domingo, 4 de outubro de 2026
A jornada do voto e os riscos atuais
Os 158 milhões de brasileiros aptos a votar decidirão o destino do país, e não apenas nos próximos quatro anos. Um projeto autoritário tem na sua essência o continuísmo e segue a estratégia de corroer por dentro as instituições, até que elas percam sua força de contrapeso. Velhos medos, que minha geração acreditou ter deixado para trás, estão vivos. O autoritarismo é o maior deles. O intervencionismo americano recuou a meados do século passado. Donald Trump é tão primitivo que quer da América Latina nada menos do que a vassalagem. O alinhamento acrítico aos Estados Unidos é um risco que um país como o Brasil não pode correr.
A suspensão do atendimento na embaixada americana na sexta-feira, movimento seguido por consulados de outros países que pertencem ao mesmo grupo de troca de informações de inteligência, foi dramatizado pelas redes bolsonaristas que alimentam um clima de tensão.
Esta campanha transcorreu no inverno do nosso descontentamento. O STF foi a instituição mais atacada no governo de Jair Bolsonaro porque com o Supremo fraco ficaria mais fácil o plano golpista. Foi o ponto da resistência. Esse mesmo STF minou a si próprio desta vez. De novo, o risco maior é o democrático, mas agora o país desconfia da sua cidadela. Se a briga fratricida dos ministros expôs o país ao perigo, toda a campanha foi estranha. O momento mais inusitado teve Nossa Senhora Aparecida no meio da polêmica eleitoral.
O Supremo precisa corrigir a si próprio. O Senado a ser escolhido hoje pode ajudar a fortalecer a instituição, que tem sido disfuncional nos últimos tempos, ou pode aproveitar as fraquezas do Supremo e completar o golpe que ficou inacabado em 2023. Tudo o que o STF fez e falou será usado contra ele e contra a democracia. É doloroso que os ministros não tenham entendido a dimensão do risco que enfrentamos. Era previsível que a campanha da extrema direita usasse como bandeira a proposta de eleger senadores para destituir ministros do Supremo. E evidentemente, a ideia é não parar por aí.
Eu comecei esta coluna falando de minha mãe, Mariana, e tenho motivos para esta volta para casa quando falo de eleição. Ela nasceu em 1925 e morreu em setembro de 1989, sem conseguir dar seu voto ao Doutor Ulysses, candidato que havia escolhido. Num dos últimos encontros que tivemos, minha mãe estava às voltas com o recadastramento eleitoral, trabalho para o qual ela havia se voluntariado naquele renascimento do direito do voto. Meus pais eram cerimoniosos com o ato de votar. Ainda os vejo, descendo a rua Princesa Isabel, vestidos com a elegância de um evento social, indo votar para presidente, em 1960, antes que a ditadura acabasse com esse direito.
Minha neta mais velha, também Mariana, vota hoje pela segunda vez, e levará junto seu irmão Daniel que, aos 16, estreia seu título. Votarão na mesma zona eleitoral que o pai, Matheus. A luta do movimento sufragista permitiu que minha mãe votasse pela primeira vez para presidente, aos 20 anos, em 1945, no encerramento da ditadura de Vargas. Quando votei pela primeira vez para presidente, meu filho Vladimir também votava pela primeira vez. A minha família traz vários símbolos — e cicatrizes — de como o direito do voto é conquista árdua. Hoje correntes de extrema direita defendem o fim do voto feminino. Parece delírio que a vitória do movimento sufragista seja posta em questão um século depois, mas não se deve subestimar os perigos de hoje em dia. No livro que meu marido, Sérgio Abranches, acaba de lançar “A terceira margem do Ipiranga” há uma frase da qual eu gosto muito. “A democracia nunca teve vida fácil entre nós”.
Míriam Leitão
Que Deus? Que pátria? Que família?
A controvérsia em torno da patrona, da imagem negra recolhida de um rio por pescadores, não deixou de produzir um milagre. O esforço do chamado jornalismo profissional em provar que alguns fatos compunham uma fake news, a ponto de colocar em dúvida o trabalho de uma das mais competentes jornalistas, Maria Cristina Fernandes, se assemelha a um épico bíblico. A água se converteu em vinho.
Lembremos os fatos: a jornalista apenas, e tão somente, informou o incômodo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com uma ala evangélica ligada umbilicalmente ao senador que defende o “rebaixamento” da santa. Como se sabe, os protestantes sempre criticaram a adoração de imagens. A preocupação da CNBB tem razão de ser. Desde 2018, aponta um relatório da Comissão de Justiça e Paz, foram registrados 58 episódios de ataques a católicos. Victório Galli, ex-deputado e ex-assessor da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro, propôs um projeto, rejeitado na Câmara, para mudar o status de Nossa Senhora para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O pastor JB Carvalho, responsável pelo batismo de Flávio Bolsonaro, considera inconstitucional o título da santa estabelecido por uma lei de 1980. E o presidenciável afirmou que, na eventualidade de ser eleito, decretará, como primeiro ato, “que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” (supomos que o segundo será assinar a anistia ao pai, condenado por tentativa de golpe).
Em geral, onde há fumaça há fogo, mas os meios de comunicação, em uma cruzada, se empenharam em desqualificar esse conjunto de evidências por meio de editoriais, artigos e “reportagens”. Faltam registros de veemência semelhante quando mentiras comprovadas – e não análises plausíveis − contra candidatos progressistas, de qualquer época, influíram na dinâmica eleitoral. Mais. Não foram raros os momentos em que a mídia foi o centro irradiador ou a caixa de ressonância da desinformação. Mas nunca é tarde para a remissão dos pecados.
Apesar da condescendência, Flávio Bolsonaro não passa de uma caricatura. O carola no expediente comercial vira um endiabrado entre quatro paredes, conforme as revelações de Alexandre Santini, seu ex-sócio na fantástica loja de chocolates, a mais lucrativa franquia da Kopenhagen, especializada em movimentar dinheiro vivo. Diante das “encomendas” – e nem vieram à tona detalhes das festas de Daniel Vorcaro em Trancoso −, pode-se dizer que o presidenciável tem um conceito amplo de família. Sempre cabe mais uma.
O filho 01 encarna, por fim, um paradoxo consolidado sob a égide do bolsonarismo: o patriota entreguista. Flávio não concorre ao cargo de presidente do Brasil. Sua ambição, captada pela foto da visita à Casa Branca, é arrumar um bico de mordomo de Trump.
Neste domingo, os eleitores terão a chance de afastar a tentação.
As famílias estão cansadas
As famílias estão cansadas de correr do emprego para ir buscar os filhos à escola e de regressar a casa numa nova corrida para fazer o jantar.
As famílias estão cansadas da subida dos preços dos legumes, da fruta, da carne, do peixe… de ter de repensar diariamente as refeições com tostões na mão.
As famílias estão cansadas da instabilidade dos preços dos combustíveis, de ter de decidir se abastecem esta semana, se esperam pela próxima ou se colocam apenas os habituais vinte euros.
As famílias estão cansadas de ter de reunir adereços de outono, camisolas de Natal, abóboras, camisolas lilás e tantas outras exigências para levar para a escola.
As famílias estão cansadas de fazer contas para perceber se sobra mês no fim do salário ou salário no fim do mês.
As famílias estão cansadas de ter de perceber de taxas de juro, Euribor, spreads, indexantes, taxa fixa e taxa variável.
As famílias estão cansadas de ouvir que têm de renegociar contratos, rever mensalidades, recalcular despesas e analisar taxas de esforço.
As famílias estão cansadas de ter de ser especialistas em finanças, economia, geopolítica, saúde, nutrição, ambiente, ecologia, agricultura biológica e tecnologia.
As famílias estão cansadas de apoios a que não conseguem aceder, porque são desenhados para que apenas os especialistas os compreendam.
As famílias estão cansadas de ter de compreender greves que as deixam sem transportes, enquanto os trabalhadores lutam pelos seus direitos laborais.
As famílias estão cansadas de ter de compreender consultas desmarcadas e urgências fechadas, enquanto os médicos lutam pelos seus direitos laborais.
As famílias estão cansadas de ter de compreender greves que deixam os filhos sem aulas e sem onde ficar, enquanto os professores lutam pelos seus direitos laborais.
As famílias estão cansadas de viver em casas que não respondem às suas necessidades, enquanto outros especulam no setor imobiliário.
As famílias estão cansadas de sobreviver nos intervalos da jornada laboral. O que sobra do dia é pouco tempo. E nesse pouco tempo pede-se que se cultivem, que estejam presentes, que brinquem com qualidade, que se informem, que corram supermercados à procura dos preços mais baixos, que negoceiem com bancos, elétricas e telecomunicações, que cozinhem refeições saudáveis, que vejam séries e que façam exercício.
Pede-se ainda às famílias cansadas que não recorram à escola, porque a escola está sobrecarregada. Que não recorram ao SNS, porque também esse está sobrecarregado.
E, se possível, pede-se às famílias cansadas que não incomodem, porque assim torna-se difícil governar.
