segunda-feira, 10 de agosto de 2026
O ‘comunista’ de Trump
— Sou o rei do mundo! Sou lindo e malvado! Eu sacudi o mundo.
Era verdade. Ele acabara de derrotar por nocaute técnico o campeoníssimo Sonny Liston, favorito absoluto nas casas de apostas globais. O feito no ringue fez dele muito mais que um fenômeno do boxe — tornou-se força cultural duradoura. Nove dias depois, anunciou ao mundo sua conversão ao islamismo e passou a se chamar Muhammad Ali.
O sanitarista americano Abdul El-Sayed, nascido no estado de Michigan 42 anos atrás, não precisou trocar de nome — Abdulrahman Mohamed El-Sayed é muçulmano de berço. Suas primeiras palavras ao saber que será o nome do Partido Democrata para disputar uma cadeira no Senado, em novembro próximo, foram inspiradas em Ali:
— Nós sacudimos o mundo.
O mundo, ele e seus eleitores não sacudiram, mas o neurastênico cenário político-partidário americano, certamente. El-Sayed saiu-se vencedor nas primárias da terça-feira passada montado num programa arriscado, por progressista e populista:
1) A favor da abolição do ICE (o Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro que, sob o governo de Donald Trump, atua como caçador de imigrantes sem documentação regularizada);
2) A favor da ampliação do esquálido seguro hospitalar e médico, o Medicare, que nos Estados Unidos contempla apenas contribuintes com mais de 65 anos e portadores de deficiências;
3) Radicalmente oposto a qualquer ajuda dos Estados Unidos ao governo de Israel;
4) A favor de mais impostos para os mais ricos e contra o predomínio do dinheiro sobre o exercício da política.
El-Sayed teve por adversária Haley Stevens, uma experiente congressista moderada de quatro mandatos no Capitólio. Ela contou com o apoio ostensivo do establishment democrata — a mesma liderança partidária que, há anos encastelada, acumula erros e foi perdendo o pulso da nação. Não fosse o incontornável senador Bernie Sanders, que aos 84 anos continua sendo o grande ícone mobilizador do eleitorado jovem e progressista, El-Sayed talvez não tivesse alcançado o 1% de votos que faltou a Stevens.
Contudo coube ao poderoso lobby pró-Israel agrupado sob a sigla Aipac (Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel) o inglório papel de goleador contra a candidatura que apoiava. A derrama de mais de US$ 30 milhões na campanha da congressista que se orgulha de ser sionista bateu de frente com os itens 3 e 4 do programa de El-Sayed. Afugentou um eleitorado democrata cada vez menos disposto a defender Israel acima de tudo, como se a desumanização de Gaza e a metódica erradicação da vida palestina na Cisjordânia não existissem. A sigla Aipac começou a tornar-se tóxica quando acoplada a candidaturas democratas — segundo divulgou o New York Times na semana passada, a palavra “Israel” praticamente sumiu da maioria das peças de propaganda eleitoral financiadas pela entidade. A causa agora atende pelo nome de United Democracy Project.
Por ora, a maioria dos analistas dá como pouco provável a eleição do epidemiologista e Rhodes Scholar El-Sayed em novembro — ele seria o primeiro muçulmano a ocupar assento no Senado dos Estados Unidos. Até porque o estado de Michigan, como um todo, é um dos campos eleitorais mais imprevisíveis e cambiantes do país (Trump saiu-se vencedor em 2016, perdeu em 2020 e venceu em 2024, sempre com margens apertadíssimas).
Para o ocupante da Casa Branca, El-Sayed é “esse comunista que odeia os judeus e Israel”, fácil de ser derrotado pelos republicanos. O epíteto “comunista” tem sido usado por Trump a torto e a direito em suas postagens e discursos. Não raro, atropela e embaralha cruamente o que, exatamente, entende por “comunista”, “marxista” ou “leninista”. Compreende-se: quando até a centenária The Economist, que Lênin descreveu como publicação para milionários britânicos, admitiu em edição recente que empresas capitalistas têm poucas chances de competir com a China “ecoautoritária e leninista, governada por Xi Jinping, um pioneiro do capitalismo de risco”, o xingamento pode parecer elogio.
Pelo receituário de Trump, saúde pública é commodity, educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário, e pobreza é defeito do indivíduo. Privatizada a sobrevivência, dá-se ao que sobra da vida o nome de liberdade. Faltam três meses para o eleitor americano dizer do que tem mais medo.
Contra o Godzilla digital
É o segundo "acordo" que o garoto aceitou —o anterior, há alguns meses, foi com o Google, e pelos mesmos motivos. Mas ele ainda tem mais dois em andamento, contra o Meta e o Snapchat, e não importa que, em vez de vencê-los, ele aceite mais "acordos". Ficará caracterizado que as redes sociais podem ser desafiadas por quem sinta sua saúde lesada por elas. O julgamento já está em curso em Los Angeles e, de seu resultado, devem pipocar inúmeras ações acusando as redes de provocar dependência psíquica.
Alguém dirá que o garoto é um esperto aproveitador e que, se não quisesse que as redes sociais lhe provocassem dependência, era só "saber usá-las". Assim como acontece com o álcool e as drogas, os leigos acreditam que seja uma questão de moderação, "força de vontade". Não aceitam que, uma vez instaurada a dependência, não se trata mais de saber ou não usá-los, e muito menos com moderação. O dependente não tem escolha —por isso é dependente— e ninguém está a salvo de se tornar um.
Os fabricantes de bebidas e cigarros e os traficantes de drogas sabem do que seus produtos são feitos e os efeitos que provocam a médio prazo. Tanto quanto eles, as redes sociais também sabem do estresse, depressão, ansiedade, insatisfação com o próprio corpo, ideias suicidas, submissão à luz da tela, pavor de se ver sem o celular e outras consequências de seu uso, mesmo "moderado". É o que as torna trilionárias.
Um jovem luta contra o Godzilla digital. Eu torço por ele.
O limite desigual das doações eleitorais
Rodrigo Tamussino Roll defendeu recentemente dissertação de mestrado dedicada à análise das estratégias dos doadores de campanhas eleitorais no Brasil, no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.
A pesquisa identifica quatro tipologias de doadores, a partir da dispersão das doações entre cargos e estados e entre campos ideológicos. Nos extremos estão os pragmático-dispersos, que financiam candidaturas de diferentes ideologias, cargos e estados, e os ideológico-concentrados, que restringem as contribuições a um mesmo campo ideológico e a poucos alvos eleitorais.
Até a proibição das doações empresariais, em 2015, as empresas respondiam por quase 91% dos recursos do grupo pragmático-disperso. Já os ideológico-concentrados são majoritariamente pessoas físicas.
Os dois perfis são muito diferentes também financeiramente. Embora os pragmáticos representem cerca de 1% dos doadores, respondem por aproximadamente 34% do valor privado doado.
O grupo ideológico, por sua vez, representa cerca de 96% dos doadores e suas doações concentram-se em valores baixos. Esses doadores têm maior preferência por candidaturas de direita e a cargos do Legislativo. Dados do TSE consultados mostram que a doação mediana desse grupo foi de R$ 1.394 em 2018 e caiu para praticamente R$ 2,21 em 2022. Mas essa é apenas uma face da moeda.
Entre as pessoas físicas, porém, há superdoadores capazes de movimentar milhões de reais e distribuir recursos entre diferentes candidaturas ao Executivo e ao Legislativo.
Por exemplo, Rubens Ometto (Cosan) doou R$ 8 milhões em 2018; os irmãos Pedro e Alexandre Grendene destinaram, juntos, mais de R$ 11,5 milhões a candidatos em 2022; Salim Mattar (Localiza) doou R$ 4,1 milhões em 2018. São exemplos da escala que doações individuais podem alcançar.
Há um abismo entre as doações dos "cidadãos-comuns" e dos "superdoadores". Enquanto os primeiros contribuem majoritariamente com valores simbólicos, a elite usa a doação pessoal como ferramenta de acesso e influência, ocupando o papel que as empresas exerciam até serem proibidas de doar em 2015.
A proibição das doações empresariais, em 2015, retirou as empresas da disputa, mas não eliminou a possibilidade de grandes concentrações privadas. Pessoas físicas continuam podendo doar até 10% dos rendimentos brutos declarados no ano anterior à eleição.
Na prática, esse limite autoriza tetos muito diferentes. Para quem recebeu R$ 100 mil em 2025, o máximo é R$ 10 mil; para quem recebeu R$ 100 milhões, são R$ 10 milhões. Na prática, esse teto apenas acentua as desigualdades de uma sociedade tão desigual quanto a brasileira.
Apenas um teto nominal, fixo e igual para todos, preservaria a doação cidadã e reduziria a capacidade de uma pequena elite de exercer influência financeira desproporcional sobre as campanhas. Essa mudança poderia até reabrir a discussão sobre doações de empresas, mas esse já é assunto para outra coluna.
Eleição nova e a velha sombra
Na entrevista que concederam às jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery, da Globonews, Renan Santos e Romeu Zema defenderam a adoção do caminho de El Salvador. No entanto, quando foram apresentados à lista de horrores praticados por Bukele — prisão sem mandado, ampliação do tempo de prisão sem ordem judicial, redução drástica de habeas corpus, dificuldade de acesso a advogados, julgamento coletivo de centenas de réus, prisões baseadas em denúncia anônima — eles disseram não concordar. Ou seja, defendem o que sequer conhecem. Constrangedor.
O autoritarismo está presente não apenas nas ideias políticas ou nas propostas de segurança. O candidato Renan Santos, o mais jovem deles, foi confrontado com um vídeo do ano passado, em que ele, dentro de um carro em movimento, dizia que é preciso restabelecer a autoridade masculina. “O que a gente tem que fazer, é o que eu acho, é restabelecimento, enquanto poder, de características profundamente masculinas na nossa sociedade”. O interlocutor o interrompe e lembra que dirão que ele é machista. E ele responde “sou, sou, sou, porque certas coisas tem que dar nomes aos bois”. Tudo o que ele pôde dizer, na entrevista, a seu favor, foi que discordava de algumas teses da pessoa com quem falava, “um influenciador masculinista”. E tentou brincar. “O carro é alfa, não de macho alfa, mas Alfa Romeo”. Outro vídeo, não mostrado, de 2017, traz Renan dizendo que estupraria uma mulher se não entrasse em um bar. Ele tentou dar o contexto, disse que era uma brincadeira, como se houvesse contexto que justifique falar em estupro e como se fosse possível fazer piada sobre tal violência.
