar como se fosse.
A grande ironia é que basta perder o emprego para descobrir que o banco, o condomínio e a operadora do plano de saúde não reconhecem distinções tão sofisticadas – e é justamente nessa contradição que a leitura marxista se torna incontornável.
Para Marx, a alienação está inscrita das e nas próprias relações de trabalho, quando aquele que produz a riqueza não controla plenamente as condições de sua produção. Mas há outra dimensão dessa discussão que nos interessa particularmente, a saber, a maneira como determinadas relações sociais e ideológicas contribuem para que trabalhadores se identifiquem com posições de classe que não ocupam.
É o caso de parcelas da classe média que dependem do próprio salário, mas encontram no diploma, no cargo e no padrão de consumo motivos suficientes para se imaginar mais próximas da burguesia do que dos demais trabalhadores.
Diante disso, podemos inferir que o problema não está em a classe média reconhecer seus privilégios, mas em confundi-los com uma mudança de classe e, nessa confusão, terminar por defender os interesses de quem controla o capital, enquanto se empenha em manter distância daqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Esta maneira de compreender a própria posição social possui uma história, e ela não vem de agora…
A classe média urbana brasileira já existia antes de 1930, mas sua expansão acompanhou as transformações econômicas desencadeadas pela industrialização e pelo crescimento do Estado. A partir da Era Vargas, a reorganização das relações de trabalho, a ampliação do funcionalismo público e o desenvolvimento de ocupações técnicas e administrativas contribuíram para a formação de novos segmentos assalariados. A Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, tornou-se um marco dessa reorganização, embora suas garantias não tenham alcançado todos os trabalhadores da mesma maneira.
Nos anos seguintes, a industrialização, a urbanização e a expansão dos serviços ampliaram essas ocupações. O crescimento econômico durante a ditadura militar também favoreceu determinados segmentos médios, ao mesmo tempo que aprofundou desigualdades e concentrou renda. Bem mais adiante, após o período ditatorial, a redemocratização, a estabilização monetária com o Plano Real e, posteriormente, a ampliação do emprego formal, do crédito e do acesso à educação contribuíram, em momentos distintos, para modificar as condições de vida e as possibilidades de ascensão social.
Embora essa trajetória não tenha sido linear, tampouco universal, ela auxilia na compreensão de como o emprego estável, a formação profissional e o acesso ao consumo se tornaram referências importantes para a identidade de parcelas da classe média brasileira.
Entretanto, o que aqui importa não é reconstituir toda essa história, mas observar o que acontece quando as condições de trabalho que ajudaram a sustentar determinadas expectativas de estabilidade começam a se transformar.
Durante boa parte do século XX, a expansão do trabalho assalariado formal esteve associada, para determinados grupos, à possibilidade de construir uma carreira, acumular patrimônio e projetar alguma segurança para o futuro. A empresa, a instituição pública ou a profissão ofereciam uma referência relativamente estável de pertencimento.
Todavia, é importante registrar que essa estabilidade nunca foi uma experiência generalizada no Brasil. O trabalho doméstico, a informalidade, a desigualdade racial e a precariedade das ocupações rurais permaneceram como características estruturais do mercado de trabalho. Ainda assim, a promessa de uma carreira protegida e de ascensão pela escolarização exerceu enorme influência sobre o imaginário das classes médias urbanas.
Nas últimas décadas, essa promessa passou a conviver com transformações profundas na organização do trabalho.
A flexibilização das relações contratuais, a terceirização, a expansão do trabalho por demanda, a contratação por pessoa jurídica e o crescimento das plataformas digitais modificaram a maneira como empresas e trabalhadores se relacionam. A especialização profissional, antes frequentemente associada à estabilidade, passou a coexistir com vínculos mais instáveis, competição permanente e exigências contínuas de atualização.
O neoliberalismo não inventou a precariedade do trabalho brasileiro – ela é muito anterior a ele, isso é fato –, mas a reorganização econômica e institucional das últimas décadas contribuiu para produzir novas formas de insegurança, inclusive entre profissionais que, historicamente, se percebiam relativamente protegidos.
A Reforma Trabalhista de 2017, durante o governo Temer, é um marco importante desse processo. Ao mesmo tempo, a expansão das plataformas digitais tornou mais visíveis formas de organização do trabalho nas quais a promessa de autonomia convive com mecanismos intensos de controle, dependência econômica e transferência de riscos.
O trabalhador passa a ser estimulado a se perceber como uma empresa de si mesmo. Precisa administrar a própria carreira, investir continuamente em qualificações, construir uma marca pessoal e assumir os riscos de sua inserção profissional. A ausência de estabilidade ganha o nome de liberdade, a perda de garantias vira flexibilidade, e trabalhar cada vez mais passa a ser celebrado como espírito empreendedor. Eis uma das grandes ironias do capitalismo contemporâneo, a de que o trabalhador perde direitos, mas ganha um título de empresário para chamar de seu.
É nesse cenário que a meritocracia cumpre uma função bastante conveniente. O sucesso passa a ser apresentado como resultado exclusivo do esforço individual, enquanto o fracasso é atribuído à incapacidade de acompanhar as exigências do mercado. Pouco importa que as oportunidades continuem profundamente condicionadas pela origem social, escolaridade e relações de poder. A responsabilidade é sempre do indivíduo, nunca das estruturas que organizam sua existência.
A contradição se torna ainda mais evidente quando observamos a classe média brasileira. Acostumada a encontrar no diploma, na profissão e no consumo elementos de distinção social, ela passa a enfrentar um mercado de trabalho que já não oferece as mesmas garantias de estabilidade e ascensão. O diploma permanece na parede, o cargo profissional é estampado no LinkedIn, mas a segurança econômica que deveria acompanhar essas conquistas se torna cada vez mais incerta.
E, em vez de reconhecer nessa precarização uma condição que a aproxima dos demais trabalhadores, parte da classe média insiste em preservar a distância simbólica que acredita separá-la deles. A ampliação do acesso à universidade, a conquista de direitos ou a ascensão dos mais pobres, costumeiramente, são percebidas como ameaças ao próprio prestígio. Afinal, de que vale ocupar uma posição privilegiada se aqueles que antes estavam excluídos começam a frequentar os mesmos espaços?
O resultado disso soa como uma inversão bastante reveladora. O trabalhador que perde garantias encontra no trabalhador que conquista direitos um adversário, enquanto continua a reconhecer naquele que controla o capital um modelo de sucesso. A disputa se desloca das relações entre capital e trabalho para uma competição entre pessoas que, apesar das diferenças reais de renda e prestígio, compartilham a dependência do próprio trabalho. E, assim, a classe média consegue a proeza de se afastar simbolicamente de sua condição de classe sem jamais conseguir escapar materialmente dela.
A história eleitoral brasileira oferece exemplos bastante reveladores dessa contradição. Desde a redemocratização, a classe média esteve longe de constituir um bloco político homogêneo. Mas, especialmente a partir das eleições de 2006, quando Lula consolidou seu apoio eleitoral entre os segmentos de menor renda, parcelas da classe média e dos estratos superiores passaram a se identificar mais fortemente com candidaturas de oposição ao PT. Esse movimento assumiu novas configurações nas eleições seguintes e encontrou, na ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, uma expressão particularmente significativa da combinação entre conservadorismo moral, antipetismo e liberalismo econômico.
Evidentemente, ninguém vota apenas de acordo com sua posição nas relações de produção. Religião, segurança pública, valores morais e experiências individuais também orientam escolhas políticas. Mas há uma ironia difícil de ignorar quando trabalhadores assalariados defendem a flexibilização de direitos, profissionais precarizados celebram a ausência de vínculo empregatício como liberdade e pequenos empresários se identificam com os interesses de grandes grupos econômicos que, não raramente, também os pressionam na estrutura social.
É justamente aí que a ideologia encontra terreno fértil. A liberdade de quem controla o capital passa a ser confundida com a liberdade de quem precisa vender sua força de trabalho. Parte da classe média, ao incorporar como seus os interesses daqueles que ocupam posições superiores na estrutura econômica, acaba por defender relações que também sustentam sua própria subordinação. Em outras palavras, ela trabalha como assalariada, consome como classe média e, em determinadas circunstâncias, imagina o mundo como burguesa.
Eis então a grande contradição! Parte da classe média teme perder o lugar que ocupa, mas dirige sua hostilidade a quem tenta alcançá-lo, não a quem controla as condições de acesso a ele. O trabalhador mais pobre se transforma em concorrente, enquanto o grande empresário, em referência de sucesso. E o conflito que poderia revelar interesses compartilhados entre trabalhadores acaba reorganizado como uma disputa por quem merece permanecer alguns degraus acima dos demais.
É nessa antítese que podemos tentar entender a classe média através de uma posição particularmente perversa: a de vítima e algoz. Vítima porque se ilude com a ideia de pertencer à burguesia, confundindo determinados privilégios e sinais de prestígio com a posse efetiva do capital. Afinal, integrar uma elite econômica ou intelectual não significa, necessariamente, pertencer à classe que controla os meios de produção. E a própria burguesia se encarrega de estabelecer os limites dessa identificação, sobretudo quando o emprego desaparece e a renda deixa de sustentar a aparência de pertencimento.
Algoz porque, mesmo submetida a essa relação de dependência, parte da classe média reproduz as hierarquias que a subordinam, oprime os trabalhadores que ocupam posições inferiores e transforma a própria insegurança em instrumento de exclusão. Ela não consegue ser reconhecida por aqueles a quem deseja se igualar, mas insiste em negar o reconhecimento àqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Por essa via de análise, é possível concluir também que a inocência deixa de ser uma questão de desconhecimento. Afinal, reconhecer a própria condição de classe não significa, necessariamente, desejar transformar as relações que a sustentam, sobretudo quando determinados privilégios dependem da permanência de outros trabalhadores em posições inferiores.
Talvez, por isso, o poema de Drummond permaneça tão atual. O navio chegou, o mundo mudou, as relações de trabalho se transformaram, mas os inocentes continuam ocupados demais para perceber o que acontece além da praia. Afinal, reconhecer a própria vulnerabilidade exige um esforço consideravelmente maior do que preservar a confortável ilusão de pertencimento à classe dominante.
Ainda assim, parte dessa classe prefere responsabilizar aqueles que estão abaixo na hierarquia social por uma insegurança que não foi produzida por eles. O problema nunca parece estar nas relações econômicas que a subordinam, mas no trabalhador que conquistou direitos, no pobre que ingressou na universidade ou naquele que passou a frequentar espaços antes reservados a poucos. A classe média teme perder seus privilégios, mas, frequentemente, se incomoda mais com quem começa a conquistá-los do que com quem efetivamente controla sua distribuição.
Retomemos então a alienação nas relações de trabalho, tal como discutida por Marx. Se as condições materiais de existência contribuem para moldar a maneira como os sujeitos compreendem a si mesmos e o mundo, isso não os isenta de participar da reprodução das relações que os subordinam. A classe média pode ser alienada em sua condição de trabalhadora e, ao mesmo tempo, encontrar na preservação das desigualdades uma forma de sustentar seus próprios privilégios. Sua inocência, portanto, carrega também uma parcela de responsabilidade.
Em Virgem, de Cícero e Marina, o mundo segue indiferente às nossas expectativas. As coisas não necessitam de nós. Mas, diante dos inocentes de Drummond, a pergunta é outra: por que determinados grupos insistem em agir como se não precisassem compreender o mundo que os cerca?
Há uma diferença considerável entre não perceber a chegada de um navio e construir toda uma visão de mundo para continuar ignorando sua presença. A primeira situação pode ser distração, a segunda já se aproxima bastante de uma conveniência política.
Talvez os inocentes do Leblon não sejam tão inocentes assim. Sua “ingenuidade” também pode ser uma posição social, uma maneira de interpretar a realidade e, sobretudo, de escolher a quem atribuir a responsabilidade pelas próprias contradições.
Afinal, o navio continua chegando. E a areia, para alguns, permanece suficientemente quente para que não seja necessário olhar para o mar.
IAs enfeiam a matemática
A matemática está se tornando fascista? Admito que a piada não é das melhores, mas não resisto. A publicação de 370 soluções de problemas matemáticos pela OpenAI, no início de outubro, prenuncia uma era em que o método Monte Carlo, uma espécie de força bruta estatística, prevalecerá sobre as abordagens inspiradas em beleza e elegância que vêm dando o tom das demonstrações desde que a humanidade inventou/descobriu a matemática (cabe ao leitor escolher aqui a palavra que mais lhe agrada) alguns milênios atrás.
Que me perdoem os céticos da IA, mas a essa altura não dá mais para negar que os programas sejam capazes de criar soluções originais para problemas complexos e que o fazem através da força bruta probabilística e estatística, em princípio sem nenhuma consideração para com a dimensão estética.
A pergunta que proponho é se um dia fez sentido associar matemática a beleza. Não me entendam mal, também prefiro a elegantérrima prova de Euclides sobre a infinidade dos números primos a qualquer método fascista, mas será que matemáticos mais idealistas não avançaram o sinal quando começaram a propor que a beleza de uma demonstração fosse também um critério de verdade? O fato de termos nos acostumado a associar os dois elementos provavelmente não passa de um viés de sobrevivência. Como até aqui os matemáticos privilegiaram a produção de provas que julgavam belas, ficamos com a sensação de que as duas coisas andam juntas, mas é perfeitamente possível que haja por aí um número muito maior de verdades matemáticas assustadoramente feias. Há alguns teoremas matemáticos e mesmo modelos da física fortemente sugestivos disso. A elegante supersimetria não desbancou o desengonçado modelo-padrão da física de partículas.
