terça-feira, 5 de maio de 2026
Derrota no Senado serve para tirar Lula da zona de conforto
Nesse filme, é difícil achar o mocinho. Lula indicou um amigo fiel para o Supremo. Davi Alcolumbre o sabotou porque queria colocar um amigo fiel no Supremo. A direita ajudou a derrubar Jorge Messias porque sonha em conquistar o Senado e povoá-lo de amigos fiéis, derrubando alguns ministros de reputação duvidosa.
Em todos os casos, o Supremo é um território a ser ocupado, e não um espaço que a sociedade preenche com os mais brilhantes e honestos juristas, na esperança de decisões sábias e imparciais.
Muitos analistas consideram histórica a rejeição de Messias. De certa forma, acho um exagero. Não é histórica como a cena em que Dom Pedro parou no riacho Ipiranga ou a carta de Getúlio Vargas, deixando a vida para entrar na História. É verdade que algo assim aconteceu antes, há 132 anos, no tempo de Floriano Peixoto. É mais um fato de almanaque.
Na verdade, não posso dizer que tenha se passado um filme. Não fui testemunha. Mas, analisando o relato de quem fala com os envolvidos, concluo que poderia ser uma série intitulada “Fugindo da polícia”, algo que sempre rende muitos capítulos. Agora mesmo, veio a público que senadores e deputados desembarcaram com malas suspeitas num aeroporto de São Paulo. Não passaram pela alfândega.
O Banco Master, segundo analistas, foi o centro do roteiro que derrubou Messias. Alcolumbre teme as investigações. O Amapá despejou quase R$ 400 milhões nos cofres de Daniel Vorcaro. O presidente da Previdência do estado é indicado por ele. Jornalistas de Brasília afirmam também que Alexandre de Moraes participou da emboscada contra Messias. Ele temia que o novo ministro se alinhasse a seu amigo evangélico André Mendonça e, com a graça de Deus, o ferrassem quando seu caso fosse a julgamento.
O papel da direita nessa história foi embarcar na rejeição e não falar mais em CPMI do caso Master. Todos se sentem mais seguros, mas não deveriam. A Polícia Federal está investigando. Suas mesas estão cheias de celulares, como nas fotos de apreensão de telefones roubados no carnaval.
Alguns analistas disseram que o governo acabou e que Lula perderá as eleições. São conclusões apressadas, com apenas uma utilidade: tirar Lula da zona de conforto e trazê-lo para uma das mais importantes campanhas de sua história: a saideira. Para muitos, ícone da redemocratização, cara do Brasil no exterior, maior líder da História recente, Lula pode se empolgar e tentar fazer o melhor governo de toda a sua trajetória.
Afinal de contas, a redemocratização é tarefa de todos, e é preciso lutar para que não se afunde na mediocridade. Se a rejeição de Messias puder inspirar uma virada de jogo, ela, afinal, valeu a pena para as forças no poder.
Talvez essa visão seja um pouco otimista. O Manifesto do PT foi considerado pobre, e a campanha parece que será dirigida pela velha guarda. O próprio Lula precisa superar a húbris que se instala depois de tantos anos no poder, abrindo-se com mais humildade para o Brasil de nossos dias. Enfim, tudo é possível quando se sacode a poeira e se dá a volta por cima.
Em todos os casos, o Supremo é um território a ser ocupado, e não um espaço que a sociedade preenche com os mais brilhantes e honestos juristas, na esperança de decisões sábias e imparciais.
Muitos analistas consideram histórica a rejeição de Messias. De certa forma, acho um exagero. Não é histórica como a cena em que Dom Pedro parou no riacho Ipiranga ou a carta de Getúlio Vargas, deixando a vida para entrar na História. É verdade que algo assim aconteceu antes, há 132 anos, no tempo de Floriano Peixoto. É mais um fato de almanaque.
Na verdade, não posso dizer que tenha se passado um filme. Não fui testemunha. Mas, analisando o relato de quem fala com os envolvidos, concluo que poderia ser uma série intitulada “Fugindo da polícia”, algo que sempre rende muitos capítulos. Agora mesmo, veio a público que senadores e deputados desembarcaram com malas suspeitas num aeroporto de São Paulo. Não passaram pela alfândega.
O Banco Master, segundo analistas, foi o centro do roteiro que derrubou Messias. Alcolumbre teme as investigações. O Amapá despejou quase R$ 400 milhões nos cofres de Daniel Vorcaro. O presidente da Previdência do estado é indicado por ele. Jornalistas de Brasília afirmam também que Alexandre de Moraes participou da emboscada contra Messias. Ele temia que o novo ministro se alinhasse a seu amigo evangélico André Mendonça e, com a graça de Deus, o ferrassem quando seu caso fosse a julgamento.
O papel da direita nessa história foi embarcar na rejeição e não falar mais em CPMI do caso Master. Todos se sentem mais seguros, mas não deveriam. A Polícia Federal está investigando. Suas mesas estão cheias de celulares, como nas fotos de apreensão de telefones roubados no carnaval.
Alguns analistas disseram que o governo acabou e que Lula perderá as eleições. São conclusões apressadas, com apenas uma utilidade: tirar Lula da zona de conforto e trazê-lo para uma das mais importantes campanhas de sua história: a saideira. Para muitos, ícone da redemocratização, cara do Brasil no exterior, maior líder da História recente, Lula pode se empolgar e tentar fazer o melhor governo de toda a sua trajetória.
Afinal de contas, a redemocratização é tarefa de todos, e é preciso lutar para que não se afunde na mediocridade. Se a rejeição de Messias puder inspirar uma virada de jogo, ela, afinal, valeu a pena para as forças no poder.
Talvez essa visão seja um pouco otimista. O Manifesto do PT foi considerado pobre, e a campanha parece que será dirigida pela velha guarda. O próprio Lula precisa superar a húbris que se instala depois de tantos anos no poder, abrindo-se com mais humildade para o Brasil de nossos dias. Enfim, tudo é possível quando se sacode a poeira e se dá a volta por cima.
A liberdade entre o Trumpismo e as Big Techs
Entre as tendências do nosso tempo, sobressai-se, ainda uma vez, a crescente submissão da política aos ditames do autoritarismo embuçado nos ouropéis da liberdade.
Aqui cabe ressaltar que as concepções “sub-positivistas” ensinam: narrativas (ideologias?) que proclamam que não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Para desagrado da matilha de cães raivosos que emitem latidos “factuais” e (anti)democráticos, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até mesmo quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.
Em parceria com Nathan Caixeta, escrevi sobre Michael Foucault. No livro “As Palavras e as Coisas”, Foucault trata da relação entre a linguagem e a estruturação material das sociedades ao longo da história. O filósofo francês distingue as formas de linguagem. A linguagem clássica cuja soberania das palavras e conceitos era vinculada à propriedade natural e divina das coisas reais e visíveis em contraposição à linguagem esculpida por obra do iluminismo, que colocou o homem e seu cogito como soberanos sobre as palavras e as coisas, igualmente reais e visíveis, mas, que a partir da época das luzes foram subordinadas à designação dos desejos e da autonomia do próprio homem.
Entre as narrativas dos autocratas liberais contemporâneos, predominam os consensos que deploram o peso excessivo do Estado e investem contra as tentativas de disciplinar as forças, simultaneamente criadoras e destrutivas, do capitalismo.
A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica que celebra o orçamento equilibrado. Os enriquecidos contestam qualquer interferência no processo de diferenciação entre o poder da riqueza e a renda dos desvalidos.
A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos mercados afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo em que impõe restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.
Aqui deve-se registrar que a ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Estas duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder do Estado e da desvalorização da política, o que culmina em esgares autoritários travestidos de democracia. Entre tais desgraças, sobressai-se a contaminação dos Parlamentos, não só no Brasil, mas também em outros pagos.
No livro “Iluminismo Sombrio”, Arnaud Miranda empreende uma investigação sobre o neoconservadorismo “tecnológico” abrigado na direita nos Estados Unidos. “Por toda parte, nas telas publicitárias, podemos ver retratos gigantescos do Rei da América.
O triunfo vai para os profetas visionários, os Sábios das Luzes Negras, que, por anos e no segredo da internet, prepararam o golpe de Estado que mandou à morte a antiga república corrupta e decadente...
E, ainda assim, esse cenário não é menos inspirado pela visão política de intelectuais muito reais, que emergiram das profundezas da Internet no final dos anos 2000 e que hoje imaginam desempenhar o papel de profetas das Luzes Sombrias...
Alguns desses pensadores, sustentados por alguns milionários da tecnologia californiana, estavam parados até se infiltrarem nos círculos coloridos da Casa Branca e agora estão entre os ideólogos mais influentes ao se infiltrarem nos quadros políticos da primeira potência mundia”.
Nesse pacote do Iluminismo Sombrio está o domínio do Estado pelas Big Techs.
A Inteligência Artificial “libertadora” aprisiona homens e mulheres alcançados pelos terremotos que fazem tremer a vida social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massas, agora assolada pelos riscos de “desumanização” tecnológica. A pretendida autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e política.
Assim, a resposta esperançosa às incertezas do futuro depende crucialmente da capacidade de mobilização democrática e radical dos Deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados pelas fake news desabrochadas nas redes sociais por aparatos comprometidos com a força das BigTechs, agora instaladas nos domínios do Estado americano.
As concepções conservadoras de todos os tempos assombram também nossos tempos. Deixam de examinar o conjunto de relações que estruturam as sociedades capitalistas como uma organização econômica, social e política singular, singular porque histórica. Isso significa que essas relações se reproduzem num movimento incessante de diferenciação e autotransformação no interior de sua estrutura. Não há determinismo nem indeterminação: o capitalismo se transforma no processo de reprodução de suas próprias estruturas.
A negação de uma estrutura em movimento, em si mesma, é um método eficaz de bloquear o imaginário social, uma comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.
A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas livres de um ponto de vista negativo - no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade - mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa primordialmente o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente.
Aqui cabe ressaltar que as concepções “sub-positivistas” ensinam: narrativas (ideologias?) que proclamam que não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Para desagrado da matilha de cães raivosos que emitem latidos “factuais” e (anti)democráticos, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até mesmo quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.
Em parceria com Nathan Caixeta, escrevi sobre Michael Foucault. No livro “As Palavras e as Coisas”, Foucault trata da relação entre a linguagem e a estruturação material das sociedades ao longo da história. O filósofo francês distingue as formas de linguagem. A linguagem clássica cuja soberania das palavras e conceitos era vinculada à propriedade natural e divina das coisas reais e visíveis em contraposição à linguagem esculpida por obra do iluminismo, que colocou o homem e seu cogito como soberanos sobre as palavras e as coisas, igualmente reais e visíveis, mas, que a partir da época das luzes foram subordinadas à designação dos desejos e da autonomia do próprio homem.
Entre as narrativas dos autocratas liberais contemporâneos, predominam os consensos que deploram o peso excessivo do Estado e investem contra as tentativas de disciplinar as forças, simultaneamente criadoras e destrutivas, do capitalismo.
A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica que celebra o orçamento equilibrado. Os enriquecidos contestam qualquer interferência no processo de diferenciação entre o poder da riqueza e a renda dos desvalidos.
A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos mercados afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo em que impõe restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.
Aqui deve-se registrar que a ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Estas duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder do Estado e da desvalorização da política, o que culmina em esgares autoritários travestidos de democracia. Entre tais desgraças, sobressai-se a contaminação dos Parlamentos, não só no Brasil, mas também em outros pagos.
No livro “Iluminismo Sombrio”, Arnaud Miranda empreende uma investigação sobre o neoconservadorismo “tecnológico” abrigado na direita nos Estados Unidos. “Por toda parte, nas telas publicitárias, podemos ver retratos gigantescos do Rei da América.
O triunfo vai para os profetas visionários, os Sábios das Luzes Negras, que, por anos e no segredo da internet, prepararam o golpe de Estado que mandou à morte a antiga república corrupta e decadente...
E, ainda assim, esse cenário não é menos inspirado pela visão política de intelectuais muito reais, que emergiram das profundezas da Internet no final dos anos 2000 e que hoje imaginam desempenhar o papel de profetas das Luzes Sombrias...
Alguns desses pensadores, sustentados por alguns milionários da tecnologia californiana, estavam parados até se infiltrarem nos círculos coloridos da Casa Branca e agora estão entre os ideólogos mais influentes ao se infiltrarem nos quadros políticos da primeira potência mundia”.
Nesse pacote do Iluminismo Sombrio está o domínio do Estado pelas Big Techs.
A Inteligência Artificial “libertadora” aprisiona homens e mulheres alcançados pelos terremotos que fazem tremer a vida social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massas, agora assolada pelos riscos de “desumanização” tecnológica. A pretendida autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e política.
Assim, a resposta esperançosa às incertezas do futuro depende crucialmente da capacidade de mobilização democrática e radical dos Deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados pelas fake news desabrochadas nas redes sociais por aparatos comprometidos com a força das BigTechs, agora instaladas nos domínios do Estado americano.
As concepções conservadoras de todos os tempos assombram também nossos tempos. Deixam de examinar o conjunto de relações que estruturam as sociedades capitalistas como uma organização econômica, social e política singular, singular porque histórica. Isso significa que essas relações se reproduzem num movimento incessante de diferenciação e autotransformação no interior de sua estrutura. Não há determinismo nem indeterminação: o capitalismo se transforma no processo de reprodução de suas próprias estruturas.
A negação de uma estrutura em movimento, em si mesma, é um método eficaz de bloquear o imaginário social, uma comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.
A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas livres de um ponto de vista negativo - no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade - mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa primordialmente o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente.
EUA, Irão e Ormuz: o limiar de uma rutura global
O bloqueio imposto pelos Estados Unidos ao Irão não traduz um domínio consolidado do conflito, mas a tentativa de o moldar através da interrupção deliberada da circulação de recursos essenciais. Ao deslocar o confronto do plano militar para uma dimensão estrutural, Washington procura converter dependências em instrumentos de coerção, introduzindo um dispositivo de pressão que, embora eficaz no plano tático, não assegura um desfecho. O que emerge não é um domínio inequívoco, mas um quadro em que a condução do conflito se fragmenta, passando a ser disputada no tempo, no custo e na capacidade de resistência.
Essa limitação torna-se mais evidente à medida que o impasse se prolonga. Apesar da superioridade material americana, o bloqueio já implicou custos que ascendem a dezenas de milhares de milhões de dólares, sem produzir uma alteração decisiva no comportamento iraniano. Este desfasamento entre investimento e resultado não é um detalhe técnico; constitui um sinal profundo sobre os limites de abordagens baseadas em desgaste prolongado. Modelos desta natureza dependem da capacidade de gerar efeitos concretos num horizonte politicamente aceitável; quando isso falha, a eficácia degrada-se não por insuficiência de intensidade, mas por acumulação de tempo.
A economia internacional absorve, entretanto, os efeitos desta dinâmica de forma desigual, mas persistente. Assente numa rede de fluxos interdependentes — energia, bens e financiamento —, exige um mínimo de previsibilidade para funcionar. A interrupção deliberada de um desses fluxos não se esgota no alvo direto, propagando-se por mercados, cadeias logísticas e decisões estatais. O bloqueio deixa, assim, de ser apenas uma medida dirigida e passa a atuar como mecanismo de reconfiguração indireta do quadro global, obrigando múltiplos atores a recalibrar riscos num ambiente em que a incerteza deixa de ser episódica para se tornar condição permanente.
O estreito de Ormuz condensa essa tensão num ponto crítico. Como corredor central da circulação energética mundial, qualquer perturbação no seu funcionamento produz efeitos imediatos e amplificados. Ao transformar esse espaço numa variável ativa, os Estados Unidos introduzem um fator de instabilidade que não controlam plenamente, porque a própria lógica de um ponto de estrangulamento implica vulnerabilidade partilhada. A tentativa de limitar o fluxo expõe, assim, um paradoxo inevitável: quanto mais se restringe a circulação, mais se evidencia a fragilidade do modelo que a sustenta.
É nesse contexto que a resposta do Irão revela uma eficácia menos evidente, mas decisiva. Incapaz de rivalizar diretamente com o poder militar americano, Teerão adota uma lógica de perturbação deliberada que não procura vencer, mas impedir que o adversário alcance um resultado conclusivo. Ao introduzir incerteza nas rotas marítimas e ao manter a possibilidade de incidentes controlados, desloca o confronto para um plano em que o tempo e o desgaste assumem centralidade. Trata-se de uma abordagem que não exige superioridade, apenas continuidade, convertendo a resistência num instrumento ativo de influência.
O resultado é um impasse estrutural que escapa às categorias clássicas de vitória ou derrota. Nenhum dos lados dispõe de incentivos suficientes para recuar, mas ambos enfrentam custos crescentes para avançar. Este equilíbrio negativo, sustentado pela ausência de desfecho, tende a prolongar-se e a produzir efeitos cumulativos que ultrapassam o teatro imediato do confronto. A estabilidade não se dissipa de forma abrupta; é progressivamente substituída por uma tensão persistente que se infiltra nas decisões económicas e políticas, moldando comportamentos de forma gradual, mas consistente.
Mais do que um episódio isolado, este cenário expõe uma fragilidade central da ordem internacional contemporânea: a dependência de infraestruturas críticas concentradas. A economia global opera através de pontos específicos cuja interrupção tem efeitos desproporcionais. Quando esses pontos passam a ser utilizados como instrumentos de coerção, deixam de ser meros elementos técnicos e tornam-se alavancas de poder. Essa transformação amplia o alcance das formas indiretas de influência, ao mesmo tempo que eleva o risco sistémico associado à sua utilização.
