sexta-feira, 17 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Soberania começa na periferia

Há uma contradição brutal no centro da política brasileira. A extrema-direita que passou anos falando em pátria, bandeira, soberania, família e liberdade agora recorre ao poder de uma potência estrangeira para constranger as instituições do próprio país. Quando perde no voto, desacredita nas urnas. Quando é julgada, ataca o Judiciário. Quando sua maior liderança é responsabilizada por tentativa de golpe, seus herdeiros políticos buscam em Washington aquilo que não conseguiram obter da sociedade brasileira: uma forma externa de manter viva a estrutura interna do golpismo.

Não se trata de divergência diplomática comum. Trata-se de um movimento político mais grave: transformar uma derrota democrática interna em chantagem internacional. Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado, e, em 2026, reportagens internacionais registraram sua permanência em prisão domiciliar enquanto Flávio Bolsonaro buscava interlocução em Washington em meio à disputa sobre tarifas contra o Brasil. Lula acusou a família Bolsonaro de acionar força estrangeira contra interesses nacionais; Flávio negou ter provocado as medidas. Ainda assim, o fato político permanece: a extrema-direita brasileira internacionalizou sua crise porque não conseguiu vencê-la dentro da democracia brasileira.


É nesse ponto que a denúncia de Lula ganha densidade histórica. O presidente reage ao risco de que o Brasil seja empurrado para aquilo que pode ser compreendido como uma forma de intervenção norte-americana sobre a soberania de países latino-americanos. A expressão é forte, mas não nasce do vazio. John Coatsworth registrou, em estudo publicado pela Harvard ReVista, que, entre 1898 e 1994, os Estados Unidos intervieram com sucesso para mudar governos na América Latina ao menos 41 vezes. A história do continente conhece esse método: Cuba, Chile, Guatemala, Nicarágua, Panamá e República Dominicana. Em cada um desses casos, as elites locais descobriram que, quando não conseguem submeter o povo pelo consenso, podem tentar fazê-lo com o apoio da força externa.

Mas a soberania brasileira não está ameaçada apenas de fora. Ela também é corroída por dentro, nos territórios onde o Estado se retirou como direito e retornou deformado como violência, corrupção ou abandono. A milícia é a expressão mais madura dessa tragédia. Ela não é apenas crime organizado. É Estado privatizado. É polícia convertida em mercado. É administração armada da escassez. Cobra por gás, transporte, internet, lote, moradia, segurança, voto e silêncio. Onde a Constituição não chega como serviço público, alguém chega como domínio.

Por isso o Rio de Janeiro não pode ser lido como exceção folclórica. Ele é laboratório nacional. A execução de Marielle Franco e Anderson Gomes revelou a profundidade da captura territorial, política e institucional. Em 2026, Domingos Brazão e Chiquinho Brazão foram condenados pelo STF pelo assassinato, em caso que expôs relações entre poder político, interesses imobiliários, milícias, agentes de segurança e obstrução investigativa. Marielle não foi morta apenas por incomodar indivíduos. Foi executada porque sua existência política ameaçava um modo de governar territórios: mulher negra, socialista, cria da Maré, denunciava a violência de Estado e os negócios do abandono.

A milícia compreendeu antes de muitos governos uma verdade elementar: território é poder. Quem controla a rua controla a circulação. Quem controla a circulação controla o comércio. Quem controla o comércio controla renda.

Quem controla renda controla voto. Quem controla voto negocia com o Estado. Quando esse circuito se estabiliza, o crime deixa de ser apenas desvio. Torna-se governo paralelo, mercado armado e partido informal do medo.

Os números confirmam a escala da crise. O Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pelo GENI/UFF e pelo Instituto Fogo Cruzado, registrou cerca de 4 milhões de moradores sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio em 2024 – 34,9% da população da região.

Entre 2007 e 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130,4%. Isso não é problema de polícia. É crise de soberania interna.

Aqui se unem as duas faces do mesmo impasse. De um lado, uma extrema-direita que aciona Washington contra o Brasil quando perde a disputa democrática. De outro, poderes armados internos que substituem o Estado nos territórios populares. O império pressiona por fora; a milícia captura por dentro. Ambos se alimentam da mesma fragilidade: a incapacidade de fazer da soberania popular uma realidade material na vida do povo.

Por isso, combater o crime organizado não pode significar apenas multiplicar operações policiais. O Brasil precisa de inteligência financeira, rastreamento patrimonial, controle externo das polícias, proteção de testemunhas, responsabilização de agentes públicos e desmonte das redes econômicas do crime. Mas precisa, com a mesma força, de creches integrais, saneamento, urbanização, escola pública viva, saúde da família, CAPS, transporte digno, cultura, esporte e regularização fundiária sob controle democrático. A viatura não substitui a creche. O caveirão não substitui o saneamento. A prisão do soldado não desmonta a economia política do medo.

O debate fiscal entra exatamente aqui. Um Estado que economiza em periferia paga mais caro em violência, encarceramento, adoecimento, evasão escolar, corrupção policial e destruição democrática. A austeridade, quando aplicada mecanicamente aos territórios abandonados, não é técnica neutra. É produção de vácuo. E, no Brasil real, o vácuo nunca fica vazio. Ele é ocupado por quem tem arma, dinheiro, mandato, fé instrumentalizada, influência policial ou todos esses elementos juntos.

Saneamento é segurança. Creche é segurança. Escola integral é segurança. Saúde mental pública é segurança. Transporte público é segurança. Urbanização é segurança. Cultura é segurança. Não porque substituam a lei penal, mas porque retiram do crime a administração cotidiana da escassez. O gasto social estruturante deve ser tratado como investimento em soberania nacional.

A esquerda precisa enfrentar esse tema sem medo. Não pode entregar a segurança pública ao punitivismo da direita, nem esconder a dor popular atrás de fórmulas abstratas. O povo trabalhador quer viver sem bala, sem extorsão, sem milícia, sem facção, sem humilhação policial e sem abandono. Segurança democrática não é concessão conservadora. É condição concreta da liberdade popular.

A soberania brasileira, portanto, não será decidida apenas em Brasília, Washington, Pequim ou nos fóruns internacionais. Ela será decidida também na Maré, em Rio das Pedras, na Baixada, nas periferias de Fortaleza, Salvador, Recife, Belém, São Paulo e em cada território onde o povo precisa saber quem manda antes de saber quais direitos possui.

Um país soberano não aceita que famílias derrotadas recorram a potências estrangeiras para constranger suas instituições. Um país soberano não aceita que bairros inteiros sejam governados por mercados armados. Um país soberano não aceita que a democracia exista no discurso, mas desapareça na esquina onde a milícia cobra pedágio da vida.

A extrema-direita revelou seu verdadeiro limite histórico: quando a pátria deixou de servir ao seu projeto de poder, tentou entregar a pátria à pressão externa. Contra isso, não basta indignação. É preciso defender o Brasil por fora e reconstruí-lo por dentro.

Onde o Estado não chega como direito, alguém chega como domínio. Onde a democracia não vira serviço público, o medo se organiza como governo. E onde uma liderança golpista busca socorro no império contra o próprio país, a resposta deve ser firme: o Brasil não é propriedade de família, de milícia, de mercado armado nem de potência estrangeira. O Brasil só será soberano quando seu povo também for.

Sequestro do Orçamento e passividade nacional

O Orçamento brasileiro está fora de controle. Isso quer dizer que não se sabe como é usado todo o dinheiro arrecadado com impostos. O mais interessante é que esse descontrole é vivido com uma grande indiferença. As notícias da semana dão conta da principal origem desse descontrole: as emendas parlamentares. Num só dia, ficamos sabendo que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se conhecessem os autores das emendas. Ficamos sabendo também que Valdemar Costa Neto manipulou a remessa de R$ 119 milhões, sem ser deputado. Da mesma forma, Eduardo Cunha, que foi cassado, dirigiu R$ 6,5 milhões para cidades mineiras, de onde pretende ressurgir como candidato.

R$ 1,3 bilhão foram as chamadas emendas de comissão. Um espanto. O que são as comissões senão réplicas parlamentares dos ministérios? Comissão de educação, de saúde, de transportes. Elas existem para formular e fiscalizar políticas. Quem as executa são os ministérios.


O Brasil é talvez o único país do mundo onde o governo não domina o gasto do Orçamento. Tem de dividi-lo com o Congresso, que usa o dinheiro de forma aleatória, basicamente para garantir a reeleição de deputados.

Uma irracionalidade.

A tentativa de corrigir algumas aberrações vem de longe, do tempo do chamado orçamento secreto, criado por Arthur Lira, no governo Bolsonaro. A então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, tentou intervir. Afinal, orçamento secreto é inconstitucional. As despesas públicas têm de ser transparentes. O que se viu depois disso foi uma briga de gato e rato, o Congresso sempre achando uma fórmula de não atender às corretas exigências de Rosa Weber.

As chamadas emendas de comissão foram um dos caminhos para se manter o anonimato em torno da autoria. Na verdade, são uma forma de dividir o dinheiro entre os deputados que compõem a comissão. Esse tipo de emenda foi denunciado pelo deputado Glauber Braga, que acabou recebendo uma suspensão de seis meses, em parte pelo seu comportamento, mas principalmente por denunciar o mecanismo. O que dizer do controle de Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha de parte do Orçamento? Atribui-se a uma articulação deles com uma funcionária chamada Mariângela Fialek. Mas é uma simples funcionária. Jamais destinaria milhões sem a autorização de seus chefes, Arthur Lira e Hugo Motta.

