quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Os genes egoístas de Trump
Trocar as lentes que utilizamos para interpretar fenômenos pode esclarecer muita coisa. Richard Dawkins promoveu uma pequena revolução conceitual na biologia ao destacar, em 1976, que são os genes, e não o indivíduo ou a espécie, a unidade fundamental sujeita à seleção natural. São os genes que buscam perpetuar-se e, ao contrário de indivíduos e espécies, que têm data mais ou menos marcada para morrer ou extinguir-se, podem perdurar pelo tempo em que existir vida na Terra.
A mudança de lentes explica o que antes parecia inexplicável. Um bom exemplo é a homossexualidade. Para o indivíduo que a pratica de forma exclusiva, é um beco sem saída reprodutivo. Mas, se pensarmos em termos de genes, tudo muda de figura. As mesmas sequências genéticas que levam uma pessoa gay a não ter filhos podem conferir vantagem reprodutiva a seus irmãos do sexo oposto. Com isso, esses genes se fixam no pool da humanidade mesmo que prejudiquem a reprodução de indivíduos específicos.
Stacie Goddard e Abraham Newman sugerem uma troca de óculos para entender Donald Trump. Para a dupla, ações e atitudes do presidente americano que aparentemente desafiam a lógica ficam menos malucas se as virmos como voltadas para beneficiar não os EUA nem grupos econômicos fortes do país, mas para satisfazer suas próprias necessidades egoicas, ajudar nos negócios da família e de seus colaboradores próximos.
O modelo não é Metternich nem Maquiavel, mas Henrique 8º ou os Borgias. A unidade de seleção é a corte trumpiana. Os autores chamam esse estilo de administração de neorrealista ("neoroyalist" em inglês, que é menos ambíguo).
O interessante nessa abordagem é que ela permite entender a facilidade com que Trump sacrifica interesses de longo prazo dos americanos e eventualmente até se alia a Putin ou Xi, tradicionalmente vistos como competidores dos EUA, se a parceria servir a seus interesses paroquiais.
A teoria tem corroboração empírica. Neste ano de Presidência, a família Trump já ficou US$ 1,4 bilhão mais rica.
A mudança de lentes explica o que antes parecia inexplicável. Um bom exemplo é a homossexualidade. Para o indivíduo que a pratica de forma exclusiva, é um beco sem saída reprodutivo. Mas, se pensarmos em termos de genes, tudo muda de figura. As mesmas sequências genéticas que levam uma pessoa gay a não ter filhos podem conferir vantagem reprodutiva a seus irmãos do sexo oposto. Com isso, esses genes se fixam no pool da humanidade mesmo que prejudiquem a reprodução de indivíduos específicos.
Stacie Goddard e Abraham Newman sugerem uma troca de óculos para entender Donald Trump. Para a dupla, ações e atitudes do presidente americano que aparentemente desafiam a lógica ficam menos malucas se as virmos como voltadas para beneficiar não os EUA nem grupos econômicos fortes do país, mas para satisfazer suas próprias necessidades egoicas, ajudar nos negócios da família e de seus colaboradores próximos.
O modelo não é Metternich nem Maquiavel, mas Henrique 8º ou os Borgias. A unidade de seleção é a corte trumpiana. Os autores chamam esse estilo de administração de neorrealista ("neoroyalist" em inglês, que é menos ambíguo).
O interessante nessa abordagem é que ela permite entender a facilidade com que Trump sacrifica interesses de longo prazo dos americanos e eventualmente até se alia a Putin ou Xi, tradicionalmente vistos como competidores dos EUA, se a parceria servir a seus interesses paroquiais.
A teoria tem corroboração empírica. Neste ano de Presidência, a família Trump já ficou US$ 1,4 bilhão mais rica.
O terremoto causado pela versão mais recente da IA
“Estamos enfrentando algo muito, muito maior do que a Covid”, alertou Matt Schumer esta semana. Este renomado programador, que trabalha com inteligência artificial (IA), acaba de publicar um artigo intitulado “Algo Grande Está Acontecendo”, no qual alerta sobre as ameaças que os novos modelos de IA representam para milhões de empregos de escritório em todo o mundo. Seu ensaio viralizou, acumulando mais de 80 milhões de visualizações desde terça-feira.
“O motivo pelo qual tantas pessoas no setor estão soando o alarme agora é porque isso já aconteceu conosco ”, explica Shumer, que relata como empresas de IA estão demitindo cientistas da computação e desenvolvedores porque as ferramentas que eles criaram agora estão se reprogramando para se tornarem mais inteligentes. “Não estamos fazendo previsões. Estamos contando a eles o que já aconteceu em nossos próprios trabalhos e os alertando de que serão os próximos”, destaca.
O artigo de Schumer coincide com uma semana turbulenta em Wall Street. Os investidores penalizaram as empresas que correm maior risco de serem afetadas pela ascensão dessa tecnologia. Empresas de software , desenvolvedoras de videogames e de computadores sofreram um revés significativo no mercado de ações, à medida que se espalham notícias sobre as capacidades avançadas dos novos modelos de IA e o risco que representam para milhões de empregos. Especialistas afirmam que uma criança poderá dar instruções para criar um videogame personalizado. E programas de linguagem criados por pessoas com conhecimentos limitados de informática estão se proliferando.
Mas os investidores também veem a automação prestes a se expandir para outros setores menos óbvios, como logística, seguros e consultoria. Com apenas alguns comandos, será possível criar um programa de planejamento tributário ou um chatbot de atendimento ao cliente que supere a interação humana.
“O rápido progresso das ferramentas de IA está alimentando temores generalizados de disrupção em setores mais expostos à difusão dessa tecnologia na economia do conhecimento, particularmente em modelos de negócios que não exigem uso intensivo de capital, com as empresas de software na vanguarda”, explica Yves Bonzon, chefe de investimentos do banco suíço Julius Baer. “As preocupações dos investidores com o impacto disruptivo da IA continuam a pesar sobre as ações americanas, desde corretoras de seguros e serviços imobiliários até logística”, explica o banco de investimentos suíço UBS, que, no entanto, adota um tom otimista para os investidores : “Embora o impacto geral nesses setores e empresas individuais ainda esteja por ser visto, consideramos [esse processo] uma validação do potencial de monetização da IA. Os avanços reforçam sua natureza transformadora.”
“Esta onda de automação é diferente de qualquer outra anterior, e preciso que vocês entendam o porquê”, começa Shumer, apresentando um relato inquietante que repercutiu entre diversos executivos do setor. “A IA não substitui uma habilidade específica. Ela é um substituto geral para o trabalho cognitivo. Ela aprimora tudo simultaneamente. Quando as fábricas foram automatizadas, um trabalhador demitido podia se requalificar para trabalhar como auxiliar de escritório. Quando a internet revolucionou o varejo, os trabalhadores migraram para a logística ou para os serviços. Mas a IA não deixa uma lacuna fácil de preencher. Seja qual for a habilidade, ela também está se aprimorando nela”, acrescenta.
Os alarmes estão soando à medida que as principais empresas de tecnologia intensificam seus investimentos em tecnologias disruptivas. Somente em 2026, as quatro maiores gigantes globais da tecnologia — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — planejam investir mais de US$ 650 bilhões em inteligência artificial . Este é o maior valor já investido em um único ano em qualquer outro desenvolvimento tecnológico; nem mesmo a expansão das ferrovias no final do século XIX, os programas espaciais da NASA ou a bolha da internet no início do século XXI consumiram tantos recursos em tão pouco tempo.
Essas gigantes da tecnologia, com orçamentos maiores que os de alguns países, estão envolvidas em uma corrida frenética para desenvolver IA . Elas precisam treinar seus modelos computacionais em milhares de computadores equipados com a última geração de microprocessadores. Esses computadores são armazenados em gigantescos armazéns — centros de dados — com centenas de servidores para que o sistema possa continuar aprendendo. E elas precisam de usinas de energia especiais para suprir seu enorme consumo energético.
Schumer pinta um quadro assustador. Ele explica como, nos últimos anos, as melhorias nos modelos cognitivos criados por algoritmos alcançaram um progresso exponencial. Mas as versões mais recentes da OpenAI, criadora do popular ChatGPT, ou da Anthopic, que desenvolve o modelo Claude , “não são melhorias incrementais. É algo completamente diferente”, alerta ele.
“A IA não substitui empregos humanos específicos, mas sim o trabalho humano em geral”, argumenta Dario Amodei, CEO da Anthropic, empresa fundada por ex-pesquisadores da OpenAI. Há algumas semanas, Amodei publicou um artigo instigante, “ A Adolescência da Tecnologia: Como Confrontar e Superar os Riscos da IA Poderosa”, sobre os riscos que uma tecnologia dessa magnitude, ou IA Geral (IAG) — capaz de pensar por si mesma — trará. O executivo estima que metade de todos os empregos de escritório no mundo desaparecerá dentro de um a cinco anos. Após analisar as consequências dessa revolução no artigo, ele conclui: “O choque a curto prazo será de magnitude sem precedentes”.
Esta semana, a empresa atingiu uma avaliação de US$ 380 bilhões após sua última rodada de financiamento, na qual arrecadou US$ 30 bilhões. A Anthropic se posiciona como uma das empresas de tecnologia mais preocupadas com a segurança. Ela afirma que seu modelo é treinado seguindo princípios éticos para prevenir manipulação e engano.
Esta semana, a Public First anunciou a criação de um SPAC (Special Purpose Acquisition Company), uma ferramenta de abertura de capital na bolsa de valores, com um aporte de US$ 20 milhões, para promover a transparência e a segurança em modelos de inteligência artificial. A empresa busca influenciar legisladores para que estabeleçam regulamentações e salvaguardas para a IA que previnam abusos. Na realidade, sua estratégia é direcionada contra sua concorrente OpenAI, que utiliza táticas mais agressivas.
O ensaio de Schumer também coincide com a renúncia de dois executivos da OpenAI e da Anthropic, alertando para as profundas mudanças que o mundo enfrenta, não apenas no ambiente de trabalho. “O mundo está em perigo. E não apenas por causa da IA ou das armas biológicas, mas por causa de toda uma série de crises interconectadas que estão se desenrolando neste momento”, escreveu Mrinank Sharma, pesquisador de segurança de IA que deixou a Anthropic para se mudar para o Reino Unido, escrever poesia e “tornar-se invisível”.
Sharma trabalhou em uma área focada em garantir a segurança da IA para combater os riscos do bioterrorismo assistido por IA e investigar “como os assistentes de IA poderiam nos tornar menos humanos”. Ele diz que está saindo com um certo sentimento de resignação.
Na quarta-feira, Zoe Hitzig, pesquisadora da OpenAI, criadora do popular ChatGPT, publicou um artigo no The New York Times expressando suas preocupações sobre a nova prática de empresas de IA de oferecer publicidade. Hitzig, que possui doutorado em Economia por Harvard, escreveu: “Tenho sérias reservas sobre a estratégia da OpenAI”. No dia seguinte, ela renunciou ao cargo. No artigo, ela explica como muitas pessoas usam ferramentas de IA como terapeutas, para compartilhar suas emoções ou simplesmente para conversar. O sistema obtém vantagem ao oferecer publicidade, e Hitzig levanta questões éticas.
Existem também riscos de segurança. Amodei dá o exemplo de um novo país composto pelas 50 milhões de mentes mais brilhantes do mundo. Elas pensam de 10 a 100 vezes mais rápido do que qualquer ser humano. Nunca dormem. Podem usar a internet, controlar robôs, realizar experimentos e operar qualquer coisa com uma interface digital. O especialista alerta que isso representaria “a ameaça à segurança nacional mais séria que enfrentamos em um século, possivelmente em toda a nossa história”.
“O motivo pelo qual tantas pessoas no setor estão soando o alarme agora é porque isso já aconteceu conosco ”, explica Shumer, que relata como empresas de IA estão demitindo cientistas da computação e desenvolvedores porque as ferramentas que eles criaram agora estão se reprogramando para se tornarem mais inteligentes. “Não estamos fazendo previsões. Estamos contando a eles o que já aconteceu em nossos próprios trabalhos e os alertando de que serão os próximos”, destaca.
O artigo de Schumer coincide com uma semana turbulenta em Wall Street. Os investidores penalizaram as empresas que correm maior risco de serem afetadas pela ascensão dessa tecnologia. Empresas de software , desenvolvedoras de videogames e de computadores sofreram um revés significativo no mercado de ações, à medida que se espalham notícias sobre as capacidades avançadas dos novos modelos de IA e o risco que representam para milhões de empregos. Especialistas afirmam que uma criança poderá dar instruções para criar um videogame personalizado. E programas de linguagem criados por pessoas com conhecimentos limitados de informática estão se proliferando.
Mas os investidores também veem a automação prestes a se expandir para outros setores menos óbvios, como logística, seguros e consultoria. Com apenas alguns comandos, será possível criar um programa de planejamento tributário ou um chatbot de atendimento ao cliente que supere a interação humana.
“O rápido progresso das ferramentas de IA está alimentando temores generalizados de disrupção em setores mais expostos à difusão dessa tecnologia na economia do conhecimento, particularmente em modelos de negócios que não exigem uso intensivo de capital, com as empresas de software na vanguarda”, explica Yves Bonzon, chefe de investimentos do banco suíço Julius Baer. “As preocupações dos investidores com o impacto disruptivo da IA continuam a pesar sobre as ações americanas, desde corretoras de seguros e serviços imobiliários até logística”, explica o banco de investimentos suíço UBS, que, no entanto, adota um tom otimista para os investidores : “Embora o impacto geral nesses setores e empresas individuais ainda esteja por ser visto, consideramos [esse processo] uma validação do potencial de monetização da IA. Os avanços reforçam sua natureza transformadora.”
“Esta onda de automação é diferente de qualquer outra anterior, e preciso que vocês entendam o porquê”, começa Shumer, apresentando um relato inquietante que repercutiu entre diversos executivos do setor. “A IA não substitui uma habilidade específica. Ela é um substituto geral para o trabalho cognitivo. Ela aprimora tudo simultaneamente. Quando as fábricas foram automatizadas, um trabalhador demitido podia se requalificar para trabalhar como auxiliar de escritório. Quando a internet revolucionou o varejo, os trabalhadores migraram para a logística ou para os serviços. Mas a IA não deixa uma lacuna fácil de preencher. Seja qual for a habilidade, ela também está se aprimorando nela”, acrescenta.
Os alarmes estão soando à medida que as principais empresas de tecnologia intensificam seus investimentos em tecnologias disruptivas. Somente em 2026, as quatro maiores gigantes globais da tecnologia — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — planejam investir mais de US$ 650 bilhões em inteligência artificial . Este é o maior valor já investido em um único ano em qualquer outro desenvolvimento tecnológico; nem mesmo a expansão das ferrovias no final do século XIX, os programas espaciais da NASA ou a bolha da internet no início do século XXI consumiram tantos recursos em tão pouco tempo.
Essas gigantes da tecnologia, com orçamentos maiores que os de alguns países, estão envolvidas em uma corrida frenética para desenvolver IA . Elas precisam treinar seus modelos computacionais em milhares de computadores equipados com a última geração de microprocessadores. Esses computadores são armazenados em gigantescos armazéns — centros de dados — com centenas de servidores para que o sistema possa continuar aprendendo. E elas precisam de usinas de energia especiais para suprir seu enorme consumo energético.
Schumer pinta um quadro assustador. Ele explica como, nos últimos anos, as melhorias nos modelos cognitivos criados por algoritmos alcançaram um progresso exponencial. Mas as versões mais recentes da OpenAI, criadora do popular ChatGPT, ou da Anthopic, que desenvolve o modelo Claude , “não são melhorias incrementais. É algo completamente diferente”, alerta ele.
“A IA não substitui empregos humanos específicos, mas sim o trabalho humano em geral”, argumenta Dario Amodei, CEO da Anthropic, empresa fundada por ex-pesquisadores da OpenAI. Há algumas semanas, Amodei publicou um artigo instigante, “ A Adolescência da Tecnologia: Como Confrontar e Superar os Riscos da IA Poderosa”, sobre os riscos que uma tecnologia dessa magnitude, ou IA Geral (IAG) — capaz de pensar por si mesma — trará. O executivo estima que metade de todos os empregos de escritório no mundo desaparecerá dentro de um a cinco anos. Após analisar as consequências dessa revolução no artigo, ele conclui: “O choque a curto prazo será de magnitude sem precedentes”.
Esta semana, a empresa atingiu uma avaliação de US$ 380 bilhões após sua última rodada de financiamento, na qual arrecadou US$ 30 bilhões. A Anthropic se posiciona como uma das empresas de tecnologia mais preocupadas com a segurança. Ela afirma que seu modelo é treinado seguindo princípios éticos para prevenir manipulação e engano.
Esta semana, a Public First anunciou a criação de um SPAC (Special Purpose Acquisition Company), uma ferramenta de abertura de capital na bolsa de valores, com um aporte de US$ 20 milhões, para promover a transparência e a segurança em modelos de inteligência artificial. A empresa busca influenciar legisladores para que estabeleçam regulamentações e salvaguardas para a IA que previnam abusos. Na realidade, sua estratégia é direcionada contra sua concorrente OpenAI, que utiliza táticas mais agressivas.
