domingo, 7 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Tecnologia transformou as pessoas em matéria-prima econômica, e a humanidade virou negócio

Uma cena muito comum hoje é um casal com uma filha durante o almoço, num restaurante, quando o pai e mãe estão entretidos com os seus smartphones e a criança assistindo a um vídeo. A imagem pode num primeiro instante se mostrar lúdica, afinal a criança está distraída, não dando trabalho algum, e os pais, também, distraídos, envoltos consigo mesmos. Quadro que ilustra bem o argumento trazido por Eugênio Bucci no seu artigo O Papa e a técnica, quando ele diz que uma criança diante de uma tela não está apenas consumindo mídia; está participando de uma engrenagem econômica que transforma atenção em receita; dados, em valor; e comportamento, em lucro.


Assim, havendo a transformação da própria experiência humana em matéria-prima econômica. O texto trata da primeira encíclica do Papa Leão XIV, 135 anos depois da Rerum Novarum, publicada pelo Papa Leão XIII – considerada o marco inaugural da Doutrina Social da Igreja. Em 1891, a encíclica perguntava o que fazer diante da riqueza produzida pelas fábricas e concentrada nas mãos de poucos industriais. Em 2026, a Magnifica Humanitas parece formular uma pergunta semelhante: o que fazer quando a riqueza passa a ser produzida pela atenção, pelos dados e pelo comportamento de bilhões de pessoas conectadas? Hoje as Magnificent Seven – as sete maiores companhias de tecnologia do mundo – representam algo próximo a US$ 24 trilhões de valor de mercado, cerca de 45% do valor do índice S&P 500 e mais da metade do Nasdaq.

Nunca na história moderna um grupo tão pequeno de empresas concentrou tamanho peso econômico e financeiro. Em 2010, esse grupo de empresas valia em torno de US$ 1 trilhão. Em 2025, esse grupo devolveu aos acionistas cerca de US$ 277 bilhões em recompras de ações e dividendos. Ao mesmo tempo, pagaram aproximadamente US$ 122 bilhões em impostos sobre renda.

A economia da atenção não apenas financia inovação. A questão não é que as big techs enriqueceram criando tecnologia. A questão é que elas transformaram comportamento humano – inclusive infantil – em ativo econômico. Em que momento a tecnologia deixou de servir às pessoas e passou a transformar as pessoas em matéria-prima econômica? Talvez a pergunta não seja apenas o que as big techs farão com os trilhões de dólares acumulados a partir da economia da atenção. A pergunta é o que nós faremos com uma geração que aprende a deslizar telas antes de aprender a conversar.

Se a humanidade virou negócio, a responsabilidade não é apenas das plataformas. É também nossa. Afinal, nenhuma tecnologia consegue ocupar o lugar de um pai, de uma mãe ou de uma família – a menos que nós mesmos entreguemos esse espaço.

As veias abertas do Brasil: trabalho e pulsão de morte

“A pobreza não está escrita nas estrelas”
Eduardo Galeano

I

O século gira como um cachorro lento: demora cem anos para morder o próprio rabo e depois repete. Repete. Repete. 2026 é mais uma dolorosa mordida – somos o cão e os dentes do cão e o rabo mordido do cão e o sangue secular empapando os nossos nomes. Giramos juntos o turbilhão da morte. Parece ser este o trabalho imposto pelos donos do mundo: todos os dias, derrotar o pensamento; e, com ele, a inteligência.

Nos poemas de Trabalhar cansa (1936), Cesare Pavese retoma as vidas mordidas pelo grande cachorro do século XX: camponeses, prostitutas, ladrões, pobres, bêbados e outros desvalidos da sociedade. Nas palavras de Frantz Fanon (1961), são os condenados da terra: pessoas que precisam criar uma coincidência – dura e precária – entre o trabalho e a própria vida. Ainda não fui preso por regimes fascistas e, oficialmente, não me condenaram por comunista. Entretanto, como nos personagens daqueles poemas, sei que na minha carne também cravaram os dentes do trabalho. Comecei aos 14 anos, num sacolão da região metropolitana de Belo Horizonte. A minha lembrança mais nítida dessa época é a alegria paterna ao saber que enfim o filho seria produtivo, enfim deixaria de espetar as mandíbulas nas costas do pai. Nos anos seguintes, o trabalho me obrigou a estudar à noite, o mínimo possível para conseguir um diploma do Ensino Médio.


Alguma percepção de anormalidade surgiu desde o início da minha Carteira de Trabalho e Previdência Social, este livro de estreia que escrevi a muitas mãos. O que era apenas uma intuição consolidou-se muitos anos – e diplomas – depois. Entre 2015 e 2016, fui professor de Leitura e Escrita de Textos Acadêmicos no Instituto de Ciências Econômicas e Gerenciais da PUC Minas. Na época, o departamento incentivava que os semestres fossem organizados em torno de temas específicos, com o objetivo de evitar que a universidade se transformasse em mais um espaço de asfixia do pensamento. Era uma boa estratégia.

Em um desses semestres, escolhi o trabalho como tema central. Ao investigar a origem da palavra – porque professor aprende mais do que ensina – descobri que uma de suas possíveis raízes está no tripalium, instrumento de suplício utilizado na Antiguidade para punir condenados ou escravos fugitivos. Tratava-se de uma estrutura de madeira formada por três estacas: duas cruzadas em X e uma terceira fincada verticalmente no chão. Semelhante a um asterisco, ela servia para imobilizar a pessoa durante castigos que podiam variar de chicotadas à morte na fogueira.

Com o passar do tempo, a ideia associada ao tripalium teria sido vinculada ao esforço extremo, ao sofrimento e ao sacrifício, dando origem, segundo essa interpretação etimológica, ao conceito de trabalho. Talvez daí venha uma noção tão persistente e difundida: a do trabalho como forma de tortura.

II

Faz tempo que a história universal coincide com a história do trabalho. A ação de transformar recursos para sobreviver foi empurrando o mundo no tempo, estabelecendo os seus cimentos no espaço e instituindo ordens sociais que, com o surgimento da Modernidade, passaram a ser chamadas de civilização – um significante que não envelheceu e cujo significado Friedrich Nietzsche (1873) expandiu ao propor a categoria de edifício da civilização: camadas e camadas de regras, códigos e deveres que cimentam a vida social (os direitos, é claro, chegaram tarde).

Eduardo Galeano escreveu As veias abertas da América Latina (1971) não apenas para provar que a nossa história coletiva não pertence às narrativas europeias. O escritor uruguaio fez muito mais: com palavras, ergueu diante de nós essas veias destroçadas e o seu – o nosso – sangue ainda quente jorrando no horizonte. Cada leitura dessa obra é incômoda, tanto pela sua verdade odiosa quanto pelas consequências da rapinagem colonial, que segue roubando a nossa paz.

A biografia pindorama também coincide com a história do trabalho, mas com uma peculiaridade importante: “a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já foi dito, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial” (Galeano, 1971: 19). É neste quadro que a escravidão deve ser entendida como a primeira experiência massiva de trabalho e de capitalismo global. Foi pela espoliação dos povos negros e indígenas que se levantou a inominável acumulação de mão de obra (forçada) e de recursos pelos quais Espanha e Portugal não pagaram, bem como os lucros pornográficos obtidos por aquelas monarquias. Para melhor explicar a dimensão mercantil do projeto colonial, Eduardo Galeano chamou-a de acumulação originária – o conceito fala por si.

III

Como nada escapa à roda dentada do capitalismo, o trabalho, é muito transformado em produto, agora é vendido como pulsão criativa: você pode fazer o que gosta, a sua profissão pode dar prazer; seja livre e dono do seu negócio; se você realmente quer, você consegue. Por que não?

Por que não? Eu respondo: não, porque esse é um privilégio de pessoas ricas que, via de regra, não trabalham (nos sentidos etimológico e concreto da palavra); não, porque, embora possível, essa será sempre a exceção das exceções; não, porque o trabalho escravo é um projeto que atravessa as eras históricas, persiste da Antiguidade à Pós-Modernidade; não, porque trabalhar cansa e, enquanto viver for o equivalente a trabalhar para o enriquecimento alheio, a vida seguirá sendo cansativa. E, ao contrário do que a grande boca neoliberal anuncia, a suposta pulsão de vida gera pulsão de morte, essa força que “leva o sujeito a se colocar repetitivamente em situações dolorosas” (Roudinesco & Plon, 1998: 631). Os condenados da terra brasilis de ontem e de hoje trabalham para viver e, ao mesmo tempo, morrem de trabalhar. Esse ouroboros é o motor das forças pulsionais destrutivas que causam o mal-estar coletivo, sobretudo depois de jornadas extenuantes e mal remuneradas.

Posso elencar muitos outros motivos para demonstrar por que não podemos aceitar a romantização do trabalho: a reforma trabalhista aprovada por Javier Milei na Argentina, a assimetria salarial assentada em desigualdades de gênero, raça e classe, o custo de vida sempre por cima das possibilidades salariais, a vida estrangulada por todos os lados. Muitas pessoas perdem um pedaço do bolo para que poucas levem a maior parte – esta é a regra mais básica do capitalismo. No caso do Brasil e de outros países que foram colonizados, a exploração de recursos minerais e a escravização dos povos africanos e originários potencializaram essa regra mercantil e fizeram da Europa aquilo que ela é hoje: um conjunto de nações fundadas sobre a riqueza que não produziram, com um orgulho estratosférico e uma patética relevância política em 2026. Além disso, a Europa é também responsável por alimentar o cachorro do século XXI com visitinhas ao campo de golf dele na Escócia ou concessões frente ao assassinato de milhares de inocentes. Enquanto isso, o cachorrão ladra e morde a carne do mundo – é por isso que as veias seguem em franca abertura. Parece que o único trabalho possível, agora, é estancar tanto sangue.

