terça-feira, 16 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


As Copas viraram problema geopolítico

Minha principal atividade nesta Copa é comprar figurinhas para o neto. Nem sempre foi assim. Nas muitas Copas que vivi, o clima não era tão tranquilo.

Em 1970, assisti à final entre Brasil e Itália refugiado na Argélia. Um grupo de asilados pensou em torcer contra o Brasil, porque a vitória fortaleceria a ditadura militar. Bastaram alguns minutos de jogo para que todos estivessem torcendo apaixonadamente pelo Brasil e se sentissem no paraíso com a goleada.

Ainda no Brasil, acompanhei o jogo Brasil e Tchecoslováquia numa solitária na prisão. Não havia rádio, não havia vizinhos nas outras celas, não havia nada. Só silêncio. Pelos gritos que vieram da rua, contei os gols do Brasil e concluí alegremente que vencemos por 4 a 0. Ilusão. Eles fizeram um gol que ficou perdido na barreira de silêncio. Poderiam ter feito dois, três, e eu não saberia.

As Copas, sobretudo no período da ditadura, sempre foram um tema político. João Saldanha foi uma espécie de herói para nós por ter resistido à pressão de Emílio Garrastazu Médici. Saldanha era o técnico da seleção, e o general Médici queria que ele convocasse Dadá Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro. Saldanha respondeu: o presidente escolhe o ministério dele, eu escalo a minha seleção.

O mundo mudou. As Copas, que eram tema da política interna, são hoje problema geopolítico. Quando Estados Unidos, Canadá e México resolveram hospedar a Copa de 2026 em conjunto, pensavam em projetar uma América do Norte unida e aberta ao mundo. A América do Norte já não está tão unida. E a abertura ao mundo, sobretudo nos Estados Unidos, transformou-se em paranoia diante do estrangeiro.

Os primeiros signos desse novo momento histórico apareceram com a decisão de barrar a entrada do juiz da Somália Omar Abdulkadir Artan. Omar é considerado um dos grandes juízes do mundo, apesar de vir de um país pobre, sem grande tradição em futebol. Foi recebido como herói ao voltar para a Somália. A delegação de Senegal foi objeto de dura fiscalização ao entrar nos Estados Unidos. Não se sabe por que tanto rigor contra os africanos.

A Fifa tem aguentado tudo calada. A mesma Fifa que, no Brasil, fez e aconteceu, impôs regras como se o seu presidente fosse um imperador. Um jornal francês caricaturou Gianni Infantino como fantoche de Trump. Sua imagem depois dessa Copa dificilmente escapará disso. Mesmo antes, Infantino criou um prêmio da paz e entregou o troféu a Trump, algumas semanas antes de ele começar uma guerra contra o Irã.

Uma característica desta Copa é que um dos anfitriões está em guerra com um dos participantes (embora tenha sido anunciado um cessar-fogo). É uma experiência única bombardear um país enquanto a seleção nacional do país bombardeado disputa uma partida de futebol no campo do inimigo.

Os iranianos também pagam um preço por disputar a Copa. Ficarão concentrados em Tijuana e viajarão para os Estados Unidos apenas para jogar e voltar em seguida. Pensar que grandes disputas internacionais foram criadas para unir os povos... A verdade é que líderes como Donald Trump jamais permitirão que se alcance esse objetivo.
Fernando Gabeira

Eleição é uma arena estética

Os gregos na Antiguidade já sabiam que a estética é o fundamento sensorial da nossa racionalidade e, portanto, o alicerce sobre o qual a pessoa e a sociedade conseguem construir o esclarecimento, a descoberta, o deslumbramento ou a indignação. É assim que a nossa expressão política e científica – e não apenas a artística, a cosmética ou a arquitetônica – permite nos desenvolvermos (ou não), como indivíduos e como civilização. Como dizia a pedagoga pernambucana Dosa Monteiro, “viver é aumentar-se”.


Política é uma manifestação estética desde sempre. Contudo, ultimamente usou-se diminuir o sentido da palavra ‘estética’ à aparência das coisas. Nada contra, mas não é (apenas) sobre isso. E a redução do significado da estética não é incidental. Favorece a precarização da capacidade da sociedade de fazer escolhas acertadas, de distinguir o que é ruim, o que é feio e o que é errado. Nessa toada, turva-se convenientemente a noção de bem e mal. Aquilo que é caro ou performático passa a ser o desejável. Vale até piratear a beleza ou a alegria inalcançável dos bem-nascidos e influencers, deixando em segundo plano as questões reais (como a desigualdade social e as mudanças climáticas, por exemplo). Fica difícil identificar o que de fato importa.

Não é à toa que os primeiros alvos das investidas antidemocráticas são a cultura, o conhecimento, as liberdades, o diálogo e o convívio. Afinal, tudo isso aprimora nossos sentidos, nossa percepção, nosso ideário. Ou seja, nossa capacidade de interpretar a realidade. Nosso senso estético. Ao contrário, os regimes autoritários preferem a homogeneidade, que é o rebaixamento de toda forma de diversidade a um degrau medíocre, onde as noções de belo, certo e bom sejam igualadas por baixo, conforme a moda ou as tendências fabricadas. Pregam a polarização e o ódio. Democracia é diversidade sem fronteiras postas por preconceitos induzidos.

Não esqueçamos que também há refinamento na cosmética dos extremistas. O alto clero nazista trajava modelitos dos medalhões da moda e transitavam em limusines exclusivas, cujas marcas habitam os shoppings até hoje. Vale lembrar as ditaduras igualmente bem-vestidas do Chile, Brasil, Espanha ou Rússia. Por isso mesmo, é especialmente na política que nossa sensibilidade estética não pode se deixar impressionar pelos relógios de marca, pelos salões de festas e, hoje, pelos perfis digitais bem seguidos. É indispensável conseguirmos interpretar as sutilezas (nem sempre tão sutis) maquiadas nas falas, nas atitudes e nos posts. Estética é aumentar-se e, não, abobalhar-se.

Por mais colorido e moderno que pareça o mundo atual, vivemos um espetáculo dominado por tons cinzentos, melodias pobres e ideias primitivas, onde a verdadeira estética (aquela que nos faz sair do nosso lugar usual de acomodação) é tratada como bobagem antiquada. A democracia sofre – no mundo e no Brasil – uma nova fase de confrontação estética. Estamos em uma espécie de guerra fantasiada, onde formas de pensamento rasas que imaginávamos caducas ressurgem para reagir ao avanço dos valores e visões contemporâneos. Mesmo a “nova política” nem sempre é nova. É preciso mantermos o rumo para uma realidade em que prevaleça o verdadeiramente belo, bom e certo. Sem nos distrairmos com as mungangas que geram likes e compartilhamentos. Estética tem a ver com lucidez, principalmente na política.

O Brasil virou um cassino?

O brasileirinho sempre gostou de uma fezinha. Está na nossa cultura, impulsionada pela Família Real através do salvador “Jogo do Bicho”. Adoramos apostar no futebol, no carnaval, no namoro que começou no pagodinho e até na próxima cartada do “Trúmpi”, como fala o nosso presidente.

O problema começa quando o Brasil inteiro passa a viver dentro de um cassino como os de Las Vegas, aberto 24 horas por dia, com o Governo servindo dívida, em ficha de Vale Desgraça, para uma outra geração pagar.

Atualmente, o celular dos brasileirinhos virou uma mistura de Caixa Econômica, Igreja da Desesperança e caça-níquel. Você abre a tela para pagar um boleto e aparece um croupier sorridente prometendo que, com apenas cinco reais, você vai mudar de vida.


É a chegada do amigo “tigrinho”, da roleta, da raspadinha digital, do foguete que sobe, do aviãozinho que cai e de uma fauna inteira de bichos eletrônicos, famintos pelo Bolsa Miséria, que entra e só exige que você não trabalhe de “Carteira” assinada.

O japonês da esquina, o Hirano, vestido de Rubro-Negro e cansado de trabalhar 15 horas por dia, vendendo seus tomates e folhas, sentiu que o Flamengo perderia para o Palmeiras. O rasgado não titubeou, jogou 1000 pratas no Palmeiras. O Carrascal entendeu, operou o nariz do Alan e o Japa ganhou 5000 pilas. Até nisso o Brasil perde. E o Mengão também. Essa eu presenciei e me inspirei.

O mais espetacular dessa tragédia é que o Brasil conseguiu fazer algo inédito: transformou o desespero político em modelo de negócio. Deveríamos pedir para o Vorcaro, que já inventou tanto, pensar em uma aposentadoria assistida para os recebedores do Bolsa Tragédia.

Antigamente, o brasileirinho estudava para melhorar de vida. Hoje, uma parte da juventude acredita mais no seu método de apostar do que no estressante diploma. O garoto que aprendia inglês está estudando “estratégia” para liquidar o covarde Cassino. E o pior: ninguém percebe que, no fundo, não está jogando para ficar rico. Está jogando para tentar respirar.

O brasileirinho, aquele Super Homem que já não conseguia poupar, agora, faz fezinha… e perde. Os tigrinhos estão, a cada dia, mais fortes.

Na economia real, a coisa vai ficando parecida com churrasquinho de gato: sobra fumaça, gordura e alguém perguntando quem levou a picanha, o chopp e a abóbora. Pequenos comerciantes reclamam que o dinheiro sumiu da praça. Nas bancas do Mercadão, não existe mais troco para R$5,00.

O dinheiro sai do mercadinho, cresce e voa no “rolentrando”. Sai da livraria e entra no “pix dourado e premiado”. Sai do restaurante e entra no “aposte já”. O brasileirinho troca produtividade pelas fortes emoções. E fica mais liso a cada dia.

Somos um grande cassino incentivado. O cidadão aposta no aplicativo. O governo aposta no crescimento milagroso. O mercado aposta que as contas fecham. E o brasileirinho aposta que o boleto se perca antes do salário acabar.

O grande Roberto Campos dizia que “a inflação aleija, mas o câmbio mata”. Se estivesse vivo, talvez acrescentasse: “e a ilusão econômica hipnotiza”.

