quinta-feira, 13 de agosto de 2026

'Metade do céu' está a mudar

“As mulheres sustentam metade do céu”: é uma das metáforas atribuídas ao fundador da República Popular da China, Mao Tsé-Tung, citadas ainda hoje como ilustração do empenho comunista na emancipação feminina. Demográfica e socialmente, porém, a situação é muito diferente da que vigorou durante os 27 anos do governo maoista. Uma destacada feminista chinesa, Lu Pin, considera que a acentuada e persistente queda da natalidade que se verifica atualmente é “uma forma de desobediência não violenta ao Estado patriarcal”.

Desde o final dos anos 70 até 2016 – o tempo em que os casais urbanos só podiam ter um filho –, o número de crianças do sexo feminino nascidas na China diminuiu drasticamente. A política era drástica, mas a tradição resistiu. São os filhos do sexo masculino que continuam a perpetuar o apelido da família.

O aborto tornou-se prática corrente, mesmo ao fim de quatro meses de gravidez, se o feto não era do sexo masculino. Segundo estatísticas do Ministério da Saúde, em 2008, por exemplo, o número de abortos ultrapassou os nove milhões. Uma ONG cristã, fundada nos EUA por exilados chineses, falava em 13 milhões. Dezenas de milhares de crianças do sexo feminino foram abandonadas e entregues para adoção. Resultado: hoje, ao contrário do que acontece em Portugal e noutros países europeus, na China há mais homens do que mulheres. O défice de mulheres é especialmente acentuado na população entre os 22 e os 37 anos, a idade em que a esmagadora maioria espera casar-se. Espera, mas não consegue: há cerca de 120 homens por 100 mulheres, e o casamento entre pessoas do mesmo sexo – reivindicado há mais de duas décadas pela socióloga Li Yinhe – ainda não foi autorizado, nem está sequer na agenda dos deputados da Assembleia Nacional Popular a quem ela se tem dirigido.

Cada vez mais instruídas, as mulheres constituem já a maioria dos estudantes universitários. Muitas optam por ir adiando o casamento e privilegiam a carreira profissional à maternidade. Mesmo depois da abolição da política de “um casal, um filho” e da concessão de incentivos financeiros à natalidade (prémios, subsídios e abonos), o número de nascimentos não aumentou. Pelo contrário: em 2025 foram apenas 7,92 milhões – menos de metade do que dez anos antes – e em 2022, a população começou mesmo a diminuir. O país mais populoso do planeta, título sempre ou quase sempre ostentado pela China, é agora a vizinha Índia. Numa entrevista publicada em 2024, Lu Pin previu que “o entusiasmo das mulheres pelo casamento e por ter filhos continuará a diminuir”. “Penso que isto é a crise mais importante que a China enfrentará”, acrescentou.

No plano político institucional, a influência das mulheres nunca foi proporcional à “metade do céu”. Por coincidência, a que chegou mais longe na liderança comunista foi a última mulher do próprio Mao Tsé-Tung, Jiang Qing, e não acabou bem. Em outubro de 1976, menos de um mês depois da morte do marido, seria presa e acusada de liderar uma “clique contrarrevolucionária”. Condenada a prisão perpétua, suicidou-se 15 anos mais tarde.

Hoje as mulheres são quase um terço dos cerca de 100 milhões de filiados no Partido Comunista Chinês, mas no Comité Central, constituído por 376 membros efetivos e suplentes, a percentagem não chega a 10%. No Politburo, a cúpula do poder, não há uma única mulher e no Conselho de Estado, o executivo do governo central, com oito elementos, apenas uma: Shen Yiqin, nascida em 1959, que é também presidente da Federação Nacional das Mulheres Chinesas. Entre os 26 ministérios e comissões estatais, há duas mulheres: He Rong, 63 anos (Justiça) e Wang Xiaoping, 62 (Recursos Humanos e Segurança Social).

Na área empresarial, no entanto, muitas mulheres têm tido grande sucesso e detêm algumas das maiores fortunas do país. Uma das mais conhecidas é a CEO da Lens Technology, Zhou Qunfei, fabricante dos ecrãs dos iPhones. Nascida em 1970 numa família pobre da província de Hunan, começou a trabalhar aos 15 anos numa fábrica de vidro de Shenzhen. Em 1993 estabeleceu-se por conta própria.

Em maio passado, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, durante o banquete de Estado oferecido por Xi Jinping à milionária comitiva de Donald Trump, aquela antiga operária ficou sentada entre Elon Musk e o patrão da Apple, Tim Cook. Pelas contas da revista Forbes, na lista das dez maiores bilionárias chinesas, Zhou Qunfei ocupa o 4º lugar, com uma fortuna estimada em 11,5 mil milhões de dólares.

Como se dizia outrora acerca da Grande Revolução Cultural Proletária, “metade do céu” está “a avançar a todo o vapor”.

O dever de agir na política climática

A emergência climática transforma progressivamente o conhecimento científico do risco em dever público de agir. A ciência já permite identificar impactos, vulnerabilidades, possibilidades de adaptação e riscos associados ao aquecimento global.

No Brasil, esse conhecimento encontra correspondência em um conjunto de deveres normativos relacionados à prevenção, adaptação e proteção diante dos efeitos das mudanças climáticas.

Quando ameaças climáticas são conhecidas, territorialmente identificáveis e razoavelmente previsíveis, e existem possibilidades técnicas e administrativas capazes de reduzir a vulnerabilidade da população, a ausência injustificada de medidas de prevenção, adaptação, preparação e proteção deixa de constituir mera insuficiência de gestão e pode configurar inadimplência climática do Poder Público, sujeita à correspondente apuração de responsabilidades.

Essa mudança de perspectiva é fundamental. Se o conhecimento científico do risco gera para o Estado um dever crescente de prevenção e proteção, gera também para a sociedade o direito de conhecer, exigir e controlar o cumprimento desse dever antes que o desastre aconteça.

Trata-se, acima de tudo, de construir uma resposta humanitária à grave crise civilizacional que estamos enfrentando. 


Uma Arca de Noé em defesa da biota – um exemplo emblemático da lógica da antecipação do risco – encontra-se no Cofre Global de Sementes de Svalbard, instalado no Ártico pela Noruega como salvaguarda da diversidade genética agrícola mundial. Concebido para manter duplicatas de segurança das coleções conservadas em bancos genéticos de diferentes países, o sistema ultrapassou, em junho de 2026, a marca de 1,4 milhão de amostras de sementes armazenadas para proteção de longo prazo5.

Svalbard materializa um princípio elementar da adaptação: quando um risco grave é conhecido e suas consequências podem comprometer bens essenciais às futuras gerações, proteger significa agir antes da perda.

A proteção climática restrita à resposta emergencial posterior aos eventos extremos é um conceito insuficiente e perigoso. Diante de ameaças conhecidas e previsíveis, a sociedade deve ter acesso às informações sobre os riscos a que está submetida, às vulnerabilidades existentes e às medidas de adaptação necessárias. Deve também poder verificar, para sua própria proteção, a capacidade efetivamente instalada pelo Estado para proteger vidas, territórios e serviços essenciais de forma preventiva.

Surge, assim, um verdadeiro direito social à prevenção climática. Ele compreende não apenas o direito de ser socorrido diante da catástrofe, mas o direito de exigir previamente que o Estado identifique riscos, planeje sua redução, prepare sistemas de resposta e demonstre publicamente sua capacidade de proteção8910.
Do direito à prevenção à capacidade efetiva de proteção

Construir proteção eficiente exige participação e controle social. A própria Política Nacional sobre Mudança do Clima estabelece entre seus princípios a prevenção, a precaução e a participação cidadã e prevê a participação da sociedade civil organizada no desenvolvimento das políticas climáticas11.

Isso significa confrontar riscos conhecidos com deveres institucionais; cobrar planos, metas, recursos, responsabilidades e prazos; acompanhar sua execução; contribuir para potencializar as ações públicas; e acionar os mecanismos administrativos, políticos e judiciais quando medidas necessárias de proteção não forem implementadas.

O direito social à prevenção climática encontra uma referência internacional concreta na iniciativa Early Warnings for All – Alertas Precoces para Todos, das Nações Unidas, cujo objetivo é assegurar que todas as pessoas estejam protegidas por sistemas de alerta precoce multirriscos até o final de 202712.

A concepção das Nações Unidas é particularmente relevante porque compreende o alerta precoce como um sistema integrado de proteção, estruturado em quatro capacidades fundamentais: conhecimento dos riscos; detecção, observação, monitoramento, análise e previsão; disseminação e comunicação dos alertas; e preparação e capacidade de resposta13.

Essa estrutura oferece uma referência objetiva para avaliar a governança climática. Não basta perguntar se determinada cidade, Estado ou país possui formalmente um sistema de alerta. É necessário saber se conhece seus riscos e vulnerabilidades; se dispõe de capacidade científica e tecnológica para monitorá-los e antecipá-los; se consegue comunicar informações compreensíveis e territorialmente adequadas às populações expostas em tempo útil; e, finalmente, se essas populações e os serviços públicos possuem condições efetivas de agir quando o alerta é emitido.

O alerta precoce explicita uma questão central: entre conhecer o risco e proteger a população existe uma cadeia de capacidades públicas que precisa funcionar integralmente. Quando essa cadeia é insuficiente, o conhecimento disponível pode não se converter em proteção efetiva. 

Nesse processo, assumem especial relevância as organizações da sociedade civil dedicadas à proteção dos direitos difusos e coletivos, particularmente as organizações ambientais. Sua independência e seu compromisso com a defesa da coisa pública funcionam, naturalmente, como anticorpos sociais diante de outros interesses contrários à defesa da vida.  Diante da emergência climática, sua atuação adquire uma dimensão adicional de ativismo climático preventivo.