Não penso que o fascismo algorítmico das IAs nos fará aposentar o gosto por demonstrações esteticamente inspiradas, mas saberemos que isso não passa de uma preferência humana, e a matemática ficará mais parecida com a literatura.
Que me perdoem os céticos da IA, mas a essa altura não dá mais para negar que os programas sejam capazes de criar soluções originais para problemas complexos e que o fazem através da força bruta probabilística e estatística, em princípio sem nenhuma consideração para com a dimensão estética.
A pergunta que proponho é se um dia fez sentido associar matemática a beleza. Não me entendam mal, também prefiro a elegantérrima prova de Euclides sobre a infinidade dos números primos a qualquer método fascista, mas será que matemáticos mais idealistas não avançaram o sinal quando começaram a propor que a beleza de uma demonstração fosse também um critério de verdade? O fato de termos nos acostumado a associar os dois elementos provavelmente não passa de um viés de sobrevivência. Como até aqui os matemáticos privilegiaram a produção de provas que julgavam belas, ficamos com a sensação de que as duas coisas andam juntas, mas é perfeitamente possível que haja por aí um número muito maior de verdades matemáticas assustadoramente feias. Há alguns teoremas matemáticos e mesmo modelos da física fortemente sugestivos disso. A elegante supersimetria não desbancou o desengonçado modelo-padrão da física de partículas.
Não penso que o fascismo algorítmico das IAs nos fará aposentar o gosto por demonstrações esteticamente inspiradas, mas saberemos que isso não passa de uma preferência humana, e a matemática ficará mais parecida com a literatura.
Economia, calcanhar de Lula, vira força anti-Flávio. Machado e bolacha Oreo
Em 2022, Lula resgatou a democracia ao derrotar Jair Bolsonaro, que a tratava como estorvo. Em 25 de outubro, preservou-a de novo ao vencer Flávio Bolsonaro por 51,79% a 48,21%. E, de quebra, realizou um feito raro entre os regimes democráticos: obteve a reeleição justamente quando insatisfações as mais diversas têm conduzido a oposição ao poder. Resta a pergunta: como foi possível? Há algo que setores reacionários da imprensa não admitem nem com os números na mão: se o petista quase perdeu porque há descontentamento com a economia, também foi ela a lhe dar a vitória.E concluirei este texto apelando a Machado de Assis e ao modo como se come o biscoito Oreo.
Nos últimos anos, a oposição derrotou o governismo nos EUA (novembro de 2024), na Alemanha (fevereiro de 2025), na Polônia (junho de 2025), na Coreia do Sul (junho de 2025), na Tchéquia (outubro de 2025), na Bolívia (outubro de 2025), nos Países Baixos (outubro de 2025), em Honduras (novembro de 2025), no Chile (dezembro de 2025), na Hungria (abril de 2026), na Colômbia (junho de 2026)… E vai por aí. Houve algumas exceções, às quais se junta o Brasil, mas elas apenas confirmam a tendência.
Thomas Piketty descreveu o fenômeno logo depois da eleição americana. Em 12 de novembro de 2024, no “Le Monde”, sob o título “Partout dans le monde, les gouvernements sortants sont balayés” (“Em todo o mundo, os governos em exercício estão sendo varridos”), ele analisou a vitória de Donald Trump sobre os democratas como parte de uma onda global.
Sustentou que a insatisfação com a inflação, com a estagnação do poder de compra e com o aumento das desigualdades no pós-pandemia produziu uma reação punitiva contra qualquer governante de turno, fosse de esquerda, de centro ou de direita. Os eleitores, afirmou, derrubam sistematicamente quem está no poder porque faltam respostas estruturais e ousadas à crise socioeconômica. Ora, se a onda levou de roldão os democratas, tinha tudo para atingir também um presidente progressista em busca do quarto mandato.
Os analistas apontaram vários fatores para a vitória de Lula: a mobilização da sociedade, a presença forte nas redes, o repúdio à volta de Bolsonaro, a relação multimilionária de Flávio com Daniel Vorcaro, a recusa à tutela de Trump, o engajamento dos estudantes em defesa da Educação e da Saúde, o comparecimento de quem se abstivera no primeiro turno…
Tudo isso é verdade. Mas notem: Lula largou na frente, foi alcançado por Flávio e jamais deixou de estar empatado com o filhote do tiranete, ora evadido. De onde vinha a resiliência do presidente? Não se explica por mágica nem por marketing.
Vejam as conquistas, com números. O rendimento médio do trabalho superou R$ 3,7 mil mensais, recorde do levantamento do IBGE. O desemprego caiu a 5,2% no trimestre até setembro, e o mínimo absoluto, 5,1%, veio no fim de 2025. A pobreza recuou de 27,3% para 23,1% da população entre 2023 e 2024, e a extrema pobreza, de 4,4% para 3,5%: os menores índices já medidos.
Em julho, a FAO confirmou que o país segue fora do Mapa da Fome; pela segunda vez, Lula pôs fim a esse mal. Os programas sociais foram retomados. Só que o brasileiro, endividado por múltiplos fatores, inclusive as bets, esperava mais. Segundo o Banco Central, as dívidas consomem 29% da renda das famílias, o endividamento chegou a 50,1% do rendimento anual, e a inadimplência atingiu a marca mais alta da série, com 6%. Quem está de bolso apertado não vota com uma planilha de indicadores na mão.
Parecia que aqui também se cumpriria o que se vê mundo afora, aquele fenômeno apontado por Piketty: o descontentamento com o custo de vida empurrando o eleitor para o outro lado. Mas a mobilização garantiu que a ficha caísse para a maioria, incluindo os que resolveram votar apenas na etapa decisiva: o que se ganhara até ali corria risco.
Nos últimos anos, a oposição derrotou o governismo nos EUA (novembro de 2024), na Alemanha (fevereiro de 2025), na Polônia (junho de 2025), na Coreia do Sul (junho de 2025), na Tchéquia (outubro de 2025), na Bolívia (outubro de 2025), nos Países Baixos (outubro de 2025), em Honduras (novembro de 2025), no Chile (dezembro de 2025), na Hungria (abril de 2026), na Colômbia (junho de 2026)… E vai por aí. Houve algumas exceções, às quais se junta o Brasil, mas elas apenas confirmam a tendência.
Thomas Piketty descreveu o fenômeno logo depois da eleição americana. Em 12 de novembro de 2024, no “Le Monde”, sob o título “Partout dans le monde, les gouvernements sortants sont balayés” (“Em todo o mundo, os governos em exercício estão sendo varridos”), ele analisou a vitória de Donald Trump sobre os democratas como parte de uma onda global.
Sustentou que a insatisfação com a inflação, com a estagnação do poder de compra e com o aumento das desigualdades no pós-pandemia produziu uma reação punitiva contra qualquer governante de turno, fosse de esquerda, de centro ou de direita. Os eleitores, afirmou, derrubam sistematicamente quem está no poder porque faltam respostas estruturais e ousadas à crise socioeconômica. Ora, se a onda levou de roldão os democratas, tinha tudo para atingir também um presidente progressista em busca do quarto mandato.
Os analistas apontaram vários fatores para a vitória de Lula: a mobilização da sociedade, a presença forte nas redes, o repúdio à volta de Bolsonaro, a relação multimilionária de Flávio com Daniel Vorcaro, a recusa à tutela de Trump, o engajamento dos estudantes em defesa da Educação e da Saúde, o comparecimento de quem se abstivera no primeiro turno…
Tudo isso é verdade. Mas notem: Lula largou na frente, foi alcançado por Flávio e jamais deixou de estar empatado com o filhote do tiranete, ora evadido. De onde vinha a resiliência do presidente? Não se explica por mágica nem por marketing.
Vejam as conquistas, com números. O rendimento médio do trabalho superou R$ 3,7 mil mensais, recorde do levantamento do IBGE. O desemprego caiu a 5,2% no trimestre até setembro, e o mínimo absoluto, 5,1%, veio no fim de 2025. A pobreza recuou de 27,3% para 23,1% da população entre 2023 e 2024, e a extrema pobreza, de 4,4% para 3,5%: os menores índices já medidos.
Em julho, a FAO confirmou que o país segue fora do Mapa da Fome; pela segunda vez, Lula pôs fim a esse mal. Os programas sociais foram retomados. Só que o brasileiro, endividado por múltiplos fatores, inclusive as bets, esperava mais. Segundo o Banco Central, as dívidas consomem 29% da renda das famílias, o endividamento chegou a 50,1% do rendimento anual, e a inadimplência atingiu a marca mais alta da série, com 6%. Quem está de bolso apertado não vota com uma planilha de indicadores na mão.
Parecia que aqui também se cumpriria o que se vê mundo afora, aquele fenômeno apontado por Piketty: o descontentamento com o custo de vida empurrando o eleitor para o outro lado. Mas a mobilização garantiu que a ficha caísse para a maioria, incluindo os que resolveram votar apenas na etapa decisiva: o que se ganhara até ali corria risco.
O pesquisismo infernizou a vida de Lula com a história de que o desagrado com o governo superava a satisfação, quase decretando a derrota. Em 15 de outubro, 10 dias antes do Segundo Turno, o Datafolha registrava 41% de avaliação negativa da gestão contra 35% de positiva, e 50% de rejeição ao trabalho do presidente contra 48% de aprovação.
Esqueceram-se de pôr algo na conta: muitos desaprovavam a administração federal porque queriam mais, não o menos com que Flávio acenava. Ainda que o agora fujão jurasse que nada mudaria no essencial, ficou claro que seu compromisso não era com os mais pobres. Desaprovar a gestão por querer mais é uma coisa; recusá-la para ter menos é outra, e a pesquisa de avaliação não distingue as duas.
Por que esse debate não ocorreu antes, no primeiro turno? Porque a ultradireita e a imprensa deram a impressão de que a eleição se resumia à degola de ministros do Supremo; em 3 de outubro, o bolsonarista concluiu sua pregação eleitoral pedindo um Senado afinado com ele e o impeachment de integrantes da Corte. A campanha só começou no segundo turno. Mas nunca se esqueçam: Lula sempre tangenciou os 50% dos votos, ou pouco mais. Sua reeleição, na contramão do cenário internacional, era uma possibilidade real. E sim: também por causa da economia e dos programas de governo.
Quando avanços importantes ficam sob ameaça, é necessário ajustar o discurso para que se perceba o que se pode perder. E, por óbvio, cabia conectar o adversário com sua biografia. Quem se apresenta como a mudança precisa explicar a quem deve favores e a quem pretende servir.
Em 1992, James Carville, estrategista de Bill Clinton, resumiu a disputa assim: “é a economia, estúpido”. Segue sendo. E a economia caminhou muito melhor sob Lula para todos os setores, e os ricos até ganharam mais: em 2025, segundo o IBGE, a renda dos 10% mais ricos cresceu 8,7%, a do 1% do topo, 9,9%, e a dos 10% mais pobres, 3,1%. Ficou, porém, uma certeza: os pobres compreenderam que o candidato do PL faria o que queriam os bacanas do mercado, e que o corte seria feito na carne deles.
No dia seguinte à vitória de Lula, o dólar disparou 8,21%, a R$ 5,403, e a Bolsa despencou 13,88%. Os derrotados do dia 25 — e “Uzmercáduz” estão entre eles — exigem que Lula anuncie que vai passar o facão nos gastos sociais, algo que até Flávio negava que faria. Eis o busílis: eles sabiam que o candidato da extrema direita estava mentindo quando assegurava que manteria intocados os programas sociais e sabem agora que Lula fala a verdade quando diz que vai mantê-los.
Quanta ousadia! Essa parte dos derrotados exige que Lula aplique, contrariando as promessas que fez aos pobres, aquilo que Flávio faria, em atendimento às juras que fez aos ricos. Ocorre que o filho de Bolsonaro perdeu. E fugiu.
A terra não é plana. Nem a realidade. A economia, fator que quase tirou de Lula a reeleição, foi também o que o salvou. Esperem aí: O QUE NOS SALVOU.
Se depender do “consenso dos economistas” cujas opiniões são publicadas, Lula porá em prática o programa secreto de Flávio, sangrará os pobres e depois passará a faixa para Tarcísio de Freitas, que já foi eleito pela segunda vez o “pré-presidente” do Brasil. Que gente aborrecida!
Pois é… É mais difícil resistir a uma obsessão do que à tentação o elevador de nov quando os que esperam há mais tempo do que você já o fizeram. Machadão, aquele, vocês sabem, foi ao ponto em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Capítulo IV): “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”.
Esqueceram-se de pôr algo na conta: muitos desaprovavam a administração federal porque queriam mais, não o menos com que Flávio acenava. Ainda que o agora fujão jurasse que nada mudaria no essencial, ficou claro que seu compromisso não era com os mais pobres. Desaprovar a gestão por querer mais é uma coisa; recusá-la para ter menos é outra, e a pesquisa de avaliação não distingue as duas.
Por que esse debate não ocorreu antes, no primeiro turno? Porque a ultradireita e a imprensa deram a impressão de que a eleição se resumia à degola de ministros do Supremo; em 3 de outubro, o bolsonarista concluiu sua pregação eleitoral pedindo um Senado afinado com ele e o impeachment de integrantes da Corte. A campanha só começou no segundo turno. Mas nunca se esqueçam: Lula sempre tangenciou os 50% dos votos, ou pouco mais. Sua reeleição, na contramão do cenário internacional, era uma possibilidade real. E sim: também por causa da economia e dos programas de governo.
Quando avanços importantes ficam sob ameaça, é necessário ajustar o discurso para que se perceba o que se pode perder. E, por óbvio, cabia conectar o adversário com sua biografia. Quem se apresenta como a mudança precisa explicar a quem deve favores e a quem pretende servir.