Ronaldo Caiado disse que retomará todo o território ocupado por facções criminosas usando as Forças Armadas como polícia. Afirmou que criará uma nova polícia com dez países que fazem divisa com o Brasil, financiada por todos esses governos. Os policiais dessa força transnacional poderiam transitar livremente pelas fronteiras. Mais do que ideias controversas na área que ele diz entender bem, a da segurança, o que espanta é a insistência em fugir da pergunta sobre se houve tentativa de golpe em 8 de janeiro.
Flávio Bolsonaro segue os mesmos passos do pai, parece que o golpismo é hereditário. Fez reunião com embaixadores levantando dúvidas sobre a urna eletrônica e o processo eleitoral. Falou na sexta-feira, em São Caetano do Sul, que há “roubalheira na alta cúpula do Judiciário” e que por isso estariam sendo feitas coisas “além da maldade” para impedir sua eleição. Justifica eventual derrota, já inventando uma conspiração contra ele. Os mesmos métodos do pai.
O autoritarismo permanece presente nesta campanha como esteve em 2022. Um atentado aos Três Poderes por milhares de seguidores de Jair Bolsonaro, uma investigação detalhada que mostrou provas da trama golpista que envolveu integrantes das Forças Armadas, o julgamento e a prisão dos golpistas nada ensinaram a certos políticos. Lideranças da direita que se apresentam como não bolsonarista entregam candidatos ao país que repetem o mesmo discurso diversionista, a mesma atitude tóxica que nos levou a quase perder a democracia. Alguns ainda exibem outro lado do autoritarismo, o que quer se impor sobre as mulheres.
Era para o país estar discutindo o futuro, a superação de impasses e obstáculos, os dilemas do ajuste fiscal, a proteção contra a mudança climática, a aceleração da aprendizagem, as receitas para melhorar o SUS, a redução das desigualdades, fórmulas para enfrentar os desafios tecnológicos, mas os homens que se oferecem como alternativa ao presidente Lula alimentam a sombra autoritária que sempre ameaçou a República brasileira. O futuro fica adiado.
O refúgio do canalha
“O patriotismo é o último refúgio do canalha.” A frase, pronunciada pelo escritor inglês Samuel Johnson em 7 de abril de 1775, atravessou dois séculos e meio sem perder a atualidade. Ao contrário do que uma leitura apressada poderia sugerir, Johnson não condenava o amor verdadeiro à pátria. Seu alvo era o falso patriotismo, transformado em disfarce por pessoas que invocam o interesse nacional para esconder ambições particulares, escapar de críticas ou conquistar a confiança da sociedade.
O autêntico patriotismo não precisa de trombetas. Manifesta-se no respeito às instituições, na defesa da democracia, no cuidado com o patrimônio público e na disposição de servir à coletividade. O falso patriota, ao contrário, cobre-se com a bandeira, proclama-se intérprete exclusivo da vontade nacional e apresenta os adversários como inimigos do país. Confunde a pátria com seu partido, seu grupo ou sua própria pessoa.
Samuel Johnson percebeu que a causa nacional poderia funcionar como esconderijo moral. Quando faltam argumentos, sobram símbolos. Quando a biografia provoca dúvidas, exibe-se a bandeira. Quando os resultados do governo são insuficientes, recorre-se à grandiloquência. O patriotismo de fachada transforma-se, assim, em instrumento de absolvição: quem se apresenta como salvador da pátria espera que seus erros sejam esquecidos em nome de uma missão superior.
Pois bem, a advertência de 1775 cai como uma luva no ambiente político brasileiro. À medida que avança a campanha presidencial, os principais candidatos procuram vestir mantos simbólicos capazes de emocionar e mobilizar o eleitorado. Cada qual apresenta sua própria versão do país e tenta convencer a população de que somente seu projeto poderá salvá-lo.
Lula recorre à memória de seus governos e proclama ter realizado a melhor administração da história brasileira. Procura ocupar um lugar no panteão dos grandes presidentes, aproximando sua imagem da herança trabalhista de Getúlio Vargas e do desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek. O passado é restaurado, polido e exibido como certificado de competência. As realizações são ampliadas; os fracassos, minimizados; as contradições, empurradas para os bastidores.
O presidente tenta encarnar a imagem de pai dos pobres, defensor da soberania e protetor dos que vivem nos andares inferiores da pirâmide social. Seu patriotismo apoia-se na ideia de inclusão: amar o Brasil seria cuidar dos pobres, aumentar a renda, gerar empregos e defender as riquezas nacionais. Trata-se de uma narrativa poderosa, porque combina lembrança, gratidão e esperança. Mas o discurso torna-se oportunista quando transforma políticas de Estado em favores pessoais e apresenta o governante como proprietário das conquistas sociais.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, procura ocupar o território da moral, dos bons costumes e da família. Apresenta-se como herdeiro de uma corrente conservadora e guerreiro contra tudo aquilo que descreve como ameaça aos valores nacionais. Em sua retórica, a pátria aparece associada à religião, à autoridade, à ordem, à segurança e à preservação da família. O candidato tenta converter o sobrenome em patrimônio eleitoral e transformar a lealdade ao pai em compromisso com o Brasil.
Também aí existe uma operação de apropriação simbólica. Ninguém possui o monopólio da família, da fé ou da moralidade. São valores pertencentes à sociedade, não a um partido ou clã político. Quando utilizados como armas de campanha, deixam de unir e passam a separar. O adversário já não é apenas alguém com ideias diferentes: torna-se inimigo da família, da religião e da pátria. A política abandona o terreno do debate e invade o espaço da condenação moral.
De um lado, portanto, o patriotismo social de Lula; de outro, o patriotismo moral de Flávio Bolsonaro. Um promete proteger os pobres; o outro, defender as famílias. Um convoca a memória dos programas sociais; o outro mobiliza a tradição conservadora. Ambos procuram pescar votos nos mares da emoção coletiva. As iscas mudam, mas a técnica é semelhante: envolver interesses eleitorais em causas que ninguém ousaria rejeitar.
O problema não está nas causas, todas legítimas. Combater a pobreza é dever do Estado. Defender a família, em suas diversas configurações, também constitui compromisso social. Preservar a soberania, assegurar a ordem pública e promover o desenvolvimento são responsabilidades de qualquer governo. A deformação começa quando essas bandeiras são sequestradas por candidatos que se apresentam como seus únicos representantes.
O falso patriotismo alimenta-se da polarização. Precisa dividir a sociedade entre patriotas e traidores, pessoas de bem e agentes do mal, defensores do povo e inimigos dos pobres. Essa linguagem simplifica a realidade, elimina as nuances e dispensa a prestação de contas. Se o líder representa a pátria, criticá-lo passa a ser interpretado como agressão ao próprio país. Se encarna o povo, investigar seus atos torna-se perseguição. Está formado o refúgio descrito por Samuel Johnson.
A campanha de 2026 começa a ser marcada por esse duelo de símbolos. De um lado, a promessa de reconstrução social; de outro, a cruzada pela restauração moral. O debate sobre educação, saúde, segurança, produtividade, equilíbrio fiscal, desigualdade e eficiência administrativa corre o risco de desaparecer sob o peso dos slogans. A pátria converte-se em cenário, a bandeira em adereço e o eleitor em plateia de uma representação cuidadosamente ensaiada.
O verdadeiro patriota não pede imunidade. Aceita a fiscalização, respeita a divergência e submete seus atos ao julgamento público. Não trata os recursos do Estado como propriedade pessoal, não transforma programas sociais em moeda de gratidão e não utiliza a religião ou a família como escudos eleitorais. Seu amor ao país mede-se menos pelas palavras que pronuncia do que pelas responsabilidades que assume.
Depois de 251 anos, a sentença de Samuel Johnson conserva sua força porque identifica uma tentação permanente do poder: transformar valores coletivos em esconderijos particulares. Cabe ao eleitor abrir as portas desses refúgios, examinar quem está atrás das bandeiras e separar o compromisso verdadeiro da encenação. A pátria pertence a todos. Quando um político tenta tomá-la para si, é prudente verificar o que pretende esconder sob seu manto.
A reconquista do futuro
Era um outro país, ainda predominantemente rural, mas em rápida transição para uma sociedade de massas urbana. Crescia a taxas chinesas. A industrialização moldava um horizonte comum para todas as correntes políticas, e a migração do campo para as cidades alimentava sonhos de ascensão social para quem deixava a roça. Urbanização e industrialização rápidas serviam de amálgama para uma sociedade cada vez mais conflituosa e polarizada. Polarização mais intensa que a atual, exacerbada pela Guerra Fria, mas circunscrita às elites e concentrada em algumas poucas capitais do país. A tevê apenas engatinhava, e a comunicação de massa se dava pelas ondas do rádio, ainda assim com restrito alcance regional.
Hoje o Brasil é outro. Um país muito mais complexo, populoso e melhor, sobretudo para a grande maioria que então vivia na pobreza, analfabeta, sem acesso a escola, atendimento básico de saúde ou rede de proteção social, num país que precisava importar alimentos tão essenciais quanto o trigo e seus derivados para atender ao consumo interno. Para não falar que em meados dos anos 1950 as mulheres necessitavam de autorização especial dos maridos para trabalhar fora, abrir conta bancária, comprar e vender bens, e a discriminação racial era considerada simples contravenção punível com penas leves.
Melhoramos, mas agora nos falta a confiança no futuro, que naquela época havia de sobra. Segundo o Edelman Trust Barometer de 2026, menos de um terço dos brasileiros acredita que a próxima geração viverá melhor do que a deles.
