sábado, 15 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A 'praga' dos influencers: o cinema e a política já não querem críticos, querem cúmplices

Começo pelo que me é mais próximo. Houve um tempo em que os distribuidores nacionais e internacionais mostravam os filmes aos críticos porque admitiam que um filme podia ser pensado antes de ser vendido. O crítico via, escrevia, irritava o realizador e, de vez em quando, ajudava o público a descobrir uma obra que a publicidade não sabia embrulhar. Agora, a ante-estreia parece quase uma festa infantil, daquelas que outrora se destinavam aos filmes de animação da Pixar ou da Disney, organizada por uma multinacional: uma parede “instagramável”, pipocas da cor da campanha, brindes nas cadeiras e telemóveis erguidos antes de a luz se apagar. O filme ainda não começou e já é “uma experiência imperdível”. A opinião chega antes do objeto e a obra-prima nasce no corredor, ao lado do photocall.


Chamam-lhes influencers ou criadores de conteúdos, expressão suficientemente vaga para não se perguntar que conteúdos criam, para quem e pagos por quem. Alguns são cinéfilos sérios e chegam a públicos que os jornais abandonaram. O problema não é o TikTok, o YouTube ou a juventude. Uma crítica não fica inteligente por sair num jornal, nem estúpida por ser filmada na vertical. A fronteira está entre pensamento e promoção, independência e publicidade.

Os estúdios perceberam depressa a vantagem. Um crítico pode gostar ou não gostar. Um influencer convidado para uma estreia, alojado num hotel, conduzido pela passadeira vermelha, alimentado pelo catering e colocado durante vinte segundos diante de uma estrela tem, no mínimo, um problema de gratidão e, regra geral, não ganha um “tusto”. Nem é preciso ordenar-lhe que elogie. A censura moderna não levanta a voz: gere listas. Quem embaraça a campanha deixa de receber convites. Quem escreve “obra-prima” antes do embargo ganha uma entrevista, uma viagem e uma caixa de merchandising que acabará no lixo depois de produzir quatro stories.

Os grandes estúdios e as distribuidoras internacionais organizam sessões preparadas para gerar reações, não análises, nas quais os influencers recebem acesso antecipado e o crítico chega quando o filme já está coberto por “uau”, “épico” e “não estava preparado para isto”. Entretanto, alguns criadores de conteúdos também descobriram que uma opinião negativa rende mais visualizações. A indústria criou mascotes e acordou rodeada de monstros algorítmicos.

No fundo, os distribuidores já não procuram quem saiba falar de cinema. Procuram quem reduza melhor a distância entre o trailer e a compra do bilhete. Não querem uma leitura; querem uma temperatura. Não querem uma ideia; querem engagement. Não querem saber se o filme presta; querem saber se a hashtag pega. A crítica pergunta o que uma obra significa e que linguagem inventa ou repete. O marketing pergunta quantos seguidores tem a pessoa que vai dizer que chorou no fim. Entre uma pergunta difícil e uma lágrima bem iluminada, Hollywood escolhe a lágrima.

Depois aparece a desculpa suprema: “Temos de chegar à Geração Z.” A frase é dita com o paternalismo de quem acredita que os jovens já não conseguem ler três parágrafos. A Geração Z não nasceu ignorante. Não é, afinal, a geração mais qualificada e viajada de sempre? Porém, foi educada num ecossistema que recompensa a velocidade, castiga a dúvida e oferece estímulos sem contexto. Se desconhece a história do cinema, talvez seja porque as televisões deixaram de mostrar clássicos, as revistas de cinema fecharam ou se limitaram à sobrevivência através dos cliques do online, os jornais despediram a maioria dos críticos e jornalistas culturais e as escolas tratam a cultura como decoração ou acessório. Culpar os jovens por comerem mal depois de lhes fechar a biblioteca e abrir vinte cadeias de fast food é cobardia adulta.

A praga, portanto, não são propriamente os influencers. A praga é o modelo que transforma toda a pessoa numa superfície publicitária, toda a experiência em conteúdo e toda a opinião numa mercadoria. O influencer é apenas o rosto mais fotogénico do problema. Atrás dele estão distribuidoras, agências, departamentos de marketing e plataformas que descobriram uma forma barata de comprar proximidade. A publicidade tradicional tinha, pelo menos, a decência de parecer publicidade. Esta nova publicidade veste a roupa da amizade e começa por dizer: “Malta, tenho de vos contar uma coisa.”

É também por isso que tantos vídeos parecem ter sido produzidos pela mesma pessoa, ainda que apresentem rostos, penteados e sotaques diferentes. Há sempre uma estante estrategicamente desarrumada, uma planta que prova sensibilidade ecológica, um pequeno microfone agarrado entre os dedos e uma energia de vendedor de aspiradores promovido a filósofo da cultura. O filme “bateu-me muito”. A interpretação “está incrível”. A fotografia “é brutal”. A história “faz pensar”. Pensar em quê já seria pedir demasiado. O algoritmo não recompensa desenvolvimento; recompensa reconhecimento. O espectador deve perceber imediatamente se deve gostar, odiar, comprar ou partilhar. A dúvida, essa velha matéria-prima da inteligência, faz perder retenção.

Não é que os influencers digam sempre bem. Alguns já aprenderam que destruir um filme pode dar mais visualizações do que elogiá-lo. Mas até a negatividade obedece ao mesmo mecanismo. O filme não é analisado: é executado. “O pior do ano”, “uma vergonha”, “ninguém pediu isto”. De um lado, o entusiasmo alugado; do outro, a indignação industrial. No meio, o cinema, reduzido a combustível para alimentar uma personalidade digital que precisa de publicar amanhã, depois de amanhã e todos os dias, até que o algoritmo a substitua por alguém mais novo, mais rápido e com uma estante ainda mais bonita atrás de si.

O contágio não termina no cinema. A televisão e a informação televisiva descobriu o seu próprio influencer: o comentador residente. À segunda-feira domina finanças, à terça a guerra, à quarta a justiça e à quinta explica, com a mesma segurança, a alma nacional e o Governo do País. É uma marca com gravata. Mandar um repórter investigar custa dinheiro e pode produzir uma conclusão incómoda; sentar quatro comentadores à mesa ou por videoconferência de casa, custa menos e gera clips. A televisão imita o algoritmo: frases curtas, indignação pronta, adversários fixos. Quem diz “não sei” desaparece; quem grita muito regressa amanhã e nos dias seguintes.

O comentador televisivo já não está ali para esclarecer. Está para representar uma posição, ocupar uma trincheira e produzir frases suficientemente inflamáveis para circularem nas redes sociais. É o influencer político adaptado ao horário nobre. Tem maquilhagem profissional em vez de ring light, auricular em vez de microfone minúsculo e um realizador a escolher-lhe o melhor plano quando levanta a sobrancelha. A função, porém, é semelhante: transformar complexidade em identidade e informação em espetáculo.

O Digital News Report 2026 ajuda a perceber a mudança: 27% dos inquiridos recebem notícias de criadores dedicados à informação e 46% consomem alguma informação através de criadores de qualquer género. Consideram-nos mais divertidos e próximos, mas também menos fiáveis e imparciais do que os meios tradicionais. Confiamos menos, mas vemos mais; desconfiamos da mensagem, mas partilhamo-la porque dura quarenta segundos e sorri para nós.

A autoridade deixou de depender do conhecimento e passou a depender da familiaridade, por vezes até de um estúdio de televisão com croma atrás. Vemos a mesma pessoa todos os dias, ouvimos a sua voz durante meses, conhecemos a sala onde grava, o cão que lhe passa atrás e a caneca de café que segura. Acabamos por acreditar nela não porque apresente provas, mas porque já faz parte da mobília emocional da nossa vida. O jornalismo tinha instituições, editores, regras, correções e responsabilidades. O novo pregador digital tem seguidores. E um seguidor, como a própria palavra indica, não é exatamente alguém treinado para fazer perguntas.

Quando esta lógica entra na política internacional, o assunto deixa de ser apenas irritante e torna-se altamente perigoso e perverso. Um filme mal promovido pode perder espectadores; uma guerra promovida como produto pode fazer desaparecer seres humanos dentro de uma narrativa. Em Setembro de 2025, documentação registada nos EUA ao abrigo da lei dos agentes estrangeiros descreveu uma campanha internacional ligada a Israel, com verbas destinadas à produção de conteúdos e ao trabalho com influencers, incluindo metas mensais de publicações. O documento não prova que toda a defesa pública de Israel seja paga, nem permite acusar alguém apenas porque tem uma determinada opinião. Prova que os Estados compreenderam o valor estratégico de uma voz aparentemente pessoal e espontânea.

No caso de Gaza e da Palestina, esconder a origem de um patrocínio não é uma pequena infração publicitária. É manipular a confiança entre uma pessoa e a sua comunidade. Pode defender-se Israel, a Palestina, um cessar-fogo, dois Estados ou outra solução. O que não se pode é vender uma narrativa encomendada como descoberta moral. Uma viagem paga não é uma epifania. Um guião de agência não é consciência. E um vídeo diante de ruínas não se transforma em jornalismo só porque tem boa luz, música grave e um plano de drone.

A propaganda mais eficaz já não começa com uma voz oficial. Começa com: “Estive aqui e ninguém vos está a contar a verdade eu.” Trinta segundos mais tarde, uma guerra cabe num reel e o espectador sente que compreendeu tudo. Não compreendeu; foi conduzido. Desde outubro de 2025, a União Europeia aplica regras de transparência à publicidade política, que podem abranger criadores remunerados para promover ideias. Uma opinião patrocinada continua a ser publicidade, mesmo quando filmada na cozinha.

A manipulação tornou-se mais eficaz porque perdeu o aspeto de manipulação. Já não chega num panfleto assinado pelo ministério, mas numa conversa aparentemente casual. O influencer visita um lugar escolhido, fala com pessoas selecionadas, recebe dados preparados e regressa com a convicção daqueles que descobriram a verdade numa viagem de três dias com motorista e guia orientado. Tudo parece testemunho. Tudo parece espontâneo. Tudo foi pensado para parecer exatamente assim.

Não se trata de proibir opiniões favoráveis a um país, a um governo ou a uma causa. Trata-se de exigir que saibamos quando uma opinião também é um serviço. Quem paga a viagem? Quem escolhe o itinerário? Quem organiza os encontros? Quem fornece os números? Quem aprova o conteúdo? A transparência não impede ninguém de falar; apenas impede que a publicidade se faça passar por consciência individual. E talvez seja por isso que tanta gente a detesta.

