sábado, 29 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


'Dark Horse', estrangeiro onde?

Flávio Bolsonaro está se jactando de que as especulações sobre "Dark Horse" , filme sobre seu pai, são "página virada". A Ancine (Agência Nacional do Cinema) deu ao filme o registro de "obra estrangeira", o que o põe a salvo de investigações sobre a origem, a trajetória e o destino do dinheiro usado na produção. Com isso, por ser uma produção "americana", ninguém tem nada a ver com o fato de que esse dinheiro, gerado no Brasil, foi dar um passeio pelos EUA e voltou para pagar as contas aqui. Mas será ele, tecnicamente, uma "obra estrangeira"?


Como definir se uma produção cinematográfica é nacional ou estrangeira? Ao contrário do que se pensa, não é pelo nome do produtor que, nos pôsteres, vem logo abaixo dos atores e do diretor. Ele é apenas o produtor executivo, o que contrata os astros e a equipe, supervisiona as filmagens, controla o organograma e acompanha o processo até o último corte e a exibição. É um funcionário, assim como todos que passam às pressas nos créditos ao fim do filme, só um pouco mais graduado. O verdadeiro produtor, cujo nome nem sempre aparece, é o que pôs o dinheiro.

Este é o dono do filme, o proprietário legal do produto final, ou seja, do arquivo ou do negativo original, da distribuição e exibição em outras mídias e, importante, do copyright. Enfim, o produtor é o financiador, aquele que pagou para que o filme fosse possível –e que, certamente, exigirá muita coisa em troca, seja em dinheiro ou, talvez, favores institucionais. Quem botou o dinheiro para filmar "Dark Horse"?

Não me parece plausível que produtores americanos invistam num filme cuja bilheteria é duvidosa até no Brasil. Além disso, o país inteiro escutou Flávio Bolsonaro suplicar milhões a Daniel Vorcaro a fim de pagar os atrasados aos bacanas americanos. Será então Vorcaro o produtor? Nesse caso, "Dark Horse" é uma produção nacional e nos deve satisfações, sim.

Ficam assim informados a Ancine, a Polícia Civil de São Paulo , a PF, a PGR, o STF e o, no caso, descansado ministro André Mendonça.

O velho padrão Globo de entrevistar Lula

A proposta de sabatina/entrevista realizada pelo Jornal Nacional com o presidente Lula, na quinta feira 27, em muito se assemelhou à tomada de depoimento de um acusado. Não somente pelo teor das perguntas, mas também pelo encadeamento dos temas e pela condução dos entrevistadores. A pergunta inicial foi, obviamente, sobre as investigações envolvendo Fabio Luís Lula da Silva, filho do presidente que a imprensa chama de “Lulinha”. Pergunta dura feita por César Tralli, à qual Lula respondeu; o apresentador insistiu no mesmo tema com outro viés, desdobrando a pergunta em outra provocação; Lula respondeu; o apresentador retomou o tema; depois, Renata Vasconcelos inquiriu sobre o mesmo assunto – o tema corrupção, no início da entrevista, tomou mais de quatro minutos dos 40 disponíveis para o evento, ou seja, mais de 10% do tempo do candidato foram gastos num único tema, que continha apenas provocação e intimidação. Na verdade, o que estava ali em cena era novamente o uso do repertório corrupção – lembrando que repertórios são temas norteadores da construção da notícia, do noticiário –, que foi deflagrado desde 2014 pelo JN; à época, com os requintes simbólicos do fundo vermelho e um duto enferrujado por onde escorria dinheiro. O interrogatório ao presidente Lula, embalado no formato de entrevista, estava no mesmo molde.


É claro que uma entrevista com candidatos em momento eleitoral decisivo deve explorar todos os temas e realmente questionar aquele candidato sobre propostas, pautas inquietantes, o que ele fez na vida pública, quais são seus projetos. Mas questionamento não é inquérito, esse é o primeiro ponto importante nesta reflexão. O segundo ponto é que a estratégia do uso da corrupção tem um fim muito específico há bastante tempo no sistema midiático em relação a Lula, sobretudo no sistema Globo – ela é um elemento para provocar desestabilização. Não é somente um tema que precisa ser abordado, é um instrumento midiático de constrangimento, um modo de fazer com que aquele personagem fique acuado e não consiga se articular para responder às outras perguntas. Não é aleatório, portanto, é técnica, é algo como “padrão Globo de entrevista com Lula”.

E um terceiro ponto refere-se às ausências propositais. Se uma entrevista/sabatina tem por objetivo mostrar ao eleitor quem é o candidato, quais são suas propostas, o que ele fez na vida pública e apresentar um conjunto robusto de perguntas pelos entrevistadores para avaliar o conhecimento daquele candidato sobre os temas pertinentes, o evento protagonizado pelo Jornal Nacional em nada se assemelha a isso. Lula foi questionado em relação à investigação sobre um filho que não é candidato – investigação sobre a qual pesam denúncias de vazamento seletivo –, foi questionado sobre os problemas de segurança pública do estado da Bahia, do qual ele não é o governador, foi arguido de novo sobre investigações que ele não domina, como no caso do assessor Marcola. Nada se falou sobre o que ele fez, como tirar o país do Mapa da Fome pela segunda vez, ou sobre o que pretende fazer em relação às bets, que estão destruindo o Brasil e fazem propaganda no intervalo de jornais e novelas da Globo.

A entrevista foi muito mal conduzida – Tralli e Renata pareciam aqueles professores em bancas de avaliação que não estão nem um pouco interessados no trabalho apresentado, mas querem mesmo é mostrar que sabem um monte de coisas. Arrogância e despreparo, uma combinação bem perigosa. Mesmo assim, a entrevista teve até momentos bem divertidos e bastante esclarecedores. Por exemplo, quando Lula disse que não havia esquecido o PowerPoint: “A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço do PowerPoint mentiroso contra mim. Eu não esqueço”. O presidente se referia à nefasta apresentação de Deltan Dallagnol ligando o então ex-presidente a toda uma trama de corrupção. César Tralli, ao melhor estilo “vestir a camisa da empresa”, correu a justificar a tática da Organização e respondeu: “O senhor falou do PowerPoint. Eu só quero dizer ao senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint: nos nossos princípios editoriais, nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto. Então, eu peço que a gente siga com a entrevista”. Ele fazia menção a outro PowerPoint supertendencioso contra Lula (que foi apresentado por Andrea Sadi na GloboNews, ligando Lula ao caso Master). Foi quase uma confissão de culpa mesmo.

A mediocridade midiática, fruto da intolerância da imprensa com Lula ao longo de décadas, se mostrou, mais uma vez, na entrevista/sabatina do JN. Em alguns momentos, um inquérito; em outros, um debate entre candidatos, dada a postura arrogante dos apresentadores. Esse tipo de entrevista não é e não pode ser uma conversa entre comadres, de fato. Mas tampouco pode ser transformada num interrogatório em que os jornalistas são advogados de acusação e juízes, ao vivo, em horário nobre na emissora de maior audiência do País.

Por fim, Lula soube se safar das inúmeras tentativas de acuá-lo e de constrangê-lo. Não podemos abusar da euforia e dizer que ele arrasou, tirou de letra etc. Mas é possível dizer que o presidente, atirado à cova dos leões, soube se livrar e achar a saída.

Flávio Bolsonaro quer entregar Brasil a Cristo

Num desafio à lógica, às instituições e à própria higidez das religiões, Flávio Bolsonaro ameaçou: "Eu quero debater com quem não acredita em Deus, porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo".

O primeiro problema com o período flaviano é que ele carrega um imenso "non sequitur". Se você convida alguém para um debate, o pressuposto é o de que pretende persuadi-lo pela força dos seus argumentos, o que entra em contradição com o recurso à canetada, que impõe o dogma sem se importar em obter o consentimento dos que estariam sujeitos à medida.


O segundo problema é que o tal decreto, que já tem algo de etéreo, pois não deixa claro o que significaria para o país "ser" de Cristo, carregaria vício constitucional insanável. André Mendonça até poderia concordar com Flávio, mas quero crer que o hipotético diploma seria rapidamente anulado pelo STF. O artigo 19 da Carta veda ao poder público "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Flávio é advogado. Imagina-se que foi aprovado em direito constitucional.

O terceiro problema é que a tentativa de Flávio de aproximar-se dos evangélicos revela abissal ignorância sobre a história das religiões. O princípio da laicidade estatal que ele se propõe a subverter surgiu para proteger as religiões, não enfraquecê-las. Determinar que o Estado permanecesse neutro em matéria religiosa e assegurasse a liberdade de culto a todos foi a solução que a Europa encontrou para conter as guerras entre católicos e protestantes, dos quais os evangélicos são herdeiros. Ateus, que por definição não cultuamos nenhum deus, não temos maior interesse na liberdade de culto. Basta-nos não ser obrigados a seguir uma religião.

Louve-se em Flávio sua capacidade de, com uma única declaração, escancarar tantas camadas de seu despreparo para o cargo de presidente da República.

Sobre o desastre

Viveu uma semana a cidade sob a impressão do desastre da Rua da Carioca. A impressão foi tão grande, alagou-se por todas as camadas, que temo não ter sido de tal modo profunda, pois imagino que, quando saírem à luz estas linhas, ela já se tenha apagado de todos os espíritos.

Todos procuraram explicar os motivos do desastre. Os técnicos e os profanos, os médicos e os boticários, os burocratas e os merceeiros, os motorneiros e os quitandeiros, todos tiveram uma opinião sobre a causa da tremenda catástrofe.

Uma coisa, porém, ninguém se lembrou de ver no desastre: foi a sua significação moral, ou antes, social.


Nesse atropelo em que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas, poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equili­brado, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.

O nosso gosto que sempre teve um estalão equivalente à nossa própria pessoa, está querendo passar, sem um módulo conveniente, para o do gigante Golias ou outro qualquer de sua raça.

A brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons.

O Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e, de tal modo o é, que se ir do Meier à Copacabana, é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto, não se saia da zona urbana.

De resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de sky-scrapers.

Porque os fazem então?

E por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a acora­çoada pela filosofia oficial corrente que nos ensina a imitar aquele poderoso país.

Longe de mim censurar a imitação, pois sei bem de que maneira ela é fator da civilização e do aperfeiçoamento indi­vidual, mas aprová-la quand même, é que não posso fazer.

O Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes “ca­beças-de-porco”, dessas torres babilônicas que irão enfeá-lo, e perturbar os seus lindos horizontes. Se é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área de chão convenientemente proporcional.

Nós não estamos como a maior parte dos senhores de Nova York, apertados, em uma pequena ilha; nós nos podemos desenvolver para muitos quadrantes. Para que esta ambição então? Para que perturbar a majestade da nossa natureza, com a plebeia brutalidade de monstruosas construções?

Abandonemos essa vassalagem aos americanos e fiquemos nós mesmos com as nossas casas de dois ou três andares, construídas lentamente, mas que raramente matavam os seus hu­mildes construtores.

Os inconvenientes dessas almanjarras são patentes. Além de não poderem possuir a mínima beleza, em caso de desastre, de incêndio, por exemplo, não podendo os elevadores dar va­zão à sua população, as mortes hão de se multiplicar. Acresce ainda a circunstância que, sendo habitada, por perto de meio a um milhar de pessoas, verdadeiras vilas, a não ser que haja uma polícia especial, elas hão de, em breve favorecer a perpetração de crimes misteriosos.

Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nossos purpurinos crepúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com eles; fiquemos nós com as nossas que matam menos e não ofendem muito à beleza e à natureza.

Sei bem que essas considerações são inatuais. Vou contra a corrente geral, mas creiam, que isso não me amedronta. Admiro muito o imperador Juliano e, como ele, gostaria de dizer, ao morrer: “Venceste Galileu.”
Lima Barreto, Revista da Época (20-7-1917)

A expansão dos Estados Unidos pela América do Sul

A Doutrina Monroe, instituída em 1823 pelo Presidente Norte-Americano James Monroe, pode ser resumida pelo lema “A América para os Americanos”, uma política regional que se antepunha ao domínio Europeu de colônias nas Américas. Em 1803, os Estados Unidos compraram a Louisiana da França, que se estendia até o Mississipi, por US$ 15 milhões. Durante os anos de 1819-1821, os Estados Unidos anexaram a Flórida, em conflitos armados, que pertenciam à Espanha. Em 1836, os Americanos residentes no Texas declararam a independência em relação ao México, sendo o Texas anexado aos Estados Unidos em 1945, sob pressão. Após a Guerra Estados Unidos-México de 1846 a 1848, em 1848 os Estados Unidos anexaram a Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México e partes do Colorado e do Wyoming, ratificado pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo. Em 1853, sob pressão militar, o Novo México foi vendido aos Estados Unidos por US$ 10 milhões, ratificado pelo acordo de La Mesilla. Em 1898, Porto Rico, então da Espanha, foi anexado pelos Estados Unidos durante a Guerra Hispano-Americana, ratificado no Tratado de Paris. Hoje, cerca de 2/3 do território Norte-Americano corresponde a terras que outrora foram da Espanha e do México.

Em 1867, os Estados Unidos compraram o Alaska do Império Russo por US$ 7,2 milhões.


As tentativas de anexação por parte dos Estados Unidos de partes do Canadá nunca lograram êxito, como na invasão do Canadá em 1775 durante a Revolução Americana; e na Guerra Estados Unidos-Canadá de 1812 a 1815, com os Estados Unidos incendiando parte de Toronto em 1813, e tropas Britânicas e Canadenses incendiando a Casa Branca e o Capitólio em Washington em 1814, resultando no Tratado de Gante, na manutenção das fronteiras originais.

Hoje, a Doutrina Monroe é reeditada por Donald Trump, no que tem sido chamado de Doutrina “Donroe”.

Diante da atual expansão econômica da China no mundo e na América Latina; diante da perda da liderança Americana sobre a Europa; e diante das recentes ações dos Estados Unidos no Oriente Médio, que pouco resultaram, os Estados Unidos voltam-se para as Américas, como estratégia geopolítica na economia mundial, presente e futura.

Hoje, os Estados Unidos estão militarmente presentes, em maior ou menor grau, em 4 países da América do Sul: na Guiana, desde 2023, onde foram descobertos significativos campos de petróleo a partir de 2015, com empresas americanas na exploração comercial a partir de 2019; na Venezuela, desde a captura de Maduro em janeiro de 2026, país detentor de 18% das reservas mundiais de petróleo; no Paraguai, desde março deste ano de 2026, para o treinamento e combate ao narcotráfico, nos termos do SOFA (Status of Forces Agreement) – país que faz parte da Tríplice Fronteira, Brasil- Argentina- Paraguai; e, agora, no Equador.

Trump comemora o radicalismo de Milei na Argentina, e os governos de direita de Espriella na Colômbia, Kast no Chile, Santiago Peña no Paraguai, Keiko Fujimori no Peru, Rodrigo Paz na Bolívia, e Daniel Noboa no Equador.

O Brasil é repleto de recursos naturais, com florestas, água, minérios, terras raras, petróleo e agropecuária. Embora sejamos a 10ª economia mundial, somos muito frágeis política e economicamente diante das grandes potências. E militarmente estamos desprovidos de capacidade efetiva de dissuasão, não para guerras, mas para a manutenção da paz, no novo jogo geopolítico mundial.

Temos que olhar para o futuro.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Como o crime gera onda de 'bukelização' na América Latina

Poucos anos atrás, a chamada "onda rosa" parecia consolidar uma nova hegemonia política na América Latina. Impulsionados pela insatisfação popular com desigualdades agravadas pela pandemia de covid-19, governos de esquerda chegaram ao poder em alguns dos principais países da região, incluindo Brasil, Chile, Colômbia e Peru. Em meados da década, porém, o cenário mudou de forma significativa.

Uma nova onda conservadora avança pelo continente. De Buenos Aires a Bogotá, passando por Santiago, Quito e Lima, candidatos de direita e de perfil populista vêm conquistando espaço ao prometer soluções rápidas para problemas que há décadas desafiam os governos latino-americanos: violência, crime organizado, imigração irregular e crescimento econômico insuficiente.

A eleição do colombiano Abelardo de la Espriella se tornou o episódio mais recente desse movimento. Uma vitória que confirmou uma tendência já observada em países como Argentina, Chile, Equador e Peru, onde lideranças conservadoras conseguiram capitalizar o descontentamento popular com a situação econômica e a sensação crescente de insegurança.


O principal combustível da atual guinada à direita é a segurança pública. Embora a taxa média de homicídios na América Latina tenha diminuído em relação aos níveis registrados uma década atrás, a expansão do crime organizado e o crescimento de delitos como extorsão, sequestros e tráfico de drogas transformaram a segurança na principal preocupação do eleitorado em muitos países.

A natureza do crime também mudou. Organizações criminosas já não dependem apenas do tráfico internacional de cocaína. Hoje controlam minas ilegais, redes de extorsão, rotas migratórias e economias paralelas inteiras em bairros urbanos e regiões periféricas.

No Peru, comerciantes e transportadores enfrentam cobranças sistemáticas de grupos criminosos. No Equador, gangues ligadas a cartéis mexicanos e colombianos desencadearam uma escalada de violência sem precedentes. Na Colômbia, grupos armados continuam ocupando regiões pouco controladas pelo Estado.

Diante desse cenário, propostas de longo prazo defendidas por setores progressistas – como reformas policiais, fortalecimento da Justiça, prevenção da violência e inclusão social – passaram a competir com promessas mais imediatas e de forte apelo popular.

Foi nesse ambiente que Nayib Bukele, presidente de El Salvador, se transformou em modelo para parte da direita latino-americana. Seu combate agressivo às gangues, baseado em prisões em massa e forte militarização da segurança, reduziu drasticamente os índices de violência no país e lhe garantiu índices recordes de aprovação.

Mesmo enfrentando críticas de organizações de direitos humanos, o chamado "modelo Bukele" passou a inspirar candidatos em diversos países da região.

Discursos de campanha apresentando os imigrantes como criminosos e defendendo estratégias rigorosas de segurança popularizadas por Bukele garantiram a candidatos conservadores o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e mobilizaram eleitores descontentes, apesar das preocupações de que essas táticas possam incentivar violações dos direitos humanos ou ameaçar a democracia.

"Há uma nova direita emergente que colabora intensamente em toda a região e com os Estados Unidos por meio do movimento Maga, que também usa o combate ao crime como bandeira para mobilização política", afirmou Enrique Roig, vice-presidente da organização sem fins lucrativos Human Rights First e ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA. "É mais fácil vender a ideia de prender pessoas do que lidar com as razões pelas quais principalmente jovens ingressam em gangues em países como El Salvador."

Embora o populismo tenha obtido sucesso em diferentes espectros políticos, apenas a direita tem oferecido soluções de curto prazo para a segurança, que fazem os eleitores "se sentirem mais seguros em seis meses", mesmo que isso exija "sacrificar a democracia e os direitos humanos", avalia Adam Isacson, diretor de supervisão de defesa da organização Washington Office on Latin America (Wola).

Segundo ele, propostas da esquerda, como programas comunitários de prevenção da violência, melhor treinamento policial e reformas no sistema judiciário e prisional, levam mais tempo para produzir resultados.

"É exatamente o que deveria ser feito, mas a paciência das pessoas acaba", resalta Isacson sobre as propostas de longo prazo. "Então surgem os Bukeles do mundo dizendo: 'Quer se sentir melhor? Deixe conosco.'"

No Peru, onde os casos de extorsão aumentaram cinco vezes nos últimos cinco anos, Keiko Fujimori avançou rapidamente para o segundo turno presidencial de 7 de junho com uma plataforma baseada em lei e ordem. Ela prometeu empregar as Forças Armadas nas prisões e nas fronteiras, apoiando-se no legado autoritário de seu falecido pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, cuja trajetória permanece controversa.

Na Costa Rica, abalada por níveis recordes de homicídios relacionados ao narcotráfico, os eleitores escolheram, em fevereiro, a populista conservadora Laura Fernández, atraídos por sua plataforma de combate rigoroso ao crime. Em Honduras, o empresário Nasry Asfura venceu as eleições de dezembro após receber o apoio de Trump como aliado na luta contra os chamados "narcocomunistas".

Segundo a organização InSight Crime, especializada no estudo do crime organizado nas Américas, a taxa média de homicídios na América Latina e no Caribe caiu mais de 5% no último ano em comparação com 2024, atingindo uma média de aproximadamente 17,6 homicídios por 100 mil habitantes.