O ensaio de Schumer também coincide com a renúncia de dois executivos da OpenAI e da Anthropic, alertando para as profundas mudanças que o mundo enfrenta, não apenas no ambiente de trabalho. “O mundo está em perigo. E não apenas por causa da IA ou das armas biológicas, mas por causa de toda uma série de crises interconectadas que estão se desenrolando neste momento”, escreveu Mrinank Sharma, pesquisador de segurança de IA que deixou a Anthropic para se mudar para o Reino Unido, escrever poesia e “tornar-se invisível”.
Sharma trabalhou em uma área focada em garantir a segurança da IA para combater os riscos do bioterrorismo assistido por IA e investigar “como os assistentes de IA poderiam nos tornar menos humanos”. Ele diz que está saindo com um certo sentimento de resignação.
Na quarta-feira, Zoe Hitzig, pesquisadora da OpenAI, criadora do popular ChatGPT, publicou um artigo no The New York Times expressando suas preocupações sobre a nova prática de empresas de IA de oferecer publicidade. Hitzig, que possui doutorado em Economia por Harvard, escreveu: “Tenho sérias reservas sobre a estratégia da OpenAI”. No dia seguinte, ela renunciou ao cargo. No artigo, ela explica como muitas pessoas usam ferramentas de IA como terapeutas, para compartilhar suas emoções ou simplesmente para conversar. O sistema obtém vantagem ao oferecer publicidade, e Hitzig levanta questões éticas.
Existem também riscos de segurança. Amodei dá o exemplo de um novo país composto pelas 50 milhões de mentes mais brilhantes do mundo. Elas pensam de 10 a 100 vezes mais rápido do que qualquer ser humano. Nunca dormem. Podem usar a internet, controlar robôs, realizar experimentos e operar qualquer coisa com uma interface digital. O especialista alerta que isso representaria “a ameaça à segurança nacional mais séria que enfrentamos em um século, possivelmente em toda a nossa história”.
Recuperando sanidade e verdade na democracia digital
A esfera pública está em crise, física e digital, e expõe um mal-estar civilizatório: relações humanas e democracia definham, não por falta de tecnologia, mas por exaustão psíquica, conformismo criativo e comunicação abusiva, atravessando o indivíduo, sociedade, organizações, famílias e os sistemas coletivos.
O debate cresceu em volume e alcance, mas encolheu em qualidade e tolerância. A pergunta “o que as plataformas fizeram com a política?” é tímida: o que fizeram com a vida mental, o repertório cívico e a imaginação coletiva responsável? Por que tantas lideranças, políticas, organizacionais e familiares, parecem “surtar” aos olhos dos cidadãos, alimentando insegurança cívica?
Voltar à praça pública, à ágora de Atenas antiga, ajuda como laboratório de virtudes públicas, cívicas e políticas nas relações humanas. Ágora, “lugar de encontro”, era onde a população se reunia para ver e ser vista, falar e ouvir, concordar e divergir: a política na potência da palavra como arte do mundo comum. Quando esse lugar de encontro se perde – ou se torna instável, insano, opaco e reativo – o político transborda.
A questão contemporânea é que a infraestrutura do mundo migrou da presença – praça, sala de estar, clube e roda de conversa – para as telas. A ágora física foi substituída pela digital, mediada por algoritmos e incentivos de engajamento, a engenharia da visibilidade. O elemento decisivo também mudou: o discurso público depende menos de presença e virtudes e mais da captura da atenção e de recompensas rápidas. O algoritmo se aperfeiçoa, manipula mentes despreparadas e instrumentaliza lideranças que “escorregam” no limite entre a insanidade e “sua” interpretação de realidade, favorecendo o adoecimento coletivo.
Sem espaços públicos de deliberação, o “político” migra para onde há convivência real: casa, trabalho, escola, lazer, sem mediação ou treino. O que antes era metabolizado por instituições e rituais públicos recai sobre pais, líderes, educadores e cidadãos, sobrecarregando relações e desgastando confiança. Microambientes que deveriam ser mais assépticos em humores e mais harmônicos por função, viram arenas permanentes. O resultado: a esfera pública é empurrada para dentro dos espaços privados e organizacionais.
Aqui Atenas volta como laboratório: precisamos recuperar dois pilares do ideal da ágora democrática: isegoria e parresía.
Isegoria (isos, igual/ agoreuein, falar na ágora) é a igualdade no direito à fala pública: voz ouvida como condição de participação, não como favor e nem silenciada por hierarquia ou intimidação. Parresía (pan, tudo/rhema, dizer) é a honestidade pública: coragem ética de dizer o que precisa ser dito, assumindo riscos com compromisso com o verdadeiro e responsabilidade pelo que se, accountability.
Quando esses dois eixos se degradam, perdemos civilidade (do latim civis/civitas, cidadão e corpo cívico): o tecido de convivência pública que permite desacordos e evolução sem barbárie. Por isso, a crise do debate aproximou-se da clínica: ela impacta o que chamamos de sanidade (do latim sanus/sanitas): a integridade e o que salva a vida, nossa saúde. Sem um mundo comum praticável, a mente coletiva perde repouso, horizonte e imaginação, emergem ideologias e ficções e advém a crise mental e de identidade do mundo atual. The Acropolis in Athens, Greece.
E qual a justa medida do falar público? Em Ética a Nicômaco o filósofo grego Aristóteles, descreve dois desvios: a submedida (eiron), quando se dissimula e se diz “pela metade” e a sobremedida (alazon), quando se exagera, fanfarreia e dramatiza. Nem adulação ou desabafo, nem “sincericídio” nem verborragia. A virtude está no meio: a veracidade (aletheia), regulada pela prudência (phronesis): saber quando, como e quanto dizer a verdade ao outro e sustentá-la em público com franqueza responsável, a parresía. E estamos carentes dela: evitamos fricções, debates e quando surgem, não sabemos lidar, adoecemos, deprimimos e culpas são expiadas “no outro”.
E quando a isegoria adoece? Pelo excesso e seu efeito colateral. A visibilidade virou recurso escasso, distribuído por arquiteturas que maximizam engajamento e premiam reatividade emocional, simplificação e polarização. Se antes a democracia na ágora era presença, reciprocidade e deliberação, hoje se diz que a isegoria está “garantida” porque todos podem postar. Mas postar não é participar e participar não é ser considerado. Sobra solidão, a outra crise na saúde.
O paradoxo é simples: é fácil falar, mas difícil ser ouvido. A visibilidade é filtrada por sistemas que premiam choque e reatividade e punem ponderação. O direito à palavra vira disputa por alcance; debate vira desempenho; esfera pública vira excitação. Assim, a isegoria – que deveria proteger a pluralidade – vira “tirania da visibilidade”: todos falam, se expõem e ninguém sustenta escuta real. O efeito é ruído, desgaste mental, erosão de confiança e fadiga cívica.
Para um debate fértil e saudável, a esfera pública precisa funcionar como um espaço onde ideias são testadas sem medo de aniquilação simbólica e/ou real. D.W. Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, chamou isso de “espaço potencial”: zona que o sujeito pode brincar, testar, criar e revisar, sustentado por um “ambiente suficientemente bom”, favorecendo a saúde mental e a criatividade. Escolas, clubes, praças e vizinhanças, que antes ofereciam este amparo, tornaram-se “ambientes suficientemente hostis”.
Quando o ambiente é persecutório, brincar vira defesa; a criatividade se retrai e falar vira máscara. Se o digital gera medo de humilhação, linchamento ou cancelamento, muitos recuam para bolhas, personas/avatares e autocensura: perde-se empatia coletiva e ganha-se identitarismo; participar deixa de ser ato cívico e vira hostilidade predatória e risco reputacional. Quando este risco sobe, o debate empobrece: menos nuances, imaginação, coragem de revisar e maturidade para suportar tensão. No fim, sofremos, adoecemos e, pior, nos calamos, omissos.
O hiper estímulo e a exposição digital geram cansaço. O filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han, descreve como regime por desempenho produz sociedade superficial e fadigada, exposta a “vírus digitais” como intolerância, preconceito, infodemia e desinformação. Nas redes, o cidadão cansado fala para “existir” e reage para não desaparecer: compreende e decide menos e desaprende a relacionar-se. A isegoria vira exaustão: respostas automáticas, burnout cívico e corrosão da saúde mental coletiva. Sem pausa, escuta e regras de dissenso, a política perde a capacidade de transformar conflito em elaboração e a democracia passa a ser vivida como ameaça constante, não como construção comum.
É aqui que a parresía reaparece como antídoto, não somente como liberdade de expressão e direito passivo contra coerção, mas como virtude cívica: falar consequente, responsável, vinculada ao cidadão. Em A Coragem da Verdade, o filósofo francês Michel Foucault, interpreta a parresía como prática ética e de vida: o sujeito recusa duplicidade e faz da fala um compromisso com sua própria integridade. Em tempos de discursos calculados para agradar, de máscaras algorítmicas, perfis performáticos, isso ganha peso civilizatório e clínico.
Também a saúde mental depende da coerência entre pensar, sentir e comunicar. Quando a vida pública incentiva a encenação permanente, cresce a fragmentação psíquica e a incoerência: diz-se uma coisa, pensa-se outra, sente-se uma terceira. Predominam ressentimento e tendência ao adoecimento, o inverso do que A.Antonovsky, pesquisador israelense, descreveu ao estudar sobre a resiliência humana e a salutogênese, o que gera saúde e nos faz sobreviventes. Aqui a parresía nos aponta para a alteridade: uma imunidade social, afetiva e ética.
Todos dizem querer ordem, respeito e verdade. O problema é que, sem treino de fala e escuta, liberdade vira ruído que gera guerra moralista. Recuperar isegoria e parresía exige mais método e menos pressa, justamente o que a economia da atenção tenta eliminar. Aqui cinco propostas práticas para treinar isegoria e parresía nas nossas ágoras diárias e virtuais: Domine a reatividade (prudência): antes de reagir, pare e pergunte: “Entendi ou me ofendi?”. Garanta escuta (justiça): antes de discordar, resuma o que entendeu e peça confirmação: “É isso?” e só então responda. Separe pessoa de ideia (civilidade): discuta o ponto, a evidência e as consequências; envergonhe-se de xingamentos, insultos e humilhação. Fale sua verdade com responsabilidade (parresía): diga com clareza e segurança o que ocorreu, por que importa e o que propõe. Direito à retratação (força moral): crie espaços “suficientemente bons” para duvidar, revisar, desculpar e mudar de ideia, sem linchamento.
Treinar maturidade cívica é uma urgência sanitária. Evoluir ideias com base em fatos é sinal de caráter saudável. Sem isso, honestidade vira performance e participação, medo – e nada evolui. Se quisermos que a democracia sobreviva no século XXI, precisaremos formar cidadãos capazes de falar com clareza, ouvir com coerência, protegendo as condições psíquicas e educacionais que tornam isso possível, sobretudo para nossas crianças. Este é um outro movimento a ser definido na nova paideia.
O debate cresceu em volume e alcance, mas encolheu em qualidade e tolerância. A pergunta “o que as plataformas fizeram com a política?” é tímida: o que fizeram com a vida mental, o repertório cívico e a imaginação coletiva responsável? Por que tantas lideranças, políticas, organizacionais e familiares, parecem “surtar” aos olhos dos cidadãos, alimentando insegurança cívica?
Voltar à praça pública, à ágora de Atenas antiga, ajuda como laboratório de virtudes públicas, cívicas e políticas nas relações humanas. Ágora, “lugar de encontro”, era onde a população se reunia para ver e ser vista, falar e ouvir, concordar e divergir: a política na potência da palavra como arte do mundo comum. Quando esse lugar de encontro se perde – ou se torna instável, insano, opaco e reativo – o político transborda.
A questão contemporânea é que a infraestrutura do mundo migrou da presença – praça, sala de estar, clube e roda de conversa – para as telas. A ágora física foi substituída pela digital, mediada por algoritmos e incentivos de engajamento, a engenharia da visibilidade. O elemento decisivo também mudou: o discurso público depende menos de presença e virtudes e mais da captura da atenção e de recompensas rápidas. O algoritmo se aperfeiçoa, manipula mentes despreparadas e instrumentaliza lideranças que “escorregam” no limite entre a insanidade e “sua” interpretação de realidade, favorecendo o adoecimento coletivo.
Sem espaços públicos de deliberação, o “político” migra para onde há convivência real: casa, trabalho, escola, lazer, sem mediação ou treino. O que antes era metabolizado por instituições e rituais públicos recai sobre pais, líderes, educadores e cidadãos, sobrecarregando relações e desgastando confiança. Microambientes que deveriam ser mais assépticos em humores e mais harmônicos por função, viram arenas permanentes. O resultado: a esfera pública é empurrada para dentro dos espaços privados e organizacionais.
Aqui Atenas volta como laboratório: precisamos recuperar dois pilares do ideal da ágora democrática: isegoria e parresía.
Isegoria (isos, igual/ agoreuein, falar na ágora) é a igualdade no direito à fala pública: voz ouvida como condição de participação, não como favor e nem silenciada por hierarquia ou intimidação. Parresía (pan, tudo/rhema, dizer) é a honestidade pública: coragem ética de dizer o que precisa ser dito, assumindo riscos com compromisso com o verdadeiro e responsabilidade pelo que se, accountability.
Quando esses dois eixos se degradam, perdemos civilidade (do latim civis/civitas, cidadão e corpo cívico): o tecido de convivência pública que permite desacordos e evolução sem barbárie. Por isso, a crise do debate aproximou-se da clínica: ela impacta o que chamamos de sanidade (do latim sanus/sanitas): a integridade e o que salva a vida, nossa saúde. Sem um mundo comum praticável, a mente coletiva perde repouso, horizonte e imaginação, emergem ideologias e ficções e advém a crise mental e de identidade do mundo atual. The Acropolis in Athens, Greece.
E qual a justa medida do falar público? Em Ética a Nicômaco o filósofo grego Aristóteles, descreve dois desvios: a submedida (eiron), quando se dissimula e se diz “pela metade” e a sobremedida (alazon), quando se exagera, fanfarreia e dramatiza. Nem adulação ou desabafo, nem “sincericídio” nem verborragia. A virtude está no meio: a veracidade (aletheia), regulada pela prudência (phronesis): saber quando, como e quanto dizer a verdade ao outro e sustentá-la em público com franqueza responsável, a parresía. E estamos carentes dela: evitamos fricções, debates e quando surgem, não sabemos lidar, adoecemos, deprimimos e culpas são expiadas “no outro”.
E quando a isegoria adoece? Pelo excesso e seu efeito colateral. A visibilidade virou recurso escasso, distribuído por arquiteturas que maximizam engajamento e premiam reatividade emocional, simplificação e polarização. Se antes a democracia na ágora era presença, reciprocidade e deliberação, hoje se diz que a isegoria está “garantida” porque todos podem postar. Mas postar não é participar e participar não é ser considerado. Sobra solidão, a outra crise na saúde.
O paradoxo é simples: é fácil falar, mas difícil ser ouvido. A visibilidade é filtrada por sistemas que premiam choque e reatividade e punem ponderação. O direito à palavra vira disputa por alcance; debate vira desempenho; esfera pública vira excitação. Assim, a isegoria – que deveria proteger a pluralidade – vira “tirania da visibilidade”: todos falam, se expõem e ninguém sustenta escuta real. O efeito é ruído, desgaste mental, erosão de confiança e fadiga cívica.
Para um debate fértil e saudável, a esfera pública precisa funcionar como um espaço onde ideias são testadas sem medo de aniquilação simbólica e/ou real. D.W. Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, chamou isso de “espaço potencial”: zona que o sujeito pode brincar, testar, criar e revisar, sustentado por um “ambiente suficientemente bom”, favorecendo a saúde mental e a criatividade. Escolas, clubes, praças e vizinhanças, que antes ofereciam este amparo, tornaram-se “ambientes suficientemente hostis”.
Quando o ambiente é persecutório, brincar vira defesa; a criatividade se retrai e falar vira máscara. Se o digital gera medo de humilhação, linchamento ou cancelamento, muitos recuam para bolhas, personas/avatares e autocensura: perde-se empatia coletiva e ganha-se identitarismo; participar deixa de ser ato cívico e vira hostilidade predatória e risco reputacional. Quando este risco sobe, o debate empobrece: menos nuances, imaginação, coragem de revisar e maturidade para suportar tensão. No fim, sofremos, adoecemos e, pior, nos calamos, omissos.
O hiper estímulo e a exposição digital geram cansaço. O filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han, descreve como regime por desempenho produz sociedade superficial e fadigada, exposta a “vírus digitais” como intolerância, preconceito, infodemia e desinformação. Nas redes, o cidadão cansado fala para “existir” e reage para não desaparecer: compreende e decide menos e desaprende a relacionar-se. A isegoria vira exaustão: respostas automáticas, burnout cívico e corrosão da saúde mental coletiva. Sem pausa, escuta e regras de dissenso, a política perde a capacidade de transformar conflito em elaboração e a democracia passa a ser vivida como ameaça constante, não como construção comum.
É aqui que a parresía reaparece como antídoto, não somente como liberdade de expressão e direito passivo contra coerção, mas como virtude cívica: falar consequente, responsável, vinculada ao cidadão. Em A Coragem da Verdade, o filósofo francês Michel Foucault, interpreta a parresía como prática ética e de vida: o sujeito recusa duplicidade e faz da fala um compromisso com sua própria integridade. Em tempos de discursos calculados para agradar, de máscaras algorítmicas, perfis performáticos, isso ganha peso civilizatório e clínico.
