terça-feira, 31 de março de 2026
A contradição entre o moderado Flávio e o radicalismo no palco dos EUA
A política brasileira é fértil em espetáculos, mas raramente no picadeiro da subserviência. Porém, o que se viu recentemente nos Estados Unidos ultrapassa os limites do razoável.
Flávio Bolsonaro, que muitos tentam empacotar e vender como a face “moderada” do clã, resolveu chutar o balde e a lógica em um evento conservador no Texas.
Ao microfone, com um inglês claudicante e um esforço visível para agradar, o senador não apenas pediu socorro, ele ofereceu o Brasil de bandeja.
Não é de hoje que os Bolsonaro buscam no estrangeiro a validação que o voto popular lhes retirou. Mas Flávio foi além do pai. Enquanto Jair se limitava a cochichos de pé de ouvido com autoridades americanas, o filho resolveu escancarar a serventia em público, diante de câmeras e de uma plateia ávida por retórica reacionária.
O senador chegou ao ponto de sugerir que Brasil e EUA nasceram um para o outro e que temos muito para dar em troca de… “ajuda”. Minerais Críticos, por exemplo. É a entrega total da soberania por um afago político.
Mais grave ainda é o ataque sistemático às nossas instituições. Flávio foi dizer lá fora que não temos democracia por aqui, ignorando (ou fingindo ignorar) que rankings internacionais seríssimos, como o da Universidade de Gotemburgo, colocam o Brasil hoje à frente dos próprios Estados Unidos em solidez democrática. Ele joga com a dúvida, tenta sabotar a confiança nas urnas e sinaliza que, se perder a eleição, é por contagem errada de votos.
Ao atacar a China, nosso maior parceiro comercial, e se colocar como um “vendedor” das riquezas nacionais, Flávio mostra um amadorismo perigoso.
É o velho método bolsonarista de dar tiro no próprio pé, mas, desta vez, o cano da arma está apontado para os interesses estratégicos do Estado brasileiro.
A moderação era apenas uma máscara que caiu no Texas. Surpresa? Zero.
Flávio Bolsonaro, que muitos tentam empacotar e vender como a face “moderada” do clã, resolveu chutar o balde e a lógica em um evento conservador no Texas.
Ao microfone, com um inglês claudicante e um esforço visível para agradar, o senador não apenas pediu socorro, ele ofereceu o Brasil de bandeja.
Não é de hoje que os Bolsonaro buscam no estrangeiro a validação que o voto popular lhes retirou. Mas Flávio foi além do pai. Enquanto Jair se limitava a cochichos de pé de ouvido com autoridades americanas, o filho resolveu escancarar a serventia em público, diante de câmeras e de uma plateia ávida por retórica reacionária.
O senador chegou ao ponto de sugerir que Brasil e EUA nasceram um para o outro e que temos muito para dar em troca de… “ajuda”. Minerais Críticos, por exemplo. É a entrega total da soberania por um afago político.
Mais grave ainda é o ataque sistemático às nossas instituições. Flávio foi dizer lá fora que não temos democracia por aqui, ignorando (ou fingindo ignorar) que rankings internacionais seríssimos, como o da Universidade de Gotemburgo, colocam o Brasil hoje à frente dos próprios Estados Unidos em solidez democrática. Ele joga com a dúvida, tenta sabotar a confiança nas urnas e sinaliza que, se perder a eleição, é por contagem errada de votos.
Ao atacar a China, nosso maior parceiro comercial, e se colocar como um “vendedor” das riquezas nacionais, Flávio mostra um amadorismo perigoso.
É o velho método bolsonarista de dar tiro no próprio pé, mas, desta vez, o cano da arma está apontado para os interesses estratégicos do Estado brasileiro.
A moderação era apenas uma máscara que caiu no Texas. Surpresa? Zero.
Cidadãos! Por que fazemos tão pouco uso da democracia?
Num país, após os primeiros anos de introdução da democracia, a percentagem das abstenções não cessa de aumentar, mantendo-se geralmente à volta dos 50%. Os cidadãos de países com modelos de democracia muito pouco democráticos constatam, eleição após eleição, que nenhum governo ou poder local faz aquilo com que se comprometeu durante a campanha eleitoral. Todos eles fazem o que muito bem lhes apetece ou convém, de acordo com os seus interesses particulares ou com os interesses dos grupos que os financiam.
A possibilidade dos cidadãos participarem na tomada de decisões do Poder Central é nula. Pela mesma razão, a participação destes nas assembleias municipais e de freguesia é insignificante. Acresce que absolutamente nada na sociedade tem um caráter democrático: todas as estruturas e organizações do país, sejam elas públicas ou privadas, desde os serviços públicos aos estabelecimentos de ensino, incluindo todas as empresas privadas, hospitais e centros de saúde (que deveriam ser cooperativas), têm uma organização fortemente hierárquica e estão fechadas à democracia e ao cidadão.
Chamem a isto o que quiserem, mas não democracia.
Em toda a Europa, a confiança dos cidadãos nos governos e nas instituições está no seu nível mais baixo de sempre.
Em democracia, o poder máximo e a responsabilidade final das decisões e compromissos tomados pelos órgãos de poder, residem, de facto, no coletivo de todos os cidadãos. É em nome dos cidadãos que as decisões são tomadas, são os cidadãos que encaixam as consequências e tudo pagam.
Quando a administração e a gestão de um país funcionam mal, ou muitíssimo mal, durante um longo período, é expectável que a credibilidade do sistema político seja praticamente nula e que a prevalência da angústia, da depressão e da sensação de revolta sejam elevadas. A sociedade torna-se cruel e doentia, muito penosa e difícil de suportar para a maioria das pessoas, particularmente para as crianças e as mulheres.
Democratizar a sociedade é fazê-la mais humana, social e eficiente, é torná-la menos tóxica e stressante.
Os municípios e as juntas de freguesia têm todo o interesse em se tornarem entidades legítimas, do ponto de vista social e ético. Para tal precisam de pedir, de suplicar aos cidadãos que ajudem a definir e a implementar o que acham que é, realmente importante. Sem uma sociedade civil viva e sem cidadãos independentes e ativos, não há uma democracia que mereça esse nome.
A sociedade civil, viva e livre, é o motor e o coração da democracia, é o garante da justiça, da liberdade e do bem-estar de todos os cidadãos.
O que as freguesias e os municípios têm de fazer:
Democracia representativa. As reuniões do executivo das freguesias e dos municípios são presenciais e abertas a todos os cidadãos. O executivo organiza-se de forma a obter uma elevada presença e participação dos cidadãos, particularmente dos jovens e das mulheres. Nestas reuniões, existe sempre um ponto da ordem de trabalhos reservado às intervenções dos cidadãos;As reuniões da assembleia das freguesias e dos municípios são mensais, presenciais e abertas a todos os cidadãos. A assembleia organiza-se de forma a obter uma elevada presença e participação dos cidadãos, particularmente dos jovens e das mulheres. Em cada reunião da assembleia há um tema, acordado de antemão e tornado público, de discussão e debate aprofundado entre todos os presentes, membros da assembleia e cidadãos. A assembleia prepara o debate e faculta a informação necessária. Os cidadãos organizam-se como muito bem entenderem ou participam individualmente. O debate encerra com conclusões e um plano de ação.
Democracia direta. O executivo das freguesias e dos municípios elabora e coordena a discussão pública de um plano anual para motivar, apoiar e facilitar reuniões, não partidárias, de cidadãos, incentivar e facilitar a constituição de grupos de trabalho de cidadãos, a criação de organizações de cidadãos, cooperativas e associações, a organização de debates e palestras entre cidadãos (À conversa com …). Os cidadãos organizam-se como muito bem entenderem (por ex. associações informais) ou participam individualmente, onde e quando quiserem. Estas são iniciativas independentes, de cidadãos, abertas a todos os cidadãos, de todas as idades, particularmente aos jovens e às mulheres. Os cidadãos elaboram, de forma autónoma, as suas respostas, aos seus problemas e integram-nas na vida democrática da sociedade através de ações cívicas, locais ou nacionais.
Formar, nas organizações cívicas locais, as novas gerações de políticos, autarcas e governantes.
A possibilidade dos cidadãos participarem na tomada de decisões do Poder Central é nula. Pela mesma razão, a participação destes nas assembleias municipais e de freguesia é insignificante. Acresce que absolutamente nada na sociedade tem um caráter democrático: todas as estruturas e organizações do país, sejam elas públicas ou privadas, desde os serviços públicos aos estabelecimentos de ensino, incluindo todas as empresas privadas, hospitais e centros de saúde (que deveriam ser cooperativas), têm uma organização fortemente hierárquica e estão fechadas à democracia e ao cidadão.
Chamem a isto o que quiserem, mas não democracia.
Em toda a Europa, a confiança dos cidadãos nos governos e nas instituições está no seu nível mais baixo de sempre.
Em democracia, o poder máximo e a responsabilidade final das decisões e compromissos tomados pelos órgãos de poder, residem, de facto, no coletivo de todos os cidadãos. É em nome dos cidadãos que as decisões são tomadas, são os cidadãos que encaixam as consequências e tudo pagam.
Quando a administração e a gestão de um país funcionam mal, ou muitíssimo mal, durante um longo período, é expectável que a credibilidade do sistema político seja praticamente nula e que a prevalência da angústia, da depressão e da sensação de revolta sejam elevadas. A sociedade torna-se cruel e doentia, muito penosa e difícil de suportar para a maioria das pessoas, particularmente para as crianças e as mulheres.
Democratizar a sociedade é fazê-la mais humana, social e eficiente, é torná-la menos tóxica e stressante.
Os municípios e as juntas de freguesia têm todo o interesse em se tornarem entidades legítimas, do ponto de vista social e ético. Para tal precisam de pedir, de suplicar aos cidadãos que ajudem a definir e a implementar o que acham que é, realmente importante. Sem uma sociedade civil viva e sem cidadãos independentes e ativos, não há uma democracia que mereça esse nome.
A sociedade civil, viva e livre, é o motor e o coração da democracia, é o garante da justiça, da liberdade e do bem-estar de todos os cidadãos.
O que as freguesias e os municípios têm de fazer:
Democracia representativa. As reuniões do executivo das freguesias e dos municípios são presenciais e abertas a todos os cidadãos. O executivo organiza-se de forma a obter uma elevada presença e participação dos cidadãos, particularmente dos jovens e das mulheres. Nestas reuniões, existe sempre um ponto da ordem de trabalhos reservado às intervenções dos cidadãos;As reuniões da assembleia das freguesias e dos municípios são mensais, presenciais e abertas a todos os cidadãos. A assembleia organiza-se de forma a obter uma elevada presença e participação dos cidadãos, particularmente dos jovens e das mulheres. Em cada reunião da assembleia há um tema, acordado de antemão e tornado público, de discussão e debate aprofundado entre todos os presentes, membros da assembleia e cidadãos. A assembleia prepara o debate e faculta a informação necessária. Os cidadãos organizam-se como muito bem entenderem ou participam individualmente. O debate encerra com conclusões e um plano de ação.
Democracia direta. O executivo das freguesias e dos municípios elabora e coordena a discussão pública de um plano anual para motivar, apoiar e facilitar reuniões, não partidárias, de cidadãos, incentivar e facilitar a constituição de grupos de trabalho de cidadãos, a criação de organizações de cidadãos, cooperativas e associações, a organização de debates e palestras entre cidadãos (À conversa com …). Os cidadãos organizam-se como muito bem entenderem (por ex. associações informais) ou participam individualmente, onde e quando quiserem. Estas são iniciativas independentes, de cidadãos, abertas a todos os cidadãos, de todas as idades, particularmente aos jovens e às mulheres. Os cidadãos elaboram, de forma autónoma, as suas respostas, aos seus problemas e integram-nas na vida democrática da sociedade através de ações cívicas, locais ou nacionais.
Formar, nas organizações cívicas locais, as novas gerações de políticos, autarcas e governantes.
Fazer IA é caro mesmo para fortunas do Vale do Silício
Na planilha, a Anthropic planeja chegar ao azul em 2028 — daqui a dois anos. A OpenAI, em 2030. Para chegar ao azul, a primeira companhia espera gastar US$ 22 bilhões de seus investidores. Fazer inteligência artificial é bastante caro. A OpenAI, que pretende chegar dois anos depois ao azul, acredita precisar gastar US$ 200 bilhões. Fazer IA pode ser até muito mais que bastante caro. E, até aqui, os dois modelos das duas companhias, Claude e GPT, são equivalentes. É virtualmente impossível, para quem usa ambos pesadamente, dizer que um é realmente melhor que o outro. Então onde está a diferença? O que se compra com US$ 200 bi que US$ 20 bi não pagam?
Na última semana, a OpenAI tirou do ar o Sora, seu modelo de vídeo por inteligência artificial. Quando foi lançado, há um ano, era o mais revolucionário sistema para criar vídeos. Hoje, pelo menos dois modelos chineses são superiores, e o VEO, do Google, é melhor em alguns aspectos. Mas, graças ao Sora, a Disney havia se comprometido a investir US$ 1 bilhão na companhia. Ainda assim, os números não fecham.
O negócio da inteligência artificial gasta dinheiro de duas maneiras. Uma é treinando um modelo — qualquer modelo. Modelo de texto, de música, de imagem, de vídeo. Muito caro e, quanto mais sofisticado, mais caro. Mas esse é o custo pequeno. O custo realmente alto está no uso. Uma pergunta a uma IA de ponta pode custar até 50 vezes uma pergunta feita ao Google. E o preço já caiu. Em 2023, chegava a cem vezes. Esse valor é uma soma de eletricidade para processamento e refrigeração, custo do equipamento e o necessário para operar um data center.
Então, qual a diferença entre OpenAI e Anthropic? A diferença é que todo mundo já ao menos ouviu falar do ChatGPT, mas só quem está um pouco mais atento conhece o Claude. No fim, é isso que US$ 180 bilhões compram. A OpenAI teve sorte e, dentro dessa sorte, desenhou uma estratégia. A sorte foi o ChatGPT.
Um modelo de linguagem pode ter muitos usos distintos. Poderia ser um botão para resumir textos, uma janela de busca para encontrar respostas. Quando ligou seu modelo GPT a uma janela de chat, a OpenAI bolou um truque para demonstrar o potencial da tecnologia. Só que o ChatGPT deu muito certo. O jeito de demonstrar se tornou tão popular que, para muita gente, IA só existe na forma de chat. E o termo ChatGPT virou uma marca com a força de Gilette ou Google. É sinônimo de uma tecnologia.
A maneira tradicional de empresas do Vale do Silício crescerem é pegar dinheiro dos investidores e usar para atrair uma base extensa de clientes. A esperança é que, quando reunir gente o suficiente, via propaganda ou assinatura, o investimento se paga. Busca virou negócio assim, redes sociais idem. Só que IA é muitas vezes mais cara.
Ainda assim, nos primeiros dois anos, a OpenAI não economizou recursos. Desenvolveu um excelente modelo de linguagem, um excelente modelo de imagem, um excelente modelo de vídeo e fez bastante para que todos pudessem usar de graça. Gastou ainda outro tanto comprando uma empresa que desenhará máquinas de IA — para os ouvidos, para as mãos, para pendurar no pescoço ou colocar na cara. Ninguém sabe bem como serão.
Enquanto isso, a Anthropic foi crescendo devagarinho, buscando principalmente clientes corporativos. Investindo quase inteiramente num modelo de linguagem, sem imagem, sem vídeo. Com o objetivo principal não de resolver as dúvidas de pessoas físicas, mas de encarar os dilemas de grandes empresas. Sua aposta foi no mercado corporativo. Assim, tendo gastado incrivelmente menos, com uma conta gratuita muito limitada, o Claude chega a 2026 tão bom quanto o GPT, e a Anthropic muito mais competitiva que a OpenAI.
Não está dado que a empresa mais famosa perderá a partida, mas ela está em maus lençóis. Tentou oferecer um GPT gratuito com propaganda — e a concorrente fez propaganda ironizando. Pegou tão mal a ideia de pôr publicidade na IA que a OpenAI voltou atrás. Ao menos por enquanto.
O dinheiro do Vale do Silício é enorme, mas tem limite. A OpenAI depende, como nunca, de o mundo adotar IA o mais rápido possível.
Na última semana, a OpenAI tirou do ar o Sora, seu modelo de vídeo por inteligência artificial. Quando foi lançado, há um ano, era o mais revolucionário sistema para criar vídeos. Hoje, pelo menos dois modelos chineses são superiores, e o VEO, do Google, é melhor em alguns aspectos. Mas, graças ao Sora, a Disney havia se comprometido a investir US$ 1 bilhão na companhia. Ainda assim, os números não fecham.
O negócio da inteligência artificial gasta dinheiro de duas maneiras. Uma é treinando um modelo — qualquer modelo. Modelo de texto, de música, de imagem, de vídeo. Muito caro e, quanto mais sofisticado, mais caro. Mas esse é o custo pequeno. O custo realmente alto está no uso. Uma pergunta a uma IA de ponta pode custar até 50 vezes uma pergunta feita ao Google. E o preço já caiu. Em 2023, chegava a cem vezes. Esse valor é uma soma de eletricidade para processamento e refrigeração, custo do equipamento e o necessário para operar um data center.
Então, qual a diferença entre OpenAI e Anthropic? A diferença é que todo mundo já ao menos ouviu falar do ChatGPT, mas só quem está um pouco mais atento conhece o Claude. No fim, é isso que US$ 180 bilhões compram. A OpenAI teve sorte e, dentro dessa sorte, desenhou uma estratégia. A sorte foi o ChatGPT.
Um modelo de linguagem pode ter muitos usos distintos. Poderia ser um botão para resumir textos, uma janela de busca para encontrar respostas. Quando ligou seu modelo GPT a uma janela de chat, a OpenAI bolou um truque para demonstrar o potencial da tecnologia. Só que o ChatGPT deu muito certo. O jeito de demonstrar se tornou tão popular que, para muita gente, IA só existe na forma de chat. E o termo ChatGPT virou uma marca com a força de Gilette ou Google. É sinônimo de uma tecnologia.
A maneira tradicional de empresas do Vale do Silício crescerem é pegar dinheiro dos investidores e usar para atrair uma base extensa de clientes. A esperança é que, quando reunir gente o suficiente, via propaganda ou assinatura, o investimento se paga. Busca virou negócio assim, redes sociais idem. Só que IA é muitas vezes mais cara.
Ainda assim, nos primeiros dois anos, a OpenAI não economizou recursos. Desenvolveu um excelente modelo de linguagem, um excelente modelo de imagem, um excelente modelo de vídeo e fez bastante para que todos pudessem usar de graça. Gastou ainda outro tanto comprando uma empresa que desenhará máquinas de IA — para os ouvidos, para as mãos, para pendurar no pescoço ou colocar na cara. Ninguém sabe bem como serão.
Enquanto isso, a Anthropic foi crescendo devagarinho, buscando principalmente clientes corporativos. Investindo quase inteiramente num modelo de linguagem, sem imagem, sem vídeo. Com o objetivo principal não de resolver as dúvidas de pessoas físicas, mas de encarar os dilemas de grandes empresas. Sua aposta foi no mercado corporativo. Assim, tendo gastado incrivelmente menos, com uma conta gratuita muito limitada, o Claude chega a 2026 tão bom quanto o GPT, e a Anthropic muito mais competitiva que a OpenAI.
