A resenha de uma biografia de Hannah Arendt recentemente publicada nos Estados Unidos me remeteu à incrível entrevista que ela deu a Günter Gaus, na televisão alemã, em 1964, e que eu nunca tinha visto, embora esteja há anos disponível no YouTube.
Arendt escapou da Alemanha em 1933, aos 26 anos, quando, em suas próprias palavras, só um idiota seria incapaz de perceber que os nazistas (e muitos alemães que os apoiavam direta ou indiretamente) eram inimigos dos judeus. E isso bem antes da instalação do terror, precedida por um período de abandono e vazio.
O problema na verdade não eram só os inimigos, mas os "amigos", gente que acabaria caindo na própria armadilha, no que ela chama de "coordenação", ou deslealdade, dos intelectuais. "Eu não tinha a menor vontade de ficar perambulando pela Alemanha como cidadã de segunda classe."
Arendt é categórica ao declarar que, "se você é atacado como judeu, deve se defender como judeu, não como alemão ou cidadão do mundo ou defensor dos direitos humanos, ou o que quer que seja".
Nesse momento, o entrevistador pede que ela então explique o que queria dizer quando declarou: "Nunca amei nenhum povo ou grupo coletivo, nem alemães, nem franceses, nem americanos, nem a classe operária nem nada desse gênero. Só posso amar meus amigos. O amor pelos judeus seria suspeito, porque sou judia".
E ela esclarece: "Pertencer a um grupo por nascimento é da condição humana. Agora, pertencer a um grupo organizado politicamente é uma coisa completamente diversa. As pessoas se organizam politicamente por interesses comuns em relação ao mundo. O que chamamos de amor, e que pode existir no amor propriamente dito e também na amizade, é uma relação pessoal direta, que não está baseada em interesses comuns em relação ao mundo. [...] O amor é apolítico e desinteressado".
Arendt associa esse amor à condição judaica, à humanidade própria dos párias, que se perdeu com a criação do Estado de Israel. E lamenta: "A liberdade cobra um preço alto".
O amor desinteressado aparece na literatura, segundo ela, quando Homero decide cantar não apenas o vencedor, mas os vencidos; quando Heródoto conta os feitos dos gregos e também dos bárbaros. "Toda ciência nasce desse espírito. Se você é incapaz de imparcialidade, porque pretende amar seu próprio povo a ponto de comprometer a verdade, então não há o que fazer."
O interesse comum é da ordem política. É a condição das nações. O resultado das pesquisas, mostrando Flávio Bolsonaro encostado em Lula no segundo turno das eleições presidenciais em outubro, com tudo o que seu nome, seu pai e sua família representam contra os brasileiros, acrescido do passivo de subserviência a uma potência estrangeira com interesses contrários aos do país, faz pensar que estejamos cercados não só pelo cinismo de inimigos declarados, mas pelos que Arendt considerava "amigos desleais" que, em nome de interesses aparentemente comuns, nacionais, e muitas vezes sem se dar conta da extensão suicida de suas ações, preparam uma armadilha que, essa sim, será comum e fatal.
Não seria de todo descabido ver na política internacional aparentemente errática de Donald Trump, para além da ganância pessoal, um desmonte deliberado das nações, com a cumplicidade de grupos oportunistas internos compartilhando interesses em redes supranacionais de desregulação e corrupção.
Por mais contraintuitivo que pareça à primeira vista, a autocracia é a condição do esfacelamento nacional. A aliança do governo americano com a extrema direita na América Latina faz parte de uma política de espoliação, fundamental no seu confronto com a China, única potência capaz de lhe fazer frente.
Que significa quase metade dos eleitores declarar o voto em Flávio Bolsonaro senão uma ideia perdida de nação? O eco insistente de um governo funesto cujo lema —"Deus acima de todos..."— trazia embutida uma conclusão tácita e interessada: "...e cada um por si".
A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, mais que o dobro da CDU, de centro-direita, partido do chanceler, Friedrich Merz, que ficou em segundo com 17%. A AfD, classificada pelo serviço de inteligência doméstica como extremista de direita, obteve o melhor resultado de uma sigla desse campo na Alemanha desde 1945.
A eleição intensifica um dos debates já dominantes na política alemã: por que tantos cidadãos votam em um partido radical, e o que fazer? A explicação padrão para o voto na AfD, a de um leste pobre e abandonado, perdedor da modernização, resiste cada vez menos aos dados.
O poder de compra de Magdeburg ou Halle supera o de quase todo o sul e o leste da Europa; as aposentadorias de quem contribuiu por mais de 35 anos equivalem a 95% das pagas no oeste, e produtividade e salários chegam a 84% do nível ocidental, diferença que reflete sobretudo o caráter mais rural da região.
A infraestrutura não fica atrás da de regiões comparáveis do continente: por exemplo, cerca de 30 dos quase 80 teatros de ópera do país estão no leste, que abriga um quinto da população. Ainda assim, 75% dos alemães orientais dizem que o que separa as duas partes do país pesa mais que o que as une, o maior índice desde 2004.
Um novo estudo da Universidade do Sarre conclui que renda e escolaridade quase nada explicam: o que prevê o voto na AfD é a preocupação com a imigração, e ela pesa tanto para ricos quanto pobres. E isso em um Estado onde estrangeiros são apenas 8% da população, menos da metade da média nacional e bem abaixo do que se vê em Hesse ou Hamburgo. Os autores tiram a conclusão incômoda: mais transferências e políticas de igualdade não trarão os eleitores de volta.
O segundo debate é o que fazer a respeito da ascensão do partido. Desde a fundação da AfD, em 2013, todos os partidos tradicionais mantêm o Brandmauer, o “muro cortafogo” erguido para jamais cooperar com a AfD. O muro cumpriu o que prometia, como lembra Thorsten Benner, do Global Public Policy Institute, em Berlim, pois a AfD até hoje nunca chegou a governar um Estado. Mas fica cada vez mais evidente que fracassou como estratégia de contenção, e há algo paradoxal nisso: governar desgasta, e a AfD passou uma década sem governar nada.
Enquanto CDU, SPD e Verdes se consumiam em coalizões improváveis, a legenda cresceu sem nunca ter sido testada, e hoje lidera as pesquisas nacionais com quase 30%. Benner vai além e sustenta que o muro ajuda a explicar por que a AfD, ao contrário de outras siglas de extrema direita na Europa, se tornou mais radical à medida que crescia: sem perspectiva de poder, moderar-se não lhe traz nada.
Uma proposta é converter o veto absoluto em condições verificáveis, como expulsar Björn Höcke, seu dirigente mais influente no leste do país, que foi condenado duas vezes por usar, em eventos de campanha, um slogan das tropas de assalto de Hitler, cujo uso é crime na Alemanha. Romper com esse tipo de quadro e de discurso seria o preço do diálogo, e a própria AfD teria de decidir se está disposta a pagá-lo.
Outros defendem a proibição do partido. Boris Pistorius, ministro da Defesa e há anos o político mais popular do país, pediu, ao lado de Cem Özdemir, chefe de governo de Baden-Württemberg, que se abra um processo de banimento das seções da AfD no leste alemão, entre elas a da SaxôniaAnhalt.
O argumento é o mesmo do serviço de inteligência, que em 2025 classificou a AfD como “comprovadamente extremista de direita”, por defender uma concepção étnica de povo incompatível com a Constituição alemã. Os críticos respondem que um processo desses levaria anos e daria à AfD o papel que ela mais gosta de encenar, o de vítima.
Há uma terceira via, que decorre do próprio diagnóstico de Benner: deixar a AfD governar um Estado e expor sua incapacidade. O partido defende um nacionalismo de slogans, mais definido pelo que rejeita do que pelo que propõe.
Um episódio quase cômico ilustra a aposta. Em 2021, Tino Chrupalla, hoje copresidente do partido, defendia em um programa infantil da TV pública que as escolas ensinassem mais canções populares e poesia clássica alemã. O repórter mirim quis saber, então, qual era seu poema alemão favorito. Chrupalla hesitou, disse que precisaria pensar e admitiu que nenhum lhe vinha à cabeça. Instado a citar ao menos um poeta, apontou Heinrich Heine, de origem judaica, exilado em Paris e cujos livros os nazistas queimaram em 1933.
Deixar governar foi, é verdade, o erro que a Alemanha cometeu nos anos 1930. Em 1930, juristas do governo da Prússia recomendaram por escrito a proibição do partido nazista. O chanceler Heinrich Brüning preferiu enfrentá-lo politicamente, temendo alimentar seu vitimismo, e menos de três anos depois Hitler chegava ao poder.
A comparação tem limites óbvios. Um Estado não é o país inteiro, e uma AfD obrigada a administrar escolas, hospitais e orçamentos deixaria de ser um partido de protesto para virar um governo cobrado por resultados, ofício bem menos glamouroso do que denunciar o sistema. Nenhuma das três saídas é isenta de risco. O que a eleição de ontem mostrou é que a atual estratégia de simplesmente isolar o partido deixou de ser uma opção.
Em março deste ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução classificando o tráfico transatlântico de escravos como o crime mais grave contra a Humanidade. O documento foi aprovado com 123 votos a favor. Três países votaram contra (Estados Unidos da América, Israel e Argentina) e 52 abstiveram-se (entre os quais, todos os 27 países da União Europeia, Reino Unido, Canadá, Austrália, etc.).
É, de facto, difícil pensar num crime maior do que este contra a Humanidade, embora os representantes da União Europeia, e especificamente da Alemanha, se tenham manifestação contra a formulação jurídica de haver uma hierarquia de crimes. Seria o tráfico de escravos mais grave do que o Holocausto? No Holocausto, morreram seis milhões de pessoas; no tráfico transatlântico de escravos, que decorreu até à segunda metade do século XIX, foram embarcadas 12,5 milhões de pessoas – dessas, 10,7 milhões terão chegado ao destino, tendo as restantes morrido na viagem. Os números são da Slave Voyages, uma base de dados académica de acesso público. Em terra, durante as capturas, os historiadores calculam que terão morrido entre um e dois milhões de pessoas.