O meu professor de Economia Brasileira, o Senador Jefferson Peres, com sua reconhecida seriedade amazônica, talvez resumisse tudo numa frase seca: “uma sociedade desesperada vira presa fácil da fantasia”.

Japão, Coréia, Malásia, Tailândia, enriquecem, investindo em educação e produzindo tecnologia, ciência, aumentando eficiência e formando pessoas educadas e mão de obra qualificada. Já sociedades cansadas, universidades idiotizadas e colégios indisciplinados, costumam buscar atalhos emocionais: loterias, populismo, pagamentos à mídia, crédito fácil e promessas de felicidade no Enter e no click.

Os nossos cassinos adoram clientes esperançosos, principalmente os desesperados. E o brasileirinho anda bastante desesperadinho.

A inflação come, pelas beiradas, silenciosamente, no prato dos brasileirinhos. O crédito virou armadilha decorada com juros sorridentes. O aluguel sobe como foguete de São João. Os comércios tradicionais dos centros, fecham. O café virou artigo de luxo. O ovo já é filé mignon. Enquanto isso, alguém fantasia os números do IBGE.

Porque a verdade é simples: o brasileirinho não usa o aplicativo de apostas acreditando em matemática. Usa esperando o milagre. As nossas miraculosas igrejas e seus pastores já sentem o murro no fígado, no queixo e nos bolsos.

E enquanto a roleta gira, o brasileirinho continua apostando não para ficar milionário, apenas para sobreviver ao próximo mês sem perder a dignidade e o Bolsa Tragédia. O Céu só exige a virgindade da Carteira Profissional.

Estados Unidos impõem teto para avanço da IA

No dia 9 de junho, terça-feira da semana passada, a Anthropic lançou com certo estardalhaço seu novo modelo de ponta, Claude Fable. Era, de longe, a inteligência artificial (IA) mais avançada à disposição no mercado. Era. Na sexta, dia 12, quando mal passava das 17h em Washington, o secretário de Comércio Howard Lutnick mandou uma ordem. Era para a companhia suspender o acesso ao Fable para qualquer cidadão estrangeiro. Incluam-se na lista os próprios funcionários da Anthropic que não nasceram nos Estados Unidos (muitos). A equipe de comando da empresa leu o papel, sabia que colocar um filtro por nacionalidade é impossível, aí tomou a única decisão viável: tirou do ar. Ninguém mais usa. E, assim, o governo americano essencialmente acaba de impor um teto ao avanço da IA. A partir de determinado nível de capacidade, está proibido. Evidente que não vai durar. Foi puro improviso de quem não pensou nas consequências. Mas é fundamental compreender tudo que está em jogo.


Antes de tudo: o discurso de Dario Amodei, fundador e CEO da Anthropic, vem consistentemente batendo na mesma tecla: a IA tem potencial de se tornar muito perigosa para o mundo, é preciso que os governos regulem urgentemente. Na semana passada mesmo, ele publicou mais um de seus longos ensaios sugerindo que os Estados nacionais organizem grupos de trabalho enxutos e eficientes para sugerir uma regra, já que os Poderes Legislativos perderam a capacidade de se mover, travados pela polarização ocidental. Ele vinha dizendo sobre o Mythos, a família de modelos de que o Fable faz parte, justamente que representavam uma ameaça à cibersegurança. Seria capaz de quebrar quase tudo, do Windows no computador pessoal até os sistemas que comandam distribuição de energia, passando pelos circuitos bancários. Talvez não seja uma boa estratégia bater o bumbo dizendo que seu produto oferece risco real a todo mundo. Vai desempregar, vai desestruturar, vai facilitar fraude e tudo o mais não é discurso que faça muitos amigos.

Ao mesmo tempo, Amodei é figura malquista na Casa Branca. Dos principais líderes do Vale do Silício, é de longe o que se mantém mais distante de um governo que gosta de empresários e executivos subservientes. No Vale, há quem finja essa subserviência, como a turma de Apple e Google. Há quem se esforce para manter proximidade, como OpenAI e Meta. E há os que trabalharam ativamente pela eleição de Trump. Foi assim com Elon Musk e seu conjunto de empresas, da Tesla ao X e à SpaceX. Só a Anthropic mantém distância explícita. Isso atrai simpatia de um campo político. Mas também provoca animosidade num governo impulsivo. O Departamento de Defesa já nomeou a Anthropic como ameaça à segurança do país, perdeu na Justiça e teve de recuar. Agora é o Departamento de Comércio.

Só que, desta vez, o governo tem alguma razão de estar preocupado. Scott Bessent, o secretário do Tesouro, foi avisado na quinta por Andy Jassy, CEO da Amazon. Seus engenheiros haviam sido capazes de quebrar parte dos sistemas de segurança do Fable. Justamente aquele pedaço que o impedia de violar sistemas de cibersegurança. O Fable poderia ser usado para ataques de grande porte. A Amazon é a maior acionista da Anthropic. Pois é. E foi seu CEO que disparou o alarme contra a companhia. Após conversas internas no governo, Lutnick deu a ordem de suspensão. Quem entende do assunto diz que é puro alarmismo. Ocorre que, se hoje é puro alarmismo, amanhã pode não ser.

Os Estados Unidos não têm regra. Não há regulação, muito menos processo. Quem avalia se uma IA é ameaça ou não? Como se contêm os perigos, ao mesmo tempo facilitando o desenvolvimento de tecnologia que melhore a vida? É para isso que serve regulação. Para não impedir o progresso, evitando malefícios previsíveis.

Mas a decisão não tem como ficar de pé. Não é possível conferir a cidadania de quem tem acesso a uma tecnologia e de quem não tem. Ainda que fosse, terrorismo interno existe. Proibir acesso a estrangeiros não suspende ameaças. E vai além: há uma disputa no mundo entre EUA e China. Se o governo americano proíbe que seus laboratórios cheguem primeiro à corrida, as consequências são duas. A primeira é que os engenheiros mais importantes vão migrar para outros países. As empresas também. O Reino Unido estará de portas abertas, a França idem. E nem precisa ir longe. A Universidade de Toronto, no Canadá, já é o principal formador de cientistas de IA.

A segunda consequência é que a China chegará primeiro na corrida.

Isto não é ficção: as empresas gostam de faquires

Anunciaram-lhe que tinha de passar o sábado numa formação da empresa. Não ia haver pagamento de horas extraordinárias. Só uma folga, num dia a aprovar pela diretora. Chegou lá depois de deixar a filha com os avós, que o pai nunca é solução. Teve sorte. Houve quem, sem avós por perto nem pai que valesse, tivesse de arranjar soluções mais criativas, recorrendo à bondade de quem pudesse ficar com os miúdos, que 1200 euros brutos não dão para andar a gastar dinheiro em baby-sitters. Lá chegada, encontrou o formador. Na verdade, um coach. Alguém pago para os pôr a fazer “provas de confiança”. Andaram a partir espadas de plástico com o pescoço, para perceberem o poder da mente e os bloqueios das “crenças limitativas”. Já ouvi falar de “formações” destas em que os trabalhadores passam um fim de semana a viver como se estivessem na tropa ou até a caminhar sobre vidro partido ou a atravessar o fogo. Pelos vistos, ser faquir é uma competência essencial para sobreviver nas empresas.


O dia estava quente, um daqueles primeiros dias bons de primavera, depois de um inverno cinzento de chuvas. Mas eles lá ficaram fechados a convencerem-se do poder da própria mente e de que são todos uma equipa e a empresa é uma família. Deve ser. Por isso, a família a sério e os amigos que se escolhem ficam à espera da tal folga que a diretora há de aprovar, num dia de semana, quando nem familiares nem amizades estiverem disponíveis. E até há de dar jeito, que há roupa para passar a ferro ou uma consulta pendurada ou uma burocracia que nunca há tempo para resolver. O lazer é luxo. Ir ao cinema está caro, estar com os amigos numa esplanada custa dinheiro, até uma ida à praia leva o couro e o cabelo. Assim, pelo menos usa-se o dia para o que é útil. O que é a vida se não tiver utilidade?

Informaram-na de que as comissões pelas vendas passam a ser pagas de três em três meses. Não teve voto na matéria. Pena que a renda, a água e a luz não se paguem de três em três meses. Já tem sorte em ter comissões. Agora, todas juntas, até parecem tanto dinheiro que fazem saltar de escalão de IRS. E se o recibo vem mais magro a culpa é do Estado. Não é do patrão que em vez de salário paga prémios.

Querem melhor? Esforcem-se. Já se esforçam muito? Esforcem-se mais. Trabalhem mais horas. Já trabalham horas extraordinárias sem receber por isso? E depois? O que é que vos custa?

O esforço é “premiado” e é por isso, por ser um presente que se dá por bondade, que não entra para os descontos da reforma (vamos lá a ver se ela chega e quanto chega) nem para o subsídio de desemprego nem para a baixa de doença. Mas é bom que não fique doente, que já viu colegas não terem o contrato renovado porque adoeceram e tiveram de faltar. E outros dois porque fizeram greve em dezembro. Ninguém disse que foi por terem feito greve, mas é uma grande coincidência. E a mensagem passou. Ficaram todos a perceber: ser grevista não é bem-visto. Ser doente também não. Mesmo que a empresa seja uma grande família, ninguém quer familiares que andam para aí a arrastar-se.

Há uns meses, deram-lhe mais responsabilidades. Ser chefe de equipa. Agora, além do trabalho no call center, tem de auditar as chamadas dos outros, fazer relatórios, garantir que a equipa não falta nem falha os objetivos. O dia está cada vez mais curto. Mas agora recebe mais 80 euros. Uma fortuna. E ganhou a ansiedade de garantir que ninguém na sua equipa falta, dê lá por onde der. Se alguém faltar, ela perde as comissões e o salário só vai cobrindo as despesas se receber os extras. Sem isso, anda em apneia até ao fim do mês. Mas levar os filhos para o escritório, se não tiverem escola ou estiverem doentes, não é bem-visto. A diretora deixou isso muito claro, quando lá apareceu uma trabalhadora com a filha. “Isto não é uma creche.” Ficou feito o aviso.