O conto do vigário do terror

Não são terroristas as duas maiores organizações criminosas nacionais sancionadas pelo governo norte-americano. Não por lhes faltarem motivações ideológicas ou religiosas, como se vem apontando. O terrorismo internacional que derrubou as torres gêmeas nos EUA, explode bombas em lugares públicos e incita à autoimolação de fanáticos tem uma singularidade: não negocia. Ou seja, não é político-ideológico. Nem espiritual, pois seu apelo ao divino é mero rótulo para a vingança. Terrorismo é guerra civil permanente de desterrados.


Terror é um sentimento de pavor ou de ansiedade extrema, geralmente causado por violência ou ameaças. É uma forma radicalizada do medo, que excede a capacidade de controle e paralisa os mecanismos de defesa do indivíduo. Não se confunde com o simples temor, que não afeta a possibilidade de pensar e reagir. O terror emerge dos momentos de repressão desenfreada de um regime político ou das ações movidas pelo fanatismo, no passado e no presente. O Irgun (dissidência da Haganah, organização paramilitar sionista), que explodiu um hotel de ingleses em 1946, matando 91 pessoas, era terrorista. A Al-Qaeda é polo centralizador do terrorismo árabe. Os grupos de supremacia branca nos EUA, como os Proud Boys e a Ku Klux Klan, são estruturalmente terroristas.

Em princípio, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) não têm nada a ver com essas descrições. São máfias voltadas para o contrabando de armas, tráfico de drogas, extorsão, lavagem de dinheiro, assaltos, torturas e execuções. Nelas, porém, inexiste a dinâmica de suicídio inerente às fantasias identitárias que sustentam a mitologia de uma divindade onipotente, de um regressivo califado ou mesmo de uma branquitude unitária. Nem a matriz vingativa que rege as necropolíticas da extrema direita.

Vingança, uma pulsão propriamente terrorista, responde em parte pelo que vem acontecendo nos EUA. Trump é pretexto para que as elites brancas e os rednecks empobrecidos concretizem o seu histórico ressentimento contra imigrantes, negros, mulheres, asiáticos e latinos. Nem sequer as Forças Armadas norte-americanas escapam ao escrutínio discriminatório: as promoções de oficiais de alta patente têm excluído negros e mulheres, de modo sistemático.

O neofascismo emergente nos EUA é a face terrorista do neoliberalismo. Compreende-se, assim, que essa dimensão velada pelo marketing da democracia de exportação tente projetar sobre outros, por interesses econômico-financeiros momentâneos, a pecha do terror. Essa oblíqua classificação é decisão política, e não técnica, de um sistema imperial. O que se quer mesmo é desmoralizar a soberania jurídica brasileira, torpedeando o Pix, à sombra de escusos desígnios eleitorais. Combate ao crime é ambígua tela de fundo para uma chantagem deslavada.

Colar seriamente o rótulo sancionado a tumores sociais como PCC e CV (que os governos nacionais, sim, irresponsavelmente, deixaram crescer) implicaria auscultar a urbanidade periférica, cujo cotidiano oscila entre o medo e o terror impostos por essas facções. Ou seja, escutar politicamente a voz das comunidades submetidas. Terrorismo, se há, é só para os desamparados: são vidas paralisadas pela ditadura do crime.

Quase inverno

Quando esfria assim como agora, durmo cheia de culpa, pensando na população de rua, cada vez mais abundante por aqui. Para piorar, estou lendo “Menos que um”, de Patrícia Melo, uma abordagem honesta e sensível sobre o assunto, que me fez olhar para essas pessoas com mais atenção e menos julgamento, tentando enxergar por trás da aparência de cada um. O que será que a vida fez com elas, para torná-las esse amontoado de carne e trapos que impede a passagem nas calçadas, toma conta de alguns trechos de rua, circula pelas praças e entradas do metrô, de supermercados, de bancos? Como sobrevivem a tanto desamparo?

Ia a caminho da feira quando um deles me abordou, pedindo que lhe comprasse uma bolacha. Expliquei que não portava dinheiro, só cartão, mas ele insistiu: aqui eles aceitam, mostrando um pequeno mercado. Entramos e o deixei à vontade para escolher. Voltou rápido, com um pote de macarrão instantâneo, um refrigerante e a tal bolacha.

Tudo isso? – perguntou a moça do caixa, com irritação. Vai comer ou vai vender?

Falei que estava tudo bem, podia cobrar. Cheia de razão, ela avisou: vou abrir tudo, assim ele não vende. Fiquei tão chocada que não respondi, enquanto ela violava as embalagens e destampava a bebida. Ele pediu uma sacola de plástico para embalar tudo e partiu, agradecendo muito: era o almoço dele e da esposa que o aguardava mais adiante.

A atendente, ainda arrogante, dizia que fazia sempre assim, “cada vez que um desses aparece por aqui”. Respondi que não interessava o que ele ia fazer com as compras, pois minha parte estava feita. Ela pareceu não concordar, mas se calou.

Num degrau mais acima, estão os pobres. Moram mal, mas têm teto. Vivem mal, mas alimentam os filhos, batalham subempregos, recorrem a todo tipo de ajuda institucional. Vejo muitos deles no metrô, a maioria com os pés expostos em chinelos de borracha. Vejo pedreiros, com as roupas manchadas de tinta ou cimento, sem casacos e muito menos, meias. Vejo pais de família com sua prole, todos de chinelos. Vejo cegos pedindo esmola, enquanto os fiscais não chegam. Vejo músicos também desafiando a vigilância, entre uma estação e outra.

Há tantos brasis neste Brasil, mesmo na cidade mais rica do país. E o inverno ainda nem chegou…

Madô Martins

'Cuba está sangrando rumo ao colapso'

As quatro maiores cadeias hoteleiras estrangeiras em Cuba — as espanholas Meliá e Iberostar, a canadense Blue Diamond e a indonésia Archipelago International — reduziram ou encerraram suas operações na ilha esta semana, em meio à crescente pressão dos Estados Unidos de Donald Trump para forçar uma mudança de regime em Havana.

"O que é significativo aqui é que a pressão dos EUA finalmente forçou empresas estrangeiras com um longo histórico de envolvimento em Cuba a recuarem", disse Ricardo Torres, economista cubano da American University. No último mês, a empresa de navegação alemã Hapag-Lloyd e a francesa CMA CGM foram adicionadas a essa lista . Anteriormente, a companhia aérea espanhola Iberia e a mineradora canadense Sherritt, entre outras, também haviam anunciado sua retirada .

O embargo de petróleo imposto à ilha em janeiro de 2026 foi seguido por diversas rodadas de sanções contra organizações governamentais, políticas e empresariais, bem como altos funcionários e alguns de seus familiares — incluindo o presidente Miguel Díaz-Canel e membros da família Castro. O mais recente endurecimento das medidas também ameaça com sanções secundárias contra entidades que mantêm laços com os sancionados.

Consequentemente, o Banco Central de Cuba anunciou ontem a suspensão dos serviços financeiros internacionais da Visa e da Mastercard . O banco estrangeiro que processava os pagamentos — cujo nome não foi divulgado — rompeu sua relação com a FINCIMEX SA, braço financeiro da GAESA , grupo empresarial das Forças Armadas Revolucionárias (FAR) que está no centro das sanções de Washington.

As quatro maiores cadeias hoteleiras estrangeiras em Cuba reduziram ou encerraram suas operações, ameaçadas por sanções dos EUA.


O dia 5 de junho de 2026 marcou o prazo estabelecido pelos Estados Unidos para que empresas estrangeiras com negócios em Cuba liquidem as "operações envolvendo a GAESA", que controla grandes setores da economia cubana (entre 40 e 70 por cento, dependendo da fonte).

Ao sancionar a GAESA, os Estados Unidos "tornam muito difícil, senão impossível, para muitas empresas estrangeiras continuarem suas atividades econômicas em Cuba", especialmente no setor de turismo, explica o economista político Paolo Spadoni, especialista em turismo cubano da Universidade de Augusta e coautor de "A Indústria do Turismo Cubano: Evolução, Desafios e Perspectivas".

"É um golpe muito duro para uma economia já muito frágil", que tem o turismo, as remessas e as exportações de serviços como suas principais fontes de divisas, explica Spadoni. Ele também destaca que o governo Trump já havia criado obstáculos para as remessas de migrantes nos EUA e forçado brigadas médicas cubanas a deixarem diversos países.

À medida que os Estados Unidos demonstram sua disposição em exercer pressão máxima e o governo da ilha fica sem opções para contornar as sanções, a população cubana verá uma "intensificação da escassez e das dificuldades diárias", alerta Ricardo Torres, de Washington.

"Desta vez, as sanções visam estrangular o país, o que afeta a população, embora aparentemente sejam direcionadas apenas a funcionários sancionados", observa Mauricio de Miranda, economista cubano, professor da Universidade Javeriana em Cali, Colômbia, e codiretor do think tank CubaxCuba .

“Trump está tentando sufocar Cuba para que haja agitação social e ele tenha um pretexto para intervir”, disse o presidente cubano Miguel Díaz-Canel em entrevista ao elDiario.es . “A UE e a Espanha devem proteger suas empresas e seus cidadãos. Não podem permitir que leis extraterritoriais lhes sejam impostas por outro país”, afirmou.

Díaz-Canel também afirmou que seu governo está estudando "diferentes modelos de negócios, com cubanos que queiram investir e administrar hotéis" e pessoas de outros países ou entidades que não tenham contas ou dependência dos EUA. Mas "quem gostaria de administrar hotéis sem demanda e sem uma perspectiva clara de recuperação?", questiona Ricardo Pérez.

"Somente negociações em condições desfavoráveis, com concessões substanciais, podem mudar a situação", afirma o economista da Universidade de Washington. Cuba não pode se recuperar sem um acordo para aliviar ou suspender as sanções americanas. "E precisa ser um acordo definitivo e de longo prazo para restabelecer a segurança", diz ele. Entre outros motivos, porque o apoio de aliados importantes da ilha, como a China e a Rússia, permanecerá em grande parte simbólico.

"Desta vez, as sanções visam estrangular o país, o que afeta a população", observa o economista cubano Mauricio de Miranda.

