quinta-feira, 26 de março de 2026

Pensamento do Dia




Flávio Bolsonaro moderado é conversa mole para boi dormir

O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, anda vendendo uma imagem de moderado. Não vai colar. Para citar a velha canção "Touradas em Madri", isso é conversa mole para boi dormir. Estamos falando do filho 01 de Jair Bolsonaro, o líder da extrema direita brasileira, condenado e preso por tentativa de golpe e atentado à democracia e ao Estado de Direito.

A coreografia de moderado tem certo interesse. Atrai, por exemplo, simpatias da direita liberal, viúva da sempre chorada terceira via, que rejeita Lula e o PT, e tem histórico de se inclinar por projetos autoritários, na expectativa de que adotem uma linha privatista na economia. O caso mais recente foi o apoio ao próprio Jair Bolsonaro.


É um tipo de perfil que se observa em outros países da região. O filósofo Vladimir Safatle apelidou essa irrefreável tendência de liberais latino-americanos à aliança com a extrema direita de "complexo de Vargas Llosa". Referência ao grande escritor e político menor peruano que, lido e esclarecido, na hora da decisão optava pela pior direita.

Flávio Bolsonaro ainda não foi submetido ao ambiente de campanha. Tem-se a impressão de que a esquerda está até evitando fazer marola para esperar a confirmação da candidatura de Tarcísio de Freitas à reeleição paulista, que deve ocorrer no início do próximo mês.

Tão logo o clima comece a esquentar, o 01 vai ter que explicitar suas posições ideológicas, suas simpatias por Donald Trump, seu reacionarismo profundo. Terá também que dar respostas a encrencas pregressas, como o esquema de rachadinha em seu gabinete, a proximidade fraternal com a milícia no Rio e acusações de lavagem de dinheiro, entre outras situações, para dizer o mínimo, desconfortáveis.

Por enquanto, a subida do candidato nas pesquisas, que têm revelado empate em segundo turno contra Lula, não é desprezível, porém não diz muita coisa sobre a corrida eleitoral pela frente.

É certo que o petista tem problemas, a começar pelo desgaste do personagem, o cansaço que sua longevidade política naturalmente acarreta. Mesmo alguns setores de inclinação progressista parecem sentir falta de novidade, prefeririam um candidato de renovação da centro-esquerda que Lula representa. Não se sabe bem as razões pelas quais conquistas verificáveis do atual governo, em economia e outras áreas, não se transformam em aumento de popularidade.

Lula, contudo, é um animal eleitoral e terá a máquina federal na mão.

Quanto ao cenário mais amplo, há enorme incerteza. Não apenas pelas aventuras de Donald Trump, mas sobretudo pelos desdobramentos do caso Master. Virá uma delação? Será confiável? Está muito claro que até aqui o abacaxi está muito mais difícil de ser descascado pela direita, em que pesem power points e tentativas frequentes de colocar o escândalo no colo da esquerda.

É de se perguntar também se a manutenção de Jair Bolsonaro em casa irá mudar alguma coisa. Deixará de ser tratado como vítima do STF e do "sistema sádico" da esquerda. Flávio não ganha com isso. Para um nome que não reúne qualidades para conquistar o cargo, talvez o melhor seja continuar fazendo dancinhas, como a que apresentou no Nordeste ao som de "01, novo capitão".
Marcos Augusto Gonçalves

'Eleitos' só mudam de cara

De uma forma que pode surpreender aqueles que vivem em um ambiente tão turbulento, existem apenas três casos no Oriente Médio em que um Estado ou poderes dentro dele são liderados por entidades que se declaram representantes de Deus na Terra: o Irã, governado pelo aiatolá (literalmente, sinal de Deus), detentor da autoridade suprema no país; o Hezbollah (Partido de Deus), que foi liderado pelo líder dominante Hassan Nasrallah até seu assassinato; e Israel, onde partidos religiosos, de todo o espectro ultra ortodoxo e nacionalista, desempenham um papel decisivo na esfera política e na sobrevivência do governo Netanyahu.

Roni Weinstein, no jornal Haaretz de Israel

Esse grande simulacro

Cada vez que nos dão lições de amnésia
como se nunca houvesse existido
os ardentes olhos da alma

ou os lábios da pena órfã
cada vez que nos dão aulas de amnésia
e nos obrigam a apagar
a embriaguez do sofrimento
convenço-me de que meu território
não é a ribalta de outros

Em meu território há martírios de ausência
resíduos de sucessos / subúrbios enlutados
mas também singelezas de rosa
pianos que arrancam lágrimas
cadáveres que ainda olham de seus hortos
lembranças imóveis em um poço de colheitas
sentimentos insuportavelmente atuais
que se negam a morrer no escuro

O esquecimento está tão cheio de memória
que às vezes não cabem as lembranças
e rancores precisam ser jogados pela borda
no fundo o esquecimento é um grande simulacro
ninguém sabe nem pode / ainda que queira / esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de Santiago

o dia ou a noite em que o esquecimento estale
exploda em pedaços ou crepite /
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arrastarão afinal a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento

Mario Benedetti

Donald Trump faltou às aulas de História

A partida, para um leigo, enviar uma força militar com a missão de capturar ou liquidar o líder de um país parece uma tarefa que obedece a um mesmo plano de ação: aniquilar a voz de comando e, dessa forma, fazer cair o regime e, ato contínuo, impor um novo poder ou uma nova forma de coerção.

No entanto, se as operações militares podem ser semelhantes ou até procurar objetivos aparentemente iguais, há muito mais que precisa de ser levado em linha de conta, antes de dar ordem para avançar.

É preciso ter respostas prontas para uma mão-cheia de perguntas: Como é a estrutura desse regime? Qual a sua antiguidade? De que forma se preparou para um eventual ataque? Qual é o histórico do país face a invasores externos? De que forma a geografia do seu território pode albergar e ampliar um foco de resistência?


Naturalmente, como já se percebeu, é totalmente diferente uma ação militar de decapitação do líder do regime num país fundado há apenas dois séculos, como a Venezuela, de outra numa nação, como o Irão, que, apesar das suas transformações, é a herdeira de uma civilização com três mil anos de História. É como querer comparar a personalidade de uma criança de 2 anos com a do seu avô, octogenário.

No entanto, cada vez parece mais evidente que esse foi o erro infantil cometido por Donald Trump, ao aceder aos apelos do seu parceiro Benjamin Netanyahu para intervir militarmente no Irão – onde o único beneficiado, no final do dia, seria o primeiro-ministro israelita, que precisa de estar permanentemente em batalha atrás de batalha para continuar no poder.

Pensar que, por exemplo, o regime tenebroso dos aiatolas seria derrubado apenas com o corte da sua “cabeça” principal é, no mínimo, não ter memória histórica. E é não perceber que o sentimento antiamericano no Irão não nasceu em 1979, com a fundação da República Islâmica, por Khomeini. As sementes do antiamericanismo foram plantadas pelos próprios líderes de Washington, em 1953, quando promoveram o golpe que derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, para manterem o acesso ao petróleo iraniano, cuja exploração aquele governante democraticamente eleito queria nacionalizar.

Como a História indica, as mudanças de regime impostas de fora raramente resultam em democracias estáveis. E pior: costumam até radicalizar a população contra o invasor. Foi isso que sucedeu, no início dos anos 1980, quando o Iraque invadiu o Irão, dando início a uma das mais sangrentas guerras da segunda metade do século XX. Esse conflito, iniciado com um ataque externo, acabou por ser fundamental para unir as fações internas, fortalecendo as jovens instituições criadas com a revolução islâmica, em vez de as enfraquecer.

Depois, temos a geografia. Não só as montanhas que dificultam o acesso ao território, mas também a localização estratégica e fundamental para a economia mundial, que permite ao Irão controlar o estreito de Ormuz – aquele acidente geográfico que já há cinco séculos o português Afonso de Albuquerque percebeu ser fundamental para controlar o comércio no Índico (quando ainda nem se sabia para que serviria aquele líquido viscoso e negro a que chamamos petróleo…).

Como bem observou, recentemente, o historiador britânico Niall Ferguson (conhecido, aliás, pelas suas posições profundamente conservadoras), os EUA podem estar prestes a repetir o erro cometido pelos britânicos, na I Guerra Mundial, quando o jovem Winston Churchill, então primeiro lorde do almirantado e confiante na imensa capacidade militar do Império Britânico, ordenou a invasão de Galípoli, com o objetivo de abrir o estreito de Dardanelos, que permite a ligação entre o Mediterrâneo e o mar Negro, e que os otomanos tinham bloqueado. A operação revelou-se um desastre total e ficou como uma das maiores derrotas de sempre das forças britânicas.

Ninguém, com seriedade, pode esperar que Donald Trump se debruce sobre a História e a geografia dos países em que deseja intervir. Ele só se preocupa com a defesa dos seus interesses – especialmente, aqueles que podem ter mais impacto nos seus negócios e nos da sua família. Por isso, o problema não é Trump decidir por instinto, com base na ignorância e sem uma avaliação correta dos riscos. O que preocupa mesmo é o muro de silêncio que ele conseguiu erguer à sua volta, sem que ninguém tenha autoridade para o chamar à razão ou ao confronto com as lições do passado. Trump pode ter faltado às aulas de História, mas se insistir neste caminho, a História não vai perdoar-lhe. E, se calhar, bem mais depressa do que ele pensa.
Rui Tavares Guedes

Domiciliar de Bolsonaro é caso de memória curta e editoriais de ocasião

Há uma coincidência curiosa nas páginas de opinião dos grandes jornais essa semana: Tanto O Globo quanto o Estadão decidiram que é hora de o Supremo Tribunal Federal ter um “gesto de sensatez e humanidade” e transferir Jair Bolsonaro para a prisão domiciliar. O argumento é o quadro clínico sensível. É a mesma música cantada pela família e pelos advogados de defesa, agora com o coro da dita imprensa tradicional.