A votação da resolução, geograficamente dividida de forma bem nítida, entende-se sob outra perspetiva. O documento não se limita a classificar o crime, pede que os países envolvidos assumam a responsabilidade, ora em forma de pedidos de desculpa oficiais, ora em forma de compensações financeiras, algo que os países responsáveis não estão dispostos a fazer. No caso do Holocausto, a Alemanha pagou e continua a pagar indemnizações e reparações às vítimas e a organizações judaicas.
Na semana passada, a ONU voltou à carga: o Comité das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial emitiu uma resolução defendendo que os países envolvidos, direta ou indiretamente, no tráfico transatlântico de escravos têm a obrigação de conceder reparações pelos danos que causaram. Este crime, diz o documento, “distorceu as relações económicas globais ao distribuir riqueza acumulada injustamente por todas as sociedades e fronteiras, criando uma responsabilidade partilhada pelos seus efeitos duradouros”.
De facto, podemos não nos sentir responsáveis como sociedade por aquilo que fizeram os nossos antepassados. Mas é como um filho que herda dinheiros sujos – ele não cometeu o crime, mas vive à custa dele, beneficia do crime. Porque é inegável a desigualdade que ainda hoje persiste – e persistirá por muito tempo –, consequência do tráfico de escravos.
Quem são os pobres e quem são os ricos? Quem, na nossa sociedade, continua a sofrer todo o tipo de discriminação e impedimentos de aceder aos serviços e aos direitos que damos por garantidos? E quem construiu e desenvolveu Estados com riquezas que não lhe pertenciam?
Como sociedade, somos herdeiros deste privilégio, usufruímos dele e dizemos, ao mesmo tempo, que isso não nos pertence, que o passado já lá vai e a obrigação de o corrigir não nos cabe. Como o “filhinho de papai” incapaz de assumir a idade adulta. Os custos da responsabilidade podem até ser penosos, mas se forem justos permitem-nos existir com mais dignidade. Há heranças que pesam, ainda que façamos tudo por ignorar o fardo que representam.
Os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal carregaram bombas para dentro da instituição. O perigo não é mais externo. É interno. O presidente Luiz Edson Fachin terá que conduzir com sabedoria salomônica o fim da maior crise da história do Supremo. O foco tem que ser, o que se quer salvar. É de novo a democracia. O ministro Alexandre de Moraes quis usar o inquérito das fake news contra o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça extrapolou de suas funções ao direcionar a investigação, e ao avançar sobre atribuições da Polícia Federal.
A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.
O depoimento de Daniel Vorcaro no gabinete de André Mendonça é uma óbvia tentativa de manipulação. As acusações sem lastro ao diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são para confundir, para tirar proveito da briga entre o ministro e o comando da Polícia Federal.
Qualquer delação premiada de Daniel Vorcaro tem que começar com ele respondendo às perguntas: onde está o dinheiro, quando e como você vai devolver? Ele nunca respondeu. Essa é a explicação para o fato de a delação premiada do ex-banqueiro não ter progredido nem na Polícia Federal, nem no Ministério Público. Vorcaro não admite sequer que cometeu crimes. Ele se comporta como se fosse vítima. E tentou neste depoimento ao juiz substituto do ministro Mendonça mais uma vez alimentar a tese de que é um perseguido. Vorcaro é o criminoso, tem direito às garantias constitucionais mantidas na democracia, mas não pode manipular o sistema judiciário.
Os fatos são importantes. Vorcaro tentava falar com todo mundo que pudesse ter interesse para ele na estrutura de poder no Brasil. Muitos falaram. O erro não está em ter tido contato com ele, mas no que houve na relação entre o agente público e o banqueiro corruptor. O contrato milionário entre o escritório da família de Alexandre de Moraes com ele, revelado por Malu Gaspar, é um fato incontornável. Os diálogos divulgados pelo relatório da Polícia Federal, tornado público pelo ministro André Mendonça na terça-feira passada, trazem indícios contra Moraes que precisam ser esclarecidos.
O dinheiro de Vorcaro não era privado. Ele deu golpes em fundos de pensão de servidores públicos e colocou um rombo num banco público, o BRB. O senador Flávio Bolsonaro não tem razão quando diz que o dinheiro de Vorcaro era privado. Ele se capitalizou saqueando dinheiro público. Um senador da República não pode fazer o que Flávio fez: correr atrás de dinheiro de Vorcaro, sonegar informações de como os recursos foram usados, mentir sobre o volume de dinheiro que recebeu.
O que Vorcaro tenta agora é aproveitar os conflitos e escapar de alguma forma. Tenta criar suspeição sobre Andrei porque a Polícia Federal o prendeu, o interrogou e vai pedir seu indiciamento em breve. A suspeição sobre a PF daria a ele a nulidade do procedimento original.
Uma autoridade que acompanhou os momentos nervosos que levaram Vorcaro a ser apanhado em quase fuga diz que o diretor geral foi essencial desde o primeiro momento. “Eu sei o que ele fez para não deixar o cara escapar naquela noite”.
A estratégia de Daniel Vorcaro neste momento é evidente. Ele está preso, seu pai, seu cunhado e seu primo estão presos. Ele não conseguiu fazer delação premiada porque não entregou informações relevantes, nem quis devolver o dinheiro que escondeu. Está aproveitando a crise entre as instituições — e dentro delas — e a hora da ferrenha disputa eleitoral para fazer seu jogo. Vorcaro vai tentar de tudo agora.
As próximas semanas serão muito tensas. Fachin tem sobre seus ombros de juiz a carga mais pesada. Moraes não pode ser protegido. Mendonça não pode conduzir de forma seletiva sua relatoria. Em Provérbios há um versículo que orienta sobre o que é essencial em tempos turvos. “Sobretudo o que se deve guardar, guarde o seu coração porque dele procedem as fontes da vida”. Não é preciso ser religioso para valorizar a mensagem e entender que o bem mais precioso a guardar neste momento é a democracia.
O sistema alimentar global está sob crescente pressão , e novas pesquisas apontam para áreas específicas onde isso pode levar a conflitos.
Secas severas e eventos climáticos extremos estão prejudicando as colheitas em muitas regiões. O fenômeno El Niño, em desenvolvimento , ameaça agravar a escassez de alimentos para milhões de pessoas no próximo ano. Ao mesmo tempo, guerras e tensões geopolíticas estão interrompendo as cadeias de suprimentos que garantem o transporte de alimentos e produtos agrícolas.
Especialistas alertam há tempos que o aumento da insegurança alimentar pode levar à instabilidade. Quando as pessoas não conseguem mais alimentar suas famílias, elas lutam por terra, água e outros recursos, ou são deslocadas. Em países frágeis, essas pressões podem contribuir para a agitação social e até mesmo para conflitos armados.
O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (CADI, na sigla em inglês), desenvolvido por Hannes Mueller e seus colegas, mostra como as mudanças climáticas estão transformando a produtividade agrícola em todo o mundo. "As perdas mais severas estão ocorrendo nas regiões tropicais", afirma Mueller, pesquisador do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona.
As mudanças climáticas já estão reduzindo a produção de alimentos em muitas partes do mundo. Centenas de milhões de pessoas vivem em áreas onde as colheitas são menores do que eram há 30 anos. Mueller menciona Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador como países onde as perdas agrícolas já estão sendo sentidas. Nos próximos 25 anos, quase metade da população mundial poderá estar vivendo em áreas onde as fazendas produzem menos alimentos.
Essas pressões podem enfraquecer governos, alimentar a migração e facilitar o recrutamento de combatentes por grupos armados. Em sociedades já instáveis, esses fatores podem levá-las à crise.
No entanto, a pesquisa da CADI aponta para uma realidade surpreendente: o aumento da produtividade agrícola também parece aumentar o risco de violência. Mueller explica que a questão fundamental não é apenas a escassez, mas a mudança. A crise climática e outras perturbações não estão simplesmente empobrecendo algumas regiões. Em alguns lugares, terras antes marginais estão se tornando mais produtivas e valiosas. E isso atrai investidores e cria competição pela propriedade e pelo acesso.
Portanto, países que aparentam se beneficiar de forma geral podem enfrentar novas tensões. O Sudão, por exemplo, tem previsão de aumentar sua produção de alimentos com as mudanças climáticas. Mas, embora algumas áreas possam se tornar mais produtivas, outras podem sofrer perdas, criando novos vencedores e perdedores dentro do país e aumentando o risco de conflitos.
Essa instabilidade iminente também afeta áreas onde a mudança na produtividade ainda nem ocorreu. "Se soubermos que sua terra será mais produtiva, podemos querer tomá-la de você hoje mesmo. É exatamente aí que as negociações fracassam e a violência irrompe."
Uma das descobertas mais surpreendentes da equipe do CADI é que as mudanças na agricultura têm maior probabilidade de desencadear conflitos em países não democráticos. “As democracias podem parecer irritantes e burocráticas. Nada acontece tão rápido quanto as pessoas gostariam. Mas isso é fantástico, porque incentiva a comunicação entre as pessoas”, afirma Mueller. “Existe uma plataforma para negociação. Existem instituições que ajudam as pessoas a negociar. Esse processo de busca constante por soluções é fundamental para prevenir conflitos.”
Enquanto a Índia realiza seu censo populacional, pesquisadores alertam que as mudanças climáticas podem dificultar a produção de alimentos suficientes para uma população crescente em algumas áreas do país.
“Não damos a devida atenção às ameaças que pairam sobre a fonte de nossos meios de subsistência”, afirma Abdullah Fahimi, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP). “As regiões às quais precisamos prestar mais atenção são o Sul da Ásia e o Sahel, onde a vulnerabilidade climática e o rápido crescimento populacional significam que o número de pessoas afetadas pode aumentar drasticamente.”
À medida que a insegurança alimentar se agrava, as consequências sociais e políticas podem se multiplicar. "Quando a escassez de recursos ou os efeitos das mudanças climáticas forçam as pessoas a buscar outros meios de subsistência, elas às vezes acabam sendo recrutadas por grupos terroristas", enfatiza Fahimi, que cita exemplos da Nigéria e do Afeganistão. Em outros casos, a frustração pública se volta contra os governos se estes não conseguirem mitigar o impacto sobre os meios de subsistência das pessoas; sua legitimidade é questionada, e isso pode degenerar em conflitos violentos.