Esse ativismo compreende ampliar a consciência pública sobre as mudanças climáticas; produzir e sistematizar informações; mobilizar os meios de comunicação para ampliar a compreensão social dos riscos; acompanhar indicadores e políticas públicas; identificar matrizes e fluxos de insustentabilidade que produzem ou ampliam riscos de vulnerabilidades; identificar populações e territórios vulneráveis; promover participação social; formular recomendações; estimular sistemas de alerta precoce; representar perante os órgãos competentes; e, quando necessário, recorrer aos instrumentos jurídicos disponíveis para exigir medidas de prevenção e adaptação.

Diante da ausência ou insuficiência de indicadores oficiais, as organizações sociais podem também contribuir para a identificação de riscos por meio da percepção social qualificada, sistematizada mediante consultas, participação de especialistas e confronto com o conhecimento científico e os dados disponíveis.

A percepção social não substitui a ciência nem os indicadores públicos, mas revela vulnerabilidades, promove articulações capazes de produzir conhecimento e identifica precocemente lacunas institucionais que demandam investigação e resposta.

Na lacuna da ação estatal, cabe à sociedade exercer controle social, mobilizar conhecimento e participação, estimular medidas preventivas e provocar as instituições responsáveis pela proteção dos direitos coletivos.

O ativismo climático passa, assim, a exercer uma função de exigência social preventiva sobre os riscos e sobre a capacidade estatal de proteção, concretizando princípios de participação, prevenção e precaução que informam a proteção constitucional e legal do meio ambiente.

Essa exigência social encontra correspondência nas instituições constitucionalmente incumbidas do controle e da defesa do interesse público.

Ao Ministério Público, responsável pela defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis, e expressamente incumbido da proteção do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos, cabe atuar diante de omissões relevantes do Poder Público, inclusive preventivamente, quando riscos conhecidos e previsíveis evidenciarem ameaça a esses direitos, utilizando os instrumentos extrajudiciais e judiciais colocados à sua disposição para exigir providências antes da ocorrência do dano.

Diante de riscos climáticos conhecidos e de sua atribuição constitucional de proteção dos direitos difusos, não se pode admitir que a própria instituição de controle apresente sinais de inércia ou insuficiência de atuação. A omissão estatal associada à ausência de controle preventivo pode aprofundar a vulnerabilidade de uma sociedade já exposta, deixando populações desassistidas justamente quando a antecipação institucional poderia evitar ou reduzir danos.

Aos Tribunais de Contas, no exercício do controle externo da Administração Pública, cabe avaliar, dentro de suas competências constitucionais, não apenas a regularidade formal dos gastos, mas também sua legalidade, legitimidade e economicidade19. No campo climático, esse controle pode alcançar a existência, execução e adequada aplicação dos recursos e instrumentos públicos destinados à prevenção, adaptação e redução de riscos e vulnerabilidades. 

Mais do que identificar irregularidades, os Tribunais de Contas podem exercer relevante função indutora de uma governança ambiental eficiente, estimulando planejamento, prevenção, transparência, definição de responsabilidades, adequada alocação de recursos e avaliação dos resultados das políticas públicas.

Diante de riscos conhecidos e previsíveis, o controle externo pode contribuir para identificar fragilidades institucionais e estimular sua correção antes que se convertam em incapacidade de resposta ou danos à sociedade.

Em um cenário de riscos previsíveis, o controle institucional também precisa adquirir caráter preventivo. Se o objetivo é proteger vidas, não basta que as instituições identifiquem responsabilidades depois que o desastre ocorreu. Sempre que juridicamente cabível, o controle deve contribuir para identificar antecipadamente lacunas da governança capazes de comprometer a proteção da população.

Forma-se, desse modo, uma arquitetura de proteção na qual ciência, sociedade civil, Poder Público e instituições de controle exercem funções complementares.

A ciência identifica e dimensiona os riscos; a sociedade os torna socialmente visíveis, contribui para identificar vulnerabilidades, acompanha a resposta governamental e reivindica proteção; o Poder Público deve converter conhecimento em prevenção, adaptação, alerta e capacidade de resposta; o Ministério Público atua na defesa dos direitos difusos e na exigibilidade dos deveres jurídicos; e os Tribunais de Contas exercem controle sobre a utilização dos recursos e instrumentos públicos destinados à redução das vulnerabilidades.

A prevenção climática é dever de Estado, mas sua efetividade é ampliada quando integrada a um sistema de governança, participação, controle e responsabilização.

Essa arquitetura exige a abertura das instituições públicas e de controle ao conhecimento científico e à percepção social, mediante canais permanentes de diálogo capazes de superar barreiras de isolamento institucional. A legislação brasileira sobre adaptação climática já estabelece diretrizes relacionadas à fundamentação científica, análise de vulnerabilidades, gestão do risco climático, monitoramento e participação social.

Diante da emergência climática, a circulação do conhecimento entre ciência, sociedade e instituições públicas deixa de ser apenas desejável. Torna-se elemento essencial de uma governança capaz de reconhecer riscos antes que se convertam em desastres.

Essa construção encontra respaldo no avanço da litigância climática no Brasil e no mundo, que vem deslocando progressivamente a discussão climática do campo exclusivo das escolhas políticas para o reconhecimento de deveres jurídicos de proteção.

O Global Climate Litigation Report: 2025 Status Review, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), contabilizou, até 30 de junho de 2025, 3.099 casos relacionados ao clima em 55 jurisdições nacionais e perante 24 cortes, tribunais ou organismos quase judiciais internacionais ou regionais23.

No Brasil, a decisão do Supremo Tribunal Federal na ADPF 708, relativa ao Fundo Clima, constitui referência relevante. O STF reconheceu a omissão da União e afirmou o dever constitucional de funcionamento dos instrumentos da política climática24.

No plano internacional, o caso Verein KlimaSeniorinnenSchweiz and Others v. Switzerland, decidido pela Corte Europeia de Direitos Humanos em 2024, reconheceu obrigações positivas do Estado relacionadas à proteção diante dos efeitos graves das mudanças climáticas.

Em 2025, a Corte Interamericana de Direitos Humanos avançou nessa construção com a Opinião Consultiva OC-32/25 – Emergência Climática e Direitos Humanos, emitida em resposta à consulta formulada por Chile e Colômbia sobre as obrigações dos Estados diante da emergência climática e seus efeitos sobre os direitos humanos.

Também em 2025, a Corte Internacional de Justiça emitiu parecer consultivo sobre as Obrigações dos Estados em relação às Mudanças Climáticas, ampliando a construção internacional acerca dos deveres estatais e das consequências jurídicas de ações e omissões diante da crise climática27.

Esses desenvolvimentos demonstram uma tendência crescente de judicialização dos deveres climáticos e de controle das omissões estatais28.

A noção de inadimplência climática aqui proposta insere-se nesse processo, mas procura avançar especialmente sobre sua dimensão preventiva: identificar e exigir o cumprimento dos deveres de proteção antes que a omissão contribua para transformar riscos conhecidos em danos evitáveis.

A emergência climática modifica, nesse sentido, a própria temporalidade da responsabilidade pública. Não é necessário esperar que o desastre aconteça para exigir que o Estado cumpra seu dever de proteção.

A responsabilidade começa a ser construída quando o risco se torna cientificamente conhecido e razoavelmente previsível, existem competências públicas para enfrentá-lo e medidas preventivas razoavelmente possíveis, passando o Poder Público a ter o dever de demonstrar sua capacidade de prevenção, adaptação, alerta e resposta.

É precisamente nesse intervalo – entre o conhecimento do risco e a ocorrência do desastre – que devem atuar a ciência, a sociedade organizada, os sistemas de alerta precoce e as instituições de controle.

Onde o risco pode ser antecipado, deve começar a proteção. Prevenir a inadimplência climática estatal é defender a sociedade, territórios e ambiente. Conhecer o risco muda a fronteira da responsabilidade - e traz o dever de agir.
Carlos Bocuhy, presidente do Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

A História já não se escreve – publica-se

Durante séculos, a História escreveu-se devagar. Quem a contava tinha estado lá, ou tinha falado com quem esteve, ou tinha passado uma vida a estudar o que lá se passou. Podia errar, e errou muitas vezes, mas errava dentro de um ofício: havia relatos recolhidos no local, documentos, testemunhas, datas, e havia sobretudo tempo entre o acontecimento e a narrativa, tempo para verificar, para contradizer, para corrigir. Os livros de História do futuro já não se escrevem assim. Escrevem-se num telemóvel, em tempo real, por quem não estava lá, não conhece o assunto e não tem obrigação nenhuma de acertar.

Vi as imagens de Ceuta como toda a gente: no telemóvel. Dezenas de milhares de pessoas atiradas ao mar num só dia. Não foi espontâneo: nas semanas anteriores, tinha circulado nas redes sociais marroquinas uma versão deformada de uma decisão do Tribunal Supremo espanhol, transformada na promessa de que quem conseguisse nadar até Ceuta já não podia ser devolvido. Sessenta mil pessoas não se levantam num dia e decidem, todas ao mesmo tempo, atirar-se à água. Alguém lhes disse que podiam. Num ecrã. E morreu-se por causa disso: as contagens apontam para dezenas de mortos, afogados a tentar alcançar uma promessa que nunca existiu. Foi uma mentira partilhada em ecrãs que pôs aquela gente a caminho, e foram ecrãs que, horas depois, já vendiam as imagens do desespero como prova de uma “invasão”, em Camp David, nas televisões americanas, nas contas da ultradireita europeia. A mesma tecnologia serviu para empurrar as vítimas e para as acusar.