Também a saúde mental depende da coerência entre pensar, sentir e comunicar. Quando a vida pública incentiva a encenação permanente, cresce a fragmentação psíquica e a incoerência: diz-se uma coisa, pensa-se outra, sente-se uma terceira. Predominam ressentimento e tendência ao adoecimento, o inverso do que A.Antonovsky, pesquisador israelense, descreveu ao estudar sobre a resiliência humana e a salutogênese, o que gera saúde e nos faz sobreviventes. Aqui a parresía nos aponta para a alteridade: uma imunidade social, afetiva e ética.
Todos dizem querer ordem, respeito e verdade. O problema é que, sem treino de fala e escuta, liberdade vira ruído que gera guerra moralista. Recuperar isegoria e parresía exige mais método e menos pressa, justamente o que a economia da atenção tenta eliminar. Aqui cinco propostas práticas para treinar isegoria e parresía nas nossas ágoras diárias e virtuais: Domine a reatividade (prudência): antes de reagir, pare e pergunte: “Entendi ou me ofendi?”. Garanta escuta (justiça): antes de discordar, resuma o que entendeu e peça confirmação: “É isso?” e só então responda. Separe pessoa de ideia (civilidade): discuta o ponto, a evidência e as consequências; envergonhe-se de xingamentos, insultos e humilhação. Fale sua verdade com responsabilidade (parresía): diga com clareza e segurança o que ocorreu, por que importa e o que propõe. Direito à retratação (força moral): crie espaços “suficientemente bons” para duvidar, revisar, desculpar e mudar de ideia, sem linchamento.
Treinar maturidade cívica é uma urgência sanitária. Evoluir ideias com base em fatos é sinal de caráter saudável. Sem isso, honestidade vira performance e participação, medo – e nada evolui. Se quisermos que a democracia sobreviva no século XXI, precisaremos formar cidadãos capazes de falar com clareza, ouvir com coerência, protegendo as condições psíquicas e educacionais que tornam isso possível, sobretudo para nossas crianças. Este é um outro movimento a ser definido na nova paideia.
O jornalismo que ignora ou distorce os fatos é tudo, menos jornalismo
Há quase 60 anos no batente, aprendi que o editorial expressa a posição oficial de um veículo de comunicação sobre temas relevantes e atuais, sem assinatura individual.
Caracteriza-se por argumentação consistente, linguagem formal e impessoal, servindo para influenciar o público e definir a linha editorial da instituição.
A página dos editoriais abria espaço para artigos de opinião assinados por nomes de peso nas letras e no espectro político, desde que não radicalmente discrepantes das do jornal.
Aos poucos, no embalo das idas e vindas da democracia, a página dos editoriais passou a abrigar artigos que contradiziam em muitos aspectos a opinião do próprio jornal. Foi um avanço.
Aprendi com o tempo que não era, e que não é bem assim. A opinião do dono do veículo se impõe também na hora de se escolher o que se publica, e no destaque que se dá aos fatos.
A grande mídia, por exemplo, não gosta de Lula, jamais gostou ou gostará faça ele o que for. Mas gosta de Tarcísio de Freitas e não disfarça sua irritação por vê-lo fora da sucessão presidencial.
Então, protege Tarcísio na medida do possível, e hostiliza Lula com assiduidade.
Leio em títulos: “Desfile sobre Lula abre brecha para condenação por ilícito eleitoral, dizem especialistas”. Ao ler a notícia, vejo que os ditos especialistas se dividem quanto ao assunto.
Como os leitores, cada vez mais, se limitam a ler títulos, e nas redes sociais só se interessam por vídeos curtos, o que está no título vira verdade. Desenforma-se a pretexto de informar.
A chacina de 122 pessoas no Complexo do Alemão, no Rio, foi tratada pela mídia como uma “megaoperação” policial contra o crime organizado, e não como chacina ou massacre, o que é crime.
Por que foi assim? Para não se indispor com a opinião pública que apoiou a matança por achar que bandido bom é bandido morto? Ou por que compartilha da mesma opinião?
Antigamente, os jornalistas detestavam a interferência dos leitores no seu ofício, um erro. Hoje, a valorizam em excesso. Querem likes. Renderam-se à ditadura dos algoritmos. É mais cômodo.
O Hamas, que governou Gaza e invadiu Israel, é chamado de grupo terrorista pela grande mídia. Mas o revide desproporcional de Israel nunca foi chamado de terrorismo de Estado, o que é.
Lula taxou de genocídio a morte em Gaza de mais de 70 mil palestinos, a maioria mulheres e crianças. Israel segue os matando por lá. Por aqui, o mundo desabou sobre a cabeça de Lula.
Se aqui o jornalismo não vive ameaçado por Lula, nos Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, ocorre justamente o oposto. No berço da democracia, ele está sendo sufocado.
Não foi por encomenda, não há provas, que a escola Acadêmico de Niterói exaltou Lula na avenida. Por mais que se busque provas com lupa, nenhuma foi encontrada de que Lula violou as leis.
Mas deseja-se condená-lo a qualquer preço para enfraquecê-lo e – quem sabe? – derrotá-lo nas próximas eleições.
Qualquer um de nós é livre, e deve ser, para ter sua opinião. Eu tenho as minhas e as exponho às críticas. Mas o jornalismo que ignora fatos ou que os distorce não é jornalismo digno desse nome.
É outra coisa. Um negócio como outro qualquer.
Caracteriza-se por argumentação consistente, linguagem formal e impessoal, servindo para influenciar o público e definir a linha editorial da instituição.
A página dos editoriais abria espaço para artigos de opinião assinados por nomes de peso nas letras e no espectro político, desde que não radicalmente discrepantes das do jornal.
Aos poucos, no embalo das idas e vindas da democracia, a página dos editoriais passou a abrigar artigos que contradiziam em muitos aspectos a opinião do próprio jornal. Foi um avanço.
Aprendi com o tempo que não era, e que não é bem assim. A opinião do dono do veículo se impõe também na hora de se escolher o que se publica, e no destaque que se dá aos fatos.
A grande mídia, por exemplo, não gosta de Lula, jamais gostou ou gostará faça ele o que for. Mas gosta de Tarcísio de Freitas e não disfarça sua irritação por vê-lo fora da sucessão presidencial.
Então, protege Tarcísio na medida do possível, e hostiliza Lula com assiduidade.
Leio em títulos: “Desfile sobre Lula abre brecha para condenação por ilícito eleitoral, dizem especialistas”. Ao ler a notícia, vejo que os ditos especialistas se dividem quanto ao assunto.
Como os leitores, cada vez mais, se limitam a ler títulos, e nas redes sociais só se interessam por vídeos curtos, o que está no título vira verdade. Desenforma-se a pretexto de informar.
A chacina de 122 pessoas no Complexo do Alemão, no Rio, foi tratada pela mídia como uma “megaoperação” policial contra o crime organizado, e não como chacina ou massacre, o que é crime.
Por que foi assim? Para não se indispor com a opinião pública que apoiou a matança por achar que bandido bom é bandido morto? Ou por que compartilha da mesma opinião?
Antigamente, os jornalistas detestavam a interferência dos leitores no seu ofício, um erro. Hoje, a valorizam em excesso. Querem likes. Renderam-se à ditadura dos algoritmos. É mais cômodo.
O Hamas, que governou Gaza e invadiu Israel, é chamado de grupo terrorista pela grande mídia. Mas o revide desproporcional de Israel nunca foi chamado de terrorismo de Estado, o que é.
Lula taxou de genocídio a morte em Gaza de mais de 70 mil palestinos, a maioria mulheres e crianças. Israel segue os matando por lá. Por aqui, o mundo desabou sobre a cabeça de Lula.
Se aqui o jornalismo não vive ameaçado por Lula, nos Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, ocorre justamente o oposto. No berço da democracia, ele está sendo sufocado.
Não foi por encomenda, não há provas, que a escola Acadêmico de Niterói exaltou Lula na avenida. Por mais que se busque provas com lupa, nenhuma foi encontrada de que Lula violou as leis.
Mas deseja-se condená-lo a qualquer preço para enfraquecê-lo e – quem sabe? – derrotá-lo nas próximas eleições.
Qualquer um de nós é livre, e deve ser, para ter sua opinião. Eu tenho as minhas e as exponho às críticas. Mas o jornalismo que ignora fatos ou que os distorce não é jornalismo digno desse nome.
É outra coisa. Um negócio como outro qualquer.
Trump preencheu o que faltava para ser considerado fascista
Uma coluna no jornal The New York Times, de autoria de Michelle Goldberg, faz uma admissão importante: a de que estiveram certos aqueles que durante todos estes anos defenderam a tese de que Donald Trump representa um tipo de fascismo do século 21.
O argumento, que pode ser estendido a muitos dos aliados e imitadores de Trump, repousa no fato de que os críticos da tese foram sempre argumentando que faltavam dois elementos essenciais para poder considerar Trump fascista: a existência de uma milícia violenta e a emergência de uma retórica internacional agressiva expansionista.
Com o ICE, corpo policial militarizado que persegue minorias e impõe o medo à oposição, matando e prendendo sem culpa formada, e com o seu ataque à Venezuela e os seus discursos sobre a anexação da Groenlândia e até do Canadá, Trump preencheu os requisitos que lhe faltavam para poder ser considerado fascista.
Na verdade, o debate já poderia ter ficado encerrado antes, quando os trumpistas tentaram invadir o Capitólio. Depois desses acontecimentos, o historiador Robert Paxton, um dos maiores especialistas mundiais na história do fascismo, e até então circunspecto na utilização do termo, mudou de ideia.
Para resumir, chegamos ao ponto em que negar que Trump seja fascista cria mais problemas do que resolve, e em que entender o que significa um fenômeno fascista de tipo novo no nosso século esclarece mais do que atrapalha a análise.
Mas se escrevo sobre esse assunto não é pelo prazer de resolver uma disputa intelectual. O que é uma raridade. Como dizia Zygmunt Baumann, normalmente os cientistas sociais não resolvem problemas: aborrecem-se e passam ao problema seguinte. Mais importante do que isso é olhar mais longe e ver a que pistas nos pode levar a realidade do segundo mandato de Donald Trump.
Como defensor há longa data da tese de que estamos perante um fascismo do século 21, pela primeira vez vejo-me a observar o trumpismo e a pensar que posso ter errado por defeito, não por excesso. A mutação tem sido demasiado rápida, demasiado brutal, demasiado bizarra. Por isso, recentemente, dei por mim a pensar: e se a pulsão de Trump for totalitária, não apenas autoritária?
Faz alguma diferença? Acho que sim, e que é enorme. Um modelo mental autoritário é repressivo e força a população à concordância ou pelo menos à obediência, mas é previsível e estável. Se a pulsão de Trump for totalitária, o que é verdade hoje de manhã pode ser mentira amanhã à noite, ou até mesmo hoje ao fim da manhã, e em cada vez tem de ser defendido com a mesma veemência. A experiência é muito mais desestruturante.
Pensemos assim. Para o autoritarismo, a verdade imposta pode ser que 2+2=5. Está errado, mas toda a gente sabe o que dizer em público para se conformar com o regime. Mas num modelo mental totalitário 2+2 pode 3 ou 5 ou 7. Ninguém sabe. A resposta pode variar de acordo com os humores do homem forte.
Os EUA ainda não são um regime totalitário. Mas a pulsão de Trump é totalitária. Se acham que isso não tem consequência para o mundo, perguntem aos groenlandeses.
O argumento, que pode ser estendido a muitos dos aliados e imitadores de Trump, repousa no fato de que os críticos da tese foram sempre argumentando que faltavam dois elementos essenciais para poder considerar Trump fascista: a existência de uma milícia violenta e a emergência de uma retórica internacional agressiva expansionista.
Com o ICE, corpo policial militarizado que persegue minorias e impõe o medo à oposição, matando e prendendo sem culpa formada, e com o seu ataque à Venezuela e os seus discursos sobre a anexação da Groenlândia e até do Canadá, Trump preencheu os requisitos que lhe faltavam para poder ser considerado fascista.
Na verdade, o debate já poderia ter ficado encerrado antes, quando os trumpistas tentaram invadir o Capitólio. Depois desses acontecimentos, o historiador Robert Paxton, um dos maiores especialistas mundiais na história do fascismo, e até então circunspecto na utilização do termo, mudou de ideia.
Para resumir, chegamos ao ponto em que negar que Trump seja fascista cria mais problemas do que resolve, e em que entender o que significa um fenômeno fascista de tipo novo no nosso século esclarece mais do que atrapalha a análise.
Mas se escrevo sobre esse assunto não é pelo prazer de resolver uma disputa intelectual. O que é uma raridade. Como dizia Zygmunt Baumann, normalmente os cientistas sociais não resolvem problemas: aborrecem-se e passam ao problema seguinte. Mais importante do que isso é olhar mais longe e ver a que pistas nos pode levar a realidade do segundo mandato de Donald Trump.
Como defensor há longa data da tese de que estamos perante um fascismo do século 21, pela primeira vez vejo-me a observar o trumpismo e a pensar que posso ter errado por defeito, não por excesso. A mutação tem sido demasiado rápida, demasiado brutal, demasiado bizarra. Por isso, recentemente, dei por mim a pensar: e se a pulsão de Trump for totalitária, não apenas autoritária?
Faz alguma diferença? Acho que sim, e que é enorme. Um modelo mental autoritário é repressivo e força a população à concordância ou pelo menos à obediência, mas é previsível e estável. Se a pulsão de Trump for totalitária, o que é verdade hoje de manhã pode ser mentira amanhã à noite, ou até mesmo hoje ao fim da manhã, e em cada vez tem de ser defendido com a mesma veemência. A experiência é muito mais desestruturante.
Pensemos assim. Para o autoritarismo, a verdade imposta pode ser que 2+2=5. Está errado, mas toda a gente sabe o que dizer em público para se conformar com o regime. Mas num modelo mental totalitário 2+2 pode 3 ou 5 ou 7. Ninguém sabe. A resposta pode variar de acordo com os humores do homem forte.
Os EUA ainda não são um regime totalitário. Mas a pulsão de Trump é totalitária. Se acham que isso não tem consequência para o mundo, perguntem aos groenlandeses.
domingo, 15 de fevereiro de 2026
É a economia, estúpido!
Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegamos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espetáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica.
José Saramago
José Saramago
O futuro do mercado passa pelo mercado do futuro
Não basta adotar novas tecnologias. O mercado do futuro vai se reinventar, para superar a virada geopolítica e climática galopante (ou sobreviver a ela). A coisa mudou tanto que exigirá noções de “aversão ao risco” e de “taxa de retorno” mais realistas. O futuro do mercado passa pela atual desconstrução dos mecanismos transnacionais de negócios que se estabeleceram a partir dos anos 1950. Afinal, a Ordem Mundial que emergiu do fim da II Guerra Mundial dependia de certo equilíbrio político e econômico em um novo capitalismo marcado pela bipolarização geopolítica, que parece se fragmentar.
A bem da verdade, as grandes guerras do século XX alcançaram uma escala industrial que exigiu o desenvolvimento acelerado de ferramentas e conhecimentos em logística, novos materiais, fontes de energia, medicina, alimentos, comunicações, processamento de dados e finanças, para citar apenas alguns vetores da redefinição radical do mundo dos negócios – um caso literal de “destruição criadora”. As cadeias de suprimentos, produção, comercialização e transportes assumiram escala mundial, com transações financeiras e comunicações em tempo real. Qualquer pessoa pode obter qualquer produto de qualquer lugar do mundo (desde que tenha dinheiro ou crédito, é claro). Uma globalização sustentada em dois pilares: O medo da ameaça nuclear e o multilateralismo. Tempos de guerra fria e mercado aquecido. E quando o muro de Berlim caiu soterrou as fronteiras mercantis restantes, que ainda mantinham uns 2 bilhões de consumidores da União Soviética e da China fora do jogo.
Agora esse angu desandou. Ucrânia e Gaza, somadas à volta teatral da águia americana, expõem fraturas na geopolítica envelhecida. Alianças como a OTAN, ONU, OCDE e G7 sofrem fadiga de material, carecendo repaginar os pactos originais, ou mesmo a rearrumação dos blocos. Acontece que na base do mundo moderno está o mercado. Há séculos as sociedades evoluem em função das suas necessidades crescentes e das soluções produtivas decorrentes. O aumento da população e da complexidade social levou a uma sedentarização da oferta (agricultura, pecuária, mineração, moradia, trocas etc.) e ao surgimento do Estado, como na Mesopotâmia há uns quatro mil anos.
A coisa se sofisticou na Grécia e Roma para, em seguida, tomar nova forma com o cristianismo e o islamismo costurando o ocidente e oriente. Contudo, os negócios ganharam escala planetária pra valer com as navegações e as colônias no Novo Mundo, apoiadas nas Monarquias Nacionais europeias. Democracia mesmo só veio com a revolução industrial (direitos trabalhistas, bancos, tecnologias e… o aquecimento global). Agora se fala em desglobalizar, no rastro das mudanças climáticas, nacionalismo, retrocessos políticos, descarbonização. Tudo que era sólido desmanchou no ar.
