sábado, 23 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


O grande Rio de Janeiro

Chico Buarque disse, com sua boa música e melhor poesia, que o Brasil poderia se transformar em imenso Portugal. A brincadeira poético-musical era elogiosa, porque a pátria mãe, que durante muitos anos foi vista como um país no norte da África, foi aceita pela União Europeia e se transformou. Passou a contar com bons hotéis, melhores restaurantes e grandes centros de compras. O país deixou de ser o local apenas para comer bacalhau e passou a oferecer múltiplas oportunidades. Os brasileiros fazem a festa por lá.


Essa imagem me veio à cabeça porque o candidato Flávio Bolsonaro, com suas trapalhadas e suas amizades escandalosas, sugere que o Brasil se transforme no grande Rio de Janeiro. Machuca muito escrever isso. Nasci perto do Rio de Janeiro e cresci na cidade. Desfrutei das praias, do bom futebol e dos restaurantes. Temporada feliz. Mas aquele Rio de Janeiro não existe mais. Depois do surgimento veloz e feroz da chamada Zona Oeste, a criminalidade tomou conta de boa parte da cidade. O tráfico de drogas assumiu grandes áreas, as grandes favelas se transformaram em territórios autônomos para proteger quadrilhas de assaltantes de vários tipos e categorias. Meu filho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi obrigado a se proteger, algumas vezes, dentro da sala de aula, do tiroteio que corria solto lá fora. Foi assaltado, confrontado com arma na mão, dentro do campus.

Histórias de policiais envolvidos com a criminalidade são muitas. Às vezes são até folclóricas, como a do sujeito que teve a sua moto roubada e procurou a polícia. Na delegacia, recebeu o endereço dos três maiores ladrões de motos do Rio. Com a sugestão de que ele procurasse o ladrão e pagasse pela liberação da própria motocicleta. O delegado naturalmente receberia algum pela corretagem. Os apontadores do jogo do bicho fazem parte da paisagem carioca. Eles mandam nas ruas da cidade. Ninguém pode estacionar em local em que estão trabalhando. Eles chamam a polícia. É isso mesmo. Os bicheiros mandam os reboques do Detran, que levam seu carro. Depois, o proprietário deve pagar uma série de benefícios para liberar o veículo.

O poder público foi envolvido pela corrupção. E a cidade dominada pelas milícias, pelos comandos criminosos que se estruturaram nas favelas e passaram a lidar com quantias financeiras consideráveis. Começaram a importar armas pesadas capazes de fazer enfrentamentos, de igual para igual, com Polícia e Exército. Nada disso aconteceu por acaso. Os últimos cinco governadores do estado do Rio de Janeiro foram presos por corrupção e leniência com o crime organizado.

O último ainda não foi preso, apenas cassado, pretendia ser candidato a senador, mas a Justiça interrompeu sua carreira. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é um antro dominado pela criminalidade. Flávio Bolsonaro reinou ali, onde implantou o sistema da rachadinha. Vários deputados foram presos. Alguns, cassados. Por causa de sucessivos impedimentos, o atual governador do Rio de Janeiro é o desembargador Ricardo Couto. Ele, que não é ligado a nenhum grupo criminoso, promove uma limpa no governo do estado, o que ocorre pela primeira vez nas últimas décadas.

Esse é o mundo Bolsonaro. O universo de atuação da família, cuja residência em condomínio horizontal na Barra da Tijuca irradiou sua influência pela região. Por via da política, tentou controlar todo o país. Militares desinformados chegaram a apoiar a loucura do golpe de Estado no país, para evitar novas eleições. E entronizar as milícias no poder no Brasil. Jair, ex-presidente, já demonstrara seu profundo desprezo pelas massas quando abandonou o povo no momento da pandemia. Ele não se dignou a visitar um hospital, nem lamentou as 700 mil mortes. Exerceu o poder para colocar a mão no dinheiro. A avidez com que Flávio, o candidato, se lançou sobre as posses, furtadas, de Daniel Vorcaro é autoexplicativa. Eles gostam muito de dinheiro em qualquer circunstância.

O perfil de Flávio Bolsonaro é nítido. Ele é produto da família que se comporta como uma famiglia mafiosa italiana de filme norte-americano. O pai manda, os filhos obedecem e se espalham pelo país, para tentar eleições em diversos estados. Eles fazem o discurso contra as elites para destruir as elites. O Brasil já viu candidatos como esses, destinados a limpar, passar a vassoura e construir nova sociedade. Todos, desde Jânio Quadros, terminam demonstrando sua tendência autoritária. Flávio Bolsonaro é apenas um arrivista, rápido na ação de amealhar dinheiro com a mão grande, que pretende se passar por reformista, coisa que ele nem sabe o significado. É o desastre anunciado na tentativa de criar o grande Rio de Janeiro.

Do próprio veneno

Ninguém nasce odiando. O ódio é ensinado. A extrema-direita foi além e colocou o ódio como um instrumento político, como arma de mobilização.

Hoje, com as redes sociais, milícias digitais assassinam reputações, assediam e transformam a vida de jornalistas, acadêmicos, ativistas ou qualquer um que represente uma ameaça ao pensamento reacionário.



Nos últimos dias, foi justamente, porém, a extrema-direita que descobriu a dimensão do seu próprio veneno. Em postagens, personagens ultraconservadores e que por anos têm promovido ideias golpistas e ataques contra a democracia foram alvos de ofensas abomináveis. A operação não veio da oposição. Quem liderou a tentativa de intimidação foi justamente uma ala da extrema-direita brasileira inconformada com o posicionamento dos ex-aliados e vozes que se apresentavam como as grandes referências do movimento autoritário. O motivo: terem ousado dizer o óbvio sobre Flávio Bolsonaro e suas mentiras cinematográficas.



Uma dessas vozes do bolsonarismo contou, inclusive, como havia sofrido ataques por alguns que, antes, oravam por ele. E chegou a questionar a fé desses “patriotas”. Só agora? E quando o ódio era contra a oposição, a religiosidade deles estava intacta?

Depois de fazer listas de nomes a serem banidos, defender atos antidemocráticos, conspirar e disseminar mentiras de forma deliberada, executar reputações, destilar misoginia e intolerância, eles realmente acreditam que, então, existe uma linha vermelha que não pode ser cruzada?

Quando nações são consumidas pelo ódio, como a Alemanha na década de 1930 ou o Sul dos EUA durante a segregação racial, o resultado, invariavelmente, é a destruição da sociedade civil e sua substituição por sistemas políticos, sociais e jurídicos baseados na violência.

Nos Estados Unidos, Donald Trump usou o ódio como ferramenta de campanha e mobilização. Vi como comícios eram regidos pela construção do outro como uma ameaça. Os mexicanos eram “estupradores”, enquanto o discurso desumanizador era usado para descrever imigrantes, mulheres e oponentes políticos. Vi como aquela estratégia eletrizava a plateia. O ódio é intoxicante. Ele reduz questões complexas a simples dualidades baseadas na busca de bodes expiatórios entre os odiados. A decadência econômica passa a ser culpa dos imigrantes, não da falta de investimentos em educação ou inovação. A mudança cultural torna-se uma conspiração das elites e alas progressistas. Os fracassos pessoais tornam-se o resultado de um sistema supostamente manipulado.

O discurso do ódio é estrategicamente planejado. Opera em conjunto com a desinformação, a vigilância e os ataques técnicos para silenciar indivíduos específicos. É calculado, contínuo e transnacional. Para esses grupos, o ódio não serve para expressar um preconceito. Ele tem a missão de garantir o controle político sobre uma massa. Esse discurso instrumentalizado por forças políticas funciona como um mecanismo de governança. Normaliza a exclusão, asfixia a oposição pelo medo e cria uma “espiral do silêncio” que elimina completamente as vozes críticas. Um genocídio não começa no primeiro disparo, mas quando o ódio é autorizado, aplaudido e até recompensado.

Vi nos Estados Unidos e no Brasil como ele cresce quando as instituições democráticas são atacadas. Quando um presidente diz que a imprensa é “inimiga do povo” ou sugere que as Forças Armadas devem ser leais ao líder, não à Constituição.

Mas o ódio também é frágil. Sua utilidade política contém, nela mesma, as sementes de sua própria destruição. A história revela que movimentos construídos sob o ódio acabam se autodestruindo.

A Revolução Francesa devorou com ­suas guilhotinas seus próprios filhos à medida que o fervor revolucionário se transformava em expurgos internos. O macarthismo entrou em colapso sob o peso de seus próprios excessos. A Revolução Cultural na China destruiu os líderes históricos do movimento que, em 1949, chegou ao poder.

Como vemos entre os bolsonaristas, a paranoia que alimenta os movimentos de ódio cria fraturas internas à medida que antigos aliados se tornam novos alvos. E desmorona a coerência do grupo.

Talvez, nesse sentido, James Baldwin tenha razão quando alerta que “uma das razões pelas quais as pessoas se apegam aos seus ódios com tanta obstinação é porque pressentem que, uma vez que o ódio desapareça, serão forçadas a lidar com a dor”.

Vai passar?