Perante esta realidade, a resposta dos demais atores internacionais assume uma natureza essencialmente adaptativa. Estados dependentes de energia procuram diversificar origens, empresas reconfiguram cadeias de abastecimento e alianças são reavaliadas em função da sua utilidade concreta. O resultado não é uma reorganização coordenada, mas um processo de fragmentação progressiva, no qual o sistema deixa de evoluir de forma integrada e passa a estruturar-se em circuitos paralelos, mais resilientes em alguns aspetos, mas globalmente mais complexos e menos previsíveis.
Do ponto de vista dos Estados Unidos, a continuidade do bloqueio levanta uma questão que ultrapassa a sua eficácia imediata. A projeção de poder depende não apenas da capacidade de atuar, mas da capacidade de produzir resultados tangíveis. À medida que o custo se acumula sem um desfecho claro, o risco desloca-se do plano externo para o interno, onde a credibilidade começa a ser medida pela relação entre meios mobilizados e efeitos alcançados. Um instrumento que não entrega resultados deixa de ser apenas insuficiente; torna-se potencialmente contraproducente.
Para o Irão, a equação é distinta, mas igualmente exigente. A sobrevivência do regime e a preservação de margem de manobra dependem da capacidade de resistir sem desencadear uma escalada incontrolável. A lógica de perturbação deliberada permite manter esse equilíbrio, operando numa zona intermédia onde o confronto não se resolve, mas também não se transforma em guerra aberta. Neste enquadramento, prolongar o impasse deixa de ser um efeito colateral e passa a constituir um objetivo implícito.
O elemento decisivo não reside, portanto, na intenção de cada actor, mas na dinâmica que esta interação produz. Ao normalizar o recurso a bloqueios prolongados e à instrumentalização de pontos críticos, abre-se espaço para a replicação deste tipo de abordagem noutros contextos. O cenário que emerge é o de um ambiente internacional marcado não por confrontos isolados, mas por uma multiplicidade de tensões interligadas, capazes de gerar instabilidade difusa sem necessidade de confronto direto.
O bloqueio ao Irão deve, por isso, ser entendido como um sinal de transformação mais profunda. O poder deixa de se afirmar apenas pela capacidade de destruição e passa a manifestar-se na capacidade de interromper, condicionar e reorganizar fluxos essenciais. Essa mudança não elimina o conflito tradicional, mas acrescenta uma camada de complexidade que torna a sua gestão mais exigente e os seus efeitos mais difíceis de conter.
Num contexto desta natureza, a questão deixa de ser quem exerce poder e passa a ser se um mundo dependente da continuidade dos seus fluxos consegue permanecer estável quando essa própria dinâmica é convertida em instrumento de disrupção — e até que ponto essa inversão não marca já o início de uma transformação silenciosa, mas estrutural, da própria ordem internacional.
Essa limitação torna-se mais evidente à medida que o impasse se prolonga. Apesar da superioridade material americana, o bloqueio já implicou custos que ascendem a dezenas de milhares de milhões de dólares, sem produzir uma alteração decisiva no comportamento iraniano. Este desfasamento entre investimento e resultado não é um detalhe técnico; constitui um sinal profundo sobre os limites de abordagens baseadas em desgaste prolongado. Modelos desta natureza dependem da capacidade de gerar efeitos concretos num horizonte politicamente aceitável; quando isso falha, a eficácia degrada-se não por insuficiência de intensidade, mas por acumulação de tempo.
A economia internacional absorve, entretanto, os efeitos desta dinâmica de forma desigual, mas persistente. Assente numa rede de fluxos interdependentes — energia, bens e financiamento —, exige um mínimo de previsibilidade para funcionar. A interrupção deliberada de um desses fluxos não se esgota no alvo direto, propagando-se por mercados, cadeias logísticas e decisões estatais. O bloqueio deixa, assim, de ser apenas uma medida dirigida e passa a atuar como mecanismo de reconfiguração indireta do quadro global, obrigando múltiplos atores a recalibrar riscos num ambiente em que a incerteza deixa de ser episódica para se tornar condição permanente.
O estreito de Ormuz condensa essa tensão num ponto crítico. Como corredor central da circulação energética mundial, qualquer perturbação no seu funcionamento produz efeitos imediatos e amplificados. Ao transformar esse espaço numa variável ativa, os Estados Unidos introduzem um fator de instabilidade que não controlam plenamente, porque a própria lógica de um ponto de estrangulamento implica vulnerabilidade partilhada. A tentativa de limitar o fluxo expõe, assim, um paradoxo inevitável: quanto mais se restringe a circulação, mais se evidencia a fragilidade do modelo que a sustenta.
É nesse contexto que a resposta do Irão revela uma eficácia menos evidente, mas decisiva. Incapaz de rivalizar diretamente com o poder militar americano, Teerão adota uma lógica de perturbação deliberada que não procura vencer, mas impedir que o adversário alcance um resultado conclusivo. Ao introduzir incerteza nas rotas marítimas e ao manter a possibilidade de incidentes controlados, desloca o confronto para um plano em que o tempo e o desgaste assumem centralidade. Trata-se de uma abordagem que não exige superioridade, apenas continuidade, convertendo a resistência num instrumento ativo de influência.
O resultado é um impasse estrutural que escapa às categorias clássicas de vitória ou derrota. Nenhum dos lados dispõe de incentivos suficientes para recuar, mas ambos enfrentam custos crescentes para avançar. Este equilíbrio negativo, sustentado pela ausência de desfecho, tende a prolongar-se e a produzir efeitos cumulativos que ultrapassam o teatro imediato do confronto. A estabilidade não se dissipa de forma abrupta; é progressivamente substituída por uma tensão persistente que se infiltra nas decisões económicas e políticas, moldando comportamentos de forma gradual, mas consistente.
Mais do que um episódio isolado, este cenário expõe uma fragilidade central da ordem internacional contemporânea: a dependência de infraestruturas críticas concentradas. A economia global opera através de pontos específicos cuja interrupção tem efeitos desproporcionais. Quando esses pontos passam a ser utilizados como instrumentos de coerção, deixam de ser meros elementos técnicos e tornam-se alavancas de poder. Essa transformação amplia o alcance das formas indiretas de influência, ao mesmo tempo que eleva o risco sistémico associado à sua utilização.
Perante esta realidade, a resposta dos demais atores internacionais assume uma natureza essencialmente adaptativa. Estados dependentes de energia procuram diversificar origens, empresas reconfiguram cadeias de abastecimento e alianças são reavaliadas em função da sua utilidade concreta. O resultado não é uma reorganização coordenada, mas um processo de fragmentação progressiva, no qual o sistema deixa de evoluir de forma integrada e passa a estruturar-se em circuitos paralelos, mais resilientes em alguns aspetos, mas globalmente mais complexos e menos previsíveis.
Do ponto de vista dos Estados Unidos, a continuidade do bloqueio levanta uma questão que ultrapassa a sua eficácia imediata. A projeção de poder depende não apenas da capacidade de atuar, mas da capacidade de produzir resultados tangíveis. À medida que o custo se acumula sem um desfecho claro, o risco desloca-se do plano externo para o interno, onde a credibilidade começa a ser medida pela relação entre meios mobilizados e efeitos alcançados. Um instrumento que não entrega resultados deixa de ser apenas insuficiente; torna-se potencialmente contraproducente.
Para o Irão, a equação é distinta, mas igualmente exigente. A sobrevivência do regime e a preservação de margem de manobra dependem da capacidade de resistir sem desencadear uma escalada incontrolável. A lógica de perturbação deliberada permite manter esse equilíbrio, operando numa zona intermédia onde o confronto não se resolve, mas também não se transforma em guerra aberta. Neste enquadramento, prolongar o impasse deixa de ser um efeito colateral e passa a constituir um objetivo implícito.
O elemento decisivo não reside, portanto, na intenção de cada actor, mas na dinâmica que esta interação produz. Ao normalizar o recurso a bloqueios prolongados e à instrumentalização de pontos críticos, abre-se espaço para a replicação deste tipo de abordagem noutros contextos. O cenário que emerge é o de um ambiente internacional marcado não por confrontos isolados, mas por uma multiplicidade de tensões interligadas, capazes de gerar instabilidade difusa sem necessidade de confronto direto.
O bloqueio ao Irão deve, por isso, ser entendido como um sinal de transformação mais profunda. O poder deixa de se afirmar apenas pela capacidade de destruição e passa a manifestar-se na capacidade de interromper, condicionar e reorganizar fluxos essenciais. Essa mudança não elimina o conflito tradicional, mas acrescenta uma camada de complexidade que torna a sua gestão mais exigente e os seus efeitos mais difíceis de conter.
Num contexto desta natureza, a questão deixa de ser quem exerce poder e passa a ser se um mundo dependente da continuidade dos seus fluxos consegue permanecer estável quando essa própria dinâmica é convertida em instrumento de disrupção — e até que ponto essa inversão não marca já o início de uma transformação silenciosa, mas estrutural, da própria ordem internacional.
O infausto Fausto
Qualquer pessoal que pense em dar lição de política ao Presidente Lula precisa, com urgência, lembrar que ele é o político — mais, o estadista — mais vitorioso da História do Brasil. Para começar, o fantástico caminho que fez de operário a Presidente da República é, por si só, um fato excepcional sob qualquer ponto de vista. Comparável a ele, só o de Abraham Lincoln, que pode dizer, com honestidade, que “I used to be a slave” — “eu costumava ser um escravo”.
Isso não impede que, nessas extraordinárias circunstâncias pós-golpe, em meio à mais grave crise de degradação da atividade política que já passamos, e lembrem que maus momentos é que não faltam nesse caminho, o seu governo tenha cometido erros. O primeiro deles foi o de ter feito, durante a transição, um “acerto” de governabilidade que permitiu a sucessão das casas do Congresso se fazer com pessoas que reivindicavam o duplo apoio dos golpistas e dos democratas. Somos todos pela conciliação, como foram os grandes símbolos da democracia — José Bonifácio e Joaquim Nabuco, Jefferson e Lincoln —, mas, como eles, devíamos saber que há um limite para ela: com o Diabo não se faz pacto, ensina Fausto, pois na hora de entregar a alma já se entregou tudo.
Estava em pleno andamento a tentativa de golpe — já, no dia 12 de dezembro, em plena negociação entre o governo golpista e o governo eleito, a arruaça havia tomado conta do centro de Brasília — quando, a 21 de dezembro, foi aprovada a Emenda Constitucional 126, alterando o Ato das Disposições Transitórias — criado para regular as situações de passagem para a nova Constituição, que ele tenha sido emendado múltiplas vezes depois é uma dessas aberrações inexplicáveis — para autorizar o aumento de 145 bilhões no orçamento que viabilizava a continuidade do bolsa-família. Para isso o governo eleito deu apoio à reeleição de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, uomini d’onore, como era e continuou notório nas suas inúmeras conspirações com os golpistas.
É claro que os dois juram que nada tinham com o golpe. Se nenhum dos dois tinha tentado deflagrar o impeachment de Bolsonaro era porque porque… inventa uma desculpa aí. É verdade que uma meia dúzia dos mais de 150 pedidos apresentados foi arquivada por erro material, mas os outros… bem, estavam sob análise. Descartando os improvisados e injustificados que enchem os arquivos do Congresso, no caso do golpista suas agressões à Constituição, às leis e à humanidade eram ostensivas e a responsabilidade dos dois presidentes estava em jogo. Jogaram com não fazer nada e foram premiados com um acordo para serem reeleitos e continuar conspirando com a organização criminosa golpista. Ao fim dos seus mandados, os dois negociaram com o governo o apoio a dois outros homens de honra, um que já mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana — e outro que ainda não mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana. Espantar-se com qualquer avacalhação da moral e dos bons costumes — e das leis e da Constituição — por parte de David Alcolumbre e Hugo Motta é impossível.
Mas o que fazer se a maioria do Congresso está com eles e só com eles? Eu diria que, se os congressistas estão com eles, é porque eles lhes enchem os bolsos de emendas e arreglos pagos pelo governo. É um pouco tarde para isto, mas há várias cadernetinhas com anotações dos problemas de Fulano, Beltrano e Sicrano. Mostrar que “problemas” são esses é um bom serviço feito ao povo brasileiro.
É claro que possivelmente será difícil para o governo aprovar qualquer coisa. Mas, se der uma de avestruz, acham que será fácil?
A armadilha em que o governo caiu implica numa saída difícil. O essencial é ganhar a eleição — a alternativa é aceitar o golpe de Estado e a ditadura —, mas ninguém se iluda de que ganhar a eleição passa por benesses ratificadas pelo Congresso Nacional. O povo é que tem que saber que há coisas que se pretende fazer e o Congresso ou está rejeitando ou está segurando para não aprovar. O governo — e muito menos o Presidente Lula — não perdeu de todo a capacidade de se comunicar com o povo. Que se comunique. Que o povo saiba quem está com a justiça social e quem está com seus negócios particulares. Que o povo saiba quais são as alternativas.
Isso passa também pelo sistema de Justiça. A organização criminosa golpista não foi completamente desarticulada. Inúmeros parlamentares que ostensivamente fazem parte dela — como foi mostrado na ocupação criminosa das mesas das duas casas do Congresso — não foram processados. Há jornais e jornalistas conspirando a olhos vistos protegidos por um equívoco do que é liberdade de expressão. Há banqueiros, bancários e facções na trama. O chefe da orcrim não está no regime disciplinar diferenciado previsto no art. 52 da Lei de Execução Penal, mas se comunica por meio de seu porta voz, pré-candidato a Presidente da República, que já declarou que é necessário fechar o Supremo Tribunal Federal. Ah!, mas isso é para criminosos perigosos! Mais perigoso que tentar acabar com a democracia? Que continuar tentando acabar com a democracia? Que propor entregar a soberania nacional em troca de apoio para acabar com a democracia? Vamos e venhamos!
Será que os delegados da Polícia Federal conhecem os art. 286 (incitar, publicamente, a prática de crime) e 287 (fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime) do Código Penal? Pois o mais que tenho visto e ouvido é gente cometendo um ou outro desses crimes — ou, claro, os dois quase simultaneamente. Ah!, isso vale para crime como roubar, matar, ser comunista, não vale para atentar contra a democracia. Vamos e venhamos!
Isso não impede que, nessas extraordinárias circunstâncias pós-golpe, em meio à mais grave crise de degradação da atividade política que já passamos, e lembrem que maus momentos é que não faltam nesse caminho, o seu governo tenha cometido erros. O primeiro deles foi o de ter feito, durante a transição, um “acerto” de governabilidade que permitiu a sucessão das casas do Congresso se fazer com pessoas que reivindicavam o duplo apoio dos golpistas e dos democratas. Somos todos pela conciliação, como foram os grandes símbolos da democracia — José Bonifácio e Joaquim Nabuco, Jefferson e Lincoln —, mas, como eles, devíamos saber que há um limite para ela: com o Diabo não se faz pacto, ensina Fausto, pois na hora de entregar a alma já se entregou tudo.
Estava em pleno andamento a tentativa de golpe — já, no dia 12 de dezembro, em plena negociação entre o governo golpista e o governo eleito, a arruaça havia tomado conta do centro de Brasília — quando, a 21 de dezembro, foi aprovada a Emenda Constitucional 126, alterando o Ato das Disposições Transitórias — criado para regular as situações de passagem para a nova Constituição, que ele tenha sido emendado múltiplas vezes depois é uma dessas aberrações inexplicáveis — para autorizar o aumento de 145 bilhões no orçamento que viabilizava a continuidade do bolsa-família. Para isso o governo eleito deu apoio à reeleição de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, uomini d’onore, como era e continuou notório nas suas inúmeras conspirações com os golpistas.
É claro que os dois juram que nada tinham com o golpe. Se nenhum dos dois tinha tentado deflagrar o impeachment de Bolsonaro era porque porque… inventa uma desculpa aí. É verdade que uma meia dúzia dos mais de 150 pedidos apresentados foi arquivada por erro material, mas os outros… bem, estavam sob análise. Descartando os improvisados e injustificados que enchem os arquivos do Congresso, no caso do golpista suas agressões à Constituição, às leis e à humanidade eram ostensivas e a responsabilidade dos dois presidentes estava em jogo. Jogaram com não fazer nada e foram premiados com um acordo para serem reeleitos e continuar conspirando com a organização criminosa golpista. Ao fim dos seus mandados, os dois negociaram com o governo o apoio a dois outros homens de honra, um que já mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana — e outro que ainda não mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana. Espantar-se com qualquer avacalhação da moral e dos bons costumes — e das leis e da Constituição — por parte de David Alcolumbre e Hugo Motta é impossível.
Mas o que fazer se a maioria do Congresso está com eles e só com eles? Eu diria que, se os congressistas estão com eles, é porque eles lhes enchem os bolsos de emendas e arreglos pagos pelo governo. É um pouco tarde para isto, mas há várias cadernetinhas com anotações dos problemas de Fulano, Beltrano e Sicrano. Mostrar que “problemas” são esses é um bom serviço feito ao povo brasileiro.
É claro que possivelmente será difícil para o governo aprovar qualquer coisa. Mas, se der uma de avestruz, acham que será fácil?