Dizem-lhes que é preciso vestir a camisola. E até vem a calhar, que o salário não dá para comprar muita roupa. E este ano não há aumentos. Não há margem, dizem. Mas houve uma grande festa de Natal. Afinal, isto é uma família. O dinheiro em casa está curto, mas ao menos naquele dia foram comer à grande num restaurante que o patrão escolheu e com os colegas que não se escolhem. Uma maravilha. Só têm de estar gratos.

Claro que há ingratos. Ela ouviu uma colega queixar-se a um diretor de que o salário não dava para chegar ao fim do mês. “Precisa de aprender a governar-se melhor”, respondeu sabiamente o chefe. “Podemos trocar. Vem governar-se com o meu e eu governo-me com o seu”, atirou a ingrata, que ouviu logo o responso, porque ela sabe lá as grandes responsabilidades que ele tem. E meteu a viola no saco, que daqui a uns meses há de chegar ao fim o contrato e depois logo se vê quem fica. A flexibilidade é uma grande maravilha, mas prende-nos a boca e os pés ao medo de ficar sem ter como pagar o teto e o pão.

Estes “colaboradores” têm de aprender a valorizar a sorte de ter um trabalho. Ou deveria escrever uma “colaboração”? No fundo, se a empresa é uma grande família com a qual até se passam sábados a aprender a partir espadas com o pescoço, isto não é bem um trabalho. E, claro, o salário não é o que se recebe em troca de vender as suas horas, o seu esforço e o seu conhecimento. E é por isso que não faz mal nenhum dar mais umas horas ao emprego em troca de coisa nenhuma ou da promessa de uma folga no dia em que calhar bem ao patrão. Estamos cá todos para fazer uns jeitinhos uns aos outros. Somos todos uma equipa, mesmo que no final do turno uns vão para a fila dos autocarros e outros saiam num carro topo de gama com combustível pago pela empresa.

Querem melhor? Esforcem-se. Já se esforçam muito? Esforcem-se mais. Trabalhem mais horas. Já trabalham horas extraordinárias sem receber por isso? E depois? O que é que vos custa? Não podem ser mesquinhos ao ponto de acharem que um emprego serve só para trocar trabalho por dinheiro. Afinal, é por isso que as empresas gastam tanto nestas formações para faquires. Vocês têm de ser flexíveis! Só não falhem a hora de picar o ponto e garantam que vos veem sentados na secretária tanto tempo quanto possível. E não se metam em greves nem em sindicatos, que isso é coisa de comunas e preguiçosos. Se vos atropelarem um direito, se vos encostarem à parede, se não vos aumentarem, aguentem. Isto é tudo psicológico. É só acreditar e pisar o vidro partido. Só é pena é que o senhorio ou o banco não percebam que a renda não é psicológica nem a conta do supermercado se pague com fé. Mas um dia isto vai melhorar. Vai mesmo. Será que vai?

PS: A cronista não teve de usar a imaginação, como aliás nunca faz. O relato é escrito com base num desabafo verídico.


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Apoio à candidatura de Flávio já sai caro a seus mantenedores

E se Flávio Bolsonaro acabar derrotado? E se o filho do Jair se mostrar um cavalo paraguaio (aquele que sai na frente e não aguenta o trote)? Existem outras perguntas: e se ele ganhar? Fará um governo de revanche, na mesma linha do Trump 2.0? Terá autoridade para evitar que seu irmão, Eduardo, venda o Brasil aos americanos? Afinal, o negócio está claro: Trump ajuda Flávio na eleição e então cobra o preço. Depois do Pix (olha o Zelle aí...) e das terras-raras, devidamente elencadas, poderia ser a Amazônia. Ou a Petrobras.

O apoio à candidatura de Flávio já sai caro a seus mantenedores. Medidas como os tarifaços 1 e 2 e a classificação das agremiações criminosas PCC e CV como terroristas causam prejuízos financeiros às empresas. A começar pela turma do agro, que deve se perguntar: até quando a ojeriza a Lula compensa a sangria provocada pelos Bolsonaros? Entra na mesa a fatura posta pelo patriarca de Rio das Ostras ao escolher o filho e não o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ele joga com os seus, não para seu grupo político.


Daí que o ungido traz defeitos de origem. Não tem ajudado. Sua imagem não tem a nitidez do pai, radical assumido, misógino e ignorante em matemática. Esperto ao menos: com vários casamentos no currículo, conseguiu arrebanhar os pastores evangélicos que, em troca, ganharam várias isenções fiscais. Ficou claro que preferem ter seu paraíso em vida e não depois da morte. Bolsonaro, ao contrário do filho, se mostrou autêntico: fez da escalada de horrores sua plataforma política — vide as saudações sinceras à bandidagem.

O filho, não. Age com a espontaneidade do caixa eletrônico. Diante da revelação de sua ligação com Vorcaro, de imediato tratou de negá-la. Para abraçá-la pouco depois. Melhor fez Valdemar Costa Neto ao admitir que o jovem Bolsonaro foi buscar a parte final do dinheiro ao visitar Vorcaro já em prisão domiciliar. É nessa admissão que a direita deixa seu jogo mais claro. O custo de face dos Bolsonaros mostra-se oneroso. São muitos imóveis comprados em pagamentos em espécie, variadas rachadinhas, muitas condecorações a milicianos e infinitos rastros para manter um sangue do meu sangue no exterior.

Valdemar, com a direita, faz cálculos. Até o momento, não está enroscado com as mesadas do Master. Ciro Nogueira, presidente do PP, está mais perto da Papuda que da doce Courchevel; Antonio Rueda, comandante do União Brasil, também tem o que temer. Valdemar sorri.

O cálculo: a derrota de Flávio soa melhor que uma hipotética vitória. Com a vitória, viriam corpos e fantasmas no armário bolsonarista — e a fatura americana. E o PT, Valdemar, que já foi seu aliado, sabe administrar melhor na oposição. O naufrágio do jovem senador significaria a transformação do capital político da família em somente uma franja na extrema direita. Portanto sem força para fazer biquinho e querer ditar os rumos da direita civilizada.

Quanto a Lula, friamente, será seu último mandato. Dentro de um governo premido pela urgência de um ajuste fiscal, atolado num déficit precificado em altos juros e na necessidade desagradável de realizar um novo aperto na Previdência. Como as tendências do PT se comportarão quando o aumento de aposentadorias e do salário mínimo ocorrer apenas pelo índice inflacionário?

Em 2030, Lula irá para casa, enquanto seus correligionários continuarão atrás de votos. Será um deus nos acuda, em que a direita espera ver o Lula 4 emparedado para executar reformas que evita encarar desde seu primeiro mandato, em 2003. É uma tese.

A disparada nos juros futuros exibe a desconfiança matemática sobre a próxima administração petista. Valdemar e a turma da Faria Lima observam o dado cru: pela primeira vez na História, o país ultrapassa a marca de R$ 1 trilhão em juros nominais num período de 12 meses. Em miúdos, no primeiro quadrimestre de 2026, são R$ 351,5 bilhões, ou perto de R$ 3 bilhões por dia. Dados do BC.

Sou paulistano e conheço políticos como Valdemar, que preferia Michelle, e não o filho de Jair. Ele sabe que a eleição de 2030 será a primeira sem Lula no tabuleiro. Depois de um governo difícil, a direita aposta num horizonte com um PT desmilinguido e o bolsonarismo atolado em processos criminais. Caso haja dúvidas, observe o entusiasmo de Tarcísio ao apoiar o Flávio. Não chamo aquilo de amor.

De Luís XIV a Trump: a arquitetura como ego e símbolo

O termo inglês "vanity project" está na moda. Ele tende a surgir sempre que Donald Trump apresenta um novo plano para dar a Washington, D.C., uma reforma cara e arquitetonicamente extravagante. Em espanhol, poderíamos dizer "projeto egocêntrico" ou "projeto faraônico".

Seja um arco triunfal de 100 milhões de dólares, um salão de baile de um bilhão de dólares para a Casa Branca ou uma remodelação de 13 milhões de dólares do espelho d'água do Lincoln Memorial, cada proposta levanta a questão de por que um líder político a defenderia.

Em primeiro lugar, nem todo projeto extenso ou caro pode ser considerado um "projeto egocêntrico".

Esra Akcan, professora de arquitetura na Universidade Cornell, explica que a intenção é o que distingue o interesse público da vaidade. "Embora seja difícil sentir respeito por qualquer projeto grandioso, se ele for impulsionado por um líder político, gera ainda mais oposição, porque implica uma situação em que uma pessoa usa sua posição e o dinheiro do contribuinte para construir um monumento que satisfaça seu próprio ego, em vez de prestar um serviço público", disse Akcan.


O mais recente projeto de Trump para Washington: repintar o fundo do espelho d'água do Lincoln Memorial com a cor "azul da bandeira americana".

Projetos financiados pelo Estado que oferecem habitação social equitativa, praças públicas, parques, escolas ou universidades "são muito diferentes de palácios governamentais fechados e gigantescos, construídos para a família e os amigos do governante, que consomem os recursos do país para uma pequena elite", continua Akcan.

Historicamente, governantes de diferentes épocas utilizaram a arquitetura monumental para projetar autoridade, legitimidade ou identidade nacional.

Akcan destaca como os regimes totalitários do século XX na Alemanha, Itália e na antiga União Soviética adotaram formas monumentais para transmitir poder tanto dentro quanto fora de suas fronteiras.

Por exemplo, o edifício da Chancelaria do Reich de Adolf Hitler em Berlim, o campo de desfiles e reuniões de zepelins em Nuremberg e o nunca construído "Salão do Povo", uma cúpula projetada para acomodar 180.000 pessoas. Todos eles foram concebidos para impressionar por seu gigantismo.

Na França do século XVII, Luís XIV transformou um antigo pavilhão de caça no Palácio de Versalhes, um dos maiores complexos palacianos da Europa.

Alguns líderes modernos invocam grandes projetos da antiguidade, como as pirâmides, para justificar projetos ambiciosos. Mas Akcan afirma que a história não deve ser simplificada em excesso.