Em nome de Deus
Mas seus conceitos sobreviveram por mais de vinte séculos com ampla discussão através de entidades religiosas. A descoberta do Brasil foi obra da Igreja Católica. É uma história bonita e complicada. A ordem dos Templários, que protegia os peregrinos no caminho de Jerusalém, ganhou muito dinheiro com o sistema financeiro que criou. Ela financiava as excursões e protegia seus integrantes. A Ordem ficou rica. Tão rica, que um dos principais devedores foi o Rei de França, Filipe IV. Diante da dívida, o soberano francês escolheu o caminho mais curto: ao invés de pagar, extinguiu a ordem, torturou e executou seus dirigentes. O chefe supremo da Ordem, Jacques de Molay, morreu na fogueira. Mas o dinheiro dos templários sumiu.
O dinheiro apareceu, séculos depois, em Portugal, na Ordem dos Cavaleiros de Cristo, que tinha as características militares dos Templários. O Infante D. Henrique, português que organizou as grandes navegações, vivia como um templário: asceta e isolado. Suas caravelas, inclusive as da frota de Pedro Álvares Cabral que aportou na Bahia, ostentavam a famosa Cruz de Cristo, símbolo dos Templários. E os primeiros europeus brancos que chegaram ao novo continente eram presidiários ou judeus convertidos, ou seja, grupo de cristãos novos. A colonização do Brasil foi realizada, basicamente, por jesuítas que se espalharam de norte a sul. Portugueses faziam negócios. Os padres catequizavam índios e negros.
Até hoje existem as festas do Divino no interior do Brasil. Elas representam a vitória dos cristãos contra os mouros, ou seja, árabes, que foram expulsos da península ibérica. O Brasil é filho dos rigores da Igreja Católica. A Inquisição enviou quatro visitações para punir infiéis na colônia tropical. As punições ocorreram em Lisboa, onde muita gente morreu na fogueira. Só para efeito de comparação, a colonização dos Estados Unidos, por pioneiros ingleses, é fenômeno reverso. O país é consequência histórica da contrarreforma, ou seja do protestantismo de Martinho Lutero. Os pioneiros fugiram dos rigores da igreja católica na Europa, o que favoreceu o surgimento de várias denominações religiosas na nação do norte.
No século 18, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, descobriu que para bem governar Portugal era necessário evitar os religiosos. Expulsou os jesuítas de todas as colônias e extinguiu a ordem religiosa, que só ressurgiu muito tempo depois. Ele dividiu o Brasil em duas colônias. A do Grão Pará e Maranhão (onde ele colocou seu irmão para governar) falava diretamente com Lisboa. A colônia do Brasil, do Nordeste para o Sul, se relacionava através da capital, Salvador. O conflito Igreja versus Estado é recorrente na história do Brasil. No Brasil independente, ao tempo do Império, o governo brasileiro era formalmente católico, mas permitia que outras religiões existissem desde que em prédios discretos, sem qualquer publicidade.
Hoje os adeptos das religiões pentecostais clamam pelo segundo advento do Senhor Jesus nas mesmas áreas que ele frequentou séculos atrás. Isto explica a referência a Israel nos comícios políticos no Brasil. Curiosamente, o estado de Israel não guarda nenhuma semelhança com o que os religiosos professam. Lá o aborto é permitido, a mulher é livre e serve no Exército, em todas as funções disponíveis. A crise em torno da Nossa Senhora, padroeira do. Brasil, que, supostamente, perderia este posto, só se explica pelas profundas raízes religiosas do brasileiro. Um pastor, tempos atrás, chutou a imagem da Santa. Esta agressão ficou gravada no inconsciente nacional. A menção de que a Santa perderia sua qualificação fez com que Lula ganhasse, com incrível rapidez, cinco pontos no tracking de sua campanha, de um dia para outro.
Nenhum dos candidatos apresentou projetos relevantes para o país. As denúncias lançadas contra o candidato de oposição, como farras com prostitutas, amizade com milicianos e lavagem de dinheiro, não incomodaram tanto quanto acusação de fundo religioso. Até a poderosa Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – divulgou nota oficial condenando a mistura de política e religião. O Brasil da República é laico, mas o brasileiro é religioso, graças a Deus. Bom voto.
André Gustavo Stumpf
Reforma tributária, para quem
Quando se falava de reforma tributária, partia-se da injusta política tributária existente, que faz com que os pobres paguem, proporcionalmente, mais impostos que os ricos. Um objetivo central das propostas de reforma tributária era, assim, reverter essa situação, o que sempre significava fazer com que aumentassem os impostos pagos pelos ricos e diminuíssem os pagos pelos pobres.
Na própria afirmação, tão reiterada por Lula, de que é necessário colocar os pobres no orçamento e os ricos no imposto de renda, está implícita uma crítica à política tributária existente.
Até que se criou um consenso geral a favor da reforma tributária. E o governo Lula finalmente realizou, dirigido por Fernando Haddad, uma reforma tributária em que os ricos pagam mais e a grande maioria da população deixa de pagar, até porque salário não é renda.
Mas esse projeto, embora aprovado pela grande maioria da população e dos parlamentares, não contenta a todos. Segue a cantilena de que se pagariam muitos impostos no Brasil, comparado com outros países.
Se contentasse a todos, não estaria cumprindo com seu objetivo. Porque a mídia tem como um de seus temas reiterados a crítica ao Estado, que gastaria muito, que não cortaria os gastos que deveria cortar, que não se preocuparia com os riscos da inflação.
Haveria, além disso, uma anarquia tributária, que haveria de simplificar. Costuma-se afirmar que se pagariam muitos impostos; todos costumam fazer essa afirmação. Como se todos realmente pagassem mais. Como se não houvesse uma enorme sonegação da parte dos ricos. Como se não houvesse paraísos fiscais, aos quais apelam grandes empresas para não pagar impostos no país.
O que unificaria a todos seria a vontade de pagar menos impostos, ricos e pobres. Demandam-se maiores ações do Estado, mas se quer diminuir a arrecadação estatal. A visão das elites é a do Estado mínimo. Demandar mais isenções e pagar menos impostos.
Como é característico do neoliberalismo, degrada-se a imagem do Estado, que arrecadaria demais, que gastaria demais e mal, que tributaria demais, que gastaria muito com pagamento a servidores, que despenderia excessivos recursos com políticas sociais. Uma reforma tributária que se orientasse por essas visões teria piorado ainda mais o sistema tributário, em que já agora os pobres pagam relativamente mais do que os ricos.
Não se corrigiria, em nada, o já injusto sistema tributário existente. Os ricos pagariam menos ainda, enquanto os pobres seguiriam pagando injustamente por serviços precários.
Pela concepção predominante na mídia e em grande parte do Congresso, deveria ter sido aprovada uma reforma tributária que promovesse o Estado mínimo e a centralidade do mercado. Que enfraquecesse, ao invés de fortalecer, o Estado. Em que os ricos seriam menos tributados e não sofreriam políticas que combatam a sonegação e os paraísos fiscais.
Em suma, pelo clima criado pela mídia, deveria ter sido uma contrarreforma tributária, na contramão da difícil reconstrução da democracia no Brasil. Em que a definição de quem paga impostos e para onde vão é essencial para que verdadeiramente tenhamos uma democracia no país.
É outra das realizações de Lula na Presidência do país, que ficam para sempre, mas que seguem promovendo o descontentamento das elites, que detestam pagar impostos, mesmo se suas rendas sejam nababescas. Também por isso se opõem à reeleição de Lula, enquanto os que deixaram de pagar impostos estão a favor. Quem ganha mais paga mais; quem ganha pouco deixa de pagar. Este é o princípio de uma reforma tributária democrática.
Decisão será fácil porque eleitor sabe onde o calo aperta
A esta altura, resta pouco a dizer sobre a corrida eleitoral, entre os Poderes, acidentada; entre os eleitores, entediante. O que faltou em transparência e aprofundamento de propostas sobrou em protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF), ora por atos dos próprios ministros, ora pela judicialização recorrente por candidatos e legendas. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, em artigo aqui no GLOBO, classificou o pleito deste 2026 como a eleição do cansaço. É sentimento expresso tanto no excesso de trabalho, dívida, perrengue, frustração quanto na escassez de encantamento pela política e, pior, pela democracia.
Não parecia que, quatro anos depois, trama golpista de Jair Bolsonaro exposta, investigada e julgada, estaríamos novamente diante do risco de ruptura. Estamos. Míriam Leitão tem alertado em voz e texto o tanto que a defesa do regime anda negligenciada, numa corrida eleitoral com bolsonarismo competitivo e interferência estrangeira à espreita. Sob influência de Eduardo Bolsonaro e aliados lá radicados há mais de ano, os Estados Unidos têm atuado pela capitulação do Brasil à cartilha trumpista. Além de duas rodadas de tarifaço sobre exportações, houve sanção a autoridades; classificação de PCC e CV como organizações terroristas; pressão sobre a Justiça e o processo eleitoral; duas dezenas de inaceitáveis exigências comerciais; restrição de visto à embaixadora do Brasil em Washington; e até investida contra o Pix.