A armadilha em que o governo caiu implica numa saída difícil. O essencial é ganhar a eleição — a alternativa é aceitar o golpe de Estado e a ditadura —, mas ninguém se iluda de que ganhar a eleição passa por benesses ratificadas pelo Congresso Nacional. O povo é que tem que saber que há coisas que se pretende fazer e o Congresso ou está rejeitando ou está segurando para não aprovar. O governo — e muito menos o Presidente Lula — não perdeu de todo a capacidade de se comunicar com o povo. Que se comunique. Que o povo saiba quem está com a justiça social e quem está com seus negócios particulares. Que o povo saiba quais são as alternativas.
Isso passa também pelo sistema de Justiça. A organização criminosa golpista não foi completamente desarticulada. Inúmeros parlamentares que ostensivamente fazem parte dela — como foi mostrado na ocupação criminosa das mesas das duas casas do Congresso — não foram processados. Há jornais e jornalistas conspirando a olhos vistos protegidos por um equívoco do que é liberdade de expressão. Há banqueiros, bancários e facções na trama. O chefe da orcrim não está no regime disciplinar diferenciado previsto no art. 52 da Lei de Execução Penal, mas se comunica por meio de seu porta voz, pré-candidato a Presidente da República, que já declarou que é necessário fechar o Supremo Tribunal Federal. Ah!, mas isso é para criminosos perigosos! Mais perigoso que tentar acabar com a democracia? Que continuar tentando acabar com a democracia? Que propor entregar a soberania nacional em troca de apoio para acabar com a democracia? Vamos e venhamos!
Será que os delegados da Polícia Federal conhecem os art. 286 (incitar, publicamente, a prática de crime) e 287 (fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime) do Código Penal? Pois o mais que tenho visto e ouvido é gente cometendo um ou outro desses crimes — ou, claro, os dois quase simultaneamente. Ah!, isso vale para crime como roubar, matar, ser comunista, não vale para atentar contra a democracia. Vamos e venhamos!
segunda-feira, 4 de maio de 2026
A Terra já passou dos limites. Nós é que ainda não percebemos
Nas últimas décadas, o mundo transformou-se a uma velocidade sem precedentes. A ânsia pelo crescimento económico, a expansão da população e o aumento do consumo de recursos criaram uma pressão sem igual sobre os ecossistemas do planeta Terra. Crescemos como se o planeta fosse infinito e, hoje, sabemos que não é. A ciência é clara: já ultrapassámos vários dos limites do planeta.
Estes limites são fronteiras biofísicas que sustentam o funcionamento da Terra e obedecem a leis naturais. São como linhas vermelhas que, quando ultrapassadas, nos empurram para zonas de risco onde os sistemas naturais deixam de responder de forma previsível. Agrupam-se em nove grandes áreas: alterações climáticas, acidificação dos oceanos, poluição química, ciclos do azoto e do fósforo, uso de água doce, utilização dos solos, biodiversidade, poluição atmosférica e destruição da camada de ozono.
No fundo, é como viver numa casa onde as paredes começam a rachar: não cai tudo de um dia para o outro, mas cada fissura aumenta a probabilidade de colapso.
Os sinais estão por todo o lado − ondas de calor, secas, incêndios e extinção de espécies − e mostram que vivemos uma crise ambiental global. Quantos mais sinais são necessários até deixarem de ser ignorados?
Esta crise afeta todos os países, mesmo os que seguem caminhos de desenvolvimento sustentável, com impactos na economia e na inclusão social. Além disso, amplifica fragilidades locais, criando um ciclo que se retroalimenta.
As cidades têm um papel fundamental na transição para a sustentabilidade global nos próximos anos. Cerca de 70% da riqueza mundial (medida pelo produto interno bruto) é gerada nas cidades. Ou seja, onde existem as maiores oportunidades económicas, de criação de emprego, de negócio, de inovação e de interação social. Não obstante, é também nas cidades que se verificam os maiores e mais complexos problemas ambientais, nomeadamente no que respeita ao uso da energia, à gestão de resíduos, ao uso do solo, ao consumo de recursos, etc.
Quando olhamos para esta realidade à luz da ciência, a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável deixa de ser apenas uma aspiração e passa a ser uma questão de gestão de risco. Não se trata do que seria ideal fazer, mas do que ainda é possível fazer sem empurrar o sistema para zonas de instabilidade. Neste contexto, a ação governativa assume um papel decisivo: incorporar conhecimento científico nas decisões, recorrer a ferramentas de avaliação e monitorização robustas e basear escolhas em cenários, dados e indicadores fiáveis.
A boa notícia é que não começamos do zero. Temos conhecimento, temos ferramentas e alternativas. Falta-nos a coragem de assumir que a transição para a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável não é confortável, mas um processo exigente de escolhas, prioridades e negociações − um processo que exige decisões informadas pela ciência e uma governação capaz de olhar para o planeta, e para nós, com mais humildade.
E se o problema não estiver na falta de soluções, mas na forma como estamos a olhar para o sistema?
O que está em causa não são problemas isolados, mas o comportamento de um sistema complexo sob pressão. Muitas das dificuldades atuais não resultam da ausência de soluções, mas da forma como os sistemas estão organizados e interagem entre si.
Olhar para a sustentabilidade começa por reconhecer que vivemos num sistema finito e altamente interdependente: o planeta Terra. E implica compreender o mundo como uma interação complexa entre sistemas económicos, sociais, ambientais e políticos. Essa interação torna evidente que não é possível maximizar tudo ao mesmo tempo.
Neste contexto, não existem soluções perfeitas, pois os trade-offs − escolhas entre opções em tensão − são inevitáveis. Isso exige redistribuição de recursos, priorização de objetivos e, sobretudo, uma aceitação de que os ganhos numa dimensão implicam, muitas vezes, perdas noutra.
O planeta já passou dos limites. Agora cabe-nos decidir se continuamos a ignorar as fissuras da “nossa” casa ou se finalmente escolhemos reforçar as suas fundações.
Estes limites são fronteiras biofísicas que sustentam o funcionamento da Terra e obedecem a leis naturais. São como linhas vermelhas que, quando ultrapassadas, nos empurram para zonas de risco onde os sistemas naturais deixam de responder de forma previsível. Agrupam-se em nove grandes áreas: alterações climáticas, acidificação dos oceanos, poluição química, ciclos do azoto e do fósforo, uso de água doce, utilização dos solos, biodiversidade, poluição atmosférica e destruição da camada de ozono.
No fundo, é como viver numa casa onde as paredes começam a rachar: não cai tudo de um dia para o outro, mas cada fissura aumenta a probabilidade de colapso.
Os sinais estão por todo o lado − ondas de calor, secas, incêndios e extinção de espécies − e mostram que vivemos uma crise ambiental global. Quantos mais sinais são necessários até deixarem de ser ignorados?
Esta crise afeta todos os países, mesmo os que seguem caminhos de desenvolvimento sustentável, com impactos na economia e na inclusão social. Além disso, amplifica fragilidades locais, criando um ciclo que se retroalimenta.
As cidades têm um papel fundamental na transição para a sustentabilidade global nos próximos anos. Cerca de 70% da riqueza mundial (medida pelo produto interno bruto) é gerada nas cidades. Ou seja, onde existem as maiores oportunidades económicas, de criação de emprego, de negócio, de inovação e de interação social. Não obstante, é também nas cidades que se verificam os maiores e mais complexos problemas ambientais, nomeadamente no que respeita ao uso da energia, à gestão de resíduos, ao uso do solo, ao consumo de recursos, etc.
Quando olhamos para esta realidade à luz da ciência, a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável deixa de ser apenas uma aspiração e passa a ser uma questão de gestão de risco. Não se trata do que seria ideal fazer, mas do que ainda é possível fazer sem empurrar o sistema para zonas de instabilidade. Neste contexto, a ação governativa assume um papel decisivo: incorporar conhecimento científico nas decisões, recorrer a ferramentas de avaliação e monitorização robustas e basear escolhas em cenários, dados e indicadores fiáveis.
A boa notícia é que não começamos do zero. Temos conhecimento, temos ferramentas e alternativas. Falta-nos a coragem de assumir que a transição para a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável não é confortável, mas um processo exigente de escolhas, prioridades e negociações − um processo que exige decisões informadas pela ciência e uma governação capaz de olhar para o planeta, e para nós, com mais humildade.
E se o problema não estiver na falta de soluções, mas na forma como estamos a olhar para o sistema?
O que está em causa não são problemas isolados, mas o comportamento de um sistema complexo sob pressão. Muitas das dificuldades atuais não resultam da ausência de soluções, mas da forma como os sistemas estão organizados e interagem entre si.
Olhar para a sustentabilidade começa por reconhecer que vivemos num sistema finito e altamente interdependente: o planeta Terra. E implica compreender o mundo como uma interação complexa entre sistemas económicos, sociais, ambientais e políticos. Essa interação torna evidente que não é possível maximizar tudo ao mesmo tempo.
Neste contexto, não existem soluções perfeitas, pois os trade-offs − escolhas entre opções em tensão − são inevitáveis. Isso exige redistribuição de recursos, priorização de objetivos e, sobretudo, uma aceitação de que os ganhos numa dimensão implicam, muitas vezes, perdas noutra.
O planeta já passou dos limites. Agora cabe-nos decidir se continuamos a ignorar as fissuras da “nossa” casa ou se finalmente escolhemos reforçar as suas fundações.
A irresponsabilidade da multidão
A multidão que se chama parlamento nunca se sente tão feliz como quando pode calar com gritos um orador e derrubar um ministro; a multidão que se chama comício agita-se e exalta-se, mal um grito a incita a bradar "Abaixo!" sob as janelas de um inimigo ou a reclamar a cabeça de um indivíduo odiado ou ainda a queimar qualquer símbolo do poder, quer se trate de um panfleto, quer de um palácio de justiça; a multidão reunida num teatro que dá pelo nome de público pode aplaudir uma peça nova, mas, quando estimulada, não hesita em condenar e precipitar à força de uivos e assobios quem supunha tê-lo conquistado e ser-lhe, pelo engenho, superior.
No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espetáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espetáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue – pelo menos, vê-lo.
Estar entre muitos incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.
Giovanni Papini
No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espetáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espetáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue – pelo menos, vê-lo.
Estar entre muitos incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.
Giovanni Papini
Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista
Parece ser mais uma operação do Banco Master. O PL deverá lançar em São Paulo a candidatura do deputado André do Prado ao Senado. E, como suplente, se a lei permitir, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Eleito, Prado poderia ocupar uma secretaria de Estado ou um ministério, caso Flávio Bolsonaro vença as eleições. Com isso, Eduardo assumiria o mandato de senador.
Assim como as debêntures de Vorcaro até meses atrás tinham valor no mercado, a artimanha do PL e de Eduardo é permitida pela legislação eleitoral. Tem sido praticada para dar cobertura a personagens sem voto, muitos deles milionários ou aqueles com dívidas ainda não julgadas pela Justiça. O filho de Jair está nesse último bloco, atingido por inquéritos diversos. Depois de desejar chantagear o país pela absolvição de seu pai, vive nos Estados Unidos. Não volta ao Brasil por recear ser preso ao colocar o pé no aeroporto. É um bom candidato para representar São Paulo no Senado?
À beira das eleições, os bolsonaristas se mobilizam para o desembarque no Senado. No discurso, pretendem conseguir votos para retirar ministros do STF. É da política. Poderiam até querer mudar a camisa do Vasco. Na prática, no entanto, vendem o país. E, nessa ação, os filhos de Jair fazem a feira. Eduardo lutou para que o governo americano impusesse tarifas pesadas aos produtos brasileiros. Era chantagem. Queria em troca libertar o pai condenado por golpismo. Flávio, aquele que não fala nada no Brasil, foi aos Estados Unidos oferecer o subsolo do país — as terras-raras – e, com a outra mão, pedir interferência nas eleições de outubro.
Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista. Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado. Mas eram nacionalistas, e não estava na mesa a entrega do país. Os bolsonaristas nem sequer se envergonham e perpetram o escambo à luz do dia. Não houve arrependimento pela perda de empregos causada pelo tarifaço trumpista ou mudança de planos na entrega das terras-raras.
Mesmo não declarados, esses são os propósitos reais da direita radical. Espécie de subserviência consentida — ou o Brasil como mais um estado norte-americano. De novo, a História escapa de nossas mãos. Foi assim com a Revolução Industrial e a miopia das classes dirigentes do Império — aquelas que defendiam a manutenção da mão de obra escrava na economia. Não à toa, ainda somos um país quase extrativista, exportador de commodities. Dependemos das boas chuvas.
Com o mundo próximo de uma mudança radical nos meios de produção — a tal IA —, com consequências para toda a sociedade, os políticos não conseguem mirar um metro à frente. Vazado à direita por um golpismo renitente e, à esquerda, por um estatismo anacrônico (viva a Terrabras!), o país se vê enredado no feitiço do tempo que o leva a repetir padrões. De um lado ou de outro, um crescimento medíocre apoiado por políticas ultrapassadas.
Pergunta: não é de estranhar que os sucessos econômicos, nas últimas décadas, sejam o PCC de Marcola e o Master de Vorcaro? Poderiam ser lembrados ainda os rendimentos do Judiciário e a carga tributária.
Para só ficar em alguns nomes de São Paulo, o Senado já contou com Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy. Covas foi quem, em 1988, na tribuna do Senado, defendeu um choque de capitalismo na economia brasileira. No país recém-democratizado, ainda sob a hiperinflação herdada dos militares, ele defendia o fim dos subsídios e privilégios; privatizações e abertura da economia; disciplina fiscal rigorosa; e reforma institucional. Presidente da República, Fernando Henrique conseguiu seguir algumas das propostas de Covas, como extirpar a inflação. Mas nem todas avançaram — a reforma da Previdência encontrou no PT de Lula forte oposição. Idem o conceito de privatização. Minuto de silêncio: devemos lembrar o rombo dos Correios e da anunciada Terrabras; integram nosso museu de grandes novidades.
A polarização cegou o país para o futuro. Estamos presos na mediocridade dos extremos. O país envelhece rapidamente e não se discute a capacitação dos jovens. Mas se fala de golden shower. Fala-se de todos os tipos de cotas, e não se briga por uma educação fundamental que ensine o básico da matemática. É evocado o nome de Deus, e não se vê como pecado a letalidade sobre jovens pobres e negros.
Os próximos senadores terão a missão de decidir o que o Brasil deseja ser. Porque, ao final de seus mandatos, o mundo será irremediavelmente outro.
Assim como as debêntures de Vorcaro até meses atrás tinham valor no mercado, a artimanha do PL e de Eduardo é permitida pela legislação eleitoral. Tem sido praticada para dar cobertura a personagens sem voto, muitos deles milionários ou aqueles com dívidas ainda não julgadas pela Justiça. O filho de Jair está nesse último bloco, atingido por inquéritos diversos. Depois de desejar chantagear o país pela absolvição de seu pai, vive nos Estados Unidos. Não volta ao Brasil por recear ser preso ao colocar o pé no aeroporto. É um bom candidato para representar São Paulo no Senado?
À beira das eleições, os bolsonaristas se mobilizam para o desembarque no Senado. No discurso, pretendem conseguir votos para retirar ministros do STF. É da política. Poderiam até querer mudar a camisa do Vasco. Na prática, no entanto, vendem o país. E, nessa ação, os filhos de Jair fazem a feira. Eduardo lutou para que o governo americano impusesse tarifas pesadas aos produtos brasileiros. Era chantagem. Queria em troca libertar o pai condenado por golpismo. Flávio, aquele que não fala nada no Brasil, foi aos Estados Unidos oferecer o subsolo do país — as terras-raras – e, com a outra mão, pedir interferência nas eleições de outubro.
Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista. Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado. Mas eram nacionalistas, e não estava na mesa a entrega do país. Os bolsonaristas nem sequer se envergonham e perpetram o escambo à luz do dia. Não houve arrependimento pela perda de empregos causada pelo tarifaço trumpista ou mudança de planos na entrega das terras-raras.
Mesmo não declarados, esses são os propósitos reais da direita radical. Espécie de subserviência consentida — ou o Brasil como mais um estado norte-americano. De novo, a História escapa de nossas mãos. Foi assim com a Revolução Industrial e a miopia das classes dirigentes do Império — aquelas que defendiam a manutenção da mão de obra escrava na economia. Não à toa, ainda somos um país quase extrativista, exportador de commodities. Dependemos das boas chuvas.
Com o mundo próximo de uma mudança radical nos meios de produção — a tal IA —, com consequências para toda a sociedade, os políticos não conseguem mirar um metro à frente. Vazado à direita por um golpismo renitente e, à esquerda, por um estatismo anacrônico (viva a Terrabras!), o país se vê enredado no feitiço do tempo que o leva a repetir padrões. De um lado ou de outro, um crescimento medíocre apoiado por políticas ultrapassadas.
Pergunta: não é de estranhar que os sucessos econômicos, nas últimas décadas, sejam o PCC de Marcola e o Master de Vorcaro? Poderiam ser lembrados ainda os rendimentos do Judiciário e a carga tributária.