Engraçado que essa súbita onda de humanitarismo parece ter destino certo.

Não se lê nos mesmos editoriais uma linha sequer sobre os milhares de presos que sofrem de doenças graves, muitas vezes piores que as de Bolsonaro, e que continuam mofando e morrendo nos presídios brasileiros sem qualquer “extrema cautela” das instituições. Para esses, a legislação que admite a domiciliar em casos de saúde incompatível com o cárcere parece não existir.

O Estadão fala em “dever de maturidade” e lembra que a prisão de um ex-presidente nunca é um fato trivial. De fato, não é. Bolsonaro é o primeiro ex-presidente condenado por tentativa de golpe. Mas onde estava essa mesma sensibilidade institucional quando Lula, preso em Curitiba, foi impedido de ir ao velório do próprio neto? Onde estavam os editoriais pedindo “serenidade” e “humanidade” naquele momento?

O que guardamos na memória é o editorial de 2018 que classificava a escolha entre a democracia e o golpismo como uma “escolha difícil”.

A tentativa de comparar o caso de Bolsonaro ao de Fernando Collor – que obteve a domiciliar alegando males como Parkinson – ignora o essencial: o comportamento do réu. Bolsonaro sempre foi um desrespeitador contumaz das ordens judiciais. Foi para a Papudinha justamente porque não sabe conviver com os limites da lei.

Dar a Bolsonaro o benefício da domiciliar agora, sob o pretexto de um quadro que o Estado já se provou capaz de tratar com 144 atendimentos em um mês, não é humanidade. É privilégio. É tratar um cidadão comum como se ainda estivesse acima da lei por conta do cargo que ocupou e que tentou manter no grito.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


Aos pobres, a podridão


Se para o Bolsonaro cabe o direito de ser transferido para regime domiciliar, antes disso também cabe o direito para o réu pobre, preto e periférico que está em situações semelhantes ou até piores. 
Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do Prerrogativas, grupo de advogados

Como as Big Techs querem nos tornar dependentes da IA

Acreditar que as máquinas podem superar e controlar os seres humanos pode ser uma armadilha alienante. Isso porque é preciso entender que a ficção científica (FC) se desenvolve com a Revolução Industrial, isto é, quando a burguesia passa a ter o monopólio dos principais meios de produção da era contemporânea: as máquinas.

As máquinas – e o conhecimento científico para desenvolvê-las – são o centro de diversas histórias de FC. Quando dissemos que as máquinas vão controlar os seres humanos, como no filme Matrix, estamos escondendo, colocando um véu sobre a classe que controla as máquinas: a burguesia.

A burguesia nunca irá perder o controle sobre as máquinas. Isso é um engodo para temermos o domínio das máquinas, e não à exploração burguesa, algo similar ao subtítulo do Realismo Capitalista, de Mark Fisher, “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.


O mesmo se diz quando se apela para a ideia de que os robôs irão se revoltar contra os seres humanos. Geralmente é um discurso contra a escravidão, como no conto O homem bicentenário e no game Detroit: become human. Escravos já foram meios de produção, sim. Mas máquinas não são pessoas. Na verdade, esse discurso esconde a exploração atual dos trabalhadores livres, parecendo que não há motivos para se rebelarem, mas as máquinas, por outro lado, sim, pois a exploração de verdade é quando se é escravo, quando se tem a liberdade tolhida, e não quando um trabalhador de plataforma que, supostamente, faz o seu próprio horário.

A ficção cinetífica está fazendo 100 anos. Após a definição de Hugo Gernsback em 1926 (“um romance cativante entremeado de fatos científicos e visão profética”), o gênero se consolidou. Essa data pode ser útil para discutirmos o projeto de poder de quem controla os principais dispositivos tecnológicos da atualidade.

Concordamos com a posição do professor Adam Roberts de que “a FC é mais bem definida como ficção tecnológica”. A tecnologia é o principal elemento na “retórica que evoca para justificar seu elemento fantástico”. Por isso que David Allen define ficção científica “pela presença de ‘engenhos’ produzidos pela tecnologia resultante de ciências extrapoladas”.

Isaac Asimov chamou o medo imaginário de que as máquinas possam superar os seres humanos de “complexo de Frankenstein”. “O êxito de Frankenstein foi tão grande que a ideia básica – ‘o homem cria o robô; o robô mata o homem’: – se repetiu sem parar numa série inacabável de histórias de ficção científica”.

Asimov acreditava que se entendermos inteligência como “a perspicácia, a intuição, a criatividade, a capacidade de analisar um problema como um todo e adivinhar a resposta pela ‘percepção’ da situação”, “os computadores são, decididamente, muito ignorantes”. Contudo, já em sua época, o neoliberalismo estava trabalhando para fundar uma nova episteme que iria impor um novo padrão de inteligência.

A professora Tatiana Roque mostra que, durante a Guerra Fria, “surgiu uma nova visão sobre ‘racionalidade’, diferente da própria ideia de ‘razão’. Foi nesse momento que se passou a conceber a racionalidade humana de modo similar aos algoritmos”. Surge o Homo economicus, “que decide em função de perdas e ganhos”.

Trata-se do que os liberais chamaram de “paradigma da escolha racional” no qual “o homem age por meio do cálculo entre custo e benefício”. Ser inteligente passou a ser saber investir o mínimo possível para se conseguir o maior ganho. Isso é ser lógico e racional. Ser inteligente é tomar decisões a partir dessa lógica, semelhante ao modelo econômico.

Durante a Guerra Fria, vivia-se a iminência de uma guerra que ninguém jamais havia lutado: a guerra nuclear. Um pânico se instalou no mundo. Era, portanto, “preciso desenvolver métodos sistemáticos para lidar com incertezas”. Assim, a computação ganha espaço mediante as pesquisas operacionais que exploravam “técnicas para simular decisões a partir de dados e prospecção de cenários”. “Tarefas complexas, antes atribuídas a pessoas experientes e hábeis, com virtudes para julgar e avaliar cenários de modo original, eram reduzidas a sequências de passos automatizados”. A nova concepção de racionalidade jogava a autoridade de tomar decisões nas mãos de uma máquina que poderia simular comportamentos e, a partir daí, tomar decisões. “Com base nesses pressupostos, bastante redutores, a racionalidade adquiria um aspecto algorítmico”.

Mas com o fim da corrida armamentista entre EUA e URSS, há uma queda de investimento na inteligência artificial. Alguns chamam de segundo inverno da IA. Mas a ideia de reduzir a inteligência humana ao princípio da escolha racional permaneceu como um projeto cultural do neoliberalismo, o que, ao longo dos anos, contribuirá para a ascensão atual das máquinas e aplicativos inteligentes. Tanto que, já em 1997, o professor da Emory University, Rammath Chellapa, “indicava que o futuro das tecnologias digitais estaria umbilicalmente ligado aos interesses da lucratividade das corporações”.

As classes dominantes perceberam que para implantar o neoliberalismo era necessário promover uma reforma cultural. Para tanto se empenhou em “estratégias culturais orientadas a reverter certa base de consenso e de legitimidade acerca da consideração do espaço público como um cenário aberto à negociação-luta por direitos individuais, coletivos e sociais”, substituindo tais premissas por um novo consenso, no qual incorpore “os valores de empresa, da competitividade, da mensurabilidade e do lucro”. O objetivo não é formar cidadãos interessados em conquistar e expandir seus direitos, mas construir a mentalidade de prosperidade individual por meio da competição e do investimento em si. As noções de igualdade, cidadania e direitos sociais devem ser substituídas por noções econômicas e tecnocráticas de eficácia, produtividade, eficiência e êxito pessoal.

Assim, o projeto cultural do neoliberalismo é a idiossubjetivação, “um processo de formatação de sujeitos que tem por objetivo a construção de indivíduos egoístas, incapazes de reconhecer a importância da coletividade e que negam a possibilidade de uma esfera comum, isto é, que diga respeito a todos”.

Com essa redução da inteligência humana à racionalidade instrumental, como não pensar que a máquina irá, de fato, substituir os seres humanos?

Dora Kaufman, partindo dos estudos de Roberto Lent, explica que tecnicamente estamos a anos-luz da possibilidade das máquinas se equipararem ao cérebro humano. Isso porque o ser humano possui 86 bilhões de neurônios, “considerando apenas os neurônios, como em média ocorrem 100 mil sinapses por neurônio, temos um total aproximado de 8,6 quatrilhões de circuitos que, ainda por cima, são plásticos, ou seja, mutáveis continuamente”. Só para termos uma noção, “o tempo de computação e análise utilizado por pesquisadores chineses para estudar as conexões de 135 mil neurônios de uma mosca foi de 10 anos, estimando-se em 17 milhões de anos o tempo necessário para o mesmo procedimento no cérebro humano”.

Outro ponto é levantado pelo neurocientista Antônio Damásio. Para ele, a inteligência humana não é fruto somente do cérebro, mas do corpo, das vísceras, responsáveis, em grande parte, pelos sentimentos. Centenas de milhares de decisões que tomamos ao longo da história tem como fonte os sentimentos. “Um sistema nervoso não forma uma mente por conta própria, e sim em cooperação com o resto de seu organismo”. Sendo assim um cérebro sem corpo é uma “inteligência” muito aquém do potencial humano.

