sábado, 12 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Flávio repete o pai e chega às urnas sob o peso de investigações da PF

Gente, acorda! Flávio Bolsonaro é o único candidato à Presidência da República, nas eleições daqui a 22 dias, investigado por corrupção pelo Supremo Tribunal Federal (STF) — o único. E, convenhamos, não é pouca coisa.

De 1989 para cá, isso só aconteceu com outro candidato. Adivinhem qual… Sim, Jair Bolsonaro, em 2022, quando tentou se reeleger presidente. Por sinal, foi o único no exercício do cargo que acabou sendo derrotado. Não bastasse isso, é o único ex-presidente do Brasil formalmente julgado, condenado e preso pelo crime de tentativa de golpe de Estado. Família do barulho, essa.


Juntamente com seu irmão, Eduardo, que mora nos Estados Unidos sob a proteção de Donald Trump, Flávio é investigado desde julho último pela Polícia Federal. O inquérito foi autorizado pelo ministro ‘terrivelmente evangélico’ André Mendonça e apura suspeitas de crimes no financiamento do filme Dark Horse, em homenagem ao pai deles.

Mendonça levantou o sigilo sobre o caso a pedido de seu colega Edson Fachin, presidente do STF. Por ele mesmo, não o faria tão cedo; deixaria passar o primeiro e o segundo turno das eleições para não influir nos resultados nem prejudicar Flávio.

Para o escolhido pelo pai para herdar seus votos, a discussão sobre o filme ‘é página virada’ e ele não deve mais explicações. Esqueceu de combinar com Fachin. Esqueceu também de combinar com o cineasta, produtor e diretor do filme, o norte-americano Cyrus Nowrasteh, que utilizou sua conta na rede social X para afirmar que os valores amplamente divulgados pela imprensa sobre o custo do longa são ‘ridiculamente inflados’.

Eleitor que se diz contra a corrupção vota em candidato investigado por corrupção? Claro que sim. O antipetismo recusa qualquer coerência ou lógica.

Segundo Alice Maciel, repórter do ICL, empresas de Flávio dividem a mesma sala em Brasília com 16 firmas do empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como ‘Careca do INSS’. Antunes ganhou notoriedade nacional como o pivô de um esquema bilionário de fraudes e desvios envolvendo descontos associativos indevidos nas aposentadorias e pensões de milhões de beneficiários da autarquia. Ele está preso.

A sensação no entorno de Lula é que a semana termina melhor do que começou. Para Flávio, é o oposto.

O preço da negociação

Eleição presidencial é sinônimo de crise institucional. A rima é pobre, mas o assunto é rico. A perspectiva de mudança no poder do Brasil dá origem a disputa violenta, com diversos golpes abaixo da linha da cintura. E não há juiz capaz de interromper o tiroteio. Nem os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Eles, aliás, tornaram a situação ainda mais grave. Só depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. Até o fim de outubro, a troca de ofensas será a constante no cenário político brasileiro.

Há que se distinguir algumas proezas nesse teatro de agravos maiores ou menores. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso na Papuda, em Brasília, merece destaque. Audácia inacreditável. Conseguiu chegar perto das principais autoridades brasileiras. Corrompeu a maioria delas com dinheiro vivo, benesses e chuva de vantagens para esposas, filhos e protegidos. Os meninos receberam empregos fabulosos, cartões de crédito generosos, perspectivas profissionais maravilhosas, enquanto seus pais frequentavam convescotes temperados pelo melhor uísque e charutos cubanos de ótima procedência. Tudo isso à custa da sangria de aposentados e pensionistas de diversos estados brasileiros, desde o Rio de Janeiro até o Amapá. Exceção foi o Distrito Federal. O Banco de Brasília (BRB) foi saqueado e chegou à beira da falência. A população será convidada a pagar o prejuízo.


É com esse pano de fundo que transcorre a eleição de 2026. Os ingredientes da política brasileira são evidentes. Há forte pressão contra o petismo do presidente Lula. E, também, existe significativo movimento contra bolsonaristas e correlatos. As duas forças se equivalem no tamanho e na presença pública. Ambas são capazes de colocar o povo na rua. Na eleição passada, o Partido dos Trabalhadores conseguiu eleger o presidente da República por margem muito pequena. Mas não fez maioria na Câmara dos Deputados, nem no Senado Federal. A situação permanece. As mais recentes pesquisas de opinião colocam Flávio Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva em posição de empate técnico. Situação que eleva a tensão a seu nível máximo.

Não há força hegemônica no Brasil atual. A inexistência de um poder definido colocou o STF no centro dos debates. E os ministros, por consequência, tomaram partido. O tribunal se dissolveu em brigas menores e decisões judiciais apressadas, sem o devido fundamento legal. Partido político não tem legitimidade para pedir a exoneração de funcionário público. O presidente da Corte, Edson Fachin, foi obrigado a sair de sua confortável posição e agir para desautorizar as duas partes em litígio. Aproveitou para enterrar o famoso processo das fake news que já durava mais de sete anos. O próximo capítulo deverá ocorrer na próxima semana, quando o plenário da Casa se reunir. Os ministros vão permitir sessão pública, com transmissão ao vivo pela TV Justiça?

Ao lado dessa confusão, é preciso estar atento a um detalhe: o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, o cubano ressentido, está em visita a três países no continente: Colômbia, Equador e Peru. Ele pretende aumentar o poder de Washington na região. Isolar a China. Na época da Operação Lava-Jato os norte-americanos tiveram papel importante. Entregaram aos juízes de Curitiba provas do desvio de recursos ocorrido na Petrobras. Os supremos, tempos depois, reverteram a investigação e anularam provas até daqueles que confessaram ter colocado dinheiro público no bolso. Inocentaram a classe política. Tremendo favor, que merece generoso pagamento.

O súbito vigor do bolsonarismo tem origem na agitação que seus aliados fazem desde Washington. Os norte-americanos possuem bom serviço secreto, muito dinheiro e força bélica evidente. Eles podem influir na política brasileira. Na impossibilidade de fazer prevalecer a vontade norte-americana na Europa e no Oriente Médio, resta o exercício da força e do convencimento no quintal sul-americano. Neste momento, depois das aventuras de Trump pelo mundo, é razoável prestar atenção no trabalho dos bolsonaristas aliados aos norte-americanos.

A tradição política brasileira é a conciliação, desde a Proclamação da República. No atual caso, alguns ministros estão muito expostos. Em tempos recentes, Dias Toffoli foi flagrado em situação constrangedora. Varreram a sujeira para debaixo do tapete. Quando a temperatura retornar ao normal, os supremos estarão aptos a reconstruir parcerias e, de novo, promover o esquecimento geral. O acordo deverá abranger o presidente da República, já eleito e comprometido com as novas lideranças. No Brasil, as brigas são rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população.

A crise no STF

Nada mais trágico para a sociedade brasileira do que a perda de legitimidade e de reputação do Poder Judiciário. Não escapa aos olhos dos cidadãos mais atentos que a regra da separação e equilíbrio harmônico dos poderes tem sido substituída pela autonomização das instituições republicanas, em clara violação dos princípios erigidos e rediscutidos ao longo de séculos de consolidação do Estado de Direito.


A crise no Supremo Tribunal Federal expõe a rivalidade antirrepublicana entre poderes autônomos e rivais preocupados em assegurar as próprias prerrogativas, usurpando a soberania do povo a quem devem a legitimidade de suas ações. Essa lógica fatal contamina as instâncias decisivas do poder estatal. Não se trata apenas de que as distintas instituições do Estado Democrático de Direito buscam abocanhar frações crescentes do poder. Pior que o pior: comportam-se, diante do cidadão, como forças estranhas e hostis, usurpando os poderes que deveriam ser exercidos em nome do interesse público. As autoridades judiciárias afundam sua ­reputação no lodaçal do narcisismo.

As recentes exibições de narcisismo das autoridades judiciárias na mídia e nas redes sociais são um exemplo impecável de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência aos valores do mundo das celebridades, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado da magistratura. Os cidadãos ainda vão ficar à mercê de um juiz youtuber.

Os processos sociais e econômicos que assolam o mundo contemporâneo são cruéis em suas contradições: adulam o sucesso individual e, no mesmo movimento, exercem o controle de mulheres e homens no propósito de aniquilar os resíduos de sua cidadania. Na era do ciberespaço, o domínio dos corações e das mentes é exercido com os métodos desenvolvidos nos laboratórios midiático-repetitivos encarregados de remover as sobras de razão que os indivíduos imaginam preservar.

A degradação do aparelho judiciário tem avançado sem qualquer reação daqueles que percebem o fenômeno e o abominam, mas que preferem se recolher diante da contundência e da ousadia dos que buscam substituir as regras da (inter)dependência dos poderes pelos festivais de exibição midiática, encenados em um ambiente social entregue às farândolas do Pouco Pão e Muito Circo.

Não há limites à ação pessoal de autoridades atraídas pelos frêmitos e cintilações da “sociedade do espetáculo”, o brilhareco de 15 minutos de fama. São exemplos impecáveis de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência ao exibicionismo das telas e das manchetes, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado.

As relações promíscuas entre as autoridades judiciais e a mídia colocam os cidadãos brasileiros diante da pior das incertezas: a absoluta imprecisão dos limites da legalidade. As conquistas da modernidade, das quais não se pode abrir mão, têm sido pisoteadas por quem deveria defendê-las. Ocultam à sociedade, em cujo nome dizem agir, a dedicação com que laboram para tecer a corda em que enforcarão as garantias individuais. É comum e corriqueira entre nós a transformação das prerrogativas funcionais em privilégios individuais e pessoais.