Não há saída no horizonte. A Polícia Federal investiga, o Supremo processa. Mas tanto a PF como o Supremo não podem abarcar a extensão do problema. Suas atuações são pontuais, pedagógicas, como se isso pudesse mesmo intimidar os deputados.

No Rio de Janeiro, a situação é mais clara politicamente. O Estado é governado por bandidos, sendo que os bandidos armados ocupam metade do território urbano. Não há mistério. Apenas a vida que segue, como se isso fosse natural. Certamente, uma investigação científica irá mais longe na compreensão dessa naturalização e passividade diante do sequestro do Orçamento. Os políticos usam o dinheiro sem critério, porque dinheiro público parece algo abstrato, existe para gastar mesmo. Essa indiferença se estende também às pessoas comuns. Afinal, por que protestar por um dinheiro que não é seu, é apenas uma grande fortuna que pertence a todos? É o chamado cofre da viúva, feito para ser violado sem pudor.

As coisas estão feitas para durar. O dinheiro que os deputados usam serve para sua reeleição. Não haverá espaço para a renovação, sobretudo se as campanhas presidenciais monopolizarem a atenção. Os mesmos deputados seguirão usando o Orçamento da forma que quiserem, elegendo presidentes que se comprometem com a divisão do butim. Os deputados serão substituídos pelos seus filhos, amigos de fé, assessores e a tradição de gastar parte do Orçamento seguirá tempo afora.

Pode ser uma visão pessimista, abrandada apenas pela possibilidade de eleger alguns bons deputados nas metrópoles. Mas serão incapazes de fazer algo sem amplo apoio da opinião pública. Não tenho medo de parecer pessimista ao saber que, mesmo sem mandato, pessoas como Valdemar Costa Neto e

Eduardo Cunha estão manipulando o Orçamento nacional. Acho simplesmente o fim da picada, mas me impressiono muito com a pouca repercussão. Será que os candidatos à Presidência se conformam com tudo o que vemos por aí? Será que pretendem ser presidentes pela metade, sem os recursos necessários para cumprir seus programas de campanha?

Pode ser que vivamos até um futuro em que os governos se conformem em governar sem plano. Governar por governar, o poder pelo poder, até nos chocarmos com o grande iceberg.

A alternativa é tentar fazer uma bancada de deputados que dê a mínima possibilidade de luta; é criar uma força-tarefa que fiscalize, de fato, o uso do dinheiro e tentar progressivamente adaptar o Brasil ao mundo, onde governos executam e deputados legislam e também fiscalizam o governo. Como ocorre nos outros países democráticos.

Só para começar, precisamos descartar as lendas urbanas, como essa de que o dinheiro é mal usado por causa de uma mulher chamada Mariângela. Como se não bastasse o desastre político-financeiro, ainda vivemos uma grande deficiência cognitiva.

Gentalha à solta

Em um mundo medíocre, defende-se melhor quem mais se prepara para lidar com os sujeitos de escassa personalidade, especialmente aqueles que ostentam algum poder 
Cícero Nogueira 

Muletas para pobres, burcas, ciganos e as ficções que engolimos

Ele parece velho. As costas curvadas, a barriga protuberante, as calças beges, o casaco azul-escuro de malha clássico. O jeito pausado e definitivo de falar. Não fossem as marcas do acne ainda recente e os olhos azuis quase infantis no rosto muito redondo e nada diria que tem apenas 25 anos. Conheci-o em Curitiba, onde me serviu de guia para a empresa turística onde trabalha desde os 14 anos, um emprego infantil que a lei brasileira permite ao abrigo dos “estágios mirins”, que obrigam a que os menores tenham bom aproveitamento escolar e horários compatíveis com as atividades letivas para poderem desempenhar funções administrativas remuneradas e com descontos. Filho da classe trabalhadora, furou a vida com o método irrepreensível com que regista todas as atividades do dia e as notas das reuniões no seu Moleskine preto e o ímpeto de trabalho que o fez não ter fins de semana nem folgas durante um ano e meio seguido.

O esforço compensou. Hoje tem um cargo de gestão na empresa, está na maçonaria, trata com familiaridade os funcionários do governo estadual e da prefeitura e viaja muito para a Europa em trabalho. Não é estranho que acredite no mérito, porque a sua história é feita de um suor que está a dar frutos. E, claro, tornou-se um jovem conservador de direita, que classifica o PT de Lula como um partido de extrema-esquerda. De extrema-esquerda?, interrogo-o, pedindo-lhe que me aponte uma política do Presidente do Brasil que tenha posto em causa o sistema capitalista, a democracia representativa ou a livre iniciativa de mercado. Sempre muito definitivo, desta vez hesita, para depois me falar dos “programas sociais” que são, no seu entender, “muletas para pobres”.


Para este rapaz vindo da classe trabalhadora, os apoios dados pelos programas para a ajuda à compra de casa ou para escapar à fome para os mais pobres são “muletas”. Mas como teria ele conseguido subir na escada social sem essa “muleta” da escola pública que frequentou sempre e que lhe permitiu tirar “três faculdades”, como diz com orgulho antes de chegar aos 30? A minha pergunta provoca-lhe um trejeito no rosto. É a favor da escola pública, claro. E começa com a história da “minha vizinha” para apontar um abuso. Para todos os casos há exemplos, cada um escolhe o que quer. E é óbvio que a minha arenga sobre a importância de redistribuir a riqueza através de serviços públicos de uso universal e gratuito, sustentados pelos impostos dos que mais têm, não vai fazê-lo mudar de ideias. Mas insisto, ainda assim, na esperança de que, olhando-se ao espelho, perceba que tem mais que ver com os pobres que considera uns falhados do que com os ricos que quer imitar.

No dia seguinte, aterro em Lisboa. Vinda do frio do inverno do Paraná e após 12h30 de voo, o calor deixa-me impaciente e corro para um táxi, onde, poucos minutos depois de me ter sentado, o motorista já se confessava admirador da extrema-direita nacional e me dizia com um sorriso triunfante: “Proibimos as burcas.” Soltei uma gargalhada pouco sensata para a situação em que me encontrava, mas ele tinha começado por elogiar a minha “boa energia” e eu, apesar do cansaço da viagem, arrisquei comentar: “Com tantos problemas no País, que diferença faz a lei das burcas, se não for só para nos distrair dos nossos problemas?” Eu nunca vi uma burca em Lisboa. Será que ele tinha visto uma burca? Para meu alívio, sorriu-me pelo retrovisor e lá confessou que não há muitas, não. Mas, por acaso, até viu uma mulher toda tapada na praia um dia e aquilo não lhe pareceu bem. Afinal, quando as “nossas mulheres vão lá ao país deles” também não podem usar decotes. “Sabe o que é que vai acontecer a essa mulher que viu na praia? Não vai deixar de usar burca. Vai deixar de ir à praia”, ousei, animada pela simpatia do taxista, que me respondeu com um riso abafado que eu traduzi como a confissão de que o regozijo dele com a nova lei não se prende com a vontade de ajudar as mulheres que são oprimidas pelo machismo, mas só com o desejo de não ver o que acha diferente.

A minha oposição não o fez acabar a conversa. Senti que tinha simpatizado comigo e não tinha nada a opor ao discurso que fiz sobre como andam a vender o País aos imigrantes ricos que tornam tudo insuportavelmente caro enquanto nos entretêm com a história das burcas. Por isso, passou para novo tópico: a queixa sobre como os polícias não fazem nada para controlar os ciganos que estão à saída do aeroporto a angariar clientes para os Uber e preferem perseguir os taxistas e andar constantemente a pará-los por coisas menores. Decidi não dizer que nunca tinha visto esses ciganos ali à saída do aeroporto, mas perguntei-lhe se já lhe tinha acontecido ser parado pela polícia. Pelo relato exaltado que fazia, ia jurar que seria um acontecimento, se não diário, pelo menos semanal. “Nunca aconteceu”, respondeu de rompante. “Mas há colegas a quem está sempre acontecer.” E logo sacou de uma inverosímil história sobre um taxista que teria ido a tribunal por ter cobrado um euro a mais numa corrida.

A partir daí, a conversa foi para tópicos mais leves. E acabei a agradecer-lhe genuinamente a simpatia com que fez o serviço. Mas saí do carro a pensar em como a conversa se tornou um terreno minado, quase impossível, onde cada um dos interlocutores se agarra ao seu chão e não se afasta um milímetro das suas convicções iniciais. Não me interpretem mal: não me sinto acima disso. Na verdade, estou quase sempre demasiado cheia de certezas e, demasiadas vezes, atiro-as para cima de quem está à minha frente ainda antes que aquele com quem falo consiga acabar sequer uma frase.

A conversa tornou-se um combate. Sair ilesa, sem despertar a fúria daqueles com quem converso, é já uma vitória. O ódio está quase sempre a pairar sobre as mais banais trocas de palavras entre estranhos, como uma substância altamente inflamável, à espera de iniciar a sua combustão. Por isso, acabar a conversa entre sorrisos e cumprimentos de simpatia é já uma vitória que celebro. Mas como é que se pula o muro das convicções absolutas? Como é que se passa do caso da “minha vizinha” para um terreno feito de realidades e não só de perceções? Como é que se convence o outro? Como é que nos deixamos convencer? Não é só a democracia que está em causa quando se perdem essas capacidades, é a própria vida em sociedade que se torna impossível.

