sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Inferno astral à moda brasileira

Ao escrever Os Demônios (Rússia, 1873), Dostoiévski não queria falar sobre fenômenos espíritas, tampouco sobre exorcismo. Os demônios a que se referiu assombravam o bolso e a panela do povão russo quando o czarismo respirava por aparelhos. Em plena efervescência das democracias liberais e da contagiante Belle Époque, os russos também viviam sua ebulição cultural, animados pelos ecos do iluminismo europeu. A Revolução Gloriosa na Inglaterra, a Independência Estadunidense e a Revolução Francesa encontravam correspondência no mundo todo, especialmente no quintal dos truculentos Romanov.


Curiosamente, os demônios que frequentavam as mentes russas eram os mesmos que tiravam (e ainda tiram) o sossego de outras nações, apesar da derrocada monarquista mundo afora. A diferença estava no fato de que, nas democracias que sucederam o absolutismo, tais demônios haviam perdido força, ou abrandado suas feições. Nos dias de hoje, por exemplo, Dostoiévski facilmente enxergaria os demônios, que ainda atormentam a democracia resiliente da Ilha da Vera Cruz. Possivelmente seria atual para nós o parágrafo: “Esses demônios […] são todas as chagas […] que se acumularam na nossa Rússia (ou Brasil?) para todo o sempre”. Certamente por isso mesmo, alguns anjos decaídos, inclusive brasileiros, ainda queiram devolvê-lo às prisões da Sibéria, um século e meio depois de sua morte.

Por sua vez, no auge da II Guerra Mundial, o inglês C.S. Lewis publicou o surpreendente “A Abolição do Homem” (Oxford University, 1944), no qual nos apresentava o que podemos chamar de a outra bandinha da laranja dos “Demônios”. Lewis se referia ao “Tao da política” – algo que podemos resumir como sendo o espírito democrático em sua mais elevada manifestação. Segundo o britânico, ali no fogo cruzado da incubadora da guerra fria, o Tao democrático já vivia sob bombardeio cerrado de todo tipo de golpistas, de direita e de esquerda. Lewis e Dostoiévski enxergavam, a partir de ângulos de visão e épocas diferentes, que as privações de bem-estar sofridas pelas camadas mais vulneráveis da sociedade eram intencionais, seja em favor da nobreza, dos magnatas capitalistas, dos gabinetes fascistas ou do recente establishment comunista.

O processo é cíclico, pendular. Muitas vezes sutil. A democracia vaivém, sobe-desce, cai-não-cai, até hoje. Por aqui, a coisa parecia melhorar, ainda que fosse aos trancos e barrancos, até o golpe parlamentar(ista) sofrido por Dilma Rousseff. Desde então, “lá vem o Brasil descendo a ladeira”, perdendo os freios… e contrapesos, surfando na onda internacional do extremismo neofascista. Dá pena ver a república enganchada em um Parlamento que governa e desgoverna por meio de orçamentos secretos bilionários. É de ficar triste testemunhar o desmonte premeditado e autofágico da Suprema Corte “em tenebrosas transações”. Renato Russo tinha razão. “Festa estranha, gente esquisita, eu não tô legal”. Felizmente, enquanto persistem por aqui capetas tropicais como o golpismo, o negacionismo, a corrupção, desigualdade social, crime, devastação ambiental e outros de legiões semelhantes, os alertas de Os Demônios ainda apavoram diabretes desde a Faria Lima até Sinop. Cabe às forças do naipe político progressista e da sociedade civil se reorganizarem de modo independente, para além do Estado e com o Estado, retomando as rédeas da transformação social que ainda temos razões para valorizar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Como Flávio Bolsonaro planeja dominar o STF. É isso o que você quer?

Desde que o mar de lama começou a tragar o Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Bolsonaro apregoa, dia sim, dia não, que, caso se eleja presidente da República, submeterá ao crivo do Senado cinco novos nomes para ministros da mais alta Corte de Justiça do país. Caso se eleja, não. Ele dá sua eleição como algo certo, sem sequer precisar disputar o segundo turno. Para tanto, aposta no voto útil que abandonará seus demais concorrentes da direita.

Três dos atuais ministros atingirão a idade limite de 75 anos ao longo do próximo mandato presidencial: Luiz Fux (2028), Cármen Lúcia (2029) e Gilmar Mendes (dezembro de 2030). Há uma vaga aberta no STF desde que Luís Roberto Barroso se aposentou precocemente em 2025. Para fechar o número de cinco indicações, Flávio afirma que trabalha com a hipótese de impeachment ou destituição de Alexandre de Moraes. É tudo o que ele quer.

O filho do único ex-presidente do Brasil condenado por tentativa de golpe de Estado tem reiterado que seus escolhidos serão homens e mulheres “defensores da Constituição”, com perfil conservador, posicionando-se de forma contrária ao aborto e à descriminalização das drogas. Se tudo acontecer como ele imagina, ao final do seu mandato, contará com a simpatia de 7 dos 11 ministros do tribunal, incluindo-se aí André Mendonça e Nunes Marques.

Considerando toda a história do Brasil, o presidente que indicou o maior número de ministros para o STF foi Getúlio Vargas, com um total de 21 nomeações. Ele governou o país em dois períodos diferentes: de 1930 a 1945, como ditador, e de 1951 a 1954, como presidente eleito pelo voto popular. Logo atrás de Vargas no ranking histórico, aparecem os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, ambos com 15 indicações cada um.

Lula indicou 10 ministros para o STF ao longo de seus três mandatos – 8 nos dois primeiros e 2 no terceiro. Dos 10, apenas 4 ainda permanecem lá: Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Quis emplacar Jorge Messias na vaga de Luís Roberto Barroso, mas o nome dele foi rejeitado pelo Senado. Duas vezes presidente, Dilma Rousseff não teve esse problema, tendo indicado 5 ministros. Destes, apenas 2 seguem no cargo: Luiz Fux e Edson Fachin.

Se você pretende votar em Flávio para presidente, não tem com que se preocupar. Se ele se reeleger em 2030, no mínimo indicará mais um ministro para o STF na vaga que se abrirá com a aposentadoria de Fachin. Só não venha, depois, a se queixar.

As muitas derrotas da Suprema Corte

O grupo do ministro Alexandre de Moraes se acha vitorioso porque conseguiu deter o procedimento contra Moraes. O grupo do ministro André Mendonça pode avaliar que saiu vencedor porque até a tibieza em plenário ajuda a construir a ideia de que ele luta contra o sistema, uma espécie de Davi contra Golias. Mendonça fortaleceu seu ponto porque ao acusar a Polícia Federal, sem prova, teve o apoio do ministro Luiz Fux. Contudo, todos os vitoriosos nas batalhas pontuais perderam a guerra.

A exposição das brigas tóxicas entre os ministros do Supremo Tribunal Federal enfraquece a confiança na democracia a 17 dias das eleições. E não é porque a sessão foi aberta, e sim porque o comportamento dos ministros foi deplorável. Eles que encarnam a instância máxima do poder atiraram contra a própria cidadela. O país que sobreviveu a um golpe de Estado há menos de quatro anos — tendo a ação da Suprema Corte como parte fundamental da resistência — pode estar no umbral de um novo atentado. E agora, chancelado pelas urnas.


E o eleitor, Excelências? O que devemos pensar nós, os eleitores, que estamos no caminho das urnas para decidir quem nos governará nos próximos quatro anos? Vale a pena manter um sistema de Justiça em que ministros se envolvem em maior ou menor grau com um trambiqueiro da pior laia? Ou é melhor se entregar ao primeiro discurso antissistema, ao primeiro aventureiro que aparecer com a ideia de fechar o STF?

Em julho de 2018, o então deputado Eduardo Bolsonaro disse que poderia fechar o Supremo com um cabo e um soldado. O grupo foi eleito e realmente tentou fechar o STF. Primeiro, com uma campanha contra o processo eleitoral, e tendo como alvo alguns ministros, como Alexandre de Moraes. Depois, conspirando com militares para primeiro levantarem dúvidas sobre o TSE e por fim organizarem a tomada de poder. A conspiração não deu certo. Até quando?

O bolsonarismo jamais admitiu o crime e disse que os condenados, entre eles o ex-presidente, são vítimas. O primeiro filho de Jair Bolsonaro concorre com chances de vitória. Os demais candidatos de oposição prometeram anistia para os envolvidos na trama antidemocrática. O ministro do STF que conduziu a condenação dos golpistas, Alexandre de Moraes, é suspeito de ter recebido mensagens estranhas do banqueiro corruptor. E há o contrato entre a sua mulher e Daniel Vorcaro. Em vez de explicar tudo ao país, Moraes prefere gastar sua grande energia em escaramuças no plenário.

O ministro André Mendonça afirmou que há uma Polícia Federal paralela, esquecido de que trabalhou num governo, e por ele foi indicado ao Supremo, que tinha o objetivo, explicitado em reunião ministerial pelo presidente da República, de ter um sistema de informações paralelo. Mendonça não apresenta fatos para a sua acusação e a derruba na prática quando usa exatamente o que ele chama de “achado da Polícia Federal” para embasar seu procedimento contra Alexandre de Moraes. O ministro Luiz Fux vai além e, igualmente sem provas, diz que a PF está “peitando” o Supremo.

O ministro Gilmar Mendes chegou ao decanato sem o equilíbrio que a idade costuma trazer. Mantém inalterados seus métodos e temperamento mercurial. Ele pode ter razão quando alerta para a coincidência da data política e a possível intenção eleitoral da ação de Mendonça. O ministro Mendonça primeiro tirou o sigilo do relatório da Polícia Federal contra Moraes, depois o encaminhou ao presidente da Corte. Mas Gilmar Mendes consegue desprover-se da própria razão pela absoluta falta de temperança. Seu tom nas mensagens de WhatsApp para os colegas é ainda mais corrosivo.

O ministro Flávio Dino pode se achar vitorioso. Ele agora controla o tempo, já que pediu vista. Fez questão de mostrar que achou fraca a condução de Edson Fachin, só que desde o começo atuou para enfraquecer a liderança, sem ficar claro o que o país ganharia com isso. Mostrou nos seus muitos apartes um farto conhecimento jurídico, mas falhou na estratégia.

Em que ponto mesmo querem chegar os ministros que se acham vitoriosos? Se era para erodir a confiança da cidadania no Tribunal, eles acertaram. Deixam a instituição vulnerável no momento em que golpistas não arrependidos podem voltar ao poder pelo voto. Essa feia sessão do Supremo permanecerá parada no ar enquanto eleitoras e eleitores tomam sua decisão de voto, ou mesmo de não participar do processo eleitoral.
Míriam Leitão

América Latina: A ascensão da direita e a memória histórica

Condenado a mais de mil anos de prisão em mais de 80 sentenças confirmadas pela Suprema Corte do Chile, o ex-oficial militar Miguel Krassnoff, de 80 anos, está encarcerado desde 2005 por sequestro, tortura e desaparecimentos forçados durante a ditadura. Em seus escritos, ele não demonstra nenhum remorso — "Não preciso de indultos nem favores", afirmou recentemente em uma carta — e continua a justificar a repressão do regime de Augusto Pinochet .

