segunda-feira, 4 de maio de 2026
A Terra já passou dos limites. Nós é que ainda não percebemos
Nas últimas décadas, o mundo transformou-se a uma velocidade sem precedentes. A ânsia pelo crescimento económico, a expansão da população e o aumento do consumo de recursos criaram uma pressão sem igual sobre os ecossistemas do planeta Terra. Crescemos como se o planeta fosse infinito e, hoje, sabemos que não é. A ciência é clara: já ultrapassámos vários dos limites do planeta.
Estes limites são fronteiras biofísicas que sustentam o funcionamento da Terra e obedecem a leis naturais. São como linhas vermelhas que, quando ultrapassadas, nos empurram para zonas de risco onde os sistemas naturais deixam de responder de forma previsível. Agrupam-se em nove grandes áreas: alterações climáticas, acidificação dos oceanos, poluição química, ciclos do azoto e do fósforo, uso de água doce, utilização dos solos, biodiversidade, poluição atmosférica e destruição da camada de ozono.
No fundo, é como viver numa casa onde as paredes começam a rachar: não cai tudo de um dia para o outro, mas cada fissura aumenta a probabilidade de colapso.
Os sinais estão por todo o lado − ondas de calor, secas, incêndios e extinção de espécies − e mostram que vivemos uma crise ambiental global. Quantos mais sinais são necessários até deixarem de ser ignorados?
Esta crise afeta todos os países, mesmo os que seguem caminhos de desenvolvimento sustentável, com impactos na economia e na inclusão social. Além disso, amplifica fragilidades locais, criando um ciclo que se retroalimenta.
As cidades têm um papel fundamental na transição para a sustentabilidade global nos próximos anos. Cerca de 70% da riqueza mundial (medida pelo produto interno bruto) é gerada nas cidades. Ou seja, onde existem as maiores oportunidades económicas, de criação de emprego, de negócio, de inovação e de interação social. Não obstante, é também nas cidades que se verificam os maiores e mais complexos problemas ambientais, nomeadamente no que respeita ao uso da energia, à gestão de resíduos, ao uso do solo, ao consumo de recursos, etc.
Quando olhamos para esta realidade à luz da ciência, a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável deixa de ser apenas uma aspiração e passa a ser uma questão de gestão de risco. Não se trata do que seria ideal fazer, mas do que ainda é possível fazer sem empurrar o sistema para zonas de instabilidade. Neste contexto, a ação governativa assume um papel decisivo: incorporar conhecimento científico nas decisões, recorrer a ferramentas de avaliação e monitorização robustas e basear escolhas em cenários, dados e indicadores fiáveis.
A boa notícia é que não começamos do zero. Temos conhecimento, temos ferramentas e alternativas. Falta-nos a coragem de assumir que a transição para a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável não é confortável, mas um processo exigente de escolhas, prioridades e negociações − um processo que exige decisões informadas pela ciência e uma governação capaz de olhar para o planeta, e para nós, com mais humildade.
E se o problema não estiver na falta de soluções, mas na forma como estamos a olhar para o sistema?
O que está em causa não são problemas isolados, mas o comportamento de um sistema complexo sob pressão. Muitas das dificuldades atuais não resultam da ausência de soluções, mas da forma como os sistemas estão organizados e interagem entre si.
Olhar para a sustentabilidade começa por reconhecer que vivemos num sistema finito e altamente interdependente: o planeta Terra. E implica compreender o mundo como uma interação complexa entre sistemas económicos, sociais, ambientais e políticos. Essa interação torna evidente que não é possível maximizar tudo ao mesmo tempo.
Neste contexto, não existem soluções perfeitas, pois os trade-offs − escolhas entre opções em tensão − são inevitáveis. Isso exige redistribuição de recursos, priorização de objetivos e, sobretudo, uma aceitação de que os ganhos numa dimensão implicam, muitas vezes, perdas noutra.
O planeta já passou dos limites. Agora cabe-nos decidir se continuamos a ignorar as fissuras da “nossa” casa ou se finalmente escolhemos reforçar as suas fundações.
Estes limites são fronteiras biofísicas que sustentam o funcionamento da Terra e obedecem a leis naturais. São como linhas vermelhas que, quando ultrapassadas, nos empurram para zonas de risco onde os sistemas naturais deixam de responder de forma previsível. Agrupam-se em nove grandes áreas: alterações climáticas, acidificação dos oceanos, poluição química, ciclos do azoto e do fósforo, uso de água doce, utilização dos solos, biodiversidade, poluição atmosférica e destruição da camada de ozono.
No fundo, é como viver numa casa onde as paredes começam a rachar: não cai tudo de um dia para o outro, mas cada fissura aumenta a probabilidade de colapso.
Os sinais estão por todo o lado − ondas de calor, secas, incêndios e extinção de espécies − e mostram que vivemos uma crise ambiental global. Quantos mais sinais são necessários até deixarem de ser ignorados?
Esta crise afeta todos os países, mesmo os que seguem caminhos de desenvolvimento sustentável, com impactos na economia e na inclusão social. Além disso, amplifica fragilidades locais, criando um ciclo que se retroalimenta.
As cidades têm um papel fundamental na transição para a sustentabilidade global nos próximos anos. Cerca de 70% da riqueza mundial (medida pelo produto interno bruto) é gerada nas cidades. Ou seja, onde existem as maiores oportunidades económicas, de criação de emprego, de negócio, de inovação e de interação social. Não obstante, é também nas cidades que se verificam os maiores e mais complexos problemas ambientais, nomeadamente no que respeita ao uso da energia, à gestão de resíduos, ao uso do solo, ao consumo de recursos, etc.
Quando olhamos para esta realidade à luz da ciência, a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável deixa de ser apenas uma aspiração e passa a ser uma questão de gestão de risco. Não se trata do que seria ideal fazer, mas do que ainda é possível fazer sem empurrar o sistema para zonas de instabilidade. Neste contexto, a ação governativa assume um papel decisivo: incorporar conhecimento científico nas decisões, recorrer a ferramentas de avaliação e monitorização robustas e basear escolhas em cenários, dados e indicadores fiáveis.
A boa notícia é que não começamos do zero. Temos conhecimento, temos ferramentas e alternativas. Falta-nos a coragem de assumir que a transição para a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável não é confortável, mas um processo exigente de escolhas, prioridades e negociações − um processo que exige decisões informadas pela ciência e uma governação capaz de olhar para o planeta, e para nós, com mais humildade.
E se o problema não estiver na falta de soluções, mas na forma como estamos a olhar para o sistema?
O que está em causa não são problemas isolados, mas o comportamento de um sistema complexo sob pressão. Muitas das dificuldades atuais não resultam da ausência de soluções, mas da forma como os sistemas estão organizados e interagem entre si.
Olhar para a sustentabilidade começa por reconhecer que vivemos num sistema finito e altamente interdependente: o planeta Terra. E implica compreender o mundo como uma interação complexa entre sistemas económicos, sociais, ambientais e políticos. Essa interação torna evidente que não é possível maximizar tudo ao mesmo tempo.
Neste contexto, não existem soluções perfeitas, pois os trade-offs − escolhas entre opções em tensão − são inevitáveis. Isso exige redistribuição de recursos, priorização de objetivos e, sobretudo, uma aceitação de que os ganhos numa dimensão implicam, muitas vezes, perdas noutra.
O planeta já passou dos limites. Agora cabe-nos decidir se continuamos a ignorar as fissuras da “nossa” casa ou se finalmente escolhemos reforçar as suas fundações.
A irresponsabilidade da multidão
A multidão que se chama parlamento nunca se sente tão feliz como quando pode calar com gritos um orador e derrubar um ministro; a multidão que se chama comício agita-se e exalta-se, mal um grito a incita a bradar "Abaixo!" sob as janelas de um inimigo ou a reclamar a cabeça de um indivíduo odiado ou ainda a queimar qualquer símbolo do poder, quer se trate de um panfleto, quer de um palácio de justiça; a multidão reunida num teatro que dá pelo nome de público pode aplaudir uma peça nova, mas, quando estimulada, não hesita em condenar e precipitar à força de uivos e assobios quem supunha tê-lo conquistado e ser-lhe, pelo engenho, superior.
No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espetáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espetáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue – pelo menos, vê-lo.
Estar entre muitos incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.
Giovanni Papini
No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espetáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espetáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue – pelo menos, vê-lo.
Estar entre muitos incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.
Giovanni Papini
Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista
Parece ser mais uma operação do Banco Master. O PL deverá lançar em São Paulo a candidatura do deputado André do Prado ao Senado. E, como suplente, se a lei permitir, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Eleito, Prado poderia ocupar uma secretaria de Estado ou um ministério, caso Flávio Bolsonaro vença as eleições. Com isso, Eduardo assumiria o mandato de senador.
Assim como as debêntures de Vorcaro até meses atrás tinham valor no mercado, a artimanha do PL e de Eduardo é permitida pela legislação eleitoral. Tem sido praticada para dar cobertura a personagens sem voto, muitos deles milionários ou aqueles com dívidas ainda não julgadas pela Justiça. O filho de Jair está nesse último bloco, atingido por inquéritos diversos. Depois de desejar chantagear o país pela absolvição de seu pai, vive nos Estados Unidos. Não volta ao Brasil por recear ser preso ao colocar o pé no aeroporto. É um bom candidato para representar São Paulo no Senado?
À beira das eleições, os bolsonaristas se mobilizam para o desembarque no Senado. No discurso, pretendem conseguir votos para retirar ministros do STF. É da política. Poderiam até querer mudar a camisa do Vasco. Na prática, no entanto, vendem o país. E, nessa ação, os filhos de Jair fazem a feira. Eduardo lutou para que o governo americano impusesse tarifas pesadas aos produtos brasileiros. Era chantagem. Queria em troca libertar o pai condenado por golpismo. Flávio, aquele que não fala nada no Brasil, foi aos Estados Unidos oferecer o subsolo do país — as terras-raras – e, com a outra mão, pedir interferência nas eleições de outubro.
Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista. Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado. Mas eram nacionalistas, e não estava na mesa a entrega do país. Os bolsonaristas nem sequer se envergonham e perpetram o escambo à luz do dia. Não houve arrependimento pela perda de empregos causada pelo tarifaço trumpista ou mudança de planos na entrega das terras-raras.
Mesmo não declarados, esses são os propósitos reais da direita radical. Espécie de subserviência consentida — ou o Brasil como mais um estado norte-americano. De novo, a História escapa de nossas mãos. Foi assim com a Revolução Industrial e a miopia das classes dirigentes do Império — aquelas que defendiam a manutenção da mão de obra escrava na economia. Não à toa, ainda somos um país quase extrativista, exportador de commodities. Dependemos das boas chuvas.
Com o mundo próximo de uma mudança radical nos meios de produção — a tal IA —, com consequências para toda a sociedade, os políticos não conseguem mirar um metro à frente. Vazado à direita por um golpismo renitente e, à esquerda, por um estatismo anacrônico (viva a Terrabras!), o país se vê enredado no feitiço do tempo que o leva a repetir padrões. De um lado ou de outro, um crescimento medíocre apoiado por políticas ultrapassadas.
Pergunta: não é de estranhar que os sucessos econômicos, nas últimas décadas, sejam o PCC de Marcola e o Master de Vorcaro? Poderiam ser lembrados ainda os rendimentos do Judiciário e a carga tributária.
Para só ficar em alguns nomes de São Paulo, o Senado já contou com Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy. Covas foi quem, em 1988, na tribuna do Senado, defendeu um choque de capitalismo na economia brasileira. No país recém-democratizado, ainda sob a hiperinflação herdada dos militares, ele defendia o fim dos subsídios e privilégios; privatizações e abertura da economia; disciplina fiscal rigorosa; e reforma institucional. Presidente da República, Fernando Henrique conseguiu seguir algumas das propostas de Covas, como extirpar a inflação. Mas nem todas avançaram — a reforma da Previdência encontrou no PT de Lula forte oposição. Idem o conceito de privatização. Minuto de silêncio: devemos lembrar o rombo dos Correios e da anunciada Terrabras; integram nosso museu de grandes novidades.
A polarização cegou o país para o futuro. Estamos presos na mediocridade dos extremos. O país envelhece rapidamente e não se discute a capacitação dos jovens. Mas se fala de golden shower. Fala-se de todos os tipos de cotas, e não se briga por uma educação fundamental que ensine o básico da matemática. É evocado o nome de Deus, e não se vê como pecado a letalidade sobre jovens pobres e negros.
Os próximos senadores terão a missão de decidir o que o Brasil deseja ser. Porque, ao final de seus mandatos, o mundo será irremediavelmente outro.
Assim como as debêntures de Vorcaro até meses atrás tinham valor no mercado, a artimanha do PL e de Eduardo é permitida pela legislação eleitoral. Tem sido praticada para dar cobertura a personagens sem voto, muitos deles milionários ou aqueles com dívidas ainda não julgadas pela Justiça. O filho de Jair está nesse último bloco, atingido por inquéritos diversos. Depois de desejar chantagear o país pela absolvição de seu pai, vive nos Estados Unidos. Não volta ao Brasil por recear ser preso ao colocar o pé no aeroporto. É um bom candidato para representar São Paulo no Senado?
À beira das eleições, os bolsonaristas se mobilizam para o desembarque no Senado. No discurso, pretendem conseguir votos para retirar ministros do STF. É da política. Poderiam até querer mudar a camisa do Vasco. Na prática, no entanto, vendem o país. E, nessa ação, os filhos de Jair fazem a feira. Eduardo lutou para que o governo americano impusesse tarifas pesadas aos produtos brasileiros. Era chantagem. Queria em troca libertar o pai condenado por golpismo. Flávio, aquele que não fala nada no Brasil, foi aos Estados Unidos oferecer o subsolo do país — as terras-raras – e, com a outra mão, pedir interferência nas eleições de outubro.
Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista. Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado. Mas eram nacionalistas, e não estava na mesa a entrega do país. Os bolsonaristas nem sequer se envergonham e perpetram o escambo à luz do dia. Não houve arrependimento pela perda de empregos causada pelo tarifaço trumpista ou mudança de planos na entrega das terras-raras.
Mesmo não declarados, esses são os propósitos reais da direita radical. Espécie de subserviência consentida — ou o Brasil como mais um estado norte-americano. De novo, a História escapa de nossas mãos. Foi assim com a Revolução Industrial e a miopia das classes dirigentes do Império — aquelas que defendiam a manutenção da mão de obra escrava na economia. Não à toa, ainda somos um país quase extrativista, exportador de commodities. Dependemos das boas chuvas.
Com o mundo próximo de uma mudança radical nos meios de produção — a tal IA —, com consequências para toda a sociedade, os políticos não conseguem mirar um metro à frente. Vazado à direita por um golpismo renitente e, à esquerda, por um estatismo anacrônico (viva a Terrabras!), o país se vê enredado no feitiço do tempo que o leva a repetir padrões. De um lado ou de outro, um crescimento medíocre apoiado por políticas ultrapassadas.
Pergunta: não é de estranhar que os sucessos econômicos, nas últimas décadas, sejam o PCC de Marcola e o Master de Vorcaro? Poderiam ser lembrados ainda os rendimentos do Judiciário e a carga tributária.
Para só ficar em alguns nomes de São Paulo, o Senado já contou com Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy. Covas foi quem, em 1988, na tribuna do Senado, defendeu um choque de capitalismo na economia brasileira. No país recém-democratizado, ainda sob a hiperinflação herdada dos militares, ele defendia o fim dos subsídios e privilégios; privatizações e abertura da economia; disciplina fiscal rigorosa; e reforma institucional. Presidente da República, Fernando Henrique conseguiu seguir algumas das propostas de Covas, como extirpar a inflação. Mas nem todas avançaram — a reforma da Previdência encontrou no PT de Lula forte oposição. Idem o conceito de privatização. Minuto de silêncio: devemos lembrar o rombo dos Correios e da anunciada Terrabras; integram nosso museu de grandes novidades.
A polarização cegou o país para o futuro. Estamos presos na mediocridade dos extremos. O país envelhece rapidamente e não se discute a capacitação dos jovens. Mas se fala de golden shower. Fala-se de todos os tipos de cotas, e não se briga por uma educação fundamental que ensine o básico da matemática. É evocado o nome de Deus, e não se vê como pecado a letalidade sobre jovens pobres e negros.
Os próximos senadores terão a missão de decidir o que o Brasil deseja ser. Porque, ao final de seus mandatos, o mundo será irremediavelmente outro.
O debate inútil
A polarização política continua a existir, disso não há dúvida. No entanto, trata-se de um fenómeno estudado, compreendido e que pode ser gerido. Os politólogos que se têm debruçado sobre o tema concluem que se intensifica quando estes indivíduos falam somente com quem partilha das mesmas opiniões, quase sempre portadores de um perfil psicológico conflituoso e que se envolvem emocionalmente num processo de corte radical, ou seja, categorizando outras pessoas e grupos como totalmente bons ou totalmente maus e comunicando isso exaltadamente ao resto do mundo.
São características particularmente marcantes nos indivíduos que sofrem de psicopatologias narcisistas e antissociais. Quando assumem cargos de liderança, polarizam os grupos como forma de aumentar o seu poder. Mas como conseguem fazê-lo?
Primeiro, porque um grupo com uma predisposição inicial sobre um determinado assunto reforça a sua posição original com mais argumentos consonantes. Em seguida, os membros do grupo ajustam as suas opiniões para se adequarem melhor às do líder e às da maioria dos membros. Por último, os restantes membros, os mais hesitantes, vão ganhando confiança progressivamente e tendem a tornar-se ainda mais radicais quando, por fim, fazem uso do megafone. No conjunto, os pontos de vista ligeiramente diferentes tendem a convergir num consenso mais forte do que o inicial.
Mas há formas de reduzir a polarização política. Os estudos mais referidos relatam experiências em que foram colocados indivíduos com pontos de vista divergentes, e até de partidos diferentes, em pequenos grupos ou em conversas de um para um, sem saberem a que cor política pertencem. Ao conversarem com pessoas com opiniões muito diferentes ou mesmo opostas, sem a pressão do grupo, passaram a ver-se uns aos outros como seres humanos com histórias pessoais e preocupações semelhantes. Embora alguns não mudem de convicção, a partir daquelas discussões tendem a suavizar o discurso e a aproximar-se de uma conclusão mais equilibrada.