Mas as negociações parecem ter chegado a um impasse. Os Estados Unidos priorizam a mudança de regime em detrimento de reformas econômicas de longo prazo que trariam mudanças políticas, como propuseram inicialmente. E o regime cubano, obviamente, resiste. A ideia de um acordo com compromissos mútuos agora parece "altamente improvável", avalia Paolo Spadoni, pessimista.

A situação mudou radicalmente em apenas alguns meses, observa o economista político da Universidade de Augusta. As tentativas de negociação deram lugar à ameaça de ação militar. E a "uma forma muito cruel" de promover a mudança política através da máxima pressão econômica, com o risco de colapso econômico e de uma grande crise humanitária. "É um país que está sangrando lentamente rumo ao colapso." E uma mudança de regime imposta dessa forma "leva à violência e à instabilidade", alerta Spadoni.

Segundo De Miranda, existem poucas soluções à vista, "além de uma transição pacífica para um sistema democrático, não porque o governo dos EUA o exija, mas porque o país precisa dele".

O governo cubano, no entanto, não só se recusa a ceder à pressão externa, apesar das ameaças de intervenção militar dos Estados Unidos e da acusação de assassinato contra o ex-líder Raúl Castro, como também se recusa a ceder à pressão interna: mantém centenas de presos políticos atrás das grades e continua a reprimir o descontentamento popular, que não deixou de se manifestar publicamente desde os protestos históricos e massivos de 2021.

"É a nação cubana que precisa fazer a transição para uma sociedade democrática", insiste De Miranda. "Não apoiarei nenhuma invasão, mas também não aceito a repressão do governo aos protestos. O governo perdeu muitas oportunidades. Não tem mais tempo para comprar. É hora de assumir suas responsabilidades para com a sociedade. Se não o fizer, a história não o absolverá, nem a justiça da humanidade."

Os Bolsonaro e a crônica dos soluços oportunos

Há pouco mais de um mês, para ser exato no último dia 4 de maio, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro “agradeceu ao nosso amado Pai” o fato de o “Galego” estar sem soluços e “conseguindo fazer a fisioterapia”. “Galego” é como ela habitualmente se refere ao marido, Jair Bolsonaro, condenado e preso em casa por tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Relatório médico entregue ao Supremo Tribunal Federal na sexta-feira diz que Bolsonaro voltou a sofrer de crises de soluço “acima da média” nos últimos sete dias. Algo extemporâneo? Não. Ele vive, há muito tempo, de crise de soluço em crise de soluço, fora outras anomalias. É um paciente crônico desde a facada que levou em Juiz de Fora, em 6 de setembro de 2018.

A coincidência está em que, no próximo dia 25, vence o prazo fixado pelo ministro Alexandre de Moraes para reavaliar sua decisão de transferir Bolsonaro da “Papudinha” — um espaço, digamos, VIP do Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal — para a prisão domiciliar. O ex-presidente Fernando Collor, condenado por corrupção, cumpre a pena em domicílio à beira-mar, em Maceió. Bolsonaro ainda não tem garantia alguma de que poderá cumprir a sua em definitivo.


É o que Michelle e sua família tanto suplicam. E não somente eles: os milhares de presos em todas as partes do país que padecem de condições precárias de saúde e que não dispõem de atendimento médico adequado também gostariam de obter tal benefício. Afinal, a lei deveria ser igual para todos, mas não é; ela distingue entre pobres e ricos.

Todo cuidado com os Bolsonaro é pouco, e Moraes está cansado de saber disso — e é bom jamais esquecer. Eles mentem despudoradamente em seu favor e em desfavor de seus adversários. Espalham notícias falsas e são capazes de fazer qualquer coisa, até mesmo conspirar no estrangeiro contra os interesses nacionais.

Outro membro da família deverá ser condenado este mês pelo crime de coação no curso do processo: o deputado cassado Eduardo. Já Flávio, em troca de apoio para se eleger presidente da República, ofereceu-se a Donald Trump para servir de biombo aos efeitos perversos da nova taxação a produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos.

Eleitores de carteirinha de Bolsonaro pai justificam tudo o que a família propaga, inclusive que Lula é o verdadeiro culpado pela má vontade de Trump com o Brasil. Renovo meus votos de boa saúde e vida longa a Bolsonaro para que ele pague por tudo de ruim que fez ao país.

sábado, 6 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


A primeira vítima

Há um livro clássico sobre o exercício do jornalismo em tempo de guerra. Seu título é A primeira vítima, do autor inglês Phillip Knightley, publicado em 1978 pela editora Nova Fronteira. É um ótimo trabalho de pesquisa, recomendável para quem gosta de estudar a ação dos jornalistas em momentos tumultuados. O autor não alivia: em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dá razão ao autor. Ele diz e desdiz, dia após dia, o que ocorre na sua guerra contra o Irã.

No primeiro momento, a imprensa dos Estados Unidos anunciou que a defesa do adversário estava destruída. Depois, os jornais verificaram que a realidade não era aquela. Em seguida, os jornais foram obrigados a reconhecer que o dispositivo nuclear daquele país está preservado. Trump anunciou o desaparecimento de um império, em referência à Pérsia, ofereceu sucessivos prazos para que o conflito terminasse. E não aconteceu nada. O Estreito de Ormuz continua fechado. O preço do barril de petróleo, que é a única expressão da verdade, persiste muito elevado.



No livro, Phillip Knightley conta a história de magnata da imprensa norte-americana que enviou seu melhor repórter para cobrir a guerra em Cuba, no século 19. O repórter desembarcou e procurou a guerra. Não encontrou nada. Preocupado, entrou em contato com o chefe para informar que não havia nada parecido com conflito naquele país. O chefe respondeu: "Faça seu trabalho, a guerra eu providencio". Esse exemplo é muito elucidativo dos problemas atuais da relação do Brasil com os Estados Unidos. O governo de Washington não gosta de Luiz Inácio Lula da Silva. Não é segredo para ninguém. A turma que está no poder é direita radical, inclusive na sua versão religiosa. Além disso, eles se julgam donos do mundo por decisão divina e porque possuem o mais poderoso exército do planeta.

Não há contencioso entre Brasília e Washington, mas o governo dos Estados Unidos está tentando de todas as formas providenciar a guerra comercial. Usa e abusa de falsidades e meias verdades para alcançar seu objetivo. É importante ressaltar que a América do Sul é área desconhecida nos Estados Unidos. Segundo o americano médio, todos no continente falam espanhol, como os mexicanos, que constituem o retrato do latino naquele país. A noção comum é de um Brasil onde animais selvagens andam soltos nas ruas, fugidos das grandes florestas, mas existem boas praias e mulheres lindas, com biquínis mínimos. Não fazem ideia de que o país está entre as 10 maiores economias do mundo. E tem um Produto Interno Bruto maior que o da Rússia ou do Canadá.

A ignorância é proposital. O Brasil não consta das preocupações imediatas da política externa do grande irmão do Norte. Não foi sempre assim. Quando, na Segunda Guerra Mundial, os nazistas estiveram perto de conquistar o norte da África, o comando militar dos Estados Unidos se apressou em negociar com Getúlio Vargas. Fizeram concessões importantes: construíram os aeroportos das capitais brasileiras do Norte e do Nordeste, a maior base norte-americana fora da Europa em Natal, além de conceder financiamento e tecnologia para a construção da siderúrgica de Volta Redonda. Já no governo JK, os gringos foram contra o plano de metas e a transferência da capital. No governo Geisel, manifestaram seu desagrado com a política externa brasileira que apoiou a independência de Angola e Moçambique. Naquele período, o governo brasileiro rompeu o acordo militar em vigor desde o final da grande guerra.

Donald Trump e sua turma criam obstáculos com objetivo de sobretaxar produtos brasileiros no mercado interno norte-americano. Naturalmente, seus negociadores retiraram da lista produtos que são importantes para eles, como café, suco de laranja, carnes e aviões — os da Embraer fazem sucesso lá. É uma negociação estranha, porque não se fundamenta em nenhum fato. Os Estados Unidos, para espanto de qualquer negociador isento, mantêm confortável superavit na relação comercial com o Brasil.

Na verdade, o pessoal da Casa Branca quer se infiltrar na eleição brasileira para prejudicar Lula e favorecer Flávio Bolsonaro. A diplomacia brasileira, que é experiente, está diante de problema quase insolúvel. Não há controvérsias para serem resolvidas. Existe uma questão política e ideológica. Trump invadiu a Venezuela, sequestrou Nicolás Maduro. Fez a guerra contra o Irã, isolou Cuba, mas terá dificuldades em proceder da mesma maneira contra o Brasil. O país é muito grande para se tornar mais um estado norte-americano. O tempo tende a ficar ruim nas relações entre os dois países até a realização da eleição no Brasil. E, se Lula vencer o pleito, pode piorar, porque Marco Rubio, o cubano ressentido, trabalha para suceder Donald Trump.

Patrulha no quintal

A América Latina, “quintal” dos Estados Unidos, nunca esteve tão vigiada. Em apenas 17 meses no poder, Donald Trump impôs acordos bilaterais a 17 países do subcontinente para garantir aliança militar, uso do espaço aéreo, instalação de bases, imunidade para soldados e espiões e troca de informações dos serviços de inteligência. A decisão de declarar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas não foi gesto isolado. Desde o ano passado, o objetivo de Washington é retomar, de qualquer maneira, a influência política, militar e econômica na região, palco da nova disputa com a China.


O argumento do combate ao narcotráfico abre, portanto, a porta para justificar certas ações e militarizar a América Latina integra a Estratégia de Defesa Nacional, publicada no fim de 2025. O que impressiona diplomatas é a velocidade de implementação da ofensiva que vem sendo efetivada. Em março, Trump desviou a atenção do conflito no Irã e anunciou a criação do Escudo das Américas, aliança militar com aliados submissos. O pacto, apelidado de “Otan das Américas” em certos círculos diplomáticos, envolve alguns dos governos mais leais à extrema-direita latino-americana.

