A hipótese historiográfica que trabalho e procuro sustentar é que o 8 de janeiro foi um ponto de convergência de diversas contradições e crises que atravessam a história da formação social brasileira contemporânea: a continuidade da (tácita ou não) tutela militar sobre os regimes políticos brasileiros desde a fundação da República, o extremar do bolsonarismo enquanto movimento de cariz neofascista e a incapacidade da chamada Nova República (1988) de romper com os aparelhos institucionais e a lógica autoritária herdadas da ditadura empresarial-militar de 1964 (e suas raízes coloniais). Noutras palavras, no Brasil, a (inacabada)“transição” pós-ditadura não julgou os crimes militares (os torturadores continuaram impunes), não levou a cabo uma refundação das Forças Armadas e não se impôs à instituição militar o reconhecimento público dos seus crimes à sociedade. O máximo que tivemos foi uma política de memória com a criação da “Comissão Nacional da Verdade”, durante o governo de Dilma Rousseff (a ex-guerrilheira que lutou contra a ditadura), que provocou a ira do Partido Fardado. Em síntese, temos uma situação em que o passado brasileiro realmente nunca passou.
Esses elementos sinalizados procuram destacar que as continuidades (e suas descontinuidades) históricas são centrais para compreender o bolsonarismo (tema do quarto artigo dessa série). A extrema-direita brasileira não nasceu com Jair Bolsonaro, embora nele tenha encontrado a sua figura de massas (o totem do Partido Fardado). O que estou a ressaltar é o facto de existirem linhas de continuação que atravessam o integralismo dos anos 1930 (de inspiração lusitana), a ditadura empresarial-militar, a ideologia da “ordem” autoritária e o anticomunismo (preventivo) como gramática política mobilizadora. A Ação Integralista Brasileira foi uma das maiores organizações fascistas fora da Europa; décadas depois, setores integralistas e reacionários continuaram presentes no imaginário e nas estruturas da ditadura brasileira entre 1964 e 1985. O bolsonarismo teve a capacidade de incorporar esse legado da direita integralista e reacionária (racista), mas sob novas condições históricas, convergindo o militarismo (a violência), o fundamentalismo religioso cristão, o lavajatismo, um programa económico ultraneoliberal e assente no agronegócio (latifúndio). E com essas forças sociais articuladas numa dinâmica de mobilização, organização e comunicação a partir do ciberespaço (internet, redes sociais, etc.).
Nesse sentido, os antecedentes do 8 de janeiro precisam serem compreendidos, primeiramente, numa perspectiva de longa duração histórica que procurei destaca – o autoproclamado poder moderador (tutelar) que as Forças Armadas Brasileiras reivindicam para si. Num segundo momento, os factos conjunturais, a sequência de acontecimentos que se encetou com a derrota eleitoral de Jair Messias Bolsonaro em outubro de 2022. Ou seja, após a vitória de Lula da Silva, os bloqueios de autoestradas espalharam-se pelo país e chegaram ao ponto de cantarem o hino nacional para um pneu; todavia, estes não eram protestos dispersos ou espontâneos, visto que apresentarem uma estrutura organizativa de som, logística (especialmente alimentar), palavras de ordem, orientação política e sobretudo financiamento. O objetivo era produzir caos. A imagem evocava, noutro contexto, a greve de camionistas no Chile de Salvador Allende: criar desabastecimento, paralisar o país, fabricar a sensação de ingovernabilidade e preparar a intervenção “salvadora” do Partido Fardado.
A partir desse momento, formou-se um rito golpista em torno dos quartéis, a rezar/orar para os muros, a espera pelas fantasiosas “72 horas” decisivas, enquanto apelavam ao artigo 142 da Constituição brasileira, segundo o qual as Forças Armadas poderiam intervir como suposto “poder moderador” e deslocavam milhares de bolsonaristas para as portas dos comandos militares (com a permissão direta ou indireta dos militares), a fim de pediam “democraticamente” uma ditadura militar. Os acampamentos tornaram-se uma espécie de sementeira golpista: socialização neofascista e propagação da retórica insurrecional, mas também numa espera salvadora ativa, que (aparentemente) procurava “pressionar” os militares para tomarem o poder. Saliento, nada disso seria possível sem a conivência, tolerância ou simpatia dos altos comandos das Forças Armadas.
A escalada foi rápida e foi-se intensificando. Em 12 de dezembro de 2022, dia da diplomação de Lula da Silva e do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, bolsonaristas tentaram invadir a sede da Polícia Federal em Brasília, incendiaram carros e autocarros e produziram uma cena aberta de violência e terrorismo. Em 24 de dezembro, uma bomba foi colocada nas proximidades de Brasília (atada a um camião carregado de querosene que se dirigia ao aeroporto). Permitam-me um momento contra factual, para apresentar uma especulação informada. Se tivesse explodido esta bomba numa véspera de Natal, poderia ter produzido uma comoção nacional suficiente para justificar uma operação de Garantia da Lei e da Ordem — a famosa GLO (estratégia chave para compreender o fatídico dia). A lógica era sempre a mesma: caos, medo, desordem, intervenção militar. Portanto, o 8 de janeiro foi o ápice dessa sequência conjuntural, não o seu início.
Assim, o 8 de janeiro foi uma conspiração militar-golpista e uma tentativa de insurreição neofascista popular (e membros da dita família militar). Mas não necessariamente porque estivesse em curso, naquele dia, uma tomada clássica do poder, com tanques nas ruas e proclamação imediata de uma junta militar. A sua lógica tática era furtiva e de aproximações sucessivas: desestabilizar, testar forças, produzir uma situação excecional, a fim de obrigar Lula da Silva a convocar os militares e, com isso, subordinar o governo civil ao comando do Partido Fardado. Resumidamente, o objetivo tático era a Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Evidencia-se como óbvio analiticamente que se Lula da Silva tivesse entregado a gestão da crise às Forças Armadas, como recomendou o “seu” ministro da Defesa (ou porta-voz dos militares), o seu governo poderia ter sobrevivido do ponto de vista formal, mas ficaria politicamente morto, porque seria presidente sob a tutela dos quartéis.
É nesse contexto que se revela a importância decisiva de não decretar a GLO e intervir especificamente na segurança pública do Distrito Federal para reprimir a insurreição neofascista. A recusa de Lula da Silva e setores do seu governo impediu que os militares assumissem o controlo da situação. A intervenção federal, conduzida no plano civil (com um interventor escolhido diretamente pelo presidente), permitiu debelar a ação imediata – com muitos conflitos e resistência das Forças Armadas, que impediram a Polícia Militar do Distrito Federal de executar as prisões dos integrantes do motim.
Por alguns dias, o governo pareceu obter uma espécie de “segunda posse”, com os governadores (de oposição e bolsonaristas), o Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso, a imprensa e os governos estrangeiros a convergirem na condenação do ataque aos “três poderes” da República. Aparentemente, o regime político brasileiro, o mesmo que possibilitou a vitória do ex-capitão do Exército, fechou fileiras contra a intentona militar-bolsonarista.
Seria ilusório concluir que, por isso, o golpismo foi derrotado como lógica estrutural de longa duração na história brasileira – o 8 de janeiro fracassou como operação imediata de bloqueio do ao governo central, mas foi bem-sucedido como demonstração de força real e simbólica; pois, permite que se apresente como a real força antissistema e com capacidade de mobilizar as pessoas para uma insurreição de matriz neofascista. Os golpistas invadiram e destruíram as sedes dos Três Poderes, penetraram no Palácio do Planalto (sem serem parados inexplicavelmente pelo Batalhão da Guarda Presidencial), no Congresso e no Supremo Tribunal Federal. Destruíram, em particular, símbolos (cadeira) associados ao juiz-ministro Alexandre de Moraes, visto pelo bolsonarismo como seu algoz e inimigo. Estes acontecimentos trataram-se apenas de depredação patrimonial (a destruição d’As mulatas, de Di Cavalcanti); mas o que identificamos foi uma ação insurrecional e golpista contra as instituições, portanto, contra a “ordem” estabelecida. (Entendo esse ser um ponto de atenção para se analisar o processo fascizante que temos identificado pelo mundo).
Essa dimensão de ação efetiva e simbólica é importante, visto que as extremas-direitas são capazes de transformar derrotas em imaginários políticos mobilizadores. O Putsch da Cervejaria de 1923, inicialmente ridicularizado, tornou-se depois parte da mitologia nazifascista. É evidente que não se trata de estabelecer equivalências ou coisa do género, mas de entender o mecanismo ideológico: quando uma tentativa golpista não é enfrentada até às suas raízes pode transformar-se em narrativa heroica para os seus próprios derrotados (observem como são caracterizados os “patriotas” que foram presos).
Na época dos acontecimentos, escrevi que seria um ponto de viragem decisivo, pois abria uma janela histórica de oportunidades e, portanto, uma questão colocava-se como incontornável – o governo Lula da Silva teria coragem política de enfrentar o “ninho da serpente”? E esse ninho está sobretudo nas Forças Armadas, mas também nas forças policiais militarizadas – criadas para combater o inimigo interno, as populações consideradas perigosa e sub-humanas, ou seja, os grupos historicamente racializadas no Brasil: negros e indígenas.
Existe uma hipótese analítica que sustenta, que durante o governo Bolsonaro, a fronteira entre governo e instituição militar tornou-se cada vez mais porosa, com milhares de militares a ocuparem cargos civis, um vice-presidente militar, ministros militares, generais na administração pública e militares da ativa envolvidos em atos políticos e afins. O acontecimento-marco foi exibição de tanques em Brasília durante a votação sobre o voto impresso (demanda bolsonarista) – uma teatralização da intimidação militar perante o poder civil. Tudo isso é verdadeiro, todavia, analiso que essa distinção entre o governo e instituição militar, nos quatro anos da gestão Bolsonaro não existiu, porque, de um ponto de vista prático, aquele era um governo do militar, comandado pelo Partido Fardado que tinha no ex-capitão eleito pelo voto a sua face carismática e popular – essa confluência também carregava em si conflitos e contradições.
Por isso, parece-me frágil a retórica, adotada pelo governo Lula da Silva, segundo a qual teria havido apenas um pequeno grupo de militares golpistas no entorno de Bolsonaro, enquanto a instituição militar, em si, teria permanecido legalista. Essa separação entre “maus indivíduos” e “boa instituição” serviu para produzir uma absolvição política das Forças Armadas. Como tenho procurado demonstrar, o problema é mais profundo. As Forças Armadas brasileiras operaram, historicamente, como partido fardado, ou seja, não apenas instrumento técnico de defesa nacional, mas ator político, poder de veto, reserva autoritária da ordem da classe dominante e dispositivo permanente de tutela sobre o regime político. Sejamos categóricos. Não existem “generais democratas”, eles só não embarcaram na insurreição golpista de forma aberta porque não receberam sinal positivo da Washington.
No esteio do pós-8 de janeiro, é preciso dizer que a condenação judicial de Bolsonaro e de generais rompeu, sem dúvida, uma barreira histórica. Pois, em setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes, afirmando que ele instrumentalizou o aparato institucional para gerar instabilidade e tentar manter-se no poder. Em dezembro do mesmo ano, o STF concluiu o julgamento das ações contra os réus acusados de planear o golpe. Em novembro de 2025, Bolsonaro começou a cumprir pena efetiva, e generais como Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira também foram presos.
Este é um acontecimento sem precedentes relevantes na história brasileira, porque pela primeira vez, o golpismo presidencial e fardado encontrou uma resposta penal ao ponto de serem encarcerados. Podemos caracterizar que a impunidade militar, tão característica da história do Brasil, foi parcialmente interrompida. No entanto, a contradição é evidente: a responsabilização judicial não equivale, por si só, a uma desestruturação do poder militar golpista e reacionário; puniram os indivíduos sem a desmontagem da estrutura institucional. Assim como a prisão de Bolsonaro não derrota historicamente o bolsonarismo e suas raízes; na verdade, Bolsonaro continua impune perante os seus graves crimes da pandemia da Covid-19.
Aliás, a própria reação parlamentar mostrou que a disputa continua aberta, visto que agora em abril de 2026, o Congresso derrubou o veto do presidente Lula ao chamado projeto da dosimetria, destinado a reduzir penas de condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de Janeiro e pela tentativa de golpe de Estado, incluindo Bolsonaro. A operação é reveladora: a direita tradicional (por vezes chamada de “democrata”), mesmo quando se distancia retoricamente da intentona insurrecional, preserva pontes com o campo bolsonarista e tenta recalibrar o custo penal do golpismo. A condenação expressa, assim, simultaneamente, um avanço democrático e um acerto de contas interno às direitas: a direita oligárquico-institucional procura derrotar hegemonicamente a direita neofascista sem romper inteiramente com ela.
Todo esse processo desagua num ponto decisivo e crítico: a fracassada estratégia de apaziguamento levada a cabo pelo governo Lula da Silva. Após o 8 de janeiro, havia uma janela política para enfrentar a tutela militar. O presidente Lula poderia ter reorganizado comandos, afastado setores organicamente vinculados ao bolsonarismo e iniciado uma reforma mínima da formação castrense; ter sinalizado que as Forças Armadas estão submetidas ao poder civil, e não acima dele. Em vez disso, prevaleceu em grande medida, a lógica da pacificação, representada por José Múcio no Ministério da Defesa: dialogar, acomodar, evitar conflito, esperar que a temperatura baixasse. (Uma típica estratégia do lulismo em momentos de conflito de alta intensidade – tema do quinto artigo desta série).
A recorrente justificação para tática do apaziguamento está assente no cálculo de um “dado geológico imutável” que ronda o lulismo e o setor hegemónico do Partido dos Trabalhadores (PT): a correlação de forças. O governo Lula III ascendeu sob pressão: o congresso ainda mais conservador e reacionário, a classe dominante dividida no apoio ao Bolsonaro, o tal mercado financeiro “hostil”, a extrema-direita mobilizada, as Forças Armadas vitaminadas pelo bolsonarismo e sua ideologia neofascista. Porém, identificar essas correlações de forças sociais não é o mesmo absolvê-las e não fazer nada para alterá-las. Esse é o ponto central dos críticos do lulismo, pois o risco da conciliação é tomar como possível uma estabilidade que a própria crise estrutural contemporânea do capitalismo parece corroer permanente. O regime político liberal de apaziguamento dos conflitos sociais, baseado em pactos nacionais e acomodações entre frações de classes, tem hoje menor capacidade de assimilar as contradições e os conflitos. O bolsonarismo apresenta-se como uma dessas soluções de governo: fascistização política ao serviço de um programa ultraneoliberal (neoliberalismo com uma política que intensificação do autoritarismo de matriz fascista).
Desse modo, insisto, o 8 de Janeiro deve ser pensado como problema histórico-estrutural, e não como desvio episódico na história do Brasil. O bolsonarismo não é apenas Bolsonaro – observemos o crescimento significativo de Flávio Bolsonaro nas sondagens, como herdeiro do pai na eleição presidencial –, mas uma articulação do bloco político de extrema-direita com setores empresariais, agronegócio, capital financeiro e comercial, o fundamentalismo cristão reacionário, Forças Armadas, polícias, milícias e redes digitais de mobilização, etc.
A conclusão, portanto, não pode ser tranquilizadora. O regime da malograda “nova república” venceu uma batalha importante em 8 de janeiro, mas não venceu a guerra histórica contra o golpismo. A serpente não está no ovo. Ela já nasceu, mostrou os dentes, recuou para o seu buraco e permanece viva. Ela sabe que no período de inverno é preciso manter-se “escondida”. Enquanto não houver desmilitarização do Estado, reforma profunda das Forças Armadas, punição dos financiadores (que até agora continuam intocáveis) e enfrentamento da base social fascistizada, novas formas de sublevação poderão reaparecer e pode ser que não seja só mais um ensaio geral, se tiver na cadeira presidencial o Partido Fardado, o filho do totem e o apoio direto de Trump.
