sexta-feira, 5 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Nossos ingratos amigos

Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump — só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.

Começou pela viagem do ex-presidente Theodore Roosevelt à Amazônia, em 1913. Escoltado pelo general Rondon, Roosevelt passou sete meses na floresta fazendo mapeamento estratégico, cartografando rios e coletando um mundo de plantas e animais para seus museus e instituições. Pegou diarreia, malária, infecções e quase levou a breca, mas voltou com um conhecimento dos recursos do Brasil de que até então ninguém por lá suspeitava.

Os americanos logo souberam que não éramos uma república de bananas. Um empreendedor chamado Percival Farquhar veio para cá no começo do século 20 e, pelos 30 anos seguintes, tomou nossos setores de energia elétrica, navegação, extração de minério, criação de gado, abertura de estradas e, por causa destas, derrubou milhões de acres de floresta nativa para explorar madeira. Aliás, o minério e a energia elétrica foram dois setores que os americanos levaram décadas para nos devolver. Era ou não era ser amigo dos EUA?

Minha geração foi tão amiga dos EUA que aprendemos tudo sobre Flecha Ligeira e nada sobre Arariboia. Apaixonamo-nos por Chaplin, Louis Armstrong, Duke Ellington, Bing Crosby, Fred Astaire, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, os Irmãos Marx, Glenn Miller, Frank Sinatra, Humphrey Bogart, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Doris Day, Gene Kelly, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk etc. etc. etc. até Woody Allen.

Somos um país de jeans, tênis e boné ao contrário, comendo cheeseburger. Na verdade, de tanto amor pelos EUA, tudo que queremos é ser americanos. Flávio Bolsonaro, amigo do Rubio, já conseguiu.

A estupidez artificial

“Acabei com um namorado porque descobri que ele escrevia as mensagens que me enviava com o ChatGPT.” O desabafo, numa roda de mulheres a meio de uma conversa que tinha escorregado para as exigências digitais do mundo, foi recebido entre caras abertas de espanto e risos constrangidos. “Ele era do tipo calado, parecia interessante. Mas mandava mensagens que não faziam sentido. Pensei que estava a ficar maluca, ou que ele era maluco.” Ela, mulher inteligente, com o tipo de beleza que faz parar salas, deu por si a ter uma relação com um (mau) simulacro de inteligência. Ficámos atónitas, incrédulas, aturdidas pela ideia de que há quem não se dê sequer ao trabalho do amor, quem queira namorar por procuração digital, quem renuncie ao que nos torna humanos, querendo talvez mascarar as falhas (reais ou imaginadas) que são a verdadeira matéria das paixões que valem a pena.


No dia a seguir a esta conversa, fui almoçar a casa de uns amigos. O arroz estava ótimo. Quis saber a receita. “É do ChatGPT”, responderam-me, enquanto me iam explicando como cada um deles se tinha tornado verdadeiramente um “gestor de agentes”. Estes “agentes” não usam gabardines nem pedem Martinis. São produtos de Inteligência Artificial, desenhados para executar tarefas, na maior parte dos casos repetitivas ou que implicam a análise massiva de dados. Como qualquer estagiário, precisam de quem lhes dê ordens, os oriente e lhes reveja o trabalho. E estes meus dois amigos passam cada vez mais tempo a fazê-lo. “Assim, é fácil ser cinco vezes mais produtivo”, diz-me ele, que graças à IA consegue desenvolver soluções informáticas muito mais rapidamente e com muito menos gente. “Fico com mais tempo livre. Mas também me faz confusão que a certa altura o meu trabalho seja corrigir o dos agentes”, desabafa ela, que está na área do marketing e que começa a perceber que não é só trabalho de sapa que calha a estes “agentes”. Eles são cada vez mais capazes de fazer “trabalho criativo”, mesmo que seja impossível escrevê-lo sem usar aspas, porque estamos a falar de dispositivos que, na prática, constroem tudo com modelos de previsão estatística depois de analisar quantidades gigantescas de dados.

Há pouco tempo, vi um vídeo de operários indianos com uma espécie de viseira presa à cabeça, que uma repórter da CNN explicava serem dispositivos para recolher informação sobre o seu trabalho manual para alimentar robots operados por Inteligência Artificial. Na mesma reportagem, mostrava-se como a Índia tem sido palco de protestos, nem sempre pacíficos, contra as brutais condições de exploração dos trabalhadores. Mas todos os que usam programas de Inteligência Artificial para procurar receitas, escrever emails, preparar listas de afazeres ou analisar tabelas de Excel estão, no fundo, a fazer a mesma coisa: a treinar estes modelos para se tornarem descartáveis. Mais do que isso: estão ativamente a deixar de usar competências cognitivas. E acho que todos sabemos o efeito que o Google já teve na nossa memória. Deixámos de nos preocupar com a ideia de memorizar alguma coisa porque sabemos que podemos “googlá-la”. Problema? Os resultados do Google têm vindo a piorar substancialmente, porque este motor de pesquisa é também um negócio (na verdade, é um conglomerado de empresas), que ganha tanto mais dinheiro quanto mais tempo nos mantiver agarrados a ele. Logo, a eficácia não é propriamente a melhor amiga do negócio.

Também era, em parte, de negócio que falava Olga Tokarczuk, vencedora do Prémio Nobel da Literatura, quando confessou recorrer à Inteligência Artificial para acelerar o seu processo de escrita. Tokarczuk não usa a IA porque não sabe escrever, usa-a porque o mercado editorial, com a sua voragem de novidade e o baixíssimo pagamento aos escritores, obriga quem vive da escrita a ser rápido na produção, ao mesmo tempo que se desdobra em palestras pagas para sobreviver. O problema não é uma autora que ganhou o Nobel usar a IA como assistente na escrita, o problema é quantidade de jovens (e menos jovens) que está a desistir de usar as ferramentas mentais necessárias para escrever.

Como quase tudo no neoliberalismo, nada disto é um erro ou o produto de um acaso. E como quase sempre nesta era dos oligarcas tecnológicos, as intenções não estão ocultas. Já foram declaradas. “Vemos um futuro em que a inteligência é um produto de consumo, como a energia ou a água. E as pessoas vão comprá-la a empresas como a nossa para a usarem”, disse Sam Altman, CEO da OpenAI.

Vou ignorar a forma como a “água”, um recurso essencial à vida, é posta nesta equação e concentrar-me na ideia de que vamos precisar de comprar inteligência. Quem é que precisa de comprar aquilo com que nasceu? A resposta é simples e testada com sucesso há décadas pelo capitalismo: criando uma nova necessidade. Mas como é que se cria a necessidade de “inteligência”? Garantindo que a que temos naturalmente não se desenvolve completamente ou, pelo menos, que não é desenvolvida em setores suficientemente grandes da população para ter um mercado.

Basta pensar na frase de Sam Altman para perceber quão questionável é a utilização de IA nas salas de aula. A educação é inimiga dos objetivos estratégicos destas empresas. Tudo o que a OpenAI não quer são seres com pensamento crítico, capazes de desenvolver por si mesmos as tarefas intelectualmente mais exigentes e, já agora, as emocionalmente exigentes também, uma vez que eles querem igualmente vender-nos os tais “agentes” que tomarão conta da nossa vida amorosa, respondendo a mensagens, escritas talvez por outros “agentes”, num mundo em que já não se percebe bem quem namora quem, mas se sabe exatamente para onde é que vai o dinheiro gerado por todas essas interações.

Para que este modelo de negócio funcione, é essencial criar humanos estúpidos. A Inteligência Artificial não tem o mesmo mercado sem uma boa dose de estupidez artificial. E talvez não seja por acaso que a grande contestação à ideia de que a IA é uma “inevitabilidade” esteja a desenvolver-se nas universidades. Nos últimos dias, houve vários protestos de universitários nos Estados Unidos e no Canadá contra conferencistas que foram apresentar esta tecnologia como parte “inevitável” do progresso. Numa das manifestações, em Vancouver, alguém exibia um cartaz com a frase “Usem o vosso cérebro”. E o Wall Street Journal escrevia: “A rebelião americana contra a IA está a ganhar vapor.”

Parte desta revolta vem do facto de ser evidente que muitas, mesmo muitas, profissões se tornarão rapidamente obsoletas (basta ver os números de despedimentos em empresas como a Meta ou a Amazon para perceber a ameaça). Esse é um problema social que põe o capitalismo perante uma contradição: quem será consumidor se deixar de haver trabalhadores? Talvez haja soluções para isso (várias estão a ser estudadas). Mas muito mais inquietante é o impacto que a IA terá naquilo que significa ser humano. Nas nossas relações com os outros, nas nossas capacidades cognitivas e emocionais.

É por isso que é essencial ser analógico para ser subversivo. Por muito que possam (e devam) usar-se as ferramentas tecnológicas do nosso tempo, não podemos fazê-lo de forma inconsciente. E sobretudo não devemos tornar-nos dependentes delas a ponto de perdermos a nossa humanidade. A tecnologia não é politicamente neutra nem deve ser usada acriticamente, como se o nosso destino coletivo fosse uma espécie de fatalidade desenhada pelos deuses, por muito que os techbros (que se veem como deuses) gostassem que assim fosse.

Cabe-nos questionar, cabe-nos exigir ao poder político, a capacidade de regulação e supervisão destes mecanismos. Cabe-nos não nos demitirmos de executar as tarefas que ajudam a construir a nossa identidade, cabe-nos usar o cérebro com que nascemos e estimulá-lo para que se mantenha ativo. E, já agora, cabe-nos escrever as nossas próprias mensagens de amor.

Os primeiros impérios privados da História

A Space X perde dinheiro a um ritmo histórico, mas é avaliada pelos investidores como se já dominasse o mundo.

Antes do final desta década, Elon Musk terá uma fortuna líquida superior ao PIB conjunto de 150 países. Esse processo vai acelerar-se, nas próximas semanas, com a entrada da Starlink em bolsa. Mas o que vem aí não é mais um surto de euforia nos mercados – é uma mudança de regime e uma nova ordem privada mundial.

