segunda-feira, 1 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Gaza e o desgaste moral do Ocidente

Quando ativistas europeus surgiram algemados após a interceção israelita da flotilha humanitária que tentava aproximar-se de Gaza, o impacto político das imagens foi imediato em várias capitais europeias. Não apenas pelo incidente diplomático em si, mas porque aquele episódio expôs, de forma particularmente desconfortável para o Ocidente, uma realidade cada vez mais difícil de ignorar desde o início da guerra: a de que o conflito deixou há muito de ser apenas uma questão regional do Médio Oriente e passou a transformar-se num teste decisivo à credibilidade moral e política das democracias ocidentais.

Pela primeira vez em muitos meses, cidadãos europeus surgiam expostos, ainda que momentaneamente, à mesma lógica de vulnerabilidade e impotência que passou a marcar o quotidiano em Gaza. O episódio condensou simbolicamente uma inquietação crescente dentro da Europa, onde aumenta o receio de que o custo internacional da guerra já ultrapasse largamente os limites da dimensão militar e humanitária do conflito.


A verdadeira dimensão geopolítica da guerra talvez resida precisamente nesse ponto. Gaza transformou-se num espelho desconfortável das contradições da ordem internacional construída pelos Estados Unidos e pela Europa após a II Guerra Mundial.

Durante décadas, o poder ocidental não assentou apenas na superioridade militar, tecnológica ou financeira, mas sobretudo na capacidade de apresentar os seus valores políticos como referências universais de legitimidade internacional. Direitos humanos, legalidade multilateral, proteção de civis, defesa da democracia liberal e respeito pelo direito internacional converteram-se em instrumentos centrais de influência global. Foi essa autoridade moral que permitiu ao Ocidente condenar invasões, impor sanções e definir, em larga medida, os parâmetros éticos da política internacional contemporânea.

Existem momentos históricos em que a distância entre os princípios proclamados e a realidade observada se torna demasiado visível para continuar a ser administrada diplomaticamente. Gaza poderá estar a tornar-se exatamente esse momento. A devastação humanitária acumulada ao longo dos últimos meses, o colapso das infraestruturas civis, a dimensão das mortes, as deslocações forçadas e a perceção crescente de punição coletiva começaram a produzir um desgaste político internacional muito superior ao inicialmente previsto pelas principais capitais ocidentais.

A dificuldade tornou-se particularmente delicada porque o conflito expôs uma contradição estrutural profundamente desconfortável para as democracias liberais. Desde o 7 de outubro de 2023, governos europeus e norte-americanos procuraram equilibrar duas realidades politicamente difíceis de conciliar: o reconhecimento do trauma provocado pelos ataques do Hamas e das preocupações de segurança israelitas; e, ao mesmo tempo, a crescente incapacidade de justificar, perante parte significativa da comunidade internacional, a dimensão da destruição humanitária produzida pela guerra.

Esse equilíbrio deteriorou-se à medida que bairros inteiros reduzidos a ruínas, civis encurralados e hospitais colapsados passaram a dominar o espaço mediático internacional. O problema deixou então de ser exclusivamente militar ou diplomático. Tornou-se moral, narrativo e civilizacional.

Em grande parte do Sul Global — particularmente em países africanos, árabes, asiáticos e latino-americanos — consolidou-se a perceção de que o Ocidente aplica os princípios do direito internacional de forma seletiva, condicionando frequentemente a defesa dos direitos humanos aos seus interesses estratégicos e às suas alianças políticas.

Essa leitura não se disseminou apenas entre governos tradicionalmente hostis a Washington ou Bruxelas. Espalhou-se igualmente por universidades, organizações internacionais, fóruns diplomáticos e setores da sociedade civil que durante décadas olharam para a Europa e para os Estados Unidos como referências relativamente estáveis de legitimidade democrática.

A crescente pressão no espaço político europeu para o reconhecimento formal do Estado palestiniano reflete precisamente esse desconforto. Nos bastidores de Bruxelas tornou-se evidente o receio de que a continuidade do conflito provoque um dano estrutural à imagem internacional do continente, sobretudo junto das novas gerações e dos países emergentes.

O reconhecimento da Palestina deixou gradualmente de ser encarado apenas como uma questão diplomática relacionada com o Médio Oriente e começou a assumir, em várias capitais ocidentais, o significado político de uma tentativa de recuperar parte da credibilidade internacional perdida ao longo da guerra.

Essa erosão de legitimidade tornou-se ainda mais sensível porque ocorre num momento de fragilidade crescente das próprias democracias ocidentais. A polarização política, a ascensão dos populismos, a radicalização digital e a perda de confiança institucional já fragilizavam a autoridade moral do Ocidente muito antes de Gaza ocupar o centro do debate internacional. A guerra funcionou, nesse contexto, como um acelerador brutal de tendências que já estavam em curso.

Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, parte significativa da opinião pública internacional começou a questionar não apenas decisões concretas da política externa ocidental, mas a própria coerência do modelo político e moral que sustentou durante décadas a liderança internacional dos Estados Unidos e da Europa.

A China percebeu rapidamente o alcance estratégico dessa transformação. A Rússia também. Pequim explora de forma sistemática o desgaste moral do Ocidente para reforçar a ideia de uma ordem internacional multipolar menos subordinada aos critérios políticos definidos por Washington.

Moscovo utiliza o conflito para denunciar aquilo que descreve como incoerência estrutural das democracias liberais sempre que interesses estratégicos entram em colisão com princípios humanitários. Ambos compreenderam que, num sistema internacional cada vez mais fragmentado, a perda de legitimidade narrativa pode produzir efeitos geopolíticos tão relevantes quanto crises económicas ou derrotas militares.

Mas talvez o aspeto mais significativo desta transformação esteja a ocorrer dentro das próprias sociedades ocidentais. Entre sectores mais jovens das elites académicas, mediáticas e políticas, Gaza passou gradualmente a simbolizar uma rutura geracional mais profunda: a erosão da convicção de que o Ocidente atuaria, apesar das suas contradições, como referência relativamente coerente da ordem liberal internacional construída após a Guerra Fria.

O poder internacional nunca depende apenas de força militar ou capacidade económica. Depende igualmente da confiança que uma potência consegue projetar sobre os valores que afirma defender. Quando essa confiança começa a deteriorar-se, o desgaste ultrapassa rapidamente o plano diplomático e instala-se no próprio imaginário político internacional.

É precisamente esse tipo de fragilidade que o conflito em Gaza parece hoje expor de forma particularmente incómoda para o Ocidente.

Gaza poderá vir a ser recordada não apenas pela dimensão da devastação humanitária que produziu, mas pelo impacto político e moral que este conflito provocou na perceção global sobre o Ocidente. À medida que a guerra avançava, tornou-se progressivamente mais difícil para os Estados Unidos e para a Europa convencerem parte significativa da comunidade internacional da coerência dos princípios que durante décadas sustentaram a sua influência política e diplomática.

O que ocorre nos EUA é mais profundo do que parece

Na viagem de Trump à China, Trump escutou de Xi Jinping para que não entre em Taiwan, que a Guerra contra o Irã é uma guerra equivocada que não deveria ter ocorrido, e que os Estados Unidos são uma potência declinante, com a ascensão da China; e que os Estados Unidos não incorram no erro de retaliar com uma guerra como fizeram nações anteriores nesta situação.

Simon Commander, que foi Professor da London Business School e Consultor do Banco Europeu, agora com a sua revista eletrônica “Modern Autocracy”, mostra em seus artigos que 2/3 da população mundial hoje vive sob Autocracias Modernas, com a China, Rússia e Índia, e outros países.

As Autocracias Modernas se mostram como tendência mundial, com o declínio econômico das classes médias e acúmulo da riqueza social em mãos de poucos. Estudo do Banco UBS mostra que 2.500 famílias detêm hoje o equivalente a cerca de 12% do valor do PIB mundial. E o “The World Inequality Report” mostra a queda da remuneração das classes médias a partir de 1980.


De 1960 a 2025, o PIB dos Estados Unidos diminuiu de 40% para 21% em sua participação mundial, Europa de 21% para 18%, China de 4% para 17%, com tendência crescente. Segundo o Goldman Sachs, o PIB da China deverá ultrapassar o PIB dos Estados Unidos em 2035-2036.

Historicamente, todo processo de substituição de um país por outro na hegemonia mundial resultou em guerra, como no caso da imposição por parte da Inglaterra de tarifas alfandegárias à Alemanha na virada dos anos de 1900, quando a Inglaterra perdia as suas colônias e a Alemanha se industrializava, resultando em duas Guerras Mundiais.

Para sobreviver, os Estados Unidos tendem a abraçar a Autocracia como estratégia mundial. Mas as Autocracias, como indica Simon Commander, limitam a economia de mercado e a distribuição de renda nos países, pelo gerenciamento dos Governantes através de benefícios para grupos econômicos específicos, em troca de favores.

Trump foi eleito com 49,5% do total do eleitorado, contra 48,0% de Kamala Harris. Na primeira pesquisa Reuters/IPSOS em janeiro de 2025, Trump obteve 47% de aprovação de seu governo no total da população, agora em maio de 2026 em 35%. Os Estados Unidos foram fundados como uma Democracia, baseada nos valores da liberdade e do mercado, e não como uma Autocracia. Mas se o mercado hoje não agrada, e a Autocracia não funciona, o que fazer?

A ambivalência entre a Democracia e a Autocracia é autodestrutiva.

