quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O destino do país vai às urnas

Em artigo-ensaio recente (“O golpe continuado”), o professor e historiador Lincoln de Abreu Penna estuda como um só fenômeno a tragédia que se abateu sobre nós em 1º de abril de 1964 e que, pelos seus efeitos, todos danosos, chega até nossos dias, justificando as apreensões que medram em setores significativos do pensamento democrático brasileiro.

Lincoln ressalta que o golpe militar “não foi [só] contra um governo constitucional, eleito pelo povo, mas contra o Brasil como nação que aos trancos e barrancos se estruturava para promover o arranco desenvolvimentista conjugado com as Reformas de Base”. Foi tudo isso, mas foi ainda mais: para além dessa tragédia, fez por terra um processo democrático então caracterizado pela crescente ascensão das forças populares e pelo esforço coletivo para dar fim à miséria.

É preciso lembrar e relembrar a herança de 21 anos de uma ditadura luciferina, que não só desterrou as liberdades civis e políticas, não só fechou o Congresso e aviltou o Poder Judiciário, como impôs o terror, tanto o terror cultural a que se referia Alceu Amoroso Lima quanto o terror das prisões, da tortura e dos assassinatos ainda sem conta fechada.


Pois foi defendendo esse legado de barbárie que o bolsonarismo chegou à Presidência da República e, como discípulo de régulos, governou o país e liderou a intentona de janeiro de 2023, mediante a qual, usurpando o mandato do presidente eleito, pretendia retornar ao poder do qual havia sido alijado pela soberania popular.

Independentemente de seus muitos erros e de seus muitos defeitos, ditados pela exorbitância de poderes e, lamentavelmente, pela sua composição atual, o STF desnudou o golpe; não se limitou a identificar os vândalos da Praça dos Três Poderes; indicou e puniu seus agentes, criminosos políticos que atentaram contra o Estado, e reles criminosos comuns. Foi quando esteve à altura dos desafios da história.

Demos, com seu concurso, uma lição ao mundo, ilustrando com coragem como as instituições podem se defender e defender o país.

Pois o bolsonarismo promete anistia para a malta de meliantes que, sob a liderança do capitão e o concurso de meia dúzia ou mais de generais e assemelhados, lançou-se contra as instituições republicanas.

Uma vez mais estamos sob graves riscos de nova fratura democrática e, na sua esteira, ameaça-nos um desastroso retrocesso histórico que promete levar de roldão as conquistas amealhadas pelo esforço nacional nesses 41 anos de vigência da Constituição de 1985. Desta feita, ao contrário de 1964, o mostrengo pode vir das urnas. E, uma vez mais, aponta contra o futuro do país, daquele país desenvolvido e soberano com o qual já chegamos a sonhar.

Ou seja, estamos sujeitos a um golpe de Estado que se pode processar segundo as regras da ordem constitucional, como os regimes fascistas e nazistas (que infestaram a Europa no século passado; alçando-se ao poder pela via eleitoral, logo implantaram longas ditaduras e ameaçaram a humanidade com a Segunda Guerra Mundial. E estão de novo na Itália, com a primeira-ministra Giorgia Meloni, do partido Irmãos da Itália (FdI), e na Alemanha, com o sucesso, em eleições provinciais, do neofascista Alternativa para a Alemanha.

A extrema-direita nativa, destoando de suas matrizes europeias, é, ainda, desavergonhadamente entreguista. Não cora diante do trumpismo; mais do que isso, goza com o sonho de tornar o Brasil mais uma estrela da bandeira norte-americana, um grande protetorado no quintal do imperialismo. E não disfarça. Sem rebuços, um dos Bolsonaro transferiu-se de armas e bagagem para os subúrbios da Casa Branca, onde, áulico dos asseclas de Trump, forceja por conspirar contra os interesses de nosso país.

O bolsonarismo já deu provas concretas de seu desapreço pela democracia. Está bem viva a tentativa de golpe de janeiro de 2023.

O golpe de Estado não requer, necessariamente, a intervenção armada e pode ser operado tanto por dentro do governo (Getúlio Vargas, em 1937, rasgando a Constituição de 1934 e implantando o Estado Novo) quanto mesmo preservando a ordem constitucional. Neste caso, é exemplar o golpe da implantação do parlamentarismo em 1961, preço cobrado pelos militares para permitir a posse de João Goulart em face da renúncia de Jânio Quadros, por seu turno, peça de frustrada tentativa de autogolpe.

Nesta espécie, a história republicana está repleta de exemplos e consagra a expressão “golpe permanente”, como transformação continuada do regime a partir de dentro, iniciada em 1964 e jamais concluída, trazendo à baila os tempos recentes que vamos considerar a partir do golpe de Estado parlamentar que, sem ferir o rito constitucional, decretou a deposição da presidente Dilma Rousseff, abrindo espaço para a passagem de Michel Temer, eficiente na desconstrução do programa de governo que havia sido consagrado pela soberania popular no pleito de 2014.

Igual consideração se aplica ao golpe do Judiciário, reunindo em uma mesma peça um desonesto juiz de piso e o STF. Refiro-me aos crimes da Lava Jato, à decretação da prisão e da inelegibilidade de Lula, palmilhando o caminho da eleição do chefe da súcia bolsonarista, com as consequências conhecidas: seu governo e, hoje, a possibilidade de um desastre democrático no pleito do próximo domingo.

Outro golpe, levado a cabo nas duas últimas legislaturas, é a usurpação, pelo Congresso reacionário e tacanho, de poderes do Executivo, reduzindo sensivelmente sua capacidade de investimento ao pulverizar, através de emendas orçamentárias, os recursos da União, mediante as emendas impositivas e o “orçamento secreto”, implantado pelo sátrapa alagoano que pode retornar a Brasília com a faixa de senador da República.

Este Congresso, teoricamente a sede da expressão da soberania popular, é desaprovado por 64,4% da população (pesquisa Futura/100% Cidades, divulgada em 24/09/2026), fazendo par com o Judiciário, cuja desaprovação, segundo a mesma pesquisa, chega a 62,6%, sua pior fase de descrédito.

As ameaças à institucionalidade são graves. O novo Congresso, que pode nascer velho, pode ainda, como o atual, exercer o papel de estorvo para a defesa dos interesses sociais e instrumento de instabilidade nacional. O STF pode abastardar-se ainda mais e constituir-se em um antro da reação, com os mais graves riscos para o direito brasileiro e a ordem social. O próximo presidente da república indicará pelo menos quatro novos ministros. Além da vaga não preenchida com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso, outras três serão abertas com as aposentadorias compulsórias dos ministros Luiz Fux, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia. Isto é quase a metade do Plenário.

Mas não é só, se já não fosse muito. Conforme o andar da carruagem, a essas vagas poderão somar-se outras tantas. E os novos ministros podem tanto ser novos Dino ou novas Cármen Lúcia, quanto novos Mendonça, novos Kassio, novos Fux ou novos Moraes, carregando a tiracolo os escritórios de advocacia de esposas e filhos, alguns acusados de receber do bandido-banqueiro a bondosa prenda de uma mesada de 500 mil reais.

Não é só, portanto, a futura Presidência da República – o que já não seria pouco. Nestas eleições estaremos, igualmente, decidindo que Congresso e que STF queremos.

O bolsonarismo não é apenas a síntese da miséria política brasileira; representa um grande risco para a governança do país em face de suas ligações com o mundo do crime, sejam milicianos da pior extração, sejam bandidos de paletó e gravata, como o banqueiro trambiqueiro posto na cadeia, que financiou o filme sobre o chefe do clã e financia a vilegiatura do Bolsonaro que abandonou o mandato de deputado federal por São Paulo para instalar em Washington a banquinha de lobista contra os interesses nacionais, nessa sórdida tarefa mancomunado, lê-se nos jornais, com um neto de um ex-general presidente.

Nas eleições dos próximos dias seremos chamados a decidir entre a continuidade democrática e o autoritarismo larvar; entre um projeto progressista e a promessa de uma sociedade ultraconservadora; e entre um país soberano e um grande protetorado. Nosso voto dirá se na Presidência teremos um representante dos interesses nacionais ou um incumbente do imperialismo.

O que muda de Jair Bolsonaro em 2018 para Flávio em 2026?

Em 2018, a rejeição ao PT, a ojeriza aos partidos e grupos que dominavam a política nacional, a sensação de que a vida havia parado de melhorar, os ventos internacionais favoráveis a um populismo radical de direita e, como decorrência disso tudo, uma vontade quase desesperada de mudança de rumo político levaram milhões de eleitores a conceder praticamente um cheque em branco a Jair Bolsonaro. Um candidato que, sabia-se então como se sabe hoje, exibia poucas, se alguma, das qualidades que normalmente se procuram em alguém a quem se pretende entregar o governo do país.


De certa forma, Bolsonaro foi um "poste". Chamamos assim o candidato cuja viabilidade eleitoral provém menos de capital político próprio do que daquele que lhe transfere um patrocinador. A diferença é que Bolsonaro não era o poste de um padrinho determinado, mas de sentimentos políticos urgentes: o antipetismo, o desprezo pela política tradicional, o "não" a tudo o que parecia errado. Era o tapa na cara que se queria desferir no sistema político.

Teve fiadores, claro, mas, como candidatura do "não", Bolsonaro não precisava explicar com muita precisão para onde levaria o país. Bastava assegurar que seria para longe daquilo. O resto vinha depois.

É curioso que, em 2026, estejamos novamente diante de uma candidatura cuja principal credencial continua a ser apenas a capacidade de derrotar o PT. A pergunta sobre quais qualificações próprias Flávio apresenta para governar o Brasil continua difícil de responder a partir de tudo o que se sabe dele. Nem mesmo a desculpa "pelo menos é honesto", usada em 2018 para justificar o voto em um candidato sem outras qualidades, resiste a um exame atento.

Mas há uma diferença decisiva. O voto em Flávio já não pode ser entendido como o mesmo cheque em branco de 2018. Há agora um projeto muito mais legível. Quem escolhe Flávio escolhe também consequências mais previsíveis que aquelas de oito anos atrás: uma inflexão conservadora nas políticas públicas e nas instituições, sim, mas também uma ofensiva para alterar o equilíbrio interno do Judiciário e uma política externa voluntariamente subordinada ao governo Trump.

Além disso, um eventual governo Flávio se daria em circunstâncias muito distintas das enfrentadas por seu pai. Há, antes de tudo, uma diferença decisiva no sistema de contenção institucional. Durante o governo Bolsonaro, o Supremo e, particularmente, Alexandre de Moraes, de um jeito ou de outro, transformaram-se nas principais barreiras às sucessivas tentativas de erosão da democracia liberal.

