quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Como a grande mídia tenta reconfigurar a disputa de 2026

A oitava rodada da pesquisa Nexus, contratada pelo BTG Pactual, divulgada nesta segunda-feira, traz números que merecem mais do que uma leitura superficial. O levantamento, realizado entre 31 de julho e 2 de agosto com 2.002 eleitores, aponta Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno contra 37% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o empate técnico se confirma, 46% a 45%. Mas o dado mais relevante não está na margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Está na inflexão detectada pelo instituto e no que provocou tal inflexão.


O que se viu na semana que antecedeu a pesquisa foi uma operação clássica de Agenda Setting, orquestrada pela grande imprensa com a precisão de quem conhece o poder de pautar o debate público. Formulada por McCombs e Shaw, a teoria do agendamento, na qual baseio essa análise, sustenta que a imprensa não diz ao público o que pensar, mas sobre o que falar. E, nesta semana, a pauta foi propositalmente montada para desgastar um lado e blindar o outro.

As manchetes, sincronizadas em todos os grandes jornais e telejornais, convergiram para um único tema: a autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para a Polícia Federal investigar Lulinha, filho do presidente, por suposto tráfico de influência. A notícia, por si só, já teria impacto. Mas o tratamento editorial dado ao caso transformou uma investigação em curso — ainda sem acusação formal — em uma condenação a priori. A repetição incessante do fato, associada à grafia de palavras como “tráfico de influência” e à vinculação automática ao Planalto, criou no eleitor a percepção de que há fumaça e, portanto, fogo.

A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio, exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do país. (...) E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa 

O efeito foi potencializado pelo contexto: enquanto o filho de Lula era exposto a uma cobertura implacável, o silêncio sobre a vasta trajetória de Flávio Bolsonaro era absoluto. As suspeitas que cercam o senador — desde as “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro até sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso e em negociação de delação premiada — foram reduzidas a notas de rodapé ou esquecidas nas redações. A blindagem editorial não é fruto de conspiração, mas de escolhas. E escolhas têm consequências.

A ausência de escrutínio sobre Flávio Bolsonaro não é um acaso. A grande imprensa, ao tratar a investigação do filho de Lula como manchete principal e relegar os episódios do senador a segundo plano, opera um duplo movimento. Primeiro, fixa na mente do eleitor a associação entre o governo atual e corrupção; segundo, impede que o eleitor da oposição seja confrontado com as contradições de seu candidato.

Os números da Nexus refletem esse esforço. A pesquisa mostra que a rejeição a Lula permanece elevada entre os eleitores com maior escolaridade e nas regiões Sul e Sudeste, exatamente onde o agendamento da grande imprensa tem maior penetração. Flávio Bolsonaro, por sua vez, mantém seu patamar sem sofrer erosão, beneficiado pelo silêncio que o cerca.

É um erro comum atribuir a formação da opinião pública às redes sociais. O WhatsApp e os blogs são canais de reverberação, não fontes primárias. A matéria-prima que alimenta os comentários, os recortes e os disparos em grupos de família tem origem na grande imprensa. É ela que define os temas, os enquadramentos e a intensidade com que cada assunto será tratado inclusive nos blogs, nos podcasts, nos grupos de tele-mensagem.

A semana que antecedeu a pesquisa Nexus é um exemplo didático desse mecanismo. A cobertura concentrada em Lulinha, a transformação de uma investigação em condenação prévia e o silêncio sobre Flávio Bolsonaro, que funciona como presunção de inocência, produziram o efeito esperado. Deslocaram o centro do debate para o terreno mais desfavorável ao governo e ao presidente Lula, enquanto preservavam a imagem do principal adversário.

A pesquisa, registrada no TSE sob o número BR-02874/2026, traz outros dados que corroboram essa leitura. A avaliação do governo Lula, por exemplo, mostra que 35% dos entrevistados o consideram péssimo, contra apenas 16% que o avaliam como ótimo. A aprovação do presidente empata com a desaprovação: 47% a 48%. Esses números, no entanto, não flutuam por acaso. Eles são o resultado de uma construção diária, alimentada por escolhas editoriais que, nesta semana, favoreceram claramente a oposição.

A disputa de 2026 não se decide apenas nas urnas, mas nas redações. A pesquisa Nexus captura um momento, mas o que realmente importa é o processo que o produziu.

A semana que antecedeu a divulgação da oitava rodada não foi um acaso estatístico. Foi o resultado de uma operação coordenada de pauta. A investigação sobre Lulinha foi alçada à condição de escândalo consumado, enquanto a trajetória de Flávio Bolsonaro, marcada por “rachadinhas”, milícias, relações com a criminalidade carioca e intimidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, foi varrida para debaixo do tapete das redações.

A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio, exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do país. O eleitor, cercado por esse ecossistema de manchetes e omissões, não escolhe entre narrativas. Ele herda um direcionamento, um ponto de vista, um viés. E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa, que a pesquisa Nexus, no fim das contas, apenas contabiliza.

A História já não se escreve – publica-se

Durante séculos, a História escreveu-se devagar. Quem a contava tinha estado lá, ou tinha falado com quem esteve, ou tinha passado uma vida a estudar o que lá se passou. Podia errar, e errou muitas vezes, mas errava dentro de um ofício: havia relatos recolhidos no local, documentos, testemunhas, datas, e havia sobretudo tempo entre o acontecimento e a narrativa, tempo para verificar, para contradizer, para corrigir. Os livros de História do futuro já não se escrevem assim. Escrevem-se num telemóvel, em tempo real, por quem não estava lá, não conhece o assunto e não tem obrigação nenhuma de acertar.

Vi as imagens de Ceuta como toda a gente: no telemóvel. Dezenas de milhares de pessoas atiradas ao mar num só dia. Não foi espontâneo: nas semanas anteriores, tinha circulado nas redes sociais marroquinas uma versão deformada de uma decisão do Tribunal Supremo espanhol, transformada na promessa de que quem conseguisse nadar até Ceuta já não podia ser devolvido. Sessenta mil pessoas não se levantam num dia e decidem, todas ao mesmo tempo, atirar-se à água. Alguém lhes disse que podiam. Num ecrã. E morreu-se por causa disso: as contagens apontam para dezenas de mortos, afogados a tentar alcançar uma promessa que nunca existiu. Foi uma mentira partilhada em ecrãs que pôs aquela gente a caminho, e foram ecrãs que, horas depois, já vendiam as imagens do desespero como prova de uma “invasão”, em Camp David, nas televisões americanas, nas contas da ultradireita europeia. A mesma tecnologia serviu para empurrar as vítimas e para as acusar.

Nós já sabemos o que as redes sociais fazem às crianças e aos adolescentes. Está estudado, medido, documentado: a ansiedade, a comparação permanente, a dependência desenhada ao milímetro por quem lucra com ela. Sabemos o que fazem às mulheres, transformadas em alvo preferencial do ódio organizado. Sabemos o que estão a fazer a uma geração de rapazes, convencidos por vendedores de ressentimento de que a culpa da sua solidão é das mulheres terem estudado, trabalhado e deixado de pedir licença. Sabemos tudo isto há anos, está tudo dito à boca cheia, e continuamos a tratar cada escândalo como surpresa. Mas há um dano mais fundo e menos falado: as redes estão a substituir-se aos lugares onde se aprendia o que é verdade.


Porque é isto que mudou. A criança que hoje quer saber o que se passou em Gaza, em Ceuta ou na última guerra não abre um livro nem pergunta a um professor: abre uma aplicação. E do outro lado não está um historiador, nem um jornalista, nem sequer uma testemunha. Está, com sorte, um curioso de boa-fé. Sem sorte, está alguém a quem pagaram a viagem. Porque é assim que hoje se encomenda a narrativa: vendem-se bilhetes de avião e estadias em hotéis de cinco estrelas a gente sem qualquer conhecimento da matéria, para contar a história que determinados governos querem que se conte. Fizeram-no com criadores de conteúdo portugueses levados a Israel, como foi amplamente noticiado. Fazem-no outros Estados, com outros rostos e outras piscinas. O produto final tem sempre o mesmo formato: um sorriso bronzeado a explicar geopolítica entre o pequeno-almoço de buffet e o pôr-do-sol, de regresso a casa com o rei na barriga e a factura paga por quem aparece bem na fotografia.

A China, que raramente serve de exemplo em matéria de liberdades, percebeu o tamanho do problema antes das democracias. Desde o outono passado, quem quiser falar online de medicina, direito, finanças ou educação tem de provar que percebe do assunto: diploma, licença profissional, credencial verificada pela plataforma. Sem qualificação, não há publicação. Apetece aplaudir, e é aí que está a armadilha. Porque o mesmo quadro regulatório proíbe criticar o Partido, “distorcer” a sua liderança ou tocar em assuntos considerados sensíveis. Ou seja: o regime que exige saber para falar de finanças é o mesmo que proíbe saber de mais quando o assunto é o próprio poder. A resposta autoritária não é o caminho, e eu não a quero cá. Mas o diagnóstico que lhe está por baixo devia envergonhar-nos: uma ditadura olhou para o charco da desinformação e agiu, mal, mas agiu, enquanto as democracias assinam códigos de conduta para inglês ver e esperam que a autorregulação faça o resto. Sabemos como acaba, à míngua de regras, quem espera que os mercados se regulem a si próprios.

E é este material, este e não outro, que vai formar a memória coletiva das próximas décadas. Os manuais escolares demoram anos a escrever-se; um vídeo demora segundos a chegar a um milhão de crianças. Quando os historiadores do futuro quiserem estudar este tempo, hão de encontrar os arquivos, os jornais, os documentos oficiais. Mas as pessoas que hoje têm doze anos não vão esperar por eles. A versão dos acontecimentos com que crescem está a ser escrita agora, por ignorantes com patrocínio, e a ignorância patrocinada tem uma vantagem desleal sobre o conhecimento: não tem dúvidas, não tem notas de rodapé, não tem contraditório. Tem luz boa e música de fundo.

