segunda-feira, 6 de abril de 2026
A realidade que mina a esperança da Páscoa
A ideia era fazer uma pausa neste domingo de Páscoa — arquivar por um mísero dia qualquer noticiário de guerra e deixar falar a poesia. A intenção brotou do acaso, em meio à inescapável leitura sobre a insanidade do confronto no Irã. Um dos analistas da atualidade citava um poeta persa do século XII, Attar de Nishapur, e sua obra mais célebre, “A conferência dos pássaros”. Nela, o poeta narra a história de todos os pássaros do mundo que, por não terem rei, partem em revoada à procura de um soberano. Cada alado representa uma das falhas humanas que impedem o mundo de encontrar sua luz. Em conjunto, escolhem por guia uma poupa de grande sabedoria, que lhes informa qual será o teste de determinação: atravessar sete vales místicos. São eles os vales da Busca, do Amor, do Conhecimento, do Desapego, da União, do Maravilhamento, da Pobreza e Aniquilação.

Muitos pássaros se recusam até a levantar voo, outros desistem a meio caminho, e tantos mais morrem ao longo do percurso. Restam apenas 30 para vislumbrar o monte sagrado que procuravam. Ao chegarem a seu destino, contudo, descobrem não um rei a sua espera, e sim um espelho. Moral da história: o que os pássaros buscavam jamais esteve distante deles. Procuravam encontrar a si mesmos, juntos. No poema de Attar, a certeza de quem somos no coletivo define nossa humanidade. Sozinhos, nos agarramos a algo que torna a jornada impossível, seja por amor, apego, medo, aniquilação, ódio. Ou cinismo.
Enquanto o mundo só se revela por meio do nosso engajamento com ele (é nessa adesão que repousa a experiência humana plena), o cinismo age como sua mais perfeita negação. Talvez seja o sentimento mais corrosivo em um ser humano — de aparência passiva, o cinismo esconde uma capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade. Dentre os poetas mais refinados da música, o australiano Nick Cave dedica parte de seu tempo refletindo sobre a coragem de ter esperança como anteparo a essa praga. Continuou a fazer música enquanto convivia com a perda de um filho adolescente — o garoto de 15 anos havia ingerido LSD e caíra de um precipício em Brighton, na Inglaterra — e, sete anos mais tarde, com a morte de outro, mais velho, que acabara de sair de uma prisão em Melbourne.
— De certa forma, meu trabalho se tornou uma rejeição explícita ao cinismo e à negatividade — diz o músico em seus escritos. — Não tenho tempo para isso, nem para censura ou condenação implacável. Não tenho estômago para todo o ciclo de culpa perpétua. A vida é curta demais para não nos maravilharmos. Permaneço cautelosamente otimista.
Cave ainda acredita numa “espécie de corrente subterrânea de preocupação e conectividade, movimento radical e coletivo em direção a uma existência mais empática e aprimorada”. Em homenagem à Páscoa e a ele, a coluna estava inclinada a prosseguir explorando diferentes noções de otimismo e esperança — esse anseio sincero por melhoria do mundo — que cada um de nós nomeia de acordo com referenciais próprios. Não mais.
Um homem corpulento em júbilo, quipá na cabeça, garrafa de champanhe nas mãos e pin dourado em forma de forca na lapela celebrava uma conquista que perseguia havia anos. Era Itamar Ben-Gvir, ministro de Segurança Nacional de Israel, feroz defensor do extremismo de direita, comemorando a aprovação da pena de morte para palestinos condenados por atos terroristas letais contra israelenses. Julgada por tribunais militares, a execução se dará por enforcamento.
— Em breve vamos contá-los um por um — garante o ministro em vídeo que circula nas redes sociais.
O inverso não foi sequer cogitado: pena semelhante não se aplica a israelenses responsáveis pela morte de palestinos. Dessa forma, para além da eliminação de mais de 70 mil civis em Gaza e a caçada às terras e vidas palestinas ainda remanescentes na Cisjordânia ocupada, Israel agora se aproxima da barbárie fundamentalista do arqui-inimigo Irã.
O editorial do diário Haaretz que tratou do assunto fala em ascensão do terrorismo judaico e precipício dos fundamentos democráticos e morais do Estado. Mas o texto não foi escrito no convencional estilo do jornal. Intitulado “A canção do carrasco”, está em verso de seis estrofes e rimas internas. A linguagem é bíblica, sombria, lírica. Começa assim: Céus — tende piedade de mim/Não há Deus em vós, nem decreto guia/Escolheram-me, gélido e cru/No escuro sangrento do serviço prisional.
Talvez só mesmo a poesia nos salve, enquanto os homens-pássaros em revoada não encontrarem seu caminho interior.
Muitos pássaros se recusam até a levantar voo, outros desistem a meio caminho, e tantos mais morrem ao longo do percurso. Restam apenas 30 para vislumbrar o monte sagrado que procuravam. Ao chegarem a seu destino, contudo, descobrem não um rei a sua espera, e sim um espelho. Moral da história: o que os pássaros buscavam jamais esteve distante deles. Procuravam encontrar a si mesmos, juntos. No poema de Attar, a certeza de quem somos no coletivo define nossa humanidade. Sozinhos, nos agarramos a algo que torna a jornada impossível, seja por amor, apego, medo, aniquilação, ódio. Ou cinismo.
Enquanto o mundo só se revela por meio do nosso engajamento com ele (é nessa adesão que repousa a experiência humana plena), o cinismo age como sua mais perfeita negação. Talvez seja o sentimento mais corrosivo em um ser humano — de aparência passiva, o cinismo esconde uma capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade. Dentre os poetas mais refinados da música, o australiano Nick Cave dedica parte de seu tempo refletindo sobre a coragem de ter esperança como anteparo a essa praga. Continuou a fazer música enquanto convivia com a perda de um filho adolescente — o garoto de 15 anos havia ingerido LSD e caíra de um precipício em Brighton, na Inglaterra — e, sete anos mais tarde, com a morte de outro, mais velho, que acabara de sair de uma prisão em Melbourne.
— De certa forma, meu trabalho se tornou uma rejeição explícita ao cinismo e à negatividade — diz o músico em seus escritos. — Não tenho tempo para isso, nem para censura ou condenação implacável. Não tenho estômago para todo o ciclo de culpa perpétua. A vida é curta demais para não nos maravilharmos. Permaneço cautelosamente otimista.
Cave ainda acredita numa “espécie de corrente subterrânea de preocupação e conectividade, movimento radical e coletivo em direção a uma existência mais empática e aprimorada”. Em homenagem à Páscoa e a ele, a coluna estava inclinada a prosseguir explorando diferentes noções de otimismo e esperança — esse anseio sincero por melhoria do mundo — que cada um de nós nomeia de acordo com referenciais próprios. Não mais.
Um homem corpulento em júbilo, quipá na cabeça, garrafa de champanhe nas mãos e pin dourado em forma de forca na lapela celebrava uma conquista que perseguia havia anos. Era Itamar Ben-Gvir, ministro de Segurança Nacional de Israel, feroz defensor do extremismo de direita, comemorando a aprovação da pena de morte para palestinos condenados por atos terroristas letais contra israelenses. Julgada por tribunais militares, a execução se dará por enforcamento.
— Em breve vamos contá-los um por um — garante o ministro em vídeo que circula nas redes sociais.
O inverso não foi sequer cogitado: pena semelhante não se aplica a israelenses responsáveis pela morte de palestinos. Dessa forma, para além da eliminação de mais de 70 mil civis em Gaza e a caçada às terras e vidas palestinas ainda remanescentes na Cisjordânia ocupada, Israel agora se aproxima da barbárie fundamentalista do arqui-inimigo Irã.
O editorial do diário Haaretz que tratou do assunto fala em ascensão do terrorismo judaico e precipício dos fundamentos democráticos e morais do Estado. Mas o texto não foi escrito no convencional estilo do jornal. Intitulado “A canção do carrasco”, está em verso de seis estrofes e rimas internas. A linguagem é bíblica, sombria, lírica. Começa assim: Céus — tende piedade de mim/Não há Deus em vós, nem decreto guia/Escolheram-me, gélido e cru/No escuro sangrento do serviço prisional.
Talvez só mesmo a poesia nos salve, enquanto os homens-pássaros em revoada não encontrarem seu caminho interior.
O fim da era dos grupos de mídia nacionais
Está chegando ao fim, no Brasil, a era em que poucos grupos nacionais de comunicação conseguiam se apresentar como intérpretes naturais da nação, árbitros da respeitabilidade pública e fiadores do regime político.
Esse ciclo está se esgotando por razões econômicas, tecnológicas e históricas. A publicidade migrou fortemente para o ambiente digital — que já representava 60% da receita publicitária total no Brasil em 2024, com projeção de chegar a 70% em 2029 —, enquanto o consumo de notícias se fragmentou e o engajamento com TV, impresso e sites jornalísticos tradicionais segue em queda. No Brasil, a confiança nas notícias medida pelo Reuters Institute ficou em 42% em 2025, num patamar estabilizado, mas longe da autoridade quase sacerdotal que os grandes grupos exerceram por décadas.
Democracias precisam de uma imprensa forte. O problema brasileiro foi outro: a formação de um sistema altamente concentrado, cartelizado, familiar, patrimonialista e politicamente orgânico às classes dominantes do momento, apesar de a própria Constituição de 1988 vedar monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social.
Sempre me intrigou o fato da mídia jamais ter se proposto a ser a voz de novos grupos que surgiam no país, como resultado de mudanças econômicas e sociais.
Sempre minimizou a era das grandes indústrias, deixou de lado os movimentos de apoio às pequenas e médias empresas, ignorou por muito tempo a própria revolução agrícola.
Em vários momentos da história, colocou-se contra qualquer projeto de soberania nacional ou de inclusão social.
Conspirou contra o segundo governo Vargas e denunciou diuturnamente o governo JK, usando para ambos denúncias de corrupção – que se revelaram totalmente falsas.
Ora, ambos os governos estavam lançando as bases de uma nova elite empresarial e social. Havia uma demanda por otimismo excepcional. O papel de qualquer mídia inteligente seria captar esses movimentos e se tornar seu porta voz. No curto período em que entendeu essa dinâmica, na campanha das diretas, a Folha de S. Paulo tornou-se o jornal mais influente do país.
Mas se a fórmula funcionou, porque em todos os demais momentos históricos, a mídia preferiu apostar no velho e matar o novo?
A razão é simples. O imediatismo e a falta de visão estratégica da imprensa, a impede de apostar no novo. Ela aposta no poder imediato. E o poder imediato sempre é o poder de ontem, até que seja desbancado pelo novo. Ela só adere ao novo, depois que este se torna poder.
Desse modo, ela atua como estratificadora de todas as eras político-econômicas de um país. O novo sempre terá dificuldades, devido à resistência da mídia. Só depois que ele consegue se impor, apesar da mídia, ele passará a receber seu apoio.
Nos anos 90, a mídia atingiu seu apogeu, não apenas econômico como político. Eram 4 grandes diários, no eixo Rio-São Paulo, que faziam a pauta nacional. O que diziam era reproduzido por agências de notícias, se espraiavam pelo noticiário de rádio e pela imprensa regional.
Cada tiro era uma bomba.
Vivi esse período e percebi, no espaço de uma coluna que mantinha na Folha, o enorme poder transformador da mídia, desperdiçado, deixado de lado. Na minha coluna, ajudei a disseminar os programas de qualidade total, as políticas científico-tecnológicas, a importância da indústria cultural, da digitalização do Judiciário, da criação de uma indústria de defesa.
Ficava imaginando o que seria possível se, em vez de uma coluna, o jornal inteiro abraçasse uma visão modernizante para o país. Acelerariam em décadas o grande salto nacional.
Mas foi inútil. Até o Estadão, que em priscas eras representou uma elite conservadora culta, o jornal que trouxe a USP, perdeu totalmente seu clã modernizador.
A própria Constituição de 1988 vedava monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social. O texto constitucional também determina finalidades educativas, culturais, informativas e estímulo à produção independente e regional; o país, porém, jamais regulou de forma efetiva esse mandamento. O resultado foi um espaço público sequestrado por poucos conglomerados, capazes de confundir liberdade de imprensa com liberdade de empresa — e interesse público com interesse acionário.
Agora, com a vinda das redes sociais e das grandes plataformas, há o fim de uma era e a entrada de uma nova era, com todos os vícios da anterior: concentração da propriedade, direcionamento do discurso, falta de controle social.
Tem-se um país sem rumo e com a bússola, em vez de organizar o trajeto, montando armadilhas para jogar o navio em direção ao iceberg.
Esse ciclo está se esgotando por razões econômicas, tecnológicas e históricas. A publicidade migrou fortemente para o ambiente digital — que já representava 60% da receita publicitária total no Brasil em 2024, com projeção de chegar a 70% em 2029 —, enquanto o consumo de notícias se fragmentou e o engajamento com TV, impresso e sites jornalísticos tradicionais segue em queda. No Brasil, a confiança nas notícias medida pelo Reuters Institute ficou em 42% em 2025, num patamar estabilizado, mas longe da autoridade quase sacerdotal que os grandes grupos exerceram por décadas.
Democracias precisam de uma imprensa forte. O problema brasileiro foi outro: a formação de um sistema altamente concentrado, cartelizado, familiar, patrimonialista e politicamente orgânico às classes dominantes do momento, apesar de a própria Constituição de 1988 vedar monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social.
Sempre me intrigou o fato da mídia jamais ter se proposto a ser a voz de novos grupos que surgiam no país, como resultado de mudanças econômicas e sociais.
Sempre minimizou a era das grandes indústrias, deixou de lado os movimentos de apoio às pequenas e médias empresas, ignorou por muito tempo a própria revolução agrícola.
Em vários momentos da história, colocou-se contra qualquer projeto de soberania nacional ou de inclusão social.
Conspirou contra o segundo governo Vargas e denunciou diuturnamente o governo JK, usando para ambos denúncias de corrupção – que se revelaram totalmente falsas.
Ora, ambos os governos estavam lançando as bases de uma nova elite empresarial e social. Havia uma demanda por otimismo excepcional. O papel de qualquer mídia inteligente seria captar esses movimentos e se tornar seu porta voz. No curto período em que entendeu essa dinâmica, na campanha das diretas, a Folha de S. Paulo tornou-se o jornal mais influente do país.
Mas se a fórmula funcionou, porque em todos os demais momentos históricos, a mídia preferiu apostar no velho e matar o novo?
A razão é simples. O imediatismo e a falta de visão estratégica da imprensa, a impede de apostar no novo. Ela aposta no poder imediato. E o poder imediato sempre é o poder de ontem, até que seja desbancado pelo novo. Ela só adere ao novo, depois que este se torna poder.
Desse modo, ela atua como estratificadora de todas as eras político-econômicas de um país. O novo sempre terá dificuldades, devido à resistência da mídia. Só depois que ele consegue se impor, apesar da mídia, ele passará a receber seu apoio.
Nos anos 90, a mídia atingiu seu apogeu, não apenas econômico como político. Eram 4 grandes diários, no eixo Rio-São Paulo, que faziam a pauta nacional. O que diziam era reproduzido por agências de notícias, se espraiavam pelo noticiário de rádio e pela imprensa regional.
Cada tiro era uma bomba.
Vivi esse período e percebi, no espaço de uma coluna que mantinha na Folha, o enorme poder transformador da mídia, desperdiçado, deixado de lado. Na minha coluna, ajudei a disseminar os programas de qualidade total, as políticas científico-tecnológicas, a importância da indústria cultural, da digitalização do Judiciário, da criação de uma indústria de defesa.
Ficava imaginando o que seria possível se, em vez de uma coluna, o jornal inteiro abraçasse uma visão modernizante para o país. Acelerariam em décadas o grande salto nacional.
Mas foi inútil. Até o Estadão, que em priscas eras representou uma elite conservadora culta, o jornal que trouxe a USP, perdeu totalmente seu clã modernizador.
A própria Constituição de 1988 vedava monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social. O texto constitucional também determina finalidades educativas, culturais, informativas e estímulo à produção independente e regional; o país, porém, jamais regulou de forma efetiva esse mandamento. O resultado foi um espaço público sequestrado por poucos conglomerados, capazes de confundir liberdade de imprensa com liberdade de empresa — e interesse público com interesse acionário.
Agora, com a vinda das redes sociais e das grandes plataformas, há o fim de uma era e a entrada de uma nova era, com todos os vícios da anterior: concentração da propriedade, direcionamento do discurso, falta de controle social.
Tem-se um país sem rumo e com a bússola, em vez de organizar o trajeto, montando armadilhas para jogar o navio em direção ao iceberg.
Mundo indiferente
Estamos nos acostumando com a violência, nos resignando a ela e nos tornando indiferentes.
Indiferentes à morte de milhares de pessoas.
Indiferentes às consequências do ódio e da divisão semeados pelos conflitos.
Papa Leão XIV
A sanha intervencionista do “Grande Irmão” está longe do fim
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os EUA respondem por algo como 80 intervenções militares em outro tanto de países, até então soberanos. Tudo em nome de uma farisaica “defesa da democracia”, disfarce da disputa estratégica com a URSS. O ponto de partida dessa fase do imperialismo, que guarda rigorosa coerência com sua história, desde a formação colonial até nossos dias, foi dado pelo que se passou a chamar de “Doutrina Truman” (1947), porque proclamada pelo presidente que lançara duas bombas atômicas sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki, quando a guerra já estava perdida pelo Japão. Ela estabelecia o princípio do containment do comunismo, com apoio político, econômico e militar a países de sua órbita. O Plano Marshall de reconstrução da Europa Ocidental, do mesmo ano, fornece a base econômica. A doutrina militar se corporifica na OTAN, criada em 1949. Seu alvo era a defesa coletiva contra a URSS. São os três pilares sobre os quais se assentará a estratégia global dos EUA no pós-guerra.
Sua primeira intervenção remonta a 1947, no apoio militar à monarquia grega — fustigada pela guerrilha republicana de esquerda — e à Turquia, carente de apoio para conservar sua soberania sobre os estreitos de Bósforo e Dardanelos, quando a URSS reivindicava o direito de acesso ao mar Mediterrâneo.
Mas as bases ideológicas da Guerra Fria, dos tempos de confronto com a URSS, comandada no lado ocidental pelos EUA, já haviam sido formuladas por Winston Churchill em discurso no Westminster College (1946): “De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente.” Era o início de uma política intervencionista global, e a justificativa para ingerência em outros países.