Mas, a intenção dos donos dos meios de produção, hoje encastelados no Vale do Silício, os mesmos que orquestram o capitalismo de dados, não é substituir o ser humano pela máquina, mas nos tornar dependentes destas. A produção de idiotas é fundamental para o projeto lucrativo da classe dominante. O conhecimento não deve ser reflexivo, devemos admirar as respostas rápidas e objetivas, um formato que uma IA pode produzir com facilidade. Para Rubens Casara esta é “uma das mais importantes estratégias utilizadas no processo de idiossubjetivação”: a “simplificação excessiva”. “No lugar da reflexão bem-informada, a decisão rápida e acrítica passa a ser apresentada como algo positivo”. De modo que a “valorização econômica da ignorância” se relaciona “à demonização da educação, da cultura e do pensamento reflexivo” e “cada vez mais pessoas recorrem a uma linguagem empobrecida, bem como slogans argumentativos, frases feitas, jargões, análises superficiais”.

Não é que a máquina ficou mais inteligente, a inteligência humana que foi sendo reduzida a princípios que podem ser “algoritmizados”, por meio de um projeto cultural neoliberal (agora coordenado pelas Big Techs), para que fosse possível nos satisfazer com o que uma inteligência artificial é capaz de produzir.

Ou seja, o complexo de Frankenstein ainda existe, principalmente nos filmes e livros de ficção científica, mas, não faz parte dos planos das elites econômicas substituir os seres humanos por máquinas. O objetivo é a idiossubjetivação para a formação de seres dependentes das parafernálias tecnológicas. Assim como a Igreja Católica proibia a expansão do conhecimento em muitos aspectos para manter o seu domínio durante a Idade Média e Moderna, as Big Techs (e nesse aspecto concordamos com uma espécie de tecnofeudalismo) precarizam o saber, atacam a reflexão e a educação pública, para manter a sua hegemonia. A Igreja dominava dentro de uma mentalidade que fazia sentido para os membros de diversos grupos sociais, assim como o fazem as Big Techs atualmente, no bojo da reforma cultural empreendida para a consolidação do neoliberalismo.

A relação entre o ideário neoliberal de individualização e a consolidação de uma plataformização da sociedade, foi bem observada por André Luiz Pires Pelliccione. O Estado deve ser mínimo, de modo que as ofertas de serviços e as soluções devem vir do mercado. Essas são “as condições para que as grandes plataformas da atualidade funcionem”, oferecendo serviços até mesmo de saúde, autoajuda e trabalho.

Se nos inspirarmos em Mark Fisher podemos chegar à conclusão de que tudo faz parte do realismo capitalista. Aceitamos um imenso sistema de recomendação que nos diz como perder peso, como decorar a casa, mas nenhum sugere que devemos aprimorarmo-nos culturalmente, porque, convenientemente, “exigir qualquer tipo de aperfeiçoamento cultural é ser opressivo e elitista”.

Nesse mundo controlado pelas Big Techs, forjado com o auxílio das premissas ideológicas neoliberais, os indivíduos não lutam por novas formas de contrato social. A alucinação de uma liberdade sem limites, fornecida pela internet, deu ao indivíduo a suposta capacidade de viver sem um Estado que lhe garanta direitos. “A participação consensual nos valores nos quais a autoridade legítima é derivada, justamente com o livre-arbítrio e os direitos e obrigações recíprocos, é substituída pelo equivalente universal da tornozeleira eletrônica do prisioneiro”. É o que Shoshana Zuboff chamou de Big Other, isto é, “o poder soberano de um futuro próximo que aniquila a liberdade alcançada pelo Estado de direito”.

E como essa tornozeleira eletrônica funciona? Silveira e Avelino mostram que nos anos 2000 já se alertava “que a entrega de arquivos e dados para as corporações que mantém os servidores de nuvem tornaria as pessoas mais dependentes das grandes corporações”. Portanto, o projeto de dominação do capital no século XXI, não é a substituição dos seres humanos pelas máquinas, mas a nossa dependência em relação às corporações.

Lógico que a IA pode ser usada para fins positivos. Mas há uma tarefa urgente, alertada por Morozov: “a de imaginar um mundo altamente tecnológico […] livre da influência perniciosa das Big Techs”. Isso só será possível com o domínio popular dos meios de produção, seguido de uma mudança estrutural na concepção de inteligência. Esta deve ser baseada no senso de solidariedade e de bem comum. Somente assim poderemos usar a tecnologia para benefício humano, não mais para ampliar a margem de lucro.
Raphael Silva Fagundes

Uso inédito de IA e drones torna guerra contra o Irã imprevisível

Um funcionário da Casa Branca afirmou que, ao escolher o nome, Trump estava menos focado na raiva do que na força americana. O funcionário, que falou sob condição de anonimato para descrever o pensamento do presidente, disse que o republicano acredita que foi eleito com a promessa de restaurar a posição do país no cenário mundial e que o nome da operação militar contra o Irã reflete isso.

Por gerações, os nomes das operações militares foram escolhidos de forma um tanto aleatória. Mas, durante a Guerra da Coreia, o Tenente-General Matthew Ridgway tentou fortalecer suas tropas desmoralizadas dando nomes agressivos às operações, incluindo Thunderbolt (Raio), Killer (Assassino), Courageous (Corajoso) e Audacious (Audacioso), como Gregory C. Sieminski relatou em um artigo de 1995 publicado no periódico do Army War College. Os nomes das operações muitas vezes refletiram poder, como Rolling Thunder (Trovão Rolante), a campanha de bombardeio durante a Guerra do Vietnã.


Após o Vietnã, o Pentágono criou um sistema computadorizado chamado Sistema de Palavras-Código, Apelidos e Termos de Exercício (NICKA, na sigla em inglês) para registrar os nomes das operações e ajudar os comandantes a evitar repetições. Mas, para grandes ofensivas, as sensibilidades políticas tornaram-se cada vez mais importantes a partir de 1989, quando George H.W. Bush invadiu o Panamá.

O General James J. Lindsay, comandante das Forças Especiais, opôs-se ao nome original daquela invasão, Operação Colher Azul. "Vocês querem que seus netos digam que vocês estiveram na Colher Azul?", perguntou ele. Outro general sugeriu Ação Justa, que se tornou Causa Justa. A maioria dos nomes de operações desde então tentou, de forma semelhante, projetar virtude. Até mesmo a incursão de Trump na Venezuela, em janeiro, foi chamada de Operação Resolução Absoluta.

Pelo menos uma operação anterior usou a palavra "fúria". A invasão de Granada por Ronald Reagan, em 1983, foi chamada de Operação Fúria Urgente, mas acabou sendo criticada por soar muito raivosa e beligerante, em vez de inspiradora. O perigo de usar Fúria Épica, como qualquer consultor político poderia ter alertado a Casa Branca, é que, se a guerra não for percebida como um sucesso, ela poderá facilmente ser ridicularizada como Operação Fracasso Épico.

Mas Trump gosta do som visceral e "machosfera" de "Fúria Épica", muito parecido com a Operação Martelo da Meia-Noite, seu ataque aéreo ao Irã no ano passado. Seu governo adotou nomes igualmente carregados de testosterona para operações domésticas, incluindo batidas policiais contra imigrantes na Flórida (Operação Saco de Lixo) e no Maine (Operação Captura do Dia).

Ele destacou a nomenclatura da guerra com o Irã no comício no Kentucky na semana passada como se estivesse lançando sua mais recente campanha de marketing. "Operação Fúria Épica!", proclamou. "É um bom nome?". "Bem", admitiu, "só é bom se você ganhar." Então, em vez de arriscar e esperar, ele simplesmente declarou vitória. "E nós ganhamos. Deixe-me dizer a vocês, nós ganhamos."

Sonhando no Terceiro Reich

Quem nunca teve a maravilhosa sensação de a vida colocar o livro certo em nossas mãos quando estávamos procurando outra coisa? Aconteceu comigo novamente no mês passado em Buenos Aires, quando eu procurava um romance de Clarice Lispector e encontrei “O Terceiro Reich dos Sonhos”, de Charlotte Beradt, um projeto tão surpreendente que a princípio pensei ser pura ficção, realizado por uma jornalista alemã durante os anos de consolidação do nazismo (1933-39).


Naquela Alemanha que deslizava perigosamente rumo ao fascismo (de uma forma não muito diferente da nossa atual, que caminha para um novo totalitarismo), Beradt teve uma intuição: que os sonhos das pessoas comuns continham a chave para a compreensão de sua época. Assim, ele decidiu criar um vasto arquivo de sonhos que funcionasse como uma radiografia de sua era. Ele queria saber até que ponto todas aquelas leis raciais, a vigilância rigorosa, as violações de privacidade e o clima de medo generalizado também haviam invadido o subconsciente das pessoas. O arquivo de sonhos de Beradt era mais do que uma mera curiosidade psíquica; era uma tentativa desesperada de compreender seu tempo, quando as ferramentas para essa compreensão já haviam se tornado obsoletas.

Durante vários dias li o livro de Beradt, profundamente comovido, não só pelo seu valor histórico, mas também pela sua semelhança com muitos dos nossos sentimentos contemporâneos. Pareceu-me que, para além do medo previsível dos abusos do Estado, todos aqueles sonhos de pessoas comuns partilhavam com os meus próprios sonhos uma qualidade muito perturbadora que eu não conseguia descrever, até que, de repente, li um sonho que me atingiu como um soco no estômago. Era o sonho de um empresário de origem judaica. Na vida real, este empresário sentia uma clara aversão a fazer a saudação nazi, mas no seu sonho acontece algo horrível: ele está na sua pequena fábrica quando, de repente, recebe a visita do próprio Goebbels, que o obriga a fazer a saudação nazi para sobreviver. O que se segue é um pesadelo; depois de um enorme esforço para levantar o braço, ele não consegue mais abaixá-lo. O seu braço permanece para sempre preso naquele gesto enganoso.