Durante uma audiência discreta e sem alarde em um subcomitê do Congresso norte-americano, ainda em 17 de março, o vice-secretário do Departamento de Guerra, Joseph Humire, dimensionou o avanço. “Desde novembro de 2025”, elencou, “o Departamento de Guerra obteve compromissos bilaterais da Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, ­Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru e ­Trinidad e ­Tobago, expressando nossa intenção compartilhada de cooperar em relação à segurança de fronteiras, ao combate ao narcoterrorismo e à proteção de infraestruturas e ativos críticos contra o controle maligno.” Mais: “O Departamento de Guerra está empenhado em engajar-se ativamente com esses e outros parceiros regionais para identificar oportunidades de expandir nosso acesso, bases e sobrevoos”.

Os acordos ampliam e traduzem essa estratégia em ações concretas. O governo de Honduras seria o próximo. Depois de ter vencido a eleição com apoio de Trump, o presidente Tito Asfura anunciou a permissão para a atuação de forças militares dos EUA no país. Em uma reunião com Humire, em maio, Asfura iniciou as discussões de um plano bilateral de combate ao crime transnacional cometido em território hondurenho. Ele não nega a intenção de submeter os interesses nacionais à estratégia de segurança de Trump. Para tanto, acelerou a aprovação no Congresso de uma lei que declara integrantes de cartéis de drogas como “terroristas”. O projeto, não por acaso, foi elogiado por Washington.

O governo Trump ainda conseguiu convencer a Guatemala a permitir ações “conjuntas” das forças armadas dos dois países em território centro-americano. Mais uma vez, o argumento é de combate ao narcotráfico. Segundo o jornal The New York Times, o presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, concordou com ataques aéreos e outras ações militares em uma ligação telefônica com o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, em 19 de maio. As operações podem começar no próximo mês. “A Guatemala solicitou formalmente “cooperação em operações lideradas pelas forças de segurança guatemaltecas contra organizações de narcotráfico” em uma carta a Hegseth, destacou o gabinete do presidente em um comunicado. Confirmados os ataques, o país­ se tornaria o segundo da região a permitir ações militares conjuntas contra grupos criminosos em suas fronteiras. No começo do ano, o Equador fechou um acordo similar e os primeiros atos supostamente “conjuntos” foram realizados.

O foco na Guatemala e em Honduras não se dá por acaso. Segundo o Times, o objetivo é pressionar o México a concordar com operações conjuntas de combate ao narcotráfico. Por enquanto, a proposta é rejeitada pela presidente mexicana, Claudia Sheinbaum.

Mais ao Sul, outra prioridade é uma aproximação militar com o Chile, governado pela extrema-direita herdeira de Augusto Pinochet. Há poucas semanas, Santiago e Washington assinaram dois acordos estratégicos. Um deles permitia que os EUA “cooperassem” na exploração de minerais críticos. O segundo ia além e abria as portas para um pacto de segurança. “Assinamos dois instrumentos que, embora diferentes em seus temas, expressam a mesma convicção, a de que a cooperação bilateral profunda, fundada em valores compartilhados e benefícios mútuos, é o caminho para enfrentar os desafios do século XXI”, anunciou o ministro das Relações Exteriores, Francisco Pérez Mackenna. Segundo ele, trata-se de “um passo substancial no relacionamento entre o Chile e os EUA”. O evento contou com a presença do subsecretário de Estado norte-americano para Controle de Armas e Segurança Internacional, Thomas DiNanno, numa demonstração da importância do acordo.

Na prática, o novo pacto de segurança altera o Acordo sobre Controle de Narcóticos e Aplicação da Lei entre os dois países. Oficialmente, fortalece a capacidade do Estado chileno de combater o crime organizado transnacional. Mas permite, de fato, que dinheiro do Departamento de Estado chegue ao país, com a contrapartida de que a decisão sobre o uso dos recursos fique sob controle de ­Washington. Ou seja, estabelece-se a total ingerência norte-americana.

O mapa inclui um acordo assinado e ratificado com o Paraguai que transforma o vizinho brasileiro em uma extensão dos EUA. Uma base pode ser estabelecida nas proximidades de Assunção e os militares norte-americanos estão livres de responder às leis paraguaias. Com a Argentina, um acordo foi anunciado no mês passado, abrindo caminho para um “patrulhamento” do Atlântico Sul e a declaração do oceano que também banha o Brasil como um “bem comum global”. O acerto com o governo de Javier Milei foi duramente denunciado pela oposição, que alertou que o mar territorial da Argentina não é um “bem comum global”. Para a ala progressista, o Estado argentino tem a obrigação de exercer a jurisdição sobre o local e a “custódia dos recursos naturais”.

Enquanto diplomatas da região e mesmo de fora tentam decifrar os próximos passos, o depoimento quase reservado de Humire, em março, serve de guia. Fica claro que os cartéis são apenas uma desculpa para conter a presença de potências estrangeiras adversárias. “O presidente Trump promoveu uma mudança monumental na política externa e na segurança nacional dos EUA. Além da atividade dos cartéis, a iniciativa reflete a crescente preocupação com a influência da China, da Rússia e do Irã na região”, afirmou Humire. “A expansão dos investimentos chineses em infraestrutura com potencial de uso duplo, as redes ligadas ao Irã, associadas a financiamento ilícito e atividades por procuração, e as campanhas de desinformação russas são ameaças importantes à estabilidade regional.”

Uma operação, portanto, foi criada por Trump para desmontar essa suposta influência. “Para combater esses esforços, o Pentágono aumentou a cooperação em inteligência com governos aliados, expandiu as iniciativas conjuntas de segurança cibernética e apoiou os esforços para proteger a infraestrutura crítica do controle ou da exploração estrangeira”, adiantou. “Os compromissos militares também foram ampliados para reforçar o alinhamento com as prioridades estratégicas dos EUA.” Um dos exemplos dados por Humire foi o Panamá, que logo nas primeiras semanas do governo Trump tornou-se alvo de um processo intenso de chantagem e pressão. “Desde que o secretário Hegseth e o secretário Rubio foram ao Panamá no ano passado, a influência da China no país diminuiu significativamente. Eles perderam o acesso aos portos e não estão mais avançando com seus investimentos.”

A operação que sequestrou Nicolás Maduro na Venezuela, em 3 de janeiro, foi além de uma manobra para levar um suspeito aos tribunais por conta de seu suposto papel no tráfico de drogas. “O sucesso da operação teve múltiplos efeitos recíprocos na região, incluindo conversas de alto nível dos EUA com Cuba, a obtenção de conformidade da Nicarágua e a mudança do Caribe em uma direção favorável aos interesses dos EUA”, explicou o vice-secretário. Humire conclui: controlar a América Latina é parte central da estratégia de defesa dos EUA. “Do Ártico ao extremo-sul das Américas, a defesa da pátria dos EUA e a segurança do Hemisfério Ocidental são uma só. Em todos os domínios, o Departamento de Guerra está pronto para garantir a defesa de nossa nação, operando com base no princípio da paz por meio da força. Nossas ações demonstram uma clara determinação em proteger os interesses americanos e fazer cumprir a aplicação moderna do ‘Corolário Trump’ da Estratégia de Segurança Nacional à Doutrina Monroe.”

A guerra contra as drogas nunca foi contra as drogas. E, uma vez mais, a região constata a instrumentalização do tema para garantir uma hegemonia dos EUA na América Latina. Se necessário, à força.

Bolsonaros são soldados do trumpismo

A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.


É preciso compreender essas três dimensões da relação entre o bolsonarismo e o trumpismo. Boa parte da cobertura jornalística deu a impressão de que Flávio e Eduardo Bolsonaro mudaram a cabeça de Washington. Sem dúvida que eles pressionaram e tentaram gerar um timing adequado para a designação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas. Mas eles não comandam o pacote completo da política trumpista para a América Latina. Em vez disso, adaptam-se erraticamente ao projeto de Trump para a região, já que Flávio Bolsonaro foi escolhido como candidato oficial do governo americano à Presidência do Brasil.

A maior prova disso é que, embora soubessem que Trump ainda preparava mais maldades ao Brasil, Eduardo e Flávio não tinham total consciência do projeto de retaliação comercial, que envolveu diretamente o ataque ao extremamente popular Pix e a setores econômicos nacionais que apoiaram o bolsonarismo recentemente, mas que agora poderão perder riqueza graças à aliança entre a família Bolsonaro e o governo americano.

Por isso, após comemorar a definição de terrorismo para o crime organizado brasileiro, Flávio Bolsonaro ficou atônito e teme um efeito político similar ao do tarifaço do ano passado. Ele e seu irmão são cúmplices nessa tramoia, porém, em grande medida ocupam esse papel porque aceitaram ser liderados de forma subserviente pelo governo americano, que quer definir os rumos do Brasil. Neste sentido, são traidores da pátria que esperam ter benefícios políticos diretos tornando-se marionetes do trumpismo.

Ainda é cedo para dizer quais serão todos os efeitos dessa aliança de subordinação. Só que se houver de fato consequências econômicas do novo tarifaço, ainda mais com pressão para acabar com o Pix, Flávio perderá uma parte dos eleitores de direita, mas não numa parcela tão grande que permita a ascensão de Caiado e Zema, pois estes se contentam em ficar como linhas de apoio envergonhado ao bolsonarismo. O problema maior é outra conta: nunca mais recuperarão a maior parcela dos votos dos independentes, favorecendo claramente a candidatura de Lula.

Flávio chegaria, assim, ao segundo turno com poucas chances de vitória, a não ser que haja intervenção maior do governo americano na política brasileira. Essa última hipótese parece absurda, mas ela passa pela cabeça dos irmãos, sobretudo Eduardo, que é o grande ideólogo da família e que pretende recuperar em algum momento a cidadania brasileira, mesmo que a vida americana tenha tido um financiamento invejável para um fugitivo político.

