segunda-feira, 9 de março de 2026
Pouca imagnação
Um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados através da história esfumaçam-se na imaginação.
Albert Camus
O absurdo poder absoluto
Em meados de janeiro, em plena crise da Gronelândia, Donald Trump enviou uma carta ao primeiro-ministro da Noruega. Como lhe é habitual, o documento seguiu repleto de autoelogios, muitas inverdades e as usuais ameaças. Entre outras coisas, o Presidente dos EUA queixava-se do governo norueguês por este não lhe ter atribuído o Prémio Nobel da Paz – que, por acaso, é decidido pelo Comité Nobel e não pelo executivo de Oslo, o qual também não tem jurisdição na Gronelândia, que é um território autónomo da Dinamarca…
Ao sentir-se desrespeitado, Trump assinalou, nessa carta, uma conclusão que, conforme sublinhou, fez questão de tornar pública e que, agora, à luz dos últimos acontecimentos, merece ser lida com nova atenção: “Considerando que o seu país decidiu não me conceder o Prémio Nobel da Paz por ter impedido mais de oito guerras, já não me sinto obrigado a pensar apenas na paz, embora ela seja sempre predominante, mas agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América.”
Se ficámos a saber, desde a “perda” do Nobel, que Trump deixou de pensar na paz, agora subsistem muitas dúvidas sobre se ele pensa sequer acerca das guerras que inicia. Em especial, quando decidiu avançar para aquele que pode tornar-se o conflito mais violento dos últimos anos, no momento em que tinha representantes em negociações diplomáticas com o Irão, através de um ataque-surpresa, sem cumprir as leis dos EUA e, mais uma vez, a obliterar tudo aquilo em que assentou o direito internacional instituído nas últimas décadas. Mas não só: seguindo o mesmo guião já utilizado na subida das tarifas, Trump avançou com o maior envolvimento de meios militares da História recente sem procurar nenhum tipo de concertação com os países aliados, ao arrepio das normas democráticas e sem a mínima avaliação das consequências económicas que um conflito à escala regional no Médio Oriente implica. Apenas e só, a região do mundo mais decisiva para o atual sistema energético, um poderoso centro de capital financeiro com ramificações em vários pontos do planeta e, ainda por cima, um espaço crítico para o comércio marítimo mundial.
A ação militar desencadeada na manhã de 28 de fevereiro teve um único e claro motivo: decapitar a liderança da República Islâmica e, em seguida, provocar uma mudança de regime – tarefa que, no entanto, terá de caber ao já martirizado povo iraniano. E algo neste ponto também parece evidente: mais do que do interesse dos EUA, essa ação é, há muito, um dos objetivos principais de Israel – o único aliado que Trump parece respeitar e com quem deseja colaborar ativamente.
Ainda é cedo para se fazer qualquer previsão sobre a duração e a dimensão desta guerra. Mas existem cada vez mais razões para desconfiar de que Donald Trump entrou nela com a mesma sobranceria com que Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia: convencido de que tudo se resolveria rapidamente e, por isso, sem avaliar convenientemente todas as consequências. Embora o líder espiritual Ali Khamenei possa ter sido eliminado à mesma velocidade de Nicolás Maduro, o Irão não é a Venezuela. E o barril de pólvora do Médio Oriente tem, ao contrário daquilo que sucede na América do Sul, o poder de incendiar o mundo, fazer renascer uma série de conflitos adormecidos, atiçar os vários poderes regionais que ali se cruzam e lançar ondas de choque que atingem todas as economias do planeta – com reflexos no custo de vida e nas carteiras de milhares de milhões de pessoas.
É exatamente para evitar decisões individuais deste tipo, como a de iniciar uma guerra sem uma declaração nem uma aprovação prévia do Parlamento, que as democracias criaram mecanismos de controlo dos seus governantes. A erosão do sistema democrático americano, que Donald Trump tem laboriosamente aplicado com os seus apoiantes MAGA, tem esta consequência: um Presidente que se acha dono e senhor de um poder absoluto, capaz de decidir sem freios nem contrapesos, que procura controlar os tribunais, os serviços públicos e até os fluxos de informação, como se tivesse um mandato divino e, por isso mesmo, inquestionável.
No meio de todo esse absurdo de absolutismo no exercício do poder, Trump acaba por revelar a ausência da sua estratégia e, pior ainda, de qualquer plano. Os sinais que deu nos primeiros dias foram claros: tão depressa disse que os ataques iriam demorar dias como semanas; afirmou que tinha substitutos pensados para o lugar de Khamenei, mas acabou por reconhecer que todos eles foram mortos também nos primeiros ataques; adiantou que estava disponível para conversar com o novo poder iraniano, mas logo a seguir ameaçou com bombardeamentos ainda mais fortes e “nunca vistos”. O único plano de Donald Trump é o de demonstrar, perante todas as nações, que é o comandante do Exército mais poderoso do planeta, que possui um poder absoluto absurdo e sem igual. E isso só diz uma coisa: que ele não é de confiança.
Ao sentir-se desrespeitado, Trump assinalou, nessa carta, uma conclusão que, conforme sublinhou, fez questão de tornar pública e que, agora, à luz dos últimos acontecimentos, merece ser lida com nova atenção: “Considerando que o seu país decidiu não me conceder o Prémio Nobel da Paz por ter impedido mais de oito guerras, já não me sinto obrigado a pensar apenas na paz, embora ela seja sempre predominante, mas agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América.”
Se ficámos a saber, desde a “perda” do Nobel, que Trump deixou de pensar na paz, agora subsistem muitas dúvidas sobre se ele pensa sequer acerca das guerras que inicia. Em especial, quando decidiu avançar para aquele que pode tornar-se o conflito mais violento dos últimos anos, no momento em que tinha representantes em negociações diplomáticas com o Irão, através de um ataque-surpresa, sem cumprir as leis dos EUA e, mais uma vez, a obliterar tudo aquilo em que assentou o direito internacional instituído nas últimas décadas. Mas não só: seguindo o mesmo guião já utilizado na subida das tarifas, Trump avançou com o maior envolvimento de meios militares da História recente sem procurar nenhum tipo de concertação com os países aliados, ao arrepio das normas democráticas e sem a mínima avaliação das consequências económicas que um conflito à escala regional no Médio Oriente implica. Apenas e só, a região do mundo mais decisiva para o atual sistema energético, um poderoso centro de capital financeiro com ramificações em vários pontos do planeta e, ainda por cima, um espaço crítico para o comércio marítimo mundial.
A ação militar desencadeada na manhã de 28 de fevereiro teve um único e claro motivo: decapitar a liderança da República Islâmica e, em seguida, provocar uma mudança de regime – tarefa que, no entanto, terá de caber ao já martirizado povo iraniano. E algo neste ponto também parece evidente: mais do que do interesse dos EUA, essa ação é, há muito, um dos objetivos principais de Israel – o único aliado que Trump parece respeitar e com quem deseja colaborar ativamente.
Ainda é cedo para se fazer qualquer previsão sobre a duração e a dimensão desta guerra. Mas existem cada vez mais razões para desconfiar de que Donald Trump entrou nela com a mesma sobranceria com que Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia: convencido de que tudo se resolveria rapidamente e, por isso, sem avaliar convenientemente todas as consequências. Embora o líder espiritual Ali Khamenei possa ter sido eliminado à mesma velocidade de Nicolás Maduro, o Irão não é a Venezuela. E o barril de pólvora do Médio Oriente tem, ao contrário daquilo que sucede na América do Sul, o poder de incendiar o mundo, fazer renascer uma série de conflitos adormecidos, atiçar os vários poderes regionais que ali se cruzam e lançar ondas de choque que atingem todas as economias do planeta – com reflexos no custo de vida e nas carteiras de milhares de milhões de pessoas.
É exatamente para evitar decisões individuais deste tipo, como a de iniciar uma guerra sem uma declaração nem uma aprovação prévia do Parlamento, que as democracias criaram mecanismos de controlo dos seus governantes. A erosão do sistema democrático americano, que Donald Trump tem laboriosamente aplicado com os seus apoiantes MAGA, tem esta consequência: um Presidente que se acha dono e senhor de um poder absoluto, capaz de decidir sem freios nem contrapesos, que procura controlar os tribunais, os serviços públicos e até os fluxos de informação, como se tivesse um mandato divino e, por isso mesmo, inquestionável.
No meio de todo esse absurdo de absolutismo no exercício do poder, Trump acaba por revelar a ausência da sua estratégia e, pior ainda, de qualquer plano. Os sinais que deu nos primeiros dias foram claros: tão depressa disse que os ataques iriam demorar dias como semanas; afirmou que tinha substitutos pensados para o lugar de Khamenei, mas acabou por reconhecer que todos eles foram mortos também nos primeiros ataques; adiantou que estava disponível para conversar com o novo poder iraniano, mas logo a seguir ameaçou com bombardeamentos ainda mais fortes e “nunca vistos”. O único plano de Donald Trump é o de demonstrar, perante todas as nações, que é o comandante do Exército mais poderoso do planeta, que possui um poder absoluto absurdo e sem igual. E isso só diz uma coisa: que ele não é de confiança.
'Não à guerra' e algo mais
Nenhuma guerra jamais resolveu nada em lugar nenhum; no máximo, reorganizou o cenário geopolítico, redefiniu as relações de poder e estabeleceu novas fronteiras — as cicatrizes da história. O que não é pouca coisa, mas depois das atrocidades do século XX, da escalada nuclear e da destruição absoluta que poderia dizimar toda a humanidade, parecia que tínhamos chegado a um consenso unânime de que existem outras maneiras de resolver conflitos.
Um consenso, porém, desmentido pela existência de violência em muitos países durante esse período que chamamos de paz. Paz de quem? Quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia, repetiu-se à exaustão que era a primeira guerra em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial, como se a Bósnia pertencesse a outro continente .
Os conflitos que ocorrem em outros países também não conseguem destruir essa ilusão tão prevalente no imaginário ocidental. O slogan “não à guerra”, nesse sentido, parece uma proclamação maleável brandida de acordo com os interesses do momento. Muitos pacifistas não são pacifistas em todos os aspectos. E a atenção da mídia também parece ser condicionada por interesses variáveis, e não pela gravidade dos conflitos.
Play Video
Eu também digo “não à guerra”, mas não apenas à guerra armada e imperialista, e sim às invasões estrangeiras que ocupam países soberanos, camuflando interesses econômicos sob supostos princípios democráticos (rio enquanto escrevo isso, pensando em Donald Trump). Digo também “não à guerra” travada contra os cidadãos de ditaduras tão atrozes quanto a do Irã. Ouvimos isso das vítimas que levantam suas vozes, pagando um preço terrível: prisão, tortura, pena de morte . O que o Ocidente fez nas últimas décadas para contribuir para essa paz, que é a liberdade e o respeito aos direitos humanos? Para minha vergonha como cidadão europeu, creio que muito pouco. Sanções para armas nucleares, mas nenhuma teocracia misógina é sancionada por maltratar mulheres. Basta ver as boas relações que a Espanha mantém com Marrocos (onde o adultério ainda é crime, onde as filhas herdam metade do que os filhos herdam e o casamento infantil ainda existe) ou com a Arábia Saudita (onde dançar em um vídeo do TikTok pode levar à prisão).
São sempre os homens, de terno escuro e amordaçados pela formalidade da diplomacia, que falam de uma paz que ignora a paz das mulheres. Nunca falam daquela guerra. É a guerra normal, aquela que sempre existiu.
Um consenso, porém, desmentido pela existência de violência em muitos países durante esse período que chamamos de paz. Paz de quem? Quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia, repetiu-se à exaustão que era a primeira guerra em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial, como se a Bósnia pertencesse a outro continente .
Os conflitos que ocorrem em outros países também não conseguem destruir essa ilusão tão prevalente no imaginário ocidental. O slogan “não à guerra”, nesse sentido, parece uma proclamação maleável brandida de acordo com os interesses do momento. Muitos pacifistas não são pacifistas em todos os aspectos. E a atenção da mídia também parece ser condicionada por interesses variáveis, e não pela gravidade dos conflitos.
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Eu também digo “não à guerra”, mas não apenas à guerra armada e imperialista, e sim às invasões estrangeiras que ocupam países soberanos, camuflando interesses econômicos sob supostos princípios democráticos (rio enquanto escrevo isso, pensando em Donald Trump). Digo também “não à guerra” travada contra os cidadãos de ditaduras tão atrozes quanto a do Irã. Ouvimos isso das vítimas que levantam suas vozes, pagando um preço terrível: prisão, tortura, pena de morte . O que o Ocidente fez nas últimas décadas para contribuir para essa paz, que é a liberdade e o respeito aos direitos humanos? Para minha vergonha como cidadão europeu, creio que muito pouco. Sanções para armas nucleares, mas nenhuma teocracia misógina é sancionada por maltratar mulheres. Basta ver as boas relações que a Espanha mantém com Marrocos (onde o adultério ainda é crime, onde as filhas herdam metade do que os filhos herdam e o casamento infantil ainda existe) ou com a Arábia Saudita (onde dançar em um vídeo do TikTok pode levar à prisão).
São sempre os homens, de terno escuro e amordaçados pela formalidade da diplomacia, que falam de uma paz que ignora a paz das mulheres. Nunca falam daquela guerra. É a guerra normal, aquela que sempre existiu.
Um caso espetacular de ascensão política sem ascensão social
Manchete de uma chamada num desses canais eletrônicos, em dias passados, dizia que um brasileiro fizera um discurso em inglês, em Nova York, e fora aplaudido de pé. Dava a entender que o aplauso era pelo inglês, e não pelo conteúdo do discurso.
Tive minha estreia na língua inglesa do modo mais estranho e humilhante. Foi pelo fim da década de 1940, quando minha família morava na roça, em Guaianases. Eventualmente vínhamos a São Paulo de trem. Na entrada da estação do Norte, no Brás, havia uma banca de jornal que exibia uma revista americana, com belas fotografias em preto e branco.
Perguntei ao jornaleiro quanto custava a revista Life. “É Laife”, respondeu agressivamente. “Mas está escrito Life”, justifiquei-me. “Em inglês se escreve de um jeito e se fala de outro, seu tonto.”
Quase no fim de minha adolescência, o meu melhor amigo era um baiano de Campo Formoso. De uma das muitas famílias de migrantes atraídos pelo começo do “boom” da indústria automobilística na região do ABC. Muitíssima gente vinda do Nordeste e todas definidas como baianas.
Meu amigo fazia questão de diferençar os verdadeiros baianos, como ele, dos outros “baianos” que não o eram. Gostava de lembrar aos que o rodeavam nas conversas que Rui Barbosa era baiano, culto e inteligente, mais que a imensa maioria dos brasileiros. Tão inteligente que até fora à Inglaterra ensinar inglês aos ingleses.
E tinha mais: em 1907, fora enviado à Segunda Conferência de Paz, em Haia, como representante do Brasil. Opusera-se com veemência à exclusão dos países menos influentes por parte das grandes potências. Ficou conhecido como o Águia de Haia.
Aberta a sessão em que Rui deveria falar, deu-lhe o presidente a palavra. Ele perguntou: “Em que língua quereis que vos fale?”. “Fala na tua língua”, respondeu-lhe o presidente. Ele, então, fez um veemente discurso, em língua nheengatu, derivada do tupi antigo, sobre direito internacional. Falava inglês, mas era patriota. Tinha baixa estatura, mas o Romualdo esclarecia: “É nos pequenos frascos que estão as grandes essências”.
Aí por 1955, realizou-se em São Paulo o 7º Congresso Mundial de Evangelismo. Alguns amigos e eu resolvemos acompanhar os cultos em diferentes igrejas. Imaginávamos que aquilo seria o inesperado. Ouviríamos inglês ao vivo, falado por gente de carne e osso, as bocas se abrindo na nossa frente. Comentava-se que os americanos fariam milagres, coisa que jamais havíamos visto.
Acabamos descobrindo que o “mundial” do Congresso era principalmente texano. E todos os pregadores eram pentecostais. Além disso, foi uma descoberta, muitos deles falavam as bíblicas “línguas estranhas”, um dom do Espírito Santo. Não era para qualquer um. Para que os brasileiros entendessem as pregações, havia intérpretes que faziam a tradução do inglês para o português. Multidões compareceram aos diferentes templos em que tudo aquilo acontecia. Em alguns bairros, grandes tendas foram montadas, as tendas da cura divina.
Hoje sei que São Paulo chegara à pós-modernidade antes de chegar ao mundo moderno. Dava para entender o moto paulista muito difundido: “São Paulo não pode parar”. Pressa de chegar ao depois sem chegar ao antes.
Um senhor ao meu lado, numa dessas pregações, comentou com a mulher, depois que um dos americanos recebera o Espírito Santo e falara em língua estranha: “Agora, eu sei porque não sabemos o que Deus quer de nós: Deus fala inglês”.
Após um mês de americanos espalhando inglês pela cidade e pelo subúrbio, os texanos foram embora. Algum tempo depois, começaram a surgir nas igrejas evangélicas pregadores brasileiros que falavam português de periferia com acentuado sotaque, pretensamente americano. Outros, aos pares, dividiam o trabalho. Um fazia a voz do Espírito Santo, em língua estranha, e o outro, com sotaque inglês, “traduzia”.
Foi ficando claro para muitíssimos que Deus falava uma língua que podia ser traduzida. Diferentemente do Deus católico, que falava latim e não tinha tradução que só o padre sabia. Uma bobagem dessas talvez explique a expansão das igrejas e seitas evangélicas entre nós.
O brasileiro que falou inglês em Nova York e foi aplaudido de pé é um que está refugiado nos EUA, sujeito a prisão se voltar ao Brasil. É um desses casos notáveis de ascensão social. Anos atrás emigrara para a América e fora trabalhar como chapeiro de hambúrguer numa lanchonete. Ouvi uma de suas falas daquela época. Seu inglês era muito pobre. A notícia de agora tem suas conexões explicativas. No caso de que seu irmão seja eleito presente da República, ele irá para o Itamaraty. Será o Barão do Rio Branco da pós-modernidade. Um caso espetacular de ascensão política sem ascensão social.