É preciso ter uma visão sobre o futuro do país, que não deve ser grandiosa, mas reconhecer que o Brasil não é um país qualquer
Por que perdemos a confiança no futuro? Atribuir a perda à polarização afetiva que se exacerbou ao longo deste século é um equívoco. Ela não é a causa principal da perda de confiança, embora contribua para agravá-la e dificulte a sua superação.
Ainda que difícil de ser mensurada com exatidão, a confiança é ingrediente decisivo para um país avançar em seu desenvolvimento. Não será possível recobrá-la idealizando o passado. O desafio é recuperá-la em novas bases, tarefa complexa em uma quadra histórica em que a confiança escasseia em quase todo o mundo, devido a transformações sociais e tecnológicas que criam ressentimentos e incertezas e põem em xeque a legitimidade da democracia representativa e do capitalismo liberal, em suas diferentes versões. Apesar de responder a condicionantes gerais, a perda de confiança nas instituições e no futuro, uma tendência global entre as democracias ocidentais, tem causas e manifestações específicas em cada país.
A confiança do Brasil em si mesmo não despencou da noite para o dia. Ao longo dos setenta anos que nos separam do lançamento da pedra inaugural de Brasília, ela teve altos e baixos. Os primeiros dez anos decorridos depois de 1985, quando se deu o retorno à democracia, não foram fáceis. As esperanças criadas com a recuperação e expansão de direitos, consagrados na Constituição de 1988, se chocaram contra a realidade de um país cronicamente à beira da hiperinflação, submetido a repetidos e fracassados congelamentos de preços e salários, num processo de desorganização econômica, crescimento da pobreza e precarização da governabilidade.
Com o Plano Real, com as reformas institucionais dos governos FHC, com a civilizada alternância no poder ao término de seus dois mandatos e as mudanças sem ruptura introduzidas por Lula, que deixou o Palácio do Planalto como o presidente mais popular da história, nas asas de um amplo processo de inclusão e mobilidade social, o país recuperou a confiança em si mesmo. Ao final de quatro mandatos presidenciais, dois de FHC e dois de Lula, o Brasil pôde apresentar uma singular combinação de conquistas em sua história, rara também em um mundo que mal se recuperava da crise financeira de 2008, a maior desde 1929: estabilidade econômica com crescimento, mobilidade social ascendente, governabilidade democrática, em um quadro de progressivo aperfeiçoamento institucional. Uma das imagens desse período foi a capa da revista The Economist, que mostrava o Cristo Redentor, com os braços abertos sobre a Baía de Guanabara, decolando como um foguete em direção aos céus. Um exagero, sem dúvida, pois nem tudo era tão sólido e sustentável na decolagem do Brasil, mas representativo do sentimento da época.
O processo desandou nos anos subsequentes, em especial a partir de 2014. Experimentamos hoje uma desconfiança crônica, alta e crescente em relação ao futuro do Brasil. É este o sentimento predominante no país ao nos aproximarmos das eleições de outubro deste ano, agora já com o elenco de candidatos definidos pelas convenções partidárias. Antes de avaliar o quadro eleitoral, cabe perguntar como chegamos ao atual estado de depressão da confiança.
Na economia, se deu uma reversão drástica das expectativas de mobilidade social ascendente e crescimento sustentado. Na política, ocorreu uma série de escândalos, que levaram a uma luta fratricida entre PT e PSDB e à emergência de juízes e procuradores imbuídos da missão de “passar o país a limpo”, custasse o que custasse, e de políticos dispostos a “destruir o sistema” para supostamente regenerá-lo. As jornadas de junho de 2013, por vias tortuosas, deram em Jair Bolsonaro, e o fortalecimento do Centrão e a Lava Jato, pelos descaminhos que tomou, produziram retrocesso e não avanço no combate à corrupção sistêmica. A sociedade sofreu decepções em cadeia, e cumulativas.
A mobilidade social ascendente dos governos Lula 1 e 2 desacomodou a sociedade brasileira. Não apenas foi mais longa e mais intensa do que a é preciso ter uma visão sobre o futuro do país, que não deve ser grandiosa, mas reconhecer que o Brasil não é um país qualquer observada nos primeiros anos depois do Plano Real, como também esteve acompanhada de políticas que mexeram real e simbolicamente com hierarquias sociais enraizadas, a exemplo da chamada pec das empregadas domésticas e das cotas raciais para ingresso no ensino superior. Nas famílias mais pobres, a perspectiva de ascensão social gerou a expectativa de que estavam a caminho de uma vida de classe média mais estável, previsível e favorável à realização pessoal e profissional.
Nos estratos de classe média e alta já mais bem estabelecidos, a emergência de uma “nova classe média” provocou um misto de irritação, pela “invasão” de espaços antes exclusivos, e insegurança, pela percepção de ameaça a posições sociais adquiridas. Esses sentimentos foram mais intensos porque os benefícios eleitorais da emergência da “nova classe média” eram apropriados por um partido “de esquerda” que, em momentos de dificuldade política, recorria à retórica do nós contra eles.
Assentados em bases relativamente frágeis, os sonhos da “nova classe média” se frustraram na prolongada e profunda recessão de 2015 e 2016 e não se reergueram desde então, apesar da promessa de Lula 3 de que o “povo voltaria a comer picanha”. Sem o boom de commodities, a reedição da receita de expansão do gasto e estímulo ao crédito mostrou-se insuficiente para retomar a confiança do povão. Não que a renda da base da pirâmide tenha ficado estagnada desde então. Nos últimos três anos, ela voltou a crescer com força. O consumo popular, mais ainda. Mas o sonho de virar classe média no curso de uma geração se evaporou, com o endividamento das famílias, hoje em níveis recordes, comprometendo parcelas crescentes da renda e impedindo a acumulação de poupança e patrimônio.
Nada mais distante de uma vida previsível e estável de classe média do que aquela que experimentam os milhões de trabalhadores por aplicativos, que ralam cotidianamente em cima de duas rodas, símbolos de um empreendedorismo de sobrevivência. Foi a segunda interrupção abrupta do mesmo sonho desde o Plano Real. A primeira se deu quando a nova moeda sofreu forte desvalorização no início do segundo mandato de fhc, em 1999.
No acidentado terreno do crescimento brasileiro entre 2014 e 2025, com poucos picos e muitos vales, esvaiu-se também a confiança no país entre as classes mais acomodadas. Um dos sinais disso é a evasão de cérebros, fenômeno que responde não apenas ao mau desempenho da economia, mas também à falta de investimentos públicos e privados em ciência e tecnologia. Estudo do Ipea sobre a saída de doutores e pesquisas de consultorias privadas sobre executivos expatriados mostram que tem havido um aumento na evasão de cérebros tanto no mundo acadêmico como no corporativo. Os dados batem com a experiência dos pais da minha geração, eu inclusive, cujos filhos e filhas, em número crescente, vivem no exterior em caráter permanente. Trajetória distinta da minha geração e da anterior, que estudava e/ ou trabalhava no exterior para voltar ao Brasil com uma formação profissional distinta. Teremos de aprender a nos valer dessa diáspora, como fazem, em outra escala, China e Índia.
Como se fosse pouco, o medo da violência do crime se espalhou. Apesar da melhora em muitos indicadores em algumas das principais cidades do país, em particular da taxa de homicídios, o crime organizado passou a ter presença em todo o território nacional, a controlar parte dele, a conectar-se com máfias internacionais e a infiltrar-se no sistema político e no aparato do Estado. Criou- se uma sensação de descontrole e desmoralização da autoridade pública.
No aumento da descrença com o país, o crescimento anêmico se soma à perda da confiança na política como meio pelo qual se constroem soluções para os problemas coletivos. Faz tempo que a economia brasileira cresce pouco (nos últimos quarenta anos, o crescimento da renda per capita foi de 1,2% ao ano). A novidade agora é a sensação de que o país não conseguirá reencontrar o caminho do desenvolvimento, com democracia, segurança pública e soberania nacional. Não porque nos faltem oportunidades, mas porque teríamos perdido a capacidade política de nos organizar em torno de objetivos nacionais de longo prazo. Quando era ministro da Fazenda, Pedro Malan dizia que o Brasil tinha problemas, mas nenhum deles era maior do que a sua capacidade de resolvê-los. A deterioração da qualidade da política põe essa afirmação em xeque. Leva muita gente ao extremo de apoiar a antipolítica, na vã ilusão de que por aí se encontrarão as soluções.
Convém não exagerar no pessimismo quanto à qualidade das instituições brasileiras. Elas se mostraram resilientes às investidas autoritárias do governo de Jair Bolsonaro. Impediram o sucesso da conspiração antidemocrática e conseguiram limitar o número já trágico de vítimas que uma gestão incompetente e tresloucada da pandemia da Covid provocou. O sistema de justiça criminal, em particular quando se dá a ação conjunta das polícias, da Receita e do Ministério Público, tem procurado resistir à expansão do crime organizado. O Congresso aprovou o novo marco legal do saneamento, em 2020, e a reforma tributária do consumo, em 2025, para citar duas reformas importantes.
Feitas as ressalvas, não há como negar que o desempenho e legitimidade das instituições estatais e do sistema político são declinantes. O presidente da República perdeu poder de agenda, necessário para realizar reformas em um país federativo e multipartidário, onde o Executivo federal é chave para coordenar iniciativas de maior alcance. O Congresso abocanhou uma fatia crescente do orçamento do país e ganhou poderes sem o correspondente acréscimo em sua cota de responsabilidade sobre os efeitos de suas decisões. O orçamento é cada vez mais engessado e o planejamento de longo prazo, mais precário. O processo deliberativo dentro do Parlamento se desinstitucionalizou, com o esvaziamento das comissões e a concentração de poder nas presidências das Casas, que jogam um papel central na distribuição dos recursos das emendas ao orçamento, o tema que mais interessa aos parlamentares, não raro o único a que dedicam real atenção. Nesse contexto, matérias importantes são votadas sem discussão ou escrutínio público, de uma hora para outra, frequentemente pelo sistema remoto de votação, que prescinde da presença física do parlamentar. As agências reguladoras se encontram subfinanciadas e, em graus variados, cooptadas por interesses político-partidários. O Supremo Tribunal Federal hipertrofiou-se – em parte por fatores alheios ao tribunal – e passou a ter a sua autoridade contestada, como responsável por dar a última palavra sobre os principais conflitos de interesses e valores que atravessam a sociedade brasileira.
