quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Ainda somos os mesmos?

Republiquei "Como Nossos Pais", de Belchior, na voz de Elis Regina, no Instagram depois do primeiro turno das eleições presidenciais. Não fui a única. A canção, gravada há cinquenta anos, voltou a circular entre pessoas que procuravam expressar o espanto diante de um resultado que, para muitas delas, parecia difícil de imaginar. Flávio Bolsonaro havia recebido mais de 56 milhões de votos e terminado à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto acompanhava as reações, percebi que também havia recorrido à música para formular uma pergunta que não conseguia responder. O que exatamente esperávamos que o Brasil tivesse aprendido com sua própria história?

Em 1976, quando Elis Regina lançou Falso Brilhante, o país vivia sob uma ditadura militar que já atravessara mais de uma década. A repressão havia alcançado universidades, jornais, sindicatos, organizações políticas e a vida de milhares de famílias. Prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos faziam parte de uma realidade que o regime procurava ocultar ou justificar. Foi nesse ambiente que a composição de Belchior encontrou, na interpretação de Elis, uma das expressões mais reconhecíveis do desencanto de uma geração que havia acreditado na possibilidade de transformar o mundo e começava a reconhecer a persistência daquilo que desejara superar.

No espetáculo Falso Brilhante, concebido com elementos do circo e do teatro, havia bonecos de pano acomodados numa arquibancada, formando uma plateia dentro da própria encenação. Ao terminar "Como Nossos Pais", Elis permanecia diante daqueles espectadores imóveis. A imagem é perturbadora: uma cantora que acabara de dar voz à desilusão de sua geração observava figuras incapazes de responder. Belchior escrevera sobre a distância entre as promessas da juventude e a vida que se construíra depois delas. Elis transformava essa descoberta em uma experiência quase física, como se a pergunta alcançasse também quem estivesse sentado do outro lado do palco.


Cinquenta anos depois, já conhecemos o desfecho histórico daquele regime. A ditadura terminou, a Constituição de 1988 reorganizou a vida institucional brasileira, testemunhos foram reunidos e arquivos foram abertos. A Comissão Nacional da Verdade documentou graves violações de direitos humanos e identificou estruturas de repressão que haviam atravessado sucessivos governos militares. Sabemos mais sobre aquele período do que sabiam muitos dos brasileiros que o viveram, quando a censura, o medo e a ausência de informações impediam até mesmo que as famílias conhecessem o destino de seus desaparecidos.

Ainda assim, conhecer a história e reconhecer suas consequências são operações diferentes. Uma sociedade pode reunir documentos sobre a violência de Estado e continuar dividida sobre o significado político daquela violência. Pode ensinar a existência da tortura nas escolas enquanto parte de seus cidadãos considera aceitável que autoridades públicas a defendam. Pode preservar as instituições democráticas e conviver com discursos que relativizam o autoritarismo. O conhecimento histórico permanece disponível, mas a maneira como é recebido depende também das disputas políticas e das experiências de quem o encontra.

Penso nisso porque pertenço a uma geração que não viveu a ditadura brasileira. Conheci aquele período pelos livros, pelos depoimentos de sobreviventes, pelas decisões judiciais e pelo trabalho de pessoas que dedicaram suas vidas a impedir que determinados acontecimentos desaparecessem da memória pública. Estudar a história da repressão me permitiu compreender experiências que jamais vivi. Também me fez reconhecer a dimensão da responsabilidade envolvida em transmitir acontecimentos cuja lembrança, para muitas famílias, permanece inseparável da perda de alguém.

Há uma reflexão de José Mujica, registrada em sua entrevista para o documentário Human, de Yann Arthus-Bertrand, que me acompanha quando penso nessa transmissão. O ex-presidente uruguaio, que passou anos preso durante a ditadura de seu país, recorda as expectativas políticas de sua juventude e as derrotas que obrigaram sua geração a reconsiderar a maneira como imaginava transformar a sociedade. Entre as descobertas que descreve está a dificuldade de modificar uma cultura, mesmo quando se consegue alterar suas condições materiais. Sua própria vida havia sido atravessada por acontecimentos históricos cuja compreensão dificilmente poderia ser separada da experiência de tê-los vivido.

A lembrança dessa entrevista me leva a pensar na distância entre a história que recebemos e aquela que experimentamos pessoalmente. Quem nasceu depois de uma ditadura pode reconhecer a violência daquele período, mas dificilmente sentirá a mesma coisa que alguém que esperou por um familiar desaparecido ou aprendeu a medir as próprias palavras por medo de ser denunciado. A transmissão da memória exige que experiências individuais adquiram significado para pessoas que não estavam presentes. É um trabalho necessariamente incompleto, porque cada geração encontra o passado a partir das perguntas, dos conflitos e das preocupações do seu próprio tempo.

Seria possível, então, compreender a permanência de certas disposições autoritárias no Brasil como resultado dessa distância entre gerações. Muitos dos que votam hoje nasceram depois de 1985. Outros eram crianças quando a ditadura terminou. Para eles, o regime militar pertence a uma história recebida, reconstruída por narrativas familiares, registros públicos, disputas ideológicas e instituições de ensino. A passagem do tempo altera a relação afetiva com os acontecimentos, e a memória daqueles que sofreram diretamente a repressão não alcança necessariamente seus descendentes com a mesma intensidade.

Mas essa explicação encontra um obstáculo: nós vivemos a pandemia.

Há apenas alguns anos, acompanhávamos diariamente a divulgação do número de mortos pela Covid-19. Hospitais ficaram sobrecarregados, famílias perderam pessoas sem conseguir se despedir, profissionais de saúde trabalharam sob condições extremas e milhões de brasileiros reorganizaram suas vidas em torno do medo de adoecer ou transmitir o vírus a alguém próximo. O país ultrapassou a marca de 700 mil mortes oficialmente registradas pela doença. Aquela experiência ocorreu diante de nós, acompanhada por boletins epidemiológicos, imagens de hospitais, debates públicos e investigações parlamentares.

Também acompanhamos a conduta de Jair Bolsonaro. Em abril de 2020, questionado sobre o número de mortes, o então presidente respondeu que não era coveiro. Ao longo da emergência sanitária, suas declarações sobre a gravidade da doença, as vacinas e os tratamentos contrariaram repetidamente orientações científicas. Em 2021, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia investigou ações e omissões do governo federal e aprovou um relatório que recomendava, entre outras providências, seu indiciamento. Flávio Bolsonaro, então senador, esteve entre os defensores políticos do pai durante aqueles trabalhos e chegou a classificar a investigação como uma grande perda de tempo.

É evidente que Flávio e Jair Bolsonaro são pessoas distintas, com trajetórias e responsabilidades próprias. Sigo firme na minha posição de que não devemos culpar os filhos pelos erros dos seus pais. Mas a candidatura presidencial do filho também se apresenta como continuidade de um movimento político construído em torno da figura do pai. A associação envolve uma herança eleitoral, uma identidade pública e a defesa de parte de seu legado. Quando mais de 56 milhões de brasileiros escolheram Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026, portanto, o resultado exigiu uma reflexão que alcança também a memória política dos anos da pandemia.

O que fazemos com uma experiência que todos atravessamos, mas da qual não guardamos a mesma lembrança?

Para algumas pessoas, aqueles anos estão associados à perda de familiares e ao sentimento de abandono diante das autoridades públicas. Para outras, permanecem ligados ao desemprego, ao fechamento de pequenos negócios, à interrupção da vida escolar ou às restrições impostas à circulação. Houve quem atribuísse ao governo federal responsabilidade pelas consequências da crise, quem concentrasse suas críticas nos governadores e prefeitos e quem interpretasse as medidas sanitárias como uma ameaça à liberdade individual. Estávamos expostos à mesma emergência, mas nossa percepção do que acontecia era atravessada por condições materiais, convicções políticas, fontes de informação e experiências pessoais muito diferentes.

A pandemia demonstra, assim, um limite particularmente difícil daquilo que esperamos da memória. Ter vivido um acontecimento não determina a interpretação que faremos dele. Duas pessoas podem recordar os mesmos meses e discordar profundamente sobre quem agiu corretamente, quais medidas foram necessárias e quem deve ser responsabilizado. A existência de provas documentais permite confrontar afirmações falsas e investigar responsabilidades, mas nem sempre dissolve os vínculos afetivos e políticos por meio dos quais cada pessoa organiza suas lembranças.

Talvez por isso seja insuficiente afirmar que os eleitores simplesmente esqueceram. O esquecimento existe, assim como a desinformação e a tentativa deliberada de reescrever acontecimentos recentes. Mas há também aqueles que se lembram e atribuem ao que viveram outro significado, ou que reconhecem determinados erros e, ainda assim, consideram outras preocupações mais urgentes. A rejeição ao Partido dos Trabalhadores, o descontentamento econômico, as expectativas sobre segurança pública, os valores religiosos e a identificação com o conservadorismo podem adquirir um peso maior do que a avaliação retrospectiva da pandemia. Reconhecer essa diversidade de motivações ajuda a compreender como se constitui uma escolha eleitoral, embora não encerre a discussão sobre suas consequências políticas.