Volto à velha crítica de cinema, sejamos honestos, também cavou parte da sua própria sepultura. Tornou-se previsível e prudente. Houve críticos que aceitaram funcionar como máquinas de promoção, confundindo o amor pelo cinema com a obrigação de elogiar tudo, fazer entrevistas coletivas em barda e não levantar ondas. Depois ficaram surpreendidos quando a indústria encontrou profissionais mais rápidos, mais jovens em geral, baratos, sorridentes e, portanto, menos sisudos e mal-vestidos.

Durante demasiado tempo, alguns críticos acreditaram que defender o cinema significava recomendar todos os filmes, como se uma crítica negativa fechasse salas e uma positiva salvasse a arte. Aceitaram entrevistas coletivas de cinco minutos, perguntas previamente negociadas, frases promocionais arrancadas aos textos e embargos desenhados para impedir qualquer pensamento antes do fim-de-semana de estreia. Habituaram a indústria à docilidade e agora queixam-se de que apareceu uma espécie ainda mais dócil. É a velha história do cortesão que protesta quando o rei arranja um cão ou um novo animal de estimação.

Mas a solução não é substituir a crítica por relações-públicas com rosto humano. É recuperar aquilo que ela ainda pode oferecer e o marketing nunca oferecerá: distância, memória, contexto, contradição, estilo, risco e liberdade para dizer não. Um crítico não existe para levar pessoas ao cinema a qualquer preço. Existe para lhes dar razões, inclusive razões suficientemente fortes para não ficarem em casa. Trabalha para a vida posterior do filme, quando o brinde foi deitado fora, o reel deixou de circular e sobra a obra ou o vazio.

A crítica sobreviverá, provavelmente sem o antigo trono de eleição, porque tudo tem o seu tempo e agora os influencers são decerto uma moda. Porém, seja de cinema ou de qualquer outra arte, terá de escrever melhor, dominar novas linguagens e deixar de confundir perda de privilégios com o fim da civilização. Mas não pode abdicar da independência para parecer moderna. Quando o cinema troca críticos por cúmplices, o jornalismo por comentadores e a política por vendedores de narrativas, não estamos perante uma democratização da comunicação. Estamos perante a privatização da confiança.

A verdadeira praga dos influencers não está no telemóvel, no ring light ou no microfone minúsculo, preso entre o indicador e o polegar. Está numa sociedade que só valoriza a opinião quando ela vende alguma coisa: um filme, um candidato, uma guerra, uma causa. Quando todos são convidados a influenciar, a única rebeldia séria é recusar ser influenciado pelo convite. E quando um estúdio, um partido ou um governo pergunta quantos seguidores temos, talvez esteja na altura de responder com a única métrica que ainda interessa: quantas perguntas somos capazes de fazer sem medo nem hesitações, até onde estamos dispostos a levar a nossa curiosidade e atenção e quantas verdades estamos preparados para dizer, mesmo sabendo que não haverá convite para a próxima estreia ou apresentação.

O momento do México e do Brasil

Na manhã de 6 de agosto, reuni-me, em nome da presidenta Claudia Sheinbaum, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Coincidimos em um ponto central: é momento de levar a colaboração entre nossos países a um novo nível. Nesse mesmo dia, realizou-se a sexta reunião da Comissão Binacional México-Brasil, três anos após a quinta, em um intervalo que transformou a ordem internacional.

O Brasil e o México são as duas maiores economias e as duas nações mais populosas da América Latina e do Caribe. Concentramos cerca de 60% do PIB regional, figuramos entre as 15 maiores economias do mundo e fazemos parte do G20. Essa dimensão implica responsabilidade compartilhada diante dos desafios de nosso tempo: combater a pobreza, a desigualdade e as mudanças climáticas, defender a democracia e preservar o multilateralismo.

Em matéria energética, a cooperação entre a Pemex e a Petrobras avança com base no memorando assinado em junho, que abriu uma agenda de intercâmbio técnico, tecnológico e regulatório em exploração, produção e transformação de hidrocarbonetos. Soma-se a isso uma cooperação crescente em biocombustíveis, área na qual o México aprenderá com a experiência brasileira.

Nossos governos compartilham uma convicção: a soberania energética e o desenvolvimento econômico devem avançar de mãos dadas com o combate às mudanças climáticas e com soluções baseadas na natureza. O Brasil demonstrou isso em novembro passado, quando sediou, em Belém, a COP30, a primeira conferência climática das Nações Unidas realizada na Amazônia. Dela resultaram compromissos sobre adaptação, proteção florestal e combustíveis sustentáveis. O México chegou a esse encontro com uma Contribuição Nacionalmente Determinada renovada.

Segundo o Banco do México, no primeiro semestre deste ano, nossas exportações para o Brasil cresceram cerca de 33%, e ambos os governos concordaram em ampliar o intercâmbio e os investimentos. O memorando de ciência, tecnologia e inovação assinado nesse mesmo dia abre caminho para o trabalho em inteligência artificial, semicondutores e computação quântica.

O Brasil convidou o México a integrar o Centro Latino-Americano de Biotecnologia, e o México convidou o Brasil a integrar a Agência Latino-Americana e Caribenha do Espaço. A cultura segue o mesmo caminho: a nova sede do Instituto Guimarães Rosa abrirá suas portas no México, junto ao Instituto Matías Romero, para ensinar português aos nossos funcionários e funcionárias.

Diante de um momento complexo na ordem internacional, México e Brasil compartilham uma mesma visão: diplomacias a serviço dos povos — e do nosso planeta — e uma ordem internacional sustentada no direito, que se aplique igualmente a todos e todas. Daí nossa defesa do multilateralismo, do direito internacional, da não ingerência e da igualdade jurídica dos Estados; o impulso a uma reforma das Nações Unidas à altura do nosso tempo; e o compromisso de preservar a América Latina e o Caribe como a Zona de Paz proclamada pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Nesse mesmo espírito, o México apoia a candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral das Nações Unidas.

Essa visão compartilhada tem expressões concretas. O Brasil assumiu a representação dos interesses do México no Peru enquanto durou a ruptura: um gesto que agradecemos e que honra a melhor tradição da vizinhança latino-americana.

O passo seguinte é transformar esse momento em uma arquitetura duradoura: transitar do diálogo bilateral para uma parceria estratégica de longo prazo, medida em resultados concretos. Cadeias regionais de valor em biocombustíveis, indústria aeroespacial, farmacêutica e minerais estratégicos; autossuficiência sanitária; capacidades espaciais próprias; posições compartilhadas no G20 e nos sistemas interamericano e das Nações Unidas.

Antes de receber o Prêmio Nobel da Paz, Alfonso García Robles foi embaixador do México no Brasil e se tornou o principal artífice do Tratado de Tlatelolco, acordo que fez da América Latina e do Caribe a primeira região habitada do planeta livre de armas nucleares.

Tlatelolco foi uma conquista regional e uma contribuição latino-americana para a ordem mundial, feita por países armados com o poder da diplomacia e do direito internacional. Esse é o padrão histórico que hoje reafirmamos: o momento do México e do Brasil não será medido pelo que alcançarmos internamente, mas pelo que a região — e o mundo — receberem de nós.

Fim da credibilidade de uma superpotência

Na semana passada, um pequeno terremoto geopolítico abalou o Oriente Médio. A Arábia Saudita e a Turquia – duas nações que mantiveram uma hostilidade aberta uma em relação à outra durante grande parte da última década – comprometeram-se a entrar em guerra em defesa uma da outra. Juntamente com o Paquistão, elas assinaram o Acordo de Defesa Conjunta de Meca, declarando, ao estilo da Otan, que um ataque a uma delas seria considerado um ataque a todas.

O Paquistão e a Arábia Saudita mantêm, há muito tempo, laços estreitos em matéria de segurança. Mas a Arábia Saudita e a Turquia têm sido rivais regionais acirrados, entrando em conflito por causa do Catar, do Egito, da Irmandade Muçulmana e, de forma mais explosiva, do assassinato de Jamal Khashoggi em Istambul, pelo qual o líder turco, Recep Tayyip Erdogan, pareceu culpar diretamente o príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman.


Então, o que os uniu? Donald Trump – ou, melhor dizendo, a confiança cada vez menor dos dois países nele e em sua palavra. A guerra com o Irã tem sido uma aula magistral sobre como desperdiçar credibilidade. Vale lembrar que tanto a Arábia Saudita quanto o Catar receberam garantias de segurança de Trump apenas no ano passado. Mas a palavra dele é tão confiável para seus aliados no exterior quanto era para seus banqueiros em Nova York.

Trump declarou repetidamente que um acordo com Teerã estava a apenas alguns dias de ser fechado. Em meados de junho, uma contagem registrou pelo menos 38 declarações de que um acordo estava próximo ou de que o Irã o desejava desesperadamente.

No entanto, nesta semana, uma fonte iraniana disse à Reuters que as negociações não haviam feito “absolutamente nenhum progresso”. O mundo aprendeu a tratar seus anúncios na rede social como uma mistura de fato e ficção, assim como alguns dos vídeos gerados por IA que ele publica.

O mesmo padrão é visto na Europa. Em maio, Trump anunciou que 5 mil soldados americanos deixariam a Alemanha e sugeriu que mais cortes estavam por vir. O Pentágono cancelou um plano de envio de cerca de 4 mil soldados para a Polônia. Dias depois, Trump anunciou que mais 5 mil soldados iriam para a Polônia.

Às vezes, ele ameaça não defender a Europa contra a Rússia; outras vezes, diz que o fará. Imagine ser um ministro da Defesa europeu tentando elaborar um plano militar de dez anos com base nisso.

Trump declarou nesta semana que os EUA tinham “controle total” do Estreito de Ormuz. No entanto, dados de rastreamento de navios registraram apenas 14 embarcações transitando em um único dia recentemente, em comparação com mais de 130 por dia antes da guerra. Isso não é simplesmente uma questão de estilo presidencial ou retórica. Toca no cerne do poder americano.

Durante oito décadas, os EUA construíram algo tão poderoso quanto porta-aviões e esquadrões de caças F-35: credibilidade. Os aliados acreditavam que os compromissos americanos perdurariam de um governo para o outro.

Os adversários compreendiam que as ameaças americanas, embora às vezes exageradas, tinham peso real. O sistema não era perfeito. Washington quebrou promessas e cometeu erros. Mas havia uma presunção de que os EUA eram um ator previsível e as palavras do presidente tinham significado.

