sábado, 11 de julho de 2026
Nem a pobreza de Shang Hai é autêntica!
O tigre é de papel e a cortina é de bambu, muito mais arejada do que uma cortina de ferro. As lojas das grandes marcas e grifes internacionais são hoje mais monumentais, impressionantes e poluentes em Shang Hai do que em qualquer outra capital do mundo – Louis Vuitton, Gucci, Chanel, Hermès, Dior, Prada, Burberry, Balenciaga, Saint Laurent, Versace, Rolex, Cartier, Tiffany, Omega, Bulgari, Estée Lauder, Lancôme, La Mer, Ferrari, Tesla etc.
Fico pensando, para que um povo que passou necessidades básicas e fome – Guerras do Ópio, queda do Império, Guerra Civil, Invasão Japonesa, Revolução Comunista e Revolução Cultural – precisa de painéis eletrônicos gigantes, com modelos fazendo poses sensuais e sedutoras, para induzi-lo ao consumo supérfluo? Oh, yes à la société de consommation and yes à la société du spectacle.
Quem consome essas grifes de luxo não são os turistas estrangeiros, é o significativo contingente populacional de alta renda, formado por investidores, empresários e altos executivos, em busca de status social e realização pessoal; enquanto a massiva classe média chinesa faz de tudo para ascender na escala econômica, ganhar prestígio e poder usufruir do estilo de vida e das benesses reservadas à elite do país, inclusive o descontraído desperdício.
Claro que a Apple, a Microsoft e a Booking também não iriam querer ficar de fora, perder essa festa – e aqui estou eu, no aconchego de um amplo apartamento nostálgico, num sobrado de um antigo conjunto residencial (Li Long), a poucos metros da sofisticada Nan Jing West Road.
Meu palacete é um luxo, é lindo, com 80 metros quadrados, pé direito de 3,5 metros, amplas janelas, ventilado, ensolarado, funcional, clean e reformado, com todos os confortos da modernidade. O forno embutido, por exemplo, tem aspecto convencional. Mas eu, que sou antiquado, custei a entender que era um airfryer – devo confessar que não nos demos muito bem.
Até os anos 1980, esse apartamento servia de residência a trabalhadores de elite e o seu original layout, assoalho e divisórias de madeira e vidros foram cuidadosamente preservados – a massa de trabalhadores pobres morava em cubículos de seis metros quadrados, sem cozinha e sem banheiro, que foram todos postos abaixo na reconstrução da cidade na passagem dos séculos XX para o XXI.
Meu apartamento foi reformado, mas todos os demais apartamentos do conjunto residencial, não. Pelo contrário, estão todos deteriorados, carcomidos, assim como os apartamentos de inúmeros outros Li Longs espalhados pela cidade. Fiquei muito impressionado ao presenciar a pobreza na qual chafurdam os meus vizinhos, em vivo contraste com a riqueza e a modernidade da cidade que nos cerca, a Shang Hai milimetricamente planejada, cuidadosamente organizada e extremamente eficiente do século XXI. Meus amigos pediram fotos. Entretanto, além de não ter celular, também não tenho máquina fotográfica.
Do lado de fora, você só vê a entrada do conjunto residencial, cercado por estabelecimentos comerciais. O seu interior abriga uma ruela principal, outras mais estreitas, adjacentes, e dezenas de sobrados geminados. De um lado para o outro das ruelas, há uma sequência de barras de ferro suspensas com roupas secando, inclusive peças íntimas; e muitos velhos aposentados ficam sentados em frente às suas casas por horas, ao lado de motonetas, bicicletas, caixas e imensos sacos com lixo reciclável etc. (as ruas de fora do Li Long são extremamente bem cuidadas, limpas e ladeadas por toneladas de exuberantes flores).
Cada sobrado comporta várias residências. No meu sobrado, as áreas comuns ficam abarrotadas com pequenos fogões, panelas, baldes e montanhas de tranqueiras – imagino que cada morador saiba reconhecer o que lhe pertence. O piso é todo irregular e quebrado. O hall de entrada de todos os demais sobrados do meu Li Long apresenta o mesmo perfil.
Meu apartamento fica no segundo andar e a depreciada escadaria de madeira, de dois lances, com degraus estreitos, gastos e escorregadios, tem vários remendos e artifícios para mantê-la “segura”. Devo tomar muito cuidado para não esbarrar no caibro de madeira usado como suporte improvisado entre os dois lances, que ajuda a sustentar o segundo andar, com risco de o corredor desabar.
Também devo tomar cuidado para não me apoiar nos irregularmente instalados canos de água e gás, que correm junto ao corrimão da escada. No caminho, passo por vários cubículos habitados, alguns com a porta aberta. Difícil saber quantas residências o meu sobrado contém, a cada dia descubro mais uma porta incrustada nos corredores e nos vãos da escada. Todos os meus vizinhos vivem com as portas abertas – só fecham as portas quando não se encontram em casa ou quando estão dormindo.
No corredor, ao lado do meu apartamento, há um fogão e vários utensílios de cozinha, tudo em meio a muito lixo e sujeira acumulada por décadas. Nas janelas do corredor, formam-se nuvens de sujeira em camadas sobrepostas. Meu apartamento tem 80 m2, mas o da velhinha que mora ao lado e cozinha no corredor tem apenas 12 m2 (teria sido uma dispensa?). Esses sobrados possuem água encanada e esgoto e foram poupados de serem demolidos na virada do milênio. Fotos não dariam conta dos detalhes, dado o caos reinante; e um vídeo seria algo exaustivo, enfadonho e maçante.
Das janelas do meu palacete, consigo ver partes dos demais deteriorados apartamentos do meu sobrado e os modernos arranha-céus da Nan Jing West Road. Muito perto da minha casa, também posso caminhar por imensos parques, de estonteante beleza – estamos na primavera de 2026, cercados por uma profusão de encantadoras flores.
Fiz amizade com a velhinha que mora ao lado. Meu vocabulário se restringe a Nǐ Hǎo e Xiè Xiè, olá e obrigado, mas eu até sei que ela anda se picando e qual é a droga que usa – insulina. Vivo abrindo as tampas das panelas dela e trocamos receitas e presentinhos – menos doces. Fiquei comovido quando ela, mesmo sendo pobre, me trouxe uma laranja de presente. Retribuí com morangos, que muito provavelmente estariam fora de seu alcance.
Depois que aluguei o apartamento, ainda em São Paulo, fui informado de que a construção, por ser antiga, tinha um isolamento acústico precário e que talvez eu pudesse me incomodar com o ruído dos vizinhos e com um ambiente externo “menos que perfeito”, o que estava fora do controle do administrador da minha unidade, que se desculpava antecipadamente. O apartamento, contudo, é muito silencioso; o que fala alto, muito alto, eu diria, são as condições precárias em que se encontram todos os sobrados e as demais residências do Li Long. Sem o “eufemismo”, se ele fosse descrever ou postar fotos do “ruído dos vizinhos”, certamente teria maior dificuldade em alugar esse apartamento modelo.
O administrador aluga 15 apartamentos, em endereços distintos, realiza a reforma dos mesmos e, depois, os subloca a turistas nacionais e estrangeiros. Comentei com ele, sem reclamar, da pobreza reinante no Li Long e ele disse que esses apartamentos estão localizados em zona nobre da cidade e, mesmo os minúsculos, valem uma fortuna. Descobri, assim, que a minha vizinha, além de rica proprietária, possui renda significativamente elevada.
A questão não é econômica, é cultural. Em boa parte, os moradores são idosos que, apesar de sua confortável situação financeira, se recusam a corromper os seus hábitos. São pessoas que viveram a Revolução Cultural e acompanharam as mudanças que levaram a China à condição de polo hegemônico internacional, mas nem por isso querem alterar o seu estilo de vida.
Quando estive em Shang Hai em 1987, as pessoas cozinhavam na rua, em fogareiros a carvão mineral, feitos de latas de 20 litros. Hoje, a cidade tem o maior número de restaurantes per capita do mundo e o delivery é uma instituição. Contudo, meus teimosos vizinhos, solidários, preferem cozinhar nos corredores dos sobrados. Eles gostam muito de ver as suas tranqueiras empilhadas e não as trocariam por nada deste mundo, principalmente pelo frio design clean e distópico dos modernos apartamentos habitados por jovens que não entram na cozinha e nem sabem se existem quitandas e supermercados na cidade; que, no máximo, frequentam lojas de conveniência. Os jovens acham que esses velhos são todos sovinas – afinal, para que serve então ser rico?
Apesar dos monumentais arranha-céus que dominam Shang Hai, ainda restam 3 mil Li Longs espalhados pela cidade (eram 8 mil) – com sobrados de dois pavimentos, poucos de três – que abrigam 500 mil residências e 2 milhões de moradores. Todos os sobrados que dão face para a rua são ocupados por estabelecimentos comerciais; alguns Li Longs foram inteiramente transformados em complexos empresariais.
Andando pela cidade, descobri que expor roupas secando, inclusive íntimas, faz parte da cultura de Shang Hai. Prédios de apartamentos, com muitos andares, ostentam inúmeros longos mastros horizontais apontando para a rua, com coloridas roupas fazendo o papel de estandartes.
Por acaso, encontrei um casal de empresários chineses que está morando nos Estados Unidos, mas vem três vezes ao ano a Shang Hai, para cuidar de seus negócios. Eles estavam acompanhados por uma jovem funcionária que mora na cidade. Comentei com eles sobre a minha vizinhança e eles fizeram questão de vir ver o Li Long in loco.
A empresária chinesa ficou pasma e repetia, “mas por que isso, por que isso?” Quando apontei para a montanha de tranqueiras empilhadas, como se dissesse – “como é que você faz para apanhar um utensílio que está na base da pirâmide?” – sua funcionária riu à beça e disse que a avó dela também vivia assim, desse jeito. Pedi para a empresária tirar fotos e mandar para mim, ela solicitou encarecidamente que eu não divulgasse as fotos que tirou e, por fim, nem as encaminhou (embora eu tenha recebido mensagens dela pelo meu Business Whatsapp). Ao se despedir, a empresária pediu para eu falar bem da China nos meus artigos, mas o seu marido disse, “ele deve escrever o que está vendo”.
A velha, minha vizinha de corredor, tem a minha idade e suas roupas são austeras. Será que ela foi da Guarda Vermelha? Pelo que entendo, ela e seus colegas fazem parte de um movimento de contracultura, em oposição à distopia que domina a cidade. O que será que uma militante da Guarda Vermelha pensa do bando de jovens que hoje se veste de bonequinhas de louça?
Meu afilhado, que está em Taiwan e acompanhou a minha agonia ao presenciar a “pobreza” que me cerca nesta megalópole, escreveu, “Nem a pobreza de Shang Hai é autêntica, haha.”
A “pobreza” dos cidadãos de Shang Hai não é autêntica. A pobreza em Shang Hai está reservada aos migrantes, como só mais tarde consegui apreender. Shang Hai é a cidade que mais atrai migrantes da zona rural e de outras cidades e a que mais restringe o seu registro domiciliar (Hu Kou).
Os dez milhões de habitantes de baixa renda, que representam 40% da população total da cidade, em sua maior parte, são migrantes sujeitos a empregos mal pagos, com restritos direitos trabalhistas e sociais e sem direito político algum. Ou seja, não existem pobres de Shang Hai, os pobres são os migrantes, cidadãos de segunda classe – quem é que se importa?
O apartamento da minha vizinha possui um box com vaso sanitário. Eu sabia que ela usava a pia e o chuveiro que ficam num terraço, alguns degraus acima do segundo andar do sobrado. Ela é rica e conta com a aposentadoria e os plenos direitos sociais reservados aos cidadãos da cidade; mas o rapaz que mora com a mãe no cubículo alugado de quatro metros quadrados, que fica logo na entrada do sobrado, certamente é um pobre autêntico. Trocamos poucas palavras, mas, de longe, este rapaz é a pessoa mais digna que encontrei em Shang Hai. Aos poucos, fui aprendendo a diferenciar os velhos militantes da contracultura, que ficam por horas sentados em frente às suas casas, dos pobres autênticos, os que colecionam lixo reciclável, aqueles que vivem atarefados etc.
Para se ter uma ideia da estratificação social de Shang Hai, em frente ao meu Li Long há um prédio da Prada com uma sala para exposições e um restaurante. Como muitos restaurantes frequentados pela elite local, não há serviço à la carte, o menu é completo e fixo com duas opções, a 1.500 ou 1.900 yuans por pessoa (para o almoço há também uma opção por 900 yuans). A título de comparação, nos shopping centers vizinhos, frequentados pela classe média, há bons restaurantes com menu completo por 22 yuans – os pobres não frequentam restaurantes, os pobres consomem comida feita em casa.
Estava quase esquecendo de dizer que o meu Li Long, deteriorado e carcomido, fica a uma quadra da antiga residência do Camarada Mao Ze Dong, na Mao Ming North Road.Samuel Kilsztajn
Fico pensando, para que um povo que passou necessidades básicas e fome – Guerras do Ópio, queda do Império, Guerra Civil, Invasão Japonesa, Revolução Comunista e Revolução Cultural – precisa de painéis eletrônicos gigantes, com modelos fazendo poses sensuais e sedutoras, para induzi-lo ao consumo supérfluo? Oh, yes à la société de consommation and yes à la société du spectacle.
Quem consome essas grifes de luxo não são os turistas estrangeiros, é o significativo contingente populacional de alta renda, formado por investidores, empresários e altos executivos, em busca de status social e realização pessoal; enquanto a massiva classe média chinesa faz de tudo para ascender na escala econômica, ganhar prestígio e poder usufruir do estilo de vida e das benesses reservadas à elite do país, inclusive o descontraído desperdício.
Claro que a Apple, a Microsoft e a Booking também não iriam querer ficar de fora, perder essa festa – e aqui estou eu, no aconchego de um amplo apartamento nostálgico, num sobrado de um antigo conjunto residencial (Li Long), a poucos metros da sofisticada Nan Jing West Road.
Meu palacete é um luxo, é lindo, com 80 metros quadrados, pé direito de 3,5 metros, amplas janelas, ventilado, ensolarado, funcional, clean e reformado, com todos os confortos da modernidade. O forno embutido, por exemplo, tem aspecto convencional. Mas eu, que sou antiquado, custei a entender que era um airfryer – devo confessar que não nos demos muito bem.
Até os anos 1980, esse apartamento servia de residência a trabalhadores de elite e o seu original layout, assoalho e divisórias de madeira e vidros foram cuidadosamente preservados – a massa de trabalhadores pobres morava em cubículos de seis metros quadrados, sem cozinha e sem banheiro, que foram todos postos abaixo na reconstrução da cidade na passagem dos séculos XX para o XXI.
Meu apartamento foi reformado, mas todos os demais apartamentos do conjunto residencial, não. Pelo contrário, estão todos deteriorados, carcomidos, assim como os apartamentos de inúmeros outros Li Longs espalhados pela cidade. Fiquei muito impressionado ao presenciar a pobreza na qual chafurdam os meus vizinhos, em vivo contraste com a riqueza e a modernidade da cidade que nos cerca, a Shang Hai milimetricamente planejada, cuidadosamente organizada e extremamente eficiente do século XXI. Meus amigos pediram fotos. Entretanto, além de não ter celular, também não tenho máquina fotográfica.
Do lado de fora, você só vê a entrada do conjunto residencial, cercado por estabelecimentos comerciais. O seu interior abriga uma ruela principal, outras mais estreitas, adjacentes, e dezenas de sobrados geminados. De um lado para o outro das ruelas, há uma sequência de barras de ferro suspensas com roupas secando, inclusive peças íntimas; e muitos velhos aposentados ficam sentados em frente às suas casas por horas, ao lado de motonetas, bicicletas, caixas e imensos sacos com lixo reciclável etc. (as ruas de fora do Li Long são extremamente bem cuidadas, limpas e ladeadas por toneladas de exuberantes flores).
Cada sobrado comporta várias residências. No meu sobrado, as áreas comuns ficam abarrotadas com pequenos fogões, panelas, baldes e montanhas de tranqueiras – imagino que cada morador saiba reconhecer o que lhe pertence. O piso é todo irregular e quebrado. O hall de entrada de todos os demais sobrados do meu Li Long apresenta o mesmo perfil.
Meu apartamento fica no segundo andar e a depreciada escadaria de madeira, de dois lances, com degraus estreitos, gastos e escorregadios, tem vários remendos e artifícios para mantê-la “segura”. Devo tomar muito cuidado para não esbarrar no caibro de madeira usado como suporte improvisado entre os dois lances, que ajuda a sustentar o segundo andar, com risco de o corredor desabar.
Também devo tomar cuidado para não me apoiar nos irregularmente instalados canos de água e gás, que correm junto ao corrimão da escada. No caminho, passo por vários cubículos habitados, alguns com a porta aberta. Difícil saber quantas residências o meu sobrado contém, a cada dia descubro mais uma porta incrustada nos corredores e nos vãos da escada. Todos os meus vizinhos vivem com as portas abertas – só fecham as portas quando não se encontram em casa ou quando estão dormindo.
No corredor, ao lado do meu apartamento, há um fogão e vários utensílios de cozinha, tudo em meio a muito lixo e sujeira acumulada por décadas. Nas janelas do corredor, formam-se nuvens de sujeira em camadas sobrepostas. Meu apartamento tem 80 m2, mas o da velhinha que mora ao lado e cozinha no corredor tem apenas 12 m2 (teria sido uma dispensa?). Esses sobrados possuem água encanada e esgoto e foram poupados de serem demolidos na virada do milênio. Fotos não dariam conta dos detalhes, dado o caos reinante; e um vídeo seria algo exaustivo, enfadonho e maçante.