Acho que esta onda de extremismo se consumirá a si mesma, porque as promessas dos populistas serão confrontadas pela sua incapacidade de criar um mundo melhor e mais seguro
Mia Couto

Os ricos também choram

Elas encolhem-se nos vestidos de alta-costura, eles estugam o passo, empertigados nos fatos escuros, agarrados elas e eles pelo braço, tentando ignorar os que estão fartos de ser ignorados. As imagens das entradas na Met Gala, uma das mais decadentemente exclusivas festas de Nova Iorque, mostram gente comum e invisibilizada falando alto aos que acham que podem tudo. É curioso que se tenha começado a usar a palavra “decadente” como sinónimo de luxo indulgente, quando começa a ser evidente que os milhões de poucos são conseguidos à custa da exploração de muitos milhões. Os trabalhadores da Amazon deixaram isso muito claro, quando projetaram as suas imagens no Chrysler Building, agigantando-se até olharem para baixo e verem, muito pequeno, o patrão Jeff Bezos, para lhe gritarem em stereo que deve envergonhar-se de como os explora e que tudo o que tem lhes deve, a eles.


No lobby da festa apareceram pequenas garrafinhas, daquelas que costumam ser usadas para servir bebidas, cheias de urina, com a cabeça calva de Bezos no rótulo, numa alusão às regras da Amazon que tornam um inferno uma simples ida à casa de banho durante um turno. Junto à passadeira vermelha, os manifestantes gritaram uma frase que resume bem o momento em que as descidas de impostos aos mais ricos se traduzem diretamente na falta de cuidados a todos os outros. “We need healthcare, not a another billionaire.”

Os vestidos de caudas impossíveis, os corpetes ao estilo de armaduras, as maquilhagens exageradas e os cabelos meticulosamente penteados ficaram subitamente expostos ao seu ridículo vazio. Era possível vê-lo nas caras dos convidados, que tentavam fugir rapidamente ao protesto que se desenrolava à porta. “Devias ter vergonha, Jeff Bezos”, lançava, com uma dignidade atordoante, uma mulher negra de 72 anos, que continua a ter de trabalhar num armazém da Amazon para viver, apesar da idade avançada. “Nós merecemos essa festa, nós merecemos muito mais do que recebemos”, avisava Mary Hill, projetada no arranha-céus, sem medo de ameaçar um dos senhores do mundo. “Há força nos números e há muitos mais de nós do que de vocês, bilionários.” Na rua, as pessoas comuns passavam e olhavam com um sorriso de admiração para aquela mulher franzina que subitamente tinha alcançado o tamanho de um gigante e, com a sua força, reduzia o multimilionário à sua imensa fragilidade de homem sozinho, capaz de ser esmagado pelos mesmos que oprime e explora.

O protesto não mudou o mundo. Um protesto sozinho nunca muda nada. Mas alguma coisa tremeu. E a prova disso chegou, pouco depois, quando o milionário CEO da empresa americana Vornado, Steven Roth, mostrou o quão temida e poderosa é esta mensagem ao comparar o slogan “tax the rich” a – imagine-se – um “discurso de ódio”. Roth teve a infelicidade de denunciar este ódio de classe na mesma semana em que saiu nos Estados Unidos um estudo que mostra que cerca de metade dos americanos não ganha, trabalhando, o suficiente para viver. “Os ricos”, disse ele ao New York Times, “são o epíteto do sonho americano. Estão no topo da pirâmide económica americana por uma razão. Deviam ser louvados e alvo de gratidão”, defendeu o milionário, para quem a simples ideia de que a sua riqueza deve ser taxada é semelhante a uma “tirada racista”.

A desfaçatez com que se compara um pedido de justiça social a ataques racistas só é possível graças a uma construção ideológica que associa riqueza – mesmo a mais desmedida – a mérito, ao mesmo tempo que se cria a ilusão de que a fortuna é um estatuto acessível a quem se esforce. A última década foi a era da pornografia da riqueza. Os média e as redes sociais encheram-se de imagens a que chamaram “aspiracionais”, ao mesmo tempo que as marcas de luxo encontravam formas de vender produtos aos menos abonados para que de alguma maneira eles se sentissem parte de um clube no qual nunca iriam verdadeiramente entrar. Os restaurantes passaram a ser gourmet. Os hotéis transformaram-se em boutiques. E uma massa de gente da classe trabalhadora ganhou assim a ilusão de estar mais perto de ser rica.

Esse é o truque. Que penses que és rico porque compraste um Tesla ou um BMW, porque foste de férias para um resort qualquer, porque podes dar-te ao luxo de ir aos restaurantes da moda, porque tens um salário de diretor, seguro de saúde e regalias. Isso não é ser rico. Parece que é, sobretudo quando há tanta gente que mal chega ao final do mês, tanta gente a adiar consultas médicas porque não pode pagá-las, tanta gente sem ter como pagar uma casa. Mas este truque é tão bem feito que até esses, tantas vezes muito perto de serem pobres, se sentem quase ricos, porque esgotaram as poupanças num iPhone ou andaram a amealhar o ano inteiro para uma semana em regime de “tudo incluído”.

E esse truque é importante precisamente por aquilo que nos disse Mary Hill, a trabalhadora que arrasta a sua velhice num armazém da Amazon para viver. “Porque há força nos números.” Porque há milhões e milhões de trabalhadores e apenas 12 pessoas que concentram mais de metade da riqueza da Humanidade. Repitam comigo: 12 pessoas. E pensem sobre isso de cada vez que acharem que são ricos ou que um dia vão ser ricos. Porque essa ideia é o que vos tem empobrecido. É graças a essa ideia que todos os dias perdemos direitos no trabalho, na saúde, na educação, na habitação. É essa ideia que permite que mais de metade da riqueza do mundo esteja nas mãos de uma dúzia.

O algoritmo do Instagram começou a mostrar-me memes sobre como os níveis de desigualdade regressaram a um ponto só comparável com o período antes da Revolução Francesa. Lembram-se da Revolução Francesa da “igualdade, liberdade, fraternidade” e das guilhotinas? O tal CEO americano deve ter-se lembrado e, por isso, tremeu. E por isso acusou de racismo quem só pede um mundo um pouco mais justo, quem só pede que haja uma maior distribuição da riqueza que existe e é criada todos os dias por quem trabalha. Quando pela primeira vez em décadas alguém aparece e os desafia de frente, a primeira reação é gritar “crime de ódio”, sem se lembrarem das vezes que escarneceram os “wokes” que lutavam contra a discriminação de minorias. Afinal, não existe minoria mais minoritária do que a dos milionários.

Na TVI, passa agora uma telenovela com o título Os Ricos Também Choram. É uma versão de um drama mexicano que se estreou em 1979, precisamente quando começou no mundo a onda que há mais de 40 anos tenta desmantelar as políticas públicas de redistribuição da riqueza. O título é comovente. Mas talvez o “também” esteja a mais. Afinal, humanos são só aqueles que ascendem ao topo da pirâmide. Louvemos o seu mérito e estejamos gratos pela sua existência.

A equação para sanar rombo bilionário no banco de Edir Macedo se reflete na corrida ao Planalto

O Republicanos ainda não decidiu quem vai apoiar para presidente esse ano porque há um assunto mais importante para o partido controlado pela Igreja Universal do Reino de Deus resolver que nada tem a ver com palanques regionais ou posicionamentos religiosos de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A cúpula da legenda está focada em salvar o Digimais — o banco controlado pelo bispo Edir Macedo com rombo estimado em R$ 8,5 bilhões — , e talvez a neutralidade seja o melhor caminho para que o objetivo seja alcançado.


Desde a Semana Santa, a histórica postura da Universal contra o PT mudou de tom. Embora tenha passado o mês de março anunciando que enviaria um recado crítico para a esquerda nos eventos da Sexta-feira da Paixão em estádios lotados pelo Brasil, nada disso aconteceu. Pelo contrário, de lá pra cá o presidente do Republicanos, o bispo licenciado Marcos Pereira, passou a dar entrevistas cogitando não apoiar Flávio na corrida presidencial — uma aliança, em tese, natural devido à maior aceitação de nomes da direita no segmento evangélico.

Dias depois da Páscoa, foi divulgada pela imprensa a negociação para o BTG Pactual de André Esteves comprar o Digimais, que previa um aporte de R$ 7 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para que a operação avançasse. Simultaneamente, voltou a entrar no cálculo da Universal a necessidade de manter boa relação com o Palácio do Planalto. Embora privado, o FGC tem o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal como membros. Há casos em que a palavra do governo vale ainda mais para colocar de pé as operações do fundo. Desde o mês passado por exemplo, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), está aguardando resposta do Tesouro Nacional a um pedido de aval para um empréstimo de R$ 6,6 bilhões do FGC para socorrer o Banco de Brasília (BRB) após a exposição a carteiras de créditos podres do Banco Master.

O escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro tornou complexa qualquer operação de resgate a bancos neste momento no Brasil — o que dificulta a vida do Digimais. Há duas semanas, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o ministro da Fazenda Dario Durigan indicou que seria difícil o governo federal ajudar o BRB e que a situação financeira da instituição era um problema do Distrito Federal. Nas suas falas aos jornalistas, Durigan estava mais disposto a passar a mensagem que o caso Master era grave do que em apontar saídas para instituições financeiras enroladas.

Nos últimos dois meses, o noticiário envolvendo o Digimais expondo suspeitas de operações fraudulentas atrapalhou ainda mais os planos de Macedo. Em março, a Revista piauí revelou um modus operandi fraudulento do Digimais semelhante ao do Master. Uma dessas irregularidades está sendo analisada na 13ª Vara de São Paulo em ação movida pelo fundo EXP1, que acusa o banco da Universal de vender R$ 650 milhões de reais em carteiras de crédito falsas. Essa semana, o Estado de S. Paulo mostrou que há repasses de carteiras do Digmais para outras instituições com cerca de 60% de inadimplência.