Não é preciso canonizar ninguém no STF para reconhecer que foi o poder dissuasivo contra um movimento que nunca demonstrou quaisquer escrúpulos para tentar perpetuar-se no poder ou dominar o Estado sem obstáculos constitucionais.

Um novo governo bolsonarista encontraria uma corte em situação muito diferente. E não se trata apenas da queda da confiança no STF. A guerra aberta entre seus ministros tornou perfeitamente plausível a percepção de que eles podem colocar os interesses das facções internas a que pertencem acima da própria instituição. E, para piorar, alguns já parecem ter perdido o antigo cuidado de evitar que suas decisões fossem lidas como extensão das preferências políticas do campo que os indicou.

Some-se a isso o fato de que o próximo presidente também terá peso incomum sobre a composição do tribunal —Flávio já anunciou que pretenderia indicar cinco ministros— e teremos uma situação completamente diferente da vivida no passado.

Antes, o problema era se o STF teria força suficiente para conter um presidente disposto a testar os limites da democracia; no próximo governo, acrescenta-se a dúvida sobre se terá credibilidade suficiente para fazê-lo.

Por fim, também muda o ambiente internacional. Jair Bolsonaro governou entre Trump e Biden. Um eventual Flávio encontraria Trump na Casa Branca durante pelo menos os dois primeiros anos de mandato.

Finalmente, existe algo que não havia em 2018: aprendizado.

O primeiro governo Bolsonaro foi, em muitos momentos, improvisação, conflito interno, iniciativas mal executadas e recuos diante de obstáculos que seus integrantes pareciam não ter previsto. Trump oferece o exemplo de como uma segunda passagem pelo poder pode ser mais consciente dos obstáculos e, portanto, muito mais eficiente.

No Brasil, a analogia sugere ao menos isto: desta vez, haveria menos incerteza sobre o que se pretende fazer, mais clareza sobre meios e metas e, possivelmente, condições mais favoráveis para executar a agenda.

O robot disse-me: "Anda comigo." E eu fui…

Nasci em 1978. Quando era ainda muito pequeno, tive um brinquedo que nunca mais esqueci: um robot que falava espanhol. A memória já não me permite reproduzir exatamente as palavras, mas dizia qualquer coisa como: “Sou um ser de outra galáxia. Anda comigo.”

Quase meio século depois, percebo a ironia: eu fui.


Cresci numa época em que os computadores começavam lentamente a entrar nas nossas vidas. Vi-os passar de máquinas estranhas, reservadas a poucos, para objetos domésticos. Vi aparecer o computador pessoal, os jogos, os primeiros chats, a Internet, o telemóvel, os motores de busca, as redes sociais e o smartphone. Coisas que hoje uma criança considera absolutamente banais pareciam ficção científica durante a minha infância.

Talvez por isso tenha acabado por estudar Engenharia Electrotécnica e de Computadores, na área de Controlo e Robótica. Sempre me fascinou a automação. Ainda hoje consigo ficar fascinado a observar uma fábrica praticamente autónoma, com robots, sensores, transportadores e sistemas de controlo a executarem movimentos sucessivos com uma precisão extraordinária.

Enquanto estudava, porém, havia uma pergunta que me ocorria repetidamente: porque é que certas coisas ainda não podiam ser automatizadas?

A resposta era frequentemente simples: porque a máquina sabia executar aquilo que tínhamos conseguido prever e programar. Perante o inesperado, a inteligência continuava do nosso lado.

Entretanto, alguma coisa mudou.

Hoje observo os humanoides a caminhar, equilibrar-se, manipular objetos e aprender tarefas. Já não estamos apenas a construir máquinas para ambientes especialmente preparados para elas. Estamos a tentar construir máquinas capazes de funcionar num mundo concebido para nós.

E chegou a Inteligência Artificial.

Também sou do tempo dos primeiros chats. Na altura, o computador era apenas o intermediário: de um lado estava uma pessoa, do outro outra pessoa. Seria quase impensável imaginar que, algumas décadas depois, eu pudesse sentar-me diante de um ecrã e conversar longamente com uma máquina sobre ciência, História, engenharia, deficiência, emoções ou sobre o próprio futuro da Inteligência Artificial.

É precisamente isso que estou a fazer hoje.

Não significa que devamos receber cada inovação sem perguntas. A IA traz problemas sérios: emprego, privacidade, desinformação, dependência tecnológica, concentração de poder e até a possibilidade de começarmos a delegar demasiado do nosso próprio raciocínio.

Mas há outro fenómeno igualmente extraordinário: o impacto psicológico de percebermos que a máquina deixou de ser apenas uma ferramenta que executa instruções e começou a tornar-se um interlocutor capaz de responder, interpretar e produzir.

Para quem nasceu nos anos 70, talvez seja difícil encontrar outro período da própria vida em que tantas fronteiras tecnológicas tenham caído tão depressa. É possível que seja apenas uma perceção geracional. Afinal, outras gerações assistiram à eletricidade, ao automóvel, ao avião, à rádio, à televisão ou aos antibióticos.

Mas a nossa atravessou uma transformação peculiar: conhecemos o mundo analógico, assistimos à sua digitalização e estamos agora a entrar numa época em que as máquinas começam a participar no próprio processo intelectual.

Não sei onde isto nos levará. E talvez seja precisamente essa a parte mais fascinante.

Aos 48 anos, olho para os humanoides que começam a sair dos laboratórios e lembro-me daquele pequeno robot da minha infância.

“Sou um ser de outra galáxia. Anda comigo.”

Eu fui.

E tenho a estranha sensação de que a viagem ainda agora começou.

O tempo fechou para Flávio Bolsonaro a quatro dias das eleições

Não existe guerra limpa que pelo menos respeite as regras estabelecidas pelo Direito Internacional; todas as guerras são sujas. Dado o horror que produzem, se as guerras fossem transmitidas em tempo real e sem qualquer censura, talvez elas deixassem de existir. Dá-se o mesmo no caso da política, especialmente em época de eleições, momento em que o poder está em disputa. No entanto, a alternância no poder é um dos pilares da democracia — e, apesar de suas imperfeições, ainda não se inventou um regime melhor do que esse.

A desinformação e a propaganda enganosa não surgiram com a internet. A história das eleições brasileiras é marcada por boatos, falsificações e manipulações que alteraram os rumos políticos do país muito antes de o termo fake news se popularizar.


Meses antes da eleição presidencial de 1922, o jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, publicou cartas atribuídas ao candidato Artur Bernardes. Elas chamavam os militares de “canalhas”. Embora fossem falsificações grosseiras, as cartas geraram uma crise militar profunda e quase impediram a posse de Bernardes.

Na primeira eleição após a ditadura de Getúlio Vargas (1930 a 1945), panfletos falsos foram espalhados alegando que o candidato da UDN, o brigadeiro Eduardo Gomes, teria dito que “não precisava dos votos dos marmiteiros” (trabalhadores das classes mais baixas). A frase forjada arruinou sua imagem popular na reta final e ajudou a eleger 0 general Eurico Gaspar Dutra.

A eleição de 1989, entre Fernando Collor e Lula, foi o ápice do uso de narrativas de forte apelo emocional na televisão. Collor levou ao seu programa eleitoral a enfermeira Miriam Cordeiro, uma ex-namorada de Lula, que o acusou falsamente de ter sugerido que ela abortasse uma filha do casal. Posteriormente, soube-se que Miriam fora paga para dar aquele depoimento.

No dia do segundo turno daquele mesmo ano, a polícia estourou o cativeiro do empresário Abílio Diniz, que havia sido sequestrado, e encontrou panfletos do PT com os sequestradores. Mais tarde, descobriu-se que os policiais haviam obrigado os criminosos a vestir camisetas do partido para serem fotografados, criando uma associação falsa deliberada nas vésperas da votação.

Boatos espalhados por correntes de e-mail e panfletos apócrifos diziam que, se o candidato José Serra (PSDB) vencesse a eleição de 2010, ele extinguiria o programa Bolsa Família. Na mesma ocasião, boatos religiosos focados em pautas morais e no aborto foram amplamente usados contra a candidata Dilma Rousseff (PT).

Não foi diferente em 2014. A campanha de Dilma à reeleição veiculou comerciais no rádio e na televisão sugerindo que o projeto econômico da adversária Marina Silva (PSB) entregaria a autonomia do Banco Central aos banqueiros, fazendo com que a comida sumisse, literalmente, do prato dos trabalhadores brasileiros.

“Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”, disse Dilma na época. Foi o que fez Jair Bolsonaro (PL) em 2018 para derrotar Fernando Haddad (PT). Circularam massivamente vídeos alegando que Haddad distribuiria livros de educação sexual inadequados nas escolas primárias (batizados falsamente de “kit gay”) e mamadeiras com bicos em formato peniano para creches.

Flávio Bolsonaro queixa-se de ser vítima de uma notícia falsa sobre sua suposta disposição de se eleito, retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Mas, em 2022, vendo que seu pai, então presidente da República, corria o risco de não se reeleger, o próprio senador foi um dos impulsionadores do boato de que Lula fecharia igrejas evangélicas caso vencesse a eleição.

Aparentemente, não há falsidade no fato relatado pelo site PlatôBR de que Flávio participou de festas com garotas de programa anos atrás, tendo empresários e amigos custeado algumas de suas despesas. Há imagens e documentos que comprovariam isso, reunidos por Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio em uma franquia de chocolates no Rio de Janeiro que foi suspeita de lavagem de dinheiro.

O advogado Alan Belaciano aparece no dossiê de Santini como pagador de equipamentos para a academia da residência de Flávio em Brasília, cujo valor ultrapassou R$ 90 mil, além de um relógio de luxo da marca Rolex, modelo em ouro branco, adquirido por R$ 305 mil em fevereiro de 2022. Procurado por jornalistas, Flávio negou-se a declarar qualquer coisa a respeito.

A poucos dias da eleição, o tempo fechou para Flávio, e não há sinais de que se abrirá tão cedo.

Piketty prevê fim do dólar como moeda global: 'Muito em breve'

Cinco anos atrás, uma percepção do economista francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão de pessoas em situações precárias.

Era mais um alerta do que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.

"Em muitos sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia ele agora à BBC News Brasil.

"Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para "uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".

Piketty retornou à cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários países ao longo dos últimos anos.

No total, cerca de 50 pessoas trabalharam no estudo, que elaborou propostas como criar uma moeda única internacional, gerida pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar, e impulsionar políticas globais que nivelem a renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil, na cotação do final de setembro) até 2100.

O relatório também propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média internacional, cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções ligadas à produção de alimentos para os setores de educação e saúde.