É verdade que faltou debate no período oficial da campanha, a partir de meados de agosto. Nas últimas semanas, os candidatos ocuparam-se de ataques mútuos e ao STF; aprofundaram pouco ou nada os planos de governo; abusaram de frases feitas e ideias rasas. Mas, por aí, se diz que mal uma eleição termina, outra começa. Pode ser que a disputa presidencial, de tão antecipada, tenha deixado tempo para os eleitores pensarem. Quem sabe o desinteresse de agora não seja fruto da reflexão exaustiva de antes? Há exemplos aos montes. Fico com um, as bets.
Nesta semana, tanto Quaest quanto Datafolha trouxeram dados robustos sobre a restrição total às apostas on-line, imposta por Medida Provisória assinada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, há uma semana. Difícil imaginar que, em poucos dias, tantos brasileiros tenham se posto contra as bets, mesmo com times popularíssimos, Flamengo à frente, assumindo em praça pública a própria ludopatia financeira. Seria o fim do futebol se perdessem os patrocínios. Ao Datafolha, 78% se declararam a favor da proibição; à Quaest, 62%. Nas duas pesquisas, os resultados foram assemelhados em todos os grupos analisados: gênero, faixa etária, religião, região, escolaridade, renda. Brasileiras e brasileiros, analisou Felipe Nunes, diretor da Quaest, não apenas já tinham opinião formada, mas deram sinais claros de que enxergar uma medida como certa não tem relação direta com o voto. Assim, é possível ser contra bets e não escolher o candidato a presidente que canetou a decisão.
À luz do caminhão de conversas e estudos e relatórios e vivências, não parece errado inferir que os eleitores chegam, nesta véspera do primeiro turno de uma campanha aquém do desejável, com opinião formada sobre tudo. Ou quase tudo. O brasileiro experimentou, em anos recentes, vendaval, chuvarada, calor extremo. Sabe, portanto, que a emergência climática é real. Tem consciência de que o desmatamento, se agravado, pode levar a Amazônia ao ponto de não retorno. Passa tempo demais em meios de transporte caros e de má qualidade. Vive em condições habitacionais precárias, paga caro por direitos tornados serviços (água, luz, internet, gás). Não há quem não vá ao mercado ou à feira.
Mulheres brasileiras sabem do perigo da multiplicação das armas de fogo em mãos civis. Mães já se deram conta dos riscos do território livre das redes sociais para crianças e adolescentes. Favelados perceberam que a política de confrontos nos territórios ceifa vidas, mas não reduz o crime. Nos lares de baixa renda, está claro que é justa a correção monetária para recompor o poder de compra do Bolsa Família, tal como a classe média aprovou a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Trabalhadores, mesmo os autônomos, empreendedores por conta própria, compreendem que a jornada excessiva, sem folga, sequestra tempo da família, do descanso, do lazer. Católicos e macumbeiros aprenderam a reagir à intolerância de líderes evangélicos inimigos do Estado laico.
Todo mundo sabe onde o calo dói. Já deu para distinguir barbárie e civilização; necropolítica e bem viver; mentira e verdade; subordinação ou altivez. O Brasil vai às urnas escolher de que lado ficará. Bom voto.
O risco evangélico
Duas vertentes andam juntas na promoção desses conflitos. Uma é a do sionismo cristão, que defende o apoio incondicional ao Estado de Israel, incluindo o genocídio promovido na Faixa de Gaza. É movida por interpretações escatológicas do fim dos tempos. A recriação do Estado de Israel e as guerras que ele promove seriam cumprimentos de profecias bíblicas preparadoras da segunda vinda do Cristo à Terra. Em nome dessa loucura validam guerras, massacres e genocídios. O secretário da Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, justifica a guerra contra o Irã em nome dessa insanidade.
Michelle Bolsonaro é a expoente evangélica ligada ao sionismo cristão, com formação teológica nessa corrente. Em determinados vídeos, exibe a estrela de Davi e usa camisetas e bandeiras de Israel. Não é a única. O governador Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira e outros políticos bolsonaristas também exibiram essas indumentárias, num desprezo absoluto pelos milhares de crianças, mulheres e inocentes massacrados e despedaçados em Gaza.
Michelle, com frequência, usa termos que soam como ameaças ao Estado laico. Defende a interferência religiosa na política, apela para a expressão “exército de Deus” para se referir aos seus partidários e declara que “o Brasil é do Senhor”. Flávio Bolsonaro declarou em vídeo que, se eleito, decretará que “o Brasil pertence a Nosso Senhor Jesus Cristo”. Falsos profetas se arvoram de uma autoridade que não têm. Em nome de Jesus defendem teses e atitudes anticristãs. Michelle declara que André Mendonça “é escolhido e ungido do Senhor”. Ungido para ser parcial no caso Master, visando proteger crimes de bolsonaristas e para censurar postagens na internet para favorecer Flávio Bolsonaro, um mentiroso contumaz e acusado de vários crimes de corrupção.
A segunda vertente é a da guerra espiritual. Trata-se de uma crença evangélica, emanada dos Estados Unidos, principalmente pelo teólogo Peter Wagner, que sustenta a existência de um conflito invisível e contínuo entre o Reino de Deus e as forças do mal, representadas por Satanás e os demônios. Essa guerra teria três dimensões. Pessoal, que se manifesta na luta contra as próprias tentações. Interpessoal, com orações para expulsar os demônios de indivíduos. E Estratégica ou Territorial, crença de que regiões geográficas, instituições, imagens e autoridades abrigam as potestades do mal.
A maior parte dos evangélicos defende que a guerra é puramente espiritual, travada por orações, jejuns e clamores. Outros grupos pregam, no entanto, a intolerância religiosa e procuram inflamar fiéis para atitudes violentas contra outras religiões, autoridades e instituições. Agridem indivíduos, destroem imagens e disseminam o ódio. Afirmam que o mal está oculto em determinados símbolos, como imagens de Nossa Senhora Aparecida ou a Virgem do Rosário, na cidade de Rosário, na Argentina.
No fim de 2022 e início de 2023, pastores partidários da guerra espiritual incitaram os acampamentos em frente a quartéis do Exército e defenderam a violência armada para impedir a posse de Lula. Na Marcha para Jesus de 2026, Flávio Bolsonaro declarou que o Brasil vive uma guerra espiritual e, com afirmações belicistas, afirmou que o mal será expulso do governo. É escandaloso e hipócrita que um político investigado e acusado de vários crimes fale como se tivesse um mandato divino para empunhar o bem na guerra contra o mal.
Essa retórica violenta e a manipulação da fé por parte de pastores e políticos precisam ser repudiadas, para evitar que conflitos religiosos e políticos descambem para a violência. Embora a maioria esmagadora dos evangélicos seja tolerante e respeitadora do pluralismo religioso, o fato é que crescem os grupos intolerantes que insuflam o ódio, a manipulação política e tendem à violência.
Os evangélicos não podem se considerar melhores do que os integrantes de outras religiões, pois esse é o princípio da intolerância. Eles não são exclusivistas da doutrina cristã. Não são portadores da verdade única nem exclusivistas da salvação. Gente boa e má existe em todas as religiões.
Levantamento da Plataforma de Mídia Ploc Social indica que, entre janeiro e meados de julho de 2026, foram registrados 158 casos envolvendo pastores evangélicos em crimes. Dados consolidados do Disque 100 mostram que, nos últimos três anos, foram registrados 167 casos de denúncias de violência sexual de líderes religiosos. Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 43% das mulheres evangélicas sofreram violência de gênero ou doméstica.
As principais categorias de crimes e escândalos que envolvem líderes evangélicos são de violência sexual, incluindo estupros de vulneráveis, abuso de poder religioso, estelionato e crimes financeiros, corrupção política e tráfico de influência. Crimes desse tipo não são exclusividade de evangélicos. Mas líderes evangélicos se destacam, entre religiosos, na prática deles.
sábado, 3 de outubro de 2026
Candidatos ignoram crise climática enquanto planeta aquece
Em busca do seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o único que apresenta estratégias mais claras para o enfrentamento da crise. A atual gestão assumiu a presidência em 2023 após anos de alta do desmatamento e abandono de políticas socioambientais por Jair Bolsonaro.
"E agora, em campanha, Lula é o único que apresenta um plano mais consistente em clima. Ele reflete um pouco o que está acontecendo em termos de política climática e ambiental de uma forma mais ampla", analisa Suely de Araujo, do Observatório do Clima.
A rede da qual Araujo faz parte, formada por mais de 170 organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais, analisou os planos dos presidenciáveis e levou em consideração o histórico de atuação dos candidatos.
Entre as propostas, os especialistas identificaram pontos de alerta de Lula, inconsistências de Flávio Bolsonaro e falta de estrutura nas propostas de Augusto Cury, terceiro colocado nas intenções de voto.
"A agenda socioambiental está longe de ser prioritária para todos os candidatos. Em verdade, a maioria dos presidenciáveis ignora a necessidade de enfrentar a crise climática, mesmo que ela já seja uma realidade e se manifeste no país por meio de secas rigorosas, queimadas e enchentes com grande potencial destrutivo", avalia o Greenpeace.