Nós já sabemos o que as redes sociais fazem às crianças e aos adolescentes. Está estudado, medido, documentado: a ansiedade, a comparação permanente, a dependência desenhada ao milímetro por quem lucra com ela. Sabemos o que fazem às mulheres, transformadas em alvo preferencial do ódio organizado. Sabemos o que estão a fazer a uma geração de rapazes, convencidos por vendedores de ressentimento de que a culpa da sua solidão é das mulheres terem estudado, trabalhado e deixado de pedir licença. Sabemos tudo isto há anos, está tudo dito à boca cheia, e continuamos a tratar cada escândalo como surpresa. Mas há um dano mais fundo e menos falado: as redes estão a substituir-se aos lugares onde se aprendia o que é verdade.


Porque é isto que mudou. A criança que hoje quer saber o que se passou em Gaza, em Ceuta ou na última guerra não abre um livro nem pergunta a um professor: abre uma aplicação. E do outro lado não está um historiador, nem um jornalista, nem sequer uma testemunha. Está, com sorte, um curioso de boa-fé. Sem sorte, está alguém a quem pagaram a viagem. Porque é assim que hoje se encomenda a narrativa: vendem-se bilhetes de avião e estadias em hotéis de cinco estrelas a gente sem qualquer conhecimento da matéria, para contar a história que determinados governos querem que se conte. Fizeram-no com criadores de conteúdo portugueses levados a Israel, como foi amplamente noticiado. Fazem-no outros Estados, com outros rostos e outras piscinas. O produto final tem sempre o mesmo formato: um sorriso bronzeado a explicar geopolítica entre o pequeno-almoço de buffet e o pôr-do-sol, de regresso a casa com o rei na barriga e a factura paga por quem aparece bem na fotografia.

A China, que raramente serve de exemplo em matéria de liberdades, percebeu o tamanho do problema antes das democracias. Desde o outono passado, quem quiser falar online de medicina, direito, finanças ou educação tem de provar que percebe do assunto: diploma, licença profissional, credencial verificada pela plataforma. Sem qualificação, não há publicação. Apetece aplaudir, e é aí que está a armadilha. Porque o mesmo quadro regulatório proíbe criticar o Partido, “distorcer” a sua liderança ou tocar em assuntos considerados sensíveis. Ou seja: o regime que exige saber para falar de finanças é o mesmo que proíbe saber de mais quando o assunto é o próprio poder. A resposta autoritária não é o caminho, e eu não a quero cá. Mas o diagnóstico que lhe está por baixo devia envergonhar-nos: uma ditadura olhou para o charco da desinformação e agiu, mal, mas agiu, enquanto as democracias assinam códigos de conduta para inglês ver e esperam que a autorregulação faça o resto. Sabemos como acaba, à míngua de regras, quem espera que os mercados se regulem a si próprios.

E é este material, este e não outro, que vai formar a memória coletiva das próximas décadas. Os manuais escolares demoram anos a escrever-se; um vídeo demora segundos a chegar a um milhão de crianças. Quando os historiadores do futuro quiserem estudar este tempo, hão de encontrar os arquivos, os jornais, os documentos oficiais. Mas as pessoas que hoje têm doze anos não vão esperar por eles. A versão dos acontecimentos com que crescem está a ser escrita agora, por ignorantes com patrocínio, e a ignorância patrocinada tem uma vantagem desleal sobre o conhecimento: não tem dúvidas, não tem notas de rodapé, não tem contraditório. Tem luz boa e música de fundo.

E que fique claro: não escrevo isto do alto de sapiência nenhuma. Eu própria só posso falar com propriedade do que estudei e do que vivi, e é exatamente esse o ponto: saber onde acaba o que sabemos era, até há pouco tempo, a base mínima de qualquer conversa séria. Foi essa base que as redes dissolveram, ao pagar melhor a quem nunca teve essa dúvida.

A História continua a escrever-se. A pergunta é só quem segura a caneta. E neste momento, a caneta está na mão de quem aceita segurá-la em troca de um bilhete de avião.

Breve história da política brasileira, de Carneiro Leão a Lula da Silva

O apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva vai além das conveniências eleitorais da Paraíba. Reproduz o pacto entre o poder central e as oligarquias regionais, pelo qual interesses contraditórios se acomodam em torno da governabilidade e da preservação do poder. É a recidiva da velha “política de conciliação” incorporada ao projeto eleitoral de Lula.

José Honório Rodrigues analisou esse fenômeno em Conciliação e reforma no Brasil: um desafio histórico-político (Editora Civilização Brasileira), escrito depois do golpe militar de 1964. Discípulo de Capistrano de Abreu, o mestre via a conciliação de maneira crítica: “Os poderes dominantes tiveram sempre força para conter as aspirações profundas de mudança e reverter os movimentos de modo a sustentar seu sistema e seus privilégios”.

Para José Honório, a Independência, as revoltas do período regencial, a República e as crises de 1930, 1945, 1961 e 1964 revelavam uma característica recorrente da formação do Brasil: as estruturas do patronato brasileiro demonstram extraordinária capacidade de sobrevivência. “O povo brasileiro é uma vítima, um derrotado no processo histórico.”

Essa contradição atravessou a República. É a raiz da “modernização pelo alto”, capaz de incorporar demandas sociais sem romper necessariamente com estruturas tradicionais. Como insistia Luiz Werneck Vianna em A revolução passiva (Revan), o Brasil se transforma sem abandonar o antigo, em . Modernizou a economia, urbanizou-se, democratizou instituições e ampliou direitos sem o moderno na política dominante: preservou o patrimonialismo, o fisiologismo, as desigualdades e o poder das elites regionais.


A matriz histórica dessa característica da política brasileira está no Império. Em 1853, Honório Hermeto Carneiro Leão, o Marquês do Paraná, organizou o Gabinete da Conciliação, aproximando conservadores, os “saquaremas”, e liberais, os “luzias”. O conselheiro Nabuco de Araújo, conservador, havia perdido as eleições em Pernambuco, mas aceitou participar do gabinete de maioria liberal, porém sem abandonar seus aliados provinciais.

Surgia ali a célebre “ponte de ouro” narrada por Joaquim Nabuco no monumental Um estadista no Império (Topbooks). Ao contrário de Capistrano e Honório, Nabuco enxergava virtudes nessa engenharia. Para ele, o reformador brasileiro “detém-se diante do obstáculo; dá longas voltas para não atropelar nenhum direito”. Era uma concepção gradualista: mudar sem destruir as pontes com aqueles que controlavam parcelas importantes do poder.

O fato é que governos reformistas estabeleceram alianças com forças conservadoras para governar. Juscelino Kubitschek construiu uma ampla composição política para executar o Plano de Metas. Fernando Henrique Cardoso aliou o PSDB ao PFL de Marco Maciel, Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen para garantir sustentação parlamentar ao Plano Real e às reformas constitucionais.

Lula fez movimento semelhante nos dois primeiros mandatos, em aliança com o ex-presidente José Sarney e as oligarquias regionais representadas no Congresso. Dilma Rousseff, porém, entrou em conflito com parcelas importantes desse sistema, perdeu sua base parlamentar e acabou afastada pelo impeachment.

No terceiro mandato, contingenciado pela correlação de forças, Lula reencontrou essa estrutura ainda mais poderosa. O fortalecimento do Congresso por meio das emendas parlamentares e a ascensão do Centrão reduziram a autonomia do Executivo. A aproximação com PP e Republicanos foi uma resposta pragmática a essa realidade. A eleição de Hugo Motta para a Presidência da Câmara aprofundou o processo. É nesse contexto que seu apoio à reeleição de Lula adquire significado histórico.

Formalmente, o Republicanos permanece neutro na eleição presidencial. Politicamente, abriu espaço para que suas lideranças façam escolhas conforme as circunstâncias estaduais. Tarcísio de Freitas preserva em São Paulo sua identidade conservadora e a ligação com o eleitorado bolsonarista, enquanto Motta apoia Lula na Paraíba. Não demora muito será a vez de o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), outro represenante do Centrão, reaproximar-se de Lula em razão das eleições no Amapá; no rastro, do PP de Ciro Nogueira (PI). É o velho pacto dos “luzias” e “saquaremas”.

Lula conhece profundamente esse mecanismo. Sua candidatura à reeleição não pode depender apenas da frente formada por PT, PSB e outros partidos de esquerda, precisa de setores conservadores que controlam governos estaduais, prefeituras e bancadas. Mudaram os partidos e os personagens, mas o pacto perverso atravessou o Império, sobreviveu à República e chegou à eleição de 2026. Mas há um preço para o transformismo: a conciliação é eficiente para estabilizar o sistema político, porém à custa da participação popular e das reformas estruturais.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Os inimigos errados

Há poucos dias o Papa encerrou o encontro internacional da juventude franciscana em Assis, Itália, apelando à mobilização dos cristãos nas situações de injustiça social mais profunda assim como à rejeição dos preconceitos. Segundo a Agência Ecclesia, terá desafiado os milhares de participantes num encontro franciscano de jovens: “Ousai acreditar na palavra do Evangelho, tornai-vos humanos com a liberdade de Jesus Cristo.”

E acrescentou que os jovens deviam “evitar a cultura do poder” porque “derrubar os muros que separam os seres humanos uns dos outros não é, de forma alguma, trair a família, a cidade ou a tradição, mas sim libertá-las dos seus fantasmas, dos inimigos inventados pelo medo e pela ignorância, da violência com que se quer impor”.

Leão XIV alertou em Assis, sobretudo, para os verdadeiros inimigos que são inventados pelo medo e pela ignorância. E aqui o pontífice tocou no cerne da questão.


Os tiranos sempre governaram com estes dois “ajudantes”. Por um lado instilando medo sobre os seus governados, em especial o medo de penalizações derivadas das arbitrariedades do poder. Mas, nos tempos que correm, tornou-se muito comum um outro tipo de medo, o medo do que é diferente na cor de pele, cultura, língua, costumes ou religião.

Depois, e porque o medo é filho da ignorância, ambos seguem juntos, amparam-se e retroalimentam-se um ao outro. O medo é a causa de muitos erros e até há quem mate por medo.