Ainda é difícil definir se quem puxa o trem da história é o povo, o Estado ou o mercado. Se for o mercado, quais setores darão o rumo daqui pra frente: o agro, as terras raras, os bancos, o comércio ou as big techs? E se for o Estado, a locomotiva será o governo, o parlamento ou o aparato de defesa e segurança? Se for a sociedade, quais serão suas novas formas de organização e influência? A resposta passa pela revisão dos parâmetros de risco e de retorno dos investimentos para o mercado do futuro, com efeito direto sobre o trabalho e o consumo, assim como sobre as políticas regulatórias, os instrumentos de fomento e a destinação do gasto público. Segundo os coreanos, “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”.
A bem da verdade, as grandes guerras do século XX alcançaram uma escala industrial que exigiu o desenvolvimento acelerado de ferramentas e conhecimentos em logística, novos materiais, fontes de energia, medicina, alimentos, comunicações, processamento de dados e finanças, para citar apenas alguns vetores da redefinição radical do mundo dos negócios – um caso literal de “destruição criadora”. As cadeias de suprimentos, produção, comercialização e transportes assumiram escala mundial, com transações financeiras e comunicações em tempo real. Qualquer pessoa pode obter qualquer produto de qualquer lugar do mundo (desde que tenha dinheiro ou crédito, é claro). Uma globalização sustentada em dois pilares: O medo da ameaça nuclear e o multilateralismo. Tempos de guerra fria e mercado aquecido. E quando o muro de Berlim caiu soterrou as fronteiras mercantis restantes, que ainda mantinham uns 2 bilhões de consumidores da União Soviética e da China fora do jogo.
Agora esse angu desandou. Ucrânia e Gaza, somadas à volta teatral da águia americana, expõem fraturas na geopolítica envelhecida. Alianças como a OTAN, ONU, OCDE e G7 sofrem fadiga de material, carecendo repaginar os pactos originais, ou mesmo a rearrumação dos blocos. Acontece que na base do mundo moderno está o mercado. Há séculos as sociedades evoluem em função das suas necessidades crescentes e das soluções produtivas decorrentes. O aumento da população e da complexidade social levou a uma sedentarização da oferta (agricultura, pecuária, mineração, moradia, trocas etc.) e ao surgimento do Estado, como na Mesopotâmia há uns quatro mil anos.
A coisa se sofisticou na Grécia e Roma para, em seguida, tomar nova forma com o cristianismo e o islamismo costurando o ocidente e oriente. Contudo, os negócios ganharam escala planetária pra valer com as navegações e as colônias no Novo Mundo, apoiadas nas Monarquias Nacionais europeias. Democracia mesmo só veio com a revolução industrial (direitos trabalhistas, bancos, tecnologias e… o aquecimento global). Agora se fala em desglobalizar, no rastro das mudanças climáticas, nacionalismo, retrocessos políticos, descarbonização. Tudo que era sólido desmanchou no ar.
Ainda é difícil definir se quem puxa o trem da história é o povo, o Estado ou o mercado. Se for o mercado, quais setores darão o rumo daqui pra frente: o agro, as terras raras, os bancos, o comércio ou as big techs? E se for o Estado, a locomotiva será o governo, o parlamento ou o aparato de defesa e segurança? Se for a sociedade, quais serão suas novas formas de organização e influência? A resposta passa pela revisão dos parâmetros de risco e de retorno dos investimentos para o mercado do futuro, com efeito direto sobre o trabalho e o consumo, assim como sobre as políticas regulatórias, os instrumentos de fomento e a destinação do gasto público. Segundo os coreanos, “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”.
Uma agenda positiva para a democracia
Os defensores da democracia começaram 2026 com uma grande vitória: a eleição de Antonio Sérgio Seguro em Portugal, que bateu o candidato da extrema direita. Estabeleceu-se o que muitos chamam de cordão sanitário contra os antidemocratas, algo essencial quando há o risco da vitória de autoritários - no caso português, de um partido como o Chega, cujo racismo explícito atinge nossos compatriotas que moram por lá.
Depois do alívio e da comemoração, vem o aviso: ancorar-se numa estratégia apenas defensiva dos regimes democráticos é muito arriscado. Para sair desta quadra obscurantista da história, será preciso construir uma agenda positiva para a democracia, num processo que demandará mais tempo que o curto prazo de uma eleição. Isso vale para Portugal, para os Estados Unidos ou para o Brasil.
A necessidade de uma agenda positiva não significa que os instrumentos defensivos devam ser ignorados ou aposentados. A reação a governantes de extrema direita e a partidos de extrema direita aspirantes ao poder continuará exigindo métodos reativos dos democratas.
De um lado, porque a luta contra o ideário autoritário do século XXI dependerá, antes de mais nada, de resistência. Se os Estados Unidos tivessem punido os golpistas do dia 6 de janeiro de 2020, hoje estariam numa situação democrática melhor. Trata-se de um conflito político no qual não se pode acreditar que os políticos extremistas vão seguir plenamente as regras do jogo - ou ficar nas quatro linhas da Constituição. Isso seria ingenuidade, no mínimo.
O modelo reativo, por outro lado, também tem um potencial de buscar o que pode ir além da mera defesa, abrindo as portas para a valorização das instituições e ideais democráticos. Isso fica mais claro ao se analisar os três tipos de resistência às forças antidemocráticas que têm sido utilizados: a vitória eleitoral, o uso das instituições como proteção contra a extrema direita e a mobilização social, tomada como resistência e construção de novas formas de comunicação política.
No caso dos processos eleitorais, o discurso contra os partidos e políticos antidemocráticos tem de se transformar em votos, especialmente seguindo a lógica de convencer os independentes e os não engajados na disputada polarizada. Foi o que ocorreu em Portugal, é o que tem acontecido na França e também foi essa a linha do segundo turno presidencial no Brasil em 2022. Grandes coalizões contra a extrema direita autoritária têm se formado em muitos países, por enquanto com mais sucesso do que fracasso. Mas os eleitores descontentes com a democracia continuam lá, geralmente à espera de lideranças populistas antidemocráticas. Ou seja, o monstro não foi derrotado.
O uso de instituições políticas para evitar o autoritarismo de governantes, sejam formadas por representantes eleitos como o Legislativo, sejam compostas por membros não eleitos como o Judiciário, é o segundo tipo de resistência democrática. Nem sempre o mandatário tem maioria parlamentar e parte de seu limite será dado por outros políticos. Se os democratas ganharem a eleição congressual de meio de mandato nos Estados Unidos, Trump perderá parte de seu vigor autoritário.
Além disso, promotores e juízes, responsáveis por garantir direitos dos cidadãos que não podem ser restringidos por uma maioria eleitoral momentânea, têm sido muito ativos em alguns lugares como contrapesos a autocratas e/ou a projetos de autocracias golpistas. O caso brasileiro é paradigmático: sem a ação do STF, particularmente do ministro Alexandre de Moraes, teria sido muito difícil escapar do golpe bolsonarista.
A estratégia de usar o arcabouço institucional como mecanismo de resistência é parte integrante do pacote que compõe o regime democrático; porém, num contexto de contestação da democracia, tal ferramenta não será suficiente ao longo do tempo. Mais do que isso: tais instituições precisam de legitimidade social para que não se estabeleça o argumento de que alguém com grande clamor popular, ou eleito pelo povo, possa ser barrado por quem não tem o mesmo suporte.
A disputa entre o voto e as instituições contramajoritárias, vale ressaltar, é um dos grandes temas da reflexão democrática. Depois dos totalitarismos ocidentais, a ciência política do pós-guerra reforçou a necessidade de a democracia proteger-se de maiorias de ocasião para evitar quebras autoritárias do regime. Entretanto, também é fundamental construir a legitimidade institucional de quem arbitra a disputa política - em outras palavras, a crença de que as instituições não têm credibilidade suficiente, ou mesmo subvertem a vontade popular, é um grande risco à democracia contemporânea.
O último tipo de resistência às tendências antidemocráticas atuais diz respeito à mobilização da sociedade. Ela pode ser feita cotidianamente por organizações permanentes, como a universidade, a imprensa e várias formas de associativismo, ou então por manifestações de rua, geralmente organizadas contra algum evento que atinge os direitos da população. É o que está acontecendo em boa parte dos EUA como reação à ação troglodita e autoritária do ICE, agência federal americana que foi comparada à Gestapo nazista por um dos mais influentes apoiadores de Trump, o midiático Joe Rogan.
Resistências antidemocráticas que apenas mobilizem e sensibilizem os que já são claramente adversários dos extremistas têm força bem menor do que os movimentos que chegam a outros grupos, gerando apoio inclusive em parcela dos que apoiaram os governantes ou partidos autoritários. Isso significa que o caminho mais bem-sucedido da resistência civil vai além da metáfora do cordão de proteção. A esse papel deve ser acrescentado o de encontrar as questões que afetam a todos na vida cotidiana, no mundo que vai além da disputa política partidária, gerando novas formas de comunicação e convencimento.
Analisando o conjunto de resistências às forças antidemocráticas do mundo, constata-se que o vetor defensivo é fundamental e predominante, mas é preciso avançar para uma agenda positiva, capaz de revitalizar a democracia e conversar com os problemas de diversos grupos sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e suas instituições.
A construção da agenda positiva passa, primeiramente, pelo reforço de valores democráticos que, por vezes, os próprios democratas têm enfatizado menos ao entrarem no jogo de soma zero em que se transformou a política polarizadora comandada pela extrema direita. Um dos principais elementos aqui é a aposta no pluralismo e no diálogo com os diferentes. Critica-se corretamente o comportamento de manada das forças antidemocráticas, com suas lideranças tendo uma capacidade enorme de dominar autoritariamente seu eleitorado, mas também se deve lembrar que setores centristas liberais e de centro-esquerda ou esquerda agarraram-se demasiadamente em suas certezas e são incapazes de adaptar suas propostas e argumentos às angústias de parcelas crescentes do eleitorado.
Não seria possível defender a globalização ou o combate às desigualdades conversando com quem desconfia dessas agendas (ou pelo menos de seus defensores)? Muitos querem a riqueza e as transformações tecnológicas presentes no ideário mais liberal, mas creem que deveriam ter maior participação nesse bolo. Outra grande parcela não é necessariamente racista e tem preocupações sociais, contudo pensa que eles igualmente deveriam estar na lista dos que devem ser defendidos por não terem a ascensão social almejada.
A revitalização democrática presente no debate e mobilização social tem de chegar à política para aumentar sua potência contra os antidemocratas. Do ponto de vista institucional, três tarefas são inescapáveis. A primeira é ressaltar mais as políticas públicas que mudam a vida de muitas pessoas, inclusive de muitas que estão descontentes com a democracia. Aqui, há um problema comunicacional grave, uma disputa de narrativas na qual ações governamentais bem-sucedidas não aparecem enquanto tais para os corações e mentes de muita gente.
Parte da dificuldade de realçar as qualidades da democracia e da efetividade de muitas de suas políticas públicas reside em vícios dos políticos, da alta burocracia e das elites de maneira geral, que são vistos como distantes e privilegiados frente a boa parcela da população. Esse segundo ponto é fundamental porque, para lembrar o filósofo americano Michael Sandel, vai exigir sentimento comunitarista das lideranças e grupos que comandam a sociedade. Os descontentes não se sentem participantes do jogo democrático e vinculam os governantes e setores influentes a uma casta que sequestrou o bem comum. Sem dúvida, há mitos aqui, mas também muitas verdades sobre um fosso social enorme que foi ignorado pelos “donos do poder” nas últimas décadas.
A descoberta de pautas populares que não estão sendo atendidas pelas instituições democráticas atuais é a tarefa de fundo mais relevante aos que querem defender a democracia para além das vitórias eleitorais. Infelizmente, nesse campo a extrema direita está na frente, mesmo que seja com base em mentiras e demagogia. Para garantirmos a longevidade dos regimes democráticos, precisamos conversar e entender mais os descontentes, superando preconceitos para gerar uma nova agenda pública, que realce o quão positiva pode ser a democracia.
Depois do alívio e da comemoração, vem o aviso: ancorar-se numa estratégia apenas defensiva dos regimes democráticos é muito arriscado. Para sair desta quadra obscurantista da história, será preciso construir uma agenda positiva para a democracia, num processo que demandará mais tempo que o curto prazo de uma eleição. Isso vale para Portugal, para os Estados Unidos ou para o Brasil.
A necessidade de uma agenda positiva não significa que os instrumentos defensivos devam ser ignorados ou aposentados. A reação a governantes de extrema direita e a partidos de extrema direita aspirantes ao poder continuará exigindo métodos reativos dos democratas.
De um lado, porque a luta contra o ideário autoritário do século XXI dependerá, antes de mais nada, de resistência. Se os Estados Unidos tivessem punido os golpistas do dia 6 de janeiro de 2020, hoje estariam numa situação democrática melhor. Trata-se de um conflito político no qual não se pode acreditar que os políticos extremistas vão seguir plenamente as regras do jogo - ou ficar nas quatro linhas da Constituição. Isso seria ingenuidade, no mínimo.
O modelo reativo, por outro lado, também tem um potencial de buscar o que pode ir além da mera defesa, abrindo as portas para a valorização das instituições e ideais democráticos. Isso fica mais claro ao se analisar os três tipos de resistência às forças antidemocráticas que têm sido utilizados: a vitória eleitoral, o uso das instituições como proteção contra a extrema direita e a mobilização social, tomada como resistência e construção de novas formas de comunicação política.
No caso dos processos eleitorais, o discurso contra os partidos e políticos antidemocráticos tem de se transformar em votos, especialmente seguindo a lógica de convencer os independentes e os não engajados na disputada polarizada. Foi o que ocorreu em Portugal, é o que tem acontecido na França e também foi essa a linha do segundo turno presidencial no Brasil em 2022. Grandes coalizões contra a extrema direita autoritária têm se formado em muitos países, por enquanto com mais sucesso do que fracasso. Mas os eleitores descontentes com a democracia continuam lá, geralmente à espera de lideranças populistas antidemocráticas. Ou seja, o monstro não foi derrotado.
O uso de instituições políticas para evitar o autoritarismo de governantes, sejam formadas por representantes eleitos como o Legislativo, sejam compostas por membros não eleitos como o Judiciário, é o segundo tipo de resistência democrática. Nem sempre o mandatário tem maioria parlamentar e parte de seu limite será dado por outros políticos. Se os democratas ganharem a eleição congressual de meio de mandato nos Estados Unidos, Trump perderá parte de seu vigor autoritário.
Além disso, promotores e juízes, responsáveis por garantir direitos dos cidadãos que não podem ser restringidos por uma maioria eleitoral momentânea, têm sido muito ativos em alguns lugares como contrapesos a autocratas e/ou a projetos de autocracias golpistas. O caso brasileiro é paradigmático: sem a ação do STF, particularmente do ministro Alexandre de Moraes, teria sido muito difícil escapar do golpe bolsonarista.
A estratégia de usar o arcabouço institucional como mecanismo de resistência é parte integrante do pacote que compõe o regime democrático; porém, num contexto de contestação da democracia, tal ferramenta não será suficiente ao longo do tempo. Mais do que isso: tais instituições precisam de legitimidade social para que não se estabeleça o argumento de que alguém com grande clamor popular, ou eleito pelo povo, possa ser barrado por quem não tem o mesmo suporte.
A disputa entre o voto e as instituições contramajoritárias, vale ressaltar, é um dos grandes temas da reflexão democrática. Depois dos totalitarismos ocidentais, a ciência política do pós-guerra reforçou a necessidade de a democracia proteger-se de maiorias de ocasião para evitar quebras autoritárias do regime. Entretanto, também é fundamental construir a legitimidade institucional de quem arbitra a disputa política - em outras palavras, a crença de que as instituições não têm credibilidade suficiente, ou mesmo subvertem a vontade popular, é um grande risco à democracia contemporânea.
O último tipo de resistência às tendências antidemocráticas atuais diz respeito à mobilização da sociedade. Ela pode ser feita cotidianamente por organizações permanentes, como a universidade, a imprensa e várias formas de associativismo, ou então por manifestações de rua, geralmente organizadas contra algum evento que atinge os direitos da população. É o que está acontecendo em boa parte dos EUA como reação à ação troglodita e autoritária do ICE, agência federal americana que foi comparada à Gestapo nazista por um dos mais influentes apoiadores de Trump, o midiático Joe Rogan.
Resistências antidemocráticas que apenas mobilizem e sensibilizem os que já são claramente adversários dos extremistas têm força bem menor do que os movimentos que chegam a outros grupos, gerando apoio inclusive em parcela dos que apoiaram os governantes ou partidos autoritários. Isso significa que o caminho mais bem-sucedido da resistência civil vai além da metáfora do cordão de proteção. A esse papel deve ser acrescentado o de encontrar as questões que afetam a todos na vida cotidiana, no mundo que vai além da disputa política partidária, gerando novas formas de comunicação e convencimento.
Analisando o conjunto de resistências às forças antidemocráticas do mundo, constata-se que o vetor defensivo é fundamental e predominante, mas é preciso avançar para uma agenda positiva, capaz de revitalizar a democracia e conversar com os problemas de diversos grupos sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e suas instituições.
A construção da agenda positiva passa, primeiramente, pelo reforço de valores democráticos que, por vezes, os próprios democratas têm enfatizado menos ao entrarem no jogo de soma zero em que se transformou a política polarizadora comandada pela extrema direita. Um dos principais elementos aqui é a aposta no pluralismo e no diálogo com os diferentes. Critica-se corretamente o comportamento de manada das forças antidemocráticas, com suas lideranças tendo uma capacidade enorme de dominar autoritariamente seu eleitorado, mas também se deve lembrar que setores centristas liberais e de centro-esquerda ou esquerda agarraram-se demasiadamente em suas certezas e são incapazes de adaptar suas propostas e argumentos às angústias de parcelas crescentes do eleitorado.