Esse quadro complica a chamada governabilidade, em particular quando dirigida a promover mudanças e não apenas a acomodar interesses setoriais. Está sujeito a curtos-circuitos, pelo choque entre os poderes quanto aos limites das competências de cada um. Cria incerteza e coloca em dúvida a capacidade de o país responder aos desafios de um mundo em rápida transformação. Como reagir bem às demandas da transição ecológica, da mudança climática, da regulação e do uso inteligente da inteligência artificial, que demandam coordenação interna complexa e alianças externas de geometria variável, se continuarmos consumidos por interesses setoriais e corporativos de curto prazo?
Mais preocupante é que o quadro de relativo desarranjo institucional vem acompanhado de um processo de deterioração das virtudes republicanas nas esferas de poder. Não me refiro somente a casos reiterados de flagrante corrupção envolvendo membros do Executivo, do Congresso e dos tribunais superiores, mas também a um amplo conjunto de sintomas que vão desde a incapacidade de separar com clareza negócios familiares e funções públicas e autoconter-se nos limites legais das respectivas esferas de competência até a falta de um mínimo de recato na seleção dos ambientes a frequentar e nas amizades a cultivar, para não falar na desfaçatez em legislar em causa própria, no que os partidos políticos têm sido pródigos.
Não é preciso idealizar o passado – o Brasil, assim como qualquer outro país, jamais foi ou será governado por varões de Plutarco – para perceber a ocorrência desse processo difícil de mensurar, mas ainda assim evidente, de deterioração das virtudes republicanas entre aqueles que detêm parcela importante do poder, seja porque nele estão investidos pelo voto ou pelo exercício de elevada função pública não eletiva.
Ao lançar a pedra inaugural da nova capital, JK se referiu a ela como o “cérebro das mais altas decisões nacionais”. Hoje, o país olha para Brasília e vê não uma elite dirigente com um mínimo de consciência de seu papel e de sua responsabilidade e sim um conjunto de indivíduos interessados em maximizar seus interesses próprios e/ ou das corporações públicas e privadas que representam. Onde foi parar a divisão que antes de fato existia entre uma elite parlamentar e o baixo clero?
Se me refiro a Brasília, não é porque a deterioração das virtudes republicanas lhe seja exclusiva, e sim porque, como centro do poder político, ela exerce um poderoso efeito-demonstração para o conjunto do país. Em toda federação, em todos os poderes do Estado, se encontram exceções, mas quem há de negar que a deterioração das virtudes republicanas está por toda parte? A paixão desmedida pelo dinheiro reflete um fenômeno mais amplo, presente na sociedade em seu conjunto, mas com particular intensidade nas engrenagens que movem o poder. Não só aqui, mas em outras democracias no mundo, haja vista o que se vê hoje nos Estados Unidos, onde os barões ladrões do século xix retornam à cena sob novas vestes, operando agora em escala global, em aliança com a Casa Branca.
De novo, não quero exagerar: sempre haverá aqui e em qualquer lugar do planeta, em um mesmo ator político, individual ou coletivo, um tanto de interesse público e outro de autointeresse. A questão é a dose. No Brasil de hoje, o desequilíbrio é grande e vem aumentando, com o fracasso desmoralizante da Lava Jato, a permanência de um sistema pouco transparente e insaciável de financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais – a proibição das doações de empresas pelo STF mudou apenas a fonte principal dos recursos, agora quase exclusivamente públicos – e relações permissivas entre empresas, escritórios de advocacia e tribunais superiores.
Coexiste com essas tendências a expansão de uma nova e grave ameaça ao estado democrático de direito e à própria soberania nacional: o crime organizado, cada vez mais sofisticado em termos financeiros, econômicos e logísticos. Em alguns lugares do país, ele não é um poder paralelo e sim um substituto do poder do Estado. A deterioração das virtudes republicanas cria o ambiente propício à infiltração do crime organizado no aparelho estatal.
A que distância estaríamos do que o historiador neozelandês John Greville A. Pocock chamou de “o momento maquiaveliano”, aquele em que uma república vive uma crise existencial? O conceito é utilizado pela ciência política para descrever situações-limite em que as instituições e os valores que sustentam o estado democrático de direito são colocados em xeque pela corrupção moral, pela perda das virtudes políticas e pelo espectro da desordem. Impossível medir essa distância.
Não chegamos a essa situação-limite, mas é preciso tê-la em mente para avaliar os riscos que corremos. É papel das lideranças alertar para esses riscos e apontar caminhos que permitam superá-los ou ao menos reduzi-los, sem apelar às fórmulas fáceis do falso moralismo populista (lembremo-nos do Fernando Collor, o “caçador de marajás”, hoje em prisão domiciliar) e a retrocessos autoritários que, a pretexto de “sanear a política”, sufocam as liberdades e destroem a democracia.
Reformas institucionais que reduzam os incentivos e aumentem os custos dos atos de corrupção são indispensáveis. Uma delas é a Emenda Peluso, proposta pelo ex-ministro do stf, Cezar Peluso. Transformada em PEC, ela determina o início do cumprimento de pena depois da decisão na segunda instância. Dada a morosidade da Justiça brasileira, a possibilidade de recorrer ao STF ou ao Superior Tribunal de Justiça em liberdade afasta a ameaça de prisão não raro indefinidamente para quem conta com advogados com trânsito e competência técnica. Reformas dessa natureza, assim como medidas de combate a privilégios nos setores público e privado, encontram grande resistência de poderosos lobbies. Sua aprovação requer lideranças com coragem cívica, mas sem ânimo populista, dispostas a mobilizar apoio político e social a seu favor.
Sem reconstrução da credibilidade na autoridade pública, o sistema político continuará a girar em falso e a sociedade a se virar como pode, gerando mais desigualdade, cinismo e violência. Uma agenda de reformas que não fizer da reconstrução da autoridade pública a sua prioridade – com medidas articuladas na área da Justiça, da gestão do Estado e da segurança pública, compatíveis com a democracia e voltadas a combater a corrupção, os privilégios e o crime organizado – está fadada a não ganhar a tração social e política necessária para que o país se reorganize e amplie seus horizontes de desenvolvimento. Reformas tópicas, ajustes fiscais, por mais importantes que sejam, não terão esse condão. Tendem a se diluir ou naufragar se a descrença na autoridade pública não for revertida.
Já aprendemos, espero, que não há salvadores da pátria, mas a qualidade das lideranças faz diferença, em particular em certos momentos da história de um país. O Brasil não está desprovido delas. Da centro-esquerda à centro-direita, há bons quadros políticos, alguns promissores, homens e cada vez mais mulheres, a serem selecionados pelo processo democrático. Falta que tenham expressão maior no plano nacional.
Não é necessário que surja um De Gaulle. O Brasil de hoje não é a França dos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Não contamos com heróis da Pátria, como ele de fato foi, muito menos precisamos de um militar que arrogue a si esse papel. A reconstrução da credibilidade da autoridade pública no Brasil é tarefa para as lideranças civis, com o auxílio das Forças Armadas, dentro da Constituição. Para estar à altura do desafio, quem se habilitar precisa ter uma “certa ideia do Brasil”, assim como De Gaulle tinha une certaine idée de la France. A frase completa com a qual ele abre as suas Memórias de guerra, livro escrito quando liderava no exílio a resistência à ocupação da França pelos nazistas, é: “Em toda a minha vida, eu fiz uma certa ideia da França. O sentimento me inspira tanto quanto a razão.” Mais à frente, De Gaulle conclui: “Em suma, a França não pode ser a França sem a sua grandeza.”
Essa “certa ideia do Brasil”, inspirada tanto pelo sentimento quanto pela razão, não deve ser ufanista. Deve ter clareza sobre os nossos passivos históricos, mas também sobre os ativos que adquirimos em mais de duzentos anos como nação independente. Eles não são poucos. Somos uma nação que se implantou sobre um imenso território, conservou sua unidade política, inseriu- se construtivamente no seu entorno geográfico e no sistema internacional, desenvolveu ao longo do século XX uma economia relativamente complexa e diversificada e um Estado nacional com instituições e burocracias comparativamente mais estáveis e eficientes do que a quase totalidade dos países da antiga América espanhola. Uma nação que projetou certa identidade no mundo, sendo ocidental nos valores, mas sem alinhamentos automáticos a potência alguma. Sim, com uma sociedade profundamente desigual, mas crescentemente capaz de se organizar com maior autonomia e contestar hierarquias de poder e privilégios estabelecidos, em democracia, ampliando o espaço da cidadania e nela incluindo quem historicamente dela esteve à margem.
Além de uma certa ideia do percurso do Brasil em mais de dois séculos como nação independente, é preciso ter uma visão sobre o futuro do país. Ela não deve ser grandiosa, pois aqui o sentimento de grandeza convida ao irrealismo. Mas deve reconhecer que o Brasil não é um país qualquer: tem tamanho, recursos naturais e biodiversidade, bases científicas e econômicas, capacidades estatais, dinamismo social e expressão cultural, em suma, elementos de hard e soft power suficientes para ambicionarmos um lugar relevante no sistema internacional.
Nem o mundo nem o Brasil são mais o que foram nos anos 1950. Não se trata de reeditar o Plano de Metas e os Grupos Executivos de JK, que à sua época desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento do país. Muito menos de repetir o descontrole fiscal e monetário que fez a inflação dobrar entre 1955 e 1960, um dos ingredientes da instabilidade que levou ao golpe de 1964. Democracia e controle sobre a inflação são hoje premissas inegociáveis.