Diante da resistência do FGC de avançar no resgate do Digimais nos termos negociados com o BTG Pactual, Macedo está disposto a fazer ele próprio um aporte de R$ 1,5 bilhão no banco. Em dezembro do ano passado, o fundador da Universal já havia feito esse movimento ao injetar R$ 250 milhões para reforçar o capital da sua própria empresa.

A relação de Macedo com o mercado financeiro começou em 2009, quando adquiriu 40% de participação do então Banco Renner. Em 2020, comprou todo o banco, mudando seu nome para Digimais, e colocou o bispo João Urbanela para dirigi-lo. Após dois anos, uma instituição de finanças sólidas na era Renner passou a dar prejuízo — em 2022, o balanço do banco apontou um vermelho de R$ 740 milhões no caixa.

Enquanto não resolve a situação do Digimais e o que fará na eleição, o Republicanos segue deixando correr soltas as especulações sobre o seu futuro. Nos últimos dias, integrantes da sigla começaram a falar da possibilidade do senador Cleitinho Azevedo se lançar ao Planalto. Cleitinho é o líder nas pesquisas para o governo de Minas Gerais, mas ninguém no estado acredita que ele será candidato de fato. Para a Presidência da República, menos ainda.

Thiago Prado 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Direita, de uma queda foi ao chão

Quando baixar a poeira do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master, muitas perguntas poderão ser respondidas sobre o futuro da direita e, indiretamente, o futuro imediato do próprio País. Ao que parece, as revelações não são um mero incidente de campanha, mas revelam o tamanho do erro de essa corrente de opinião se tornar refém da liderança de Jair Bolsonaro. É um homem limitado para uma tarefa complexa, e o simples fato de ter optado por um caminho dinástico, apresentando o filho como candidato, já é um sinal de estreiteza.



A direita brasileira, de um modo geral, não vencia eleições majoritárias, daí o grande número de tentativas de golpe em nossa história contemporânea. No entanto, o processo de redemocratização trouxe algumas novidades: Collor e o próprio Jair Bolsonaro se elegeram – hoje ambos cumprem prisão domiciliar por razões humanitárias.

A vitória de Jair Bolsonaro representou um encontro com o voto popular. No auge das lutas identitárias, ele soube como ninguém usar o desconforto conservador, explorando o lado sombrio do racismo, da homofobia e da misoginia. Líderes como Carlos Lacerda não teriam a mesma desenvoltura, apesar do brilho intelectual. Verdade é que as condições históricas estavam mudadas, mas a direita sempre foi acusada de elitismo. Bolsonaro conseguiu adicionar à clássica agenda da direita a luta contra a corrupção, além de todos os temas de costumes presentes no Brasil moderno. E enfatizou uma visão implacável na segurança pública, uma política do tipo “bandido bom é bandido morto”.

Numa época em que as redes sociais têm hegemonia na propaganda política, Bolsonaro se beneficiou de uma presença agressiva na internet e mobilizou, por sua vez, grupos aguerridos a seu favor. Com todas essas características, principalmente a capacidade de atrair votos, Bolsonaro galvanizou a direita e também o antipetismo. Os candidatos no seu campo que desprezam sua orientação seriam apenas coadjuvantes no processo eleitoral.

Agora que o modelo dinástico com a candidatura do filho está fazendo água, Bolsonaro coloca em risco toda a estratégia de avanço da direita que deveria culminar, ao lado da campanha presidencial, com uma eleição de grande número de senadores. Essa força no Senado seria usada para combater alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive com impeachment.

Nada autoriza dizer que a direita perderá espaço no Parlamento. Mas um baque na Presidência acaba refletindo nas eleições proporcionais. Muitos candidatos estão revendo seu plano de campanha diante da fragilidade de Flávio expressa nas relações com Vorcaro e suas desculpas inconsistentes. Certos candidatos ao Senado estudam disputar a Câmara. A expectativa vai baixar.

No campo da esquerda, havia um certo cansaço com o governo. O desgaste de Lula por nada disso foi alterado. Mas a primeira pesquisa que surgiu após as revelações mostra uma queda acentuada de Flávio e a manutenção das preferências por Lula. Diante desse quadro, o favoritismo se fortaleceu. Vários candidatos continuam a disputar o papel de opositor, mas dificilmente um deles vai superar a fragmentação.

Diante dessa possível realidade, o caminho é desejar que a política do atual governo mantenha alguns dos seus pontos positivos e, certamente, encontre outros.

A política de transição energética é fundamental para, entre outras coisas, fortalecer o papel do Brasil como um importante interlocutor global no campo do meio ambiente. A hipótese de que se vai lutar contra o desmatamento, explorar de forma sustentável nossos recursos naturais e proteger nossos povos originários pode ser uma boa previsão para o futuro.

Reformas serão necessárias: política, administrativa e judiciária. Muita coisa velha tem de ser superada. E todas essas tensões estarão presentes diante de um Congresso hostil e de grandes dificuldades financeiras em 2027.

Será preciso superar o problema de equilíbrio fiscal. Não tenho a fórmula. Sei que uma política austera dá margem ao desgaste e o avanço do populismo, conforme o próprio Lula admitiu em seu discurso de Barcelona.

Penso que uma reforma administrativa e a adesão do Estado aos instrumentos digitais poderiam tornar a máquina mais leve, a vida das pessoas e empresas mais fácil e, quem sabe, um grande alívio para o peso fiscal. Não podemos deixar de gastar e não podemos gastar. Será preciso discutir com calma como sair desse dilema.

É preciso saber também como será o resultado final das eleições, que tipo de correlação de forças emergirá das urnas, que evolução terá a conjuntura internacional com protagonistas tão imprevisíveis como Donald Trump.

É previsível que todos terão de tentar uma renovação, inclusive os vencedores. Com a velocidade dos fatos, a interdependência global, a nostalgia é proibida: a direita brasileira que o diga.

A política está vazia! Encheu-se de ruído

Vivemos numa época em que a política parece cada vez mais dominada pelo ruído. Há debates constantes, declarações sucessivas, polémicas diárias e uma presença permanente nas redes sociais e nos meios de comunicação. No entanto, no meio de tanto barulho, surge uma questão inevitável: onde está o conteúdo? Onde estão as ideias, as soluções e a discussão séria dos problemas que afetam a sociedade?

Muitas vezes, a política parece transformar-se numa competição pela atenção pública. O impacto imediato de uma frase, a rapidez de uma resposta ou a polémica do momento acabam por ocupar mais espaço do que a análise profunda dos desafios reais. Questões fundamentais como a educação, a saúde, a habitação, a desigualdade social ou o futuro do trabalho ficam frequentemente reduzidas a discursos breves ou a promessas superficiais.


O excesso de ruído tem consequências. Quando os cidadãos sentem que a política é apenas conflito, espetáculo ou troca de acusações, cresce o afastamento em relação às instituições e aumenta a desconfiança. A participação diminui porque muitos deixam de acreditar que a política possa representar uma verdadeira ferramenta de mudança.

No entanto, a política não deveria ser apenas palco de confronto. O seu propósito deve continuar a ser a procura de soluções, a construção de consensos e a resposta às necessidades coletivas. Discordar faz parte da democracia, mas a discussão política precisa de recuperar espaço para a reflexão, para a responsabilidade e para propostas concretas.

Mais do que uma política cheia de ruído, é necessária uma política com sentido, capaz de ouvir, dialogar e agir. Porque quando o barulho se torna mais forte do que as ideias, perde a política e perde a sociedade.

Hoje, o espaço político parece menos orientado para a discussão de ideias capazes de enfrentar problemas estruturais e mais centrado na produção de soundbites: mensagens curtas, mediáticas e de efeito imediato, que privilegiam a visibilidade em detrimento da profundidade.

O Brasil das capitanias hereditárias sobrevive nos 'nepo babies' da política

A entronização de Flávio Bolsonaro como herdeiro-mor do bolsonarismo é exemplo de como o Brasil das capitanias hereditárias sobrevive nos "nepo babies" da política nacional.

O termo em inglês "nepo baby" é usado para descrever filhos de celebridades que seguem a carreira dos pais, herdando contatos e privilégios do nome famoso. Assim como no entretenimento e na moda, os ‘nepo babies’ dão o que falar no meio político, onde herdeiros de oligarquias e clãs trafegam com vantagem na disputa por indicações, cargos e visibilidade.

O filho 01 foi o escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para ser candidato à presidência, como herdeiro de um espólio político que já o fizera saltar de deputado estadual a senador.


Nepotismo que desmonta o discurso bolsonarista de ruptura com a chamada "velha política", ao reproduzir uma das práticas mais tradicionais na República brasileira: a transferência de capital político dentro da própria família.

O Brasil aboliu as capitanias hereditárias ainda no período colonial, mas jamais conseguiu eliminar a lógica do poder transmitido como herança. Uma cultura política profundamente marcada pelo patrimonialismo, pelo personalismo e pela ideia de que determinados sobrenomes carregam uma espécie de direito natural à liderança.

O "nepo babyismo" político é base das oligarquias que governam o Brasil há séculos. No Norte e Nordeste, o fenômeno é quase monárquico. Vide Renan Calheiros Filho e Jader Barbalho Filho galgando ministérios, governos estaduais e cadeiras no Parlamento carregando votos e o mesmo nome de seus patriarcas.

Já em outro lado do espectro ideológico, o "nepo baby" Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é acusado de operar nas sombras do poder paterno. Embora nunca tenha disputado cargos eletivos, o acesso a negócios e a influência em Brasília rendem investigações na Polícia Federal e no Ministério Público.

Assim como Flávio Bolsonaro também está na berlinda por ter negociado centenas de milhões com o encrencado Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre a trajetória do pai, em roteiro digno de "nepo baby".