Não seria possível defender a globalização ou o combate às desigualdades conversando com quem desconfia dessas agendas (ou pelo menos de seus defensores)? Muitos querem a riqueza e as transformações tecnológicas presentes no ideário mais liberal, mas creem que deveriam ter maior participação nesse bolo. Outra grande parcela não é necessariamente racista e tem preocupações sociais, contudo pensa que eles igualmente deveriam estar na lista dos que devem ser defendidos por não terem a ascensão social almejada.
A revitalização democrática presente no debate e mobilização social tem de chegar à política para aumentar sua potência contra os antidemocratas. Do ponto de vista institucional, três tarefas são inescapáveis. A primeira é ressaltar mais as políticas públicas que mudam a vida de muitas pessoas, inclusive de muitas que estão descontentes com a democracia. Aqui, há um problema comunicacional grave, uma disputa de narrativas na qual ações governamentais bem-sucedidas não aparecem enquanto tais para os corações e mentes de muita gente.
Parte da dificuldade de realçar as qualidades da democracia e da efetividade de muitas de suas políticas públicas reside em vícios dos políticos, da alta burocracia e das elites de maneira geral, que são vistos como distantes e privilegiados frente a boa parcela da população. Esse segundo ponto é fundamental porque, para lembrar o filósofo americano Michael Sandel, vai exigir sentimento comunitarista das lideranças e grupos que comandam a sociedade. Os descontentes não se sentem participantes do jogo democrático e vinculam os governantes e setores influentes a uma casta que sequestrou o bem comum. Sem dúvida, há mitos aqui, mas também muitas verdades sobre um fosso social enorme que foi ignorado pelos “donos do poder” nas últimas décadas.
A descoberta de pautas populares que não estão sendo atendidas pelas instituições democráticas atuais é a tarefa de fundo mais relevante aos que querem defender a democracia para além das vitórias eleitorais. Infelizmente, nesse campo a extrema direita está na frente, mesmo que seja com base em mentiras e demagogia. Para garantirmos a longevidade dos regimes democráticos, precisamos conversar e entender mais os descontentes, superando preconceitos para gerar uma nova agenda pública, que realce o quão positiva pode ser a democracia.
Quando a barbárie fala do alto do poder
Há imagens que não deveriam existir. E, quando existem, não deveriam circular. A postagem que associava o ex-presidente Barack Obama e Michelle Obama à figura de macacos – atribuída ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – é uma dessas. Mesmo apagada, mesmo relativizada, mesmo empurrada para o colo de assessores anônimos, ela permanece. Porque há coisas que não se apagam. Há imagens que, uma vez lançadas no mundo, revelam mais do que pretendiam esconder.
Não se trata de um episódio menor das redes sociais, nem de uma provocação política mais agressiva. Trata-se de um gesto que convoca um dos códigos mais antigos e brutais da história humana: a desumanização. Comparar pessoas negras a animais é uma linguagem conhecida, recorrente, testada ao longo dos séculos. Foi com ela que se justificaram a escravidão, o colonialismo, a segregação, os linchamentos. Não há inocência possível nesse imaginário. Ele é estruturalmente violento.
O que torna o episódio ainda mais perturbador é o lugar de onde ele parte. Um presidente — ou ex-presidente — não comunica como um cidadão comum. Fala a partir de um ponto de poder simbólico, institucional, global. Quando esse poder mobiliza imagens primitivas, ele não apenas ofende: ele autoriza. Autoriza o ódio a circular sem vergonha, a violência a se sentir respaldada, o preconceito a se apresentar como opinião legítima.
Há algo de profundamente inquietante em perceber que, em pleno século XXI, com todos os avanços científicos, culturais e sociais acumulados, ainda precisamos reafirmar o óbvio: pessoas não são animais; diferenças não justificam humilhação; poder não concede licença para negar humanidade. Quando o óbvio precisa ser defendido, é sinal de que algo essencial se rompeu.
Mais do que um escândalo isolado, o episódio funciona como sintoma. Revela um tempo em que a brutalidade se disfarça de franqueza, o racismo de provocação, a regressão moral de autenticidade. Um tempo em que o inaceitável é testado aos poucos, normalizado em doses sucessivas, até que já não choque tanto.
É aí que mora o perigo. A barbárie raramente chega gritando; ela costuma entrar pela fresta da tolerância, pelo cansaço moral, pela relativização constante. E quando vem de cima, quando se instala no discurso do poder, ela contamina o chão.
Falar sobre isso é necessário. Não por indignação passageira, mas por responsabilidade histórica. O silêncio diante da desumanização nunca foi neutro — sempre foi cumplicidade. E toda vez que uma sociedade aceita calada esse tipo de imagem, ela abdica de um pouco daquilo que a fez avançar.
Talvez o que mais assuste não seja a postagem em si, mas a pergunta que ela nos devolve: até que ponto estamos dispostos a regredir sem reagir? A resposta a essa pergunta diz menos sobre um presidente e mais sobre nós.
Não se trata de um episódio menor das redes sociais, nem de uma provocação política mais agressiva. Trata-se de um gesto que convoca um dos códigos mais antigos e brutais da história humana: a desumanização. Comparar pessoas negras a animais é uma linguagem conhecida, recorrente, testada ao longo dos séculos. Foi com ela que se justificaram a escravidão, o colonialismo, a segregação, os linchamentos. Não há inocência possível nesse imaginário. Ele é estruturalmente violento.
O que torna o episódio ainda mais perturbador é o lugar de onde ele parte. Um presidente — ou ex-presidente — não comunica como um cidadão comum. Fala a partir de um ponto de poder simbólico, institucional, global. Quando esse poder mobiliza imagens primitivas, ele não apenas ofende: ele autoriza. Autoriza o ódio a circular sem vergonha, a violência a se sentir respaldada, o preconceito a se apresentar como opinião legítima.
Há algo de profundamente inquietante em perceber que, em pleno século XXI, com todos os avanços científicos, culturais e sociais acumulados, ainda precisamos reafirmar o óbvio: pessoas não são animais; diferenças não justificam humilhação; poder não concede licença para negar humanidade. Quando o óbvio precisa ser defendido, é sinal de que algo essencial se rompeu.
Mais do que um escândalo isolado, o episódio funciona como sintoma. Revela um tempo em que a brutalidade se disfarça de franqueza, o racismo de provocação, a regressão moral de autenticidade. Um tempo em que o inaceitável é testado aos poucos, normalizado em doses sucessivas, até que já não choque tanto.
É aí que mora o perigo. A barbárie raramente chega gritando; ela costuma entrar pela fresta da tolerância, pelo cansaço moral, pela relativização constante. E quando vem de cima, quando se instala no discurso do poder, ela contamina o chão.
Falar sobre isso é necessário. Não por indignação passageira, mas por responsabilidade histórica. O silêncio diante da desumanização nunca foi neutro — sempre foi cumplicidade. E toda vez que uma sociedade aceita calada esse tipo de imagem, ela abdica de um pouco daquilo que a fez avançar.
Talvez o que mais assuste não seja a postagem em si, mas a pergunta que ela nos devolve: até que ponto estamos dispostos a regredir sem reagir? A resposta a essa pergunta diz menos sobre um presidente e mais sobre nós.
Revelado: a suruba de Vorcaro
Vorcaro usou todas as moedas disponíveis para corromper as instituições brasileiras. Inclusive a mais antiga delas: mulheres bonitas e festas com muita bebida e pouca roupa, para sermos discretos. No relatório que a Polícia Federal entregou ao ministro Edson Fachin, o que emerge não é apenas um relato de libertinagem, mas a descrição de uma engrenagem de corrupção sofisticada. O que os mortais chamam abertamente de “suruba” era, na verdade, um ambiente de negócios escusos meticulosamente planejado, onde a ostentação servia como lubrificante para a criação de uma rede de influências sem precedentes junto a políticos do Centrão.
A logística por trás desses encontros revela o DNA de Vorcaro: a exuberância a serviço do silêncio. O relatório detalha a presença de quatro mulheres para cada político, todas estrangeiras — suíças, norueguesas, suecas e holandesas. A escolha não foi estética, mas estratégica. Ao importar acompanhantes que não falam português e não têm a menor noção de quem são as figuras poderosas que ali circulavam, Vorcaro garantia um isolamento informativo que nenhuma barreira nacional ofereceria. É a corrupção de alto custo, onde a distância cultural e linguística era comprada para blindar os envolvidos.
Entretanto, a suruba maior não é a dos “peladões” descrita pela PF, mas o estrago institucional que este caso pode causar. O movimento que vemos agora nos bastidores do poder sugere uma tentativa deliberada de anular a operação. O roteiro é um “déjà vu” perigoso da Lava Jato: ministros como Cristiano Zanin e Luiz Fux já sinalizam que inconsistências na condução das investigações pela PF podem tornar todo o processo nulo. Alega-se que o rito foi atropelado, e essa brecha jurídica é exatamente o que os envolvidos buscam para implodir o caso por dentro.
Essa conclusão de nulidade, contudo, não virá amanhã. O sistema joga com o tempo. Vale lembrar que o presidente Lula ficou quase dois anos preso antes que seu processo fosse anulado por erros de competência e forma. Para Vorcaro, esse vácuo temporal é o cenário ideal: ele aposta na fadiga da opinião pública e na “inconsistência jurídica” para que, no futuro, tudo vire precatórios. É a repetição exata do ciclo em que delatores premiados recebem o dinheiro de volta e o crime compensa através do erro técnico da acusação.
O que se desenha é um cenário onde a justiça parece ser um tabuleiro cujas peças são movidas para garantir que o desfecho seja sempre o mesmo. Quando a estratégia de defesa foca mais na anulação do processo do que na prova da inocência, e o Judiciário valida essa manobra, a mensagem para o país é devastadora. O perigo real não está na devassidão das festas de luxo, mas na erosão da segurança jurídica que essas anulações em série provocam.
No fim das contas, o que está em jogo é a confiança residual do brasileiro no Supremo Tribunal Federal. Quando a mais alta corte do país se permite ser o palco de um eterno retorno à impunidade por vícios de forma, o tecido democrático se esgarça. Esse jogo de anulações anunciadas é perigoso demais para a estabilidade do país e para a própria sobrevivência da esperança de que, um dia, as instituições brasileiras deixem de ser negociáveis em balcões de luxo.
A logística por trás desses encontros revela o DNA de Vorcaro: a exuberância a serviço do silêncio. O relatório detalha a presença de quatro mulheres para cada político, todas estrangeiras — suíças, norueguesas, suecas e holandesas. A escolha não foi estética, mas estratégica. Ao importar acompanhantes que não falam português e não têm a menor noção de quem são as figuras poderosas que ali circulavam, Vorcaro garantia um isolamento informativo que nenhuma barreira nacional ofereceria. É a corrupção de alto custo, onde a distância cultural e linguística era comprada para blindar os envolvidos.
Entretanto, a suruba maior não é a dos “peladões” descrita pela PF, mas o estrago institucional que este caso pode causar. O movimento que vemos agora nos bastidores do poder sugere uma tentativa deliberada de anular a operação. O roteiro é um “déjà vu” perigoso da Lava Jato: ministros como Cristiano Zanin e Luiz Fux já sinalizam que inconsistências na condução das investigações pela PF podem tornar todo o processo nulo. Alega-se que o rito foi atropelado, e essa brecha jurídica é exatamente o que os envolvidos buscam para implodir o caso por dentro.
Essa conclusão de nulidade, contudo, não virá amanhã. O sistema joga com o tempo. Vale lembrar que o presidente Lula ficou quase dois anos preso antes que seu processo fosse anulado por erros de competência e forma. Para Vorcaro, esse vácuo temporal é o cenário ideal: ele aposta na fadiga da opinião pública e na “inconsistência jurídica” para que, no futuro, tudo vire precatórios. É a repetição exata do ciclo em que delatores premiados recebem o dinheiro de volta e o crime compensa através do erro técnico da acusação.
O que se desenha é um cenário onde a justiça parece ser um tabuleiro cujas peças são movidas para garantir que o desfecho seja sempre o mesmo. Quando a estratégia de defesa foca mais na anulação do processo do que na prova da inocência, e o Judiciário valida essa manobra, a mensagem para o país é devastadora. O perigo real não está na devassidão das festas de luxo, mas na erosão da segurança jurídica que essas anulações em série provocam.
No fim das contas, o que está em jogo é a confiança residual do brasileiro no Supremo Tribunal Federal. Quando a mais alta corte do país se permite ser o palco de um eterno retorno à impunidade por vícios de forma, o tecido democrático se esgarça. Esse jogo de anulações anunciadas é perigoso demais para a estabilidade do país e para a própria sobrevivência da esperança de que, um dia, as instituições brasileiras deixem de ser negociáveis em balcões de luxo.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Obrigada pela lição, Jeff Bezos!
Fomos todos chamados à redação. De pé, no meio da sala, até parecíamos muitos. Alguém fez essa piada, com o riso nervoso de quem sabe o que aí vem, mas tem no humor uma espécie de fé supersticiosa. Como se nos rirmos da desgraça que aí vem pudesse impedi-la de acontecer. À nossa frente, os diretores de olhos baixos, presos ao chão, os pescoços curvados. A cena que descrevo não aconteceu uma vez nem duas. Na verdade, perdi a conta às vezes em que assisti na primeira fila a despedimentos coletivos em jornais. A cada nova leva de saídas, invariavelmente, os títulos afundaram-se mais um pouco. É como ir tirando as tábuas de um barco para o tornar mais leve. Na verdade, estamos só a apressar o seu naufrágio.
Nos sítios por onde passei havia sempre carros de alta cilindrada, combustível pago e cartões de crédito para os cargos de direção, mesmo quando ir em reportagem era sempre demasiado dispendioso. Havia quase sempre instalações grandiosas, com muitos lugares de garagem, mesmo que fosse difícil arranjar transporte para ir fazer um trabalho fora de Lisboa. Havia muitas vezes figuras pagas a peso de ouro, cuja função ninguém sabia bem qual era, mas também ninguém questionava, à medida que na base da pirâmide se acumulavam os trabalhadores mal pagos, que só se aguentavam com os salários que lhes pagavam porque a família os ajudava com a renda ou a alimentação ou ambas. Não era que o dinheiro faltasse, era que as prioridades estavam sempre trocadas.
De vez em quando, apareciam novos acionistas. Dinheiro fresco e uma espécie de esperança coletiva, que esmorecia rapidamente. Não tardava até virem novos despedimentos, reformulações gráficas caras que ninguém sabia bem para que serviam, anúncios de novos “produtos”, feitos pelos mesmos do costume, cada vez mais esmifrados e mal pagos. Mas na altura do Natal ou do aniversário das publicações, os acionistas desfilavam orgulhosos, faziam proclamações sobre a liberdade de imprensa e distribuíam um ou outro brinde pelos trabalhadores, a quem insistiam em chamar “colaboradores”, mesmo que estivesse cada vez mais em queda a vontade de colaborar com um caminho que nos parecia que só podia ter um triste fim.
Nestes anos todos, estive quase sempre nos quadros das empresas por onde passei. E, ainda assim, senti-me sempre a prazo. “Quantos anos vou aguentar-me?”, ia-me perguntando, enquanto tentava equilibrar-me em cima de salários baixos, muita pressão, demasiado trabalho.
Nestes anos todos, pensei durante muito tempo que a incompetência e o deslumbramento eram parte da explicação para os sucessivos erros de gestão que qualquer estagiário deteta em empresas de comunicação uns três meses depois de lá começar a trabalhar. Mas mudei de ideias: não é incompetência nem sequer deslumbramento. Reforcei essa convicção ao ver as notícias sobre a forma como Jeff Bezos está a desmantelar o The Washington Post, cortando a eito nos gastos, depois de ter pagado 40 milhões de dólares pelos direitos do documentário Melania – que no fim de semana de estreia teve em Portugal uma média de seis espectadores por sessão – e cerca de 35 milhões para promover o filme sobre a mulher de Donald Trump.
Bezos faz parte da oligarquia de Trump. Doou um milhão de dólares para a cerimónia de tomada de posse do Presidente dos Estados Unidos e obrigou o The Washington Post a redefinir a linha editorial da sua secção de opinião, para incluir uma “visão mais libertária”. A ironia é que esse defensor do libertarianismo é o mesmo que tem acumulado milhares de milhões de dólares em contratos públicos. Não é que Bezos tenha alguma coisa contra o dinheiro do Estado. Ele só não quer que seja gasto a tratar da saúde das pessoas ou a garantir-lhes algum tipo de proteção, quando pode ser diretamente canalizado para a sua obscenamente bem recheada conta.
Quando a interferência de Bezos no The Washington Post ficou evidente, as assinaturas do jornal caíram a pique, afundando mais as contas. Quando anunciou que iria despedir 30% da redação, os jornalistas despedidos angariaram mais de 350 mil dólares na plataforma Go Fund Me, em poucas horas. Alguém que acredita no mercado como regulador de tudo deveria ver aqui uma mensagem clara. O apoio aos jornalistas e a rejeição da inclinação do jornal em direção à extrema-direita são evidentes. Mas a economia nunca fez parte desta equação.
