terça-feira, 14 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


O fator Estados Unidos terá impacto na eleição brasileira

Nestes anos democráticos, política externa nunca foi um grande tema eleitoral. Mas agora isso mudará. Será preciso uma definição diante do governo Trump: como se relacionar com os Estados Unidos neste período tão conturbado?

Já tivemos a experiência de um tarifaço, que veio sem aviso prévio algum. De repente, acordamos com as maiores tarifas do mundo — nós, que tínhamos déficit no comércio entre os dois países.

Trump venceu dizendo America first. Venceu com uma grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Irã.

É difícil projetar uma política diante de um homem que nega a importância dos outros, que despreza outros idiomas e que acorda, em certos dias, disposto a acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo.


Sua relação com aliados históricos é difícil. Deixou a Europa um pouco só na defesa da Ucrânia, atacada por Putin. Obrigou o continente a gastar mais dinheiro com armas. No momento em que se voltou contra o Irã, pediu a ajuda dos europeus. Em seguida, disse: não precisamos do óleo que passa pelo Estreito de Ormuz; os europeus que resolvam o problema do fechamento.

Com os países do Golfo, Trump se mostrou mais problemático. Eles investiram bilhões de dólares em segurança, contavam com os Estados Unidos para protegê-los, e Trump levou a guerra e, com ela, uma grande insegurança sobre a produção de petróleo e a própria dessalinização da água.

Todos esses fatores o tornam um aliado pouco confiável. A desconfiança fica colossal quando se leem os bastidores de sua decisão. Netanyahu fez uma preleção sobre matar o aiatolá Khamenei, bombardear o Irã e despertar uma revolta popular que resultaria na troca de regime. Trump apenas disse:

— Sounds good.

Ele não consultou seus estrategistas, não submeteu a ideia ao Congresso, simplesmente foi à guerra.

Diante de tudo isso, fica claro que uma oposição direta a Trump não é uma saída sensata. Cooperar em alguns itens, como segurança pública, e distanciar-se de apoio a guerras que empobrecem o mundo parecem alguns elementos dessa política.

Uma diretriz de alinhamento acrítico não corresponde à sofisticação da política externa brasileira e pode ser extremamente perigosa no longo prazo. Independentemente de apoiar ou não o regime teocrático do Irã, a decisão de declarar guerra não pode ser tão grotesca quanto a tomada por Trump. Não era possível reproduzir a Venezuela.

O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra; logo, não seria derrotado nos primeiros dias. O Estreito de Ormuz poderia ser fechado, com prejuízos para todo o planeta. A infraestrutura produtiva dos países do Golfo poderia ser atingida.

Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica, uma suposição de que os Estados Unidos estão sempre certos, mesmo num período e num governo tão excepcionais — especialmente de Donald Trump, que combina arrogância com uma visão limitada da situação mundial.

Humanos no Espaço: Exploradores ou mercadores da última fronteira?

“É um pensamento amargo, mas temos de o enfrentar. Os planetas poderão um dia ser conquistados, mas as estrelas não são para o homem.” O autor dessas palavras é Arthur C. Clarke, um dos mais importantes escritores de ficção científica do séc. XX, e surgem na sua obra O Fim da Infância. As suas histórias sobre exploração espacial e contacto com civilizações alienígenas inspiraram leitores em todo o mundo, atingindo o equilíbrio perfeito entre o deslumbramento e o pensamento crítico. Se estivesse vivo, o autor teria provavelmente acompanhado com entusiasmo a viagem de Artemis II, a primeira missão tripulada à Lua em mais de 50 anos, em que os tripulantes se tornaram os humanos que viajaram mais longe da Terra. Afinal o Espaço ainda é a última fronteira, despertando em nós uma alegria pura de criança sempre que tentamos desbravar rotas em busca de mais conhecimento cósmico.


Graças a Artemis II, o Homem irá regressar à Lua, até ao final da atual década, com o objetivo de construir estações lunares capazes de concretizar o sonho de ir mais além, rumo a Marte. É uma tarefa hercúlea para a Humanidade, e as palavras de Clarke continuam a fazer tanto sentido hoje como então: podemos um dia possuir outros planetas, mas existimos num universo com milhões de estrelas a anos-luz de distância, o que significa que, por mais que possamos sonhar com novas tecnologias, há barreiras interestelares intransponíveis.

A ficção científica nunca parou de nos confrontar com as grandes questões cósmicas. Curiosamente, um dos maiores sucessos cinematográficos do ano é baseado numa obra de ficção científica de Andy Weir e centra-se numa viagem espacial perante a iminente extinção do nosso planeta e da existência humana. O Projeto Hail Mary não contém uma visão desoladora e angustiante perante a vastidão solitária do Universo, como tantas vezes associamos à ficção científica. Lançados na vastidão do cosmos, os humanos sobrevivem através da capacidade de comunicar e da amizade, ajudando a preencher a solidão entre as estrelas. E que falta faz essa visão otimista e esperançosa do ser humano neste admirável planeta velho.

Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA

Ao acompanharmos a missão Artemis II, um projeto de cooperação global entre vários países, até que ponto será otimista a nossa expansão humana no Universo, à semelhança do filme Projeto Hail Mary? Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA. A China irá tentar alcançar o mesmo objetivo até 2030. Ambos os países irão explorar os recursos naturais da Lua e irão aproveitar-se das inúmeras zonas cinzentas em tratados internacionais, que não são claros sobre exploração económica ou a utilização de recursos. No fundo, será uma corrida entre algumas das nações mais poderosas para firmar uma hegemonia económica à escala interplanetária. Mais do que exploradores, serão space merchants, em que empresas se aliam a governos, ou mesmo tomam o lugar de governos, em busca de negócios lucrativos. A frase de Clarke acaba por ser virada do avesso. O que acontece quando conquistamos outros planetas, mas acabamos por levar o capitalismo e a tendência para a colonização à boleia? Aqueles que chegarem primeiro e construírem as primeiras bases terão a última palavra sobre como definir os próximos passos da exploração espacial, numa jogada a longo prazo.

Talvez nunca consigamos alcançar as estrelas, como sugeria Clarke, mas isso pode não ser o nosso maior limite. O verdadeiro teste será libertarmo-nos de uma visão mercantil que pode manchar e subverter as mais belas aspirações humanas. Se a História da Humanidade serve de guia, então a exploração do Espaço dificilmente será imune às mesmas forças que moldaram o nosso passado. E, nesse caso, não estaremos já a cumprir o destino antecipado pelos space merchants, imaginados por Frederik Pohl e Cyril M. Kornbluth na década de 50? Se a ficção científica nos ensinou alguma coisa, é que este futuro nunca foi imprevisível, e ignorar o aviso pode sair-nos caro demais.

O poder das palavras: a responsabilidade do discurso dos líderes

Nos últimos tempos, tornou-se recorrente ouvir líderes proferirem declarações de grande carga simbólica e emocional, como a afirmação de que “uma civilização inteira morrerá hoje”, de Donald Trump. Este tipo de enunciado, amplificado por múltiplos canais de comunicação, ilustra o alcance e a rapidez com que a palavra se transforma em instrumento de influência global. Mais do que simples retórica, trata-se de uma manifestação clara do poder — e do risco — associado ao discurso político.

As palavras nunca são neutras. Em particular, quando proferidas por líderes, carregam autoridade, moldam perceções e podem desencadear consequências concretas. A História demonstra que o discurso político tem a capacidade tanto de mobilizar sociedades para o progresso como de as conduzir ao conflito.


Um exemplo paradigmático é o de Winston Churchill, cujo discurso durante a Segunda Guerra Mundial desempenhou um papel crucial na resistência britânica. Expressões como “we shall fight on the beaches” não apenas transmitiam determinação, como reforçavam a coesão nacional num momento de extrema adversidade. Neste caso, a palavra foi instrumento de resiliência e mobilização coletiva.

Em contraste, o uso da linguagem como ferramenta de manipulação e incitamento teve consequências devastadoras em vários momentos da História. O discurso de Adolf Hitler, durante a ascensão do regime nazi, demonstra como a retórica pode ser utilizada para disseminar ideologias extremistas, desumanizar grupos inteiros e legitimar políticas de exclusão e violência. A banalização de certas narrativas abriu caminho a uma das maiores tragédias da humanidade.

Mais recentemente, observa-se um fenómeno de intensificação e aceleração do impacto das palavras, impulsionado pelas redes sociais e pelos meios digitais. Declarações que outrora ficariam circunscritas a determinados contextos são hoje difundidas em segundos, alcançando audiências globais e gerando reações imediatas. Líderes contemporâneos recorrem, com frequência, a uma linguagem mais polarizadora, consciente do seu potencial mobilizador — mas também, muitas vezes, negligenciando os seus efeitos corrosivos no tecido social.

A retórica inflamada, baseada em ameaças, simplificações ou generalizações, contribui para a erosão da confiança nas instituições e para a fragmentação das sociedades. Ao normalizar discursos de confronto, abre-se espaço à radicalização e à intolerância. Por outro lado, a ausência de rigor e responsabilidade no uso da palavra enfraquece o debate público, substituindo a argumentação fundamentada por slogans e emoções.

Importa, por isso, reafirmar a responsabilidade acrescida dos líderes no uso do discurso. A palavra, quando utilizada com ponderação, pode promover diálogo, inspirar confiança e orientar sociedades em momentos de incerteza. Pode também ser um instrumento essencial para a construção de consensos e para a defesa de valores democráticos.

Num contexto global marcado por desafios complexos — desde conflitos geopolíticos a crises económicas e sociais —, a qualidade do discurso político assume um papel determinante. Não se trata apenas do conteúdo das decisões, mas também da forma como estas são comunicadas. A clareza, a verdade e o respeito devem constituir pilares fundamentais da comunicação de qualquer liderança.