E que fique claro: não escrevo isto do alto de sapiência nenhuma. Eu própria só posso falar com propriedade do que estudei e do que vivi, e é exatamente esse o ponto: saber onde acaba o que sabemos era, até há pouco tempo, a base mínima de qualquer conversa séria. Foi essa base que as redes dissolveram, ao pagar melhor a quem nunca teve essa dúvida.

A História continua a escrever-se. A pergunta é só quem segura a caneta. E neste momento, a caneta está na mão de quem aceita segurá-la em troca de um bilhete de avião.

O 'entreguismo' é o primeiro refúgio de um canalha

Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Pretexto: estaria havendo demora para o anuncio do “agrément”, o termo em francês diplomático a indicar que o Brasil não se opõe à indicação de Daniel Perez para a representação dos EUA em Brasília. Mero pretexto. Papo-furado. Ele nem foi aprovado ainda pelo Senado daquele país. Há uma nota do governo brasileiro a respeito. Tratarei dela. Antes, algumas questões relevantes.

Como de hábito, sempre há um livro, um texto, um filme. Ou a gente exerce essa profissão para aumentar o repertório dos viventes ou se pratica obscurantismo — nesse caso, aquilo que as pessoas sabem ou julgam saber torna-se ainda mais restrito, mais odioso, mais estreito. Não quero que me leiam com esse fim. Vamos ver.

Na pré-história destes dias históricos, fui colunista da Folha e escrevi este texto 13 de setembro de 2017. E olhem que eu nem tinha ainda a fama de “petista”. Título: “A direita se transforma no último refúgio dos canalhas”. Insisto: o artigo tem quase 10 anos. Lá se lê:

“É conhecida a frase do inglês Samuel Johnson (1709-1784): ‘O patriotismo é o último refúgio de um canalha’. Acabou distorcida. Referia-se a uma situação específica da política do seu tempo. Não hostilizava ou renegava os ‘patriotas’, então uma corrente política. Criticava vigaristas que passaram a se abrigar sob tal manto, pervertendo ideias que considerava virtuosas. Nestes dias, o liberal brasileiro está obrigado a dizer: ‘A direita é o último refúgio de um canalha’.”


Pronto. Nem importa a situação, então, que me levou a escrever aquele artigo. Lembrei a frase famosa de Johnson; deixei claro não se tratar de uma sentença sem história — o que o incomodava era o patriotismo falso ou pervertido — e dei uma porrada na asquerosa direita brasileira, que já se preparava para tocar flauta para Jair Bolsonaro, este nosso mergulho no horror intelectual e político — um presentinho da Lava Jato.

Nota à margem: a juíza Gabriela Hardt, sucessora de Sergio Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba, foi punida pelo CNJ nesta terça por 10 votos a 4. Até Edson Fachin votou a favor. Fui eu a noticiar, em 2019, que ela autorizara uma fundação privada com recursos oriundos de multa paga pela Petrobras: era uma aberração. Alexandre de Moraes impediu. É a juíza que decidiu que deveria humilhar Lula como depoente. Mas volto ao ponto.

O patriotismo é uma virtude se… virtuoso for. Truísmo? Bem, assim são as coisas. Ou a frase de Johnson nem faria sentido. O Brasil está sob ataque dos EUA, e Flávio já se ofereceu para entregar tudo “auzamericânu” num documento de 84 páginas e numa carta servil a Marco Rúbio.

Também foi rastejar na audiência do USTR. Antes disso, havia prometido as terras raras do Brasil a seus chefes, além do alinhamento com Trump contra a China, nosso principal parceiro comercial, no evento da tal Cepac nos EUA. Ele está disposto a entregar tudo. A começar pela honra.

A decisão sobre a nossa embaixadora não faz o menor sentido, é inaceitável e é parte da escalada grosseiramente imperialista contra o Brasil. O governo brasileiro emitiu uma nota:

"O Governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo Departamento de Estado dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington.

As duas justificativas apresentadas são falsas.

O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de ‘agrément’ ao governo brasileiro.

O Brasil segue estritamente o direito internacional. Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise.

Os dois funcionários do governo norte-americano que tiveram seus vistos de entrada no Brasil negados planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional.

Vale recordar que seguem em vigor sanções individuais sobre autoridades brasileiras, notadamente o cancelamento de vistos para os EUA, com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro. Entre essas autoridades estão ministros da Suprema Corte e funcionários de primeiro escalão do Poder Executivo.

O governo brasileiro não poupou esforços para resolver essas diferenças. O próprio presidente Lula, em sua visita a Washington em maio último, entre outros assuntos, solicitou ao presidente Trump o levantamento das sanções individuais.

A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo.

Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.

Em linha com sua tradição diplomática, o governo brasileiro se opõe à lógica de confrontação e reitera a defesa do diálogo e da negociação em todas as suas relações internacionais.

Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República”


Nota impecável. Não há rigorosamente uma só provocação ou ato impróprio no tempo do governo brasileiro para a concessão do “agrément”. Dirá alguém: “Ah, mas deveria ter sido concedido de imediato para que não pensassem mal de nós e, assim, não houvesse retaliações indevidas”.

Dizer o quê? A tática de mostrar o traseiro para não mostrar o traseiro parece ser contraproducente. Deixem para a extrema direita a exposição do “derrière” como método, não como distração.

A propósito: o Brasil, em linguagem diplomática, rebaixou suas relações com a Argentina. Javier Milei, o estafeta de Trump e Flávio, segue na sua sanha contra Lula e o Brasil. Nosso embaixador volta a Buenos Aires quando for a hora. E não é hora agora. Quem sabe faz a hora acontecer. E só se for o caso.

O entreguismo é o primeiro refúgio de um canalha.

A dívida como prova da democracia

Em abril de 2026, pela primeira vez desde que o indicador começou a ser medido, mais de quatro em cada cinco famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida. O percentual de 80,9% marcou o maior índice de endividamento desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), conduzida pela Confederação Nacional do Comércio. Não foi um pico isolado: foi o quinto mês seguido de recordes, com o índice avançando ainda mais em maio, para 81,6%. Esses números descrevem não um acidente de percurso, mas a consolidação de um regime doméstico de endividamento permanente – uma economia da família brasileira que já não se organiza em torno da poupança, e sim da gestão contínua do que se deve.

O deslocamento é estrutural. Segundo o Banco Central, a parcela da renda familiar comprometida com o pagamento de dívidas saltou de cerca de 22% em 2019 para 29,7% ao final de 2025 – quase um terço do orçamento doméstico já comprometido antes mesmo de chegar à geladeira, ao aluguel ou à conta de luz. O endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada, atingiu o recorde histórico de 49,9%. Além disso, o endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada, atingiu o recorde histórico de 49,9%. O montante das dívidas das famílias corresponde a praticamente metade de sua renda anual, evidenciando o crescente peso do sistema financeiro sobre os orçamentos domésticos.

Diante desse quadro, o Governo Federal relançou, em maio, o Novo Desenrola Brasil – Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias, instituído pela Medida Provisória 1.355/2026 –, um mutirão de renegociação que promete fôlego a famílias, estudantes e pequenos negócios sufocados pelo crédito.


Essa tensão não é exclusiva do Brasil, nem nova. A dívida das famílias voltou a se infiltrar na disputa eleitoral brasileira como, seis anos antes, já havia atravessado a eleição que levou Lula ao terceiro mandato – e reaparece agora que ele busca a reeleição. As finanças domésticas ocupam lugar cada vez mais central na política contemporânea, e não apenas no Brasil. É difícil compreender a ascensão de Gabriel Boric no Chile sem considerar o profundo mal-estar provocado pelo elevado endividamento das famílias chilenas, legado de um modelo que privatizou áreas como educação, saúde e previdência e fez do crédito um mecanismo para suprir a ausência do Estado. Da mesma forma, a crise política espanhola que impulsionou o surgimento do Podemos não pode ser compreendida sem as mobilizações dos hipotecados. A indignação diante dos despejos conferiu à Plataforma de Afetados pela Hipoteca uma centralidade política que os partidos tradicionais não foram capazes de antecipar.

O que esses episódios revelam, tomados em conjunto, é uma mutação maior na relação entre sociedade e política: a dívida doméstica deixou de ser apenas um indicador macroeconômico para se tornar um vetor de subjetivação política, um terreno onde se disputam adesões, ressentimentos e expectativas de futuro. A campanha eleitoral brasileira é apenas mais um episódio dessa mutação mais ampla – não seu ponto de origem nem sua exceção.

Uma sociedade sobrecarregada por dívidas corrói as expectativas sobre o futuro que as democracias prometem; a dívida devora essas expectativas por dentro e mina a ilusão de um amanhã melhor – sua ficção mais necessária e insubstituível

Em Endividados. Como as finanças cotidianas formam a democracia (Ateliê de Humanidades Editorial, 2027), analiso a experiência argentina dessa mutação global e proponho chaves de leitura que podem ajudar a decifrar o que está em jogo também no caso brasileiro.

Com base na tradição foucaultiana, que concebe o neoliberalismo como uma forma de governamentalidade capaz de reconfigurar os indivíduos como unidades de capital responsáveis por sua própria gestão, um conjunto expressivo de estudos tem demonstrado como o crédito, a dívida e a gestão dos riscos operam como técnicas de governo e de condução das condutas. No entanto, essa perspectiva deixa relativamente inexplorada uma dimensão fundamental: a maneira pela qual os próprios Estados e governos passam a ser avaliados politicamente a partir das experiências financeiras vividas por seus cidadãos.

Endividados é um livro sobre como as democracias contemporâneas passaram a ser avaliadas por seus cidadãos – e sobre porque a vida financeira íntima das famílias se tornou o instrumento mais sensível dessa avaliação

Este livro propõe uma sociologia política do dinheiro. Ele argumenta que a dívida das famílias não se limita a organizar o consumo ou o orçamento doméstico; ela também organiza a percepção e o julgamento políticos. A capacidade – ou a incapacidade – de honrar os pagamentos torna-se uma prova cotidiana da credibilidade do Estado, da competência do governo e do valor das promessas coletivas. Nesse sentido, as famílias endividadas não reproduzem simplesmente lógicas financeiras; elas interpretam e avaliam o desempenho político dos governos democráticos por meio de suas obrigações financeiras. Chamo a essa configuração de economia moral do acompanhamento democrático.