Isso corrobora a conclusão geral de Mueller. Mudanças climáticas, guerras e interrupções no comércio não levam automaticamente a conflitos. A questão fundamental é se as sociedades possuem instituições capazes de gerenciar essas mudanças. Onde governos, tribunais e instituições locais conseguem ajudar as comunidades a lidar com as novas realidades, será possível mitigar os impactos. Onde essas instituições são frágeis, a pressão sobre os sistemas alimentares pode se tornar uma ameaça à própria paz.
Espanto ou estupefação: a escolha da palavra fica a cargo da parcela crítica do público disposto a avaliar uma notícia recente em alguns veículos de mídia. Trata-se da narrativa em que Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução, mas, compungido, lamenta ter assassinado os dois únicos inocentes em sua carreira de crimes. E o público, nada menos que estupefato, ainda fica sabendo que ele não matou mil pessoas, como teriam insinuado. Foi menos, mas poderia ser muito mais, fosse feita a conta de ações conjuntas com a polícia.
Horripilante, esse relato evoca Jean-Jacques Rousseau em "A Nova Heloísa" quando menciona um jeito de "negar o que é, e de explicar o que não é". A negação permite manipular a percepção plena de algo que existe, para naturalizar o lado obscuro dessa existência. É quando a explicação serve para confundir, como diz o compositor Tom Zé.
"Negar o que é" equivale a desconversar sobre uma estrutura sociopolítica criminosa emergente no território fluminense a partir da infiltração do velho caciquismo, com os vícios de políticas interioranas, nos aparelhos de Estado. São amostras o parentesco e o compadrio das alianças partidárias, mas igualmente a reconfiguração dos antigos capangas como matadores profissionais. A indiferença aos direitos humanos por parcelas expressivas da sociedade é fator de expansão desse fenômeno, com vezos de autonomia: o "escritório do crime", horror público.
Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia. Abordou o fato como fait-divers, isto é, notícia curiosa que rompe a normalidade cotidiana, e aí ficou, sem relacioná-la à estrutura criminosa que se mantém de pé. Ao mesmo tempo, entretanto, acendeu holofote continuado sobre um incidente universitário, em que alunos agrediram outro por suposto uso de insígnia nazista. Numa das matérias, chegou-se a comparar com o linchamento fatal de um ciclista em Copacabana.
O fato é condenável, não se discute, nem se justifica manifesto de docentes em apoio a agressores. Mas a atitude imediata do reitor Roberto Medronho, um dos melhores nesses tempos de carência por que passam as instituições públicas de ensino e pesquisa, foi exemplar: abriu sindicância, deu entrevista clara, os responsáveis serão avaliados. Não foi ato de uma "esquerda" imaginária encarnada: tratou-se mesmo de inaceitável violência por parte de adolescentes exaltados, no âmbito da UFRJ. Daí ser também espantoso o persistente foco da mídia carioca sobre o assunto, simultâneo e minimizador do relato do pistoleiro. Universidade pública pode ser alvo empresarial mais impactante.
Quando se pensa em "jornalismo do futuro", conviria ser incorporada a definição por Machado de Assis de jornal como "a verdadeira forma da república do pensamento" (em "O Jornal e o Livro"). Sim, diante da metástase eletrônica da informação desinformativa, o bom jornalismo ainda é "expressão, um sintoma de democracia". Nunca foi tão crucial a reflexão responsável sobre o que se ouve e publica.
Passei a última semana no Rio de Janeiro por conta da estreia da minha aula-espetáculo no Teatro Axia Casa Grande. A oportunidade de voltar à cidade por um longo período me deu a chance de acompanhar de perto o cotidiano da Zona Sul. Algumas coisas seguem como sempre foram.
Em um café no Leblon, uma senhora insistia em me oferecer um santinho com os dados do seu candidato. Em cinco minutos, uma outra apareceu com a camisa tomada de broches e adesivos do adversário. Na mesa ao lado, pai e filha não discordavam sobre seus votos, mas se divertiam vendo memes de candidatos e riam dos jingles políticos do momento. É o tempo da política. E a política, aqui, se faz assim.
Moacir Palmeira e Beatriz de Heredia, antropólogos com larga experiência em disputas eleitorais, nos lembram que “o tempo da política” é mais do que uma expressão rotineira, comum na boca do povo. É quando se instala uma fratura temporária no tecido social e uma completa reorganização das relações, de maneira que os projetos políticos se materializem na paisagem, nos encontros e nas pessoas.
É nesse intervalo temporal que nos dividimos, nos aglutinamos em novos formatos, colocamos bandeiras ou toalhas temáticas nas janelas, vestimos as cores dos candidatos e assumimos identidades coletivas, misturadas a valores partidários. É quando não se fala de política como um domínio ou uma esfera, mas se faz política. Nessas horas, é comum que as preferências se imponham sobre as relações familiares ou que um abismo surja entre velhos amigos. Por semanas, nos afastamos da tradicional rotina de encontros em nome de outros vínculos que nos parecem ter mais sentido no hoje.
Esses são momentos contraditórios por si só. Afinal, se as eleições são um convite para que a nação (o todo) pense sobre quais rumos deseja seguir, para dar cabo desse objetivo somos obrigados a nos dividir, nos opor, rivalizar, disputar e romper com os nossos.
Para que a fratura não fuja do controle, é preciso estarmos atentos a dois elementos fundamentais: de um lado, a crença de que o “tempo da política” tem de ter fim e vamos ter a sociedade em debate em torno de um projeto vencedor; do outro, a percepção compartilhada de que, na política, debatemos ideias, não abatemos pessoas.
Desde os gregos, como nos lembrou Hannah Arendt, a política sempre foi o lugar no qual os indivíduos se reuniam, expunham suas visões de mundo distintas e se organizavam para decidir juntos, sem precisar lançar mão de socos e pontapés. É onde, apesar das divergências pessoais, nos damos conta de que há algo maior que nos une e nos impede de romper com os outros para todo o sempre.
Ou, como ouvi Ailton Krenak dizer em um podcast, a política é o ato entre um bofetão e um argumento. É aquele lugar no qual, diante de uma diferença abissal, percebemos que precisamos desses mesmos outros para viver. Com isso, em vez de lançarmos mão da violência que nos separaria definitivamente, somos obrigados a discutir, argumentar, refletir e construir algo juntos. Só é possível fazer política com projeto e ideias. Caso contrário, só restam as bofetadas.
Na saída do café, as duas senhoras já não estavam mais lá. Pai e filha continuavam na mesma mesa, ainda rindo, ainda discordando. Sigamos em paz.
Há muitos anos, quando surgiu pela primeira vez a tecnologia dos e-readers e e-books, por volta de 2008-2011, trabalhava no meio editorial e recordo-me da pompa e circunstância com que foi então anunciada a morte do livro físico, como se fosse uma certeza que iria concretizar-se em poucos anos. Quem claramente se beneficiava com essa narrativa de disrupção total era a Amazon, que tinha acabado de lançar o Kindle, um dispositivo de leitura de e-books, e desejava entrar em força no mundo dos livros. Muitas previsões não se cumpriram, ainda assim os e-books fizeram o seu próprio caminho e passaram a coexistir com outros novos formatos que também ganharam adeptos, como os audiolivros, tendo todos eles impulsionado uma mudança muito positiva na área da acessibilidade.
O cansaço e a saturação da ligação permanente à internet dos tablets e telemóveis fez-me agora regressar ao universo dos e-readers e, por isso, adquiri um Kobo Libra, modelo recomendado por amigos. A facilidade de leitura, o conforto para os olhos, que ficam menos cansados, a possibilidade de ir variando de género sem ter de carregar todos os livros na mala, são fatores que contribuíram para integrar rapidamente o e-reader na minha rotina.
Tive a possibilidade de integrar no e-reader um vasto acervo de e-books que já tinha reunido ao longo dos anos, sendo possível adquirir novos livros na loja da Kobo. No entanto, estou consciente do facto de que esta aquisição não significa necessariamente que o livro passe a ser meu. Em termos puramente legais, limito-me a adquirir uma licença de acesso ao livro. É verdade que, se eu perder de súbito a biblioteca, posso restaurá-la em dispositivos compatíveis. No entanto, a longo prazo, desconheço se aqueles ficheiros serão mantidos porque muitos deles estão protegidos por DRM (Digital Rights Management), uma espécie de cadeado em que o conteúdo digital é encriptado e não pode ser lido sem uma licença válida. Mas o que acontece se um dia a Kobo entra em falência e decide encerrar os serviços? É possível continuar a preservar a biblioteca digital se a plataforma da Kobo desaparecer? Se a maioria dos e-books adquiridos estiverem protegidos por DRM, a probabilidade de preservação é muito menor.
Usei este caso dos e-readers e e-books como exemplo de uma questão que não é devidamente escrutinada. Atualmente, pagamos por conteúdos digitais, mas não nos tornamos os seus proprietários. Muitas vezes estamos a pagar apenas o direito de acesso, mas se alguma coisa acontecer à empresa que detém os licenciamentos, então o desfecho pode ser bastante negativo. Em matéria de conteúdos digitais, não podemos chamar aquilo que adquirimos como sendo verdadeiramente nosso, pelo menos não da mesma forma que compramos um livro físico ou um disco em vinil. O streaming só veio reforçar ainda mais esse panorama com avenças mensais às grandes plataformas que nos concedem licenças de acesso. Pior: corremos o risco de as plataformas alterarem as condições de acesso ou mesmo removerem unilateralmente o acesso, sem qualquer possibilidade de controlo por parte do consumidor. Não podemos oferecer ou revender aquilo que compramos, assim como também não podemos transmitir esses bens adquiridos para familiares. Onde está o nosso direito à preservação cultural?
Se é verdade que, por um lado, a facilidade de disseminação de conteúdos digitais pirateados torna inevitável que os conteúdos venham com encriptação, por outro lado, há que começar a criar soluções melhores para o futuro. Não por acaso, a nostalgia pela cópia física está a regressar em força com o ressurgimento dos DVDs e álbuns de vinil. Hoje em dia, muitas séries e filmes lutam pelo direito de verem os seus conteúdos preservados em cópia física, porque já nem sequer isso é garantido, ficando totalmente dependentes da boa vontade das plataformas que têm os seus próprios modelos de negócio.