Em última análise, o poder das palavras reside na sua capacidade de moldar realidades. Cabe aos líderes reconhecer esse poder e utilizá-lo com responsabilidade, conscientes de que cada declaração pode contribuir para aproximar ou afastar, construir ou destruir.
Inês Pina 

Missão civilizadora e a pedagogia do desconforto

Em uma sala de aula de Relações Internacionais, um vídeo passado como crítica à missão civilizadora produziu um desconforto inesperado. O incômodo revelou algo maior: as imagens não apenas mostram o mundo; elas organizam hierarquias sobre como olhamos e entendemos quem pode aparecer e quem pode ser salvo.

Existem imagens que pretendem denunciar hierarquias de poder, mas que, ao circular, podem também reativá-las. Em sala de aula, essa contradição aparece com nitidez: uma imagem pensada como crítica pode ser recebida como a repetição da violência que denuncia.

Mesmo quando a intenção é a crítica e a problematização do conhecimento, a imagem impacta antes mesmo de ser decodificada teoricamente. Esse processo pode ativar imediatamente experiencias acumuladas de representação desigual, paternalismo, exotificação. Muitas vezes, materiais críticos produzem exatamente esse atrito porque expõem estruturas que estão operando.


A missão civilizadora constituiu um dos discursos fundamentais mais persistentes da construção do mundo moderno. Desde o século XIX, a expansão imperial europeia foi legitimada por uma linguagem, segundo a qual alguns povos teriam superioridade moral, política e racional, que lhes concederia o direito – e o dever – de conduzir outros povos, atrasados, ao progresso, modernidade e civilização. Essa gramática não operava apenas como justificativa ideológica da ocupação territorial ou da exploração econômica; ela organizava profundamente a própria maneira de compreender quem poderia governar, quem detinha capacidade política legítima e quem aparecia como sujeito incompleto e inferior no cenário global. A colonialidade, nesse sentido, não se limita ao domínio formal dos impérios, mas estruturou classificações duradouras sobre humanidade, racionalidade e autoridade. Ainda que o léxico colonial tenha perdido legitimidade ao longo do século XX, especialmente após a universalização formal da soberania estatal e os processos de decolonização, suas estruturas não desapareceram. Elas foram rearticuladas em novas linguagens, mais compatíveis com a moralidade política contemporânea, particularmente nos campos do humanitarismo, da cooperação internacional, das políticas de desenvolvimento e da filantropia global.

Hoje, dificilmente se enuncia de forma aberta a ideia de civilizar povos considerados inferiores. Entretanto, a lógica segundo a qual alguns atores internacionais aparecem como portadores legítimos de solução, enquanto outros são representados prioritariamente por sua vulnerabilidade, continua operando de forma sofisticada. O discurso humanitário contemporâneo constitui uma das expressões mais evidentes dessa transformação. A linguagem não se organiza em torno da superioridade civilizacional explícita, mas em torno da urgência moral, da responsabilidade internacional, do dever de ajudar. . Campanhas humanitárias, programas de desenvolvimento e narrativas filantrópicas frequentemente mobilizam imagens de sofrimento extremo: crianças subnutridas, corpos deslocados, populações em situação de desastre, territórios marcados por ruína e carência. Essas imagens produzem forte mobilização emocional e cumprem função política decisiva: sensibilizam públicos, legitimam transferências de recursos, organizam consensos e justificam intervenções. No entanto, também produzem uma distribuição desigual de lugares morais e políticos, em que determinados sujeitos aparecem como aqueles que agem, protegem, financiam, decidem e salvam, enquanto outros aparecem como destinatários da ação, corpos sobre os quais recai o gesto internacional de cuidado.

É nesse ponto que a noção de colonialidade do olhar se torna particularmente fecunda para pensar as Relações Internacionais contemporâneas. A colonialidade não se reproduz apenas em instituições, normas e discursos; ela também organiza formas de ver. O olhar sobre o internacional não é neutro. Ele é historicamente constituído por regimes visuais que atribuem inteligibilidade desigual aos sujeitos, aos territórios e às experiências políticas. Certos corpos aparecem recorrentemente associados à vulnerabilidade, à infância, à insuficiência ou à necessidade de tutela; outros aparecem vinculados à competência, à proteção, ao conhecimento técnico ou à capacidade de intervenção. Antes mesmo que uma política seja formulada conceitualmente, a imagem já distribui posições de poder. Em inúmeras campanhas internacionais, por exemplo, corpos negros africanos continuam sendo visualmente associados à fome, ao abandono, à dependência e à espera, enquanto corpos brancos aparecem como portadores da ação moral, do cuidado e da solução. Essa repetição não é trivial. Ela sedimenta uma gramática visual na qual a desigualdade internacional se naturaliza afetivamente.Crédito: 

A colonialidade do olhar permite compreender, portanto, que os regimes visuais sobre o internacional participam ativamente da produção de hierarquias globais. Não se trata apenas de representação; trata-se de um regime político de visibilidade. Certos espaços do mundo continuam sendo apresentados prioritariamente como lugares de crise permanente, de escassez estrutural ou de incapacidade institucional, enquanto outros aparecem como centros legítimos de expertise, racionalidade e resposta. O continente africano, em particular, frequentemente é capturado por esse regime visual do internacional por meio de imagens que reiteram carência, urgência e vulnerabilidade, mesmo quando suas realidades políticas, econômicas e sociais são muito mais complexas e heterogêneas. Essa repetição histórica produz efeitos duradouros: consolida imaginários globais, organiza expectativas políticas e afeta inclusive a forma como sujeitos oriundos desses contextos percebem sua própria inserção em debates internacionais.

A questão torna-se ainda mais complexa quando a própria crítica à colonialidade utiliza imagens produzidas dentro dessa tradição visual. Muitas vezes, para denunciar a persistência de hierarquias coloniais, recorre-se precisamente a imagens que condensam a gramática que se deseja criticar: a mulher branca acolhendo uma criança negra, o corpo africano apresentado como destinatário de cuidado, o gesto humanitário dramatizado em chave moral. Surge então um paradoxo analítico e pedagógico importante: a crítica depende da imagem cuja violência simbólica procura desestabilizar. Isso significa que a recepção crítica nunca está plenamente controlada. Uma imagem pode ser intelectualmente transparente para alguns observadores como denúncia de uma lógica civilizatória persistente, mas emocionalmente dolorosa para outros, especialmente quando ativa experiências e memórias históricas de inferiorização, exotificação ou tutela. O ponto é que o elemento crítico não neutraliza automaticamente a força histórica da imagem. Ao contrário, por vezes revela como essa força continua viva.

Esse ponto é fundamental porque mostra que a colonialidade do olhar não é apenas um problema externo ao debate acadêmico; ela também atravessa o próprio ato pedagógico. Quando uma imagem crítica produz desconforto, isso não necessariamente indica fracasso analítico, mas revela precisamente a permanência das estruturas que estão sendo discutidas. A sala de aula torna-se, então, espaço onde a teoria se manifesta de forma performativa: a colonialidade não está apenas no objeto de estudo, mas emerge na própria recepção do objeto e nas relações de poder da sala de aula. Isso exige do professor, e da professora, uma mediação particularmente cuidadosa, capaz de explicitar que o objetivo não é reafirmar a hierarquia visual, mas desnaturalizá-la. A dificuldade reside em que imagens carregam historicidades que antecedem sua explicação. O olhar reage antes da teoria.

A passagem da missão civilizatória para o humanitarismo, da tutela colonial para a cooperação técnica, ou da superioridade imperial para a autoridade estatística, não significa superação da colonialidade, mas sua mutação histórica. As hierarquias persistem porque continuam distribuindo legitimidades de fala, capacidades de ação e lugares de enunciação. A colonialidade do olhar ajuda precisamente a compreender esse nível mais profundo em que a política internacional opera: aquele em que imagens, afetos, técnicas e moralidades se entrelaçam para produzir um mundo onde certos sujeitos ainda aparecem como naturalmente autorizados a definir problemas, enquanto outros continuam excessivamente visíveis apenas como problema a ser resolvido.

Por isso, enfrentar essa colonialidade no ensino não significa apenas incluir novos autores ou ampliar referências geográficas, mas interrogar os próprios mecanismos pelos quais certos conhecimentos foram historicamente convertidos em norma disciplinar. Trata-se de deslocar a pedagogia de uma simples transmissão de cânones para uma prática crítica de reabertura do campo visual do conhecimento, capaz de tornar visíveis outras experiências de mundo, outras linguagens políticas e outras formas de elaboração conceitual do internacional. Nesse movimento, o ato pedagógico deixa de ser apenas reprodução e torna-se também intervenção sobre os modos de ver que sustentam as hierarquias globais.

Manual do barraco: o plenário virou ringue

No meu Brasil brasileiro havia quem achasse que o Congresso Nacional ainda mantinha algum resquício de compostura. Na recente cena envolvendo o deputado Lindbergh Farias, o deputado Alfredo Gaspar além da senadora Soraya Thronicke, resolveram atualizar o diagnóstico: estamos na fase do “vale-tudo político com plateia pagante”.

O episódio foi digno de uma briga do Maguila. Foi aula prática de como transformar um simples debate político em espetáculo de confronto — com direito a acusações pesadas, dedo em riste e, segundo relatos, até uma espécie de “coach de briga” nos bastidores da cena. Sobrou poeira branca para todos os paletós e ouvidos. Chegamos até aos gritos de prostíbulos e bares: Por-raaaaaaaaa-da!

Sim, cidadãos: não basta mais discutir. Agora temos direção de cena.


A troca de acusações entre Lindbergh e Gaspar não surgiu do nada. Ela persegue um padrão cada vez mais comum: tensão acumulada, provocações estudadas, ambiente polarizado e ação calculada para gerar impacto na nação fortemente dividida.

É aí que entra o elemento interessante da história: a atuação da elegante senadora Soraya Thronicke. A Érica Hilton lamentou a ausência e não se perdoa pelo erro.