É terrível o dilema americano.

Que Deus tenha piedade de nós!

'Corrupção honesta' e criminalidade violenta

Há mais de dois anos escrevi sobre a Tammany Hall: uma espécie de confraria que dominou o partido democrata em Nova York por 40 anos, inspirou filmes e livros, e acabou virando símbolo de máquina política corrupta. Foi desmantelada nos anos trinta do século passado, mas na literatura especializada em corrupção é o exemplo paradigmático de corrupção política. Ao contrário do que afirmava um dos seus líderes, em uma fórmula célebre, não se tratava apenas do que chamou "corrupção honesta" —ou seja, aquela que envolve apenas "conflito de interesses", fraudes em licitações e blindagem contra punições. O esquema corrupto envolveu paulatinamente "corrupção desonesta" por "saqueadores" (desvios) e se entrelaçou com a criminalidade violenta liderada pelo capo Lucky Luciano.


Tammany Hall talvez deixe de ser o exemplo paradigmático de corrupção política para ceder lugar ao Rio de Janeiro. A magnitude dos esquemas recentemente revelados é tamanha que alcança praticamente toda a estrutura institucional —dos três Poderes à Procuradoria e a órgãos do Estado, organizações privadas. E, como se a realidade buscasse imitar a ficção que consagrou Nova York como cenário clássico da máfia, um dos supostos chefões da organização vive em Miami.

Tammany Hall inspira três reflexões.

A primeira é que o estado —e mais importante, o país— está perdendo a guerra contra a corrupção. Afinal, todos os governadores eleitos no Rio de Janeiro nos últimos 30 anos foram presos ou destituídos do cargo. O caso Sérgio Cabral é emblemático. O que autoriza essa conclusão forte é que muitos protagonistas de casos notórios de corrupção reaparecem em denúncias recentes. E não só em relação ao caso do Rio de Janeiro. Isto vale para a Lava Jato e o Mensalão. The Economist repercutiu internacionalmente a degradação institucional do estado. E dedicou mais de uma matéria ao caso Master.

A segunda é que o caso Master e sua colossal capilaridade colocam a questão de que a degradação institucional sistêmica escalou para o nível nacional. Afinal, as denúncias chegaram na Corte mais importante do país. A questão dos custos reputacionais envolvidos adquiriu agora enorme importância. As decisões recentes do governo americano sobre a classificação das organizações criminosas brasileiras levam o problema a outro nível. No entanto, quanto pior a reputação das instituições brasileiras, menor sua capacidade de efetivamente responder ao desafio que enfrenta.

A terceira é que o que havia em comum entre a "corrupção honesta" e a "desonesta" em Tammany Hall era sobretudo as formas de lavagem de dinheiro. As oriundas de negociatas políticas e de crimes violentos se entrelaçavam e contaminavam reciprocamente. Exatamente como ocorre no Master, especialmente no caso da Reag.

Como ocorreu com outras decisões tomadas por Trump (aplicação da Magnitsky, de tarifas punitivas etc.), a nova classificação dada a organizações criminosas brasileiras inscreve-se em sua tática transacional de maximizar ameaças para garantir ganhos estratégicos. Sua repercussão no país é maximizada pela sua exploração eleitoral. Provavelmente o efeito real será muito menor que o alegado nas narrativas políticas.

Brasil experimenta o que é estar na zona de influência americana

Em dezembro de 2025, a Casa Branca publicou suas diretrizes de segurança para o continente americano, o que foi chamado à época de “Corolário Trump à Doutrina Monroe”.

Em janeiro de 2026, no texto “Trump lembra ao Brasil que a Geografia Importa”, analisamos os recados direitos que estavam endereçados no documento.


A mensagem geral era a de que os EUA passaram a considerar eventos regionais como questões que importam à sua segurança interna, se permitindo tomar decisões sobre outros países sem ter que percorrer a via diplomática.

Olhando em perspectiva, quando o governo de Donald Trump decide classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, pode-se dizer que o país experimenta pela primeira vez o que significa estar na zona de influência americana.

E o que Flávio Bolsonaro tem a ver com isso?

O candidato do PL não tem responsabilidade direta, mas cumpriu um papel.

Flávio Bolsonaro foi, de fato, convidado oficialmente a visitar Donald Trump sem ter feito nada para tanto. Aos seus círculos próximos, ele confessava, na véspera da viagem, a surpresa pela agenda inesperada e que não tinha ideia do que se tratava.

O anúncio logo após a sua visita mostra que Trump usou Flávio para dar legitimidade a um anúncio que já estava pronto. Quando um dos principais candidatos da oposição vai diretamente ao líder de outro país pedir pela medida, isso confere a ela alguma sustentação e ameniza críticas pela sua unilateralidade: “foram vocês (ou uma parte de vocês) que pediram”.

Trata-se de um aprendizado para o Brasil.

É ingenuidade de Lula ou de Flávio acharem que podem influenciar ou até manipular governos americanos a fazerem qualquer coisa. Nesse novo normal, é preciso compreender mais seriamente o que significa estar nessa zona americana e compreender as possibilidades e restrições de ação que estão no pacote.

domingo, 31 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Os patriotas pelo avesso

 Talvez o momento mais verdadeiro do nacionalismo da direita tenha ocorrido quando manifestantes bolsonaristas estenderam a bandeira norte-americana na Avenida Paulista em pleno dia da pátria brasileira. Eles se denominam “patriotas” e se cobrem de verde e amarelo, mas comemoram barreiras contra as exportações brasileiras, pedem intervenção americana nas eleições nacionais e, agora, tratam como uma vitória o que é um evidente risco para o país e suas instituições.

É um patriotismo pelo avesso. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, chegou a colocar o boné com a marca “Make America Great Again” na época da posse de Donald Trump. Mas já estava claro para qualquer pessoa que, na visão trumpista, os Estados Unidos só podem ser grandes em detrimento de outros países. A conta não tardou muito, em abril do ano passado, o presidente norte-americano anunciou o tarifaço contra o mundo. O Brasil ficou com uma das maiores tarifas e elas feriram duramente as empresas do estado governado por Tarcísio. Foi o governo Lula que dissolveu a maior parte desse ônus para a economia brasileira.

O patriotismo histriônico e estigmatizado que berra, agarra a bandeira, militariza os símbolos nacionais em atos patéticos não tem nada a ver com o verdadeiro e sereno amor à pátria ou o entendimento de quais são os reais interesses dos que nasceram nesta terra ou a escolheram como sua.

São muitos os riscos decorrentes da definição das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Uma das primeiras consequências práticas pode ser o enfraquecimento dos mecanismos atuais de cooperação no combate a essas quadrilhas. O Brasil perde interlocução com o FBI e o assunto passa para a alçada da CIA. Combater o tráfico de drogas e armas deixa de ser uma questão policial, em que organismos dos dois países podem trocar informações. O tema passa ser uma questão da segurança nacional americana, portanto, entregue aos espiões. A partir dessa decisão do governo americano, ficam legalmente permitidas missões de espionagem da CIA no Brasil, sem a anuência ou conhecimento do governo brasileiro.

Há ameaças econômicas também. Num mercado financeiro globalizado, bancos nacionais operam o tempo todo no mercado americano. Qualquer dúvida que paire sobre instituições brasileiras pode se transformar em limitação para as suas operações. Empresas também que tenham negócios com firmas americanas podem encontrar constrangimentos.

O senador Flávio Bolsonaro comemorou a decisão do governo Trump como uma vitória política. O ato é visto como uma tábua de salvação para uma candidatura que está em apuros pela revelação da intimidade que ele mantinha com o banqueiro corruptor Daniel Vorcaro. Como a decisão do governo americano ocorreu logo após seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro pode reivindicar autoria do atentado.

O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital são de fato terríveis organizações, extremamente perigosas, que se expandem. Qualquer pessoa pode se sentir ameaçada pelo terror que elas espalham com suas ações e concluir que faz sentido defini-las como terroristas. Não é a definição em si o problema, e sim o que isso implica do ponto de vista legal.

Vale a esta altura da comemoração bolsonarista perguntar a Flávio Bolsonaro: e as milícias, senador? Curiosamente, ele guarda silêncio sobre a organização criminosa que também aterroriza cidadãos do Rio de Janeiro. No passado recente, ele já elogiou, empregou e condecorou milicianos e seus familiares.

Há um fio que liga as patriotadas do governo militar e o comportamento dos líderes bolsonaristas. Tanto na ditadura quanto agora, a direita declara ser a detentora única do amor à pátria quando na verdade é capaz das maiores traições. Tanto o ataque ao patrimônio natural do país, quanto os acordos entreguistas que beneficiam outros países em detrimento do Brasil. Têm ainda em comum a devoção à potência estrangeira.

O assunto se presta a muita confusão, manipulação e falsidade. E é a essa tarefa que Flávio Bolsonaro está dedicado no momento. Ele está usando o sentimento natural de repúdio das pessoas contra as organizações criminosas, e tratando a decisão do governo americano como um serviço ao país. O que isso pode significar na prática, contudo, não lhe interessa. Flávio Bolsonaro continuará no seu show de bajulação ao presidente dos Estados Unidos. E chamará a isso patriotismo.

