sábado, 6 de junho de 2026
A primeira vítima
Há um livro clássico sobre o exercício do jornalismo em tempo de guerra. Seu título é A primeira vítima, do autor inglês Phillip Knightley, publicado em 1978 pela editora Nova Fronteira. É um ótimo trabalho de pesquisa, recomendável para quem gosta de estudar a ação dos jornalistas em momentos tumultuados. O autor não alivia: em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dá razão ao autor. Ele diz e desdiz, dia após dia, o que ocorre na sua guerra contra o Irã.
No primeiro momento, a imprensa dos Estados Unidos anunciou que a defesa do adversário estava destruída. Depois, os jornais verificaram que a realidade não era aquela. Em seguida, os jornais foram obrigados a reconhecer que o dispositivo nuclear daquele país está preservado. Trump anunciou o desaparecimento de um império, em referência à Pérsia, ofereceu sucessivos prazos para que o conflito terminasse. E não aconteceu nada. O Estreito de Ormuz continua fechado. O preço do barril de petróleo, que é a única expressão da verdade, persiste muito elevado.
No livro, Phillip Knightley conta a história de magnata da imprensa norte-americana que enviou seu melhor repórter para cobrir a guerra em Cuba, no século 19. O repórter desembarcou e procurou a guerra. Não encontrou nada. Preocupado, entrou em contato com o chefe para informar que não havia nada parecido com conflito naquele país. O chefe respondeu: "Faça seu trabalho, a guerra eu providencio". Esse exemplo é muito elucidativo dos problemas atuais da relação do Brasil com os Estados Unidos. O governo de Washington não gosta de Luiz Inácio Lula da Silva. Não é segredo para ninguém. A turma que está no poder é direita radical, inclusive na sua versão religiosa. Além disso, eles se julgam donos do mundo por decisão divina e porque possuem o mais poderoso exército do planeta.
Não há contencioso entre Brasília e Washington, mas o governo dos Estados Unidos está tentando de todas as formas providenciar a guerra comercial. Usa e abusa de falsidades e meias verdades para alcançar seu objetivo. É importante ressaltar que a América do Sul é área desconhecida nos Estados Unidos. Segundo o americano médio, todos no continente falam espanhol, como os mexicanos, que constituem o retrato do latino naquele país. A noção comum é de um Brasil onde animais selvagens andam soltos nas ruas, fugidos das grandes florestas, mas existem boas praias e mulheres lindas, com biquínis mínimos. Não fazem ideia de que o país está entre as 10 maiores economias do mundo. E tem um Produto Interno Bruto maior que o da Rússia ou do Canadá.
A ignorância é proposital. O Brasil não consta das preocupações imediatas da política externa do grande irmão do Norte. Não foi sempre assim. Quando, na Segunda Guerra Mundial, os nazistas estiveram perto de conquistar o norte da África, o comando militar dos Estados Unidos se apressou em negociar com Getúlio Vargas. Fizeram concessões importantes: construíram os aeroportos das capitais brasileiras do Norte e do Nordeste, a maior base norte-americana fora da Europa em Natal, além de conceder financiamento e tecnologia para a construção da siderúrgica de Volta Redonda. Já no governo JK, os gringos foram contra o plano de metas e a transferência da capital. No governo Geisel, manifestaram seu desagrado com a política externa brasileira que apoiou a independência de Angola e Moçambique. Naquele período, o governo brasileiro rompeu o acordo militar em vigor desde o final da grande guerra.
Donald Trump e sua turma criam obstáculos com objetivo de sobretaxar produtos brasileiros no mercado interno norte-americano. Naturalmente, seus negociadores retiraram da lista produtos que são importantes para eles, como café, suco de laranja, carnes e aviões — os da Embraer fazem sucesso lá. É uma negociação estranha, porque não se fundamenta em nenhum fato. Os Estados Unidos, para espanto de qualquer negociador isento, mantêm confortável superavit na relação comercial com o Brasil.
Na verdade, o pessoal da Casa Branca quer se infiltrar na eleição brasileira para prejudicar Lula e favorecer Flávio Bolsonaro. A diplomacia brasileira, que é experiente, está diante de problema quase insolúvel. Não há controvérsias para serem resolvidas. Existe uma questão política e ideológica. Trump invadiu a Venezuela, sequestrou Nicolás Maduro. Fez a guerra contra o Irã, isolou Cuba, mas terá dificuldades em proceder da mesma maneira contra o Brasil. O país é muito grande para se tornar mais um estado norte-americano. O tempo tende a ficar ruim nas relações entre os dois países até a realização da eleição no Brasil. E, se Lula vencer o pleito, pode piorar, porque Marco Rubio, o cubano ressentido, trabalha para suceder Donald Trump.
No primeiro momento, a imprensa dos Estados Unidos anunciou que a defesa do adversário estava destruída. Depois, os jornais verificaram que a realidade não era aquela. Em seguida, os jornais foram obrigados a reconhecer que o dispositivo nuclear daquele país está preservado. Trump anunciou o desaparecimento de um império, em referência à Pérsia, ofereceu sucessivos prazos para que o conflito terminasse. E não aconteceu nada. O Estreito de Ormuz continua fechado. O preço do barril de petróleo, que é a única expressão da verdade, persiste muito elevado.
No livro, Phillip Knightley conta a história de magnata da imprensa norte-americana que enviou seu melhor repórter para cobrir a guerra em Cuba, no século 19. O repórter desembarcou e procurou a guerra. Não encontrou nada. Preocupado, entrou em contato com o chefe para informar que não havia nada parecido com conflito naquele país. O chefe respondeu: "Faça seu trabalho, a guerra eu providencio". Esse exemplo é muito elucidativo dos problemas atuais da relação do Brasil com os Estados Unidos. O governo de Washington não gosta de Luiz Inácio Lula da Silva. Não é segredo para ninguém. A turma que está no poder é direita radical, inclusive na sua versão religiosa. Além disso, eles se julgam donos do mundo por decisão divina e porque possuem o mais poderoso exército do planeta.
Não há contencioso entre Brasília e Washington, mas o governo dos Estados Unidos está tentando de todas as formas providenciar a guerra comercial. Usa e abusa de falsidades e meias verdades para alcançar seu objetivo. É importante ressaltar que a América do Sul é área desconhecida nos Estados Unidos. Segundo o americano médio, todos no continente falam espanhol, como os mexicanos, que constituem o retrato do latino naquele país. A noção comum é de um Brasil onde animais selvagens andam soltos nas ruas, fugidos das grandes florestas, mas existem boas praias e mulheres lindas, com biquínis mínimos. Não fazem ideia de que o país está entre as 10 maiores economias do mundo. E tem um Produto Interno Bruto maior que o da Rússia ou do Canadá.
A ignorância é proposital. O Brasil não consta das preocupações imediatas da política externa do grande irmão do Norte. Não foi sempre assim. Quando, na Segunda Guerra Mundial, os nazistas estiveram perto de conquistar o norte da África, o comando militar dos Estados Unidos se apressou em negociar com Getúlio Vargas. Fizeram concessões importantes: construíram os aeroportos das capitais brasileiras do Norte e do Nordeste, a maior base norte-americana fora da Europa em Natal, além de conceder financiamento e tecnologia para a construção da siderúrgica de Volta Redonda. Já no governo JK, os gringos foram contra o plano de metas e a transferência da capital. No governo Geisel, manifestaram seu desagrado com a política externa brasileira que apoiou a independência de Angola e Moçambique. Naquele período, o governo brasileiro rompeu o acordo militar em vigor desde o final da grande guerra.
Donald Trump e sua turma criam obstáculos com objetivo de sobretaxar produtos brasileiros no mercado interno norte-americano. Naturalmente, seus negociadores retiraram da lista produtos que são importantes para eles, como café, suco de laranja, carnes e aviões — os da Embraer fazem sucesso lá. É uma negociação estranha, porque não se fundamenta em nenhum fato. Os Estados Unidos, para espanto de qualquer negociador isento, mantêm confortável superavit na relação comercial com o Brasil.
Na verdade, o pessoal da Casa Branca quer se infiltrar na eleição brasileira para prejudicar Lula e favorecer Flávio Bolsonaro. A diplomacia brasileira, que é experiente, está diante de problema quase insolúvel. Não há controvérsias para serem resolvidas. Existe uma questão política e ideológica. Trump invadiu a Venezuela, sequestrou Nicolás Maduro. Fez a guerra contra o Irã, isolou Cuba, mas terá dificuldades em proceder da mesma maneira contra o Brasil. O país é muito grande para se tornar mais um estado norte-americano. O tempo tende a ficar ruim nas relações entre os dois países até a realização da eleição no Brasil. E, se Lula vencer o pleito, pode piorar, porque Marco Rubio, o cubano ressentido, trabalha para suceder Donald Trump.
Patrulha no quintal
A América Latina, “quintal” dos Estados Unidos, nunca esteve tão vigiada. Em apenas 17 meses no poder, Donald Trump impôs acordos bilaterais a 17 países do subcontinente para garantir aliança militar, uso do espaço aéreo, instalação de bases, imunidade para soldados e espiões e troca de informações dos serviços de inteligência. A decisão de declarar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas não foi gesto isolado. Desde o ano passado, o objetivo de Washington é retomar, de qualquer maneira, a influência política, militar e econômica na região, palco da nova disputa com a China.
O argumento do combate ao narcotráfico abre, portanto, a porta para justificar certas ações e militarizar a América Latina integra a Estratégia de Defesa Nacional, publicada no fim de 2025. O que impressiona diplomatas é a velocidade de implementação da ofensiva que vem sendo efetivada. Em março, Trump desviou a atenção do conflito no Irã e anunciou a criação do Escudo das Américas, aliança militar com aliados submissos. O pacto, apelidado de “Otan das Américas” em certos círculos diplomáticos, envolve alguns dos governos mais leais à extrema-direita latino-americana.
Durante uma audiência discreta e sem alarde em um subcomitê do Congresso norte-americano, ainda em 17 de março, o vice-secretário do Departamento de Guerra, Joseph Humire, dimensionou o avanço. “Desde novembro de 2025”, elencou, “o Departamento de Guerra obteve compromissos bilaterais da Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, expressando nossa intenção compartilhada de cooperar em relação à segurança de fronteiras, ao combate ao narcoterrorismo e à proteção de infraestruturas e ativos críticos contra o controle maligno.” Mais: “O Departamento de Guerra está empenhado em engajar-se ativamente com esses e outros parceiros regionais para identificar oportunidades de expandir nosso acesso, bases e sobrevoos”.
Os acordos ampliam e traduzem essa estratégia em ações concretas. O governo de Honduras seria o próximo. Depois de ter vencido a eleição com apoio de Trump, o presidente Tito Asfura anunciou a permissão para a atuação de forças militares dos EUA no país. Em uma reunião com Humire, em maio, Asfura iniciou as discussões de um plano bilateral de combate ao crime transnacional cometido em território hondurenho. Ele não nega a intenção de submeter os interesses nacionais à estratégia de segurança de Trump. Para tanto, acelerou a aprovação no Congresso de uma lei que declara integrantes de cartéis de drogas como “terroristas”. O projeto, não por acaso, foi elogiado por Washington.
O governo Trump ainda conseguiu convencer a Guatemala a permitir ações “conjuntas” das forças armadas dos dois países em território centro-americano. Mais uma vez, o argumento é de combate ao narcotráfico. Segundo o jornal The New York Times, o presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, concordou com ataques aéreos e outras ações militares em uma ligação telefônica com o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, em 19 de maio. As operações podem começar no próximo mês. “A Guatemala solicitou formalmente “cooperação em operações lideradas pelas forças de segurança guatemaltecas contra organizações de narcotráfico” em uma carta a Hegseth, destacou o gabinete do presidente em um comunicado. Confirmados os ataques, o país se tornaria o segundo da região a permitir ações militares conjuntas contra grupos criminosos em suas fronteiras. No começo do ano, o Equador fechou um acordo similar e os primeiros atos supostamente “conjuntos” foram realizados.
O foco na Guatemala e em Honduras não se dá por acaso. Segundo o Times, o objetivo é pressionar o México a concordar com operações conjuntas de combate ao narcotráfico. Por enquanto, a proposta é rejeitada pela presidente mexicana, Claudia Sheinbaum.
Mais ao Sul, outra prioridade é uma aproximação militar com o Chile, governado pela extrema-direita herdeira de Augusto Pinochet. Há poucas semanas, Santiago e Washington assinaram dois acordos estratégicos. Um deles permitia que os EUA “cooperassem” na exploração de minerais críticos. O segundo ia além e abria as portas para um pacto de segurança. “Assinamos dois instrumentos que, embora diferentes em seus temas, expressam a mesma convicção, a de que a cooperação bilateral profunda, fundada em valores compartilhados e benefícios mútuos, é o caminho para enfrentar os desafios do século XXI”, anunciou o ministro das Relações Exteriores, Francisco Pérez Mackenna. Segundo ele, trata-se de “um passo substancial no relacionamento entre o Chile e os EUA”. O evento contou com a presença do subsecretário de Estado norte-americano para Controle de Armas e Segurança Internacional, Thomas DiNanno, numa demonstração da importância do acordo.
Na prática, o novo pacto de segurança altera o Acordo sobre Controle de Narcóticos e Aplicação da Lei entre os dois países. Oficialmente, fortalece a capacidade do Estado chileno de combater o crime organizado transnacional. Mas permite, de fato, que dinheiro do Departamento de Estado chegue ao país, com a contrapartida de que a decisão sobre o uso dos recursos fique sob controle de Washington. Ou seja, estabelece-se a total ingerência norte-americana.
O mapa inclui um acordo assinado e ratificado com o Paraguai que transforma o vizinho brasileiro em uma extensão dos EUA. Uma base pode ser estabelecida nas proximidades de Assunção e os militares norte-americanos estão livres de responder às leis paraguaias. Com a Argentina, um acordo foi anunciado no mês passado, abrindo caminho para um “patrulhamento” do Atlântico Sul e a declaração do oceano que também banha o Brasil como um “bem comum global”. O acerto com o governo de Javier Milei foi duramente denunciado pela oposição, que alertou que o mar territorial da Argentina não é um “bem comum global”. Para a ala progressista, o Estado argentino tem a obrigação de exercer a jurisdição sobre o local e a “custódia dos recursos naturais”.
Enquanto diplomatas da região e mesmo de fora tentam decifrar os próximos passos, o depoimento quase reservado de Humire, em março, serve de guia. Fica claro que os cartéis são apenas uma desculpa para conter a presença de potências estrangeiras adversárias. “O presidente Trump promoveu uma mudança monumental na política externa e na segurança nacional dos EUA. Além da atividade dos cartéis, a iniciativa reflete a crescente preocupação com a influência da China, da Rússia e do Irã na região”, afirmou Humire. “A expansão dos investimentos chineses em infraestrutura com potencial de uso duplo, as redes ligadas ao Irã, associadas a financiamento ilícito e atividades por procuração, e as campanhas de desinformação russas são ameaças importantes à estabilidade regional.”
Uma operação, portanto, foi criada por Trump para desmontar essa suposta influência. “Para combater esses esforços, o Pentágono aumentou a cooperação em inteligência com governos aliados, expandiu as iniciativas conjuntas de segurança cibernética e apoiou os esforços para proteger a infraestrutura crítica do controle ou da exploração estrangeira”, adiantou. “Os compromissos militares também foram ampliados para reforçar o alinhamento com as prioridades estratégicas dos EUA.” Um dos exemplos dados por Humire foi o Panamá, que logo nas primeiras semanas do governo Trump tornou-se alvo de um processo intenso de chantagem e pressão. “Desde que o secretário Hegseth e o secretário Rubio foram ao Panamá no ano passado, a influência da China no país diminuiu significativamente. Eles perderam o acesso aos portos e não estão mais avançando com seus investimentos.”
A operação que sequestrou Nicolás Maduro na Venezuela, em 3 de janeiro, foi além de uma manobra para levar um suspeito aos tribunais por conta de seu suposto papel no tráfico de drogas. “O sucesso da operação teve múltiplos efeitos recíprocos na região, incluindo conversas de alto nível dos EUA com Cuba, a obtenção de conformidade da Nicarágua e a mudança do Caribe em uma direção favorável aos interesses dos EUA”, explicou o vice-secretário. Humire conclui: controlar a América Latina é parte central da estratégia de defesa dos EUA. “Do Ártico ao extremo-sul das Américas, a defesa da pátria dos EUA e a segurança do Hemisfério Ocidental são uma só. Em todos os domínios, o Departamento de Guerra está pronto para garantir a defesa de nossa nação, operando com base no princípio da paz por meio da força. Nossas ações demonstram uma clara determinação em proteger os interesses americanos e fazer cumprir a aplicação moderna do ‘Corolário Trump’ da Estratégia de Segurança Nacional à Doutrina Monroe.”
A guerra contra as drogas nunca foi contra as drogas. E, uma vez mais, a região constata a instrumentalização do tema para garantir uma hegemonia dos EUA na América Latina. Se necessário, à força.
O argumento do combate ao narcotráfico abre, portanto, a porta para justificar certas ações e militarizar a América Latina integra a Estratégia de Defesa Nacional, publicada no fim de 2025. O que impressiona diplomatas é a velocidade de implementação da ofensiva que vem sendo efetivada. Em março, Trump desviou a atenção do conflito no Irã e anunciou a criação do Escudo das Américas, aliança militar com aliados submissos. O pacto, apelidado de “Otan das Américas” em certos círculos diplomáticos, envolve alguns dos governos mais leais à extrema-direita latino-americana.