"Colocar projetos estatais modernos e monumentos antigos como as pirâmides na mesma categoria é uma falsa equivalência", alerta ela. A especialista destaca que as pirâmides pertenciam a sistemas de crenças e estruturas político-econômicas completamente diferentes.

"Muitos líderes são movidos pelo ego e pelo desejo de deixar um legado tangível na maior escala possível. Para eles, não basta deixar monumentos. Criar uma cidade inteira é a demonstração máxima de poder e a manifestação física de uma ideologia", explica Sarah Moser, professora de geografia da Universidade McGill e especialista em novas capitais.

A construção de cidades é "sempre inerentemente política", acrescenta Moser, porque as cidades são projetos públicos de grande visibilidade. Segundo ela, países fora do Ocidente têm usado as cidades para redefinir sua imagem ou marcar uma nova era política.

Moser menciona Masdar City, promovida como a primeira cidade do mundo com emissão zero e zero resíduos, que ajudou a apresentar Abu Dhabi como uma capital "hipermoderna e tecnologicamente sofisticada".
A cidade de Masdar, em Abu Dhabi, tem sido criticada como o "projeto faraônico" de um país produtor de petróleo, embora também sirva como laboratório para tecnologias de eficiência energética.

Em Myanmar, a capital planejada de Naypyidaw utiliza símbolos budistas em prédios governamentais. Moser argumenta que essa linguagem visual apresenta o Estado como baseado em uma única identidade religiosa, que pode incluir alguns grupos enquanto exclui implicitamente outros, como a minoria muçulmana Rohingya .

O especialista também destaca que líderes históricos usaram cidades inteiras para expressar visões políticas ou legados pessoais. Pedro, o Grande, fundou São Petersburgo em 1703 como "a janela da Rússia para a Europa"; Brasília simbolizava uma identidade moderna e pós-colonial; e Astana refletia a visão de Nursultan Nazarbayev para o Cazaquistão por meio de uma arquitetura futurista e monumental.

Akcan também alerta que até mesmo democracias consolidadas estão adotando táticas arquitetônicas antes associadas a regimes autoritários. Projetos enormes e de grande visibilidade têm sido aprovados sem concursos públicos, ampla participação da população ou consenso institucional.

"Outro fato preocupante é que muitos desses projetos violam as leis e regulamentos de planejamento urbano de seus próprios sistemas jurídicos", acrescenta Akcan, citando o palácio presidencial Ak Saray de Recep Tayyip Erdoğan como exemplo.

Os planos de Trump para Washington, D.C., também enfrentaram oposição de ambientalistas, urbanistas e instituições culturais. Segundo Moser, quaisquer modificações em Washington serão inevitavelmente analisadas minuciosamente, dada a sua enorme importância simbólica para a identidade nacional americana.

"As intenções por trás dessa 'repaginação' e o dinheiro investido nela servem como uma espécie de barômetro dos valores e das formas de governo para o resto do país", enfatiza ela. Segundo ela, as propostas de Trump constituem "uma demonstração de poder destinada a testar seus aliados, demonstrar força política e deixar um legado duradouro".

Extrema direita usa episódios de violência para incitar ódio contra imigrantes

O ciclo de violência e agitação da extrema direita no Reino Unido tornou-se assustador e frequente demais. Tudo pode começar com um esfaqueamento, de natureza horrível, que causa medo e raiva. A condenação por parte de líderes políticos e autoridades policiais surge rapidamente. Mas quando o agressor é um imigrante ou uma pessoa negra, uma narrativa maligna e distorcida explode na internet. Políticos e comentaristas de direita aproveitam-se disso para fomentar a indignação em apoio à sua agenda anti-imigração, auxiliados por algoritmos de redes sociais que se alimentam de conflitos e divisões. Em poucas horas, a raiva que fomentam online salta para o mundo real, desencadeando protestos que se transformam em tumultos violentos. Há apelos à calma e promessas de ação por parte do governo e das autoridades policiais. Mas, pouco depois, o ciclo recomeça.

Duas vezes nos últimos 10 dias ataques violentos com faca na Inglaterra e na Irlanda do Norte seguiram esse padrão. Na terça e na quarta-feira, manifestantes em Belfast, furiosos com um ataque cometido por um refugiado sudanês, incendiaram carros e propriedades e atiraram objetos contra a polícia. Isso ocorreu após uma noite de tumultos violentos em Southampton na semana passada, depois da divulgação de um novo vídeo sobre o assassinato, em dezembro, de um estudante universitário de 18 anos que foi falsamente acusado por seu agressor de ter cometido um ataque racista.

— Existe um roteiro — disse Ciarán O’Connor, analista sênior do Instituto para o Diálogo Estratégico, que pesquisa extremismo, ódio e desinformação globalmente. — Um incidente de violência como esse é identificado e rapidamente amplificado não apenas por um ecossistema doméstico, mas por um ecossistema global, transnacional e de extrema direita, que usa esses incidentes para absorvê-los em sua própria narrativa internacional. Ele afirmou que essa dinâmica se tornou “alarmantemente familiar e até previsível”.

O Reino Unido não está sozinho. Em toda a Europa e nos Estados Unidos, grupos políticos de extrema direita em ascensão estão amplificando a frustração e a raiva que as pessoas sentem após um episódio assustador e canalizando-as para a hostilidade contra imigrantes. Pesquisadores dizem que esse padrão é seguido por membros do partido de extrema direita alemão Alternativa para a Alemanha (AfD) e do Partido da Reunião Nacional (Reunificação Nacional) da França.

— Passamos de alimentar o ódio online para realmente levá-lo às ruas de diversas maneiras — afirmou Marta Lorimer, professora de ciência política na Universidade de Cardiff. — Certamente estamos testemunhando uma crescente indistinção entre o mundo online e o que acontece no mundo real, e parte do problema é que a classe política parece não saber muito bem como lidar com isso.

Lorimer destacou que o Reino Unido é especialmente vulnerável por compartilhar o idioma inglês com os Estados Unidos, o que, segundo ela, facilita que grupos de extrema direita usem as redes sociais para incitar a raiva à distância.

Foi o que aconteceu na terça-feira, quando Elon Musk, dono do X, convocou pessoas a protestarem “REPETIDAMENTE e EM ALTO E BOM SOM” em Belfast. Ele destacou uma imagem com uma lista de locais de protesto, divulgada por Tommy Robinson, um agitador anti-islâmico britânico com múltiplas condenações criminais.

“Todo o Reino Unido estará nas ruas hoje à noite, às 19h, após mais um ataque de invasores contra o nosso povo”, escreveu Robinson, cujo nome verdadeiro é Stephen Yaxley-Lennon, no X.

Nigel Farage, líder do Partido Reformista do Reino Unido, de direita e populista, aproveitou os dois recentes ataques com faca para promover sua agenda política anti-imigração. O partido se tornou uma força política importante no Reino Unido, vencendo eleições locais em todo o país no mês passado e liderando consistentemente as pesquisas eleitorais nacionais. Esse sucesso recente lhe confere mais influência do que tinha há uma década, quando seu partido estava à margem da política britânica.

Após a divulgação de imagens de vídeo mostrando policiais algemando Henry Nowak, o estudante universitário, enquanto ele agonizava em dezembro, Farage publicou um vídeo na semana passada incitando o público a “responder a isso com pura e fria indignação”. Ele acusou a polícia de um sistema de justiça “de duas classes” que trata minorias étnicas melhor do que pessoas brancas no Reino Unido. Nesse caso, Farage expressou preocupação com imigrantes, embora o assassino condenado, Vickrum Digwa, um sikh, tenha nascido no país.

Em um pronunciamento na quarta-feira, Farage descreveu o ataque com faca em Belfast como uma tentativa de “decapitação”, adotando uma linguagem usada na internet, apesar de nenhuma autoridade policial ou governamental ter se referido ao ocorrido dessa forma publicamente. Nesse caso, a polícia acusou Hadi Alodid, um sudanês de 30 anos, de esfaquear Stephen Ogilvie na cabeça, nas costas e no pescoço, causando a perda de um olho de Ogilvie.

— Não tenho a menor dúvida de que esse homem não deveria estar neste país — declarou Farage, embora as autoridades afirmassem que Alodid estava no país legalmente.

Sundar Katwala, diretor da British Future, um think tank que se concentra em questões de identidade, disse que políticos como Farage estão usando cada vez mais o que chamou de “momentos decisivos” para atrair a parcela de sua base que deseja que ele adote uma linguagem mais agressiva.

Houve aproximadamente 500 homicídios no Reino Unido no ano passado, muitos deles chocantes. Mas se a vítima não for branca, ou se o crime não se encaixar em uma narrativa que demonize os imigrantes, ele não é usado para incitar protestos raivosos.

Outros políticos pediram moderação e calma, ao mesmo tempo que tentaram reconhecer a natureza terrível dos ataques com faca. No Parlamento, na quarta-feira, o primeiro-ministro, Keir Starmer, condenou o incidente de segunda-feira contra Ogilvie em Belfast e a violência nas ruas que se seguiu na noite de terça-feira.

— Estamos todos enojados com este ataque, mas as sementes da violência e da desordem não têm justificativa — ressaltou ele.

Kemi Badenoch, líder do Partido Conservador, disse no X que "as pessoas têm o direito de estar com raiva. E as pessoas têm o direito de esperar que seus políticos protejam nossas fronteiras". Mas ela chamou as cenas de tumulto em Belfast de "profundamente perturbadoras" e disse que "ninguém tem o direito de expulsar famílias de suas casas à força".

A Ofcom, órgão regulador do setor de comunicações no Reino Unido, alertou os provedores de serviços online de que eles têm o dever de garantir que não disseminem conteúdo ilegal que possa inflamar uma crise — incitando a violência, por exemplo. Em uma carta aberta divulgada na quarta-feira, a agência escreveu que “já estamos entrando em contato com provedores individuais nos quais acreditamos haver riscos específicos relacionados à presença de conteúdo ilegal associado aos distúrbios civis”.

Mas esses esforços pouco fizeram para conter a disseminação de informações incendiárias e frequentemente enganosas nas plataformas. O’Connor, do Instituto para o Diálogo Estratégico, afirmou que sua organização encontrou, nesta semana, repetidos casos de páginas no Facebook com alegações duvidosas de que o autor do ataque em Belfast teria dito “louvado seja Deus” em árabe durante o ataque.