Krassnoff é um dos condenados por violações dos direitos humanos cujos casos poderiam ser perdoados, uma medida atualmente em análise pelo presidente chileno José Antonio Kast. O líder da extrema-direita e defensor da ditadura afirmou que analisará cada caso individualmente, por razões humanitárias. A medida gerou forte oposição por parte das famílias das vítimas e de organizações de direitos humanos.

Assim como Krassnoff, a maioria dos condenados por crimes contra a humanidade no Chile "foram julgados em vários casos, em vários julgamentos", disse Elizabeth Lira, do Centro de Direitos Humanos da Universidade Alberto Hurtado (UAH) do Chile. A professora de psicologia da UAH indica que "é muito problemático para o conceito de integridade e segurança institucional quando os procedimentos civilizados de um país para processar os responsáveis ​​por crimes atrozes são substituídos por uma decisão política do poder executivo".

"De uma perspectiva histórica e voltada para o futuro, acho que é um péssimo sinal pensar que crimes contra a humanidade possam ser perdoados, porque isso também contraria o compromisso do Estado de garantir a não repetição", alerta Elizabeth Lira.


“Medidas de impunidade tão severas quanto o indulto acarretam um custo político significativo para os governos, mesmo os de direita. Os julgamentos no Chile e na Argentina, apesar das dificuldades, são processos relativamente bem estabelecidos”, disse Verónica Torras, diretora da Memoria Abierta, uma aliança de organizações argentinas de direitos humanos. Além disso, em relação a indultos ou outros benefícios não previstos em lei, “há uma posição unânime de rejeição”, acrescentou Torras, que também é vice-presidente do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais da Argentina.

Rainer Huhle, do Centro de Direitos Humanos de Nuremberg, acredita que a possibilidade de indulto para alguém condenado por crimes contra a humanidade exige reciprocidade: "Ou seja, um benefício que as vítimas possam esperar: uma confissão do condenado de que o que fez foi um crime, um reconhecimento de culpa, um pedido de desculpas e uma tentativa de reparação. E o mínimo de reparação é dizer a verdade sobre o que fizeram e revelar o paradeiro dos desaparecidos", disse ele. "Caso contrário, esses atos parecem humanitários, mas têm um forte viés de impunidade", enfatizou.

Se Flávio Bolsonaro vencer no Brasil no próximo mês, será a primeira vez em 50 anos que toda a região da América Latina vivenciará a hegemonia da extrema direita. Tal situação não se via desde a era das ditaduras e dos governos autoritários

Em relação à possibilidade de redução de penas, ele indica que é necessário um processo, como aconteceu na Colômbia: "Se pensarmos na Jurisdição Especial para a Paz, houve reduções significativas de penas, mas em troca de um forte compromisso de dizer a verdade e pedir desculpas. Sem isso, libertar os criminosos mais perigosos me parece inaceitável."

Entretanto, um projeto de lei promovido por senadores de direita no Chile prevê a concessão de prisão domiciliar, sob certas condições, a pessoas com problemas graves de saúde e a maiores de 70 anos. A medida teria um propósito humanitário e visaria aliviar a superlotação carcerária. Críticos dessa reforma argumentam que ela beneficiaria criminosos da época da ditadura.

Em geral, a legislação atual considera que uma pessoa gravemente doente que necessite de tratamento médico com cuidados constantes deve ser transferida para outra instituição ou colocada em prisão domiciliar. "Essa é a norma em todos os países. Questiona-se qual a necessidade de uma nova lei para isso", indaga Huhle. "Se o benefício da libertação da prisão se deve a um problema de saúde devidamente documentado por médicos independentes, trata-se de uma medida humanitária, e eu não a chamaria de medida de impunidade. O importante é ter certeza de que essa é a única razão, porque já vimos que doenças também podem ser fingidas. Todos os chilenos se lembram da chegada de Pinochet ao Chile, quando ele se desfez de sua bengala", acrescenta.

Em relação à permissão de prisão domiciliar após certa idade, "é uma questão que deve ser analisada com muito cuidado, porque a idade por si só não é uma doença e não pode, por si só, ser uma justificativa para a libertação de alguém condenado por crimes contra a humanidade", observa Huhle.

A situação é diferente em alguns países, onde essa regra para toda a população carcerária já está incorporada à legislação. Na Argentina, para conceder o benefício com base na idade, os juízes devem analisar considerações como o risco de fuga e obstrução da investigação judicial em cada caso, explica Torras. Nos últimos anos, a tendência tem sido aceitar os pedidos de condenados por violações de direitos humanos. "Os pedidos foram negados em casos específicos e emblemáticos de repressores cujos crimes deixaram uma marca indelével na opinião pública devido à natureza do delito e ao seu comportamento subsequente. Hoje, praticamente 90% dos condenados por crimes contra a humanidade na Argentina gozam do benefício da prisão domiciliar. Em resposta, a posição das organizações de direitos humanos não tem sido unânime", indica Torras.

Outro fator a considerar, destaca Lira, é que no Chile muitos dos presos por violações de direitos humanos "não conseguem voltar para suas famílias, porque foram abandonados ou porque suas famílias se recusam a assumir a responsabilidade por eles. A única alternativa que o Estado tem é mantê-los presos ou em outras condições". Isso representa tanto um risco quanto um desafio.

A controvérsia não se limita ao Chile. Em meio à onda de governos de direita na América Latina, surgem disputas sobre a revisão da memória histórica e as consequências legais de crimes passados. Os governos têm optado por uma estratégia de corte de verbas públicas para políticas públicas e desmantelamento de programas. Buscam também revisar as narrativas dos museus e até mesmo colocaram negacionistas do Holocausto em posições-chave, com o objetivo de influenciar as narrativas sobre o passado recente.

"Um momento dramático está se desenrolando no Peru, onde há uma tentativa de mudar a narrativa em torno do Lugar da Memória, que foi uma vitória muito importante para as vítimas dos crimes de Estado durante o conflito armado interno e a ditadura de Fujimori. Agora, existe um discurso abertamente contrário que busca negar esses crimes, reconhecendo apenas aqueles cometidos pela insurgência. Há uma crescente anticultura da memória histórica", alerta Huhle.

Lira alerta que "quando os métodos acordados para a resolução de conflitos e a criação de condições para a paz são corroídos, juntamente com a capacidade política das instituições para recuperar a memória histórica, existe um risco muito elevado de que formas de violência que se esperava que fossem resolvidas sejam reinstauradas". A este respeito, ela vê com preocupação a redução do financiamento para o processo de paz na Colômbia e para as políticas de memória na Argentina. Entretanto, no Chile, o orçamento para o Plano Nacional de Busca (pelos desaparecidos) foi cortado e a expropriação da antiga Colonia Dignidad , onde estava previsto um memorial, foi suspensa.

"Sinto um grande desespero com tudo isso, porque é como se as pessoas que governam hoje fossem muito ignorantes em relação à história, ou tivessem decidido ignorar as consequências de não considerar essa história, por causa de suas próprias posições políticas", lamenta o acadêmico chileno.

Por sua vez, Torras acredita que o impacto não será necessariamente apenas negativo: "Frequentemente, diante de governos tão reacionários em suas posições sobre essas questões, surgem fortes movimentos de resistência dentro das sociedades". A diretora da Memoria Abierta alerta que "se Flávio Bolsonaro vencer no Brasil no próximo mês, será a primeira vez em 50 anos que toda a região da América Latina vivenciará a hegemonia da extrema direita. Tal situação não se via desde a era das ditaduras e dos governos autoritários". Nesse contexto, as disputas sobre narrativas podem se intensificar, inclusive com abordagens abertamente negacionistas ou que glorificam o passado autoritário.

Nesse cenário, o maior impacto será sentido nas políticas públicas que dependem do Poder Executivo. Na esfera judicial, porém, o avanço revisionista deverá ser mais limitado, acredita Torras, pois implica um risco maior de exposição e danos à reputação desses governos em nível internacional.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


O STF, as eleições e o futuro do Brasil

A melancólica sessão deste 15 de setembro no Supremo Tribunal Federal (STF) terá impacto decisivo nas urnas, e o resultado das eleições que se avizinham, tanto para a Presidência da República quanto para a composição do futuro Congresso, certamente contribuirá para uma mudança significativa no papel institucional do STF.

Os ministros optaram por implodir a ordem vigente para evitar a singela abertura de uma investigação a respeito da conduta de um dos seus. Mas há sério risco de que sejam, eles próprios, os principais atingidos por essa decisão de radicalização.


Os avisos já vinham sendo dados há dias, semanas até. Mas a ferocidade com que o grupo de ministros mais próximo de Alexandre de Moraes se lançou à tarefa de dilapidar a autoridade de Edson Fachin durante quase sete horas de sessão pegou a todos de surpresa.

O ápice foi a decisão de Flávio Dino, ele próprio autor da questão de ordem que monopolizou toda a sessão, de pedir vista da petição, a tal “PET” a que aludiram durante horas, tendo, para isso, de voltar atrás por ora no próprio voto pela análise em conjunto dos casos de Moraes e André Mendonça.

Diante da evidência de que a questão de ordem produziria um empate e, a partir disso, poderia de novo caber a Fachin decidir o caminho a seguir, optou-se pelo plano B que esteve o tempo todo no horizonte: empurrar a decisão para depois das eleições. A ala “alexandrina” do STF apontou ação político-eleitoral de André Mendonça pelos métodos e pela escolha da data próxima ao 7 de Setembro para investir contra Moraes. O timing adotado pelo relator do Master de fato autoriza essa imputação.

Mas, com o espetáculo que promoveram na sessão de ontem, provavelmente esses ministros contribuíram de maneira mais decisiva para reforçar o discurso anti-STF que vem sendo entoado de forma oportunista pelo candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, ele próprio investigado pelo mesmo STF desde julho, por ter recebido milhões de Daniel Vorcaro e não ter explicado a destinação desses recursos.

Para a estratégia de Lula de se desvencilhar da crise do STF e do destino de Moraes, o protagonismo de Dino, indicado por ele e seu ex-ministro da Justiça, não ajuda em nada. Para leigos que não entendem a linguagem por vezes pernóstica e sempre inacessível dos ministros, o que restou do papelão de ontem é uma conclusão simples: os ministros estão dispostos a tudo, inclusive a enterrar a imagem do tribunal, para evitar que um deles seja até mesmo investigado.

Diante da decisão ostensiva por não deliberar, que deve levar, por um mínimo de coerência, a que se adie também na semana que vem a necessária apuração a respeito da conduta e dos procedimentos de Mendonça, a eleição acontecerá com esse imenso elefante espalhado na sala.