A Guerra Fria toma a forma de confronto universal à “ameaça comunista” (que muitos milhões de dólares rendeu à indústria da guerra), implicando a missão de fazer face a todas as formas de luta social e às guerras de libertação nacional que iluminavam o mundo subdesenvolvido. O papel dos EUA, isoladamente ou comandando a OTAN, aliados de sempre ou aliados de ocasião, passa a ser o de contrarrevolucionário, e, para desempenhá-lo, se tornam a principal guarda do colonialismo retardatário, contra o qual firmara, lá atrás, em1823, a defesa continental (a “América para os americanos”), que, nominalmente dizendo não a novas intervenções europeias nas Américas, terminou reinterpretada como a doutrina da hegemonia estadunidense, servindo de base ideológica para intervenções na América Latina, seja no século XX, seja no século XXI.
O fato objetivo é que se tratava (esquecidas, como se verá, quaisquer preferências entre ditaduras e democracias) de conter a URSS, que se apresentava ao mundo como potência militar após o sucesso na guerra contra o Eixo. Apresentar-se ao mundo era ocupar o espaço que entendia como seu.
Finda uma guerra, começam outras.
As intervenções por procuração, as sabotagens, o apoio político e a ajuda militar e econômica às insurgências de direita não mais cessariam, e logo se espalham por todos os continentes, de par com a intervenção militar direta. Os EUA se fazem atores globais do confronto. A nova grande guerra é uma constelação de conflitos de toda ordem, políticos, econômicos, diplomáticos e militares, à sombra do guarda-chuva nuclear das duas superpotências, que ao menos tiveram o bom senso de evitar o suicídio coletivo.
De princípio, o método corretivo foram as intervenções pontuais, que acima nomeamos como operadas “por procuração”, levadas a cabo por governos títeres ou pela OTAN. Sem que esse artifício seja descartado, logo se impõe a ação direta, espécie que chega aos nossos dias na Venezuela, em Gaza e no Irã, nos dois últimos casos com a participação direta do sionismo. Agora mesmo, Washington reclama de seus aliados europeus a ausência no campo de batalha de uma guerra que Trump e seus cúmplices ainda não souberam explicar.
A folha corrida de crimes de guerra é extensa, percorre o mundo, conhece o Panamá, a Guerra do Golfo, a guerra contra o Iraque, as guerras do Kosovo, do Afeganistão, da Síria e da Líbia. Todas, guerras norte-americanas. Por razões óbvias, é indisponível a estatística das sabotagens, dos assassinatos e dos golpes de Estado intentados e levados a cabo, quase sempre com sucesso, pelos serviços secretos dos EUA em todo o mundo nesse mesmo período. Contra a vida do líder cubano Fidel Castro, estima-se que a CIA tenha atentado ao menos 638 vezes.
As análises disponíveis estimam um mínimo de 80 intervenções conhecidas, percorrendo todos os continentes. As mais relevantes são o golpe de Estado no Irã, com a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, abrindo caminho para o absolutismo da dinastia Reza Pahlavi (pró-Ocidente), posta ao chão em 1979 pela revolução republicana liderada pelos aiatolás. Com o golpe, abre-se a interminável tragédia presente da antiga Pérsia, uma civilização de mais de 4 mil anos, que o atual inquilino da Casa Branca diz pertencer à “pedra lascada”, para cuja idade promete devolvê-la em duas semanas, “sob fogo terrível”.
Os EUA, por todos os meios, se fazem atores na Guerra da Coreia (1950–1953) e, em seguida, na guerra do Vietnã (1955–1975), de onde sairiam batidos, para, em seguida, fazerem a guerra do Afeganistão. Em 1965, promovem a queda de Sukarno, dirigente da Indonésia (maior país do Sudeste Asiático), e fazem ascender ao poder o general Suharto, alinhado com a política de “contenção” da Guerra Fria, que leva a extremos, mediante massacres em massa (1965–1966), com centenas de milhares de mortos, incontáveis – como incontáveis são as vítimas do genocídio promovido por Israel (com apoio de algo como 70/75% de sua população) dos povos de Gaza, da Cisjordânia e da Palestina. Como são incontáveis as vítimas civis das agressões ao Líbano.
No rastro de suas intervenções (é impossível nomeá-las neste espaço), frutificou a barbárie.
Na América do Sul, sofremos os crimes covardes (e em nosso caso, impunes), das ditaduras, no Brasil, na Argentina e no Chile, com seu rol de torturados e assassinados. São, nos tempos recentes, ditaduras legadas pelo imperialismo.
Mas elas, não obstante o que de hediondo apresentaram contra nossos países e nossa gente, são ainda uns poucos itens numa longa listagem que parece não ter fim, e não terá, se a esquerda brasileira e as forças progressistas não tiverem clareza sobre as ameaças que rondam a democracia brasileira, conquistada a tão duras penas e a tão duras penas trazida até aqui. Os idos de janeiro de 2022 ainda estão presentes, e as forças que os animaram permanecem em seus postos, fortalecidas pelo apoio do grande capital e pela ameaçadora ascensão da direita nos EUA, que, para a consolidação de sua preeminência na América do Sul, precisa de um Brasil dócil. A tragédia é esta: nossa importância estratégica. O México sabe o que é isto (custou-lhe 55% do território), a Venezuela conhece, e não de agora, o preço a pagar ao Império por conter em suas entranhas a maior reserva de petróleo do mundo. Somos o maior e mais rico país do continente. Somos um espaço estratégico que pode se transformar em alvo de disputas geopolíticas ausentes de nossos interesses e de nossa afirmação como povo, nação e país que aspira à condição de potência regional.
A saga latino-americana revela os percalços dos países renitentes ao torniquete de Washington. Para não mais lembrar a rapina de que foi vítima o México, vejamos alguns casos, tentando identificar os mais expressivos, como a deposição, em 1954, do presidente Jacobo Árbenz, da Guatemala, responsável por uma reforma agrária que afetou os interesses da americana United Fruit, motivação que voltaria à cena quando Cuba, em 1960, nacionaliza empresas americanas (açúcar, petróleo, bancos). Seguem-se, numa escalada, as intervenções na República Dominicana para depor o presidente Juan Bosch, em 1965; em 1983, a invasão de Granada; e, em 1989, a agressão ao Panamá para o sequestro do presidente Manuel Noriega, ex-agente da CIA.
Invasões e golpes de Estado que são apenas a outra face do mesmo processo coercitivo que tem sido o apoio sistemático a todas as ditaduras na América do Sul e Caribe, como os regimes de Somoza (Nicarágua) e Stroessner (Paraguai), o apoio aos “Contras” na Nicarágua pós-revolucionária e as intervenções diretas e indiretas em El Salvador, que se repetem sob Trump, com o apoio da velhacaria nativa. Por sem dúvida, o Brasil não poderia ficar à deriva: com o substancioso empenho do grande capital e a ação das forças armadas, os EUA desestabilizaram o governo Vargas (1954) e, apenas dez anos passados, conduziram o golpe de Estado de 1º de abril, a que devemos 21 anos de uma ditadura luciferina, de cujas piores consequências ainda não nos livramos, como conta a emergência do neofascismo caboclo, reacionário como suas matrizes alemãs e italianas, mas, ao contrário delas, exasperadamente antinacionalista (entreguista), como se observa nos pronunciamentos dos ícones do bolsonarismo.
O outro lado desta guerra sem quartel pela hegemonia mundial se dá fora dos teatros clássicos das batalhas, operado por todos os demais meios conhecidos, econômicos, políticos e culturais-ideológicos, que chegam aos nossos dias classificados pela ciência política como “guerra híbrida”, vencida largamente pelos EUA, objeto de análise anterior neste espaço. Está em toda parte, faz a consciência da classe dominante.
A História, mais uma vez, se repete, e desta vez não foi como farsa: o Irã foi invadido e está sendo agredido pelos EUA (com a ajuda do sionismo), não porque tenha armas nucleares, mas exatamente por não possui-las. Foi assim com a Líbia de Muammar Kadhafi, foi assim com o Iraque. E continuará assim, até que se altere a correlação de poder militar que governa a ordem internacional, de um mundo que mais e mais se aproxima do caos, graças à irresponsabilidade dos EUA.
A lógica desta guerra ensina ao mundo porque o Irã, que não ameaça e jamais ameaçou os EUA, está sendo bombardeado pela maior potência militar jamais conhecida pela humanidade, enquanto, por exemplo, a pequena e resistente Coreia do Norte, aparentemente isolada do mundo, não é atacada, e que jamais o seja, embora lance rotineiramente mísseis balísticos ao mar do Japão, capazes de atingir a Coreia do Sul e até territórios dos EUA.
Os EUA dizem aos países que ainda aspiram à sua integridade física e política, decididos a preservar a soberania nacional herdada, muitas vezes ao preço de incontáveis e dolorosos sacrifícios humanos, que a única dissuasão possível contra agressores poderosos é a defesa nuclear.
E isto é muito perigoso.
Sua primeira intervenção remonta a 1947, no apoio militar à monarquia grega — fustigada pela guerrilha republicana de esquerda — e à Turquia, carente de apoio para conservar sua soberania sobre os estreitos de Bósforo e Dardanelos, quando a URSS reivindicava o direito de acesso ao mar Mediterrâneo.
Mas as bases ideológicas da Guerra Fria, dos tempos de confronto com a URSS, comandada no lado ocidental pelos EUA, já haviam sido formuladas por Winston Churchill em discurso no Westminster College (1946): “De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente.” Era o início de uma política intervencionista global, e a justificativa para ingerência em outros países.
A Guerra Fria toma a forma de confronto universal à “ameaça comunista” (que muitos milhões de dólares rendeu à indústria da guerra), implicando a missão de fazer face a todas as formas de luta social e às guerras de libertação nacional que iluminavam o mundo subdesenvolvido. O papel dos EUA, isoladamente ou comandando a OTAN, aliados de sempre ou aliados de ocasião, passa a ser o de contrarrevolucionário, e, para desempenhá-lo, se tornam a principal guarda do colonialismo retardatário, contra o qual firmara, lá atrás, em1823, a defesa continental (a “América para os americanos”), que, nominalmente dizendo não a novas intervenções europeias nas Américas, terminou reinterpretada como a doutrina da hegemonia estadunidense, servindo de base ideológica para intervenções na América Latina, seja no século XX, seja no século XXI.
O fato objetivo é que se tratava (esquecidas, como se verá, quaisquer preferências entre ditaduras e democracias) de conter a URSS, que se apresentava ao mundo como potência militar após o sucesso na guerra contra o Eixo. Apresentar-se ao mundo era ocupar o espaço que entendia como seu.
Finda uma guerra, começam outras.
As intervenções por procuração, as sabotagens, o apoio político e a ajuda militar e econômica às insurgências de direita não mais cessariam, e logo se espalham por todos os continentes, de par com a intervenção militar direta. Os EUA se fazem atores globais do confronto. A nova grande guerra é uma constelação de conflitos de toda ordem, políticos, econômicos, diplomáticos e militares, à sombra do guarda-chuva nuclear das duas superpotências, que ao menos tiveram o bom senso de evitar o suicídio coletivo.
De princípio, o método corretivo foram as intervenções pontuais, que acima nomeamos como operadas “por procuração”, levadas a cabo por governos títeres ou pela OTAN. Sem que esse artifício seja descartado, logo se impõe a ação direta, espécie que chega aos nossos dias na Venezuela, em Gaza e no Irã, nos dois últimos casos com a participação direta do sionismo. Agora mesmo, Washington reclama de seus aliados europeus a ausência no campo de batalha de uma guerra que Trump e seus cúmplices ainda não souberam explicar.
A folha corrida de crimes de guerra é extensa, percorre o mundo, conhece o Panamá, a Guerra do Golfo, a guerra contra o Iraque, as guerras do Kosovo, do Afeganistão, da Síria e da Líbia. Todas, guerras norte-americanas. Por razões óbvias, é indisponível a estatística das sabotagens, dos assassinatos e dos golpes de Estado intentados e levados a cabo, quase sempre com sucesso, pelos serviços secretos dos EUA em todo o mundo nesse mesmo período. Contra a vida do líder cubano Fidel Castro, estima-se que a CIA tenha atentado ao menos 638 vezes.
As análises disponíveis estimam um mínimo de 80 intervenções conhecidas, percorrendo todos os continentes. As mais relevantes são o golpe de Estado no Irã, com a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, abrindo caminho para o absolutismo da dinastia Reza Pahlavi (pró-Ocidente), posta ao chão em 1979 pela revolução republicana liderada pelos aiatolás. Com o golpe, abre-se a interminável tragédia presente da antiga Pérsia, uma civilização de mais de 4 mil anos, que o atual inquilino da Casa Branca diz pertencer à “pedra lascada”, para cuja idade promete devolvê-la em duas semanas, “sob fogo terrível”.
Os EUA, por todos os meios, se fazem atores na Guerra da Coreia (1950–1953) e, em seguida, na guerra do Vietnã (1955–1975), de onde sairiam batidos, para, em seguida, fazerem a guerra do Afeganistão. Em 1965, promovem a queda de Sukarno, dirigente da Indonésia (maior país do Sudeste Asiático), e fazem ascender ao poder o general Suharto, alinhado com a política de “contenção” da Guerra Fria, que leva a extremos, mediante massacres em massa (1965–1966), com centenas de milhares de mortos, incontáveis – como incontáveis são as vítimas do genocídio promovido por Israel (com apoio de algo como 70/75% de sua população) dos povos de Gaza, da Cisjordânia e da Palestina. Como são incontáveis as vítimas civis das agressões ao Líbano.
No rastro de suas intervenções (é impossível nomeá-las neste espaço), frutificou a barbárie.
Na América do Sul, sofremos os crimes covardes (e em nosso caso, impunes), das ditaduras, no Brasil, na Argentina e no Chile, com seu rol de torturados e assassinados. São, nos tempos recentes, ditaduras legadas pelo imperialismo.
Mas elas, não obstante o que de hediondo apresentaram contra nossos países e nossa gente, são ainda uns poucos itens numa longa listagem que parece não ter fim, e não terá, se a esquerda brasileira e as forças progressistas não tiverem clareza sobre as ameaças que rondam a democracia brasileira, conquistada a tão duras penas e a tão duras penas trazida até aqui. Os idos de janeiro de 2022 ainda estão presentes, e as forças que os animaram permanecem em seus postos, fortalecidas pelo apoio do grande capital e pela ameaçadora ascensão da direita nos EUA, que, para a consolidação de sua preeminência na América do Sul, precisa de um Brasil dócil. A tragédia é esta: nossa importância estratégica. O México sabe o que é isto (custou-lhe 55% do território), a Venezuela conhece, e não de agora, o preço a pagar ao Império por conter em suas entranhas a maior reserva de petróleo do mundo. Somos o maior e mais rico país do continente. Somos um espaço estratégico que pode se transformar em alvo de disputas geopolíticas ausentes de nossos interesses e de nossa afirmação como povo, nação e país que aspira à condição de potência regional.
A saga latino-americana revela os percalços dos países renitentes ao torniquete de Washington. Para não mais lembrar a rapina de que foi vítima o México, vejamos alguns casos, tentando identificar os mais expressivos, como a deposição, em 1954, do presidente Jacobo Árbenz, da Guatemala, responsável por uma reforma agrária que afetou os interesses da americana United Fruit, motivação que voltaria à cena quando Cuba, em 1960, nacionaliza empresas americanas (açúcar, petróleo, bancos). Seguem-se, numa escalada, as intervenções na República Dominicana para depor o presidente Juan Bosch, em 1965; em 1983, a invasão de Granada; e, em 1989, a agressão ao Panamá para o sequestro do presidente Manuel Noriega, ex-agente da CIA.
Invasões e golpes de Estado que são apenas a outra face do mesmo processo coercitivo que tem sido o apoio sistemático a todas as ditaduras na América do Sul e Caribe, como os regimes de Somoza (Nicarágua) e Stroessner (Paraguai), o apoio aos “Contras” na Nicarágua pós-revolucionária e as intervenções diretas e indiretas em El Salvador, que se repetem sob Trump, com o apoio da velhacaria nativa. Por sem dúvida, o Brasil não poderia ficar à deriva: com o substancioso empenho do grande capital e a ação das forças armadas, os EUA desestabilizaram o governo Vargas (1954) e, apenas dez anos passados, conduziram o golpe de Estado de 1º de abril, a que devemos 21 anos de uma ditadura luciferina, de cujas piores consequências ainda não nos livramos, como conta a emergência do neofascismo caboclo, reacionário como suas matrizes alemãs e italianas, mas, ao contrário delas, exasperadamente antinacionalista (entreguista), como se observa nos pronunciamentos dos ícones do bolsonarismo.
O outro lado desta guerra sem quartel pela hegemonia mundial se dá fora dos teatros clássicos das batalhas, operado por todos os demais meios conhecidos, econômicos, políticos e culturais-ideológicos, que chegam aos nossos dias classificados pela ciência política como “guerra híbrida”, vencida largamente pelos EUA, objeto de análise anterior neste espaço. Está em toda parte, faz a consciência da classe dominante.
A História, mais uma vez, se repete, e desta vez não foi como farsa: o Irã foi invadido e está sendo agredido pelos EUA (com a ajuda do sionismo), não porque tenha armas nucleares, mas exatamente por não possui-las. Foi assim com a Líbia de Muammar Kadhafi, foi assim com o Iraque. E continuará assim, até que se altere a correlação de poder militar que governa a ordem internacional, de um mundo que mais e mais se aproxima do caos, graças à irresponsabilidade dos EUA.
A lógica desta guerra ensina ao mundo porque o Irã, que não ameaça e jamais ameaçou os EUA, está sendo bombardeado pela maior potência militar jamais conhecida pela humanidade, enquanto, por exemplo, a pequena e resistente Coreia do Norte, aparentemente isolada do mundo, não é atacada, e que jamais o seja, embora lance rotineiramente mísseis balísticos ao mar do Japão, capazes de atingir a Coreia do Sul e até territórios dos EUA.
Os EUA dizem aos países que ainda aspiram à sua integridade física e política, decididos a preservar a soberania nacional herdada, muitas vezes ao preço de incontáveis e dolorosos sacrifícios humanos, que a única dissuasão possível contra agressores poderosos é a defesa nuclear.
E isto é muito perigoso.
O Brasil falha onde tudo começa
O encontro inicial com os livros é um dos momentos mais decisivos na formação de qualquer leitor, mas isso ainda está longe de ser uma realidade no país.