Ed Davey, líder do Partido Liberal Democrata no Reino Unido, denunciou o que chamou de padrão em que um crime brutal “nos faz sentir imensa dor e raiva, e então extremistas exploram essa dor e raiva para espalhar ódio e violência, com a ajuda e o incentivo de magnatas das redes sociais como Elon Musk”.

A pressão por limites ao comportamento online está renovando as acusações de políticos como o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, de que o Reino Unido está minando o direito à liberdade de expressão dos conservadores. Quando Liz Kendall, secretária de tecnologia do Reino Unido, publicou, nesta semana, sobre novas regras online mais rígidas que o governo está considerando impor, dezenas de pessoas responderam dizendo que o país quer silenciar o debate legítimo.

“Vocês fingem que é uma questão de segurança, mas é uma questão de controle!”, escreveu uma pessoa. “NÓS TE VEMOS!!!!”

Especialistas que estudam as plataformas online dizem que elas estão fornecendo fóruns para que políticos de direita se integrem mais à corrente principal.

— O que estamos ouvindo hoje, há 20 anos, seria considerado absolutamente marginal, coisas completamente absurdas que apenas os partidos políticos mais extremistas defenderiam — salientou Lorimer.

Ao mesmo tempo, ela disse, políticos liberais e centristas como Starmer no Reino Unido e alguns democratas nos Estados Unidos estão sentindo pressão para se moverem para a direita com políticas que respondam às preocupações de eleitores irritados e frustrados. Isso força a direita a "intensificar ainda mais suas políticas extremistas, que acabam se normalizando", disse ela.

— Você acaba numa situação em que a coisa toda se agrava muito rapidamente, e é exatamente aí que estamos agora.
Michael D Shear

Liberdade

A liberdade não é um direito do homem concedido pelo céu, e a liberdade de sonhar também não se adquire pelo nascimento: é uma capacidade que há que preservar, uma consciência, sobretudo porque os pesadelos não param de a perturbar.
Gao Xingjian

Inteligência artificial, crédito privado e o retorno do capital fictício

A economia mundial atravessa uma zona histórica de instabilidade que já não pode ser compreendida apenas pelas categorias tradicionais de recessão, inflação ou ciclo financeiro. Há algo mais profundo em curso: uma crise de reprodução do próprio modelo de acumulação capitalista, cuja capacidade de produzir riqueza permanece enorme, mas cuja capacidade de distribuir estabilidade, segurança social, emprego digno e futuro coletivo se mostra cada vez mais reduzida. O capitalismo não está paralisado; ao contrário, move-se intensamente. Mas move-se por meio de contradições crescentes: concentração, financeirização, endividamento, guerra, precarização do trabalho, bolhas tecnológicas, adoecimento psíquico e destruição ecológica.

A próxima crise do capital talvez não comece com a imagem clássica de operadores financeiros em pânico, telas vermelhas e manchetes anunciando a queda de um banco sistêmico. Talvez ela já tenha começado em lugares mais silenciosos: no jovem norte-americano que trabalha, recebe salário e ainda assim não consegue pagar aluguel, comida, transporte, saúde e dívidas; na família europeia que calcula se ainda conseguirá permanecer na própria casa; no trabalhador que adia consulta médica; na juventude que retorna ao quarto dos pais porque a independência se tornou economicamente impossível; no adulto que já não sonha com ascensão social, mas apenas com sobreviver ao mês seguinte.

Esses acontecimentos, aparentemente privados, são sinais públicos de uma crise histórica. A economia mundial ainda é narrada por indicadores agregados – PIB, inflação, juros, bolsas, endividamento, produtividade e comércio internacional –, mas a crise real aparece antes no corpo social. Ela aparece quando o salário deixa de sustentar a vida, quando a moradia se converte em ativo financeiro antes de ser direito humano, quando a juventude perde a perspectiva de futuro e quando o progresso tecnológico convive com o adoecimento psicopatológico de quem trabalha.

O dado mais revelador do presente não é a existência isolada de uma bolha, mas a convergência entre baixo crescimento global, valuations elevados, crédito opaco, concentração monopolista, promessa tecnológica inflada e deterioração das condições concretas de reprodução da vida. Em 2008, a crise nasceu da transformação da moradia popular endividada em ativo financeiro global. Agora, a crise que se anuncia parece nascer de outra forma de promessa: a expectativa de que a inteligência artificial produzirá lucros futuros tão extraordinários que justificariam a valorização presente de grandes conglomerados tecnológicos, fundos, semicondutores, data centers, empresas de energia, plataformas digitais e estruturas de crédito conectadas a esse novo ciclo.

A semelhança com os subprime não está no ativo específico. Não se trata, agora, de hipotecas imobiliárias residenciais de baixa qualidade embaladas em derivativos complexos. A semelhança está na lógica. Em ambos os casos, há uma promessa futura convertida em riqueza presente. Em ambos os casos, o risco é deslocado, empacotado, disfarçado e distribuído por estruturas financeiras pouco transparentes. Em ambos os casos, a ideologia dominante repete a mesma frase histórica de todas as bolhas: “desta vez é diferente”.


A UNCTAD, no documento Global growth expected to slow to 2.6% through 2026, publicado em 3 de dezembro de 2025, projetou que a economia mundial crescerá apenas 2,6% em 2025 e 2026, abaixo dos 2,9% de 2024, abaixo da média pré-pandemia de 3% e muito abaixo da média de 4,4% observada antes da crise financeira de 2008–2009. Esse dado é decisivo porque demonstra que a economia global não atravessa apenas uma oscilação conjuntural: há uma desaceleração estrutural longa, posterior à crise de 2008, que restringe a capacidade do sistema de produzir prosperidade social ampla.

Essa leitura é reforçada pela própria UNCTAD em seu relatório World Economic Situation and Prospects 2026, publicado em 8 de janeiro de 2026, segundo o qual o crescimento global permanece lento e desigual entre regiões. O documento projeta expansão de 2,7% em 2026 e 2,9% em 2027, ainda abaixo da média pré-pandemia de 3,2%, com crescimento fraco na Europa e restrições adicionais em países em desenvolvimento por dívida elevada e choques climáticos.

Esse é o primeiro elemento de semelhança com 2008: a economia real perde fôlego enquanto a economia financeira continua criando narrativas de valorização.

Antes, a narrativa era a de que o mercado imobiliário norte-americano continuaria sustentando a expansão do crédito. Agora, a narrativa é a de que a inteligência artificial abrirá uma nova era de produtividade, lucros e automação capaz de justificar preços crescentes dos ativos. A tecnologia é real, mas a pergunta decisiva é outra: a rentabilidade futura será suficiente para sustentar a capitalização presente?

Toda grande bolha nasce de uma verdade parcial. A bolha ferroviária nasceu de uma transformação real dos transportes. A bolha da internet nasceu de uma transformação real da comunicação. A bolha imobiliária nasceu de uma necessidade real de moradia. A eventual bolha da inteligência artificial nasce de uma tecnologia real, com potencial profundo de reorganizar produção, serviços, linguagem, vigilância, logística, educação, finanças e gestão do trabalho. Mas a existência de uma inovação verdadeira não impede a formação de uma bolha. Ao contrário: as grandes bolhas modernas costumam nascer justamente quando uma inovação real é capturada por expectativas financeiras desmedidas.

O problema, portanto, não é dizer que a inteligência artificial “não existe” ou que não terá efeitos econômicos relevantes. O problema é perceber que o mercado pode estar antecipando, de forma exagerada, uma massa de lucros que ainda não se realizou socialmente. Parte considerável da valorização associada à IA depende da expectativa de produtividade futura, da expansão de data centers, do consumo crescente de energia, do domínio de semicondutores e do controle monopolista de plataformas. Se essa expectativa for frustrada, mesmo parcialmente, a correção de preços poderá atingir não apenas empresas de tecnologia, mas também fundos, fornecedores, credores, seguradoras, bancos, mercados de energia e cadeias globais de investimento.

A segunda semelhança com 2008 está no crescimento de uma estrutura financeira paralela, opaca e insuficientemente testada. O nome contemporâneo dessa zona de risco é private credit, ou crédito privado. Depois da crise financeira global, os bancos foram submetidos a regulações mais rígidas. Parte do risco saiu do sistema bancário tradicional e migrou para fundos, gestoras, seguradoras, veículos privados, private equity e outras formas de intermediação não bancária. O risco não desapareceu. Apenas mudou de endereço.

O Financial Stability Board, no relatório Report on Vulnerabilities in Private Credit, publicado em 6 de maio de 2026, advertiu que o setor de crédito privado apresenta vulnerabilidades decorrentes de sua complexidade, alavancagem e interconexão com bancos, seguradoras e empresas de private equity, podendo amplificar choques em cenários adversos. O FSB também destacou riscos ligados à opacidade de avaliação dos ativos, à qualidade de crédito dos tomadores, aos descasamentos de liquidez, à concentração setorial e ao fato de que o setor ainda não foi testado em uma desaceleração econômica prolongada.

Essa advertência é central. Em 2008, muitos títulos hipotecários pareciam seguros porque estavam estruturados em camadas, avaliados por modelos sofisticados e distribuídos por instituições globais. Hoje, muitos ativos de crédito privado parecem estáveis porque não são negociados diariamente em mercado aberto, porque são avaliados por modelos internos e porque a ausência de marcação transparente reduz a percepção imediata de volatilidade. Mas estabilidade aparente não é estabilidade real. Às vezes, é apenas falta de visibilidade.

A Reuters noticiou, em 5 de junho de 2026, que o boom do crédito privado começou a esfriar, com desaceleração acentuada na emissão de empréstimos de direct lending nos Estados Unidos, queda de fluxos de investimento, aumento de pedidos de resgate e preocupação com a qualidade de crédito, especialmente em setores como software. Esse dado recente reforça que o crédito privado não é uma abstração técnica distante: ele já apresenta sinais de tensão concreta.