A depender do ânimo do eleitor perplexo e atordoado com tanto tumulto processual —razão por que a ministra Cármen Lúcia pediu desculpas tardias e pouco convincentes depois de um silêncio sepulcral durante todo o show de horrores —, os ministros podem deparar com uma composição de Executivo e Legislativo que os leve a discutir, na marra e completamente divididos, o que se recusam a tratar agora.

É extremamente grave e preocupante que a eleição tenha como um dos vetores principais uma ameaça explícita de reforma do Judiciário por vias tortas, a partir de um sentido de revanche e vingança. Mas é inegável que foi o próprio STF que mais contribuiu para essa situação, ao misturar de forma irresponsável a conduta pessoal de seus ministros com a respeitabilidade da própria Corte.

A depender do resultado de outubro, a reforma adiada do STF e a adoção de um simples Código de Conduta podem dar lugar ao emparedamento de um dos Poderes da República. Que não terá a coesão sequer para se contrapor a isso.

Crises da imaginação progressista

Política é encenação. Nos últimos anos, virou um picadeiro em que lideranças disputam a opinião pública a partir do riso, do escárnio. Constatar o elemento teatral da política, porém, costuma ser tarefa dos cínicos, aqueles que demonizam a atividade humana por excelência acusando-a de teatro de marionetes.

É fora dessa lógica, no entanto, que afirmo que política é encenação. Na verdade, tudo que corresponde à vida social é encenado, ainda que inconscientemente. Os estudos de gênero, por exemplo, estão avançados na hipótese de que a performance orienta as maneiras de ser no mundo, como mostra Judith Butler.

Na política institucional, o esquema é parecido. Basta ver as inúmeras imagens de bolsonaristas ajoelhados rezando ao Deus neopentecostal dentro dos parlamentos brasileiros. A performatividade, no entanto, é comum a todos os espectros ideológicos. Afinal, o populismo, tão demonizado, é gênero discurso e não programa partidário, segundo Maria Esperanza Casullo.

Quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva apareceu no debate presidencial de 2022 da TV Bandeirantes usando broche de campanha de combate à violência sexual contra menores, ele performou ser contra a pedofilia, contrapondo-se ao então presidente Jair Bolsonaro, que disse que “pintou um clima” com meninas venezuelas de 14 e 15 anos. Sintetizando, é provável, visto o histórico, que o petista realmente rechace a pedofilia – nem toda performance é falsa. Agora, a ação política foi encenada. Era uma mensagem clara aos eleitores de que ele demoniza a violência sexual e, de forma subliminar ma non troppo, acusar o adversário de ter postura oposta. Tudo isso é válido. Faz parte do jogo.


No passado, este tipo de estratégia na política era quase exclusividade dos períodos eleitorais. Com a comunicação digital, as campanhas se tornaram permanentes. E para fazer campanhas, grupos com mais orçamento contratam consultores, que se valem de diversas metodologias quantitativas e qualitativas das ciências sociais para traçarem diagnósticos da opinião pública. O rápido desenvolvimento tecnológico torna os resultados mais precisos ano a ano.

Com as informações, os profissionais desenvolvem estratégias para conquistar objetivos, mitigando possíveis impactos negativos e ressaltando aspectos positivos. Criam-se linhas narrativas. Em outras palavras, planejamentos estratégicos que guiarão a encenação do candidato ao longo do período pré-estabelecido – ou até os grupos focais mostrarem que tais discursos perderam a validade. As narrativas valem-se da poética, de recursos literários para obterem seus resultados. É performance, mas é como se Shakespeare tivesse à mão ferramentas de análise de dados avançadíssimas.

O que os profissionais da comunicação política chamam de “campanha permanente” é, na realidade, o auge do que Walter Benjamin chamou de “estetização da política”. O filósofo alemão argumenta que a reprodutibilidade técnica atrofia a aura da obra de arte, isto é, a distância contemplativa entre o emissor e o receptador da obra de arte.

Com isso, o objeto artístico perderia sua autenticidade, transformando a função social da arte, o culto, fundando-se à política. Essa transposição teria criado a cultura de massas. Sem aura, a arte torna-se mero entretenimento servindo a fins mercadológicos. O público passaria, portanto, a cultuar o produto exposto.

O fascismo, então, se aproveitaria de tal dinâmica para corromper a massa, apagando a formação de consciência de classe. Assim, “o fascismo caminha diretamente em direção a uma estetização da vida política. Com D’Annunzio a decadência penetrou a política; com Marinetti, o futurismo; e com Hitler, a tradição de Schwabling”. Tudo isso culminou, para Benjamin, em guerra. O manifesto de Marinetti, inclusive, referencia a guerra como objetivo estético.

A reprodutibilidade técnica a que Walter Benjamin se refere é a fotografia e, principalmente, o cinema. No século 21, os serviços de inteligência artificial e o predomínio da comunicação digital – mediada pelas Big Techs do Vale do Silício – elevou a reprodução ao máximo de sua eficiência.

Em 2007, Steve Jobs apresenta a primeira versão do iPhone, ainda rudimentar. No ano seguinte, Barack Obama é eleito presidente dos Estados Unidos, sendo pioneiro no uso das redes sociais digitais em campanhas. Em 2016, menos de dez anos depois, os smartphones já estavam nas mãos de quase toda a totalidade dos eleitores estadunidenses. E é nesse ano que este país elege o populista de extrema direita Donald Trump, abrindo margem para líderes autoritários. Em 2022, a Open AI lança o ChatGPT, mudando para sempre a (re)produção intelectual humana. Em 2026, enquanto escrevo essa dissertação, o mundo vive em hegemonia fascista. Gaza e Ucrânia ardem no seio de uma batalha que é, antes de tudo, estética.

*

Escutei um rapaz conversando com um amigo nos corredores da universidade. “A arte nunca foi tão acessível. Nunca houve tantas pessoas consumindo arte”, disse ele, e a frase permaneceu reverberando em mim, que ouvi a conversa de escanteio. Todos estão conectados, assistindo a filmes e séries, ouvindo músicas nas plataformas de streaming. Com o Instagram e TikTok, a imagem se tornou permanente na vida das massas. Com isso, argumenta-se que há hegemonia progressista no campo das artes (olá, olavistas), afinal temas ditos identitários parecem ganhar algum tipo de tração nos espaços intelectualizados.

Isso é mentira em partes, visto que as redes operam em bolhas, evidenciando aquilo que o público quer ver – mesmo que seja para odiar. Porém, caso fosse verdadeiro, elas funcionam a partir da lógica do consumo. Os algoritmos entregam ao público aquilo que tem função mercadológica, tudo se torna pasteurizado. Um lançamento parece ser sempre o mesmo. O público de Taylor Swift celebra os relançamentos de álbuns da cantora como se fossem novidade.

O fascismo contemporâneo aproveita, então, a corrosão da função social da arte, como apontava Walter Benjamin, culminando na ausência de consciência de classe, para estetizar sua prática política. Propagam-se, então, narrativas populistas que dividem a sociedade entre um povo oprimido e uma elite opressora, composta por vilões caricatos (o bilionário judeu, a lésbica feminista, o terrorista imigrante). Os salvadores seguem perfeitamente a jornada do herói. Deus opera pelas mãos de Donald Trump, Javier Milei é o leão que veio para devorar a casta, Jair Bolsonaro é o mito que, com mãos de ferro, salvará o Brasil da corrupção e do progressismo desmoralizante. Para nós, os antifascistas, chega a ser engraçado descrever essas estratégias. E o desconforto cômico que sentimos é pela inautenticidade. Afinal, tudo isso é ficção. A política é encenação.

“Assim configura-se a estetização da política operada pelo fascismo. A ele o comunismo responde com a politização da arte”, analisa Benjamin. Ele infelizmente não sobreviveu ao nazismo, suicidando-se na fronteira da França para evitar ser enviado a um campo de concentração. O que derrotou o fascismo foram os exércitos, não a politização da arte. Esta serviu no processo de desnazificação. Mas interpreto a sentença de Benjamin ainda na etapa de disputa, quando o fascismo busca consolidar-se. Aí sim a politização da arte é capaz de fazer frente a estetização da política.

Acontece que, neste tempo, no século 21, é ingenuidade falar em comunismo. Ao ser perguntada sobre a maior conquista de seu governo, Margareth Thatcher respondeu que é Tony Blair e o novo Trabalhismo inglês. Isto é, a esquerda tornou-se neoliberal, mas com verniz progressista, diria Nancy Fraser. E assim é possível afirmar que houve intensa politização da arte justamente no sentido neoliberal. O que é mais individual do que o eu? E quais são os romances em destaque no mercado, nas listas de recomendações? A grande tendência da literatura contemporânea são as “autoficções”, trabalhos autobiográficos com alto componente narcísico em que, quase sempre, as narrações são sobre as dores, as lutas – mas, note-se, sempre individuais. Edouard Louis fala da sua homofobia sofrida. Annie Ernaux fala do seu aborto. É lógico que são experiências com forte componente universal. Os leitores, então, se identificam com as narrativas do eu. A politização da arte é, então, uma politização conservadora. Não aponta para mudanças estruturais, não imagina o futuro, mas instiga o ressentimento de seu público.

Com isso, o progressismo monetiza traumas, colocando-se sempre na posição de vítima. E a vítima, que passa a vida toda ressentida sem agir, não é mais do que um ser impotente. Já não há mais consciência de classe, apenas glorificação da dor, a aceitação do lugar de derrotado. Território fértil para o fascimo.

“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, sentencia Mark Fisher. A questão é que com a reprodutibilidade técnica, imaginar tornou-se ato desnecessário. Tudo é literal, tudo é biográfico, ainda que fantasioso. É missão do nosso tempo, portanto, mostrar que é possível um futuro melhor, mais justo. Cabe à literatura e às artes imaginar o amanhã.

Por outro lado, esta arte não deve ser panfletária. Jacques Rancière classifica a forma propagandista de se fazer arte como parte de um “regime ético”. A proposta, então, não é um movimento artístico que defina quem são os bons e os maus – isso a autoficção vitimista já faz.

Leitores são capazes de, por seu próprio sentido ético, identificarem os conflitos sociais narrados. A missão ética da arte, esta sim, com alto caráter revolucionário, é tão somente imaginar e oferecer ferramentas poéticas e metáforas para tanto. Mostrar que é possível imaginar, esperançar.

Política e esperança, substantivos femininos

Pelo menos duas instituições internacionais relevantes apontam a Dinamarca como o país onde há menos corrupção governamental no mundo. Em ambas as listas, o Brasil não figura sequer entre os 50 melhores colocados.

Não faltam argumentos para explicar o exemplo positivo do país europeu, para além de suas estruturas de governo ou de seu alto índice de desenvolvimento humano, mas vamos nos concentrar em uma razão que não costuma ser iluminada da forma devida: a participação das mulheres na política.

