terça-feira, 1 de setembro de 2026
Este Brasil!
Do sonho e da terra
Essa tensão não é de agora, mas se agravou com as recentes mudanças políticas introduzidas na vida do povo brasileiro, que estão atingindo de forma intensa centenas de comunidades indígenas que nas últimas décadas vêm insistindo para que o governo cumpra seu dever constitucional de assegurar os direitos desses grupos nos seus locais de origem, identificados no arranjo jurídico do país como terras indígenas.
Não sei se todos conhecem as terminologias referentes à relação dos povos indígenas com os lugares onde vivem ou as atribuições que o Estado brasileiro tem dado a esses territórios ao longo da nossa história. Desde os tempos coloniais, a questão do que fazer com a parte da população que sobreviveu aos trágicos primeiros encontros entre os dominadores europeus e os povos que viviam onde hoje chamamos, de maneira muito reduzida, de terras indígenas, levou a uma relação muito equivocada entre o Estado e essas comunidades.
É claro que durante esses anos nós deixamos de ser colônia para constituir o Estado brasileiro e entramos no século XXI, quando a maior parte das previsões apostava que as populações indígenas não sobreviveriam ocupação do território, pelo menos não mantendo formas próprias de organização, capazes de gerir suas vidas. Isso porque a máquina estatal atua para desfazer as formas de organização das nossas sociedades, buscando uma integração entre essas populações e o conjunto da sociedade brasileira.
O dilema político que ficou para as nossas comunidades que sobreviveram ao século XX é ainda hoje precisar disputar os últimos redutos onde a natureza é próspera, onde podemos suprir as nossas necessidades alimentares e de moradia, e onde sobrevivem os modos que cada uma dessas pequenas sociedades tem de se manter no tempo, dando conta de si mesmas sem criar uma dependência excessiva do Estado.
O rio Doce, que nós, os Krenak, chamamos de Watu, nosso avô, é uma pessoa, não um recurso, como dizem os economistas. Ele não é algo de que alguém possa se apropriar; é uma parte da nossa construção como coletivo que habita um lugar específico, onde fomos gradualmente confinados pelo governo para podermos viver e reproduzir as nossas formas de organização (com toda essa pressão externa).
Falar sobre a relação entre o Estado brasileiro e as sociedades indígenas a partir do exemplo do povo Krenak surgiu como uma inspiração, para contar a quem não sabe o que acontece hoje no Brasil com essas comunidades — estimadas em cerca de 250 povos e aproximadamente 900 mil pessoas, população menor do que a de grandes cidades brasileiras.
O que está na base da história do nosso país, que continua a ser incapaz de acolher os seus habitantes originais — sempre recorrendo a práticas desumanas para promover mudanças em formas de vida que essas populações conseguiram manter por muito tempo, mesmo sob o ataque feroz das forças coloniais, que até hoje sobrevivem na mentalidade cotidiana de muitos brasileiros —, é a ideia de que os índios deveriam estar contribuindo para o sucesso de um projeto de exaustão da natureza. O Watu, esse rio que sustentou a nossa vida às margens do rio Doce, entre Minas Gerais e o Espírito Santo, numa extensão de seiscentos quilômetros, está todo coberto por um material tóxico que desceu de uma barragem de contenção de resíduos, o que nos deixou órfãos e acompanhando o rio em coma. Faz um ano e meio que esse crime — que não pode ser chamado de acidente — atingiu as nossas vidas de maneira radical, nos colocando na real condição de um mundo que acabou.
Neste encontro, estamos tentando abordar o impacto que nós, humanos, causamos neste organismo vivo que é a Terra, que em algumas culturas continua sendo reconhecida como nossa mãe e provedora em amplos sentidos, não só na dimensão da subsistência e na manutenção das nossas vidas, mas também na dimensão transcendente que dá sentido à nossa existência. Em diferentes lugares do mundo, nos afastamos de uma maneira tão radical dos lugares de origem que o trânsito dos povos já nem é percebido. Atravessamos continentes como se estivéssemos indo ali ao lado. Se é certo que o desenvolvimento de tecnologias eficazes nos permite viajar de um lugar para outro, que as comodidades tornaram fácil a nossa movimentação pelo planeta, também é certo que essas facilidades são acompanhadas por uma perda de sentido dos nossos deslocamentos.
Sentimo-nos como se estivéssemos soltos num cosmos vazio de sentido e desresponsabilizados de uma ética que possa ser compartilhada, mas sentimos o peso dessa escolha sobre as nossas vidas. Somos alertados o tempo todo para as consequências dessas escolhas recentes que fizemos. E se pudermos dar atenção a alguma visão que escape a essa cegueira que estamos vivendo no mundo todo, talvez ela possa abrir a nossa mente para alguma cooperação entre os povos, não para salvar os outros, mas para salvar a nós mesmos. Há trinta anos, a ampla rede de relações em que me integrei para levar ao conhecimento de outros povos, de outros governos, as realidades que nós vivíamos no Brasil teve como objetivo ativar as redes de solidariedade com os povos nativos.
O que aprendi ao longo dessas décadas é que todos precisam despertar, porque, se durante um tempo éramos nós, os povos indígenas, que estávamos ameaçados de ruptura ou da extinção dos sentidos das nossas vidas, hoje estamos todos diante da iminência de a Terra não suportar a nossa demanda. Como disse o pajé yanomami Davi Kopenawa, o mundo acredita que tudo é mercadoria, a ponto de projetar nela tudo o que somos capazes de experimentar. A experiência das pessoas em diferentes lugares do mundo se projeta na mercadoria, significando que ela é tudo o que está fora de nós. Essa tragédia que agora atinge a todos é adiada em alguns lugares, em algumas situações regionais nas quais a política — o poder político, a escolha política — compõe espaços de segurança temporária em que as comunidades, mesmo quando já esvaziadas do verdadeiro sentido do compartilhamento de espaços, ainda são, digamos, protegidas por um aparato que depende cada vez mais da exaustão das florestas, dos rios, das montanhas, nos colocando num dilema em que parece que a única possibilidade para que comunidades humanas continuem a existir é à custa da exaustão de todas as outras partes da vida.
A conclusão ou compreensão de que estamos vivendo uma era que pode ser identificada como Antropoceno deveria soar como um alarme nas nossas cabeças. Porque, se nós imprimimos no planeta Terra uma marca tão pesada que até caracteriza uma era, que pode permanecer mesmo depois de já não estarmos aqui, pois estamos exaurindo as fontes da vida que nos possibilitaram prosperar e sentir que estávamos em casa, sentir até, em alguns períodos, que tínhamos uma casa comum que podia ser cuidada por todos, é por estarmos mais uma vez diante do dilema a que já aludi: excluímos da vida, localmente, as formas de organização que não estão integradas ao mundo da mercadoria, pondo em risco todas as outras formas de viver — pelo menos as que fomos animados a pensar como possíveis, em que havia corresponsabilidade com os lugares onde vivemos e o respeito pelo direito à vida dos seres, e não só dessa abstração que nos permitimos constituir como uma humanidade, que exclui todas as outras e todos os outros seres. Essa humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô, que a montanha explorada em algum lugar da África ou da América do Sul e transformada em mercadoria em algum outro lugar é também o avô, a avó, a mãe, o irmão de alguma constelação de seres que querem continuar compartilhando a vida nesta casa comum que chamamos Terra.
O nome krenak é constituído por dois termos: um é a primeira partícula, kre, que significa cabeça, a outra, nak, significa terra. Krenak é a herança que recebemos dos nossos antepassados, das nossas memórias de origem, que nos identifica como “cabeça da terra”, como uma humanidade que não consegue se conceber sem essa conexão, sem essa profunda comunhão com a terra. Não a terra como um sítio, mas como esse lugar que todos compartilhamos, e do qual nós, os Krenak, nos sentimos cada vez mais desraigados — desse lugar que para nós sempre foi sagrado, mas que percebemos que nossos vizinhos têm quase vergonha de admitir que pode ser visto assim. Quando nós falamos que o nosso rio é sagrado, as pessoas dizem: “Isso é algum folclore deles”; quando dizemos que a montanha está mostrando que vai chover e que esse dia vai ser um dia próspero, um dia bom, eles dizem: “Não, uma montanha não fala nada”.
Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista.
Como reconhecer um lugar de contato entre esses mundos, que têm tanta origem comum, mas que se descolaram a ponto de termos hoje, num extremo, gente que precisa viver de um rio e, no outro, gente que consome rios como um recurso? A respeito dessa ideia de recurso que se atribui a uma montanha, a um rio, a uma floresta, em que lugar podemos descobrir um contato entre as nossas visões que nos tire desse estado de não reconhecimento uns dos outros?
Quando eu sugeri que falaria do sonho e da terra, eu queria comunicar a vocês um lugar, uma prática que é percebida em diferentes culturas, em diferentes povos, de reconhecer essa instituição do sonho não como experiência cotidiana de dormir e sonhar, mas como exercício disciplinado de buscar no sonho as orientações para as nossas escolhas do dia a dia.
Para algumas pessoas, a ideia de sonhar é abdicar da realidade, é renunciar ao sentido prático da vida. Porém, também podemos encontrar quem não veria sentido na vida se não fosse informado por sonhos, nos quais pode buscar os cantos, a cura, a inspiração e mesmo a resolução de questões práticas que não consegue discernir, cujas escolhas não consegue fazer fora do sonho, mas que ali estão abertas como possibilidades. Fiquei muito apaziguado comigo mesmo hoje à tarde, quando mais de uma colega das que falaram aqui trouxeram a referência a essa instituição do sonho não como uma experiência onírica, mas como uma disciplina relacionada à formação, à cosmovisão, à tradição de diferentes povos que têm no sonho um caminho de aprendizado, de autoconhecimento sobre a vida, e a aplicação desse conhecimento na sua interação com o mundo e com as outras pessoas.