Das janelas do meu palacete, consigo ver partes dos demais deteriorados apartamentos do meu sobrado e os modernos arranha-céus da Nan Jing West Road. Muito perto da minha casa, também posso caminhar por imensos parques, de estonteante beleza – estamos na primavera de 2026, cercados por uma profusão de encantadoras flores.
Fiz amizade com a velhinha que mora ao lado. Meu vocabulário se restringe a Nǐ Hǎo e Xiè Xiè, olá e obrigado, mas eu até sei que ela anda se picando e qual é a droga que usa – insulina. Vivo abrindo as tampas das panelas dela e trocamos receitas e presentinhos – menos doces. Fiquei comovido quando ela, mesmo sendo pobre, me trouxe uma laranja de presente. Retribuí com morangos, que muito provavelmente estariam fora de seu alcance.
Depois que aluguei o apartamento, ainda em São Paulo, fui informado de que a construção, por ser antiga, tinha um isolamento acústico precário e que talvez eu pudesse me incomodar com o ruído dos vizinhos e com um ambiente externo “menos que perfeito”, o que estava fora do controle do administrador da minha unidade, que se desculpava antecipadamente. O apartamento, contudo, é muito silencioso; o que fala alto, muito alto, eu diria, são as condições precárias em que se encontram todos os sobrados e as demais residências do Li Long. Sem o “eufemismo”, se ele fosse descrever ou postar fotos do “ruído dos vizinhos”, certamente teria maior dificuldade em alugar esse apartamento modelo.
O administrador aluga 15 apartamentos, em endereços distintos, realiza a reforma dos mesmos e, depois, os subloca a turistas nacionais e estrangeiros. Comentei com ele, sem reclamar, da pobreza reinante no Li Long e ele disse que esses apartamentos estão localizados em zona nobre da cidade e, mesmo os minúsculos, valem uma fortuna. Descobri, assim, que a minha vizinha, além de rica proprietária, possui renda significativamente elevada.
A questão não é econômica, é cultural. Em boa parte, os moradores são idosos que, apesar de sua confortável situação financeira, se recusam a corromper os seus hábitos. São pessoas que viveram a Revolução Cultural e acompanharam as mudanças que levaram a China à condição de polo hegemônico internacional, mas nem por isso querem alterar o seu estilo de vida.
Quando estive em Shang Hai em 1987, as pessoas cozinhavam na rua, em fogareiros a carvão mineral, feitos de latas de 20 litros. Hoje, a cidade tem o maior número de restaurantes per capita do mundo e o delivery é uma instituição. Contudo, meus teimosos vizinhos, solidários, preferem cozinhar nos corredores dos sobrados. Eles gostam muito de ver as suas tranqueiras empilhadas e não as trocariam por nada deste mundo, principalmente pelo frio design clean e distópico dos modernos apartamentos habitados por jovens que não entram na cozinha e nem sabem se existem quitandas e supermercados na cidade; que, no máximo, frequentam lojas de conveniência. Os jovens acham que esses velhos são todos sovinas – afinal, para que serve então ser rico?
Apesar dos monumentais arranha-céus que dominam Shang Hai, ainda restam 3 mil Li Longs espalhados pela cidade (eram 8 mil) – com sobrados de dois pavimentos, poucos de três – que abrigam 500 mil residências e 2 milhões de moradores. Todos os sobrados que dão face para a rua são ocupados por estabelecimentos comerciais; alguns Li Longs foram inteiramente transformados em complexos empresariais.
Andando pela cidade, descobri que expor roupas secando, inclusive íntimas, faz parte da cultura de Shang Hai. Prédios de apartamentos, com muitos andares, ostentam inúmeros longos mastros horizontais apontando para a rua, com coloridas roupas fazendo o papel de estandartes.
Por acaso, encontrei um casal de empresários chineses que está morando nos Estados Unidos, mas vem três vezes ao ano a Shang Hai, para cuidar de seus negócios. Eles estavam acompanhados por uma jovem funcionária que mora na cidade. Comentei com eles sobre a minha vizinhança e eles fizeram questão de vir ver o Li Long in loco.
A empresária chinesa ficou pasma e repetia, “mas por que isso, por que isso?” Quando apontei para a montanha de tranqueiras empilhadas, como se dissesse – “como é que você faz para apanhar um utensílio que está na base da pirâmide?” – sua funcionária riu à beça e disse que a avó dela também vivia assim, desse jeito. Pedi para a empresária tirar fotos e mandar para mim, ela solicitou encarecidamente que eu não divulgasse as fotos que tirou e, por fim, nem as encaminhou (embora eu tenha recebido mensagens dela pelo meu Business Whatsapp). Ao se despedir, a empresária pediu para eu falar bem da China nos meus artigos, mas o seu marido disse, “ele deve escrever o que está vendo”.
A velha, minha vizinha de corredor, tem a minha idade e suas roupas são austeras. Será que ela foi da Guarda Vermelha? Pelo que entendo, ela e seus colegas fazem parte de um movimento de contracultura, em oposição à distopia que domina a cidade. O que será que uma militante da Guarda Vermelha pensa do bando de jovens que hoje se veste de bonequinhas de louça?
Meu afilhado, que está em Taiwan e acompanhou a minha agonia ao presenciar a “pobreza” que me cerca nesta megalópole, escreveu, “Nem a pobreza de Shang Hai é autêntica, haha.”
A “pobreza” dos cidadãos de Shang Hai não é autêntica. A pobreza em Shang Hai está reservada aos migrantes, como só mais tarde consegui apreender. Shang Hai é a cidade que mais atrai migrantes da zona rural e de outras cidades e a que mais restringe o seu registro domiciliar (Hu Kou).
Os dez milhões de habitantes de baixa renda, que representam 40% da população total da cidade, em sua maior parte, são migrantes sujeitos a empregos mal pagos, com restritos direitos trabalhistas e sociais e sem direito político algum. Ou seja, não existem pobres de Shang Hai, os pobres são os migrantes, cidadãos de segunda classe – quem é que se importa?
O apartamento da minha vizinha possui um box com vaso sanitário. Eu sabia que ela usava a pia e o chuveiro que ficam num terraço, alguns degraus acima do segundo andar do sobrado. Ela é rica e conta com a aposentadoria e os plenos direitos sociais reservados aos cidadãos da cidade; mas o rapaz que mora com a mãe no cubículo alugado de quatro metros quadrados, que fica logo na entrada do sobrado, certamente é um pobre autêntico. Trocamos poucas palavras, mas, de longe, este rapaz é a pessoa mais digna que encontrei em Shang Hai. Aos poucos, fui aprendendo a diferenciar os velhos militantes da contracultura, que ficam por horas sentados em frente às suas casas, dos pobres autênticos, os que colecionam lixo reciclável, aqueles que vivem atarefados etc.
Para se ter uma ideia da estratificação social de Shang Hai, em frente ao meu Li Long há um prédio da Prada com uma sala para exposições e um restaurante. Como muitos restaurantes frequentados pela elite local, não há serviço à la carte, o menu é completo e fixo com duas opções, a 1.500 ou 1.900 yuans por pessoa (para o almoço há também uma opção por 900 yuans). A título de comparação, nos shopping centers vizinhos, frequentados pela classe média, há bons restaurantes com menu completo por 22 yuans – os pobres não frequentam restaurantes, os pobres consomem comida feita em casa.
Estava quase esquecendo de dizer que o meu Li Long, deteriorado e carcomido, fica a uma quadra da antiga residência do Camarada Mao Ze Dong, na Mao Ming North Road.
Um país sem lei
Interessante como o brasileiro dificilmente cumpre a Lei. Aqui, exalta-se o não cumprimento da Lei, ao invés de ser ter a Lei como um valor. Mesmo por parte de alguns grupos de advogados, comemora se ter contornado a Lei, nas chamadas “causas impossíveis”.
A Lei deveria ser soberana, como no “Contrato Social” de Rousseau, dentro do “Espírito das Leis” de Montesquieu, que deveriam reger as nossas relações. Mas que nada!
Desde as coisas grandes até nas coisas pequenas, observa-se o descumprimento da Lei.
Em pesquisa nacional da Sensus, verificou-se que 60% a 80% da população brasileira aceitam “furar fila”, estacionar em “locais proibidos”, parar em “fila dupla” para pegar dos filhos na escola.
Na política, a corrupção é fora da Lei.
Na economia, sonegam-se os impostos sempre que possível.
De ex-policiais que se tornaram guardiões de comunidades, surgiram as milícias.
No Executivo, no Legislativo e no Judiciário, grassam as benécias além dos limites da Lei.
Os “Cem anos de Sigilo” é usado por quase todos os Presidentes.
As reuniões de condomínio viraram uma verdadeira tortura. Os moradores dos prédios não sabem ou se esquecem de que quando compramos um apartamento, compramos também a sua convenção do condomínio, que rege a relação entre os proprietários. Mas cada um faz o que quer, da maneira que quer, na hora que bem entender, esquecendo-se que existem regras que normatizam as ações de cada proprietário para o bem coletivo.
O não cumprimento da Lei é um dos impeditivos de nosso desenvolvimento econômico e social, pois que os jogos sociais não são cooperativos.
Pesquisa do Banco Interamericano sobre o quanto uma pessoa confia na outra mostra que a média mundial é de 25%, 41% nos países da OCDE, 13% na América Latina, 5% no Brasil, em um dos últimos lugares dessa fila.
Assim não dá!
A Lei deveria ser soberana, como no “Contrato Social” de Rousseau, dentro do “Espírito das Leis” de Montesquieu, que deveriam reger as nossas relações. Mas que nada!
Desde as coisas grandes até nas coisas pequenas, observa-se o descumprimento da Lei.
Em pesquisa nacional da Sensus, verificou-se que 60% a 80% da população brasileira aceitam “furar fila”, estacionar em “locais proibidos”, parar em “fila dupla” para pegar dos filhos na escola.
Na política, a corrupção é fora da Lei.
Na economia, sonegam-se os impostos sempre que possível.
De ex-policiais que se tornaram guardiões de comunidades, surgiram as milícias.
No Executivo, no Legislativo e no Judiciário, grassam as benécias além dos limites da Lei.
Os “Cem anos de Sigilo” é usado por quase todos os Presidentes.
As reuniões de condomínio viraram uma verdadeira tortura. Os moradores dos prédios não sabem ou se esquecem de que quando compramos um apartamento, compramos também a sua convenção do condomínio, que rege a relação entre os proprietários. Mas cada um faz o que quer, da maneira que quer, na hora que bem entender, esquecendo-se que existem regras que normatizam as ações de cada proprietário para o bem coletivo.
O não cumprimento da Lei é um dos impeditivos de nosso desenvolvimento econômico e social, pois que os jogos sociais não são cooperativos.
Pesquisa do Banco Interamericano sobre o quanto uma pessoa confia na outra mostra que a média mundial é de 25%, 41% nos países da OCDE, 13% na América Latina, 5% no Brasil, em um dos últimos lugares dessa fila.
Assim não dá!
Mundo maravilhoso
Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite.
Miguel Torga
Será um admirável mundo novo?
Ninguém é totalmente revolucionário, nem absolutamente conservador. O cidadão médio comum não gosta de instabilidade, rupturas radicais, mudanças desestabilizadoras. O novo, às vezes, assusta. Mas a história da civilização humana é tudo, menos a repetição monótona de um equilíbrio estático. Crises ocorrem ciclicamente. Se as pessoas gostam da conservação de tradições e estabilidade, por outro lado, a inquietação humana sempre persegue transformar a realidade. Se não fosse isso, não teríamos chegado, vindos da Idade da Pedra, à atual configuração do mundo contemporâneo. O medo do que é novo e a compulsão pela inovação convivem dialeticamente no desenvolvimento civilizatório.
Aldous Huxley publicou, em 1932, seu romance futurista “Admirável Mundo Novo”, considerado um dos mais importantes da literatura universal. A distopia presente projeta a vida em Londres, no distante ano de 2540, onde uma nova sociedade surge a partir das inovações tecnológicas, consolidando o controle autoritário da sociedade pelo poder de manipulação, Ford substituindo Deus, o uso da droga que garante euforia e o consumo desenfreado, erradicando a infelicidade e a dor.
Vivemos uma nova conjuntura disruptiva. O uso intensivo da Inteligência Artificial (IA), que ainda engatinha, e suas múltiplas consequências, despertam esperança, incerteza e medo.
Quem não se divertiu com os vídeos gerados pela IA envolvendo Vini Jr. e Haaland no ambiente pré e pós jogo da Copa? Hilários e criativos. Uma amiga me mandou um link do Spotify, compartilhando, a partir de seu refinado gosto musical, sua admiração pela nova cantora Rebecca Montt, seu timbre e expressividade, com um estilo à la Amy Winehouse. Adorei. Ao pesquisar a nacionalidade da cantora, descobri que era uma artista virtual, totalmente gerada por IA. A decepção, minha e de minha amiga, foi total. Não haveria possibilidade de irmos a um show de Rebecca. A criatividade e originalidade humana serão substituídas pelo processamento digital e robótico de conteúdos já existentes?
Toda inovação radical implica em ameaças e oportunidades, riscos e potencialidades revolucionárias. O economista francês Gabriel Zucman alerta para a inédita ampliação da concentração de riqueza, poder e conhecimento. Poucos bilionários dominam as plataformas e os algoritmos.
Como conviver como o novo ambiente em um país onde quase 64 milhões de brasileiros com 15 ou mais anos não concluíram o ensino básico? Qual será a repercussão no mercado de trabalho? O negócio IA faturou, nos últimos 12 meses, US$ 110 bilhões entre empresas da nuvem, assinatura de aplicativos e compra direta de modelos de IA.
Diariamente, lemos notícias sobre as consequências da IA. Aplicações na gastronomia, na expansão das franquias, composição de jingles eleitorais. Notícias sobre estresse, ansiedade e dificuldades decisórias de executivos diante da velocidade excessiva das transformações. Coisas positivas como a perspectiva de redução de 50% no custo dos novos medicamentos. E até robôs chineses, da empresa UBTech, companheiros emocionais contra a solidão, focados nos solteiros e idosos.
Há um mundo desafiador nascendo. Não cabe nenhuma atitude reacionária e retrógrada de resistência à inovação. Mas é fundamental a regulação democrática para que a IA seja uma conquista da humanidade e não um salto no escuro fora de controle.
Aldous Huxley publicou, em 1932, seu romance futurista “Admirável Mundo Novo”, considerado um dos mais importantes da literatura universal. A distopia presente projeta a vida em Londres, no distante ano de 2540, onde uma nova sociedade surge a partir das inovações tecnológicas, consolidando o controle autoritário da sociedade pelo poder de manipulação, Ford substituindo Deus, o uso da droga que garante euforia e o consumo desenfreado, erradicando a infelicidade e a dor.
Vivemos uma nova conjuntura disruptiva. O uso intensivo da Inteligência Artificial (IA), que ainda engatinha, e suas múltiplas consequências, despertam esperança, incerteza e medo.
Quem não se divertiu com os vídeos gerados pela IA envolvendo Vini Jr. e Haaland no ambiente pré e pós jogo da Copa? Hilários e criativos. Uma amiga me mandou um link do Spotify, compartilhando, a partir de seu refinado gosto musical, sua admiração pela nova cantora Rebecca Montt, seu timbre e expressividade, com um estilo à la Amy Winehouse. Adorei. Ao pesquisar a nacionalidade da cantora, descobri que era uma artista virtual, totalmente gerada por IA. A decepção, minha e de minha amiga, foi total. Não haveria possibilidade de irmos a um show de Rebecca. A criatividade e originalidade humana serão substituídas pelo processamento digital e robótico de conteúdos já existentes?
Toda inovação radical implica em ameaças e oportunidades, riscos e potencialidades revolucionárias. O economista francês Gabriel Zucman alerta para a inédita ampliação da concentração de riqueza, poder e conhecimento. Poucos bilionários dominam as plataformas e os algoritmos.
Como conviver como o novo ambiente em um país onde quase 64 milhões de brasileiros com 15 ou mais anos não concluíram o ensino básico? Qual será a repercussão no mercado de trabalho? O negócio IA faturou, nos últimos 12 meses, US$ 110 bilhões entre empresas da nuvem, assinatura de aplicativos e compra direta de modelos de IA.
Diariamente, lemos notícias sobre as consequências da IA. Aplicações na gastronomia, na expansão das franquias, composição de jingles eleitorais. Notícias sobre estresse, ansiedade e dificuldades decisórias de executivos diante da velocidade excessiva das transformações. Coisas positivas como a perspectiva de redução de 50% no custo dos novos medicamentos. E até robôs chineses, da empresa UBTech, companheiros emocionais contra a solidão, focados nos solteiros e idosos.
Há um mundo desafiador nascendo. Não cabe nenhuma atitude reacionária e retrógrada de resistência à inovação. Mas é fundamental a regulação democrática para que a IA seja uma conquista da humanidade e não um salto no escuro fora de controle.
'Ficar deitado', resistir como o bambu
Cerca de 12,7 milhões de novos licenciados – mais do que toda a população de Portugal! – saem este ano das universidades chinesas, aumentando a pressão sobre o mercado de trabalho. A situação não é propriamente animadora: excluindo os estudantes, em maio, a taxa de desemprego entre os jovens dos 16 aos 24 anos era de 15,6%, anunciou o Gabinete Nacional de Estatísticas da China. É uma descida de 0,7 pontos percentuais em relação ao mês anterior, mas continua a ser o triplo da média nacional (5,2%). Pior ainda, a melhoria não eliminará a disposição de muitos jovens para “ficarem deitados” (“tang ping”, em chinês), rejeitando a pressão social para se empenharem numa carreira profissional de sucesso.