Não estamos mais na etapa de implantação da infraestrutura de transportes e energia e da indústria de bens de consumo duráveis nem da expansão da área cultivada pela agricultura, nem mesmo de ampliação da rede pública de ensino, como nos anos de JK. O desafio agora é dar um salto na qualidade do capital humano, na aplicação de conhecimento e ciência aos processos produtivos – em especial, mas não exclusivamente, naqueles setores em que temos vantagens competitivas reveladas, como a produção de alimentos, energia renovável e minerais críticos –, na incorporação do meio ambiente como variável decisiva e intrínseca do desenvolvimento, nas políticas sociais e de fomento aos pequenos negócios para seguir incluindo pessoas na cidadania e na economia formal e promover a redução das desigualdades. Para tudo isso, teremos de ser capazes de fazer bom uso das novas tecnologias digitais em particular a ia, sem cair na ilusão de uma “soberania digital autárquica”, de um lado, nem nos braços do neocolonianismo digital, comandado pelas grandes potências e pelas big techs, de outro.
O salto que precisamos dar requer novas estruturas de gestão. Os Grupos Executivos não nos servem mais de modelo, pois se restringiam a membros da burocracia estatal, técnicos e grandes empresários. Tampouco são adequadas estruturas como as do atual “Conselhão”, que não tem capacidade real de coordenação de ações convergentes do governo, setor privado e sociedade civil. Uma coisa é certa: precisamos com urgência preparar o Estado para responder aos desafios contemporâneos do país. A agenda da reforma administrativa, orientada por objetivos de mais longo prazo, precisa incorporar essa urgência.
Tão importante quanto definir prioridades e propor estruturas de gestão à altura dos desafios complexos, muito exigentes em matéria de coordenação entre diferentes atores e áreas de política pública, incluída a política externa, é reconstruir um horizonte simbólico e aspiracional que nos permita reconhecer a nós mesmos como uma nação com uma história comum e um destino compartilhado. Não se trata de retroagir a um ufanismo tolo e autoritário, que nega as nódoas do nosso passado que ainda mancham o nosso presente, mas de recuperar, em uma nova chave, o sentido de que ou somos uma comunidade nacional ou não teremos sequer o direito de sonhar os nossos próprios sonhos e decidir democraticamente as nossas próprias divergências.
Projetados contra esse pano de fundo, nenhum dos candidatos à Presidência da República neste ano mostra estatura suficiente para exercer o tipo de liderança à altura dos desafios do país. Nem por isso a diferença entre os dois principais adversários deixa de ser incomensurável. Flávio Bolsonaro expressa um conjunto de forças que colocou em xeque as instituições do estado democrático de direito e se articula internacionalmente contra os interesses do Brasil e em favor das conveniências e ambições de sua família.
A derrota política desse clã familiar é condição necessária para a recuperação da confiança. É um clã familiar ligado na origem a grupos milicianos e aos remanescentes dos porões da ditadura militar. A vitória de Flávio Bolsonaro colocaria o país na iminência de uma crise institucional, dado seu compromisso filial em indultar o pai, comprometeria a autonomia da política externa brasileira, por suas relações de lealdade e subserviência à extrema direita americana, em geral, e a Donald Trump, em particular, e traria de volta ao poder quem fez do ódio aos adversários e do desprezo à cultura e à ciência a sua principal forma de fazer política. A direita democrática, da qual o Brasil precisa, seria uma das maiores beneficiadas da derrota do clã Bolsonaro. Receberia a alforria pela qual não teve coragem de lutar.
Lula cometeu muitos erros ao longo de uma trajetória política extraordinária, que tem a meu ver até aqui um saldo líquido positivo para o país. O maior desses erros – tão grande quanto a infame campanha de estigmatização do governo FHC, que o antecedeu e serviu de base para o êxito de seus dois primeiros mandatos – é o de não haver preparado a sua própria sucessão. Ser candidato a um quarto mandato que se encerrará quando Lula estiver com 85 anos é um erro que ele próprio tornou inevitável.
Lula é uma estrela em extinção que ainda emite muita luz pelo tamanho da sua liderança e pelo vigor da sua forma física e mental. Seu coração está no lugar certo, mas suas ideias estão aferradas ao passado e a uma retórica autocongratulatória que nenhum dos que o rodeiam tem coragem de contrariar. Parece não se dar conta de que se esgotou a receita fácil da estimulação do crescimento pela via da expansão do gasto público e do crédito. Sofre de nostalgia renitente pelo nacional-desenvolvimentismo.
Parece também não se dar conta de que, a essa altura de sua história, deveria marcar exemplarmente a máxima distância possível de práticas que se tornaram corriqueiras, mas que nem por isso deixam de ser antirrepublicanas, como o hábito de indicar homens de confiança para o stf. Nessa matéria, embora não seja um caso isolado, Lula se sobressai: depois de Dias Toffoli em seu segundo mandato, ex-advogado do PT e chefe da AGU em seu governo, ele indicou, neste terceiro mandato, o seu próprio advogado pessoal, Cristiano Zanin, seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e Jorge Messias, seu chefe da AGU, cuja nomeação não foi aprovada pelo Senado (e que Lula parece teimar em reapresentar).
Não tenho dúvida sobre a escolha a fazer entre os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto. De qualquer forma, prevejo anos complicados no próximo mandato presidencial. Com transformações geopolíticas e tecnológicas que estão rapidamente redesenhando o mapa de poder no mundo, seria altamente desejável que o país estivesse mais preparado para enfrentá-las.
Para 2030, teremos quatro anos para renovar o quadro de lideranças no plano nacional, articular novas agendas para o país e superar a polarização destrutiva, que é mais sintoma do que causa dos nossos problemas, mas que os agrava e dificulta a sua superação. Até lá, não será pouco evitar crises que comprometam as nossas chances de reconquistar o futuro.
domingo, 9 de agosto de 2026
Tesouraço de Flávio entre a vassourinha de Jânio e a motosserra de Milei
A tesoura seria inspirada na motosserra de Javier Milei. Até agora, lembra mais a vassourinha de Jânio Quadros, presidente eleito em 1960 com a promessa de varrer a corrupção, a bandalheira. Jânio renunciou em 1961, em tentativa canhestra de autogolpe. O broche da vassourinha era material de campanha desse outro demagogo de direita.
Milei fez ajuste bárbaro na Argentina. Cortou despesas também reduzindo o valor real de salários de servidores e de benefícios sociais (a inflação comeu o valor desses e de outros pagamentos). No final do primeiro ano inteiro de governo, o corte foi de 15% em Previdência e assistências sociais; nos salários, de 22%.
Flávio anunciou-se candidato em 5 de dezembro do ano passado. Juros e dólar saltaram, o Ibovespa afundou. Donos do dinheiro grosso diziam assim que passavam a esperar derrota da direita para Luiz Inácio Lula da Silva.
O desgosto diminuiu, até porque "não tem tu, vai tu mesmo", como disse alguém que esteve na primeira reunião do candidato com a finança, menos de uma semana depois de Flávio ter sido ungido pelo pai. O candidato então começou a prometer "tesouraço". Mas nega até tesourinha.
Daniella Marques parece ser a principal porta-voz econômica de Flávio, que pensou nela como vice. Na campanha de 2018 e no governo, foi a mais próxima assessora de Paulo Guedes, ministro da Economia de Jair Bolsonaro.
Marques tem dito que Flávio cortaria a despesa em 1,5% do PIB, entre outras medidas. O que quer dizer esse número? Suponha-se a hipótese seguinte (não é o plano de Marques, é apenas aritmética elementar do gasto federal).
Imagine-se que, por quatro anos, o governo reajuste apenas pela inflação despesas com Previdência, servidores, BPC, Bolsa Família, saúde, educação, abono salarial e seguro-desemprego (equivalem a 85,2% do gasto federal e a 16,7% do PIB). Isso exige também que o reajuste do salário mínimo se limite à variação do IPCA ou que benefícios previdenciários sejam desvinculados do mínimo.
Chute-se ainda que o PIB cresça 2,5% ao ano. Assim, daria para arrumar 1,5% do PIB. Isto é, caso o número de beneficiários de Previdência etc. ficasse na mesma —não vai ficar, nem com nova reforma da Previdência.
Para dar certo, de resto, não poderia haver redução da receita (por meio de corte de impostos ou outro motivo). É possível atenuar o arrocho por meio de aumento de receita: com corte de gasto tributário (o que o governo deixa de arrecadar por causa da redução de impostos para certos setores, empresas e pessoas). Mas é aumento de imposto.
A vida é mais complicada do que essa aritmética. Trata-se apenas de exercício para mostrar o tamanho da encrenca (porém incontornável). O que diz Flávio? Que vai manter o reajuste do mínimo e indexações. Que vai cortar impostos. Que vai arrumar R$ 1 trilhão com imóveis da União (como dizia Jair). Não dá.
Continua a dizer em público o que disse em abril, quando chamou de "fake" reportagem da Folha sobre planos de seus assessores. Sem novidade aí, pois, e "o fiscal" é apenas um dos problemas graves do país. Mas agora temos dois meses para espremer os candidatos a fim de evitar o estelionato ou o risco de crise como a de 2015.
Vinicius Torres Freire
Mentiras de Nikolas são boa oportunidade para lembrar de Bolsonaro na pandemia
Nada disso está nos diários de Fauci. Se você duvida, consulte sua agência de fact-checking favorita.
Mesmo assim, agradeço a Nikolas por trazer a Covid-19 de volta ao debate público brasileiro. É uma ótima oportunidade para mostrar que Bolsonaro matou mais gente do que pensávamos.
Já citei aqui algumas vezes o número de 700 mil mortes totais, sendo um mínimo de 100 mil mortos por culpa de Jair durante a pandemia por falta de vacina. São cálculos feitos com números produzidos pelo próprio governo Bolsonaro.
O "mínimo de 100 mil mortos" é baseado na estimativa do epidemiologista Pedro Halal. Usando um modelo estatístico com premissas bastante favoráveis a Bolsonaro, Halal estimou em 95 mil os mortos entre janeiro e junho de 2021 por falta de vacina só entre janeiro e junho de 2021.