Quando nos falam do mercado que tudo regula, omitem a peça mais importante desta engrenagem: o poder. Os milionários compram jornais porque acham que isso lhes dá poder. Destroem-nos quando essa é a forma de ter ainda mais poder. Não é o dinheiro que está em causa. Nunca foi. Não lhes falta dinheiro. O que é preciso é que o seu poder continue a alastrar-se, quer isso se faça controlando os jornais ou silenciando-os.
Os média são sempre apresentados como um negócio em ruína, destinados a desaparecer. Isso tem uma parte de verdade. O modelo de negócio em que estão assentes contém a semente da sua destruição. Mas eles são uma ferramenta poderosa e é por isso que são um alvo a abater pelos teóricos do “jornalixo” que se congratulam sempre com a nossa “falência”, mas ainda assim nos dão importância suficiente para continuarem a atacar-nos. Porquê? Porque há poucas coisas mais poderosas do que questionar. E essa é a nossa arma.
Enquanto os milionários iam atirando dinheiro para cima das empresas de média, encaminhando-as para o engodo do digital – onde eles ditam as regras e a publicidade cai para valores irrisórios –, nós esquecemo-nos de que os jornalistas são as máquinas das fábricas que são os jornais e que a grande força que os títulos têm é a comunidade que se constrói em torno de valores partilhados e confiança. Histórias como as do The Washington Post ajudam-nos a abrir os olhos. Para não voltarmos a ser enganados. E quem não cai nas teses sobre o “jornalixo” tem de perceber que consegue dar a volta a isto. Como? Comprando jornais e revistas. Se forem muitos a fazê-lo, nem os Bezos da vida conseguirão calar-nos.
Nos sítios por onde passei havia sempre carros de alta cilindrada, combustível pago e cartões de crédito para os cargos de direção, mesmo quando ir em reportagem era sempre demasiado dispendioso. Havia quase sempre instalações grandiosas, com muitos lugares de garagem, mesmo que fosse difícil arranjar transporte para ir fazer um trabalho fora de Lisboa. Havia muitas vezes figuras pagas a peso de ouro, cuja função ninguém sabia bem qual era, mas também ninguém questionava, à medida que na base da pirâmide se acumulavam os trabalhadores mal pagos, que só se aguentavam com os salários que lhes pagavam porque a família os ajudava com a renda ou a alimentação ou ambas. Não era que o dinheiro faltasse, era que as prioridades estavam sempre trocadas.
De vez em quando, apareciam novos acionistas. Dinheiro fresco e uma espécie de esperança coletiva, que esmorecia rapidamente. Não tardava até virem novos despedimentos, reformulações gráficas caras que ninguém sabia bem para que serviam, anúncios de novos “produtos”, feitos pelos mesmos do costume, cada vez mais esmifrados e mal pagos. Mas na altura do Natal ou do aniversário das publicações, os acionistas desfilavam orgulhosos, faziam proclamações sobre a liberdade de imprensa e distribuíam um ou outro brinde pelos trabalhadores, a quem insistiam em chamar “colaboradores”, mesmo que estivesse cada vez mais em queda a vontade de colaborar com um caminho que nos parecia que só podia ter um triste fim.
Nestes anos todos, estive quase sempre nos quadros das empresas por onde passei. E, ainda assim, senti-me sempre a prazo. “Quantos anos vou aguentar-me?”, ia-me perguntando, enquanto tentava equilibrar-me em cima de salários baixos, muita pressão, demasiado trabalho.
Nestes anos todos, pensei durante muito tempo que a incompetência e o deslumbramento eram parte da explicação para os sucessivos erros de gestão que qualquer estagiário deteta em empresas de comunicação uns três meses depois de lá começar a trabalhar. Mas mudei de ideias: não é incompetência nem sequer deslumbramento. Reforcei essa convicção ao ver as notícias sobre a forma como Jeff Bezos está a desmantelar o The Washington Post, cortando a eito nos gastos, depois de ter pagado 40 milhões de dólares pelos direitos do documentário Melania – que no fim de semana de estreia teve em Portugal uma média de seis espectadores por sessão – e cerca de 35 milhões para promover o filme sobre a mulher de Donald Trump.
Bezos faz parte da oligarquia de Trump. Doou um milhão de dólares para a cerimónia de tomada de posse do Presidente dos Estados Unidos e obrigou o The Washington Post a redefinir a linha editorial da sua secção de opinião, para incluir uma “visão mais libertária”. A ironia é que esse defensor do libertarianismo é o mesmo que tem acumulado milhares de milhões de dólares em contratos públicos. Não é que Bezos tenha alguma coisa contra o dinheiro do Estado. Ele só não quer que seja gasto a tratar da saúde das pessoas ou a garantir-lhes algum tipo de proteção, quando pode ser diretamente canalizado para a sua obscenamente bem recheada conta.
Quando a interferência de Bezos no The Washington Post ficou evidente, as assinaturas do jornal caíram a pique, afundando mais as contas. Quando anunciou que iria despedir 30% da redação, os jornalistas despedidos angariaram mais de 350 mil dólares na plataforma Go Fund Me, em poucas horas. Alguém que acredita no mercado como regulador de tudo deveria ver aqui uma mensagem clara. O apoio aos jornalistas e a rejeição da inclinação do jornal em direção à extrema-direita são evidentes. Mas a economia nunca fez parte desta equação.
Quando nos falam do mercado que tudo regula, omitem a peça mais importante desta engrenagem: o poder. Os milionários compram jornais porque acham que isso lhes dá poder. Destroem-nos quando essa é a forma de ter ainda mais poder. Não é o dinheiro que está em causa. Nunca foi. Não lhes falta dinheiro. O que é preciso é que o seu poder continue a alastrar-se, quer isso se faça controlando os jornais ou silenciando-os.
Os média são sempre apresentados como um negócio em ruína, destinados a desaparecer. Isso tem uma parte de verdade. O modelo de negócio em que estão assentes contém a semente da sua destruição. Mas eles são uma ferramenta poderosa e é por isso que são um alvo a abater pelos teóricos do “jornalixo” que se congratulam sempre com a nossa “falência”, mas ainda assim nos dão importância suficiente para continuarem a atacar-nos. Porquê? Porque há poucas coisas mais poderosas do que questionar. E essa é a nossa arma.
Enquanto os milionários iam atirando dinheiro para cima das empresas de média, encaminhando-as para o engodo do digital – onde eles ditam as regras e a publicidade cai para valores irrisórios –, nós esquecemo-nos de que os jornalistas são as máquinas das fábricas que são os jornais e que a grande força que os títulos têm é a comunidade que se constrói em torno de valores partilhados e confiança. Histórias como as do The Washington Post ajudam-nos a abrir os olhos. Para não voltarmos a ser enganados. E quem não cai nas teses sobre o “jornalixo” tem de perceber que consegue dar a volta a isto. Como? Comprando jornais e revistas. Se forem muitos a fazê-lo, nem os Bezos da vida conseguirão calar-nos.
Quem sabe ...
O mal e o remédio estão em nós. A própria espécie humana, que agora nos indigna, se indignou antes e se indignará amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o senso da solidariedade, o senso cívico, que não deve ser confundido com a caridade. É um tempo obscuro, mas chegará, com certeza, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não progredimos muito em bondade em milhares de anos na Terra. Talvez estejamos percorrendo um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, chegaremos a ser aquilo que temos de ser. Quando a metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada… algo não funciona. Quem sabe um dia!
José Saramago
José Saramago
Trump usa vídeo racista sobre Obama para impulsionar guerra psicológica contra seus opositores
O vídeo retratando Michelle e Barack Obama como macacos, compartilhado e depois removido por Donald Trump em sua rede social, não é um ato impensado. É uma arma de guerra psicológica testada, validada e aprimorada. Chamado de “isca e contragolpe”, o método consiste em induzir o adversário à reação agressiva, para então retratá-lo como violento. O autor apaga aquilo que provocou a reação do oponente, deixa visível apenas essa reação, e reposiciona a si mesmo como vítima da violência do outro.
A mensagem inicial não visa convencer pelo conteúdo, mas criar um gatilho emocional. Os vestígios da causa da reação desaparecem, graças à engenharia dos algoritmos das redes sociais. Preso em bolhas cognitivas, o público-alvo, no caso a maioria branca, esquece a provocação inicial.
A técnica é empregada regularmente pelo time Trump. No dia 22, Nekima Armstrong, negra de 49 anos, foi presa ao protestar em uma igreja cujo pastor é agente do ICE, em Minnesota, onde a polícia anti-imigração matou dois cidadãos americanos à queima-roupa. Armstrong foi fotografada ao ser presa. Estava calma, com olhar determinado, embora algemada e acorrentada pela cintura e pelos pés – “o mais próximo que me senti da escravidão”, disse. Em imagem alterada pela Casa Branca, ela parece desesperada e agressiva, chorando e com a pele escurecida. “É só um meme”, defendeu o governo.
Armstrong, mãe de quatro filhos, contou que a manipulação de sua imagem a abalou porque ela se sente responsável por levar adiante o legado de seus antepassados, que mantiveram a dignidade mesmo tendo sido trazidos como escravos da África. Uma sensibilidade que se perde na convulsão das narrativas.
Em setembro, Trump compartilhou vídeos gerados por IA que mostravam o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que é negro, com sombrero e bigode mexicanos, ao som de mariachi. A sugestão era que Jeffries está do lado dos imigrantes. Em 2015, Trump lançou-se candidato espalhando que Obama não tinha nascido nos EUA e era muçulmano.
Trump ironizou a mistura racial de negra e indiana de sua adversária Kamala Harris. Em 2019, ele tuitou sobre quatro deputadas não brancas, três das quais nascidas nos EUA: “Por que elas não voltam para os lugares de onde vieram?”
Durante protestos em 2020 contra a violência policial, Trump tuitou “quando os saques começam, os tiros começam”, frase de um chefe de polícia, em 1967, que remete à repressão de protestos de comunidades negras. Os exemplos são abundantes.
A mensagem inicial não visa convencer pelo conteúdo, mas criar um gatilho emocional. Os vestígios da causa da reação desaparecem, graças à engenharia dos algoritmos das redes sociais. Preso em bolhas cognitivas, o público-alvo, no caso a maioria branca, esquece a provocação inicial.
A técnica é empregada regularmente pelo time Trump. No dia 22, Nekima Armstrong, negra de 49 anos, foi presa ao protestar em uma igreja cujo pastor é agente do ICE, em Minnesota, onde a polícia anti-imigração matou dois cidadãos americanos à queima-roupa. Armstrong foi fotografada ao ser presa. Estava calma, com olhar determinado, embora algemada e acorrentada pela cintura e pelos pés – “o mais próximo que me senti da escravidão”, disse. Em imagem alterada pela Casa Branca, ela parece desesperada e agressiva, chorando e com a pele escurecida. “É só um meme”, defendeu o governo.
Armstrong, mãe de quatro filhos, contou que a manipulação de sua imagem a abalou porque ela se sente responsável por levar adiante o legado de seus antepassados, que mantiveram a dignidade mesmo tendo sido trazidos como escravos da África. Uma sensibilidade que se perde na convulsão das narrativas.
Em setembro, Trump compartilhou vídeos gerados por IA que mostravam o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que é negro, com sombrero e bigode mexicanos, ao som de mariachi. A sugestão era que Jeffries está do lado dos imigrantes. Em 2015, Trump lançou-se candidato espalhando que Obama não tinha nascido nos EUA e era muçulmano.
Trump ironizou a mistura racial de negra e indiana de sua adversária Kamala Harris. Em 2019, ele tuitou sobre quatro deputadas não brancas, três das quais nascidas nos EUA: “Por que elas não voltam para os lugares de onde vieram?”
Durante protestos em 2020 contra a violência policial, Trump tuitou “quando os saques começam, os tiros começam”, frase de um chefe de polícia, em 1967, que remete à repressão de protestos de comunidades negras. Os exemplos são abundantes.
A perversidade, os limites e o que a morte de Orelha revela
A morte do cachorro Orelha, na Praia Brava, em Santa Catarina, expõe questões que ultrapassam o episódio em si. A dor não está apenas na violência dirigida a um animal conhecido e cuidado por uma comunidade inteira, mas no mal-estar coletivo que esse ato faz emergir. Há algo nesse caso que nos obriga a olhar para aspectos mais profundos da formação humana, do convívio social e da maneira como lidamos com nossos impulsos mais primitivos.
É preciso começar por uma constatação que raramente agrada: a perversidade faz parte da constituição da personalidade humana. Ela não é, em si, um desvio patológico. Trata-se de um componente estrutural, presente desde a infância, ligado à curiosidade, ao prazer da transgressão e à sensação de poder. Crianças e adolescentes experimentam esse traço de diversas maneiras ao longo do crescimento. O que define o amadurecimento psíquico não é a eliminação desse impulso, mas a forma como ele é elaborado.
Em trajetórias saudáveis, a perversidade encontra caminhos simbólicos e socialmente aceitos para se manifestar. No esporte, por exemplo, o confronto físico é permitido, mas circunscrito por regras, e termina no reconhecimento do outro. Na vida familiar, aprende-se que o irmão mais forte não pode ferir o mais fraco. São esses limites, repetidos no cotidiano, que permitem transformar impulsos potencialmente destrutivos em experiências de aprendizado, convivência e até criação.
Esse traço também aparece em cenas banais do dia a dia. Quando alguém tropeça na rua e provoca risos involuntários em quem observa, há ali um prazer primitivo, muitas vezes acompanhado de alívio por não ocupar aquele lugar. A cultura e a educação atuam justamente nesse ponto: ensinam a conter o impulso, a deslocá-lo, a substituí-lo por empatia. A civilização não extingue a perversidade; ela a molda. Criamos normas, pactos sociais e leis para que esse componente da personalidade contribua para a sobrevivência coletiva, e não para a destruição do outro.
Não é por acaso que sociedades mais complexas produzem dispositivos cada vez mais elaborados para regular comportamentos. Leis, instituições e práticas educativas não existem apenas para punir desvios, mas para sustentar limites simbólicos compartilhados. Quando esses limites se enfraquecem ou deixam de ser reconhecidos, abre-se espaço para a naturalização da violência, especialmente contra aqueles que ocupam posições de maior vulnerabilidade, sejam pessoas ou animais.
O que torna o caso do cachorro Orelha especialmente perturbador é o modo como a perversidade se manifesta sem qualquer elaboração simbólica. Infligir dor a um animal indefeso, sem possibilidade de reação, não produz aprendizado nem confronto. Gera apenas a experiência do domínio absoluto. Trata-se de um exercício de poder vazio, que não encontra limite interno nem reconhecimento do outro como sujeito.
Responsabilizar adolescentes por atos como esse não significa rotulá-los ou reduzi-los a esse episódio. Significa, ao contrário, reconhecer que o processo de amadurecimento exige limites claros. As medidas socioeducativas previstas em lei cumprem uma função essencial nesse percurso: sinalizam que certos atos não são aceitáveis e que a convivência em sociedade implica responsabilidades. Do ponto de vista psíquico, a ausência de limites não liberta; ela empobrece o desenvolvimento.
A sociedade evolui quando consegue reconhecer seus impulsos mais sombrios sem negá-los ou romantizá-los. A morte de Orelha não deve ser vista como um ato isolado de crueldade, mas como um convite incômodo à reflexão. Não apenas sobre a proteção de animais comunitários, agora reconhecida em lei, mas sobre a urgência de reafirmar que poder exercido sem limite não é força. É sinal de uma falha na construção do humano.
Jorge Jaber
É preciso começar por uma constatação que raramente agrada: a perversidade faz parte da constituição da personalidade humana. Ela não é, em si, um desvio patológico. Trata-se de um componente estrutural, presente desde a infância, ligado à curiosidade, ao prazer da transgressão e à sensação de poder. Crianças e adolescentes experimentam esse traço de diversas maneiras ao longo do crescimento. O que define o amadurecimento psíquico não é a eliminação desse impulso, mas a forma como ele é elaborado.
Em trajetórias saudáveis, a perversidade encontra caminhos simbólicos e socialmente aceitos para se manifestar. No esporte, por exemplo, o confronto físico é permitido, mas circunscrito por regras, e termina no reconhecimento do outro. Na vida familiar, aprende-se que o irmão mais forte não pode ferir o mais fraco. São esses limites, repetidos no cotidiano, que permitem transformar impulsos potencialmente destrutivos em experiências de aprendizado, convivência e até criação.
Esse traço também aparece em cenas banais do dia a dia. Quando alguém tropeça na rua e provoca risos involuntários em quem observa, há ali um prazer primitivo, muitas vezes acompanhado de alívio por não ocupar aquele lugar. A cultura e a educação atuam justamente nesse ponto: ensinam a conter o impulso, a deslocá-lo, a substituí-lo por empatia. A civilização não extingue a perversidade; ela a molda. Criamos normas, pactos sociais e leis para que esse componente da personalidade contribua para a sobrevivência coletiva, e não para a destruição do outro.
Não é por acaso que sociedades mais complexas produzem dispositivos cada vez mais elaborados para regular comportamentos. Leis, instituições e práticas educativas não existem apenas para punir desvios, mas para sustentar limites simbólicos compartilhados. Quando esses limites se enfraquecem ou deixam de ser reconhecidos, abre-se espaço para a naturalização da violência, especialmente contra aqueles que ocupam posições de maior vulnerabilidade, sejam pessoas ou animais.