A parlamentar não foi só uma participante direta do embate físico ou verbal principal, mas alguém que, segundo interpretações políticas correntes, atua estimulando e orientando o enfrentamento. Traduzindo para quem prefere linguagem simples: menos bombeira, mais estrategista de incêndio. Uma treinadora ou manager política. E por quê?

Porque, na política moderna — essa que aprendeu mais com redes sociais do que com livros de teoria — visibilidade é dólar, moeda forte. E conflito, meu caro leitor, é o combustível mais barato que existe.

Hoje, muitos parlamentares não estão mais falando apenas para os colegas no plenário. Estão falando para cortes de vídeo, para viralização, para engajamento digital e uso em vários momentos da nossa paupérrima vida política. É tudo para o show!

Um discurso técnico sobre reforma tributária dá 3 mil visualizações.

Uma briga com troca de acusações graves, bate na casa dos milhões. É duro, mas é real. Dentro desse cenário, estimular o embate (dar corda) não é erro, é estratégia. A briga de hoje, sairá nos programas políticos de outubro e com outra purpurinada roupagem.

A senadora Soraya, nesse contexto, aparece como uma espécie de articuladora de narrativa. Ao incentivar o confronto, ajuda a construir um palco onde aliados ganham protagonismo e adversários são expostos.

É política? É. Mas é também marketing. Vai colar? Esperemos.

Agora vem a parte que pouca gente conecta: esse tipo de comportamento não fica restrito ao vídeo viral. Ele afeta a percepção institucional do país.

Vamos recorrer aos velhos mestres. O enorme e genial Carlos Lacerda, excelente faixa-preta de jiu-jitsu, já alertava que estabilidade institucional é um dos pilares da confiança econômica. Quando o ambiente político parece um ringue, a mensagem que se passa é simples: há ruído demais e previsibilidade de menos. E dinheiro, como sabemos, juntamente com empregos, não gostam de barulho.

Roberto Campos completaria: investidores olham para esse tipo de cena e pensam: “Se nem os representantes conseguem dialogar sem se acusar de crimes, como confiar nas regras do jogo?” Resultado: cautela, fuga de capital, desemprego, crescimento mais lento. Os dois lados fazendo marketing e criando o caos. Interessa a alguém?

O desiludido eleitor assiste, boquiaberto, — muitas vezes sem perceber que aquele “entretenimento político” tem impacto direto no preço do supermercado.

Outro ponto importante: a política brasileira apertou o botão do modo de campanha contínua. Não existe mais “tempo de governar” e “tempo de disputar”. Tudo virou palanque para o consumo pelo celular. Nesse ambiente, o conflito não é exceção. É ferramenta.

Lindbergh e Gaspar, cada um à sua maneira, representam polos que se alimentam desse enfrentamento. E quando há incentivo externo — seja explícito ou implícito — o resultado é previsível: escalada. E escalada, em política, raramente termina em diálogo. Termina em mais conflito.

O brasileirinho, desorientado, fica perplexo, no meio do ringue e depara-se com a pergunta que o incomoda, há tempos: qual o meu papel de eleitor nisso tudo? Porque há uma corresponsabilidade silenciosa.

Quando o público recompensa o espetáculo — compartilhando, comentando, escolhendo seus “Galinhos Campeões” — ele reforça o modelo. É como a audiência de um programa de briga: quanto mais gente assiste, mais episódios são produzidos. E aí chegamos ao ponto crítico: a substituição do debate pela performance.

Não importa mais quem tem o melhor argumento. Importa quem rende o melhor corte de vídeo.

Enquanto o mundo discute produtividade, inovação e crescimento, nós discutimos quem chamou quem de quê. É quase uma especialização nacional. É o país do grito alto e resultado baixo.

O episódio entre Lindbergh, Gaspar e Soraya não é isolado. É um sintoma. Sintoma de um sistema que troca, sistematicamente, argumento por acusação, diálogo por performance e política por espetáculo. E enquanto isso continuar funcionando — eleitoralmente e digitalmente — continuará acontecendo.

No fim, fica a imagem que resume tudo: O plenário virou Coliseu. Os parlamentares, gladiadores. E o cansado eleitor virando leão.

Só há um detalhe incômodo: é a plateia de eleitores desanimados que paga o ingresso e ainda financia o espetáculo.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Uma nação perigosa?

"Faltam quase 200 semanas: é assustador", Estadão, 13/4/25, A4), foi o título de artigo que publiquei neste espaço, há exatamente um ano, a propósito das primeiras 12 semanas do governo Trump. Já era possível então antever um futuro incerto e perigoso, para os EUA e para o mundo. O panorama é agora ainda mais assustador.

Nação perigosa (Dangerous Nation) é o título do livro publicado há exatos 20 anos por Robert Kagan. A obra mostra que desde a independência, os norte-americanos aumentaram seu poder e influência por meio da expansão comercial e territorial, do combate à influência no continente norte-americano de franceses, espanhóis, russos e mesmo de britânicos, da alienação dos native americans. Em detalhado reexame desse processo histórico, Kagan mostra como os EUA, desde seus primórdios como nação, foram vistos pelo resto do mundo não apenas como uma fonte inspiradora de mudança política, cultural e social, mas também como uma nação ambiciosa, por vezes perigosa.


A vigorosa expressão – perigosa nação – assume neste segundo mandato de Donald Trump significado novo e trágico, marcado pelo que George Kennan chamou de orgulho do tamanho desmedido (hubris of inordinate size): a inclinação de países de grande porte a buscar sonhos de poder, glória e ambições desmedidas. Tais sonhos podem ser benevolentes em intenção. Mas, como notou Kennan décadas atrás, a crença de um país de que pode fazer bem a outra nação intervindo em seus assuntos internos costuma ser, desde o princípio, ilusão. Alimentar tais sonhos tende a ser um exemplo da proverbial estrada para o inferno, aquela que é pavimentada de boas intenções.

Em entrevista recente à editora-chefe da revista The Economist, Steve Bannon, importante estrategista do movimento Make America Great Again (Maga) e um dos líderes da International Conservative Conference, insistiu que Donald Trump seria reeleito em 2028. Já em 2019, Adam Przeworski, em seu livro Crises of Democracy, apresentara o que chamou de “roteiro de pesadelo” para que isso aconteça. Vale lembrá-lo.

Primeiro, o Congresso aprova uma lei proibindo a publicação de “escritos falsos, escandalosos e maliciosos contra o governo dos EUA, o Congresso ou o presidente, com a intenção de transformá-los em objeto de desprezo e descrédito”. São condenados a até 20 anos de prisão aqueles que usem “linguagem desleal, profana, difamatória ou ofensiva contra o governo, sua bandeira ou suas Forças Armadas, ou que levem outras pessoas a verem com desprezo o governo americano ou suas instituições.”

Depois, a Suprema Corte autoriza legislativos estaduais a preparar planos de redesenho dos distritos eleitorais. O Congresso aprova uma lei segundo a qual tornar públicos documentos oficiais sem a autorização de uma repartição governamental sujeita o autor a multas ou prisão. E ainda outra lei contra a fraude eleitoral, ordenando aos Estados que adotem regras relativas a documentos exigidos no registro para votar.

O presidente baixa uma ordem executiva decretando que “todas as pessoas que têm o privilégio de estar empregadas nos departamentos e repartições do governo devem ser confiáveis, fidedignas, de boa conduta e bom caráter” e precisam demonstrar “lealdade inabalável aos EUA”. Centenas de funcionários públicos são então exonerados. O número de juízes federais nomeados pelo governo pode chegar a uma centena em um mandato.

O Congresso aprova lei retirando a isenção de impostos de organizações não governamentais que “obstruam a implementação de leis e regulamentos em vigor”. E uma lei antiterrorismo, segundo a qual qualquer pessoa que “ameace a segurança nacional” está sujeita a prisão preventiva. Dois ministros da Suprema Corte são substituídos por ministros nomeados pelo governo.

O presidente é reeleito. Baixa uma série de ordens executivas sobre assuntos que até então eram da competência do Poder Legislativo. O Congresso continua mudo. A Suprema Corte continua muda. Cai o pano. O roteiro imaginário é (perversamente) engenhoso, porque inspirado em itens concretos da legislação dos EUA ao longo do tempo. Como afirmou Antonin Scalia, ex-ministro da Corte Suprema dos EUA: “Você se engana se pensa que não vai acontecer de novo. Porque (...) em tempos de guerra, as leis se calam”.

Os checks and balances, os pesos e contrapesos da democracia norte-americana, hão de impedir, ainda que a um custo inicial elevado, que esse cenário de horror se materialize. Afinal, pesquisas mostram que, em abril de 2026, a aprovação média do governo Trump era de 39% e a desaprovação de 57%. Nas eleições de novembro próximo, é possível que o Partido Democrata assuma a maioria da Câmara dos Deputados. Alguns estimam que o mesmo poderia ocorrer no Senado.

Os EUA vivem uma calcificada polarização, em muito semelhante à observada no Brasil: republicanos aprovaram unanimemente a administração Trump, democratas o rejeitaram quase que totalmente. Independentes, lá como aqui, serão os grupos decisivos. Como diria Rubem Fonseca, os próximos meses serão de “vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, no mundo como no Brasil.

Estamos mudos e isolados

Olhe pela janela, você verá como vai o mundo. Para onde correm as pessoas? O que querem? Não diferençamos mais o encadeamento das coisas que lhes daria um sentido supra-pessoal. A despeito do rumor geral, cada um está mudo e isolado em si mesmo. O encaixe dos valores do mundo e dos valores do eu já não funcionam convenientemente. Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.