Além disso, há propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se tornou famoso, nos anos 2010, com seu O capital no século XXI (Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto global sobre a riqueza e, especialmente, sobre fortunas dos bilionários.


E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.

Nos fóruns que se seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.

"Será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições]. Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima", diz.

A seguir, trechos da entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do primeiro turno da eleição presidencial brasileira.

Como acomodar pretensões globais tão robustas em um mundo atravessado por conflitos e por Estados nacionais mais voltados aos seus interesses particulares?

Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro, como instalar data centers em todos os lugares possíveis — no planeta Terra ou em Marte — e estão fazendo guerras para extrair ainda mais combustíveis fósseis pelo mundo. É uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver. É hora de discutir uma outra perspectiva. Não podemos ficar só assistindo a isso, pessimistas, esperando para ver o que acontecerá.

Além do mais, a agenda tecnonacionalista, tecnocapitalista, sequer durará para sempre. Não vai entregar o que promete, embora tenha um longo caminho pela frente. Vamos ver o que acontece nas eleições (de meio de mandato) nos Estados Unidos [em novembro] e no Brasil.

Alguns anos atrás, o senhor disse que a situação do mundo era semelhante àquela que culminou na Revolução Francesa. Algo mudou desde então?

Eu diria que, em muitos sentidos, ela piorou. Mas sejamos otimistas: a longo prazo, as forças democráticas e as lutas sociais estarão prontas para transformar as instituições e fazer do mundo um lugar mais igualitário e próspero. É perfeitamente possível seguir nessa direção.

 Entre todas as propostas, há alguma que o senhor considera mais urgente?

A ideia do relatório é pensar em que tipo de prosperidade compartilhada nós podemos ter em um planeta finito. Se todos os países alcançassem um alto nível de prosperidade no futuro, como o mundo seria? Essa é a questão que estamos fazendo ali. Mas depende de muitas condições. A transformação do sistema energético é uma delas. Outra é uma mudança estrutural nos modelos de produção. É preciso ainda diminuir a desigualdade global para conseguirmos arcar com investimentos climáticos, educacionais e de acesso à saúde.

Essas propostas estão alinhadas ao que países do Sul global têm dito nos últimos anos. Basta lembrarmos que, na reunião do G20, em 2024, o presidente Lula propôs o imposto global sobre as fortunas dos bilionários que foi apoiada pela África do Sul e por vários outros países. Claro que não é suficiente. Era difícil convencer os 20 países que estavam ali, mas o fato de ter sido discutido no âmbito do G20 foi interessante. Mostra que essa demanda por justiça econômica e climática está presente.

O senhor acha que a proposta de taxar fortunas tem possibilidade de se concretizar?

Está claro, para mim, que, em um futuro relativamente próximo, haverá um grupo de países se movendo juntos para taxar os bilionários e para criar um sistema monetário internacional, porque eles sabem que o modelo atual não está funcionando.

A economia do Estados Unidos está ficando pequena em comparação ao tamanho da economia global. Ela era maior no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, mas vem diminuindo gradativamente — e ficará cada vez menor. Logo, não é mais possível ter o dólar operando como moeda internacional em um mundo em que a economia dos EUA é apenas uma pequena fração do PIB global. Essa não é uma notícia tão boa ao mundo, mas tampouco é para os Estados Unidos, porque esse sistema está sobrevalorizando o dólar e contribuindo para o enorme déficit comercial deles.

E, então, sabemos: se há desequilíbrios internacionais, vem consequências geopolíticas. As políticas atuais de Donald Trump são só uma reação que não estão resolvendo esse problema.

Por serem políticas bélicas?

A mensagem dele é basicamente a seguinte: "Eu vou colocar as minhas armas na mesa, pegar petróleo na Venezuela, no Irã ou na Groelândia e reduzir o meu déficit interno". Mas nós acreditamos em uma mudança estrutural no sistema monetário internacional.

Em uma economia mundial multipolar, isto é, em que não há um país com hegemonia sobre o PIB global, temos que ter uma moeda internacional baseada em uma cesta de moedas — dos EUA, da China, da Índia, do Brasil, seja lá de quem for — que colabore para financiar o desenvolvimento dos países e para fazer investimentos climáticos. Isso não será possível com o sistema de hoje. E eu acredito que isso acontecerá mais cedo do que as pessoas imaginam.

O senhor mencionou a proposta de criar uma moeda internacional administrada pela ONU, mas vários líderes mundiais, como o próprio Lula, acabaram de criticar toda a estrutura da instituição na Assembleia Geral, em Nova York. Eles dizem que ela tem sido incapaz de "manter o mundo em ordem". Para esse objetivo, prosperar, seria necessário criar uma entidade global nova ou bastaria reformar a ONU?

Seria melhor se houvesse um consenso, entre membros da ONU, de transformá-la — e também o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Como não é viável, seria necessário, pelo menos durante um período intermediário, criar o que chamamos de "coalizão incompleta", isto é, uma coalizão de países que não cubra o mundo inteiro — em alguns casos não cubra mesmo os Estados Unidos —, mas que consiga ir na direção certa.

 Teria um exemplo de como isso funcionaria?

Está acontecendo agora uma convenção, no âmbito da ONU, de cooperação global para um imposto sobre os ricos. Haverá uma sessão de negociações entre representantes dos governos em Nairóbi, no Quênia, em novembro, em que o Brasil participará ao lado de outros países que já se mostraram favoráveis.

A agenda existe para incluir mais atores no sistema tributário internacional — em especial países do Sul global que não querem ver as riquezas serem extraída dos mais pobres em benefício de interesses econômicos das economias do Norte. É uma questão de soberania. Essa é apenas uma das questões.

Nós já sabemos que alguns países, em particular os Estados Unidos, vão votar contra a convenção, mas ela está sendo construída para adotar a fórmula da maioria, o que será muito importante em comparação a outras convenções, como a do clima, que se baseia na unanimidade.

As convenções do clima (COPs), então, não funcionam mais?

Eu não diria que são um fracasso, mas tampouco são um tremendo sucesso: ainda que ocorram anualmente, elas não conseguem tomar decisões, porque se baseiam nesse modelo de unanimidade.

Esse desenho do projeto da convenção tributária da ONU será definido no ano que vem, mas já está claro que as decisões serão tomadas com base na maioria qualificada, porque é importante levar em conta os tamanhos das populações nacionais. Não dá para ter países pequenos, por exemplo, com os direitos de voto iguais a um Brasil, mas tampouco queremos ver os países ricos capturando esse processo.

Mas e se países ricos e grandes, como os EUA, não quiserem participar?

Nós sabemos que os EUA não vão querer participar, tanto quanto sabemos que, para a reforma do sistema monetário internacional, eles seriam necessários. Mas a proporção da população norte-americana em relação à global, ou mesmo a participação deles no PIB mundial, já está começando a cair. Eles podem perder seu poder de veto.

Aliás, sabe uma coisa que ninguém fala e nós destacamos no relatório? O FMI tem uma regra de que, se um país reúne 15% dos direitos de voto, seja pela população que tem ou pelo tamanho da economia, pode vetar qualquer decisão importante, como a criação de "direitos especiais de saque" (Special Drawing Rights, SDRs em inglês), que são, nada mais nada menos, que o embrião de uma... moeda internacional. Mas, como os EUA têm esses 15% de direitos de voto, eles vetam. Os governos republicanos sempre o fizeram.

Mas, após a crise financeira de 2008 e da pandemia, governos democratas permitiram ao FMI criar alguns SDRs distribuídos pelo PIB do país ou pela proporção dos direitos de votos. Não foi um grande avanço, porque eu entendo que é melhor distribuí-los pelo tamanho da população de cada país ou os danos climáticos que ele gera.

Isso mudará, então, quando os EUA perderem o poder de veto?

Eles vão perder esse poder de veto muito em breve, porque, se hoje os EUA detêm cerca de 15% do PIB mundial e, por consequência, dos direitos de voto no FMI, logo eles vão cair para perto de 10%. Eu diria que isso vai acontecer pelos próximos 10 ou 20 anos. Poderemos ver uma mudança na estrutura do fundo.

Então, para responder à pergunta lá do início: precisamos ser muito pragmáticos. Em alguns casos, será necessário criar novas instituições com aquela "coalizão incompleta", como para cooperação tributária internacional ou, talvez, para criar um imposto global sobre a riqueza para custear as reparações climáticas, por exemplo.

Esse nervosismo que vemos, hoje, em Washington, para dizer o mínimo, tem a ver com o fato de os EUA estarem perdendo o controle sobre o mundo. Daí, os nacionalistas, como Trump, reagem desesperados, colocando as armas na mesa. Elas são mais um sinal de fraqueza do que de força.

Qual é o papel do Brasil em tudo isso?

Países como o Brasil têm o papel de remoldar o balanço global de poder, de colocar essa conversa global na direção certa. O Brasil contribuiu muito com isso no passado, e será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção do nacionalismo trumpista daqui algumas semanas.

Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima. Sob o governo Lula, houve um papel importante de propor um imposto a bilionários na agenda do G20. Ela quase foi adiante. Eu acredito que, se houvesse um apoio mais firme da Índia ali, em particular, teria se criado uma coalizão do Sul global que tornaria a resistência do Norte a ficar muito mais difícil. Mesmo sem esse apoio, muitos países europeus já ficaram constrangidos em negar a proposta. Não apoiaram, mas não souberam dizer "não".

Por quê?

Porque é uma situação difícil para eles. De um lado, eles não querem pagar pela reparação climática, mas, de outro, eles sabem que carregam a responsabilidade histórica enorme das suas emissões de carbono. É impossível negá-la. Mais do que isso: eles sabem que não podem cobrar mais impostos — para pagar reparação — de suas classes trabalhadores ou das suas classes médias. Logo, em algum momento, terão que aceitar que são os mais ricos, em especial bilionários, os que deverão arcar com essa conta. Isso vale, é importante dizer, tanto para bilionários do Norte quanto do Sul. Se um país tal como o Brasil — ou como uma África do Sul, uma Índia, uma Indonésia — coloca pressão sobre as questões climáticas ou de justiça econômica, fica impossível resistir.

Vejo o Brasil pronto para articular isso, não só como parte do Sul, mas também por ser um país grande. Será triste se ele perder a dimensão internacionalista, progressista e colocar, no lugar, uma visão estreita, tecnocapitalista e tecnonacionalista. Ela não vai resolver os problemas do mundo nem os do Brasil. Eu acho, inclusive, que essa agenda já vai ser derrotada na eleição que se aproxima nos EUA e nos próximos anos também. Assim, vai ser estranho o Brasil se mover em uma direção errada no momento errado.