Para só ficar em alguns nomes de São Paulo, o Senado já contou com Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy. Covas foi quem, em 1988, na tribuna do Senado, defendeu um choque de capitalismo na economia brasileira. No país recém-democratizado, ainda sob a hiperinflação herdada dos militares, ele defendia o fim dos subsídios e privilégios; privatizações e abertura da economia; disciplina fiscal rigorosa; e reforma institucional. Presidente da República, Fernando Henrique conseguiu seguir algumas das propostas de Covas, como extirpar a inflação. Mas nem todas avançaram — a reforma da Previdência encontrou no PT de Lula forte oposição. Idem o conceito de privatização. Minuto de silêncio: devemos lembrar o rombo dos Correios e da anunciada Terrabras; integram nosso museu de grandes novidades.
A polarização cegou o país para o futuro. Estamos presos na mediocridade dos extremos. O país envelhece rapidamente e não se discute a capacitação dos jovens. Mas se fala de golden shower. Fala-se de todos os tipos de cotas, e não se briga por uma educação fundamental que ensine o básico da matemática. É evocado o nome de Deus, e não se vê como pecado a letalidade sobre jovens pobres e negros.
Os próximos senadores terão a missão de decidir o que o Brasil deseja ser. Porque, ao final de seus mandatos, o mundo será irremediavelmente outro.
O debate inútil
A polarização política continua a existir, disso não há dúvida. No entanto, trata-se de um fenómeno estudado, compreendido e que pode ser gerido. Os politólogos que se têm debruçado sobre o tema concluem que se intensifica quando estes indivíduos falam somente com quem partilha das mesmas opiniões, quase sempre portadores de um perfil psicológico conflituoso e que se envolvem emocionalmente num processo de corte radical, ou seja, categorizando outras pessoas e grupos como totalmente bons ou totalmente maus e comunicando isso exaltadamente ao resto do mundo.
São características particularmente marcantes nos indivíduos que sofrem de psicopatologias narcisistas e antissociais. Quando assumem cargos de liderança, polarizam os grupos como forma de aumentar o seu poder. Mas como conseguem fazê-lo?
Primeiro, porque um grupo com uma predisposição inicial sobre um determinado assunto reforça a sua posição original com mais argumentos consonantes. Em seguida, os membros do grupo ajustam as suas opiniões para se adequarem melhor às do líder e às da maioria dos membros. Por último, os restantes membros, os mais hesitantes, vão ganhando confiança progressivamente e tendem a tornar-se ainda mais radicais quando, por fim, fazem uso do megafone. No conjunto, os pontos de vista ligeiramente diferentes tendem a convergir num consenso mais forte do que o inicial.
Mas há formas de reduzir a polarização política. Os estudos mais referidos relatam experiências em que foram colocados indivíduos com pontos de vista divergentes, e até de partidos diferentes, em pequenos grupos ou em conversas de um para um, sem saberem a que cor política pertencem. Ao conversarem com pessoas com opiniões muito diferentes ou mesmo opostas, sem a pressão do grupo, passaram a ver-se uns aos outros como seres humanos com histórias pessoais e preocupações semelhantes. Embora alguns não mudem de convicção, a partir daquelas discussões tendem a suavizar o discurso e a aproximar-se de uma conclusão mais equilibrada.
Torna-se fundamental conhecer pontos de vista diferentes, na rádio, na televisão, nos jornais, nas revistas e nas redes sociais. Embora gostemos de estar com pessoas que pensam como nós, corremos o risco de nos fecharmos numa bolha. É precisamente isso que está a acontecer com as gerações mais novas, mas também às pessoas com menor literacia política, que mergulham nas redes sociais, absortas, e se deixam bombardear com as polémicas que geram mais controvérsia, e consequentemente likes e visualizações.
Para criarmos um futuro pacífico, será benéfico para todos, de vez em quando, ouvir e conversar com aqueles com quem discordamos, de uma forma tão próxima e pessoal quanto possível. Para esse fim, todos os debates são úteis, desde que sirvam o diálogo, que tragam luz a um tema específico, e que não escalem para o desrespeito nem para a violência. É a ausência de diálogo, ou a incapacidade de ouvir o outro, que nos tem levado à escalada do conflito para o patamar da guerra.
No entanto, também há debates inúteis, e podemos identificá-los: quando uma das partes não está interessada em ouvir, mas apenas em impor a sua visão, ignorando qualquer argumento contrário; quando há crenças inflexíveis que rejeitam factos verificáveis; quando o contexto é emocionalmente inflamável, prevalecendo ataques pessoais em vez de troca de ideias; quando não existem regras claras nem forma de as impor, levando à desordem; ou quando os temas já foram estudados e debatidos ao pormenor e se tornam redundantes.
O problema da polarização é mais relacional do que ideológico. Uma conversa sobre o que nos preocupa enquanto seres humanos inseridos numa sociedade é muito mais profunda do que uma conversa em torno de meras opiniões. Debatemos opiniões; discutimos preocupações. As preocupações são maioritariamente comuns à sociedade.
São características particularmente marcantes nos indivíduos que sofrem de psicopatologias narcisistas e antissociais. Quando assumem cargos de liderança, polarizam os grupos como forma de aumentar o seu poder. Mas como conseguem fazê-lo?
Primeiro, porque um grupo com uma predisposição inicial sobre um determinado assunto reforça a sua posição original com mais argumentos consonantes. Em seguida, os membros do grupo ajustam as suas opiniões para se adequarem melhor às do líder e às da maioria dos membros. Por último, os restantes membros, os mais hesitantes, vão ganhando confiança progressivamente e tendem a tornar-se ainda mais radicais quando, por fim, fazem uso do megafone. No conjunto, os pontos de vista ligeiramente diferentes tendem a convergir num consenso mais forte do que o inicial.
Mas há formas de reduzir a polarização política. Os estudos mais referidos relatam experiências em que foram colocados indivíduos com pontos de vista divergentes, e até de partidos diferentes, em pequenos grupos ou em conversas de um para um, sem saberem a que cor política pertencem. Ao conversarem com pessoas com opiniões muito diferentes ou mesmo opostas, sem a pressão do grupo, passaram a ver-se uns aos outros como seres humanos com histórias pessoais e preocupações semelhantes. Embora alguns não mudem de convicção, a partir daquelas discussões tendem a suavizar o discurso e a aproximar-se de uma conclusão mais equilibrada.
Torna-se fundamental conhecer pontos de vista diferentes, na rádio, na televisão, nos jornais, nas revistas e nas redes sociais. Embora gostemos de estar com pessoas que pensam como nós, corremos o risco de nos fecharmos numa bolha. É precisamente isso que está a acontecer com as gerações mais novas, mas também às pessoas com menor literacia política, que mergulham nas redes sociais, absortas, e se deixam bombardear com as polémicas que geram mais controvérsia, e consequentemente likes e visualizações.
Para criarmos um futuro pacífico, será benéfico para todos, de vez em quando, ouvir e conversar com aqueles com quem discordamos, de uma forma tão próxima e pessoal quanto possível. Para esse fim, todos os debates são úteis, desde que sirvam o diálogo, que tragam luz a um tema específico, e que não escalem para o desrespeito nem para a violência. É a ausência de diálogo, ou a incapacidade de ouvir o outro, que nos tem levado à escalada do conflito para o patamar da guerra.
No entanto, também há debates inúteis, e podemos identificá-los: quando uma das partes não está interessada em ouvir, mas apenas em impor a sua visão, ignorando qualquer argumento contrário; quando há crenças inflexíveis que rejeitam factos verificáveis; quando o contexto é emocionalmente inflamável, prevalecendo ataques pessoais em vez de troca de ideias; quando não existem regras claras nem forma de as impor, levando à desordem; ou quando os temas já foram estudados e debatidos ao pormenor e se tornam redundantes.
O problema da polarização é mais relacional do que ideológico. Uma conversa sobre o que nos preocupa enquanto seres humanos inseridos numa sociedade é muito mais profunda do que uma conversa em torno de meras opiniões. Debatemos opiniões; discutimos preocupações. As preocupações são maioritariamente comuns à sociedade.
Tia Carminha e seus flertes com atos antidemocráticos
A eleição da desembargadora Maria do Carmo Cardoso para a presidência do TRF-1 é o tipo de notícia que faz qualquer observador do cenário jurídico brasileiro levantar a sobrancelha. Não é comum ver o comando do maior tribunal federal do país — que abrange quase metade do território nacional — ser entregue a quem já teve as redes sociais silenciadas pela própria Justiça por flertar com atos antidemocráticos.
Próxima da família Bolsonaro, a magistrada escreveu, logo após a eliminação do Brasil na Copa de 2022, que “nossa seleção verdadeira está na frente dos quartéis” e rotulou o técnico Tite como “petista”. Por ordem do ministro Luis Felipe Salomão — então corregedor nacional de Justiça e atual vice-presidente do STJ —, os perfis da desembargadora no Instagram e no X foram suspensos naquele ano.
Salomão afirmou que a publicação tinha “inequívoco” conteúdo político, incitando condutas antidemocráticas em áreas militares. O ápice desse movimento ocorreu no acampamento golpista em frente ao QG do Exército, em Brasília, de onde partiu a multidão que vandalizou as sedes dos Três Poderes no 8 de Janeiro.
Em sua defesa ao CNJ, a desembargadora alegou que “sequer tem conhecimento ou se recorda” da postagem. O corregedor reagiu, afirmando que a versão da magistrada “salta aos olhos”. Apesar disso, no fim de 2023, o processo foi arquivado por oito votos a seis. Ela assumiu a presidência do TRF-1 em 23 de abril de 2026.
O apelido carinhoso de “Tia Carminha”, comum nos corredores de Brasília, contrasta com o peso de suas novas responsabilidades. De um lado, há o marco simbólico de ser apenas a segunda mulher na história a presidir o tribunal — um motivo de celebração. Do outro, o desconforto institucional de ter no topo da hierarquia uma magistrada cujas opiniões pessoais já colidiram com os limites da democracia.
A questão não é sobre conservadorismo; o pluralismo de ideias é vital para a democracia. O problema surge quando a linha entre a convicção pessoal e o ativismo político se torna tão tênue que o Judiciário precisa intervir para conter danos. Quando uma desembargadora apoia movimentos que questionam as instituições que ela mesma integra, cria-se um nó ético preocupante.
Ao assumir o biênio 2026-2028, Maria do Carmo Cardoso enfrenta o desafio de provar que a “Tia Carminha” das redes ficou no passado e que a presidente do TRF-1 agirá com a isenção exigida pelo cargo. Em um tribunal que decide temas sensíveis — de questões ambientais na Amazônia a grandes licitações —, o país não precisa de ideologia, mas de respeito rigoroso à Constituição. No fim, a dúvida que resta é: o tribunal mudará a desembargadora ou ela mudará o tom do tribunal?
Responda, “Tia Carminha”. De ideologia e negócios suspeitos, os tribunais já estão cheios.
Próxima da família Bolsonaro, a magistrada escreveu, logo após a eliminação do Brasil na Copa de 2022, que “nossa seleção verdadeira está na frente dos quartéis” e rotulou o técnico Tite como “petista”. Por ordem do ministro Luis Felipe Salomão — então corregedor nacional de Justiça e atual vice-presidente do STJ —, os perfis da desembargadora no Instagram e no X foram suspensos naquele ano.
Salomão afirmou que a publicação tinha “inequívoco” conteúdo político, incitando condutas antidemocráticas em áreas militares. O ápice desse movimento ocorreu no acampamento golpista em frente ao QG do Exército, em Brasília, de onde partiu a multidão que vandalizou as sedes dos Três Poderes no 8 de Janeiro.
Em sua defesa ao CNJ, a desembargadora alegou que “sequer tem conhecimento ou se recorda” da postagem. O corregedor reagiu, afirmando que a versão da magistrada “salta aos olhos”. Apesar disso, no fim de 2023, o processo foi arquivado por oito votos a seis. Ela assumiu a presidência do TRF-1 em 23 de abril de 2026.
O apelido carinhoso de “Tia Carminha”, comum nos corredores de Brasília, contrasta com o peso de suas novas responsabilidades. De um lado, há o marco simbólico de ser apenas a segunda mulher na história a presidir o tribunal — um motivo de celebração. Do outro, o desconforto institucional de ter no topo da hierarquia uma magistrada cujas opiniões pessoais já colidiram com os limites da democracia.
A questão não é sobre conservadorismo; o pluralismo de ideias é vital para a democracia. O problema surge quando a linha entre a convicção pessoal e o ativismo político se torna tão tênue que o Judiciário precisa intervir para conter danos. Quando uma desembargadora apoia movimentos que questionam as instituições que ela mesma integra, cria-se um nó ético preocupante.
Ao assumir o biênio 2026-2028, Maria do Carmo Cardoso enfrenta o desafio de provar que a “Tia Carminha” das redes ficou no passado e que a presidente do TRF-1 agirá com a isenção exigida pelo cargo. Em um tribunal que decide temas sensíveis — de questões ambientais na Amazônia a grandes licitações —, o país não precisa de ideologia, mas de respeito rigoroso à Constituição. No fim, a dúvida que resta é: o tribunal mudará a desembargadora ou ela mudará o tom do tribunal?
Responda, “Tia Carminha”. De ideologia e negócios suspeitos, os tribunais já estão cheios.
A crise moral da Europa
A Europa agora sabe que um genocídio foi cometido. É improvável que essa mudança de paradigma seja revertida, independentemente de os burocratas de Luxemburgo conseguirem ou não adiar o inevitável.
A União Europeia é a "maior de todas as covardes", declarou a Anistia Internacional em um comunicado contundente divulgado em 21 de abril. A condenação foi uma resposta direta à falha sistêmica do bloco europeu em romper relações com Israel durante a reunião do Conselho de Assuntos Externos em Luxemburgo.
Apesar de meses de alertas jurídicos, a UE priorizou mais uma vez a segurança processual em detrimento da urgência da vida humana.
Os esforços para pressionar a UE a finalmente assumir uma posição moral foram liderados por uma coligação formada por Espanha, Irlanda e Eslovénia, à qual se juntou posteriormente a Bélgica. Argumentaram que o Acordo de Associação UE-Israel — o quadro jurídico que rege as suas relações comerciais — se baseia no “respeito pelos direitos humanos”.
Manter este acordo enquanto as violações extremas na Palestina ocupada continuarem significa tornar sem sentido os próprios tratados fundadores da UE.
Tal decisão, mesmo que tardia, teria feito um bem inestimável. Teria restaurado parte da credibilidade abalada da UE e reavivado o debate sobre o direito internacional. Mais importante ainda, teria iniciado uma série de medidas concretas para responsabilizar Israel e proporcionado aos palestinos uma esperança tangível.
Nada disso aconteceu, porém, graças ao lobby da Alemanha e da Itália. Essas nações atuaram como uma barreira diplomática, protegendo Israel das consequências.
A posição alemã permanece coerente com a defesa intransigente de Israel por Berlim, uma postura que persistiu mesmo durante o genocídio em Gaza. Como um país que deveria ser o maior defensor mundial contra o extermínio em massa, a Alemanha tem repetidamente protegido Israel no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) e em outras instituições globais.
Durante esse genocídio, Berlim redobrou sua posição, insistindo que a acusação “não tem qualquer fundamento”. Essa postura rígida permaneceu inalterada mesmo com a adesão da Espanha ao caso da África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça, sinalizando uma profunda ruptura no consenso jurídico e moral europeu.
Portanto, não foi surpresa que a liderança alemã tenha rejeitado a proposta de Luxemburgo de suspender o comércio como "inapropriada". Juntamente com a Itália, insistiu que a UE deve manter um "diálogo construtivo" com Tel Aviv — uma expressão que se tornou um eufemismo para cumplicidade.
A Itália apresenta um exemplo mais bizarro. Embora o governo de direita de Giorgia Meloni permaneça alinhado com a guarda pró-Israel, a mobilização do povo italiano tem sido uma das mais fortes da Europa.
As ruas de Roma e Milão têm sido palco de protestos em massa e greves gerais que rivalizam com o fervor visto na Espanha. No entanto, Meloni continua se recusando a atender ao apelo do seu povo, com seus ministros declarando em Luxemburgo que a proposta de suspensão do tratado foi “arquivada”.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, provavelmente sentiu um grande alívio após a votação. A economia israelense está atualmente em dificuldades sob o peso esmagador das guerras contínuas, com o déficit orçamentário aumentando à medida que os gastos com defesa disparam. A União Europeia continua sendo o maior parceiro comercial de Israel, com o comércio total de bens ultrapassando € 42 bilhões.
Este acordo proporciona um suporte económico vital através do acesso preferencial ao mercado e da integração de alta tecnologia; a sua suspensão desencadearia um choque financeiro devastador.
Mas o fato de a Alemanha e a Itália terem conseguido manter o tratado por enquanto não elimina a iminente ruptura que já está em curso.
Essa ruptura não está sendo liderada por governos, mas sim pelas sociedades europeias. Não seria exagero sugerir que a relação da Europa com Israel está destinada a uma mudança crucial. A divisão histórica entre os apoiadores incondicionais de Israel, como a Alemanha, e as nações mais simpáticas, como a Irlanda, está se desfazendo à medida que o pêndulo político oscila em direção à Palestina.
O campo linha-dura sofreu seu golpe mais significativo recentemente com a mudança política na Hungria. Com a ascensão de Péter Magyar, que prometeu que a Hungria respeitaria os mandados do TPI para a prisão de Netanyahu, Israel perdeu seu mais confiável "homem do veto" em Bruxelas.
Isso deixa a Alemanha cada vez mais isolada como a única potência defensora do status quo.