Míriam Leitão

O medo da Inteligência Artificial está a tornar-se mais perigoso do que a própria tecnologia

Há uma ironia quase trágica nos tempos modernos. A Humanidade passou séculos a criar máquinas para aliviar sofrimento, acelerar conhecimento, aproximar pessoas e ampliar capacidades humanas. Mas quando finalmente surge uma tecnologia capaz de democratizar informação, auxiliar na educação, acelerar diagnósticos médicos, melhorar acessibilidade, otimizar energia, combater isolamento e até apoiar pessoas com deficiência, a reação de muitos parece resumir-se a um grito coletivo: “Desarmem essa porcaria!”

A frase é irónica, claro. Mas reflete uma realidade cada vez mais evidente. A Inteligência Artificial transformou-se, para muitos, numa espécie de novo “inimigo público”, tratado quase como uma ameaça existencial inevitável, uma arma prestes a destruir empregos, criatividade, relações humanas e até a própria civilização. Como sempre acontece na História, o medo chega primeiro do que a compreensão.


É legítimo discutir riscos. É saudável exigir regulação, ética, transparência e responsabilidade. Mas outra coisa completamente diferente é alimentar uma espécie de histeria tecnológica coletiva, quase apocalíptica, que ignora deliberadamente os benefícios gigantescos que esta revolução já está a trazer ao mundo.

Curiosamente, muitas das pessoas que criticam ferozmente a Inteligência Artificial utilizam diariamente algoritmos para navegar, trabalhar, comunicar, estudar, comprar, ver filmes, ouvir música ou receber recomendações médicas. Vivemos rodeados de IA há anos. A diferença é que agora ela começou a falar connosco de forma mais visível — e isso assusta.

O próprio Papa Leão XIV admitiu recentemente que o mundo poderia talvez ser melhor sem Inteligência Artificial. A preocupação moral merece respeito. A Igreja tem historicamente um papel importante na reflexão ética das grandes transformações humanas. Contudo, talvez a questão correta não seja “um mundo sem IA”, mas sim: que tipo de Humanidade queremos construir utilizando esta ferramenta?

Porque a verdade é que a IA não possui consciência, ambição política, ódio ou desejo de destruição. Quem possui isso continua a ser o ser humano. Uma tecnologia pode servir para curar ou manipular, educar ou desinformar, integrar ou excluir. Tal como aconteceu com a eletricidade, a televisão, a internet ou até a imprensa.

Em áreas como a saúde, a Inteligência Artificial poderá representar uma revolução extraordinária. Diagnósticos mais rápidos, apoio à investigação científica, medicina personalizada, deteção precoce de doenças, melhoria de próteses auditivas e implantes cocleares, sistemas automáticos de legendagem e acessibilidade em tempo real — tudo isto já está a acontecer. Para milhares de pessoas com deficiência auditiva, visual ou motora, a IA não é uma ameaça abstrata. É independência, inclusão e qualidade de vida.

Também no combate às alterações climáticas, na eficiência energética, na gestão de tráfego urbano, na prevenção de incêndios ou na optimização de redes eléctricas, a IA pode tornar-se uma aliada decisiva. O problema não está necessariamente na tecnologia. Está na ausência de visão política, ética e social para a acompanhar.

Há ainda outra contradição fascinante: muitos dos que mais condenam a IA parecem não ter demonstrado o mesmo nível de preocupação perante guerras, desinformação política, exploração laboral, manipulação mediática, corrupção ou desigualdades sociais profundas. Como se uma ferramenta digital fosse automaticamente mais perigosa do que décadas de falhas humanas perfeitamente reais.

Talvez o maior risco da Inteligência Artificial não seja ela própria. Talvez seja a nossa tendência histórica para reagir ao desconhecido com medo, exagero e radicalismo. A Humanidade sempre receou aquilo que não compreendia. E quase sempre acabou por integrar essas mudanças no quotidiano.

Por isso, talvez não seja a IA que devamos “desarmar”. Talvez devêssemos, isso sim, desarmar o alarmismo, a ignorância tecnológica e a incapacidade colectiva de discutir inovação com equilíbrio, racionalidade e visão de futuro.o. A Humanidade sempre receou aquilo que não compreendia. E quase sempre acabou por integrar essas mudanças no quotidiano.

Por isso, talvez não seja a IA que devamos “desarmar”. Talvez devêssemos, isso sim, desarmar o alarmismo, a ignorância tecnológica e a incapacidade colectiva de discutir inovação com equilíbrio, racionalidade e visão de futuro.

O radialista, o produtor e o banqueiro: histórias frias da direita brasileira

Em 1950, Carlos Frias parecia ter encontrado no rádio uma passagem direta para a política. Locutor conhecido das rádios Tupi e Tamoio, voz identificada com a campanha brigadeirista e defensor declarado da União Democrática Nacional, Frias foi eleito vereador na então Capital Federal como um dos poucos nomes do rádio alinhados ao antigetulismo. A condição era rara. A UDN do Rio carioca consolidava base em camadas médias urbanas, mas pouco penetrava na classe radiofônica, majoritariamente getulista. Carlos Frias era apresentado na revista como o melhor candidato udenista a vencer a “gaiola de ouro”, termo utilizado pelos próprios radialistas em referência à Câmara dos Vereadores.

Mas a carreira política do locutor começou atravessada por uma reviravolta. Antes mesmo da posse, eis que uma notícia explodiu nas páginas da imprensa radiofônica. Carlos Frias havia sido preso e acusado de falência fraudulenta. A Revista do Rádio tratou o caso com o vocabulário dramático que reservava às grandes comoções do mundo artístico. A notícia, dizia o periódico, “estourou como uma bomba”, abalando fãs, políticos e artistas. A metáfora pertencia à gramática do escândalo midiático que o semanário mobilizava em outras ocasiões para tratar separações de cantoras e brigas de bastidor. Importava a temperatura emocional do enquadramento, não a precisão jurídica do que ocorrera. O radialista, eleito pelo voto popular, via-se subitamente impedido de exercer o mandato por força de uma condenação judicial.

A revista se colocou em cena como mediadora da crise. Dizia agir “em defesa dos radialistas” e atender à curiosidade de seus leitores. A revista não falava de Carlos Frias apenas como candidato político. Era um dos seus, um trabalhador da voz, um personagem do rádio, alguém cuja queda política podia ser narrada como injustiça contra o meio radiofônico. Esse pertencimento profissional precedia o posicionamento ideológico. Anselmo Domingos, diretor-chefe e ele próprio escritor de radionovelas, organizava o periódico para defender a categoria antes de tomar partido. A clivagem getulismo versus udenismo cedia momentaneamente à clivagem entre o radialista e o tribunal. O mesmo periódico que pouco espaço lhe concedera enquanto candidato antigetulista passou a acompanhar, com atenção redobrada, o drama jurídico que ameaçava retirar-lhe o mandato.

A Constituição de 1946 oferecia o enquadramento do impasse. A condenação por falência fraudulenta tornava problemática sua diplomação, pois a perda ou suspensão dos direitos políticos atingia diretamente as condições de elegibilidade. Os artigos 132 e 138, combinados, tornavam inalistáveis e inelegíveis os privados de direitos políticos. Não havia gradação. Bastava a condenação em primeira instância para que a porta da Câmara se fechasse. O caso Carlos Frias não era somente uma fofoca de bastidor radiofônico. Seu causo condensava uma pergunta importante para a democracia brasileira sobre até que ponto o voto poderia ser interrompido pela Justiça quando a biografia judicial de um eleito se chocava com as exigências legais da representação política.

O desfecho favoreceu o locutor. Após decisão judicial que anulou a sentença, Frias pôde ser diplomado em 1951. Em entrevista à Revista do Rádio, fez questão de afirmar que a política não o afastaria do microfone. A volta ao estúdio fazia parte do programa político, não era seu intervalo. Continuar locutor garantia que a base de votantes permanecesse ouvinte. No Brasil dos anos 1950, rádio e política não eram mundos separados. O microfone fazia candidatos, a Câmara oferecia tribuna e a imprensa especializada transformava a trajetória desses homens públicos em um grande espetáculo.


Mais de sete décadas depois, outro Frias reaparece no noticiário político brasileiro. Mário Frias, deputado federal pelo Partido Liberal de São Paulo e ex-secretário especial de Cultura, tornou-se um dos personagens das controvérsias em torno de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Sua posição é tripla. Atua como produtor executivo do longa, integra o elenco como ator, e responde no Supremo na condição de parlamentar destinador de emendas. Em maio de 2026, o ministro Flávio Dino abriu apuração no STF para investigar emendas parlamentares destinadas por ele e por dois outros parlamentares, após representação dos deputados Tabata Amaral e Henrique Vieira. Estão sob escrutínio R$ 2 milhões destinados pelo ex-secretário especial de Cultura ao Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à produtora Go Up Entertainment.

A produção contou com R$ 61 milhões aportados pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em compromisso original de R$134 milhões, conforme apuração do Intercept Brasil. As tentativas de notificação de Frias pelo STF, em 31 de março, 7 e 14 de abril e 18 de maio de 2026, foram frustradas. Oficiais de justiça encontraram endereços vazios, e o gabinete informou “missão internacional” sem previsão de retorno. O parlamentar, em momento anterior, havia negado qualquer aporte de Vorcaro à produção, versão que precisou corrigir depois que o senador Flávio Bolsonaro reconheceu o pagamento de R$71 milhões, atribuindo então o repasse a um fundo de investimentos ligado ao banqueiro. A fuga, no entanto, não pertence à fórmula de Carlos Frias, que enfrentou a acusação em juízo e foi absolvido. Num caso, discutia-se a posse de um vereador eleito à luz da Constituição de 1946. No outro, ainda se está muito antes de qualquer condenação, pois trata-se de uma investigação em curso, marcada por intimações frustradas e pela disputa sobre a rastreabilidade dos recursos.