Franz Kafka, "Conversas com Kafka", de Gustav Janouch

Narcisos loucos guiam cegos no planeta

‘É a desgraça destes tempos que os loucos guiem os cegos’, lamenta o Conde de Gloucester na trama shakespeariana “Rei Lear”. No enredo da peça, a frase resume a inversão moral e política que se descortina ao longo de cinco atos. Os incapazes ou corruptos passam a conduzir os já vulneráveis, e a autoridade deixa de estar ligada à lucidez. A imagem de “loucos” governando, “cegos” manipulados e a ordem moral definhando refere-se tanto ao reino da trama como ao próprio Lear, que só percebe a verdade depois de ter entregado o poder e perdido o discernimento.

O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.


O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional. Não é preciso concordar com o tom combativo do economista Jeffrey Sachs, professor de políticas públicas na Universidade Columbia, para validar sua preocupação com a mente transtornada de dois governantes específicos que não dão paz à humanidade. Em artigo no site progressista Common Dreams, intitulado “Dois loucos brincando de Deus”, Sachs refere-se assim a Trump e Benjamin Netanyahu, seu parceiro de violência israelense:

— Quando líderes desequilibrados invocam a catástrofe divina como instrumento político, não apenas seus inimigos são consumidos. A menos que sejam detidos, todos nós seremos vítimas desses dois psicopatas. (...) Eles estão dominados por três patologias em cascata. A primeira é de personalidade: ambos são narcisistas malignos. A segunda é a arrogância do poder: homens que têm o poder de comandar a aniquilação nuclear e, por isso, não sentem qualquer contenção. A terceira, e mais perigosa de todas, é a ilusão religiosa: dois homens que acreditam, e são informados diariamente por aqueles a seu redor, que são messias fazendo a obra de Deus. Cada patologia agrava as outras, de modo que, juntas, colocam o mundo num perigo sem precedentes.

Para Sachs, narcisismo maligno é um termo clínico, não um insulto. Foi cunhado em 1964 pelo psicólogo social Erich Fromm, para descrever Adolf Hitler como “fusão de grandiosidade patológica, psicopatia, paranoia e personalidade antissocial numa única estrutura de caráter”. “O narcisista maligno não é apenas vaidoso. É estruturalmente incapaz de empatia genuína, constitucionalmente imune à culpa e movido por uma convicção paranoica de que inimigos o cercam e devem ser destruídos”, disse Fromm.

Nunca é demais lembrar também que Trump e Netanyahu têm a nuvem nuclear ao alcance da mão.

A Operação Fúria Épica contra o Irã entra em sua sexta semana, e ninguém — nem mesmo Trump — sabe no que desembocará o esquisito cessar-fogo de duas semanas, acordado mas não respeitado pelas partes. Israel, escanteado das gestões, continua a transformar o sul do Líbano em escombros como se não houvesse um amanhã. Problemão para um cessar-fogo cuja arquitetura política pode ter sido ambígua o suficiente para garantir o anúncio, mas não coerente o bastante para sobreviver ao contato com a realidade. Uma vez que as bombas caem em Beirute e que um lado afirma que a área estava coberta pelo acordo enquanto o outro diz que não, o problema deixa de ser um mal-entendido técnico. Torna-se uma falha estrutural na própria trégua.

Saltam aos olhos os entendimentos mutuamente excludentes sobre os termos do cessar-fogo. Teerã aparentava acreditar que seu plano de 10 pontos era tratado como base para a desescalada, mas Washington agora sugere um entendimento muito mais restrito dessa base: “Reabrir o Estreito de Ormuz enquanto os Estados Unidos suspendem os bombardeios diretos ao Irã”. É pouco, tanto que, até a noite de sexta-feira, Ormuz estava longe de ser reaberto à navegação statu quo ante. E continuava sendo zona perigosa, pois conseguiu engolir um drone militar de espionagem dos Estados Unidos que fazia bisbilhotagem. Nenhum Departamento de Defesa gosta de ver desaparecer no ar um equipamento de US$ 200 mil (mais de R$ 1 bilhão).

Neste mundo exausto de embriagados pelo poder e corruptos por natureza, faltam vozes como a de Cordélia, cuja lucidez foi ignorada pelo pai, o Rei Lear. Shakespeare, presente.

sábado, 11 de abril de 2026

Pensamento do Dia




A coreografia do genocídio

Suponham que, num momento de perigosa insensatez, decide servir-se das vossas redes sociais para ameaçar um vizinho: “Fulano morrerá esta noite para nunca mais ser ressuscitado.”

Teria problemas com a Justiça. Sérios problemas.

Agora, imaginem que é o presidente dos EUA. Dispõe de poder para arrasar um país, recorrendo a armamento nuclear. E escreve isto nas redes sociais, referindo-se ao Irã: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.”


Uma afirmação como esta, produzida por quem tem meios para cumpri-la, não pode ser lida como mera retórica, uma metáfora cruel, o irresponsável descuido de um senhor idoso, já um pouco senil. Tem de ser interpretada como o primeiro movimento de uma coreografia genocida. Não descreve uma possibilidade — aproxima-a do real.

Mais inquietante do que a brutalidade da frase é a brandura com que o mundo reagiu a ela.

É certo — o Papa protestou. Greta protestou. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, mostrou-se muito preocupado. George Clooney, mais rigoroso, chamou-lhe um crime de guerra: “Se alguém diz que quer acabar com uma civilização, isso é um crime de guerra. Você pode apoiar pontos de vista conservadores, mas deve haver uma linha de decência, e não pode ser cruzada.”

Linha de decência, George?! Estamos falando de um presidente da República que se comunica através de palavrões e baixo calão, insulta os jornalistas que se atrevem a colocar-lhe questões mais difíceis, usa o cargo para enriquecer, e, convém lembrar, foi condenado por abuso sexual ainda antes de ser eleito.

Donald Trump não se limitou, uma vez mais, a troçar da decência. Cometeu um crime, sim, um abominável crime de guerra. Num mundo normal, não anestesiado por anos de intimidade com o feroz surrealismo da extrema direita global, o escândalo seria unânime. A carreira política do atual inquilino da Casa Branca terminaria naquele triste parágrafo.

O que ocorreu, ao invés, foi um sobressalto breve, e logo o mundo regressou à sua tépida indiferença. A frase permaneceu — como permanece uma mancha de sangue —, já integrada no padrão. Mais uma. Apenas mais uma.

Aprendemos a aceitar o excesso. A linguagem, levada ao limite, não fere mais. É como um ruído demasiado alto, que o ouvido recusa.

Quanto maior a violência anunciada, mais irreal parece. Ora, a irrealidade, o absurdo, não exige resposta. Contudo, é assim que a História avança. Não na sequência de rupturas súbitas, mas por uma lenta deslocação do tolerável. O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista. Não tanto por aquilo que afirma, mas por aquilo que permite. No caso, permite que a ideia do genocídio circule sem consequências. Que se teste o limite. Que se meça a paciência da plateia. E a plateia, queridos leitores, é paciente.

Então, a coreografia prossegue, um pequeno passo hesitante, depois um segundo mais firme. E nós, espectadores atordoados, vamos aprendendo a reconhecer os movimentos sem, todavia, abandonar a sala.

Mundão de mentiras

Toda a gente, quando a guerra anda no ar, aprende a viver com um novo elemento a mentira.

Jean Giraudoux

Nosso Estreito de Ormuz

O Brasil percebe o custo do bloqueio no Estreito de Ormuz, que impede o fluxo de navios com petróleo, mas parece não perceber os obstáculos que impedem o fluxo de nossas crianças ao longo da educação de base, dos ensinos fundamental e médio. É corte que subtrai um recurso seminal: o conhecimento. Nosso Estreito de Ormuz interrompe a travessia de 80% dos brasileiros em direção à conclusão do ensino médio com a qualidade necessária para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. Assim como o Irã faz com os petroleiros em Ormuz, aqui barramos a formação de nossa população. Barramos o progresso econômico por falta de produtividade, inovação e competitividade. Ficamos presos na armadilha da baixa renda média; barramos o progresso social, impedindo a distribuição da renda conforme o talento desenvolvido. No passado, uma escrava grávida era um navio negreiro levando seu filho para a escravidão; no presente, um brasileiro sem acesso à educação é um navio negreiro levando a si próprio para a escravidão moderna.


Nas atuais condições de nosso sistema escolar, dos 2,5 milhões de brasileiros que nasceram em 2025, 50 000 nem sequer serão matriculados; 1 250 000 serão deixados para trás por não concluírem a educação básica, analfabetos para a contemporaneidade; dos que concluirão o ensino médio, no máximo 200 000 terão recebido formação que lhes forneça o “mapa” para buscar a própria felicidade e as ferramentas para construir um país mais justo e eficiente. É como se fechássemos nosso Estreito de Ormuz para três em cada quatro brasileiros.

O Brasil precisa de um sistema nacional de educação básica no qual todos concluam essa etapa com máxima qualidade e absoluta equidade, independentemente da renda e do endereço, e em que nenhuma criança ou jovem seja bloqueado e impedido de receber o mais eficiente combustível do progresso: educação, ciência, tecnologia.

Com 220 milhões de habitantes, a educação de qualidade para todos permitiria elevar a produtividade e a renda nacional, colocando o Brasil entre as cinco maiores economias nacionais, e a equidade permitiria a distribuição justa dessa renda ampliada conforme o talento e o esforço pessoal. Temos todos os instrumentos necessários para garantir a trajetória de nossa população ao longo da educação: um idioma comum, o que facilita a educação básica; 8 milhões de universitários, o que fortalece a base da produção intelectual; um território integrado; um sistema de comunicação eficiente; e 185 000 escolas, com 2 milhões de professores. Faltam o sentimento nacional de que o conhecimento é o recurso fundamental para o progresso e a disposição de incluir todos os brasileiros em um mesmo sistema educacional: abrir nosso Ormuz para todos e permitir que cada cérebro avance em sua educação.

O outro Ormuz se fecha ou abre com bombas, o nosso se abre construindo escolas. O Ormuz iraniano se fecha explodindo bombas, o nosso se abriria instalando escolas de qualidade para todos. Acabaria a burocracia, o protecionismo, o corporativismo, a instabilidade jurídica e a corrupção. Bastaria dar a todo sistema escolar a mesma qualidade de nossas escolas e institutos federais.