É na infância que se descobrem histórias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. Antes mesmo de compreender plenamente a linguagem, a criança intui que ali existe algo maior: uma possibilidade de imaginar, explorar e dar sentido ao que a cerca, muitas vezes por meio das imagens, que inauguram esse encontro com a mesma potência das palavras. A literatura infantil não é apenas uma etapa na formação do leitor. Ela constitui uma base essencial da formação cultural, cognitiva e criativa.
No Brasil, porém, essa realidade segue longe de ser universal. Milhões de crianças crescem sem contato regular com livros, sem bibliotecas estruturadas e sem mediação qualificada. Trata-se de um déficit silencioso, que compromete desde cedo a trajetória dos estudantes, revela uma fragilidade estrutural do nosso sistema de educação e ajuda a explicar, em parte, os baixos níveis de letramento observados ao longo da vida escolar.
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Garantir o acesso ao livro desde a infância é, portanto, uma condição necessária. Mas não é suficiente; além de iniciativas isoladas, o país carece de uma articulação institucional capaz de dar escala, continuidade e coerência a essas ações. A formação de leitores não se sustenta apenas por esforços fragmentados, ainda que bem-intencionados. Exige estruturas capazes de integrar produção, circulação e mediação de forma consistente.
O quadro reflete as desigualdades do país. Enquanto algumas crianças crescem cercadas de livros, outras têm contato com eles apenas de forma episódica, quando o têm. Isso tende a se ampliar ao longo da vida escolar, produzindo trajetórias cada vez mais desiguais.
Nesse processo, a qualidade importa. Escrever para crianças exige rigor, sensibilidade e domínio da linguagem. Ilustrar, por sua vez, é um ato de criação que demanda repertório, técnica e intencionalidade. Texto e imagem não ocupam lugares hierárquicos: constroem juntos a narrativa, ampliam significados e criam camadas de leitura.
Valorizar a produção de livros infantis é, portanto, reconhecer a literatura e a ilustração como dimensões indissociáveis de uma mesma experiência criativa e, no caso brasileiro, reconhecer também a força de uma produção que alcançou alta qualidade e projeção internacional.
O setor do livro infantil, que envolve autores, ilustradores, editoras, livrarias, escolas e bibliotecas, forma um ecossistema complexo, que exige coordenação e visão integrada para funcionar plenamente. No entanto, sem presença consistente e sem mediação, esse sistema não alcança plenamente quem mais precisa.
A mediação, aliás, é um ponto central. A formação de leitores não acontece de forma espontânea. Professores, bibliotecários e famílias são responsáveis por aproximar a criança do livro, criar contextos de leitura e transformar o acesso em experiência significativa. É nesse encontro que a leitura deixa de ser possibilidade e se torna prática.
Por meio dos livros, a criança amplia seu repertório e entra em contato com diferentes realidades, experiências e perspectivas. A leitura permite reconhecer o outro, compreender diferenças e desenvolver empatia. Ao mesmo tempo, contribui para a construção de um universo que sustenta o pensamento e a criatividade.
Também é fundamental que as crianças se aproximem de livros que representem a diversidade de experiências, territórios e identidades que compõem a sociedade. A literatura infantil contribui para o desenvolvimento do senso de pertencimento e para o reconhecimento da pluralidade que caracteriza o mundo contemporâneo.
Em um contexto de múltiplos estímulos e formas de oferta de informações, o livro segue sendo uma ferramenta insubstituível. A literatura infantil tem relevância fundamental ao oferecer uma experiência de leitura profunda, estruturada e formadora.
Mais do que marcar o Dia Mundial do Livro Infantil, celebrado em 2 de abril, é preciso investir no acesso, na qualidade e na mediação dos livros para crianças. E isso exige não apenas recursos, mas capacidade de organização e articulação.
Sociedades que não formam leitores desde a infância dificilmente formam cidadãos capazes de compreender, participar e transformar a realidade. E é nas primeiras histórias, feitas de palavras e imagens, que começam, silenciosamente, as possibilidades de futuro de um país.
Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro, Hubert Alquéres, Curador do Prêmio Jabuti
É na infância que se descobrem histórias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. Antes mesmo de compreender plenamente a linguagem, a criança intui que ali existe algo maior: uma possibilidade de imaginar, explorar e dar sentido ao que a cerca, muitas vezes por meio das imagens, que inauguram esse encontro com a mesma potência das palavras. A literatura infantil não é apenas uma etapa na formação do leitor. Ela constitui uma base essencial da formação cultural, cognitiva e criativa.
No Brasil, porém, essa realidade segue longe de ser universal. Milhões de crianças crescem sem contato regular com livros, sem bibliotecas estruturadas e sem mediação qualificada. Trata-se de um déficit silencioso, que compromete desde cedo a trajetória dos estudantes, revela uma fragilidade estrutural do nosso sistema de educação e ajuda a explicar, em parte, os baixos níveis de letramento observados ao longo da vida escolar.
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Garantir o acesso ao livro desde a infância é, portanto, uma condição necessária. Mas não é suficiente; além de iniciativas isoladas, o país carece de uma articulação institucional capaz de dar escala, continuidade e coerência a essas ações. A formação de leitores não se sustenta apenas por esforços fragmentados, ainda que bem-intencionados. Exige estruturas capazes de integrar produção, circulação e mediação de forma consistente.
O quadro reflete as desigualdades do país. Enquanto algumas crianças crescem cercadas de livros, outras têm contato com eles apenas de forma episódica, quando o têm. Isso tende a se ampliar ao longo da vida escolar, produzindo trajetórias cada vez mais desiguais.
Nesse processo, a qualidade importa. Escrever para crianças exige rigor, sensibilidade e domínio da linguagem. Ilustrar, por sua vez, é um ato de criação que demanda repertório, técnica e intencionalidade. Texto e imagem não ocupam lugares hierárquicos: constroem juntos a narrativa, ampliam significados e criam camadas de leitura.
Valorizar a produção de livros infantis é, portanto, reconhecer a literatura e a ilustração como dimensões indissociáveis de uma mesma experiência criativa e, no caso brasileiro, reconhecer também a força de uma produção que alcançou alta qualidade e projeção internacional.
O setor do livro infantil, que envolve autores, ilustradores, editoras, livrarias, escolas e bibliotecas, forma um ecossistema complexo, que exige coordenação e visão integrada para funcionar plenamente. No entanto, sem presença consistente e sem mediação, esse sistema não alcança plenamente quem mais precisa.
A mediação, aliás, é um ponto central. A formação de leitores não acontece de forma espontânea. Professores, bibliotecários e famílias são responsáveis por aproximar a criança do livro, criar contextos de leitura e transformar o acesso em experiência significativa. É nesse encontro que a leitura deixa de ser possibilidade e se torna prática.
Por meio dos livros, a criança amplia seu repertório e entra em contato com diferentes realidades, experiências e perspectivas. A leitura permite reconhecer o outro, compreender diferenças e desenvolver empatia. Ao mesmo tempo, contribui para a construção de um universo que sustenta o pensamento e a criatividade.
Também é fundamental que as crianças se aproximem de livros que representem a diversidade de experiências, territórios e identidades que compõem a sociedade. A literatura infantil contribui para o desenvolvimento do senso de pertencimento e para o reconhecimento da pluralidade que caracteriza o mundo contemporâneo.
Em um contexto de múltiplos estímulos e formas de oferta de informações, o livro segue sendo uma ferramenta insubstituível. A literatura infantil tem relevância fundamental ao oferecer uma experiência de leitura profunda, estruturada e formadora.
Mais do que marcar o Dia Mundial do Livro Infantil, celebrado em 2 de abril, é preciso investir no acesso, na qualidade e na mediação dos livros para crianças. E isso exige não apenas recursos, mas capacidade de organização e articulação.
Sociedades que não formam leitores desde a infância dificilmente formam cidadãos capazes de compreender, participar e transformar a realidade. E é nas primeiras histórias, feitas de palavras e imagens, que começam, silenciosamente, as possibilidades de futuro de um país.
Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro, Hubert Alquéres, Curador do Prêmio Jabuti
Guerra no Irã ameaça segurança alimentar global com mais 45 milhões de pessoas em situação de fome
A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passam 20% do petróleo e gás do mundo, fez os preços do petróleo dispararem acima de US$ 100 por barril (cerca de R$ 520) e deixou economistas em alerta. Em meio às escaladas retórica e bélica desde o ataque americano-israelense em 28 de fevereiro, porém, especialistas afirmam que uma crise paralela e menos comentada está surgindo simultaneamente: a ameaça à segurança alimentar global, causada em grande parte pela iminente escassez de fertilizantes, essenciais para a produção de alimentos. Para analistas, os desdobramentos do conflito atual, se não forem enfrentados, serão capazes de transformar uma guerra regional em uma emergência humanitária mundial.
— O que distingue este conflito de guerras anteriores do século XXI é a interrupção simultânea de três pilares da segurança alimentar global: cadeias de suprimentos de alimentos, infraestrutura hídrica e produção de fertilizantes. Trata-se de uma máquina da fome em câmera lenta — afirmou ao GLOBO Michael Werz, pesquisador do CFR especializado em segurança alimentar. — [Isso] em um ano em que especialistas esperam efeitos significativos do El Niño, com possíveis impactos nas colheitas.
Desde o início dos ataques, apenas um número reduzido de embarcações conseguiu atravessar a via marítima, sendo a maioria petroleiros iranianos ou ligados à China que, em geral, seguem rotas próximas à costa iraniana. Em março, o Comitê Internacional de Resgate disse que os atrasos no transporte marítimo estavam interrompendo cadeias de suprimentos e itens sensíveis à temperatura usados em cuidados de saúde, programas de nutrição e distribuição de vacinas. Pelo menos US$ 130 mil (R$ 675 mil) em materiais farmacêuticos urgentes destinados à resposta humanitária no Sudão foram retidos em Dubai.
— As interrupções na cadeia de suprimentos que passa pelo Estreito estão atrasando envios de alimentos que salvam vidas, tanto na região quanto no restante do mundo — disse Sam Vigersky, pesquisador do Council on Foreign Relations (CFR) e ex-assessor humanitário na missão dos EUA nas Nações Unidas. — Os custos de combustível e de seguro para navios estão aumentando, o que reduzirá os orçamentos de programas de ONGs e agências da ONU que executam iniciativas de segurança alimentar.
No mês passado, uma nova análise do Programa Mundial de Alimentos (PMA) estimou que quase 45 milhões de pessoas adicionais podem enfrentar fome aguda se a guerra não terminar até o meio do ano e se os preços do petróleo permanecerem acima de US$ 100 por barril. O contingente se somaria às mais de 670 milhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem em situação de fome crônica, sendo a África Subsaariana e a Ásia as regiões mais vulneráveis devido à dependência de importações. Na Somália, onde há crises de seca, o preço de alguns produtos essenciais já subiu pelo menos 20% desde o início do conflito.
— A crise já está em curso: o PMA foi forçado a reduzir as rações alimentares para pessoas em condições de fome no Sudão e só consegue apoiar uma em cada quatro crianças com desnutrição aguda no Afeganistão, atualmente a pior crise de desnutrição do mundo — alertou Werz. — Isso ocorre antes mesmo de o choque dos fertilizantes se desenvolver plenamente. Com a alta dos preços de alimentos e do transporte, a ajuda humanitária será ainda mais desafiadora.
Segundo artigo publicado pelo especialista, a água potável também está em risco. Ataques iranianos a usinas de dessalinização no Bahrein e bombardeios próximos a um complexo com 43 instalações do mesmo tipo na Arábia Saudita, disse, indicam mais uma camada da guerra. A vulnerabilidade é elevada porque os países do Golfo dependem amplamente dessa tecnologia: “400 plantas nos países do Conselho de Cooperação do Golfo produzem quase 40% da água dessalinizada do mundo. No Kuwait, 90% da água potável depende dessas instalações; em Omã, 86%; e na Arábia Saudita, 70%”, escreveu.
Analistas estimam que os reflexos do conflito atual podem ser maiores para a segurança alimentar do que os vistos com a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Na época, diz o PMA, os preços dos alimentos subiram rapidamente e demoraram a cair, excluindo famílias vulneráveis do acesso à nutrição básica. Mas alternativas foram encontradas, como o aumento das importações do Oriente Médio — algo que, para Máximo Torero, economista-chefe da Organização da ONU para a Agricultura e Alimentação, não deve ser possível desta vez:
— Não há uma resposta rápida para a oferta de petróleo, gás natural e fertilizantes. Nenhum país consegue aumentar significativamente a produção desses insumos no curto prazo. Por isso é muito importante que o conflito termine logo — disse ele em entrevista coletiva na sede da ONU em Nova York. — Caso contrário, isso afetará a próxima temporada de plantio e terá consequências sobre os preços dos alimentos, [o que] certamente afetará a segurança alimentar.
Governos e órgãos ao redor do mundo já passaram a recorrer a reservas estratégicas de alimentos e a buscar rotas alternativas para tentar garantir o abastecimento. Nos Emirados Árabes Unidos, as reservas cobrem de quatro a seis meses, e o governo pediu aos moradores que denunciem aumentos injustificados de preços. Na Arábia Saudita, há cerca de quatro meses de estoque de trigo, e a ONU criou uma “força-tarefa” dedicada para “propor mecanismos técnicos” especificamente concebidos para atender às necessidades humanitárias no Estreito.
— O potencial para desencadear uma crise alimentar global está em grande parte ligado à duração [do conflito] — disse Joseph Glauber, pesquisador do International Food Policy Research Institute (IFPRI) e ex-economista-chefe do Departamento de Agricultura dos EUA, indicando que, para ele, a crise não deverá ter “efeitos dramáticos” sobre a produção de alimentos neste ano. — Custos mais altos de energia são provavelmente o maior risco. [Eles] já elevaram os custos de transporte, [o que] pode significar inflação dos preços dos alimentos.
As preocupações ocorrem enquanto grupos de ajuda enfrentam dificuldades. A agência da ONU para os refugiados (ACNUR), que estima que 3,2 milhões de pessoas do Irã e 1 milhão de pessoas no Líbano tenham sido deslocadas em pouco mais de um mês de guerra, lançou um apelo urgente por doações, observando que apenas no Líbano o órgão precisa de mais mais US$ 61 milhões (R$ 316 milhões) para apoiar 600 mil pessoas nos próximos três meses — e que “as necessidades estão aumentando mais rapidamente do que os recursos”.
— Há a possibilidade de pressionar pela criação de um corredor humanitário no Estreito de Ormuz para produtos relacionados a alimentos e medicamentos, semelhante à Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que ajudou a escoar grãos da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia em 2022. Talvez navios com bandeira chinesa ou paquistanesa possam ser autorizados a transportar alimentos ou fertilizantes para os países mais necessitados — disse ao GLOBO Noah J. Gordon, pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace.
A decisão do presidente americano, Donald Trump, de dissolver a agência de ajuda internacional dos EUA (Usaid) no ano passado forçou grupos assistenciais em todo o mundo a demitir milhares de funcionários e encerrar programas que salvavam vidas. Embora Washington gastasse apenas 1% de seu orçamento com o órgão, ele foi desmontado após o então Departamento de Eficiência Governamental (Doge), liderado à época por Elon Musk, classificá-lo como desperdício.
À Associated Press, o Departamento de Estado americano disse estar destinando mais de US$ 40 milhões (R$ 207 milhões) em assistência emergencial adicional ao Líbano, incluindo para o PMA. No entanto, trabalhadores humanitários citam a discrepância com o montante gasto na guerra: apenas a primeira semana do conflito custou US$ 11,3 bilhões (R$ 58 bilhões), segundo o Pentágono, que também busca mais de US$ 200 bilhões adicionais para a guerra.
— Cortes de financiamento em 2025 devastaram programas humanitários, incluindo os que trabalham com desnutrição. As agências de ajuda entram nesta crise em desvantagem. O PMA demitiu 25% de sua equipe e perdeu bilhões em financiamento humanitário. Ao mesmo tempo, pouco dinheiro novo foi mobilizado desde o início da guerra — disse Vigersky, que trabalhou no Escritório de Assistência a Desastres Estrangeiros da Usaid de 2014 a 2019.
Para Werz, se o impacto da invasão da Ucrânia e o “uso bem-sucedido dos alimentos como arma” pela Rússia servirem de indicador, é provável que os efeitos sejam de longo prazo. O impacto da guerra na Ucrânia sobre os mercados de fertilizantes, disse, gerou efeitos econômicos duradouros, reestruturou o comércio global e manteve os preços elevados bem acima dos níveis pré-guerra. Segundo ele, mesmo após o fim do conflito com o Irã, produtores no Golfo precisariam de garantias de segurança antes de retomar os envios pelo Estreito, e “efeitos cascata” poderão ser vistos “a milhares de quilômetros de distância”.
— Há uma série de ações que poderiam ser tomadas, mas que provavelmente serão prejudicadas por um sistema internacional cada vez mais disfuncional, no qual as grandes potências frequentemente perseguem interesses nacionais estreitamente definidos — afirmou. — Em última análise, o desafio é sistêmico: a política externa no século XXI envolve resolver problemas nacionais, regionais e globais que afetam grandes partes do mundo. No entanto, as instituições nas quais decisões são tomadas em nível nacional ou internacional muitas vezes ainda se assemelham a um ambiente da Guerra Fria que já não existe mais.
— O que distingue este conflito de guerras anteriores do século XXI é a interrupção simultânea de três pilares da segurança alimentar global: cadeias de suprimentos de alimentos, infraestrutura hídrica e produção de fertilizantes. Trata-se de uma máquina da fome em câmera lenta — afirmou ao GLOBO Michael Werz, pesquisador do CFR especializado em segurança alimentar. — [Isso] em um ano em que especialistas esperam efeitos significativos do El Niño, com possíveis impactos nas colheitas.
Desde o início dos ataques, apenas um número reduzido de embarcações conseguiu atravessar a via marítima, sendo a maioria petroleiros iranianos ou ligados à China que, em geral, seguem rotas próximas à costa iraniana. Em março, o Comitê Internacional de Resgate disse que os atrasos no transporte marítimo estavam interrompendo cadeias de suprimentos e itens sensíveis à temperatura usados em cuidados de saúde, programas de nutrição e distribuição de vacinas. Pelo menos US$ 130 mil (R$ 675 mil) em materiais farmacêuticos urgentes destinados à resposta humanitária no Sudão foram retidos em Dubai.
— As interrupções na cadeia de suprimentos que passa pelo Estreito estão atrasando envios de alimentos que salvam vidas, tanto na região quanto no restante do mundo — disse Sam Vigersky, pesquisador do Council on Foreign Relations (CFR) e ex-assessor humanitário na missão dos EUA nas Nações Unidas. — Os custos de combustível e de seguro para navios estão aumentando, o que reduzirá os orçamentos de programas de ONGs e agências da ONU que executam iniciativas de segurança alimentar.