Nas repúblicas modernas, se é que temos aqui algo parecido com isso, figuram entre as cláusulas pétreas aquelas relativas à representação legitimada pelo voto, à impessoalidade na administração pública e à constituição de um sistema de poderes e garantias fundado na lei. O sistema de poderes e garantias ancorado na lei é o núcleo central do Estado de Direito. É isso que o obriga a punir, no exercício do monopólio da violência, as tentativas de opressão arbitrária de um indivíduo sobre o outro. O descumprimento dos deveres do ente público termina por solapar a solidariedade que cimenta a vida civilizada, lançando a sociedade no desamparo e na violência sem quartel. Os códigos da cidadania moderna foram concebidos como uma reação da maioria mais fraca contra o individualismo anarquista daqueles que se consideram com mais direitos e poderes.

Diria Hannah Arendt que a banalidade do mal se transmuta no mal da banalidade.

Por que eleitor demorou a saber de investigação sobre Flávio?

A Polícia Federal (PF) pediu e a Procuradoria-Geral da República (PGR) não se opôs à apuração de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção passiva, entre outros, atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) do caso Banco Master/Daniel Vorcaro, autorizou a abertura de investigação em 22 de julho, três dias antes da convenção partidária que tornou o primogênito de Jair Bolsonaro candidato à Presidência. O eleitorado brasileiro, contudo, só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas de intenção de voto no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois. Por quê?

Não fosse o enfrentamento entre Mendonça e o colega Alexandre de Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado o ex-presidente da República, o país desconheceria uma variável relevante na disputa eleitoral de 2026. Em março passado, dois terços dos eleitores brasileiros disseram à Quaest que a maior fraude bancária da História seria levada em conta para decidir o voto. Quatro em dez evitariam votar em qualquer candidato envolvido no escândalo; 29% levariam os desdobramentos em consideração, além de outras pautas.


Seis meses atrás, as relações de Flávio não eram conhecidas. Tornaram-se públicas pelo jornalismo independente. O site The Intercept divulgou em 13 de maio o áudio em que o senador, eleito em 2018 com quase 4,5 milhões de votos, cobra do então banqueiro o dinheiro para financiar a cinebiografia do pai. Ao longo dos meses, muitos contatos, investigações e operações da PF enredando políticos ao Master vieram à tona. Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), ACM Neto (União-BA), Cláudio Castro (PL-RJ) são exemplos.

Há fundadas suspeitas contra os ministros Moraes e Dias Toffoli, do STF. Os nomes do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, estão sob escrutínio. Foi revelado que o filho mais velho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, é alvo de três inquéritos derivados do escândalo do INSS por suspeita de tráfico de influência no setor público. O Brasil soube de tudo isso. Só não fora informado, até ontem, que o presidenciável do PL é investigado.

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. O primeiro debate, da Band, se deu na semana seguinte, quando também os candidatos foram sabatinados no Jornal Nacional. Desde o fim do mês passado, está no ar a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Flávio tem desviado das perguntas sobre a relação com Vorcaro, alegando acordo privado para o financiamento do filme “Dark horse”, como se fosse natural um senador da República pedir patrocínio a um banqueiro, como se fosse um produtor cultural a um mecenas.

A informação de que ele é alvo de inquérito não poderia ser ocultada da sociedade brasileira. Mas foi. É direito do eleitor ter todas as informações disponíveis sobre cada candidatura, seja para presidente, senador, deputado federal ou estadual. Sonegar procedimentos jurídico-policiais que afetam o voto também é forma de atacar a democracia.

Impressiona nesse caso é que saberíamos de nada, não fosse a pressão coletiva por quebra total do sigilo sobre o caso Master, em decorrência do enfrentamento entre Mendonça e Moraes. O Brasil precisou de uma crise que quase implodiu o STF para saber do procedimento investigatório contra Flávio. O momento sombrio no Judiciário produziu o efeito colateral positivo, quando o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou o fim do segredo, na noite de anteontem.

Ao longo da semana, Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, indicado por Jair Bolsonaro ao STF por ser “terrivelmente evangélico”, homologou ao menos uma colaboração premiada igualmente relevante para o caso envolvendo a cinebiografia do ex-presidente e Vorcaro. O delator Antônio Carlos Freixo Júnior, alcunha Mineiro, confessou à PGR ser o homem da mala do ex-banqueiro. Em meia década, movimentou R$ 1,3 bilhão em dinheiro vivo, entregue em malas a destinatários determinados pelo Master, revelaram Andréia Sadi e Reynaldo Turollo Jr, na GloboNews e no portal g1. Foi Mineiro quem transferiu o suposto patrocínio ao filme “Dark horse” ao fundo americano ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, o ex-deputado que, dos Estados Unidos, atua por sanções contra o Brasil para beneficiar o pai.

Completamente estarrecidos com o conjunto de mensagens de Vorcaro a Moraes, o acirramento da briga entre ministros, a letargia no STF e a seletividade na divulgação das investigações sobre o Master a cargo de Mendonça, setores da sociedade civil — a começar por um conjunto de 13 ministros aposentados do Supremo em carta — cobraram de Fachin transparência e celeridade no acesso às informações. O presidente do STF mostrou-se disposto a provar que a instituição é capaz de se reordenar. A dúvida é se os demais colegas estarão imbuídos do mesmo senso de responsabilidade.

Foi mais democracia, não menos, que permitiu ao Brasil saber da investigação contra o filho de Bolsonaro. Democracia é o lugar em que a sociedade se manifesta, reivindica, manda, e o poder recua, age, obedece. Autoritarismo é o ambiente em que o agente público está livre para interferir, dissimular, negar, transgredir, mentir, atacar. É como atua a extrema direita brasileira.

Do homem da mala para 'Dark Horse'

Antonio Carlos Freixo Junior, vulgo Mineiro, amigo de Flávio Bolsonaro, é o maior homem da mala que já existiu. Nos últimos quatro anos, segundo confessou à PGR, despachou R$ 1 bilhão em dinheiro vivo para os amigos de Daniel Vorcaro, a pedido deste. R$ 1 bilhão corresponde a 10 milhões de notas de R$ 100. Numa balança, pesariam 2,5 toneladas. Empilhadas, ocupariam um aposento de 5 metros quadrados do chão ao teto.


Mineiro fez todo esse carreto usando malas. Uma mala tamanho padrão comporta cerca de 20 mil notas, organizadas de forma a não deixar um milímetro vazio. Donde, se a aritmética não falha, 10 milhões de notas ocupam 500 malas. Mineiro as comprava no comércio de São Paulo, e tantas de uma vez que, segundo a repórter Malu Gaspar, de O Globo, o fabricante ofereceu vender-lhe as malas diretamente. Não se sabe ainda como essas malas viajavam aos felizes destinatários, se por correio, Sedex, motoboys ou estafetas. Mineiro também não sabe quem era a maioria desses destinatários nem seus endereços. Como fazia para as malas chegarem, ainda é um mistério.

Só se sabe que US$ 12,3 milhões desse dinheiro, equivalentes na época a R$ 61 milhões, foram destinados ao filme "Dark Horse", a cinebiografia de Jair Bolsonaro, por intermédio do Havengate Development Fund, um fundo privado de investimentos sediado no Texas. O Havengate pertence a Paulo Calixto, advogado do ex-deputado e foragido Eduardo Bolsonaro, também residente no Texas. "Haven", em português, significa lugar seguro, abrigo, refúgio. "Havengate" é o portão do abrigo. Nome perfeito para, se for o caso, abrigar de forma segura o dinheiro de condenados refugiados.

O dinheiro enviado à Havengate voltou para o Brasil a fim de financiar a produção de "Dark Horse" pela Go Up Entertainment, produtora que nunca produziu um filme. Mas só vieram 28% do dinheiro, justamente o destinado à parte mais cara de uma produção: a filmagem.

É o único caso na história do cinema em que 72% do orçamento foram gastos antes de se rodar um só metro de filme.

A crise que nós plantamos

O chanceler da Alemanha disse que ficou chocado com a vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt. No entanto, essa vitória já era prevista pela quase totalidade dos observadores. Aqui, no Brasil, as pessoas parecem chocadas com a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) como se ela fosse um raio em céu azul. No entanto, os contornos dessa crise já se desenhavam há algum tempo. Ela pode ser inédita, mas não inesperada.


Há muitos pontos de reflexão se não nos detivermos apenas no destino de ministros que se associaram ao banqueiro Daniel Vorcaro. As coisas não vinham bem no STF a começar pela compreensão de que os ministros nomeados deveriam ser aliados incondicionais do presidente que os indica. A indicação política foi contaminada pela polarização. Bolsonaro queria um ministro terrivelmente evangélico; Lula indicou dois aliados e sua última indicação foi barrada pelo Congresso. Existe uma tendência a naturalizar escolhas políticas, em detrimento das condições determinadas pela Constituição. Era de esperar que o confronto existente na sociedade se espelhasse ali, com todos os perigos que isso representa.

Não houve reação social à decisão de ministros de permitirem que seus parentes advogassem na Corte. Em alguns processos envolvendo bilhões de reais, parentes de mais de um ministro eram os advogados. De certa forma, essa decisão amplia as rendas familiares de forma exponencial.

Numa das análises sobre o STF no exterior, um jornal alemão chegou a dizer que a cobiça tinha arruinado a reputação dos ministros. Já era uma reação ao contrato entre o Banco Master e a família de Alexandre de Moraes, um acordo aparentemente com o escritório da mulher de Moraes, mas no fundo algo que envolvia diretamente o ministro, a julgar pela troca de mensagens.

Alexandre de Moraes combateu o bolsonarismo. Os outros ministros o apoiaram, mas deixaram que ele fosse a encarnação da luta. Era mais cômodo para eles. Também foi mais cômodo para a maioria não se intrometer nesse processo repressivo corrigindo seus excessos.

Nesse sentido, a experiência moderna do Brasil não foi muito diferente de outros países. A escritora iraniana Azar Nafisi conta, em seu livro "Leia Perigosamente", que a revolução islâmica foi muito dura com os seus adversários. Mas ninguém se importava muito, porque afinal as vítimas eram pessoas com quem não se concordava ou mesmo se desprezava. Essas soluções nunca dão bons resultados. Em alguns casos, a repressão se amplia, mas o silêncio de qualquer forma desumaniza aqueles que deveriam protestar, mas não o fazem.