O PL está se tornando um partido de massas?

O Partido dos Trabalhadores, desde os anos 1990, ocupou a liderança isolada na preferência dos eleitores. É o que mostram os levantamentos sistemáticos feitos pelo Datafolha desde a redemocratização. O PT não perdeu o posto nem no auge do Mensalão (2005) ou da Lava Jato (2015/2016). A última pesquisa do instituto, publicada nos últimos dias de 2025, mantinha-o como favorito por 24%, enquanto 12% apontavam o Partido Liberal (PL), associado ao bolsonarismo.

Mas a pesquisa AtlasIntel/Arko de março/abril de 2026 – divulgada há poucos dias – é o primeiro registro metodológico de alto alcance que não mostra o PT no posto que sempre ocupou. O PL agora aparece numericamente à frente: 27% contra 25,4%.

A imprensa tratou isso como empate técnico – que é. Porém, analiticamente, o fato de o PT não estar mais sozinho no topo é um acontecimento político que não pode ser subestimado, ainda mais considerando que sua pontuação, três meses antes, era o dobro do rival.

Enquanto a preferência pelo PT parece ter batido em um teto histórico (oscilando entre 24% e 26%), o PL apresenta uma curva de crescimento, sugerindo que a virada de 2026 pode não ser um ponto fora da curva, mas o início de uma nova era.


O PL fez 516 prefeituras nas eleições de 2024 – atrás do PSD, do MDB, do PP e do União, mas na frente do Republicanos e de todos os partidos de centro-esquerda. Elegeu quase 5 mil vereadores, atrás apenas de MDB, PP, PSD e União.

As eleições de 2022 deram ao PL o maior número de assentos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Com a janela que se fechou há poucos dias, cresceu ainda mais, sendo o que mais ganhou deputados.

Em pesquisa que estou desenvolvendo, o PL demostra ter disciplina interna consistente – embora não tão consistente quando a do PT.

O MDB é o partido com mais filiados no Brasil – mais de 2 milhões, seguido pelo PT, com 1,6 milhão. O PL, depois da janela, passou a ter 930 mil filiados.

Esses números indicam que o PL não é a maior sigla do país. Mas é um partido sólido e em ascensão, que se deve à profunda transformação pela qual passa desde a filiação de Jair Bolsonaro em 2021.

Jair Bolsonaro iniciou seu governo sem utilizar nenhuma das modalidades que um chefe de governo usa nos sistemas presidencialistas. Ele defendia a “nova política”, significando não negociação com o parlamento. Em vários domingos ainda em 2020 Bolsonaro passou a participar de manifestações pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, e até mesmo intervenção militar e a volta do Ato Institucional nº 5, que cassou mandatos em 1964.

Bolsonaro procurou manter diálogo direito com seu eleitorado, ou ao menos com a parcela mais radicalizada e fiel dele. A partir do meio de 2020, porém, houve mudanças importantes. As negociações com os partidos se tornaram necessárias depois dos diversos pedidos de impeachment que foram apresentados com fundamentação nas iniciativas por ruptura constitucional, e no comportamento de Bolsonaro em relação à pandemia.

Em junho de 2020, o então presidente, contrariando seu discurso de redução da máquina pública, recriou o Ministério das Comunicações e o entregou a deputado do PSD. Outros cargos na administração direta e em estatais foram entregues ao PP, ao PL e ao Republicanos. Esse processo seguiu até culminar com sua filiação ao PL no final de 2021, o que foi lido como aliança com a então tão criticada política tradicional.

O Partido Liberal, em sua história, caracteriza-se como uma agremiação fisiológica tradicional. Trata-se do antigo PR, resultado da fusão entre PL e Prona – duas legendas surgidas na redemocratização, cujos quadros eram em boa parte oriundos do PFL e do PDS, herdeiros da Arena. Herdou o enraizamento regional da direita da redemocratização, consolidando presença no interior conservador do país. Tinha, na origem, um entrosamento natural com a família de “partidos do interior” (atuais MDB, PSD, União), na expressão de André Singer.

O partido do interior representa o interior rural e cidades de pequeno porte, onde o voto é frequentemente mediado por relações de clientelismo e dependência de verbas federais. São formações com nítido viés governista, funcionando como o “fiel da balança” no Congresso. O PL, para o autor, é “tradicional componente do Centrão” – e, de fato, esteve na base de todos os governos, exceto do atual.

A filiação de Bolsonaro não significou, entretanto, apenas o bolsonarismo se enquadrando na política tradicional. Significou também a moldagem da política tradicional ao campo emergente de extrema-direita. Desde então, o PL transformou sua natureza e tornou-se a maior força de direita do país.

O PL não só foi o partido que mais cresceu como foi o partido com maior renovação na Câmara nas últimas eleições – ou seja, o maior número de deputados de primeiro mandato. Essa nova safra de parlamentares de direita, segundo os cientistas políticos César Zucco e Thimoty Power – que entrevistaram os deputados –, atua de forma deliberadamente provocativa e antissistema, diferindo da direita anterior, que operava sob a sombra do regime militar.

É uma direita desinibida e orgulhosa de si, ao contrário daquela “direita envergonhada” que se escondia sob o regime militar, e que esteve nas origens do Prona e do antigo PL. O PL atual, que incorpora novíssimos quadros, não busca a sombra. Ele busca o palanque e a mobilização digital.

O PL foi também o partido que mais elegeu deputados ligados ao policialismo/militarismo e pastores, pertencentes a campos políticos também emergentes e muito marcados no Brasil de hoje. Não é surpresa que tenha sido o partido que mais conferiu votos contrários ao governo Lula 3 nessa legislatura.

Com as características atuais – 900 mil filiados, popularidade em ascensão, quebrando o domínio histórico do PT no quesito –, o PL caminha para tornar-se um partido de massas.

Historicamente, partidos de massa estiveram ligados à esquerda, surgindo no final do século XIX como forma de organização do movimento operário e da social-democracia. Diferentemente dos partidos de quadros, baseados em notáveis e influência estatal, esses partidos estruturam-se “de baixo para cima”, apoiando-se na militância ativa e em contribuições disseminadas. Na formulação clássica de Maurice Duverger, não se tratam apenas de máquinas eleitorais, mas de organizações com forte enraizamento social, capazes de mobilizar, formar e sustentar seus membros para além dos períodos eleitorais.

Também no Brasil, a tradição dos partidos de massa foi historicamente consolidada pela esquerda. O PTB de Getúlio Vargas e Jango mobilizou as massas urbanas através da estrutura oficial dos sindicatos, enquanto o PCB introduziu a tecnologia das células e da disciplina ideológica rígida. O PT é o exemplo mais resiliente e estruturado, surgindo na redemocratização com uma base de militância ativa, núcleos de bairro e forte ligação com movimentos sindicais e sociais, mimetizando a função de “instituição total” que acompanha o militante para além do período eleitoral, estrutura que lhe permitiu cinco mandatos presidenciais.

Na Europa, os primeiros partidos de massa de direita surgiram como uma reação defensiva à expansão do sufrágio e ao avanço socialista no final do século XIX, destacando-se as agremiações confessionais, como o Zentrum alemão, e o conservadorismo reformista britânico, que organizaram bases populares em torno da fé e da identidade nacional. Foi após a Primeira Guerra Mundial que essa “tecnologia de massas” atingiu sua face mais agressiva com os movimentos radicais, como o fascismo e o nazismo; estas legendas subverteram a vocação originalmente esquerdista do modelo ao mimetizar sua estética e capilaridade organizacional para promover um nacionalismo totalitário.

Assim, a direita migrou do modelo de elites para o de massas em duas etapas: primeiro para preservar as instituições tradicionais (Igreja e Coroa) e, posteriormente, para mobilizar multidões em uma ofensiva radical contra o próprio sistema liberal.

No Brasil, os partidos de direita, como a UDN e a Arena, foram historicamente partidos de quadros, operando como agremiações de elite que dependiam de lideranças influentes e do controle do aparato estatal, em vez de uma base militante orgânica. A UDN, embora mobilizasse setores da classe média urbana com um discurso moralista e antissistema, nunca estruturou uma organização de amplas bases capilarizadas. Já a Arena, como braço civil da ditadura militar, era o exemplo máximo do “partido de notáveis” regionalizados, cuja força residia no acesso ao orçamento e na manutenção de oligarquias locais – o embrião do “partido do interior”.

PL seria o primeiro partido de massas de direita da história do Brasil – tendo como principal líder uma figura de extrema-direita, Jair Bolsonaro. Ao fazê-lo, o partido alinha-se a fenômenos globais contemporâneos, como o Fidesz (Hungria) e o Rassemblement National (França), que se consolidaram como verdadeiras máquinas de guerra cultural dotadas de vasta capilaridade popular; máquinas de mobilização popular permanente. Não se trata de uma nova UDN, trata-se de uma força maior e mais enraizada.

O PSD é maior em prefeituras, o PL é maior em popularidade e em congressistas. Eles dividem o trabalho. O PL tem o voto de opinião e o eleitor fidelizado, o PSD tem a máquina, as prefeituras. O PL aposta na sucessão dinástica com a candidatura de Flávio Bolsonaro para manter acesa a chama do bolsonarismo em grande escala. O PSD tem tentado vender a ideia de direita de resultados. Assim, o partido de Kassab oscila: busca autonomia do bolsonarismo, mas lançou como candidato Ronaldo Caiado que, como primeiro ato, promete anistiar Jair Bolsonaro, tentando capturar a alma do PL enquanto oferece o corpo da máquina do PSD.