Ao mesmo tempo, as agendas das direitas radicais globais se baseiam no mérito individual como verdadeiro produtor de justiça econômica, e não a redistribuição de renda (defendida pela esquerda). Essas agendas são populares – como se vê no Brasil, por exemplo. (Para a esquerda), não seria necessário fazer a agenda da redistribuição voltar a ter apelo popular?

A esquerda perdeu suas ambições de fazer propostas para reduzir desigualdades, para redistribuir a riqueza. Veio um consenso em torno da liberalização dos mercados e de diminuir a progressividade dos impostos, o que prejudicou muito as classes com renda baixa tanto quanto as médias. Em muitos casos, esquerdas e centro-esquerdas estão se associando a políticas pró-corporações. É uma abertura para retóricas nacionalistas. Às vezes, elas são mais pró-capitalismo que os próprios partidos centristas. Elas fazem isso para atrair eleitores das classes baixas, médias, e enfatizando a dimensão nacionalista que, como eu disse, não vai resolver os problemas.

Inclusive, nem os eleitores estão tão confiantes na agenda trumpista. Eles sabem que os partidos estão propondo um mesmo modelo de desenvolvimento que não integra a desigualdade, mas não veem alternativa. Essa é a principal explicação.

É uma questão de repetição das propostas, portanto?

Se você passa anos a fio dizendo para a opinião pública que não há políticas econômicas alternativas, que os governos precisam todos seguir a mesma agenda pró-corporações e que a única coisa que eles podem realmente fazer é controlar suas fronteiras, depois de 20, 30 anos, o resultado é um debate político que se resume em controle fronteiriço e identidade.

Abandonamos as discussões sobre políticas econômicas, sobre a estrutura de classes, sobre as desigualdades socioeconômicos. Mas, se a gente reabri-las, as coisas vão começar a mudar, porque, na prática, se você olhar para os governos nacionalistas no poder hoje, depois de alguns anos a opinião pública já não estará tão satisfeita com eles. Basta olhar para as taxas de popularidade de Trump nos EUA. É isso que me deixa otimista, a longo prazo, com a volta de soluções internacionalistas, democráticas e mais igualitárias — como as que apresentamos no relatório. Não será fácil.

Mas haverá algum ponto de ruptura, na sua opinião?

Não dá para prever que tipo de catástrofe política, que tipo de crise levará à transição, mas é importante discutir como queremos nos reorganizar antes que aconteça. Temos que estar prontos para, no momento, apresentar uma alternativa.

Escrevi um livro sobre história da desigualdade (Uma breve história da igualdade, Intrínseca, 2022) e, uma coisa que eu aprendi é que, em períodos críticos, em que as sociedades precisam mudar o sistema, fazer mudanças institucionais, elas devem estar prontas para fazê-lo. Foi assim que surgiram a seguridade social, os serviços públicos, a educação universal e gratuita, o sufrágio, os direitos trabalhistas, a decolonização, todas coisas que criaram mais prosperidade junto a mais igualdade. Não será fácil. Passaremos por mais crises, catástrofes, batalhas pelo poder, mas, no fim do dia, o caminho em direção à igualdade, democracia e prosperidade vai prevalecer.

Em um cenário em que nada disso aconteça, em que as propostas do relatório nunca sejam implementadas, como o senhor vê o mundo daqui a 50 anos?

Se o curso não mudar, o mundo ficará mais desigual e mais quente. Por consequência, mais instável que o atual. Mas esse futuro distópico não vai acontecer, eu acredito nisso. As forças tecnonacionalistas até podem ganhar algumas eleições, mas, como elas não sabem como resolver os problemas estruturais do mundo, o futuro será multipolar com uma prevalência das forças democráticas. E isso, principalmente, pela pressão que sairá do Sul global.
Vinícius Mendes

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Eleições: Sonhos frustrados e realizados dividem o Brasil

Em uma análise da vitória recente da extrema direita nas eleições da Alemanha, Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, apontou que a balança comercial favorável e os empregos industriais não foram suficientes para prevenir o ressentimento daqueles que se consideram, em comparação com a média nacional, em desvantagem econômica.

A explicação desse fenômeno foi desenvolvida em um artigo de Laura Carvalho e Guilherme Klein, publicado nesta Ilustríssima, que analisa como bons indicadores da economia brasileira não se convertem em uma avaliação positiva do governo Lula (PT). Os economistas argumentam que a transformação das aspirações dos brasileiros e as novas comparações geradas por esse processo estão no centro da popularidade do presidente.

Analiso, aqui, como a capacidade de aspirar se expandiu dramaticamente entre os brasileiros nas últimas décadas. Essa mudança transformou o país e produziu efeitos não óbvios e contraditórios, cujas consequências políticas ainda não foram plenamente compreendidas, mas certamente vão estar em jogo nestas eleições.


Há quase três décadas, venho documentando os sonhos atrelados ao consumo e ao trabalho dos brasileiros. Desenvolvi o conceito de classes aspiracionais para me referir aos segmentos populares que aprenderam a desejar outros futuros, ampliaram as suas expectativas e, agora, querem —e sentem que merecem— mais.

A ampliação do repertório de aspirações de uma população é um indicador importante do desenvolvimento, porque os sonhos avançam à medida que os horizontes se expandem. Mas isso, sozinho, traz grandes riscos: ao gerar expectativas, pode retroalimentar frustrações e ressentimentos. Consumidores e trabalhadores mais exigentes querem mais e buscam respostas políticas ou para avançar ou para não perder o pouco que conquistaram. Logo, se as aspirações forem atingidas, as políticas de mobilidade social vão bem; senão, a conta chega na forma de radicalização política.

Nestas eleições, o que está em jogo é um Brasil dividido entre os que estão concretizando as suas ambições e os que se ressentem. Isso, no entanto, não significa que a realização das aspirações leve automaticamente à rejeição da extrema direita. A percepção da presença ou da ausência do Estado e do esforço individual nessa trajetória é mais importante que a concretização em si das aspirações.

No Brasil, a expansão da teologia da prosperidade nas igrejas neopentecostais nos anos 1990 e as políticas lulistas dos anos 2000 —ampliação do crédito, inclusão pelo consumo, transferência de renda e ações afirmativas— multiplicaram as aspirações. Na ponte entre os discursos governamental e religioso, o empreendedorismo surgiu como uma promessa de autonomia, prosperidade e ascensão individual.

O padrão se repetiu em outros países do Sul Global, como a Índia e as Filipinas, onde também desenvolvo pesquisas: a economia cresceu nos anos 2000 e milhões de pessoas foram retiradas da pobreza sem um rompimento com o modelo neoliberal.

Pessoas alcançaram alguma mobilidade social e ampliaram a sua capacidade de sonhar, seja conquistando bens, seja vendo pessoas próximas conquistá-los, mas permaneceram presas a novas formas de precarização, como o trabalho plataformizado em aplicativos e redes sociais. Soma-se a isso o incentivo em massa ao empreendedorismo como saída individual para uma crise marcada pela redução das proteções sociais e trabalhistas.

Como resultado, uma contradição insolúvel foi criada: aspirações crescentes, de um lado, e alto endividamento e precariedade econômica e laboral, de outro.

Entre 2009 e 2014, eu e Lucia Scalco pesquisamos o consumo das classes populares de Porto Alegre —a primeira geração que podia comprar objetos cobiçados e rejeitar restos e doações de patroas, por exemplo. O Bolsa Família e as novas possibilidades de crédito facilitavam as compras em lojas.

Sem grandes perspectivas de futuro, essas pessoas apostavam na cidadania por meio do consumo. Acompanhamos muitos casos: um jovem que juntou tudo o que tinha para comprar um tênis Nike à vista no shopping para não ser confundido com bandido; o aprendiz de padeiro que comprou um celular em 12 prestações e foi roubado na parada de ônibus antes mesmo de pagar a primeira; a cuidadora que usou todo o FGTS para realizar o sonho de levar a família ao Outback.

Longe de ser futilidade ou irracionalidade, esses gestos funcionavam como um passaporte para cruzar uma fronteira existencial. As pessoas sonhavam em comprar um produto caro e visível como uma forma de se sentir gente.

Chamamos esse momento de reivindicação do direito a brilhar: o prazer pela aquisição de "coisas boas", o empoderamento individual, a consciência de que a sociedade racista e classista não legitimava aquele consumo e, como resposta, a afronta de andar com a cabeça erguida.

Os rolezinhos de 2014, tão paradigmáticos do direito a brilhar nos anos 2010, marcaram o ponto de virada da primeira geração dos filhos do Bolsa Família, que buscava visibilidade, reivindicava circular em shopping centers e queria comprar por meios formais.

Depois de Junho de 2013 e diante da profunda crise econômica e política que começou em 2014, havia ali o retrato de uma mudança complexa e perturbadora que transformou o Brasil. Não à toa, no estudo "Da Esperança ao Ódio", documentamos, entre 2016 e 2018, como parte desses jovens e dos seus pais, frustrados com a crise econômica, aderiu ao bolsonarismo. O voto expressava uma revolta contra as aspirações frustradas dirigida justamente ao partido que havia aberto essa janela.

Em um livro publicado em 2025, investigamos os sonhos de consumo de brasileiros, chineses, mexicanos e filipinos que saíram da pobreza, mas ainda não chegaram à classe média. Eles viviam em um limbo: tinham alcançado uma vida melhor, mas não conseguiam usufruí-la plenamente por causa de dívidas, da violência urbana e de outras formas de precariedade.

Nossa amostra era composta de pessoas que acessaram políticas de inclusão social e redistribuição de renda —muitos eram profissionais liberais e autônomos. Quando perguntamos a jovens adultos qual era o seu sonho mais ousado, ouvimos respostas como ter uma poupança, alcançar segurança financeira e se alimentar melhor.

No México, muitos queriam reduzir os pedidos de iFood e o consumo de ultraprocessados e incluir orgânicos na dieta. Nesse desejo de comer melhor, também emergiam conflitos familiares, como o caso do personal trainer que saiu da Rocinha para morar em Copacabana, passou a apreciar experiências gastronômicas e já não conseguia lidar com o pai, que "só come frango a passarinho". Esses microconflitos cotidianos evidenciam as grandes rupturas decorrentes da expansão dos horizontes.

Encontramos também o sonho de viajar: para Gramado, Salvador, Paris ou a Disney; para países africanos em busca da própria ancestralidade. Muitos interlocutores, os primeiros da família a andar de avião, já viviam essa jornada. Embora tirassem selfies na janelinha, o prazer não estava na exibição, mas no sentimento arrebatador de ampliar os horizontes.