A surpresa diante do primeiro turno merece, por isso, ser examinada com a mesma atenção que dedicamos ao resultado. Entre as pessoas que compartilharam Elis Regina, havia quem estivesse convencido de que Flávio Bolsonaro dificilmente chegaria tão longe. Também vi manifestações de artistas e eleitores que, diante da necessidade de um segundo turno, passaram a discutir o voto estratégico em Lula. A incredulidade parece nascer de uma expectativa bastante humana: imaginamos que certas experiências, por sua gravidade, deveriam produzir consequências morais suficientemente profundas para orientar as escolhas futuras.

Essa expectativa tem algo de compreensível. Se a história da ditadura não bastou para estabelecer um consenso sobre a violência autoritária, talvez a proximidade da pandemia devesse ter produzido uma consciência diferente sobre o exercício do poder. Entretanto, a convivência com uma catástrofe tampouco garante acordo sobre suas causas ou responsabilidades. A memória de uma sociedade é formada por lembranças que competem entre si, por acontecimentos que recebem interpretações divergentes e por pessoas que lutam para estabelecer quais versões do passado terão reconhecimento público.

É justamente por isso que a preservação da memória continua necessária. As investigações, os arquivos, os testemunhos e o trabalho de educação histórica permitem que uma sociedade confronte suas próprias justificativas e mantenha acessíveis fatos que interesses políticos procuram minimizar. A memória não oferece imunidade contra a repetição. Sua importância está também na possibilidade de contestar publicamente a maneira como o passado é narrado, identificar responsabilidades e transmitir experiências que, sem esse trabalho, poderiam ser perdidas ou deliberadamente apagadas.

Volto, então, à canção que compartilhei. Quando Belchior escreveu sobre a semelhança entre sua geração e a de seus pais, havia uma dor particular no reconhecimento de que a juventude também podia envelhecer dentro das estruturas que prometera transformar. A força da interpretação de Elis talvez esteja em conservar essa descoberta sem oferecer ao ouvinte o conforto de uma solução. Cinquenta anos depois, seguimos recorrendo àquela voz quando o presente parece desmentir o futuro que imaginávamos possível.

Mas, desde que republiquei a música, outra pergunta passou a me incomodar: quem está incluído naquele nós?

Pensei inicialmente nos brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro, nas continuidades políticas que reconheço em sua candidatura e na dificuldade de compreender por que os acontecimentos recentes não foram suficientes para afastar tantos eleitores desse projeto. Agora penso também em quem, como eu, acreditou que a história da ditadura e a experiência da pandemia teriam tornado esse resultado menos provável. Talvez a pergunta de Belchior permaneça tão desconfortável porque alcança também a nossa maneira de compreender o país. Compartilhamos Elis Regina para lamentar que tantas coisas pareçam continuar iguais. Ainda precisamos compreender por que esperávamos que fossem diferentes.
Estéfany Rocha Monteiro

Prosperidade: fácil de vender, difícil de entregar

A nova rodada da pesquisa Meio/Ideia, a última antes do segundo turno, traz uma chave para entender o voto em Flávio Bolsonaro e também um alerta para o dia seguinte caso o candidato do PL confirme seu favoritismo e vença a eleição: ela reside na promessa de prosperidade, essa palavra carregada de possibilidades, mas de difícil entrega.

A detalhe aparece numa pergunta nova: o que significa melhorar de vida para você? Para 43,3% dos entrevistados, é ter o próprio negócio, trabalhar por conta própria, enquanto apenas 32% sonham com carteira assinada e direitos trabalhistas. A direita percebeu essa aspiração antes da esquerda, tanto que vem trabalhando promessas para esse público pelo menos desde 2024.


A presença mais marcante do coach Pablo Marçal na campanha de Flávio no segundo turno, inclusive como preparador para o debate da Band, embute a ideia de que é preciso acenar a esse contingente. O truque do candidato de falar direto para a câmera e perguntar ao espectador se a vida dele melhorou ou piorou no governo Lula vai direto ao ponto, é a pergunta anterior à incluída na pesquisa.

Nesse grupo de aspirantes a empreendedor, Flávio aparece com 62,3%, segundo o Ideia. Dos que sonham com a CLT, 65,4% vão de Lula. Numa campanha praticamente empatada, esse recorte mostra uma bifurcação crucial para desenhar o que serão os próximos quatro anos do Brasil.

Principalmente porque Flávio promete que a vida dessas pessoas mudará radicalmente, rápido e sem que ninguém perca direitos, uma conta que, como todo mundo sabe, não fecha, mas ninguém entre os encastelados nos escritórios da Faria Lima parece muito preocupado em explicar aos clientes como fechará.

A mistura de linguajar de coach com o de pregador religioso que Flávio introjetou com base em muito media training, pôs em prática na entrevista da Globo e, principalmente, no debate é a receita do embuste: confie em mim que tudo dará certo.

Ao falar de um plano mirabolante de moratória nos boletos, ele misturou alhos com bugalhos, não foi questionado por Lula e não gerou nenhum pânico nos analistas de mercado sempre tão horrorizados com as decisões do governo do PT.

Esse papinho à Pablo Marçal costuma convencer aqueles que legitimamente sonham com o passaporte para a vida sem patrão. Assim como convenceu gente sem nenhum treinamento a escalar o Pico dos Marins, há alguns anos, e levou outro grupo de incautos a participar de um triatlo no Paraguai de onde muitos precisaram ser resgatados porque não conseguiam nadar em águas revoltas, Marçal está treinando um presidenciável para os debates e é candidatíssimo a virar ministro da Prosperidade.

Vender um amanhã maravilhoso, que só depende da sua vontade, é fácil. Com a ajuda das redes sociais, então, sopa no mel. O difícil é entregar a tal prosperidade num país complexo, desigual e profundamente dividido como o Brasil.

O segundo turno devolveu às ruas uma esquerda que parecia ter abdicado a elas desde o impeachment de Dilma Rousseff. Ressurgiu, sobretudo, o jovem de esquerda, cuja presença digital era menos perceptível que a do jovem de direita, talvez por ser menos estridente.

As manifestações do segundo turno foram engrossadas ainda por aquele eleitor de centro que se sentiu meio peixe fora d’água no governo Lula 3, mas que, ainda assim, entende que a volta do bolsonarismo ao poder é um risco para os direitos civis, a democracia, o meio ambiente e outros pilares civilizacionais.

Ainda que não consigam a virada em nome da qual saíram de casa, esses grupos não deixarão a arena pública, ainda mais porque, num Congresso com predomínio inédito das forças de direita, caberá em grande medida a eles puxar o tal freio que as instituições normalmente são responsáveis por operar.

Flávio, se eleito, terá em seu cangote os aspirantes a empreendedor cobrando a entrega rápida da prosperidade prometida, os beneficiários de programas sociais que prometeu não desassistir, o mercado que conta com a tesoura escondida no segundo turno e essa oposição revigorada dos exércitos digitais e das ruas. Não será o passeio que o salto alto dele e de seu entorno e a truculência que seus apoiadores já começam a demonstrar em atos violentos país afora parecem fazer crer.

Você consegue imaginar Flávio Bolsonaro eleito presidente?


Negue. Negue tudo o que possa prejudicá-lo. Negue até mesmo o que você acabou de dizer ou escreveu outro dia. Valha-se, para isso, de qualquer desculpa — seja ela convincente ou inverossímil — ou de nenhuma. E siga em frente, sem se deixar abater.

O que importa é alcançar o seu objetivo. Uma vez alcançado, o passado incômodo vira pó e as pessoas, salvo raras exceções, desistem de relembrá-lo.

Memória duradoura só existe em celulares e nas nuvens. Políticos sábios de antigamente não falavam nada de sério ao telefone; era só olho no olho.


Veja a tremenda confusão em que se meteu Flávio Bolsonaro, aquele que nada aprendeu e nada esqueceu. Na condição de candidato a presidente da República, é natural que seja gravado tudo o que diz ou disse. E ele costuma dizer coisas das quais se arrepende depois.

Na sabatina da TV Globo, ao ser interrogado sobre o projeto que apoia para acabar com a rastreabilidade das munições usadas por policiais, ele respondeu tratar-se de um mero “detalhezinho”.

Sem a marcação nas munições, grande parte dos homicídios não seria esclarecida. O da vereadora Marielle Franco talvez não fosse. Certamente não teria sido o da juíza Patrícia Acioli, assassinada em Niterói com 21 tiros.

O crime organizado agradece a Flávio o que ele chama de “detalhezinho”. Por sinal, as facções vivem em débito com ele e com seu pai, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. Os fabricantes de armas também.

No governo de Jair Bolsonaro, 17 decretos, 19 portarias, duas resoluções e três instruções normativas foram assinados para flexibilizar o acesso a armas e munições, segundo o Instituto Sou da Paz. Resultado: em dois anos, o número de armas particulares atingiu a marca de uma para cada 100 brasileiros.

Matadores de aluguel igualmente são gratos a Jair e aos seus filhos. No caso de Flávio, por suas relações próximas e amigáveis com eles, e por sua presteza em ajudá-los ao empregar seus familiares na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Pela primeira vez na história do Brasil, um investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pelos crimes de evasão de divisas, corrupção passiva e ativa e lavagem de dinheiro está perto de se eleger presidente.