A Constituição de 1988 substituiu o regime automático por outro. O artigo 14, parágrafo 9º, transferiu à lei complementar a fixação das hipóteses de inelegibilidade, e a Lei Complementar 135 de 2010, conhecida como Ficha Limpa, fixou prazo de oito anos contados de decisão por órgão colegiado, sem exigência de trânsito em julgado. A lógica de 1946, em que a condenação valia como suspensão imediata dos direitos políticos, foi substituída por sistema graduado por tipo de delito. Mário Frias hoje não enfrenta nada disso. Sua situação está em apuração preliminar no Supremo Tribunal Federal, fase muito anterior a qualquer condenação. A comparação institucional não se sustenta no plano do dispositivo, e sim no padrão midiático em torno da figura sob suspeita.

Entre Carlos Frias e Mário Frias não há, necessariamente, uma linhagem familiar. Há, porém, uma coincidência histórica, na qual ambos são personagens políticos que ingressam na vida pública amparados pela retórica moral e pela capacidade de transformar suspeitas em narrativa de perseguição. Carlos Frias, radialista udenista, teve sua diplomação ameaçada por uma condenação judicial por falência fraudulenta. Mário Frias, produtor executivo de um filme bolsonarista, aparece hoje em uma apuração preliminar sobre o percurso de emendas parlamentares e as relações entre dinheiro público e produção audiovisual, ainda que Flávio Bolsonaro insista em apresentar Dark Horse como projeto exclusivamente privado, posição contestada em representação do Ministério Público junto ao TCU, que pediu em maio de 2026 a abertura de investigação sobre a origem dos aportes.

Em janeiro de 1951, a Revista do Rádio não relatava a acusação contra Carlos Frias, combatia-a, recorrendo à categoria do “lamentável equívoco” prestes a ser elucidado. Os fãs, registrava o próprio periódico, duvidavam da veracidade da notícia. A função de defesa que Anselmo Domingos exercia em um semanário de circulação nacional se distribui hoje por canais de YouTube, perfis bolsonaristas no X e produtoras audiovisuais que fabricam cinebiografias hagiográficas. A diferença é estrutural. A operação retórica é a mesma. Em 1951, a “bomba” da prisão virou narrativa de perseguição contra o radialista udenista. Em 2026, a ausência diante do oficial de justiça virou “missão internacional” do deputado bolsonarista. A operação política, descrita por Bourdieu como luta pelo monopólio do discurso legítimo no campo, segue idêntica. Resta saber se o desfecho da investigação no STF se aproximará da absolvição que beneficiou o radialista de Anselmo Domingos ou produzirá outro encerramento, ainda em aberto, que apenas o tempo da apuração permitirá dimensionar.

A força da verdade

Sou remanescente dos melhores momentos do jornalismo no Brasil, época em que os repórteres dos jornais diários não eram obrigados a competir com as notícias 24 horas da tv a cabo. Os jornalistas tinham a possibilidade de viajar para qualquer lugar em que houvesse chance de uma boa reportagem. No meu tempo de Veja, por exemplo, anos setenta, fui de avião pequeno, teco-teco alugado, ao encontro dos índios gigantes nas margens do rio Peixoto de Azevedo, na divisa dos estados do Amazonas e Mato Grosso.

Hoje no local existe uma cidade. Na época, era selva amazônica. Dormi no mato, com os índios. Tive a rara oportunidade de presenciar o primeiro contato de selvagens com os brancos, representados por Cláudio Villas Boas, personagem de outro planeta, filósofo, tranquilo e profundo conhecedor do Brasil. A reportagem virou matéria de capa da Veja e ocupou mais de seis páginas da revista.


O jornalismo atual foi invadido pelas mesas redondas de especialistas e jornalistas que começam a responder a qualquer pergunta com as palavras mais mortais no mundo da imprensa: “eu acho”. O país está saturado por notícias falsas, informações exageradas, incompletas, afirmações sem fundamento que aparecem nos noticiários de televisão e são corrigidos nas edições seguintes. Não é um fenômeno brasileiro, é universal. Estamos todos submetidos à pressa, ao trabalho de apuração malfeito, a preguiça que invadiu as redações, além de definições das ideologias e dos modismos em vigor. No caso de Brasília, as entrevistas pessoais foram substituídas pela conversa ao telefone celular. Tudo é improviso, submetido aos rigores do espaço disponível e dos humores do jornalismo ao vivo.

A eleição presidencial brasileira é notável, neste sentido. Só há candidatos de direita, contra um senhor de mais de 80 anos, que, teoricamente, representa a esquerda. A campanha se sustenta, pela falta de ideias, no desfilar de escândalos. O banqueiro que corrompeu boa parte dos poderosos brasileiros, infiltrou-se em todos os lugares. Tem até uma parte da sociedade que comanda um clube de futebol em Minas Gerais. Daqui a pouco vão descobrir este pedaço de escândalo. De escândalo em escândalo, o debate eleitoral não chega a lugar nenhum. Aliás, nenhum dos candidatos apresentou alguma proposta parecida com programa de governo. Ninguém projeta o futuro. A única preocupação é garantir vantagens pessoais para seu grupo. Nem o atual presidente conseguiu apresentar seu projeto de país para os próximos quatro anos.

O extremista procura se colocar sob a asa de Donald Trump, o que é lamentável porque a eleição vai ocorrer no Brasil, não nos Estados Unidos. O governo norte-americano agora administra o futuro da Venezuela. Deve servir de horizonte para o filho de Jair, se for eleito. Mas ninguém se lembrou de fazer as perguntas certas ao candidato. Mesmo porque é de conhecimento público que ele não tem as respostas.

É lamentável chegar a este nível de descompromisso com a notícia. Tempos atrás, anos sessenta, neste mesmo Correio Braziliense, era um foca iniciante que fazia o turno da noite. Chegava no jornal as 18 horas e saia depois da meia noite, quando a primeira página era concluída. Meu chefe era o Alfredo Obliziner, editor de saudosa memória, ótimo jornalista e grande companheiro. Quando irritado, ficava vermelho de raiva. Parecia que ia explodir.

Minha função era auxiliar no fechamento da primeira página. Fazia títulos, reescrevia matérias e produzia legendas. Numa determinada noite encontrei Alfredo a ponto de estourar. Havia um militar na redação. Não me lembro da patente. Estava uniformizado. Entregava o material ao Alfredo e ele passava ao militar. Depois o texto voltava para minha apreciação todo rabiscado. Censura.

O militar dizia o que podia e que não podia ser publicado. Censura de corpo presente. O devaneio da ditadura. Ninguém consegue impedir a narrativa da história, nem o correr dos fatos. Mas os censores tinham a pretensão de reescrever a realidade. O espaço é pequeno para assunto tão controverso. A atividade dos censores resultou em muita confusão. Uma edição inteira do Correio chegou a ser empastelada. O pessoal ficou preso na redação toda a noite.

Mas, um dia o vento muda. E mudou. Os militares voltaram para os quartéis e o Brasil se reencontrou com a democracia. A realidade costuma prevalecer sobre as fantasias dogmáticas, sejam de caráter político, ideológico ou simples modismos de última hora. As narrativas perdem a validade diante das verdades universais. Não há alternativa para a realidade. Estive em 1980 na União Soviética. Na época era o seu esplendor. Fui de Moscou a Tashkent, na Ásia. Comunismo por todos os lados. Relatei minha experiência numa série de oito reportagens que foi publicada neste Correio. Um dia o vento virou e aquilo tudo foi demolido pela força dos fatos. A verdade pode demorar a chegar, mas prevalece.

Entre as ruas e as superpotências na disputa global por minerais críticos

A escalada de tensões na Bolívia, marcada por protestos generalizados contra a escassez de combustíveis e por conflitos agrários, coloca o governo atual sob intensa pressão popular. Para além das reivindicações salariais imediatas e dos pedidos de renúncia presidencial, a crise boliviana carrega implicações geopolíticas mais amplas. O colapso da estabilidade interna impacta diretamente a segurança energética da América do Sul e atrai o olhar de potências globais, atentas ao futuro das maiores reservas de lítio do planeta.

Para compreender esse cenário, é necessário recuar no tempo. Por quase duas décadas, a Bolívia foi governada sob um modelo de forte presença estatal e nacionalismo econômico, liderado por Evo Morales (2006–2019) e Luis Arce (2020–2025). Inseridas em um contexto de alta dos preços das commodities, ambas as gestões apostaram na industrialização de recursos estratégicos, como o lítio e o gás, revertendo parte significativa desses ganhos em políticas de redistribuição de renda. Programas como o Bono Juancito Pinto e o Bono Juana Azurduy tornaram-se pilares desse arranjo, promovendo inclusão social, incentivando a permanência escolar e fortalecendo o acompanhamento materno-infantil.

No plano internacional, esse ciclo foi acompanhado por uma mudança geopolítica relevante. Desde a chegada do Movimento ao Socialismo (MAS) ao poder, a Bolívia reduziu de forma significativa sua histórica dependência em relação aos Estados Unidos. O distanciamento diplomático de Washington materializou-se na expulsão de embaixadores e da agência antidrogas norte-americana (DEA), sob acusações de interferência em assuntos internos. Em contrapartida, o país aprofundou suas relações com parceiros extrarregionais, como Rússia e China, ao mesmo tempo em que reforçou iniciativas de integração latino-americana.