Em junho, uma única empresa vai pedir ao mercado que a avalie em quase dois biliões de dólares, mais do que tudo o que Portugal produz em seis anos. Chama-se SpaceX, e é apenas a primeira da fila. A OpenAI segue em setembro, a Anthropic antes do final do ano, com a Stripe, a Databricks e a Anduril logo atrás. É o maior ciclo de IPOs tecnológicos da História, e quem o tratar como mais um surto de euforia de mercado vai perder o que realmente importa. O que aí vem não é um ciclo de bolsa. É uma mudança de regime, empacotada como notícia de negócios.

Quem paga a conta socioambiental da corrida global pelo domínio tecnológico?

A nova corrida global pelo domínio das tecnologias de inteligência artificial (IA) vem sendo utilizada para intensificar mais uma race to the bottom no campo das políticas de sustentabilidade. No debate sobre tecnologia, o país que sediou a COP 30 em 2025, retrocede ao continuar tratando o desenvolvimento e a sustentabilidade como polos opostos de uma mesma balança. Enquanto legisladores barganham o custo ambiental em nome do “progresso”, comunidades afetadas pelo extrativismo predatório já enfrentam, no presente, os efeitos concretos da cadeia produtiva que sustenta a infraestrutura física da internet.

A recente aprovação do PL 2.780/2024 na Câmara dos Deputados retoma o debate sobre a posição que o Brasil adotará (ou deveria adotar) diante da disputa pelos recursos minerais que servem de matéria-prima para as tecnologias de fronteira. O texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado, mas já sinaliza um movimento de fragilização das políticas ambientais em prol do chamado desenvolvimento.

À primeira vista, a menção à “promoção do desenvolvimento sustentável”, “responsabilidade socioambiental” e “energia limpa” dissimula que, em essência, o PL cria novos incentivos fiscais e um fundo bilionário para subsidiar a exploração mineral com foco em empresas estrangeiras. Na prática, o Projeto dá nova roupagem à questionável Política Pró-Minerais Estratégicos (Decreto n. 10.657/2021), privilegiando a exploração mineral sem licenciamento ambiental adequado e fragilizando direitos territoriais de populações diretamente afetadas.


O interesse no território brasileiro não é repentino, mas tornou-se mais evidente no contexto recente de pressões tarifárias na rodada das negociações entre diplomatas brasileiros e dos Estados Unidos em torno do tarifaço anunciado por Donald Trump, cujo encarregado de negócios da Embaixada dos EUA no Brasil manifestou interesse do país nos minerais críticos brasileiros. Essas mobilizações revelam que há fortes interesses geopolíticos por trás da avalanche de tarifas trumpistas, o que também pode ser observado nos discursos norte-americanos sobre a Groenlândia, a República Democrática do Congo e, agora, o Brasil.

O presságio nas negociações emerge em meio à forte ascensão da China no setor tecnológico, especialmente por seu vantajoso destaque na cadeia produtiva desses artefatos tecnológicos em emergência, configurando um espremido corredor de dependência para os Estados Unidos. Essa movimentação é notória no lançamento do Minerals Security Partnership, iniciativa que reúne aliados como União Europeia, Japão e Canadá. A proposta busca garantir o fornecimento de minerais como lítio, cobalto, níquel e grafite, que são indispensáveis para a indústria tech, mas também são vitais para a indústria militar, refletindo uma tentativa coordenada de reduzir a dependência das cadeias de suprimento atualmente dominadas pela China.

Não obstante tal cenário global, a maior preocupação desse jogo geopolítico são seus impactos locais. Grande parte das regiões que concentram minerais críticos no Brasil coincide com áreas de proteção ambiental e territórios tradicionalmente ocupados. Cerca de 30% dos registros de minerais estratégicos estão localizados somente na Amazônia Legal. O território brasileiro é cobiçado pelos EUA por deter 23% das reservas de terras raras do mundo, enquanto a China responde por mais de 60% da produção global desses minerais e cerca de 90% do seu processamento, exercendo posição praticamente monopolista sobre a cadeia.

No entanto, o maior ponto de inflexão dessa disputa é o histórico brasileiro de flexibilizações regulatórias frágeis e disposições políticas a subordinar os marcos legais à lógica das grandes corporações. O Projeto de Lei 2.159/2021, mais conhecido como PL da Devastação, prevê a possibilidade de empreendimentos de médio e alto impacto serem liberados apenas com base na autodeclaração da empresa, sem estudos ambientais ou análise prévia do poder público.

Embora a internet evoque um imaginário abstrato, a existência da rede depende de uma infraestrutura material: cabos submarinos, data centers, energia elétrica, água e minerais críticos. A materialidade da internet e das tecnologias digitais que a estruturam dependem da exploração mineral, que estão presentes desde os componentes de microchips, até as extensas infraestruturas de conectividade responsáveis pelo armazenamento e processamento massivo de dados.

Um exemplo da concretude dessa questão se observa no caso da construção do mega data center do TikTok no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), no Ceará. Embora o empreendimento seja apresentado como estratégico para a economia e para a infraestrutura digital, sua instalação ocorre em uma região que se sobrepõe ao território reivindicado pelo povo Anacé junto à Funai. O processo de demarcação da Terra Indígena já se prolonga há mais de duas décadas, enquanto comunidades localizadas a poucos quilômetros do futuro data center convivem com os impactos e incertezas provocados pela expansão tecnológica e industrial.

Assim, a expansão da infraestrutura digital reorganiza territórios inteiros, intensifica disputas fundiárias e produz novos conflitos socioambientais. Nesse contexto, a questão em voga no nosso território é até que ponto a exploração desses minerais ocorre de forma consciente e sob quais protocolos e garantias institucionais ela se desenvolve para assegurar que nenhum dano irreparável ou direito fundamental seja violado. Ou, até mesmo, será que ainda podemos falar em “nosso território” diante de disputas geopolíticas cada vez mais intensas?

Um dos desafios mais emblemáticos enfrentados no Brasil permanece sendo as demarcações das terras indígenas, fator que torna o debate sobre a cadeia produtiva da infraestrutura da internet e de todo o aparato de conectividade ainda mais intrínseco às disputas territoriais. A discussão sobre conectividade, armazenamento de dados e segurança digital deixa, portanto, de ser apenas técnica para envolver também conflitos distributivos, disputas territoriais e os custos socioambientais que sustentam a própria existência da internet.

Apesar do estranhamento da correlação do tema com a internet, cabe enfatizar que não é possível falar de luta por direitos digitais quando a própria possibilidade do espaço digital só existe porque há uma infraestrutura material que o sustenta. Nesse sentido, a ausência de destaque a essa camada da internet faz com que muitos não vislumbrem que os direitos territoriais antecedem os direitos digitais. Esse vínculo toma proporções maiores no atual cenário de corrida global pelo domínio da inteligência artificial, que desloca forças políticas, econômicas e militares para além do âmbito nacional. Trata-se de uma disputa entre gigantes tecnológicos e potências globais que observam vantagens estratégicas no controle dessa tecnologia emergente, seja para fins civis, seja para aplicações militares.

Nesta arapuca de interesses e funcionalidades que recaem sobre o debate dos minérios críticos, já evidenciados na obra canônica da Kate Crawford, The Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence, obra que desmonta o imaginário da “nuvem” como um espaço abstrato e revela sua profunda territorialidade. A autora desloca o debate sobre inteligência artificial do plano puramente computacional para demonstrar seus custos materiais, ambientais e políticos, expondo aquilo que frequentemente permanece invisível no cálculo do custo socioambiental das tecnologias digitais que sustentam a rede.

Em matéria de mineração, a atividade extrativista nas jazidas de Carajás, na Amazônia Paraense, revela um custo ambiental que nunca se traduziu em diminuição das desigualdades econômicas ou erradicação da pobreza, tampouco diminuiu as desigualdades regionais entre norte e sul. No país dos crimes de Mariana e Brumadinho, insistir em tratar os impactos socioambientais da infraestrutura digital como externalidades inevitáveis significa reproduzir uma lógica já conhecida de privatização dos ganhos do progresso tecnológico e socialização dos custos sobre territórios historicamente vulnerabilizados.

Enquanto o debate sobre governança da internet e inteligência artificial permanece concentrado em protocolos, algoritmos, regulação de plataformas e riscos de deepfakes, as comunidades que sustentam materialmente essa infraestrutura seguem invisíveis. A corrida pelos minerais críticos não diz respeito apenas à competitividade tecnológica ou à soberania econômica, mas também à forma como decidimos quais vidas, territórios e direitos podem ser sacrificados em nome do futuro digital.

Guerra e$piritual

Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil este ano.

Quero pedir a todos que orem por Jair Messias Bolsonaro, pelo Brasil, que voltará a ser uma nação irmã de Israel.

Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus

A missão de Flávio Bolsonaro: manter viva a grife da família

Desta vez não será uma escolha difícil. Em 2018, o centenário jornal O Estado de S. Paulo definiu como difícil a escolha que os brasileiros haveriam de fazer no segundo turno das eleições daquele ano: votar em Jair Bolsonaro para presidente da República ou votar em Fernando Haddad, ex-prefeito da capital paulista? Bolsonaro era candidato com o apoio dos militares. Haddad, o candidato do PT e de Lula, que estava preso em Curitiba.


A não ser que o roteirista do filme chamado Brasil apronte mais uma surpresa — e ele gosta de aprontar —, tudo indica que, em outubro próximo, seremos forçados a escolher entre Flávio Bolsonaro, filho de quem é, e Lula, que há quatro anos derrotou o pai dele na eleição mais apertada desde o fim da ditatura de 1964. Flávio está em baixa desde que ofereceu o Brasil de bandeja a Trump. Lula está em alta, impulsionado, diga-se, pela decisão tomada por Trump de aplicar ao Brasil uma nova onda de tarifas alfandegárias. Para completar, Flávio amarga a descoberta de que era unha e carne com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil.