Também pela primeira vez, um defensor de milicianos poderá subir a rampa do Palácio do Planalto e nomear quatro ministros da mais alta Corte de Justiça do país. Que tal? Se a ideia lhe agrada, vote nele. Se não, ainda dá tempo de derrotá-lo. Pela primeira vez na história, um defensor de milicianos e investigado por corrupção está prestes a subir a rampa e desenhar o futuro do STF

Também pela primeira vez, um defensor de milicianos poderá subir a rampa do Palácio do Planalto e nomear quatro ministros da mais alta Corte de Justiça do país. Que tal? Se a ideia lhe agrada, vote nele. Se não, ainda dá tempo de derrotá-lo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


A Internacional Autoritária é a maior ameaça dos nossos tempos

Tem já mais de uma década o debate entre aqueles que alertam para o perigo de uma deriva autoritária nas nossas democracias e quem considera que esse perigo está sendo exagerado. A minha posição nesse debate é clara: acho que o perigo do autoritarismo ainda é subestimado.

Uma coisa é o debate (interessante, mas em boa medida acadêmico) sobre se o novo autoritarismo pode ser comparado com o fascismo do século passado. Alguns puristas consideram que, enquanto não estiverem preenchidas todas as características do fascismo original, não se pode usar a palavra para a sua variante.


 A luta contra a Internacional Autoritária é a luta das nossas vidas, em cada país onde ela se trava. Ela obriga-nos a votar pelo mal menor, a sair para a rua com quem não concordamos e a improvisar para resistir nas redes

Trata-se de uma exigência impossível de atingir: nem no fascismo original todas as suas versões foram idênticas. Mais importante, porém, é entender: o que fariam os tiranos de cem anos atrás com as possibilidades de hoje?

É aí que chegamos à conclusão de que não estamos ainda suficientemente assustados. Os tiranos de cem anos atrás não tinham armas nucleares. Hoje vivemos esperando que Donald Trump e Vladimir Putin não sejam tão loucos quanto aparentam ser.

Os tiranos de cem anos atrás não tinham uma ferramenta de vigilância e controle tão completa quanto são as redes sociais e a internet nos dias de hoje. E a verdade é que nada se consegue fazer atualmente, incluindo lutar contra os autoritários, sem usar as redes sociais e nos expormos aos seus donos, que são eles próprios autoritários ou aliados de autoritários.

Os tiranos de cem anos atrás não dispunham ainda da possibilidade de dominar a inteligência artificial. Hoje veem essa possibilidade ao virar da esquina.

Restou-nos, enfim, quando mais nada dava certo, esperar que os tiranos morressem de morte natural. Há uns anos, contudo, um microfone apanhou uma conversa entre Putin e Xi Jinping sobre a possibilidade de prolongar drasticamente a vida humana. Se lá chegarmos podemos ter a certeza de que os primeiros beneficiários não vão ser os pobres nem os cidadãos comuns, mas os autoproclamados "homens fortes" (e, de fato, quase todos homens) das oligarquias, da alta finança e do poder.

Finalmente, temos de encarar uma realidade: os nossos autoritários estão bem mais unidos do que os tiranos de cem anos atrás. Não interessa qual a ideologia, a nação ou o credo, a cola que os une é a sua profunda e total corrupção.

De Trump a Putin, passando por Binyamin Netanyahu e por todos os seus imitadores pelo mundo fora, com destaque para a América Latina, não há um que não esteja impregnado de um total despudor na hora da roubalheira.

Mais ainda, essa obsessão comum leva-os a coordenarem-se e apoiarem-se mutuamente. Por isso os democratas estão divididos em muitas correntes —sociais-democratas, liberais, ecologistas, progressistas vários— mas os autoritários fazem todos parte da mesma Internacional, mesmo que ela não seja assumida.

Por isso a luta contra a Internacional Autoritária é a luta das nossas vidas, em cada país onde ela se trava. Ela obriga-nos a votar pelo mal menor, a sair para a rua com quem não concordamos e a improvisar para resistir nas redes. Sempre insatisfeitos, de coração nas mãos, com medo pela democracia.

Mas é uma luta gloriosa. A minha gratidão a todos os que a fazem, aí também onde me leem.

Flávio Bolsonaro não consegue dissipar minhas suspeitas

Certamente não são pessoas como eu que Flávio Bolsonaro tenta convencer por meio de posts, discursos, sabatinas e debates. De resto, com a minha aversão ao gregarismo ideológico e o meu natural ceticismo, não devo mesmo ser o público-alvo de qualquer campanha.

Afinal, meu marxismo é mais o de Groucho Marx ("não entro em clubes que aceitem pessoas como eu") que o de Karl, e minha abordagem dos candidatos sempre foi mais parecida com a de um consumidor que com a de um militante apaixonado. E, sim, acredito em coisas que causam repugnância em quem moraliza excessivamente a política, como votar no menos pior disponível —sem guardar meu voto para o candidato ideal como quem se guarda para a mulher da sua vida. Política é outro tipo de negócio.

Dito isso, Flávio Bolsonaro tem fracassado completamente em dissipar uma inquietação essencial sobre os anos da sua eventual Presidência: seu compromisso com a ordem liberal-democrática. Não se trata do vago apelo a "salvar a democracia", de que o lulismo tanto abusou, confundindo frequentemente a defesa da democracia com a defesa da sua própria agenda política, como se não pudesse haver democracia fora da esquerda.


Sei que cada um tem seus temores diante do futuro do país com Lula ou com os Bolsonaros — sim, no plural, porque eles costumam governar os quatro ao mesmo tempo, como vimos da última vez. Sei também que algumas listas de exigências são feitas sob medida para que só caiba nelas um candidato de esquerda, quando não o próprio Lula. Não é o meu caso. Não tenho dificuldade em aceitar que o Brasil seja governado por alguém de direita, conservador ou adversário daquilo em que acredito. A vontade da maioria eleitoral não tem obrigação de coincidir com a minha.

Mas, para confiar a Flávio o governo do país, precisaria de razões para acreditar que ele e seu círculo próximo respeitarão as regras do jogo quando elas contrariarem seus interesses. A democracia liberal não se resume a eleições periódicas. Exige respeito à separação dos Poderes, ao Estado de Direito, aos limites da autoridade presidencial e, sobretudo, à possibilidade de perder eleições e deixar o poder.

Não se trata apenas de saber o que Flávio conhecia ou desconhecia dos planos golpistas do pai. Ele mesmo passou anos defendendo, em livro e discursos, o golpe de 1964, celebrando a ditadura militar e exaltando alguns dos seus mais notórios agentes de repressão. Não é um passado que o condene a pensar assim para sempre, mas, com semelhante histórico pessoal e familiar, caberia a ele, mais do que a qualquer outro, convencer-nos de que se converteu às convicções liberal-democráticas.

Na campanha, ele chegou a prometer que respeitará o resultado das urnas e que não disputará a reeleição. Promessas não são garantias, naturalmente. Ainda mais quando, ao anunciar que não pretende se reeleger, deixa aberta a possibilidade de ser beneficiado por uma extensão do próprio mandato. Mas o problema maior é outro: como conciliar essas declarações com sua atitude diante da tentativa de golpe de Estado pela qual o pai foi condenado?

Flávio não precisaria negar, contra as evidências reconhecidas pela Justiça, o envolvimento de Jair Bolsonaro na tentativa de impedir a alternância de poder. Bastaria convencer-me de que, sob seu governo, não se repetiria coisa semelhante. Em vez disso, trata a condenação do pai como uma injustiça a reparar, promete beneficiá-lo com o perdão presidencial e quer receber dele a faixa na posse. Como símbolo inaugural do novo governo, imagina receber a transmissão da autoridade republicana justamente de quem foi condenado por tentar subvertê-la. Um tapa na cara da democracia.

Não estamos falando de uma divergência sobre decisões do STF, mas de uma tentativa de golpe de Estado que incluiu planos para assassinar o presidente, o vice-presidente e um ministro do Supremo, admitindo até a morte de civis como dano colateral. E de uma ação de sedição, em 8 de janeiro de 2023, que Flávio insiste em tratar como manifestação cívica injustamente punida. Não é uma questão de simpatia pelo Judiciário, mas de compromisso com os limites que nenhuma disputa pelo poder pode legitimamente ultrapassar.

Posso aceitar de um candidato quase qualquer divergência política, por mais profunda que seja, mas não posso transigir, sobretudo em tempos tão turbulentos, quanto ao seu compromisso com o Estado de Direito e com os direitos e garantias fundamentais.

E Flávio Bolsonaro tem feito muito mais para alimentar minhas suspeitas que para dissipá-las.
 Wilson Gomes

Depois da emoção da campanha, uma grande tarefa nos espera

Minha menina: o Brasil vive sua última semana de campanha. Só agora, no segundo turno, assume os traços interessantes do passado.

Há gente na rua, gente fazendo o L, dizendo “vamos virar”, manifestações estudantis, shows. Para dizer a verdade, a animação envolve os dois lados. Vi uma espécie de comício em Capelinha, com milhares de pessoas. É uma cidade de Minas na entrada do Vale do Jequitinhonha, onde estive recentemente. Enfim, há luta eleitoral em toda parte.