Torna-se fundamental conhecer pontos de vista diferentes, na rádio, na televisão, nos jornais, nas revistas e nas redes sociais. Embora gostemos de estar com pessoas que pensam como nós, corremos o risco de nos fecharmos numa bolha. É precisamente isso que está a acontecer com as gerações mais novas, mas também às pessoas com menor literacia política, que mergulham nas redes sociais, absortas, e se deixam bombardear com as polémicas que geram mais controvérsia, e consequentemente likes e visualizações.
Para criarmos um futuro pacífico, será benéfico para todos, de vez em quando, ouvir e conversar com aqueles com quem discordamos, de uma forma tão próxima e pessoal quanto possível. Para esse fim, todos os debates são úteis, desde que sirvam o diálogo, que tragam luz a um tema específico, e que não escalem para o desrespeito nem para a violência. É a ausência de diálogo, ou a incapacidade de ouvir o outro, que nos tem levado à escalada do conflito para o patamar da guerra.
No entanto, também há debates inúteis, e podemos identificá-los: quando uma das partes não está interessada em ouvir, mas apenas em impor a sua visão, ignorando qualquer argumento contrário; quando há crenças inflexíveis que rejeitam factos verificáveis; quando o contexto é emocionalmente inflamável, prevalecendo ataques pessoais em vez de troca de ideias; quando não existem regras claras nem forma de as impor, levando à desordem; ou quando os temas já foram estudados e debatidos ao pormenor e se tornam redundantes.
O problema da polarização é mais relacional do que ideológico. Uma conversa sobre o que nos preocupa enquanto seres humanos inseridos numa sociedade é muito mais profunda do que uma conversa em torno de meras opiniões. Debatemos opiniões; discutimos preocupações. As preocupações são maioritariamente comuns à sociedade.
São características particularmente marcantes nos indivíduos que sofrem de psicopatologias narcisistas e antissociais. Quando assumem cargos de liderança, polarizam os grupos como forma de aumentar o seu poder. Mas como conseguem fazê-lo?
Primeiro, porque um grupo com uma predisposição inicial sobre um determinado assunto reforça a sua posição original com mais argumentos consonantes. Em seguida, os membros do grupo ajustam as suas opiniões para se adequarem melhor às do líder e às da maioria dos membros. Por último, os restantes membros, os mais hesitantes, vão ganhando confiança progressivamente e tendem a tornar-se ainda mais radicais quando, por fim, fazem uso do megafone. No conjunto, os pontos de vista ligeiramente diferentes tendem a convergir num consenso mais forte do que o inicial.
Mas há formas de reduzir a polarização política. Os estudos mais referidos relatam experiências em que foram colocados indivíduos com pontos de vista divergentes, e até de partidos diferentes, em pequenos grupos ou em conversas de um para um, sem saberem a que cor política pertencem. Ao conversarem com pessoas com opiniões muito diferentes ou mesmo opostas, sem a pressão do grupo, passaram a ver-se uns aos outros como seres humanos com histórias pessoais e preocupações semelhantes. Embora alguns não mudem de convicção, a partir daquelas discussões tendem a suavizar o discurso e a aproximar-se de uma conclusão mais equilibrada.
Torna-se fundamental conhecer pontos de vista diferentes, na rádio, na televisão, nos jornais, nas revistas e nas redes sociais. Embora gostemos de estar com pessoas que pensam como nós, corremos o risco de nos fecharmos numa bolha. É precisamente isso que está a acontecer com as gerações mais novas, mas também às pessoas com menor literacia política, que mergulham nas redes sociais, absortas, e se deixam bombardear com as polémicas que geram mais controvérsia, e consequentemente likes e visualizações.
Para criarmos um futuro pacífico, será benéfico para todos, de vez em quando, ouvir e conversar com aqueles com quem discordamos, de uma forma tão próxima e pessoal quanto possível. Para esse fim, todos os debates são úteis, desde que sirvam o diálogo, que tragam luz a um tema específico, e que não escalem para o desrespeito nem para a violência. É a ausência de diálogo, ou a incapacidade de ouvir o outro, que nos tem levado à escalada do conflito para o patamar da guerra.
No entanto, também há debates inúteis, e podemos identificá-los: quando uma das partes não está interessada em ouvir, mas apenas em impor a sua visão, ignorando qualquer argumento contrário; quando há crenças inflexíveis que rejeitam factos verificáveis; quando o contexto é emocionalmente inflamável, prevalecendo ataques pessoais em vez de troca de ideias; quando não existem regras claras nem forma de as impor, levando à desordem; ou quando os temas já foram estudados e debatidos ao pormenor e se tornam redundantes.
O problema da polarização é mais relacional do que ideológico. Uma conversa sobre o que nos preocupa enquanto seres humanos inseridos numa sociedade é muito mais profunda do que uma conversa em torno de meras opiniões. Debatemos opiniões; discutimos preocupações. As preocupações são maioritariamente comuns à sociedade.
Tia Carminha e seus flertes com atos antidemocráticos
A eleição da desembargadora Maria do Carmo Cardoso para a presidência do TRF-1 é o tipo de notícia que faz qualquer observador do cenário jurídico brasileiro levantar a sobrancelha. Não é comum ver o comando do maior tribunal federal do país — que abrange quase metade do território nacional — ser entregue a quem já teve as redes sociais silenciadas pela própria Justiça por flertar com atos antidemocráticos.
Próxima da família Bolsonaro, a magistrada escreveu, logo após a eliminação do Brasil na Copa de 2022, que “nossa seleção verdadeira está na frente dos quartéis” e rotulou o técnico Tite como “petista”. Por ordem do ministro Luis Felipe Salomão — então corregedor nacional de Justiça e atual vice-presidente do STJ —, os perfis da desembargadora no Instagram e no X foram suspensos naquele ano.
Salomão afirmou que a publicação tinha “inequívoco” conteúdo político, incitando condutas antidemocráticas em áreas militares. O ápice desse movimento ocorreu no acampamento golpista em frente ao QG do Exército, em Brasília, de onde partiu a multidão que vandalizou as sedes dos Três Poderes no 8 de Janeiro.
Em sua defesa ao CNJ, a desembargadora alegou que “sequer tem conhecimento ou se recorda” da postagem. O corregedor reagiu, afirmando que a versão da magistrada “salta aos olhos”. Apesar disso, no fim de 2023, o processo foi arquivado por oito votos a seis. Ela assumiu a presidência do TRF-1 em 23 de abril de 2026.
O apelido carinhoso de “Tia Carminha”, comum nos corredores de Brasília, contrasta com o peso de suas novas responsabilidades. De um lado, há o marco simbólico de ser apenas a segunda mulher na história a presidir o tribunal — um motivo de celebração. Do outro, o desconforto institucional de ter no topo da hierarquia uma magistrada cujas opiniões pessoais já colidiram com os limites da democracia.
A questão não é sobre conservadorismo; o pluralismo de ideias é vital para a democracia. O problema surge quando a linha entre a convicção pessoal e o ativismo político se torna tão tênue que o Judiciário precisa intervir para conter danos. Quando uma desembargadora apoia movimentos que questionam as instituições que ela mesma integra, cria-se um nó ético preocupante.
Ao assumir o biênio 2026-2028, Maria do Carmo Cardoso enfrenta o desafio de provar que a “Tia Carminha” das redes ficou no passado e que a presidente do TRF-1 agirá com a isenção exigida pelo cargo. Em um tribunal que decide temas sensíveis — de questões ambientais na Amazônia a grandes licitações —, o país não precisa de ideologia, mas de respeito rigoroso à Constituição. No fim, a dúvida que resta é: o tribunal mudará a desembargadora ou ela mudará o tom do tribunal?
Responda, “Tia Carminha”. De ideologia e negócios suspeitos, os tribunais já estão cheios.
Próxima da família Bolsonaro, a magistrada escreveu, logo após a eliminação do Brasil na Copa de 2022, que “nossa seleção verdadeira está na frente dos quartéis” e rotulou o técnico Tite como “petista”. Por ordem do ministro Luis Felipe Salomão — então corregedor nacional de Justiça e atual vice-presidente do STJ —, os perfis da desembargadora no Instagram e no X foram suspensos naquele ano.
Salomão afirmou que a publicação tinha “inequívoco” conteúdo político, incitando condutas antidemocráticas em áreas militares. O ápice desse movimento ocorreu no acampamento golpista em frente ao QG do Exército, em Brasília, de onde partiu a multidão que vandalizou as sedes dos Três Poderes no 8 de Janeiro.
Em sua defesa ao CNJ, a desembargadora alegou que “sequer tem conhecimento ou se recorda” da postagem. O corregedor reagiu, afirmando que a versão da magistrada “salta aos olhos”. Apesar disso, no fim de 2023, o processo foi arquivado por oito votos a seis. Ela assumiu a presidência do TRF-1 em 23 de abril de 2026.
O apelido carinhoso de “Tia Carminha”, comum nos corredores de Brasília, contrasta com o peso de suas novas responsabilidades. De um lado, há o marco simbólico de ser apenas a segunda mulher na história a presidir o tribunal — um motivo de celebração. Do outro, o desconforto institucional de ter no topo da hierarquia uma magistrada cujas opiniões pessoais já colidiram com os limites da democracia.
A questão não é sobre conservadorismo; o pluralismo de ideias é vital para a democracia. O problema surge quando a linha entre a convicção pessoal e o ativismo político se torna tão tênue que o Judiciário precisa intervir para conter danos. Quando uma desembargadora apoia movimentos que questionam as instituições que ela mesma integra, cria-se um nó ético preocupante.
Ao assumir o biênio 2026-2028, Maria do Carmo Cardoso enfrenta o desafio de provar que a “Tia Carminha” das redes ficou no passado e que a presidente do TRF-1 agirá com a isenção exigida pelo cargo. Em um tribunal que decide temas sensíveis — de questões ambientais na Amazônia a grandes licitações —, o país não precisa de ideologia, mas de respeito rigoroso à Constituição. No fim, a dúvida que resta é: o tribunal mudará a desembargadora ou ela mudará o tom do tribunal?
Responda, “Tia Carminha”. De ideologia e negócios suspeitos, os tribunais já estão cheios.
A crise moral da Europa
A Europa agora sabe que um genocídio foi cometido. É improvável que essa mudança de paradigma seja revertida, independentemente de os burocratas de Luxemburgo conseguirem ou não adiar o inevitável.
A União Europeia é a "maior de todas as covardes", declarou a Anistia Internacional em um comunicado contundente divulgado em 21 de abril. A condenação foi uma resposta direta à falha sistêmica do bloco europeu em romper relações com Israel durante a reunião do Conselho de Assuntos Externos em Luxemburgo.
Apesar de meses de alertas jurídicos, a UE priorizou mais uma vez a segurança processual em detrimento da urgência da vida humana.
Os esforços para pressionar a UE a finalmente assumir uma posição moral foram liderados por uma coligação formada por Espanha, Irlanda e Eslovénia, à qual se juntou posteriormente a Bélgica. Argumentaram que o Acordo de Associação UE-Israel — o quadro jurídico que rege as suas relações comerciais — se baseia no “respeito pelos direitos humanos”.
Manter este acordo enquanto as violações extremas na Palestina ocupada continuarem significa tornar sem sentido os próprios tratados fundadores da UE.
Tal decisão, mesmo que tardia, teria feito um bem inestimável. Teria restaurado parte da credibilidade abalada da UE e reavivado o debate sobre o direito internacional. Mais importante ainda, teria iniciado uma série de medidas concretas para responsabilizar Israel e proporcionado aos palestinos uma esperança tangível.
Nada disso aconteceu, porém, graças ao lobby da Alemanha e da Itália. Essas nações atuaram como uma barreira diplomática, protegendo Israel das consequências.
A posição alemã permanece coerente com a defesa intransigente de Israel por Berlim, uma postura que persistiu mesmo durante o genocídio em Gaza. Como um país que deveria ser o maior defensor mundial contra o extermínio em massa, a Alemanha tem repetidamente protegido Israel no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) e em outras instituições globais.
Durante esse genocídio, Berlim redobrou sua posição, insistindo que a acusação “não tem qualquer fundamento”. Essa postura rígida permaneceu inalterada mesmo com a adesão da Espanha ao caso da África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça, sinalizando uma profunda ruptura no consenso jurídico e moral europeu.
Portanto, não foi surpresa que a liderança alemã tenha rejeitado a proposta de Luxemburgo de suspender o comércio como "inapropriada". Juntamente com a Itália, insistiu que a UE deve manter um "diálogo construtivo" com Tel Aviv — uma expressão que se tornou um eufemismo para cumplicidade.
A Itália apresenta um exemplo mais bizarro. Embora o governo de direita de Giorgia Meloni permaneça alinhado com a guarda pró-Israel, a mobilização do povo italiano tem sido uma das mais fortes da Europa.
As ruas de Roma e Milão têm sido palco de protestos em massa e greves gerais que rivalizam com o fervor visto na Espanha. No entanto, Meloni continua se recusando a atender ao apelo do seu povo, com seus ministros declarando em Luxemburgo que a proposta de suspensão do tratado foi “arquivada”.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, provavelmente sentiu um grande alívio após a votação. A economia israelense está atualmente em dificuldades sob o peso esmagador das guerras contínuas, com o déficit orçamentário aumentando à medida que os gastos com defesa disparam. A União Europeia continua sendo o maior parceiro comercial de Israel, com o comércio total de bens ultrapassando € 42 bilhões.
Este acordo proporciona um suporte económico vital através do acesso preferencial ao mercado e da integração de alta tecnologia; a sua suspensão desencadearia um choque financeiro devastador.
Mas o fato de a Alemanha e a Itália terem conseguido manter o tratado por enquanto não elimina a iminente ruptura que já está em curso.
Essa ruptura não está sendo liderada por governos, mas sim pelas sociedades europeias. Não seria exagero sugerir que a relação da Europa com Israel está destinada a uma mudança crucial. A divisão histórica entre os apoiadores incondicionais de Israel, como a Alemanha, e as nações mais simpáticas, como a Irlanda, está se desfazendo à medida que o pêndulo político oscila em direção à Palestina.
O campo linha-dura sofreu seu golpe mais significativo recentemente com a mudança política na Hungria. Com a ascensão de Péter Magyar, que prometeu que a Hungria respeitaria os mandados do TPI para a prisão de Netanyahu, Israel perdeu seu mais confiável "homem do veto" em Bruxelas.
Isso deixa a Alemanha cada vez mais isolada como a única potência defensora do status quo.
Não estamos mais falando de gestos simbólicos. Estamos testemunhando uma massa crítica de apoio à Palestina, acompanhada de ações diretas: acampamentos, contestações judiciais e greves. Em 14 de abril, foi noticiado que mais de um milhão de europeus assinaram uma petição formal intitulada “Justiça para a Palestina”, pedindo a Bruxelas a imposição de sanções.
Isso reflete uma pressão constante capaz de moldar as agendas políticas. Pesquisas deste mês indicam que apenas 17% dos entrevistados na Alemanha agora consideram Israel um parceiro confiável. Isso expõe um abismo crescente entre a opinião pública europeia e seus governos. Enquanto a Espanha parece estar respondendo ao sentimento popular, a Alemanha continua a agir em desacordo com ele.
Essas mesmas posições morais refletem-se nas atitudes em relação a outras guerras regionais. Pesquisas de março de 2026 mostram que 56% dos espanhóis e italianos se opõem à ação militar conjunta dos EUA e de Israel no Irã. A opinião pública vê cada vez mais essas guerras não como crises isoladas, mas como frentes interligadas de uma única política fracassada.
A rejeição da guerra faz parte de uma rejeição mais ampla da política militar israelense e do alinhamento dos governos europeus a ela. Essas mudanças não apenas isolaram Israel, como também começaram a isolar seus aliados. Além de Donald Trump e seu alinhamento total com a agenda de Netanyahu, a era de um bloco ocidental unificado que atendia incondicionalmente às demandas de Israel está chegando ao fim.
A explicação tradicional para o apoio da Europa — a culpa histórica pelo Holocausto — já não explica a conduta das elites políticas. Uma explicação mais precisa reside no próprio legado europeu de violência colonial e hierarquia racial.
No entanto, a verdadeira mudança pertence à sociedade civil e à resiliência dos palestinos que contornaram os filtros da mídia tradicional para falar diretamente com o mundo.
A Europa agora sabe que um genocídio foi cometido. É improvável que essa mudança de paradigma seja revertida, independentemente de os burocratas de Luxemburgo conseguirem ou não adiar o inevitável.
A União Europeia é a "maior de todas as covardes", declarou a Anistia Internacional em um comunicado contundente divulgado em 21 de abril. A condenação foi uma resposta direta à falha sistêmica do bloco europeu em romper relações com Israel durante a reunião do Conselho de Assuntos Externos em Luxemburgo.
Apesar de meses de alertas jurídicos, a UE priorizou mais uma vez a segurança processual em detrimento da urgência da vida humana.
Os esforços para pressionar a UE a finalmente assumir uma posição moral foram liderados por uma coligação formada por Espanha, Irlanda e Eslovénia, à qual se juntou posteriormente a Bélgica. Argumentaram que o Acordo de Associação UE-Israel — o quadro jurídico que rege as suas relações comerciais — se baseia no “respeito pelos direitos humanos”.
Manter este acordo enquanto as violações extremas na Palestina ocupada continuarem significa tornar sem sentido os próprios tratados fundadores da UE.
Tal decisão, mesmo que tardia, teria feito um bem inestimável. Teria restaurado parte da credibilidade abalada da UE e reavivado o debate sobre o direito internacional. Mais importante ainda, teria iniciado uma série de medidas concretas para responsabilizar Israel e proporcionado aos palestinos uma esperança tangível.
Nada disso aconteceu, porém, graças ao lobby da Alemanha e da Itália. Essas nações atuaram como uma barreira diplomática, protegendo Israel das consequências.
A posição alemã permanece coerente com a defesa intransigente de Israel por Berlim, uma postura que persistiu mesmo durante o genocídio em Gaza. Como um país que deveria ser o maior defensor mundial contra o extermínio em massa, a Alemanha tem repetidamente protegido Israel no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) e em outras instituições globais.
Durante esse genocídio, Berlim redobrou sua posição, insistindo que a acusação “não tem qualquer fundamento”. Essa postura rígida permaneceu inalterada mesmo com a adesão da Espanha ao caso da África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça, sinalizando uma profunda ruptura no consenso jurídico e moral europeu.
Portanto, não foi surpresa que a liderança alemã tenha rejeitado a proposta de Luxemburgo de suspender o comércio como "inapropriada". Juntamente com a Itália, insistiu que a UE deve manter um "diálogo construtivo" com Tel Aviv — uma expressão que se tornou um eufemismo para cumplicidade.