Uma nota final. Identifico que nesse processo de fascização em escala alargada, o Brasil e os Estados Unidos tornaram-se laboratórios mundial de uma extrema-direita insurrecional. É nesse sentido que reforço ser um erro imaginar que a história terminou porque teve condenações. Elas são indubitáveis, mas insuficientes. O 8 de janeiro ensinou que os movimentos do fascismo contemporâneo podem não chegar primeiro com tanques, mas com acampamentos, bloqueios, bombas, redes sociais, orações, camionetas e multidões convencidas que somente regimes despóticos e ditatórios são a solução para um regime político e um modo de relação social em crise estrutural ou policrises.
sábado, 9 de maio de 2026
Todos vivem apenas para a sua abastança…
Os tempos atuais são tempos de áurea mediocritas e de indiferença, de paixão pela ignorância, de preguiça, de incapacidade para o trabalho prático e da necessidade de receber tudo já pronto. Ninguém raciocina, será raro alguém elaborar uma ideia pessoal.
Hoje em dia exterminam as florestas da Rússia, esgotam os solos da Rússia, transformam a Rússia numa estepe e preparam-na para os calmuques. Se aparecer um homem de esperança que plante uma árvore, todos se rirão: "Será que vives até ela crescer?" Por outro lado, os que aspiram ao bem falam de como será dentro de mil anos.
Desapareceu por completo uma ideia cimentadora. É como se toda a gente vivesse numa estalagem, preparando-se para fugir amanhã da Rússia. Todos vivem apenas para a sua abastança…
Fiódor Dostoiévski
Hoje em dia exterminam as florestas da Rússia, esgotam os solos da Rússia, transformam a Rússia numa estepe e preparam-na para os calmuques. Se aparecer um homem de esperança que plante uma árvore, todos se rirão: "Será que vives até ela crescer?" Por outro lado, os que aspiram ao bem falam de como será dentro de mil anos.
Desapareceu por completo uma ideia cimentadora. É como se toda a gente vivesse numa estalagem, preparando-se para fugir amanhã da Rússia. Todos vivem apenas para a sua abastança…
Fiódor Dostoiévski
Não brinquem connosco!
No dia 1 de maio, fui ao teatro ver o “Manual do Bom Fascista”, pelo TAS (Teatro de Animação de Setúbal), numa encenação de Célia David, a partir dum texto de Rui Zink. Trata-se da 152ª produção nestes 50 anos de existência, cumpridos em 2025.
Tive curiosidade em ver o que incomodava tanto o partido Chega de Setúbal que chegou a propor punir o TAS com o corte de apoios devido a esta produção. A peça trata da incoerência e boçalidade do indivíduo que é racista, misógino, politicamente extremista, tendencialmente fascista e que pulula por aí.
Fez-me lembrar da cidadã idosa dum bairro lisboeta que, do nada, resolveu destratar uma mulher negra apenas pela circunstância de se ter cruzado com ela no passeio, atirando-lhe à cara que não gostava de pretas. Lembrei-me também do idoso que há tempos matou a tiro um jovem negro num bairro de Lisboa, sem qualquer provocação e pelo mesmo motivo.
Vieram-me à memória as dezenas de mulheres portuguesas que todos os anos são alvo de violência doméstica e acabam assassinadas pelos maridos ou ex-companheiros, apenas porque sim. E também dos comentários de ódio que são publicados constantemente nas redes sociais e nas caixas de comentários dos jornais online.
Afinal, fiquei a pensar como é tão importante que as artes e a cultura em geral se posicionem como alerta contra a vaga crescente de destruição cívica e democrática que está em curso.
O que mais impressiona é a inversão de valores que esta gente escolheu adotar. Ou seja, a sã convivência, a boa educação, o civismo e a urbanidade foram lançados no lixo. E a tolerância, a aceitação da diferença, a prepotência, a falta de vergonha e de respeito foram fazer-lhes companhia. As pessoas que optaram por este caminho perderam competências sociais e tornaram-se selvagens, destituídos de qualquer sentido de empatia e convivência democrática.
Acham-se moralmente superiores e muitas vezes batem com a mão num peito inchado de religião, presunção e água benta, em frontal desacordo com o próprio evangelho que dizem seguir. Se a fé cristã ensina a amar os inimigos, esta gente prefere odiar não apenas os inimigos – se é que os têm – mas simplesmente todos aqueles que pensam de forma diferente deles, ou pertencem a uma etnia diversa ou seguem uma outra religião.
Este ambiente tem sido amplamente cultivado pela extrema-direita e vai contagiando a própria comunicação social do País. Já não há paciência para ouvir debates em que participem elementos de partidos radicais, que nunca estão lá para debater mas apenas para evitar que os outros terminem uma frase ou a explanação dum argumento. Interrompem, falam por cima, gritam e insultam. Até quando vamos aceitar este tipo de comportamento no espaço democrático?
A verdade é que as televisões estão a claudicar perante a alarvidade desta política e começam a perder a noção da realidade. Como exemplo, recorro a António Pinho Vargas, que publicou no seu Facebook uma imagem da massa imensa de portugueses que se manifestaram no 25 de Abril, e à qual a comunicação social nem prestou a devida atenção, preferindo, como de costume, dar voz e espaço aos inimigos da Democracia e da Liberdade. Deram quase a mesma atenção a esta grandiosa manifestação popular e a uma micro-manifestação de neonazis, com umas dezenas de indivíduos…
Na luta das audiências não pode valer tudo. Sabemos da importância dos shares e da sua ligação com a vertente comercial, mas não se confunda informação com entretenimento nem com interesses comerciais ou publicitários. A licença duma televisão que trabalha em informação não se pode centrar apenas em vender sabonetes. Há mais vida para além dos trocos.
Por outro lado, é bom que não se menospreze o povo português, que neste 25 de Abril veio em força para a rua dar um sinal inequívoco de inconformismo, incluindo os jovens. Não brinquem connosco!
Tive curiosidade em ver o que incomodava tanto o partido Chega de Setúbal que chegou a propor punir o TAS com o corte de apoios devido a esta produção. A peça trata da incoerência e boçalidade do indivíduo que é racista, misógino, politicamente extremista, tendencialmente fascista e que pulula por aí.
Fez-me lembrar da cidadã idosa dum bairro lisboeta que, do nada, resolveu destratar uma mulher negra apenas pela circunstância de se ter cruzado com ela no passeio, atirando-lhe à cara que não gostava de pretas. Lembrei-me também do idoso que há tempos matou a tiro um jovem negro num bairro de Lisboa, sem qualquer provocação e pelo mesmo motivo.
Vieram-me à memória as dezenas de mulheres portuguesas que todos os anos são alvo de violência doméstica e acabam assassinadas pelos maridos ou ex-companheiros, apenas porque sim. E também dos comentários de ódio que são publicados constantemente nas redes sociais e nas caixas de comentários dos jornais online.
Afinal, fiquei a pensar como é tão importante que as artes e a cultura em geral se posicionem como alerta contra a vaga crescente de destruição cívica e democrática que está em curso.
O que mais impressiona é a inversão de valores que esta gente escolheu adotar. Ou seja, a sã convivência, a boa educação, o civismo e a urbanidade foram lançados no lixo. E a tolerância, a aceitação da diferença, a prepotência, a falta de vergonha e de respeito foram fazer-lhes companhia. As pessoas que optaram por este caminho perderam competências sociais e tornaram-se selvagens, destituídos de qualquer sentido de empatia e convivência democrática.
Acham-se moralmente superiores e muitas vezes batem com a mão num peito inchado de religião, presunção e água benta, em frontal desacordo com o próprio evangelho que dizem seguir. Se a fé cristã ensina a amar os inimigos, esta gente prefere odiar não apenas os inimigos – se é que os têm – mas simplesmente todos aqueles que pensam de forma diferente deles, ou pertencem a uma etnia diversa ou seguem uma outra religião.
Este ambiente tem sido amplamente cultivado pela extrema-direita e vai contagiando a própria comunicação social do País. Já não há paciência para ouvir debates em que participem elementos de partidos radicais, que nunca estão lá para debater mas apenas para evitar que os outros terminem uma frase ou a explanação dum argumento. Interrompem, falam por cima, gritam e insultam. Até quando vamos aceitar este tipo de comportamento no espaço democrático?
A verdade é que as televisões estão a claudicar perante a alarvidade desta política e começam a perder a noção da realidade. Como exemplo, recorro a António Pinho Vargas, que publicou no seu Facebook uma imagem da massa imensa de portugueses que se manifestaram no 25 de Abril, e à qual a comunicação social nem prestou a devida atenção, preferindo, como de costume, dar voz e espaço aos inimigos da Democracia e da Liberdade. Deram quase a mesma atenção a esta grandiosa manifestação popular e a uma micro-manifestação de neonazis, com umas dezenas de indivíduos…
Na luta das audiências não pode valer tudo. Sabemos da importância dos shares e da sua ligação com a vertente comercial, mas não se confunda informação com entretenimento nem com interesses comerciais ou publicitários. A licença duma televisão que trabalha em informação não se pode centrar apenas em vender sabonetes. Há mais vida para além dos trocos.
Por outro lado, é bom que não se menospreze o povo português, que neste 25 de Abril veio em força para a rua dar um sinal inequívoco de inconformismo, incluindo os jovens. Não brinquem connosco!
Entre paredes cinzentas, a vida insiste
Há lugares que tentamos esquecer, mas que permanecem. Não porque ficaram no passado, mas porque continuam existindo em nossas mentes e no cotidiano real, repetindo cenas, corpos e condições que não deveriam persistir. Em Beirute, um antigo hospital, que já foi símbolo de cuidado e inovação tecnológica, hoje abriga centenas de pessoas deslocadas pela guerra. O edifício, marcado por paredes, tetos e pisos cinzentos, infiltrações e janelas improvisadas com tecidos e papelão, tornou-se um abrigo coletivo para quase quatrocentas pessoas: mães, idosos, pacientes em diálise ou em tratamento contra o câncer. Famílias inteiras que, mais uma vez, foram forçadas a deixar suas casas.
Ali, a guerra não é apenas um acontecimento. É uma condição que se prolonga no tempo. O retorno de Maryam Srour, gerente de comunicação de MSF no Líbano, ao prédio, um ano e meio depois de sua primeira visita, revela a repetição: as mesmas dificuldades, os mesmos sons, como a água pingando, pessoas tossindo, os mesmos improvisos para conter o frio e a chuva. O espaço, que já foi referência em saúde, hoje expõe a precariedade de vidas deslocadas, muitas delas pela segunda ou terceira vez.
Mais de um milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas no Líbano diante da intensificação dos bombardeios e das ordens de evacuação em larga escala. O deslocamento, nesse contexto, deixa de ser exceção e passa a organizar a vida cotidiana.
Sem água corrente e sem banheiros adequados, a sobrevivência se torna um esforço contínuo. Subir escadas carregando galões de água, compartilhar sanitários entre dezenas de pessoas, adaptar espaços improvisados para viver com o mínimo de dignidade são algumas das condições enfrentadas diariamente. Em um prédio de 12 andares, cada nível revela uma nova camada de dificuldades.
No terceiro andar, uma recém-nascida repousa em um quarto improvisado. Nour nasceu durante bombardeios, em meio à fuga da família. A mãe, vigilante, limpa o ambiente de forma quase obsessiva, tentando proteger a filha em um espaço onde o vento e a chuva atravessam as paredes.
No corredor, duas crianças com dificuldades cognitivas e de mobilidade brincam em silêncio. O tratamento que vinham recebendo foi interrompido pela guerra. A rotina agora gira em torno do básico: água, comida, abrigo.
“Eu só quero que eles tenham um futuro”, diz a tia. A frase ecoa em um contexto onde o futuro parece constantemente adiado.
As más condições de água, saneamento e higiene não são apenas uma questão de conforto. Elas impactam diretamente a saúde. Infecções, doenças de pele e outras enfermidades evitáveis tornam-se mais frequentes, especialmente entre crianças e pessoas já vulneráveis. Em alguns casos, pessoas reduzem a ingestão de água para evitar a necessidade de usar banheiros coletivos, agravando ainda mais os riscos.
“Sem água e saneamento, até se manter saudável se torna uma luta diária”, resume uma profissional envolvida no trabalho de assistência. É nesse cenário que atua Médicos Sem Fronteiras, por meio de clínicas móveis e ações voltadas à melhoria das condições de água e saneamento no Líbano. Instalação de tanques, construção de banheiros e chuveiros, distribuição de kits de higiene e atendimento médico são algumas das iniciativas implementadas em centenas de abrigos no país. Essas intervenções, embora fundamentais, revelam também a dimensão do problema: garantir o básico torna-se uma tarefa complexa em contextos de deslocamento prolongado.
Em um dos andares, Hassana enfrenta outro tipo de desafio. Diagnosticada com câncer pouco antes de ser deslocada, ela precisa realizar radioterapia e, ao mesmo tempo, se isolar para evitar riscos a si mesma e aos outros. Em um abrigo coletivo, essa exigência se torna praticamente impossível.
A solução vem com a instalação de uma latrina dentro de seu quarto, que se configura como uma mudança simples, mas que transforma sua possibilidade de cuidado. “Estou pronta para morrer”, ela havia dito anteriormente, “mas não quero machucar ninguém enquanto isso.” Quandose reencontra com Maryam, está diferente. Mais leve. A possibilidade de manter o tratamento com dignidade altera não apenas sua condição clínica, mas sua disposição diante da vida. Ela mostra seus pássaros, que conseguiu resgatar, e sorri.
Pequenos gestos, pequenas presenças, pequenas infraestruturas. Tudo isso compõe o cuidado nesses contextos. Mas há algo que não se instala com equipamentos: a confiança. Ela se constrói na presença constante. No retorno. Na escuta. No gesto repetido de responder às demandas, por mais básicas que sejam. Em um cenário marcado por perdas sucessivas (casa, trabalho, território), essa continuidade torna-se um dos poucos elementos estáveis.
As pessoas se aproximam, pedem ajuda, compartilham histórias. Não apenas por necessidade, mas porque reconhecem ali uma presença que não desaparece imediatamente. Ainda assim, as necessidades seguem imensas.
O prédio não é exceção. Em todo o Líbano, milhares de pessoas vivem em condições semelhantes, como em escolas, tendas, construções inacabadas. A vida cotidiana é atravessada pela incerteza e pela ausência de garantias básicas. E, no entanto, algo persiste. Uma mãe que cuida. Crianças que brincam. Pessoas que mantêm vínculos, objetos, pequenos animais. Gestos que afirmam a continuidade da vida mesmo em meio à precariedade.
“Isso vai passar”, diz Hassana. “Minha doença vai passar. Esta guerra vai passar.” Entre paredes cinzas, a esperança não aparece como promessa distante. Ela se manifesta no cotidiano.
E talvez seja isso que mais interpela: não apenas a existência dessas vidas em condições tão adversas, mas o fato de que tais condições seguem sendo produzidas e mantidas.
Ali, a guerra não é apenas um acontecimento. É uma condição que se prolonga no tempo. O retorno de Maryam Srour, gerente de comunicação de MSF no Líbano, ao prédio, um ano e meio depois de sua primeira visita, revela a repetição: as mesmas dificuldades, os mesmos sons, como a água pingando, pessoas tossindo, os mesmos improvisos para conter o frio e a chuva. O espaço, que já foi referência em saúde, hoje expõe a precariedade de vidas deslocadas, muitas delas pela segunda ou terceira vez.
Mais de um milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas no Líbano diante da intensificação dos bombardeios e das ordens de evacuação em larga escala. O deslocamento, nesse contexto, deixa de ser exceção e passa a organizar a vida cotidiana.