Acho ótimo que as pessoas façam as campanhas. Os candidatos deveriam agradecer a elas não só por carregarem o piano nesta fase final, em que estão já de língua de fora. O ano que vem será difícil para qualquer vencedor. Os economistas acham que faltará dinheiro, além disso o El Niño vem pesado com seus eventos extremos.

Os últimos dias são interessantes também pelo esforço dos candidatos. O nome da direita acabou, para não perder votos, votando numa pauta de esquerda, o fim da escala 6x1, sem dúvida um avanço civilizatório. O candidato da esquerda afirmou que apoia a redução da maioridade penal, uma pauta clássica da direita. Chamo isso de efeito sertão virando mar, mar virando sertão, verso consagrado de nossa música popular.

O governo tem tido vitórias no Parlamento. O dado mais importante é que o desmatamento na Amazônia caiu ao nível mais baixo da História. Há queimadas por causa da seca e também porque os desmatadores se vestem de incendiários. Faz parte de seu show macabro.

Se um dia fosse escrever a história desta campanha, destacaria a grande quantidade de declarações de voto na internet. Conhecidas ou não, as pessoas traçam ligeiramente sua biografia e concluem dizendo em quem votarão.

Lembra aquele português que fomos visitar no Alentejo? Ele me escreveu dizendo que em seu país costumam eleger um Congresso de direita e um presidente de esquerda, ou vice-versa. Só para equilibrar. Os brasileiros fariam o mesmo? Não sei, aqui é presidencialismo, e não há muito esse tipo de cálculo.

Há muitas encruzilhadas, daqui até 2030. Não sei se verei todas. Espero que essa rígida divisão nacional se atenue com o tempo. A derrota da direita na Hungria mostrou que, mesmo com poderes quase absolutos, Viktor Orbán foi para o espaço. As próximas eleições americanas sugerem que Trump perderá pelo menos uma das duas Casas do Parlamento.

O que não significa caminho tranquilo para a esquerda. Nesta fase, o capitalismo é um cavalo bravo que ninguém consegue cavalgar por muito tempo. Será preciso um longo trabalho de revisão, suportando a dor de saber que não se é dono da verdade e que nem existe resposta científica para o rumo da História.

Não importa o resultado, depois da emoção da reta final, uma grande tarefa nos espera. As multidões nas ruas não podem abandonar a cena política, embora tenham de voltar para suas atividades cotidianas. Elas serão um grande termômetro.

Pátria distraída

A língua ferina de Flávio Bolsonaro, no primeiro debate presidencial, não abre espaço para a poesia. Mas o silêncio que adotava diante de perguntas incômodas era como o oposto de um antigo samba que tudo dizia mesmo sem nada falar.

Era o início de 1984, um ano antes da transição para o primeiro governo civil depois de 20 anos da ditadura tão elogiada pelo senador e por seu pai Jair, atualmente preso por tentativa de golpe de Estado.

“Vai passar”, de Chico Buarque, ecoava em todo o país. Vai passar na avenida um samba popular, como dizia a canção. Assim como iria passar o longo período de autoritarismo, cuja memória andava – e anda – desbotada em nossas novas gerações.

“Dormia”, nessa página infeliz da história, “a nossa pátria-mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.


Foram muitas transações, como a história já nos ensinou. Na canção a linguagem era simbólica. Mas os grandes negócios estavam ali. Desde depósitos em contas no exterior ao estímulo de grandes projetos internacionais que deixaram rastros de destruição na Amazônia.

Naquele tempo prosperaram ideias como as de plantar capim para gado onde antes havia floresta nativa. Ou plantar eucalipto na terra aberta por desmatamento.

Agora os interesses são mais sofisticados. A economia digital precisa de novos minérios críticos para fabricar aparelhos eletrônicos de última geração. Assim como as forças armadas do mundo buscam matérias-primas para suas mais recentes armas.

E essas matérias-primas incluem as terras raras, cujas maiores reservas do mundo estão na China. As reservas brasileiras vêm logo atrás. E países como os Estados Unidos estão de olho no subsolo brasileiro.

Durante evento nos Estados Unidos, falando em inglês, Bolsonaro filho já havia prometido portas abertas. O Brasil, a seu ver, poderia ser “a solução para a América”.

Washington gostou e anotou. Com o senador no Palácio do Planalto seria mais fácil negociar do que com o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que defende o beneficiamento e a industrialização dos minérios no Brasil.

Na verdade, as terras raras brasileiras não interessam aos americanos apenas sob o ponto de vista da geopolítica. Também como negócio mesmo. Um negócio que pode vir a beneficiar integrantes das famílias do presidente e do vice-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e J.D. Vance.

Pois no debate presidencial Lula quis saber de Flávio como seria a relação especial com os Estados Unidos prometida pelo senador. E se ele pretendia mesmo entregar aos americanos o controle de jazidas de minerais críticos e terras raras. Silêncio.

Na hora Flávio mudou de assunto, assim como fez quando Lula lhe perguntou por que havia votado contra a extensão da licença maternidade, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ou quando lhe propôs abrir sigilos fiscal e digital.

O senador não quis falar do assunto. Mas este será um dos principais temas logo no início de um possível governo seu.

Um acordo com os Estados Unidos sobre as reservas minerais serviria como uma espécie de passaporte para o clube de aliados preferenciais de Washington. Ou como um novo modelo de subtração da pátria distraída.

Os fãs de Trump são tão ruidosos, no Brasil, que levaram à avenida Paulista, durante manifestação em apoio ao candidato da direita, um míssil inflável onde se lia um pedido para que o presidente americano bombardeasse o Brasil.

Flávio, é claro, acusou “agentes infiltrados” de levar o míssil à avenida. Quem sabe fosse apenas mais um adereço na versão bolsonarista do samba popular. Tudo isso também vai passar?

As urnas do próximo domingo dirão. Se há 40 anos a pátria-mãe dormia, diante de tenebrosas transações, ela agora precisa despertar.

Para encarar de frente os riscos à nossa soberania – política, econômica e tecnológica – e à própria democracia, que as gerações anteriores tanto lutaram para conquistar.

Trumpismo, bolsonarismo e a resistível ascensão da extrema-direita

Nos últimos ciclos eleitorais, as trajetórias políticas dos Estados Unidos e do Brasil têm revelado semelhanças marcantes, especialmente entre os fenômenos do “Trumpismo” e do “Bolsonarismo”.1 A análise de semelhanças e diferenças entre os dois países ajuda a esclarecer questões centrais do nosso tempo: o fortalecimento da extrema-direita pelo mundo, as consequências de seus governos e os caminhos possíveis para a defesa da democracia frente a ameaças de retrocessos. 

Como na surpreendente volta de Trump à Casa Branca em 2024, após a tentativa de insurreição que culminou na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, poucos apostaram numa reviravolta da família Bolsonaro após o plano de golpe que se seguiu à derrota nas eleições de 2022. Esse plano culminou na invasão e depredação de prédios públicos na Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, e na condenação de Jair Bolsonaro por liderar um esquema que incluía planos para assassinar o Presidente e Vice-Presidente da República além de um Ministro do Supremo Tribunal Federal.

Neste ponto, cabe mencionar que há uma clara diferença entre Brasil e os EUA: enquanto a justiça americana falhou ao não dar seguimento em tempo hábil ao processo contra Trump por tentativa de insurreição e outros crimes, deixando o caminho livre para a sua volta à política em 2024, o judiciário brasileiro funcionou com agilidade no julgamento de Bolsonaro e outros envolvidos na tentativa de golpe de 08 de janeiro.

Com a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, a escolha pelo pai do filho mais velho, Flavio, para ser candidato a presidente, levantou diversos questionamentos, inclusive no Partido Liberal (PL) e entre aliados de direita, considerando a sua atuação inexpressiva como parlamentar e histórico de envolvimento com milícias e “rachadinhas” no Rio de Janeiro.


Para melhor entender o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais em 4 de outubro, é importante considerar uma série de fatores, alguns dos quais guardam semelhanças com as eleições presidenciais recentes nos EUA.

Uma das dificuldades inerentes à campanha do Lula, após o exercício de três mandatos, como no caso das candidaturas de Hillary Clinton em 2012 e Joe Biden em 2024, tem sido a superação da pecha de candidato do “establishment”, ou seja, das elites políticas tradicionais.

Como no caso de Biden com Trump em 2024, a campanha do Presidente Lula no primeiro turno parece ter subestimado o potencial de crescimento da candidatura de Flávio Bolsonaro, especialmente no sentido de explorar – apesar de melhorias nos indicadores de inflação e desemprego – as frustrações de grande parte do eleitorado com dificuldades econômicas, especialmente o endividamento.

No primeiro turno, a comunicação da campanha do Presidente Lula poderia ter sido mais eficaz em destacar as contribuições de programas do atual governo para a qualidade de vida das pessoas, sem menosprezar as dificuldades econômicas enfrentadas por grande parte da população, assim como um conjunto de propostas inovadoras para o próximo mandato, levando em conta a ansiedade por mudanças dentro do eleitorado.

Enquanto isso, umas das táticas da campanha de Flávio Bolsonaro, seguindo o exemplo de Trump e de seu pai, tem sido a ampla divulgação em redes sociais de notícias distorcidas e falsas, a demonização de adversários e a utilização indevida da religião como arma eleitoral, com o apoio de alguns líderes evangélicos de extrema direita.