No entanto, existem exceções importantes. As mortes relacionadas ao narcotráfico aumentaram no Peru e na Colômbia, os maiores produtores de cocaína do mundo, assim como no Equador, cujos principais portos são vistos pelos traficantes como uma porta de entrada para os mercados europeus.

No ano passado, as autoridades registraram 2.400 homicídios no Peru e 14.780 na Colômbia, os maiores números observados em ambos os países desde pelo menos 2020. No Equador, os assassinatos cresceram expressivos 31% em relação ao ano anterior, chegando a 9.216 casos.

Grande parte da violência no Equador é atribuída às gangues criminosas. Durante a pandemia, cartéis do México, da Colômbia e dos Bálcãs ampliaram suas operações no país e recrutaram habitantes locais, desencadeando uma disputa sangrenta pelas rotas do tráfico de drogas. Os confrontos também se estenderam ao sistema prisional, onde centenas de detentos foram mortos desde 2021.

As autoridades equatorianas registraram ainda mais de 16.100 casos de extorsão no ano passado – uma redução em relação aos 23 mil registrados em 2024 – embora especialistas alertem que esse tipo de crime continua amplamente subnotificado.

Há quatro anos, os eleitores chilenos rejeitaram o político ultraconservador José Antonio Kast e elegeram o ex-presidente Gabriel Boric, um jovem ex-líder estudantil que prometia enfrentar as desigualdades sociais históricas do Chile.

No ano passado, porém, o temor diante do aumento da criminalidade – frequentemente associado pela mídia ao crescimento da população de imigrantes venezuelanos – favoreceu Kast e contribuiu para seu retorno ao poder.

À medida que organizações criminosas venezuelanas, como a gangue Tren de Aragua, aproveitaram a onda de migração em massa para expandir suas atividades e se infiltrar em redes de tráfico de pessoas após a pandemia, o Chile, tradicionalmente considerado um dos países mais seguros da América Latina, passou a registrar uma explosão sem precedentes de roubos de veículos, sequestros e tiroteios.

De acordo com o Ministério do Interior chileno, a taxa de homicídios no país aumentou 30%, alcançando o pico de 6,7 por 100 mil habitantes entre 2021 e 2022. Embora tenha diminuído desde então, permanece acima dos níveis anteriores a 2021. Outros crimes violentos continuam em alta, especialmente os sequestros, que cresceram quase 180% nos últimos quatro anos.

Inspirado por Bukele – e após visitar suas megaprisões em El Salvador durante a campanha – Kast derrotou com ampla margem sua adversária de esquerda em dezembro, prometendo construir um grande muro na fronteira, endurecer as condições carcerárias para membros de gangues e deportar centenas de milhares de imigrantes em situação irregular.

Em troca das promessas de segurança, muitos eleitores minimizaram suas posições contrárias ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como sua defesa da ditadura de Augusto Pinochet.

No Peru, apesar do legado controverso do condenado Alberto Fujimori, a candidatura de sua filha se beneficiou da escalada da criminalidade violenta, quatro anos após sua derrota para o professor Pedro Castillo.

Com o slogan "Peru com ordem", Keiko Fujimori obteve a maior votação no primeiro turno realizado em abril. Com mais de 99% das urnas apuradas do segundo turno, realizado em 7 de junho, ela tinha ligeira vantagem sobre Roberto Sánchez, herdeiro político do preso Pedro Castillo, de cerca de 40 mil votos.

Especialistas afirmam que o apetite popular por medidas rígidas – historicamente associadas às ditaduras de direita do século 20 na região – cresceu à medida que diminuía a confiança da população nas instituições estatais e aumentava a insatisfação com a democracia.

"O raciocínio costuma ser: 'a democracia não conseguiu manter minha família e eu seguros, então talvez a própria democracia seja parte do problema'", afirmou Eduardo Moncada, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia.

Isso representa um desafio significativo para a esquerda latino-americana, que em muitos países tem enfrentado economias estagnadas, escândalos de corrupção e dificuldades para cumprir promessas de reforma social.

Até mesmo políticos progressistas, como Jeannette Jara, no Chile, e Roberto Sánchez, no Peru, adaptaram seus discursos ao novo contexto político. O presidente uruguaio Yamandú Orsi descreveu o modelo de Bukele como um exemplo digno de estudo. Já o governo de centro-esquerda da Guatemala decretou estado de emergência para combater a violência das gangues e recebeu apoio da administração Trump no combate ao narcotráfico.

Mas as ambições linha-dura dos governantes recém-eleitos têm esbarrado nas dificuldades práticas de administrar democracias complexas e com limitações orçamentárias, como Equador e Chile. Esses países diferem bastante de El Salvador, onde o partido de Bukele possui ampla maioria no Legislativo.

Durante sua campanha de 2023, o presidente equatoriano Daniel Noboa prometeu prender líderes de gangues em prisões flutuantes e construir megaprisões. Após assumir o cargo, abandonou a proposta das embarcações-prisão, e seu governo levou até novembro para inaugurar a primeira megaprisão.

"Construir megaprisões não tem sido tão simples nem tão direto porque o país atravessa uma situação financeira muito difícil e porque Noboa ainda se vê como um democrata", explica Beatriz García Nice, analista de políticas públicas do centro de pesquisa Stimson Center.

No Chile, o governo de José Antonio Kast já enfrenta desgaste diante da dificuldade de cumprir promessas de deportações em massa e soluções rápidas para a criminalidade. Quase três meses após a sua posse, pesquisas indicam que uma parcela cética da população não percebe grandes diferenças entre sua política de segurança e a de seu antecessor de esquerda.

Seu governo realizou apenas dois voos de deportação, apesar de ter prometido deter e expulsar imediatamente mais de 300 mil imigrantes sem status legal. Além disso, seu discurso tornou-se mais moderado. No mês passado, ele foi alvo de críticas ao afirmar que a promessa de deportação em massa era apenas "uma metáfora".

Mesmo ao anunciar novas medidas de segurança em um discurso realizado em 1º de junho – incluindo a proibição de benefícios sociais para condenados por agressão a policiais – Kast procurou reduzir as expectativas de seus apoiadores.

"Governar, como muitos de vocês sabem, significa assumir responsabilidade diante da realidade, especialmente quando ela é difícil", declarou. "Estou avançando passo a passo porque isso não é algo que acontece da noite para o dia."
Déficits descambam em protestos

Líderes de direita na Argentina, Chile, Peru e Colômbia ganharam apoio com promessas de cortes de impostos, redução do tamanho do governo e flexibilização das regras para mineração e combustíveis fósseis. No entanto, muitos enfrentam déficits orçamentários, o que os obriga a implementar cortes de gastos impopulares que têm provocado protestos.

A Bolívia declarou estado de emergência em junho e começou a remover bloqueios que haviam paralisado o país por mais de 50 dias, enquanto sindicatos e outros grupos protestavam contra as medidas de austeridade adotadas pelo presidente de centro-direita Rodrigo Paz.

No Chile, o índice de aprovação de Kast despencou após a guerra com o Irã que levou seu governo a aumentar os preços dos combustíveis, enquanto as medidas de austeridade do presidente argentino Javier Milei têm sido recebidas com protestos recorrentes.

Os desafios de segurança persistem, apesar das promessas de combate rigoroso ao crime. No Equador, os homicídios aumentaram 30% no ano passado, e o governo de Noboa atribuiu o aumento às disputas territoriais entre facções criminosas dissidentes que competem pelo controle.

Os homicídios também cresceram na Costa Rica sob o governo do populista de direita Rodrigo Chaves. Sua sucessora, Laura Fernández, prometeu uma guerra contra o crime, mas os índices de homicídio continuam elevados, à medida que o pequeno país da América Central se tornou um importante ponto de trânsito para a cocaína sul-americana destinada aos Estados Unidos e à Europa.

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella assume um país marcado pela presença de grupos armados, economias ilegais e profundas divisões políticas. Sua vitória apertada e um Congresso fragmentado indicam que a implementação de uma agenda de mudanças encontrará obstáculos significativos.

O mesmo desafio vale para o Peru, onde Keiko Fujimori, chega ao poder prometendo restaurar a ordem em um país cada vez mais impactado pela violência e pela instabilidade institucional.

Defender linchamento é pôr o mundo de ponta-cabeça

Na última terça-feira, um estudante foi espancado por colegas na UFRJ. Os agressores lincharam um rapaz que usava camiseta com simbologia associada ao nazismo. O vídeo da agressão, reproduzido pela imprensa, mostra o estudante caído no chão, chutado por dez colegas. O rapaz consegue então se levantar e escapar do prédio, mas é alcançado pela turba e agredido novamente na calçada. Por que esse linchamento violento e covarde num campus universitário não é amplamente condenado? Por que, ao contrário, é endossado e aplaudido?

O Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ fez uma nota de repúdio ambígua. A nota não denuncia inequivocamente o linchamento, apenas repudia “qualquer forma de violência, discriminação ou manifestação de caráter nazista”. Não distingue a violência física sofrida pelo estudante da manifestação tida como nazista. A referência à “violência” pode ser lida como condenação à agressão, mas também como atribuição da violência ao nazismo — e, nesse caso, condena a vítima, alegadamente nazista, e não os linchadores.

A nota oficial da UFRJ também foi ambígua:

— A Universidade repudia manifestações de apologia ao nazismo, ao fascismo, ao racismo, ao antissemitismo, ao machismo e a todas as formas de intolerância e discriminação. Reafirma, ao mesmo tempo, que agressões físicas e outras formas de violência não podem ser admitidas como resposta a provocações, conflitos ou divergências.

A nota condena primeiro o nazismo, depois a agressão, insinuando que as agressões foram “resposta a provocações” — a palavra “provocações” introduz uma lógica causal que atribui parte da responsabilidade pelas agressões à vítima. Nenhuma das notas oficiais condenou inequivocamente o linchamento.

O Centro Acadêmico de Ciências Sociais também publicou uma manifestação, mas, nesse caso, sem qualquer ambiguidade:

— Os estudantes do IFCS-IH deram o recado que lugar de nazista não é na universidade.