Ao ler aquele pesadelo, senti uma onda de emoção porque algo semelhante ao medo do empreendedor residia em mim: o medo de fazer, por frivolidade ou por sobrevivência, um gesto enganoso do qual eu não pudesse me recuperar depois. Além disso, pensei que o pior aspecto de viver totalmente imerso em uma estrutura de mentiras em todos os níveis — político, institucional e emocional — como a que caracteriza este mundo pré-totalitário, é precisamente o fato de nos forçar a comunicar por meio de estruturas que nos obrigam a praticar atos enganosos. Não se trata simplesmente de políticos mentirem, por exemplo, mas de mentirem sabendo que seus ouvintes consideram a mentira como certa e até contam com ela; que a mentira não é um acidente ou uma fraqueza, mas uma condição necessária para a compreensão do discurso. É uma mentira estrutural semelhante à das redes sociais quando postamos fotos (embelezadas, editadas ou parcialmente verdadeiras, o que nada mais é do que outra forma de falsidade) para criar a ficção de uma identidade para pessoas que também estão cientes de sua falácia e que fazem o mesmo com suas próprias vidas. O perigo de aceitarmos a inautenticidade de todos os nossos sistemas de comunicação como algo natural não reside tanto na normalização de uma consciência cínica da realidade, mas sim no fato de que, quando quisermos ser sinceros, não conseguiremos mais sê-lo. Não se trata tanto de a falsidade ter usurpado a verdade, mas sim de a falsidade ser agora a nossa verdade. Esse era o sonho do empresário alemão, compreendi de repente, e por isso ele não conseguia desistir dele. E também me lembrei de uma história sobre uma camponesa asturiana que me fascinou certa vez, sobre uma mulher muito simples que, para não magoar a irmã, que tinha saúde frágil, começou a fingir-se de manca desde muito jovem e que, quando a irmã morreu quarenta anos depois, já não conseguia andar normalmente: a sua fingida manca era mais real do que a verdade.

Em sua monumental *Crítica da Razão Cínica *, o filósofo alemão Peter Sloterdijk alertou astutamente que o cinismo estrutural era um sistema de proteção contra a ascensão do totalitarismo, uma forma de dissidência no pensamento. Mas ninguém escapa ileso de gestos inautênticos. Aqueles que fingem indignação que não sentem, que constroem sua identidade fingindo serem mais felizes do que são, que fingem ser vítimas quando não o são, que fingem se ofender com uma piada e forçam o comediante a se desculpar para evitar o cancelamento, que ameaçam provocar uma guerra para que outros a precipitem — esses não estão tentando “esconder” uma verdade com uma mentira, mas sim criar uma nova realidade.

O cinismo, mais do que uma transcendência da realidade por meio da inteligência, é a manifestação da angústia que sentimos por não sermos capazes de aceitar a realidade. Ser cínico não é sinal de inteligência, mas uma demonstração de fraqueza e fragilidade. Descobrimos isso na primeira vez em que fomos encurralados por um valentão na escola, mas às vezes parece que ainda não entendemos completamente.

Agonia lenta: Cuba, de apagão em apagão

Em menos de uma semana, os cubanos estão vivenciando seu segundo apagão total .

Neste sábado, 21 de março, as luzes se apagaram depois das 18h30, e um murmúrio de descontentamento varreu a cidade. Sem eletricidade, o cotidiano se torna mais complicado em um país onde todos parecem ter entrado em modo de sobrevivência.

Assim que a energia acaba, começa a corrida para salvar alimentos refrigerados e armazenar água, enquanto todo o país aguarda o restabelecimento do Sistema Nacional de Energia.

A situação piorou após a queda de Maduro.


Nossas vidas se tornaram ciclos de luz e escuridão. O mau estado das usinas termelétricas e a deterioração da rede de distribuição foram agravados pela ausência quase completa de remessas de combustível para o país por mais de dois meses.

Após a prisão de Nicolás Maduro , o fluxo de petróleo bruto venezuelano foi interrompido, e a situação piorou ainda mais quando Donald Trump assinou uma ordem executiva ameaçando impor tarifas aos países que vendem petróleo para Cuba. Mas o colapso que estamos vivenciando hoje já vinha se gestando há décadas.

A falta de investimento no setor energético resultou em usinas obsoletas, peças de reposição que não chegam e manutenção que é adiada repetidamente.

Durante anos, a vida útil de instalações que já haviam chegado ao fim de sua vida útil foi prolongada, com base na expectativa de que o combustível continuaria a chegar em abundância de Caracas e que a demanda não cresceria na taxa atual. Hoje, essa combinação de desgaste técnico e escassez de recursos finalmente cobrou seu preço.

A indignação está crescendo.

Nos bairros, o apagão nacional parece uma surpresa a princípio, mas depois se torna rotina. As pessoas saem para suas varandas com os celulares em mãos, tentando confirmar se é uma queda de energia local ou um apagão geral. Quando alguém consegue sinal, a notícia se espalha rapidamente: o país inteiro está às escuras novamente. Então, a resignação toma conta. Velas são acesas, lanternas são procuradas, fogueiras improvisadas são feitas e a noite se reorganiza.

Os moradores mais antigos lembram-se dos anos difíceis do Período Especial e dizem que, pelo menos, naquela época havia uma explicação clara. Hoje, a incerteza pesa mais do que a falta de energia. Ninguém sabe quanto tempo o apagão vai durar ou quando virá o próximo. As autoridades anunciam esforços e prometem soluções, mas, na prática, o sistema elétrico continua a operar no limite, sustentado por soluções improvisadas e seus trabalhadores exaustos.

Enquanto isso, a vida doméstica sofre mais um golpe. Sem eletricidade, as bombas d'água param, os comércios fecham, os alimentos estragam e as despesas se multiplicam. Cada apagão deixa uma conta invisível se acumulando nas casas: comida estragada, eletrodomésticos danificados e horas de trabalho perdidas. À noite, os protestos com panelas e frigideiras estão se tornando mais frequentes e a indignação pública está crescendo.

Assim, em meio à escuridão e à espera, o país tateia seu caminho adiante. Nós, cubanos, aprendemos a viver em sintonia com o som de um ventilador ligando novamente ou de uma lâmpada acendendo de repente. Esse breve e frágil momento se tornou o sinal de que algo parecido com a normalidade, mesmo que por apenas algumas horas, retornou.

Com 'Fúria Épica', Trump dá nome a uma guerra e define sua Presidência

Segundo o próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ele foi convidado a escolher pessoalmente o nome da operação militar americana contra o Irã e ficou entediado com todas as opções apresentadas. "Me deram uns 20 nomes, e eu estava quase dormindo", disse ele na semana passada. "Não gostei de nenhum." Então, finalmente, ofereceram-lhe outra opção: Operação Fúria Épica. Isso o despertou. "Gostei desse nome", disse ele a seus apoiadores em um comício no Kentucky. "Gostei desse nome." E assim foi escolhido.

Afinal, Fúria Épica captura a essência da Presidência de Trump. Tudo o que o líder republicano faz, pelo menos na sua perspectiva, é épico — o maior, o mais grandioso, o inédito, "como nunca vimos antes", como ele gosta de dizer. E muito do que ele faz parece ser impulsionado pela fúria, uma inimizade profunda e persistente contra as forças que se opõem a ele ou contra aqueles que ele culpa pelo que considera a decadência do país sob outros presidentes.


Operação Fúria Épica, portanto, é uma escolha tipicamente trumpista para o nome de uma guerra. Para ele, não seria uma Operação Causa Justa (Panamá), Operação Restaurar a Esperança (Somália), Operação Defender a Democracia (Haiti) ou Operação Liberdade Duradoura (Afeganistão). Enquanto outros nomes de operações militares em tempos modernos evocaram valores americanos mais amplos ou sentimentos inspiradores como liberdade e esperança, Trump prefere a fúria.

Esta é, de certa forma, a Presidência da Raiva. A raiva define a década de Trump no cenário político. Raiva de estrangeiros que vêm a este país e mudam sua natureza. Raiva de aliados que se aproveitam dos EUA. Raiva de democratas que o contrariam. Raiva de republicanos que o contrariam. Raiva de nomeados que ele considera insuficientemente leais. Raiva de promotores, agentes do FBI, juízes, jornalistas, escritórios de advocacia, universidades de elite, figuras culturais, líderes corporativos, institutos de pesquisa, banqueiros centrais e do Comitê Norueguês do Nobel.

Seus discursos em comícios, coletivas de imprensa e publicações em redes sociais são permeados de raiva. Na última semana, ele atacou as “pessoas verdadeiramente doentes e dementes” na mídia, os “Democratas da Esquerda Radical”, o governador da Califórnia, um “desastre cognitivo”, um congressista republicano do Kentucky, um “desastre completo e total”, e um professor “desajustado” de Harvard, sem nem mencionar os “canalhas desvairados” no Irã.

Remoendo as recentes derrotas judiciais, ele passou a noite de domingo publicando uma série de discursos desconexos atacando a Suprema Corte "completamente inepta e vergonhosa", o ex-conselheiro especial "desequilibrado", o presidente "absolutamente terrível" do Federal Reserve (o Banco Central americano), o ex-presidente "grosseiramente incompetente" Joe Biden, jornalistas que "deveriam ser processados ​​por traição" e um "juiz maluco, desagradável, corrupto e totalmente fora de controle" que decidiu contra ele.