Não tenho uma resposta definitiva para este problema, que me parece um dos mais sérios que enfrentamos neste mundo de hoje, feito de grandes indignações, que se esfumam à velocidade de um vídeo no TikTok, de verdades absolutas alicerçadas em sensações, de ódios e amores divididos por tribos e seitas. Mas há uma coisa que a minha experiência me tem demonstrado: quando optamos por não virar as costas a quem não pensa como nós, há uma porta que se entreabre. Quando não tratamos o outro como um monstro, aproximamo-nos. Quando tentamos compreender aquilo que nos parece inaceitável, não abdicamos das nossas convicções, mas cortamos caminho ao ódio. E isso, não sendo tudo, é já alguma coisa.

'A submissão do Brasil é o prêmio mais valioso disponível'

"Quem enxerga nas tarifas aplicadas pelo governo Donald Trump o protagonismo do embate eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro assistiu apenas o trailer desse filme", diz o analista de relações internacionais Uriã Fancelli. Ele afirma que a relação de Trump com as tarifas é muito anterior ao Brasil e antecede até mesmo sua vida política. Para Fancelli, o que mudou neste segundo mandato foi a finalidade da ferramenta. Segundo ele, Trump passou a usar as tarifas para forçar submissão, sobretudo na América Latina, e essa estratégia virou documento oficial. A Estratégia de Defesa publicada em janeiro determina a aplicação do que a Casa Branca batizou de Corolário Trump à Doutrina Monroe, com o objetivo de restaurar a preeminência americana no hemisfério. O analista observa ainda que o próprio presidente americano adotou o apelido criado pela imprensa para essa estratégia: "Doutrina Donroe".

— Digo submissão, e não alinhamento ideológico, por uma razão simples. Washington convive muito bem com Delcy Rodríguez, na Venezuela, hoje talvez a maior representante da continuidade do chavismo no continente, porque ela entrega obediência. O Telegraph mostrou que aliados de Trump venceram todas as sete eleições presidenciais realizadas na região desde a sua posse. Nesse tabuleiro, acredito que a submissão do Brasil é o prêmio mais valioso disponível. Estamos falando da maior economia da América Latina, de um país com protagonismo no Brics, que criou o Pix e enfrentou os americanos na OMC no debate sobre economia digital. Um país desse tamanho decidindo sozinho é justamente o que essa doutrina não tolera.


Na avaliação do analista, esse contexto desmonta a narrativa do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que atribuiu o tarifaço ao ego de Lula.

— E o detalhe saboroso é que quem desmente o secretário é o próprio governo dele, por meio do parecer técnico publicado pelo USTR, que abre afirmando que as práticas brasileiras prejudicam os Estados Unidos há décadas. Décadas abrangem os governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Jair Bolsonaro. Basta olhar cada um dos alvos para entender. O Pix, formalmente acusado de ser gratuito demais, foi criado em 2020, ainda no governo anterior. As decisões do Judiciário que tanto incomodam Washington não mudam com eleições, porque nossas instituições são independentes. A presença do Brasil na lista americana de observação sobre propriedade intelectual existe desde 2007, cinco presidentes atrás. E os acordos do Mercosul com México e Índia levaram décadas para ser negociados. Ou seja, o documento descreve essencialmente políticas de Estado, por mais questionáveis que possam ser. Nenhum desses alvos nasceu no governo atual, e nenhum deles desaparecerá quando houver mudança de governo.

A pergunta que fica, diz Fancelli, é: por que personalizar tudo em Lula? Na visão do analista, a resposta é que essa personalização blinda Flávio Bolsonaro da responsabilidade política pelo tarifaço, enquanto Washington entende que a submissão que procura sairia mais barata com ele no Planalto.

— Foi o próprio Flávio Bolsonaro quem afirmou, em carta, ter uma equipe de transição à disposição de Trump. A família dele comemorou o tarifaço do ano passado antes de calcular o custo político desse gesto. E foi ele quem abraçou publicamente a hipótese de operações militares americanas na Baía de Guanabara. No fim, a lógica se fecha sozinha. Se cada um dos alvos das tarifas sobrevive a qualquer troca de governo, o motivo delas precisa estar em outro lugar. Está no tamanho do Brasil e no incômodo que esse tamanho causa.

Fancelli lembra que, em 1987, quando ainda era apenas um empresário, Trump pagou anúncios de página inteira nos principais jornais americanos acusando os aliados dos Estados Unidos de enriquecerem à sombra da proteção militar americana. Desde então, passou décadas repetindo, em entrevistas, que taxar importações resolveria esse problema. O analista afirma ainda que a convicção de Trump em relação às tarifas permaneceu inalterada, apesar do acúmulo de evidências sobre os efeitos negativos dessa estratégia para a economia americana.

— Tarifa é imposto de importação. Ela é recolhida na alfândega americana e diluída no preço pago pelo consumidor. Uma análise do Cato Institute, um centro de pesquisa liberal que ninguém acusaria de antitrumpismo, encontrou repasse de até 96% desse custo ao consumidor americano. Eu acredito, inclusive, que a paixão dele pelo instrumento é genuína. O problema é que se trata de uma paixão comprovadamente ineficiente, cuja fatura acaba chegando ao carrinho de compras do próprio eleitor que ele jura proteger.

Tarifaço: a conexão Trump-Bolsonaro que custa bilhões ao Brasil

Países não têm amigos, mas interesses. E quando interesses de uns e de outros entram em choque, eles tentam negociar ou então vão à guerra. Pode ser por meio de aplicações de tarifas mútuas, que levem o lado mais fraco a ceder, embora ele nem sempre ceda. Pode ser também por meio de armas, o que produz mortes.

No momento, os Estados Unidos combatem nos dois terrenos: o comercial, via imposição de tarifas a quase todos os países do mundo sem poupar sequer seus aliados históricos, e o sanguinolento, haja vista o que se passa no Oriente Médio, onde o Irã continua debaixo de fogo letal e reage atacando bases militares norte-americanas.


As relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos têm mais de 202 anos. Elas começaram em 26 de maio de 1824, quando os Estados Unidos reconheceram oficialmente a independência do Brasil, proclamada dois anos antes por Dom Pedro I. O Brasil e os Estados Unidos nunca guerrearam entre si.

De lado a lado, barreiras comerciais e disputas tarifárias ocorrem continuamente por meio de centenas de processos individuais de antidumping, subsídios e medidas de salvaguarda. No entanto, a imposição de pacotes generalizados de sobretaxas (os chamados “tarifaços”) só se deu em ocasiões muito marcantes.

Há cerca de 40 anos, durante o governo de Ronald Reagan, os Estados Unidos aplicaram uma tarifa de 100% sobre diversos eletrônicos e produtos manufaturados brasileiros como retaliação à chamada “Lei de Informática”, que restringia a entrada em nosso mercado de computadores americanos. Pressionado, o Brasil recuou.

Sob a administração de Donald Trump, em agosto do ano passado, os Estados Unidos aplicaram uma taxação de 50% sobre mais de 3,8 mil itens brasileiros, incluindo café, calçados e tecidos. Parte dessa cobrança sobre itens agrícolas foi revogada temporariamente em novembro daquele ano por decisão da Suprema Corte americana.

Ontem, o governo americano oficializou uma sobretaxa de 25% baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A medida atinge produtos como açúcar de cana, etanol, gasolina e máquinas pesadas. Ficaram de fora da lista grandes motores da pauta brasileira de exportação, como suco de laranja, carne bovina, café e aviões.

Vida que segue — ou que seguiria —, se por trás do novo tarifaço não estivesse o desejo indisfarçável de Trump de influir nos resultados das eleições brasileiras de outubro próximo para beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Somente este ano, Flávio foi seis vezes aos Estados Unidos para suplicar ajuda a Trump.

Quando do tarifaço de 2025, Trump escreveu uma carta a Lula ordenando que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendesse “imediatamente” o julgamento dos golpistas do 8 de janeiro, entre eles Jair Bolsonaro. Se não bastasse, proibiu a entrada nos Estados Unidos de ministros do STF e do governo federal.

A essa altura, não há mais como descolar a imagem dos Bolsonaro dos tarifaços de Trump. O de agora atinge diretamente US$ 7,4 bilhões em mercadorias (cerca de 18% de tudo o que o Brasil vende para os Estados Unidos), gerando uma perda potencial de até US$ 11 bilhões (cerca de R$ 52 bilhões) nas exportações brasileiras.

Em vídeo postado nas redes sociais, Flávio culpou Lula pelo tarifaço e não se opôs a ele para não desagradar a Trump. Pelo contrário: reproduziu parte da fala de Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, que disse:

— Lula não negociou de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Ele colocou seu ego à frente de um acordo, e essas tarifas são o preço por isso.
Ricardo Noblat

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Trump e o 'tariflávio'

A ameaça de tarifas de Donald Trump enquadra os esforços do Brasil para proteger sua democracia como uma prática comercial desleal — e confere ao bolsonarismo um palco em Washington.

Lula quer que o Brasil tenha capacidade de fiscalizar a desinformação antidemocrática [dentro do país]. Trump acredita que os EUA deveriam ter jurisdição sobre o espaço informacional do país,

Trump rebatizou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a embarcar nessa narrativa.