Trump trata promessas e ameaças como se estivesse jogando um grande jogo de blefe. Mas a imprevisibilidade é algo muito diferente em uma aliança do que em uma negociação imobiliária. Se os aliados não conseguem saber se as tropas chegarão ou partirão, se as tarifas aumentarão ou diminuirão, se um acordo assinado hoje será válido amanhã, eles não se tornam mais obedientes. Eles se tornam mais independentes.

Os países estão criando estratégias de segurança. A Dinamarca escolheu o sistema de defesa aérea franco-italiano SAMP/T em vez do americano Patriot. O Canadá está reconsiderando suas compras de F-35. Os governos europeus estão investindo em suas próprias indústrias de armamento.

A Coreia do Sul tornou-se o segundo maior fornecedor de armas para os países europeus da Otan e está ajudando a equipar a defesa aérea do Golfo com sistemas mais baratos que os Patriots. O banco central holandês transferiu serviços essenciais de nuvem para um provedor europeu, a fim de reduzir a dependência da tecnologia americana. E agora Arábia Saudita, Turquia e Paquistão estão construindo sua própria arquitetura de segurança.

Nenhuma dessas medidas, por si só, representa uma ruptura com Washington. Mas elas demonstram uma perda cada vez maior de confiança na palavra dos EUA. O mesmo está acontecendo com as ameaças americanas.

Se Washington ameaça aplicar tarifas, obtém concessões e depois volta a ameaçar com tarifas, os governos concluem que ceder não traz segurança. Parafraseando o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, no início deste ano, se os países esperam que a obediência garanta segurança, isso não vai acontecer. Portanto, a resposta racional é construir alternativas.

Até mesmo Bibi Netanyahu não levou muito a sério as propostas de Trump, rejeitando de forma seca e sumária o plano de 15 pontos do presidente americano para o território da Faixa Gaza nesta semana. Ele já viu muitos planos de Trump anunciados com grande alarde, que depois são rapidamente esquecidos. Lembra-se do plano da Riviera de Gaza?

É assim que as grandes potências entram em declínio – não necessariamente por meio de alguma derrota dramática, mas à medida que outros, discretamente, deixam de organizar o mundo em torno delas.

Os EUA continuam imensamente poderosos. Possuem as forças armadas mais fortes do mundo, tecnologias de ponta, vastos mercados de capitais, alianças formidáveis e o dólar. Mas a credibilidade também é um ativo, acumulado meticulosamente ao longo de gerações e surpreendentemente fácil de esgotar e desperdiçar.

Durante a crise dos mísseis cubanos, o presidente John F. Kennedy enviou o ex-secretário de Estado, Dean Acheson, a Paris para informar Charles de Gaulle sobre a descoberta de mísseis nucleares soviéticos em Cuba. Acheson levou fotografias de reconhecimento para comprovar o caso.

De Gaulle, que dificilmente poderia ser considerado um súdito dos EUA, dispensou as imagens com um gesto. Ele disse que não precisava das provas. A palavra do presidente dos EUA era suficiente. Essa cena é inimaginável hoje em dia.

Candidato a capitão do mato

Se a extrema-direita apostasse, de fato, na conquista do poder pelo voto, teria se imposto à família Bolsonaro e substituído o candidato às eleições presidenciais. Flávio é inepto e corrupto. Como o pai, confiou na débil Justiça fluminense e no socorro de uma ala do Ministério Público (e agora, na condescendência de um ministro do STF “terrivelmente evangélico”) para livrá-lo dos rigores da lei, embora sem conseguir apagar os rastros das atividades ilícitas. O último escândalo no qual aparece envolvido até o pescoço, o do Banco Master, ainda está quente. Também são indeléveis suas digitais nas negociações com o governo de Donald­ Trump para impor sanções ao Brasil e ameaçar a soberania do País.


Além da folha corrida, o filho de Jair não oferece nada ao eleitor. Escancarou um discurso misógino mesmo diante da evidência de que estará derrotado nas urnas se não quebrar o franco favoritismo do presidente Lula no eleitorado feminino. Escolheu como vice um homem que traz na bagagem uma denúncia por estupro de vulnerável. Fez discursos ameaçadores contra o seu próprio País e apoiou publicamente (e incentivou) as ameaças de Trump ao sistema eleitoral. Rompeu publicamente com a madrasta que, dizem, tem mais votos do que ele. Perdeu apoio entre evangélicos, segmento fundamental na eleição de seu pai em 2018 e na tessitura de um movimento de massas de perfil fascista que manteve Jair no poder e apoiou a tentativa de golpe quando o “mito” foi derrotado por Lula em 2022.

Flávio faz movimentos desagregadores no próprio partido. Tomou para si, como se propriedade sua fosse, uma máquina partidária que, embora tenha ganhado força e importância na esteira do bolsonarismo, constituiu-se nacional e regionalmente como uma legenda forte, com boa representação municipal e uma bancada expressiva no Congresso. É duvidoso que a tomada de assalto do PL de Valdemar Costa Neto dê ao candidato algo além do que financiamento eleitoral. Não existe uma relação orgânica da legenda com ele. O partido cristianizá-lo no meio de um processo eleitoral (jargão político para designar abandono do candidato pelo seu próprio partido, em favor de outro com maiores chances de vitória) não é uma hipótese implausível.

São enormes as evidências de que Flávio é um candidato fraco. Por que, então, se mantém candidato?

A candidatura é um projeto familiar, não apenas de poder, mas de sobrevivência. Estar no poder é a única proteção contra os processos que correm em várias instâncias judiciais contra seus integrantes. Um dos filhos, Eduardo, é foragido da Justiça. O pai está preso por tentativa de golpe de Estado. Carlos e Renan, candidatos, respectivamente, a senador e deputado­ federal por Santa Catarina, precisam de um mandato parlamentar para se proteger de futuras condenações. Flávio seria a tábua de salvação dele próprio. Em algum momento, algum juiz pode se perguntar por que ele compra tantos apartamentos em dinheiro vivo e os vende meses depois pelo triplo do preço.

Se hoje o único apoio inconteste de Flávio é o do governo Trump, e se a tendência eleitoral da família Bolsonaro, representada pelo senador, é a de declínio, e perder a eleição é a hipótese mais plausível no momento, se ele não exerce poder agregador sobre as outras candidaturas de direita, de cujos votos precisaria desesperadamente no segundo turno, se optou por uma candidatura do medo – ou ele, ou a intervenção dos EUA sobre as eleições brasileiras e um possível golpe no candidato com chances efetivas de vitória, o presidente Lula, se conseguiu a façanha de ser rejeitado inclusive pelo setor das Forças Armadas que apoiou a tentativa de golpe contra Lula em 8 de janeiro de 2023, é lógico que aposta na chegada ao poder por um golpe tipo Venezuela. Lula ganha, os EUA contestam a eleição e usam a força para tirá-lo do poder, e Flávio, o amigo do imperador do mundo, assume.

É esse o projeto de Flávio, Eduardo, Carlos, Jair Renan e Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo. E, principalmente, de Jair, que não quer morrer na cadeia. É esse o projeto de Trump, que quer do Brasil petróleo, terras-raras e o que der para agregar não apenas à riqueza dos EUA, mas, principalmente, às próprias finanças. O mundo vive o imperialismo das plutocracias, do uso do poder militar para a concentração cada vez maior das riquezas do planeta nas mãos de poucos. Nesta nova divisão internacional existem os hiper-ricos, o poder militar concentrado nas mãos do país central do capitalismo e os capitães do mato, aqueles que fazem o serviço sujo de desviar a riqueza das nações para os bolsos dos donos do mundo.

Flávio é candidato a capitão do mato.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Manifesto: Contra a produtividade, pim! Pela felicidade, pum!

O dia começa a esvair-se. O céu derrete-se languidamente, em tons de laranja, que escorrem até se desfazerem numa mancha de um rosa arroxeado que desmaia sobre o azul frio. Em breve, vai voltar a aparecer uma lua redonda, cheia como uma laranja, boiando sobre as águas. Não consigo desviar os olhos. Penso em pegar no telefone para fotografar. Mas travo o gesto. Nenhuma fotografia conseguiria captar este momento. Inspiro o vento salgado do fim de tarde com a mesma ânsia com que mergulhei uma e outra vez no mar desde o princípio da manhã. Primeiro aproximando-me devagar, a pele arrepiada avançando sobre as águas. Depois atirando-me inteira sobre as ondas. O corpo deslizando, aquático, como se voltasse ao início de si, àquele momento em que flutuava ainda como embrião. Até me faltar o ar e vir à tona e o arrepio da pele me fazer voltar ao calor do areal. Uma e outra vez. Até o dia desaparecer.

Os autómatos não são felizes, porque as coisas têm uma utilidade e a felicidade é completamente inútil e escapa à lógica e ao planeamento

Há um único dia de férias de verão. Não importa quantos anos se passem. Volto ao mesmo dia, cristalizado na infância, uma e outra vez. Não importam as variações. É pouco importante o pormenor do local ou do tempo. O que importa é regressar à praia e àquele dia que se refaz em todos os dias das férias de verão.

Sou muito feliz na rotina das férias. Gosto de voltar todos os anos ao mesmo lugar, ainda que ao longo de décadas de vida esse sítio já tenha mudado muitas vezes. Por muito que goste da viagem e da novidade, é neste regresso estival que viajo mais longe. É pela repetição que volto, uma e outra vez, àquele momento da infância e do espanto. Regresso agora com dois filhos pelas mãos. Mas sou outra vez a criança que brinca na espuma, que se enterra na areia, que corre até ao paredão, que mergulha uma e outra vez e se recusa a ir para a cama para sentir o ar da noite carregado de maresia e aloendros.


Todos os anos há novas sardas na minha pele. São constelações. São mapas de dias passados ao sol, que me ensinam o caminho até ao lugar desta felicidade inconsequente, feita de mar e calor. Corrijo. A felicidade nunca é inconsequente. A felicidade é urgente. Não sabemos bem o que é, porque ela é parecida com aquele arrepio que sentimos no primeiro mergulho. Está ali entre o desconforto do frio e o calor que vai subindo até nos obrigar a voltar para o mar. Ia escrever que é uma questão de dose, de equilíbrio. Mas a felicidade é desmesurada e tão mais feliz quanto mais desequilibrada for.