No que toca ao povo português, é estranho como aqueles que foram os atores da primeira globalização da História, a partir deste jardim plantado à beira-mar, se vejam agora incomodados pelo diferente. A Lisboa do século XVI foi chamada um tabuleiro de xadrez, tal era a presença de tantas e tão desvairadas gentes de outras cores e regiões do mundo, que conviviam de forma ordeira na capital do império.

Além do mais, este é o mesmo povo que “deu novos mundos ao mundo”, que conviveu e se misturou durante meio milénio com gentes americanas, africanas e asiáticas, e que ainda hoje se integra sem grandes dificuldades noutras sociedades bem diferentes daquela onde nasceram.

A verdade é que o medo e a ignorância continuam a ter muita força. Mas se o primeiro resulta de fatores externos que nos podem influenciar e condicionar, já a solução para a segunda está inteiramente na mão de cada um. Basta querer aprender, conhecer e informar-se, para lá da espuma dos dias, do sensacionalismo mediático e da vertigem das redes sociais.

Afinal, os nossos verdadeiros inimigos são o medo e a ignorância, exatamente as armas preferidas dos ditadores de todos os tempos.
José Brissos-Lino

A Inteligência Artificial perdeu o direito de fingir

Em 1950, Alan Turing propôs um experimento simples. Se um ser humano conversasse com uma máquina sem conseguir distingui-la de outro ser humano, faria sentido continuar a dizer que aquela máquina não pensa?

Durante décadas, a humanidade perseguiu esse objetivo. Chatbots, assistentes virtuais e modelos de linguagem foram avaliados justamente pela capacidade de soar naturais, e quanto mais humana a interação, melhor parecia ser a tecnologia. Mas, agora, parece que os papéis se invertem. As máquinas precisam anunciar que são máquinas, já que a interação é quase natural.

O AI Act europeu estabelece que sistemas de IA concebidos para interagir diretamente com pessoas devem, em determinadas circunstâncias, informar o utilizador de que este está a interagir com um sistema de Inteligência Artificial. Da mesma forma, conteúdos sintéticos como imagens, vídeos, áudios e textos gerados artificialmente estão sujeitos a requisitos de transparência e identificação da sua origem artificial, nos termos previstos no regulamento europeu.


Em outras palavras, ainda que uma IA consiga passar no Teste de Turing, ela não poderá fazê-lo sem antes denunciar a sua verdadeira identidade.

Essa mudança revela algo importante sobre a nossa relação com a IA, que se torna cada vez mais presente no nosso quotidiano. Durante décadas, acreditámos que o grande desafio seria construir máquinas suficientemente sofisticadas para parecerem humanas. Hoje, o desafio parece ser exatamente o contrário: garantir que elas não escondam que não são.

A exigência de transparência, entretanto, não nasce de uma preocupação filosófica, mas prática. Deepfakes, golpes, manipulação política, atendimento automatizado, influência nas redes sociais e relações de consumo dependem, muitas vezes, da perceção de quem está do outro lado da conversa.

Saber se estamos a falar com uma pessoa ou um algoritmo tornou-se uma informação relevante para o exercício da autonomia.

Mais do que uma questão de transparência tecnológica, está em causa uma nova relação de poder. Quem controla a tecnologia e sabe quando, como e por que razão ela está a interagir connosco possui uma vantagem sobre quem desconhece a natureza dessa interação. A transparência procura, precisamente, reduzir essa assimetria: permitir que o cidadão saiba quando está a ser informado, persuadido, atendido ou influenciado por uma pessoa e quando está perante um sistema automatizado. Num ambiente digital em que a fronteira entre conteúdo humano e conteúdo sintético se torna cada vez mais difícil de perceber, saber quem — ou o quê — está do outro lado deixa de ser um detalhe e passa a ser uma condição básica para uma escolha verdadeiramente livre.

E pensar que há quase 75 anos, o Teste de Turing perguntava se os humanos seriam capazes de identificar uma máquina. O AI Act acaba por inverter essa lógica, ao estabelecer obrigações de transparência que procuram garantir que os utilizadores saibam quando estão perante determinados sistemas de IA ou conteúdos gerados artificialmente.

O “sucesso” de um sistema de IA deixa de ser medido apenas pela sua capacidade de imitar pessoas e passa a incluir a sua capacidade de ser transparente enquanto o faz.

À procura de lixo

Vamos parar de procurar modelos, ao menos nisto não sejamos tão colonizados, não permitamos que mais lixo contamine nosso pensamento. Os americanos é que têm obsessão por raça (lá nós, brasileiros, somos “hispânicos”), nós temos é a glória e o privilégio de ser o único país em que homens e mulheres de todas as raças se misturaram e misturam e onde a raça, Deus há de ser servido, ainda terá o lugar que merece, ou seja, nenhum.
João Ubaldo Ribeiro

A família Bolsonaro e o uso de imagem por sistemas de IA

O candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, usou um vídeo sintético do pai, Jair Bolsonaro, declarando apoio à sua candidatura em uma convenção nacional do PL. Na peça em questão, o avatar do ex-presidente começa avisando que trata-se de conteúdo sintético, faz críticas à prisão de Jair Bolsonaro e conclui que o “o Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro Presidente”. O anúncio de que o vídeo não se tratava de uma mídia real ficou por conta de um aviso verbal do avatar, logo ao início do vídeo, que informava que o conteúdo havia sido fabricado artificialmente.

A decisão de uso de mídia sintética do ex-presidente se deu em função da atual proibição de que o mesmo demonstre apoio ou realize atos de apoio político no decorrer das eleições de 2026. Ao optar por um avatar e não um vídeo diretamente gravado, a campanha de Flávio Bolsonaro visava incendiar a base de apoio ao bolsonarismo sem que isso representasse mais uma violação de Jair Bolsonaro da decisão judicial que declarou a sua inelegibilidade. No entanto, o ato não é novo.

Em 2024, nas eleições gerais da Indonésia, o ex-general do exército e ditador Suharto foi ressuscitado por meio de vídeos sintéticos criados pelo partido Golkar com o objetivo de lembrar eleitores sobre o valor do voto e para demonstrar apoio ao candidato Prabowo Subianto. Já em 2025, na Bolívia, conversas vazadas do candidato à vice-presidência Jorge Richter, onde ele supostamente teria planejado um golpe contra o presidente Evo Morales, também foram fabricadas com ferramentas de imagem e vídeo sintéticos. Mais recentemente, o governo Trump manipulou uma imagem da ativista de direitos humanos Nekima Levy Armstrong, detida em um protesto contra o ICE, com o objetivo de retratá-la chorando e com uma tonalidade de pele mais escura.

Em 2026, com rápidos avanços em realismo, sincronização e geração de conteúdos extensos, a capacidade de manipulação de eleitores e processos eleitorais com mídias sintéticas fica cada vez maior. E, neste cenário, estamos passando de casos isolados do uso de mídias sintéticas para um estado de incerteza contínua.


Mídias sintéticas agora podem gerar e manipular conteúdo em diversos formatos – imagens, vídeo, voz e identidades totalmente sintéticas. O que estamos presenciando é uma mudança mais profunda: a perda da verdade visual e um desgaste significativo na realidade compartilhada. Uma vez que o que vemos já não pode ser aceito pelo seu valor aparente, a dúvida não é mais algo ocasional – é constante. Assim, a verdade não é apenas debatida – ela é continuamente desestabilizada.

Nas resoluções lançadas para o pleito de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral regulamentou o uso de inteligência artificial em campanhas e propaganda eleitoral. A resolução n. 23.755, de 2 de março de 2026, determina que o uso de mídias sintéticas em propaganda eleitoral com o objetivo de criar, substituir, omitir, mesclar ou alterar a velocidade ou sobrepor imagens ou sons prescinde da obrigação de informar, de modo explícito, destacado e acessível, que o conteúdo foi fabricado ou manipulado e qual tecnologia foi utilizada. Adicionalmente, a nova resolução eleitoral veda a “publicação e a republicação, ainda que gratuitas, bem como o impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial ou por tecnologias equivalentes que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidata ou candidato ou de pessoa pública, mesmo que rotulados e em conformidade com as demais exigências deste artigo, no período compreendido entre as 72 horas que antecedem e as 24 horas que sucedem o término do pleito”.

Mais recentemente, o órgão lançou uma cartilha de boas práticas sobre inteligência artificial com o objetivo de orientar eleitores e partidos em torno do uso responsável da IA, protegendo a democracia e as eleições gerais 2026. O documento incentiva a atuação de campanhas, coligações e candidatos dentro da legalidade, reforça a necessidade do compromisso com a verdade e incentiva a transparência sobre o uso e origem dos conteúdos, dentre outras coisas.

Apesar do caso da campanha de Flávio Bolsonaro não ser um fato novo, ele revela algumas falhas ou ausências na resolução eleitoral e que merecem uma reflexão: (a) como incentivar transparência sobre conteúdos sintéticos por meio da adoção de práticas de proveniência de conteúdo, (b) mais proteções sobre o uso de imagem, voz ou manifestação de pessoas públicas e individuais a fim de evitar a manipulação de eleitores e (c) medidas mais concretas por parte das plataformas e demais atores parte do ecossistema digital na implementação de ferramentas de detecção de deepfakes.

Em linhas gerais, isso significa que apesar dos repetidos e bem vindos esforços do TSE em delimitar o uso de inteligência artificial e mídias sintéticas em campanhas políticas, a corte ainda precisa incrementar as medidas relativas à transparência de conteúdos compartilhados e também discutir a proteção dos usuários quando confrontados com conteúdos sintéticos que possuem o objetivo de manipular eleitores. 

Na organização WITNESS temos trabalhado diretamente com casos de mídias sintéticas e em torno de tentativas de reforçar os compromissos assumidos pelas empresas a respeito da transparência de conteúdos de IA. Isso porque não estamos mais lidando com incidentes isolados e o próprio ambiente se transformou.