A Itália apresenta um exemplo mais bizarro. Embora o governo de direita de Giorgia Meloni permaneça alinhado com a guarda pró-Israel, a mobilização do povo italiano tem sido uma das mais fortes da Europa.
As ruas de Roma e Milão têm sido palco de protestos em massa e greves gerais que rivalizam com o fervor visto na Espanha. No entanto, Meloni continua se recusando a atender ao apelo do seu povo, com seus ministros declarando em Luxemburgo que a proposta de suspensão do tratado foi “arquivada”.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, provavelmente sentiu um grande alívio após a votação. A economia israelense está atualmente em dificuldades sob o peso esmagador das guerras contínuas, com o déficit orçamentário aumentando à medida que os gastos com defesa disparam. A União Europeia continua sendo o maior parceiro comercial de Israel, com o comércio total de bens ultrapassando € 42 bilhões.
Este acordo proporciona um suporte económico vital através do acesso preferencial ao mercado e da integração de alta tecnologia; a sua suspensão desencadearia um choque financeiro devastador.
Mas o fato de a Alemanha e a Itália terem conseguido manter o tratado por enquanto não elimina a iminente ruptura que já está em curso.
Essa ruptura não está sendo liderada por governos, mas sim pelas sociedades europeias. Não seria exagero sugerir que a relação da Europa com Israel está destinada a uma mudança crucial. A divisão histórica entre os apoiadores incondicionais de Israel, como a Alemanha, e as nações mais simpáticas, como a Irlanda, está se desfazendo à medida que o pêndulo político oscila em direção à Palestina.
O campo linha-dura sofreu seu golpe mais significativo recentemente com a mudança política na Hungria. Com a ascensão de Péter Magyar, que prometeu que a Hungria respeitaria os mandados do TPI para a prisão de Netanyahu, Israel perdeu seu mais confiável "homem do veto" em Bruxelas.
Isso deixa a Alemanha cada vez mais isolada como a única potência defensora do status quo.
Não estamos mais falando de gestos simbólicos. Estamos testemunhando uma massa crítica de apoio à Palestina, acompanhada de ações diretas: acampamentos, contestações judiciais e greves. Em 14 de abril, foi noticiado que mais de um milhão de europeus assinaram uma petição formal intitulada “Justiça para a Palestina”, pedindo a Bruxelas a imposição de sanções.
Isso reflete uma pressão constante capaz de moldar as agendas políticas. Pesquisas deste mês indicam que apenas 17% dos entrevistados na Alemanha agora consideram Israel um parceiro confiável. Isso expõe um abismo crescente entre a opinião pública europeia e seus governos. Enquanto a Espanha parece estar respondendo ao sentimento popular, a Alemanha continua a agir em desacordo com ele.
Essas mesmas posições morais refletem-se nas atitudes em relação a outras guerras regionais. Pesquisas de março de 2026 mostram que 56% dos espanhóis e italianos se opõem à ação militar conjunta dos EUA e de Israel no Irã. A opinião pública vê cada vez mais essas guerras não como crises isoladas, mas como frentes interligadas de uma única política fracassada.
A rejeição da guerra faz parte de uma rejeição mais ampla da política militar israelense e do alinhamento dos governos europeus a ela. Essas mudanças não apenas isolaram Israel, como também começaram a isolar seus aliados. Além de Donald Trump e seu alinhamento total com a agenda de Netanyahu, a era de um bloco ocidental unificado que atendia incondicionalmente às demandas de Israel está chegando ao fim.
A explicação tradicional para o apoio da Europa — a culpa histórica pelo Holocausto — já não explica a conduta das elites políticas. Uma explicação mais precisa reside no próprio legado europeu de violência colonial e hierarquia racial.
No entanto, a verdadeira mudança pertence à sociedade civil e à resiliência dos palestinos que contornaram os filtros da mídia tradicional para falar diretamente com o mundo.
A Europa agora sabe que um genocídio foi cometido. É improvável que essa mudança de paradigma seja revertida, independentemente de os burocratas de Luxemburgo conseguirem ou não adiar o inevitável.
domingo, 3 de maio de 2026
Trump diminui pressão sobre o Irã ao declarar ao Congresso que guerra está ‘terminada’
A guerra contra o Irã colocou os EUA em contato com as limitações da superioridade militar. A nova realidade da guerra naval, com o emprego de drones marítimos, o fator geoeconômico e o controle exercido pela democracia desempenham papéis decisivos no curso dessa disputa.
Uma lei de 1973 obriga os presidentes americanos a consultar o Congresso sobre a continuidade de uma guerra no máximo 60 dias depois de seu início.
Esse prazo expirou na sexta-feira. Como não pediu aprovação do Congresso, Donald Trump foi obrigado a declarar que a guerra no Irã “está terminada”.
Isso retira do presidente um fator de pressão sobre o Irã nas negociações, que ele tenta exercer ameaçando voltar a atacar com força avassaladora.
As eleições de meio de mandato de 3 de novembro, que renovarão toda a Câmara e um terço do Senado, pressionam Trump a contornar os problemas econômicos e políticos que a guerra criou. O emprego de forças terrestres, que ajudaria na desobstrução do Estreito de Ormuz, seria politicamente destrutivo para Trump.
Já o regime iraniano está condicionado a ignorar a opinião do povo. O bloqueio naval americano deteriora a qualidade de vida dos iranianos, e isso impacta o regime negativamente, mas ele não tem um calendário eleitoral com que se preocupar. O intenso contrabando no Estreito de Ormuz não neutraliza essa asfixia, mas suaviza um pouco.
O repórter Adrian Blomfield, do jornal inglês The Telegraph, percorreu o estreito em uma lancha, e contou cerca de 300 barcos por dia, transportando combustível para Omã e produtos de primeira necessidade para o Irã. Há também os barcos de pesca. Misturam-se nesse trânsito as lanchas rápidas da Guarda Revolucionária Islâmica, capazes de disparar mísseis e lançar minas marítimas.
Uma espessa névoa cobre constantemente o estreito, por causa do calor e das costas escarpadas, que retêm a umidade. A água tem uma qualidade opalescente, que muda sua cor conforme reflete a luz. Tudo isso dificulta as atividades de reconhecimento aéreo pelos aviões e drones inimigos.
E há a contundência da guerra assimétrica no mar. Mesmo sob bloqueio naval e depois de perder boa parte de sua marinha, a Ucrânia foi capaz de destruir um terço da frota russa e rechaçar o restante no Mar Negro, com uso de drones aéreos e marítimos, mísseis e minas aderentes.
“É difícil vê-los e ainda mais difícil detê-los”, disse ao repórter um funcionário de defesa ocidental, referindo-se aos iranianos. “No momento, a melhor solução para desobstruir o estreito é a diplomacia.”
Uma lei de 1973 obriga os presidentes americanos a consultar o Congresso sobre a continuidade de uma guerra no máximo 60 dias depois de seu início.
Esse prazo expirou na sexta-feira. Como não pediu aprovação do Congresso, Donald Trump foi obrigado a declarar que a guerra no Irã “está terminada”.
Isso retira do presidente um fator de pressão sobre o Irã nas negociações, que ele tenta exercer ameaçando voltar a atacar com força avassaladora.
As eleições de meio de mandato de 3 de novembro, que renovarão toda a Câmara e um terço do Senado, pressionam Trump a contornar os problemas econômicos e políticos que a guerra criou. O emprego de forças terrestres, que ajudaria na desobstrução do Estreito de Ormuz, seria politicamente destrutivo para Trump.
Já o regime iraniano está condicionado a ignorar a opinião do povo. O bloqueio naval americano deteriora a qualidade de vida dos iranianos, e isso impacta o regime negativamente, mas ele não tem um calendário eleitoral com que se preocupar. O intenso contrabando no Estreito de Ormuz não neutraliza essa asfixia, mas suaviza um pouco.
O repórter Adrian Blomfield, do jornal inglês The Telegraph, percorreu o estreito em uma lancha, e contou cerca de 300 barcos por dia, transportando combustível para Omã e produtos de primeira necessidade para o Irã. Há também os barcos de pesca. Misturam-se nesse trânsito as lanchas rápidas da Guarda Revolucionária Islâmica, capazes de disparar mísseis e lançar minas marítimas.
Uma espessa névoa cobre constantemente o estreito, por causa do calor e das costas escarpadas, que retêm a umidade. A água tem uma qualidade opalescente, que muda sua cor conforme reflete a luz. Tudo isso dificulta as atividades de reconhecimento aéreo pelos aviões e drones inimigos.
E há a contundência da guerra assimétrica no mar. Mesmo sob bloqueio naval e depois de perder boa parte de sua marinha, a Ucrânia foi capaz de destruir um terço da frota russa e rechaçar o restante no Mar Negro, com uso de drones aéreos e marítimos, mísseis e minas aderentes.
“É difícil vê-los e ainda mais difícil detê-los”, disse ao repórter um funcionário de defesa ocidental, referindo-se aos iranianos. “No momento, a melhor solução para desobstruir o estreito é a diplomacia.”
Um lapso canhestro de linguagem
Embora com alguma lógica, foram açodados os ataques dirigidos à apresentadora televisiva que descreveu a diversidade da tripulação da missão Artemis 2 como "um homem, uma mulher e um negro". A frase é racista, claro, mas não aval automático desse mesmo julgamento a quem a enunciou. A ressalva pode soar como eufemismo acadêmico, mas o esclarecimento é oportuno quando se aborda o racismo no país sem a comodidade da pedra na mão. Açodamento é atitude apressada, irrefletida, que polariza sem dialogar.
A dificuldade deve-se à inquietante singularidade do racismo no Brasil. O sociólogo francês Gabriel Tarde observou em fins do século 19 que "cada civilização faz a sua raça" (ao invés de "a raça faz a civilização"). A modalidade brasileira é diferente da norte-americana, uma leucocracia com linha divisória entre claros e escuros a partir da "one drop rule", a regra de que uma gota de sangue imaginariamente "negro" faz emergir a separação racial, qualquer que seja a gradação cromática da pele. Aqui, não, o colorismo hierarquiza as tonalidades: quanto mais claro, mais aceitável. Ou negociável.
No interior da forma social escravista, que continua a existir desligada da materialidade da antiga estrutura escravista, o processo cognitivo é complexo. O abolicionista Joaquim Nabuco anteviu: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil (...) ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância". A forma escravista é estruturante de modelagens conscientes ou subconscientes, visíveis ou invisíveis. As primeiras se traduzem em normas, as segundas aparecem em atos reflexos, que espelham a forma social. A reflexividade produz imagens instauradoras de um campo sensível, responsável pelas afecções discriminatórias.
Na imagem de mundo, síntese mais ampla do que o juízo verbal, incorporam-se representações e experiências, sujeitas a juízos de valor. A eles preside raça, categoria anacrônica e obscura, embora investida de poder de aplicação capaz de subsistir ao esvaziamento da noção original. Pode ressurgir ou manifestar-se em ocasiões inesperadas.
Um episódio particular: Em Paris, um pickpocket furta de um brasileiro um cartão de crédito. Mais tarde, um notório intelectual progressista conta que lhe aconteceu algo igual, mas teve na delegacia uma segunda experiência desagradável: fizeram-no esperar longo tempo sentado ao lado de "todos aqueles africanos". Subsumia-se que ser africano equivaleria ao negro escravizado, logo, ao afrodescendente brasileiro, objeto de velado preconceito.
Esse equívoco discursivo é próximo ao da jornalista: "homem, mulher e negro". Mas está longe de sua imputação como sujeito de consciência racista, pois a diferença entre a discriminação visível e a invisível, o lapso, resta ser testado em atos na vida social, como agora em Canoas (RS), onde um tribunal, em inequívoco racismo religioso, determinou a segregação cautelar de uma acusada por "ser mãe de santo". Em geral, o problema converge para a linguagem, um jogo que "fala" o sujeito, espelhando a forma escravista com força estruturante. Daí a importância de escola, escrita e imagens antirracistas. E certamente de reciclagens institucionais.
A dificuldade deve-se à inquietante singularidade do racismo no Brasil. O sociólogo francês Gabriel Tarde observou em fins do século 19 que "cada civilização faz a sua raça" (ao invés de "a raça faz a civilização"). A modalidade brasileira é diferente da norte-americana, uma leucocracia com linha divisória entre claros e escuros a partir da "one drop rule", a regra de que uma gota de sangue imaginariamente "negro" faz emergir a separação racial, qualquer que seja a gradação cromática da pele. Aqui, não, o colorismo hierarquiza as tonalidades: quanto mais claro, mais aceitável. Ou negociável.
No interior da forma social escravista, que continua a existir desligada da materialidade da antiga estrutura escravista, o processo cognitivo é complexo. O abolicionista Joaquim Nabuco anteviu: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil (...) ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância". A forma escravista é estruturante de modelagens conscientes ou subconscientes, visíveis ou invisíveis. As primeiras se traduzem em normas, as segundas aparecem em atos reflexos, que espelham a forma social. A reflexividade produz imagens instauradoras de um campo sensível, responsável pelas afecções discriminatórias.
Na imagem de mundo, síntese mais ampla do que o juízo verbal, incorporam-se representações e experiências, sujeitas a juízos de valor. A eles preside raça, categoria anacrônica e obscura, embora investida de poder de aplicação capaz de subsistir ao esvaziamento da noção original. Pode ressurgir ou manifestar-se em ocasiões inesperadas.
Um episódio particular: Em Paris, um pickpocket furta de um brasileiro um cartão de crédito. Mais tarde, um notório intelectual progressista conta que lhe aconteceu algo igual, mas teve na delegacia uma segunda experiência desagradável: fizeram-no esperar longo tempo sentado ao lado de "todos aqueles africanos". Subsumia-se que ser africano equivaleria ao negro escravizado, logo, ao afrodescendente brasileiro, objeto de velado preconceito.
Esse equívoco discursivo é próximo ao da jornalista: "homem, mulher e negro". Mas está longe de sua imputação como sujeito de consciência racista, pois a diferença entre a discriminação visível e a invisível, o lapso, resta ser testado em atos na vida social, como agora em Canoas (RS), onde um tribunal, em inequívoco racismo religioso, determinou a segregação cautelar de uma acusada por "ser mãe de santo". Em geral, o problema converge para a linguagem, um jogo que "fala" o sujeito, espelhando a forma escravista com força estruturante. Daí a importância de escola, escrita e imagens antirracistas. E certamente de reciclagens institucionais.
O direito ao delírio
Que tal começarmos a exercer
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?
No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.
Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.
Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.
A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.
A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.
A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.
E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?
No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.
Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.
Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.
A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.
A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.
A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.
E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.
Eduardo Galeano
A ilusão da cavalaria e a realidade de Ormuz
Há uma cena em Lawrence da Arábia em que T. E. Lawrence percebe que a promessa de libertação feita às populações árabes não passava de um instrumento tático, uma ficção conveniente num jogo maior. A ilusão desfaz-se não com um estrondo, mas com um silêncio. Não há revolução, não há redenção, apenas a consciência tardia de que alguém falou em nome deles sem nunca ter querido ouvi-los. O Irão de hoje vive nesse mesmo espaço, entre a promessa e o abandono, entre a expectativa criada e a realidade que nunca chegou a cumprir-se.
Nas primeiras horas do conflito, Donald Trump e Benjamin Netanyahu desenharam uma narrativa tão simples quanto eficaz. Bastaria resistir. Bastaria aguentar mais um pouco. A cavalaria estaria a caminho e, com ela, a possibilidade de o povo iraniano tomar o poder pelas suas próprias mãos. Não se tratava de um compromisso com a democracia, mas de uma promessa de rutura, de substituição de um regime que há décadas se sustenta na repressão, na teocracia e na violência institucionalizada.
Mais de 40 mil mortos depois, e perante uma guerra que rapidamente escapou ao guião de Washington, essa promessa evaporou-se. Não houve correção de discurso, nem revisão estratégica, nem sequer um esforço para explicar o desfasamento entre o que foi dito e o que aconteceu. A mudança de regime, que durante dias foi apresentada como horizonte plausível, deixou simplesmente de existir como tema. O conflito deslocou-se para outros eixos, e o povo iraniano voltou a ocupar o lugar habitual na geopolítica contemporânea, o de elemento secundário numa equação definida por outros, sacrificável na narrativa e descartável na estratégia.
Durante um breve momento, tentou-se dar forma a essa promessa através de um rosto. Reza Pahlavi surgiu como símbolo de uma alternativa possível, uma figura capaz de corporizar uma transição que nunca chegou a materializar-se. A sua projeção mediática foi rápida, quase artificial, sustentada mais por necessidade externa do que por capacidade interna. Tal como aconteceu noutros contextos, a tentativa de fabricar uma liderança a partir do exterior revelou-se estruturalmente frágil. O Irão não oferece o terreno político nem social para soluções importadas, e a figura que durante dias concentrou expectativas acabou por ser descartada sem sequer ter tido a oportunidade de se confrontar com a realidade interna do país.
O problema nunca foi a ausência total de oposição, mas a sua fragmentação, a sua distância do território e a incapacidade de se transformar numa força politicamente operativa. Ao contrário do que muitos quiseram acreditar, o colapso de um regime não se produz por vontade externa nem por desejo mediático. Exige uma erosão interna sustentada, fissuras institucionais profundas e, sobretudo, a existência de uma alternativa credível capaz de ocupar o vazio. Nada disso, até ao momento, se consolidou no Irão.
O que começa verdadeiramente a ganhar relevância não é a queda do regime, mas as tensões dentro dele. Seyed Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros e figura central nas recentes conversações em Islamabad, representa uma linha que, ainda que distante de qualquer noção de moderação no sentido ocidental, revela uma consciência estratégica dos limites do confronto direto com os EUA e os seus aliados. Do outro lado, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e antigo comandante da Guarda Revolucionária, encarna uma visão mais ideológica, mais securitária e menos disponível para qualquer forma de compromisso que não passe pela demonstração de força.
Esta clivagem não é apenas retórica. Traduz uma disputa sobre a própria natureza da sobrevivência do regime. Para a ala mais pragmática, a prioridade é evitar um confronto que possa comprometer a estabilidade interna e expor fragilidades estruturais. Para a linha dura, pelo contrário, a sobrevivência passa pela escalada controlada, pela capacidade de impor custos ao adversário e pela demonstração de que o Irão continua a ser um ator capaz de moldar o sistema internacional, mesmo sem superioridade militar convencional.