José de Souza Martins
Tive minha estreia na língua inglesa do modo mais estranho e humilhante. Foi pelo fim da década de 1940, quando minha família morava na roça, em Guaianases. Eventualmente vínhamos a São Paulo de trem. Na entrada da estação do Norte, no Brás, havia uma banca de jornal que exibia uma revista americana, com belas fotografias em preto e branco.
Perguntei ao jornaleiro quanto custava a revista Life. “É Laife”, respondeu agressivamente. “Mas está escrito Life”, justifiquei-me. “Em inglês se escreve de um jeito e se fala de outro, seu tonto.”
Quase no fim de minha adolescência, o meu melhor amigo era um baiano de Campo Formoso. De uma das muitas famílias de migrantes atraídos pelo começo do “boom” da indústria automobilística na região do ABC. Muitíssima gente vinda do Nordeste e todas definidas como baianas.
Meu amigo fazia questão de diferençar os verdadeiros baianos, como ele, dos outros “baianos” que não o eram. Gostava de lembrar aos que o rodeavam nas conversas que Rui Barbosa era baiano, culto e inteligente, mais que a imensa maioria dos brasileiros. Tão inteligente que até fora à Inglaterra ensinar inglês aos ingleses.
E tinha mais: em 1907, fora enviado à Segunda Conferência de Paz, em Haia, como representante do Brasil. Opusera-se com veemência à exclusão dos países menos influentes por parte das grandes potências. Ficou conhecido como o Águia de Haia.
Aberta a sessão em que Rui deveria falar, deu-lhe o presidente a palavra. Ele perguntou: “Em que língua quereis que vos fale?”. “Fala na tua língua”, respondeu-lhe o presidente. Ele, então, fez um veemente discurso, em língua nheengatu, derivada do tupi antigo, sobre direito internacional. Falava inglês, mas era patriota. Tinha baixa estatura, mas o Romualdo esclarecia: “É nos pequenos frascos que estão as grandes essências”.
Aí por 1955, realizou-se em São Paulo o 7º Congresso Mundial de Evangelismo. Alguns amigos e eu resolvemos acompanhar os cultos em diferentes igrejas. Imaginávamos que aquilo seria o inesperado. Ouviríamos inglês ao vivo, falado por gente de carne e osso, as bocas se abrindo na nossa frente. Comentava-se que os americanos fariam milagres, coisa que jamais havíamos visto.
Acabamos descobrindo que o “mundial” do Congresso era principalmente texano. E todos os pregadores eram pentecostais. Além disso, foi uma descoberta, muitos deles falavam as bíblicas “línguas estranhas”, um dom do Espírito Santo. Não era para qualquer um. Para que os brasileiros entendessem as pregações, havia intérpretes que faziam a tradução do inglês para o português. Multidões compareceram aos diferentes templos em que tudo aquilo acontecia. Em alguns bairros, grandes tendas foram montadas, as tendas da cura divina.
Hoje sei que São Paulo chegara à pós-modernidade antes de chegar ao mundo moderno. Dava para entender o moto paulista muito difundido: “São Paulo não pode parar”. Pressa de chegar ao depois sem chegar ao antes.
Um senhor ao meu lado, numa dessas pregações, comentou com a mulher, depois que um dos americanos recebera o Espírito Santo e falara em língua estranha: “Agora, eu sei porque não sabemos o que Deus quer de nós: Deus fala inglês”.
Após um mês de americanos espalhando inglês pela cidade e pelo subúrbio, os texanos foram embora. Algum tempo depois, começaram a surgir nas igrejas evangélicas pregadores brasileiros que falavam português de periferia com acentuado sotaque, pretensamente americano. Outros, aos pares, dividiam o trabalho. Um fazia a voz do Espírito Santo, em língua estranha, e o outro, com sotaque inglês, “traduzia”.
Foi ficando claro para muitíssimos que Deus falava uma língua que podia ser traduzida. Diferentemente do Deus católico, que falava latim e não tinha tradução que só o padre sabia. Uma bobagem dessas talvez explique a expansão das igrejas e seitas evangélicas entre nós.
O brasileiro que falou inglês em Nova York e foi aplaudido de pé é um que está refugiado nos EUA, sujeito a prisão se voltar ao Brasil. É um desses casos notáveis de ascensão social. Anos atrás emigrara para a América e fora trabalhar como chapeiro de hambúrguer numa lanchonete. Ouvi uma de suas falas daquela época. Seu inglês era muito pobre. A notícia de agora tem suas conexões explicativas. No caso de que seu irmão seja eleito presente da República, ele irá para o Itamaraty. Será o Barão do Rio Branco da pós-modernidade. Um caso espetacular de ascensão política sem ascensão social.
José de Souza Martins
Mochilas cor-de-rosa cobertas de sangue: quando a infância vira alvo
No décimo dia do Ramadã, o mês mais sagrado do calendário islâmico, as redes sociais foram inundadas por imagens que jamais deveriam se tornar banais: pequenas mochilas cor-de-rosa cobertas de sangue, cadernos espalhados pelo chão, salas de aula transformadas em ruínas. Vi um pai, diante da câmera, segurando o braço decepado de sua filha e chorando como quem tenta acordar de um pesadelo interminável.
O ataque à escola em Minab não é apenas mais um capítulo da escalada militar que envolve Israel, Estados Unidos e Irã. É um marco moral. Porque há princípios que deveriam permanecer inegociáveis, mesmo em tempos de guerra: não se atacam crianças. Não se bombardeiam escolas. Hospitais não são alvos. Combatentes feridos têm direito a tratamento médico. Jornalistas devem poder circular com segurança para cumprir seu trabalho.
Quando essas regras deixam de ser respeitadas, não estamos apenas diante de um conflito armado. Estamos diante da erosão deliberada da própria ideia de humanidade.
Desde Faixa de Gaza, a instrumentalização da infância tornou-se ainda mais visível e brutal. Dados de organismos internacionais indicam que milhares de crianças foram mortas ou feridas em sucessivas ofensivas militares nos últimos anos. Escolas administradas pela UNRWA foram atingidas. Hospitais pediátricos ficaram sem energia, incubadoras deixaram de funcionar, bebês prematuros morreram por falta de combustível e insumos básicos.
Além das mortes diretas, a infância em Gaza passou a ser moldada pelo cerco prolongado: desnutrição, interrupção escolar massiva, deslocamentos forçados, trauma contínuo. Relatórios da UNICEF e da Organização Mundial da Saúde apontam para uma geração inteira exposta a níveis extremos de traumas. Crianças que aprendem a identificar o som de drones antes mesmo de aprenderem a ler. Que desenham tanques em vez de árvores.
A infância, nesse contexto, deixa de ser apenas vítima, torna-se também instrumento narrativo. Imagens de crianças mortas circulam como prova, como denúncia, como propaganda. Seus corpos passam a sustentar discursos geopolíticos antagônicos. Enquanto isso, suas subjetividades reais – seus medos, seus desejos, suas histórias – desaparecem sob a avalanche de interpretações estratégicas.
Enquanto o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu – alvo de mandado do Tribunal Penal Internacional – é recebido na Alemanha, que se recusa a cumprir a ordem de prisão, o mundo assiste a uma encenação desconcertante de normalidade. Vídeos mostram cidadãos fazendo ioga em bunkers, enquanto, do outro lado, pais recolhem os restos de seus filhos. A assimetria não é apenas militar; é simbólica. Uns têm abrigos e respaldo diplomático. Outros têm escombros e luto.
Há quem tente justificar tudo em nome da “segurança”, da “autodefesa”, da “luta contra o terrorismo”. Mas nenhuma narrativa estratégica resiste à imagem de uma mochila infantil ensanguentada. Nenhuma justificativa geopolítica apaga o fato essencial de que meninas entre sete e doze anos foram mortas dentro de uma escola.
Crianças sempre estiveram entre as principais vítimas dos projetos imperiais. Nas invasões coloniais, nas guerras por recursos, nas intervenções travestidas de defesa da democracia, são elas que pagam o preço das ambições de poder. O imperialismo contemporâneo pode ter sofisticado sua linguagem, mas o resultado concreto permanece: corpos pequenos sob os escombros.
Destruir uma escola não é apenas derrubar um prédio. É interromper futuros. É ferir a possibilidade de reconstrução de um país. É produzir traumas que atravessam gerações. Como psicóloga que escuta histórias de migração e guerra, sei que a violência contra crianças não termina com a explosão. Ela se instala na memória, nos sonhos interrompidos, nos silêncios das famílias. Torna-se herança psíquica.
Dizer que “a guerra é assim mesmo” é aceitar que a infância seja tratada como dano colateral. É admitir que o direito internacional humanitário vale apenas quando convém às potências. É permitir que a chamada “ordem baseada em regras” funcione como retórica vazia, acionada seletivamente.
Não se trata de escolher um lado nacional. Trata-se de escolher um lado ético. O lado que afirma que crianças não são moeda de troca. Que escolas não são alvos legítimos. Que nenhuma disputa estratégica justifica a mutilação de uma menina.
Se aceitarmos que isso se torne normal, o que restará da nossa capacidade de indignação? O que dirá a história sobre nós – que vimos mochilas cor-de-rosa cobertas de sangue e seguimos rolando a tela?
O preço dessa guerra, como de tantas outras, continuará sendo pago pelos mais vulneráveis. Sempre foi assim. A pergunta que permanece é se continuaremos permitindo que seja.
O ataque à escola em Minab não é apenas mais um capítulo da escalada militar que envolve Israel, Estados Unidos e Irã. É um marco moral. Porque há princípios que deveriam permanecer inegociáveis, mesmo em tempos de guerra: não se atacam crianças. Não se bombardeiam escolas. Hospitais não são alvos. Combatentes feridos têm direito a tratamento médico. Jornalistas devem poder circular com segurança para cumprir seu trabalho.
Quando essas regras deixam de ser respeitadas, não estamos apenas diante de um conflito armado. Estamos diante da erosão deliberada da própria ideia de humanidade.
Desde Faixa de Gaza, a instrumentalização da infância tornou-se ainda mais visível e brutal. Dados de organismos internacionais indicam que milhares de crianças foram mortas ou feridas em sucessivas ofensivas militares nos últimos anos. Escolas administradas pela UNRWA foram atingidas. Hospitais pediátricos ficaram sem energia, incubadoras deixaram de funcionar, bebês prematuros morreram por falta de combustível e insumos básicos.
Além das mortes diretas, a infância em Gaza passou a ser moldada pelo cerco prolongado: desnutrição, interrupção escolar massiva, deslocamentos forçados, trauma contínuo. Relatórios da UNICEF e da Organização Mundial da Saúde apontam para uma geração inteira exposta a níveis extremos de traumas. Crianças que aprendem a identificar o som de drones antes mesmo de aprenderem a ler. Que desenham tanques em vez de árvores.
A infância, nesse contexto, deixa de ser apenas vítima, torna-se também instrumento narrativo. Imagens de crianças mortas circulam como prova, como denúncia, como propaganda. Seus corpos passam a sustentar discursos geopolíticos antagônicos. Enquanto isso, suas subjetividades reais – seus medos, seus desejos, suas histórias – desaparecem sob a avalanche de interpretações estratégicas.
Enquanto o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu – alvo de mandado do Tribunal Penal Internacional – é recebido na Alemanha, que se recusa a cumprir a ordem de prisão, o mundo assiste a uma encenação desconcertante de normalidade. Vídeos mostram cidadãos fazendo ioga em bunkers, enquanto, do outro lado, pais recolhem os restos de seus filhos. A assimetria não é apenas militar; é simbólica. Uns têm abrigos e respaldo diplomático. Outros têm escombros e luto.
Há quem tente justificar tudo em nome da “segurança”, da “autodefesa”, da “luta contra o terrorismo”. Mas nenhuma narrativa estratégica resiste à imagem de uma mochila infantil ensanguentada. Nenhuma justificativa geopolítica apaga o fato essencial de que meninas entre sete e doze anos foram mortas dentro de uma escola.
Crianças sempre estiveram entre as principais vítimas dos projetos imperiais. Nas invasões coloniais, nas guerras por recursos, nas intervenções travestidas de defesa da democracia, são elas que pagam o preço das ambições de poder. O imperialismo contemporâneo pode ter sofisticado sua linguagem, mas o resultado concreto permanece: corpos pequenos sob os escombros.
Destruir uma escola não é apenas derrubar um prédio. É interromper futuros. É ferir a possibilidade de reconstrução de um país. É produzir traumas que atravessam gerações. Como psicóloga que escuta histórias de migração e guerra, sei que a violência contra crianças não termina com a explosão. Ela se instala na memória, nos sonhos interrompidos, nos silêncios das famílias. Torna-se herança psíquica.
Dizer que “a guerra é assim mesmo” é aceitar que a infância seja tratada como dano colateral. É admitir que o direito internacional humanitário vale apenas quando convém às potências. É permitir que a chamada “ordem baseada em regras” funcione como retórica vazia, acionada seletivamente.
Não se trata de escolher um lado nacional. Trata-se de escolher um lado ético. O lado que afirma que crianças não são moeda de troca. Que escolas não são alvos legítimos. Que nenhuma disputa estratégica justifica a mutilação de uma menina.
Se aceitarmos que isso se torne normal, o que restará da nossa capacidade de indignação? O que dirá a história sobre nós – que vimos mochilas cor-de-rosa cobertas de sangue e seguimos rolando a tela?
O preço dessa guerra, como de tantas outras, continuará sendo pago pelos mais vulneráveis. Sempre foi assim. A pergunta que permanece é se continuaremos permitindo que seja.
sexta-feira, 6 de março de 2026
Historiador reexamina ascensão de Hitler e aponta riscos às democracias
Como estive doente na última semana, aproveitei os dias de repouso para concluir a leitura de "A Mentalidade Nazi: 12 Avisos da História", o mais recente trabalho do historiador e documentarista britânico Laurence Rees.
Autor de obras como "Hitler e Stálin: os Tiranos e a Segunda Guerra Mundial" e "Auschwitz: os Nazis e a Solução Final", Rees é reconhecido pela seriedade de suas pesquisas e pelo grande número de entrevistas que realizou durante os anos em que atuou na BBC como editor de programas de história.
Em seu novo livro, ele questiona a ideia de que o passado poderia nos oferecer lições e propõe que estudemos eventos históricos a fim de aprendermos a reconhecer tendências.
Diferentemente das lições, que geralmente possuem caráter prescritivo, as tendências mostram como determinadas circunstâncias podem favorecer a emergência de certos fenômenos, mas não determinam as nossas ações. Afinal, como observa o historiador, as respostas do passado raramente se aplicam ao presente com a mesma eficácia e cada nova situação deve ser analisada cuidadosamente, levando em consideração as suas especificidades.
Segundo Rees, o papel da história, especialmente em um momento como o nosso, em que as democracias estão novamente sob ataque, seria o de nos ajudar a identificar a tempo sinais de que tanto as nossas vidas quanto as nossas instituições estão sendo ameaçadas.
Assim, ao reexaminar os acontecimentos que levaram Hitler ao poder e culminaram no Holocausto, cada capítulo do livro recebe como título um dos 12 sinais de alerta identificados pelo autor.
Entre esses sinais, Rees destaca a disseminação de teorias da conspiração racistas e antissemitas, que culpavam os judeus pela derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, e mostra como o receio de uma revolta socialista foi explorado durante a crise econômica e a hiperinflação da década de 1920, aprofundando a fragmentação da sociedade em grupos antagônicos e mutuamente excludentes.
Ele analisa a transformação da figura do herói em modelo de liderança e seu impacto no sucesso da ideologia nazista entre os mais jovens e reflete sobre a participação das elites na ascensão de Hitler. Rees também deixa claro que, desde o início, o regime nazista atacou os direitos humanos, tendo por alvo judeus e outras minorias étnicas e religiosas, bem como pessoas com deficiência e opositores políticos.
O historiador ainda discute como Hitler explorou a devoção de seus apoiadores por meio de discursos visionários que prometiam o retorno a um passado imaginário, porém glorioso. Nesse sentido, ele observa que, durante a guerra, à medida que os recursos se tornavam escassos, muitos desses apoiadores tentavam se convencer de que Hitler era vítima da corrupção de membros de seu próprio gabinete e ignorava as necessidades do povo.
Rees examina como o regime criou inimigos internos e externos para unificar a população restante e relata, por fim, que as violentas disputas entre oficiais nazistas pela atenção de Hitler geraram um ambiente caótico, propício a uma radicalização ainda mais extrema entre seus acólitos.
Nesse cenário, foram tomadas as decisões que resultaram no Holocausto, definido como um evento histórico complexo, marcado por uma sequência gradual de medidas. Esse processo envolveu não apenas a criação de campos de concentração, mas também a implementação de leis raciais e capacitistas, a arianização de bens, a formação de guetos, os fuzilamentos em massa, o aprimoramento de métodos de matança a distância e o desenvolvimento das câmaras de gás.
Ao fim do livro, Rees nos alerta que as instituições responsáveis pela manutenção do nosso bem-estar são muito mais frágeis do que pensamos. Assim, na esperança de que não sejamos mais uma vez surpreendidos pelos acontecimentos, deixo aqui essa sugestão de leitura como um convite à reflexão sobre a vulnerabilidade do mundo em que vivemos.
Autor de obras como "Hitler e Stálin: os Tiranos e a Segunda Guerra Mundial" e "Auschwitz: os Nazis e a Solução Final", Rees é reconhecido pela seriedade de suas pesquisas e pelo grande número de entrevistas que realizou durante os anos em que atuou na BBC como editor de programas de história.
Em seu novo livro, ele questiona a ideia de que o passado poderia nos oferecer lições e propõe que estudemos eventos históricos a fim de aprendermos a reconhecer tendências.
Diferentemente das lições, que geralmente possuem caráter prescritivo, as tendências mostram como determinadas circunstâncias podem favorecer a emergência de certos fenômenos, mas não determinam as nossas ações. Afinal, como observa o historiador, as respostas do passado raramente se aplicam ao presente com a mesma eficácia e cada nova situação deve ser analisada cuidadosamente, levando em consideração as suas especificidades.
Segundo Rees, o papel da história, especialmente em um momento como o nosso, em que as democracias estão novamente sob ataque, seria o de nos ajudar a identificar a tempo sinais de que tanto as nossas vidas quanto as nossas instituições estão sendo ameaçadas.