Se a inteligência artificial é o rosto luminoso da nova promessa, o crédito privado pode ser sua engrenagem subterrânea. A IA aparece nas capas dos relatórios como futuro; o private credit aparece nas notas técnicas como risco. A crise pode nascer exatamente da conexão entre essas duas dimensões: expectativas tecnológicas exageradas e estruturas financeiras ilíquidas, opacas e altamente conectadas.

A presença dos imóveis comerciais completa o quadro. O setor de escritórios, shopping centers e propriedades corporativas sofreu alterações estruturais depois da pandemia, com expansão do trabalho híbrido, queda de demanda em centros urbanos e necessidade de refinanciamento sob juros mais altos. Ele talvez não seja o epicentro da próxima crise, mas pode funcionar como uma falha geológica secundária: um canal de contágio para bancos regionais, fundos imobiliários, seguradoras e credores privados.

A diferença em relação a 2008 é que a próxima crise talvez não tenha um único rosto. Não precisa haver um novo Lehman Brothers. Pode haver uma crise em camadas: primeiro, revisão das expectativas de lucro da IA; depois, queda das ações de tecnologia, semicondutores, nuvem e infraestrutura digital; em seguida, aperto no crédito para startups e empresas dependentes de financiamento barato; depois, inadimplências no private credit; por fim, pressão sobre bancos regionais, seguradoras, fundos e mercados de imóveis comerciais.

Esse encadeamento revelaria uma verdade incômoda: a economia contemporânea está novamente sustentada por promessas de valorização futura. Só que agora a promessa não está ancorada na casa própria financiada do trabalhador norte-americano, mas na inteligência artificial monopolizada por poucos conglomerados globais.

A terceira dimensão da crise é a monopolização. O capitalismo contemporâneo já não se parece com a imagem liberal da livre concorrência entre empresas autônomas e dispersas. Ele se organiza em torno de plataformas, oligopólios, fundos, patentes, infraestrutura digital, propriedade intelectual, controle de dados e domínio de cadeias logísticas. A inteligência artificial intensifica essa tendência porque exige escala gigantesca: poder computacional, energia, chips avançados, nuvem, bases de dados e capital intensivo. Poucos grupos conseguem competir nesse nível.

Da perspectiva marxista, isso é decisivo. A monopolização opera como contratendência à queda da taxa de lucro. Quando a concorrência pressiona margens, quando a composição orgânica do capital aumenta, quando os investimentos necessários se tornam cada vez maiores e quando o trabalho vivo é relativamente reduzido pela automação, o capital busca recompor sua rentabilidade por meio de mecanismos extraordinários: monopólio, renda tecnológica, patentes, precarização, redução salarial, financeirização, apropriação de fundos públicos, expansão imperial e endividamento.

Mas essas contratendências não eliminam a crise. Elas apenas a deslocam. O capital consegue preservar lucros elevados no topo, mas ao custo de fragilizar a base social que sustenta a demanda, o trabalho, a legitimidade política e a coesão democrática. É por isso que os lucros podem coexistir com estagnação. É por isso que bolsas podem subir enquanto a vida concreta se torna mais insegura. É por isso que a produtividade tecnológica pode crescer junto com adoecimento, desemprego, informalidade e medo.

A quarta dimensão é geopolítica. A economia mundial está cada vez mais atravessada por guerras, sanções, disputas energéticas, rotas marítimas, semicondutores, terras raras e rivalidades industriais. A Reuters noticiou, em 5 de junho de 2026, que a Organização Mundial do Comércio identificou sinais de desaceleração do comércio global de bens, apesar da resiliência inicial em 2026. O barômetro do comércio de mercadorias da OMC recuou de 102,3 em janeiro para 101,7, ainda acima da tendência, mas já indicando perda de fôlego. A notícia também registra que a demanda por componentes eletrônicos ligados à IA ainda sustenta parte do comércio, mostrando a ambiguidade do momento: a IA atua simultaneamente como motor parcial de crescimento e como possível núcleo de vulnerabilidade financeira.

Esse ponto é fundamental para uma leitura crítica. A crise econômica contemporânea não é apenas crise de mercado; é crise de hegemonia. Quando a valorização produtiva encontra limites, a disputa geopolítica se torna mecanismo de reorganização da acumulação. Tarifas, guerras, sanções, subsídios industriais, controle de semicondutores, militarização e disputa energética deixam de ser eventos externos à economia. Passam a ser parte da própria economia política do capitalismo em crise.

Mas há uma quinta dimensão, talvez a mais decisiva para compreender o sentido humano da crise: a incapacidade crescente de manutenção básica da vida, inclusive nos países centrais do capitalismo. O Federal Reserve publicou, em 13 de maio de 2026, o relatório Economic Well-Being of U.S. Households in 2025, baseado na pesquisa Survey of Household Economics and Decisionmaking, realizada em outubro de 2025. O relatório informa que, embora a situação geral dos adultos tenha permanecido relativamente estável, o bem-estar financeiro piorou entre jovens adultos, famílias de baixa renda e adultos negros. A instituição também assinala que aumentos de preços permaneceram como a preocupação financeira mais comum entre adultos norte-americanos.

Esse dado precisa ser lido politicamente. Quando jovens adultos em uma das economias mais ricas da história relatam piora de bem-estar financeiro, não estamos diante de mero problema individual de planejamento. Estamos diante de uma crise estrutural entre salário, custo de vida, dívida, moradia, saúde e instabilidade ocupacional. Quando a juventude trabalha e ainda assim não consegue pagar suas contas, o problema não está apenas na educação financeira do indivíduo. Está na arquitetura econômica que tornou a vida comum mais cara do que a renda ordinária.

A Europa confirma essa mesma tendência. A Eurofound informou, em 14 de janeiro de 2025, com base na pesquisa Living and working in the EU 2024, que 30% dos respondentes relataram dificuldade para fechar as contas, contra 22% em 2023. Na Grécia, esse percentual chegou a 55%. O dado revela que, mesmo depois de alguma melhora nos indicadores macroeconômicos, a inflação acumulada e o custo de vida corroeram a resiliência financeira dos lares europeus.

Aqui a crise econômica ganha rosto humano. A juventude, que deveria ser o tempo da travessia para o futuro, torna-se o tempo da suspensão: suspende-se a saída de casa, suspende-se a formação de família, suspende-se a maternidade ou paternidade, suspende-se o projeto de vida, suspende-se a esperança. O capitalismo prometeu que desenvolvimento tecnológico e crescimento econômico levariam a mais liberdade individual, mobilidade social e segurança material. Mas a realidade contemporânea mostra jovens mais qualificados vivendo mais inseguros; trabalhadores empregados incapazes de pagar contas; famílias adiando cuidados médicos; adultos retornando à dependência familiar; moradia convertida em privilégio.

É nesse ponto que o tema do adoecimento psicopatológico causado pela superexploração do trabalho deve ingressar no centro da análise. A crise contemporânea do capitalismo não se manifesta apenas como queda de crescimento, instabilidade financeira ou bolha de ativos. Ela aparece também como sofrimento psíquico massificado. Antes de se tornar crise aberta dos mercados, ela aparece como ansiedade, depressão, burnout, pânico, insônia, exaustão, medo de demissão, perda de sentido e colapso subjetivo diante de uma organização do trabalho que exige disponibilidade total, produtividade crescente e adaptação permanente.

O capitalismo contemporâneo já não explora apenas a força física do trabalhador. Ele captura sua atenção, sua linguagem, sua criatividade, sua afetividade, sua capacidade relacional e até sua esperança. O trabalhador não vende apenas horas de trabalho. Vende energia psíquica, disponibilidade emocional, velocidade de resposta, capacidade de absorver pressão e disposição para transformar sofrimento em desempenho.

A psicodinâmica do trabalho, especialmente a partir de Christophe Dejours, permite compreender que o adoecimento mental não nasce apenas de uma fragilidade individual. Ele emerge da relação concreta entre sujeito e organização do trabalho. O sofrimento aparece quando há ruptura entre o trabalho prescrito e o trabalho real; quando o trabalhador é impedido de mobilizar sua inteligência prática; quando o reconhecimento desaparece; quando a cooperação é substituída pela competição; quando metas abstratas, rankings, algoritmos e comandos gerenciais negam a experiência concreta do trabalhador.

Essa perspectiva permite superar a leitura moralizante do adoecimento. Não se trata de um indivíduo fraco diante de um mundo exigente. Trata-se de um mundo organizado para exigir mais do que o corpo e o psiquismo podem sustentar. A superexploração do trabalho não deve ser compreendida apenas como aumento da jornada ou redução salarial direta. Ela se expressa também na intensificação invisível do trabalho: metas inalcançáveis, cobrança permanente, vigilância digital, disponibilidade fora do expediente, medo de substituição tecnológica, precarização contratual e responsabilização individual por problemas estruturais.

É aqui que o capitalismo flexível revela sua violência específica. Sob a promessa de autonomia, mobilidade, inovação e empreendedorismo de si, ele transfere ao indivíduo os riscos da instabilidade sistêmica. A empresa flexibiliza custos, vínculos, equipes, jornadas e metas; o trabalhador absorve ansiedade, culpa, insegurança e adoecimento. A flexibilidade do capital torna-se rigidez psíquica para quem trabalha. Aquilo que aparece nos relatórios empresariais como eficiência aparece na vida concreta como colapso nervoso.

A inteligência artificial intensifica essa contradição. Ela poderia reduzir jornadas, democratizar conhecimento e libertar tempo humano. Mas, sob comando monopolista e financeiro, tende a ser incorporada como tecnologia de corte de custos, vigilância, substituição, aceleração e controle. A IA não chega, para a maioria dos trabalhadores, como promessa de descanso. Chega como ameaça silenciosa: “serei substituído?”, “meu trabalho ainda terá valor?”, “quantas tarefas a mais terei de cumprir agora que a máquina aumentou a produtividade esperada?”.

Essa é a conexão mais profunda entre crise financeira e adoecimento mental. O capital fictício antecipa lucros futuros; a organização do trabalho antecipa sofrimento presente. O mercado precifica uma produtividade que ainda não se realizou; a gestão cobra do trabalhador uma performance que seu corpo e sua mente talvez não consigam sustentar. Assim, a bolha da inteligência artificial não é apenas uma bolha de ativos. É também uma bolha de expectativas humanas insuportáveis.