Ailton Krenak, "Ideias para adiar o fim do mundo"
Não existe justiça climática sem paz
Não é a primeira vez que o mundo troca de fonte de energia, nem a primeira em que essa troca redesenha, mais do que resolve, a geografia do poder. Ao longo da história moderna, a expansão territorial esteve intimamente ligada à conquista de áreas estratégicas para a produção de energia. Foi para garantir combustíveis à frota britânica que Winston Churchill, em 1911, trocou o carvão por petróleo e comprou secretamente o controle da futura BP, tornando o Golfo Pérsico uma questão de segurança nacional antes mesmo da Primeira Guerra Mundial. A primeira de várias transições energéticas que prometeram modernização e entregaram, também, uma nova cartografia de territórios “úteis” ao desenvolvimento.
Do carvão ao petróleo, da energia nuclear aos minerais críticos, a fórmula pouco mudou e a apropriação de territórios considerados “úteis” ao crescimento econômico foi reiteradamente justificada pelo progresso, quando, nas coxias, tratava-se de uma questão de segurança. A Venezuela, que hoje declara deter a maior reserva de petróleo do planeta – número contestado por especialistas, mas indiscutivelmente entre as maiores do mundo –, permanece inscrita nessa lógica histórica. Esse episódio na Venezuela não interessa por ser uma anomalia; interessa porque confirma essa regra centenária.
E a regra não é americana, nem latino-americana, é o que acontece quando a energia fica escassa ou insegura. Desde a invasão da Ucrânia em 2022, a Europa reduziu sua dependência do gás russo de 45% para cerca de 12% das importações. Não porque essa dependência tenha
causado a guerra, mas porque a guerra obrigou o continente a reconstruir, em tempo recorde, rotas, contratos e alianças inteiras de segurança energética, do gás natural liquefeito americano e catari a acordos com fornecedores africanos, com o compromisso de banir de vez o gás russo até 2027. O problema, nos dois casos, não é que a energia fóssil gere conflito, é que o mundo tenta construir a transição bem no meio da sua dependência mais profunda da matriz que a transição deveria substituir.
A saída parece óbvia: acelerar a transição. Só que sair do petróleo e do carvão não é um gesto trivial; é obra de engenharia e mineração em escala inédita. Turbinas eólicas, painéis solares, redes elétricas e baterias de carro precisam de cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras em volumes que a indústria de mineração nunca movimentou. O historiador Timothy Mitchell mostrou, em Carbon Democracy, como a própria forma da democracia de massas do século XX foi moldada pelo tipo de energia que a sustentava. Trocar essa base material, argumenta ele, também reconfigura quem tem poder de barganha sobre o sistema, o que quer dizer que a pergunta sobre justiça climática não pode se limitar a quem emite carbono e quem paga por seus efeitos. Ela também precisa perguntar quem controla os minerais da nova matriz, quem os processa, quem captura o valor gerado e quem arca com o custo de extraí-los.
As respostas a essa pergunta variam e nem sempre confirmam o pior cenário. A Indonésia proibiu a exportação de níquel bruto e forçou as mineradoras a instalar fundições em seu território; hoje refina mais níquel do que qualquer outro país do mundo e mantém superávit comercial há mais de cinco anos, uma rara história de um país do Sul Global capturando, e não apenas cedendo, valor da nova economia verde. O leste do Congo, que concentra parte relevante das reservas mundiais de cobalto e coltan, mostra o oposto.
Um relatório de especialistas da ONU descreveu o grupo armado M23, que controla parte desse território, como estando sob “direção de fato” de Ruanda, para onde os minerais são contrabandeados antes de reentrar nas cadeias de fornecimento globais como se fossem de outra origem – as mesmas cadeias que abastecem, como documentou o jornalista Siddharth Kara, em Cobalt Red, as baterias dos carros elétricos vendidos na Europa. A diferença entre os dois casos está menos na geologia e mais na capacidade de cada Estado de negociar os termos da própria exploração; é a mesma pergunta, com uma resposta bem diferente, que cabe em Minas Gerais, onde o Brasil detém quase toda a reserva mundial de nióbio, mas exporta 97% do seu lítio bruto para a China, sem capturar o valor de refiná-lo.
Há ainda um terceiro tipo de resposta que nem chega a ser sobre extração, é sobre soberania. A Groenlândia, território autônomo dinamarquês, concentra uma das maiores reservas de terras raras do mundo, além de lítio, níquel e cobalto – os mesmos minerais indispensáveis a baterias, painéis solares e turbinas eólicas, e por isso mesmo passou a ser cobiçada abertamente por Washington nos últimos dois anos. A China, que hoje refina cerca de metade do lítio, quase três quartos do cobalto e mais de dois terços do níquel do mundo, também não é espectadora nessa disputa. Não é preciso presumir uma finalidade bélica para entender o que está em jogo. Um território que ninguém disputava havia um século, hoje derretendo sob o efeito do próprio aquecimento global, tornou-se ativo geopolítico pela mesma razão que o Golfo Pérsico se tornou um século atrás.
Há, aliás, um nome para esse padrão, e ele já circula dentro das próprias negociações climáticas: colonialismo climático. A expressão descreve um mundo em que os custos ambientais – inclusive os da nova economia verde – recaem de forma desproporcional sobre populações racializadas e do Sul Global, e vem ganhando peso político nas conferências do clima da ONU, onde ativistas têm articulado, com força crescente, os debates sobre clima e paz. As manifestações contra a ofensiva militar em Gaza que marcaram as últimas COPs não pretendiam explicar a crise climática a partir de um conflito específico – o que seria simplista –, mas insistir que ambos os debates remetem a uma mesma questão: que tipo de transição e de segurança energética o mundo está disposto a construir?
Nenhum desses episódios é exceção isolada. Da Venezuela ao leste do Congo, passando pelo Ártico, cada vez que a energia velha ou nova vira motivo de disputa, parte da resposta vem em forma de armamento, não de investimento; e essa resposta tem um preço que raramente entra na conta da crise climática. Em 2025, o mundo gastou US$ 2,89 trilhões em forças armadas, o maior valor já registrado e o décimo primeiro ano seguido de alta, segundo o instituto sueco Sipri. No mesmo período, o financiamento climático global superou US$ 2 trilhões pela primeira vez, mas segue muito aquém dos US$ 6 a 7 trilhões anuais que analistas calculam ser necessários até 2030 para financiar mitigação, adaptação e proteção de ecossistemas. Um relatório do secretário-geral da ONU, António Guterres, resumiu o desequilíbrio em um número: os países mais ricos gastam cerca de 30 vezes mais com suas Forças Armadas do que investem em adaptação climática nos países mais vulneráveis, e algo como 15% do gasto militar global de um único ano bastaria para cobrir as necessidades de adaptação de todo o mundo em desenvolvimento.
Não se trata de sugerir que basta tirar dinheiro da defesa e jogar no clima (afinal, orçamentos de segurança não se realocam por decreto e nenhum país larga as armas porque um problema mais grave apareceu). Trata-se de reconhecer que o mundo vem adiando, ano após ano, a escolha entre dois tipos de segurança: a que se compra com armas e a que se compra impedindo que o clima destrua safras, cidades costeiras e cadeias de suprimento inteiras. E quando o clima finalmente entra na conversa sobre segurança – como já entra, desde o início dos anos 2000, em relatórios de defesa dos países ricos –, costuma entrar pela porta errada: mais vigilância de fronteira do que investimento em quem já vive a crise.
O Brasil oferece um exemplo concreto e doméstico do mesmo mecanismo. Desde 2024, tramita na Câmara um projeto de lei que inclui, na definição legal de terrorismo, crimes ambientais cometidos por motivação política ou ideológica, como resposta ao aumento de incêndios de origem criminosa na Amazônia. E a Lei Antifacção, sancionada em 2026, para endurecer o combate ao crime organizado, passou a tratar a extração ilegal de minérios como agravante equiparável à atuação de facções. Isso já rendeu alertas de que a nova arquitetura penal pode, paradoxalmente, enfraquecer a fiscalização ambiental de rotina, hoje conduzida fora do aparato de combate ao crime organizado. Não é que reprimir crime ambiental seja ilegítimo, pelo contrário, em geral, é necessário. É que, uma vez dentro do vocabulário da segurança e do terrorismo, o problema ambiental muda de dono. Quem ganha competência sobre o território deixa de ser quem fiscaliza, e passa a ser quem persegue.
Volte a Caracas. Sete meses depois da captura de Maduro, o petróleo volta a fluir, os contratos se refazem, e o mundo trata o episódio como uma anomalia superada. Não é. É o mesmo paradoxo da abundância de sempre, e ele não desaparece quando trocamos o petróleo por lítio, nem quando trocamos os generais por sensores de risco climático, ele só se veste de novo. Nada disso é argumento contra a transição energética. Ela é urgente demais, necessária demais, para que se aceite que reproduza as estruturas de extração, dependência e violência da economia que promete substituir.
Se a saída dos fósseis continuar acompanhada por episódios como o da Venezuela, se a nova economia verde repetir, do Congo à Groenlândia, as fronteiras extrativas e as disputas de soberania que a antecederam, e se a militarização seguir consumindo os recursos que a resposta ao clima exige, então paz não é uma agenda paralela à justiça climática, é uma de suas condições. Não existe justiça climática sem paz porque, sem ela, toda transição energética é apenas mais uma reorganização violenta do mesmo mundo em crise, agora movida a lítio.