Centenas de posts nas redes sociais com cenas da agressão celebraram o linchamento e foram curtidos por professores e estudantes. Os comentários incluíam “nazismo não se cria”, “em nazista é porrada”, “nazismo não se debate, se combate”, “o único erro é que não tinha mais gente pra bater”, “o cara foi fazer apologia ao nazismo no IFCS e esperava o quê?”, “mais imagens, que delícia!” e “apanhou foi pouco”.

Tudo indica que o estudante não era nazista. Usava até um broche antinazista — mas isso não deveria ser relevante. O linchamento é uma brutalidade execrável em qualquer circunstância e não passa a ser escusável se a vítima é acusada de nazismo.

Em certos ambientes, já não conseguimos separar a condenação moral do nazismo da licença para agredir quem é acusado de professá-lo. Nossa obsessão em sermos política e moralmente puros nos impede de distinguir a gravidade das condutas e de graduar as respostas a elas.

Uma coisa é usar uma camiseta com simbologia ambígua. Outra é professar uma crença preconceituosa. Outra ainda é discriminar alguém de fato. E matar minorias é algo completamente diferente. Entender essa gradação não é “passar pano para o nazismo”, é defender o Estado de Direito. É também exercer o juízo crítico. No linchamento, não há direito de defesa, não há julgamento equilibrado e não há sentença proporcional. É a justiça popular em sua faceta mais brutal.

O imperativo de demonstrar pureza e credenciais antifascistas irrepreensíveis dificulta a condenação inequívoca da violência porque qualquer ponderação pode ser lida como complacência com o nazismo. As instituições tornam-se incapazes de condenar o linchamento. Professores e estudantes passam a endossar e a celebrar a justiça popular — tudo em nome do combate ao preconceito e à discriminação.

O mundo vira de ponta-cabeça: um linchamento nas dependências de uma universidade deixa de ser um ato bárbaro, violento e covarde e passa a ser celebrado como defesa dos direitos humanos.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


E se pensássemos num Ministério da População?

Durante décadas, as contas foram sempre as mesmas e simples de fazer. Todos os anos, havia mais nascimentos do que mortes. E, naturalmente, entravam mais pessoas no mercado de trabalho do que aquelas que o abandonavam, por aposentação. Além de uma outra característica: com o crescimento da economia e a inflação, os salários de entrada em cada profissão também progrediam a um ritmo considerável, permitindo existir excedente para todos os meses pagar aos pensionistas – numa era em que a esperança média de vida era muito inferior à dos nossos dias.


Agora, tudo é diferente, embora tenhamos dificuldade em admiti-lo – de tal forma que ainda continuamos a chamar pirâmide etária a uma realidade demográfica que, em termos geométricos, passou a ter a configuração de um pentágono, visto que as crianças e jovens, que formavam a base do triângulo, deixaram de ser o sector mais numeroso da população. Esta é uma realidade transversal a quase todos os países desenvolvidos, onde as taxas de nascimento caem a pique, o crescimento económico é anémico em comparação com o de outras eras e, particularmente na Europa, a riqueza vem mais por herança do que por iniciativa empresarial, com todos os problemas de desigualdade que isso acarreta.

O Estado social e a nossa economia foram construídos no pressuposto de que a população iria sempre aumentar, que nunca perderíamos a base que alimenta o topo da pirâmide. O que sabemos, agora, é que a proporção dos idosos na população total está a crescer, enquanto a população ativa tende a diminuir cada vez mais. Essa realidade tem reflexos no sistema de pensões, mas também nos cuidados de saúde, no ordenamento do território, na educação e na economia em geral.




Até ao momento, o que se tem tentado fazer é olhar para cada uma das consequências de forma isolada. Como se fossem problemas de gestão sectoriais, quando, afinal, se trata de uma alteração muito mais profunda da sociedade e do nosso modo de vida. É preciso, urgentemente, mudar essa forma de olhar para a realidade. A demografia tem de passar a estar no centro das políticas e deixar de ser vista como um acessório ou uma nota de rodapé. E a política tem de voltar ao seu centro vital: servir as populações em vez de apenas querer ganhar os seus votos.

Tradicionalmente, a regra tem sido a de olhar para as políticas demográficas de forma sectorial, segundo a estrutura habitual de cada ministério. A Saúde preocupa-se com a natalidade e a longevidade, a Educação procura gerir os movimentos de matrículas, o Trabalho tem o foco na escassez ou no excesso de mão de obra e o Ambiente, tantas vezes, olha mais para a natureza do que para os movimentos populacionais. Para piorar as coisas, a recente onda populista no mundo tem procurado atirar os fluxos migratórios para os braços da Administração Interna e das forças de segurança, inquinando e impedindo o debate que era necessário.

A verdade é que só há três formas de fazer aumentar a população ativa, cada uma delas com prazos diferentes de concretização. Estimular e fazer aumentar os nascimentos é uma solução óbvia, mas qualquer política nesse campo demorará gerações a apresentar resultados. Elevar a idade da reforma ou aumentar a percentagem de idosos ativos, como se faz no Japão, será sempre um programa de médio prazo. Finalmente, a única solução que existe para resolver a equação depressa é importar mão de obra – acolher imigrantes e integrá-los convenientemente e com dignidade.

Todas essas três vias precisam de ser discutidas e debatidas dentro de uma política geral de população e de desenvolvimento do País. Se o fizermos, estaremos de certeza mais próximos de encontrar respostas sérias acerca da sustentabilidade da Segurança Social e até do próprio futuro do Estado-providência.

A demografia devia ser central na política dos nossos dias, com a taxa de fecundidade e as variações populacionais a serem debatidas com o mesmo fervor que se usa em relação ao défice orçamental ou ao valor da inflação. Se calhar, criar um Ministério da População poderia ser o primeiro passo para pôr a demografia no centro do debate. Com uma grande virtude: alinhar, dessa forma, a economia, o território, o trabalho, a educação, a imigração e a família sob uma mesma bússola estratégica. Planear em vez de nos limitarmos a reagir.
Rui Tavares Guedes

Quem vai prender a IA do Trump no drone do Putin?

Aconteceu finalmente! Um drone russo pilotado por uma IA dos EUA decidiu, por si próprio, matar três civis na Ucrânia. A palavra-chave aqui é “decidiu”. A pergunta-chave é “por que?”. Ou seja, por que uma arma decide que três pessoas abastecendo o carro representam uma ameaça de guerra a ser bombardeada? Foi uma tragédia histórica. Um ponto de virada. Uma máquina decide que seres humanos representam um risco e simplesmente atira contra eles, sem submeter sua decisão a nenhuma autorização superior humana.


Houve dilemas semelhantes em filmes de ficção onde computadores ou robôs tomam o controle de espaçonaves, aviões, armamentos e governos. Mas, na vida real é a primeira vez. Por que? A questão é polêmica. Assim que vi a TV noticiar o ataque do drone russo aos civis, comecei a perguntar a amigos (diplomata, militar, servidor público, político, empresário de TI e da sociedade civil) quem deveria ser responsabilizado pelo homicídio doloso praticado por um cérebro digital que resolveu emboscar e assassinar seres humanos inocentes.

Seis especialistas deram seis respostas diferentes: O próprio drone como efeito colateral; o operador do drone; o fabricante do drone; o fabricante do chip IA; o comandante da operação; a autoridade que comprou o drone… Uma pergunta foi frequente nas conversas: quem é o culpado quando alguém é morto por uma pistola, ou um míssil? Porém, no ataque na Ucrânia tem um detalhe que muda tudo. A máquina decidiu matar aquelas pessoas. Uma pistola e uma bomba não decidem matar pessoas. Não se dá voz de prisão a um revólver, nem mesmo ao seu fabricante, se a arma estiver em perfeito estado de funcionamento.

Aqui temos outra questão delicada no debate das armas autônomas. Que critérios um chip com IA utiliza para avaliar se alguém ou algo representa uma ameaça passível de eliminação? Por que um chip de uma empresa norte americana (Nvidia), implantado em um drone militar russo, sobrevoando a Ucrânia, concluiu que três pessoas comuns tocando seu dia a dia urbano deveriam ser bombardeadas? Pior ainda, a IA avaliou que aquelas pessoas seriam uma ameaça a quem? À Rússia? Ao drone? Ao chip? À Nvidia? Aos EUA? À humanidade? À vida? Ou representariam alguma espécie de ameaça aleatória genérica? Que características e atitudes sutis aquelas pessoas apresentavam naquele instante que fizeram com que a IA de Trump no drone de Putin identificasse uma ameaça digna de assassinato?

Os chips de IA, dotados de capacidade de aprendizado (machine learning), são fabricados e treinados para aprenderem respeitando parâmetros, critérios e propósitos pré-estabelecidos. Uma IA médica não toma decisões sobre engenharia hidráulica. Sendo assim, que tipo de ensinamento o fabricante do chip IA, o fabricante o drone, o comandante da operação, o ministro da Defesa, ou o presidente do País, estão introduzindo nos seus armamentos? Que acontece se a polícia utilizar drones autônomos em operações nas favelas e um chip com IA decidir que as crianças num parquinho representam uma ameaça a ser executada? Será que pobres e negros, por exemplo, parecerão mais ameaçadores? Tomara que aprendamos a lição com 2001 Uma Odisseia no Espaço e Matrix (antes que a IA o faça).

Um louco na Sala Oval

A verdade é que as coisas só têm piorado, o delírio agrava-se a olhos vistos e a tendência é para um agravamento progressivo. Uma das últimas pérolas trumpistas é a ameaça pública de que os Estados Unidos irão bombardear Omã “até à exaustão”, um país que é seu aliado no Médio Oriente, caso este acorde com a república islâmica uma rota de navegação segura através do estreito de Ormuz.

E nós a pensar que a atual crise na região se deveria ultrapassar através da diplomacia, de modo a acabar com o estrangulamento do estreito que está a afetar gravemente a economia mundial.

O louco da Sala Oval pensa que pode acordar um dia, maldisposto, e mandar bombardear não apenas um país inimigo, mas também um país amigo e aliado como o sultanato árabe de Omã, localizado no sudeste da Península Arábica, onde até tem uma base militar sua. E também acha que pode anunciar tal coisa ao mundo sem correr o risco de vir a ser internado num hospício.