O xadrez das estratégias eleitorais, porém, é secundário. O avanço da extrema-direita e o recuo da esquerda são fenômenos generalizados no mundo capitalista e o Brasil não escapa. A AtlasIntel/Arko mostra que a vantagem do PT só é expressiva entre eleitores com mais de 60 anos, enquanto o PL domina as faixas jovens e economicamente ativas. Quadro semelhante repete-se sistematicamente nos levantamentos estatísticos com o eleitorado. E o problema não é de comunicação. Décadas de destruição da classe trabalhadora organizada, financeirização das políticas públicas e o avassalador imaginário neoliberal (progressista ou conservador) cobram seu preço.

A própria liberdade está em jogo nas eleições da Hungria

Tenho idade suficiente para lembrar da revolta húngara contra o comunismo soviético em 1956 e sua subsequente repressão brutal. Quão deprimente é, então, encontrar o governo da Hungria apoiando ferozmente o ataque de Vladimir Putin à Ucrânia e o assalto do governo Trump à União Europeia.

A Hungria é um país pequeno. Mas Viktor Orbán, seu primeiro-ministro, não é um homem de pouca influência. Para muitos dos chamados "conservadores nacionais", notadamente nos Estados Unidos, ele define uma forma bem-sucedida e admirável de política de direita. Isso até usa o disfarce de servir aos "valores tradicionais". Mas a realidade é o que o ex-ministro Bálint Magyar chama de "Estado máfia".


Isso torna as eleições parlamentares de domingo muito mais importantes do que o tamanho modesto da Hungria sugeriria. A derrota do homem que abraçou a noção de "democracia iliberal" pode significar muito para a sobrevivência da ameaçada versão "liberal". É por isso que o déspota da Rússia, Vladimir Putin, e o aspirante a déspota da América, Donald Trump, estão apoiando Orbán. Este último está até enviando seu vice-presidente, J.D. Vance, à Hungria para enfatizar seu respaldo.

Johan Norberg, um conhecido "liberal clássico", escreveu uma análise devastadora da tomada do Estado húngaro por Orbán para o Cato Institute. O instituto, para seu crédito, acredita em mercados livres e no Estado de direito. Ambos são anátema para os novos autoritários nos EUA (e em outros lugares), que parecem acreditar, em vez disso, em autoritarismo social e despotismo arbitrário.

A descrição de Norberg sobre o método de Orbán para acumular poder é reveladora e assustadora. O líder húngaro desmantelou o Estado de direito pouco a pouco, usando sua maioria para transformar a constituição. Entre outras coisas, isso lhe permitiu preencher o Tribunal Constitucional com aliados leais e simultaneamente reduzir seus poderes.

Mais importante ainda, um novo Escritório Judicial Nacional foi criado "para contratar, demitir, promover e rebaixar todos os juízes da Hungria". Nem é preciso dizer que Orbán também colocou aliados leais no comando de todas as instituições destinadas a fiscalizar o exercício arbitrário do poder pelo governo.

O governo também mudou a lei eleitoral para se favorecer de várias maneiras, incluindo dar 1 milhão de votos a húngaros étnicos que não vivem no país. Atacou a mídia livre, entre outras coisas, assumindo controle político sobre a mídia estatal e organizando o controle por aliados sobre empresas de mídia nominalmente independentes.

Isso é parte de um sistema maior fundado no favorecimento das atividades de empresários leais ao regime e no confisco de propriedade daqueles que não são. Orbán disse uma vez que estava procurando "oito a dez" capitalistas para administrar a economia. Notável e crucialmente, acrescenta Norberg, todo esse sistema foi "turbinado" com dinheiro da UE: "nos anos 2010, os fundos anuais da UE para a Hungria totalizaram até 4% do PIB". Em suma, a UE subsidiou sua própria subversão.

Além disso, argumenta Norberg, o governo assumiu elementos centrais da sociedade civil, notadamente escolas e ensino superior. Notoriamente, forçou a Universidade Centro-Europeia fundada por George Soros a sair do país. Aprovou restrições aos direitos de pessoas LGBT+. Limitou as atividades de ONGs estrangeiras. Ao mesmo tempo, criou "milhares de ONGs organizadas pelo governo" para conduzir campanhas de propaganda pró-governo.

Qual o resultado disso? Em uma medida de liberdade humana do Cato Institute e do Fraser Institute, a classificação da Hungria caiu do 31º lugar em 2010 para o 67º em 2023 —o último entre os países da UE. O país também caiu na maioria dos indicadores de governança do Banco Mundial, notadamente "voz e responsabilização", "qualidade regulatória", "Estado de direito" e "controle da corrupção".

No Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, a classificação da Hungria é agora a mais baixa da UE. Não menos importante, sua classificação pelo V-Dem em várias medidas de democracia caiu dramaticamente.

Despotismo arbitrário turbinado pela corrupção —esse sistema soa familiar? Certamente deveria, já que parece ser precisamente o que o governo Trump está tentando implementar. É fascinante que isso seja o que "conservadorismo" parece significar para muitos que usam esse rótulo hoje em dia. No entanto, na Hungria, como nos EUA (mas diferentemente da Rússia), há uma possível brecha na armadura do autocrata: as eleições.

É possível derrotar um regime que está há 16 anos no poder e manipulou tudo o que pôde contra a chance de uma vitória da oposição? Parece, pelas pesquisas, que a oposição pode ter uma margem tão grande a seu favor que mesmo este governo será incapaz de reverter o voto. A oposição tem três coisas a seu favor: em Péter Magyar, finalmente tem um líder eficaz; após 16 anos, muitos estão fartos de Orbán; e a UE impõe alguns limites ao que o regime pode esperar conseguir. Devemos esperar que isso seja suficiente para mudar o governo democraticamente.

No entanto, duas coisas devem ser lembradas.

Primeiro, uma ditadura plebiscitária do tipo que Orbán tentou criar não é uma democracia propriamente dita (isto é, uma "democracia liberal"), porque está sem os direitos civis, políticos e legais que protegem os eleitores da trapaça daqueles que pretendem manter o poder indefinidamente. Todos esses devem ser restaurados.

Segundo um Péter Magyar vitorioso enfrentaria intensa oposição de todos aqueles que se beneficiaram do chamado Estado máfia —praticamente todos em posição de poder após tanto tempo. Governar contra esses incumbentes será difícil. Mas substituí-los pode ser ainda mais difícil. Uma vitória da oposição seria o fim da primeira batalha em uma longa guerra.

As terras raras e o discurso de soberania

O risco à democracia não é o único problema criado pela existência de um candidato de extrema direita com chances de chegar ao Palácio do Planalto. Ao levar à cena uma agenda para lá de retrógrada, ele manda para o fundo do poço a discussão política, aprisionada entre a entranhada ignorância dos fatos e a diminuta capacidade intelectual, ambas marcas da família golpista e de seu círculo mais próximo.

É o caso da proposta feita por Flávio Bolsonaro de oferecer aos Estados Unidos acesso irrestrito aos minerais críticos e às terras raras brasileiras em troca do apoio do trumpismo à sua candidatura e, por via das dúvidas, à campanha preventiva de descrédito do processo eleitoral que se avizinha, se o incumbente Lula crescer nas pesquisas. O assunto é importante demais para ficar limitado aos termos em que foi posto pelo Bolsonaro-2 e ali mantido pelas críticas que vem recebendo, assentadas em defesa abstrata da soberania nacional.


O Brasil é bem-dotado de terras raras —cerca de 18% das reservas globais— e de alguns minerais críticos, como nióbio, grafite, níquel e lítio, uns e outros indispensáveis à transição energética e à economia digital.

De forma incipiente, eles já são aqui explorados —ou estão em fase de pesquisa— por empresas nacionais, estrangeiras ou associadas entre si. Os investimentos externos vêm do Canadá, do Reino Unido e da China.

Além desta, União Europeia e EUA são o destino das exportações brasileiras de minérios em estado bruto.

Aqui e agora, são pelo menos dois os desafios a merecer debate intenso e informado. O primeiro é como o país quer entrar nessa seara: reforçará sua vocação de grande exportador de commodities valiosas ou deseja integrar de alguma forma cadeias de valor na produção de bens que incorporam os cobiçados minérios? Qualquer dessas escolhas envolverá legislação reguladora, políticas de incentivo e diplomacia econômica.

O segundo desafio é de natureza socioambiental. Parte importante das estratégicas reservas, ao que tudo indica, está na Amazônia —especialmente no Pará, no Amazonas e em Roraima— e, muitas, em unidades de conservação e territórios indígenas. Ambos já vêm sofrendo com a mineração ilegal e o que ela acarreta de degradação ambiental, criminalidade e desorganização dos modos de vida tradicionais e das culturas originárias.

A revelação da importância das terras raras e dos minerais críticos só acrescenta urgência a um problema que vem de muito antes. Quem não se lembra da exploração do ouro de Serra Pelada, cuja catástrofe Sebastião Salgado registrou em fotos notáveis?

Dadas as muitas utilidades dos minerais estratégicos, fica difícil imaginar que uma posição puramente preservacionista possa prevalecer. Insustentável, também, é a situação atual, que favorece a ilegalidade e o crime. Entre uma e outra, há diferentes soluções possíveis que reduzem danos ambientais e dão às comunidades indígenas participação nas decisões e nos frutos da exploração econômica. Mas os remédios não nascem por geração espontânea; demandam ciência aplicada, intenção política e compromisso democrático.

Em questão tão importante, a extrema direita não pode ditar a pauta, muito menos os termos da discussão.

A oligopolização da economia e da política

Uma das poucas certezas que podemos ter, no momento, é que aquilo que o Europeu chamava de “o povo”, e aquilo que o Anglo Saxão chamava de “o cidadão”, dançaram. A Revolução Francesa, e a Constituição Americana do “We the People”, esvaíram em seus conteúdos e propósitos. Hoje, a economia está mais oligopolizada, e a política, por decorrência, também. Poucas pessoas mandam no “money” e no “politics”.