A divulgação indevida pelo ministro André Mendonça do STF, de indícios de vínculos entre Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, desviou a atenção dos vínculos entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, como no financiamento do filme Dark Horse e, ao mesmo tempo, motivou a base de extrema direita, ávida por vingança contra o Moraes pelo seu papel na condenação de Jair Bolsonaro e outros responsáveis pela tentativa de golpe.

Claramente, a carência de diálogos e debates com os candidatos à presidência sobre questões fundamentais que afetam a qualidade de vida das pessoas – como a geração de emprego e renda, saúde pública, educação, segurança pública, meio ambiente e mudanças climáticas – no sentido de facilitar comparações entre as propostas dos candidatos, tem prejudicado a qualidade do processo eleitoral, favorecendo, a nosso ver, a campanha de Flávio Bolsonaro.

É difícil estimar a influência de Trump e Rubio, com suas táticas intervencionistas, no primeiro turno das eleições presidenciais. Por um lado, devem ter animado uma parte significativa da base de Bolsonaro. Por outro lado, as investidas da Casa Branca contra a soberania do Brasil, com a anuência e participação de Flávio e Eduardo Bolsonaro, provocaram indignação entre grande parte do eleitorado, o que encontrou eco nas declarações do Presidente Lula na assembleia da ONU, lembrando que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

Na campanha do Presidente Lula, há iniciativas importantes sendo tomadas para superar lacunas e falhas do primeiro turno, a exemplo de melhorias na comunicação, especialmente a articulação entre mobilizações de rua com a utilização das redes sociais, com envolvimento de jovens como a deputada eleita Ana Elisa Santos Silva.

Nas mensagens de campanha do Lula nos próximos dias, além de apontar contradições e omissões nas propostas do Flávio Bolsonaro, lembrando como foi o governo de seu pai em áreas como a saúde pública, é preciso destacar resultados positivos do último mandato e, ao mesmo tempo, apresentar propostas inovadoras para um próximo governo que se conectam diretamente com a qualidade de vida no cotidiano das pessoas – ou seja, “fazer mais e melhor”.

As políticas públicas na área de infraestrutura – como transportes, energia, comunicação e saneamento básico – têm recebido pouca atenção nesse processo eleitoral, apesar de sua enorme relevância para a qualidade de vida das pessoas e o alcance dos objetivos da ONU sobre desenvolvimento sustentável (ODS). O atual governo do Presidente Lula tem demonstrado avanços no sentido de melhor aproximar políticas de infraestrutura das necessidades das pessoas – a exemplo da geração descentralizada de energia solar fotovoltaica entre comunidades rurais isoladas, que antes dependiam de energia oriunda de geradores a óleo diesel. Entretanto, ainda há muito o que fazer. Assumir compromissos com políticas de infraestrutura que priorizam a inclusão social, a sustentabilidade ambiental e a resiliência climática, com transparência e participação social, pode ser uma das inovações de um novo governo do Presidente Lula destacadas nesta reta final do processo eleitoral de 2026.

No caso da campanha do Flávio Bolsonaro, além da ânsia em soltar o pai da prisão domiciliar e promover o impeachment de Alexandre de Moraes, muitas perguntas permanecem sem respostas sobre como será o próximo governo, caso seja eleito, como por exemplo: Como pretende realizar o prometido “tesouraço” nas contas públicas, inspirado no exemplo de Javier Milei, sem provocar graves prejuízos em programas essenciais, em áreas como a saúde pública, educação e previdência social?

Quais as propostas do candidato em relação à garantia de direitos trabalhistas, inclusive em relação à eliminação do regime do 6×1?

Quais as lições aprendidas com a resposta desastrosa do governo de Jair Bolsonaro frente a pandemia da COVID-19, quando morreram mais de 700 mil brasileiros, e quais as medidas que seriam tomadas para evitar uma nova tragédia?

Quais as medidas a serem tomadas para evitar a repetição de graves erros da política ambiental do governo de seu pai, em relação a temas chave como proteção da biodiversidade, gestão das águas e controle da poluição atmosférica?

Quais compromissos o candidato está disposto a assumir em relação aos direitos dos povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais, inclusive seus direitos territoriais e o direito à consulta livre, prévia e informada?

Como o candidato propõe evitar a repetição de tragédias, como o ocorrido com o povo Ianomami durante o governo do pai, como resultado da omissão do governo federal frente à proliferação de garimpos para a exploração ilegal de ouro?

Quais as propostas do candidato em relação à emergência das mudanças climáticas, em termos de prevenção, mitigação e adaptação? Como pretende fortalecer a capacidade dos estados, municípios e comunidades para lidar com os efeitos dos eventos climáticos extremos (enchentes, deslizamentos, secas)?

Quais são as propostas específicas do candidato em relação aos direitos das mulheres, dos idosos, das crianças e adolescentes, e da população LGBTQIA+?

Como propõe viabilizar uma política robusta de segurança pública, inclusive em relação ao crime organizado, tendo em vista o relacionamento histórico do candidato com as milícias no Rio de Janeiro?

Por último, como o candidato explica as posturas da família Bolsonaro de submissão da soberania do Brasil aos interesses do governo Trump, que incluíram um convite para participar de um eventual governo de transição? Qual a sua posição sobre a participação do Brasil no “Escudo das Américas” e a exploração de minerais críticos por empresas americanas no território nacional?

É importante ressaltar que as provocações agressivas do Governo Trump ao Brasil – como a imposição de elevadas tarifas a partir de abril de 2025, a utilização da Lei Magnitsky para criminalizar autoridades brasileiras, a revogação de visto da embaixadora brasileira em Washington e a caracterização do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas – se enquadram na geopolítica “Donroe”, que inclui entre suas prioridades influenciar as eleições brasileiras em favor de Flávio Bolsonaro, mas com implicações que vão desde a exploração de recursos naturais e operações militares em território nacional até a autonomia de instituições financeiras e o PIX no Brasil.  

No que se refere aos debates presidenciais nesta reta final do segundo turno, trata-se de uma das últimas oportunidades para o eleitor poder comparar propostas de governo dos dois candidatos sobre questões fundamentais que mais afetam o seu cotidiano. Infelizmente, o formato do debate na Band, do dia 18 de outubro, facilitou a superficialidade e um comportamento arrogante e desrespeitoso do Flávio Bolsonaro – até o “stalking” atrás de Lula, inspirado no debate de Trump com Hillary Clinton em 2016, em conjunto com táticas de distração que sistematicamente deixaram perguntas sem respostas. Tomara que o formato do debate na Globo, na próxima sexta-feira, contribua para um enfrentamento civilizado de ideias e propostas de governo, e não um circo de distrações e ofensas.

Em qualquer cenário de resultado do segundo turno, a mobilização da sociedade civil vai continuar sendo fundamental frente às ameaças da extrema direita liderada pela família Bolsonaro e ao intervencionismo de Trump e Rubio. Mesmo com uma vitória de virada do Presidente Lula em 25 de outubro, que é plenamente possível, vai ser necessária muita pressão da cidadania sobre o Congresso Nacional, especialmente o Senado Federal, em defesa da Constituição e da democracia brasileira.

Conforme lembrado por Bertolt Brecht em sua paródia teatral sobre a Alemanha nazista (
“A Resistível Ascensão de Arturo Ui”), a ascensão da extrema-direita não é um fato inexorável, mas sujeito à ação da cidadania e à resistência coletiva em prol da democracia, como base fundamental de uma sociedade mais justa, fraterna e sustentável.

Flávio Bolsonaro promete liberdade na terra, mas esquece a Constituição

Ao prometer que o produtor rural poderá fazer “o que quiser na sua terra”, Flávio Bolsonaro esbarrou num limite que um candidato à Presidência deveria conhecer: a Constituição. Em Marabá, no Pará, nesta segunda-feira (19/10), o senador afirmou:

“Eu vou fazer a maior regularização fundiária que o Pará já viu. Sua terra vai ser sua no papel. Vamos respeitar a propriedade privada, você vai poder plantar, criar gado, vai fazer o que quiser na sua terra e o que você explorar da terra é seu! Esses entraves que existem, ambientais, principalmente por razões ideológicas, isso vai acabar.”

A Constituição de 1988 define o meio ambiente ecologicamente equilibrado como “bem de uso comum do povo” e determina que o poder público e a coletividade o preservem para as gerações presentes e futuras. O artigo 186 estabelece, ainda, que a função social da propriedade rural exige a utilização adequada dos recursos naturais e a preservação ambiental. A escritura não coloca ninguém acima dessas obrigações.

Um presidente pode propor mudanças nas leis e buscar apoio do Congresso para aprová-las. Não pode, por vontade própria, revogar a Constituição ou dispensar seu cumprimento. Mesmo alterações na legislação ambiental precisam respeitar os limites constitucionais. A promessa de que o proprietário poderá fazer qualquer coisa em sua terra não se sustenta.


Há consequências concretas. O Código Florestal exige a manutenção de reserva legal, uma parcela do imóvel rural cuja vegetação nativa deve ser conservada. Nas áreas de floresta da Amazônia Legal, a regra é de 80%, ressalvadas as hipóteses previstas na legislação. Ser dono da terra não significa ter autorização para derrubar toda a mata.