A Dinamarca também apresenta altos índices de qualidade de vida e felicidade de seus habitantes. Não é um país tropical abençoado por Deus, mas uma nação nórdica governada por uma primeira-ministra desde 2019 e com 48% das cadeiras do parlamento nacional preenchidas por mulheres.


Pesquisa do Instituto Ideia com a Voga Inteligência e Comunicação, divulgada recentemente, mostra que 55% dos brasileiros afirmam que o Brasil seria um país menos corrupto com mais mulheres na política. E 58% acreditam que elas têm soluções melhores para os problemas reais do Brasil. No entanto, 35% ainda afirmam que causa estranhamento ver mulheres na política, índice que só é menor do que a presença de mulheres nas forças armadas.

São muitas décadas em que o machismo estrutural molda percepções e decisões políticas no Brasil. Sua face visível é uma maioria de homens brancos que se revezam no comando de instituições públicas e governos (com algumas honrosas exceções). Quando se pensa em desenvolvimento humano, equidade, distribuição de renda e qualidade de vida em larga escala, esse modo de fazer política produziu resultados medíocres para um país com as riquezas e o potencial do Brasil.

E quanto à corrupção em todas as esferas de poder, compactuada por entes privados que se beneficiam dela, quando exposta e escancarada, revela invariavelmente como protagonistas homens de ternos bem cortados, gostos extravagantes e reputação fabricada.

Na Dinamarca, a afirmação da equidade de gênero é resultado de uma visão de estado e de mundo que entendeu que representatividade não é retórica e que o pensamento e a atuação feminina nas corporações, instituições e governos traz não apenas um saudável e necessário equilíbrio para o debate e as decisões, mas também demonstra maturidade política e produz resultados melhores.

Enquanto por aqui todos os partidos, do PL ao PT, pleitearam conjuntamente ao TSE flexibilizar a política de cotas para mulheres e negros nas eleições deste ano. Pode-se dizer que foi a única coisa que uniu esquerda e direita neste Brasil polarizado. Olhando para o primeiro quarto deste novo século, houve mudança significativa na realidade sociodemográfica brasileira, com mais mulheres chefiando lares, empreendendo e tornando-se maioria absoluta na formação acadêmica. Movimento de autonomia que cresceu na mesma medida em que todos os tipos de violência contra a mulher, chegando à brutal estatística atual de feminicídios no país.

Se a realidade social mudou, o fato é que política não conseguiu acompanhar. Segundo a ONU, o Brasil ocupa a vergonhosa posição de 139º no mundo em representação parlamentar feminina, com apenas 17% das cadeiras ocupadas por mulheres, um terço do que é hoje o retrato da população do país. Nem é preciso comparar com o mundo desenvolvido para perceber como ficamos muito para trás.

Podemos crer que a mudança, assim como na Dinamarca, acontecerá de dentro para fora, com a tardia consciência e atuação dos dirigentes partidários, das lideranças políticas nacionais ou de poderes relevantes (como a imprensa) para enfrentar o problema. Mas a história do Brasil, infelizmente, não faz jus à crença.

Portanto, talvez a mudança possa começar a acontecer através da manifestação popular democrática – o voto – nesta eleição de 2026. E como provavelmente você ainda não escolheu seus candidatos para o pleito de outubro, passe a considerar fortemente as candidatas. Vai fazer um bem enorme ao Brasil.

As Cruzadas são fonte recorrente de inspiração para líderes políticos

“O momento atual é muito semelhante ao século XI… Não queremos lutar, mas, como nossos irmãos cristãos há mil anos, devemos fazê-lo.” Essas são as palavras de Pete Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA, em seu livro de 2020, Cruzada Americana: Nossa Luta para Permanecer Livre . Hegseth tem usado repetidamente a linguagem bíblica e o simbolismo das Cruzadas para enquadrar tanto a política interna quanto a internacional.

E ele não é o único. A questão é por que as Cruzadas são uma fonte de inspiração tão poderosa para os líderes contemporâneos.

A história das Cruzadas é um exemplo de como a religião pode se tornar uma ferramenta poderosa para fins políticos em larga escala.

No Concilio de Clermont de 1095, o papa
 Urbano II convocou a guerra santa: "Deus vult!"

Em meados do século XI, os turcos seljúcidas (muçulmanos) conquistaram vastos territórios no Oriente Médio. No início da década de 1070, eles haviam tomado o controle de Jerusalém, o local mais sagrado da cristandade. O imperador bizantino Aleixo I Comneno apelou ao Papa Urbano II em 1095 por ajuda para se defender dos seljúcidas. Para o papado, essa era uma oportunidade de demonstrar seu poder, mobilizando a nobreza europeia e embarcando em nada menos que uma Guerra Santa.

No contexto da Europa medieval, uma era assolada por secas, fomes e epidemias, a crença no "fim dos tempos" era generalizada. O apelo de Urbano II por uma Guerra Santa para "libertar a Igreja de Deus" demonizou os muçulmanos e prometeu aos cruzados o perdão de todos os seus pecados passados ​​e a salvação eterna.

"Se pensarmos no que uma cruzada implicava, veremos que as pessoas eram solicitadas a aventurar-se no desconhecido, viajando milhares de quilômetros para terras inexploradas", diz Jonathan Phillips, especialista em história das Cruzadas da Royal Holloway University, em Londres. As chances de morte variavam de 35 a 40 por cento, afirma ele.

O apelo de Urbano à Guerra Santa foi atendido por homens e mulheres de todas as classes sociais, "de príncipes a camponeses", observa Phillips, e, acompanhados por pregadores, partiram para a Terra Santa em 1096. A chamada Cruzada Popular fez suas primeiras vítimas na Renânia, onde comunidades judaicas foram massacradas em um dos primeiros surtos de antissemitismo na Europa medieval.

A Terra Santa, localizada entre o que hoje são a Turquia, a Síria e o Egito, era uma sociedade multilíngue dividida entre os turcos seljúcidas (sunitas) e o califado fatímida (xiitas).

Mohamad El-Merheb, especialista no Mediterrâneo oriental islâmico pré-moderno da SOAS, Universidade de Londres, acredita que "algumas cidades eram bem defendidas e outras não; mas tudo isso ocorreu em um contexto de poder político muito fragmentado".

Os cruzados realizaram o que El-Merheb descreve como uma série de conquistas rápidas de cidades importantes. No entanto, a maioria retornou para casa ou morreu de doenças, fome ou puro esgotamento.

Quando conquistaram Jerusalém em 1099, os cruzados massacraram milhares de muçulmanos e judeus, pois não conseguiam distinguir entre eles.

Muitos historiadores consideram a queda de Acre para os guerreiros mamelucos em 1291 como o marco do fim das Cruzadas na Terra Santa. No entanto, outras cruzadas foram convocadas, seja para deter o avanço dos turcos otomanos na Europa Oriental durante o século XIV, seja como campanhas militares cristãs da Reconquista para retomar o controle da Península Ibérica do domínio muçulmano até o final do século XV.

O legado das Cruzadas permanece um poderoso e controverso ponto de referência cultural tanto no Oriente quanto no Ocidente. A memória histórica dessas guerras santas medievais é frequentemente usada para definir identidades, políticas e conflitos modernos .

Em 2001, o presidente dos EUA, George W. Bush, causou grande alvoroço ao descrever a chamada "Guerra ao Terror" como uma "cruzada", um termo que Osama bin Laden havia usado anteriormente para retratar as guerras lideradas pelos EUA como conflitos religiosos com o objetivo de destruir o Islã.

Em sua propaganda para legitimar sua jihad global, Bin Laden também invocou o legado de Saladino, um lendário sultão turco de origem curda, venerado até hoje como o herói que reconquistou Jerusalém dos cruzados em 1187.

El-Merheb explica que "ao longo do século XX, muitos grupos islamistas também começaram a se referir às potências ocidentais como cruzadas. Assim, isso se tornou parte do nacionalismo político, tanto em nível estatal quanto popular — por exemplo, no cinema. Agora, no Ocidente, está acontecendo o oposto."

A frase em latim "Deus vult" ("Deus o quer"), lema da Primeira Cruzada em 1095, foi usada pelo assassino em massa de extrema-direita Anders Breivik. Também foi usada pelo partido alemão de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), e Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos EUA, a tem tatuada no braço.

No entanto, El-Merheb acredita que essas referências muitas vezes reduzem as Cruzadas a um simples confronto entre o cristianismo e o islamismo, e "ignoram as inúmeras alianças inter-religiosas entre muçulmanos e cruzados".

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


O Brasil como ponta de lança do neofascismo no Sul Global

A eleição presidencial brasileira ainda nem ocorreu, mas a desmobilização do Sul Global liderada pela extrema direita internacional já está em curso. Apesar de ser um dos sócios fundadores do bloco que mais tem redefinido as principais linhas de poder e da própria (des)ordem global nos últimos anos, o Brasil não foi representado pelo seu chefe de Estado no recente encontro anual dos Brics em Nova Delhi. Esse quadro reflete o enfraquecimento do país no cenário mundial em razão de um quadro de duradoura polarização doméstica e associado ao aumento do apelo por um (des)projeto nacional de alinhamento automático à potência hegemônica histórica do hemisfério. Essa situação se estende ao cenário mais amplo da América Latina como um todo e, a depender do que ocorra no próximo mês, esse processo pode se aprofundar de forma acelerada, com consequências preocupantes para além da nossa região.

Interessantemente, no início do século XXI o aprofundamento da democracia e a forte redução da desigualdade que ocorreu em quase todo o nosso continente pareciam indicar que oferecíamos algo novo para o mundo. Essas experiências foram tão significativas que foram capazes, inclusive, de dar origem a novas organizações de governança regional, como a Unasul e Celac, que buscam aumentar a presença regional por meio de uma atuação mais altiva e independente.

Tragicamente, muito desse quadro foi revertido de forma rápida e desordenada. E embora quando da eleição de Lula para seu terceiro mandato fôssemos um continente fragmentado ideológica e politicamente, hoje o Brasil pode ser visto como um dos últimos bastiões de um projeto de desenvolvimento nacional autônomo e multilateral. Mas se o clã Bolsonaro for alçado novamente ao controle direto do país, nos tornaremos não só o principal parceiro (e promotor dos interesses) dos Estados Unidos no mundo, como muito provavelmente o porta-voz e um dos representantes mais importantes da concertação da extrema direita mundial no Sul Global. 