No mês passado, uma nova análise do Programa Mundial de Alimentos (PMA) estimou que quase 45 milhões de pessoas adicionais podem enfrentar fome aguda se a guerra não terminar até o meio do ano e se os preços do petróleo permanecerem acima de US$ 100 por barril. O contingente se somaria às mais de 670 milhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem em situação de fome crônica, sendo a África Subsaariana e a Ásia as regiões mais vulneráveis devido à dependência de importações. Na Somália, onde há crises de seca, o preço de alguns produtos essenciais já subiu pelo menos 20% desde o início do conflito.
— A crise já está em curso: o PMA foi forçado a reduzir as rações alimentares para pessoas em condições de fome no Sudão e só consegue apoiar uma em cada quatro crianças com desnutrição aguda no Afeganistão, atualmente a pior crise de desnutrição do mundo — alertou Werz. — Isso ocorre antes mesmo de o choque dos fertilizantes se desenvolver plenamente. Com a alta dos preços de alimentos e do transporte, a ajuda humanitária será ainda mais desafiadora.
Segundo artigo publicado pelo especialista, a água potável também está em risco. Ataques iranianos a usinas de dessalinização no Bahrein e bombardeios próximos a um complexo com 43 instalações do mesmo tipo na Arábia Saudita, disse, indicam mais uma camada da guerra. A vulnerabilidade é elevada porque os países do Golfo dependem amplamente dessa tecnologia: “400 plantas nos países do Conselho de Cooperação do Golfo produzem quase 40% da água dessalinizada do mundo. No Kuwait, 90% da água potável depende dessas instalações; em Omã, 86%; e na Arábia Saudita, 70%”, escreveu.
Analistas estimam que os reflexos do conflito atual podem ser maiores para a segurança alimentar do que os vistos com a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Na época, diz o PMA, os preços dos alimentos subiram rapidamente e demoraram a cair, excluindo famílias vulneráveis do acesso à nutrição básica. Mas alternativas foram encontradas, como o aumento das importações do Oriente Médio — algo que, para Máximo Torero, economista-chefe da Organização da ONU para a Agricultura e Alimentação, não deve ser possível desta vez:
— Não há uma resposta rápida para a oferta de petróleo, gás natural e fertilizantes. Nenhum país consegue aumentar significativamente a produção desses insumos no curto prazo. Por isso é muito importante que o conflito termine logo — disse ele em entrevista coletiva na sede da ONU em Nova York. — Caso contrário, isso afetará a próxima temporada de plantio e terá consequências sobre os preços dos alimentos, [o que] certamente afetará a segurança alimentar.
Governos e órgãos ao redor do mundo já passaram a recorrer a reservas estratégicas de alimentos e a buscar rotas alternativas para tentar garantir o abastecimento. Nos Emirados Árabes Unidos, as reservas cobrem de quatro a seis meses, e o governo pediu aos moradores que denunciem aumentos injustificados de preços. Na Arábia Saudita, há cerca de quatro meses de estoque de trigo, e a ONU criou uma “força-tarefa” dedicada para “propor mecanismos técnicos” especificamente concebidos para atender às necessidades humanitárias no Estreito.
— O potencial para desencadear uma crise alimentar global está em grande parte ligado à duração [do conflito] — disse Joseph Glauber, pesquisador do International Food Policy Research Institute (IFPRI) e ex-economista-chefe do Departamento de Agricultura dos EUA, indicando que, para ele, a crise não deverá ter “efeitos dramáticos” sobre a produção de alimentos neste ano. — Custos mais altos de energia são provavelmente o maior risco. [Eles] já elevaram os custos de transporte, [o que] pode significar inflação dos preços dos alimentos.
As preocupações ocorrem enquanto grupos de ajuda enfrentam dificuldades. A agência da ONU para os refugiados (ACNUR), que estima que 3,2 milhões de pessoas do Irã e 1 milhão de pessoas no Líbano tenham sido deslocadas em pouco mais de um mês de guerra, lançou um apelo urgente por doações, observando que apenas no Líbano o órgão precisa de mais mais US$ 61 milhões (R$ 316 milhões) para apoiar 600 mil pessoas nos próximos três meses — e que “as necessidades estão aumentando mais rapidamente do que os recursos”.
— Há a possibilidade de pressionar pela criação de um corredor humanitário no Estreito de Ormuz para produtos relacionados a alimentos e medicamentos, semelhante à Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que ajudou a escoar grãos da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia em 2022. Talvez navios com bandeira chinesa ou paquistanesa possam ser autorizados a transportar alimentos ou fertilizantes para os países mais necessitados — disse ao GLOBO Noah J. Gordon, pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace.
A decisão do presidente americano, Donald Trump, de dissolver a agência de ajuda internacional dos EUA (Usaid) no ano passado forçou grupos assistenciais em todo o mundo a demitir milhares de funcionários e encerrar programas que salvavam vidas. Embora Washington gastasse apenas 1% de seu orçamento com o órgão, ele foi desmontado após o então Departamento de Eficiência Governamental (Doge), liderado à época por Elon Musk, classificá-lo como desperdício.
À Associated Press, o Departamento de Estado americano disse estar destinando mais de US$ 40 milhões (R$ 207 milhões) em assistência emergencial adicional ao Líbano, incluindo para o PMA. No entanto, trabalhadores humanitários citam a discrepância com o montante gasto na guerra: apenas a primeira semana do conflito custou US$ 11,3 bilhões (R$ 58 bilhões), segundo o Pentágono, que também busca mais de US$ 200 bilhões adicionais para a guerra.
— Cortes de financiamento em 2025 devastaram programas humanitários, incluindo os que trabalham com desnutrição. As agências de ajuda entram nesta crise em desvantagem. O PMA demitiu 25% de sua equipe e perdeu bilhões em financiamento humanitário. Ao mesmo tempo, pouco dinheiro novo foi mobilizado desde o início da guerra — disse Vigersky, que trabalhou no Escritório de Assistência a Desastres Estrangeiros da Usaid de 2014 a 2019.
Para Werz, se o impacto da invasão da Ucrânia e o “uso bem-sucedido dos alimentos como arma” pela Rússia servirem de indicador, é provável que os efeitos sejam de longo prazo. O impacto da guerra na Ucrânia sobre os mercados de fertilizantes, disse, gerou efeitos econômicos duradouros, reestruturou o comércio global e manteve os preços elevados bem acima dos níveis pré-guerra. Segundo ele, mesmo após o fim do conflito com o Irã, produtores no Golfo precisariam de garantias de segurança antes de retomar os envios pelo Estreito, e “efeitos cascata” poderão ser vistos “a milhares de quilômetros de distância”.
— Há uma série de ações que poderiam ser tomadas, mas que provavelmente serão prejudicadas por um sistema internacional cada vez mais disfuncional, no qual as grandes potências frequentemente perseguem interesses nacionais estreitamente definidos — afirmou. — Em última análise, o desafio é sistêmico: a política externa no século XXI envolve resolver problemas nacionais, regionais e globais que afetam grandes partes do mundo. No entanto, as instituições nas quais decisões são tomadas em nível nacional ou internacional muitas vezes ainda se assemelham a um ambiente da Guerra Fria que já não existe mais.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Esopo na Casa Branca: A moral da história que Trump esqueceu
Cada especialista em Brasil apontou alguma ausência: faltaram pureza racial, um colonizador mais avançado, partidos políticos com valores definidos. Talvez fosse melhor falar do que temos de sobra, como hipocrisia e carisma na sua forma mais degradante: o populismo e uma incurável parcialidade. Entre nós, ignorar a lei e o bom senso é sinal de importância social.
Nosso modo de encarar esse dilema segue um inabalável legalismo. Criamos regras acreditando que um confuso aparelhamento burocrático soluciona problemas de costumes, tal como Donald Trump acredita que seus desmesurados porta-aviões agenciem a rendição do Irã. É a velha ilusão de que foguetes e drones resolvem guerras, destruindo muito e perdendo pouco, pois temos a maior força militar do planeta. Um planeta, aliás, que deixou de ser vivido em sincronia com a natureza.
Lançar foguetes é como usar a “canetada” para salvar colegas ou refazer hierarquias em espaços igualitários. Fica-se na ilusão de que as leis existem, mas elas não são universalmente aplicadas. Não para nós, mas para eles.
No Brasil, nossos drones, foguetes e porta-aviões são as leis produzidas pelo nosso “caga-regrismo”, que até hoje imagina que o poder de legislar opera resolvendo intelectualmente, mas – como os foguetes trumpistas – aumenta frustrações. É muito mais fácil cair na ilusão de que a lei resolve do que discutir o que a lei representa numa sociedade que sabe como sua aplicação é abafada ou simplesmente anulada para certas categorias sociais.
Desde os tempos de Esopo, a fabulação serve como exemplo para intenções, vaidades e pecados humanos. Uma fábula muito conhecida é a dos órgãos do corpo humano que um dia resolveram imitar Donald Trump e determinar qual era o mais poderoso. “Sou eu”, disse o olho. “Não”, berrou a boca, debaixo da discórdia do nariz, ouvidos, estômago, mãos e pés.
Em meio à polêmica, ouviu-se a pequena voz do escondido ânus e, em seguida, a sua imediata expulsão, como a de um cidadão de última categoria. “És”, disse o nariz, “um órgão inferior e sujo; não tens nenhuma importância!”. O humilhado cu retrucou, piscando: “Vou me fechar e vocês verão o meu poder”. Após alguns dias, todos os órgãos que se achavam donos de um indiscutível poder dos fortes pediram perdão ao ânus, que voltou a funcionar, devolvendo – graças ao poder dos fracos – funcionalidade ao corpo.
Assim reza a fábula que, hoje, é literalmente replicada na estreiteza do Estreito de Ormuz – uma passagem estratégica que, se retraída, estrangula a fisiologia do mercado energético planetário. O Estreito de Ormuz ressalta que, antes de sermos países ricos e pobres isolados nos nossos egoísmos coletivos, somos e continuamos a ser, como diz a fábula, parte de um conjunto cuja funcionalidade não pode ser trocada pela selvageria da guerra, a qual nega o que temos de mais sagrado: a nossa humanidade.
Nosso modo de encarar esse dilema segue um inabalável legalismo. Criamos regras acreditando que um confuso aparelhamento burocrático soluciona problemas de costumes, tal como Donald Trump acredita que seus desmesurados porta-aviões agenciem a rendição do Irã. É a velha ilusão de que foguetes e drones resolvem guerras, destruindo muito e perdendo pouco, pois temos a maior força militar do planeta. Um planeta, aliás, que deixou de ser vivido em sincronia com a natureza.
Lançar foguetes é como usar a “canetada” para salvar colegas ou refazer hierarquias em espaços igualitários. Fica-se na ilusão de que as leis existem, mas elas não são universalmente aplicadas. Não para nós, mas para eles.
No Brasil, nossos drones, foguetes e porta-aviões são as leis produzidas pelo nosso “caga-regrismo”, que até hoje imagina que o poder de legislar opera resolvendo intelectualmente, mas – como os foguetes trumpistas – aumenta frustrações. É muito mais fácil cair na ilusão de que a lei resolve do que discutir o que a lei representa numa sociedade que sabe como sua aplicação é abafada ou simplesmente anulada para certas categorias sociais.
Desde os tempos de Esopo, a fabulação serve como exemplo para intenções, vaidades e pecados humanos. Uma fábula muito conhecida é a dos órgãos do corpo humano que um dia resolveram imitar Donald Trump e determinar qual era o mais poderoso. “Sou eu”, disse o olho. “Não”, berrou a boca, debaixo da discórdia do nariz, ouvidos, estômago, mãos e pés.
Em meio à polêmica, ouviu-se a pequena voz do escondido ânus e, em seguida, a sua imediata expulsão, como a de um cidadão de última categoria. “És”, disse o nariz, “um órgão inferior e sujo; não tens nenhuma importância!”. O humilhado cu retrucou, piscando: “Vou me fechar e vocês verão o meu poder”. Após alguns dias, todos os órgãos que se achavam donos de um indiscutível poder dos fortes pediram perdão ao ânus, que voltou a funcionar, devolvendo – graças ao poder dos fracos – funcionalidade ao corpo.
Assim reza a fábula que, hoje, é literalmente replicada na estreiteza do Estreito de Ormuz – uma passagem estratégica que, se retraída, estrangula a fisiologia do mercado energético planetário. O Estreito de Ormuz ressalta que, antes de sermos países ricos e pobres isolados nos nossos egoísmos coletivos, somos e continuamos a ser, como diz a fábula, parte de um conjunto cuja funcionalidade não pode ser trocada pela selvageria da guerra, a qual nega o que temos de mais sagrado: a nossa humanidade.
Jogando com o extermínio
Segundo uma crença liberal do século passado, as guerras arrefeceriam à medida que as sociedades de mercado prevalecessem e os regimes democráticos, minimamente estáveis, perdurassem. Pois bem, o que se deu foi o contrário, três vezes o contrário.
Primeiro revertério: os regimes democráticos começaram a periclitar e agora claudicam. O relatório anual do Instituto V-Dem, o principal ranking da democracia no mundo, rebaixou os Estados Unidos (até os Estados Unidos). De “democracia liberal”, o país caiu para “democracia eleitoral”. Na terra do tio Trump (o Tio Sam foi deportado), os indicadores de liberdade apodrecem como detritos burocráticos que o caminhão de lixo se esqueceu de recolher.
Segundo revertério: o que levava o nome de “sociedade de mercado”, com a livre iniciativa e a livre concorrência dando as cartas, virou uma degenerescência. O que temos para hoje é algo entre o crony capitalism, em que os negócios se viabilizam na base do compadrio de governantes com bilionários (como na Rússia ou, hoje, nos Estados Unidos), e o “tecnofeudalismo” (termo do economista grego Yanis Varoufakis), no qual os reis das big techs comandam a vassalagem generalizada. Podemos falar também em capitalismo superindustrial, como sustenta Fernando Haddad, mas o que importa não é o nome – o que importa é que, das tais sociedades de mercado, só resta uma carcaça decorativa para salvar as aparências (o pessoal gosta de aparências).
Terceiro revertério: as guerras aumentaram em quantidade, intensidade, letalidade e abrangência. O planeta fumega, e não apenas porque o aquecimento global veio nos dar o ar de sua graça febril. O ano 2024, considerado o mais mortífero desde 1945, registrou 129 mil mortes em 61 conflitos armados envolvendo 36 países. O ano de 2026 poderá ser pior, ainda não se sabe. O que se sabe, isto sim, é que o quadro está mais fora de controle do que estava há dois anos. Já não existe um organismo internacional capaz de desarmar o belicismo. A Organização das Nações Unidas (ONU), sem dinheiro, sem autoridade e sem direção, mal se mantém de pé. Muitas vozes pedem reformas no Conselho de Segurança e em toda a entidade. Em vão.
As bestas-feras se desinibiram. Como quem comenta que precisa amarrar o sapato, Putin se declara pronto para acionar seus arsenais atômicos, orgulhoso de sua “tríade nuclear” (ogivas plantadas em três bases diferentes, devidamente engatilhadas: mísseis intercontinentais em terra, outros em submarinos soltos pelos mares e, finalmente, bombas penduradas em monstros supersônicos que cruzam os céus e os infernos a 16 mil metros de altura).
Nós nos convertemos numa civilização que joga com o próprio extermínio. A possibilidade de uma chuva de artefatos mais destrutivos do que aqueles que a Casa Branca despejou em Hiroshima e Nagasaki pode não ser grande, mas é real. A jornalista Annie Jacobsen, autora do livro Guerra nuclear: um cenário, lançado em inglês no ano passado pela Penguin, calcula que, se um desses doidos encastelados (como Putin, Trump ou Netanyahu) disparar uma ogiva carregada contra o inimigo poderá colher um contra-ataque em cadeia que, em 72 minutos, reduzirá os vivos e os mortos a geleia radioativa.
O poder está nas mãos dos mascates de explosivos, menos porque reúnam os meios para construir ou erguer coisas boas, ou mesmo belas, e mais porque detêm as ferramentas para dizimar os seres e as coisas – as feias, inclusive. Chantagistas, terroristas de Estado, eles sequestraram tudo o que respira e cobram o resgate diário em obediência. A seu favor, contam com a solicitude do capital, cujos despachantes se convenceram de que podem prescindir da maior parte dos homens e das mulheres que habitam o planeta. As chances de morticínios consentidos crescem dia a dia.
Um dos vários trabalhos de Marc Chagall expostos no Museu de Arte de Zurique, o Kunsthaus, tem o nome de A Guerra. Foi pintado entre 1964 e 1966, nos Estados Unidos. Casas devoradas pelas chamas, migrações dos desvalidos em carroças, corpos destroçados e crianças assassinadas se espalham sobre a tela. Ao centro, resplandece a cabeça gigante de um cavalo branco, com olhos de fria indiferença. Para mim, o animal evoca o apocalipse.
Em outra sala do mesmo museu, um cavalo branco parecido, mas com o olhar de fúria, domina outro quadro, este de 1897. O título é igual: A Guerra. Ali, o simbolista suíço Arnold Böcklin retratou explicitamente três dos cavaleiros do apocalipse, com feições de ódio e demência.
Consta que Chagall, em meados dos anos 60, pensava no passado: o horror da 2.ª Guerra. Parece que Böcklin, em 1897, não olhou para trás, mas para a frente: a matança que viria no século 20. Chagall viu o Holocausto no pretérito. Böcklin conseguiu antevê-lo no amanhã. Por uma janela ou por outra, as montarias do fim dos tempos assombraram os dois artistas. Hoje, desembestadas, elas mandam avisar: a aniquilação que você chancelou ontem voltará para arrancar a sua cabeça logo ali na esquina. Vai ser assim, num estalar de dedos. Dedos atômicos. Estamos num intervalo efêmero.