Não está dado que a empresa mais famosa perderá a partida, mas ela está em maus lençóis. Tentou oferecer um GPT gratuito com propaganda — e a concorrente fez propaganda ironizando. Pegou tão mal a ideia de pôr publicidade na IA que a OpenAI voltou atrás. Ao menos por enquanto.
O dinheiro do Vale do Silício é enorme, mas tem limite. A OpenAI depende, como nunca, de o mundo adotar IA o mais rápido possível.
Fazendo retrospectiva de um país complicado
Esta é a minha última coluna para a Deutsche Welle Brasil. Por causa de cortes impostos pelo governo alemão à DW, minha contribuição mensal foi encerrada.
Durante cerca de oito anos, escrevi, em média, uma coluna por mês – e sou sinceramente grato por isso. Esse trabalho sempre me fez pensar sobre o Brasil, esse país que não é para iniciantes. E também me deu a chance de compartilhar minhas impressões como um alemão que vive aqui, com um público às vezes maior, às vezes menor – sempre curioso pelas reações. Algumas colunas circularam bastante. Recebi apoio, mas também fui xingado: já fui chamado de comunista que deveria ir para Cuba e de nazista que deveria voltar para a Alemanha. Fiquei no Brasil.
De vez em quando – e essas eram as mensagens que eu mais gostava – havia leitores que realmente liam o texto inteiro (e não só o título, como parece ser o padrão hoje em dia), apontavam erros ou acrescentavam algo interessante. Algumas colunas chegaram até a provocar reações na política brasileira: o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, por exemplo, se irritou com um texto; já Fernando Haddad, então candidato à presidência, concordou com outro – o que levou Jair Bolsonaro a contestá-lo.
Ao longo desses anos, algumas coisas ficaram claras para mim. Uma delas: bastava aparecer o nome Bolsonaro para os cliques e comentários dispararem. Já quando o assunto era meio ambiente ou povos indígenas o interesse costumava ser bem menor. Outra constatação curiosa: há certas ideias que unem direita e esquerda, como a convicção de que os parlamentos brasileiros estão cheio de figuras corruptas. Mas apesar desse consenso, nada muda – e os eleitores continuam escolhendo essas mesmas figuras, de novo e de novo.
Vivo aqui há mais de 13 anos e viajei por quase todo o país: de aldeias indígenas isoladas na Amazônia aos vinhedos do Rio Grande do Sul, do Pantanal a Salvador. Para mim, como jornalista, o Brasil sempre foi um lugar generoso, porque sempre havia algo acontecendo, algo que valia a pena contar – e que despertava interesse na Europa.
Quando cheguei, o Brasil ainda era visto como "o país do futuro". Era aqui que o século 21 iria acontecer. Falava-se de uma futura superpotência econômica, de um país com peso crescente na política internacional, com influência cultural e esportiva em expansão – e de uma sociedade miscigenada que poderia servir de exemplo para o mundo.
Naquela época, o Brasil era o país convidado da maior feira do livro do mundo, em Frankfurt, e o novo papa argentino vinha ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude. Copa do Mundo e Jogos Olímpicos estavam a caminho. O mundo inteiro olhava para o Brasil.
Então vieram, de repente, as manifestações de 2013 – e todo mundo, inclusive os próprios brasileiros, se perguntava: o que está acontecendo aqui? De onde vem tanta insatisfação? Por que esse levante às vésperas da Copa? E por que tanta violência, especialmente por parte da polícia militar? A partir daí, passei boa parte do tempo tentando explicar aos leitores na Alemanha, Áustria e Suíça como o Brasil funciona – bem mais conservador do que muitos imaginam, sobretudo aqueles que conhecem apenas os clichês do Carnaval, que têm bossa nova e samba no ouvido e talvez tenham visto um filme de Walter Salles. Para mim também foi um aprendizado ver como protestos que começaram à esquerda, impulsionados por estudantes, acabaram desembocando em pedidos por um golpe militar.
Veio então o 7 a 1 – um momento que, de certa forma, resumiu o sentimento de muitos brasileiros: decepção, frustração, raiva. E, ao mesmo tempo, algo muito típico apareceu ali: a capacidade do brasileiro de rir da própria desgraça. Ainda no intervalo, com 5 a 0 no placar, já circulavam piadas – e até cerveja grátis.
Caixa de Pandora
No ano seguinte, Dilma Rousseff venceu novamente as eleições – apenas para pouco depois enfrentar um processo de impeachment bastante forçado. Era o período em que os enormes escândalos de corrupção envolvendo Petrobras e Odebrecht vinham à tona, revelando mais uma vez a profundidade das relações criminosas entre política e grandes empresas.
O Centrão, que sempre tem grande influência nos bastidores, achou que poderia se beneficiar da queda de Dilma. Na prática, acabou abrindo a caixa de Pandora. Dela saiu, como um personagem improvável, Jair Bolsonaro – um político de extrema direita que, em condições normais, dificilmente seria aceitável – mas que conquistou muitos brasileiros com seu discurso ignorante, violento e de um individualismo radical.
Passei então a explicar aos leitores europeus esse fenômeno. Era preciso falar do crescimento das igrejas evangélicas conservadoras, do peso do agronegócio, da música sertaneja, da visão muitas vezes positiva da ditadura militar e das posições bastante conservadoras de boa parte da sociedade em temas como armas, aborto e direitos LGBTI.
Talvez o momento mais intenso tenha sido em 2019, quando a Amazônia parecia estar em chamas. A fumaça chegou a escurecer o céu de São Paulo. Bolsonaro parecia disposto a cumprir sua promessa de abrir a floresta a um suposto progresso a qualquer custo. Nunca trabalhei tanto quanto naquela época. E isso também revela um contraste: na Europa, tudo o que envolve a Amazônia interessa muito; no Brasil, nem sempre. No fim, Bolsonaro não caiu por sua política ambiental, mas pela condução desastrosa da pandemia de covid-19, que matou mais de 700 mil brasileiros e derrubou o real a níveis históricos.
Com a eleição de Lula – que hoje, em certos aspectos, lembra um caudilho que não quer largar o poder – o Brasil voltou a uma certa normalidade. Para jornalistas, isso raramente é boa notícia. E, de fato, o interesse europeu pelo país diminuiu bastante desde então.
Ao longo desses anos, acompanhei inúmeras tragédias: o incêndio da boate Kiss, os desastres – muitos dizem crimes – de Mariana e Brumadinho, o incêndio do Museu Nacional no Rio, as enchentes no Rio Grande do Sul, a crise humanitária do povo Yanomami, entre tantas outras.
Algumas dessas catástrofes também tinham a ver com a tendência brasileira de se contentar com a improvisação, algo que, como alemão, também me chamou atenção repetidas vezes no dia a dia. O proprietário do primeiro apartamento que aluguei, por exemplo, insistia em sempre instalar o mesmo modelo barato de descarga – que não resistia mais do que alguns meses por causa da pressão da água. No fim, acabava gastando mais do que teria gasto se tivesse optado por um produto de qualidade. Ainda assim, não havia meio de convencê-lo disso, e ele continuava comprando o mesmo modelo.
Outra impressão minha é de que o Brasil gira em círculos, condenado a se repetir eternamente. Fui assaltado três vezes no Rio ao longo dos anos como quase todos que vivem aqui: com faca, com arma e à força (cinco contra um). Parece ser uma velha tradição carioca. É claro, já tive o celular roubado no Carnaval. Em várias ocasiões cometi o erro clássico de quem chega ao Brasil: emprestar dinheiro a brasileiros e esperar que, apesar de juramentos solenes, um dia fosse devolvido. Em vez disso, fui bloqueado ou insultado sempre que perguntei pelo dinheiro. Na segurança pública, a rotina parece imutável: operações policiais nas favelas que repetidamente aumentam o número de mortos, sem melhorar a vida de ninguém.
A mesmice domina também quando ligo a televisão ou o rádio: há mais de uma década vejo e ouço na Globo as mesmas faces e vozes que interpretam o mundo para os brasileiros, como se não existissem rostos novos – mais jovens, mais dinâmicos, com perspectivas mais surpreendentes.
Outro círculo eterno: quando chove forte e venta no meu bairro, no Rio, a luz cai com regularidade e os transformadores explodem com um estrondo. A ideia de que os cabos elétricos deveriam estar enterrados parece, em muitos bairros cariocas, um segredo guardado a sete chaves. Nas chuvas intensas, o centro do Rio continua alagando, como pude experimentar pela primeira vez já em 2013, quando o atravessei a rua com água até os joelhos. Falando de ruas: a rua em frente à minha casa foi totalmente recapeada há quatro anos – e já voltou a apresentar buracos, ondulações e incontáveis irregularidades. No trânsito, a regra parece ser não parar na faixa de pedestres quando alguém quer atravessar. Prefere-se correr o risco de atropelar a frear com prudência.
Prosseguindo com as calamidades do cotidiano: a água que sai da minha torneira é, às vezes, amarelada, às vezes acastanhada, apesar de uma conta de água bastante salgada. O brasileiro gosta de ir à praia, gosta de exercícios e de se exibir, gosta de estar ao sol, gosta de uma aparência pessoal e em casa impecável. Mas o espaço público lhe importa bem menos. Em Copacabana e em Ipanema, as praias, após qualquer fim de semana ensolarado, transformam-se em verdadeiros lixões – e só voltam ao que deveriam ser graças aos heróis sem nome da Comlurb.
Reconheço: embora emblemáticas, essas observações são aparentemente irrelevantes e desconexas diante do maior escândalo de todos. Após duas décadas de governos do PT, as escolas públicas brasileiras continuam sendo um desastre – e seus alunos, em sua maioria mais pobres, mal têm chance de chegar à universidade. O fato de Lula jamais ter feito um esforço federal consistente para mudar isso é, para mim, a principal crítica a ser feita. É aí que o potencial do Brasil está soterrado – não no agronegócio, que consome terras e devasta florestas e rios. O volume de talento desperdiçado nas escolas públicas brasileiras é a grande tragédia deste país.
Às vezes, tenho a impressão de que os brasileiros não percebem isso porque, de algum modo, se habituaram a ser enganados por suas elites arrogantes e culturalmente empobrecidas. Mas também é verdade que a indignação ruidosa com a corrupção alheia, com frequência, não passa de inveja por não estar perto dos cofres.
E ainda assim, nada disso traduz o que o Brasil é em sua essência mais profunda. Para mim, é a musicalidade intensa e difusa dos brasileiros, a imensa alegria de viver, a generosidade tão frequente, a extraordinária capacidade de se comunicar, a criatividade vibrante e a necessidade constante de se expressar, além da abertura ao outro.
É também a resiliência dos mais pobres, a solidariedade espontânea e a disposição de ajudar e a gentileza que muitos brasileiros demonstram nos momentos que realmente importam. E é, sobretudo, esse humor inabalável e a convicção de que o amanhã será melhor – mesmo quando o ontem foi difícil.
E com isso, me despeço.
Durante cerca de oito anos, escrevi, em média, uma coluna por mês – e sou sinceramente grato por isso. Esse trabalho sempre me fez pensar sobre o Brasil, esse país que não é para iniciantes. E também me deu a chance de compartilhar minhas impressões como um alemão que vive aqui, com um público às vezes maior, às vezes menor – sempre curioso pelas reações. Algumas colunas circularam bastante. Recebi apoio, mas também fui xingado: já fui chamado de comunista que deveria ir para Cuba e de nazista que deveria voltar para a Alemanha. Fiquei no Brasil.
De vez em quando – e essas eram as mensagens que eu mais gostava – havia leitores que realmente liam o texto inteiro (e não só o título, como parece ser o padrão hoje em dia), apontavam erros ou acrescentavam algo interessante. Algumas colunas chegaram até a provocar reações na política brasileira: o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, por exemplo, se irritou com um texto; já Fernando Haddad, então candidato à presidência, concordou com outro – o que levou Jair Bolsonaro a contestá-lo.
Ao longo desses anos, algumas coisas ficaram claras para mim. Uma delas: bastava aparecer o nome Bolsonaro para os cliques e comentários dispararem. Já quando o assunto era meio ambiente ou povos indígenas o interesse costumava ser bem menor. Outra constatação curiosa: há certas ideias que unem direita e esquerda, como a convicção de que os parlamentos brasileiros estão cheio de figuras corruptas. Mas apesar desse consenso, nada muda – e os eleitores continuam escolhendo essas mesmas figuras, de novo e de novo.
Vivo aqui há mais de 13 anos e viajei por quase todo o país: de aldeias indígenas isoladas na Amazônia aos vinhedos do Rio Grande do Sul, do Pantanal a Salvador. Para mim, como jornalista, o Brasil sempre foi um lugar generoso, porque sempre havia algo acontecendo, algo que valia a pena contar – e que despertava interesse na Europa.
Quando cheguei, o Brasil ainda era visto como "o país do futuro". Era aqui que o século 21 iria acontecer. Falava-se de uma futura superpotência econômica, de um país com peso crescente na política internacional, com influência cultural e esportiva em expansão – e de uma sociedade miscigenada que poderia servir de exemplo para o mundo.
Naquela época, o Brasil era o país convidado da maior feira do livro do mundo, em Frankfurt, e o novo papa argentino vinha ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude. Copa do Mundo e Jogos Olímpicos estavam a caminho. O mundo inteiro olhava para o Brasil.
Então vieram, de repente, as manifestações de 2013 – e todo mundo, inclusive os próprios brasileiros, se perguntava: o que está acontecendo aqui? De onde vem tanta insatisfação? Por que esse levante às vésperas da Copa? E por que tanta violência, especialmente por parte da polícia militar? A partir daí, passei boa parte do tempo tentando explicar aos leitores na Alemanha, Áustria e Suíça como o Brasil funciona – bem mais conservador do que muitos imaginam, sobretudo aqueles que conhecem apenas os clichês do Carnaval, que têm bossa nova e samba no ouvido e talvez tenham visto um filme de Walter Salles. Para mim também foi um aprendizado ver como protestos que começaram à esquerda, impulsionados por estudantes, acabaram desembocando em pedidos por um golpe militar.
Veio então o 7 a 1 – um momento que, de certa forma, resumiu o sentimento de muitos brasileiros: decepção, frustração, raiva. E, ao mesmo tempo, algo muito típico apareceu ali: a capacidade do brasileiro de rir da própria desgraça. Ainda no intervalo, com 5 a 0 no placar, já circulavam piadas – e até cerveja grátis.
Caixa de Pandora
No ano seguinte, Dilma Rousseff venceu novamente as eleições – apenas para pouco depois enfrentar um processo de impeachment bastante forçado. Era o período em que os enormes escândalos de corrupção envolvendo Petrobras e Odebrecht vinham à tona, revelando mais uma vez a profundidade das relações criminosas entre política e grandes empresas.
O Centrão, que sempre tem grande influência nos bastidores, achou que poderia se beneficiar da queda de Dilma. Na prática, acabou abrindo a caixa de Pandora. Dela saiu, como um personagem improvável, Jair Bolsonaro – um político de extrema direita que, em condições normais, dificilmente seria aceitável – mas que conquistou muitos brasileiros com seu discurso ignorante, violento e de um individualismo radical.
Passei então a explicar aos leitores europeus esse fenômeno. Era preciso falar do crescimento das igrejas evangélicas conservadoras, do peso do agronegócio, da música sertaneja, da visão muitas vezes positiva da ditadura militar e das posições bastante conservadoras de boa parte da sociedade em temas como armas, aborto e direitos LGBTI.
Talvez o momento mais intenso tenha sido em 2019, quando a Amazônia parecia estar em chamas. A fumaça chegou a escurecer o céu de São Paulo. Bolsonaro parecia disposto a cumprir sua promessa de abrir a floresta a um suposto progresso a qualquer custo. Nunca trabalhei tanto quanto naquela época. E isso também revela um contraste: na Europa, tudo o que envolve a Amazônia interessa muito; no Brasil, nem sempre. No fim, Bolsonaro não caiu por sua política ambiental, mas pela condução desastrosa da pandemia de covid-19, que matou mais de 700 mil brasileiros e derrubou o real a níveis históricos.
Com a eleição de Lula – que hoje, em certos aspectos, lembra um caudilho que não quer largar o poder – o Brasil voltou a uma certa normalidade. Para jornalistas, isso raramente é boa notícia. E, de fato, o interesse europeu pelo país diminuiu bastante desde então.
Ao longo desses anos, acompanhei inúmeras tragédias: o incêndio da boate Kiss, os desastres – muitos dizem crimes – de Mariana e Brumadinho, o incêndio do Museu Nacional no Rio, as enchentes no Rio Grande do Sul, a crise humanitária do povo Yanomami, entre tantas outras.
Algumas dessas catástrofes também tinham a ver com a tendência brasileira de se contentar com a improvisação, algo que, como alemão, também me chamou atenção repetidas vezes no dia a dia. O proprietário do primeiro apartamento que aluguei, por exemplo, insistia em sempre instalar o mesmo modelo barato de descarga – que não resistia mais do que alguns meses por causa da pressão da água. No fim, acabava gastando mais do que teria gasto se tivesse optado por um produto de qualidade. Ainda assim, não havia meio de convencê-lo disso, e ele continuava comprando o mesmo modelo.
Outra impressão minha é de que o Brasil gira em círculos, condenado a se repetir eternamente. Fui assaltado três vezes no Rio ao longo dos anos como quase todos que vivem aqui: com faca, com arma e à força (cinco contra um). Parece ser uma velha tradição carioca. É claro, já tive o celular roubado no Carnaval. Em várias ocasiões cometi o erro clássico de quem chega ao Brasil: emprestar dinheiro a brasileiros e esperar que, apesar de juramentos solenes, um dia fosse devolvido. Em vez disso, fui bloqueado ou insultado sempre que perguntei pelo dinheiro. Na segurança pública, a rotina parece imutável: operações policiais nas favelas que repetidamente aumentam o número de mortos, sem melhorar a vida de ninguém.
A mesmice domina também quando ligo a televisão ou o rádio: há mais de uma década vejo e ouço na Globo as mesmas faces e vozes que interpretam o mundo para os brasileiros, como se não existissem rostos novos – mais jovens, mais dinâmicos, com perspectivas mais surpreendentes.
Outro círculo eterno: quando chove forte e venta no meu bairro, no Rio, a luz cai com regularidade e os transformadores explodem com um estrondo. A ideia de que os cabos elétricos deveriam estar enterrados parece, em muitos bairros cariocas, um segredo guardado a sete chaves. Nas chuvas intensas, o centro do Rio continua alagando, como pude experimentar pela primeira vez já em 2013, quando o atravessei a rua com água até os joelhos. Falando de ruas: a rua em frente à minha casa foi totalmente recapeada há quatro anos – e já voltou a apresentar buracos, ondulações e incontáveis irregularidades. No trânsito, a regra parece ser não parar na faixa de pedestres quando alguém quer atravessar. Prefere-se correr o risco de atropelar a frear com prudência.