A Síndrome de Estocolmo da direita

O bolsonarismo tem significado a redenção e a desgraça da direita brasileira. Esse paradoxo está ficando cada vez mais claro com a crise na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Suas relações com Daniel Vorcaro são mal contadas e injustificáveis, pensam aliados e outros candidatos do lado direitista. Porém, como criticar profundamente ou abandonar o filho de um grande líder popular que reordenou o mapa ideológico do país, antes com predomínio inconteste do espectro que vai do centro para a esquerda?

Compreender as razões desse dilema é fundamental para a direita não bolsonarista. Ela vive hoje uma espécie de Síndrome de Estocolmo, caracterizada por uma simpatia ou lealdade irrestrita em relação ao sequestrador. O bolsonarismo sequestrou quase todos os políticos direitistas e mesmo uma parcela mais ao centro. Tal aprisionamento impede críticas às posições ou atos da família Bolsonaro e dificulta sobremaneira um projeto efetivamente independente de poder, mesmo quando hoje temos mais presidenciáveis à direita do que à esquerda.


Não se trata de um feitiço político. Há quatro razões objetivas que explicam essa dificuldade de se libertar do sequestrador. A primeira é que o bolsonarismo conseguiu tornar a direita palatável e popular no país, pois Jair Bolsonaro nunca mascarou suas ideias e por meio delas chegou ao Palácio do Planalto. Claro que políticos direitistas sempre foram fortes no país, particularmente no Legislativo e nos governos locais. Contudo, tinham medo de dizer seu próprio nome, e isso ficou ainda mais destacado a partir da redemocratização, quando as ideias da direita eram remetidas ao período da ditadura militar e a um certo elitismo social.

O bolsonarismo deu amparo para quem quisesse ser chamado de direitista. Mais do que isso, gerou um projeto de poder com base popular, capaz de eleger um presidente da República. Isso não quer dizer que a direita, sozinha, seja capaz de ter hegemonia política no país - e nem a esquerda tem esse poder. Também não é verdade que haja um único ideário de direita - ao contrário, há várias tonalidades possíveis. Basta lembrar que os bolsonaristas concentram seu discurso no campo moral e quando estiveram no poder não levaram adiante nem uma agenda liberal à Javier Milei, nem foram nacionalistas econômicos como Trump está tentando ser no seu segundo mandato.

A diversidade de posições à direita e de centro-direita de fato existe em forças sociais e políticas brasileiras. No entanto, quem gritou mais alto e sem vergonha que era direitista foi o bolsonarismo, mesmo que sua corrente seja uma das formas possíveis desse espectro político, num ponto mais extremo dele.

Verdade que desde a década passada o MBL - hoje um partido, o Missão - trouxe à tona essa identidade, só que não ganhou a liderança do movimento. Isso coube a Jair Bolsonaro e sua vitória eleitoral em 2018, que levou direitistas ao poder, depois o distribuiu entre os aliados e tentou reverter a hegemonia mais à centro-esquerda que dominava a eleição presidencial e o discurso político-cultural.

Numa democracia, o peso eleitoral faz muita diferença. E aqui entra uma segunda razão que explica por que o bolsonarismo aprisionou o restante da direita em seu casulo. Os bolsonaristas-raiz, comandados diretamente pela família, conseguem ter um piso entre 20% e 30% dos votos do eleitorado brasileiro. Não têm a maioria dos eleitores ao seu lado, como comprova a derrota do projeto reeleitoral de Jair Bolsonaro, mas criaram uma barreira de entrada para outras forças de direita e mesmo do centro entrarem no jogo político maior da eleição presidencial.

O exemplo do escândalo de Flávio Bolsonaro e suas relações mal explicadas e antirrepublicanas com Daniel Vorcaro, que era líder de crime organizado e não banqueiro, revela bem a força que tem um piso eleitoral alto. É bem provável que o senador perca pontos nas próximas pesquisas, mas é muito difícil que caia para menos de 20% ou deixe de ficar na frente dos outros de seu front ideológico, como Zema, Caiado e Renan Santos. Daí que é muito tentador manter até o final uma candidatura quando se domina um espectro político e se há chances grandes de ir ao segundo turno.

Entretanto, se esse derretimento continuar, o que tende a ser alavancado por tanta coisa a ser descoberta na cleptocracia bolsonarista que governava o Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro perderá a eleição presidencial para manter a hegemonia da família dentro do bloco direitista.

Quem não tem esse piso eleitoral alto, mas não quer que Lula continue como presidente, deveria se contrapor e defender um projeto independente de poder. Zema arriscou ir por esse caminho, mas desistiu rapidamente, quase se desculpando. Caiado foi tão educado nas críticas que ninguém percebeu que ele as fez. O único que teve coragem de desafiar o bolsonarismo foi o Missão e seu candidato presidencial - se os Bolsonaros conhecem Maquiavel, deveriam temê-los.

Por que tanto medo e hesitação no momento em que Flávio Bolsonaro foi pego com a boca na botija com o maior larápio do país? É importante frisar que não é a primeira vez que a direita não bolsonarista retrocede em sua busca por independência. O caso mais conhecido foi o de Sergio Moro, que saiu do governo de Jair Bolsonaro propondo uma revolta ampla, dizendo que iria desvendar muitos escândalos, e hoje é um soldado apático e servil do bolsonarismo.

O medo da perseguição bolsonarista, especialmente nas redes sociais, é o terceiro ingrediente da Síndrome de Estocolmo que tomou conta da direita. Por ora, é inegável a capacidade de o bolsonarismo destruir reputações e carreiras políticas de gente do seu mesmo espectro político ou de ex-aliados. Praticamente todos que saíram do ventre eleitoral comandado pela família Bolsonaro e desafiaram o clã político estão hoje menores politicamente. Para usar a linguagem militar, trata-se de um fator dissuasório para os pretendentes a dissidentes. É uma patrulha ideológica eficaz, tal como outras que a esquerda usou no passado aos que abandonavam o ideal comunista.

O bolsonarismo deu identidade e poder à direita, tem um piso eleitoral muito alto, sabe dissuadir dissidentes com grande eficácia, e, como quarto fator do poder de aprisionamento do seu espectro ideológico, edificou firmemente uma causa comum: o antipetismo e a oposição ao presidente Lula, visto como o principal inimigo a ser batido. Por meio desse objetivo, o mais estratégico de todos, os bolsonaristas clamam pelo esquecimento das brigas ou escândalos da família que comanda o movimento, dado que há um projeto unificador que só pode ser realizado com o apoio inconteste ao líder mais forte: Jair Bolsonaro ou quem ele indique.

É por meio desse discurso do inimigo comum que o bolsonarismo vai atacar os direitistas que ousarem criticar Flávio Bolsonaro e sua busca pelo patrocínio de Daniel Vorcaro. Há o risco de descobrirem mais histórias mal explicadas, ou até “videozinhos do senador”, mas sempre se retornará à questão central: só um Bolsonaro pode chegar a um segundo turno contra Lula. Na verdade, seria mais fácil um candidato que não viesse da extrema direita vencer a disputa presidencial, do mesmo modo que o lulismo cresce toda vez que acena para um eleitorado mais amplo.

O problema é que nos últimos quatro anos todos os pretendentes à direita fora da “família real” não tiveram a coragem de buscar a independência frente ao bolsonarismo, seja por amor ou medo do patriarca. O que ganharam Zema, Caiado, Tarcísio, Ratinho e outras lideranças mais à direita indo a comícios na avenida Paulista de defesa da anistia a Jair Bolsonaro? O direito de ficarem calados toda vez que houver algum escândalo envolvendo a família Bolsonaro.

Fica a lição: só se mudará essa realidade na direita, ou mesmo no centro, buscando um caminho alternativo no início do próximo período presidencial. Quem tentar montar um projeto somente no final do quadriênio, às vésperas da eleição, não terá tempo para mudar o jogo. A coragem de escolher um caminho próprio é um processo e não um lampejo frágil de quem é dependente politicamente. Cabe recordar que ao início Jair Bolsonaro era visto como uma caricatura, percorreu todo o Brasil e construiu uma candidatura.

Quem estiver no mesmo espectro eleitoral deveria guiar sua própria trajetória, pois os políticos ou partidos só se tornam fortes ao longo da história quando são livres e independentes de qualquer tipo de mito ou aprisionamento a um grupo.

Tal subserviência não é o único efeito dessa Síndrome de Estocolmo. Ao se colar completamente ao bolsonarismo, as direitas deixaram de discutir ideias sobre democracia, políticas públicas e o papel do Brasil no mundo, questões cujos resultados foram desastrosos no governo Bolsonaro. É fundamental ter conservadores e liberais com um projeto claro, para não dizer de um centro robusto, essencial para o equilíbrio das democracias. Antes, todavia, é preciso se libertar dos grilhões que os acorrentam a uma família que tem muitos esqueletos no armário, numa narrativa que é dominada agora pelo ponto e vírgula, uma vez que a única coisa certa é que Flávio Bolsonaro desmentirá o que disse ontem.

Uma caneca de plástico e tudo o que ela diz sobre nós

No dia 16 de maio de 2026, formaram-se filas à porta de lojas Swatch em várias cidades do mundo. Houve cenas de pancadaria em vários sítios. E também aqui, em Portugal, no Colombo, em Lisboa, houve gente que dormiu dentro do centro comercial, de um dia para o outro, para garantir o lugar. As pessoas tinham saído de casa de madrugada, algumas tinham passado a noite ali, para comprar um objeto. Não um medicamento que faltasse, não pão, nada de que precisassem. Um relógio de bolso.