O que torna o caso do cachorro Orelha especialmente perturbador é o modo como a perversidade se manifesta sem qualquer elaboração simbólica. Infligir dor a um animal indefeso, sem possibilidade de reação, não produz aprendizado nem confronto. Gera apenas a experiência do domínio absoluto. Trata-se de um exercício de poder vazio, que não encontra limite interno nem reconhecimento do outro como sujeito.
Responsabilizar adolescentes por atos como esse não significa rotulá-los ou reduzi-los a esse episódio. Significa, ao contrário, reconhecer que o processo de amadurecimento exige limites claros. As medidas socioeducativas previstas em lei cumprem uma função essencial nesse percurso: sinalizam que certos atos não são aceitáveis e que a convivência em sociedade implica responsabilidades. Do ponto de vista psíquico, a ausência de limites não liberta; ela empobrece o desenvolvimento.
A sociedade evolui quando consegue reconhecer seus impulsos mais sombrios sem negá-los ou romantizá-los. A morte de Orelha não deve ser vista como um ato isolado de crueldade, mas como um convite incômodo à reflexão. Não apenas sobre a proteção de animais comunitários, agora reconhecida em lei, mas sobre a urgência de reafirmar que poder exercido sem limite não é força. É sinal de uma falha na construção do humano.
Jorge Jaber
O discurso do método
Ainda existem em Veneza algumas bocca di leone, locais onde se podia fazer denúncias secretas, que eram levadas diretamente ao Consiglio dei Dieci, “contro chi occulterà gratie et officii, o colluderà per nasconder la vera rendita d’essi.” Em tese, embora secretas, as denúncias não deviam ser anônimas, mas o anonimato podia ser aceito quando o caso era considerado extremamente grave. Fontes anônimas? Boa ideia, não é? Vamos adotá-la. Ou é o que estamos fazendo, pela enésima vez?
A prática do denuncismo e das delações é antiga. Já Platão tinha um juízo severo para os sicofantas: os que querem ficar ricos de qualquer maneira “produzem falsos testemunhos e se deixam corromper por subornos”. Os romanos usaram e se lambuzaram de denúncias, ostensivas ou secretas, e tornaram-se especialistas no assunto. O despotismo que os promovia e os banhos de sangue em que resultavam — leia-se Tácito — são de dar vergonha aos Netanyahus e Bannons. (Ah! Em geral era para assegurar que os populares não tivessem os direitos que lhes queriam dar os Graco da vida, retirando privilégios dos optimates.)
E assim, ao longo dos séculos, vez e outra lá vêm os amigos da moral. Na Inquisição. No Macartismo. Na autofagia da Revolução Francesa.
Em 1789, o instrumento básico das denúncias, na primeira fase, é a imprensa. É o caso de L’Ami du Peuple, de Marat. Os comitês, como o Comité de Sûreté Générale, se multiplicam, são uma mistura de polícia e parquet, e fazem a triagem dos milhares de delações. Seu alvo passa da aristocracia para todo cidadão, que passa a ser suspeito por suas relações, suas opiniões e até sua aparência. Chega o Terror. Seu papel muda: elas, denúncias, passam a substituir o inquérito. A lei torna a delação a base da acusação judiciária. Robespierre assume o controle com o Comité de Salut Public, que dirige a política do Estado, mas também age como investigador e acusador. As cabeças caem aos milhares. A Convenção recebe mais de quinhentas denúncias contra duas centenas de seus membros. O Comité de Sûreté Générale monta um dossiê contra o “ditador” que deseja assumir o seu controle. Cai Robespierre por seu próprio método: o acusado não tem direito de ser ouvido. O apoio da multidão, que o seguira sedenta de sangue, desaparece da noite para o dia. Condenado sem processo, a guilhotina faz seu trabalho sob o aplauso do povo. Vem então a “reação” (Réaction Thermidorienne) das delações contra os delatores, quando os novos delatores superam em número os antigos e o “denunciante virtuoso” passa a ser o “vil delator”.
Aqui entre nós os beneficiários parece que movem muitos $$$, o que sempre é motivo para uma boa manipulação, sobretudo acusando … manipulações. Mas é curioso que quando recomeça a campanha moralista da imprensa ela tenha como alvo o órgão que puniu os golpistas, o ministro com a chave da cadeia e o que vai, finalmente, examinar o trabalho do autor do discurso do método para bem conduzir a razão e buscar a verdade, não, como você está pensando, René Descartes, mas o humilde magistrado candidato a presidente que, frustrado em suas pretensões, aderiu ao genocida, virou ministro e senador. A bíblia de seu método de defender a moral — ou amoral? — é curta, pois Moro não é muito seguro no uso das palavras:
“Há sempre o risco de lesão indevida à honra do investigado ou acusado. Cabe aqui, porém, o cuidado na desvelação de fatos relativos à investigação, e não a proibição abstrata de divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que não podem ser alcançados por outros meios.”
Se a honra vai para as cucuias, o que pode se fazer? Mais vale correr o risco de prejudicar. Se não é verdade, o objetivo já foi alcançado. Afinal,
“punição judicial de agentes públicos corruptos é sempre difícil, se não por outros motivos, então pela carga de prova exigida para alcançar a condenação em processo criminal. Nessa perspectiva, a opinião pública pode constituir um salutar substitutivo, tendo condições melhores de impor alguma espécie de punição a agentes públicos corruptos, condenando-os ao ostracismo.”
Depois, vamos e venhamos, “a presunção de inocência […] não é absoluta”.
Partindo do pressuposto de que os outros são culpados, ele recorreu a todo o arsenal que a tecnologia colocou ao seu alcance, como ensinara o nunca assaz citado Joseph Goebbels. Há melhor maneira de agir do que se assegurar, com uns filmetes, que se tem a solidariedade da equipe e dos embargadores? E é preciso assegurar que a lavajato seja, como boa orcrim, “estruturalmente ordenada [para obter] vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais”.
Já tendo participado de mais de uma e escapado ileso, o velhaco continua a contar com seus cúmplices e colaboradores, e, com a delação do seu ex-delator, precisa que seja acusado quem o vai julgar. Já que os americanos fizeram um código de ética da Supreme Court, que não tem ética nenhuma, faça-se um para o Supremo, mesmo que os ministros já tenham que obedecer ao Código de Ética da Magistratura (Resolução 60/2008 do CNJ). Enquanto isso o genocida continua comandando sua orcrim da cadeia, escolhendo candidatos e orientando as fakenews. Nem se pense em punir o golpe de 5 de agosto — parlamentar pode tentar golpe, não é? — pois já punimos as beatas com Bíblias que participaram do 8 de janeiro e ele precisa poder dizer “ganhamos, mas fomos roubados”.
Nessas horas os interesses se somam. Além dos do amoral, há o dos banqueiros e farialimer’s que vivem na zona da especulação desenfreada, com negócios com o crime organizado. O do crime organizado. O dos que botam o dinheiro público para participar de bancos podres. O das fintechs que banco são, banco não sendo. O dos donos de partido que partem e repartem os governos. O dos cúmplices do genocida. O dos admiradores de Trump. Muitos se encaixam em mais de uma categoria. Vale o método: honras ao vento, que suas plumas nunca mais voltam à casa. Desmoralizemos todos.
Aqui, ali e acolá, basta abrir o jornal.
A prática do denuncismo e das delações é antiga. Já Platão tinha um juízo severo para os sicofantas: os que querem ficar ricos de qualquer maneira “produzem falsos testemunhos e se deixam corromper por subornos”. Os romanos usaram e se lambuzaram de denúncias, ostensivas ou secretas, e tornaram-se especialistas no assunto. O despotismo que os promovia e os banhos de sangue em que resultavam — leia-se Tácito — são de dar vergonha aos Netanyahus e Bannons. (Ah! Em geral era para assegurar que os populares não tivessem os direitos que lhes queriam dar os Graco da vida, retirando privilégios dos optimates.)
E assim, ao longo dos séculos, vez e outra lá vêm os amigos da moral. Na Inquisição. No Macartismo. Na autofagia da Revolução Francesa.
Em 1789, o instrumento básico das denúncias, na primeira fase, é a imprensa. É o caso de L’Ami du Peuple, de Marat. Os comitês, como o Comité de Sûreté Générale, se multiplicam, são uma mistura de polícia e parquet, e fazem a triagem dos milhares de delações. Seu alvo passa da aristocracia para todo cidadão, que passa a ser suspeito por suas relações, suas opiniões e até sua aparência. Chega o Terror. Seu papel muda: elas, denúncias, passam a substituir o inquérito. A lei torna a delação a base da acusação judiciária. Robespierre assume o controle com o Comité de Salut Public, que dirige a política do Estado, mas também age como investigador e acusador. As cabeças caem aos milhares. A Convenção recebe mais de quinhentas denúncias contra duas centenas de seus membros. O Comité de Sûreté Générale monta um dossiê contra o “ditador” que deseja assumir o seu controle. Cai Robespierre por seu próprio método: o acusado não tem direito de ser ouvido. O apoio da multidão, que o seguira sedenta de sangue, desaparece da noite para o dia. Condenado sem processo, a guilhotina faz seu trabalho sob o aplauso do povo. Vem então a “reação” (Réaction Thermidorienne) das delações contra os delatores, quando os novos delatores superam em número os antigos e o “denunciante virtuoso” passa a ser o “vil delator”.
Aqui entre nós os beneficiários parece que movem muitos $$$, o que sempre é motivo para uma boa manipulação, sobretudo acusando … manipulações. Mas é curioso que quando recomeça a campanha moralista da imprensa ela tenha como alvo o órgão que puniu os golpistas, o ministro com a chave da cadeia e o que vai, finalmente, examinar o trabalho do autor do discurso do método para bem conduzir a razão e buscar a verdade, não, como você está pensando, René Descartes, mas o humilde magistrado candidato a presidente que, frustrado em suas pretensões, aderiu ao genocida, virou ministro e senador. A bíblia de seu método de defender a moral — ou amoral? — é curta, pois Moro não é muito seguro no uso das palavras:
“Há sempre o risco de lesão indevida à honra do investigado ou acusado. Cabe aqui, porém, o cuidado na desvelação de fatos relativos à investigação, e não a proibição abstrata de divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que não podem ser alcançados por outros meios.”
Se a honra vai para as cucuias, o que pode se fazer? Mais vale correr o risco de prejudicar. Se não é verdade, o objetivo já foi alcançado. Afinal,
“punição judicial de agentes públicos corruptos é sempre difícil, se não por outros motivos, então pela carga de prova exigida para alcançar a condenação em processo criminal. Nessa perspectiva, a opinião pública pode constituir um salutar substitutivo, tendo condições melhores de impor alguma espécie de punição a agentes públicos corruptos, condenando-os ao ostracismo.”
Depois, vamos e venhamos, “a presunção de inocência […] não é absoluta”.
Partindo do pressuposto de que os outros são culpados, ele recorreu a todo o arsenal que a tecnologia colocou ao seu alcance, como ensinara o nunca assaz citado Joseph Goebbels. Há melhor maneira de agir do que se assegurar, com uns filmetes, que se tem a solidariedade da equipe e dos embargadores? E é preciso assegurar que a lavajato seja, como boa orcrim, “estruturalmente ordenada [para obter] vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais”.
Já tendo participado de mais de uma e escapado ileso, o velhaco continua a contar com seus cúmplices e colaboradores, e, com a delação do seu ex-delator, precisa que seja acusado quem o vai julgar. Já que os americanos fizeram um código de ética da Supreme Court, que não tem ética nenhuma, faça-se um para o Supremo, mesmo que os ministros já tenham que obedecer ao Código de Ética da Magistratura (Resolução 60/2008 do CNJ). Enquanto isso o genocida continua comandando sua orcrim da cadeia, escolhendo candidatos e orientando as fakenews. Nem se pense em punir o golpe de 5 de agosto — parlamentar pode tentar golpe, não é? — pois já punimos as beatas com Bíblias que participaram do 8 de janeiro e ele precisa poder dizer “ganhamos, mas fomos roubados”.
Nessas horas os interesses se somam. Além dos do amoral, há o dos banqueiros e farialimer’s que vivem na zona da especulação desenfreada, com negócios com o crime organizado. O do crime organizado. O dos que botam o dinheiro público para participar de bancos podres. O das fintechs que banco são, banco não sendo. O dos donos de partido que partem e repartem os governos. O dos cúmplices do genocida. O dos admiradores de Trump. Muitos se encaixam em mais de uma categoria. Vale o método: honras ao vento, que suas plumas nunca mais voltam à casa. Desmoralizemos todos.
Aqui, ali e acolá, basta abrir o jornal.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
IA responsável na prática: quando a confiança deixa de ser retórica
Falar de Inteligência Artificial responsável tornou-se consensual. Executá-la não. Entre declarações estratégicas, princípios éticos e compromissos públicos, pode permanecer um vazio crítico: a distância entre a promessa da IA e a forma como ela, de facto, interfere nas decisões que moldam a vida dos cidadãos.
A confiança na IA não resulta da sofisticação tecnológica nem da ambição dos planos nacionais, resulta, antes, da experiência concreta das pessoas quando são avaliadas, classificadas, priorizadas ou excluídas por sistemas que não veem, não compreendem e não controlam. É nesse ponto que transparência, explicabilidade e supervisão humana deixam de ser conceitos elegantes e passam a ser critérios de legitimidade.
A transparência é o primeiro teste de maturidade democrática da IA. Um cidadão tem o direito de saber quando uma decisão relevante é influenciada por um sistema algorítmico, com que finalidade e em que termos. Não se trata de abrir modelos nem de divulgar segredos técnicos. Trata-se de assumir, de forma clara e inequívoca, que a tecnologia participa na decisão e que essa participação tem consequências reais. Onde não há visibilidade, instala-se a desconfiança. E onde há desconfiança, a inovação perde o seu valor social.
Mas saber que a IA existe não basta. É preciso compreendê-la no essencial. A explicabilidade não é um luxo académico nem uma exigência teórica do regulador. É a condição mínima para que uma decisão possa ser questionada, corrigida e responsabilizada. Quando a resposta institucional a um erro é “foi o sistema”, o Estado abdica da sua função mais básica: prestar contas. Sem explicação inteligível, não há contraditório. E sem contraditório, não há justiça nem confiança.
A supervisão humana, por sua vez, é talvez o ponto onde mais frequentemente se confunde intenção com prática. Colocar um humano no final da cadeia decisória não é supervisão, é transferência de responsabilidade. Supervisionar implica ter competência para compreender o sistema, autoridade para o contrariar e tempo para o fazer. Exige formação, enquadramento organizacional e, sobretudo, uma cultura que não penalize quem decide discordar da máquina. Caso contrário, a decisão continua a ser algorítmica, apenas legitimada por uma assinatura humana.
A adoção responsável da IA não se mede pelo número de projetos-piloto nem pela rapidez da automação. Mede-se pela capacidade de integrar limites, controle e responsabilidade desde o desenho do sistema até à sua utilização quotidiana. Especialmente no setor público, onde o impacto é estrutural e cumulativo, a eficiência não pode substituir a legitimidade.
A IA pode ser uma poderosa aliada da administração pública, da economia e da inovação. Mas sem transparência, explicação e supervisão efetiva, transforma-se num exercício de poder opaco, difícil de contestar e fácil de normalizar. A confiança não se decreta, constrói-se. E na IA, constrói-se todos os dias, ou perde-se rapidamente.
No fim, a questão é simples e profundamente política: queremos tecnologia que amplifique a responsabilidade ou que a dilua? A resposta não está nos algoritmos. Está nas escolhas que fazemos sobre como, quando e em que condições os deixamos decidir. A confiança não pode ser retórica!
A confiança na IA não resulta da sofisticação tecnológica nem da ambição dos planos nacionais, resulta, antes, da experiência concreta das pessoas quando são avaliadas, classificadas, priorizadas ou excluídas por sistemas que não veem, não compreendem e não controlam. É nesse ponto que transparência, explicabilidade e supervisão humana deixam de ser conceitos elegantes e passam a ser critérios de legitimidade.
A transparência é o primeiro teste de maturidade democrática da IA. Um cidadão tem o direito de saber quando uma decisão relevante é influenciada por um sistema algorítmico, com que finalidade e em que termos. Não se trata de abrir modelos nem de divulgar segredos técnicos. Trata-se de assumir, de forma clara e inequívoca, que a tecnologia participa na decisão e que essa participação tem consequências reais. Onde não há visibilidade, instala-se a desconfiança. E onde há desconfiança, a inovação perde o seu valor social.
Mas saber que a IA existe não basta. É preciso compreendê-la no essencial. A explicabilidade não é um luxo académico nem uma exigência teórica do regulador. É a condição mínima para que uma decisão possa ser questionada, corrigida e responsabilizada. Quando a resposta institucional a um erro é “foi o sistema”, o Estado abdica da sua função mais básica: prestar contas. Sem explicação inteligível, não há contraditório. E sem contraditório, não há justiça nem confiança.
A supervisão humana, por sua vez, é talvez o ponto onde mais frequentemente se confunde intenção com prática. Colocar um humano no final da cadeia decisória não é supervisão, é transferência de responsabilidade. Supervisionar implica ter competência para compreender o sistema, autoridade para o contrariar e tempo para o fazer. Exige formação, enquadramento organizacional e, sobretudo, uma cultura que não penalize quem decide discordar da máquina. Caso contrário, a decisão continua a ser algorítmica, apenas legitimada por uma assinatura humana.