A procura por autonomia no cenário global sempre foi uma característica da política externa brasileira, assim como da própria inserção internacional do país no mundo. Apesar da centralidade do relacionamento histórico com os Estados Unidos, desde a famosa guinada diplomática da Europa para as Américas, conduzida pelo Barão do Rio Branco no início do século XX, houve sempre a tentativa de não se alinhar automaticamente com nenhum aliado, por mais importante e poderoso que fosse. E ainda que tenhamos presenciado momentos de desvio desse objetivo tão importante, com o caso mais exemplar da vergonhosa tentativa de alinhamento automático junto aos Estados Unidos no primeiro mandato de Trump e de Jair Bolsonaro, o padrão do comportamento internacional brasileiro tem sido muito mais pautado pela busca consistente de flexibilidade e espaço de manobra.

Talvez como nunca antes – já que a principal tentativa anterior de busca de uma política externa independente tenha ocorrido no governo de João Goulart, projeto que foi revertido com o golpe de 1964 – tais objetivos foram realizados quando, no início do presente século, o Brasil, como um dos principais países emergentes no mundo de então, sob a batuta de Lula e Celso Amorim, conseguiu, ao mesmo tempo, manter um bom relacionamento com aliados tradicionais, como Europa e mesmo os Estados Unidos de George W. Bush, e aprofundar relações com novos países-chave, como Índia e, especialmente, China.

Além de ações dentro da esfera de ação bilateral, tais esforços também ocorreram, de maneira inovadora e eficaz, por meio de novas iniciativas diplomáticas de base multilateral, lideradas pelo Sul Global, como o G-20 e, especialmente, os Brics. Em ambos os projetos, o Brasil desempenhou um papel central, o que angariou um nível histórico de respeito ao nosso país na cena internacional. Tragicamente, esse reconhecimento não se traduziu nos mesmos parâmetros no contexto doméstico, onde nossas elites continuam hesitando entre o que se demonstrou sempre mais benéfico, isto é, a busca da autonomia no contexto internacional e o eventual atrelamento diplomático ao hegemon do continente americano.

Essa contradição faz pouco sentido ao se considerar que sempre foi exatamente quando buscamos maior altivez na nossa política externa que fomos mais respeitados, inclusive pelas grandes potências. Só para lembrar um episódio relativamente recente, no início do primeiro governo Lula, a Venezuela passava por profunda crise política. No ano anterior, Chávez tinha sofrido uma tentativa de golpe, mas, com forte resistência popular, conseguiu retornar ao poder. O clima interno do país continuou muito tenso. E, no começo de 2003, uma paralisação do setor petrolífero chamou a atenção do governo norte-americano. Foi quando Lula propôs a criação do Grupo de Amigos da Venezuela, medida que recebeu apoio do governo Bush, evitando uma possível intervenção externa no país vizinho. Ou seja, quando agimos com autonomia, somos valorizados e levados “a sério”.

Isso também se dá na esfera econômica, onde nossa diplomacia tem forte atuação multilateral, sobretudo nas negociações de condições favoráveis aos produtos do agronegócio – esses que hoje, com a memória seletiva da direita de sempre, lançam Ronaldo Caiado como candidato à presidência. Rápido retrospecto histórico recente, quando em 2003, numa reunião da OMC em Cancún, Brasil e Índia lideraram a criação do G-20 como resposta a barreiras alfandegárias criadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia, ajudando a ampliar as esferas de governança global de forma duradoura.

De maneira efetiva, na negociação sobre o mercado mundial do algodão nacional, acionamos a OMC contra os excessivos subsídios fornecidos pelo governo norte-americano. Tivemos ganho de causa, embora os norte-americanos não tenham cumprido a decisão. Mantivemos a pressão, ameaçando quebrar as patentes de mais de cem produtos dos Estados Unidos, o que levou empresários norte-americanos a pressionarem seu governo a negociar e, por fim, ceder. O contencioso encerrou-se em 2014, já sob o governo Dilma, com os Estados Unidos pagando US$ 300 milhões para um fundo brasileiro de desenvolvimento do setor.

Apesar de todas essas, e várias outras, evidências do que conseguimos quando não nos subordinamos a qualquer ator hegemônico, é um possível atrelamento – provavelmente o mais dramático da nossa história – que está em jogo hoje. Esse caminho já foi tentando, com resultados pífios para o Brasil, pelo chefe do clã Bolsonaro, quando seu mandato coincidiu com o primeiro governo Trump. Hoje aquele país busca manter a América Latina ainda mais sob a sua tutela, o que deveria preocupar a todos que ainda acreditam que um país continental, como o nosso, não tem nada a ganhar com um alinhamento automático com qualquer potência, seja ela declinante ou ascendente.


Após um caminho continuado de guerras sem fim e aumento brutal da concentração de renda, processo que se desdobra há mais cinquenta anos, mesmo ainda sendo o país mais poderoso militarmente no mundo, os Estados Unidos se encontram hoje frente a duas encruzilhadas. A primeira é interna, qual seja, aprofundar ainda mais a trajetória das últimas décadas, administrando a crescente polarização doméstica por meio da intensificação dos aparelhos repressivos do Estado, ou reverter tal rumo a fim de, talvez, se tornar, de fato, uma democracia multicultural. Se tais opções são de impossível reconciliação, no cenário internacional, onde se encontra a segunda encruzilhada, as coisas não são menos complicadas.

Com um declínio tecnológico e perda de competitividade em vários setores, os Estados Unidos enfrentam crescentes desafios para manter seu poder e influência globais. E é nesse quadro que a agressividade da atual política externa dos Estados Unidos tem que ser entendida. Afinal, por que atacar aliados tradicionais, desmantelar a própria ordem internacional liberal que ajudou a criar no contexto do pós-guerra, ameaçar tomar territórios de vizinhos, a não ser como expressão de um país que já não acha que os elementos de cooptação (soft power) da sua hegemonia não mais dão conta do recado. E é nesse claro-escuro de um mundo em rápidas transformações (na expressão consagrada de Gramsci), que os monstros aparecem.

Que fique claro que os atores da extrema-direita internacional sabem bem o que fazem. Contra a ordem liberal carcomida, tanto das velhas democracias ocidentais quanto dos organismos a ela associados, a violência do mais forte é hoje vista como necessária, quando não como redentora, num milenarismo típico do fascismo zumbi dos dias de hoje. Como versão mais bizarra de tal movimento, para os Bolsonaros e seus asseclas, só cabe ocupar o papel de coadjuvantes em um filme B, sendo rodado sob nossos olhos. É isso que tem buscado seu articulador-mor, Eduardo Bolsonaro, em terras gringas – após ter abandonado seu cargo de deputado e passar a viver no Texas com recursos oriundos da maior fraude financeira da história do país, lavados através da produção também fraudulenta de uma peça publicitária ao chefe do clã. O ex-deputado chegou a se gabar da sua suposta influência direta junto à Casa Branca no episódio de taxação norte-americana imotivada sobre produtos de exportação brasileiros. Retaliação, agora política, mirando o governo Lula, mas atingindo as exportações nacionais. Tudo isso acontecendo, e as nossas (supostas) elites ainda em dúvida sobre qual caminho seguir, quando não mesmo aplaudindo o encaminhamento da subordinação almejada pela versão caipira do trumpismo.

Dentro desse quadro instável e grave, tudo parece indicar que estamos frente a uma das eleições mais consequentes das últimas décadas. Sabemos bem quem representa a possibilidade de avançar na busca por autonomia. Detemos a segunda maior reserva do que promete ser a mais importante matéria-prima do século XXI. Mas boa parte do país quer abrir mão, uma vez mais, de um caminho de desenvolvimento de matriz nacional e independente. Afinal, em 7 de setembro, no ritual anual de mau gosto e entreguismo típico do bolsonarismo – este ano embalado por orações que se elevavam ao Senhor dos Exércitos louvando o pastor e ministro do STF André Mendonça –, um enorme boneco de Trump celebrava seu Deus, sua pátria e a tal família de bem(bens).

Lembremos que no ano passado, na mesma data – interessantemente, nossa data da independência(!) – uma enorme bandeira dos Estados Unidos cobriu a massa bolsonarista da Paulista, comemorando sabe-se lá que ideia de “pátria” seria essa. No mesmo sentido, já em maio de 2019, logo após sua posse, Jair Bolsonaro foi indicado personalidade do ano, pela Brazilian-American Chamber of Commerce, dos Estados Unidos, evidentemente (tirem suas próprias conclusões) ao que o presidente da República do Brasil agradeceu batendo continência à bandeira norte-americana. O ensaio geral tinha sido em outubro de 2017, já pré-candidato, quando o então deputado Jair prestou continência à mesma bandeira estrangeira, num evento em Dallas.

Voltando ao que está em jogo hoje, o atual candidato da família macabra (lembremos da tragédia genocida da pandemia da Covid-19) afirmou recentemente que o Brasil seria a solução para os Estados Unidos se livrarem da dependência industrial das terras raras chinesas. Na outra ponta do complexo digital, o mesmo candidato também se demonstrou alinhado à total desregulação da atuação das big techs em solo brasileiro, o que, em dupla com a inacreditável intenção de um eventual (des)governo de transição ser implementado sob o beneplácito oficial de membros do governo dos Estados Unidos, configura uma renúncia total a qualquer projeto de soberania nacional.

Em um contexto de enorme instabilidade como o atual, o que menos precisamos é subserviência. Mas essa parece ser a principal característica de um possível novo governo do clã. Poderemos não só vir a entregar, sem nenhuma contrapartida, nossos recursos naturais, como talvez mesmo abrir o caminho para bases militares dos Estados Unidos em nosso território. Já somos vistos como a próxima peça-chave na estratégia neocolonial norte-americana avançando a passos largos em nosso continente.

E em algumas semanas, decidiremos se conseguiremos seguir numa postura de não subordinação a Washington, ou se nos contentaremos em nos tornarmos a principal ponta de lança do neofascismo da extrema direita internacional dentro do Sul Global. Seja qual for nossa escolha, seus impactos não ficarão restritos às nossas fronteiras.

O futuro vos libertará

I

Em 2021, Jair Bolsonaro, então presidente, confrontou Alexandre de Moraes e xingou-o de “canalha”. Os comícios eleitorais de 2022 e 2024, tiveram suas particularidades. Quatro anos atrás, o eleitoralismo das direitas foi hegemônico, mas corriam por fora o monarquismo e o intervencionismo militar, duas formas distintas de conceber uma mudança de regime político no longo ou no curto prazo, respectivamente. Já nas eleições municipais, Pablo Marçal demonstrou como era possível um outsider hackear de forma subterrânea o showmício oficial, mesmo sendo barrado de subir no carro de som.

Já em 2023, não houve ocupação das ruas: um tempo já longínquo em que o “8 de Janeiro” ainda tinha reverberações negativas para todos os envolvidos no epílogo de uma campanha golpista – o tempo passou e a memória da depredação profanadora dos símbolos de poder se revelou frágil, com a responsabilização dos golpistas estando por um triz de ser revertido, dependendo de quem ganhar a presidência agora em outubro.