Em vez de se dedicarem totalmente ao trabalho, o que em alguns casos significa sujeitarem-se ao regime “996” (das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana), os que optam por “ficar deitados” defendem um estilo de vida com mais tempo livre e maior satisfação pessoal. “Não comprem casa, não comprem automóvel, não se casem, não tenham filhos, não consumam”, proclama uma das mensagens mais conhecidas do movimento.
Para as autoridades, trata-se de uma atitude que “interpreta de forma maliciosa os fenómenos sociais, exagera seletivamente os casos negativos e utiliza-os como uma oportunidade para promover visões do mundo niilistas ou negativas”. No outono passado, durante uma campanha para “limpar e retificar” a internet, a Administração Estatal do Ciberespaço bloqueou várias contas, algumas das quais com mais de dez milhões de seguidores, e apagou milhares de mensagens.
Lançada nas redes sociais em 2021, a ideia de “ficar deitado” ganhou nova atualidade há dois meses, quando o Ministério da Segurança do Estado alertou que “forças estrangeiras” estavam a “tentar ampliar a ansiedade social promovendo noções negativas acerca do trabalho”, com o objetivo de “minar o espírito de perseverança entre os jovens da China e até mesmo comprometer os valores fundamentais da nossa sociedade”.
“Os jovens de hoje são totalmente epicuristas, dando prioridade a benefícios tangíveis e ao valor emocional das suas escolhas”, diz o historiador liberal Xu Jilin. A maioria são filhos únicos, nascidos sob a drástica política de controlo da natalidade, que durante três décadas e meia proibiu os casais urbanos de ter mais do que um filho. Cresceram como “pequenos imperadores”, centro das atenções de dois pais e de quatro avós. No centro das atenções e das poupanças familiares, que na China são das mais elevadas do mundo. E agora que já podem ter até três filhos, muitos casais preferem não ter nenhum! A pressão sobre o emprego é “considerável” e a demografia “coloca novos desafios ao desenvolvimento económico e à governação social”, reconheceu o último plenário do comité central do Partido Comunista.
Segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, a disposição de “ficar deitado” não se reduz aos jovens à procura do primeiro emprego: “isto aplica-se a um leque mais alargado da sociedade – desde profissionais de sucesso e empresários de meia-idade até funcionários avessos ao risco –, uma vez que evitam trabalho extra para sobreviver numa era de concorrência intensa com rendimentos decrescentes”. Um estudo feito por investigadores de Singapura sugere que “não se trata apenas de uma reação de curto prazo, mas de uma enraizada mudança geracional nas atitudes acerca do trabalho e do sucesso”.
Dias depois de a Segurança do Estado ter alertado para a “lavagem ao cérebro” promovida por “forças anti-China”, um veterano antropólogo de Cambridge, Alan Macfarlane, com 2,3 milhões de seguidores na rede social Xiaohongshu, elogiou a atitude de “ficar deitado”, associando-a ao bambu. “Quando surge uma forte rajada de vento… o bambu inclina-se, absorve o impacto, fica quase deitado no chão e, depois, quando a rajada passa, volta a endireitar-se.” A mensagem “recebeu mais de 100 000 likes e circulou largamente em múltiplas plataformas”, assinalou o South China Morning Post. “O Estado diz que fomos infiltrados por forças estrangeiras; o professor diz que somos bambu. Finalmente, alguém reconhece que neste momento o ‘vento’ é simplesmente demasiado forte”, comentou um internauta chinês. “Ficar deitado não significa render-se”, afirmou outro. “Estamos apenas momentaneamente abatidos – mais cedo ou mais tarde, vamos recuperar.”
Em vez de se dedicarem totalmente ao trabalho, o que em alguns casos significa sujeitarem-se ao regime “996” (das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana), os que optam por “ficar deitados” defendem um estilo de vida com mais tempo livre e maior satisfação pessoal. “Não comprem casa, não comprem automóvel, não se casem, não tenham filhos, não consumam”, proclama uma das mensagens mais conhecidas do movimento.
Para as autoridades, trata-se de uma atitude que “interpreta de forma maliciosa os fenómenos sociais, exagera seletivamente os casos negativos e utiliza-os como uma oportunidade para promover visões do mundo niilistas ou negativas”. No outono passado, durante uma campanha para “limpar e retificar” a internet, a Administração Estatal do Ciberespaço bloqueou várias contas, algumas das quais com mais de dez milhões de seguidores, e apagou milhares de mensagens.
Lançada nas redes sociais em 2021, a ideia de “ficar deitado” ganhou nova atualidade há dois meses, quando o Ministério da Segurança do Estado alertou que “forças estrangeiras” estavam a “tentar ampliar a ansiedade social promovendo noções negativas acerca do trabalho”, com o objetivo de “minar o espírito de perseverança entre os jovens da China e até mesmo comprometer os valores fundamentais da nossa sociedade”.
“Os jovens de hoje são totalmente epicuristas, dando prioridade a benefícios tangíveis e ao valor emocional das suas escolhas”, diz o historiador liberal Xu Jilin. A maioria são filhos únicos, nascidos sob a drástica política de controlo da natalidade, que durante três décadas e meia proibiu os casais urbanos de ter mais do que um filho. Cresceram como “pequenos imperadores”, centro das atenções de dois pais e de quatro avós. No centro das atenções e das poupanças familiares, que na China são das mais elevadas do mundo. E agora que já podem ter até três filhos, muitos casais preferem não ter nenhum! A pressão sobre o emprego é “considerável” e a demografia “coloca novos desafios ao desenvolvimento económico e à governação social”, reconheceu o último plenário do comité central do Partido Comunista.
Segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, a disposição de “ficar deitado” não se reduz aos jovens à procura do primeiro emprego: “isto aplica-se a um leque mais alargado da sociedade – desde profissionais de sucesso e empresários de meia-idade até funcionários avessos ao risco –, uma vez que evitam trabalho extra para sobreviver numa era de concorrência intensa com rendimentos decrescentes”. Um estudo feito por investigadores de Singapura sugere que “não se trata apenas de uma reação de curto prazo, mas de uma enraizada mudança geracional nas atitudes acerca do trabalho e do sucesso”.
Dias depois de a Segurança do Estado ter alertado para a “lavagem ao cérebro” promovida por “forças anti-China”, um veterano antropólogo de Cambridge, Alan Macfarlane, com 2,3 milhões de seguidores na rede social Xiaohongshu, elogiou a atitude de “ficar deitado”, associando-a ao bambu. “Quando surge uma forte rajada de vento… o bambu inclina-se, absorve o impacto, fica quase deitado no chão e, depois, quando a rajada passa, volta a endireitar-se.” A mensagem “recebeu mais de 100 000 likes e circulou largamente em múltiplas plataformas”, assinalou o South China Morning Post. “O Estado diz que fomos infiltrados por forças estrangeiras; o professor diz que somos bambu. Finalmente, alguém reconhece que neste momento o ‘vento’ é simplesmente demasiado forte”, comentou um internauta chinês. “Ficar deitado não significa render-se”, afirmou outro. “Estamos apenas momentaneamente abatidos – mais cedo ou mais tarde, vamos recuperar.”
A pátria apostadeira
A explosão das apostas online durante a Copa do Mundo gerou três efeitos visíveis. Em primeiro lugar, o impulsionamento dos lucros de um punhado de milionários sagazes, tão sagazes que sabem se manter invisíveis (a gente deduz que eles se locupletam, mas não consegue enxergar quem eles são). O segundo efeito visível é a ruína dos mais pobres, tão pobres que ficaram irremediavelmente invisíveis. Em terceiro lugar, surge um debate nas páginas dos jornais acerca da legalidade desse tipo de jogatina e de sua máquina de propaganda. O questionamento que se lê na imprensa é legítimo, mas não tem sido suficiente para mudar a situação. Seu resultado prático não está entre as coisas que são visíveis.
Mesmo assim, vale insistir. Sigamos com o debate. O assédio massivo que leva jovens a se deixarem moer por engrenagens viciantes deveria alarmar a consciência pública. Há três dias, nestas páginas, o jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco avisou: “O vício em apostas já se consolidou como um grave problema de saúde pública”. Em seu artigo Roletas da morte (Estadão, 6/7, A5), ele disse mais: “A compulsão leva ao endividamento, destrói famílias, rompe vínculos afetivos, compromete carreiras profissionais e alimenta uma espiral de desespero que, não raramente, termina em suicídio”. A questão incômoda é que essas palavras, embora lúcidas, não alteraram a realidade. As bets continuam aí, faceiras.
Há quase dois anos, em 3 de outubro de 2024, eu mesmo escrevi aqui um artigo a respeito. O título já dava o recado: É hora de acabar com a publicidade das bets (3/10, A5). Eu argumentava que as mensagens publicitárias das casas de apostas, que causam dependência grave, deveriam sofrer restrições legais, em analogia com o que já acontece com os anúncios de cigarro e de bebidas alcoólicas. Em resumo, não deveriam assediar assim, tão à vontade, as crianças e os adolescentes. Agora pergunto: o que eu escrevi mudou alguma coisa? Nada.
De lá para cá, o cenário piorou. Em maio, há coisa de dois meses, um contingente de 11% da população do Brasil enviava alguma parcela de suas economias para as bets.
Na semana passada, no embalo dos jogos da Copa, o patamar triplicou. De acordo com o levantamento feito pela fintech Klavi, a partir dos números do Open Finance (sistema de integração de dados do Banco
Central), já são 34,8% os brasileiros que viraram fregueses dos jogos de azar da era digital. Não, nós não somos mais um país-continente: somos um cassino-continente, isto sim.
A velha pátria de chuteiras tem hoje que empenhar as chancas para quitar as dívidas com o crupiê. Ficou descalça. Pense num garoto indefeso, que já não tem no que acreditar, quase sem – como dizem – “poder de compra”. Ele não escapa. Os seus ídolos nacionais, incluindo os mais famosos e mais bem pagos praticantes profissionais do ludopédio, vão às telas para intimá-lo a dar algum dinheiro aos donos das bets. Narradores supostamente esportivos vêm em reforço: “Jogue com responsabilidade”. Não há como fugir ao bombardeio.
Algo de muito sério se esfarelou nos fundamentos da nossa sociedade. A essa altura, além de procurar soluções legais, a cada dia mais insondáveis, a gente poderia tentar entender o que houve conosco em outro plano – não no plano das leis, mas no plano da ética. O que se passa com um país que autoriza a comercialização de uma mercadoria que vai desgraçar tantos destinos? Por que os endinheirados levam as famílias pobres a uma roleta que não oferecem às suas próprias? Todo mundo aqui sabe que os donos de bets não mandam seus filhos apostarem dinheiro no celular. Ao contrário, tomam providências para mantê-los longe do vício. Por que, então, recrutam os filhos dos outros para a jogatina?
Não falo de um caso isolado ou de mercados de pouco alcance. O que está aí não é uma exceção, é a regra, é um tsunami, um imperativo totalitário de proporções hiperbólicas. Pense na escala desse “problema de saúde pública”: um terço da pátria de chuteiras já é a pátria sem chuteiras, sem eira nem beira: a pátria apostadeira. Veja os comerciais na transmissão das partidas do campeonato mundial de soccer. Tente encontrar ali algum espaço que ainda não tenha sido contaminado pelas casas de apostas.
Quem tem costume de lidar com ideias relacionadas à ética há de conhecer um princípio que normalmente leva o nome de “regra de ouro”. O postulado é simples: você não deve dedicar às outras pessoas um tratamento que não gostaria de receber. A “regra de ouro” não vale para o gosto estético ou para preferências pessoais, mas para a convivência entre sujeitos que são titulares de direitos fundamentais. Alguém que não goste de couve e é dono de um restaurante pode muito bem servir couve para quem a aprecia. Mas, em matéria de direitos, não se deve fazer aos demais o que não se quer para si.
O nosso problema de saúde pública é que a sociedade, hoje, remunera – e muito bem – aqueles que levam os filhos dos outros a um vício que não deseja para os seus próprios filhos. E isso para falarmos apenas dos efeitos visíveis.
Mesmo assim, vale insistir. Sigamos com o debate. O assédio massivo que leva jovens a se deixarem moer por engrenagens viciantes deveria alarmar a consciência pública. Há três dias, nestas páginas, o jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco avisou: “O vício em apostas já se consolidou como um grave problema de saúde pública”. Em seu artigo Roletas da morte (Estadão, 6/7, A5), ele disse mais: “A compulsão leva ao endividamento, destrói famílias, rompe vínculos afetivos, compromete carreiras profissionais e alimenta uma espiral de desespero que, não raramente, termina em suicídio”. A questão incômoda é que essas palavras, embora lúcidas, não alteraram a realidade. As bets continuam aí, faceiras.
Há quase dois anos, em 3 de outubro de 2024, eu mesmo escrevi aqui um artigo a respeito. O título já dava o recado: É hora de acabar com a publicidade das bets (3/10, A5). Eu argumentava que as mensagens publicitárias das casas de apostas, que causam dependência grave, deveriam sofrer restrições legais, em analogia com o que já acontece com os anúncios de cigarro e de bebidas alcoólicas. Em resumo, não deveriam assediar assim, tão à vontade, as crianças e os adolescentes. Agora pergunto: o que eu escrevi mudou alguma coisa? Nada.
De lá para cá, o cenário piorou. Em maio, há coisa de dois meses, um contingente de 11% da população do Brasil enviava alguma parcela de suas economias para as bets.
Na semana passada, no embalo dos jogos da Copa, o patamar triplicou. De acordo com o levantamento feito pela fintech Klavi, a partir dos números do Open Finance (sistema de integração de dados do Banco
Central), já são 34,8% os brasileiros que viraram fregueses dos jogos de azar da era digital. Não, nós não somos mais um país-continente: somos um cassino-continente, isto sim.
A velha pátria de chuteiras tem hoje que empenhar as chancas para quitar as dívidas com o crupiê. Ficou descalça. Pense num garoto indefeso, que já não tem no que acreditar, quase sem – como dizem – “poder de compra”. Ele não escapa. Os seus ídolos nacionais, incluindo os mais famosos e mais bem pagos praticantes profissionais do ludopédio, vão às telas para intimá-lo a dar algum dinheiro aos donos das bets. Narradores supostamente esportivos vêm em reforço: “Jogue com responsabilidade”. Não há como fugir ao bombardeio.
Algo de muito sério se esfarelou nos fundamentos da nossa sociedade. A essa altura, além de procurar soluções legais, a cada dia mais insondáveis, a gente poderia tentar entender o que houve conosco em outro plano – não no plano das leis, mas no plano da ética. O que se passa com um país que autoriza a comercialização de uma mercadoria que vai desgraçar tantos destinos? Por que os endinheirados levam as famílias pobres a uma roleta que não oferecem às suas próprias? Todo mundo aqui sabe que os donos de bets não mandam seus filhos apostarem dinheiro no celular. Ao contrário, tomam providências para mantê-los longe do vício. Por que, então, recrutam os filhos dos outros para a jogatina?
Não falo de um caso isolado ou de mercados de pouco alcance. O que está aí não é uma exceção, é a regra, é um tsunami, um imperativo totalitário de proporções hiperbólicas. Pense na escala desse “problema de saúde pública”: um terço da pátria de chuteiras já é a pátria sem chuteiras, sem eira nem beira: a pátria apostadeira. Veja os comerciais na transmissão das partidas do campeonato mundial de soccer. Tente encontrar ali algum espaço que ainda não tenha sido contaminado pelas casas de apostas.
Quem tem costume de lidar com ideias relacionadas à ética há de conhecer um princípio que normalmente leva o nome de “regra de ouro”. O postulado é simples: você não deve dedicar às outras pessoas um tratamento que não gostaria de receber. A “regra de ouro” não vale para o gosto estético ou para preferências pessoais, mas para a convivência entre sujeitos que são titulares de direitos fundamentais. Alguém que não goste de couve e é dono de um restaurante pode muito bem servir couve para quem a aprecia. Mas, em matéria de direitos, não se deve fazer aos demais o que não se quer para si.
O nosso problema de saúde pública é que a sociedade, hoje, remunera – e muito bem – aqueles que levam os filhos dos outros a um vício que não deseja para os seus próprios filhos. E isso para falarmos apenas dos efeitos visíveis.
Fama após o algoritmo: quando os influenciadores viram notícia
As mortes trágicas de dois YouTubers argentinos — Chatterbox e Gaspi — em um intervalo de poucas semanas criaram uma situação curiosa. Para milhões de seguidores, eles eram figuras conhecidas, com anos de experiência na mídia. Para grande parte do público, no entanto, eram completos desconhecidos. Mesmo assim, quando morreram, seus nomes apareceram em jornais, rádios e noticiários por todo o país.
Este não é um caso isolado. Nos últimos anos, veículos de mídia tradicionais na América Latina têm noticiado as mortes de criadores de conteúdo digital que mal haviam conquistado reconhecimento fora de suas comunidades. O venezuelano Gabriel Sarmiento foi assassinado durante uma transmissão ao vivo no TikTok após denunciar supostos vínculos entre a polícia e gangues criminosas. A mexicana Valeria Márquez foi morta a tiros em 2025 enquanto transmitia ao vivo na mesma plataforma. Em ambos os casos, milhões de pessoas tomaram conhecimento de seus nomes pela imprensa.