A felicidade é uma coisa revolucionária. E é por isso que ela assusta. Porque subverte as regras, desafia as convenções, pisa o medo e dá força aos fracos. Já pensaram bem no tempo e nos recursos que os poderosos de todas as épocas gastaram a tentar esmagar a felicidade? Tudo o que foi proibido e proscrito, tudo o que foi controlado e interdito? Todas as formas de opressão e controlo tentam apagar a felicidade. Fazem dela pecado ou crime, porque sabem como é poderosa e livre a gente feliz. E não há nada que meta mais medo aos que querem o poder só para eles do que pessoas cheias de felicidade.

Os senhores dos algoritmos tentam plastificar a felicidade, reduzi-la a fórmulas de perfeição instagramável, poses falsas, encenações infelizes. Mas a felicidade não está no Instagram. Ela não cabe numa fotografia, não entra num vídeo. Gente verdadeiramente feliz não produz conteúdos. Vive. E isso, claro, não é monetizável. E é também por isso que as redes instigam o ódio e a indignação. Uma e outra vez. Até nos sentirmos completamente infelizes e resignados à ideia de que o mundo é um lugar horrível e a felicidade, uma utopia impossível ou talvez uma anestesia que se pode comprar. Sim, porque a indústria da infelicidade é lucrativa, ela vive acenando-nos com uma felicidade de pacote, que podemos encomendar online, sem portes de envio, mas nos chega sempre estragada ou se desfaz rapidamente.

A rotina das férias é também uma vacina contra essa ideia da novidade de consumo. Uma forma de voltar uma e outra vez àquilo que conhecemos e encontrar o espanto das coisas que existem só porque sim. Deixarmo-nos mesmo regressar ao momento em que mal tínhamos consciência de nós e existíamos apenas, com os olhos abertos e levando o mundo à boca para ter a felicidade de o sentir. Só porque sim.

Um mergulho no mar não serve para nada. Uma tarde na areia não tem utilidade. O pôr do sol é uma coisa sem sentido. O luar das noites de verão não produz coisa nenhuma. Todas as coisas verdadeiramente importantes da vida escapam às métricas da produtividade e da utilidade. Como o amor, os beijos, os abraços, os sorrisos, a música, a pintura e a literatura não servem para coisa alguma. E a Humanidade também não. E ainda bem.

Recusemo-nos a ser instrumentais, úteis, produtivos. Recusemo-nos a refrear a felicidade, a dosear o amor, a ser frugais no prazer e austeros no viver. Não nos envergonhemos do riso nem da dança. Não nos controlemos na festa nem no sonho. Ousemos exigir impossibilidades. Admiremos a capacidade do ócio. Percebamos a importância de existir só porque sim, sem adiar beijos e abraços, sem contar horas como se elas fossem um castigo, mas entendendo-as como uma dádiva, fazendo de cada momento o melhor que ele pode ser. Com os dois pés no presente e a cabeça toda no futuro, sonhando que amanhã será melhor, mas fazendo tudo para que hoje já comece a sê-lo.

Nunca ninguém será feliz em folhas de Excel, relatórios de comissões técnicas, auditorias e procedimentos. A Inteligência Artificial pode ser moderna, produtiva e eficaz, mas nunca saberá o que é a felicidade. Os autómatos não são felizes, porque as coisas têm uma utilidade e a felicidade é completamente inútil e escapa à lógica e ao planeamento.

A felicidade, meus amigos, é política. Quem a teme sabe-o bem. É preciso percebê-lo. É preciso ser feliz.

A sociedade da dúvida permanente

Repete-se sempre da mesma maneira, confirmou a Polícia Judiciária à Lusa. Uma fotografia banal, tirada do Instagram. Uma representação sexual fabricada por uma das várias aplicações de “nudificação” que podem ser encontradas com facilidade. A imagem, manipulada mas com o rosto verdadeiro, entra num grupo de WhatsApp da escola. Em poucas horas, transforma-se em meme, ganha novas versões, passa de telemóvel em telemóvel e já não pode ser apagada de todos os dispositivos onde chegou. Em mais de nove em cada dez casos, é uma rapariga.

Os primeiros casos remontam a 2024. Hoje já chegam aos tribunais. A maioria é comunicada pelas próprias escolas e envolve sobretudo jovens entre os 12 e os 16 anos. Portugal, sem grande alarido, deixou de tratar isto como hipótese. Tornou-se rotina. É este o ponto de partida — e não a tecnologia em abstracto: uma sociedade em que já não se sabe se aquilo que se vê aconteceu e em que essa incerteza, por si só, já é suficiente para causar dano.

Durante décadas, falsificar exigiu talento. Uma fotografia adulterada, uma gravação cortada, uma citação inventada — tudo isso precisava de passar pelo crivo de um olhar desconfiado. Havia uma linha, ainda que ténue, entre o acontecimento e a sua representação. Essa linha está agora a dissolver-se e, com ela, desaparece algo mais silencioso: a convicção de que uma imagem constitui evidência.


A União Europeia começou a responder com normas específicas. Desde 2 de Agosto de 2026, entram em aplicação as obrigações de transparência previstas no artigo 50.º do Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, destinadas, entre outras coisas, a tornar identificáveis determinados conteúdos gerados ou manipulados artificialmente.

É uma medida necessária. Mas resolve apenas metade do problema, porque assinala o que foi produzido ou alterado por uma máquina sem devolver, por si só, credibilidade ao que é genuíno. É exactamente aí que a manipulação encontra o seu espaço mais fértil: já não precisa de convencer; basta lançar a dúvida sobre aquilo que aconteceu.

O Brasil oferece, neste preciso momento, um laboratório dessa mutação. O uso de um avatar do ex-presidente Jair Bolsonaro, gerado por inteligência artificial numa convenção partidária, levou o Tribunal Superior Eleitoral a convocar uma reunião extraordinária para discutir o tema. O detalhe mais revelador não é o avatar em si — é a dificuldade crescente em separar, com nitidez, o que foi encenado do que foi fabricado.

Portugal partilha o mesmo ecossistema informativo, mas enfrenta o problema a partir de uma realidade própria. A Comissão Nacional de Eleições promoveu, no âmbito dos seus 50 anos, uma conferência dedicada exactamente a este cruzamento — inteligência artificial, democracia e eleições — reunindo juristas e membros do Tribunal Constitucional para discutir onde termina a inovação e começa a manipulação do processo eleitoral.

A questão portuguesa, portanto, não é saber se esta tecnologia chegará à política. Já chegou. É perceber se as instituições, os jornalistas e os cidadãos estarão preparados quando uma imagem inventada puder ser suficientemente convincente para produzir uma dúvida com consequências reais.

Porque é aqui que a lógica se torna verdadeiramente perigosa. Até agora, a manipulação procurava levar alguém a aceitar uma versão distorcida dos factos. Esta nova forma de interferência tem uma ambição mais modesta e mais devastadora: não precisa sequer de persuadir. Basta retirar às pessoas a certeza sobre aquilo que aconteceu.

Um documento incómodo pode ser desqualificado como manipulação sem que seja preciso demonstrá-lo. Uma gravação genuína pode ser posta em causa apenas porque, em teoria, também poderia ter sido criada por uma máquina. Nem sempre quem lança a suspeita terá razão. Mas deixou de precisar de a ter — basta-lhe semeá-la e esperar que faça o resto do trabalho.

É aqui que a transformação revela a sua verdadeira dimensão. O futuro da desinformação não passa necessariamente por fazer-nos aceitar o inventado como realidade. Pode ser muito mais simples — e muito mais eficaz: fazer-nos desistir de procurar a realidade.

Chegados aqui, torna-se claro que o verdadeiro alvo desta transformação não é a verdade. É a prova — e a diferença entre as duas coisas é politicamente decisiva. Uma sociedade sem factos partilhados pode conservar opiniões divergentes, debate e até democracia, embora sob condições mais difíceis e instáveis. Mas, quando a evidência deixa de ser credível, perde-se algo anterior a tudo isso: a capacidade de um jornalista confirmar um facto, de um tribunal fundamentar uma sentença, de um cidadão responsabilizar um poder. Não se trata apenas de fabricar melhor. Trata-se de retirar à sociedade o instrumento com que se protege de quem procura manipulá-la.

A Unesco tem alertado para os efeitos da inteligência artificial sobre a liberdade de expressão e os processos eleitorais, descrevendo os deepfakes como falsificações capazes de imitar de forma convincente a voz e o rosto de uma pessoa real. O risco maior, porém, talvez não seja sermos enganados por essas imitações. É deixarmos de acreditar que ainda vale a pena separar o original da cópia — entregando essa distinção a quem tiver mais poder para a impor.

Portugal tem discutido a inteligência artificial sobretudo pelo lado da produtividade, da inovação e da competitividade. São dimensões importantes, mas não esgotam o problema. Há uma pergunta mais incómoda: quem garante a autenticidade daquilo que os portugueses verão, ouvirão e lerão quando a manipulação digital se tornar indistinguível do que realmente aconteceu?

Essa pergunta não se resolve com tecnologia. Exige uma resposta institucional, jornalística e cultural — e começa por recusar duas tentações simétricas: a aceitação acrítica do que circula e a desconfiança sistemática perante aquilo que nos é apresentado. Ambas, por caminhos opostos, entregam o mesmo poder a quem manipula.

O perigo maior começa quando a dúvida deixa de ser uma etapa da procura pela verdade e passa a ser o destino. Porque, nesse momento, já não é preciso apagar os factos. Basta tornar impossível provar que aconteceram.

Quando já não é possível distinguir o que aconteceu daquilo que pode ser negado, a dúvida deixa de ser uma virtude democrática. Torna-se poder.

Haja canalhas


O aumento da canalhice é o resultado da má distribuição de renda
Millôr Fernandes

Antipetismo visceral alimenta o servilismo a Donald Trump

Embora possa causar algum espanto, parcela considerável de brasileiros vê com simpatia o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem atacando o país com tarifas comerciais disparatadas e pressões políticas com vistas a interferir nas eleições.

Os apoiadores mais despudorados filiam-se à direita truculenta bolsonarista. Mas há também, talvez mais velados, simpatizantes provenientes de setores liberais conservadores e defensores das pautas das big techs. Entre esses, gente que frequentou boas escolas, teve acesso a leituras e a situação econômica privilegiada. Atestam, em seu transfugismo, quão invertebrados podem ser certos representantes das elites brasileiras.