Sem água corrente e sem banheiros adequados, a sobrevivência se torna um esforço contínuo. Subir escadas carregando galões de água, compartilhar sanitários entre dezenas de pessoas, adaptar espaços improvisados para viver com o mínimo de dignidade são algumas das condições enfrentadas diariamente. Em um prédio de 12 andares, cada nível revela uma nova camada de dificuldades.
No terceiro andar, uma recém-nascida repousa em um quarto improvisado. Nour nasceu durante bombardeios, em meio à fuga da família. A mãe, vigilante, limpa o ambiente de forma quase obsessiva, tentando proteger a filha em um espaço onde o vento e a chuva atravessam as paredes.
No corredor, duas crianças com dificuldades cognitivas e de mobilidade brincam em silêncio. O tratamento que vinham recebendo foi interrompido pela guerra. A rotina agora gira em torno do básico: água, comida, abrigo.
“Eu só quero que eles tenham um futuro”, diz a tia. A frase ecoa em um contexto onde o futuro parece constantemente adiado.
As más condições de água, saneamento e higiene não são apenas uma questão de conforto. Elas impactam diretamente a saúde. Infecções, doenças de pele e outras enfermidades evitáveis tornam-se mais frequentes, especialmente entre crianças e pessoas já vulneráveis. Em alguns casos, pessoas reduzem a ingestão de água para evitar a necessidade de usar banheiros coletivos, agravando ainda mais os riscos.
“Sem água e saneamento, até se manter saudável se torna uma luta diária”, resume uma profissional envolvida no trabalho de assistência. É nesse cenário que atua Médicos Sem Fronteiras, por meio de clínicas móveis e ações voltadas à melhoria das condições de água e saneamento no Líbano. Instalação de tanques, construção de banheiros e chuveiros, distribuição de kits de higiene e atendimento médico são algumas das iniciativas implementadas em centenas de abrigos no país. Essas intervenções, embora fundamentais, revelam também a dimensão do problema: garantir o básico torna-se uma tarefa complexa em contextos de deslocamento prolongado.
Em um dos andares, Hassana enfrenta outro tipo de desafio. Diagnosticada com câncer pouco antes de ser deslocada, ela precisa realizar radioterapia e, ao mesmo tempo, se isolar para evitar riscos a si mesma e aos outros. Em um abrigo coletivo, essa exigência se torna praticamente impossível.
A solução vem com a instalação de uma latrina dentro de seu quarto, que se configura como uma mudança simples, mas que transforma sua possibilidade de cuidado. “Estou pronta para morrer”, ela havia dito anteriormente, “mas não quero machucar ninguém enquanto isso.” Quandose reencontra com Maryam, está diferente. Mais leve. A possibilidade de manter o tratamento com dignidade altera não apenas sua condição clínica, mas sua disposição diante da vida. Ela mostra seus pássaros, que conseguiu resgatar, e sorri.
Pequenos gestos, pequenas presenças, pequenas infraestruturas. Tudo isso compõe o cuidado nesses contextos. Mas há algo que não se instala com equipamentos: a confiança. Ela se constrói na presença constante. No retorno. Na escuta. No gesto repetido de responder às demandas, por mais básicas que sejam. Em um cenário marcado por perdas sucessivas (casa, trabalho, território), essa continuidade torna-se um dos poucos elementos estáveis.
As pessoas se aproximam, pedem ajuda, compartilham histórias. Não apenas por necessidade, mas porque reconhecem ali uma presença que não desaparece imediatamente. Ainda assim, as necessidades seguem imensas.
O prédio não é exceção. Em todo o Líbano, milhares de pessoas vivem em condições semelhantes, como em escolas, tendas, construções inacabadas. A vida cotidiana é atravessada pela incerteza e pela ausência de garantias básicas. E, no entanto, algo persiste. Uma mãe que cuida. Crianças que brincam. Pessoas que mantêm vínculos, objetos, pequenos animais. Gestos que afirmam a continuidade da vida mesmo em meio à precariedade.
“Isso vai passar”, diz Hassana. “Minha doença vai passar. Esta guerra vai passar.” Entre paredes cinzas, a esperança não aparece como promessa distante. Ela se manifesta no cotidiano.
E talvez seja isso que mais interpela: não apenas a existência dessas vidas em condições tão adversas, mas o fato de que tais condições seguem sendo produzidas e mantidas.
Mar de lama que pode engolir Ciro Nogueira assusta Flávio Bolsonaro
A essa altura, quem ainda fala sobre a recusa, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para ministro do Supremo Tribunal Federal, comemorada pela oposição ao governo? Parece ter passado tanto tempo desde então, mas aconteceu há apenas dez dias.
Extraordinária é a capacidade de criação do roteirista do filme Brasil. Analistas que detestam o governo disseram que o Lula 3 acabara, estava morto. Só faltava removê-lo de cena para dar lugar, em outubro, ao governo de Flávio Bolsonaro.
Contrafeitos, esses mesmos analistas já começaram a dizer que Lula é um homem de sorte, dado que seu encontro com Donald Trump na Casa Branca terminou bem. Ao chamá-lo de “homem de sorte”, o que pretendem é desvalorizar seus passos certos.
O encontro era para ter durado meia hora, ou um pouco mais. Estendeu-se por quase três horas. Perguntado sobre como transcorreu, Lula respondeu: “Olhem para minha cara. Pareço feliz ou não?” — e abriu um largo sorriso.
Tanto mais feliz porque, como homem de sorte, ele estava fora de Brasília no dia em que o bolsonarismo amargou um duro golpe: a operação da Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, cotado para vice na chapa de Flávio.
Quem o disse? O próprio Flávio, em 14 de junho do ano passado, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo:
— Em relação à vice, quem eu acho que tem todas as credenciais para ser é o Ciro. Mas essa é uma decisão que se toma muito mais na frente. O perfil do Ciro é um bom perfil. É nordestino, é de um partido bem forte, tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente Bolsonaro durante o ministério dele. Então, sem dúvida alguma, é o nome que está colocado.
Ontem, em nota oficial, Flávio “largou a mão” de Ciro para não se queimar:
— O senador Flávio Bolsonaro acompanha com atenção e considera graves as informações divulgadas pela imprensa. Entendemos que fatos dessa natureza devem ser apurados com rigor e transparência pelas autoridades competentes, sempre com respeito ao devido processo legal. […] Esperamos por uma ampla apuração.
Marcado para a próxima segunda-feira, o ato que formalizaria o apoio público do PP de Ciro à reeleição de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, deverá ser adiado. Os que antes o festejavam agora querem distância dele. Não sem razão.
A Polícia Federal considera que os benefícios recebidos por Ciro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, extrapolavam as relações de amizade entre os dois. A saber:
Mesadas recorrentes: pagamentos mensais que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil.
Viagens e hospedagens: custeio de voos privados e estadias em hotéis de luxo, como o Park Hyatt, em Nova York.
Cartão de crédito: disponibilização de cartões de Vorcaro para cobrir gastos pessoais e restaurantes de alto padrão.
Uso de imóvel: desfrute gratuito de um imóvel de luxo pertencente ao banqueiro, utilizado “como se fosse do próprio parlamentar”.
Negócios societários: Ciro, seu irmão, suas filhas e sua ex-mulher teriam adquirido uma participação de 30% em uma empresa de Vorcaro (avaliada em R$ 13 milhões) por apenas R$ 1 milhão.
E tudo em troca do quê?
A principal contrapartida política identificada foi a apresentação, por Ciro, da Emenda nº 11 à Proposta de Emenda à Constituição 65/2023. Ela propunha elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A Polícia Federal afirma que o texto foi redigido pela assessoria do Banco Master e entregue em um envelope na casa de Ciro. A medida beneficiaria bancos médios como o Master, permitindo que Vorcaro expandisse operações com garantias do FGC.
Lá dos Estados Unidos, para Ciro e os demais investigados, Lula mandou o recado: “Espero que todos sejam inocentes”. Com isso, ele mostra que está mais vivo do que nunca, firme no jogo e, claro, com a sorte ao seu lado. Que continue assim.
Extraordinária é a capacidade de criação do roteirista do filme Brasil. Analistas que detestam o governo disseram que o Lula 3 acabara, estava morto. Só faltava removê-lo de cena para dar lugar, em outubro, ao governo de Flávio Bolsonaro.
Contrafeitos, esses mesmos analistas já começaram a dizer que Lula é um homem de sorte, dado que seu encontro com Donald Trump na Casa Branca terminou bem. Ao chamá-lo de “homem de sorte”, o que pretendem é desvalorizar seus passos certos.
O encontro era para ter durado meia hora, ou um pouco mais. Estendeu-se por quase três horas. Perguntado sobre como transcorreu, Lula respondeu: “Olhem para minha cara. Pareço feliz ou não?” — e abriu um largo sorriso.
Tanto mais feliz porque, como homem de sorte, ele estava fora de Brasília no dia em que o bolsonarismo amargou um duro golpe: a operação da Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, cotado para vice na chapa de Flávio.
Quem o disse? O próprio Flávio, em 14 de junho do ano passado, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo:
— Em relação à vice, quem eu acho que tem todas as credenciais para ser é o Ciro. Mas essa é uma decisão que se toma muito mais na frente. O perfil do Ciro é um bom perfil. É nordestino, é de um partido bem forte, tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente Bolsonaro durante o ministério dele. Então, sem dúvida alguma, é o nome que está colocado.
Ontem, em nota oficial, Flávio “largou a mão” de Ciro para não se queimar:
— O senador Flávio Bolsonaro acompanha com atenção e considera graves as informações divulgadas pela imprensa. Entendemos que fatos dessa natureza devem ser apurados com rigor e transparência pelas autoridades competentes, sempre com respeito ao devido processo legal. […] Esperamos por uma ampla apuração.
Marcado para a próxima segunda-feira, o ato que formalizaria o apoio público do PP de Ciro à reeleição de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, deverá ser adiado. Os que antes o festejavam agora querem distância dele. Não sem razão.
A Polícia Federal considera que os benefícios recebidos por Ciro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, extrapolavam as relações de amizade entre os dois. A saber:
Mesadas recorrentes: pagamentos mensais que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil.
Viagens e hospedagens: custeio de voos privados e estadias em hotéis de luxo, como o Park Hyatt, em Nova York.
Cartão de crédito: disponibilização de cartões de Vorcaro para cobrir gastos pessoais e restaurantes de alto padrão.
Uso de imóvel: desfrute gratuito de um imóvel de luxo pertencente ao banqueiro, utilizado “como se fosse do próprio parlamentar”.
Negócios societários: Ciro, seu irmão, suas filhas e sua ex-mulher teriam adquirido uma participação de 30% em uma empresa de Vorcaro (avaliada em R$ 13 milhões) por apenas R$ 1 milhão.
E tudo em troca do quê?
A principal contrapartida política identificada foi a apresentação, por Ciro, da Emenda nº 11 à Proposta de Emenda à Constituição 65/2023. Ela propunha elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A Polícia Federal afirma que o texto foi redigido pela assessoria do Banco Master e entregue em um envelope na casa de Ciro. A medida beneficiaria bancos médios como o Master, permitindo que Vorcaro expandisse operações com garantias do FGC.
Lá dos Estados Unidos, para Ciro e os demais investigados, Lula mandou o recado: “Espero que todos sejam inocentes”. Com isso, ele mostra que está mais vivo do que nunca, firme no jogo e, claro, com a sorte ao seu lado. Que continue assim.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
Em qualquer hipótese, o bolsonarismo só tem a perder
Lula só tem a ganhar com a viagem a Washington para um encontro, na Casa Branca, com o presidente Donald Trump. É isso que deixou indignados os filhos “Zero” de Bolsonaro: Flávio, candidato à Presidência; Carlos, candidato ao Senado por Santa Catarina; e Jair Renan, candidato a deputado federal também por Santa Catarina.
A família, que há décadas “mama” unida nas tetas do Estado, permanece unida para continuar mamando. A ex-primeira-dama Michelle é candidata ao Senado pelo Distrito Federal. Seu irmão de criação, Diego Torres, é candidato a deputado distrital. Renato, irmão de Bolsonaro, é aposta para deputado federal por São Paulo.
Faltou alguém? Rogéria, a primeira das três mulheres de Bolsonaro e mãe de Flávio, Carlos e Eduardo, já aparece em pesquisas para o Senado pelo Rio de Janeiro. E Eduardo, hoje refugiado nos Estados Unidos, lançou-se ontem candidato a primeiro suplente do deputado estadual André do Prado, que, por sua vez, é candidato ao Senado.
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A candidatura de Eduardo não deverá ir longe. Em fevereiro último, ele tornou-se réu no Supremo Tribunal Federal pelos crimes de coação no curso do processo e obstrução de justiça. É acusado de tentar influenciar o Judiciário brasileiro ao articular, nos Estados Unidos, sanções para beneficiar seu pai, atualmente condenado e inelegível.
Eduardo ficou indignado com a concordância de Trump em receber Lula na Casa Branca. Em pauta, quatro assuntos: um novo acordo de cooperação no combate ao narcotráfico; os resíduos do “tarifaço”; o Pix, que Trump quer ver extinto; e a situação de Nicolás Maduro, ex-líder da Venezuela, detido em Nova York.
E se rolar uma nova “química” entre Trump e Lula? No ano passado, houve um primeiro sinal quando ambos se cruzaram na Assembleia Geral da ONU. O próprio Trump o disse. Depois, houve um segundo momento quando conversaram virtualmente por mais de 40 minutos. Lula espera que a afinidade se repita e, se possível, perdure.
Lula sairá ganhando, independentemente do resultado da viagem. Se o saldo for positivo, ele se fortalece como candidato à reeleição. Se for ruim, ou se Trump o tratar mal — como já fez com outros chefes de Estado —, Lula voltará com a imagem de quem se arrisca e luta para defender os interesses do Brasil.
Em qualquer das hipóteses, o bolsonarismo perde.
A família, que há décadas “mama” unida nas tetas do Estado, permanece unida para continuar mamando. A ex-primeira-dama Michelle é candidata ao Senado pelo Distrito Federal. Seu irmão de criação, Diego Torres, é candidato a deputado distrital. Renato, irmão de Bolsonaro, é aposta para deputado federal por São Paulo.
Faltou alguém? Rogéria, a primeira das três mulheres de Bolsonaro e mãe de Flávio, Carlos e Eduardo, já aparece em pesquisas para o Senado pelo Rio de Janeiro. E Eduardo, hoje refugiado nos Estados Unidos, lançou-se ontem candidato a primeiro suplente do deputado estadual André do Prado, que, por sua vez, é candidato ao Senado.
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A candidatura de Eduardo não deverá ir longe. Em fevereiro último, ele tornou-se réu no Supremo Tribunal Federal pelos crimes de coação no curso do processo e obstrução de justiça. É acusado de tentar influenciar o Judiciário brasileiro ao articular, nos Estados Unidos, sanções para beneficiar seu pai, atualmente condenado e inelegível.
Eduardo ficou indignado com a concordância de Trump em receber Lula na Casa Branca. Em pauta, quatro assuntos: um novo acordo de cooperação no combate ao narcotráfico; os resíduos do “tarifaço”; o Pix, que Trump quer ver extinto; e a situação de Nicolás Maduro, ex-líder da Venezuela, detido em Nova York.
E se rolar uma nova “química” entre Trump e Lula? No ano passado, houve um primeiro sinal quando ambos se cruzaram na Assembleia Geral da ONU. O próprio Trump o disse. Depois, houve um segundo momento quando conversaram virtualmente por mais de 40 minutos. Lula espera que a afinidade se repita e, se possível, perdure.
Lula sairá ganhando, independentemente do resultado da viagem. Se o saldo for positivo, ele se fortalece como candidato à reeleição. Se for ruim, ou se Trump o tratar mal — como já fez com outros chefes de Estado —, Lula voltará com a imagem de quem se arrisca e luta para defender os interesses do Brasil.
Em qualquer das hipóteses, o bolsonarismo perde.
