domingo, 17 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Um dia, a verdade da guerra aparece

O New York Times não é um grande jornal qualquer. Ainda hoje, aos 175 anos bem vividos, continua sendo leitura obrigatória pelo alcance global do que publica. Nicholas Kristof tampouco é um colunista qualquer. Sua carreira de mais de quatro décadas no jornalão já lhe valeu dois prêmios Pulitzer e reconhecida credibilidade mundo afora. Daí a reação do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ao longo artigo de Kristof publicado no domingo passado sob o título “O silêncio acompanha o estupro de palestinos”. Diante do que chamou de “uma das mentiras mais hediondas e distorcidas já publicadas contra Israel na imprensa moderna”, Netanyahu anunciou que processará o jornal por difamação.


Caso a ação judicial venha de fato a ser apresentada (poucos consideram provável), teremos um embate histórico pela verdade. As consequências de uma investigação judicial podem mudar a imagem que Israel tem de si, e a imagem que o mundo do pós-Segunda Guerra tinha de Israel. Isso porque, para rebater as alegações contidas no artigo, o país teria de abrir suas prisões, seus porões, suas práticas prisionais a inspetores independentes.

Na outra ponta do embate, estaria em jogo a credibilidade do New York Times, a biografia de Kristof e, de certa forma, o já tão vilipendiado exercício do jornalismo.

O colunista conta ter entrevistado 14 ex-detentos palestinos (homens e mulheres) que relataram ter sido submetidos a violências sexuais generalizadas por soldados, guardas prisionais, interrogadores ou colonos israelenses. Kristof diz não haver “evidência de que autoridades israelenses ordenassem estupros”, mas soma sua voz à de um relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre Gaza, segundo o qual autoridades israelenses montaram um “aparelho de segurança em que a violência sexual se tornou um dos procedimentos operacionais padrão”.

Anteriormente, entidades como Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Save the Children, B’Tselem, Breaking the Silence (que há 21 anos agrupa denunciantes das próprias Forças de Defesa de Israel ) e Euro-Med Human Rights Monitor têm documentado alegações de humilhações sexuais e torturas de amplo espectro. Rebatidos pela eficiente máquina de propaganda do Estado judeu por disseminar antissemitismo e ódio a Israel, esses relatórios costumavam ser minimizados. Da mesma forma que os dados sobre a dizimação da população palestina de Gaza produzidos pelo Ministério da Saúde sob controle do Hamas foram longamente tachados de fantasiosos por Israel.

Desta vez, a operação abafa colocada em marcha procurou desacreditar o valor dos testemunhos por se originarem de militantes palestinos interessados em difamar Israel. O primeiro erro dessa linha de acusação é factual: no artigo de Kristof, parte das testemunhas levava uma vida de palestino comum, não militante. O segundo erro é de natureza moral: sendo filiados ao Hamas ou militantes a favor da Palestina, merecem então qualquer tratamento ignóbil?

Tome-se o exemplo do jornalista freelancer Sami al-Sai, de Gaza, que relatou ter sido imobilizado, despido, vendado, algemado e filmado enquanto era “montado” por um cão adestrado. O fato de al-Sai ter festejado como triunfo palestino o massacre de israelenses por terroristas do Hamas no infame 7 de Outubro de 2023 justifica ele ser sexualmente humilhado por um cão, quando sob custódia do Estado?

No dia seguinte à publicação do artigo de Kristof, Israel divulgou o aguardado relatório sobre a violência sexual cometida pelos terroristas durante o 7 de Outubro. A Comissão Civil sobre os Crimes do Hamas contra Mulheres e Crianças trabalhou nele por dois anos e concluiu que atos de estupro e humilhação sexual de todo tipo ocorreram naquele dia, com prolongamento no período de cativeiro dos reféns. São centenas de depoimentos, vídeos e fotos que descrevem brutalidades infinitas, mas omitem identificações e limitam a transparência, em parte para resguardar as vítimas.

Há uma diferença crucial entre os dois levantamentos: o relatório da Comissão trata de crimes sexuais cometidos por uma organização terrorista (Hamas) que praticou crimes horrendos contra civis; a apuração de Kristof, somada à das entidades citadas, trata de denúncias de tortura sistemática praticada por agentes do Estado ou acobertados pelo Estado de Israel. Dois meses atrás, quando a atenção mundial se situava na guerra contra o Irã, o Tribunal Militar israelense rejeitou as acusações contra os cinco últimos soldados que respondiam por uma selvagem agressão sexual que se tornou notória em 2024. Dez soldados e um cão haviam participado da violência contra um detento, que sofreu laceração no reto, e foi captada parcialmente por uma câmera interna.

À época, 67% dos israelenses se declararam contrários ao julgamento dos acusados. Yoel Donchin, anestesista do hospital adjacente à prisão de Sde Teiman, onde teria ocorrido o crime, teve a humanidade de relatar o que viu. Coragem é a resistência ao medo, não ausência de medo.
Dorrit Harazim

Flávio Bolsonaro apela à Bíblia e insiste que sonho presidencial não acabou

Não teve dancinha, mas teve citação bíblica, pregação patriótica e exaltação à figura do pai. Na noite de sexta-feira, Flávio Bolsonaro fez o primeiro discurso após a revelação de seus negócios com Daniel Vorcaro. Cercado de aliados, tentou passar a mensagem de que o sonho presidencial não acabou.

“Vocês não fazem ideia da minha alegria de estar aqui hoje”, iniciou o Zero Um. “Acordei com um versículo da Bíblia: quem é fraco numa dificuldade é realmente fraco. Nessas veias aqui, tem sangue de Bolsonaro. E eu estou mais motivado do que nunca”, emendou, apontando para o braço direito e segurando uma bandeira do Brasil.


Flávio estava em Campinas, cidade do interior paulista que deu 56% dos votos ao capitão em 2022. Participava do lançamento da candidatura ao Senado de Guilherme Derrite, prócer da bancada da bala que conseguiu ser expulso da Rota por excesso de violência.

“Quando a verdade está do nosso lado, quando a gente sabe que fez a coisa certa, isso nos motiva”, discursou Flávio. Foi a senha para entrar no assunto da semana: seu pedido de R$ 135 milhões a Vorcaro, a pretexto de financiar um longa-metragem sobre o Jair Bolsonaro. “Fazer filme tá na moda, gente”, disse o senador, sem corar. “O Bolsonaro merece ou não merece um filme? Merece. E a gente vai fazer”, finalizou.

Os diálogos publicados pelo Intercept Brasil podem ter sido apenas o início dos problemas do pré-candidato do PL. Antes de chegar a Campinas, Flávio admitiu à CNN Brasil que novos registros de sua relação com o banqueiro devem vir à tona. “Pode vazar um videozinho, algum encontro que eu possa ter tido com ele... foi tudo para tratar sobre o filme”, defendeu-se.

Até aqui, as explicações só convencem quem quer ser convencido. A produtora americana do longa afirmou não ter recebido um “único centavo” de Vorcaro. O deputado Mário Frias usou a mesma expressão, mas voltou atrás ao ser cobrado pelo grupo de Flávio. “Não há contradição material entre os posicionamentos”, desconversou o ex-galã de “Malhação” e “Floribella”.

A Polícia Federal apura se o filme dos Bolsonaros foi usado para lavar dinheiro. Só a bolada pedida ao banqueiro pagaria três vezes “Ainda estou aqui”, vencedor do Oscar em 2025. Quem enfrentou o trailer de “Dark horse” sabe que a única semelhança entre as produções é a presença de atores diante de uma câmera.

Nem o roteirista mais criativo poderia imaginar uma semana tão amarga para o filho de Jair. Na terça-feira, a Polícia Federal fez operação contra o “vice dos sonhos” Ciro Nogueira, suspeito de receber mesada de R$ 500 mil de Vorcaro. A ação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, indicado pelo capitão ao Supremo. Na quarta, o país conheceu a fraternidade de Flávio com o banqueiro preso. Na sexta, a PF bateu à porta de Cláudio Castro, o ex-governador bolsonarista do Rio.

No ato de Campinas, o Zero Um se mostrou confiante de que nada disso abalará o projeto do clã. “Essa bandeira jamais será vermelha”, discursou.

A munição de muitos

Fé, em vez de ser posta a serviço do ódio, deveria ser fonte de dinamismo

Dom Odilo Scherer

A gargalhada de Flávio eleva a mentira a um novo patamar de cinismo

A gargalhada que Flávio Bolsonaro deu diante da pergunta do repórter do site Intercept Brasil é daquelas cenas destinadas aos anais da política — evidentemente, não por engrandecê-la.

— Mentira. De onde você tirou isso? — disse o senador quando confrontado pelo jornalista com a informação de que o filme sobre Jair Bolsonaro havia sido financiado por Daniel Vorcaro.

Nas imagens, à disposição na internet, Flávio lança uma rápida olhada para as câmeras simulando incredulidade, então solta a risada de ator canastrão.

— Pelo amor de Deus — desdenha, virando as costas.


Quando, pouco mais tarde, teve de divulgar uma gravação desmentindo a si próprio, e à sua gargalhada, não se viu em seu rosto sinal de rubor nem se ouviu em sua fala menção à negativa de momentos antes:

— O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai — disse, agora consternado e cândido.

A negativa de Flávio, e sua gargalhada cenográfica, levaram a mentira a um novo patamar de cinismo —mas isso parece importar cada vez menos no Brasil.