Escrevi alguns discretos artigos sobre o tema, lembrando que a generosidade dos vencedores poderia ser um fator decisivo para abrandar o clima de hostilidade entre os brasileiros. Nos casos em que me envolvi pessoalmente, como o de uma jovem de Minas, que estava presa, fui atendido por Moraes, que a libertou imediatamente. Fiquei grato a ele, mas segui recebendo muitas denúncias.

O clima sempre foi de punição. Moraes era aplaudido em shows onde as pessoas gritavam “sem anistia”. Vozes que sugeriam outros caminhos para lidar com o problema tendiam a desaparecer. Esse clima de apoio ostensivo pode ter estimulado o ministro Moraes a seguir seu caminho em busca da fortuna material.

Todas essas coisas me vêm à cabeça no momento em que a extrema direita vence na Saxônia-Anhalt. O Brasil teve uma experiência de vitória de uma corrente radical em 2018. Bolsonaro fracassou na sua Presidência, tanto que, ao contrário dos outros, não conseguiu se reeleger.

Era para termos contido essa experiência radical. Mas ela volta a ser perigosa agora, nas eleições de 2026. Cabe uma pergunta importante: era para termos superado o problema. Como explicar que ela volte a aparecer como uma alternativa?

Essa é uma discussão importante. Infelizmente, não há clima para ela, pois as paixões não permitem dúvidas ou ambiguidades. Elas são preto e branco.

A vitória sobre Bolsonaro foi vista e proclamada como uma vitória da democracia. Dentro dos limites, ou até mesmo estourando os limites financeiros, foram realizadas políticas sociais de peso. A democracia triunfante em 2022, no entanto, não conseguiu responder à sensação de desânimo da população. Ela manteve muitos dos erros que deram a vitória a Bolsonaro.

Poderíamos ter feito de outro modo? Que mudanças deveriam ser feitas para que o distanciamento entre a política e as pessoas não fosse tão grande? Que políticas, como a segurança pública, precisaríamos adotar com seriedade e eficácia para evitar que o mercado eleitoral fosse inflacionado com imitadores de Bukele?

Tenho ainda uma visão de que a continuidade triunfará nas eleições, graças à popularidade do candidato e à dispersão e inexperiência da direita. No entanto, a vitória seria uma espécie de fim de linha. Se não caminharmos para reformas na política e na Justiça, o desgaste aumentará e o fantasma que ronda o mundo pode reaparecer com força no Brasil.

Se isso ocorrer, não teremos direito, como o chanceler alemão, de nos considerarmos chocados. Essas coisas não acontecem por acaso e têm uma longa gestação no trabalho incessante dos adversários e nas vacilações do processo democrático.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


O golpe esteve e está aí

“Antes, era salvar a democracia; hoje é salvar a democracia e a soberania.” - Marina Silva

O golpe de 1964, a que devemos uma ditadura de 21 anos (nefasta como toda ditadura), foi gestado lá atrás e só não teve êxito completo em 1954 porque foi frustrado pelo suicídio de Getúlio Vargas. Na sequência, os militares assumiram o poder, mas mantiveram as aparências do legalismo formal, dando posse ao vice-presidente Café Filho, credenciado por haver traído o presidente que o elegera. Seria um presidente pro forma, algo como essa senhora que os norte-americanos designaram para assumir a presidência em uma Venezuela reduzida a protetorado.


Os militares, como é sabido, tomam o controle do país em agosto de 1954 e já em novembro de 1955 maquinam novo golpe, desta feita para impedir a posse de Juscelino Kubitschek, que em outubro se elegera presidente da República. Alegadamente, JK teria sido “apoiado pelos comunistas” e, se não fôra bastante, assumiria a presidência tendo João Goulart, o herdeiro de Vargas e do trabalhismo, como seu vice.

O golpe, porém, desandou, graças à dissidência do Ministro da Guerra, o gal. Teixeira Lott, que, por sua vez — a história de nosso país é especiosa — comandou um golpe (dir-se-á um contragolpe) para restaurar a legalidade, com a bênção do Congresso, e em 1º de janeiro de 1956 Juscelino e Jango tomavam posse no Palácio do Catete. A operação abafa-golpe ficou na história como “O Onze de novembro”. O golpe havia sido frustrado, mas a vocação golpista persistia. Juscelino cumpriria seu mandato por inteiro, mas teria de enfrentar oposição biliosa no Congresso e na imprensa — esta de hoje é a mesma de ontem —, um sem-número de tentativas de impeachments e dois levantes militares (Aragarças e Jacareacanga).

O ano de 1961 nos traria uma nova tentativa de golpe, e agora um contragolpe parlamentar, um levante militar, a resistência popular e um golpe parlamentar, a saber: a renúncia do presidente Jânio Quadros, artimanha para um golpe de Estado; o contragolpe parlamentar, aceitando a renúncia e dando posse na presidência ao presidente da Câmara (o vice Jango estava na China); a tentativa de golpe militar, com o veto dos três ministros militares à posse de João Goulart; a resistência popular a partir do Rio Grande do Sul, sob a liderança do governador Leonel Brizola; e, por fim, o golpe parlamentar, quando o Congresso, em poucas horas, transformou o presidencialismo, sob o qual Jango havia sido eleito, em um parlamentarismo disfuncional. Mas isso, nas circunstâncias, tornara-se irrelevante, pois o objetivo do golpe, transacionado com a subversão militar e o Congresso, era -- não podendo, nas circunstâncias criadas pela reação popular, impedir a posse de Jango --, reduzir seus poderes.

O ciclo aberto em 1954, porém, ainda não estava fechado. Faltava a deposição do presidente que pregava reformas de base, mobilizara o país em torno de uma campanha nacional de alfabetização de adultos, e - insânia das insânias! – defendia a reforma agrária. S deposição anunciada veio trazendo em seu regaço uma ditadura: aposentadorias de ministros STF, fechamento do Congresso, cassações de mandatos eletivos, demissões de servidores públicos, intervenção no STF, e, como não poderia faltar, revogação da ordem constitucional, sequestros, prisões, tortura, exílios, assassinatos ainda sem conta. Era o golpe militar de 1º. de abril de,1964 que se instalava com ostensivo apoio da grande imprensa, das forças conservadoras e, por óbvio, com o apoio estratégico dos EUA, que, inclusive, estacionaram em nossas costas navios de guerra. Era a operação Brother Sam.

Relembro esses fatos tão conhecidos para pôr de manifesto a engenharia do processo social: não há acaso, ou gratuidade. O observador atento não se pode dar ao luxo de surpresas.

O movimento de outubro de 1930 impôs-se como uma necessidade em face da exaustão da Primeira República, arcaica de nascença. O Estado Novo brasileiro (1937-1945) seguiu-se à falência da Constituição e do regime de 1934, lembrando a frustração da República de Weimar, sobre cujos destroços a direita alemã palmilhou a ascensão de Hitler (1933). Antes dele, a Europa, ainda no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, já conhecia o fascismo, com a tomada do poder por Mussolini na Itália (1922), e já vivera a Grande Depressão de 1929. Além da Itália e da Alemanha, eram ditaduras Hungria, Espanha (Primo de Rivera e, a seguir, Franco), Albânia, Polônia, Portugal, Lituânia, Iugoslávia, Bulgária, Estônia, Grécia, Letônia e Romênia.

A América Latina não seria exceção ao avanço autoritário. Brasil e Argentina lideravam o rol de 16 ditaduras: Bolívia, Chile, Cuba, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Este era o mundo contemporâneo à Segunda Guerra Mundial. Vivemos a chamada Guerra Fria que se encerra em 1991, com o suicídio da URSS. Os EUA, após derrotarem seu poderoso inimigo, sem precisar disparar um só tiro, assumem o papel de unipotência incontestada do mundo, até a emergência da Eurásia, sob a liderança da China. Retorna a polaridade, instala-se a Segunda Guerra Fria.

Mas há algo a assinalar como distinto, e o principal fato é o novo papel dos EUA; se antes, na conflagração de 1939-1945, lideraram o mundo que sonhava com as liberdades que o nazifascismo sufocava, e mesmo na Guerra Fria reivindicavam o título de defensores das democracias, os EUA assumem hoje, sem tergiversações, sem disfarces, a liderança de uma verdadeira internacional neofascista, que infesta o mundo a partir da Casa Branca.

Valem-se do poderio econômico e militar que ainda conservam, dos meios da guerra tout court, dos recursos da guerra híbrida, ameaçam o mundo com invasões, sequestros, rapina, tarifaços. Aliam-se ao sionismo no genocídio de palestinos e na agressão ao Irã. Anunciam o Canadá como um Estado americano e reivindicam a posse de Cuba (objetivo antigo) e da Groenlândia. À sua sombra, crescem os governos de direita na Europa e o neonazismo acaba de conquistar contundente vitória eleitoral na Alemanha. E os países que integram a OTAN (aos quais se soma Japão, há tanto servil), acatando ordens de Washington, estão duplicando os gastos militares.

Este era, lembremos para não esquecer, o vestíbulo da Segunda Guerra Mundial.

O avanço da direita e da extrema-direita nos diz respeito. Um de seus objetivos declarados é o controle absoluto, já quase alcançado, da América do Sul. E esse avanço se faz, até aqui, nos termos do processo eleitoral. O Brasil e o Uruguai são as duas últimas democracias ainda não dominadas pela extrema-direita. E a Venezuela, reduzida à condição de protetorado, exposta ao saque de suas riquezas, não será sua única vítima. O Brasil, pelas suas características de território, posse de estoques de minerais estratégicos, população e desenvolvimento, é o ponto de resistência a ser removido. Digo isso para ressaltar que o futuro imediato do Brasil está muito a depender, objetivamente, das nossas próximas eleições presidenciais.