Editorial do The Guardian 

Os caminhos da extrema direita

"Bolsonaro tem os votos", constatou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, ao avaliar a importância da carta na qual o ex-presidente, em prisão domiciliar, reiterou seu apoio à candidatura do primogênito. A declaração vale para o momento, mas também retrata a dependência das forças da direita tradicional da musculatura eleitoral de sua expressão política mais extremada.

A mudança do centro de gravidade do campo direitista nesse rumo não é peculiaridade brasileira. A extrema direita avança no Ocidente, observa Sérgio Fausto, diretor-geral da Fundação Fernando Henrique Cardoso, em lúcido artigo publicado em O Estado de S. Paulo, na segunda-feira.

Por toda parte, a direita aclimatada ao jogo democrático vai perdendo primazia para partidos e lideranças populistas que desdenham das regras do sistema. Nos Estados Unidos, chegaram ao poder com Donald Trump, depois de tomar de assalto o Partido Republicano. Na Europa, a extrema direita governa a Itália e participa das coalizões governantes na Finlândia, na Croácia e na Eslováquia. Já se transformou na segunda força em nada menos que sete países: Espanha, Portugal, Alemanha, França, Áustria, Bélgica e Suécia.

Na vizinhança, populistas de direita levaram a melhor, neste ano, no Equador, no Peru e na Colômbia –não bastassem as vitórias precedentes no Chile, na Bolívia e na Argentina. A Venezuela, embora invadida pelos Estados Unidos, continua nas mãos do establishment chavista, uma variante de esquerda do populismo. Só o Uruguai e o Brasil — além da Guiana e do Suriname — continuam sob governos plenamente fiéis aos valores e regras da democracia representativa.

Seria um engano ver no ciclo eleitoral do entorno apenas a recorrente alternância no poder entre esquerda e direita, por meio da qual frustrados eleitores desalojam os incumbentes e premiam seus opositores. Pois faz toda a diferença de que opositores se trata.

A ascensão dos populismos extremistas inaugura uma situação de incerteza, diferente daquela que caracteriza os sistemas democráticos. Estes funcionam quando suas instituições asseguram que a disputa eleitoral não seja um jogo de cartas marcadas cujo resultado, por suposto, é sabido de antemão —daí a incerteza. E a eleição de populistas extremados torna imponderável o futuro da própria democracia.

Levados ao governo pelo voto, líderes populistas têm dois caminhos: Podem aferrar-se ao poder manipulando as regras do jogo —no limite solapando a democracia. Essa foi a escolha de Jair Bolsonaro, que, derrotado nas urnas, quis dar um golpe de Estado e fracassou. Liquidar a democracia representativa parece ser também a trilha que vai seguindo Donald Trump.

Mas não está excluído que líderes de extrema direita se adaptem às instituições democráticas; no poder, abandonem suas promessas mais radicais e optem por políticas de direita, que, mesmo regressivas, são compatíveis com o regime liberal representativo.

Esse parece ser o caso da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Ainda não há exemplos suficientes para entender o que pode levar a um ou outro desenlace. Melhor não saber, torcendo para que os populistas extremados percam eleições.

A sobrevivência também se aprende

Sabe o que deve fazer no momento em que um incêndio florestal se aproximar perigosamente do local onde se encontra? E como deve atuar, de imediato, se for surpreendido por um terramoto? Ou como deve proteger-se na iminência de uma tempestade violenta, com ventos fortes e risco de inundação rápida? Não se preocupe em responder, pois só há uma maneira de ter respostas prontas, quase automáticas, a cada uma dessas perguntas: sermos treinados para saber como enfrentar o perigo e o que fazer em caso de emergência. Algo que não se faz com avisos banais nem através de mensagens para o telemóvel que, na maioria dos casos, se limitam a dizer: “Proteja-se.” A verdadeira proteção exige educação contínua, a realização de exercícios frequentes e a calendarização de simulacros que permitam, efetivamente, testar situações de perigo e não sejam apenas burocráticos.


Trazer esta conversa hoje para discussão pública não deve ser considerado alarmismo ou um assunto desligado da realidade. Muito pelo contrário. Este é um tema urgente e que precisa de ser debatido pela sociedade, a todos os níveis, tendo em conta tudo aquilo que se observa pelo mundo, em termos de fenómenos extremos.

Algumas das piores consequências das alterações climáticas, de que ouvimos falar nas últimas duas décadas, já não são apenas cenários para um futuro mais ou menos distante. Em qualquer estação do ano, acumulam-se já sinais que deveriam obrigar-nos a uma mudança de atitude em matéria de prevenção, mas também de adaptação ao “novo normal” para o qual temos de estar vigilantes e preparados.


No entanto, apesar desta aceleração brutal da realidade, a nossa postura coletiva e individual continua perigosamente ancorada numa letargia burocrática, que não acompanha as mudanças na atmosfera, mas também as que têm ocorrido no território e na demografia. E, ainda por cima, começa a disseminar-se a ideia de que a tecnologia pode resolver tudo. Como se o alerta lançado pela Proteção Civil ou o aviso emitido por um smartphone fossem as armas suficientes para que uma população fique alerta e em segurança. Um aviso sonoro emitido por um algoritmo no ecrã do nosso telemóvel é útil, mas não constitui uma apólice de seguro contra a catástrofe. O aviso apenas anuncia a iminência da tragédia, não nos ensina a sobreviver a ela.

O trágico incêndio florestal ocorrido recentemente na zona de Los Gallardos, em Almería, no sul de Espanha, deve servir-nos como aviso. Não só as imagens nos fazem lembrar a catástrofe de Pedrógão, mas também a forma explosiva como o fogo se propagou nos remete para a memória desse fatídico ano de 2017. Em Los Gallardos como em Pedrógão, a terrível visão de veículos calcinados nas estradas deixou uma mesma lição: o pânico gera a autoevacuação desordenada, que é o pior inimigo da sobrevivência. Sem saber o que fazer, as pessoas fogem ao acaso e entram diretamente na boca do lobo. Quando o fogo se descontrola, não há fuga possível através da improvisação.

Da mesma forma, o recente duplo sismo que abalou a Venezuela recorda-nos que a fúria da Terra não avisa por SMS com minutos de antecedência. Num terramoto, a janela de oportunidade para tomar decisões que separam a vida da morte mede-se em escassos segundos. O reflexo de procurar abrigo sob uma estrutura resistente, o conhecimento exato das saídas de emergência e a manutenção da calma coletiva dentro de edifícios altos não surgem por intuição divina. Como o Japão, um país altamente ameaçado por sismos, já demonstrou, são o resultado direto de anos de exercícios repetidos à exaustão, integrados no currículo escolar, nas empresas e nas rotinas familiares. Quando a terra treme ou o fogo avança, a mente humana bloqueia a capacidade de raciocínio lógico complexo; o que nos salva é o automatismo do treino prévio.

Ninguém sabe quando será a próxima catástrofe, mas sabemos que a probabilidade de ela ocorrer está a aumentar. É preciso, por isso, transformar a proteção civil numa disciplina viva e comunitária. Os simulacros de sismo e de incêndio não podem ser eventos festivos ou meras formalidades de calendário para cumprir legislação laboral. Têm de ser exigentes, rotineiros e realistas. Só quando o comportamento seguro face ao perigo for um reflexo automatizado pelo treino, e não uma recomendação lida à pressa num ecrã, estaremos verdadeiramente preparados para sobreviver a esta nova era de extremos. E, de uma vez por todas, convinha que em Portugal se começasse a falar mais sobre prevenção, antes das catástrofes, ao invés de se passar depois dias a discutir sobre o que correu mal – e tudo continuar na mesma.

O que separa o perigoso do diferente?

Tolerância social e imunidade institucional: o que o corpo nos inspira

Vivemos um momento de altos níveis de sofrimento mental coletivo em todo o mundo – mais de 1 bilhão de pessoas convivem hoje com transtornos mentais, segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde. Nesse contexto, os debates sobre até onde deve ir a tolerância democrática com discursos extremistas, discordâncias internas em organizações, vozes dissonantes em qualquer espaço coletivo costumam se polarizar entre dois extremos: tolera-se tudo em nome da liberdade, ou restringe-se amplamente em nome da proteção.


Duas tradições de pensamento, vindas de campos de saberes distintos, sugerem que essa polarização é, em boa parte, um problema de critério mal definido. A saída não estaria em escolher um dos extremos, mas em mudar a pergunta que se faz diante de cada situação.

Em 1945, o filósofo austríaco Karl Popper descreveu o que chamou de paradoxo da tolerância, uma ideia que permanece atual: uma sociedade que estende tolerância irrestrita, inclusive a quem usa essa liberdade para destruir a própria tolerância, corre o risco de vê-la desaparecer. Grosso modo, se tolero o intolerável, já estou doente. Por isso, argumentava Popper, sociedades abertas precisam se reservar o direito de não tolerar a intolerância ativa – valorizar, respeitar e buscar aprender com a diversidade e as diferenças – sob pena de serem destruídas, de dentro, por ela.

O argumento voltou ao centro do debate público em discussões sobre moderação de discurso, financiamento de movimentos antidemocráticos por meios democráticos e combate à infodemia na saúde pública. Mas o paradoxo, isolado, não resolve o problema prático mais difícil: quem decide o que conta como “intolerância ativa” o suficiente para justificar um limite – e com qual critério?