Escrevo isto outra vez devagar, porque vale a pena fixar a estranheza da frase. Um relógio de bolso. Aquela coisa que os nossos bisavôs traziam no colete e que desapareceu da vida humana há cerca de um século. Voltou ontem, custa à volta de quatrocentos euros, vende-se um por pessoa, por loja, por dia, não há venda online, e foi suficiente para mover multidões. Chama-se Royal Pop e nasceu de uma colaboração entre a Swatch e a Audemars Piguet, uma das casas relojoeiras mais fechadas e elitistas do mundo, que nunca na sua história tinha emprestado o seu desenho a quem quer que fosse. Nem a estrelas, nem a marcas, a ninguém.


E a imprensa especializada, que não costuma ser dada a filosofias, encontrou imediatamente a palavra certa para descrever o que isto é. Chamaram-lhe o Labubu dos relógios. “Bye bye Labubu”, escreveu uma revista da especialidade. Outra foi mais cruel e mais exata: a fivela de saco tornada mecânica, masculina, a seiscentos e trinta dólares. O Labubu, aquele boneco de olhos esbugalhados que durante ano e meio andou pendurado em malas que custam mais do que um carro, provou uma coisa, e foi esta: o acessório passou a ser o ponto, e não a mala. O que se pendura passou a valer mais do que aquilo de onde se pendura.

Eu podia agora escrever o texto fácil. O texto que toda a gente espera e que já foi escrito mil vezes. As pessoas são fúteis, materialistas, vazias, capazes de dormir na rua por um boneco mas incapazes de atravessar a rua para ajudar um sem-abrigo. É verdade que esse contraste existe e dói olhar para ele. Mas se eu escrevesse isso, estaria a fazer exatamente o que critico noutros, que é resolver uma questão complicada com desprezo. E o desprezo é confortável precisamente porque dispensa pensar. Por isso não vou por aí.

Vou por outro lado, que é mais incómodo e, acho eu, mais honesto.

Aquela fila não foi um acidente. Aquilo não é gente fraca a comportar-se mal espontaneamente. Aquilo foi desenhado. Uma das marcas mais inacessíveis do planeta sentou-se numa sala de reuniões e decidiu, ao milímetro, fabricar um objeto de pertença barato. Decidiu o preço para ser desejável e ainda assim doloroso. Decidiu a escassez, um por pessoa, por dia. Decidiu não vender online para obrigar o corpo das pessoas a estar fisicamente ali, na fila, à vista umas das outras, porque a fila faz parte do produto. A sensação de pertencer a um clube, de ter conseguido, de ser dos que apanharam, isso não nasceu no comprador. Foi engenharia. Foi produzido e foi-lhe vendido já pronto, embrulhado, com a emoção incluída no preço.

Digo isto porque me parece que metade da culpa que despejamos sobre o indivíduo está mal endereçada. Ninguém acordou um dia, sozinho, com a ideia genial de que precisava de um relógio de bolso. Essa necessidade foi-lhe construída por gente muito inteligente, muito bem paga, que estuda exatamente como é que o nosso cérebro responde à escassez e ao olhar dos outros. Quando vemos a fila e dizemos “mas que gente parva”, estamos a olhar para a vítima e a chamar-lhe culpada, enquanto quem desenhou o anzol fica de fora da conversa, a contar o dinheiro.

Mas, e tem de haver um mas, senão isto era um texto a inocentar toda a gente, e as pessoas também não são marionetas. A engenharia só funciona porque encontra terreno onde pegar. O anzol só apanha porque há fome. E a pergunta que verdadeiramente interessa, a única que vale a pena fazer, é esta: porque é que este objeto consegue mover multidões de madrugada e uma petição por direitos humanos não consegue mover ninguém? Porque é que se faz fila por uma caneca e não se faz fila por uma causa?

A resposta honesta não é que as pessoas são más. Eu acho mesmo que não é. A resposta é que o consumo dá uma coisa que a solidariedade não dá. O consumo dá pertença imediata, visível e sem custo moral. Compro, ponho ao pescoço, e no minuto seguinte pertenço a um grupo, toda a gente vê que pertenço, e não tive de me interrogar sobre nada. A solidariedade dá o contrário disto tudo. Exige esforço prolongado, quase nunca se vê, não dá estatuto nenhum e ainda por cima obriga a olhar para coisas desagradáveis. Adotar um cão dá trabalho durante quinze anos e ninguém bate palmas. Ajudar um sem-abrigo não se pendura na mala. Lutar por direitos é lento, ingrato e às vezes perde-se. Entre os dois caminhos, alguém otimizou um até ele ficar irresistível e deixou o outro cheio de buracos. Depois admiramo-nos de que as pessoas escolham o caminho asfaltado.

E aqui chego ao que mais me custa, porque liga isto a uma coisa de que já escrevi e que não me sai da cabeça.

A mesma sociedade que sai de casa de madrugada por um relógio é a sociedade que, em Portugal, em 2026, assistiu calada à revogação de direitos de pessoas que não fizeram mal a ninguém. Não estou a dizer que quem comprou o Royal Pop é responsável por isso. Seria estúpido e injusto dizê-lo. Estou a dizer outra coisa, mais funda e mais difícil de digerir. Aprendemos a mover-nos por pertença fabricada e desaprendemos a mover-nos por pertença a uma causa. Treinámos o músculo de pertencer a um clube que se compra e deixámos atrofiar o músculo de pertencer a uma ideia de justiça que não se compra e que só dá trabalho. Não é o mesmo fenómeno, a fila da loja e o silêncio perante a injustiça. Mas há um mecanismo comum por baixo dos dois, e o mecanismo é este: a pertença a um grupo tornou-se um motor mais forte do que a justiça. E quem souber operar esse motor, seja uma marca de relógios, seja um partido que precisa de inimigos, faz de nós o que quiser.

Tenho de dizer também o que torna isto tudo menos limpo do que eu gostaria, porque não quero escrever uma caricatura. Há contradições inconvenientes para a minha própria tese, e a honestidade obriga a pô-las aqui. A Audemars Piguet anunciou que doa 100% da parte que lhe cabe nestas vendas à preservação do saber-fazer relojoeiro e à formação de uma geração nova de artesãos. Quer dizer que dentro da própria máquina de consumo existe um gesto que aponta ao contrário. E as gerações que fazem fila pelo Labubu são, em dados que se podem verificar, das mais ativas de sempre em voluntariado, em causas, em ativismo. Não devo verificar isto de cor, mas o padrão está documentado e desmente a ideia preguiçosa de uma juventude apenas fútil. Digo isto de propósito, porque se a minha crítica só funcionasse caricaturando as pessoas, então não valeria nada. Vale precisamente por funcionar mesmo depois de eu reconhecer isto.

Então o que é que fica, depois de tirar o desprezo fácil e a caricatura?

Fica isto. O problema nunca foi querermos pertencer. Querer pertencer é das coisas mais humanas que há, talvez a mais humana de todas, e não há nada de errado em querer pertencer. O problema é a quem decidimos que vale a pena pertencer. E, sobretudo, o problema é que, na maior parte das vezes, não fomos nós que decidimos. Decidiram por nós, numa sala de reuniões ou num comício, e venderam-nos a decisão já tomada, com a emoção embrulhada, ao preço que o mercado aguentasse. Uma caneca de plástico chega para nos pôr na rua. Uma pessoa a perder direitos, ali ao lado, muitas vezes não chega. Não porque sejamos maus. Porque alguém trabalhou muito para que fosse assim, e nós deixámos.

E talvez o gesto mais radical que ainda nos resta, num tempo assim, seja o mais aborrecido de todos: escolher por nós a que é que vale a pena pertencer, mesmo quando não dá estatuto, mesmo quando ninguém vê, mesmo quando só dá trabalho. Sobretudo quando só dá trabalho.
Ana Inês Patrício

A influência dos livros e dos jornais

Os jornais e os livros exercem no nascimento e na propagação das opiniões uma influência imensa, conquanto inferior à dos discursos. Os livros atuam muito menos que os jornais, pois a multidão não os lê. Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influência sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais são as obras de Rousseau, verdadeira bíblia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tomás, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secessão na América do Norte. Outras obras como Robinson Crusoé e os romances de Júlio Verne exerceram grande influência nas opiniões da juventude e determinaram muitas carreiras.

Essa força dos livros era, sobretudo, considerável quando se lia pouco. A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.

Hoje, a influência dos jornais é muito superior à força dos livros. São em número incalculável as pessoas que têm unicamente a opinião do jornal que elas leem.

Gustave Le Bon

Isso não é normal: a República que esconde suas relações com o dinheiro

Não, não é normal, e lembra-me a história — ou lenda — sobre o escafandrista que, nos anos 1970, entrou no Antonio’s, bar mítico do Leblon, na esquina das ruas Bartolomeu Mitre e Ataulfo de Paiva. Vestido com seu pesado equipamento de mergulho, sentou-se a uma mesa, tirou o capacete e pediu uma cerveja. Depois de certo tempo, irritado com a aparente indiferença dos frequentadores do lugar, o jornalista João Saldanha subiu numa mesa, bateu palmas e reclamou em voz alta: “Pessoal, tem um homem aqui, um escafandrista, com capacete e tudo, tomando cerveja, e isso não é normal, não pode ser normal.” Ninguém deu bola para a fala irritada de Saldanha.