Na economia, os ideais de Adam Smith, de que o mercado traria a distribuição de renda e prosperidade para todos, falharam. Até 1980, o crescimento da economia capitalista foi redistributivo entre as classes sociais. De 1980 para cá, entretanto, a participação relativa no PIB mundial das classes médias e baixas diminuiu significativamente, conforme o “World Inequality Report”. Como exemplo, o americano que ganhava US$ 3 mil mês em 1960 ganha hoje US$ 3,1 mil mês corrigidos pela inflação, enquanto o PIB dos Estados Unidos cresceu de US$ 0,5 trilhão para US$ 29 trilhões, no mesmo período. Hoje, estudo do Banco UBS mostra que 2.500 pessoas no mundo concentram em patrimônio, o equivalente a 12% do PIB mundial.


Na política, a democracia e o “Contrato Social” de Rousseau também falharam, na representatividade e mediação dos interesses que iria gerar a redistribuição da renda. A expectativa era a de que os melhores valores da sociedade seriam eleitos, em prol das classes e grupos sociais, o que não ocorreu. Hoje, o grau de concentração política devido ao aparato de controle e repressão é tão grande, que todos os movimentos em prol da representatividade são facilmente controlados e reprimidos.

Por volta de 1848, com a edição do Manifesto Comunista, no adensamento da Revolução Industrial, os movimentos sociais eram mais difíceis de serem contidos. Já no Prefácio da edição do Manifesto Comunista de 1872, Marx e Engels afirmavam que “Embora os princípios gerais deste Manifesto conservam, ainda hoje, a sua plena correção, este programa está hoje, de certa forma, antiquado, devido ao imenso desenvolvimento da grande indústria, e à (derrota) da Comuna de Paris”. O próprio desenho da planta de Paris de 1853 a 1870, de Napoleão III, na concepção de uma rede simétrica e centralizada de largas avenidas, facilitava a rápida locomoção e intervenção em rebeliões populares. A Primeira Internacional de 1866 na Inglaterra seguiu a linha reivindicatória do sindicalismo, e a Segunda Internacional de 1889 em Paris veio a resultar na Social Democracia, nos termos de Kautsky, da negociação e alternância entre as classes com benefícios para a classe trabalhadora, em oposição às propostas de revolução de Rosa Luxemburgo. Os experimentos socialistas da União Soviética e de outros países falharam, com a negociação, ao invés da radicalização, como o único caminho a se seguir.

Mas o capital levou à exacerbada concentração de renda.

Hoje, os movimentos sociais “de baixo para cima” são rapidamente controlados, tal o grau de rapidez das decisões e da capacidade de repressão dos governos, na plenitude do controle. E diante das crescentes limitações ecológicas, o poder se exacerba.

No Brasil, nem se fala, na mais completa inversão da ordem democrática, no preceito do velho ditado de que “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

O controle é completo. A não ser que o sistema à frente se auto imploda, chegando à situação descrita no filme “The Omega Man”, de Boris Sagal com Charlton Heston, de 1971, onde hordas desfiguradas de humanos cercam a elite sobrevivente em ambiente de completa deterioração.

Estamos mal.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


A guerra no horizonte da política internacional

“O velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno surgem os fenômenos mórbidos mais diversos”, disse o teórico marxista Antonio Gramsci, em circunstâncias históricas semelhantes às que enfrentamos. Hoje, podemos dizer que a ordem mundial que conhecemos, desde pelo menos 1945, está mortalmente ferida, e de suas entranhas em decomposição um outro modus operandi vai se consolidando, não necessariamente novo, pelo contrário. Estamos diante de uma configuração política há muito tempo conhecida pelos estudiosos do fenômeno internacional, marcada pela realpolitik, pelo imperialismo e por uma corrida armamentista de guerra típica dos sistemas multipolares.

Sintomático do momento, o termo realpolitik, antes exclusivo aos círculos acadêmicos, começa a se tornar lugar comum em análises até mais rasteiras. De fato, não seria razoável afirmar que esta forma política – baseada no recurso à força como ativo central da política – tenha sido abandonada nas últimas décadas sob uma suposta e idealista hegemonia das instituições internacionais. O que podemos dizer é que ela passou a conviver com constrangimentos legais que impuseram mínimos limites ao uso da violência como instrumento político. E o que presenciamos agora é o recrudescimento do poder bruto sem nenhuma cerimônia.


O fio condutor deste processo é a decadência do soft power dos EUA, após décadas de intervenções desastrosas e degradação social promovida pelo consenso de Washington (1992), que tem levado a cada vez mais fissuras nas instituições democráticas e nos aparelhos de bem-estar social, especialmente entre países historicamente aliados da superpotência norte-americana.

Como qualquer estudioso da política internacional sabe, a arena doméstica é intrinsicamente ligada à externa, e o aprofundamento do déficit democrático, consequente à demolição do welfare state, contribui para destruir ainda mais o aparato legal que dá freios ao uso da força. Se um sistema multipolar já tende a ser mais friccionado – quanto mais bolas de sinuca numa mesa, mais chances de contato entre elas –, um conduzido por líderes antidemocráticos promete ser ainda mais perigoso. Já vimos esse filme.

O rastro do caos aponta para os EUA. Emergentes da Guerra Fria como única superpotência global, os EUA pavimentaram sua hegemonia com uma rara combinação de poder bruto e poder brando. A fórmula classificada por Joseph Nye como “poder inteligente” (smart power) nada mais é que a combinação entre a capacidade de impor a força e gerar atração, representação contemporânea de uma das formulações mais importantes de um texto seminal da ciência política moderna. Em O Príncipe, Maquiavel afirma que entre ser amado ou temido, na impossibilidade da escolha ideal (de ser amado e temido), era preferível ao Príncipe ser temido, “porque os homens mais facilmente ofendem a quem amam do que a quem temem” (Maquiavel, 1987). Com o enfraquecimento do seu poder de atração, a superpotência está partindo para o ataque, em busca de deter os avanços das potências regionais que desafiam sua hegemonia, elevando tensões, incertezas e desestabilizando a ordem internacional.

Assim, para os EUA, as primeiras duas décadas do pós-Guerra Fria foram um período de rara abundância de capital político, aproximando-se da fórmula “ideal” de Maquiavel e Nye. O país era incontestavelmente uma superpotência militar, com capacidade de projeção de força incomparável, e uma nação líder nos principais fóruns internacionais. Em que pese uma política externa marcada por práticas imperialistas, entre as nações do Ocidente político a influência estadunidense ainda gozava de patamares elevados de popularidade até meados da primeira década do século. Foi a sequência de eventos posteriores ao 11/09 que mudou isso, levando os EUA a serem cada vez mais percebidos como uma ameaça à ordem mundial, e não como seus fiadores, como manda a cartilha do bom hegemon.

Hoje, enfim, vivemos as consequências de três processos: as incursões no Oriente Médio, que violaram normas internacionais que significavam mínimas balizas para o uso da força; o avanço da OTAN sobre as fronteiras russas, traindo os acordos que costuraram o fim da Guerra Fria, e; três décadas de acirrada competição com a China tensionando as relações internacionais não só na Ásia Pacífico, mas em diversas regiões sensíveis geopoliticamente.

Portanto, vivemos um processo de desgaste das estruturas institucionais, políticas e comerciais que mediavam as relações internacionais, e de consolidação de potências regionais capazes de desafiar a supremacia global dos EUA, processos que se articulam e indicam um descompasso político que traz a sombra da guerra de novo para mais perto da política internacional.

A guerra é em um dos principais problemas da humanidade, talvez mesmo o principal. Através dela, cidades, Estados, Impérios e civilizações apareceram e desapareceram. Modos de vida foram consolidados e destruídos. Isso significa que a guerra tem sido – para muitos é – um elemento constitutivo das relações humanas, muitas vezes descrita como uma “sombra” permanente no horizonte da política internacional. Segundo Domingos Neto (2005, p. 1), a guerra é uma “forma de compatibilizar os meios de sobrevivência com o crescimento demográfico, processo de aniquilamento-fusão-afirmação de etnias, culturas e línguas, fonte alimentadora de avanços científicos e tecnológicos, momento de ruptura de ordenamentos socioeconômicos e deformação de valores. Exprimindo disputas por mercados, vontades dominadoras ou projetos libertários, o militar efetiva os banhos de sangue que resultam em grandes mudanças sociais e desenham incessantemente o mapa político mundial. A civilização é impensável sem a guerra e o militar”.

Portanto, compreender a guerra é essencial para analisar o fenômeno internacional.

Para oferecer uma explicação à dialética guerra/paz, a teoria do Realismo Político tem sido, desde os primórdios do estudo das RI, a principal fonte de interpretações para lidar com o problema da guerra na política internacional. Esse modelo teórico emula a premissa do estado de natureza hobbesiano para a política internacional e reitera o paradigma que confere a pretensão do monopólio do uso legítimo da violência aos Estados, entidades autônomas e dotadas de direitos uns em relação aos outros em uma comunidade formada por distintas nações, todas imersas em um estado de insegurança e tensão permanentes que as constrange a disputas violentas entre si, produzindo um equilíbrio baseado no poder e, por isso, sempre volátil.

Essa volatilidade tem sido a marca do sistema internacional moderno, cujo amadurecimento se deu pari passu com a consolidação do Estado Nação, ambos resultantes das guerras totais que devastaram o velho mundo entre os séculos XVII-XX. As relações internacionais foram, durante esse recorte, uma sucessão de conflitos cada vez mais abrangentes e violentos, à medida que a tecnologia e o engajamento social na guerra evoluíam, e de tratados que se tornavam cada vez mais sofisticados para encerrar as contendas e tentar permear as relações interestatais com algo além da pólvora. Mas o conhecido aforisma presente nos canhões de Luiz XIV, “ultima ratio regum” (último argumento dos reis), jamais deixou de traduzir com realismo a estrutura do sistema internacional, consubstanciando a também famosa afirmação de Henry Kissinger, segundo a qual uma diplomacia sem o respaldo de um forte poder militar seria “mero exercício de retórica”.