Esses episódios levantam uma questão cada vez mais relevante: em que momento a fama gerada por algoritmos deixa de pertencer a um nicho e adquire relevância jornalística para toda a sociedade?
Durante décadas, a televisão, o cinema e a imprensa atuaram como grandes fabricantes de celebridades. Qualquer pessoa que aparecesse nesses meios se tornava um rosto familiar para quase todos. Esse modelo mudou.
"Não se trata apenas de dois ecossistemas, mas de muitos mais", disse à DW o pesquisador argentino Carlos Scolari, professor da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona. Em sua opinião, o antigo sistema de mídia de massa já produzia celebridades nacionais e internacionais, mas as mídias sociais multiplicaram os circuitos onde "celebridades surgem, se desenvolvem e declinam". O resultado é um amplo ecossistema de mídia híbrido, no qual a mídia tradicional, as plataformas digitais e uma enorme diversidade de comunidades coexistem.
Cada plataforma gera seus próprios parâmetros de referência. Um criador pode acumular milhões de seguidores no YouTube ou no TikTok e permanecer praticamente desconhecido para aqueles que consomem principalmente televisão, mídia impressa ou simplesmente seguem outros influenciadores .
Paradoxalmente, os meios de comunicação tradicionais continuam a desempenhar um papel decisivo, embora diferente do passado. Já não criam necessariamente celebridades. Em muitos casos, estas surgem mais tarde.
Segundo o especialista em mídia digital Carlos Scolari, a mídia passou "da lógica da audiência para a lógica do clickbait ". Se um fenômeno toma as redes sociais de assalto e captura a atenção de milhões de usuários, inevitavelmente atrai também a atenção do rádio, dos jornais e da televisão. Além disso, à medida que os veículos de mídia tradicionais perdem público, "eles precisam ir atrás dele onde ele está: nas plataformas digitais".
Mas nem todos os influenciadores dão esse salto. A maioria permanece dentro de sua comunidade. Os casos que chegam às manchetes geralmente combinam notoriedade digital com critérios clássicos de notícia: uma morte inesperada, um assassinato, uma transmissão ao vivo, um escândalo ou um grande impacto político. O influenciador, então, deixa de ser apenas uma figura da internet e se torna o protagonista de uma história de interesse geral.
Segundo a pesquisadora Leonie Alatassi, do Instituto Leibniz de Pesquisa de Mídia em Hamburgo, essa mudança reflete uma transformação muito mais profunda.
As redes sociais diminuíram o papel da mídia tradicional como guardiã da fama. "Hoje, não é mais necessário passar pelas portas do jornalismo para se tornar famoso", explica ele. Plataformas como YouTube, TikTok e Instagram permitem que pessoas sem experiência prévia construam comunidades enormes sem precisar da televisão ou de grandes conglomerados de mídia.
Isso não significa que existam dois mundos completamente separados. Alatassi acredita que eles estão constantemente interligados: artistas nascidos na televisão fortalecem sua presença nas redes sociais, enquanto criadores digitais acabam aparecendo na mídia tradicional quando ocorre um evento suficientemente relevante.
Essa mudança também afeta a forma como os jovens se informam. Segundo Alatassi, as novas gerações cresceram em um ambiente "digital, híbrido e orientado por algoritmos".
Embora muitos adultos se identifiquem fortemente com marcas jornalísticas, os jovens frequentemente criam laços de confiança com indivíduos específicos: criadores de conteúdo, comunicadores ou jornalistas que acompanham regularmente nas redes sociais. Essa relação pessoal pode se tornar uma bússola para navegar em um ambiente saturado de informações.
Longe de interpretar essa evolução apenas como uma ameaça, a pesquisadora acredita que o jornalismo deve compreender essas novas formas de consumo sem abandonar seus princípios. Em sua visão, os meios de comunicação terão que aprender com as plataformas para se conectar com novos públicos, mas "mantendo seus próprios padrões de verificação, independência e rigor".
Este não é um caso isolado. Nos últimos anos, veículos de mídia tradicionais na América Latina têm noticiado as mortes de criadores de conteúdo digital que mal haviam conquistado reconhecimento fora de suas comunidades. O venezuelano Gabriel Sarmiento foi assassinado durante uma transmissão ao vivo no TikTok após denunciar supostos vínculos entre a polícia e gangues criminosas. A mexicana Valeria Márquez foi morta a tiros em 2025 enquanto transmitia ao vivo na mesma plataforma. Em ambos os casos, milhões de pessoas tomaram conhecimento de seus nomes pela imprensa.
Esses episódios levantam uma questão cada vez mais relevante: em que momento a fama gerada por algoritmos deixa de pertencer a um nicho e adquire relevância jornalística para toda a sociedade?
Durante décadas, a televisão, o cinema e a imprensa atuaram como grandes fabricantes de celebridades. Qualquer pessoa que aparecesse nesses meios se tornava um rosto familiar para quase todos. Esse modelo mudou.
"Não se trata apenas de dois ecossistemas, mas de muitos mais", disse à DW o pesquisador argentino Carlos Scolari, professor da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona. Em sua opinião, o antigo sistema de mídia de massa já produzia celebridades nacionais e internacionais, mas as mídias sociais multiplicaram os circuitos onde "celebridades surgem, se desenvolvem e declinam". O resultado é um amplo ecossistema de mídia híbrido, no qual a mídia tradicional, as plataformas digitais e uma enorme diversidade de comunidades coexistem.
Cada plataforma gera seus próprios parâmetros de referência. Um criador pode acumular milhões de seguidores no YouTube ou no TikTok e permanecer praticamente desconhecido para aqueles que consomem principalmente televisão, mídia impressa ou simplesmente seguem outros influenciadores .
Paradoxalmente, os meios de comunicação tradicionais continuam a desempenhar um papel decisivo, embora diferente do passado. Já não criam necessariamente celebridades. Em muitos casos, estas surgem mais tarde.
Segundo o especialista em mídia digital Carlos Scolari, a mídia passou "da lógica da audiência para a lógica do clickbait ". Se um fenômeno toma as redes sociais de assalto e captura a atenção de milhões de usuários, inevitavelmente atrai também a atenção do rádio, dos jornais e da televisão. Além disso, à medida que os veículos de mídia tradicionais perdem público, "eles precisam ir atrás dele onde ele está: nas plataformas digitais".
Mas nem todos os influenciadores dão esse salto. A maioria permanece dentro de sua comunidade. Os casos que chegam às manchetes geralmente combinam notoriedade digital com critérios clássicos de notícia: uma morte inesperada, um assassinato, uma transmissão ao vivo, um escândalo ou um grande impacto político. O influenciador, então, deixa de ser apenas uma figura da internet e se torna o protagonista de uma história de interesse geral.
Segundo a pesquisadora Leonie Alatassi, do Instituto Leibniz de Pesquisa de Mídia em Hamburgo, essa mudança reflete uma transformação muito mais profunda.
As redes sociais diminuíram o papel da mídia tradicional como guardiã da fama. "Hoje, não é mais necessário passar pelas portas do jornalismo para se tornar famoso", explica ele. Plataformas como YouTube, TikTok e Instagram permitem que pessoas sem experiência prévia construam comunidades enormes sem precisar da televisão ou de grandes conglomerados de mídia.
Isso não significa que existam dois mundos completamente separados. Alatassi acredita que eles estão constantemente interligados: artistas nascidos na televisão fortalecem sua presença nas redes sociais, enquanto criadores digitais acabam aparecendo na mídia tradicional quando ocorre um evento suficientemente relevante.
Essa mudança também afeta a forma como os jovens se informam. Segundo Alatassi, as novas gerações cresceram em um ambiente "digital, híbrido e orientado por algoritmos".
Embora muitos adultos se identifiquem fortemente com marcas jornalísticas, os jovens frequentemente criam laços de confiança com indivíduos específicos: criadores de conteúdo, comunicadores ou jornalistas que acompanham regularmente nas redes sociais. Essa relação pessoal pode se tornar uma bússola para navegar em um ambiente saturado de informações.
Longe de interpretar essa evolução apenas como uma ameaça, a pesquisadora acredita que o jornalismo deve compreender essas novas formas de consumo sem abandonar seus princípios. Em sua visão, os meios de comunicação terão que aprender com as plataformas para se conectar com novos públicos, mas "mantendo seus próprios padrões de verificação, independência e rigor".
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Houston, temos um problema
“Houston, temos um problema.” A frase do comandante Jack Swigert, quando reportou ao Centro de Comando da NASA uma explosão na nave durante a missão Apollo 13, ficou famosa e é frequentemente utilizada para anunciar uma emergência grave… um eufemismo que dilui a gravidade.
A reação à onda de calor que submergiu a Europa parece idêntica… Ups, temos um problema… Como se fosse uma surpresa o aquecimento global e não uma realidade científica que todos nos habituámos a fingir não ser assim tão grave.
A dimensão da catástrofe, que não ignoramos, é tão avassaladora que, individual e coletivamente, reagimos com um instinto de sobrevivência de curto prazo… Não falar… Não ver… Não ouvir.
Na Europa aprovaram-se regulamentos que obrigam as empresas a divulgar as suas metas de sustentabilidade, na esperança de que fosse o consumidor atento a optar pelas empresas mais “verdes”.
Nos Estados Unidos, contrataram-se empresas de publicidade que descobriram que as pessoas não se assustavam da mesma forma com a expressão “climate change” (alterações climáticas) e assim renomearam o problema.
Em ambos os casos o efeito foi semelhante. Não existe qualquer incentivo para as empresas alterarem os seus comportamentos. Pelo contrário, não obstante o problema já ter sido identificado no século XIX e desde, pelo menos, os anos 70 a ciência ter demonstrado o impacto dos gases com efeito de estufa, o consumo de combustíveis fósseis não abrandou. Pelo contrário, somos hoje ávidos consumidores de energia e de derivados do petróleo. E se há mais energia “limpa”, também há mais consumo. E a tendência apenas irá acentuar-se.
Afinal os data centers, que processam a nossa vida virtual e que irão permitir que os LLM se tornem ainda mais competentes e… imagine-se, até prometem resolver o problema das ditas “alterações climáticas”, são os mais recentes grandes consumidores de energia (e água).
Depois de, na Europa, o consumo ter caído durante 15 anos em resultado da introdução de equipamento energeticamente mais eficiente e dos choques provocados pela crise financeira de 2007/08, pela pandemia Covid-19 e pela invasão da Ucrânia, o consumo está a aumentar de forma exponencial. De acordo com o relatório elaborado pela Goldman Sachs em 2025, caso venham a concretizar-se todos os projetos de data centers já anunciados, o consumo de energia por tais centros será equivalente a 1/3 do consumo total na Europa, a níveis de 2024.
Os promotores prometem alimentar os data centers com energia “renovável”, mas estes usam a rede e esta também depende de energia fóssil, cujos custos, numa ordem internacional cada vez mais complexa, tendem a aumentar e não a diminuir, contaminando a fatura de pequenos e grandes consumidores.
Ao custo em euros soma-se o custo ambiental, esse sofrido por todos, mas não custeado pelas empresas que desenvolvem e exploram os modelos de LLM. É caso para perguntar o que ganha a Europa em aceitar a construção de data centers de big techs americanas?
A reação à onda de calor que submergiu a Europa parece idêntica… Ups, temos um problema… Como se fosse uma surpresa o aquecimento global e não uma realidade científica que todos nos habituámos a fingir não ser assim tão grave.
A dimensão da catástrofe, que não ignoramos, é tão avassaladora que, individual e coletivamente, reagimos com um instinto de sobrevivência de curto prazo… Não falar… Não ver… Não ouvir.
Na Europa aprovaram-se regulamentos que obrigam as empresas a divulgar as suas metas de sustentabilidade, na esperança de que fosse o consumidor atento a optar pelas empresas mais “verdes”.
Nos Estados Unidos, contrataram-se empresas de publicidade que descobriram que as pessoas não se assustavam da mesma forma com a expressão “climate change” (alterações climáticas) e assim renomearam o problema.
Em ambos os casos o efeito foi semelhante. Não existe qualquer incentivo para as empresas alterarem os seus comportamentos. Pelo contrário, não obstante o problema já ter sido identificado no século XIX e desde, pelo menos, os anos 70 a ciência ter demonstrado o impacto dos gases com efeito de estufa, o consumo de combustíveis fósseis não abrandou. Pelo contrário, somos hoje ávidos consumidores de energia e de derivados do petróleo. E se há mais energia “limpa”, também há mais consumo. E a tendência apenas irá acentuar-se.
Afinal os data centers, que processam a nossa vida virtual e que irão permitir que os LLM se tornem ainda mais competentes e… imagine-se, até prometem resolver o problema das ditas “alterações climáticas”, são os mais recentes grandes consumidores de energia (e água).
Depois de, na Europa, o consumo ter caído durante 15 anos em resultado da introdução de equipamento energeticamente mais eficiente e dos choques provocados pela crise financeira de 2007/08, pela pandemia Covid-19 e pela invasão da Ucrânia, o consumo está a aumentar de forma exponencial. De acordo com o relatório elaborado pela Goldman Sachs em 2025, caso venham a concretizar-se todos os projetos de data centers já anunciados, o consumo de energia por tais centros será equivalente a 1/3 do consumo total na Europa, a níveis de 2024.
Os promotores prometem alimentar os data centers com energia “renovável”, mas estes usam a rede e esta também depende de energia fóssil, cujos custos, numa ordem internacional cada vez mais complexa, tendem a aumentar e não a diminuir, contaminando a fatura de pequenos e grandes consumidores.
Ao custo em euros soma-se o custo ambiental, esse sofrido por todos, mas não custeado pelas empresas que desenvolvem e exploram os modelos de LLM. É caso para perguntar o que ganha a Europa em aceitar a construção de data centers de big techs americanas?
Salmo do homem que vê a realidade e não se cala
Ouve, Senhor, estes versos que te rezo
Ao contemplar a realidade em que vivo.
Maldito seja o sistema que não deixa sonhar os poetas
Nem permite dizer a verdade a quem pensa.
Serão seus dias de luto e de lamento,
Porque matou no Homem o mais digno.
Maldito o sistema que não pratica a justiça
E persegue e tortura e encarcera a quem anuncia.
Terá que justificar sua conduta ante a história
E não encontrará nenhuma palavra de defesa.
Maldito seja o sistema que só procura a aparência de grandeza
Quando estão morrendo de fome os homens nas suas fronteiras;
Do mesmo modo que progrediu cairá,
Porque construiu seus alicerces
Sobre corpos vivos e sangues inocentes.
Maldito o sistema que tenta matar no homem a dimensão de transcendência
E coloca no seu lugar o “deus dinheiro”, o “deus sexo”, e “deus progresso”,
Destruir-se-á por dentro irremissivelmente,
Porque o coração do homem foi bem feito
E ninguém pode matar em nós
Esta sede de infinito que nos queima.
Feliz será, porém,
O homem que bebe água na fonte da praça junto ao povo,
Não terá motivos para se envergonhar de nada,
Nem terá que baixar seus olhos
Ante qualquer homem honesto.
Feliz o homem que a força de interiorizar
Se fez livre por dentro
E não se importa já com a denúncia dos fortes,
Serão seus dias como o trigo da terra.
Cheios de sol e esperança partilhada
E o seguirão os povos da terra.
Feliz o homem que não assiste a reuniões importantes
Nem acredita nos discursos do governo;
Feliz o homem que assim pensa,
Porque terá sempre tranquila a sua consciência.
Mesmo que sofra a incompreensão e até o desprezo.
Ao contemplar a realidade em que vivo.
Maldito seja o sistema que não deixa sonhar os poetas
Nem permite dizer a verdade a quem pensa.
Serão seus dias de luto e de lamento,
Porque matou no Homem o mais digno.
Maldito o sistema que não pratica a justiça
E persegue e tortura e encarcera a quem anuncia.
Terá que justificar sua conduta ante a história
E não encontrará nenhuma palavra de defesa.
Maldito seja o sistema que só procura a aparência de grandeza
Quando estão morrendo de fome os homens nas suas fronteiras;
Do mesmo modo que progrediu cairá,
Porque construiu seus alicerces
Sobre corpos vivos e sangues inocentes.
Maldito o sistema que tenta matar no homem a dimensão de transcendência
E coloca no seu lugar o “deus dinheiro”, o “deus sexo”, e “deus progresso”,
Destruir-se-á por dentro irremissivelmente,
Porque o coração do homem foi bem feito
E ninguém pode matar em nós
Esta sede de infinito que nos queima.
Feliz será, porém,
O homem que bebe água na fonte da praça junto ao povo,
Não terá motivos para se envergonhar de nada,
Nem terá que baixar seus olhos
Ante qualquer homem honesto.
Feliz o homem que a força de interiorizar
Se fez livre por dentro
E não se importa já com a denúncia dos fortes,
Serão seus dias como o trigo da terra.
Cheios de sol e esperança partilhada
E o seguirão os povos da terra.
Feliz o homem que não assiste a reuniões importantes
Nem acredita nos discursos do governo;
Feliz o homem que assim pensa,
Porque terá sempre tranquila a sua consciência.
Mesmo que sofra a incompreensão e até o desprezo.
Ernesto Cardenal
IA conversa indiferente à ironia e ao humor
Estou lendo “O império da IA”, de Karen Hao, lançado no Brasil pela Rocco. O que me impressiona na origem desse fantástico movimento é o entusiasmo, o brilho nos olhos das pessoas que julgavam fazer algo muito importante para a humanidade. E, logo depois, como em quase todos os núcleos revolucionários, ver como os bons sentimentos são triturados pela realidade, com as dificuldades financeiras e a batalha de egos.