É neste enquadramento que o estreito de Ormuz assume uma centralidade absoluta. A guerra deixou de ser definida pela questão nuclear, pelos mísseis balísticos ou pela ativação dos tradicionais proxies regionais. A verdadeira capacidade de projeção estratégica do Irão reside hoje na possibilidade de perturbar, condicionar ou, no limite, bloquear um dos principais corredores energéticos do mundo, por onde passa uma parte significativa do abastecimento global de petróleo e gás.
Ao deslocar o conflito para Ormuz, Teerão altera a natureza da guerra. Deixa de procurar uma vitória militar clássica e passa a operar numa lógica de disrupção sistémica. O objetivo não é derrotar diretamente os EUA ou Israel, mas tornar o custo da estabilidade global suficientemente elevado para forçar uma reconfiguração das prioridades internacionais. Ao ameaçar o fluxo energético, o Irão transforma um conflito regional num problema global, envolvendo economias, mercados e governos que, de outra forma, poderiam manter-se à margem.
Esta estratégia, muitas vezes descrita como assimétrica, é, na realidade, profundamente racional. Para um regime que conhece os limites da sua capacidade militar convencional, a utilização de um ponto de estrangulamento económico como Ormuz representa uma forma eficaz de compensar essa desvantagem. É a transformação da geografia em poder, do território em instrumento político.
No meio desta reconfiguração, o povo iraniano volta a desaparecer do centro da narrativa. Não porque não exista contestação, mas porque essa contestação permanece incapaz de se traduzir em poder político efetivo. As promessas externas falharam, as alternativas internas não se consolidaram e o regime, apesar das suas tensões e divergências, mantém-se funcional, adaptando-se mais uma vez à pressão sem ceder na sua essência.
Talvez seja essa a dimensão mais incómoda desta crise. A política internacional continua a produzir expectativas que não pretende cumprir. Fala-se de libertação como se fosse uma variável estratégica, promete-se mudança como se fosse um instrumento operacional. Mas a realidade é mais crua. Os povos raramente são libertados por quem projeta poder sobre eles, e as promessas feitas em tempo de guerra raramente sobrevivem à lógica fria dos interesses.
No fim, o que fica não é apenas a destruição ou o cálculo geopolítico. Fica a memória de uma promessa. E a consciência, cada vez mais clara, de que, mais uma vez, alguém acreditou que a cavalaria viria. E, mais uma vez, ela nunca chegou.
Nas primeiras horas do conflito, Donald Trump e Benjamin Netanyahu desenharam uma narrativa tão simples quanto eficaz. Bastaria resistir. Bastaria aguentar mais um pouco. A cavalaria estaria a caminho e, com ela, a possibilidade de o povo iraniano tomar o poder pelas suas próprias mãos. Não se tratava de um compromisso com a democracia, mas de uma promessa de rutura, de substituição de um regime que há décadas se sustenta na repressão, na teocracia e na violência institucionalizada.
Mais de 40 mil mortos depois, e perante uma guerra que rapidamente escapou ao guião de Washington, essa promessa evaporou-se. Não houve correção de discurso, nem revisão estratégica, nem sequer um esforço para explicar o desfasamento entre o que foi dito e o que aconteceu. A mudança de regime, que durante dias foi apresentada como horizonte plausível, deixou simplesmente de existir como tema. O conflito deslocou-se para outros eixos, e o povo iraniano voltou a ocupar o lugar habitual na geopolítica contemporânea, o de elemento secundário numa equação definida por outros, sacrificável na narrativa e descartável na estratégia.
Durante um breve momento, tentou-se dar forma a essa promessa através de um rosto. Reza Pahlavi surgiu como símbolo de uma alternativa possível, uma figura capaz de corporizar uma transição que nunca chegou a materializar-se. A sua projeção mediática foi rápida, quase artificial, sustentada mais por necessidade externa do que por capacidade interna. Tal como aconteceu noutros contextos, a tentativa de fabricar uma liderança a partir do exterior revelou-se estruturalmente frágil. O Irão não oferece o terreno político nem social para soluções importadas, e a figura que durante dias concentrou expectativas acabou por ser descartada sem sequer ter tido a oportunidade de se confrontar com a realidade interna do país.
O problema nunca foi a ausência total de oposição, mas a sua fragmentação, a sua distância do território e a incapacidade de se transformar numa força politicamente operativa. Ao contrário do que muitos quiseram acreditar, o colapso de um regime não se produz por vontade externa nem por desejo mediático. Exige uma erosão interna sustentada, fissuras institucionais profundas e, sobretudo, a existência de uma alternativa credível capaz de ocupar o vazio. Nada disso, até ao momento, se consolidou no Irão.
O que começa verdadeiramente a ganhar relevância não é a queda do regime, mas as tensões dentro dele. Seyed Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros e figura central nas recentes conversações em Islamabad, representa uma linha que, ainda que distante de qualquer noção de moderação no sentido ocidental, revela uma consciência estratégica dos limites do confronto direto com os EUA e os seus aliados. Do outro lado, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e antigo comandante da Guarda Revolucionária, encarna uma visão mais ideológica, mais securitária e menos disponível para qualquer forma de compromisso que não passe pela demonstração de força.
Esta clivagem não é apenas retórica. Traduz uma disputa sobre a própria natureza da sobrevivência do regime. Para a ala mais pragmática, a prioridade é evitar um confronto que possa comprometer a estabilidade interna e expor fragilidades estruturais. Para a linha dura, pelo contrário, a sobrevivência passa pela escalada controlada, pela capacidade de impor custos ao adversário e pela demonstração de que o Irão continua a ser um ator capaz de moldar o sistema internacional, mesmo sem superioridade militar convencional.
É neste enquadramento que o estreito de Ormuz assume uma centralidade absoluta. A guerra deixou de ser definida pela questão nuclear, pelos mísseis balísticos ou pela ativação dos tradicionais proxies regionais. A verdadeira capacidade de projeção estratégica do Irão reside hoje na possibilidade de perturbar, condicionar ou, no limite, bloquear um dos principais corredores energéticos do mundo, por onde passa uma parte significativa do abastecimento global de petróleo e gás.
Ao deslocar o conflito para Ormuz, Teerão altera a natureza da guerra. Deixa de procurar uma vitória militar clássica e passa a operar numa lógica de disrupção sistémica. O objetivo não é derrotar diretamente os EUA ou Israel, mas tornar o custo da estabilidade global suficientemente elevado para forçar uma reconfiguração das prioridades internacionais. Ao ameaçar o fluxo energético, o Irão transforma um conflito regional num problema global, envolvendo economias, mercados e governos que, de outra forma, poderiam manter-se à margem.
Esta estratégia, muitas vezes descrita como assimétrica, é, na realidade, profundamente racional. Para um regime que conhece os limites da sua capacidade militar convencional, a utilização de um ponto de estrangulamento económico como Ormuz representa uma forma eficaz de compensar essa desvantagem. É a transformação da geografia em poder, do território em instrumento político.
No meio desta reconfiguração, o povo iraniano volta a desaparecer do centro da narrativa. Não porque não exista contestação, mas porque essa contestação permanece incapaz de se traduzir em poder político efetivo. As promessas externas falharam, as alternativas internas não se consolidaram e o regime, apesar das suas tensões e divergências, mantém-se funcional, adaptando-se mais uma vez à pressão sem ceder na sua essência.
Talvez seja essa a dimensão mais incómoda desta crise. A política internacional continua a produzir expectativas que não pretende cumprir. Fala-se de libertação como se fosse uma variável estratégica, promete-se mudança como se fosse um instrumento operacional. Mas a realidade é mais crua. Os povos raramente são libertados por quem projeta poder sobre eles, e as promessas feitas em tempo de guerra raramente sobrevivem à lógica fria dos interesses.
No fim, o que fica não é apenas a destruição ou o cálculo geopolítico. Fica a memória de uma promessa. E a consciência, cada vez mais clara, de que, mais uma vez, alguém acreditou que a cavalaria viria. E, mais uma vez, ela nunca chegou.
Quando as vozes de Exílio e Sobrevivência nos alcançam
Na Poética, de Aristóteles, somos ensinados que quanto mais intensos são os sentimentos inspirados por uma tragédia – medo, horror, revolta, compaixão –, maior é a catarse do público. Uma história bem contada, em que as tensões presentes na peça permitem à audiência identificar-se com as emoções das personagens, conduz à resolução do conflito e ao desfazer de tensões, atingindo-se então a catarse.
Se para Aristóteles a catarse era sobretudo experienciada pela audiência, hoje em dia é comum referirmo-nos à escrita como processo terapêutico – catártico – do próprio autor ou da autora. Afinal, é preciso um especial tipo de coragem para decidir enfrentar o abismo que devolve a nossa reflexão ao espelho. Sem coragem, como seríamos capazes de pôr fim às trevas e preenchê-las de luz?
Vem isto a propósito de uma conversa em que participei, a convite do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e do coletivo feminista Insurgentes, com a participação de várias autoras com obras sobre migração, cultura e desenraizamento, e que me fez regressar a esta ideia aristotélica de catarse.
Fiquei a conhecer a história de Margarita Sharapova que vivera toda a vida na Rússia e, durante o regime de Putin, começou a ser perseguida por ser uma autora lésbica e que escrevera sobre temáticas LGBT. No livro Três Histórias de Mulheres Refugiadas, partilha a sua história e revela como foi constantemente perseguida em Moscovo devido à sua escrita, insultada e espancada pela polícia e por neonazis russos. Não adiantava recorrer às autoridades porque estavam em conluio com o regime. Sharapova não queria abandonar a sua terra natal, mas após a morte trágica da sua companheira, vítima de violência policial, a vida tornou-se impossível na Rússia. Fugiu para Portugal sem conhecer a língua nem o país, e pediu asilo político.
Quando falamos de violência e perseguição política, de refugiados e guerras, quando falamos de descolonização, deslocamento forçado e outros processos de enorme violência, esquecemo-nos com frequência de que cada história tem um rosto e um nome. Há todo um passado que fica para trás, e a pessoa que éramos ontem já não é a pessoa que somos hoje. O que seria dos escritores se não fosse a força de vontade para detalhar em papel essas vivências, numa tentativa de sensibilizar os leitores para a indignidade e a crueldade crescente dos nossos tempos?
Recordo-me de ter ficado profundamente impressionada com O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch, permitindo-me uma compreensão das circunstâncias históricas esmagadoras, antes e depois do regime soviético, e as promessas que foram feitas e a seguir estilhaçadas.
Recordo-me do álbum autobiográfico de banda desenhada Assombrada, da iraniana Shaghayegh Moazzami. Imigrou para o Canadá, numa tentativa de fugir à vida opressiva sob o regime iraniano, mas não consegue desligar-se do seu país de origem. Essa ligação transforma-se na figura de uma mulher iraniana conservadora, vestida com um chador preto, que a assombra e a acusa de ter abandonado os costumes e a religião. Moazzami está de tal forma atormentada pela culpa que só através do processo catártico da sua arte consegue finalmente deixar para trás os seus fantasmas.
Recordo-me também da banda desenhada autobiográfica da libanesa Zeina Abirached, que conta em A Dança das Andorinhas a história da sua infância durante a guerra civil libanesa, e de como os vizinhos formaram uma comunidade que lhes permitiu ultrapassar a vida absurda numa cidade dividida por campos de batalha e sob a constante ameaça dos mísseis. No meio da devastação em redor, os vizinhos procuram manter a normalidade, e enquanto uns ponderam o exílio, outros sabem que jamais irão partir.
Tantas histórias de violência que foram transformadas em literatura em vez de ficarem guardadas numa gaveta profunda de memória. Tantas autoras a passarem pelos seus processos de catarse. Talvez seja nesse gesto de escrita que reside não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a de partilha. E talvez seja aí, nesse encontro entre quem escreve e quem lê, que começamos a compreender melhor aquilo que, de outra forma, permaneceria distante.
Se para Aristóteles a catarse era sobretudo experienciada pela audiência, hoje em dia é comum referirmo-nos à escrita como processo terapêutico – catártico – do próprio autor ou da autora. Afinal, é preciso um especial tipo de coragem para decidir enfrentar o abismo que devolve a nossa reflexão ao espelho. Sem coragem, como seríamos capazes de pôr fim às trevas e preenchê-las de luz?
Vem isto a propósito de uma conversa em que participei, a convite do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e do coletivo feminista Insurgentes, com a participação de várias autoras com obras sobre migração, cultura e desenraizamento, e que me fez regressar a esta ideia aristotélica de catarse.
Fiquei a conhecer a história de Margarita Sharapova que vivera toda a vida na Rússia e, durante o regime de Putin, começou a ser perseguida por ser uma autora lésbica e que escrevera sobre temáticas LGBT. No livro Três Histórias de Mulheres Refugiadas, partilha a sua história e revela como foi constantemente perseguida em Moscovo devido à sua escrita, insultada e espancada pela polícia e por neonazis russos. Não adiantava recorrer às autoridades porque estavam em conluio com o regime. Sharapova não queria abandonar a sua terra natal, mas após a morte trágica da sua companheira, vítima de violência policial, a vida tornou-se impossível na Rússia. Fugiu para Portugal sem conhecer a língua nem o país, e pediu asilo político.
Quando falamos de violência e perseguição política, de refugiados e guerras, quando falamos de descolonização, deslocamento forçado e outros processos de enorme violência, esquecemo-nos com frequência de que cada história tem um rosto e um nome. Há todo um passado que fica para trás, e a pessoa que éramos ontem já não é a pessoa que somos hoje. O que seria dos escritores se não fosse a força de vontade para detalhar em papel essas vivências, numa tentativa de sensibilizar os leitores para a indignidade e a crueldade crescente dos nossos tempos?
Recordo-me de ter ficado profundamente impressionada com O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch, permitindo-me uma compreensão das circunstâncias históricas esmagadoras, antes e depois do regime soviético, e as promessas que foram feitas e a seguir estilhaçadas.
Recordo-me do álbum autobiográfico de banda desenhada Assombrada, da iraniana Shaghayegh Moazzami. Imigrou para o Canadá, numa tentativa de fugir à vida opressiva sob o regime iraniano, mas não consegue desligar-se do seu país de origem. Essa ligação transforma-se na figura de uma mulher iraniana conservadora, vestida com um chador preto, que a assombra e a acusa de ter abandonado os costumes e a religião. Moazzami está de tal forma atormentada pela culpa que só através do processo catártico da sua arte consegue finalmente deixar para trás os seus fantasmas.
Recordo-me também da banda desenhada autobiográfica da libanesa Zeina Abirached, que conta em A Dança das Andorinhas a história da sua infância durante a guerra civil libanesa, e de como os vizinhos formaram uma comunidade que lhes permitiu ultrapassar a vida absurda numa cidade dividida por campos de batalha e sob a constante ameaça dos mísseis. No meio da devastação em redor, os vizinhos procuram manter a normalidade, e enquanto uns ponderam o exílio, outros sabem que jamais irão partir.
Tantas histórias de violência que foram transformadas em literatura em vez de ficarem guardadas numa gaveta profunda de memória. Tantas autoras a passarem pelos seus processos de catarse. Talvez seja nesse gesto de escrita que reside não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a de partilha. E talvez seja aí, nesse encontro entre quem escreve e quem lê, que começamos a compreender melhor aquilo que, de outra forma, permaneceria distante.
Projeto 'Grande Israel': Assentamentos em terras roubadas com recursos roubados
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, descreveu o confronto com o Irã como uma ampla luta ideológica, afirmando que Israel e os Estados Unidos estão envolvidos em uma “batalha da civilização contra a barbárie”.
Suas declarações coincidiram com um relatório da ONU Mulheres que estimava que, até dezembro de 2025, mais de 38.000 mulheres e meninas haviam sido mortas em Gaza, sendo mais de 22.000 mulheres e 16.000 meninas. Esses números representam uma mudança drástica em relação às ofensivas anteriores em Gaza, onde mulheres e meninas representavam 15% das mortes em 2008-2009 e 22% em 2014.
Um ex-soldado israelense, entrevistado pelo Haaretz, descreveu seu retorno de Gaza sob aclamação pública como um "herói", mesmo enquanto lutava contra um profundo trauma moral. Seu depoimento relata o assassinato de palestinos desarmados, os maus-tratos a detidos e uma cultura generalizada de impunidade que normalizava o uso excessivo da força e a humilhação. O abismo entre a celebração pública e a violência que testemunhou o fez sentir-se monstruoso em vez de heróico, revelando as fraturas psicológicas e éticas produzidas pela conduta militar de Israel.
Ao mesmo tempo, as autoridades militares israelenses intensificaram a destruição de terras agrícolas em toda a Cisjordânia. Uma ordem emitida para Kufr Malik, a leste de Ramallah, autorizou o exército a arrancar vegetação, incluindo oliveiras centenárias, sob o pretexto de “segurança e visibilidade”. A ordem entrou em vigor imediatamente, dando aos proprietários de terras apenas 24 horas para apresentar objeções por meio da Diretoria de Ligação e Coordenação. Ao sul de Nablus, sua implementação resultou no arrancamento de mais de 150 oliveiras.
Em alguns casos, os proprietários de terras palestinos chegaram a pedir para arrancar as árvores eles mesmos, numa tentativa de minimizar os danos. O exército rejeita rotineiramente esses pedidos. Os palestinos suspeitam que as árvores arrancadas acabam sendo transferidas para assentamentos israelenses.
Em 21 de abril, colonos israelenses invadiram a vila de Al-Mughayyir durante as provas escolares, atirando em direção às salas de aula e matando Aws Hamdi al-Naasan, de 14 anos, e Jihad Marzouq Abu Naim, de 32 anos. Testemunhas descreveram estudantes caindo no chão quando as balas atingiram o prédio. Moradores disseram que soldados acompanharam os colonos, contradizendo a alegação do exército israelense de que as tropas chegaram somente depois que civis abriram fogo após um suposto incidente com pedras.
Naquele mesmo dia, Mohammad Ali al-Jabari, de dezesseis anos, foi morto perto de Hebron quando um veículo da escolta de segurança da ministra israelense dos Assentamentos, Orit Strook, o atropelou enquanto ele atravessava a Rodovia 60 de bicicleta, a caminho da escola. A estrada, fechada para palestinos desde a guerra em Gaza, obriga os estudantes a enfrentar um tráfego rápido e imprevisível.
Também em 21 de abril, Ouda Atef Ouda Awawda, de 29 anos, pai de gêmeas recém-nascidas, morreu após ser baleado pelas costas durante um ataque de colonos a Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Colonos armados, acompanhados por forças israelenses, abriram fogo contra moradores e casas nos arredores da cidade. As forças israelenses então bloquearam a entrada principal e realizaram prisões em massa, detendo cerca de 30 pessoas.