Uma pergunta se impõe aqui: por que Flávio Bolsonaro trocou um plano que estava dando certo por outro tão incerto e que lhe imprime uma visão sórdida de traidor da pátria? Afinal, o projeto do Bolsonaro moderado, que tomava vacina e não falava palavrões, tinha fortalecido sua candidatura. Desde que fora lançado e adotou esse figurino, o Zero Um crescera nas pesquisas, tanto no primeiro como no segundo turno. Eleitores da direita não bolsonarista migraram nas pesquisas em peso para ele, que também estava abocanhando grande parte dos independentes, inclusive muitos que tinham votado em Lula em 2022. Parecia que ele conseguiria realizar a revanche do pai.

O estouro do escândalo de suas relações promíscuas com Daniel Vorcaro parece ser o fato principal. E muitas revelações ainda podem surgir dessa história envolvendo o enrolado caso de financiamento do filme “Dark Horse”, inclusive um “videozinho”, como o próprio Flávio já profetizou. O flanco da corrupção não para por aí, porque cada vez mais será conhecido o funcionamento da cleptocracia montada pelos bolsonaristas no governo do Rio, e esse lamaçal tem grandes chances de alcançar a família Bolsonaro.

Falcatruas e relações não republicanas com o mundo da política e do crime já eram conhecidas por muitos que acompanham as peripécias da família Bolsonaro desde a década de 1990. Mas o mais visado entre eles era justamente Flávio, conhecido pela rachadinha e pela contratação ou condecoração de milicianos, fatos de sua época como deputado estadual da Alerj. Mesmo assim, a aposta no bolsonarismo moderado estava ganhando tração eleitoral. Decerto que o tamanho do escândalo envolvendo sua irmandade com Vorcaro pegou muita gente de surpresa, especialmente os eleitores independentes que começavam a acreditar no novo Flávio.

Sem querer tirar o peso dos escândalos na mudança de estratégia da família Bolsonaro, talvez fosse impossível manter até o final da eleição o perfil pretensamente moderado porque isso não corresponde ao âmago do bolsonarismo. Em algum momento isso viria à tona, mesmo que de forma menos desastrosa, desde que as conversas íntimas com Vorcaro apareceram na mídia. É preciso voltar às três dimensões enunciadas no primeiro parágrafo: a nacional, a internacional e a da geopolítica trumpista para a América Latina.

No plano nacional, o bolsonarismo é marcado por ser a face da extrema direita local, defensora da ditadura militar e de seus torturadores, da tentativa de golpe de Estado, do uso de um discurso agressivo para destruir inimigos e ex-amigos pelas redes sociais, e dos motes que lhe davam maior popularidade: Deus, pátria, família e liberdade. O patriotismo das manifestações de rua, todos com camisas da seleção, era o espetáculo principal de sua ideologia. Fechando o enredo estava Jair Bolsonaro, um líder popular que odiava as instituições democráticas.

Parte desse roteiro se perdeu no meio do caminho, principalmente com o fracasso do 8 de janeiro e pelo julgamento e posterior prisão de Jair. Sobraram os filhos para sucedê-lo, mas Eduardo foi para os EUA para tentar dar um golpe de fora para dentro, ao passo que Flávio teria o papel de segurar o leme na política interna, tornando-se, ao final, o herdeiro da dinastia com a candidatura presidencial. Há a figura ascendente de Michele, mas ela não chefiará o clã enquanto o marido estiver vivo.

Toda essa história política e familiar dos Bolsonaros não se esgota nas suas relações com o Brasil. E aqui entra a segunda dimensão que sempre esteve presente: o bolsonarismo faz parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita, que atua em várias partes do mundo, principalmente nas Américas e na Europa. Um grupo político de combate à democracia e de defesa de um reacionarismo enorme frente a temas como imigração, família, religião e contra discursos progressistas de minorias, como as mulheres e os negros.

A Internacional da Extrema Direita teve como grande baluarte Steve Bannon, um dos principais inspiradores da visão política de Trump. Continua forte na Europa, com desempenhos impressionantes como recentemente nas eleições locais no Reino Unido, mas tem tido dificuldades por conta das mudanças geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e os conflitos cada vez maiores com os EUA. Daí que hoje o principal impulso a esse movimento vem da política trumpista, particularmente no âmbito da América Latina. Essa é a terceira dimensão que afeta o bolsonarismo profundo e constitui o farol da família Bolsonaro.

O segundo governo Trump é mais do que uma forma política de extrema direita. É expansionista, beligerante e intervencionista. Para a América Latina, o modelo geopolítico é a tentativa de reavivar a Doutrina Monroe - a América para os (norte-)americanos. O Brasil e o México são os maiores obstáculos a esse projeto, seja pela força política e econômica de ambos, seja em razão de suas lideranças presidenciais, que não abaixaram a cabeça e nem querem entregar o país como deseja a família Bolsonaro.

Os Bolsonaros sustentam suas ideias e projeto de poder não só no território nacional. Eles têm seus alicerces principais fora do Brasil, seja na Internacional da Extrema Direita, seja cada vez mais na sua ligação subserviente com o governo Trump. A família Bolsonaro é soldada do trumpismo, e fará tudo para agradá-lo, a fim de ter o apoio do governo americano, das mais diferentes formas, para a eleição presidencial brasileira.

Flávio Bolsonaro foi chamado inicialmente de preposto do pai. Mas hoje se percebe, depois do tour em Washington pago com dinheiro público brasileiro e das decisões do governo Trump contra o Brasil, que no momento é Eduardo Bolsonaro o verdadeiro chefe da estratégia política do clã bolsonarista. Acabou-se o bolsonarismo moderado e restou a extrema direita pura comandada pelo trumpismo.

As fronteiras começam na nossa cabeça e é aí que as temos de cancelar

Não é, com certeza, por acaso, que Vila Nova de Cerveira acolhe em 2026 a XXIV Bienal Internacional de Arte sob o mote “Territórios sem Fronteira”. Cai mesmo no momento certo, numa altura em que no mundo há quem tudo faça para erguer mais muros.

Ao homenagear Silvestre Pestana, um artista madeirense, poeta, performer e pioneiro da videoarte em Portugal, que faz da transgressão de fronteiras políticas, tecnológicas, disciplinares e geográficas, a matéria da sua arte, a Bienal desafia-nos a olhar para a fronteira de outra forma.


Não como um risco qualquer num mapa, mas como um lugar onde entram em disputa a memória e a identidade. Onde se cruzam o conflito, o reconhecimento, o que nos é familiar e o que nos assusta por ser desconhecido. Obriga-nos a perguntar: que formato terão os nossos mapas quando deixarmos de aceitar que a humanidade se possa dividir em parcelas, como num atlas?

Ao ler sobre a Bienal, lembrei-me que nos meus tempos de criança, eu achava que as fronteiras eram linhas grossas desenhadas nos mapas da escola, daquelas traçadas com régua que separam o mundo por cores.

Não percebia por que razão não podíamos simplesmente passar de um lado para o outro. Afinal, dos dois lados havia pessoas que riam e choravam, miúdos com os mesmos medos e a mesmíssima vontade de brincar.

Mais tarde, caí na realidade e percebi que aquelas linhas tinham muita história. Eram decisões frias, tomadas em gabinetes muito longe de quem realmente trabalhava a terra e das vozes que nela entoavam os seus cantares. Percebi que havia gente a ser arrancada de casa, não por querer ir embora, mas porque alguém, algures, decretou que ali já não era o seu lugar. Fui aprendendo que as fronteiras se desenham com tinta ou com arame farpado, mas também se constroem com o medo, com burocracia e com uma dose enorme de silêncio e neutralidade.

Com o tempo, a coisa tornou-se ainda mais clara: há fronteiras que nem sequer cabem num mapa. São aquelas que se levantam contra quem vem de fora, as que tratam os corpos dos migrantes como um problema estatístico, e não como pessoas à procura de um lugar e uma oportunidade para viver.

E há ainda outras, quase invisíveis, que nos tentam encurralar o pensamento.

Hoje em dia, dou por mim a reparar em como a própria tecnologia e a Inteligência Artificial começam, de mansinho, a decidir por nós. Escolhem o que vemos, o que lemos, o que pensamos. Às vezes, dão a ilusão de que a criatividade humana se tornou dispensável.

Se calhar, esta é que é a fronteira mais perigosa de todas: aquela que se instala sem darmos por isso.

Se calhar, crescer enquanto indivíduos e enquanto sociedade é precisamente isto: aprender a ver onde estão os muros e recusar o hábito de viver com eles.

As fronteiras nunca foram uma inevitabilidade. São escolhas. São construções. São histórias que nos contam vezes sem conta até acharmos que sempre funcionou assim.

Há quem as defina e há quem se mude para as atravessar. Há quem as aceite e há quem desconfie delas.

E depois há quem teime simplesmente em imaginar o que existirá quando as linhas deixarem de ser mais fortes do que as pessoas que tentam separar.

É um sonho antigo, que passa de geração em geração. Talvez o meu seja o de deixar aos meus netos, e aos netos de todos nós, um mundo onde o mapa não mande mais do que a vida. Exatamente como John Lennon imaginou e cantou: um lugar sem barreiras perante a dignidade humana.

Para onde o homem caminha

Acho que Noah Harari é hoje, se não o mais importante, um dos mais significativos pensadores da atualidade. Em seu livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, Noah diz que o homem é um “acidente biológico”, e que deve desaparecer, devido a sua irracionalidade, possivelmente em “um século ou mais”, dado os problemas e riscos que gera para si mesmo.

Nós nos auto denominamos como “Homo Sapiens”, em contraposição à todos os seres vivos do planeta.

Lutamos contra os “Neandertais”. O “Homem de Neandertal” era alto, forte, olhos verdes, e acordava cedo. O “Homo Sapiens” era mais baixo, mais fraco, olhos castanhos e negros, e acordava mais tarde. Um pouco preguiçoso. O “primeiro inglês”, há 10.000 anos atrás, como na mostra do Museu de História Natural de Londres, tinha pele negra, começando a clarear, cabelos enrolados, olhos azulados, na transformação do negro para o branco pela despigmentação da pele por mudanças alimentares da carne para o peixe e menor incidência do sol. Desbotou-se.