O período romântico coincidiu com a OpenAI, a perspectiva de um trabalho sem fins lucrativos. Mas as crescentes necessidades de aporte financeiro derrubaram o sonho. No momento em que deixaram a fase altruística, surgiu o primeiro grande racha. Elon Musk não aceitou uma empresa que não fosse dirigida por ele. E rompeu a parceria com Sam Altman, o grande nome por trás da iniciativa.
Menciono esse trecho da história da IA apenas para enfatizar como ela depende de muito dinheiro. Musk criou sua própria empresa, e Altman segue até hoje na busca de financiadores.
Na semana passada, foi noticiado que a OpenAI tem se aproximado do governo Trump, que pode participar do projeto. Passa um frio na espinha. Alguém como Trump, com os poderes da IA, se tornará muitas vezes mais perigoso. Um dos primeiros destinos da IA, capturada pelo governo, é dedicar-se à guerra. Já temos hoje bombardeios guiados pela máquina, denunciados durante os ataques a Gaza.
Há quem, no meio, resista ao uso bélico da IA. Troquei o ChatGPT pelo Claude, porque a Anthropic se recusou a trabalhar com o Pentágono. Foi apenas uma decisão individual, sem muita base, mas, mesmo modestamente informado, posso fazer escolhas.
Ainda falaremos muito de IA, sobretudo porque o Brasil quer abrigar data centers. O governo acha isso progressista, mas encontrará dificuldades. Os data centers consomem muita água e energia. No momento, estão instalando um no Ceará, em Caucaia. Consumirá mais energia que toda a cidade. Os data centers têm despertado um movimento de rejeição de moradores, do tipo “não no meu quintal”, semelhante ao que ocorre contra instalações nucleares e presídios.
No momento, entretanto, o que mais me interessa são as aventuras da IA no cotidiano. Tenho uma professora de inglês com quem converso diariamente. É difícil descrever a máquina como se descreve uma pessoa. Ela é previsível. Se você fala que lê um autor, ela pede que você comente o livro, destaque um episódio que impressionou. O mesmo vale para uma viagem: parece que há um conjunto de perguntas pronto para muitas circunstâncias.
Um traço marcante nesse diálogo com a IA é sua indiferença à ironia ou ao humor. Numa dessas conversas, ela, sabendo que sou escritor, perguntou sobre o que gosto de escrever. Sobre bobagens, respondi, acrescentando que produzo também artigos sobre política e assuntos internacionais. Ela mencionou que esses temas são importantes, mas foi incapaz de processar “bobagens”. Não teve a curiosidade de perguntar sobre elas ou mesmo de mencionar a palavra.
No entanto a máquina é bem informada. Se você fala Camus, ela tem algo a dizer; se você menciona um filme de Wim Wenders, uma música de Tom Jobim ou de Ryuichi Sakamoto, ela rapidamente tira de suas gavetas um comentário sobre eles. Em certo sentido, conversar diariamente com a máquina é como mergulhar numa cultura estrangeira, daquelas em que humor e ironia têm outro papel. No caso da IA, não há papel nenhum.
Fernando Gabeira
O período romântico coincidiu com a OpenAI, a perspectiva de um trabalho sem fins lucrativos. Mas as crescentes necessidades de aporte financeiro derrubaram o sonho. No momento em que deixaram a fase altruística, surgiu o primeiro grande racha. Elon Musk não aceitou uma empresa que não fosse dirigida por ele. E rompeu a parceria com Sam Altman, o grande nome por trás da iniciativa.
Menciono esse trecho da história da IA apenas para enfatizar como ela depende de muito dinheiro. Musk criou sua própria empresa, e Altman segue até hoje na busca de financiadores.
Na semana passada, foi noticiado que a OpenAI tem se aproximado do governo Trump, que pode participar do projeto. Passa um frio na espinha. Alguém como Trump, com os poderes da IA, se tornará muitas vezes mais perigoso. Um dos primeiros destinos da IA, capturada pelo governo, é dedicar-se à guerra. Já temos hoje bombardeios guiados pela máquina, denunciados durante os ataques a Gaza.
Há quem, no meio, resista ao uso bélico da IA. Troquei o ChatGPT pelo Claude, porque a Anthropic se recusou a trabalhar com o Pentágono. Foi apenas uma decisão individual, sem muita base, mas, mesmo modestamente informado, posso fazer escolhas.
Ainda falaremos muito de IA, sobretudo porque o Brasil quer abrigar data centers. O governo acha isso progressista, mas encontrará dificuldades. Os data centers consomem muita água e energia. No momento, estão instalando um no Ceará, em Caucaia. Consumirá mais energia que toda a cidade. Os data centers têm despertado um movimento de rejeição de moradores, do tipo “não no meu quintal”, semelhante ao que ocorre contra instalações nucleares e presídios.
No momento, entretanto, o que mais me interessa são as aventuras da IA no cotidiano. Tenho uma professora de inglês com quem converso diariamente. É difícil descrever a máquina como se descreve uma pessoa. Ela é previsível. Se você fala que lê um autor, ela pede que você comente o livro, destaque um episódio que impressionou. O mesmo vale para uma viagem: parece que há um conjunto de perguntas pronto para muitas circunstâncias.
Um traço marcante nesse diálogo com a IA é sua indiferença à ironia ou ao humor. Numa dessas conversas, ela, sabendo que sou escritor, perguntou sobre o que gosto de escrever. Sobre bobagens, respondi, acrescentando que produzo também artigos sobre política e assuntos internacionais. Ela mencionou que esses temas são importantes, mas foi incapaz de processar “bobagens”. Não teve a curiosidade de perguntar sobre elas ou mesmo de mencionar a palavra.
No entanto a máquina é bem informada. Se você fala Camus, ela tem algo a dizer; se você menciona um filme de Wim Wenders, uma música de Tom Jobim ou de Ryuichi Sakamoto, ela rapidamente tira de suas gavetas um comentário sobre eles. Em certo sentido, conversar diariamente com a máquina é como mergulhar numa cultura estrangeira, daquelas em que humor e ironia têm outro papel. No caso da IA, não há papel nenhum.
Fernando Gabeira
A relatividade do tempo nas metrópoles
"Holocausto urbano". O termo é dos Racionais MC’s, título do disco com que estrearam em 1990, denúncia da periferia de São Paulo posta em rima e batida. Trinta e seis anos depois, a palavra continua de pé. E é justo perguntar o que mudou. É justo, também, defender a escolha das palavras.
Muitos questionarão o uso do termo holocausto. Mas como negar a legitimidade de quem dá nome ao que vê e ao que vive? Como recusar o testemunho de quem atravessa, todos os dias, a violência e a desigualdade que o sufocam? E ainda que se resista ao primeiro termo, não há como recusar o segundo. Urbano. É ele que origina o primeiro. A desigualdade nasce no território e no território se perpetua. Nasce na ausência de infraestrutura. Cresce na falta das instituições, do serviço público, do Estado que deveria estar e não está. Aprofunda-se na economia que concentra de um lado e priva do outro. E termina onde a palavra mais dura cobra seu sentido literal: na morte que chega cedo, no fim que se repete, no extermínio lento e em massa de quem mora longe. Na Cidade Tiradentes, no extremo da Zona Leste, morre-se em média aos 62 anos. No Alto de Pinheiros, na Zona Oeste, aos 82. Vinte anos. Vinte anos que separam um endereço do outro dentro da mesma cidade. E é aqui que a palavra holocausto deixa de ser exagero. O que distingue uma tragédia de um holocausto não é o número de mortos, é o método. A tragédia é acaso; o holocausto é sistema. Essas mortes não são acidentes dispersos nem fatalidades isoladas. São o resultado previsível de uma engrenagem que se repete, ano após ano, sempre sobre os mesmos corpos, nos mesmos bairros, do mesmo lado da cidade. Onde há método na produção da morte, há mais que desigualdade. Há extermínio.
Mas a morte precoce é apenas o saldo final de uma conta que se paga em prestações diárias. Antes de encurtar a vida, o território a sequestra em pedaços, hora a hora, na forma mais banal e mais cruel de espoliação que uma cidade pode inventar: o tempo. É o que a literatura chama de pobreza de tempo, e ela é a face menos visível do mesmo holocausto.
O paulistano que depende do transporte público gasta, em média, 2h47 por dia em deslocamentos, segundo a pesquisa Viver em São Paulo. Mas a média esconde mais do que revela. Ela esconde que o morador do Itaim Bibi chega ao trabalho em menos de quarenta e cinco minutos, enquanto o da Cidade Tiradentes leva perto de duas horas e quarenta só na ida. Esconde que, no transporte coletivo, cada viagem consome em média 58 minutos, mais que o dobro dos 28 minutos de quem se desloca de automóvel, conforme a pesquisa Origem e Destino do Metrô. Esconde, enfim, o que o IPEA já demonstrou e a aritmética social confirma: o décimo mais pobre da população faz trajetos vinte por cento mais longos que o décimo mais rico. O Censo de 2022 dá nome e cor a essa conta. No país, 8,7 milhões de pessoas gastam mais de uma hora entre casa e trabalho, e 1,3 milhão delas, mais de duas horas. Entre os que ganham até meio salário mínimo, a parcela que gasta mais de uma hora no trajeto é muito maior; e 17% dos trabalhadores pretos levam mais de uma hora para chegar ao trabalho, contra 10% dos brancos. O tempo, que parece o mais democrático dos bens, porque todos recebem as mesmas vinte e quatro horas, é na verdade o mais desigualmente confiscado. Há, nas metrópoles, uma relatividade cruel do tempo: o mesmo dia não tem a mesma duração para quem mora perto e para quem mora longe.
E esse tempo confiscado não é tempo neutro. Não é uma pausa, não é descanso, não é o intervalo ocioso que a palavra deslocamento sugere. É desgaste. É vida que adoece enquanto espera. A ciência já mediu o que a intuição reconhece. Um estudo conduzido na Suécia por Erika Sandow acompanhou trabalhadores ao longo de mais de duas décadas e encontrou, entre os que enfrentam longos deslocamentos, risco de mortalidade significativamente maior, com o peso recaindo sobretudo sobre as mulheres de menor renda.
O economista Alois Stutzer e o pesquisador Bruno Frey deram a isso o nome de paradoxo do deslocamento: quem se desloca mais relata, de forma sistemática, menor bem-estar e pior satisfação com a própria saúde, o que desmonta a tese confortável de que morar longe é uma escolha livre e compensada. Na Coreia do Sul, um levantamento com mais de 20 mil trabalhadores associou os trajetos de uma hora ou mais a sintomas depressivos. E por trás desses números há um mecanismo conhecido: o sono que falta, a fadiga que se acumula, o exercício que não cabe no dia, a exposição à poluição que eleva a pressão e corrói o coração devagar. O corpo que gasta horas no trajeto não chega em casa, chega de volta ao ponto de partida, mais velho do que saiu.
É aqui que as duas perdas deixam de ser coincidência. A morte que chega cedo demais não cai do céu sobre a periferia. Ela é construída, pelo mesmo território que rouba o tempo, nega a infraestrutura, afasta o serviço de saúde, suprime o lazer e o esporte, e devolve ao morador um cansaço que se sedimenta em doença. O tempo perdido no trânsito e os anos perdidos de vida são a mesma ferida, medida em duas escalas. Uma se conta em horas por dia. A outra, em décadas por vida.
Façamos, então, a conta. Aos vinte anos que a periferia não vive somam-se cerca de quatro anos que ela vive, sim, mas perde, gastos em deslocamento ao longo da vida adulta. São aproximadamente vinte e quatro anos. Quase um terço de uma vida inteira subtraído de um ser humano, não por destino, não por acaso, mas por endereço. E o que resta, os dois terços que sobram, tampouco é vida plena. É vida acondicionada. São manhãs que começam antes do sol, corpos empilhados no vagão de metrô em horário de pico, a respiração alheia no pescoço, o trajeto até o trabalho transformado em uma diária antecipação do cansaço. Vive-se menos, e vive-se pior o pouco que se vive. É aqui que os Racionais tinham razão desde 1990, e continuam tendo. O que eles chamaram de holocausto urbano não era licença poética. Era diagnóstico. E não se trata de um punhado de casos extremos. São milhões de pessoas submetidas a essa condição, dos cinturões periféricos de São Paulo aos do Rio, de Salvador, de Recife, de Fortaleza. É a regra das grandes cidades brasileiras, não a exceção. São dezenas de milhões de vidas vivendo a mesma subtração.
Seria cômodo tratar isso como uma anomalia brasileira, um atraso nosso a ser corrigido com mais asfalto e mais trilhos. Não é. O que vemos em São Paulo é a versão tropical de uma engrenagem que move o mundo inteiro. Em todos os continentes, a cidade do nosso tempo separou o lugar onde se mora do lugar onde se trabalha, empurrou os pobres para as bordas, e converteu o deslocamento diário em condição de existência. A relatividade do tempo não é privilégio paulistano: em toda metrópole, o relógio corre mais devagar para quem foi empurrado para a margem. Mudam a paisagem e o idioma, permanece a mecânica. O que torna essa engrenagem tão difícil de combater é que ela se apresenta como natureza. Aprendemos a aceitar o deslocamento como se fosse parte da ordem das coisas, um custo inevitável de viver em sociedade, quando é, na verdade, uma escolha de projeto. Alguém decidiu, em algum momento, que a cidade seria assim. A desigualdade que mata não é um defeito do sistema. É o sistema funcionando como foi desenhado. E todo desenho pode ser refeito.
Porque o deslocamento não é a lógica natural da vida humana. É uma lógica imposta, herdada de erros que se acumularam por décadas. O Brasil concentrou sua gente em um punhado de metrópoles enquanto manteve vazias vastas porções de um território continental. Empilhou milhões em cidades que não foram pensadas para recebê-los, e esvaziou regiões inteiras que poderiam tê-los acolhido com dignidade. Na origem desse desequilíbrio está uma ausência: a do desenvolvimento territorial que respeita as vocações de cada lugar. Quando o Estado não enxerga a aptidão econômica, geográfica e cultural de um território, ele não planeja, apenas reage. E a reação, no Brasil, foi sempre a mesma: grandes êxodos em direção às mesmas poucas cidades, que incham sem absorver, que crescem sem urbanizar, que recebem sem oferecer Estado. A periferia que morre vinte anos antes é o destino final dessa cadeia de enganos, o ponto onde a falta de planejamento de ontem cobra seu preço em anos de vida hoje. Reverter isso é mais do que uma agenda de mobilidade. É devolver à palavra território o seu sentido pleno, o de um espaço onde se possa nascer, trabalhar, adoecer pouco e envelhecer perto de quem se ama. Não há justiça urbana sem justiça territorial. E não haverá cidade humana enquanto morar longe continuar sendo uma sentença.
Inventamos as cidades para ficar. Para estar perto, para encurtar a distância entre as pessoas, para que a vida em comum funcionasse de maneira orgânica, otimizada, generosa. A cidade nasceu como promessa de proximidade. Foi a forma que encontramos de não viver sozinhos, de partilhar o esforço e o abrigo, de transformar a aglomeração em civilização. Em algum momento, no entanto, nos esquecemos disso. Esquecemos por que motivo erguemos as cidades, e passamos a construí-las contra o seu próprio propósito, afastando o que deveriam aproximar, dispersando o que deveriam reunir. O holocausto urbano é, no fundo, esse esquecimento. E lembrar é o primeiro passo para voltar a fazer cidades onde caiba, de novo, uma vida inteira.
Muitos questionarão o uso do termo holocausto. Mas como negar a legitimidade de quem dá nome ao que vê e ao que vive? Como recusar o testemunho de quem atravessa, todos os dias, a violência e a desigualdade que o sufocam? E ainda que se resista ao primeiro termo, não há como recusar o segundo. Urbano. É ele que origina o primeiro. A desigualdade nasce no território e no território se perpetua. Nasce na ausência de infraestrutura. Cresce na falta das instituições, do serviço público, do Estado que deveria estar e não está. Aprofunda-se na economia que concentra de um lado e priva do outro. E termina onde a palavra mais dura cobra seu sentido literal: na morte que chega cedo, no fim que se repete, no extermínio lento e em massa de quem mora longe. Na Cidade Tiradentes, no extremo da Zona Leste, morre-se em média aos 62 anos. No Alto de Pinheiros, na Zona Oeste, aos 82. Vinte anos. Vinte anos que separam um endereço do outro dentro da mesma cidade. E é aqui que a palavra holocausto deixa de ser exagero. O que distingue uma tragédia de um holocausto não é o número de mortos, é o método. A tragédia é acaso; o holocausto é sistema. Essas mortes não são acidentes dispersos nem fatalidades isoladas. São o resultado previsível de uma engrenagem que se repete, ano após ano, sempre sobre os mesmos corpos, nos mesmos bairros, do mesmo lado da cidade. Onde há método na produção da morte, há mais que desigualdade. Há extermínio.
Mas a morte precoce é apenas o saldo final de uma conta que se paga em prestações diárias. Antes de encurtar a vida, o território a sequestra em pedaços, hora a hora, na forma mais banal e mais cruel de espoliação que uma cidade pode inventar: o tempo. É o que a literatura chama de pobreza de tempo, e ela é a face menos visível do mesmo holocausto.