Mui amigo
O governo norte-americano impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros; o Brasil foi incluído na lista dos países que Washington considera com “práticas comerciais desleais”; ministros do Supremo Tribunal Federal e ministros do governo federal tiveram o visto cassado e ficaram impedidos de entrar nos Estados Unidos; o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, organizações criminosas ligadas ao narcotráfico, podem ser taxadas de “narcoterroristas” e abrir caminho para intervenções militares diretas dos Estados Unidos no Brasil; a embaixada norte-americana alerta turistas para o risco de sequestro no Brasil; um agente brasileiro da Polícia Federal que trabalhava com o ICE nos Estados Unidos foi expulso do país. Há pressões sobre o uso do Pix, que reduz a margem de lucro dos cartões de crédito norte-americanos que atuam no Brasil. Há pressões sobre a legislação que se propõe a controlar a ação de plataformas digitais como Facebook, Google, YouTube e X. Há também demanda por terras-raras e petróleo brasileiros, e pressão pela redução da presença da China em nossas transações comerciais. Todas essas medidas são deste ano, 2026.
Além disso, não podemos esquecer os acontecidos no passado recente, como o golpe parlamentar que derrubou a presidenta Dilma e prendeu Lula para impedir que ele ganhasse as eleições de 2018, e, por meio da Lava Jato, a destruição das grandes companhias brasileiras de obras públicas, que concorriam com as norte-americanas em situação de vantagem nas licitações internacionais.
Essa listagem de acontecimentos recentes nos permite dizer que os Estados Unidos não aceitam nenhuma iniciativa brasileira de busca de maior autonomia, de soberania. Não aceitam o multilateralismo: ou o governo é contra ou a favor dos Estados Unidos. E veem o governo Lula como uma ameaça ao seu domínio neocolonial na América Latina – portanto, um inimigo.
Depois do sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa; de ameaçar invadir o México; de dizer que o próximo país a ser invadido pode ser Cuba; e de pressionar brutalmente a Colômbia com tarifas, o que podemos esperar nós, brasileiros?
Essa preocupação fez o presidente Lula promover uma reunião com as Forças Armadas (15 jan. 2026) e perguntar sobre nossas capacidades de defesa, incluindo propostas para reforçar a segurança do Brasil, especialmente nas fronteiras mais sensíveis. O Senado aprovou uma verba extraordinária de R$ 30 bilhões para as Forças Armadas, a ser distribuída anualmente, no valor de R$ 5 bi/ano. A indústria de armamento bélico passa a ser prioridade, com a contratação da produção de mísseis, drones, novas fragatas, carros de combate.
A situação das Forças Armadas é bastante precária na atualidade. Sem ameaças dos vizinhos, a modernização e o aprimoramento das capacidades bélicas ficaram em segundo plano. O programa nuclear da Marinha, o submarino nuclear, o caça brasileiro Gripen, sistemas de inteligência, a produção nacional de drones, tudo isso foi sendo postergado. As seis fragatas de combate estão obsoletas e quase indisponíveis. Nosso sistema de defesa é muito frágil.
Com um orçamento de defesa de R$ 132 bilhões em 2025, os recursos para o desenvolvimento tecnológico e novos armamentos são de apenas 7,4%. Inativos e pensões militares são o maior gasto, representando nada menos que 78% do orçamento total. O total gasto com recursos humanos é de 84,9%. O custeio consome outros 5,7%.
Na fronteira com a Venezuela, as Forças Armadas reforçaram nossa presença militar, foram mobilizados blindados, mantém-se um estado de prontidão para possíveis ameaças à nossa segurança.
O fato de o Paraguai ter autorizado a presença de forças militares e equipamentos norte-americanos em seu território, somando-se à disposição do presidente da Argentina, Javier Milei, de abrir espaço para a presença militar norte-americana em seu país, torna o Brasil vulnerável num território próximo à tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina), que os Estados Unidos acusam de ser uma região de recrutamento de terroristas.
Completando esse quadro de riscos, há que considerar o Escudo das Américas, criado por Donald Trump em março deste ano, um pacto político-militar reunindo doze países da América Latina com governos de direita. Essa aliança de segurança e cooperação militar pretende combater cartéis de drogas e organizações criminosas internacionais, fortalecer o controle regional, reduzir a influência chinesa e eliminar a imigração irregular.
México, Brasil e Colômbia não participam do Escudo das Américas e podem sofrer pressões dos Estados Unidos, apoiados por esse pacto.
A 4ª Frota dos Estados Unidos, reativada em 2008, é uma força naval capitaneada por um porta-aviões da classe Nimitz, que aliás estará presente no litoral brasileiro nos próximos dias para operações de treinamento, a fim de garantir a segurança marítima da região. Coincidência ou não, ela foi reativada depois da descoberta do pré-sal brasileiro, em 2006.
Com metade do território da América do Sul, metade do PIB da região e metade de sua população, o Brasil e o governo Lula estão na mira. Reduzir danos vai depender de nossa habilidade diplomática; o que está em jogo é a possibilidade de o Brasil superar sua condição de dependência dos Estados Unidos e buscar novas alianças geopolíticas para seu desenvolvimento. Mas é bom que se diga: vem mais chumbo aí.
Além disso, não podemos esquecer os acontecidos no passado recente, como o golpe parlamentar que derrubou a presidenta Dilma e prendeu Lula para impedir que ele ganhasse as eleições de 2018, e, por meio da Lava Jato, a destruição das grandes companhias brasileiras de obras públicas, que concorriam com as norte-americanas em situação de vantagem nas licitações internacionais.
Essa listagem de acontecimentos recentes nos permite dizer que os Estados Unidos não aceitam nenhuma iniciativa brasileira de busca de maior autonomia, de soberania. Não aceitam o multilateralismo: ou o governo é contra ou a favor dos Estados Unidos. E veem o governo Lula como uma ameaça ao seu domínio neocolonial na América Latina – portanto, um inimigo.
Depois do sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa; de ameaçar invadir o México; de dizer que o próximo país a ser invadido pode ser Cuba; e de pressionar brutalmente a Colômbia com tarifas, o que podemos esperar nós, brasileiros?
Essa preocupação fez o presidente Lula promover uma reunião com as Forças Armadas (15 jan. 2026) e perguntar sobre nossas capacidades de defesa, incluindo propostas para reforçar a segurança do Brasil, especialmente nas fronteiras mais sensíveis. O Senado aprovou uma verba extraordinária de R$ 30 bilhões para as Forças Armadas, a ser distribuída anualmente, no valor de R$ 5 bi/ano. A indústria de armamento bélico passa a ser prioridade, com a contratação da produção de mísseis, drones, novas fragatas, carros de combate.
A situação das Forças Armadas é bastante precária na atualidade. Sem ameaças dos vizinhos, a modernização e o aprimoramento das capacidades bélicas ficaram em segundo plano. O programa nuclear da Marinha, o submarino nuclear, o caça brasileiro Gripen, sistemas de inteligência, a produção nacional de drones, tudo isso foi sendo postergado. As seis fragatas de combate estão obsoletas e quase indisponíveis. Nosso sistema de defesa é muito frágil.
Com um orçamento de defesa de R$ 132 bilhões em 2025, os recursos para o desenvolvimento tecnológico e novos armamentos são de apenas 7,4%. Inativos e pensões militares são o maior gasto, representando nada menos que 78% do orçamento total. O total gasto com recursos humanos é de 84,9%. O custeio consome outros 5,7%.
Na fronteira com a Venezuela, as Forças Armadas reforçaram nossa presença militar, foram mobilizados blindados, mantém-se um estado de prontidão para possíveis ameaças à nossa segurança.
O fato de o Paraguai ter autorizado a presença de forças militares e equipamentos norte-americanos em seu território, somando-se à disposição do presidente da Argentina, Javier Milei, de abrir espaço para a presença militar norte-americana em seu país, torna o Brasil vulnerável num território próximo à tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina), que os Estados Unidos acusam de ser uma região de recrutamento de terroristas.
Completando esse quadro de riscos, há que considerar o Escudo das Américas, criado por Donald Trump em março deste ano, um pacto político-militar reunindo doze países da América Latina com governos de direita. Essa aliança de segurança e cooperação militar pretende combater cartéis de drogas e organizações criminosas internacionais, fortalecer o controle regional, reduzir a influência chinesa e eliminar a imigração irregular.
México, Brasil e Colômbia não participam do Escudo das Américas e podem sofrer pressões dos Estados Unidos, apoiados por esse pacto.
A 4ª Frota dos Estados Unidos, reativada em 2008, é uma força naval capitaneada por um porta-aviões da classe Nimitz, que aliás estará presente no litoral brasileiro nos próximos dias para operações de treinamento, a fim de garantir a segurança marítima da região. Coincidência ou não, ela foi reativada depois da descoberta do pré-sal brasileiro, em 2006.
Com metade do território da América do Sul, metade do PIB da região e metade de sua população, o Brasil e o governo Lula estão na mira. Reduzir danos vai depender de nossa habilidade diplomática; o que está em jogo é a possibilidade de o Brasil superar sua condição de dependência dos Estados Unidos e buscar novas alianças geopolíticas para seu desenvolvimento. Mas é bom que se diga: vem mais chumbo aí.
Flávio Dino e o alerta do 'Elefante Azul'
Flávio Dino resolveu usar uma imagem forte para descrever o que todos veem, mas poucos têm coragem de enfrentar: Brasília virou o palco de um desfile interminável de “elefantes pintados de azul”.
A metáfora é perfeita para o absurdo que, de tão grande e berrante, torna-se invisível, muitas vezes por conveniência. Dino, que circula pelos corredores do poder desde 1999, diz nunca ter visto tamanha quantidade de disparates desfilando pela Esplanada sob o olhar complacente de quem deveria estar vigiando.
A análise de bastidor dá nome aos bois – ou melhor, aos elefantes. O maior deles atende pelo nome de Caso Master, que explodiu em um dos maiores escândalos financeiros da nossa história. É o elefante azul que muitos sabiam que estava lá.
E a manada não para por aí. Temos as emendas parlamentares sem transparência, ministros do TST ganhando para “ensinar” advogados a atuar nos tribunais onde eles mesmos julgam, o Congresso tentando atuar como revisor das decisões do Supremo, entre outros.
A oposição acredita que esse desfile de absurdos será o carrasco de Lula nas urnas de outubro. Fica a pergunta no ar: será que o eleitor, no dia de depositar o voto, estará olhando para os elefantes do Poder? Em Brasília, a manada azul continua passeando livremente, e o silêncio de quem finge não ver é o que permite que o absurdo continue desfilando na nossa frente.
A metáfora é perfeita para o absurdo que, de tão grande e berrante, torna-se invisível, muitas vezes por conveniência. Dino, que circula pelos corredores do poder desde 1999, diz nunca ter visto tamanha quantidade de disparates desfilando pela Esplanada sob o olhar complacente de quem deveria estar vigiando.
A análise de bastidor dá nome aos bois – ou melhor, aos elefantes. O maior deles atende pelo nome de Caso Master, que explodiu em um dos maiores escândalos financeiros da nossa história. É o elefante azul que muitos sabiam que estava lá.
E a manada não para por aí. Temos as emendas parlamentares sem transparência, ministros do TST ganhando para “ensinar” advogados a atuar nos tribunais onde eles mesmos julgam, o Congresso tentando atuar como revisor das decisões do Supremo, entre outros.
A oposição acredita que esse desfile de absurdos será o carrasco de Lula nas urnas de outubro. Fica a pergunta no ar: será que o eleitor, no dia de depositar o voto, estará olhando para os elefantes do Poder? Em Brasília, a manada azul continua passeando livremente, e o silêncio de quem finge não ver é o que permite que o absurdo continue desfilando na nossa frente.
Nem sempre funcionam corretamente
Os jornais são o ponteiro dos segundos no relógio da história. Na maioria das vezes, porém, além de ser fabricado com metais menos nobres do que o dos outros dois ponteiros, raramente funciona de modo correto.
Uma grande quantidade de maus escritores vive unicamente da estultice do público, que só quer ler o que foi impresso no mesmo dia: os jornalistas. A sua designação vem mesmo a calhar, no entanto deveriam chamar-se "diaristas". O exagero de toda a espécie é para eles tão essencial quanto para a arte dramática: com efeito, trata-se de extrair o máximo possível de todo o incidente. Devido à profissão, todos os jornalistas são também alarmistas: este é o seu modo de se tornarem interessantes. No entanto, mediante tal expediente acabam por se igualar aos cãezinhos que, tão logo percebem algum movimento, põem-se a latir fortemente. Sendo assim, é preciso dar aos seus sinais de alerta apenas a atenção necessária para não prejudicar a própria digestão.
Arthur Schopenhauer(1788 – 1860)
Uma grande quantidade de maus escritores vive unicamente da estultice do público, que só quer ler o que foi impresso no mesmo dia: os jornalistas. A sua designação vem mesmo a calhar, no entanto deveriam chamar-se "diaristas". O exagero de toda a espécie é para eles tão essencial quanto para a arte dramática: com efeito, trata-se de extrair o máximo possível de todo o incidente. Devido à profissão, todos os jornalistas são também alarmistas: este é o seu modo de se tornarem interessantes. No entanto, mediante tal expediente acabam por se igualar aos cãezinhos que, tão logo percebem algum movimento, põem-se a latir fortemente. Sendo assim, é preciso dar aos seus sinais de alerta apenas a atenção necessária para não prejudicar a própria digestão.
Arthur Schopenhauer(1788 – 1860)
Nem guerra nem paz é purgatório para ricos, mas inferno para pobres
Conta-se que, quando Lenin enviou Trótski a Brest-Litovsk para negociar uma paz com o Império Alemão, as condições impostas pelos emissários do kaiser eram tão duras que era impossível aceitá-las, mas voltar para casa sem a paz prometida era inconcebível.
Trótski tentava fugir ao dilema, e os alemães perguntavam-lhe sempre: "Afinal o que é que vocês querem, paz ou guerra?". Trótski teria respondido: "Nem guerra nem paz".
A resposta lembra o que se passa agora entre Donald Trump e Irã. Não temos guerra ativa; também não temos paz. A situação tanto pode degenerar quanto ficar congelada durante semanas ou meses, dependendo da capacidade de sofrimento de cada lado.
Em princípio, o Irã leva vantagem nesse quesito. Trump tem um povo que detesta pagar US$ 4,50 por galão de gasolina e há eleições de meio de mandato em novembro.
Mas mesmo que a guerra acabasse amanhã, a normalidade demoraria meses a ser reposta nos fornecimentos de combustíveis, e já não haveria tempo, neste ano, para repor os fornecimentos de fertilizantes.
Cerca de um terço de todo o comércio marítimo mundial de fertilizantes passa pelo estreito de Hormuz. O que podia ser plantado já foi decidido nestas condições de escassez. Sem falar nos compostos de enxofre, indispensáveis tanto à transformação do fosfato em fertilizante absorvível quanto à indústria de semicondutores que sustenta o setor hoje em maior pujança econômica: o da inteligência artificial.
Isto não afeta toda a gente da mesma forma. O mundo rico vive numa situação em que, pagando mais ou menos pela comida, não se passa fome.
No resto do mundo, e particularmente em regiões como o Chifre de África, vive-se como viviam os nossos antepassados. Um mau ano agrícola significa primeiro consumir as provisões do inverno, depois pular refeições, depois abater os animais que já não se conseguem alimentar e, depois, pegar a família e fugir à fome antes de morrer por ela. Essa pode ser, daqui a uns meses, a situação na Somália.
E é aqui que o problema bate à porta da Europa, que ficará na linha da frente do acolhimento de quem fugir. A mesma Europa que tem hoje uma agenda anti-imigrante; quando há uns anos a União Europeia pagava aos países europeus para receberem refugiados, estes agora pagam ao bloco para não receberem.