Prosseguindo com as calamidades do cotidiano: a água que sai da minha torneira é, às vezes, amarelada, às vezes acastanhada, apesar de uma conta de água bastante salgada. O brasileiro gosta de ir à praia, gosta de exercícios e de se exibir, gosta de estar ao sol, gosta de uma aparência pessoal e em casa impecável. Mas o espaço público lhe importa bem menos. Em Copacabana e em Ipanema, as praias, após qualquer fim de semana ensolarado, transformam-se em verdadeiros lixões – e só voltam ao que deveriam ser graças aos heróis sem nome da Comlurb.
Reconheço: embora emblemáticas, essas observações são aparentemente irrelevantes e desconexas diante do maior escândalo de todos. Após duas décadas de governos do PT, as escolas públicas brasileiras continuam sendo um desastre – e seus alunos, em sua maioria mais pobres, mal têm chance de chegar à universidade. O fato de Lula jamais ter feito um esforço federal consistente para mudar isso é, para mim, a principal crítica a ser feita. É aí que o potencial do Brasil está soterrado – não no agronegócio, que consome terras e devasta florestas e rios. O volume de talento desperdiçado nas escolas públicas brasileiras é a grande tragédia deste país.
Às vezes, tenho a impressão de que os brasileiros não percebem isso porque, de algum modo, se habituaram a ser enganados por suas elites arrogantes e culturalmente empobrecidas. Mas também é verdade que a indignação ruidosa com a corrupção alheia, com frequência, não passa de inveja por não estar perto dos cofres.
E ainda assim, nada disso traduz o que o Brasil é em sua essência mais profunda. Para mim, é a musicalidade intensa e difusa dos brasileiros, a imensa alegria de viver, a generosidade tão frequente, a extraordinária capacidade de se comunicar, a criatividade vibrante e a necessidade constante de se expressar, além da abertura ao outro.
É também a resiliência dos mais pobres, a solidariedade espontânea e a disposição de ajudar e a gentileza que muitos brasileiros demonstram nos momentos que realmente importam. E é, sobretudo, esse humor inabalável e a convicção de que o amanhã será melhor – mesmo quando o ontem foi difícil.
E com isso, me despeço.
Líbano, o próximo reality show
Israel alega buscar o controle militar de 10% do Líbano. Fala em “zona de segurança”, “medida defensiva” e “operação de estabilização” para evitar nomear o que todos podemos ver: a invasão de um Estado soberano reconhecido pela comunidade internacional, com seu próprio governo, seu próprio exército e que declarou explicitamente não querer essa guerra. O Líbano não atacou Israel. O Hezbollah atacou, mas o Hezbollah não é o Estado libanês. E esta não é a primeira vez. Agora sabemos que Gaza não é apenas um genocídio: é um laboratório. Israel aprendeu que demolir um território, deslocar uma população, ocupar a Faixa de Gaza e ignorar as resoluções do Conselho de Segurança, da Corte Internacional de Justiça e da Assembleia Geral pode ser feito sem consequências. O custo político é administrável. O Ministro da Defesa israelense afirma isso abertamente: o objetivo é aplicar “o modelo de Gaza” no Líbano. E o que isso significa exatamente? Primeiro, destruir a infraestrutura essencial, depois forçar o deslocamento da população e, finalmente, ocupar um território esvaziado. Não se trata de uma operação militar; é engenharia demográfica: a segunda fase de uma experiência cuja primeira fase ninguém interrompeu.
E por que não o impedimos? A escritora turca Ece Temelkuran tem uma resposta perturbadora. Não é que não tenhamos visto o que estava acontecendo. Gaza é o primeiro genocídio transmitido ao vivo, por mais de dois anos, em nossos celulares. Vimos tudo, e todos viram. Como escreveu Maruja Torres do Líbano: “Todos sabíamos que algo ia acontecer. Agora todos sabemos que algo aconteceu”. O problema, como Temelkuran aponta, é que construímos um sistema tão eficaz para normalizar o horror que ordens e censura não são mais necessárias. Ninguém nos diz para ignorar; simplesmente nos oferecem distrações enquanto “a ideia de humanidade é despedaçada”. A questão não é tanto a falta de consciência, mas um ambiente saturado de estímulos triviais que dispersam nossa atenção moral. O terrível não está escondido; está diluído em meio a milhares de conteúdos banais. É a distração como mecanismo para enfraquecer nossa capacidade de reagir ao sofrimento alheio. Não é que estejamos distraídos pelo meme do momento: o sistema gera uma nova crise todos os dias justamente para que não vejamos a conexão.
Gaza, porém, não fica impune por indiferença passiva. Fica impune porque o Ocidente optou pela cumplicidade ativa: o veto, o armamento, a cobertura diplomática. Agora, o Líbano está trilhando o mesmo caminho pelo mesmo motivo: o Irã já capturou os holofotes , e todos aguardamos ansiosamente o próximo reality show . Porque a cadeia de atrocidades não é uma tragédia: é uma técnica. O acúmulo de conflitos não funciona apenas como uma série de dramas independentes; é uma dinâmica que fragmenta a atenção e reduz a pressão pública sobre cada caso individual. E a resposta não pode ser simplesmente mais indignação.
Judith Butler destacou isso em relação a Trump: a indignação é precisamente o que essa técnica consome e neutraliza com uma eficiência surpreendente. O que precisamos é exatamente o oposto: nomear a conexão. Não enxergar cada atrocidade separadamente, mas sim ver e denunciar o padrão que as une. Gaza, Líbano, Cisjordânia. Essas não são três crises. São três aplicações do mesmo método, sustentadas pela mesma impunidade, financiadas pelos mesmos atores e toleradas pelo mesmo silêncio. O deles, mas também o nosso.
E por que não o impedimos? A escritora turca Ece Temelkuran tem uma resposta perturbadora. Não é que não tenhamos visto o que estava acontecendo. Gaza é o primeiro genocídio transmitido ao vivo, por mais de dois anos, em nossos celulares. Vimos tudo, e todos viram. Como escreveu Maruja Torres do Líbano: “Todos sabíamos que algo ia acontecer. Agora todos sabemos que algo aconteceu”. O problema, como Temelkuran aponta, é que construímos um sistema tão eficaz para normalizar o horror que ordens e censura não são mais necessárias. Ninguém nos diz para ignorar; simplesmente nos oferecem distrações enquanto “a ideia de humanidade é despedaçada”. A questão não é tanto a falta de consciência, mas um ambiente saturado de estímulos triviais que dispersam nossa atenção moral. O terrível não está escondido; está diluído em meio a milhares de conteúdos banais. É a distração como mecanismo para enfraquecer nossa capacidade de reagir ao sofrimento alheio. Não é que estejamos distraídos pelo meme do momento: o sistema gera uma nova crise todos os dias justamente para que não vejamos a conexão.
Gaza, porém, não fica impune por indiferença passiva. Fica impune porque o Ocidente optou pela cumplicidade ativa: o veto, o armamento, a cobertura diplomática. Agora, o Líbano está trilhando o mesmo caminho pelo mesmo motivo: o Irã já capturou os holofotes , e todos aguardamos ansiosamente o próximo reality show . Porque a cadeia de atrocidades não é uma tragédia: é uma técnica. O acúmulo de conflitos não funciona apenas como uma série de dramas independentes; é uma dinâmica que fragmenta a atenção e reduz a pressão pública sobre cada caso individual. E a resposta não pode ser simplesmente mais indignação.
Judith Butler destacou isso em relação a Trump: a indignação é precisamente o que essa técnica consome e neutraliza com uma eficiência surpreendente. O que precisamos é exatamente o oposto: nomear a conexão. Não enxergar cada atrocidade separadamente, mas sim ver e denunciar o padrão que as une. Gaza, Líbano, Cisjordânia. Essas não são três crises. São três aplicações do mesmo método, sustentadas pela mesma impunidade, financiadas pelos mesmos atores e toleradas pelo mesmo silêncio. O deles, mas também o nosso.
segunda-feira, 30 de março de 2026
Brasil passou à frente dos EUA em ranking global de democracia,
A democracia americana está doente. O check-up feito pelo V-Dem apontou disfunção no sistema judicial, falência múltipla de liberdades civis e hipertrofia da Presidência da República, sintomas causados por um vírus chamado Donald Trump.
O instituto rebaixou os Estados Unidos à categoria de democracia eleitoral, uma espécie de segunda divisão dos regimes de liberdade. Na pontuação final, ficou atrás de países como Coreia do Sul, Japão, Portugal e Brasil.
Rankings de democracia como o V-Dem, o mais utilizado em pesquisas acadêmicas na área de ciência política, há muito tempo saltaram o muro das universidades e entraram na corrente sanguínea do debate público. Nas redes sociais brasileiras, nossa colocação à frente dos EUA gerou um questionamento: como podemos ter uma boa pontuação se estamos mergulhados em uma crise institucional, em que um escândalo financeiro abala a credibilidade do Judiciário e joga os Poderes uns contra os outros?
Para responder a essa pergunta, é necessário entender como funcionam os rankings de democracia, para que servem e como, ao longo dos anos, vêm mostrando que nada tem mais peso para a deterioração dos regimes de liberdade que a existência de um líder com tendências autoritárias.
Donald Trump motivou um capítulo à parte no relatório do V-Dem, da mesma maneira que, em edições anteriores, mereceram destaque o húngaro Viktor Orbán, o indiano Narendra Modi, o polonês Jaroslaw Kaczynski e Jair Bolsonaro.
As eleições constituem o momento central nos regimes de liberdade. Desde pelo menos os anos 1950, no entanto, os cientistas políticos entendem que as democracias são processos contínuos. Entre um pleito e outro, partidos políticos negociam, Legislativos fiscalizam Executivos, ONGs e o poder econômico fazem seus lobbies, a sociedade civil se mobiliza, a academia e a imprensa municiam o debate público —e quanto mais esses atores exercem seus papéis e interagem, mesmo com alto grau de fricção, maior é a qualidade da democracia.
A essa vibração cívica algo caótica, o cientista político Robert Dahl (1915-2014) deu o nome de poliarquia. Resumindo em uma frase uma ideia complexa, poliarquia seria a tradução para o mundo real do conceito original de democracia, um regime em que, em tese, todos teriam o mesmo peso e a mesma influência nas decisões coletivas, um ideal por definição inatingível.
A partir desse insight, Larry Diamond e Leonardo Morlino sistematizaram, na virada do século 21, a ideia de que os regimes de liberdade se aproximariam desse ideal à medida que obedeciam a vários pré-requisitos, indo muito além das eleições livres e justas. Estava dado o alicerce teórico para os rankings de democracia.
O V-Dem reúne dados sobre diversos desses aspectos definidos pelos teóricos da política. Em uma democracia, deve prevalecer a vontade da maioria —a dimensão eleitoral— ao mesmo tempo que são garantidos os direitos de todos —a dimensão liberal.
A alta participação política deve ser valorizada, assim como a capacidade de os cidadãos efetivamente interferirem nos resultados das políticas públicas —os aspectos participativo e deliberativo. Por último, a assimetria de poder e de recursos entre os cidadãos conspira contra o ideal democrático, o que faz o V-Dem valorizar uma quinta dimensão, chamada de igualitária.
O instituto hospedado na cidade sueca de Gotemburgo tabula notas de 4.000 especialistas espalhados pelo mundo. Há sempre, como é óbvio, algo de subjetivo nas avaliações. Os resultados, no entanto, mostram que não há captura política por um ou outro campo ideológico. O processo permite identificar, nos diferentes países, tendências autoritárias de esquerda e de direita, da Venezuela à Índia, da Hungria ao México.
Outra vantagem é que os dados quantitativos permitem acompanhar a evolução dos países. Um artigo publicado em 2019 pelo sueco Staffan Lindberg, diretor do V-Dem, e pela cientista política alemã Anna Lührmann estabeleceu o conceito de autocratização, processo que se verifica empiricamente quando as notas de democracia de um país vão diminuindo recorrentemente.
No artigo, eles propõem que vivemos uma era de autocratização que se segue à terceira onda de democratização definida pelo cientista político americano Samuel Huntington (1927-2008) —a que começou com a Revolução dos Cravos em Portugal e continuou com a queda dos regimes militares latino-americanos e das ditaduras comunistas do Leste Europeu.
Os sucessivos relatórios do V-Dem —e de outros levantamentos similares, como o da Freedom House americana e o da revista britânica The Economist— vêm infelizmente confirmando a tendência.
Os processos de autocratização, no entanto, não começam, como no passado, com quarteladas militares ou revoluções armadas. No livro "Como as Democracias Morrem", Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como os autoritarismos modernos se instalam aos poucos, como doenças insidiosas, promovidos na maioria das vezes por forças políticas que, paradoxalmente, chegam ao poder de forma democrática, pelo voto.
É essa precisamente a principal utilidade dos rankings de democracia. Como na metáfora do início deste texto, eles medem os sinais vitais dos regimes de liberdade, rastreando tendências de deterioração em curto e em longo prazo. Identificam também os fatores que levam a essa deterioração.
A sequência dos relatórios chama a atenção para alguns padrões. Sempre que um líder de tendências autoritárias é reeleito, ganha carta branca para aprofundar o processo de autocratização. Isso aconteceu na Índia com Narendra Modi, que, em seu segundo mandato, aprovou leis que praticamente inviabilizam o jornalismo investigativo. Vem também ocorrendo recorrentemente com Viktor Orbán, na Hungria.
Marcadas para o próximo dia 12 de abril, as eleições húngaras determinarão se Orbán irá conquistar um quinto mandato. Em quatro períodos consecutivos de quatro anos cada, o premiê húngaro estabeleceu uma espécie de "playbook" da autocratização, tendo entre seus seguidores o próprio Donald Trump.
Orbán consagrou, entre outros, o procedimento de cortar verbas de universidades capazes de produzir conhecimento crítico ao governo, algo que vem ocorrendo nos EUA e é apontado, no relatório deste ano do V-Dem, como um dos indícios mais fortes da deterioração democrática americana.
Lidos em conjunto, os relatórios do V-Dem mostram que as doenças da democracia costumam ter nome e sobrenome: os dos líderes que usam o seu poder para corroer as instituições.
Na visão de outro cientista político, o alemão Yascha Mounk, esses presidentes e primeiros-ministros, em geral classificados como populistas, usam o pilar eleitoral das democracias para solapar os seus aspectos liberais. Em outras palavras, se valem da legitimidade conquistada pelo voto para confiscar direitos, como os de imigrantes e grupos minorizados, e restringir liberdades, como as de expressão, imprensa e pensamento acadêmico.
Os relatórios do V-Dem apontam vários casos em que líderes autoritários pioraram a qualidade da democracia nos países em que governaram. O oposto também ocorreu: quando esses presidentes ou primeiros-ministros saíram do poder, as notas dos seus países melhoraram. À esquerda, um caso bastante estudado é o de Rafael Correa, no Equador. À direita, o de Jair Bolsonaro, no Brasil.
O caso brasileiro aponta para um último e importante aspecto: a capacidade das democracias de identificar a deterioração e punir tentativas de golpe.
Em outro livro, "Como Salvar as Democracias", Levitsky e Ziblatt comparam o processo movido contra Jair Bolsonaro com as alegações jurídicas contra Donald Trump no final do seu primeiro mandato. Ambos os presidentes questionaram as urnas e não reconheceram o resultado das eleições. Um perdeu temporariamente os direitos políticos e, mais tarde, foi julgado, condenado e preso por tentativa de golpe. O outro seguiu o seu caminho político e se reelegeu. O resultado está expresso no relatório atual do V-Dem.
É inegável que a democracia brasileira sofre com escândalos de corrupção e guerra entre Poderes. Como no episódio recente da tentativa de golpe, o país precisa demonstrar maturidade e punir os responsáveis —sejam eles governantes eleitos ou juízes do STF—, de forma a preservar as instituições.
No histórico do V-Dem, as maiores ameaças à saúde das democracias não são episódios de corrupção ou brigas de poder, mas, é preciso frisar, as doenças que têm nome e sobrenome e, paradoxalmente, chegam ao poder pelo voto.
O instituto rebaixou os Estados Unidos à categoria de democracia eleitoral, uma espécie de segunda divisão dos regimes de liberdade. Na pontuação final, ficou atrás de países como Coreia do Sul, Japão, Portugal e Brasil.
Rankings de democracia como o V-Dem, o mais utilizado em pesquisas acadêmicas na área de ciência política, há muito tempo saltaram o muro das universidades e entraram na corrente sanguínea do debate público. Nas redes sociais brasileiras, nossa colocação à frente dos EUA gerou um questionamento: como podemos ter uma boa pontuação se estamos mergulhados em uma crise institucional, em que um escândalo financeiro abala a credibilidade do Judiciário e joga os Poderes uns contra os outros?
Para responder a essa pergunta, é necessário entender como funcionam os rankings de democracia, para que servem e como, ao longo dos anos, vêm mostrando que nada tem mais peso para a deterioração dos regimes de liberdade que a existência de um líder com tendências autoritárias.
Donald Trump motivou um capítulo à parte no relatório do V-Dem, da mesma maneira que, em edições anteriores, mereceram destaque o húngaro Viktor Orbán, o indiano Narendra Modi, o polonês Jaroslaw Kaczynski e Jair Bolsonaro.
As eleições constituem o momento central nos regimes de liberdade. Desde pelo menos os anos 1950, no entanto, os cientistas políticos entendem que as democracias são processos contínuos. Entre um pleito e outro, partidos políticos negociam, Legislativos fiscalizam Executivos, ONGs e o poder econômico fazem seus lobbies, a sociedade civil se mobiliza, a academia e a imprensa municiam o debate público —e quanto mais esses atores exercem seus papéis e interagem, mesmo com alto grau de fricção, maior é a qualidade da democracia.
A essa vibração cívica algo caótica, o cientista político Robert Dahl (1915-2014) deu o nome de poliarquia. Resumindo em uma frase uma ideia complexa, poliarquia seria a tradução para o mundo real do conceito original de democracia, um regime em que, em tese, todos teriam o mesmo peso e a mesma influência nas decisões coletivas, um ideal por definição inatingível.
A partir desse insight, Larry Diamond e Leonardo Morlino sistematizaram, na virada do século 21, a ideia de que os regimes de liberdade se aproximariam desse ideal à medida que obedeciam a vários pré-requisitos, indo muito além das eleições livres e justas. Estava dado o alicerce teórico para os rankings de democracia.
O V-Dem reúne dados sobre diversos desses aspectos definidos pelos teóricos da política. Em uma democracia, deve prevalecer a vontade da maioria —a dimensão eleitoral— ao mesmo tempo que são garantidos os direitos de todos —a dimensão liberal.
A alta participação política deve ser valorizada, assim como a capacidade de os cidadãos efetivamente interferirem nos resultados das políticas públicas —os aspectos participativo e deliberativo. Por último, a assimetria de poder e de recursos entre os cidadãos conspira contra o ideal democrático, o que faz o V-Dem valorizar uma quinta dimensão, chamada de igualitária.
O instituto hospedado na cidade sueca de Gotemburgo tabula notas de 4.000 especialistas espalhados pelo mundo. Há sempre, como é óbvio, algo de subjetivo nas avaliações. Os resultados, no entanto, mostram que não há captura política por um ou outro campo ideológico. O processo permite identificar, nos diferentes países, tendências autoritárias de esquerda e de direita, da Venezuela à Índia, da Hungria ao México.