Ele também despertou muita raiva em outros, uma ira intensa e visceral contra um líder que muitos do outro lado do espectro político desprezam e temem. A palavra mais usada pelos democratas para descrever suas emoções sobre a Presidência de Trump em uma pesquisa de janeiro do New York Times e do Siena College foi "raiva". Os independentes ofereceram a mesma palavra juntamente com "decepção". Trump e seus aliados acusam regularmente os oponentes de sofrerem do que chamam de Síndrome de Transtorno de Trump.

Tudo isso, é claro, intensificou ainda mais uma era de política baseada na fúria ao volante. Trump não inaugurou a polarização que se aprofundou nos Estados Unidos nos últimos anos, mas ele a explorou e a alimentou. Mais do que em qualquer outro momento nos últimos anos, os americanos se enxergam através das lentes da política e das diferenças tribais, liderados por um presidente que incentiva isso em vez de tentar sanar as divisões.

Os americanos estão tão irritados que muitos não querem mais se associar a pessoas que discordam deles. Em 1960, pesquisadores perguntaram aos americanos se eles se incomodariam se seus filhos se casassem com alguém do partido oposto. Apenas cerca de 5% responderam que sim. Em 2024, esse número subiu para 38% entre os republicanos e 45% entre os democratas. Estudos mostram que os americanos estão cada vez mais se reunindo em seus próprios espaços geográficos, midiáticos e online, onde podem se associar a compatriotas que pensam como eles e se revoltar contra aqueles que veem o mundo de maneira diferente.

Trump não é o primeiro presidente com um temperamento explosivo. Até mesmo o afável Dwight Eisenhower era conhecido por ser irritadiço em privado. Os acessos de raiva de Lyndon B. Johnson eram de proporções épicas. Richard Nixon parecia estar sempre à beira de um colapso durante a maior parte de seus quase seis anos no cargo. Bill Clinton, conhecido por sua simpatia em aparições públicas, era famoso entre seus assessores pelo que chamavam de seus "ataques de fúria" contra sua equipe quando as câmeras estavam desligadas. Na privacidade da Ala Oeste, o jeito paternal e afável de Joe Biden podia se transformar em mau humor e irritação.

Mas eles raramente mostravam esse lado em público, se pudessem evitar. A disparidade entre a compostura pública e a irritação privada foi satirizada por Barack Obama no jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca em 2015, quando ele apareceu com Luther, o tradutor da raiva, interpretado por Keegan-Michael Key. Do palco, Obama, um autoproclamado "cara tranquilo", proferia algum comentário tipicamente insosso, e Luther o "traduzia" na diatribe raivosa que o presidente gostaria de poder dizer em voz alta.

Trump, em comparação, não se esquiva de diatribes. Ele abraça a raiva como parte de sua persona. Sua pose favorita para fotógrafos não é um sorriso, mas uma carranca. "Como está a aparência?", ele às vezes pergunta aos assessores após uma sessão de fotos. Toda a sua estratégia durante os 14 anos de reality shows foi celebrar suas eliminações humilhantes ao final de cada episódio, com o grito de "Você está demitido!". De fato, depois de atacar Volodymyr Zelensky, o presidente pressionado de uma Ucrânia pressionada, no Salão Oval no ano passado, Trump observou com satisfação que "isso vai ser ótimo para a televisão".

Demonstrações públicas de raiva também se tornaram padrão para sua equipe. As coletivas de imprensa de Pete Hegseth, apresentador da Fox News que se tornou secretário de Defesa, durante períodos de guerra, transformaram-se em exercícios de combate às "notícias falsas". Jeanine Pirro, outra ex-apresentadora da Fox News que agora atua como procuradora federal, atacou na sexta-feira um repórter cuja pergunta ela não gostou. "Pare com isso!", disparou ela.

A Procuradora-Geral Pam Bondi comparece às audiências no Congresso como se estivesse pronta para um confronto de gladiadores, com direito a pesquisas de opinião sobre os parlamentares e insultos infantis para usar. "Hipócrita", ela repreendeu um. "Advogado fracassado e perdedor", alfinetou outro.

E os funcionários da Casa Branca, usando relatos oficiais do governo, parecem estar numa competição acirrada para ver quem é o mais desagradável a cada dia, repreendendo qualquer um que considerem um adversário: "Incompetente e perdedor". "Errou de novo, idiota". "Uma desculpa triste e patética de ser humano". "Um babaca arrogante". "Um mentiroso e fraudador notório". E isso foi só de um deles, em apenas uma semana.

Para uma operação militar, "Fúria Épica" soa como um videogame, o que pode ser apropriado, já que é assim que a Casa Branca de Trump está promovendo essa guerra. Vídeos online divulgados pelo governo retratam o ataque ao Irã como se fosse o último lançamento de "Call of Duty".
Peter Baker

sexta-feira, 20 de março de 2026

Pensamento do Dia

 

O espelho que nos rouba o rosto

Há algo de profundamente paradoxal na imagem que nos chega da Universidade de Aveiro, Instituição onde me formei em 1993: o Reitor Paulo Ferreira, que muito respeito, e os estudantes erguem a Inteligência Artificial como estandarte da modernidade educativa, como se nela coubesse a salvação do pensamento. Mas pergunto: quando um algoritmo escreve por nós, quem pensa? Quando uma máquina responde às nossas dúvidas antes mesmo de as formularmos, quem aprende? Nas minhas crónicas tenho insistido numa verdade incómoda: a IA não é um prolongamento do espírito humano — é, muitas vezes, a sua quietude antecipada.

Os defensores da integração acrítica da IA nas universidades falam em “ferramenta”, em “personalização do ensino”, em “competências para o futuro”. Soa bem. Soa a moderno. Mas esconde uma traição silenciosa ao ato educativo. Como escrevi em outubro passado, inspirando-me nas reflexões de Hannah Arendt sobre a vita activa, educar não é transferir informação — é cultivar a capacidade de parar, de duvidar, de formular a pergunta certa. E aqui reside o perigo: a IA satisfaz a resposta antes que a pergunta amadureça na alma do estudante. Transforma o laborioso caminho do pensamento — esse território onde nascem a ética e a criatividade — numa auto-estrada lisa, rápida e vazia de significado. O aluno não percorre a estrada; é transportado nela, de olhos vendados.

Lembro as palavras do neurocientista António Damásio, que tantas vezes citei: “As emoções não são ruído no pensamento; são a sua matéria-prima”. Ora, a IA não sente a hesitação diante de um conceito difícil; não experimenta a alegria súbita da compreensão; não carrega a angústia produtiva da dúvida. Quando delegamos na máquina a mediação do saber, roubamos ao estudante a experiência corporal do aprender — essa dimensão sensorial e afetiva sem a qual o conhecimento permanece letra morta. Os estudantes de Aveiro falam em “eficiência”; eu pergunto: eficiência para quê? Para formar técnicos rápidos ou seres pensantes?


E há um segundo engano, mais grave ainda: a crença na neutralidade algorítmica. Nas minhas crónicas de 2025, baseadas nos relatórios do Comité de Ética da União Europeia, demonstrei que os modelos de linguagem são espelhos distorcidos da cultura que os alimenta — reproduzem vieses, hierarquias e silêncios históricos. Quando um estudante confia cegamente na “resposta” da IA para compreender Foucault ou Arendt, não está a dialogar com o pensamento crítico; está a ingerir uma síntese pasteurizada, filtrada por lógicas comerciais e ocidentais. A verdadeira educação exige confronto com a complexidade, não com a sua simplificação algorítmica.

O Reitor fala em “não privar os alunos das competências modernas”. Concordo — mas as competências mais urgentes do século XXI não são saber operar uma interface; são saber resistir à pressão da instantaneidade, cultivar o silêncio interior necessário ao juízo ético, e discernir entre informação e sabedoria. Como escrevi, inspirando-me nos Padres do Deserto: “Quem não aprende a escutar o próprio silêncio, nunca ouvirá a voz do outro.” A IA, na sua voracidade de resposta imediata, ensina-nos a temer o silêncio — e assim mata a escuta, essa arte primeira do encontro humano.

Não sou tecnófobo, antes pelo contrário, fui um dos pioneiros em Portugal na utilização das TIC no Ensino e na Aprendizagem. Sou pensamento-fóbico — fóbico da sua substituição silenciosa. A tecnologia deve servir a pedagogia, nunca substituí-la. Que usemos a IA para traduzir textos, sim; para mapear fontes, sim; para simular cenários, sim. Mas que nunca permitamos que ela ocupe o lugar do Professor que, com os seus silêncios e as suas perguntas incómodas, nos ensina que pensar é um ato de coragem — não de comodidade.

A universidade não existe para formar consumidores eficientes de respostas. Existe para formar seres capazes de habitar a dúvida com dignidade. E nesse território sagrado — onde a pergunta vale mais que a resposta — nenhuma máquina tem lugar. Porque ali, onde o espírito se debate com a sua própria luz e sombra, só o humano pode caminhar. E deve caminhar sozinho.

'1984' versão hoje

Certos livros deveriam ser lidos todo ano. Exemplo: "1984", de George Orwell. Sei de gente que faz isso. Desde sua publicação, em 1949, já vendeu 30 milhões de exemplares –eu próprio comprei vários, inclusive, num leilão, a primeira edição, da Secker & Warburg, de Londres. Pois, seguindo meu próprio conselho, acabo de relê-lo de novo e fiquei ainda mais assustado que da última vez. Com razão –"1984" nunca foi tão atual. Ou Orwell adivinhou tudo ou está sendo seguido à risca.


Vide as teletelas. No livro, elas ficam em todas as paredes, regulando a vida dos cidadãos, e não podem ser desligadas. Hoje estão no nosso bolso ou na palma da mão. São os celulares. Assim como as teletelas, eles nos veem e nos ouvem, queiramos ou não. Já o Grande Irmão é o algoritmo. Sabe tudo sobre nós e nos bombardeia com mensagens dirigidas aos nossos gostos, preferências e, mais que tudo, convicções, permitindo-nos viver numa bolha onde nos sentimos "pertencendo", donde protegidos.