A crise psicopatológica do trabalho não é uma externalidade do capitalismo contemporâneo. Ela é parte de seu modo de funcionamento. A depressão, a ansiedade, o burnout e o pânico não podem ser reduzidos a categorias clínicas isoladas quando aparecem massivamente em ambientes organizacionais marcados por metas agressivas, competição interna, medo, assédio, invisibilidade e ausência de reconhecimento. O que aparece como diagnóstico individual muitas vezes é a forma clínica de uma violência social.

Essa talvez seja uma das violências mais sofisticadas do capitalismo contemporâneo: produzir sofrimento estrutural e depois privatizar sua explicação. O que é social aparece como psicológico. O que é político aparece como clínico. O que é exploração aparece como falta de resiliência. O que é organização patogênica do trabalho aparece como fragilidade pessoal do trabalhador.

Contra essa inversão, é necessário recolocar o adoecimento mental no centro da crítica econômica. A crise do capitalismo é também crise da alma trabalhadora. O sistema exige que o indivíduo seja permanentemente produtivo em uma economia permanentemente instável. Exige serenidade em meio à ameaça, criatividade em meio ao medo, engajamento em meio à exaustão, flexibilidade em meio à precarização. Depois, quando o trabalhador adoece, o mesmo sistema o trata como problema individual, custo previdenciário, baixa produtividade ou falha de adaptação.

O que está diante de nós, portanto, não é simplesmente uma possível “bolha da IA”, entendida como fenômeno financeiro isolado. A bolha da inteligência artificial é expressão de algo mais profundo: a tentativa do capital de encontrar uma nova fronteira de valorização num momento de baixo crescimento estrutural, saturação de mercados, concentração monopolista, instabilidade geopolítica, pressão sobre a taxa de lucro e colapso subjetivo da força de trabalho.

A inteligência artificial aparece, nesse contexto, como promessa de salvação produtiva. Mas, sob o comando do capital, tende a se converter também em tecnologia de vigilância, intensificação do trabalho, substituição de empregos, controle algorítmico, precarização e concentração de poder. A máquina poderia reduzir jornadas, democratizar conhecimento, ampliar capacidades humanas e liberar tempo social. Mas, subordinada à acumulação privada, tende a chegar ao trabalhador como ameaça, meta, corte, monitoramento e ansiedade.

A contradição é brutal: a sociedade produz instrumentos técnicos capazes de ampliar a liberdade humana, mas os organiza segundo uma lógica que amplia a dominação econômica. Essa é a diferença entre desenvolvimento das forças produtivas e emancipação social. Uma tecnologia revolucionária pode se tornar socialmente regressiva se estiver aprisionada pela forma-mercadoria.

A bolha mais perigosa, portanto, talvez não seja apenas a financeira. A bolha mais profunda é ideológica: a crença de que o capitalismo poderá resolver, por meio de uma nova tecnologia, contradições que são sociais, políticas e históricas. A inteligência artificial pode aumentar produtividade, mas não resolve a desigualdade se os ganhos forem apropriados por monopólios. Pode automatizar tarefas, mas não garante redução de jornada se o poder permanecer nas mãos do capital. Pode reorganizar a produção, mas não elimina a exploração se a propriedade dos meios tecnológicos continuar concentrada.

Se houver uma crise, ela provavelmente será narrada como excesso de entusiasmo, correção de mercado, falha regulatória ou problema de liquidez. Mas essa explicação será insuficiente. A crise será, antes de tudo, o momento em que o capital fictício criado em torno da promessa tecnológica encontrará os limites da produção real de valor. Será o instante em que o futuro antecipado pelos mercados exigirá comprovação no presente – e talvez descubra que grande parte da riqueza precificada era expectativa, não substância.

Em 2008, a crise revelou que milhões de contratos hipotecários não poderiam sustentar a pirâmide financeira construída sobre eles. Na próxima crise, talvez se revele que a inteligência artificial, embora real e poderosa, não consegue sustentar sozinha a massa de expectativas, dívidas, valuations e monopólios erguidos em seu nome.

O roteiro possível é conhecido: primeiro, uma correção nas empresas mais valorizadas; depois, retração de investimento; em seguida, inadimplência em empresas frágeis; depois, pressão sobre fundos de crédito privado; por fim, intervenção estatal direta ou indireta para evitar contágio sistêmico. Mais uma vez, os ganhos terão sido privatizados, enquanto as perdas buscarão abrigo no Estado, no orçamento público, no desemprego, na austeridade e no sofrimento social.

A questão decisiva, portanto, não é apenas prever qual bolha vai estourar. É compreender por que o capitalismo precisa produzir bolhas sucessivas para continuar funcionando. A resposta está na própria lógica da acumulação: quando a valorização produtiva encontra limites, o sistema antecipa valor futuro por meio de ativos financeiros; quando a renda do trabalho não sustenta a demanda, expande o crédito; quando a concorrência reduz margens, intensifica a monopolização; quando a legitimidade social se desgasta, recorre à guerra, à austeridade e ao nacionalismo econômico; quando o trabalhador adoece, privatiza o sofrimento e o converte em diagnóstico individual.

A próxima crise, se vier, não será um acidente externo ao capitalismo. Será uma manifestação de sua racionalidade interna. O capital não entra em crise porque deixa de funcionar. Entra em crise porque funciona de acordo com sua própria lógica: acumular, concentrar, antecipar, explorar, deslocar e, quando necessário, destruir valor para reconstruir as condições de uma nova rodada de acumulação.

A inteligência artificial não é o inimigo. A tecnologia não é o problema em si. O problema é uma civilização que transforma cada avanço técnico em instrumento de acumulação privada, cada ganho de produtividade em ameaça ao trabalho, cada inovação em monopólio, cada crise em oportunidade de concentração e cada promessa de futuro em ativo financeiro.

A próxima bolha pode estar na IA financeirizada. O mecanismo de contágio pode estar no crédito privado. A falha secundária pode estar nos imóveis comerciais. Mas o núcleo da crise é mais profundo: o capitalismo global já não consegue oferecer à humanidade uma promessa universal de progresso. Consegue produzir máquinas inteligentes, mas não consegue produzir uma sociedade racional. Consegue organizar redes planetárias de dados, mas não consegue garantir saúde, moradia, trabalho digno e estabilidade democrática. Consegue antecipar lucros futuros, mas não consegue assegurar futuro à vida.

Essa é a verdadeira crise: não apenas a queda possível dos ativos, mas a queda concreta da vida abaixo de seu mínimo humano. E quando a vida já não cabe no salário, quando a juventude já não cabe na promessa, quando a tecnologia já não cabe na esperança e quando o trabalho já não cabe no psiquismo, a crise deixa de ser previsão econômica. Torna-se experiência histórica.

Essa crise já começou.
Flaviano Correia Cardoso

A censura mudou de lugar

Na última semana, a escritora Ana Maria Machado participou da Feira do Livro que aconteceu no Pacaembu em São Paulo sob a direção de Paulo Werneck. Ao revisitar episódios de sua trajetória como jornalista e autora, trouxe uma reflexão que merece atenção para além do universo literário.

Ao recordar sua passagem pela Rádio Jornal do Brasil, durante os anos da ditadura militar, Ana Maria descreveu uma situação que hoje parece quase inconcebível para as gerações mais jovens: a presença permanente da censura prévia nas redações dos órgãos de imprensa. Reportagens eram examinadas antes de ir ao ar, assuntos eram vetados e autoridades governamentais definiam o que podia ou não chegar ao público.


Sua reação, porém, era curiosa. Em vez de orientar os jornalistas a evitar determinados temas, Ana Maria recomendava exatamente o contrário: que realizassem seu trabalho como se a censura não existisse. Que apurassem os fatos, entrevistassem as fontes e produzissem as melhores reportagens possíveis. Se depois o censor resolvesse cortar o material, essa seria uma responsabilidade do Estado, não do jornalista.

A diferença não é pequena. Quando profissionais da comunicação começam a antecipar aquilo que acreditam que será proibido, a censura deixa de ser apenas um mecanismo externo e passa a habitar a própria consciência dos indivíduos. O censor já não precisa estar presente. Ele foi internalizado.

A observação ajuda a compreender um fenômeno atual que raramente é tratado com a devida profundidade.

Costumamos associar a censura à sua forma clássica: um governo autoritário proibindo livros, interditando peças de teatro ou impedindo a circulação de jornais. Essa continua sendo uma ameaça real em muitas partes do mundo e não deve jamais ser subestimada.

Mas não é a única.

Ao longo dos últimos anos, multiplicaram-se episódios de pressão pela retirada de livros de escolas e bibliotecas, campanhas para cancelar autores, tentativas de silenciar opiniões divergentes e movimentos organizados para impedir o debate de temas considerados inconvenientes.

Durante o encontro, foi lembrado o caso recente de questionamentos e tentativa de retirada numa escola militar em Brasília do livro A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, uma das obras mais importantes da literatura infantil brasileira. O episódio não decorreu de uma determinação governamental nem de um ato formal de censura estatal. Surgiu de pressões exercidas por segmentos da própria comunidade. Em grupos de mensagens, alguns pais passaram a defender sua retirada, atribuindo significados que ela jamais pretendeu carregar.

Foi nesse contexto que Ana Maria Machado formulou uma observação particularmente instigante. Segundo ela, a censura não desapareceu; mudou de lugar.

Se antes era predominantemente vertical, exercida de cima para baixo, pelo Estado sobre os cidadãos, hoje frequentemente assume uma forma horizontal. São grupos sociais, organizações, movimentos ou mesmo indivíduos que reivindicam para si o direito de decidir o que os outros podem ler, ouvir ou pensar.

A lógica permanece semelhante. Muda apenas o agente censor.

O fenômeno não se limita ao universo dos livros. Ele está presente nas redes sociais, nos ambientes profissionais, nas universidades e até mesmo nas relações pessoais. Em muitos casos, a preocupação já não é debater uma ideia, mas impedir que ela seja expressa.