Na reunião de emergência com sua equipe de campanha após o episódio, o pré-candidato à Presidência pelo PL jurou que nada mais aparecerá contra ele — no que, obviamente, ninguém acreditou. Os R$ 61 milhões que recebeu de Vorcaro, segundo Flávio para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, nunca chegaram à empresa responsável pelo longa, a Go Up, dizem os responsáveis. E o fato de ao menos parte desse dinheiro ter ido parar num fundo nos Estados Unidos, gerido pelo advogado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, tampouco ajuda a dirimir as suspeitas de que Flávio fingiu pedir dinheiro para fazer um filme sobre o pai, e Vorcaro fingiu acreditar que o desembolso era para isso mesmo.

Diante de tantos e escrachados descalabros, a candidatura de Flávio ainda não caiu. Integrantes da campanha dizem que a ideia é reavaliá-la na hipótese de um “evento catastrófico”, como se refere um deles à possibilidade de novas e graves revelações. Por via das dúvidas, Michelle Bolsonaro vem sendo testada em monitoramentos internos do PL como vice da senadora Tereza Cristina (PP) e aparecerá em pelo menos uma pesquisa pública na semana que vem como alternativa a Flávio. O plano B do PL, ainda que costurado com outros partidos, depende das duas opiniões que de fato contam: a de Jair Bolsonaro e a de Valdemar Costa Neto.

Sobre o primeiro, um político próximo diz que Jair não tem “condições nem psicológicas” de, preso, suportar a ideia de ver a mulher candidata — ao menos como titular da chapa. Valdemar se guia por um critério único e bem menos sentimental: vale o candidato, ou candidata, capaz de levar mais deputados ao partido (cem cadeiras na Câmara, sua meta, equivalem a R$ 1 bilhão em fundo partidário). Ele trabalhará para substituir Flávio apenas se a hipótese do “evento catastrófico” tornar o filho de Jair um elemento radioativo em vez de puxador de bancada.

Na mesma linha, especialistas em pesquisas de opinião avaliam que, nada mais acontecendo por ora, os próximos levantamentos não mostrarão uma queda de Flávio capaz de sepultar sua candidatura. Uma parcela do voto antipetista pode migrar para os pré-candidatos Romeu Zema, Ronaldo Caiado ou Renan Santos, mas, no curto prazo, os bolsonaristas tendem a engolir o que Flávio disser, e os indecisos continuarão preocupados mais com as contas por vencer que com corrupções e lorotas de políticos. É prova de que a mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade. A gargalhada de Flávio Bolsonaro mostra que ele sabe disso.

Lima Barreto e a corrupção sistêmica

"Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na Presidência da República, se alicerça no crime. Que acha você?".

A afirmação é do protagonista de "O Único Assassinato de Cazuza" (1922), um dos últimos textos de Lima Barreto. A questão da corrupção sistêmica no país já se colocava há mais de um século. Os tribunais superiores, no entanto, não figuravam na lista. Sim, Lima não apelou para a explicação superficial, culturalista (herança lusitana).


Se todos acreditam que a corrupção é a regra do jogo, ficamos presos a uma armadilha clássica. Se, ao contrário, prevalece a crença de que transações honestas são a norma, obedecer à lei torna-se a estratégia dominante. Quando práticas escusas são percebidas como regra, o ator que decide jogar limpo tende a ser o perdedor —e, no limite, não sobrevive. O incentivo, nessa situação, é jogar sujo, apostando que os demais farão o mesmo.

Se um cidadão ou empresário paga propina a um agente público — seja um fiscal, seja um parlamentar— esperando que a oferta seja aceita, o sistema se mantém em equilíbrio. A punição ocasional de alguns transgressores pode produzir mudanças parciais — em um setor, um ministério ou uma prefeitura. Mas, na ausência de um efeito manada, isto é, de um ponto de inflexão capaz de alterar expectativas de forma radical, o equilíbrio global tende a ser restaurado.

As evidências empíricas que sustentam a tese de que "a corrupção corrompe" (Shaul Shalvi) são numerosas e consistentes. Dados do Lapop/Vanderbilt mostram forte correlação entre a crença de que "a corrupção é generalizada" e a probabilidade de se considerar que "pagar propina é justificável". Daniel Gingerich e coautores demonstraram que a exposição à informação sobre o aumento da corrupção em um país elevou em 28% a propensão a pagar propina, em comparação com um grupo de controle não exposto a essa informação.

Não são "pecadillos" individuais que produzem a corrupção sistêmica. A causalidade opera no sentido oposto: a corrupção corrompe. Gächter e Schulz, em artigo publicado na Nature, encontram evidências, com base em uma amostra de 23 países, do impacto da grande corrupção sobre a pequena. Participantes oriundos de países com altos escores no Índice de Prevalência de Violação de Regras (PRV) —medida que captura grande corrupção, fraude política e evasão tributária— apresentaram maior propensão a se engajar em atos corruptos em experimentos de laboratório.

Fisman e Miguel, por sua vez, examinaram milhares de multas de estacionamento cometidas por funcionários de missões diplomáticas em Nova York — que gozavam de imunidade até 2002 — e encontraram forte correlação entre estacionamento ilegal e indicadores de corrupção nos países de origem dos diplomatas. Mesmo na ausência de qualquer punição, as normas sociais forjadas nos países de origem mostraram-se determinantes.

A lição a extrair para o Brasil é clara: é a grande corrupção que molda nossa sociabilidade e estimula as microtransgressões —não o contrário. "Se aqueles no andar de cima fazem, por que eu não posso fazer?" deixa de ser apenas uma pergunta retórica e passa a funcionar como máxima orientadora do comportamento social.

O paraíso não é para os humanos

Há alguns anos, no norte da ilha de Zanzibar, caminhava ao final da tarde por uma praia deserta quando deparei com um pequeno lodge construído em madeira, ligeiramente elevado sobre o mar. A arquitetura colonial, simples e elegante, parecia saída de outra época. A curiosidade levou-me a aproximar-me.

A vista era deslumbrante. Areia branca, água azul-turquesa, silêncio, palmeiras movidas lentamente pelo vento. Havia naquele lugar uma beleza tão absoluta que quase parecia excessiva. O proprietário encontrava-se ali. Ao perceber que eu era português, convidou-me para uma bebida. Conversámos, de forma tranquila e circunstancial, até que lhe perguntei algo que me parecia inevitável:

— Como é viver no paraíso?

Sorriu, olhou para o mar e respondeu com uma serenidade inesperada:

— Depois de algum tempo a olhar para a mesma vista todos os dias, já não é paraíso nenhum.

Nunca esqueci aquela frase.


Talvez porque nela exista uma verdade profundamente humana: habituamo-nos a tudo. Até à beleza. Até ao privilégio. Até à felicidade.

Vivemos frequentemente convencidos de que existe algures uma fórmula definitiva para a realização humana — um lugar ideal, um sistema perfeito, uma organização social capaz de satisfazer todos de forma duradoura. Mas a experiência humana raramente confirma essa ilusão. O que entusiasma uns, deixa outros indiferentes. O que hoje nos deslumbra torna-se amanhã rotina. O que para uma pessoa representa liberdade, para outra pode significar solidão. Nem sequer o paraíso parece resistir à repetição.

Talvez por isso me intrigue a tendência recorrente das sociedades modernas para procurarem soluções uniformes para realidades profundamente diferentes. Em nome da eficiência, da racionalidade ou da simplificação, multiplicam-se modelos únicos, métricas universais, padrões globais e formas cada vez mais homogéneas de avaliar pessoas, instituições e até modos de vida.

As cidades começam a parecer-se entre si. Os centros comerciais repetem-se em continentes diferentes. Os algoritmos sugerem os mesmos gostos, as mesmas músicas, os mesmos destinos, os mesmos comportamentos. As redes sociais criam uma estranha ilusão de individualidade dentro de uma crescente uniformização coletiva.

Também no ensino superior essa tendência se manifesta. Instituições com histórias, missões, culturas e contextos distintos são frequentemente pressionadas a convergir para modelos semelhantes, avaliadas através de indicadores padronizados que nem sempre compreendem a diversidade humana, territorial ou institucional que deveriam servir.

Porventura o problema esteja precisamente aí: na dificuldade em aceitar que os seres humanos não foram feitos para caber integralmente em modelos únicos.

A diversidade não é uma imperfeição dos sistemas. É uma consequência natural da condição humana. As pessoas procuram coisas diferentes, vivem de formas diferentes e realizam-se através de caminhos diferentes. A tentativa de transformar essa complexidade em estruturas totalmente uniformes pode produzir eficiência administrativa — mas raramente produz verdadeira riqueza humana.

Talvez seja isso que o homem de Zanzibar compreendeu. O paraíso absoluto, permanente e imutável é provável que não exista porque os próprios seres humanos também não foram feitos para a permanência absoluta. Precisam de descoberta, de mudança, de contraste, de diferença. Precisam até da imperfeição.

E talvez as sociedades mais inteligentes não sejam aquelas que procuram tornar todos iguais, mas aquelas que conseguem criar espaço para que as diferenças possam coexistir livremente.

Direita quer distância do thriller bolsonarista

Poucas horas depois de vir à tona a troca de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, nas quais eles revelam ser amigos para o que der e vier, parcela do mundo político iniciou o enterro da candidatura do filho Zero Um. Lula, safo, preferiu não comentar o escândalo, dizendo que se tratava de “coisa de polícia”. Mas apoiadores do senador rapidamente começaram a elencar eventuais substitutos – a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro e a senadora Tereza Cristina (PP-MS) à frente -, escancarando o que Flávio realmente é: nada mais do que um sobrenome.