A ameaça de retrocesso, presente, traz à baila os tempos antecedentes de 1964, as pressões dos EUA contra o governo brasileiro. Naquela altura, diferentemente de agora, era forte o movimento sindical, as forças populares dispunham de certo nível de organização, e se mobilizavam, e o movimento estudantil era realmente uma organização de massa. O Congresso, majoritariamente progressista (tanto que teve de ser mutilado). Havia setores nacionalistas e progressistas nas forças armadas, tanto que não faltaram as centenas de militares cassados. Naquela altura, a população, em grande parte, defendia, nas ruas, nos comícios, nas passeatas, as reformas de base e a sustentação da democracia. Tanto assim que a ditadura, para instalar-se, teve de lançar mão de um golpe de Estado.

Hoje, a ameaça pode avançar pelo processo eleitoral.

Os sinais estão dados.

Foi assim a ascensão do fascismo na Itália, foi assim a ascensão do nazismo na Alemanha. Assim estão sendo derruídas as democracias em nosso continente. No nosso caso, o retrocesso sem ruptura da legalidade pode ser pavimentado por uma institucionalidade em crise, em que avultam um Judiciário pervertido e amesquinhado, não imune a interferência estrangeira, um Congresso reacionário e desapartado do interesse nacional.

Precisamos reagir, imediatamente, sem titubeios.

Mendonça e o fim da República

Antes de tudo, é preciso dizer o óbvio: Alexandre de Moraes cometeu erros graves. O inquérito das fake news tornou-se uma aberração jurídica. Sem objeto claramente delimitado, sem prazo definido e marcado pela concentração excepcional de poderes nas mãos do relator, consolidou um modelo de atuação monocrática que parte importante da academia, no Direito e na Ciência Política, denuncia há anos. Criticar Moraes, portanto, não é uma posição bolsonarista ou petista, mas faz parte do dever cívico de cada cidadão.

Dito isso, é preciso falar de André Mendonça. O ministro escolheu conduzir sua ofensiva contra Moraes da maneira mais destrutiva possível para o próprio STF. Ao expor publicamente conflitos internos, levantar sigilos e atingir o núcleo político do governo Lula a poucas semanas da eleição presidencial, produziu um efeito previsível: derreter a já fragilizada autoridade do STF justamente quando ela deveria ser preservada. É difícil acreditar que o momento seja irrelevante. Se o objetivo fosse exclusivamente jurídico, nada justificaria que episódios envolvendo Lulinha e, depois, os documentos que atingiram Moraes viessem à tona exatamente às vésperas da disputa eleitoral. 


No século XXI, democracias já não morrem, em regra, por quarteladas ou golpes militares clássicos. Elas são corroídas lentamente pela perda de legitimidade de suas instituições. Depois da Segunda Guerra Mundial, as constituições democráticas fortaleceram tribunais constitucionais como barreiras contra o autoritarismo e garantidores dos direitos fundamentais. Justamente por isso, líderes autoritários passaram a compreender que controlar o Judiciário era condição para controlar o próprio regime. Afinal, como prender adversários, alterar regras eleitorais ou relativizar direitos se existe uma corte constitucional capaz de impedir esses movimentos?

Foi desse diagnóstico que surgiu aquilo que a literatura chama de court packing, ou empacotamento da corte. Na Hungria, Viktor Orbán primeiro deslegitimou o Tribunal Constitucional para depois reduzir sua autonomia. Na Polônia, sucessivas intervenções sobre o Judiciário foram apresentadas como uma suposta correção da vontade popular. Na Venezuela, Hugo Chávez ampliou o número de ministros da Suprema Corte para construir uma maioria política permanente. Nenhum desses processos começou com uma simples mudança legislativa: todos dependeram, antes, da destruição da confiança pública no tribunal.

É justamente por isso que cortes constitucionais precisam administrar não apenas o conteúdo de suas decisões, mas também o seu tempo político. Alexander Bickel chamou isso de passive virtues, a prudência institucional segundo a qual um tribunal preserva sua autoridade justamente porque sabe quando não transformar um conflito político em um confronto definitivo. Rosalind Dixon desenvolve argumento semelhante ao demonstrar que a legitimidade difusa das cortes é um ativo institucional insubstituível. A democracia perde como um todo quando sua corte constitucional tem sua imagem de imparcialidade destruída.

Esse cuidado, infelizmente, não tem caracterizado o Supremo há décadas. Mas Mendonça levou essa deterioração a um novo patamar. Desde o início do ano, suas decisões passaram a atingir diretamente o entorno do presidente Lula. Vieram as medidas contra Lulinha, depois a escalada das investigações, a retirada de sigilos e, por fim, a divulgação de documentos que colocaram Alexandre de Moraes no centro de uma crise sem precedentes, culminando no pedido de afastamento do diretor-geral da Polícia Federal e num conflito aberto entre ministros da própria Corte.

A gravidade do caso não deve ser minimizada. Vieram à tona contratos firmados entre o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, e empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, personagem central das investigações conduzidas no Supremo. A existência desses contratos suscita dúvidas legítimas sobre conflitos de interesse e merece apuração rigorosa. No entanto, justamente por envolver um ministro da mais alta Corte do país, o dever de prudência institucional deveria ser ainda maior. Investigar com profundidade não significa transformar a própria investigação em combustível para uma guerra pública capaz de comprometer a credibilidade do tribunal.

O problema nunca foi investigar um colega. Ora, se Mendonça estivesse realmente movido por boa-fé institucional, havia alternativas republicanas disponíveis. Poderia discutir o caso internamente com os demais ministros, provocar os mecanismos de controle cabíveis, levar a questão ao plenário e, sobretudo, aguardar o encerramento do processo eleitoral para dar publicidade a elementos cujo impacto político era obviamente explosivo. Nenhuma dessas escolhas impediria a responsabilização de Moraes. Apenas preservaria a distinção entre a apuração de eventuais ilícitos e a destruição da legitimidade da instituição. Ao optar pela exposição pública em pleno calendário eleitoral, Mendonça fez da crise do Supremo parte da própria disputa presidencial.

Mas não é só. Em meio à crise, a imagem de Mendonça passou a ser mobilizada no campo evangélico, inclusive em discursos de pastores e na exibição de um vídeo seu durante culto realizado na presença de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. O próprio Mendonça também tem recorrido publicamente à linguagem da fé em manifestações públicas. Essa mobilização transbordou para as ruas no 7 de Setembro, quando sua imagem foi celebrada nos atos bolsonaristas, ao lado de uma estética política abertamente golpista, que remetia até mesmo a uma sonhada captura de Lula por Donald Trump, em alusão ao ocorrido na Venezuela. Ou seja, em plena disputa eleitoral, um ministro do Supremo simplesmente lançou o campo político evangélico contra um candidato e contra o próprio Tribunal.

Sua atuação ofereceu à extrema-direita golpista a narrativa perfeita de um Supremo dividido, moralmente falido e incapaz de exercer autoridade sobre si mesmo. É exatamente desse sentimento que vive a antipolítica. Essa estratégia tampouco é nova, ela quase sempre se apresenta sob a bandeira moralista da anticorrupção, como ocorreu durante a Operação Lava Jato. Embora tenha atingido empresários e políticos de diferentes espectros ideológicos, o resultado da Lava Jato foi, nas eleições de 2018, eleger o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro. A história recente de diversos países tem apontado para um padrão muito claro: a antipolítica apenas beneficia líderes autoritários que prometem governar acima das instituições tidas como corrompidas. Quando o Supremo deixa de ser percebido como uma instituição passível de críticas e reformas e passa a ser retratado como uma organização criminosa, já não existe um tribunal constitucional, mas apenas um alvo político a ser capturado.

É por isso que o erro de Mendonça é imperdoável. Seus argumentos podem até encontrar justificativas jurídicas, mas o modo, o momento e os efeitos de sua atuação produziram algo muito mais grave: implodiram a própria instituição em que ele é ministro, apenas para beneficiar um campo político em plena eleição.

A paixão pela mentira - e o Brasil sonhado

Como explicar o voto das mulheres em misóginos? O voto de imigrantes em xenófobos? O voto de negros em racistas? O voto de gays em homofóbicos? O voto de crentes em religiosos intolerantes? O voto de pobres em quem aprofunda a desigualdade?

O livro “A paixão pela mentira - a família e as tiranias”, do psicanalista Paulo Schiller, investiga a origem da ascensão de regimes autocráticos no século XXI. Os filhos de tiranos se apropriam do discurso maniqueísta que exalta a família convencional imaculada e incentiva a pregação religiosa. Eles se definem como paladinos da moralidade e mentem deliberadamente. Compulsivamente.

“Os governos fascistas se ordenam em torno da relativização – ou da destruição – da verdade”, escreve Schiller. Ele cita Hannah Arendt: o ideal não é ter adeptos fanatizados, mas dispor de cidadãos que não saibam distinguir entre ficção e fato e entre verdade e mentira.


Pior, segundo o autor. Os modernos líderes fascistas nem têm uma proposta política ou econômica densa e consistente – ao contrário do nazismo e do fascismo italiano dos anos 1930, que tinham programas de governo bem definidos. “Os fascismos de agora prometem falsidades infladas, como o fim da corrupção que assola os parlamentos e os tribunais”.

Schiller também cita “Instruções para se tornar um fascista”, da italiana Michela Murgia. Ela compara o fascismo ao herpes, que habita o corpo em silêncio, em estado latente. Pronto para ressurgir sempre que há uma queda de imunidade.

Para identificar a direita radical, uma das pistas é a obsessão pela masculinidade. “O machismo truculento”, diz Schiller, “é a roupagem sexualizada da paixão pela violência, traço central de todos os fascismos”.