Não estamos mais falando de gestos simbólicos. Estamos testemunhando uma massa crítica de apoio à Palestina, acompanhada de ações diretas: acampamentos, contestações judiciais e greves. Em 14 de abril, foi noticiado que mais de um milhão de europeus assinaram uma petição formal intitulada “Justiça para a Palestina”, pedindo a Bruxelas a imposição de sanções.
Isso reflete uma pressão constante capaz de moldar as agendas políticas. Pesquisas deste mês indicam que apenas 17% dos entrevistados na Alemanha agora consideram Israel um parceiro confiável. Isso expõe um abismo crescente entre a opinião pública europeia e seus governos. Enquanto a Espanha parece estar respondendo ao sentimento popular, a Alemanha continua a agir em desacordo com ele.
Essas mesmas posições morais refletem-se nas atitudes em relação a outras guerras regionais. Pesquisas de março de 2026 mostram que 56% dos espanhóis e italianos se opõem à ação militar conjunta dos EUA e de Israel no Irã. A opinião pública vê cada vez mais essas guerras não como crises isoladas, mas como frentes interligadas de uma única política fracassada.
A rejeição da guerra faz parte de uma rejeição mais ampla da política militar israelense e do alinhamento dos governos europeus a ela. Essas mudanças não apenas isolaram Israel, como também começaram a isolar seus aliados. Além de Donald Trump e seu alinhamento total com a agenda de Netanyahu, a era de um bloco ocidental unificado que atendia incondicionalmente às demandas de Israel está chegando ao fim.
A explicação tradicional para o apoio da Europa — a culpa histórica pelo Holocausto — já não explica a conduta das elites políticas. Uma explicação mais precisa reside no próprio legado europeu de violência colonial e hierarquia racial.
No entanto, a verdadeira mudança pertence à sociedade civil e à resiliência dos palestinos que contornaram os filtros da mídia tradicional para falar diretamente com o mundo.
A Europa agora sabe que um genocídio foi cometido. É improvável que essa mudança de paradigma seja revertida, independentemente de os burocratas de Luxemburgo conseguirem ou não adiar o inevitável.
A União Europeia é a "maior de todas as covardes", declarou a Anistia Internacional em um comunicado contundente divulgado em 21 de abril. A condenação foi uma resposta direta à falha sistêmica do bloco europeu em romper relações com Israel durante a reunião do Conselho de Assuntos Externos em Luxemburgo.
Apesar de meses de alertas jurídicos, a UE priorizou mais uma vez a segurança processual em detrimento da urgência da vida humana.
Os esforços para pressionar a UE a finalmente assumir uma posição moral foram liderados por uma coligação formada por Espanha, Irlanda e Eslovénia, à qual se juntou posteriormente a Bélgica. Argumentaram que o Acordo de Associação UE-Israel — o quadro jurídico que rege as suas relações comerciais — se baseia no “respeito pelos direitos humanos”.
Manter este acordo enquanto as violações extremas na Palestina ocupada continuarem significa tornar sem sentido os próprios tratados fundadores da UE.
Tal decisão, mesmo que tardia, teria feito um bem inestimável. Teria restaurado parte da credibilidade abalada da UE e reavivado o debate sobre o direito internacional. Mais importante ainda, teria iniciado uma série de medidas concretas para responsabilizar Israel e proporcionado aos palestinos uma esperança tangível.
Nada disso aconteceu, porém, graças ao lobby da Alemanha e da Itália. Essas nações atuaram como uma barreira diplomática, protegendo Israel das consequências.
A posição alemã permanece coerente com a defesa intransigente de Israel por Berlim, uma postura que persistiu mesmo durante o genocídio em Gaza. Como um país que deveria ser o maior defensor mundial contra o extermínio em massa, a Alemanha tem repetidamente protegido Israel no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) e em outras instituições globais.
Durante esse genocídio, Berlim redobrou sua posição, insistindo que a acusação “não tem qualquer fundamento”. Essa postura rígida permaneceu inalterada mesmo com a adesão da Espanha ao caso da África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça, sinalizando uma profunda ruptura no consenso jurídico e moral europeu.
Portanto, não foi surpresa que a liderança alemã tenha rejeitado a proposta de Luxemburgo de suspender o comércio como "inapropriada". Juntamente com a Itália, insistiu que a UE deve manter um "diálogo construtivo" com Tel Aviv — uma expressão que se tornou um eufemismo para cumplicidade.
A Itália apresenta um exemplo mais bizarro. Embora o governo de direita de Giorgia Meloni permaneça alinhado com a guarda pró-Israel, a mobilização do povo italiano tem sido uma das mais fortes da Europa.
As ruas de Roma e Milão têm sido palco de protestos em massa e greves gerais que rivalizam com o fervor visto na Espanha. No entanto, Meloni continua se recusando a atender ao apelo do seu povo, com seus ministros declarando em Luxemburgo que a proposta de suspensão do tratado foi “arquivada”.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, provavelmente sentiu um grande alívio após a votação. A economia israelense está atualmente em dificuldades sob o peso esmagador das guerras contínuas, com o déficit orçamentário aumentando à medida que os gastos com defesa disparam. A União Europeia continua sendo o maior parceiro comercial de Israel, com o comércio total de bens ultrapassando € 42 bilhões.
Este acordo proporciona um suporte económico vital através do acesso preferencial ao mercado e da integração de alta tecnologia; a sua suspensão desencadearia um choque financeiro devastador.
Mas o fato de a Alemanha e a Itália terem conseguido manter o tratado por enquanto não elimina a iminente ruptura que já está em curso.
Essa ruptura não está sendo liderada por governos, mas sim pelas sociedades europeias. Não seria exagero sugerir que a relação da Europa com Israel está destinada a uma mudança crucial. A divisão histórica entre os apoiadores incondicionais de Israel, como a Alemanha, e as nações mais simpáticas, como a Irlanda, está se desfazendo à medida que o pêndulo político oscila em direção à Palestina.
O campo linha-dura sofreu seu golpe mais significativo recentemente com a mudança política na Hungria. Com a ascensão de Péter Magyar, que prometeu que a Hungria respeitaria os mandados do TPI para a prisão de Netanyahu, Israel perdeu seu mais confiável "homem do veto" em Bruxelas.
Isso deixa a Alemanha cada vez mais isolada como a única potência defensora do status quo.
Não estamos mais falando de gestos simbólicos. Estamos testemunhando uma massa crítica de apoio à Palestina, acompanhada de ações diretas: acampamentos, contestações judiciais e greves. Em 14 de abril, foi noticiado que mais de um milhão de europeus assinaram uma petição formal intitulada “Justiça para a Palestina”, pedindo a Bruxelas a imposição de sanções.
Isso reflete uma pressão constante capaz de moldar as agendas políticas. Pesquisas deste mês indicam que apenas 17% dos entrevistados na Alemanha agora consideram Israel um parceiro confiável. Isso expõe um abismo crescente entre a opinião pública europeia e seus governos. Enquanto a Espanha parece estar respondendo ao sentimento popular, a Alemanha continua a agir em desacordo com ele.
Essas mesmas posições morais refletem-se nas atitudes em relação a outras guerras regionais. Pesquisas de março de 2026 mostram que 56% dos espanhóis e italianos se opõem à ação militar conjunta dos EUA e de Israel no Irã. A opinião pública vê cada vez mais essas guerras não como crises isoladas, mas como frentes interligadas de uma única política fracassada.
A rejeição da guerra faz parte de uma rejeição mais ampla da política militar israelense e do alinhamento dos governos europeus a ela. Essas mudanças não apenas isolaram Israel, como também começaram a isolar seus aliados. Além de Donald Trump e seu alinhamento total com a agenda de Netanyahu, a era de um bloco ocidental unificado que atendia incondicionalmente às demandas de Israel está chegando ao fim.
A explicação tradicional para o apoio da Europa — a culpa histórica pelo Holocausto — já não explica a conduta das elites políticas. Uma explicação mais precisa reside no próprio legado europeu de violência colonial e hierarquia racial.
No entanto, a verdadeira mudança pertence à sociedade civil e à resiliência dos palestinos que contornaram os filtros da mídia tradicional para falar diretamente com o mundo.
A Europa agora sabe que um genocídio foi cometido. É improvável que essa mudança de paradigma seja revertida, independentemente de os burocratas de Luxemburgo conseguirem ou não adiar o inevitável.
domingo, 3 de maio de 2026
Trump diminui pressão sobre o Irã ao declarar ao Congresso que guerra está ‘terminada’
A guerra contra o Irã colocou os EUA em contato com as limitações da superioridade militar. A nova realidade da guerra naval, com o emprego de drones marítimos, o fator geoeconômico e o controle exercido pela democracia desempenham papéis decisivos no curso dessa disputa.
Uma lei de 1973 obriga os presidentes americanos a consultar o Congresso sobre a continuidade de uma guerra no máximo 60 dias depois de seu início.
Esse prazo expirou na sexta-feira. Como não pediu aprovação do Congresso, Donald Trump foi obrigado a declarar que a guerra no Irã “está terminada”.
Isso retira do presidente um fator de pressão sobre o Irã nas negociações, que ele tenta exercer ameaçando voltar a atacar com força avassaladora.
As eleições de meio de mandato de 3 de novembro, que renovarão toda a Câmara e um terço do Senado, pressionam Trump a contornar os problemas econômicos e políticos que a guerra criou. O emprego de forças terrestres, que ajudaria na desobstrução do Estreito de Ormuz, seria politicamente destrutivo para Trump.
Já o regime iraniano está condicionado a ignorar a opinião do povo. O bloqueio naval americano deteriora a qualidade de vida dos iranianos, e isso impacta o regime negativamente, mas ele não tem um calendário eleitoral com que se preocupar. O intenso contrabando no Estreito de Ormuz não neutraliza essa asfixia, mas suaviza um pouco.
O repórter Adrian Blomfield, do jornal inglês The Telegraph, percorreu o estreito em uma lancha, e contou cerca de 300 barcos por dia, transportando combustível para Omã e produtos de primeira necessidade para o Irã. Há também os barcos de pesca. Misturam-se nesse trânsito as lanchas rápidas da Guarda Revolucionária Islâmica, capazes de disparar mísseis e lançar minas marítimas.
Uma espessa névoa cobre constantemente o estreito, por causa do calor e das costas escarpadas, que retêm a umidade. A água tem uma qualidade opalescente, que muda sua cor conforme reflete a luz. Tudo isso dificulta as atividades de reconhecimento aéreo pelos aviões e drones inimigos.
E há a contundência da guerra assimétrica no mar. Mesmo sob bloqueio naval e depois de perder boa parte de sua marinha, a Ucrânia foi capaz de destruir um terço da frota russa e rechaçar o restante no Mar Negro, com uso de drones aéreos e marítimos, mísseis e minas aderentes.
“É difícil vê-los e ainda mais difícil detê-los”, disse ao repórter um funcionário de defesa ocidental, referindo-se aos iranianos. “No momento, a melhor solução para desobstruir o estreito é a diplomacia.”
Uma lei de 1973 obriga os presidentes americanos a consultar o Congresso sobre a continuidade de uma guerra no máximo 60 dias depois de seu início.
Esse prazo expirou na sexta-feira. Como não pediu aprovação do Congresso, Donald Trump foi obrigado a declarar que a guerra no Irã “está terminada”.
Isso retira do presidente um fator de pressão sobre o Irã nas negociações, que ele tenta exercer ameaçando voltar a atacar com força avassaladora.
As eleições de meio de mandato de 3 de novembro, que renovarão toda a Câmara e um terço do Senado, pressionam Trump a contornar os problemas econômicos e políticos que a guerra criou. O emprego de forças terrestres, que ajudaria na desobstrução do Estreito de Ormuz, seria politicamente destrutivo para Trump.
Já o regime iraniano está condicionado a ignorar a opinião do povo. O bloqueio naval americano deteriora a qualidade de vida dos iranianos, e isso impacta o regime negativamente, mas ele não tem um calendário eleitoral com que se preocupar. O intenso contrabando no Estreito de Ormuz não neutraliza essa asfixia, mas suaviza um pouco.
O repórter Adrian Blomfield, do jornal inglês The Telegraph, percorreu o estreito em uma lancha, e contou cerca de 300 barcos por dia, transportando combustível para Omã e produtos de primeira necessidade para o Irã. Há também os barcos de pesca. Misturam-se nesse trânsito as lanchas rápidas da Guarda Revolucionária Islâmica, capazes de disparar mísseis e lançar minas marítimas.
Uma espessa névoa cobre constantemente o estreito, por causa do calor e das costas escarpadas, que retêm a umidade. A água tem uma qualidade opalescente, que muda sua cor conforme reflete a luz. Tudo isso dificulta as atividades de reconhecimento aéreo pelos aviões e drones inimigos.
E há a contundência da guerra assimétrica no mar. Mesmo sob bloqueio naval e depois de perder boa parte de sua marinha, a Ucrânia foi capaz de destruir um terço da frota russa e rechaçar o restante no Mar Negro, com uso de drones aéreos e marítimos, mísseis e minas aderentes.
“É difícil vê-los e ainda mais difícil detê-los”, disse ao repórter um funcionário de defesa ocidental, referindo-se aos iranianos. “No momento, a melhor solução para desobstruir o estreito é a diplomacia.”
Um lapso canhestro de linguagem
Embora com alguma lógica, foram açodados os ataques dirigidos à apresentadora televisiva que descreveu a diversidade da tripulação da missão Artemis 2 como "um homem, uma mulher e um negro". A frase é racista, claro, mas não aval automático desse mesmo julgamento a quem a enunciou. A ressalva pode soar como eufemismo acadêmico, mas o esclarecimento é oportuno quando se aborda o racismo no país sem a comodidade da pedra na mão. Açodamento é atitude apressada, irrefletida, que polariza sem dialogar.
A dificuldade deve-se à inquietante singularidade do racismo no Brasil. O sociólogo francês Gabriel Tarde observou em fins do século 19 que "cada civilização faz a sua raça" (ao invés de "a raça faz a civilização"). A modalidade brasileira é diferente da norte-americana, uma leucocracia com linha divisória entre claros e escuros a partir da "one drop rule", a regra de que uma gota de sangue imaginariamente "negro" faz emergir a separação racial, qualquer que seja a gradação cromática da pele. Aqui, não, o colorismo hierarquiza as tonalidades: quanto mais claro, mais aceitável. Ou negociável.
No interior da forma social escravista, que continua a existir desligada da materialidade da antiga estrutura escravista, o processo cognitivo é complexo. O abolicionista Joaquim Nabuco anteviu: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil (...) ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância". A forma escravista é estruturante de modelagens conscientes ou subconscientes, visíveis ou invisíveis. As primeiras se traduzem em normas, as segundas aparecem em atos reflexos, que espelham a forma social. A reflexividade produz imagens instauradoras de um campo sensível, responsável pelas afecções discriminatórias.
Na imagem de mundo, síntese mais ampla do que o juízo verbal, incorporam-se representações e experiências, sujeitas a juízos de valor. A eles preside raça, categoria anacrônica e obscura, embora investida de poder de aplicação capaz de subsistir ao esvaziamento da noção original. Pode ressurgir ou manifestar-se em ocasiões inesperadas.
Um episódio particular: Em Paris, um pickpocket furta de um brasileiro um cartão de crédito. Mais tarde, um notório intelectual progressista conta que lhe aconteceu algo igual, mas teve na delegacia uma segunda experiência desagradável: fizeram-no esperar longo tempo sentado ao lado de "todos aqueles africanos". Subsumia-se que ser africano equivaleria ao negro escravizado, logo, ao afrodescendente brasileiro, objeto de velado preconceito.
Esse equívoco discursivo é próximo ao da jornalista: "homem, mulher e negro". Mas está longe de sua imputação como sujeito de consciência racista, pois a diferença entre a discriminação visível e a invisível, o lapso, resta ser testado em atos na vida social, como agora em Canoas (RS), onde um tribunal, em inequívoco racismo religioso, determinou a segregação cautelar de uma acusada por "ser mãe de santo". Em geral, o problema converge para a linguagem, um jogo que "fala" o sujeito, espelhando a forma escravista com força estruturante. Daí a importância de escola, escrita e imagens antirracistas. E certamente de reciclagens institucionais.
A dificuldade deve-se à inquietante singularidade do racismo no Brasil. O sociólogo francês Gabriel Tarde observou em fins do século 19 que "cada civilização faz a sua raça" (ao invés de "a raça faz a civilização"). A modalidade brasileira é diferente da norte-americana, uma leucocracia com linha divisória entre claros e escuros a partir da "one drop rule", a regra de que uma gota de sangue imaginariamente "negro" faz emergir a separação racial, qualquer que seja a gradação cromática da pele. Aqui, não, o colorismo hierarquiza as tonalidades: quanto mais claro, mais aceitável. Ou negociável.
No interior da forma social escravista, que continua a existir desligada da materialidade da antiga estrutura escravista, o processo cognitivo é complexo. O abolicionista Joaquim Nabuco anteviu: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil (...) ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância". A forma escravista é estruturante de modelagens conscientes ou subconscientes, visíveis ou invisíveis. As primeiras se traduzem em normas, as segundas aparecem em atos reflexos, que espelham a forma social. A reflexividade produz imagens instauradoras de um campo sensível, responsável pelas afecções discriminatórias.
Na imagem de mundo, síntese mais ampla do que o juízo verbal, incorporam-se representações e experiências, sujeitas a juízos de valor. A eles preside raça, categoria anacrônica e obscura, embora investida de poder de aplicação capaz de subsistir ao esvaziamento da noção original. Pode ressurgir ou manifestar-se em ocasiões inesperadas.