A mídia sintética instaurou um estado persistente de dúvida, onde a incerteza deixa de ser exceção para se tornar a regra. Essa dúvida, chamada de “dividendo do mentiroso”, permite que evidências reais sejam descartadas como “falsas” e enfraquece a confiança nas vítimas, abrindo caminho para a negação, a postergação e a impunidade. O impacto da inteligência artificial, neste sentido, não se limita à tecnologia em si, mas resulta da convergência de quatro fatores críticos: a facilidade de acesso (o processo tornou-se simples, exigindo pouco input), a alta qualidade e realismo dos outputs, a sofisticação das capacidades (movimento, voz e interação em tempo real) e, por fim, a escala massiva, que sobrecarrega as plataformas e torna cada vez mais difícil distinguir o que é real do que é sintético.

No entanto, algumas soluções ajudam a fortalecer a necessidade de mais transparência sobre conteúdo sintético.

A primeira delas é a proveniência e autenticidade de conteúdos, uma prática que se refere à fonte e à história do conteúdo de mídia online, funcionando como uma “receita” que detalha como uma peça foi criada, editada e distribuída, permitindo traçar sua cadeia de custódia e verificar a autenticidade da mesma. Esses conceitos são pilares essenciais para a transparência de IA, pois fornecem sinais verificáveis que restauram a confiança em um ambiente digital onde a fronteira entre o real e o sintético se tornou fluida. Ao disponibilizar essa infraestrutura de transparência, capacitamos usuários, reguladores e defensores de direitos humanos a distinguir fatos de ficção, combatendo o fenômeno do “dividendo do mentiroso” e garantindo que o público possa avaliar a veracidade das informações com base em dados concretos, e não apenas na aparência visual do conteúdo.

No caso da resolução eleitoral, o texto poderia recomendar a implementação de proveniência dos conteúdos por meio de metadados encriptados que informam como o conteúdo foi feito, somados a um simples rótulo que avisa se o conteúdo é feito ou manipulado com ferramentas de inteligência artificial. Essa sugestão seria importante para evitar que ferramentas de edição ou corte de vídeos retirem eventuais disclaimers que sejam feitos verbalmente – como no vídeo da campanha de Flávio Bolsonaro – e permitam que a “receita” do conteúdo de IA viaje com ele.

A segunda diz respeito a implementação de ferramentas de detecção de deepfakes que consigam reconhecer e limitar o alcance de conteúdos sintéticos com potencial de influenciar eleitores e o processo eleitoral. Ao longo dos últimos anos, a experiência da Deepfakes Rapid Response Force demonstrou que modelos hiper-realistas de áudio e vídeo produzem fraudes difíceis de identificar, sobretudo quando os arquivos passam por recompressão em redes sociais, edições regionais cirúrgicas (inpainting) ou retratam cenários de conflito sem rostos humanos. Além disso, a facilidade de criar falsificações provocou um aumento na desconfiança do público, que passou a contestar registros reais autênticos sob a justificativa de serem gerados por IA.

Fatores como este denotam o quão urgente é a necessidade de promoção de melhorias nas ferramentas de detecção de deepfakes a fim de promover a remoção e retirada de conteúdos desinformadores a partir da sua ocorrência. Isso significa criar sistemas que funcionem com a mídia que as pessoas realmente compartilham – reenvios de arquivos compactados, gravações de tela e áudio com qualidade reduzida – e não apenas com arquivos originais de alta qualidade. Significa também priorizar métodos capazes de lidar com os cenários do mundo real mais desafiadores (e comuns): imagens dinâmicas ou sem rostos visíveis, áudio multilíngue com ruído e edições sutis e “cirúrgicas”. Além disso, implica tratar a explicação como parte da intervenção – não apenas determinar se algo foi gerado por IA, mas apresentar as evidências e o grau de confiança na análise.

Por fim, precisamos evoluir na direção de mais proteções ao uso de imagem, voz ou manifestação de pessoas públicas e individuais a fim de evitar a manipulação de eleitores. A “likeness protection” (proteção do direito à própria imagem e voz) emerge como uma pauta essencial no advocacy atual, exigindo uma abordagem que transcenda a lógica de direitos autorais ou propriedade comercial. O foco deve ser uma resposta baseada em direitos humanos que centre a proteção de pessoas comuns, ativistas e jornalistas contra a manipulação indevida de sua identidade, evitando danos reais à dignidade, à reputação e à segurança. O desafio regulatório é desenvolver diretrizes que impeçam o uso de avatares ou vozes sintéticas para difamar ou silenciar indivíduos, sem, contudo, criar mecanismos que possam ser instrumentalizados pelo Estado para censurar o ativismo, a sátira ou a documentação de direitos humanos. Essa agenda deve ser articulada de forma integrada a outras proteções contra abusos digitais, como a divulgação de imagens íntimas não consentidas (NCII), garantindo que a proteção da identidade seja um direito universal e não apenas um ativo de mercado.

A emergência das mídias sintéticas exige uma transição urgente de uma postura reativa para um compromisso proativo com a integridade do ecossistema de informação e promoção de transparência de sistemas de IA. O uso crescente de avatares e manipulações visuais em campanhas eleitorais sublinha que a transparência sobre a origem do conteúdo, o aprimoramento das ferramentas de detecção para cenários reais e a implementação de proteções à identidade baseadas em direitos humanos não são apenas diferenciais técnicos, mas pilares indispensáveis para a preservação da democracia. Apesar de estarmos lidando com um problema “novo”, o futuro do processo eleitoral brasileiro depende de nossa capacidade coletiva de restaurar a confiança na evidência visual, garantindo que o debate público permaneça ancorado na realidade e não seja refém da desestabilização contínua proporcionada pela manipulação algorítmica.

Sudão do Sul: Como as mudanças climáticas podem ser tóxicas

A cidade de Bentiu já viu de tudo. Localizada no norte do Sudão do Sul, perto da fronteira com o Sudão, a capital do Estado de Unity já teve apenas alguns milhares de habitantes.

Mas a guerra, a violência e outras crises levaram cerca de 140 mil pessoas deslocadas a buscar refúgio ali desde 2013, resultando em um enorme campo para deslocados internos.

Diversas agências da ONU operam no campo de Proteção de Civis (POC), que hoje se assemelha mais a um assentamento permanente do que a um abrigo temporário.

Num cais improvisado, chegam canoas carregadas de peixe para alimentar a população do acampamento, onde a insegurança alimentar continua sendo uma preocupação constante.

Simon Gatkuoth, um morador na casa dos quarenta anos, tira um peixe de um carrinho de mão e explica que os peixes pescados perto dos campos de petróleo estão contaminados. "Quando os cozinhamos, a sopa às vezes cheira a penicilina", diz ele. "Mas não temos alternativa. Precisamos comer. Não podemos parar porque não há outra opção."

As comunidades de Unity convivem com as inundações sazonais dos pântanos de Sudd há gerações.

Mas, em 2021, inundações sem precedentes, ligadas às mudanças climáticas, destruíram plantações, meios de subsistência e milhares de cabeças de gado.

O Sudão do Sul não possuía a infraestrutura necessária para lidar com essa catástrofe e as inundações subsequentes.

Mais de quatro anos depois, a água ainda não recuou completamente.


Um simples dique mantido pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) é a única coisa que separa o acampamento da planície alagada.

A população, primeiro deslocada pela guerra e depois atingida por inundações, depende fortemente da ajuda humanitária.

Nos últimos anos, as inundações de 2021 também expuseram um grave risco ambiental. Unity é a principal região produtora de petróleo do Sudão do Sul.
Apesar da poluição, a região de Rotriak tem experimentado uma rápida expansão de assentamentos devido ao deslocamento contínuo de habitantes.

Uma análise geoespacial revelou que, durante as inundações de 2021, 159 dos mais de 400 poços de petróleo da região ficaram submersos.

A DW, em colaboração com a PlaceMarks Africa, confirmou que mais de 50 delas ainda estão submersas.

Os rios e lagos dos quais dependem centenas de milhares de pessoas parecem ter sido poluídos, com potenciais consequências para o meio ambiente e a saúde.

"Muitos animais estão morrendo por causa dessa poluição, e as pessoas também estão sofrendo sintomas que atribuem a ela. Tudo isso é visível, mas ainda não temos evidências suficientes ou estudos epidemiológicos para afirmar isso com certeza", explica o pesquisador Marko Gatkuoth, afiliado ao Instituto do Vale do Rift.

"As inundações que começaram há mais de quatro anos se tornaram um veículo de poluição. Elas fizeram com que os poluentes se espalhassem."
"Negligência deliberada"

Bul Duot Kuer, um pesquisador sul-sudanês da Universidade Kenyatta, no Quênia, encontrou concentrações de chumbo quase duas vezes maiores que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em rios ao redor de Bentiu, perto de Rotriak. Ele também detectou níveis de hidrocarbonetos acima dos limites recomendados.

"A água é o elemento mais poluído", afirma ele. "Não há qualquer controle. As leis ambientais existem no papel, mas simplesmente não são aplicadas. Isso é negligência. O governo e as companhias petrolíferas não se importam com a saúde da população."

A moradora local Anna Nyashing Bul contou à DW que ela e sua família se mudaram para Rotriak após as enchentes de 2021 porque era "o único lugar que ainda estava seco". A água não tratada que consomem frequentemente apresenta uma "película preta na superfície" e causou repetidos surtos de doenças em sua família, explicou ela. "Mas não tínhamos mais nada para beber."

No Hospital Estadual de Bentiu, médicos e parteiras relatam ter observado um aumento nos casos de defeitos congênitos, abortos espontâneos e complicações na gravidez, especialmente entre mulheres de áreas produtoras de petróleo.