Assim, ao reexaminar os acontecimentos que levaram Hitler ao poder e culminaram no Holocausto, cada capítulo do livro recebe como título um dos 12 sinais de alerta identificados pelo autor.
Entre esses sinais, Rees destaca a disseminação de teorias da conspiração racistas e antissemitas, que culpavam os judeus pela derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, e mostra como o receio de uma revolta socialista foi explorado durante a crise econômica e a hiperinflação da década de 1920, aprofundando a fragmentação da sociedade em grupos antagônicos e mutuamente excludentes.
Ele analisa a transformação da figura do herói em modelo de liderança e seu impacto no sucesso da ideologia nazista entre os mais jovens e reflete sobre a participação das elites na ascensão de Hitler. Rees também deixa claro que, desde o início, o regime nazista atacou os direitos humanos, tendo por alvo judeus e outras minorias étnicas e religiosas, bem como pessoas com deficiência e opositores políticos.
O historiador ainda discute como Hitler explorou a devoção de seus apoiadores por meio de discursos visionários que prometiam o retorno a um passado imaginário, porém glorioso. Nesse sentido, ele observa que, durante a guerra, à medida que os recursos se tornavam escassos, muitos desses apoiadores tentavam se convencer de que Hitler era vítima da corrupção de membros de seu próprio gabinete e ignorava as necessidades do povo.
Rees examina como o regime criou inimigos internos e externos para unificar a população restante e relata, por fim, que as violentas disputas entre oficiais nazistas pela atenção de Hitler geraram um ambiente caótico, propício a uma radicalização ainda mais extrema entre seus acólitos.
Nesse cenário, foram tomadas as decisões que resultaram no Holocausto, definido como um evento histórico complexo, marcado por uma sequência gradual de medidas. Esse processo envolveu não apenas a criação de campos de concentração, mas também a implementação de leis raciais e capacitistas, a arianização de bens, a formação de guetos, os fuzilamentos em massa, o aprimoramento de métodos de matança a distância e o desenvolvimento das câmaras de gás.
Ao fim do livro, Rees nos alerta que as instituições responsáveis pela manutenção do nosso bem-estar são muito mais frágeis do que pensamos. Assim, na esperança de que não sejamos mais uma vez surpreendidos pelos acontecimentos, deixo aqui essa sugestão de leitura como um convite à reflexão sobre a vulnerabilidade do mundo em que vivemos.
A lavagem dos colarinhos brancos
Se você é homem, adulto e obrigado a se vestir formalmente, com certeza já dispensou alguns minutos a observar os formatos dos colarinhos. Existe o clássico colarinho francês, com pontas médias e mais fechadas; o italiano, mais curto e com pontas abertas; o americano, de pontas longas, abotoadas à camisa; o tipo padre, com a gola pequena e em pé, exigindo quilos de goma; e o asinha ou tico-tico, com as pontinhas dobradas para fora. Todos são colarinhos brancos. Não significa que seus usuários sejam criminosos. Só alguns.
Mas, embora se fale muito nos "crimes de colarinho branco", é raro ver pessoas com colarinhos dessa cor associados aos ditos crimes. Os criminosos mais presentes na mídia usam camiseta, sem colarinho. São os mais pobres da categoria, ladrões de carteira ou de celular. Como sua ação costuma ser muito rápida, tanto no trânsito quanto numa rua escura, não precisam se preocupar com a apresentação. Sabem que suas vítimas não terão tempo para analisar seus colarinhos, donde uma camiseta comum, mesmo regata, sem mangas, será socialmente aceitável.
Os bandidos mais graduados, que portam armas pesadas, preferem o colarinho mole e casual das camisas polo, estas quase sempre amarelas ou de riscas. Têm a vantagem de expor seus bíceps sarados, produto de horas de malhação em academias ou nas instalações militares a que até havia pouco pertenciam. Não significa que os criminosos de colarinho branco não tenham esses bíceps sarados —é que costumam escondê-los debaixo do paletó, embora isso não impeça que sejam detectados pela largura dos ombros. Recomenda-se atenção na presença de um deles.
E chegamos aos elegantes criminosos nos casos hoje em voga: dos escândalos do Banco Master, das fraudes no INSS, dos desvios de emendas parlamentares, do vazamento de dados no STF, dos mandantes do 8 de Janeiro. Esses, sim, são todos de colarinho branco. Vide Daniel Vorcaro, o Careca do INSS e outros.
Não se pode confiar na alvura de seus colarinhos. São lavados junto com o dinheiro.
Mas, embora se fale muito nos "crimes de colarinho branco", é raro ver pessoas com colarinhos dessa cor associados aos ditos crimes. Os criminosos mais presentes na mídia usam camiseta, sem colarinho. São os mais pobres da categoria, ladrões de carteira ou de celular. Como sua ação costuma ser muito rápida, tanto no trânsito quanto numa rua escura, não precisam se preocupar com a apresentação. Sabem que suas vítimas não terão tempo para analisar seus colarinhos, donde uma camiseta comum, mesmo regata, sem mangas, será socialmente aceitável.
Os bandidos mais graduados, que portam armas pesadas, preferem o colarinho mole e casual das camisas polo, estas quase sempre amarelas ou de riscas. Têm a vantagem de expor seus bíceps sarados, produto de horas de malhação em academias ou nas instalações militares a que até havia pouco pertenciam. Não significa que os criminosos de colarinho branco não tenham esses bíceps sarados —é que costumam escondê-los debaixo do paletó, embora isso não impeça que sejam detectados pela largura dos ombros. Recomenda-se atenção na presença de um deles.
E chegamos aos elegantes criminosos nos casos hoje em voga: dos escândalos do Banco Master, das fraudes no INSS, dos desvios de emendas parlamentares, do vazamento de dados no STF, dos mandantes do 8 de Janeiro. Esses, sim, são todos de colarinho branco. Vide Daniel Vorcaro, o Careca do INSS e outros.
Não se pode confiar na alvura de seus colarinhos. São lavados junto com o dinheiro.
A morte de Khamenei, um caso sem precedentes em que um governo assassina o líder de outro país
Ali Khamenei morreu no último sábado, aos 86 anos, em decorrência dos bombardeios lançados contra o Irã pelos Estados Unidos e por Israel. Sua morte é um evento sem precedentes na história contemporânea. Embora não seja a primeira vez que um chefe de Estado ou de governo é assassinado, é a única vez em que a responsabilidade recai sobre outro país. Até sua morte, o Líder Supremo representava a mais alta autoridade no Irã desde 1989, quando seu antecessor e fundador da República Islâmica, Ruhollah Khomeini, faleceu.
Embora as circunstâncias exatas de sua morte sejam desconhecidas, diversos especialistas consultados pelo EL PAÍS concordam que se trata de um caso sem precedentes. “Não me lembro de um caso semelhante à execução de um chefe de Estado por um bombardeio vindo de outro país, sem qualquer declaração de guerra”, afirma Javier Chinchón Álvarez, professor de Direito Internacional e Relações Internacionais da Universidade Complutense de Madrid, em um e-mail.
Detalhes sobre a morte do aiatolá iraniano ainda estão surgindo. Fontes israelenses confirmaram a morte do líder na noite de sábado, afirmando que seu corpo havia sido encontrado em um bunker. Pouco depois, o presidente dos EUA, Donald Trump, corroborou as declarações de seu aliado no Oriente Médio. A televisão iraniana confirmou a morte do líder naquela mesma noite.
Joaquín González Ibáñez, doutor em direito pela mesma faculdade de Madri, disse ao EL PAÍS em uma conversa por WhatsApp que, dos assassinatos anteriores ao de Khamenei de que se lembra, não há nenhum caso comparável aos eventos de sábado. “Eles não são comparáveis ao caso iraniano”, enfatizou. “Trata-se de um crime de agressão sob o direito internacional, cometido por Israel e pelos Estados Unidos, além dos crimes de guerra que já estamos identificando na escola feminina”, opinou o especialista, referindo-se ao ataque conjunto EUA-Israel à escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, que deixou pelo menos 148 mortos.
“Um ato de agressão é um dos quatro crimes internacionais por excelência. [Existem] o crime de agressão, o crime contra a humanidade, o crime de guerra e o genocídio”, explica o médico. González considera este ato o “mais importante”, uma vez que os outros três tipos de crimes (crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio) “são cometidos no âmbito do crime de um ato de agressão”.
Chinchón, por sua vez, considera isso uma “execução extrajudicial”, em consonância com a definição da ONU sobre o assunto, ou seja, “matar deliberadamente uma pessoa fora de qualquer estrutura legal”. “[Israel e os EUA] estão confirmando mais uma vez que agem não apenas fora dos limites do direito internacional vigente, mas em constante, aberta e flagrante violação direta de suas obrigações mais essenciais”, condena ele.
Entre os casos mais semelhantes está a morte, em 2011, do ditador líbio Muammar Gaddafi , que foi capturado em um cano de água nos arredores de Sirte, sua cidade natal, e posteriormente morto a tiros por membros do Conselho Nacional de Transição (CNT), as forças rebeldes da Líbia. A semelhança neste caso reside no fato de que, no momento de sua captura, o ditador já havia sido ferido em um ataque aéreo da OTAN. A OTAN havia apoiado o CNT nos sete meses anteriores à sua morte em seus esforços para derrubar o regime de Gaddafi.
Em agosto do ano passado, Israel também assassinou o primeiro-ministro houthi do Iêmen, Ahmed Ghaleb al-Rahawi , em outro ataque aéreo. O movimento houthi é um dos grupos armados pró-Irã presentes no Oriente Médio, juntamente com a milícia palestina Hamas e o grupo libanês Hezbollah. Os houthis controlam Sana’a, a capital do Iêmen, e o noroeste do país, mas não são reconhecidos pela comunidade internacional, ao contrário do governo iemenita. Portanto, o primeiro-ministro al-Rahawi não era considerado legítimo na época de seu assassinato.
As mortes de Dzhokhar Dudayev, líder da República Chechena da Ichkeria, em 1996, e de seu sucessor, Aslan Maskhadov, em 2005, também revelam semelhanças com o caso de Khamenei. No entanto, a República Chechena da Ichkeria nunca foi reconhecida como um Estado pela comunidade internacional. Após a dissolução da União Soviética em 1991, Dudayev declarou unilateralmente a independência do território. A Federação Russa, então sob a liderança do ex-presidente Boris Yeltsin , jamais reconheceu essa independência. Dudayev morreu em um ataque aéreo russo, lançado por Moscou após ter sido localizado via satélite por meio de uma ligação telefônica. Seu sucessor morreu de forma semelhante, durante uma operação militar russa na Chechênia.
Outros assassinatos notáveis de chefes de Estado incluem o do líder congolês Patrice Lumumba, em 1961, executado por um pelotão de fuzilamento em uma floresta na região leste de Katanga. Na época de sua morte, Lumumba já havia sido deposto em um golpe orquestrado pela CIA — a agência de espionagem dos EUA — e pela Bélgica. “Nem serve como um reflexo da situação dos ataques iranianos”, reconhece González.
Os primeiros-ministros indianos Indira Gandhi e Rajiv Gandhi, mãe e filho, também morreram vítimas de disparos de arma de fogo. Ela foi baleada por três membros de sua guarda pessoal, incluindo seu guarda-costas Beant Singh, em 1984. Seu assassinato foi resultado da Operação Estrela Azul, uma intervenção militar que coincidiu com um importante evento religioso sikh. Vários civis foram mortos no ataque.
Quanto ao filho de Gandhi, ele estava em campanha para as eleições gerais de 1991 como o principal líder da oposição quando um homem-bomba detonou um explosivo em um atentado orquestrado pelos Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE), um grupo separatista armado do Sri Lanka. Ele já não estava no poder na época de seu assassinato.
O ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri também morreu em um atentado a bomba em 2005, juntamente com outras 21 pessoas, quando um carro-bomba atingiu o comboio em que viajava em Beirute. A única pessoa condenada pelo ataque, julgada à revelia pelo Tribunal Especial para o Líbano , foi Salim Hamil Ayyash, membro da organização política e militar xiita Hezbollah. Vinte e um anos depois, o tribunal ainda não encontrou provas de que a Síria ou a milícia estivessem diretamente envolvidas no atentado, embora tenha reconhecido a existência de possíveis motivações. Os outros três réus no ataque — Hussein Hassan Oneissi, Assad Hassan Sabra e Hassan Habib Merhi — foram absolvidos.
O assassinato do então presidente haitiano Jovenel Moïse em 2021 por cerca de vinte pistoleiros colombianos é mais um exemplo de assassinatos políticos do século XXI. Uma investigação do The New York Times revelou que ele foi morto por tentar enviar aos Estados Unidos uma lista de políticos e empresários envolvidos com o narcotráfico. A identidade do mandante do assassinato de Moïse permanece desconhecida.
Hannah Slack
Embora as circunstâncias exatas de sua morte sejam desconhecidas, diversos especialistas consultados pelo EL PAÍS concordam que se trata de um caso sem precedentes. “Não me lembro de um caso semelhante à execução de um chefe de Estado por um bombardeio vindo de outro país, sem qualquer declaração de guerra”, afirma Javier Chinchón Álvarez, professor de Direito Internacional e Relações Internacionais da Universidade Complutense de Madrid, em um e-mail.
Detalhes sobre a morte do aiatolá iraniano ainda estão surgindo. Fontes israelenses confirmaram a morte do líder na noite de sábado, afirmando que seu corpo havia sido encontrado em um bunker. Pouco depois, o presidente dos EUA, Donald Trump, corroborou as declarações de seu aliado no Oriente Médio. A televisão iraniana confirmou a morte do líder naquela mesma noite.
Joaquín González Ibáñez, doutor em direito pela mesma faculdade de Madri, disse ao EL PAÍS em uma conversa por WhatsApp que, dos assassinatos anteriores ao de Khamenei de que se lembra, não há nenhum caso comparável aos eventos de sábado. “Eles não são comparáveis ao caso iraniano”, enfatizou. “Trata-se de um crime de agressão sob o direito internacional, cometido por Israel e pelos Estados Unidos, além dos crimes de guerra que já estamos identificando na escola feminina”, opinou o especialista, referindo-se ao ataque conjunto EUA-Israel à escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, que deixou pelo menos 148 mortos.
“Um ato de agressão é um dos quatro crimes internacionais por excelência. [Existem] o crime de agressão, o crime contra a humanidade, o crime de guerra e o genocídio”, explica o médico. González considera este ato o “mais importante”, uma vez que os outros três tipos de crimes (crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio) “são cometidos no âmbito do crime de um ato de agressão”.
Chinchón, por sua vez, considera isso uma “execução extrajudicial”, em consonância com a definição da ONU sobre o assunto, ou seja, “matar deliberadamente uma pessoa fora de qualquer estrutura legal”. “[Israel e os EUA] estão confirmando mais uma vez que agem não apenas fora dos limites do direito internacional vigente, mas em constante, aberta e flagrante violação direta de suas obrigações mais essenciais”, condena ele.
Entre os casos mais semelhantes está a morte, em 2011, do ditador líbio Muammar Gaddafi , que foi capturado em um cano de água nos arredores de Sirte, sua cidade natal, e posteriormente morto a tiros por membros do Conselho Nacional de Transição (CNT), as forças rebeldes da Líbia. A semelhança neste caso reside no fato de que, no momento de sua captura, o ditador já havia sido ferido em um ataque aéreo da OTAN. A OTAN havia apoiado o CNT nos sete meses anteriores à sua morte em seus esforços para derrubar o regime de Gaddafi.
Em agosto do ano passado, Israel também assassinou o primeiro-ministro houthi do Iêmen, Ahmed Ghaleb al-Rahawi , em outro ataque aéreo. O movimento houthi é um dos grupos armados pró-Irã presentes no Oriente Médio, juntamente com a milícia palestina Hamas e o grupo libanês Hezbollah. Os houthis controlam Sana’a, a capital do Iêmen, e o noroeste do país, mas não são reconhecidos pela comunidade internacional, ao contrário do governo iemenita. Portanto, o primeiro-ministro al-Rahawi não era considerado legítimo na época de seu assassinato.
As mortes de Dzhokhar Dudayev, líder da República Chechena da Ichkeria, em 1996, e de seu sucessor, Aslan Maskhadov, em 2005, também revelam semelhanças com o caso de Khamenei. No entanto, a República Chechena da Ichkeria nunca foi reconhecida como um Estado pela comunidade internacional. Após a dissolução da União Soviética em 1991, Dudayev declarou unilateralmente a independência do território. A Federação Russa, então sob a liderança do ex-presidente Boris Yeltsin , jamais reconheceu essa independência. Dudayev morreu em um ataque aéreo russo, lançado por Moscou após ter sido localizado via satélite por meio de uma ligação telefônica. Seu sucessor morreu de forma semelhante, durante uma operação militar russa na Chechênia.
Outros assassinatos notáveis de chefes de Estado incluem o do líder congolês Patrice Lumumba, em 1961, executado por um pelotão de fuzilamento em uma floresta na região leste de Katanga. Na época de sua morte, Lumumba já havia sido deposto em um golpe orquestrado pela CIA — a agência de espionagem dos EUA — e pela Bélgica. “Nem serve como um reflexo da situação dos ataques iranianos”, reconhece González.
Os primeiros-ministros indianos Indira Gandhi e Rajiv Gandhi, mãe e filho, também morreram vítimas de disparos de arma de fogo. Ela foi baleada por três membros de sua guarda pessoal, incluindo seu guarda-costas Beant Singh, em 1984. Seu assassinato foi resultado da Operação Estrela Azul, uma intervenção militar que coincidiu com um importante evento religioso sikh. Vários civis foram mortos no ataque.
Quanto ao filho de Gandhi, ele estava em campanha para as eleições gerais de 1991 como o principal líder da oposição quando um homem-bomba detonou um explosivo em um atentado orquestrado pelos Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE), um grupo separatista armado do Sri Lanka. Ele já não estava no poder na época de seu assassinato.
O ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri também morreu em um atentado a bomba em 2005, juntamente com outras 21 pessoas, quando um carro-bomba atingiu o comboio em que viajava em Beirute. A única pessoa condenada pelo ataque, julgada à revelia pelo Tribunal Especial para o Líbano , foi Salim Hamil Ayyash, membro da organização política e militar xiita Hezbollah. Vinte e um anos depois, o tribunal ainda não encontrou provas de que a Síria ou a milícia estivessem diretamente envolvidas no atentado, embora tenha reconhecido a existência de possíveis motivações. Os outros três réus no ataque — Hussein Hassan Oneissi, Assad Hassan Sabra e Hassan Habib Merhi — foram absolvidos.