Durante uma audiência discreta e sem alarde em um subcomitê do Congresso norte-americano, ainda em 17 de março, o vice-secretário do Departamento de Guerra, Joseph Humire, dimensionou o avanço. “Desde novembro de 2025”, elencou, “o Departamento de Guerra obteve compromissos bilaterais da Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, expressando nossa intenção compartilhada de cooperar em relação à segurança de fronteiras, ao combate ao narcoterrorismo e à proteção de infraestruturas e ativos críticos contra o controle maligno.” Mais: “O Departamento de Guerra está empenhado em engajar-se ativamente com esses e outros parceiros regionais para identificar oportunidades de expandir nosso acesso, bases e sobrevoos”.
Os acordos ampliam e traduzem essa estratégia em ações concretas. O governo de Honduras seria o próximo. Depois de ter vencido a eleição com apoio de Trump, o presidente Tito Asfura anunciou a permissão para a atuação de forças militares dos EUA no país. Em uma reunião com Humire, em maio, Asfura iniciou as discussões de um plano bilateral de combate ao crime transnacional cometido em território hondurenho. Ele não nega a intenção de submeter os interesses nacionais à estratégia de segurança de Trump. Para tanto, acelerou a aprovação no Congresso de uma lei que declara integrantes de cartéis de drogas como “terroristas”. O projeto, não por acaso, foi elogiado por Washington.
O governo Trump ainda conseguiu convencer a Guatemala a permitir ações “conjuntas” das forças armadas dos dois países em território centro-americano. Mais uma vez, o argumento é de combate ao narcotráfico. Segundo o jornal The New York Times, o presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, concordou com ataques aéreos e outras ações militares em uma ligação telefônica com o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, em 19 de maio. As operações podem começar no próximo mês. “A Guatemala solicitou formalmente “cooperação em operações lideradas pelas forças de segurança guatemaltecas contra organizações de narcotráfico” em uma carta a Hegseth, destacou o gabinete do presidente em um comunicado. Confirmados os ataques, o país se tornaria o segundo da região a permitir ações militares conjuntas contra grupos criminosos em suas fronteiras. No começo do ano, o Equador fechou um acordo similar e os primeiros atos supostamente “conjuntos” foram realizados.
O foco na Guatemala e em Honduras não se dá por acaso. Segundo o Times, o objetivo é pressionar o México a concordar com operações conjuntas de combate ao narcotráfico. Por enquanto, a proposta é rejeitada pela presidente mexicana, Claudia Sheinbaum.
Mais ao Sul, outra prioridade é uma aproximação militar com o Chile, governado pela extrema-direita herdeira de Augusto Pinochet. Há poucas semanas, Santiago e Washington assinaram dois acordos estratégicos. Um deles permitia que os EUA “cooperassem” na exploração de minerais críticos. O segundo ia além e abria as portas para um pacto de segurança. “Assinamos dois instrumentos que, embora diferentes em seus temas, expressam a mesma convicção, a de que a cooperação bilateral profunda, fundada em valores compartilhados e benefícios mútuos, é o caminho para enfrentar os desafios do século XXI”, anunciou o ministro das Relações Exteriores, Francisco Pérez Mackenna. Segundo ele, trata-se de “um passo substancial no relacionamento entre o Chile e os EUA”. O evento contou com a presença do subsecretário de Estado norte-americano para Controle de Armas e Segurança Internacional, Thomas DiNanno, numa demonstração da importância do acordo.
Na prática, o novo pacto de segurança altera o Acordo sobre Controle de Narcóticos e Aplicação da Lei entre os dois países. Oficialmente, fortalece a capacidade do Estado chileno de combater o crime organizado transnacional. Mas permite, de fato, que dinheiro do Departamento de Estado chegue ao país, com a contrapartida de que a decisão sobre o uso dos recursos fique sob controle de Washington. Ou seja, estabelece-se a total ingerência norte-americana.
O mapa inclui um acordo assinado e ratificado com o Paraguai que transforma o vizinho brasileiro em uma extensão dos EUA. Uma base pode ser estabelecida nas proximidades de Assunção e os militares norte-americanos estão livres de responder às leis paraguaias. Com a Argentina, um acordo foi anunciado no mês passado, abrindo caminho para um “patrulhamento” do Atlântico Sul e a declaração do oceano que também banha o Brasil como um “bem comum global”. O acerto com o governo de Javier Milei foi duramente denunciado pela oposição, que alertou que o mar territorial da Argentina não é um “bem comum global”. Para a ala progressista, o Estado argentino tem a obrigação de exercer a jurisdição sobre o local e a “custódia dos recursos naturais”.
Enquanto diplomatas da região e mesmo de fora tentam decifrar os próximos passos, o depoimento quase reservado de Humire, em março, serve de guia. Fica claro que os cartéis são apenas uma desculpa para conter a presença de potências estrangeiras adversárias. “O presidente Trump promoveu uma mudança monumental na política externa e na segurança nacional dos EUA. Além da atividade dos cartéis, a iniciativa reflete a crescente preocupação com a influência da China, da Rússia e do Irã na região”, afirmou Humire. “A expansão dos investimentos chineses em infraestrutura com potencial de uso duplo, as redes ligadas ao Irã, associadas a financiamento ilícito e atividades por procuração, e as campanhas de desinformação russas são ameaças importantes à estabilidade regional.”
Uma operação, portanto, foi criada por Trump para desmontar essa suposta influência. “Para combater esses esforços, o Pentágono aumentou a cooperação em inteligência com governos aliados, expandiu as iniciativas conjuntas de segurança cibernética e apoiou os esforços para proteger a infraestrutura crítica do controle ou da exploração estrangeira”, adiantou. “Os compromissos militares também foram ampliados para reforçar o alinhamento com as prioridades estratégicas dos EUA.” Um dos exemplos dados por Humire foi o Panamá, que logo nas primeiras semanas do governo Trump tornou-se alvo de um processo intenso de chantagem e pressão. “Desde que o secretário Hegseth e o secretário Rubio foram ao Panamá no ano passado, a influência da China no país diminuiu significativamente. Eles perderam o acesso aos portos e não estão mais avançando com seus investimentos.”
A operação que sequestrou Nicolás Maduro na Venezuela, em 3 de janeiro, foi além de uma manobra para levar um suspeito aos tribunais por conta de seu suposto papel no tráfico de drogas. “O sucesso da operação teve múltiplos efeitos recíprocos na região, incluindo conversas de alto nível dos EUA com Cuba, a obtenção de conformidade da Nicarágua e a mudança do Caribe em uma direção favorável aos interesses dos EUA”, explicou o vice-secretário. Humire conclui: controlar a América Latina é parte central da estratégia de defesa dos EUA. “Do Ártico ao extremo-sul das Américas, a defesa da pátria dos EUA e a segurança do Hemisfério Ocidental são uma só. Em todos os domínios, o Departamento de Guerra está pronto para garantir a defesa de nossa nação, operando com base no princípio da paz por meio da força. Nossas ações demonstram uma clara determinação em proteger os interesses americanos e fazer cumprir a aplicação moderna do ‘Corolário Trump’ da Estratégia de Segurança Nacional à Doutrina Monroe.”
A guerra contra as drogas nunca foi contra as drogas. E, uma vez mais, a região constata a instrumentalização do tema para garantir uma hegemonia dos EUA na América Latina. Se necessário, à força.
Bolsonaros são soldados do trumpismo
A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.
É preciso compreender essas três dimensões da relação entre o bolsonarismo e o trumpismo. Boa parte da cobertura jornalística deu a impressão de que Flávio e Eduardo Bolsonaro mudaram a cabeça de Washington. Sem dúvida que eles pressionaram e tentaram gerar um timing adequado para a designação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas. Mas eles não comandam o pacote completo da política trumpista para a América Latina. Em vez disso, adaptam-se erraticamente ao projeto de Trump para a região, já que Flávio Bolsonaro foi escolhido como candidato oficial do governo americano à Presidência do Brasil.
A maior prova disso é que, embora soubessem que Trump ainda preparava mais maldades ao Brasil, Eduardo e Flávio não tinham total consciência do projeto de retaliação comercial, que envolveu diretamente o ataque ao extremamente popular Pix e a setores econômicos nacionais que apoiaram o bolsonarismo recentemente, mas que agora poderão perder riqueza graças à aliança entre a família Bolsonaro e o governo americano.
Por isso, após comemorar a definição de terrorismo para o crime organizado brasileiro, Flávio Bolsonaro ficou atônito e teme um efeito político similar ao do tarifaço do ano passado. Ele e seu irmão são cúmplices nessa tramoia, porém, em grande medida ocupam esse papel porque aceitaram ser liderados de forma subserviente pelo governo americano, que quer definir os rumos do Brasil. Neste sentido, são traidores da pátria que esperam ter benefícios políticos diretos tornando-se marionetes do trumpismo.
Ainda é cedo para dizer quais serão todos os efeitos dessa aliança de subordinação. Só que se houver de fato consequências econômicas do novo tarifaço, ainda mais com pressão para acabar com o Pix, Flávio perderá uma parte dos eleitores de direita, mas não numa parcela tão grande que permita a ascensão de Caiado e Zema, pois estes se contentam em ficar como linhas de apoio envergonhado ao bolsonarismo. O problema maior é outra conta: nunca mais recuperarão a maior parcela dos votos dos independentes, favorecendo claramente a candidatura de Lula.
Flávio chegaria, assim, ao segundo turno com poucas chances de vitória, a não ser que haja intervenção maior do governo americano na política brasileira. Essa última hipótese parece absurda, mas ela passa pela cabeça dos irmãos, sobretudo Eduardo, que é o grande ideólogo da família e que pretende recuperar em algum momento a cidadania brasileira, mesmo que a vida americana tenha tido um financiamento invejável para um fugitivo político.
Uma pergunta se impõe aqui: por que Flávio Bolsonaro trocou um plano que estava dando certo por outro tão incerto e que lhe imprime uma visão sórdida de traidor da pátria? Afinal, o projeto do Bolsonaro moderado, que tomava vacina e não falava palavrões, tinha fortalecido sua candidatura. Desde que fora lançado e adotou esse figurino, o Zero Um crescera nas pesquisas, tanto no primeiro como no segundo turno. Eleitores da direita não bolsonarista migraram nas pesquisas em peso para ele, que também estava abocanhando grande parte dos independentes, inclusive muitos que tinham votado em Lula em 2022. Parecia que ele conseguiria realizar a revanche do pai.
O estouro do escândalo de suas relações promíscuas com Daniel Vorcaro parece ser o fato principal. E muitas revelações ainda podem surgir dessa história envolvendo o enrolado caso de financiamento do filme “Dark Horse”, inclusive um “videozinho”, como o próprio Flávio já profetizou. O flanco da corrupção não para por aí, porque cada vez mais será conhecido o funcionamento da cleptocracia montada pelos bolsonaristas no governo do Rio, e esse lamaçal tem grandes chances de alcançar a família Bolsonaro.
Falcatruas e relações não republicanas com o mundo da política e do crime já eram conhecidas por muitos que acompanham as peripécias da família Bolsonaro desde a década de 1990. Mas o mais visado entre eles era justamente Flávio, conhecido pela rachadinha e pela contratação ou condecoração de milicianos, fatos de sua época como deputado estadual da Alerj. Mesmo assim, a aposta no bolsonarismo moderado estava ganhando tração eleitoral. Decerto que o tamanho do escândalo envolvendo sua irmandade com Vorcaro pegou muita gente de surpresa, especialmente os eleitores independentes que começavam a acreditar no novo Flávio.
Sem querer tirar o peso dos escândalos na mudança de estratégia da família Bolsonaro, talvez fosse impossível manter até o final da eleição o perfil pretensamente moderado porque isso não corresponde ao âmago do bolsonarismo. Em algum momento isso viria à tona, mesmo que de forma menos desastrosa, desde que as conversas íntimas com Vorcaro apareceram na mídia. É preciso voltar às três dimensões enunciadas no primeiro parágrafo: a nacional, a internacional e a da geopolítica trumpista para a América Latina.
No plano nacional, o bolsonarismo é marcado por ser a face da extrema direita local, defensora da ditadura militar e de seus torturadores, da tentativa de golpe de Estado, do uso de um discurso agressivo para destruir inimigos e ex-amigos pelas redes sociais, e dos motes que lhe davam maior popularidade: Deus, pátria, família e liberdade. O patriotismo das manifestações de rua, todos com camisas da seleção, era o espetáculo principal de sua ideologia. Fechando o enredo estava Jair Bolsonaro, um líder popular que odiava as instituições democráticas.
Parte desse roteiro se perdeu no meio do caminho, principalmente com o fracasso do 8 de janeiro e pelo julgamento e posterior prisão de Jair. Sobraram os filhos para sucedê-lo, mas Eduardo foi para os EUA para tentar dar um golpe de fora para dentro, ao passo que Flávio teria o papel de segurar o leme na política interna, tornando-se, ao final, o herdeiro da dinastia com a candidatura presidencial. Há a figura ascendente de Michele, mas ela não chefiará o clã enquanto o marido estiver vivo.
Toda essa história política e familiar dos Bolsonaros não se esgota nas suas relações com o Brasil. E aqui entra a segunda dimensão que sempre esteve presente: o bolsonarismo faz parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita, que atua em várias partes do mundo, principalmente nas Américas e na Europa. Um grupo político de combate à democracia e de defesa de um reacionarismo enorme frente a temas como imigração, família, religião e contra discursos progressistas de minorias, como as mulheres e os negros.
A Internacional da Extrema Direita teve como grande baluarte Steve Bannon, um dos principais inspiradores da visão política de Trump. Continua forte na Europa, com desempenhos impressionantes como recentemente nas eleições locais no Reino Unido, mas tem tido dificuldades por conta das mudanças geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e os conflitos cada vez maiores com os EUA. Daí que hoje o principal impulso a esse movimento vem da política trumpista, particularmente no âmbito da América Latina. Essa é a terceira dimensão que afeta o bolsonarismo profundo e constitui o farol da família Bolsonaro.
O segundo governo Trump é mais do que uma forma política de extrema direita. É expansionista, beligerante e intervencionista. Para a América Latina, o modelo geopolítico é a tentativa de reavivar a Doutrina Monroe - a América para os (norte-)americanos. O Brasil e o México são os maiores obstáculos a esse projeto, seja pela força política e econômica de ambos, seja em razão de suas lideranças presidenciais, que não abaixaram a cabeça e nem querem entregar o país como deseja a família Bolsonaro.
Os Bolsonaros sustentam suas ideias e projeto de poder não só no território nacional. Eles têm seus alicerces principais fora do Brasil, seja na Internacional da Extrema Direita, seja cada vez mais na sua ligação subserviente com o governo Trump. A família Bolsonaro é soldada do trumpismo, e fará tudo para agradá-lo, a fim de ter o apoio do governo americano, das mais diferentes formas, para a eleição presidencial brasileira.
Flávio Bolsonaro foi chamado inicialmente de preposto do pai. Mas hoje se percebe, depois do tour em Washington pago com dinheiro público brasileiro e das decisões do governo Trump contra o Brasil, que no momento é Eduardo Bolsonaro o verdadeiro chefe da estratégia política do clã bolsonarista. Acabou-se o bolsonarismo moderado e restou a extrema direita pura comandada pelo trumpismo.
É preciso compreender essas três dimensões da relação entre o bolsonarismo e o trumpismo. Boa parte da cobertura jornalística deu a impressão de que Flávio e Eduardo Bolsonaro mudaram a cabeça de Washington. Sem dúvida que eles pressionaram e tentaram gerar um timing adequado para a designação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas. Mas eles não comandam o pacote completo da política trumpista para a América Latina. Em vez disso, adaptam-se erraticamente ao projeto de Trump para a região, já que Flávio Bolsonaro foi escolhido como candidato oficial do governo americano à Presidência do Brasil.
A maior prova disso é que, embora soubessem que Trump ainda preparava mais maldades ao Brasil, Eduardo e Flávio não tinham total consciência do projeto de retaliação comercial, que envolveu diretamente o ataque ao extremamente popular Pix e a setores econômicos nacionais que apoiaram o bolsonarismo recentemente, mas que agora poderão perder riqueza graças à aliança entre a família Bolsonaro e o governo americano.
Por isso, após comemorar a definição de terrorismo para o crime organizado brasileiro, Flávio Bolsonaro ficou atônito e teme um efeito político similar ao do tarifaço do ano passado. Ele e seu irmão são cúmplices nessa tramoia, porém, em grande medida ocupam esse papel porque aceitaram ser liderados de forma subserviente pelo governo americano, que quer definir os rumos do Brasil. Neste sentido, são traidores da pátria que esperam ter benefícios políticos diretos tornando-se marionetes do trumpismo.
Ainda é cedo para dizer quais serão todos os efeitos dessa aliança de subordinação. Só que se houver de fato consequências econômicas do novo tarifaço, ainda mais com pressão para acabar com o Pix, Flávio perderá uma parte dos eleitores de direita, mas não numa parcela tão grande que permita a ascensão de Caiado e Zema, pois estes se contentam em ficar como linhas de apoio envergonhado ao bolsonarismo. O problema maior é outra conta: nunca mais recuperarão a maior parcela dos votos dos independentes, favorecendo claramente a candidatura de Lula.
Flávio chegaria, assim, ao segundo turno com poucas chances de vitória, a não ser que haja intervenção maior do governo americano na política brasileira. Essa última hipótese parece absurda, mas ela passa pela cabeça dos irmãos, sobretudo Eduardo, que é o grande ideólogo da família e que pretende recuperar em algum momento a cidadania brasileira, mesmo que a vida americana tenha tido um financiamento invejável para um fugitivo político.
Uma pergunta se impõe aqui: por que Flávio Bolsonaro trocou um plano que estava dando certo por outro tão incerto e que lhe imprime uma visão sórdida de traidor da pátria? Afinal, o projeto do Bolsonaro moderado, que tomava vacina e não falava palavrões, tinha fortalecido sua candidatura. Desde que fora lançado e adotou esse figurino, o Zero Um crescera nas pesquisas, tanto no primeiro como no segundo turno. Eleitores da direita não bolsonarista migraram nas pesquisas em peso para ele, que também estava abocanhando grande parte dos independentes, inclusive muitos que tinham votado em Lula em 2022. Parecia que ele conseguiria realizar a revanche do pai.