Em 1992, James Carville, estrategista de Bill Clinton, resumiu a disputa assim: “é a economia, estúpido”. Segue sendo. E a economia caminhou muito melhor sob Lula para todos os setores, e os ricos até ganharam mais: em 2025, segundo o IBGE, a renda dos 10% mais ricos cresceu 8,7%, a do 1% do topo, 9,9%, e a dos 10% mais pobres, 3,1%. Ficou, porém, uma certeza: os pobres compreenderam que o candidato do PL faria o que queriam os bacanas do mercado, e que o corte seria feito na carne deles.
No dia seguinte à vitória de Lula, o dólar disparou 8,21%, a R$ 5,403, e a Bolsa despencou 13,88%. Os derrotados do dia 25 — e “Uzmercáduz” estão entre eles — exigem que Lula anuncie que vai passar o facão nos gastos sociais, algo que até Flávio negava que faria. Eis o busílis: eles sabiam que o candidato da extrema direita estava mentindo quando assegurava que manteria intocados os programas sociais e sabem agora que Lula fala a verdade quando diz que vai mantê-los.
Quanta ousadia! Essa parte dos derrotados exige que Lula aplique, contrariando as promessas que fez aos pobres, aquilo que Flávio faria, em atendimento às juras que fez aos ricos. Ocorre que o filho de Bolsonaro perdeu. E fugiu.
A terra não é plana. Nem a realidade. A economia, fator que quase tirou de Lula a reeleição, foi também o que o salvou. Esperem aí: O QUE NOS SALVOU.
Se depender do “consenso dos economistas” cujas opiniões são publicadas, Lula porá em prática o programa secreto de Flávio, sangrará os pobres e depois passará a faixa para Tarcísio de Freitas, que já foi eleito pela segunda vez o “pré-presidente” do Brasil. Que gente aborrecida!
Pois é… É mais difícil resistir a uma obsessão do que à tentação o elevador de nov quando os que esperam há mais tempo do que você já o fizeram. Machadão, aquele, vocês sabem, foi ao ponto em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Capítulo IV): “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”.
Reinaldo Azevedo
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Quanta gente escrevendo e falando nestes dias tinha e ainda tem um argueiro no olho e uma trave nas mãos! Aos obsedados — trata-se quase de uma possessão do espírito — pela “terceira via” e pela destruição do PT, uma sugestão de terapia: resistir à tentação de estourar as bolotas do plástico-bolha, de lamber o alumínio da embalagem de iogurte quando ninguém está olhando e de separar as duas partes do biscoito Oreo para desfrutar de modo quase lúbrico do recheio. Vai que funcione…
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Quanta gente escrevendo e falando nestes dias tinha e ainda tem um argueiro no olho e uma trave nas mãos! Aos obsedados — trata-se quase de uma possessão do espírito — pela “terceira via” e pela destruição do PT, uma sugestão de terapia: resistir à tentação de estourar as bolotas do plástico-bolha, de lamber o alumínio da embalagem de iogurte quando ninguém está olhando e de separar as duas partes do biscoito Oreo para desfrutar de modo quase lúbrico do recheio. Vai que funcione…
Comandante Janones
A receita do mágico André Janones para vencer as eleições brasileiras é uma massa de “soldados digitais” prontos para executar, de forma imediata e coordenada, as ordens recebidas via Telegram e WhatsApp. Seus dois mandamentos são: amplificar as postagens do seu próprio lado e jamais interagir com as do adversário, nem mesmo para corrigir a desinformação. “Repreenda severamente os soldados que se comportarem dessa maneira”, diz seu Mini-Manual de Insurgência Informacional, disponível online em diversos idiomas. “As missões devem ser claras para que a militância seja gamificada e fácil de executar.”
Janones pede aos participantes, “especialmente se forem de esquerda ou progressistas”, que suspendam momentaneamente sua “consciência crítica”, mesmo que discordem de seus critérios estéticos ou intelectuais, porque eles não são mais “o sujeito autônomo do Iluminismo, mas um nó de amplificação em uma rede de comunicação coordenada que busca hegemonia online”. Todas as hashtags , memes e vídeos gerados por IA são coordenados pelo comando central e distribuídos de forma sincronizada para criar um efeito de amplificação. “É necessário inundar as redes com materiais políticos em imagens ou vídeos com toda a estética possível”, incluindo a da IA. Steve Bannon chama isso de inundar a zona.
Janones colocou as táticas de mobilização digital da extrema-direita a serviço da esquerda. “Ele é o nosso Luthen Rael”, disse um usuário do Reddit, referindo-se ao revolucionário que usa os métodos obscuros do inimigo em Andor , a mais recente série de Star Wars . Os métodos funcionam. O janonismo conseguiu angariar 11 milhões de novos votos em três semanas, apesar dos “erros técnicos” da Meta que sempre favoreceram a oposição . Sua estratégia salvou a pele política de Lula e o Brasil de um destino pior, mas ele não conseguirá se integrar ao governo sem transformá-lo. “Vou falar com vocês através do Exército Janones”, disse Lula na euforia da vitória. “Agora o velho estará aqui com o celular na mão, dando ordens diretas.” Esperemos que seja uma piada. As armas do império nunca servirão para desmantelar o Império. Elas sempre acabam destruindo o que queremos proteger.
Existe outro caminho para a vitória: o que o movimento estudantil sérvio trilhou durante dois anos, formando seu próprio partido e vencendo as eleições com maioria absoluta no mesmo dia que o Brasil. Foi uma longa jornada de marchas e conversas com pessoas fora das cidades, incluindo comunidades rurais onde nem o algoritmo nem os partidos jamais haviam chegado. Envolveu aprender a bloquear infraestruturas de forma organizada, com guardas, comida, assistência médica e cozinhas em suas próprias universidades, antes de intensificar os protestos nas principais vias de Belgrado . Envolveu também aprender a se proteger da intimidação, das agressões e dos maus-tratos por parte de policiais fardados e à paisana, documentados pela Anistia Internacional e pela Human Rights Watch.
Eles escolheram um caminho fora dos partidos tradicionais, sem ajuda ou aconselhamento de instituições dentro e fora da Sérvia, incluindo a Europa, a China, a Rússia e os EUA. Criaram seu partido por meio de uma votação na assembleia, uma lista de 111 mulheres e 139 homens, acadêmicos e profissionais dos três setores mais negligenciados na Sérvia: informática, saúde e educação. Não teriam conseguido 11 milhões de votos em três semanas, mas foram capazes de derrubar o regime sem depender das redes sociais, mesmo quando nenhum outro veículo de comunicação lhes dava atenção.
Janones pede aos participantes, “especialmente se forem de esquerda ou progressistas”, que suspendam momentaneamente sua “consciência crítica”, mesmo que discordem de seus critérios estéticos ou intelectuais, porque eles não são mais “o sujeito autônomo do Iluminismo, mas um nó de amplificação em uma rede de comunicação coordenada que busca hegemonia online”. Todas as hashtags , memes e vídeos gerados por IA são coordenados pelo comando central e distribuídos de forma sincronizada para criar um efeito de amplificação. “É necessário inundar as redes com materiais políticos em imagens ou vídeos com toda a estética possível”, incluindo a da IA. Steve Bannon chama isso de inundar a zona.
Janones colocou as táticas de mobilização digital da extrema-direita a serviço da esquerda. “Ele é o nosso Luthen Rael”, disse um usuário do Reddit, referindo-se ao revolucionário que usa os métodos obscuros do inimigo em Andor , a mais recente série de Star Wars . Os métodos funcionam. O janonismo conseguiu angariar 11 milhões de novos votos em três semanas, apesar dos “erros técnicos” da Meta que sempre favoreceram a oposição . Sua estratégia salvou a pele política de Lula e o Brasil de um destino pior, mas ele não conseguirá se integrar ao governo sem transformá-lo. “Vou falar com vocês através do Exército Janones”, disse Lula na euforia da vitória. “Agora o velho estará aqui com o celular na mão, dando ordens diretas.” Esperemos que seja uma piada. As armas do império nunca servirão para desmantelar o Império. Elas sempre acabam destruindo o que queremos proteger.
Existe outro caminho para a vitória: o que o movimento estudantil sérvio trilhou durante dois anos, formando seu próprio partido e vencendo as eleições com maioria absoluta no mesmo dia que o Brasil. Foi uma longa jornada de marchas e conversas com pessoas fora das cidades, incluindo comunidades rurais onde nem o algoritmo nem os partidos jamais haviam chegado. Envolveu aprender a bloquear infraestruturas de forma organizada, com guardas, comida, assistência médica e cozinhas em suas próprias universidades, antes de intensificar os protestos nas principais vias de Belgrado . Envolveu também aprender a se proteger da intimidação, das agressões e dos maus-tratos por parte de policiais fardados e à paisana, documentados pela Anistia Internacional e pela Human Rights Watch.
Eles escolheram um caminho fora dos partidos tradicionais, sem ajuda ou aconselhamento de instituições dentro e fora da Sérvia, incluindo a Europa, a China, a Rússia e os EUA. Criaram seu partido por meio de uma votação na assembleia, uma lista de 111 mulheres e 139 homens, acadêmicos e profissionais dos três setores mais negligenciados na Sérvia: informática, saúde e educação. Não teriam conseguido 11 milhões de votos em três semanas, mas foram capazes de derrubar o regime sem depender das redes sociais, mesmo quando nenhum outro veículo de comunicação lhes dava atenção.
terça-feira, 3 de novembro de 2026
O espelho da autocracia: o crepúsculo de Trump e o rastro dos Bolsonaro
As portas da Argentina governada por Javier Milei, “El Loco”, estão abertas para Donald Trump caso ele queira abandonar o cargo de presidente dos Estados Unidos e fugir para outro país. Mas fuga é coisa para os Bolsonaro, pai e filhos. Ou para líderes de regimes autoritários que temem ser justiçados pelo seu próprio povo depois de anos ou décadas de arbítrio e de má governança.
A confirmar-se, hoje ou nos próximos dias, o que os americanos chamam de “onda azul” — a recuperação pelo Partido Democrata da maioria da Câmara dos Deputados e do Senado —, o mais provável é que Trump não reconheça os resultados das eleições, alegando que elas foram fraudadas. Quando derrotado pelo democrata Joe Biden em 2020, foi o que ele fez.
Trump tem vocação de ditador, assim como Jair, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. A vocação de Flávio, o falso Bolsonaro “moderado e vacinado”, é a de acumulador de dinheiro e frequentador de festinhas íntimas patrocinadas por quem queira agradá-lo e, por tabela, à sua família.
Nos Estados Unidos, um candidato condenado pode concorrer à Presidência. Aqui, não. Flávio foi o primeiro candidato da história do Brasil, investigado por crimes, que disputou o mais alto cargo público deste país. Depois de ter vencido o primeiro turno, comportou-se como se tivesse sido eleito. Dedicou-se à montagem prévia do seu futuro governo, mas subestimou a formação da “onda vermelha”, imaginando que ela não seria tão gigantesca como parecia. Ao se dar conta, já era tarde.
Esse risco, Trump não corre. Ninguém melhor do que ele sabe o que se avizinha. É pouco provável que os resultados completos da votação nos 50 estados americanos sejam conhecidos até a virada de terça para quarta-feira. Especialistas afirmam que, por diferentes motivos, pode levar dias ou até semanas para que os resultados sejam definidos em estados como Maine, Alasca, Arizona e Califórnia.
Parte dos atrasos está relacionada ao enorme número de eleitores, enquanto outros decorrem de desafios geográficos ou de regras específicas de cada estado sobre quando as cédulas enviadas pelo correio podem ser recebidas e contabilizadas. Maine e Alasca, por exemplo, utilizam um sistema de votação por escolha ranqueada, com uma segunda rodada de apuração, e as urnas não são eletrônicas.
Enfim, Trump terá muito tempo pela frente para prestar contas aos que ainda o apoiam, distribuir acusações sem provas e prometer reagir à altura de sua infelicidade. De resto, e se os institutos de pesquisa falharem em suas previsões como os daqui falharam ao apostar na vitória de Flávio? E se, ao fim e ao cabo, a “onda azul” democrata não for tão azul como se anuncia?
Segue de pé a oferta feita por Trump de uma recompensa de US$ 1 milhão por informações que levem a uma condenação por fraude eleitoral. Em resposta às alegações infundadas dele sobre problemas na votação e à sua campanha para exercer maior controle federal sobre as eleições estaduais, as autoridades se prepararam para possíveis cenários catastróficos em que o governo federal tente intervir no processo eleitoral.
A confirmar-se, hoje ou nos próximos dias, o que os americanos chamam de “onda azul” — a recuperação pelo Partido Democrata da maioria da Câmara dos Deputados e do Senado —, o mais provável é que Trump não reconheça os resultados das eleições, alegando que elas foram fraudadas. Quando derrotado pelo democrata Joe Biden em 2020, foi o que ele fez.
Trump tem vocação de ditador, assim como Jair, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. A vocação de Flávio, o falso Bolsonaro “moderado e vacinado”, é a de acumulador de dinheiro e frequentador de festinhas íntimas patrocinadas por quem queira agradá-lo e, por tabela, à sua família.
Nos Estados Unidos, um candidato condenado pode concorrer à Presidência. Aqui, não. Flávio foi o primeiro candidato da história do Brasil, investigado por crimes, que disputou o mais alto cargo público deste país. Depois de ter vencido o primeiro turno, comportou-se como se tivesse sido eleito. Dedicou-se à montagem prévia do seu futuro governo, mas subestimou a formação da “onda vermelha”, imaginando que ela não seria tão gigantesca como parecia. Ao se dar conta, já era tarde.