O programa proposto pelo governo que busca a reeleição, segundo a análise técnica, aponta boas pautas socioambientais e de combate às mudanças climáticas. Segundo o levantamento, as propostas acabam se destacando em relação aos demais concorrentes principalmente pela reconstrução da governança ambiental e o combate à destruição das florestas.
Mas há ressalvas. A principal crítica está voltada para o setor de energia: apesar de as fontes renováveis aparecerem como estratégicas, Lula aposta na produção de combustíveis fósseis, os maiores responsáveis pelas mudanças climáticas. "Essa expansão de petróleo é uma contradição no governo Lula e é uma preocupação. Mas isso está presente desde o início do governo", pontua Araújo.
Lula tem defendido a busca por petróleo na bacia marítima da Foz do Amazonas, projeto atualmente em curso pela Petrobras. Depois de um longo e conturbado processo de licenciamento, a empresa obteve em outubro de 2025 a autorização para perfurar o poço FZA-M-59 e afirmou, em agosto, ter identificado a presença do combustível no local.
Em suas 79 páginas, que listam os planos de governo de Flávio Bolsonaro, o candidato afirma que vai tratar o meio ambiente como um ativo estratégico, e não como um obstáculo ao desenvolvimento. E, para isso, diz que vai "eliminar superposições entre Ibama, Funai e ICMBio" para dar eficiência à fiscalização.
Esta formulação é avaliada como preocupante pelo Observatório do Clima. "Não existem essas superposições que ele fala. O que ele quer? Enfraquecer o poder dos órgãos ambientais?", comenta Araújo.
Em diversos momentos de sua trajetória parlamentar, Flávio demonstrou pouco apoio à atuação dessas entidades. Um dos exemplos mais recentes ocorreu durante a campanha, num evento em Manaus no qual o candidato chamou os órgãos ambientais de ideológicos e de esquerda. Na ocasião, o presidenciável defendia a conclusão do asfaltamento da rodovia BR-319, que liga a capital do Amazonas a Porto Velho, em Rondônia.
Flávio também defende a expansão do petróleo e gás natural, além de promover a liberação do fracking. Essa técnica de extração de combustível fóssil pelo fraturamento hidráulico injeta água e outros produtos no subsolo sob alta pressão, quebra as rochas e libera o material de interesse. Mas seu potencial de impacto ambiental é altíssimo.
Como parlamentar, Flávio Bolsonaro é notório por votar contra as causas ambientais. Ele sequer reconhece a existência da crise climática em curso e a atividade humana como causadora dela, aponta o Greenpeace.
A promessa de acabar com o desmatamento ilegal até 2029 apresentada no plano também destoa da postura parlamentar de Flávio. Em 2019, ele foi o autor do PL nº 2362/2019, que tentava acabar com a obrigatoriedade da reserva legal – área de vegetação nativa que deve ser mantida em toda propriedade rural, segundo a lei.
Sem qualquer atuação na vida política, o estreante Augusto Cury é psiquiatra e escritor. Apesar de trazer em seu plano de governo propostas para o combate às mudanças climáticas e prevenção de desastres, seu plano liga as pautas ambientais a projetos de modernização econômica, desenvolvimento tecnológico e expansão produtiva.
"É um plano muito ruim. É difícil até contextualizar com a atuação pregressa porque ele não tem. O plano do Cury fala em renováveis, prevenção de incêndios, mas não detalha como que isso vai ser feito", detalha Araujo.
Renan Santos, que também nunca teve um mandato político, apresenta poucas propostas. As que aparecem no papel, analisa o Observatório do Clima, pioram o quadro de proteção ambiental e de atuação do país na agenda climática.
Quem governa
O candidato vitorioso que assumir o posto em 2027 vai lidar com um Congresso consideravelmente renovado. Junto com o presidente, serão eleitos todos os 513 assentos disponíveis para deputados federais e 54 das 81 cadeiras para senadores serão renovadas.
A atual legislatura é marcada por aprovações de projetos polêmicos que causaram diversos retrocessos ambientais, apontam especialistas. Entre eles está o novo licenciamento ambiental (PL nº 15.190/2025), que flexibilizou regras e dispensou alguns projetos da obrigatoriedade de apresentarem estudos de impacto.
A plataforma digital Congresso Anti-Indígena, alimentada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), mostra que 88% das votações de projetos que atingem indígenas tiveram resultados desfavoráveis para os povos originários. Esse dado, diz o Cimi, mostra o controle expressivo da pauta por setores contrários aos direitos indígenas.
"Uma bancada muito alinhada ao agronegócio predatório e à extrema direita que, como mostra a análise dos programas dos presidenciáveis, nega a existência de uma crise climática e, na prática, impõe retrocessos ambientais, significaria abrir as portas para a destruição", alerta o Greenpeace.
Nádia Pontes
Datafolha em SP, MG, RJ, PE e DF: margem de Lula supera 2 milhões de votos
São Paulo (de 29 a 30) – 2 pontos – Lula: 38%; Flávio: 39%;
Minas Gerais (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 42%; Flávio: 36%;
Rio de Janeiro (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 38%; Flávio: 45%;
Pernambuco (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 61%; Flávio: 25%;
Distrito Federal (de 28 a 30) – 3 pontos – Lula: 35%; Flávio: 44%.
Aí decidi operar o que para todos poderia ser óbvio, mas fui eu a fazer: submeti os respectivos percentuais ao eleitorado de cada um desses estados, segundo os dados disponíveis do TSE para 2026. No quadro que acompanha este texto, vocês encontram os totais de cada unidade da Federação e também o total geral.
Num eleitorado de 72.818.361 — 45,9% do total do país —, Flávio somaria 27.780.333 votos, e Lula, 29.920.393, com uma vantagem para o petista de 2.140.060 votos.
Sim, caras e caros, há várias condicionantes aqui:
Existe a margem de erro. Ocorre que, para ser ruim para o petista, ela teria de estar sempre contra o petista;
Existe a abstenção, que, objetivamente, tende a prejudicar mais o presidente porque é maior entre os mais pobres, mas teria de colher quase que exclusivamente o eleitorado do presidente;
Existem os movimentos de última hora, mas a metafísica influente não é exatamente favorável a Flávio.
Não estou fazendo predição nenhuma. Sei que o Flávio, dado o total desses estados, adoraria trocar de lugar com o Lula.
Falso brilhante
Não tem biografia, e não é a idade que justifica essa lacuna; é porque nada fez de relevante até aqui. Não tem compromisso com coisa alguma, a não ser com aquilo que a retórica da oportunidade lhe aconselha a dizer que tem.
O êxito de sua candidatura se ampara, no mínimo, em bases duvidosas. Apresenta-se como um “não político”, mas nasceu em berço político tradicional. É alguém capaz de fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa — para alcançar seus objetivos. Pode até conseguir se eleger presidente da República assim. Mas que tipo de presidente será?
Avancemos trinta e poucos anos.
Nos parágrafos acima, publicados originalmente no Jornal do Brasil em 21 de maio de 1989, eu desenhava o perfil de Fernando Collor de Mello. Então candidato à presidência, o ex-governador de Alagoas surfava na onda de partidos de aluguel como o Social Cristão, o Social Trabalhista e o Trabalhista Renovador.
Na época, a direita que se pretendia civilizada não escolheu Collor por engano. Sabia perfeitamente quem ele era, mas preferiu abraçá-lo diante da ausência de outro nome capaz de deter a marcha da esquerda rumo ao poder. Para viabilizar o projeto, acionou-se a engrenagem de sempre: fartos recursos financeiros, pressão sobre o eleitorado, manipulação de debates e a embrionária disseminação de notícias falsas.
Diferente de hoje, a economia sangrava em crise crônica. Com o voto impresso em cédulas de papel, a apuração nos grotões do país corria sem fiscalização efetiva, abrindo margem para a manipulação de atas e urnas. A máquina publicitária manufaturou o “caçador de marajás” — o paladino implacável contra os supersalários —, prometendo um salvador da pátria. O desfecho a história registrou.
A grande diferença para quem ruma às urnas amanhã é o excesso de luz. A trajetória dos dois candidatos com chances reais de vitória já foi escrutinada à exaustão. Desta vez, ninguém terá o direito de alegar, no futuro, que foi ludibriado por um falso brilhante.
Entre biografias e folhas corridas
O dilema será o de decidir qual é a fonte legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.
Outros, porém, se notabilizam por terem a biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus titulares ao exercício de poder em nome da democracia.
Um desses instrumentos foi a adoção do nome de urna em conexão com a adoção da urna eletrônica. Um incitamento do eleitor a se enganar na escolha que faz. A pretexto de permitir que o eleitor supostamente conheça face a face os candidatos, em vez de uma República representativa, criamos uma república de bairro, cuja sociabilidade é a de feira livre e de negociantes, de paroquialismo pentecostal, até de enterros e cemitérios.
Tornaram-nos um povo que se acha devedor de favor político ao padeiro, ao açougueiro, ao pastor de igreja, ao verdureiro, ao dono do botequim da esquina, ao artista de circo, ao agente funerário, ao coveiro do cemitério. Em número descabido e não raro a qualificação “profissional” do candidato agregada ao seu nome de urna. Toda uma teia de relações não políticas redutivas da sociabilidade ao mais superficial do cotidiano.