Por fim, em 2025, o dia da independência foi espetacularmente invertido por um clamor de dependência, graças ao bandeirão ianque que os bolsonaristas estenderam na Paulista. Outros significados relevantes se conectavam com a indefinição, à época, da chapa presidencial que representaria o bolsonarismo, com a figura tecnocrática de Tarcísio de Freitas ainda em evidência, e o enorme carisma de Michelle Bolsonaro, à espreita.

Nos meses seguintes, o pai consagrou o filho: Jair indicou Flávio como seu herdeiro oficial, com a esperança de, no mínimo, manter a hegemonia do clã sobre as direitas brasileiras, mesmo que perdessem a eleição e, no máximo, ao ganhar, ser uma via de anistia e libertação para si (e, secundariamente, para os presos do 8 de Janeiro). A candidatura de Flávio Bolsonaro, ao se consolidar, foi confrontada pela proliferação de candidatos que buscam de diferentes maneiras disputar e construir um bolsonarismo sem (a família) Bolsonaro: Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (NOVO) e Renan Santos (MISSÃO). O liberalismo econômico brasileiro se degradou em reacionarismo.


Esse cenário só se torna compreensível em sua densidade histórica quando comparamos as candidaturas presidenciais de 2026 com as de 2022. Quatro anos atrás, no 1º turno, além de Lula retornando à cena eleitoral depois de dois governos, popularidade recorde, perseguição, prisão e redenção, tínhamos uma proliferação de candidaturas bem mais centristas (desconsiderando aqui o NOVO já bolsonarizado e a tragicômica figura de Padre Kelmon, duas linhas auxiliares de Jair, mas bem mais precárias do que hoje). De um lado, o então trabalhista Ciro Gomes (PDT) e, de outro, a social-liberal Simone Tebet (MDB). O segundo turno de 2022, selou o futuro divergente de ambos: Tebet foi integrada à frente ampla democrática que abrigou inclusive os economistas do Plano Real, se tornou ministra do governo eleito e agora é candidata ao Senado pelo PSB de Alckmin; e Ciro se apequenou, mantendo-se neutro, depois rompendo politicamente com seu irmão e praticamente se bolsonarizando como candidato ao governo estadual do Ceará, pelo PSDB de Aécio e Tasso.

Se formos voltar a eleições anteriores, podemos constatar a existência de relevantes espaços políticos tanto à esquerda quanto ao centro com relação ao PT (desconsiderando o finado papel do PSDB como polo de centro-direita que também organizou as eleições brasileiras entre 1994 e 2014): Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT) em 2006; Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) e Marina Silva (PV) em 2010; Luciana Genro (PSOL) e novamente Marina Silva (PSB) em 2014; Guilherme Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT) em 2018. Quando confrontamos o cenário eleitoral de 2026 com esta série histórica, tal espaço político ampliado simplesmente desapareceu. Diante do crescimento digital e eleitoral e o enraizamento societal da extrema direita, o PT e o campo democrático-popular se tornaram um centro gravitacional que convidou, incentivou, forçou e negociou que diversas forças sociais e políticas se tornassem seus satélites: de um lado, o papel das tendências menos esquerdistas do PSOL em torno de Guilherme Boulos; de outro, as ex-presidenciáveis Tebet e Marina, tornadas ministras e dupla que agora disputa o Senado por PSB e REDE. Em termos ideológicos, Lula 3 se tornou uma frente amplíssima, que vai do neoliberalismo (mais ou menos progressista) até a Bancada da Esquerda Radical.

Mas tal amplitude político-ideológica não se traduz em maioria segura em termos diretamente eleitorais. Muito pelo contrário: é como se o ecossistema da extrema direita tivesse se desenvolvido e se legitimado a um tal ponto que a profusão de lideranças políticas espalhadas por vários partidos permitiu que a unidade no 1º turno não precisasse ser construída. Já em termos ideológicos, Flávio, Zema, Caiado e Renan não se distinguem muito: todos têm como ídolo o autoritarismo reacionário do presidente salvadorenho Nayib Bukele, se sentem confortáveis no papel de subgovernadores de uma província estadunidense (a bomba atômica defendida por Renan parece surpreendentemente distingui-lo, mas sempre com consequências violentas) e ao menos nos três primeiros casos prometem para 1º de janeiro uma anistia para os golpistas de 2022-2023 – sob o manto da “pacificação” e também do revisionismo histórico: querem destruir a memória que nos permitiria, pela primeira vez, responsabilizar quem atenta contra a nossa democracia e naturaliza o secular “poder moderador” das Forças Armadas.

Junto com esta pulverização de candidaturas de extrema direita, o histórico recente das ruas também alimentava a possibilidade de um cenário de fragmentação no Sete de Setembro. A partir de 2023, no momento em que o pastor Silas Malafaia tomou a frente e passou a organizar showmícios cada vez mais profissionalizados e ofereceu ao clã Bolsonaro os principais palcos de sua campanha por anistia, uma dinâmica inédita tomou conta dos atos de rua da extrema direita. Se lá por 2014 até 2019, os protestos das direitas eram estruturados por múltiplos carros de som (MBL, Vem Pra Rua, Revoltados On Line, NasRuas, etc.), disputando a atenção da base social, com Malafaia foi instaurado um carro de som unificado. Conforme o pastor adiantou nas semanas anteriores que ele não seria o organizador do Sete de Setembro de 2026, passei a formular a hipótese de que isto poderia significar o retorno da pluralidade em termos de carros de som, lideranças políticas, movimentos sociais (liberais, conservadores e reacionários), além de candidaturas presidenciais. Tirando o ato bolsonarista em Copacabana, que conviveu com uma caminhada paralela em prol de Augusto Cury, a Avenida Paulista não confirmou esta minha expectativa centrífuga.

II

A manifestação bolsonarista reuniu 28 mil pessoas, o que poderia ser lido seja como declínio, seja como fracasso. De fato, os atos do Dia da Independência nos anos anteriores haviam mobilizado entre 45 e 42 mil manifestantes (em 2024 e 2025, respectivamente). Por outro lado, o número mais baixo que a série histórica do Monitor do Debate Político no Meio Digital do Cebrap registrou para a extrema direita foi 12 mil, em 29 de junho de 2025, sob o impacto negativo do tarifaço de Trump. Deste modo, quase 30 mil pessoas terem saído de suas casas sob baixíssima temperatura e risco de chuva não foi pouca coisa (e praticamente o dobro do que um dos maiores protestos convocados pela esquerda, em 10 de julho de 2025, também no contexto de reação à interferência trumpista). Além disso, a etnografia de protestos ensina que os elementos quantitativos precisam sempre ser analisados de forma articulada com os elementos qualitativos, o que se relaciona com a circulação de discursos, símbolos e emoções que constroem a dinâmica interativa entre lideranças e base. Quero chamar a atenção a seguir que o fato político mais relevante do que o relativo declínio numérico foi a convergência centrípeta dos agentes sociais e políticos em torno de Flávio Bolsonaro.

Dependendo se o ano é eleitoral ou não, a dinâmica do ato de Sete de Setembro se transforma. Se não há eleições, é temática é mais livre: em 2021, o intervencionismo militar ganhando visibilidade pública inédita no pós-redemocratização; já em 2025, diante da decepção com as Forças Armadas (“melancias”, “verdes por fora, vermelhas por dentro”), foi esboçado o deslizamento da intervenção militar em direção à intervenção estrangeira. Sendo setembro sempre no meio de campanhas eleitorais, os atos de 2022, 2024 e 2026 se reconfiguraram como comícios eleitorais sui generis. O elemento mais visível desta dinâmica são os bandeirões, camisetas, adesivos e, claro, os santinhos com números de candidatos (ao executivo e, principalmente, ao legislativo).

Esta articulação entre eleições e protestos – o institucional e o extra-institucional – não é exclusividade da (extrema) direita, as esquerdas também funcionam da mesma forma: partidos e candidatos enxergam a manifestação de rua como uma oportunidade preciosa de disputar não apenas a atenção, mas a fidelidade político-eleitoral de pessoas com alta capacidade de mobilização social e engajamento digital. No caso da esquerda, pude observar atos assim em 2022 e 2024; este ano ainda não vi nada similar na cidade de São Paulo, o que parece indicar a baixa eletrização de sua base.

Fui registrando em meu caderno de campo os partidos presentes no ato bolsonarista. O PL obviamente surgiu com grande destaque. Mas diversos partidos de direita que não estão oficialmente na coligação de Flávio Bolsonaro abraçaram o protesto como campanha eleitoral: partidos que participaram da base congressual de Jair Bolsonaro (Republicanos, Progressistas), partidos nanicos (Podemos, Solidariedade) e partidos que foram em algum momento da base de Lula 3 (MDB, União Brasil). Por fim, nas margens do ato, compareceram até partidos que têm outros candidatos presidenciais (o NOVO de Zema e o PSD de Caiado). Curiosamente, não observei materiais ou candidatos do AVANTE de Augusto Cury nem do MISSÃO de Renan Santos – no caso deste último, a curiosidade também é histórica, considerando que o MBL, gênese social deste partido político, construía e disputava os protestos das direitas desde o seu surgimento, em 2014.

Junto com as pessoas contratadas para segurar bandeirões e distribuir santinhos, convive uma outra forma partidária. Longe deste formato clássico de partidos analógicos que terceirizam a propagação de materiais publicitários físicos, emergiu nos últimos anos o que Marcos Nobre e sua equipe de pesquisa no CCI/Cebrap chamaram de , que conta com o engajamento de influenciadores, responsáveis por mediar a experiência offline das ruas com a reverberação online nas redes sociais. A criação de conteúdo é descentralizada e consumida como “autêntica”, bastando estar com seu celular ligado para que múltiplas pessoas no chão do ato produzam imagens e narrativas que receberão views, likes e shares. Várias delas passaram por mim, em especial homens. Enquanto um dizia para sua câmera “o sistema soltou o Lula para roubar, esta é que é a verdade”, um outro só repetia freneticamente “vamo que vamo que vamo”. De um lado, o recorrente discurso antissistêmico; de outro, a confiança no movimento ascendente de seu próprio campo político.

Um momento privilegiado da interação entre carro de som e chão do ato é acompanhar as emoções despertadas e cultivadas pelas pessoas em torno dos discursos eletrificados. É possível inclusive falar em uma espécie de hierarquia emocional. Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, costuma ser um dos que menos desperta animação nos manifestantes. Sintoma de que o Partido Digital Bolsonarista depende formal e oficialmente do hackeamento de um partido analógico, mas seu modo de funcionamento é radicalmente distinto, transbordando o PL. Valdemar, que já foi um apoiador de Lula nos idos dos anos 2000, até tentou estimular os presentes, como quando formulou que “Flávio é o melhor para botar ordem neste país”, além de profetizar que “O Jair vai ficar preso mais 10 anos se o Flávio não for eleito. Volta Bolsonaro!”. Nem sequer recorrendo à libertação do ex-presidente a reação das pessoas deixou de ser fraca ou apática. Outro que não costuma engajar a atenção da base é Malafaia. Autorremovido de seu papel de centralidade como organizador do showmício, a reação das pessoas ao seu discurso, mais curto do que de costume, foi morna.