Feliz é o candidato que pode dar-se ao luxo de escolher seu adversário. Lula escolheu o Bolsonaro original e venceu. Lula agora, e não é de hoje, escolheu a cópia encardida de Bolsonaro e parece estar com a mão na taça. Uma ampla fatia dos brasileiros gostaria de contar com outras opções, como mostram as pesquisas. Mas as alternativas disponíveis não dão sinais de que se viabilizarão. Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos, e paramos por aqui: alguém aposta que um deles desbancará Flávio? Improvável.

Flávio não é candidato por seus próprios méritos, mas pelos de seu pai, o inventor da direita sem vergonha de se autodeclarar direita. Nunca passou pela cabeça de Flávio que um dia ele viria a ser candidato a presidente. Foi quatro vezes deputado estadual no Rio de Janeiro graças ao pai. Elegeu-se senador pegando carona na campanha presidencial do pai, assim como os seus irmãos.

De todos eles, Flávio era o mais vocacionado para fazer negócios e enriquecer. Portanto, não tem muito a perder se for derrotado por Lula. O pai deu-lhe a missão de sucedê-lo como guardião de uma parcela expressiva dos votos da direita, evitando que algum aventureiro se apossasse dela. A grife Bolsonaro não pode desaparecer; ela rende muito dinheiro à família, e dinheiro é o que importa. Isso está no DNA do clã desde o tempo das rachadinhas.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Quando a política se transforma em fé

Quando era adolescente, lembro que, certa vez, em um sábado de manhã, um grupo religioso missionário tocou a campainha de casa e fui atendê-los. Queriam me convencer da palavra de Deus. Como sempre me interessei pelo Antigo Testamento e pela arqueologia, incluindo o surgimento do ser humano, comecei o que pensei que seria uma conversa entre pessoas com opiniões diferentes, sobre quais seriam as evidências científicas de que descendíamos de Adão e Eva, e não de processos de evolução biológica. Durante semanas, todos os sábados de manhã, essas pessoas voltavam com os mesmos discursos sobre o que dizia a Bíblia, pois, para elas, tratava-se da palavra de Deus, enquanto eu buscava publicações e argumentos científicos sobre as últimas descobertas da ciência, pensando que poderia os fazer entender a diferença entre fé e ciência.

Era uma discussão interminável: não importavam as evidências nem as informações apresentadas, porque qualquer dado contrário às crenças daquelas pessoas era imediatamente negado. Depois de quase dois meses desses encontros na porta de casa, e contra a minha vontade, meu pai interveio e simplesmente disse para aqueles religiosos que não voltassem mais ou chamaria a polícia. Demorei para perceber que nunca se tratou de uma discussão de ideias, mas de uma disputa de fé. E a fé não funciona no plano racional.

Basta refletir sobre a história da humanidade para entender que o poder político sempre esteve profundamente associado à religião. Reis, imperadores e governantes legitimavam sua autoridade por meio de uma suposta conexão direta com o divino. Em alguns casos, o soberano era considerado um deus vivo; em outros, um representante de deus na Terra. Atualmente, o Vaticano é talvez um dos exemplos mais visíveis dessa lógica: os fiéis não escolhem diretamente seu líder, mas um grupo restrito de cardeais decide quem ocupará o cargo máximo. Até o momento da eleição, o futuro papa é apenas mais um homem dentro da Igreja. Mas, após o ritual, muda de nome, de vestimenta e de posição no mundo. Renasce simbolicamente investido de uma autoridade transcendente.

Em outras sociedades, o caráter sagrado do poder é depositado em determinadas famílias, estabelecendo linhagens políticas e religiosas que atravessam gerações. Em ambos os casos, o resultado é semelhante: sistemas profundamente antidemocráticos que se perpetuam em razão do sustento simbólico da fé.

As democracias modernas tentaram romper com essa lógica. Não por acaso, muitas de suas constituições estabeleceram a separação entre Estado e religião como condição fundamental para garantir a existência de cidadãos livres, e não de súditos obedientes. A política deveria transformar-se em um espaço de debate racional entre projetos, interesses e ideias, e não em uma disputa entre fiéis.

No entanto, nas últimas décadas, assistimos a um processo inverso. A política voltou a adquirir traços religiosos. Os novos pastores misturam espetáculo, fé e poder político. Já não basta controlar templos (que em muitos casos viraram fábricas de eleitores): o sonho de toda grande igreja é controlar meios de comunicação, rádios, canais de televisão e, mais recentemente, as redes sociais, com influenciadores digitais religiosos. A lógica é poderosa: convencer as pessoas de que elas não estão discutindo política, mas o bem contra o mal, Deus contra o demônio. Quando isso acontece, desaparece a possibilidade de argumentação racional. A fé não se debate; vive-se. E justamente por isso ela é uma das forças mais potentes de mobilização coletiva que existem.

Esse fenômeno de mistura entre política e religião não se limita ao Brasil. Existem exemplos em diversas partes do mundo: Irã, Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel, entre muitos outros. No mundo ocidental, vem crescendo o poder dos grupos associados ao “dominionismo”, corrente teológica e política cristã que defende que os cristãos possuem um mandato divino para ocupar posições de poder e assumir o controle das instituições civis e seculares da sociedade.


No caso brasileiro, essa situação torna-se cada vez mais visível. Uma pesquisa recente mostrou que grande parte dos eleitores do candidato presidencial Flávio Bolsonaro continua apoiando-o mesmo após as revelações sobre suas relações com figuras polêmicas e esquemas ocultos de poder. Para muitos de seus eleitores, tudo não passaria de uma invenção, uma perseguição contra alguém que se autoproclamou representante “de um projeto de Deus” para combater os inimigos da nação e da fé. O ponto central já não é se as acusações são verdadeiras ou falsas. O importante é que, para muitos seguidores, nenhuma evidência é capaz de alterar essa crença sustentada pela fé.

Seu próprio pai, Jair Bolsonaro, em 2018, deixou de ocupar uma posição política marginal para transformar-se em uma figura quase messiânica, capaz de transferir legitimidade aos filhos e a todo um campo político que depende simbolicamente dele. E é interessante fazer um paralelo com aquilo que foi mencionado anteriormente quando me referi ao processo de transformação de uma pessoa em pontífice: um sujeito comum que, já na etapa final da vida, é proclamado líder por vontade divina, em uma espécie de renascimento, passa a ter sua história recontada de forma completamente diferente (obviamente com algumas partes apagadas), e qualquer acontecimento banal de sua trajetória passa a ser reinterpretado como sinal de uma escolha direta de Deus.

Esse processo de mistura entre fé e política é profundamente preocupante porque destrói a própria base dos princípios democráticos. Quando o adversário deixa de ser visto como um oponente legítimo e passa a representar o mal absoluto, qualquer diálogo se torna impossível. A crítica é interpretada como blasfêmia; a dúvida, como traição.

Nesse contexto, o Congresso corre o risco de transformar-se em um grande templo ocupado por pastores-deputados e senadores – e agora também por ministros da mais alta corte – que falam mais em nome de verdades reveladas do que de projetos políticos e demandas populares. Pouco a pouco, a fronteira entre religião e Estado vai tornando-se cada vez mais frágil e difusa.

A história demonstra que sociedades organizadas em torno de lideranças “sagradas” tendem a produzir formas autoritárias de poder. Quando a política se transforma em fé, os cidadãos deixam de agir como sujeitos críticos e passam a comportar-se como fiéis. E ali onde a fé substitui o debate, a democracia começa lentamente a desaparecer.

Os eleitores devem estar loucos

Mais certo do que qualquer uma destas coisas é a minha convicção de que não passa um dia sem que alguém neste país tente convencer outra pessoa, através da mais robusta razão, de que uma determinada proposta da extrema-direita é estapafúrdia.

Encontramos cada vez mais pessoas que parecem ser absolutamente impermeáveis à razão, dizem as coisas mais absurdas, mantêm raciocínios contraditórios. A imunidade ao mais elementar raciocínio lógico é compreensivelmente aflitiva.

O historiador José Pacheco Pereira, pessoa a quem dificilmente se colará o adjetivo de ingénuo, cometeu a enorme ingenuidade de achar que, num debate televisivo, conseguiria expôr as mentiras de André Ventura através do uso da razão e da urbanidade. O resultado foi o previsível descarrilamento e um total de pessoas convencidas da vacuidade de Ventura que, arrisco, terá sido exatamente zero.

Aqui mesmo, nas páginas da VISÃO, Margarida Davim, a propósito da senhora bolsonarista-socialista, avisa que não é ao nível do discurso, mas ao da prática que é possível chegar a estas pessoas. Não basta desmontar falácias mais ou menos cómicas, é preciso acabar com um ciclo de mentiras e promessas quebradas, tradição que tem governado a ação do “arco da governação” nas últimas décadas.

Tem razão, mas temo que o problema não esteja aí. Creio até que não há melhorias das condições de vida das pessoas que as afastem deste lamaçal. Poderíamos ser o país mais seguro do mundo, com 365 crimes num ano, e haveria quem fosse todos os dias para as redes sociais dizer que “houve mais um” e que nos “querem convencer de que são só perceções”. A imigração poderia diminuir drasticamente que haveria sempre quem encontrasse um exemplo de uma pessoa não branca a atravessar fora da passadeira como exemplo de uma suposta selvajaria.

Entre aqueles que se interessam por política, que independentemente da sua ideologia olham para a Ágora como o local onde se debatem e testam ideias, a forma como milhões de eleitores parecem ter imunidade à razão é um fenómeno difícil de entender.

Há uma corrente na sociologia, avançada por Luc Boltanski, que se debruça sobre controvérsias públicas e disputas sobre o que é justo e injusto. Simplificando, o sociólogo francês diz que quem debate no espaço público, dependendo do contexto, tem de se submeter a uma certa lógica, tem de apresentar argumentos que sejam aceites como válidos para todos. Por exemplo, o pai pode apresentar a sua idade como fonte do poder que tem sobre o filho, mas se a mesma pessoa usar esse argumento para dar ordens ao diretor da sua empresa, ver-se-á em papos de aranha.