Outra vantagem é que os dados quantitativos permitem acompanhar a evolução dos países. Um artigo publicado em 2019 pelo sueco Staffan Lindberg, diretor do V-Dem, e pela cientista política alemã Anna Lührmann estabeleceu o conceito de autocratização, processo que se verifica empiricamente quando as notas de democracia de um país vão diminuindo recorrentemente.
No artigo, eles propõem que vivemos uma era de autocratização que se segue à terceira onda de democratização definida pelo cientista político americano Samuel Huntington (1927-2008) —a que começou com a Revolução dos Cravos em Portugal e continuou com a queda dos regimes militares latino-americanos e das ditaduras comunistas do Leste Europeu.
Os sucessivos relatórios do V-Dem —e de outros levantamentos similares, como o da Freedom House americana e o da revista britânica The Economist— vêm infelizmente confirmando a tendência.
Os processos de autocratização, no entanto, não começam, como no passado, com quarteladas militares ou revoluções armadas. No livro "Como as Democracias Morrem", Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como os autoritarismos modernos se instalam aos poucos, como doenças insidiosas, promovidos na maioria das vezes por forças políticas que, paradoxalmente, chegam ao poder de forma democrática, pelo voto.
É essa precisamente a principal utilidade dos rankings de democracia. Como na metáfora do início deste texto, eles medem os sinais vitais dos regimes de liberdade, rastreando tendências de deterioração em curto e em longo prazo. Identificam também os fatores que levam a essa deterioração.
A sequência dos relatórios chama a atenção para alguns padrões. Sempre que um líder de tendências autoritárias é reeleito, ganha carta branca para aprofundar o processo de autocratização. Isso aconteceu na Índia com Narendra Modi, que, em seu segundo mandato, aprovou leis que praticamente inviabilizam o jornalismo investigativo. Vem também ocorrendo recorrentemente com Viktor Orbán, na Hungria.
Marcadas para o próximo dia 12 de abril, as eleições húngaras determinarão se Orbán irá conquistar um quinto mandato. Em quatro períodos consecutivos de quatro anos cada, o premiê húngaro estabeleceu uma espécie de "playbook" da autocratização, tendo entre seus seguidores o próprio Donald Trump.
Orbán consagrou, entre outros, o procedimento de cortar verbas de universidades capazes de produzir conhecimento crítico ao governo, algo que vem ocorrendo nos EUA e é apontado, no relatório deste ano do V-Dem, como um dos indícios mais fortes da deterioração democrática americana.
Lidos em conjunto, os relatórios do V-Dem mostram que as doenças da democracia costumam ter nome e sobrenome: os dos líderes que usam o seu poder para corroer as instituições.
Na visão de outro cientista político, o alemão Yascha Mounk, esses presidentes e primeiros-ministros, em geral classificados como populistas, usam o pilar eleitoral das democracias para solapar os seus aspectos liberais. Em outras palavras, se valem da legitimidade conquistada pelo voto para confiscar direitos, como os de imigrantes e grupos minorizados, e restringir liberdades, como as de expressão, imprensa e pensamento acadêmico.
Os relatórios do V-Dem apontam vários casos em que líderes autoritários pioraram a qualidade da democracia nos países em que governaram. O oposto também ocorreu: quando esses presidentes ou primeiros-ministros saíram do poder, as notas dos seus países melhoraram. À esquerda, um caso bastante estudado é o de Rafael Correa, no Equador. À direita, o de Jair Bolsonaro, no Brasil.
O caso brasileiro aponta para um último e importante aspecto: a capacidade das democracias de identificar a deterioração e punir tentativas de golpe.
Em outro livro, "Como Salvar as Democracias", Levitsky e Ziblatt comparam o processo movido contra Jair Bolsonaro com as alegações jurídicas contra Donald Trump no final do seu primeiro mandato. Ambos os presidentes questionaram as urnas e não reconheceram o resultado das eleições. Um perdeu temporariamente os direitos políticos e, mais tarde, foi julgado, condenado e preso por tentativa de golpe. O outro seguiu o seu caminho político e se reelegeu. O resultado está expresso no relatório atual do V-Dem.
É inegável que a democracia brasileira sofre com escândalos de corrupção e guerra entre Poderes. Como no episódio recente da tentativa de golpe, o país precisa demonstrar maturidade e punir os responsáveis —sejam eles governantes eleitos ou juízes do STF—, de forma a preservar as instituições.
No histórico do V-Dem, as maiores ameaças à saúde das democracias não são episódios de corrupção ou brigas de poder, mas, é preciso frisar, as doenças que têm nome e sobrenome e, paradoxalmente, chegam ao poder pelo voto.
Trump tem agora pouquíssimas opções na guerra no Irã
Algumas velhas verdades sobre a guerra têm batido à porta do Salão Oval no mês desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, enviaram aviões de guerra americanos e israelenses para bombardear o Irã.
A incapacidade de aprender com o passado significa que Donald Trump agora enfrenta uma escolha difícil. Se ele não conseguir um acordo com o Irã, pode tentar declarar uma vitória que não enganará ninguém ou intensificar a guerra.
A mais antiga das velhas verdades vem do estrategista militar prussiano Helmuth von Moltke, o Velho: "Nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo". Ele escreveu isso em 1871, o ano em que a Alemanha foi unificada como um império, um momento tão consequente para a segurança da Europa quanto esta guerra pode ser para a segurança do Oriente Médio.
Talvez Trump prefira a versão moderna do boxeador Mike Tyson: "Todo mundo tem um plano até ser atingido". Ainda mais relevantes para Trump são as palavras de um de seus antecessores, Dwight D. Eisenhower, o general americano que comandou o desembarque do Dia D em 1944 e que posteriormente serviu dois mandatos como presidente republicano dos Estados Unidos na década de 1950.
A versão de Eisenhower era: "planos não valem nada, mas o planejamento é tudo". Ele queria dizer que a disciplina e o processo de elaboração de planos para travar uma guerra tornam possível mudar de rumo quando o inesperado acontece.
Para Trump, o elemento inesperado tem sido a resiliência do regime no Irã. Parece que ele esperava uma repetição do sequestro relâmpago, em janeiro, do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, pelas forças armadas americanas. Eles estão agora presos em Nova York, aguardando julgamento. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, o substituiu na presidência e está recebendo ordens de Washington.
Esperar uma repetição da vitória sobre Maduro demonstra uma enorme falta de compreensão das diferenças entre a Venezuela e o Irã.
O ditado de Eisenhower sobre pensar no futuro foi usado em um discurso de 1957. Ele havia sido o responsável pelo planejamento e comando da maior operação militar anfíbia da história, a invasão da Europa Ocidental no Dia D, então ele sabia do que estava falando.
Ele prosseguiu explicando que, quando surge uma emergência inesperada, "a primeira coisa a fazer é pegar todos os planos da prateleira de cima, jogá-los pela janela e começar tudo de novo. Mas se você não planejou, não pode começar a trabalhar, pelo menos não de forma inteligente".
"Essa é a razão pela qual é tão importante planejar, para se manter imerso na natureza do problema que você pode um dia ser chamado a resolver – ou a ajudar a resolver."
Longe de capitular ou entrar em colapso depois que Israel e os EUA mataram o Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, no primeiro ataque aéreo da guerra, o regime em Teerã está funcionando e revidando. Está jogando bem com as cartas que tem.
Em contraste, Donald Trump dá a impressão de estar improvisando. Ele segue seus instintos, não as páginas de inteligência e conselhos estratégicos que outros presidentes analisaram minuciosamente.
Treze dias após o início da guerra, Trump foi questionado pela Fox News Radio sobre quando a guerra terminaria. Ele respondeu que não achava que a guerra "seria longa". Quanto ao seu término, seria "quando eu sentir, sentir na pele".
Ele se apoia em um círculo íntimo de assessores que estão em seus cargos para apoiar suas decisões e fazê-las acontecer. Dizer a verdade ao poder não parece estar em suas atribuições. Confiar nos instintos do presidente em vez de um conjunto de planos bem elaborados – mesmo que precisem ser adaptados ou descartados – torna mais difícil travar uma guerra. A falta de uma direção política clara enfraquece o poder de fogo devastador e a eficácia das forças armadas dos EUA.
Quatro semanas atrás, Trump e Netanyahu depositaram sua confiança em uma feroz campanha de bombardeios que matou não apenas o líder supremo, mas também seus conselheiros mais próximos e, até o momento, matou 1.464 civis iranianos, de acordo com a HRANA, um grupo com sede nos EUA que monitora violações de direitos humanos no Irã.
Os dois líderes esperavam uma vitória rápida. Ambos desafiaram os iranianos a darem seguimento aos bombardeios com um levante popular para derrubar o regime.
Mas o regime em Teerã ainda se mantém de pé, ainda luta, e Trump está descobrindo por que seus antecessores nunca estiveram preparados para se juntar a Netanyahu em uma guerra de escolha para destruir a República Islâmica. Os oponentes do regime não se levantaram. Eles sabem muito bem que, em janeiro, as forças do governo mataram milhares de manifestantes. Avisos oficiais foram transmitidos, dizendo a qualquer pessoa que pensasse em repetir os protestos que seria tratada como inimiga do Estado.
O regime iraniano é um adversário obstinado, implacável e bem organizado. Fundado após a revolução de 1979 que derrubou o xá, foi então forjado na miséria mortal da guerra de oito anos com o Iraque.
O regime é construído sobre instituições, não indivíduos, e reforçado por crenças religiosas inabaláveis e uma ideologia de martírio. Isso significa que matar líderes, embora sem dúvida chocante e perturbador, não se torna também uma sentença de morte para o regime.
Após os assassinatos de janeiro, o governo considerará a morte de muitos outros iranianos, seja pelas mãos das próprias forças do regime ou por bombas americanas e israelenses, como um preço aceitável para a sobrevivência.
O regime iraniano não tinha esperança de igualar o poder de fogo dos EUA e de Israel, mas, tal como Moltke, Tyson e Eisenhower, tem feito planos. Ampliou a guerra, atacando os seus vizinhos árabes do Golfo, bem como as bases americanas nos seus territórios e Israel, espalhando o sofrimento o mais amplamente possível.
O encerramento efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irã, a estreita entrada para o Golfo, cortou cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e abalou os mercados financeiros globais.
O Irã gastou anos e bilhões de dólares construindo a rede de aliados e representantes que o Irã chamou de "Eixo da Resistência", que inclui o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza e na Cisjordânia, para ameaçar e dissuadir Israel.
Os israelenses o atacaram com muita força e eficácia desde o início da guerra em Gaza, com os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Mas o Irã agora está demonstrando que uma característica geográfica, o estreito de Ormuz, pode ser um fator de dissuasão e ameaça ainda mais eficaz do que seu sistema ruinosamente caro de alianças militares. O Irã pode impor seu controle sobre o estreito com drones baratos que podem ser lançados a centenas de quilômetros de distância no interior montanhoso do Irã.
Aliados são mortos. A geografia permanece a mesma. A menos que capturem e ocupem os penhascos em ambos os lados do estreito e uma grande extensão de terra iraniana além deles, os EUA e Israel – e o resto do mundo – estão descobrindo que o regime iraniano exigirá grande influência na reabertura do estreito de Ormuz.
Como observou o ex-vice-comandante da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), General Sir Richard Shirreff, no programa Today da BBC Radio 4, qualquer simulação de guerra que analisasse as consequências de um ataque ao Irã teria demonstrado que a Guarda Revolucionária Islâmica fecharia o estreito de Ormuz.
Isso nos leva de volta à importância de planejar como iniciar uma guerra, como terminá-la e como lidar com o dia seguinte. Donald Trump e seu círculo íntimo, entusiasmados com a perspectiva de uma vitória rápida e fácil, parecem ter ignorado essas etapas.
O "eixo da resistência" também inclui os houthis no Iêmen. Na sexta-feira, eles dispararam uma saraivada de mísseis contra Israel pela primeira vez desde o início desta guerra, com os ataques aéreos ao Irã em 28 de fevereiro.
Se os houthis retomarem seus ataques à navegação no Mar Vermelho, a Arábia Saudita perderá sua rota marítima ocidental para exportação de petróleo para a Ásia.
O Mar Vermelho tem seu próprio ponto de estrangulamento, o estreito de Bab el-Mandeb, tão importante para o comércio mundial quanto o estreito de Ormuz. Se os houthis decidirem intensificar o conflito atacando navios em Bab al-Mandab e mais ao sul, como fizeram durante a guerra em Gaza, eles cortariam a rota da Ásia para a Europa através do Canal de Suez.
Isso criaria uma crise econômica global ainda pior.
Netanyahu, ao contrário de Trump, vem pensando detalhadamente sobre esta guerra desde o início de sua carreira política, que o tornou o primeiro-ministro que mais tempo serviu em Israel.
No primeiro dia completo da guerra contra o Irã, Netanyahu gravou uma declaração em vídeo no telhado do prédio em Tel Aviv conhecido como Kirya, que abriga o quartel-general militar de Israel. Ele falou com uma clareza sobre os objetivos de guerra de Israel que escapou a Trump.
Isso não deveria ser uma surpresa. Entrar em guerra com o Irã é uma proposta mais direta para Israel do que para os EUA. As preocupações de uma potência regional são diferentes dos desafios globais muito mais amplos enfrentados pelos EUA.
Netanyahu está convencido de que pode garantir a segurança futura de Israel causando o máximo de danos possível à República Islâmica. A guerra, disse ele no vídeo, era "para garantir nossa existência e nosso futuro".
Netanyahu sempre considerou o Irã o inimigo mais perigoso de Israel. Seus críticos dizem que essa preocupação foi um dos motivos pelos quais Israel não conseguiu detectar e impedir os ataques do Hamas vindos de Gaza em 7 de outubro de 2023.
Ele agradeceu aos militares dos EUA e a Trump por sua "assistência" e passou ao ponto que, para ele, é o cerne da questão.
"Esta coalizão de forças nos permite fazer o que eu anseio fazer há 40 anos: aniquilar o regime terrorista. Isso é o que eu prometi – e é isso que faremos."
Netanyahu e o establishment militar de Israel, em diferentes momentos ao longo de seus muitos anos no cargo, analisaram maneiras de entrar em guerra com o Irã, destruindo suas instalações nucleares e mísseis balísticos, e tudo o mais que o tornava uma ameaça para eles.
A conclusão em Israel sempre foi que, embora pudessem causar sérios danos ao Irã, isso representaria apenas um revés para o regime. Tornou-se consenso que a única maneira de destruir a capacidade militar do Irã por uma geração ou mais seria por meio de uma aliança com os EUA.
Mas isso exigia um presidente na Casa Branca que estivesse preparado para ir à guerra ao lado de Israel, algo que nunca havia acontecido, apesar da estreita relação entre os dois países e da dependência de Israel do apoio militar e diplomático dos EUA. Netanyahu nunca conseguiu persuadir um presidente americano de que era do interesse dos Estados Unidos entrar em guerra com o Irã – até o segundo mandato de Donald J. Trump.
Apesar da relação amarga e tóxica entre os Estados Unidos e o Irã desde que o xá, um aliado fiel dos EUA, foi deposto em 1979, os sucessivos presidentes americanos acreditavam que a melhor maneira de lidar com a República Islâmica do Irã era contê-la.
Durante a ocupação americana do Iraque, os EUA não entraram em guerra com o Irã, mesmo quando Teerã estava equipando e treinando milícias iraquianas que matavam tropas americanas. A única justificativa, calcularam eles, seria uma ameaça iminente, especialmente informações de que o Irã estava perto de criar uma arma nuclear.
Trump incluiu uma ameaça nuclear em sua lista crescente de razões para ir à guerra. Mas não há evidências críveis de que o Irã estivesse prestes a obter uma arma ou os meios para lançá-la. Até mesmo a Casa Branca ainda mantém em seu site uma declaração datada de 25 de junho de 2025 com a manchete "As instalações nucleares do Irã foram destruídas – e qualquer sugestão em contrário é notícia falsa".
Trump agora está descobrindo por que seus antecessores decidiram que os riscos de optar pela guerra seriam simplesmente grandes demais.
A guerra parece estar se tornando um exemplo clássico de como uma potência menor e mais fraca pode lutar contra um inimigo maior e mais forte, o tipo de conflito que os estrategistas chamam de guerra assimétrica.
É cedo, após apenas um mês, para compará-la a outras guerras que, no papel, os EUA estavam vencendo em termos de inimigos mortos e bombardeios concluídos no Vietnã, Iraque e Afeganistão. Mas é importante lembrar que, após anos de derramamento de sangue e mortes, todas terminaram de maneiras que representaram uma derrota para os Estados Unidos.
O próximo conjunto de decisões de Trump e Netanyahu pode determinar se a guerra no Irã se tornará outro grande erro dos EUA. Trump já adiou duas vezes sua ameaça de destruir a rede elétrica do Irã – o que, segundo ele, poderia ser considerado um crime de guerra.
Ele afirma que isso ocorre porque o Irã está desesperado para fechar um acordo para encerrar a guerra, já que o regime foi duramente atingido pelos danos e mortes que os EUA já infligiram e teme que isso possa causar ainda mais.
Contatos entre os dois lados, por meio da mediação do Paquistão e outros, estão ocorrendo. Os iranianos negam a afirmação de Trump de que se trata de uma negociação completa.
O texto oficial do plano de paz de 15 pontos do presidente não foi publicado, mas versões vazadas mostram um documento que é uma compilação de todas as exigências que os EUA e Israel fizeram ao Irã ao longo de muitos anos. Ele se assemelha mais a termos de rendição do que a uma base para negociação.
O Irã respondeu com suas próprias exigências, igualmente inaceitáveis para o outro lado, incluindo o reconhecimento de seu controle sobre o Estreito de Ormuz, reparações por danos de guerra e a remoção das bases americanas do Oriente Médio.
A menos que ambos os lados consigam dar um salto gigantesco para um terreno intermediário de compromisso inexplorado, é difícil imaginar que um acordo seja alcançado. Não é impossível. O regime iraniano tem um histórico de negociação.
Fontes diplomáticas árabes corroboraram outros relatos, dizendo-me que o Irã estava oferecendo um caminho para um acordo sobre seu programa nuclear quando os EUA abandonaram abruptamente a diplomacia ao entrar em guerra em 28 de fevereiro. Uma fonte me disse: "Você sabe que os iranianos estavam oferecendo tudo." Isso soa como uma simplificação excessiva, e os americanos negam que estivesse havendo progresso, mas os sinais indicam que havia espaço para mais diplomacia quando os EUA e Israel enviaram bombardeiros.
A guerra está em um ponto crítico. Se não houver acordo entre os americanos e os iranianos, Trump terá poucas opções. Ele poderia declarar vitória, dizendo que os Estados Unidos destruíram as forças armadas do Irã, portanto a missão está cumprida, e que abrir o Estreito de Ormuz não é sua responsabilidade.
Isso poderia desestabilizar os mercados financeiros mundiais e horrorizar seus aliados já descontentes na Europa, Ásia e no Golfo. Um regime iraniano ferido e furioso teria ampla margem para pressionar ainda mais a economia mundial.
Mais provavelmente, Trump decidiria intensificar a guerra. Os americanos têm mais de 4.000 fuzileiros navais em navios a caminho do Golfo, paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada em prontidão e estão discutindo reforços adicionais.