Um modelo emprestado da imunologia ajuda a entender essa questão. No início dos anos 2000, a pesquisadora franco-americana Polly Matzinger propôs que o sistema imunológico não reage apenas ao que é estranho, mas principalmente ao que é perigoso e causa dano.

Se o corpo atacasse tudo o que é diferente, e não apenas o que causa dano, destruiria tecidos saudáveis, como ocorre na autoimunidade. Nossa alimentação ilustra essa diferença: leite, ovos, carne e vegetais vêm de fora e nos nutrem, enquanto rejeitamos alimentos estragados, contaminados ou com odor de podridão, pois podem causar doenças. A evolução nos ensinou que tolerar não é aceitar tudo, mas distinguir o que nos faz bem do que pode nos causar dano.

A analogia com instituições é direta: sistema, organização ou democracia que trata toda diferença, discordância ou heterodoxia como ameaça pode atacar o que a mantém saudável: a diversidade, o debate e a correção de erros. É uma “autoimunidade institucional”. Já um sistema que reage com firmeza a danos reais como fraude, violência, corrupção e violação de regras essenciais, preserva a diversidade que não ameaça seu funcionamento.

É nesse ponto que a obra do jurista italiano Norberto Bobbio complementa a de Popper. ao lembrar que a democracia depende menos de quais ideias prevalecem e mais das regras que permitem o debate entre ideias diferentes: quem decide, como decide e quais limites todos devem respeitar. É possível discordar, desde que se cumpra a mesma regra do jogo. Quando alguém a burla ou cria exceções para si, a convivência democrática se transforma em predação.

Distinguir as regras do jogo do conteúdo do jogo evita a falsa escolha entre tolerar tudo e restringir demais.

O limite legítimo não deve atingir a diversidade de ideias, mas as ações que impedem uma disputa justa: fraude, violência, conluio, captura ilegal de instituições e desrespeito às regras comuns.

Bobbio também mostrou que a democracia pode ser enfraquecida por dentro, quando alguém usa as próprias liberdades democráticas para destruir as regras que as sustentam. Nesse ponto, sua reflexão complementa o paradoxo da tolerância de Popper.

Em Como as Democracias Morrem, os cientistas políticos de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram que o colapso democrático contemporâneo costuma ocorrer de forma gradual e legalista, liderado por governantes eleitos que usam as próprias instituições para minar o sistema por dentro.

Os autores apontam quatro sinais desse processo: rejeição das regras democráticas, deslegitimação dos adversários, tolerância à violência política e restrição das liberdades civis. Essa erosão se consolida quando regras como tolerância entre rivais e autocontenção no uso do poder legal são abandonadas pelas elites políticas.

A biologia ajuda aqui também: é parecido com o câncer, que tem a habilidade de neutralizar o sistema imune, evitando ser reconhecido como algo a eliminar. Passado um tempo, a célula cancerígena se reproduz mais rápido que a célula sadia e toma seu lugar. Em muitos casos, o câncer se torna fatal porque tecidos e órgãos deixam de cumprir suas funções. Quando o sistema imune é silenciado, adoecemos.

Transposta para organizações e lideranças, a distinção é igualmente operativa: o que deve ser protegido não é a opinião da liderança, mas as regras que permitem discordar de forma produtiva: transparência, liberdade para questionar sem retaliação e critérios claros para decidir. Discordar faz parte do jogo. Violar as regras é o que exige limite.

Colocando essas referências em conjunto, emerge um critério operacional: Diante de uma crítica, discordância ou posição minoritária, a pergunta não deve ser “isso é diferente do esperado?”, mas “isso viola as regras do debate ou é apenas o uso legítimo do direito de discordar?”.

A liderança que trata toda discordância como ameaça confunde diferença com dano. Com o tempo, desmotiva as pessoas e perde sinais importantes de problemas reais, pois ninguém mais se sente seguro para alertar.

No extremo oposto, uma liderança que tolera violações claras das regras enfraquece o próprio espaço de diálogo. Como alertou Popper, quem não respeita as regras pode ocupar esse espaço até eliminar a pluralidade. A biologia ensina justamente esse equilíbrio: não atacar toda diferença, mas reagir com firmeza ao que causa dano.

As regras do jogo, em democracias e organizações, não devem ser imutáveis. Elas precisam prever formas legítimas de revisão, sem depender apenas de crises ou disputas específicas, quando aumenta o risco de mudanças em benefício de quem está no poder.

Na prática, isso exige revisões periódicas, canais permanentes para apontar distorções e critérios claros para distinguir discordância de violação das regras.

É como a vigilância após tratamento de um câncer: consultas e exames são programados mesmo sem sinais de doença, para identificar alterações precocemente e preservar os resultados alcançados.

Um critério confiável orienta, embora não elimine as ambiguidades da vida real. Ainda assim, ajuda a superar a falsa e perigosa escolha entre tolerar tudo e controlar demais.

As referências convergem para um princípio de sanidade: bons limites devem proteger as regras que permitem a diversidade, e não impedir a própria diversidade.

Reconhecer essa diferença e manter essas regras sob revisão é uma condição concreta para que famílias, organizações, democracias e culturas cívicas pratiquem os valores que afirmam defender.

Fica o convite: antes de aderir a uma ideia, pergunte-se – ela apenas me impressiona ou também me oferece boas razões?
Rubens Harb Bollos

O Brasil além dos candidatos

O Brasil caminha para sua terceira eleição presidencial consecutiva marcada mais pela rejeição do que pela esperança. Em vez de discutir projetos nacionais, o debate público continua dominado por nomes, temperamentos e biografias. Ao final, muitos eleitores sentem-se condenados a escolher apenas o mal menor.

Trata-se de um círculo vicioso que dificilmente será rompido por geração espontânea ou pela iniciativa dos grupos políticos que mais se beneficiam dele. Lulismo e bolsonarismo passaram a alimentar-se mutuamente desde 2018, transformando a eleição em um permanente plebiscito sobre líderes, e não sobre ideias.


Nesse contexto, merece atenção a iniciativa coordenada pelo ex-presidente Michel Temer, de reunir especialistas de diferentes áreas como Marcos Lisboa, Nelson Jobim, Rubens Barbosa, Raul Cutait, Flávia Piovesan, José Pastore, Blairo Maggi, entre outros, para elaborar o documento Estrada para o Futuro. A iniciativa representa uma contribuição importante para recolocar a disputa presidencial no terreno programático.

O documento procura deslocar o debate eleitoral da disputa de nomes para a comparação entre projetos de país, estimulando os candidatos a apresentar propostas concretas para os principais desafios nacionais. Se conseguir influenciar a campanha, oferecerá ao eleitor critérios mais consistentes para avaliar programas de governo, e não apenas simpatias ou rejeições pessoais. Mas isso, por si só, não basta.

Nenhum projeto se realiza sem um ambiente de estabilidade política e um mínimo de entendimento em torno das prioridades permanentes do Estado. As grandes transformações brasileiras nasceram quando o país conseguiu construir consensos mínimos em torno de objetivos permanentes, preservando a disputa democrática sobre os diferentes caminhos para alcançá-los. Foi assim em momentos decisivos da história brasileira, como a Constituição de 1988, o Plano Real e o projeto desenvolvimentista sintetizado por Juscelino Kubitschek no lema “Cinquenta anos em cinco”

A polarização que passou a dominar a política brasileira transformou-se em poderoso fator de paralisia institucional. Ela contamina o debate público, radicaliza posições, reduz os espaços de negociação e compromete a capacidade do Estado de formular políticas de longo prazo. Um país dividido permanentemente entre vencedores e inimigos dificilmente conseguirá superar a armadilha da renda média, elevar sua produtividade, melhorar seus indicadores sociais e recuperar a confiança dos investidores e da própria população.

Foi precisamente sobre esse ponto que Michel Temer concentrou uma das mensagens mais relevantes de sua recente entrevista ao Estadão. Segundo ele, nos primeiros dias de governo, o presidente eleito deveria convocar os chefes dos demais Poderes, representantes da sociedade civil e até mesmo a oposição para construir um grande pacto republicano. “O Brasil precisa de um pacto e não dessa divisão”, afirmou. A proposta vai além de um gesto protocolar de conciliação. Ela parte do reconhecimento de que nenhuma agenda de reformas prosperará se o país continuar vivendo em permanente estado de beligerância política.

Entretanto, qualquer pacto nacional somente terá credibilidade se estiver assentado sobre um princípio inegociável: a observância rigorosa da Constituição por todos os Poderes da República. Não apenas pelo Executivo, tradicional alvo das cobranças, mas igualmente pelo Legislativo e pelo Judiciário. A estabilidade democrática depende do respeito aos limites constitucionais, da separação de competências e do sistema de freios e contrapesos concebido pelos constituintes de 1988. Quando um Poder invade a esfera de atuação do outro, ainda que movido pelas melhores intenções, abre-se espaço para insegurança institucional e para a erosão gradual da confiança na democracia.

Essa reflexão encontra eco no recente livro A oligarquia dos Três Poderes e a crise da democracia, do jurista Joaquim Falcão. A obra chama atenção para os riscos da excessiva concentração de poder nas cúpulas institucionais e reafirma uma premissa essencial: a democracia depende de instituições que respeitem os limites constitucionais e preservem o equilíbrio entre os Poderes.