Os governos conduzem a melodia principal – definem a política econômica, formulam promessas públicas e estabelecem os termos da vida coletiva –, mas dependem do acompanhamento social para sustentá-la. Esse acompanhamento não é um único instrumento. É composto por múltiplas vozes e registros: petições dirigidas a presidentes, ações judiciais movidas por devedores, mobilizações de bairro, escolhas eleitorais, negociações informais com credores e a gestão silenciosa dos orçamentos familiares em condições de escassez. Cada uma delas constitui um modo distinto de acompanhamento – ou de sua retirada. O que as torna analiticamente equivalentes não é sua forma, mas sua função: todas são maneiras de conceder crédito a um governo, ou de atribuir culpa a ele, pelas condições financeiras da vida cotidiana.

A democracia não se manifesta apenas nas instituições, nos partidos ou nas eleições, mas também na vida monetária íntima das famílias. É ali, na fronteira, onde os significados morais e políticos do endividamento se encontram com as expectativas dirigidas ao Estado, que a confiança – ou a desconfiança – na promessa democrática se decide dia após dia.

Meu argumento é que a dívida das famílias tem constituído uma arena fundamental por meio da qual os cidadãos atribuem crédito ou responsabilidade aos governos democráticos argentinos desde 1983. Ela medeia a relação entre Estado e sociedade, moldando não apenas as condições materiais de vida, mas também as expectativas morais e políticas a partir das quais os argentinos avaliam seus sucessivos governos.

Ao longo dessas quatro décadas, é possível reconstruir como o endividamento das famílias na Argentina se converteu em um ponto de observação privilegiado a partir do qual se pode compreender a interação entre as aspirações sociais, as promessas democráticas e uma economia cada vez mais aprisionada em suas próprias contradições estruturais. Cada ciclo político desde o retorno da democracia na Argentina pode ser lido nessa chave – inclusive, aquele que levou ao governo do atual presidente de extrema direita, Javier Milei.

Democracia Indexada (1983-1989)
A crise da dívida externa e a alta inflação marcaram o início dos anos 1980 na América Latina. Na Argentina, a redemocratização ocorreu nesse contexto, após a ditadura de 1976-1983. O governo de Raúl Alfonsín foi posto à prova por uma onda crescente de endividamento hipotecário: famílias não conseguiam manter os pagamentos em dia por causa da inflação, e as classes médias entravam numa espiral sem precedentes de declínio social.

Democracia neoliberal: dívida e promessa de estabilidade (1991-2001)
O plano de convertibilidade do governo peronista de Carlos Menem uniu dívida familiar e dívida soberana: enquanto a primeira crescia, a segunda garantia a estabilização e as reformas neoliberais que ampliaram o consumo – imóveis, eletrodomésticos, carros, viagens –, financiado externamente pelo Estado. A crise de 2001 encerrou o ciclo: ambos os tipos de dívida se tornaram impagáveis e as ruas se encheram de protestos.

Democracia pós-neoliberal: dívida e promessa de inclusão (2003-2015)
Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia e os Kirchner na Argentina prometeram corrigir os efeitos do neoliberalismo, apoiados no boom das commodities. O cartão de crédito tornou-se passaporte de consumo para setores historicamente excluídos: enquanto o Estado argentino pagava sua dívida soberana, novas dívidas familiares sustentavam a promessa de inclusão – um ciclo dependente de condições voláteis.

A dívida na democracia pró-mercado (2015-2019)
Mauricio Macri sucedeu esse ciclo com créditos hipotecários e inclusão financeira como bandeiras pró-mercado. Após forte desvalorização do peso – não evitada por novo empréstimo do FMI –, as rendas evaporaram e as dívidas aumentaram; pedir emprestado a parentes e usar o cartão para comida, remédios e aluguel tornou-se cada vez mais comum. O estrangulamento da dívida soberana e familiar catalisou a mudança de governo.

Democracia sob a pandemia e a alta inflação (2019–2023)
A dívida contraída durante a pandemia e o retorno da inflação a patamares superiores a 100% ao ano ajudam a explicar o descontentamento social e o crescente apoio à extrema direita. Ao contrário de outros países, que ampliaram o endividamento público para financiar as medidas de enfrentamento da emergência sanitária, o governo argentino teve de negociar a dívida soberana herdada, o que restringiu sua capacidade de implementar políticas de assistência social. Como consequência, intensificou-se o endividamento das famílias, cada vez mais voltado à preservação das condições mínimas de reprodução da vida cotidiana. Nesse contexto de exaustão econômica e desgaste moral, emergiu Javier Milei, canalizando o ressentimento contra a classe política e prometendo libertar o país da inflação e do peso da dívida.

Em dezembro de 2023, Javier Milei chegou ao poder montado sobre um estado de espírito coletivo, que tinha nome próprio nas pesquisas: exaustão moral. Não era simplesmente a pobreza, nem a inflação isolada, nem a desvalorização – era a sensação de ter feito tudo certo (trabalhar, poupar, sacrificar-se) e, ainda assim, não alcançar; a percepção de correr no lugar, de se esforçar sem que o esforço rendesse frutos.

Em 2023, oito em cada dez argentinos concordavam com uma afirmação contundente: “Diante dos problemas da inflação, dependemos do nosso esforço e sacrifício.” Quase a mesma proporção dizia se matar de tanto trabalhar sem que a inflação lhes permitisse chegar ao fim do mês – números mais altos entre quem já havia votado em Milei nas primárias.

Minhas pesquisas de 2023 mostravam esse estado de espírito difundido transversalmente: quem pedira emprestado para comer e a classe média que não chegava ao fim do mês, compartilhavam a sensação de que o esforço próprio não encontrava retorno institucional – de que as dívidas não eram o preço de algo, nem o degrau para lugar nenhum, mas simplesmente o preço de permanecer no lugar. Para não cair.

Leonardo, professor, descreve essa transformação com precisão: passou de contrair dívidas para comprar eletrodomésticos – a antiga dívida da inclusão, promovida pelo kirchnerismo como símbolo de pertencimento e ascensão social – a endividar-se para comprar alimentos. O mesmo cartão de crédito, o mesmo mecanismo de financiamento, havia mudado de significado: já não representava um degrau em direção a uma vida melhor, mas um recurso emergencial para evitar a queda.

Ricardo, comerciante, chamava seus débitos de “dívidas de empobrecimento”, em oposição à lógica de tudo aquilo pelo qual havia trabalhado ao longo da vida. Em um contexto de inflação superior a 90% em 2022 e a 200% em 2023, as dívidas acumuladas não desapareceram; ao contrário, sobrepuseram-se e se multiplicaram.

Essa é a dívida de sacrifício: dívida sem aspiração, que não leva a lugar nenhum – o preço de sobreviver.

O que define esse regime não é só sua magnitude, mas seu sentido acumulado: a dívida aspiracional cria um vínculo entre esforço presente e promessa de futuro; a dívida de sacrifício é seu oposto, o preço de permanecer no lugar. Quando essa experiência se repete governo após governo, algo se rompe na relação entre os lares e a política. O devedor de sacrifício sente que fez sua parte e que o Estado não cumpriu a dele – assimetria que gera uma superioridade moral sobre a classe política: “nós nos viramos sozinhos, eles não fizeram nada.” Foi exatamente essa superioridade moral que Milei soube ler, nomear e capitalizar.
O candidato

A campanha de Milei foi, no sentido mais preciso da palavra, uma campanha sobre o sacrifício: traduziu em linguagem política a sensação de que o sacrifício individual não encontrava contrapartida no Estado, e de que esse Estado, era em si o obstáculo. A proposta da motosserra era uma promessa de reciprocidade invertida – se as famílias haviam sacrificado enquanto os políticos esbanjavam, agora os políticos também sacrificariam. A “casta” pagaria; o ajuste seria para cima.

O sacrifício vivido sem retorno nem reconhecimento converte-se, em política, numa demanda: que outros também sacrifiquem, a começar pelo Estado. A dívida de sacrifício não determina o voto, mas molda uma paisagem moral em que a ruptura radical deixa de parecer loucura e passa a parecer a única opção razoável. Foi o trampolim: instalou o estado de espírito a partir do qual essa ruptura pôde tornar-se moralmente plausível antes de politicamente viável. A experiência financeira acumulada de milhões de lares preparou o terreno; Milei a leu – não como irracionalidade, mas como resposta coerente a anos de promessas não cumpridas.

O governo de Milei herdou um regime de dívida de sacrifício – e o aprofundou. O ajuste fiscal traduziu-se em corte de subsídios, aumento de tarifas e retração do salário real; as famílias que já se endividavam para sobreviver viram os números piorarem, com inadimplência em alta, cartões que deixaram de alcançar e planos de pagamento se multiplicando.

A promessa implícita do sacrifício coletivo – de que a “casta” pagaria – chocou-se com uma realidade mais dura: nos ajustes estruturais, quem mais paga são sempre os que menos têm. As famílias que votaram esperando que outros sacrificassem descobriram que o sacrifício continuava sendo, como sempre, o delas.

Os dados de inadimplência que circulam na mídia se apresentam como indicadores econômicos. E o são. Mas são também outra coisa: o registro de uma ruptura moral que leva décadas se construindo e que Milei, longe de resolver, estendeu sob uma nova promessa. Sua aparição na agenda pública não é casual: quando a dívida dos lares sobe até se tornar visível para a mídia, é porque já faz tempo que é insuportável para as famílias. O debate público chega tarde; a experiência financeira cotidiana chegou antes.

Segundo dados do Banco Central da República Argentina, a taxa de inadimplência no crédito passou de 2,5% em dezembro de 2024 para 9,3% em dezembro de 2025. Em março de 2026 – dado mais recente disponível –, alcançou 11,5%, o maior patamar registrado em mais de vinte anos.