Gabriel Mantelli e Yago Ferreira Freire
Kilimanjaro: A Comporta já não chega
O Kilimanjaro tornou-se uma espécie de Comporta vertical. A praia foi substituída pela altitude, a caipirinha pelo chá quente, a espreguiçadeira pelos bastões de trekking e o sunset pelo nascer do sol em Uhuru Peak. Mantém-se o essencial: a fotografia. Antigamente, o betinho ia de férias para descansar. Hoje vai para poder contar que não descansou absolutamente nada. “Fui ao Kilimanjaro” significa qualquer coisa entre “venci os meus limites”, “reencontrei-me”, “saí da zona de conforto” e “por favor perguntem-me quanto custou”.
Não há nada de ridículo em subir uma montanha. Ridículo é transformar uma montanha numa pós-graduação em autoestima. O Kilimanjaro, património mundial da UNESCO e ponto mais alto de África, não exige técnicas de alpinismo comparáveis às do Evereste, mas continua a ser uma ascensão exigente, em altitude séria, com risco de mal de montanha e temperaturas muito abaixo de zero. É a combinação perfeita para a nossa época: parece perigosíssimo nas fotografias, mas pode ser organizado por uma agência com guia, cozinheiro, carregadores e itinerário. É O Lado Selvagem (2007), de Sean Penn, mas com assistência em terra.
A moda encaixa maravilhosamente na transformação contemporânea do luxo. O rico de antigamente mostrava o relógio. O de agora mostra a resistência cardiovascular. Antes comprava-se um Porsche; agora compra-se uma experiência “transformadora”. Maratona de Nova Iorque, retiro em Bali, Caminho de Santiago, banho gelado, triatlo, Kilimanjaro. A vida moderna inventou o paradoxo perfeito: pagar uma pequena fortuna para viver durante uma semana como alguém que perdeu a casa, o aquecimento e o oxigénio.
E depois há o vocabulário. Ninguém sobe simplesmente a montanha. “Faz uma jornada”. “Enfrenta os demónios”. “Reconecta-se com o essencial”. “Sai da sua zona de conforto”. Aos 4.600 metros, com falta de ar e um casaco que faz parecer toda a gente figurante de Evereste (2015), de Baltasar Kormákur, a descoberta acaba por ser bastante simples: somos mamíferos e precisamos de oxigénio. O conselho suaíli é pole pole, devagar, devagar. Filosofia admirável, sobretudo para gente que passou vinte anos da vida profissional a dizer “manda-me isso para ontem”.
O cinema percebeu há muito que as montanhas são óptimas para tornar os homens pequenos e os problemas grandes. Em As Neves do Kilimanjaro (1952), de Henry King, inspirado em Ernest Hemingway — que ao que se saiba nunca lá pôs os pés —, Gregory Peck tinha Ava Gardner, Susan Hayward, memórias, culpas e uma montanha. Hoje bastam um Garmin, uma GoPro, um casamento ligeiramente cansado ou uma solidão mal assumida. Em Evereste (2015), de Baltasar Kormákur, a natureza recorda brutalmente que não lê currículos, desconhece apelidos de família e não respeita cartões Platinum. E há sempre Assalto Infernal (1993), de Renny Harlin, para aqueles que, depois de duas aulas de crossfit, começam a olhar para Stallone como se fossem colegas de profissão. O Kilimanjaro oferece ainda uma enorme vantagem cinematográfica: o cenário é tão bom que dispensa argumento. A selfie faz o resto.
Convém, porém, dizer aquilo que quase nunca cabe no enquadramento. Ninguém chega lá sozinho. A epopeia individual é, na realidade, uma produção coletiva. Guias, cozinheiros e carregadores transportam tendas, comida e equipamento montanha acima enquanto o aventureiro ocidental transporta sobretudo a narrativa da sua própria superação. A fotografia final costuma ter uma pessoa ao centro, sorridente, braços no ar, como se tivesse descoberto a nascente do Nilo, mas a subida foi feita por uma pequena aldeia logística. É o velho truque do capitalismo aplicado ao montanhismo: privatizar o heroísmo e socializar o peso da mochila.
E entretanto Portugal tem ali o Pico, nos Açores, com 2.351 metros, suficientemente alto para descobrir se as pernas concordam com a biografia que estamos a escrever para o Instagram. Mas o Pico sofre de uma deficiência gravíssima: fica em Portugal. “Subi o Pico” merece um “que giro”. “Subi o Kilimanjaro” obriga a mesa inteira a pousar os talheres. Além disso, ir aos Açores descobrir que afinal odiamos montanhas é financeiramente sensato. E sensatez nunca foi o principal combustível das modas.
Esta febre diz, no fundo, menos sobre montanhismo do que sobre a necessidade contemporânea de transformar tudo em prova. Já não basta viajar: é preciso conquistar. Já não basta envelhecer: é preciso “desafiar os limites”. Já não basta estar bem: é preciso demonstrar que se está extraordinariamente bem a 5.895 metros. E se possível antes que o vizinho, o colega do escritório ou aquele casal insuportável que já fez Machu Picchu, num pacote turístico de agência de viagens, publique a fotografia primeiro.
Há evidentemente quem suba o Kilimanjaro por paixão genuína, treine durante meses, respeite a montanha, os guias e os carregadores e regresse realmente transformado. Não é desses que falo. Falo daquilo em que conseguimos transformar todas as coisas belas assim que descobrimos que conferem estatuto: uma moda, um uniforme, uma tribo e finalmente um pack premium. A aventura transformada em acessório de classe.
Ontem era a Comporta. Hoje é o Kilimanjaro. Amanhã talvez seja a Antártida, desde que haja Wi-Fi, catering sem glúten e alguém que leve as malas.
A humanidade, afinal, não mudou assim tanto. Continuamos a subir montanhas porque elas estão lá. Só acrescentámos uma razão muito século XXI: porque os outros também estão no Instagram.
Os milhões de argentinos endividados: 'Não tentamos mais refinanciar porque é impagável'
"Você veio devido à questão da dívida?", perguntou ela, com naturalidade. "Sim", respondeu ele.
Ambos estavam ali para falar de um problema hoje bastante comum na Argentina.
Segundo os números do Banco Central do país e de consultorias locais, mais de 20 milhões de cidadãos estão endividados e cerca de 6 milhões estão em mora, ou seja, com seus pagamentos em atraso ou simplesmente inadimplentes.
Em um país com pouco mais de 46 milhões de habitantes, um a cada três argentinos enfrenta problemas para liquidar a dívida adquirida com bancos, carteiras digitais, lojas de eletrodomésticos ou agiotas, como aponta a consultoria Analytica.
No mesmo dia da entrevista de Yaynes e Venencio à emissora de rádio, em 20 de agosto, ocorreu na capital argentina, Buenos Aires, a primeira marcha de cidadãos endividados. Eles reivindicaram mecanismos para refinanciar suas dívidas e protestaram contra a decisão de não intervir na crise, que tem marcado o governo do presidente Javier Milei.
Funcionários do governo argentino definiram esta situação como "uma questão entre entes privados".
Milei atribuiu o aumento do número de endividados ao auge da compra de televisores para a Copa do Mundo de Futebol. Ele chegou até a perguntar, durante entrevista ao jornal argentino La Nación, se alguém havia colocado "uma pistola na cabeça" dos devedores para que eles se endividassem.
A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) entrou em contato com a Presidência argentina, pedindo comentários sobre a declaração do mandatário do país, mas não houve resposta até o momento da publicação desta reportagem.
Yaynes comemorou a vitória de Milei na última eleição presidencial argentina, quase três anos atrás. Agora, ela afirma que ouvir este tipo de raciocínio parece surreal.
"Eles não podem pensar que alguém tenha se endividado por capricho", declarou ela, de Buenos Aires. "Tipo 'eu estava entediada e achei que o melhor para a minha vida seria me endividar'. Este menosprezo é muito triste e degradante."
Yaynes e seu marido estão pagando quatro empréstimos.
"Não fiz os cálculos exatos, mas, antes do quarto empréstimo, eu calculava que devia cerca de 10 milhões de pesos (US$ 6.620, cerca de R$ 34,1 mil)".
"Se você não conseguir sanear as dívidas e quiser pagar, precisará contratar crédito", explica Venencio. Ele não votou em Milei, nem no seu adversário peronista, Sergio Massa, na última eleição presidencial.
"O governo faz isso quando vai ao FMI [Fundo Monetário Internacional]. Por que nós, da microeconomia, não vamos fazer?"
Ele e sua esposa devem hoje a bancos e a familiares.
"Entre os dois cartões do meu banco, devo 10 milhões de pesos [US$ 6.620, cerca de R$ 34,1 mil] em cada um", ele conta.
"Nos dois cartões da minha mulher no banco dela, devemos 8 milhões [US$ 5.295, cerca de R$ 27,3 mil] em um e 9 milhões [US$ 5.957, cerca de R$ 30,7 mil], no outro."
Venencio se lembra perfeitamente do dia em que tudo começou a sair de controle: 9 de fevereiro de 2025.
Até então, ele e sua esposa trabalhavam como assalariados e ele ainda tinha outra renda, como motorista de aplicativo. Com esta renda adicional, eles conseguiram, por exemplo, tirar as férias no Brasil que haviam planejado para fevereiro.
Mas, assim que chegaram ao território brasileiro, com sua "família misturada" (cada um com seu filho), ele ficou sabendo que seu sogro havia morrido.