Miscigenamos com os “Neandertais” há 50 mil anos atrás, e os eliminamos 2 mil anos depois. Éramos mais inteligentes e mais ágeis, nossas lanças eram mais leves e perfurantes. Nossa primeira guerra territorial e geopolítica de proporções. Tomamos o planeta para nós.

Segundo o livro “What every person should know about war”, de Chris Hedges, dos últimos 3.400 anos da história tivemos somente 268 anos de paz, 8% do tempo total dos tempos da eterna guerra.

Por sinal, a ideia de racionalidade e progresso surge com Francis Bacon na Inglaterra na virada do século XVI e se acentua durante a Revolução Industrial, conforme descrito nos artigos de Paulo Paiva. O Iluminismo Francês pressupõe uma racionalidade que não temos, e coloca-nos em situação de amargo diante do infortúnio das limitações ecológicas com as quais nos deparamos, inexoravelmente, rumo à nossa autodestruição.

Somos um belo planeta, com terra, água e ar, estes dois últimos cada vez mais rarefeitos. A ecologia não é uma preocupação para o homem, posto que o lucro imediato supera a expectativa do encurtamento futuro da sobrevivência dos nossos descendentes, ou decadentes.

O “Relógio do Juízo Final”, ou o “Doomsday Clock”, originalmente criado em 1947 por Cientistas da Universidade de Chicago que participaram do Projeto Manhattan, aponta hoje que estamos a 85 segundos da “Meia Noite”, a marca mais próxima até hoje do marco hipotético para a destruição do mundo, devido às armas nucleares e crise climática, nesta ordem. O desespero puxa o gatilho.

Talvez fiquemos no futuro como os hominídeos do filme “A Máquina do Tempo”, de 1960, de George Pal baseado no livro de H.G. Wells, onde o homem fica reduzido a um estado monstruoso ou letárgico, como bem caracterizado no filme.

Chamar de “Sapiens” o devaneio atual é atribuir a ideia de “racionalidade” àquilo que não se tem. “O homem é o lobo do homem”, nas palavras de Hobbes, no rumo da auto destruição, onde o homem mata o homem, e cria as próprias condições que finalmente o eliminem

Só nos resta, para aqueles que conseguem ainda rir, somente cantar.

Como na música de Gilberto Gil,

“Poetas, seresteiros, namorados, correi,
É chegada a hora de escrever e cantar,
Talvez as derradeiras noites de luar”

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Nossos ingratos amigos

Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump — só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.

Começou pela viagem do ex-presidente Theodore Roosevelt à Amazônia, em 1913. Escoltado pelo general Rondon, Roosevelt passou sete meses na floresta fazendo mapeamento estratégico, cartografando rios e coletando um mundo de plantas e animais para seus museus e instituições. Pegou diarreia, malária, infecções e quase levou a breca, mas voltou com um conhecimento dos recursos do Brasil de que até então ninguém por lá suspeitava.

Os americanos logo souberam que não éramos uma república de bananas. Um empreendedor chamado Percival Farquhar veio para cá no começo do século 20 e, pelos 30 anos seguintes, tomou nossos setores de energia elétrica, navegação, extração de minério, criação de gado, abertura de estradas e, por causa destas, derrubou milhões de acres de floresta nativa para explorar madeira. Aliás, o minério e a energia elétrica foram dois setores que os americanos levaram décadas para nos devolver. Era ou não era ser amigo dos EUA?

Minha geração foi tão amiga dos EUA que aprendemos tudo sobre Flecha Ligeira e nada sobre Arariboia. Apaixonamo-nos por Chaplin, Louis Armstrong, Duke Ellington, Bing Crosby, Fred Astaire, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, os Irmãos Marx, Glenn Miller, Frank Sinatra, Humphrey Bogart, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Doris Day, Gene Kelly, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk etc. etc. etc. até Woody Allen.

Somos um país de jeans, tênis e boné ao contrário, comendo cheeseburger. Na verdade, de tanto amor pelos EUA, tudo que queremos é ser americanos. Flávio Bolsonaro, amigo do Rubio, já conseguiu.

A estupidez artificial

“Acabei com um namorado porque descobri que ele escrevia as mensagens que me enviava com o ChatGPT.” O desabafo, numa roda de mulheres a meio de uma conversa que tinha escorregado para as exigências digitais do mundo, foi recebido entre caras abertas de espanto e risos constrangidos. “Ele era do tipo calado, parecia interessante. Mas mandava mensagens que não faziam sentido. Pensei que estava a ficar maluca, ou que ele era maluco.” Ela, mulher inteligente, com o tipo de beleza que faz parar salas, deu por si a ter uma relação com um (mau) simulacro de inteligência. Ficámos atónitas, incrédulas, aturdidas pela ideia de que há quem não se dê sequer ao trabalho do amor, quem queira namorar por procuração digital, quem renuncie ao que nos torna humanos, querendo talvez mascarar as falhas (reais ou imaginadas) que são a verdadeira matéria das paixões que valem a pena.


No dia a seguir a esta conversa, fui almoçar a casa de uns amigos. O arroz estava ótimo. Quis saber a receita. “É do ChatGPT”, responderam-me, enquanto me iam explicando como cada um deles se tinha tornado verdadeiramente um “gestor de agentes”. Estes “agentes” não usam gabardines nem pedem Martinis. São produtos de Inteligência Artificial, desenhados para executar tarefas, na maior parte dos casos repetitivas ou que implicam a análise massiva de dados. Como qualquer estagiário, precisam de quem lhes dê ordens, os oriente e lhes reveja o trabalho. E estes meus dois amigos passam cada vez mais tempo a fazê-lo. “Assim, é fácil ser cinco vezes mais produtivo”, diz-me ele, que graças à IA consegue desenvolver soluções informáticas muito mais rapidamente e com muito menos gente. “Fico com mais tempo livre. Mas também me faz confusão que a certa altura o meu trabalho seja corrigir o dos agentes”, desabafa ela, que está na área do marketing e que começa a perceber que não é só trabalho de sapa que calha a estes “agentes”. Eles são cada vez mais capazes de fazer “trabalho criativo”, mesmo que seja impossível escrevê-lo sem usar aspas, porque estamos a falar de dispositivos que, na prática, constroem tudo com modelos de previsão estatística depois de analisar quantidades gigantescas de dados.

Há pouco tempo, vi um vídeo de operários indianos com uma espécie de viseira presa à cabeça, que uma repórter da CNN explicava serem dispositivos para recolher informação sobre o seu trabalho manual para alimentar robots operados por Inteligência Artificial. Na mesma reportagem, mostrava-se como a Índia tem sido palco de protestos, nem sempre pacíficos, contra as brutais condições de exploração dos trabalhadores. Mas todos os que usam programas de Inteligência Artificial para procurar receitas, escrever emails, preparar listas de afazeres ou analisar tabelas de Excel estão, no fundo, a fazer a mesma coisa: a treinar estes modelos para se tornarem descartáveis. Mais do que isso: estão ativamente a deixar de usar competências cognitivas. E acho que todos sabemos o efeito que o Google já teve na nossa memória. Deixámos de nos preocupar com a ideia de memorizar alguma coisa porque sabemos que podemos “googlá-la”. Problema? Os resultados do Google têm vindo a piorar substancialmente, porque este motor de pesquisa é também um negócio (na verdade, é um conglomerado de empresas), que ganha tanto mais dinheiro quanto mais tempo nos mantiver agarrados a ele. Logo, a eficácia não é propriamente a melhor amiga do negócio.

Também era, em parte, de negócio que falava Olga Tokarczuk, vencedora do Prémio Nobel da Literatura, quando confessou recorrer à Inteligência Artificial para acelerar o seu processo de escrita. Tokarczuk não usa a IA porque não sabe escrever, usa-a porque o mercado editorial, com a sua voragem de novidade e o baixíssimo pagamento aos escritores, obriga quem vive da escrita a ser rápido na produção, ao mesmo tempo que se desdobra em palestras pagas para sobreviver. O problema não é uma autora que ganhou o Nobel usar a IA como assistente na escrita, o problema é quantidade de jovens (e menos jovens) que está a desistir de usar as ferramentas mentais necessárias para escrever.

Como quase tudo no neoliberalismo, nada disto é um erro ou o produto de um acaso. E como quase sempre nesta era dos oligarcas tecnológicos, as intenções não estão ocultas. Já foram declaradas. “Vemos um futuro em que a inteligência é um produto de consumo, como a energia ou a água. E as pessoas vão comprá-la a empresas como a nossa para a usarem”, disse Sam Altman, CEO da OpenAI.

Vou ignorar a forma como a “água”, um recurso essencial à vida, é posta nesta equação e concentrar-me na ideia de que vamos precisar de comprar inteligência. Quem é que precisa de comprar aquilo com que nasceu? A resposta é simples e testada com sucesso há décadas pelo capitalismo: criando uma nova necessidade. Mas como é que se cria a necessidade de “inteligência”? Garantindo que a que temos naturalmente não se desenvolve completamente ou, pelo menos, que não é desenvolvida em setores suficientemente grandes da população para ter um mercado.

Basta pensar na frase de Sam Altman para perceber quão questionável é a utilização de IA nas salas de aula. A educação é inimiga dos objetivos estratégicos destas empresas. Tudo o que a OpenAI não quer são seres com pensamento crítico, capazes de desenvolver por si mesmos as tarefas intelectualmente mais exigentes e, já agora, as emocionalmente exigentes também, uma vez que eles querem igualmente vender-nos os tais “agentes” que tomarão conta da nossa vida amorosa, respondendo a mensagens, escritas talvez por outros “agentes”, num mundo em que já não se percebe bem quem namora quem, mas se sabe exatamente para onde é que vai o dinheiro gerado por todas essas interações.