E são os mesmos governos que, por outro lado, decidiram cortar ajuda ao desenvolvimento. Aliás aqui também com o exemplo pioneiro dos EUA, que destruíram por dentro a Usaid apesar de saberem que esta agência de cooperação fornecia comida a países onde esse alimento faz a diferença entre vida e morte.
Olhamos para uma humanidade equipada com inteligência artificial, com tudo o que seria preciso para resolver um problema que é logístico e político, e vemos líderes que não só não fazem nada para o resolver como ainda lhe acrescentam a guerra. Só falta a peste para um retorno à Idade Média.
O mais deprimente nesta situação infernal é que não há um único elemento nela que fosse inevitável. Tudo são escolhas políticas. Nos nossos tempos, parece que um excesso de inteligência artificial nos corresponde a um excesso igual de estupidez natural.
Trótski tentava fugir ao dilema, e os alemães perguntavam-lhe sempre: "Afinal o que é que vocês querem, paz ou guerra?". Trótski teria respondido: "Nem guerra nem paz".
A resposta lembra o que se passa agora entre Donald Trump e Irã. Não temos guerra ativa; também não temos paz. A situação tanto pode degenerar quanto ficar congelada durante semanas ou meses, dependendo da capacidade de sofrimento de cada lado.
Em princípio, o Irã leva vantagem nesse quesito. Trump tem um povo que detesta pagar US$ 4,50 por galão de gasolina e há eleições de meio de mandato em novembro.
Mas mesmo que a guerra acabasse amanhã, a normalidade demoraria meses a ser reposta nos fornecimentos de combustíveis, e já não haveria tempo, neste ano, para repor os fornecimentos de fertilizantes.
Cerca de um terço de todo o comércio marítimo mundial de fertilizantes passa pelo estreito de Hormuz. O que podia ser plantado já foi decidido nestas condições de escassez. Sem falar nos compostos de enxofre, indispensáveis tanto à transformação do fosfato em fertilizante absorvível quanto à indústria de semicondutores que sustenta o setor hoje em maior pujança econômica: o da inteligência artificial.
Isto não afeta toda a gente da mesma forma. O mundo rico vive numa situação em que, pagando mais ou menos pela comida, não se passa fome.
No resto do mundo, e particularmente em regiões como o Chifre de África, vive-se como viviam os nossos antepassados. Um mau ano agrícola significa primeiro consumir as provisões do inverno, depois pular refeições, depois abater os animais que já não se conseguem alimentar e, depois, pegar a família e fugir à fome antes de morrer por ela. Essa pode ser, daqui a uns meses, a situação na Somália.
E é aqui que o problema bate à porta da Europa, que ficará na linha da frente do acolhimento de quem fugir. A mesma Europa que tem hoje uma agenda anti-imigrante; quando há uns anos a União Europeia pagava aos países europeus para receberem refugiados, estes agora pagam ao bloco para não receberem.
E são os mesmos governos que, por outro lado, decidiram cortar ajuda ao desenvolvimento. Aliás aqui também com o exemplo pioneiro dos EUA, que destruíram por dentro a Usaid apesar de saberem que esta agência de cooperação fornecia comida a países onde esse alimento faz a diferença entre vida e morte.
Olhamos para uma humanidade equipada com inteligência artificial, com tudo o que seria preciso para resolver um problema que é logístico e político, e vemos líderes que não só não fazem nada para o resolver como ainda lhe acrescentam a guerra. Só falta a peste para um retorno à Idade Média.
O mais deprimente nesta situação infernal é que não há um único elemento nela que fosse inevitável. Tudo são escolhas políticas. Nos nossos tempos, parece que um excesso de inteligência artificial nos corresponde a um excesso igual de estupidez natural.
Ladrões de votos
Vi com preocupação a derrubada, pelo Senado, sob a liderança de David Alcolumbre — não me lembro se desta feita ele rebolou em cima da mesa ou não — do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria, medida que, na prática, alivia a cana para os responsáveis pelo 8 de janeiro, os que tentaram um golpe de Estado e a abolição do estado de direito.
Senti o voto dos 49 senadores favoráveis aos golpistas como… um golpe — esse no estômago, um mal-estar físico: aquela sensação de invasão, violação e impotência diante de um assalto, quando algo é arrancado de nós, como um Rolex (imagino) ou um membro (exagerando).
Nunca havia sentido isso em relação ao voto. Compareço às urnas, como a maioria dos brasileiros, de quando em quando; nunca votei nulo ou branco — jamais justifico. O que não significa que me lembre de todos que escolhi para vereador ou deputado e que tenha valorizado meu voto o quanto que lhe é devido.
Mas também nunca havia tido a sensação de que isso me era roubado. Claro, ouvi e li as muitas histórias sobre a ditadura, o período em que roubavam na cara dura milhões e milhões de votos (é importante sempre falar disso, concordo inteiramente com Kleber Mendonça Filho). Mas uma coisa é ouvir falar. Outra é viver. E, agora, tendo assistido à destruição da Praça dos Três Poderes — o ataque ao Palácio do Planalto, ao Congresso Nacional e ao Supremo —, senti na carteira a dor daquilo que me era levado, que é onde eu carrego, sempre comigo, meu título de eleitor, ao lado da oração de São Francisco e dos cartões de banco.
A vítima de assalto é muitas vezes tida como um ingênuo. Sempre acho, ao fazer um BO (boletim de ocorrência), que o policial atrás da mesinha está tirando uma comigo. Afinal, nossa perda é sempre uma contingência. Algo que acontece sempre, e cada vez mais, especialmente em São Paulo, onde moro. Na delegacia, nosso infortúnio parece trivial frente ao dos outros.
Eu me sinto ingênuo também em relação ao meu voto. Compreendo que ele não vale muito. Reconheço que ele, em si, resolve muito pouco. Como não cuido devidamente dele, não o acompanho pelos escaninhos de Brasília ou de São Paulo, não “governo quem governa”, como recomendava Maquiavel, sou por eles governado. Pelos piores, os que ocupam o vazio deixado por quem abandona o voto, como alertava o mestre florentino.
Agora vejo, consternado, e um tanto revoltoso, o apoio a quem tentou surrupiar o meu sufrágio. À luz do dia, na cara dura, estimulando o roubo, seja atacando urna, seja defendendo anistia — ou “dosimetria”, o que dá no mesmo: Sergio Moro, Espiridião Amim, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Flávio Bolsonaro. Eis o cúmulo: pedem votos, para depois estimular o furto (na verdade, latrocínio, como denunciou a PGR).
Entre eles, e com certo espanto, eis que me identifico com Flávio — como o chama carinhosamente a Folha de S. Paulo. Numa tentativa de assalto no trânsito, numa avenida da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, não teve dúvidas: sacou a pistola e disparou contra os motoqueiros armados, o que rendeu boas fotos dos buracos no vidro do carro. Como ele, não gosto de ser assaltado.
A mesma indignação e valentia, porém, esse Bolsonaro não exibe quanto aos ladrões de votos. Ao contrário: promove e apoia a atitude dos que tentaram destituir o meu, o seu, o nosso voto. Deveríamos os eleitores andar armados? Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Senti o voto dos 49 senadores favoráveis aos golpistas como… um golpe — esse no estômago, um mal-estar físico: aquela sensação de invasão, violação e impotência diante de um assalto, quando algo é arrancado de nós, como um Rolex (imagino) ou um membro (exagerando).
Nunca havia sentido isso em relação ao voto. Compareço às urnas, como a maioria dos brasileiros, de quando em quando; nunca votei nulo ou branco — jamais justifico. O que não significa que me lembre de todos que escolhi para vereador ou deputado e que tenha valorizado meu voto o quanto que lhe é devido.
Mas também nunca havia tido a sensação de que isso me era roubado. Claro, ouvi e li as muitas histórias sobre a ditadura, o período em que roubavam na cara dura milhões e milhões de votos (é importante sempre falar disso, concordo inteiramente com Kleber Mendonça Filho). Mas uma coisa é ouvir falar. Outra é viver. E, agora, tendo assistido à destruição da Praça dos Três Poderes — o ataque ao Palácio do Planalto, ao Congresso Nacional e ao Supremo —, senti na carteira a dor daquilo que me era levado, que é onde eu carrego, sempre comigo, meu título de eleitor, ao lado da oração de São Francisco e dos cartões de banco.
A vítima de assalto é muitas vezes tida como um ingênuo. Sempre acho, ao fazer um BO (boletim de ocorrência), que o policial atrás da mesinha está tirando uma comigo. Afinal, nossa perda é sempre uma contingência. Algo que acontece sempre, e cada vez mais, especialmente em São Paulo, onde moro. Na delegacia, nosso infortúnio parece trivial frente ao dos outros.
Eu me sinto ingênuo também em relação ao meu voto. Compreendo que ele não vale muito. Reconheço que ele, em si, resolve muito pouco. Como não cuido devidamente dele, não o acompanho pelos escaninhos de Brasília ou de São Paulo, não “governo quem governa”, como recomendava Maquiavel, sou por eles governado. Pelos piores, os que ocupam o vazio deixado por quem abandona o voto, como alertava o mestre florentino.
Agora vejo, consternado, e um tanto revoltoso, o apoio a quem tentou surrupiar o meu sufrágio. À luz do dia, na cara dura, estimulando o roubo, seja atacando urna, seja defendendo anistia — ou “dosimetria”, o que dá no mesmo: Sergio Moro, Espiridião Amim, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Flávio Bolsonaro. Eis o cúmulo: pedem votos, para depois estimular o furto (na verdade, latrocínio, como denunciou a PGR).
Entre eles, e com certo espanto, eis que me identifico com Flávio — como o chama carinhosamente a Folha de S. Paulo. Numa tentativa de assalto no trânsito, numa avenida da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, não teve dúvidas: sacou a pistola e disparou contra os motoqueiros armados, o que rendeu boas fotos dos buracos no vidro do carro. Como ele, não gosto de ser assaltado.
A mesma indignação e valentia, porém, esse Bolsonaro não exibe quanto aos ladrões de votos. Ao contrário: promove e apoia a atitude dos que tentaram destituir o meu, o seu, o nosso voto. Deveríamos os eleitores andar armados? Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
terça-feira, 5 de maio de 2026
Derrota no Senado serve para tirar Lula da zona de conforto
Nesse filme, é difícil achar o mocinho. Lula indicou um amigo fiel para o Supremo. Davi Alcolumbre o sabotou porque queria colocar um amigo fiel no Supremo. A direita ajudou a derrubar Jorge Messias porque sonha em conquistar o Senado e povoá-lo de amigos fiéis, derrubando alguns ministros de reputação duvidosa.
Em todos os casos, o Supremo é um território a ser ocupado, e não um espaço que a sociedade preenche com os mais brilhantes e honestos juristas, na esperança de decisões sábias e imparciais.
Muitos analistas consideram histórica a rejeição de Messias. De certa forma, acho um exagero. Não é histórica como a cena em que Dom Pedro parou no riacho Ipiranga ou a carta de Getúlio Vargas, deixando a vida para entrar na História. É verdade que algo assim aconteceu antes, há 132 anos, no tempo de Floriano Peixoto. É mais um fato de almanaque.
Na verdade, não posso dizer que tenha se passado um filme. Não fui testemunha. Mas, analisando o relato de quem fala com os envolvidos, concluo que poderia ser uma série intitulada “Fugindo da polícia”, algo que sempre rende muitos capítulos. Agora mesmo, veio a público que senadores e deputados desembarcaram com malas suspeitas num aeroporto de São Paulo. Não passaram pela alfândega.
O Banco Master, segundo analistas, foi o centro do roteiro que derrubou Messias. Alcolumbre teme as investigações. O Amapá despejou quase R$ 400 milhões nos cofres de Daniel Vorcaro. O presidente da Previdência do estado é indicado por ele. Jornalistas de Brasília afirmam também que Alexandre de Moraes participou da emboscada contra Messias. Ele temia que o novo ministro se alinhasse a seu amigo evangélico André Mendonça e, com a graça de Deus, o ferrassem quando seu caso fosse a julgamento.
O papel da direita nessa história foi embarcar na rejeição e não falar mais em CPMI do caso Master. Todos se sentem mais seguros, mas não deveriam. A Polícia Federal está investigando. Suas mesas estão cheias de celulares, como nas fotos de apreensão de telefones roubados no carnaval.
Alguns analistas disseram que o governo acabou e que Lula perderá as eleições. São conclusões apressadas, com apenas uma utilidade: tirar Lula da zona de conforto e trazê-lo para uma das mais importantes campanhas de sua história: a saideira. Para muitos, ícone da redemocratização, cara do Brasil no exterior, maior líder da História recente, Lula pode se empolgar e tentar fazer o melhor governo de toda a sua trajetória.
Afinal de contas, a redemocratização é tarefa de todos, e é preciso lutar para que não se afunde na mediocridade. Se a rejeição de Messias puder inspirar uma virada de jogo, ela, afinal, valeu a pena para as forças no poder.
Talvez essa visão seja um pouco otimista. O Manifesto do PT foi considerado pobre, e a campanha parece que será dirigida pela velha guarda. O próprio Lula precisa superar a húbris que se instala depois de tantos anos no poder, abrindo-se com mais humildade para o Brasil de nossos dias. Enfim, tudo é possível quando se sacode a poeira e se dá a volta por cima.
Em todos os casos, o Supremo é um território a ser ocupado, e não um espaço que a sociedade preenche com os mais brilhantes e honestos juristas, na esperança de decisões sábias e imparciais.
Muitos analistas consideram histórica a rejeição de Messias. De certa forma, acho um exagero. Não é histórica como a cena em que Dom Pedro parou no riacho Ipiranga ou a carta de Getúlio Vargas, deixando a vida para entrar na História. É verdade que algo assim aconteceu antes, há 132 anos, no tempo de Floriano Peixoto. É mais um fato de almanaque.
Na verdade, não posso dizer que tenha se passado um filme. Não fui testemunha. Mas, analisando o relato de quem fala com os envolvidos, concluo que poderia ser uma série intitulada “Fugindo da polícia”, algo que sempre rende muitos capítulos. Agora mesmo, veio a público que senadores e deputados desembarcaram com malas suspeitas num aeroporto de São Paulo. Não passaram pela alfândega.
O Banco Master, segundo analistas, foi o centro do roteiro que derrubou Messias. Alcolumbre teme as investigações. O Amapá despejou quase R$ 400 milhões nos cofres de Daniel Vorcaro. O presidente da Previdência do estado é indicado por ele. Jornalistas de Brasília afirmam também que Alexandre de Moraes participou da emboscada contra Messias. Ele temia que o novo ministro se alinhasse a seu amigo evangélico André Mendonça e, com a graça de Deus, o ferrassem quando seu caso fosse a julgamento.
O papel da direita nessa história foi embarcar na rejeição e não falar mais em CPMI do caso Master. Todos se sentem mais seguros, mas não deveriam. A Polícia Federal está investigando. Suas mesas estão cheias de celulares, como nas fotos de apreensão de telefones roubados no carnaval.
Alguns analistas disseram que o governo acabou e que Lula perderá as eleições. São conclusões apressadas, com apenas uma utilidade: tirar Lula da zona de conforto e trazê-lo para uma das mais importantes campanhas de sua história: a saideira. Para muitos, ícone da redemocratização, cara do Brasil no exterior, maior líder da História recente, Lula pode se empolgar e tentar fazer o melhor governo de toda a sua trajetória.
Afinal de contas, a redemocratização é tarefa de todos, e é preciso lutar para que não se afunde na mediocridade. Se a rejeição de Messias puder inspirar uma virada de jogo, ela, afinal, valeu a pena para as forças no poder.
Talvez essa visão seja um pouco otimista. O Manifesto do PT foi considerado pobre, e a campanha parece que será dirigida pela velha guarda. O próprio Lula precisa superar a húbris que se instala depois de tantos anos no poder, abrindo-se com mais humildade para o Brasil de nossos dias. Enfim, tudo é possível quando se sacode a poeira e se dá a volta por cima.