Se esta crónica começou por abordar os direitos do consumidor e da propriedade, termina com a questão da memória cultural. Não podemos aceitar que o modelo de subscrições passe a ser a única forma de acesso à cultura, tornando-nos dependentes do streaming ou de lojas online para podermos ver os nossos filmes e séries favoritos, escutar música ou ler livros. E uma vez que a opção de comprar o objeto está cada vez menos disponível, quem garante que a cultura que hoje consumimos continua a estar disponível amanhã?
George Clooney lançou a palavra para as luzes da ribalta na abertura da 83ª Mostra Internacional de Cinema de Veneza, na quarta-feira: “Há uma palavra magnífica, caquistocracia, que designa um país governado pelas pessoas menos qualificadas. Acho que talvez tenhamos neste momento uma caquistocracia nos EUA. Contudo, haveremos de ultrapassar esta situação.”
Na língua inglesa a palavra não é nova. Parece ter surgido pela primeira vez num púlpito, em 1644, na boca de um pregador monárquico, Paul Gosnold, durante um furioso discurso no qual acusou os adversários do rei de pretenderem “incendiar o país para assar os próprios ovos”.
A palavra terá entrado na língua portuguesa através do inglês muitos anos mais tarde. Sérgio Rodrigues contou essa história, com o brilhantismo habitual, numa crônica publicada em 2018.
Mais do que a palavra interessa-me o processo que está envenenando as democracias. A grande questão é — por que motivo escolhemos como representantes aqueles que representam o pior de nós? E será que começamos agora?
As democracias erram muito. Os eleitores, independentemente do seu grau de literacia política, sempre escolheram demagogos, corruptos, incompetentes e até genocidas. Não vos maçarei com exemplos. São muitos. A novidade é que passamos a escolher políticos que exibem sem vergonha, em horário nobre, as respectivas deformidades morais. O vício passou a ser apresentado como uma virtude eleitoral.
A política se transformou pouco a pouco num grande circo de monstros. O que aconteceu?
Aconteceu a revolução das redes sociais. Antes das redes sociais, os políticos precisavam convencer os eleitores. Agora, o importante é atrair a atenção dos eleitores. Os políticos moderados, aqueles que tentam olhar para a complexidade do mundo e dos seus problemas, os que têm dúvidas, os que não gostam de gritar nem de se exaltar, os que não dizem palavrões, estão em clara desvantagem perante os pavões escandalosos.
Antes, os políticos com melhor retórica e melhores ideias tinham certa vantagem. Agora vencem os que tiverem o penteado mais extravagante, a maior motosserra, ou a mais extensa e colorida ficha criminal. Antes, o escândalo era o preço a pagar pela notoriedade; hoje, é uma forma de produzir notoriedade.
Esta dinâmica criou uma bizarra subversão de valores. A crueldade de Donald Trump é, para quem o apoia, um sinal de força; o seu machismo, racismo, ignorância e rudeza, uma prova de rebeldia contra a “elite dominante”. Os eleitores de Trump, de Bolsonaro ou de Milei não procuram alguém melhor do que eles. Querem, pelo contrário, alguém que represente os seus próprios vícios e transgressões. Enfim, buscam figuras que legitimem o pior que há neles.
“Haveremos de ultrapassar esta situação”, assegurou George Clooney. Não será fácil. Trump, Milei ou Bolsonaro chegaram ao poder porque se revelaram criaturas muito bem bem adaptadas ao atual ecossistema político. Para derrotar a caquistocracia será necessário, primeiro, derrotar o algoritmo.
O grave problema é que construímos um mundo no qual os piores são os mais aptos.
Comentei na noite de ontem, no meu programa na BandNews, a reação de um sujeito de quem nunca tinha ouvido falar que cismou que um texto meu contestava um troço que ele havia dito. Ocorre que fiquei sabendo que ele existia junto com a ofensa. Que coisa! Porque discorda ou não gosta de mim, acha que produzo para ele. Esses tipos podem ser perigosos. Mark Chapman, o assassino de John Lennon, afirmou em depoimento que seu ex-ídolo debochava dele…
Não sou Lennon nem o sujeito, cuja existência descobri com sua desafeição, é Chapman. Levo o par estrutural ao exagero para que se perceba a natureza desse tipo de pensamento. Vou escrever aqui sobre algumas reportagens — evitei todos os textos opinativos para me precaver de “afetos de tristeza” (Spinoza) — tendentes a pespegar em ministros do STF a pecha de insensíveis porque, afinal, fotografados rindo à larga.

As fotos, de Brenno Carvalho, de “O Globo”, foram tiradas na quarta passada. A personagem da qual partiram alguns chistes, o ministro Flávio Dino, nem aparece no enquadramento que viralizou. Veem-se claramente Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e, de costas, Edson Fachin. Outro fora desse corte era Luiz Fux. Nota: sim, fotos absolutamente jornalísticas. Motivo óbvio: um momento de descontração num dia especialmente tenso.
Há um clássico, quase um clichê para quem se interessa pela área, do momento em que uma imagem vira um símbolo. Em “Tempos Modernos”, Carlitos (Charlie Chaplin), que havia acabado de sair de um hospital, vê uma bandeira vermelha cair da traseira de um caminhão. Bom homem, pega o objeto e sai correndo atrás do veículo para devolvê-la. Ocorre que ele se mistura com uma passeata de trabalhadores socialistas que carregam seus cartazes de protesto. A Polícia chega distribuindo porrada e prende o coitado.
E assim se deu. O juízo policialesco está pronto para descer o porrete no tribunal. Carlitos não tinha direito à inocência. Nem os ministros — exceto, claro!, André Mendonça, aquele que grava vídeo a seus apoiadores em nome de Deus e não se encontrava por ali a ouvir gracejos impuros.
Como estaria em curso a crise mais grave desde que o Supremo existe, ministros não podem sorrir. Noto que continuo a pensar que o pior momento da história do tribunal se deu em janeiro de 1969, quanto o AI-5, a tal “ditadura escancarada”, cassou Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal, com a renúncia consequente, em sinal de protesto, de Antônio Gonçalves de Oliveira e Antônio Carlos Lafayette de Andrada. Minha tese: os males da ditadura, que o STF impediu e da qual já foi vítima, sempre serão maiores do que os da democracia.
É bom que saibam: havia ali ministros que são, como costumo brincar, de “enfermarias distintas”. Dino, que já praticou jiu-jitsu no passado, fez algumas brincadeiras com Fux, que é professor do esporte. São amigos pessoais e mantêm, não obstante, diferenças abissais de análise — o que, em princípio, vejo como positivo. Nesse caso, Moraes e Gilmar, sabemos, são mais próximos de um do que de outro nos juízos que emitem.
Fachin ora está mais para um lado, ora para outro. Os que riam ali já tiveram embates muito duros em momentos cruciais para a democracia brasileira. Deus do Céu! Nem se completaram oito meses do fim do julgamento dos golpistas — tentativa de golpe que, sabemos, André Mendonça, ausente, e Fux, presente, não viram. Nem sei se outro negacionista da intentona, Nunes Marques, encontrava-se por perto. Não aparece em nenhuma das imagens.
Assim, de saída, entendo que rir ou não e estar ou não presente, naquele momento, naquela foto, podem não ser o melhor critério para avaliar um ministro. Mas é claro que este meu juízo tem lado: alinho-me, como circula num viral bolsonarista contra a imprensa (ah, esses defensores da liberdade de expressão!!!), entre os profissionais que defendem que lugar de golpista é a cadeia. Mais: entendo que todos têm direito ao devido processo legal, incluindo ministros do Supremo.
Segundo apurei, o momento da gargalhada propriamente foi motivado por um ouitro chiste, em tom galhofeiramente autodepreciativo — os bem-humorados, quando se incluem numa piada, não devem fazê-lo para se jactar. Inexiste graça na arrogância.
Esse tribunal que ri ainda é vítima de uma escalada que começou no dia 9 de julho de 2018, quando Eduardo Bolsonaro, o condenado por coação no curso do processo, disse numa palestra que, para fechar o Supremo, nem precisaria de um jipe: bastariam um soldado e um cabo. Sua pregação rende frutos: estão aí os editoriais a pedir a cabaça de Moraes, ecoando 1954, 1964, 1969, 2022… Os golpistas queriam matar Moraes. Por ora, nossos valentes pensadores se confortam com a renúncia.
“Mas, então, porque salvou a democracia, ele pode tudo?” Não. Mas não se lhe pode sonegar o devido processo legal nem deve ser ele alvo de procedimentos de exceção, como os praticados por Mendonça. Mas esse será outro texto. Volto ao riso.
Prefiro que ministros riam a que pranteiem a morte de um dos seus. Prefiro que riam a que levam também para os corredores os embates muito duros que ali se travam. Prefiro que riam, demonstrando que julgam teses, não ódios pessoais, a que seu fanatismo seja confundido com seriedade. Prefiro o bom humor mesmo tratando de questões que podem ser de enorme seriedade à circunspecção que, muitas vezes, é só falta do que dizer.
Fux, Mendonça e Nunes Marques não gargalham quando se alinham com os negacionistas do golpe — não creio que o façam nem “por dentro”. Dino não gargalha quando evidencia o modo como o “emendismo” ameaça a eficiência dos gastos públicos e, no limite, a democracia. Gilmar não gargalhava ao se confrontar com os desmandos da Lava Jato. Não gargalhava Moraes quando, por enfrentar os arruaceiros de sonhos sangrentos, acabou vítima da Lei Magnitsky.
Não acredito, voltando a ambos, que Mendonça e Moraes se comportavam como dois sátiros quando enviaram suas respectivas petições a Fachin, que não deve andar por aí com os dentes à mostra, feito o Gato de Alice. Vou sempre preferir o riso que desconstrói doxas ao ódio que embala ortodoxias homicidas e liberticidas.
Em 1974, a Divisão de Censura de Diversões Públicas censurou a música “Tiro ao Álvaro”, de Adoniran Barbosa assim: “A falta de gosto impede a liberação da música”. E vieram circuladas as palavras “erradas”, que incomodaram o pudoroso censor: “álvaro”, “tauba”, “revórver”, “automóver”. Sabem como é… Em tempos rigorosos, não se pode descuidar. Rir pode ser algo muito perigoso e até mesmo ofensivo.