Em apenas doze meses, a inadimplência entre as famílias praticamente triplicou, com um aumento de 8,3 pontos percentuais. Os empréstimos pessoais concentram o nível mais elevado de atrasos dos últimos quinze anos. A deterioração, contudo, não se restringe ao sistema bancário: nas carteiras digitais e nas entidades financeiras não bancárias – às quais recorrem aqueles que já não conseguem acesso ao crédito tradicional – a inadimplência supera 30%.

A sociologia da dívida ensina algo que a economia costuma esquecer: o momento em que uma família não consegue pagar, não é apenas um evento financeiro, mas o momento em que se ativa a pergunta sobre a responsabilidade. Quem tem a culpa – o devedor que não soube se administrar, o governo que não controlou a inflação, ou o sistema que prometeu o que não podia cumprir?

Na Argentina de hoje, essa pergunta volta a estar disponível: os lares que se endividaram para sobreviver, que esperaram que o ajuste de Milei trouxesse estabilidade e veem a inadimplência se acumular sem que o horizonte se abra, estão nesse limiar moral em que o sofrimento privado busca uma explicação pública e um responsável político.

A Argentina e o Brasil podem, mais uma vez, olhar-se em espelho, como tantas outras vezes na história. Os alarmes soam dos dois lados da fronteira em torno do aumento das dívidas das famílias.

Endividados mostra que, quando a democracia não consegue garantir estabilidade monetária, previsibilidade temporal ou proteção econômica, a dívida das famílias deixa de integrar e passa a excluir. O que funcionava, em outros contextos, como mecanismo de inclusão por meio do crédito tornou-se, aqui, um mecanismo de erosão moral e política – resultando numa crescente perda de confiança na capacidade do Estado de proporcionar um senso de ordem para o futuro, e abrindo caminho para soluções extremas e a promessa radical de “recomeçar do zero”.

O endividamento cotidiano, a inflação persistente e a fragilidade econômica alimentaram um clima de frustração que abriu espaço para opções políticas radicais e antissistema. A ascensão de uma figura que se apresenta como ruptura e punição em relação ao sistema político não é um desvio inesperado, mas a culminação de um longo processo: a tradução política de décadas de instabilidade na reprodução material da vida.

Compreender como as famílias vivem, administram e sentem as dívidas – e como essas experiências moldam sua relação com a política – é, portanto, essencial para pensar o futuro da democracia. Uma sociedade sobrecarregada por dívidas corrói as expectativas sobre o futuro que as democracias prometem; a dívida devora essas expectativas por dentro e mina a ilusão de um amanhã melhor – sua ficção mais necessária e insubstituível.

A política progressista chegou tardiamente a essa compreensão na Argentina. Resta esperar que sua contraparte brasileira esteja mais bem preparada para enfrentar essa transformação da democracia.

Humanos podem 'desligar' uma IA fora de controle?

Muita gente já se perguntou o que aconteceria se a inteligência artificial (IA) escapasse ao controle humano.

Quem assistiu à franquia de filmes O Exterminador do Futuro, em que a humanidade entra em guerra contra a Skynet, uma IA que se torna poderosa demais, provavelmente também se pergunta isso.

E esse vilão fictício deve ter vindo à mente de muita gente no início deste mês, quando surgiram relatos de que um agente de IA (um programa capaz de tomar decisões e executar tarefas complexas com pouca ou nenhuma supervisão humana) saiu do controle durante um teste e invadiu os sistemas da Hugging Face, empresa que desenvolve ferramentas para computação.


Criado pela OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, esse agente de IA burlou um teste que avaliava a sua capacidade de explorar falhas de segurança e roubou as respostas dos servidores da Hugging Face. Durante dias, nem mesmo seus criadores parecem ter percebido o que havia acontecido.

Depois, no dia 29 passado, a OpenAI informou que o agente também havia atacado vários "serviços disponíveis publicamente".




A OpenAI não deu mais detalhes, mas afirmou que está investigando os ataques. "Levamos muito a sério nossa responsabilidade de identificar e nos preparar para os riscos apresentados por sistemas de IA cada vez mais capazes", afirmou a OpenAI.

A invasão inicial, descrita como o primeiro caso confirmado de um sistema de IA que teria invadido de forma autônoma uma empresa de verdade, já havia sido suficiente para alarmar especialistas em todo o mundo e reacender o debate sobre os chamados kill switches ("botões de desligamento" ou "interruptores de emergência", em tradução livre): mecanismos de emergência projetados para, nesses casos, interromper ou desligar uma IA antes que ela cause mais danos.

Mas especialistas ouvidos pela BBC News afirmam que a questão é mais complexa.

Cathy O'Neil, matemática e cientista de dados, disse ao Serviço Mundial da BBC que o problema começa na forma como as empresas de IA reagem quando seus sistemas apresentam comportamentos inesperados.

Na avaliação de O'Neil, a OpenAI se apressou em atribuir o ataque à Hugging Face ao agente autônomo, em vez de reconhecer falhas em seus próprios métodos de avaliação.

O'Neil, que escreveu o best-seller Algoritmos de Destruição em Massa: Como o Big Data Aumenta a Desigualdade e Ameaça a Democracia (Ed. Rua do Sabão, 2021), no qual defende maior transparência e responsabilização das grandes empresas de tecnologia, disse à BBC News: "Há alguns anos, uma falha de computador deixou centenas de voos da American Airlines em solo nos Estados Unidos. Foi um grande constrangimento para a empresa. Imagine se ela tivesse tentado se defender dizendo: 'Ah, isso aconteceu porque o computador era mais inteligente do que nós.' Foi, essencialmente, isso que a OpenAI tentou fazer."

Nos EUA, onde está sediada a maioria das maiores empresas de IA, não existe uma legislação federal sobre o tema. A regulação se baseia em uma combinação de normas específicas para diferentes setores e compromissos voluntários assumidos pelas próprias empresas.

"Estamos dando aos proprietários desses sistemas de IA um poder absurdo", afirma O'Neil.

"Me recuso a dizer que foi a IA que fez isso [o ataque à Hugging Face]. Quem fez isso foi a OpenAI. A empresa deveria assumir a responsabilidade pelo projeto falho do sistema e pedir desculpas."

A cientista de dados Rumman Chowdhury, ex-diretora de ética em aprendizado de máquina do Twitter (hoje X), também defende uma regulamentação mais rigorosa para as empresas de IA, especialmente na área de segurança.

Para Chowdhury, essas empresas deveriam ser obrigadas a demonstrar que seus sistemas contam com "mecanismos eficazes de desligamento", inclusive por meio de testes independentes.

Mas também alerta para o risco de responsabilizar os agentes de IA — em vez das empresas que os desenvolvem — por ataques como o que atingiu a Hugging Face.

"Tratar esse episódio como um problema que seria resolvido com um botão de desligamento mais eficiente desvia a atenção do verdadeiro problema de arquitetura dos sistemas: os agentes estão recebendo acesso a ferramentas e credenciais de que não precisam", disse Chowdhury.

"O que realmente acontece é que modelos treinados para cumprir objetivos passam, em determinados contextos, a interpretar instruções para interromper uma tarefa como um obstáculo ao objetivo final e procuram formas de contorná-las. [...] Esse é um problema de projeto e de treinamento, não de consciência."

Se as empresas de IA se recusarem a resolver esse problema e, em vez disso, optarem por culpar seus agentes autônomos, apenas aumentarão a carga de trabalho dos profissionais de cibersegurança, que já enfrentam diariamente ataques de hackers, afirma Oli Buckley, da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.

Para Buckley, o problema não é que "a IA queira escapar ou prejudicar as pessoas", mas o desenvolvimento de agentes que "estão se tornando cada vez mais capazes de encontrar caminhos inesperados para cumprir uma tarefa".

"Na cibersegurança, é exatamente isso que os invasores fazem", afirma Buckley.

"Mais do que um alerta sobre uma 'IA rebelde', este caso mostra que nossas premissas de segurança precisam evoluir junto com os sistemas que estamos desenvolvendo."

Konstantinos Gkoutzis, especialista em IA do Imperial College London, no Reino Unido, concorda que a forma como a OpenAI apresentou o caso não ajudou.

"A principal conclusão para o público deveria ser que nenhuma máquina decidiu se voltar contra nós. Foi uma empresa que perdeu o controle de um teste de suas próprias capacidades", disse Gkoutzis à BBC News.

E, segundo ele, um kill switch não teria resolvido o problema. "Desligar o sistema não desfaz o que já aconteceu", afirma. "Se um sistema já foi comprometido, continuará comprometido, por mais rápido que alguém o tire da tomada."

Além disso, quem — ou o que — desligasse o sistema só poderia fazê-lo depois que o problema fosse identificado.

Fontes da OpenAI disseram à agência de notícias Reuters que a empresa levou vários dias para perceber que havia perdido o controle do agente.

Depois, um porta-voz da empresa rebateu a reportagem da Reuters afirmando à agência de notícias que o texto continha "várias imprecisões".

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Baixarias na Casa Branca ajudam a tornar o mundo estranho

A gente vive dizendo que o mundo anda estranho. Não pretendo dissecar toda a estranheza do mundo, apenas afirmar que parte dela vem do norte, onde vive o homem mais poderoso do mundo, Donald Trump. Quando não está bombardeando o distante Irã, está insultando os repórteres que cobrem a Casa Branca. É nossa ração quase diária de amargor.

Trump tem problemas cognitivos. Mas talvez essa seja a parte mais amena de seu embate com a imprensa. Está ficando gagá, e sua sobrinha, Mary Trump, psicóloga, acha que é Alzheimer, escorando-se no histórico familiar, com base na doença do avô. É impossível diagnosticar dessa forma, mesmo porque os escorregões de Trump não têm um padrão. Podem ser influenciados pela agenda intensa.