Já sabemos que Trump se está a borrifar para o Direito Internacional e os tratados existentes ou a diplomacia e a ordem internacional. Já disse que o seu limite se reduz à sua consciência. Ora, a consciência de um louco deixa muito a desejar, por isso a lei considera os loucos como inimputáveis.

Mas a questão é esta, se o louco da Sala Oval ameaça bombardear um país aliado no Médio Oriente, o que fará com os europeus por quem repetidamente demonstra o seu desprezo e que insultou, ameaçou e atacou politicamente através do movimento MAGA, ao apoiar os seus adversários radicais?

Bem, poderíamos dizer que Trump é um problema dos estadunidenses. Foram eles que o levaram ao poder pelo voto, por isso agora aturem-no. Só que os Estados Unidos não são um país qualquer, muito embora esteja em acentuado declínio e em perda de influência global. Mas é evidente que ainda influencia o mundo ocidental, neste momento mais para o mal do que para o bem.

Por outro lado, existe um descontentamento interno cada vez maior com a política económica do presidente norte-americano e com o custo de vida no país. Segundo o Jornal de Negócios, “A menos de três meses das eleições intercalares de novembro, a sondagem nacional realizada pela Focaldata para o Finantial Times revelou que ‘mais de 53 por cento dos eleitores registados dizem que a sua situação financeira se deteriorou desde que Trump regressou à Casa Branca’, em janeiro de 2025.”

Além disso, a dívida pública do país ultrapassou, pela primeira vez na sua história, os 40 biliões de dólares (34,2 biliões de euros). A popularidade de Trump está incrivelmente baixa, rondando os 30 por cento.

Uma das últimas habilidades foi o regresso da reunião da NATO na Turquia quando, perante uma suposta ameaça, o presidente saiu às escondidas do avião oficial para não correr perigo mas deixou os seus colaboradores e jornalistas servirem de isco, entre eles a sua porta-voz que tinha sido mãe há poucas semanas e se demitiu de seguida.

A próxima jogada parece ser retirar aos estados as competências eleitorais a poucas semanas do ato eleitoral, de modo a manipulá-lo à vontade e tentar alterar a lei para correr de novo à Casa Branca. Em suma, Trump está a transformar um país de referência numa república das bananas.

Mas não podemos concentrar-nos em culpar apenas o louco da Sala Oval. Todo o seu círculo próximo tem elevada responsabilidade no estado a que chegou a Casa Branca. E nem sequer os jornalistas são capazes de tomar uma posição conjunta de boicotar a informação da Casa Branca enquanto o cavalheiro os continua a insultar em todas as conferências de imprensa.

É uma vergonha ver um governante dum país (ainda) democrático mandar calar os profissionais da informação e insultá-los com epítetos como “porca”, “falsa” e “uma desgraça”. Ninguém está a ver qualquer presidente republicano ou democrata a fazer nada que se pareça. Basta lembrar Obama, Biden, Clinton, Bush ou George W. Bush para não ir mais para trás.

Trump é o tipo de pessoa altamente tóxica com quem eu nunca deixaria que filhos meus ainda pequenos convivessem, por razões de higiene mental e moral.

Esperanças e utopias

Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-lo a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.
José Saramago, "O caderno"

O juiz de Deus

O salário, ainda que seja um bom salário, não te dá condições de ter uma vida sem preocupações financeiras. A gente tem que controlar a despesa no dia a dia.

André Mendonça, ministro do Supremo, ganha R$ 46 mil de subsídio por mês

A gramática da catástrofe e o fim do mundo

Há muito tempo aprendemos a reconhecer o fim do mundo. Ele tem uma gramática.

No Apocalipse, chega a cavalo. Conquista, guerra, fome e morte atravessam a Terra como sinais de que o tempo se esgota. A literatura cristã ocidental transformou essa gramática da catástrofe em uma poderosa narrativa de futuro: haverá um dia em que aquilo que conhecemos terminará. Um último dia. Um último julgamento. Um último mundo.

Séculos passaram e continuamos reconhecendo os cavaleiros.

Eles atravessam cidades bombardeadas, campos devastados, rios secos, florestas incendiadas. Chegam com a fome, as epidemias, os deslocamentos forçados, as violências que se acumulam e se sobrepõem. Mudam os cavalos, as armas, as fronteiras, as tecnologias. A gramática permanece. Guerra, fome, peste, seca, morte. E agora, a emergência climática.

A profecia parece estranhamente familiar porque o fim do mundo nunca pertenceu apenas ao futuro.

Em um conto de Dezső Kosztolányi (
O fim do mundo), Kornél Esti pergunta a seu interlocutor se ele costuma sonhar com o fim do mundo. A resposta surpreende menos pela frequência do que pela naturalidade. Cinco ou seis vezes por ano ele acaba com o mundo em seus sonhos. E conclui: “Parece que precisamos disso.”

Precisamos imaginar o fim.

A literatura faz isso há séculos. O cinema, a tv e as redes sociais, há menos tempo, porém, com majestática habilidade. Narram o fim, destroem cidades, exterminam civilizações, inventam dilúvios, pestes, alienígenas, monstros e guerras. Derrubam o céu para experimentar o que restaria depois. Kosztolányi parece compreender que imaginar o fim também é uma maneira de pensar sobre o mundo que construímos.

Julio Cortázar escolhe outro caminho. Em "O fim do mundo do fim", o apocalipse perde solenidade e ganha burocracia. A humanidade escreve. Escreve cada vez mais.

Os leitores tornam-se escribas. Multiplicam-se as fábricas de papel e tinta. Os escribas trabalham durante o dia, as máquinas imprimem durante a noite. A produção cresce até ocupar o espaço disponível. Livros acumulam-se, invadem territórios, chegam ao mar.

Cortázar inventou uma imagem quase perfeita do nosso tempo.


Produzir tornou-se uma espécie de prova de existência. Produzimos textos, dados, relatórios, mercadorias, indicadores, imagens, resíduos, informações, metas, avaliações. Criamos os produtores de conteúdo, como se alguém produzisse algo sem ele. Nunca escrevemos tantas mensagens, stories e reels. Produzimos conhecimento e também ruído. Registramos a vida enquanto a vida acontece. Medimos o mundo enquanto o consumimos.

No conto, quando os livros finalmente ocupam espaço demais, encontra-se uma solução perfeitamente racional: lançá-los ao mar. Enquanto isso, presidentes das repúblicas refugiam-se em transatlânticos transformados em ilhas, celebrando grandes festas e trocando mensagens entre si. Na Terra, os escribas sobrevivem precariamente.

É difícil encontrar uma metáfora mais adequada para uma civilização capaz de produzir as condições de sua própria destruição e continuar chamando esse movimento de progresso. Aqui podemos enxergar os bilionários dos combustíveis fósseis e dos data centers, as fazendas de sacrifício de milhões de animais criados para nos alimentar.

Durante muito tempo, aprendemos que a história caminhava para a frente. Desenvolvimento social, crescimento econômico, ciência e tecnologia pareciam conduzir inevitavelmente a mais conhecimento, mais conforto, mais liberdade, mais futuro. A própria ideia de progresso organizou uma linha do tempo na qual alguns povos estavam adiante e outros permaneciam atrás. Os que viviam de outras maneiras receberam nomes conhecidos: atrasados, primitivos, arcaicos, subdesenvolvidos.

O problema dessa linha é que ela termina sempre no mesmo lugar.

Existe um único destino desejável, uma única forma de desenvolvimento, uma única relação possível com a natureza, uma única ideia de riqueza, uma única medida de sucesso. Para chegar até lá, florestas podem cair, rios podem morrer, povos podem desaparecer. Tudo cabe na contabilidade do progresso.

É uma curiosa pedagogia do fim do mundo. Ensina-se que destruir certos mundos é o preço necessário para construir o mundo. Por isso a pergunta precisa mudar. De que mundo estamos falando quando falamos do fim do mundo?

Para muitos povos, o mundo já acabou. Acabou quando perderam seus territórios. Quando suas línguas desapareceram. Quando suas crianças foram arrancadas de suas comunidades. Quando seus conhecimentos foram tratados como superstição. Quando seus deuses receberam o nome de demônios. Quando suas maneiras de viver foram transformadas em atraso e suas terras, em recursos.

O fim do mundo, para milhões de pessoas, nunca foi uma hipótese distante. É experiência histórica e ameaça cotidiana: o desaparecimento de línguas, culturas, cosmovisões, práticas, saberes, territórios, identidades e, no limite, dos próprios corpos.

É por isso que Ailton Krenak respondeu de maneira tão desconcertante quando lhe perguntaram, em 2018, como os povos indígenas sobreviveriam àquilo que se anunciava no Brasil. Há quinhentos anos os povos indígenas resistem, respondeu. Sua preocupação era outra: como os brancos escapariam dessa?

A resposta-pergunta, astuta e disruptiva, inverte a gramática da catástrofe.

Quem imaginava estar conduzindo a humanidade ao futuro descobre-se incapaz de garantir o próprio futuro. Quem foi inúmeras vezes declarado condenado ao desaparecimento conhece há séculos tecnologias de sobrevivência, memória e resistência.

O fim do mundo muda de lugar. E muda também de tempo.

Ele deixa de ser apenas o grande acontecimento futuro que encerrará a história e passa a ser compreendido como experiência repetida. Mundos acabam todos os dias. Alguns desaparecem silenciosamente. Outros sobrevivem porque alguém conta uma história, ensina uma língua, preserva uma memória, planta novamente, canta, dança, escreve, cuida, lembra.

É nesse ponto que a gramática da catástrofe encontra outra gramática: a gramática do adiamento.

Ailton Krenak propõe adiar o fim do mundo ampliando nossa experiência, reconhecendo outras formas de estar aqui, contando mais uma história. Adiar significa abrir espaço para outros presentes e, com eles, outros futuros. Chama atenção para essa possibilidade de ampliar o presente, retirando do futuro único o poder de condenar todas as experiências que seguem outros caminhos.

É aqui que entram as escolas.

Todos os dias, milhões de crianças e jovens entram em salas de aula levando mundos consigo. Levam histórias de suas famílias, territórios, religiões, culturas, músicas, medos, desejos, conhecimentos, palavras e perguntas. Encontram professores que também carregam seus mundos. E dessa conversa, sempre imperfeita, surgem conhecimentos que nenhum documento curricular conseguiria prever por inteiro.