Parece prevalecer uma espécie de reacionarismo atávico, hoje atualizado por um tipo visceral de antipetismo, que se sobrepõe ao senso de nação — um adesismo equivocado, de viés ideológico, sem altivez.

Mais uma vez, para não deixar dúvidas sobre os propósitos de Trump, o Departamento de Estado dos EUA, comandado pelo diligente e vingativo Marco Rubio, postou vídeo no qual o embaixador no Panamá, Kevin Marino Cabrera, detalha o surgimento da doutrina Monroe, em 1823, quando Washington manifestou-se a favor da independência de países latino-americanos e do afastamento das metrópoles europeias.

O post veio com a frase "o domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente" – proferida por Trump após a captura de Nicolás Maduro, o ex-ditador da Venezuela, ora substituído pela ditadora fantoche Delcy Rodríguez. O norte-americano, como se sabe, defende a doutrina Donroe, trocadilho infame que sintetiza seus interesses imperialistas em nosso continente, onde encontra o referido apoio entreguista.

Trump exerce o poder como um Átila pós-liberal. Onde pisa, a democracia, o multilateralismo e o bom senso morrem. Instituições que mediavam querelas internacionais perderam sentido, na prática não existem mais.

Em seu admirável mundo bárbaro, endossa a disputa entre potências de perfil autocrático —Rússia e China— com autonomia sobre suas áreas de influência. Apoia o projeto Grande Israel para regrar o Oriente Médio, de preferência em sintonia com ditaduras amigas, como a Arábia Saudita —enquanto a Europa é vista como mera frescura para os fracos.

A imposição de taxas no comércio exterior funciona como arma para impor a superpotência e também serve para ajudar no financiamento do Estado, substituindo os impostos não cobrados dos grandes empresários americanos.

Seria como se Lula, se pudesse, num argumento por absurdo, tentasse buscar recursos fiscais impondo barreiras externas para compensar seus gastos públicos e o custo tributário das isenções.

Em ano eleitoral, o Brasil torna-se uma vítima preferencial do republicano, que acredita estar punindo Lula e favorecendo seus aliados extremistas. Recente pesquisa Datafolha, aliás, mostrou que para 52% dos brasileiros Trump atua para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, cuja família e seguidores batem continência para a bandeira dos EUA.

O clássico livro "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Hollanda, já chega aos 90 anos, mas ainda vale em boa medida seu diagnóstico: somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.

Entre deuses e dados: a natureza sagrada

Outro dia me peguei pensando em como nós, seres humanos, passamos milhares de anos tentando dar nomes à natureza.

Ao mar. Ao vento. À chuva. À fertilidade da terra.

Antes que existissem satélites capazes de acompanhar do espaço a formação de um furacão, modelos climáticos que projetam a temperatura do planeta até o fim do século ou relatórios que calculam, em toneladas, a quantidade de carbono lançada na atmosfera, havia histórias. Histórias fantásticas.

E havia deuses.


Na Grécia antiga, Poseidon governava os mares. Deméter estava ligada à agricultura e às colheitas. Ártemis habitava simbolicamente o mundo selvagem. E, antes deles, estava Gaia, a própria Terra transformada em divindade.

A milhares de quilômetros dali, tradições religiosas africanas construíram outras cosmologias, com histórias, significados e relações próprias com o mundo natural. No Candomblé, os orixás estão profundamente associados às forças da natureza.

Oxum está ligada às águas doces e aos rios. Iemanjá, ao mar. Iansã, aos ventos e às tempestades. Oxóssi, às matas. Xangô, ao fogo e ao trovão. Ossain, às folhas e ao conhecimento das plantas.

Não se trata, evidentemente, de dizer que essas tradições são equivalentes. Não são. Nasceram em sociedades diferentes, carregam histórias diferentes e ocupam lugares muito distintos no mundo contemporâneo — inclusive porque as religiões de matriz africana continuam sendo alvo de intolerância e racismo religioso no Brasil.

Mas há algo que me interessa nessa aproximação. Em cosmologias tão distantes entre si, a natureza nunca aparece apenas como paisagem. Ela tem força. Tem personalidade. E merece reverência.

Em algum momento, fomos nos afastando dessa ideia.

A modernidade nos ensinou, de muitas maneiras, a enxergar a natureza como recurso. A floresta virou madeira, minério e hectares produtivos. O rio virou potencial hidrelétrico ou canal de irrigação. O petróleo, aprisionado durante milhões de anos no subsolo, virou combustível.

Passamos a falar da natureza quase sempre em termos do que ela poderia nos oferecer e fomos esquecendo de perguntar o que deveríamos oferecer em troca – ou, ao menos, quais limites deveríamos respeitar.

Diante de tantas ondas de calor, secas, enchentes e vendavais, vemos de maneira cada vez menos sutil que a natureza não é passiva. E não é vingança, não. A ciência explica esses processos sem precisar recorrer à vontade dos deuses.

É física pura.

Na lição que essa física nos oferece, no entanto, há quase um toque de magia: existem forças maiores do que nós. Os antigos sabiam disso.

Quem imaginava um deus habitando o mar sabia que o mar merecia respeito. Quem reconhecia o sagrado nas águas, nas folhas, nas matas, nos ventos ou no trovão estabelecia com esses elementos uma relação que não era apenas econômica.

É claro que ninguém é santo – nem mesmo os antigos. Civilizações derrubaram florestas, modificaram paisagens, guerrearam por recursos e provocaram impactos ambientais muito antes de inventarmos a expressão “mudanças climáticas”.

Mas havia, em muitas dessas cosmologias, a ideia de que a natureza também pertencia ao território do sagrado. E há algo importante nisso. Porque é muito mais fácil destruir aquilo que enxergamos apenas como recurso do que aquilo diante do qual aprendemos a prestar reverência.

Curiosa a constatação de que nunca compreendemos tanto a natureza. Sabemos, hoje, muito mais sobre o funcionamento do planeta do que qualquer sociedade que veio antes de nós. Conseguimos medir a concentração de CO₂ na atmosfera, reconstruir temperaturas de milhares de anos atrás, observar o derretimento de geleiras por satélite e calcular quanto o nível do mar poderá subir.

Paradoxalmente, talvez nunca tenhamos vivido tão convencidos de que estamos separados dela, a natureza.

Construímos cidades climatizadas, desviamos rios, perfuramos montanhas, atravessamos oceanos em poucas horas. Criamos uma civilização tão sofisticada que, às vezes, parece possível esquecer que continuamos dependendo de coisas elementares: água, solo, chuva, temperatura, ar.

Até que o rio transborda. A chuva não vem. O termômetro passa dos 40 graus. O vento derruba árvores, fecha aeroportos e interrompe cidades inteiras.

E então nos lembramos de algo que os antigos transformaram em deuses e que a ciência moderna transformou em dados: nunca estivemos fora da natureza.

Talvez tenhamos apenas passado alguns séculos acreditando que estávamos.

A crise climática pode ser a mais dura resposta a essa ilusão.

Israel conquista novos aliados na América Latina

A Venezuela e Israel romperam relações diplomáticas em 2009, quando o então presidente Hugo Chávez expulsou o embaixador israelense em protesto contra a ofensiva militar em Gaza. Dezessete anos depois, Caracas e Jerusalém concordaram em estabelecer um mecanismo para retomar a prestação de serviços consulares aos seus cidadãos. Ainda é um passo limitado, mas impensável até recentemente.

A Colômbia foi muito além . O governo do presidente Abelardo de la Espriella não só reverteu o rompimento das relações diplomáticas decidido por seu antecessor, Gustavo Petro, como também anunciou a transferência de sua embaixada para Jerusalém e reconheceu a soberania israelense sobre as Colinas de Golã, território sírio ocupado por Israel desde 1967 e cuja anexação não é reconhecida pela grande maioria da comunidade internacional.

A Colômbia e a Venezuela são casos isolados ou fazem parte de um realinhamento mais profundo na América Latina?

"Há uma tendência de reaproximação com Israel que responde à onda de sentimentos de extrema-direita que se instalou na região", afirma Isaac Caro, professor da Universidade Alberto Hurtado, no Chile. Em sua opinião, essa tendência está ligada "a um alinhamento ativo com a política externa dos EUA ".

Daniel Wajner, professor associado de Relações Internacionais da Universidade Hebraica de Jerusalém, também fala em uma "onda", com antecedentes em Jair Bolsonaro no Brasil e Nayib Bukele em El Salvador, e que posteriormente se manifestou com particular clareza com Javier Milei na Argentina e agora em outros países.


Wajner, coautor de uma obra acadêmica intitulada "Israel e América Latina", descreve uma oscilação pendular da esquerda para a direita, mas introduz outra variável: o populismo. Segundo sua análise, a direita latino-americana tende a ser mais favorável a Israel do que a esquerda. Quando o populismo de direita é adicionado a isso, argumenta ele, o resultado não é mais apenas uma reaproximação, mas sim um "abraço" de Israel.

Gilberto Aranda, acadêmico do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile, também observa "uma tendência regional", cujo primeiro elemento seria um forte realinhamento com os Estados Unidos sob a administração de Donald Trump e, por extensão ou por convicção própria, uma reaproximação com Israel.

A Argentina é provavelmente o exemplo mais visível. Javier Milei fez de seus laços estreitos com Israel uma parte proeminente de sua política externa e de sua própria identidade política. Caro acredita que a ligação com Israel se tornou "um elemento identificador da extrema direita na região", associada a um discurso de pertencimento a uma civilização ocidental judaico-cristã.

Mas as motivações não são idênticas em todos os países. Wajner destaca fatores ideológicos e religiosos, mas também estratégicos. O fortalecimento das relações com Israel pode sinalizar um alinhamento internacional específico para Washington. O fenômeno, portanto, faria parte de algo maior: governos buscando se identificar mais claramente com os Estados Unidos e o Ocidente.

A Colômbia exemplifica a magnitude da oscilação pendular. Sob o governo de Petro, Bogotá rompeu relações diplomáticas com Israel em 2024 devido à guerra em Gaza. Com De la Espriella, a situação se inverteu.

Caro fala de uma "mudança substancial" na política externa colombiana, especialmente em relação aos Estados Unidos. O reconhecimento da soberania israelense sobre as Colinas de Golã demonstra a extensão dessa mudança.

Para Aranda, na Colômbia, o realinhamento com Washington e as convicções pessoais do novo presidente, um convertido ao cristianismo protestante, convergem.

O governo do presidente colombiano Abelardo de la Espriella foi além de quase toda a comunidade internacional ao romper com o consenso global sobre as Colinas de Golã.