O paulistano que depende do transporte público gasta, em média, 2h47 por dia em deslocamentos, segundo a pesquisa Viver em São Paulo. Mas a média esconde mais do que revela. Ela esconde que o morador do Itaim Bibi chega ao trabalho em menos de quarenta e cinco minutos, enquanto o da Cidade Tiradentes leva perto de duas horas e quarenta só na ida. Esconde que, no transporte coletivo, cada viagem consome em média 58 minutos, mais que o dobro dos 28 minutos de quem se desloca de automóvel, conforme a pesquisa Origem e Destino do Metrô. Esconde, enfim, o que o IPEA já demonstrou e a aritmética social confirma: o décimo mais pobre da população faz trajetos vinte por cento mais longos que o décimo mais rico. O Censo de 2022 dá nome e cor a essa conta. No país, 8,7 milhões de pessoas gastam mais de uma hora entre casa e trabalho, e 1,3 milhão delas, mais de duas horas. Entre os que ganham até meio salário mínimo, a parcela que gasta mais de uma hora no trajeto é muito maior; e 17% dos trabalhadores pretos levam mais de uma hora para chegar ao trabalho, contra 10% dos brancos. O tempo, que parece o mais democrático dos bens, porque todos recebem as mesmas vinte e quatro horas, é na verdade o mais desigualmente confiscado. Há, nas metrópoles, uma relatividade cruel do tempo: o mesmo dia não tem a mesma duração para quem mora perto e para quem mora longe.
E esse tempo confiscado não é tempo neutro. Não é uma pausa, não é descanso, não é o intervalo ocioso que a palavra deslocamento sugere. É desgaste. É vida que adoece enquanto espera. A ciência já mediu o que a intuição reconhece. Um estudo conduzido na Suécia por Erika Sandow acompanhou trabalhadores ao longo de mais de duas décadas e encontrou, entre os que enfrentam longos deslocamentos, risco de mortalidade significativamente maior, com o peso recaindo sobretudo sobre as mulheres de menor renda.
O economista Alois Stutzer e o pesquisador Bruno Frey deram a isso o nome de paradoxo do deslocamento: quem se desloca mais relata, de forma sistemática, menor bem-estar e pior satisfação com a própria saúde, o que desmonta a tese confortável de que morar longe é uma escolha livre e compensada. Na Coreia do Sul, um levantamento com mais de 20 mil trabalhadores associou os trajetos de uma hora ou mais a sintomas depressivos. E por trás desses números há um mecanismo conhecido: o sono que falta, a fadiga que se acumula, o exercício que não cabe no dia, a exposição à poluição que eleva a pressão e corrói o coração devagar. O corpo que gasta horas no trajeto não chega em casa, chega de volta ao ponto de partida, mais velho do que saiu.
É aqui que as duas perdas deixam de ser coincidência. A morte que chega cedo demais não cai do céu sobre a periferia. Ela é construída, pelo mesmo território que rouba o tempo, nega a infraestrutura, afasta o serviço de saúde, suprime o lazer e o esporte, e devolve ao morador um cansaço que se sedimenta em doença. O tempo perdido no trânsito e os anos perdidos de vida são a mesma ferida, medida em duas escalas. Uma se conta em horas por dia. A outra, em décadas por vida.
Façamos, então, a conta. Aos vinte anos que a periferia não vive somam-se cerca de quatro anos que ela vive, sim, mas perde, gastos em deslocamento ao longo da vida adulta. São aproximadamente vinte e quatro anos. Quase um terço de uma vida inteira subtraído de um ser humano, não por destino, não por acaso, mas por endereço. E o que resta, os dois terços que sobram, tampouco é vida plena. É vida acondicionada. São manhãs que começam antes do sol, corpos empilhados no vagão de metrô em horário de pico, a respiração alheia no pescoço, o trajeto até o trabalho transformado em uma diária antecipação do cansaço. Vive-se menos, e vive-se pior o pouco que se vive. É aqui que os Racionais tinham razão desde 1990, e continuam tendo. O que eles chamaram de holocausto urbano não era licença poética. Era diagnóstico. E não se trata de um punhado de casos extremos. São milhões de pessoas submetidas a essa condição, dos cinturões periféricos de São Paulo aos do Rio, de Salvador, de Recife, de Fortaleza. É a regra das grandes cidades brasileiras, não a exceção. São dezenas de milhões de vidas vivendo a mesma subtração.
Seria cômodo tratar isso como uma anomalia brasileira, um atraso nosso a ser corrigido com mais asfalto e mais trilhos. Não é. O que vemos em São Paulo é a versão tropical de uma engrenagem que move o mundo inteiro. Em todos os continentes, a cidade do nosso tempo separou o lugar onde se mora do lugar onde se trabalha, empurrou os pobres para as bordas, e converteu o deslocamento diário em condição de existência. A relatividade do tempo não é privilégio paulistano: em toda metrópole, o relógio corre mais devagar para quem foi empurrado para a margem. Mudam a paisagem e o idioma, permanece a mecânica. O que torna essa engrenagem tão difícil de combater é que ela se apresenta como natureza. Aprendemos a aceitar o deslocamento como se fosse parte da ordem das coisas, um custo inevitável de viver em sociedade, quando é, na verdade, uma escolha de projeto. Alguém decidiu, em algum momento, que a cidade seria assim. A desigualdade que mata não é um defeito do sistema. É o sistema funcionando como foi desenhado. E todo desenho pode ser refeito.
Porque o deslocamento não é a lógica natural da vida humana. É uma lógica imposta, herdada de erros que se acumularam por décadas. O Brasil concentrou sua gente em um punhado de metrópoles enquanto manteve vazias vastas porções de um território continental. Empilhou milhões em cidades que não foram pensadas para recebê-los, e esvaziou regiões inteiras que poderiam tê-los acolhido com dignidade. Na origem desse desequilíbrio está uma ausência: a do desenvolvimento territorial que respeita as vocações de cada lugar. Quando o Estado não enxerga a aptidão econômica, geográfica e cultural de um território, ele não planeja, apenas reage. E a reação, no Brasil, foi sempre a mesma: grandes êxodos em direção às mesmas poucas cidades, que incham sem absorver, que crescem sem urbanizar, que recebem sem oferecer Estado. A periferia que morre vinte anos antes é o destino final dessa cadeia de enganos, o ponto onde a falta de planejamento de ontem cobra seu preço em anos de vida hoje. Reverter isso é mais do que uma agenda de mobilidade. É devolver à palavra território o seu sentido pleno, o de um espaço onde se possa nascer, trabalhar, adoecer pouco e envelhecer perto de quem se ama. Não há justiça urbana sem justiça territorial. E não haverá cidade humana enquanto morar longe continuar sendo uma sentença.
Inventamos as cidades para ficar. Para estar perto, para encurtar a distância entre as pessoas, para que a vida em comum funcionasse de maneira orgânica, otimizada, generosa. A cidade nasceu como promessa de proximidade. Foi a forma que encontramos de não viver sozinhos, de partilhar o esforço e o abrigo, de transformar a aglomeração em civilização. Em algum momento, no entanto, nos esquecemos disso. Esquecemos por que motivo erguemos as cidades, e passamos a construí-las contra o seu próprio propósito, afastando o que deveriam aproximar, dispersando o que deveriam reunir. O holocausto urbano é, no fundo, esse esquecimento. E lembrar é o primeiro passo para voltar a fazer cidades onde caiba, de novo, uma vida inteira.
Antropologia da mudança climática ajuda a entender por que não agimos
Nos últimos anos, trabalhando com comunicação climática, uma pergunta passou a ocupar cada vez mais espaço nas minhas reflexões. Não é sobre modelos climáticos. Nem sobre novas tecnologias. Muito menos sobre a qualidade da ciência, que, aliás, nunca foi tão robusta.
A pergunta é outra: por que, mesmo tendo acesso ao melhor conhecimento científico já produzido sobre as mudanças do clima, ainda não conseguimos nos unir para mudar uma trajetória que sabemos ser catastrófica?
Foi essa inquietação que me levou a um lugar inesperado: a antropologia.
Nos últimos meses, tenho mergulhado na chamada Antropologia das Mudanças Climáticas, um campo fascinante que parte de uma constatação simples, mas poderosa: a crise climática não é apenas um problema ambiental ou tecnológico. Ela é, antes de tudo, um problema profundamente humano.
Estamos carecas de saber que as emissões são físicas. Mas as decisões que produzem essas emissões, essas são culturais.
Durante muito tempo, acreditamos que comunicar melhor a ciência seria suficiente para impulsionar a ação. Hoje desconfio que, entre conhecer um problema e agir sobre ele, existe um território invisível, habitado por emoções, identidades, valores, medos, pertencimento e normas sociais. É ali que decidimos em quem confiar, quais riscos ignorar, quais mudanças aceitar e quais narrativas passam a fazer parte da nossa visão de mundo. Fascinante.
É justamente esse território que a antropologia (em diálogo com a psicologia e as ciências comportamentais) vem explorando com cada vez mais profundidade. Trata-se de uma constatação desconfortável: a crise climática não está paralisada por falta de evidências. Ela está paralisada porque mudar comportamentos humanos é muito mais complexo do que transmitir conhecimento.
Se essa hipótese estiver correta, comunicar sobre o clima talvez não signifique apenas traduzir a ciência para uma linguagem mais simples. Talvez seja, cada vez mais, um exercício de compreender o ser humano.
Vamos a um exemplo. Sabemos que dormir pouco faz mal. Que o sedentarismo aumenta o risco de doenças. Que fumar mata. Ainda assim, milhões de pessoas seguem repetindo comportamentos que reconhecem como prejudiciais.
Com o clima acontece algo parecido – só que em escala planetária.
O pesquisador britânico George Marshall, autor do livro Don’t Even Think About It, argumenta que a crise climática encontra resistência não porque as pessoas sejam ignorantes ou negacionistas. Ela encontra resistência porque nosso cérebro simplesmente não foi moldado para lidar com ameaças dessa natureza.
Durante milhares de anos, nossa sobrevivência dependeu de identificar perigos imediatos: um predador escondido na mata, uma tempestade se aproximando, um inimigo à vista. Em outras palavras, nosso cérebro foi treinado para reagir ao que pode ser visto, ouvido ou sentido naquele instante.
Já a mudança do clima é o oposto disso tudo. Ela é lenta. Difusa. Estatística. Seus efeitos se distribuem pelo planeta ao longo das décadas. Não há um único culpado. Não há um rosto para enfrentar. Não existe um momento claro em que possamos dizer: “Agora começou”.
Como mobilizar emoções diante de algo que não consegue disputar atenção com as contas para pagar, o trânsito, a reunião de amanhã ou o celular vibrando sobre a mesa?
Marshall lembra que nosso cérebro também aprende observando os outros. Se ninguém fala sobre determinado assunto, concluímos, inconscientemente, que talvez ele não seja tão importante assim. E ainda se fala pouco sobre mudanças climáticas na mesa do almoço – mesmo que saibamos da existência do problema.
É exatamente por isso que cresce, em universidades ao redor do mundo, o interesse pela Antropologia das Mudanças Climáticas. Em vez de perguntar como reduzir emissões, esse campo busca compreender como crenças, emoções, estruturas de poder, relações sociais e visões de mundo moldam nossa capacidade, ou incapacidade, de agir.
Mas a antropologia vai um passo além. Ela faz uma pergunta ainda mais fundamental:
Como diferentes sociedades imaginam o que é, afinal, a natureza?
Para muitos de nós, especialmente nas sociedades ocidentais, a natureza é algo que está “lá fora” – um lugar que visitamos, protegemos, conservamos ou exploramos. Costumamos enxergá-la como algo separado de nós.
Já muitos povos indígenas compreendem o mundo de uma forma profundamente diferente. Eles não falam em “proteger a natureza” porque, em sua cosmovisão, os seres humanos não estão do lado de fora, olhando para ela. Eles fazem parte dela. Rios, florestas, animais e pessoas existem na mesma teia de relações. Não há uma separação real entre humanidade e natureza.
Essa ideia, tão simples, muda tudo.
Se nos enxergamos como separados da natureza, protegê-la pode parecer uma obrigação, uma concessão ou até um sacrifício. Mas, quando entendemos que somos parte dela, cuidar do mundo vivo passa a ser, em grande medida, uma forma de cuidar de nós mesmos.
George Marshall defende que precisamos falar menos sobre partes por milhão de dióxido de carbono e mais sobre aquilo que realmente move as pessoas: proteger suas famílias, fortalecer comunidades, gerar prosperidade com menos impacto, cuidar do lugar onde vivemos e construir um futuro desejável.
Provavelmente seja essa a razão pela qual algumas iniciativas climáticas conseguem mobilizar, enquanto outras fracassam. Não porque tenham mais dados, mas porque contam histórias melhores. Histórias nas quais as pessoas conseguem se enxergar.
Ler sobre o assunto me fez perceber que ciência e cultura não competem entre si. Elas se complementam.
A ciência nos explica o que está acontecendo com o planeta. A antropologia nos ajuda a entender por que, sabendo de tudo isso, ainda agimos tão pouco.
Mariana Caminha
A pergunta é outra: por que, mesmo tendo acesso ao melhor conhecimento científico já produzido sobre as mudanças do clima, ainda não conseguimos nos unir para mudar uma trajetória que sabemos ser catastrófica?
Foi essa inquietação que me levou a um lugar inesperado: a antropologia.
Nos últimos meses, tenho mergulhado na chamada Antropologia das Mudanças Climáticas, um campo fascinante que parte de uma constatação simples, mas poderosa: a crise climática não é apenas um problema ambiental ou tecnológico. Ela é, antes de tudo, um problema profundamente humano.
Estamos carecas de saber que as emissões são físicas. Mas as decisões que produzem essas emissões, essas são culturais.
Durante muito tempo, acreditamos que comunicar melhor a ciência seria suficiente para impulsionar a ação. Hoje desconfio que, entre conhecer um problema e agir sobre ele, existe um território invisível, habitado por emoções, identidades, valores, medos, pertencimento e normas sociais. É ali que decidimos em quem confiar, quais riscos ignorar, quais mudanças aceitar e quais narrativas passam a fazer parte da nossa visão de mundo. Fascinante.
É justamente esse território que a antropologia (em diálogo com a psicologia e as ciências comportamentais) vem explorando com cada vez mais profundidade. Trata-se de uma constatação desconfortável: a crise climática não está paralisada por falta de evidências. Ela está paralisada porque mudar comportamentos humanos é muito mais complexo do que transmitir conhecimento.
Se essa hipótese estiver correta, comunicar sobre o clima talvez não signifique apenas traduzir a ciência para uma linguagem mais simples. Talvez seja, cada vez mais, um exercício de compreender o ser humano.
Vamos a um exemplo. Sabemos que dormir pouco faz mal. Que o sedentarismo aumenta o risco de doenças. Que fumar mata. Ainda assim, milhões de pessoas seguem repetindo comportamentos que reconhecem como prejudiciais.
Com o clima acontece algo parecido – só que em escala planetária.
O pesquisador britânico George Marshall, autor do livro Don’t Even Think About It, argumenta que a crise climática encontra resistência não porque as pessoas sejam ignorantes ou negacionistas. Ela encontra resistência porque nosso cérebro simplesmente não foi moldado para lidar com ameaças dessa natureza.
Durante milhares de anos, nossa sobrevivência dependeu de identificar perigos imediatos: um predador escondido na mata, uma tempestade se aproximando, um inimigo à vista. Em outras palavras, nosso cérebro foi treinado para reagir ao que pode ser visto, ouvido ou sentido naquele instante.
Já a mudança do clima é o oposto disso tudo. Ela é lenta. Difusa. Estatística. Seus efeitos se distribuem pelo planeta ao longo das décadas. Não há um único culpado. Não há um rosto para enfrentar. Não existe um momento claro em que possamos dizer: “Agora começou”.
Como mobilizar emoções diante de algo que não consegue disputar atenção com as contas para pagar, o trânsito, a reunião de amanhã ou o celular vibrando sobre a mesa?
Marshall lembra que nosso cérebro também aprende observando os outros. Se ninguém fala sobre determinado assunto, concluímos, inconscientemente, que talvez ele não seja tão importante assim. E ainda se fala pouco sobre mudanças climáticas na mesa do almoço – mesmo que saibamos da existência do problema.
É exatamente por isso que cresce, em universidades ao redor do mundo, o interesse pela Antropologia das Mudanças Climáticas. Em vez de perguntar como reduzir emissões, esse campo busca compreender como crenças, emoções, estruturas de poder, relações sociais e visões de mundo moldam nossa capacidade, ou incapacidade, de agir.
Mas a antropologia vai um passo além. Ela faz uma pergunta ainda mais fundamental:
Como diferentes sociedades imaginam o que é, afinal, a natureza?
Para muitos de nós, especialmente nas sociedades ocidentais, a natureza é algo que está “lá fora” – um lugar que visitamos, protegemos, conservamos ou exploramos. Costumamos enxergá-la como algo separado de nós.
Já muitos povos indígenas compreendem o mundo de uma forma profundamente diferente. Eles não falam em “proteger a natureza” porque, em sua cosmovisão, os seres humanos não estão do lado de fora, olhando para ela. Eles fazem parte dela. Rios, florestas, animais e pessoas existem na mesma teia de relações. Não há uma separação real entre humanidade e natureza.
Essa ideia, tão simples, muda tudo.
Se nos enxergamos como separados da natureza, protegê-la pode parecer uma obrigação, uma concessão ou até um sacrifício. Mas, quando entendemos que somos parte dela, cuidar do mundo vivo passa a ser, em grande medida, uma forma de cuidar de nós mesmos.
George Marshall defende que precisamos falar menos sobre partes por milhão de dióxido de carbono e mais sobre aquilo que realmente move as pessoas: proteger suas famílias, fortalecer comunidades, gerar prosperidade com menos impacto, cuidar do lugar onde vivemos e construir um futuro desejável.