O mesmo vale para a água, que é um bem de domínio público. Um rio não vira propriedade particular ao atravessar uma fazenda. O proprietário não pode despejar veneno na água porque ela passa dentro de seus limites: a contaminação segue adiante e pode atingir outras comunidades. O dano não respeita a cerca.

O histórico do candidato ajuda a entender a declaração. Em 2019, o próprio Flávio apresentou, ao lado de Marcio Bittar, hoje senador do PL pelo Acre e integrante do bolsonarismo, um projeto para extinguir a reserva legal. A proposta foi retirada pelos autores e arquivada naquele mesmo ano. Portanto, a ideia já esteve no papel, com a assinatura de quem agora promete liberdade irrestrita para explorar a terra.

Na mesma passagem por Marabá, Flávio prometeu a maior regularização fundiária que o Pará já viu. Regularizar ocupações legítimas e dar segurança jurídica a quem tem direito à terra é necessário. Num estado marcado por conflitos fundiários e grilagem, porém, uma promessa dessa dimensão exige a apresentação de critérios e salvaguardas.

O risco é que o anúncio seja entendido como sinal de que ocupar uma área pública hoje poderá render um título amanhã. A expectativa de regularização futura pode estimular novas ocupações ilegais. É esse incentivo à grilagem que o candidato precisa afastar, explicando quem será beneficiado e sob quais condições.

A declaração ocorre poucos dias depois de o governo Lula anunciar o menor desmatamento da Amazônia Legal desde o início da série histórica, em 1988, no governo José Sarney, que também criou o Ibama: 3.335 quilômetros quadrados entre agosto de 2025 e julho de 2026, queda de 41,8% sobre o período anterior. O monitoramento é feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Para esta coluna, esta tem sido a campanha mais pobre em ideias e debates relevantes desde a redemocratização. A questão ambiental, decisiva para a economia, a saúde e o futuro do país, ficou à margem. O resultado alcançado no governo Lula deveria provocar uma discussão séria sobre como preservar e ampliar esse avanço. A fala de Flávio aponta para o risco de retrocesso.

A promessa não autoriza legalmente o desmatamento, mas pode ser ouvida como licença política para avançar sobre a floresta. Quem disputa a Presidência precisa saber a diferença entre defender a propriedade e prometer que, dentro dela, vale tudo.

Matheus Leitão

A crise histórica e o aparecimento dos 'monstros'

“Com a ‘marcha sobre Roma’ [1922], que pressiona a monarquia, os fascistas chegam ao governo, com a nomeação de Mussolini para a chefia do gabinete. Começa para o PCI [Partido Comunista Italiano]um período de ilegalidade de fato. No Partido, como Trotski recordará em 1932, ninguém admitia a possibilidade de uma ditadura fascista ‘salvo Gramsci’.
“Cronologia da vida de A. Gramsci”, Cadernos do Cárcere, 2004.

Em texto com data provável de 1930, Antonio Gramsci observa o fenômeno crise histórica para afirmar que seu caráter está, precisamente, no fato de que o “velho morre e o novo não consegue nascer: nesse interregno verificam-se os mais variados fenômenos mórbidos”. Ou, na versão mais conhecida (retirada da tradução francesa), “o velho mundo está morrendo, o novo tarda a aparecer e, nesse claro-escuro, surgem os monstros”.


O autor de Cadernos do Cárcere está, evidentemente, a refletir sobre a Europa de então. Sua Itália já estava sob o jugo fascista (desde 1922), e na Alemanha o nazismo avançava marchando com botas de sete léguas. Hitler, como é sabido, conquistaria a chancelaria em 1933. O que se segue, inclusive entre nós, é história consabida, e nada edificante.

O “claro-escuro” gramsciano precisa o intervalo histórico entre os estertores da velha ordem, quando ela perde a capacidade de reprodução, e uma nova ordem sucessora ainda não conseguiu impor-se. Karl Marx (prefácio à Contribuição à crítica da economia política, 1859) explica como, em determinada etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção. Quando isso ocorre, as relações de produção deixam de cumprir com seu papel de fator de desenvolvimento e passam a atuar como entraves.

A crise de hegemonia, em sentido gramsciano — descendente da análise marxista do bonapartismo —, ocorre quando a classe dominante não consegue mais construir um consenso em torno de seu projeto. O Estado (“um comitê para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa”) perde a capacidade de representar como interesses universais da sociedade os interesses particulares do capital. É o momento em que “o velho está morrendo e o novo não pode nascer”.

Entra em crise a capacidade de a classe dominante exercer sua liderança ideológica (“as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante”) sobre a sociedade, essencial para o exercício do mando; a ordem burguesa vê diluírem-se as condições necessárias de funcionamento e legitimação. O momento seguinte é o de falência de sua capacidade de constituição de uma ordem alternativa, necessária para intentar sua sobrevida, ainda que em outros termos.

A crise de autoridade e de hegemonia abre espaço para fenômenos políticos reacionários, e a desagregação da ordem política favorece a adesão a soluções patológicas, dentre as quais a mais significativa é a via totalitária ou autoritária, por definição regressiva.

Ela não carece de ação revolucionária e pode mesmo realizar-se nos marcos da legalidade formal, como é, no caso brasileiro, a ameaça presente do neofascismo. De outra parte, nossa história é fecunda em exemplos de alteração da ordem para que a ordem permaneça a mesma. Neste sentido, é exemplar o golpe de Estado da madrugada de 1º de abril de 1964. Em 1889, o golpe da Proclamação da República também serviu para manter no poder a ordem do latifúndio arcaico, que sobreviveria até pelo menos 1930.

A classe dominante perde a adesão das grandes massas, e sua hegemonia (desconsiderada a análise respeitante a qualquer sorte de legitimidade) é posta em xeque. Quando isso ocorre, a ordem passa a depender da força coercitiva do Estado, à qual se associa a instrumentalização dos partidos e de forças sociais, inclusive movimentos religiosos e organizações políticas mobilizados em defesa do statu quo, ou do recuo histórico, como se observa, entre nós, no bolsonarismo e em setores da direita evangélica.

A ordem vigente entra em crise, mas conserva ainda forças para impedir que uma nova ordem emerja e, frente ao impasse, a desagregação política abre o largo espaço por onde trafegam as soluções autoritárias e messiânicas. Foi assim, na Argentina eamSão sempre exemplos históricos a ascensão do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha.

Foi em ambiente de crise que emergiram as formações totalitárias do século passado, percorrendo os caminhos abertos pelo fracasso da social-democracia. Não só na Europa como na América Latina, e entre nós, com o Estado Novo, que derrogou a Constituição democrática de 1934, tentativa frustrada de normatizar o movimento de 1930. Em 1946 o cel. Perón é eleito na Argentina. Outro exemplo, em nosso Continente, para ficarmos em poucos, é oferecido pelo Peru. Em 1990 Alberto Fujimori é eleito Presidente, para, em 1992, com apoio das Forças Armadas, comandar um autogolpe e impor uma ditadura que sobreviveria até 2000.

Esse quadro certamente ajuda a explicar a erosão democrática que percorre o mundo no desdobramento da crise estrutural do capitalismo, e que chega de forma quase avassaladora ao nosso continente, tocada a partir da Casa Branca, acicatada pelos impasses que se colocam para sua hegemonia, mesmo no mundo ocidental. A crise geopolítica é ainda alimentada pelo esgotamento de sua economia, ponto de partida para a crise política, da qual o trumpismo é a mais evidente consequência. Este é o caráter ostensivo da crise do capitalismo, que hoje, mais do que nunca, depende de sua liderança, não só política e econômica, mas, antes de tudo, de sua salvaguarda militar. Sua agressividade não deve ser tributada à patologia de seu presidente.

Não é esta, porém, a única via que a história registra como alternativa à crise de hegemonia.

Com Marx, sabemos que as contradições não produzem necessariamente uma crise terminal do capitalismo. A história vem demonstrando, à saciedade, os recursos desse sistema para administrar suas contradições/seus conflitos, reorganizar a produção, conquistar novos mercados, alterar as relações de trabalho (aprofundando a exploração de que se nutre) e, saltando para a política, alterar a atuação do Estado. Por isso mesmo, a crise do capitalismo, que também pode ser vista como fenômeno a ele imanente, não significa, ipso facto, seu fim.

É prudente não confundir determinismo histórico com fatalismo: as condições históricas revelam a crise, mas não a resolvem. Não basta que a sociedade produza desigualdade, que o Estado seja instrumento de opressão dos interesses das classes subalternizadas pelo capital; essas são condições necessárias, mas não suficientes para a luta de classes. Gramsci nos dirá que a crise não consiste simplesmente no fato de que o velho perdeu força. Consiste também em que o novo não adquiriu capacidade suficiente para substituí-lo. As contradições do capitalismo, tão bem identificadas por Marx, se convertem em crise de direção, mas essa crise não conduz necessariamente a uma alternativa emancipatória.