Para que este modelo de negócio funcione, é essencial criar humanos estúpidos. A Inteligência Artificial não tem o mesmo mercado sem uma boa dose de estupidez artificial. E talvez não seja por acaso que a grande contestação à ideia de que a IA é uma “inevitabilidade” esteja a desenvolver-se nas universidades. Nos últimos dias, houve vários protestos de universitários nos Estados Unidos e no Canadá contra conferencistas que foram apresentar esta tecnologia como parte “inevitável” do progresso. Numa das manifestações, em Vancouver, alguém exibia um cartaz com a frase “Usem o vosso cérebro”. E o Wall Street Journal escrevia: “A rebelião americana contra a IA está a ganhar vapor.”

Parte desta revolta vem do facto de ser evidente que muitas, mesmo muitas, profissões se tornarão rapidamente obsoletas (basta ver os números de despedimentos em empresas como a Meta ou a Amazon para perceber a ameaça). Esse é um problema social que põe o capitalismo perante uma contradição: quem será consumidor se deixar de haver trabalhadores? Talvez haja soluções para isso (várias estão a ser estudadas). Mas muito mais inquietante é o impacto que a IA terá naquilo que significa ser humano. Nas nossas relações com os outros, nas nossas capacidades cognitivas e emocionais.

É por isso que é essencial ser analógico para ser subversivo. Por muito que possam (e devam) usar-se as ferramentas tecnológicas do nosso tempo, não podemos fazê-lo de forma inconsciente. E sobretudo não devemos tornar-nos dependentes delas a ponto de perdermos a nossa humanidade. A tecnologia não é politicamente neutra nem deve ser usada acriticamente, como se o nosso destino coletivo fosse uma espécie de fatalidade desenhada pelos deuses, por muito que os techbros (que se veem como deuses) gostassem que assim fosse.

Cabe-nos questionar, cabe-nos exigir ao poder político, a capacidade de regulação e supervisão destes mecanismos. Cabe-nos não nos demitirmos de executar as tarefas que ajudam a construir a nossa identidade, cabe-nos usar o cérebro com que nascemos e estimulá-lo para que se mantenha ativo. E, já agora, cabe-nos escrever as nossas próprias mensagens de amor.

Os primeiros impérios privados da História

A Space X perde dinheiro a um ritmo histórico, mas é avaliada pelos investidores como se já dominasse o mundo.

Antes do final desta década, Elon Musk terá uma fortuna líquida superior ao PIB conjunto de 150 países. Esse processo vai acelerar-se, nas próximas semanas, com a entrada da Starlink em bolsa. Mas o que vem aí não é mais um surto de euforia nos mercados – é uma mudança de regime e uma nova ordem privada mundial.

Em junho, uma única empresa vai pedir ao mercado que a avalie em quase dois biliões de dólares, mais do que tudo o que Portugal produz em seis anos. Chama-se SpaceX, e é apenas a primeira da fila. A OpenAI segue em setembro, a Anthropic antes do final do ano, com a Stripe, a Databricks e a Anduril logo atrás. É o maior ciclo de IPOs tecnológicos da História, e quem o tratar como mais um surto de euforia de mercado vai perder o que realmente importa. O que aí vem não é um ciclo de bolsa. É uma mudança de regime, empacotada como notícia de negócios.

Quem paga a conta socioambiental da corrida global pelo domínio tecnológico?

A nova corrida global pelo domínio das tecnologias de inteligência artificial (IA) vem sendo utilizada para intensificar mais uma race to the bottom no campo das políticas de sustentabilidade. No debate sobre tecnologia, o país que sediou a COP 30 em 2025, retrocede ao continuar tratando o desenvolvimento e a sustentabilidade como polos opostos de uma mesma balança. Enquanto legisladores barganham o custo ambiental em nome do “progresso”, comunidades afetadas pelo extrativismo predatório já enfrentam, no presente, os efeitos concretos da cadeia produtiva que sustenta a infraestrutura física da internet.

A recente aprovação do PL 2.780/2024 na Câmara dos Deputados retoma o debate sobre a posição que o Brasil adotará (ou deveria adotar) diante da disputa pelos recursos minerais que servem de matéria-prima para as tecnologias de fronteira. O texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado, mas já sinaliza um movimento de fragilização das políticas ambientais em prol do chamado desenvolvimento.

À primeira vista, a menção à “promoção do desenvolvimento sustentável”, “responsabilidade socioambiental” e “energia limpa” dissimula que, em essência, o PL cria novos incentivos fiscais e um fundo bilionário para subsidiar a exploração mineral com foco em empresas estrangeiras. Na prática, o Projeto dá nova roupagem à questionável Política Pró-Minerais Estratégicos (Decreto n. 10.657/2021), privilegiando a exploração mineral sem licenciamento ambiental adequado e fragilizando direitos territoriais de populações diretamente afetadas.


O interesse no território brasileiro não é repentino, mas tornou-se mais evidente no contexto recente de pressões tarifárias na rodada das negociações entre diplomatas brasileiros e dos Estados Unidos em torno do tarifaço anunciado por Donald Trump, cujo encarregado de negócios da Embaixada dos EUA no Brasil manifestou interesse do país nos minerais críticos brasileiros. Essas mobilizações revelam que há fortes interesses geopolíticos por trás da avalanche de tarifas trumpistas, o que também pode ser observado nos discursos norte-americanos sobre a Groenlândia, a República Democrática do Congo e, agora, o Brasil.

O presságio nas negociações emerge em meio à forte ascensão da China no setor tecnológico, especialmente por seu vantajoso destaque na cadeia produtiva desses artefatos tecnológicos em emergência, configurando um espremido corredor de dependência para os Estados Unidos. Essa movimentação é notória no lançamento do Minerals Security Partnership, iniciativa que reúne aliados como União Europeia, Japão e Canadá. A proposta busca garantir o fornecimento de minerais como lítio, cobalto, níquel e grafite, que são indispensáveis para a indústria tech, mas também são vitais para a indústria militar, refletindo uma tentativa coordenada de reduzir a dependência das cadeias de suprimento atualmente dominadas pela China.

Não obstante tal cenário global, a maior preocupação desse jogo geopolítico são seus impactos locais. Grande parte das regiões que concentram minerais críticos no Brasil coincide com áreas de proteção ambiental e territórios tradicionalmente ocupados. Cerca de 30% dos registros de minerais estratégicos estão localizados somente na Amazônia Legal. O território brasileiro é cobiçado pelos EUA por deter 23% das reservas de terras raras do mundo, enquanto a China responde por mais de 60% da produção global desses minerais e cerca de 90% do seu processamento, exercendo posição praticamente monopolista sobre a cadeia.

No entanto, o maior ponto de inflexão dessa disputa é o histórico brasileiro de flexibilizações regulatórias frágeis e disposições políticas a subordinar os marcos legais à lógica das grandes corporações. O Projeto de Lei 2.159/2021, mais conhecido como PL da Devastação, prevê a possibilidade de empreendimentos de médio e alto impacto serem liberados apenas com base na autodeclaração da empresa, sem estudos ambientais ou análise prévia do poder público.

Embora a internet evoque um imaginário abstrato, a existência da rede depende de uma infraestrutura material: cabos submarinos, data centers, energia elétrica, água e minerais críticos. A materialidade da internet e das tecnologias digitais que a estruturam dependem da exploração mineral, que estão presentes desde os componentes de microchips, até as extensas infraestruturas de conectividade responsáveis pelo armazenamento e processamento massivo de dados.

Um exemplo da concretude dessa questão se observa no caso da construção do mega data center do TikTok no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), no Ceará. Embora o empreendimento seja apresentado como estratégico para a economia e para a infraestrutura digital, sua instalação ocorre em uma região que se sobrepõe ao território reivindicado pelo povo Anacé junto à Funai. O processo de demarcação da Terra Indígena já se prolonga há mais de duas décadas, enquanto comunidades localizadas a poucos quilômetros do futuro data center convivem com os impactos e incertezas provocados pela expansão tecnológica e industrial.

Assim, a expansão da infraestrutura digital reorganiza territórios inteiros, intensifica disputas fundiárias e produz novos conflitos socioambientais. Nesse contexto, a questão em voga no nosso território é até que ponto a exploração desses minerais ocorre de forma consciente e sob quais protocolos e garantias institucionais ela se desenvolve para assegurar que nenhum dano irreparável ou direito fundamental seja violado. Ou, até mesmo, será que ainda podemos falar em “nosso território” diante de disputas geopolíticas cada vez mais intensas?

Um dos desafios mais emblemáticos enfrentados no Brasil permanece sendo as demarcações das terras indígenas, fator que torna o debate sobre a cadeia produtiva da infraestrutura da internet e de todo o aparato de conectividade ainda mais intrínseco às disputas territoriais. A discussão sobre conectividade, armazenamento de dados e segurança digital deixa, portanto, de ser apenas técnica para envolver também conflitos distributivos, disputas territoriais e os custos socioambientais que sustentam a própria existência da internet.

Apesar do estranhamento da correlação do tema com a internet, cabe enfatizar que não é possível falar de luta por direitos digitais quando a própria possibilidade do espaço digital só existe porque há uma infraestrutura material que o sustenta. Nesse sentido, a ausência de destaque a essa camada da internet faz com que muitos não vislumbrem que os direitos territoriais antecedem os direitos digitais. Esse vínculo toma proporções maiores no atual cenário de corrida global pelo domínio da inteligência artificial, que desloca forças políticas, econômicas e militares para além do âmbito nacional. Trata-se de uma disputa entre gigantes tecnológicos e potências globais que observam vantagens estratégicas no controle dessa tecnologia emergente, seja para fins civis, seja para aplicações militares.

Nesta arapuca de interesses e funcionalidades que recaem sobre o debate dos minérios críticos, já evidenciados na obra canônica da Kate Crawford, The Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence, obra que desmonta o imaginário da “nuvem” como um espaço abstrato e revela sua profunda territorialidade. A autora desloca o debate sobre inteligência artificial do plano puramente computacional para demonstrar seus custos materiais, ambientais e políticos, expondo aquilo que frequentemente permanece invisível no cálculo do custo socioambiental das tecnologias digitais que sustentam a rede.