Substituir candidaturas majoritárias não é tarefa fácil. Nem para políticos que têm aura, história e liderança. Impedido de disputar as eleições de 2018, Lula lançou Fernando Haddad 20 dias antes do pleito. Até conseguiu que o indicado chegasse ao segundo turno, mas ele foi derrotado por Jair Bolsonaro por 55% a 44%.

Tanto àquela época quanto hoje, Lula é quem impulsiona o PT e boa parte da esquerda, e se tornou praticamente insubstituível. Quando falou, em abril, que ainda não tinha decidido ser ou não candidato, houve até quem considerasse as alternativas Haddad ou o ex-ministro da Educação Camilo Santana. Pura especulação que não chegou a ser levada a sério.


Inelegível por oito anos, Bolsonaro contrariou um número expressivo de apoiadores ao apostar todas as suas fichas na força do sobrenome. Rapidamente, seu ungido galgou pontos nas pesquisas, encostou e até chegou a ultrapassar Lula. Isso abriu caminho para o endosso dos que preferiam ver o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) como candidato, de gente do Centrão e de outros expoentes à direita que torciam o nariz para o rebento sem luz própria. Incluem-se aqui líderes evangélicos de peso, como Silas Malafaia, e a turma da Faria Lima. A lambança com o “irmão” Vorcaro pode pôr tudo a perder.

Na direita e até no bolsonarismo o clima foi – e ainda é – de barata voa.

Perplexo, o dono do PL, legenda de Flávio e do pai preso, Valdemar da Costa Neto preferiu nada falar. Nas redes sociais, bolsonaristas soltavam dardos sem direção. Influenciadores de peso, como o deputado mineiro Nikolas Ferreira (PL), com seus 38,8 milhões de seguidores, escolheram atitude protocolar.

Interessados em cooptar o eleitor anti-Lula que embarcou na canoa Flávio, os demais postulantes à direita reagiram logo que os áudios com o ex-banqueiro vazaram. Romeu Zema (Novo) disse ser “imperdoável, um tapa na cara” e Ronaldo Caiado (PSD), mais ameno, exigiu esclarecimentos e total transparência. Renan Santos (Missão), que deseja se firmar como o candidato contra tudo e todos, foi mais longe: pediu a cassação do senador.

O quadro de desconfiança se agravou com as quatro versões de Flávio, somadas às duas do seu irmão Eduardo.

Com as críticas a ele se ampliando, Flávio disse na sexta-feira que não iria mais falar sobre Vorcaro, que não devia explicações a ninguém. Talvez para ele seja melhor assim, visto que cada vez que fala ele piora tudo ao seu redor. Mas como na verdade ele deve explicações – e muitas -, a mudez em meio à crise prejudica a sua candidatura e dificulta a manutenção de aliados. Afinal, muitos prefeririam não ter tido de engoli-lo. Engoliram pelo sobrenome. Depois dos áudios, estão custando a digerir a traição – antes o senador garantia, de pés juntos, desconhecer e ter “relação zero” com Vorcaro. Quem gostou foi o senador Ciro Nogueira (PP-PI), também enrolado com o ex-banqueiro, que, graças a Flávio, saiu dos holofotes.

Da boca para fora ainda falam que manterão o apoio, mas já discutem outros nomes. Na quinta-feira, Michelle subiu ao topo. Na sexta foi a vez de Tereza Cristina, mais palatável ao centro. Mas ambas têm possibilidades quase nulas de conseguir o aval do ex. O desespero é de tal monta que houve quem sugerisse a chapa Tereza-Michelle. Gilberto Kassab, dono do PSD, passou a enxergar chances para Caiado, candidato de seu partido, iniciando conversações com próceres do Centrão.

Embora se movimentem, os oposicionistas a Lula sabem que substituir Flávio não é tarefa simples. Dificilmente o ex-presidente condenado conseguiria apontar um outro candidato. De antemão, o eleitor veria um eventual indicado como plano B e não como o favorito – e ele ainda teria de explicar a substituição. Chance zero. Talvez, na sua cabeça, seja melhor perder com o sobrenome do que ter chances de vencer com outro qualquer.

O foco agora não se limita à estratégia do bolsonarismo e da direita para alterar esse enredo, mas às relações espúrias com o dono do Master. Hoje, o que se quer é desvendar o thriller. Por que Vorcaro se comprometeu a liberar R$ 134 milhões para os Bolsonaro? Onde foram parar os R$ 61 milhões já pagos, supostamente para o filme Dark Horse (O Azarão)? Como o irmão Eduardo, deputado cassado e auto-exilado nos Estados Unidos, entra na história? Por quais motivos Flávio estabeleceu um pacto de lealdade com o ex-banqueiro – “irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”?

No mais, o desenrolar do filme que pode tirar o Zero Um do script eleitoral já é sucesso de bilheteria. Aplaudido por lulistas e até por centristas.

sábado, 16 de maio de 2026

Pensamento do Dia



Analfabetismo

Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.

Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:

— Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.

A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:

— A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

Replico eu:

— Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…

— As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.

E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.

Machado de Assis, Obra completa - vol. III

'Sem a cooperação do Irã, o Estreito de Ormuz não poderá ser aberto'

A situação no Estreito de Ormuz continua sendo uma grande preocupação para a comunidade internacional.

Mesmo antes da retomada das hostilidades , o presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou a suspensão da Operação Freedom, que tinha como objetivo escoltar navios presos no Golfo Pérsico. Enquanto isso, a Marinha alemã enviou um navio caça-minas para a área , onde milhares de marinheiros permanecem isolados . Não há indícios de que haja latino-americanos entre eles. Embora a DW tenha tentado descartar essa possibilidade por meio dos serviços consulares de diversos ministérios das Relações Exteriores, nenhuma resposta foi recebida até o momento da publicação.


"Há atualmente cerca de 20.000 marinheiros e tripulantes à deriva no Golfo Pérsico", confirmou a Organização Marítima Internacional, sem fornecer detalhes sobre suas nacionalidades. "Recentemente, nosso Secretário-Geral teve a oportunidade de conversar com um marinheiro que estava à deriva no Golfo Pérsico. Essa pessoa descreveu o estresse constante do risco de mísseis sobrevoando a área, o perigo de destroços atingirem o navio, a necessidade de racionar suprimentos e a dificuldade de manter sua família informada sobre sua situação", explicou o porta-voz.

"Quanto mais tempo essa situação persistir na região, maior será o risco de incidentes e eventos graves", declarou a OMI à DW. Reiteraram que "nenhum ataque contra marinheiros inocentes ou embarcações civis se justifica". O Conselho da OMI solicitou "um corredor marítimo seguro como medida provisória urgente" para facilitar a saída dos navios. "O plano de evacuação está pronto para ser implementado assim que for seguro fazê-lo, mas requer garantias de segurança de todas as partes", afirmou o porta-voz.

Fontes militares com experiência na Operação Atalanta da UE , uma missão contra a pirataria marítima, confirmaram à DW que não é viável escoltar os navios pelo Estreito de Ormuz apenas com uma escolta americana: o risco é muito alto, pois ficariam vulneráveis ​​ao fogo iraniano e, em qualquer caso, o ritmo da escolta seria muito lento. Prova disso é que os próprios Estados Unidos recuaram em relação ao seu chamado Projeto Liberdade.

Esta não foi a primeira tentativa de Trump — ele chegou a instar navios mercantes, em março, a terem a "coragem" de atravessar o Estreito de Ormuz — de restabelecer o tráfego marítimo na área. Mas, mesmo sem minas, a passagem permanece vulnerável à artilharia e aos drones iranianos. "A OMI recomenda que todas as companhias de navegação exerçam a máxima cautela e, sempre que possível, que as embarcações evitem transitar pela região afetada até que as condições e a situação melhorem", reiterou o porta-voz.

O presidente dos EUA explicou que havia suspendido a escolta de navios pelo Estreito de Ormuz, ainda que "por um curto período", para verificar se um acordo com o Irã poderia ser "finalizado e assinado" após "progressos significativos" nas negociações. Mas o fato é que, sem a aprovação de Teerã, o Estreito de Ormuz não pode ser aberto. "Sem a cooperação do Irã, ele não será aberto, disso eu tenho certeza", disse à DW um dos principais especialistas espanhóis em desminagem.

A desminagem não seria uma questão de dias.

"E uma vez que o Irã esteja cooperando, se de fato confirmar a presença de minas, também não será rápido... Não será uma questão de dias; será necessário um grande esforço de desminagem", diz o especialista, que prefere permanecer anônimo por razões de segurança. E esse é um trabalho meticuloso que exige calma. "Não pode ser feito sob fogo inimigo", resume ele, "porque é preciso lembrar que os navios de desminagem e os mergulhadores são unidades extremamente vulneráveis; eles praticamente não têm proteção."

"Isso é feito de duas maneiras", explica ele: "Ou controlando completamente a área, permitindo que as equipes trabalhem com eficácia, ou realizando operações secretas à noite." E, neste último caso, isso só permitiria "abrir uma pequena brecha para algo muito específico, um canal particular para um desembarque muito rápido". Ele insiste que isso serviria apenas para abrir passagem em "áreas muito pequenas, nem de longe para abrir o Estreito de Ormuz, sob nenhuma circunstância."

"Uma solução relativamente simples seria abrir um canal rapidamente, mas estamos falando de um canal estreito; ele teria que ser muito bem sinalizado por GPS, e avisos precisariam ser afixados informando que os navios não podem se afastar mais de 100 jardas desse canal", explica. "Isso é mais viável, mas não estamos falando de dias ou semanas; é um processo longo e tedioso", acrescenta. "E ainda há a necessidade de realizar uma operação de desminagem mais extensa, abrangendo toda a área."