Apesar dos recursos modernos de verificação eletrônica de histórias de vida, essa cultura pseudopolítica inviabiliza a consciência crítica, sem a qual a representação política não é possível.
É claro que os portadores de apelidos podem acrescentá-los ao nome civil, como fez Luiz Inácio da Silva, que acrescentou judicialmente ao seu nome o apelido pelo qual era conhecido, “Lula”.
O presidente Fernando Henrique Cardoso baixou ato que proíbe aos cartórios e juízes de paz fazerem registros de nascimento com nomes ridículos, que possam acarretar humilhação a seus portadores, na escola, no emprego, na igreja. Somos propensos a atribuir aos filhos nomes esdrúxulos.
Uma amiga, no consultório dentário, enquanto esperava sua vez, ouviu com espanto a dentista chamar a cliente seguinte: Madeinusa. E lhe explicou, o pai da cliente lera o nome num fundo de garrafa: “made in USA”. Achara-o lindo e o colocou na filha.
A mesma mentalidade tosca se manifestou na eleição municipal de 1959, em São Paulo, quando a rinoceronte Cacareco, do zoológico municipal, foi “eleita” vereadora com mais de 100 mil votos, mais do que o maior número de votos do partido mais votado. Quando o voto ainda era escrito, os eleitores que queriam protestar escreviam gracinhas como essa na cédula, o que anulava o voto.
A eleição frequente de suspeitos de atos graves contra o regime democrático e contra a autenticidade da representação política amplia o uso da cultura da folha corrida com a equivocada concepção de que nela estar é um atributo próprio da política. Os antigos se lembrarão do mote informal das candidaturas de Adhemar de Barros, que foi governador e prefeito de São Paulo e foi candidato a presidente da República: “Rouba, mas faz”.
A disputa entre biografia e folha corrida não é disputa entre esquerda e direita, como tampouco conservadores são necessariamente de direita. Há conservadores autênticos formados na cultura das tradições conservadoras que de modo algum são de direita e tampouco fascistas. Os que fazem propositalmente essas confusões são antes de tudo ignorantes e por ignorância não sabem ser, politicamente, mais do que bajuladores de espertalhões e enganadores.
Arremetidas recentes para “aperfeiçoar” com o abrandamento, da sua necessária severidade, a lei da ficha-limpa, tornarão o país oficialmente o país da ficha suja. O propósito prático acabará sendo valorizar como limpo o que é sujo. Isto é minimizar a importância política das biografias honradas. A ficha suja desonrará os que honram a pátria por não serem cúmplices dos que dela se servem.
O currículo de Flávio Bolsonaro
O currículo do senador e candidato é uma longa sucessão de suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao famigerado Daniel Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.
E quanto ao risco institucional? Um princípio elementar do Estado de Direito é o de que a culpa de um criminoso não se transfere para seus familiares. É Jair e não Flávio que foi, com seus corréus, condenado por tentativa de golpe. E é por isso que o senador está em pleno gozo de seus direitos políticos e pode concorrer à Presidência. Isso dito, é preocupante a ameaça de Flávio de subir a rampa ao lado do pai. Um indulto presidencial aos golpistas reverteria o que talvez seja o único avanço institucional que obtivemos na história no que diz respeito ao controle do Estado sobre militares.
O adversário de Flávio Bolsonaro, Lula, tem é claro sua própria lista de pecados, ainda que de outra ordem. Aludi a alguns deles numa coluna publicada poucos dias atrás. Nem deveria ser necessário dizê-lo, mas a tarefa do jornalismo de opinião é criticar, de preferência com propriedade, tudo o que pode ser criticado em qualquer campo político. Cabe ao jornalismo informar e subsidiar argumentações, não substituir a faculdade de julgar do eleitor, por mais imperfeita que seja.
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
As últimas 72 horas da guerra eleitoral
O eleitor típico desta escolha derradeira é mulher, católica, do Sudeste e da classe C (renda familiar de R$ 2 mil a R$ 8 mil). Este é um perfil que tem-se repetido ao longo das últimas disputas. Trata-se de um eleitor que é mais dificilmente captado pelas pesquisas, seja porque não para pra responder quando é abordado na rua e não abre sua casa para pesquisador, seja porque desliga quando recebe uma ligação. Dez anos atrás era preciso fazer 15 chamadas para que se conseguisse um questionário completo. Agora são, em média, 300.
Não bastasse as mulheres serem maioria no eleitorado e na parcela que bate martelo por último, são também mais decisivas na reta final porque, apesar de todo o alheamento, comparecem mais para votar que os homens. Em grande parte porque são mais afetadas pelos serviços públicos a serem prestados pelos eleitos. Quem está no poder, portanto, leva vantagem para conquistar este voto derradeiro.
Foi isso que aconteceu com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que surpreendeu ao passar ao 2º turno de 2022 a despeito de estar mais de dez pontos atrás de Lula nas pesquisas que antecederam o primeiro. Tinha despejado dinheiro de baciada no ano eleitoral, do Bolsa Família ao vale-gás, da desoneração dos combustíveis à ampliação do crédito consignado. O fôlego por pouco não impediu a vitória de Lula na segunda rodada.
A vantagem de quem está no poder explica a arrancada dos governadores candidatos à reeleição nesta reta final. Lula diluiu as políticas públicas capazes de fidelizar este eleitor ao longo do mandato: Pé de Meia e linha de crédito para reforma de casa (2024), isenção do IR até R$ 5 mil, vale-gás e tarifa social para famílias de renda per capita até meio salário-mínimo (2025), reajuste do Bolsa Família e Desenrola 3, subvenção aos combustíveis e liberação excepcional de FGTS (2026). E, finalmente, anunciou a MP que proíbe apostas. Não é dinheiro extra, mas uma tampa no ralo.
É nisso que aposta para atrair este eleitor desconfiado e sair da condição de empate com seu principal adversário, apontada tanto no voto da ponta da língua quanto naquele que é estimulado. Não quer que este eleitor goste dele, mas que precise de seu governo. O objetivo é alcançar uma vitória ainda em 1º turno. Seria mais fácil se conseguisse ampliar a aprovação ao seu governo, o que não aconteceu ao longo do programa eleitoral.
A investida das últimas 72 horas é outra. Visa a minar a confiança em Flávio Bolsonaro, especialmente entre as mulheres, com o currículo do seu adversário. Trouxe um vídeo, a partir de versão mais longa produzida pela plataforma Revelando, de uma criança de cinco anos, morta por um policial militar em sua casa, que teve seu julgamento postergado quando Flávio Bolsonaro entrou de advogado no caso. “Quem defende um assassino de criança vai te defender?”.
Não é a única aposta. Novas reportagens e vazamentos não apenas evidenciaram ainda mais o envolvimento do senador do PL com o banqueiro do Master como mostraram a profusão de amigos que Flávio Bolsonaro fez em sucessivos rolos ao longo de sua vida. A capacidade de achaque demonstrada é uma pitada da ameaça à segurança jurídica sobre o país com a eventualidade de sua eleição. Há símbolos mais facilmente captados pelo eleitor do que a triangulação da lavagem de dinheiro do “Dark Horse”. Tem avião, mulheres, Rolex, mas é isso que vai mover o eleitor tardio? Pode fazê-lo, no limite, se afetar a confiança em sua capacidade de governar, que, por incrível que possa parecer, é o principal atributo do candidato do PL.
O que o senador tem de arsenal para se defender? Por enquanto, ainda parece ocupado com seu sistema antimísseis. Colaboradores de sua campanha têm passado o chapéu entre endinheirados para reforçar a ofensiva nas redes sociais. A entrada de Pablo Marçal na sua campanha parece ter sido o primeiro resultado do arrecadado. Por enquanto, com cortes que retratam Lula como um anticristão. Mas como Marçal falsificou um laudo médico para atestar o uso de cocaína pelo então candidato do PSol à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, hoje ministro da Secretaria-geral da Presidência, é de se esperar que sua ofensiva não tenha limites.
A ofensiva mais poderosa de Flávio Bolsonaro, porém, se daria sobre a cadeira vazia no debate de hoje. Iria desgostar o eleitor e deixar o candidato à reeleição sem defesa para os ataques. Como a entrevista de Lula a um podcast de larga audiência aconteceria antes e não depois do debate, o presidente e sua campanha pareceram mais preocupados em atingir uma audiência grande do que se defender do que viria.
A única chance de equilibrar o ringue do debate seria uma decisão liminar do TSE para que a TV Globo, a exemplo do que fez com Romeu Zema (Novo), acolhece também Renan Santos (Missão), que pontua acima do ex-governador de Minas nas pesquisas e gira sua metralhadora a esmo. É em meio a este tiroteio que o eleitor tardio terá de se mover. Oxalá não seja vítima de uma bala perdida.