Assim, o emprego da violência é uma sombra no horizonte da política internacional. Em Politics Among Nations, Hans Morgenthau (2003), uma das obras mais importantes da corrente Realista, estabelece um conjunto de premissas para entender o mundo da política. Seriam Maquiavel e Hobbes os melhores tradutores desse universo, sujeito a uma lógica egoísta, e a política internacional seria baseada em cálculos de custo/benefício à beira da guerra.

No mesmo sentido, enquanto fenômeno político a guerra se apresenta, segundo Clausewitz, como “um ato de força para obrigar o inimigo a fazer a nossa vontade”. E daí tiramos que a guerra é a continuação da política por outros meios. Ela não se trata de um fenômeno independente, mas subordinado à política, que deve determinar o caráter da guerra ao estabelecer as condições e os objetivos pelos quais ela será travada. Depreende-se desse raciocínio que a guerra não tem um fim em si mesma, não tem uma lógica própria, mas uma “gramática” própria que confere à política internacional uma ontologia estratégica.

Decompondo mais sistematicamente o problema, Kenneth Waltz, em O homem, o Estado e a Guerra, estratificou a política internacional em três esferas – ou “imagens”, como anota o autor – e identificou uma razão estrutural para o fenômeno da guerra.

Na primeira “imagem”, temos o sujeito, o animal político nos termos aristotélicos. No domínio do sujeito, a razão divide espaço com pulsões como egoísmo, vingança e ganância. A razão é um “dever ser” que jamais se realiza plenamente, porque as pulsões humanas são, em sua totalidade, irrepreensíveis. Muitos pensadores debruçados sobre o problema identificaram nesta dimensão individual as causas da guerra. Numa pergunta simples: sem Hitler, sem guerra?

A segunda “imagem” é o Estado, estrutura política, social e econômica moderna gestada durante a transição do feudalismo para o modo de produção capitalista, na Europa, mas que poderíamos tomar como qualquer organização política. Em uma palavra, a pólis. Nesta esfera, a política obedece a padrões institucionalizados que devem transcender o sujeito. Outro “dever ser” racional. Mas, na medida em que a política é operada por pessoas, está sujeita às vicissitudes humanas. Razão pela qual teóricos, por séculos, adotaram tom antropomórfico para se referirem ao Estado. Ato contínuo, muitas análises sobre a guerra tratam o Estado em associação orgânica com a primeira imagem. Seguindo este raciocínio, a causa da guerra estaria associada à natureza dos regimes políticos e aos cálculos individuais dos governantes. Nas duas “imagens”, as causas da guerra poderiam ser superadas com transformações no nível político e moral, ou seja, com progressos em direção a uma cultura institucional mais voltada para o império da Lei e da Razão. De forma simplificada, chega-se a uma pergunta tão antiga quanto a teoria política moderna: regimes democráticos tendem à paz?

Por fim, na terceira “imagem” temos o sistema internacional em si. E é aqui que mora, para Waltz e toda a tradição realista que lhe segue, o X do problema.

Segundo Aron (2018), sistema internacional é “o conjunto constituído pelas unidades políticas que mantêm relações regulares entre si e que são suscetíveis de entrarem em uma guerra geral”. O atual SI tem origem com o fim da Guerra dos Trinta Anos (1618-48), que engendrou um notável desenvolvimento da musculatura dos Estados. Expressão disso são as cláusulas do Tratado de Westphalia, que encerrou o conflito, como a criação de embaixadas permanentes – dando à política externa um caráter mais perene e estável –, a definição de limites territoriais entre os Estados e, a partir destes, do conceito de soberania, segundo o qual nenhum Estado tem o direito de intervir nos demais. Foi o começo de um direito internacional público e de um sistema de relações que passou a ser mediado de modo a equilibrar os interesses e gerenciar os conflitos.

Apesar dessa evolução institucional, o uso da força jamais deixou de ser um recurso ativo. E, segundo Waltz, há uma razão estrutural para isso: a anarquia sistêmica, que consiste numa força que compele os Estados à guerra, independente de seus líderes ou regimes políticos. O raciocínio é simples: o fato de não haver uma centralidade política nas relações internacionais, isto é, uma entidade capaz de impor a ordem (como fazem os Estados perante suas sociedades civis), significa que todos se encontram vulneráveis à conquista e precisam, pois, manterem-se em estado de prontidão para a beligerância. Essa situação, eventualmente, ao sabor das oscilações dos equilíbrios de poder tão voláteis quanto imprevisíveis são os cursos do processo histórico, produz dilemas de segurança inegociáveis diplomaticamente que obrigam os atores a travarem guerras independentemente das vontades objetivas que os conduzem. O problema é conhecido na literatura como “dilema de segurança”, e há diversos casos ao longo da História, como o de Esparta, durante a Guerra do Peloponeso (séc. V a.C.), que dá nome caricatural ao dilema: “armadilha de Tucídides”. Ameaçada pelo avanço do Império ateniense, a cidade-estado da Lacedemônia se viu obrigada a entrar numa guerra que não desejava. Algo semelhante ocorre hoje entre Irã x Israel, Rússia x OTAN e EUA x China.

“Tudo na guerra é muito simples, mas a mais simples das coisas é difícil… Incontáveis incidentes menores – do tipo que nunca se pode realmente prever – combinam-se, degradando o desempenho, de tal sorte que se fica sempre aquém do pretendido”. A citação é do general prussiano Carl von Clausewitz (2010), autor de uma das obras mais determinantes do campo dos Estudos Estratégicos.

Clausewitz descreveu o curso da guerra como imerso em uma “névoa”, alegoria que emprega para dar a dimensão do caráter contingente das ações em conflito. Em seu famoso modelo de análise, o acaso e a probabilidade constituem o terreno operacional no qual atuam as forças armadas. É através do conceito de “fricção” que nosso autor traduz todo tipo de intempérie capaz de comprometer uma missão, desvirtuando fins de meios, propósitos de resultados, intenções de ações. A elevação da “fricção” ao patamar de categoria essencial do conflito rompe com uma ampla tendência de cientificizar a guerra, tornando-a controlável, previsível. Ilusão que acometeu e ainda acomete muitas análises.

O imponderável “governa” a guerra porque ela consiste numa dialética de vontades em luta de vida ou morte, essência que lhe confere singularidade sobre todos os demais fenômenos humanos. Todas as ações em circunstâncias de combate, por mais simples que pareçam, podem padecer com imprevistos diversos produzidos pelo engajamento ou pela necessidade de evitar o engajamento inimigo. A melhor estrada passa a ser a pior estrada; o melhor momento para um ataque passa a ser o de piores condições atmosféricas. Tudo para atingir a surpresa que possa deslocar a balança a favor dos seus planos e contra os do inimigo. Todas as ações assumem, assim, um caráter paradoxal que implica em dificuldades desconhecidas fora do terreno do conflito. O planejamento de uma ofensiva pode funcionar perfeitamente na carta de operações, mas encontrar dificuldades impostas pelo inimigo que não puderam ser antecipadas, colocando tudo a perder. O que nos leva a outro aspecto central da obra de Clausewitz, o moral. Os fatores psicológicos, desde os governantes até os soldados, passando pelos comandantes, também são cruciais e explicam porque forças aparentemente superiores muitas vezes não logram o êxito esperado.

A guerra é um confronto, em primeiro lugar, de vontades e está sujeita a toda sorte (ou azar) de circunstâncias impossíveis de controlar. A névoa da guerra começa no exato momento em que ela deixa de ser sombra e se torna situação concreta. Pois, parafraseando um dito comum entre os militares, até os melhores planos podem perecer no primeiro contato com o inimigo.

A guerra jamais deixou de ser um elemento constitutivo das relações internacionais. O que podemos afirmar é que, desde 1945, grandes guerras, do tipo que envolvem grandes potências, se tornaram muito improváveis em função da dissuasão nuclear. As armas nucleares outorgaram uma limitação às fricções entre as potências, o que levou a mudanças substantivas na estratégia e nas categorias do conflito. A Guerra Fria foi, assim, uma era reconhecida por conflitos de natureza não convencional, baixa intensidade e via atores terceirizados – “por procuração” –, com um espraiamento da violência do centro para as regiões mais periféricas do SI. Hoje, a situação, do ponto de estratégico, é a mesma: dissuasão nuclear e conflitos regionais terceirizados pelas grandes potências, que precisam evitar o confronto direto. A diferença é a configuração geopolítica do sistema internacional, que vive uma transição da hegemonia unipolar dos EUA em direção a uma estrutura multipolar.

Como a guerra “irá se comportar” nesse cenário? Será que veremos algo semelhante à Guerra Fria, ou corremos o risco de uma grande guerra entre potências novamente? E, se for este o caso, poderiam elas engajaram-se num conflito limitado, convencional, recusando o emprego de armas nucleares? Isso, além de desafiar sem nenhuma prudência a “névoa da guerra”, contrariaria uma máxima de Clausewitz empiricamente observável ao longo da História: a guerra tende a escalar.

Impossível saber. É razoável, apenas, supor que, se a racionalidade que tem conduzido a estratégia das grandes potências não ceder terreno a aventuras irracionais, há poucas chances de uma guerra entre grandes potências acontecer, pelo risco inerente de destruição mútua assegurada. Mas que há bons sinais para pelo menos suspeitarmos dessa possibilidade, há. Afinal, tudo está muito volátil e a dissuasão nuclear, no limite, não deixa de ser outro “dever ser”. Com a volatilidade pela qual passamos, é preciso ter o cuidado de não tomar o passado como determinação do futuro. Os próximos tempos serão de intensos movimentos internacionais e não é mais possível antever sequer o horizonte de uma década. Onde estaremos em 2036?

Em meio a tanta incerteza, apenas uma coisa é certa: onde já não estamos mais.
João Rafael Gualberto de Souza Morais