"Tiramos, então, passagens para minha mulher e o filho dela poderem voltar", ele conta. "Foi um gasto que não havíamos planejado e, obviamente, saiu do cartão."
"Depois, minha esposa perdeu uma gravidez em março e isso, aliado à perda do seu pai, fez com que ela tirasse licença psiquiátrica no seu trabalho", conta Venencio, de Buenos Aires, para a BBC.
Em agosto de 2025, o carro que ele usava para obter renda adicional pegou fogo. O seguro pagou apenas a metade dos gastos e ele precisou se endividar mais para fazer o conserto. Paralelamente, a renda do aplicativo era cada vez menor.
"Muitas pessoas do país foram ficando sem trabalho e começaram a trabalhar com o carro", explica ele.
"Para dar uma ideia, quando comecei, em 2021, eu ganhava cerca de 1,8 milhão de pesos [US$ 1.191, cerca de R$ 6,1 mil] trabalhando meio período. Em alguns meses, já estava faturando menos de um milhão [US$ 660, cerca de R$ 3,4 mil]. E o aluguel do apartamento, a luz e o gás continuavam subindo."
Em novembro, Venencio entrou em depressão. Em seguida, ele e sua mulher ficaram sem trabalho.
A esposa conseguiu recentemente um novo emprego e ele, agora, dirige seu carro entre 10 e 12 horas por dia para poder pagar os gastos mínimos da família, mas não sobra dinheiro para a dívida.
"Quando você começa a olhar os juros, aquilo se tornou totalmente impagável. Não tentamos mais negociar refinanciamento porque não podemos pagar."
O diretor do Centro de Economia Política Argentina (Cepa), Hernán Letcher, elaborou um relatório sobre o endividamento no país. Para ele, o número de 20 milhões de pessoas endividadas não é o dado mais preocupante.
"Veja bem, se vou comer hoje à noite e pago com cartão, entre o momento do jantar e o pagamento, estou endividado", explica ele.
"Para mim, o problema são os seis milhões de pessoas em mora, ou seja, que têm 90 dias de atraso no pagamento da sua dívida."
Para agravar a situação, segundo Letcher, 55% dos quase seis milhões (cerca de 3,5 milhões de pessoas) detêm dívidas que, tecnicamente, são consideradas irrecuperáveis, como as de Venencio, que as chama de impagáveis.
O outro fator que deve ser considerado é o motivo que leva as pessoas a se endividarem.
Letcher destaca que, se alguém pede crédito para comprar um telefone celular, isso é positivo para a economia. Mas, se o empréstimo for para pagar as refeições do dia ou os serviços básicos, a situação é oposta.
"Conversei com diversos presidentes de bancos que me confirmaram que cerca de 90% do atraso de pagamento de cartões de crédito são compras de supermercado — basicamente, alimentos", segundo ele.
Na sua opinião, o alto número de devedores em atraso é consequência da queda da renda dos lares argentinos, que foi compensada pelo endividamento.
"Veja, estou na cidade de Buenos Aires", explica Letcher. "Aqui, o metrô aumentou 2000%; o trem, 1800%; e os serviços, 850%. Mas os salários subiram 300%."
"E estou falando de gastos que as pessoas precisam pagar sem terem opção, pois elas não podem deixar de pegar o transporte."
"Então, quando faço uma dívida para pagar a luz, no mês seguinte preciso pagar a luz outra vez e ainda tenho a dívida", destaca ele.
Eliana Yaynes não se lembra de um dia específico em que tudo saiu de controle. Seu processo foi mais gradual.
No início de 2025, ela trabalhava como responsável por uma loja de decoração e revestimento. Mas, em busca de um salário melhor, ela conseguiu emprego no setor de vendas, em um atacadista.
"O problema é que, quando comecei no meu novo emprego, meu corpo não respondeu", explica ela.
"Trabalhei em vendas até completar 30 anos. Eu andava, saía, ia visitar clientes. Mas, agora, com 47, o corpo cobrou a conta. Todos os dias, eu saía, tentava e morria tentando, até que saí de lá."
Paralelamente, seu marido trabalhava há anos como motorista de aplicativos. Ele viu sua renda ser reduzida, devido à quantidade de pessoas que também começaram a trabalhar atrás do volante.
"Essa superpopulação fez com que, obviamente, nossa renda diminuísse muito", prossegue ela.
"E, comigo sem trabalho, começamos a fazer pagamentos com cartão que, antes, não fazíamos, como os gastos do carro: combustível, peças de reposição, trocas de óleo e filtros."
O cartão que eles usavam era o adicional do cartão do pai de Yaynes. E, com a falta de dinheiro, a única ferramenta que eles tinham para pagar era uma carteira digital.
"O que fazíamos era tentar financiar tudo em parcelas", ela conta.
"Mas, em algum ponto, era uma espécie de mentira imaginar que, parcelando, as parcelas são pequenas. Depois, por menores que sejam, se forem muitas, aquilo se torna uma bola de neve."
Em janeiro deste ano, Yaynes foi diagnosticada com câncer de mama, que ela atribui, em parte, à angústia pelas finanças familiares. E a doença a surpreendeu sem plano de saúde privado.
"Em outubro do ano passado, devido às complicações financeiras, deixamos de pagar a mensalidade do plano de saúde", explica ela. "Mas, agora, isso volta a ser prioridade e precisamos colocar estes pagamentos mais ou menos em dia."
"Por isso, todos os meses, pagamos a mensalidade mais antiga que devemos, pois não temos dinheiro para colocar toda a dívida em dia."
A Central Geral de Trabalhadores da Argentina (CGT) organizou a manifestação de 20 de agosto, em defesa dos trabalhadores endividados. Mas também participaram grupos como os Endividadxs Organizadxs, formados pela aproximação espontânea de pessoas com dívidas.
Fernando Moyano é um dos três porta-vozes deste grupo. Ele contou que tudo começou com uma dívida que ele não conseguia liquidar.
Moyano pensava que aquilo "era um fracasso pessoal meu, pura e simplesmente". Até que começou a entrar em contato com outras pessoas na mesma situação.
Nos seus contatos com pessoas endividadas, ele encontrou desde jovens que não conseguem um trabalho formal com salário decente até aposentados que perderam o acesso a certos remédios no serviço público de saúde e se endividaram para pagar pelos medicamentos.
Ele também conversou com pessoas que se endividaram com apostas esportivas, cassinos digitais e jogos no celular.
"A questão do instantâneo, que permite, por exemplo, sacar um crédito em minutos no seu telefone para uma carteira digital, traz problemas similares aos do jogo", explica Moyano.
"As pessoas tentam a sorte porque acham que isso não irá mudar muito sua situação financeira, até que chegam as dívidas de jogo e, com elas, a culpa e a vergonha."
A principal reivindicação do grupo Endividadxs Organizadxs é uma declaração nacional de emergência de crédito, que reconheça oficialmente a existência da crise e leve à tomada de medidas para combatê-la, como a regulamentação dos juros que podem ser cobrados dos devedores.
Moyano não espera uma reação positiva por parte do governo Milei, mas aposta nos projetos de lei apresentados por diversas bancadas no Congresso argentino.
Hernán Letcherz, do Cepa, explica que os bancos, depois de 180 dias de atraso, podem renegociar a dívida com o cliente, não emprestar mais dinheiro enquanto a dívida não for paga ou vender a carteira para uma agência de cobrança terceirizada.
Quando a pessoa não pode mais recorrer ao banco, sua outra alternativa, além dos familiares e amigos, é pedir emprestado a uma carteira digital ou fintech. Estas empresas fazem uso das inovações digitais para oferecer serviços financeiros rápidos, fáceis e acessíveis.
"É muito fácil obter crédito nestes aplicativos", explica Letcher.
"Abro o aplicativo, aperto um botão e tenho o dinheiro na minha conta. Depois, preciso pagar. Acredito que esta facilidade também ajudou a aumentar o nível de endividamento."
O diretor da consultoria Analytica, Claudio Caprarulo, destaca que a adoção das carteiras digitais se consolidou na Argentina durante a pandemia.
Estes fornecedores de serviços financeiros digitais se dedicaram, desde o princípio, ao setor informal em crescimento: trabalhadores sem contrato de trabalho seguro, direitos trabalhistas, previdência social e representação sindical.
"A Argentina tem um problema de informalidade muito grande e o que as fintechs fazem é se dirigir a este público", explica Caprarulo.
"Elas dizem aos bancos 'vou emprestar a alguém a quem você não empresta' e chamam isso de 'inclusão financeira'."
Os níveis de atraso de pagamento dos devedores das carteiras digitais costumam ser mais altos que os dos bancos. E, como as entidades bancárias, as fintechs podem vender estas carteiras de devedores a empresas que se dedicam exclusivamente à sua cobrança.
Estas empresas, segundo Letcher, podem telefonar para a pessoa endividada a qualquer momento e até divulgar sua condição de devedor.
"É muito traumático, conheço muitos casos em que telefonaram para a empresa da pessoa dizendo que ela estava endividada", ele conta.
O terceiro passo da precarização do endividamento, depois de não poder solicitar crédito ao banco, nem a uma carteira digital, é pedir dinheiro para agiotas, a taxas de juros totalmente desregulamentadas.
A forma de cobrança pode fazer com que alguém entre na casa da pessoa em atraso para levar os móveis da cozinha ou o televisor, explica Letcher.
O secretário de Segurança da província de Buenos Aires (governada pelo peronismo), Javier Alonso, declarou à imprensa local que este tipo de cobrança vem se tornando cada vez mais violento.