Primeiro revertério: os regimes democráticos começaram a periclitar e agora claudicam. O relatório anual do Instituto V-Dem, o principal ranking da democracia no mundo, rebaixou os Estados Unidos (até os Estados Unidos). De “democracia liberal”, o país caiu para “democracia eleitoral”. Na terra do tio Trump (o Tio Sam foi deportado), os indicadores de liberdade apodrecem como detritos burocráticos que o caminhão de lixo se esqueceu de recolher.
| Marc Chagall |
Segundo revertério: o que levava o nome de “sociedade de mercado”, com a livre iniciativa e a livre concorrência dando as cartas, virou uma degenerescência. O que temos para hoje é algo entre o crony capitalism, em que os negócios se viabilizam na base do compadrio de governantes com bilionários (como na Rússia ou, hoje, nos Estados Unidos), e o “tecnofeudalismo” (termo do economista grego Yanis Varoufakis), no qual os reis das big techs comandam a vassalagem generalizada. Podemos falar também em capitalismo superindustrial, como sustenta Fernando Haddad, mas o que importa não é o nome – o que importa é que, das tais sociedades de mercado, só resta uma carcaça decorativa para salvar as aparências (o pessoal gosta de aparências).
Terceiro revertério: as guerras aumentaram em quantidade, intensidade, letalidade e abrangência. O planeta fumega, e não apenas porque o aquecimento global veio nos dar o ar de sua graça febril. O ano 2024, considerado o mais mortífero desde 1945, registrou 129 mil mortes em 61 conflitos armados envolvendo 36 países. O ano de 2026 poderá ser pior, ainda não se sabe. O que se sabe, isto sim, é que o quadro está mais fora de controle do que estava há dois anos. Já não existe um organismo internacional capaz de desarmar o belicismo. A Organização das Nações Unidas (ONU), sem dinheiro, sem autoridade e sem direção, mal se mantém de pé. Muitas vozes pedem reformas no Conselho de Segurança e em toda a entidade. Em vão.
As bestas-feras se desinibiram. Como quem comenta que precisa amarrar o sapato, Putin se declara pronto para acionar seus arsenais atômicos, orgulhoso de sua “tríade nuclear” (ogivas plantadas em três bases diferentes, devidamente engatilhadas: mísseis intercontinentais em terra, outros em submarinos soltos pelos mares e, finalmente, bombas penduradas em monstros supersônicos que cruzam os céus e os infernos a 16 mil metros de altura).
Nós nos convertemos numa civilização que joga com o próprio extermínio. A possibilidade de uma chuva de artefatos mais destrutivos do que aqueles que a Casa Branca despejou em Hiroshima e Nagasaki pode não ser grande, mas é real. A jornalista Annie Jacobsen, autora do livro Guerra nuclear: um cenário, lançado em inglês no ano passado pela Penguin, calcula que, se um desses doidos encastelados (como Putin, Trump ou Netanyahu) disparar uma ogiva carregada contra o inimigo poderá colher um contra-ataque em cadeia que, em 72 minutos, reduzirá os vivos e os mortos a geleia radioativa.
O poder está nas mãos dos mascates de explosivos, menos porque reúnam os meios para construir ou erguer coisas boas, ou mesmo belas, e mais porque detêm as ferramentas para dizimar os seres e as coisas – as feias, inclusive. Chantagistas, terroristas de Estado, eles sequestraram tudo o que respira e cobram o resgate diário em obediência. A seu favor, contam com a solicitude do capital, cujos despachantes se convenceram de que podem prescindir da maior parte dos homens e das mulheres que habitam o planeta. As chances de morticínios consentidos crescem dia a dia.
Um dos vários trabalhos de Marc Chagall expostos no Museu de Arte de Zurique, o Kunsthaus, tem o nome de A Guerra. Foi pintado entre 1964 e 1966, nos Estados Unidos. Casas devoradas pelas chamas, migrações dos desvalidos em carroças, corpos destroçados e crianças assassinadas se espalham sobre a tela. Ao centro, resplandece a cabeça gigante de um cavalo branco, com olhos de fria indiferença. Para mim, o animal evoca o apocalipse.
Em outra sala do mesmo museu, um cavalo branco parecido, mas com o olhar de fúria, domina outro quadro, este de 1897. O título é igual: A Guerra. Ali, o simbolista suíço Arnold Böcklin retratou explicitamente três dos cavaleiros do apocalipse, com feições de ódio e demência.
Consta que Chagall, em meados dos anos 60, pensava no passado: o horror da 2.ª Guerra. Parece que Böcklin, em 1897, não olhou para trás, mas para a frente: a matança que viria no século 20. Chagall viu o Holocausto no pretérito. Böcklin conseguiu antevê-lo no amanhã. Por uma janela ou por outra, as montarias do fim dos tempos assombraram os dois artistas. Hoje, desembestadas, elas mandam avisar: a aniquilação que você chancelou ontem voltará para arrancar a sua cabeça logo ali na esquina. Vai ser assim, num estalar de dedos. Dedos atômicos. Estamos num intervalo efêmero.
'Flávio' descobriu que 'Bolsonaro' é palavrão
Alexandra Moraes, nossa ombudsman, chamou a atenção (14/3) para a familiaridade com que, de repente, a imprensa passou a se referir a Flávio Bolsonaro. Assim que ungido presidenciável, o oleoso senador, portador de um sobrenome sinônimo de violência, insensibilidade e golpismo, tornou-se nas reportagens apenas "Flávio", algo assim como um afável vizinho de porta. Isso em veículos que, para manter a objetividade ou evitar repetições, costumam chamar, digamos, Camila Pitanga de "Pitanga" e Ratinho Junior de "Junior".
Os EUA tiveram Teddy Roosevelt na Casa Branca e, alguns presidentes depois, seu primo Franklin Roosevelt, e nem por isso o The New York Times reduziu o segundo Roosevelt a um coloquial Franklin. Os dois eram chamados de "Mr. Roosevelt". É verdade que não temos o hábito de tratar nossos presidentes por "Sr.", nem eles fazem por merecer, mas chamar um Bolsonaro pelo prenome é um suspeito sinal de simpatia, quase amor.
Quando Bolsonaro assumiu a presidência, em 2019, decidi quase de saída nunca chamá-lo aqui de "Presidente Jair Bolsonaro", nem mesmo de "Jair Bolsonaro" e muito menos de "Jair". Não se tratava de economizar espaço, mas de preservar a dignidade da coluna, já que Bolsonaro não preservava a dele. Com isso, até hoje, sempre o chamei apenas de "Bolsonaro", o que pode ser checado por qualquer leitor. Outra decisão foi a de não aderir ao meigo tratamento dado por alguns aos filhos —Carlos Bolsonaro, de "Carlucho", e Eduardo Bolsonaro, de "Bananinha". E, por respeito ao número zero, evitei chamá-los de "Zero Dois" ou "Zero Três".
O que "Flávio" precisa ser chamado é a responder pelas "rachadinhas", a compra de mansões com dinheiro vivo, a lavanderia nos fundos da loja de chocolate, a intimidade com milicianos, as informações privilegiadas para garantir impunidade judicial e, surpresa, o possível envolvimento em esquemas do INSS com operações de entidades fantasmas.
"Flávio", com razão, não quer ser chamado de Bolsonaro. Descobriu que agora é um palavrão.
Os EUA tiveram Teddy Roosevelt na Casa Branca e, alguns presidentes depois, seu primo Franklin Roosevelt, e nem por isso o The New York Times reduziu o segundo Roosevelt a um coloquial Franklin. Os dois eram chamados de "Mr. Roosevelt". É verdade que não temos o hábito de tratar nossos presidentes por "Sr.", nem eles fazem por merecer, mas chamar um Bolsonaro pelo prenome é um suspeito sinal de simpatia, quase amor.
Quando Bolsonaro assumiu a presidência, em 2019, decidi quase de saída nunca chamá-lo aqui de "Presidente Jair Bolsonaro", nem mesmo de "Jair Bolsonaro" e muito menos de "Jair". Não se tratava de economizar espaço, mas de preservar a dignidade da coluna, já que Bolsonaro não preservava a dele. Com isso, até hoje, sempre o chamei apenas de "Bolsonaro", o que pode ser checado por qualquer leitor. Outra decisão foi a de não aderir ao meigo tratamento dado por alguns aos filhos —Carlos Bolsonaro, de "Carlucho", e Eduardo Bolsonaro, de "Bananinha". E, por respeito ao número zero, evitei chamá-los de "Zero Dois" ou "Zero Três".
O que "Flávio" precisa ser chamado é a responder pelas "rachadinhas", a compra de mansões com dinheiro vivo, a lavanderia nos fundos da loja de chocolate, a intimidade com milicianos, as informações privilegiadas para garantir impunidade judicial e, surpresa, o possível envolvimento em esquemas do INSS com operações de entidades fantasmas.
"Flávio", com razão, não quer ser chamado de Bolsonaro. Descobriu que agora é um palavrão.
Flávio Bolsonaro segue os passos do pai e planta sementes da desconfiança eleitoral
Para os que ainda têm fé no bolsonarismo moderado, é recomendável assistir ao discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, na Cpac, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos.
No fim de semana, em Dallas (Texas), Flávio seguiu à risca a cartilha do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), disseminando teorias conspiratórias, colocando em xeque a lisura do processo eleitoral brasileiro e vestindo a roupagem do populismo autoritário e antissistema que assola democracias ao redor do mundo.
O discurso contrasta com a imagem de moderação que a pré-campanha do senador tenta construir, em busca do eleitorado independente que será o fiel da balança de uma acirrada disputa eleitoral contra o presidente Lula (PT).
Aos conservadores do Maga ("Make America Great Again", movimento liderado pelo presidente Donald Trump), Flávio Bolsonaro fez um apelo por "pressão diplomática" para garantir eleições livres e justas no Brasil.
"Meu apelo não só à América, mas a todo o mundo livre, é esse: observem as eleições do Brasil com enorme atenção, aprendam sobre e entendam nosso processo eleitoral, monitorem a liberdade de expressão do nosso povo, e apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente", afirmou.
Em sua fala, Flávio disse estar certo da vitória e, assim como o pai e líderes de linhagem populista, como o ditador Nicolás Maduro, que tanto critica, lançou mão do pronome possessivo para se referir ao eleitorado. "Vou vencer porque é a vontade do meu povo", afirmou.
O senador, porém, fez um alerta: para que essa vontade seja preservada, é preciso haver "eleições livres e justas". Isso, segundo ele, é "um grande desafio" e só acontecerá "se nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e os votos forem contados corretamente".
Nos meses anteriores às eleições de 2018, quando enfrentou Fernando Haddad (PT), Bolsonaro afirmou que "a grande preocupação" não era perder no voto, mas sim "perder na fraude". "Isso só pode acontecer por fraude, não por voto, estou convencido", afirmou em transmissão ao vivo nas redes sociais em outubro.
Em seu discurso na Cpac, antes do apelo ao "mundo livre", Flávio ofereceu um meio e um fim para convencer os trumpistas da necessidade de se envolver com os assuntos eleitorais brasileiros.
Primeiro, o meio. Por cinco vezes, mencionou os cartéis de droga do Brasil, afirmando que os grupos criminosos exportam armas e drogas para os Estados Unidos. As acusações de "narcoterrorismo" têm sido utilizadas pelo governo Trump como fundamento para a intervenção americana em outros países, como ocorreu com a destituição de Maduro do poder na Venezuela.
Segundo, o fim. Flávio vendeu a imagem do Brasil como o "campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido", essencial para quebrar a dependência dos EUA das exportações chinesas de minerais críticos. Assim, o senador posicionou o país como um potencial fornecedor de terras raras —grupo de elementos químicos usados em produtos de alta tecnologia e na energia limpa.
"A América precisa de cadeias de suprimento seguras para materiais críticos, um parceiro confiável no hemisfério e um mercado massivo para bens e serviços americanos."
O filho de Jair Bolsonaro se inseriu, com esse discurso, no ecossistema da direita radical global, replicando a teoria conspiratória de que o ex-presidente americano Joe Biden teria financiado a eleição de Lula em 2022. Flávio repetiu por quatro vezes essa acusação sem provas.
Como mostrou a Folha, essa teoria nasceu no início do ano passado, a partir de uma conversa de vídeo gravada entre o ideólogo Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump, e Mike Benz, que se apresentava no X como ex-funcionário do Departamento de Estado e diretor de uma ONG contra a censura.
Nessa gravação, Benz afirmou que a Usaid, uma agência federal posteriormente dissolvida por Trump, havia trabalhado pela eleição de Lula, financiando projetos de combate à desinformação e advogados que teriam atuado junto ao TSE para reprimir conteúdos de Bolsonaro no WhatsApp.
A narrativa foi rapidamente alardeada como um grande escândalo pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que costuma fazer a ponte entre as direitas bolsonarista e trumpista, e que mais uma vez discursou na Cpac.
Em sua fala, Flávio também aludiu a narrativas e termos abraçados pela direita radical americana e europeia, como quando afirmou que lutará contra a "agenda woke" (em referência aos grupos que militam pela redução das disparidades sociais, raciais e de gênero), contra a "agenda ambiental radical" e contra "os interesses da elite global".
O senador fez ainda uma promessa que revela sua descrença em relação à acelerada erosão democrática com a concentração de poderes na Presidência no segundo mandato de Trump, em meio a ataques às agências federais, às universidades, ao Judiciário e à imprensa.
"Trump 2.0 está sendo muito melhor que Trump 1.0, certo? Bolsonaro 2.0 também será muito melhor."
No fim de semana, em Dallas (Texas), Flávio seguiu à risca a cartilha do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), disseminando teorias conspiratórias, colocando em xeque a lisura do processo eleitoral brasileiro e vestindo a roupagem do populismo autoritário e antissistema que assola democracias ao redor do mundo.
O discurso contrasta com a imagem de moderação que a pré-campanha do senador tenta construir, em busca do eleitorado independente que será o fiel da balança de uma acirrada disputa eleitoral contra o presidente Lula (PT).
Aos conservadores do Maga ("Make America Great Again", movimento liderado pelo presidente Donald Trump), Flávio Bolsonaro fez um apelo por "pressão diplomática" para garantir eleições livres e justas no Brasil.
"Meu apelo não só à América, mas a todo o mundo livre, é esse: observem as eleições do Brasil com enorme atenção, aprendam sobre e entendam nosso processo eleitoral, monitorem a liberdade de expressão do nosso povo, e apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente", afirmou.
Em sua fala, Flávio disse estar certo da vitória e, assim como o pai e líderes de linhagem populista, como o ditador Nicolás Maduro, que tanto critica, lançou mão do pronome possessivo para se referir ao eleitorado. "Vou vencer porque é a vontade do meu povo", afirmou.
O senador, porém, fez um alerta: para que essa vontade seja preservada, é preciso haver "eleições livres e justas". Isso, segundo ele, é "um grande desafio" e só acontecerá "se nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e os votos forem contados corretamente".
Nos meses anteriores às eleições de 2018, quando enfrentou Fernando Haddad (PT), Bolsonaro afirmou que "a grande preocupação" não era perder no voto, mas sim "perder na fraude". "Isso só pode acontecer por fraude, não por voto, estou convencido", afirmou em transmissão ao vivo nas redes sociais em outubro.
Em seu discurso na Cpac, antes do apelo ao "mundo livre", Flávio ofereceu um meio e um fim para convencer os trumpistas da necessidade de se envolver com os assuntos eleitorais brasileiros.
Primeiro, o meio. Por cinco vezes, mencionou os cartéis de droga do Brasil, afirmando que os grupos criminosos exportam armas e drogas para os Estados Unidos. As acusações de "narcoterrorismo" têm sido utilizadas pelo governo Trump como fundamento para a intervenção americana em outros países, como ocorreu com a destituição de Maduro do poder na Venezuela.
Segundo, o fim. Flávio vendeu a imagem do Brasil como o "campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido", essencial para quebrar a dependência dos EUA das exportações chinesas de minerais críticos. Assim, o senador posicionou o país como um potencial fornecedor de terras raras —grupo de elementos químicos usados em produtos de alta tecnologia e na energia limpa.
"A América precisa de cadeias de suprimento seguras para materiais críticos, um parceiro confiável no hemisfério e um mercado massivo para bens e serviços americanos."
O filho de Jair Bolsonaro se inseriu, com esse discurso, no ecossistema da direita radical global, replicando a teoria conspiratória de que o ex-presidente americano Joe Biden teria financiado a eleição de Lula em 2022. Flávio repetiu por quatro vezes essa acusação sem provas.
Como mostrou a Folha, essa teoria nasceu no início do ano passado, a partir de uma conversa de vídeo gravada entre o ideólogo Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump, e Mike Benz, que se apresentava no X como ex-funcionário do Departamento de Estado e diretor de uma ONG contra a censura.
Nessa gravação, Benz afirmou que a Usaid, uma agência federal posteriormente dissolvida por Trump, havia trabalhado pela eleição de Lula, financiando projetos de combate à desinformação e advogados que teriam atuado junto ao TSE para reprimir conteúdos de Bolsonaro no WhatsApp.
A narrativa foi rapidamente alardeada como um grande escândalo pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que costuma fazer a ponte entre as direitas bolsonarista e trumpista, e que mais uma vez discursou na Cpac.
Em sua fala, Flávio também aludiu a narrativas e termos abraçados pela direita radical americana e europeia, como quando afirmou que lutará contra a "agenda woke" (em referência aos grupos que militam pela redução das disparidades sociais, raciais e de gênero), contra a "agenda ambiental radical" e contra "os interesses da elite global".
O senador fez ainda uma promessa que revela sua descrença em relação à acelerada erosão democrática com a concentração de poderes na Presidência no segundo mandato de Trump, em meio a ataques às agências federais, às universidades, ao Judiciário e à imprensa.
"Trump 2.0 está sendo muito melhor que Trump 1.0, certo? Bolsonaro 2.0 também será muito melhor."
A direita é burra, erra nas suas escolhas e depois se queixa do povo
No mais das vezes, critica-se Lula por caminhar para seu sétimo pleito presidencial. Só não é o oitavo porque em 2018 ele estava preso. A crítica deveria se estender ao povo brasileiro, não lhe parece? Porque foi ele que tornou isso possível, elegendo Lula em três ocasiões. Em outras duas, elegeu Dilma, apoiada por Lula.
Mas pega mal criticar o povo. Então, pau no Lula por qualquer coisa, com ou sem razão. Outro dia, Lula apanhou por ter dito que o brasileiro deveria gastar menos com apostas e cachorros, e por isso tanto se endivida. Mexer com as bets é sempre arriscado. Elas são grandes anunciantes, e a mídia depende de anúncios.
Daqui a 186 dias, o país poderá livrar-se de Lula em definitivo. Basta que vote em outros candidatos, e não nele. Candidatos haverá em grande número, à frente deles Flávio Bolsonaro, filho do único ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, e certamente Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás.