Em 22 de abril, um ataque aéreo israelense no norte da Faixa de Gaza matou cinco palestinos, incluindo três crianças. Outro ataque aéreo no mesmo dia matou a jornalista libanesa Amal Khalil e feriu um colega enquanto trabalhavam perto da fronteira com Israel, em um ataque que atingiu uma casa na cidade de al-Tiri.
A violência dos colonos na Área C tem assumido formas cada vez mais sexualizadas e direcionadas a questões de gênero , criando condições coercitivas que levam as comunidades palestinas ao deslocamento. Entrevistas e monitoramento de campo documentam assédio, ameaças de estupro, nudez forçada, humilhação sexual e invasões domiciliares.
Mulheres e meninas enfrentam perigos ainda maiores, enquanto homens e meninos também são submetidos a abusos sexuais e tratamentos degradantes, muitas vezes na presença de forças israelenses que não intervêm. Isso se soma às restrições de movimento, ao declínio econômico, às demolições de casas e à expansão dos assentamentos. Mais de 70% das famílias deslocadas citaram as ameaças a mulheres e crianças como o fator decisivo para o abandono do assentamento, evidenciando como a violência de gênero influencia as decisões sobre a permanência das famílias em suas terras.
O deslocamento transforma a vida cotidiana e o bem-estar da comunidade. As famílias restringem a liberdade de movimento das mulheres, enviam mulheres e crianças para longe em realocações parciais, dependem das crianças para tarefas arriscadas e, às vezes, arranjam casamentos precoces para afastar as meninas do perigo. Após a partida, as famílias frequentemente vivem em locais superlotados e inseguros, com serviços limitados. As mulheres perdem a renda ligada à terra e à criação de animais, enquanto as crianças sofrem traumas, têm sua educação interrompida e perdem espaços seguros. Os homens enfrentam riscos maiores de prisão, detenção e violência letal, agravando a tensão familiar. Essas pressões, em conjunto, contribuem para condições que configuram transferência forçada.
Embora as autoridades israelenses insistam em retratar o exército como "o exército mais moral do mundo", investigações e depoimentos também destacam saques generalizados cometidos por soldados israelenses. Relatos da Síria, Líbano, Gaza e Cisjordânia descrevem roubos de dinheiro, joias e dispositivos eletrônicos, com os itens roubados sendo posteriormente vendidos no Telegram, Facebook ou em mercados públicos. Amigos e parentes relatam que soldados levaram dinheiro durante invasões domiciliares ou em postos de controle; em um caso, uma família relatou o desaparecimento de dinheiro após uma busca, mas sua queixa foi ignorada.
Os colonos também estão envolvidos no saque de propriedades para construir colônias agrícolas em terras roubadas. Em 12 de fevereiro de 2025, colonos, protegidos pelo exército israelense, roubaram gado palestino na Cisjordânia, incluindo 800 ovelhas na vila de Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Em Al Mughayyir, roubaram 170 ovelhas, assim como em outras vilas de Yabrud e Jifna, uma prática generalizada e rotineira.
Essas práticas remetem à Nakba, quando a Haganá e outras milícias sionistas destruíram, confiscaram e saquearam sistematicamente propriedades palestinas, incluindo casas, bibliotecas, arquivos e coleções pessoais. Unidades armadas também saquearam residências particulares, levando joias, móveis, roupas e outros pertences, enquanto ocupavam, expropriavam ou destruíam bens imóveis.
Soldados israelenses que serviram no Líbano disseram ao Haaretz que saques se tornaram rotina durante as operações na região, descrevendo unidades invadindo casas, roubando objetos de valor e vandalizando propriedades com o pleno conhecimento de seus comandantes. Os oficiais frequentemente ignoravam ou toleravam implicitamente os roubos, criando uma atmosfera na qual os soldados se sentiam à vontade para levar dinheiro, eletrônicos e pertences pessoais das casas dos expulsos. Alguns soldados disseram estar perturbados com a escala da má conduta e a indiferença dos altos escalões, observando que as queixas eram ignoradas ou recebidas com silêncio e impunidade.
Desde 2 de março, as operações militares israelenses no Líbano mataram mais de 2 mil pessoas, incluindo profissionais de saúde e jornalistas, e feriram outras 6.588. A escalada do conflito deslocou mais de um milhão de pessoas, aproximadamente um quinto da população do Líbano, com cerca de 140.682 abrigadas em instalações superlotadas.
O relatório do Yesh Din, Roubo Uniformizado (agosto de 2025), documenta o saque generalizado e sistemático de dinheiro e propriedades de palestinos por soldados e forças de segurança israelenses na Cisjordânia, uma prática definida como crime de guerra pelo direito internacional. Com base em mais de duas décadas de monitoramento e depoimentos de 2022 a 2024, o relatório mostra como o roubo se intensificou desde 7 de outubro, tornando-se algo comum durante invasões domiciliares e buscas em postos de controle, facilitadas pela lei militar que concede amplos poderes e impunidade às forças de segurança. Essas ações de roubo se inserem em um sistema mais amplo de desapropriação e expropriação de terras.
As declarações de autoridades israelenses também refletem ambições territoriais expansivas. Em entrevista à i24 em 12 de agosto de 2025, Netanyahu descreveu-se como estando em uma “missão histórica e espiritual”, expressando apego à visão de um Grande Israel que se estenda além das fronteiras atuais. Outras autoridades, incluindo o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, fizeram coro com aspirações semelhantes.
Essas ambições também são visíveis na Palestina histórica. Em 7 de novembro de 2025, Ben Gvir supervisionou pessoalmente a demolição de casas palestinas no Naqab (Negev), alegando que haviam sido construídas sem licença. Ao ser confrontado por um morador, declarou : “Lentamente, mas com certeza, estamos retomando as terras do Negev”. A Autoridade Fundiária de Israel tem utilizado cada vez mais inteligência artificial e vigilância aérea para identificar o que considera “estruturas não autorizadas”, possibilitando ordens de demolição rápidas.
Em toda a região, Israel impôs novos regimes territoriais. No sul do Líbano, as forças israelenses estabeleceram uma "Linha Amarela" de 10 km de profundidade, apresentada como uma medida de segurança, mas acompanhada de demolições, bombardeios e ataques aéreos que, segundo críticos, consolidam o controle a longo prazo.
Em Gaza, uma “linha amarela” indefinida, imposta após o cessar-fogo de outubro de 2025, tornou-se um mecanismo para o deslocamento contínuo de pessoas. O chefe do Estado-Maior de Israel a descreveu como “uma nova linha de fronteira”, apesar de sua invisibilidade e da falta de demarcação clara. Israel permanece estacionado em mais de 58% da Faixa de Gaza, continuando os ataques ao longo dessa linha e impedindo que os palestinos deslocados retornem para suas casas.
Os saques, roubos, destruição e deslocamentos documentados devem ser compreendidos dentro da trajetória mais longa do projeto sionista, que estabeleceu um Estado em terras roubadas e propriedades apropriadas.
À medida que Israel expande seu alcance territorial por meio da expropriação de terras no Líbano, na Síria e em toda a Palestina histórica, o saque de casas e pertences torna-se não incidental, mas instrumental, mobiliando espaços recém-conquistados e reforçando um sistema construído sobre a desapropriação. Crimes de guerra não reconhecidos. Como em outros contextos de colonialismo de povoamento, a chamada missão civilizadora opera como um projeto de desapropriação e destruição da população indígena.
Suas declarações coincidiram com um relatório da ONU Mulheres que estimava que, até dezembro de 2025, mais de 38.000 mulheres e meninas haviam sido mortas em Gaza, sendo mais de 22.000 mulheres e 16.000 meninas. Esses números representam uma mudança drástica em relação às ofensivas anteriores em Gaza, onde mulheres e meninas representavam 15% das mortes em 2008-2009 e 22% em 2014.
Um ex-soldado israelense, entrevistado pelo Haaretz, descreveu seu retorno de Gaza sob aclamação pública como um "herói", mesmo enquanto lutava contra um profundo trauma moral. Seu depoimento relata o assassinato de palestinos desarmados, os maus-tratos a detidos e uma cultura generalizada de impunidade que normalizava o uso excessivo da força e a humilhação. O abismo entre a celebração pública e a violência que testemunhou o fez sentir-se monstruoso em vez de heróico, revelando as fraturas psicológicas e éticas produzidas pela conduta militar de Israel.
Ao mesmo tempo, as autoridades militares israelenses intensificaram a destruição de terras agrícolas em toda a Cisjordânia. Uma ordem emitida para Kufr Malik, a leste de Ramallah, autorizou o exército a arrancar vegetação, incluindo oliveiras centenárias, sob o pretexto de “segurança e visibilidade”. A ordem entrou em vigor imediatamente, dando aos proprietários de terras apenas 24 horas para apresentar objeções por meio da Diretoria de Ligação e Coordenação. Ao sul de Nablus, sua implementação resultou no arrancamento de mais de 150 oliveiras.
Em alguns casos, os proprietários de terras palestinos chegaram a pedir para arrancar as árvores eles mesmos, numa tentativa de minimizar os danos. O exército rejeita rotineiramente esses pedidos. Os palestinos suspeitam que as árvores arrancadas acabam sendo transferidas para assentamentos israelenses.
Em 21 de abril, colonos israelenses invadiram a vila de Al-Mughayyir durante as provas escolares, atirando em direção às salas de aula e matando Aws Hamdi al-Naasan, de 14 anos, e Jihad Marzouq Abu Naim, de 32 anos. Testemunhas descreveram estudantes caindo no chão quando as balas atingiram o prédio. Moradores disseram que soldados acompanharam os colonos, contradizendo a alegação do exército israelense de que as tropas chegaram somente depois que civis abriram fogo após um suposto incidente com pedras.
Naquele mesmo dia, Mohammad Ali al-Jabari, de dezesseis anos, foi morto perto de Hebron quando um veículo da escolta de segurança da ministra israelense dos Assentamentos, Orit Strook, o atropelou enquanto ele atravessava a Rodovia 60 de bicicleta, a caminho da escola. A estrada, fechada para palestinos desde a guerra em Gaza, obriga os estudantes a enfrentar um tráfego rápido e imprevisível.
Também em 21 de abril, Ouda Atef Ouda Awawda, de 29 anos, pai de gêmeas recém-nascidas, morreu após ser baleado pelas costas durante um ataque de colonos a Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Colonos armados, acompanhados por forças israelenses, abriram fogo contra moradores e casas nos arredores da cidade. As forças israelenses então bloquearam a entrada principal e realizaram prisões em massa, detendo cerca de 30 pessoas.
Em 22 de abril, um ataque aéreo israelense no norte da Faixa de Gaza matou cinco palestinos, incluindo três crianças. Outro ataque aéreo no mesmo dia matou a jornalista libanesa Amal Khalil e feriu um colega enquanto trabalhavam perto da fronteira com Israel, em um ataque que atingiu uma casa na cidade de al-Tiri.
A violência dos colonos na Área C tem assumido formas cada vez mais sexualizadas e direcionadas a questões de gênero , criando condições coercitivas que levam as comunidades palestinas ao deslocamento. Entrevistas e monitoramento de campo documentam assédio, ameaças de estupro, nudez forçada, humilhação sexual e invasões domiciliares.
Mulheres e meninas enfrentam perigos ainda maiores, enquanto homens e meninos também são submetidos a abusos sexuais e tratamentos degradantes, muitas vezes na presença de forças israelenses que não intervêm. Isso se soma às restrições de movimento, ao declínio econômico, às demolições de casas e à expansão dos assentamentos. Mais de 70% das famílias deslocadas citaram as ameaças a mulheres e crianças como o fator decisivo para o abandono do assentamento, evidenciando como a violência de gênero influencia as decisões sobre a permanência das famílias em suas terras.
O deslocamento transforma a vida cotidiana e o bem-estar da comunidade. As famílias restringem a liberdade de movimento das mulheres, enviam mulheres e crianças para longe em realocações parciais, dependem das crianças para tarefas arriscadas e, às vezes, arranjam casamentos precoces para afastar as meninas do perigo. Após a partida, as famílias frequentemente vivem em locais superlotados e inseguros, com serviços limitados. As mulheres perdem a renda ligada à terra e à criação de animais, enquanto as crianças sofrem traumas, têm sua educação interrompida e perdem espaços seguros. Os homens enfrentam riscos maiores de prisão, detenção e violência letal, agravando a tensão familiar. Essas pressões, em conjunto, contribuem para condições que configuram transferência forçada.
Embora as autoridades israelenses insistam em retratar o exército como "o exército mais moral do mundo", investigações e depoimentos também destacam saques generalizados cometidos por soldados israelenses. Relatos da Síria, Líbano, Gaza e Cisjordânia descrevem roubos de dinheiro, joias e dispositivos eletrônicos, com os itens roubados sendo posteriormente vendidos no Telegram, Facebook ou em mercados públicos. Amigos e parentes relatam que soldados levaram dinheiro durante invasões domiciliares ou em postos de controle; em um caso, uma família relatou o desaparecimento de dinheiro após uma busca, mas sua queixa foi ignorada.
Os colonos também estão envolvidos no saque de propriedades para construir colônias agrícolas em terras roubadas. Em 12 de fevereiro de 2025, colonos, protegidos pelo exército israelense, roubaram gado palestino na Cisjordânia, incluindo 800 ovelhas na vila de Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Em Al Mughayyir, roubaram 170 ovelhas, assim como em outras vilas de Yabrud e Jifna, uma prática generalizada e rotineira.
Essas práticas remetem à Nakba, quando a Haganá e outras milícias sionistas destruíram, confiscaram e saquearam sistematicamente propriedades palestinas, incluindo casas, bibliotecas, arquivos e coleções pessoais. Unidades armadas também saquearam residências particulares, levando joias, móveis, roupas e outros pertences, enquanto ocupavam, expropriavam ou destruíam bens imóveis.
Soldados israelenses que serviram no Líbano disseram ao Haaretz que saques se tornaram rotina durante as operações na região, descrevendo unidades invadindo casas, roubando objetos de valor e vandalizando propriedades com o pleno conhecimento de seus comandantes. Os oficiais frequentemente ignoravam ou toleravam implicitamente os roubos, criando uma atmosfera na qual os soldados se sentiam à vontade para levar dinheiro, eletrônicos e pertences pessoais das casas dos expulsos. Alguns soldados disseram estar perturbados com a escala da má conduta e a indiferença dos altos escalões, observando que as queixas eram ignoradas ou recebidas com silêncio e impunidade.
Desde 2 de março, as operações militares israelenses no Líbano mataram mais de 2 mil pessoas, incluindo profissionais de saúde e jornalistas, e feriram outras 6.588. A escalada do conflito deslocou mais de um milhão de pessoas, aproximadamente um quinto da população do Líbano, com cerca de 140.682 abrigadas em instalações superlotadas.
O relatório do Yesh Din, Roubo Uniformizado (agosto de 2025), documenta o saque generalizado e sistemático de dinheiro e propriedades de palestinos por soldados e forças de segurança israelenses na Cisjordânia, uma prática definida como crime de guerra pelo direito internacional. Com base em mais de duas décadas de monitoramento e depoimentos de 2022 a 2024, o relatório mostra como o roubo se intensificou desde 7 de outubro, tornando-se algo comum durante invasões domiciliares e buscas em postos de controle, facilitadas pela lei militar que concede amplos poderes e impunidade às forças de segurança. Essas ações de roubo se inserem em um sistema mais amplo de desapropriação e expropriação de terras.
As declarações de autoridades israelenses também refletem ambições territoriais expansivas. Em entrevista à i24 em 12 de agosto de 2025, Netanyahu descreveu-se como estando em uma “missão histórica e espiritual”, expressando apego à visão de um Grande Israel que se estenda além das fronteiras atuais. Outras autoridades, incluindo o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, fizeram coro com aspirações semelhantes.
Essas ambições também são visíveis na Palestina histórica. Em 7 de novembro de 2025, Ben Gvir supervisionou pessoalmente a demolição de casas palestinas no Naqab (Negev), alegando que haviam sido construídas sem licença. Ao ser confrontado por um morador, declarou : “Lentamente, mas com certeza, estamos retomando as terras do Negev”. A Autoridade Fundiária de Israel tem utilizado cada vez mais inteligência artificial e vigilância aérea para identificar o que considera “estruturas não autorizadas”, possibilitando ordens de demolição rápidas.
Em toda a região, Israel impôs novos regimes territoriais. No sul do Líbano, as forças israelenses estabeleceram uma "Linha Amarela" de 10 km de profundidade, apresentada como uma medida de segurança, mas acompanhada de demolições, bombardeios e ataques aéreos que, segundo críticos, consolidam o controle a longo prazo.
Em Gaza, uma “linha amarela” indefinida, imposta após o cessar-fogo de outubro de 2025, tornou-se um mecanismo para o deslocamento contínuo de pessoas. O chefe do Estado-Maior de Israel a descreveu como “uma nova linha de fronteira”, apesar de sua invisibilidade e da falta de demarcação clara. Israel permanece estacionado em mais de 58% da Faixa de Gaza, continuando os ataques ao longo dessa linha e impedindo que os palestinos deslocados retornem para suas casas.
Os saques, roubos, destruição e deslocamentos documentados devem ser compreendidos dentro da trajetória mais longa do projeto sionista, que estabeleceu um Estado em terras roubadas e propriedades apropriadas.
À medida que Israel expande seu alcance territorial por meio da expropriação de terras no Líbano, na Síria e em toda a Palestina histórica, o saque de casas e pertences torna-se não incidental, mas instrumental, mobiliando espaços recém-conquistados e reforçando um sistema construído sobre a desapropriação. Crimes de guerra não reconhecidos. Como em outros contextos de colonialismo de povoamento, a chamada missão civilizadora opera como um projeto de desapropriação e destruição da população indígena.
O que nos lembra a maior tragédia trabalhista do Brasil
Há datas que não se limitam à celebração, mas exigem elaboração. O 1º de maio, Dia do Trabalhador, é uma delas. Mais do que rememorar conquistas históricas dos trabalhadores, essa data nos provoca a interrogar as condições concretas em que as atividades profissionais se realizam hoje e, sobretudo, o quanto a perda de vidas ainda faz parte do funcionamento do nosso sistema produtivo e de consumo.
Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale S.A., na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, interrompeu 272 vidas. Destas, 250 estavam trabalhando na hora da tragédia. Esse dado desloca a compreensão do ocorrido: não se trata apenas de um dos maiores desastres humanitários e ambientais do Brasil, mas, também, da maior tragédia laboral da história do país.