O estouro do escândalo de suas relações promíscuas com Daniel Vorcaro parece ser o fato principal. E muitas revelações ainda podem surgir dessa história envolvendo o enrolado caso de financiamento do filme “Dark Horse”, inclusive um “videozinho”, como o próprio Flávio já profetizou. O flanco da corrupção não para por aí, porque cada vez mais será conhecido o funcionamento da cleptocracia montada pelos bolsonaristas no governo do Rio, e esse lamaçal tem grandes chances de alcançar a família Bolsonaro.
Falcatruas e relações não republicanas com o mundo da política e do crime já eram conhecidas por muitos que acompanham as peripécias da família Bolsonaro desde a década de 1990. Mas o mais visado entre eles era justamente Flávio, conhecido pela rachadinha e pela contratação ou condecoração de milicianos, fatos de sua época como deputado estadual da Alerj. Mesmo assim, a aposta no bolsonarismo moderado estava ganhando tração eleitoral. Decerto que o tamanho do escândalo envolvendo sua irmandade com Vorcaro pegou muita gente de surpresa, especialmente os eleitores independentes que começavam a acreditar no novo Flávio.
Sem querer tirar o peso dos escândalos na mudança de estratégia da família Bolsonaro, talvez fosse impossível manter até o final da eleição o perfil pretensamente moderado porque isso não corresponde ao âmago do bolsonarismo. Em algum momento isso viria à tona, mesmo que de forma menos desastrosa, desde que as conversas íntimas com Vorcaro apareceram na mídia. É preciso voltar às três dimensões enunciadas no primeiro parágrafo: a nacional, a internacional e a da geopolítica trumpista para a América Latina.
No plano nacional, o bolsonarismo é marcado por ser a face da extrema direita local, defensora da ditadura militar e de seus torturadores, da tentativa de golpe de Estado, do uso de um discurso agressivo para destruir inimigos e ex-amigos pelas redes sociais, e dos motes que lhe davam maior popularidade: Deus, pátria, família e liberdade. O patriotismo das manifestações de rua, todos com camisas da seleção, era o espetáculo principal de sua ideologia. Fechando o enredo estava Jair Bolsonaro, um líder popular que odiava as instituições democráticas.
Parte desse roteiro se perdeu no meio do caminho, principalmente com o fracasso do 8 de janeiro e pelo julgamento e posterior prisão de Jair. Sobraram os filhos para sucedê-lo, mas Eduardo foi para os EUA para tentar dar um golpe de fora para dentro, ao passo que Flávio teria o papel de segurar o leme na política interna, tornando-se, ao final, o herdeiro da dinastia com a candidatura presidencial. Há a figura ascendente de Michele, mas ela não chefiará o clã enquanto o marido estiver vivo.
Toda essa história política e familiar dos Bolsonaros não se esgota nas suas relações com o Brasil. E aqui entra a segunda dimensão que sempre esteve presente: o bolsonarismo faz parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita, que atua em várias partes do mundo, principalmente nas Américas e na Europa. Um grupo político de combate à democracia e de defesa de um reacionarismo enorme frente a temas como imigração, família, religião e contra discursos progressistas de minorias, como as mulheres e os negros.
A Internacional da Extrema Direita teve como grande baluarte Steve Bannon, um dos principais inspiradores da visão política de Trump. Continua forte na Europa, com desempenhos impressionantes como recentemente nas eleições locais no Reino Unido, mas tem tido dificuldades por conta das mudanças geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e os conflitos cada vez maiores com os EUA. Daí que hoje o principal impulso a esse movimento vem da política trumpista, particularmente no âmbito da América Latina. Essa é a terceira dimensão que afeta o bolsonarismo profundo e constitui o farol da família Bolsonaro.
O segundo governo Trump é mais do que uma forma política de extrema direita. É expansionista, beligerante e intervencionista. Para a América Latina, o modelo geopolítico é a tentativa de reavivar a Doutrina Monroe - a América para os (norte-)americanos. O Brasil e o México são os maiores obstáculos a esse projeto, seja pela força política e econômica de ambos, seja em razão de suas lideranças presidenciais, que não abaixaram a cabeça e nem querem entregar o país como deseja a família Bolsonaro.
Os Bolsonaros sustentam suas ideias e projeto de poder não só no território nacional. Eles têm seus alicerces principais fora do Brasil, seja na Internacional da Extrema Direita, seja cada vez mais na sua ligação subserviente com o governo Trump. A família Bolsonaro é soldada do trumpismo, e fará tudo para agradá-lo, a fim de ter o apoio do governo americano, das mais diferentes formas, para a eleição presidencial brasileira.
Flávio Bolsonaro foi chamado inicialmente de preposto do pai. Mas hoje se percebe, depois do tour em Washington pago com dinheiro público brasileiro e das decisões do governo Trump contra o Brasil, que no momento é Eduardo Bolsonaro o verdadeiro chefe da estratégia política do clã bolsonarista. Acabou-se o bolsonarismo moderado e restou a extrema direita pura comandada pelo trumpismo.
As fronteiras começam na nossa cabeça e é aí que as temos de cancelar
Não é, com certeza, por acaso, que Vila Nova de Cerveira acolhe em 2026 a XXIV Bienal Internacional de Arte sob o mote “Territórios sem Fronteira”. Cai mesmo no momento certo, numa altura em que no mundo há quem tudo faça para erguer mais muros.
Ao homenagear Silvestre Pestana, um artista madeirense, poeta, performer e pioneiro da videoarte em Portugal, que faz da transgressão de fronteiras políticas, tecnológicas, disciplinares e geográficas, a matéria da sua arte, a Bienal desafia-nos a olhar para a fronteira de outra forma.
Não como um risco qualquer num mapa, mas como um lugar onde entram em disputa a memória e a identidade. Onde se cruzam o conflito, o reconhecimento, o que nos é familiar e o que nos assusta por ser desconhecido. Obriga-nos a perguntar: que formato terão os nossos mapas quando deixarmos de aceitar que a humanidade se possa dividir em parcelas, como num atlas?
Ao ler sobre a Bienal, lembrei-me que nos meus tempos de criança, eu achava que as fronteiras eram linhas grossas desenhadas nos mapas da escola, daquelas traçadas com régua que separam o mundo por cores.
Não percebia por que razão não podíamos simplesmente passar de um lado para o outro. Afinal, dos dois lados havia pessoas que riam e choravam, miúdos com os mesmos medos e a mesmíssima vontade de brincar.
Mais tarde, caí na realidade e percebi que aquelas linhas tinham muita história. Eram decisões frias, tomadas em gabinetes muito longe de quem realmente trabalhava a terra e das vozes que nela entoavam os seus cantares. Percebi que havia gente a ser arrancada de casa, não por querer ir embora, mas porque alguém, algures, decretou que ali já não era o seu lugar. Fui aprendendo que as fronteiras se desenham com tinta ou com arame farpado, mas também se constroem com o medo, com burocracia e com uma dose enorme de silêncio e neutralidade.
Com o tempo, a coisa tornou-se ainda mais clara: há fronteiras que nem sequer cabem num mapa. São aquelas que se levantam contra quem vem de fora, as que tratam os corpos dos migrantes como um problema estatístico, e não como pessoas à procura de um lugar e uma oportunidade para viver.
E há ainda outras, quase invisíveis, que nos tentam encurralar o pensamento.
Hoje em dia, dou por mim a reparar em como a própria tecnologia e a Inteligência Artificial começam, de mansinho, a decidir por nós. Escolhem o que vemos, o que lemos, o que pensamos. Às vezes, dão a ilusão de que a criatividade humana se tornou dispensável.
Se calhar, esta é que é a fronteira mais perigosa de todas: aquela que se instala sem darmos por isso.
Se calhar, crescer enquanto indivíduos e enquanto sociedade é precisamente isto: aprender a ver onde estão os muros e recusar o hábito de viver com eles.
As fronteiras nunca foram uma inevitabilidade. São escolhas. São construções. São histórias que nos contam vezes sem conta até acharmos que sempre funcionou assim.
Há quem as defina e há quem se mude para as atravessar. Há quem as aceite e há quem desconfie delas.
E depois há quem teime simplesmente em imaginar o que existirá quando as linhas deixarem de ser mais fortes do que as pessoas que tentam separar.
É um sonho antigo, que passa de geração em geração. Talvez o meu seja o de deixar aos meus netos, e aos netos de todos nós, um mundo onde o mapa não mande mais do que a vida. Exatamente como John Lennon imaginou e cantou: um lugar sem barreiras perante a dignidade humana.
Ao homenagear Silvestre Pestana, um artista madeirense, poeta, performer e pioneiro da videoarte em Portugal, que faz da transgressão de fronteiras políticas, tecnológicas, disciplinares e geográficas, a matéria da sua arte, a Bienal desafia-nos a olhar para a fronteira de outra forma.
Não como um risco qualquer num mapa, mas como um lugar onde entram em disputa a memória e a identidade. Onde se cruzam o conflito, o reconhecimento, o que nos é familiar e o que nos assusta por ser desconhecido. Obriga-nos a perguntar: que formato terão os nossos mapas quando deixarmos de aceitar que a humanidade se possa dividir em parcelas, como num atlas?
Ao ler sobre a Bienal, lembrei-me que nos meus tempos de criança, eu achava que as fronteiras eram linhas grossas desenhadas nos mapas da escola, daquelas traçadas com régua que separam o mundo por cores.
Não percebia por que razão não podíamos simplesmente passar de um lado para o outro. Afinal, dos dois lados havia pessoas que riam e choravam, miúdos com os mesmos medos e a mesmíssima vontade de brincar.
Mais tarde, caí na realidade e percebi que aquelas linhas tinham muita história. Eram decisões frias, tomadas em gabinetes muito longe de quem realmente trabalhava a terra e das vozes que nela entoavam os seus cantares. Percebi que havia gente a ser arrancada de casa, não por querer ir embora, mas porque alguém, algures, decretou que ali já não era o seu lugar. Fui aprendendo que as fronteiras se desenham com tinta ou com arame farpado, mas também se constroem com o medo, com burocracia e com uma dose enorme de silêncio e neutralidade.
Com o tempo, a coisa tornou-se ainda mais clara: há fronteiras que nem sequer cabem num mapa. São aquelas que se levantam contra quem vem de fora, as que tratam os corpos dos migrantes como um problema estatístico, e não como pessoas à procura de um lugar e uma oportunidade para viver.
E há ainda outras, quase invisíveis, que nos tentam encurralar o pensamento.
Hoje em dia, dou por mim a reparar em como a própria tecnologia e a Inteligência Artificial começam, de mansinho, a decidir por nós. Escolhem o que vemos, o que lemos, o que pensamos. Às vezes, dão a ilusão de que a criatividade humana se tornou dispensável.
Se calhar, esta é que é a fronteira mais perigosa de todas: aquela que se instala sem darmos por isso.
Se calhar, crescer enquanto indivíduos e enquanto sociedade é precisamente isto: aprender a ver onde estão os muros e recusar o hábito de viver com eles.
As fronteiras nunca foram uma inevitabilidade. São escolhas. São construções. São histórias que nos contam vezes sem conta até acharmos que sempre funcionou assim.
Há quem as defina e há quem se mude para as atravessar. Há quem as aceite e há quem desconfie delas.
E depois há quem teime simplesmente em imaginar o que existirá quando as linhas deixarem de ser mais fortes do que as pessoas que tentam separar.
É um sonho antigo, que passa de geração em geração. Talvez o meu seja o de deixar aos meus netos, e aos netos de todos nós, um mundo onde o mapa não mande mais do que a vida. Exatamente como John Lennon imaginou e cantou: um lugar sem barreiras perante a dignidade humana.
Para onde o homem caminha
Acho que Noah Harari é hoje, se não o mais importante, um dos mais significativos pensadores da atualidade. Em seu livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, Noah diz que o homem é um “acidente biológico”, e que deve desaparecer, devido a sua irracionalidade, possivelmente em “um século ou mais”, dado os problemas e riscos que gera para si mesmo.
Nós nos auto denominamos como “Homo Sapiens”, em contraposição à todos os seres vivos do planeta.
Lutamos contra os “Neandertais”. O “Homem de Neandertal” era alto, forte, olhos verdes, e acordava cedo. O “Homo Sapiens” era mais baixo, mais fraco, olhos castanhos e negros, e acordava mais tarde. Um pouco preguiçoso. O “primeiro inglês”, há 10.000 anos atrás, como na mostra do Museu de História Natural de Londres, tinha pele negra, começando a clarear, cabelos enrolados, olhos azulados, na transformação do negro para o branco pela despigmentação da pele por mudanças alimentares da carne para o peixe e menor incidência do sol. Desbotou-se.
Miscigenamos com os “Neandertais” há 50 mil anos atrás, e os eliminamos 2 mil anos depois. Éramos mais inteligentes e mais ágeis, nossas lanças eram mais leves e perfurantes. Nossa primeira guerra territorial e geopolítica de proporções. Tomamos o planeta para nós.
Segundo o livro “What every person should know about war”, de Chris Hedges, dos últimos 3.400 anos da história tivemos somente 268 anos de paz, 8% do tempo total dos tempos da eterna guerra.
Por sinal, a ideia de racionalidade e progresso surge com Francis Bacon na Inglaterra na virada do século XVI e se acentua durante a Revolução Industrial, conforme descrito nos artigos de Paulo Paiva. O Iluminismo Francês pressupõe uma racionalidade que não temos, e coloca-nos em situação de amargo diante do infortúnio das limitações ecológicas com as quais nos deparamos, inexoravelmente, rumo à nossa autodestruição.
Somos um belo planeta, com terra, água e ar, estes dois últimos cada vez mais rarefeitos. A ecologia não é uma preocupação para o homem, posto que o lucro imediato supera a expectativa do encurtamento futuro da sobrevivência dos nossos descendentes, ou decadentes.
O “Relógio do Juízo Final”, ou o “Doomsday Clock”, originalmente criado em 1947 por Cientistas da Universidade de Chicago que participaram do Projeto Manhattan, aponta hoje que estamos a 85 segundos da “Meia Noite”, a marca mais próxima até hoje do marco hipotético para a destruição do mundo, devido às armas nucleares e crise climática, nesta ordem. O desespero puxa o gatilho.
Talvez fiquemos no futuro como os hominídeos do filme “A Máquina do Tempo”, de 1960, de George Pal baseado no livro de H.G. Wells, onde o homem fica reduzido a um estado monstruoso ou letárgico, como bem caracterizado no filme.
Chamar de “Sapiens” o devaneio atual é atribuir a ideia de “racionalidade” àquilo que não se tem. “O homem é o lobo do homem”, nas palavras de Hobbes, no rumo da auto destruição, onde o homem mata o homem, e cria as próprias condições que finalmente o eliminem
Só nos resta, para aqueles que conseguem ainda rir, somente cantar.
Como na música de Gilberto Gil,
“Poetas, seresteiros, namorados, correi,
É chegada a hora de escrever e cantar,
Talvez as derradeiras noites de luar”
Nós nos auto denominamos como “Homo Sapiens”, em contraposição à todos os seres vivos do planeta.
Lutamos contra os “Neandertais”. O “Homem de Neandertal” era alto, forte, olhos verdes, e acordava cedo. O “Homo Sapiens” era mais baixo, mais fraco, olhos castanhos e negros, e acordava mais tarde. Um pouco preguiçoso. O “primeiro inglês”, há 10.000 anos atrás, como na mostra do Museu de História Natural de Londres, tinha pele negra, começando a clarear, cabelos enrolados, olhos azulados, na transformação do negro para o branco pela despigmentação da pele por mudanças alimentares da carne para o peixe e menor incidência do sol. Desbotou-se.
Miscigenamos com os “Neandertais” há 50 mil anos atrás, e os eliminamos 2 mil anos depois. Éramos mais inteligentes e mais ágeis, nossas lanças eram mais leves e perfurantes. Nossa primeira guerra territorial e geopolítica de proporções. Tomamos o planeta para nós.
Segundo o livro “What every person should know about war”, de Chris Hedges, dos últimos 3.400 anos da história tivemos somente 268 anos de paz, 8% do tempo total dos tempos da eterna guerra.
Por sinal, a ideia de racionalidade e progresso surge com Francis Bacon na Inglaterra na virada do século XVI e se acentua durante a Revolução Industrial, conforme descrito nos artigos de Paulo Paiva. O Iluminismo Francês pressupõe uma racionalidade que não temos, e coloca-nos em situação de amargo diante do infortúnio das limitações ecológicas com as quais nos deparamos, inexoravelmente, rumo à nossa autodestruição.
Somos um belo planeta, com terra, água e ar, estes dois últimos cada vez mais rarefeitos. A ecologia não é uma preocupação para o homem, posto que o lucro imediato supera a expectativa do encurtamento futuro da sobrevivência dos nossos descendentes, ou decadentes.
O “Relógio do Juízo Final”, ou o “Doomsday Clock”, originalmente criado em 1947 por Cientistas da Universidade de Chicago que participaram do Projeto Manhattan, aponta hoje que estamos a 85 segundos da “Meia Noite”, a marca mais próxima até hoje do marco hipotético para a destruição do mundo, devido às armas nucleares e crise climática, nesta ordem. O desespero puxa o gatilho.
Talvez fiquemos no futuro como os hominídeos do filme “A Máquina do Tempo”, de 1960, de George Pal baseado no livro de H.G. Wells, onde o homem fica reduzido a um estado monstruoso ou letárgico, como bem caracterizado no filme.