"Os crimes (homicídios, tentativas de homicídio, ameaças, tiros nas pernas) causados por dívidas com criminosos, com pequenos traficantes que emprestam dinheiro, dobraram", ele afirma.
"As famílias começam pedindo um milhão de pesos [US$ 660, cerca de R$ 3,4 mil] e, em cinco meses, devem 25 milhões" (US$ 16.545, cerca de R$ 85,3 mil).
A BBC News Mundo perguntou ao porta-voz do grupo Endividadxs Organizadxs quais são os obstáculos encontrados pelas pessoas que querem pagar suas dívidas, mas não conseguem. Fernando Moyano enumerou três deles:
"As taxas de juros abusivas praticadas pelas carteiras digitais e mesmo pelos bancos; os salários, que estão congelados e defasados em relação à inflação; e as tarifas dos serviços básicos, que estão acima da inflação."
Em relação às taxas de juros, Caprarulo destaca que, embora a política fiscal do governo Milei não tenha se alterado (ela continua apostando na sua "motosserra" e no corte de gastos), a política monetária e a gestão das taxas de juros foram mais erráticas.
"Isso gerou saltos muito grandes das taxas de juros e muita volatilidade", explica ele. "Quando os atrasos de pagamento começaram a aumentar, as taxas de juros para as famílias ficaram em níveis muito altos em relação à inflação."
O diretor da Analytica indica que a taxa nominal anual (TNA) está em 70% "nos bancos que emprestam mais barato", enquanto a inflação projetada para os próximos 12 meses é de cerca de 30%.
Esta informação relativa aos bancos é mais precisa que a existente sobre outras instituições, como as carteiras digitais, explica Caprarulo. O motivo é que estes serviços muitas vezes modificam suas taxas dependendo do cliente e do empréstimo a ser concedido.
"Você abre uma carteira digital no seu celular e ela dirá a você, por exemplo, que, devido ao seu registro de crédito e à sua renda, irá emprestar dinheiro a tal taxa, que pode ser melhor que a que ela irá oferecer para mim", segundo Caprarulo.
"Ao mesmo tempo, o setor das fintechs empresta por prazos muito menores. Você pode sacar um empréstimo por 10 dias e, neste caso, a taxa é diferente."
Para Lechter, "quando você passa de um banco para uma carteira, passa de um custo financeiro total [o valor total do crédito ou financiamento, incluindo as taxas de juros, os gastos de concessão, de liquidação, IVA e adicionais] de 180% para um custo financeiro total que pode chegar a 1500% e o nível de exigência na cobrança não é o mesmo."
As fintechs costumam se defender indicando que emprestam dinheiro para pessoas do setor informal, com risco maior de não conseguir pagar os empréstimos. Por isso, quanto maior o risco, maior a taxa.
A BBC entrou em contato com o Ministério da Economia da Argentina para conhecer a posição do ministro Luis Caputo sobre os níveis de endividamento do país, o papel do Estado e as taxas de juros cobradas pelas carteiras digitais.
A porta-voz do Ministério nos indicou uma entrevista coletiva do último dia 13 de agosto. Consultado sobre as taxas de juros dos serviços financeiros digitais, que oscilam entre 400% e 700%, Caputo respondeu na ocasião:
"Se estão cobrando taxas de 400% e 700%, elas obviamente são abusivas. Hoje, não há nada que os impeça de fazer isso. Esta é a realidade."
Questionado se o Estado iria intervir, o ministro reiterou que se trata de uma "questão entre entes privados".
"É preciso não confundir empatia com políticas públicas", concluiu Caputo.
A eleição do contra
Mas a eleição de 2026 apresenta um problema mais sério. O brasileirinho poderá chegar à urna não para escolher o candidato em quem confia, mas para impedir a vitória daquele que não aguenta nem ouvir o nome.
É a eleição do contra.
A pesquisa Quaest de agosto mostrou um retrato impressionante: Flávio Bolsonaro era rejeitado por 54% dos entrevistados; Lula, por 52%. Ou seja, os dois principais concorrentes despertavam mais resistência do que confiança em boa parte do eleitorado. É melhor votar no Drácula! Assim, elegeríamos um rejeitado por 101% dos eleitores. Ou não?
Outra pesquisa, do BTG/Nexus, divulgada em 24 de agosto, mostrou Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 37% no primeiro turno. Num eventual segundo turno, surgiam praticamente amarrados: 46% a 45%. Eu quero acreditar, mas sou um brasileirinho moído pelas pesquisas.
A fotografia é curiosa. Dois candidatos fortíssimos para chegar ao segundo turno e, ao mesmo tempo, rejeitados por aproximadamente metade do país. Assim está o Brasil. A metade é muito ruim e a outra metade é péssima. Será Drácula x Hitler.
O trabalhador quer saber por que o salário acaba antes do fim mês. O comerciante quer crédito mais barato. O jovem quer o primeiro emprego ou a primeira bolsa-voto. A família quer segurança. O aposentado precisa de atendimento médico. O empresário quer estabilidade para investir. E a Amazônia deseja descobrir se continuará aparecendo apenas em discursos internacionais ou se finalmente será incluída num projeto nacional de desenvolvimento. E o risonho Paraguai…comemora.
Todavia, a campanha prefere o terreno das emoções. É mais fácil produzir indignação do que apresentar uma planilha. É mais rápido atacar o adversário do que explicar uma reforma. E rende muito mais curtidas anunciar que o outro destruirá o Brasil do que revelar como serão pagos os bilhões prometidos no palanque.
A pergunta que deveria perseguir todos os candidatos é pequena, simples e devastadora:
Como?
Vai reduzir os impostos? Como?
Vai aumentar os investimentos em saúde e educação? Como?
Vai baixar os juros, equilibrar as contas públicas e ainda ampliar os programas sociais? Como?
Vai combater o crime organizado, que movimenta fortunas e já ocupa territórios? Como?
Vai desenvolver a Amazônia sem transformá-la nem em santuário intocável nem em terra arrasada? Como?
O simpático “como” é o detector de mentiras da política. A promessa encanta; o “como” obriga o candidato a apresentar dinheiro, prazo, equipe, pesquisa, inteligência, honradez, prioridades e capacidade de negociação.
Presidente também não governa por decreto celestial. Precisa do Congresso, dos governadores, do orçamento e de uma equipe competente. Portanto, o eleitor deveria perguntar não somente quem vencerá a eleição, mas quem terá condições de governar um país, como o Brasil, no dia seguinte. O Brasil, de hoje, deseja mostrar ao mundo, a vitória do modelo cubano: 6.800.000 brasileiros trabalham para 10.236.932 viverem de bolsa família. Há mais brasileirinhos dizendo que a conta é muito maior. As Guianas também estão adorando as fábricas brasileiras chegando.
A democracia perde qualidade quando o voto deixa de ser uma esperança e se transforma apenas numa vingança. Quem vota exclusivamente para derrotar o inimigo entrega ao adversário o poder de decidir a sua escolha. O eleitor pensa que está mandando, mas está apenas reagindo.
O Brasil não precisa de uma campanha silenciosa, sem confronto dos principais candidatos ou diferenças. Democracia exige debate, comparação e até alguma acidez. Até 4 de outubro, os candidatos dirão muitas vezes quem ameaça o Brasil. Está na hora de cada um explicar qual Brasil pretende construir: o chinês, o cubano ou o americano.
Democracia não é escolher quem odiamos menos. É escolher quem sabe o que fazer, demonstra como fará e revela quanto custará.
Os brasileirinhos precisam sair dessa eleição do contra e voltar a votar a favor de alguma coisa que valha a pena.
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Colapso climático que levou à "Odisseia" pode se repetir
Com exceção dos monstros, esse é um mundo baseado na realidade. A Odisseia – uma história de sobrevivência num contexto pós-Guerra de Tróia – se passa durante o colapso da civilização na Idade do Bronze.
De acordo com um novo estudo, essa situação de crise foi causada por uma grave mudança climática. Na pesquisa, os autores alertam sobre "implicações para o futuro".
Os cientistas já sabem há muito tempo da existência de seca misteriosa e severa que ocorreu há mais de 3 mil anos, coincidindo com a desintegração de reinos e estados em toda a região do Mediterrâneo.
Mas a pesquisa publicada no mês passado lança luz sobre a possível causa dessa crise. De acordo com o estudo, uma tendência lenta de ressecamento, combinada com um ciclo natural mais rápido de clima seco, acabou se sobrepondo e intensificando o fenômeno.
No final da Idade do Bronze, o sistema de monções da África Ocidental já vinha se reduzindo havia milhares de anos, transformando um Saara verde em deserto. Menos chuvas na África significaram menos chuvas no Mediterrâneo.
Essa tendência se intensificou quando a região passou por um período de seca causado por ciclos climáticos naturais do Atlântico, que fazem com que a região oscile entre períodos úmidos e de estiagem que duram décadas.
Katherine Power, pesquisadora da Universidade de Estocolmo que liderou o estudo, afirma que as condições ambientais da época poderiam explicar a migração em massa e os conflitos da era da Odisséia.
Há décadas, os estudiosos vêm especulando sobre a razão por trás desse movimento em grande escala durante o período — também conhecido como a era dos "Povos do Mar".
Arqueólogos argumentam que as mudanças climáticas poderiam ajudar a explicar a migração e o colapso político no final da Idade do Bronze. Agora, as novas descobertas acrescentam mais peças a esse quebra-cabeça.