Currículo é também isso: o encontro entre mundos, o fim de uns mundos e o sonho com outros. Sonhar com outros mundos possíveis é parte do currículo escolar todos os dias.

Uma professora altera o planejamento porque uma criança fez uma pergunta. Uma história contada por uma avó entra na sala. Um evento climático extremo na cidade muda a aula. Uma palavra desconhecida obriga todos a pesquisar. Um conflito exige conversa. Uma memória reaparece. Um conhecimento que permanecia do lado de fora encontra lugar.

São acontecimentos pequenos diante dos cavaleiros do Apocalipse.

Ainda assim, carregam uma enorme força política.

A escola pode funcionar como máquina de repetição da história única, ensinando que existe um conhecimento legítimo, uma cultura superior, um caminho correto e um futuro já desenhado. Também pode transformar-se em lugar onde muitas histórias encontram condições de existir. Contar histórias é também enfrentar genocídios porque todo genocídio começa ou se completa tentando apagar histórias.

Essa segunda escola interessa especialmente quando o mundo parece diminuir.

Nos cotidianos escolares, professores criam currículos aproveitando as ocasiões que aparecem, inventando aquilo que cada circunstância pede e possibilita. Seus currículos são feitos de conhecimentos pessoais, sociais e culturais colocados em conversa. É nessa criação cotidiana que a escola amplia o mundo em vez de reduzi-lo.

Podemos chamá-las de escolas da gramática do adiamento.

Uma escola que conta para conhecer e conta para existir. Que entende cada história como presença e cada presença como possibilidade de mundo. Uma escola capaz de ensinar que nenhuma narrativa esgota a experiência humana e que o futuro permanece aberto enquanto pudermos imaginar mais de um.

Contar histórias, nesse sentido, é enfrentar apagamentos.

É guardar mundos e adiar seu fim.

É oferecer às crianças aquilo que toda gramática da catástrofe tenta sequestrar primeiro: a possibilidade de imaginar futuro.

Há uma ironia bonita em voltar, então, a Cortázar. Seus escribas escreveram tanto que acabaram soterrados pela própria escrita. As escolas da gramática do adiamento fazem outro movimento. Escrever para circular. Contar para encontrar. Escutar para aprender. Guardar aquilo que merece atravessar o tempo e abrir espaço para aquilo que ainda não foi contado.

Porque o fim do mundo é antigo. A sabedoria está em aprender a adiá-lo.

Krenak lembra que povos submetidos a sucessivos fins do mundo continuam aqui. Empurraram o céu para cima, produziram resistência, preservaram histórias e inventaram maneiras de continuar. Em nossos trabalhos sobre educação, essa imagem já nos levou a pensar escolas e outros espaços educativos como lugares capazes de empurrar o céu para cima e adiar o fim do mundo.

Essa é uma das tarefas mais bonitas da educação.

Ensinar que o mundo pode ser contado de muitas maneiras.

Fazer circular histórias que sobreviveram às tentativas de apagamento.

Criar condições para que histórias ainda desconhecidas possam nascer. Assim fizemos nas escolas, quando, ainda recentemente, a pandemia de Covid acabava com o mundo de forma catastrófica e, nas escolas, tentávamos adiar seu fim, fosse contando sobre os vivos, ou homenageando os mortos.

E, enquanto os velhos cavaleiros apocalípticos continuam atravessando o presente, manter aberta uma escola onde caibam muitos mundos é uma gramática anti-catástrofe.

Contar mais uma história pode ser apenas isso: adiar o fim do mundo por mais um dia.
Maria Luiza Süssekind

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O direito de ouvir o outro

Poucos anos após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a jornalista, autora e tradutora alemã Jella Lepman (1891-1970) mobilizou um grupo de pessoas ligadas à literatura infantil em torno de uma ideia: os livros poderiam aproximar povos separados pelo conflito e contribuir para a construção da paz. Dessa iniciativa nasceu, em 1953, o International Board on Books for Young People (IBBY).

A ideia de Lepman era simples e poderosa: crianças que conhecem as histórias umas das outras crescem mais preparadas para compreender culturas diferentes da sua. Mais de sete décadas depois, essa missão permanece atual, embora tenha adquirido novas dimensões.

Sociedades democráticas não dependem apenas da liberdade de falar, mas também da disposição para ouvir. A literatura, especialmente aquela oferecida às novas gerações, constitui um dos primeiros espaços em que se aprende a conviver com experiências, valores e visões de mundo diferentes.


O tema escolhido para o 40º Congresso do IBBY, realizado em Ottawa, “escutar as vozes uns dos outros”, oferece uma chave interessante para compreender essa transformação. Mais do que um lema institucional, ele sintetiza uma mudança de paradigma. O debate internacional parece deslocar-se da tradicional pergunta: que livros devemos oferecer às crianças; para outra, mais abrangente: quais vozes conseguem chegar até elas?

A programação do congresso tornou essa evolução particularmente evidente. Povos indígenas, crianças refugiadas, jovens leitores e bibliodiversidade apareceram de forma recorrente nos debates. Temas distintos, mas unidos por uma preocupação comum: assegurar que toda criança possa encontrar nos livros tanto um espaço de reconhecimento quanto uma oportunidade de conhecer realidades diferentes da sua.

Essa perspectiva amplia a compreensão do papel da produção voltada à infância. Além da alfabetização, da formação e do incentivo à leitura, ganha espaço outra dimensão: a construção da alteridade. A boa literatura oferece espelhos, nos quais o leitor se reconhece, e janelas, pelas quais descobre o mundo.

A produção destinada aos adolescentes, assim como a tradução, a ilustração e a bibliodiversidade, faz parte desse mesmo movimento. Ampliar o repertório significa permitir que diferentes experiências, idiomas, culturas e formas de representar a infância e a juventude cheguem aos leitores. O Brasil, com uma sólida tradição de literatura infantil e juvenil, construída por nomes como Ana Maria Machado, Lygia Bojunga e Ruth Rocha, tem muito a contribuir para esse debate, e também razões para refletir sobre ele.

O contraste com alguns episódios recentes no país é inevitável. Obras vêm sendo questionadas ou retiradas de escolas e bibliotecas não por sua qualidade literária, mas pelo desconforto provocado por determinados temas, personagens ou visões de mundo. É legítimo discutir adequação etária, critérios pedagógicos e mediação da leitura. Outra coisa é pretender proteger crianças eliminando de seu horizonte aquilo que contraria as convicções dos adultos.

Nesse ponto, Ottawa oferece uma inversão reveladora. Enquanto no Brasil, em alguns casos, se discute quais vozes devem deixar de ser ouvidas, o debate internacional procura identificar quais vozes ainda não estão sendo escutadas. São movimentos em direções opostas. Um reduz o repertório; o outro procura ampliá-lo.

A diferença não é apenas literária ou pedagógica. É também política. Uma sociedade democrática não se constrói oferecendo às novas gerações apenas ideias com as quais seus pais, professores ou governantes concordam. Forma-se para a democracia quando se desenvolve a capacidade de entrar em contato com perspectivas diferentes, examiná-las criticamente e conviver com a divergência. O oposto do cancelamento não é a concordância. É a convivência.

Isso não significa transformar qualquer livro em obra adequada para qualquer idade nem retirar das famílias e dos educadores a responsabilidade sobre a formação das crianças. Significa reconhecer a diferença entre mediação e interdição. A primeira contextualiza, acompanha, educa e promove o diálogo; a segunda simplesmente elimina a possibilidade de encontro com aquilo que incomoda.

A literatura infantil assume, assim, uma responsabilidade que ultrapassa a formação de leitores. Ela participa da formação de cidadãos capazes de viver em sociedades culturalmente complexas, nas quais diferenças não são acidentes a serem corrigidos, mas parte constitutiva da vida em comum.

“Escutar as vozes uns dos outros” recupera, mais de 70 anos depois, a intuição de Jella Lepman. Livros não eliminam conflitos nem fazem desaparecer divergências. Podem, entretanto, ensinar algo indispensável às sociedades democráticas: o outro não precisa pensar como nós para ter o direito de contar sua história. Antes de aprender a conviver com a diferença, é preciso reconhecer sua existência. E estar disposto a ouvi-la.

Oligopólios são uma ameaça à democracia, não o diploma de jornalismo

O debate em torno da exigência do diploma de Jornalismo para o exercício profissional ganhou escala nos últimos dias, a partir das declarações favoráveis dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e incendiaram as redes sociais. Não demorou para que o setor empresarial da mídia se insurgisse ostensivamente contra essa possibilidade, firmando o brado retumbante contra uma suposta evocação aos tempos do regime militar. Editoriais e colunas de opinião em alguns dos maiores jornais do país, como Folha de São Paulo e Estadão, que no passado foram eles próprios colaboradores da ditadura, voltaram a rotular a luta pelo diploma como “entulho autoritário” e como um risco para a liberdade de imprensa.

Na verdade, o que ameaça a liberdade de imprensa e a democracia brasileira é justamente um ambiente informacional marcado por alta concentração da propriedade dos meios de comunicação e precarização dos/as trabalhadores/as do setor. Cenário este que não apenas permaneceu tal qual, como foi piorado, na atualidade, pela arquitetura de funcionamento das corporações digitais oligopólicas. Elas passaram a dominar a infraestrutura de distribuição da informação, definindo o alcance de praticamente qualquer tema no debate público, sem nenhuma transparência algorítmica ou responsabilidade social, deslocando inclusive parte do poder de agendamento e da sustentabilidade econômica dos monopólios hegemônicos de outrora.

Entre as perguntas que precisam ser feitas no debate atual sobre o diploma de jornalista, estão: a dispensa da formação profissional obrigatória, decidida em 2009 pelo STF, trouxe ganhos sociais concretos na garantia das liberdades constitucionais? Melhorou a qualidade do Jornalismo brasileiro em relação ao período anterior? Em ambas as questões, as evidências disponíveis mostram que não.


Do ponto de vista das relações de trabalho, a desregulamentação profissional do Jornalismo só ajudou a aprofundar o processo de redução de postos de trabalho e salários, além de ampliar a perda de direitos por meio de contratações ultra precarizadas, situação agravada pela Reforma Trabalhista de 2017.