O assassinato do então presidente haitiano Jovenel Moïse em 2021 por cerca de vinte pistoleiros colombianos é mais um exemplo de assassinatos políticos do século XXI. Uma investigação do The New York Times revelou que ele foi morto por tentar enviar aos Estados Unidos uma lista de políticos e empresários envolvidos com o narcotráfico. A identidade do mandante do assassinato de Moïse permanece desconhecida.
Hannah Slack
Donald Trump é o mordomo da vez
Pode crer. O Trump é só o mensageiro. Os mandachuvas continuam aqueles, desde quando a América relançou a democracia, no séc. XVIII: magnatas do petróleo e carvão, bancos, fábricas de armas e, dessa vez, as big techs. Quando proclamaram a independência, os EUA deram uma mão de pintura no mercantilismo colonial do séc. XVI, que havia embarcado nas caravelas da monarquia europeia. Instalada a república moderna, os norte-americanos notaram rapidamente que nem tudo no imperialismo europeu era uma má ideia para os lucros. Pelo contrário, ainda daria pra ganhar uma boa grana mantendo os negros na escravidão e entrando no mercado global da colonização. O ‘berço democrático’ tornou-se logo na largada candidato ao ranking de maior império da história.
O cineasta Oliver Stone revela os bastidores desse roteiro em seu surpreendente livro “A história não contada dos Estados Unidos”. Ele percorre a construção geopolítica do país, confrontando o mito do “destino manifesto americano” com uma expansão imperialista obsessiva nesses 200 anos de existência. Stone demonstra como a ‘América’ partiu a galope para a conquista do mundo, sob o mantra de que o Tio Sam era o mocinho que batizaria a humanidade com a água benta da liberdade (e do mercado, é claro).
Nessa toada, a Casa Branca – habitada por republicanos ou democratas – ganhou alvará de balcão do ideário capitalista liberal. O que é bom para as grandes empresas é bom para o país. A depender do partido e das circunstâncias, a balança pende um pouquinho mais para os ricos ou para a plebe. O livro de Stone detona a lenda da Pax Americana com o desabafo do General Fuzileiro Smedley Butler, herói condecorado das principais investidas imperialistas dos EUA na América Latina, Pacífico e Ásia já no comecinho do séc. XX: “Passei 33 anos da minha carreira militar servindo como capanga de luxo das grandes empresas, Wall Street e banqueiros […] eu era um gângster a serviço do capitalismo”.
Servindo sob a presidência de William McKinley (eleito em 1900) e do seu sucessor Theodore Roosevelt, o General Butler descreve como os EUA haviam tomado o controle das Filipinas, Porto Rico, Cuba, Guam, Pago Pago, Midway, Honduras, Nicarágua, Panamá, Guatemala, República Dominicana, Haiti, tendo ainda anexado o Havaí e metade do território do México, e atacado até mesmo a China e a Colômbia. O General relatava que “a guerra era um negócio ilícito”, em benefício de corporações conhecidas, como City Bank, Standard Oil, Ford, Winchester Arms, Brown Brothers, J P Morgan, Rockefeller, Du Pont, Remington, Rotchild, entre outras.
Oliver Stone prossegue, acrescentando que a I Guerra Mundial foi a virada de chave para o protagonismo militar e econômico dos EUA, saindo do conflito como o maior credor de empréstimos do mundo e principal potência bélica. A II Guerra consolidou o País como império global e a Guerra Fria arrematou, ressignificando o mercado numa globalização alinhavada pelo multilateralismo obediente, pelas cadeias de comércio e finanças, a onipresença da US Navy e o arsenal nuclear. Continuou assim nas recentes Guerras do Golfo, Iraque, Líbia e Síria, apesar do susto no Vietnam e Afeganistão.
É bem verdade que Trump é devoto de Pedro Malasartes, salpicando mundo afora suas mirabolâncias, enquanto, em casa, desmonta políticas sociais e legislações incômodas. Embolou o Tio Sam na Ucrânia, Gaza, Venezuela e Irã sem planejamento nem explicação. Sejamos justos, ele ouviu dizer que Wall Street e o Vale do Silício toleram quem peca por excesso, desde que o caixa feche no azul.
O cineasta Oliver Stone revela os bastidores desse roteiro em seu surpreendente livro “A história não contada dos Estados Unidos”. Ele percorre a construção geopolítica do país, confrontando o mito do “destino manifesto americano” com uma expansão imperialista obsessiva nesses 200 anos de existência. Stone demonstra como a ‘América’ partiu a galope para a conquista do mundo, sob o mantra de que o Tio Sam era o mocinho que batizaria a humanidade com a água benta da liberdade (e do mercado, é claro).
Nessa toada, a Casa Branca – habitada por republicanos ou democratas – ganhou alvará de balcão do ideário capitalista liberal. O que é bom para as grandes empresas é bom para o país. A depender do partido e das circunstâncias, a balança pende um pouquinho mais para os ricos ou para a plebe. O livro de Stone detona a lenda da Pax Americana com o desabafo do General Fuzileiro Smedley Butler, herói condecorado das principais investidas imperialistas dos EUA na América Latina, Pacífico e Ásia já no comecinho do séc. XX: “Passei 33 anos da minha carreira militar servindo como capanga de luxo das grandes empresas, Wall Street e banqueiros […] eu era um gângster a serviço do capitalismo”.
Servindo sob a presidência de William McKinley (eleito em 1900) e do seu sucessor Theodore Roosevelt, o General Butler descreve como os EUA haviam tomado o controle das Filipinas, Porto Rico, Cuba, Guam, Pago Pago, Midway, Honduras, Nicarágua, Panamá, Guatemala, República Dominicana, Haiti, tendo ainda anexado o Havaí e metade do território do México, e atacado até mesmo a China e a Colômbia. O General relatava que “a guerra era um negócio ilícito”, em benefício de corporações conhecidas, como City Bank, Standard Oil, Ford, Winchester Arms, Brown Brothers, J P Morgan, Rockefeller, Du Pont, Remington, Rotchild, entre outras.
Oliver Stone prossegue, acrescentando que a I Guerra Mundial foi a virada de chave para o protagonismo militar e econômico dos EUA, saindo do conflito como o maior credor de empréstimos do mundo e principal potência bélica. A II Guerra consolidou o País como império global e a Guerra Fria arrematou, ressignificando o mercado numa globalização alinhavada pelo multilateralismo obediente, pelas cadeias de comércio e finanças, a onipresença da US Navy e o arsenal nuclear. Continuou assim nas recentes Guerras do Golfo, Iraque, Líbia e Síria, apesar do susto no Vietnam e Afeganistão.
É bem verdade que Trump é devoto de Pedro Malasartes, salpicando mundo afora suas mirabolâncias, enquanto, em casa, desmonta políticas sociais e legislações incômodas. Embolou o Tio Sam na Ucrânia, Gaza, Venezuela e Irã sem planejamento nem explicação. Sejamos justos, ele ouviu dizer que Wall Street e o Vale do Silício toleram quem peca por excesso, desde que o caixa feche no azul.
Operações secretas, consentimento fabricado e a glória do Irã
Durante décadas, a política externa dos Estados Unidos operou não apenas por meio da diplomacia e da guerra declarada, mas também por meio de uma vasta arquitetura de operações secretas. Da América Latina à África e ao Oriente Médio, a atividade de inteligência frequentemente precedeu e preparou a justificativa pública para ações militares ostensivas. Compreender os eventos contemporâneos em torno do Irã exige situá-los dentro de um padrão histórico mais amplo de desestabilização secreta, manipulação narrativa e guerra ideológica funcionando em conjunto.
A intervenção secreta tem sido um componente estrutural da política externa dos EUA pelo menos desde a Guerra Fria. Documentos desclassificados mostram que a CIA orquestrou operações secretas para moldar resultados políticos no exterior, incluindo esforços para remover ou minar governos percebidos como hostis aos interesses dos EUA.
Esses casos demonstram uma doutrina recorrente de ação secreta como um estágio inicial de gestão geopolítica, moldando as condições antes que a intervenção aberta se torne politicamente viável.
Ironicamente, após décadas de interferência em regimes globais e em meio a assassinatos cometidos pelo ICE, a narrativa dominante propagada por Washington é a de que o Irã precisa de uma mudança de regime porque reprime a dissidência.
O Irã há muito tempo é um palco central para a competição entre serviços de inteligência. Analistas reconhecem a profunda infiltração da inteligência israelense no Irã. Relatórios indicam que agências de inteligência israelenses realizaram operações de sabotagem, assassinatos e campanhas de infiltração, incluindo o contrabando de drones e armas para o território iraniano e o uso de redes locais para atacar infraestrutura militar.
Em relação aos recentes movimentos de protesto, alguns analistas de defesa argumentam que agências de inteligência estrangeiras exploram ou até mesmo alimentam surtos internos. Especialistas citados pela Al Jazeera sugerem que agentes israelenses provavelmente atuam durante os protestos, coletando informações e amplificando as manifestações por meio de apoio à comunicação e estratégias de exposição.
Isso não significa que os protestos não tenham queixas internas genuínas. O Irã tem vivenciado dificuldades econômicas reais e repressão política. Em vez disso, a doutrina de inteligência historicamente trata a agitação como uma oportunidade, demonstrando total desrespeito pela população local, já que ela exacerba a violência e a instabilidade para criar brechas para operações de influência.
A atividade secreta muitas vezes funciona como preparação política. As operações de inteligência enfraquecem materialmente os adversários, ao mesmo tempo que moldam narrativas que fazem com que uma ação militar posterior pareça necessária ou inevitável.
A Operação Mongoose da CIA contra Cuba combinou explicitamente campanhas de propaganda com redes de inteligência e planejamento paramilitar, concebidos para gerar apoio à mudança de regime. A integração de propaganda e ação secreta ilustra como os objetivos militares são precedidos pela gestão da percepção.
Reportagens recentes sobre os ataques EUA-Israel contra o Irã mostram líderes apelando abertamente à população iraniana para que se levante contra o governo, enquanto o planejamento militar já estava em andamento há meses. Essa mensagem reflete um padrão familiar de intervenção disfarçada de libertação.
Os interesses geopolíticos, em oposição à preocupação humanitária, são os principais motivadores do confronto ocidental com o Irã.
O Irã ocupa uma posição estratégica singular, pois detém grandes reservas de petróleo e está situado ao lado do Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo mundial. O controle sobre a região e suas estruturas de alianças, portanto, influencia os cálculos políticos.
As sanções dos EUA contra as redes petrolíferas e as capacidades militares iranianas visam explicitamente restringir o poder econômico e regional do Irã. Os analistas consistentemente enquadram o Irã como um rival estratégico, e não como uma crise humanitária que exige proteção.
Nesse contexto, as alegações de que a intervenção busca principalmente defender civis iranianos revelam-se secundárias a objetivos mais amplos de segurança e economia.
A teoria do modelo de propaganda de Noam Chomsky e Edward Herman, desenvolvida em Manufacturing Consent (A Fabricação do Consenso), explica como os sistemas de mídia podem ajudar a gerar aprovação pública para agendas de política externa. O modelo argumenta que pressões estruturais – propriedade, dependência da publicidade, fornecimento de informações a instituições oficiais e enquadramento ideológico – moldam a cobertura jornalística e fabricam o consentimento para os interesses das elites.
Chomsky argumentou que a mídia distingue entre vítimas “dignas” e “indignas” dependendo do alinhamento geopolítico, amplificando os abusos cometidos por inimigos e minimizando aqueles cometidos por aliados. Essa assimetria ajuda a normalizar políticas intervencionistas.
Após a Guerra Fria, estudiosos influenciados por essa estrutura observam que a “guerra ao terror” substituiu o anticomunismo como filtro ideológico dominante, posicionando as sociedades muçulmanas como principais objetos de medo e suspeita.
O discurso da mídia ocidental mostra estereótipos persistentes de muçulmanos e do Islã nas narrativas jornalísticas. Uma análise baseada em corpus de jornais britânicos e americanos identificou enquadramentos de propaganda recorrentes que retratam muçulmanos por meio de imagens ameaçadoras e centradas em conflitos.
Estudos sobre mídias sociais após ataques terroristas também encontraram ondas substanciais de discurso culpando o Islã coletivamente, originárias de países ocidentais.
A islamofobia, portanto, funciona não apenas como preconceito, mas como um ambiente narrativo político no qual a violência militar se torna mais fácil de justificar. Quando populações são retratadas como inerentemente perigosas ou atrasadas, a guerra parece defensiva em vez de agressiva.
Muçulmanos e iranianos na diáspora enfrentam um dilema profundo. Muitos se opõem ao governo do Irã, mas permanecem cautelosos com a intervenção estrangeira de estados historicamente hostis à sua região e ao seu povo.
As evidências não sustentam uma narrativa simplista de que ‘os iranianos estão celebrando’ a intervenção ocidental ou israelense. Embora algumas vozes da oposição acolham a pressão sobre o regime, as reações são diversas e profundamente divididas, refletindo o medo da guerra, o nacionalismo e a desconfiança em relação às potências estrangeiras. A dissidência interna e a intervenção externa são vivenciadas como realidades separadas, e não como causas unificadas.
Essa ambiguidade gera tensão emocional e política na oposição ao autoritarismo e na resistência à dominação geopolítica.
Estudiosos da mídia e do discurso argumentam repetidamente que o público ocidental se depara com as sociedades muçulmanas principalmente por meio de narrativas de conflito desvinculadas do contexto cultural. O modelo de propaganda sugere que incentivos estruturais favorecem uma simplificação moral em detrimento de uma compreensão credível.
Práticas condenadas no exterior são frequentemente julgadas de forma diferente quando ocorrem em democracias ocidentais, uma discrepância que Chomsky destacou em comparações da cobertura midiática de estados aliados versus estados adversários.
Portanto, vale a pena questionar a autoridade moral de nações predominantemente cristãs, como os EUA, que condenam a repressão por parte de estados do mundo muçulmano, enquanto empregam policiamento agressivo, vigilância, normas ou legislações sexistas e políticas coercitivas em âmbito nacional ou internacional.
Além da geopolítica, existe uma civilização muito mais antiga que os conflitos modernos. O Irã é herdeiro das tradições persas que moldaram a matemática, a poesia, a arquitetura, a filosofia e a música ao longo dos séculos. Suas principais cidades carregam camadas de história que conectam impérios antigos à vida contemporânea. A língua persa, cuja literatura é uma das mais antigas, influenciou a estética global, desde a poesia mística até a pintura e as tradições da música clássica.
O Irã também possui uma longa e complexa história de movimentos políticos feministas. Essas lutas são frequentemente apropriadas tanto pelas elites nacionais quanto por potências estrangeiras que buscam justificativas morais para a intervenção. Quando a libertação das mulheres se torna um slogan dissociado das próprias vozes iranianas, corremos o risco de transformar lutas genuínas em meras estratégias de marketing geopolítico.
A verdadeira solidariedade exige escuta, e não imposição de soluções. Políticas formuladas como resgate podem reproduzir uma hierarquia antiga que posiciona o Ocidente como civilizacionalmente superior e as sociedades muçulmanas como objetos a serem corrigidos ou controlados.
Respeitar os iranianos significa reconhecer sua capacidade de ação, sua diversidade de pensamento político e seu direito de determinar seu próprio futuro. Qualquer coisa inferior a isso corre o risco de repetir a mesma lógica que justificou a intervenção, a dominação e a violência por gerações.
O caminho a seguir não é a dominação disfarçada de libertação, mas a humildade – o reconhecimento de que a compreensão deve preceder a ação e que a dignidade não pode ser conquistada por bombas ou propaganda.
A intervenção secreta tem sido um componente estrutural da política externa dos EUA pelo menos desde a Guerra Fria. Documentos desclassificados mostram que a CIA orquestrou operações secretas para moldar resultados políticos no exterior, incluindo esforços para remover ou minar governos percebidos como hostis aos interesses dos EUA.
Por exemplo, o Projeto FUBELT envolveu esforços secretos da CIA para impedir que o presidente chileno Salvador Allende governasse e para promover o golpe militar que acabou instalando Augusto Pinochet.
Os programas secretos dos EUA no Congo buscavam depor o primeiro-ministro Patrice Lumumba e instalar uma liderança mais pró-Ocidente, em meio a temores de influência e controle soviéticos sobre recursos estratégicos.
As operações não se limitavam à mudança de regime no exterior. Programas como a Operação CHAOS monitoravam movimentos políticos e dissidências, ilustrando como a lógica da inteligência enquadrava os próprios protestos como um campo de batalha geopolítico.
Os programas secretos dos EUA no Congo buscavam depor o primeiro-ministro Patrice Lumumba e instalar uma liderança mais pró-Ocidente, em meio a temores de influência e controle soviéticos sobre recursos estratégicos.
As operações não se limitavam à mudança de regime no exterior. Programas como a Operação CHAOS monitoravam movimentos políticos e dissidências, ilustrando como a lógica da inteligência enquadrava os próprios protestos como um campo de batalha geopolítico.
Esses casos demonstram uma doutrina recorrente de ação secreta como um estágio inicial de gestão geopolítica, moldando as condições antes que a intervenção aberta se torne politicamente viável.
Ironicamente, após décadas de interferência em regimes globais e em meio a assassinatos cometidos pelo ICE, a narrativa dominante propagada por Washington é a de que o Irã precisa de uma mudança de regime porque reprime a dissidência.
O Irã há muito tempo é um palco central para a competição entre serviços de inteligência. Analistas reconhecem a profunda infiltração da inteligência israelense no Irã. Relatórios indicam que agências de inteligência israelenses realizaram operações de sabotagem, assassinatos e campanhas de infiltração, incluindo o contrabando de drones e armas para o território iraniano e o uso de redes locais para atacar infraestrutura militar.
Em relação aos recentes movimentos de protesto, alguns analistas de defesa argumentam que agências de inteligência estrangeiras exploram ou até mesmo alimentam surtos internos. Especialistas citados pela Al Jazeera sugerem que agentes israelenses provavelmente atuam durante os protestos, coletando informações e amplificando as manifestações por meio de apoio à comunicação e estratégias de exposição.