Diz Boltanski que, quando há uma disputa pública, os intervenientes não podem simplesmente invocar argumentos aleatórios, casuísticos e, claro, não se deve contradizer, sob pena de não serem reconhecidos. Precisam de se guiar por princípios de justiça e por uma ideia de bem comum, isto se não querem ser questionados. Mas, perante a realidade, esta teoria cai por terra. Como compreender que um líder político que enche a boca com “lei e ordem” desrespeite ostensivamente a lei quando as decisões dos tribunais não lhe convém ou quando os criminosos são polícias?

Há uma certa estranheza entre aqueles que acompanham mais de perto os fenómenos políticos, como se tivesse acabado uma época em que as pessoas se moviam em torno de ideologias coerentes, sujeitas a testes de razoabilidade e justiça. Mas essa época terá alguma vez existido?

Quando a cada eleição o eleitorado se mobilizava para votar massivamente em Aníbal Cavaco Silva, José Sócrates ou, mais recentemente, António Costa, fá-lo-ia de forma mais consciente do que aqueles que votam agora em forças políticas marcadas pela demagogia, pelo ódio e pela mais descarada incoerência?

A verdade é que, durante décadas, a existência de uma grande parte do eleitorado que votava de forma mais emotiva que racional, sem qualquer bússola ideológica, serviu os interesses do partidos que se alternavam no poder e agora se queixam. E o que esses partidos fizeram foi criar condições de vida para que os eleitores andassem demasiado ocupados em chegar ao fim do mês para se darem ao luxo de se preocupar com veleidades exóticas como a política.

O que é que fizeram os sucessivos governos da nossa democracia-liberal para que o sistema de ensino criasse cidadãos com capacidade crítica, conscientes da dimensão política da sua vida, capazes de discernir entre programas políticos distintos? Eles concentraram os seus esforços na criação de cidadãos consumidores/trabalhadores enquanto isso lhes permitiu vencer eleições com base em promessas vagas, hinos de campanha, porta-chaves e conselhos de consultores de imagem. Agora choram porque lhes roubaram a clientela.

Mas agora é demasiado tarde. Houve uma altura em que foi possível dotar as pessoas de capacidades para participar de forma crítica no processo político, mas preferiu-se embarcar em esquemas que artificialmente reconheciam competências com graus académicos. Agora, de cada vez que há alguma tentativa de mudar currículos ou controlar a quantidade de desinformação que inunda as redes sociais, imediatamente surgem as vozes que alertam para a possibilidade de o País se estar a tornar numa Coreia do Norte.

Os partidos do arco da governação estão a colher os frutos que semearam. Foi pela sua mão que a política, em vez de ser vista como a forma como nos juntamos para decidir a nossa vida coletiva, se tornou numa feira de vaidades. Agora que estão a ser derrotados no seu próprio jogo, choram.

Subserviência dos Bolsonaro a Trump pode custar a eleição de Flávio

A falta de vida inteligente e bem informada na campanha de Flávio Bolsonaro explica por que ele foi visitar Donald Trump às vésperas do novo tarifaço e do ataque ao Pix, sem que ninguém o advertisse sobre os riscos que correria. Lembra-se da carta enviada por Trump a Lula em julho de 2025, em defesa da suspensão imediata do julgamento de Jair Bolsonaro e dos demais golpistas do 8 de janeiro? Estava lá a determinação de Trump para que o Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) começasse a investigar o Brasil pela prática de atos nocivos e em desacordo com os superiores interesses comerciais norte-americanos.

O que chamamos, hoje, de segundo tarifaço de Trump é a conclusão daquela investigação. Embora esperneie — e tem mais é que fazê-lo —, o governo brasileiro não foi pego de surpresa. O setor de exportação tampouco, e sofrerá menos do que se espera, pois se preparou para o que veio. Surpreendido foi Flávio e seus aliados mais próximos.

Flávio saudou o “tarifaço 1”, que poderia ter ajudado seu pai a livrar-se da prisão. O “tarifaço 2”, no entanto, atingiu em cheio a sua candidatura, a ponto de estar sendo chamado de “Tariflávio”. Daí a sua agonia. Oito em cada dez mensagens opinativas sobre o assunto, trocadas nos mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram monitorados pela Palver, empresa de análise de dados, apontam Flávio como culpado pelas ameaças ao Pix ou pelo novo tarifaço.


O monitoramento cobre o período de 27 de maio a 2 de junho. Flávio reuniu-se com Trump no dia 26 de maio, e o “Tariflávio” é de 1º de junho. Segundo o relatório da Palver, as publicações predominantes acusam o senador e a família Bolsonaro de “traição à pátria” e de alinhamento a interesses estrangeiros, além de descrever a ofensiva americana como um ataque a uma conquista da população brasileira. Esse discurso repetido nas mensagens é semelhante ao que tem sido adotado por Lula em suas manifestações públicas.

Entre as mensagens que isentam Flávio, três linhas de argumentação se destacam: a classificação das acusações como desinformação ou manobra política da esquerda; a negação de risco concreto ao Pix; e a defesa de que a atuação do senador nos Estados Unidos mirava o combate ao crime organizado. Essa última vertente também critica o governo Lula por reagir às medidas americanas e usar o tema para desgastar Flávio.

O que é bom para os Estados Unidos não é necessariamente bom para o Brasil, ao contrário do que disse nos anos 1960 Juracy Magalhães, embaixador do Brasil em Washington à época do governo do general-presidente Humberto Castelo Branco, o primeiro da ditadura militar. A subserviência dos Bolsonaro a Trump poderá ser uma das razões da provável derrota de Flávio em outubro próximo.

Aprenda de uma vez, 01

Uma das glórias da matemática é a história de que um número elevado a zero é sempre igual a 1. Como pode? Não faz sentido. É algo que, para nós, leigos, alunos relapsos ou miseravelmente formados em humanas, parece absurdo. No entanto, se tivéssemos prestado atenção à aula onde se ensinou o conceito em vez de ficar olhando para as pernas da professora, veríamos como a questão é simples e coerente. Não vou me deter a explicá-la aqui, nem tenho autoridade para isso, mas vá por mim: qualquer número elevado a zero é 1 mesmo. E não só na matemática, como a família Bolsonaro deve estar descobrindo.


Os Bolsonaros têm a mania de, nos frequentes bate-bocas que promovem, tentar silenciar os interlocutores cortando-lhes a palavra com seus grosseiros bordões "Ponto final!", "Caso encerrado!", "Próxima pergunta!", "O recado está dado!", "E daí?", "Cala a boca!" e o favorito deles: "Zero! Chance zero!". Ouvimos isso de Jair Bolsonaro todos os dias durante quatro anos. Era como se, ao reduzir a zero qualquer pergunta, suspeita ou acusação, a dita pergunta, suspeita ou acusação desaparecesse por si só, virasse zero. A realidade provou que ele estava matemática e judicialmente errado.

Outro que repete o equívoco agora é seu filho Flávio Bolsonaro, por acaso o 01 dessa dinastia draculesca. Está até o pescoço com os tipos mais encalacrados do Brasil em matéria de transformar dinheiro público em dinheiro podre e, inquirido a respeito, responde: "Nada a ver! Zero!" —apenas para ser desmentido por gravações de sua própria voz ou por descobertas da polícia.

O momento mais sublime foi o que deu início à trapalhada envolvendo a chanchada sobre seu pai. Ao ser perguntado se tomara dinheiro de Daniel Vorcaro, riu nervoso para as câmeras e disse: "De onde você tirou isso? Zero!". Horas depois, sua tentativa de elevação desse caso a zero não se transformou em 1, mas em R$ 134 milhões que ele não consegue explicar nem fará desaparecer.

Aprenda de uma vez, 01: a matemática não falha. Zero!

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Nova colônia?

Quando um país interfere nas decisões de outro, a liberdade morre. Convido toda a Colômbia a votar livremente e a não se tornar escrava ou colônia de ninguém

Gustavo Petro, presidente da Colômbia

Os cabos que a guerra pode cortar: Ormuz e a fragilidade digital do mundo

O Estreito de Ormuz é inegavelmente um ponto de estrangulamento global. Por ele trafega um quinto do petróleo mundial e grande parte dos fertilizantes agrícolas que alimentam cadeias produtivas em todos os continentes. Além desses recursos, o estreito também é uma rota vital para insumos da indústria de tecnologia, como o hélio – essencial para o resfriamento de equipamentos que produzem chips. Vale destacar que 64,7% do hélio importado pelo setor de semicondutores da Coreia do Sul é fornecido pelo Catar e escoado, em grande parte, por Ormuz.

Contudo, a relevância do estreito vai muito além das necessidades logísticas. A agência iraniana Tasnim News Agency, alinhada com o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC), publicou uma reportagem sobre os cabos submarinos e a infraestrutura de nuvem do Golfo Pérsico, que exibia um mapa dos sistemas de fibra óptica mais críticos da região, com destaque para o sistema FALCON, e foi interpretada pelo MEMRI e pela Iran International como uma ameaça velada ao corte deliberado dessas infraestruturas. O temor era de que a interrupção simultânea desses cabos pudesse provocar apagões digitais severos com impacto muito além do Oriente Médio.


Ao contrário da percepção comum, o funcionamento da internet não é provido primariamente por satélites, mas sim por mais de seiscentos cabos submarinos que percorrem o fundo dos oceanos. Essas infraestruturas são responsáveis pela transmissão de mais de 99% do tráfego intercontinental de dados: informações pessoais, governamentais e financeiras. Na economia, esses cabos viabilizam mais de 10 trilhões de dólares em transações financeiras diárias. Essa importância é amplificada pela crescente demanda das empresas de tecnologia por dados em escala massiva, essenciais para o treinamento de modelos de inteligência artificial. Por isso, os cabos de fibra óptica intercontinentais tornaram-se o centro de disputas geopolíticas entre potências como Estados Unidos e China, que competem pela instalação, controle e manutenção dessas infraestruturas críticas.