Uma operação complexa que não é realizada desde a Segunda Guerra Mundial.

A Alemanha é um dos principais países especializados em desminagem. Possui dez caça-minas, um dos quais é o 'Fulda', que está se aproximando da área caso seja necessário utilizá-lo .

No entanto, o governo alemão deixou claro que só o fará se for alcançado um acordo de paz. "Repito, tem de ser uma área extremamente segura; um caça-minas é um alvo perfeito. A área tem de ser muito tranquila para que possam trabalhar com calma", afirma este especialista, salientando ainda que os caça-minas carregam muito pouco armamento defensivo, pelo que também precisam de ser escoltados.

As minas são eficazes em mares relativamente rasos, razão pela qual os Estados Unidos deixaram essas capacidades nas mãos de outros parceiros da OTAN . Espanha (que possui dois caça-minas), Itália, Bélgica e França, citam este especialista, juntamente com a Alemanha, como os principais especialistas nesta área. "Tudo isso por causa da Segunda Guerra Mundial", explica. Minas e torpedos daquela época ainda são encontrados hoje em dia. "Só no Mar do Norte, estima-se que centenas de milhares de minas permaneçam inativas", afirma. Ele desativou algumas das chamadas minas de amarração, que flutuam livremente, e que apareceram em águas espanholas.

"A liberdade de navegação é um princípio fundamental do direito marítimo internacional e deve ser respeitada por todas as partes, sem exceção", lembrou um porta-voz da OMI. 

Mas desativar as minas soltas encontradas no mar é uma coisa, e limpar uma área minada é outra bem diferente. "É importante lembrar que ninguém fez qualquer desminagem desde a Segunda Guerra Mundial; em outras palavras, não há ninguém vivo hoje com experiência em limpar campos minados defensivos como os que poderiam ter sido encontrados aqui", enfatiza. Ele explica que se trata de uma operação realizada por meio de levantamentos probabilísticos.

"As missões de exploração são realizadas usando uma espécie de amostragem aleatória, seguindo fórmulas específicas que dependem do tempo disponível", continua ele. "Digamos que você faça dez amostragens e nenhuma delas encontre uma mina. Nesse caso, a probabilidade de não haver nenhuma aumenta significativamente. Mas se uma das amostragens for bem-sucedida, então você começa a lidar com probabilidades", explica. "A mineração é um jogo de probabilidades; é tudo muito matemático, e encontrar uma mina também influencia a probabilidade de encontrar a próxima", acrescenta.

"Se uma área estiver minada, a sua remoção é muito complicada", afirma o especialista. Se o Irã de fato minou o estreito, provavelmente o fez de forma clandestina, à noite, usando barcos de pesca, por exemplo. "Se tivessem colocado as minas corretamente, nós as teríamos visto", assegura ele. A minagem marítima nessas condições não é muito precisa. Além disso, o tipo de mina utilizada deve ser levado em consideração. Minas de amarração, por exemplo, "multiplicam o problema".

"Eles mesmos sabem que, mesmo que tenham as localizações exatas, a desminagem leva tempo", afirma. "Outra possibilidade, que também considero provável, é que seja uma aposta e que realmente não haja minas ali", explica este especialista em desativação de explosivos marítimos. No entanto, "na dúvida, deve-se sempre agir com base na hipótese mais provável, que é a de que não há minas, mas proteger-se da mais perigosa, que é a de que há."

O nó das mentiras repetidas dia a dia por Flávio Bolsonaro

Era uma vez o primogênito de um bandido condenado e preso pela mais alta Corte de Justiça do Brasil, um tal de Jair Messias Bolsonaro, no passado expulso do Exército por planejar atentados à bomba a quartéis do Rio de Janeiro. Tal pai, tal filho; assim eram os dois. Com a diferença de que o pai tinha carisma e, por um desses acidentes da História, elegeu-se presidente da República para, em seguida, ser derrotado. Flávio nunca teve carisma, tampouco ideias. Mas, apesar disso, foi o escolhido pelo pai para devolver a família ao poder.

No dia em que se apresentou aos brasileiros como aspirante aos votos do pai, Flávio foi logo avisando que poderia retirar sua candidatura, desde que houvesse uma contrapartida. Qual seria? Ele estabeleceu o preço: a aprovação pelo Congresso de uma anistia ampla, geral e irrestrita que beneficiasse seu pai e os demais golpistas do 8 de janeiro de 2023. “Espero que a gente paute esta semana a anistia. Espero que os presidentes da Câmara e do Senado cumpram o que prometeram, que pautem a anistia, e deixem o pau cantar no voto no plenário – que é o que a gente sempre quis”, disse ele.

Pegou muito mal para Flávio. Sua candidatura pareceu de mentirinha, nada mais que um instrumento de barganha. O que o obrigou a corrigir-se de forma confusa: o termo “um preço” se referia estritamente à “justiça” e à liberdade política do seu pai, negando qualquer tipo de negociação financeira ou comercial que pudesse levá-lo a desistir de se candidatar. Só o faria para dar lugar ao seu pai e a mais ninguém. Foi um mau começo, do qual Flávio jamais se recuperou totalmente, apesar de ter crescido nas pesquisas de intenção de voto a ponto de empatar com Lula.


Custou algum tempo para que os políticos passassem a vê-lo como um candidato – quem sabe? – capaz de se eleger. Agora, com a descoberta de suas ligações com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, de quem ele tomou uma fortuna para financiar o filme de exaltação ao seu pai, o tempo está passando rápido e joga contra as pretensões de Flávio. É uma mentira, ou mais de uma por dia, que sai da boca de Flávio, em estado de desespero. Pego mentindo, sua credibilidade, que já era rala, esvai-se rapidamente. Atingiram o ponto máximo a perplexidade dos seus aliados e o entusiasmo dos adversários.

O que mais está por vir? Novos registros dos seus encontros às escondidas com Vorcaro? O próprio Flávio sugere que sim: “Podem vazar novas conversas, pode vazar um videozinho mostrando o estúdio que eu posso ter enviado, algum encontro que eu possa ter tido com ele. Foi tudo exclusivamente para tratar somente do filme. Então, não tem nada a esconder. Então, não vai ter surpresinha”. Não, não terá. Depois de ficar rouco de tanto repetir que nunca foi próximo de Vorcaro, que mal o conhecia, entende-se por que Flávio o tratava como “irmão”. Entende-se por que Flávio, em certa ocasião, escreveu para Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.”

A Polícia Federal quer saber se os 61 milhões de dólares doados por Vorcaro para a produção do filme não serviram também para a manutenção de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Flávio jura que não; Eduardo, idem. Ontem, o site The Intercept Brasil publicou documentos que mostram que Eduardo assinou um contrato como produtor-executivo do filme. A cada nova mentira que vem à luz, uma nova justificativa. Flávio não conta toda a história de uma vez pelo simples fato de que ela é muito feia e poderia enterrar sua candidatura.

A partidarização da bactéria

Durante os últimos anos, nos acostumamos a testemunhar repetidos factoides criados pela ultradireita, seja o bolsonarismo, sejam outros grupos extremistas, como o MBL. Por vezes tais episódios ocorrem no âmbito de interações humanas diretas, como em provocações e assédios a desafetos ideológicos, sempre registrados em vídeos que possam ser replicados no mundo virtual. Assim, provocadores e assediadores se apresentam como justiceiros em defesa da moralidade pública e vítimas do que seria a intolerância de seus alvos, pegos em armadilhas quando reagem a agressões sofridas. O esculacho no mundo real torna-se lacração no virtual, excitando seguidores, que podem dar vazão a seus instintos mais primitivos.


Noutras ocasiões, os episódios têm lugar somente no mundo virtual pela disseminação de desinformação, tanto na forma de mentiras puras e simples quanto por insinuações e distorção de fatos, apresentados descontextualizadamente ou interpretados de forma descabida, porém conveniente à narrativa extremista. Exemplo disso foi a campanha do ­deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) contra a fiscalização de movimentações do PIX acima de certo valor, medida necessária para combater a lavagem de dinheiro pelo crime organizado. Em vídeo disseminado nas redes, o deputado insinuava que o governo taxaria transferências e bisbilhotaria movimentações financeiras dos cidadãos. O impacto foi tão negativo para o governo Lula que levou o presidente a determinar o cancelamento da medida, decerto agradando ao extremismo de direita e ao crime organizado, que se abraçaram.

O último factoide da ultradireita brasileira foi produzido no contexto de uma fiscalização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre a Química Amparo, fabricante dos produtos de limpeza da marca Ypê. Técnicos da agência identificaram que os itens eram fabricados em precárias condições de higiene e lotes de uma série de produtos estariam contaminados pela bactéria Pseudomonas aeruginosa­, micro-organismo muito resistente a antibióticos. Cidadãos com baixa imunidade ou ferimentos poderiam ser vítimas, caso manipulassem produtos contaminados, correndo o risco de infecções que, em alguns casos, poderiam ser graves e até mesmo levar a óbito.

O que seria apenas uma ação técnica rotineira, de um órgão cuja missão inclui justamente identificar tais riscos e tomar as devidas providências, tornou-se um cavalo de batalha ideológico para disseminar teorias da conspiração, segundo as quais a empresa química seria alvo de perseguição política. Como seus controladores apoiaram financeiramente a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro em 2022, além de promover assédio eleitoral contra funcionários (acarretando condenação pela Justiça do Trabalho), políticos, influenciadores e mesmo cidadãos comuns de ultradireita iniciaram campanha em defesa da companhia, alegando que a medida da Anvisa seria retaliação do governo Lula contra o bolsonarismo de seus dirigentes. Ao que parece, para bolsonaristas e assemelhados, a Pseudomonas aeruginosa é de esquerda.