Ninguém está falando de uma invasão em grande escala do Irã, mas é possível que os americanos tentem capturar ilhas no Golfo, incluindo a ilha de Kharg, o principal terminal de petróleo do Irã. Isso envolveria uma série de desembarques anfíbios desafiadores e perigosos. Isso poderia até ser conveniente para o Irã, que quer arrastar os americanos para uma guerra de atrito mais longa. O Irã calcula que a capacidade de sofrimento do regime é maior do que a de Trump.
Trump descobriu no Irã que está se deparando com os limites de seu poder. O regime iraniano tem uma definição diferente de vitória e derrota da dele. Para eles, a mera sobrevivência já é uma vitória.
Mas agora eles esperam mais, acreditando que o controle do estreito de Ormuz lhes dá uma nova vantagem para fazer exigências, talvez até mesmo para obter ganhos estratégicos.
Os iranianos exigiram, entre outras coisas, uma promessa de não serem atacados no futuro e o reconhecimento de seu controle sobre o estreito de Ormuz como preço para abri-lo a toda a navegação.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse na quarta-feira que "o presidente Trump não blefa e está preparado para desencadear o inferno. O Irã não deve errar nos cálculos novamente".
"Se o Irã não aceitar a realidade do momento atual, se não entender que foi derrotado militarmente e continuará sendo, o presidente Trump garantirá que seja atingido com mais força do que jamais foi atingido antes."
Ser derrotado em uma guerra não é uma escolha. Se o Irã tivesse sido tão duramente derrotado quanto Trump e seus aliados afirmam, o regime em Teerã já teria entrado em colapso. Ele não precisaria ameaçá-los para que aceitassem seu destino.
Os Estados Unidos e Israel podem causar muito mais danos e matar muito mais pessoas no Irã. No Líbano, Israel está prosseguindo com sua ofensiva contra o Hezbollah, principal aliado do Irã.
Na ausência de um cessar-fogo, eles calculam que podem aumentar o nível de força até que os iranianos não tenham outra escolha senão ceder.
Isso está longe de ser certo.
Quanto mais a guerra se prolongar, maiores serão as consequências para a região e para o mundo em geral. Um importante analista do Irã, Ali Vaez, do International Crisis Group, disse-me que elas poderiam ser "catastróficas".
Em 1956, o Reino Unido e a França entraram em guerra ao lado de Israel depois que o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez, uma via navegável global que era um ponto de estrangulamento tão importante para a economia mundial quanto o estreito de Ormuz é hoje. Eles alcançaram todos os seus objetivos militares, mas foram forçados a se retirar pelo presidente Eisenhower, dos Estados Unidos.
Para os britânicos, foi o começo do fim de seu domínio imperial no Oriente Médio.
Os Estados Unidos enfrentam a ascensão da China. Quando a história da competição entre eles para se tornarem a maior potência mundial for escrita, a guerra mal planejada de Trump contra o Irã poderá ser vista como um ponto de virada, uma etapa de declínio, assim como Suez foi para o Reino Unido.
A incapacidade de aprender com o passado significa que Donald Trump agora enfrenta uma escolha difícil. Se ele não conseguir um acordo com o Irã, pode tentar declarar uma vitória que não enganará ninguém ou intensificar a guerra.
A mais antiga das velhas verdades vem do estrategista militar prussiano Helmuth von Moltke, o Velho: "Nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo". Ele escreveu isso em 1871, o ano em que a Alemanha foi unificada como um império, um momento tão consequente para a segurança da Europa quanto esta guerra pode ser para a segurança do Oriente Médio.
Talvez Trump prefira a versão moderna do boxeador Mike Tyson: "Todo mundo tem um plano até ser atingido". Ainda mais relevantes para Trump são as palavras de um de seus antecessores, Dwight D. Eisenhower, o general americano que comandou o desembarque do Dia D em 1944 e que posteriormente serviu dois mandatos como presidente republicano dos Estados Unidos na década de 1950.
A versão de Eisenhower era: "planos não valem nada, mas o planejamento é tudo". Ele queria dizer que a disciplina e o processo de elaboração de planos para travar uma guerra tornam possível mudar de rumo quando o inesperado acontece.
Para Trump, o elemento inesperado tem sido a resiliência do regime no Irã. Parece que ele esperava uma repetição do sequestro relâmpago, em janeiro, do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, pelas forças armadas americanas. Eles estão agora presos em Nova York, aguardando julgamento. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, o substituiu na presidência e está recebendo ordens de Washington.
Esperar uma repetição da vitória sobre Maduro demonstra uma enorme falta de compreensão das diferenças entre a Venezuela e o Irã.
O ditado de Eisenhower sobre pensar no futuro foi usado em um discurso de 1957. Ele havia sido o responsável pelo planejamento e comando da maior operação militar anfíbia da história, a invasão da Europa Ocidental no Dia D, então ele sabia do que estava falando.
Ele prosseguiu explicando que, quando surge uma emergência inesperada, "a primeira coisa a fazer é pegar todos os planos da prateleira de cima, jogá-los pela janela e começar tudo de novo. Mas se você não planejou, não pode começar a trabalhar, pelo menos não de forma inteligente".
"Essa é a razão pela qual é tão importante planejar, para se manter imerso na natureza do problema que você pode um dia ser chamado a resolver – ou a ajudar a resolver."
Longe de capitular ou entrar em colapso depois que Israel e os EUA mataram o Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, no primeiro ataque aéreo da guerra, o regime em Teerã está funcionando e revidando. Está jogando bem com as cartas que tem.
Em contraste, Donald Trump dá a impressão de estar improvisando. Ele segue seus instintos, não as páginas de inteligência e conselhos estratégicos que outros presidentes analisaram minuciosamente.
Treze dias após o início da guerra, Trump foi questionado pela Fox News Radio sobre quando a guerra terminaria. Ele respondeu que não achava que a guerra "seria longa". Quanto ao seu término, seria "quando eu sentir, sentir na pele".
Ele se apoia em um círculo íntimo de assessores que estão em seus cargos para apoiar suas decisões e fazê-las acontecer. Dizer a verdade ao poder não parece estar em suas atribuições. Confiar nos instintos do presidente em vez de um conjunto de planos bem elaborados – mesmo que precisem ser adaptados ou descartados – torna mais difícil travar uma guerra. A falta de uma direção política clara enfraquece o poder de fogo devastador e a eficácia das forças armadas dos EUA.
Quatro semanas atrás, Trump e Netanyahu depositaram sua confiança em uma feroz campanha de bombardeios que matou não apenas o líder supremo, mas também seus conselheiros mais próximos e, até o momento, matou 1.464 civis iranianos, de acordo com a HRANA, um grupo com sede nos EUA que monitora violações de direitos humanos no Irã.
Os dois líderes esperavam uma vitória rápida. Ambos desafiaram os iranianos a darem seguimento aos bombardeios com um levante popular para derrubar o regime.
Mas o regime em Teerã ainda se mantém de pé, ainda luta, e Trump está descobrindo por que seus antecessores nunca estiveram preparados para se juntar a Netanyahu em uma guerra de escolha para destruir a República Islâmica. Os oponentes do regime não se levantaram. Eles sabem muito bem que, em janeiro, as forças do governo mataram milhares de manifestantes. Avisos oficiais foram transmitidos, dizendo a qualquer pessoa que pensasse em repetir os protestos que seria tratada como inimiga do Estado.
O regime iraniano é um adversário obstinado, implacável e bem organizado. Fundado após a revolução de 1979 que derrubou o xá, foi então forjado na miséria mortal da guerra de oito anos com o Iraque.
O regime é construído sobre instituições, não indivíduos, e reforçado por crenças religiosas inabaláveis e uma ideologia de martírio. Isso significa que matar líderes, embora sem dúvida chocante e perturbador, não se torna também uma sentença de morte para o regime.
Após os assassinatos de janeiro, o governo considerará a morte de muitos outros iranianos, seja pelas mãos das próprias forças do regime ou por bombas americanas e israelenses, como um preço aceitável para a sobrevivência.
O regime iraniano não tinha esperança de igualar o poder de fogo dos EUA e de Israel, mas, tal como Moltke, Tyson e Eisenhower, tem feito planos. Ampliou a guerra, atacando os seus vizinhos árabes do Golfo, bem como as bases americanas nos seus territórios e Israel, espalhando o sofrimento o mais amplamente possível.
O encerramento efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irã, a estreita entrada para o Golfo, cortou cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e abalou os mercados financeiros globais.
O Irã gastou anos e bilhões de dólares construindo a rede de aliados e representantes que o Irã chamou de "Eixo da Resistência", que inclui o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza e na Cisjordânia, para ameaçar e dissuadir Israel.
Os israelenses o atacaram com muita força e eficácia desde o início da guerra em Gaza, com os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Mas o Irã agora está demonstrando que uma característica geográfica, o estreito de Ormuz, pode ser um fator de dissuasão e ameaça ainda mais eficaz do que seu sistema ruinosamente caro de alianças militares. O Irã pode impor seu controle sobre o estreito com drones baratos que podem ser lançados a centenas de quilômetros de distância no interior montanhoso do Irã.
Aliados são mortos. A geografia permanece a mesma. A menos que capturem e ocupem os penhascos em ambos os lados do estreito e uma grande extensão de terra iraniana além deles, os EUA e Israel – e o resto do mundo – estão descobrindo que o regime iraniano exigirá grande influência na reabertura do estreito de Ormuz.
Como observou o ex-vice-comandante da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), General Sir Richard Shirreff, no programa Today da BBC Radio 4, qualquer simulação de guerra que analisasse as consequências de um ataque ao Irã teria demonstrado que a Guarda Revolucionária Islâmica fecharia o estreito de Ormuz.
Isso nos leva de volta à importância de planejar como iniciar uma guerra, como terminá-la e como lidar com o dia seguinte. Donald Trump e seu círculo íntimo, entusiasmados com a perspectiva de uma vitória rápida e fácil, parecem ter ignorado essas etapas.
O "eixo da resistência" também inclui os houthis no Iêmen. Na sexta-feira, eles dispararam uma saraivada de mísseis contra Israel pela primeira vez desde o início desta guerra, com os ataques aéreos ao Irã em 28 de fevereiro.
Se os houthis retomarem seus ataques à navegação no Mar Vermelho, a Arábia Saudita perderá sua rota marítima ocidental para exportação de petróleo para a Ásia.
O Mar Vermelho tem seu próprio ponto de estrangulamento, o estreito de Bab el-Mandeb, tão importante para o comércio mundial quanto o estreito de Ormuz. Se os houthis decidirem intensificar o conflito atacando navios em Bab al-Mandab e mais ao sul, como fizeram durante a guerra em Gaza, eles cortariam a rota da Ásia para a Europa através do Canal de Suez.
Isso criaria uma crise econômica global ainda pior.
Netanyahu, ao contrário de Trump, vem pensando detalhadamente sobre esta guerra desde o início de sua carreira política, que o tornou o primeiro-ministro que mais tempo serviu em Israel.
No primeiro dia completo da guerra contra o Irã, Netanyahu gravou uma declaração em vídeo no telhado do prédio em Tel Aviv conhecido como Kirya, que abriga o quartel-general militar de Israel. Ele falou com uma clareza sobre os objetivos de guerra de Israel que escapou a Trump.
Isso não deveria ser uma surpresa. Entrar em guerra com o Irã é uma proposta mais direta para Israel do que para os EUA. As preocupações de uma potência regional são diferentes dos desafios globais muito mais amplos enfrentados pelos EUA.
Netanyahu está convencido de que pode garantir a segurança futura de Israel causando o máximo de danos possível à República Islâmica. A guerra, disse ele no vídeo, era "para garantir nossa existência e nosso futuro".
Netanyahu sempre considerou o Irã o inimigo mais perigoso de Israel. Seus críticos dizem que essa preocupação foi um dos motivos pelos quais Israel não conseguiu detectar e impedir os ataques do Hamas vindos de Gaza em 7 de outubro de 2023.
Ele agradeceu aos militares dos EUA e a Trump por sua "assistência" e passou ao ponto que, para ele, é o cerne da questão.
"Esta coalizão de forças nos permite fazer o que eu anseio fazer há 40 anos: aniquilar o regime terrorista. Isso é o que eu prometi – e é isso que faremos."
Netanyahu e o establishment militar de Israel, em diferentes momentos ao longo de seus muitos anos no cargo, analisaram maneiras de entrar em guerra com o Irã, destruindo suas instalações nucleares e mísseis balísticos, e tudo o mais que o tornava uma ameaça para eles.
A conclusão em Israel sempre foi que, embora pudessem causar sérios danos ao Irã, isso representaria apenas um revés para o regime. Tornou-se consenso que a única maneira de destruir a capacidade militar do Irã por uma geração ou mais seria por meio de uma aliança com os EUA.
Mas isso exigia um presidente na Casa Branca que estivesse preparado para ir à guerra ao lado de Israel, algo que nunca havia acontecido, apesar da estreita relação entre os dois países e da dependência de Israel do apoio militar e diplomático dos EUA. Netanyahu nunca conseguiu persuadir um presidente americano de que era do interesse dos Estados Unidos entrar em guerra com o Irã – até o segundo mandato de Donald J. Trump.
Apesar da relação amarga e tóxica entre os Estados Unidos e o Irã desde que o xá, um aliado fiel dos EUA, foi deposto em 1979, os sucessivos presidentes americanos acreditavam que a melhor maneira de lidar com a República Islâmica do Irã era contê-la.
Durante a ocupação americana do Iraque, os EUA não entraram em guerra com o Irã, mesmo quando Teerã estava equipando e treinando milícias iraquianas que matavam tropas americanas. A única justificativa, calcularam eles, seria uma ameaça iminente, especialmente informações de que o Irã estava perto de criar uma arma nuclear.
Trump incluiu uma ameaça nuclear em sua lista crescente de razões para ir à guerra. Mas não há evidências críveis de que o Irã estivesse prestes a obter uma arma ou os meios para lançá-la. Até mesmo a Casa Branca ainda mantém em seu site uma declaração datada de 25 de junho de 2025 com a manchete "As instalações nucleares do Irã foram destruídas – e qualquer sugestão em contrário é notícia falsa".
Trump agora está descobrindo por que seus antecessores decidiram que os riscos de optar pela guerra seriam simplesmente grandes demais.
A guerra parece estar se tornando um exemplo clássico de como uma potência menor e mais fraca pode lutar contra um inimigo maior e mais forte, o tipo de conflito que os estrategistas chamam de guerra assimétrica.
É cedo, após apenas um mês, para compará-la a outras guerras que, no papel, os EUA estavam vencendo em termos de inimigos mortos e bombardeios concluídos no Vietnã, Iraque e Afeganistão. Mas é importante lembrar que, após anos de derramamento de sangue e mortes, todas terminaram de maneiras que representaram uma derrota para os Estados Unidos.
O próximo conjunto de decisões de Trump e Netanyahu pode determinar se a guerra no Irã se tornará outro grande erro dos EUA. Trump já adiou duas vezes sua ameaça de destruir a rede elétrica do Irã – o que, segundo ele, poderia ser considerado um crime de guerra.
Ele afirma que isso ocorre porque o Irã está desesperado para fechar um acordo para encerrar a guerra, já que o regime foi duramente atingido pelos danos e mortes que os EUA já infligiram e teme que isso possa causar ainda mais.
Contatos entre os dois lados, por meio da mediação do Paquistão e outros, estão ocorrendo. Os iranianos negam a afirmação de Trump de que se trata de uma negociação completa.
O texto oficial do plano de paz de 15 pontos do presidente não foi publicado, mas versões vazadas mostram um documento que é uma compilação de todas as exigências que os EUA e Israel fizeram ao Irã ao longo de muitos anos. Ele se assemelha mais a termos de rendição do que a uma base para negociação.
O Irã respondeu com suas próprias exigências, igualmente inaceitáveis para o outro lado, incluindo o reconhecimento de seu controle sobre o Estreito de Ormuz, reparações por danos de guerra e a remoção das bases americanas do Oriente Médio.
A menos que ambos os lados consigam dar um salto gigantesco para um terreno intermediário de compromisso inexplorado, é difícil imaginar que um acordo seja alcançado. Não é impossível. O regime iraniano tem um histórico de negociação.
Fontes diplomáticas árabes corroboraram outros relatos, dizendo-me que o Irã estava oferecendo um caminho para um acordo sobre seu programa nuclear quando os EUA abandonaram abruptamente a diplomacia ao entrar em guerra em 28 de fevereiro. Uma fonte me disse: "Você sabe que os iranianos estavam oferecendo tudo." Isso soa como uma simplificação excessiva, e os americanos negam que estivesse havendo progresso, mas os sinais indicam que havia espaço para mais diplomacia quando os EUA e Israel enviaram bombardeiros.
A guerra está em um ponto crítico. Se não houver acordo entre os americanos e os iranianos, Trump terá poucas opções. Ele poderia declarar vitória, dizendo que os Estados Unidos destruíram as forças armadas do Irã, portanto a missão está cumprida, e que abrir o Estreito de Ormuz não é sua responsabilidade.
Isso poderia desestabilizar os mercados financeiros mundiais e horrorizar seus aliados já descontentes na Europa, Ásia e no Golfo. Um regime iraniano ferido e furioso teria ampla margem para pressionar ainda mais a economia mundial.
Mais provavelmente, Trump decidiria intensificar a guerra. Os americanos têm mais de 4.000 fuzileiros navais em navios a caminho do Golfo, paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada em prontidão e estão discutindo reforços adicionais.
Ninguém está falando de uma invasão em grande escala do Irã, mas é possível que os americanos tentem capturar ilhas no Golfo, incluindo a ilha de Kharg, o principal terminal de petróleo do Irã. Isso envolveria uma série de desembarques anfíbios desafiadores e perigosos. Isso poderia até ser conveniente para o Irã, que quer arrastar os americanos para uma guerra de atrito mais longa. O Irã calcula que a capacidade de sofrimento do regime é maior do que a de Trump.
Trump descobriu no Irã que está se deparando com os limites de seu poder. O regime iraniano tem uma definição diferente de vitória e derrota da dele. Para eles, a mera sobrevivência já é uma vitória.
Mas agora eles esperam mais, acreditando que o controle do estreito de Ormuz lhes dá uma nova vantagem para fazer exigências, talvez até mesmo para obter ganhos estratégicos.
Os iranianos exigiram, entre outras coisas, uma promessa de não serem atacados no futuro e o reconhecimento de seu controle sobre o estreito de Ormuz como preço para abri-lo a toda a navegação.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse na quarta-feira que "o presidente Trump não blefa e está preparado para desencadear o inferno. O Irã não deve errar nos cálculos novamente".
"Se o Irã não aceitar a realidade do momento atual, se não entender que foi derrotado militarmente e continuará sendo, o presidente Trump garantirá que seja atingido com mais força do que jamais foi atingido antes."
Ser derrotado em uma guerra não é uma escolha. Se o Irã tivesse sido tão duramente derrotado quanto Trump e seus aliados afirmam, o regime em Teerã já teria entrado em colapso. Ele não precisaria ameaçá-los para que aceitassem seu destino.
Os Estados Unidos e Israel podem causar muito mais danos e matar muito mais pessoas no Irã. No Líbano, Israel está prosseguindo com sua ofensiva contra o Hezbollah, principal aliado do Irã.
Na ausência de um cessar-fogo, eles calculam que podem aumentar o nível de força até que os iranianos não tenham outra escolha senão ceder.