Embora esse modelo tenha garantido anos de crescimento e relativa estabilidade social, passou a enfrentar limites estruturais cada vez mais evidentes. O principal deles reside na queda das exportações de gás natural, historicamente responsáveis por sustentar o caixa estatal. Com a diminuição das receitas externas, as reservas cambiais se deterioraram rapidamente, restringindo a capacidade do Estado de financiar políticas públicas e manter subsídios, especialmente no setor de combustíveis. Esse estrangulamento financeiro abriu caminho para a vitória eleitoral de Rodrigo Paz, que rompeu a hegemonia do MAS ao propor uma agenda de reformas liberais e maior abertura econômica. Para amplos setores populares e sindicais, fortemente vinculados ao modelo anterior, essa mudança é percebida como uma ruptura do pacto social, o que ajuda a explicar por que as ruas se tornaram o principal palco de resistência contra a nova orientação econômica do país.

Diante desse cenário, a posse de Rodrigo Paz e a onda de protestos que se seguiu dificilmente podem ser tratadas como mais um episódio recorrente da instabilidade política sul-americana. Trata-se de um fenômeno com ramificações globais. Ao adotar uma agenda de orientação neoliberal, Paz recoloca a Bolívia no centro de disputas geopolíticas mais amplas, nas quais interesses internos e externos passam a se entrelaçar de forma evidente. Nesse contexto, o país, detentor de minerais críticos, especialmente o lítio (importante para baterias, carros elétricos e transição energética global), transforma-se em um espaço estratégico no tabuleiro internacional, marcado pela crescente competição entre potências globais.


Nesse tabuleiro mais amplo, o apoio dos Estados Unidos ao governo de Rodrigo Paz não pode ser lido apenas como um gesto diplomático circunstancial, mas como parte de uma estratégia mais definida de reposicionamento na região. Ao classificar os protestos como movimentos de viés golpista e supostamente vinculados ao narcotráfico, Washington desloca o sentido da crise: o que antes poderia ser analisado como conflito social passa a ser tratado como ameaça à ordem. É justamente esse deslocamento que caracteriza o processo de securitização, isto é, quando uma questão política ou social é reinterpretada como problema de segurança, legitimando respostas mais duras, como maior presença militar ou a atuação de agências de inteligência no território boliviano. Nesse enquadramento, consolidam-se agendas securitárias, nas quais a estabilidade passa a ser buscada não por meio da mediação política, mas pela lógica do controle e da contenção. Sob esse prisma, abre-se espaço para o aprofundamento da cooperação em defesa e para a presença indireta de estruturas estrangeiras no país, sob o argumento da estabilização.

No entanto, por trás dessa narrativa, opera um cálculo geopolítico mais amplo: conter o avanço da China na infraestrutura e na mineração sul-americana. Projetos como a ferrovia transoceânica, que pretende ligar o Brasil ao porto de Chancay, no Peru, ilustram esse cenário ao ampliar as possibilidades de inserção da Bolívia nos fluxos comerciais com a Ásia. Essa conexão tende a facilitar o escoamento não apenas de minerais críticos, como o lítio, mas também de recursos como zinco, prata e estanho, reforçando o papel do país como peça-chave na geopolítica contemporânea.

Por essa razão, a consolidação de uma agenda liberal sob Rodrigo Paz desperta incertezas no cálculo estratégico de Pequim. Nos últimos anos, consórcios estatais chineses injetaram US$ 1,4 bilhão (R$ 7,9 bilhões) na industrialização do lítio boliviano, assegurando contratos de exploração de longo prazo em áreas estratégicas, como os salares de Uyuni e Pastos Grandes, em Potosí. Diante das promessas de privatização e desregulamentação do novo governo, o temor da diplomacia chinesa é que esses acordos firmados sob a vigência do MAS sejam revistos ou que o mercado seja aberto a concorrentes ocidentais. Para a China, portanto, a estabilidade de seus investimentos em minerais críticos na Bolívia não é apenas uma questão comercial, mas uma salvaguarda para a sua própria liderança na transição energética global.

Ao fim, a crise boliviana deixa de ser apenas uma disputa entre projetos econômicos ou alinhamentos geopolíticos e passa a revelar seus efeitos mais concretos sobre a vida cotidiana da população. Entre a escassez de combustíveis, a alta do custo de vida e a instabilidade política permanente, são os setores mais vulneráveis que experimentam, de forma mais direta, o peso dessa reconfiguração em curso. Inserida em um território rico em recursos estratégicos e atravessada por interesses externos, a Bolívia corre o risco de ver suas tensões internas serem progressivamente capturadas por agendas que ultrapassam suas próprias fronteiras. Nesse contexto, a questão central já não é apenas se o governo de Rodrigo Paz conseguirá sustentar sua agenda de reformas, mas a que custo social e sob quais condicionantes externos isso ocorrerá. Estaria o país diante de um novo ciclo de instabilidade estrutural ou caminhando para se tornar um espaço de disputa indireta entre grandes potências, onde a soberania nacional cede lugar a contornos cada vez mais globais?

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Chanchada de Flávio com Trump pode acabar em duplo naufrágio

A chanchada diversionista encenada pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro nos EUA, onde conseguiu aparecer numa foto com Donald Trump tem, como se sabe, o intuito de desviar a atenção dos rolos do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, peça central do escândalo do Banco Master.

Flávio já havia demonstrado sua sabujice antipatriótica ao prometer, caso eleito, contemplar as ambições americanas de controlar reservas estratégicas de terras raras – as do Brasil.

Agora, escoltado por Eduardo, seu brother desertor, resolveu também reforçar a proposta de a potência estrangeira classificar as facções criminosas e mafiosas brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas. Foi o que fez em encontro com Marco Rubio, o secretário de Estado ora empenhado em invadir Cuba, de onde veio sua família.

Aliás, considerando-se o histórico de proximidade do clã Bolsonaro com figuras do mundo crime, não deixa de ser ousada a animação do filhão com a referida proposta.

Flávio demonstrou o que já se sabia: ele, seus parentes e Paulo Figueiredo, neto do ditador que disse preferir cheiro de cavalo a cheiro do povo, têm trânsito nos círculos trumpistas. Natural. Há tempos, desde a época em que Olavo de Carvalho e o tradicionalista fascistoide Steve Bannon pontificavam, são conhecidas as relações da ultradireita bolsonarista com os soldados ideológicos de Trump e seus amigos antiliberais.

Enquanto o servilismo da direita tapada brasileira se exibe em Washington e vira meme, o líder americano perde prestígio e apoio em seu país.

A revista The Economist revelou nesta semana que ele se tornou o presidente mais impopular desde que a pesquisa realizada pela publicação começou, em 2009. A façanha é fruto de um leque de erros cometidos em diversas frentes, da política externa à econômica.

Uma parcela de 58% dos americanos desaprova a atuação do governante, contra 34% que aprovam e 6% que dizem não saber.

O principal motivo de insatisfação é a economia, que está longe de apresentar o desempenho prometido durante a campanha. O aumento dos preços dos combustíveis, provocado pela estúpida guerra movida em parceria com Israel contra o Irã, é um aspecto relevante na percepção de que as finanças pessoais e familiares estão piorando.

Cerca de dois terços dos eleitores consideram que foi um erro entrar nesse conflito e 53% afirmam que a imagem e a posição dos EUA no mundo pioraram desde que ele reassumiu o cargo. Não é demais lembrar que um dos pontos martelados na disputa eleitoral foi a condenação ao envolvimento do país em guerras longínquas e sem motivo claro.

Essa promessa era um dos pilares do slogan "América em primeiro lugar", bandeira de Trump e seus aliados nacionalistas de extrema direita. Não por acaso, a pesquisa aponta para uma sensível perda de apoio do republicano numa base que se mostrava bastante fiel, formada por americanos brancos sem ensino superior.

O modelo de previsão da revista, em parceria com a empresa de pesquisas YouGov, indica que os democratas têm 90% de chance de conquistar o controle da Câmara nas eleições de meio de mandato, em novembro.

Ainda faltam uns bons meses para o pleito tanto lá como cá. No momento, porém, os ventos prenunciam um duplo naufrágio.

Pensamento de manada

O pensamento coletivo é estúpido porque é coletivo: nada passa as barreiras do coletivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

Foto com três radicais é o inverso da moderação pretendida por Flávio Bolsonaro

A construção da imagem de moderado de Flávio Bolsonaro (PL) acaba de levar um desmentido. A foto ao lado do presidente Donald Trump, do irmão Eduardo e do neto do último ditador do regime militar apaga o verniz de sensatez no figurino que o senador andou querendo vestir para se apresentar ao eleitorado.

Trump é um radical orgulhoso do próprio extremismo. O deputado cassado e filho 03 do clã já defendeu punições ao Brasil e, lá atrás, em devaneio autoritário, considerou suficiente a força de um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. O herdeiro de João Figueiredo foi dos incitadores mais ativos ao golpe militar em 2022, detrator dos generais legalistas.


Não são companhias que se possa chamar de moderadas, mas foi com elas que o pretendente a presidente posou no salão oval da Casa Branca, apostando com isso dar por encerrado o assunto dos rolos com Daniel Vorcaro. No relato lido na tela do celular após o encontro, pôs o tema da segurança na pauta, defendendo a inclusão de facções criminosas na categoria de terroristas. Apresentou-se como defensor da libertação dos moradores de áreas controladas pelo crime. Territórios de traficantes e de milicianos aos quais o hoje senador prestou homenagens quando deputado estadual.