É justamente nessa direção que o documento Estrada para o Futuro insiste na necessidade de fortalecer as instituições, aprimorar a gestão pública, promover responsabilidade fiscal, ampliar investimentos em educação, ciência e inovação, elevar a produtividade da economia, reduzir desigualdades regionais, modernizar a infraestrutura e construir um ambiente de maior segurança jurídica.

São propostas que podem receber críticas, aperfeiçoamentos ou até discordâncias, mas que têm o mérito de enfrentar questões permanentes do desenvolvimento brasileiro, em vez de se limitar às disputas conjunturais que dominam as redes sociais e os palanques.

O país necessita recuperar a capacidade de discutir o Brasil para além da próxima eleição. Nações que conseguiram dar saltos de desenvolvimento foram capazes de construir acordos duradouros em torno de objetivos permanentes, preservando naturalmente o espaço para a alternância democrática e para a divergência política. Divergir faz parte da democracia; transformar o adversário em inimigo permanente é que compromete sua vitalidade.

Independentemente do destino que venha a ter o documento Estrada para o Futuro, a iniciativa já terá prestado um relevante serviço ao debate público. Ela recoloca em evidência uma verdade que o país parece ter esquecido: democracias maduras escolhem governantes, mas também discutem projetos nacionais. Nomes passam. Projetos permanecem. E somente um projeto de país, construído dentro dos limites da Constituição e sustentado por instituições respeitadas, poderá oferecer ao Brasil um horizonte de estabilidade institucional, crescimento econômico e uma convivência democrática menos polarizada.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Pensamento do Dia



Quando a 'pequena política' põe em risco o papel do Estado Democrático

A reação do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, às decisões do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), revela algo mais profundo do que uma disputa judicial em torno de emendas parlamentares. Ao tratar como natural a participação de um dirigente partidário sem mandato na indicação de verbas públicas — prática também atribuída pela Polícia Federal ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha —, Valdemar expõe uma cultura política dominante no Congresso Nacional que passou a considerar o Orçamento da União patrimônio compartilhado por cúpulas partidárias, líderes do Congresso e operadores instalados na máquina legislativa.


Segundo a investigação, 21 emendas relacionadas ao dirigente do PL movimentariam R$ 119,2 milhões, dos quais cerca de R$ 104 milhões já teriam sido pagos. A defesa nega dolo, fraude e obtenção de vantagem pessoal e anuncia que contestará as medidas. No caso de Eduardo Cunha, são investigadas 29 emendas, no valor de R$ 6,1 milhões, registradas como indicações da liderança do Republicanos, embora o ex-deputado não exerça mandato. Cunha também nega irregularidades.

Em ambos os episódios, a questão central não é o diálogo político, mas a possível existência de “cotas orçamentárias informais” administradas por agentes sem competência constitucional para dispor do Orçamento. A decisão mais recente de Dino reafirma que a indicação de emendas é um ato funcional e personalíssimo. Emendas não são propriedade particular, não podem ser cedidas, emprestadas ou vendidas, nem administradas por ex-parlamentares, dirigentes partidários, empresários ou intermediários.

Depois do fim do orçamento secreto, coibido pelo Supremo, a opacidade voltou a se instalar por outros caminhos. E não se resume às suspeitas envolvendo Valdemar ou Cunha, nem pode ser atribuído exclusivamente ao PL ou ao Republicanos. Trata-se de uma prática generalizada, que beneficia principalmente os grandes partidos, do PL ao PT, passando pelas legendas do Centrão.

É um iceberg. Auditoria da Controladoria-Geral da União examinou R$ 20,7 bilhões em emendas Pix distribuídas, entre 2020 e 2024, a 5.335 municípios — 95% das cidades brasileiras. Numa amostra de 15 municípios, 12 apresentaram transparência e rastreabilidade inadequadas. Entre as 14 prefeituras que já haviam executado os recursos, nove apresentaram irregularidades graves, como indícios de direcionamento de contratações, sobrepreço e superfaturamento.

Na saúde, 75 auditorias do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde, realizadas em 48 municípios de 23 unidades da Federação, identificaram impacto financeiro de R$ 25,9 milhões sobre R$ 53,3 milhões fiscalizados. Desse total, R$ 20,6 milhões foram classificados como danos efetivos ao erário e R$ 5,3 milhões como desvios de recursos.

Não se trata de demonizar as emendas. Uma coisa é atender necessidades locais ignoradas pela burocracia federal e aproximar o Orçamento das demandas dos municípios. Outra é transformar um instrumento complementar no eixo dominante da política fiscal e eleitoral. Quando a distribuição deixa de obedecer a planejamento nacional, critérios técnicos, transparência e avaliação de resultados, o Estado passa a ser fragmentado, mas ninguém se responsabiliza pela efetiva execução dos recursos nem com a política a que servem.

O pensador italiano Antônio Gramsci distinguia a “pequena política” — feita de intrigas, articulações de bastidores e interesses fisiológicos — da “grande política”, relacionada à organização do Estado, às estruturas econômicas e sociais e aos grandes interesses nacionais. No Brasil, as emendas inverteram essa hierarquia. A pequena política apropriou-se de parcela tão expressiva do Orçamento que se transformou numa questão de Estado, ou seja, da grande política.Se antes foram os “anões do Orçamento”, agora é o colégio de líderes de bancada.

Em 2024, o conjunto das emendas chegou a aproximadamente R$ 47,4 bilhões, valor próximo dos R$ 55 bilhões destinados ao Programa de Aceleração do Crescimento, em 2024. O volume executado dessas emendas atingiu R$ 9,3 bilhões em 2025 e chegou a R$ 12,1 bilhões no Orçamento de 2026. A Transparência Brasil identificou R$ 1,3 bilhão executado em 2025 por meio de 1.341 emendas registradas apenas em nome de líderes partidários. A Comissão de Saúde concentrou R$ 818,1 milhões dessas indicações sem autoria nominal.

Em vez de desaparecer, o orçamento secreto mudou de nome, de modalidade e de operador. PP, União Brasil, Republicanos, PL, Avante, Podemos e Solidariedade utilizaram as chamadas emendas de liderança em 2025. Em 2026, o PT também passou a empregar o modelo. A generalização explica a resistência do Congresso. A consequência eleitoral é uma disparidade de armas quase intransponível entre quem tem e quem não tem mandato e a formação de um regime no qual um pequeno grupo de líderes de bancada detém o controle da maior parte dos investimentos da União. E que coloca em risco o processo democrático, ao manipular a competitividade nas eleições parlamentares.

Publicidade de bets também é desafio regulatório na Europa

Logo após a primeira semana de transmissão de jogos da Copa do Mundo, os comentários sobre a quantidade de anúncios de casas de apostas, também conhecidas como bets, nas transmissões brasileiras se multiplicaram nas redes sociais. O alvo principal era a Cazé TV, acusada de transmitir publicidade excessiva e incitar apostas.

O movimento levou a uma investigação da Secretaria Nacional do Consumidor e posteriormente às mudanças anunciadas pelo Ministério da Fazenda, que restringem a publicidade de bets. As medidas incluem inserção de advertências nas propagandas e restrições a estratégias de marketing, inclusive proibindo o uso de comentaristas para induzir a apostas.

Situações similares tem sido vistas em diferentes países, como França, Alemanha e no Reino Unido, onde o crescimento da publicidade de bets em eventos esportivos vem desafiando reguladores, ao mesmo tempo que os hábitos de consumo de mídia mudam.

Se na Cazé TV os apresentadores e comentaristas anunciavam as bets durante a transmissão, inclusive comentando odds (probabilidades de ganho) e mencionando opções de apostas, em outros mercados há restrição para os anúncios durante as transmissões.

Mas legisladores encontram cada vez mais dificuldade de implementar regras que limitem os anúncios das plataformas de forma efetiva, considerando a rápida adaptação do mercado publicitário.

Anúncios por meio de influencers, novos patrocínios esportivos nos estádios e até mesmo transmissão ao vivo pelas próprias casas de aposta são alguns exemplos.

"O problema é que a regulação é implementada de forma extremamente lenta e com o avanço da publicidade é muito difícil acompanhar”, afirma o professor Raffaello Rossi da Universidade de Bristol no Reino Unido, que estuda as estratégias de marketing de plataformas de apostas esportivas em diferentes mercados.

Rossi foi um dos responsáveis por um estudo publicado pela Universidade de Bristol em parceria com a consultoria Ipsos, que aponta que o movimento observado no Brasil é similar ao de outros países europeus.

A autorização e regulamentação do mercado de bets foi seguido por um crescimento acentuado de anúncios das plataformas, levando a medidas para restringir a publicidade por conta dos danos associados às apostas.
Regulação europeia e mudanças de mercado

Na França, por exemplo, a discussão sobre a quantidade de anúncios de bets fez com que parlamentares apresentassem um projeto de lei pouco antes do início da Copa, sugerindo o aumento das restrições para os anúncios destas plataformas.

O movimento ocorre em meio ao avanço das apostas esportivas no país. Um estudo encomendado pela Autoridade Nacional de Jogos, que regula o setor na França, calculou que cerca de 40% dos espectadores franceses do mundial pretendiam apostar durante o torneio.

O país já possui limitações de publicidade para bets. Além de limitar o tempo diário de anúncios na televisão em geral, mais de uma plataforma de aposta não pode aparecer em cada inserção na programação e é obrigatória a difusão de mensagens de prevenção ao vício durante grandes eventos esportivos.