Na economia, reside uma das promessas mais falsas. “A maioria das medidas desses dirigentes é contrária aos interesses de seus adeptos crédulos mais pobres”. No mundo inteiro. A falta de empatia humana é característica do governo de você-sabe-quem no Brasil.

Nesta semana, vimos com preocupação (e medo) a eleição, na Alemanha, do primeiro governo regional de extrema direita depois da guerra.

A principal líder do AfD (Alternativa para a Alemanha), partido que reprime imigrantes e condena casamento gay, se chama Alice Weidel. Casada com uma estrangeira, do Sri Lanka, com quem cria dois filhos. Ficou popular entre jovens no TikTok. Ela defende deportação de alemães com base em suas etnias.

A pouquíssimo tempo da eleição que vai definir o Brasil com que sonhamos – seja lá de que lado você está –, é preciso parar e refletir. Está difícil. A cada momento estoura um escândalo.

Nessa atual guerra de narrativas, que escancarou a corrupção disseminada no Legislativo e Judiciário, salvo honrosas exceções isoladas, o importante é ser um eleitor consciente. Você e sua família vão arcar com as consequências.

Como será o Brasil de seu favorito? Quer viver numa capitania de Trump – um presidente estapafúrdio que promete dar US$ 5 mil a cada adulto, caso Senado e Câmara mantenham maioria republicana? Quer entregar a Amazônia aos EUA? Tem saudade de Jair Bolsonaro? Quer um presidente que condecora milicianos, despreza mulheres e compra mansões com dinheiro vivo? Que pede R$ 62 milhões a um banqueiro-bandido? Não é cinema, é esquema.

O psicanalista Paulo Schiller atribui a instabilidade permanente às redes sociais, com fatos e intrigas que todos nós seguimos. Hipnotizados e alienados. “O que ele disse hoje? O que ele fez?” Com isso, “andamos em círculos e perdemos de vista os temas que de fato importam”.

O resultado? “Uma desmobilização apática”. E não uma consciência coletiva que garanta um país soberano e menos desigual.
Ruth de Aquino

Gostamos mesmo da democracia?

Escrever crónicas para um semanário ou um diário é muito diferente, como não deixaria de dizer o sempre presente senhor de La Palisse. O diário exige ao cronista resposta rápida ao assunto do momento e, com a velocidade com que agora os assuntos entram e saem do espaço público, é certo e sabido que o texto sobre o assunto de anteontem vai ser lido como uma espécie de aula de História.

Um cidadão que escreve num semanário, como a VISÃO, sabe que, quando se senta para trabalhar, tem de resistir à tentação do assunto de hoje. Essencialmente por duas razões: escrevo hoje e, quando chegar o dia em que a revista sai, já mil pessoas mostraram a sua opinião sobre o assunto, o tempo permitiu recolher mais informação e a própria situação pode ter mudado ou podem ter surgido cambiantes. Resumindo, o tempo ajuda à reflexão, e isso é o que quem lê um semanário exige, quer em peças de opinião, quer nas outras.

Serve esta introdução para arranjar uma desculpa para eventuais precipitações.


Acordei e tinha uma daquelas centenas de mensagens que recebemos no telemóvel todos os dias, e que dizia que a extrema-direita tinha vencido as eleições na Saxónia-Anhalt. A possibilidade de escrever sobre a extraordinária capacidade do Chega de moldar a agenda da política portuguesa, ou sobre a forma como o Governo tem como única linha política a preparação para eleições, foi-se por incapacidade de pensar noutra coisa que não fosse a vitória retumbante da AfD, com 43,8% dos eleitores.

Em julho de 1932, no distrito de Magdeburgo, que corresponde ao território da atual Saxónia-Anhalt, o Partido Nazi teve também 43,8%. Ou seja, passados 94 anos, depois da destruição da Europa, depois do extermínio de seis milhões de judeus, um partido assumidamente próximo dos ideais do partido de Hitler volta a ter, no mesmo local, a mesma votação – na Alemanha, onde o trauma do nazismo parecia estar inculcado nas populações, onde o combate cultural a esta ideologia nunca deixou de ser feito, onde a polícia considera a AfD uma organização que atenta contra o Estado.

Pode ser que vivamos todos numa mentira e que, de facto, a maioria das pessoas não goste de liberdade, de ter direitos e da prosperidade que a democracia liberal nos trouxe

Conheço o discurso de que os territórios da antiga Alemanha de Leste foram negligenciados depois da reunificação alemã. São mentirosos, ou, pelo menos, muito exagerados e basta qualquer análise superficial sobre os valores investidos nesses territórios e a subida absoluta e relativa dos padrões de qualidade de vida, face ao momento da queda do Muro, para se chegar a essa conclusão. Mais, seria suficiente para perceber que esse argumento é falacioso olhando para os resultados eleitorais de 1932 e 1933 e para os das mesmas províncias nas várias eleições recentes na Alemanha. Sim, são parecidos, e não, não se limitam à divisão entre Alemanha de Leste e Alemanha Ocidental.

A AfD é pró-Rússia, sobretudo nas células do partido nos territórios da antiga Alemanha de Leste (aqui, aceito, há uma especificidade). Herança prussiana, pode ser dito, e diz o mito (nunca confirmado) que o próprio Konrad Adenauer, quando lhe disseram que a Alemanha ia ser dividida, respondeu que até era bom, já que a maioria do território que integraria a de Leste nunca teria sido parte da verdadeira Alemanha.

A AfD é antissemita, violentamente (no verdadeiro sentido da palavra) contra a imigração, e quer a reindustrialização da Alemanha. Poupo o estimado leitor à exposição do resto das linhas de força do programa; basta dizer que é arrepiante ver as semelhanças com o programa do Partido Nazi.

Além da conversa mal-amanhada sobre a discriminação da antiga Alemanha de Leste, que não casa com a realidade nem com o facto de haver resultados semelhantes noutros distritos alemães, tem sido repetido que as razões objetivas para este crescimento da extrema-direita na Alemanha estão relacionadas com a imigração descontrolada, a criminalidade que esses imigrantes trazem e as questões económicas.

Não há dúvida de que a Alemanha vive um problema económico, mas quisesse a esmagadoríssima maioria dos países do mundo ter uma crise parecida. No caso concreto do desemprego, os alemães não vivem o pleno emprego de que Portugal desfruta, mas a taxa de desemprego é de 6,3%, sendo a da Saxónia-Anhalt de 8%. São dados menos bons, mas longe de alarmantes ou de vagamente semelhantes aos que havia em 1932. Além disso, sou capaz de desafiar qualquer pessoa a que me diga três ou quatro países em que os trabalhadores vivam melhor do que na Alemanha. Que tenham mais proteção na saúde, na educação ou no desemprego.

Quanto à imigração “descontrolada”, é só mais a mentira do costume. A Alemanha teve um acréscimo de imigrantes/refugiados em 2015/16, na sequência da crise síria, a que Angela Merkel respondeu de uma forma humana e séria. A evolução do número de imigrantes não tem comparação com a portuguesa, por exemplo. E, claro, convém referir que a Alemanha também tem uma taxa de reposição da população abaixo de 2,1% e que a sua economia não funcionaria sem imigrantes.

Para quem delira com a ligação imigração/insegurança, aconselho a leitura dos dados da entidade que faz a estatística de crimes na Alemanha: a criminalidade tem baixado, e não há qualquer tipo de evidência que relacione um aumento de crimes (claro) com a imigração. Há dois que subiram: o cibercrime e o da violência política. Adivinhe o estimado leitor quem têm sido as vítimas de violência política.

Então qual será a explicação para que os alemães, nomeadamente os da Saxónia-Anhalt, corram para os braços dos neonazis como se entregaram aos nazis – não valerá a pena lembrar que, em 1932, a situação económica era muitíssimo pior, apesar de agora ao ódio aos judeus se ter juntado o do aos muçulmanos?

Temos, claro, as explicações do costume: os pais que percebem que os filhos vão viver pior do que eles, o medo irracional do diferente, o receio de uma nova civilização que parece não ter lugar para os humanos, a sensação de o voto nada mudar. Mas talvez seja tudo mais simples.

A sofisticação da propaganda nazi era extraordinária para a época, mas agora é ainda melhor. Talvez estejamos mais expostos à propaganda daqueles que querem destruir a democracia do que alguma vez estivemos. Tão boa que consegue convencer-nos de coisas que não vemos, nem de que nos apercebemos, mas que sentimos. Assim mesmo, sentimos, sem outra razão que não seja fazerem-nos sentir. Fazem que odiemos com todas as nossas forças os moderados de esquerda, mas sobretudo os de direita, porque estes não odeiam o suficiente.

Os imigrantes e a segurança não passam de detalhes. São sempre necessários grupos para odiar, para detestar, quando não há uma razão específica para evocar. Mais até: quantos mais imigrantes conseguirmos expulsar, ou não deixar que venham para cá, mais a economia se afundará, mais desemprego se gerará, mais desespero se semeará. No fundo, é o que a AfD, os Le Pens, os Voxs e os seus aliados Putins, e os donos das empresas de redes sociais (com motivos mais ou menos ideológicos, mais ou menos venais), querem. O objetivo é destruir a democracia.

E daqui vem a outra razão para o crescimento das forças antidemocráticas, que ainda é mais simples e não é muitas vezes referida por pudor: as pessoas podem, pura e simplesmente, não gostar da democracia, mesmo que esta lhes tenha dado tanto. Pode ser que vivamos todos numa mentira e que, de facto, a maioria das pessoas não goste de liberdade, de ter direitos e da prosperidade que a democracia liberal nos trouxe.

É urgente plantar sombra


Na canícula de 40 °C, entre França e Espanha, constatei o que Aveiro parece ter esquecido: a sombra é uma infraestrutura pública, o banco à sombra é um medicamento, o canto dos pássaros é saúde mental e quem planta uma árvore assina um pacto com o futuro.