Nyapuka Nios, de 19 anos, acaba de dar à luz um bebê com malformações visíveis. "Não sei o que será dele", sussurra. "É a vontade de Deus. Deus o deu a mim assim." Em outro cômodo, Nyekal Nuok cuida de sua filha, que nasceu cinco dias antes com espinha bífida.

Diversos estudos relacionam a proximidade a poços de petróleo com um risco maior de defeitos congênitos.

"Desde as inundações, temos visto mais abortos espontâneos e mais bebês nascidos com defeitos congênitos", concorda Dorgan Patai, diretor dos serviços de saúde do Condado de Rubkona. "A longo prazo, isso pode até levar à infertilidade."

Segundo a OMS, não existem dados conclusivos para estabelecer se esses casos estão realmente relacionados à poluição ambiental.
À deriva

Ayen Mijok Kiir, primeira vice-presidente do Conselho dos Estados, vem pedindo providências há anos.

"Não somos um país estável", enfatiza ele. "Temos dificuldade em alocar recursos para diferentes setores. Estamos sob pressão para priorizar a segurança. Mas sim, mesmo com esses desafios, deveríamos ter feito mais."

Apesar das investigações e reuniões oficiais, ela afirma que a situação praticamente não mudou. "Que diferença fará se eu falar sobre isso de novo?", diz ela em voz baixa. "Já falei sobre isso inúmeras vezes, dei inúmeras entrevistas, e nada aconteceu."

Quinze anos após conquistar a independência, o Sudão do Sul ainda carece de sistemas eficazes de monitoramento ambiental. Combater o impacto ambiental provavelmente continuará sendo uma meta inatingível em um país ainda mergulhado em sofrimento e conflitos
Buster Emil Kirchner / Marco Simoncelli

Falar bem de brasileiros em Portugal é um perigo

O que era para ser meu dia de folga depois de uma pesada semana de trabalho começou com o telefone tocando ainda muito cedo. Relutei em atender, mas o instinto de repórter falou mais alto. Do outro lado da linha havia uma pessoa chorando copiosamente, mal conseguia falar. Pedi calma e que me explicasse o que estava acontecendo. Fui ouvindo com atenção e, a cada palavra, meu espanto aumentava. A minha interlocutora, que é portuguesa, havia recebido uma série de ameaças simplesmente porque tinha elogiado os brasileiros que vivem em Portugal, cidadãos, segundo ela, muito comprometidos com o trabalho.

Fiquei em choque quando a minha interlocutora contou que uma pessoa de sua família havia sido agredida verbalmente na rua. E o motivo: as declarações que ela tinha dado em relação aos brasileiros. Foi preciso que a turma do deixa disso entrasse em ação para que o familiar da minha interlocutora não fosse vítima de violência física. Ouvindo aquelas barbaridades, fiquei me perguntando o porquê de um elogio a brasileiros provocar tanta revolta em Portugal. Por que um elogio a cidadãos oriundos do Brasil está se tornando um perigo num país que se apresenta como o sétimo mais seguro do mundo?


Os brasileiros formam a maior comunidade estrangeira em Portugal. Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que quase 600 mil cidadãos do Brasil cruzaram o Atlântico para se estabelecerem em terras lusas, muitos, em busca de uma vida melhor. Que mal há nisso? Os brasileiros são hoje quase 10% dos trabalhadores que contribuem todos os meses para a Segurança Social de Portugal. Somente em 2025, pagaram 1,47 bilhão (mil milhões) de euros.

Entre os trabalhadores estrangeiros que vivem em Portugal, os brasileiros só não são maioria em dois setores econômicos: agricultura e construção civil. E têm sido fundamentais para as áreas de restaurante e de hotelaria. Como disse a minha interlocutora, quando elogiou os brasileiros, eles estão sempre dispostos a fazer horas extras, a trabalhar nos fins de semana, mesmo os salários em Portugal estando entre os mais baixos da União Europeia. Isso é um pecado?

Os brasileiros também têm ampliado os investimentos em Portugal. Já detêm, em valores, mais imóveis no país do que nos Estados Unidos. Nada fixa tanto uma pessoa em um território que ter a casa própria. É comprometimento. Somente em Cascais, onde quase 10% da população atual têm origem no Brasil, dois empreendimentos vão movimentar pelo menos 300 milhões de euros. Esse montante corresponde a mais da metade do Orçamento deste ano da vila portuguesa e movimenta a economia local e os empregos.

A brasileira Embraer, que controla a OGMA em Portugal, vai construir uma fábrica no país. É na sua unidade em Alverca que estão sendo montados os aviões do modelo Super Tucano A-29N, já preparados para atender as exigências da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A fabricante de aeronaves foi fundamental para aumentar o salário médio pago na região. Em Santo Tirso, no Norte de Portugal, a brasileira WEG, maior fabricante de motores do mundo, é um dos pilares da economia.

Pelos dados do Observatório das Migrações, há cerca de 10 mil empreendedores brasileiros espalhados por Portugal, sendo 80% deles, mulheres. Entre os imigrantes, os empreendedores brasileiros são os que mais empregam, seguidos pelos chineses. Estamos falando de pequenos negócios, mas que, no conjunto, se tornam fundamentais para movimentar um país que ainda é pobre e dependente de subsídios repassados pela União Europeia.

Por todos os ângulos que se olhe, os brasileiros e os demais imigrantes são, sim, uma benção para Portugal. Não fossem eles, como revelou o INE, a população do país teria encolhido e, certamente, a economia, mesmo com o turismo fortalecido, estaria próxima da recessão. Os portugueses, portanto, não deveriam embarcar no discurso racista e xenófobo da extrema-direita. Deveriam estar agradecendo por poder contar com essa parceria. Sim, porque é uma parceria, em que todos ganham.

A dica vale, inclusive, para o Governo de Luís Montenegro, que, erroneamente, embarcou no discurso preconceituoso liderado pelo extremista André Ventura acreditando que teria amplo apoio da sociedade portuguesa. Isso não só não aconteceu, como, aos poucos, o Chega está implodindo o PSD, o partido do primeiro-ministro. Em vez de endossar a xenofobia, Montenegro deveria romper com o atraso que dá as cartas em Portugal.

Vamos ficar apenas na infraestrutura para escancarar a ineficiência do Estado. O Governo sequer consegue construir um novo aeroporto em Lisboa, promessa que se arrasta por quase 50 anos. Também é incapaz de construir uma ponte ou um túnel ligando Lisboa à Margem Sul, impondo sofrimento diário à população que precisa fazer a travessia entre os dois lados, com horas de engarrafamento.

No modal ferroviário, a situação é calamitosa. Um país mínimo, como Portugal, não tem ligação expressa com o restante da Europa. A vizinha Espanha tem a segunda maior malha de trem de alta velocidade do mundo, só ficando atrás da China. Não vou dizer que é incompetência portuguesa, para não ser deselegante. Mas a alcunha de ineficiência cai bem.

Diante desse quadro, só resta lamentar o fato de um bando de gente maluca, sem a menor noção da realidade, ficar atacando quem fala bem dos brasileiros que vivem em Portugal. Essas pessoas deveriam tomar vergonha na cara!
Vicente Nunes

terça-feira, 11 de agosto de 2026

E o mundo, mais uma vez, não se acabou

Anunciaram e garantiram que na sexta-feira o mundo ia se acabar, um ciclone de não sei quantas intensidades de pavor ia derrubar as palmeiras imperiais do Jardim Botânico, levantar a ressaca que afogaria Copacabana, e por causa disso a prefeitura soltou alertas desesperados pelos celulares para que todos corressem para casa, o fim estava próximo, pegassem os filhos na escola pois nenhuma álgebra seria mais necessária, puxassem os terços de 59 contas e pedissem com fervor o perdão divino. Já surgia nos computadores da meteorologia municipal a ventania definitiva, aquela que releria o apocalipse, traria de volta a besta de sete cabeças, agora em modo mais radical.


Em 1938 foi a mesma coisa. Os nazistas invadiram a Áustria, a previsão de choque de planetas estava na primeira página dos jornais, Orson Welles irradiava em Nova York a invasão de alienígenas, e todo esse quadro de destruição, a batalha do Armagedon finalmente em cartaz, fez com que o anúncio do fim do mundo – o sol ia nascer antes da madrugada – soasse natural. Todos já ouviam as trombetas dos últimos dias tocando por todos os lados, a um ponto tal de alucinação que Carmen Miranda aproveitou o que seriam esses últimos momentos de vida, o fim dos falsos pudores, e saiu beijando na boca de quem não devia, pegou na mão de quem não conhecia, tudo isso conforme relatou na letra do samba que gravou naquele mesmo tresloucado 1938, também anunciando e garantindo que agora era para valer, os gafanhotos chegaram, o mundo ia se acabar.

O alerta extremo de vento forte na sexta-feira me abriu na memória as páginas de Incidente em Antares, mais exatamente aquelas em que os sete mortos criados por Érico Veríssimo, impedidos pela greve dos coveiros de descer à terra, permanecem insepultos no coreto da praça, espalhando pela cidade o mau cheiro da morte e, pior que ele, o cheiro daquilo que os vivos gostariam de esconder, as traições conjugais, as corrupções dos poderosos, a pouca vergonha da burguesia que fedia mais do que eles. De repente, o minuano sopra furioso e, varrendo o ar empestado, leva embora a fedentina dos cadáveres moralizadores e permite que a cidade respire de novo as suas hipocrisias, recomponha as aparências de falsa normalidade e todos – os homens de bem, as mulheres recatadas do lar, os políticos que não se emendam – finjam nada ter acontecido naqueles dias de dezembro de 1963.