Em repetidas observações de protestos, percebo que Tarcísio é inicialmente muito bem recebido quando apresentado pelo mestre de cerimônias; desta vez contando inclusive com palmas e uivos. Contudo, no exato momento em que ele abre a boca, algo invariavelmente se perde e a atenção dos manifestantes se dispersa. Em outros momentos, o governador paulista erra a mão ao detalhar conceitos como “economia do conhecimento” ou apostar em um discurso excessivamente tecnocrático, voltado para detalhes de políticas públicas. Desta vez, ele até buscou inovar. Em vez de burocratizar sua fala, foi por um caminho historiográfico, tentando criar paralelos históricos e políticos entre 1822 e 2026. Se a independência do país foi uma luta contra os poderes absolutos de Portugal, estaríamos hoje vivendo o desafio e a oportunidade de mais uma vez reescrever a história do Brasil e “declarar independência da corrupção, da desfaçatez, do PT, de Lula e dessa corja”. As menções a Flávio foram tímidas ou inexistentes, mas obviamente tal segunda independência passaria por sua eleição como presidente.

Os contrastes entre Tarcísio e Nikolas – antepenúltimo e penúltimo a discursarem – são vários.

Por um lado, o carisma incomparável do jovem deputado federal por Minas Gerais. Embora algumas pessoas tenham se movido para mais perto do carro de som quando Tarcísio começou a falar, os manifestantes sempre ficam eletrizados do começo ao fim enquanto Nikolas discursa. A quantidade de celulares erguidos para o alto para registrá-lo em vídeo só perde para as vezes em que Michelle surge como protagonista. Aliás, seu não comparecimento surpreendeu. Nos dias anteriores, reportagens haviam antecipado que ela comporia o ato na Paulista. Acabou argumentando que precisava ficar em casa cuidando do marido. Não ficou claro para mim o significado político de sua ausência: as negociações não atenderam suas demandas ou Flávio está tão seguro da vitória que seu apoio deixou de ser indispensável como na época do desastroso quase rompimento entre madrasta e enteado?

Por outro lado, as menções a Flávio foram explícitas em seu discurso, ao contrário de Tarcísio. Aqui não se trata apenas do fato de que Nikolas está no topo da cadeia alimentar da economia da atenção ou da hierarquia emocional dos oradores no carro de som. É importante contrastar com sua postura – juvenil e rebelde – no e sua atual pré-disposição em ser enquadrado como mais um leal subordinado a serviço da candidatura de Flávio. No 1º semestre, Nikolas foi responsável por dissolver a melancolia dos atos de rua esvaziados em novembro e dezembro de 2025, diante da prisão da maior liderança da extrema direita. Não se verificou a esperada resistência ao sistema que supostamente perseguia Jair. Mas em janeiro de 2026, Nikolas convocou uma caminhada (vista como épica para quem estava dentro e ridícula para quem estava fora) que saiu do interior de Minas Gerais e desaguou em um protesto em Brasília, que ficou marcado por uma chuva torrencial e raios que atingiram manifestantes – algo lido como irresponsável pelo campo progressista, mas confirmando o tom heroico da campanha em torno de si.

O ato da Paulista em março deste ano era, portanto, a culminação deste ensaio de protagonismo e independência política na capacidade de convocar e organizar um ato de rua, fora da esfera de influência do consórcio Malafaia e família Bolsonaro. Neste contexto muito específico, Nikolas se sentiu à vontade para não apenas ser o penúltimo a discursar, mas também para usurpar o microfone de Flávio, que teoricamente era o último orador, fazendo questão de adiar o encerramento imediato da manifestação e, em seguida, de mencionar Michelle – até então ignorada pelas outras lideranças, inclusive o enteado – e, por fim, puxou um Pai Nosso, criando um epílogo mais teológico e moral do que propriamente político-eleitoral, como era do interesse de Flávio.

De lá para cá, a candidatura de 01 deixou de ser questionada ou ameaçada por potenciais alternativas (como Tarcísio, Michelle ou o próprio Caiado, que também estava no ato de março, prometendo anistia, aliás) e efetivamente se viabilizou. Mesmo que as lideranças políticas e a base social estejam “tampando o nariz” e fazendo um “voto útil” em Flávio, o fato é que ele se tornou incontornável, além de um candidato com perspectivas reais de poder (as pesquisas eleitorais passaram a dar empate técnico com Lula no 2º turno), o que reorganiza as disputas em torno do futuro do bolsonarismo em 2030 (quando Tarcísio sairá do Palácio dos Bandeirantes) e 2034 (quando Nikolas poderá finalmente ser elegível de acordo com a Constituição; hoje ele é jovem demais).

A evidência de que, até no chão do ato, os bolsonaristas não morrem de amor por Flávio é uma conversa informal entre três amigas que eu pude escutar e registrar. Em algum momento entre os discursos de Tarcísio e Nikolas, uma dela diz para as outras, bastante convicta: “eu prefiro o Eduardo mil vezes do que o Flávio!”. O que não a impedirá de apertar 22 na urna eletrônica. Sem contar a enorme maioria dos eleitores que apostarão no 1º turno nas demais candidaturas do “bolsonarismo sem Bolsonaro”: todas elas vão convergir e se explicitar como de extrema direita no provável 2º turno.

III

Nikolas costuma terminar seus discursos eletrificados no carro de som com o seguinte bordão: “O presente é deles, mas o futuro é nosso”. Um dos princípios da teologia judaico-cristã é aqui mobilizado: se a extrema direita se percebe, hoje, “oprimida”, ela promete para seus fiéis redenção em um amanhã crível e palpável, permitindo alimentar as esperanças em um horizonte melhor, mesmo diante de um cenário difícil, que teve tudo para incentivar e justificar o pessimismo e o niilismo no pós-8 de Janeiro e na imediata eclosão do escândalo que revelou as conexões do filme Dark Horse com o Banco Master.

Além disso, um dos principais jingles de Flávio 2026, tocado ao final do ato, se chama “Com o pé direito, o Brasil tem futuro”. Por estes motivos, me interessei em mapear e reconstruir as imagens de futuro que circularam no Dia da Independência, entre lideranças e base do campo reacionário. Quais são os desejos políticos que estão sendo prognosticados na eventual vitória de Flávio Bolsonaro e quais imaginários sociais são por ela encarnados?

O day after da posse de Flávio seria marcado pela libertação de seu pai e pela culminação da longa campanha por anistia política dos presos do 8 de Janeiro, que foi esboçada em 2023, adensada em 2024, mas frustrada em 2025, no que parecia ser uma inédita responsabilização do secular golpismo militar e civil brasileiro.

Em seguida, o foco passaria a ser a reconfiguração do STF. Embora o antipetismo continue constitutivo da extrema direita, Lula passou a ser superado por Alexandre de Moraes como o grande antagonista político do campo reacionário. Graças ao escândalo do Banco Master, o impeachment de Moraes deixou de ser algo inconcebível e restrito a franjas radicalizadas e passou a habitar o centro do debate público. Sua legitimidade foi erodida tanto no âmbito do campo progressista, como aquele que havia sido sagrado como “salvador da democracia”, quanto no âmbito da grande mídia (Folha, Estadão, O Globo), que pediu sua cabeça em editoriais publicados apenas 24h depois da revelação da troca de mensagens com Daniel Vorcaro. E a legitimidade do próprio STF diante da opinião pública está ameaçada caso se opte pela tentativa de um grande acordo. A questão é que estamos longe de uma conjuntura política que permita uma justa discussão sobre reforma política e reforma do Judiciário que levaria a sociedade a debater e deliberar como os três poderes poderiam reorganizar suas relações e regular seu envolvimento ilegal e corrupto com o poder financeiro das diferentes frações das classes dominantes.

Uma coisa é certa: de tudo que vimos e aprendemos com o Governo Jair Bolsonaro, todos os democratas deste Brasil deveriam saber que as melhores condições hoje para uma reorganização democrática do STF (transparência nas investigações doa a quem doer, Polícia Federal independente, imprensa livre) se dariam sob um Governo Lula 4. Um eventual Governo Flávio vai se inspirar nas autocracias de Orban, Erdogan e Trump: o manual da extrema direita prevê para o segundo mandato a destruição da independência do Judiciário.

O contexto imediato é, portanto, de incentivo ao assalto que a extrema direita planeja dar, esvaziando o Judiciário com relação aos demais poderes (com Flávio na presidência e o Centrão empoderado no nosso atual semi-presidencialismo). Além de subordinar o STF ao bolsonarismo, Flávio também revela ao final de seu discurso que em janeiro de 2027, ele vai acabar com “a polarização” porque “não vai mais ter PT”. Tudo isto alimenta a plausibilidade de uma mudança de regime político com relação ao que foi vigente no pós-1988, com sua mescla de méritos e falhas: Constituição democrática, presidencialismo de coalizão e institucionalização inédita de direitos sociais, mesmo que precarizados e subfinanciados.

Sempre considero relevante prestar atenção não apenas aos discursos (no carro de som, em cartazes ou em conversas informais), mas também aos símbolos que circulam em um protesto. Vários dos que compareceram no Sete de Setembro são velhos conhecidos para quem já frequentou ao menos uma vez ou viu fotos das manifestações das direitas: as bandeiras do Brasil monárquico, dos EUA, de Israel e, por fim, a Bandeira de Gadsden, símbolo anarcocapitalista e também mobilizado pelo trumpismo.

Já outros símbolos foram inéditos em minhas observações, o que pode nos revelar a distância entre o rotinizado e o que surge como elemento emergente no cenário da extrema direita brasileira. Em primeiro lugar, um boneco inflável do ministro André Mendonça, sintoma de seu protagonismo na atual crise institucional do STF na qual o bolsonarismo busca surfar.

Em segundo lugar, um pixuleco gigante de Trump segurando um pixulequinho de Lula em uma versão presidiário. O inusitado e indigesto da situação não se esgota na ode ao imperialismo, emulando e desejando que Trump faça algo similar ao que fez com Maduro: sequestrar, prender, humilhar e apequenar. A imagem original do presidente estadunidense é a cena fotografada e espetacularizada na qual ele cerra os punhos ao alto, logo após a tentativa de assassinato que ele sofreu em um comício na Pensilvânia, na campanha eleitoral de 2024. A cereja do bolo da presença trumpista no Dia da Independência é o surgimento de bonés vermelhos, cor do Partido Republicano, seja com a inscrição Make America Great Again, seja com os escritos “Trump 2028” – uma palavra de ordem golpista, que reivindica rasgar a Constituição estadunidense, que impede expressamente, na 22ª Emenda, que o atual presidente se candidate novamente.