"Não sabemos necessariamente por que essas pessoas se deslocaram", diz Power. "Mas se pudermos dizer que o clima estava ficando cada vez mais difícil para a sobrevivência, essa poderia ser uma possível causa."
Uma "tempestade perfeita"
Essa situação, afirma a pesquisadora da Universidade de Estocolmo, é relevante para os dias de hoje. Os principais rios da Europa estão com níveis recordes de baixa, e a estiagem está criando condições para incêndios florestais devastadores, além de causar perdas históricas nas colheitas. A França, por exemplo, enfrenta a menor safra de milho em 50 anos.
Os mesmos ciclos de umidade e seca provenientes do Atlântico ainda existem, mas agora ocorrem no contexto de um mundo que está se aquecendo como resultado da queima de petróleo, gás e carvão pelos seres humanos.
"Acho que isso é ainda mais alarmante e representa uma ameaça ainda maior", argumenta Power.
Eric H. Cline, arqueólogo da Universidade George Washington, autor de um livro sobre as origens da crise da Idade do Bronze, acrescenta que a seca e as doenças fizeram parte da "tempestade perfeita de calamidades" que levou ao colapso da sociedade naquela época.
Ele vê paralelos entre a crise na Idade do Bronze e o contexto atual. Cline diz que "devemos ficar muito preocupados" com a possibilidade de que as mudanças climáticas se tornem um fator de estresse para o colapso da civilização. "Esse temor não é nada exagerado."
Mas o arqueólogo afirma que, nos momentos mais otimistas, acredita que a humanidade vai "cair em si e evitar essa possibilidade em algum momento".
A pesquisa de Power buscou desvendar os padrões por trás dos eventos isolados de seca na Idade do Bronze.
Foram examinados esporos de plantas, núcleos de gelo, rochas de cavernas e outros registros naturais que indicavam a ocorrência de estiagem. Em seguida, a pesquisadora e a coautora, a paleoclimatologista Qiong Zhang, também da Universidade de Estocolmo, recorreram à modelagem para obter uma visão mais ampla do contexto geral da época.
O modelo analisou todo o planeta, sobreposto por uma grade em que cada célula abrangia uma área de aproximadamente 125 quilômetros quadrados. Um supercomputador calculou então as condições em cada uma dessas células, para cada mês, ao longo de milhares de anos. Isso permitiu que as cientistas analisassem toda a região do Mediterrâneo.
"Não estamos limitados a apenas um núcleo ou uma caverna", disse Power. "Podemos enxergar mais longe e construir um panorama completo."
O que as pesquisadoras descobriram não foi um único evento que alterou o clima de forma dramática e repentina. Em vez disso, ciclos mais curtos de umidade e seca se alinharam a uma tendência mais longa de aquecimento.
"Quando procuramos conexões entre as mudanças climáticas e as mudanças na civilização, muitas vezes estamos à procura daquele evento grande, gigantesco, abrupto e catastrófico", aponta Power, acrescentando que são mudanças lentas e graduais que levam uma sociedade a "ultrapassar um limiar".
Segundo a pesquisadora, poderia ter sido uma queda constante no abastecimento de água que levou a um declínio gradual nas colheitas, o que fez pessoas migrarem, desencadeando conflitos.
"Não é preciso muito para empurrar uma sociedade para além do limite com o qual ela se sente confortável", diz Power. "E se você acrescentar mais algum fator à equação? Talvez isso a empurre um pouco mais adiante, e você não consiga se recuperar totalmente disso."
Maggie Quinlan
Fome por 'lama'
A metáfora é tão apropriada que parece quase improvisada: os ingredientes sintéticos são concebidos para estimular as papilas gustativas, mas carecem de fibras, vitaminas, proteínas ou aminoácidos essenciais. Quanto mais se come, mais fome se sente. Essa insatisfação, que já deveria ser motivo suficiente para evitar o alimento, é, no entanto, o segredo do seu sucesso. Na década de 1990, um psicólogo chamado Patrick Carnes deu a esse estranho fenômeno um nome : vínculo traumático .
O vínculo traumático explica por que tantas pessoas permanecem presas em relacionamentos exploradores ou abusivos. É difícil de entender porque a explicação desafia o senso comum: elas não agem assim apesar do abuso, mas precisamente por causa dele. Elas retornam ao abusador repetidamente, como alguém que volta a uma máquina caça-níqueis que engole todas as suas moedas, na esperança de que desta vez sua lealdade seja recompensada com um momento de afeto. O aspecto perverso do sistema é que a máquina funciona melhor quando começa a distribuir menos prêmios, e os que distribui são cada vez piores, porque o processo degrada tanto os padrões da pessoa que, quando um alívio temporário chega, ela o recebe com a intensidade mística de uma aparição mariana. Elas transformam um gesto cotidiano, como lembrar um aniversário, em prova de um amor transcendente.
Em 2019, publiquei um livro que começava descrevendo o mesmo fenômeno, mas com foco nas redes sociais, não na IA . Naquela época, a máquina ainda distribuía prêmios. Havia algumas coisas muito interessantes que só existiam no Twitter, Instagram ou TikTok, mas o padrão de abuso já era evidente. Sabíamos que seus algoritmos opacos eram projetados para explorar a privacidade dos usuários, maximizando o tempo de interação. À medida que as plataformas se tornaram monetizadas, dois tipos de conteúdo floresceram: aqueles capazes de gerar o máximo de interação com o mínimo de orçamento e aqueles criados por agentes oportunistas para manipular a população.
A mediocridade é o resultado final desse processo: conteúdo curto, repetitivo, derivado e fragmentado, produzido em larga escala, otimizado para viralizar em questão de horas e, nos piores casos, explorar a instabilidade política e se aproveitar da nossa vulnerabilidade emocional. E isso corrói nossa capacidade de apreciar outras coisas que exigem investimento financeiro e esforço, como jornalismo ou literatura. Relacionamentos saudáveis são tediosos e demandam algo mais difícil do que submissão.
Como disse Jung, aquilo que permanece inconsciente tende a nos guiar, por isso vale a pena entender seu estranho mecanismo: não nos captura apesar de sua estupidez, mas precisamente por causa dela. Nos deixa tão famintos que nos força a comer mais. E essa dieta nos degrada até que não saibamos mais como comer outra coisa. É por isso que se chama degeneração cerebral.
Deforma eleitoral beneficiou sigla ligada à Universal
Agora, um estudo sugere que essa mudança produziu um efeito inesperado: esses limites mais rígidos de gastos deram vantagem ao Republicanos, partido historicamente ligado à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
Segundo os pesquisadores, a vantagem está relacionada à estrutura da Universal e que reflete no Republicanos: presença territorial, capacidade de mobilização e uma organização altamente centralizada - em um momento em que os demais partidos têm menos acesso ao montante para realizar campanhas.
"A igreja é uma maneira de se mobilizar fora do seio dos partidos políticos. Ela é muito influente e, além de tudo, não precisa de financiamento eleitoral, dado que é um tipo de organização que não precisa se preocupar em atrair recursos para as eleições”, afirma Lucas Novaes, professor de Ciência Política do Insper e um dos autores da pesquisa Special Interest Trade-Offs: Campaign Finance Reforms and Religious Influence in Politics in Brazil ("Compromissos entre interesses especiais: reformas no financiamento de campanhas eleitorais e influência religiosa na política brasileira") ao lado de Melani Cammett, de Harvard, e Guadalupe Tuñón, de Princeton.
A mudança começou a valer nas eleições municipais de 2016. Os gastos de campanha passaram a ter limites definidos por lei, calculados a partir do que havia sido desembolsado na eleição anterior.
Mas a regra estabeleceu um ponto de corte: municípios cujo maior gasto em 2012 ficou abaixo de determinado valor receberam um teto fixo em 2016, enquanto aqueles logo acima do corte tiveram um limite proporcionalmente maior. Isso fez com que cidades com gastos muito semelhantes em uma eleição fossem submetidos a tetos diferentes quatro anos depois, criando o que os pesquisadores classificam como um experimento natural.
Na prática, municípios situados imediatamente abaixo do corte ficaram sujeitos a um teto de R$ 108.039, enquanto, logo acima dele, o limite saltava para R$ 133.700, valores já corrigidos pela inflação entre 2012 e 2016. A diferença permitiu comparar cidades semelhantes, mas sujeitas a restrições distintas, e estimar o efeito de campanhas com menos dinheiro disponível.
Assim, candidatos de um grupo tiveram uma restrição maior de recursos, enquanto os do outro puderam gastar mais. Isso permitiu comparar os dois grupos e estimar o efeito provocado especificamente por uma campanha com menos dinheiro disponível, mostra o estudo.
"Nesses municípios [com maior restrição], os candidatos do Republicanos, por poderem contar com o auxílio das igrejas para a mobilização eleitoral, têm mais incentivos para concorrer. A competição se torna mais favorável porque candidatos de outros partidos não podem gastar tanto com mecanismos tradicionais de campanha, como a contratação de cabos eleitorais”, diz Lucas.
A vantagem identificada pelos pesquisadores está ligada a uma relação entre igreja e partido que vai muito além do apoio a determinadas candidaturas. De acordo com Maria das Dores Campos Machado, professora aposentada da UFRJ e pesquisadora de religião e política, o Republicanos funciona como braço político da Igreja Universal, servindo tanto para lançar candidaturas aos poderes Legislativo e Executivo nos estados e municípios quanto para ampliar a influência da igreja junto ao governo federal.