O projeto de lei apresentado em junho, sugere a proibição de propagandas de bets durante as transmissões, além de limitar os horários de exibição e proibir figuras públicas e influencers de aparecerem nos anúncios.

Na Alemanha, a regulamentação atual para bets menciona que a publicidade não pode ser excessiva, nem voltada para a propagação de odds irrealistas ou passar a mensagem de que os usuários podem ter algum controle dos resultados. Além disso, anúncios de bets entre 6h e 21h são proibidos em rádio, televisão e internet, e anúncios durante as transmissões também são limitados.

Mesmo assim, o avanço nas dinâmicas de transmissão tem desafiado a regulação.

A partir da edição de 2026 da Copa de Mundo, a FIFA comercializa os direitos de transmissão para além da televisão e streaming, incluindo outras plataformas que queiram transmitir o torneio, como casas de apostas.

Na Alemanha, uma bet está transmitindo todos os 104 jogos da Copa do Mundo por meio de seu aplicativo e site, contanto que o usuário tenha feito uma aposta recente na plataforma ou tenha um saldo ativo na sua conta. Só é possível assistir a todos os jogos do torneio na em território alemão na TV paga, já que os canais abertos transmitem somente algumas partidas de forma gratuita.

O movimento também ocorre em outros mercados, inclusive no Brasil, onde uma casa de apostas adquiriu os direitos para transmitir os jogos do mundial em território nacional por meio de seu aplicativo e site.

Enquanto isso, no Reino Unido, o crescimento dos anúncios de apostas esportivas tem preocupado especialistas, apesar da limitação parcial dos anúncios de bets durante transmissões de futebol.

O mercado na região é autorregulado há anos, com proibições de exibição de anúncios durante as partidas encabeçado por associações formadas pelas próprias casas de aposta.

Críticos alegam que a manutenção dos anúncios nos painéis dos estádios, além da quantidade excessiva de propagandas no restante da programação faz com que a medida tenha pouco efeito.

Outros países optaram por restrições ainda maiores para a publicidade de bets. Na Bélgica, Itália, Espanha e Holanda os anúncios do tipo em transmissões esportivas são proibidos.

Além disso, estes países não permitem quase nenhum outro tipo de publicidade de casas de aposta, incluindo anúncios em outdoors, com influencers nas redes sociais ou por meio de patrocínios esportivos. A Bélgica permite somente patrocínios esportivos, enquanto anúncios on-line são permitidos na Holanda e com restrições na Espanha.

O crescimento da publicidade de casas de aposta ocorre em meio à mudança nos hábitos de consumo de mídia, com transmissões que tornam a delimitação do que é informação, entretenimento ou publicidade muito tênue.

"As novas plataformas tentam construir mais do que um espaço informativo, mas um espaço de entretenimento, com uma tentativa de conversa com o público. Isso se torna mais interessante para o mercado publicitário em comparação com o modelo tradicional”, diz o professor Anderson Santos, professor da Universidade Federal do Alagoas e coordenador do Observatório de Transmissões de Futebóis, voltado para a análise da cobertura e distribuição dos direitos de transmissão no Brasil.

"Acho que os canais tendem a seguir esse direcionamento, porque as próprias marcas vão exigir entregas que sejam mais fluidas, já que é um modelo que está dando certo", complementa Santos.

Mas integrar a transmissão com os anúncios de forma pouca clara faz com que se torne cada vez mais difícil notar se algo é publicidade ou não.

O professor Rossi cita o caso de odds mostradas na tela e menção a apostas por comentaristas durante a transmissão, cenário que observou em transmissões nos EUA e Canadá, e que também podem ser vistas no Brasil. "Julgamos essa menção às apostas e odds altamente problemática porque ela normaliza as apostas e as apresenta como algo inofensivo”, afirma.

No Brasil, as medidas anunciadas pelo governo incluem a inserção de alertas como "Ministério da Fazenda adverte: apostar pode causar dependência”, além de proibir a apresentação das apostas como investimento, forma de ganho fácil de dinheiro ou que criem um senso de urgência no público. As novas normas passam a valer a partir do dia 17 de julho.

Procurada, a LiveMode, controladora da Cazé TV, não respondeu aos pedidos de comentário.

Trump vai longe demais

Por uma questão de justiça, escreveu em sua rede social o presidente Donald Trump, sempre adepto das letras maiúsculas, os Estados Unidos vão cobrar 20% de pedágio sobre as cargas dos navios que cruzarem o Estreito de Ormuz.

Esta seria, na visão do líder americano, uma compensação pela possível administração da estratégica região por onde circulam 20% das vendas mundiais de petróleo. Uma inusitada maneira de tornar seu país um pouco mais rico.


O pedágio seria cobrado a 10.500 quilômetros de Washington. Como se a distância não existisse e a cobiçada área estivesse sob a jurisdição norte-americana. Mesmo para os padrões de Donald Trump, seu governo parece ir longe demais.

Pode ser apenas mais uma bravata do presidente. Uma de suas artimanhas para obter mais concessões do Irã em uma negociação que já está suspensa. Mas ele pesou a mão, pois a possível cobrança de pedágio não puniria só o Irã, mas o mundo inteiro.

É como se a conta de importação de petróleo de países ricos e pobres tivesse um acréscimo de 20% de uma hora para outra. Além do aumento dos preços do petróleo no mercado internacional desde o início da guerra no Irã.

Donald se importa? Pouco provável. Ele disse à rede de televisão Fox News que “provavelmente” seu país vai se encarregar da administração do estreito e de oferecer segurança aos navios que passarem por ali. Em troca, sugere o pedágio de 20%.

Antes do início da guerra, o Estreito de Ormuz estava aberto à navegação. Ninguém cobrava nada por isso. Depois dos ataques a seu território o próprio governo do Irã chegou a cogitar a cobrança de pedágio. Mas a iniciativa foi de Washington.

Se a taxa vier mesmo a ser cobrada, ela pode espalhar por diversos países do mundo a tensão política que hoje já atinge toda a região do Golfo. Como reagiria, por exemplo, a China? E os países da Europa, aliados dos Estados Unidos?

No caso brasileiro, será interessante acompanhar a reação dos aliados de Trump. Caso o Brasil tenha mesmo de pagar 20% sobre o petróleo que cruza o Estreito de Ormuz, o que dirão os que usaram o boné Make America Great Again?

O candidato de oposição, Flávio Bolsonaro, tem circulado mais nos Estados Unidos nos últimos meses do que nos diversos estados brasileiros. Ele tem defendido o adiamento – para depois das eleições, claro – da sobretaxa americana a produtos brasileiros.

O candidato não pede o cancelamento da sobretaxa, mas o adiamento. Uma vez que se consolide a proposta de pedágio no Estreito de Ormuz, ele pediria isenção ao Brasil? E o que diria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que também usou o boné de Trump?

De qualquer forma, o que se percebe nessa segunda presidência de Trump é que o presidente americano tem sido um fator de instabilidade global. Toma decisões unilaterais sobre comércio, sequestra o presidente de outro país e aciona tropas sem sequer ouvir o Congresso de seu próprio país.

O governo brasileiro já considera difícil escapar do tarifaço sobre suas exportações aos Estados Unidos. Caso o aumento das tarifas venha mesmo a se concretizar, pode ser mais um prejuízo além do aumento dos preços do petróleo e do prometido pedágio de 20%.

Não é à toa que outros países, além do Brasil, já estejam em busca de diversificação comercial e de maior autonomia energética e, ainda mais importante, tecnológica. Este é um tema que merece lugar de destaque no debate da eleição de outubro.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Todos precisamos de um inimigo do povo

Se conhecem os factos sobre a vida de Henrik Ibsen, o dramaturgo norueguês que ajudou a fundar o teatro moderno no século XIX, vão descobrir que as primeiras décadas de Ibsen foram marcadas por pobreza, ruína financeira, tumultos sociais e políticos, e dramas que lhe permitiram conhecer de perto a hipocrisia da elite do seu tempo, inspirando várias das personagens imortais que criou nas suas peças. Em suma, era um homem que sentiu na pele as agruras do mundo e a crueldade infligida pelos seus conterrâneos. Em desespero, abandonou a cena cultural norueguesa em 1864 e optou por um exílio voluntário de 27 anos, e foi só então que se tornou um dos dramaturgos mais aclamados do mundo ocidental, com uma abordagem inovadora das novas questões civilizacionais do seu tempo.


A peça Um Inimigo do Povo, escrita em 1882, é talvez uma das suas obras mais visionárias. Um médico descobre que a estância balnear da sua cidade está contaminada e constitui um risco para a saúde pública, mas, porque grande parte da cidade depende financeiramente dessa estância balnear, revelar a verdade acaba por o marginalizar por completo. É acusado num julgamento popular de ser “um inimigo do povo”. A defesa intransigente dos seus valores, pondo em risco o sustento da sua própria família, contrasta em absoluto com políticos e proprietários locais que estão vendidos ao grande capital e preferem ocultar a verdade. Nem o jornalismo escapa à crítica feroz. Quando um jornal local vê a sua sobrevivência ameaçada pelas revelações de Stockmann, escolhe estar do lado errado e não lutar mais pelos factos.