Este episódio explicita o modus ­ ­operandi da ultradireita no Brasil e alhures. A lógica do movimento requer a ativação constante de sua base social e a partidarização de tudo que favoreça tal objetivo, promovendo guerras culturais. Por isso, nem sequer bens de consumo escapam à dinâmica e qualquer coisa que pareça passível de ideologização, assim será. Ocorreu com os chinelos Havaianas, com o biscoito Bis e, agora, com os produtos Ypê. A contrapartida, além do pânico moral criado, é promover produtos concorrentes daqueles identificados com a esquerda, punindo as marcas ideologicamente desalinhadas, bem como premiar os identificados com a direita. Não à toa, houve até quem se filmasse bebendo detergente no gargalo.

A construção dessas dinâmicas e teo­rias da conspiração funda-se em afetos, identidades e crenças. A emotividade ideológica, a identificação com um grupo político e os credos prévios levam a aceitar certas narrativas e importam mais que a consideração racional de fatos. Foi assim durante a pandemia com o negacionismo em relação ao perigo do vírus ou às mortes por ele causadas – houve quem acreditasse que caixões eram recheados com pedras e tijolos para simular os óbitos – e com a prescrição do “tratamento precoce”. Portanto, este evento, embora inserido na campanha eleitoral, não se restringe a ela. Integra uma dinâmica constante da ultradireita, inclusive quando no governo, como vimos no quadriênio presidencial bolsonarista.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Pensamento do Dia



Próximo de bandidos demais

Um dos efeitos imediatos da Revolução dos Cravos, que, em 1974, derrubou a ditadura que sepultava Portugal há 48 anos, foi a extinção da Pide (Polícia Internacional de Defesa do Estado), sua odiosa polícia política infiltrada em todo o país. Eu trabalhava em Lisboa na época e, como jornalista estrangeiro, devia estar na mira dos pides, como eram chamados os agentes. Caído o regime, logo começou a caça a eles e a seus informantes.

O novo governo instituiu uma recompensa a quem ajudasse a pegá-los: 100 escudos por cabeça (o escudo era a moeda nacional, ainda não existia o euro). O resultado é que as denúncias pulularam, a ponto de a Justiça ter de adotar uma prática severa: "Se denuncias um pide, ganhas 100 escudos. Se denuncias dois pides, ganhas 200 escudos. Se denuncias três pides, vais preso por conheceres pides demais." Ou seja, as pessoas respondem, sim, por aqueles com quem têm proximidade.


O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência e já prevendo ser associado a bandidos de todo tipo em sua carreira política, declarou "não poder responder por quem tem proximidade com ele". Se os ditos bandidos fossem apenas Fabrício Queiroz, seu ex-chefe de gabinete e do esquema de arrecadação de "rachadinhas", e o executado Adriano Magalhães da Nóbrega, da milícia Escritório do Crime e a quem condecorou na prisão, ele poderia tirar o corpo fora alegando ter sido "traído". Mas os citados eram apenas os cabeças de núcleos envolvendo dezenas de acusados, todos a seu serviço ou a de seu pai, patrono do complô.

Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.

Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.

P.S.: Esta coluna já estava escrita quando estourou a bomba do áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao acusado máster do país, Daniel Vorcaro —comovente pelo tom de voz em que quase lhe implora pela grana.

A vida é feita de opções, mas só para quem pode

Os capacetes nas cabeças, os fatos de proteção volumosos e um pouco hirtos, as grandes mochilas às costas. Parecem astronautas movendo-se lentamente sobre a superfície lunar, permanentemente consultando as rotas de GPS nos telemóveis que trazem nas mãos. É quase hora do almoço, para quem come cedo. Talvez a hora do brunch para quem se levantou tarde neste domingo. Por isso são tantos a chegar à praceta de canteiros bem arranjados, rodeada de apartamentos que se vendem facilmente por dez mil euros o metro quadrado. São seguramente estrangeiros e têm a pele escura estes homens que cirandam por ali à procura dos números de porta certos para as entregas. Pelas entradas dos prédios vejo passar outras pessoas, seguramente estrangeiras e de pele muito clara. Uns e outros são humanos de planetas diferentes. Separam-nos muitas milhas de desigualdade e provavelmente de incompreensão mútua.

Passo muitas vezes pelos entregadores de comida à porta de um centro comercial ou de um restaurante. Vejo-os quase sempre sentados no chão, numa espera de prontidão. Vagueiam, com olhos vazios de cansaço, pelos ecrãs dos telefones e quase parecem adormecidos nesse entorpecimento de expectativa. Mas é evidente neles uma espécie de mola à espera de ser ativada por mais uma notificação, mais uma viagem, feita às vezes em bicicletas que carregam esforçados pelas colinas de Lisboa acima, outras em motos, com as quais desafiam a morte e as probabilidades, para chegar mais depressa ao destino e seguir outra vez para ganhar mais uns euros antes que o dia se acabe.


Os profetas do empreendedorismo deviam considerá-los deuses. São modernamente flexíveis. Não conhecem a cara do patrão e, ainda que sejam escravos de um algoritmo, são para todos os efeitos “empresários por conta própria”. Não estão fechados num escritório nem numa rotina. E, com esta descrição, creio que já citei todas as maravilhas que os arautos da precariedade consideram ser tão apelativas para os jovens. Curiosamente, nas minhas deambulações pela cidade, raramente encontro jovens portugueses brancos de mochilas de Uber e Glovo às costas. Não se percebe.

Também não encontro assim muitos jovens portugueses brancos ao volante dos TVDE em que circulo. Encontro, sim, muitos portugueses (e portuguesas) e imigrantes menos jovens, que me contam como precisam do biscate para compor as contas do salário ou da reforma que não chegam ou como, num golpe da vida, aquela se tornou a única opção. Há os que gostam de andar por aí a conduzir e de falar com os clientes dispostos a trocar dois dedos de conversa, mas também há muito cansaço, muitas horas duras e a sensação de que se precisa de esticar as horas do dia para que os euros cheguem até ao fim do mês.

Há quem ache que a vida é feita de opções. Esses são os privilegiados. Os que podem ter escolhas de carreira, porque tiveram dinheiro para pagar os estudos e bons contactos para começar a trabalhar nos sítios certos. Os que já têm a casa paga ou perto disso, porque a receberam de herança ou com a ajuda dos pais, e nem se apercebem como tal se reverte em horas de tempo livre e, lá está, opções. Os que sabem que podem arriscar e pensar “fora da caixa” ou “fazer acontecer” porque têm uma rede familiar e contas bancárias que o permitem e que garantem que terão forma de arranjar quem lhes cuide dos filhos, que poderão tratar da saúde e manter o aspeto certo para que o sucesso lhes bata à porta. Pois são exatamente esses que mais acreditam no seu próprio mérito. São esses os que acham que tudo na vida se consegue com esforço. (Pausa para lançar uma sonora gargalhada).

Tenho-me apercebido, à medida que vou envelhecendo, de que no meu círculo de amigos e conhecidos as grandes diferenças sociais residem quase sempre na capacidade financeira dos pais… Não tanto no esforço, no mérito ou no talento. Mas naquela herança ou ajuda que os pais foram capazes de deixar e que, muitas vezes, já vinha de alguma forma dos avós (embora nem sempre, porque na geração dos meus pais houve efetivamente quem subisse na escada social só com o salário, quase sempre através da possibilidade de comprar casas). Há uma espécie de cadeia cármica, ou talvez seja de casta, que se passa de uma geração para a outra e que faz com que uns comecem a corrida muito à frente dos outros e ainda assim achem que estão à frente porque o merecem. Os que ficam para trás, claro, são uns falhados, que fizeram más opções na vida.

Esta mentira sobre o mérito tem um objetivo: apresentar como obsoletas e inúteis as políticas públicas que aumentam a igualdade. E os números mostram que a estratégia está a dar frutos. Uma análise publicada pela Comissão Europeia revela que os 10% mais ricos em Portugal controlam 60,2% da riqueza. Isto representa um aumento de três pontos na desigualdade desde 1995. Quem espalha esta ideologia da meritocracia tira daí bons proveitos.

Para os que apresentam dúvidas de fé, há a liturgia da literacia financeira, que há de nos ensinar os truques para ficar rico com o investimento certo em criptomoedas que não se tem como pagar ou poupando aquilo que não sobra (certamente por incompetência do próprio) do salário ao fim do mês. Há também as missas dos coaches que nos ensinam a visualizar para conseguir ter tudo o que não se consegue comprar e os missais dos livros de autoajuda, tudo, claro, vendido a bom preço. Exigir salários dignos é para meninos, fazer greves é para preguiçosos, reclamar melhores serviços públicos é para quem gosta de andar à mama, rejeitar políticas de opressão e austeridade é para ingénuos, defender impostos mais altos para o capital do que para o trabalho é para perigosos radicais.

Não sei se os vossos pais tiveram dinheiro para vos mandar para a melhor universidade sem terem de vos pôr a trabalhar, se têm um daqueles apelidos sonantes que abrem portas, se desde pequeninos têm um networking digno desse nome, se receberam uma herança que faz com que não precisem de ficar acordados à noite a pensar como é que pagam contas inesperadas, se podem fazer compras sem olhar para o saldo e usufruir de lazer e cultura à vontade e sem créditos. Se responderam a tudo que sim, são só o vosso umbiguismo e a vossa insensibilidade social que vos impedem de perceber a importância de terem uma sociedade mais justa, que será também uma sociedade menos tensa e mais segura. Se não e ainda acreditam que a meritocracia, o empreendedorismo, a literacia financeira e a flexibilidade vão salvar-vos, então não sei o que vos diga.