Isso não significa que os protestos não tenham queixas internas genuínas. O Irã tem vivenciado dificuldades econômicas reais e repressão política. Em vez disso, a doutrina de inteligência historicamente trata a agitação como uma oportunidade, demonstrando total desrespeito pela população local, já que ela exacerba a violência e a instabilidade para criar brechas para operações de influência.
A atividade secreta muitas vezes funciona como preparação política. As operações de inteligência enfraquecem materialmente os adversários, ao mesmo tempo que moldam narrativas que fazem com que uma ação militar posterior pareça necessária ou inevitável.
A Operação Mongoose da CIA contra Cuba combinou explicitamente campanhas de propaganda com redes de inteligência e planejamento paramilitar, concebidos para gerar apoio à mudança de regime. A integração de propaganda e ação secreta ilustra como os objetivos militares são precedidos pela gestão da percepção.
Reportagens recentes sobre os ataques EUA-Israel contra o Irã mostram líderes apelando abertamente à população iraniana para que se levante contra o governo, enquanto o planejamento militar já estava em andamento há meses. Essa mensagem reflete um padrão familiar de intervenção disfarçada de libertação.
Os interesses geopolíticos, em oposição à preocupação humanitária, são os principais motivadores do confronto ocidental com o Irã.
O Irã ocupa uma posição estratégica singular, pois detém grandes reservas de petróleo e está situado ao lado do Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo mundial. O controle sobre a região e suas estruturas de alianças, portanto, influencia os cálculos políticos.
As sanções dos EUA contra as redes petrolíferas e as capacidades militares iranianas visam explicitamente restringir o poder econômico e regional do Irã. Os analistas consistentemente enquadram o Irã como um rival estratégico, e não como uma crise humanitária que exige proteção.
Nesse contexto, as alegações de que a intervenção busca principalmente defender civis iranianos revelam-se secundárias a objetivos mais amplos de segurança e economia.
A teoria do modelo de propaganda de Noam Chomsky e Edward Herman, desenvolvida em Manufacturing Consent (A Fabricação do Consenso), explica como os sistemas de mídia podem ajudar a gerar aprovação pública para agendas de política externa. O modelo argumenta que pressões estruturais – propriedade, dependência da publicidade, fornecimento de informações a instituições oficiais e enquadramento ideológico – moldam a cobertura jornalística e fabricam o consentimento para os interesses das elites.
Chomsky argumentou que a mídia distingue entre vítimas “dignas” e “indignas” dependendo do alinhamento geopolítico, amplificando os abusos cometidos por inimigos e minimizando aqueles cometidos por aliados. Essa assimetria ajuda a normalizar políticas intervencionistas.
Após a Guerra Fria, estudiosos influenciados por essa estrutura observam que a “guerra ao terror” substituiu o anticomunismo como filtro ideológico dominante, posicionando as sociedades muçulmanas como principais objetos de medo e suspeita.
O discurso da mídia ocidental mostra estereótipos persistentes de muçulmanos e do Islã nas narrativas jornalísticas. Uma análise baseada em corpus de jornais britânicos e americanos identificou enquadramentos de propaganda recorrentes que retratam muçulmanos por meio de imagens ameaçadoras e centradas em conflitos.
Estudos sobre mídias sociais após ataques terroristas também encontraram ondas substanciais de discurso culpando o Islã coletivamente, originárias de países ocidentais.
A islamofobia, portanto, funciona não apenas como preconceito, mas como um ambiente narrativo político no qual a violência militar se torna mais fácil de justificar. Quando populações são retratadas como inerentemente perigosas ou atrasadas, a guerra parece defensiva em vez de agressiva.
Muçulmanos e iranianos na diáspora enfrentam um dilema profundo. Muitos se opõem ao governo do Irã, mas permanecem cautelosos com a intervenção estrangeira de estados historicamente hostis à sua região e ao seu povo.
As evidências não sustentam uma narrativa simplista de que ‘os iranianos estão celebrando’ a intervenção ocidental ou israelense. Embora algumas vozes da oposição acolham a pressão sobre o regime, as reações são diversas e profundamente divididas, refletindo o medo da guerra, o nacionalismo e a desconfiança em relação às potências estrangeiras. A dissidência interna e a intervenção externa são vivenciadas como realidades separadas, e não como causas unificadas.
Essa ambiguidade gera tensão emocional e política na oposição ao autoritarismo e na resistência à dominação geopolítica.
Estudiosos da mídia e do discurso argumentam repetidamente que o público ocidental se depara com as sociedades muçulmanas principalmente por meio de narrativas de conflito desvinculadas do contexto cultural. O modelo de propaganda sugere que incentivos estruturais favorecem uma simplificação moral em detrimento de uma compreensão credível.
Práticas condenadas no exterior são frequentemente julgadas de forma diferente quando ocorrem em democracias ocidentais, uma discrepância que Chomsky destacou em comparações da cobertura midiática de estados aliados versus estados adversários.
Portanto, vale a pena questionar a autoridade moral de nações predominantemente cristãs, como os EUA, que condenam a repressão por parte de estados do mundo muçulmano, enquanto empregam policiamento agressivo, vigilância, normas ou legislações sexistas e políticas coercitivas em âmbito nacional ou internacional.
Além da geopolítica, existe uma civilização muito mais antiga que os conflitos modernos. O Irã é herdeiro das tradições persas que moldaram a matemática, a poesia, a arquitetura, a filosofia e a música ao longo dos séculos. Suas principais cidades carregam camadas de história que conectam impérios antigos à vida contemporânea. A língua persa, cuja literatura é uma das mais antigas, influenciou a estética global, desde a poesia mística até a pintura e as tradições da música clássica.
O Irã também possui uma longa e complexa história de movimentos políticos feministas. Essas lutas são frequentemente apropriadas tanto pelas elites nacionais quanto por potências estrangeiras que buscam justificativas morais para a intervenção. Quando a libertação das mulheres se torna um slogan dissociado das próprias vozes iranianas, corremos o risco de transformar lutas genuínas em meras estratégias de marketing geopolítico.
A verdadeira solidariedade exige escuta, e não imposição de soluções. Políticas formuladas como resgate podem reproduzir uma hierarquia antiga que posiciona o Ocidente como civilizacionalmente superior e as sociedades muçulmanas como objetos a serem corrigidos ou controlados.
Respeitar os iranianos significa reconhecer sua capacidade de ação, sua diversidade de pensamento político e seu direito de determinar seu próprio futuro. Qualquer coisa inferior a isso corre o risco de repetir a mesma lógica que justificou a intervenção, a dominação e a violência por gerações.
O caminho a seguir não é a dominação disfarçada de libertação, mas a humildade – o reconhecimento de que a compreensão deve preceder a ação e que a dignidade não pode ser conquistada por bombas ou propaganda.
Como Espinosa encontrou Exu
Venho pensando muito num antigo provérbio iorubá: “Exu matou um pássaro, ontem, com uma pedra que lançou hoje.”
Gostamos de imaginar o tempo como uma seta que corre em direção ao futuro. Estamos certos de que a causa precede o efeito. No início temos o gesto — a seguir, a consequência. Exu, senhor das encruzilhadas, ri-se às gargalhadas desta ingênua ilusão. O que nos diz o famoso ditado africano é que o ontem pode ser reescrito por aquilo que acontece agora.
A física quântica, com a sua defesa da retrocausalidade — a ideia de que decisões presentes afetam estados passados de partículas —, ecoa o pensamento iorubá.
Também Baruch Espinosa, o filósofo holandês de origem judaico-portuguesa, defendeu no século XVII um conjunto de ideias que se aproximam das filosofias animistas — sejam africanas ou indígenas brasileiras. Na concepção de Espinosa, Deus e Natureza são dois nomes para a mesma realidade. Todo o resto — a Humanidade incluída — são expressões temporárias dessa realidade. Não existem consciências autônomas. Há formas que surgem, se entrelaçam e se desfazem.
Espinosa não conhecia Exu. Contudo, as suas ideias dialogam harmoniosamente com a cosmogonia africana, para a qual tudo está ligado a tudo. Não somos ilhas. Somos simples nós numa extensa rede de forças. Convivemos com os que nos antecederam, dialogamos com os que ainda não nasceram, respiramos juntos, numa continuidade onde o passado permanece ativo.
Nesta ordem de ideias, o princípio de Ubuntu — “eu sou porque nós somos” — impõe-se não apenas como uma ética social, mas como ontologia.
Espinosa suspeitava que acolhendo estas ideias estaríamos pondo em causa o livre-arbítrio. Se somos formas de uma única substância, se existimos numa trama onde todos os instantes coexistem, que significa escolher? Talvez não possamos sair do plano. Mas podemos ser o lugar onde o plano se torna consciente de si.
A liberdade deixa então de ser a possibilidade de fazer diferente e passa a ser a experiência de participar. Não escolhemos o território, mas sentimos a encruzilhada. Essa sensação é real. A dúvida faz parte da arquitetura do mundo.
Também a responsabilidade muda de lugar. Ao ferirmos alguém não estamos, nesta perspectiva, a ofender uma lei imposta por um deus remoto — estamos diminuindo a potência da própria rede. Amar, ao contrário, é a forma que temos de expandir a realidade.
Exu não destrói a ordem. Revela que a ordem é apenas uma versão possível do movimento. Espinosa não nega Deus. Dissolve-o na Natureza inteira. Ambos, cada um à sua maneira, retiram o Homem do centro do palco.
Espinosa irritou os teólogos judeus ao expor-nos como simples personagens numa tapeçaria que não começa nem termina conosco. O ontem ainda está acontecendo, e continuará acontecendo amanhã. O futuro, pelo seu lado, tem raízes vivas, bem fincadas no presente.
Contudo, continuamos a escolher o que iremos comer no café da manhã, as palavras de amor ou de ódio, os pequenos e grandes gestos. Continuamos lançando pedras — hoje — sem saber que pássaros já tombaram ontem.
Gostamos de imaginar o tempo como uma seta que corre em direção ao futuro. Estamos certos de que a causa precede o efeito. No início temos o gesto — a seguir, a consequência. Exu, senhor das encruzilhadas, ri-se às gargalhadas desta ingênua ilusão. O que nos diz o famoso ditado africano é que o ontem pode ser reescrito por aquilo que acontece agora.
A física quântica, com a sua defesa da retrocausalidade — a ideia de que decisões presentes afetam estados passados de partículas —, ecoa o pensamento iorubá.
Também Baruch Espinosa, o filósofo holandês de origem judaico-portuguesa, defendeu no século XVII um conjunto de ideias que se aproximam das filosofias animistas — sejam africanas ou indígenas brasileiras. Na concepção de Espinosa, Deus e Natureza são dois nomes para a mesma realidade. Todo o resto — a Humanidade incluída — são expressões temporárias dessa realidade. Não existem consciências autônomas. Há formas que surgem, se entrelaçam e se desfazem.
Espinosa não conhecia Exu. Contudo, as suas ideias dialogam harmoniosamente com a cosmogonia africana, para a qual tudo está ligado a tudo. Não somos ilhas. Somos simples nós numa extensa rede de forças. Convivemos com os que nos antecederam, dialogamos com os que ainda não nasceram, respiramos juntos, numa continuidade onde o passado permanece ativo.
Nesta ordem de ideias, o princípio de Ubuntu — “eu sou porque nós somos” — impõe-se não apenas como uma ética social, mas como ontologia.
Espinosa suspeitava que acolhendo estas ideias estaríamos pondo em causa o livre-arbítrio. Se somos formas de uma única substância, se existimos numa trama onde todos os instantes coexistem, que significa escolher? Talvez não possamos sair do plano. Mas podemos ser o lugar onde o plano se torna consciente de si.
A liberdade deixa então de ser a possibilidade de fazer diferente e passa a ser a experiência de participar. Não escolhemos o território, mas sentimos a encruzilhada. Essa sensação é real. A dúvida faz parte da arquitetura do mundo.
Também a responsabilidade muda de lugar. Ao ferirmos alguém não estamos, nesta perspectiva, a ofender uma lei imposta por um deus remoto — estamos diminuindo a potência da própria rede. Amar, ao contrário, é a forma que temos de expandir a realidade.
Exu não destrói a ordem. Revela que a ordem é apenas uma versão possível do movimento. Espinosa não nega Deus. Dissolve-o na Natureza inteira. Ambos, cada um à sua maneira, retiram o Homem do centro do palco.
Espinosa irritou os teólogos judeus ao expor-nos como simples personagens numa tapeçaria que não começa nem termina conosco. O ontem ainda está acontecendo, e continuará acontecendo amanhã. O futuro, pelo seu lado, tem raízes vivas, bem fincadas no presente.
Contudo, continuamos a escolher o que iremos comer no café da manhã, as palavras de amor ou de ódio, os pequenos e grandes gestos. Continuamos lançando pedras — hoje — sem saber que pássaros já tombaram ontem.
quarta-feira, 4 de março de 2026
Quando a guerra ignora limites: a urgência de reafirmar o direito internacional
O direito internacional humanitário (DIH) representa o esforço mais consistente da comunidade internacional para preservar a dignidade humana em meio à guerra. Não impede conflitos, mas estabelece limites jurídicos claros e universais à condução das hostilidades. Seu propósito é essencial: proteger civis, restringir métodos e meios de combate e assegurar que, mesmo em cenários extremos, a humanidade permaneça como parâmetro mínimo de conduta entre Estados e demais atores armados.
O desafio contemporâneo não reside na ausência de normas. As convenções de Genebra e seus protocolos adicionais constituem um arcabouço jurídico sólido, amplamente ratificado e consolidado ao longo de décadas. A dificuldade está na aplicação efetiva, imparcial e consistente dessas regras diante de conflitos complexos, múltiplos grupos armados, tecnologias militares sofisticadas e operações híbridas, que ampliam a distância entre decisões operacionais e impactos humanitários.
Os conflitos atuais tendem a ser assimétricos, urbanos e prolongados. A distinção entre combatentes e civis tornou-se mais tênue, sobretudo em áreas densamente povoadas, onde infraestruturas essenciais se confundem com objetivos militares. Tecnologias de precisão coexistem com ataques cibernéticos e sistemas remotos de combate, submetendo princípios de distinção, proporcionalidade e necessidade militar a testes permanentes. A sofisticação tecnológica não elimina riscos para populações civis nem reduz a obrigação de cautela jurídica, reafirmando a necessidade de aplicação rigorosa do DIH.
Em diversos contextos, argumentos de segurança ou de combate a ameaças transnacionais têm sido utilizados para relativizar salvaguardas humanitárias. Embora respondam a perigos reais, a invocação recorrente e ampla de exceções enfraquece a previsibilidade e a autoridade da norma. A aplicação seletiva ou politizada do DIH compromete padrões civilizatórios consolidados ao longo do século 20. Ataques indiscriminados, deslocamentos forçados e restrições à assistência humanitária evidenciam a distância entre compromissos assumidos e sua implementação concreta.
Em um cenário de tensões regionais intensas e convulsões humanitárias recentes, civis enfrentam riscos elevados, afetando milhões de pessoas, incluindo deslocamentos forçados, interrupção de serviços essenciais e impactos sociais e econômicos de longo prazo. Esses desafios reforçam a urgência do cumprimento do DIH sem identificar países ou atores específicos, preservando neutralidade, relevância e universalidade e sublinhando o papel da comunidade internacional na defesa de padrões humanitários e na proteção de gerações futuras.
A responsabilização internacional continua central. Tribunais e mecanismos investigativos reafirmam que violações graves não podem ser naturalizadas nem tratadas como efeitos colaterais inevitáveis. Apesar de limitações políticas e operacionais, esses instrumentos sustentam que a proteção de civis não é mera recomendação moral, mas obrigação jurídica vinculante, reforçando a legitimidade e a credibilidade da ordem internacional.
A ONU permanece como espaço central de coordenação e supervisão multilateral. Resoluções, operações de paz, missões políticas e mecanismos de monitoramento buscam documentar violações e fortalecer a proteção de populações vulneráveis. Sua efetividade depende da convergência política entre Estados-membros, especialmente quando interesses estratégicos dificultam consensos no Conselho de Segurança, exigindo respostas coordenadas, firmes e sustentáveis para garantir segurança e dignidade a civis.
Reafirmar o DIH não significa ignorar preocupações legítimas de segurança. Significa reconhecer que proteger civis e limitar meios de combate não constitui obstáculo à segurança, mas condição de sua legitimidade. A estabilidade duradoura depende não apenas da dissuasão, mas da observância coerente de normas compartilhadas que preservem a dignidade humana mesmo em contextos de violência intensa.
Mesmo diante da guerra, a humanidade do outro permanece como parâmetro mínimo que distingue contenção de barbárie. Defender esse princípio não é gesto retórico, mas condição indispensável para que o direito cumpra sua função civilizatória. A observância consistente das normas humanitárias não apenas protege vidas, mas reforça a credibilidade da ordem internacional e sustenta a legitimidade do multilateralismo. Preservar esses limites é imperativo ético, político e estratégico: é o que garante que, mesmo nos cenários mais extremos, a guerra não se transforme em total ausência de civilidade.
O desafio contemporâneo não reside na ausência de normas. As convenções de Genebra e seus protocolos adicionais constituem um arcabouço jurídico sólido, amplamente ratificado e consolidado ao longo de décadas. A dificuldade está na aplicação efetiva, imparcial e consistente dessas regras diante de conflitos complexos, múltiplos grupos armados, tecnologias militares sofisticadas e operações híbridas, que ampliam a distância entre decisões operacionais e impactos humanitários.
Os conflitos atuais tendem a ser assimétricos, urbanos e prolongados. A distinção entre combatentes e civis tornou-se mais tênue, sobretudo em áreas densamente povoadas, onde infraestruturas essenciais se confundem com objetivos militares. Tecnologias de precisão coexistem com ataques cibernéticos e sistemas remotos de combate, submetendo princípios de distinção, proporcionalidade e necessidade militar a testes permanentes. A sofisticação tecnológica não elimina riscos para populações civis nem reduz a obrigação de cautela jurídica, reafirmando a necessidade de aplicação rigorosa do DIH.