A liberdade entre o Trumpismo e as Big Techs
Entre as tendências do nosso tempo, sobressai-se, ainda uma vez, a crescente submissão da política aos ditames do autoritarismo embuçado nos ouropéis da liberdade.
Aqui cabe ressaltar que as concepções “sub-positivistas” ensinam: narrativas (ideologias?) que proclamam que não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Para desagrado da matilha de cães raivosos que emitem latidos “factuais” e (anti)democráticos, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até mesmo quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.
Em parceria com Nathan Caixeta, escrevi sobre Michael Foucault. No livro “As Palavras e as Coisas”, Foucault trata da relação entre a linguagem e a estruturação material das sociedades ao longo da história. O filósofo francês distingue as formas de linguagem. A linguagem clássica cuja soberania das palavras e conceitos era vinculada à propriedade natural e divina das coisas reais e visíveis em contraposição à linguagem esculpida por obra do iluminismo, que colocou o homem e seu cogito como soberanos sobre as palavras e as coisas, igualmente reais e visíveis, mas, que a partir da época das luzes foram subordinadas à designação dos desejos e da autonomia do próprio homem.
Entre as narrativas dos autocratas liberais contemporâneos, predominam os consensos que deploram o peso excessivo do Estado e investem contra as tentativas de disciplinar as forças, simultaneamente criadoras e destrutivas, do capitalismo.
A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica que celebra o orçamento equilibrado. Os enriquecidos contestam qualquer interferência no processo de diferenciação entre o poder da riqueza e a renda dos desvalidos.
A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos mercados afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo em que impõe restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.
Aqui deve-se registrar que a ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Estas duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder do Estado e da desvalorização da política, o que culmina em esgares autoritários travestidos de democracia. Entre tais desgraças, sobressai-se a contaminação dos Parlamentos, não só no Brasil, mas também em outros pagos.
No livro “Iluminismo Sombrio”, Arnaud Miranda empreende uma investigação sobre o neoconservadorismo “tecnológico” abrigado na direita nos Estados Unidos. “Por toda parte, nas telas publicitárias, podemos ver retratos gigantescos do Rei da América.
O triunfo vai para os profetas visionários, os Sábios das Luzes Negras, que, por anos e no segredo da internet, prepararam o golpe de Estado que mandou à morte a antiga república corrupta e decadente...
E, ainda assim, esse cenário não é menos inspirado pela visão política de intelectuais muito reais, que emergiram das profundezas da Internet no final dos anos 2000 e que hoje imaginam desempenhar o papel de profetas das Luzes Sombrias...
Alguns desses pensadores, sustentados por alguns milionários da tecnologia californiana, estavam parados até se infiltrarem nos círculos coloridos da Casa Branca e agora estão entre os ideólogos mais influentes ao se infiltrarem nos quadros políticos da primeira potência mundia”.
Nesse pacote do Iluminismo Sombrio está o domínio do Estado pelas Big Techs.
A Inteligência Artificial “libertadora” aprisiona homens e mulheres alcançados pelos terremotos que fazem tremer a vida social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massas, agora assolada pelos riscos de “desumanização” tecnológica. A pretendida autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e política.
Assim, a resposta esperançosa às incertezas do futuro depende crucialmente da capacidade de mobilização democrática e radical dos Deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados pelas fake news desabrochadas nas redes sociais por aparatos comprometidos com a força das BigTechs, agora instaladas nos domínios do Estado americano.
As concepções conservadoras de todos os tempos assombram também nossos tempos. Deixam de examinar o conjunto de relações que estruturam as sociedades capitalistas como uma organização econômica, social e política singular, singular porque histórica. Isso significa que essas relações se reproduzem num movimento incessante de diferenciação e autotransformação no interior de sua estrutura. Não há determinismo nem indeterminação: o capitalismo se transforma no processo de reprodução de suas próprias estruturas.
A negação de uma estrutura em movimento, em si mesma, é um método eficaz de bloquear o imaginário social, uma comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.
A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas livres de um ponto de vista negativo - no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade - mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa primordialmente o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente.
Aqui cabe ressaltar que as concepções “sub-positivistas” ensinam: narrativas (ideologias?) que proclamam que não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Para desagrado da matilha de cães raivosos que emitem latidos “factuais” e (anti)democráticos, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até mesmo quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.
Em parceria com Nathan Caixeta, escrevi sobre Michael Foucault. No livro “As Palavras e as Coisas”, Foucault trata da relação entre a linguagem e a estruturação material das sociedades ao longo da história. O filósofo francês distingue as formas de linguagem. A linguagem clássica cuja soberania das palavras e conceitos era vinculada à propriedade natural e divina das coisas reais e visíveis em contraposição à linguagem esculpida por obra do iluminismo, que colocou o homem e seu cogito como soberanos sobre as palavras e as coisas, igualmente reais e visíveis, mas, que a partir da época das luzes foram subordinadas à designação dos desejos e da autonomia do próprio homem.
Entre as narrativas dos autocratas liberais contemporâneos, predominam os consensos que deploram o peso excessivo do Estado e investem contra as tentativas de disciplinar as forças, simultaneamente criadoras e destrutivas, do capitalismo.
A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica que celebra o orçamento equilibrado. Os enriquecidos contestam qualquer interferência no processo de diferenciação entre o poder da riqueza e a renda dos desvalidos.
A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos mercados afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo em que impõe restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.
Aqui deve-se registrar que a ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Estas duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder do Estado e da desvalorização da política, o que culmina em esgares autoritários travestidos de democracia. Entre tais desgraças, sobressai-se a contaminação dos Parlamentos, não só no Brasil, mas também em outros pagos.
No livro “Iluminismo Sombrio”, Arnaud Miranda empreende uma investigação sobre o neoconservadorismo “tecnológico” abrigado na direita nos Estados Unidos. “Por toda parte, nas telas publicitárias, podemos ver retratos gigantescos do Rei da América.
O triunfo vai para os profetas visionários, os Sábios das Luzes Negras, que, por anos e no segredo da internet, prepararam o golpe de Estado que mandou à morte a antiga república corrupta e decadente...
E, ainda assim, esse cenário não é menos inspirado pela visão política de intelectuais muito reais, que emergiram das profundezas da Internet no final dos anos 2000 e que hoje imaginam desempenhar o papel de profetas das Luzes Sombrias...
Alguns desses pensadores, sustentados por alguns milionários da tecnologia californiana, estavam parados até se infiltrarem nos círculos coloridos da Casa Branca e agora estão entre os ideólogos mais influentes ao se infiltrarem nos quadros políticos da primeira potência mundia”.
Nesse pacote do Iluminismo Sombrio está o domínio do Estado pelas Big Techs.
A Inteligência Artificial “libertadora” aprisiona homens e mulheres alcançados pelos terremotos que fazem tremer a vida social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massas, agora assolada pelos riscos de “desumanização” tecnológica. A pretendida autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e política.
Assim, a resposta esperançosa às incertezas do futuro depende crucialmente da capacidade de mobilização democrática e radical dos Deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados pelas fake news desabrochadas nas redes sociais por aparatos comprometidos com a força das BigTechs, agora instaladas nos domínios do Estado americano.
As concepções conservadoras de todos os tempos assombram também nossos tempos. Deixam de examinar o conjunto de relações que estruturam as sociedades capitalistas como uma organização econômica, social e política singular, singular porque histórica. Isso significa que essas relações se reproduzem num movimento incessante de diferenciação e autotransformação no interior de sua estrutura. Não há determinismo nem indeterminação: o capitalismo se transforma no processo de reprodução de suas próprias estruturas.
A negação de uma estrutura em movimento, em si mesma, é um método eficaz de bloquear o imaginário social, uma comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.
A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas livres de um ponto de vista negativo - no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade - mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa primordialmente o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente.
EUA, Irão e Ormuz: o limiar de uma rutura global
O bloqueio imposto pelos Estados Unidos ao Irão não traduz um domínio consolidado do conflito, mas a tentativa de o moldar através da interrupção deliberada da circulação de recursos essenciais. Ao deslocar o confronto do plano militar para uma dimensão estrutural, Washington procura converter dependências em instrumentos de coerção, introduzindo um dispositivo de pressão que, embora eficaz no plano tático, não assegura um desfecho. O que emerge não é um domínio inequívoco, mas um quadro em que a condução do conflito se fragmenta, passando a ser disputada no tempo, no custo e na capacidade de resistência.
Essa limitação torna-se mais evidente à medida que o impasse se prolonga. Apesar da superioridade material americana, o bloqueio já implicou custos que ascendem a dezenas de milhares de milhões de dólares, sem produzir uma alteração decisiva no comportamento iraniano. Este desfasamento entre investimento e resultado não é um detalhe técnico; constitui um sinal profundo sobre os limites de abordagens baseadas em desgaste prolongado. Modelos desta natureza dependem da capacidade de gerar efeitos concretos num horizonte politicamente aceitável; quando isso falha, a eficácia degrada-se não por insuficiência de intensidade, mas por acumulação de tempo.
A economia internacional absorve, entretanto, os efeitos desta dinâmica de forma desigual, mas persistente. Assente numa rede de fluxos interdependentes — energia, bens e financiamento —, exige um mínimo de previsibilidade para funcionar. A interrupção deliberada de um desses fluxos não se esgota no alvo direto, propagando-se por mercados, cadeias logísticas e decisões estatais. O bloqueio deixa, assim, de ser apenas uma medida dirigida e passa a atuar como mecanismo de reconfiguração indireta do quadro global, obrigando múltiplos atores a recalibrar riscos num ambiente em que a incerteza deixa de ser episódica para se tornar condição permanente.
O estreito de Ormuz condensa essa tensão num ponto crítico. Como corredor central da circulação energética mundial, qualquer perturbação no seu funcionamento produz efeitos imediatos e amplificados. Ao transformar esse espaço numa variável ativa, os Estados Unidos introduzem um fator de instabilidade que não controlam plenamente, porque a própria lógica de um ponto de estrangulamento implica vulnerabilidade partilhada. A tentativa de limitar o fluxo expõe, assim, um paradoxo inevitável: quanto mais se restringe a circulação, mais se evidencia a fragilidade do modelo que a sustenta.
É nesse contexto que a resposta do Irão revela uma eficácia menos evidente, mas decisiva. Incapaz de rivalizar diretamente com o poder militar americano, Teerão adota uma lógica de perturbação deliberada que não procura vencer, mas impedir que o adversário alcance um resultado conclusivo. Ao introduzir incerteza nas rotas marítimas e ao manter a possibilidade de incidentes controlados, desloca o confronto para um plano em que o tempo e o desgaste assumem centralidade. Trata-se de uma abordagem que não exige superioridade, apenas continuidade, convertendo a resistência num instrumento ativo de influência.
O resultado é um impasse estrutural que escapa às categorias clássicas de vitória ou derrota. Nenhum dos lados dispõe de incentivos suficientes para recuar, mas ambos enfrentam custos crescentes para avançar. Este equilíbrio negativo, sustentado pela ausência de desfecho, tende a prolongar-se e a produzir efeitos cumulativos que ultrapassam o teatro imediato do confronto. A estabilidade não se dissipa de forma abrupta; é progressivamente substituída por uma tensão persistente que se infiltra nas decisões económicas e políticas, moldando comportamentos de forma gradual, mas consistente.
Mais do que um episódio isolado, este cenário expõe uma fragilidade central da ordem internacional contemporânea: a dependência de infraestruturas críticas concentradas. A economia global opera através de pontos específicos cuja interrupção tem efeitos desproporcionais. Quando esses pontos passam a ser utilizados como instrumentos de coerção, deixam de ser meros elementos técnicos e tornam-se alavancas de poder. Essa transformação amplia o alcance das formas indiretas de influência, ao mesmo tempo que eleva o risco sistémico associado à sua utilização.
Perante esta realidade, a resposta dos demais atores internacionais assume uma natureza essencialmente adaptativa. Estados dependentes de energia procuram diversificar origens, empresas reconfiguram cadeias de abastecimento e alianças são reavaliadas em função da sua utilidade concreta. O resultado não é uma reorganização coordenada, mas um processo de fragmentação progressiva, no qual o sistema deixa de evoluir de forma integrada e passa a estruturar-se em circuitos paralelos, mais resilientes em alguns aspetos, mas globalmente mais complexos e menos previsíveis.
Do ponto de vista dos Estados Unidos, a continuidade do bloqueio levanta uma questão que ultrapassa a sua eficácia imediata. A projeção de poder depende não apenas da capacidade de atuar, mas da capacidade de produzir resultados tangíveis. À medida que o custo se acumula sem um desfecho claro, o risco desloca-se do plano externo para o interno, onde a credibilidade começa a ser medida pela relação entre meios mobilizados e efeitos alcançados. Um instrumento que não entrega resultados deixa de ser apenas insuficiente; torna-se potencialmente contraproducente.
Para o Irão, a equação é distinta, mas igualmente exigente. A sobrevivência do regime e a preservação de margem de manobra dependem da capacidade de resistir sem desencadear uma escalada incontrolável. A lógica de perturbação deliberada permite manter esse equilíbrio, operando numa zona intermédia onde o confronto não se resolve, mas também não se transforma em guerra aberta. Neste enquadramento, prolongar o impasse deixa de ser um efeito colateral e passa a constituir um objetivo implícito.
O elemento decisivo não reside, portanto, na intenção de cada actor, mas na dinâmica que esta interação produz. Ao normalizar o recurso a bloqueios prolongados e à instrumentalização de pontos críticos, abre-se espaço para a replicação deste tipo de abordagem noutros contextos. O cenário que emerge é o de um ambiente internacional marcado não por confrontos isolados, mas por uma multiplicidade de tensões interligadas, capazes de gerar instabilidade difusa sem necessidade de confronto direto.
O bloqueio ao Irão deve, por isso, ser entendido como um sinal de transformação mais profunda. O poder deixa de se afirmar apenas pela capacidade de destruição e passa a manifestar-se na capacidade de interromper, condicionar e reorganizar fluxos essenciais. Essa mudança não elimina o conflito tradicional, mas acrescenta uma camada de complexidade que torna a sua gestão mais exigente e os seus efeitos mais difíceis de conter.
Num contexto desta natureza, a questão deixa de ser quem exerce poder e passa a ser se um mundo dependente da continuidade dos seus fluxos consegue permanecer estável quando essa própria dinâmica é convertida em instrumento de disrupção — e até que ponto essa inversão não marca já o início de uma transformação silenciosa, mas estrutural, da própria ordem internacional.
Essa limitação torna-se mais evidente à medida que o impasse se prolonga. Apesar da superioridade material americana, o bloqueio já implicou custos que ascendem a dezenas de milhares de milhões de dólares, sem produzir uma alteração decisiva no comportamento iraniano. Este desfasamento entre investimento e resultado não é um detalhe técnico; constitui um sinal profundo sobre os limites de abordagens baseadas em desgaste prolongado. Modelos desta natureza dependem da capacidade de gerar efeitos concretos num horizonte politicamente aceitável; quando isso falha, a eficácia degrada-se não por insuficiência de intensidade, mas por acumulação de tempo.
A economia internacional absorve, entretanto, os efeitos desta dinâmica de forma desigual, mas persistente. Assente numa rede de fluxos interdependentes — energia, bens e financiamento —, exige um mínimo de previsibilidade para funcionar. A interrupção deliberada de um desses fluxos não se esgota no alvo direto, propagando-se por mercados, cadeias logísticas e decisões estatais. O bloqueio deixa, assim, de ser apenas uma medida dirigida e passa a atuar como mecanismo de reconfiguração indireta do quadro global, obrigando múltiplos atores a recalibrar riscos num ambiente em que a incerteza deixa de ser episódica para se tornar condição permanente.