Obviamente que o fim da exigência do diploma não é a única explicação para a piora das condições trabalhistas, mas é inegável que foi, e segue sendo, um fator de desestabilização profissional, com impactos negativos sobre a independência e a autonomia dos/as jornalistas, que ficam ainda mais suscetíveis a pressões editoriais, processos judiciais de censura e assédio político.

Já do ponto de vista das prerrogativas constitucionais, como o sigilo da fonte, tão alardeado na última semana, a desregulamentação profissional criou foi mais insegurança jurídica para o seu exercício real, pois turvou a distinção entre quem atua como jornalista profissional, amparado em parâmetros técnicos e éticos, daqueles que se valem de uma garantia fundamental para operar desinformação, alimentar canais de difamação e, nos casos mais graves, acobertar ou sustentar o crime organizado.

Ao contrário do que propaga o senso comum corporativo, a exigência de diploma não cerceia vozes; ela organiza a profissão diante do abismo contemporâneo da desinformação e da precarização das condições de trabalho. Infelizmente, mitos e imprecisões têm prevalecido neste debate, e é preciso desfazê-los, como buscaremos a seguir.

Um dos argumentos mais frequentes de quem se opõe ao diploma é o de que ele representaria uma barreira de acesso excludente ao mercado de trabalho. Essa visão, no entanto, ignora as transformações socioeconômicas estruturais do Brasil recente. Se há algumas décadas o ingresso no ensino superior era um privilégio quase exclusivo de pessoas majoritariamente brancas das classes média e alta, e a oferta de cursos de Jornalismo era restrita, hoje o cenário se democratizou de forma significativa, com a expansão e a descentralização das universidades. É verdade que as instituições privadas são maioria e o custo ainda representa um obstáculo, mesmo que o financiamento estudantil seja política pública consolidada, mas falar em barreira elitista de acesso ao nível superior na atualidade é ignorar uma realidade concreta.

A profissão continua exigindo um registro formal para ser exercida legalmente no Brasil. Isso jamais chegou a ser abolido. Ou seja, qualquer pessoa que queira exercer o Jornalismo como profissional, nos dias atuais, precisa ser registrada no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), através das delegacias regionais de trabalho (DRTs). Antes da decisão do STF, o registro era apenas emitido a quem apresentasse diploma de conclusão de curso em jornalismo. Ocorre que, após a “queda do diploma”, não foram definidos, muito menos aplicados, parâmetros fixos, sérios e seguros para sua concessão. Importante lembrar que outras funções técnicas da comunicação, como repórteres fotográficos e repórteres cinematográficos, seguem exigindo registros profissionais específicos, que são emitidos mediante apresentação de portfólio e, muitas vezes, com participação sindical.

Mesmo nos países em que o diploma específico não é exigido, há sim, na grande maioria deles, critérios de acesso à profissão, que incluem obrigações como a sindicalização, a comprovação de atuação profissional (reconhecida por pares ou organizações de trabalhadores) ou algum registro formal que demonstre o vínculo com a atividade jornalística.

Se para exercer o Jornalismo ainda é necessário o registro, o caos se materializa, no caso brasileiro, pelo fato de que qualquer pessoa consegue esse documento sem maiores demonstrações. Memorial elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), e distribuído aos ministros do STF, aponta que pessoas que não foram alfabetizadas e até mesmo menores de 18 anos tiveram acesso ao registro profissional de jornalista. Sem contar os inúmeros oportunistas que hoje oferecem serviços pagos para auxiliar na emissão do registro – algo que é feito gratuitamente pelas DRTs.

Diante desse cenário de descaso e de outras propostas regulatórias complexas, o diploma acadêmico destaca-se como o critério mais objetivo, justo e transparente para organizar a prática jornalística. O diploma certifica que o profissional passou por um processo sistemático de aprendizado sobre ética, métodos de apuração e responsabilidade social. Ele deve ser o ponto de partida, não o diferencial. Sem esse anteparo, a profissão afunda em um cenário de desestruturação que mais interessa ao setor patronal do que ao conjunto da sociedade. E no qual qualquer critério subjetivo pode ser usado para fins de exclusão ou favorecimento. Apesar de ser considerada uma profissão essencial para a sociedade e pilar da democracia, não há qualquer zelo sobre quem pode atuar como jornalista.

A exaustiva narrativa de que a exigência de diploma ameaça a liberdade de expressão é uma inversão retórica aparentemente sofisticada, mas frágil. Como já destacado e amplamente verificável, a verdadeira mordaça ao pluralismo e à livre circulação de ideias não vem das salas de aula das faculdades, mas sim da altíssima concentração econômica exercida pelos oligopólios de mídia e, de forma crescente, pelos oligopólios digitais. São esses gigantes econômicos que controlam os canais de distribuição de informação, ditam e interditam as condições do debate público e sufocam iniciativas independentes.

Essa contradição fica evidente ao analisar o uso de exemplos demagógicos por parte de formadores de opinião da grande imprensa para se opor à necessidade de diploma. Nos últimos dias, tornou-se frequente o argumento de que a exigência do diploma impediria o funcionamento e as denúncias de emissoras comunitárias, por exemplo. No entanto, a questão das rádios comunitárias é historicamente invisibilizada por essa mesma grande imprensa.

Na prática, as rádios comunitárias sofrem há décadas com entraves para ampliar sua potência e obter sustentabilidade econômica devido à pressão direta de associações patronais de empresas de comunicação. Utilizar a radiodifusão comunitária como escudo para atacar o diploma é uma ironia que esconde o real sufocamento da liberdade de expressão e da comunicação democrática promovido pelos monopólios midiáticos. Além disso, antes de 2009, quando o diploma era obrigatório, a atuação de comunicadores populares e a liberdade de expressão comunitária nunca deixaram de existir, e eles já sofriam com a opressão dos setores empresariais que deveriam estimulá-los.

Outro argumento falso é o de que a exigência foi uma invenção autoritária da ditadura. Trata-se de reivindicação histórica do próprio movimento sindical de jornalistas iniciada na década de 1940. Os militares nunca precisaram se valer da regulamentação profissional para perseguir jornalistas. Eles o faziam de forma direta pela censura, pela cassação de licenças de emissoras e pela colaboração dos próprios empresários proprietários dos meios de comunicação. Vladimir Herzog, por exemplo, não foi perseguido, torturado e assassinado durante a ditadura em decorrência da legislação profissional, mas pelo exercício do poder de repressão política e ideológica do regime, operado por meio de órgãos como o DOI-CODI.

Usar a origem cronológica do decreto de regulamentação profissional para desqualificar a regra ignora que direitos trabalhistas cruciais, como a CLT, criada na era Vargas, também nasceram em períodos de exceção e nem por isso perdem seu valor de proteção social.

A conjuntura atual, em 2026, impõe desafios tecnológicos e trabalhistas muito mais complexos do que aqueles enfrentados em 2009. O avanço descontrolado da inteligência artificial (IA) generativa, o uso de deepfakes e a disseminação industrializada de desinformação ameaçam efetivamente a própria integridade da democracia. Nesse ecossistema de alta complexidade, a qualificação técnica rigorosa, baseada em métodos científicos de apuração e em um sólido código de ética profissional, torna-se um pilar inegociável para a integridade da informação de interesse público. Se, mesmo com a exigência de formação acadêmica, o mercado já se mostra vulnerável a abusos, sem o diploma a situação tende a se deteriorar de forma irreversível. Além de cobrar a volta da exigência do diploma, devemos também exigir a fiscalização da qualidade do ensino oferecido pelas faculdades de Jornalismo, em especial as particulares.

Ademais, a queda do diploma contribuiu significativamente para a degradação das relações trabalhistas na área, como já destacado. A desregulamentação da formação criou um ambiente extremamente favorável à precarização sistêmica, ao desemprego e à expansão da pejotização irregular. Esse quadro de fragilidade laboral se agravou mais recentemente com a aprovação da Lei nº 15.325/2026 (Lei do Multimídia).

Ao criar a figura do profissional de “multimídia”, essa legislação promoveu a sobreposição de funções e acendeu o alerta das entidades representativas, motivando uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), no STF, por parte da Fenaj e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Organizar o exercício profissional por meio de critérios objetivos não se confunde com censura ou restrição da fala. Como defendem a Fenaj e seus sindicatos, o direito à livre expressão é universal e garantido a qualquer cidadão. O jornalismo, contudo, é um trabalho especializado que exige método, verificação empírica, técnicas de apuração e responsabilidade jurídica.

Superar o cenário atual de precariedade laboral e institucional passa, inevitavelmente, pelo resgate do diploma universitário de jornalismo como critério de registro profissional. Trata-se de uma medida a mais para proteger os direitos trabalhistas e conter as fraudes de registros falsos, e, sobretudo, para salvaguardar a sociedade na era da desinformação, garantindo a higidez da informação profissional indispensável à democracia.

Seria ingênuo e apelativo argumentar que a exigência do diploma resolveria o problema da desinformação. Essa epidemia precisa ser enfrentada com um conjunto amplo de políticas públicas, que vão desde a institucionalização da educação midiática nas escolas até a efetiva regulação democrática, pública e transparente do ambiente digital. Mas a exigência da formação em Jornalismo é um passo acertado na direção de proteger e promover esse pilar tão importante da democracia: o jornalismo profissional.
Renata Roncali Maffezoli / Pedro Rafael Vilela

A vanguarda do atraso

Não sei se Lulinha é inocente ou culpado por tudo que lhe atribuem. Isso está sob investigação. O inquérito corre em segredo de Justiça. Mas não preciso ser um jornalista diplomado (e sou) para concluir que grande parte da imprensa quer ver Lulinha enterrado na lama para, assim, prejudicar as chances de seu pai se reeleger. Nada muito diferente do que aconteceu durante o período da Lava Jato, que resultou na prisão de Lula por 580 dias e no impedimento de disputar a eleição presidencial de 2018, vencida por Jair Bolsonaro.


Todas as eleições presidenciais desde o fim da ditadura militar de 64 se deram à sombra do pernambucano nascido em 1945, registrado com o nome de Luiz Inácio da Silva e filho de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, que depois se tornaria conhecida como Dona Lindu. Ambos trabalhavam na agricultura de subsistência, cultivando a terra para o sustento da própria família. Como líder sindical na região do ABC paulista, Luiz Inácio virou Lula; e em 1982, para disputar o governo de São Paulo, adotou oficialmente o nome Luiz Inácio Lula da Silva.