Chamar de “Sapiens” o devaneio atual é atribuir a ideia de “racionalidade” àquilo que não se tem. “O homem é o lobo do homem”, nas palavras de Hobbes, no rumo da auto destruição, onde o homem mata o homem, e cria as próprias condições que finalmente o eliminem
Só nos resta, para aqueles que conseguem ainda rir, somente cantar.
Como na música de Gilberto Gil,
“Poetas, seresteiros, namorados, correi,
É chegada a hora de escrever e cantar,
Talvez as derradeiras noites de luar”
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Nossos ingratos amigos
Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump — só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.
Começou pela viagem do ex-presidente Theodore Roosevelt à Amazônia, em 1913. Escoltado pelo general Rondon, Roosevelt passou sete meses na floresta fazendo mapeamento estratégico, cartografando rios e coletando um mundo de plantas e animais para seus museus e instituições. Pegou diarreia, malária, infecções e quase levou a breca, mas voltou com um conhecimento dos recursos do Brasil de que até então ninguém por lá suspeitava.
Os americanos logo souberam que não éramos uma república de bananas. Um empreendedor chamado Percival Farquhar veio para cá no começo do século 20 e, pelos 30 anos seguintes, tomou nossos setores de energia elétrica, navegação, extração de minério, criação de gado, abertura de estradas e, por causa destas, derrubou milhões de acres de floresta nativa para explorar madeira. Aliás, o minério e a energia elétrica foram dois setores que os americanos levaram décadas para nos devolver. Era ou não era ser amigo dos EUA?
Minha geração foi tão amiga dos EUA que aprendemos tudo sobre Flecha Ligeira e nada sobre Arariboia. Apaixonamo-nos por Chaplin, Louis Armstrong, Duke Ellington, Bing Crosby, Fred Astaire, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, os Irmãos Marx, Glenn Miller, Frank Sinatra, Humphrey Bogart, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Doris Day, Gene Kelly, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk etc. etc. etc. até Woody Allen.
Somos um país de jeans, tênis e boné ao contrário, comendo cheeseburger. Na verdade, de tanto amor pelos EUA, tudo que queremos é ser americanos. Flávio Bolsonaro, amigo do Rubio, já conseguiu.
Começou pela viagem do ex-presidente Theodore Roosevelt à Amazônia, em 1913. Escoltado pelo general Rondon, Roosevelt passou sete meses na floresta fazendo mapeamento estratégico, cartografando rios e coletando um mundo de plantas e animais para seus museus e instituições. Pegou diarreia, malária, infecções e quase levou a breca, mas voltou com um conhecimento dos recursos do Brasil de que até então ninguém por lá suspeitava.
Os americanos logo souberam que não éramos uma república de bananas. Um empreendedor chamado Percival Farquhar veio para cá no começo do século 20 e, pelos 30 anos seguintes, tomou nossos setores de energia elétrica, navegação, extração de minério, criação de gado, abertura de estradas e, por causa destas, derrubou milhões de acres de floresta nativa para explorar madeira. Aliás, o minério e a energia elétrica foram dois setores que os americanos levaram décadas para nos devolver. Era ou não era ser amigo dos EUA?
Minha geração foi tão amiga dos EUA que aprendemos tudo sobre Flecha Ligeira e nada sobre Arariboia. Apaixonamo-nos por Chaplin, Louis Armstrong, Duke Ellington, Bing Crosby, Fred Astaire, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, os Irmãos Marx, Glenn Miller, Frank Sinatra, Humphrey Bogart, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Doris Day, Gene Kelly, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk etc. etc. etc. até Woody Allen.
Somos um país de jeans, tênis e boné ao contrário, comendo cheeseburger. Na verdade, de tanto amor pelos EUA, tudo que queremos é ser americanos. Flávio Bolsonaro, amigo do Rubio, já conseguiu.
A estupidez artificial
“Acabei com um namorado porque descobri que ele escrevia as mensagens que me enviava com o ChatGPT.” O desabafo, numa roda de mulheres a meio de uma conversa que tinha escorregado para as exigências digitais do mundo, foi recebido entre caras abertas de espanto e risos constrangidos. “Ele era do tipo calado, parecia interessante. Mas mandava mensagens que não faziam sentido. Pensei que estava a ficar maluca, ou que ele era maluco.” Ela, mulher inteligente, com o tipo de beleza que faz parar salas, deu por si a ter uma relação com um (mau) simulacro de inteligência. Ficámos atónitas, incrédulas, aturdidas pela ideia de que há quem não se dê sequer ao trabalho do amor, quem queira namorar por procuração digital, quem renuncie ao que nos torna humanos, querendo talvez mascarar as falhas (reais ou imaginadas) que são a verdadeira matéria das paixões que valem a pena.
No dia a seguir a esta conversa, fui almoçar a casa de uns amigos. O arroz estava ótimo. Quis saber a receita. “É do ChatGPT”, responderam-me, enquanto me iam explicando como cada um deles se tinha tornado verdadeiramente um “gestor de agentes”. Estes “agentes” não usam gabardines nem pedem Martinis. São produtos de Inteligência Artificial, desenhados para executar tarefas, na maior parte dos casos repetitivas ou que implicam a análise massiva de dados. Como qualquer estagiário, precisam de quem lhes dê ordens, os oriente e lhes reveja o trabalho. E estes meus dois amigos passam cada vez mais tempo a fazê-lo. “Assim, é fácil ser cinco vezes mais produtivo”, diz-me ele, que graças à IA consegue desenvolver soluções informáticas muito mais rapidamente e com muito menos gente. “Fico com mais tempo livre. Mas também me faz confusão que a certa altura o meu trabalho seja corrigir o dos agentes”, desabafa ela, que está na área do marketing e que começa a perceber que não é só trabalho de sapa que calha a estes “agentes”. Eles são cada vez mais capazes de fazer “trabalho criativo”, mesmo que seja impossível escrevê-lo sem usar aspas, porque estamos a falar de dispositivos que, na prática, constroem tudo com modelos de previsão estatística depois de analisar quantidades gigantescas de dados.
Há pouco tempo, vi um vídeo de operários indianos com uma espécie de viseira presa à cabeça, que uma repórter da CNN explicava serem dispositivos para recolher informação sobre o seu trabalho manual para alimentar robots operados por Inteligência Artificial. Na mesma reportagem, mostrava-se como a Índia tem sido palco de protestos, nem sempre pacíficos, contra as brutais condições de exploração dos trabalhadores. Mas todos os que usam programas de Inteligência Artificial para procurar receitas, escrever emails, preparar listas de afazeres ou analisar tabelas de Excel estão, no fundo, a fazer a mesma coisa: a treinar estes modelos para se tornarem descartáveis. Mais do que isso: estão ativamente a deixar de usar competências cognitivas. E acho que todos sabemos o efeito que o Google já teve na nossa memória. Deixámos de nos preocupar com a ideia de memorizar alguma coisa porque sabemos que podemos “googlá-la”. Problema? Os resultados do Google têm vindo a piorar substancialmente, porque este motor de pesquisa é também um negócio (na verdade, é um conglomerado de empresas), que ganha tanto mais dinheiro quanto mais tempo nos mantiver agarrados a ele. Logo, a eficácia não é propriamente a melhor amiga do negócio.
Como quase tudo no neoliberalismo, nada disto é um erro ou o produto de um acaso. E como quase sempre nesta era dos oligarcas tecnológicos, as intenções não estão ocultas. Já foram declaradas. “Vemos um futuro em que a inteligência é um produto de consumo, como a energia ou a água. E as pessoas vão comprá-la a empresas como a nossa para a usarem”, disse Sam Altman, CEO da OpenAI.
Vou ignorar a forma como a “água”, um recurso essencial à vida, é posta nesta equação e concentrar-me na ideia de que vamos precisar de comprar inteligência. Quem é que precisa de comprar aquilo com que nasceu? A resposta é simples e testada com sucesso há décadas pelo capitalismo: criando uma nova necessidade. Mas como é que se cria a necessidade de “inteligência”? Garantindo que a que temos naturalmente não se desenvolve completamente ou, pelo menos, que não é desenvolvida em setores suficientemente grandes da população para ter um mercado.
Basta pensar na frase de Sam Altman para perceber quão questionável é a utilização de IA nas salas de aula. A educação é inimiga dos objetivos estratégicos destas empresas. Tudo o que a OpenAI não quer são seres com pensamento crítico, capazes de desenvolver por si mesmos as tarefas intelectualmente mais exigentes e, já agora, as emocionalmente exigentes também, uma vez que eles querem igualmente vender-nos os tais “agentes” que tomarão conta da nossa vida amorosa, respondendo a mensagens, escritas talvez por outros “agentes”, num mundo em que já não se percebe bem quem namora quem, mas se sabe exatamente para onde é que vai o dinheiro gerado por todas essas interações.
Para que este modelo de negócio funcione, é essencial criar humanos estúpidos. A Inteligência Artificial não tem o mesmo mercado sem uma boa dose de estupidez artificial. E talvez não seja por acaso que a grande contestação à ideia de que a IA é uma “inevitabilidade” esteja a desenvolver-se nas universidades. Nos últimos dias, houve vários protestos de universitários nos Estados Unidos e no Canadá contra conferencistas que foram apresentar esta tecnologia como parte “inevitável” do progresso. Numa das manifestações, em Vancouver, alguém exibia um cartaz com a frase “Usem o vosso cérebro”. E o Wall Street Journal escrevia: “A rebelião americana contra a IA está a ganhar vapor.”
Parte desta revolta vem do facto de ser evidente que muitas, mesmo muitas, profissões se tornarão rapidamente obsoletas (basta ver os números de despedimentos em empresas como a Meta ou a Amazon para perceber a ameaça). Esse é um problema social que põe o capitalismo perante uma contradição: quem será consumidor se deixar de haver trabalhadores? Talvez haja soluções para isso (várias estão a ser estudadas). Mas muito mais inquietante é o impacto que a IA terá naquilo que significa ser humano. Nas nossas relações com os outros, nas nossas capacidades cognitivas e emocionais.
É por isso que é essencial ser analógico para ser subversivo. Por muito que possam (e devam) usar-se as ferramentas tecnológicas do nosso tempo, não podemos fazê-lo de forma inconsciente. E sobretudo não devemos tornar-nos dependentes delas a ponto de perdermos a nossa humanidade. A tecnologia não é politicamente neutra nem deve ser usada acriticamente, como se o nosso destino coletivo fosse uma espécie de fatalidade desenhada pelos deuses, por muito que os techbros (que se veem como deuses) gostassem que assim fosse.
Cabe-nos questionar, cabe-nos exigir ao poder político, a capacidade de regulação e supervisão destes mecanismos. Cabe-nos não nos demitirmos de executar as tarefas que ajudam a construir a nossa identidade, cabe-nos usar o cérebro com que nascemos e estimulá-lo para que se mantenha ativo. E, já agora, cabe-nos escrever as nossas próprias mensagens de amor.
No dia a seguir a esta conversa, fui almoçar a casa de uns amigos. O arroz estava ótimo. Quis saber a receita. “É do ChatGPT”, responderam-me, enquanto me iam explicando como cada um deles se tinha tornado verdadeiramente um “gestor de agentes”. Estes “agentes” não usam gabardines nem pedem Martinis. São produtos de Inteligência Artificial, desenhados para executar tarefas, na maior parte dos casos repetitivas ou que implicam a análise massiva de dados. Como qualquer estagiário, precisam de quem lhes dê ordens, os oriente e lhes reveja o trabalho. E estes meus dois amigos passam cada vez mais tempo a fazê-lo. “Assim, é fácil ser cinco vezes mais produtivo”, diz-me ele, que graças à IA consegue desenvolver soluções informáticas muito mais rapidamente e com muito menos gente. “Fico com mais tempo livre. Mas também me faz confusão que a certa altura o meu trabalho seja corrigir o dos agentes”, desabafa ela, que está na área do marketing e que começa a perceber que não é só trabalho de sapa que calha a estes “agentes”. Eles são cada vez mais capazes de fazer “trabalho criativo”, mesmo que seja impossível escrevê-lo sem usar aspas, porque estamos a falar de dispositivos que, na prática, constroem tudo com modelos de previsão estatística depois de analisar quantidades gigantescas de dados.
Há pouco tempo, vi um vídeo de operários indianos com uma espécie de viseira presa à cabeça, que uma repórter da CNN explicava serem dispositivos para recolher informação sobre o seu trabalho manual para alimentar robots operados por Inteligência Artificial. Na mesma reportagem, mostrava-se como a Índia tem sido palco de protestos, nem sempre pacíficos, contra as brutais condições de exploração dos trabalhadores. Mas todos os que usam programas de Inteligência Artificial para procurar receitas, escrever emails, preparar listas de afazeres ou analisar tabelas de Excel estão, no fundo, a fazer a mesma coisa: a treinar estes modelos para se tornarem descartáveis. Mais do que isso: estão ativamente a deixar de usar competências cognitivas. E acho que todos sabemos o efeito que o Google já teve na nossa memória. Deixámos de nos preocupar com a ideia de memorizar alguma coisa porque sabemos que podemos “googlá-la”. Problema? Os resultados do Google têm vindo a piorar substancialmente, porque este motor de pesquisa é também um negócio (na verdade, é um conglomerado de empresas), que ganha tanto mais dinheiro quanto mais tempo nos mantiver agarrados a ele. Logo, a eficácia não é propriamente a melhor amiga do negócio.
Também era, em parte, de negócio que falava Olga Tokarczuk, vencedora do Prémio Nobel da Literatura, quando confessou recorrer à Inteligência Artificial para acelerar o seu processo de escrita. Tokarczuk não usa a IA porque não sabe escrever, usa-a porque o mercado editorial, com a sua voragem de novidade e o baixíssimo pagamento aos escritores, obriga quem vive da escrita a ser rápido na produção, ao mesmo tempo que se desdobra em palestras pagas para sobreviver. O problema não é uma autora que ganhou o Nobel usar a IA como assistente na escrita, o problema é quantidade de jovens (e menos jovens) que está a desistir de usar as ferramentas mentais necessárias para escrever.
Como quase tudo no neoliberalismo, nada disto é um erro ou o produto de um acaso. E como quase sempre nesta era dos oligarcas tecnológicos, as intenções não estão ocultas. Já foram declaradas. “Vemos um futuro em que a inteligência é um produto de consumo, como a energia ou a água. E as pessoas vão comprá-la a empresas como a nossa para a usarem”, disse Sam Altman, CEO da OpenAI.
Vou ignorar a forma como a “água”, um recurso essencial à vida, é posta nesta equação e concentrar-me na ideia de que vamos precisar de comprar inteligência. Quem é que precisa de comprar aquilo com que nasceu? A resposta é simples e testada com sucesso há décadas pelo capitalismo: criando uma nova necessidade. Mas como é que se cria a necessidade de “inteligência”? Garantindo que a que temos naturalmente não se desenvolve completamente ou, pelo menos, que não é desenvolvida em setores suficientemente grandes da população para ter um mercado.
Basta pensar na frase de Sam Altman para perceber quão questionável é a utilização de IA nas salas de aula. A educação é inimiga dos objetivos estratégicos destas empresas. Tudo o que a OpenAI não quer são seres com pensamento crítico, capazes de desenvolver por si mesmos as tarefas intelectualmente mais exigentes e, já agora, as emocionalmente exigentes também, uma vez que eles querem igualmente vender-nos os tais “agentes” que tomarão conta da nossa vida amorosa, respondendo a mensagens, escritas talvez por outros “agentes”, num mundo em que já não se percebe bem quem namora quem, mas se sabe exatamente para onde é que vai o dinheiro gerado por todas essas interações.
Para que este modelo de negócio funcione, é essencial criar humanos estúpidos. A Inteligência Artificial não tem o mesmo mercado sem uma boa dose de estupidez artificial. E talvez não seja por acaso que a grande contestação à ideia de que a IA é uma “inevitabilidade” esteja a desenvolver-se nas universidades. Nos últimos dias, houve vários protestos de universitários nos Estados Unidos e no Canadá contra conferencistas que foram apresentar esta tecnologia como parte “inevitável” do progresso. Numa das manifestações, em Vancouver, alguém exibia um cartaz com a frase “Usem o vosso cérebro”. E o Wall Street Journal escrevia: “A rebelião americana contra a IA está a ganhar vapor.”
Parte desta revolta vem do facto de ser evidente que muitas, mesmo muitas, profissões se tornarão rapidamente obsoletas (basta ver os números de despedimentos em empresas como a Meta ou a Amazon para perceber a ameaça). Esse é um problema social que põe o capitalismo perante uma contradição: quem será consumidor se deixar de haver trabalhadores? Talvez haja soluções para isso (várias estão a ser estudadas). Mas muito mais inquietante é o impacto que a IA terá naquilo que significa ser humano. Nas nossas relações com os outros, nas nossas capacidades cognitivas e emocionais.
É por isso que é essencial ser analógico para ser subversivo. Por muito que possam (e devam) usar-se as ferramentas tecnológicas do nosso tempo, não podemos fazê-lo de forma inconsciente. E sobretudo não devemos tornar-nos dependentes delas a ponto de perdermos a nossa humanidade. A tecnologia não é politicamente neutra nem deve ser usada acriticamente, como se o nosso destino coletivo fosse uma espécie de fatalidade desenhada pelos deuses, por muito que os techbros (que se veem como deuses) gostassem que assim fosse.
Cabe-nos questionar, cabe-nos exigir ao poder político, a capacidade de regulação e supervisão destes mecanismos. Cabe-nos não nos demitirmos de executar as tarefas que ajudam a construir a nossa identidade, cabe-nos usar o cérebro com que nascemos e estimulá-lo para que se mantenha ativo. E, já agora, cabe-nos escrever as nossas próprias mensagens de amor.
Os primeiros impérios privados da História
A Space X perde dinheiro a um ritmo histórico, mas é avaliada pelos investidores como se já dominasse o mundo.