Esse risco, Trump não corre. Ninguém melhor do que ele sabe o que se avizinha. É pouco provável que os resultados completos da votação nos 50 estados americanos sejam conhecidos até a virada de terça para quarta-feira. Especialistas afirmam que, por diferentes motivos, pode levar dias ou até semanas para que os resultados sejam definidos em estados como Maine, Alasca, Arizona e Califórnia.
Parte dos atrasos está relacionada ao enorme número de eleitores, enquanto outros decorrem de desafios geográficos ou de regras específicas de cada estado sobre quando as cédulas enviadas pelo correio podem ser recebidas e contabilizadas. Maine e Alasca, por exemplo, utilizam um sistema de votação por escolha ranqueada, com uma segunda rodada de apuração, e as urnas não são eletrônicas.
Enfim, Trump terá muito tempo pela frente para prestar contas aos que ainda o apoiam, distribuir acusações sem provas e prometer reagir à altura de sua infelicidade. De resto, e se os institutos de pesquisa falharem em suas previsões como os daqui falharam ao apostar na vitória de Flávio? E se, ao fim e ao cabo, a “onda azul” democrata não for tão azul como se anuncia?
Segue de pé a oferta feita por Trump de uma recompensa de US$ 1 milhão por informações que levem a uma condenação por fraude eleitoral. Em resposta às alegações infundadas dele sobre problemas na votação e à sua campanha para exercer maior controle federal sobre as eleições estaduais, as autoridades se prepararam para possíveis cenários catastróficos em que o governo federal tente intervir no processo eleitoral.
A Primavera brasileira
Em Brasília, a seca costuma terminar com os ipês. Depois de meses, árvores que pareciam mortas se cobrem de amarelo, roxo e rosa quase de uma hora para outra, como se a Primavera no cerrado não soubesse chegar devagar.
Algo parecido aconteceu em 25 de outubro. Lula havia terminado o primeiro turno atrás, com 45,16% dos votos válidos contra 47,03% de Flávio Bolsonaro, e três semanas depois saiu das urnas com 51,79%. Desde a criação do segundo turno, em 1989, nenhum candidato à Presidência tinha conseguido virar uma eleição. Enquanto o processo eleitoral avançava, um gesto simples, o polegar e o indicador formando um L, se espalhava pelas ruas, pelas janelas dos ônibus e pelas fotos de perfil.
A comparação com a Primavera Árabe aparece de forma espontânea, mas pede cuidado. Em 2011, tunisianos e egípcios ocuparam as ruas para derrubar ditaduras, enquanto no Brasil a sociedade recorreu às próprias regras da democracia para protegê-la, sem ruptura, nas ruas e pelo voto.
A cientista política Marina Lacerda, uma das autoras de Cartografia da extrema direita, ajuda a entender o que estava em jogo. Ela mostra que a extrema direita brasileira cresceu ao combinar um conservadorismo moral, centrado na família e na religião, com o liberalismo econômico, e que esse projeto se alimenta das crises da democracia e do esgotamento das promessas neoliberais, amplificados pelas plataformas digitais. Enfrentá-lo exige compreendê-lo, sem atalhos nem simplificações. A Primavera brasileira nasceu desse enfrentamento, como uma primavera de defesa, a partir de uma necessidade real e legítima de uma população que viu a extrema direita avançar sobre direitos, sobre instituições e sobre a convivência entre brasileiros.
O nome, aliás, já tinha sido usado em junho de 2013. Aquela energia era genuína, mas difusa e sem canal, e acabou disputada por agendas que pouco tinham a ver com sua origem. Desta vez a mobilização encontrou um caminho.
Parte desse caminho explodiu pelo celular. Numa live com o deputado André Janones, Lula chamou seus apoiadores de exército, um exército que constrói e não destrói. O canal Exército do Lula, criado por Janones no WhatsApp, passou dos 10 milhões de participantes e se tornou o segundo maior do aplicativo no país. Era um exército sem farda e sem fuzil, cujos soldados trabalharam com hashtags e conversa de porta em porta, nas redes sociais e mensagens estratégicas no grupo da família.
A batalha também teve frentes fora do país. Houve quem acompanhasse de longe e apostasse alto no resultado, com apoio declarado, promessas, recursos e atenção voltada para as riquezas do país. Houve ainda os algoritmos, que nunca são neutros e decidem em silêncio quem será ouvido, num ambiente em que as grandes empresas de tecnologia lucram com o engajamento que o ódio produz. Mesmo assim, o resultado foi diverso.
O gesto ajudou. Movimentos deste tempo se espalham menos por estruturas formais e mais por símbolos simples, que cada pessoa reproduz a seu modo, e o L não custa nada, não pede filiação nem cartaz. Basta levantar a mão para fazer parte. A ideia já atravessa fronteiras e começa a ser levada a outros países onde o avanço da extrema direita é uma ameaça concreta.
Levantaram essa mão, sobretudo, aqueles que mais perdem quando a democracia se desgasta. Mulheres negras, que sustentam tantas famílias brasileiras, idosos que dependem da aposentadoria e do SUS, povos indígenas e comunidades tradicionais, que defendem seus territórios e sua sobrevivência, a população LGBTQIA+, que ainda luta pelo direito de existir em paz e a juventude que expõe sua energia e seus ideais. A primavera depende dessas pessoas e precisa falar com elas.
A Primavera Árabe deixou uma lição dura. Quase todas as revoluções de 2011 terminaram em inverno, e mesmo a Tunísia, que chegou a fazer a transição, não conseguiu sustentá-la. Primaveras se apagam quando a energia das ruas volta para casa e a política volta a ser assunto de poucos, e duram quando se convertem em participação social, com conselhos que funcionam, escuta da sociedade civil, direitos que saem do papel e um governo que presta contas e governa, inclusive para quem votou contra.
Algo parecido aconteceu em 25 de outubro. Lula havia terminado o primeiro turno atrás, com 45,16% dos votos válidos contra 47,03% de Flávio Bolsonaro, e três semanas depois saiu das urnas com 51,79%. Desde a criação do segundo turno, em 1989, nenhum candidato à Presidência tinha conseguido virar uma eleição. Enquanto o processo eleitoral avançava, um gesto simples, o polegar e o indicador formando um L, se espalhava pelas ruas, pelas janelas dos ônibus e pelas fotos de perfil.
A comparação com a Primavera Árabe aparece de forma espontânea, mas pede cuidado. Em 2011, tunisianos e egípcios ocuparam as ruas para derrubar ditaduras, enquanto no Brasil a sociedade recorreu às próprias regras da democracia para protegê-la, sem ruptura, nas ruas e pelo voto.
A cientista política Marina Lacerda, uma das autoras de Cartografia da extrema direita, ajuda a entender o que estava em jogo. Ela mostra que a extrema direita brasileira cresceu ao combinar um conservadorismo moral, centrado na família e na religião, com o liberalismo econômico, e que esse projeto se alimenta das crises da democracia e do esgotamento das promessas neoliberais, amplificados pelas plataformas digitais. Enfrentá-lo exige compreendê-lo, sem atalhos nem simplificações. A Primavera brasileira nasceu desse enfrentamento, como uma primavera de defesa, a partir de uma necessidade real e legítima de uma população que viu a extrema direita avançar sobre direitos, sobre instituições e sobre a convivência entre brasileiros.
O nome, aliás, já tinha sido usado em junho de 2013. Aquela energia era genuína, mas difusa e sem canal, e acabou disputada por agendas que pouco tinham a ver com sua origem. Desta vez a mobilização encontrou um caminho.
Parte desse caminho explodiu pelo celular. Numa live com o deputado André Janones, Lula chamou seus apoiadores de exército, um exército que constrói e não destrói. O canal Exército do Lula, criado por Janones no WhatsApp, passou dos 10 milhões de participantes e se tornou o segundo maior do aplicativo no país. Era um exército sem farda e sem fuzil, cujos soldados trabalharam com hashtags e conversa de porta em porta, nas redes sociais e mensagens estratégicas no grupo da família.
A batalha também teve frentes fora do país. Houve quem acompanhasse de longe e apostasse alto no resultado, com apoio declarado, promessas, recursos e atenção voltada para as riquezas do país. Houve ainda os algoritmos, que nunca são neutros e decidem em silêncio quem será ouvido, num ambiente em que as grandes empresas de tecnologia lucram com o engajamento que o ódio produz. Mesmo assim, o resultado foi diverso.
O gesto ajudou. Movimentos deste tempo se espalham menos por estruturas formais e mais por símbolos simples, que cada pessoa reproduz a seu modo, e o L não custa nada, não pede filiação nem cartaz. Basta levantar a mão para fazer parte. A ideia já atravessa fronteiras e começa a ser levada a outros países onde o avanço da extrema direita é uma ameaça concreta.
Levantaram essa mão, sobretudo, aqueles que mais perdem quando a democracia se desgasta. Mulheres negras, que sustentam tantas famílias brasileiras, idosos que dependem da aposentadoria e do SUS, povos indígenas e comunidades tradicionais, que defendem seus territórios e sua sobrevivência, a população LGBTQIA+, que ainda luta pelo direito de existir em paz e a juventude que expõe sua energia e seus ideais. A primavera depende dessas pessoas e precisa falar com elas.
A Primavera Árabe deixou uma lição dura. Quase todas as revoluções de 2011 terminaram em inverno, e mesmo a Tunísia, que chegou a fazer a transição, não conseguiu sustentá-la. Primaveras se apagam quando a energia das ruas volta para casa e a política volta a ser assunto de poucos, e duram quando se convertem em participação social, com conselhos que funcionam, escuta da sociedade civil, direitos que saem do papel e um governo que presta contas e governa, inclusive para quem votou contra.
segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Para a minha filha, deixarei a democracia!
Minha filha,
Na madrugada de 25 de outubro, a polícia avançou sobre as pessoas acampadas no Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, em protesto pelo direito à habitação. Houve bastonadas, cães, feridos e detenções. A PSP invocou a necessidade de repor a legalidade. Mas não podemos deixar de perguntar o que acontece a uma democracia quando quem reclama direitos acaba a enfrentar a força do Estado.
Foi a pensar em ti que vi estas imagens. No mundo em que vais nascer. Na facilidade com que nos habituamos a ver direitos postos em causa, governos a aprovarem medidas regressivas e pessoas tratadas como um problema quando tentam denunciar os problemas que não se conseguem resolver.
Porque a habitação também é uma questão de liberdade feminina. É difícil falar de igualdade quando uma mulher não tem condições económicas para sair de uma relação abusiva, quando a precariedade a obriga a adiar a maternidade ou quando a falta de uma casa lhe retira a possibilidade de construir uma vida autónoma. Sem independência económica e sem um lugar seguro a que possa chamar seu, a liberdade de uma mulher pode existir na lei e faltar-lhe na vida.
E este é um dos meus medos, minha filha. Porque serei mãe de uma menina. Porque tu és metade do mundo e não quero que passes a vida a lutar para conquistar aquilo que deveria ser teu: o direito a escolher, a dizer não, a ocupar o teu lugar e a decidir o teu próprio destino.
Assusta-me deixar-te um mundo onde ser mulher ainda signifique ter de provar mais, aceitar menos e resistir sempre. Onde os direitos conquistados pelas mulheres não sejam garantias, mas batalhas que cada geração tem de voltar a travar.
É também por isso que a democracia importa. Não se resume ao voto, nem se mede apenas pela legalidade das decisões de quem governa. Mede-se na capacidade de proteger a dignidade humana, de permitir o protesto e de garantir que ninguém tem de escolher entre a sua segurança, a sua liberdade e o direito a viver com dignidade.
Minha filha, não quero deixar-te um mundo perfeito. Quero deixar-te um mundo onde não precises de pedir licença para ser livre, nem de conquistar todos os dias o direito a ter direitos.
Que herdes a coragem das mulheres que vieram antes de ti, mas não a obrigação de travar eternamente as mesmas batalhas.
Que tenhas uma casa onde possas ser livre, uma voz que possas usar sem medo e uma democracia que não te peça silêncio em troca de segurança.
Talvez seja essa a responsabilidade maior de te amar: não aceitar como inevitável o mundo que te deixo.
Na madrugada de 25 de outubro, a polícia avançou sobre as pessoas acampadas no Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, em protesto pelo direito à habitação. Houve bastonadas, cães, feridos e detenções. A PSP invocou a necessidade de repor a legalidade. Mas não podemos deixar de perguntar o que acontece a uma democracia quando quem reclama direitos acaba a enfrentar a força do Estado.
Foi a pensar em ti que vi estas imagens. No mundo em que vais nascer. Na facilidade com que nos habituamos a ver direitos postos em causa, governos a aprovarem medidas regressivas e pessoas tratadas como um problema quando tentam denunciar os problemas que não se conseguem resolver.
Porque a habitação também é uma questão de liberdade feminina. É difícil falar de igualdade quando uma mulher não tem condições económicas para sair de uma relação abusiva, quando a precariedade a obriga a adiar a maternidade ou quando a falta de uma casa lhe retira a possibilidade de construir uma vida autónoma. Sem independência económica e sem um lugar seguro a que possa chamar seu, a liberdade de uma mulher pode existir na lei e faltar-lhe na vida.
E este é um dos meus medos, minha filha. Porque serei mãe de uma menina. Porque tu és metade do mundo e não quero que passes a vida a lutar para conquistar aquilo que deveria ser teu: o direito a escolher, a dizer não, a ocupar o teu lugar e a decidir o teu próprio destino.
Assusta-me deixar-te um mundo onde ser mulher ainda signifique ter de provar mais, aceitar menos e resistir sempre. Onde os direitos conquistados pelas mulheres não sejam garantias, mas batalhas que cada geração tem de voltar a travar.
É também por isso que a democracia importa. Não se resume ao voto, nem se mede apenas pela legalidade das decisões de quem governa. Mede-se na capacidade de proteger a dignidade humana, de permitir o protesto e de garantir que ninguém tem de escolher entre a sua segurança, a sua liberdade e o direito a viver com dignidade.