São muitas as pontas soltas nessa trajetória eleitoral abalada pelas mentiras e versões desencontradas na história mal contada das relações do candidato com o ex-banqueiro preso. Na mais recente, pediu um mês para que se apresentassem as contas do filme "Dark Horse". Tanto tempo sugere que os comprovantes de despesas não existem e precisam ser fabricados.

Não se sabe qual foi o assunto que fez o senador ir ao encontro do "irmão" atado a uma tornozeleira. Falta explicar também a razão de o dinheiro da filmagem ter passeado por fundo no exterior para pagar a produtora brasileira.

São muitas as dúvidas permeadas pela certeza de que quem gerencia mal uma crise de campanha não dá conta de presidir um país. Isso uma foto na parede não resolve.

É preciso parar de rir e começar a falar a sério

“Você é de direita ou de esquerda?”, pergunta o rapaz num vídeo no Instagram. “Eu sou da direita, porque eu odeio o Lula”, responde a mulher, chapéu, cabelo e t-shirt vermelhos, tudo vermelho, atirando para trás o rosto, de mão na ilharga, enquanto responde ao porquê. “Porque ele é ladrão.” “O que é que ele roubou?”, quer saber o rapaz. “É só você saber lá… Até hoje, ele não deu conta do que ele roubou.” A resposta tem tanto de indefinido como de convicto. “Com o que é que você não concorda do governo da esquerda?”, insiste o entrevistador. “Não concordo. Eu sou da direita e vou ser da direita até morrer.” “Mas o quê?” “Ai, meu Deus do céu! Tanta coisa que eu não concordo da esquerda… Das mentiras, do que eles estão fazendo para o Bolsonaro. Não concordo.” “Porque é que prefere o Bolsonaro?” “Porque não é ladrão.” “E é socialista ou capitalista?” “Eu sou socialista.” “Porquê?” “Porque sou.” “Se fosse Presidente, qual seria a sua primeira mudança?” “O sistema.”


Este pequeno vídeo parece uma piada. Tem uma música de filme de comédia como banda sonora e está ilustrado com os memes da moda, que pretendem sublinhar a ignorância da entrevistada. Quase todos os comentários são a apontar o dedo à estupidez da senhora. Ela parece uma piada. Mas o que ela diz é muito sério. E está na altura de começarmos a perceber porquê.

Este vídeo não é uma bizarria. É um sintoma. Há milhares de vídeos idênticos a circular pelas redes sociais. Muitos são pequenas entrevistas a bolsonaristas assumidos e pobres e o Brasil já inventou um hashtag para eles: pobre de direita. Mas também há brasileiros que se dizem “do centro” e têm um discurso aparentemente irracional de ódio às políticas de redistribuição de riqueza do governo Lula, como o “bolsa família” – que dá acesso a alimentos aos mais pobres –, o programa “Minha Casa, Minha Vida” – com apoios à habitação – ou a intenção de eliminar a escala 6×1, que consiste em acabar com o trabalho com apenas uma folga semanal sem perda de salário. Os entrevistados falam de forma vaga em indicadores económicos que pioraram, sem conseguirem nomear um, e ignorando o facto de o Brasil ter voltado a sair do Mapa da Fome, em 2025, depois de ter regressado a essa lista negra em 2022.

Mas há mais vídeos desses. Há argentinos trabalhadores, que se debatem com problemas de sobrevivência graças aos cortes da política anarcocapitalista em vigor, que vão justificando o voto em Milei com uma vontade de “mudança”, que não sabem como explicar. Há apoiantes de Trump a criticar a corrupção, a pedofilia e o desrespeito por imagens religiosas sem perceberem que estão a atacar o próprio movimento MAGA. Há entrevistas a britânicos votantes no Reform que repudiam, uma a uma, medidas propostas por Nigel Farage, sem perceberem que essas são as políticas do partido em que votam. E tenho a certeza de que noutras latitudes se encontrarão fenómenos semelhantes.

Parece haver cada vez mais pessoas que expressam adesão a movimentos políticos que vão contra os seus interesses e valores. E importa saber porquê. Podemos rotulá-los de ignorantes e arrumar aí a questão. Mas os vídeos mostram que, quando confrontados com as suas contradições ou com dados que comprovam a falsidade do que acabaram de afirmar, estes apoiantes de políticos da extrema-direita não recuam. A reação é mesmo a inversa: insistem na defesa dessas políticas e atacam quem lhes apresenta factos. O entrevistado passa a ser um “esquerdalha” – a mais desqualificante das classificações – ou os institutos citados são instituições vendidas ao poder e sem qualquer tipo de crédito. Eles estão certos, a realidade não.

Este tipo de reação não pode ser apenas fruto da ignorância. A ignorância é uma coisa que se cura com conhecimento. E também não será apenas a reação do orgulho ferido de quem se confronta com as mentiras em que acredita. Se assim fosse, uma vez desligada a câmara e afastado o entrevistador, o entrevistado podia – mesmo sem o assumir publicamente – refletir sobre o erro e mudar de opinião. E as urnas mostram que não é isso que está a acontecer.

O que parece estar a acontecer está mais próximo do domínio da fé. E esse é um terreno em que a racionalidade não consegue lançar raízes. Esse é o terreno das emoções. Podemos dizer que as redes sociais e o ambiente de indignação rápida, atenção curta e saberes superficiais ajudam a que a política resvale para esse terreno. E é verdade. Mas também isso não conta a história toda.

É preciso assumir que os partidos democráticos do sistema andam há décadas a sustentar-se na sua quota-parte de mentiras. É a mentira do mérito, sentida na pele por quem não é herdeiro. É a mentira da lei igual para todos, sentida na pele pelos mais vulneráveis. É a mentira da liberdade de expressão, sentida na pele pelos que ousam ir contra a corrente e (de uma forma ou de outra) sofrem as consequências. É a mentira da representatividade, sentida na pele pelos que veem os partidos em que votaram fazer o que não tinham anunciado. É a mentira de um Estado social, que é cada vez mais desmantelado, com uns a achar que pagam demais pelo que não existe e outros a saber que recebem de menos em relação ao que lhes foi prometido. Enquanto não assumirmos estas mentiras, não conseguimos entrar na discussão. E é muito doloroso assumir mentiras. Até porque muitas vezes acreditamos nelas com o mesmo grau de fé irracional que apontamos aos nossos adversários políticos.

Mas não é só necessário assumir as mentiras. Também é preciso começar a dizer umas verdades. Não as “verdades” do ódio que se cospe à mesa do café e só é capaz de fazer peito feito aos mais fracos. As verdades que doem aos mais poderosos. As verdades que precisam de coragem para ser ditas. As verdades que alguns dirão, de dedo em riste, que são “populismo”. E são. O populismo não é uma ideologia. É um método. E pode ser usado apenas para mostrar que os muitos podem mais do que os poucos, em vez de ser um artifício para recuar a uma época sem direitos, fingindo que se recupera uma “dignidade” que é apenas simbólica, nunca material, e só para uns poucos à custa de todos os outros.

Podem rir-se à vontade da senhora bolsonarista de cabelo vermelho e ar pobre, que diz que é socialista e de direita, sem saber explicar porquê. Ela não precisa de explicar porquê. E enquanto se riem dela, a extrema-direita ri-se de vocês, dos vossos factos, das vossas proclamações, da vossa defesa abstrata da igualdade. É preciso deixar de rir. É preciso olhá-la nos olhos, não para a entender com condescendência, mas para lhe falar de coisas reais que possam empolgá-la com a mesma fé que agora a faz aderir a políticas que a prejudicam. É preciso voltar a falar com energia e emoção de coisas simples, que têm de deixar de ser bandeiras vazias.

A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Não é uma cantiga do passado que prometia o que nunca chegou. Tem de ser um futuro que se constrói hoje, com propostas claras, simples, tão concretas como o tijolo que se encaixa para erguer uma parede, mas com a força do sonho e a energia da promessa. Sem medo de afrontar os poderosos, sem concessões aos que querem fingir que mudam para deixar tudo na mesma. Com verdade e com alegria, reclamando aquilo que nos dizem que é impossível. Não basta ser contra o mal e desmontar mentiras. É preciso mostrar um caminho e oferecer soluções.

Flávio Bolsonaro atenta contra a soberania do Brasil para se eleger

Flávio Bolsonaro, a versão moderada do pai “que o país tanto esperava ver”, morreu ontem quando o governo de Donald Trump classificou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, intervindo assim diretamente em assuntos internos do Brasil. A partir de agora, no limite, os Estados Unidos podem fazer operações militares na Amazônia à revelia do governo brasileiro e bombardear áreas sob o controle do crime organizado. Tudo a pretexto do combate ao terror.

“Grande dia”, celebrou Flávio. “O povo brasileiro de bem agradece a atenção e o compromisso de Donald Trump. Essa luta é de todos nós. Vamos dar um basta nesses grupos!”. Os demais pré-candidatos da direita à Presidência, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (NOVO), aproveitaram a ocasião para reforçar suas críticas a Lula. Zema afirmou que Flávio “foi capaz” de fazer aquilo que Lula “deveria ter feito há muito tempo”. Rogério Marinho, líder do PL no Senado, previu que a partir de 2027 “bandido voltará a temer a lei”.