Isso está longe de ser certo.
Quanto mais a guerra se prolongar, maiores serão as consequências para a região e para o mundo em geral. Um importante analista do Irã, Ali Vaez, do International Crisis Group, disse-me que elas poderiam ser "catastróficas".
Em 1956, o Reino Unido e a França entraram em guerra ao lado de Israel depois que o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez, uma via navegável global que era um ponto de estrangulamento tão importante para a economia mundial quanto o estreito de Ormuz é hoje. Eles alcançaram todos os seus objetivos militares, mas foram forçados a se retirar pelo presidente Eisenhower, dos Estados Unidos.
Para os britânicos, foi o começo do fim de seu domínio imperial no Oriente Médio.
Os Estados Unidos enfrentam a ascensão da China. Quando a história da competição entre eles para se tornarem a maior potência mundial for escrita, a guerra mal planejada de Trump contra o Irã poderá ser vista como um ponto de virada, uma etapa de declínio, assim como Suez foi para o Reino Unido.
Brasil 2026: o país do bingo permanente
O Brasil inicia 2026 como se estivesse diante de uma cartela de bingo cívico. A cada semana, uma nova bola é sorteada — e, não raro, repete-se o número que já conhecemos: crise, tensão, incerteza. O cidadão acompanha o sorteio com uma mistura de cansaço e resignação. Não se trata mais de surpresa, mas de rotina.
A polarização continua sendo o eixo estruturante da vida política. Não há debate, há trincheiras. De um lado e de outro, narrativas fechadas, impermeáveis ao diálogo. O adversário deixou de ser apenas opositor; transformou-se em inimigo moral. Nesse ambiente, a política perde densidade programática e ganha contornos de guerra simbólica. O país não discute soluções — disputa versões.
Como se não bastasse, escândalos insistem em frequentar o noticiário. O chamado “Caso Master” soma-se a uma sequência de episódios que envolvem agentes públicos, partidos e instituições. A corrupção, que deveria ser exceção, parece estrutural. Espraia-se como mancha de óleo, atingindo Executivo, Legislativo e até setores do Judiciário. A percepção social é devastadora: para muitos brasileiros, o sistema não falha — ele funciona assim.
No plano econômico, o cotidiano pesa. A gasolina orbitando a casa dos oito reais não é apenas um número; é símbolo de um custo de vida que comprime a renda e amplia o desalento. A inflação, ainda que tecnicamente sob controle em alguns indicadores, corrói silenciosamente o poder de compra. O carrinho de supermercado encolhe, o orçamento doméstico estica até o limite. E os impostos, elevados e complexos, reforçam a sensação de que o Estado cobra muito e entrega pouco.
O cenário internacional adiciona mais incerteza ao quadro. Guerras e tensões geopolíticas reconfiguram cadeias produtivas, pressionam preços e afetam mercados. O Brasil, inserido nesse tabuleiro, sente os efeitos indiretos: volatilidade cambial, instabilidade nos custos de energia, insegurança para investimentos. Em um mundo em ebulição, a margem de erro das políticas internas diminui.
Diante desse mosaico, o eleitor brasileiro entra em um novo ciclo eleitoral mais desconfiado e, ao mesmo tempo, mais exigente. A velha lógica do voto emocional começa a ceder espaço a um comportamento mais pragmático. Saúde, segurança e economia voltam ao centro da decisão. O cidadão quer respostas concretas, não apenas discursos inflamados. Quer previsibilidade, não espetáculo.
Mas há um paradoxo. Embora mais crítico, o eleitor ainda está imerso em um ambiente informacional contaminado por desinformação, algoritmos e bolhas digitais. A chamada “telecracia” — o poder das telas e das narrativas instantâneas — molda percepções e amplifica ruídos. A verdade disputa espaço com versões, e o julgamento público torna-se cada vez mais apressado.
O Brasil de 2026 é, portanto, um país tensionado entre a descrença e a esperança. Descrença nas instituições, nos líderes, nas promessas reiteradamente descumpridas. Esperança difusa de que algo, em algum momento, rompa o ciclo. A sociedade parece dizer: “já vimos esse filme”, mas continua assistindo, na expectativa de um final diferente.
O desafio maior não é apenas econômico ou político; é civilizatório. Trata-se de reconstruir confiança — ativo invisível, porém essencial. Sem ela, reformas não prosperam, pactos não se sustentam, e a democracia se fragiliza. Com ela, mesmo cenários adversos podem ser enfrentados com coesão.
Enquanto isso, o bingo segue. As bolas continuam a girar no globo transparente da vida nacional. Resta saber se, desta vez, o país terá a lucidez de não apenas marcar números, mas de mudar as regras do jogo.
Gaudêncio Torquato
A polarização continua sendo o eixo estruturante da vida política. Não há debate, há trincheiras. De um lado e de outro, narrativas fechadas, impermeáveis ao diálogo. O adversário deixou de ser apenas opositor; transformou-se em inimigo moral. Nesse ambiente, a política perde densidade programática e ganha contornos de guerra simbólica. O país não discute soluções — disputa versões.
Como se não bastasse, escândalos insistem em frequentar o noticiário. O chamado “Caso Master” soma-se a uma sequência de episódios que envolvem agentes públicos, partidos e instituições. A corrupção, que deveria ser exceção, parece estrutural. Espraia-se como mancha de óleo, atingindo Executivo, Legislativo e até setores do Judiciário. A percepção social é devastadora: para muitos brasileiros, o sistema não falha — ele funciona assim.
No plano econômico, o cotidiano pesa. A gasolina orbitando a casa dos oito reais não é apenas um número; é símbolo de um custo de vida que comprime a renda e amplia o desalento. A inflação, ainda que tecnicamente sob controle em alguns indicadores, corrói silenciosamente o poder de compra. O carrinho de supermercado encolhe, o orçamento doméstico estica até o limite. E os impostos, elevados e complexos, reforçam a sensação de que o Estado cobra muito e entrega pouco.
O cenário internacional adiciona mais incerteza ao quadro. Guerras e tensões geopolíticas reconfiguram cadeias produtivas, pressionam preços e afetam mercados. O Brasil, inserido nesse tabuleiro, sente os efeitos indiretos: volatilidade cambial, instabilidade nos custos de energia, insegurança para investimentos. Em um mundo em ebulição, a margem de erro das políticas internas diminui.
Diante desse mosaico, o eleitor brasileiro entra em um novo ciclo eleitoral mais desconfiado e, ao mesmo tempo, mais exigente. A velha lógica do voto emocional começa a ceder espaço a um comportamento mais pragmático. Saúde, segurança e economia voltam ao centro da decisão. O cidadão quer respostas concretas, não apenas discursos inflamados. Quer previsibilidade, não espetáculo.
Mas há um paradoxo. Embora mais crítico, o eleitor ainda está imerso em um ambiente informacional contaminado por desinformação, algoritmos e bolhas digitais. A chamada “telecracia” — o poder das telas e das narrativas instantâneas — molda percepções e amplifica ruídos. A verdade disputa espaço com versões, e o julgamento público torna-se cada vez mais apressado.
O Brasil de 2026 é, portanto, um país tensionado entre a descrença e a esperança. Descrença nas instituições, nos líderes, nas promessas reiteradamente descumpridas. Esperança difusa de que algo, em algum momento, rompa o ciclo. A sociedade parece dizer: “já vimos esse filme”, mas continua assistindo, na expectativa de um final diferente.
O desafio maior não é apenas econômico ou político; é civilizatório. Trata-se de reconstruir confiança — ativo invisível, porém essencial. Sem ela, reformas não prosperam, pactos não se sustentam, e a democracia se fragiliza. Com ela, mesmo cenários adversos podem ser enfrentados com coesão.
Enquanto isso, o bingo segue. As bolas continuam a girar no globo transparente da vida nacional. Resta saber se, desta vez, o país terá a lucidez de não apenas marcar números, mas de mudar as regras do jogo.
Gaudêncio Torquato
EUA usam religião para justificar 'guerra santa' contra Irã
Aconteceu no gélido inverno de 2003 no Palácio do Eliseu. O objetivo da ligação do então presidente americano George W. Bush para Jacque Chirac, à época chefe do Executivo francês, era assegurar o apoio de Paris à iminente invasão americana no Iraque. Cerca de uma hora depois, após um protocolar “até breve”, o sisudo político encarou seus auxiliares mais próximos com ar atipicamente atarantado. E pediu que lhe explicassem quem eram, afinal de contas, os tais Gog e Magog de quem o republicano tanto falara na conversa. Silêncio. O mistério só foi resolvido após a convocação de um teólogo suíço, especializado no Antigo Testamento, que os iluminou sobre os textos bíblicos do profeta Ezequiel em torno das representações do mal.
A história, confirmada anos depois por pessoas diretamente envolvidas no arremedo de incidente diplomático, ressuscitou este mês na mente do professor Juan Cole. O déjà vu se deu quando o catedrático em Religião e Oriente Médio da Universidade de Michigan atentou para as imagens e falas, na Casa Branca e no Pentágono, que, após hiato de duas décadas, mesclavam intencionalmente fervor religioso e conflito bélico, agora em meio ao ataque dos EUA e de Israel ao Irã, iniciado há quatro semanas. E, sublinha o acadêmico, com potencial de estrago ainda maior.
No último dia 5, duas dezenas de pastores — 19 homens e duas mulheres — oraram no Salão Oval da Casa Branca pelo presidente Donald Trump. E para “Deus proteger nossos soldados”. Os mais ao centro posicionaram suas mãos no corpo do republicano. Vídeo e foto divulgados viralizaram. Na cena, todas as cabeças, inclusive a de Trump, que, diferentemente de Bush, não é evangélico ou especialmente religioso, estão voltadas para o chão, os olhos fechados, em expressões respeitosas.
Vinte dias depois, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, protagonizou um ato religioso no Pentágono em que citou trechos bíblicos para justificar o ataque. A esta altura, o bombardeio a uma escola primária na cidade de Minab, no sul do Irã, com a morte confirmada por Teerã de 175 pessoas, já havia se tornado o episódio mais escandaloso do conflito. Na cerimônia em Washington, o veterano militar de missões no Iraque e Afeganistão pediu a Deus que “arrancasse os dentes” e destruísse “os inimigos ímpios”, “não merecedores de misericórdia”. Eles, seguiu, devem ser “lançados à condenação eterna, à qual estão destinados”. Também conclamou o “Senhor a nos conceder alvos claros e justos para atos de violência”.
— Usa-se novamente no governo americano a linguagem da “guerra santa”, um arremedo de cruzada contemporânea, mas não por um presidente crente, contido por oficiais graduados e auxiliares ciosos em reafirmar a separação de Estado e religião estabelecida na Constituição, como na época de Bush, e, sim, por quem está no comando das operações militares — afirma Cole.
A Fundação Militar para Liberdade Religiosa, organização independente fundada dois anos após a invasão do Iraque, que defende soldados e oficiais americanos às voltas com discriminação religiosa, informou ter recebido, desde o início do ataque ao Irã, mais de 200 reclamações formais de proselitismo coercitivo, inclusive por fuzileiros navais.
No ano em que os EUA se preparam para celebrar 250 anos de independência e a afirmação dos valores democráticos, a contaminação da operação contra o Irã pela religião destilada como ideologia é um sinal amarelo para defensores da Primeira Emenda da Constituição, que assegura a liberdade religiosa no país.
— Os EUA não são um espelho exato para a teocracia iraniana, mas a discussão sobre a invasão da religião na argamassa democrática do país é urgente, uma provocação pertinente — diz Cole. — Esta guerra não tem como razão central o embate religioso, mas ele auxilia a Casa Branca em dois aspectos. Por um lado, escamoteia a falta de estratégia geopolítica, a carência de objetivos claros e factíveis. Por outro, em momento de crescente impopularidade de Trump, dialoga com parte importante de sua coalizão. No cálculo dos governistas, os evangélicos formam um quarto dos que de fato sairão de casa para votar em novembro.
Em sete meses, os americanos escolherão quem comandará o Congresso, além de governadores e Legislativos estaduais. Pesquisas indicam o favoritismo dos democratas para retomarem o comando da Câmara e, ainda que menos provável, o Senado. O que seria, nas palavras do próprio presidente, “o fim de meu governo”, com “mais um impeachment a enfrentar”. E neste caso Trump está coberto de razão.
O ataque ao Irã sem um plano de saída claro pode ter sido o maior passo em falso da segunda temporada do republicano na Casa Branca. Trump hoje amarga 56% de rejeição ao seu governo no monitoramento semanal do YouGov/Economist, responsabilizado pelo aumento da gasolina e do custo de vida como sequela direta de um conflito ainda sem fim no horizonte. E, destaca ao GLOBO Stephen Duncombe, diretor do Centro de Pesquisas de Ativismo e Arte da Universidade de Nova York (NYU), seu desespero se reflete na tentativa de reviver à direita um “messianismo medieval cristão datado e fora de lugar em democracias liberais”.
— E dentre os motivos, além de mais perda de vidas no país, e da eliminação em sequência de líderes, deve-se incluir a retórica da violência, aumentada por todos os lados na esfera religiosa — pondera Duncombe.
Ele lembra ainda que a denúncia do uso de termos como “Grande Satã” pelo Irã, em referência aos EUA, deve ser acompanhada da correspondente condenação a uma “reinterpretação desonesta” do cristianismo, propagada em “neocruzadas contra países com populações majoritariamente muçulmanas”. E que a apropriação desonesta de “imaginários mítico-religiosos” para avançar pautas ideológicas não se restringe ao Irã e ao trumpismo.
Assim como Bush e Hegseth, o premier Benjamin Netanyahu, logo no primeiro dia do conflito, revisitou as origens do Purim, celebrado este ano nos dias 2 e 3 de março. Buscou estabelecer paralelo direto, 2.500 anos depois, entre a ameaça ao povo judeu pelo império dos Aquemênidas, na Pérsia Antiga, e o governo dos aiatolás, que prega a eliminação de Israel.
Cole lembra que há razões terrenas, distantes da mitologia de Gog e Magog revisitadas por Bush, para a atual ênfase no uso da religião como propaganda de guerra pelos governos do Likud, de Netanyahu, e do Partido Republicano, de Trump. O premier israelense depende dos ortodoxos para seguir no poder após as eleições gerais, que é obrigado a convocar até outubro. E o trumpismo “se debate com o número recorde de americanos sem religião no país”, 30% de acordo com pesquisa do Pew Research Center no ano passado, além de crescente oposição ao atrelamento da política externa americana a Israel no Oriente Médio, especialmente após Gaza:
— Este pode ser um dos últimos suspiros da manipulação do imaginário medieval cristão com potencial decisivo de voto. Ainda assim, os aspectos simbólicos e a violência por motivação religiosa precisam ser ainda mais dissecados e combatidos do que em 2003.
Ao mesmo tempo, lembra Duncombe, isso se dá quando o Partido Democrata arrisca traçar novas linhas entre o exercício da fé e a política:
— Zohran Mamdani, muçulmano, venceu com folga a prefeitura de Nova York ano passado apresentando sua ética religiosa como trunfo. E a denúncia de abusos pela comunidade latina, em sua maioria católica, por agentes de imigração, teve enorme eco na Igreja, prenunciando uma disputa pelo voto cristão, especialmente em estrato que parecia migrar para o flanco conservador.
A história, confirmada anos depois por pessoas diretamente envolvidas no arremedo de incidente diplomático, ressuscitou este mês na mente do professor Juan Cole. O déjà vu se deu quando o catedrático em Religião e Oriente Médio da Universidade de Michigan atentou para as imagens e falas, na Casa Branca e no Pentágono, que, após hiato de duas décadas, mesclavam intencionalmente fervor religioso e conflito bélico, agora em meio ao ataque dos EUA e de Israel ao Irã, iniciado há quatro semanas. E, sublinha o acadêmico, com potencial de estrago ainda maior.
No último dia 5, duas dezenas de pastores — 19 homens e duas mulheres — oraram no Salão Oval da Casa Branca pelo presidente Donald Trump. E para “Deus proteger nossos soldados”. Os mais ao centro posicionaram suas mãos no corpo do republicano. Vídeo e foto divulgados viralizaram. Na cena, todas as cabeças, inclusive a de Trump, que, diferentemente de Bush, não é evangélico ou especialmente religioso, estão voltadas para o chão, os olhos fechados, em expressões respeitosas.
Vinte dias depois, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, protagonizou um ato religioso no Pentágono em que citou trechos bíblicos para justificar o ataque. A esta altura, o bombardeio a uma escola primária na cidade de Minab, no sul do Irã, com a morte confirmada por Teerã de 175 pessoas, já havia se tornado o episódio mais escandaloso do conflito. Na cerimônia em Washington, o veterano militar de missões no Iraque e Afeganistão pediu a Deus que “arrancasse os dentes” e destruísse “os inimigos ímpios”, “não merecedores de misericórdia”. Eles, seguiu, devem ser “lançados à condenação eterna, à qual estão destinados”. Também conclamou o “Senhor a nos conceder alvos claros e justos para atos de violência”.
— Usa-se novamente no governo americano a linguagem da “guerra santa”, um arremedo de cruzada contemporânea, mas não por um presidente crente, contido por oficiais graduados e auxiliares ciosos em reafirmar a separação de Estado e religião estabelecida na Constituição, como na época de Bush, e, sim, por quem está no comando das operações militares — afirma Cole.
A Fundação Militar para Liberdade Religiosa, organização independente fundada dois anos após a invasão do Iraque, que defende soldados e oficiais americanos às voltas com discriminação religiosa, informou ter recebido, desde o início do ataque ao Irã, mais de 200 reclamações formais de proselitismo coercitivo, inclusive por fuzileiros navais.
No ano em que os EUA se preparam para celebrar 250 anos de independência e a afirmação dos valores democráticos, a contaminação da operação contra o Irã pela religião destilada como ideologia é um sinal amarelo para defensores da Primeira Emenda da Constituição, que assegura a liberdade religiosa no país.
— Os EUA não são um espelho exato para a teocracia iraniana, mas a discussão sobre a invasão da religião na argamassa democrática do país é urgente, uma provocação pertinente — diz Cole. — Esta guerra não tem como razão central o embate religioso, mas ele auxilia a Casa Branca em dois aspectos. Por um lado, escamoteia a falta de estratégia geopolítica, a carência de objetivos claros e factíveis. Por outro, em momento de crescente impopularidade de Trump, dialoga com parte importante de sua coalizão. No cálculo dos governistas, os evangélicos formam um quarto dos que de fato sairão de casa para votar em novembro.
Em sete meses, os americanos escolherão quem comandará o Congresso, além de governadores e Legislativos estaduais. Pesquisas indicam o favoritismo dos democratas para retomarem o comando da Câmara e, ainda que menos provável, o Senado. O que seria, nas palavras do próprio presidente, “o fim de meu governo”, com “mais um impeachment a enfrentar”. E neste caso Trump está coberto de razão.
O ataque ao Irã sem um plano de saída claro pode ter sido o maior passo em falso da segunda temporada do republicano na Casa Branca. Trump hoje amarga 56% de rejeição ao seu governo no monitoramento semanal do YouGov/Economist, responsabilizado pelo aumento da gasolina e do custo de vida como sequela direta de um conflito ainda sem fim no horizonte. E, destaca ao GLOBO Stephen Duncombe, diretor do Centro de Pesquisas de Ativismo e Arte da Universidade de Nova York (NYU), seu desespero se reflete na tentativa de reviver à direita um “messianismo medieval cristão datado e fora de lugar em democracias liberais”.