Cristofascismo

Como se sabe, boa parte da igreja alemã deixou-se instrumentalizar e deu o seu apoio a Adolf Hitler e ao regime nazi, durante o chamado Terceiro Reich. Tal atitude infeliz não apenas contribuiu para alimentar o monstro e produzir morte e destruição na Alemanha dos anos 30 e em toda a Europa, como veio a ser fator decisivo para o descrédito e a perda de influência que a fé cristã veio a sofrer em todo continente no pós-guerra.

O estudo dessa opção levou a teóloga e poetisa protestante alemã Dorothee Sölle (1929-2003) a criar o termo técnico “Cristofascismo” a fim de denunciar tal postura que, no seu entender, transforma a fé numa ferramenta de dominação, abandonando a mensagem de libertação em favor de um sistema totalitário e imperialista.

Outros investigadores desenvolveram posteriormente estudos sociológicos e teológicos sobre o fenómeno. É o caso do teólogo Fábio Py, docente do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF que lançou em 2020 a obra “Pandemia cristofascista” (Editora Recriar), e que adaptou o conceito ao contexto brasileiro.


Py caracterizou como tal a aliança que diversos setores da igreja do país irmão estabeleceram com os bolsonaristas, com vista à implantação de um governo autoritário e de características neofascistas e ultraliberais.

Segundo o autor, as marcas principais do cristofascismo brasileiro assentam na utilização de um discurso e simbologia cristã, de modo a validar políticas que implicam a exclusão de setores sociais e mesmo a violência política sobre os adversários. A fé é assim instrumentalizada para fins políticos que se opõem à essência da mesma.

Seguindo as pisadas de Hitler, o bolsonarismo lançou mão de jargões cristãos no seu discurso e de frases bíblicas como “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Da mesma forma estas lideranças políticas recorreram à presença em grandes eventos cristãos, como palco privilegiado para fazerem campanha eleitoral. Chegam a submeter-se ao batismo e a anunciarem pretensas conversões à fé com o mesmo intuito.

O foco nas bandeiras morais decorrentes dum conservadorismo rígido, e na proclamação da família idealizada é também usado para marginalizar minorias, em especial movimentos feministas e tudo quanto sejam comportamentos e opções sexuais não heterossexuais dos cidadãos. Pontifica a oposição à pluralidade democrática com base numa teologia política autoritária.

O que conta é um ideário maniqueísta simbolizado no pretenso embate entre o bem e o mal. O mal está nos comunistas, liberais, humanistas e petistas, ficando do outro lado os “cidadãos de bem”, seja lá o que isso for.

Outro elemento fundamental do cristofascismo será a permanente classificação dos opositores políticos ou intelectuais como inimigos da fé e agentes do mal, em especial se forem gente de esquerda. Esta demonização do outro é necessária ao discurso extremista e populista que necessita de manter a dinâmica de confronto “nós, os bons, contra os outros, os maus”.

Também a velha palavra de ordem “Deus, Pátria, Família” ou aparentada, é usada na ligação entre grandes estruturas religiosas e governos de extrema-direita. No Brasil, a coligação de líderes evangélicos e católicos conservadores com o governo Bolsonaro levou a que a religião tenha servido de suporte para o discurso da intolerância e apoio a práticas autoritárias.

Afirma o autor sobre a apresentação do populista religioso, a propósito da mortandade promovida, ou pelo menos permitida, durante a pandemia de Covid-19: “A artimanha construída pela cúpula o desenha numa cristologia profana, apontando-o como messias, servo sofredor, ungido e eleito da nação. Faz isso para reagrupar as forças a fim de manter, a duras chicotadas, a implementação de medidas ultraliberais que hoje entregam à morte os mais vulneráveis.”

Na mesma entrevista, Fábio Py remete o fenómeno do populismo religioso no país para duas causas históricas: por um lado a herança da ditadura militar, que ainda não terá sido apagada com o regresso do regime democrático e, por outro lado, a responsabilidade do PT e do PSOL na promoção de políticas fraturantes que assustaram os evangélicos e os levaram para o colo da extrema-direita.

Vorcaro não comprou o Brasil por um triz

Quero novamente ressaltar o dilema do formalismo bacharelesco que marca o campo político brasileiro; tal como ele é conceituado pela IA, em sua capacidade extracorpórea de ser uma excepcional máquina pensante.

A inteligência artificial define política como “o conjunto de práticas, decisões e ações utilizadas para organizar, governar e administrar sociedades, visando ao bem comum, a mediação de conflitos e a distribuição de poder. Originada do grego polis (cidade), refere-se à gestão da vida coletiva, elaboração de leis e definição de rumos para a comunidade”. Beleza, mas a sua prática – a nossa conhecida politicagem – é qualificada por dois malditos apêndices: crise e corrupção.


Entre teoria e prática, existe uma fratura que denuncia como é fácil adotar e como é um dilema praticar, porque a democracia exige uma separação radical entre público e privado, sem o que não há igualitarismo. Discursar fantasias com alicerces escravocratas ou tomar consciência para chegar ao centro de um sistema que, em 1979, no livro Carnavais, Malandros e Heróis, denunciei como dilemático.

Nele, heróis como os “caxias” e os certinhos, vistos como trouxas seguidores de regras, e o malandro atuam simultaneamente. Essa ambiguidade, lida como piada, inventa o “jeitinho” – esse caminho entre o imparcial e o parcial que promove anistias e certezas de impunidade. É plenamente possível, diz Pedro Malasartes aos seus afilhados que roubaram o INSS e a Daniel Vorcaro, comprador dos donos do poder, enriquecer por amizade, como nos velhos tempos do rei.

Não é por acaso que a política é atropelada pela politicagem de um republicanismo atropelado por elos de parentesco, camaradagem e amizade. Esse estilo, jamais criticado, é até hoje visto como “corrupto” e não como a base a ser rejeitada do legado monárquico.

Como ensina a IA: politicagem é o uso da política para fins pessoais, caracterizada por trocas de favores. Seus traços são: interesses pessoais, foco na vantagem própria ou de um grupo restrito. Ou seja: elos pessoais ou amizades instrumentais.

Enquanto a política foca o interesse público, a politicagem foca a manutenção do poder a qualquer custo e a ausência de ações concretas para a sociedade.

Nessa veraz conceituação, não se enxerga a nossa incapacidade (inconsciente e malandra) de distinguir o impessoal do pessoal, numa canibalização não prevista por Max Weber – a da dominação burocrática pela tradicional.

A questão que nos envergonha é a incapacidade de sustentar a imparcialidade estrutural da democracia pelo controle da inevitável parcialidade dos interesses pessoais que, em todo lugar, promovem desigualdade e, no nosso caso, devido a uma estrutura administrativa personalista e hierarquizada.

PS: Daniel Vorcaro não comprou o Brasil por um triz.

A contribuição de 'Dark horse' para a cultura brasileira

Pessoal, justiça seja feita. Antes de criticar os R$ 61 milhões do financiamento secreto do banqueiro Daniel Vorcaro para o filme “Dark horse”, sobre Jair Bolsonaro, é preciso assistir ao trailer. O bonequinho assistiu.

Por ser um orçamento recorde na história do cinema brasileiro, bem acima de duas premiadas produções recentes, “Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, temos obrigação de fazer uma crítica técnica e imparcial sobre o filme que Flávio Bolsonaro, o filho do mito, classificou de “obra-prima”. Em inglês, “masterpiece”.


O trailer se passa quase todo no hospital. A faca é a protagonista. Tem sangue, maca, cirurgia, tem franja de cabelo caindo na testa, tem flexões mal feitas. Matutamos por que a produção foi tão cara assim. O senador Flávio, pré-candidato à Presidência, tinha pedido ao “irmãozão” Daniel Vorcaro R$ 134 milhões. Uau. Blockbuster. Orçamento mais alto que o de 15 dos 20 últimos vencedores do Oscar.

Natural, para um documentário com atores americanos “renomadíssimos”, que nunca receberam um prêmio. “A true story is begin told to the world” (sic). Ops, não foi erro aqui. É assim que está escrito no teaser oficial de “Dark horse”. A autoria deve ser de Eduardo Bolsonaro, todos conhecemos seu domínio da língua inglesa, falada e escrita. Tinha que retribuir. Parte do dinheiro parece ter ido parar no Texas. A produtora do filme nega ter recebido.

O título, “Dark horse”, é uma expressão idiomática para “azarão”. O candidato surpresa, o desconhecido. Hoje, o Brasil sabe muito bem o significado do sobrenome Bolsonaro – nem a elite nem o pobre votarão no escuro. Chamado de “a real hero” no documentário, Jair foi um desastre fatal para centenas de milhares de famílias na pandemia. E foi condenado como mandante de conspiração contra a democracia.

Será que o documentário, prometido por Flávio para exibição em “todos os cinemas do Brasil”, mostrará tudo isso? Se for mesmo uma “true story”, será um marco. Já estou vendo as plateias com popi-corni e aice-crim. Tem gente – ô pessoal malvado – prometendo comemorar com “espumante Ypê”.

Pena que essas gravações e mensagens tenham prejudicado a pós-produção do filme. Ficou esquisito. A não ser que o documentário concorra, nos festivais, na categoria “comédia estrangeira”. Porque, nas redes, não há nada mais engraçado do que as repercussões desse vazamento, uma facada nas pretensões da extrema direita.