De acordo com dados do International Cable Protection Committee (ICPC), entre 150 e 200 cabos são danificados anualmente por atividade humana acidental, principalmente ancoragem e pesca. Embora a maioria desses rompimentos seja considerada acidental, crescem as suspeitas de sabotagem deliberada. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o número de incidentes no Mar Báltico aumentou de forma sistemática. Em novembro de 2024, o navio chinês Yi Peng 3, que havia partido do porto russo de Ust-Luga, foi investigado pelo rompimento de dois cabos no Mar Báltico em menos de 24 horas: o cabo BCS, que conecta Suécia e Lituânia, cortado em 17 de novembro, e o C-Lion1, que liga Alemanha e Finlândia, cortado no dia seguinte. O ministro da Defesa alemão Boris Pistorius afirmou publicamente que assumia tratar-se de sabotagem. Esses eventos levantaram a suspeita de uma guerra híbrida submarina destinada a fragilizar a economia europeia em meio às tensões do conflito ucraniano. Taiwan, por sua vez, registra um número crescente de incidentes de cabos danificados nas suas águas costeiras, com cinco casos em 2025 contra três em cada um dos dois anos anteriores, segundo o Ministério de Assuntos Digitais de Taipé.

É nesse contexto estratégico e de ameaças que se inserem as infraestruturas submersas no Estreito de Ormuz. Embora a maioria das fibras submarinas intercontinentais apenas contorne o Oriente Médio, algumas entram pelo Estreito de Ormuz e são os “cordões umbilicais” da região.Foto: Domínio público

Entre os cabos mais críticos que atravessam Ormuz, três se destacam pelo impacto potencial de um corte.

O Gulf Bridge International Cable System/Middle East North Africa Cable System (GBICS/MENA), conhecido como GBI, é considerado o cabo mais importante intra-Golfo. Sediado no Catar, ele desenha um “anel” dentro do Golfo Pérsico, conectando todos os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã – além de possuir ligações fundamentais no Iraque (em Al Faw), no Irã e na Índia. Sua conectividade garante também a ligação com o continente europeu.

O sistema Asia Africa Europe-1 (AAE-1), com 25 mil km de extensão, é um dos maiores troncos globais de dados, interligando Ásia, África e Europa. Como parte de seu trajeto atinge o Golfo Pérsico, seu corte teria implicações que vão além da economia regional, impactando significativamente o tráfego de dados para o continente asiático. O FALCON conecta Índia, Omã, países do Golfo e o Egito, e tem sido explicitamente citado por agências de notícias ligadas a militares iranianos como um “alvo estratégico” – tornando-o símbolo mais visível dessa dimensão do conflito em Ormuz. A interrupção de qualquer um desses sistemas teria consequências que vão muito além da conectividade regional.

Embora a arquitetura da internet seja projetada para garantir redundância, o corte de um cabo submarino não afeta apenas serviços de streaming convencionais, mas a própria economia e a defesa globais. As consequências imediatas incluem o atraso nas transações do SWIFT e a degradação da latência em plataformas de nuvem que gerenciam a extração inteligente de petróleo em refinarias e plataformas marítimas, o que pode impactar o preço da energia para o consumidor final.

A dimensão militar é igualmente crítica. A “máquina de guerra” dos Estados Unidos depende maciçamente desses dados, afetando diretamente o Comando Central (CENTCOM) no Catar e a 5ª Frota no Bahrein. Embora as Forças Armadas façam uso de satélites de órbita baixa como o Starlink/Starshield, existe um limite real para o que a banda de satélite consegue suportar: a vigilância por drones de alta resolução e a logística de operações de grande escala ainda exigem a capacidade dos cabos físicos de fibra óptica. Satélites oferecem mobilidade; cabos oferecem volume. Em uma guerra de alta intensidade no Golfo, essa distinção pode ser decisiva.

Nos últimos anos, com o objetivo de transformar suas economias de extrativistas para tecnológicas, os países do Golfo têm atraído pesados investimentos de empresas como Amazon, Microsoft, Google, Oracle e Nvidia. Diante da crescente instabilidade dos mares, cada país revelou uma postura estratégica distinta frente à vulnerabilidade dos cabos.

Os protegidos são aqueles que, por geografia ou planejamento, conseguem contornar o gargalo de Ormuz. Os Emirados Árabes Unidos (EAU) consolidaram-se como o polo de inteligência artificial do Oriente Médio, com empresas como a G42 e o modelo de linguagem Falcon LLM, além do centro financeiro de Dubai – todos demandando larguras de banda colossais. A estratégia dos EAU reside no fato de ser o único país da região banhado pelo Golfo de Omã, o que lhes garante uma saída do Estreito. Isso permitiu concentrar a aterrissagem de cabos em Fujairah: em caso de bloqueio em Ormuz, Abu Dhabi e Dubai permaneceriam conectadas ao mundo, transmitindo dados por terra até o litoral externo. Omã, por sua vez, capitalizou sua localização geográfica com investimentos que transformaram Muscat e Salalah em grandes polos de data centers – como os da Equinix. Estrategicamente, Omã atua como um grande bypass para Europa e Ásia, não sendo diretamente impactado por cortes dentro do Estreito.

Os vulneráveis são aqueles cujos cabos precisam cruzar todas as águas tensionadas do Golfo. O Catar exemplifica essa exposição: apesar de concentrar o Qatar Science & Technology Park e atrair provedores como Google Cloud e Microsoft Azure, vitais para seu setor financeiro e para serviços de mídia como a Al Jazeera, seu confinamento geográfico dentro do Golfo Pérsico o torna altamente frágil. Um corte nos cabos submarinos obrigaria Doha a depender de rotas terrestres que cruzam a Arábia Saudita. A Arábia Saudita, embora geograficamente menos confinada que o Catar, também enfrenta exposição significativa: sua Vision 2030 depende de conectividade digital robusta – o país investiu mais de US$ 1 bilhão em novos cabos submarinos para se tornar hub digital regional –, e seus principais sistemas compartilham as mesmas rotas tensionadas do Golfo e do Mar Vermelho. Kuwait e Iraque, posicionados no extremo norte do Golfo, seriam ainda mais afetados: qualquer sistema que os sirva precisa cruzar todas as águas tensionadas de Ormuz. O Kuwait, em particular, cuja Vision 2035 – o plano “New Kuwait” de transformação da economia em hub tecnológico-financeiro regional – depende criticamente de parcerias com empresas globais de tecnologia e de conectividade externa para ser executado.

Os oportunistas são aqueles que podem transformar a crise em vantagem. O Iraque, através de sua estação de aterrissagem em Al Faw, é visto tanto como um ponto vulnerável quanto como uma rota alternativa. Diante da periculosidade dos mares, cresce o interesse em rotas terrestres alternativas, como o projeto “Development Road” – um corredor de US$ 17 bilhões que ligaria o porto iraquiano de Al Faw à fronteira turca e, daí, à Europa –, concebido originalmente para logística de mercadorias, mas cada vez mais relevante também como possível rota alternativa para cabos terrestres de fibra óptica caso os corredores marítimos de Ormuz e do Mar Vermelho venham a falhar simultaneamente.

A limitação do tráfego naval imposta em Ormuz restringe a movimentação dos navios de manutenção de cabos submarinos, aumentando ainda mais a vulnerabilidade dessas infraestruturas a danos e ataques.

O Oriente Médio ficou incrivelmente rico exportando petróleo pelos mares. Mas seu futuro na economia digital pode ser refém dos mesmos corredores. Para mitigar essa dependência, a solução emergente poderia ser o enterramento de cabos terrestres pelo deserto (interligando Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã e Jordânia), já que os mares se tornaram militarmente voláteis demais para as fibras ópticas responsáveis por mais de 99% do tráfego intercontinental de dados e, com ele, a maior parte da economia digital do planeta.

Se os oceanos se tornaram zonas de guerra híbrida, a pergunta que permanece é geopolítica antes de ser técnica: a prioridade será aprimorar a segurança e a governança dos vulneráveis cabos submarinos, ou a disputa será focada em quem controlará as rotas terrestres do futuro digital, traçadas pelos desertos? A resposta pode definir o equilíbrio de poder do século XXI tanto quanto o petróleo definiu o do século XX.

Os ataques online estão mais inteligentes e a culpa também é nossa

A curiosidade sempre foi o motor do hacker. Era verdade nos anos 80, quando tive contacto com a minha primeira linha de código, e continua a ser verdade hoje, mesmo que o contexto tenha mudado radicalmente.

O meu primeiro computador foi um ZX Spectrum. Entre jogos simples e gráficos rudimentares, muitos de nós acabámos por descobrir a programação quase por acidente. Queríamos perceber como tudo funcionava, principalmente os jogos, explorar possibilidades e, claro, tentar “enganar o jogo” para obter a maior pontuação possível. Talvez seja justo dizer que aprendi a programar precisamente por causa dessa curiosidade.


Hoje, provavelmente, bastaria abrir, por exemplo, o ChatGPT e escrever algo como: “Cria um código em BASIC para vencer o Chuckie Egg.” A Inteligência Artificial daria a solução em segundos. O objetivo seria atingido, mas o caminho seria completamente diferente. E é precisamente aí que encontramos uma das maiores transformações desta nova era.

Fico, aliás, com uma dúvida curiosa: teria aprendido realmente a programar se tivesse crescido com Inteligência Artificial disponível à distância de um simples prompt?

A Inteligência Artificial entrou em praticamente todas as áreas da nossa vida: trabalho, saúde, lazer e, inevitavelmente, cibersegurança. Os algoritmos atuais conseguem analisar padrões, escrever código, gerar imagens realistas e até simular vozes humanas com uma precisão impressionante. Tudo isto traz vantagens enormes, mas também riscos enormes. E os atacantes perceberam rapidamente o potencial.

O que antes exigia tempo, conhecimento técnico e alguma experiência, hoje pode ser automatizado e acelerado com IA. Vemos isso em ataques de phishing cada vez mais convincentes, escritos sem erros e adaptados à vítima. Vemos isso também na criação de palavras-passe prováveis com base em informação pública e nos deepfakes de áudio e vídeo, capazes de simular vozes e rostos com uma precisão difícil de distinguir da realidade.