De fato, raramente o tribunal experimentou momentos tão tensos. Há embates duríssimos por vencer. A depender dos desdobramentos, poderemos viver alguns dos piores anos de nossa história, e o riso, se assim for, vai se tornar bem escasso. E, ainda assim, defenderei o humor que não depende da humilhação dos fracos para ter graça.
O latinista francês Jean de Santeul (1630-1697) cravou no busto de Arlequim o lema: “Castigat ridendo mores”. Vale dizer: “Rindo, moraliza os costumes”. Numa tradução mais clara: “Por meio do riso, moralize os costumes”. Se rir é sempre sinal de frivolidade ou de deboche, é o caso de se proibir a comédia. E só a tragédia nos definirá, como se a dor fosse a única expressão da profundidade. A polícia política, mais uma vez, transformou uma simples imagem num símbolo e saiu distribuindo porradas.Reinaldo Azevedo
Uma pergunta se impõe, ao fim da semana — mais uma — desastrosa. A quem interessa a implosão da democracia? Às brasileiras e aos brasileiros, certamente, não. Em uma década, o país impôs impeachment à única mulher já eleita presidente da República; enfrentou e puniu tentativa de golpe de Estado. Agora, flerta novamente com o abismo. Quem foi para o feriado da Independência sem uma ruga de preocupação está mal informado. O risco é crescente e difuso: parte do golpismo continuado da extrema direita bolsonarista; cruza a ameaça de interferência estrangeira pelos Estados Unidos de Donald Trump no processo eleitoral; passa pela disputa fratricida entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF); esbarra no escândalo financeiro protagonizado por Daniel Vorcaro e sua teia; cruza com um Legislativo ensimesmado. Por fim, encontra o desencanto da população com um sistema político carcomido e desprovido de representatividade.
A democracia brasileira nunca chegou ao patamar sonhado por quem nela acredita. Mas abandoná-la não tornará o país melhor. Um regime alquebrado é para ser curado, não aniquilado. A receita é expulsar o agressor, não abrigá-lo. Quatro anos atrás, perto das eleições, pesquisa Quaest revelava que 58% dos brasileiros se declaravam muito interessados no pleito. O embate entre Jair Bolsonaro, o presidente golpista, e Luiz Inácio Lula da Silva produziu engajamento. No mês passado, a proporção estava em 36%; na quarta passada, no primeiro levantamento de setembro, o percentual oscilou um ponto percentual para cima. Pouco ou nada interessados somavam 63% em agosto, 62% agora, como se a democracia segura estivesse. É um desinteresse espantoso, a um mês da escolha de presidente, 54 senadores, 513 deputados federais, 27 governadores e todos os integrantes das assembleias estaduais.
Felipe Nunes, diretor da Quaest, conta que interesse no pleito é variável usada pelos pesquisadores para avaliar abstenção. Quanto menos engajado, maior a probabilidade de não comparecer à votação. Desencanto é resposta natural de um eleitorado que não se enxerga no leque de candidaturas, não se comove com a campanha, desconfia do sistema. É também combustível para mais fragmentação e/ou ascensão de outsiders e candidatos a autocratas. Contra a ameaça à democracia, radicalizá-la, como ensina Sueli Carneiro, filósofa, escritora, ativista. Há que elevar a participação política, reivindicar inclusão, repelir o autoritarismo, exigir dos candidatos seriedade, obediência à Constituição, planos concretos para os problemas que nos atormentam.
Já que viraram moda na política — e até no Supremo — as referências bíblicas e as mensagens religiosas, trago contribuição da mitologia iorubá, também parte de nossas origens. Oxaguiã é orixá relacionado a progresso, inovação, reconstrução. É divindade que rejeita o comodismo. Inventou o pilão para preparar, mais rapidamente e em maior quantidade, seu prato predileto, o inhame pilado, e repartir com a comunidade, conta o professor e babalorixá Márcio de Jagun.
É também ele que faz do conflito evolução. Luiz Antonio Simas, historiador, escritor e pesquisador das afrobrasilidades, lembra que um itan (narrativa sagrada) dos mais populares trata da demolição, repetidamente, por Oxaguiã do palácio de Ogum como forma de obrigar o povo a reconstruí-lo melhor. É coisa de quem não se conforma com a mediocridade nem com a acomodação; de quem não tolera a resignação nem o comodismo.
— Se esse caminho vem como irê (positividade), é um marco de reconstrução, do fazer melhor. Se a tendência é de negatividade, dá para dizer que o comportamento de destruição e reconstrução está se tornando obsessivo — completa.
Na consulta espontânea sobre intenção de voto, quatro em dez entrevistados (42%) pela Quaest se disseram indecisos; no Datafolha, 26%. Num instituto e no outro, há muita gente por decidir. Quase metade do eleitorado (45%) diz que o principal motivo para escolher o candidato é a qualidade das propostas. A proporção pouco varia entre mulheres e homens, pobres e ricos, católicos e evangélicos, brancos e negros, mais ou menos escolarizados, morador de uma região ou outra. Os eleitores estão quase tão preocupados com promessas quanto indecisos sobre o candidato. Tudo somado devia nutrir o debate, germinar o entusiasmo, jamais abrir mão da democracia e deixar que vençam aqueles que a desprezam. No Judiciário, no Legislativo ou no Executivo.
Da cadeia, Daniel Vorcaro continua dando as cartas. Ele quer a nulidade do processo do caso Master. O ex-banqueiro caminha a passos largos para conseguir que seja colocado em suspeição todo o inquérito contra ele.
Na intimidade das mensagens trocadas pelo celular, Vorcaro é "amigo, Dani, irmãozão, mermão". Em público, os mesmos que o tratam com palavras amorosas nada sabem. Não são amigos.
O deputado Nikolas Ferreira, que se autoproclama "homem de família", entrou nessa lista. Pediu que Vorcaro ajudasse seu ex-assessor de gabinete a liberar "um ativo de minério". Maracutaia.
Vorcaro muda de advogados como quem troca de roupa. Diz que vai falar, não conta nada, volta atrás, sinaliza com nova delação, engana e segue segurando os cordões das marionetes ao sabor de quem mais o ajudar a alcançar seu propósito.
O advogado da hora é Daniel Bialski, que já prestou serviços ao ex-governador Cláudio Castro, a Michelle Bolsonaro no caso das joias sauditas e à ex-deputada Carla Zambelli.
Em Brasília, Bialski é conhecido por ter boa relação com André Mendonça, relator do caso Master no STF (Supremo Tribunal Federal) e ex-ministro de Bolsonaro.
A disputa eleitoral apertada e o STF em chamas ajudam Vorcaro. A última dele foi dar um depoimento ao gabinete de Mendonça dizendo que sofreu tortura psicológica, maus-tratos e ameaças veladas na prisão para não relatar fatos ligados à Polícia Federal.
O depoimento, gravado em vídeo, foi dado a um juiz auxiliar da equipe do ministro. O alvo era o chefe da PF, Andrei Rodrigues.
Os vazamentos pinçados dão aos advogados a chance de pedir a nulidade. A estratégia acaba favorecendo o presidenciável Flávio Bolsonaro por colocar em risco a apuração sobre o filme "Dark Horse".
Ao tirar o sigilo parcial do caso, Mendonça não estaria agindo de forma proposital? O episódio lembra a atitude do ex-juiz Sérgio Moro, que divulgou grampo de ligação entre Lula e Dilma Rousseff.
Não nos esquecemos: Vorcaro é o maior fraudador da história do sistema financeiro do país. Quem ainda acredita nele?
O Supremo Tribunal Federal foi arrastado para sua maior tormenta por dois de seus integrantes: André Mendonça e Alexandre de Moraes. Agora cabe ao presidente da Corte, Edson Fachin, decidir se o capítulo mais agudo da crise terá um desfecho diante das câmeras de tevê ou se a solução será outra. Mendonça investigou Moraes às escondidas no caso Master e botou na praça todas as informações recebidas da Polícia Federal. Moraes está encrencado até o pescoço, graças à relação com Daniel Vorcaro, dono do finado banco. Ao ligar o ventilador na direção do colega, Mendonça praticamente exigiu que o STF realize uma sessão aberta para decidir o futuro do desafeto. Detalhe: Moraes assumirá o comando do Supremo daqui a um ano, se sobreviver até lá. Para o trivial Fachin, o tribunal vive um momento de “especial gravidade” e tanto a atuação de Mendonça quanto os indícios contra Moraes exigem resposta. Daí sua promessa de anunciar nos próximos dias “as medidas cabíveis e necessárias”, conforme declarou em nota pública. Uma saída que preserve “a integridade do Supremo”, “a autoridade de suas decisões” e “a confiança da sociedade na instituição”.
Ao partir para cima de Moraes, Mendonça incendiou a oposição às vésperas do Dia da Pátria, data que o bolsonarismo usou em outras ocasiões para malhar o Supremo e pretende repetir a dose neste ano. Muitas campanhas direitistas ao Senado, casa com poder para cassar ministros das altas Cortes, se escoram no discurso anti-STF. Não só o tribunal está em jogo, a eleição presidencial também. A guerra contra Moraes é o ápice de uma atuação de Mendonça a favor do clã Bolsonaro nas investigações sobre falcatruas do Master e sobre descontos indevidos em aposentadorias do INSS. O ministro deve a vaga no STF a Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de cadeia por tentativa de golpe em um processo conduzido por Moraes. “É o mais ideológico” da Corte, anota um colega. Enquanto poupa Flávio Bolsonaro no inquérito sobre o filme Dark Horse, um capítulo do escândalo do Master, o “terrivelmente evangélico” parece empenhado em transformar Vorcaro em herói com uma delação premiada contra o lulismo. Uma forma de jogar no colo do governo um escândalo majoritariamente do Centrão e dos bolsonaristas, vide, entre outras, a participação decisiva dos ex-governadores Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, e Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e do senador Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro.