Em diversos contextos, argumentos de segurança ou de combate a ameaças transnacionais têm sido utilizados para relativizar salvaguardas humanitárias. Embora respondam a perigos reais, a invocação recorrente e ampla de exceções enfraquece a previsibilidade e a autoridade da norma. A aplicação seletiva ou politizada do DIH compromete padrões civilizatórios consolidados ao longo do século 20. Ataques indiscriminados, deslocamentos forçados e restrições à assistência humanitária evidenciam a distância entre compromissos assumidos e sua implementação concreta.
Em um cenário de tensões regionais intensas e convulsões humanitárias recentes, civis enfrentam riscos elevados, afetando milhões de pessoas, incluindo deslocamentos forçados, interrupção de serviços essenciais e impactos sociais e econômicos de longo prazo. Esses desafios reforçam a urgência do cumprimento do DIH sem identificar países ou atores específicos, preservando neutralidade, relevância e universalidade e sublinhando o papel da comunidade internacional na defesa de padrões humanitários e na proteção de gerações futuras.
A responsabilização internacional continua central. Tribunais e mecanismos investigativos reafirmam que violações graves não podem ser naturalizadas nem tratadas como efeitos colaterais inevitáveis. Apesar de limitações políticas e operacionais, esses instrumentos sustentam que a proteção de civis não é mera recomendação moral, mas obrigação jurídica vinculante, reforçando a legitimidade e a credibilidade da ordem internacional.
A ONU permanece como espaço central de coordenação e supervisão multilateral. Resoluções, operações de paz, missões políticas e mecanismos de monitoramento buscam documentar violações e fortalecer a proteção de populações vulneráveis. Sua efetividade depende da convergência política entre Estados-membros, especialmente quando interesses estratégicos dificultam consensos no Conselho de Segurança, exigindo respostas coordenadas, firmes e sustentáveis para garantir segurança e dignidade a civis.
Reafirmar o DIH não significa ignorar preocupações legítimas de segurança. Significa reconhecer que proteger civis e limitar meios de combate não constitui obstáculo à segurança, mas condição de sua legitimidade. A estabilidade duradoura depende não apenas da dissuasão, mas da observância coerente de normas compartilhadas que preservem a dignidade humana mesmo em contextos de violência intensa.
Mesmo diante da guerra, a humanidade do outro permanece como parâmetro mínimo que distingue contenção de barbárie. Defender esse princípio não é gesto retórico, mas condição indispensável para que o direito cumpra sua função civilizatória. A observância consistente das normas humanitárias não apenas protege vidas, mas reforça a credibilidade da ordem internacional e sustenta a legitimidade do multilateralismo. Preservar esses limites é imperativo ético, político e estratégico: é o que garante que, mesmo nos cenários mais extremos, a guerra não se transforme em total ausência de civilidade.
De como vamos salvar os media (sem fingir que ainda não estão a arder)
Há uma ironia deliciosa — e um pouco desesperada — no facto de estarmos a discutir como salvar os media ao mesmo tempo que consumimos mais informação do que nunca. Nunca houve tantas notícias, tantas opiniões, tantos “especialistas”, tantos vídeos a explicar o mundo em 30 segundos. E, no entanto, raramente parece que percebemos melhor o que se passa. O ruído aumentou, a clareza diminuiu. A economia da atenção venceu a economia da verdade. E os media tradicionais, aqueles que supostamente deveriam organizar o caos, passaram a viver dentro dele.
O caso recente da campanha de crowdfunding da VISÃO não é apenas uma história portuguesa sobre uma revista que quer sobreviver. É um sintoma global. Um laboratório. Um aviso. E, possivelmente, uma pista para o futuro. Quando uma redação decide tentar comprar o próprio título para garantir independência editorial, está implicitamente a dizer duas coisas: que o modelo antigo falhou e que o novo ainda não está totalmente inventado.
Durante décadas, os media viveram de publicidade, influência e escala. Quem tinha mais páginas, mais antena ou mais tempo de emissão ganhava. A internet prometeu democratizar tudo, mas acabou por concentrar quase tudo nas plataformas. Hoje, a maior parte da receita publicitária não vai para quem produz jornalismo, mas para quem distribui distração. A informação tornou-se matéria-prima gratuita para algoritmos que não distinguem uma investigação de meses de um boato inventado num quarto.
É aqui que entra a ideia — quase revolucionária por parecer tão básica — de que o jornalismo deve ser financiado por quem o valoriza. Não por quem quer manipulá-lo, nem por quem quer apenas vender anúncios ao lado dele. O crowdfunding da VISÃO, tal como outras experiências internacionais, sugere que há leitores dispostos a pagar não apenas pelo conteúdo, mas pela existência do próprio jornalismo. Não é caridade. É investimento democrático.
A economista Julia Cagé — autora de Saving the Media-Capitalism, Crownfounding, and Democracy — defende há anos que o problema central dos media é estrutural: quem paga manda. Se os donos são conglomerados ou bilionários com agendas paralelas, a independência torna-se uma ficção elegante. O modelo que propõe — organizações sem fins lucrativos com participação de leitores e jornalistas — tenta resolver isso redistribuindo poder. Não é uma solução mágica, mas é uma tentativa de alinhar interesses: quem financia quer informação credível, não propaganda.
Ao mesmo tempo, surgem plataformas como a Substack, onde jornalistas criam relações diretas com leitores. Não é um paraíso — há desigualdades, bolhas e muito narcisismo digital — mas prova que existe público para jornalismo que não depende de cliques histéricos. A promessa é simples: menos intermediários, mais responsabilidade direta. O risco é transformar tudo em micro-nichos onde cada um lê apenas aquilo que confirma o que já pensa.
Salvar os media não é apenas encontrar dinheiro. É redefinir a função do jornalismo. Durante anos, as redacções habituaram-se a medir sucesso por audiências massivas e imediatas. Isso favorece conflito, escândalo e indignação permanente. A negatividade não é uma conspiração — é um reflexo de como as notícias sempre funcionaram — mas tornou-se um vício industrial. O jornalismo construtivo, defendido por gente como o jornalista dinamarquês Ulrik Haagerup, e o seu “jornalismo construtivo” que tenta introduzir uma certa nuance sem virar propaganda otimista. Não se trata de dar boas notícias, mas de dar notícias completas.
O problema é que a nuance não viraliza tão bem como indignação. E indignação (“o que sangra, vende”) paga contas, pelo menos a curto prazo.
Outro fator negativo dos media é a precariedade. As redações encolheram, os freelancers multiplicaram-se e a profissão perdeu estabilidade. Sem tempo e recursos, o jornalismo transforma-se em reescrita de comunicados. Depois perguntam porque é que o público desconfia. A confiança não desapareceu por acaso; evaporou com despedimentos, concentração empresarial e erros públicos amplificados pelas redes.
Mesmo assim, há sinais de esperança. O sucesso de assinaturas digitais em jornais como o The New York Times ou o francês Le Monde mostra que as pessoas pagam quando percebem valor e qualidade. Não pagam apenas por informação, pagam por credibilidade, contexto e continuidade. Pagam para que alguém faça perguntas difíceis.
O crowdfunding da Visão encaixa nessa lógica: não é nostalgia pelo papel, é defesa de uma função pública. Jornalismo como serviço essencial, mesmo quando não dá lucro imediato. Como a educação ou a saúde, a informação de qualidade é um bem público, mesmo quando é produzida por privados.
Mas convém não romantizar. Nem todo crowdfunding resulta. Nem toda independência editorial resiste à pressão económica. Nem todo jornalista quer ser empreendedor. E nem todos os leitores querem pagar. O futuro dos media será inevitavelmente híbrido: assinaturas, eventos, financiamento coletivo, parcerias e, sim, alguma publicidade. O segredo não é eliminar modelos antigos, mas impedir que um só controle tudo.
Salvar os media implica aceitar uma verdade incómoda: não há jornalismo gratuito. Alguém paga sempre. A questão é quem e com que interesses.
Talvez a resposta esteja em algo mais simples do que teorias grandiosas: comunidades. Quando leitores se sentem parte de um projeto, defendem-no. Quando jornalistas sentem que respondem a leitores e não a acionistas invisíveis, trabalham de forma diferente. A relação deixa de ser consumo e passa a ser compromisso.
No fundo, salvar os media é recolocar pessoas acima de plataformas. Significa trocar algoritmos por confiança, escala por relevância, velocidade por profundidade. Não é voltar ao passado é inventar um futuro onde o jornalismo volta a ser necessário e não apenas barulhento.
O crowdfunding da VISÃO não vai resolver tudo. Mas lembra algo essencial: o jornalismo só sobrevive se alguém acreditar nele o suficiente para o sustentar. E isso, num tempo de cinismo generalizado, já é quase um milagre.
Salvar os media não será um gesto heróico nem uma tecnologia milagrosa. Será um processo lento, imperfeito e cheio de contradições. Mas começa sempre da mesma forma: alguém decide que vale a pena continuar a contar histórias verdadeiras e alguém decide que vale a pena ouvi-las.
O caso recente da campanha de crowdfunding da VISÃO não é apenas uma história portuguesa sobre uma revista que quer sobreviver. É um sintoma global. Um laboratório. Um aviso. E, possivelmente, uma pista para o futuro. Quando uma redação decide tentar comprar o próprio título para garantir independência editorial, está implicitamente a dizer duas coisas: que o modelo antigo falhou e que o novo ainda não está totalmente inventado.
Durante décadas, os media viveram de publicidade, influência e escala. Quem tinha mais páginas, mais antena ou mais tempo de emissão ganhava. A internet prometeu democratizar tudo, mas acabou por concentrar quase tudo nas plataformas. Hoje, a maior parte da receita publicitária não vai para quem produz jornalismo, mas para quem distribui distração. A informação tornou-se matéria-prima gratuita para algoritmos que não distinguem uma investigação de meses de um boato inventado num quarto.
É aqui que entra a ideia — quase revolucionária por parecer tão básica — de que o jornalismo deve ser financiado por quem o valoriza. Não por quem quer manipulá-lo, nem por quem quer apenas vender anúncios ao lado dele. O crowdfunding da VISÃO, tal como outras experiências internacionais, sugere que há leitores dispostos a pagar não apenas pelo conteúdo, mas pela existência do próprio jornalismo. Não é caridade. É investimento democrático.
A economista Julia Cagé — autora de Saving the Media-Capitalism, Crownfounding, and Democracy — defende há anos que o problema central dos media é estrutural: quem paga manda. Se os donos são conglomerados ou bilionários com agendas paralelas, a independência torna-se uma ficção elegante. O modelo que propõe — organizações sem fins lucrativos com participação de leitores e jornalistas — tenta resolver isso redistribuindo poder. Não é uma solução mágica, mas é uma tentativa de alinhar interesses: quem financia quer informação credível, não propaganda.
Ao mesmo tempo, surgem plataformas como a Substack, onde jornalistas criam relações diretas com leitores. Não é um paraíso — há desigualdades, bolhas e muito narcisismo digital — mas prova que existe público para jornalismo que não depende de cliques histéricos. A promessa é simples: menos intermediários, mais responsabilidade direta. O risco é transformar tudo em micro-nichos onde cada um lê apenas aquilo que confirma o que já pensa.
Salvar os media não é apenas encontrar dinheiro. É redefinir a função do jornalismo. Durante anos, as redacções habituaram-se a medir sucesso por audiências massivas e imediatas. Isso favorece conflito, escândalo e indignação permanente. A negatividade não é uma conspiração — é um reflexo de como as notícias sempre funcionaram — mas tornou-se um vício industrial. O jornalismo construtivo, defendido por gente como o jornalista dinamarquês Ulrik Haagerup, e o seu “jornalismo construtivo” que tenta introduzir uma certa nuance sem virar propaganda otimista. Não se trata de dar boas notícias, mas de dar notícias completas.
O problema é que a nuance não viraliza tão bem como indignação. E indignação (“o que sangra, vende”) paga contas, pelo menos a curto prazo.
Outro fator negativo dos media é a precariedade. As redações encolheram, os freelancers multiplicaram-se e a profissão perdeu estabilidade. Sem tempo e recursos, o jornalismo transforma-se em reescrita de comunicados. Depois perguntam porque é que o público desconfia. A confiança não desapareceu por acaso; evaporou com despedimentos, concentração empresarial e erros públicos amplificados pelas redes.
Mesmo assim, há sinais de esperança. O sucesso de assinaturas digitais em jornais como o The New York Times ou o francês Le Monde mostra que as pessoas pagam quando percebem valor e qualidade. Não pagam apenas por informação, pagam por credibilidade, contexto e continuidade. Pagam para que alguém faça perguntas difíceis.
O crowdfunding da Visão encaixa nessa lógica: não é nostalgia pelo papel, é defesa de uma função pública. Jornalismo como serviço essencial, mesmo quando não dá lucro imediato. Como a educação ou a saúde, a informação de qualidade é um bem público, mesmo quando é produzida por privados.
Mas convém não romantizar. Nem todo crowdfunding resulta. Nem toda independência editorial resiste à pressão económica. Nem todo jornalista quer ser empreendedor. E nem todos os leitores querem pagar. O futuro dos media será inevitavelmente híbrido: assinaturas, eventos, financiamento coletivo, parcerias e, sim, alguma publicidade. O segredo não é eliminar modelos antigos, mas impedir que um só controle tudo.
Salvar os media implica aceitar uma verdade incómoda: não há jornalismo gratuito. Alguém paga sempre. A questão é quem e com que interesses.
Talvez a resposta esteja em algo mais simples do que teorias grandiosas: comunidades. Quando leitores se sentem parte de um projeto, defendem-no. Quando jornalistas sentem que respondem a leitores e não a acionistas invisíveis, trabalham de forma diferente. A relação deixa de ser consumo e passa a ser compromisso.
No fundo, salvar os media é recolocar pessoas acima de plataformas. Significa trocar algoritmos por confiança, escala por relevância, velocidade por profundidade. Não é voltar ao passado é inventar um futuro onde o jornalismo volta a ser necessário e não apenas barulhento.
O crowdfunding da VISÃO não vai resolver tudo. Mas lembra algo essencial: o jornalismo só sobrevive se alguém acreditar nele o suficiente para o sustentar. E isso, num tempo de cinismo generalizado, já é quase um milagre.
Salvar os media não será um gesto heróico nem uma tecnologia milagrosa. Será um processo lento, imperfeito e cheio de contradições. Mas começa sempre da mesma forma: alguém decide que vale a pena continuar a contar histórias verdadeiras e alguém decide que vale a pena ouvi-las.
O Nobel de pólvora de Trump no Irã
Donald Trump sempre gostou de vender a imagem do negociador implacável que traria a paz ao mundo. Pois bem, o figurino caiu.
Em um pronunciamento unilateral – sem o incômodo de jornalistas fazendo perguntas -, Trump tentou justificar os ataques ao Irã com um amontoado de meias verdades e a velha retórica do “perigo nuclear”.
O que Trump não disse é que os ataques ocorreram na antivéspera de uma rodada crucial de negociações em Viena. Enquanto diplomatas se preparavam para tentar restabelecer o acordo nuclear, os mísseis americanos e israelenses trataram de “decapitar” a liderança iraniana em Teerã.
A gravidade do lance reside na ausência de lastro factual. Não foram apresentadas provas de que o programa nuclear do Irã havia sido descongelado ou de que o país possuía mísseis prontos para um ataque iminente.
Sem evidências e sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, Trump resolveu agir por conta própria, ignorando ritos e atropelando aliados.
Esta é uma guerra que parece interessar muito mais ao governo de Israel do que aos próprios Estados Unidos. Trump, que pleiteava o Prêmio Nobel da Paz por supostamente interromper conflitos, agora mergulha o planeta em uma incerteza perigosa.
O que era para ser uma “operação rapidíssima” já virou, nas palavras do próprio presidente, uma guerra que pode durar semanas – ou meses.
A máscara de “pacificador” ficou no chão do Salão Oval. No xadrez do Oriente Médio, Trump preferiu o xeque-mate sangrento à paciência da diplomacia. O mundo, que esperava a estabilidade prometida em campanha, agora assiste ao espetáculo da destruição transmitido ao vivo.
Certamente não é a paz mundial quem ganha com isso.
Em um pronunciamento unilateral – sem o incômodo de jornalistas fazendo perguntas -, Trump tentou justificar os ataques ao Irã com um amontoado de meias verdades e a velha retórica do “perigo nuclear”.
O que Trump não disse é que os ataques ocorreram na antivéspera de uma rodada crucial de negociações em Viena. Enquanto diplomatas se preparavam para tentar restabelecer o acordo nuclear, os mísseis americanos e israelenses trataram de “decapitar” a liderança iraniana em Teerã.
A gravidade do lance reside na ausência de lastro factual. Não foram apresentadas provas de que o programa nuclear do Irã havia sido descongelado ou de que o país possuía mísseis prontos para um ataque iminente.
Sem evidências e sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, Trump resolveu agir por conta própria, ignorando ritos e atropelando aliados.
Esta é uma guerra que parece interessar muito mais ao governo de Israel do que aos próprios Estados Unidos. Trump, que pleiteava o Prêmio Nobel da Paz por supostamente interromper conflitos, agora mergulha o planeta em uma incerteza perigosa.
O que era para ser uma “operação rapidíssima” já virou, nas palavras do próprio presidente, uma guerra que pode durar semanas – ou meses.
A máscara de “pacificador” ficou no chão do Salão Oval. No xadrez do Oriente Médio, Trump preferiu o xeque-mate sangrento à paciência da diplomacia. O mundo, que esperava a estabilidade prometida em campanha, agora assiste ao espetáculo da destruição transmitido ao vivo.
Certamente não é a paz mundial quem ganha com isso.
Porque caíram na asneira de o eleger?
Segundo estudos recentes do Pew Research Center realizados em finais de janeiro, os cidadãos norte-americanos olham de forma mais negativa do que positiva para o Presidente e alguns membros importantes da sua administração. Quase 60% dos inquiridos declararam ter uma visão desfavorável de Donald Trump enquanto 40% têm uma visão favorável.
De igual modo, mais de metade dos cidadãos vê também o vice-presidente JD Vance de forma desfavorável, e apenas menos de 40% dizem ter uma opinião positiva. Curiosamente, quase um em cada dez afirmam que nunca ouviram falar dele. Vance protagonizou um dos mais notáveis golpes de rins da política americana, uma vez que em tempos considerava que as propostas políticas de Trump eram “imorais e absurdas” e que ele era “inadequado” para presidente. Chamou-lhe “heroína cultural”, “idiota” e “Hitler da América”. Afirmou “Nunca gostei dele” e “Não tenho estômago para o Trump”.