Antes do final desta década, Elon Musk terá uma fortuna líquida superior ao PIB conjunto de 150 países. Esse processo vai acelerar-se, nas próximas semanas, com a entrada da Starlink em bolsa. Mas o que vem aí não é mais um surto de euforia nos mercados – é uma mudança de regime e uma nova ordem privada mundial.
Em junho, uma única empresa vai pedir ao mercado que a avalie em quase dois biliões de dólares, mais do que tudo o que Portugal produz em seis anos. Chama-se SpaceX, e é apenas a primeira da fila. A OpenAI segue em setembro, a Anthropic antes do final do ano, com a Stripe, a Databricks e a Anduril logo atrás. É o maior ciclo de IPOs tecnológicos da História, e quem o tratar como mais um surto de euforia de mercado vai perder o que realmente importa. O que aí vem não é um ciclo de bolsa. É uma mudança de regime, empacotada como notícia de negócios.
Antes do final desta década, Elon Musk terá uma fortuna líquida superior ao PIB conjunto de 150 países. Esse processo vai acelerar-se, nas próximas semanas, com a entrada da Starlink em bolsa. Mas o que vem aí não é mais um surto de euforia nos mercados – é uma mudança de regime e uma nova ordem privada mundial.
Em junho, uma única empresa vai pedir ao mercado que a avalie em quase dois biliões de dólares, mais do que tudo o que Portugal produz em seis anos. Chama-se SpaceX, e é apenas a primeira da fila. A OpenAI segue em setembro, a Anthropic antes do final do ano, com a Stripe, a Databricks e a Anduril logo atrás. É o maior ciclo de IPOs tecnológicos da História, e quem o tratar como mais um surto de euforia de mercado vai perder o que realmente importa. O que aí vem não é um ciclo de bolsa. É uma mudança de regime, empacotada como notícia de negócios.
Quem paga a conta socioambiental da corrida global pelo domínio tecnológico?
A nova corrida global pelo domínio das tecnologias de inteligência artificial (IA) vem sendo utilizada para intensificar mais uma race to the bottom no campo das políticas de sustentabilidade. No debate sobre tecnologia, o país que sediou a COP 30 em 2025, retrocede ao continuar tratando o desenvolvimento e a sustentabilidade como polos opostos de uma mesma balança. Enquanto legisladores barganham o custo ambiental em nome do “progresso”, comunidades afetadas pelo extrativismo predatório já enfrentam, no presente, os efeitos concretos da cadeia produtiva que sustenta a infraestrutura física da internet.
A recente aprovação do PL 2.780/2024 na Câmara dos Deputados retoma o debate sobre a posição que o Brasil adotará (ou deveria adotar) diante da disputa pelos recursos minerais que servem de matéria-prima para as tecnologias de fronteira. O texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado, mas já sinaliza um movimento de fragilização das políticas ambientais em prol do chamado desenvolvimento.
À primeira vista, a menção à “promoção do desenvolvimento sustentável”, “responsabilidade socioambiental” e “energia limpa” dissimula que, em essência, o PL cria novos incentivos fiscais e um fundo bilionário para subsidiar a exploração mineral com foco em empresas estrangeiras. Na prática, o Projeto dá nova roupagem à questionável Política Pró-Minerais Estratégicos (Decreto n. 10.657/2021), privilegiando a exploração mineral sem licenciamento ambiental adequado e fragilizando direitos territoriais de populações diretamente afetadas.
O interesse no território brasileiro não é repentino, mas tornou-se mais evidente no contexto recente de pressões tarifárias na rodada das negociações entre diplomatas brasileiros e dos Estados Unidos em torno do tarifaço anunciado por Donald Trump, cujo encarregado de negócios da Embaixada dos EUA no Brasil manifestou interesse do país nos minerais críticos brasileiros. Essas mobilizações revelam que há fortes interesses geopolíticos por trás da avalanche de tarifas trumpistas, o que também pode ser observado nos discursos norte-americanos sobre a Groenlândia, a República Democrática do Congo e, agora, o Brasil.
O presságio nas negociações emerge em meio à forte ascensão da China no setor tecnológico, especialmente por seu vantajoso destaque na cadeia produtiva desses artefatos tecnológicos em emergência, configurando um espremido corredor de dependência para os Estados Unidos. Essa movimentação é notória no lançamento do Minerals Security Partnership, iniciativa que reúne aliados como União Europeia, Japão e Canadá. A proposta busca garantir o fornecimento de minerais como lítio, cobalto, níquel e grafite, que são indispensáveis para a indústria tech, mas também são vitais para a indústria militar, refletindo uma tentativa coordenada de reduzir a dependência das cadeias de suprimento atualmente dominadas pela China.
Não obstante tal cenário global, a maior preocupação desse jogo geopolítico são seus impactos locais. Grande parte das regiões que concentram minerais críticos no Brasil coincide com áreas de proteção ambiental e territórios tradicionalmente ocupados. Cerca de 30% dos registros de minerais estratégicos estão localizados somente na Amazônia Legal. O território brasileiro é cobiçado pelos EUA por deter 23% das reservas de terras raras do mundo, enquanto a China responde por mais de 60% da produção global desses minerais e cerca de 90% do seu processamento, exercendo posição praticamente monopolista sobre a cadeia.
No entanto, o maior ponto de inflexão dessa disputa é o histórico brasileiro de flexibilizações regulatórias frágeis e disposições políticas a subordinar os marcos legais à lógica das grandes corporações. O Projeto de Lei 2.159/2021, mais conhecido como PL da Devastação, prevê a possibilidade de empreendimentos de médio e alto impacto serem liberados apenas com base na autodeclaração da empresa, sem estudos ambientais ou análise prévia do poder público.
A recente aprovação do PL 2.780/2024 na Câmara dos Deputados retoma o debate sobre a posição que o Brasil adotará (ou deveria adotar) diante da disputa pelos recursos minerais que servem de matéria-prima para as tecnologias de fronteira. O texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado, mas já sinaliza um movimento de fragilização das políticas ambientais em prol do chamado desenvolvimento.
À primeira vista, a menção à “promoção do desenvolvimento sustentável”, “responsabilidade socioambiental” e “energia limpa” dissimula que, em essência, o PL cria novos incentivos fiscais e um fundo bilionário para subsidiar a exploração mineral com foco em empresas estrangeiras. Na prática, o Projeto dá nova roupagem à questionável Política Pró-Minerais Estratégicos (Decreto n. 10.657/2021), privilegiando a exploração mineral sem licenciamento ambiental adequado e fragilizando direitos territoriais de populações diretamente afetadas.
O interesse no território brasileiro não é repentino, mas tornou-se mais evidente no contexto recente de pressões tarifárias na rodada das negociações entre diplomatas brasileiros e dos Estados Unidos em torno do tarifaço anunciado por Donald Trump, cujo encarregado de negócios da Embaixada dos EUA no Brasil manifestou interesse do país nos minerais críticos brasileiros. Essas mobilizações revelam que há fortes interesses geopolíticos por trás da avalanche de tarifas trumpistas, o que também pode ser observado nos discursos norte-americanos sobre a Groenlândia, a República Democrática do Congo e, agora, o Brasil.
O presságio nas negociações emerge em meio à forte ascensão da China no setor tecnológico, especialmente por seu vantajoso destaque na cadeia produtiva desses artefatos tecnológicos em emergência, configurando um espremido corredor de dependência para os Estados Unidos. Essa movimentação é notória no lançamento do Minerals Security Partnership, iniciativa que reúne aliados como União Europeia, Japão e Canadá. A proposta busca garantir o fornecimento de minerais como lítio, cobalto, níquel e grafite, que são indispensáveis para a indústria tech, mas também são vitais para a indústria militar, refletindo uma tentativa coordenada de reduzir a dependência das cadeias de suprimento atualmente dominadas pela China.
Não obstante tal cenário global, a maior preocupação desse jogo geopolítico são seus impactos locais. Grande parte das regiões que concentram minerais críticos no Brasil coincide com áreas de proteção ambiental e territórios tradicionalmente ocupados. Cerca de 30% dos registros de minerais estratégicos estão localizados somente na Amazônia Legal. O território brasileiro é cobiçado pelos EUA por deter 23% das reservas de terras raras do mundo, enquanto a China responde por mais de 60% da produção global desses minerais e cerca de 90% do seu processamento, exercendo posição praticamente monopolista sobre a cadeia.
No entanto, o maior ponto de inflexão dessa disputa é o histórico brasileiro de flexibilizações regulatórias frágeis e disposições políticas a subordinar os marcos legais à lógica das grandes corporações. O Projeto de Lei 2.159/2021, mais conhecido como PL da Devastação, prevê a possibilidade de empreendimentos de médio e alto impacto serem liberados apenas com base na autodeclaração da empresa, sem estudos ambientais ou análise prévia do poder público.
Embora a internet evoque um imaginário abstrato, a existência da rede depende de uma infraestrutura material: cabos submarinos, data centers, energia elétrica, água e minerais críticos. A materialidade da internet e das tecnologias digitais que a estruturam dependem da exploração mineral, que estão presentes desde os componentes de microchips, até as extensas infraestruturas de conectividade responsáveis pelo armazenamento e processamento massivo de dados.
Um exemplo da concretude dessa questão se observa no caso da construção do mega data center do TikTok no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), no Ceará. Embora o empreendimento seja apresentado como estratégico para a economia e para a infraestrutura digital, sua instalação ocorre em uma região que se sobrepõe ao território reivindicado pelo povo Anacé junto à Funai. O processo de demarcação da Terra Indígena já se prolonga há mais de duas décadas, enquanto comunidades localizadas a poucos quilômetros do futuro data center convivem com os impactos e incertezas provocados pela expansão tecnológica e industrial.
Assim, a expansão da infraestrutura digital reorganiza territórios inteiros, intensifica disputas fundiárias e produz novos conflitos socioambientais. Nesse contexto, a questão em voga no nosso território é até que ponto a exploração desses minerais ocorre de forma consciente e sob quais protocolos e garantias institucionais ela se desenvolve para assegurar que nenhum dano irreparável ou direito fundamental seja violado. Ou, até mesmo, será que ainda podemos falar em “nosso território” diante de disputas geopolíticas cada vez mais intensas?
Um dos desafios mais emblemáticos enfrentados no Brasil permanece sendo as demarcações das terras indígenas, fator que torna o debate sobre a cadeia produtiva da infraestrutura da internet e de todo o aparato de conectividade ainda mais intrínseco às disputas territoriais. A discussão sobre conectividade, armazenamento de dados e segurança digital deixa, portanto, de ser apenas técnica para envolver também conflitos distributivos, disputas territoriais e os custos socioambientais que sustentam a própria existência da internet.
Apesar do estranhamento da correlação do tema com a internet, cabe enfatizar que não é possível falar de luta por direitos digitais quando a própria possibilidade do espaço digital só existe porque há uma infraestrutura material que o sustenta. Nesse sentido, a ausência de destaque a essa camada da internet faz com que muitos não vislumbrem que os direitos territoriais antecedem os direitos digitais. Esse vínculo toma proporções maiores no atual cenário de corrida global pelo domínio da inteligência artificial, que desloca forças políticas, econômicas e militares para além do âmbito nacional. Trata-se de uma disputa entre gigantes tecnológicos e potências globais que observam vantagens estratégicas no controle dessa tecnologia emergente, seja para fins civis, seja para aplicações militares.
Nesta arapuca de interesses e funcionalidades que recaem sobre o debate dos minérios críticos, já evidenciados na obra canônica da Kate Crawford, The Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence, obra que desmonta o imaginário da “nuvem” como um espaço abstrato e revela sua profunda territorialidade. A autora desloca o debate sobre inteligência artificial do plano puramente computacional para demonstrar seus custos materiais, ambientais e políticos, expondo aquilo que frequentemente permanece invisível no cálculo do custo socioambiental das tecnologias digitais que sustentam a rede.
Em matéria de mineração, a atividade extrativista nas jazidas de Carajás, na Amazônia Paraense, revela um custo ambiental que nunca se traduziu em diminuição das desigualdades econômicas ou erradicação da pobreza, tampouco diminuiu as desigualdades regionais entre norte e sul. No país dos crimes de Mariana e Brumadinho, insistir em tratar os impactos socioambientais da infraestrutura digital como externalidades inevitáveis significa reproduzir uma lógica já conhecida de privatização dos ganhos do progresso tecnológico e socialização dos custos sobre territórios historicamente vulnerabilizados.
Enquanto o debate sobre governança da internet e inteligência artificial permanece concentrado em protocolos, algoritmos, regulação de plataformas e riscos de deepfakes, as comunidades que sustentam materialmente essa infraestrutura seguem invisíveis. A corrida pelos minerais críticos não diz respeito apenas à competitividade tecnológica ou à soberania econômica, mas também à forma como decidimos quais vidas, territórios e direitos podem ser sacrificados em nome do futuro digital.
Um exemplo da concretude dessa questão se observa no caso da construção do mega data center do TikTok no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), no Ceará. Embora o empreendimento seja apresentado como estratégico para a economia e para a infraestrutura digital, sua instalação ocorre em uma região que se sobrepõe ao território reivindicado pelo povo Anacé junto à Funai. O processo de demarcação da Terra Indígena já se prolonga há mais de duas décadas, enquanto comunidades localizadas a poucos quilômetros do futuro data center convivem com os impactos e incertezas provocados pela expansão tecnológica e industrial.
Assim, a expansão da infraestrutura digital reorganiza territórios inteiros, intensifica disputas fundiárias e produz novos conflitos socioambientais. Nesse contexto, a questão em voga no nosso território é até que ponto a exploração desses minerais ocorre de forma consciente e sob quais protocolos e garantias institucionais ela se desenvolve para assegurar que nenhum dano irreparável ou direito fundamental seja violado. Ou, até mesmo, será que ainda podemos falar em “nosso território” diante de disputas geopolíticas cada vez mais intensas?
Um dos desafios mais emblemáticos enfrentados no Brasil permanece sendo as demarcações das terras indígenas, fator que torna o debate sobre a cadeia produtiva da infraestrutura da internet e de todo o aparato de conectividade ainda mais intrínseco às disputas territoriais. A discussão sobre conectividade, armazenamento de dados e segurança digital deixa, portanto, de ser apenas técnica para envolver também conflitos distributivos, disputas territoriais e os custos socioambientais que sustentam a própria existência da internet.
Apesar do estranhamento da correlação do tema com a internet, cabe enfatizar que não é possível falar de luta por direitos digitais quando a própria possibilidade do espaço digital só existe porque há uma infraestrutura material que o sustenta. Nesse sentido, a ausência de destaque a essa camada da internet faz com que muitos não vislumbrem que os direitos territoriais antecedem os direitos digitais. Esse vínculo toma proporções maiores no atual cenário de corrida global pelo domínio da inteligência artificial, que desloca forças políticas, econômicas e militares para além do âmbito nacional. Trata-se de uma disputa entre gigantes tecnológicos e potências globais que observam vantagens estratégicas no controle dessa tecnologia emergente, seja para fins civis, seja para aplicações militares.
Nesta arapuca de interesses e funcionalidades que recaem sobre o debate dos minérios críticos, já evidenciados na obra canônica da Kate Crawford, The Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence, obra que desmonta o imaginário da “nuvem” como um espaço abstrato e revela sua profunda territorialidade. A autora desloca o debate sobre inteligência artificial do plano puramente computacional para demonstrar seus custos materiais, ambientais e políticos, expondo aquilo que frequentemente permanece invisível no cálculo do custo socioambiental das tecnologias digitais que sustentam a rede.
Em matéria de mineração, a atividade extrativista nas jazidas de Carajás, na Amazônia Paraense, revela um custo ambiental que nunca se traduziu em diminuição das desigualdades econômicas ou erradicação da pobreza, tampouco diminuiu as desigualdades regionais entre norte e sul. No país dos crimes de Mariana e Brumadinho, insistir em tratar os impactos socioambientais da infraestrutura digital como externalidades inevitáveis significa reproduzir uma lógica já conhecida de privatização dos ganhos do progresso tecnológico e socialização dos custos sobre territórios historicamente vulnerabilizados.
Enquanto o debate sobre governança da internet e inteligência artificial permanece concentrado em protocolos, algoritmos, regulação de plataformas e riscos de deepfakes, as comunidades que sustentam materialmente essa infraestrutura seguem invisíveis. A corrida pelos minerais críticos não diz respeito apenas à competitividade tecnológica ou à soberania econômica, mas também à forma como decidimos quais vidas, territórios e direitos podem ser sacrificados em nome do futuro digital.
Guerra e$piritual
Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil este ano.
Quero pedir a todos que orem por Jair Messias Bolsonaro, pelo Brasil, que voltará a ser uma nação irmã de Israel.
Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus
Quero pedir a todos que orem por Jair Messias Bolsonaro, pelo Brasil, que voltará a ser uma nação irmã de Israel.
Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus
A missão de Flávio Bolsonaro: manter viva a grife da família
Desta vez não será uma escolha difícil. Em 2018, o centenário jornal O Estado de S. Paulo definiu como difícil a escolha que os brasileiros haveriam de fazer no segundo turno das eleições daquele ano: votar em Jair Bolsonaro para presidente da República ou votar em Fernando Haddad, ex-prefeito da capital paulista? Bolsonaro era candidato com o apoio dos militares. Haddad, o candidato do PT e de Lula, que estava preso em Curitiba.
A não ser que o roteirista do filme chamado Brasil apronte mais uma surpresa — e ele gosta de aprontar —, tudo indica que, em outubro próximo, seremos forçados a escolher entre Flávio Bolsonaro, filho de quem é, e Lula, que há quatro anos derrotou o pai dele na eleição mais apertada desde o fim da ditatura de 1964. Flávio está em baixa desde que ofereceu o Brasil de bandeja a Trump. Lula está em alta, impulsionado, diga-se, pela decisão tomada por Trump de aplicar ao Brasil uma nova onda de tarifas alfandegárias. Para completar, Flávio amarga a descoberta de que era unha e carne com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil.