A Venezuela não se encaixa tão facilmente nesse quadro ideológico. Wajner alerta que o regime não mudou sua natureza política. O que mudou foi sua posição internacional após a intervenção dos EUA e sua subsequente reaproximação com Washington.

A restauração dos serviços consulares, no entanto, tem um forte valor simbólico. A Venezuela manteve boas relações com Israel durante décadas antes de Chávez as romper. Para Israel, restabelecer laços com um país que durante anos foi um de seus adversários mais determinados na região constitui um sucesso diplomático num momento em que continua a enfrentar fortes críticas internacionais.

Essa oscilação pendular também é observada em outros países. A Bolívia rompeu relações com Israel em 2023 devido à guerra em Gaza e as restabeleceu em dezembro de 2025, após a mudança de governo.

O Chile também mudou sua postura. Gabriel Boric manteve uma posição bastante crítica em relação ao governo de Benjamin Netanyahu, embora nunca tenha rompido relações. O novo governo de José Antonio Kast adotou uma posição muito mais favorável e busca restabelecer, entre outras coisas, a cooperação em defesa. Aranda ressalta, no entanto, que Santiago não foi tão longe quanto a Colômbia.

O mapa da América Latina está longe de ser uniforme. O Brasil constitui o principal contrapeso. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva mantém uma postura fortemente crítica em relação às ações israelenses em Gaza e na Cisjordânia.

"O país com maior influência na região que mantém uma postura crítica em relação a Israel é claramente o Brasil", destaca Aranda. Justamente por causa do peso demográfico, econômico e político do Brasil, a mudança regional em direção a Israel dificilmente pode ser considerada completa.

A isso se soma o México, o outro gigante latino-americano. Caro diferencia as posições de ambos: enquanto Lula tem sido especialmente crítico de Israel, "o México tem tentado manter maior neutralidade e equilíbrio diplomático".

A presidente Claudia Sheinbaum criticou as ações de Israel em Gaza, mas o México mantém relações diplomáticas com Israel. Sua posição ilustra uma diferença importante: criticar o governo Netanyahu não significa necessariamente romper ou reduzir os laços com o Estado israelense.

A antiga frente latino-americana crítica a Israel está, em todo caso, enfraquecida. Aranda acredita que o bloco agora está "indefinido" após as mudanças políticas em países como a Colômbia, embora o Brasil ainda tenha peso suficiente para sustentar uma posição alternativa.

O interesse de Israel não se limita a cultivar governos aliados. Caro destaca que as relações entre Israel e a América Latina remontam à fundação do Estado israelense em 1948 e abrangem migração, comércio e segurança. O apoio latino-americano em organizações multilaterais, especialmente nas Nações Unidas, também tem sido importante para contrabalançar o isolamento internacional de Israel.

Wajner resume os interesses atuais em três conceitos: "legitimidade, cooperação e influência". Israel busca apoio e reconhecimento internacional, mas também cooperação econômica, tecnológica, militar e de segurança. A América Latina, por sua vez, encontra em Israel um parceiro fundamental em áreas como cibersegurança, inteligência artificial, inteligência de inteligência e defesa.

A reaproximação é, portanto, uma relação de mão dupla e está sujeita aos ciclos políticos latino-americanos. A mesma dinâmica eleitoral que distanciou diversos países de Israel durante governos de esquerda contribuiu posteriormente para aproximá-los.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

'Metade do céu' está a mudar

“As mulheres sustentam metade do céu”: é uma das metáforas atribuídas ao fundador da República Popular da China, Mao Tsé-Tung, citadas ainda hoje como ilustração do empenho comunista na emancipação feminina. Demográfica e socialmente, porém, a situação é muito diferente da que vigorou durante os 27 anos do governo maoista. Uma destacada feminista chinesa, Lu Pin, considera que a acentuada e persistente queda da natalidade que se verifica atualmente é “uma forma de desobediência não violenta ao Estado patriarcal”.

Desde o final dos anos 70 até 2016 – o tempo em que os casais urbanos só podiam ter um filho –, o número de crianças do sexo feminino nascidas na China diminuiu drasticamente. A política era drástica, mas a tradição resistiu. São os filhos do sexo masculino que continuam a perpetuar o apelido da família.

O aborto tornou-se prática corrente, mesmo ao fim de quatro meses de gravidez, se o feto não era do sexo masculino. Segundo estatísticas do Ministério da Saúde, em 2008, por exemplo, o número de abortos ultrapassou os nove milhões. Uma ONG cristã, fundada nos EUA por exilados chineses, falava em 13 milhões. Dezenas de milhares de crianças do sexo feminino foram abandonadas e entregues para adoção. Resultado: hoje, ao contrário do que acontece em Portugal e noutros países europeus, na China há mais homens do que mulheres. O défice de mulheres é especialmente acentuado na população entre os 22 e os 37 anos, a idade em que a esmagadora maioria espera casar-se. Espera, mas não consegue: há cerca de 120 homens por 100 mulheres, e o casamento entre pessoas do mesmo sexo – reivindicado há mais de duas décadas pela socióloga Li Yinhe – ainda não foi autorizado, nem está sequer na agenda dos deputados da Assembleia Nacional Popular a quem ela se tem dirigido.

Cada vez mais instruídas, as mulheres constituem já a maioria dos estudantes universitários. Muitas optam por ir adiando o casamento e privilegiam a carreira profissional à maternidade. Mesmo depois da abolição da política de “um casal, um filho” e da concessão de incentivos financeiros à natalidade (prémios, subsídios e abonos), o número de nascimentos não aumentou. Pelo contrário: em 2025 foram apenas 7,92 milhões – menos de metade do que dez anos antes – e em 2022, a população começou mesmo a diminuir. O país mais populoso do planeta, título sempre ou quase sempre ostentado pela China, é agora a vizinha Índia. Numa entrevista publicada em 2024, Lu Pin previu que “o entusiasmo das mulheres pelo casamento e por ter filhos continuará a diminuir”. “Penso que isto é a crise mais importante que a China enfrentará”, acrescentou.

No plano político institucional, a influência das mulheres nunca foi proporcional à “metade do céu”. Por coincidência, a que chegou mais longe na liderança comunista foi a última mulher do próprio Mao Tsé-Tung, Jiang Qing, e não acabou bem. Em outubro de 1976, menos de um mês depois da morte do marido, seria presa e acusada de liderar uma “clique contrarrevolucionária”. Condenada a prisão perpétua, suicidou-se 15 anos mais tarde.

Hoje as mulheres são quase um terço dos cerca de 100 milhões de filiados no Partido Comunista Chinês, mas no Comité Central, constituído por 376 membros efetivos e suplentes, a percentagem não chega a 10%. No Politburo, a cúpula do poder, não há uma única mulher e no Conselho de Estado, o executivo do governo central, com oito elementos, apenas uma: Shen Yiqin, nascida em 1959, que é também presidente da Federação Nacional das Mulheres Chinesas. Entre os 26 ministérios e comissões estatais, há duas mulheres: He Rong, 63 anos (Justiça) e Wang Xiaoping, 62 (Recursos Humanos e Segurança Social).

Na área empresarial, no entanto, muitas mulheres têm tido grande sucesso e detêm algumas das maiores fortunas do país. Uma das mais conhecidas é a CEO da Lens Technology, Zhou Qunfei, fabricante dos ecrãs dos iPhones. Nascida em 1970 numa família pobre da província de Hunan, começou a trabalhar aos 15 anos numa fábrica de vidro de Shenzhen. Em 1993 estabeleceu-se por conta própria.

Em maio passado, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, durante o banquete de Estado oferecido por Xi Jinping à milionária comitiva de Donald Trump, aquela antiga operária ficou sentada entre Elon Musk e o patrão da Apple, Tim Cook. Pelas contas da revista Forbes, na lista das dez maiores bilionárias chinesas, Zhou Qunfei ocupa o 4º lugar, com uma fortuna estimada em 11,5 mil milhões de dólares.

Como se dizia outrora acerca da Grande Revolução Cultural Proletária, “metade do céu” está “a avançar a todo o vapor”.

O dever de agir na política climática

A emergência climática transforma progressivamente o conhecimento científico do risco em dever público de agir. A ciência já permite identificar impactos, vulnerabilidades, possibilidades de adaptação e riscos associados ao aquecimento global.

No Brasil, esse conhecimento encontra correspondência em um conjunto de deveres normativos relacionados à prevenção, adaptação e proteção diante dos efeitos das mudanças climáticas.

Quando ameaças climáticas são conhecidas, territorialmente identificáveis e razoavelmente previsíveis, e existem possibilidades técnicas e administrativas capazes de reduzir a vulnerabilidade da população, a ausência injustificada de medidas de prevenção, adaptação, preparação e proteção deixa de constituir mera insuficiência de gestão e pode configurar inadimplência climática do Poder Público, sujeita à correspondente apuração de responsabilidades.

Essa mudança de perspectiva é fundamental. Se o conhecimento científico do risco gera para o Estado um dever crescente de prevenção e proteção, gera também para a sociedade o direito de conhecer, exigir e controlar o cumprimento desse dever antes que o desastre aconteça.

Trata-se, acima de tudo, de construir uma resposta humanitária à grave crise civilizacional que estamos enfrentando. 


Uma Arca de Noé em defesa da biota – um exemplo emblemático da lógica da antecipação do risco – encontra-se no Cofre Global de Sementes de Svalbard, instalado no Ártico pela Noruega como salvaguarda da diversidade genética agrícola mundial. Concebido para manter duplicatas de segurança das coleções conservadas em bancos genéticos de diferentes países, o sistema ultrapassou, em junho de 2026, a marca de 1,4 milhão de amostras de sementes armazenadas para proteção de longo prazo5.

Svalbard materializa um princípio elementar da adaptação: quando um risco grave é conhecido e suas consequências podem comprometer bens essenciais às futuras gerações, proteger significa agir antes da perda.

A proteção climática restrita à resposta emergencial posterior aos eventos extremos é um conceito insuficiente e perigoso. Diante de ameaças conhecidas e previsíveis, a sociedade deve ter acesso às informações sobre os riscos a que está submetida, às vulnerabilidades existentes e às medidas de adaptação necessárias. Deve também poder verificar, para sua própria proteção, a capacidade efetivamente instalada pelo Estado para proteger vidas, territórios e serviços essenciais de forma preventiva.