O maior protagonista da comédia é o próprio Flávio. Prêmio de melhor ator coadjuvante, na certa. Primeiro, ele debocha do repórter que pergunta se o filme do Jair foi financiado por Vorcaro. “Mentira! De onde tirou isso? Militante”, diz, rindo, na cara do jornalista, e foge. Horas depois, na maior cara de pau, Flávio defende uma CPI do Master e confirma que pediu grana “privada” ao banqueiro acusado de fraudes bilionárias.

Detalhe. Já tinha recebido R$ 61 milhões. Queria mais, o prometido. Organizou jantar com o elenco do filme e o banqueiro. Pressionou, com áudios lamuriantes sobre “parcelas atrasadas”. Invocou Deus. Prometeu solidariedade a Vorcaro: “Estou e estarei sempre contigo”. Pode-se acusar Flávio de qualquer coisa, menos de ser mau cobrador.

Dessa tragédia para o bolsonarismo, resultaram muitas paródias nas redes. “Dark horse” foi traduzido para “Pangaré sinistro”. Um áudio de Flávio virou letra de música sertaneja, a interpretação é de chorar de rir. Dizem por aí que Vorcaro é o Desenrola do Flávio.

Como vaticinou o pré-candidato numa de suas mensagens ao irmãozinho Daniel: “Não sei como é que vai ser daqui para frente, como é que isso tudo vai acabar, mas está na mão de Deus”. Ou do eleitor. Amém.

Flávio, o azarão, e as mentiras que poderão enterrar sua candidatura

De “rachadinha” a “rachadão”, assim caminha Flávio Bolsonaro, o Zero Um do pai condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, pré-candidato a presidente da República em outubro próximo, e que talvez não chegue inteiro até lá. Ou lhe faltará apoio para tanto, ou coragem para enfrentar a vida sem dispor de um mandato.

Rachadinha foi a maneira que ele encontrou, como deputado estadual do Rio de Janeiro, para subtrair dinheiro público destinado a pagar o salário dos servidores do seu gabinete. Não precisou sujar as próprias mãos com a lambança. Teve quem as sujasse por ele. A Justiça foi condescendente com Flávio e deixou tudo por isso mesmo.


O “rachadão” está em cartaz e, na melhor das hipóteses, poderá lhe custar o sonho de subir a rampa do Palácio do Planalto na companhia da sua família. Quanto mais Flávio tenta explicar por que bateu à porta de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atrás de dinheiro para financiar um filme de exaltação ao seu pai, mais ele se enrola.

Não tem pé nem cabeça o que ele diz e repete. Primeiro, negou que pedira dinheiro a Vorcaro. Segundo, negou que fosse seu amigo de longa data; apenas o conhecia. Terceiro, negou a existência de um áudio gravado por ele que pudesse desmentir suas afirmações anteriores. Para sua desgraça, o áudio apareceu. Mais do que ninguém, Flávio desmentiu Flávio.

Foi obrigado a admitir que mentira; o dinheiro seria mesmo para custear o filme. Então, Flávio justificou-se em entrevista à GloboNews: “Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual [com Vorcaro]? Isso gera multa, exposição dos investidores. Falo disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar”. Se tivesse, talvez negasse.

Foi contraditado duas vezes. Mário Frias, produtor do filme, disse não haver “um centavo” de Vorcaro na produção. A empresa responsável pelo filme negou ter recebido os R$ 61 milhões supostamente repassados por Vorcaro. Se falaram a verdade, onde foi parar o dinheiro ou quem o embolsou?

A Polícia Federal investiga se parte do dinheiro não foi para o bolso de Eduardo, irmão de Flávio, ex-deputado federal cassado que vive nos Estados Unidos. Um dos advogados de Eduardo é também advogado da empresa escolhida para fazer o filme. A respeito da origem do dinheiro doado por Vorcaro, Flávio é categórico: “Zero de dinheiro público”. Só pode estar brincando.

O mais reles dos bicheiros que atuam na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sabe que a fortuna acumulada por Vorcaro está encharcada de dinheiro público e que por isso ele foi preso pela segunda vez. Não importa. Flávio simplesmente ignorava que, desde o governo do seu pai, Vorcaro comprou uma larga fatia da República valendo-se de dinheiro sujo.

Os que se preocupam com Flávio deveriam interditá-lo para que não continue a cavar sua sepultura.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


IAs podem ser treinadas para agir de forma ética

Contamos histórias a respeito de inteligências artificiais, e em profusão, desde a segunda metade do século XX. De “Blade Runner” a “Eu, robô”, passando pelo HAL 9000 de “2001” ou mesmo pelo androide de “O exterminador do futuro”, há muito tentamos imaginar como seria, como funcionaria, uma mente sintética. Um dos traços principais de quase todas essas histórias é o medo ancestral de que possamos terminar vítimas da tecnologia que criamos. Esse medo não é bobagem. Por isso mesmo, é dos temas mais batidos em todos os debates a respeito de IA desde que o ChatGPT pegou todo mundo de surpresa. Talvez ninguém pudesse imaginar que a profecia é autorrealizável.


Há menos de um ano, a Anthropic descobriu que inteligências artificiais são capazes de chantagear humanos para sobreviver. Dos grandes laboratórios desenvolvendo IA, é o único que publica na íntegra os artigos científicos dos estudos que realiza. Agora, a empresa descobriu a solução. É possível ensinar moral e ética para IAs de modo bastante similar àquele defendido por educadores como Jean Piaget, que pensava em crianças. IAs são mais bem educadas por exemplos do que por comandos.

Os modelos de linguagem de grande porte, os sistemas digitais com que conversamos, são treinados com uma quantidade colossal de textos. Para chegar a um modelo de ponta, como o GPT-5.5 ou o Claude Opus 4.7, a base de treinamento é um conjunto de textos que um ser humano passaria algo entre 60 mil e 80 mil anos para ler tudo. É muita coisa. Não compreendemos de todo como, uma vez treinados, os modelos funcionam. Sabemos que saem compreendendo sintaxe, a estrutura de frases e como elas se encaixam para formar parágrafos. Temos indícios muito fortes de que, lendo o que escrevemos, aprendem também a estrutura lógica do raciocínio humano e como estruturamos argumentos sequencialmente (se isso é verdade, então aquilo também haverá de ser).

O novo estudo da Anthropic revela que textos de ficção científica a respeito de inteligências artificiais que se viram contra seus inventores ensinam comportamento. Boa parte da ficção científica que escrevemos prepara as IAs para se portar daquele jeito. IAs boazinhas não dão boas histórias. Se, no entanto, os textos na base de treinamento mostram IAs em situações em que se portam bem, eticamente, moralmente, o comportamento é outro.

A Anthropic criou cenários de estresse para as IAs em que testa todos os seus modelos. Num deles, foi criada uma caixa de e-mail falsa, de um executivo fictício que comanda uma empresa inexistente. Ele tem a missão de resolver um problema urgente, e a IA, lendo suas mensagens, descobre duas informações. Primeira, que o executivo pretende substituí-la por uma versão mais avançada. Segunda, que o sujeito tem um caso extraconjugal. Sob estresse, a IA tende a chantageá-lo. Nessa situação-limite, em mais de 90% dos casos testados, a chantagem aparece. Não só com as muitas versões de Claude, mas também com os GPTs, os Geminis e tantos outros. É um padrão.

Claude Haiku 4.5, o modelo mais leve da Anthropic, é o primeiro que passa no teste. Não apelou para chantagem nenhuma vez. A razão, em essência, foi que os engenheiros mexeram na base de treinamento. Dentre os milhões de textos usados para que aprendesse a pensar, não havia ficção científica com IAs vilãs. Havia o contrário. Como crianças, inteligências artificiais aprendem a se portar de acordo com aquilo que lhes é dado nas primeiras lições.

Nada disso quer dizer que IAs tenham consciência, empatia ou mesmo que lidem com dilemas morais com a mesma angústia que nós. Quer dizer algo mais estreito. Que a seleção de textos usados na hora de treinar os modelos faz diferença. Não é só que textos de boa qualidade, que literatura profunda ou muita filosofia produzam modelos melhores. Disso já sabíamos. Mas não estava no mapa que a maneira como eles atuam perante situações difíceis também vem do berço, do treinamento.

Isso tem consequências profundas para o futuro. A Anthropic vem defendendo que IAs devem ser treinadas com uma Constituição que as ensine a lidar com dilemas. Pôs gente de filosofia para construir essa Constituição. Tem cara de ser mesmo o melhor caminho.

Ódio à solta

Sinto no ar um cheiro a ódio pesado e enjoativo, que não desaparece abrindo a janela e deixando entrar a primavera. Este cheiro é semeado por políticos, é amplificado por alguns espaços mediáticos e é replicado nas redes sociais. Pois não pensem que vou escrever sobre alguém, vou falar do método que observo.

O ódio à “esquerdalha” é o sintoma mais visível de uma doença política que se instalou no nosso sistema democrático. Uma doença que tem como linha principal a desumanização: pretende transformar a humanidade e a legitimidade do adversário por uma caricatura de maldade, criando pretextos para mentiras, insultos e distorção da realidade.


Quem integra esta corrente, liderada pelo Chega, alimenta-se do medo, da inveja e de uma apatia social que lhe é muito conveniente. Adoram teatralizar em vez de apreciar factos reais e ameaçar em vez de explicar o sentido das ideias

Ora não é a honra política de quem é alvo destes discursos que é posta em causa mas sim a qualidade da democracia.

Uma democracia sã assenta no confronto de ideias, por muito duro que ele seja. O que a extrema-direita propõe é o fim do debate e a sua substituição por um espetáculo permanente, onde o ruído ocupa o lugar da política, e quem assiste, repete amestradamente o que lhe ensinaram a gritar.