Outro achado foi encontrar pessoas que ascenderam um pouco ou estavam rompendo com a pobreza e cujo pertencimento já não passava por exibir a sua capacidade de consumo: não ligavam para roupas nem para celulares de marca, e a realização dispensava símbolos de prestígio, riqueza ou branquitude.

Encontramos uma geração de jovens adultos com um estilo de vida mais pé no chão. As políticas públicas, combinadas com o tremendo esforço pessoal, permitiram mudanças sustentáveis entre as gerações. Os sonhos se transformaram em um planejamento de conquistas graduais e realistas. São pessoas que sabem que nada está garantido. Esses grupos não tiveram as suas aspirações castradas, e as suas escolhas políticas rejeitam os extremismos.

Já nos últimos cinco anos, a capacidade de sonhar de certos segmentos populares tem se transformado radicalmente com uma explosão de aspirações mediadas pelas redes sociais, em contraste brutal com a realidade.

Pessoas dizem que vão acumular dezenas de milhões de reais enquanto escondem a parede sem reboco das suas casas, sonham com uma Ferrari, mas não têm dinheiro para pagar uma corrida de moto por aplicativo, passam horas em ônibus e trens e são frequentemente assaltadas ao voltar do emprego e almejam encontrar no trabalho digital uma saída rumo ao conforto e à liberdade.

Esse sonho oferece um alívio: permite imaginar a admiração e o respeito que seriam conquistados com a riqueza. O problema é a dissonância entre esse anseio e as possibilidades concretas de ser realizado.

O sonho digital virou um mercado gigantesco no Brasil. O empreendedorismo online, como Brooke Erin Duffy define, é um trabalho aspiracional: uma promessa de renda e emancipação para quem ainda está longe da mobilidade social. Nos aplicativos e, sobretudo, nas redes sociais, milhões de brasileiros tentam ganhar a vida, obter renda extra ou se tornar influenciadores. Muitos jovens têm deixado a escola nessa ilusão.

Trata-se de um universo mediado por influenciadores e coaches do marketing digital e da prosperidade, cujas credenciais se baseiam em premissas falaciosas, como "se eu consegui, você também consegue" ou "todo o mundo tem as mesmas 24 horas".

Nos últimos três anos, seguimos diariamente 700 influenciadores. Em uma das mentorias, um deles dizia que tinha o código da riqueza de Elon Musk e que os seus mentorados, as 90 mil pessoas do mundo todo que assistiam às suas aulas, seriam parte do novo 1% VIP da humanidade.

Abaixo dos grandes influenciadores, se esconde uma pirâmide de exploração da esperança, alimentada por operários da viralização, como os estudados por Rafael Grohmann, e por aqueles que consomem os seus conteúdos. "O que mais vende são reels que trazem a reza da riqueza", me disse um jovem que sonha em ficar rico na internet.

Nossos levantamentos mostram que 90% dos influenciadores desse ecossistema se alinham à extrema direita. Esse universo é marcado pela fé inabalável na meritocracia e no individualismo, combinada a estilos de vida conservadores.

As redes sociais estão repletas de mantras, técnicas de neurociência e leis da física quântica que prometem atrair riqueza. Terapias prometem curar as feridas familiares que manteriam as pessoas na pobreza. A disciplina e o "mindset" definem tudo.

Os seguidores são ensinados a elevar a sua frequência para que ela corresponda à do reino de Deus ou possa atrair a fortuna magneticamente. Outros são incentivados a preencher quadros com imagens dos seus desejos: casas de dois andares, teto quadrado e Jaguar na garagem, jatinhos e muitos milhões. É preciso, ainda, exibir o "print" do saldo bancário e agradecer a Deus pelas bênçãos.

Os influenciadores se aproximam das pessoas comuns e forjam uma identificação com os seus modos de falar e viver. Se a capacidade de aspirar depende de modelos, esses profissionais se apresentam como referências próximas: dizem ter pegado ônibus e começado do zero, produzindo conteúdo em casa com um celular velho. Dessa forma, parecem exemplos alcançáveis e ampliam a imaginação do seu público, embora os seus seguidores nem sempre tenham à mão os recursos materiais e simbólicos necessários para concretizar as ambições.

Com uma base de dados de quase 2 milhões de aspirantes a empreendedores digitais e diversos projetos etnográficos, acompanhamos muitos desses trabalhadores. São pessoas que vivem de bicos, empregos formais mal remunerados ou trabalhos precários e plataformizados. A maioria delas se define, no Instagram, como empresário, empreendedor ou até CEO.

A prosperidade econômica desse segmento que aposta na internet tem sido praticamente nula. É claro que o digital pode oferecer oportunidades a muitos, mas apenas uma minoria alcança o sucesso. A exceção, porém, é vendida como regra e retroalimenta o ciclo da aspiração.

O antropólogo Wagner Guilherme Alves da Silva, que pesquisa empregadas domésticas que usam o Instagram como plataforma de trabalho, mostra como elas se reposicionam como "personal cleaners" e aspiram a deixar de ser "Isauras" e se tornar diamantes. Muitas delas compram mentorias para abandonar velhos hábitos, transformar o corpo, atrair riqueza e até se imaginar na capa da Forbes, mas não deixam de vivenciar a precariedade e a violência.

Ouvimos muitas pessoas que, mesmo passando horas por dia tentando crescer no universo digital sem obter resultados, se culpam pelo fracasso: "O meu mindset está errado". Os reveses são vividos como algo puramente individual, resultado de energia fraca ou esforço insuficiente.

Muitas dessas pessoas são mulheres negras, mães e trabalhadoras com dupla jornada, para as quais a renda extra digital e o home office aparecem como uma saída. Ao não progredir, porém, costumam se endividar para comprar mais uma mentoria com um coach.

Muitos ridicularizam pessoas de baixa renda que desejam empreender, as chamando de "CEO de MEI", referência a microempreendedor individual. A minha proposta é olhar para esse fenômeno sob outro ângulo. Estamos falando de sonhos de realização pessoal, dignidade, tempo livre e conforto: se anseia vender hambúrgueres para comandar a própria vida, controlar o tempo de descanso e se realizar por meio da expressão de quem se é.

Estimamos que cerca de um terço da população economicamente ativa usa redes sociais para empreender. As políticas governamentais e o debate público erram ao reduzir a plataformização ao trabalho por aplicativos, ignorando o fenômeno mais amplo e profundo do trabalho nas redes sociais.

Uma das maiores aspirações dos brasileiros sempre foi ter carteira assinada. Embora pesquisas apontem a predominância desse desejo hoje, cresce a ambição pelo trabalho autônomo. O discurso que associa a CLT à falta de ambição, ao fracasso e à humilhação não domina apenas as redes, mas ganha força na linguagem popular porque toca em uma ferida profunda: o legado de uma cultura de subalternidade associado a uma rotina de "corres" e "perrengues". Isso não significa que os brasileiros não queiram empregos formais. As pessoas não querem mais se sujeitar a empregos ruins.

Trabalhar no digital ou por aplicativo e sonhar com liberdade e autonomia faz sentido em um país que marginalizou os trabalhadores informais e maltratou os formais em empregos mal remunerados e com longas jornadas, que sugaram a sua criatividade e força física e mental. Por trás do desejo de ser CEO no Instagram ou se tornar patrão de si mesmo, está a vontade de controlar o próprio tempo e não ter que obedecer ordens.

Esse Brasil que quer andar de cabeça erguida e ser tratado como diamante tem menos a ver com um ímpeto neoliberal e mais com algo fundamentalmente humano: a busca por visibilidade e respeito em um país que invisibilizou e humilhou os grupos populares e a procura por autonomia e conforto em uma cultura de trabalho que historicamente os explorou.

Essa não é uma explicação romântica para um mal social. O desejo mesquinho, o egoísmo, a ostentação e a exploração existem por todos os lados. A extrema direita surfa nesse desejo de liberdade e o transforma em força ideológica, mas as ausências estruturais são a base desse processo.

Nestas eleições, precisamos entender como as classes aspiracionais votam. A resposta depende menos da concretização ou da frustração das aspirações e mais da forma como o Estado é percebido nesse processo.

Não há um modelo rígido de voto, mas uma tendência se destaca: parte daqueles cujas aspirações foram ampliadas e concretizadas tende a rejeitar a extrema direita e a votar em Lula. São pessoas que guardam uma memória mais viva da presença contínua do Estado ao longo da sua trajetória de melhoria.

Contudo, existe um universo imenso e muito desafiador à compreensão do impacto da expansão das aspirações na adesão ao bolsonarismo. Refiro-me tanto àqueles cujas aspirações seguem frustradas quanto aos que as concretizam por caminhos que julgam ser puramente individuais e meritocráticos, ou seja, sem a influência estatal. Ambos os grupos consideram o Estado ausente, ineficiente e corrupto, que só aparece para taxar e extorquir.

Chamei esse universo social de autoritariado: frações das classes aspiracionais e pobres que, como grande parte da população brasileira à margem do mercado de trabalho formal e das proteções sociais, aprenderam a se virar. O autoritariado é oprimido e opressor. Cada vez mais plataformizado, está encarnado tanto no estereótipo do Uber bolsonarista quanto nos autônomos que, segundo um levantamento do jornal O Globo, representaram 43% dos presos pelo STF por participação no 8 de Janeiro.

Esses segmentos estão cada vez mais alinhados não apenas ao conservadorismo e ao autoritarismo, mas também ao libertarianismo. O autoritariado acredita apenas no seu esforço e vê o Estado como usurpador, mas espera um pulso firme para cortar as mamatas. É seduzido por bets, criptomoedas, imposto zero e figuras como Musk. Não se revolta contra as grandes fortunas e tampouco defende a sua taxação: almeja ser parte das superelites.

O bolsonarismo e os seus aliados, em diferentes graus de radicalidade, têm ganhado de braçada entre o autoritariado. Aqui, voltamos à dimensão comparativa da percepção dos indicadores econômicos. A lógica é esta: "Ao mesmo tempo que percebo o Estado como profundamente ausente para mim, sinto que ele, que nada me deu e muito me tirou, é muito presente e benevolente para os outros".

Carvalho e Klein mencionaram o papel dos feeds na ampliação do repertório de aspirações. De fato, raramente se sonhou tanto e tão alto, mas isso não significa que a raiva e o ressentimento tenham se ampliado na mesma escala. Ao contrário do que se imagina, essas emoções não são dirigidas a um inimigo abstrato, forjado pelas redes sociais.

As redes ampliam os horizontes e preparam o terreno, mas a raiva desce ao chão da vida cotidiana e permanece profundamente paroquial. Se as aspirações se constroem na comparação com os de cima —os ricos e "livres e felizes"—, a raiva nasce da comparação com os rechaçados de baixo. A indignação é com a "vizinha preguiçosa, que não faz nada e só vive do Bolsa Família enquanto eu me mato de trabalhar".