Surge, assim, um verdadeiro direito social à prevenção climática. Ele compreende não apenas o direito de ser socorrido diante da catástrofe, mas o direito de exigir previamente que o Estado identifique riscos, planeje sua redução, prepare sistemas de resposta e demonstre publicamente sua capacidade de proteção8910.
Do direito à prevenção à capacidade efetiva de proteção

Construir proteção eficiente exige participação e controle social. A própria Política Nacional sobre Mudança do Clima estabelece entre seus princípios a prevenção, a precaução e a participação cidadã e prevê a participação da sociedade civil organizada no desenvolvimento das políticas climáticas11.

Isso significa confrontar riscos conhecidos com deveres institucionais; cobrar planos, metas, recursos, responsabilidades e prazos; acompanhar sua execução; contribuir para potencializar as ações públicas; e acionar os mecanismos administrativos, políticos e judiciais quando medidas necessárias de proteção não forem implementadas.

O direito social à prevenção climática encontra uma referência internacional concreta na iniciativa Early Warnings for All – Alertas Precoces para Todos, das Nações Unidas, cujo objetivo é assegurar que todas as pessoas estejam protegidas por sistemas de alerta precoce multirriscos até o final de 202712.

A concepção das Nações Unidas é particularmente relevante porque compreende o alerta precoce como um sistema integrado de proteção, estruturado em quatro capacidades fundamentais: conhecimento dos riscos; detecção, observação, monitoramento, análise e previsão; disseminação e comunicação dos alertas; e preparação e capacidade de resposta13.

Essa estrutura oferece uma referência objetiva para avaliar a governança climática. Não basta perguntar se determinada cidade, Estado ou país possui formalmente um sistema de alerta. É necessário saber se conhece seus riscos e vulnerabilidades; se dispõe de capacidade científica e tecnológica para monitorá-los e antecipá-los; se consegue comunicar informações compreensíveis e territorialmente adequadas às populações expostas em tempo útil; e, finalmente, se essas populações e os serviços públicos possuem condições efetivas de agir quando o alerta é emitido.

O alerta precoce explicita uma questão central: entre conhecer o risco e proteger a população existe uma cadeia de capacidades públicas que precisa funcionar integralmente. Quando essa cadeia é insuficiente, o conhecimento disponível pode não se converter em proteção efetiva. 

Nesse processo, assumem especial relevância as organizações da sociedade civil dedicadas à proteção dos direitos difusos e coletivos, particularmente as organizações ambientais. Sua independência e seu compromisso com a defesa da coisa pública funcionam, naturalmente, como anticorpos sociais diante de outros interesses contrários à defesa da vida.  Diante da emergência climática, sua atuação adquire uma dimensão adicional de ativismo climático preventivo.

Esse ativismo compreende ampliar a consciência pública sobre as mudanças climáticas; produzir e sistematizar informações; mobilizar os meios de comunicação para ampliar a compreensão social dos riscos; acompanhar indicadores e políticas públicas; identificar matrizes e fluxos de insustentabilidade que produzem ou ampliam riscos de vulnerabilidades; identificar populações e territórios vulneráveis; promover participação social; formular recomendações; estimular sistemas de alerta precoce; representar perante os órgãos competentes; e, quando necessário, recorrer aos instrumentos jurídicos disponíveis para exigir medidas de prevenção e adaptação.

Diante da ausência ou insuficiência de indicadores oficiais, as organizações sociais podem também contribuir para a identificação de riscos por meio da percepção social qualificada, sistematizada mediante consultas, participação de especialistas e confronto com o conhecimento científico e os dados disponíveis.

A percepção social não substitui a ciência nem os indicadores públicos, mas revela vulnerabilidades, promove articulações capazes de produzir conhecimento e identifica precocemente lacunas institucionais que demandam investigação e resposta.

Na lacuna da ação estatal, cabe à sociedade exercer controle social, mobilizar conhecimento e participação, estimular medidas preventivas e provocar as instituições responsáveis pela proteção dos direitos coletivos.

O ativismo climático passa, assim, a exercer uma função de exigência social preventiva sobre os riscos e sobre a capacidade estatal de proteção, concretizando princípios de participação, prevenção e precaução que informam a proteção constitucional e legal do meio ambiente.

Essa exigência social encontra correspondência nas instituições constitucionalmente incumbidas do controle e da defesa do interesse público.

Ao Ministério Público, responsável pela defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis, e expressamente incumbido da proteção do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos, cabe atuar diante de omissões relevantes do Poder Público, inclusive preventivamente, quando riscos conhecidos e previsíveis evidenciarem ameaça a esses direitos, utilizando os instrumentos extrajudiciais e judiciais colocados à sua disposição para exigir providências antes da ocorrência do dano.

Diante de riscos climáticos conhecidos e de sua atribuição constitucional de proteção dos direitos difusos, não se pode admitir que a própria instituição de controle apresente sinais de inércia ou insuficiência de atuação. A omissão estatal associada à ausência de controle preventivo pode aprofundar a vulnerabilidade de uma sociedade já exposta, deixando populações desassistidas justamente quando a antecipação institucional poderia evitar ou reduzir danos.

Aos Tribunais de Contas, no exercício do controle externo da Administração Pública, cabe avaliar, dentro de suas competências constitucionais, não apenas a regularidade formal dos gastos, mas também sua legalidade, legitimidade e economicidade19. No campo climático, esse controle pode alcançar a existência, execução e adequada aplicação dos recursos e instrumentos públicos destinados à prevenção, adaptação e redução de riscos e vulnerabilidades. 

Mais do que identificar irregularidades, os Tribunais de Contas podem exercer relevante função indutora de uma governança ambiental eficiente, estimulando planejamento, prevenção, transparência, definição de responsabilidades, adequada alocação de recursos e avaliação dos resultados das políticas públicas.

Diante de riscos conhecidos e previsíveis, o controle externo pode contribuir para identificar fragilidades institucionais e estimular sua correção antes que se convertam em incapacidade de resposta ou danos à sociedade.

Em um cenário de riscos previsíveis, o controle institucional também precisa adquirir caráter preventivo. Se o objetivo é proteger vidas, não basta que as instituições identifiquem responsabilidades depois que o desastre ocorreu. Sempre que juridicamente cabível, o controle deve contribuir para identificar antecipadamente lacunas da governança capazes de comprometer a proteção da população.

Forma-se, desse modo, uma arquitetura de proteção na qual ciência, sociedade civil, Poder Público e instituições de controle exercem funções complementares.

A ciência identifica e dimensiona os riscos; a sociedade os torna socialmente visíveis, contribui para identificar vulnerabilidades, acompanha a resposta governamental e reivindica proteção; o Poder Público deve converter conhecimento em prevenção, adaptação, alerta e capacidade de resposta; o Ministério Público atua na defesa dos direitos difusos e na exigibilidade dos deveres jurídicos; e os Tribunais de Contas exercem controle sobre a utilização dos recursos e instrumentos públicos destinados à redução das vulnerabilidades.

A prevenção climática é dever de Estado, mas sua efetividade é ampliada quando integrada a um sistema de governança, participação, controle e responsabilização.

Essa arquitetura exige a abertura das instituições públicas e de controle ao conhecimento científico e à percepção social, mediante canais permanentes de diálogo capazes de superar barreiras de isolamento institucional. A legislação brasileira sobre adaptação climática já estabelece diretrizes relacionadas à fundamentação científica, análise de vulnerabilidades, gestão do risco climático, monitoramento e participação social.

Diante da emergência climática, a circulação do conhecimento entre ciência, sociedade e instituições públicas deixa de ser apenas desejável. Torna-se elemento essencial de uma governança capaz de reconhecer riscos antes que se convertam em desastres.

Essa construção encontra respaldo no avanço da litigância climática no Brasil e no mundo, que vem deslocando progressivamente a discussão climática do campo exclusivo das escolhas políticas para o reconhecimento de deveres jurídicos de proteção.

O Global Climate Litigation Report: 2025 Status Review, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), contabilizou, até 30 de junho de 2025, 3.099 casos relacionados ao clima em 55 jurisdições nacionais e perante 24 cortes, tribunais ou organismos quase judiciais internacionais ou regionais23.

No Brasil, a decisão do Supremo Tribunal Federal na ADPF 708, relativa ao Fundo Clima, constitui referência relevante. O STF reconheceu a omissão da União e afirmou o dever constitucional de funcionamento dos instrumentos da política climática24.

No plano internacional, o caso Verein KlimaSeniorinnenSchweiz and Others v. Switzerland, decidido pela Corte Europeia de Direitos Humanos em 2024, reconheceu obrigações positivas do Estado relacionadas à proteção diante dos efeitos graves das mudanças climáticas.

Em 2025, a Corte Interamericana de Direitos Humanos avançou nessa construção com a Opinião Consultiva OC-32/25 – Emergência Climática e Direitos Humanos, emitida em resposta à consulta formulada por Chile e Colômbia sobre as obrigações dos Estados diante da emergência climática e seus efeitos sobre os direitos humanos.

Também em 2025, a Corte Internacional de Justiça emitiu parecer consultivo sobre as Obrigações dos Estados em relação às Mudanças Climáticas, ampliando a construção internacional acerca dos deveres estatais e das consequências jurídicas de ações e omissões diante da crise climática27.

Esses desenvolvimentos demonstram uma tendência crescente de judicialização dos deveres climáticos e de controle das omissões estatais28.

A noção de inadimplência climática aqui proposta insere-se nesse processo, mas procura avançar especialmente sobre sua dimensão preventiva: identificar e exigir o cumprimento dos deveres de proteção antes que a omissão contribua para transformar riscos conhecidos em danos evitáveis.

A emergência climática modifica, nesse sentido, a própria temporalidade da responsabilidade pública. Não é necessário esperar que o desastre aconteça para exigir que o Estado cumpra seu dever de proteção.

A responsabilidade começa a ser construída quando o risco se torna cientificamente conhecido e razoavelmente previsível, existem competências públicas para enfrentá-lo e medidas preventivas razoavelmente possíveis, passando o Poder Público a ter o dever de demonstrar sua capacidade de prevenção, adaptação, alerta e resposta.

É precisamente nesse intervalo – entre o conhecimento do risco e a ocorrência do desastre – que devem atuar a ciência, a sociedade organizada, os sistemas de alerta precoce e as instituições de controle.