Minha filha, não quero deixar-te um mundo perfeito. Quero deixar-te um mundo onde não precises de pedir licença para ser livre, nem de conquistar todos os dias o direito a ter direitos.
Que herdes a coragem das mulheres que vieram antes de ti, mas não a obrigação de travar eternamente as mesmas batalhas.
Que tenhas uma casa onde possas ser livre, uma voz que possas usar sem medo e uma democracia que não te peça silêncio em troca de segurança.
Talvez seja essa a responsabilidade maior de te amar: não aceitar como inevitável o mundo que te deixo.
Novo coquetel Molotov
O perigo da IA cruzado com a extrema-direita, que não tem limites morais, a ambição desmesurada dos financiadores, dos construtores de armas, que estão a fazer fortunas extraordinárias com o que se passa no mundo, está a criar um inimigo que não conseguimos combater
Alberto Manguel
Alberto Manguel
Bolsonaristas enrolam jornais com roteiro típico de Steve Bannon
"O jornalista precisa investigar. Ficar ouvindo fontes sem apurar é burrice. Flávio Bolsonaro não fugiu sozinho, a imprensa ajudou." A mensagem de um leitor resume outras manifestações críticas ao que teria sido o papel dos veículos de comunicação na estratégia montada para que o senador do PL saísse do Brasil, após a Polícia Federal pedir e o ministro Alexandre de Moraes permitir a apreensão do passaporte do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial.
Se alguém não seguiu os fatos, aí vai: tudo começou à 1h da madrugada da terça-feira, quando o site argentino Infobae afirmou que Flávio partiria para os EUA em um jato particular que decolaria às 2h de Porto Iguaçu. A partir daí, a fuga e algumas histórias sobre a fuga se desenrolaram paralelamente.
Logo nas primeiras horas do "Big Brother Flávio", o coordenador da campanha presidencial, o senador Rogério Marinho (PL-RN), negou que o candidato tivesse deixado o país. Um piloto afirmou à Folha que Flávio estaria na lista de passageiros do avião das 2h. Aliados do senador declararam que ele havia fugido do Brasil para a Flórida e a PF estaria fazendo rastreamento nos pontos de fronteira "para verificar se a informação é verdadeira".
Cerca de duas horas depois, outro texto do jornal cravava que Flávio "já" estaria "a caminho" dos EUA e que o nome na lista da madrugada era "um despiste".
Já à 1h02 da quarta (28), a Folha noticiou que Flávio "estava escondido na Argentina e acaba de decolar para os EUA, diz canal argentino", atribuindo a informação ao canal de TV C5N. Às 2h06, porém, publicou que ele já estaria desembarcando nos EUA, "diz jornal". A informação era do Financial Times.
Quando o senador pousou em Miami às 10h23, com fotos e vídeos, viu-se que o canal argentino estava certo. O avião era o Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, o mesmo que o Infobae havia revelado que o levaria.
O vaivém não ficou bom para os jornais brasileiros e nem para alguns dos veículos gringos. A estratégia do "despiste" mostra também as armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, desse declaratório em "off": os "aliados", o "entorno" e outros coletivos usados para passar recados via imprensa.
Alguns se insurgiram contra as fontes, mas a responsabilidade pelas publicações sempre é dos jornalistas, é claro. O Globo conta que Eduardo Bolsonaro capitaneou mentiras e desinformação para ajudar na fuga do irmão e que teria sido o ex-policial militar André Porciuncula a fonte que disse a jornalistas que o senador já estava, antes de decolar, em voo para Miami.
O ex-PM, aliás, apareceu em reportagem da Folha sobre o que seria o Ministério da Cultura de Mário Frias. Vale lembrar que vários leitores criticaram a frequência e a estridência dos textos pós-primeiro turno que especulavam sobre a composição do "eventual governo Flávio".
A confusão não se resumia às fontes anônimas ou quase anônimas. Estava também no contexto e no próprio sigilo da decisão sobre o passaporte, revelada pelo candidato derrotado no vídeo da segunda-feira (26) em que afirmou que não sairia do país.
Se a patacoada de Flávio Bolsonaro está longe de ser esclarecida, permanecem também nebulosas questões envolvendo PF e STF, como "PF apontou risco risco concreto de Flávio Bolsonaro fugir do país ao pedir apreensão de passaporte a Moraes" e "restrições sobre passaportes não fazem de Flávio Bolsonaro foragido, diz PF".
Saiu barata também a reação de correligionários de Flávio. O governador Tarcísio de Freitas, que estava acompanhando a apuração com o candidato do PL, foi um dos integrantes da cúpula da campanha que se disseram surpresos com a fuga. Em entrevista ao Estado, porém, Tarcísio afirmou que aconselhou Flávio a não sair do Brasil, embora continuasse negando que soubesse do plano.
Mobilizando o noticiário com seu itinerário, Flávio Bolsonaro se manteve no centro das atenções ao longo de toda a semana da vitória de Lula (PT). Quando seu desembarque poderia ter arrefecido a conversa, veio a carta que combinava a forma trapalhona com o fundo de teor golpista.
O sucesso midiático dos erros, recuos e justificativas para eles ("ChatGPT") mostram como a estratégia "flood the zone" de Steve Bannon continua valendo para a carta e a fuga. O ideólogo trumpista que agora insiste na vitória de Flávio e na narrativa de "fraude" foi quem orientou, ainda durante o primeiro mandato de Trump, abandonar o Partido Democrata como adversário: "O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma, e conseguiremos fazer as nossas coisas. Bang, bang, bang".
Se alguém não seguiu os fatos, aí vai: tudo começou à 1h da madrugada da terça-feira, quando o site argentino Infobae afirmou que Flávio partiria para os EUA em um jato particular que decolaria às 2h de Porto Iguaçu. A partir daí, a fuga e algumas histórias sobre a fuga se desenrolaram paralelamente.
O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez
Logo nas primeiras horas do "Big Brother Flávio", o coordenador da campanha presidencial, o senador Rogério Marinho (PL-RN), negou que o candidato tivesse deixado o país. Um piloto afirmou à Folha que Flávio estaria na lista de passageiros do avião das 2h. Aliados do senador declararam que ele havia fugido do Brasil para a Flórida e a PF estaria fazendo rastreamento nos pontos de fronteira "para verificar se a informação é verdadeira".
Cerca de duas horas depois, outro texto do jornal cravava que Flávio "já" estaria "a caminho" dos EUA e que o nome na lista da madrugada era "um despiste".
Já à 1h02 da quarta (28), a Folha noticiou que Flávio "estava escondido na Argentina e acaba de decolar para os EUA, diz canal argentino", atribuindo a informação ao canal de TV C5N. Às 2h06, porém, publicou que ele já estaria desembarcando nos EUA, "diz jornal". A informação era do Financial Times.
Quando o senador pousou em Miami às 10h23, com fotos e vídeos, viu-se que o canal argentino estava certo. O avião era o Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, o mesmo que o Infobae havia revelado que o levaria.
O vaivém não ficou bom para os jornais brasileiros e nem para alguns dos veículos gringos. A estratégia do "despiste" mostra também as armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, desse declaratório em "off": os "aliados", o "entorno" e outros coletivos usados para passar recados via imprensa.
Alguns se insurgiram contra as fontes, mas a responsabilidade pelas publicações sempre é dos jornalistas, é claro. O Globo conta que Eduardo Bolsonaro capitaneou mentiras e desinformação para ajudar na fuga do irmão e que teria sido o ex-policial militar André Porciuncula a fonte que disse a jornalistas que o senador já estava, antes de decolar, em voo para Miami.
O ex-PM, aliás, apareceu em reportagem da Folha sobre o que seria o Ministério da Cultura de Mário Frias. Vale lembrar que vários leitores criticaram a frequência e a estridência dos textos pós-primeiro turno que especulavam sobre a composição do "eventual governo Flávio".
A confusão não se resumia às fontes anônimas ou quase anônimas. Estava também no contexto e no próprio sigilo da decisão sobre o passaporte, revelada pelo candidato derrotado no vídeo da segunda-feira (26) em que afirmou que não sairia do país.
Se a patacoada de Flávio Bolsonaro está longe de ser esclarecida, permanecem também nebulosas questões envolvendo PF e STF, como "PF apontou risco risco concreto de Flávio Bolsonaro fugir do país ao pedir apreensão de passaporte a Moraes" e "restrições sobre passaportes não fazem de Flávio Bolsonaro foragido, diz PF".
Saiu barata também a reação de correligionários de Flávio. O governador Tarcísio de Freitas, que estava acompanhando a apuração com o candidato do PL, foi um dos integrantes da cúpula da campanha que se disseram surpresos com a fuga. Em entrevista ao Estado, porém, Tarcísio afirmou que aconselhou Flávio a não sair do Brasil, embora continuasse negando que soubesse do plano.
Mobilizando o noticiário com seu itinerário, Flávio Bolsonaro se manteve no centro das atenções ao longo de toda a semana da vitória de Lula (PT). Quando seu desembarque poderia ter arrefecido a conversa, veio a carta que combinava a forma trapalhona com o fundo de teor golpista.
O sucesso midiático dos erros, recuos e justificativas para eles ("ChatGPT") mostram como a estratégia "flood the zone" de Steve Bannon continua valendo para a carta e a fuga. O ideólogo trumpista que agora insiste na vitória de Flávio e na narrativa de "fraude" foi quem orientou, ainda durante o primeiro mandato de Trump, abandonar o Partido Democrata como adversário: "O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma, e conseguiremos fazer as nossas coisas. Bang, bang, bang".
Edinho sobre Lula: 'Qualquer, off sobre a economia é falso'
Estimulado pelas notícias, sempre em “off”, claro!, de que Lula já teria tomado algumas decisões na área econômica, liguei para o presidente do PT, Edinho Silva. Quis saber o que havia de verdade e por que, depois de uma reação fabulosa nas urnas, o partido e o presidente estariam se atrapalhando com informações desencontradas. Bem, a resposta dele não me surpreende. Os mesmos especuladores que decretaram o fim de Lula e tentaram normalizar um eventual governo afascistado de Flávio Bolsonaro, o agora fugitivo — que queria a Presidência apenas como instrumento de impunidade —, continuam em ação. Até parece que o predente reeleito depende da chancela desses sujeitos para exercer o quarto mandato.
A questão também diz respeito ao jornalismo. Existe um personagem com a ambição de mandar no Brasil: a fonte ouvida em “off”, geralmente apresentada como “interlocutora” de alguém com poder de decisão. A falta de escrúpulo chega a tal ponto — e, infelizmente, falo de prática corrente em setores da imprensa — que se revelam “conversas” privadas entre duas pessoas, ainda que ambas neguem o conteúdo... Aí basta escrever algo assim: “Esta coluna (ou assemelhado) conversou com três fontes que asseguram, sob condição de anonimato, que tal coisa aconteceu…”
Bem, isso equivaleria à prova de que Deus existe, não é? Nem São Tomás de Aquino, o homem mais inteligente do mundo, conseguiu tal proeza… Se “A” conversa com “B”, sem terceira pessoa, e se ambos negam ter tratado de determinado assunto, como podem fontes anônimas que não estavam presentes atestar o contrário? Restaria, então, comprovar o fato, a verdadeira prova dos nove. Ela também não aparece.
Perguntei ao presidente do PT, para resposta em “on”, o que há de verdade na algaravia que anda por aí. Sua resposta:
“Absolutamente ninguém está autorizado a falar em nome do presidente Lula nesse processo de transição para seu próximo mandato. Qualquer ‘off’ tem de ser tratado como plantação de notícias falsas, prática inaceitável, principalmente quando se trata de política econômica. Isso interessa a quem aposta contra o governo e o futuro do Brasil.”
Antes, Edinho já havia publicado nas redes o seguinte texto:
Volto. As apostas estavam feitas. O povo deu uma grande rasteira em quem confundiu a própria torcida com os fatos. Os derrotados se organizam agora para impor ao presidente sua agenda, como se ele lhes devesse a eleição — desta feita, diga-se, foi mesmo o movimento progressista que acordou.
As redações deveriam respeitar um pouco mais leitores, telespectadores, ouvintes e internautas. O jornalismo de bastidor, os “offs”, as falas que precisam ser entendidas nas entrelinhas… Tudo isso continua essencial para que se chegue à verdade possível. Desde que nada disso esteja a serviço de quem tenta definir preços na economia e governar em lugar daquele que foi eleito.
É preciso cuidado para que tal prática, a pretexto de buscar a tal verdade, não sirva de mero instrumento da especulação e da mentira interessada.
A questão também diz respeito ao jornalismo. Existe um personagem com a ambição de mandar no Brasil: a fonte ouvida em “off”, geralmente apresentada como “interlocutora” de alguém com poder de decisão. A falta de escrúpulo chega a tal ponto — e, infelizmente, falo de prática corrente em setores da imprensa — que se revelam “conversas” privadas entre duas pessoas, ainda que ambas neguem o conteúdo... Aí basta escrever algo assim: “Esta coluna (ou assemelhado) conversou com três fontes que asseguram, sob condição de anonimato, que tal coisa aconteceu…”
Bem, isso equivaleria à prova de que Deus existe, não é? Nem São Tomás de Aquino, o homem mais inteligente do mundo, conseguiu tal proeza… Se “A” conversa com “B”, sem terceira pessoa, e se ambos negam ter tratado de determinado assunto, como podem fontes anônimas que não estavam presentes atestar o contrário? Restaria, então, comprovar o fato, a verdadeira prova dos nove. Ela também não aparece.