No país de "1984", o culto ao ódio é obrigatório. As pessoas são instadas a pôr para fora a sua raiva contra indivíduos ou instituições sem saber muito bem por quê. Obedecem aos haters das redes sociais, especialistas em destruir a reputação do inimigo da vez –a contaminação é imediata, e o sujeito se vê, de repente, odiando alguém de quem jamais ouvira falar. No livro, não se tem descanso, porque o país está sempre em guerra contra um inimigo a ser odiado. Só que o inimigo de hoje pode se tornar o aliado de amanhã ou vice-versa. Mas o povo reage de acordo, porque acredita em tudo que lhe injetam.

Como a verdade é agora a mentira, alteram-se textos, imagens e biografias para produzir novos "fatos" – as fake news. O povo de "1984" acredita que a Terra é o centro do Universo, em torno da qual giram o Sol e os planetas. Equivale aos que no Brasil a acham plana, telefonam para ETs, rezam para pneus e negam a pandemia.

O país de "1984" é a URSS de Stálin. Os zumbis bolsonaristas não desconfiam, mas viveriam muito bem nele.

Jovens cheios de mofo

Está encostada para trás na cadeira. A grande barriga empinada debaixo do vestido com flores garridas. As mãos sobre o ventre, talvez auscultando os movimentos aquáticos do bebé ou tentando medir os tremores das primeiras contrações do fim da gravidez. Tem uns olhos azuis líquidos que chamam a atenção, longo cabelo dourado caído sobre os ombros e uma boca cor-de-rosa de lábios inchados pela gestação. Ele senta-se, pousando o chá, que ela insiste em saber se é de framboesa, por ter visto na internet que era bom para as contrações. “É de frutos vermelhos”, vai repetindo ele, com um ar um pouco perdido, o bigode fino nervoso por cima dos lábios, as mãos fingindo procurar qualquer coisa nos bolsos da parka verde-escura, antes de se sentar diante dela, sem nenhum sinal de intimidade ou carinho. Os dois tensos, com aquela barriga entre ambos e uma pequena mesa redonda, onde ficaram pousados os chás.

Sem mais conversas de circunstância, como se se tivessem ali sentado para aquele exercício, ele começa a debitar o que, vou percebendo à medida que o oiço, são as melhores qualidades dela. “Tens muito sentido de humor… para rapariga. É uma coisa rara nas raparigas.” Ela acena vagamente com a cabeça, a mão ainda afagando o ventre, enquanto ele discorre sobre como ela tem aquela característica que ele acha que falta às mulheres em geral. “És muito boa mãe. Consegues sempre acalmá-la. Não é porque tens muita paciência. Às vezes, também gritas.” Ela encolhe os ombros e lança-se para a frente. “A minha paciência tem limites”, exaspera-se. “Sim, mas tu és melhor a lidar com ela, porque é como se soubesses sempre aquilo de que ela precisa. Tens instinto”, conclui, antes de rematar com a qualidade que deixou para o fim. “Cuidas de ti. Há mulheres que se desleixam depois de serem mães, tu não.”

Fico em suspenso. Estou sentada demasiado perto da mesa deles. É-me impossível não ser testemunha deste momento, que talvez tenha acontecido depois de uma consulta de terapia de casal ou talvez seja, tal como o chá de framboesas, o resultado de uma pesquisa na internet que aconselhou este exercício. Estou sentada ao lado dele, quase como se partilhássemos a mesa os três. Tenho-a à minha frente. E olho-a à espera que ela perceba o mesmo que eu.

Enquanto o ouvia falar, foi-me completamente evidente o desprezo dele pelas mulheres, em geral, e a total ausência de encantamento com aquela que tinha à frente, em particular. Era como se cada elogio que lhe veio à cabeça só o fosse na medida em que a distinguia dessa entidade coletiva una que ele acredita serem “as mulheres” ou “as raparigas”. As suas qualidades resumiam-se ao que a tornava menos próxima do que ele acha serem as mulheres em geral, com exceção apenas para aquele instinto “maternal”, que ele deve achar que vem no pacote biológico. E nesse desenho, feito em negativo, não havia uma única singularidade, uma exaltação, um espanto. Ela era uma sombra recortada de uma amálgama de mulheres. Boa apenas por ser diferente das outras. Não por ser única. Mas por não ser mais uma.

Fiquei à espera que o esgar que as ligeiras contrações lhe provocavam se transformasse numa expressão de revolta ou enjoo, que lhe atirasse para cima a pequena mesa redonda e saísse carregando com as mãos a pesada barriga dentro do vestido de veludo preto e flores garridas. Mas ela ficou, quase impávida. Talvez colada à cadeira pelo peso daquele ventre, debitou sem emoção qualidades do parceiro, que repetiam mais ou menos o que ele tinha dito, sem a comparação com os outros espécimes do género masculino. “Tens sentido de humor. És bom pai”, dizia, sem expressão, enquanto eu me levantava de olhos baixos, envergonhada por ser testemunha daquela desistência, sabendo que são tantos os momentos em que desistimos e que eles não nos definem, mas devem ser mantidos secretos e, se possível, sem testemunhas que os julguem.

Saí dali com um nó no estômago e a remoer naquilo que tinha ouvido. Aqueles dois jovens na casa dos 30, com um ar cosmopolita, a beber chá num café de um bairro de classe média alta de Lisboa, no século XXI, estavam cheios de mofo. Onde estava o arejamento que o passado nos prometeu? Mesmo seguindo dicas de autoajuda pós-modernas, são só uma repetição de uma cena antiga: homem e mulher reproduzem-se em conjunto e desistem do amor. Mas talvez eu esteja enganada e o amor seja uma coisa antiga, inventada para as fotonovelas que encontrei na casa do meu bisavô quando era criança e me davam vontade de rir. Sim, aquele lado mecânico e desistente da conversa tinha-me incomodado. Mas o pior não era isso. O pior era ver aquele rapaz a fazer enunciados sobre as mulheres. No fundo, era isso que me tinha feito mossa. Senti-me traída na ideia de que num futuro qualquer essas ideias gastas sobre o que é ou não feminino fossem só uma caricatura ou, na pior das hipóteses, usadas para teses gerais, nunca para definir a parceira.

Mais uma vez, a realidade mostrou-me que as estatísticas estão certas, contra todas as minhas esperanças. Um estudo do Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, com mais de 23 mil inquiridos em 29 países, revelou que um terço dos homens nascidos entre 1997 e 2012 acredita que as mulheres devem obedecer ao marido, 33% acham que o marido deve ter a palavra final em decisões importantes, quase um quarto acredita que as mulheres não devem parecer independentes e 21% defende que elas não devem tomar a iniciativa sexual. Curiosamente, todas as notícias que encontrei sobre o tema usavam o adjetivo “conservadora” para descrever esta Geração Z. A mim parece-me que “machista” seria muito mais adequado.

Estas visões sobre o papel dos géneros são o reflexo de ideias antigas, sim, mas acima de tudo patriarcais. Elas têm um intuito político e tentam recuperar uma ideia de “guerra dos sexos” que devia estar completamente ultrapassada. A crescer numa sociedade em crise permanente, esmagados pela crescente desigualdade e por uma ausência de horizonte de esperança, os jovens rapazes são iludidos com a ideia de que estão a perder terreno para as mulheres. Vivem precários e sem esperança? A culpa é delas, que passam de seres humanos em pé de igualdade para objetos de consumo para validação pessoal ou inimigas simbólicas, culpadas de todos os males.

No Brasil, a Polícia Federal anunciou, esta semana, a abertura de inquéritos aos autores dos vídeos Treinando caso ela diga não, que basicamente mostram homens ajoelhados com um anel na mão, que começam aos murros e aos pontapés, para treinar a reação violenta à rejeição. O ódio que é semeado, vídeo atrás de vídeo misógino, pelo algoritmo da indignação, garante que ficam suficientemente adormecidos para não se aperceberem de como são explorados e oprimidos por um sistema controlado por um punhado de multimilionários.

Esses machos alfa, inchados de testosterona e creatina, gastam assim contra as mulheres a revolta que devia fazê-los questionar a sua condição, levando-as também a encolher-se e a desaparecer como agentes políticas. Todos domesticados por um sistema que oculta a desigualdade e a injustiça, entretendo-nos com o ódio. Até quando vamos deixar-nos manipular desta forma?

Margarida Davim

Os meninos do Brasil

Primeiro, foi o "arrastão" nas praias do Rio. Logo depois, nas praias de Fortaleza. Um pouco mais adiante, na festa do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Desceu, em seguida, para a praça da Sé em São Paulo. Chegou ontem a Londrina, no norte do Paraná, cidade em que uma dúzia de lojas foi "arrastada" por bandos de menores movidos a cola de sapateiro.

Vê-se que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.

É evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo ponto corriqueiro.

O problema é que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra no país.


O Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda, tornou-se selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica. Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados. Da marginalização à marginalidade e dela à brutalidade, a distância costuma ser curta.

Consequência inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.

Seria altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos, desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do Brasil.

Clóvis Rossi, Folha de S. Paulo, 30/10/92

Os desafios da direita democrática

Celso Rocha de Barros, do podcast Foro de Teresina e colunista da Folha de S. Paulo, é um dos melhores analistas políticos brasileiros. Ele vem puxando, nas últimas semanas, um debate muito importante. Em sua opinião, não apareceu uma alternativa à família Bolsonaro pelo flanco direito por responsabilidade da própria direita. Para ele, quando seus principais líderes não condenam com clareza o golpismo do ex-presidente Jair Bolsonaro, não surge alternativa.