Quando o termómetro se instalou entre os 36 e os 41 °C, aprendi a ler as cidades pela sombra. Foi na França da canícula, sob um céu cor de forno e um asfalto a queimar as solas, que descobri que o verdadeiro salva-vidas não tem sirene nem logótipo: tem copa. E a copa, naquelas latitudes, tem nome: chama-se plátano.

Até as estradas mudam de natureza quando os plátanos assumem o comando. Houve tardes em que a nacional se fez túnel verde: duas alas de árvores antigas debruçadas sobre o carro, a luz coada como por dentro de uma catedral e o automóvel a passar de aldeia em aldeia da Occitânia com uma diferença de vários graus no painel. Fora do túnel, os campos ceifados ardiam; dentro, havia essa brisa antiga que nenhum manual explica. Uma ala de plátanos não é uma decoração da berma: é uma obra pública do século XIX que ainda hoje salva vidas e que nós, em nome do progresso e da visibilidade, temos vindo a abater.

Nas cidades, a lição repete-se à escala da rua. Sob a copa frondosa, a luz coa-se numa água verde; o ar refresca; os passeios, as esplanadas, as ruas inteiras ganham outra temperatura. De Toulouse a Bordéus, de Albi a Narbona, a coreografia da canícula repetia-se: lá fora, a brancura e o forno; lá dentro, dentro da sombra, a vida lenta de uma esplanada, o café demorado, a conversa sem pressa, o clique seco das bolas de petanca entre os troncos. Sob um plátano, o corpo descansa, o pulso abranda, a cidade deixa de ser inimiga. A diferença entre o sol e a sombra, em dias de 40 °C, é a diferença entre suportar a cidade e habitá-la.

Em Toulouse ou em Valladolid, detive-me numa praça pequena que dizia tudo sobre inteligência cívica: uma árvore de copa redonda e cerrada, um banco de madeira, mesas pequenas de café, a tarde a passar. Sob a árvore, dois velhos prolongavam a conversa, duas cadeiras, uma mesita, um relógio que não mandava. Ninguém consumia nada de extraordinário; consumiam sombra, companhia, tempo. Pensei nas pernas cansadas, nossas e dos nossos pais, que não perdoam distâncias sem descanso.

Uma cidade que leva os idosos com carinho e respeito mede-se também pelos bancos: um banco à sombra a cada 30 metros, uma mesa para a sueca e o xadrez, um lugar onde se possa estar sentado sem ser cliente obrigado a consumir. O banco não é um mobiliário menor: é uma infraestrutura geriátrica ao ar livre, uma receita passada em madeira e sombra. Uma praça assim faz mais pelo envelhecimento saudável do que muitas campanhas: tira o idoso de casa, dá-lhe destino, protege-o do calor e da solidão.

Mas o que mais me impressionou não foi a abundância, foi o cuidado. Ali, a árvore é protegida por quem manda: podada com método, regada, defendida de obras e de caprichos, tratada como património público, com o mesmo respeito com que se guarda uma catedral ou uma ponte. E onde o chão está selado e já não há terra que chegue, inventa-se: em Toulouse, vimos plátanos de boa saúde em grandes recipientes, facilmente deslocáveis, se necessário, instalados nas praças e no meio do passeio, a provar que a árvore vai onde as pessoas estão e não o contrário.

E que ninguém despache isto como estética ou gosto: é saúde pública, com um corpo de evidência raro no urbanismo. Um estudo publicado na The Lancet Planetary Health, que modelou cerca de uma centena de cidades europeias, concluiu que elevar a cobertura arbórea a 30% poderia evitar cerca de um terço das mortes relacionadas com o calor. A Organização Mundial da Saúde recomenda que cada residente tenha um espaço verde a menos de 300 metros de casa, cinco minutos a pé, que convém fazer à sombra, porque caminhar ao sol aos 40 °C não é lazer: é um risco. E a climatologia urbana aponta sempre na mesma direção: uma boa copa baixa entre 2 e 8 °C a temperatura do ar envolvente, consoante a densidade e a humidade. Depois do verão de 2022, em que o calor matou mais de 60 mil pessoas na Europa, segundo um estudo publicado na Nature Medicine, a árvore é talvez o equipamento de saúde mais barato que existe: custa um buraco na terra, uma rega e um pouco de paciência e amor de jardineiro.

Depois lembro-me de Aveiro. E o contraste dói. A cidade da ria e dos canais, dos moliceiros e do postal ilustrado é uma cidade que anda ao sol. O Rossio, que devia ser a nossa sala de estar à sombra, está despido de árvores, um largo entregue ao clarão, onde ninguém para porque ninguém aguenta. A Avenida Lourenço Peixinho perdeu as árvores e, com as árvores, o canto dos pássaros e, com o canto dos pássaros, algo que nenhuma calçada substitui: a sensação de estar dentro de uma cidade viva. Há ruas em que o peão caminha exposto do primeiro ao último passo, em que sentar-se numa esplanada em agosto é um ato de coragem ou de fé. Pavimentámos, repavimentámos, lustrámos a pedra e esquecemos que uma cidade sem árvores é uma cidade sem misericórdia. Nas canículas que já não nos poupam, Aveiro coze no seu próprio urbanismo, prisioneira da ilha de calor que foi construindo, pedra após pedra.

E uma árvore nunca vem só: traz pássaros, e os pássaros trazem aquilo que a ciência agora começa a medir. Em 2023, investigadores ligados ao Instituto Max Planck mostraram, num estudo publicado no Journal of Environmental Psychology, que ouvir o canto das aves reduz a ansiedade e o pensamento paranoico. Assim, na prática, cada pássaro é um pequeno serviço público de saúde mental, gratuito e aberto a todas as horas. Um estudo europeu publicado na Ecological Economics já tinha concluído que a satisfação com a vida aumenta com a diversidade de espécies de aves perto de casa. Daí a necessidade de pensar a cidade como habitat: caixas-ninho nas fachadas e nos ramos, espécies que deem fruto e abrigo, recantos onde uma família leve uma criança a aprender que o melro tem nome e tem hora. Uma cidade onde os pássaros cantam é uma cidade onde os idosos vivem melhor e as crianças aprendem mais. O silêncio, ao contrário, não é paz: é ausência.

As evidências não ficam pelo corpo. Em 1984, Roger Ulrich publicou na Science um estudo que se tornou um clássico: doentes operados com janela para árvores recuperavam mais depressa e precisavam de menos analgésicos fortes do que os doentes com janela para um muro.

Se a vista de uma árvore cura, que diremos da árvore vivida, tocada, trepada, sentada? Uma esplanada sob um plátano é uma máquina de lentidão, um lugar onde o tempo muda de qualidade. Cidade com sombra é uma cidade onde se fica; cidade sem sombra é uma cidade de onde se foge e a fuga, no caso de Aveiro, chama-se ficar em casa com o ar condicionado ligado, para quem o tem; e aguentar o calor insuportável, para quem não tem.

O que falta não é espaço: é imaginação e vontade. Onde o solo está selado, os recipientes de Toulouse. Onde há lotes vagos e sobras de terreno, “florestas de bolso” plantadas em alta densidade, à maneira do botânico japonês Miyawaki, que crescem depressa e refrescam ainda mais rapidamente. Sobre mercados e parques infantis, pérgulas com videiras, enquanto a copa não cresce. Nas avenidas, caldeiras de árvore a sério, não aquele quadrado de asfalto que estrangula as raízes. Nas freguesias, uma árvore por cada recém-nascido, com o nome numa placa pequena, para que cada criança cresça com uma companheira e cada família com um motivo para olhar para cima. E bancos, muitos bancos, e mesas, e bebedouros gratuitos de água fresca: uma rede de sombra e descanso que permita a uma pessoa de 80 anos atravessar a cidade sem medo. Chame-se-lhe, se quiserem, um Plano Municipal de Sombra: um mapa do calor, um mapa da sombra, uma meta anual medida em graus ganhos e vidas protegidas. Pode até ser um pelouro, o pelouro da sombra. Há-os mais estranhos.

Sei que os autarcas herdam orçamentos curtos e cadernos de encargos longos, e que uma árvore não dá fotografia no dia em que se planta: a copa cresce à velocidade da vida, não à velocidade do mandato. Mas é exatamente isso que faz dela a medida justa da política, quem planta hoje governa para quem vem a seguir. Não se pede aos nossos executivos municipais que façam milagres; pede-se que plantem. Que o próximo orçamento tenha, entre a rotunda e o evento, um capítulo sério de árvores, sombra, bancos e pássaros; que a próxima obra da avenida inclua, além do repavimento, a replantação. O calor não espera pela conclusão dos estudos. E o termómetro, sabe-se, não vota, mas regista.

Regressamos de uma viagem de 2900 km, uma viagem que, por bela coincidência, se chamou serendipidade, com o calor colado à pele e uma certeza colada à alma: Aveiro precisa de árvores. Não um dia. Agora. Em recipientes, em canteiros, em praças, em avenidas, ao longo dos canais, no Rossio que pede copa, onde couber uma sombra cabe uma árvore. E quem planta hoje não planta para si: planta para a criança que há de correr nessa sombra, para o avô que há de sentar-se nesse banco, para a cidade que há de lho agradecer.

Há um provérbio grego que devia estar pendurado à porta de todas as câmaras municipais: “A sociedade torna-se grande quando os velhos plantam árvores de cuja sombra sabem que nunca desfrutarão.” Sob a canícula, percebi que isto não é um provérbio. É um programa de governo. E, quem sabe, a única medida de grandeza que ainda custa menos do que uma rotunda.