Em matéria de mineração, a atividade extrativista nas jazidas de Carajás, na Amazônia Paraense, revela um custo ambiental que nunca se traduziu em diminuição das desigualdades econômicas ou erradicação da pobreza, tampouco diminuiu as desigualdades regionais entre norte e sul. No país dos crimes de Mariana e Brumadinho, insistir em tratar os impactos socioambientais da infraestrutura digital como externalidades inevitáveis significa reproduzir uma lógica já conhecida de privatização dos ganhos do progresso tecnológico e socialização dos custos sobre territórios historicamente vulnerabilizados.

Enquanto o debate sobre governança da internet e inteligência artificial permanece concentrado em protocolos, algoritmos, regulação de plataformas e riscos de deepfakes, as comunidades que sustentam materialmente essa infraestrutura seguem invisíveis. A corrida pelos minerais críticos não diz respeito apenas à competitividade tecnológica ou à soberania econômica, mas também à forma como decidimos quais vidas, territórios e direitos podem ser sacrificados em nome do futuro digital.

Guerra e$piritual

Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil este ano.

Quero pedir a todos que orem por Jair Messias Bolsonaro, pelo Brasil, que voltará a ser uma nação irmã de Israel.

Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus

A missão de Flávio Bolsonaro: manter viva a grife da família

Desta vez não será uma escolha difícil. Em 2018, o centenário jornal O Estado de S. Paulo definiu como difícil a escolha que os brasileiros haveriam de fazer no segundo turno das eleições daquele ano: votar em Jair Bolsonaro para presidente da República ou votar em Fernando Haddad, ex-prefeito da capital paulista? Bolsonaro era candidato com o apoio dos militares. Haddad, o candidato do PT e de Lula, que estava preso em Curitiba.


A não ser que o roteirista do filme chamado Brasil apronte mais uma surpresa — e ele gosta de aprontar —, tudo indica que, em outubro próximo, seremos forçados a escolher entre Flávio Bolsonaro, filho de quem é, e Lula, que há quatro anos derrotou o pai dele na eleição mais apertada desde o fim da ditatura de 1964. Flávio está em baixa desde que ofereceu o Brasil de bandeja a Trump. Lula está em alta, impulsionado, diga-se, pela decisão tomada por Trump de aplicar ao Brasil uma nova onda de tarifas alfandegárias. Para completar, Flávio amarga a descoberta de que era unha e carne com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil.

Feliz é o candidato que pode dar-se ao luxo de escolher seu adversário. Lula escolheu o Bolsonaro original e venceu. Lula agora, e não é de hoje, escolheu a cópia encardida de Bolsonaro e parece estar com a mão na taça. Uma ampla fatia dos brasileiros gostaria de contar com outras opções, como mostram as pesquisas. Mas as alternativas disponíveis não dão sinais de que se viabilizarão. Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos, e paramos por aqui: alguém aposta que um deles desbancará Flávio? Improvável.

Flávio não é candidato por seus próprios méritos, mas pelos de seu pai, o inventor da direita sem vergonha de se autodeclarar direita. Nunca passou pela cabeça de Flávio que um dia ele viria a ser candidato a presidente. Foi quatro vezes deputado estadual no Rio de Janeiro graças ao pai. Elegeu-se senador pegando carona na campanha presidencial do pai, assim como os seus irmãos.

De todos eles, Flávio era o mais vocacionado para fazer negócios e enriquecer. Portanto, não tem muito a perder se for derrotado por Lula. O pai deu-lhe a missão de sucedê-lo como guardião de uma parcela expressiva dos votos da direita, evitando que algum aventureiro se apossasse dela. A grife Bolsonaro não pode desaparecer; ela rende muito dinheiro à família, e dinheiro é o que importa. Isso está no DNA do clã desde o tempo das rachadinhas.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Quando a política se transforma em fé

Quando era adolescente, lembro que, certa vez, em um sábado de manhã, um grupo religioso missionário tocou a campainha de casa e fui atendê-los. Queriam me convencer da palavra de Deus. Como sempre me interessei pelo Antigo Testamento e pela arqueologia, incluindo o surgimento do ser humano, comecei o que pensei que seria uma conversa entre pessoas com opiniões diferentes, sobre quais seriam as evidências científicas de que descendíamos de Adão e Eva, e não de processos de evolução biológica. Durante semanas, todos os sábados de manhã, essas pessoas voltavam com os mesmos discursos sobre o que dizia a Bíblia, pois, para elas, tratava-se da palavra de Deus, enquanto eu buscava publicações e argumentos científicos sobre as últimas descobertas da ciência, pensando que poderia os fazer entender a diferença entre fé e ciência.

Era uma discussão interminável: não importavam as evidências nem as informações apresentadas, porque qualquer dado contrário às crenças daquelas pessoas era imediatamente negado. Depois de quase dois meses desses encontros na porta de casa, e contra a minha vontade, meu pai interveio e simplesmente disse para aqueles religiosos que não voltassem mais ou chamaria a polícia. Demorei para perceber que nunca se tratou de uma discussão de ideias, mas de uma disputa de fé. E a fé não funciona no plano racional.

Basta refletir sobre a história da humanidade para entender que o poder político sempre esteve profundamente associado à religião. Reis, imperadores e governantes legitimavam sua autoridade por meio de uma suposta conexão direta com o divino. Em alguns casos, o soberano era considerado um deus vivo; em outros, um representante de deus na Terra. Atualmente, o Vaticano é talvez um dos exemplos mais visíveis dessa lógica: os fiéis não escolhem diretamente seu líder, mas um grupo restrito de cardeais decide quem ocupará o cargo máximo. Até o momento da eleição, o futuro papa é apenas mais um homem dentro da Igreja. Mas, após o ritual, muda de nome, de vestimenta e de posição no mundo. Renasce simbolicamente investido de uma autoridade transcendente.

Em outras sociedades, o caráter sagrado do poder é depositado em determinadas famílias, estabelecendo linhagens políticas e religiosas que atravessam gerações. Em ambos os casos, o resultado é semelhante: sistemas profundamente antidemocráticos que se perpetuam em razão do sustento simbólico da fé.

As democracias modernas tentaram romper com essa lógica. Não por acaso, muitas de suas constituições estabeleceram a separação entre Estado e religião como condição fundamental para garantir a existência de cidadãos livres, e não de súditos obedientes. A política deveria transformar-se em um espaço de debate racional entre projetos, interesses e ideias, e não em uma disputa entre fiéis.

No entanto, nas últimas décadas, assistimos a um processo inverso. A política voltou a adquirir traços religiosos. Os novos pastores misturam espetáculo, fé e poder político. Já não basta controlar templos (que em muitos casos viraram fábricas de eleitores): o sonho de toda grande igreja é controlar meios de comunicação, rádios, canais de televisão e, mais recentemente, as redes sociais, com influenciadores digitais religiosos. A lógica é poderosa: convencer as pessoas de que elas não estão discutindo política, mas o bem contra o mal, Deus contra o demônio. Quando isso acontece, desaparece a possibilidade de argumentação racional. A fé não se debate; vive-se. E justamente por isso ela é uma das forças mais potentes de mobilização coletiva que existem.

Esse fenômeno de mistura entre política e religião não se limita ao Brasil. Existem exemplos em diversas partes do mundo: Irã, Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel, entre muitos outros. No mundo ocidental, vem crescendo o poder dos grupos associados ao “dominionismo”, corrente teológica e política cristã que defende que os cristãos possuem um mandato divino para ocupar posições de poder e assumir o controle das instituições civis e seculares da sociedade.


No caso brasileiro, essa situação torna-se cada vez mais visível. Uma pesquisa recente mostrou que grande parte dos eleitores do candidato presidencial Flávio Bolsonaro continua apoiando-o mesmo após as revelações sobre suas relações com figuras polêmicas e esquemas ocultos de poder. Para muitos de seus eleitores, tudo não passaria de uma invenção, uma perseguição contra alguém que se autoproclamou representante “de um projeto de Deus” para combater os inimigos da nação e da fé. O ponto central já não é se as acusações são verdadeiras ou falsas. O importante é que, para muitos seguidores, nenhuma evidência é capaz de alterar essa crença sustentada pela fé.

Seu próprio pai, Jair Bolsonaro, em 2018, deixou de ocupar uma posição política marginal para transformar-se em uma figura quase messiânica, capaz de transferir legitimidade aos filhos e a todo um campo político que depende simbolicamente dele. E é interessante fazer um paralelo com aquilo que foi mencionado anteriormente quando me referi ao processo de transformação de uma pessoa em pontífice: um sujeito comum que, já na etapa final da vida, é proclamado líder por vontade divina, em uma espécie de renascimento, passa a ter sua história recontada de forma completamente diferente (obviamente com algumas partes apagadas), e qualquer acontecimento banal de sua trajetória passa a ser reinterpretado como sinal de uma escolha direta de Deus.

Esse processo de mistura entre fé e política é profundamente preocupante porque destrói a própria base dos princípios democráticos. Quando o adversário deixa de ser visto como um oponente legítimo e passa a representar o mal absoluto, qualquer diálogo se torna impossível. A crítica é interpretada como blasfêmia; a dúvida, como traição.

Nesse contexto, o Congresso corre o risco de transformar-se em um grande templo ocupado por pastores-deputados e senadores – e agora também por ministros da mais alta corte – que falam mais em nome de verdades reveladas do que de projetos políticos e demandas populares. Pouco a pouco, a fronteira entre religião e Estado vai tornando-se cada vez mais frágil e difusa.

A história demonstra que sociedades organizadas em torno de lideranças “sagradas” tendem a produzir formas autoritárias de poder. Quando a política se transforma em fé, os cidadãos deixam de agir como sujeitos críticos e passam a comportar-se como fiéis. E ali onde a fé substitui o debate, a democracia começa lentamente a desaparecer.