Flávio Bolsonaro foge da raia para escapar aos ataques de Renan Santos
Nas duas eleições seguintes (1994 e 1998), a emissora apoiou Fernando Henrique Cardoso — o idealizador do Plano Real, que controlou a inflação — novamente com o intuito de derrotar Lula. Como não interessava ao seu candidato participar de debates no primeiro turno, a Globo simplesmente não os promoveu.
Em 2002, o candidato respaldado pela emissora foi José Serra. Os debates retornaram, mas Lula acabou eleito. O petista reelegeu-se em 2006 contra Geraldo Alckmin, o novo escolhido da Globo, mesmo sem comparecer aos debates do primeiro turno por opção própria. A emissora também saiu derrotada nas duas eleições seguintes (2010 e 2014), vencidas por Dilma Rousseff. Nessas ocasiões, o canal apoiou José Serra, mais uma vez, e Aécio Neves.
Com Lula preso em 2018, Fernando Haddad assumiu a candidatura do PT. Diante de Alckmin outra vez no páreo, restou à Globo apoiá-lo. O eleito, contudo, foi Jair Bolsonaro, após o episódio da facada em Juiz de Fora. Devido à forma hostil como o novo presidente tratou a emissora — e a imprensa em geral — ao longo de seu mandato, a Globo viu-se na posição de ter que engolir o retorno de Lula ao poder em 2022. Os dois não se toleram.
A esperança da Globo era a de que, neste ano, o candidato da direita à Presidência fosse Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo. Como não foi, esperava-se que surgisse outro nome capaz de se impor como alternativa a Lula e a Flávio Bolsonaro. Não surgiu, como ficou demonstrado por todas as pesquisas de intenção de voto realizadas até aqui.
É nesse vácuo de alternativas que se desenha uma aparente contradição: a emissora historicamente atacada pelo bolsonarismo vê-se agora empurrada ao pragmatismo de mercado. Sem uma terceira via viável e diante de um PT refratário às suas pressões históricas, o canal calcula seus danos econômicos e editoriais. Face a isso, o mais fácil de lidar e o mais sensível aos interesses corporativos da empresa talvez seja, ironicamente, Flávio. Certamente não será Lula.
Uma indicação a respeito foi dada com o episódio do cancelamento do debate. Lula avisou que não iria. Para comparecer, Flávio exigiu que Renan Santos fosse excluído, e a Globo concordou. Tão logo Flávio soube que Renan estaria presente por decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, o candidato do pai — condenado e preso por tentativa de golpe de Estado — desistiu de ir. Dos demais concorrentes, Renan era o único que partiria para o confronto direto com ele.
A velocidade com que a engrenagem operou nos bastidores escancara o alinhamento de interesses. Enquanto Ronaldo Caiado aguardava pacientemente nos estúdios da emissora, Flávio Bolsonaro já havia sido alertado sobre a reviravolta jurídica, garantindo o tempo necessário para orquestrar sua saída estratégica. A Globo, por sua vez, demonstrou que o debate nunca foi sobre o debate, mas sim sobre o controle da narrativa e a audiência comercial: sem o principal nome da direita no púlpito para confrontar as decisões da Justiça, o encontro perdeu sua utilidade prática e foi sumariamente cancelado. Para completar o cenário de esvaziamento, àquela altura, Lula já reinava absoluto como entrevistado em um podcast concorrente.
A Globo usou a expressão “insegurança jurídica” na nota em que justificou o cancelamento do debate. Desde então, Flávio passou a falar em “insegurança jurídica” para justificar por que fugiu da raia. Fugiu com medo de ser atacado por Renan, uma vez que não seria pelos demais, todos eles inclinados a apoiá-lo em um possível segundo turno contra Lula.
A santa e o crime organizado
O filho de Jair Bolsonaro prometeu que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo”. Católicos enxergaram nisso e em pastores radicais um desejo de destronar a padroeira. Esse temor foi noticiado, sem má fé.
A partir daí tudo saiu de controle. Redes sociais. TSE. STF. Todos extrapolaram. Flávio Bolsonaro acusou o PT e a CNBB de espalhar fake news e ergueu um boneco de crochê da santa. Lula explorou o caso e bispos católicos reagiram a Flávio. Aparecida polarizou o Brasil.
O ministro terrivelmente evangélico André Mendonça censurou todas as postagens e depois recuou, vetando apenas as que citavam Flávio. O humor de Tabet sobre a família miliciana está salvo. Mas a intolerância persiste.
O ministro do STF Flávio Dino recebeu denúncias de vandalismo religioso e pediu investigação da PF. Oito episódios, entre março e setembro, em seis estados. Mato Grosso, Bahia, Rio Grande do Sul, Alagoas, Minas Gerais e Pará. Imagem de Nossa Senhora Aparecida decapitada. Outras santas, destruídas com machado, incendiadas ou depredadas. Imagens de anjos. Imagens de orixás.
Precisam ser investigados? Sim. Mas não é o risco de um governo evangélico extremista o que mais me amedronta.
Uma ameaça concreta, ao Brasil e ao Estado do Rio, é o voto que legitima e fortalece o crime organizado. Candidatos ligados a assassinos de aluguel. Candidatos milicianos.
Um vídeo de 20 minutos com Camila Pitanga, na série Revelando, do podcast Calma Urgente, viralizou. Mais de 5 milhões de visualizações. “O julgamento que nunca aconteceu” relembra Ana Clara, de 5 anos, morta por disparos de fuzil na porta de casa.
O cabo PM Bruno Delaroli, acusado do crime e preso em flagrante, nunca foi julgado. Seu defensor? O advogado e senador Flávio Bolsonaro, que salvou Delaroli do júri popular. O PM segue livre até hoje.
Mas o vídeo vai adiante. Relata ligações íntimas de Flávio Bolsonaro com assassinos de aluguel. Flávio condecorou, com a medalha Tiradentes, o então tenente do Bope Adriano da Nóbrega. Adriano não apareceu na homenagem, estava preso por matar um guardador de carros.
Esposa e mãe de Adriano foram contratadas no gabinete de um deputado. Quem? Flávio Bolsonaro. Adriano era suspeito de chefiar o Escritório do Crime, milícia na Zona Oeste.
O covarde assassinato de Marielle Franco, que ajudava Freixo na CPI das Milícias, acordou o Rio. Foram nove tiros nela e em seu motorista. A polícia pediu a prisão de um tenente: Adriano da Nóbrega. Expulso da PM, fugiu, e foi morto por policiais na Bahia.
Outro personagem sombrio surgiu agora, ligado a Flávio. Robson Calixto, o Peixe. Está preso, acusado de ser o elo entre os matadores de Marielle e os mandantes. Ex-PM, o Peixe tratava Flávio Bolsonaro como “nosso senador”. Uma emenda parlamentar liberou R$ 200 mil a pedido do Peixe. Emenda de quem? Flávio Bolsonaro. Dinheiro de quem? Nosso.
Faz quase 20 anos que Flávio subiu à tribuna da Alerj para legitimar as milícias como “novo tipo de policiamento”, para "expurgar do seio da comunidade o que há de pior".
No Estado do Rio, o candidato dos Bolsonaro se chama Douglas Ruas. Policial civil. Quase um laranja do inelegível Cláudio Castro e de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, preso, acusado de ligação com o Comando Vermelho.
Temos o dever cívico, mais que nunca, de votar domingo com base em fatos. Esqueça minha opinião ou a do vizinho.
Eu preferia falar de flores nessa primavera de vento e chuva. Mas, o futuro me preocupa demais. Como cidadã e como mãe.
EUA destinam US$ 1 milhão a projeto que contesta atuação do STF
O projeto, chamado Combating Weaponized Litigation and Censorship in Brazil (“Combate à Litigância Instrumentalizada e à Censura no Brasil”, em tradução livre), prevê apoio a grupos que se opõem ao que classificam como abuso do poder judicial e censura no país.
A verba faz parte de uma redistribuição de recursos do Fundo de Direitos Humanos e Democracia (HRDF, na sigla em inglês), administrado pelo Departamento de Estado norte-americano. Segundo o Guardian, o pacote reúne 43 concessões que somam US$ 176,9 milhões e contempla projetos relacionados a pautas conservadoras e de direita em diferentes países.
De acordo com os documentos obtidos pelo jornal britânico, a iniciativa brasileira prevê financiar organizações que contestem decisões e medidas atribuídas ao Supremo Tribunal Federal.
O desenho do programa inclui apoio a grupos da sociedade civil envolvidos em disputas sobre decisões judiciais e liberdade de expressão. O financiamento ocorre em um momento de forte tensão entre os governos de Donald Trump e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e depois de uma série de medidas adotadas por Washington contra autoridades brasileiras.
O Departamento de Estado não comentou individualmente a concessão. Segundo o Guardian, a pasta afirmou que os programas permaneciam sob análise e que os beneficiários deveriam cumprir as regras federais para receber os recursos.
O financiamento agora destinado pelo governo Trump, ao que indica, foi citado em um edital publicado pelo Departamento de Estado em junho deste ano. Na ocasião, a pasta abriu uma chamada pública de até US$ 986.679 para um projeto denominado Countering Censorship and Judicial Overreach in Brazil (“Combate à Censura e ao Excesso Judicial no Brasil”, em tradução livre).