Um episódio particular: Em Paris, um pickpocket furta de um brasileiro um cartão de crédito. Mais tarde, um notório intelectual progressista conta que lhe aconteceu algo igual, mas teve na delegacia uma segunda experiência desagradável: fizeram-no esperar longo tempo sentado ao lado de "todos aqueles africanos". Subsumia-se que ser africano equivaleria ao negro escravizado, logo, ao afrodescendente brasileiro, objeto de velado preconceito.
Esse equívoco discursivo é próximo ao da jornalista: "homem, mulher e negro". Mas está longe de sua imputação como sujeito de consciência racista, pois a diferença entre a discriminação visível e a invisível, o lapso, resta ser testado em atos na vida social, como agora em Canoas (RS), onde um tribunal, em inequívoco racismo religioso, determinou a segregação cautelar de uma acusada por "ser mãe de santo". Em geral, o problema converge para a linguagem, um jogo que "fala" o sujeito, espelhando a forma escravista com força estruturante. Daí a importância de escola, escrita e imagens antirracistas. E certamente de reciclagens institucionais.
O direito ao delírio
Que tal começarmos a exercer
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?
No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.
Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.
Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.
A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.
A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.
A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.
E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?
No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.
Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.
Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.
A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.
A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.
A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.
E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.
Eduardo Galeano
A ilusão da cavalaria e a realidade de Ormuz
Há uma cena em Lawrence da Arábia em que T. E. Lawrence percebe que a promessa de libertação feita às populações árabes não passava de um instrumento tático, uma ficção conveniente num jogo maior. A ilusão desfaz-se não com um estrondo, mas com um silêncio. Não há revolução, não há redenção, apenas a consciência tardia de que alguém falou em nome deles sem nunca ter querido ouvi-los. O Irão de hoje vive nesse mesmo espaço, entre a promessa e o abandono, entre a expectativa criada e a realidade que nunca chegou a cumprir-se.
Nas primeiras horas do conflito, Donald Trump e Benjamin Netanyahu desenharam uma narrativa tão simples quanto eficaz. Bastaria resistir. Bastaria aguentar mais um pouco. A cavalaria estaria a caminho e, com ela, a possibilidade de o povo iraniano tomar o poder pelas suas próprias mãos. Não se tratava de um compromisso com a democracia, mas de uma promessa de rutura, de substituição de um regime que há décadas se sustenta na repressão, na teocracia e na violência institucionalizada.
Mais de 40 mil mortos depois, e perante uma guerra que rapidamente escapou ao guião de Washington, essa promessa evaporou-se. Não houve correção de discurso, nem revisão estratégica, nem sequer um esforço para explicar o desfasamento entre o que foi dito e o que aconteceu. A mudança de regime, que durante dias foi apresentada como horizonte plausível, deixou simplesmente de existir como tema. O conflito deslocou-se para outros eixos, e o povo iraniano voltou a ocupar o lugar habitual na geopolítica contemporânea, o de elemento secundário numa equação definida por outros, sacrificável na narrativa e descartável na estratégia.
Durante um breve momento, tentou-se dar forma a essa promessa através de um rosto. Reza Pahlavi surgiu como símbolo de uma alternativa possível, uma figura capaz de corporizar uma transição que nunca chegou a materializar-se. A sua projeção mediática foi rápida, quase artificial, sustentada mais por necessidade externa do que por capacidade interna. Tal como aconteceu noutros contextos, a tentativa de fabricar uma liderança a partir do exterior revelou-se estruturalmente frágil. O Irão não oferece o terreno político nem social para soluções importadas, e a figura que durante dias concentrou expectativas acabou por ser descartada sem sequer ter tido a oportunidade de se confrontar com a realidade interna do país.
O problema nunca foi a ausência total de oposição, mas a sua fragmentação, a sua distância do território e a incapacidade de se transformar numa força politicamente operativa. Ao contrário do que muitos quiseram acreditar, o colapso de um regime não se produz por vontade externa nem por desejo mediático. Exige uma erosão interna sustentada, fissuras institucionais profundas e, sobretudo, a existência de uma alternativa credível capaz de ocupar o vazio. Nada disso, até ao momento, se consolidou no Irão.
O que começa verdadeiramente a ganhar relevância não é a queda do regime, mas as tensões dentro dele. Seyed Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros e figura central nas recentes conversações em Islamabad, representa uma linha que, ainda que distante de qualquer noção de moderação no sentido ocidental, revela uma consciência estratégica dos limites do confronto direto com os EUA e os seus aliados. Do outro lado, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e antigo comandante da Guarda Revolucionária, encarna uma visão mais ideológica, mais securitária e menos disponível para qualquer forma de compromisso que não passe pela demonstração de força.
Esta clivagem não é apenas retórica. Traduz uma disputa sobre a própria natureza da sobrevivência do regime. Para a ala mais pragmática, a prioridade é evitar um confronto que possa comprometer a estabilidade interna e expor fragilidades estruturais. Para a linha dura, pelo contrário, a sobrevivência passa pela escalada controlada, pela capacidade de impor custos ao adversário e pela demonstração de que o Irão continua a ser um ator capaz de moldar o sistema internacional, mesmo sem superioridade militar convencional.
É neste enquadramento que o estreito de Ormuz assume uma centralidade absoluta. A guerra deixou de ser definida pela questão nuclear, pelos mísseis balísticos ou pela ativação dos tradicionais proxies regionais. A verdadeira capacidade de projeção estratégica do Irão reside hoje na possibilidade de perturbar, condicionar ou, no limite, bloquear um dos principais corredores energéticos do mundo, por onde passa uma parte significativa do abastecimento global de petróleo e gás.
Ao deslocar o conflito para Ormuz, Teerão altera a natureza da guerra. Deixa de procurar uma vitória militar clássica e passa a operar numa lógica de disrupção sistémica. O objetivo não é derrotar diretamente os EUA ou Israel, mas tornar o custo da estabilidade global suficientemente elevado para forçar uma reconfiguração das prioridades internacionais. Ao ameaçar o fluxo energético, o Irão transforma um conflito regional num problema global, envolvendo economias, mercados e governos que, de outra forma, poderiam manter-se à margem.
Esta estratégia, muitas vezes descrita como assimétrica, é, na realidade, profundamente racional. Para um regime que conhece os limites da sua capacidade militar convencional, a utilização de um ponto de estrangulamento económico como Ormuz representa uma forma eficaz de compensar essa desvantagem. É a transformação da geografia em poder, do território em instrumento político.
No meio desta reconfiguração, o povo iraniano volta a desaparecer do centro da narrativa. Não porque não exista contestação, mas porque essa contestação permanece incapaz de se traduzir em poder político efetivo. As promessas externas falharam, as alternativas internas não se consolidaram e o regime, apesar das suas tensões e divergências, mantém-se funcional, adaptando-se mais uma vez à pressão sem ceder na sua essência.
Talvez seja essa a dimensão mais incómoda desta crise. A política internacional continua a produzir expectativas que não pretende cumprir. Fala-se de libertação como se fosse uma variável estratégica, promete-se mudança como se fosse um instrumento operacional. Mas a realidade é mais crua. Os povos raramente são libertados por quem projeta poder sobre eles, e as promessas feitas em tempo de guerra raramente sobrevivem à lógica fria dos interesses.
No fim, o que fica não é apenas a destruição ou o cálculo geopolítico. Fica a memória de uma promessa. E a consciência, cada vez mais clara, de que, mais uma vez, alguém acreditou que a cavalaria viria. E, mais uma vez, ela nunca chegou.
Nas primeiras horas do conflito, Donald Trump e Benjamin Netanyahu desenharam uma narrativa tão simples quanto eficaz. Bastaria resistir. Bastaria aguentar mais um pouco. A cavalaria estaria a caminho e, com ela, a possibilidade de o povo iraniano tomar o poder pelas suas próprias mãos. Não se tratava de um compromisso com a democracia, mas de uma promessa de rutura, de substituição de um regime que há décadas se sustenta na repressão, na teocracia e na violência institucionalizada.
Mais de 40 mil mortos depois, e perante uma guerra que rapidamente escapou ao guião de Washington, essa promessa evaporou-se. Não houve correção de discurso, nem revisão estratégica, nem sequer um esforço para explicar o desfasamento entre o que foi dito e o que aconteceu. A mudança de regime, que durante dias foi apresentada como horizonte plausível, deixou simplesmente de existir como tema. O conflito deslocou-se para outros eixos, e o povo iraniano voltou a ocupar o lugar habitual na geopolítica contemporânea, o de elemento secundário numa equação definida por outros, sacrificável na narrativa e descartável na estratégia.
Durante um breve momento, tentou-se dar forma a essa promessa através de um rosto. Reza Pahlavi surgiu como símbolo de uma alternativa possível, uma figura capaz de corporizar uma transição que nunca chegou a materializar-se. A sua projeção mediática foi rápida, quase artificial, sustentada mais por necessidade externa do que por capacidade interna. Tal como aconteceu noutros contextos, a tentativa de fabricar uma liderança a partir do exterior revelou-se estruturalmente frágil. O Irão não oferece o terreno político nem social para soluções importadas, e a figura que durante dias concentrou expectativas acabou por ser descartada sem sequer ter tido a oportunidade de se confrontar com a realidade interna do país.
O problema nunca foi a ausência total de oposição, mas a sua fragmentação, a sua distância do território e a incapacidade de se transformar numa força politicamente operativa. Ao contrário do que muitos quiseram acreditar, o colapso de um regime não se produz por vontade externa nem por desejo mediático. Exige uma erosão interna sustentada, fissuras institucionais profundas e, sobretudo, a existência de uma alternativa credível capaz de ocupar o vazio. Nada disso, até ao momento, se consolidou no Irão.
O que começa verdadeiramente a ganhar relevância não é a queda do regime, mas as tensões dentro dele. Seyed Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros e figura central nas recentes conversações em Islamabad, representa uma linha que, ainda que distante de qualquer noção de moderação no sentido ocidental, revela uma consciência estratégica dos limites do confronto direto com os EUA e os seus aliados. Do outro lado, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e antigo comandante da Guarda Revolucionária, encarna uma visão mais ideológica, mais securitária e menos disponível para qualquer forma de compromisso que não passe pela demonstração de força.
Esta clivagem não é apenas retórica. Traduz uma disputa sobre a própria natureza da sobrevivência do regime. Para a ala mais pragmática, a prioridade é evitar um confronto que possa comprometer a estabilidade interna e expor fragilidades estruturais. Para a linha dura, pelo contrário, a sobrevivência passa pela escalada controlada, pela capacidade de impor custos ao adversário e pela demonstração de que o Irão continua a ser um ator capaz de moldar o sistema internacional, mesmo sem superioridade militar convencional.
É neste enquadramento que o estreito de Ormuz assume uma centralidade absoluta. A guerra deixou de ser definida pela questão nuclear, pelos mísseis balísticos ou pela ativação dos tradicionais proxies regionais. A verdadeira capacidade de projeção estratégica do Irão reside hoje na possibilidade de perturbar, condicionar ou, no limite, bloquear um dos principais corredores energéticos do mundo, por onde passa uma parte significativa do abastecimento global de petróleo e gás.
Ao deslocar o conflito para Ormuz, Teerão altera a natureza da guerra. Deixa de procurar uma vitória militar clássica e passa a operar numa lógica de disrupção sistémica. O objetivo não é derrotar diretamente os EUA ou Israel, mas tornar o custo da estabilidade global suficientemente elevado para forçar uma reconfiguração das prioridades internacionais. Ao ameaçar o fluxo energético, o Irão transforma um conflito regional num problema global, envolvendo economias, mercados e governos que, de outra forma, poderiam manter-se à margem.
Esta estratégia, muitas vezes descrita como assimétrica, é, na realidade, profundamente racional. Para um regime que conhece os limites da sua capacidade militar convencional, a utilização de um ponto de estrangulamento económico como Ormuz representa uma forma eficaz de compensar essa desvantagem. É a transformação da geografia em poder, do território em instrumento político.
No meio desta reconfiguração, o povo iraniano volta a desaparecer do centro da narrativa. Não porque não exista contestação, mas porque essa contestação permanece incapaz de se traduzir em poder político efetivo. As promessas externas falharam, as alternativas internas não se consolidaram e o regime, apesar das suas tensões e divergências, mantém-se funcional, adaptando-se mais uma vez à pressão sem ceder na sua essência.
Talvez seja essa a dimensão mais incómoda desta crise. A política internacional continua a produzir expectativas que não pretende cumprir. Fala-se de libertação como se fosse uma variável estratégica, promete-se mudança como se fosse um instrumento operacional. Mas a realidade é mais crua. Os povos raramente são libertados por quem projeta poder sobre eles, e as promessas feitas em tempo de guerra raramente sobrevivem à lógica fria dos interesses.
No fim, o que fica não é apenas a destruição ou o cálculo geopolítico. Fica a memória de uma promessa. E a consciência, cada vez mais clara, de que, mais uma vez, alguém acreditou que a cavalaria viria. E, mais uma vez, ela nunca chegou.
Quando as vozes de Exílio e Sobrevivência nos alcançam
Na Poética, de Aristóteles, somos ensinados que quanto mais intensos são os sentimentos inspirados por uma tragédia – medo, horror, revolta, compaixão –, maior é a catarse do público. Uma história bem contada, em que as tensões presentes na peça permitem à audiência identificar-se com as emoções das personagens, conduz à resolução do conflito e ao desfazer de tensões, atingindo-se então a catarse.
Se para Aristóteles a catarse era sobretudo experienciada pela audiência, hoje em dia é comum referirmo-nos à escrita como processo terapêutico – catártico – do próprio autor ou da autora. Afinal, é preciso um especial tipo de coragem para decidir enfrentar o abismo que devolve a nossa reflexão ao espelho. Sem coragem, como seríamos capazes de pôr fim às trevas e preenchê-las de luz?
Vem isto a propósito de uma conversa em que participei, a convite do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e do coletivo feminista Insurgentes, com a participação de várias autoras com obras sobre migração, cultura e desenraizamento, e que me fez regressar a esta ideia aristotélica de catarse.
Fiquei a conhecer a história de Margarita Sharapova que vivera toda a vida na Rússia e, durante o regime de Putin, começou a ser perseguida por ser uma autora lésbica e que escrevera sobre temáticas LGBT. No livro Três Histórias de Mulheres Refugiadas, partilha a sua história e revela como foi constantemente perseguida em Moscovo devido à sua escrita, insultada e espancada pela polícia e por neonazis russos. Não adiantava recorrer às autoridades porque estavam em conluio com o regime. Sharapova não queria abandonar a sua terra natal, mas após a morte trágica da sua companheira, vítima de violência policial, a vida tornou-se impossível na Rússia. Fugiu para Portugal sem conhecer a língua nem o país, e pediu asilo político.
Quando falamos de violência e perseguição política, de refugiados e guerras, quando falamos de descolonização, deslocamento forçado e outros processos de enorme violência, esquecemo-nos com frequência de que cada história tem um rosto e um nome. Há todo um passado que fica para trás, e a pessoa que éramos ontem já não é a pessoa que somos hoje. O que seria dos escritores se não fosse a força de vontade para detalhar em papel essas vivências, numa tentativa de sensibilizar os leitores para a indignidade e a crueldade crescente dos nossos tempos?
Recordo-me de ter ficado profundamente impressionada com O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch, permitindo-me uma compreensão das circunstâncias históricas esmagadoras, antes e depois do regime soviético, e as promessas que foram feitas e a seguir estilhaçadas.
Recordo-me do álbum autobiográfico de banda desenhada Assombrada, da iraniana Shaghayegh Moazzami. Imigrou para o Canadá, numa tentativa de fugir à vida opressiva sob o regime iraniano, mas não consegue desligar-se do seu país de origem. Essa ligação transforma-se na figura de uma mulher iraniana conservadora, vestida com um chador preto, que a assombra e a acusa de ter abandonado os costumes e a religião. Moazzami está de tal forma atormentada pela culpa que só através do processo catártico da sua arte consegue finalmente deixar para trás os seus fantasmas.
Recordo-me também da banda desenhada autobiográfica da libanesa Zeina Abirached, que conta em A Dança das Andorinhas a história da sua infância durante a guerra civil libanesa, e de como os vizinhos formaram uma comunidade que lhes permitiu ultrapassar a vida absurda numa cidade dividida por campos de batalha e sob a constante ameaça dos mísseis. No meio da devastação em redor, os vizinhos procuram manter a normalidade, e enquanto uns ponderam o exílio, outros sabem que jamais irão partir.
Tantas histórias de violência que foram transformadas em literatura em vez de ficarem guardadas numa gaveta profunda de memória. Tantas autoras a passarem pelos seus processos de catarse. Talvez seja nesse gesto de escrita que reside não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a de partilha. E talvez seja aí, nesse encontro entre quem escreve e quem lê, que começamos a compreender melhor aquilo que, de outra forma, permaneceria distante.
Se para Aristóteles a catarse era sobretudo experienciada pela audiência, hoje em dia é comum referirmo-nos à escrita como processo terapêutico – catártico – do próprio autor ou da autora. Afinal, é preciso um especial tipo de coragem para decidir enfrentar o abismo que devolve a nossa reflexão ao espelho. Sem coragem, como seríamos capazes de pôr fim às trevas e preenchê-las de luz?