Houve resistência. O ex-governador paulista João Doria se bateu de peito aberto contra o ex-presidente. Alguns deputados federais, também. O MBL ensaiou participar de um pedido de impeachment. Agora está distante e muita gente não lembra, mas o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), foi para a rua defender o distanciamento social no princípio da pandemia. Todos os que enfrentaram Bolsonaro sofreram derrotas eleitorais acachapantes. Ou recuaram. Todos sabem que Bolsonaro não é um bom confrade político. É desleal, trai sem dó, não cumpre acordos. Não bastasse, é um paranoico que vê conspirações por toda parte. Todo mundo compreende que Bolsonaro só confia na própria família. Golpista é só um dos adjetivos que cabem a Bolsonaro.


Há uma miragem nas pesquisas. A base dura do bolsonarismo circula entre 13% (Quaest) e 12% (Ideia), mas, quando alguém com o sobrenome Bolsonaro se põe em campanha, já surge com pelo menos 20% das intenções de voto. É instantâneo. Isso pode ser medido pelas pesquisas espontâneas, quando não são oferecidas opções para os entrevistados. De bate-pronto o entrevistado já logo saca, quero votar neste. Um quinto dos brasileiros já tem o nome Bolsonaro na ponta da língua e responde assim, na lata. Desde 2006, Lula tem 30% de base.

Os números de Lula são sólidos há 20 anos. Não mudarão. Não sabemos o que se dá entre os 12%-13% da base sólida pelas pesquisas e os 20% da espontânea de seu adversário. Essa base, Bolsonaro não teve por boa parte da campanha de 2018, mas já estava lá em 2022 e permanece desde então. Foi toda transferida, agora, para seu filho Flávio.

A provocação de Celso é boa, mas depende da compreensão de como se dá a política. A sociedade dá o tom, e os políticos reagem? Ou os políticos dão o tom, e a sociedade se adéqua? É um debate antigo e que não se resolve apenas na dicotomia. As duas coisas acontecem. Grandes líderes são capazes de convencer a sociedade a ir com eles, mas na maioria das vezes o caminho é o contrário. Políticos sentem o clima e constroem o discurso para que reverbere no sentimento popular já presente. O trabalho de marqueteiros políticos costuma ser justamente este: convencer o eleitor de que seus anseios existentes serão atendidos pelo candidato A ou B.

Se o problema for uma base sólida de 20% da sociedade que é bolsonarista, não há o que qualquer político de direita consiga fazer. Porque dificilmente outro candidato ultrapassará essa marca. E a coisa complica. Segundo a pesquisa Meio/Ideia, que coordeno com o economista Maurício Moura, 54% dos brasileiros não acreditam que Bolsonaro tentou um golpe de Estado em 2022. Acham que ele foi injustiçado. Mais de metade dos brasileiros.

É por isso que os governadores do Paraná, Ratinho Junior (PSD), de Minas, Romeu Zema (Novo), e o próprio Caiado hoje fazem um discurso ambíguo sobre o golpe e defendem anistia. O único que acusa o golpe com clareza é o gaúcho Eduardo Leite (PSD). O cálculo do trio pró-anistia é eleitoral, não tem nada a ver com convicções pessoais. Eles olham as pesquisas, sabem que do eleitorado à esquerda não tirarão votos e concluem que, para ter chance de vitória, precisam dizer essas coisas. Que não está claro se houve tentativa de golpe. Houve. Só que mais de metade do Brasil não entende assim.

Por quê? Nesses 54% tem muita coisa. Por exemplo, antipetismo. Na polarização afetiva, se você está de um lado, já se posiciona com uma coleção de bandeiras contra o outro sem pensar. Há, também, a frustração com o Supremo Tribunal Federal (STF) no caso Master. O autoritarismo e o corporativismo da Corte estão destroçando a imagem do STF para um pedaço do Brasil que se amplia, e isso contamina a percepção a respeito do julgamento do golpe. A defesa do Supremo pela militância de esquerda e o ataque a jornalistas colaboram mais para a sensação de que autoritário é o outro lado. E tem o tempo. Muitos esqueceram o inferno que foi viver aquele governo. Pois é. E se o problema não forem os políticos de direita? E se o problema estiver na sociedade?

O nacionalismo trumpista e a colonização do espaço doméstico dos EUA

Pode parecer contraditório descrever o processo de controle migratório de um Estado com território historicamente consolidado como uma dinâmica de construção nacional, ou mesmo de colonização interna. Todavia, a hipótese que quero avançar neste texto é exatamente esta: o que observamos contemporaneamente nos EUA, sobretudo a partir da atuação do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (United States Immigration and Customs Enforcement – ICE) no segundo governo de Donald Trump, configura um projeto de redefinição da nação estadunidense.

Tradicionalmente, a política de imigração dos EUA é analisada sob a ótica da gestão de fronteiras, da regulação do mercado de trabalho ou da segurança nacional –perspectivas que podem ser consideradas normais para a maioria dos Estados contemporâneos. No entanto, o movimento de controle migratório desencadeado na segunda gestão de Trump representa uma mudança significativa neste panorama: não é apenas um processo de endurecimento do controle das fronteiras ou da administração de imigrantes que já se encontram no país, mas, efetivamente, uma tentativa deliberada de redefinir a própria composição étnico-racial da nação estadunidense.

As políticas migratórias do trumpismo representam um deslocamento sísmico de um nacionalismo cívico, tradicionalmente observado nos EUA (ao menos em termos formais), para um nacionalismo étnico e agressivo. Mais do que proteger as fronteiras nacionais, este projeto político opera por meio de uma lógica de colonização interna: um esforço do governo para reconfigurar o espaço doméstico, purificando-o de elementos considerados exógenos à nação dos EUA e buscando homogeneizar aquela sociedade. Para além da orientação para o espaço doméstico, esta obsessão pela reconstrução de uma nação etnicamente pura projeta-se para o internacional, reconfigurando também a política externa dos EUA, que passa a apresentar, de forma mais explícita, uma postura internacional de hostilidade e isolacionismo beligerante.

Para compreender a magnitude desta mudança, é necessário revisitar o consenso do pós-Segunda Guerra Mundial sobre a identidade nacional estadunidense. Durante décadas, os EUA projetaram-se como uma nação proposicional, fundamentada em um nacionalismo cívico. Nesta concepção, ser estadunidense não dependia de sangue, raça ou religião, mas sim da adesão, do compartilhamento e da participação a um credo político comum: a Constituição, a democracia e o Estado de Direito, ou seja, as instituições fundadas no pós-independência (1776) e estabelecidas no pós-Guerra Civil (1861-1865). O Caldeirão Cultural estadunidense (Melting Pot), que preconizava a construção daquela nação a partir da fusão voluntária de pessoas de diferentes origens e tradições culturais, embora falho na prática e permanentemente desafiado por grupos supremacistas de extrema direita, era o ideal normativo que pautava a organização institucional da sociedade dos EUA.

O trumpismo rompe com essa tradição ao introduzir, com vigor renovado, um nacionalismo étnico como princípio central da identidade nacional dos EUA. Nesta visão, a nação não é um projeto político aberto à adesão voluntária, mas uma entidade cultural e demográfica fixa, enraizada em uma herança étnica específica (branca e europeia) que precisa ser protegida contra a diluição e a poluição (ou seja, a assimilação de minorias culturais e a miscigenação com outros grupos étnico-raciais).

A retórica da invasão é uma peça central para a compreensão desta proposta. Quando lideranças políticas enquadram a migração como uma invasão, alteram fundamentalmente a natureza do debate. O imigrante deixa de ser um potencial cidadão ou um ator econômico para se tornar um invasor. Esta linguagem beligerante legitima medidas de exceção. Se o país está sendo invadido, então a resposta não é o processo legal administrativo, mas a defesa territorial militar. Assim, a presença do imigrante, documentado ou não, é reconfigurada como uma ameaça existencial à soberania popular, pavimentando o caminho para que o governo atue não apenas contra estrangeiros presentes em seu território, mas também, como observado nos últimos meses, contra cidadãos que não se encaixam nos critérios de pertencimento nacional agora então redefinidos a partir da chave étnico-racial.

A manifestação prática deste processo pode ser compreendida como uma colonização do espaço doméstico e descreve a inversão da lógica estatal: o governo deixa de proteger os habitantes do seu território para tratar o próprio interior do país como uma fronteira hostil a ser domada. Sob a lógica trumpista, a fronteira deixa de ser uma linha estática demarcada geograficamente e passa a ser móvel, seguindo as redefinições étnico-raciais do governo sobre a população presente no território. Ela se move para o interior, reconfigurando o espaço público por meio de quatro mecanismos principais: o emprego de tecnologia digital para o rastreamento de pessoas e grupos, o estabelecimento de um complexo de centros de detenção, a consolidação de uma força policial para a ocupação e o controle do espaço doméstico e a instauração de uma política do medo.

A primeira ferramenta desta colonização é tecnológica. A construção do muro, tão anunciada durante a campanha eleitoral de 2016, não é apenas física, mas agora também é digital. Por meio da expansão massiva de tecnologias de vigilância, como o reconhecimento facial, a coleta de dados biométricos e o monitoramento de redes sociais, o governo cria um panóptico digital voltado às comunidades imigrantes e às minorias étnico-raciais. O uso de tornozeleiras eletrônicas e de aplicativos de rastreamento para imigrantes em processo judicial transforma o próprio corpo do indivíduo na fronteira. Onde quer que o imigrante vá, a fronteira o acompanha. Esta vigilância de dados permite ao governo exercer controle sem a necessidade de encarceramento físico imediato, criando uma prisão a céu aberto em que a liberdade de movimento é ilusória.