A adoção responsável da IA não se mede pelo número de projetos-piloto nem pela rapidez da automação. Mede-se pela capacidade de integrar limites, controle e responsabilidade desde o desenho do sistema até à sua utilização quotidiana. Especialmente no setor público, onde o impacto é estrutural e cumulativo, a eficiência não pode substituir a legitimidade.
A IA pode ser uma poderosa aliada da administração pública, da economia e da inovação. Mas sem transparência, explicação e supervisão efetiva, transforma-se num exercício de poder opaco, difícil de contestar e fácil de normalizar. A confiança não se decreta, constrói-se. E na IA, constrói-se todos os dias, ou perde-se rapidamente.
No fim, a questão é simples e profundamente política: queremos tecnologia que amplifique a responsabilidade ou que a dilua? A resposta não está nos algoritmos. Está nas escolhas que fazemos sobre como, quando e em que condições os deixamos decidir. A confiança não pode ser retórica!
Com penduricalhos, Carnaval dos Poderes dura o ano todo
Depois de contar a história da "alta funcionária" que havia entrado no serviço público de "paraquedas" (quer dizer, valendo-se de algum favor político), o cantor Blecaute esperava o breque da Orquestra Tabajara para concluir: "Que grande vigarista que ela é".
Gravada em outubro de 1951, "Maria Candelária", marchinha de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, tornou-se um dos grandes sucessos do Carnaval do ano seguinte. É uma daquelas músicas que, se pescadas no rio do tempo e escaladas para embalar um bloco de hoje, ressurgem sem rugas no rosto e de corpinho enxuto, como se tivessem sido compostas ontem.
Maria Candelária chegava para trabalhar ao meio-dia. A uma da tarde ia ao dentista, às duas ao café, às três à modista. Antes das quatro assinava o ponto e se mandava. Pensando bem, para os parâmetros atuais, era uma vigarista modesta. Não tinha direito à licença compensatória, medida aprovada para funcionários da Câmara e do Senado, que poderão ter um dia de folga a cada três trabalhados.
Na semana passada, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou que os três Poderes revisem e suspendam os penduricalhos do serviço público não previstos em lei. Nada mais carnavalesco que a palavra penduricalho, cujos sinônimos, de acordo com o dicionário Houaiss, são pingente, balangandã, berenguendém, berloque e, não por último, condecoração honorífica. Na gíria, penduricalho também é usado para se referir ao pênis, membro pendente como certos funcionários.
O significado da palavra extrapola a simples folia. Encobre uma imoralidade que sintetiza a prática da boquinha e gera o estereótipo de que o funcionário público não faz nada e ainda ganha por fora. Uma visão que mistura realidade com preconceito. A culpa é de quem faz da administração pública uma propriedade particular, distribuindo benesses que elevam os salários acima dos tetos constitucionais.
Segundo especialistas, a farra com pagamentos extras do tipo auxílio-peru e auxílio-panetone custa em torno de R$ 20 bilhões por ano.
Gravada em outubro de 1951, "Maria Candelária", marchinha de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, tornou-se um dos grandes sucessos do Carnaval do ano seguinte. É uma daquelas músicas que, se pescadas no rio do tempo e escaladas para embalar um bloco de hoje, ressurgem sem rugas no rosto e de corpinho enxuto, como se tivessem sido compostas ontem.
Maria Candelária chegava para trabalhar ao meio-dia. A uma da tarde ia ao dentista, às duas ao café, às três à modista. Antes das quatro assinava o ponto e se mandava. Pensando bem, para os parâmetros atuais, era uma vigarista modesta. Não tinha direito à licença compensatória, medida aprovada para funcionários da Câmara e do Senado, que poderão ter um dia de folga a cada três trabalhados.
Na semana passada, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou que os três Poderes revisem e suspendam os penduricalhos do serviço público não previstos em lei. Nada mais carnavalesco que a palavra penduricalho, cujos sinônimos, de acordo com o dicionário Houaiss, são pingente, balangandã, berenguendém, berloque e, não por último, condecoração honorífica. Na gíria, penduricalho também é usado para se referir ao pênis, membro pendente como certos funcionários.
O significado da palavra extrapola a simples folia. Encobre uma imoralidade que sintetiza a prática da boquinha e gera o estereótipo de que o funcionário público não faz nada e ainda ganha por fora. Uma visão que mistura realidade com preconceito. A culpa é de quem faz da administração pública uma propriedade particular, distribuindo benesses que elevam os salários acima dos tetos constitucionais.
Segundo especialistas, a farra com pagamentos extras do tipo auxílio-peru e auxílio-panetone custa em torno de R$ 20 bilhões por ano.
Orelha
Não sou sujeito demasiadamente voltado aos animais. Não os tenho em casa, dedico meu amor exclusivamente às pessoas. Obviamente, respeito os bichinhos, de maneira geral, acho os filhotes bonitos, muito mais do que os humanos, e seria incapaz de fazer-lhes uma violência. Aliás, considero qualquer demonstração de força ato de incivilidade. Não fomos feitos para bater, nem para apanhar.
Por mais que tentemos ficar alheios às causas de emoção nos meios de comunicação, no meu caso até por questão de sobrevivência, pois a natureza cruel das notícias costuma me deixar abalado, muitas vezes não escapamos às vilezas estampadas nas manchetes. O caso do cãozinho Orelha chocou-me profundamente. Por vários motivos. A monstruosidade ocorrida é um retrato fiel da sociedade mundial, nossos jovens preparam-se para marchar em direção ao tempo distópico que se anuncia. Um futuro em que não há futuro. Assassinos em série, exatamente como vemos nos filmes, treinam nas praias de Santa Catarina. Torturam primeiro cachorros inocentes, para mais tarde cometerem feminicídios, latrocínios, tudo com o beneplácito de um sistema que protege os mais ricos, o tal do capitalismo selvagem. Põe selvagem nisso!
Pelo que li, Orelha era um pet comunitário. Criado pela gente simples do seu entorno, animal já idoso, inofensivo, fazia a alegria de algumas crianças locais, era amado por todos. Só que as crias dos donos do poder, daqueles abastados que sonham com carrões ao som de música sertaneja, não gostam de nada usufruído por grupos. São criadas aprendendo, desde muito cedo, a privilegiar o individual. Irão crescer desejando a solidão das competições, empenhados em vencer disputas seja lá do jeito que for, usando os meios possíveis e impossíveis, legais ou não. O importante é chegar em primeiro lugar, e chamarão o resultado duvidoso de meritocracia. Serão recompensadas com viagens à Disney. Mas, antes de viajar, lavarão as mãos manchadas de sangue.
Nos Estados Unidos, país em que um dia houve democracia, observarão excitados os desfiles armados das tropas Gestapo do ICE. E, se por acaso derem com alguma agressão, os meninos terão seus primeiros orgasmos, saudarão os fascistas como gente deles, irresponsavelmente felizes. Pois irresponsabilidade é a marca de suas vidas.
Quando voltarem, se unirão em tropas de elite, comandos de filhinhos de papai preparados para continuar suas artes. Marciais. E, especialistas que são em bullying, cercarão algum colega boa gente, bom aluno, daqueles que sempre tiram as melhores notas, e exercerão a violência aprendida desde sempre. Será muito mais gostoso, então, trucidar um semelhante. Matarão por gostar de matar, e por poderem, estarem autorizados. Talvez também enfiem um prego na cabeça do companheiro de classe, o mesmo instrumento de aço que violentou o crânio de Orelha. Mas serão perdoados. São apenas crianças, não sabem o que fazem.
Por mais que tentemos ficar alheios às causas de emoção nos meios de comunicação, no meu caso até por questão de sobrevivência, pois a natureza cruel das notícias costuma me deixar abalado, muitas vezes não escapamos às vilezas estampadas nas manchetes. O caso do cãozinho Orelha chocou-me profundamente. Por vários motivos. A monstruosidade ocorrida é um retrato fiel da sociedade mundial, nossos jovens preparam-se para marchar em direção ao tempo distópico que se anuncia. Um futuro em que não há futuro. Assassinos em série, exatamente como vemos nos filmes, treinam nas praias de Santa Catarina. Torturam primeiro cachorros inocentes, para mais tarde cometerem feminicídios, latrocínios, tudo com o beneplácito de um sistema que protege os mais ricos, o tal do capitalismo selvagem. Põe selvagem nisso!
Pelo que li, Orelha era um pet comunitário. Criado pela gente simples do seu entorno, animal já idoso, inofensivo, fazia a alegria de algumas crianças locais, era amado por todos. Só que as crias dos donos do poder, daqueles abastados que sonham com carrões ao som de música sertaneja, não gostam de nada usufruído por grupos. São criadas aprendendo, desde muito cedo, a privilegiar o individual. Irão crescer desejando a solidão das competições, empenhados em vencer disputas seja lá do jeito que for, usando os meios possíveis e impossíveis, legais ou não. O importante é chegar em primeiro lugar, e chamarão o resultado duvidoso de meritocracia. Serão recompensadas com viagens à Disney. Mas, antes de viajar, lavarão as mãos manchadas de sangue.
Nos Estados Unidos, país em que um dia houve democracia, observarão excitados os desfiles armados das tropas Gestapo do ICE. E, se por acaso derem com alguma agressão, os meninos terão seus primeiros orgasmos, saudarão os fascistas como gente deles, irresponsavelmente felizes. Pois irresponsabilidade é a marca de suas vidas.
Quando voltarem, se unirão em tropas de elite, comandos de filhinhos de papai preparados para continuar suas artes. Marciais. E, especialistas que são em bullying, cercarão algum colega boa gente, bom aluno, daqueles que sempre tiram as melhores notas, e exercerão a violência aprendida desde sempre. Será muito mais gostoso, então, trucidar um semelhante. Matarão por gostar de matar, e por poderem, estarem autorizados. Talvez também enfiem um prego na cabeça do companheiro de classe, o mesmo instrumento de aço que violentou o crânio de Orelha. Mas serão perdoados. São apenas crianças, não sabem o que fazem.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Era de autorregulação das big techs está chegando ao fim
O avanço coordenado entre governos europeus indica que a lógica de autorregulação das big techs está se enfraquecendo. Na semana passada, a Espanha deu mais um passo nessa direção ao anunciar planos para proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais – o que reforça a tendência regulatória no continente. O premiê Pedro Sánchez disse que a iniciativa é para proteger crianças e adolescentes de um “ambiente digital sem lei”, marcado por abuso, vício, pornografia, discurso de ódio e manipulação algorítmica.
Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a banir redes sociais para menores de 16 anos, obrigando empresas como TikTok, Instagram e Snapchat a remover milhões de contas e a implementar mecanismos mais rígidos de controle. França, Reino Unido, Dinamarca, Grécia e Irlanda avaliam medidas parecidas.
Trata-se de uma reafirmação do Estado diante de empresas privadas que, ao longo de anos, acumularam escala, recursos e influência política em grau incompatível com qualquer noção tradicional de soberania democrática. À medida que as plataformas se tornaram infraestruturas centrais de comunicação, informação e mobilização, a retomada do poder público na definição de regras é um desfecho inevitável – sobretudo considerando que os próprios donos dessas plataformas, como Elon Musk, passaram a intervir de forma agressiva na política europeia.
A proposta espanhola ainda tem de ser aprovada pelo Parlamento, mas integra um pacote mais amplo de medidas. Entre elas, estão a exigência de sistemas de verificação de idade, a responsabilização de executivos por conteúdos ilegais e a criminalização de práticas deliberadas de amplificação algorítmica de material ilícito.
A reação das big techs e de seus líderes tem sido previsível. Musk chamou Sánchez de “tirano” e “fascista”, enquanto Pavel Durov, fundador do Telegram, enviou mensagens em massa a usuários espanhóis acusando o governo de promover censura e vigilância.
Por trás da resistência das big techs está um modelo de negócio: quanto mais tempo o usuário permanecer conectado, maior a coleta de dados e mais lucrativa a venda de publicidade. Moderação robusta e checagem sistemática de fatos são caras, complexas e reduzem o alcance de conteúdos virais. Evitá-las sempre foi, do ponto de vista comercial, a opção mais racional, mesmo que enfraquecesse a democracia.
É nesse contexto que se entende a aproximação de grandes plataformas com Donald Trump, ressalta o jurista David Allen Green no Financial Times.
Diante da expectativa de regulações mais duras na União Europeia – e em países como o Brasil –, empresas como Meta e X concluíram que não podem enfrentar sozinhas governos e sistemas jurídicos fora dos EUA.
Essa lógica se mostrou no caso brasileiro, quando, após resistir a ordens do STF, o X acabou cumprindo as determinações. Buscar o apoio da Casa Branca tornou-se parte central da estratégia. Green observa que essa guinada não revela força, mas fragilidade: se essas empresas fossem realmente capazes de conter a regulação por conta própria, não precisariam de apoio americano.
A história mostra que, em confrontos decisivos, o Estado tende a prevalecer sobre corporações. A Companhia das Índias Orientais – empresa mais poderosa do mundo até então – foi dissolvida pelo Parlamento britânico em 1874. O Bell System, que dominava as telecomunicações nos EUA, foi desmembrado por leis antitruste nos anos 1980. Empresas podem acumular poder extraordinário, mas, como l embra Green, sua existência jurídica e seus direitos dependem, em última instância, da legislação.
Críticas alertam para o risco de empurrar jovens para espaços digitais ainda menos regulados ou de abrir margem para excessos estatais. A Europa aposta que, assim como ocorreu com energia, finanças e telecomunicações, o mundo digital entrou na fase em que o interesse público volta a impor limites ao poder privado – e o Estado, pressionado pela magnitude dessas empresas, reassume o papel de árbitro.
Apesar dos riscos, a guinada é positiva. Não porque o Estado seja infalível, mas porque só ele dispõe de mandato democrático, instrumentos de coerção legítima e autoridade para estabelecer limites quando interesses privados passam a ameaçar o funcionamento da própria democracia.
Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a banir redes sociais para menores de 16 anos, obrigando empresas como TikTok, Instagram e Snapchat a remover milhões de contas e a implementar mecanismos mais rígidos de controle. França, Reino Unido, Dinamarca, Grécia e Irlanda avaliam medidas parecidas.
Trata-se de uma reafirmação do Estado diante de empresas privadas que, ao longo de anos, acumularam escala, recursos e influência política em grau incompatível com qualquer noção tradicional de soberania democrática. À medida que as plataformas se tornaram infraestruturas centrais de comunicação, informação e mobilização, a retomada do poder público na definição de regras é um desfecho inevitável – sobretudo considerando que os próprios donos dessas plataformas, como Elon Musk, passaram a intervir de forma agressiva na política europeia.
A proposta espanhola ainda tem de ser aprovada pelo Parlamento, mas integra um pacote mais amplo de medidas. Entre elas, estão a exigência de sistemas de verificação de idade, a responsabilização de executivos por conteúdos ilegais e a criminalização de práticas deliberadas de amplificação algorítmica de material ilícito.
A reação das big techs e de seus líderes tem sido previsível. Musk chamou Sánchez de “tirano” e “fascista”, enquanto Pavel Durov, fundador do Telegram, enviou mensagens em massa a usuários espanhóis acusando o governo de promover censura e vigilância.
Por trás da resistência das big techs está um modelo de negócio: quanto mais tempo o usuário permanecer conectado, maior a coleta de dados e mais lucrativa a venda de publicidade. Moderação robusta e checagem sistemática de fatos são caras, complexas e reduzem o alcance de conteúdos virais. Evitá-las sempre foi, do ponto de vista comercial, a opção mais racional, mesmo que enfraquecesse a democracia.
É nesse contexto que se entende a aproximação de grandes plataformas com Donald Trump, ressalta o jurista David Allen Green no Financial Times.
Diante da expectativa de regulações mais duras na União Europeia – e em países como o Brasil –, empresas como Meta e X concluíram que não podem enfrentar sozinhas governos e sistemas jurídicos fora dos EUA.
Essa lógica se mostrou no caso brasileiro, quando, após resistir a ordens do STF, o X acabou cumprindo as determinações. Buscar o apoio da Casa Branca tornou-se parte central da estratégia. Green observa que essa guinada não revela força, mas fragilidade: se essas empresas fossem realmente capazes de conter a regulação por conta própria, não precisariam de apoio americano.
A história mostra que, em confrontos decisivos, o Estado tende a prevalecer sobre corporações. A Companhia das Índias Orientais – empresa mais poderosa do mundo até então – foi dissolvida pelo Parlamento britânico em 1874. O Bell System, que dominava as telecomunicações nos EUA, foi desmembrado por leis antitruste nos anos 1980. Empresas podem acumular poder extraordinário, mas, como l embra Green, sua existência jurídica e seus direitos dependem, em última instância, da legislação.
Críticas alertam para o risco de empurrar jovens para espaços digitais ainda menos regulados ou de abrir margem para excessos estatais. A Europa aposta que, assim como ocorreu com energia, finanças e telecomunicações, o mundo digital entrou na fase em que o interesse público volta a impor limites ao poder privado – e o Estado, pressionado pela magnitude dessas empresas, reassume o papel de árbitro.
Apesar dos riscos, a guinada é positiva. Não porque o Estado seja infalível, mas porque só ele dispõe de mandato democrático, instrumentos de coerção legítima e autoridade para estabelecer limites quando interesses privados passam a ameaçar o funcionamento da própria democracia.
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