No fim de agosto, o gabinete de Mendonça recebeu Vorcaro, preso preventivamente desde março. Tomou-lhe um depoimento, a pedido do advogado de defesa. Uma das afirmações do interrogado foi de que topa acusar “pessoas do núcleo do atual governo”. A íntegra do depoimento foi vazada na quinta-feira 3. É o método lavajatista a pleno vapor a um mês da eleição. Busca-se pressionar as autoridades, via mídia, para que aceitem a delação de Vorcaro, alguém disposto a passar o Brasil a limpo. O relatório da PF sobre as relações de Moraes com Vorcaro dá plausibilidade à tese de que o banqueiro tem muito a falar.
Vorcaro foi preso duas vezes a pedido da PF e não conseguiu convencê-la a aceitar uma delação, nem teve mais sorte com a Procuradoria-Geral da República. Segundo fontes policiais, ele propôs um acordo inaceitável: reabrir o Master e pagar ao longo de anos, não de cara, uma multa de 40 bilhões de reais. Autorizada pelo Banco Central a funcionar no primeiro ano de Jair Bolsonaro, a instituição de Vorcaro foi fechada pelo BC no dia da primeira prisão dele, em novembro passado. A PF prepara-se para concluir as apurações principais do caso e incriminá-lo por gestão fraudulenta. Aí caberá à PGR acusá-lo, ou não, na Justiça. Um relatório do BC de outubro de 2025 aponta um golpe de 12 bilhões de reais do Master, com a venda ao BRB, banco estatal de Brasília, de uma carteira de crédito fajuta. É a maior fraude financeira da história brasileira.
A delação de um parceiro de Vorcaro tem tudo para piorar a situação do banqueiro e para tornar mais improvável um acordo de delação. José Carlos Mansur é o dono de um fundo, a Reag, que o Master usava para lavar dinheiro. A Reag também se prestava à lavanderia do PCC. Os negócios com o Master injetaram recursos em uma empresa, a Super Empreendimentos, que depois compraria uma casa em Brasília onde seria instalado o QG de Vorcaro. Até 2024, a Super era dirigida por um cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel. Na eleição de 2022, Zettel foi um dos maiores financiadores de Bolsonaro, 3 milhões de reais. A delação de Mansur acaba de ser selada com o Ministério Público. Cabe a Mendonça, relator do caso Master, homologá-la. Idem com outra colaboração premiada encaminhada, conforme O Globo. E esta atinge envolvidos com o filme Dark Horse, a cinebiografia de Bolsonaro bancada por Vorcaro.
O delator, neste caso, é Antônio Carlos Freixo Júnior, alvo em janeiro de uma batida da PF. Conhecido como “mineiro”, fazia chegar aos Estados Unidos os repasses de Vorcaro para o filme. Em 5 de fevereiro do ano passado, Vorcaro e Zettel trocaram mensagens sobre a produção e o patrocínio, conforme revelado, em maio, pelo Intercept Brasil. Zettel dizia que a área de câmbio do Master estava “criando caso”. Vorcaro autorizou “mandar a grana”, por meio de “quem paga lá fora”. Zettel perguntou se poderia pedir ao “Minas” para enviar, ou seja, a Freixo Jr. À época, Eduardo Bolsonaro já havia se autoexilado no Texas, a fim de conspirar para que o governo Trump impusesse medidas prejudiciais ao Brasil, na esperança de livrar o pai da cadeia. Convertido em réu no STF por “coação no curso do processo”, foi condenado a quatro anos em um processo relatado por Moraes. A delação de “mineiro” é uma chance de descobrir se Vorcaro pagou o complô de Eduardo. Fontes da PF são céticas quanto ao auxílio do governo norte-americano no rastreio da verba depositada no Heavengate, o fundo localizado nos EUA que era o destino dos recursos transferidos por Vorcaro. Motivo do ceticismo: os laços do bolsonarismo com o trumpismo.
Em setembro de 2025, o Heavengate recebeu um extra de 1,6 milhão de dólares de Vorcaro, de acordo com um relatório do Coaf, o órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, revelado pela revista Piauí. Na semana anterior, Flávio Bolsonaro havia cobrado o banqueiro. “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?”, dizia o senador. “É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme, e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso.” O senador insiste que a relação entre Vorcaro e o filme só envolve dinheiro privado, ou seja, nada antiético. Será? Ao chegar à beira do abismo, em 2024, o Master lambuzou-se em verba pública para tentar se safar. O fundo de pensão dos servidores do Rio injetou cerca de 3 bilhões de reais no banco, na gestão Castro. E o BRB, 12 bilhões, sob Ibaneis. Karina Ferreira da Gama, a dona da produtora do filme, a GoUp, pede para ser investigada sob supervisão do Mendonça. Idem o deputado Mário Frias, do PL, secretário de Cultura no governo Bolsonaro, roteirista da cinebiografia do capitão e autor do envio de dinheiro de emendas parlamentares a uma ONG de Gama. Essa ONG, o Instituto Conhecer Brasil, é alvo da Polícia Civil de São Paulo por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura paulistana. O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira vê “consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark Horse. Daí os advogados da produtora acionarem Mendonça para que ele retire de São Paulo a investigação e puxe para si em Brasília. Frias é alvo de um inquérito no Supremo, aos cuidados de Flávio Dino, por ter financiado o instituto com emenda parlamentar. Seu advogado pediu a Fachin que transfira o inquérito para Mendonça. Tanto o deputado quanto Gama parecem, digamos, confiar em Mendonça.
Quando o assunto é Dark Horse, o filho “Zero Um” não tem do que reclamar do “terrivelmente evangélico”. O processo não tem gerado notícias. Há, porém, um recurso no Supremo capaz de fazer tudo passar às mãos de outro magistrado. Após a divulgação do áudio de Flávio a Vorcaro, o deputado Lindbergh Farias, do PT, requereu ao STF uma nova investigação do senador. A solicitação foi a Moraes, pois, à época, o ministro era o relator da ação penal de “coação” contra Eduardo. Moraes não aceitou a relatoria e remeteu a bola a Fachin. Este entendeu que o tema se relacionava ao caso Master e mandou o pedido a Mendonça. Cabe a este liberar o recurso para o plenário do Supremo resolver a controvérsia sobre a relatoria.
Por que Moraes se esquivou de supervisionar o processo sobre Dark Horse? Segundo informações em Brasília, o juiz não queria entrar na berlinda associado a Vorcaro. O relatório encomendado por Mendonça a delegados da PF do caso Master explica o receio. Moraes e o banqueiro estiveram juntos várias vezes desde o fim de 2023. O que falaram nas conversas não se sabe. Mas as trocas de mensagens escritas entre eles são comprometedoras para Moraes, mesmo que a PF tenha conseguido descobrir apenas o que Vorcaro dizia. Os dois usavam um método peculiar nas mensagens. Em vez de escreverem o texto no WhatsApp, redigiam no aplicativo “bloco de notas”, faziam uma foto da “nota”, a enviavam ao outro e em seguida a apagavam do WhatsApp, forma de não deixar rastros. O que Vorcaro não sabia é que as fotos ficavam armazenadas em um lugar oculto no celular, e foi a esse “esconderijo” que a PF chegou ao apreender o telefone dele em novembro.
Ao se observarem as mensagens em conjunto e cotejá-las com os acontecimentos, a conclusão inescapável é de que Vorcaro contratou o escritório da esposa de Moraes para ter serviços prestados pelo próprio togado. E que o combinado foi entregue. Descobrir a existência de investigações policiais e de medidas judiciais contra o Master era uma das missões do juiz. Procurar autoridades que pudessem salvar a pele do banco e de seu dono era outra. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o procurador-geral, Paulo Gonet, parecem ter sido acionados por Moraes. Dois deles, afirma uma autoridade em Brasília, receberam mensagens de Moraes nas quais o ministro dizia que Vorcaro era “sério”. Situação que configura, em tese, crimes como advocacia administrativa, favorecimento pessoal, tráfico de influência e obstrução de Justiça.
O primeiro contrato de Vorcaro com o escritório de Viviane Barci de Moraes ocorreu em janeiro de 2024. Em 30 de dezembro de 2023, o banqueiro e o ministro haviam se encontrado na estância turística de Campos do Jordão, no que parece ter sido o tête-à-tête inicial. A reunião tinha sido intermediada por Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro. Foi Faria quem passou o telefone do togado a Vorcaro durante os preparativos do encontro. Duas semanas após a reunião, Moraes examinou o contrato que a esposa selaria com o banqueiro. Há registro de que ele alterou o documento antes da assinatura. O acordo era de 3 milhões de reais mensais, por três anos. Outro, de 50 milhões, a ser pago com cotas de empresas proprietárias de um helicóptero e de um avião, foi celebrado em maio de 2025.
O ano passado marcou a ruína do Master. Vorcaro foi preso pela PF pela primeira vez na noite de 17 de novembro, uma segunda-feira, no aeroporto de Guarulhos, quando estava prestes a embarcar para o exterior. Na antevéspera, 15 de novembro, um sábado, ele havia procurado Moraes. Em uma das mensagens, dizia: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo, tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que na segunda já tenho que estar fora?” No minuto seguinte, prosseguiu: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”.
As mensagens resumem a natureza da relação entre os dois e delineiam o papel do magistrado. “Juiz Ricardo” é Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, autor da decisão sobre a prisão preventiva de novembro, fato desconhecido na ocasião das mensagens. Galípolo é o presidente do BC. Paulo é Gonet, o procurador-geral. E Andrei, o diretor da PF. Em 16 de novembro, Vorcaro e Moraes acertaram uma reunião às 2 da tarde. Depois dela, o primeiro escreveu ao segundo: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Não houve atraso. A PF o algemou no dia seguinte e desde então resiste às suas propostas de delação. Em uma das últimas mensagens a Moraes no dia da prisão, ele indagou: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Por “bloquear”, leia-se “melar” a operação policial a caminho.
Mendonça tornou público o relatório encomendado à PF e assinou um despacho no qual afirma que o “caminho inevitável” é o plenário do Supremo decidir “de forma pública e transparente, em sessão presencial” o que fazer. Tradução: se Moraes será investigado. É mais uma tacada do tipo lavajatista, de usar a opinião pública para pressionar o Judiciário, ao estilo de Sergio Moro, cuja postura Mendonça tem mimetizado ao orientar a mira da PF nos inquéritos do Master e do INSS. A correlação de forças no Supremo não permite antecipar o desfecho, na hipótese de julgamento plenário. A realização ou não dessa sessão depende de Fachin.