Provavelmente seja essa a razão pela qual algumas iniciativas climáticas conseguem mobilizar, enquanto outras fracassam. Não porque tenham mais dados, mas porque contam histórias melhores. Histórias nas quais as pessoas conseguem se enxergar.
Ler sobre o assunto me fez perceber que ciência e cultura não competem entre si. Elas se complementam.
A ciência nos explica o que está acontecendo com o planeta. A antropologia nos ajuda a entender por que, sabendo de tudo isso, ainda agimos tão pouco.
Mariana Caminha
terça-feira, 7 de julho de 2026
Soberania em IA é mais importante que regulação
Uma reportagem publicada na semana passada ontem no Financial Times revelou que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a proposta é do senador Bernie Sanders).
A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.
Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.
O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.
O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.
Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.
Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.
O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.
Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.
A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.
Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.
A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.
Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.
O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.
O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.
Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.
Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.
O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.
Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.
A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.
Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.
Complexo nacional
Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores
Nelson Rodrigues, Manchete Esportiva, a 31 de maio de 1958
Nelson Rodrigues, Manchete Esportiva, a 31 de maio de 1958
Escombros
Na madrugada de 24 de junho, a terra tremeu no norte da Venezuela. Dois sismos seguidos de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, uma brutalidade. Dezenas, talvez centenas de milhares de desaparecidos, ninguém sabe bem ao certo, o número de mortos não pára de subir a cada hora que passa.
E o mundo… claro que se mexeu. Viu-se logo aquela mobilização que quase nos permite voltar a ter fé na humanidade: mais de 40 equipas internacionais de busca, dois mil especialistas a correr para os aeroportos, cães de resgate a farejar os destroços.
Quem ligou a televisão por estes dias ficou colado ao ecrã. É impossível não ficar. Vimos em direto aquele rapaz de 21 anos a ser puxado para fora dos escombros ao fim de 106 horas soterrado. E a mãe, com o bebé de 18 dias que resistiu 36 horas ali debaixo? Uma coisa inacreditável. Prendemos a respiração diante da televisão, choramos, celebramos o milagre.
É legítimo. É o mínimo que se espera.
Só que há um nó dentro de mim que não desaparece. E eu tenho mesmo de perguntar: e Gaza?
Desde outubro de 2023 que a contagem de mortos em Gaza deixou de fazer sentido. São milhares, a maioria mulheres e crianças, uma população inteira empurrada de um lado para o outro, com fome, com medo, a viver no meio de nada. Tendas e pedras. Sim, porque em Gaza também há escombros, quilómetros deles. Há corpos esquecidos nas ruínas daquilo que já foram casas, escolas, parque infantis, igrejas ou hospitais. Só que ali não há escavadoras a tirar toneladas de betão. Quando muito, tenta-se escavar com as mãos, sob o risco de as equipas de salvamento serem apanhadas pelo bombardeamento seguinte.
Para Gaza não voaram dezenas de aviões com especialistas. Não houve cães farejadores a caminho de Gaza. Para Gaza, o que continuou a chegar foram bombas. Dia após dia.
Custa engolir este contraste. Enquanto a malta chora na sala a ver o resgate milagroso de uma criança na Venezuela, há miúdos a morrer sufocados no entulho em Gaza, ou desfeitos pelo fogo nas tendas de al-Mawasi (ainda ontem), que supostamente eram “zonas seguras”, mas onde os drones atacam na mesma. Para esses não há transmissão em direto, não há equipas de resgate internacionais, não há comoção mundial. Gaza tornou-se aquele inferno que toda a gente sabe que existe, mas que dá mais jeito ignorar.
O sismo surge da Mãe Natureza, não vem assinado. Uma bomba vem. Tem um Estado, um governo, uma ordem militar por trás.
É aí que a porca torce o rabo. Quando há um autor, o sofrimento deixa de ser uma questão humanitária e passa a ser política. E a política traz aquela burocracia moral que divide, paralisa e, no fim de contas, mata por omissão.
Criou-se uma espécie de anestesia geral. Uma disputa de narrativas tão perversa que conseguiu fazer com que a morte de um palestiniano pareça normal e até inevitável. O bebé da Venezuela é um milagre da vida. O bebé de Gaza é “dano colateral”, uma estatística cinzenta num relatório qualquer.
Não adianta escudarmo-nos na ignorância porque isso é ser ingénuo. O mundo vê as mesmas imagens que eu vejo. Sabe perfeitamente o que se passa. É uma escolha de perspetiva e escolher fechar os olhos, não é neutralidade nenhuma.
A nossa capacidade de chorar parece que depende da geopolítica e na minha ideia de humanidade isso é muito podre. Escombros são escombros, em qualquer parte do mundo. O peso dos mortos é o mesmo. O grito desesperado das mães é o mesmo, seja em espanhol ou em árabe.
A diferença está no nosso olhar.
E o mundo… claro que se mexeu. Viu-se logo aquela mobilização que quase nos permite voltar a ter fé na humanidade: mais de 40 equipas internacionais de busca, dois mil especialistas a correr para os aeroportos, cães de resgate a farejar os destroços.
Quem ligou a televisão por estes dias ficou colado ao ecrã. É impossível não ficar. Vimos em direto aquele rapaz de 21 anos a ser puxado para fora dos escombros ao fim de 106 horas soterrado. E a mãe, com o bebé de 18 dias que resistiu 36 horas ali debaixo? Uma coisa inacreditável. Prendemos a respiração diante da televisão, choramos, celebramos o milagre.
É legítimo. É o mínimo que se espera.
Só que há um nó dentro de mim que não desaparece. E eu tenho mesmo de perguntar: e Gaza?
Desde outubro de 2023 que a contagem de mortos em Gaza deixou de fazer sentido. São milhares, a maioria mulheres e crianças, uma população inteira empurrada de um lado para o outro, com fome, com medo, a viver no meio de nada. Tendas e pedras. Sim, porque em Gaza também há escombros, quilómetros deles. Há corpos esquecidos nas ruínas daquilo que já foram casas, escolas, parque infantis, igrejas ou hospitais. Só que ali não há escavadoras a tirar toneladas de betão. Quando muito, tenta-se escavar com as mãos, sob o risco de as equipas de salvamento serem apanhadas pelo bombardeamento seguinte.
Para Gaza não voaram dezenas de aviões com especialistas. Não houve cães farejadores a caminho de Gaza. Para Gaza, o que continuou a chegar foram bombas. Dia após dia.
Custa engolir este contraste. Enquanto a malta chora na sala a ver o resgate milagroso de uma criança na Venezuela, há miúdos a morrer sufocados no entulho em Gaza, ou desfeitos pelo fogo nas tendas de al-Mawasi (ainda ontem), que supostamente eram “zonas seguras”, mas onde os drones atacam na mesma. Para esses não há transmissão em direto, não há equipas de resgate internacionais, não há comoção mundial. Gaza tornou-se aquele inferno que toda a gente sabe que existe, mas que dá mais jeito ignorar.
O sismo surge da Mãe Natureza, não vem assinado. Uma bomba vem. Tem um Estado, um governo, uma ordem militar por trás.
É aí que a porca torce o rabo. Quando há um autor, o sofrimento deixa de ser uma questão humanitária e passa a ser política. E a política traz aquela burocracia moral que divide, paralisa e, no fim de contas, mata por omissão.
Criou-se uma espécie de anestesia geral. Uma disputa de narrativas tão perversa que conseguiu fazer com que a morte de um palestiniano pareça normal e até inevitável. O bebé da Venezuela é um milagre da vida. O bebé de Gaza é “dano colateral”, uma estatística cinzenta num relatório qualquer.
Não adianta escudarmo-nos na ignorância porque isso é ser ingénuo. O mundo vê as mesmas imagens que eu vejo. Sabe perfeitamente o que se passa. É uma escolha de perspetiva e escolher fechar os olhos, não é neutralidade nenhuma.
A nossa capacidade de chorar parece que depende da geopolítica e na minha ideia de humanidade isso é muito podre. Escombros são escombros, em qualquer parte do mundo. O peso dos mortos é o mesmo. O grito desesperado das mães é o mesmo, seja em espanhol ou em árabe.
A diferença está no nosso olhar.
Orwellianos são os outros
Qualquer apreciador de distopias concebe como estruturantes, pelo menos, duas obras: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell. Não obstante a qualidade comparável ou até, atrevo-me, superior da primeira, a segunda colhe muito mais sucesso. Bastante difundida em tempos de Guerra Fria e até hoje altamente comercializada, viu um dos seus principais conceitos homenageados no célebre reality show Big Brother e já se converteu em novela gráfica, filme… e ainda arma de arremesso.
Não seria excessivo constatar que orwelliano é um epíteto comum no debate político hodierno. Em Portugal, é especialmente mobilizado por um setor amplo e transpartidário da direita, que o retira convenientemente da algibeira a qualquer sinal de esforço de regulação ou política mais ou menos de esquerda. Regular as redes sociais? Orwelliano. Aumentar a participação do Estado num dos setores estratégicos nacionais? Vem aí o Grande Irmão. Averiguar casos evidentes de racismo ou misoginia no Twitter/X ou noutras redes sociais? Lá estão eles a limitar a liberdade de expressão. O 1984 previu isto. Ironia histórica ou não, o certo é que Orwell viveu filiado à tradição socialista, ainda que fosse revendo periodicamente algumas posições.
É verdade que as distopias, enquanto exercícios de imaginação crítica do futuro, são sempre infundidas de ânsias do presente. Contudo, não me parece que nenhum dos seus consagrados autores demonstraria apreço por ser sinónimo de acusações rasteiras e que, não raro, denunciam um profundo desconhecimento dos enredos. Já enquanto leitor, estou plenamente convicto do meu desprezo pela bastardização de livros cuja mensagem pode fazer a diferença na vida de muitos.
No meu caso, 1984 foi incontornável. A presença do duplo-pensar e da polícia de pensamento na narrativa desencadeou um período de reflexão que me permitiu identificar os mecanismos de controlo e uniformização aos quais fui sujeito durante 19 anos no culto religioso em que me criaram.
Irritações literárias à parte, se a instrumentalização leviana de Orwell veio para ficar, surpreende-me que os alarmes não tenham soado aquando do anúncio da Prestação Social Única (PSU). O projeto de integração de 13 prestações sociais – incluindo o rendimento social de inserção (RSI) e o subsídio social de desemprego – numa só acende legitimamente as paixões. O principal objeto de conflito tem sido a obrigatoriedade do trabalho social para beneficiários com grau de incapacidade inferior a 80%, que incluirá potencialmente doentes com cancro e pessoas com deficiência. Mesmo a promessa do Governo de uma avaliação “caso a caso” não produziu a esperada acalmia, e tal deve-se à multiplicidade de problemáticas que a PSU suscita, das quais destaco três.
Em primeiro lugar, inserir nas fileiras produtivas indivíduos que serão remunerados a valores muito inferiores aos praticados no mercado abre a possibilidade de barateamento do trabalho. Em segundo, a premissa de todo o programa assenta numa noção de criminalização da pobreza, edifício ideológico que reduz os pobres a uma entidade monolítica constituída por sujeitos moralmente desviantes. Ser pobre deixa de ser fruto de azares, um triste desfecho de uma vida que não correu bem ou, se formos mais avançados, uma condição estrutural e estruturante do nosso modo de organização social e económica. Passa a indiciar uma corrupção no âmago do eu, uma identidade essencialmente mesquinha que assim se manifesta materialmente. Tudo isto apesar de o número de beneficiários do RSI ser o mais baixo desde 2005.
Em terceiro, e retornando ao mote deste artigo, a PSU instituirá um canal de denúncia que permitirá a cada cidadão reportar fraudes ou suspeitas de fraudes na atribuição de benefícios. Bom, eu diria que se há momento para desatar pelas colinas a gritar "Big Brother is watching you", é este. A cultura generalizada de denúncia dos pares é um dos eixos canónicos de 1984 e provavelmente um dos mais desconcertantes. É, por isso, com enorme espanto que reparo na falta de referências orwellianas ante este revivalismo tragicómico da chibaria pidesca. Onde está o queixume ensurdecedor, onde estão os prantos efusivos e o rasgar de vestes pelo ocaso da liberdade? Será que a sua ausência é fruto de falta de leitura ou de falta de interesse?
Enfatizo a gravidade da medida. Não se trata de um mero instrumento administrativo de consulta cidadã. Não é um meio para aproximar os órgãos da administração pública dos utentes. É um mecanismo de massificação da desconfiança que produz sujeitos vigilantes do outro. É a ressurreição digital e caricatural do bufo salazarista, mas desta vez sem a frequente condenação social à qual esta figura era votada. E, além disso, encerra uma contradição: se o corpo administrativo irá avaliar casuisticamente a incapacidade para o trabalho social, não deveria municiar também a Segurança Social e outras entidades de meios para averiguar incumprimentos? Questiono-me se o recurso ao povo não é uma forma de, novamente, tapar buracos e evitar, como sempre, o investimento sério em fiscalização.
O que interessa, de qualquer das formas, é que desta vez as sensibilidades distópicas não foram despertadas. Os lamentos habituais não se ouvem e os seus autores não querem fazer-se ouvir. A lição a retirar é que, nas contendas políticas, orwellianos são os outros.
Não seria excessivo constatar que orwelliano é um epíteto comum no debate político hodierno. Em Portugal, é especialmente mobilizado por um setor amplo e transpartidário da direita, que o retira convenientemente da algibeira a qualquer sinal de esforço de regulação ou política mais ou menos de esquerda. Regular as redes sociais? Orwelliano. Aumentar a participação do Estado num dos setores estratégicos nacionais? Vem aí o Grande Irmão. Averiguar casos evidentes de racismo ou misoginia no Twitter/X ou noutras redes sociais? Lá estão eles a limitar a liberdade de expressão. O 1984 previu isto. Ironia histórica ou não, o certo é que Orwell viveu filiado à tradição socialista, ainda que fosse revendo periodicamente algumas posições.
É verdade que as distopias, enquanto exercícios de imaginação crítica do futuro, são sempre infundidas de ânsias do presente. Contudo, não me parece que nenhum dos seus consagrados autores demonstraria apreço por ser sinónimo de acusações rasteiras e que, não raro, denunciam um profundo desconhecimento dos enredos. Já enquanto leitor, estou plenamente convicto do meu desprezo pela bastardização de livros cuja mensagem pode fazer a diferença na vida de muitos.
No meu caso, 1984 foi incontornável. A presença do duplo-pensar e da polícia de pensamento na narrativa desencadeou um período de reflexão que me permitiu identificar os mecanismos de controlo e uniformização aos quais fui sujeito durante 19 anos no culto religioso em que me criaram.
Irritações literárias à parte, se a instrumentalização leviana de Orwell veio para ficar, surpreende-me que os alarmes não tenham soado aquando do anúncio da Prestação Social Única (PSU). O projeto de integração de 13 prestações sociais – incluindo o rendimento social de inserção (RSI) e o subsídio social de desemprego – numa só acende legitimamente as paixões. O principal objeto de conflito tem sido a obrigatoriedade do trabalho social para beneficiários com grau de incapacidade inferior a 80%, que incluirá potencialmente doentes com cancro e pessoas com deficiência. Mesmo a promessa do Governo de uma avaliação “caso a caso” não produziu a esperada acalmia, e tal deve-se à multiplicidade de problemáticas que a PSU suscita, das quais destaco três.
Em primeiro lugar, inserir nas fileiras produtivas indivíduos que serão remunerados a valores muito inferiores aos praticados no mercado abre a possibilidade de barateamento do trabalho. Em segundo, a premissa de todo o programa assenta numa noção de criminalização da pobreza, edifício ideológico que reduz os pobres a uma entidade monolítica constituída por sujeitos moralmente desviantes. Ser pobre deixa de ser fruto de azares, um triste desfecho de uma vida que não correu bem ou, se formos mais avançados, uma condição estrutural e estruturante do nosso modo de organização social e económica. Passa a indiciar uma corrupção no âmago do eu, uma identidade essencialmente mesquinha que assim se manifesta materialmente. Tudo isto apesar de o número de beneficiários do RSI ser o mais baixo desde 2005.
Em terceiro, e retornando ao mote deste artigo, a PSU instituirá um canal de denúncia que permitirá a cada cidadão reportar fraudes ou suspeitas de fraudes na atribuição de benefícios. Bom, eu diria que se há momento para desatar pelas colinas a gritar "Big Brother is watching you", é este. A cultura generalizada de denúncia dos pares é um dos eixos canónicos de 1984 e provavelmente um dos mais desconcertantes. É, por isso, com enorme espanto que reparo na falta de referências orwellianas ante este revivalismo tragicómico da chibaria pidesca. Onde está o queixume ensurdecedor, onde estão os prantos efusivos e o rasgar de vestes pelo ocaso da liberdade? Será que a sua ausência é fruto de falta de leitura ou de falta de interesse?
Enfatizo a gravidade da medida. Não se trata de um mero instrumento administrativo de consulta cidadã. Não é um meio para aproximar os órgãos da administração pública dos utentes. É um mecanismo de massificação da desconfiança que produz sujeitos vigilantes do outro. É a ressurreição digital e caricatural do bufo salazarista, mas desta vez sem a frequente condenação social à qual esta figura era votada. E, além disso, encerra uma contradição: se o corpo administrativo irá avaliar casuisticamente a incapacidade para o trabalho social, não deveria municiar também a Segurança Social e outras entidades de meios para averiguar incumprimentos? Questiono-me se o recurso ao povo não é uma forma de, novamente, tapar buracos e evitar, como sempre, o investimento sério em fiscalização.