Isso é o que chamo de senso de merecimento precário: diz respeito ao sujeito que conquistou um pouquinho a mais e, por isso, se acha superior em uma narrativa que valoriza o trabalho individual duro. Mais que falta de consciência de classe, se trata de uma forma de desejo de tentar se salvar do estigma da pobreza e repassá-lo para baixo.

Em um "país de vagabundos", o desprezo à pobreza produz a vontade desesperada de não ser reconhecido como pobre —e leva a culpa aos menos privilegiados. A extrema direita, que se caracteriza justamente pela narrativa do "nós contra eles", joga lenha nessa fogueira.

Enquanto os estudos sobre a extrema direita se concentram nas emoções negativas —raiva, ressentimento, frustração, ódio e nostalgia—, tenho preferido olhar para os sentimentos positivos, os sonhos e as aspirações. É um erro achar que o bolsonarismo se assenta somente no ressentimento pelas aspirações frustradas.

O anseio do sujeito de mostrar que é melhor que a "vizinha preguiçosa" e esfregar isso na cara de quem antes o humilhava encontra hoje o seu lugar no empreendedorismo e nas novas formas de trabalho, alimentado por promessas meritocráticas de esforço individual.

O autoritariado vai às urnas

O bolsonarismo e os seus aliados têm falado com esses grupos de muitas formas: exaltando o trabalho duro, desqualificando o Estado e, durante a pandemia, afirmando que o Brasil não podia parar. A extrema direita surfa no desejo legítimo de autonomia e o transforma em liberdade individual. Na campanha, Flávio Bolsonaro (PL) se concentra no poder de compra, no endividamento, no Estado taxador e na violência.

Para além do bolsonarismo, existe um leque de opções que, ainda que não se apresentem diretamente como de extrema direita, ecoam as aspirações do autoritariado. Pablo Marçal (PRTB) e Augusto Cury (Avante), por exemplo, vieram de um mundo político digital muito semelhante. Não à toa, ambos pareceram surgir do nada e alcançaram intenções de voto significativas. Desapercebidos por muitos, estavam falando a milhões de sonhadores havia anos.

Cury, em particular, reina no universo dos coaches de prosperidade e, ainda que não defenda abertamente pautas de extrema direita, é parte do mesmo ecossistema digital, sustentado por uma crença inquestionável na força individual e dirigido a milhões que acreditam apenas em si mesmos e em Deus como caminhos para o crescimento. Ele representa justamente esse novo universo do trabalho que, ao considerar o Estado ausente, vê nas terapias de cura de dores individuais —das perdas e da pobreza— a solução para problemas coletivos.

Para Lula, o desafio é imenso: como gerir o monstro imprevisível que saiu da janela das aspirações —janela também aberta por ele? Para um partido calcado na luta histórica de uma parcela dos trabalhadores, especialmente os sindicalizados, como falar e se conectar com um grupo que se desprende do Estado, vê a saída no indivíduo —não na luta coletiva ou na democracia— e busca autonomia por meio do sucesso empreendedor? Como entender o direito a brilhar sem transformá-lo em políticas neoliberais ainda mais individualizantes e, principalmente, tornar o coletivo e a democracia uma nova aspiração?

É preciso lembrar que a tendência libertária do autoritariado, vinda da revolta contra o Estado, não significa que não se queira o Estado. Ao contrário, as pessoas se ressentem da sua ausência.

Portanto, em um mundo do trabalho cada vez mais pejotizado e plataformizado, a questão não se limita a recriar narrativas para falar com esses trabalhadores. Em vez disso, escancara o desafio tremendo de desenhar políticas públicas robustas que preservem o desejo legítimo de autonomia e conforto e ampliem a proteção do Estado às classes aspiracionais.
Rosana Pinheiro-Machado, professora titular de estudos globais da University College Dublin, na Irlanda

O sequestro do sagrado e a falência do debate

Enquanto a Santa Senhora Aparecida permanecia imóvel em seu lugar, cumprindo o papel secular de ouvir pedidos de graça e consolo dos aflitos, homens vis, gananciosos e oportunistas decidiram rebaixá-la à condição de mera participante de uma luta pelo poder terreno. O episódio não diz nada sobre a fé, mas diz tudo sobre o nível rasteiro daqueles que usam o sagrado como mercadoria eleitoral.

Em um país profundamente religioso como o Brasil, onde o Estado se define como laico, não é de hoje que isso acontece. É lamentável, porém, que o cenário se repita a cada dois e quatro anos com o mesmo objetivo: enganar os mais crédulos para se apoderar de seus votos. Não se trata de outra coisa. É a tentativa despudorada de sequestro da vontade e, para tanto, mandam-se às favas todos os escrúpulos.


O resultado mais imediato dessa tática rasteira é a completa falência do debate público. Quando a arena política se transforma em um tribunal inquisitório de aparências piedosas, as discussões urgentes que deveriam pautar o país são covardemente asfixiadas. Substituem-se os planos de metas pela contrição fingida; anulam-se os debates sobre saúde, segurança e economia para dar lugar a uma disputa coreografada de quem exibe a maior devoção. A política, que deveria ser o espaço da razão e da construção do futuro, retrocede ao palanque da encenação hipócrita.

Essa saturação do sagrado desidrata qualquer tentativa de propor soluções reais para os problemas estruturais do Brasil. É muito mais fácil e eleitoralmente lucrativo posar para fotos ao lado de altares e de imagens de santos do que debater, com seriedade, reformas estruturantes. Sob o manto da manipulação religiosa, os candidatos esquivam-se do escrutínio técnico e se blindam contra críticas legítimas. Afinal, questionar as propostas — ou a falta delas — de um candidato blindado por símbolos sagrados passa a ser visto, de forma canalha, como um ataque à própria fé.

Diante de um espetáculo tão repetitivo quanto ultrajante, o que mais assombra é a aparente apatia do eleitorado. Parcela significativa dos cidadãos assiste a esse sequestro da fé com uma complacência perturbadora, como se aceitasse a mercantilização do divino como uma regra inevitável do jogo democrático. Há uma normalização do absurdo: o fiel, que deveria ser o primeiro a se indignar com a profanação de seus símbolos, muitas vezes silencia ou, pior, justifica o cinismo do candidato de estimação sob o pretexto pragmático de que “na política vale tudo”.

Essa indiferença, contudo, não é simples cegueira, mas o reflexo de um cansaço crônico e de uma profunda desilusão com as instituições. Calejado por décadas de promessas vazias e traições institucionais, o eleitorado desenvolveu uma espécie de casca cínica, onde o pragmatismo substituiu o idealismo. Tolera-se a mentira porque já não se espera a verdade. Ao fechar os olhos para o estelionato espiritual, o cidadão abdica de sua própria dignidade política e aceita o papel de figurante em uma farsa teatral que se renova a cada ciclo das urnas.

Conclui-se que esse silêncio coletivo cobra um preço altíssimo. Ao não punir nas urnas aqueles que tratam a devoção popular como moeda de troca, a sociedade valida o método e pavimenta o caminho para que o próximo pleito seja ainda mais vazio de propostas e mais denso de hipocrisia. Enquanto a indignação ceder espaço à indiferença, os templos continuarão sendo usados como trampolins e o debate público permanecerá submetido à pequenez dos que só enxergam no sagrado um atalho para o poder.

Pânico moral, fervor evangélico e guerra cultural: a fórmula Bolsonaro

Brasília, 2016. O deputado Jair Messias Bolsonaro dedicou seu voto a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, de esquerda, ao oficial militar que a torturou durante a ditadura, quando ela era guerrilheira. O gesto gerou indignação… e notoriedade. Dois anos depois, o militar, que havia sido afastado do Exército por indisciplina e era um parlamentar medíocre há três décadas, obteve uma vitória retumbante nas eleições presidenciais brasileiras. Ele capitalizou a frustração e a raiva, convencendo seus compatriotas de que lideraria a luta para enterrar as práticas políticas tradicionais e acabar com a corrupção que corrói o sistema desde os tempos coloniais. Posicionou-se como o campeão das guerras culturais contra o feminismo, as minorias e o meio ambiente. O caminho para a vitória foi pavimentado pela prisão de Luiz Inácio Lula da Silva às vésperas das eleições.


Dois mandatos depois, os papéis se inverteram. Bolsonaro, de 71 anos, está na prisão, e Lula, de 80, ocupa a presidência, agora focado em garantir um quarto mandato. Enfrentando-o está o filho de seu grande rival, Flávio Bolsonaro, de 45 anos, uma versão diluída do pai e sem o mesmo carisma. O Brasil realiza eleições no próximo domingo. Se nenhum candidato obtiver mais de 50% dos votos válidos, haverá um segundo turno em 25 de outubro.

Quem acompanhou de perto a evolução dos últimos oito anos percebe uma sociedade exausta, apática e resignada. O entusiasmo que antes eletrizava as multidões evaporou. A incipiente divisão social que dilacerava esta nação conciliadora transformou-se em uma polarização completa, em dois Brasis. O pêndulo oscila, mas a vida não melhora substancialmente. Os problemas estruturais persistem. As mesmas caras de sempre estão no poder, e a corrupção domina os noticiários . De novo. Muitos brasileiros votarão contra um candidato, não por uma visão para o país.

Como explicar que outro Bolsonaro, um candidato tão frágil, consiga angariar o apoio indicado pelas pesquisas? Há semanas, as pesquisas apresentam um quadro consistente: Lula, líder de uma esquerda unida aliada a parte da centro-direita, está empatado com Bolsonaro Jr., o candidato mais forte de uma direita dividida. É improvável, mas já não se descarta a possibilidade de o resultado ser decidido no primeiro turno. O filho mais velho de Bolsonaro ameaça seriamente a reeleição do político mais influente do Brasil e da América Latina no século XXI. Ele é, juntamente com a mexicana Claudia Sheinbaum, o único bastião contra a onda trumpista e conservadora que varre o continente.

Indicado como sucessor por seu pai, o senador Bolsonaro passou metade da vida na política, assim como seus irmãos. O ex-presidente de extrema direita ignorou o establishment, que preferia alguém sem o sobrenome Bolsonaro, menos palatável ao eleitorado moderado. Para piorar a situação, o candidato Bolsonaro está sendo investigado por corrupção e lavagem de dinheiro. E esta nem é a primeira vez que ele está na mira dos tribunais.

A partir daquela vitória em 2018, que pode ter parecido circunstancial, resultado da onda antipolítica do primeiro presidente Donald Trump, o clã Bolsonaro construiu uma identidade com a qual metade do Brasil se identifica, com diferentes graus de intensidade.