Miséria digital

Desigualdade social é igual a pelo de gato. A gente encontra alojada nos lugares menos prováveis. Para usar um termo da física, na economia de livre mercado a acumulação de riqueza é regida por uma “força centrípeta”. Ou seja, em todo processo que implique em risco, lucro ou prejuízo, a riqueza é sugada para o centro (o dinheiro vai para a mão de poucos). Ao mesmo tempo, o desenvolvimento humano é regido por uma “força centrífuga”. Ou seja, enquanto a riqueza vai se concentrando, a maioria das pessoas é expelida para fora (onde a vulnerabilidade é maior). É desse jeito, seja entre pessoas ou entre países. Um jogo desigual entre ricos e pobres, no qual o Estado existe para ser o árbitro da partida. Pelo menos, deveria ser assim nas democracias modernas.

Basta olhar o exemplo apresentado pela ONU Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), no seu relatório “Atualização do Comércio Mundial: Os países menos desenvolvidos estão atrasados ​​nas exportações digitais”. Em bom português, mais uma vez os países desenvolvidos estão levando a melhor fatia das evoluções econômicas. Dessa vez, são os serviços que assumem a vanguarda dos negócios internacionais, enquanto os países pobres e aqueles em desenvolvimento estão comendo poeira, para variar. Ficaria mais fácil apelar para os mecanismos multilaterais de mediação, como ONU, OCDE, G20, se seus próprios governos (federais, estaduais e municipais) se dedicassem ao compromisso primordial do Estado – de estabelecerem pactos sociais e planos de desenvolvimento com foco nas pessoas.


Segundo o relatório da UNCTAD, os serviços já representam mais de 70% dos insumos intermediários globais. Em 2025, os serviços representaram 27% das exportações mundiais. Entre eles, 56% são os chamados serviços digitalizáveis. No mesmo sentido, especialistas que fazem parte do ecossistema Porto Digital, em Recife, entendem que os produtos digitais representam um vetor importante de exportações. É muito mais fácil exportar software, algoritmos e IA do que itens físicos. Já são inúmeras startups realizando negócios com clientes e parceiros em outros países, muitas vezes, do outro lado do mundo. Tudo feito virtualmente.

Entretanto, nos países menos desenvolvidos, as exportações digitais correspondem a apenas 16% dos serviços exportados. Muito abaixo daquela média mundial. Entre os motivos, estão o alto custo de conectividade, a baixa capacidade técnica e a concentração de poder de IA em poucos países e empresas. Fica inaugurada assim a desigualdade digital, que aprofunda as demais modalidades de desigualdade social. Países pobres têm quase 20 vezes o custo de banda larga dos países ricos. Não admira que o uso médio de banda larga internacional por habitante dos países ricos possa chegar a dez vezes acima dos países pobres.

A UNCTAD recomenda que, especialmente os países menos desenvolvidos, invistam em infraestrutura e capacidades digitais, se quiserem ocupar melhor posição, não só nos negócios, mas, também, nas mesas de decisão das regras internacionais. O Brasil tem as condições para se estabelecer como jogador relevante nesse jogo, considerando-se seus estoques de energias renováveis, seus minerais terras raras e petróleo. Pesam contra a Ilha da Vera Cruz a situação educacional desfavorável (ranking internacional PISA 2025), a desigualdade social persistente e a fascinação pelo neoextrativismo para exportação de commodities.
Felipe Sampaio

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 




O 7 de Setembro de André Mendonça

A primeira a falar foi Sonia Hernandes, pastora, empresária e autoproclamada a “primeira bispa do Brasil”. “Que o Senhor guarde, livre e dê graça ao nosso irmão André Mendonça. Em nome de Jesus!”, glorificou. A líder da Igreja Renascer em Cristo estava no alto de um trio elétrico na Avenida Paulista. A seu lado, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL ao Planalto.

“Quero prestar meu apoio ao ministro André Mendonça. Aplausos ao ministro André Mendonça! Quero que o povo brasileiro manifeste o apoio ao ministro André Mendonça!”, prosseguiu a deputada Bia Kicis, do PL do Distrito Federal.


Terceiro a usar o microfone, o deputado Gustavo Gayer, do PL goiano, exaltou “o homem que está lutando contra o sistema e voltou a dar esperança ao povo brasileiro”. “O ditado diz que um homem sozinho, mas ao lado de Deus, faz maioria. Então quero pedir uma salva de palmas para o nosso querido ministro do STF, o único verdadeiramente que tem coragem: André Mendonça!”, empolgou-se.

O público respondeu em coro: “Men-don-ça! Men-don-ça!”. No asfalto, patriotas tiravam selfies com um boneco inflável gigante do ministro do STF. Com o capitão preso por tentativa de golpe, a direita verde-amarela encontrava um novo mito para reverenciar.

“Qual é o jogo de denegrir e implodir o André Mendonça?”, perguntou Silas Malafaia, dublê de pastor e animador de comícios bolsonaristas. Com voz esganiçada, ele pregou a eleição de senadores dispostos a “botar um pé na porta de ditadores como Alexandre de Moraes”. Kicis e Gayer, que discursaram antes, são candidatos ao Senado.

Mendonça não compareceu ao 7 de Setembro bolsonarista. Mesmo ausente, foi mais festejado que o presidenciável do PL. Três dias antes, o ministro produziu um vídeo para as redes. Em tom pastoral, dirigiu-se a “irmãos e irmãs” para “agradecer tantas mensagens de oração e de carinho”. “Estejam certos de que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar”, derramou-se. “Que Deus os abençoe, e que Deus abençoe nosso país.”

Flávio, o STF e um plano para o fim da reeleição

Pode se enganar quem acredita que o senador Flávio Bolsonaro deve partir com tudo para cima do Supremo Tribunal Federal (STF), se for eleito, e abandonar a promessa de acabar com a reeleição. Em caso de vitória nas urnas em outubro, dizem aliados do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e candidato do PL à Presidência, Flávio subirá a rampa do Palácio do Planalto com planos sobre ambos os assuntos.

Flávio iniciou a disputa decidido a evitar alguns dos erros estratégicos cometidos pelo pai. Montou, por exemplo, um comitê com uma área jurídica bem estruturada para fazer frente à campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Afinal, todos sabiam da relevância que mais uma vez ganhariam as discussões travadas no âmbito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Este “departamento” é liderado pela advogada Maria Claudia Bucchianeri, que foi ministra do TSE em 2022. Já o time jurídico responsável pelas partes civil e penal é coordenado pelo advogado Tracy Reinaldet, que ganhou notoriedade nacional pelas defesas que conduziu durante a Operação Lava-Jato.


Para neutralizar as críticas à postura do pai em relação à pandemia de covid-19, primeiro Flávio disse ser um Bolsonaro “vacinado” e “mais centrado”. Mais recentemente, antecipou que o médico Claudio Lottenberg é o seu nome para o Ministério da Saúde. Com isso, incluiu em seu discurso o mote segundo o qual o Sistema Único de Saúde (SUS) terá o “padrão Einstein”, em referência ao hospital de primeira linha que o profissional dirigia até entrar oficialmente na campanha.

Fez-se, também, um “mea culpa” quanto à necessidade de ter um bom relacionamento com o Supremo. Há um reconhecimento que os ataques institucionais feitos pelo ex-presidente à Corte atrapalharam. Flávio sinaliza que manterá um embate pessoal contra Alexandre de Moraes, como fez na manifestação de segunda na Avenida Paulista, ao mesmo tempo que tentará marcar uma diferença entre o ministro e o restante do STF, do Poder Judiciário e da magistratura em geral.

Um movimento importante foi dado na semana passada. Como antecipou o Globo e depois também reportou o Valor, o senador Rogério Marinho (PL-RN) procurou o ministro Gilmar Mendes, do STF, com a missão de manter uma ponte com a Corte.

Segundo o relato feito pelo parlamentar, Marinho disse ao decano do Supremo ter a convicção que Flávio sairá vitorioso das eleições e, diante desse cenário, assegurou que o eventual próximo governo estará comprometido com a preservação do diálogo institucional com o Supremo, o respeito às instituições e a normalidade democrática.

“A conversa foi objetiva, sou o coordenador da campanha e fui para dizer o óbvio: que temos todo o interesse de manter a relação institucional e queremos a compreensão do ministro de que iremos cobrar a Suprema Corte, mas o tribunal não é nosso adversário. Podemos ter coisas objetivas contra um ministro que cometer irregularidades, mas fui lá conversar e dizer que a campanha e o futuro novo governo têm todo interesse em manter as relações institucionais”, afirmou Marinho à repórter Beatriz Roscoe.

Mas há um detalhe importante. Marinho apresentou-se a Gilmar com a patente de coordenador de campanha, função que de fato exerce. Porém, também está consolidado como o preferido de Flávio e seu grupo para concorrer à eleição para presidente do Senado que ocorrerá em fevereiro de 2027. E é o presidente do Senado quem tem a prerrogativa de dar andamento a pedidos de impeachment de ministros do Supremo: a expectativa entre os bolsonaristas é que a nova composição do Senado dê maioria à atual oposição e, assim, alce Marinho ao comando da Mesa.

Se o plano der certo, dizem os conselheiros de Flávio, primeiro os articuladores bolsonaristas tentarão consolidar o apoio dos novatos antes de tentar dar o passo seguinte. Muitos deles podem ser eleitos justamente com a bandeira de reformar o Judiciário, o que inclui o impeachment de ministros do Supremo, mas uma reação da Corte também seria esperada. Dependendo do cenário, o mais provável é que Flávio primeiro tente emplacar seus indicados para o Supremo antes de uma eventual crise ser instalada. Assim, teria mais respaldo no plenário.

E a promessa de acabar com a reeleição, que aliás enfrenta grande ceticismo no mundo político?

Primeiro, o senador acolheu a sugestão de aliados e protocolou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que mantém a reeleição para governadores e prefeitos, mas proíbe a recondução do presidente da República, quem o tiver sucedido ou substituído nos seis meses anteriores ao pleito. “Esta Emenda Constitucional entra em vigor na data de sua promulgação, aplicando-se inclusive ao Presidente da República eleito em 2026”, diz o texto da PEC.