Perguntei ao presidente do PT, para resposta em “on”, o que há de verdade na algaravia que anda por aí. Sua resposta:
“Absolutamente ninguém está autorizado a falar em nome do presidente Lula nesse processo de transição para seu próximo mandato. Qualquer ‘off’ tem de ser tratado como plantação de notícias falsas, prática inaceitável, principalmente quando se trata de política econômica. Isso interessa a quem aposta contra o governo e o futuro do Brasil.”
Antes, Edinho já havia publicado nas redes o seguinte texto:
“As especulações na área econômica não colaboram com o país e só fazem o jogo dos especuladores, dos oportunistas do mercado, aqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país. O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan."Edinho Silva, presidente do PT Nacional
Volto. As apostas estavam feitas. O povo deu uma grande rasteira em quem confundiu a própria torcida com os fatos. Os derrotados se organizam agora para impor ao presidente sua agenda, como se ele lhes devesse a eleição — desta feita, diga-se, foi mesmo o movimento progressista que acordou.
As redações deveriam respeitar um pouco mais leitores, telespectadores, ouvintes e internautas. O jornalismo de bastidor, os “offs”, as falas que precisam ser entendidas nas entrelinhas… Tudo isso continua essencial para que se chegue à verdade possível. Desde que nada disso esteja a serviço de quem tenta definir preços na economia e governar em lugar daquele que foi eleito.
É preciso cuidado para que tal prática, a pretexto de buscar a tal verdade, não sirva de mero instrumento da especulação e da mentira interessada.
Do outro lado do Atlântico, um cravo pela democracia brasileira
Um acontecimento histórico surpreendente marcou a segunda volta das eleições presidenciais brasileiras: a vitória popular perante os grandes conglomerados de comunicação social, as big techs, a elite empresarial da Avenida Faria Lima, os setores evangélicos neopentecostais e a extrema-direita, representada pelo bolsonarismo. E importa acrescentar: foi também uma vitória contra a interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral, numa tentativa de pôr em causa a soberania nacional, e contra a parcialidade da Presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em favor de um dos candidatos.
O dia das eleições ficou marcado pelo boicote aos transportes públicos em algumas cidades do país, numa clara tentativa de golpe contra a democracia, destinada a impedir os brasileiros de exercerem o seu direito de cidadania. Felizmente, os responsáveis por essa iniciativa não conseguiram travar a força da população. Assistiu-se, em vários pontos do país, a uma comovente união de gerações contra as forças obscurantistas da extrema-direita.
Os jovens e os estudantes mobilizaram-se nas ruas e nas redes sociais, enquanto os mais velhos se deslocaram às urnas, acompanhados pelos mais novos. Que imagens emocionantes as dos filhos e netos a levarem ao colo os pais e avós, muitos deles debilitados pela idade avançada ou por doenças crónicas.
Esta foi a resposta das urnas às provocações do então candidato Flávio Bolsonaro, que troçou da idade de Lula da Silva, pôs em causa a sua lucidez e fez comentários sobre a sua voz rouca, alterada pelo cancro da laringe que o tinha afetado. Quando, durante o debate eleitoral, fez uma observação infeliz sobre os nove dedos de Lula, atingiu também as pessoas com deficiência e os trabalhadores que sofreram amputações em acidentes de trabalho. A resposta ao preconceito chegou pelas urnas, com uma diferença superior a quatro milhões de votos a favor de Lula.
Foi uma vitória que ficará na memória! Uma verdadeira celebração da cidadania, expressa também na diminuição da abstenção e dos votos brancos e nulos. A maioria dos eleitores quis demonstrar, através do voto, a sua oposição a qualquer tentativa de golpe e a sua disposição para defender a Constituição e o Estado de Direito democrático.
É inegável que André Janones, deputado federal pelo estado de Minas Gerais, teve um papel determinante nas redes sociais e nas plataformas digitais, ao mobilizar uma comunidade virtual de mais de dez milhões de pessoas para contornar os mecanismos de distribuição de conteúdos da Meta. Mas esta vitória pertence a todos os que acreditam que ainda é possível construir um país mais justo e menos desigual. Foi uma vitória sem precedentes na história republicana do país.
O dia 25 de outubro de 2026 evoca a Revolução dos Cravos, ocorrida a 25 de abril de 1974, quando o povo português, em adesão ao Movimento das Forças Armadas (MFA), saiu à rua e contribuiu decisivamente para derrubar uma das mais longas ditaduras da história europeia.
Lembrei-me de Chico Buarque e da sua canção Tanto Mar, na qual celebra essa revolução em Portugal: “Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente, ainda guardo renitente, um cravo para mim…”. O cravo vermelho tornou-se, assim, o símbolo da vitória.
Viva a democracia e a soberania nacional! E, como historiador, termino este texto evocando a bela letra do Hino da Independência do Brasil (1824), que proclama: “Brava gente brasileira, longe vá temor servil, ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil!”
O dia das eleições ficou marcado pelo boicote aos transportes públicos em algumas cidades do país, numa clara tentativa de golpe contra a democracia, destinada a impedir os brasileiros de exercerem o seu direito de cidadania. Felizmente, os responsáveis por essa iniciativa não conseguiram travar a força da população. Assistiu-se, em vários pontos do país, a uma comovente união de gerações contra as forças obscurantistas da extrema-direita.
Os jovens e os estudantes mobilizaram-se nas ruas e nas redes sociais, enquanto os mais velhos se deslocaram às urnas, acompanhados pelos mais novos. Que imagens emocionantes as dos filhos e netos a levarem ao colo os pais e avós, muitos deles debilitados pela idade avançada ou por doenças crónicas.
Esta foi a resposta das urnas às provocações do então candidato Flávio Bolsonaro, que troçou da idade de Lula da Silva, pôs em causa a sua lucidez e fez comentários sobre a sua voz rouca, alterada pelo cancro da laringe que o tinha afetado. Quando, durante o debate eleitoral, fez uma observação infeliz sobre os nove dedos de Lula, atingiu também as pessoas com deficiência e os trabalhadores que sofreram amputações em acidentes de trabalho. A resposta ao preconceito chegou pelas urnas, com uma diferença superior a quatro milhões de votos a favor de Lula.
Foi uma vitória que ficará na memória! Uma verdadeira celebração da cidadania, expressa também na diminuição da abstenção e dos votos brancos e nulos. A maioria dos eleitores quis demonstrar, através do voto, a sua oposição a qualquer tentativa de golpe e a sua disposição para defender a Constituição e o Estado de Direito democrático.
É inegável que André Janones, deputado federal pelo estado de Minas Gerais, teve um papel determinante nas redes sociais e nas plataformas digitais, ao mobilizar uma comunidade virtual de mais de dez milhões de pessoas para contornar os mecanismos de distribuição de conteúdos da Meta. Mas esta vitória pertence a todos os que acreditam que ainda é possível construir um país mais justo e menos desigual. Foi uma vitória sem precedentes na história republicana do país.
O dia 25 de outubro de 2026 evoca a Revolução dos Cravos, ocorrida a 25 de abril de 1974, quando o povo português, em adesão ao Movimento das Forças Armadas (MFA), saiu à rua e contribuiu decisivamente para derrubar uma das mais longas ditaduras da história europeia.
Lembrei-me de Chico Buarque e da sua canção Tanto Mar, na qual celebra essa revolução em Portugal: “Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente, ainda guardo renitente, um cravo para mim…”. O cravo vermelho tornou-se, assim, o símbolo da vitória.
Viva a democracia e a soberania nacional! E, como historiador, termino este texto evocando a bela letra do Hino da Independência do Brasil (1824), que proclama: “Brava gente brasileira, longe vá temor servil, ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil!”
O futuro mora na porta ao lado
Podemos ter uma casa e não ter a quem bater à porta. Podemos conhecer as desgraças do mundo e ignorar o sofrimento do vizinho. Enquanto fazemos contas ao futuro, há uma pobreza que cresce sem entrar nas estatísticas: a de já não contarmos uns com os outros.
Há uma pergunta que devia acompanhar os anúncios das casas: se eu desaparecer durante três dias, alguém neste prédio dará pela minha falta? Entre os metros quadrados, a eficiência energética e a proximidade do metro, seria uma informação preciosa. Uma casa pode ter uma vista magnífica e ninguém que olhe por nós.
Perguntamos o que desejamos do futuro e respondemos com aquilo que nos falta: habitação, melhores salários, segurança, uma escola onde os filhos possam aprender sem sobressaltos. Queremos deixar de fazer contas no corredor do supermercado, de olhar para o preço dos combustíveis como quem consulta uma ameaça, de trabalhar um mês inteiro para descobrir que a vida ficou novamente por pagar. São desejos legítimos, urgentes. Porém, há uma falta que não aparece no recibo do vencimento: a de sentirmos que a nossa existência importa a alguém para lá da porta de casa.
Pascal Chabot oferece-nos uma imagem perturbadora para pensar esta condição. Em Nos Vies Encapsulées, interroga a vida nas “cápsulas”: espaços fechados, protegidos e conectados, onde a existência decorre numa relativa indiferença ao exterior. A proteção e a ligação ao mundo podem, afinal, coexistir com um profundo afastamento dele.
Basta seguir um dia possível. Saímos de casa, entramos no automóvel, chegamos ao trabalho, regressamos ao automóvel e voltamos a casa. Pelo caminho, um ecrã acompanha-nos, informa-nos, distrai-nos. Podemos atravessar a cidade inteira sem uma conversa que não tenha uma finalidade. No elevador, baixamos os olhos para o telemóvel. Temos acesso imediato a uma guerra distante e ignoramos que a vizinha do terceiro andar começou a jantar sozinha.
A cápsula é confortável. Permite escolher a temperatura, a música, as notícias, as pessoas a quem respondemos. Lá fora há o imprevisto: alguém demora, discorda, pede ajuda, traz uma tristeza para a qual não tínhamos reservado tempo. Aos poucos, podemos começar a tratar a presença dos outros como uma falha no funcionamento do nosso dia. A campainha toca e, antes da curiosidade, chega a irritação.
Não tenho saudades de uma aldeia imaginária onde toda a gente era boa. A proximidade também vigiava, sufocava, castigava a diferença. Houve vidas que precisaram de partir para poderem finalmente respirar. A privacidade foi uma conquista, mas essa conquista não nos obriga a escolher entre a intromissão e a indiferença. Podemos respeitar uma porta fechada e continuar disponíveis para quando ela se abrir.
É esse espírito de vizinhança que me inquieta ver enfraquecer. O bairro enquanto lugar onde alguém conhece o nosso nome, reconhece uma ausência, segura uma chave, acompanha uma criança. Uma convivência imperfeita, com discussões e embirrações, mas suficientemente humana para que o outro não se reduza ao barulho que faz através da parede.
Há uma diferença imensa entre morar ao lado de alguém e ser seu vizinho.
A crise da habitação também deve ser pensada a esta luz. Quando uma família é obrigada a abandonar o lugar onde construiu a vida, perde mais do que uma morada. Pode perder a pessoa que ia buscar o filho à escola numa emergência, o comerciante que estranhava a ausência, a amiga com quem repartia o peso dos dias. Essas relações não cabem nas caixas das mudanças. Uma cidade pode valorizar os seus imóveis enquanto empobrece a vida de quem a habita.
Também os salários baixos e o cansaço têm consequências na disponibilidade para os outros. Quem chega a casa exausto nem sempre consegue oferecer atenção. Quem receia não conseguir pagar o essencial pode começar a olhar para tudo o que é atribuído a alguém como se, a si, lhe tivesse sido retirado. Seria injusto chamar egoísmo a toda a forma de retraimento. Há pessoas que se fecham porque já não suportam mais uma solicitação. Precisam, elas próprias, de encontrar uma porta aberta.
É neste terreno que a política tem uma responsabilidade enorme. Pode ajudar-nos a compreender as causas de uma dificuldade ou entregar-nos um rosto sobre o qual descarregar a frustração. O imigrante, o professor, o funcionário público, o beneficiário de um apoio: alguém há de servir para tornar a nossa angústia mais simples. O vizinho converte-se em concorrente; o concorrente, em suspeito. Não nos tornámos todos inimigos, mas arriscamo-nos a aprender a viver como se o fôssemos.
E há uma estranha facilidade nessa aprendizagem. Para odiar uma categoria, basta uma frase. Para conhecer uma pessoa, é preciso tempo. É preciso descobrir que aquele homem de quem desconfiávamos também não dorme por causa de um filho, que aquela mulher tida por antipática cuida sozinha da mãe, que atrás de uma resposta brusca pode existir um dia que desconhecemos. Saber isto não resolve todos os conflitos. Impede, porém, que o julgamento ocupe sozinho o lugar do encontro.
Na escola, o futuro também se decide nessa disponibilidade. Queremos alunos capazes, autónomos, preparados. Convém perguntar se estamos a ajudá-los a reconhecer quando alguém precisa deles. Uma criança pode aprender a disputar cada décima e nunca descobrir a alegria de explicar uma matéria a um colega. Pode crescer rodeada de mensagens e não saber como se aproximar de quem passa o intervalo sozinho. A educação tem de deixar espaço para essa aprendizagem sem classificação: perceber que a presença de outra pessoa nos diz respeito.
Nada disto dispensa políticas públicas, casas acessíveis ou salários dignos. A solidariedade de uma escada não substitui um Estado responsável. Contudo, seria uma derrota conseguirmos melhores condições de vida e usá-las apenas para aperfeiçoar o nosso isolamento. Comprar uma cápsula maior, mais silenciosa, mais bem equipada, onde já não precisássemos de encontrar ninguém.