Desde o início, deu substância política a uma realidade latente. As aspirações de uma extrema-direita já existente entraram no debate, como aponta David Magalhães, pesquisador do Observatório da Extrema Direita: um populismo violento e reacionário, legado de uma sociedade patriarcal marcada pelo autoritarismo militar e por uma cultura de escravidão. São as pessoas que nunca perdem uma manifestação, sempre agitando a bandeira e vestindo a camisa da seleção nacional de futebol. Algumas delas são a minoria fanática que acompanhou o ex-presidente e os generais na tentativa de golpe para se manterem no poder após a derrota para Lula em 2022.

Mercia Alves, antropóloga política do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), destaca que “Bolsonaro não criou o conservadorismo moral. Ele não incentivou a entrada de amplos setores evangélicos na política, nem criou a extrema-direita brasileira. O que ele fez foi reunir, de forma muito eficaz, esses elementos em torno de uma única candidatura”.

Bolsonaro pai colocou questões morais — aborto, drogas e a chamada ideologia de gênero — no centro de seu discurso; as eleições não girariam mais em torno da economia ou da segurança. Ele elevou, assim, a batalha política ao status de missão divina para derrotar o mal. Autoproclamado instrumento de Deus, soube capitalizar a profunda transformação social provocada pela proliferação de igrejas evangélicas no Brasil, especialmente entre as classes trabalhadoras das periferias urbanas. De vilarejos remotos na Amazônia às cidades mais ricas do sul, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo, pastores evangélicos estão substituindo padres católicos.

Grande parte daquela pobre congregação evangélica, que até 2010 preferia o Partido dos Trabalhadores à direita tradicional, mais liberal e elitista, identificava-se com o discurso de Bolsonaro.

O lema “Deus, pátria, família e liberdade” ressoou naqueles bairros onde a pobreza é abundante e as oportunidades escassas. Os brasileiros que lutam tanto para alimentar seus filhos não votam mais com a carteira, mas com base em seus valores.

Os líderes de muitas igrejas evangélicas adotaram um discurso baseado em falácias que desloca a luta entre o bem e o mal para a arena política, alimentando o pânico moral com uma narrativa sobre uma esquerda imaginária. “Lula ameaça nossa liberdade religiosa, ameaça a segurança de nossas crianças, ameaça nossas famílias e representa a degeneração de nossos valores morais”, é essencialmente esse discurso, explica o cientista político Alves. Pouco importa que os governos de Portugal defendam a liberdade de culto ou evitem o debate sobre o aborto.

A mensagem é incrivelmente poderosa quando vem do líder de uma igreja que transforma vidas com suas promessas de salvação e soluções para problemas cotidianos. E a força motriz por trás da mudança social se personifica na mulher negra pobre para quem a comunidade religiosa oferece uma rede de apoio mais eficaz do que o Estado. Ela é a brasileira cujo marido não a agride mais desde que parou de beber, que aprendeu a ler usando as Escrituras, ou que vê as aulas de violão dos filhos como uma alternativa segura às ruas, onde o crime oferece dinheiro fácil e status.

Michelle Bolsonaro, esposa do patriarca, evangélica e aspirante a política de alto escalão, é um grande trunfo para esse público graças ao empoderamento feminino conservador que prega, com parábolas bíblicas e vídeos no Instagram.

Seu filho Flávio, um cristão evangélico apesar do catolicismo do pai, cresceu cercado por famílias militares. Estudou direito e, após 16 anos como vereador no Rio de Janeiro, chegou ao Senado. Embora sua campanha presidencial gire em torno da figura do pai e abrace grande parte da agenda da extrema-direita, o candidato do Partido Liberal é o menos ideológico dos filhos. Ele não compartilha da agressividade ou da grosseria do pai. Apresenta-se como um Bolsonaro moderado, vangloria-se de ter sido vacinado durante a pandemia e de que sua esposa e filhas o reeducaram. Ele sabe muito bem que o sexismo flagrante do pai afasta o eleitorado feminino.

Diferentemente de seus irmãos, ele mantém um diálogo fluido com os partidos ideologicamente neutros que dominam o centro-direita e tradicionalmente detêm o poder de decisão. Mas, refletindo sua fragilidade inicial, nenhum partido concordou em formar uma aliança com ele. Para surpresa de quase todos, Flávio Bolsonaro rapidamente herdou o capital eleitoral de seu pai, mas trata-se de um apoio marcado pela resignação, mesmo entre aqueles que encontraram sentido em suas vidas dentro do universo Bolsonaro.

No último dia 7 de setembro, Dia da Independência, o dia amanheceu cinzento, chuvoso e frio em São Paulo. Um daqueles dias em que os brasileiros não se aventuram a sair de casa, mas foi um dia de mobilização da direita. Sonia Jezabel Monteiro, de 75 anos, bancária aposentada, estava lá, firme e agasalhada. “Flávio é a solução? Ele é a única opção que temos”, confessou, ecoando outros manifestantes que vieram apoiar o candidato. “A primeira opção, claro, é o pai dele, o líder que veio para resgatar os grandes valores ocidentais”, explicou.

Mas o que ela realmente queria discutir era o assunto do momento. E foi então que ela lançou um de seus característicos discursos inflamados contra o Supremo Tribunal Federal e o ministro Alexandre de Moraes, o nêmesis de Bolsonaro e rival de Lula como a personificação do mal. “Somos escravos de um Supremo Tribunal Federal que condena e depois absolve presidentes. Vejam o caso Master. Deveriam ter afastado todos, porque ou são criminosos ou cúmplices, e nomeado pessoas que respeitam a Constituição.” O caso ao qual ela se refere é um grande escândalo de corrupção envolvendo um banco que deixou um rombo de quase 10 bilhões de euros, pelo qual o Supremo Tribunal Federal está investigando o filho de Bolsonaro. A investigação colocou o ministro Moraes sob suspeita de proteger o banqueiro acusado de fraude e implicou metade dos ministros da Suprema Corte.

O apoio dos seguidores de Bolsonaro não é incondicional, alerta Alves. O desprezo pelo sofrimento alheio demonstrado por Bolsonaro pai em sua gestão da pandemia os magoou; muitos detestam armas — Flávio já não as promove — e rejeitam a retórica virulenta. Suspeitas de corrupção alimentam suas dúvidas. Mas, acima de tudo, eles veem os Bolsonaros como os únicos capazes de derrotar o inimigo comum, aquele Lúcifer encarnado em Lula.

O discurso moralista encontrou terreno fértil porque a devoção à fé e à família se destaca entre os poucos traços comuns ao povo brasileiro, um dos mais diversos e desiguais do mundo. A folia desenfreada do Carnaval, a moral sexual liberal e a naturalidade com que abraçam mil estruturas familiares informais projetam uma imagem que pode ofuscar seu conservadorismo profundamente enraizado.

Sempre que a esquerda governou o Brasil, os presidentes foram depostos por golpe militar, pelo Congresso ou presos, após promoverem reformas trabalhistas, tributárias e agrárias, criarem a Comissão da Verdade sobre a ditadura ou redistribuirem a renda.

A política no Brasil se desenrola no ritmo de uma telenovela, com tramas intrincadas que se estendem por vários episódios. Os heróis de hoje são os vilões de amanhã; há traições, reviravoltas… e altas doses de expectativa alimentadas pelo universo midiático-político-judicial até que o escândalo que mudará tudo (ou não) exploda (ou não). E então, para o próximo assunto. Há semanas circula a ideia de que alguma revelação bombástica poderá decidir a eleição presidencial na reta final.

Embora a popularidade de Lula esteja em declínio, ele representa a única esperança para os brasileiros que ainda carecem até mesmo das necessidades mais básicas, para os progressistas e para as minorias. Mas é muito comum um brasileiro que nasceu pobre, recebeu assistência social, emigrou e trabalhou duro com grandes sacrifícios para alcançar um padrão mínimo de vida, falar mal de Lula (em quem talvez tenha votado duas décadas atrás, quando ele personificava a mudança) e criticar seus primos preguiçosos, que “vivem sem trabalhar” graças a subsídios pagos por todos os outros.

E é aí que entra outro ingrediente da identidade política de Bolsonaro: o discurso do individualismo, da meritocracia, a ideia de que o Estado atrapalha… todos elementos centrais da Teologia da Prosperidade pregada por pastores neopentecostais em igrejas, nas redes sociais e por meio de poderosas emissoras de televisão. Os empreendedores se multiplicam, enquanto os mais bem-sucedidos se gabam de serem seus próprios chefes e da liberdade que desfrutam.

A cada nova acusação legal ou escândalo contra os Bolsonaro, a esquerda mais militante esperava que fosse o golpe final, aquele que enterraria o clã. Mas inúmeras previsões se provaram erradas. O cadáver político ressuscitou repetidas vezes. Quando o patriarca foi impedido de exercer cargos públicos e condenado a 27 anos de prisão por liderar uma conspiração golpista, aqueles que estudam o universo Bolsonaro alertaram que seu movimento político era uma realidade consolidada que sobreviveria ao seu criador. Pouco depois, a segunda vitória de Trump injetou nova energia no movimento.

O fato de o juiz Moraes, que liderou a batalha judicial para levar Bolsonaro e os demais golpistas à justiça, ter passado de salvador da democracia a suspeito de corrupção só aprofunda a profunda desconfiança que os brasileiros nutrem pelas instituições que sustentam a democracia. Também alimenta a narrativa de vitimização que os Bolsonaro vêm explorando desde que o pai foi esfaqueado. Magalhães, do Observatório da Extrema Direita, explica que essas suspeitas “alimentam a ideia de que ele é vítima de um sistema que remove um mártir da arena eleitoral”. Em prisão domiciliar na casa da família em Brasília, ele confiou ao filho mais velho a missão de concluir o processo. Caso vença Lula, a prioridade é conceder anistia ao patriarca e inserir o Brasil na aliança diplomático-militar que Trump está promovendo na América Latina.

Pastor protagonizou chute em N. S. Aparecida

Era 12 de outubro de 1995, Dia de Nossa Senhora Aparecida, feriado no Brasil, quando o pastor Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, aproveitou seu programa "O despertar da fé", na TV Record, para criticar a adoração à figura da padroeira do país. Durante um sermão, de microfone na mão, falando para a câmera, ele soca e chuta uma imagem da santa enquanto afirma, exaltado: "Estamos mostrando às pessoas que isso aqui não funciona" e "isso não é santo coisa nenhuma".