— E dentre os motivos, além de mais perda de vidas no país, e da eliminação em sequência de líderes, deve-se incluir a retórica da violência, aumentada por todos os lados na esfera religiosa — pondera Duncombe.
Ele lembra ainda que a denúncia do uso de termos como “Grande Satã” pelo Irã, em referência aos EUA, deve ser acompanhada da correspondente condenação a uma “reinterpretação desonesta” do cristianismo, propagada em “neocruzadas contra países com populações majoritariamente muçulmanas”. E que a apropriação desonesta de “imaginários mítico-religiosos” para avançar pautas ideológicas não se restringe ao Irã e ao trumpismo.
Assim como Bush e Hegseth, o premier Benjamin Netanyahu, logo no primeiro dia do conflito, revisitou as origens do Purim, celebrado este ano nos dias 2 e 3 de março. Buscou estabelecer paralelo direto, 2.500 anos depois, entre a ameaça ao povo judeu pelo império dos Aquemênidas, na Pérsia Antiga, e o governo dos aiatolás, que prega a eliminação de Israel.
Cole lembra que há razões terrenas, distantes da mitologia de Gog e Magog revisitadas por Bush, para a atual ênfase no uso da religião como propaganda de guerra pelos governos do Likud, de Netanyahu, e do Partido Republicano, de Trump. O premier israelense depende dos ortodoxos para seguir no poder após as eleições gerais, que é obrigado a convocar até outubro. E o trumpismo “se debate com o número recorde de americanos sem religião no país”, 30% de acordo com pesquisa do Pew Research Center no ano passado, além de crescente oposição ao atrelamento da política externa americana a Israel no Oriente Médio, especialmente após Gaza:
— Este pode ser um dos últimos suspiros da manipulação do imaginário medieval cristão com potencial decisivo de voto. Ainda assim, os aspectos simbólicos e a violência por motivação religiosa precisam ser ainda mais dissecados e combatidos do que em 2003.
Ao mesmo tempo, lembra Duncombe, isso se dá quando o Partido Democrata arrisca traçar novas linhas entre o exercício da fé e a política:
— Zohran Mamdani, muçulmano, venceu com folga a prefeitura de Nova York ano passado apresentando sua ética religiosa como trunfo. E a denúncia de abusos pela comunidade latina, em sua maioria católica, por agentes de imigração, teve enorme eco na Igreja, prenunciando uma disputa pelo voto cristão, especialmente em estrato que parecia migrar para o flanco conservador.
domingo, 29 de março de 2026
O powerpoint certo do Banco Master
Um programa da GloboNews mostrou um gráfico que colocava Lula e a esquerda no centro do escândalo do Master. Estava errado. A emissora pediu desculpas. Mas como seria o Powerpoint certo?
No centro, coloque Daniel Vorcaro como símbolo do ecossistema Master (que tem também Fictor, Will Bank, Reag, etc.).
Em volta, desenhe um primeiro círculo com o título "suspeitos de roubar com o Master". São os três governadores (todos de direita) e 15 prefeitos (14 de direita) que investiram dinheiro de aposentados no banco. A administração do PT da Bahia é suspeita de coisa diferente, mas pode ser colocada aqui –como um dos 19 casos. Se algum caso merece destaque é Cláudio Castro, do PL, que queimou R$ 1 bilhão dos aposentados do Rio no Master.
Desenhe um segundo círculo com o título "suspeitos de tentar salvar o Master com mutreta". Aqui entram: os partidos PL, PP, União Brasil, Republicanos, MDB e PSB, que assinaram urgência para projeto que lhes permitiria afastar a diretoria do Banco Central que investigava o Master (Req. 3651/2025); Ciro Nogueira (PP-PI) e Filipe Barros (PL-PR), que tentaram mudar a lei para aumentar a cobertura do FGC, dando sobrevida ao esquema (Emenda 11 à PEC 65/2023 e PL 4395/2024); Dias Toffoli, do STF, e Jhonatan de Jesus, ministro do TCU e ex-deputado do Republicanos, que tentaram melar o trabalho do BC.
Guido Mantega, que atuou como lobista para Vorcaro e conseguiu uma reunião dele com Lula e Galípolo; os dois diretores do Banco Central subornados por Vorcaro; e, com absoluto destaque, Ibaneis Rocha (MDB-DF), que deu um rombo de R$ 15 bi a R$ 20 bilhões no BRB tentando salvar o Master.
Nesse segundo círculo também devem entrar Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques. Não sabemos, ainda, se fizeram ou prometeram fazer algo para salvar o Master. Porém, seus familiares (esposa de Moraes, filho de Nunes Marques) têm contratos de advocacia com o ecossistema Master com valores suspeitos. Eu não incluiria Ricardo Lewandowski no mesmo círculo, porque a Polícia Federal, sob sua responsabilidade, prendeu o ecossistema inteiro; e porque os honorários que o Master lhe pagava eram muito mais compatíveis com os valores de mercado. Mas o leitor pode colocá-lo aqui, se achar melhor.
Desenhe um terceiro círculo com o título "recebeu dinheiro do Master para fazer campanha eleitoral". Aqui estão Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) e, sobretudo, Jair Bolsonaro. Além dos R$ 3 milhões recebidos de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, os passeios de jatinho de Nikolas Ferreira eram para fazer campanha para Jair.
Lula não está no Powerpoint. Até agora, não há sinal de que tenha roubado com o Master, tentado salvá-lo ou recebido dinheiro de seus sócios. Se algo aparecer, colocamos Lula.
Haddad é, pelo que se sabe, o único político que se negou a encontrar Vorcaro. Galípolo liquidou o Master.
Esse tipo de gráfico tem seus defeitos: há gente que fez coisas de gravidade diferente no mesmo círculo. Mais importante: o gráfico precisa ser atualizado com o conteúdo dos celulares de Vorcaro (mais importante que as delações).
Há outros envolvidos, mas todo o núcleo político do caso Master está aí. Agora pinte os envolvidos de direita de azul, os de esquerda de vermelho, os juízes de preto, e observe o padrão.
No centro, coloque Daniel Vorcaro como símbolo do ecossistema Master (que tem também Fictor, Will Bank, Reag, etc.).
Em volta, desenhe um primeiro círculo com o título "suspeitos de roubar com o Master". São os três governadores (todos de direita) e 15 prefeitos (14 de direita) que investiram dinheiro de aposentados no banco. A administração do PT da Bahia é suspeita de coisa diferente, mas pode ser colocada aqui –como um dos 19 casos. Se algum caso merece destaque é Cláudio Castro, do PL, que queimou R$ 1 bilhão dos aposentados do Rio no Master.
Desenhe um segundo círculo com o título "suspeitos de tentar salvar o Master com mutreta". Aqui entram: os partidos PL, PP, União Brasil, Republicanos, MDB e PSB, que assinaram urgência para projeto que lhes permitiria afastar a diretoria do Banco Central que investigava o Master (Req. 3651/2025); Ciro Nogueira (PP-PI) e Filipe Barros (PL-PR), que tentaram mudar a lei para aumentar a cobertura do FGC, dando sobrevida ao esquema (Emenda 11 à PEC 65/2023 e PL 4395/2024); Dias Toffoli, do STF, e Jhonatan de Jesus, ministro do TCU e ex-deputado do Republicanos, que tentaram melar o trabalho do BC.
Guido Mantega, que atuou como lobista para Vorcaro e conseguiu uma reunião dele com Lula e Galípolo; os dois diretores do Banco Central subornados por Vorcaro; e, com absoluto destaque, Ibaneis Rocha (MDB-DF), que deu um rombo de R$ 15 bi a R$ 20 bilhões no BRB tentando salvar o Master.
Nesse segundo círculo também devem entrar Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques. Não sabemos, ainda, se fizeram ou prometeram fazer algo para salvar o Master. Porém, seus familiares (esposa de Moraes, filho de Nunes Marques) têm contratos de advocacia com o ecossistema Master com valores suspeitos. Eu não incluiria Ricardo Lewandowski no mesmo círculo, porque a Polícia Federal, sob sua responsabilidade, prendeu o ecossistema inteiro; e porque os honorários que o Master lhe pagava eram muito mais compatíveis com os valores de mercado. Mas o leitor pode colocá-lo aqui, se achar melhor.
Desenhe um terceiro círculo com o título "recebeu dinheiro do Master para fazer campanha eleitoral". Aqui estão Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) e, sobretudo, Jair Bolsonaro. Além dos R$ 3 milhões recebidos de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, os passeios de jatinho de Nikolas Ferreira eram para fazer campanha para Jair.
Lula não está no Powerpoint. Até agora, não há sinal de que tenha roubado com o Master, tentado salvá-lo ou recebido dinheiro de seus sócios. Se algo aparecer, colocamos Lula.
Haddad é, pelo que se sabe, o único político que se negou a encontrar Vorcaro. Galípolo liquidou o Master.
Esse tipo de gráfico tem seus defeitos: há gente que fez coisas de gravidade diferente no mesmo círculo. Mais importante: o gráfico precisa ser atualizado com o conteúdo dos celulares de Vorcaro (mais importante que as delações).
Há outros envolvidos, mas todo o núcleo político do caso Master está aí. Agora pinte os envolvidos de direita de azul, os de esquerda de vermelho, os juízes de preto, e observe o padrão.
No balcão de compra e venda, o que se quer da República é uma fachada conveniente
Há algo de salutar no escândalo do Banco Master, pois toda grande crise (do grego "krinein", descriminar, ver nas fissuras) revela aspectos despercebidos da realidade. No caso do Master, mais do que revelar, trata-se de expor: quando não se conhecem detalhes, ao menos se sente o peso do poder paralelo de entidades corruptivas na dinâmica nacional. Na exposição, incrementada nas redes por mobilização neural, o argumento dá lugar à cenografia, como num conto moral. As massas veem o que sentem de coração.
Desse modo, a visibilidade do fato privilegia palavras e imagens projetivas: festa de noivado na Sicília orçada em R$ 21 milhões, R$ 363 milhões em celebração em Taormina, também na Itália, passeio de R$ 10 milhões em iate, jato transatlântico, champanhe e caviar inesgotáveis, beldades eslavas.
Por trás, o azeitamento corruptivo da máquina do poder em Brasília, efeito da falência da política positiva (homóloga à historicidade da ordem e do progresso), ultrapassada por organizações econômicas (bancos, grupos de finanças, agronegócio), direita e centrão.
Nessa crise, fenômenos e movimentos suscitam interrogações relevantes sobre as relações do poder com a sociedade, mas também com a mutação do sentimento de existência nas classes dirigentes.
São diversos os modos de realização da democracia liberal quando os caminhos sociais se decidem por elites abrigadas em protocolos entre formais e obscuros, à sombra do Estado. É o caso dos estamentos burocráticos que ganham autonomia decisória na debilitação político-institucional. Por exemplo, Judiciário e Legislativo vulneráveis a círculos financeiros e empresariais.
Um sentimento de existência permeável à sua própria exposição pública leva um capo fraudulento como Vorcaro à enunciação de verdades escandalosas: "Esse negócio de banco é uma máfia", "eu sou a anarquia do sistema". E como a mafialização é também evangélica, alega-se parceria com o "Senhor dos Exércitos" em desavenças pessoais. Algo correlato ao vaticínio bíblico sobre os que desprezam a palavra do Santo de Israel: " Por isso, o furor do Senhor se inflama contra seu povo, apodera-se dele e o castiga; os montes tremem, seus cadáveres, como carniça, jazem nas ruas" (Isaías, 5-25). Pequena lagoa de ódio que respalda a milícia particular destinada a agredir a imprensa e ameaçar de morte os dissidentes.
A exposição do escândalo levanta a suspeita de que um outro Brasil tenha nascido e se alojado nas vísceras federais como um chupa-cabra de energias do trabalho produtivo. Dinheiro é o sangue vital, corrupção o modo operatório. Nesse balcão de compra e venda, o que se quer da República é uma fachada conveniente, um "brilho de aluguel" (João Bosco/Aldir Blanc).
Não é fenômeno exclusivo, mas aqui a desigualdade social e o desprezo das elites no poder pelo território dão à fraude estatuto de cataclisma moral e cívico. Por isso, ao sentimento público de justiça pouco satisfazem, expostos, uniforme, chinelão e a cela exígua do mestre corruptor, por mais que bata nas paredes a cabeça tosada. Uma delação verdadeira, essa, sim, mostraria o conteúdo da caixa de Pandora chamada Brasília. Aí então, seria um verdadeiro salve-se quem puder.
Desse modo, a visibilidade do fato privilegia palavras e imagens projetivas: festa de noivado na Sicília orçada em R$ 21 milhões, R$ 363 milhões em celebração em Taormina, também na Itália, passeio de R$ 10 milhões em iate, jato transatlântico, champanhe e caviar inesgotáveis, beldades eslavas.
Por trás, o azeitamento corruptivo da máquina do poder em Brasília, efeito da falência da política positiva (homóloga à historicidade da ordem e do progresso), ultrapassada por organizações econômicas (bancos, grupos de finanças, agronegócio), direita e centrão.
Nessa crise, fenômenos e movimentos suscitam interrogações relevantes sobre as relações do poder com a sociedade, mas também com a mutação do sentimento de existência nas classes dirigentes.
São diversos os modos de realização da democracia liberal quando os caminhos sociais se decidem por elites abrigadas em protocolos entre formais e obscuros, à sombra do Estado. É o caso dos estamentos burocráticos que ganham autonomia decisória na debilitação político-institucional. Por exemplo, Judiciário e Legislativo vulneráveis a círculos financeiros e empresariais.
Um sentimento de existência permeável à sua própria exposição pública leva um capo fraudulento como Vorcaro à enunciação de verdades escandalosas: "Esse negócio de banco é uma máfia", "eu sou a anarquia do sistema". E como a mafialização é também evangélica, alega-se parceria com o "Senhor dos Exércitos" em desavenças pessoais. Algo correlato ao vaticínio bíblico sobre os que desprezam a palavra do Santo de Israel: " Por isso, o furor do Senhor se inflama contra seu povo, apodera-se dele e o castiga; os montes tremem, seus cadáveres, como carniça, jazem nas ruas" (Isaías, 5-25). Pequena lagoa de ódio que respalda a milícia particular destinada a agredir a imprensa e ameaçar de morte os dissidentes.
A exposição do escândalo levanta a suspeita de que um outro Brasil tenha nascido e se alojado nas vísceras federais como um chupa-cabra de energias do trabalho produtivo. Dinheiro é o sangue vital, corrupção o modo operatório. Nesse balcão de compra e venda, o que se quer da República é uma fachada conveniente, um "brilho de aluguel" (João Bosco/Aldir Blanc).
Não é fenômeno exclusivo, mas aqui a desigualdade social e o desprezo das elites no poder pelo território dão à fraude estatuto de cataclisma moral e cívico. Por isso, ao sentimento público de justiça pouco satisfazem, expostos, uniforme, chinelão e a cela exígua do mestre corruptor, por mais que bata nas paredes a cabeça tosada. Uma delação verdadeira, essa, sim, mostraria o conteúdo da caixa de Pandora chamada Brasília. Aí então, seria um verdadeiro salve-se quem puder.
A inteligência artificial e a nova fronteira da desigualdade no Brasil
A empresária Natalia Beauty provocou reações ao admitir que utiliza inteligência artificial para estruturar seus artigos publicados na Folha de São Paulo. Questionada após um leitor sugerir que seus textos pareciam “escritos por IA”, ela não negou. Disse que as ideias são suas, mas que usa modelos como o Claude, da Anthropic, para redigir as colunas. Comparou o uso da ferramenta às canetas emagrecedoras: muita gente usa, mas poucos assumem. A reação pública revelou um desconforto com o uso da tecnologia. Mas deixou de expor um fenômeno estrutural: no Brasil, a inteligência artificial pode se tornar um diferencial de classe.
O debate internacional já reconheceu esse fenômeno e lhe deu um nome: AI Divide – ou divisão da inteligência artificial. O conceito descreve uma nova camada de desigualdade baseada não apenas no acesso à tecnologia, mas na capacidade de utilizá-la estrategicamente para ampliar produtividade, renda e poder. Um estudo publicado pela JP Morgan mostra que elites econômicas passaram a incorporar a IA como ferramenta estratégica para ganhar eficiência, antecipar decisões e otimizar processos. A tecnologia aparece não apenas como instrumento de produtividade, mas como forma de converter tempo em vantagem competitiva.
Na mesma direção, estudos da McKinsey & Company sobre consumo e estilo de vida identificam que o bem-estar se tornou um novo luxo e que o activewear é o novo símbolo de status. Para sustentar essa estética de equilíbrio e performance é preciso tempo – e tempo, hoje, virou ativo econômico. A inteligência artificial entra nesse circuito como ferramenta estratégica: acelera tarefas, organiza informações e libera horas que podem ser reinvestidas.
No Brasil, os dados confirmam a concentração. Segundo a TIC Domicílios 2025, 69% da classe A utilizam inteligência artificial generativa, contra apenas 16% nas classes D e E. Entre pessoas com ensino superior, o índice chega a 59%; entre quem tem apenas ensino fundamental, cai para 17%. No total, 32% dos usuários de internet no país já utilizaram IA – mas a média nacional mascara uma desigualdade profunda no acesso qualificado à tecnologia.
Nos ambientes corporativos, a IA é apresentada como estratégia e inovação. Nos territórios vulneráveis, aparece associada a golpes digitais, deepfakes, perda de emprego e desinformação. Os riscos existem. Mas quando a diferença diária de produtividade, acumulada ao longo dos anos, se converte em desigualdade estrutural, limitar o debate apenas às ameaças reforça a exclusão. Ao enfatizar o risco sem oferecer capacitação, a mensagem implícita é clara: essa tecnologia não é para você.
O jornalismo já sente esse efeito. Grandes grupos já integram a IA às suas estratégias de produto e distribuição. Veículos independentes a utilizam de forma pontual, segundo estudo da Thomson Media, muitas vezes restrita a tarefas operacionais. Quando apenas organizações com maior capital incorporam a IA de forma estratégica, a desigualdade no ecossistema informacional se aprofunda.
Parte do debate público ainda tende a moralizar o uso da inteligência artificial, o que frequentemente dificulta uma discussão mais madura sobre sua adoção no Brasil. Utilizar IA seria uma forma de trapaça? Tornaria o trabalho menos legítimo ou o usuário menos inteligente? Ao enquadrar a questão nesses termos, o debate se desloca da discussão sobre infraestrutura, acesso e regulação – justamente os elementos que definem quem realmente se beneficia da tecnologia.
Em texto recente publicado no blog da Mozilla.ai, AI Generated Code Isn’t Cheating: OSS Needs to Talk About It, desenvolvedores defendem que o problema não é utilizar inteligência artificial para gerar código, mas fingir que ela não está presente. Paralelamente, o debate internacional sobre IA tem se deslocado de uma lógica de proibição para uma discussão sobre transparência, responsabilidade e distribuição dos benefícios da tecnologia. O relatório Mind the AI Divide: Shaping a Global Perspective on the Future of Work, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), chama atenção para um aspecto estrutural desse processo: a infraestrutura necessária para desenvolver e operar sistemas avançados de IA – como centros de dados, capacidade computacional e investimento em pesquisa – permanece concentrada em poucos países e empresas globais.