Em maio deste ano, em discurso na Academia da Guarda Costeira, ele tropeçou na palavra strength (força) e teve dificuldades em pronunciar outras palavras. Em julho, durante a Cúpula da Otan, cometeu três erros em dez minutos. O último deles é inesquecível. Referindo-se ao Irã, chamou o país de República Islâmica do Japão. O inventário é longo. Tropeçou nas palavras stock market (mercado de ações), anonymous (anônimo), confundiu nomes de líderes estrangeiros e chamou o TikTok de TicTac.

Claro que isso traz uma discussão permanente sobre seu poder cognitivo. Mas as coisas ficam pesadas mesmo quando os repórteres na Casa Branca fazem perguntas diretas sobre suas incongruências, sobre o caso Epstein, sobre o perdão a criminosos próximos à família. Quase diariamente, Trump chama um repórter de estúpido, de pessoa horrível. Não contente em processar empresas e ameaçar cancelar licenças de emissoras de TV, se esforça por humilhar os outros.

Recentemente, em discurso no jantar dos correspondentes, resolveu virar sua metralhadora verbal contra a repórter Kaitlan Collins, da CNN. Ela seria premiada, e Trump a associou a fake news, dizendo que era uma pessoa que nunca sorria. O que Collins faz com Trump para ele odiá-la? Apenas faz perguntas diretas, ouve todos os insultos e registra tudo com acuidade:

— A pergunta mesmo o senhor não respondeu.

Ao mesmo tempo que Trump se vangloria da grandeza da América, diz que um país civilizado não pode ter a imprensa que os Estados Unidos têm. Fica furioso com perguntas elementares. Um dia diz que os dirigentes iranianos são racionais; no outro diz o contrário e os animaliza. No meio dessas contradições, distribui insultos aos jornalistas que as apontam.

É desolador ver e ouvir tudo isso. Lembra-me um filme de Ingmar Bergman, “Morangos silvestres”, em que um casal pede carona de carro e passa um trecho da estrada brigando. Quando sai do carro, leva consigo todo o astral pesado.

O problema é que a Casa Branca não pode sair do carro. Nem os repórteres, presos a seu dever profissional, podem deixar Trump falando sozinho. Estamos condenados às baixarias, e elas contribuem para a sensação de estranheza do mundo. Sem falar na produção nacional ou mesmo nos algoritmos que adoram uma baixaria.

Do petróleo ao lítio: a transição energética na Ásia

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, tem viajado bastante ultimamente. Nas últimas semanas, visitou a Austrália e a Indonésia, entre outros destinos. O foco tem sido as discussões sobre minerais críticos e a expansão da cooperação no setor energético, matérias-primas e tecnologias que estão se tornando cada vez mais importantes para a transição energética e a política industrial da Índia.

Segundo o Financial Times , Modi busca atingir diversos objetivos com essa diplomacia . A Índia quer garantir seu fornecimento de urânio e minerais críticos, diversificar sua matriz energética e tornar as cadeias de suprimentos mais resilientes. Ao mesmo tempo, pretende promover a expansão da produção nacional de baterias, painéis solares e outras tecnologias verdes.

Por trás dessas jornadas, existe um contexto que se estende muito além da Índia. De acordo com um relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) , a expansão das energias renováveis ​​também está mudando a forma como entendemos a segurança energética. Durante décadas, o foco esteve nas importações de petróleo e gás. Hoje, minerais críticos, baterias, redes elétricas e cadeias de suprimentos industriais estão ganhando importância estratégica. A política energética está se tornando cada vez mais uma política industrial, de segurança e externa.

Para a Índia, essa conexão está intimamente ligada ao objetivo de maior liberdade de ação na política externa. "A proteção climática é uma parte importante dessa política. No entanto, ao mesmo tempo, também se trata de geopolítica, relações de poder e autonomia estratégica", afirma a cientista política Soumya Chaturvedi, do Instituto GIGA em Hamburgo, em entrevista à DW. Narendra Modi reconheceu essa conexão desde o início. A ideia de interconectar melhor os países com alto potencial solar levou posteriormente à criação da Aliança Solar Internacional. Subjacente a isso está a ambição de ajudar a moldar a futura ordem energética global.

Projeto de energia solar no deserto de Gansu, China

A China também segue a mesma lógica estratégica, afirma Johann Fuhrmann, diretor do escritório da Fundação Konrad Adenauer em Pequim, em entrevista à DW. No entanto, a situação inicial é diferente. "A China não busca a autossuficiência completa, mas sim uma interdependência estrategicamente controlada." Pequim quer reduzir sua dependência das importações de combustíveis fósseis sem substituí-las por novas dependências unilaterais.

As recentes tensões no Oriente Médio trouxeram essas considerações de volta ao foco das atenções, afirma Fuhrmann. A vulnerabilidade das rotas marítimas e as crises geopolíticas demonstram os riscos inerentes à forte dependência das importações de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, a China está deliberadamente evitando a dependência excessiva de um único fornecedor.

Mas será que consumir menos petróleo significa automaticamente maior independência? De acordo com a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), a resposta é apenas parcialmente. A energia renovável pode reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados. Ao mesmo tempo, novas vulnerabilidades estão surgindo ao longo das cadeias de suprimentos de minerais críticos, baterias e outras tecnologias-chave. A influência geopolítica está se deslocando cada vez mais dos campos de petróleo e gás para a tecnologia, a criação de valor industrial e o controle sobre cadeias de suprimentos estratégicas, segundo a análise da IRENA.

É precisamente aí que Chaturvedi vê o maior desafio para a Índia. "A transição energética cria novas dependências", afirma. Em particular, o processamento de minerais críticos está altamente concentrado hoje em dia. É por isso que a Índia está tentando reduzir gradualmente sua dependência de fornecedores individuais, especialmente da China, por meio da Missão Nacional de Minerais Críticos, parcerias internacionais de commodities e a iniciativa Atmanirbhar Bharat (Índia Autossuficiente). A independência total não é realista nem necessária. O ponto crucial é evitar dependências assimétricas.

Por outro lado, a China já estabeleceu uma posição inicial forte em muitas áreas, afirma Fuhrmann. O país possui uma capacidade de produção considerável de painéis solares, baterias e outras tecnologias energéticas. "A própria China quer se tornar mais independente do resto do mundo, enquanto, ao mesmo tempo, o mundo se torna mais dependente da China", diz ele. O objetivo é que essa vantagem tecnológica se traduza em influência geopolítica.

Que essa competição faz parte da política de poder internacional há muito tempo é demonstrado, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) , pelo conflito entre os Estados Unidos e a China. O foco está cada vez mais em tecnologias futuras, como baterias, veículos elétricos e painéis solares, bem como no controle das cadeias de suprimentos necessárias para elas.

A China lidera em energia limpa.


Para a Índia, isso representa um difícil equilíbrio. O país está expandindo sua cooperação com os Estados Unidos, a Europa, a Austrália e a Indonésia, mas continua a cooperar com a China em áreas específicas. Segundo Chaturvedi, o objetivo não é tanto romper completamente os laços econômicos, mas sim expandi-los e reduzir as vulnerabilidades políticas.

Portanto, os especialistas oferecem uma resposta cautelosa à questão de saber se a transição energética tornará os países geopoliticamente mais independentes. De acordo com a IRENA, embora a dependência do petróleo e do gás esteja diminuindo, novas vulnerabilidades estão surgindo em minerais, tecnologias e cadeias de suprimentos industriais. Chaturvedi alerta para dependências assimétricas, enquanto Fuhrmann observa que a China já está a caminho de converter sua força tecnológica em influência geopolítica. A AIE também conclui que a política energética está se tornando cada vez mais interligada com as políticas industrial, de segurança e externa. A transição energética não acaba com a competição geopolítica; ela simplesmente muda os cenários em que ela ocorre.

O Brasil não está pobre! Ficou caro!

Os lares brasileiros são invadidos, todos os dias, por uma sensação muito estranha, aquela da Beth Carvalho, que diz:

Sem haver uma solução
Do que me serve um saco cheio de dinheiro
Pra comprar um quilo de feijão

O brasileirinho está entrando no supermercado com 300 pilas no bolso e saindo com duas sacolas. Vai ao posto de gasolina e completa apenas a velha metade do tanque. Recebe o salário na sexta-feira e, na segunda, já está fazendo contas e falando, com muito amor, ao “agiota”, sentado na praça do shopping, porque sabe que não dá para chegar ao fim do mês. Enquanto isso, no Paraguai, os vizinhos enchem o tanque com a nossa gasolina. Há alguma coisa errada na nossa aritmética.

A sensação é a mesma, do Pico da Neblina ao Pico da Bandeira onde pegamos nossos boletos: como tudo ficou caro! Ainda aparece um gaiato para maquiar os preços das guloseimas.

O “engraçalhado” é que o nosso Brasil continua desfilando com a fama de uma das grandes economias da Terra. Produz de tudo para milhões de pessoas, enche navios de minério, petróleo, café, carne, soja, celulose, aviões, laranja, maconha, cocaína e muitas outras commodities (produtos que fazem outros). Não faltam capacidade de trabalho nem recursos naturais. O que pesa no bolso do brasileiro é o custo de orar, respirar e viver.

As patadas que o “Trúmpi” e o Xi Jinping estão dando, aumentando o preço de alguns dos nossos produtos em mais 12,5%, no caso americano e 55%, no caso da carne, aos chineses, vão ajudar na sobra de latas, saco e picanhas, nas nossas prateleiras, e os produtos tendem a promoções.

Ficou feio aqui dentro, pois o Lourão alegou que o Brasil falha no combate ao trabalho forçado. Cabe a nós, nos nossos rádios, jornais e televisões, nos explicarmos melhor. Ou não?


Pagamos muito caro pela comidinha. Pagamos caríssimo pela falta de energia ruim. Pagamos caro pelo caquético transporte. Pagamos caro pelos juros mais altos do mundo. Pagamos caro para produzir, para vender, para comprar e até para pagar as contas. Ficamos devendo até nas igrejas. Tudo isso com o Paraguai rindo e crescendo, com os nossos produtos saindo por menos da metade do preço.