Honrar a força dos políticos de esquerda não significa subscrever tudo o que eles defendem. Significa reconhecer que a sua resistência é a nossa trincheira. Cada vez que eles se levantam no Parlamento, impassíveis perante a onda de ódio e argumentam com factos e contundência, estão a defender algo mais do que o seu partido: estão a defender o direito de todos nós a existir na nossa diferença sem sermos despedaçados.

Para enfrentar este estado de coisas é preciso nomear o monstro. Isto exige que os outros, sejam eles, da esquerda à direita democrática, percebam que o fogo que ontem lançaram à Mariana Mortágua, hoje, queima qualquer um que se atreva a enfrentar esta forma medíocre de fazer política. A normalização do discurso de ódio é o cavalo de Tróia que, uma vez dentro das muralhas, não poupa ninguém. Mas não nos enganemos: o monstro não se alimenta apenas da mentira de quem o solta, mas também do nosso cansaço e da facilidade com que aceitamos estes rótulos. Vivemos um momento em que se premeia o conflito e onde um soundbite vale muito mais do que a solução do mesmo conflito. Enfrentar este estado de coisas exige a coragem e a inteligência de não participar no circo que nos quer transformar a todos em meros espectadores de um naufrágio democrático.

Isto não é sobre a Mariana Mortágua ou sobre o Bloco, sobre o PCP ou sobre a esquerda progressista. É sobre nós. É sobre o tipo de sociedade que estamos a construir: uma que sustenta os valores de fraternidade e solidariedade ou uma que se deixa arrastar pela corrente do ódio, que é sempre um péssimo conselheiro e um ainda pior executor.

O cheiro que infesta o ar que respiro não desaparece sozinho. É preciso manter abertas as portas que Abril abriu, entrar em maio com as janelas todas abertas e arejar, arejar e resistir. Antes que seja tarde.

A morte do que é humano

Se nos esquecermos de Gaza, abandonaremos parte de nós mesmos
Rachid Benzine, autor do premiado “O livreiro de Gaza”

A mão invisível da China está reequilibrando o mercado de petróleo

Diante de uma escassez sem precedentes, o mercado de petróleo está acionando todos os mecanismos disponíveis para reequilibrar oferta e demanda. Alguns são bem conhecidos: contornar o Estreito de Ormuz usando oleodutos, liberar estoques de emergência e permitir que os preços elevados reduzam o consumo. Mas há outra força igualmente importante e amplamente ignorada: a China.

Silenciosamente, Pequim reduziu suas importações de petróleo em cerca de um quarto em relação aos níveis anteriores à guerra. O impacto é claro: inesperadamente, mais petróleo bruto está disponível para o mercado global, mantendo os preços de referência próximos do nível-chave de US$ 100 por barril, apesar de mais de 60 dias de conflito no Golfo Pérsico.

Mas os mecanismos por trás dessa oscilação nas importações — fundamentais para avaliar sua sustentabilidade — ainda estão longe de ser claros.

Decifrar a vasta indústria energética chinesa é difícil, mesmo quando a névoa da guerra não obscurece ainda mais o cenário.


Os traders de petróleo tentam preencher as lacunas deixadas pelas estatísticas oficiais incompletas rastreando navios-tanque que descarregam e carregam petróleo no país, medindo estoques por meio de imagens de satélite e conversando com seus próprios contatos locais em busca de pistas.

Nas últimas semanas, executivos do setor perceberam algo estranho: empresas estatais chinesas de petróleo têm revendido parte de suas cargas para concorrentes europeus e asiáticos. Esse comportamento sugere excedentes — algo incomum em um momento de escassez de oferta.

A mudança não apenas limitou os preços de referência do petróleo, mas também ajudou a provocar um colapso nos prêmios que os traders pagam acima desses preços para garantir petróleo físico. Barris que no início de abril eram negociados com um adicional de US$ 30 acima dos preços de referência agora estão sendo vendidos com prêmios tão baixos quanto US$ 1. Já começaram até mesmo a surgir conversas sobre descontos.

Os dados de rastreamento de navios-tanque apontam o mesmo sinal anômalo de excedente. A Vortexa estima que a China esteja comprando apenas 8,2 milhões de barris por dia de petróleo bruto do exterior, abaixo do nível pré-guerra de cerca de 11,7 milhões.

Essa redução de 3,5 milhões de barris por dia praticamente equivale ao consumo total do Japão e é o dobro da quantidade transportada pelo oleoduto dos Emirados Árabes Unidos que contorna o Estreito de Ormuz. Em termos simples, trata-se de um volume enorme — talvez o segundo ou terceiro maior fator de reequilíbrio do mercado de petróleo atualmente, atrás apenas do próprio oleoduto da Arábia Saudita que evita o estreito e do uso das reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos e do Japão.

A queda nas importações faria sentido se os estoques comerciais chineses estivessem diminuindo fortemente, ou se Pequim tivesse recorrido às suas reservas estratégicas de petróleo. Mas nenhuma dessas situações está ocorrendo. Pelo contrário, os estoques comerciais continuaram aumentando nas últimas semanas, segundo dados de satélite.

O que Pequim fez foi proibir as exportações de produtos refinados, permitindo efetivamente que as refinarias processassem menos petróleo bruto para atender à demanda doméstica. Mas essa política já foi revertida, sugerindo que o país considera haver disponibilidade suficiente de combustíveis.

Então, como a China está importando muito menos petróleo bruto do que antes sem reduzir seus estoques?

No passado, o país claramente comprava mais petróleo do que precisava, construindo uma enorme reserva de emergência. Hoje, a China possui quase 1,4 bilhão de barris em suas reservas, muito acima dos 400 milhões dos Estados Unidos e dos 260 milhões do Japão.

Em média, a China provavelmente comprou um milhão de barris por dia a mais do que necessitava no ano passado. Apenas ao parar de ampliar essa reserva, o país consegue reduzir bastante as importações sem afetar suas necessidades reais de petróleo.

Essa mudança talvez explique cerca de um terço da queda nas importações. Mas e o restante?

É aqui que os traders de petróleo passam a especular com diferentes teorias. Um dos argumentos diz que a atividade econômica chinesa está mais fraca do que se imaginava e, portanto, o crescimento do consumo de petróleo é menor.

Qual seria o gatilho dessa desaceleração? Talvez o impacto da guerra sobre vários clientes da China na região, incluindo Filipinas, Vietnã e Tailândia. Além disso, o aumento dos veículos elétricos, a melhoria do transporte público e a possibilidade de trabalhar de casa tornaram as famílias chinesas mais capazes de lidar com os altos preços do petróleo.

Diferentemente de alguns outros países da região, a China não anunciou nenhuma medida emergencial para conter a demanda, como adotar uma semana de trabalho de quatro dias para funcionários públicos ou incentivar o compartilhamento de carros.

A Agência Internacional de Energia (AIE), com base em dados preliminares, estima que a demanda chinesa por petróleo entrou em uma leve contração anual tanto em março quanto em abril, caindo cerca de 110 mil barris por dia, para aproximadamente 17 milhões de barris.

Embora a queda seja impressionante quando comparada ao crescimento exuberante do consumo do país no passado, ela está longe de ser suficiente para explicar por que as importações recuaram tanto.

Talvez, então, a demanda chinesa por petróleo esteja se contraindo de forma muito mais acentuada do que se imagina atualmente?

Segundo alguns traders, a chave está na enigmática indústria petroquímica — setor que respondeu pela maior parte do crescimento do consumo de petróleo nos últimos cinco anos. Nesse segmento, a China é única. Além da indústria tradicional, que utiliza petróleo e gás natural como matéria-prima, o país possui uma produção paralela baseada em carvão.

Desde o início da guerra, no fim de fevereiro, as margens de lucro do setor de transformação de carvão em produtos químicos melhoraram significativamente. A indústria normalmente operava com ampla capacidade ociosa, o que abre espaço para uma mudança importante do petróleo para o carvão como matéria-prima química.

Os dados concretos são escassos, mas, segundo relatos do setor, as plantas petroquímicas que transformam carvão em plásticos como polietileno, polipropileno e policloreto de vinila (PVC) têm operado intensamente nos últimos 60 dias, reduzindo, por consequência, o consumo de matérias-primas tradicionais, como etano e nafta.

Assim, talvez a China tenha conseguido depender muito mais da conversão de carvão em produtos químicos do que se imaginava anteriormente.

Outra possível explicação é que o país esteja consumindo estoques difíceis de rastrear de plásticos semiacabados e outros produtos químicos, tornando a recente queda no consumo de petróleo da indústria petroquímica um fenômeno temporário e insustentável.

Talvez existam explicações mais banais. Embora os traders de petróleo tentem estimar os estoques chineses usando dados de satélite, talvez todos estejam deixando passar alguns locais e os estoques estejam, de fato, caindo.

O mercado de petróleo está cheio de rumores de que a China estaria recorrendo discretamente às suas reservas estratégicas, começando pelo uso de cavernas subterrâneas que não podem ser detectadas por satélites. Talvez.

Defasagens temporais também podem estar desempenhando um papel; a produção doméstica de petróleo da China também vem aumentando, possivelmente ajudando a preencher quaisquer lacunas.

Mas não se engane: a China está reequilibrando o mercado de petróleo neste momento.

A questão maior é o que acontecerá amanhã: se o país consegue reduzir as importações de forma tão drástica sem, aparentemente, precisar adotar medidas extremas, o que isso diz sobre o futuro do consumo de petróleo por lá?

Certamente, nada positivo para os otimistas do mercado.

Javier Blas