Depois de 1938 e de 1963, eis que na sexta-feira os sete anjos das sete trombetas voltam a tocar o terror, e quando isso acontece é preciso ter pressa, é preciso botar o texto para correr, economizar na abertura de parágrafos, maneirar nos pontos, todas essas boas regras que deixam o leitor respirar feliz. Num momento desses, a ventania anunciada para daqui a pouco, esses bons modos de pontuação só serviriam para atravancar o último desejo do cronista, que – assim como Carmen Miranda beijou na boca de quem não devia – queria aproveitar as linhas da última crônica para escrever do jeito que não podia, desrespeitando o manual de redação – e agora não sabe mais o que fazer porque o mundo mais uma vez não se acabou.

Os anti-antifa - os fascistas voltam e revoltam

Dizem que o regime que o Brasil viveu sob Getúlio Vargas não pode ser chamado de fascista. Afinal, os pontos que caracterizam o fascismo seriam um ditador ((√)), uma autocracia (√), o militarismo (√), a supressão da oposição (√), crença numa hierarquia social (√), nacionalismo (√), desprezo pela democracia eleitoral (√) e pela liberdade política e econômica (√). É verdade que o Pai dos Pobres não teve um partido político central — até, durante o Estado Novo, pleiteava o contato direto com o povo —, como fizeram Stalin, Hitler e Mussolini, mas Franco só manteve a Falange ativa episodicamente, a União Nacional de Salazar era discreta (vivi em Lisboa durante o salazarismo e testemunhei) etc. É verdade também que ele tinha grande desprezo por tudo que não era poder pessoal, e, na undécima hora de 1945, foi capaz de fazer o grande acordo queremista com Prestes.

Conheci Luís Carlos Prestes, o Cavalheiro da Esperança, quando ele voltou ao Brasil no final da década de 70. Os oitenta anos lhe davam talvez uma certa lentidão, mas parecia uma rocha. Não tinha o olhar que marcava em Giocondo Dias a sensibilidade pelo outro, pelos outros, mas olhava de frente o futuro. Prestes voltava para participar da vida política seguindo a maré, evitando conflitos.

Mas, em março de 1936, Prestes fora preso, na grande rede que se lançara sobre o País desde a Intentona, enchendo as prisões. Sua mulher, Olga Benário, grávida, foi entregue à câmara de gás dos nazistas — nada mais trágico que o nascimento de Anita Leocádia em Barnimstrasse, a prisão da Gestapo. Para prender não era preciso razão e nem sempre havia processo judicial. Graciliano Ramos, preso e um ano depois libertado sem acusação ou julgamento, deixou o testemunho impactante das Memórias do Cárcere. Para Harry Berger, barbaramente torturado, Sobral Pinto pediu a aplicação da Lei de Proteção aos Animais; Berger (Arthur Ernest Ewert) enlouqueceu na prisão. Eles tiveram 35 mil companheiros. Afinal, não tinham nada que ser antifascistas, como os clandestinos da FUA – Frente Única Antifascista, depois reunidos na ANL – Aliança Nacional Libertadora.


O passado e a imitação sempre voltam a cavalo. As tendências fascistas de Trump resultaram na reaparição dos antifa americanos, logo considerados terroristas — no ano passado o Orange King os declarou “oficialmente” terroristas — e combatidos com força. O governo genocida não poderia deixar de seguir o mesmo caminho. Uma Secretaria de Operações Integradas – Seopi foi criada por Sérgio Moro e mantida por André Mendonça. Seus operadores foram os policiais Gilson Libório de Oliveira Mendes e Thiago Marcantonio Ferreira. Centenas de pessoas — algumas tão ilustres como Paulo Sérgio Pinheiro — foram relacionadas como antifascistas. Era um rótulo de decência, mas acompanhado da invasão de suas privacidades e da evidência de que a lista se destinava à perseguição política.

Os ministros da Justiça do regime fascista em formação formam uma quadrilha (3 pessoas, diz a lei) de depravados. Sérgio Moro fora o chefe da organização criminosa (4 ou mais, diz a lei) da Lava-Jato, podre e ignorante até à medula. O Advogado-Geral da União terrivelmente evangélico André Mendonça o substituiu para colocar a Polícia Federal sob os caprichos do “profeta” — assim chamou Bolsonaro ao afirmar devoção por seus “ideais” sobre segurança pública — e está na categoria dos retardados que acreditam em criacionismo, o que devia ser desqualificante para função pública. Finalmente foi a vez do foragido Anderson Torres, preso em flagrante delito de golpe de Estado. Os três continuam soltos: Moro é senador (!) e candidato a governador do Pará e, depois de demitido como vagabundo pelo cara que ajudara a eleger, voltou a lamber a cria; Anderson Torres, de seu refúgio na Disney, está pendurado em Dudu Bananinha; André Mendonça, ministro “do Bem”, depois de participar de ato eleitoral disfarçado com o pedinte do Master, não se considera impedido de julgá-lo.

A aprovação de sua indicação ao Supremo pelo Senado é, aliás, espantosa. Era chefe da AGU quando Bolsonaro disse que não acataria mais decisões do STF; quando disse que usaria o 142 para intervir no Estado; era ministro da Justiça quando Bozo usou um helicóptero para apoiar manifestantes contra o STF; quando repetia que as urnas eram fraudadas. Aceitar qualquer dessas declarações, evidentemente, torna a pessoa inidônea para ser ministro da Corte (e/ou do TSE).

Voltando à investigação sobre antifascistas, o Supremo de então, 2020, quase por unanimidade — divergiu Marco Aurélio — aprovou o relatório da ministra Carmem Lúcia afirmando que “a coleta de informações para mapear as posições políticas de determinado grupo ou identificar opositores ao governo configura desvio de finalidade das atividades de inteligência”. Pito que Mendonça não levou em conta: convocado pelo Senado, a requerimento de Randolfe Rodrigues e — olha que coincidência — Jacques Wagner, disse que o assunto era sigiloso e não poderia ser compartilhado com os senadores.

A gracinha é agora o Thiago Anti-Antifa ser o chefe da Polícia Extrajudicial do Mendonça e por acaso o gabinete do ministro o maior plantador de notícias contra pessoas ligadas ao governo antifascista — especialmente o Lulinha —, enquanto toma todo o cuidado para não sair uma linha do que fez o Flavorcaro. Em suas novas funções, o chefão da Extrajudicial está comandando uma investigação sobre o chefe da Federal. Sabe aquela coisinha que está na Constituição: “art. 5º. XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção”? Já era, não vale quando se trata do ministro “do Bem”.

E o evangélico Messias, hem?! Foi ao ministro da Justiça para bancar o amigo do peito terrivelmente evangélico, que história é essa de defender a Polícia Federal e o Estado de Direito?
 Pedro Costa

A política de Trump veio para ficar? Protecionismo pode resistir à troca de governo

O presidente Trump vai produzindo uma reviravolta na ordem econômica mundial. Jogou o livre comércio no lixo e decretou o intervencionismo do Estado.

Segue-se a pergunta da hora: até que ponto esse rodopio é coisa exclusiva do presidente Trump e do Partido Republicano, que poderia ser revertida com mudança de governo, a partir do dia em que o Partido Democrata recuperasse a presidência dos Estados Unidos?

Os analistas políticos já levam em conta a possibilidade de que o presidente Trump perca a maioria nas duas casas do Congresso nas eleições de novembro. A forte queda da popularidade de Trump parece fortalecer esse resultado.


Mas, atenção, a resposta à pergunta acima é complexa. Já foi lembrado em outra edição desta Coluna que, embora seja forte adversário eleitoral de Trump e dos políticos do Partido Republicano e combata a atual política contra a imigração, o Partido Democrata não apresentou até agora projeto ou o equivalente, que pudesse se contrapor ao MAGA, ao Make America Great Again.

Não está claro se, de volta ao poder, o Partido Democrata seja capaz de reverter a política de Trump. A administração Joe Biden, que sucedeu em 2021 ao primeiro mandato de Trump, manteve muitas das políticas e determinações de Trump, como se vê a seguir.

As tarifas de importação, de 25%, impostas por Trump à China, em 2018, correspondentes a US$ 50 bilhões anuais, tiveram continuidade com Biden; mais do que isso, foram aumentadas para setores estratégicos, como veículos elétricos, semicondutores, painéis para energia solar, aço e alumínio.

Biden reforçou as restrições às importações pela China de chips de última geração e de máquinas para produção de semicondutores. Com isso, pretendeu bloquear o acesso da China à tecnologia de ponta.

Biden tampouco tentou voltar ao Nafta, o acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México, que Trump substituiu pelo USMCA, que aumentou as exigências de conteúdo local na produção de veículos. Biden também manteve as negociações dos Acordos de Abraão destinados a restabelecer os canais diplomáticos entre Israel e países árabes.

Por aí se vê que a política protecionista não é prerrogativa dos redutos trumpistas. É pleito mais amplo e mais arraigado nos Estados Unidos.

Trump operou uma reviravolta tributária. Transformou o Imposto de Importação (tarifa alfandegária), cuja natureza é regulatória, em taxa arrecadatória. A receita extra obtida com os tarifaços pode ficar muito aquém do pretendido por Trump, mas será agora mais difícil que, nesta secura do Tesouro dos Estados Unidos, um governo que o suceda seja capaz de abrir mão desses recursos.

Isso sugere que a atual política, tão nefasta para os interesses do resto do mundo, só será corrigida se produzir grandes estragos para a própria economia dos Estados Unidos.

Como o El Niño e as guerras podem agravar a fome global

Um fenômeno El Niño com potencial para quebrar recordes está se intensificando no Pacífico e pode causar secas e inundações em algumas das principais regiões agrícolas do mundo.

No início de julho, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) estimou uma probabilidade de 63% de que o fenômeno fosse "muito intenso". O JP Morgan também alertou que o El Niño, combinado com o petróleo a US$ 100 o barril, poderia elevar a inflação global de alimentos em até 1,5%.