Feliz é o candidato que pode dar-se ao luxo de escolher seu adversário. Lula escolheu o Bolsonaro original e venceu. Lula agora, e não é de hoje, escolheu a cópia encardida de Bolsonaro e parece estar com a mão na taça. Uma ampla fatia dos brasileiros gostaria de contar com outras opções, como mostram as pesquisas. Mas as alternativas disponíveis não dão sinais de que se viabilizarão. Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos, e paramos por aqui: alguém aposta que um deles desbancará Flávio? Improvável.
Flávio não é candidato por seus próprios méritos, mas pelos de seu pai, o inventor da direita sem vergonha de se autodeclarar direita. Nunca passou pela cabeça de Flávio que um dia ele viria a ser candidato a presidente. Foi quatro vezes deputado estadual no Rio de Janeiro graças ao pai. Elegeu-se senador pegando carona na campanha presidencial do pai, assim como os seus irmãos.
De todos eles, Flávio era o mais vocacionado para fazer negócios e enriquecer. Portanto, não tem muito a perder se for derrotado por Lula. O pai deu-lhe a missão de sucedê-lo como guardião de uma parcela expressiva dos votos da direita, evitando que algum aventureiro se apossasse dela. A grife Bolsonaro não pode desaparecer; ela rende muito dinheiro à família, e dinheiro é o que importa. Isso está no DNA do clã desde o tempo das rachadinhas.
A não ser que o roteirista do filme chamado Brasil apronte mais uma surpresa — e ele gosta de aprontar —, tudo indica que, em outubro próximo, seremos forçados a escolher entre Flávio Bolsonaro, filho de quem é, e Lula, que há quatro anos derrotou o pai dele na eleição mais apertada desde o fim da ditatura de 1964. Flávio está em baixa desde que ofereceu o Brasil de bandeja a Trump. Lula está em alta, impulsionado, diga-se, pela decisão tomada por Trump de aplicar ao Brasil uma nova onda de tarifas alfandegárias. Para completar, Flávio amarga a descoberta de que era unha e carne com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil.
Feliz é o candidato que pode dar-se ao luxo de escolher seu adversário. Lula escolheu o Bolsonaro original e venceu. Lula agora, e não é de hoje, escolheu a cópia encardida de Bolsonaro e parece estar com a mão na taça. Uma ampla fatia dos brasileiros gostaria de contar com outras opções, como mostram as pesquisas. Mas as alternativas disponíveis não dão sinais de que se viabilizarão. Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos, e paramos por aqui: alguém aposta que um deles desbancará Flávio? Improvável.
Flávio não é candidato por seus próprios méritos, mas pelos de seu pai, o inventor da direita sem vergonha de se autodeclarar direita. Nunca passou pela cabeça de Flávio que um dia ele viria a ser candidato a presidente. Foi quatro vezes deputado estadual no Rio de Janeiro graças ao pai. Elegeu-se senador pegando carona na campanha presidencial do pai, assim como os seus irmãos.
De todos eles, Flávio era o mais vocacionado para fazer negócios e enriquecer. Portanto, não tem muito a perder se for derrotado por Lula. O pai deu-lhe a missão de sucedê-lo como guardião de uma parcela expressiva dos votos da direita, evitando que algum aventureiro se apossasse dela. A grife Bolsonaro não pode desaparecer; ela rende muito dinheiro à família, e dinheiro é o que importa. Isso está no DNA do clã desde o tempo das rachadinhas.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Quando a política se transforma em fé
Quando era adolescente, lembro que, certa vez, em um sábado de manhã, um grupo religioso missionário tocou a campainha de casa e fui atendê-los. Queriam me convencer da palavra de Deus. Como sempre me interessei pelo Antigo Testamento e pela arqueologia, incluindo o surgimento do ser humano, comecei o que pensei que seria uma conversa entre pessoas com opiniões diferentes, sobre quais seriam as evidências científicas de que descendíamos de Adão e Eva, e não de processos de evolução biológica. Durante semanas, todos os sábados de manhã, essas pessoas voltavam com os mesmos discursos sobre o que dizia a Bíblia, pois, para elas, tratava-se da palavra de Deus, enquanto eu buscava publicações e argumentos científicos sobre as últimas descobertas da ciência, pensando que poderia os fazer entender a diferença entre fé e ciência.
Era uma discussão interminável: não importavam as evidências nem as informações apresentadas, porque qualquer dado contrário às crenças daquelas pessoas era imediatamente negado. Depois de quase dois meses desses encontros na porta de casa, e contra a minha vontade, meu pai interveio e simplesmente disse para aqueles religiosos que não voltassem mais ou chamaria a polícia. Demorei para perceber que nunca se tratou de uma discussão de ideias, mas de uma disputa de fé. E a fé não funciona no plano racional.
Basta refletir sobre a história da humanidade para entender que o poder político sempre esteve profundamente associado à religião. Reis, imperadores e governantes legitimavam sua autoridade por meio de uma suposta conexão direta com o divino. Em alguns casos, o soberano era considerado um deus vivo; em outros, um representante de deus na Terra. Atualmente, o Vaticano é talvez um dos exemplos mais visíveis dessa lógica: os fiéis não escolhem diretamente seu líder, mas um grupo restrito de cardeais decide quem ocupará o cargo máximo. Até o momento da eleição, o futuro papa é apenas mais um homem dentro da Igreja. Mas, após o ritual, muda de nome, de vestimenta e de posição no mundo. Renasce simbolicamente investido de uma autoridade transcendente.
Em outras sociedades, o caráter sagrado do poder é depositado em determinadas famílias, estabelecendo linhagens políticas e religiosas que atravessam gerações. Em ambos os casos, o resultado é semelhante: sistemas profundamente antidemocráticos que se perpetuam em razão do sustento simbólico da fé.
As democracias modernas tentaram romper com essa lógica. Não por acaso, muitas de suas constituições estabeleceram a separação entre Estado e religião como condição fundamental para garantir a existência de cidadãos livres, e não de súditos obedientes. A política deveria transformar-se em um espaço de debate racional entre projetos, interesses e ideias, e não em uma disputa entre fiéis.
No entanto, nas últimas décadas, assistimos a um processo inverso. A política voltou a adquirir traços religiosos. Os novos pastores misturam espetáculo, fé e poder político. Já não basta controlar templos (que em muitos casos viraram fábricas de eleitores): o sonho de toda grande igreja é controlar meios de comunicação, rádios, canais de televisão e, mais recentemente, as redes sociais, com influenciadores digitais religiosos. A lógica é poderosa: convencer as pessoas de que elas não estão discutindo política, mas o bem contra o mal, Deus contra o demônio. Quando isso acontece, desaparece a possibilidade de argumentação racional. A fé não se debate; vive-se. E justamente por isso ela é uma das forças mais potentes de mobilização coletiva que existem.
Esse fenômeno de mistura entre política e religião não se limita ao Brasil. Existem exemplos em diversas partes do mundo: Irã, Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel, entre muitos outros. No mundo ocidental, vem crescendo o poder dos grupos associados ao “dominionismo”, corrente teológica e política cristã que defende que os cristãos possuem um mandato divino para ocupar posições de poder e assumir o controle das instituições civis e seculares da sociedade.
No caso brasileiro, essa situação torna-se cada vez mais visível. Uma pesquisa recente mostrou que grande parte dos eleitores do candidato presidencial Flávio Bolsonaro continua apoiando-o mesmo após as revelações sobre suas relações com figuras polêmicas e esquemas ocultos de poder. Para muitos de seus eleitores, tudo não passaria de uma invenção, uma perseguição contra alguém que se autoproclamou representante “de um projeto de Deus” para combater os inimigos da nação e da fé. O ponto central já não é se as acusações são verdadeiras ou falsas. O importante é que, para muitos seguidores, nenhuma evidência é capaz de alterar essa crença sustentada pela fé.
Seu próprio pai, Jair Bolsonaro, em 2018, deixou de ocupar uma posição política marginal para transformar-se em uma figura quase messiânica, capaz de transferir legitimidade aos filhos e a todo um campo político que depende simbolicamente dele. E é interessante fazer um paralelo com aquilo que foi mencionado anteriormente quando me referi ao processo de transformação de uma pessoa em pontífice: um sujeito comum que, já na etapa final da vida, é proclamado líder por vontade divina, em uma espécie de renascimento, passa a ter sua história recontada de forma completamente diferente (obviamente com algumas partes apagadas), e qualquer acontecimento banal de sua trajetória passa a ser reinterpretado como sinal de uma escolha direta de Deus.
Esse processo de mistura entre fé e política é profundamente preocupante porque destrói a própria base dos princípios democráticos. Quando o adversário deixa de ser visto como um oponente legítimo e passa a representar o mal absoluto, qualquer diálogo se torna impossível. A crítica é interpretada como blasfêmia; a dúvida, como traição.
Nesse contexto, o Congresso corre o risco de transformar-se em um grande templo ocupado por pastores-deputados e senadores – e agora também por ministros da mais alta corte – que falam mais em nome de verdades reveladas do que de projetos políticos e demandas populares. Pouco a pouco, a fronteira entre religião e Estado vai tornando-se cada vez mais frágil e difusa.
A história demonstra que sociedades organizadas em torno de lideranças “sagradas” tendem a produzir formas autoritárias de poder. Quando a política se transforma em fé, os cidadãos deixam de agir como sujeitos críticos e passam a comportar-se como fiéis. E ali onde a fé substitui o debate, a democracia começa lentamente a desaparecer.
Era uma discussão interminável: não importavam as evidências nem as informações apresentadas, porque qualquer dado contrário às crenças daquelas pessoas era imediatamente negado. Depois de quase dois meses desses encontros na porta de casa, e contra a minha vontade, meu pai interveio e simplesmente disse para aqueles religiosos que não voltassem mais ou chamaria a polícia. Demorei para perceber que nunca se tratou de uma discussão de ideias, mas de uma disputa de fé. E a fé não funciona no plano racional.
Basta refletir sobre a história da humanidade para entender que o poder político sempre esteve profundamente associado à religião. Reis, imperadores e governantes legitimavam sua autoridade por meio de uma suposta conexão direta com o divino. Em alguns casos, o soberano era considerado um deus vivo; em outros, um representante de deus na Terra. Atualmente, o Vaticano é talvez um dos exemplos mais visíveis dessa lógica: os fiéis não escolhem diretamente seu líder, mas um grupo restrito de cardeais decide quem ocupará o cargo máximo. Até o momento da eleição, o futuro papa é apenas mais um homem dentro da Igreja. Mas, após o ritual, muda de nome, de vestimenta e de posição no mundo. Renasce simbolicamente investido de uma autoridade transcendente.
Em outras sociedades, o caráter sagrado do poder é depositado em determinadas famílias, estabelecendo linhagens políticas e religiosas que atravessam gerações. Em ambos os casos, o resultado é semelhante: sistemas profundamente antidemocráticos que se perpetuam em razão do sustento simbólico da fé.
As democracias modernas tentaram romper com essa lógica. Não por acaso, muitas de suas constituições estabeleceram a separação entre Estado e religião como condição fundamental para garantir a existência de cidadãos livres, e não de súditos obedientes. A política deveria transformar-se em um espaço de debate racional entre projetos, interesses e ideias, e não em uma disputa entre fiéis.
No entanto, nas últimas décadas, assistimos a um processo inverso. A política voltou a adquirir traços religiosos. Os novos pastores misturam espetáculo, fé e poder político. Já não basta controlar templos (que em muitos casos viraram fábricas de eleitores): o sonho de toda grande igreja é controlar meios de comunicação, rádios, canais de televisão e, mais recentemente, as redes sociais, com influenciadores digitais religiosos. A lógica é poderosa: convencer as pessoas de que elas não estão discutindo política, mas o bem contra o mal, Deus contra o demônio. Quando isso acontece, desaparece a possibilidade de argumentação racional. A fé não se debate; vive-se. E justamente por isso ela é uma das forças mais potentes de mobilização coletiva que existem.
Esse fenômeno de mistura entre política e religião não se limita ao Brasil. Existem exemplos em diversas partes do mundo: Irã, Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel, entre muitos outros. No mundo ocidental, vem crescendo o poder dos grupos associados ao “dominionismo”, corrente teológica e política cristã que defende que os cristãos possuem um mandato divino para ocupar posições de poder e assumir o controle das instituições civis e seculares da sociedade.
No caso brasileiro, essa situação torna-se cada vez mais visível. Uma pesquisa recente mostrou que grande parte dos eleitores do candidato presidencial Flávio Bolsonaro continua apoiando-o mesmo após as revelações sobre suas relações com figuras polêmicas e esquemas ocultos de poder. Para muitos de seus eleitores, tudo não passaria de uma invenção, uma perseguição contra alguém que se autoproclamou representante “de um projeto de Deus” para combater os inimigos da nação e da fé. O ponto central já não é se as acusações são verdadeiras ou falsas. O importante é que, para muitos seguidores, nenhuma evidência é capaz de alterar essa crença sustentada pela fé.
Seu próprio pai, Jair Bolsonaro, em 2018, deixou de ocupar uma posição política marginal para transformar-se em uma figura quase messiânica, capaz de transferir legitimidade aos filhos e a todo um campo político que depende simbolicamente dele. E é interessante fazer um paralelo com aquilo que foi mencionado anteriormente quando me referi ao processo de transformação de uma pessoa em pontífice: um sujeito comum que, já na etapa final da vida, é proclamado líder por vontade divina, em uma espécie de renascimento, passa a ter sua história recontada de forma completamente diferente (obviamente com algumas partes apagadas), e qualquer acontecimento banal de sua trajetória passa a ser reinterpretado como sinal de uma escolha direta de Deus.
Esse processo de mistura entre fé e política é profundamente preocupante porque destrói a própria base dos princípios democráticos. Quando o adversário deixa de ser visto como um oponente legítimo e passa a representar o mal absoluto, qualquer diálogo se torna impossível. A crítica é interpretada como blasfêmia; a dúvida, como traição.
Nesse contexto, o Congresso corre o risco de transformar-se em um grande templo ocupado por pastores-deputados e senadores – e agora também por ministros da mais alta corte – que falam mais em nome de verdades reveladas do que de projetos políticos e demandas populares. Pouco a pouco, a fronteira entre religião e Estado vai tornando-se cada vez mais frágil e difusa.
A história demonstra que sociedades organizadas em torno de lideranças “sagradas” tendem a produzir formas autoritárias de poder. Quando a política se transforma em fé, os cidadãos deixam de agir como sujeitos críticos e passam a comportar-se como fiéis. E ali onde a fé substitui o debate, a democracia começa lentamente a desaparecer.
Os eleitores devem estar loucos
Mais certo do que qualquer uma destas coisas é a minha convicção de que não passa um dia sem que alguém neste país tente convencer outra pessoa, através da mais robusta razão, de que uma determinada proposta da extrema-direita é estapafúrdia.
Encontramos cada vez mais pessoas que parecem ser absolutamente impermeáveis à razão, dizem as coisas mais absurdas, mantêm raciocínios contraditórios. A imunidade ao mais elementar raciocínio lógico é compreensivelmente aflitiva.
O historiador José Pacheco Pereira, pessoa a quem dificilmente se colará o adjetivo de ingénuo, cometeu a enorme ingenuidade de achar que, num debate televisivo, conseguiria expôr as mentiras de André Ventura através do uso da razão e da urbanidade. O resultado foi o previsível descarrilamento e um total de pessoas convencidas da vacuidade de Ventura que, arrisco, terá sido exatamente zero.
Aqui mesmo, nas páginas da VISÃO, Margarida Davim, a propósito da senhora bolsonarista-socialista, avisa que não é ao nível do discurso, mas ao da prática que é possível chegar a estas pessoas. Não basta desmontar falácias mais ou menos cómicas, é preciso acabar com um ciclo de mentiras e promessas quebradas, tradição que tem governado a ação do “arco da governação” nas últimas décadas.
Tem razão, mas temo que o problema não esteja aí. Creio até que não há melhorias das condições de vida das pessoas que as afastem deste lamaçal. Poderíamos ser o país mais seguro do mundo, com 365 crimes num ano, e haveria quem fosse todos os dias para as redes sociais dizer que “houve mais um” e que nos “querem convencer de que são só perceções”. A imigração poderia diminuir drasticamente que haveria sempre quem encontrasse um exemplo de uma pessoa não branca a atravessar fora da passadeira como exemplo de uma suposta selvajaria.
Entre aqueles que se interessam por política, que independentemente da sua ideologia olham para a Ágora como o local onde se debatem e testam ideias, a forma como milhões de eleitores parecem ter imunidade à razão é um fenómeno difícil de entender.
Há uma corrente na sociologia, avançada por Luc Boltanski, que se debruça sobre controvérsias públicas e disputas sobre o que é justo e injusto. Simplificando, o sociólogo francês diz que quem debate no espaço público, dependendo do contexto, tem de se submeter a uma certa lógica, tem de apresentar argumentos que sejam aceites como válidos para todos. Por exemplo, o pai pode apresentar a sua idade como fonte do poder que tem sobre o filho, mas se a mesma pessoa usar esse argumento para dar ordens ao diretor da sua empresa, ver-se-á em papos de aranha.
Diz Boltanski que, quando há uma disputa pública, os intervenientes não podem simplesmente invocar argumentos aleatórios, casuísticos e, claro, não se deve contradizer, sob pena de não serem reconhecidos. Precisam de se guiar por princípios de justiça e por uma ideia de bem comum, isto se não querem ser questionados. Mas, perante a realidade, esta teoria cai por terra. Como compreender que um líder político que enche a boca com “lei e ordem” desrespeite ostensivamente a lei quando as decisões dos tribunais não lhe convém ou quando os criminosos são polícias?