O edital previa um programa de 18 a 24 meses voltado a questões de liberdade de expressão, regulação de plataformas digitais e decisões judiciais no Brasil. O documento citava diretamente o Supremo Tribunal Federal e mencionava medidas relacionadas à remoção de conteúdos, ao bloqueio de plataformas e à responsabilização de empresas de tecnologia por publicações de usuários.
Entre as atividades previstas, estavam campanhas de conscientização, articulação com organizações internacionais, formação de coalizões e apoio jurídico a pessoas e grupos que se considerassem vítimas de decisões judiciais abusivas.
O valor previsto no edital era de até US$ 986.679, enquanto a concessão divulgada agora é de US$ 1 milhão. Os documentos disponíveis não deixam claro, até o momento, se a diferença corresponde a uma atualização do valor ou a uma nova concessão vinculada ao mesmo programa.
A trama da destinação de recursos ocorre em meio a alertas sobre a atuação dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro de 2026.
Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre ameaças às eleições elevou a possibilidade de influência ou interferência externa dos Estados Unidos a um “nível de criticidade”.
Na última semana, 31 congressistas norte-americanos — 30 deputados democratas e o senador independente Bernie Sanders — enviaram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, na qual manifestaram preocupação com uma possível interferência do governo Trump na eleição brasileira.
O documento, obtido pelo Metrópoles, pediu que Washington se comprometesse a respeitar o processo eleitoral e o resultado das urnas.
Nessa quarta, informações sobre uma reunião entre autoridades brasileiras, francesas e alemãs acrescentaram outro elemento ao cenário. Representantes da Abin teriam relatado a autoridades europeias a existência de interferências atribuídas aos Estados Unidos e à Rússia no processo eleitoral brasileiro.
A mansão de Flávio Bolsonaro e a gentileza do tabelião de Brasília
O presidente do banco àquela altura era o agora notório Paulo Henrique Costa, ora preso na Papudinha.
Começa a circular agora uma foto ainda inédita do fim de janeiro de 2021 que tem a ver com essa transação imobiliária.
Nela, aparecem sorridentes Allan Guerra, Costa, Flávio e Fernanda, sua mulher. A mansão ainda meio vazia emoldura a foto.
O tabelião Guerra comanda o 4º Ofício de Notas, Protesto, Registro Civil, Títulos e Documentos e Pessoas Jurídicas de Brazlândia (DF). Gentil e prestativo, foi levar pessoalmente o registro de compra e venda da mansão para ser assinado por Flávio.
A mansão, no Lago Sul, possui 1.100 m² de área construída em um terreno de 2.400 m² e tem quatro suítes e piscina. Flávio e Fernanda deram uma entrada de R$ 2,87 milhões e conseguiram um financiamento de 30 anos no valor de R$ 3,1 milhões com o BRB. Três anos depois, no entanto, foi tudo quitado.
O financiamento foi contratado com taxas nominais de 3,65% a 3,71% ao ano (+ IPCA), abaixo taxa padrão do BRB, que era de 4,85%.
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Deus, cabo eleitoral com exclusividade
"Deus está me preparando há 24 anos para ser presidente do Brasil." É um de seus motes favoritos. Significa que foi Deus quem o ensinou a extorquir servidores, condecorar milicianos, mentir como quem respira e suplicar dinheiro a Daniel Vorcaro. "Acredito que Deus colocou uma ‘missão’ em minha vida." Deixa implícito que sua candidatura atende a um chamado de ordem espiritual e que Deus viu nele um novo Cristo, quem sabe até com uma midiática crucificação.
"Deus vai me honrar [com a vitória na eleição]." Pela frequência com que Flávio repete isso, parece que a vitória está incluída no pacote de seus negócios com Deus. Resta ver se um dia prestará contas sobre esses negócios, ao contrário das contas que continua devendo sobre o filme "Dark Horse". "Se Deus me honrar, vamos poder colocar mais ministros [no STF]." E, com isso, obrigará Deus a se misturar com um tribunal tão desmoralizado.
"Vou fazer uma oração antes de ler o termo de posse, entregando o Brasil nas mãos de Jesus." Epa! Significa que quem vai governar é Jesus? Pode isso, Arnaldo — o fulano ser eleito e terceirizar o mandato? E sabe-se lá se Jesus não tem mais o que fazer?
Afinal, sua jurisdição abrange toda a humanidade, o que inclui os Estados Unidos. O patrão Donald Trump se contentará com sublocar Deus em vez de tê-lo todo para si?
"Não debato com quem não acredita em Deus." Afinal, Flávio é candidato a presidente ou a pastor? Resta ver se ele, notório evangélico de última hora, aguentaria cinco minutos de debate com um pastor de verdade.
Bolsonaros propõem caça às bruxas no Itamaraty
Depois do isolacionismo implementado durante o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, a equipe de Flávio buscará, se bem-sucedida nas eleições, intensificar o alinhamento aos EUA, no estilo e na condução da política externa. O projeto possui um codinome: "reforma do Marco Rubio", referência ao belicoso secretário de Estado americano.
O que se propõe, afinal, é uma mudança radical do lugar da diplomacia do Brasil no mundo. Seria um cavalo de pau na política externa brasileira, que se tornaria menos multilateral e mais subserviente aos EUA; menos pragmática e mais ideológica, privilegiando alinhamentos a países sob a liderança da direita; mais conflituosa com a China e com o Brics em geral.
Ficam as perguntas sobre se o agro brasileiro está disposto a pagar a conta de tensões com os chineses e se a população estaria disposta a debater Pix, big techs e temas afins com os EUA.
O alvo principal seria o próprio Itamaraty, com uma reestruturação à la Rubio do corpo diplomático, com menor participação de diplomatas de carreira e mais indicações políticas, ou seja, menos João Cabral de Melo Neto e mais Filipe Martins. Hoje, apenas 9% dos embaixadores americanos vêm do corpo diplomático, evidenciando a partidarização da carreira.
Direto dos EUA, Eduardo Bolsonaro propôs uma "faxina" (leia-se caça às bruxas) no Itamaraty se o irmão for eleito, o que eleva o risco real de perseguição política no órgão.
Trata-se de um erro para o Brasil, que se beneficia, inclusive economicamente, da habilidade histórica da diplomacia de dialogar e negociar com o espectro mais amplo possível de países. E há o risco de que a caça às bruxas se alastre para outros órgãos, como Polícia Federal e Banco Central.
Um corpo técnico no alto funcionalismo é indispensável para a qualidade do Estado, da diplomacia ao combate à corrupção, e é isso o que está sob ameaça.
O dever cristão de se manter informado
Posso ignorar que o pastor JB Carvalho, fundador da igreja onde Flávio foi batizado em 2023, acusa prostituição religiosa da Igreja Católica, e que o pastor Victório Galli, ex-deputado e assessor de Jair, apresentou projeto de lei para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Posso ignorar o ataque a bispos da CNBB e os riscos à liberdade religiosa.
Posso ignorar o desprezo de Flávio por mulheres, sua rejeição à Lei Maria da Penha, seu orgulho de "não ser feministo" e de lutar apenas por "mulheres de verdade". Posso ignorar correntes bolsonaristas que se opõem ao voto feminino, que ganham tração nos porões extremistas do Brasil e dos Estados Unidos.
Posso ignorar conexões de Flávio com o miliciano Adriano da Nóbrega, com Major Ronald e Robson Calixto (condenados no caso Marielle), com Domingos Brazão; posso ignorar construção de seu patrimônio ligada a transações em dinheiro vivo e à loja de chocolates; ou suas relações com Willer Tomaz e Daniel Vorcaro, com o Careca do INSS, com Rodrigo Bacellar e Cláudio Castro.
Posso ignorar que André Mendonça expôs fatos graves sobre Alexandre de Moraes e não fez nada equivalente para informar o eleitor sobre Ciro Nogueira, Cláudio Castro, Ibaneis Rocha, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.
Mendonça nem sequer deu transparência à sua própria relação com Vorcaro e aos contratos públicos de seu instituto, do qual se retirou sem esclarecer se deixará de prestar serviços ou usar de sua autoridade para renda privada. Ou se foi um delito ético, que continua sem explicar. Posso ignorar que, na série extravagante de ordens monocráticas do STF, nenhuma se compara em radicalidade e lesividade eleitoral às de Mendonça.
Posso ignorar que Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Kassio Nunes anularam provas produzidas contra Flávio no caso das "rachadinhas".
Posso ignorar tudo isso e chamar fatos documentados de fake news. Tenho direito de acreditar e abraçar a mentira. Afinal, tenho direito à ignorância. Sou livre para, sendo ignorante, renunciar à minha liberdade. Livre para a servidão. Esses paradoxos do direito constitucional e da moralidade política me favorecem.
A ética da ignorância estratégica, aquele modo insincero de se relacionar com a verdade, pode confortar a consciência. Contudo, é incompatível com qualquer conceito não cínico de pessoa de bem, com qualquer fé que se preocupa com o próximo, como a fé cristã. A Bíblia condena a "ignorância deliberada", e há responsabilidade espiritual por tamanha cegueira voluntária.