Nos anos seguintes ao rompimento, foi erguido, em frente ao local da barragem e da mancha da lama de rejeito, o Memorial Brumadinho. Mais do que um espaço de homenagem às Joias, como são chamadas as vítimas fatais da tragédia, o local, gerido pela Fundação Memorial de Brumadinho, constitui-se como território de memória viva, onde o luto se articula à exigência de justiça e à construção de consciência pública.
A existência desse espaço tem como origem a atuação da AVABRUM, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão. Desde os dias seguintes à tragédia, a associação se tornou protagonista na luta coletiva por direitos, reunindo uma maioria feminina de mães, viúvas, filhas e irmãs enlutadas, que se mobilizaram em busca de respostas. Ao reivindicarem não apenas compromissos institucionais, mas a memória como um direito coletivo, a AVABRUM transformou a dor e o luto em ação – e tornou possível a existência do Memorial.
Os dados contemporâneos sobre acidentes de trabalho no Brasil tornam essa memória ainda mais urgente. Em 2025, o país registrou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes – o maior número da série histórica recente. Trata-se de uma média superior a 2 mil acidentes por dia e de dezenas de mortes por semana. Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2012 e 2024, foram registrados mais de 8,8 milhões de acidentes e notificadas 32 mil mortes em decorrência do trabalho no Brasil.
Esses números, já alarmantes, ainda são subestimados. A subnotificação, especialmente no trabalho informal, oculta uma parcela significativa dessa realidade. No plano mundial, a dimensão é ainda mais contundente. A Organização Internacional do Trabalho estima que quase 3 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Trata-se de uma crise contínua, que atravessa fronteiras e modelos econômicos.
Diante desse cenário, o Memorial Brumadinho não se limita a narrar o passado. Ele tensiona o presente. Ao articular cultura, arquitetura e meio ambiente, o Memorial constrói uma experiência que convida à reflexão e à ação. Os nomes das vítimas fatais, inscritos na Fenda, que atravessa o terreno do museu-memorial, restituem a dimensão humana do que frequentemente se dilui em estatísticas. Somados às fotos e aos objetos pessoais reunidos na sala Memória, cada nome e rosto ali presentes afirmam que não houve fatalidade, mas escolhas, negligência e estruturas que permitiram que essas mortes acontecessem.
Memoriais são, essencialmente, espaços erguidos contra o esquecimento, mas também contra a naturalização da barbárie. No 1º de maio, essa dimensão se torna incontornável. Celebrar o trabalho sem enfrentar suas condições reais é perpetuar uma contradição histórica. Em um país onde os acidentes crescem de forma consistente e atingem níveis recordes, é necessário deslocar o debate: não se trata apenas de garantir acesso ao trabalho, mas de assegurar que ele não seja um vetor de morte.
O Memorial Brumadinho nasce, precisamente, para interromper essa naturalização. Ele se recusa a tratar o desastre como episódio, como acidente ou como passado. Sua função, além de recordar, é denunciar o que se estende no presente. Ele expõe o óbvio que tantas vezes se tenta encobrir: a lama não inaugurou nada; ela apenas revelou um processo histórico de negligência, ganância e descaso com a vida.
Nos marcos dessa leitura, a memória deixa de ser homenagem e se torna resistência geontológica – um gesto ético contra a lógica que coloca a terra, a água e certos corpos no lado dos “não viventes”, como escreve Elizabeth Povinelli, disponíveis à exploração total. Portanto, lembrar é, em Brumadinho, reordenar o mundo; é devolver às vidas perdidas o estatuto que lhes foi negado antes mesmo do rompimento.
Povinelli nos lembra que algumas catástrofes não começam no dia em que rompem. Elas são ancestrais: longas, subterrâneas, feitas de séculos de decisões e classificações que decretam quem pode viver, quem pode morrer, o que pode ser explorado e o que pode ser descartado. São desastres que não têm data exata – têm regimes. E Brumadinho, antes da lama, já era sintoma.
O Memorial se insere, assim, em uma tradição de espaços que transformam o luto, a dor e a exploração em ação pública. Ele não oferece respostas fáceis. Sustenta a complexidade da dor e a converte em pergunta: que modelo de desenvolvimento estamos dispostos a aceitar? Um questionamento que não diz respeito apenas a Brumadinho, mas atravessa o Brasil e o mundo.
Ao longo da história, o 1º de maio foi marcado por lutas que ampliaram direitos e redefiniram limites para a exploração do trabalho. Hoje, talvez seja necessário recolocar no centro dessa agenda uma questão elementar: o direito à vida; o direito de não morrer no trabalho.
Nesse sentido, o Memorial não é apenas um lugar de memória. É um marco ético. Ele afirma que nenhum projeto de desenvolvimento pode se sustentar sobre a perda de vidas. E que a memória, quando compartilhada, tem a potência de transformar não apenas a forma como lembramos o passado, mas a maneira como decidimos o futuro.
Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale S.A., na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, interrompeu 272 vidas. Destas, 250 estavam trabalhando na hora da tragédia. Esse dado desloca a compreensão do ocorrido: não se trata apenas de um dos maiores desastres humanitários e ambientais do Brasil, mas, também, da maior tragédia laboral da história do país.
Nos anos seguintes ao rompimento, foi erguido, em frente ao local da barragem e da mancha da lama de rejeito, o Memorial Brumadinho. Mais do que um espaço de homenagem às Joias, como são chamadas as vítimas fatais da tragédia, o local, gerido pela Fundação Memorial de Brumadinho, constitui-se como território de memória viva, onde o luto se articula à exigência de justiça e à construção de consciência pública.
A existência desse espaço tem como origem a atuação da AVABRUM, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão. Desde os dias seguintes à tragédia, a associação se tornou protagonista na luta coletiva por direitos, reunindo uma maioria feminina de mães, viúvas, filhas e irmãs enlutadas, que se mobilizaram em busca de respostas. Ao reivindicarem não apenas compromissos institucionais, mas a memória como um direito coletivo, a AVABRUM transformou a dor e o luto em ação – e tornou possível a existência do Memorial.
Os dados contemporâneos sobre acidentes de trabalho no Brasil tornam essa memória ainda mais urgente. Em 2025, o país registrou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes – o maior número da série histórica recente. Trata-se de uma média superior a 2 mil acidentes por dia e de dezenas de mortes por semana. Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2012 e 2024, foram registrados mais de 8,8 milhões de acidentes e notificadas 32 mil mortes em decorrência do trabalho no Brasil.
Esses números, já alarmantes, ainda são subestimados. A subnotificação, especialmente no trabalho informal, oculta uma parcela significativa dessa realidade. No plano mundial, a dimensão é ainda mais contundente. A Organização Internacional do Trabalho estima que quase 3 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Trata-se de uma crise contínua, que atravessa fronteiras e modelos econômicos.
Diante desse cenário, o Memorial Brumadinho não se limita a narrar o passado. Ele tensiona o presente. Ao articular cultura, arquitetura e meio ambiente, o Memorial constrói uma experiência que convida à reflexão e à ação. Os nomes das vítimas fatais, inscritos na Fenda, que atravessa o terreno do museu-memorial, restituem a dimensão humana do que frequentemente se dilui em estatísticas. Somados às fotos e aos objetos pessoais reunidos na sala Memória, cada nome e rosto ali presentes afirmam que não houve fatalidade, mas escolhas, negligência e estruturas que permitiram que essas mortes acontecessem.
Memoriais são, essencialmente, espaços erguidos contra o esquecimento, mas também contra a naturalização da barbárie. No 1º de maio, essa dimensão se torna incontornável. Celebrar o trabalho sem enfrentar suas condições reais é perpetuar uma contradição histórica. Em um país onde os acidentes crescem de forma consistente e atingem níveis recordes, é necessário deslocar o debate: não se trata apenas de garantir acesso ao trabalho, mas de assegurar que ele não seja um vetor de morte.
O Memorial Brumadinho nasce, precisamente, para interromper essa naturalização. Ele se recusa a tratar o desastre como episódio, como acidente ou como passado. Sua função, além de recordar, é denunciar o que se estende no presente. Ele expõe o óbvio que tantas vezes se tenta encobrir: a lama não inaugurou nada; ela apenas revelou um processo histórico de negligência, ganância e descaso com a vida.
Nos marcos dessa leitura, a memória deixa de ser homenagem e se torna resistência geontológica – um gesto ético contra a lógica que coloca a terra, a água e certos corpos no lado dos “não viventes”, como escreve Elizabeth Povinelli, disponíveis à exploração total. Portanto, lembrar é, em Brumadinho, reordenar o mundo; é devolver às vidas perdidas o estatuto que lhes foi negado antes mesmo do rompimento.
Povinelli nos lembra que algumas catástrofes não começam no dia em que rompem. Elas são ancestrais: longas, subterrâneas, feitas de séculos de decisões e classificações que decretam quem pode viver, quem pode morrer, o que pode ser explorado e o que pode ser descartado. São desastres que não têm data exata – têm regimes. E Brumadinho, antes da lama, já era sintoma.
O Memorial se insere, assim, em uma tradição de espaços que transformam o luto, a dor e a exploração em ação pública. Ele não oferece respostas fáceis. Sustenta a complexidade da dor e a converte em pergunta: que modelo de desenvolvimento estamos dispostos a aceitar? Um questionamento que não diz respeito apenas a Brumadinho, mas atravessa o Brasil e o mundo.
Ao longo da história, o 1º de maio foi marcado por lutas que ampliaram direitos e redefiniram limites para a exploração do trabalho. Hoje, talvez seja necessário recolocar no centro dessa agenda uma questão elementar: o direito à vida; o direito de não morrer no trabalho.
Nesse sentido, o Memorial não é apenas um lugar de memória. É um marco ético. Ele afirma que nenhum projeto de desenvolvimento pode se sustentar sobre a perda de vidas. E que a memória, quando compartilhada, tem a potência de transformar não apenas a forma como lembramos o passado, mas a maneira como decidimos o futuro.
sábado, 2 de maio de 2026
Manual reacionário
Em 27 de fevereiro do ano passado, funcionários da Usaid, a agência internacional de cooperação dos Estados Unidos, tiveram 15 minutos para recolher os pertences pessoais dos escritórios onde alguns haviam trabalhado por décadas. Cada um teria de levar as próprias caixas de papelão. A agência não as forneceria. Foram escoltados, como criminosos. Aos prantos, os funcionários esvaziaram as mesas e o prédio. No fundo, sem saber, apagavam as luzes de um mundo que se desfazia.
Apesar dos problemas e das suspeitas de encobrir operações de espionagem da CIA, a Usaid, por meio de seus programas, evitou mais de 90 milhões de mortes nos últimos 20 anos ao combater doenças graves. O fechamento da agência interrompeu os programas globais de saúde e a assistência humanitária financiados pelos EUA em todo o mundo.
Não se tratou apenas de mais um gesto irresponsável de Donald Trump. Depois de implementar de forma inédita uma agenda ultraconservadora nos EUA, o governo do republicano ampliava a ofensiva para exportar pelo planeta a ideologia de extrema-direita, com o apoio de grupos políticos em diversas partes do globo. Desmontar a forma pela qual os norte-americanos interagiam com governos estrangeiros foi o primeiro passo. A etapa seguinte visava substituir esse modelo por uma operação de imposição de uma nova agenda.
Um estudo do Global Project Against Hate and Extremism (Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo) rede de pesquisadores sediada nos Estados Unidos, desvela um plano meticuloso, bilionário e ambicioso para alterar a ordem mundial e transformar o movimento de extrema-direita no novo status quo. “As instituições criadas para promover a democracia, os direitos humanos e a cooperação internacional estão sendo desafiadas por uma rede emergente construída em torno do nacionalismo religioso, da retórica supremacista branca e de alianças ideológicas”, descrevem os pesquisadores.
A ofensiva é construída por meio de iniciativas diplomáticas, redes transnacionais de ONGs e apoio financeiro condicionado a governos aliados. A “Internacional Reacionária” usa como base o Projeto 2025, agenda que pauta o segundo governo Trump e está enraizada no nacionalismo cristão. Para os ideólogos do projeto, os Estados Unidos devem ser governados de acordo com uma interpretação ultraconservadora da doutrina cristã. “Estamos no processo da segunda Revolução Americana, que permanecerá sem derramamento de sangue se a esquerda permitir”, afirmou Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation e mentor da iniciativa.
A teologia do 2025 baseia-se no Gênesis 1:28: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a”, incluídos todos os seres vivos. Os nacionalistas cristãos entendem esse “domínio” como um mandato divino para o controle das instituições sociais – governo, educação, mídia, família, religião, artes e negócios. “Sob essa visão de mundo, a igualdade de gênero é uma rebelião contra a ordem divina. Leis que protegem minorias são perseguição aos fiéis. O pluralismo atrapalha a obra de Deus. E qualquer um que discorde não está apenas errado, está fazendo o trabalho de Satanás”, diz o estudo.
Ao assumir o poder, portanto, a extrema-direita iniciou um desmonte das estruturas de soft power dos EUA. A prática da democracia, o apoio aos direitos humanos e o financiamento da assistência humanitária foram substituídos por iniciativas destinadas a promover uma coalizão global centrada na oposição ao direito ao aborto, à igualdade LGBTQ+, a programas de igualdade para mulheres e meninas e na definição de família segundo uma interpretação nacionalista cristã. Para permitir a exportação da ideologia, as reformas foram profundas. No mesmo dia de sua posse, Trump reclassificou milhares de servidores de carreira como ocupantes de cargos políticos que podem ser demitidos sem justa causa. Russell Vought, autor de um dos capítulos do Projeto 2025, foi nomeado como chefe do Escritório de Administração e Orçamento e passou a implementar seu próprio plano. “Essa purga de pessoal viabiliza diretamente a agenda nacionalista cristã global”, disse Vought. “Diplomatas de carreira que negociaram acordos internacionais de direitos humanos por décadas estão sendo substituídos por indicados políticos. Sua principal qualificação? Lealdade à ideologia nacionalista cristã e à cruel agenda do Projeto 2025.”
Segundo o estudo da rede de pesquisadores, um instrumento central para implementar a agenda global é a Declaração de Consenso de Genebra, iniciativa promovida ainda durante o primeiro mandato de Trump e que afirma não existir um direito internacional ao aborto e promove uma definição de família limitada ao casamento heterossexual. Sob Jair Bolsonaro, o Brasil foi um dos principais laboratórios dessa iniciativa, interrompida no terceiro mandato do presidente Lula. Com a volta de Trump ao poder, a coalizão foi expandida e reúne atualmente 40 países, muitos governados por lideranças autocráticas e cujas violações de direitos humanos estão amplamente documentadas. Por meio dessa ideia, os EUA ditam uma espécie de cartilha a ser seguida para garantir o retrocesso nos direitos das mulheres e nas proteções LGBTQ+, ao mesmo tempo que desafiam as normas internacionais de direitos humanos criadas nos últimos 30 anos.
Em entidades como a ONU, o Unicef, braço das Nações Unidas dedicado à infância, e a Organização Mundial da Saúde, a coalizão tenta bloquear as diretrizes que tratam da expansão de direitos ou fazem pressão contra qualquer financiamento destinado a atender uma agenda progressista. O governo Trump ainda abandonou 66 entidades internacionais e cortou 380 milhões de dólares em contribuições.
Um dos focos da exportação da ideologia reacionária é a América Latina. Segundo o levantamento, de acordos de deportação a ataques à igualdade de gênero e aos direitos reprodutivos “a região tornou-se um laboratório para uma poderosa agenda internacional que prioriza o fortalecimento de alianças com atores autoritários dispostos a marginalizar a proteção internacional dos direitos humanos”. O estudo acrescenta: “As vitórias eleitorais de José Antonio Kast no Chile, Nasry Asfura em Honduras e Rodrigo Paz na Bolívia em 2025 reforçaram a capacidade de Trump de expandir sua agenda política na região. Eles se juntaram a um grupo de líderes já alinhados com o movimento MAGA, incluindo Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador, Daniel Noboa no Equador e Santiago Peña no Paraguai”.
A linguagem do Projeto 2025 apontava nessa direção. A estratégia introduziu o termo “re-hemisferização”, que envolve a transferência da produção industrial para mais perto dos Estados Unidos, em países da América Central e do Sul. Ao assumir o segundo mandato, Trump de fato reforçou a perspectiva do “Hemisfério Ocidental” e, pela região, líderes alinhados com o republicano começaram a adotar políticas ultraconservadoras. “A Argentina ilustra como essa transição do plano para a política se desenrolou. O presidente Javier Milei anunciou a retirada do país da Organização Mundial da Saúde, ecoando propostas apresentadas pelo Projeto 2025”, disse o levantamento. “Sob a liderança de Milei, a Argentina passou a retroceder nos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQ+. O governo restringiu o acesso à terapia hormonal para menores transgêneros e anunciou planos para remover o feminicídio do Código Penal, apesar do alarmante aumento de casos documentado por observatórios feministas. Essa agenda restritiva ganhou força em 2025, ao mesmo tempo que a dependência econômica da Argentina em relação ao governo Trump se aprofundou.”
O caso de El Salvador é emblemático. O presidente Nayib Bukele alinhou-se às prioridades políticas do Projeto 2025 e tornou-se um modelo para candidatos extremistas da América Latina, seduzidos por uma política de combate à criminalidade que atropela os mais básicos direitos humanos e pelo maior presídio do mundo, no qual cabem 40 mil detentos. “Essas prioridades incluem a oposição aos direitos LGBTQ+ e das mulheres, bem como o apoio à proibição total do aborto”, observam os pesquisadores. Organizações nos EUA defenderam o arcabouço legal salvadorenho em tribunais internacionais e grupos norte-americanos, entre eles o Moms for Liberty, integrantes do Conselho Consultivo do Projeto 2025, influenciaram as políticas educacionais de Bukele. O país centro-americano tornou-se ainda um campo de testes para as políticas repressivas de deportação do governo Trump.
Outro destaque é o papel desempenhado pelo Paraguai, apontado como um “laboratório para políticas contrárias aos direitos das mulheres”. Antes mesmo de Trump voltar ao poder, Assunção vinha adotando políticas destinadas a desacelerar o progresso das mulheres e da comunidade LGBTQ+. As iniciativas incluem a proibição de termos como “igualdade de gênero” em instituições educacionais, a oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a representação pública do país como uma “ilha de conservadorismo”. O aborto não é permitido nem mesmo nos casos de estupro. A única exceção legal é quando a vida da gestante está em risco.