Nos bastidores, para obter o apoio necessário para a proposta andar no novo Congresso, Flávio tem sido aconselhado a acrescentar à PEC original a extensão do mandato do próximo presidente da República, governadores, deputados federais e senadores até 2032. A reeleição para governador e prefeito também poderia acabar. As eleições seriam unificadas. O mandato dos senadores, hoje de oito anos, seria ampliado para 12.

Os defensores da ideia adotariam o discurso de que a unificação das eleições representaria uma economia de recursos públicos. O presidente teria mais liberdade para adotar ações impopulares. Já os críticos certamente argumentariam que a medida seria implementada por aqueles que na verdade acabariam se beneficiando das mudanças, questionando se não haveria ainda algum risco à democracia embutido na iniciativa.

Para pensar



Quem tem dinheiro põe no bolso quem não tem
Lev Tolstoi

A manipulação dos crédulos

Em tempos, já vimos na televisão um bispo da IURD a dar pontapés numa imagem de Nossa Senhora Aparecida, cujo culto os evangélicos consideram manifestação de idolatria e o pai Bolsonaro chegou a dedicar-lhe o Brasil. Agora, o filho prefere dá-lo a Jesus. Entendam-se! Mas desde quando o Brasil é uma coisa que se entrega a alguém, mesmo a uma divindade? E com que autoridade se faz isto?

Há aqui vários problemas. Desde logo de natureza constitucional. O país é laico. Se levadas a sério, estas declarações deveriam constituir crime. Fazer este tipo de afirmações é retirar dignidade, liberdade e cidadania a todos os brasileiros que não são cristãos. É empurrar para um gueto todos os que têm uma fé diferente ou simplesmente não são portadores de fé religiosa. É pura discriminação.

Mas o mais importante é que tais declarações ferem de morte as bases fundamentais do Evangelho e da fé cristã. Quem faz tais afirmações desconhece a postura do próprio Jesus Cristo, que declarou preto no branco “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36).


Trata-se, portanto, de pura caça ao voto dos evangélicos, a mais despudorada manipulação dos crédulos, num país onde o perfil tipo do crente pentecostal é mulher, negra, pobre e com pouca ou nenhuma instrução. Uma massa acrítica facilmente manipulável pelos espertalhões que fazem do mercado religioso o seu chão.

Durante quase todo o século passado, o povo evangélico no Brasil foi avesso à participação na vida política, partindo do princípio de que a Igreja se situava essencialmente num plano espiritual, o que lhe permitia ser uma espécie de reserva moral da sociedade, mas também lhe abria a possibilidade para ser uma voz profética.

Porém, há algumas décadas tudo mudou. Hoje vivem-se tempos de frenesim mediático e de vertigem do poder. Inebriada por tal prato de lentilhas parte da igreja evangélica brasileira vendeu o seu direito de primogenitura, qual Esaú, ou seja, a sua condição única de intervir espiritualmente na sociedade pela palavra e pelo exemplo.

Desceu à arena da baixa política, infiltrou-se nas catacumbas da corrupção, lançou mão dos meios tenebrosos da manipulação, das notícias falsas, da falsa ciência, do negacionismo, do extremismo e posicionou-se politicamente como nunca antes. Líderes religiosos sem escrúpulos projetaram-se nos meios de comunicação de massas, ganharam visibilidade e conduziram essa parte da igreja para um verdadeiro pântano, com os resultados desastrosos que se conhecem.

Depois das patetices de Trump, parece que outros estão tentados a destruir o estado laico e a construir uma teocracia, à semelhança do Irão xiita ou do Israel sionista. O sistema judicial colombiano ordenou recentemente ao Presidente eleito que se desculpe por ter violado a neutralidade religiosa do Estado no seu ato de posse, convocando igualmente Abelardo de la Espriella a emitir uma diretriz que ordene aos funcionários públicos que respeitem e façam respeitar a neutralidade em todos os atos públicos.

A tentação teocrática consubstancia não só a negação dos princípios do Evangelho e da própria fé e tradição cristã, mas também do estado de direito, da democracia e do respeito pelos direitos, a liberdade e a identidade de todos os cidadãos, sem exceção.

É justo dizer que uma parte do segmento evangélico brasileiro permaneceu fiel aos princípios da sua fé, não se deixando arrastar pela enxurrada populista, mas o que se vê mais são os grupos neopentecostais pelo facto de dominarem os meios de comunicação de massas.

Estamos no reino da manipulação dos crédulos. Em especial daqueles que sofrem do complexo da manada, e que por isso não são capazes de parar para refletir um pouco. Ainda não entenderam que o seu mestre, Jesus Cristo, sempre respeitou e honrou quem pensava pela própria cabeça.

A roupa barata que sai caro para o planeta

Durante décadas, a indústria da moda aperfeiçoou uma espécie de truque de ilusionismo econômico. A roupa chega barata à vitrine, cabe no orçamento, acompanha a tendência da semana e parece não deixar dívidas. Spoiler alert: ela deixa. Só que a conta não vem no caixa da loja. Ela aparece mais tarde – na atmosfera, nos rios, nos aterros sanitários e, com frequência, no território de comunidades que jamais participaram da festa do consumo.

O estado da Califórnia, nos Estados Unidos, decidiu começar a revelar esse preço escondido. Uma reportagem de Rachel Cernansky, publicada pelo The New York Times, mostra como uma lei aprovada em 2024 pode alterar a lógica do setor. A Lei de Recuperação Têxtil Responsável transfere para fabricantes, importadores e varejistas parte do custo de recolher, separar, consertar, reutilizar e reciclar roupas e outros produtos têxteis depois que deixam as mãos do consumidor.

É uma mudança pequena na aparência e enorme no princípio: quem coloca um produto no mercado também deve responder pelo que acontece quando ele vira resíduo.


Hoje, essa conta costuma ser paga pelo consumidor e pelo poder público (ou simplesmente empurrada para outro lugar). Segundo o jornal americano, moradores da Califórnia descartaram quase 1,2 milhão de toneladas de têxteis somente em 2021. O novo sistema deverá oferecer pontos de entrega, programas de devolução pelo correio e participação de brechós. As empresas financiarão a estrutura e as regras deverão favorecer peças duráveis, reparáveis e feitas com material reciclado, enquanto produtos difíceis de reciclar, como tecidos de fibras misturadas, poderão pagar mais.

Não se trata apenas de organizar melhor o lixo. A ideia é interferir no projeto da roupa antes mesmo de ela existir.

É que quando uma empresa sabe que terá de pagar pelo fim da vida de uma peça, ganha um motivo econômico para fazê-la durar mais. Esse mecanismo tem nome burocrático: responsabilidade estendida do produtor. Uma ideia bastante simples: o lucro não pode ser privatizado enquanto o prejuízo ambiental é socializado.

Para compreender a dimensão do problema, basta descer pelo mapa do continente até o norte do Chile. O deserto do Atacama se tornou uma das imagens mais brutais da moda descartável. Ali, pilhas gigantescas de vestidos, casacos, calças, camisetas e sapatos formam montanhas coloridas sobre uma das paisagens mais áridas do planeta.

Não são herança de uma civilização antiga. São ruínas do consumo da semana passada.

O Ministério do Meio Ambiente do Chile informa que, em 2021, o país importou 156 mil toneladas de roupas usadas ou sem uso e que cerca de 60% desse volume terminou em depósitos ilegais e no Atacama. Um diagnóstico oficial estima que aproximadamente 40 mil toneladas de roupas chegam ao deserto a cada ano. Parte desembarca pela zona franca de Iquique para revenda; o que não encontra comprador perde valor comercial, mas não desaparece. Permanece no solo, libera substâncias, espalha microfibras plásticas e, quando queimado clandestinamente, transforma o descarte também em poluição do ar.

O Atacama expõe a geografia desigual do desperdício. Países e consumidores mais ricos renovam o guarda-roupa; territórios mais pobres recebem o excesso. Exportar roupa usada pode parecer reaproveitamento, mas, quando o volume supera a procura e a capacidade local de gestão, é apenas exportação de lixo com outro nome.

Os números globais ajudam a medir o tamanho dessa montanha. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que o mundo gere 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano – o equivalente a um caminhão de lixo cheio de roupas enviado a um aterro ou à incineração a cada segundo. Entre 2000 e 2015, a produção de roupas dobrou, enquanto o tempo de uso das peças caiu 36%.

A moda e os têxteis respondem por algo entre 2% e 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo a ONU. A amplitude da estimativa revela a dificuldade de medir uma cadeia longa, pulverizada e opaca, que começa no cultivo do algodão ou na extração do petróleo usado no poliéster, passa por fiação, tingimento, acabamento, transporte e varejo e termina no descarte. O setor também consome cerca de 215 trilhões de litros de água por ano e responde por uma parcela relevante da poluição por microplásticos que chega aos oceanos.

Ainda assim, é tentador tratar o problema como uma soma de escolhas individuais: comprar menos, usar por mais tempo, frequentar brechós, reparar uma peça rasgada. Tudo isso importa. Mas a escala da crise mostra o limite de entregar ao consumidor a tarefa de corrigir sozinho um sistema desenhado para produzir depressa, vender muito e substituir antes que seja necessário.

Não há consumo consciente capaz de compensar indefinidamente uma produção inconsequente. A economia circular não começa na lixeira. Ela acontece na prancheta de quem desenha, na planilha de quem define os materiais, na estratégia de quem estimula desejos e na responsabilidade de quem lucra com cada nova coleção.

Durante muito tempo, chamamos de barata uma roupa cujo custo real era pago por alguém distante e por um planeta sem direito a apresentar a fatura. As montanhas do Atacama mostram que essa conta existe. A Califórnia tenta agora endereçá-la a quem também deve pagá-la.

Se der certo, a maior inovação não será reciclar melhor aquilo que descartamos. Será finalmente deixar de desenhar o mundo, e o guarda-roupa, como se tudo fosse descartável.