Há uma certa estranheza entre aqueles que acompanham mais de perto os fenómenos políticos, como se tivesse acabado uma época em que as pessoas se moviam em torno de ideologias coerentes, sujeitas a testes de razoabilidade e justiça. Mas essa época terá alguma vez existido?
Quando a cada eleição o eleitorado se mobilizava para votar massivamente em Aníbal Cavaco Silva, José Sócrates ou, mais recentemente, António Costa, fá-lo-ia de forma mais consciente do que aqueles que votam agora em forças políticas marcadas pela demagogia, pelo ódio e pela mais descarada incoerência?
A verdade é que, durante décadas, a existência de uma grande parte do eleitorado que votava de forma mais emotiva que racional, sem qualquer bússola ideológica, serviu os interesses do partidos que se alternavam no poder e agora se queixam. E o que esses partidos fizeram foi criar condições de vida para que os eleitores andassem demasiado ocupados em chegar ao fim do mês para se darem ao luxo de se preocupar com veleidades exóticas como a política.
O que é que fizeram os sucessivos governos da nossa democracia-liberal para que o sistema de ensino criasse cidadãos com capacidade crítica, conscientes da dimensão política da sua vida, capazes de discernir entre programas políticos distintos? Eles concentraram os seus esforços na criação de cidadãos consumidores/trabalhadores enquanto isso lhes permitiu vencer eleições com base em promessas vagas, hinos de campanha, porta-chaves e conselhos de consultores de imagem. Agora choram porque lhes roubaram a clientela.
Mas agora é demasiado tarde. Houve uma altura em que foi possível dotar as pessoas de capacidades para participar de forma crítica no processo político, mas preferiu-se embarcar em esquemas que artificialmente reconheciam competências com graus académicos. Agora, de cada vez que há alguma tentativa de mudar currículos ou controlar a quantidade de desinformação que inunda as redes sociais, imediatamente surgem as vozes que alertam para a possibilidade de o País se estar a tornar numa Coreia do Norte.
Os partidos do arco da governação estão a colher os frutos que semearam. Foi pela sua mão que a política, em vez de ser vista como a forma como nos juntamos para decidir a nossa vida coletiva, se tornou numa feira de vaidades. Agora que estão a ser derrotados no seu próprio jogo, choram.
Encontramos cada vez mais pessoas que parecem ser absolutamente impermeáveis à razão, dizem as coisas mais absurdas, mantêm raciocínios contraditórios. A imunidade ao mais elementar raciocínio lógico é compreensivelmente aflitiva.
O historiador José Pacheco Pereira, pessoa a quem dificilmente se colará o adjetivo de ingénuo, cometeu a enorme ingenuidade de achar que, num debate televisivo, conseguiria expôr as mentiras de André Ventura através do uso da razão e da urbanidade. O resultado foi o previsível descarrilamento e um total de pessoas convencidas da vacuidade de Ventura que, arrisco, terá sido exatamente zero.
Aqui mesmo, nas páginas da VISÃO, Margarida Davim, a propósito da senhora bolsonarista-socialista, avisa que não é ao nível do discurso, mas ao da prática que é possível chegar a estas pessoas. Não basta desmontar falácias mais ou menos cómicas, é preciso acabar com um ciclo de mentiras e promessas quebradas, tradição que tem governado a ação do “arco da governação” nas últimas décadas.
Tem razão, mas temo que o problema não esteja aí. Creio até que não há melhorias das condições de vida das pessoas que as afastem deste lamaçal. Poderíamos ser o país mais seguro do mundo, com 365 crimes num ano, e haveria quem fosse todos os dias para as redes sociais dizer que “houve mais um” e que nos “querem convencer de que são só perceções”. A imigração poderia diminuir drasticamente que haveria sempre quem encontrasse um exemplo de uma pessoa não branca a atravessar fora da passadeira como exemplo de uma suposta selvajaria.
Entre aqueles que se interessam por política, que independentemente da sua ideologia olham para a Ágora como o local onde se debatem e testam ideias, a forma como milhões de eleitores parecem ter imunidade à razão é um fenómeno difícil de entender.
Há uma corrente na sociologia, avançada por Luc Boltanski, que se debruça sobre controvérsias públicas e disputas sobre o que é justo e injusto. Simplificando, o sociólogo francês diz que quem debate no espaço público, dependendo do contexto, tem de se submeter a uma certa lógica, tem de apresentar argumentos que sejam aceites como válidos para todos. Por exemplo, o pai pode apresentar a sua idade como fonte do poder que tem sobre o filho, mas se a mesma pessoa usar esse argumento para dar ordens ao diretor da sua empresa, ver-se-á em papos de aranha.
Diz Boltanski que, quando há uma disputa pública, os intervenientes não podem simplesmente invocar argumentos aleatórios, casuísticos e, claro, não se deve contradizer, sob pena de não serem reconhecidos. Precisam de se guiar por princípios de justiça e por uma ideia de bem comum, isto se não querem ser questionados. Mas, perante a realidade, esta teoria cai por terra. Como compreender que um líder político que enche a boca com “lei e ordem” desrespeite ostensivamente a lei quando as decisões dos tribunais não lhe convém ou quando os criminosos são polícias?
Há uma certa estranheza entre aqueles que acompanham mais de perto os fenómenos políticos, como se tivesse acabado uma época em que as pessoas se moviam em torno de ideologias coerentes, sujeitas a testes de razoabilidade e justiça. Mas essa época terá alguma vez existido?
Quando a cada eleição o eleitorado se mobilizava para votar massivamente em Aníbal Cavaco Silva, José Sócrates ou, mais recentemente, António Costa, fá-lo-ia de forma mais consciente do que aqueles que votam agora em forças políticas marcadas pela demagogia, pelo ódio e pela mais descarada incoerência?
A verdade é que, durante décadas, a existência de uma grande parte do eleitorado que votava de forma mais emotiva que racional, sem qualquer bússola ideológica, serviu os interesses do partidos que se alternavam no poder e agora se queixam. E o que esses partidos fizeram foi criar condições de vida para que os eleitores andassem demasiado ocupados em chegar ao fim do mês para se darem ao luxo de se preocupar com veleidades exóticas como a política.
O que é que fizeram os sucessivos governos da nossa democracia-liberal para que o sistema de ensino criasse cidadãos com capacidade crítica, conscientes da dimensão política da sua vida, capazes de discernir entre programas políticos distintos? Eles concentraram os seus esforços na criação de cidadãos consumidores/trabalhadores enquanto isso lhes permitiu vencer eleições com base em promessas vagas, hinos de campanha, porta-chaves e conselhos de consultores de imagem. Agora choram porque lhes roubaram a clientela.
Mas agora é demasiado tarde. Houve uma altura em que foi possível dotar as pessoas de capacidades para participar de forma crítica no processo político, mas preferiu-se embarcar em esquemas que artificialmente reconheciam competências com graus académicos. Agora, de cada vez que há alguma tentativa de mudar currículos ou controlar a quantidade de desinformação que inunda as redes sociais, imediatamente surgem as vozes que alertam para a possibilidade de o País se estar a tornar numa Coreia do Norte.
Os partidos do arco da governação estão a colher os frutos que semearam. Foi pela sua mão que a política, em vez de ser vista como a forma como nos juntamos para decidir a nossa vida coletiva, se tornou numa feira de vaidades. Agora que estão a ser derrotados no seu próprio jogo, choram.
Subserviência dos Bolsonaro a Trump pode custar a eleição de Flávio
A falta de vida inteligente e bem informada na campanha de Flávio Bolsonaro explica por que ele foi visitar Donald Trump às vésperas do novo tarifaço e do ataque ao Pix, sem que ninguém o advertisse sobre os riscos que correria. Lembra-se da carta enviada por Trump a Lula em julho de 2025, em defesa da suspensão imediata do julgamento de Jair Bolsonaro e dos demais golpistas do 8 de janeiro? Estava lá a determinação de Trump para que o Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) começasse a investigar o Brasil pela prática de atos nocivos e em desacordo com os superiores interesses comerciais norte-americanos.
O que chamamos, hoje, de segundo tarifaço de Trump é a conclusão daquela investigação. Embora esperneie — e tem mais é que fazê-lo —, o governo brasileiro não foi pego de surpresa. O setor de exportação tampouco, e sofrerá menos do que se espera, pois se preparou para o que veio. Surpreendido foi Flávio e seus aliados mais próximos.
Flávio saudou o “tarifaço 1”, que poderia ter ajudado seu pai a livrar-se da prisão. O “tarifaço 2”, no entanto, atingiu em cheio a sua candidatura, a ponto de estar sendo chamado de “Tariflávio”. Daí a sua agonia. Oito em cada dez mensagens opinativas sobre o assunto, trocadas nos mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram monitorados pela Palver, empresa de análise de dados, apontam Flávio como culpado pelas ameaças ao Pix ou pelo novo tarifaço.
O monitoramento cobre o período de 27 de maio a 2 de junho. Flávio reuniu-se com Trump no dia 26 de maio, e o “Tariflávio” é de 1º de junho. Segundo o relatório da Palver, as publicações predominantes acusam o senador e a família Bolsonaro de “traição à pátria” e de alinhamento a interesses estrangeiros, além de descrever a ofensiva americana como um ataque a uma conquista da população brasileira. Esse discurso repetido nas mensagens é semelhante ao que tem sido adotado por Lula em suas manifestações públicas.
Entre as mensagens que isentam Flávio, três linhas de argumentação se destacam: a classificação das acusações como desinformação ou manobra política da esquerda; a negação de risco concreto ao Pix; e a defesa de que a atuação do senador nos Estados Unidos mirava o combate ao crime organizado. Essa última vertente também critica o governo Lula por reagir às medidas americanas e usar o tema para desgastar Flávio.
O que é bom para os Estados Unidos não é necessariamente bom para o Brasil, ao contrário do que disse nos anos 1960 Juracy Magalhães, embaixador do Brasil em Washington à época do governo do general-presidente Humberto Castelo Branco, o primeiro da ditadura militar. A subserviência dos Bolsonaro a Trump poderá ser uma das razões da provável derrota de Flávio em outubro próximo.
O que chamamos, hoje, de segundo tarifaço de Trump é a conclusão daquela investigação. Embora esperneie — e tem mais é que fazê-lo —, o governo brasileiro não foi pego de surpresa. O setor de exportação tampouco, e sofrerá menos do que se espera, pois se preparou para o que veio. Surpreendido foi Flávio e seus aliados mais próximos.
Flávio saudou o “tarifaço 1”, que poderia ter ajudado seu pai a livrar-se da prisão. O “tarifaço 2”, no entanto, atingiu em cheio a sua candidatura, a ponto de estar sendo chamado de “Tariflávio”. Daí a sua agonia. Oito em cada dez mensagens opinativas sobre o assunto, trocadas nos mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram monitorados pela Palver, empresa de análise de dados, apontam Flávio como culpado pelas ameaças ao Pix ou pelo novo tarifaço.
O monitoramento cobre o período de 27 de maio a 2 de junho. Flávio reuniu-se com Trump no dia 26 de maio, e o “Tariflávio” é de 1º de junho. Segundo o relatório da Palver, as publicações predominantes acusam o senador e a família Bolsonaro de “traição à pátria” e de alinhamento a interesses estrangeiros, além de descrever a ofensiva americana como um ataque a uma conquista da população brasileira. Esse discurso repetido nas mensagens é semelhante ao que tem sido adotado por Lula em suas manifestações públicas.
Entre as mensagens que isentam Flávio, três linhas de argumentação se destacam: a classificação das acusações como desinformação ou manobra política da esquerda; a negação de risco concreto ao Pix; e a defesa de que a atuação do senador nos Estados Unidos mirava o combate ao crime organizado. Essa última vertente também critica o governo Lula por reagir às medidas americanas e usar o tema para desgastar Flávio.
O que é bom para os Estados Unidos não é necessariamente bom para o Brasil, ao contrário do que disse nos anos 1960 Juracy Magalhães, embaixador do Brasil em Washington à época do governo do general-presidente Humberto Castelo Branco, o primeiro da ditadura militar. A subserviência dos Bolsonaro a Trump poderá ser uma das razões da provável derrota de Flávio em outubro próximo.
Aprenda de uma vez, 01
Uma das glórias da matemática é a história de que um número elevado a zero é sempre igual a 1. Como pode? Não faz sentido. É algo que, para nós, leigos, alunos relapsos ou miseravelmente formados em humanas, parece absurdo. No entanto, se tivéssemos prestado atenção à aula onde se ensinou o conceito em vez de ficar olhando para as pernas da professora, veríamos como a questão é simples e coerente. Não vou me deter a explicá-la aqui, nem tenho autoridade para isso, mas vá por mim: qualquer número elevado a zero é 1 mesmo. E não só na matemática, como a família Bolsonaro deve estar descobrindo.
Os Bolsonaros têm a mania de, nos frequentes bate-bocas que promovem, tentar silenciar os interlocutores cortando-lhes a palavra com seus grosseiros bordões "Ponto final!", "Caso encerrado!", "Próxima pergunta!", "O recado está dado!", "E daí?", "Cala a boca!" e o favorito deles: "Zero! Chance zero!". Ouvimos isso de Jair Bolsonaro todos os dias durante quatro anos. Era como se, ao reduzir a zero qualquer pergunta, suspeita ou acusação, a dita pergunta, suspeita ou acusação desaparecesse por si só, virasse zero. A realidade provou que ele estava matemática e judicialmente errado.
Outro que repete o equívoco agora é seu filho Flávio Bolsonaro, por acaso o 01 dessa dinastia draculesca. Está até o pescoço com os tipos mais encalacrados do Brasil em matéria de transformar dinheiro público em dinheiro podre e, inquirido a respeito, responde: "Nada a ver! Zero!" —apenas para ser desmentido por gravações de sua própria voz ou por descobertas da polícia.
O momento mais sublime foi o que deu início à trapalhada envolvendo a chanchada sobre seu pai. Ao ser perguntado se tomara dinheiro de Daniel Vorcaro, riu nervoso para as câmeras e disse: "De onde você tirou isso? Zero!". Horas depois, sua tentativa de elevação desse caso a zero não se transformou em 1, mas em R$ 134 milhões que ele não consegue explicar nem fará desaparecer.
Aprenda de uma vez, 01: a matemática não falha. Zero!
Os Bolsonaros têm a mania de, nos frequentes bate-bocas que promovem, tentar silenciar os interlocutores cortando-lhes a palavra com seus grosseiros bordões "Ponto final!", "Caso encerrado!", "Próxima pergunta!", "O recado está dado!", "E daí?", "Cala a boca!" e o favorito deles: "Zero! Chance zero!". Ouvimos isso de Jair Bolsonaro todos os dias durante quatro anos. Era como se, ao reduzir a zero qualquer pergunta, suspeita ou acusação, a dita pergunta, suspeita ou acusação desaparecesse por si só, virasse zero. A realidade provou que ele estava matemática e judicialmente errado.
Outro que repete o equívoco agora é seu filho Flávio Bolsonaro, por acaso o 01 dessa dinastia draculesca. Está até o pescoço com os tipos mais encalacrados do Brasil em matéria de transformar dinheiro público em dinheiro podre e, inquirido a respeito, responde: "Nada a ver! Zero!" —apenas para ser desmentido por gravações de sua própria voz ou por descobertas da polícia.
O momento mais sublime foi o que deu início à trapalhada envolvendo a chanchada sobre seu pai. Ao ser perguntado se tomara dinheiro de Daniel Vorcaro, riu nervoso para as câmeras e disse: "De onde você tirou isso? Zero!". Horas depois, sua tentativa de elevação desse caso a zero não se transformou em 1, mas em R$ 134 milhões que ele não consegue explicar nem fará desaparecer.
Aprenda de uma vez, 01: a matemática não falha. Zero!
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Nova colônia?
Quando um país interfere nas decisões de outro, a liberdade morre. Convido toda a Colômbia a votar livremente e a não se tornar escrava ou colônia de ninguém
Gustavo Petro, presidente da Colômbia
Gustavo Petro, presidente da Colômbia
Os cabos que a guerra pode cortar: Ormuz e a fragilidade digital do mundo
O Estreito de Ormuz é inegavelmente um ponto de estrangulamento global. Por ele trafega um quinto do petróleo mundial e grande parte dos fertilizantes agrícolas que alimentam cadeias produtivas em todos os continentes. Além desses recursos, o estreito também é uma rota vital para insumos da indústria de tecnologia, como o hélio – essencial para o resfriamento de equipamentos que produzem chips. Vale destacar que 64,7% do hélio importado pelo setor de semicondutores da Coreia do Sul é fornecido pelo Catar e escoado, em grande parte, por Ormuz.
Contudo, a relevância do estreito vai muito além das necessidades logísticas. A agência iraniana Tasnim News Agency, alinhada com o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC), publicou uma reportagem sobre os cabos submarinos e a infraestrutura de nuvem do Golfo Pérsico, que exibia um mapa dos sistemas de fibra óptica mais críticos da região, com destaque para o sistema FALCON, e foi interpretada pelo MEMRI e pela Iran International como uma ameaça velada ao corte deliberado dessas infraestruturas. O temor era de que a interrupção simultânea desses cabos pudesse provocar apagões digitais severos com impacto muito além do Oriente Médio.
Ao contrário da percepção comum, o funcionamento da internet não é provido primariamente por satélites, mas sim por mais de seiscentos cabos submarinos que percorrem o fundo dos oceanos. Essas infraestruturas são responsáveis pela transmissão de mais de 99% do tráfego intercontinental de dados: informações pessoais, governamentais e financeiras. Na economia, esses cabos viabilizam mais de 10 trilhões de dólares em transações financeiras diárias. Essa importância é amplificada pela crescente demanda das empresas de tecnologia por dados em escala massiva, essenciais para o treinamento de modelos de inteligência artificial. Por isso, os cabos de fibra óptica intercontinentais tornaram-se o centro de disputas geopolíticas entre potências como Estados Unidos e China, que competem pela instalação, controle e manutenção dessas infraestruturas críticas.