"Será que Deus, o Criador do universo, pode ser comparado a um boneco desse, tão feio, tão horrível, tão desgraçado!?", completou o pastor, expressando seu repúdio à chamada idolatria, algo combatido por religiões protestantes desde a época de Martinho Lutero. Foi esse monge e teólogo alemão, líder da Reforma Protestante, que, entre os séculos XV e XVI, começou a criticar a veneração de santos e relíquias em prol da salvação. Para protestantes, Cristo é o único mediador entre nós e Deus.

A atitude de Von Helder gerou comoção. Instituições como a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pronunciaram-se indignadas. A cena foi criticada até na Igreja Universal, cujo fundador, Edir Macedo, pediu perdão aos católicos. O pastor foi processado e chegou a ser condenado à prisão.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Se Flávio Bolsonaro for eleito, Brasil vai virar Venezuela

Por uma dessas ironias latino-americanas, o Brasil vai virar a Venezuela se Flávio Bolsonaro for eleito presidente. Com Lula presidente, nunca virou.

Desde a invasão americana, o regime venezuelano pode ser caracterizado como um madurismo entreguista.

Ora, "madurismo entreguista" e "bolsonarismo" são sinônimos perfeitos.

Se você tirar de Maduro seu anti-imperialismo e seu bigode, ele estará a uma peruca do Jim Caviezel de distância de virar o Jair. Já poderá, inclusive, pedir dinheiro ao Vorcaro.


Ao contrário do que esperava a direita venezuelana, Trump deixou a ditadura madurista em paz, em troca de um acordo que permite aos americanos roubar o petróleo venezuelano ("ao vencedor, os espólios", disse Trump na ONU).

Nenhum governo venezuelano que dependesse de voto popular poderia oferecer a Trump um acordo tão lesivo à Venezuela.

Quando o acordo foi divulgado no dia 28 de agosto, Ricardo Hausmann, professor de economia em Harvard e membro da oposição venezuelana, postou no falecido Twitter: "Secretário Marco Rubio: você acaba de perder qualquer confiança que os venezuelanos tinham em você, e isso ainda voltará para lhe assombrar. Você optou por usar o poder dos Estados Unidos, não para libertar a Venezuela, mas para ir para a cama com nossos opressores".

Por outra dessas ironias latino-americanas, os dois grupos políticos sul-americanos com mais raiva de Marco Rubio neste exato momento devem ser o PT e a direita venezuelana.

Nos últimos meses, antigos assessores de Paulo Guedes andaram pela Faria Lima prometendo cortes de gastos gigantescos se Flávio for eleito. Ignore, por um momento, o quão pereba o sujeito precisa ser para ser reserva no time em que o Guedes é titular. Deixe de lado, também, o fato de que a essa altura, em 2018, o plano econômico do Guedes era zerar a dívida pública em um ano vendendo os imóveis da União.

O verdadeiro programa econômico de Flávio foi escrito em Washington.

Em resumo, a proposta de Trump é que o Brasil compre tudo dos Estados Unidos mesmo que os chineses cobrem mais barato; e vendam tudo para os Estados Unidos mesmo que os chineses aceitem pagar mais caro. Teremos que pedir permissão para vender nossos minérios, desistiremos do Pix e compraremos aviões americanos piores que os feitos pela Embraer. Em outros termos, todos os setores internacionalmente competitivos da economia brasileira terão que começar a trabalhar para enriquecer os americanos.

O próprio Marco Rubio já nos contou que Flávio Bolsonaro concordou em estabelecer um comitê de transição, após as eleições, para implementar o plano.

Em entrevista recente ao ICL, o cientista político Steve Levitsky, autor, com Daniel Ziblatt, do já clássico "Como as Democracias Morrem", afirmou que há um risco real de Trump não reconhecer uma vitória eleitoral de Lula.

Isso daria margem a novas ofensivas da extrema direita global contra a democracia brasileira.

Afinal, Trump vê o autoritarismo da família Bolsonaro como uma vantagem, pelos mesmos motivos que o fazem gostar do autoritarismo madurista. Nenhum governo brasileiro que dependa de voto popular poderá oferecer a Trump um acordo tão lesivo ao Brasil quanto o que Flávio já prometeu aceitar.

As mentiras de Flávio Bolsonaro sobre as apostas online

Em uma eleição, costuma-se dizer, que a primeira vítima é a verdade. Então a construção de uma versão que não corresponde a fatos acontece. Mas no caso do senador Flávio Bolsonaro as mentiras são grandes demais e viram uma forma de engodo e manipulação.

Sobre as apostas esportivas a verdade é que a permissão foi aprovada no governo de Michel Temer para serem regulamentadas no governo seguinte. Jair Bolsonaro não regulamentou de propósito, as empresas não queriam limitações, nem o pagamento de impostos. O lobby era este. Nessa terra sem lei, que foi o governo de Jair Bolsonaro, elas cresceram sem regulamentação.


O governo Lula decidiu regulamentar e cobrar impostos. Enfrentou um duro lobby no Congresso. A autorização para os cassinos tipo Jogo do Tigrinho, foi incluída na Câmara dos Deputados. O Senado tentou tirar, mas a Câmara restabeleceu. O governo Lula propôs 18% de impostos e o Congresso baixou para 12%. Esses são os fatos.

A questão é que, mesmo regulamentadas, o que se vê agora é que essas empresas estão provocando um problema econômico e social, o que tornou o tema crucial na campanha eleitoral. A expectativa é que o presidente Lula assine nesta sexta-feira uma Medida Provisória que passará a proibir a atividade no Brasil, mas isso não encerrará a questão. Isso porque a medida provisória vai tramitar no Congresso, precisa ser aprovada pelos parlamentares e, se isso não acontecer, perde a validade. Então, vamos ver, nos próximos meses, qual será o resultado final. As bets têm um lobby muito forte no Congresso, e já se sabe que essa não será uma batalha simples.

O que está claro é que as bets precisam de contenção.

Flávio e a milícia

Em um debate na quarta-feira, Simone Tebet (PSB), candidata ao Senado por São Paulo, pôs o dedo na ferida: “o país corre o risco de colocar a milícia do Rio de Janeiro na Presidência da República”. O alerta provocou reações veementes de apoiadores de Flávio Bolsonaro, mas, curiosamente, não foi contestado pelos advogados da campanha do senador, que costumam litigar por pelo em ovo. Uma forma de evitar o tema na última semana antes do primeiro turno das eleições, visto que as ligações de Flávio com milicianos são incontestáveis.

Os vínculos de Flávio com a milícia são antigos. Os mais vistoso deles com o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, chefe do “Escritório do Crime” – uma gangue de matadores de aluguel que atuava junto às milícias de Rio das Pedras e Muzema, Zona Oeste do Rio -, morto (ou apagado) em um confronto policial na Bahia, há seis anos.


Estreante como deputado estadual do Rio, o primogênito de Jair Bolsonaro apresentou uma moção de louvor a Adriano. Acusado de homicídio, ele já estava em prisão preventiva havia mais de um ano quando, em 2005, Flávio não só lhe concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria do Estado, como foi pessoalmente entregá-la no Batalhão Especial Prisional da Polícia Militar.

Em sua defesa, Flávio diz que tudo isso faz mais de 20 anos e que à época Adriano era “louvado por bravura”. Mentira pura, como tantas outras do Zero Um, que continua sem ter como explicar a condecoração a um criminoso. Amparou também a família de Adriano, contratando a mulher do ex-capitão, Danielle Nóbrega, e a mãe, Raimunda Vera Magalhães, para o seu gabinete em 2010 e 2015, respectivamente. Elas só deixaram os cargos em 2018, ano em que eclodiu o escândalo das rachadinhas – desvios comprovados mas varridos para debaixo do tapete por firulas judiciais.

Em 2008, durante os debates em torno da criação da CPI das Milícias na Assembleia do Rio, Flávio chegou a defender o poder de polícia paralelo. Dizia que os grupos paramilitares se organizavam “para impedir que o tráfico imperasse nas regiões” e que policiais faziam segurança privada para complementar o salário.

De iniciativa do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), hoje candidato à Câmara Federal, a CPI das Milícias só contou com dois votos contrários: de Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão, condenado, ao lado do irmão Chiquinho, como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Os irmãos Brazão tiveram penas fixadas em 76 anos e três meses pelos crimes de duplo homicídio qualificado e organização criminosa armada.

O fantasma de Marielle voltou a assombrar Flávio na semana passada. Segundo investigações da Polícia Federal, o senador negociou emenda parlamentar de quase R$ 200 mil para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, também na Zona Oeste do Rio. O repasse teria sido articulado por Robson Calixto, miliciano conhecido como Peixe, assessor de Domingos Brazão. Cabe repetir: o mesmo Domingos Brazão, mentor do assassinato da vereadora e de seu motorista, e que, ao lado de Flávio, votou contra a criação da CPI das Milícias. Em nota, Flávio negou qualquer ilicitude, mas não deu um pio quanto aos diálogos incriminadores entre Peixe e Maria de Fátima, sua secretária.

Desde muito jovem, Flávio tem vida pública no mínimo controversa. Iniciou sua carreira como funcionário fantasma do PPB na Câmara dos Deputados, partido pelo qual seu pai se elegeu à época. Tinha 19 anos, estudava Direito no Rio e recebia salário em Brasília. Dois anos mais tarde, chegou ao Legislativo fluminense e lá ficou por quatro mandatos, com atuação voltada à segurança pública e, como se viu, por vezes em defesa da parte podre das polícias.

Está no Senado há quase sete anos, com baixíssimo rendimento – apenas um projeto aprovado e outro em análise na Câmara. Não apareceu para votar a proposta trumpista, afinal derrotada, de enquadrar facções criminosas como terroristas, agora incluída em seu programa de governo. E como presidente da Comissão de Segurança da Casa faltou em dois terços das sessões. De 2024 para cá, enrolou-se com o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, a quem pediu R$ 130 milhões e recebeu mais de R$ 60 milhões para, supostamente, custear o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o pai.

Seu currículo definitivamente não combina com a explosiva multiplicação de seu patrimônio. Em 2002, Flávio declarou possuir apenas um carro popular. Em 2018, R$ 1,76 milhão, que saltaram nada menos do que 370%, batendo em R$ 8,1 milhões em 2026. Diz ele que a fortuna se deve à sua atuação como advogado e empresário, embora não seja de conhecimento público causas judiciais defendidas por ele, ou negócios rentáveis além da franquia da loja de chocolates que ele detinha.

Enriquecer não é pecado. Mas no caso de homens públicos a declaração de renda tem de vir acompanhada de confissão, sob pena de alimentar suspeições. Mais ainda quando o histórico inclui relações próximas com criminosos condenados.

Ao fazer o alerta, Simone Tebet acertou em cheio.