Mas talvez a mudança mais importante seja outra: a IA tornou os ataques mais pessoais.

Grande parte da informação utilizada nestes ataques vem de nós próprios. Das redes sociais, das fotografias, das rotinas que partilhamos online sem pensar muito nisso. Publicamos viagens, aniversários, preferências pessoais, nomes de familiares e até detalhes aparentemente irrelevantes do nosso dia a dia. Isoladamente, parece tudo inofensivo. Junto, transforma-se em matéria-prima perfeita para ataques personalizados e emocionalmente eficazes,.

As redes sociais deixaram de ser apenas espaços de partilha. São também enormes bases de dados comportamentais. E quanto mais informação entregamos, mais fácil se torna construir ataques convincentes, credíveis e difíceis de detetar.

O problema é que continuamos a olhar para a cibersegurança como um tema técnico, quando muitos dos ataques continuam a explorar algo muito mais simples: distração, confiança excessiva, impulsividade e excesso de exposição online.

A tecnologia mudou. O alvo continua a ser a pessoa.

E é isso que torna esta nova era particularmente desafiante. Porque já não basta desconfiar de links estranhos ou emails mal escritos. Hoje, a fraude pode ter a voz de alguém que conhecemos, pode parecer legítima e pode ser praticamente indistinguível da realidade.

Os ataques cresceram em velocidade, escala e sofisticação. E vão continuar a crescer. A diferença é que, daqui para a frente, serão cada vez mais difíceis de reconhecer, porque serão construídos à nossa medida, com a informação que nós próprios fornecemos.

Por isso, a verdadeira defesa já não passa apenas por tecnologia. Passa por hábitos, consciência e literacia digital. Perceber o que devemos fazer, mas sobretudo o que devemos evitar tornou-se tão importante quanto qualquer firewall.

No fundo, talvez a melhor defesa seja a mesma que me levou a aprender a programar: a curiosidade de perceber como as coisas funcionam, antes de alguém as usar contra nós.

Trump apoia De la Espriella e Petro defende votação livre

O presidente dos EUA, Donald Trump, ofereceu ontem seu apoio na terça-feira ao candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella, que disputará a presidência da Colômbia no segundo turno das eleições, em 21 de junho, contra o esquerdista Iván Cepeda.

"Os resultados desta eleição são muito importantes para o futuro da Colômbia e para o seu relacionamento com os Estados Unidos. Pelas suas grandes conquistas na vida e pelo apoio que me deu pessoalmente, tenho a honra de conceder a Abelardo o meu total e irrestrito apoio", escreveu Trump na Truth Social.

Trump descreveu De la Espriella como um líder "inteligente, forte e determinado" que luta pelo seu país e garantiu que, se ele se tornasse presidente, promoveria o crescimento econômico, a criação de empregos, o comércio, o combate ao crime e ao tráfico de drogas, bem como a restauração da "lei e da ordem".

O presidente dos EUA também destacou a importância do segundo turno para o futuro da Colômbia e para a relação bilateral com os Estados Unidos, observando que o candidato colombiano enfrentará um candidato do que ele chama de "esquerda radical" nas eleições finais.

Trump também afirmou que era uma "honra" dar seu apoio a De la Espriella, citando tanto suas conquistas profissionais quanto seu apoio político ao presidente dos EUA, e concluiu garantindo que "El Tigre" não decepcionaria o povo colombiano.

As felicitações do republicano surgem horas depois de o Registro Nacional da Colômbia ter confirmado que 99,94% dos resultados da contagem preliminar foram apurados, colocando de la Espriella como o mais votado, seguido pelo esquerdista Iván Cepeda, o que significa que ambos disputarão a Presidência no segundo turno, em 21 de junho.

A Missão de Observação Eleitoral da União Europeia (EU EOM) descartou hoje "qualquer manipulação" dos dados, tanto na contagem preliminar quanto na contagem final dos votos do primeiro turno das eleições presidenciais , e enfatizou que as eleições foram realizadas de forma "ordenada, transparente e fluida".

O chefe da missão e vice-presidente do Parlamento Europeu, Esteban González Pons, garantiu que uma auditoria do software utilizado na contagem preliminar dos votos foi encomendada a uma organização internacional e que os partidos que a solicitaram receberam as conclusões "dois dias antes das eleições".

Contrariando as afirmações do presidente Gustavo Petro, ele disse ter "provas concretas de possível fraude", que entregará às autoridades competentes.

Petro visitou Trump em Washington em fevereiro passado, num contexto de tensão regional devido às ameaças diretas do republicano de intervir na Colômbia, tal como fizera com a Venezuela.

Após tomar conhecimento do apoio de Trump a De la Espriella, Petro criticou seu homólogo americano e pediu aos cidadãos que "votassem com total liberdade".

A esse respeito, o presidente colombiano disse ao seu homólogo americano: "Toda uma geração de jovens homens e mulheres de Nova Granada lutou ao lado de (os heróis Simón) Bolívar e (Antonio) Nariño para nos dar Liberdade e Soberania. Se o coração do mundo perder sua liberdade e soberania, a esperança do mundo e da Colômbia se extinguirá."

O inesperado “L” feito por Donald Trump

A intenção de Donald Trump certamente não era essa, mas não exagera quem diz que ele fez o “L” de Lula ao anunciar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. Tarifaço ou, se preferirem, “Tariflávio”, como passou a ser chamado nas redes sociais para desespero do inexperiente e sem ideias senador Flávio Bolsonaro, candidato do seu pai à Presidência da República e herdeiro dos seus votos, pelo menos até aqui. Amanhã, talvez perca uma parte deles, nunca se sabe. Flávio sangra desde que se envolveu no escândalo do Banco Master, amiguinho de unha e carne de Daniel Vorcaro, que está preso. Está ameaçado de seguir sangrando. A política tem dessas coisas.

O PIX foi criado pelo Banco Central no governo de Jair Bolsonaro, o qual, a princípio, não soube dizer do que se tratava. Quando o informaram, explorou-o a seu favor na campanha para se reeleger. Em janeiro de 2025, a direita propagandeou que Lula taxaria o PIX — notícia falsa, mas que derrubou a popularidade de Lula. O primeiro tarifaço de Trump serviu para que Lula se enrolasse na bandeira nacional, passasse a defender a soberania do Brasil e recuperasse pontos perdidos. Ora, vejam só: agora é Trump, depois de ser visitado por Flávio na Casa Branca, que quer acabar com o PIX. Coitado do Flávio.

Perguntou-se até ontem: afinal, quando Lula e o PT começariam a bater duramente em Flávio, que há meses vem batendo duramente em Lula e no PT? O dia chegou com mais uma tentativa de Trump de intervir nos assuntos internos do Brasil. Flávio foi obrigado a defender-se publicamente três vezes no curto período de 24 horas.


Na primeira, em um vídeo, negou que tivesse pedido a Trump para punir o Brasil com um novo tarifaço, e culpou Lula pelo que Trump fez, acusando-o de se distanciar dos Estados Unidos. Não colou. Então, Flávio divulgou uma carta que diz ter enviado a Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos, na qual pede a suspensão do tarifaço e agradece a equiparação de organizações criminosas do Brasil a organizações terroristas — coisa que elas não são. Não bastou.

À noite, em Belo Horizonte, disse que processará Lula por ter desejado sua morte por enforcamento. Aproveitou para comparar-se a Tiradentes, o líder da Inconfidência Mineira e herói nacional, morto enforcado e cujo corpo foi esquartejado. Lula chamou Flávio de “imbecil” e de “vendilhão da Pátria”, referindo-se a Joaquim Silvério dos Reis, que traiu os inconfidentes, como alguém que teria sido morto enforcado. Confundiu-se. O único enforcado foi Tiradentes. Se Flávio pensa que isso subtrairá votos de Lula, insista em vitimar-se para ver no que vai dar: em nada.

Os torpedos disparados por Trump contra o Brasil atingiram todos, em cheio, a Flávio. Trump definiu Flávio como “um rapaz esperto que ama seu país”; divulgou uma foto na qual Flávio aparece reunido com ele na Casa Branca; designou para embaixador dos Estados Unidos no Brasil um deputado da Flórida que reza pela cartilha de Rubio; e disse que apoia à presidência da Colômbia a candidatura do advogado ultradireitista Abelardo de la Espriella, por sinal um admirador de Jair Bolsonaro.

Em depoimento a uma comissão do Congresso, Rubio citou Cuba, Nicarágua, Venezuela, Colômbia e Brasil como países não amigos dos Estados Unidos. Embora não confesse, Lula está grato, gratíssimo a Trump pelo apoio subliminar à sua candidatura.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Queremos continuar a ser humanos na era da IA?

Num mundo dominado pela rapidez de decisões e pela emotividade das reações, ainda bem que há quem continue a insistir em pensar demoradamente sobre os assuntos, a refletir sobre os vários caminhos que podem ser tomados e, no final, a ser capaz de o transmitir através de um texto extenso, mas muito bem estruturado, repleto de citações e de referências confiáveis. Para um não católico como eu, foi isso que mais me inspirou – ou quase emocionou – quando comecei a ler a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), divulgada na manhã de segunda-feira, poucas horas antes do fecho desta edição. São mais de 43 mil palavras, na sua versão em português, em que, sob o subtítulo Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial, o líder de uma das mais importantes religiões do planeta procura alertar a Humanidade para o tempo delicado em que vivemos. E para a urgência que deve impelir, cada um de nós, independentemente da sua crença, a impedir a desumanização galopante, impulsionada pelo capitalismo tecnológico global.

Alguns dos princípios vertidos agora para o texto já haviam sido proferidos por Robert Prevost, há um ano, nas suas primeiras intervenções públicas como Papa. “A tecnologia não pode ser uma ferramenta ao serviço do fanatismo ou da divisão. Ela deve aproximar-nos, não afastar-nos”, afirmou, no seu primeiro encontro com os jornalistas.