Na verdade, o número total de mortes é mais próximo de 900 mil. Esse é o número de "mortes em excesso" ("excess deaths") ocorridas no Brasil durante a pandemia: isto é, quanta gente morreu a mais do que seria normal, dado o padrão histórico e o que sabemos sobre o número de mortes por outras doenças (que permaneceu igual).
A estimativa do número de mortos por falta de vacina no primeiro semestre de 2021, auge da segunda onda da Covid-19, também aumentou. Usando um modelo estatístico com 24 variáveis explicativas, uma equipe liderada pelo professor de matemática aplicada da FGV-SP Eduardo Massad estimou em 145 mil o número de mortes que teriam sido evitadas se o Brasil tivesse começado a vacinar o mais cedo possível, com todas as ofertas de vacina que Jair recusou.
No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das pessoas que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras. Só 2,7% dos seres humanos são brasileiros.
O que isso quer dizer? Os mortos por causa de Jair Bolsonaro são mais que o dobro, e talvez o triplo, do número de brasileiros que morreram na Guerra do Paraguai (cerca de 50 mil). São dois Maracanãs cheios de mães, pais, filhos, avós brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado um botão. Jair não apertou.
Fica pior.
Quando Jair começou a implementar sua política de "imunidade de rebanho" —deixar a população adquirir imunidade pós-contágio e que se dane quem morrer– a vacina ainda não havia sido descoberta. Se João Doria não tivesse corrido atrás de vacina em São Paulo, o ritmo da vacinação no Brasil seria ainda menor. Quantos Bolsonaro teria matado se não tivesse sido impedido pela descoberta da vacina e pelo governador de São Paulo?
Por justiça poética, a polícia conseguiu as provas do golpe de 2022 quando Mauro Cid foi preso por falsificar um certificado de vacina para Bolsonaro.
Nikolas Ferreira nos lembra que, se a direita vencer a próxima eleição presidencial, a anistia aos golpistas garantirá que nem a justiça poética será aplicada aos assassinos da pandemia.
As caras impolíticas do poder
Do outro lado do Atlântico Norte, no Colorado, o pastor pentecostal de direita Victor Marx foi declarado vencedor nas primárias republicanas para o governo do estado. Comoveu seus pares ao revelar que matou uma pessoa pela primeira vez aos sete anos de idade por insistência de um padrasto abusivo e que não tem certeza de quantos assassinou desde então. Desfia relatos de como penetrou em zonas de guerra para resgatar cristãos e de como salvou mulheres e adolescentes do tráfico sexual. Ele se autodefine como um "um alto risco humanitário".
Guardadas as diferenças de "estilo" (o britânico segue uma tradição satírica; o americano, a da violência armada), essas duas figuras são tecnicamente outsiders da política profissional. Seria temerário, porém, classificá-los como apolíticos, juízo corriqueiro, já que terminam entrando no jogo convencional e, em geral, na lateral direita.
Vale, por isso, trazer à baila o conceito de impolítica, destacado em pensadores italianos contemporâneos como Roberto Esposito e Massimo Cacciari, para designar aquilo que escapa à política como organização do poder. Em "Impolítica", Esposito contrapõe-se à ideia de que ela seja caminho absoluto para a construção de uma sociedade equilibrada, mostrando que há dimensões da vida refratárias à absorção por instituições ou ideologias.
Em suma, impolítica não designa nenhuma forma nova de ação política, mas uma perspectiva crítica para o limite de qualquer grande ou pequena política. É que as democracias parlamentares não distinguem, no interior da categoria "povo", indivíduos comuns dos poderosos, pertencentes às frações da classe dominante. Nessa neutralização da diversidade, desaparece a tensão dos interesses distintos, assim como a relevância da política. O que dá lugar ao apoliticismo ou ao "nojo da política", não como falta de convicção em alguma coisa, mas como recusa consciente da representação parlamentar. O abstencionismo do voto é uma das consequências.
Abre-se assim o portão a candidaturas antissistema. Só que isso é pura retórica, uma astúcia do próprio sistema para se perpetuar. O grotesco generalizado em Trump, Milei, Espriella, Bukele e seus acólitos naturaliza-se na vida política em estilos que vão das palhaçadas benignas de um Binface até o medonho autorretrato de Victor Marx.
E emerge então um efeito colateral da impolítica: o desrespeito ao equilíbrio institucional nos diversos tipos de inter-relação. A prepotência do Departamento de Estado norte-americano na interlocução internacional é marca nefasta da troca de política civilizada por arrogância. Jogada na lata de lixo, a diplomacia dá lugar à grosseria imperial.
Setores de Israel tentam expandir fronteiras do país
O mapa mostra um Estado judeu que abrange partes da Jordânia, do Líbano, do Egito, do Iraque, da Síria e da Arábia Saudita – ou seja, estendendo-se muito além da linha de armistício de 1949, a chamada Linha Verde, que define o território de Israel de acordo com o direito internacional.
"São 3.000 quilômetros… Quase tão grande quanto o deserto do Saara", acrescenta Weiss.
Weiss, às vezes chamada de "madrinha do movimento dos colonos israelenses", refere-se à ideia do "Grande Israel", ou "Eretz Israel HaShlema", isto é, "Israel Completo", em hebraico. Trata-se de um conceito expansionista popular entre a extrema direita israelense que tem origem na Bíblia.
"Para os defensores da política de assentamentos, como Bezalel Smotrich, atual ministro das Finanças, ou Itamar Ben Gvir, ministro da Segurança Nacional, não se trata de tornar Israel maior do que realmente deveria ser. Trata-se de concluir o trabalho. Isso significa que a reivindicação de toda a Palestina histórica ou 'Eretz Israel', como eles a definem, é uma promessa divina", afirma Gil Shohat, historiador e diretor da Fundação Rosa Luxemburgo em Tel Aviv.
Alguns israelenses interpretam o conceito de "Israel Completo" ou "Grande Israel" com a inclusão do território que Israel conquistou em 1967: os Territórios Palestinos Ocupados (TPO) – Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza –, bem como as Colinas de Golã, na Síria, anexadas por Israel, e a Península do Sinai, no Egito, que Israel devolveu há décadas.
Outros almejam toda a área que teria sido prometuda na Bíblia, que se estende do rio Nilo, no Egito, até o rio Eufrates, que atravessa a Turquia, a Síria e o Iraque.
As palavras de Weiss foram proferidas em uma entrevista ao canal australiano ABC News em 2014, e, desde então, essas ideias ganharam força na política israelense, à medida que Israel continua em guerra em várias frentes no Oriente Médio.
Em março de 2023, o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, ele próprio um colono, causou um alvoroço diplomático ao discursar em uma cerimônia em Paris atrás de um pódio que exibia um mapa do "Grande Israel", o qual incluía não apenas os territórios atualmente ocupados por Israel, mas também a Jordânia.
Um ano depois, ele declarou ao canal franco-alemão Arte que "o futuro de Jerusalém é expandir-se até Damasco", a capital síria.
Em setembro de 2024, ao falar sobre seus planos para "o dia seguinte" à guerra entre Israel e o Hamas em Gaza, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, apresentou um mapa em que anexava totalmente a Cisjordânia.
Em agosto de 2025, ele disse ao canal israelense i24NEWS que se identificava "bastante" com o conceito do "Grande Israel", o que levou o Egito e a Jordânia a exigirem esclarecimentos.
E, em fevereiro de 2026, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, disse ao apresentador americano Tucker Carlson que seria "aceitável" se Israel assumisse o controle de todo o Oriente Médio.
Na narrativa bíblica (Gênesis 15:18-21), Deus promete a Abraão e seus descendentes um território que se estende do Nilo ao rio Eufrates. Essa visão foi posteriormente retomada por alguns pensadores judeus, tanto religiosos quanto nacionalistas, e tornou-se um elemento fundamental da ideologia sionista.
Pensadores sionistas, como Theodor Herzl e Ze'ev Jabotinsky, fizeram referência a essas fronteiras bíblicas em suas escritas. Herzl chamou a ideia da pátria bíblica de "excelente" em seus diários, e Jabotinsky ecoou essa visão em sua canção "A Margem Oriental do Jordão". Cada verso termina com a frase: "O Jordão tem duas margens – esta é nossa, e a outra também".
A música mais tarde tornou-se o tema do movimento jovem sionista revisionista de Jabotinsky, o "Betar". O pai de Benjamin Netanyahu, Benzion Netanyahu, foi ativo no movimento sionista revisionista de Jabotinsky e trabalhou brevemente como assessor próximo dele antes de sua morte.
O ex-primeiro-ministro de Israel (o primeiro do país), David Ben-Gurion, também flertou com a ideia do "Grande Israel", mas acabou adotando uma abordagem mais pragmática. Antes de pensar na expansão, ele priorizou de forma tática a criação de um Estado judeu soberano. No entanto, deliberadamente, deixou as fronteiras de Israel indefinidas na Declaração de 1948 sobre a Fundação do Estado de Israel, criando uma ambiguidade estratégica para uma futura expansão.
Em um discurso em 1937, ele disse: "A aceitação da partilha não nos obriga a renunciar à Transjordânia: não se exige de ninguém que desista de sua visão. Aceitaremos um Estado dentro das fronteiras fixadas hoje, mas as fronteiras das aspirações sionistas são da competência do povo judeu e nenhum fator externo será capaz de limitá-las".
Israel expandiu suas fronteiras além do que havia sido proposto no Plano de Partilha da ONU de 1947, que destinava cerca de 56% da antiga Palestina sob Mandato Britânico a um futuro Estado judeu, mas, após a Guerra Árabe-Israelense de 1948, Israel passou a controlar cerca de 77%.
Desde que ocupou Jerusalém Oriental, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, em 1967, Israel controla efetivamente quase toda a antiga Palestina sob Mandato Britânico, além das Colinas de Golã.
A comunidade internacional não reconhece essas áreas como parte do território soberano de Israel. Mas a maioria dos israelenses, sim, afirma Shohat: "Já se passaram quase 60 anos desde que Israel ocupou essas áreas. Mesmo nos livros didáticos das escolas mais liberais de Tel Aviv, o mapa de Israel inclui Cisjordânia e Gaza".