Não, não é normal, não pode ser normal ouvir em silêncio o que disse, ontem, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) ao presidir mais uma sessão do Congresso. Ele anunciou que rejeitava mais um requerimento para a instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o escândalo do Banco Master. E por quê? Porque o regimento interno do Congresso lhe dava poderes para tal, só por isso. Sim, mas por qual razão ele o fez? Ninguém perguntou. Se perguntaram, ele não respondeu. Todos sabiam, mas se negam a admitir, que Alcolumbre poderia se tornar um dos alvos da CPMI. Todos sabem que ele procurou Lula para revelar seu temor.


Diga-se em favor de Alcolumbre — e em desfavor dele e de boa parte dos seus pares — que a CPMI foi enterrada para impedir que seja investigada a relação de muitas autoridades da República com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, ex-dono do Master. Minutos antes de Alcolumbre anunciar sua decisão, o senador Flávio Bolsonaro discursou, desafiando a bancada do governo a assinar o requerimento da CPMI. Ouviram-se resmungos, apenas isso. Flávio disse que assinara todos os requerimentos que lhe apresentaram. Mentiu, para variar. Foram cinco no total, e ele recusou-se a assinar três. Não é normal mentir por tão pouco, mas Flávio mentiu. Hábito. Vício.

Flávio está em modo desespero desde a descoberta de que tomou dinheiro de Vorcaro para financiar o filme de exaltação a seu pai. Trocou de marqueteiro — ex-servidor de Vorcaro — a pretexto de que ele não o estava orientando muito bem. Entregou uma cabeça para preservar a sua. Livrou-se da suspeita de que o marqueteiro poderia estar sendo pago por Vorcaro. No próximo domingo, como alardeiam seus assessores, Flávio deverá embarcar para os Estados Unidos para se encontrar com o irmão Eduardo e com o presidente Donald Trump. Tudo por uma foto com Trump para sentir-se fortalecido. Tudo para não estar aqui quando forem publicadas as próximas pesquisas de intenção de voto. A sina de Flávio é triste. Mesmo que definhe, ele está condenado a ir até o fim como candidato. Ordem do pai.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Curriculum Vitae, 01

Filho de pai preso. Segue carreira do pai e se elege por ser filho do pai. Obedece ideias do pai, copia métodos do pai. Tem os aliados do pai. Trilha o curriculum do pai. Em casa, o pai o chama pelo número de antiguidade 01. Amor filial supera o paterno.

Sua sagacidade não alcança a do pai, porém mais afiada que a dos irmãos. Nunca disse "ditadura devia ter matado mais", mas vê em 1964 "contrarrevolução democrática". Não gostaria de filho "entrando em casa e apresentando seu namorado". Definiu as medidas do governo do pai na pandemia, e o superávit de mortes evitáveis da ordem dos seis dígitos, como o que "se espera de um estadista".

Revelou que, se presidente, caso STF anule seu indulto ao pai, "aí é confusão fora das quatro linhas". Mas fará o possível "para que não chegue a esse ponto". É candidato à versão moderada da família.


Apoiador da cultura nacional, lutou pela produção de filme sobre o pai. Articulou modelo arrojado de patrocínio, onde patrocinador prefere não aparecer. Recebeu milhões de reais de banco quando já se sabia a magnitude das operações ilegais.

"Sem graça de ficar cobrando", cobrou outros milhões na véspera da prisão do mecenas. Trata o banqueiro, que alegou nunca ter conhecido, por "meu irmão", a quem confessou não saber "como tudo isso vai acabar, está nas mãos de Deus aí", "estou contigo sempre".

Explicou ser filme privado com dinheiro privado. Não menciona emendas parlamentares e dinheiro de aposentados. Não sabia que, quando autoridade pede dinheiro a banqueiro, pode cometer pelo menos um de três crimes: corrupção, lavagem e financiamento de organização criminosa. Depende do destino real do dinheiro, ainda não sabido, e de outras variáveis. Não importa se privado o dinheiro.

Empresário bem-sucedido de chocolates, em três anos sua loja recebeu 1.512 depósitos em valores idênticos e movimentou R$ 3 milhões em espécie. Explicou ser assim no comércio, "no final do dia você junta a quantia e deposita no banco".

Ministério Público e Coaf produziram provas sobre peculato (rachadinha) de seu gabinete, de onde supostamente provinham investimentos imobiliários em áreas de milícias. Foram anuladas por STF e STJ, que alegaram vício formal.

Mora em casa comprada por R$ 6 milhões, metade financiada pelo Banco de Brasília (BRB). Negociou juros europeus de 3,71% ao ano.

Retirou assinatura do pedido de CPI do Banco Master, mas continuou gritando a favor. Assinou outra vez depois da notícia sobre sua relação com o banqueiro, que admitiu depois de tanto negar.

Ativista do direito de mentir, combate cidadãos que lutam pelo direito de não acreditar. Chama de "narrativa" o que lhe desabona, de "fato" o que lhe favorece.

Candidato à Presidência, sua dancinha de campanha aperfeiçoa o molejo de boneco de posto. Exibe "O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula" na camiseta. Seu irmão conspira contra a economia brasileira perante o governo norte-americano, que cobra tarifa e combate o Pix em favor de cartões de crédito.

Sua filosofia constitucional está encapsulada no conceito de "legalização de milícias", emprestado do pai. Argumenta: "As classes mais altas pagam segurança particular, e o pobre, como faz para ter segurança?"

Seu pensamento religioso: "Sou instrumento de Deus para pacificar o Brasil".

Quer novo emprego.

A próxima era da política mundial entregue de bandeja

O declínio da hegemonia mundial americana já vinha acontecendo desde a década de 1990, mas este governo acelerou esse processo drasticamente. No ano passado, a União Europeia e até mesmo o Canadá discutiram a possibilidade de se desvincular dos Estados Unidos devido às tarifas impostas por Trump. Essas mesmas tarifas levaram rivais históricos como China, Japão e Coreia do Sul a se unirem e intensificarem o comércio entre si, apesar de seu longo histórico de conflitos e desconfiança. Essas tarifas transmitiram ao mundo a mensagem de que os Estados Unidos não são confiáveis.

Some aprimoramentos financeiros, como o apoio confuso à agressão de Israel, a guerra ilegal no Irã, a devastação que ela está causando naquele país e o prejuízo financeiro que se espalha pelo mundo, tornam possível que os EUA entreguem a próxima era da política mundial à China em tempo real. A China está prestes a se tornar a superpotência preeminente do mundo, e praticamente não precisa fazer nada.

É importante compreender os danos a longo prazo que essas ações estão causando. Mesmo que o trumpismo morra após Trump, o resto do mundo talvez nunca mais volte a confiar plenamente nos EUA, porque agora sabe que basta outro presidente extremista do MAGA assumir o poder e subverter a ordem global mais uma vez.

Os primeiros a morrer

Doze de março acaba de ser instituído como o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19 no Brasil. A data se refere à morte no dia 12 de março de 2020, em São Paulo, da diarista Rosa Aparecida Urbano, 57 anos, a primeira vítima registrada da pandemia no país. Não há um de nós sem a perda de um ente querido, próximo ou remoto, entre os 700 mil que se foram sob o negacionismo de Jair Bolsonaro. Talvez, ao lembrar Rosa, o país se recorde do que era ser governado por um irresponsável.


Se quiserem instituir datas em memória das vítimas de outras tragédias brasileiras, 25 de janeiro marcaria a morte da médica Marcelle Porto Cangussu, 35 anos, o primeiro corpo reconhecido pelas autoridades no rompimento da barragem de Brumadinho (MG), em 2019. Ela representaria os outros 271 soterrados pelo despejo de 11 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração e nos alertaria para o fato de que os responsáveis ainda não foram nem julgados.

Já o dia 8 de maio lembraria o primeiro morto sob tortura pela ditadura militar. Ou talvez o primeiro cujo registro não foi possível esconder: o sargento Manoel Alves de Oliveira, no Hospital Central do Exército, em Triagem (RJ), em 1964, 37 dias depois do golpe, por violências sofridas naquela unidade. Mas Manuel foi somente o primeiro morto sob tortura. A primeira vítima do golpe foi a dona de casa Labile Abduch, 65 anos, síria naturalizada brasileira, morta por disparos contra um grupo que protestava na Cinelândia, vindos do defronte Clube Militar, no próprio dia 1º de abril.

E, em outubro de 1944 (não se sabe o dia), morreu o primeiro pracinha brasileiro na Itália, o aspirante niteroiense José Gerônimo de Mesquita, 19 anos. Há uma placa com seu nome no Monumento aos Pracinhas, no aterro do Flamengo. Foi o que coube aos rapazes da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que deixaram a vida no campo de batalha. Os que voltaram foram abandonados pelo ditador Getúlio Vargas.

Se o Brasil tende a ignorar os vivos, que passe a lembrar seus mortos.

O fascismo como futuro

Aqueles que acompanham, mesmo minimamente, a produção intelectual e a intervenção pública de Vladimir Safatle sabem que ele vem insistindo há tempos: o fascismo nunca desapareceu. O imperativo categórico formulado por Theodor Adorno, impedir que Auschwitz se repita, foi invalido uma vez depois da outra desde que ele proferiu essas palavras em 1965. 61 anos depois sabemos que Auschwitz se repete todo dia: se repetiu aqui, como na chacina recente nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro; se repete lá, em Gaza. E sabemos que amanhã se repetirá novamente. O que permite tal persistência devastadora do fascismo? O que explica a continuidade de uma condição inumana?

Safatle parte de um diagnóstico de época: “A última década deixou claro como vivemos no interior de uma conjunção inédita de crises: ecológica, demográfica, social, econômica, política, psíquica e epistêmica. A isso podemos chamar de “crises conexas”, pois estão conectadas e se retroalimentam”. Essas crises, imanente ao próprio modo de produção capitalista, garantem a força e a persistência do fascismo.