O estreito de Ormuz condensa essa tensão num ponto crítico. Como corredor central da circulação energética mundial, qualquer perturbação no seu funcionamento produz efeitos imediatos e amplificados. Ao transformar esse espaço numa variável ativa, os Estados Unidos introduzem um fator de instabilidade que não controlam plenamente, porque a própria lógica de um ponto de estrangulamento implica vulnerabilidade partilhada. A tentativa de limitar o fluxo expõe, assim, um paradoxo inevitável: quanto mais se restringe a circulação, mais se evidencia a fragilidade do modelo que a sustenta.
É nesse contexto que a resposta do Irão revela uma eficácia menos evidente, mas decisiva. Incapaz de rivalizar diretamente com o poder militar americano, Teerão adota uma lógica de perturbação deliberada que não procura vencer, mas impedir que o adversário alcance um resultado conclusivo. Ao introduzir incerteza nas rotas marítimas e ao manter a possibilidade de incidentes controlados, desloca o confronto para um plano em que o tempo e o desgaste assumem centralidade. Trata-se de uma abordagem que não exige superioridade, apenas continuidade, convertendo a resistência num instrumento ativo de influência.
O resultado é um impasse estrutural que escapa às categorias clássicas de vitória ou derrota. Nenhum dos lados dispõe de incentivos suficientes para recuar, mas ambos enfrentam custos crescentes para avançar. Este equilíbrio negativo, sustentado pela ausência de desfecho, tende a prolongar-se e a produzir efeitos cumulativos que ultrapassam o teatro imediato do confronto. A estabilidade não se dissipa de forma abrupta; é progressivamente substituída por uma tensão persistente que se infiltra nas decisões económicas e políticas, moldando comportamentos de forma gradual, mas consistente.
Mais do que um episódio isolado, este cenário expõe uma fragilidade central da ordem internacional contemporânea: a dependência de infraestruturas críticas concentradas. A economia global opera através de pontos específicos cuja interrupção tem efeitos desproporcionais. Quando esses pontos passam a ser utilizados como instrumentos de coerção, deixam de ser meros elementos técnicos e tornam-se alavancas de poder. Essa transformação amplia o alcance das formas indiretas de influência, ao mesmo tempo que eleva o risco sistémico associado à sua utilização.
Perante esta realidade, a resposta dos demais atores internacionais assume uma natureza essencialmente adaptativa. Estados dependentes de energia procuram diversificar origens, empresas reconfiguram cadeias de abastecimento e alianças são reavaliadas em função da sua utilidade concreta. O resultado não é uma reorganização coordenada, mas um processo de fragmentação progressiva, no qual o sistema deixa de evoluir de forma integrada e passa a estruturar-se em circuitos paralelos, mais resilientes em alguns aspetos, mas globalmente mais complexos e menos previsíveis.
Do ponto de vista dos Estados Unidos, a continuidade do bloqueio levanta uma questão que ultrapassa a sua eficácia imediata. A projeção de poder depende não apenas da capacidade de atuar, mas da capacidade de produzir resultados tangíveis. À medida que o custo se acumula sem um desfecho claro, o risco desloca-se do plano externo para o interno, onde a credibilidade começa a ser medida pela relação entre meios mobilizados e efeitos alcançados. Um instrumento que não entrega resultados deixa de ser apenas insuficiente; torna-se potencialmente contraproducente.
Para o Irão, a equação é distinta, mas igualmente exigente. A sobrevivência do regime e a preservação de margem de manobra dependem da capacidade de resistir sem desencadear uma escalada incontrolável. A lógica de perturbação deliberada permite manter esse equilíbrio, operando numa zona intermédia onde o confronto não se resolve, mas também não se transforma em guerra aberta. Neste enquadramento, prolongar o impasse deixa de ser um efeito colateral e passa a constituir um objetivo implícito.
O elemento decisivo não reside, portanto, na intenção de cada actor, mas na dinâmica que esta interação produz. Ao normalizar o recurso a bloqueios prolongados e à instrumentalização de pontos críticos, abre-se espaço para a replicação deste tipo de abordagem noutros contextos. O cenário que emerge é o de um ambiente internacional marcado não por confrontos isolados, mas por uma multiplicidade de tensões interligadas, capazes de gerar instabilidade difusa sem necessidade de confronto direto.
O bloqueio ao Irão deve, por isso, ser entendido como um sinal de transformação mais profunda. O poder deixa de se afirmar apenas pela capacidade de destruição e passa a manifestar-se na capacidade de interromper, condicionar e reorganizar fluxos essenciais. Essa mudança não elimina o conflito tradicional, mas acrescenta uma camada de complexidade que torna a sua gestão mais exigente e os seus efeitos mais difíceis de conter.
Num contexto desta natureza, a questão deixa de ser quem exerce poder e passa a ser se um mundo dependente da continuidade dos seus fluxos consegue permanecer estável quando essa própria dinâmica é convertida em instrumento de disrupção — e até que ponto essa inversão não marca já o início de uma transformação silenciosa, mas estrutural, da própria ordem internacional.
O infausto Fausto
Qualquer pessoal que pense em dar lição de política ao Presidente Lula precisa, com urgência, lembrar que ele é o político — mais, o estadista — mais vitorioso da História do Brasil. Para começar, o fantástico caminho que fez de operário a Presidente da República é, por si só, um fato excepcional sob qualquer ponto de vista. Comparável a ele, só o de Abraham Lincoln, que pode dizer, com honestidade, que “I used to be a slave” — “eu costumava ser um escravo”.
Isso não impede que, nessas extraordinárias circunstâncias pós-golpe, em meio à mais grave crise de degradação da atividade política que já passamos, e lembrem que maus momentos é que não faltam nesse caminho, o seu governo tenha cometido erros. O primeiro deles foi o de ter feito, durante a transição, um “acerto” de governabilidade que permitiu a sucessão das casas do Congresso se fazer com pessoas que reivindicavam o duplo apoio dos golpistas e dos democratas. Somos todos pela conciliação, como foram os grandes símbolos da democracia — José Bonifácio e Joaquim Nabuco, Jefferson e Lincoln —, mas, como eles, devíamos saber que há um limite para ela: com o Diabo não se faz pacto, ensina Fausto, pois na hora de entregar a alma já se entregou tudo.
Estava em pleno andamento a tentativa de golpe — já, no dia 12 de dezembro, em plena negociação entre o governo golpista e o governo eleito, a arruaça havia tomado conta do centro de Brasília — quando, a 21 de dezembro, foi aprovada a Emenda Constitucional 126, alterando o Ato das Disposições Transitórias — criado para regular as situações de passagem para a nova Constituição, que ele tenha sido emendado múltiplas vezes depois é uma dessas aberrações inexplicáveis — para autorizar o aumento de 145 bilhões no orçamento que viabilizava a continuidade do bolsa-família. Para isso o governo eleito deu apoio à reeleição de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, uomini d’onore, como era e continuou notório nas suas inúmeras conspirações com os golpistas.
É claro que os dois juram que nada tinham com o golpe. Se nenhum dos dois tinha tentado deflagrar o impeachment de Bolsonaro era porque porque… inventa uma desculpa aí. É verdade que uma meia dúzia dos mais de 150 pedidos apresentados foi arquivada por erro material, mas os outros… bem, estavam sob análise. Descartando os improvisados e injustificados que enchem os arquivos do Congresso, no caso do golpista suas agressões à Constituição, às leis e à humanidade eram ostensivas e a responsabilidade dos dois presidentes estava em jogo. Jogaram com não fazer nada e foram premiados com um acordo para serem reeleitos e continuar conspirando com a organização criminosa golpista. Ao fim dos seus mandados, os dois negociaram com o governo o apoio a dois outros homens de honra, um que já mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana — e outro que ainda não mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana. Espantar-se com qualquer avacalhação da moral e dos bons costumes — e das leis e da Constituição — por parte de David Alcolumbre e Hugo Motta é impossível.
Mas o que fazer se a maioria do Congresso está com eles e só com eles? Eu diria que, se os congressistas estão com eles, é porque eles lhes enchem os bolsos de emendas e arreglos pagos pelo governo. É um pouco tarde para isto, mas há várias cadernetinhas com anotações dos problemas de Fulano, Beltrano e Sicrano. Mostrar que “problemas” são esses é um bom serviço feito ao povo brasileiro.
É claro que possivelmente será difícil para o governo aprovar qualquer coisa. Mas, se der uma de avestruz, acham que será fácil?
A armadilha em que o governo caiu implica numa saída difícil. O essencial é ganhar a eleição — a alternativa é aceitar o golpe de Estado e a ditadura —, mas ninguém se iluda de que ganhar a eleição passa por benesses ratificadas pelo Congresso Nacional. O povo é que tem que saber que há coisas que se pretende fazer e o Congresso ou está rejeitando ou está segurando para não aprovar. O governo — e muito menos o Presidente Lula — não perdeu de todo a capacidade de se comunicar com o povo. Que se comunique. Que o povo saiba quem está com a justiça social e quem está com seus negócios particulares. Que o povo saiba quais são as alternativas.
Isso passa também pelo sistema de Justiça. A organização criminosa golpista não foi completamente desarticulada. Inúmeros parlamentares que ostensivamente fazem parte dela — como foi mostrado na ocupação criminosa das mesas das duas casas do Congresso — não foram processados. Há jornais e jornalistas conspirando a olhos vistos protegidos por um equívoco do que é liberdade de expressão. Há banqueiros, bancários e facções na trama. O chefe da orcrim não está no regime disciplinar diferenciado previsto no art. 52 da Lei de Execução Penal, mas se comunica por meio de seu porta voz, pré-candidato a Presidente da República, que já declarou que é necessário fechar o Supremo Tribunal Federal. Ah!, mas isso é para criminosos perigosos! Mais perigoso que tentar acabar com a democracia? Que continuar tentando acabar com a democracia? Que propor entregar a soberania nacional em troca de apoio para acabar com a democracia? Vamos e venhamos!
Será que os delegados da Polícia Federal conhecem os art. 286 (incitar, publicamente, a prática de crime) e 287 (fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime) do Código Penal? Pois o mais que tenho visto e ouvido é gente cometendo um ou outro desses crimes — ou, claro, os dois quase simultaneamente. Ah!, isso vale para crime como roubar, matar, ser comunista, não vale para atentar contra a democracia. Vamos e venhamos!
Isso não impede que, nessas extraordinárias circunstâncias pós-golpe, em meio à mais grave crise de degradação da atividade política que já passamos, e lembrem que maus momentos é que não faltam nesse caminho, o seu governo tenha cometido erros. O primeiro deles foi o de ter feito, durante a transição, um “acerto” de governabilidade que permitiu a sucessão das casas do Congresso se fazer com pessoas que reivindicavam o duplo apoio dos golpistas e dos democratas. Somos todos pela conciliação, como foram os grandes símbolos da democracia — José Bonifácio e Joaquim Nabuco, Jefferson e Lincoln —, mas, como eles, devíamos saber que há um limite para ela: com o Diabo não se faz pacto, ensina Fausto, pois na hora de entregar a alma já se entregou tudo.
Estava em pleno andamento a tentativa de golpe — já, no dia 12 de dezembro, em plena negociação entre o governo golpista e o governo eleito, a arruaça havia tomado conta do centro de Brasília — quando, a 21 de dezembro, foi aprovada a Emenda Constitucional 126, alterando o Ato das Disposições Transitórias — criado para regular as situações de passagem para a nova Constituição, que ele tenha sido emendado múltiplas vezes depois é uma dessas aberrações inexplicáveis — para autorizar o aumento de 145 bilhões no orçamento que viabilizava a continuidade do bolsa-família. Para isso o governo eleito deu apoio à reeleição de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, uomini d’onore, como era e continuou notório nas suas inúmeras conspirações com os golpistas.
É claro que os dois juram que nada tinham com o golpe. Se nenhum dos dois tinha tentado deflagrar o impeachment de Bolsonaro era porque porque… inventa uma desculpa aí. É verdade que uma meia dúzia dos mais de 150 pedidos apresentados foi arquivada por erro material, mas os outros… bem, estavam sob análise. Descartando os improvisados e injustificados que enchem os arquivos do Congresso, no caso do golpista suas agressões à Constituição, às leis e à humanidade eram ostensivas e a responsabilidade dos dois presidentes estava em jogo. Jogaram com não fazer nada e foram premiados com um acordo para serem reeleitos e continuar conspirando com a organização criminosa golpista. Ao fim dos seus mandados, os dois negociaram com o governo o apoio a dois outros homens de honra, um que já mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana — e outro que ainda não mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana. Espantar-se com qualquer avacalhação da moral e dos bons costumes — e das leis e da Constituição — por parte de David Alcolumbre e Hugo Motta é impossível.
Mas o que fazer se a maioria do Congresso está com eles e só com eles? Eu diria que, se os congressistas estão com eles, é porque eles lhes enchem os bolsos de emendas e arreglos pagos pelo governo. É um pouco tarde para isto, mas há várias cadernetinhas com anotações dos problemas de Fulano, Beltrano e Sicrano. Mostrar que “problemas” são esses é um bom serviço feito ao povo brasileiro.
É claro que possivelmente será difícil para o governo aprovar qualquer coisa. Mas, se der uma de avestruz, acham que será fácil?
A armadilha em que o governo caiu implica numa saída difícil. O essencial é ganhar a eleição — a alternativa é aceitar o golpe de Estado e a ditadura —, mas ninguém se iluda de que ganhar a eleição passa por benesses ratificadas pelo Congresso Nacional. O povo é que tem que saber que há coisas que se pretende fazer e o Congresso ou está rejeitando ou está segurando para não aprovar. O governo — e muito menos o Presidente Lula — não perdeu de todo a capacidade de se comunicar com o povo. Que se comunique. Que o povo saiba quem está com a justiça social e quem está com seus negócios particulares. Que o povo saiba quais são as alternativas.
Isso passa também pelo sistema de Justiça. A organização criminosa golpista não foi completamente desarticulada. Inúmeros parlamentares que ostensivamente fazem parte dela — como foi mostrado na ocupação criminosa das mesas das duas casas do Congresso — não foram processados. Há jornais e jornalistas conspirando a olhos vistos protegidos por um equívoco do que é liberdade de expressão. Há banqueiros, bancários e facções na trama. O chefe da orcrim não está no regime disciplinar diferenciado previsto no art. 52 da Lei de Execução Penal, mas se comunica por meio de seu porta voz, pré-candidato a Presidente da República, que já declarou que é necessário fechar o Supremo Tribunal Federal. Ah!, mas isso é para criminosos perigosos! Mais perigoso que tentar acabar com a democracia? Que continuar tentando acabar com a democracia? Que propor entregar a soberania nacional em troca de apoio para acabar com a democracia? Vamos e venhamos!
Será que os delegados da Polícia Federal conhecem os art. 286 (incitar, publicamente, a prática de crime) e 287 (fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime) do Código Penal? Pois o mais que tenho visto e ouvido é gente cometendo um ou outro desses crimes — ou, claro, os dois quase simultaneamente. Ah!, isso vale para crime como roubar, matar, ser comunista, não vale para atentar contra a democracia. Vamos e venhamos!
segunda-feira, 4 de maio de 2026
A Terra já passou dos limites. Nós é que ainda não percebemos
Nas últimas décadas, o mundo transformou-se a uma velocidade sem precedentes. A ânsia pelo crescimento económico, a expansão da população e o aumento do consumo de recursos criaram uma pressão sem igual sobre os ecossistemas do planeta Terra. Crescemos como se o planeta fosse infinito e, hoje, sabemos que não é. A ciência é clara: já ultrapassámos vários dos limites do planeta.