De acordo com dados do International Cable Protection Committee (ICPC), entre 150 e 200 cabos são danificados anualmente por atividade humana acidental, principalmente ancoragem e pesca. Embora a maioria desses rompimentos seja considerada acidental, crescem as suspeitas de sabotagem deliberada. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o número de incidentes no Mar Báltico aumentou de forma sistemática. Em novembro de 2024, o navio chinês Yi Peng 3, que havia partido do porto russo de Ust-Luga, foi investigado pelo rompimento de dois cabos no Mar Báltico em menos de 24 horas: o cabo BCS, que conecta Suécia e Lituânia, cortado em 17 de novembro, e o C-Lion1, que liga Alemanha e Finlândia, cortado no dia seguinte. O ministro da Defesa alemão Boris Pistorius afirmou publicamente que assumia tratar-se de sabotagem. Esses eventos levantaram a suspeita de uma guerra híbrida submarina destinada a fragilizar a economia europeia em meio às tensões do conflito ucraniano. Taiwan, por sua vez, registra um número crescente de incidentes de cabos danificados nas suas águas costeiras, com cinco casos em 2025 contra três em cada um dos dois anos anteriores, segundo o Ministério de Assuntos Digitais de Taipé.
É nesse contexto estratégico e de ameaças que se inserem as infraestruturas submersas no Estreito de Ormuz. Embora a maioria das fibras submarinas intercontinentais apenas contorne o Oriente Médio, algumas entram pelo Estreito de Ormuz e são os “cordões umbilicais” da região.Foto: Domínio público
Entre os cabos mais críticos que atravessam Ormuz, três se destacam pelo impacto potencial de um corte.
O Gulf Bridge International Cable System/Middle East North Africa Cable System (GBICS/MENA), conhecido como GBI, é considerado o cabo mais importante intra-Golfo. Sediado no Catar, ele desenha um “anel” dentro do Golfo Pérsico, conectando todos os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã – além de possuir ligações fundamentais no Iraque (em Al Faw), no Irã e na Índia. Sua conectividade garante também a ligação com o continente europeu.
O sistema Asia Africa Europe-1 (AAE-1), com 25 mil km de extensão, é um dos maiores troncos globais de dados, interligando Ásia, África e Europa. Como parte de seu trajeto atinge o Golfo Pérsico, seu corte teria implicações que vão além da economia regional, impactando significativamente o tráfego de dados para o continente asiático. O FALCON conecta Índia, Omã, países do Golfo e o Egito, e tem sido explicitamente citado por agências de notícias ligadas a militares iranianos como um “alvo estratégico” – tornando-o símbolo mais visível dessa dimensão do conflito em Ormuz. A interrupção de qualquer um desses sistemas teria consequências que vão muito além da conectividade regional.
Embora a arquitetura da internet seja projetada para garantir redundância, o corte de um cabo submarino não afeta apenas serviços de streaming convencionais, mas a própria economia e a defesa globais. As consequências imediatas incluem o atraso nas transações do SWIFT e a degradação da latência em plataformas de nuvem que gerenciam a extração inteligente de petróleo em refinarias e plataformas marítimas, o que pode impactar o preço da energia para o consumidor final.
A dimensão militar é igualmente crítica. A “máquina de guerra” dos Estados Unidos depende maciçamente desses dados, afetando diretamente o Comando Central (CENTCOM) no Catar e a 5ª Frota no Bahrein. Embora as Forças Armadas façam uso de satélites de órbita baixa como o Starlink/Starshield, existe um limite real para o que a banda de satélite consegue suportar: a vigilância por drones de alta resolução e a logística de operações de grande escala ainda exigem a capacidade dos cabos físicos de fibra óptica. Satélites oferecem mobilidade; cabos oferecem volume. Em uma guerra de alta intensidade no Golfo, essa distinção pode ser decisiva.
Nos últimos anos, com o objetivo de transformar suas economias de extrativistas para tecnológicas, os países do Golfo têm atraído pesados investimentos de empresas como Amazon, Microsoft, Google, Oracle e Nvidia. Diante da crescente instabilidade dos mares, cada país revelou uma postura estratégica distinta frente à vulnerabilidade dos cabos.
Os protegidos são aqueles que, por geografia ou planejamento, conseguem contornar o gargalo de Ormuz. Os Emirados Árabes Unidos (EAU) consolidaram-se como o polo de inteligência artificial do Oriente Médio, com empresas como a G42 e o modelo de linguagem Falcon LLM, além do centro financeiro de Dubai – todos demandando larguras de banda colossais. A estratégia dos EAU reside no fato de ser o único país da região banhado pelo Golfo de Omã, o que lhes garante uma saída do Estreito. Isso permitiu concentrar a aterrissagem de cabos em Fujairah: em caso de bloqueio em Ormuz, Abu Dhabi e Dubai permaneceriam conectadas ao mundo, transmitindo dados por terra até o litoral externo. Omã, por sua vez, capitalizou sua localização geográfica com investimentos que transformaram Muscat e Salalah em grandes polos de data centers – como os da Equinix. Estrategicamente, Omã atua como um grande bypass para Europa e Ásia, não sendo diretamente impactado por cortes dentro do Estreito.
Os vulneráveis são aqueles cujos cabos precisam cruzar todas as águas tensionadas do Golfo. O Catar exemplifica essa exposição: apesar de concentrar o Qatar Science & Technology Park e atrair provedores como Google Cloud e Microsoft Azure, vitais para seu setor financeiro e para serviços de mídia como a Al Jazeera, seu confinamento geográfico dentro do Golfo Pérsico o torna altamente frágil. Um corte nos cabos submarinos obrigaria Doha a depender de rotas terrestres que cruzam a Arábia Saudita. A Arábia Saudita, embora geograficamente menos confinada que o Catar, também enfrenta exposição significativa: sua Vision 2030 depende de conectividade digital robusta – o país investiu mais de US$ 1 bilhão em novos cabos submarinos para se tornar hub digital regional –, e seus principais sistemas compartilham as mesmas rotas tensionadas do Golfo e do Mar Vermelho. Kuwait e Iraque, posicionados no extremo norte do Golfo, seriam ainda mais afetados: qualquer sistema que os sirva precisa cruzar todas as águas tensionadas de Ormuz. O Kuwait, em particular, cuja Vision 2035 – o plano “New Kuwait” de transformação da economia em hub tecnológico-financeiro regional – depende criticamente de parcerias com empresas globais de tecnologia e de conectividade externa para ser executado.
Os oportunistas são aqueles que podem transformar a crise em vantagem. O Iraque, através de sua estação de aterrissagem em Al Faw, é visto tanto como um ponto vulnerável quanto como uma rota alternativa. Diante da periculosidade dos mares, cresce o interesse em rotas terrestres alternativas, como o projeto “Development Road” – um corredor de US$ 17 bilhões que ligaria o porto iraquiano de Al Faw à fronteira turca e, daí, à Europa –, concebido originalmente para logística de mercadorias, mas cada vez mais relevante também como possível rota alternativa para cabos terrestres de fibra óptica caso os corredores marítimos de Ormuz e do Mar Vermelho venham a falhar simultaneamente.
A limitação do tráfego naval imposta em Ormuz restringe a movimentação dos navios de manutenção de cabos submarinos, aumentando ainda mais a vulnerabilidade dessas infraestruturas a danos e ataques.
O Oriente Médio ficou incrivelmente rico exportando petróleo pelos mares. Mas seu futuro na economia digital pode ser refém dos mesmos corredores. Para mitigar essa dependência, a solução emergente poderia ser o enterramento de cabos terrestres pelo deserto (interligando Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã e Jordânia), já que os mares se tornaram militarmente voláteis demais para as fibras ópticas responsáveis por mais de 99% do tráfego intercontinental de dados e, com ele, a maior parte da economia digital do planeta.
Se os oceanos se tornaram zonas de guerra híbrida, a pergunta que permanece é geopolítica antes de ser técnica: a prioridade será aprimorar a segurança e a governança dos vulneráveis cabos submarinos, ou a disputa será focada em quem controlará as rotas terrestres do futuro digital, traçadas pelos desertos? A resposta pode definir o equilíbrio de poder do século XXI tanto quanto o petróleo definiu o do século XX.
Contudo, a relevância do estreito vai muito além das necessidades logísticas. A agência iraniana Tasnim News Agency, alinhada com o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC), publicou uma reportagem sobre os cabos submarinos e a infraestrutura de nuvem do Golfo Pérsico, que exibia um mapa dos sistemas de fibra óptica mais críticos da região, com destaque para o sistema FALCON, e foi interpretada pelo MEMRI e pela Iran International como uma ameaça velada ao corte deliberado dessas infraestruturas. O temor era de que a interrupção simultânea desses cabos pudesse provocar apagões digitais severos com impacto muito além do Oriente Médio.
Ao contrário da percepção comum, o funcionamento da internet não é provido primariamente por satélites, mas sim por mais de seiscentos cabos submarinos que percorrem o fundo dos oceanos. Essas infraestruturas são responsáveis pela transmissão de mais de 99% do tráfego intercontinental de dados: informações pessoais, governamentais e financeiras. Na economia, esses cabos viabilizam mais de 10 trilhões de dólares em transações financeiras diárias. Essa importância é amplificada pela crescente demanda das empresas de tecnologia por dados em escala massiva, essenciais para o treinamento de modelos de inteligência artificial. Por isso, os cabos de fibra óptica intercontinentais tornaram-se o centro de disputas geopolíticas entre potências como Estados Unidos e China, que competem pela instalação, controle e manutenção dessas infraestruturas críticas.
De acordo com dados do International Cable Protection Committee (ICPC), entre 150 e 200 cabos são danificados anualmente por atividade humana acidental, principalmente ancoragem e pesca. Embora a maioria desses rompimentos seja considerada acidental, crescem as suspeitas de sabotagem deliberada. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o número de incidentes no Mar Báltico aumentou de forma sistemática. Em novembro de 2024, o navio chinês Yi Peng 3, que havia partido do porto russo de Ust-Luga, foi investigado pelo rompimento de dois cabos no Mar Báltico em menos de 24 horas: o cabo BCS, que conecta Suécia e Lituânia, cortado em 17 de novembro, e o C-Lion1, que liga Alemanha e Finlândia, cortado no dia seguinte. O ministro da Defesa alemão Boris Pistorius afirmou publicamente que assumia tratar-se de sabotagem. Esses eventos levantaram a suspeita de uma guerra híbrida submarina destinada a fragilizar a economia europeia em meio às tensões do conflito ucraniano. Taiwan, por sua vez, registra um número crescente de incidentes de cabos danificados nas suas águas costeiras, com cinco casos em 2025 contra três em cada um dos dois anos anteriores, segundo o Ministério de Assuntos Digitais de Taipé.
É nesse contexto estratégico e de ameaças que se inserem as infraestruturas submersas no Estreito de Ormuz. Embora a maioria das fibras submarinas intercontinentais apenas contorne o Oriente Médio, algumas entram pelo Estreito de Ormuz e são os “cordões umbilicais” da região.Foto: Domínio público
Entre os cabos mais críticos que atravessam Ormuz, três se destacam pelo impacto potencial de um corte.
O Gulf Bridge International Cable System/Middle East North Africa Cable System (GBICS/MENA), conhecido como GBI, é considerado o cabo mais importante intra-Golfo. Sediado no Catar, ele desenha um “anel” dentro do Golfo Pérsico, conectando todos os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã – além de possuir ligações fundamentais no Iraque (em Al Faw), no Irã e na Índia. Sua conectividade garante também a ligação com o continente europeu.
O sistema Asia Africa Europe-1 (AAE-1), com 25 mil km de extensão, é um dos maiores troncos globais de dados, interligando Ásia, África e Europa. Como parte de seu trajeto atinge o Golfo Pérsico, seu corte teria implicações que vão além da economia regional, impactando significativamente o tráfego de dados para o continente asiático. O FALCON conecta Índia, Omã, países do Golfo e o Egito, e tem sido explicitamente citado por agências de notícias ligadas a militares iranianos como um “alvo estratégico” – tornando-o símbolo mais visível dessa dimensão do conflito em Ormuz. A interrupção de qualquer um desses sistemas teria consequências que vão muito além da conectividade regional.
Embora a arquitetura da internet seja projetada para garantir redundância, o corte de um cabo submarino não afeta apenas serviços de streaming convencionais, mas a própria economia e a defesa globais. As consequências imediatas incluem o atraso nas transações do SWIFT e a degradação da latência em plataformas de nuvem que gerenciam a extração inteligente de petróleo em refinarias e plataformas marítimas, o que pode impactar o preço da energia para o consumidor final.
A dimensão militar é igualmente crítica. A “máquina de guerra” dos Estados Unidos depende maciçamente desses dados, afetando diretamente o Comando Central (CENTCOM) no Catar e a 5ª Frota no Bahrein. Embora as Forças Armadas façam uso de satélites de órbita baixa como o Starlink/Starshield, existe um limite real para o que a banda de satélite consegue suportar: a vigilância por drones de alta resolução e a logística de operações de grande escala ainda exigem a capacidade dos cabos físicos de fibra óptica. Satélites oferecem mobilidade; cabos oferecem volume. Em uma guerra de alta intensidade no Golfo, essa distinção pode ser decisiva.
Nos últimos anos, com o objetivo de transformar suas economias de extrativistas para tecnológicas, os países do Golfo têm atraído pesados investimentos de empresas como Amazon, Microsoft, Google, Oracle e Nvidia. Diante da crescente instabilidade dos mares, cada país revelou uma postura estratégica distinta frente à vulnerabilidade dos cabos.
Os protegidos são aqueles que, por geografia ou planejamento, conseguem contornar o gargalo de Ormuz. Os Emirados Árabes Unidos (EAU) consolidaram-se como o polo de inteligência artificial do Oriente Médio, com empresas como a G42 e o modelo de linguagem Falcon LLM, além do centro financeiro de Dubai – todos demandando larguras de banda colossais. A estratégia dos EAU reside no fato de ser o único país da região banhado pelo Golfo de Omã, o que lhes garante uma saída do Estreito. Isso permitiu concentrar a aterrissagem de cabos em Fujairah: em caso de bloqueio em Ormuz, Abu Dhabi e Dubai permaneceriam conectadas ao mundo, transmitindo dados por terra até o litoral externo. Omã, por sua vez, capitalizou sua localização geográfica com investimentos que transformaram Muscat e Salalah em grandes polos de data centers – como os da Equinix. Estrategicamente, Omã atua como um grande bypass para Europa e Ásia, não sendo diretamente impactado por cortes dentro do Estreito.
Os vulneráveis são aqueles cujos cabos precisam cruzar todas as águas tensionadas do Golfo. O Catar exemplifica essa exposição: apesar de concentrar o Qatar Science & Technology Park e atrair provedores como Google Cloud e Microsoft Azure, vitais para seu setor financeiro e para serviços de mídia como a Al Jazeera, seu confinamento geográfico dentro do Golfo Pérsico o torna altamente frágil. Um corte nos cabos submarinos obrigaria Doha a depender de rotas terrestres que cruzam a Arábia Saudita. A Arábia Saudita, embora geograficamente menos confinada que o Catar, também enfrenta exposição significativa: sua Vision 2030 depende de conectividade digital robusta – o país investiu mais de US$ 1 bilhão em novos cabos submarinos para se tornar hub digital regional –, e seus principais sistemas compartilham as mesmas rotas tensionadas do Golfo e do Mar Vermelho. Kuwait e Iraque, posicionados no extremo norte do Golfo, seriam ainda mais afetados: qualquer sistema que os sirva precisa cruzar todas as águas tensionadas de Ormuz. O Kuwait, em particular, cuja Vision 2035 – o plano “New Kuwait” de transformação da economia em hub tecnológico-financeiro regional – depende criticamente de parcerias com empresas globais de tecnologia e de conectividade externa para ser executado.
Os oportunistas são aqueles que podem transformar a crise em vantagem. O Iraque, através de sua estação de aterrissagem em Al Faw, é visto tanto como um ponto vulnerável quanto como uma rota alternativa. Diante da periculosidade dos mares, cresce o interesse em rotas terrestres alternativas, como o projeto “Development Road” – um corredor de US$ 17 bilhões que ligaria o porto iraquiano de Al Faw à fronteira turca e, daí, à Europa –, concebido originalmente para logística de mercadorias, mas cada vez mais relevante também como possível rota alternativa para cabos terrestres de fibra óptica caso os corredores marítimos de Ormuz e do Mar Vermelho venham a falhar simultaneamente.
A limitação do tráfego naval imposta em Ormuz restringe a movimentação dos navios de manutenção de cabos submarinos, aumentando ainda mais a vulnerabilidade dessas infraestruturas a danos e ataques.
O Oriente Médio ficou incrivelmente rico exportando petróleo pelos mares. Mas seu futuro na economia digital pode ser refém dos mesmos corredores. Para mitigar essa dependência, a solução emergente poderia ser o enterramento de cabos terrestres pelo deserto (interligando Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã e Jordânia), já que os mares se tornaram militarmente voláteis demais para as fibras ópticas responsáveis por mais de 99% do tráfego intercontinental de dados e, com ele, a maior parte da economia digital do planeta.
Se os oceanos se tornaram zonas de guerra híbrida, a pergunta que permanece é geopolítica antes de ser técnica: a prioridade será aprimorar a segurança e a governança dos vulneráveis cabos submarinos, ou a disputa será focada em quem controlará as rotas terrestres do futuro digital, traçadas pelos desertos? A resposta pode definir o equilíbrio de poder do século XXI tanto quanto o petróleo definiu o do século XX.
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