Agora, na primeira publicação marcante de seu papado, após 12 meses alucinantes no desenvolvimento e na popularização das ferramentas de Inteligência Artificial, nomeadamente a sua utilização permanente e massiva em cenários de guerra, Leão XIV é mais eloquente, abordando a ameaça que ela representa para os trabalhadores, a justiça social e, acima de tudo, para “a dignidade das pessoas”.


O Papa apela explicitamente à regulação internacional das grandes empresas tecnológicas que, em muitos casos, detêm um poder que rivaliza ou até já ultrapassa o dos próprios Estados soberanos. E, nesse sentido, Leão XIV transmite uma mensagem profunda que é hoje absolutamente imperativa: “É preciso desarmar a Inteligência Artificial.”

Como o fazer? As suas reflexões deviam, no mínimo, convocar ao debate. Primeiro, a IA deve ser subtraída da competição em que está inserida atualmente, em que “a corrida ao algoritmo mais eficaz e ao banco de dados mais vasto” apenas tem como objetivo ganhar ou consolidar “uma vantagem geopolítica ou comercial sobre todos os outros”. Nesse campo, Leão XIV é categórico: “Retirar a IA dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável, devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e das formas de vida.”

Porque é isto urgente? Simplesmente, porque devemos querer todos continuar a ser humanos, mesmo com os nossos erros e imperfeições. Ou seja, devemos querer continuar a ter a capacidade de, entre outras coisas, “saber cuidar uns dos outros”. E não de nos transformarmos em seres que, quando não correspondem a um arquétipo de perfeição, parece que têm defeitos que precisam de ser corrigidos pela tecnologia – sejam esses “defeitos” a incapacidade, a doença, a velhice, o sofrimento ou a vulnerabilidade.

Na encíclica, Leão XIV não cita nomes, mas é fácil perceber como Donald Trump e alguns dos seus mais próximos apoiantes, como Elon Musk e Peter Thiel, bem como muitos líderes da extrema-direita, estão entre os alvos dos seus avisos. Para o Papa, “vivemos numa época de notável cegueira espiritual e cultural”, em que já se chega ao ponto de “um falso pragmatismo nos convidar a cortar as raízes da memória”, fazendo muitos acreditar “ilusoriamente que as atrocidades do século XX não podem mais ser repetidas”.

Por isso, o Papa faz questão de nos avivar a memória. E de recordar alguns princípios que muitos consideram estar em desuso, mas que são aquilo que nos torna humanos: a importância do trabalho digno, a solidariedade, o respeito pela imigração, a recusa em normalizar as guerras, e uma série de outros pontos dignos de reflexão.

Numa era de discussão em Portugal do chamado pacote laboral, há uma frase de Leão XIV que deveria ser levada à mesa da concertação: “É necessário conceber sistemas centrados na pessoa e não apenas no desempenho.”

O apelo, portanto, não é contra a IA, mas pela regulação urgente da IA – que não pode ficar na posse de meia dúzia de multimilionários, para quem a Humanidade é um brinquedo, que podem usar a seu bel-prazer. Ainda bem, por isso, que um líder religioso que tem este peso se indigna com um futuro em que o trabalho corre o risco de se tornar novamente escravo e em que a capacidade de compaixão é ditada por algoritmos. O risco está à vista, como refere Leão XIV: “Quando a eficiência se torna a medida do valor, o ser humano é tentado a pensar-se como um projeto a otimizar, mais do que como uma criatura chamada à relação e à comunhão”, escreve. No mínimo, cabe-nos, a nós, agora, manter esse debate vivo e deixarmos de ser apenas espectadores passivos de uma evolução controlada apenas pelos mais poderosos.

A trágica mutação do sionismo

O prestígio acumulado era imenso, aparentemente inesgotável. Agora, sinais alarmantes não deixam margem para engano. Na melhor das hipóteses, a nação judaica e o sionismo, sua ideologia fundadora, desceram ao mesmo nível de qualquer outro nacionalismo, sujeitos ao escrutínio quanto ao respeito pelos princípios e valores democráticos e às salvaguardas que todos os excepcionalismos merecem ao conceder a uma nação direitos particulares acima de outras. Na pior das hipóteses, já foram condenados pela opinião internacional após as guerras desencadeadas desde 2023, não apenas pela escala dos massacres, mas sobretudo por seus objetivos inegáveis, denunciados como genocidas por inúmeras instituições e países e provisoriamente relegados ao inferno das ideologias e estados párias, aguardando apenas os veredictos que os tribunais um dia proferirão.


O diagnóstico foi escrito em 1967, quando Israel ocupou Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, transformando o território sob seu controle em uma região de população mista, metade judaica e metade palestina. Os primeiros gozavam de plenos direitos e liberdades, enquanto os últimos viviam sob um regime militar sem qualquer proteção aos seus direitos individuais ou coletivos. Não havia outra opção senão reconhecer a igualdade de todos como cidadãos de um único Estado compartilhado ou retirar-se dos territórios ocupados para que os palestinos pudessem desfrutar da cidadania em seu próprio Estado. Se Israel recusasse qualquer uma dessas opções, não poderia manter seu status de democracia liberal, reduzindo-se a uma democracia étnica com um segmento despossuído da população vivendo sob um regime de apartheid ou dominação colonial.

Tal foi o resultado democrático dos Acordos de Oslo em 1993, cujo objetivo era a devolução dos territórios em troca da paz, um esforço imediatamente frustrado pelo assassinato de seu arquiteto israelense, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, pelas mãos de um militante sionista radical violento, da mesma linha de pensamento de Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir, os dois ministros do governo Netanyahu. Com esse processo de paz agora extinto e a ocupação expandida pelas ações dos colonos na Cisjordânia e pela destruição de Gaza, nada resta a ser oferecido aos palestinos, exceto sua expulsão gradual do território remanescente de sua pátria perdida.

A menos que haja uma mudança política e eleitoral repentina em outubro próximo, o abismo em que o sionismo caiu ameaçará até mesmo o futuro de Israel, um país do qual muitos desejarão fugir, em vez de permanecer como a pátria atraente para os judeus que foi ao longo de sua história. Seu caráter cada vez mais autoritário e iliberal, seu governo de extrema-direita, messiânico e supremacista, e seu estado perpétuo de guerra o tornam um lugar inóspito para qualquer pessoa. Mesmo nos Estados Unidos, seu aliado e protetor incondicional, as pesquisas detectaram um colapso em seu prestígio, especialmente entre os jovens, inclusive em círculos conservadores e trumpistas.

Pela primeira vez, o governo israelense está perdendo a batalha da propaganda, auxiliado por imagens apocalípticas de destruição e assassinatos; pelos maus-tratos infligidos a prisioneiros por seu exército, incluindo ativistas pró-Palestina das flotilhas de solidariedade capturados no mar; e pelos relatos estarrecedores de tortura generalizada, abuso sexual e estupro de homens e mulheres em suas prisões . Só faltou a reinstalação da pena de morte exclusivamente para terroristas palestinos e a perspectiva de um julgamento em massa contra combatentes do Hamas — entre duzentos e trezentos detidos que participaram do ataque israelense de 7 de outubro de 2023 — cuja provável execução apenas reforçará a imagem de um Estado que busca vingança, não a paz.

Para muitos sionistas, nada é mais cruel e insuportável do que enfrentar acusações de crimes contra palestinos, crimes legalmente definidos como muito semelhantes aos sofridos pelos cidadãos judeus europeus nas mãos do nazismo. É como se, por um efeito inverso, as ideias que serviram para a emancipação e a autodeterminação nacional dos judeus europeus tivessem se transformado “em uma ideologia etnonacionalista de um Estado militarista, centralizado, expansionista, racista e até genocida”, como escreveu o historiador israelense Omer Bartov.

Um intenso debate envolve intelectuais e acadêmicos israelenses que se opõem ao governo Netanyahu. Alguns acreditam que a tragédia atual era inerente aos ideais sionistas originais, outros ainda aspiram a reviver um sionismo liberal, e outros ainda lamentam a perda da última oportunidade de retificação com o fracasso de Oslo. Um prestigiado intelectual francês como Alain Finkielkraut, um defensor ferrenho de Israel e brilhante combatente do antissemitismo de esquerda, embora a favor do reconhecimento do Estado palestino, expressou com propriedade a consternação que agora toma conta dos amigos de Israel: “Pela primeira vez na história, devemos confrontar o ódio sem o conforto da inocência.”

Erros e mentiras não bastam para derrubar Flávio Bolsonaro

Dê-me uma razão, uma só, para que um bolsonarista raiz, de carteirinha, abandone Flávio e vote em outro candidato a presidente da República capaz de derrotar Lula.

Ah, mas Flávio mentiu ao dizer que mal conhecia Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e financiador do filme de exaltação a Jair Bolsonaro. E daí? Qual político não mente?


De resto, não está provado que Flávio e Vorcaro fossem unha e carne. Não está provado que parte do dinheiro tenha sido desviada para encher os bolsos de Flávio ou pagar as contas de Eduardo, irmão dele, refugiado nos Estados Unidos.

Ah, mas Flávio apoiou o tarifaço de Donald Trump contra os produtos brasileiros e bateu à porta dele na Casa Branca para pedir que Trump declarasse o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) organizações terroristas.

Há uma diferença enorme entre organizações criminosas e organizações terroristas: as primeiras querem enriquecer por meio da venda de drogas; as segundas, derrubar governos, defender ideologias, e não se furtam a fazer isso às custas de muitas vidas inocentes.

O bolsonarista raiz, de carteirinha, simplesmente não acredita nisso; história contada pela esquerda para enganar os tolos. Organizações criminosas disseminam o terror para lucrar mais. O governo do PT é aliado delas ao se negar a combatê-las.

Flávio, um homem de coragem, oriundo de um estado, o Rio de Janeiro, onde o terror impera, fez o certo: pediu ajuda a Trump e ele o atendeu. Nem vem com a conversinha de que ele desrespeitou a soberania do Brasil. Outro dia, ao se referir ao CV e ao PCC, Lula chamou-os de “nossos terroristas”. Ou não foi?