O que desejamos mesmo do futuro, afinal? Pela minha parte, desejo que ainda possa surpreender-nos uma visita. Que haja tempo para puxar uma cadeira sem consultar a agenda. Que possamos pedir ajuda antes de o desespero nos retirar a voz. E que a felicidade inclua esta confiança discreta: algures, perto de nós, existe alguém a quem podemos fazer falta.
Há uma pergunta que devia acompanhar os anúncios das casas: se eu desaparecer durante três dias, alguém neste prédio dará pela minha falta? Entre os metros quadrados, a eficiência energética e a proximidade do metro, seria uma informação preciosa. Uma casa pode ter uma vista magnífica e ninguém que olhe por nós.
Perguntamos o que desejamos do futuro e respondemos com aquilo que nos falta: habitação, melhores salários, segurança, uma escola onde os filhos possam aprender sem sobressaltos. Queremos deixar de fazer contas no corredor do supermercado, de olhar para o preço dos combustíveis como quem consulta uma ameaça, de trabalhar um mês inteiro para descobrir que a vida ficou novamente por pagar. São desejos legítimos, urgentes. Porém, há uma falta que não aparece no recibo do vencimento: a de sentirmos que a nossa existência importa a alguém para lá da porta de casa.
Pascal Chabot oferece-nos uma imagem perturbadora para pensar esta condição. Em Nos Vies Encapsulées, interroga a vida nas “cápsulas”: espaços fechados, protegidos e conectados, onde a existência decorre numa relativa indiferença ao exterior. A proteção e a ligação ao mundo podem, afinal, coexistir com um profundo afastamento dele.
Basta seguir um dia possível. Saímos de casa, entramos no automóvel, chegamos ao trabalho, regressamos ao automóvel e voltamos a casa. Pelo caminho, um ecrã acompanha-nos, informa-nos, distrai-nos. Podemos atravessar a cidade inteira sem uma conversa que não tenha uma finalidade. No elevador, baixamos os olhos para o telemóvel. Temos acesso imediato a uma guerra distante e ignoramos que a vizinha do terceiro andar começou a jantar sozinha.
A cápsula é confortável. Permite escolher a temperatura, a música, as notícias, as pessoas a quem respondemos. Lá fora há o imprevisto: alguém demora, discorda, pede ajuda, traz uma tristeza para a qual não tínhamos reservado tempo. Aos poucos, podemos começar a tratar a presença dos outros como uma falha no funcionamento do nosso dia. A campainha toca e, antes da curiosidade, chega a irritação.
Não tenho saudades de uma aldeia imaginária onde toda a gente era boa. A proximidade também vigiava, sufocava, castigava a diferença. Houve vidas que precisaram de partir para poderem finalmente respirar. A privacidade foi uma conquista, mas essa conquista não nos obriga a escolher entre a intromissão e a indiferença. Podemos respeitar uma porta fechada e continuar disponíveis para quando ela se abrir.
É esse espírito de vizinhança que me inquieta ver enfraquecer. O bairro enquanto lugar onde alguém conhece o nosso nome, reconhece uma ausência, segura uma chave, acompanha uma criança. Uma convivência imperfeita, com discussões e embirrações, mas suficientemente humana para que o outro não se reduza ao barulho que faz através da parede.
Há uma diferença imensa entre morar ao lado de alguém e ser seu vizinho.
A crise da habitação também deve ser pensada a esta luz. Quando uma família é obrigada a abandonar o lugar onde construiu a vida, perde mais do que uma morada. Pode perder a pessoa que ia buscar o filho à escola numa emergência, o comerciante que estranhava a ausência, a amiga com quem repartia o peso dos dias. Essas relações não cabem nas caixas das mudanças. Uma cidade pode valorizar os seus imóveis enquanto empobrece a vida de quem a habita.
Também os salários baixos e o cansaço têm consequências na disponibilidade para os outros. Quem chega a casa exausto nem sempre consegue oferecer atenção. Quem receia não conseguir pagar o essencial pode começar a olhar para tudo o que é atribuído a alguém como se, a si, lhe tivesse sido retirado. Seria injusto chamar egoísmo a toda a forma de retraimento. Há pessoas que se fecham porque já não suportam mais uma solicitação. Precisam, elas próprias, de encontrar uma porta aberta.
É neste terreno que a política tem uma responsabilidade enorme. Pode ajudar-nos a compreender as causas de uma dificuldade ou entregar-nos um rosto sobre o qual descarregar a frustração. O imigrante, o professor, o funcionário público, o beneficiário de um apoio: alguém há de servir para tornar a nossa angústia mais simples. O vizinho converte-se em concorrente; o concorrente, em suspeito. Não nos tornámos todos inimigos, mas arriscamo-nos a aprender a viver como se o fôssemos.
E há uma estranha facilidade nessa aprendizagem. Para odiar uma categoria, basta uma frase. Para conhecer uma pessoa, é preciso tempo. É preciso descobrir que aquele homem de quem desconfiávamos também não dorme por causa de um filho, que aquela mulher tida por antipática cuida sozinha da mãe, que atrás de uma resposta brusca pode existir um dia que desconhecemos. Saber isto não resolve todos os conflitos. Impede, porém, que o julgamento ocupe sozinho o lugar do encontro.
Na escola, o futuro também se decide nessa disponibilidade. Queremos alunos capazes, autónomos, preparados. Convém perguntar se estamos a ajudá-los a reconhecer quando alguém precisa deles. Uma criança pode aprender a disputar cada décima e nunca descobrir a alegria de explicar uma matéria a um colega. Pode crescer rodeada de mensagens e não saber como se aproximar de quem passa o intervalo sozinho. A educação tem de deixar espaço para essa aprendizagem sem classificação: perceber que a presença de outra pessoa nos diz respeito.
Nada disto dispensa políticas públicas, casas acessíveis ou salários dignos. A solidariedade de uma escada não substitui um Estado responsável. Contudo, seria uma derrota conseguirmos melhores condições de vida e usá-las apenas para aperfeiçoar o nosso isolamento. Comprar uma cápsula maior, mais silenciosa, mais bem equipada, onde já não precisássemos de encontrar ninguém.
O que desejamos mesmo do futuro, afinal? Pela minha parte, desejo que ainda possa surpreender-nos uma visita. Que haja tempo para puxar uma cadeira sem consultar a agenda. Que possamos pedir ajuda antes de o desespero nos retirar a voz. E que a felicidade inclua esta confiança discreta: algures, perto de nós, existe alguém a quem podemos fazer falta.
A farsa de Miami e o herói de papelão
A primeira semana pós-vitória de Lula, reeleito para seu quarto mandato presidencial, infelizmente foi sequestrada por Flávio Bolsonaro com a rocambolesca fuga que empreendeu na direção à América de Donald Trump, temeroso de ser preso aqui por tudo o que fez de indecente ao longo de sua vida desde que, pela primeira vez, se elegeu deputado estadual pelo Rio de Janeiro.
Parecia impossível que o Bolsonaro moderado, vacinado, fosse capaz de dar “uma banana” para os quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele no segundo turno. Goste-se ou não, ele era o escolhido para liderar a oposição ao governo Lula e, quem sabe, daqui a quatro anos, concorrer outra vez à Presidência da República. Não haveria outro nome da direita, até lá, a fazer-lhe sombra.
Em menos de sete dias, porém, Flávio jogou fora seu futuro por inépcia e covardia. Recusou-se a enfrentar as investigações da Justiça sobre os supostos crimes que cometeu, ao contrário de Lula quando condenado e preso pelo ex-juiz Sergio Moro. Lula julgou-se inocente, foi preso, amargou 580 dias em uma cela da Polícia Federal e acabou sendo solto pelo Supremo Tribunal Federal. Flávio escafedeu-se.
Não bastasse, ao desembarcar em Miami acompanhado da mulher e de suas filhas, protagonizou mais um episódio ridículo e vergonhoso ao lançar um manifesto em que, na primeira versão, se dizia “presidente do Brasil”, e na segunda, “líder”. Comparou-se ao general Charles de Gaulle, herói da resistência francesa à invasão de seu país pelos nazistas, e prometeu resgatar a democracia perdida pelo Brasil.
Embora negue, assim agiu aconselhado por seu pai, logo após ser intimado a entregar o passaporte. O documento era o que lhe garantia livre trânsito, e a iminência da retenção precipitou a debandada. Flávio era a esperança de Jair para recuperar sua liberdade por meio de um indulto presidencial. Essa foi a única razão plausível para que o pai o lançasse candidato. Os dois governariam juntos o país a partir de 5 de janeiro próximo. O sonho acabou.
O de Lula mal está começando, graças à determinação da maioria dos brasileiros de impor-lhe mais uma vitória. No primeiro turno, Lula perdeu para ele mesmo; ganhou o segundo de maneira inquestionável – e para sua própria surpresa. Agora, o presidente reeleito está em débito com todos os setores que o socorreram. Só não poderá decepcioná-los. Ai dele se, ao final, não for bem-sucedido. A porta da rua é a serventia da casa.
Parecia impossível que o Bolsonaro moderado, vacinado, fosse capaz de dar “uma banana” para os quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele no segundo turno. Goste-se ou não, ele era o escolhido para liderar a oposição ao governo Lula e, quem sabe, daqui a quatro anos, concorrer outra vez à Presidência da República. Não haveria outro nome da direita, até lá, a fazer-lhe sombra.
Em menos de sete dias, porém, Flávio jogou fora seu futuro por inépcia e covardia. Recusou-se a enfrentar as investigações da Justiça sobre os supostos crimes que cometeu, ao contrário de Lula quando condenado e preso pelo ex-juiz Sergio Moro. Lula julgou-se inocente, foi preso, amargou 580 dias em uma cela da Polícia Federal e acabou sendo solto pelo Supremo Tribunal Federal. Flávio escafedeu-se.
Não bastasse, ao desembarcar em Miami acompanhado da mulher e de suas filhas, protagonizou mais um episódio ridículo e vergonhoso ao lançar um manifesto em que, na primeira versão, se dizia “presidente do Brasil”, e na segunda, “líder”. Comparou-se ao general Charles de Gaulle, herói da resistência francesa à invasão de seu país pelos nazistas, e prometeu resgatar a democracia perdida pelo Brasil.
Embora negue, assim agiu aconselhado por seu pai, logo após ser intimado a entregar o passaporte. O documento era o que lhe garantia livre trânsito, e a iminência da retenção precipitou a debandada. Flávio era a esperança de Jair para recuperar sua liberdade por meio de um indulto presidencial. Essa foi a única razão plausível para que o pai o lançasse candidato. Os dois governariam juntos o país a partir de 5 de janeiro próximo. O sonho acabou.
O de Lula mal está começando, graças à determinação da maioria dos brasileiros de impor-lhe mais uma vitória. No primeiro turno, Lula perdeu para ele mesmo; ganhou o segundo de maneira inquestionável – e para sua própria surpresa. Agora, o presidente reeleito está em débito com todos os setores que o socorreram. Só não poderá decepcioná-los. Ai dele se, ao final, não for bem-sucedido. A porta da rua é a serventia da casa.
Virada histórica terá impacto nos próximos anos
Ainda é cedo para muitas conclusões. A extraordinária mobilização popular que tirou Lula de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no segundo certamente não será esquecida.
Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula. Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os eleitores de uma volta da família Bolsonaro.
Se isso for interpretado corretamente, nunca mais teremos um Bolsonaro disputando uma eleição majoritária. A direita poderá se libertar dessa liderança. Isso não significa que ela desaparecerá. Apenas ocupará um lugar mais modesto, compatível com seu nível de radicalidade.
No discurso da vitória, Lula mencionou a questão digital, que teve grande papel na sua vitória. Usará as redes sociais para se comunicar e, possivelmente, todo o governo seguirá seu caminho. Com o tempo, o governo perceberá que o meio digital precisa dominar todas as suas instâncias. Não se trata apenas de melhorar a imagem de governantes. Trata-se principalmente de tornar mais fácil a vida de cidadãos e empresas que necessitam dos serviços públicos.
A adesão da campanha à disputa nas redes sociais mostrou também que houve avanço nesse campo. Isso graças ao trabalho de André Janones, cuja eficácia reconheço, apesar de divergir de seus métodos.
No discurso da vitória, Lula mencionou o sucesso no combate ao desmatamento, sinal de que fortalecerá sua política ambiental. A derrota de Flávio Bolsonaro pelo menos espantou o fantasma de perdermos décadas de trabalho para construir uma das melhores legislações ambientais do planeta.
O perigo ainda existe num Congresso dominado por negacionistas. Mas o antídoto está aí: a união da minoria eleita com boas intenções com a opinião pública mobilizada pode dar uma chance de resistência vitoriosa. Foi assim na lei que, de certa forma, ameaçava privatizar as praias. Nada está totalmente decidido no ano que entra. Haverá luta, mas ela acontecerá num novo contexto.
Lula não falou mais das emendas parlamentares usadas pelo Congresso. Disse apenas que lançaria mão delas para financiar o transporte gratuito aos fins de semana. Sabemos que isso não é fácil. Para atenuar o impacto negativo das emendas, serão necessárias a vigilância da Justiça e forças-tarefas da Polícia Federal. São quase R$ 60 bilhões, indispensáveis para um plano de governo. Quando esse problema será resolvido? A mobilização histórica e a própria eleição se enfraquecem se o governo central não pode usar o Orçamento de forma racional.
Finalmente, o discurso da vitória fala nos data centers que o Brasil poderia atrair. Precisamos de um ou outro. Mas o paraíso dos data centers seria um inferno para os moradores, porque eles usam energia e água em grande quantidade. A resistência a eles é grande tema político nos Estados Unidos.
Tudo isso pode esperar. O governo se prepara neste fim de ano, e o fim das eleições é um alívio. Inclusive para nós que estamos saudosos de novos temas.
Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula. Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os eleitores de uma volta da família Bolsonaro.
Se isso for interpretado corretamente, nunca mais teremos um Bolsonaro disputando uma eleição majoritária. A direita poderá se libertar dessa liderança. Isso não significa que ela desaparecerá. Apenas ocupará um lugar mais modesto, compatível com seu nível de radicalidade.
No discurso da vitória, Lula mencionou a questão digital, que teve grande papel na sua vitória. Usará as redes sociais para se comunicar e, possivelmente, todo o governo seguirá seu caminho. Com o tempo, o governo perceberá que o meio digital precisa dominar todas as suas instâncias. Não se trata apenas de melhorar a imagem de governantes. Trata-se principalmente de tornar mais fácil a vida de cidadãos e empresas que necessitam dos serviços públicos.
A adesão da campanha à disputa nas redes sociais mostrou também que houve avanço nesse campo. Isso graças ao trabalho de André Janones, cuja eficácia reconheço, apesar de divergir de seus métodos.
No discurso da vitória, Lula mencionou o sucesso no combate ao desmatamento, sinal de que fortalecerá sua política ambiental. A derrota de Flávio Bolsonaro pelo menos espantou o fantasma de perdermos décadas de trabalho para construir uma das melhores legislações ambientais do planeta.
O perigo ainda existe num Congresso dominado por negacionistas. Mas o antídoto está aí: a união da minoria eleita com boas intenções com a opinião pública mobilizada pode dar uma chance de resistência vitoriosa. Foi assim na lei que, de certa forma, ameaçava privatizar as praias. Nada está totalmente decidido no ano que entra. Haverá luta, mas ela acontecerá num novo contexto.
Lula não falou mais das emendas parlamentares usadas pelo Congresso. Disse apenas que lançaria mão delas para financiar o transporte gratuito aos fins de semana. Sabemos que isso não é fácil. Para atenuar o impacto negativo das emendas, serão necessárias a vigilância da Justiça e forças-tarefas da Polícia Federal. São quase R$ 60 bilhões, indispensáveis para um plano de governo. Quando esse problema será resolvido? A mobilização histórica e a própria eleição se enfraquecem se o governo central não pode usar o Orçamento de forma racional.
Finalmente, o discurso da vitória fala nos data centers que o Brasil poderia atrair. Precisamos de um ou outro. Mas o paraíso dos data centers seria um inferno para os moradores, porque eles usam energia e água em grande quantidade. A resistência a eles é grande tema político nos Estados Unidos.
Tudo isso pode esperar. O governo se prepara neste fim de ano, e o fim das eleições é um alívio. Inclusive para nós que estamos saudosos de novos temas.
domingo, 1 de novembro de 2026
A polarização é menor do que se imaginava
A imagem que temos dos EUA é a de um país profundamente dividido, separado pela educação, pela classe social e pela cultura em dois campos rivais que não se suportam. Quando se observa Donald Trump em campanha eleitoral ou se dá uma olhada nas redes sociais, essa percepção é constantemente reforçada.
Mas as pesquisas, à medida que nos aproximamos das eleições de meio de mandato, sugerem que talvez tenhamos deixado passar algo muito importante sobre os EUA de hoje. Trata-se de um país em transformação, com grande parte da população inquieta quanto ao futuro e incerta quanto a quaisquer lealdades políticas. Em outras palavras, o país está politicamente em aberto.
Observe as mudanças em relação a apenas dois anos atrás. Em 2024, Trump conquistou 44% dos votos hispânicos, segundo o jornal The New York Times. Em uma pesquisa recente do Times, apenas 31% deles disseram que pretendem votar em um republicano para o Congresso nas eleições de terça-feira.
Há dois anos, Trump reduziu a enorme diferença dos republicanos entre os eleitores jovens para menos de 10 pontos porcentuais. Hoje, essa diferença é maior do que era durante a eleição de Barack Obama, em 2008, chegando a 44 pontos em favor dos democratas para o Congresso. Trata-se de mudanças radicais que raramente ocorrem em um período tão curto como dois anos.
Muitos estão trocando os partidos tradicionais por outros radicais, de direita e de esquerda
Mas o tempo acelerou, e movimentos que antes levavam anos agora podem levar meses, ou até mesmo semanas. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições presidenciais, atrás de Flávio Bolsonaro, por mais de 2 milhões de votos.
Em três semanas, Lula conseguiu convencer mais 10 milhões de eleitores a apoiá-lo, vencendo o segundo turno com facilidade. Nunca antes, nas eleições presidenciais brasileiras, o candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno havia conseguido mudar a opinião de um número suficiente de eleitores para vencer no segundo turno.
Vivemos em uma era de ansiedade, e isso significa que as pessoas estão inseguras quanto às filiações políticas. Por toda a Europa, elas abandonaram os partidos tradicionais em favor de novos, muitas vezes mais radicais, tanto à direita quanto à esquerda.
Em parte, isso é uma reação ao fato de que os partidos de centro, tanto de direita quanto de esquerda, falharam em lidar com algumas questões importantes, como a imigração ilegal e o colapso do sistema de asilo.
Eles eram vistos como relutantes em defender a assimilação à cultura dominante e como meros administradores de um Estado de bem-estar social que se tornara disfuncional e desgastado.
Mas, quando o resultado é a raiva da esquerda que se transforma em tumultos nas ruas, a direita historicamente se beneficia. Parece que esse padrão se repetirá na França, à medida que o país se aproxima de sua eleição presidencial, no próximo ano.
A verdade é que, hoje, mais pessoas têm lealdades políticas fracas. Uma pesquisa recente do Pew revelou que um quarto dos eleitores de Trump, em 2024, agora têm uma visão desfavorável do Partido Republicano.
Desses, cerca de metade afirmou que apoiaria seu candidato republicano ao Congresso nas eleições de meio de mandato. Quase metade da população se identifica como independente atualmente. E aqueles que tendem a apoiar um partido não o fazem necessariamente por profunda devoção a ele.
A pesquisa do Pew revelou que 64% dos independentes com tendência democrata citaram os danos causados pelas políticas republicanas como principal motivo de sua preferência, enquanto apenas 27% citaram os benefícios trazidos pelas políticas democratas.
Os independentes com tendência republicana apresentaram um padrão semelhante. De acordo com pesquisa recente do Wall Street Journal, 52% dos democratas queriam que seu partido se tornasse mais moderado ou permanecesse como está, enquanto apenas 37% queriam que ele se tornasse mais progressista.
Os problemas dos republicanos são, em grande parte, causados por eles mesmos. Os eleitores observam as tarifas de Trump e a guerra contra o Irã e as associam diretamente ao aumento dos preços e à crise de acessibilidade financeira.
Outros aplaudem o fechamento de fronteiras, mas não as batidas cruéis da Agência de Imigração e Alfândega (ICE) contra imigrantes sem documentação. Para outros, a natureza aberta e flagrante da corrupção no segundo mandato de Trump tem sido insuportável. Mas nada disso sugere que eles tenham virado as costas aos princípios fundamentais da agenda trumpista.
Um candidato trumpista que se mantivesse mais coerente com sua ideologia e não fosse narcisista nem corrupto poderia reconquistar esses republicanos desiludidos.
Há aqui uma oportunidade para o centro político, mas ela não se concretizará simplesmente afirmando que os adultos estão de volta e vão responsabilizar Trump e consertar o que ele estragou. Eles precisam de uma agenda positiva capaz de acalmar alguns dos temores em relação ao futuro.
A melhor agenda seria uma que incorporasse elementos da esquerda e da direita. Manter a fronteira fechada e reformular o sistema de asilo para que milhões de pessoas não possam usar brechas para entrar no país. Combater os altos custos da saúde utilizando novas tecnologias, mas também empregando o poder do governo para manter os custos baixos e ampliar o acesso (o que pode andar de mãos dadas, pois quanto mais pessoas saudáveis houver no sistema, mais viável ele se torna).
Transformar a educação – com o incentivo e a coordenação das escolas públicas – utilizando o poder da inteligência artificial para proporcionar a todos um tutor pessoal. Construir moradias em todos os lugares. Tributar mais o capital e menos os salários e a mão de obra.
Oferecer aos americanos uma agenda que eles considerem atraente, que lhes dê a sensação de que o futuro pode ser construído e de que eles terão um lugar nele. Fazer isso poderia garantir não apenas o voto deles na próxima semana, mas também sua lealdade por muitos anos.
Mas as pesquisas, à medida que nos aproximamos das eleições de meio de mandato, sugerem que talvez tenhamos deixado passar algo muito importante sobre os EUA de hoje. Trata-se de um país em transformação, com grande parte da população inquieta quanto ao futuro e incerta quanto a quaisquer lealdades políticas. Em outras palavras, o país está politicamente em aberto.
Observe as mudanças em relação a apenas dois anos atrás. Em 2024, Trump conquistou 44% dos votos hispânicos, segundo o jornal The New York Times. Em uma pesquisa recente do Times, apenas 31% deles disseram que pretendem votar em um republicano para o Congresso nas eleições de terça-feira.
Há dois anos, Trump reduziu a enorme diferença dos republicanos entre os eleitores jovens para menos de 10 pontos porcentuais. Hoje, essa diferença é maior do que era durante a eleição de Barack Obama, em 2008, chegando a 44 pontos em favor dos democratas para o Congresso. Trata-se de mudanças radicais que raramente ocorrem em um período tão curto como dois anos.
Muitos estão trocando os partidos tradicionais por outros radicais, de direita e de esquerda
Mas o tempo acelerou, e movimentos que antes levavam anos agora podem levar meses, ou até mesmo semanas. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições presidenciais, atrás de Flávio Bolsonaro, por mais de 2 milhões de votos.
Em três semanas, Lula conseguiu convencer mais 10 milhões de eleitores a apoiá-lo, vencendo o segundo turno com facilidade. Nunca antes, nas eleições presidenciais brasileiras, o candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno havia conseguido mudar a opinião de um número suficiente de eleitores para vencer no segundo turno.
Vivemos em uma era de ansiedade, e isso significa que as pessoas estão inseguras quanto às filiações políticas. Por toda a Europa, elas abandonaram os partidos tradicionais em favor de novos, muitas vezes mais radicais, tanto à direita quanto à esquerda.
Em parte, isso é uma reação ao fato de que os partidos de centro, tanto de direita quanto de esquerda, falharam em lidar com algumas questões importantes, como a imigração ilegal e o colapso do sistema de asilo.
Eles eram vistos como relutantes em defender a assimilação à cultura dominante e como meros administradores de um Estado de bem-estar social que se tornara disfuncional e desgastado.
Mas, quando o resultado é a raiva da esquerda que se transforma em tumultos nas ruas, a direita historicamente se beneficia. Parece que esse padrão se repetirá na França, à medida que o país se aproxima de sua eleição presidencial, no próximo ano.
A verdade é que, hoje, mais pessoas têm lealdades políticas fracas. Uma pesquisa recente do Pew revelou que um quarto dos eleitores de Trump, em 2024, agora têm uma visão desfavorável do Partido Republicano.
Desses, cerca de metade afirmou que apoiaria seu candidato republicano ao Congresso nas eleições de meio de mandato. Quase metade da população se identifica como independente atualmente. E aqueles que tendem a apoiar um partido não o fazem necessariamente por profunda devoção a ele.
A pesquisa do Pew revelou que 64% dos independentes com tendência democrata citaram os danos causados pelas políticas republicanas como principal motivo de sua preferência, enquanto apenas 27% citaram os benefícios trazidos pelas políticas democratas.
Os independentes com tendência republicana apresentaram um padrão semelhante. De acordo com pesquisa recente do Wall Street Journal, 52% dos democratas queriam que seu partido se tornasse mais moderado ou permanecesse como está, enquanto apenas 37% queriam que ele se tornasse mais progressista.
Os problemas dos republicanos são, em grande parte, causados por eles mesmos. Os eleitores observam as tarifas de Trump e a guerra contra o Irã e as associam diretamente ao aumento dos preços e à crise de acessibilidade financeira.
Outros aplaudem o fechamento de fronteiras, mas não as batidas cruéis da Agência de Imigração e Alfândega (ICE) contra imigrantes sem documentação. Para outros, a natureza aberta e flagrante da corrupção no segundo mandato de Trump tem sido insuportável. Mas nada disso sugere que eles tenham virado as costas aos princípios fundamentais da agenda trumpista.
Um candidato trumpista que se mantivesse mais coerente com sua ideologia e não fosse narcisista nem corrupto poderia reconquistar esses republicanos desiludidos.
Há aqui uma oportunidade para o centro político, mas ela não se concretizará simplesmente afirmando que os adultos estão de volta e vão responsabilizar Trump e consertar o que ele estragou. Eles precisam de uma agenda positiva capaz de acalmar alguns dos temores em relação ao futuro.
A melhor agenda seria uma que incorporasse elementos da esquerda e da direita. Manter a fronteira fechada e reformular o sistema de asilo para que milhões de pessoas não possam usar brechas para entrar no país. Combater os altos custos da saúde utilizando novas tecnologias, mas também empregando o poder do governo para manter os custos baixos e ampliar o acesso (o que pode andar de mãos dadas, pois quanto mais pessoas saudáveis houver no sistema, mais viável ele se torna).
Transformar a educação – com o incentivo e a coordenação das escolas públicas – utilizando o poder da inteligência artificial para proporcionar a todos um tutor pessoal. Construir moradias em todos os lugares. Tributar mais o capital e menos os salários e a mão de obra.
Oferecer aos americanos uma agenda que eles considerem atraente, que lhes dê a sensação de que o futuro pode ser construído e de que eles terão um lugar nele. Fazer isso poderia garantir não apenas o voto deles na próxima semana, mas também sua lealdade por muitos anos.
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