Não por acaso, um dos romances mais instigantes de Ana Maria Machado, Infâmia, publicado em 2011, antecipou questões que se tornariam frequentes na década seguinte. Inspirado, entre outras referências, pelo caso da Escola Base — um dos episódios mais dramáticos da história recente brasileira, em que pessoas inocentes tiveram suas vidas destruídas por acusações precipitadas e pela repercussão irresponsável de parte da imprensa —, o livro aborda a destruição de reputações, os julgamentos imediatistas e a velocidade com que suspeitas podem se transformar em condenações sociais. Ao transformar esse episódio em literatura, Ana Maria chamou atenção para um fenômeno que se tornaria cada vez mais frequente: a facilidade com que acusações se convertem em sentenças e suspeitas em verdades incontestáveis.

Muito antes de a palavra “cancelamento” entrar no vocabulário cotidiano, a escritora já explorava literariamente seus mecanismos.

A história recente oferece inúmeros exemplos de pessoas condenadas pela opinião pública antes que os fatos fossem plenamente conhecidos. Em uma sociedade hiperconectada, a velocidade da acusação frequentemente supera a velocidade da apuração. A emoção costuma chegar antes da reflexão. O julgamento, e a condenação, precedem a análise.

O problema é que a democracia depende exatamente do contrário.

Depende da disposição de ouvir argumentos, examinar evidências, admitir dúvidas e conviver com opiniões que nem sempre agradam. A liberdade de expressão não existe para proteger consensos. Consensos dispensam proteção. Ela existe para proteger o dissenso.

Talvez por isso a reflexão proposta por Ana Maria Machado seja tão atual. O desafio contemporâneo já não consiste apenas em impedir que governos silenciem cidadãos. Consiste também em evitar que cidadãos silenciem outros cidadãos.

Uma sociedade verdadeiramente democrática não é aquela em que todos concordam. É aquela em que as divergências podem ser expressas sem que livros precisem ser retirados das estantes, autores sejam interditados ou opiniões sejam transformadas em motivo de exclusão.

Talvez a principal lição deixada pela escritora na Feira do Livro tenha sido esta: a censura mudou de lugar. Mas continua exigindo vigilância.

E talvez a melhor forma de enfrentá-la permaneça sendo a mesma defendida por Ana Maria Machado nos tempos da Rádio Jornal do Brasil: fazer o próprio trabalho com honestidade intelectual, dizer o que precisa ser dito e não permitir que o censor, seja ele estatal ou social, passe a habitar dentro de nós.

Rumo ao Hexa: a crise climática já mudou o jogo

Não se fala em outra coisa. A Copa do Mundo tomou conta das conversas, dos grupos de WhatsApp, das mesas de bar e, claro, da minha casa. Como mãe de dois meninos, um deles apaixonado por futebol, seria impossível ignorar o assunto. Mas, enquanto acompanhava a competição, me peguei pensando em uma pergunta curiosa: o que a Copa do Mundo tem a ver com mudanças climáticas? A resposta, descobri, é muito mais direta do que parece.

O fato é que os resultados da copa deste ano podem ser mais que a consequência do que acontece entre as quatro linhas do gramado.


Segundo uma análise publicada recentemente pela Bloomberg, algumas seleções chegarão ao torneio enfrentando um adversário invisível antes mesmo do apito inicial: o calor extremo. Quase um quarto das partidas será disputado em condições capazes de impor um estresse significativo ao corpo humano, mesmo para os atletas brasileiros, acostumados com o calor. E não é preciso ser exatamente um cientista para saber que temperatura e umidade elevadas podem reduzir o desempenho das seleções, aumentar a fadiga dos atletas e influenciar diretamente o resultado dos jogos.

Ao que parece, pela primeira vez, o clima não será apenas o pano de fundo do espetáculo.

E se isso acontece com atletas de elite, acompanhados por médicos, nutricionistas, preparadores físicos e tecnologia de ponta, fica a pergunta: o que pode acontecer com o resto de nós?

Voltando ao nosso assunto preferido, a Copa do Mundo oferece, hoje, uma oportunidade rara: traduzir a crise climática para uma linguagem que todo brasileiro entende.

Quando um jogador diminui o ritmo porque o corpo não consegue dissipar calor suficiente, estamos vendo uma consequência física do aquecimento global.

Quando uma partida precisa ser interrompida para hidratação, estamos assistindo à adaptação de um esporte centenário a uma nova realidade climática.

Quando especialistas discutem se determinados horários de jogos ainda são seguros, estamos falando da mesma questão enfrentada por professores, garis, agricultores e trabalhadores da construção civil.

O mais curioso é que o futebol sempre foi uma expressão da adaptação brasileira. Jogamos na praia, no barro, sob chuva torrencial ou sol escaldante. Aprendemos a improvisar. Eis o futebol arte. Aquele que conhecemos tão bem.

Mas a verdade é que existe um limite para a adaptação humana. Afinal, nenhuma estratégia tática muda a temperatura do ar. Nenhum esquema defensivo impede uma onda de calor.

Nem Ronaldinho Gaúcho, o Bruxo, conseguiria driblar as leis da física.

O calor que entra em campo na Copa do Mundo é o mesmo que já atravessa as cidades brasileiras todos os dias. A diferença é que, durante noventa minutos, bilhões de pessoas estarão olhando para ele.

Em 1994, suportamos o calor, vencemos a final e levantamos a taça do tetra. Agora, na corrida pelo hexa, vale lembrar que a temperatura subiu dentro e fora dos estádios. O futebol continua sendo o mesmo. O planeta, não.

domingo, 14 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Ninguém nos ensinou a ser cidadãos

A democracia tem uma exigência curiosa: espera que os cidadãos participem, mas pouco garante que estes compreendam verdadeiramente aquilo em que participam.

Todos os anos discutimos a abstenção, o afastamento dos jovens da política, a desinformação crescente e a fragilidade do debate público. Multiplicam-se análises, comentários, diagnósticos e preocupações. Procuram-se explicações para a aparente indiferença de uma parte significativa da população perante os assuntos que moldam a vida coletiva.


Mas como podemos exigir participação democrática de cidadãos que nunca foram ensinados a compreender as regras que os governam?

Ao longo da escolaridade obrigatória, aprendemos a interpretar textos, a resolver equações, a compreender fenómenos físicos e a memorizar acontecimentos históricos. Tudo isso é importante e contribui para a formação de indivíduos mais preparados.

O que se continua por explicar é a razão pela qual consideramos essencial ensinar os jovens a compreender o mundo, mas dispensável ensinar-lhes o funcionamento das estruturas que organizam a sua própria vida em sociedade.

A maioria dos jovens termina a escola sem compreender o processo legislativo. Sem saber exatamente quais são as competências dos diferentes órgãos de soberania. Sem conhecer os mecanismos de participação cívica que existem para além do voto. E até sem os conhecimentos básicos sobre direitos fundamentais, deveres cívicos, garantias constitucionais ou funcionamento institucional. Muitos não conseguem sequer distinguir claramente o papel do Governo, da Assembleia da República ou do Presidente da República.

E, ainda assim, esperamos que participem.

A cidadania é tratada como uma consequência natural da idade adulta. Quase como se bastasse atingir determinada idade para compreender automaticamente o funcionamento da democracia. Parece que o simples facto de possuir direitos implica saber exercê-los.

Mas a cidadania não surge espontaneamente. A cidadania aprende-se.

E o problema não é a ausência total deste tema nas escolas. É a forma como continua a ser abordado. Fala-se da importância da participação, mas raramente se explica com profundidade como funcionam as instituições, como nasce uma lei ou de que forma os cidadãos podem influenciar as decisões públicas.

Nenhuma democracia sobrevive apenas através das suas instituições. Sobrevive através da qualidade cívica dos cidadãos que as sustentam. E essa qualidade depende, inevitavelmente, do conhecimento.

Não existe participação informada sem literacia cívica, pensamento político crítico e autónomo, sem compreensão mínima das estruturas políticas ou verdadeira capacidade de escrutínio quando os mecanismos de decisão permanecem desconhecidos para uma parte significativa da população. Não basta conhecer os próprios direitos. É igualmente necessário compreender os deveres e responsabilidades que os acompanham.

O problema torna-se ainda mais evidente numa época marcada pelo excesso de informação. Nunca tivemos tanto acesso a conteúdos políticos e a opiniões disponíveis. Nunca foi tão fácil comentar, reagir, partilhar ou posicionar-nos publicamente sobre qualquer tema. Mas uma democracia saudável não precisa apenas de cidadãos capazes de expressar opiniões. Precisa de cidadãos capazes de compreender aquilo sobre o qual opinam. A diferença entre as duas coisas é maior do que parece.

Uma sociedade pode produzir milhões de opiniões e continuar profundamente vulnerável à simplificação, à manipulação e à desinformação. Na verdade, é precisamente a ausência de conhecimento sólido que torna os slogans mais eficazes do que os argumentos e as emoções mais influentes do que os factos.

Quando a literacia cívico-jurídica é insuficiente, o espaço público transforma-se facilmente num espaço de reação permanente. Discute-se muito. Compreende-se pouco.

E quanto menor for a compreensão coletiva das instituições, mais fácil se torna reduzir a política a personalidades, escândalos ou ciclos de indignação momentânea.

A democracia perde profundidade quando os cidadãos deixam de compreender os seus próprios instrumentos. Por isso, a questão não é saber se os jovens estão interessados na política. A questão é perceber porque continuamos surpreendidos com a distância entre os cidadãos e as instituições quando nunca investimos seriamente em aproximá-los.

Exigimos participação, responsabilidade, sentido crítico e compromisso democrático. Mas continuamos a tratar a formação cívica como um complemento e não como uma prioridade. O resultado está à vista.

Esperamos cidadãos plenamente preparados para exercer direitos que nunca aprenderam verdadeiramente a compreender. E depois confundimos essa falha coletiva com desinteresse individual.

O maior problema da democracia portuguesa pode não ser a falta de participação. Pode ser o facto de continuarmos a acreditar que a participação dispensa aprendizagem.