Mas o panorama castiga igualmente alguns outros membros importantes do governo de Washington, como o inenarrável secretário da Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., pois 48% dos inquiridos têm uma opinião desfavorável da sua ação política. O secretário de Estado Marco Rubio também perde na opinião pública (44% contra e 34% a favor). Cerca de dois em cada dez dizem que nunca ouviram falar dele. Provavelmente é mais conhecido fora dos Estados Unidos do que dentro. Apesar de conhecerem menos bem o Secretário de Defesa Pete Hegseth – já que cerca de um terço (31%) diz nunca ter ouvido falar dele – a verdade é que mesmo assim só consegue reunir 41% de opiniões positivas contra 26% negativas.
Donald Trump chega ao fim de um ano de mandato com a economia a patinar e os consumidores americanos a pagar do seu bolso as taxas que inventou para tentar punir os países que não alinham com a sua política. Além disso, empreendeu diversas ações para controlar a imprensa, e destratar jornalistas e órgãos de comunicação tornou-se o pão nosso de cada dia. Tem às costas a morte de vários migrantes às mãos do ICE, uma espécie de SS nazi a qual, de caminho, assassinou cidadãos americanos pacíficos.
Trump deitou para o lixo os famosos equilíbrios de poder – “checks and balances” – do sistema político americano, transfigurando o regime cada vez mais numa autocracia. É conhecido o fascínio que tem por Putin e no fundo gostava de governar com as mãos completamente livres como o ditador russo.
Ele afronta a imprensa, os tribunais, as universidades, os adversários políticos, a Reserva Federal, insulta reiteradamente anteriores presidentes, em especial Biden e Obama, exige receber o Nobel da Paz, e apesar de atolado até às orelhas no caso Epstein, mandou esconder as provas documentais que o iriam comprometer. Está rodeado duma corja de vira-casacas e yes men.
Já declarou querer anexar a Gronelândia, ameaçou fazer o mesmo com o Canadá, tomar posse do Canal do Panamá, destrata constantemente a Europa e humilhou Zelensky na Sala Oval perante o mundo. O seu Board of Peace, que é uma excrescência do direito internacional, apenas se destina a destruir a ONU e a potenciar negócios pessoais e da família. Continua a mentir, sustentando que ganhou as eleições a Biden. E se puder tentará contornar a lei, candidatar-se de novo e manter-se no poder até ao fim da vida.
Este comportamento errático, imprevisível e perigoso quando se trata do país mais poderoso do mundo, já levou um grupo de psiquiatras dos EUA a sugerir que o Presidente devia ser submetido a um exame mental, para aferir das suas faculdades.
Quase sete em cada dez americanos (69%) dizem que Trump está a tentar exercer mais poder do que os antecessores, o que é mau para o país. Menos de um ano depois de iniciar o segundo mandato, o Presidente já tinha emitido mais decretos executivos do que em todo o primeiro mandato. Mais de metade dos cidadãos dizem que as ações do governo foram piores do que esperavam. A sua taxa de aprovação continua a descer, está em 37%, abaixo dos 40% registados no outono. A maioria considera que Trump está a piorar claramente o funcionamento do governo.
Como não resiste ao cheiro a petróleo, fez o que fez em Caracas e iniciou agora uma guerra contra o Irão, a meses de umas eleições que lhe podem condicionar o poder, guerra que a maioria do povo norte-americano reprova.
A pergunta que se impõe é esta: por que razão os norte-americanos arriscaram elegê-lo de novo, depois do desastre do seu primeiro mandato? Agora torcem a orelha. Temos pena.
José Brissos-Lino
De igual modo, mais de metade dos cidadãos vê também o vice-presidente JD Vance de forma desfavorável, e apenas menos de 40% dizem ter uma opinião positiva. Curiosamente, quase um em cada dez afirmam que nunca ouviram falar dele. Vance protagonizou um dos mais notáveis golpes de rins da política americana, uma vez que em tempos considerava que as propostas políticas de Trump eram “imorais e absurdas” e que ele era “inadequado” para presidente. Chamou-lhe “heroína cultural”, “idiota” e “Hitler da América”. Afirmou “Nunca gostei dele” e “Não tenho estômago para o Trump”.
Mas o panorama castiga igualmente alguns outros membros importantes do governo de Washington, como o inenarrável secretário da Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., pois 48% dos inquiridos têm uma opinião desfavorável da sua ação política. O secretário de Estado Marco Rubio também perde na opinião pública (44% contra e 34% a favor). Cerca de dois em cada dez dizem que nunca ouviram falar dele. Provavelmente é mais conhecido fora dos Estados Unidos do que dentro. Apesar de conhecerem menos bem o Secretário de Defesa Pete Hegseth – já que cerca de um terço (31%) diz nunca ter ouvido falar dele – a verdade é que mesmo assim só consegue reunir 41% de opiniões positivas contra 26% negativas.
Donald Trump chega ao fim de um ano de mandato com a economia a patinar e os consumidores americanos a pagar do seu bolso as taxas que inventou para tentar punir os países que não alinham com a sua política. Além disso, empreendeu diversas ações para controlar a imprensa, e destratar jornalistas e órgãos de comunicação tornou-se o pão nosso de cada dia. Tem às costas a morte de vários migrantes às mãos do ICE, uma espécie de SS nazi a qual, de caminho, assassinou cidadãos americanos pacíficos.
Trump deitou para o lixo os famosos equilíbrios de poder – “checks and balances” – do sistema político americano, transfigurando o regime cada vez mais numa autocracia. É conhecido o fascínio que tem por Putin e no fundo gostava de governar com as mãos completamente livres como o ditador russo.
Ele afronta a imprensa, os tribunais, as universidades, os adversários políticos, a Reserva Federal, insulta reiteradamente anteriores presidentes, em especial Biden e Obama, exige receber o Nobel da Paz, e apesar de atolado até às orelhas no caso Epstein, mandou esconder as provas documentais que o iriam comprometer. Está rodeado duma corja de vira-casacas e yes men.
Já declarou querer anexar a Gronelândia, ameaçou fazer o mesmo com o Canadá, tomar posse do Canal do Panamá, destrata constantemente a Europa e humilhou Zelensky na Sala Oval perante o mundo. O seu Board of Peace, que é uma excrescência do direito internacional, apenas se destina a destruir a ONU e a potenciar negócios pessoais e da família. Continua a mentir, sustentando que ganhou as eleições a Biden. E se puder tentará contornar a lei, candidatar-se de novo e manter-se no poder até ao fim da vida.
Este comportamento errático, imprevisível e perigoso quando se trata do país mais poderoso do mundo, já levou um grupo de psiquiatras dos EUA a sugerir que o Presidente devia ser submetido a um exame mental, para aferir das suas faculdades.
Quase sete em cada dez americanos (69%) dizem que Trump está a tentar exercer mais poder do que os antecessores, o que é mau para o país. Menos de um ano depois de iniciar o segundo mandato, o Presidente já tinha emitido mais decretos executivos do que em todo o primeiro mandato. Mais de metade dos cidadãos dizem que as ações do governo foram piores do que esperavam. A sua taxa de aprovação continua a descer, está em 37%, abaixo dos 40% registados no outono. A maioria considera que Trump está a piorar claramente o funcionamento do governo.
Como não resiste ao cheiro a petróleo, fez o que fez em Caracas e iniciou agora uma guerra contra o Irão, a meses de umas eleições que lhe podem condicionar o poder, guerra que a maioria do povo norte-americano reprova.
A pergunta que se impõe é esta: por que razão os norte-americanos arriscaram elegê-lo de novo, depois do desastre do seu primeiro mandato? Agora torcem a orelha. Temos pena.
José Brissos-Lino
segunda-feira, 2 de março de 2026
Ouçam só o que vos digo
Não confiem nos vossos olhos. A mulher que veem a sorrir para o polícia que a mata está a ameaçá-lo. O homem baleado no chão várias vezes depois de ter sido desarmado era um perigo. Toda a gente sabe que quem não deve não teme. Se os agentes os mataram, a culpa foi deles. Não confiem em quem vos manipula. Duvidem de tudo. Duvidem sempre. Só não duvidem do que vos diz aquele que é a voz do povo.
A voz do povo só tem um intérprete. Um escolhido. Um eleito. Eleito por Deus, primeiro, e pelos vossos votos depois. A ordem é esta. Nunca se esqueçam da ordem. A ordem é uma coisa muito importante. Sem ordem é tudo uma bandalheira. Mas calma. Há coisas que se podem proibir e outras que não. Porque, senão, qualquer dia já não se pode dizer nada. Quem sabe o que se pode dizer e o que não se deve sequer pensar? O eleito, claro. Devemos sempre confiar em quem é eleito, mas nem sempre nas eleições. As eleições são a expressão da voz do povo quando o eleito as conquista, mas não valem nada e são manipuladas quando o eleito as perde. Porque o que conta é ser escolhido por Deus. E por isso é que ele é eleito.
Não confiem nos vossos ouvidos. Se ouviram dizer uma coisa e depois outra, é porque entretanto as coisas mudaram ou uma voz divina guiou o eleito noutra direção. A voz divina é a voz do povo. Por isso, o povo já não precisa de falar. Tem os seus ventríloquos. E pode trabalhar e meter-se na sua vida. Porque a política é uma coisa suja, a não ser que seja feita pelo eleito, claro. Nesse caso, nem se lhe pode bem chamar política. É só fazer o que está certo.
Às vezes, o que está certo causa vítimas. Há uns bandidos que morrem ou uns preguiçosos que perdem o trabalho ou a casa. Isso não muda nada. Toda a gente sabe que Deus escreve direito por linhas tortas. E as linhas do Excel podem ser muito tortas, mesmo que pareçam uma quadrícula perfeita. Se as contas batem certo, que se lixem as pessoas. Toda a gente sabe que só não prospera quem não trabalha, só morre à fome quem se pôs a jeito, só definha por falta de cuidados quem não merece viver. É a seleção natural. A ordem natural das coisas. E a ordem é muito importante.
Não confiem nos vossos instintos. O vizinho de turbante que vos parece simpático e pacífico está a enganar-vos. O cigano que trabalha é uma exceção. O imigrante que foi ajudar nos incêndios ou nas cheias é uma criação de Inteligência Artificial. Tudo falso. Falso como todas as mentiras a que chamam notícias e factos e estatísticas. O que é que valem as estatísticas quando se conhece um caso que as desmonta? O que é que vale a ciência, feita por um bando de vendidos? O que é que interessa que tenha sido o progresso científico a aumentar a esperança de vida? Balelas. Toda a gente tem uma avó que viveu rija que nem um pero até aos 100 sem precisar de nada disso.
E o que é que interessam as crianças que agonizam em Gaza? E as do Sudão? E as da Ucrânia? Há tantos lugares onde as crianças agonizam. Quantos mais houver, menos se liga a cada um deles. E assim é que está bem. Temos de cuidar dos nossos primeiro. Os nossos, sim, os nossos. Os nossos que são tão brancos como nós, apesar de haver uns mais brancos do que nós que nos acham escuros e inferiores, mas isso não vem ao caso.
É preciso salvar as crianças. Não as que morrem da guerra e da fome. As que tomam vacinas e as que vão à escola para serem endoutrinadas. Qualquer dia estão todas a ir às mesmas casas de banho. E já se sabe que é assim que se dá a pedofilia. Sim, em casa usam todas as mesmas casas de banho e os jornais estão cheios de notícias de pais, tios e avôs abusadores. E às vezes até um ou outro eleito. Mas isso são coisas que escrevem para nos distrair dos perigos verdadeiros. Tudo jornalixo feito por vendidos do sistema.
Temos de deitar abaixo o sistema. E é por isso que contamos com o apoio dos mais ricos dos mais ricos, que entretanto garantem que ficam ainda mais ricos. É claro que eles estão também contra o sistema. Sim, eles têm dinheiro e poder quase infinito. Mas estão contra os que andam a mamar. Sim, eles acumulam milhões em contratos públicos, subsídios e benefícios fiscais, mas é porque merecem. Só são ricos porque se esforçaram. Podem ter herdado, mas não esbanjaram tudo como aqueles que recebem apoios sociais e passam a tarde a beber minis no café. Podem ser pouco mais de 200 euros, mas é um roubo. Roubam-nos a nós que nos esfalfamos a trabalhar para pagar impostos. Sim, os mais ricos não pagam impostos quase nenhuns, mas é porque são espertos.
É preciso é ser esperto. Somos contra os tachos. Mas se um dos eleitos é apanhado a roubar ou nomear a namorada, a tia e a sobrinha é porque os outros também o fazem. Eles são todos iguais. Escolhemos os eleitos porque estamos fartos de que sejam iguais. Mas aceitamos que sejam iguais, porque essa é a ordem natural das coisas. Já vos disse que a ordem é muito importante?
A ordem é a base de tudo. Mas primeiro é preciso criar a desordem. É preciso que não se saiba no que acreditar, que tudo pareça precário, incerto e inseguro. As ovelhas com medo são as que mais facilmente seguem o pastor. E é tudo pelo nosso bem. Já vos disse que o eleito foi escolhido por Deus.
Deus, Pátria e Família. Deus, porque é preciso haver quem mande. E a quem temer. Sem medo, isto é tudo uma bandalheira. Pátria, porque é preciso fingir que há uma coisa maior que une os mais poderosos dos poderosos aos miseráveis que os seguem alegremente. É preciso ter inimigos e as fronteiras são boas para isso. Há os de cá e os de lá. O que é que interessa que haja uns poucos no topo e milhões espezinhados na base? E a família, claro. Porque é a família que tem de nos cuidar quando precisamos. Não há cá direitos garantidos. Querem ajuda? Peçam à família. E na família manda o pai, claro, ele próprio um eleito à sua pequena escala, com livre passe para descarregar na mulher e nos filhos a frustração acumulada, que isto um homem não é de ferro. E se tudo continua mal, ao menos há futebol e pimba, que já ninguém liga ao fado e Fátima é coisa para mulheres se entreterem e perceberem o seu lugar.
Toda a gente tem um lugar. Há os que são de cá e os que são de fora. Há os que estão em cima e os que estão em baixo. O quê? Isso parece o sistema? Que conversa de comunas! Caladinhos. Vão ver como as coisas lhes mordem quando houver uma limpeza. Acabam-se os disparates, que a conversa do “isto agora não se pode dizer nada” é só quando nos convém. Perdão. Quando convém à ordem. Somos contra o sistema, mas queremos manter tudo como estava desde os tempos do Adão e da Eva. Já vos disse que a ordem é muito importante?
A voz do povo só tem um intérprete. Um escolhido. Um eleito. Eleito por Deus, primeiro, e pelos vossos votos depois. A ordem é esta. Nunca se esqueçam da ordem. A ordem é uma coisa muito importante. Sem ordem é tudo uma bandalheira. Mas calma. Há coisas que se podem proibir e outras que não. Porque, senão, qualquer dia já não se pode dizer nada. Quem sabe o que se pode dizer e o que não se deve sequer pensar? O eleito, claro. Devemos sempre confiar em quem é eleito, mas nem sempre nas eleições. As eleições são a expressão da voz do povo quando o eleito as conquista, mas não valem nada e são manipuladas quando o eleito as perde. Porque o que conta é ser escolhido por Deus. E por isso é que ele é eleito.
Não confiem nos vossos ouvidos. Se ouviram dizer uma coisa e depois outra, é porque entretanto as coisas mudaram ou uma voz divina guiou o eleito noutra direção. A voz divina é a voz do povo. Por isso, o povo já não precisa de falar. Tem os seus ventríloquos. E pode trabalhar e meter-se na sua vida. Porque a política é uma coisa suja, a não ser que seja feita pelo eleito, claro. Nesse caso, nem se lhe pode bem chamar política. É só fazer o que está certo.
Às vezes, o que está certo causa vítimas. Há uns bandidos que morrem ou uns preguiçosos que perdem o trabalho ou a casa. Isso não muda nada. Toda a gente sabe que Deus escreve direito por linhas tortas. E as linhas do Excel podem ser muito tortas, mesmo que pareçam uma quadrícula perfeita. Se as contas batem certo, que se lixem as pessoas. Toda a gente sabe que só não prospera quem não trabalha, só morre à fome quem se pôs a jeito, só definha por falta de cuidados quem não merece viver. É a seleção natural. A ordem natural das coisas. E a ordem é muito importante.
Não confiem nos vossos instintos. O vizinho de turbante que vos parece simpático e pacífico está a enganar-vos. O cigano que trabalha é uma exceção. O imigrante que foi ajudar nos incêndios ou nas cheias é uma criação de Inteligência Artificial. Tudo falso. Falso como todas as mentiras a que chamam notícias e factos e estatísticas. O que é que valem as estatísticas quando se conhece um caso que as desmonta? O que é que vale a ciência, feita por um bando de vendidos? O que é que interessa que tenha sido o progresso científico a aumentar a esperança de vida? Balelas. Toda a gente tem uma avó que viveu rija que nem um pero até aos 100 sem precisar de nada disso.
E o que é que interessam as crianças que agonizam em Gaza? E as do Sudão? E as da Ucrânia? Há tantos lugares onde as crianças agonizam. Quantos mais houver, menos se liga a cada um deles. E assim é que está bem. Temos de cuidar dos nossos primeiro. Os nossos, sim, os nossos. Os nossos que são tão brancos como nós, apesar de haver uns mais brancos do que nós que nos acham escuros e inferiores, mas isso não vem ao caso.
É preciso salvar as crianças. Não as que morrem da guerra e da fome. As que tomam vacinas e as que vão à escola para serem endoutrinadas. Qualquer dia estão todas a ir às mesmas casas de banho. E já se sabe que é assim que se dá a pedofilia. Sim, em casa usam todas as mesmas casas de banho e os jornais estão cheios de notícias de pais, tios e avôs abusadores. E às vezes até um ou outro eleito. Mas isso são coisas que escrevem para nos distrair dos perigos verdadeiros. Tudo jornalixo feito por vendidos do sistema.