Estes limites são fronteiras biofísicas que sustentam o funcionamento da Terra e obedecem a leis naturais. São como linhas vermelhas que, quando ultrapassadas, nos empurram para zonas de risco onde os sistemas naturais deixam de responder de forma previsível. Agrupam-se em nove grandes áreas: alterações climáticas, acidificação dos oceanos, poluição química, ciclos do azoto e do fósforo, uso de água doce, utilização dos solos, biodiversidade, poluição atmosférica e destruição da camada de ozono.
No fundo, é como viver numa casa onde as paredes começam a rachar: não cai tudo de um dia para o outro, mas cada fissura aumenta a probabilidade de colapso.
Os sinais estão por todo o lado − ondas de calor, secas, incêndios e extinção de espécies − e mostram que vivemos uma crise ambiental global. Quantos mais sinais são necessários até deixarem de ser ignorados?
Esta crise afeta todos os países, mesmo os que seguem caminhos de desenvolvimento sustentável, com impactos na economia e na inclusão social. Além disso, amplifica fragilidades locais, criando um ciclo que se retroalimenta.
As cidades têm um papel fundamental na transição para a sustentabilidade global nos próximos anos. Cerca de 70% da riqueza mundial (medida pelo produto interno bruto) é gerada nas cidades. Ou seja, onde existem as maiores oportunidades económicas, de criação de emprego, de negócio, de inovação e de interação social. Não obstante, é também nas cidades que se verificam os maiores e mais complexos problemas ambientais, nomeadamente no que respeita ao uso da energia, à gestão de resíduos, ao uso do solo, ao consumo de recursos, etc.
Quando olhamos para esta realidade à luz da ciência, a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável deixa de ser apenas uma aspiração e passa a ser uma questão de gestão de risco. Não se trata do que seria ideal fazer, mas do que ainda é possível fazer sem empurrar o sistema para zonas de instabilidade. Neste contexto, a ação governativa assume um papel decisivo: incorporar conhecimento científico nas decisões, recorrer a ferramentas de avaliação e monitorização robustas e basear escolhas em cenários, dados e indicadores fiáveis.
A boa notícia é que não começamos do zero. Temos conhecimento, temos ferramentas e alternativas. Falta-nos a coragem de assumir que a transição para a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável não é confortável, mas um processo exigente de escolhas, prioridades e negociações − um processo que exige decisões informadas pela ciência e uma governação capaz de olhar para o planeta, e para nós, com mais humildade.
E se o problema não estiver na falta de soluções, mas na forma como estamos a olhar para o sistema?
O que está em causa não são problemas isolados, mas o comportamento de um sistema complexo sob pressão. Muitas das dificuldades atuais não resultam da ausência de soluções, mas da forma como os sistemas estão organizados e interagem entre si.
Olhar para a sustentabilidade começa por reconhecer que vivemos num sistema finito e altamente interdependente: o planeta Terra. E implica compreender o mundo como uma interação complexa entre sistemas económicos, sociais, ambientais e políticos. Essa interação torna evidente que não é possível maximizar tudo ao mesmo tempo.
Neste contexto, não existem soluções perfeitas, pois os trade-offs − escolhas entre opções em tensão − são inevitáveis. Isso exige redistribuição de recursos, priorização de objetivos e, sobretudo, uma aceitação de que os ganhos numa dimensão implicam, muitas vezes, perdas noutra.
O planeta já passou dos limites. Agora cabe-nos decidir se continuamos a ignorar as fissuras da “nossa” casa ou se finalmente escolhemos reforçar as suas fundações.
Estes limites são fronteiras biofísicas que sustentam o funcionamento da Terra e obedecem a leis naturais. São como linhas vermelhas que, quando ultrapassadas, nos empurram para zonas de risco onde os sistemas naturais deixam de responder de forma previsível. Agrupam-se em nove grandes áreas: alterações climáticas, acidificação dos oceanos, poluição química, ciclos do azoto e do fósforo, uso de água doce, utilização dos solos, biodiversidade, poluição atmosférica e destruição da camada de ozono.
No fundo, é como viver numa casa onde as paredes começam a rachar: não cai tudo de um dia para o outro, mas cada fissura aumenta a probabilidade de colapso.
Os sinais estão por todo o lado − ondas de calor, secas, incêndios e extinção de espécies − e mostram que vivemos uma crise ambiental global. Quantos mais sinais são necessários até deixarem de ser ignorados?
Esta crise afeta todos os países, mesmo os que seguem caminhos de desenvolvimento sustentável, com impactos na economia e na inclusão social. Além disso, amplifica fragilidades locais, criando um ciclo que se retroalimenta.
As cidades têm um papel fundamental na transição para a sustentabilidade global nos próximos anos. Cerca de 70% da riqueza mundial (medida pelo produto interno bruto) é gerada nas cidades. Ou seja, onde existem as maiores oportunidades económicas, de criação de emprego, de negócio, de inovação e de interação social. Não obstante, é também nas cidades que se verificam os maiores e mais complexos problemas ambientais, nomeadamente no que respeita ao uso da energia, à gestão de resíduos, ao uso do solo, ao consumo de recursos, etc.
Quando olhamos para esta realidade à luz da ciência, a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável deixa de ser apenas uma aspiração e passa a ser uma questão de gestão de risco. Não se trata do que seria ideal fazer, mas do que ainda é possível fazer sem empurrar o sistema para zonas de instabilidade. Neste contexto, a ação governativa assume um papel decisivo: incorporar conhecimento científico nas decisões, recorrer a ferramentas de avaliação e monitorização robustas e basear escolhas em cenários, dados e indicadores fiáveis.
A boa notícia é que não começamos do zero. Temos conhecimento, temos ferramentas e alternativas. Falta-nos a coragem de assumir que a transição para a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável não é confortável, mas um processo exigente de escolhas, prioridades e negociações − um processo que exige decisões informadas pela ciência e uma governação capaz de olhar para o planeta, e para nós, com mais humildade.
E se o problema não estiver na falta de soluções, mas na forma como estamos a olhar para o sistema?
O que está em causa não são problemas isolados, mas o comportamento de um sistema complexo sob pressão. Muitas das dificuldades atuais não resultam da ausência de soluções, mas da forma como os sistemas estão organizados e interagem entre si.
Olhar para a sustentabilidade começa por reconhecer que vivemos num sistema finito e altamente interdependente: o planeta Terra. E implica compreender o mundo como uma interação complexa entre sistemas económicos, sociais, ambientais e políticos. Essa interação torna evidente que não é possível maximizar tudo ao mesmo tempo.
Neste contexto, não existem soluções perfeitas, pois os trade-offs − escolhas entre opções em tensão − são inevitáveis. Isso exige redistribuição de recursos, priorização de objetivos e, sobretudo, uma aceitação de que os ganhos numa dimensão implicam, muitas vezes, perdas noutra.
O planeta já passou dos limites. Agora cabe-nos decidir se continuamos a ignorar as fissuras da “nossa” casa ou se finalmente escolhemos reforçar as suas fundações.
A irresponsabilidade da multidão
A multidão que se chama parlamento nunca se sente tão feliz como quando pode calar com gritos um orador e derrubar um ministro; a multidão que se chama comício agita-se e exalta-se, mal um grito a incita a bradar "Abaixo!" sob as janelas de um inimigo ou a reclamar a cabeça de um indivíduo odiado ou ainda a queimar qualquer símbolo do poder, quer se trate de um panfleto, quer de um palácio de justiça; a multidão reunida num teatro que dá pelo nome de público pode aplaudir uma peça nova, mas, quando estimulada, não hesita em condenar e precipitar à força de uivos e assobios quem supunha tê-lo conquistado e ser-lhe, pelo engenho, superior.
No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espetáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espetáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue – pelo menos, vê-lo.
Estar entre muitos incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.
Giovanni Papini
No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espetáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espetáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue – pelo menos, vê-lo.
Estar entre muitos incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.
Giovanni Papini
Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista
Parece ser mais uma operação do Banco Master. O PL deverá lançar em São Paulo a candidatura do deputado André do Prado ao Senado. E, como suplente, se a lei permitir, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Eleito, Prado poderia ocupar uma secretaria de Estado ou um ministério, caso Flávio Bolsonaro vença as eleições. Com isso, Eduardo assumiria o mandato de senador.
Assim como as debêntures de Vorcaro até meses atrás tinham valor no mercado, a artimanha do PL e de Eduardo é permitida pela legislação eleitoral. Tem sido praticada para dar cobertura a personagens sem voto, muitos deles milionários ou aqueles com dívidas ainda não julgadas pela Justiça. O filho de Jair está nesse último bloco, atingido por inquéritos diversos. Depois de desejar chantagear o país pela absolvição de seu pai, vive nos Estados Unidos. Não volta ao Brasil por recear ser preso ao colocar o pé no aeroporto. É um bom candidato para representar São Paulo no Senado?
À beira das eleições, os bolsonaristas se mobilizam para o desembarque no Senado. No discurso, pretendem conseguir votos para retirar ministros do STF. É da política. Poderiam até querer mudar a camisa do Vasco. Na prática, no entanto, vendem o país. E, nessa ação, os filhos de Jair fazem a feira. Eduardo lutou para que o governo americano impusesse tarifas pesadas aos produtos brasileiros. Era chantagem. Queria em troca libertar o pai condenado por golpismo. Flávio, aquele que não fala nada no Brasil, foi aos Estados Unidos oferecer o subsolo do país — as terras-raras – e, com a outra mão, pedir interferência nas eleições de outubro.
Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista. Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado. Mas eram nacionalistas, e não estava na mesa a entrega do país. Os bolsonaristas nem sequer se envergonham e perpetram o escambo à luz do dia. Não houve arrependimento pela perda de empregos causada pelo tarifaço trumpista ou mudança de planos na entrega das terras-raras.
Mesmo não declarados, esses são os propósitos reais da direita radical. Espécie de subserviência consentida — ou o Brasil como mais um estado norte-americano. De novo, a História escapa de nossas mãos. Foi assim com a Revolução Industrial e a miopia das classes dirigentes do Império — aquelas que defendiam a manutenção da mão de obra escrava na economia. Não à toa, ainda somos um país quase extrativista, exportador de commodities. Dependemos das boas chuvas.
Com o mundo próximo de uma mudança radical nos meios de produção — a tal IA —, com consequências para toda a sociedade, os políticos não conseguem mirar um metro à frente. Vazado à direita por um golpismo renitente e, à esquerda, por um estatismo anacrônico (viva a Terrabras!), o país se vê enredado no feitiço do tempo que o leva a repetir padrões. De um lado ou de outro, um crescimento medíocre apoiado por políticas ultrapassadas.
Pergunta: não é de estranhar que os sucessos econômicos, nas últimas décadas, sejam o PCC de Marcola e o Master de Vorcaro? Poderiam ser lembrados ainda os rendimentos do Judiciário e a carga tributária.
Para só ficar em alguns nomes de São Paulo, o Senado já contou com Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy. Covas foi quem, em 1988, na tribuna do Senado, defendeu um choque de capitalismo na economia brasileira. No país recém-democratizado, ainda sob a hiperinflação herdada dos militares, ele defendia o fim dos subsídios e privilégios; privatizações e abertura da economia; disciplina fiscal rigorosa; e reforma institucional. Presidente da República, Fernando Henrique conseguiu seguir algumas das propostas de Covas, como extirpar a inflação. Mas nem todas avançaram — a reforma da Previdência encontrou no PT de Lula forte oposição. Idem o conceito de privatização. Minuto de silêncio: devemos lembrar o rombo dos Correios e da anunciada Terrabras; integram nosso museu de grandes novidades.
A polarização cegou o país para o futuro. Estamos presos na mediocridade dos extremos. O país envelhece rapidamente e não se discute a capacitação dos jovens. Mas se fala de golden shower. Fala-se de todos os tipos de cotas, e não se briga por uma educação fundamental que ensine o básico da matemática. É evocado o nome de Deus, e não se vê como pecado a letalidade sobre jovens pobres e negros.
Os próximos senadores terão a missão de decidir o que o Brasil deseja ser. Porque, ao final de seus mandatos, o mundo será irremediavelmente outro.
Assim como as debêntures de Vorcaro até meses atrás tinham valor no mercado, a artimanha do PL e de Eduardo é permitida pela legislação eleitoral. Tem sido praticada para dar cobertura a personagens sem voto, muitos deles milionários ou aqueles com dívidas ainda não julgadas pela Justiça. O filho de Jair está nesse último bloco, atingido por inquéritos diversos. Depois de desejar chantagear o país pela absolvição de seu pai, vive nos Estados Unidos. Não volta ao Brasil por recear ser preso ao colocar o pé no aeroporto. É um bom candidato para representar São Paulo no Senado?
À beira das eleições, os bolsonaristas se mobilizam para o desembarque no Senado. No discurso, pretendem conseguir votos para retirar ministros do STF. É da política. Poderiam até querer mudar a camisa do Vasco. Na prática, no entanto, vendem o país. E, nessa ação, os filhos de Jair fazem a feira. Eduardo lutou para que o governo americano impusesse tarifas pesadas aos produtos brasileiros. Era chantagem. Queria em troca libertar o pai condenado por golpismo. Flávio, aquele que não fala nada no Brasil, foi aos Estados Unidos oferecer o subsolo do país — as terras-raras – e, com a outra mão, pedir interferência nas eleições de outubro.
Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista. Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado. Mas eram nacionalistas, e não estava na mesa a entrega do país. Os bolsonaristas nem sequer se envergonham e perpetram o escambo à luz do dia. Não houve arrependimento pela perda de empregos causada pelo tarifaço trumpista ou mudança de planos na entrega das terras-raras.
Mesmo não declarados, esses são os propósitos reais da direita radical. Espécie de subserviência consentida — ou o Brasil como mais um estado norte-americano. De novo, a História escapa de nossas mãos. Foi assim com a Revolução Industrial e a miopia das classes dirigentes do Império — aquelas que defendiam a manutenção da mão de obra escrava na economia. Não à toa, ainda somos um país quase extrativista, exportador de commodities. Dependemos das boas chuvas.
Com o mundo próximo de uma mudança radical nos meios de produção — a tal IA —, com consequências para toda a sociedade, os políticos não conseguem mirar um metro à frente. Vazado à direita por um golpismo renitente e, à esquerda, por um estatismo anacrônico (viva a Terrabras!), o país se vê enredado no feitiço do tempo que o leva a repetir padrões. De um lado ou de outro, um crescimento medíocre apoiado por políticas ultrapassadas.
Pergunta: não é de estranhar que os sucessos econômicos, nas últimas décadas, sejam o PCC de Marcola e o Master de Vorcaro? Poderiam ser lembrados ainda os rendimentos do Judiciário e a carga tributária.
Para só ficar em alguns nomes de São Paulo, o Senado já contou com Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy. Covas foi quem, em 1988, na tribuna do Senado, defendeu um choque de capitalismo na economia brasileira. No país recém-democratizado, ainda sob a hiperinflação herdada dos militares, ele defendia o fim dos subsídios e privilégios; privatizações e abertura da economia; disciplina fiscal rigorosa; e reforma institucional. Presidente da República, Fernando Henrique conseguiu seguir algumas das propostas de Covas, como extirpar a inflação. Mas nem todas avançaram — a reforma da Previdência encontrou no PT de Lula forte oposição. Idem o conceito de privatização. Minuto de silêncio: devemos lembrar o rombo dos Correios e da anunciada Terrabras; integram nosso museu de grandes novidades.
A polarização cegou o país para o futuro. Estamos presos na mediocridade dos extremos. O país envelhece rapidamente e não se discute a capacitação dos jovens. Mas se fala de golden shower. Fala-se de todos os tipos de cotas, e não se briga por uma educação fundamental que ensine o básico da matemática. É evocado o nome de Deus, e não se vê como pecado a letalidade sobre jovens pobres e negros.
Os próximos senadores terão a missão de decidir o que o Brasil deseja ser. Porque, ao final de seus mandatos, o mundo será irremediavelmente outro.
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