O salto qualitativo entre a passividade e a consciência política, ponte para a luta de classe, não resulta, automaticamente, naturalmente, deterministicamente, da existência proletária: é fruto do processo social. O avanço político se realiza quando as classes subalternas – avançando sobre as reivindicações econômicas, que no entanto desempenham essencial papel pedagógico --- entendem que seus interesses, aparentemente particulares, devem se tornar interesses de outros grupos subalternizados. É quando, retomamos Gramsci, o proletariado se vê capaz de elaborar um projeto político para toda a sociedade e disputar a hegemonia; é quando os sindicatos se legitimam e se politizam.

A crise política brasileira de nossos dias contagia a institucionalidade e se debruça sobre o Poder Judiciário, no qual a cidadania não sabe se com ele pode contar para a defesa de seus direitos. Mas nada é mais contundente do que os números do pleito de 4 de outubro passado, de que resultou a formação de um Congresso majoritariamente de direita, apto a romper com o pacto social que nos deu a Constituição liberal de 1988 e, assim, jogar por terra as conquistas sociais amealhadas pela sociedade ao longo de sua história republicana. Ademais, e mais facilmente do que em 2016, poderá decretar o impeachment do futuro Presidente. Lula, reeleito, corre o risco de governar sob esta verdadeira espada de Dámocles.

Se a direita abocanhar a Presidência da República, terá sob suas rédeas, os três poderes da República, o que nem mesmo a ditadura militar, de que o bolsonarismo é herdeiro, logrou alcançar. Porque, além do Executivo e do Congresso, controlará o Poder Judiciário, de fio a pavio: o próximo Presidente indicará, em seu mandato, pelo menos quatro novos ministros para o STF. Poderão ser mais quatro ministros “terrivelmente evangélicos” que se juntarão aos seus dois péssimos espécimes que já lá estão. A soma mostra seis ministros em um colegiado de onze!

O novo Congresso é fruto da crise de representação, que põe em risco a República. Ela resulta da percepção da classe dominante de que o projeto de centro-esquerda, representado pelos governos liderados pelo PT, cobra concessões que ela não está disposta a fazer. Justiça seja feita à Faria Lima: desde 2013 ela dá mostras de insatisfação, sinais que nos recusámos a identificar, mesmo depois do golpe parlamentar que depôs a presidente Dilma Rousseff, e ainda mesmo depois das eleições de 2018!

Mesmo após a dificílima eleição de Lula em 2022, nos revelámos incapazes de construir “uma nova maioria”, como reclama Marcio Pochmann, e assim se explicam nossas dificuldades de enfrentar o avanço da onda reacionária.
Este foi o preço cobrado pelo “pacto de conciliação”, inarredavelmente conservador.

De um lado, perfila-se a classe dominante para impor sua vontade, primeiro pelo voto. Conquistado o pódio, avançará sobre a ordem democrática e os direitos sociais e fará deste país uma extensão do poder imperial de Washington.
As classes subalternas brasileiras ainda não se encontram em condições de construir uma alternativa de hegemonia. A resistência à ditadura, a luta pelas Diretas Já, as greves do ABC, a reconstitucionalização liberal, configuram momentos de festejada politização, que, no entanto, vive o risco de ser posta a pique pela avalanche da direita.

Mas há algo de novo a registrar, e muito precioso: o verdadeiro levante popular que, nos últimos 15 ou 20 dias, tomou as ruas de todo o país, em defesa da democracia, neste transe reorientada pela necessidade histórica de reeleger o presidente Lula, o dique que a sociedade pode construir para conter a ameaça neofascista.

Este levante é, por si só, o fato mais notável desta quadra, e o que mais ressalta é o caráter inusitado de sua espontaneidade. Desapartada dos partidos, ou independentemente deles, a juventude veio às ruas numa mobilização que, entre nós, superou os idos de 1968, empolgou o país, animou o que talvez possamos chamar de “alma nacional” e possivelmente definirá o pleito.

A emergência dos jovens na política, pondo por terra a apatia em que parecia adormecida a sociedade, traz de volta a esperança, pois revela um alto nível de politização que perdurará para além do pleito, indicando a construção de uma nova sociedade, disposta a construir sua história.

Não estamos mais, passivos, condenados a assistir à emergência dos monstros.

***

Os Trumps parecem uma família boazinha do subúrbio perto do clã Bolsonaro — Sob esse título (Gegen den Bolsonaro-Clan wirken die Trumps wie eine brave Vorstadtfamilie!), a revista alemã Stern publicou, em setembro, extensa reportagem sobre o clã Bolsonaro e o processo eleitoral brasileiro. O professor Pedricto Rocha preparou um resumo da matéria, também repercutida por Luiz Carlos Azenha. Com sarcasmo, a revista considera “especialmente grotesca” a pretensão de Flávio Bolsonaro, herdeiro político do clã, de apresentar-se como “inimigo do sistema”, quando sua trajetória sempre esteve vinculada à política familiar. A reportagem aborda a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, as relações com milícias armadas e o esquema das “rachadinhas”, além do enriquecimento da família, que teria transformado a política em negócio lucrativo, acumulando patrimônio por meio de salários públicos, verbas de gabinete e transações suspeitas, incluindo a aquisição de 51 imóveis com dinheiro vivo. Para a Stern, a eventual volta do clã ao poder representaria um constrangimento internacional para o Brasil. A revista retrata Flávio Bolsonaro como figura politicamente incapaz, sem ideias próprias ou projeto a oferecer ao país.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Como o fim da marcação de munições alimenta o crime organizado

Em debates eleitorais, certas declarações revelam muito mais do que simples gafes de palanque: expõem a fragilidade de projetos políticos inteiros. Na sabatina do Jornal Nacional, de 16 de outubro de 2026, o candidato a presidente, Flávio Bolsonaro foi confrontado pela jornalista Renata Lo Prete sobre sua defesa do Projeto de Lei 3.723/2019. O texto retira do Estatuto do Desarmamento, a obrigatoriedade de marcação de lotes nas munições compradas por órgãos públicos e forças de segurança. Questionado repetidamente sobre como a polícia poderá investigar crimes graves se perder essa ferramenta, o senador fugiu das explicações práticas e chamou a medida de um mero “detalhezinho”, prometendo compensar o vácuo com investimentos em inteligência artificial e penas mais altas.

Classificar a identificação de cartuchos como um detalhe sem importância ignora a realidade do trabalho policial e da perícia científica. Em uma cena de homicídio ou confronto, a cápsula deixada no chão costuma ser o único vestígio físico capaz de ligar o autor do disparo ao contrato de compra daquele projétil. Tratar esse mecanismo como burocracia descartável não apenas enfraquece a elucidação de crimes, mas garante proteção prévia a redes de corrupção que desviam arsenais oficiais para o crime organizado.


A ideia conveniente de que o poder de fogo das facções brasileiras vem exclusivamente do contrabando internacional foi desfeita por dados empíricos. O relatório De onde vem o tiro?, produzido pelo Instituto Sou da Paz, analisou 31.699 cartuchos de fuzil apreendidos com o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, entre 2018 e 2025. A pesquisa revelou que a indústria brasileira é a principal fornecedora da facção: 40,9% de todas as munições foram fabricadas no país pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC). Mais grave ainda: entre essas munições nacionais, 51,9% traziam códigos que comprovavam sua compra original por Forças Armadas ou policiais. Em termos gerais, mais de um quinto (21,2%) do arsenal de fuzil nas mãos do tráfico carioca saiu diretamente dos depósitos do próprio Estado.

O estudo também derruba a tese de que esses desvios seriam sobras esquecidas de governos passados. Das munições com data de fabricação identificada, 39,9% tinham sido fabricadas em até dois anos antes da apreensão policial. Isso demonstra que o desvio é recente e contínuo. Essa rota de abastecimento ficou evidente na Operação Contenção, em outubro de 2025, na qual cápsulas do lote ETU03, entregue ao Exército em Barueri (SP), em 2022, foram disparadas contra policiais no Rio de Janeiro, a centenas de quilômetros de distância. Apesar disso, as investigações esbarram no sigilo das próprias autoridades: dos 119 códigos de lote encontrados pela pesquisa, apenas 34 foram identificados, porque o Exército se recusa a informar quem comprou os outros 85 registros.

Se o controle já falha no setor público, no mercado privado ele praticamente não existe. A lei brasileira exige marcação nos cartuchos comprados pelo Estado, mas deixa as munições vendidas a cidadãos comuns e a Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) em total anonimato. No primeiro semestre de 2025, os CACs compraram cerca de 1 milhão de balas para fuzis, dois terços de todo o consumo nacional desses calibres de guerra, o que equivale a mais de 5 mil cartuchos de alto impacto entregues por dia a civis sem qualquer código que identifique o comprador final.

Essa brecha alimenta um comércio ilegal paralelo. O Sou da Paz apontou que 20,7% dos casos de abastecimento da facção ocorreram pela revenda de cotas legais por CACs e agentes de segurança corrompidos. O método mais comum é o uso de “laranjas”: pessoas sem antecedentes criminais compram grandes volumes legais a preço de fábrica e revendem com lucro alto ao crime organizado. Crimes históricos da crônica policial brasileira, como o assassinato da juíza Patrícia Acioli, em 2011, e as mortes da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes, em 2018, só foram esclarecidos porque as munições usadas pertenciam a lotes públicos marcados. Se tivessem sido compradas no mercado civil comum, os estojos seriam anônimos e os mandantes permaneceriam impunes.