Gonet pediu ao tribunal a anulação do relatório policial encomendado por Mendonça. Segundo ele, há duas nulidades por trás do documento. Uma é que o juiz abriu uma investigação por conta própria, sem ser provocado pela PF ou pelo Ministério Público. A outra é que a produção do relatório deveria ter sido discutida no plenário do STF. Há um complicador na posição do procurador. Ele próprio é atingido pelo relatório policial. Além das citações a seu nome em conversas entre Vorcaro e Moraes, aparece como alguém das relações do banqueiro. A ponte entre eles era o advogado Ciro Rocha Soares, que intermediou um convite para Gonet participar de um evento jurídico em Londres, em 2025, organizado por Moraes e patrocinado por Vorcaro. O banqueiro topava bancar as despesas do procurador-geral e de um filho dele, Pedro Gonet. O evento, cuja primeira edição aconteceu em 2024, foi cancelado.
Soares foi intermediário de um encontro de Mendonça com Vorcaro, em março do ano passado, época em que o caso Master ainda não tinha vindo à tona, conforme revelado pelo jornalista Paulo Motoryn. A reunião ocorreu na sede do instituto do juiz, o Iter, em São Paulo. O Iter é um flanco exposto do togado, por causa de contratos com órgãos públicos. Um deles: 1,2 milhão de reais pagos por um consórcio municipal paulista, o Cioste, presidido por um prefeito que injetou dinheiro no Master na hora do aperto do banco, conforme revelado, em abril, por CartaCapital. O acordo foi feito quatro meses após a conversa de Mendonça e Vorcaro. Outro contrato chamativo: 518 mil reais com a Secretaria de Segurança Pública do Rio, de maio passado. Cláudio Castro, governador do estado até janeiro, é investigado no escândalo do Master. A PF pediu uma batida contra ele, e Mendonça autorizou justamente em maio. Não permitiu, porém, que fosse vasculhado o escritório de advocacia de Castro, onde o ex-governador guardaria documentos incriminadores.
E a política diante do maremoto? Flávio Bolsonaro pede a renúncia de Moraes, outros opositores querem o impeachment do juiz via Senado. Quem tem o poder de abrir o processo de cassação é o presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Na quarta-feira, o senador comentou no plenário: “Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para a mesma pessoa, para fazer um filme, e agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”. Foi uma alusão à cobrança de Flávio a Vorcaro. “A maior aliança da República hoje é do Davi com o Alexandre”, afirma um ministro de Lula. O juiz promoveu a reconciliação do senador com o presidente da República, ao oferecer um jantar no início de agosto. O petista conversou com alguns magistrados do Supremo nos últimos dias e está decidido a lavar as mãos no entrevero. O coordenador da campanha à reeleição, Edinho Silva, divulgou um vídeo após falar com Lula. Nele diz que “o sistema apodreceu” e que “ninguém está acima da lei, seja cidadão comum, um governante, um parlamentar, ou até um integrante do Poder Judiciário”.
A conferir se o lavajatismo vai triunfar mais uma vez.
No dia 19 de agosto, a Oxfam Brasil lançou o relatório Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia. O documento mostra uma aparente contradição: embora alguns indicadores de renda dos brasileiros tenham apresentado melhora nos últimos anos, uma parcela desproporcional dos ganhos foi apropriada pelos grupos situados no topo da pirâmide social. Entre 2017 e 2023, por exemplo, a participação do 1% mais rico na renda nacional passou de 20,4% para 24,3%; desse avanço, 85% ficaram com o 0,1% mais rico. Para compreender essa aparente contradição, porém, é preciso ir além da constatação de que o Brasil apresenta uma das mais elevadas concentrações de renda do mundo. É necessário, antes de tudo, distinguir uma questão fundamental: salário é renda, mas renda não se resume ao salário.
Essa diferenciação exige uma breve pausa para alinhar três conceitos que, embora frequentemente tratados como sinônimos no debate público, possuem papéis completamente distintos na dinâmica econômica:
Salário: É a remuneração recebida pelo trabalho realizado. Para a esmagadora maioria da população, ele constitui a única fonte de recursos para a manutenção da vida cotidiana, garantindo o acesso a bens essenciais como alimentação, moradia e transporte. O salário, portanto, está diretamente vinculado à venda da força de trabalho no mercado.
Renda: Trata-se de um conceito mais amplo. Ela corresponde ao conjunto de recursos que uma pessoa ou família recebe em determinado período e pode ter diferentes origens. Além dos salários, a renda pode resultar de aposentadorias, benefícios, aluguéis, juros, lucros, dividendos e outras formas de remuneração. Essa distinção é fundamental para compreender a desigualdade, pois pessoas que possuem patrimônios elevados podem obter rendimentos significativos mesmo sem depender diretamente do trabalho para gerar sua renda.
Patrimônio: O patrimônio, por sua vez, representa o conjunto de bens e ativos acumulados por uma pessoa ou família. Nele podem estar incluídos imóveis, veículos, empresas, participações societárias, aplicações financeiras e outros ativos. Diferentemente da renda, que representa um fluxo contínuo de recursos recebido ao longo do tempo, o patrimônio constitui um estoque de riqueza acumulada. E essa diferença é fundamental: o patrimônio não representa apenas riqueza acumulada no passado; ele constitui também um ativo capaz de produzir novas rendas e, consequentemente, ampliar a própria riqueza por meio de aluguéis, juros, lucros e dividendos.
Renda do capital: É no encontro entre patrimônio e renda que surge a renda do capital. Ela corresponde aos rendimentos gerados a partir da propriedade de ativos: lucros distribuídos, dividendos, juros e aluguéis. A diferença crucial reside no fato de que o patrimônio não representa apenas uma riqueza passada, mas o motor da riqueza futura. Assim, quanto maior o patrimônio acumulado, maior a capacidade de gerar novas rendas de forma autônoma, sem qualquer dependência da venda da força de trabalho.
A desigualdade brasileira não resulta apenas da distribuição desigual da renda produzida pelo trabalho. Ela está assentada em uma estrutura de propriedade que permite a uma pequena parcela da sociedade transformar patrimônio em renda, renda em riqueza e riqueza em poder – processo que também se materializa de forma desigual no território.
Na prática, esse mecanismo opera como uma espiral de privilégios. A propriedade do capital gera uma renda que não apenas sustenta o indivíduo, mas se reverte continuamente em novo patrimônio. É na continuidade desse ciclo que a desigualdade deixa de ser um evento ocasional e passa a constituir uma estrutura permanente. Por isso, para compreender a concentração da renda, não basta perguntar quanto cada pessoa ganha; é preciso perguntar também quem possui os ativos que a produzem. E, diante da enorme concentração no topo da pirâmide, surge uma questão fundamental: de onde vem uma parcela tão grande desse montante?
Uma parcela significativa dessa renda pouco ou nada depende da remuneração do trabalho, mas do fato de a propriedade do capital produzir novos rendimentos e se multiplicar continuamente. No Brasil, os dados apresentados pela Oxfam evidenciam que a concentração no topo da pirâmide social está estreitamente relacionada à posse de ativos financeiros, imobiliários e empresariais. À medida que esses ativos geram lucros, dividendos, juros, aluguéis e ganhos patrimoniais, seus proprietários ampliam sua capacidade de acumulação e de reprodução da riqueza. Esse processo é ainda mais intenso entre o 1% mais rico e, de forma particularmente concentrada, no interior desse grupo, entre os integrantes do 0,1% do topo.
Desse modo, uma parcela expressiva dos rendimentos dos mais ricos não depende exclusivamente da remuneração obtida pelo trabalho, mas da capacidade de um patrimônio já acumulado produzir novos rendimentos e ser continuamente ampliado.
Assim, a questão sobre a origem de tamanha concentração nos conduz inevitavelmente à estrutura de propriedade: o patrimônio acumulado deixa de ser mero bem individual e passa a atuar como um mecanismo de reprodução da riqueza, capaz de gerar novos fluxos de renda e multiplicar a riqueza daqueles que já ocupam o topo da estrutura social.
Essa conversão da riqueza privada em poder político manifesta-se com clareza na própria composição do Congresso Nacional. Segundo o relatório da Oxfam, 45% das pessoas eleitas declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão, revelando uma presença massiva de milionários no Legislativo. No Senado Federal, o contraste é ainda mais expressivo: entre as 207 candidaturas analisadas, apenas 15, cerca de 7% do total, possuíam patrimônio de até R$ 100 mil.
Esses dados revelam uma assimetria que vai muito além da renda: o abismo econômico converte-se em desigualdade nas condições de acesso ao poder político. Embora o Parlamento seja formalmente democrático, sua composição está muito distante da estrutura patrimonial da sociedade brasileira, marcada por uma forte concentração de representantes pertencentes aos estratos de maior patrimônio e pela presença reduzida daqueles situados nas camadas patrimoniais inferiores. A riqueza deixa, assim, de ser mero recurso privado e passa a atuar como alavanca de influência pública, permitindo que as elites econômicas moldem as regras do jogo e a distribuição de recursos do Estado. Em última análise, a desigualdade econômica passa a produzir também uma desigualdade política, restringindo a diversidade social nas instituições e favorecendo a reprodução das estruturas de poder existentes.
Essa engrenagem de acumulação e poder não fica solta no ar: ela ganha corpo, toma forma e se fixa diretamente no território. É no espaço geográfico que a passagem do patrimônio ao poder se torna mais concreta, transformando a desigualdade econômica e política em uma profunda desigualdade territorial, cujos efeitos se materializam diariamente no campo e na cidade.
No espaço urbano, a produção da segregação estabelece novas fronteiras de exclusão à medida que a mobilidade do capital financeiro e imobiliário transforma o solo em um ativo estratégico de valorização e especulação. Esse processo contribui para concentrar investimentos públicos e privados em áreas dotadas de maior infraestrutura e capacidade de valorização, ao mesmo tempo em que produz novas centralidades e enclaves fortificados, como condomínios fechados, shopping centers e complexos empresariais, que fragmentam o tecido urbano e estabelecem diferentes regimes de acesso à cidade. Essas estruturas redefinem a centralidade urbana por meio de espaços seletivos e controlados, reproduzindo, sob formas privadas, funções tradicionalmente associadas ao espaço público. Enquanto o capital imobiliário se apropria de parcelas da valorização produzida coletivamente pela cidade e concentra investimentos nas áreas mais valorizadas, a população trabalhadora, cuja principal fonte de renda é o salário, é submetida aos efeitos da espoliação urbana e empurrada para periferias cada vez mais distantes. A ausência ou precariedade de saneamento, transporte, iluminação e equipamentos públicos transforma, assim, a distância geográfica em barreira concreta ao acesso a direitos fundamentais.