O que interessa, de qualquer das formas, é que desta vez as sensibilidades distópicas não foram despertadas. Os lamentos habituais não se ouvem e os seus autores não querem fazer-se ouvir. A lição a retirar é que, nas contendas políticas, orwellianos são os outros.
Primeira infância deve estar no centro do planejamento urbano
As mudanças climáticas têm tornado cada vez mais evidente a necessidade de repensar a forma como planejamos e ocupamos os territórios. Enchentes, ondas de calor, deslizamentos e outros eventos extremos afetam cidades de diferentes portes e expõem desigualdades históricas que atingem principalmente as populações mais vulneráveis. Nesse cenário, cresce a discussão sobre cidades resilientes – aquelas capazes de se adaptar, responder e se recuperar diante dos desafios ambientais e sociais. No entanto, ainda há um aspecto pouco explorado nesse debate: os impactos que as escolhas urbanas produzem sobre a primeira infância.
Os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento humano. É nesse período que se estabelecem bases fundamentais para a saúde, aprendizagem, convivência social e bem-estar ao longo da vida. Por isso, pensar cidades a partir das necessidades das crianças pequenas não é uma pauta restrita à infância, mas uma estratégia de desenvolvimento que beneficia toda a sociedade. Afinal, a forma como uma cidade acolhe suas crianças revela, em grande medida, sua capacidade de promover qualidade de vida para todas as pessoas.
Quando falamos em planejamento urbano voltado à primeira infância, estamos nos referindo à promoção da mobilidade segura, ao acesso a áreas verdes, à moradia adequada, ao saneamento básico, a equipamentos públicos acessíveis e a espaços de convivência que estimulem o brincar e as interações sociais. Estamos falando também de bairros que permitam que famílias realizem seus deslocamentos cotidianos com segurança e tenham acesso aos serviços essenciais sem percorrer longas distâncias. São elementos que influenciam diretamente o desenvolvimento infantil e fortalecem os vínculos comunitários.
Essa visão dialoga com reflexões desenvolvidas pelo arquiteto e urbanista Kevin Lynch, que já na década de 1970, defendia a importância de considerar crianças e adolescentes como sujeitos legítimos na avaliação e no planejamento das cidades. Essa perspectiva foi apresentada no projeto Children’s Perception of Space (A Percepção do Espaço pelas Crianças), desenvolvido no âmbito do programa da UNESCO Man and His Environment – Design for Living e coordenado por Lynch em países como Argentina, Austrália, México e Polônia. Os resultados da pesquisa foram publicados na obra Growing Up in Cities (Lynch, 1977), que evidenciou como a experiência cotidiana das crianças pode oferecer importantes subsídios para a construção de cidades mais humanas, acolhedoras e capazes de responder às necessidades reais da população. Mais de cinquenta anos depois, esse entendimento continua desafiando gestores e planejadores urbanos.
Ao observarmos uma cidade sob a perspectiva de uma criança pequena, muitos desafios urbanos tornam-se mais evidentes. Calçadas inadequadas, travessias inseguras, falta de arborização, ausência de áreas de lazer e equipamentos públicos distantes impactam diretamente a vida das famílias e limitam o acesso a oportunidades de desenvolvimento. Por outro lado, quando esses elementos são pensados de forma integrada, os benefícios alcançam diferentes grupos sociais e contribuem para uma ocupação mais equilibrada e inclusiva do território.
A lógica é simples. Se uma mãe ou um pai consegue circular com segurança empurrando um carrinho de bebê, uma pessoa idosa ou com deficiência também encontrará melhores condições de mobilidade. Se uma criança consegue acessar uma praça próxima de casa para brincar e conviver, aquele território provavelmente oferece mais oportunidades de encontro, pertencimento e participação comunitária. Dessa forma, a criança passa a ser um importante indicador da qualidade urbana e da capacidade de uma cidade promover bem-estar para seus moradores.
Essa compreensão tem orientado iniciativas em diferentes municípios brasileiros. Entre elas está o Primeira Infância Cidadã (PiC), projeto da Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a Petrobras, que integra o Programa Petrobras Socioambiental, que apoia gestores públicos na elaboração e implementação de políticas voltadas às crianças de até seis anos. Mais do que estimular ações específicas para a infância, experiências como essa têm contribuído para ampliar o debate sobre a necessidade de integrar áreas como urbanismo, mobilidade, assistência social, saúde, educação, cultura e meio ambiente na construção de cidades mais acolhedoras e preparadas para os desafios contemporâneos.
A relação entre a primeira infância e o planejamento urbano torna-se ainda mais evidente diante dos impactos das mudanças climáticas. As crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos, pois dependem de condições adequadas de saúde, proteção e acesso a serviços essenciais para seu pleno desenvolvimento. Enchentes podem interromper o acesso às creches e às escolas, comprometer a alimentação e ampliar a exposição a doenças. As ondas de calor afetam o sono, a atenção e o bem-estar infantil, enquanto a escassez de áreas verdes reduz as oportunidades de brincar, de convivência e de desenvolvimento socio-emocional.
Os efeitos desses fenômenos são ainda mais severos em territórios marcados por déficits de infraestrutura, habitação precária e acesso limitado a serviços públicos. Nessas localidades, os impactos ambientais costumam se somar a desigualdades históricas, ampliando vulnerabilidades e restringindo oportunidades para crianças e suas famílias. Por essa razão, políticas de adaptação climática precisam considerar não apenas a proteção dos espaços urbanos, mas também as condições necessárias para garantir o desenvolvimento saudável da população infantil.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais importante que diferentes áreas da gestão pública atuem de forma articulada. Urbanismo, mobilidade, saúde, educação, assistência social, cultura e meio ambiente não podem ser tratados como temas isolados quando o objetivo é construir territórios mais resilientes e inclusivos. A chamada cidade do cuidado nasce justamente dessa compreensão, reconhecendo que o desenvolvimento das crianças está diretamente relacionado à qualidade dos espaços onde elas vivem, circulam, aprendem e convivem.
Planejar cidades para a primeira infância não significa criar espaços exclusivos para crianças. Significa construir ambientes mais seguros, saudáveis e acolhedores para todos, capazes de fortalecer vínculos comunitários, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. Em um momento em que os desafios climáticos e urbanos se tornam cada vez mais complexos, colocar a infância no centro do planejamento não é apenas uma questão de proteção social, mas uma estratégia inteligente para pensar o presente e o futuro das cidades.
Os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento humano. É nesse período que se estabelecem bases fundamentais para a saúde, aprendizagem, convivência social e bem-estar ao longo da vida. Por isso, pensar cidades a partir das necessidades das crianças pequenas não é uma pauta restrita à infância, mas uma estratégia de desenvolvimento que beneficia toda a sociedade. Afinal, a forma como uma cidade acolhe suas crianças revela, em grande medida, sua capacidade de promover qualidade de vida para todas as pessoas.
Quando falamos em planejamento urbano voltado à primeira infância, estamos nos referindo à promoção da mobilidade segura, ao acesso a áreas verdes, à moradia adequada, ao saneamento básico, a equipamentos públicos acessíveis e a espaços de convivência que estimulem o brincar e as interações sociais. Estamos falando também de bairros que permitam que famílias realizem seus deslocamentos cotidianos com segurança e tenham acesso aos serviços essenciais sem percorrer longas distâncias. São elementos que influenciam diretamente o desenvolvimento infantil e fortalecem os vínculos comunitários.
Essa visão dialoga com reflexões desenvolvidas pelo arquiteto e urbanista Kevin Lynch, que já na década de 1970, defendia a importância de considerar crianças e adolescentes como sujeitos legítimos na avaliação e no planejamento das cidades. Essa perspectiva foi apresentada no projeto Children’s Perception of Space (A Percepção do Espaço pelas Crianças), desenvolvido no âmbito do programa da UNESCO Man and His Environment – Design for Living e coordenado por Lynch em países como Argentina, Austrália, México e Polônia. Os resultados da pesquisa foram publicados na obra Growing Up in Cities (Lynch, 1977), que evidenciou como a experiência cotidiana das crianças pode oferecer importantes subsídios para a construção de cidades mais humanas, acolhedoras e capazes de responder às necessidades reais da população. Mais de cinquenta anos depois, esse entendimento continua desafiando gestores e planejadores urbanos.
| Uma cidade boa para as crianças é melhor para todos |
Ao observarmos uma cidade sob a perspectiva de uma criança pequena, muitos desafios urbanos tornam-se mais evidentes. Calçadas inadequadas, travessias inseguras, falta de arborização, ausência de áreas de lazer e equipamentos públicos distantes impactam diretamente a vida das famílias e limitam o acesso a oportunidades de desenvolvimento. Por outro lado, quando esses elementos são pensados de forma integrada, os benefícios alcançam diferentes grupos sociais e contribuem para uma ocupação mais equilibrada e inclusiva do território.
A lógica é simples. Se uma mãe ou um pai consegue circular com segurança empurrando um carrinho de bebê, uma pessoa idosa ou com deficiência também encontrará melhores condições de mobilidade. Se uma criança consegue acessar uma praça próxima de casa para brincar e conviver, aquele território provavelmente oferece mais oportunidades de encontro, pertencimento e participação comunitária. Dessa forma, a criança passa a ser um importante indicador da qualidade urbana e da capacidade de uma cidade promover bem-estar para seus moradores.
Essa compreensão tem orientado iniciativas em diferentes municípios brasileiros. Entre elas está o Primeira Infância Cidadã (PiC), projeto da Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a Petrobras, que integra o Programa Petrobras Socioambiental, que apoia gestores públicos na elaboração e implementação de políticas voltadas às crianças de até seis anos. Mais do que estimular ações específicas para a infância, experiências como essa têm contribuído para ampliar o debate sobre a necessidade de integrar áreas como urbanismo, mobilidade, assistência social, saúde, educação, cultura e meio ambiente na construção de cidades mais acolhedoras e preparadas para os desafios contemporâneos.
A relação entre a primeira infância e o planejamento urbano torna-se ainda mais evidente diante dos impactos das mudanças climáticas. As crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos, pois dependem de condições adequadas de saúde, proteção e acesso a serviços essenciais para seu pleno desenvolvimento. Enchentes podem interromper o acesso às creches e às escolas, comprometer a alimentação e ampliar a exposição a doenças. As ondas de calor afetam o sono, a atenção e o bem-estar infantil, enquanto a escassez de áreas verdes reduz as oportunidades de brincar, de convivência e de desenvolvimento socio-emocional.
Os efeitos desses fenômenos são ainda mais severos em territórios marcados por déficits de infraestrutura, habitação precária e acesso limitado a serviços públicos. Nessas localidades, os impactos ambientais costumam se somar a desigualdades históricas, ampliando vulnerabilidades e restringindo oportunidades para crianças e suas famílias. Por essa razão, políticas de adaptação climática precisam considerar não apenas a proteção dos espaços urbanos, mas também as condições necessárias para garantir o desenvolvimento saudável da população infantil.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais importante que diferentes áreas da gestão pública atuem de forma articulada. Urbanismo, mobilidade, saúde, educação, assistência social, cultura e meio ambiente não podem ser tratados como temas isolados quando o objetivo é construir territórios mais resilientes e inclusivos. A chamada cidade do cuidado nasce justamente dessa compreensão, reconhecendo que o desenvolvimento das crianças está diretamente relacionado à qualidade dos espaços onde elas vivem, circulam, aprendem e convivem.
Planejar cidades para a primeira infância não significa criar espaços exclusivos para crianças. Significa construir ambientes mais seguros, saudáveis e acolhedores para todos, capazes de fortalecer vínculos comunitários, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. Em um momento em que os desafios climáticos e urbanos se tornam cada vez mais complexos, colocar a infância no centro do planejamento não é apenas uma questão de proteção social, mas uma estratégia inteligente para pensar o presente e o futuro das cidades.
Trem para o futuro
Nos anos 1840, o príncipe herdeiro de Hanôver, que depois se tornaria rei Ernesto Augusto, opôs-se à implantação de ferrovias em seu país porque “não queria qualquer sapateiro ou alfaiate viajando tão rápido quanto ele”. A frase é citada por Orlando Figes no livro Os Europeus, ao tratar do impacto da revolução ferroviária na política, na cultura e na economia da Europa. Pois o príncipe mudou de posição e transformou-se em defensor das ferrovias, colocando a Alemanha na vanguarda do desenvolvimento. Não tivesse adotado os trilhos, o país teria ficado para trás entre as nações do continente.
O que o príncipe pensava há 200 anos é o que sente a elite dirigente brasileira em relação à ideia de um sistema nacional de escolas com a mesma qualidade para todos. A minoria privilegiada sabe que uma boa escola é o trem para o futuro e procura reservá-la apenas para seus filhos, mesmo que isso signifique sacrificar o avanço do país. Esse teria sido nosso trem para o futuro: nenhum cérebro deixado para trás, todos dispondo do mapa para buscar sua felicidade e as ferramentas para construir o país. No livro Jogados ao Mar, uma militante progressista demite sua empregada doméstica porque esta, em vez de pedir aumento salarial, teve a ousadia de reivindicar para seus filhos a mesma escola frequentada pelos da patroa. A empregada argumentava que não via futuro para suas crianças, deixadas sem acesso a um ensino de qualidade e sujeitas a greves. Ainda teve a petulância de comparar as escolas das crianças.
Ao longo de mais de um século de República, nossos dirigentes pouco mudaram em sua resistência a permitir que seus filhos viajem para o futuro na mesma velocidade que os do chamado povão. Mesmo sem manifestar isso explicitamente, se assustam diante da ideia de vê-los estudando nas mesmas escolas que os filhos das camadas mais pobres. Quando oferecem matrícula para quase todos os brasileiros, negam a mesma qualidade a todas as escolas. Os dirigentes brasileiros não se importam com o rumo do país porque sabem que seus filhos estão cada vez mais preparados para integrar o “primeiro mundo internacional dos ricos”, no qual já vivem, mesmo morando no Brasil. Para eles, mudar de um país para outro não significa migrar, porque pertencem à mesma nação social dos ricos do mundo. Por isso, dentro de seu país geográfico, erguem muros contra os migrantes sociais do próprio Brasil. Além dos muros dos condomínios que os barram no presente, instalam catracas nos portões das escolas de qualidade para barrar o futuro.
Diferentemente do rei Ernesto Augusto, que compreendeu a importância das ferrovias, aceitou “viajar na mesma velocidade que sapateiros e alfaiates” para promover a revolução ferroviária e fez de Hanôver uma sociedade próspera, a minoria brasileira prefere reservar o trem-escola apenas para seus filhos. Prefere deixar o Brasil para trás, ainda que hoje seja muito mais fácil implantar uma rede nacional de escolas públicas de qualidade do que, há quase 200 anos, foi construir uma malha ferroviária na Europa. Infelizmente, ainda não adotamos nada semelhante à Lei Guizot, de 1833, que obrigou cada município da França a manter escolas públicas com padrões nacionais de qualidade para todos.
O que o príncipe pensava há 200 anos é o que sente a elite dirigente brasileira em relação à ideia de um sistema nacional de escolas com a mesma qualidade para todos. A minoria privilegiada sabe que uma boa escola é o trem para o futuro e procura reservá-la apenas para seus filhos, mesmo que isso signifique sacrificar o avanço do país. Esse teria sido nosso trem para o futuro: nenhum cérebro deixado para trás, todos dispondo do mapa para buscar sua felicidade e as ferramentas para construir o país. No livro Jogados ao Mar, uma militante progressista demite sua empregada doméstica porque esta, em vez de pedir aumento salarial, teve a ousadia de reivindicar para seus filhos a mesma escola frequentada pelos da patroa. A empregada argumentava que não via futuro para suas crianças, deixadas sem acesso a um ensino de qualidade e sujeitas a greves. Ainda teve a petulância de comparar as escolas das crianças.
Ao longo de mais de um século de República, nossos dirigentes pouco mudaram em sua resistência a permitir que seus filhos viajem para o futuro na mesma velocidade que os do chamado povão. Mesmo sem manifestar isso explicitamente, se assustam diante da ideia de vê-los estudando nas mesmas escolas que os filhos das camadas mais pobres. Quando oferecem matrícula para quase todos os brasileiros, negam a mesma qualidade a todas as escolas. Os dirigentes brasileiros não se importam com o rumo do país porque sabem que seus filhos estão cada vez mais preparados para integrar o “primeiro mundo internacional dos ricos”, no qual já vivem, mesmo morando no Brasil. Para eles, mudar de um país para outro não significa migrar, porque pertencem à mesma nação social dos ricos do mundo. Por isso, dentro de seu país geográfico, erguem muros contra os migrantes sociais do próprio Brasil. Além dos muros dos condomínios que os barram no presente, instalam catracas nos portões das escolas de qualidade para barrar o futuro.
Diferentemente do rei Ernesto Augusto, que compreendeu a importância das ferrovias, aceitou “viajar na mesma velocidade que sapateiros e alfaiates” para promover a revolução ferroviária e fez de Hanôver uma sociedade próspera, a minoria brasileira prefere reservar o trem-escola apenas para seus filhos. Prefere deixar o Brasil para trás, ainda que hoje seja muito mais fácil implantar uma rede nacional de escolas públicas de qualidade do que, há quase 200 anos, foi construir uma malha ferroviária na Europa. Infelizmente, ainda não adotamos nada semelhante à Lei Guizot, de 1833, que obrigou cada município da França a manter escolas públicas com padrões nacionais de qualidade para todos.
Assinar:
Postagens (Atom)