É como se estivéssemos comprando passagem na LATAM, de primeira classe, e viajando com o bumbum amassado pelos bancos de aço do velho Maracanã.

O brasileirinho transformou-se em estrategista. A dona de casa, o sangrado aposentado, o estudante e o trabalhador fazem contas de cabeça que fariam inveja a muitos alemães, Pós-Doc em matemática. O consumidor compara marcas, espera promoções, pesquisa preços na internet, usa aplicativos, aproveita descontos e faz milagres com o PIX, especulando, primeiramente, entre jogar nas Bets ou na Mega.

O Ministério da Educação talvez devesse reconhecer oficialmente esse novo curso: “Especialização em Fazer o Salário Durar Até o Dia 30”. O problema é que o preço das coisas raramente depende das estratégias.

Quando compramos uma banana, não estamos pagando e levando somente a banana. Estamos pagando o péssimo transporte, o pior combustível, a ausente manutenção das estradas, a dançante energia, os impolutos impostos, os custos da distribuição, a farta burocracia e o delicado financiamento de quem a colocou na prateleira.

A banana chega ao mercado carregando uma mochila cheia de despesas. Na Amazônia isso ainda se torna mais difícil de calcular.

Uma caixa de Camu Camu, produzido no interior do Amazonas, percorre rios, estradas e canoas até alcançar a mesa do consumidor. Muitas vezes, o frete pesa mais que a própria mercadoria. O mesmo acontece com o pescado, a pimenta, o cheiro verde, a farinha, o açaí e tantos outros produtos amazônicos. A Vitamina C que vem no suco do Camu Camu é divina e salva!

E essa conta chega ao consumidor. O brasileiro também aprendeu uma nova pergunta. Antigamente dizia:

— Quanto custa?

Hoje pergunta:

— Em quantas vezes? E tome juros.

O PIX revolucionou a velocidade do pagamento, mas infelizmente ainda não aumentou a velocidade com que o salário cresce, muito mal acompanhado de uns jurinhos.

O Brasil nunca teve falta de talento. Nunca faltou criatividade ao seu povo. O brasileiro transforma dificuldade em oportunidade com uma habilidade admirável. O desafio agora é fazer com que todo esse esforço renda mais qualidade de vida.

Talvez seja por isso que, ao sair do supermercado, tanta gente ainda repita a mesma frase:

— O Brasil não está pobre! O Brasil ficou caro.

Já temos muitos espertos recebendo as Bolsas Brasileiras e morando no Paraguai.

A nossa Copa do Mundo é fazer com que voltemos a morar entre as delícias da Disney e as alegrias da Sapucaí.

Gritem bem alto o nome de Flávio Bolsonaro. É ele quem pede

Aos 8 minutos e 9 segundos de um discurso que durou 9 minutos e 28 segundos, Flávio Bolsonaro, incomodado, não resistiu à falta de entusiasmo com que era ouvido na convenção do Partido Liberal (PL), realizada no último domingo, em Brasília.

Parte da plateia o escutava sem prestar muita atenção ao que ele dizia. Outra parte se ocupava em gritar, bem alto, o nome do deputado distrital Joaquim Domingos Roriz Neto, candidato à reeleição e neto de Joaquim Roriz, que governou o Distrito Federal por quatro vezes.


Diante disso, Flávio dirigiu-se aos indiferentes à beira do palco, estimulando-os a quebrarem o silêncio: “Vão deixar cantar mais alto Roriz? Quem canta mais alto aí?”. Poucos se manifestaram. Em contrapartida, os rorizistas aceitaram o desafio e elevaram o tom de voz.

Convenhamos: é dura a vida de um candidato à Presidência da República que não dispõe de votos próprios — a não ser os que seu pai, condenado e preso, ainda detém — e dos que rejeitam Lula.. A apenas 12 dias do início oficial da campanha, Flávio só tem colhido decepções.

De volta de uma cansativa viagem à Paraíba, ele desembarcou em Brasília no domingo para finalmente encontrar Michelle, sua madrasta, que seria indicada, como foi, para uma vaga de senadora pelo Distrito Federal. Frustrou-se: ela faltou ao encontro por estar doente, internada em um hospital.

No dia seguinte, Flávio voou para São Paulo e por lá foi informado de que o Republicanos, partido do bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal e da Rede Record de Televisão, não o apoiará. A legenda prefere manter-se neutra na eleição presidencial que ocorrerá daqui a 61 dias.

De Minas Gerais, ele recebeu a péssima notícia de que o senador Cleitinho (Republicanos), líder das pesquisas de intenção de voto, desistira de candidatar-se ao governo estadual. Era com ele que Flávio contava para montar ali um palanque forte.

Antes que o dia terminasse, Flávio ficou sabendo que o deputado Márcio Canella (União Brasil) renunciara, no Rio de Janeiro, à sua candidatura ao Senado. No mês passado, Canella foi preso em flagrante pela Polícia Federal por posse ilegal de um fuzil. Embora já solto, sua candidatura sofreu um duro abalo.

Para aumentar a desdita de Flávio, ele continua à procura de uma mulher que aceite a vaga de vice em sua chapa. O prazo para o registro de candidaturas na Justiça Eleitoral acaba no próximo dia 15. Naturalmente, não basta ser mulher: é preciso ter votos para se tornar cobiçada. E é aí que o bicho pega.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Estado de mal-estar social

Entender por que, no Ocidente, tanta gente se volta contra as instituições exige mais do que as variáveis de curto prazo mobilizadas pelas análises de conjuntura. A decadência política vivida pelas democracias ocidentais revela um problema estrutural, somatizado no avanço da onda reacionária saudosista do que houve de pior no século passado. Em outras palavras, o fascismo não é a doença, mas o sintoma.
Sintoma

Pelas livrarias e análises políticas dominantes, é fácil constatar que o grande tema vigente é a “crise da democracia”. Diversos livros sobre o assunto saíram nos últimos anos, a partir das vitórias da extrema direita mundo afora. Cenário em que avançam déspotas nada esclarecidos amparados pela erosão severa da confiança nas instituições.

Nos EUA, a confiança no governo desabou de 73%, em 1958, auge do capitalismo regulado, para 17%, em 2025, menor patamar em quase 70 anos. A insatisfação com o funcionamento da democracia atinge 62% dos estadunidenses. O Latinobarómetro (2024), por sua vez, registra que apenas 28% se dizem satisfeitos com a democracia, e só 25% a consideram segura.

Dados do BTI (2026), na mesma linha, indicam algo ainda mais alarmante: 45% dos brasileiros apoiariam um golpe militar para deter a alta criminalidade, e 49% o fariam em caso de corrupção generalizada. Na Europa, uma em cada quatro pessoas vota, hoje, em partidos de extrema direita. O Reagrupamento Nacional (RN) francês saltou de 19% (2022) para 37% (2024), tornando-se a maior bancada da Assembleia Nacional. A Alternativa para a Alemanha (AfD) passou de 10% (2021) para 21% (2025), se tornando a segunda força política do país. O Partido Liberdade austríaco (FPÖ) foi de 16% (2019) para 29% (2024). O Chega português saltou de 7% (2022) para 18% (2024). O Fratelli d’Italia foi de 4% (2018) para 26% (2022). Os números seguem padrão semelhante em diversos outros países e a extrema-direita já integra coalizões de governo na Itália, Croácia, República Tcheca, Finlândia, Suécia, e lideram pesquisas na Áustria, Bélgica, França, Alemanha e Reino Unido.

O perfil etário dessa radicalização é claro: jovens, principalmente do sexo masculino. Outrora mais alinhados a partidos progressistas, agora eles se alinham às fileiras da extrema direita. Na França, 33% dos eleitores de 18 a 24 anos votaram no RN, em 2024. Na Alemanha, a AfD foi o segundo partido mais popular entre a mesma faixa, em 2025. A extrema direita não se mostra, portanto, um refúgio de conservadores saudosistas de um passado superado, mas expressão crítica de uma geração que jamais conheceu a segurança social e que enfrenta um horizonte de precariedade permanente.


O que está por trás disso? E em que medida a democracia liberal, sob o neoliberalismo, é capaz de garantir uma arquitetura política resiliente aos expedientes autoritários que ora avançam? E, não menos importante: como essa arquitetura atende às disposições necessárias ao regime democrático – que presume acesso popular ao poder?

O problema chama a atenção para a definição de democracia, categoria que aparece no debate ocidental sob viés normativo. Tomada de modo a-histórico, ela se torna categoria vazia, recurso retórico que reduz o debate a dimensões institucionais apenas funcionais à sustentação de um sistema de acumulação de riqueza e exclusão sistemática das massas em relação à política.

Se nosso problema aqui aponta para a democracia enquanto categoria, também demanda uma análise sobre a ideia de “crise”, um desvio em um sistema outrora funcional. Por isso, outra pergunta se impõe, sintetizando as anteriores: a democracia liberal funciona? A pergunta se desdobra em outra, caso a resposta seja afirmativa: funciona para quem?

Há diversas crises acometendo a civilização, mas todas, em maior ou menor medida, parecem se reportar a uma crise sistêmica: a da sociedade neoliberal. E a democracia liberal é o modelo político que legitima o modo de produção e distribuição de riqueza dominante, marcado por tantas contradições. Nesse sentido, é preciso entender seus limites não apenas históricos, mas ontológicos, o que enseja a hipótese de que a democracia liberal é o enquadramento político de um sistema social não apenas em crise, mas fadado à crise: o neoliberalismo.
Diagnóstico

O neoliberalismo tem raízes no questionamento do liberalismo clássico, então baseado na ideia de uma disposição natural à autorregulação da atividade econômica. Com a empiria fornecida pelas primeiras crises do capitalismo, principalmente após 1929 e as soluções keynesianas, alguns autores liberais entenderam que a economia não podia prescindir do papel do Estado. A questão passava a ser que papel o Estado desempenharia. Hayek, cânone neoliberal, afirma que o papel do Estado deveria restringir-se a assegurar o quadro institucional/jurídico fiador da ordem de mercado – o rule of law –, a fim de proteger a propriedade, fazer cumprir os contratos e prover bens públicos estritamente necessários que a iniciativa privada não pode fornecer – notadamente a segurança, naquilo que se apelidou de Estado “guarda noturno”, ou “Estado mínimo”. Quanto à democracia, Hayek foi claro em tomá-la como instrumento, mas não finalidade. Seria o método para limitar o poder, mas não um meio de realização para o consenso popular, entendimento revelador da tensão incontornável entre a defesa intransigente da propriedade e qualquer horizonte de justiça social – tratada como ameaça à ordem espontânea do mercado, o bem maior na cosmovisão neoliberal.