Temos de deitar abaixo o sistema. E é por isso que contamos com o apoio dos mais ricos dos mais ricos, que entretanto garantem que ficam ainda mais ricos. É claro que eles estão também contra o sistema. Sim, eles têm dinheiro e poder quase infinito. Mas estão contra os que andam a mamar. Sim, eles acumulam milhões em contratos públicos, subsídios e benefícios fiscais, mas é porque merecem. Só são ricos porque se esforçaram. Podem ter herdado, mas não esbanjaram tudo como aqueles que recebem apoios sociais e passam a tarde a beber minis no café. Podem ser pouco mais de 200 euros, mas é um roubo. Roubam-nos a nós que nos esfalfamos a trabalhar para pagar impostos. Sim, os mais ricos não pagam impostos quase nenhuns, mas é porque são espertos.
É preciso é ser esperto. Somos contra os tachos. Mas se um dos eleitos é apanhado a roubar ou nomear a namorada, a tia e a sobrinha é porque os outros também o fazem. Eles são todos iguais. Escolhemos os eleitos porque estamos fartos de que sejam iguais. Mas aceitamos que sejam iguais, porque essa é a ordem natural das coisas. Já vos disse que a ordem é muito importante?
A ordem é a base de tudo. Mas primeiro é preciso criar a desordem. É preciso que não se saiba no que acreditar, que tudo pareça precário, incerto e inseguro. As ovelhas com medo são as que mais facilmente seguem o pastor. E é tudo pelo nosso bem. Já vos disse que o eleito foi escolhido por Deus.
Deus, Pátria e Família. Deus, porque é preciso haver quem mande. E a quem temer. Sem medo, isto é tudo uma bandalheira. Pátria, porque é preciso fingir que há uma coisa maior que une os mais poderosos dos poderosos aos miseráveis que os seguem alegremente. É preciso ter inimigos e as fronteiras são boas para isso. Há os de cá e os de lá. O que é que interessa que haja uns poucos no topo e milhões espezinhados na base? E a família, claro. Porque é a família que tem de nos cuidar quando precisamos. Não há cá direitos garantidos. Querem ajuda? Peçam à família. E na família manda o pai, claro, ele próprio um eleito à sua pequena escala, com livre passe para descarregar na mulher e nos filhos a frustração acumulada, que isto um homem não é de ferro. E se tudo continua mal, ao menos há futebol e pimba, que já ninguém liga ao fado e Fátima é coisa para mulheres se entreterem e perceberem o seu lugar.
Toda a gente tem um lugar. Há os que são de cá e os que são de fora. Há os que estão em cima e os que estão em baixo. O quê? Isso parece o sistema? Que conversa de comunas! Caladinhos. Vão ver como as coisas lhes mordem quando houver uma limpeza. Acabam-se os disparates, que a conversa do “isto agora não se pode dizer nada” é só quando nos convém. Perdão. Quando convém à ordem. Somos contra o sistema, mas queremos manter tudo como estava desde os tempos do Adão e da Eva. Já vos disse que a ordem é muito importante?
Trump sendo Trump no Discurso do Estado da União
Discursos do Estado da União fazem parte do rito anual de todo presidente dos Estados Unidos. Costumam ser longos e enfadonhos. Servem, em teoria, para o mandatário prestar contas ao Congresso sobre o que fez e pretende fazer. O desempenho de Donald Trump na noite de terça-feira foi um exercício de embevecimento fascista com a própria voz. Durante uma hora e 47 minutos, embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos e transformou o plenário do Capitólio em claque de auditório.
O Grande Comunicador sabia ter em mãos um trunfo que obliteraria a canseira dos presentes. Dois dias antes, o time masculino de hóquei no gelo derrotara o arqui-inimigo Canadá de forma espetacular em Milão-Cortina. Comemoravam o cobiçado ouro olímpico no vestiário da Arena Santagiulia quando Trump adentrou a festança pelo celular do diretor do FBI, Kash Patel, que atravessara o Atlântico para assistir à final:
— Inacreditável! Fantástico! Teremos o discurso do Estado da União na terça-feira. Posso mandar um avião militar ou qualquer outra coisa, se vocês quiserem. Vai ser a noite mais cool — convidou Trump no viva-voz.
Na gravação que se tornou pública, ouve-se um animado “estamos dentro” de alguém do grupo. O presidente, fiel a seus instintos mais enraizados, ainda acrescentou uma gracinha que deve ter achado espirituosíssima:
— Teremos de trazer também o time feminino, vocês sabem. [Senão] acredito que provavelmente sofrerei impeachment — acrescentou, gerando risos no vestiário em Milão.
O episódio diz montes sobre o que o ocupante da Casa Branca realmente pensa das duas condenações de impeachment que sofreu no primeiro mandato, mas foram rejeitadas pelo Senado. E abre um flanco a mais na baixa aprovação junto ao eleitorado feminino e ao voto independente. Três dias antes do ouro masculino, a equipe olímpica feminina dos Estados Unidos já havia eletrizado o país vencendo de virada, também na prorrogação, a sempre campeoníssima equipe do Canadá. Na ocasião, não recebeu convite de Trump. Quando finalmente recebeu, declinou polidamente.
Em entrevista à ESPN americana, Hilary Knight, capitã da equipe vitoriosa, deu uma aula de civilidade. Com dois ouros e três pratas olímpicas na gaveta, foi serena e classuda nas respostas. Alertou sobre a situação difícil da equipe masculina diante da “vergonhosa piada” de Trump, sem minimizar o “momentâneo lapso de julgamento” dos colegas olímpicos:
— É uma pena que essa história ofusque a conexão e apoio mútuo que (as duas equipes) sempre mantiveram — disse a camisa 21.
Declarou-se orgulhosa da vitória masculina e lamentou as duas equipes não celebrarem em conjunto. De quebra, confirmou com alegria seu noivado com a patinadora de velocidade Brittany Bowe (mais de uma dezena de vezes medalhista em mundiais) e informou que a comemoração pela medalha terá local e data decididos pela equipe.
Da presença de Patel, ela certamente não sentiu falta em Milão. O vídeo que vazou do diretor do FBI na euforia do vestiário masculino — garrafa de cerveja numa mão e esmurrando a mesa com a outra — foi a versão real do que parece ser uma fantasia trumpista. Na rasteira do ouro de domingo, a página oficial de Trump publicou um meme dele dando as tacadas finais contra o Canadá e, ao final, esmurrando um dos jogadores adversários. O ideal olímpico da turma é MMA. Segundo explicações fornecidas a posteriori, Patel estava em missão ao embarcar para Milão num jato da Força Aérea: avaliar o papel do FBI na segurança dos atletas, reunir-se com seus pares italianos e ouvir o embaixador americano na Itália. Beleza. Só que chegou ao país faltando apenas três dias para o encerramento dos Jogos.
Não que lhe faltassem problemas agudos em casa. Na mesma semana de sua escapadela, um homem armado tentara invadir o resort de Trump em Mar-a-Lago e fora morto por agentes do Serviço Secreto; o Departamento de Estado emitira um alerta a cidadãos americanos para a onda de violência desencadeada no México pelos cartéis; o país acompanhava avidamente o misterioso sequestro da mãe de uma apresentadora de televisão, com o FBI tateando às cegas havia mais de três semanas. Sem falar no estado de combustão permanente implementado pelos agentes do ICE no país.
Em seu discurso no Congresso, Trump adotou um tom francamente mussoliniano ao anunciar a entrada da equipe olímpica:
— As pessoas me dizem o tempo todo, por favor, por favor, por favor, não aguentamos mais vencer todas; até o senhor chegar à Presidência, perdíamos todas... Então eu digo: “não, não, não”. Vamos continuar ganhando grande, vamos ganhar tudo. Estamos ganhando tanto que não sabemos mais o que fazer com tudo isso... e, para provar meu ponto, temos aqui esta noite o time que dá orgulho à nação toda.
A ala republicana se pôs de pé e, entre aplausos estrondosos, entoou “U-S-A, U-S-A”. Aos democratas, restou o silêncio envergonhado de não ter contido antes o Grande Comunicador.
O Grande Comunicador sabia ter em mãos um trunfo que obliteraria a canseira dos presentes. Dois dias antes, o time masculino de hóquei no gelo derrotara o arqui-inimigo Canadá de forma espetacular em Milão-Cortina. Comemoravam o cobiçado ouro olímpico no vestiário da Arena Santagiulia quando Trump adentrou a festança pelo celular do diretor do FBI, Kash Patel, que atravessara o Atlântico para assistir à final:
— Inacreditável! Fantástico! Teremos o discurso do Estado da União na terça-feira. Posso mandar um avião militar ou qualquer outra coisa, se vocês quiserem. Vai ser a noite mais cool — convidou Trump no viva-voz.
Na gravação que se tornou pública, ouve-se um animado “estamos dentro” de alguém do grupo. O presidente, fiel a seus instintos mais enraizados, ainda acrescentou uma gracinha que deve ter achado espirituosíssima:
— Teremos de trazer também o time feminino, vocês sabem. [Senão] acredito que provavelmente sofrerei impeachment — acrescentou, gerando risos no vestiário em Milão.
O episódio diz montes sobre o que o ocupante da Casa Branca realmente pensa das duas condenações de impeachment que sofreu no primeiro mandato, mas foram rejeitadas pelo Senado. E abre um flanco a mais na baixa aprovação junto ao eleitorado feminino e ao voto independente. Três dias antes do ouro masculino, a equipe olímpica feminina dos Estados Unidos já havia eletrizado o país vencendo de virada, também na prorrogação, a sempre campeoníssima equipe do Canadá. Na ocasião, não recebeu convite de Trump. Quando finalmente recebeu, declinou polidamente.
Em entrevista à ESPN americana, Hilary Knight, capitã da equipe vitoriosa, deu uma aula de civilidade. Com dois ouros e três pratas olímpicas na gaveta, foi serena e classuda nas respostas. Alertou sobre a situação difícil da equipe masculina diante da “vergonhosa piada” de Trump, sem minimizar o “momentâneo lapso de julgamento” dos colegas olímpicos:
— É uma pena que essa história ofusque a conexão e apoio mútuo que (as duas equipes) sempre mantiveram — disse a camisa 21.
Declarou-se orgulhosa da vitória masculina e lamentou as duas equipes não celebrarem em conjunto. De quebra, confirmou com alegria seu noivado com a patinadora de velocidade Brittany Bowe (mais de uma dezena de vezes medalhista em mundiais) e informou que a comemoração pela medalha terá local e data decididos pela equipe.
Da presença de Patel, ela certamente não sentiu falta em Milão. O vídeo que vazou do diretor do FBI na euforia do vestiário masculino — garrafa de cerveja numa mão e esmurrando a mesa com a outra — foi a versão real do que parece ser uma fantasia trumpista. Na rasteira do ouro de domingo, a página oficial de Trump publicou um meme dele dando as tacadas finais contra o Canadá e, ao final, esmurrando um dos jogadores adversários. O ideal olímpico da turma é MMA. Segundo explicações fornecidas a posteriori, Patel estava em missão ao embarcar para Milão num jato da Força Aérea: avaliar o papel do FBI na segurança dos atletas, reunir-se com seus pares italianos e ouvir o embaixador americano na Itália. Beleza. Só que chegou ao país faltando apenas três dias para o encerramento dos Jogos.
Não que lhe faltassem problemas agudos em casa. Na mesma semana de sua escapadela, um homem armado tentara invadir o resort de Trump em Mar-a-Lago e fora morto por agentes do Serviço Secreto; o Departamento de Estado emitira um alerta a cidadãos americanos para a onda de violência desencadeada no México pelos cartéis; o país acompanhava avidamente o misterioso sequestro da mãe de uma apresentadora de televisão, com o FBI tateando às cegas havia mais de três semanas. Sem falar no estado de combustão permanente implementado pelos agentes do ICE no país.
Em seu discurso no Congresso, Trump adotou um tom francamente mussoliniano ao anunciar a entrada da equipe olímpica:
— As pessoas me dizem o tempo todo, por favor, por favor, por favor, não aguentamos mais vencer todas; até o senhor chegar à Presidência, perdíamos todas... Então eu digo: “não, não, não”. Vamos continuar ganhando grande, vamos ganhar tudo. Estamos ganhando tanto que não sabemos mais o que fazer com tudo isso... e, para provar meu ponto, temos aqui esta noite o time que dá orgulho à nação toda.
A ala republicana se pôs de pé e, entre aplausos estrondosos, entoou “U-S-A, U-S-A”. Aos democratas, restou o silêncio envergonhado de não ter contido antes o Grande Comunicador.
Guerras do ópio na era das big tech
Um detalhe histórico para os ocidentais, um evento marcante para os chineses. No século XIX, o volume das exportações para a Europa de chá, seda e porcelana assegurava à China um balanço comercial positivo. A empresa inglesa East India Company (EIC) – à data, a maior empresa do mundo, com o seu próprio Exército – dedicou-se à produção de ópio no subcontinente indiano, que vendia aos chineses. O consumo de ópio tornou-se um problema social relevante e um custo económico significativo. Sucessivos imperadores chineses proibiram o comércio, mas o contrabando e o consumo continuaram a aumentar. Quando, em 1839, o imperador chinês ordenou a destruição de uma carga de ópio, o responsável máximo da EIC, Charles Elliot, apelou ao governo inglês e Inglaterra respondeu com uma força armada, que rapidamente impôs uma derrota militar aos chineses. A Primeira Guerra do Ópio terminou com um acordo que impunha à China o pagamento de reparações, a cedência da ilha de Hong Kong e a eliminação de tarifas sobre os produtos ingleses (incluindo o ópio, que se tornou legal). Nas escolas chinesas, o período entre o final da Primeira Guerra do Ópio e o final da II Guerra Mundial é denominado “Século de Humilhação”, e ainda hoje condiciona a perceção e a postura da China face ao mundo ocidental.
Na defesa dos seus interesses económicos, as big tech comportam-se como a EIC. Arregimentam o apoio do governo americano, que pressiona a Europa a rever a sua legislação sobre redes sociais e Inteligência Artificial, sob a ameaça de tarifas e a retirada de apoio militar (na Ucrânia, mas de forma mais geral minando a confiança de que os Estados Unidos da América serão solidários, caso um país da NATO seja alvo de ataque). Potenciam a divisão, seja via algoritmos que promovem a difusão de posições extremistas nas redes sociais, e cujas configurações recusam alterar, seja apoiando, de forma clara, políticos e partidos antidemocráticos. Fazem-no com campanhas de propaganda, com apoio financeiro, com a promoção de desinformação que causa a perda de confiança no Estado e nos representantes eleitos. Recusam participar nos custos de infraestrutura necessários ao seu próprio negócio – seja estruturas de fornecimento de água e luz necessárias à laboração dos data centers, seja cabos de fibra e antenas que permitem que, no computador e no telemóvel, os conteúdos que difundem possam ser acedidos. Roubam propriedade intelectual para treinar LLM. Resistem a uma tributação efetiva dos lucros gerados na União Europeia.
A Europa é a nova colónia do século XXI, e nós − os utilizadores das redes sociais e dos motores de busca e resposta − somos as novas minas de ouro, cujos dados pessoais são extraídos e tratados para fins comerciais. Em troca, recebemos redes sociais que nos entretêm até à morte e chats (GPT ou outros) com quem optamos por conversar, porque é mais simples do que cultivar relações humanas verdadeiras, mas por vezes complicadas.
Mas se sabemos isto tudo, porque não reagimos? Porque tardamos em proibir o scrolling, o feed, as notificações automáticas, o botão do like, o autoplay? Porque não responsabilizamos penalmente os donos das plataformas pelos conteúdos maliciosos e ilegais que promovem via feeds automáticos? Não seria censura, pois não se trata de impedir ninguém de divulgar os seus pensamentos e posições, mas apenas de aplicar às big tech as mesmas regras que aplicamos aos dirigentes de televisões e de jornais. Até o fazermos, medidas como o bloqueio das redes sociais a crianças podem ajudar, mas não protegem a saúde mental de adultos, nem a sociedade democrática, cuja construção tantas vidas custou.
Na defesa dos seus interesses económicos, as big tech comportam-se como a EIC. Arregimentam o apoio do governo americano, que pressiona a Europa a rever a sua legislação sobre redes sociais e Inteligência Artificial, sob a ameaça de tarifas e a retirada de apoio militar (na Ucrânia, mas de forma mais geral minando a confiança de que os Estados Unidos da América serão solidários, caso um país da NATO seja alvo de ataque). Potenciam a divisão, seja via algoritmos que promovem a difusão de posições extremistas nas redes sociais, e cujas configurações recusam alterar, seja apoiando, de forma clara, políticos e partidos antidemocráticos. Fazem-no com campanhas de propaganda, com apoio financeiro, com a promoção de desinformação que causa a perda de confiança no Estado e nos representantes eleitos. Recusam participar nos custos de infraestrutura necessários ao seu próprio negócio – seja estruturas de fornecimento de água e luz necessárias à laboração dos data centers, seja cabos de fibra e antenas que permitem que, no computador e no telemóvel, os conteúdos que difundem possam ser acedidos. Roubam propriedade intelectual para treinar LLM. Resistem a uma tributação efetiva dos lucros gerados na União Europeia.
A Europa é a nova colónia do século XXI, e nós − os utilizadores das redes sociais e dos motores de busca e resposta − somos as novas minas de ouro, cujos dados pessoais são extraídos e tratados para fins comerciais. Em troca, recebemos redes sociais que nos entretêm até à morte e chats (GPT ou outros) com quem optamos por conversar, porque é mais simples do que cultivar relações humanas verdadeiras, mas por vezes complicadas.
Mas se sabemos isto tudo, porque não reagimos? Porque tardamos em proibir o scrolling, o feed, as notificações automáticas, o botão do like, o autoplay? Porque não responsabilizamos penalmente os donos das plataformas pelos conteúdos maliciosos e ilegais que promovem via feeds automáticos? Não seria censura, pois não se trata de impedir ninguém de divulgar os seus pensamentos e posições, mas apenas de aplicar às big tech as mesmas regras que aplicamos aos dirigentes de televisões e de jornais. Até o fazermos, medidas como o bloqueio das redes sociais a crianças podem ajudar, mas não protegem a saúde mental de adultos, nem a sociedade democrática, cuja construção tantas vidas custou.
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