Com essas credenciais, o Paraguai tem buscado cada vez mais relevância internacional nas redes alinhadas a Trump. “Ao sediar eventos de grande repercussão, como a CPAC e o Foro Madrid, o país tornou-se um ponto de encontro para líderes da extrema-direita da América Latina, Europa e Estados Unidos”, descreve o estudo. O presidente Santiago Peña também tenta impressionar a base mais radical de Trump. “Enquanto o Paraguai existir, haverá pessoas que dirão, em alto e bom som, ao mundo: não ao aborto livre, não a ideias alternativas de família e não a experimentos sociais radicais”, afirmou em uma das reuniões.
A unidade da UE é posta em xeque por legendas como o Vox, na Espanha, e a AfD, na Alemanha. Com Kast , o pinochetismo renasce no Chile.
A influência de lideranças norte-americanas contrárias aos direitos humanos sobre as políticas paraguaias tem se tornado cada vez mais evidente. O Institute for Women’s Health (IWH), comandado por Valerie Huber, anunciou que a entidade e o governo Peña iriam implementar projetos conjuntos. Huber foi a arquiteta do Consenso de Genebra e secretária de Família de Trump no primeiro mandato.
Na Guatemala, a parceria entre a mesma IWH e o governo local envolveu o desenvolvimento de cartilhas para pais e professores. “O casamento”, define o material, “é um compromisso para toda a vida entre um homem e uma mulher” e que “a única maneira 100% eficaz de evitar a gravidez na adolescência é esperar até o casamento para ter relações sexuais.”
A extrema-direita norte-americana igualmente avança no continente africano. O Burundi tem se associado a organizações ligadas ao Projeto 2025 para promover políticas que enfatizam a abstinência. Em Uganda, a aproximação com os EUA coincide com a aprovação de uma das leis anti-LGBTQ+ mais agressivas do mundo, que inclui a imposição da pena de morte em certas situações. A estratégia envolve, porém, muito mais que um convencimento acerca de certas posições que os reacionários gostam de chamar de “valores”. Em dezembro último, o presidente do Quênia, William Ruto, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, assinaram um acordo de 2,5 bilhões de dólares para o país africano se tornar um modelo para a Estratégia Global de Saúde “América Primeiro”. Trata-se de uma aliança que tem se espalhado por todo o continente e envolve pactos bilaterais projetados para substituir instituições multilaterais como a OMS. Se, pelo acordo, o país africano é obrigado a adotar os princípios ultraconservadores dos EUA, o pacto também foi visto como uma oportunidade para o governo local garantir que não houvesse qualquer compromisso de promoção da democracia ou de direitos humanos.
O governo Trump ofereceu a continuação dos tratados tarifários com os africanos, na condição de que eles adotassem suas políticas sociais antidireitos. “Em dezembro, o Quênia reafirmou rapidamente seu alinhamento e sua retórica de ‘família natural’ e conquistou o direito de ter suas tarifas de 42% reembolsadas retroativamente”, aponta o documento. “Os EUA não subsidiarão mais a indústria manufatureira africana, a menos que essa produção seja acompanhada de total fidelidade ideológica.”
De acordo com o estudo, a agenda antimulher e anti-LGBTQ+ dos Estados Unidos espalhou-se pela África – cerca de 20 países passaram a subscrever a Declaração de Genebra. A investigação descobriu que o auxílio externo e a diplomacia dos EUA foram usados para “pressionar os países a assinar” os tratados. Em alguns casos, como o do Sudão, a assinatura da declaração “coincidiu com a remoção da lista de países terroristas dos EUA e com o aumento da ajuda ou do comércio”.
Os planos da Casa Branca incluem moldar a Europa à sua imagem e, por extensão, erradicar políticas progressistas. Por anos, a extrema-direita norte-americana olhou para a Hungria de Viktor Orbán como referência. Mas, com a derrota nas recentes eleições parlamentares, o foco do movimento é o de dar apoio a forças políticas de oposição. Vista como bastião de posições liberais, a Europa precisa ser “contida” por meio de uma guerra cultural. “Isso protegerá a extrema-direita americana, enfraquecerá o liberalismo na Europa e nos Estados Unidos e prejudicará o projeto europeu como um todo”, avalia o estudo. A nova Estratégia de Segurança Nacional de Washington planeja “restaurar a identidade ocidental da Europa” e salvá-la do “apagamento civilizacional”.
Segundo os pesquisadores, o Projeto 2025 defende a interferência na política interna europeia por meio do apoio a “partidos patrióticos” de extrema-direita, uma intervenção antes impensável nos assuntos internos de um aliado. Desde que voltou ao poder, Trump e aliados têm feito exatamente isso. A ordem é apoiar, de todas as maneiras possíveis, grupos como o Vox, da Espanha, Chega, de Portugal, e a AfD, da Alemanha, entre outras facções extremistas, fascistas e neonazistas do continente. Parte da estratégia centra-se na exigência de que empresas europeias e prefeituras abandonem iniciativas de diversidade, caso queiram manter alguma relação com os EUA.
A constatação dos pesquisadores é de que, para além das fronteiras dos Estados Unidos, a base mais radical do trumpismo tem construído uma infraestrutura global para a expansão de sua ideologia. Isso implica adoção de leis, redes de financiamento e pressão política. “Onde, antes, as instituições governamentais dos EUA promoviam os direitos humanos, agora organizações privadas promovem o nacionalismo cristão”. Conclusão: o projeto é global. “Todo o sistema pós-Segunda Guerra Mundial está sendo desmantelado. As proteções aos direitos humanos, definidas por consenso internacional, estão sendo substituídas por ‘direitos naturais’ definidos por doutrinas religiosas. A promoção da democracia é substituída pela defesa da ‘família natural’. A assistência humanitária está sendo substituída pela conformidade ideológica”.
As mesmas redes que remodelam as instituições norte-americanas constroem, de forma ativa, alianças internacionais, estratégias jurídicas e estruturas políticas destinadas a consolidar essa agenda em todo o mundo. “A criminalização de pessoas LGBTQ+, os papéis de gênero obrigatórios, o controle reprodutivo, a fusão entre Igreja e Estado – tudo isso está retornando e conta com os recursos do governo mais poderoso do mundo”, conclui o estudo.
Apesar dos problemas e das suspeitas de encobrir operações de espionagem da CIA, a Usaid, por meio de seus programas, evitou mais de 90 milhões de mortes nos últimos 20 anos ao combater doenças graves. O fechamento da agência interrompeu os programas globais de saúde e a assistência humanitária financiados pelos EUA em todo o mundo.
Não se tratou apenas de mais um gesto irresponsável de Donald Trump. Depois de implementar de forma inédita uma agenda ultraconservadora nos EUA, o governo do republicano ampliava a ofensiva para exportar pelo planeta a ideologia de extrema-direita, com o apoio de grupos políticos em diversas partes do globo. Desmontar a forma pela qual os norte-americanos interagiam com governos estrangeiros foi o primeiro passo. A etapa seguinte visava substituir esse modelo por uma operação de imposição de uma nova agenda.
Um estudo do Global Project Against Hate and Extremism (Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo) rede de pesquisadores sediada nos Estados Unidos, desvela um plano meticuloso, bilionário e ambicioso para alterar a ordem mundial e transformar o movimento de extrema-direita no novo status quo. “As instituições criadas para promover a democracia, os direitos humanos e a cooperação internacional estão sendo desafiadas por uma rede emergente construída em torno do nacionalismo religioso, da retórica supremacista branca e de alianças ideológicas”, descrevem os pesquisadores.
A ofensiva é construída por meio de iniciativas diplomáticas, redes transnacionais de ONGs e apoio financeiro condicionado a governos aliados. A “Internacional Reacionária” usa como base o Projeto 2025, agenda que pauta o segundo governo Trump e está enraizada no nacionalismo cristão. Para os ideólogos do projeto, os Estados Unidos devem ser governados de acordo com uma interpretação ultraconservadora da doutrina cristã. “Estamos no processo da segunda Revolução Americana, que permanecerá sem derramamento de sangue se a esquerda permitir”, afirmou Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation e mentor da iniciativa.
A teologia do 2025 baseia-se no Gênesis 1:28: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a”, incluídos todos os seres vivos. Os nacionalistas cristãos entendem esse “domínio” como um mandato divino para o controle das instituições sociais – governo, educação, mídia, família, religião, artes e negócios. “Sob essa visão de mundo, a igualdade de gênero é uma rebelião contra a ordem divina. Leis que protegem minorias são perseguição aos fiéis. O pluralismo atrapalha a obra de Deus. E qualquer um que discorde não está apenas errado, está fazendo o trabalho de Satanás”, diz o estudo.
Ao assumir o poder, portanto, a extrema-direita iniciou um desmonte das estruturas de soft power dos EUA. A prática da democracia, o apoio aos direitos humanos e o financiamento da assistência humanitária foram substituídos por iniciativas destinadas a promover uma coalizão global centrada na oposição ao direito ao aborto, à igualdade LGBTQ+, a programas de igualdade para mulheres e meninas e na definição de família segundo uma interpretação nacionalista cristã. Para permitir a exportação da ideologia, as reformas foram profundas. No mesmo dia de sua posse, Trump reclassificou milhares de servidores de carreira como ocupantes de cargos políticos que podem ser demitidos sem justa causa. Russell Vought, autor de um dos capítulos do Projeto 2025, foi nomeado como chefe do Escritório de Administração e Orçamento e passou a implementar seu próprio plano. “Essa purga de pessoal viabiliza diretamente a agenda nacionalista cristã global”, disse Vought. “Diplomatas de carreira que negociaram acordos internacionais de direitos humanos por décadas estão sendo substituídos por indicados políticos. Sua principal qualificação? Lealdade à ideologia nacionalista cristã e à cruel agenda do Projeto 2025.”
Segundo o estudo da rede de pesquisadores, um instrumento central para implementar a agenda global é a Declaração de Consenso de Genebra, iniciativa promovida ainda durante o primeiro mandato de Trump e que afirma não existir um direito internacional ao aborto e promove uma definição de família limitada ao casamento heterossexual. Sob Jair Bolsonaro, o Brasil foi um dos principais laboratórios dessa iniciativa, interrompida no terceiro mandato do presidente Lula. Com a volta de Trump ao poder, a coalizão foi expandida e reúne atualmente 40 países, muitos governados por lideranças autocráticas e cujas violações de direitos humanos estão amplamente documentadas. Por meio dessa ideia, os EUA ditam uma espécie de cartilha a ser seguida para garantir o retrocesso nos direitos das mulheres e nas proteções LGBTQ+, ao mesmo tempo que desafiam as normas internacionais de direitos humanos criadas nos últimos 30 anos.
Em entidades como a ONU, o Unicef, braço das Nações Unidas dedicado à infância, e a Organização Mundial da Saúde, a coalizão tenta bloquear as diretrizes que tratam da expansão de direitos ou fazem pressão contra qualquer financiamento destinado a atender uma agenda progressista. O governo Trump ainda abandonou 66 entidades internacionais e cortou 380 milhões de dólares em contribuições.
Um dos focos da exportação da ideologia reacionária é a América Latina. Segundo o levantamento, de acordos de deportação a ataques à igualdade de gênero e aos direitos reprodutivos “a região tornou-se um laboratório para uma poderosa agenda internacional que prioriza o fortalecimento de alianças com atores autoritários dispostos a marginalizar a proteção internacional dos direitos humanos”. O estudo acrescenta: “As vitórias eleitorais de José Antonio Kast no Chile, Nasry Asfura em Honduras e Rodrigo Paz na Bolívia em 2025 reforçaram a capacidade de Trump de expandir sua agenda política na região. Eles se juntaram a um grupo de líderes já alinhados com o movimento MAGA, incluindo Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador, Daniel Noboa no Equador e Santiago Peña no Paraguai”.
A linguagem do Projeto 2025 apontava nessa direção. A estratégia introduziu o termo “re-hemisferização”, que envolve a transferência da produção industrial para mais perto dos Estados Unidos, em países da América Central e do Sul. Ao assumir o segundo mandato, Trump de fato reforçou a perspectiva do “Hemisfério Ocidental” e, pela região, líderes alinhados com o republicano começaram a adotar políticas ultraconservadoras. “A Argentina ilustra como essa transição do plano para a política se desenrolou. O presidente Javier Milei anunciou a retirada do país da Organização Mundial da Saúde, ecoando propostas apresentadas pelo Projeto 2025”, disse o levantamento. “Sob a liderança de Milei, a Argentina passou a retroceder nos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQ+. O governo restringiu o acesso à terapia hormonal para menores transgêneros e anunciou planos para remover o feminicídio do Código Penal, apesar do alarmante aumento de casos documentado por observatórios feministas. Essa agenda restritiva ganhou força em 2025, ao mesmo tempo que a dependência econômica da Argentina em relação ao governo Trump se aprofundou.”
O caso de El Salvador é emblemático. O presidente Nayib Bukele alinhou-se às prioridades políticas do Projeto 2025 e tornou-se um modelo para candidatos extremistas da América Latina, seduzidos por uma política de combate à criminalidade que atropela os mais básicos direitos humanos e pelo maior presídio do mundo, no qual cabem 40 mil detentos. “Essas prioridades incluem a oposição aos direitos LGBTQ+ e das mulheres, bem como o apoio à proibição total do aborto”, observam os pesquisadores. Organizações nos EUA defenderam o arcabouço legal salvadorenho em tribunais internacionais e grupos norte-americanos, entre eles o Moms for Liberty, integrantes do Conselho Consultivo do Projeto 2025, influenciaram as políticas educacionais de Bukele. O país centro-americano tornou-se ainda um campo de testes para as políticas repressivas de deportação do governo Trump.
Outro destaque é o papel desempenhado pelo Paraguai, apontado como um “laboratório para políticas contrárias aos direitos das mulheres”. Antes mesmo de Trump voltar ao poder, Assunção vinha adotando políticas destinadas a desacelerar o progresso das mulheres e da comunidade LGBTQ+. As iniciativas incluem a proibição de termos como “igualdade de gênero” em instituições educacionais, a oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a representação pública do país como uma “ilha de conservadorismo”. O aborto não é permitido nem mesmo nos casos de estupro. A única exceção legal é quando a vida da gestante está em risco.
Com essas credenciais, o Paraguai tem buscado cada vez mais relevância internacional nas redes alinhadas a Trump. “Ao sediar eventos de grande repercussão, como a CPAC e o Foro Madrid, o país tornou-se um ponto de encontro para líderes da extrema-direita da América Latina, Europa e Estados Unidos”, descreve o estudo. O presidente Santiago Peña também tenta impressionar a base mais radical de Trump. “Enquanto o Paraguai existir, haverá pessoas que dirão, em alto e bom som, ao mundo: não ao aborto livre, não a ideias alternativas de família e não a experimentos sociais radicais”, afirmou em uma das reuniões.
A unidade da UE é posta em xeque por legendas como o Vox, na Espanha, e a AfD, na Alemanha. Com Kast , o pinochetismo renasce no Chile.
A influência de lideranças norte-americanas contrárias aos direitos humanos sobre as políticas paraguaias tem se tornado cada vez mais evidente. O Institute for Women’s Health (IWH), comandado por Valerie Huber, anunciou que a entidade e o governo Peña iriam implementar projetos conjuntos. Huber foi a arquiteta do Consenso de Genebra e secretária de Família de Trump no primeiro mandato.
Na Guatemala, a parceria entre a mesma IWH e o governo local envolveu o desenvolvimento de cartilhas para pais e professores. “O casamento”, define o material, “é um compromisso para toda a vida entre um homem e uma mulher” e que “a única maneira 100% eficaz de evitar a gravidez na adolescência é esperar até o casamento para ter relações sexuais.”
A extrema-direita norte-americana igualmente avança no continente africano. O Burundi tem se associado a organizações ligadas ao Projeto 2025 para promover políticas que enfatizam a abstinência. Em Uganda, a aproximação com os EUA coincide com a aprovação de uma das leis anti-LGBTQ+ mais agressivas do mundo, que inclui a imposição da pena de morte em certas situações. A estratégia envolve, porém, muito mais que um convencimento acerca de certas posições que os reacionários gostam de chamar de “valores”. Em dezembro último, o presidente do Quênia, William Ruto, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, assinaram um acordo de 2,5 bilhões de dólares para o país africano se tornar um modelo para a Estratégia Global de Saúde “América Primeiro”. Trata-se de uma aliança que tem se espalhado por todo o continente e envolve pactos bilaterais projetados para substituir instituições multilaterais como a OMS. Se, pelo acordo, o país africano é obrigado a adotar os princípios ultraconservadores dos EUA, o pacto também foi visto como uma oportunidade para o governo local garantir que não houvesse qualquer compromisso de promoção da democracia ou de direitos humanos.
O governo Trump ofereceu a continuação dos tratados tarifários com os africanos, na condição de que eles adotassem suas políticas sociais antidireitos. “Em dezembro, o Quênia reafirmou rapidamente seu alinhamento e sua retórica de ‘família natural’ e conquistou o direito de ter suas tarifas de 42% reembolsadas retroativamente”, aponta o documento. “Os EUA não subsidiarão mais a indústria manufatureira africana, a menos que essa produção seja acompanhada de total fidelidade ideológica.”
De acordo com o estudo, a agenda antimulher e anti-LGBTQ+ dos Estados Unidos espalhou-se pela África – cerca de 20 países passaram a subscrever a Declaração de Genebra. A investigação descobriu que o auxílio externo e a diplomacia dos EUA foram usados para “pressionar os países a assinar” os tratados. Em alguns casos, como o do Sudão, a assinatura da declaração “coincidiu com a remoção da lista de países terroristas dos EUA e com o aumento da ajuda ou do comércio”.
Os planos da Casa Branca incluem moldar a Europa à sua imagem e, por extensão, erradicar políticas progressistas. Por anos, a extrema-direita norte-americana olhou para a Hungria de Viktor Orbán como referência. Mas, com a derrota nas recentes eleições parlamentares, o foco do movimento é o de dar apoio a forças políticas de oposição. Vista como bastião de posições liberais, a Europa precisa ser “contida” por meio de uma guerra cultural. “Isso protegerá a extrema-direita americana, enfraquecerá o liberalismo na Europa e nos Estados Unidos e prejudicará o projeto europeu como um todo”, avalia o estudo. A nova Estratégia de Segurança Nacional de Washington planeja “restaurar a identidade ocidental da Europa” e salvá-la do “apagamento civilizacional”.