Vi a peça que se estreou em Lisboa no passado fim de semana, uma encenação de Christiane Jatahy, com o ator Wagner Moura no papel do médico Thomas Stockmann. Na verdade, a peça original de Ibsen é usada apenas como ponto de partida. Na nova encenação, é a própria audiência que se torna o júri e vai decidir se Stockmann é mesmo um “inimigo do povo” ou não e se poderá voltar a recuperar a sua credibilidade. Do lado oposto temos o seu irmão Peter, que está a expor os argumentos contra Thomas e semeia a dúvida na cabeça dos ouvintes: em que medida essa verdade irá contribuir de forma positiva para a comunidade? É uma verdade que merece sequer ser ouvida? Terá Thomas, na verdade, prejudicado a sua família?

Mas a encenação brasileira não foge de uma das questões mais perturbantes da peça, e talvez a mais fascinante de todas. O que sempre me intrigou na peça de Ibsen, além dos diálogos extraordinários e da integridade moral inabalável – que se mistura também com um egoísmo profundo – de Thomas Stockmann, é a sua acusação contra a maioria, contra as pessoas que preferem negar os factos.

Na sua exaltação, insulta-as e responsabiliza-as tanto quanto a elite corrupta que está a ocultar a verdade sobre a contaminação das águas. Culpa o homem comum por ter uma parte da responsabilidade, alimentando ainda mais a narrativa de que ele é um inimigo da democracia.

A peça brasileira evita o caminho mais fácil e não corta essas verdades incómodas proferidas por Thomas, nem pretende fugir da questão “a maioria não tem sempre razão”, mesmo se isso for democraticamente legitimado. O texto usa alguns argumentos de peso: “Quando Jesus foi crucificado, a maioria tinha razão? Quando Hitler foi eleito democraticamente, a maioria tinha razão?”

É muito mais difícil aplaudir Thomas quando aponta o dedo à audiência, mas é exatamente aí que Ibsen se torna, mais de um século depois, atual. Acaba por revelar as verdades do nosso tempo, seja as evidências científicas que apontam para crises de saúde pública, seja os alertas para os efeitos nocivos das redes sociais na saúde mental dos mais jovens, seja todos os “Stockmann” contemporâneos que continuam a enfrentar a mesma maioria que prefere não ouvir. E a coragem de discordar publicamente dessas maiorias raramente é recompensada em vida, muito pelo contrário, é castigada com o isolamento e o descrédito.

O triunfo da encenação de Jatahy e Moura é entregar o veredicto final nas mãos da audiência, precisamente a maioria, que terá de decidir se está, de facto, do lado da verdade ou do lado do seu próprio conforto. E hoje em dia, essa decisão raramente é clara e fácil de tomar. 

Quer ser empregado de um robô?

Estava demorando. Depois de aprender a fazer em microssegundos operações que levariam uma eternidade para um humano, os robôs estão se aventurando agora naquelas que são naturais para nós, mas, por enquanto, inalcançáveis para eles. Exemplo: "Hei, Robby, me traz um café!".

Para tanto, o robô precisará saber identificar as portas e gavetas certas do armário, abri-las e reunir os apetrechos: coador, filtro, pó de café, colher, xícara e açúcar ou adoçante. Feito isso, terá de aprender a abrir o saco de pó sem rasgá-lo, pôr a água para ferver, despejá-la sem molhar seus eletrodos, encher a xícara, mexer com a colherinha e, no caso de adoçante em cubinhos, desfazer o invólucro —façanha de respeito mesmo para humanos. Até agora, os robôs estão fracassando. Como são mais cérebro do que corpo, e ainda por cima eletrônico, não têm muito jeito com as mãos.


Ao contrário deles, qualquer criança já nasce sabendo segurar um objeto com o polegar. Logo conseguirá executar os 27 movimentos de que, segundo a ciência, a mão é capaz e, em pouco tempo, servirá um competente café. Posso garantir isso porque, há pouco, até eu, analfabeto na cozinha, fui capaz dessa proeza —digo, servir um café. Donde os robôs estão tentando chegar aonde as crianças e eu já chegamos.

Enquanto não chegam lá, os robôs, cientes de suas limitações, resolveram agir. Uma empresa de IA nos EUA acaba de criar um serviço, Rent a Human — Alugue um Humano —, para desempenhar missões ainda supercomplexas para eles, como fazer truques com cartas de baralho, pinçar um pelo encravado ou descascar uma banana. Já há até sites com anúncios classificados em que humanos oferecem seus serviços profissionais para robôs, cada qual descrevendo sua especialidade.

Ao saber disso, comecei a preparar um currículo para o caso de ter de me colocar na praça. Passei a vida me esforçando para escrever com clareza, objetividade e verdade. Mas, se preciso for, sou capaz também de simular uma tese de pós-doc, um poema-piada ou um texto da IA.

Quem lucra mais com inteligência artificial

Um relatório novo da Exponential View, uma empresa de análise de informação britânica, ajuda a redesenhar por completo o jogo da inteligência artificial (IA). Põe luz sobre quem ganha, quem perde e como cada jogador nesse negócio organizou suas peças. Os números relevantes do relatório são quatro: o faturamento acumulado do negócio de IA nos 12 meses entre o segundo trimestre de 2025 e o primeiro deste ano foi de US$ 110 bilhões. Um número. Aí vêm os outros três — o percentual que cabe a cada parte da cadeia. Oitenta e dois por cento ficaram com as empresas de nuvem, os parques de servidores. Mais 7% pertencem às assinaturas de apps, como ChatGPT e Claude. Por fim, 11% são da compra direta dos modelos de IA. Os três percentuais sobre o faturamento total explicam até o jogo em que China e Estados Unidos mergulharam.


Existem duas maneiras de comprar acesso às IAs. Uma é a assinatura que a maior parte de nós faz. Vinte dólares por mês para poder contar com o ChatGPT. Faz a assinatura, baixa o app e pronto. Mas há outro jeito, preferido por empresas. Elas se conectam com os servidores da OpenAI, Anthropic, Google ou qual for sem passar pelos aplicativos. A versão pessoa física, app no computador ou celular com acesso a chat, representa 7% do faturamento. A conexão direta com o servidor é uma fatia de 11%.

Some 7 pontos percentuais com 11 e temos o pedaço do dinheiro que vai para os laboratórios de IA: 18%. Eles levam a fama, movem as manchetes, mas os donos dos servidores em que rodam as IAs é que ganham mais dinheiro. É verdade que, lentamente, a participação de modelos e apps tem aumentado dentro do todo. Mas é bem lentamente, ao ritmo de 1 ou 2 pontos percentuais por ano. Isso faz com que cada um dos jogadores tenha interesses bem distintos nesse jogo.

Anthropic e OpenAI disputam quem ganha mais dinheiro no corte que cabe aos laboratórios. Mas o Google, que ocupa a terceira posição no ranking das melhores IAs americanas, compete igualmente no ramo dos servidores. O Google Cloud também presta serviços às concorrentes. E, assim, a empresa ganha bem mais dinheiro que as líderes com tecnologias melhores. Quando o Brasil atrai parques de IA para seu território, ganha a oportunidade de cobrar imposto, localmente, justamente sobre o pedaço mais rentável desse negócio.

Nessa numeralha, um pedaço do grande jogo da IA obviamente está ausente. São os chineses. Os laboratórios de lá distribuem modelos de pesos abertos. Gratuitos. Qualquer um pode baixar, instalar no servidor que escolher e rodar. Paga pelo servidor, não pela IA. Neste último mês, apareceu no mapa pelo menos um modelo chinês que parece capaz de competir em nível de igualdade com os melhores americanos no campo da cibersegurança. E é aí que o corte proposto pela Exponential View pode iluminar a estratégia de Pequim.

Os modelos chineses não entram na conta do faturamento pelos laboratórios, aqueles 18%. Mas entram nos gastos com servidores. Ora, muitas dessas nuvens são chinesas. A que será montada no Ceará pela ByteDance, anunciada na semana passada, é um exemplo. É um pouco como o raciocínio da lâmina e do aparelho de barbear, do cartucho de tinta e da impressora. Vende barato a ferramenta, ganha dinheiro na lâmina e na tinta. Os chineses dão de graça a IA, cobram pela máquina que a roda. Simultaneamente, põem pressão nos concorrentes americanos.

Essa pressão é um truque importantíssimo: para continuar cobrando caro por suas IAs, as empresas americanas precisam estar consistentemente na ponta, uma geração à frente dos concorrentes. Isso exige que gastem muito dinheiro. Ao mesmo tempo, a existência de modelos apenas um pouco piores, vindos da China, impede OpenAI e Anthropic de aumentar demais o preço cobrado dos consumidores. Afinal, há concorrentes. Dumping bom e velho.

O que faz a elite do Vale do Silício seguir apostando no modelo pago? Eles acreditam que em algum ponto a IA ultrapassará a capacidade da inteligência humana. Nesse momento, quem tiver esse modelo nas mãos dará um imenso salto, tão além de todos os outros que a vantagem se tornará permanente. Pode ser. Os chineses não acreditam nisso. Acham que modelos serão commodities e que o negócio está no computador que roda a IA. Quem estiver certo ganhará.

Lição de História

A verdade, repito, é que este povo precisa de uma lição, e, se necessário, uma lição severa, para fazê-los respeitar os direitos e a liberdade pessoal dos estrangeiros residentes neste país.

(...) Numa palavra, deve-se fazer este povo respeitar-nos. Eles são ignorantes, insolentes e possuidores de um falso senso de dignidade.

Henry Wise, diplomata norte-americano que chegou em 1844 e foi mandado embora por D. Pedro I