Hoje, mais de 700 mil colonos judeus israelenses vivem na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental, segundo as Nações Unidas. As estimativas para as Colinas de Golã variam entre 23.000 e 31.000 colonos, além de cerca de 20.000 drusos que permaneceram na região quando Israel tomou a área.
A ONU considera todos os assentamentos israelenses além da Linha Verde uma violação do direito internacional e, em um parecer consultivo de 2024, a Corte Internacional de Justiça considerou a ocupação ilegal.
Após a expansão territorial que se seguiu à guerra de 1967, a ideia do "Grande Israel" ganhou força. Hoje, ela continua influente entre alguns grupos religiosos e nacionalistas israelenses de extrema direita, mas não é uma posição dominante na sociedade israelense, segundo Shohat.
"A ocupação da Palestina histórica, ou seja, basicamente, Israel, Cisjordânia e Gaza, está normalizada. Ainda não vejo uma tendência de normalização de assentamentos permanentes no sul do Líbano, nem mesmo em partes da Síria. Mas isso não significa que a situação nessas regiões não possa evoluir para um assentamento permanente se não houver oposição significativa, tanto internacional quanto interna", afirma.
Mas, embora não seja uma posição dominante na sociedade israelense, a ideia de expansão territorial há muito tempo permeia setores-chave do governo. Em março de 2026, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, defendeu a anexação do sul do Líbano.
Em uma conferência realizada em 2024 pela Nahala, a organização de colonos de Daniela Weiss, o ministro das Finanças, o ministro da Segurança, Ben Gvir, e a líder dos colonos fizeram lobby pela "emigração voluntária" dos palestinos de Gaza.
Em um palco, Ben Gvir afirmou: "Se não queremos outro 7 de outubro, precisamos voltar para casa e controlar [Gaza]. Precisamos encontrar uma forma legal de fazer com que [os palestinos] emigrem voluntariamente e impor penas de morte aos terroristas".
Dois anos depois, Ben Gvir deu mais um passo em direção ao que desejava: em 30 de março, o Knesset, o parlamento de Israel, aprovou uma lei que impõe a pena de morte a palestinos condenados por ataques fatais.
A impunidade do genocídio e a perda da conquista histórica de Nuremberg
A formulação exige, porém, uma precisão indispensável. Não são os transtornos psiquiátricos que explicam o nazismo, os crimes de guerra ou os projetos contemporâneos de extermínio. Associar doença mental à barbárie seria cientificamente frágil e injusto com milhões de pessoas que convivem com sofrimento psíquico sem jamais praticar violência. A descoberta mais perturbadora de Douglas Kelley foi justamente a inversa: pessoas sem uma patologia psiquiátrica incapacitante podem participar de crimes extraordinários quando determinadas circunstâncias políticas, institucionais e morais tornam o crime normal, recompensado ou socialmente aceitável.
Não precisamos ser clinicamente insanos para participar de uma sociedade criminosa. Basta que nos adaptemos, que obedeçamos, que racionalizemos e que aceitemos o sofrimento do outro como preço inevitável de nossa própria segurança
Em O nazista e o psiquiatra, Jack El-Hai reconstrói o encontro entre Kelley, então psiquiatra do Exército norte-americano, e os principais dirigentes nazistas presos antes do primeiro julgamento de Nuremberg. Kelley deveria avaliar se aqueles homens possuíam condições mentais para responder perante o tribunal. Esperava talvez encontrar uma estrutura psicológica especificamente nazista, uma deformação que separasse aqueles acusados da humanidade comum. O livro mostra que sua investigação não produziu uma fronteira confortável entre monstros e pessoas normais. Encontrou homens inteligentes, ambiciosos, socialmente funcionais e capazes de adaptar consciência, linguagem e comportamento às oportunidades oferecidas pelo poder.
A conclusão de Kelley antecipa uma questão que atravessaria o pensamento político do pós-guerra: o mal organizado não depende apenas de uma personalidade excepcionalmente perversa. Depende da criação de um ambiente em que a responsabilidade individual seja diluída entre ordens superiores, procedimentos administrativos, discursos patrióticos e interesses profissionais. A profecia de Nuremberg não é a de uma doença psiquiátrica que se repete. É a de uma possibilidade humana e institucional que permanece disponível.
Hannah Arendt encontrou na figura de Adolf Eichmann não a ausência de responsabilidade, mas a incapacidade de pensar criticamente sobre aquilo que fazia. Sua ideia de banalidade do mal foi muitas vezes reduzida à afirmação simplista de que os criminosos seriam burocratas inocentes. O argumento é mais exigente: atos monstruosos podem ser praticados por pessoas que substituem o julgamento moral pela linguagem administrativa, pela carreira e pela obediência. A banalidade não está no sofrimento causado, mas na normalidade com que o agente aprende a administrá-lo.
Christopher Browning, em Homens comuns, examinou como integrantes de um batalhão policial composto majoritariamente por alemães de meia-idade se transformaram em executores de milhares de judeus. Não eram todos militantes fanáticos nem foram todos obrigados sob ameaça imediata de morte. Pressão do grupo, conformismo, carreira, medo de parecer covarde, antissemitismo e adaptação progressiva tornaram possível aquilo que inicialmente poderia ter parecido impensável.
Robert Jay Lifton, ao estudar os médicos nazistas, demonstrou outra dimensão decisiva. Profissionais treinados para curar puderam participar da seleção, da experimentação e da morte porque construíram uma separação interna entre a identidade médica e a função exercida no sistema de extermínio. O conhecimento científico não impediu o crime; foi colocado a serviço dele. A medicina, quando capturada pelo Estado totalitário, deixou de proteger a vida concreta e passou a administrar uma suposta saúde racial da nação.
Essas contribuições não eliminam a responsabilidade pessoal. Fazem exatamente o contrário. Demonstram que não podemos esperar sinais de loucura para reconhecer o perigo. Um governante pode discursar racionalmente, vencer eleições, dominar estatísticas, reunir especialistas e, ainda assim, conduzir políticas criminosas. Um oficial pode amar sua família e ordenar a destruição da família de outro. Um médico pode preservar a saúde de determinados cidadãos e aceitar a privação médica de uma população considerada inimiga. Um eleitor pode defender valores democráticos para seu próprio grupo e tolerar a suspensão desses valores para quem foi colocado fora da comunidade nacional.
O Museu Memorial do Holocausto, dos Estados Unidos, resume as motivações dos participantes e colaboradores do nazismo em dois grandes campos: elementos culturais e ideológicos, como o antissemitismo, e mecanismos psicossociais, como medo, oportunismo e pressão para conformar-se. Muitos europeus testemunharam perseguições, violência, deportações e apropriação de bens, mesmo sem conhecer a extensão completa da chamada Solução Final. A propaganda ocultou métodos e utilizou eufemismos, mas a exclusão dos judeus da sociedade ocorria diante de vizinhos, funcionários, comerciantes e beneficiários diretos da desapropriação.
O Estado nacional-socialista criou as circunstâncias em que o crime deixou de parecer crime. O judeu foi primeiro transformado em problema jurídico, econômico, biológico e territorial. Vieram as classificações, as proibições profissionais, a expropriação, a segregação, a deportação e, finalmente, o assassinato industrializado. O Holocausto foi um processo em evolução: a perseguição sistemática iniciada em 1933 culminou, entre 1941 e 1945, na política de assassinato em massa denominada pelos nazistas “Solução Final”.
A Alemanha nazista e seus aliados e colaboradores assassinaram seis milhões de judeus europeus, além de milhões de outras vítimas perseguidas pelo regime. Aproximadamente 9,5 milhões de judeus viviam na Europa em 1933. Ao final da guerra, dois de cada três haviam sido mortos – uma destruição equivalente a cerca de 63% da população judaica europeia anterior ao nazismo. Nenhuma comparação contemporânea deve apagar a especificidade histórica, continental, racial e industrial desse processo.
Comparar, contudo, não significa declarar equivalência. A história comparada não coloca tragédias em uma competição macabra. Ela identifica mecanismos, ritmos, proporções e estruturas de impunidade. O Holocausto e a destruição de Gaza não são acontecimentos idênticos: diferem em duração, escala absoluta, tecnologia, configuração territorial e contexto histórico. Mas a singularidade do Holocausto não pode ser utilizada para proibir toda comparação, porque os princípios jurídicos construídos em resposta a ele foram deliberadamente formulados como universais.
Nuremberg estabeleceu que o indivíduo responde por crimes internacionais; que a legislação interna não elimina essa responsabilidade; que a condição de governante não oferece imunidade absoluta; e que a alegação de cumprimento de ordens não basta para absolver aquele que possuía possibilidade de escolha. A Convenção do Genocídio, aprovada em 1948, incluiu entre os atos proibidos o assassinato de integrantes do grupo, a produção de danos físicos ou mentais graves e a imposição deliberada de condições de vida calculadas para provocar sua destruição física total ou parcial
É precisamente por isso que Gaza não pode ser analisada apenas pela comparação entre números absolutos. O universo populacional é decisivo. Segundo a UNICEF, 71.803 palestinos haviam sido registrados como mortos na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 3 de fevereiro de 2026, entre eles pelo menos 21.289 crianças. Outros 171.230 haviam sido registrados como feridos, incluindo cerca de 44.500 crianças. Em uma população estimada em 2,1 milhões de habitantes, as mortes diretas registradas correspondem aproximadamente a 3,4% da população; as crianças mortas, isoladamente, superam 1% de todos os habitantes; e os feridos representam mais de 8%. Trata-se de uma aproximação proporcional baseada nos números publicados, não de uma estimativa de mortalidade total ou de uma comparação de equivalência com o Holocausto.
Essa contagem também não representa necessariamente toda a dimensão humana da catástrofe. Ela registra mortes oficialmente reportadas, não todas as pessoas desaparecidas sob escombros nem os efeitos futuros de ferimentos, doenças, desnutrição, contaminação da água e interrupção de tratamentos. O rigor exige que não inventemos números além dos documentados. Exige também que não reduzamos a destruição aos corpos já contabilizados.