Entretanto, em seu rastreio das condições de possibilidade do fascismo, Safatle encontra-as no cerne do próprio sujeito moderno. Segundo ele, fascismo não pode ser usado apenas para se referir a uma ordem político-econômica (aquela que emergiu na Europa do entre guerras), mas que descrevesse “uma forma específica de violência e dessensibilização social assentada na expressão aberta e generalizada de traços fundamentais da estrutura própria à personalidade da individualidade moderna”. Desta maneira, seria possível compreender que a individualidade que é socialmente produzida pela ordem liberal, é necessariamente agressiva, rígida, autoritária. Em suas palavras: “como se a personalidade do indivíduo moderno portasse o germe de sua própria realização como fascismo”.

Esse é o ponto que me parece mais interessante do livro do professor Safatle. Sua contribuição reside na possibilidade de compreender o núcleo estrutural por trás da racionalidade fascista, que nunca desapareceu – lembremos. Por um lado, esse procedimento acaba achatando diferenças importantes entre as formas historicamente específicas pelas quais tal princípio emerge – o fascismo histórico possui particularidades que o diferenciam do fascismo contemporâneo e certamente ambos não são a mesma coisa que o horror do colonialismo. Entretanto, por outro lado, o mérito de Safatle está exatamente em explorar as conexões entre “violência racial ordinária, extermínio colonial e fascismo”. 

Desta maneira, Safatle evita as interpretações do fascismo que pouco colaboram na compreensão do fenômeno, pois interpreta-o como um fenômeno puramente psicologizante, embora possa ser materialmente informado. Isto é, dizer que tal sujeito é fascista porque ressentido, porque não pensa direito, porque apenas segue o líder, não ajuda em entender o fascismo, mas “só serviam para alimentar nossas ilusões narcísicas de superioridade moral, em vez de fornecer alguma arma teórica eficaz para lutar contra o pior”. Sua leitura, portanto, ajuda a compreender como o mesmo impulso da modernização, que pretendia civilizar, educar, desenvolver, carrega em seu cerne a matriz violenta do fascismo.

Outro mérito do livro de Safatle é a mobilização dos recursos conceituais da psicanálise para interpretar o fascismo, alinhando-se já há uma longa tradição de crítica, mas avançando em relação a ela. Apoiado nas interpretações da primeira geração da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno, Safatle afirma que a violência fascista não é caracterizada por um excesso de destrutividade, “mas, paradoxalmente, excesso de preservação”. Trata-se de uma tentativa violenta de preservar a personalidade narcísica e a identidade dela com o mundo falso. Contudo, a preservação tem como condição necessária a eliminação do outro que ameaça essa identidade. Por isso o fascismo possui um impulso genocidário.

Por outro lado, essa identidade em colapso com o mundo falso movimenta também o “desejo social de autodestruição”. Apoiado na leitura de Paul Virilio do Estado Suicidário, Safatle vai perceber que a lógica de autopreservação dá no seu contrário: diante de uma destruição dos princípios da identificação fetichista do eu com o mundo experimentado como catástrofe uma narrativa é construída que seja “capaz de dar sentido heroico à degradação da vida cotidiana”. Uma espécie de auto-sacrifício para sustentar seus ideais narcísicos.

Ou seja, o fascismo baseia-se, ao mesmo tempo, na eliminação do outro e de si próprio, instaurando um regime duplo: genocidário e suicidário. Dessa maneira, ocorre, como descreve Safatle, uma militarização das subjetividades como forma de se referir à estratégia de defesa do Eu dessa personalidade unidimensional que conecta o mundo corporativo do empreendedorismo de si ao mundo militar de culto às armas. É nesse ponto, escreve o autor, “o masculinismo aparece em toda sua força, como uma formação defensiva diante da impotência social real” .

Como Safatle afirma, o fascismo se tornou uma resposta realista às crises, pois elas reforçam a identidade destrutiva dessas crises, dependem dela e com ela avançam. Não é à toa que Edward Luttwak dizia ser o fascismo a onda do futuro. Para impedir que esse futuro se confirme, “então não deveríamos temer afirmar que só um irrealismo delirante pode nos salvar. Há momentos históricos nos quais o delírio é a única saída consequente”. Talvez só assim, o fascismo não seja o nosso derradeiro horizonte.
Thiago Canettieri

Os duros não dançam, mas levam baile

Neste tempo de emoções efémeras, teleguiadas por algoritmos, ainda há artes antigas, amadurecidas ao longo de séculos, com o poder extraordinário de mudar narrativas, exibir os pontos fracos do oponente e, com uma delicadeza estudada, fazer virar o jogo a seu favor. A diplomacia e a retórica são duas dessas artes, que quando usadas em conjunto transformam-se em autênticas armas de poder.

Nas últimas semanas, tivemos dois bons exemplos dessa forma de ação. Primeiro, com o discurso proferido por Carlos III, de Inglaterra, perante o Congresso dos EUA: uma intervenção em que o humor foi usado como técnica para desengatilhar sentimentos hostis. Mas também um discurso em que as evocações históricas permitiram definir claramente as distâncias entre Londres e Washington e em que, finalmente, a ironia funcionou como um grito poderoso e mordaz, que deixou o alvo subliminar – Donald Trump − encurralado entre duas alternativas: ficar calado ou, se respondesse, cair no ridículo. O mais importante, mesmo assim, foi que ao celebrar os valores do Iluminismo e a defesa intransigente da democracia perante as ameaças autocráticas do século XXI, o discurso lido pelo rei acabou por ser uma lição de como a identidade e os valores podem funcionar como cimento político, mesmo em tempos conturbados.

O segundo momento, ocorreu na visita do mesmo Donald Trump a Pequim, com os dirigentes chineses, em momentos pacientemente coreografados, a saberem vincar as diferenças colossais entre uma civilização milenar e um país que, por mais poderoso que seja, só agora se prepara para completar 250 anos de história. Por isso, Xi fez questão de mostrar ao seu convidado, como anteriormente já fizera com Putin, as árvores muito mais antigas do que os EUA que se encontram no antigo jardim imperial de Zhongnanhai, que hoje alberga os gabinetes e as salas de reuniões dos dirigentes do Partido Comunista Chinês. Depois, nas declarações públicas, Xi soube envolver Trump na pompa imperial, estabeleceu as suas linhas vermelhas, nomeadamente em relação a Taiwan, e assumiu o papel de liderança na gestão de risco de uma possível escalada de tensão entre os dois países. E quando, de uma forma surpreendente, evocou a “armadilha de Tucídides”, fê-lo num exercício de retórica que sabe evocar a Antiguidade Clássica, mas também o momento exato em que se iniciou a mudança estratégica dos EUA em relação à China, quando Trump ainda nem pensava seriamente ocupar a Sala Oval da Casa Branca. A teoria da quase inevitabilidade de uma guerra entre a potência dominante e a potência emergente, como sucedeu frequentemente ao longo da História, começou a circular, pela pena de um investigador e professor de Harvard, Graham Allison, em 2015, durante a Presidência de Obama, que virou o eixo estratégico dos EUA para a região da Ásia-Pacífico. O aviso de Xi, neste momento, significa muito mais do que uma figura de estilo. É, antes, uma movimentação inteligente num jogo de xadrez que se irá prolongar para lá do mandato de Donald Trump. Mas que lhe permitiu delimitar o espaço de manobra do adversário, através de uma jogada de cortesia institucional.


O contraste entre as máquinas diplomáticas chinesa e britânica face à atual administração Trump é de um contraste absoluto. De um lado, temos equipas altamente profissionais, com séculos de história atrás de si e um profundo conhecimento do mundo e, acima de tudo, daquilo que deve ser dito em cada e determinado contexto. Do outro, é aquilo que se torna cada vez mais evidente: um Presidente que confia cegamente no seu instinto, rodeado de pessoas escolhidas apenas pela sua lealdade cega a Trump, e não pelas suas especiais competências ou aptidões para o cargo. E, em grande parte dos casos, pessoas sem “mundo”, sem conhecimentos de História e apenas habituados aos discursos mais básicos – que podem ter muita tração nas redes sociais, mas que, no contexto internacional, por mais ameaçadores que possam ser, apenas fazem quebrar os laços de confiança de quem os escuta.

Em dois momentos diferentes e embora cada um com o seu arsenal, Carlos III e Xi demonstraram como se deve falar com Trump e a atual administração dos EUA: ditaram as regras, selecionaram as palavras que mais pesam e ignoraram qualquer pose intimidatória do oponente. Ou seja, dançaram a música que escolheram para ser posta a tocar. Essa é a lição que deve ser aprendida pelas várias diplomacias, neste momento. Porque quem optar pela subserviência acabará, no final, por ter de dançar, apenas e só, a música do mais forte.

Até onde a elite vai com os Bolsonaro?

A forma como parte da elite econômica e política espera para ver se a candidatura de Flávio Bolsonaro fica de pé diante das evidências quase diárias de uma relação constante com Daniel Vorcaro escancara um fenômeno conhecido, mas que se renova a despeito dos fatos: a enorme condescendência desses estamentos com todo tipo de instabilidade que a família Bolsonaro é capaz de provocar, algo inexistente em relação a qualquer outro grupo político.


A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, se deu a despeito da profusão de evidências de evolução patrimonial do patriarca e dos filhos incompatível com a atividade parlamentar de todos eles, do histórico antiliberal do “capitão” recém-associado a Paulo Guedes e de outras inconsistências.