Foi candidato a presidente da República pela primeira vez em 1989, sendo derrotado por Fernando Collor de Mello. Perdeu as eleições de 1994 e 1998 para Fernando Henrique Cardoso. Elegeu-se presidente em 2002, reelegeu-se em 2006 e venceu novamente em 2022. É o único presidente desde 1930 que elegeu e reelegeu sua sucessora, Dilma Rousseff. Ganhe ou perca a eleição deste ano, passará à História como o brasileiro que pelo voto popular governou o Brasil por mais tempo. Getúlio Vargas governou 15 anos como ditador e apenas quatro como presidente eleito.

Por sua origem e suas ideias, Lula jamais foi aceito pelas elites que construíram um dos países mais desiguais do mundo – o último do Ocidente a acabar oficialmente com o sistema escravocrata. Quando o Brasil criou sua primeira universidade, já existiam 76 universidades na América do Norte e 26 na América do Sul. Embora figure entre as maiores economias do mundo, o Brasil ocupa a 79ª posição no ranking global de PIB nominal per capita, e a 87ª posição quando o cálculo considera a Paridade do Poder de Compra (PPC).

Daí a alta rejeição de Lula, que conseguiu incluir os mais pobres na agenda nacional. Na época da ditadura, dizia-se que era preciso deixar crescer o bolo das riquezas para depois reparti-lo. Um logro. A concentração de renda continua rígida no topo da pirâmide. Dados da PNAD Contínua do IBGE mostram que a divisão atual do bolo penaliza os mais necessitados. O grupo dos 10% mais ricos detém mais de 40% de toda a renda gerada no país. Essa única fatia é maior do que toda a renda somada dos 70% mais pobres da população

Respondam com sinceridade: será Flávio Bolsonaro, se eleito presidente, que se empenhará em mudar essa situação, ou pelo menos atenuá-la? Se a resposta for sim, por que ele é contra a redução da jornada de trabalho de 6×1? Por que se esforça tanto para que ela não seja votada no Senado?
Ricardo Noblat

Bets causam prejuízo ao PIB cinco vezes maior do que tarifaço de Trump

Além dos riscos de vício, impactos sobre a saúde e sobre o endividamento e a situação financeira de milhares de brasileiros, as apostas têm um efeito maior, que ultrapassa suas consequências sobre o orçamento doméstico das famílias.

Para mensurar esse efeito, o economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), calculou o impacto das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país), a arrecadação do governo e a desigualdade.

Segundo o estudo inédito, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano.

"Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 [que foi de 2,3%] e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro", compara Klein, no estudo.


Em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda estimou o potencial impacto da tarifa de importação de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros em 0,2 ponto percentual do PIB entre agosto daquele ano o final de 2026.

Em julho, esse tarifaço foi prorrogado por mais um ano e os EUA anunciaram tarifas adicionais de 25% e 12,5% neste ano.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidades representativas do setor de bets, reconhecem "a importância de aprofundar o debate sobre os impactos econômicos e sociais das apostas", mas afirmam que os resultados "devem ser interpretados com cautela".

Para calcular o efeito das bets sobre o PIB, Klein parte de uma estimativa de transferência líquida de recursos das famílias para as plataformas de apostas.

"Estamos falando basicamente da diferença entre o que é gasto pelas famílias em apostas e o que elas recebem de volta", diz o economista.

"Porque, pela própria natureza do jogo, obviamente o que as pessoas vão receber, em média, é menor do que o que elas pagam."


Crédito,AFP via Getty ImagesLegenda da foto,Estudo recente estima que brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões para bets em 2025

Um estudo recente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central, estima essa transferência líquida de recursos em R$ 62,5 bilhões em 2025.

Esse valor importa, explica Klein, porque cada R$ 1 "perdido" para apostas representa menos dinheiro disponível para o consumo.

A partir desse dado, o pesquisador busca estimar como essa transferência de recursos está distribuída entre as diferentes faixas de renda.

"As pessoas de renda menor gastam proporcionalmente mais da renda delas com consumo", observa Klein.

"Porque a pessoa que ganha pouco acaba tendo que gastar tudo com aluguel, alimentação, vestuário e assim por diante. Então, levamos isso em conta para entender esse efeito agregado."

Com base em outras pesquisas já publicadas, o economista constrói então dois cenários: um em que a maior parte do gasto com apostas vem da faixa de menor renda (até 2 salários mínimos, ou R$ 3.036 em 2025), e outro em que o gasto é mais concentrado nas faixas de renda mais alta.

De posse desses dois cenários, o economista aplica um multiplicador — uma estimativa de quanto R$ 1 a mais ou a menos no bolso das famílias se converte em mais ou menos consumo na economia..

"Fazendo esse cruzamento, chegamos a um efeito entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões — um valor bem importante, porque é quase 1% do PIB", observa.

"O contrafactual, que é o que teria acontecido [sem as apostas], é sempre difícil de fazer em economia, mas esse montante é basicamente metade de todo o crescimento que a gente teve em 2025."

Klein observa que, mesmo levando em conta a estimativa de empregos diretos e indiretos gerados pelas plataformas de apostas — cerca de 15,5 mil, segundo um estudo da LCA Consultores para a ANJL e IBJR, cuja massa salarial poderia gerar até R$ 1 bilhão de renda total na economia — esse impacto negativo pouco muda.

Um outro estudo, realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e publicado em abril deste ano, estimou que o avanço da inadimplência severa, parcialmente atribuída aos gastos com bets, retirou R$ 144 bilhões nas vendas do comércio entre 2024 e 2025.

Segundo a CNC, o impacto somente no comércio é equivalente às vendas de "dois Natais", principal data do varejo brasileiro, cujas vendas anuais giram em torno dos R$ 70 bilhões.

"As bets não representam apenas entretenimento; configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo", destaca a confederação.

A partir da estimativa da queda do PIB, Klein calcula o impacto para a arrecadação do governo.

"Isso ocorre basicamente via tributos indiretos, porque cada real gasto com consumo paga imposto", explica Klein.

Ele cita como exemplos o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o Imposto Sobre Serviços (ISS) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), com a reforma tributária, que começou a ser implementada este ano.

No estudo, Klein estima que uma queda de 1% no PIB provoca uma perda de 0,8% a 1,2% na arrecadação.

Como a carga tributária bruta foi de cerca de 32,4% do PIB em 2025, a redução da atividade econômica causada pelas bets implicaria uma perda líquida de R$ 22 bilhões a R$ 46 bilhões da arrecadação, descontados os R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com os impostos cobrados das plataformas de apostas.

O economista observa que esse dado é importante, porque as apostas muitas vezes são colocadas como algo que está gerando arrecadação para o governo. Mas, devido à perda de consumo, esse efeito pode ser, na verdade, negativo, quando as duas coisas são colocadas "na ponta do lápis".

"E isso sem nem entrar na questão dos gastos gerados, como as despesas com saúde devido ao vício", destaca o professor da UFRJ.

Por fim, para estimar o potencial impacto das apostas sobre a desigualdade, Klein também elabora dois cenários: um que considera que a perda de R$ 62,5 bilhões com bets se concentra nos 99% da população fora do 1% mais rico, e outro que considera que não só isso acontece, como que esse valor é transferido ao 1% mais rico (um cenário extremo, pois é sabido que parte das empresas de apostas são estrangeiras, então uma parte desses recursos vai, na verdade, para fora do país).

Nesses dois cenários, o aumento da concentração da renda no topo (esse 1% mais rico) varia de 0,5% a 2,1%, algo relevante num país que é ainda hoje um dos mais desiguais do mundo.

Para Klein, o que os resultados sugerem é que o Brasil deveria, no mínimo, aumentar a tributação das bets. "A taxação tem que ser ampliada, para que, pelo menos, tenhamos um aumento da arrecadação líquida", defende o economista.

"Não faz sentido nenhum permitir uma atividade que reduz a arrecadação, que aumenta a desigualdade num país já tão desigual, e causa uma série de outros problemas sociais e de saúde, que são o que a gente em economia chama de externalidades", observa.

O pesquisador cita o exemplo dos cigarros, que causam doenças que oneram o sistema público de saúde, e por isso são altamente taxados.

"Faz todo o sentido ter uma tributação alta o suficiente para, no mínimo, cobrir esses custos a mais que essa atividade gera."

Questionada sobre os resultados do estudo, a ANJL afirmou em nota à BBC News Brasil que "tais estimativas devem ser analisadas com cautela antes de serem divulgadas como verdadeiras e robustas".

Segundo a entidade, o exercício é "fortemente dependente das hipóteses adotadas, e não uma estimativa causal do efeito das bets sobre o PIB".

A ANJL considera que o multiplicador adotado por Klein no estudo é desproporcional, que o valor de R$ 62,5 bilhões em perdas estaria superestimado, e que a análise ignora que apostas são bem de lazer e substituem outros gastos de entretenimento, como cinema, teatro, streaming e futebol.

A associação refuta ainda a comparação com o crescimento de 2025, observando que as bets já existiam em 2024.

"Para avaliar quanto sua expansão teria reduzido o crescimento do PIB em 2025, seria necessário estimar principalmente o efeito incremental entre 2024 e 2025, e não comparar todo o suposto efeito de nível existente em 2025 com a variação do PIB naquele ano", pondera.

Já o IBJR destaca que os resultados "partem de uma estimativa contrafactual de R$ 62,5 bilhões, e não de perdas efetivamente observadas nas operadoras"; questiona algumas das pesquisas escolhidas por Klein como base para o estudo; e a premissa de que os recursos destinados às apostas seriam integralmente redirecionados ao consumo.

"O estudo também não mensura, com metodologia equivalente, o valor adicionado pelo setor regulado, incluindo aspectos como geração de empregos, cadeia de fornecedores, tecnologia, publicidade, patrocínios, investimentos e arrecadação tributária", observa o IBJR.

"Ressaltar essas limitações não significa desqualificar o estudo, mas contribuir para uma avaliação mais ampla e consistente dos seus resultados", diz o instituto.

"Em uma questão de tamanha relevância econômica e social, é necessário que a análise dos impactos considere a qualidade das bases utilizadas, os critérios metodológicos adotados e o conjunto das evidências disponíveis."
Thais Carrança