Informar-se é um direito-dever cívico, como o voto. Voto livre depende de boa informação. Voto que ignora tanta coisa e apoia candidato-símbolo das práticas mais cruéis e sinistras da sociedade brasileira, sem deixar nada de fora, nem tortura ou crime organizado, nem corrupção ou exploração da fé alheia, também é insustentável na fé cristã.
Posso ter direito à ignorância. Só não posso exercer esse direito e reivindicar amor em Cristo. Se Deus existe, Deus está me vendo.
Donald Trump é um ser humano horrível que viraliza das piores formas
Infelizmente, porém, quando alguém tão moralmente deformado quanto Trump —cujo primeiro secretário de Estado o chamou de "idiota"— assume tanto poder sem qualquer controle no alvorecer da Era da Inteligência Artificial, não se pode ignorá-lo.
Porque, neste momento, Trump está deixando os Estados Unidos expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos. Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso. Nós e nossos filhos pagaremos por isso, e não apenas na hora de abastecer o carro.
Comecemos pelo vírus digital que está à solta. Recentemente, OpenAI, Anthropic, Meta e Google revelaram, todas elas, incidentes nos quais seus modelos de inteligência artificial escaparam ao controle e saíram por aí invadindo outros sistemas de computador —incluindo um site do governo australiano, a plataforma Hugging Face e sites do Departamento de Comércio e da Comissão de Valores Mobiliários americana.
Lembrem-se: esses são sistemas de IA ainda na infância; estão de fraldas e ainda não foram potencializados pelo treinamento completo de si mesmos, que os levará a deixar para trás seus projetistas humanos.
E lembrem-se também de que as histórias acima dizem respeito ao que os mocinhos estão fazendo. Converse com qualquer grande especialista em cibersegurança de uma grande empresa americana e você ficará aterrorizado com as histórias sobre o que os bandidos estão fazendo com modelos menores de IA que conseguiram obter, dos quais foram retirados os mecanismos de controle.
O Relatório Global de Ameaças da CrowdStrike afirmou que os ataques de "adversários habilitados por IA" aumentaram 89% em 2025 na comparação com o ano anterior, segundo a revista Infosecurity Magazine, em fevereiro —e o ritmo disparou desde então.
Mas não tenham medo, porque nosso presidente, que nem sequer usa email, disse às Nações Unidas na semana passada que sabe que nossos temores em relação à segurança da IA são fraudulentos. Ele se referiu às "mesmas pessoas que disseram que todos estaríamos mortos em 12 anos por causa do aquecimento global". E acrescentou: "E ninguém morreu. São as mesmas pessoas que agora dizem que a IA vai nos matar a todos".
Milhares de pessoas morreram em catástrofes agravadas pelas mudanças climáticas na última década, e só na imaginação pútrida de Trump alguém disse: "Senhor, todos estaremos mortos em 12 anos".
Trump e seu partido —assim como os magnatas da tecnologia da IA que, na prática, pagaram a eles para que não interfiram em seu setor— deveriam rezar para que a "surpresa de outubro" nas próximas eleições legislativas de meio de mandato não seja um grande evento destrutivo envolvendo IA.
Se for, é melhor que tenham suas espaçonaves prontas para levá-los a outro planeta, onde possam viver para sempre, porque este evento talvez transforme suas existências em um inferno.
Essa ameaça da IA não é uma farsa (assim como a ameaça climática não é uma farsa, como Trump saberia se algum dia consultasse o site da Nasa de seu próprio governo). A única farsa é Trump, que certa vez sugeriu que injetar água sanitária poderia ser uma boa maneira de se livrar da Covid-19, achar que sabe alguma coisa sobre IA ou mudanças climáticas —ou água sanitária.
Gostaria que a única ameaça que a ignorância desenfreada de Trump representasse para nós fosse um vírus de IA. Infelizmente, na semana passada, Apoorva Mandavilli, minha colega do New York Times, noticiou que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), por muito tempo considerados "líderes globais incontestáveis em saúde pública", foram tão sistematicamente desmantelados pelo secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., que agora são "um esqueleto do que já foi uma potência".
Não apenas o quadro de funcionários do CDC foi reduzido em cerca de 30%, como, segundo Mandavilli, citando funcionários atuais e antigos, "as mudanças prejudicaram a capacidade do CDC de responder a surtos, enquanto o sarampo se espalha dentro do país, e o ebola, no exterior, e de emitir orientações oportunas sobre vacinação à medida que a queda das temperaturas dá início à temporada de doenças respiratórias. Divisões inteiras foram fechadas, incluindo equipes que trabalhavam com tabagismo, violência sexual, abuso infantil e quedas entre idosos".
O jornal The Guardian publicou uma reportagem sobre a disseminação do surto de sarampo na Pensilvânia, que já ultrapassou 900 casos. O médico John Goldman, especialista em doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, disse que, entre 1992 e 2026, não havia visto um único caso, segundo o Guardian. Agora, "estamos vendo pelo menos um por dia".
E acrescentou: "Nunca na minha vida pensei que voltaria a ver sarampo". Esse é um exemplo de como a negligência de Trump está ajudando a disseminar vírus biológicos de verdade.
Mas não se esqueçam também do vírus antidiplomático, que igualmente está minando nossas forças. O que seria isso? Uma reportagem do jornal israelense Haaretz, assinada por seu especialista em assuntos do Oriente Médio, Zvi Bar’el, descreveu como a incompetência diplomática do governo Trump e a malevolência do gabinete do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, se combinaram para paralisar o plano de paz de 20 pontos de Trump para a Faixa de Gaza.
Assim, os civis palestinos, muitos deles vivendo em edifícios destruídos pela guerra —um dos quais desabou em 16 de setembro, matando pelo menos 21 pessoas, incluindo 11 crianças—, continuam em condições de absoluta miséria.
Quando Trump lançou seu tão alardeado Conselho da Paz e se tornou seu presidente, os países participantes prometeram US$ 17 bilhões para Gaza. Mas, "até onde se sabe, menos de US$ 300 milhões foram transferidos", informou Bar’el.
Além disso, a força internacional de estabilização prevista no plano de paz ainda não foi criada. A força policial palestina que deveria substituir o Hamas, sob a supervisão de um governo tecnocrático palestino, deveria receber treinamento no Egito, "mas Israel está impedindo que seus integrantes deixem Gaza", segundo Bar’el.
Aprendi ao longo dos anos que a diplomacia também funciona como um vírus, de maneira benéfica ou prejudicial: quanto mais sucesso você tem, mais respeito conquista; quanto mais respeito conquista, mais sucesso obtém. No sentido inverso, quanto mais fracassos acumula, menos os aliados confiam em se juntar a você, o que leva a mais fracassos.
Um exemplo: entre março e outubro de 1991, o secretário de Estado James Baker fez oito viagens diplomáticas ao Oriente Médio para organizar a Conferência de Paz de Madri — a primeira entre Israel, a Organização para a Libertação da Palestina e vários Estados árabes. Acompanhei as oito viagens com ele, como correspondente diplomático do NYT. Ele fracassou nas sete primeiras, mas Baker não desistiu e conseguiu realizar a conferência na oitava.
Mostrem-me uma única iniciativa diplomática que o governo Trump tenha desenvolvido desde o cessar-fogo em Gaza, que Trump deixou definhar. É como se tudo o que lhe importasse fosse a manchete sobre a assinatura do acordo, após a qual ele declarou, espantosamente, em 13 de outubro do ano passado: "Juntos, conseguimos o que todos diziam ser impossível. Finalmente temos paz no Oriente Médio".
Isso, sim, é o que chamo de uma verdadeira farsa.
Não há um acompanhamento enérgico e concentrado porque não existem linhas claras de autoridade. Temos Thomas Barrack, enviado especial para Síria e Iraque e embaixador na Turquia, fazendo suas próprias declarações sobre políticas. Temos Massad Fares Boulos, sogro de Tiffany, filha de Trump, atuando como assessor sênior do presidente para assuntos árabes e do Oriente Médio. Temos Jared Kushner e Steve Witkoff, que atuam em tempo parcial. Temos vários subsecretários de Estado e de Defesa. E temos Trump em suas redes sociais. (Alguém ainda vai transformar isso em um musical!)
O que não temos é um secretário de Estado como Baker, que se concentre incansavelmente em mobilizar o poder dos Estados Unidos e que faça viagem após viagem, até cumprir a missão.
A única coisa que Trump acompanha incansavelmente é a perseguição à imprensa. No último sábado, depois de ser obrigado por um juiz a permitir que repórteres da CNN voltassem à Casa Branca, após Trump tê-los banido ilegalmente porque a cobertura da emissora não era bajuladora o suficiente, o presidente ainda assim impediu que a CNN o acompanhasse no Air Force One para assistir a uma partida de futebol americano no Tennessee.
Quando se trata de denunciar a imprensa, Trump tem foco absoluto. Mas, ao lidar com os vírus digitais, biológicos e diplomáticos que enfraquecem o sistema imunológico nacional, nem tanto —para nosso enorme risco.