"Em algumas regiões os escritórios de campanha dos candidatos da IURD ficam em edifícios pertencentes à Igreja ou em área anexa ao templo. As fronteiras entre a religião e a política são muito fluídas e porosas", afirma. "Os recursos são de várias naturezas: os cultos são momentos importantes para apresentar ou defender candidaturas; usa-se também as gráficas para a produção de material de divulgação; uso de pessoal, obreiros e obreiras para convencer o eleitor nas ruas; uso da mídia religiosa, etc."
A proximidade entre igreja e partido também é percebida na forma de organização das duas instituições. Segundo Claudia Cerqueira, cientista política e pesquisadora da relação entre a Igreja Universal e o Republicanos, ambas são estruturadas de cima para baixo, em uma relação que ela classifica como quase corporativa.
Na avaliação da pesquisadora, a atuação dos candidatos do Republicanos é orientada mais por questões econômicas e de poder do que propriamente religiosas. As pautas de moral e costumes teriam uma presença mais reativa, enquanto temas econômicos aparecem de forma recorrente na atuação política de seus representantes.
"E isso tem muita relação com o tipo de candidaturas que a igreja tenta emplacar. Tem um termo de 'candidatura corporativa', ou seja, quem concorre pela IURD não é simplesmente um candidato pastor, ele é um cara que representa os interesses da igreja. Por isso acabaram incorporando todas essas atividades que são necessariamente já pautadas pelo partido e igreja", afirma.
Segundo a pesquisa, a maneira centralizada de gestão também fortalece o controle do Republicanos sobre seus quadros, facilitando sua permanência no partido e sua mobilização em outras campanhas e pautas partidárias. "Se a Igreja vira um ativo político e é centralizada, se esse político migrar de partido, ele não vai conseguir levar consigo a organização da Igreja e os benefícios que a Igreja traz para a sua carreira política", conta Lucas Novaes.
Essa centralização também diferencia o Republicanos de outros partidos historicamente ligados a igrejas evangélicas brasileiras. Um dos exemplos citados no estudo é o Partido Social Cristão (PSC), que manteve uma relação com a Assembleia de Deus e, em 2023 foi incorporado pelo Podemos.
"A Igreja Assembleia de Deus é fragmentada e não tem o mesmo modelo de governo e atuação que a IURD. Embora as duas igrejas trabalhem na formação de lideranças para a política partidária, a IURD é uma igreja bem vertical, com uma orientação centralizada e uma grande capacidade de controle sobre seus quadros políticos”, afirma Maria das Dores Campos Machado.
Na prática, a vantagem proporcionada pela estrutura da Universal se refletiu também na estratégia eleitoral do Republicanos. Segundo o estudo, o partido passou não só a vencer mais, como também a lançar mais candidatos nos municípios submetidos aos limites mais rígidos de gastos.
"A gente vê, através disso, que, de fato, aumentaram muito as candidaturas do Republicanos nesses municípios tratados e, além disso, aumentou a quantidade de candidatos eleitos do Republicanos nesses municípios, em comparação aos municípios de controle, que são aqueles onde se pode gastar mais", diz Lucas.
Os resultados também foram influenciados desde o início da nova regra. Nos municípios em que os locais de votação estavam mais próximos dos templos da Igreja Universal, os limites mais rígidos aumentaram a vantagem eleitoral do Republicanos; nos municípios em que essa distância era maior, esse efeito não foi identificado. "Nas seções eleitorais mais perto de igrejas, a gente vê também que o apoio cresce ainda mais para o Republicanos”, afirma o pesquisador.
O estudo encontrou ainda um movimento posterior à eleição de 2016: a Universal passou a abrir novas unidades de forma desproporcional nos municípios submetidos aos limites mais rígidos. Até a eleição seguinte, a diferença acumulada chegava perto de um templo adicional nesses locais.
Apesar de o foco do estudo ser nas eleições municipais e seus desdobramentos, para Novaes, porém, a lógica identificada pelo estudo continua relevante para entender como uma base religiosa organizada nos municípios pode se projetar para outras esferas de poder.
"Dentro do que a gente mostra aqui, diminuir o poder econômico teve esse efeito e esse mecanismo é válido. A gente vê que a bancada evangélica continua forte e acho que esse reforço na base municipal provavelmente reflete também em um maior apoio para candidatos do Congresso, que eventualmente conseguem fazer leis ou influenciar o processo legislativo de acordo com as preferências dessa base local", afirma.
Ao mesmo tempo, o crescimento do Republicanos para além de candidaturas diretamente vinculadas à Universal abre frentes que podem ir além das pautas tradicionais do partido. Um exemplo é São Paulo, governado por Tarcísio de Freitas, que se filiou ao Republicanos em 2022 e não construiu sua trajetória política dentro da IURD.
Para a pesquisadora, quanto mais o Republicanos busca ocupar espaço no sistema político e incorporar lideranças de outras origens, maior pode ser a necessidade de acomodar interesses. "Talvez a IURD tenha que abrir mão de muita coisa para crescer e se tornar um player tão importante em um sistema tão fragmentado", conclui.
Procuradas, a IURD, o Republicanos, a Assembleia de Deus e o Podemos não responderam aos questionamentos da reportagem.
Trump quer ampliar produção de petróleo na Venezuela com garantias pára empresas dos EUA
A Venezuela tem 303 bilhões de barris, mas produz só 1,25 milhão por dia, menos da metade do que antes de duas décadas e meia de destruição de valor e sucateamento sob o regime chavista. O risco de confiscos de pagamentos por credores e desapropriação de ativos por um futuro governo venezuelano tem afugentado as petroleiras americanas. É o que o governo Trump tenta endereçar.
O programa protege as receitas das vendas de petróleo venezuelano nos EUA contra credores. O novo governo apoiado por Washington alterou a legislação para dar mais autonomia às empresas privadas, reduzindo o controle da estatal PDVSA.
Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre campos para companhias americanas. Donald Trump diz que o arranjo assegura “controle majoritário” dos EUA sobre mais de 65 bilhões de barris. É uma definição política, não jurídica: o petróleo continua venezuelano.
A Chevron já se prepara para ampliar suas operações. A SLB, maior empresa de serviços e tecnologia para a indústria de petróleo do mundo, moderniza os precários bancos de dados geológicos da PDVSA.
Mas Exxon e ConocoPhillips, expropriadas por Hugo Chávez, continuam ressabiadas. A Venezuela ainda precisa provar que contratos assinados hoje sobreviverão ao próximo governo e que tribunais, câmbio e regras de propriedade serão previsíveis.
A guerra com o Irã deu nova relevância à estratégia. O petróleo venezuelano é pesado, justamente o tipo para o qual muitas refinarias da Costa do Golfo americano foram projetadas. Durante décadas, elas receberam grandes volumes da Venezuela e, depois das sanções, passaram a buscar alternativas, como petróleo pesado do Oriente Médio. A retirada do mercado desse óleo iraniano eleva a competição por outros óleos do mesmo tipo no Golfo Pérsico.
O plano tem boas chances de produzir aumento inicial da oferta para 1,5 milhão ou 1,7 milhão de barris por dia. Chegar novamente perto de 3 milhões é mais difícil. Exigiria dezenas de bilhões de dólares, infraestrutura e anos de estabilidade jurídica.
Trump tenta exercer poder com política energética: retirar petróleo da órbita da China e trazê-lo para a matriz energética americana. O maior risco está na abordagem. Quanto mais o acordo parecer uma nova forma de colonialismo, maior a contestação futura de sua legitimidade na Venezuela.
O silêncio de Flávio Bolsonaro e a miragem autoritária de El Salvador
Em entrevista, ontem à noite, à TV Record, Flávio Bolsonaro voltou a repetir que nada houve de errado com o financiamento do filme “Dark Horse” por Daniel Vorcaro, o dono do extinto Banco Master e o protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil. Disse estar tranquilo e negou que o caso tenha envolvido dinheiro público. Vorcaro está preso e ainda não foi julgado, se é que um dia será. Sua vertiginosa ascensão à condição de um dos homens mais ricos do país deveu-se a favores regiamente pagos por ele a figuras públicas em troca de investimentos em seu banco. Trata-se de dinheiro pago pelos contribuintes por meio de impostos; dinheiro desviado.
Flávio considera que a discussão em torno do assunto “é página virada”. Esquece que prometera esclarecer em 30 dias tudo o que fosse preciso para que não restassem mais dúvidas a respeito. Mas já se passaram 100 dias desde então e ele julga que isso não é mais necessário. Aos insatisfeitos, cabe esperar uma decisão da Justiça.
Nada há de estranho no comportamento de Flávio. Primeiro, porque já recuperou os percentuais de voto perdidos nas pesquisas eleitorais. Segundo, porque qualquer coisa que fale só lhe causará prejuízos. Terceiro, porque os jornalistas que o interrogam, na maioria das vezes, se contentam com o que ele fala, desde que fale. A esse tipo de entrevista, o mais corrente, dá-se o nome de “quebra-queixo”. O jornalista quebra o seu ao perguntar, o entrevistado ao responder. E acaba ficando tudo por isso mesmo. A cada um, a sua missão. A do entrevistador, cumprir sua pauta, ou a que lhe deram. A do entrevistado, enganar o distinto público. Bola pra frente.
Na manhã de ontem, em um hotel no centro de São Paulo, Flávio reuniu-se com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Nayib Bukele, de El Salvador, a meca dos candidatos da extrema-direita à Presidência dos seus países na América Latina. Em El Salvador, bandido bom é bandido morto. De acordo com Flávio, Bukele e Villatoro foram responsáveis por “implementar um dos maiores e mais eficazes resgates de soberania e devolver a segurança pública para o povo deles, o povo salvadorenho”. Aqui, acrescentou Flávio, “tem pouco preso. Tinha que ter mais, só não tem mais porque a legislação é frouxa”.