Fuzis são peças de metal que duram décadas, mas armas não atiram sem munição. As facções dependem do fornecimento contínuo de projéteis para sustentar disputas territoriais. A polícia rodoviária apreende volumes expressivos dessas cargas nas estradas, foram 27.850 cartuchos apreendidos em transporte, contra pouco mais de 2.300 recolhidos em tiroteios diretos. No entanto, quando a carga interceptada não tem marcação, a punição recai apenas sobre o motorista do veículo. A polícia não consegue descobrir quem comprou a mercadoria na fábrica nem quem autorizou sua entrega, deixando os verdadeiros fornecedores intocados.

Defender o fim da marcação de munições públicas e normalizar o anonimato das compras privadas é uma contradição insanável na segurança pública. Prometer investimentos em inteligência artificial não resolve o problema: nenhum computador consegue decifrar o que foi deliberadamente apagado da lei. Da mesma forma, aumentar as penas de prisão não reduz a violência se as provas materiais continuam sendo destruídas na origem. Ao tratar a rastreabilidade como um “detalhezinho”, o discurso punitivista revela que não tem planos reais contra o crime. Criar um apagão sobre a origem das balas não protege o cidadão de bem; apenas garante que o crime organizado continue armado até os dentes sem deixar rastros.

A mídia privada, os anunciantes e a independência editorial

Até agora, o escândalo do Banco Master estava concentrado principalmente nas relações corruptas e criminosas entre agentes econômicos e autoridades da política e do Judiciário. Mas as novas revelações da semana passada, que trazem à tona o envolvimento do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com executivos de meios de comunicação, mais especificamente do portal Metrópoles e do Grupo Globo, apontam para uma dimensão tanto ou mais perigosa para a democracia, por ser difícil de identificar e punir. Vale ressaltar que relações suspeitas de financiamento, patrocínio e suposta interferência editorial envolvendo o caso Master já haviam sido atribuídas também aos portais DCM, CartaCapital, Brazil Journal, IstoÉ e PlatôBR.


Todos esses casos não devem ser interpretados apenas pela perspectiva de desvio de conduta individual. Eles são reveladores de um problema estrutural: o que acontece com o direito à informação quando os interesses comerciais de uma empresa de comunicação se confundem com os interesses de seus anunciantes? Ou, dito de outra forma: é possível compatibilizar o interesse público que deveria revestir o trabalho jornalístico com a dependência econômica de um veículo por anúncio publicitário?

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), segue sendo um farol da promoção de uma conduta ética de alto padrão profissional. Ele é explícito ao estabelecer que o compromisso com a informação deve prevalecer sobre os interesses econômicos das empresas. Cabe aos veículos garantir condições para que esse princípio seja respeitado na prática.

Além disso, como bem ressaltam as entidades sindicais do campo do jornalismo, é fundamental distinguir as responsabilidades de proprietários e dirigentes das empresas de comunicação daquelas dos profissionais que trabalham nas redações. Jornalistas não podem ser responsabilizados por decisões tomadas à sua revelia, nem pressionados a modificar ou omitir informações para atender a interesses particulares.

Porém, mais do que respostas pontuais, esses graves episódios de desvio ético evidenciam os limites de um sistema de comunicação, como é o caso do brasileiro, excessivamente dominado por poucos grandes conglomerados empresariais e de suas relações com anunciantes. Quem paga, manda? Se a informação é um direito fundamental, e não uma mera mercadoria, sua produção e circulação não podem ficar condicionadas à capacidade de gerar receitas ou atender a interesses privados.

A resposta democrática passa, portanto, não apenas pela cobrança de transparência e responsabilidade das empresas jornalísticas, mas também pelo fortalecimento de um ecossistema de mídia efetivamente plural. Isso inclui meios públicos dotados de autonomia editorial, governança independente e financiamento estável. Passa também por políticas que favoreçam a sustentabilidade de mídias comunitárias, alternativas e sem fins lucrativos. 

Não se trata de substituir um modelo privado por outro estatal ou público, mas de assegurar que diferentes vozes, perspectivas e interesses sociais tenham condições reais de participar do debate público. Como previsto na própria Constituição Federal de 1988, tão atacada na boca de políticos autoritários. O artigo 223, já clássico na defesa da democratização das comunicações, aponta a obrigação de complementaridade entre os sistemas público, privado e estatal de radiodifusão.

Esse princípio expressa que a pluralidade não é apenas uma suposta diversidade de opiniões dentro de um mesmo grupo empresarial. É também a existência de diferentes formas de propriedade e de financiamento. Meios públicos autônomos, veículos comunitários e organizações jornalísticas sem fins lucrativos ampliam a diversidade de vozes e reduzem a dependência de interesses comerciais concentrados. Porém, isso exige políticas de financiamento transparentes, critérios públicos de distribuição de recursos e salvaguardas contra interferências políticas ou econômicas.

Não basta garantir liberdade de imprensa às empresas jornalísticas. Um Estado democrático deve assegurar as condições materiais para que o direito à informação seja exercido com independência e pluralidade, em favor do conjunto da sociedade. É nesse sentido que o fortalecimento da comunicação pública e das emissoras comunitárias deixa de ser uma pauta setorial e passa a integrar a agenda de aprofundamento da democracia.

São estas garantias civilizatórias que devem guiar um debate sério, suscitado por esses lamentáveis casos de desvio de conduta, que têm implicações muito mais sérias do que apenas relações espúrias entre um ou dois profissionais da mídia e um anunciante, como ressaltamos. Estamos diante de uma grave evidência de anomalia no interior da democracia brasileira, que não é de agora. Não há democracia sem um ambiente de mídia efetivamente desconcentrado, descentralizado e independente dos poderes políticos e econômicos.

Perigo para o humanismo

Está se tornando cada vez mais óbvio que não é a fome, nem os micróbios, nem o câncer, mas o próprio homem o maior perigo para a Humanidade, porque ele não dispõe de proteção adequada contra epidemias psíquicas, infinitamente mais devastadoras, em seus efeitos, do que as maiores catástrofes naturais.
C. G. Jung, "O Homem Moderno em Busca de uma Alma"

Duas promessas de Flávio Marçal, o coach bolsonarista

Prosperidade qualquer um almeja. Então, por que não criar um ministério que abrace a causa? Tem orçamento, metas ou objetivos? Claro que não. Mas o que importa? A proposta de Flávio Bolsonaro tem a cara do discurso de coach de Pablo Marçal, que assumiu o papel de estrategista da campanha nesta reta final. O estelionato eleitoral transforma a prosperidade individual em promessa de governo, usando palavras genéricas como empreender, crescer e vencer, mas sem apresentar qualquer desenho administrativo.

Flávio propõe reunir qualificação profissional, crédito e incentivo aos pequenos negócios. Também afirmou que manterá o Bolsa Família, inclusive para quem conseguir emprego. “Para esse governo, Bolsa Família é o máximo. Para mim, é só o começo”, boa frase, mas já se sabe o final.


O problema, bem pequeno, é que o plano de governo de Flávio não prevê a nova pasta. Ao contrário, promete extinguir pelo menos dez ministérios para reduzir gastos. Não existe prosperidade quando o governo, o principal indutor de desenvolvimento e crescimento no país, fecha a torneira dos gastos. A prosperidade é apenas um slogan que jamais se tornará política pública.

Sejamos justos, o plano do candidato possui um eixo denominado “Brasil que Prospera”, com propostas como a prioridade de beneficiários de programas sociais em ações de qualificação profissional, o incentivo à abertura de pequenos negócios e a transformação da Caixa Econômica Federal em um “Banco da Prosperidade”. Pobre Caixa.

Chamou atenção outra promessa vazia de Flávio no debate. Se Lula anuncia bilhões em bondades eleitorais atropeladas sem saber como bancá-las, Flávio se viu autorizado a fazer o mesmo. Quis emular o Desenrola com o perdão da dívida para MEIs. “Para você que é pessoa física, vai ficar seis meses parada a sua dívida. Você não vai pagar boleto nenhum. E para você que é pessoa jurídica, esse prazo vai ser de um ano”.

Mais uma vez, a proposta não está em seu plano de governo e evidentemente, o senador não detalhou como seria financiada a compra das dívidas, critérios para selecionar os beneficiários ou as condições de pagamento. Coisa de debate. Se não for eleito, senador fica sem mandato, mas não ficará sem emprego. Poderá seguir o caminho dos coachs, como seu estrategista Pablo Marçal.

O Brasil quer um presidente. A TV dá um inimigo

Se Hitler, Stalin e Pol Pot desembarcassem no Brasil, sem conhecer nossa eleição, poderiam imaginar que estamos escolhendo o responsável pelo fim do mundo e eles também achariam que estamos substituindo-os com muita competência. Cada campanha apresenta seu guerreiro como a última esperança da humanidade e o ninja adversário como uma mistura de assombração, cobrador e criador da Covid. Falta explicar, aos brasileirinhos, quem e como é que vai governar quando o terror passar.


Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.

Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.

O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.

Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?

Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!

No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.

Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.

Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.

Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!

O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.

O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.

Roberto Caminha Filho, economista, perguntará, aos dois, após as honoráveis propostas: Como farás e pagarás essa obra, Excelência? Sempre com muito respeito.
Roberto Caminha Filho