Os quatro anos de mandato de Bolsonaro trouxeram à tona detalhes da relação do ex-deputado estadual Flávio, então já senador, com seu ex-braço direito Fabrício Queiroz, evidências de prática de rachadinha em seu gabinete, de mais movimentações financeiras apontadas pelo Coaf como suspeitas, de relacionamento com ex-policiais ligados à milícia, mais compra de patrimônio imobiliário em transações milionárias e em dinheiro vivo — e tudo foi aceito.

A gestão da pandemia expôs um presidente avesso à ciência, disposto a dinamitar o Programa Nacional de Imunizações, incentivando que se “passasse a boiada” em desmonte ambiental aproveitando o isolamento, zombando de medidas sanitárias e de mortes, trocando ministros da Saúde como quem mudava de camisa do Brasil. Houve abalo a sua imagem, mas ele quase foi reeleito.

Vieram o 8 de janeiro de 2023 e aquela destruição sem precedentes em Brasília, por uma turba mantida em acampamentos em frente a quartéis por meses, incentivada por um presidente que abdicou do exercício do cargo desde a derrota no segundo turno, depois deixou o país sem passar o cargo ao sucessor. Houve repúdio generalizado de imediato, mas logo depois passou-se a relativizar a gravidade do que aconteceu, como se fosse apenas coisa de donas de casa armadas de batom.

Por fim, o processo da trama golpista expôs a realização de uma reunião ministerial gravada em vídeo em que se discutiram opções até para melar as eleições. Vieram à tona um plano para matar autoridade e minutas de diferentes estados de exceção. O primeiro ex-presidente do Brasil foi condenado por tramar um golpe de Estado.

E, ainda assim, uma parcela majoritária de nossos tomadores de decisão permanece aferrada aos desígnios desse líder, agora preso, a ponto de rapidamente assimilar aquilo que não queria: um presidenciável da própria família. Foi escolhida a segunda opção, porque o primeiro cogitado estava nos Estados Unidos havia meses obtendo sanções econômicas e políticas contra o Brasil.

Agora, diante de um áudio reconhecido pelo próprio pré-candidato como autêntico, pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro já enrolado para um filme sobre o pai, com recursos geridos por um fundo sem nenhuma transparência, existe uma torcida silenciosa para que a tempestade passe, e a motociata siga.

É difícil compreender, apenas à luz da ideologia, tal complacência. Não foi vista em escândalos envolvendo políticos do PT ou mesmo do PSDB. Basta ver a descida ao inferno de Aécio Neves por muito menos que esse acervo do “azarão” e sua prole.

O resultado econômico e fiscal sob Bolsonaro e Guedes não explica tal devoção imune a fatos. O antigo teto de gastos foi seguidamente excedido, houve a pedalada com precatórios e toda sorte de medida eleitoreira, inclusive elevando despesas assistenciais — um dos pecados sempre apontado nas gestões petistas.

As pesquisas e as novas revelações (que não param de aparecer, a despeito das velas acesas na Faria Lima) dirão se Flávio se segura. Mas a disposição a passar pano com desinfetante para tudo o que tenha o sobrenome Bolsonaro é um traço distópico dos nossos tempos que precisará ser explicado nos livros de História, com as consequências dela decorrentes.
Vera Magalhães

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


De Trump à AfD: redes amplificam retórica anti-imigração

Visualizada quase dez milhões de vezes, uma postagem do Departamento de Estado americano acusava as Nações Unidas de buscarem "facilitar a imigração de substituição para os Estados Unidos e nossos aliados ocidentais", acrescentando que, sob o governo do presidente Donald Trump, o órgão priorizaria a "remigração" em vez da mencionada "migração de substituição". O post rapidamente se espalhou pelas redes da extrema-direita na Alemanha.

Referências sobre "substituição" costumam fazer parte de uma teoria conspiratória propagada em círculos extremistas que descreve como supostas elites estariam agindo de maneira obscura para "substituir" as populações étnicas da Europa e dos Estados Unidos.

Em 13 de maio, a Casa Branca repetiu a mensagem com uma nova publicação, visualizada mais de 3,7 milhões de vezes. A reação na extrema-direita alemã foi de celebração.


"Para aqueles que tinham pouca ou nenhuma ligação com a política antes do presidente Trump: vocês provavelmente não têm ideia do quão monumental é este momento – o fato de o Departamento de Estado dos EUA usar o termo 'migração de substituição' – e anunciar a remigração para a América e todo o Ocidente", escreveu Eugen Andres, um político local do partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD).

A Deutsche Welle monitorou um conjunto de dados com mais de 150 políticos e contas da AfD para acompanhar as suas reações. O Departamento de Estado publicou o seu tweet durante a madrugada na Europa. Por volta das 7h da manhã, no horário da Alemanha, o primeiro político da AfD já tinha notado a publicação e começado a partilhá-la.

Às 8h da manhã, um político local da AfD escreveu que "o fato de a 'migração de substituição', ou 'substituição populacional', ser oficialmente abordada por um governo ocidental pela primeira vez é um sucesso."

A comemoração rapidamente ultrapassou os limites da plataforma X. Buscas por palavras-chave em canais do Telegram em alemão revelaram capturas de tela da declaração original, juntamente com comentários comemorativos sobre a remigração.

Um tradutor baseado em Bruxelas compartilhou uma versão em alemão da notícia, que passou a circular amplamente entre os canais alemães do Telegram relacionados ao QAnon – teoria conspiratória surgida nos EUA que afirma a existência de uma elite secreta criminosa e de um plano oculto para combatê-la.

No início da tarde, a mensagem já havia chegado ao topo da liderança da AfD. Alice Weidel, co-líder do partido, escreveu no X: "exatamente o que a AfD vem alertando há anos. Conversa franca de Washington."

O governo Trump fez a publicação ao abordar a revisão do Pacto Global da ONU sobre Migração, que ocorria em meio a uma série de discussões e mesas-redondas em Nova York, entre 5 e 8 de maio.

Adotado em 2018, o pacto é uma estrutura voluntária e não vinculativa criada pelos Estados-membros da ONU. Desde a sua adoção, é bastante debatido se o pacto busca principalmente regular a migração ou se incentiva e facilita o aumento desse fenômeno social.

Mas as Nações Unidas afirmam explicitamente que o pacto não se destina a substituir as políticas migratórias nacionais de nenhum país ou a criar um "direito à migração". Em vez disso, contém uma lista de objetivos, focados em metas como minimizar os fatores que forçam as pessoas a migrar, criar mais vias legais para a migração e combater o tráfico de seres humanos.

O Pacto Global se tornou motivo de agitação na extrema-direita. Em 2018, grupos marginais argumentaram que o pacto era "prova" da conspiração da "grande substituição". O discurso chegou à AfD, que o levou ao Bundestag (Parlamento alemão).

"Isso foi um grande sucesso porque fontes confiáveis, parlamentares, de fato deram atenção a essa ideia", afirmou à DW Kilian Bühling, especialista em dinâmicas de redes entre grupos antidemocráticos e teóricos da conspiração na esfera digital, no Instituto Weizenbaum da Universidade de Berlim, na Alemanha.

"Isto está acontecendo agora: se houver mais ideias ou palavras marginais que sejam repetidas e recebam atenção de figuras como o presidente dos EUA ou sua administração, isso as torna mais legítimas."

A "remigração" é a resposta política para os adeptos da extrema-direita que alertam sobre a teoria da conspiração da "grande substituição". O termo implica enviar residentes não brancos de volta aos seus países de origem – desde migrantes recém-chegados até cidadãos com histórico de migração, dependendo de quem propaga a ideia.

Já foi uma palavra proibida na política alemã – a extrema-direita alemã se viu em apuros depois que jornalistas investigativos descobriram que políticos da AfD participaram de uma conferência em Potsdam sobre o tema "remigração".

A proposta debatida na conferência, segundo o Correctiv – um portal alemão de jornalismo investigativo independente –, incluía a deportação de cidadãos alemães com histórico de migração, o que é inconstitucional segundo a lei alemã.

O envolvimento da AfD na conferência levou centenas de milhares de pessoas às ruas em todo o país em protestos pró-democracia. Isso também gerou um debate sobre rotular o partido como extremista de direita e tentar impedi-lo de participar das eleições.

Desde então, a AfD dobrou a aposta na "remigração", mas esclareceu que sua política oficial não inclui cidadãos alemães. Apesar disso, algumas figuras do partido continuaram a usar retórica sobre remoções em massa e revogação da cidadania de determinados grupos.

"Quando as pessoas no discurso político alemão os acusam de serem anticonstitucionais, extremistas de direita e antidemocráticos, pode ser de grande ajuda se a liderança da maior e mais antiga democracia do Ocidente usar exatamente o mesmo termo", disse Bühling.

"Remigração" é um conceito defendido pelo ativista austríaco de extrema direita Martin Sellner. Após a reunião de Potsdam, a Alemanha o proibiu de entrar no país. Mas, na segunda-feira, a política que ele ajudou a popularizar recebeu um importante apoio de Trump.

"A Casa Branca publicou isso hoje", escreveu Sellner no Telegram para seus 74 mil seguidores, com um link para a postagem de Trump. "Ninguém poderá mais ignorar o assunto. A substituição populacional é real."

A cooperação entre a extrema-direita europeia e americana é bem organizada. Desde 1973, ativistas dos dois países se reúnem na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada anualmente nos EUA. Weidel, inclusive, foi a palestrante convidada do ano passado.

Embora haja um longo histórico de ideias de extrema-direita atravessando o Atlântico, segundo Bühling, "a velocidade e as possibilidades de conexão e fluxo de informações aumentaram com a internet e as plataformas de mídia social".