Por fim, quando eu já iniciava meu retorno para casa, me afastando do quarteirão Trianon/MASP em direção à Estação Brigadeiro de Metrô, me deparei com um último símbolo inédito: um homem trajava a bandeira da Bolívia, amarrada em seu pescoço como uma capa de herói, fazendo o vídeo de uma mulher, trajando uma bandeira brasileira da mesma forma – ele então dirigia sua performance, perguntando repetidamente se ela votaria 22 em outubro. Ele parecia ser um imigrante boliviano, mas falava português sem sotaque aparente.

Esta cena, exteriormente singela, pode ser mais bem compreendida se inserida em um contexto simbólico, discursivo e emocional mais amplo. Aquele mesmo trio de amigas que eu já me referi acima também conversou sobre os EUA, em mais um momento em que praticamente viraram de costas para o carro de som, absorvidas em sua própria sociabilidade informal. Uma delas, a mais articulada e extrovertida, afirmou efusivamente “os EUA ainda é a maior potência do mundo”. Em seguida, passou a explicar e enumerar, com grande admiração, como isto se refletia em diferentes âmbitos, como o maior poderio militar em termos de armamentos ou uma suposta liderança tecnológica. Não ficou claro para mim qual era o contexto anterior da conversa, mas, em termos analíticos, é inescapável contabilizar a ascensão da China na necessidade de ela reafirmar que os EUA ainda é o número um. Por último, a conversa foi por um caminho de elogiar enfaticamente como diferentes países na América do Sul estão “mudando”, tais como Colômbia e Venezuela – o primeiro país por conta da eleição de maio, na qual a extrema direita venceu o candidato de continuidade do Governo Petro; o segundo país devido ao já mencionado sequestro de seu então presidente e uma estranha permanência da cúpula bolivariana, mas agora em condições subordinadas a Trump.

Os novos símbolos – pixuleco e boné pró-Trump e bandeira boliviana – e os discursos – a veneração do poder estadunidense e a comemoração do realinhamento de Colômbia e Venezuela – compõem uma rede de significados bastante evidente: uma aguda consciência geopolítica por parte da base social da extrema direita que deseja participar ativamente do processo de subordinação do Brasil e da América Latina aos EUA de Trump (um projeto que Branko Milanovic chamou recentemente de “nacional-liberalismo de mercado” e outros chamam de neomercantilismo ou neoimperialismo). Como Flávio já formulou explicitamente, no encontro deste ano do CPAC (Conservative Political Action Conference), seu plano de política externa é o que os nacionalistas brasileiros dos anos 1950 chamavam, sem meias palavras, de entreguismo: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”.

O mais insólito de tudo no dia 7 de setembro, na Avenida Paulista, foi o clímax do discurso de Flávio Bolsonaro no carro de som. Logo depois de afirmar categoricamente que ele vai indicar 5 ministros do STF e que o dia 4 de outubro ficaria marcado como um “grito de liberdade”, ele vociferou, empoderado como eu nunca tinha visto ou ouvido: “Eu quero ser o libertador da pátria!”. No universo simbólico singular da extrema direita brasileira, independência (do Brasil) se transmuta em dependência (dos EUA) e a libertação dos poderes supostamente absolutistas do STF se transforma em subordinação do Judiciário ao presidente autocrata.

Mas e se Flávio não for eleito, como se comportarão as direitas? Em 2021 e 2022, já era evidente em minhas pesquisas de campo que o campo reacionário só reconheceria como legítima a vitória eleitoral de Jair. Já Flávio abriu seu discurso enumerando uma “primeira facada” (que seu pai recebeu em Juiz de Fora, em setembro de 2018), a “segunda facada” (o 8 de Janeiro e a posterior prisão de seu pai) e uma enigmática “terceira facada”: “vão tentar não só em mim, mas também em meus aliados. Não vai adiantar nada! Somos muito mais fortes do que eles”. O que seria, então, esta terceira facada? Entendo que este é um ensaio de enquadramento interpretativo com o objetivo de deslegitimar o possível cenário de sua derrota.

Sempre enfatizo que a firmeza do Governo Biden foi crucial para desarmar o golpe militar de 2022, ao bloquear qualquer aliança entre o Departamento de Estado dos EUA e as Forças Armadas brasileiras, notadamente americanófilas, o que rachou o Alto-Comando do Exército entre golpistas, “em cima do muro” e “legalistas” a ponto de impedir a unidade de ação. Conforme estamos sob Trump e a Doutrina Donroe, corremos o risco de uma real possibilidade de uma nova campanha de ação coletiva de “patriotas” que deslizaria da demanda por intervenção militar (como em 2022 e 2023) para uma reivindicação explícita por intervenção estrangeira, o que dobraria a aposta na subversão e na insurgência. O imaginário reacionário é notadamente escatológico e apocalíptico: caos, desordem e destruição são desejados tendo em vista uma restauração futura de uma ordem cujo parâmetro de progresso se tornou uma regressão neoextrativista selvagem e hiper-dependente, o que expande exponencialmente o que Letícia Cesarino chamou de “o mundo do avesso”.

Se a candidatura de Flávio Bolsonaro e todos os seus cúmplices no autoritarismo e no entreguismo não forem derrotados eleitoralmente em outubro e deslegitimados socialmente nos anos seguintes (com participação interna de centristas, direitistas e eleitores independentes e participação internacional de governos que reconheçam o resultado das urnas eletrônicas), quem precisará ser liberta e restaurada na década seguinte será a democracia do Brasil, assim como nossa soberania. Ainda há tempo para escrever, agora, outro futuro.
Jonas Medeiros

Dizem os índios

Que tem dono a terra? Como assim? Como se há de vender? Como se há de comprar? Se ela não nos pertence... Nós somos dela. Seus filhos somos. Assim sempre, sempre. Terra viva. Como cria os vermes, assim nos cria. Tem ossos e sangue. Tem leite, e nos dá de mamar. Tem cabelos, pasto, palha, árvores. Ela sabe parir batatas. Faz nascer casas. Gente, faz nascer. Ela cuida de nós e nós cuidamos dela. Ela bebe chicha, aceita nosso convite. Filhos seus somos. Como há de vender-se? Como há de comprá-la?
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

Por que eleitor demorou a saber de investigação sobre Flávio?

A Polícia Federal (PF) pediu e a Procuradoria-Geral da República (PGR) não se opôs à apuração de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção passiva, entre outros, atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) do caso Banco Master/Daniel Vorcaro, autorizou a abertura de investigação em 22 de julho, três dias antes da convenção partidária que tornou o primogênito de Jair Bolsonaro candidato à Presidência. O eleitorado brasileiro, contudo, só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas de intenção de voto no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois. Por quê?

Não fosse o enfrentamento entre Mendonça e o colega Alexandre de Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado o ex-presidente da República, o país desconheceria uma variável relevante na disputa eleitoral de 2026. Em março passado, dois terços dos eleitores brasileiros disseram à Quaest que a maior fraude bancária da História seria levada em conta para decidir o voto. Quatro em dez evitariam votar em qualquer candidato envolvido no escândalo; 29% levariam os desdobramentos em consideração, além de outras pautas.


Seis meses atrás, as relações de Flávio não eram conhecidas. Tornaram-se públicas pelo jornalismo independente. O site The Intercept divulgou em 13 de maio o áudio em que o senador, eleito em 2018 com quase 4,5 milhões de votos, cobra do então banqueiro o dinheiro para financiar a cinebiografia do pai. Ao longo dos meses, muitos contatos, investigações e operações da PF enredando políticos ao Master vieram à tona. Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), ACM Neto (União-BA), Cláudio Castro (PL-RJ) são exemplos.

Há fundadas suspeitas contra os ministros Moraes e Dias Toffoli, do STF. Os nomes do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, estão sob escrutínio. Foi revelado que o filho mais velho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, é alvo de três inquéritos derivados do escândalo do INSS por suspeita de tráfico de influência no setor público. O Brasil soube de tudo isso. Só não fora informado, até ontem, que o presidenciável do PL é investigado.

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. O primeiro debate, da Band, se deu na semana seguinte, quando também os candidatos foram sabatinados no Jornal Nacional. Desde o fim do mês passado, está no ar a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Flávio tem desviado das perguntas sobre a relação com Vorcaro, alegando acordo privado para o financiamento do filme “Dark horse”, como se fosse natural um senador da República pedir patrocínio a um banqueiro, como se fosse um produtor cultural a um mecenas.

A informação de que ele é alvo de inquérito não poderia ser ocultada da sociedade brasileira. Mas foi. É direito do eleitor ter todas as informações disponíveis sobre cada candidatura, seja para presidente, senador, deputado federal ou estadual. Sonegar procedimentos jurídico-policiais que afetam o voto também é forma de atacar a democracia.

Impressiona nesse caso é que saberíamos de nada, não fosse a pressão coletiva por quebra total do sigilo sobre o caso Master, em decorrência do enfrentamento entre Mendonça e Moraes. O Brasil precisou de uma crise que quase implodiu o STF para saber do procedimento investigatório contra Flávio. O momento sombrio no Judiciário produziu o efeito colateral positivo, quando o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou o fim do segredo, na noite de anteontem.

Ao longo da semana, Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, indicado por Jair Bolsonaro ao STF por ser “terrivelmente evangélico”, homologou ao menos uma colaboração premiada igualmente relevante para o caso envolvendo a cinebiografia do ex-presidente e Vorcaro. O delator Antônio Carlos Freixo Júnior, alcunha Mineiro, confessou à PGR ser o homem da mala do ex-banqueiro. Em meia década, movimentou R$ 1,3 bilhão em dinheiro vivo, entregue em malas a destinatários determinados pelo Master, revelaram Andréia Sadi e Reynaldo Turollo Jr, na GloboNews e no portal g1. Foi Mineiro quem transferiu o suposto patrocínio ao filme “Dark horse” ao fundo americano ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, o ex-deputado que, dos Estados Unidos, atua por sanções contra o Brasil para beneficiar o pai.

Completamente estarrecidos com o conjunto de mensagens de Vorcaro a Moraes, o acirramento da briga entre ministros, a letargia no STF e a seletividade na divulgação das investigações sobre o Master a cargo de Mendonça, setores da sociedade civil — a começar por um conjunto de 13 ministros aposentados do Supremo em carta — cobraram de Fachin transparência e celeridade no acesso às informações. O presidente do STF mostrou-se disposto a provar que a instituição é capaz de se reordenar. A dúvida é se os demais colegas estarão imbuídos do mesmo senso de responsabilidade.

Foi mais democracia, não menos, que permitiu ao Brasil saber da investigação contra o filho de Bolsonaro. Democracia é o lugar em que a sociedade se manifesta, reivindica, manda, e o poder recua, age, obedece. Autoritarismo é o ambiente em que o agente público está livre para interferir, dissimular, negar, transgredir, mentir, atacar. É como atua a extrema direita brasileira.