Aproximadamente 1,9 milhão dos 2,1 milhões de habitantes de Gaza permaneciam deslocados em julho de 2026 – mais de 90% da população. Cerca de 82% das famílias enfrentavam insegurança hídrica, e até 70% não conseguiam acesso a seis litros de água por pessoa ao dia, volume inferior aos padrões mínimos de emergência. Dos 633 caminhões de ajuda da UNICEF provenientes do Egito em maio e junho, apenas 280 conseguiram descarregar seus suprimentos.
Mais de 60 milhões de toneladas de escombros haviam sido geradas desde outubro de 2023. Somente uma fração havia sido removida. Nos centros coletivos avaliados pela OCHA, 69% apresentavam esgoto visível e 80% não possuíam iluminação funcional. No primeiro semestre de 2026, foram registradas quase quatro mil perdas gestacionais; mais de 57% das gestantes apresentavam anemia, e a morbidade materna grave chegou a 82 casos para cada mil partos.
Esses dados dimensionam uma forma de destruição que ultrapassa o ataque militar direto. Uma sociedade é atingida em sua possibilidade de continuidade quando hospitais deixam de funcionar, mulheres não conseguem realizar partos seguros, crianças adoecem por falta de água, escolas desaparecem, áreas agrícolas se tornam inacessíveis e famílias são obrigadas a deslocar-se repetidamente sem lugar seguro para permanecer.
Mesmo depois do anúncio de um cessar-fogo em 10 de outubro de 2025, a OCHA informou outras 1.180 mortes e 3.810 feridos até 22 de julho de 2026. Entre 15 e 22 de julho, 59 palestinos foram registrados como mortos e mais de 190 como feridos. O termo “cessar-fogo” perde parte de seu conteúdo quando a população continua submetida a ataques, mortes e deslocamentos.
Nada disso justifica os crimes cometidos pelo Hamas e por outros grupos armados em 7 de outubro de 2023. A Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU concluiu que foram praticados ataques intencionais contra civis, assassinatos, tratamentos cruéis, tortura e tomada de reféns. Condenar esses crimes é uma obrigação moral e jurídica. Contextualizá-los historicamente não significa legitimá-los.
Mas a história palestina não começou naquele 7 de outubro. Em 1948, mais de 750 mil palestinos foram arrancados de suas casas, muitos deles à força, no processo conhecido como Nakba. A crise dos refugiados palestinos tornou-se a mais longa crise prolongada desse tipo no mundo contemporâneo. Em 2007, Israel intensificou o bloqueio terrestre, marítimo e aéreo de Gaza, aprofundando restrições anteriores e produzindo impactos profundos sobre a economia, a mobilidade e o tecido social do território.
A violência posterior ao atentado não surgiu do nada. Foi a intensificação colossal de uma estrutura anterior de ocupação, bloqueio, deslocamento e desigualdade jurídica. O ataque terrorista ofereceu ao governo Netanyahu a oportunidade política de transformar o trauma israelense em autorização para uma campanha cuja escala destrutiva passou muito além da responsabilização dos autores do ataque.
Em setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Investigação das Nações Unidas concluiu que autoridades e forças israelenses haviam cometido e continuavam cometendo genocídio contra os palestinos em Gaza. Israel rejeita essa conclusão. A Corte Internacional de Justiça ainda não proferiu uma sentença definitiva sobre o mérito da ação apresentada pela África do Sul, embora tenha determinado medidas provisórias de proteção. Essa diferença deve ser preservada: uma comissão da ONU apresentou uma conclusão jurídica de genocídio; o processo de responsabilidade estatal perante a CIJ permanece em andamento.
No campo da responsabilidade individual, o Tribunal Penal Internacional expediu mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant por alegados crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo o uso da fome como método de guerra, assassinato, perseguição e outros atos desumanos. O mandado contra Netanyahu permanece registrado pelo tribunal. Não é uma condenação antecipada, mas uma ordem para que o acusado seja apresentado à Justiça, conheça as provas, exerça sua defesa e seja submetido ao devido processo.
Prender Netanyahu em território de um Estado obrigado a cooperar com o TPI seria juridicamente legítimo. A presunção de inocência não significa o direito de evitar o julgamento. Significa o direito de ser julgado por tribunal competente, de contestar a acusação e de não ser condenado sem prova. Impedir a prisão não protege o devido processo; impede que ele aconteça.
A reação dos Estados Unidos confirma a perda da conquista histórica de Nuremberg. Washington apoiou o Tribunal Penal Internacional quando a instituição expediu mandado contra Vladimir Putin, mas passou a atacar o tribunal quando a mesma lógica de responsabilização alcançou Netanyahu. Uma norma aplicada aos adversários e suspensa diante dos aliados deixa de ser norma universal. Converte-se em arma geopolítica.
Essa seletividade também aparece no cerco contra Cuba. As situações de Gaza e Cuba não são equivalentes: uma população está submetida a uma campanha militar destrutiva; a outra sofre há décadas com um bloqueio econômico, comercial e financeiro. A lógica comum é o uso das condições materiais de vida de uma sociedade para impor submissão política.
Cuba não deve ser idealizada nem isentada de críticas sobre liberdades, participação política, gestão econômica e direitos civis. Mas suas contradições internas não autorizam uma potência estrangeira a decidir, pela escassez de combustível, crédito, tecnologia e medicamentos, qual regime os cubanos devem adotar.
A experiência socialista cubana produziu conquistas reconhecidas internacionalmente. A UNESCO descreve a Campanha Nacional de Alfabetização de 1961 como o acontecimento mais marcante da educação e da cultura cubanas no século XX. O método Yo, sí puedo contribuiu para alfabetizar mais de seis milhões de pessoas em 29 países. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, a expectativa de vida em Cuba alcançou 78,3 anos em 2024, superando a média das Américas. Reconhecer esses resultados não exige silenciar os problemas do regime; exige apenas analisar a trajetória histórica de Cuba sem as caricaturas construídas por Washington.
Em outubro de 2025, 165 países votaram na Assembleia Geral das Nações Unidas pelo fim do embargo norte-americano contra Cuba; apenas sete votaram contra e doze se abstiveram. A votação mostra a amplitude da rejeição internacional, mas também a impotência da Assembleia para obrigar a maior potência econômica e militar a modificar sua conduta.
Gaza e Cuba revelam, por métodos diferentes, o mesmo limite da ordem internacional. O TPI emite um mandado, mas não possui força policial para executá-lo. A Assembleia Geral condena um bloqueio, mas não possui meios para encerrá-lo. A norma existe, porém, a aplicação depende daqueles que controlam armas, sistemas financeiros, alianças e sanções.
A sociedade israelense não pode ser responsabilizada coletivamente pelas decisões de Netanyahu. O povo judeu, o judaísmo, os cidadãos israelenses e o governo de Israel não são a mesma coisa. Transformar judeus em culpados por sua identidade seria reproduzir a lógica antissemita de culpa étnica. Mas negar a culpa coletiva não elimina a responsabilidade democrática individual.
A lição de Kelley dirige-se também aos cidadãos. O fato de uma pessoa não emitir ordens, lançar bombas ou administrar bloqueios não encerra sua responsabilidade moral. Há momentos em que permanecer neutro diante do que é feito em nome de sua sociedade significa permitir que o sistema continue funcionando. A resistência necessária em Israel deve ser civil, democrática e não violenta: nas ruas, nos sindicatos, nas universidades, na imprensa, nos tribunais, nas eleições e na recusa de participar de condutas incompatíveis com o direito humanitário.
A memória do Holocausto não concede imunidade a um Estado. Seu valor universal está precisamente na recusa de que qualquer população seja expulsa da humanidade. Honrar os seis milhões de judeus assassinados não significa silenciar diante da morte de crianças palestinas. Significa reconhecer nelas o mesmo direito à vida que o mundo jurou proteger depois de Auschwitz.
O desafio ultrapassa Israel e Palestina. O que se decide é se a civilização aceitará uma ordem em que tribunais são obedecidos quando acusam inimigos e sancionados quando investigam aliados; em que a fome pode ser administrada como instrumento militar; em que a energia se converte em arma de mudança de regime; e em que o destino de povos inteiros depende da conveniência de uma potência.
A resposta precisa chegar às instituições políticas. No Brasil, o primeiro turno das eleições gerais ocorrerá em 4 de outubro de 2026, com eventual segundo turno em 25 de outubro. Nos Estados Unidos, as eleições federais parlamentares serão realizadas em 3 de novembro. Esses pleitos não resolverão sozinhos Gaza, o bloqueio contra Cuba ou a crise do direito internacional, mas podem alterar a correlação política que sustenta a hegemonia pela força.
Derrotar eleitoralmente o trumpismo e seus representantes brasileiros não significa hostilidade contra o povo norte-americano nem submissão acriticamente a qualquer governo adversário de Washington. Significa rejeitar uma política que sanciona tribunais, protege aliados procurados, ameaça a soberania econômica de terceiros países e trata a força como fonte última de legitimidade.
Nuremberg será perdido não quando seus documentos forem queimados, mas quando se transformarem em objetos cerimoniais sem eficácia contra os poderosos. Será perdido quando a responsabilidade individual valer para os derrotados e a imunidade política permanecer reservada aos aliados. Será perdido quando a humanidade concluir que determinados povos podem ser destruídos desde que o responsável disponha de proteção militar suficiente.
A profecia de Douglas Kelley permanece diante de nós. Não precisamos ser clinicamente insanos para participar de uma sociedade criminosa. Basta que nos adaptemos, que obedeçamos, que racionalizemos e que aceitemos o sofrimento do outro como preço inevitável de nossa própria segurança.
A história já demonstrou aquilo que pessoas comuns podem fazer sob as circunstâncias de um Estado que organiza a desumanização. Cabe às sociedades de Israel, dos Estados Unidos, do Brasil e do mundo demonstrar aquilo que pessoas comuns também podem impedir quando se recusam a entregar sua consciência ao poder.