Não se pode dizer que a eleição de Caiado ou de Flávio signifique algum tipo de renovação. Caiado disputou a eleição de 1989 montado em um cavalo branco, a primeira pelo voto popular depois do fim da ditadura. Ficou em nono lugar. Obteve apenas 0,72% dos votos válidos. Flávio é uma cópia encardida do pai.
É o que temos para impedir que Lula se reeleja. A direita de fraque e cartola, que faz cara feia quando ouve falar de Flávio e de Caiado, acabará votando neles para que a esquerda jamais possa voltar ao poder. Esquerda nunca mais, diz Caiado. Por ora, Flávio não diz nada. Posa de moderado. E ensaia dancinhas ridículas.
Não há veto divino nem terreno a candidatos da direita com boas ideias e projetos capazes de seduzir a maioria dos brasileiros. Não há sequer veto de qualquer natureza a candidatos da direita sem ideias nem projetos, como se viu em 2018 quando Bolsonaro se elegeu, e em 2022 quando quase se reelegeu.
A direita é que não os produz e joga a culpa nos outros. A direita é que erra ao fazer suas escolhas. A ela só interessa candidatos que jamais contrariem seus interesses. “O sistema é foda”, diz o Capitão Nascimento no filme “Tropa de Elite”. Disse Tancredo Neves, o presidente eleito em 1985 que morreu sem tomar posse:
“Temos construído esta Nação com êxitos e dificuldades, mas não há dúvida, para quem saiba examinar a História com isenção, de que o nosso progresso político se deveu mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites”.
É isso aí. Lula assinaria embaixo.
Mas pega mal criticar o povo. Então, pau no Lula por qualquer coisa, com ou sem razão. Outro dia, Lula apanhou por ter dito que o brasileiro deveria gastar menos com apostas e cachorros, e por isso tanto se endivida. Mexer com as bets é sempre arriscado. Elas são grandes anunciantes, e a mídia depende de anúncios.
Daqui a 186 dias, o país poderá livrar-se de Lula em definitivo. Basta que vote em outros candidatos, e não nele. Candidatos haverá em grande número, à frente deles Flávio Bolsonaro, filho do único ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, e certamente Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás.
Não se pode dizer que a eleição de Caiado ou de Flávio signifique algum tipo de renovação. Caiado disputou a eleição de 1989 montado em um cavalo branco, a primeira pelo voto popular depois do fim da ditadura. Ficou em nono lugar. Obteve apenas 0,72% dos votos válidos. Flávio é uma cópia encardida do pai.
É o que temos para impedir que Lula se reeleja. A direita de fraque e cartola, que faz cara feia quando ouve falar de Flávio e de Caiado, acabará votando neles para que a esquerda jamais possa voltar ao poder. Esquerda nunca mais, diz Caiado. Por ora, Flávio não diz nada. Posa de moderado. E ensaia dancinhas ridículas.
Não há veto divino nem terreno a candidatos da direita com boas ideias e projetos capazes de seduzir a maioria dos brasileiros. Não há sequer veto de qualquer natureza a candidatos da direita sem ideias nem projetos, como se viu em 2018 quando Bolsonaro se elegeu, e em 2022 quando quase se reelegeu.
A direita é que não os produz e joga a culpa nos outros. A direita é que erra ao fazer suas escolhas. A ela só interessa candidatos que jamais contrariem seus interesses. “O sistema é foda”, diz o Capitão Nascimento no filme “Tropa de Elite”. Disse Tancredo Neves, o presidente eleito em 1985 que morreu sem tomar posse:
“Temos construído esta Nação com êxitos e dificuldades, mas não há dúvida, para quem saiba examinar a História com isenção, de que o nosso progresso político se deveu mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites”.
É isso aí. Lula assinaria embaixo.
Antes de julgar, compreender
“Julgar é, evidentemente, não compreender, pois se compreendêssemos, não poderíamos julgar.” A frase de André Malraux, escrita em 1928 em Les Conquérants, ecoa com uma atualidade desconcertante. Quase um século depois, continuamos reféns de uma máquina de julgar que funciona a todo o vapor, enquanto a compreensão permanece na estação, à espera de um comboio que nunca chega.
Basta olhar em redor. Ou, mais desconfortável ainda, olhar para dentro. No casal, o parceiro chega atrasado e imediatamente saltamos para o veredito: “É irresponsável”, “Não se importa comigo”. Raramente nos ocorre perguntar: “O que se passou? Estás bem?”. Na família, o filho adolescente fecha-se no quarto e lá vamos nós: “É preguiçoso”, “Só quer saber dos amigos”. Quantos de nós tentaram verdadeiramente entender o turbilhão emocional que ele atravessa?
No trabalho, o colega não entrega o relatório a tempo. Julgamos: “É incompetente”, “Não leva o trabalho a sério”. E se estiver sobrecarregado? E se houver algo na vida pessoal que o esteja a consumir? Entre amigos, a situação repete-se. Deixamos de receber mensagens e rapidamente concluímos: “Já não se importa com a nossa amizade”. Antes de perguntar: “Tenho notado que estás mais ausente. Está tudo bem?”.
A tirania da razão rápida
O problema é que julgamos porque é fácil. Julgar é rápido, económico em termos de energia emocional. Exige apenas um instante e uma pitada de certezas. Compreender, por outro lado, é caro. Exige tempo — muito tempo. Exige disponibilidade para estar verdadeiramente presente. Exige empatia, essa capacidade tão rara de nos colocarmos no lugar do outro sem perdermos o nosso. Exige escuta ativa, aquela que silencia a nossa voz interior para dar espaço à do outro.
Preferimos a razão ao entendimento porque a razão nos dá uma falsa sensação de controlo e de superioridade moral. Quando julgamos, posicionamo-nos no lugar do juiz, do detentor da verdade. Quando tentamos compreender, aceitamos a nossa ignorância, a nossa vulnerabilidade. Admitimos que não sabemos, que precisamos de aprender sobre o outro.
A sabedoria de Montaigne sobre o julgamento
Quatro séculos antes de Malraux, Michel de Montaigne já alertava para esta dificuldade humana nos seus Ensaios. “É coisa difícil estabelecermos o nosso julgamento contrariando as ideias comuns”, escrevia o filósofo francês, reconhecendo como estamos presos aos preconceitos e às primeiras impressões.
Montaigne ia mais longe, confessando: “Não detesto as opiniões contrárias às minhas. Estou muito distante de me assustar ao ver discordâncias entre os meus julgamentos e os dos outros.” Esta humildade intelectual — a capacidade de aceitar que o nosso julgamento não é infalível — é precisamente o que nos falta hoje. Em vez de nos sentirmos ameaçados pelas diferenças, deveríamos vê-las como oportunidades de alargar a nossa compreensão.
O ato de ensaiar — forma literária que Montaigne inventou — era, ele próprio, um exercício de humildade. Ensaiar é tentar, testar, explorar sem pretensão de verdade absoluta. É o oposto do julgamento sumário. Se cultivássemos esta arte do ensaio nas nossas relações, quantos conflitos evitaríamos?
Espinosa: compreender em vez de condenar
Mas é em Baruch Espinosa que encontramos talvez a formulação mais poderosa desta filosofia da compreensão. A sua famosa máxima — “Não rir, nem lamentar-se, nem odiar, mas compreender” — resume um programa ético para a humanidade.
Espinosa não acusa; talvez por isso o tenham chamado de imoral na sua época. Ele quer compreender para poder agir, não para julgar e condenar. Esta posição foi revolucionária: enquanto a moral tradicional se fundava no julgamento do bem e do mal, Espinosa propunha uma ética baseada na compreensão das causas e das necessidades.
Na sua Ética, Espinosa explica que “nos esforçamos, não é senão por compreender; e a mente, à medida que utiliza a razão, não julga ser-lhe útil senão aquilo que a conduz a compreender”. Ou seja: a verdadeira razão não serve para julgar, mas para compreender. Quando usamos a razão para condenar, estamos, na verdade, a traí-la.
Para Espinosa, quando compreendemos as causas que levam alguém a agir de determinada forma, deixamos de reagir com ódio ou desprezo. Passamos a ver a pessoa não como “má” ou “boa”, mas como parte de uma rede complexa de causas e efeitos. Isso não significa justificar tudo, mas sim libertarmo-nos das reações passionais que só geram mais sofrimento.
A revolução da Comunicação Não Violenta
É aqui que a Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolvida por Marshall Rosenberg nos anos 60, surge como uma bússola para esta mudança de paradigma. A CNV ensina-nos a separar observação de avaliação, a identificar sentimentos e necessidades — as nossas e as dos outros — e a fazer pedidos claros em vez de exigências.
Em vez de “Tu és um egoísta” (julgamento), a CNV convida-nos a dizer: “Quando chegaste uma hora depois do combinado sem avisar (observação), senti-me desrespeitada e ansiosa (sentimentos), porque preciso de segurança e consideração (necessidades). Podes comprometer-te a enviar uma mensagem da próxima vez? (pedido).”
A diferença é abismal. O primeiro fecha portas, gera defesa e contra-ataque. O segundo abre espaço para o diálogo e para a compreensão mútua.
Por que continuamos a julgar?
Se Montaigne, Espinosa e Malraux nos alertaram, se a CNV nos oferece ferramentas práticas, porque continuamos presos ao julgamento?
A resposta está na nossa biologia e na nossa cultura. Evolutivamente, o cérebro humano desenvolveu mecanismos rápidos de avaliação para sobreviver. Julgar se algo é perigoso ou seguro, amigo ou inimigo, era essencial na savana africana. Mas o que nos salvou dos predadores tornou-se o nosso próprio predador nas relações sociais.
A cultura digital amplificou este problema. As redes sociais recompensam julgamentos rápidos, condenações sumárias, cancelamentos. Não há tempo nem espaço para a nuance, para a compreensão, para o ensaio. Ou estás connosco ou contra nós. Quem erra é eliminado, não educado.
Além disso, julgar dá-nos uma ilusão de controlo. Se o outro é “mau” ou “incompetente”, o problema está nele, não em nós. Se compreendêssemos, teríamos de aceitar a nossa própria vulnerabilidade, a nossa incapacidade de controlar o mundo. Teríamos de aceitar que somos todos, em última análise, produtos de circunstâncias que não escolhemos — como Espinosa tão bem entendeu.
O custo do julgamento
O julgamento tem um custo altíssimo que raramente calculamos. No casal, cada julgamento é uma pequena traição à confiança. Na família, é um muro que se ergue entre gerações. No trabalho, é um veneno que contamina o clima organizacional. Entre amigos, é uma lâmina que corta os laços.
Mas o custo mais alto é para nós próprios. Cada vez que julgamos, empobrecemos a nossa própria humanidade. Fechamo-nos numa prisão de certezas que nos impede de crescer. Perdemos oportunidades de aprender, de nos surpreender, de nos conectarmos verdadeiramente com o outro.
Mudar o mundo, uma conversa de cada vez
Malraux tinha razão: compreender é o antídoto para julgar. E num mundo cada vez mais polarizado, onde as redes sociais amplificam julgamentos sumários e cancelam sem apelo nem agravo, esta sabedoria é mais urgente do que nunca.
A boa notícia é que não precisamos de mudar a humanidade inteira. Precisamos apenas de começar por nós. No próximo confronto com o parceiro, antes de atacar, perguntemo-nos: “O que estará ele a sentir? Que necessidade não está a ser atendida?”. No trabalho, antes de criticar o colega, tentemos entender os obstáculos que ele enfrenta. Com os amigos, antes de nos afastarmos por um mal-entendido, levantemos o telefone e perguntemos: “Está tudo bem?”.
Podemos começar por praticar a humildade de Montaigne, aceitando que o nosso julgamento não é infalível. Podemos adotar a postura de Espinosa, buscando compreender antes de reagir. Podemos usar as ferramentas da CNV para transformar julgamentos em pedidos de conexão.
Cada vez que escolhemos compreender em vez de julgar, estamos a fazer uma pequena revolução. Estamos a dizer ao outro: “Tu importas. A tua experiência, as tuas vivências são válidas. Quero entender-te! Preciso de te conhecer!” E, no fundo, não é isso que todos procuramos? Ser vistos, ouvidos, compreendidos.
O mundo não vai mudar por decreto. Vai mudar conversa a conversa, relação a relação, escolha a escolha. Como escreveu Espinosa, a mente só julga útil aquilo que a conduz a compreender. Talvez seja altura de levar esta lição a sério.
A pergunta que fica é: hoje, vais julgar ou vais tentar compreender?
Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta, costumava dizer: “Se pensarmos que as pessoas são más, vamos querer puni-las. Se pensarmos que as pessoas têm necessidades não atendidas, vamos querer ajudá-las.” Talvez seja altura de levar esta lição a sério.
Basta olhar em redor. Ou, mais desconfortável ainda, olhar para dentro. No casal, o parceiro chega atrasado e imediatamente saltamos para o veredito: “É irresponsável”, “Não se importa comigo”. Raramente nos ocorre perguntar: “O que se passou? Estás bem?”. Na família, o filho adolescente fecha-se no quarto e lá vamos nós: “É preguiçoso”, “Só quer saber dos amigos”. Quantos de nós tentaram verdadeiramente entender o turbilhão emocional que ele atravessa?
No trabalho, o colega não entrega o relatório a tempo. Julgamos: “É incompetente”, “Não leva o trabalho a sério”. E se estiver sobrecarregado? E se houver algo na vida pessoal que o esteja a consumir? Entre amigos, a situação repete-se. Deixamos de receber mensagens e rapidamente concluímos: “Já não se importa com a nossa amizade”. Antes de perguntar: “Tenho notado que estás mais ausente. Está tudo bem?”.
A tirania da razão rápida
O problema é que julgamos porque é fácil. Julgar é rápido, económico em termos de energia emocional. Exige apenas um instante e uma pitada de certezas. Compreender, por outro lado, é caro. Exige tempo — muito tempo. Exige disponibilidade para estar verdadeiramente presente. Exige empatia, essa capacidade tão rara de nos colocarmos no lugar do outro sem perdermos o nosso. Exige escuta ativa, aquela que silencia a nossa voz interior para dar espaço à do outro.
Preferimos a razão ao entendimento porque a razão nos dá uma falsa sensação de controlo e de superioridade moral. Quando julgamos, posicionamo-nos no lugar do juiz, do detentor da verdade. Quando tentamos compreender, aceitamos a nossa ignorância, a nossa vulnerabilidade. Admitimos que não sabemos, que precisamos de aprender sobre o outro.
A sabedoria de Montaigne sobre o julgamento
Quatro séculos antes de Malraux, Michel de Montaigne já alertava para esta dificuldade humana nos seus Ensaios. “É coisa difícil estabelecermos o nosso julgamento contrariando as ideias comuns”, escrevia o filósofo francês, reconhecendo como estamos presos aos preconceitos e às primeiras impressões.
Montaigne ia mais longe, confessando: “Não detesto as opiniões contrárias às minhas. Estou muito distante de me assustar ao ver discordâncias entre os meus julgamentos e os dos outros.” Esta humildade intelectual — a capacidade de aceitar que o nosso julgamento não é infalível — é precisamente o que nos falta hoje. Em vez de nos sentirmos ameaçados pelas diferenças, deveríamos vê-las como oportunidades de alargar a nossa compreensão.
O ato de ensaiar — forma literária que Montaigne inventou — era, ele próprio, um exercício de humildade. Ensaiar é tentar, testar, explorar sem pretensão de verdade absoluta. É o oposto do julgamento sumário. Se cultivássemos esta arte do ensaio nas nossas relações, quantos conflitos evitaríamos?
Espinosa: compreender em vez de condenar
Mas é em Baruch Espinosa que encontramos talvez a formulação mais poderosa desta filosofia da compreensão. A sua famosa máxima — “Não rir, nem lamentar-se, nem odiar, mas compreender” — resume um programa ético para a humanidade.
Espinosa não acusa; talvez por isso o tenham chamado de imoral na sua época. Ele quer compreender para poder agir, não para julgar e condenar. Esta posição foi revolucionária: enquanto a moral tradicional se fundava no julgamento do bem e do mal, Espinosa propunha uma ética baseada na compreensão das causas e das necessidades.
Na sua Ética, Espinosa explica que “nos esforçamos, não é senão por compreender; e a mente, à medida que utiliza a razão, não julga ser-lhe útil senão aquilo que a conduz a compreender”. Ou seja: a verdadeira razão não serve para julgar, mas para compreender. Quando usamos a razão para condenar, estamos, na verdade, a traí-la.
Para Espinosa, quando compreendemos as causas que levam alguém a agir de determinada forma, deixamos de reagir com ódio ou desprezo. Passamos a ver a pessoa não como “má” ou “boa”, mas como parte de uma rede complexa de causas e efeitos. Isso não significa justificar tudo, mas sim libertarmo-nos das reações passionais que só geram mais sofrimento.
A revolução da Comunicação Não Violenta
É aqui que a Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolvida por Marshall Rosenberg nos anos 60, surge como uma bússola para esta mudança de paradigma. A CNV ensina-nos a separar observação de avaliação, a identificar sentimentos e necessidades — as nossas e as dos outros — e a fazer pedidos claros em vez de exigências.
Em vez de “Tu és um egoísta” (julgamento), a CNV convida-nos a dizer: “Quando chegaste uma hora depois do combinado sem avisar (observação), senti-me desrespeitada e ansiosa (sentimentos), porque preciso de segurança e consideração (necessidades). Podes comprometer-te a enviar uma mensagem da próxima vez? (pedido).”
A diferença é abismal. O primeiro fecha portas, gera defesa e contra-ataque. O segundo abre espaço para o diálogo e para a compreensão mútua.
Por que continuamos a julgar?
Se Montaigne, Espinosa e Malraux nos alertaram, se a CNV nos oferece ferramentas práticas, porque continuamos presos ao julgamento?
A resposta está na nossa biologia e na nossa cultura. Evolutivamente, o cérebro humano desenvolveu mecanismos rápidos de avaliação para sobreviver. Julgar se algo é perigoso ou seguro, amigo ou inimigo, era essencial na savana africana. Mas o que nos salvou dos predadores tornou-se o nosso próprio predador nas relações sociais.
A cultura digital amplificou este problema. As redes sociais recompensam julgamentos rápidos, condenações sumárias, cancelamentos. Não há tempo nem espaço para a nuance, para a compreensão, para o ensaio. Ou estás connosco ou contra nós. Quem erra é eliminado, não educado.
Além disso, julgar dá-nos uma ilusão de controlo. Se o outro é “mau” ou “incompetente”, o problema está nele, não em nós. Se compreendêssemos, teríamos de aceitar a nossa própria vulnerabilidade, a nossa incapacidade de controlar o mundo. Teríamos de aceitar que somos todos, em última análise, produtos de circunstâncias que não escolhemos — como Espinosa tão bem entendeu.