Lembra-se de que Flávio, em outubro do ano passado, ao ver um vídeo de uma embarcação sendo bombardeada pelos Estados Unidos no Oceano Pacífico, declarou sentir “inveja” da ação? Ele questionou se as autoridades americanas não gostariam de passar alguns meses no Rio combatendo os barcos que, segundo ele, inundam a Baía de Guanabara com drogas. Convocado pela Casa Branca para um encontro com Trump, Flávio passou dois dias em Washington batendo às portas de autoridades, pedindo que os Estados Unidos combatam o crime organizado no Brasil. Pediu ao próprio Trump nos poucos minutos em que esteve com ele para tirar uma selfie.

Flávio não passa de um peão de Trump. Ou dá para acreditar que o governo americano, em menos de 48 horas, atendeu ao pedido dele de intervir em assuntos internos do Brasil? O mais provável é que a decisão de intervir já estivesse tomada, e que Flávio, às voltas com o escândalo do Banco Master — a quem pediu dinheiro para financiar um filme sobre seu pai —, tenha sido chamado para extrair vantagens dela. Com seu gesto, Trump escolheu de que lado ficará nas eleições de outubro próximo; o mesmo lado que o levou a coagir a Justiça brasileira em 2025 para que não condenasse Jair Bolsonaro.

Soberania é a expressão máxima do poder e da independência de um Estado, que garante o direito exclusivo de legislar, administrar a Justiça e conduzir seus assuntos internos e externos sem interferência estrangeira. Lacaio designa uma pessoa que se submete à vontade de outra de forma servil ou bajuladora para obter favores ou vantagens. Sinônimos de lacaio: capacho, sabujo e puxa-saco. Flávio rifou a soberania do Brasil em troca do apoio americano, sem o qual não se elegerá. Comportou-se como um lacaio exemplar.

No último dia 21, em evento no Espírito Santo, Lula profetizou: “Depois que o Trump disse que a Groenlândia é dele, que o Canadá é dele, que o Canal do Panamá é dele, quem garante que ele não vai dizer que a Amazônia é dele?”.
Ricardo Noblat

Leão XIV com um olho na missa e outro na IA

Os Engenheiros do Hawaii tinham razão: “o Papa é pop”. Como bom conterrâneo das big techs, o Santo Padre anunciou sua Encíclica no melhor estilo geração Z. Usou tecnologia de ponta para ler a “Magnifica Humanitas” na TV e nas redes sociais, e aproveitou o embalo para prevenir ao vivo seu um bilhão e meio de seguidores sobre o Armagedom digital.

Ao mesmo tempo, Sua Santidade teve o cuidado de lembrar que esse papo de conspiração das máquinas só engaja em Hollywood. Conhecedor tanto das Escrituras como do Vale do Silício, optou por não julgar a Inteligência Artificial como cavaleiro do apocalipse. Afinal, a IA não é portadora de livre arbítrio que possa selar o futuro da humanidade. Em Roma, o alto clero prefere concordar com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Relatório PNUD 2025, “Pessoas e Possibilidades na Era da IA”).

Na vida real, quem conspira contra a humanidade somos nós mesmos, os humanos. Sabendo disso, o Papa e o PNUD concordam que os impactos produzidos pela IA dependem das escolhas feitas pelas pessoas que projetam e controlam seus algoritmos. Informação é como culinária – quanto melhores os ingredientes, melhor o pudim. Acontece que a IA tem um potencial disruptivo semelhante ao de outras invenções que transformaram a sociedade para sempre, seja a roda ou a fissão nuclear. Por isso, causa tanta insegurança e fantasias.


Sejamos francos, a preocupação do Vaticano, assim como a da ONU, não é satanizar a IA, mas, sim, mostrar que a Inteligência Artificial é um acelerador tão poderoso da produção científica que, mesmo podendo aprofundar algumas crises da humanidade (desigualdade, conflitos e mudança climática), pode servir para a eliminação ou a contenção desses mesmos descaminhos históricos crescentes. Tudo depende das decisões e propósitos dos donos das IAs.

O Relatório PNUD 2025 propõe um foco nas pessoas: “São as pessoas, não as máquinas, que determinam quais tecnologias prosperam e a quem elas servirão”. Na mesma linha, a Encíclica Magnifica Humanitas recomenda “Sejamos humanos”. Ou seja, é possível considerar que a Inteligência Artificial pode potencializar as capacidades criativas das pessoas, bem como facilitar atividades e aumentar a produtividade do trabalho. Até mesmo criar novas modalidades de empregos ou negócios, sem necessariamente provocar desemprego estrutural em larga escala. O uso positivo da IA para o bem-estar social pode se estender também para a formulação, a implantação e gestão de políticas públicas, melhorando seus resultados e transparência.

Por um lado, a publicação do PNUD/ONU exemplifica a concentração de qualificação e acesso à IA: “As respostas do ChatGPT estão mais próximas culturalmente dos países com IDH muito alto do que das pessoas de países com IDH baixo”. Enquanto isso, nas suas redes digitais a Igreja complementa que “é no coração deste território, marcado pelo lucro, competição geopolítica e ambição, que se sente a necessidade de uma voz capaz de resistir, de proferir palavras incômodas, de recordar aquilo que as máquinas jamais possuirão: consciência e senso moral”.

A ONU recomenda ainda que se invista em uma “inovação com propósito”, fortalecendo as capacidades humanas que fazem a diferença, para que a IA cumpra seu papel de catalizadora do bem estar social. Por sua vez, Leão XIV sabe que ser robô não é pecado.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


A ilusão de Babel e a Comunicação Não Violenta

A promessa era simples: mais tecnologia, melhor comunicação. O resultado está à vista: mais ruído, menos sentido. Na sua encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV aponta o diagnóstico com uma clareza desconfortável — não é a Inteligência Artificial que nos ameaça, é a nossa incapacidade crescente de escutar.

Há qualquer coisa de profundamente irónico no nosso tempo: nunca tivemos tantas ferramentas para comunicar e, ainda assim, nunca foi tão difícil compreender o outro.

A nova encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial, entra neste paradoxo com a lucidez de quem percebe que o problema não é a tecnologia — é o modo como a deixámos redefinir o humano. Logo na abertura, a imagem é frontal: a humanidade está perante uma escolha — “erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”.

Não é apenas teologia. É um diagnóstico civilizacional.


Babel já não é uma torre; é um ecossistema. Funciona em silêncio, num ritmo vertiginoso, com a aparência de neutralidade — mas, como recorda o Papa, a tecnologia “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. O problema, portanto, não está nas máquinas, mas na consciência — ou na ausência dela.

A encíclica alerta para um deslocamento subtil: começamos por utilizar ferramentas e acabamos por pensar como elas. Quando se aceita que sistemas “desprovidos de experiências, valores e sentimentos” participem em decisões humanas, o risco não é apenas técnico — é ético e antropológico.

E manifesta-se, antes de mais, na linguagem.

Leão XIV fala de uma necessária “ecologia da comunicação”. A expressão devia inquietar-nos mais. Porque, tal como o ambiente natural, também o espaço simbólico das palavras está poluído: excesso de ruído, défice de sentido, velocidade que impede a reflexão. Comunicamos em fluxo contínuo, mas raramente em profundidade.

É aqui que a encíclica cruza uma urgência concreta do nosso tempo: a necessidade de reaprender a comunicar. E isso já não é apenas uma questão espiritual ou cultural — é uma questão educativa e social.

A Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolvida por Marshall Rosenberg e hoje aprofundada em práticas formativas em contexto escolar e comunitário — como as que vêm sendo partilhadas em plataformas de reflexão como o blogue Comunicação Não Violenta / Portugal — https://comunicacaonaoviolenta.blogspot.com — propõe algo radicalmente simples: voltar a escutar para compreender, e não apenas para responder.

Num mundo onde se reage antes de pensar, a CNV reintroduz quatro gestos esquecidos: observar sem julgar, reconhecer sentimentos, identificar necessidades e formular pedidos claros. Não é uma técnica — é uma ética da relação.

E é precisamente isso que falta à nossa Babel contemporânea.

A crise da comunicação não se resolve com mais aplicações nem com algoritmos mais sofisticados. Resolve-se com pessoas mais conscientes. Educadores preparados para mediar conflitos, professores capazes de criar espaços de escuta, alunos treinados na empatia e famílias que recuperem o valor da palavra dita — e ouvida — com tempo.

A encíclica aponta, aliás, para uma “aliança educativa” na era digital, sublinhando a centralidade da escola e da formação integral. Não como um lugar de transmissão de conteúdos, mas como espaço de construção de humanidade.

Porque é aí que tudo se decide. Se a educação continuar a privilegiar o desempenho em detrimento da relação, a rapidez em detrimento da compreensão e a competição em detrimento da cooperação, então estaremos a formar excelentes operadores de sistemas — mas péssimos cidadãos do mundo.

E, nesse cenário, Babel não será uma metáfora. Será o destino.

Leão XIV insiste: é preciso “permanecer humanos.” A frase parece simples, mas é talvez a mais exigente de todas. Permanecer humano hoje implica resistir: ao imediatismo, à superficialidade, à despersonalização. Implica escolher o encontro num tempo que favorece o isolamento.

Entre Babel e Jerusalém, a diferença não está na tecnologia, mas na qualidade das relações. Em Babel, fala-se muito e compreende-se pouco. Em Jerusalém, escuta-se — e é isso que torna possível uma comunidade.