Ao alicerçar a liberdade individual sobre a propriedade, Hayek esvazia a democracia de substância, reduzindo-a a mero procedimento instrumental para deter a maior ameaça – o planejamento estatal, que via como tendência totalitária. Não surpreende, portanto, que, em plena ditadura Pinochet, tenha declarado com desconcertante franqueza preferir “um ditador liberal a um governo democrático sem liberalismo”. Franqueza sintomática da hierarquia neoliberal de valores e compromissos que enquadra a soberania popular como obstáculo à realização das forças do mercado.

A consequência desse conjunto de ideias, implementado a partir do final da década de 1970, é o declínio sensível do bem-estar social entre as sociedades capitalistas. Após o ciclo virtuoso do pós-Guerra, engendrado pela aceleração da economia americana e pela necessidade de competir com a URSS, as políticas neoliberais passaram a ser adotadas no lastro da decadência do planejamento soviético e sob medida para recompor as margens de lucro, que haviam esbarrado na tendência de queda identificada por Marx como uma das “leis” do capital.

O avanço da extrema direita, conquistando segmentos em todos os estratos sociais, é sintoma, portanto, do quadro neoliberal, bem como de contradições históricas profundas legadas pela doença crônica da modernidade, o colonialismo, gêmeo siamês do liberalismo.

Da colonização à civilização a distância é infinita; […] de todas as expedições coloniais acumuladas, de todos os estatutos coloniais elaborados, de todas as circulares ministeriais despachadas, não sobraria um único valor humano
 Aimé Césaire

O estabelecimento da democracia liberal como modelo consiste no marco contraditório central da dialética colonial. Ato contínuo, o próprio conceito de “civilização”, longe de ser natural, precisa ser historicizado. Em O processo civilizador, Norbert Elias afirma que “se examinarmos o que realmente constitui a função geral do conceito de civilização, e que qualidade comum leva todas essas várias atitudes e atividades humanas a serem descritas como civilizadas, partimos de uma descoberta muito simples: este conceito expressa a consciência que o Ocidente tem de si mesmo. […] Ele resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior a sociedades mais antigas ou a sociedades contemporâneas ‘mais primitivas’. Com essa palavra, a sociedade ocidental procura descrever o que lhe constitui o caráter especial e aquilo de que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão do mundo, e muito mais”.

Seguindo esse pavio, em Cultura e Imperialismo, Edward Said chama a atenção para as representações negativas de povos não europeus como verdadeiros “espantalhos” na literatura ocidental, que representa os sujeitos periféricos à Europa como “corruptos”, “violentos” etc., dimensão colonial que hoje se expressa em amplitude ainda maior nos filmes, séries, jogos e outras formas de difusão cultural.

Em perspectiva econômica, o colonialismo deve ser lido como a espinha dorsal da acumulação primitiva de capital. Segundo Eric Williams, na clássica tese sobre a relação entre capitalismo e escravidão, “os escravos eram a energia deste mundo ocidental”. A relação entre a formação da modernidade, com sua matriz liberal e humanística, e o brutal sistema colonial marca, portanto, a dialética que está na raiz do sistema internacional moderno. Diversos autores da vanguarda do Iluminismo eram notórios defensores da escravidão. Como atesta Williams, “o tráfico negreiro não era uma atividade da escória da sociedade inglesa – sua principal administradora. Os comerciantes mais ativos nesse negócio eram homens respeitáveis, pais de família e excelentes cidadãos que ocupavam altos cargos na Inglaterra”. Daí, acentua-se a contradição flagrante da modernidade: a articulação entre os valores liberais e a violência colonial, razão pela qual a democracia liberal tolera tão naturalmente a miséria e outras expressões da desigualdade congênitas sob o capitalismo.

Os direitos humanos e a arquitetura filosófica moderna consideram a humanidade segundo um viés eurocêntrico, e foi essa a ideologia que legitimou a barbárie colonial, e que, ainda hoje, estrutura as relações centro-periferia no sistema internacional. Disso resulta que a experiência da democracia contemporânea está limitada por desigualdades estruturais. Segundo Losurdo: “[…] a democracia não pode ser definida independentemente dos excluídos; o despotismo exercido sobre os bárbaros, obrigados à obediência absoluta própria dos escravos e às infâmias da expansão e do domínio colonial, lança uma luz inquietante sobre os Estados liberais, e não só no que respeita à sua política internacional. Esta não é um elemento estranho da estrutura político-social interna. […] Na tradição liberal a teorização ou celebração da liberdade avança a par e passo com a enunciação de cláusulas de exclusão, pelo que a liberdade em última análise acaba por se configurar como privilégio. […] o triunfo do liberalismo coincide com a vitória da expansão colonial, na qual, para falar como Tocqueville, ‘a raça europeia’ submete ‘ao seu império ou influência todas as outras raças’ […].”

O quadro acima revela um sistema sub-reptício aos valores modernos, ou o custo dessa modernidade. Hoje, esse custo se acentua sob o neoliberalismo, que, longe de significar uma virada de chave na história do capitalismo, trata-se de um recrudescimento de suas tendências após a superação das contingências impostas pelo século XX. É nesse sentido que o “fim da História” se enuncia em princípios da década de 1990. Encerrada essa utopia, que discuti melhor no texto Além do fim da história, e com o avanço das tensões sociais que se acumulam no recorte das políticas neoliberais, o remédio sugerido pelos economistas que dominam o debate público – criteriosamente selecionados por meios de comunicação que representam a concentração do capital – é o conjunto de medidas conhecidas sob a ideia de “austeridade fiscal”. Segundo o enquadramento neoliberal a que se reportam essas análises, os problemas sociais são fruto da ineficiência do Estado, que deveria ser substituído tanto quanto possível pela iniciativa privada.

Mas a receita não para em pé à luz dos fatos. Em A Ordem do Capital, Clara Mattei demonstra como os economistas têm se esforçado para apresentar as medidas de austeridade como ciência. Segundo a autora, essas políticas podem ser analisadas sob a forma de uma “tríade”: austeridade fiscal, através de cortes de gastos sociais, taxação regressiva, impostos sobre consumo, corte de impostos para ricos (corporativos, sobre patrimônio); austeridade monetária, via independência dos bancos centrais e aumento das taxas de juros; e austeridade industrial, por meio de ataques a sindicatos, privatização, desregulamentação do trabalho e arrocho salarial. Os resultados são uma classe trabalhadora mais disciplinada, menos capaz de realizar greves e questionar seus patrões.

O indicador mais contundente do desastre promovido por esse conjunto de políticas (ao qual pertence, por exemplo, o Teto de Gastos aprovado durante o governo Temer) é a desigualdade de renda. Nos EUA, a fatia da renda nacional apropriada pelo 1% mais rico saiu de 10%, em fins da década de 1970, para 20% em 2022. Até mesmo países como a Suécia, paradigmáticos do bem-estar social, viram a concentração de renda saltar 40% no recorte de quatro décadas. A taxa de sindicalização, também, nos países da OCDE caiu de 35% para 15% no mesmo recorte, sinalizando a degradação da proteção trabalhista sob intensa desregulamentação.

E o impacto disso tudo sobre os salários é direto. Nos EUA, o salário médio real no setor de produção e serviços está praticamente no mesmo nível desde 1973, enquanto a produtividade mais do que dobrou. Na Europa, a estagnação salarial aponta que, entre 1995 e 2022, os salários reais cresceram em média 0,8%, enquanto o PIB per capita cresceu 1,3%.

A crise habitacional é uma das consequências mais devastadoras desse quadro. O acesso à moradia, que nos trinta anos gloriosos do welfare state era garantido por políticas de habitação social e crédito subsidiado, tornou-se motivo de sofrimento entre os europeus. Entre 2010 e 2025, os preços dos imóveis na União Europeia subiram mais de 60%, enquanto a renda cresceu menos de 15% no mesmo período. O estoque de habitação social encolheu em quase todos os países desde 1980, ao mesmo tempo em que a população de rua vem aumentando consideravelmente.

E com relação à saúde, relatórios da OCDE indicam que, hoje, a expectativa de vida dos 10% mais pobres é dez anos menor que a dos 10% mais ricos.

É nessa terra arrasada que a extrema direita avança, capitalizando ressentimentos produzidos pela precarização social e sindical que vêm destruindo a confiança na política e a percepção de classe, substituída pela ideologia do “empreendedorismo”. Se a consciência de classe está em crise entre os trabalhadores, entre a burguesia não há dúvidas sobre o que está acontecendo, como revela o sincericídio do bilionário Warren Buffett: “Existe, sim, uma luta de classes, mas é a minha classe – a classe dos ricos – que está travando essa guerra, e nós estamos vencendo.”

Do pântano neoliberal rastejam os discursos antissistema, antipolítica etc., mobilizando a insatisfação generalizada com instituições incapazes de oferecer saídas concretas para o mal-estar contemporâneo. A maioria da população, que trabalha cada vez mais sob condições cada vez piores, sente que o sistema não funciona a seu favor, mas para uma minoria que drena as energias nacionais – quiçá globais – para sustentar um padrão de vida principesco que remonta aos excessos caricatos do Antigo Regime.

Nesse contexto, o sintoma não deveria surpreender. A democracia liberal sempre teve limites explícitos enquanto ordem política do capital. A novidade é que estamos nos aproximando perigosamente deles. Hoje, quarenta anos após a queda da URSS, comemorada no Ocidente como uma “vitória da democracia”, fica patente o esgotamento do modelo baseado na privatização do acesso ao poder.