O custo do julgamento
O julgamento tem um custo altíssimo que raramente calculamos. No casal, cada julgamento é uma pequena traição à confiança. Na família, é um muro que se ergue entre gerações. No trabalho, é um veneno que contamina o clima organizacional. Entre amigos, é uma lâmina que corta os laços.
Mas o custo mais alto é para nós próprios. Cada vez que julgamos, empobrecemos a nossa própria humanidade. Fechamo-nos numa prisão de certezas que nos impede de crescer. Perdemos oportunidades de aprender, de nos surpreender, de nos conectarmos verdadeiramente com o outro.
Mudar o mundo, uma conversa de cada vez
Malraux tinha razão: compreender é o antídoto para julgar. E num mundo cada vez mais polarizado, onde as redes sociais amplificam julgamentos sumários e cancelam sem apelo nem agravo, esta sabedoria é mais urgente do que nunca.
A boa notícia é que não precisamos de mudar a humanidade inteira. Precisamos apenas de começar por nós. No próximo confronto com o parceiro, antes de atacar, perguntemo-nos: “O que estará ele a sentir? Que necessidade não está a ser atendida?”. No trabalho, antes de criticar o colega, tentemos entender os obstáculos que ele enfrenta. Com os amigos, antes de nos afastarmos por um mal-entendido, levantemos o telefone e perguntemos: “Está tudo bem?”.
Podemos começar por praticar a humildade de Montaigne, aceitando que o nosso julgamento não é infalível. Podemos adotar a postura de Espinosa, buscando compreender antes de reagir. Podemos usar as ferramentas da CNV para transformar julgamentos em pedidos de conexão.
Cada vez que escolhemos compreender em vez de julgar, estamos a fazer uma pequena revolução. Estamos a dizer ao outro: “Tu importas. A tua experiência, as tuas vivências são válidas. Quero entender-te! Preciso de te conhecer!” E, no fundo, não é isso que todos procuramos? Ser vistos, ouvidos, compreendidos.
O mundo não vai mudar por decreto. Vai mudar conversa a conversa, relação a relação, escolha a escolha. Como escreveu Espinosa, a mente só julga útil aquilo que a conduz a compreender. Talvez seja altura de levar esta lição a sério.
A pergunta que fica é: hoje, vais julgar ou vais tentar compreender?
Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta, costumava dizer: “Se pensarmos que as pessoas são más, vamos querer puni-las. Se pensarmos que as pessoas têm necessidades não atendidas, vamos querer ajudá-las.” Talvez seja altura de levar esta lição a sério.
quarta-feira, 1 de abril de 2026
O que fazer quando o 'bem público' da informação se torna nocivo
A criação, comunicação e exploração do conhecimento são as habilidades que definem os seres humanos como animais sociais. Essas capacidades, mais do que qualquer outra coisa, tornaram os seres humanos senhores do planeta. Isso faz com que nossas ferramentas de comunicação —da linguagem à escrita, impressão, telecomunicações, rádio, televisão e agora a internet— sejam as tecnologias definidoras de suas épocas. Sua invenção e uso moldaram não apenas o que podemos fazer em cada momento, mas quem somos.
Novas tecnologias de comunicação transformam a sociedade. Como argumentou Jürgen Habermas, a democracia liberal, hoje em perigo, foi filha do livro, do panfleto e do jornal. As tecnologias digitais de nosso tempo são igualmente transformadoras. Infelizmente, junto com muitos ganhos, elas trazem enormes danos potenciais que hoje ameaçam a saúde de nossas sociedades. Esses danos não são teóricos; são visíveis demais.
O conhecimento é, na linguagem da economia, um "bem público". Isso significa que, se estiver publicamente disponível, será potencialmente acessível a todos e que todos podem tê-lo sem que ninguém seja privado dele: tecnicamente, é "não excludente" e "não rival". O conhecimento, como às vezes se diz, "quer ser livre". De fato, dada a tecnologia atual, o custo marginal de disseminar informação é essencialmente zero.
No entanto, criar informação verdadeira não é nada gratuito. Isso gera uma enorme falha de mercado: a criação e disseminação de informação confiável está em desvantagem econômica em relação à criação e disseminação de informações falsas. O bem público do conhecimento pode facilmente se transformar no mal público da ignorância confiante ou, pior, do preconceito furioso.
Assim, tal como os rios ou o ar, o conhecimento que a sociedade compartilha e usa pode ficar poluído. Pior ainda, esse processo pode ser um negócio muito lucrativo. Não é difícil pensar em exemplos contemporâneos. Acima de tudo, se há uma falha de mercado, a competição sozinha não a curará. A liberdade de expressão é um atributo importante de uma sociedade livre. Mas, por si só, não garante verdade confiável. Rios de mentiras baratas podem facilmente afogar a verdade custosa.
As tecnologias atuais pioram o problema de maneiras fundamentais. Enquanto a criação de informação confiável permanece cara e bastante difícil de monetizar, o motor dos negócios de redes sociais —os editores dominantes de nossa era— é a atenção que as postagens ganham. Disseminar mentiras e fraudes pode ser um bom negócio. Pior, disseminar postagens que tornam a vida das pessoas insuportável pode ser um bom negócio. Não consigo pensar em nenhuma teoria que considere isso uma atividade de mercado legítima. A IA (inteligência artificial) parece propensa a piorar nossa situação coletiva ao criar fraudes "perfeitas" de todos os tipos.
Então, o que deve ser feito? Há três opções amplas e complementares: subsídio à criação e disseminação de informação confiável; proteção da propriedade intelectual; e mudança de incentivos.
Os governos já subsidiam a pesquisa científica, como deveriam. Outra área é a mídia. No caso do Reino Unido, duas grandes questões foram levantadas recentemente. Uma, como observou o ex-editor do FT, Lionel Barber, é o futuro da BBC. Na minha opinião, todas as grandes empresas de mídia deveriam ter obrigações de serviço público, porque isso as forçaria a fornecer o bem público da informação de alta qualidade.
Se isso for impossível, temos que proteger a emissora de serviço público que temos. Ela é imperfeita: todas as organizações são. Mas o papel que desempenha continua vital. Eu acrescentaria que, na área de noticiários de TV, também é vital evitar uma versão britânica da Fox News. Mas isso, como argumenta Alan Rusbridger, é o que a GB News está se tornando: uma propagandista autorizada pelo Estado para o partido Reform.
Sobre a criação de propriedade intelectual, é importante que as fontes da criatividade humana sejam nutridas. Isso significa que os agentes de IA que "raspam" dados devem ser obrigados a compensar os detentores dos direitos autorais do conteúdo que utilizam. Eu iria mais longe. Um imposto sobre grandes empresas de IA deveria ser dedicado a apoiar os bens comuns criativos, criados por humanos, dos quais o setor e as sociedades livres dependem, como as artes, ciências e, sim, até o jornalismo.
Por fim, devemos ficar satisfeitos que um júri na Califórnia concluiu que Meta e Google são culpados de "negligência" e de causar danos aos usuários. Tais empresas são negligentes e têm sido protegidas das consequências dos danos que sua indiferença inflige, especialmente às crianças.
A expressão nunca foi completamente livre: difamação, calúnia e incitação à violência são corretamente ilegais. A expressão precisa de limites. O mesmo deveria valer para empresas que disseminam material prejudicial ou propaganda de Estados hostis. Tentamos conter a inundação de poluentes em nossas águas. Deveríamos tentar conter também as inundações de mentiras nos mares do conhecimento.
Novas tecnologias de comunicação transformam a sociedade. Como argumentou Jürgen Habermas, a democracia liberal, hoje em perigo, foi filha do livro, do panfleto e do jornal. As tecnologias digitais de nosso tempo são igualmente transformadoras. Infelizmente, junto com muitos ganhos, elas trazem enormes danos potenciais que hoje ameaçam a saúde de nossas sociedades. Esses danos não são teóricos; são visíveis demais.
O conhecimento é, na linguagem da economia, um "bem público". Isso significa que, se estiver publicamente disponível, será potencialmente acessível a todos e que todos podem tê-lo sem que ninguém seja privado dele: tecnicamente, é "não excludente" e "não rival". O conhecimento, como às vezes se diz, "quer ser livre". De fato, dada a tecnologia atual, o custo marginal de disseminar informação é essencialmente zero.
No entanto, criar informação verdadeira não é nada gratuito. Isso gera uma enorme falha de mercado: a criação e disseminação de informação confiável está em desvantagem econômica em relação à criação e disseminação de informações falsas. O bem público do conhecimento pode facilmente se transformar no mal público da ignorância confiante ou, pior, do preconceito furioso.
Assim, tal como os rios ou o ar, o conhecimento que a sociedade compartilha e usa pode ficar poluído. Pior ainda, esse processo pode ser um negócio muito lucrativo. Não é difícil pensar em exemplos contemporâneos. Acima de tudo, se há uma falha de mercado, a competição sozinha não a curará. A liberdade de expressão é um atributo importante de uma sociedade livre. Mas, por si só, não garante verdade confiável. Rios de mentiras baratas podem facilmente afogar a verdade custosa.
As tecnologias atuais pioram o problema de maneiras fundamentais. Enquanto a criação de informação confiável permanece cara e bastante difícil de monetizar, o motor dos negócios de redes sociais —os editores dominantes de nossa era— é a atenção que as postagens ganham. Disseminar mentiras e fraudes pode ser um bom negócio. Pior, disseminar postagens que tornam a vida das pessoas insuportável pode ser um bom negócio. Não consigo pensar em nenhuma teoria que considere isso uma atividade de mercado legítima. A IA (inteligência artificial) parece propensa a piorar nossa situação coletiva ao criar fraudes "perfeitas" de todos os tipos.
Então, o que deve ser feito? Há três opções amplas e complementares: subsídio à criação e disseminação de informação confiável; proteção da propriedade intelectual; e mudança de incentivos.
Os governos já subsidiam a pesquisa científica, como deveriam. Outra área é a mídia. No caso do Reino Unido, duas grandes questões foram levantadas recentemente. Uma, como observou o ex-editor do FT, Lionel Barber, é o futuro da BBC. Na minha opinião, todas as grandes empresas de mídia deveriam ter obrigações de serviço público, porque isso as forçaria a fornecer o bem público da informação de alta qualidade.
Se isso for impossível, temos que proteger a emissora de serviço público que temos. Ela é imperfeita: todas as organizações são. Mas o papel que desempenha continua vital. Eu acrescentaria que, na área de noticiários de TV, também é vital evitar uma versão britânica da Fox News. Mas isso, como argumenta Alan Rusbridger, é o que a GB News está se tornando: uma propagandista autorizada pelo Estado para o partido Reform.
Sobre a criação de propriedade intelectual, é importante que as fontes da criatividade humana sejam nutridas. Isso significa que os agentes de IA que "raspam" dados devem ser obrigados a compensar os detentores dos direitos autorais do conteúdo que utilizam. Eu iria mais longe. Um imposto sobre grandes empresas de IA deveria ser dedicado a apoiar os bens comuns criativos, criados por humanos, dos quais o setor e as sociedades livres dependem, como as artes, ciências e, sim, até o jornalismo.
Por fim, devemos ficar satisfeitos que um júri na Califórnia concluiu que Meta e Google são culpados de "negligência" e de causar danos aos usuários. Tais empresas são negligentes e têm sido protegidas das consequências dos danos que sua indiferença inflige, especialmente às crianças.
A expressão nunca foi completamente livre: difamação, calúnia e incitação à violência são corretamente ilegais. A expressão precisa de limites. O mesmo deveria valer para empresas que disseminam material prejudicial ou propaganda de Estados hostis. Tentamos conter a inundação de poluentes em nossas águas. Deveríamos tentar conter também as inundações de mentiras nos mares do conhecimento.
É proibido esquecer o esquecimento
Com a chegada da primavera, dos dias maiores e com sol, é fácil esquecermo-nos, levianamente, do que aconteceu no último inverno. Não me refiro ao “comboio de tempestades”, aos ventos de mais de 200 km/hora da depressão Kristin ou às cheias como há muito não se viam no Mondego, no Tejo e no Sado. Tudo isso, decerto, ficará nas nossas memórias por muito tempo – pelo menos, até sermos obrigados a enfrentar algo de parecido que sirva como termo de comparação. Refiro-me, isso sim, às populações que, em vários pontos do País, se sentiram esquecidas nesses dias, semanas, em que o céu literalmente desabou sobre as suas cabeças, levou os telhados das suas casas e deixou tantos sem eletricidade, sem vias de comunicação e até sem acesso a água potável.
Embora seja fácil esquecer, a verdade é que não podemos esquecer esses dias de abandono, que milhares sentiram, com as tempestades. E, acima de tudo, não podemos esquecer quem os esqueceu nesses momentos. Especialmente se, por causa da guerra, do aumento do preço dos combustíveis, do regresso da inflação e tudo o mais que a loucura de Trump está a fazer regressar ao mundo, voltarmos a esquecer esses dias de insuportável esquecimento, a que foram votadas essas populações.
Quem, no final de janeiro e de fevereiro, calcorreou muitos desses locais, alguns deles até bem próximos da Grande Lisboa, sede de todos os poderes, percebeu, sem esforço, o abandono em que se sentiram muitas daquelas populações. Até porque foi um abandono a vários níveis: não as informaram, devida e prontamente, em relação à força dos ventos, nomeadamente da Kristin; deixaram-nas isoladas para lá do suportável, nos primeiros dias, como se o resto do País já tivesse regressado à normalidade, após uma noite de chuva e de vento; permaneceram, durante mais dias do que seria admissível, no limbo daquele tipo de esquecimento que é alimentado com promessas de soluções rápidas – mas que demoram demasiado tempo a concretizar-se. Se voltarmos a esquecer essas populações e esses territórios, por causa de novas emergências que tudo ofuscam à sua volta, teremos um futuro traçado: uma clivagem ainda mais profunda na unidade de um território continental, em processo de divisão acelerada entre o País habitado e o País desertificado. Mas não só. É também a divisão entre o País que está continuamente no centro da atenção mediática e o outro que apenas consegue chamar a atenção por causa das tragédias que se abatem sobre as suas gentes. E, no fundo, a divisão entre o País que concentra o poder e o País que tem sido esquecido pelos poderes.
Grande parte desta reflexão surgiu-me depois de ter lido o livro Inteligência do Lugar, agora lançado pelo geólogo e professor universitário Carlos Alberto Cupeto, que é também colunista regular da VISÃO. Nessa obra, em que preconiza a importância dos lugares e da vida local como antídoto para um “colapso global”, provocado pelo esgotamento dos recursos do planeta e dos efeitos das alterações climáticas, ele tem uma frase que me deixou a pensar: “Os lugares sabem mais do que nós sabemos deles.”
É verdade. E, como sabemos, se a Natureza molda as pessoas, também as pessoas são moldadas pelos lugares e pela sua memória. Como escreve Cupeto, a inteligência do lugar é aquela que “vive nos gestos, nos cheiros, nas estações do ano”. Afirma também que ela se manifesta através de rotinas, que passam de geração em geração: “É o saber quando semear, onde recolher a água da nascente, como ler o céu ao fim da tarde para saber se vai chover. É um saber que não é nosso, mas que pertence ao lugar. Nós apenas o escutamos. E, se formos humildes, aprendemos.”
Perceber a inteligência do lugar é fundamental para criar comunidades fortes, enraizadas no território e que sabem responder aos desafios – e que não se limitem a ficar à espera de que outros corram em seu auxílio. Aquilo de que precisamos, cada vez mais, é de comunidades livres e participativas, com uma voz que lhes permita ser ouvidas e respeitadas.
Num mundo em que os algoritmos cavam e lucram com as divisões, em que se volta a instituir, no plano internacional, a lei do mais forte, e em que crescem os sentimentos de rejeição em relação aos “outros” – sejam eles quais forem –, é mais do que nunca necessário voltarmos a ligar-nos ao território em que habitamos, aos lugares que formaram as nossas memórias e à sabedoria avassaladora da Natureza – que será sempre mais forte do que nós. É por isso que, mesmo nesta primavera alegremente ensolarada, não podemos esquecer-nos dos esquecidos do último inverno. Até porque, se não fizermos nada e persistirmos na atitude de sempre, na próxima catástrofe natural pode ser qualquer um de nós a ficar esquecido.
Embora seja fácil esquecer, a verdade é que não podemos esquecer esses dias de abandono, que milhares sentiram, com as tempestades. E, acima de tudo, não podemos esquecer quem os esqueceu nesses momentos. Especialmente se, por causa da guerra, do aumento do preço dos combustíveis, do regresso da inflação e tudo o mais que a loucura de Trump está a fazer regressar ao mundo, voltarmos a esquecer esses dias de insuportável esquecimento, a que foram votadas essas populações.
Quem, no final de janeiro e de fevereiro, calcorreou muitos desses locais, alguns deles até bem próximos da Grande Lisboa, sede de todos os poderes, percebeu, sem esforço, o abandono em que se sentiram muitas daquelas populações. Até porque foi um abandono a vários níveis: não as informaram, devida e prontamente, em relação à força dos ventos, nomeadamente da Kristin; deixaram-nas isoladas para lá do suportável, nos primeiros dias, como se o resto do País já tivesse regressado à normalidade, após uma noite de chuva e de vento; permaneceram, durante mais dias do que seria admissível, no limbo daquele tipo de esquecimento que é alimentado com promessas de soluções rápidas – mas que demoram demasiado tempo a concretizar-se. Se voltarmos a esquecer essas populações e esses territórios, por causa de novas emergências que tudo ofuscam à sua volta, teremos um futuro traçado: uma clivagem ainda mais profunda na unidade de um território continental, em processo de divisão acelerada entre o País habitado e o País desertificado. Mas não só. É também a divisão entre o País que está continuamente no centro da atenção mediática e o outro que apenas consegue chamar a atenção por causa das tragédias que se abatem sobre as suas gentes. E, no fundo, a divisão entre o País que concentra o poder e o País que tem sido esquecido pelos poderes.
Grande parte desta reflexão surgiu-me depois de ter lido o livro Inteligência do Lugar, agora lançado pelo geólogo e professor universitário Carlos Alberto Cupeto, que é também colunista regular da VISÃO. Nessa obra, em que preconiza a importância dos lugares e da vida local como antídoto para um “colapso global”, provocado pelo esgotamento dos recursos do planeta e dos efeitos das alterações climáticas, ele tem uma frase que me deixou a pensar: “Os lugares sabem mais do que nós sabemos deles.”