Vem isto a propósito de uma conversa em que participei, a convite do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e do coletivo feminista Insurgentes, com a participação de várias autoras com obras sobre migração, cultura e desenraizamento, e que me fez regressar a esta ideia aristotélica de catarse.
Fiquei a conhecer a história de Margarita Sharapova que vivera toda a vida na Rússia e, durante o regime de Putin, começou a ser perseguida por ser uma autora lésbica e que escrevera sobre temáticas LGBT. No livro Três Histórias de Mulheres Refugiadas, partilha a sua história e revela como foi constantemente perseguida em Moscovo devido à sua escrita, insultada e espancada pela polícia e por neonazis russos. Não adiantava recorrer às autoridades porque estavam em conluio com o regime. Sharapova não queria abandonar a sua terra natal, mas após a morte trágica da sua companheira, vítima de violência policial, a vida tornou-se impossível na Rússia. Fugiu para Portugal sem conhecer a língua nem o país, e pediu asilo político.
Quando falamos de violência e perseguição política, de refugiados e guerras, quando falamos de descolonização, deslocamento forçado e outros processos de enorme violência, esquecemo-nos com frequência de que cada história tem um rosto e um nome. Há todo um passado que fica para trás, e a pessoa que éramos ontem já não é a pessoa que somos hoje. O que seria dos escritores se não fosse a força de vontade para detalhar em papel essas vivências, numa tentativa de sensibilizar os leitores para a indignidade e a crueldade crescente dos nossos tempos?
Recordo-me de ter ficado profundamente impressionada com O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch, permitindo-me uma compreensão das circunstâncias históricas esmagadoras, antes e depois do regime soviético, e as promessas que foram feitas e a seguir estilhaçadas.
Recordo-me do álbum autobiográfico de banda desenhada Assombrada, da iraniana Shaghayegh Moazzami. Imigrou para o Canadá, numa tentativa de fugir à vida opressiva sob o regime iraniano, mas não consegue desligar-se do seu país de origem. Essa ligação transforma-se na figura de uma mulher iraniana conservadora, vestida com um chador preto, que a assombra e a acusa de ter abandonado os costumes e a religião. Moazzami está de tal forma atormentada pela culpa que só através do processo catártico da sua arte consegue finalmente deixar para trás os seus fantasmas.
Recordo-me também da banda desenhada autobiográfica da libanesa Zeina Abirached, que conta em A Dança das Andorinhas a história da sua infância durante a guerra civil libanesa, e de como os vizinhos formaram uma comunidade que lhes permitiu ultrapassar a vida absurda numa cidade dividida por campos de batalha e sob a constante ameaça dos mísseis. No meio da devastação em redor, os vizinhos procuram manter a normalidade, e enquanto uns ponderam o exílio, outros sabem que jamais irão partir.
Tantas histórias de violência que foram transformadas em literatura em vez de ficarem guardadas numa gaveta profunda de memória. Tantas autoras a passarem pelos seus processos de catarse. Talvez seja nesse gesto de escrita que reside não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a de partilha. E talvez seja aí, nesse encontro entre quem escreve e quem lê, que começamos a compreender melhor aquilo que, de outra forma, permaneceria distante.
Projeto 'Grande Israel': Assentamentos em terras roubadas com recursos roubados
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, descreveu o confronto com o Irã como uma ampla luta ideológica, afirmando que Israel e os Estados Unidos estão envolvidos em uma “batalha da civilização contra a barbárie”.
Suas declarações coincidiram com um relatório da ONU Mulheres que estimava que, até dezembro de 2025, mais de 38.000 mulheres e meninas haviam sido mortas em Gaza, sendo mais de 22.000 mulheres e 16.000 meninas. Esses números representam uma mudança drástica em relação às ofensivas anteriores em Gaza, onde mulheres e meninas representavam 15% das mortes em 2008-2009 e 22% em 2014.
Um ex-soldado israelense, entrevistado pelo Haaretz, descreveu seu retorno de Gaza sob aclamação pública como um "herói", mesmo enquanto lutava contra um profundo trauma moral. Seu depoimento relata o assassinato de palestinos desarmados, os maus-tratos a detidos e uma cultura generalizada de impunidade que normalizava o uso excessivo da força e a humilhação. O abismo entre a celebração pública e a violência que testemunhou o fez sentir-se monstruoso em vez de heróico, revelando as fraturas psicológicas e éticas produzidas pela conduta militar de Israel.
Ao mesmo tempo, as autoridades militares israelenses intensificaram a destruição de terras agrícolas em toda a Cisjordânia. Uma ordem emitida para Kufr Malik, a leste de Ramallah, autorizou o exército a arrancar vegetação, incluindo oliveiras centenárias, sob o pretexto de “segurança e visibilidade”. A ordem entrou em vigor imediatamente, dando aos proprietários de terras apenas 24 horas para apresentar objeções por meio da Diretoria de Ligação e Coordenação. Ao sul de Nablus, sua implementação resultou no arrancamento de mais de 150 oliveiras.
Em alguns casos, os proprietários de terras palestinos chegaram a pedir para arrancar as árvores eles mesmos, numa tentativa de minimizar os danos. O exército rejeita rotineiramente esses pedidos. Os palestinos suspeitam que as árvores arrancadas acabam sendo transferidas para assentamentos israelenses.
Em 21 de abril, colonos israelenses invadiram a vila de Al-Mughayyir durante as provas escolares, atirando em direção às salas de aula e matando Aws Hamdi al-Naasan, de 14 anos, e Jihad Marzouq Abu Naim, de 32 anos. Testemunhas descreveram estudantes caindo no chão quando as balas atingiram o prédio. Moradores disseram que soldados acompanharam os colonos, contradizendo a alegação do exército israelense de que as tropas chegaram somente depois que civis abriram fogo após um suposto incidente com pedras.
Naquele mesmo dia, Mohammad Ali al-Jabari, de dezesseis anos, foi morto perto de Hebron quando um veículo da escolta de segurança da ministra israelense dos Assentamentos, Orit Strook, o atropelou enquanto ele atravessava a Rodovia 60 de bicicleta, a caminho da escola. A estrada, fechada para palestinos desde a guerra em Gaza, obriga os estudantes a enfrentar um tráfego rápido e imprevisível.
Também em 21 de abril, Ouda Atef Ouda Awawda, de 29 anos, pai de gêmeas recém-nascidas, morreu após ser baleado pelas costas durante um ataque de colonos a Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Colonos armados, acompanhados por forças israelenses, abriram fogo contra moradores e casas nos arredores da cidade. As forças israelenses então bloquearam a entrada principal e realizaram prisões em massa, detendo cerca de 30 pessoas.
Em 22 de abril, um ataque aéreo israelense no norte da Faixa de Gaza matou cinco palestinos, incluindo três crianças. Outro ataque aéreo no mesmo dia matou a jornalista libanesa Amal Khalil e feriu um colega enquanto trabalhavam perto da fronteira com Israel, em um ataque que atingiu uma casa na cidade de al-Tiri.
A violência dos colonos na Área C tem assumido formas cada vez mais sexualizadas e direcionadas a questões de gênero , criando condições coercitivas que levam as comunidades palestinas ao deslocamento. Entrevistas e monitoramento de campo documentam assédio, ameaças de estupro, nudez forçada, humilhação sexual e invasões domiciliares.
Mulheres e meninas enfrentam perigos ainda maiores, enquanto homens e meninos também são submetidos a abusos sexuais e tratamentos degradantes, muitas vezes na presença de forças israelenses que não intervêm. Isso se soma às restrições de movimento, ao declínio econômico, às demolições de casas e à expansão dos assentamentos. Mais de 70% das famílias deslocadas citaram as ameaças a mulheres e crianças como o fator decisivo para o abandono do assentamento, evidenciando como a violência de gênero influencia as decisões sobre a permanência das famílias em suas terras.
O deslocamento transforma a vida cotidiana e o bem-estar da comunidade. As famílias restringem a liberdade de movimento das mulheres, enviam mulheres e crianças para longe em realocações parciais, dependem das crianças para tarefas arriscadas e, às vezes, arranjam casamentos precoces para afastar as meninas do perigo. Após a partida, as famílias frequentemente vivem em locais superlotados e inseguros, com serviços limitados. As mulheres perdem a renda ligada à terra e à criação de animais, enquanto as crianças sofrem traumas, têm sua educação interrompida e perdem espaços seguros. Os homens enfrentam riscos maiores de prisão, detenção e violência letal, agravando a tensão familiar. Essas pressões, em conjunto, contribuem para condições que configuram transferência forçada.
Embora as autoridades israelenses insistam em retratar o exército como "o exército mais moral do mundo", investigações e depoimentos também destacam saques generalizados cometidos por soldados israelenses. Relatos da Síria, Líbano, Gaza e Cisjordânia descrevem roubos de dinheiro, joias e dispositivos eletrônicos, com os itens roubados sendo posteriormente vendidos no Telegram, Facebook ou em mercados públicos. Amigos e parentes relatam que soldados levaram dinheiro durante invasões domiciliares ou em postos de controle; em um caso, uma família relatou o desaparecimento de dinheiro após uma busca, mas sua queixa foi ignorada.
Os colonos também estão envolvidos no saque de propriedades para construir colônias agrícolas em terras roubadas. Em 12 de fevereiro de 2025, colonos, protegidos pelo exército israelense, roubaram gado palestino na Cisjordânia, incluindo 800 ovelhas na vila de Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Em Al Mughayyir, roubaram 170 ovelhas, assim como em outras vilas de Yabrud e Jifna, uma prática generalizada e rotineira.
Essas práticas remetem à Nakba, quando a Haganá e outras milícias sionistas destruíram, confiscaram e saquearam sistematicamente propriedades palestinas, incluindo casas, bibliotecas, arquivos e coleções pessoais. Unidades armadas também saquearam residências particulares, levando joias, móveis, roupas e outros pertences, enquanto ocupavam, expropriavam ou destruíam bens imóveis.
Soldados israelenses que serviram no Líbano disseram ao Haaretz que saques se tornaram rotina durante as operações na região, descrevendo unidades invadindo casas, roubando objetos de valor e vandalizando propriedades com o pleno conhecimento de seus comandantes. Os oficiais frequentemente ignoravam ou toleravam implicitamente os roubos, criando uma atmosfera na qual os soldados se sentiam à vontade para levar dinheiro, eletrônicos e pertences pessoais das casas dos expulsos. Alguns soldados disseram estar perturbados com a escala da má conduta e a indiferença dos altos escalões, observando que as queixas eram ignoradas ou recebidas com silêncio e impunidade.
Desde 2 de março, as operações militares israelenses no Líbano mataram mais de 2 mil pessoas, incluindo profissionais de saúde e jornalistas, e feriram outras 6.588. A escalada do conflito deslocou mais de um milhão de pessoas, aproximadamente um quinto da população do Líbano, com cerca de 140.682 abrigadas em instalações superlotadas.
O relatório do Yesh Din, Roubo Uniformizado (agosto de 2025), documenta o saque generalizado e sistemático de dinheiro e propriedades de palestinos por soldados e forças de segurança israelenses na Cisjordânia, uma prática definida como crime de guerra pelo direito internacional. Com base em mais de duas décadas de monitoramento e depoimentos de 2022 a 2024, o relatório mostra como o roubo se intensificou desde 7 de outubro, tornando-se algo comum durante invasões domiciliares e buscas em postos de controle, facilitadas pela lei militar que concede amplos poderes e impunidade às forças de segurança. Essas ações de roubo se inserem em um sistema mais amplo de desapropriação e expropriação de terras.
As declarações de autoridades israelenses também refletem ambições territoriais expansivas. Em entrevista à i24 em 12 de agosto de 2025, Netanyahu descreveu-se como estando em uma “missão histórica e espiritual”, expressando apego à visão de um Grande Israel que se estenda além das fronteiras atuais. Outras autoridades, incluindo o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, fizeram coro com aspirações semelhantes.
Essas ambições também são visíveis na Palestina histórica. Em 7 de novembro de 2025, Ben Gvir supervisionou pessoalmente a demolição de casas palestinas no Naqab (Negev), alegando que haviam sido construídas sem licença. Ao ser confrontado por um morador, declarou : “Lentamente, mas com certeza, estamos retomando as terras do Negev”. A Autoridade Fundiária de Israel tem utilizado cada vez mais inteligência artificial e vigilância aérea para identificar o que considera “estruturas não autorizadas”, possibilitando ordens de demolição rápidas.
Em toda a região, Israel impôs novos regimes territoriais. No sul do Líbano, as forças israelenses estabeleceram uma "Linha Amarela" de 10 km de profundidade, apresentada como uma medida de segurança, mas acompanhada de demolições, bombardeios e ataques aéreos que, segundo críticos, consolidam o controle a longo prazo.
Em Gaza, uma “linha amarela” indefinida, imposta após o cessar-fogo de outubro de 2025, tornou-se um mecanismo para o deslocamento contínuo de pessoas. O chefe do Estado-Maior de Israel a descreveu como “uma nova linha de fronteira”, apesar de sua invisibilidade e da falta de demarcação clara. Israel permanece estacionado em mais de 58% da Faixa de Gaza, continuando os ataques ao longo dessa linha e impedindo que os palestinos deslocados retornem para suas casas.
Os saques, roubos, destruição e deslocamentos documentados devem ser compreendidos dentro da trajetória mais longa do projeto sionista, que estabeleceu um Estado em terras roubadas e propriedades apropriadas.
À medida que Israel expande seu alcance territorial por meio da expropriação de terras no Líbano, na Síria e em toda a Palestina histórica, o saque de casas e pertences torna-se não incidental, mas instrumental, mobiliando espaços recém-conquistados e reforçando um sistema construído sobre a desapropriação. Crimes de guerra não reconhecidos. Como em outros contextos de colonialismo de povoamento, a chamada missão civilizadora opera como um projeto de desapropriação e destruição da população indígena.
Suas declarações coincidiram com um relatório da ONU Mulheres que estimava que, até dezembro de 2025, mais de 38.000 mulheres e meninas haviam sido mortas em Gaza, sendo mais de 22.000 mulheres e 16.000 meninas. Esses números representam uma mudança drástica em relação às ofensivas anteriores em Gaza, onde mulheres e meninas representavam 15% das mortes em 2008-2009 e 22% em 2014.
Um ex-soldado israelense, entrevistado pelo Haaretz, descreveu seu retorno de Gaza sob aclamação pública como um "herói", mesmo enquanto lutava contra um profundo trauma moral. Seu depoimento relata o assassinato de palestinos desarmados, os maus-tratos a detidos e uma cultura generalizada de impunidade que normalizava o uso excessivo da força e a humilhação. O abismo entre a celebração pública e a violência que testemunhou o fez sentir-se monstruoso em vez de heróico, revelando as fraturas psicológicas e éticas produzidas pela conduta militar de Israel.
Ao mesmo tempo, as autoridades militares israelenses intensificaram a destruição de terras agrícolas em toda a Cisjordânia. Uma ordem emitida para Kufr Malik, a leste de Ramallah, autorizou o exército a arrancar vegetação, incluindo oliveiras centenárias, sob o pretexto de “segurança e visibilidade”. A ordem entrou em vigor imediatamente, dando aos proprietários de terras apenas 24 horas para apresentar objeções por meio da Diretoria de Ligação e Coordenação. Ao sul de Nablus, sua implementação resultou no arrancamento de mais de 150 oliveiras.
Em alguns casos, os proprietários de terras palestinos chegaram a pedir para arrancar as árvores eles mesmos, numa tentativa de minimizar os danos. O exército rejeita rotineiramente esses pedidos. Os palestinos suspeitam que as árvores arrancadas acabam sendo transferidas para assentamentos israelenses.
Em 21 de abril, colonos israelenses invadiram a vila de Al-Mughayyir durante as provas escolares, atirando em direção às salas de aula e matando Aws Hamdi al-Naasan, de 14 anos, e Jihad Marzouq Abu Naim, de 32 anos. Testemunhas descreveram estudantes caindo no chão quando as balas atingiram o prédio. Moradores disseram que soldados acompanharam os colonos, contradizendo a alegação do exército israelense de que as tropas chegaram somente depois que civis abriram fogo após um suposto incidente com pedras.
Naquele mesmo dia, Mohammad Ali al-Jabari, de dezesseis anos, foi morto perto de Hebron quando um veículo da escolta de segurança da ministra israelense dos Assentamentos, Orit Strook, o atropelou enquanto ele atravessava a Rodovia 60 de bicicleta, a caminho da escola. A estrada, fechada para palestinos desde a guerra em Gaza, obriga os estudantes a enfrentar um tráfego rápido e imprevisível.
Também em 21 de abril, Ouda Atef Ouda Awawda, de 29 anos, pai de gêmeas recém-nascidas, morreu após ser baleado pelas costas durante um ataque de colonos a Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Colonos armados, acompanhados por forças israelenses, abriram fogo contra moradores e casas nos arredores da cidade. As forças israelenses então bloquearam a entrada principal e realizaram prisões em massa, detendo cerca de 30 pessoas.
Em 22 de abril, um ataque aéreo israelense no norte da Faixa de Gaza matou cinco palestinos, incluindo três crianças. Outro ataque aéreo no mesmo dia matou a jornalista libanesa Amal Khalil e feriu um colega enquanto trabalhavam perto da fronteira com Israel, em um ataque que atingiu uma casa na cidade de al-Tiri.