Segundo os pesquisadores, o Projeto 2025 defende a interferência na política interna europeia por meio do apoio a “partidos patrióticos” de extrema-direita, uma intervenção antes impensável nos assuntos internos de um aliado. Desde que voltou ao poder, Trump e aliados têm feito exatamente isso. A ordem é apoiar, de todas as maneiras possíveis, grupos como o Vox, da Espanha, Chega, de Portugal, e a AfD, da Alemanha, entre outras facções extremistas, fascistas e neonazistas do continente. Parte da estratégia centra-se na exigência de que empresas europeias e prefeituras abandonem iniciativas de diversidade, caso queiram manter alguma relação com os EUA.
A constatação dos pesquisadores é de que, para além das fronteiras dos Estados Unidos, a base mais radical do trumpismo tem construído uma infraestrutura global para a expansão de sua ideologia. Isso implica adoção de leis, redes de financiamento e pressão política. “Onde, antes, as instituições governamentais dos EUA promoviam os direitos humanos, agora organizações privadas promovem o nacionalismo cristão”. Conclusão: o projeto é global. “Todo o sistema pós-Segunda Guerra Mundial está sendo desmantelado. As proteções aos direitos humanos, definidas por consenso internacional, estão sendo substituídas por ‘direitos naturais’ definidos por doutrinas religiosas. A promoção da democracia é substituída pela defesa da ‘família natural’. A assistência humanitária está sendo substituída pela conformidade ideológica”.
As mesmas redes que remodelam as instituições norte-americanas constroem, de forma ativa, alianças internacionais, estratégias jurídicas e estruturas políticas destinadas a consolidar essa agenda em todo o mundo. “A criminalização de pessoas LGBTQ+, os papéis de gênero obrigatórios, o controle reprodutivo, a fusão entre Igreja e Estado – tudo isso está retornando e conta com os recursos do governo mais poderoso do mundo”, conclui o estudo.
Quem sabe um dia!
O mal e o remédio estão em nós. A própria espécie humana, que agora nos indigna, se indignou antes e se indignará amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o senso da solidariedade, o senso cívico, que não deve ser confundido com a caridade. É um tempo obscuro, mas chegará, com certeza, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não progredimos muito em bondade em milhares de anos na Terra. Talvez estejamos percorrendo um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, chegaremos a ser aquilo que temos de ser. Quando a metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada… algo não funciona. Quem sabe um dia!
José Saramago, "As palavras de Saramago"
José Saramago, "As palavras de Saramago"
Perfilados de medo
A ânsia de patologizar Donald Trump não toma ninguém de surpresa. Vladimir Putin é lunático, Kim Jong-Un é um egomaníaco com delírio de grandeza, Nicolás Maduro é paranóico e, claro, não falta o clássico “psicopata” para descrever gente como Benjamin Netanyahu.
Recorremos a esta linguagem para descrever comportamentos bizarros que não encaixam nas nossas categorias habituais. Não é fácil usar a nossa linguagem quotidiana para descrever massacres como o de Gaza, invasões como a da Ucrânia ou a ininterrupta torrente de declarações absolutamente delirantes com que Trump aborda crises que podem mergulhar o mundo no caos.
Estes homens são normalmente retratados como casos atípicos, bizarrias num mundo maioritariamente avesso a este tipo de comportamentos. A minha tese é que entre Trump e o tipo que hoje de manhã passou à sua frente numa manobra perigosa, pondo toda a gente em perigo, ou o último tipo que entrou armado numa escola e desatou a atirar não há diferenças substantivas no que diz respeito aos processos mentais.
Atrás do volante, no controlo de uma tonelada e meia, as pessoas — os homens — sentem o poder que lhes escapa noutras circunstâncias. É aquela arma em forma de automóvel que lhe confere a possibilidade de circular pelo mundo como se fosse a personagem principal de um filme em que todos os outros são figurantes.
Tirando aquele condutor daquele contexto, essa fonte de poder desvanece. Ele torna-se mais um, sem nada que lhe confira particular autoridade. Numa resposta reacionária ao processo de nivelamento de oportunidades e direitos entre homens e mulheres, homens que mediam o seu valor pela autoridade que exerciam sobre mulheres não conseguem perceber que essa autoridade não emanava diretamente deles, mas de um contexto social caracterizado por desnivelar o campo de jogo.
As relações de poder nunca são unidirecionais, dependem necessariamente de uma parte o exercer e de outra parte o acatar. Isso quer dizer que a mesma pessoa se vê, em contexto diferentes, ora numa situação em que detém poder, ora na situação em que tem de se submeter.
No entanto, para o exercer, é necessário, repito, que alguém o acate, que alguém reconheça a sua legitimidade ou, pelo menos, tenha medo das consequências da insolência. Em sociedades tradicionais, os mais velhos exercem poder sobre os mais novos porque os mais novos aceitam a idade como fonte de poder. Mas, nos tempos que correm, de deslaçamento social, de erosão de referências e de perda generalizada de controlo sobre as nossas próprias vidas, tudo é potencialmente entendido como um sinal de fragilidade.
É entre os homens que este fenómeno é mais visível. Ansiosos por uma posição de dominação, recorrem ao que tiverem à mão para a exercer: não porque os outros aceitam a legitimidade do seu poder, mas porque o temem.
O homem que conduz agressivamente reclama para ele a autoridade que advém do medo que as pessoas têm do carro que conduz, o jovem que entra armado numa escola e dispara reclama para si a autoridade que advém do medo que as pessoas têm das balas e o líder político que semeia o caos pelo mundo reclama para si a autoridade que advém do medo que as pessoas têm do aparelho militar que ele controla.
Da estrada à geopolítica, vivemos sob ameaça de homens com egos frágeis. O tipo de raciocínio que leva um homem a desrespeitar a fila porque pode meter-se mais à frente e ainda vociferar se não o deixarem é o mesmo que leva um homem a pensar que pode ameaçar líderes mundiais e promover a chacina de milhares para enriquecer e sentir o gosto do poder. Enfim, salvas as devidas distâncias.
Não ignoro que, ao nível dos impactos, a diferença não poderia ser maior, mas perdoe-se-me a provocação que serve para chamar a atenção para um fio condutor que percorre a nossa vida. É verdade que o século XX se caracterizou por um movimento de libertação de velhas amarras que subjugavam as pessoas em sistemas de dominação injustos. Mas esses sistemas foram substituídos por uma ideologia individualista do salve-se quem puder, uma lei da selva promovida, por exemplo, pela manosfera.
Quando mandámos abaixo as velhas relações de poder, esquecemo-nos de construir um novo modelo assente na igualdade, na dignidade e na bondade. Pelo contrário, deixámos um vazio que está a ser ocupado por rapazes que, à falta de outro caminho, se agarram à sua capacidade de provocar medo nos outros para viverem a sua vida.
A ânsia pela ordem que serve de pulsão ao avanço neo-fascista é também uma ânsia pelo regresso do medo. Cá estaremos para resistir, com medo e com coragem.
Recorremos a esta linguagem para descrever comportamentos bizarros que não encaixam nas nossas categorias habituais. Não é fácil usar a nossa linguagem quotidiana para descrever massacres como o de Gaza, invasões como a da Ucrânia ou a ininterrupta torrente de declarações absolutamente delirantes com que Trump aborda crises que podem mergulhar o mundo no caos.
Estes homens são normalmente retratados como casos atípicos, bizarrias num mundo maioritariamente avesso a este tipo de comportamentos. A minha tese é que entre Trump e o tipo que hoje de manhã passou à sua frente numa manobra perigosa, pondo toda a gente em perigo, ou o último tipo que entrou armado numa escola e desatou a atirar não há diferenças substantivas no que diz respeito aos processos mentais.
Atrás do volante, no controlo de uma tonelada e meia, as pessoas — os homens — sentem o poder que lhes escapa noutras circunstâncias. É aquela arma em forma de automóvel que lhe confere a possibilidade de circular pelo mundo como se fosse a personagem principal de um filme em que todos os outros são figurantes.
Tirando aquele condutor daquele contexto, essa fonte de poder desvanece. Ele torna-se mais um, sem nada que lhe confira particular autoridade. Numa resposta reacionária ao processo de nivelamento de oportunidades e direitos entre homens e mulheres, homens que mediam o seu valor pela autoridade que exerciam sobre mulheres não conseguem perceber que essa autoridade não emanava diretamente deles, mas de um contexto social caracterizado por desnivelar o campo de jogo.
As relações de poder nunca são unidirecionais, dependem necessariamente de uma parte o exercer e de outra parte o acatar. Isso quer dizer que a mesma pessoa se vê, em contexto diferentes, ora numa situação em que detém poder, ora na situação em que tem de se submeter.
No entanto, para o exercer, é necessário, repito, que alguém o acate, que alguém reconheça a sua legitimidade ou, pelo menos, tenha medo das consequências da insolência. Em sociedades tradicionais, os mais velhos exercem poder sobre os mais novos porque os mais novos aceitam a idade como fonte de poder. Mas, nos tempos que correm, de deslaçamento social, de erosão de referências e de perda generalizada de controlo sobre as nossas próprias vidas, tudo é potencialmente entendido como um sinal de fragilidade.
É entre os homens que este fenómeno é mais visível. Ansiosos por uma posição de dominação, recorrem ao que tiverem à mão para a exercer: não porque os outros aceitam a legitimidade do seu poder, mas porque o temem.
O homem que conduz agressivamente reclama para ele a autoridade que advém do medo que as pessoas têm do carro que conduz, o jovem que entra armado numa escola e dispara reclama para si a autoridade que advém do medo que as pessoas têm das balas e o líder político que semeia o caos pelo mundo reclama para si a autoridade que advém do medo que as pessoas têm do aparelho militar que ele controla.
Da estrada à geopolítica, vivemos sob ameaça de homens com egos frágeis. O tipo de raciocínio que leva um homem a desrespeitar a fila porque pode meter-se mais à frente e ainda vociferar se não o deixarem é o mesmo que leva um homem a pensar que pode ameaçar líderes mundiais e promover a chacina de milhares para enriquecer e sentir o gosto do poder. Enfim, salvas as devidas distâncias.
Não ignoro que, ao nível dos impactos, a diferença não poderia ser maior, mas perdoe-se-me a provocação que serve para chamar a atenção para um fio condutor que percorre a nossa vida. É verdade que o século XX se caracterizou por um movimento de libertação de velhas amarras que subjugavam as pessoas em sistemas de dominação injustos. Mas esses sistemas foram substituídos por uma ideologia individualista do salve-se quem puder, uma lei da selva promovida, por exemplo, pela manosfera.
Quando mandámos abaixo as velhas relações de poder, esquecemo-nos de construir um novo modelo assente na igualdade, na dignidade e na bondade. Pelo contrário, deixámos um vazio que está a ser ocupado por rapazes que, à falta de outro caminho, se agarram à sua capacidade de provocar medo nos outros para viverem a sua vida.
A ânsia pela ordem que serve de pulsão ao avanço neo-fascista é também uma ânsia pelo regresso do medo. Cá estaremos para resistir, com medo e com coragem.
O DDT e as redes sociais
O DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano) ficou para a história como o pesticida, que, de droga milagrosa capaz de evitar epidemias de malária e febre tifoide e exponenciar a produção agrícola ao eliminar pragas, se tornou símbolo dos efeitos letais da química moderna.
Até ser banido em 1972, mais de 660 milhões de toneladas de DTT (mais de três quilos por habitante) foram aplicados em campos, relvados e florestas só nos Estados Unidos da América. Dada a sua estabilidade química (o DDT e congéneres não se decompõem com facilidade em compostos não letais), persiste no meio ambiente, e estudos científicos demonstram que a exposição a este químico continua a provocar cancro e doenças do sistema nervoso e reprodutivo.
O DDT presta-se a múltiplas comparações com o fenómeno das redes sociais.
Também as redes sociais nasceram com uma aura de promessa de um futuro melhor. A democratização da informação e do saber. A conexão planetária.
Tal como no DDT, as preocupações com os efeitos nocivos foram abafadas por uma indústria que gerava milhões, com o mantra de que os dados científicos eram insuficientes para se chegar a uma conclusão. Só perante efeitos nefastos e uma população crescentemente consciente das consequências, o legislador agiu e proibiu a comercialização.
Mas ao contrário dos insetos, que em virtude de ciclos de vida muito curtos, em algumas décadas conseguiram tornar-se resistentes ao DDT, nós, dada a nossa biologia, continuamos extremamente vulneráveis às redes sociais.
No seu muito recente e pertinente livro Des Regulados, Beatriz Subtil (doutorada em Ciências Biomédicas) explica como a nossa biologia não se alterou desde o período paleolítico, em que os humanos eram caçadores-coletores. O nosso sucesso como espécie resulta da nossa adaptabilidade ao meio ambiente, e somos os descendentes dos indivíduos mais bem adaptados. Tal significa que somos muito atentos aos sinais de alarme e que o nosso organismo reage em bloco perante um perigo. Igualmente, procuramos o prazer (que então era raro) e facilmente ganhamos tolerância.
Como ficou demonstrado em dois processos judiciais recentes nos Estados Unidos, um contra a Meta (na Califórnia) e outro contra a Google (no Novo México), estas empresas contrataram cientistas e psicólogos para compreenderem a nossa biologia, e em especial o nosso sistema nervoso, e usaram deliberadamente esse conhecimento para criar funcionalidades que nos tornassem presas fáceis. O scrolling personalizado e infinito das redes sociais alimenta a nossa busca de prazer, provocando a libertação de dopamina sempre que vemos um vídeo ou uma imagem que nos surpreende e agrada. E a disponibilização de conteúdos que nos atormentam serve a nossa ânsia de garantir que conhecemos os perigos que nos rodeiam e nos preparamos para reagir.
Mas como Beatriz Subtil nos explica, no passado, o perigo era momentâneo, permitindo (se sobrevivêssemos) voltar a um estado de repouso. O prazer era também escasso, pelo que dificilmente a nossa tolerância ao prazer comprometia o nosso bem-estar. Hoje, o perigo e o prazer estão no nosso bolso, permanentemente à nossa disposição. Não somos moscas da fruta e não vamos adaptar-nos rapidamente.
A condenação da Meta e da Google por design aditivo é um primeiro sinal de que estamos dispostos a reagir e a exigir uma ação coletiva que coloque no centro da regulação o bem-estar do indivíduo (a cotação das ações da Meta caiu 7%, revelando que o mercado antecipa futuras condenações nos vários processos judiciais em curso).
A ciência já demonstrou como são danosas as redes sociais, como as big tech agiram deliberadamente em prol do lucro fácil, com desprezo pelo bem comum. Devemos assumir, que não se trata de uma franja de pessoas frágeis, facilmente manipuláveis, que se deixam dominar pelas redes sociais. Se reconhecermos, como a ciência o impõe, que individualmente, dada a nossa biologia, somos alvos fáceis do design aditivo das redes sociais, então, legislar para proibir tais funcionalidades deveria ser simples e consensual.
Até ser banido em 1972, mais de 660 milhões de toneladas de DTT (mais de três quilos por habitante) foram aplicados em campos, relvados e florestas só nos Estados Unidos da América. Dada a sua estabilidade química (o DDT e congéneres não se decompõem com facilidade em compostos não letais), persiste no meio ambiente, e estudos científicos demonstram que a exposição a este químico continua a provocar cancro e doenças do sistema nervoso e reprodutivo.
O DDT presta-se a múltiplas comparações com o fenómeno das redes sociais.
Também as redes sociais nasceram com uma aura de promessa de um futuro melhor. A democratização da informação e do saber. A conexão planetária.
Tal como no DDT, as preocupações com os efeitos nocivos foram abafadas por uma indústria que gerava milhões, com o mantra de que os dados científicos eram insuficientes para se chegar a uma conclusão. Só perante efeitos nefastos e uma população crescentemente consciente das consequências, o legislador agiu e proibiu a comercialização.
Mas ao contrário dos insetos, que em virtude de ciclos de vida muito curtos, em algumas décadas conseguiram tornar-se resistentes ao DDT, nós, dada a nossa biologia, continuamos extremamente vulneráveis às redes sociais.
No seu muito recente e pertinente livro Des Regulados, Beatriz Subtil (doutorada em Ciências Biomédicas) explica como a nossa biologia não se alterou desde o período paleolítico, em que os humanos eram caçadores-coletores. O nosso sucesso como espécie resulta da nossa adaptabilidade ao meio ambiente, e somos os descendentes dos indivíduos mais bem adaptados. Tal significa que somos muito atentos aos sinais de alarme e que o nosso organismo reage em bloco perante um perigo. Igualmente, procuramos o prazer (que então era raro) e facilmente ganhamos tolerância.
Como ficou demonstrado em dois processos judiciais recentes nos Estados Unidos, um contra a Meta (na Califórnia) e outro contra a Google (no Novo México), estas empresas contrataram cientistas e psicólogos para compreenderem a nossa biologia, e em especial o nosso sistema nervoso, e usaram deliberadamente esse conhecimento para criar funcionalidades que nos tornassem presas fáceis. O scrolling personalizado e infinito das redes sociais alimenta a nossa busca de prazer, provocando a libertação de dopamina sempre que vemos um vídeo ou uma imagem que nos surpreende e agrada. E a disponibilização de conteúdos que nos atormentam serve a nossa ânsia de garantir que conhecemos os perigos que nos rodeiam e nos preparamos para reagir.
Mas como Beatriz Subtil nos explica, no passado, o perigo era momentâneo, permitindo (se sobrevivêssemos) voltar a um estado de repouso. O prazer era também escasso, pelo que dificilmente a nossa tolerância ao prazer comprometia o nosso bem-estar. Hoje, o perigo e o prazer estão no nosso bolso, permanentemente à nossa disposição. Não somos moscas da fruta e não vamos adaptar-nos rapidamente.
A condenação da Meta e da Google por design aditivo é um primeiro sinal de que estamos dispostos a reagir e a exigir uma ação coletiva que coloque no centro da regulação o bem-estar do indivíduo (a cotação das ações da Meta caiu 7%, revelando que o mercado antecipa futuras condenações nos vários processos judiciais em curso).
A ciência já demonstrou como são danosas as redes sociais, como as big tech agiram deliberadamente em prol do lucro fácil, com desprezo pelo bem comum. Devemos assumir, que não se trata de uma franja de pessoas frágeis, facilmente manipuláveis, que se deixam dominar pelas redes sociais. Se reconhecermos, como a ciência o impõe, que individualmente, dada a nossa biologia, somos alvos fáceis do design aditivo das redes sociais, então, legislar para proibir tais funcionalidades deveria ser simples e consensual.
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