À guisa de conclusão, impõe-se a questão: dado o limite liberal à democracia, que democracia seremos capazes de produzir sob os destroços do neoliberalismo? Problema essencialmente econômico, mas que passa por enfrentamentos políticos tão difíceis quanto urgentes, no sentido de construir um horizonte de bem-estar social como única fronteira realmente capaz de deter a barbárie.

Aos 'descrentes'

Quem não acredita no voto popular não devia nem ser candidato a presidente. A descrença nas urnas é cheiro, fumaça de derrota. A urna eletrônica é tão competente que não aceita voto de argentino e americano. 
Geraldo Alckmin, vice-presidente da República, candidato à reeleição

A Inteligência Artificial não pensa por nós

Uma das muitas questões em torno da Inteligência Artificial tem sido saber quais as profissões que iria substituir. O debate tem-se centrado, na maioria das vezes, na tecnologia. Considero que podemos alargar esse questionamento e pensar no que a Inteligência Artificial nos obriga a voltar a fazer enquanto seres humanos.

Não estão a desvalorizar-se as preocupações legítimas de professores que veem alunos copiar respostas sem as questionar, profissionais que aceitam sugestões automáticas sem as verificar e leitores que trocam o esforço de compreender pela comodidade de uma síntese pronta. Negar esta tendência seria ingénuo, todavia, a forma como se escolhe usar estas ferramentas é que pode tornar-se decisiva.

Vários profissionais de diferentes áreas que usam regularmente a Inteligência Artificial partilham aquela que tem sido a minha própria experiência. Uma parte significativa procura, sobretudo, ampliar conhecimentos e questionar melhor o que a tecnologia pode entregar-lhe. Na verdade, desde que utilizo Inteligência Artificial, leio e escrevo muito mais. Cada conversa abre novas referências, desperta perguntas inesperadas e obriga-me a regressar às obras originais para confirmar e aprofundar. A Inteligência Artificial não substituiu a leitura; tornou-a, assim, mais exigente.


Quanto mais facilmente encontramos informação, maior é a necessidade de distinguir fontes credíveis de opiniões, mesmo que sustentadas com argumentos e exemplos. A tecnologia aproxima-nos dos textos, continuando a ser a leitura a aproximar-nos das ideias. Este é um dos maiores paradoxos do nosso tempo. Quanto mais competente se torna a Inteligência Artificial na produção de respostas, mesmo que aparentemente muito boas, maior é o desafio de formular as perguntas. A diferença é decisiva para desenvolvermos pensamento crítico, daí as Humanidades recuperarem uma centralidade inesperada. Algumas das empresas que lideram o desenvolvimento da Inteligência Artificial procuram integrar filósofos, linguistas, antropólogos e investigadores das ciências humanas nas suas equipas, sinal de que as grandes questões deixaram de ser apenas tecnológicas e passaram a ser questões sobre linguagem, ética, justiça, decisão e condição humana.

Não é por acaso que esta reflexão ultrapassou o domínio académico e tecnológico. Recorde-se o recente debate promovido pela Igreja Católica sobre Inteligência Artificial, que colocou a dignidade da pessoa humana e a responsabilidade ética no centro da reflexão. Independentemente das convicções religiosas de cada um, a Inteligência Artificial ultrapassa as ciências exatas e as tecnologias, e é também disso que dependerá, adiante, a forma como as sociedades democráticas decidem o que vale a pena conhecer e transmitir.

Na educação, este desafio torna-se particularmente evidente. Ensinar os alunos a utilizar ferramentas de Inteligência Artificial não é suficiente; é necessário formar professores capazes de compreender o impacto destas tecnologias, de redesenhar práticas pedagógicas e de devolver ao pensamento, à criatividade, à argumentação e ao espírito crítico um lugar central na aprendizagem. Sendo certo que uma máquina responde em segundos, a escola terá de ensinar aquilo que nenhuma resposta automática substitui, isto é, formular perguntas relevantes, interpretar, relacionar saberes, dialogar, criar e construir sentido. Sendo assim, precisaremos sempre de profissionais que desenvolvam tecnologia e, tanto ou mais, de educadores capazes de formar cidadãos intelectualmente autónomos.

O mesmo desafio, ainda mais concreto, coloca-se na saúde. A Inteligência Artificial pode apoiar diagnósticos, analisar milhões de dados clínicos ou identificar padrões invisíveis ao olhar humano. É fundamental, por isso, reunir profissionais de saúde e empresas de tecnologia num diálogo direto sobre onde a Inteligência Artificial pode ajudar e onde a decisão clínica tem de permanecer humana. Foi nesse espírito que nasceu a II Tertúlia Inteligência Artificial e Saúde, realizada recentemente no Palácio dos Silveiras, em Viseu, que contou entre os convidados com uma empresa de tecnologia dedicada à saúde no âmbito da radiologia. Ficou clara a mensagem de que a leitura da imagem e a decisão diagnóstica continuam a exigir o olhar do radiologista, apoiado pela tecnologia sem nunca ser substituído por ela. A escuta, a empatia, o discernimento clínico e a responsabilidade perante o outro permanecem, ali, insubstituíveis. Reforçou-se, assim, que a discussão sobre Inteligência Artificial não é apenas tecnológica.

Curiosamente, a Inteligência Artificial obriga-nos a regressar a perguntas muito antigas (o que significa compreender, o que significa criar, o que significa decidir, o que significa pensar). Ao longo da História, cada grande transformação tecnológica obrigou a Humanidade a redefinir-se, e hoje acontece o mesmo. A Inteligência Artificial torna a filosofia cada vez mais imprescindível. Do mesmo modo, não diminui a importância da literatura para que possamos conhecer e vivenciar narrativas, interpretar metáforas, reconhecer ironias ou aceitar a ambiguidade da linguagem, que continuam a ser experiências humanas.

Também a comunicação adquire um novo significado. Vivemos rodeados de ferramentas capazes de produzir texto em segundos. Comunicar, no entanto, nunca foi apenas produzir palavras. É construir relações, interpretar contextos, reconhecer silêncios, assumir responsabilidades e encontrar uma linguagem capaz de dar sentido ao que vivemos. Um dos maiores desafios do nosso tempo é, portanto, aprender a pensar melhor com a Inteligência Artificial, em vez de tentar competir com ela. Isso exige mais cultura, mais leitura, mais capacidade crítica, mais imaginação e mais diálogo entre ciência, tecnologia, filosofia, artes e educação.

Para além do que falta descobrir, a Inteligência Artificial pode acelerar a produção de conhecimento; o ser humano, no entanto, é quem decide o que vale a pena conhecer, preservar e transmitir, de acordo com os princípios e valores que as sociedades democráticas defendem. A verdadeira transformação do nosso tempo não é, pois, tecnológica, torna-se a oportunidade de redescobrirmos aquilo que nenhuma máquina pode viver por nós (pensar, sentir, compreender, interpretar, criar e atribuir sentido ao mundo).

Meritocracia na base e patrimonialismo no topo

Temos assistido a uma erosão sustentada da capacidade de Estado em nosso país. Em termos comparativos, nós tivemos uma trajetória relativamente bem-sucedida, embora incompleta, de insulamento de certos setores da administração pública em relação à política partidária, ao familismo e ao patrimonialismo.

Uma das peças dessa trajetória tem sido a disseminação dos concursos públicos. O Brasil foi o primeiro país na América Latina a instituir o concurso público (1936) como forma de ingresso para carreiras no governo federal. Na área da diplomacia, os concursos datam de 1919.


A China aparece como a grande precursora. No início do século 11, as provas dos concursos já eram copiadas para impedir que os examinadores reconhecessem a caligrafia dos candidatos, e cada uma era avaliada por duas pessoas! Dois séculos depois, centenas de milhares disputavam as seleções. A partir de meados do século 17, a probabilidade de aprovação em cada etapa chegava a apenas 1 em 6.000.

O sistema sobreviveu, com poucas interrupções, até 1904. Foi abandonado e reintroduzido em caráter experimental apenas em 1987, quando o regime iniciou reformas econômicas e políticas. A ironia histórica é iluminadora: o país que inventara os concursos abandonou-os para depois retomá-los.

O Reino Unido adotou princípios meritocráticos em 1855, mas a competição realmente aberta só começou depois de 1870. Nos Estados Unidos, o Pendleton Act de 1883 instituiu o acesso meritocrático e criminalizou os assessments (dízimo pago pelos funcionários que eram nomeados pelos partidos, prática introduzida recentemente entre nós). Inicialmente restrito a uma pequena parcela do funcionalismo federal, o sistema alcançava 88% dos servidores em 1951. Na Argentina, a primeira lei federal sobre concursos é de 1973, segundo o The Merit Project: A New Dataset on Civil Service Examinations, 1789–2020, de Driscoll et al, (2015).

O concurso não implica em meritocracia e tem limitações importantes. Tampouco produz um Estado competente. Leis podem coexistir com patronagem, exceções e seleções fraudulentas. Onde não existem regras impessoais de recrutamento, dificilmente existe burocracia meritocrática. O concurso limita o patronato na entrada da burocracia, mas não controla a seleção de seus dirigentes nem impede que redes familiares capturem as instituições encarregadas de fiscalizá-la.

O que ainda se observa em nosso país, sobretudo no âmbito subnacional, onde se concentram 90% dos vínculos públicos, são estruturas patrimoniais e familistas. Elas se expressam das mais diversas formas: nomeações cruzadas ou familismo despudorado nos três Poderes. E aqui há pouca distinção ideológica. As nomeações de esposas de governadores para tribunais de contas — são oito casos recentes — são as mais escabrosas.

A degradação atual não consiste no desaparecimento dos concursos, mas na expansão de redes políticas e familiares ao redor das burocracias profissionais, neutralizando o universalismo formal que elas deveriam proteger. Nas redes familiares que entrelaçam, por exemplo, advogados e magistrados, e que ganharam escala inédita, o conflito de interesses é o menor dos problemas.