Que nada. A população carcerária no Brasil é de cerca de 965 mil pessoas, segundo o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. É a terceira maior do mundo e cresce a uma taxa média de 3,3% ao ano desde o início da década. Há superlotação em 28% dos presídios. El Salvador tem 6,4 milhões de habitantes, dos quais 100 mil estão presos. El Salvador vive um regime de exceção permanente, aprovado pelo Congresso, que suspendeu garantias constitucionais como o direito de defesa. Presos são torturados e mortos. A Câmara Constitucional aprovou um regime de reeleição indefinida do atual governo. Donald Trump morre de inveja de Bukele. Pelo visto, Flávio também.
Brasileiro é tão bonzinho mesmo?
Kate Lyra tinha razão: brasileiro é muito bonzinho. O que nos falta quando o assunto é Nobel e Copa do Mundo (quem diria, não?) é compensado com o talento para eufemismos.
O governo (este, o de antes, o anterior àquele e por aí afora) nunca é corrupto — apenas chegado a uma maracutaia. A expressão tem um quê de brincadeira infantil, mistura de maracatu e gandaia, a doce acidez do maracujá e a domesticidade da samambaia. Roubar, fraudar, corromper são verbos fortes demais para o nosso paladar — por aqui só rola uma boquinha, uma mamata. Uma ingênua mutreta, um lúdico cambalacho.
Se o presidente esconde gastos e finge que as contas públicas estão em ordem, o crime de responsabilidade contra a lei orçamentária, feito o sapo dos contos de fadas, vira pedalada. Como essas que a gente — no caso, você, porque minha coluna não permite esses arroubos — dá pelo Aterro ou nas ciclovias. Aliás, está arraigado na fala o hábito de não assumirmos nossos atos. Não bisbilhotamos, só damos uma espiada. Nunca fugimos: damos uma escapada. Então o governo nem sequer pedala: dá uma pedalada. Mais um pouco e será só uma voltinha de velocípede.
O diminutivo — que tem menos a ver com tamanho e mais com afeto — é nosso xodó, é coisa nossa. Covid era gripezinha. Crise financeira internacional, marolinha. A tentativa desesperada de criar mais impostos e aumentar a arrecadação, para dar conta da gastança, se transformou em taxa das blusinhas. Peculato é uma palavra muito feia: o desvio de salário de assessores públicos é simplesmente uma rachadinha.
Quem achaca quando você vai estacionar é o flanelinha. O garoto que rouba a carteira ou o celular é o trombadinha. A soltura antecipada de criminosos que o sistema prisional não cuidou de recuperar — e a sociedade que se vire — é uma saidinha. A propina para o policial fazer vista grossa a alguma irregularidade é a cervejinha. Tudo assim, carinhosa e simpaticamente no diminutivo, porque somos um povo cordial e inzoneiro, pouco afeito a ficar criando caso por coisa miúda.
Há também os aumentativos, que não aumentam nada, só deixam tudo mais jocoso: mensalão, tapetão, acordão, pistolão, Centrão, Xandão.
Trapaça para burlar o teto constitucional? Não: penduricalho. Nomeação de pencas de apadrinhados em fim de mandato? Trem da alegria. Emenda aprovada de contrabando com Projeto de Lei ou Medida Provisória? Jabuti. Cargo inútil, para acomodar parentes ou aliados, com salário pago pelo Estado (ou seja, por você e por mim)? Cabide. Empréstimo de nome ou conta para ocultar o responsável por algo ilícito? Laranja. Acordo de bastidores para abafar um escândalo, arquivar um processo, deixar um culpado impune? Pizza.
Como vamos nos indignar com um simpático quelônio, um cítrico rico em vitamina C, um comboio festivo, um balangandã ou a solução milagrosa para a fome e a preguiça de fazer comida?
Um filho do atual presidente — acusado de tráfico de influência e corrupção — e um do seu antecessor — já condenado por coação — são tratados por Lulinha e Bananinha, como se fossem personagens de desenho animado da Sessão da Tarde.
Será difícil tomarmos jeito se continuarmos partidários do jeitinho. Ou nos tornarmos bons de verdade enquanto insistirmos em ser tão bonzinhos.Eduardo Affonso
domingo, 30 de agosto de 2026
A náusea no caminho das urnas
Não se trata de nojo, esse mal-estar psicológico que decorre da visão de uma sujidade, de intolerância física ou de repugnância moral frente a um comportamento execrável. Geralmente é individual, mas o nojo coletivo se manifesta em situações aberrantes, como figuras de uma antropologia negativa. Ficou gravada na memória pública a postagem despropositada pelo ex-presidente da República de um vídeo repulsivo, conhecido como "golden shower". O fato e o ato definem-se como asco, nojo absoluto.
A náusea, entretanto, não se confunde com essa abjeção. Trata-se de sensação estranha, o profundo mal-estar existencial categorizado como uma das bases do existencialismo de Sartre, descrito no romance "A Náusea" (1938). O protagonista experimenta a angústia de perceber que não há sentido predeterminado para o mundo. Do choque da existência sem essência nem finalidade, tal e qual ela aparece, advém a náusea.
Essa narrativa filosófica, que sempre trafegou no círculo das altas ideias, tem hoje correspondências com o mundo das significações correntes. Significação é o que se vive na prática de uma estrutura ou de um fenômeno, é o que torna concreto um conceito aplicado à vida. Viver uma realidade é percebê-la e lhe dar uma significação.
O problema atual é que as grandes transformações sociais acarretam mudanças em níveis diversos de consciência, com perturbações profundas nos modelos de percepção da realidade e de elaboração de significações. Algo como se as palavras estivessem anêmicas, perdendo força.
Uma das consequências é a estupidez coletiva como fenômeno das clivagens político-partidárias agravadas pela infecção neofascista, que antes era assintomática. Nesse processo, aberto à ascensão ao poder por aberrações políticas, emerge popularmente uma formação psíquica, patológica ao juízo imediato, mas de fato relacionada ao distúrbio que na Antiguidade Clássica inquietou os estoicos: a estupidez. O indivíduo não reza a um pneu de caminhão porque é louco, e sim porque é idiota ou estúpido.
Para a mentalidade antiga, estoica principalmente, a estupidez era calamidade pública por afetar o laço social, dissolvendo formas de vida comunitárias, familiares e civis. Num plano distinto da loucura, o estúpido não perde a dimensão cognitiva nem moral, mas, incapaz de vínculos construtivos, perverte significações e valores como democracia, liberdade e outros. Entre nós, isso tem se concretizado na boçalidade bolsonarista. É um fenômeno que banaliza a náusea sartreana na figura do eleitor da antidemocracia, besta quadrada da manipulação algorítmica, que vota bovinamente no pasto do nojo moral.
A insurgência do analógico
— Saber que tenho um número limitado de rolos obriga-me a olhar melhor. A escolher o que quero fotografar…
Mauro não está sozinho. Há cada vez mais fotógrafos optando pelo analógico. Muitos são jovens. Estão descobrindo as tecnologias antigas como se estas fossem revolucionárias — e são.
Porque no contexto atual, em que podemos produzir quase tudo num piscar de olhos, sem o menor esforço, uma imagem única, irrepetível, elaborada na sequência de um processo longo e difícil, seguindo rituais antigos, muito próximos da magia, é um formidável ato de resistência, um luxo, uma afirmação de autoria.
A banda paraibana Papangu foi notícia por ter gravado há poucas semanas um novo álbum, “Celestial”, num estúdio de Berlim, diretamente em fita magnética de duas polegadas. Tudo analógico, incluindo a masterização. Edição em vinil, claro.
Noutros países há outros exemplos. JP Cooper gravou “Just a few folk”, em fevereiro deste ano, em fita, sem recorrer a computadores, e com os músicos tocando juntos numa mesma sala. Cooper explicou que pretendera criar um álbum com todos os sons que um ser humano produz para que a música possa acontecer, da respiração ao deslizar dos dedos nas cordas.
Na literatura começa a desenhar-se uma onda semelhante. Conheço casos de escritores que voltaram a escrever à mão, em pequenos cadernos, num esforço para recuperar a emoção dos primeiros gestos.
Há também um número crescente de romancistas que decidem publicar nas redes sociais evidências físicas do seu labor. A Wired, revista norte-americana especializada em novas tecnologias e no impacto destas na vida política e cultural, publicou uma matéria com escritores mostrando manuscritos, pilhas de notas, cadernos cobertos de gatafunhos.
Quanto a mim, nunca deixei de tomar notas em cadernos. Escrevo e desenho nos lugares mais improváveis. A experiência ensinou-me que escrever à mão me traz a imponderável vantagem do erro. Muitas vezes, ao passar as anotações para o computador, não consigo decifrar o que eu próprio escrevi. Nesse esforço acabo descobrindo caminhos particularmente interessantes.
Escrever num computador é avançar ao longo de uma via expressa. Escrever à mão é passear ao longo de uma estradinha de terra batida, no meio do mato.
Uma escolha não exclui a outra.
A insurgência contra a enxurrada de produtos sem alma que a utilização preguiçosa da IA propiciou parece-me positiva; convém, contudo, não jogar fora o bebê, juntamente com a água suja. A IA continua sendo um instrumento magnífico. Precisamos, isso sim, de reaprender a utilizá-lo, ao mesmo tempo que reabilitamos o erro como instrumento criativo. O que mais me agrada em todo este processo é a demonstração do quanto, por vezes, o arcaico pode ser moderno.