Assim, a disputa de poder na economia da inteligência artificial não se limita ao uso da tecnologia pelos indivíduos, mas envolve também o controle das plataformas, dos dados e da infraestrutura que tornam esses sistemas possíveis. A inteligência artificial não é neutra. Ela amplia estruturas preexistentes. Num país marcado por desigualdades históricas, o resultado tende a ser previsível.
Sem políticas públicas de formação massiva em IA, conectividade de qualidade e apoio a iniciativas locais e independentes, a tecnologia se consolidará como mais um benefício de classe. A questão não é se a IA será usada. Ela já está sendo. A questão é quem acumulará produtividade, renda e poder – e quem ficará apenas com o discurso do risco. Até agora, o futuro continua sendo apropriado pelas mesmas pessoas do presente.
O debate internacional já reconheceu esse fenômeno e lhe deu um nome: AI Divide – ou divisão da inteligência artificial. O conceito descreve uma nova camada de desigualdade baseada não apenas no acesso à tecnologia, mas na capacidade de utilizá-la estrategicamente para ampliar produtividade, renda e poder. Um estudo publicado pela JP Morgan mostra que elites econômicas passaram a incorporar a IA como ferramenta estratégica para ganhar eficiência, antecipar decisões e otimizar processos. A tecnologia aparece não apenas como instrumento de produtividade, mas como forma de converter tempo em vantagem competitiva.
Na mesma direção, estudos da McKinsey & Company sobre consumo e estilo de vida identificam que o bem-estar se tornou um novo luxo e que o activewear é o novo símbolo de status. Para sustentar essa estética de equilíbrio e performance é preciso tempo – e tempo, hoje, virou ativo econômico. A inteligência artificial entra nesse circuito como ferramenta estratégica: acelera tarefas, organiza informações e libera horas que podem ser reinvestidas.
No Brasil, os dados confirmam a concentração. Segundo a TIC Domicílios 2025, 69% da classe A utilizam inteligência artificial generativa, contra apenas 16% nas classes D e E. Entre pessoas com ensino superior, o índice chega a 59%; entre quem tem apenas ensino fundamental, cai para 17%. No total, 32% dos usuários de internet no país já utilizaram IA – mas a média nacional mascara uma desigualdade profunda no acesso qualificado à tecnologia.
Nos ambientes corporativos, a IA é apresentada como estratégia e inovação. Nos territórios vulneráveis, aparece associada a golpes digitais, deepfakes, perda de emprego e desinformação. Os riscos existem. Mas quando a diferença diária de produtividade, acumulada ao longo dos anos, se converte em desigualdade estrutural, limitar o debate apenas às ameaças reforça a exclusão. Ao enfatizar o risco sem oferecer capacitação, a mensagem implícita é clara: essa tecnologia não é para você.
O jornalismo já sente esse efeito. Grandes grupos já integram a IA às suas estratégias de produto e distribuição. Veículos independentes a utilizam de forma pontual, segundo estudo da Thomson Media, muitas vezes restrita a tarefas operacionais. Quando apenas organizações com maior capital incorporam a IA de forma estratégica, a desigualdade no ecossistema informacional se aprofunda.
Parte do debate público ainda tende a moralizar o uso da inteligência artificial, o que frequentemente dificulta uma discussão mais madura sobre sua adoção no Brasil. Utilizar IA seria uma forma de trapaça? Tornaria o trabalho menos legítimo ou o usuário menos inteligente? Ao enquadrar a questão nesses termos, o debate se desloca da discussão sobre infraestrutura, acesso e regulação – justamente os elementos que definem quem realmente se beneficia da tecnologia.
Em texto recente publicado no blog da Mozilla.ai, AI Generated Code Isn’t Cheating: OSS Needs to Talk About It, desenvolvedores defendem que o problema não é utilizar inteligência artificial para gerar código, mas fingir que ela não está presente. Paralelamente, o debate internacional sobre IA tem se deslocado de uma lógica de proibição para uma discussão sobre transparência, responsabilidade e distribuição dos benefícios da tecnologia. O relatório Mind the AI Divide: Shaping a Global Perspective on the Future of Work, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), chama atenção para um aspecto estrutural desse processo: a infraestrutura necessária para desenvolver e operar sistemas avançados de IA – como centros de dados, capacidade computacional e investimento em pesquisa – permanece concentrada em poucos países e empresas globais.
Assim, a disputa de poder na economia da inteligência artificial não se limita ao uso da tecnologia pelos indivíduos, mas envolve também o controle das plataformas, dos dados e da infraestrutura que tornam esses sistemas possíveis. A inteligência artificial não é neutra. Ela amplia estruturas preexistentes. Num país marcado por desigualdades históricas, o resultado tende a ser previsível.
Sem políticas públicas de formação massiva em IA, conectividade de qualidade e apoio a iniciativas locais e independentes, a tecnologia se consolidará como mais um benefício de classe. A questão não é se a IA será usada. Ela já está sendo. A questão é quem acumulará produtividade, renda e poder – e quem ficará apenas com o discurso do risco. Até agora, o futuro continua sendo apropriado pelas mesmas pessoas do presente.
Aplausos trumpistas
Trump 2.0 é muito melhor que Trump 1.0, não é? Bem, Bolsonaro 2.0 também será muito melhor.
Flávio Bolsonaro, ovacionado de pé no Texas durante discurso na CPAC, a conferência anual do movimento conservador americano
Flávio Bolsonaro, ovacionado de pé no Texas durante discurso na CPAC, a conferência anual do movimento conservador americano
Os irmãos Bolsonaro e a sabotagem do Brasil
Flávio Bolsonaro, aquele que muitos tentam vender como o “rosto moderado” da família, resolveu vestir uma nova fantasia. Esqueçam o figurino de centro ou centro-direita que tentam lhe impor.
Reportagem recente do The New York Times pôs luz sobre o que vinha sendo cozinhado nos bastidores: um lobby intenso de Flávio e seu irmão Eduardo junto à administração de Donald Trump.
O objetivo? Convencer os americanos a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Segundo o jornal, Flávio chegou a entregar relatórios detalhados ao Departamento de Estado, atuando quase como um chanceler paralelo – ou, no bom português, um lobista de luxo.
A ideia parece saída diretamente do manual de “idiotices políticas” que a família domina com maestria.
Há uma diferença fundamental que os Bolsonaros fingem não entender: o crime organizado quer lucro. Organizações terroristas querem derrubar Estados e ideologias. Ao misturar as estações, Flávio não busca segurança pública para o brasileiro.
Ele busca um trunfo eleitoral para sua pré-candidatura em 2026 e, pior, abre as portas para uma intervenção externa que fere a nossa soberania.
Se Trump, cercado por uma equipe que só sabe dizer “sim senhor”, cair nessa conversa, entregará um presente de bandeja para Lula. O petista não perderia a chance de se enrolar na bandeira nacional para denunciar o óbvio: um atentado à autonomia do Brasil provocado por brasileiros.
Flávio Bolsonaro parece não perceber que, ao tentar criar esse fato internacional, pode estar cavando um buraco ainda mais fundo. A vida do senador tende a ficar muito mais complicada se Washington começar a ditar as regras no nosso quintal. O tiro, como de costume, tem tudo para sair pela culatra.
Depois das sanções, estimuladas pelo “chanceler do caos” Eduardo Bolsonaro, temos agora o patriota Flávio abrindo as portas para interferência em ano eleitoral.
É o amadorismo da família Bolsonaro atravessando o oceano (de novo) para passar vergonha.
Reportagem recente do The New York Times pôs luz sobre o que vinha sendo cozinhado nos bastidores: um lobby intenso de Flávio e seu irmão Eduardo junto à administração de Donald Trump.
O objetivo? Convencer os americanos a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Segundo o jornal, Flávio chegou a entregar relatórios detalhados ao Departamento de Estado, atuando quase como um chanceler paralelo – ou, no bom português, um lobista de luxo.
A ideia parece saída diretamente do manual de “idiotices políticas” que a família domina com maestria.
Há uma diferença fundamental que os Bolsonaros fingem não entender: o crime organizado quer lucro. Organizações terroristas querem derrubar Estados e ideologias. Ao misturar as estações, Flávio não busca segurança pública para o brasileiro.
Ele busca um trunfo eleitoral para sua pré-candidatura em 2026 e, pior, abre as portas para uma intervenção externa que fere a nossa soberania.
Se Trump, cercado por uma equipe que só sabe dizer “sim senhor”, cair nessa conversa, entregará um presente de bandeja para Lula. O petista não perderia a chance de se enrolar na bandeira nacional para denunciar o óbvio: um atentado à autonomia do Brasil provocado por brasileiros.
Flávio Bolsonaro parece não perceber que, ao tentar criar esse fato internacional, pode estar cavando um buraco ainda mais fundo. A vida do senador tende a ficar muito mais complicada se Washington começar a ditar as regras no nosso quintal. O tiro, como de costume, tem tudo para sair pela culatra.
Depois das sanções, estimuladas pelo “chanceler do caos” Eduardo Bolsonaro, temos agora o patriota Flávio abrindo as portas para interferência em ano eleitoral.
É o amadorismo da família Bolsonaro atravessando o oceano (de novo) para passar vergonha.
Dondon
Chamava-se Dondon. Mais exatamente, o nome era Antônio Santana Castelo Branco, mas ele próprio acrescentava: — “vulgo Dondon”; e com o tempo, já morto, não se tornou de todo alheio a mim pela misteriosa rede dos afetos que o sangue confirma, pois era parente longe da menina moça que um dia me deu um lar e, mais perto, do meu professor de francês no Liceu Piauiense, que há quarenta anos quero e admiro, Cristino Castelo Branco, e de seu filho, Carlos, que amo como irmão. Pensando melhor, emendo a tempo. Esse clã dos Castelo Branco, no ramo piauiense, sempre foi muito da minha gente. Havia os amigos de meu pai, Fenelon, Heitor e houve os meus, Huguinho, que morreu em meus braços, de cabelos brancos e com quem se perderam os segredos mais típicos do vale do Parnaíba, exceto a altura exata de armador de rede, pois esse ainda teve ocasião de me confiar, e Sansão, menino de cachos vestido de veludo que vi adulto morrer dispersando o gênio, gênio mesmo de verdade, em noites boêmias, cujo amanhecer por vezes refluía para minha casa de Santa Teresa, onde iam parar suas compras de madrugada em mercado de peixe, siris vivos, ou algum pato que preparava ao tucupi com a mesma arte dos seus quadros.
Ora, isto posto, como ia dizendo, chamava-se Dondon e (com perdão da má palavra) era meio doido, senão doido inteiro. Ele próprio dizia que morava no Campo de Marte, no mesmo largo em que estavam a Santa Casa, o Asilo de Loucos, a Cadeia Pública e o Cemitério, que era para não dar trabalho em caso de necessidade…
Dizia, só? Não. Escrevia. Porque esse piauiense atarracado e falante, por cujo desvario nunca faltou caridade em casa de meus pais, era jornalista. Foi, mesmo, um dos primeiros jornalistas que conheci, e ainda hoje o vejo (ou revejo) com os olhos da infância, que viu outros, e no exemplo de outros se banhou, mas com Antônio Santana Castelo Branco, vulgo Dondon, aprendeu cedo como não se deve fazer jornal.
Desde logo, porém, direi uma coisa em seu louvor. Era tudo, em sua folha; e gabava-se disso. Diretor, redator, revisor, tipógrafo, distribuidor a domicílio, vendedor de número avulso no Bar Carvalho, não dependia de ninguém para fazer O Denunciante. Era esse o nome daquelas quatro páginas impressas; e nelas se derramava toda a maledicência da pequena cidade provinciana, a Teresina da era de Vinte. Do fundo da memória emerge o cabeçalho, e se o tempo não me trai nele se acrescentava aos apelidos e qualificações de Dondon no desempenho profissional de suas tarefas outra condição mais alta, a de “Defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz”.
Não propriamente a paz entre as famílias, nem dentro delas; porque algumas das hipóteses que os filhos da Candinha e a imaginação alucinada de Dondon transformavam em verdades incontestáveis e matéria impressa eram de molde a separar marido e mulher, filhos e pais, irmãos e cunhados, e assim por diante, sem falar em patrões e caixeiros, governados e governantes. Um destes últimos, cujo nome ainda hoje no Piauí é coberto de bênçãos pela excelência do seu governo, cometeu com Dondon a única arbitrariedade consciente de que sua mocidade severa e ativa o acusa. Estava-se em plena Revolução de 1930, o Tenente Landri Sales era interventor, cansou-se daquela maluquice exaltada que fazia da calúnia e da injúria um sistema jornalístico; mandou jogar a tipografia de Dondon no Parnaíba. E Antônio Santana Castelo Branco passou a viver de carregar banana em lombo de burro.
Falei em sistema. Era um sistema. O Denunciante não tinha preço fixo para a venda. Cada família, suscetível de vir a ter o nome impresso em tinta de jornal, era taxada, segundo as suas posses, que não segundo seus pecados. Pois a lembrança da espórtula arrecadada, cinco, vinte ou cinquenta mil réis que fossem, mesmo cem — o preço de dois bois —, se apagava totalmente da memória de Antônio Santana Castelo Branco, o defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz, quando se sentava para escrever. Não assumia compromissos com ninguém — a não ser com a maledicência pública e com seu próprio desvario denunciatório. Nem adiantava pagar-lhe para que se calasse, pois, ao contrário de tantos cosmopolitas, não escrevia que lhe pagassem — e se calasse. Faltava-lhe o siso, não a honestidade.
Cheguei ao Rio em março de 1930. A 6 de janeiro de 1931 Félix Pacheco iluminava de alegria os meus dezesseis anos com um emprego no Jornal do Comércio. Fui ser repórter no Ministério do Trabalho e conheci Lindolfo Collor, com quem a Revolução de 30 dizia ao que vinha, coisa que as Revoluções faziam depressa naquele tempo. Lá se vão mais de 33 anos que vivo em jornal. Nunca mais vi O Denunciante. Dondon já morreu há muito. Eis senão quando esta surpresa brutal: seu espírito ressuscita e invade a imprensa brasileira com uma fúria a que poucos restam imunes. Mistério insondável da natureza, os tipos do O Denunciante, que o então Tenente Landri Sales Gonçalves mandou jogar no Parnaíba, germinaram monstruosamente. Sua tinta pesteou as águas; e com elas desceu rio abaixo, salgou o mar oceano e onde houve terra brasileira banhada pelo Atlântico e mais chão adentro esse vírus maníaco foi contaminar jornais e jornalistas. E no caminho em que vão as coisas, será em breve necessário acrescentar ao currículo das escolas de jornalismo a cadeira em que se ensine a técnica da delação e a arte da denúncia.
Ora, isto posto, como ia dizendo, chamava-se Dondon e (com perdão da má palavra) era meio doido, senão doido inteiro. Ele próprio dizia que morava no Campo de Marte, no mesmo largo em que estavam a Santa Casa, o Asilo de Loucos, a Cadeia Pública e o Cemitério, que era para não dar trabalho em caso de necessidade…
Dizia, só? Não. Escrevia. Porque esse piauiense atarracado e falante, por cujo desvario nunca faltou caridade em casa de meus pais, era jornalista. Foi, mesmo, um dos primeiros jornalistas que conheci, e ainda hoje o vejo (ou revejo) com os olhos da infância, que viu outros, e no exemplo de outros se banhou, mas com Antônio Santana Castelo Branco, vulgo Dondon, aprendeu cedo como não se deve fazer jornal.
Desde logo, porém, direi uma coisa em seu louvor. Era tudo, em sua folha; e gabava-se disso. Diretor, redator, revisor, tipógrafo, distribuidor a domicílio, vendedor de número avulso no Bar Carvalho, não dependia de ninguém para fazer O Denunciante. Era esse o nome daquelas quatro páginas impressas; e nelas se derramava toda a maledicência da pequena cidade provinciana, a Teresina da era de Vinte. Do fundo da memória emerge o cabeçalho, e se o tempo não me trai nele se acrescentava aos apelidos e qualificações de Dondon no desempenho profissional de suas tarefas outra condição mais alta, a de “Defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz”.
Não propriamente a paz entre as famílias, nem dentro delas; porque algumas das hipóteses que os filhos da Candinha e a imaginação alucinada de Dondon transformavam em verdades incontestáveis e matéria impressa eram de molde a separar marido e mulher, filhos e pais, irmãos e cunhados, e assim por diante, sem falar em patrões e caixeiros, governados e governantes. Um destes últimos, cujo nome ainda hoje no Piauí é coberto de bênçãos pela excelência do seu governo, cometeu com Dondon a única arbitrariedade consciente de que sua mocidade severa e ativa o acusa. Estava-se em plena Revolução de 1930, o Tenente Landri Sales era interventor, cansou-se daquela maluquice exaltada que fazia da calúnia e da injúria um sistema jornalístico; mandou jogar a tipografia de Dondon no Parnaíba. E Antônio Santana Castelo Branco passou a viver de carregar banana em lombo de burro.
Falei em sistema. Era um sistema. O Denunciante não tinha preço fixo para a venda. Cada família, suscetível de vir a ter o nome impresso em tinta de jornal, era taxada, segundo as suas posses, que não segundo seus pecados. Pois a lembrança da espórtula arrecadada, cinco, vinte ou cinquenta mil réis que fossem, mesmo cem — o preço de dois bois —, se apagava totalmente da memória de Antônio Santana Castelo Branco, o defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz, quando se sentava para escrever. Não assumia compromissos com ninguém — a não ser com a maledicência pública e com seu próprio desvario denunciatório. Nem adiantava pagar-lhe para que se calasse, pois, ao contrário de tantos cosmopolitas, não escrevia que lhe pagassem — e se calasse. Faltava-lhe o siso, não a honestidade.
Cheguei ao Rio em março de 1930. A 6 de janeiro de 1931 Félix Pacheco iluminava de alegria os meus dezesseis anos com um emprego no Jornal do Comércio. Fui ser repórter no Ministério do Trabalho e conheci Lindolfo Collor, com quem a Revolução de 30 dizia ao que vinha, coisa que as Revoluções faziam depressa naquele tempo. Lá se vão mais de 33 anos que vivo em jornal. Nunca mais vi O Denunciante. Dondon já morreu há muito. Eis senão quando esta surpresa brutal: seu espírito ressuscita e invade a imprensa brasileira com uma fúria a que poucos restam imunes. Mistério insondável da natureza, os tipos do O Denunciante, que o então Tenente Landri Sales Gonçalves mandou jogar no Parnaíba, germinaram monstruosamente. Sua tinta pesteou as águas; e com elas desceu rio abaixo, salgou o mar oceano e onde houve terra brasileira banhada pelo Atlântico e mais chão adentro esse vírus maníaco foi contaminar jornais e jornalistas. E no caminho em que vão as coisas, será em breve necessário acrescentar ao currículo das escolas de jornalismo a cadeira em que se ensine a técnica da delação e a arte da denúncia.
Odylo Costa, filho (Jornal do Brasil, 26 de maio de 1964)
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