É verdade. E, como sabemos, se a Natureza molda as pessoas, também as pessoas são moldadas pelos lugares e pela sua memória. Como escreve Cupeto, a inteligência do lugar é aquela que “vive nos gestos, nos cheiros, nas estações do ano”. Afirma também que ela se manifesta através de rotinas, que passam de geração em geração: “É o saber quando semear, onde recolher a água da nascente, como ler o céu ao fim da tarde para saber se vai chover. É um saber que não é nosso, mas que pertence ao lugar. Nós apenas o escutamos. E, se formos humildes, aprendemos.”
Perceber a inteligência do lugar é fundamental para criar comunidades fortes, enraizadas no território e que sabem responder aos desafios – e que não se limitem a ficar à espera de que outros corram em seu auxílio. Aquilo de que precisamos, cada vez mais, é de comunidades livres e participativas, com uma voz que lhes permita ser ouvidas e respeitadas.
Num mundo em que os algoritmos cavam e lucram com as divisões, em que se volta a instituir, no plano internacional, a lei do mais forte, e em que crescem os sentimentos de rejeição em relação aos “outros” – sejam eles quais forem –, é mais do que nunca necessário voltarmos a ligar-nos ao território em que habitamos, aos lugares que formaram as nossas memórias e à sabedoria avassaladora da Natureza – que será sempre mais forte do que nós. É por isso que, mesmo nesta primavera alegremente ensolarada, não podemos esquecer-nos dos esquecidos do último inverno. Até porque, se não fizermos nada e persistirmos na atitude de sempre, na próxima catástrofe natural pode ser qualquer um de nós a ficar esquecido.
Pode isso?
Não há civis inocentes, nem crianças inocentes em Jenin
Otzma Yehudit, membro do partido de extrema-direita de Israel, após quatro membros da família Odeh terem sido mortos a tiros por forças israelenses na Cisjordânia no início deste mês
Apoio os soldados das Forças de Defesa de Israel em todas as situações. Mesmo que os danos colaterais incluam crianças ou mulheres, isso não importa para mim
Otzma Yehudit, membro do partido de extrema-direita de Israel, após quatro membros da família Odeh terem sido mortos a tiros por forças israelenses na Cisjordânia no início deste mês
Apoio os soldados das Forças de Defesa de Israel em todas as situações. Mesmo que os danos colaterais incluam crianças ou mulheres, isso não importa para mim
Yitzhak Kroizer, deputado do Parlamento israelense
O que é a designada Inteligência Artificial? (E porque considero não devermos estar tão dependentes dela…)
“Saber tudo de tudo. Ou tudo de algum saber. Decerto é impossível e mesmo indesejável. Mas que tu sintas que é bela a luz ou ouvir um pássaro cantar e terás sido absolutamente original. Porque ninguém pode sentir por ti.”
(Quase que me sentia tentada a voltar a escrever sobre os múltiplos casos conhecidos esta semana. Contudo, cada um deles, por si mesmo, e a falta de reação acertada não possuem já qualquer encanto da novidade. A verdade é que Portugal continua igual a si próprio, de escândalo em escândalo, apresentado como folhetim de uma qualquer novela, abrangendo quase tudo o espectro do eixo partidário central e a extrema-direita, esta última gozando que uma quase total impunidade, escoltada por um exército de perfis falsos nas redes sociais. Estamos, portanto, aparentemente condenados ao papel de meros espectadores de um tristíssimo espetáculo, para o qual não fomos convidados mas pagámos a custo alto o bilhete, sem que tenhamos qualquer iniciativa.)
Assistimos, na última década, à designada 4ª Revolução Industrial, em que a IA tomou conta das nossas vidas, sem que nos apercebamos dos reais perigos que a mesma encerra. Desde logo, refira-se que a designação Inteligência Artificial é um contrassenso, na medida em que a mesma assenta em algoritmos, criados por humanos, com regras que desconhecemos e que interferem nas escolhas que fazemos. Por outro lado, por via da sua expansão descontrolada, ao contrário do que se faz anunciar, não se abrem múltiplas oportunidades mas, pelo contrário, põem-se em causa vários postos de trabalho, para mais quando o que antes era feito por critérios humanos e, embora por vezes errados, pelo menos conhecidos.
Deixo, como tal, já o meu ponto de partida: o endeusamento acrítico que é feito deste tipo de desenvolvimento causa-me calafrios porque gosto de conhecer as regras do jogo. Não sou por princípio contra a evolução mas o que está a ser feito, sob a aparência de grande modernismos, implicará uma mudança para a qual não creio que estejamos completamente alertas e, menos ainda, preparados.
Por exemplo, como todos já nos apercebemos, cada vez que entramos numa rede social, perante o tempo que gastámos a ver uma ou outra publicação, é estabelecido um perfil nosso e é em função deste que nos passam a mostrar mais ou menos posts ou publicidade daquele tipo. Bastará, por vezes, manter conversas dentro de determinados tópicos com o telemóvel por perto para, de imediato, assim que lhe acedemos, o que vemos é o reflexo do que se disse.
Sucede que estes milhões de meta dados não servem apenas para isto (e já não seria pouco…), na medida em que permitem a direcção de publicidade em termos que nunca foi feita.
Servem, também e como já foi feito em Portugal, para selecionar trabalhadores para despedimentos, refira-se que com erros claros na construção do dito algoritmo, ou para avaliar perfis de trabalhadores ideais, escolhidos não pela sua capacidade de desenvolver a tarefa em causa mas pelo que foram expressando ao longo da dia, nas suas redes sociais ou em comentários em caixas de comentários de notícias, procurando-se desta forma afastar os mais contestatários.
É certo que este tipo de seleções sempre foi efetuado mas o grau de vigilância era, necessariamente, menor e menos intenso, desde logo porque efetuado por mão e vista humana.
Por outro lado ainda, apesar de indubitavelmente nos facilitar a vida em muitas ocasiões, abre também as portas a burlas e à total vulnerabilidade dos nossos dados pessoais, da mesma forma que conduz a um tipo de (des) conhecimento completamente padronizado, em que os que não se alinham são afastados.
Last but not the least, sob a capa de uma aparente fonte de conexão, o que, por exemplo, as redes sociais vieram trazer a nu foi a brutalidade humana, expressa muitas vezes nas caixas de comentários e em posts e uma quase total, mas errada, associação entre o mundo real e o virtual, onde as pessoas são eliminadas por um mero clique e as ditas “amizades” se findam pelo simples ato de remoção.
Sendo facto notório que a dita inteligência artificial e o mundo virtual vieram para ficar, o que desejo é que não se pense que pode substituir a real, em que o cheiro de uma rosa ou um bom livro nos podem trazer emoções e fazem de nós o que realmente somos: seres humanos.
Rita Garcia Pereira
Vergílio Ferreira
(Quase que me sentia tentada a voltar a escrever sobre os múltiplos casos conhecidos esta semana. Contudo, cada um deles, por si mesmo, e a falta de reação acertada não possuem já qualquer encanto da novidade. A verdade é que Portugal continua igual a si próprio, de escândalo em escândalo, apresentado como folhetim de uma qualquer novela, abrangendo quase tudo o espectro do eixo partidário central e a extrema-direita, esta última gozando que uma quase total impunidade, escoltada por um exército de perfis falsos nas redes sociais. Estamos, portanto, aparentemente condenados ao papel de meros espectadores de um tristíssimo espetáculo, para o qual não fomos convidados mas pagámos a custo alto o bilhete, sem que tenhamos qualquer iniciativa.)
Assistimos, na última década, à designada 4ª Revolução Industrial, em que a IA tomou conta das nossas vidas, sem que nos apercebamos dos reais perigos que a mesma encerra. Desde logo, refira-se que a designação Inteligência Artificial é um contrassenso, na medida em que a mesma assenta em algoritmos, criados por humanos, com regras que desconhecemos e que interferem nas escolhas que fazemos. Por outro lado, por via da sua expansão descontrolada, ao contrário do que se faz anunciar, não se abrem múltiplas oportunidades mas, pelo contrário, põem-se em causa vários postos de trabalho, para mais quando o que antes era feito por critérios humanos e, embora por vezes errados, pelo menos conhecidos.
Deixo, como tal, já o meu ponto de partida: o endeusamento acrítico que é feito deste tipo de desenvolvimento causa-me calafrios porque gosto de conhecer as regras do jogo. Não sou por princípio contra a evolução mas o que está a ser feito, sob a aparência de grande modernismos, implicará uma mudança para a qual não creio que estejamos completamente alertas e, menos ainda, preparados.
Por exemplo, como todos já nos apercebemos, cada vez que entramos numa rede social, perante o tempo que gastámos a ver uma ou outra publicação, é estabelecido um perfil nosso e é em função deste que nos passam a mostrar mais ou menos posts ou publicidade daquele tipo. Bastará, por vezes, manter conversas dentro de determinados tópicos com o telemóvel por perto para, de imediato, assim que lhe acedemos, o que vemos é o reflexo do que se disse.
Sucede que estes milhões de meta dados não servem apenas para isto (e já não seria pouco…), na medida em que permitem a direcção de publicidade em termos que nunca foi feita.
Servem, também e como já foi feito em Portugal, para selecionar trabalhadores para despedimentos, refira-se que com erros claros na construção do dito algoritmo, ou para avaliar perfis de trabalhadores ideais, escolhidos não pela sua capacidade de desenvolver a tarefa em causa mas pelo que foram expressando ao longo da dia, nas suas redes sociais ou em comentários em caixas de comentários de notícias, procurando-se desta forma afastar os mais contestatários.
É certo que este tipo de seleções sempre foi efetuado mas o grau de vigilância era, necessariamente, menor e menos intenso, desde logo porque efetuado por mão e vista humana.
Por outro lado ainda, apesar de indubitavelmente nos facilitar a vida em muitas ocasiões, abre também as portas a burlas e à total vulnerabilidade dos nossos dados pessoais, da mesma forma que conduz a um tipo de (des) conhecimento completamente padronizado, em que os que não se alinham são afastados.
Last but not the least, sob a capa de uma aparente fonte de conexão, o que, por exemplo, as redes sociais vieram trazer a nu foi a brutalidade humana, expressa muitas vezes nas caixas de comentários e em posts e uma quase total, mas errada, associação entre o mundo real e o virtual, onde as pessoas são eliminadas por um mero clique e as ditas “amizades” se findam pelo simples ato de remoção.
Sendo facto notório que a dita inteligência artificial e o mundo virtual vieram para ficar, o que desejo é que não se pense que pode substituir a real, em que o cheiro de uma rosa ou um bom livro nos podem trazer emoções e fazem de nós o que realmente somos: seres humanos.
Rita Garcia Pereira
Golpismo da direita permanece no centro da disputa eleitoral
O golpismo da direita continua sendo o problema da eleição. Da mesma forma que foi nas duas disputas presidenciais anteriores. O senador Flávio Bolsonaro, como seu pai, não tem credencial democrática, e já demonstrou desrespeito institucional. Infelizmente, outras forças da direita não quiseram condenar o golpismo. O PSD, de Gilberto Kassab, teve uma chance com o governador Eduardo Leite, que demonstrou ter entendido o ponto central. Neste fim de semana, Flávio Bolsonaro repetiu o pai e pôs em dúvida, diante de uma plateia estrangeira, a lisura do processo eleitoral brasileiro. Hoje, 62 anos depois do golpe militar, estamos de volta à quadra um.
Dia 31 de março precisa ser tempo de reflexão no Brasil. O país viveu uma dor política que atravessou 21 anos. Dos escombros, os constituintes escreveram um novo pacto democrático baseado no repúdio à ditadura. Na economia, o autoritarismo deixou hiperinflação e superendividamento externo. Este novo pacto deveria ter sido para sempre, mas Jair Bolsonaro chegou ao poder desprezando a democracia e, no governo, bombardeou as instituições. Uma das armas usadas foi dizer que a eleição pelo voto eletrônico era fraudada.
Para surpresa de ninguém, Flávio Bolsonaro começa a mesma ladainha. No Texas, na Conferência de Ação Política Conservadora, o senador pediu “pressão diplomática para que nossas instituições funcionem corretamente”. Quer acompanhamento externo para as eleições. O Tribunal Superior Eleitoral sempre convidou observadores. Mas não é disso que ele está falando. Afirmou que é para “assegurar que a vontade do povo será preservada”. E concluiu: “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”. Na versão que ele apresentou no encontro da ultradireita internacional, seu pai está preso “por defender nossos valores conservadores” e não por ter sido condenado por uma tentativa de golpe de Estado.
O pré-candidato do PL já exibiu várias vezes os mesmos maus propósitos institucionais do pai. Em junho do ano passado defendeu à Folha de S. Paulo, a eleição de alguém que enquadre o Supremo Tribunal Federal. E foi explícito: “a gente está falando da possibilidade do uso da força”.
No 8 de janeiro e no julgamento dos golpistas ficaram explícitas as provas da conspiração contra a democracia por parte de Bolsonaro e seus asseclas militares e civis. Diante disso, o natural seria as forças políticas, de direita, de centro-direita, demarcarem o terreno que as separa da extrema-direita bolsonarista. Não foi o que aconteceu. A ambiguidade, o apoio disfarçado ou explícito continuou imperando.
O governador Ronaldo Caiado teve pelo menos duas chances de se diferenciar. Durante a pandemia, quando por ser médico defendeu a vacina, e na eleição municipal em que enfrentou o candidato do ex-presidente e venceu. Apesar disso, esteve em palanques bolsonaristas, e nunca condenou o golpismo.
O governador Eduardo Leite foi direto e contundente ao se apresentar. No programa de Júlia Duailibi, da GloboNews, na semana passada, Leite disse que o que está faltando nesta eleição é o centro. “Com todo o respeito ao governador Caiado, o que ele busca representar já tem representante.” Criticou o governo Lula, mas acrescentou: “presidente da República que articula movimento golpista, que busca uma ruptura institucional como o presidente Bolsonaro, na investigação ficou demonstrado que fez, tem que ser julgado e preso”.
Caiado repetiu ontem que “o meu primeiro ato será a anistia ampla, geral e irrestrita”. Em discurso este ano, ele elogiou Bolsonaro. “Esse homem que conseguiu levantar o Brasil e dizer em alto e bom som: vamos caminhar pela liberdade e democracia plena”. Em entrevista ao Roda Viva no ano passado, questionado se houve ditadura, respondeu que houve um “tempo de restrição por atos institucionais” mas relativizou: “os dois lados cometerem excessos”. Ontem, ele disse que “democracia no Brasil é uma falácia”. Falava do necessário combate ao crime organizado, mas não valoriza o que o país construiu.
Dois dos três pré-candidatos da eleição de 2026 não mostram apreço pela democracia. Flávio Bolsonaro é de uma família que sempre defendeu a ditadura, e quer sua repetição. Caiado nunca condenou a de 1964, nem o último golpe. Por isso, a questão democrática permanece no centro da política brasileira.
Míriam Leitão
Dia 31 de março precisa ser tempo de reflexão no Brasil. O país viveu uma dor política que atravessou 21 anos. Dos escombros, os constituintes escreveram um novo pacto democrático baseado no repúdio à ditadura. Na economia, o autoritarismo deixou hiperinflação e superendividamento externo. Este novo pacto deveria ter sido para sempre, mas Jair Bolsonaro chegou ao poder desprezando a democracia e, no governo, bombardeou as instituições. Uma das armas usadas foi dizer que a eleição pelo voto eletrônico era fraudada.
Para surpresa de ninguém, Flávio Bolsonaro começa a mesma ladainha. No Texas, na Conferência de Ação Política Conservadora, o senador pediu “pressão diplomática para que nossas instituições funcionem corretamente”. Quer acompanhamento externo para as eleições. O Tribunal Superior Eleitoral sempre convidou observadores. Mas não é disso que ele está falando. Afirmou que é para “assegurar que a vontade do povo será preservada”. E concluiu: “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”. Na versão que ele apresentou no encontro da ultradireita internacional, seu pai está preso “por defender nossos valores conservadores” e não por ter sido condenado por uma tentativa de golpe de Estado.
O pré-candidato do PL já exibiu várias vezes os mesmos maus propósitos institucionais do pai. Em junho do ano passado defendeu à Folha de S. Paulo, a eleição de alguém que enquadre o Supremo Tribunal Federal. E foi explícito: “a gente está falando da possibilidade do uso da força”.
No 8 de janeiro e no julgamento dos golpistas ficaram explícitas as provas da conspiração contra a democracia por parte de Bolsonaro e seus asseclas militares e civis. Diante disso, o natural seria as forças políticas, de direita, de centro-direita, demarcarem o terreno que as separa da extrema-direita bolsonarista. Não foi o que aconteceu. A ambiguidade, o apoio disfarçado ou explícito continuou imperando.
O governador Ronaldo Caiado teve pelo menos duas chances de se diferenciar. Durante a pandemia, quando por ser médico defendeu a vacina, e na eleição municipal em que enfrentou o candidato do ex-presidente e venceu. Apesar disso, esteve em palanques bolsonaristas, e nunca condenou o golpismo.
O governador Eduardo Leite foi direto e contundente ao se apresentar. No programa de Júlia Duailibi, da GloboNews, na semana passada, Leite disse que o que está faltando nesta eleição é o centro. “Com todo o respeito ao governador Caiado, o que ele busca representar já tem representante.” Criticou o governo Lula, mas acrescentou: “presidente da República que articula movimento golpista, que busca uma ruptura institucional como o presidente Bolsonaro, na investigação ficou demonstrado que fez, tem que ser julgado e preso”.
Caiado repetiu ontem que “o meu primeiro ato será a anistia ampla, geral e irrestrita”. Em discurso este ano, ele elogiou Bolsonaro. “Esse homem que conseguiu levantar o Brasil e dizer em alto e bom som: vamos caminhar pela liberdade e democracia plena”. Em entrevista ao Roda Viva no ano passado, questionado se houve ditadura, respondeu que houve um “tempo de restrição por atos institucionais” mas relativizou: “os dois lados cometerem excessos”. Ontem, ele disse que “democracia no Brasil é uma falácia”. Falava do necessário combate ao crime organizado, mas não valoriza o que o país construiu.
Dois dos três pré-candidatos da eleição de 2026 não mostram apreço pela democracia. Flávio Bolsonaro é de uma família que sempre defendeu a ditadura, e quer sua repetição. Caiado nunca condenou a de 1964, nem o último golpe. Por isso, a questão democrática permanece no centro da política brasileira.
Míriam Leitão
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