No campo, por sua vez, a materialização da riqueza expressa a continuidade de condicionantes históricos de longa duração que estruturam o capitalismo agrário brasileiro. A estrutura fundiária contemporânea é herdeira de uma longa história de concentração da terra, marcada pelo regime de sesmarias, por quase quatro séculos de escravidão e, posteriormente, pela Lei de Terras de 1850, que estabeleceu a compra como principal forma de acesso à propriedade e dificultou sua obtenção por aqueles que não dispunham de recursos para adquiri-la. Em um contexto de profunda desigualdade social e racial, esse processo contribuiu para restringir o acesso à terra por grande parte da população negra e trabalhadora. Essa herança histórica permanece inscrita no poder econômico das grandes propriedades rurais e na capacidade de expansão do agronegócio sobre novas áreas, inclusive em territórios públicos e tradicionais ocupados por povos indígenas, comunidades quilombolas e populações ribeirinhas. A propriedade da terra opera, nesse contexto, simultaneamente como reserva de valor, fonte de renda e instrumento de poder, enquanto o território rural é incorporado às cadeias de produção e exportação de commodities.
Essa estrutura também é atravessada pela ação do Estado, que historicamente desempenha papel decisivo na organização do espaço agrário por meio de crédito, infraestrutura, políticas de financiamento, pesquisa e incentivos econômicos. Quando esses instrumentos são distribuídos de forma desigual entre os diferentes agentes do campo, contribuem para ampliar as vantagens dos segmentos mais capitalizados, enquanto agricultores familiares e pequenos produtores enfrentam maiores restrições de acesso a recursos, mercados e infraestrutura. A desigualdade patrimonial, portanto, não apenas se reproduz no campo: ela participa da produção de profundos contrastes territoriais e regionais.
Em última análise, o relatório da Oxfam ganha uma dimensão mais potente quando lido sob a perspectiva da Geografia Política. A desigualdade brasileira não é apenas um indicador estatístico abstrato, mas uma estrutura de poder espacializada. O capital acumulado no topo amplia a capacidade de influência sobre as instituições, enquanto a concentração da propriedade e dos investimentos organiza de maneira desigual o acesso ao território, à infraestrutura, aos serviços e às oportunidades. A desigualdade econômica, convertida em poder político e inscrita no espaço geográfico, transforma o território em uma das principais dimensões da reprodução dos privilégios.
“Vêm aí os primos do norte.” É assim que me lembro de terem sido anunciados, embora talvez a memória me atraiçoe, uma vez que o anúncio foi feito por avós e tios que viviam no Porto. Foi a primeira e a última vez que os vi. Mas o dia ficou-me na memória, porque me explicaram que era a primeira vez que vinham ao Algarve. Eu, que ali passava férias ainda na barriga da minha mãe, registei este dado com estranheza de coisa exótica. O privilégio é assim. Ofusca o que está mesmo ao lado, apaga quem não é igual a nós.
Esta semana, enquanto comprava os livros escolares, a minha filha ia e vinha ao balcão, insistindo para que eu lhe comprasse um livro de histórias. E eu, assoberbada com a verificação da encomenda escolar e um pouco perplexa com a soma que se agigantava, ia-a afastando. “Já vamos ver isso.” O rapaz que me atendia apressou-se logo a fazer um comentário simpático, deixando claro que nesta época do ano já se habituou a ver pais aflitos com a conta do material escolar. E eu, que até tenho a sorte de poder dar-me ao luxo de comprar aos meus filhos os livros que eles querem, pedi para juntar à conta aquele livro que a minha filha tanto desejava, enquanto aproveitava para lhe explicar como nem todos os pais podiam fazer o mesmo, apesar dos vouchers que o Estado dá a quem anda nas escolas públicas e tem, assim, pelo menos, os manuais gratuitos.
Entre uma e outra história, deve haver uns 30 anos de diferença. Parece que estes dois episódios não têm qualquer relação entre si. Mas eles contam-nos um pouco do que aconteceu ao País nestas décadas de intervalo.
Quando nos anos 90 aqueles primos afastados vieram pela primeira vez passar férias ao Algarve, dava os primeiros passos mais sólidos aquilo a que poderia chamar-se uma classe média. Para muitas famílias, foi o tempo das primeiras férias fora de casa, da compra do primeiro carro ou da primeira casa, dos eletrodomésticos (comprados a prestações ou não) que eram grande novidade antes de se tornarem banais, como os micro-ondas, as arcas frigoríficas, as aparelhagens de som, as VHS primeiro e depois os DVDs. Havia no ar um cheiro a otimismo. Os hipermercados eram um sítio onde se passeava e os refrigerantes e iogurtes começaram a encher os frigoríficos. Sim, foi o tempo dos dinheiros que vinham da Europa e de um excesso de consumismo, que vinha de uma espécie de fome de tudo dos anos sombrios da ditadura. Mas foi também muito o tempo em que a Educação e a Saúde deixaram de ser privilégios e se tornaram direitos e essa é uma parte importante da história.
Nessa altura, estavam na idade adulta aqueles a quem a Revolução abriu as portas para uma vida melhor. Eram os professores, médicos, enfermeiros e engenheiros de uma nova geração, alguns filhos de pedreiros ou camponeses, que conseguiam empregos com que os seus pais nunca tinham sequer sonhado e direitos laborais, como férias pagas e baixas por doença, que poucos anos antes pareciam uma ficção. Num país onde tudo faltava, não lhes faltava trabalho. E, mais do que isso, parecia que nada faltaria aos seus filhos.
Ninguém fazia contas de cabeça para pagar um seguro de saúde. Ninguém sentia que se não fossem para uma escola privada estava a condenar os filhos a um futuro pior. Nós, os que nos sentávamos nos bancos da escola pública, tínhamos ao lado os filhos dos professores universitários e das empregadas de limpeza, os filhos dos engenheiros e dos trabalhadores do comércio. E, no máximo, a grande diferença era que uns compravam Levi’s legítimas e os outros iam à feira. Mas a escola não era um quebra-cabeças financeiro. Parecia (mesmo que houvesse uma grande ilusão nisso) que podíamos todos chegar aos mesmos lugares.
Trinta anos depois, pagar pela Saúde e pela Educação banalizou-se tanto que quase parece que o fazemos por escolha. E quase nem pensamos em como poderíamos gastar esse dinheiro e na diferença que ele faria se não nos sentíssemos impelidos a procurar nos privados um serviço que se degradou tanto no público. Sei bem que continua a haver escolas públicas extraordinárias e que só o SNS garante alguns cuidados que são impossíveis de pagar em hospitais privados. Mas não é disso que falo. Do que falo é desta classe média que está a deixar de o ser, não porque os impostos lhe comem o salário (embora, sim, os impostos sobre o trabalho estejam demasiado altos, sobretudo quando comparados com o que se taxa a riqueza), mas sobretudo pela falta de investimento público.
Em Portugal, cerca de 33% das famílias não têm dinheiro para pagar uma semana de férias fora de casa. E este não é um problema exclusivamente português: na Europa, a média dos que não podem dar-se a esse luxo está nos 27,5%. Claro que é preciso não esquecer que, dependendo se se considera o salário base ou a remuneração total declarada, em Portugal cerca de 55% a 75% dos trabalhadores ganham até mil euros por mês. Mas mesmo os 2,7% que ganham mais de três mil euros líquidos (e que quadruplicaram nos últimos dez anos) sentem que esses três mil euros valem cada vez menos. E não é só (embora também seja) porque a inflação está a comer-lhes o salário. É também porque há uma fatia de rendimento cada vez maior que vai para o que antes era assegurado gratuitamente e com qualidade pelo Estado. Se somarmos a isso os efeitos da especulação imobiliária (em média, os portugueses destinam cerca de 80% do salário para pagar a casa), percebemos melhor a história deste fim da classe média.
A classe média foi, em certa medida, uma espécie de amortecedor social. Uma ideia política, feita de capacidades aquisitivas simbólicas (como as férias fora de casa, o carro próprio e a casa), que servia para tornar mais aceitáveis algumas desigualdades. A ideia central era a de que o esforço e o trabalho podiam servir de elevador social. Hoje, o simples facto de apenas 3% dos estudantes que entraram este ano no Ensino Superior na primeira fase virem das famílias mais pobres desmonta bem essa ideia. Se juntarmos a isso a própria erosão da noção de propriedade, com as hipotecas sobre hipotecas feitas para se conseguir viver, as licenças que nos permitem ser utilizadores de tantos serviços, mas não proprietários, e uma precariedade que perpassa todas as esferas das nossas vidas, percebemos que a classe média é uma espécie de ideia fora de moda.
As elites parecem ter deixado de precisar das classes médias. A aceitação das desigualdades como naturais (às vezes, até tidas como um dado biológico) ajuda a perceber em parte porquê. A promoção de uma meritocracia aspiracional e uma pornografia do luxo difundida por influencers que nos dizem que a riqueza virá se a “visualizarmos” são outra parte desta domesticação dos que antes reivindicavam direitos. A apatia política geral das massas explica o resto. Os super-ricos não sentem medo do poder popular. A própria ideia de que é preciso conquistar a opinião pública está enfraquecida, à medida que cada vez mais decisões se transferem da esfera política para a técnica e as soluções são apresentadas como inevitabilidades.
Não escrevo nada disto para assumir uma derrota. Pelo contrário. Escrevo-o, porque sei que é preciso nomear as coisas para as entender. E também sei que é cada vez mais importante perceber que o mesmo poder que fez ascender as classes médias está a agora a fazê-las desaparecer. O que não desaparece é o facto de que as classes trabalhadoras serão sempre mais do que as elites que querem oprimi-las. Assim elas entendam o seu poder.