A violência dos colonos na Área C tem assumido formas cada vez mais sexualizadas e direcionadas a questões de gênero , criando condições coercitivas que levam as comunidades palestinas ao deslocamento. Entrevistas e monitoramento de campo documentam assédio, ameaças de estupro, nudez forçada, humilhação sexual e invasões domiciliares.
Mulheres e meninas enfrentam perigos ainda maiores, enquanto homens e meninos também são submetidos a abusos sexuais e tratamentos degradantes, muitas vezes na presença de forças israelenses que não intervêm. Isso se soma às restrições de movimento, ao declínio econômico, às demolições de casas e à expansão dos assentamentos. Mais de 70% das famílias deslocadas citaram as ameaças a mulheres e crianças como o fator decisivo para o abandono do assentamento, evidenciando como a violência de gênero influencia as decisões sobre a permanência das famílias em suas terras.
O deslocamento transforma a vida cotidiana e o bem-estar da comunidade. As famílias restringem a liberdade de movimento das mulheres, enviam mulheres e crianças para longe em realocações parciais, dependem das crianças para tarefas arriscadas e, às vezes, arranjam casamentos precoces para afastar as meninas do perigo. Após a partida, as famílias frequentemente vivem em locais superlotados e inseguros, com serviços limitados. As mulheres perdem a renda ligada à terra e à criação de animais, enquanto as crianças sofrem traumas, têm sua educação interrompida e perdem espaços seguros. Os homens enfrentam riscos maiores de prisão, detenção e violência letal, agravando a tensão familiar. Essas pressões, em conjunto, contribuem para condições que configuram transferência forçada.
Embora as autoridades israelenses insistam em retratar o exército como "o exército mais moral do mundo", investigações e depoimentos também destacam saques generalizados cometidos por soldados israelenses. Relatos da Síria, Líbano, Gaza e Cisjordânia descrevem roubos de dinheiro, joias e dispositivos eletrônicos, com os itens roubados sendo posteriormente vendidos no Telegram, Facebook ou em mercados públicos. Amigos e parentes relatam que soldados levaram dinheiro durante invasões domiciliares ou em postos de controle; em um caso, uma família relatou o desaparecimento de dinheiro após uma busca, mas sua queixa foi ignorada.
Os colonos também estão envolvidos no saque de propriedades para construir colônias agrícolas em terras roubadas. Em 12 de fevereiro de 2025, colonos, protegidos pelo exército israelense, roubaram gado palestino na Cisjordânia, incluindo 800 ovelhas na vila de Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Em Al Mughayyir, roubaram 170 ovelhas, assim como em outras vilas de Yabrud e Jifna, uma prática generalizada e rotineira.
Essas práticas remetem à Nakba, quando a Haganá e outras milícias sionistas destruíram, confiscaram e saquearam sistematicamente propriedades palestinas, incluindo casas, bibliotecas, arquivos e coleções pessoais. Unidades armadas também saquearam residências particulares, levando joias, móveis, roupas e outros pertences, enquanto ocupavam, expropriavam ou destruíam bens imóveis.
Soldados israelenses que serviram no Líbano disseram ao Haaretz que saques se tornaram rotina durante as operações na região, descrevendo unidades invadindo casas, roubando objetos de valor e vandalizando propriedades com o pleno conhecimento de seus comandantes. Os oficiais frequentemente ignoravam ou toleravam implicitamente os roubos, criando uma atmosfera na qual os soldados se sentiam à vontade para levar dinheiro, eletrônicos e pertences pessoais das casas dos expulsos. Alguns soldados disseram estar perturbados com a escala da má conduta e a indiferença dos altos escalões, observando que as queixas eram ignoradas ou recebidas com silêncio e impunidade.
Desde 2 de março, as operações militares israelenses no Líbano mataram mais de 2 mil pessoas, incluindo profissionais de saúde e jornalistas, e feriram outras 6.588. A escalada do conflito deslocou mais de um milhão de pessoas, aproximadamente um quinto da população do Líbano, com cerca de 140.682 abrigadas em instalações superlotadas.
O relatório do Yesh Din, Roubo Uniformizado (agosto de 2025), documenta o saque generalizado e sistemático de dinheiro e propriedades de palestinos por soldados e forças de segurança israelenses na Cisjordânia, uma prática definida como crime de guerra pelo direito internacional. Com base em mais de duas décadas de monitoramento e depoimentos de 2022 a 2024, o relatório mostra como o roubo se intensificou desde 7 de outubro, tornando-se algo comum durante invasões domiciliares e buscas em postos de controle, facilitadas pela lei militar que concede amplos poderes e impunidade às forças de segurança. Essas ações de roubo se inserem em um sistema mais amplo de desapropriação e expropriação de terras.
As declarações de autoridades israelenses também refletem ambições territoriais expansivas. Em entrevista à i24 em 12 de agosto de 2025, Netanyahu descreveu-se como estando em uma “missão histórica e espiritual”, expressando apego à visão de um Grande Israel que se estenda além das fronteiras atuais. Outras autoridades, incluindo o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, fizeram coro com aspirações semelhantes.
Essas ambições também são visíveis na Palestina histórica. Em 7 de novembro de 2025, Ben Gvir supervisionou pessoalmente a demolição de casas palestinas no Naqab (Negev), alegando que haviam sido construídas sem licença. Ao ser confrontado por um morador, declarou : “Lentamente, mas com certeza, estamos retomando as terras do Negev”. A Autoridade Fundiária de Israel tem utilizado cada vez mais inteligência artificial e vigilância aérea para identificar o que considera “estruturas não autorizadas”, possibilitando ordens de demolição rápidas.
Em toda a região, Israel impôs novos regimes territoriais. No sul do Líbano, as forças israelenses estabeleceram uma "Linha Amarela" de 10 km de profundidade, apresentada como uma medida de segurança, mas acompanhada de demolições, bombardeios e ataques aéreos que, segundo críticos, consolidam o controle a longo prazo.
Em Gaza, uma “linha amarela” indefinida, imposta após o cessar-fogo de outubro de 2025, tornou-se um mecanismo para o deslocamento contínuo de pessoas. O chefe do Estado-Maior de Israel a descreveu como “uma nova linha de fronteira”, apesar de sua invisibilidade e da falta de demarcação clara. Israel permanece estacionado em mais de 58% da Faixa de Gaza, continuando os ataques ao longo dessa linha e impedindo que os palestinos deslocados retornem para suas casas.
Os saques, roubos, destruição e deslocamentos documentados devem ser compreendidos dentro da trajetória mais longa do projeto sionista, que estabeleceu um Estado em terras roubadas e propriedades apropriadas.
À medida que Israel expande seu alcance territorial por meio da expropriação de terras no Líbano, na Síria e em toda a Palestina histórica, o saque de casas e pertences torna-se não incidental, mas instrumental, mobiliando espaços recém-conquistados e reforçando um sistema construído sobre a desapropriação. Crimes de guerra não reconhecidos. Como em outros contextos de colonialismo de povoamento, a chamada missão civilizadora opera como um projeto de desapropriação e destruição da população indígena.
O que nos lembra a maior tragédia trabalhista do Brasil
Há datas que não se limitam à celebração, mas exigem elaboração. O 1º de maio, Dia do Trabalhador, é uma delas. Mais do que rememorar conquistas históricas dos trabalhadores, essa data nos provoca a interrogar as condições concretas em que as atividades profissionais se realizam hoje e, sobretudo, o quanto a perda de vidas ainda faz parte do funcionamento do nosso sistema produtivo e de consumo.
Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale S.A., na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, interrompeu 272 vidas. Destas, 250 estavam trabalhando na hora da tragédia. Esse dado desloca a compreensão do ocorrido: não se trata apenas de um dos maiores desastres humanitários e ambientais do Brasil, mas, também, da maior tragédia laboral da história do país.
Nos anos seguintes ao rompimento, foi erguido, em frente ao local da barragem e da mancha da lama de rejeito, o Memorial Brumadinho. Mais do que um espaço de homenagem às Joias, como são chamadas as vítimas fatais da tragédia, o local, gerido pela Fundação Memorial de Brumadinho, constitui-se como território de memória viva, onde o luto se articula à exigência de justiça e à construção de consciência pública.
A existência desse espaço tem como origem a atuação da AVABRUM, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão. Desde os dias seguintes à tragédia, a associação se tornou protagonista na luta coletiva por direitos, reunindo uma maioria feminina de mães, viúvas, filhas e irmãs enlutadas, que se mobilizaram em busca de respostas. Ao reivindicarem não apenas compromissos institucionais, mas a memória como um direito coletivo, a AVABRUM transformou a dor e o luto em ação – e tornou possível a existência do Memorial.
Os dados contemporâneos sobre acidentes de trabalho no Brasil tornam essa memória ainda mais urgente. Em 2025, o país registrou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes – o maior número da série histórica recente. Trata-se de uma média superior a 2 mil acidentes por dia e de dezenas de mortes por semana. Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2012 e 2024, foram registrados mais de 8,8 milhões de acidentes e notificadas 32 mil mortes em decorrência do trabalho no Brasil.
Esses números, já alarmantes, ainda são subestimados. A subnotificação, especialmente no trabalho informal, oculta uma parcela significativa dessa realidade. No plano mundial, a dimensão é ainda mais contundente. A Organização Internacional do Trabalho estima que quase 3 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Trata-se de uma crise contínua, que atravessa fronteiras e modelos econômicos.
Diante desse cenário, o Memorial Brumadinho não se limita a narrar o passado. Ele tensiona o presente. Ao articular cultura, arquitetura e meio ambiente, o Memorial constrói uma experiência que convida à reflexão e à ação. Os nomes das vítimas fatais, inscritos na Fenda, que atravessa o terreno do museu-memorial, restituem a dimensão humana do que frequentemente se dilui em estatísticas. Somados às fotos e aos objetos pessoais reunidos na sala Memória, cada nome e rosto ali presentes afirmam que não houve fatalidade, mas escolhas, negligência e estruturas que permitiram que essas mortes acontecessem.
Memoriais são, essencialmente, espaços erguidos contra o esquecimento, mas também contra a naturalização da barbárie. No 1º de maio, essa dimensão se torna incontornável. Celebrar o trabalho sem enfrentar suas condições reais é perpetuar uma contradição histórica. Em um país onde os acidentes crescem de forma consistente e atingem níveis recordes, é necessário deslocar o debate: não se trata apenas de garantir acesso ao trabalho, mas de assegurar que ele não seja um vetor de morte.
O Memorial Brumadinho nasce, precisamente, para interromper essa naturalização. Ele se recusa a tratar o desastre como episódio, como acidente ou como passado. Sua função, além de recordar, é denunciar o que se estende no presente. Ele expõe o óbvio que tantas vezes se tenta encobrir: a lama não inaugurou nada; ela apenas revelou um processo histórico de negligência, ganância e descaso com a vida.
Nos marcos dessa leitura, a memória deixa de ser homenagem e se torna resistência geontológica – um gesto ético contra a lógica que coloca a terra, a água e certos corpos no lado dos “não viventes”, como escreve Elizabeth Povinelli, disponíveis à exploração total. Portanto, lembrar é, em Brumadinho, reordenar o mundo; é devolver às vidas perdidas o estatuto que lhes foi negado antes mesmo do rompimento.
Povinelli nos lembra que algumas catástrofes não começam no dia em que rompem. Elas são ancestrais: longas, subterrâneas, feitas de séculos de decisões e classificações que decretam quem pode viver, quem pode morrer, o que pode ser explorado e o que pode ser descartado. São desastres que não têm data exata – têm regimes. E Brumadinho, antes da lama, já era sintoma.
O Memorial se insere, assim, em uma tradição de espaços que transformam o luto, a dor e a exploração em ação pública. Ele não oferece respostas fáceis. Sustenta a complexidade da dor e a converte em pergunta: que modelo de desenvolvimento estamos dispostos a aceitar? Um questionamento que não diz respeito apenas a Brumadinho, mas atravessa o Brasil e o mundo.
Ao longo da história, o 1º de maio foi marcado por lutas que ampliaram direitos e redefiniram limites para a exploração do trabalho. Hoje, talvez seja necessário recolocar no centro dessa agenda uma questão elementar: o direito à vida; o direito de não morrer no trabalho.
Nesse sentido, o Memorial não é apenas um lugar de memória. É um marco ético. Ele afirma que nenhum projeto de desenvolvimento pode se sustentar sobre a perda de vidas. E que a memória, quando compartilhada, tem a potência de transformar não apenas a forma como lembramos o passado, mas a maneira como decidimos o futuro.
Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale S.A., na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, interrompeu 272 vidas. Destas, 250 estavam trabalhando na hora da tragédia. Esse dado desloca a compreensão do ocorrido: não se trata apenas de um dos maiores desastres humanitários e ambientais do Brasil, mas, também, da maior tragédia laboral da história do país.
Nos anos seguintes ao rompimento, foi erguido, em frente ao local da barragem e da mancha da lama de rejeito, o Memorial Brumadinho. Mais do que um espaço de homenagem às Joias, como são chamadas as vítimas fatais da tragédia, o local, gerido pela Fundação Memorial de Brumadinho, constitui-se como território de memória viva, onde o luto se articula à exigência de justiça e à construção de consciência pública.
A existência desse espaço tem como origem a atuação da AVABRUM, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão. Desde os dias seguintes à tragédia, a associação se tornou protagonista na luta coletiva por direitos, reunindo uma maioria feminina de mães, viúvas, filhas e irmãs enlutadas, que se mobilizaram em busca de respostas. Ao reivindicarem não apenas compromissos institucionais, mas a memória como um direito coletivo, a AVABRUM transformou a dor e o luto em ação – e tornou possível a existência do Memorial.
Os dados contemporâneos sobre acidentes de trabalho no Brasil tornam essa memória ainda mais urgente. Em 2025, o país registrou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes – o maior número da série histórica recente. Trata-se de uma média superior a 2 mil acidentes por dia e de dezenas de mortes por semana. Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2012 e 2024, foram registrados mais de 8,8 milhões de acidentes e notificadas 32 mil mortes em decorrência do trabalho no Brasil.
Esses números, já alarmantes, ainda são subestimados. A subnotificação, especialmente no trabalho informal, oculta uma parcela significativa dessa realidade. No plano mundial, a dimensão é ainda mais contundente. A Organização Internacional do Trabalho estima que quase 3 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Trata-se de uma crise contínua, que atravessa fronteiras e modelos econômicos.
Diante desse cenário, o Memorial Brumadinho não se limita a narrar o passado. Ele tensiona o presente. Ao articular cultura, arquitetura e meio ambiente, o Memorial constrói uma experiência que convida à reflexão e à ação. Os nomes das vítimas fatais, inscritos na Fenda, que atravessa o terreno do museu-memorial, restituem a dimensão humana do que frequentemente se dilui em estatísticas. Somados às fotos e aos objetos pessoais reunidos na sala Memória, cada nome e rosto ali presentes afirmam que não houve fatalidade, mas escolhas, negligência e estruturas que permitiram que essas mortes acontecessem.
Memoriais são, essencialmente, espaços erguidos contra o esquecimento, mas também contra a naturalização da barbárie. No 1º de maio, essa dimensão se torna incontornável. Celebrar o trabalho sem enfrentar suas condições reais é perpetuar uma contradição histórica. Em um país onde os acidentes crescem de forma consistente e atingem níveis recordes, é necessário deslocar o debate: não se trata apenas de garantir acesso ao trabalho, mas de assegurar que ele não seja um vetor de morte.
O Memorial Brumadinho nasce, precisamente, para interromper essa naturalização. Ele se recusa a tratar o desastre como episódio, como acidente ou como passado. Sua função, além de recordar, é denunciar o que se estende no presente. Ele expõe o óbvio que tantas vezes se tenta encobrir: a lama não inaugurou nada; ela apenas revelou um processo histórico de negligência, ganância e descaso com a vida.
Nos marcos dessa leitura, a memória deixa de ser homenagem e se torna resistência geontológica – um gesto ético contra a lógica que coloca a terra, a água e certos corpos no lado dos “não viventes”, como escreve Elizabeth Povinelli, disponíveis à exploração total. Portanto, lembrar é, em Brumadinho, reordenar o mundo; é devolver às vidas perdidas o estatuto que lhes foi negado antes mesmo do rompimento.
Povinelli nos lembra que algumas catástrofes não começam no dia em que rompem. Elas são ancestrais: longas, subterrâneas, feitas de séculos de decisões e classificações que decretam quem pode viver, quem pode morrer, o que pode ser explorado e o que pode ser descartado. São desastres que não têm data exata – têm regimes. E Brumadinho, antes da lama, já era sintoma.
O Memorial se insere, assim, em uma tradição de espaços que transformam o luto, a dor e a exploração em ação pública. Ele não oferece respostas fáceis. Sustenta a complexidade da dor e a converte em pergunta: que modelo de desenvolvimento estamos dispostos a aceitar? Um questionamento que não diz respeito apenas a Brumadinho, mas atravessa o Brasil e o mundo.
Ao longo da história, o 1º de maio foi marcado por lutas que ampliaram direitos e redefiniram limites para a exploração do trabalho. Hoje, talvez seja necessário recolocar no centro dessa agenda uma questão elementar: o direito à vida; o direito de não morrer no trabalho.
Nesse sentido, o Memorial não é apenas um lugar de memória. É um marco ético. Ele afirma que nenhum projeto de desenvolvimento pode se sustentar sobre a perda de vidas. E que a memória, quando compartilhada, tem a potência de transformar não apenas a forma como lembramos o passado, mas a maneira como decidimos o futuro.
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