Sim, mas e se, por qualquer razão, Flávio continuar a perder pontos nas pesquisas de intenção de voto? E se um dos demais candidatos da direita avançar nas pesquisas e ameaçar tomar o seu lugar?

A mais recente Pesquisa Real Time Big Data, divulgada ontem, mostra que Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, e Romeu Zema (NOVO), ex-governador de Minas Gerais, empatam ou chegam perto de Lula num eventual segundo turno, enquanto Flávio (PL) perde por cinco pontos.

Os dois já se comprometeram a anistiar Bolsonaro e os demais condenados pela tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023.

O bolsonarista arguto (eu sei que não existem tantos) lembrará que, para disputar o segundo turno, Caiado ou Zema terá que passar pelo primeiro e, para isso, terá que ser mais votado do que Flávio. Por que acreditar que isso será possível?

Por que votar numa cópia envergonhada de Bolsonaro se se pode votar numa cópia quase tão perfeita, no caso Flávio, o filho do homem, que jamais trairia o pai?

Se a direita não bolsonarista, apenas oportunista, deseja voltar ao poder, que espere até 2030. A vez agora não é dela. Ou então que reze em silêncio e atue discretamente para que Lula derrote Flávio.

Porque, se Flávio se eleger, tentará se reeleger. Lula, não. Daqui a quatro anos, ele terá que ir para casa, goste ou não.

Imoralidade tributária

O Brasil não vai dar certo. Falta-nos o sentido de comunidade. Se um dia já circulou por aqui a ideia de que os custos para a manutenção do Estado precisam ser divididos de forma mais ou menos equânime entre todos, pessoas e instituições, essa é uma noção que foi abandonada.

Mais um eloquente exemplo disso foi dado pelos deputados na semana passada, quando aprovaram uma emenda constitucional que amplia para níveis absurdos a imunidade tributária das igrejas. Pela PEC, que ainda precisa passar pelo Senado, o poder público fica impedido de cobrar impostos sobre tudo o que elas possuem, pelos serviços que contratam e até por itens que consomem. É isso mesmo, templos não pagariam um centavo de imposto seja sobre os jatinhos que compram para espalhar a palavra de Deus, seja sobre a comida com que saciam a fome de seus ministros, do pão ázimo ao caviar.


E fica pior. Os deputados não se limitaram a ampliar o rol das isenções. Também as estenderam para entidades assistenciais ligadas a igrejas, como creches, escolas, comunidades terapêuticas, hospitais. No limite, até um banco operado por instituição clerical ficaria livre de tributos. O risco de perdição das contas públicas só não é imediato porque a PEC exige a elaboração de uma lei complementar para regulamentar a matéria.

Não é só de imoralidade tributária que estamos falando. A extensão dos benefícios a entidades vinculadas a igrejas introduz graves distorções concorrenciais. Uma escola ligada a religiosos teria custos transubstancialmente menores do que os de um colégio particular. Se todos os agentes econômicos agirem racionalmente, eles se converterão em entidades religiosas ou se associarão a uma. Como já demonstrei no passado com a criação de uma igreja, fazê-lo é muito fácil e barato.

A prosperar essa lógica, em pouco tempo o poder público não teria mais de quem cobrar tributos. O lado bom é que isso limitaria o poder de congressistas de torrar com emendas parlamentares. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Gaza e o desgaste moral do Ocidente

Quando ativistas europeus surgiram algemados após a interceção israelita da flotilha humanitária que tentava aproximar-se de Gaza, o impacto político das imagens foi imediato em várias capitais europeias. Não apenas pelo incidente diplomático em si, mas porque aquele episódio expôs, de forma particularmente desconfortável para o Ocidente, uma realidade cada vez mais difícil de ignorar desde o início da guerra: a de que o conflito deixou há muito de ser apenas uma questão regional do Médio Oriente e passou a transformar-se num teste decisivo à credibilidade moral e política das democracias ocidentais.

Pela primeira vez em muitos meses, cidadãos europeus surgiam expostos, ainda que momentaneamente, à mesma lógica de vulnerabilidade e impotência que passou a marcar o quotidiano em Gaza. O episódio condensou simbolicamente uma inquietação crescente dentro da Europa, onde aumenta o receio de que o custo internacional da guerra já ultrapasse largamente os limites da dimensão militar e humanitária do conflito.


A verdadeira dimensão geopolítica da guerra talvez resida precisamente nesse ponto. Gaza transformou-se num espelho desconfortável das contradições da ordem internacional construída pelos Estados Unidos e pela Europa após a II Guerra Mundial.

Durante décadas, o poder ocidental não assentou apenas na superioridade militar, tecnológica ou financeira, mas sobretudo na capacidade de apresentar os seus valores políticos como referências universais de legitimidade internacional. Direitos humanos, legalidade multilateral, proteção de civis, defesa da democracia liberal e respeito pelo direito internacional converteram-se em instrumentos centrais de influência global. Foi essa autoridade moral que permitiu ao Ocidente condenar invasões, impor sanções e definir, em larga medida, os parâmetros éticos da política internacional contemporânea.

Existem momentos históricos em que a distância entre os princípios proclamados e a realidade observada se torna demasiado visível para continuar a ser administrada diplomaticamente. Gaza poderá estar a tornar-se exatamente esse momento. A devastação humanitária acumulada ao longo dos últimos meses, o colapso das infraestruturas civis, a dimensão das mortes, as deslocações forçadas e a perceção crescente de punição coletiva começaram a produzir um desgaste político internacional muito superior ao inicialmente previsto pelas principais capitais ocidentais.

A dificuldade tornou-se particularmente delicada porque o conflito expôs uma contradição estrutural profundamente desconfortável para as democracias liberais. Desde o 7 de outubro de 2023, governos europeus e norte-americanos procuraram equilibrar duas realidades politicamente difíceis de conciliar: o reconhecimento do trauma provocado pelos ataques do Hamas e das preocupações de segurança israelitas; e, ao mesmo tempo, a crescente incapacidade de justificar, perante parte significativa da comunidade internacional, a dimensão da destruição humanitária produzida pela guerra.

Esse equilíbrio deteriorou-se à medida que bairros inteiros reduzidos a ruínas, civis encurralados e hospitais colapsados passaram a dominar o espaço mediático internacional. O problema deixou então de ser exclusivamente militar ou diplomático. Tornou-se moral, narrativo e civilizacional.

Em grande parte do Sul Global — particularmente em países africanos, árabes, asiáticos e latino-americanos — consolidou-se a perceção de que o Ocidente aplica os princípios do direito internacional de forma seletiva, condicionando frequentemente a defesa dos direitos humanos aos seus interesses estratégicos e às suas alianças políticas.

Essa leitura não se disseminou apenas entre governos tradicionalmente hostis a Washington ou Bruxelas. Espalhou-se igualmente por universidades, organizações internacionais, fóruns diplomáticos e setores da sociedade civil que durante décadas olharam para a Europa e para os Estados Unidos como referências relativamente estáveis de legitimidade democrática.

A crescente pressão no espaço político europeu para o reconhecimento formal do Estado palestiniano reflete precisamente esse desconforto. Nos bastidores de Bruxelas tornou-se evidente o receio de que a continuidade do conflito provoque um dano estrutural à imagem internacional do continente, sobretudo junto das novas gerações e dos países emergentes.

O reconhecimento da Palestina deixou gradualmente de ser encarado apenas como uma questão diplomática relacionada com o Médio Oriente e começou a assumir, em várias capitais ocidentais, o significado político de uma tentativa de recuperar parte da credibilidade internacional perdida ao longo da guerra.

Essa erosão de legitimidade tornou-se ainda mais sensível porque ocorre num momento de fragilidade crescente das próprias democracias ocidentais. A polarização política, a ascensão dos populismos, a radicalização digital e a perda de confiança institucional já fragilizavam a autoridade moral do Ocidente muito antes de Gaza ocupar o centro do debate internacional. A guerra funcionou, nesse contexto, como um acelerador brutal de tendências que já estavam em curso.

Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, parte significativa da opinião pública internacional começou a questionar não apenas decisões concretas da política externa ocidental, mas a própria coerência do modelo político e moral que sustentou durante décadas a liderança internacional dos Estados Unidos e da Europa.

A China percebeu rapidamente o alcance estratégico dessa transformação. A Rússia também. Pequim explora de forma sistemática o desgaste moral do Ocidente para reforçar a ideia de uma ordem internacional multipolar menos subordinada aos critérios políticos definidos por Washington.

Moscovo utiliza o conflito para denunciar aquilo que descreve como incoerência estrutural das democracias liberais sempre que interesses estratégicos entram em colisão com princípios humanitários. Ambos compreenderam que, num sistema internacional cada vez mais fragmentado, a perda de legitimidade narrativa pode produzir efeitos geopolíticos tão relevantes quanto crises económicas ou derrotas militares.

Mas talvez o aspeto mais significativo desta transformação esteja a ocorrer dentro das próprias sociedades ocidentais. Entre sectores mais jovens das elites académicas, mediáticas e políticas, Gaza passou gradualmente a simbolizar uma rutura geracional mais profunda: a erosão da convicção de que o Ocidente atuaria, apesar das suas contradições, como referência relativamente coerente da ordem liberal internacional construída após a Guerra Fria.

O poder internacional nunca depende apenas de força militar ou capacidade económica. Depende igualmente da confiança que uma potência consegue projetar sobre os valores que afirma defender. Quando essa confiança começa a deteriorar-se, o desgaste ultrapassa rapidamente o plano diplomático e instala-se no próprio imaginário político internacional.

É precisamente esse tipo de fragilidade que o conflito em Gaza parece hoje expor de forma particularmente incómoda para o Ocidente.

Gaza poderá vir a ser recordada não apenas pela dimensão da devastação humanitária que produziu, mas pelo impacto político e moral que este conflito provocou na perceção global sobre o Ocidente. À medida que a guerra avançava, tornou-se progressivamente mais difícil para os Estados Unidos e para a Europa convencerem parte significativa da comunidade internacional da coerência dos princípios que durante décadas sustentaram a sua influência política e diplomática.