A pergunta que fica não é ingénua: queremos um mundo que funcione ou um mundo que faça sentido?

Se quisermos o segundo, teremos de investir menos em velocidade e mais em educação, menos em controlo e mais em relação, menos em respostas e mais em perguntas.

E, talvez, reaprender a dizer — com verdade, com tempo, com humanidade — aquilo que nenhuma máquina poderá jamais substituir: eu escuto-te.

O Brasil entre o fascismo e a liberdade

A presença fascista é uma questão concreta na vida republicana brasileira. De um lado, ela toma por base toda uma tradição autoritária desenvolvida no país desde os tempos da escravidão. Tivemos um governo imperial que se prolongou por quase cinquenta anos. E, depois, apresentamos uma prática republicana nem tão republicana assim. E isso desde os seus primórdios. Basta citar a repressão aos revoltosos de Canudos, na última década do século XIX, e também aos comunistas, logo que estes se organizaram em partido político.


Mas o fascismo vai além do Absolutismo ou do próprio autoritarismo republicano. Ou seja, não é uma ditadura qualquer. Implica a dominação do capital sobre o mundo do trabalho pelo terror, sem dúvida, mas se compõe de vários outros elementos. Trata-se de uma direita "popular", disputando a classe trabalhadora com as forças progressistas. Adolf Hitler dizia que os nazistas tinham que se valer das bandeiras vermelhas em seus comícios... E para isso, organizou, inclusive, um partido forte.

Entre outras características suas, o fascismo despreza as instituições democráticas, cultua lideranças carismáticas, apela ao nacionalismo extremado quando lhe convém, acena demagogicamente para as bases sindicais e tenta o contato direto com as massas populares, passando por cima e mesmo corrompendo o arcabouço institucional. Tudo isso, com uma característica nova naquele momento: o fascismo representava a aliança dos setores mais marginais da sociedade, o lumpesinato, com os detentores do grande capital. E como se isso não fosse suficiente, revelava um comportamento irracional, o que se materializa, por exemplo, em posicionamentos de cunho racial, na exclusão do outro.

Como podemos observar, o populismo presente na América Latina assimilou muito dessas práticas fascistas.

E essas práticas despontam entre nós toda vez que nos deparamos com crises de corte institucional. Daí estarem presentes hoje na vida brasileira. As ambiguidades do governo Vargas, em seu início, contribuíram para o surgimento do Integralismo, por exemplo. Evidentemente, havia o quadro internacional, com a ascensão de Mussolini e seu agrupamento fascista ao poder na Itália, no começo da década de 20. Logo em seguida, viria a tomada do poder pelos hitleristas na Alemanha, em 1933. Porém, esse contexto internacional não explica tudo.

Eu escrevi certa vez que o nazismo me intrigava muito, tendo levado cerca de 20 anos para entender a sua natureza. Morei na Alemanha na primeira metade dos anos 70 e procurava ver, na Cinemateca da cidade de Colônia, os documentários e reportagens da época nazista. Difícil de compreender como o povo alemão caiu naquela esparrela.

Afinal, a Alemanha era um país industrializado e dotado de uma grande tradição cultural; a terra de Wolfgang von Goethe, Karl Marx e Hermann Hesse. Com o tempo, fui percebendo que a Inglaterra também era um país desenvolvido economicamente - a pátria da Revolução Industrial - , possuindo ainda uma invejável tradição cultural, e cito aqui nomes como William Shakespeare, Jane Austen e Charles Darwin. Como explicar, então, que a Inglaterra não tenha sucumbido à praga nazista? Só encontro uma resposta: as instituições liberais-democráticas se mantiveram de pé, contrariamente ao que ocorrera na Alemanha, durante a República de Weimar. Ou a Inglaterra não viu surgir em seu solo o Liberalismo? As ideias de John Locke, por exemplo, datam do século XVII, quando não havia sequer burguesia industrial - mas o país sofria com o Absolutismo. O Liberalismo representou então uma afirmação do indivíduo diante da sanha do Estado.

No Brasil não seria diferente: a crise das nossas instituições, com o apodrecimento da chamada República Velha e o próprio desprezo pelos direitos humanos e pela Democracia manifestado pelo getulismo e seu corolário de torturas, serviu de caldo de cultura para o movimento integralista, a meu juízo. Com uma observação: muitos se sentiram atraídos pela Ação Integralista Brasileira mais por sua identificação com o nacionalismo do que com o autoritarismo. Tanto isso é verdade que um número considerável de integralistas deixou posteriormente esse movimento.

De qualquer forma, é muito impressionante a força demonstrada pelo Integralismo. Isso talvez tenha que ver com a referência que fiz acima ao quadro internacional. E convém não esquecer que aquela era uma época de Estados fortes, centralizadores. O próprio socialismo que estava sendo construído na União Soviética partia do Estado para a sociedade civil e não o contrário.

Contudo, havia, também, entre nós, um contraponto forte ao Integralismo, qual seja, a Aliança Nacional Libertadora (ANL). Movimento de corte progressista, propunha a reforma agrária e o aprofundamento das reformas democráticas, com destaque ainda para a Educação e a Cultura. Enquanto isso, um líder como Plínio Salgado, apesar de comungar de algumas ideias dos modernistas da Semana de Arte de 1922, escreveu versos como "Sou um caboclo do Brasil / Que odeia Portugal / Que me ensinou a ler..."

O Levante de Novembro de 1935 se deu em uma época de profunda crise disciplinar no Exército brasileiro, com toda uma série de escaramuças militares se espalhando por todo o país, sobretudo após o episódio conhecido por Dezoito do Forte , em 1922, no Rio de Janeiro. Os militares percebiam, até por intermédio dos seus armamentos obsoletos, as carências do país em matéria de industrialização. Com a Coluna Prestes, muitos deles se inteiraram da miséria que reinava no campo brasileiro, em sua extraordinária marcha por cerca de 24 mil quilômetros através do país. E essas questões se refletiram na ANL, integrada também pelos comunistas, tanto de origem militar quanto civil.

Ao perseguir a ANL, tornando-a ilegal, em 1935, Getúlio Vargas, de nítidas simpatias fascistas, de certa forma empurrou o movimento para a clandestinidade quase absoluta. Com ela, veio um certo desespero ou precipitação. Como os quartéis estavam desarrumados, muitos aliancistas foram tentados pela ideia do levante. Mas os erros também ensinam, talvez até mais do que os acertos em determinadas circunstâncias: o exemplo dos aliancistas ficou para a História como o primeiro protesto armado contra o avanço do fascismo no mundo.

Milhares de pessoas foram presas e torturadas após o Levante de Novembro. Um advogado como Heráclito Sobral Pinto chegou a recorrer à Lei de Proteção dos Animais em sua defesa de presos políticos como Luiz Carlos Prestes e Harry Berger, tamanha a desumanidade praticada contra eles, pior do aquela imposta aos animais. Naturalmente, a sociedade brasileira ia tomando consciência dessas barbaridades. A tal ponto que, já em 1942, na Bahia, os estudantes desciam às ruas para pedir o fim do Estado Novo e a entrada do Brasil na Guerra, contra o nazifascismo, ao lado das forças democráticas. A Força Expedicionária Brasileira, composta de 25 mil homens, é fruto dessa luta, contribuindo para derrotar o fascismo. Luiz Carlos Prestes Filho estabelece, com toda razão, uma ligação entre a ANL e a luta contra o fascismo na Itália. Eu diria que essa foi a página mais significativa escrita pelas Forças Armadas brasileiras ao longo de toda sua História.

Na volta dos pracinhas ao Brasil, a situação da ditadura Vargas ficou incontornável e o ditador não teve outra escolha a não ser decretar anistia e legalizar as forças políticas presentes na sociedade brasileira, dos liberais da UDN aos comunistas do PCB. Não fazia sentido nenhum combater uma ditadura lá fora e continuar mantendo uma ditadura aqui dentro.

Em 1964, houve influência também dos antigos integralistas. Nunca é demais lembrar que um dos generais da trama golpista foi Olímpio Mourão Filho, que mobilizou tropas em Juiz de Fora, Minas Gerais, avançando em direção ao Rio de Janeiro. Além disso, esse militar integralista forjou o Plano Cohen, em 1937, o qual alegava que os comunistas tinham por objetivo empalmar, a qualquer preço, o poder no Brasil. Em tempo: o PCB já se encontrava completamente desbaratado desde o Levante Aliancista de novembro de 1935. Getúlio Vargas se valeu de falso Plano Cohen para decretar o Estado Novo, uma das piores ditaduras que o Brasil já teve.

Eu nasci em 1952, sete anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Mas conheci e, mesmo, convivi, com vários protagonistas entre nós daquele período tão tenebroso. Além de Prestes, eu poderia citar ainda Agliberto Vieira de Azevedo, Gregório Bezerra, Giocondo Dias, Salomão Malina, Armênio Guedes e Renato Oliveira da Motta. Com esses personagens, e não apenas a partir da leitura dos livros de História, aprendi o valor real da liberdade e do sacrifício imenso feito pelos milhares de cidadãos brasileiros com ela comprometidos.

Vale dizer, a luta não foi em vão; nenhuma luta o é. A História recente do Brasil demonstra que quanto mais ampla uma frente democrática é, mais liberdade se tem. E quem ganha com isso é o povo do país - e quem perde com isso é o próprio fascismo.