Onde o risco pode ser antecipado, deve começar a proteção. Prevenir a inadimplência climática estatal é defender a sociedade, territórios e ambiente. Conhecer o risco muda a fronteira da responsabilidade - e traz o dever de agir.
Carlos Bocuhy, presidente do Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

A História já não se escreve – publica-se

Durante séculos, a História escreveu-se devagar. Quem a contava tinha estado lá, ou tinha falado com quem esteve, ou tinha passado uma vida a estudar o que lá se passou. Podia errar, e errou muitas vezes, mas errava dentro de um ofício: havia relatos recolhidos no local, documentos, testemunhas, datas, e havia sobretudo tempo entre o acontecimento e a narrativa, tempo para verificar, para contradizer, para corrigir. Os livros de História do futuro já não se escrevem assim. Escrevem-se num telemóvel, em tempo real, por quem não estava lá, não conhece o assunto e não tem obrigação nenhuma de acertar.

Vi as imagens de Ceuta como toda a gente: no telemóvel. Dezenas de milhares de pessoas atiradas ao mar num só dia. Não foi espontâneo: nas semanas anteriores, tinha circulado nas redes sociais marroquinas uma versão deformada de uma decisão do Tribunal Supremo espanhol, transformada na promessa de que quem conseguisse nadar até Ceuta já não podia ser devolvido. Sessenta mil pessoas não se levantam num dia e decidem, todas ao mesmo tempo, atirar-se à água. Alguém lhes disse que podiam. Num ecrã. E morreu-se por causa disso: as contagens apontam para dezenas de mortos, afogados a tentar alcançar uma promessa que nunca existiu. Foi uma mentira partilhada em ecrãs que pôs aquela gente a caminho, e foram ecrãs que, horas depois, já vendiam as imagens do desespero como prova de uma “invasão”, em Camp David, nas televisões americanas, nas contas da ultradireita europeia. A mesma tecnologia serviu para empurrar as vítimas e para as acusar.

Nós já sabemos o que as redes sociais fazem às crianças e aos adolescentes. Está estudado, medido, documentado: a ansiedade, a comparação permanente, a dependência desenhada ao milímetro por quem lucra com ela. Sabemos o que fazem às mulheres, transformadas em alvo preferencial do ódio organizado. Sabemos o que estão a fazer a uma geração de rapazes, convencidos por vendedores de ressentimento de que a culpa da sua solidão é das mulheres terem estudado, trabalhado e deixado de pedir licença. Sabemos tudo isto há anos, está tudo dito à boca cheia, e continuamos a tratar cada escândalo como surpresa. Mas há um dano mais fundo e menos falado: as redes estão a substituir-se aos lugares onde se aprendia o que é verdade.


Porque é isto que mudou. A criança que hoje quer saber o que se passou em Gaza, em Ceuta ou na última guerra não abre um livro nem pergunta a um professor: abre uma aplicação. E do outro lado não está um historiador, nem um jornalista, nem sequer uma testemunha. Está, com sorte, um curioso de boa-fé. Sem sorte, está alguém a quem pagaram a viagem. Porque é assim que hoje se encomenda a narrativa: vendem-se bilhetes de avião e estadias em hotéis de cinco estrelas a gente sem qualquer conhecimento da matéria, para contar a história que determinados governos querem que se conte. Fizeram-no com criadores de conteúdo portugueses levados a Israel, como foi amplamente noticiado. Fazem-no outros Estados, com outros rostos e outras piscinas. O produto final tem sempre o mesmo formato: um sorriso bronzeado a explicar geopolítica entre o pequeno-almoço de buffet e o pôr-do-sol, de regresso a casa com o rei na barriga e a factura paga por quem aparece bem na fotografia.

A China, que raramente serve de exemplo em matéria de liberdades, percebeu o tamanho do problema antes das democracias. Desde o outono passado, quem quiser falar online de medicina, direito, finanças ou educação tem de provar que percebe do assunto: diploma, licença profissional, credencial verificada pela plataforma. Sem qualificação, não há publicação. Apetece aplaudir, e é aí que está a armadilha. Porque o mesmo quadro regulatório proíbe criticar o Partido, “distorcer” a sua liderança ou tocar em assuntos considerados sensíveis. Ou seja: o regime que exige saber para falar de finanças é o mesmo que proíbe saber de mais quando o assunto é o próprio poder. A resposta autoritária não é o caminho, e eu não a quero cá. Mas o diagnóstico que lhe está por baixo devia envergonhar-nos: uma ditadura olhou para o charco da desinformação e agiu, mal, mas agiu, enquanto as democracias assinam códigos de conduta para inglês ver e esperam que a autorregulação faça o resto. Sabemos como acaba, à míngua de regras, quem espera que os mercados se regulem a si próprios.

E é este material, este e não outro, que vai formar a memória coletiva das próximas décadas. Os manuais escolares demoram anos a escrever-se; um vídeo demora segundos a chegar a um milhão de crianças. Quando os historiadores do futuro quiserem estudar este tempo, hão de encontrar os arquivos, os jornais, os documentos oficiais. Mas as pessoas que hoje têm doze anos não vão esperar por eles. A versão dos acontecimentos com que crescem está a ser escrita agora, por ignorantes com patrocínio, e a ignorância patrocinada tem uma vantagem desleal sobre o conhecimento: não tem dúvidas, não tem notas de rodapé, não tem contraditório. Tem luz boa e música de fundo.

E que fique claro: não escrevo isto do alto de sapiência nenhuma. Eu própria só posso falar com propriedade do que estudei e do que vivi, e é exatamente esse o ponto: saber onde acaba o que sabemos era, até há pouco tempo, a base mínima de qualquer conversa séria. Foi essa base que as redes dissolveram, ao pagar melhor a quem nunca teve essa dúvida.

A História continua a escrever-se. A pergunta é só quem segura a caneta. E neste momento, a caneta está na mão de quem aceita segurá-la em troca de um bilhete de avião.

Breve história da política brasileira, de Carneiro Leão a Lula da Silva

O apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva vai além das conveniências eleitorais da Paraíba. Reproduz o pacto entre o poder central e as oligarquias regionais, pelo qual interesses contraditórios se acomodam em torno da governabilidade e da preservação do poder. É a recidiva da velha “política de conciliação” incorporada ao projeto eleitoral de Lula.

José Honório Rodrigues analisou esse fenômeno em Conciliação e reforma no Brasil: um desafio histórico-político (Editora Civilização Brasileira), escrito depois do golpe militar de 1964. Discípulo de Capistrano de Abreu, o mestre via a conciliação de maneira crítica: “Os poderes dominantes tiveram sempre força para conter as aspirações profundas de mudança e reverter os movimentos de modo a sustentar seu sistema e seus privilégios”.

Para José Honório, a Independência, as revoltas do período regencial, a República e as crises de 1930, 1945, 1961 e 1964 revelavam uma característica recorrente da formação do Brasil: as estruturas do patronato brasileiro demonstram extraordinária capacidade de sobrevivência. “O povo brasileiro é uma vítima, um derrotado no processo histórico.”

Essa contradição atravessou a República. É a raiz da “modernização pelo alto”, capaz de incorporar demandas sociais sem romper necessariamente com estruturas tradicionais. Como insistia Luiz Werneck Vianna em A revolução passiva (Revan), o Brasil se transforma sem abandonar o antigo, em . Modernizou a economia, urbanizou-se, democratizou instituições e ampliou direitos sem o moderno na política dominante: preservou o patrimonialismo, o fisiologismo, as desigualdades e o poder das elites regionais.


A matriz histórica dessa característica da política brasileira está no Império. Em 1853, Honório Hermeto Carneiro Leão, o Marquês do Paraná, organizou o Gabinete da Conciliação, aproximando conservadores, os “saquaremas”, e liberais, os “luzias”. O conselheiro Nabuco de Araújo, conservador, havia perdido as eleições em Pernambuco, mas aceitou participar do gabinete de maioria liberal, porém sem abandonar seus aliados provinciais.

Surgia ali a célebre “ponte de ouro” narrada por Joaquim Nabuco no monumental Um estadista no Império (Topbooks). Ao contrário de Capistrano e Honório, Nabuco enxergava virtudes nessa engenharia. Para ele, o reformador brasileiro “detém-se diante do obstáculo; dá longas voltas para não atropelar nenhum direito”. Era uma concepção gradualista: mudar sem destruir as pontes com aqueles que controlavam parcelas importantes do poder.

O fato é que governos reformistas estabeleceram alianças com forças conservadoras para governar. Juscelino Kubitschek construiu uma ampla composição política para executar o Plano de Metas. Fernando Henrique Cardoso aliou o PSDB ao PFL de Marco Maciel, Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen para garantir sustentação parlamentar ao Plano Real e às reformas constitucionais.

Lula fez movimento semelhante nos dois primeiros mandatos, em aliança com o ex-presidente José Sarney e as oligarquias regionais representadas no Congresso. Dilma Rousseff, porém, entrou em conflito com parcelas importantes desse sistema, perdeu sua base parlamentar e acabou afastada pelo impeachment.

No terceiro mandato, contingenciado pela correlação de forças, Lula reencontrou essa estrutura ainda mais poderosa. O fortalecimento do Congresso por meio das emendas parlamentares e a ascensão do Centrão reduziram a autonomia do Executivo. A aproximação com PP e Republicanos foi uma resposta pragmática a essa realidade. A eleição de Hugo Motta para a Presidência da Câmara aprofundou o processo. É nesse contexto que seu apoio à reeleição de Lula adquire significado histórico.

Formalmente, o Republicanos permanece neutro na eleição presidencial. Politicamente, abriu espaço para que suas lideranças façam escolhas conforme as circunstâncias estaduais. Tarcísio de Freitas preserva em São Paulo sua identidade conservadora e a ligação com o eleitorado bolsonarista, enquanto Motta apoia Lula na Paraíba. Não demora muito será a vez de o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), outro represenante do Centrão, reaproximar-se de Lula em razão das eleições no Amapá; no rastro, do PP de Ciro Nogueira (PI). É o velho pacto dos “luzias” e “saquaremas”.

Lula conhece profundamente esse mecanismo. Sua candidatura à reeleição não pode depender apenas da frente formada por PT, PSB e outros partidos de esquerda, precisa de setores conservadores que controlam governos estaduais, prefeituras e bancadas. Mudaram os partidos e os personagens, mas o pacto perverso atravessou o Império, sobreviveu à República e chegou à eleição de 2026. Mas há um preço para o transformismo: a conciliação é eficiente para estabilizar o sistema político, porém à custa da participação popular e das reformas estruturais.