A chegada do El Niño coincide com dois conflitos que já têm pressionado o sistema alimentar global: a guerra da Rússia na Ucrânia e o aumento das tensões entre os Estados Unidos e o Irã. Será que essa combinação poderia desencadear uma nova crise alimentar?


A guerra de agressão da Rússia na Ucrânia continua a afetar uma das maiores regiões exportadoras de grãos do mundo, enquanto as tensões com o Irã elevaram os preços da energia e dos fertilizantes, encarecendo a produção agrícola.

Ao mesmo tempo, o Banco Mundial alertou que um evento El Niño intenso poderia reduzir a produção de arroz em 20 a 50 por cento nas regiões mais afetadas.

Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), alerta para um "efeito composto" que poderá criar "uma situação muito complexa" no final do ano. "Estamos muito preocupados com o El Niño e o atraso das monções na Índia", explicou Torero.

A Índia produz cerca de um terço do arroz mundial, e uma monção mais fraca pode afetar as plantações. A FAO também identifica altos riscos no Sahel, no sul da África, no Sudeste Asiático e no Corredor Seco da América Central, onde algumas áreas enfrentam uma probabilidade superior a 50% de seca nos próximos meses.

Apesar das tensões geopolíticas, os preços internacionais dos alimentos permanecem cerca de 20% abaixo do pico atingido em 2022, de acordo com o índice da FAO.

O ano passado registrou a maior colheita de cereais da história, graças ao aumento da produtividade, à maior área cultivada e às condições climáticas favoráveis. Embora a produção deste ano seja ligeiramente menor, ainda se espera que seja a segunda maior já registrada.

"Estamos vendo melhorias na produtividade agrícola", diz Simone Bunse, pesquisadora do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI). "Isso ajudou a manter a produção de alimentos e a reduzir a desnutrição. E está compensando alguns dos impactos localizados do conflito", acrescenta.

A fome continua concentrada em zonas de guerra.

A ONU estima que 266 milhões de pessoas sofrem de fome aguda, e mais da metade delas vive em países afetados por conflitos.

"Produzimos calorias suficientes no mundo para alimentar toda a população", afirma Torero. "O problema é que essas calorias não são distribuídas igualmente pelo mundo, e esse é o desafio", enfatiza.

Em locais como o Sudão ou Gaza, a guerra destrói terras agrícolas, desloca milhões de pessoas e dificulta a entrega de ajuda humanitária.

"Grupos armados destroem deliberadamente terras agrícolas, rebanhos, sistemas de água, instalações de armazenamento de alimentos e rotas de transporte. Eles comprometem o acesso aos mercados e dificultam a assistência humanitária", lembra Bunse.

Outra área de preocupação são os fertilizantes, já que aproximadamente um terço do comércio global passa pelo Estreito de Ormuz, que é afetado pelas tensões entre os Estados Unidos e o Irã e pelos ataques a navios no Mar Vermelho.

O aumento de preços já está levando alguns agricultores a adiarem suas compras ou a reduzirem o uso de fertilizantes, o que pode afetar as próximas colheitas.

Especialistas alertam que, se um forte evento El Niño, novas interrupções nas exportações agrícolas da Ucrânia e uma nova alta nos preços do petróleo ocorrerem simultaneamente, a fome global poderá piorar consideravelmente. Segundo o JP Morgan, a inflação de alimentos poderá ultrapassar 5% até 2027, sendo os mercados emergentes os mais afetados.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Pensamento do Dia (ou a Assunção de Abelardo)

 


O ‘comunista’ de Trump

Cassius Clay tinha só 22 anos e uma insolência já borbulhante quando proclamou, na histórica noite de 25 de fevereiro de 1964:

— Sou o rei do mundo! Sou lindo e malvado! Eu sacudi o mundo.

Era verdade. Ele acabara de derrotar por nocaute técnico o campeoníssimo Sonny Liston, favorito absoluto nas casas de apostas globais. O feito no ringue fez dele muito mais que um fenômeno do boxe — tornou-se força cultural duradoura. Nove dias depois, anunciou ao mundo sua conversão ao islamismo e passou a se chamar Muhammad Ali.

O sanitarista americano Abdul El-Sayed, nascido no estado de Michigan 42 anos atrás, não precisou trocar de nome — Abdulrahman Mohamed El-Sayed é muçulmano de berço. Suas primeiras palavras ao saber que será o nome do Partido Democrata para disputar uma cadeira no Senado, em novembro próximo, foram inspiradas em Ali:

— Nós sacudimos o mundo.

O mundo, ele e seus eleitores não sacudiram, mas o neurastênico cenário político-partidário americano, certamente. El-Sayed saiu-se vencedor nas primárias da terça-feira passada montado num programa arriscado, por progressista e populista:

1) A favor da abolição do ICE (o Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro que, sob o governo de Donald Trump, atua como caçador de imigrantes sem documentação regularizada);

2) A favor da ampliação do esquálido seguro hospitalar e médico, o Medicare, que nos Estados Unidos contempla apenas contribuintes com mais de 65 anos e portadores de deficiências;

3) Radicalmente oposto a qualquer ajuda dos Estados Unidos ao governo de Israel;

4) A favor de mais impostos para os mais ricos e contra o predomínio do dinheiro sobre o exercício da política.

El-Sayed teve por adversária Haley Stevens, uma experiente congressista moderada de quatro mandatos no Capitólio. Ela contou com o apoio ostensivo do establishment democrata — a mesma liderança partidária que, há anos encastelada, acumula erros e foi perdendo o pulso da nação. Não fosse o incontornável senador Bernie Sanders, que aos 84 anos continua sendo o grande ícone mobilizador do eleitorado jovem e progressista, El-Sayed talvez não tivesse alcançado o 1% de votos que faltou a Stevens.

Contudo coube ao poderoso lobby pró-Israel agrupado sob a sigla Aipac (Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel) o inglório papel de goleador contra a candidatura que apoiava. A derrama de mais de US$ 30 milhões na campanha da congressista que se orgulha de ser sionista bateu de frente com os itens 3 e 4 do programa de El-Sayed. Afugentou um eleitorado democrata cada vez menos disposto a defender Israel acima de tudo, como se a desumanização de Gaza e a metódica erradicação da vida palestina na Cisjordânia não existissem. A sigla Aipac começou a tornar-se tóxica quando acoplada a candidaturas democratas — segundo divulgou o New York Times na semana passada, a palavra “Israel” praticamente sumiu da maioria das peças de propaganda eleitoral financiadas pela entidade. A causa agora atende pelo nome de United Democracy Project.

Por ora, a maioria dos analistas dá como pouco provável a eleição do epidemiologista e Rhodes Scholar El-Sayed em novembro — ele seria o primeiro muçulmano a ocupar assento no Senado dos Estados Unidos. Até porque o estado de Michigan, como um todo, é um dos campos eleitorais mais imprevisíveis e cambiantes do país (Trump saiu-se vencedor em 2016, perdeu em 2020 e venceu em 2024, sempre com margens apertadíssimas).

Para o ocupante da Casa Branca, El-Sayed é “esse comunista que odeia os judeus e Israel”, fácil de ser derrotado pelos republicanos. O epíteto “comunista” tem sido usado por Trump a torto e a direito em suas postagens e discursos. Não raro, atropela e embaralha cruamente o que, exatamente, entende por “comunista”, “marxista” ou “leninista”. Compreende-se: quando até a centenária The Economist, que Lênin descreveu como publicação para milionários britânicos, admitiu em edição recente que empresas capitalistas têm poucas chances de competir com a China “ecoautoritária e leninista, governada por Xi Jinping, um pioneiro do capitalismo de risco”, o xingamento pode parecer elogio.

Pelo receituário de Trump, saúde pública é commodity, educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário, e pobreza é defeito do indivíduo. Privatizada a sobrevivência, dá-se ao que sobra da vida o nome de liberdade. Faltam três meses para o eleitor americano dizer do que tem mais medo.

Contra o Godzilla digital

Nos EUA, é assim. Quando um caso judicial é encerrado mediante "acordo", significa que a parte acusada, sabendo que vai perder, interrompe o processo e consegue abafar a história por um bom dinheiro em sigilo para o acusador. Que vantagem ela leva nisso? Impede que uma derrota pública deságue numa hemorragia de outros processos do gênero. O TikTok, por exemplo, acaba de fazer um "acordo" com um jovem de 15 anos, residente na Flórida, que acusou a rede social de danos à sua saúde mental causados pela dependência aos seus recursos.


É o segundo "acordo" que o garoto aceitou —o anterior, há alguns meses, foi com o Google, e pelos mesmos motivos. Mas ele ainda tem mais dois em andamento, contra o Meta e o Snapchat, e não importa que, em vez de vencê-los, ele aceite mais "acordos". Ficará caracterizado que as redes sociais podem ser desafiadas por quem sinta sua saúde lesada por elas. O julgamento já está em curso em Los Angeles e, de seu resultado, devem pipocar inúmeras ações acusando as redes de provocar dependência psíquica.

Alguém dirá que o garoto é um esperto aproveitador e que, se não quisesse que as redes sociais lhe provocassem dependência, era só "saber usá-las". Assim como acontece com o álcool e as drogas, os leigos acreditam que seja uma questão de moderação, "força de vontade". Não aceitam que, uma vez instaurada a dependência, não se trata mais de saber ou não usá-los, e muito menos com moderação. O dependente não tem escolha —por isso é dependente— e ninguém está a salvo de se tornar um.

Os fabricantes de bebidas e cigarros e os traficantes de drogas sabem do que seus produtos são feitos e os efeitos que provocam a médio prazo. Tanto quanto eles, as redes sociais também sabem do estresse, depressão, ansiedade, insatisfação com o próprio corpo, ideias suicidas, submissão à luz da tela, pavor de se ver sem o celular e outras consequências de seu uso, mesmo "moderado". É o que as torna trilionárias.

Um jovem luta contra o Godzilla digital. Eu torço por ele.