Paralelamente à vigilância, ocorre uma expansão física da infraestrutura de detenção, que funciona como enxertos coloniais na metrópole. O sistema de detenção de imigrantes nos EUA (frequentemente gerido por empresas privadas com fins lucrativos) tende a ser localizado em áreas rurais e remotas. Esta geografia isola os detidos do acesso a advogados, à visibilidade da mídia e às redes de apoio comunitário. Tais centros constituem espaços no território nacional em que os direitos constitucionais são suspensos. Ao segregar fisicamente milhares de pessoas, o governo realiza uma higienização étnico-racial do espaço social, tratando seres humanos como excedentes indesejáveis a serem armazenados antes da expulsão.

A colonização do espaço doméstico exige uma força de ocupação. Isto é alcançado por meio da fusão entre o direito penal e o direito migratório, um fenômeno conhecido como crimigração. Programas como o 287(g), que conferem a policiais locais capacidades de agentes de imigração, dissolvem a distinção entre a polícia civil e a polícia de imigração. Quando a polícia local atua como braço do ICE, qualquer infração de trânsito pode se tornar um gatilho para a deportação. Isso militariza a sociedade civil: escolas, igrejas e hospitais, tradicionalmente zonas de segurança, tornam-se locais de risco.

Por fim, a colonização interna também articula uma dimensão emocional. A ameaça constante de revogação de status legais (como o ataque ao Dream Act e a retórica contra a cidadania por nascimento) serve para produzir novas ilegalidades, convenientes ao processo de homogeneização nacional. O governo remove ativamente o tapete jurídico que protege residentes legais, transformando vizinhos em invasores por decreto administrativo. Este mecanismo aposta na criação de um ambiente doméstico hostil. O medo torna-se uma ferramenta de governança, maximizando ameaças (frequentemente imaginárias) para fins políticos pouco democráticos.

Subjacente a estas iniciativas de reengenharia da sociedade dos EUA está a lógica da Grande Substituição (Great Replacement), uma teoria conspiratória de movimentos supremacistas brancos de que elites globais estão orquestrando a substituição da população branca e cristã dos países do Norte por imigrantes do Sul Global. Embora nem sempre explicitada, essa teoria orienta a rejeição ao multiculturalismo. O veto a viajantes de países muçulmanos (Muslim Ban) e a preferência declarada por imigrantes de países como a Noruega, em detrimento de “países de merda” (a forma como Trump escolheu se referir ao Haiti e ao El Salvador em declaração proferida em janeiro de 2018), revelam um desejo de engenharia social racializada.

Ao tentar purgar a coletividade de indivíduos e grupos considerados não assimiláveis, o projeto trumpista busca criar uma sociedade em que estadunidense seja sinônimo de um perfil cultural e linguístico específico: branco, cristão, de origem europeia. É uma rejeição frontal ao pluralismo democrático em favor de uma identidade homogênea, forçada pela coerção estatal.

Ainda que a tendência geral seja a de analisar os processos supracitados como uma dimensão puramente interna da política dos EUA, é relevante destacar que, historicamente, observa-se uma correlação entre a forma como uma nação trata os seus residentes internos, estrangeiros ou minorias étnico-raciais, e sua postura no sistema internacional. A lógica de colonização interna e de homogeneização nacional não para na fronteira; ela transborda, gerando uma política externa agressiva e paranoica.

Se a premissa deste processo de colonização interna é que o país está sob cerco de forças estrangeiras que já penetraram o território, a atitude internacional decorrente de tal premissa é de profunda desconfiança. O mundo exterior deixa de ser um espaço de potenciais parcerias mutuamente benéficas para se tornar uma fonte de contaminação e de ameaça. O multilateralismo é substituído por uma visão de soma-zero: para os EUA ganharem, os outros devem perder. Esta mentalidade justifica o abandono de tratados internacionais, o desprezo por organizações como a ONU e a OTAN, e uma abordagem transacional nas relações exteriores. A agressividade interna necessária para deportar milhões requer uma desumanização que, quando projetada externamente, resulta em uma política internacional insensível às crises humanitárias e desdenhosa dos direitos humanos. O nacionalismo de homogeneização étnico-racial parece criar um Estado que se vê como vítima do mundo, justificando, paradoxalmente, que atue como agressor no sistema internacional.

Em suma, as políticas de imigração da era Trump não devem ser vistas como um fenômeno isolado de gestão pública, ou como uma distração para outras questões, mas sim como a ponta de lança de um projeto de reengenharia social de alcance nacional e projeção internacional. Ao transitar formalmente do nacionalismo cívico para o étnico, o atual governo estadunidense adota uma postura de colonização interna, tratando o próprio território do país como um campo de batalha em que a homogeneidade deve ser imposta à força por meio da tecnologia, do encarceramento e da militarização da sociedade civil. Este processo tem custos devastadores. Internamente, corrói o tecido social e os direitos civis, criando uma casta de subcidadãos e normalizando a violência estatal. Externamente, transforma os EUA em uma nação entrincheirada, cuja insegurança identitária se manifesta em agressividade geopolítica, um processo com potencial para reconfigurar as relações internacionais contemporâneas.
Tatiana Vargas-Maia

O jornalismo serve para afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos

Este é um dos mitos cultivados há mais de século: jornalista é imparcial. Ou tem obrigação de ser.

Ninguém é imparcial. Porque você é obrigado a fazer escolhas a todo momento – e, ao fazer toma partido.

Quando destaco mais uma notícia do que outra, faço uma escolha. Tomo partido.

Quando opino a respeito de qualquer coisa, tomo partido.

Cobre-se do jornalista honestidade.

Não posso inventar nada. Não posso mentir. Não posso manipular fatos.

Mas posso errar – como qualquer um pode. E quando erro devo admitir o erro e me desculpar por ele.

Cobre-se do jornalista independência.

Não posso omitir informações ou subvertê-las para servir aos meus interesses ou a interesses alheios.

Se me limito a dar uma notícia, devo ser objetivo. Cabe aos leitores tirarem suas próprias conclusões.

Se comento uma notícia ou analiso um fato, ofereço minhas próprias conclusões. Cabe aos leitores refletir a respeito, concordar, divergir ou se manter indiferente.

Jornalista é um incômodo. E é assim que deve ser. Se não for, jornalista não é.

O jornalismo serve para afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Pensamento do Dia


 

Quando a guerra fala e o clima cala

A narrativa de guerra não é apenas uma disputa de versões. É uma tecnologia de governo. Serve para mudar o foco, acelerar decisões e reduzir o custo político do que, em tempos normais, seria inaceitável. Quando a moldura é a de ameaça existencial, quase tudo o resto passa para segundo plano. É nesse desvio que o petróleo ganha força e a transição energética perde adesão.

O mecanismo é simples e recorrente. Começa pelas palavras. Nuclear, terror, sobrevivência, preventivo, cirúrgico. Não são descrições neutras. Funcionam como selos morais. Encolhem o espaço da discordância e empurram o debate para um corredor estreito, onde apoiar vira dever e duvidar soa a fraqueza. O público é conduzido à ideia de inevitabilidade e, quando a guerra parece inevitável, o fóssil reaparece como destino.

Quando o conflito entra neste modo, a energia deixa de ser um tema económico e passa a ser tratada como questão de segurança. A linguagem muda e a política muda com ela. A transição energética, que exige prazo, investimento e estabilidade, perde terreno para a lógica da urgência. O petróleo entra como nervo do sistema, não apenas como combustível, mas como fluxo de navios, de seguros, de crédito e de inflação. Basta uma ameaça credível no estreito de Ormuz, mesmo sem fecho formal, para o risco virar prémio e o prémio virar alta.


O bolso sente antes do relatório. E quando a conta aperta, a exigência ética tende a baixar. A pergunta pública muda de eixo. Deixa de ser se é justo e passa a ser quanto vai custar. A indignação perde prioridade porque o custo de vida ocupa o centro do debate. A guerra deixa de ser avaliada por princípios e passa a ser medida pelo impacto no supermercado.

Trump entende esta lógica como poucos presidentes. Não trata as redes sociais como canal, mas como arma. Usa repetição, ritmo e imagem para produzir disciplina emocional. Frases curtas, promessa fácil, um inimigo total e uma missão moral. Sabe que, na primeira janela do ciclo noticioso, não vence quem prova, vence quem fixa a moldura. Isso não é acaso, é método.

O efeito climático é direto e raramente dito com clareza. A guerra faz o fóssil reaparecer como solução provisória, uma provisoriedade que se alonga e vira infraestrutura. Cada choque incentiva contratos longos, novas perfurações e investimento em ativos fósseis. O resultado é o adiamento da transição energética e a dificuldade crescente de reduzir emissões rapidamente, porque a economia passa a depender de estruturas desenhadas para durar décadas. E o peso dos fósseis no clima é decisivo. Segundo a ONU, o dióxido de carbono proveniente dos combustíveis fósseis e dos processos industriais representa cerca de dois terços das emissões globais de gases com efeito de estufa.

No fundo, nada disto é apenas sobre mísseis. É sobre comando. A narrativa de guerra serve para legitimar a intervenção e organizar o campo político antes de a poeira assentar. Washington e Telavive falam de prevenção e de ameaça nuclear para encurtar o debate e alargar a margem de manobra. Por trás dessa moldura está o velho mapa do poder no Médio Oriente, onde quem lidera controla alianças, bases, rotas e o preço da energia. O Irão é a pedra no sapato porque não cabe nesse desenho. Resiste, arma redes, negoceia com Moscovo e Pequim e mantém capacidade de perturbar o ponto mais sensível do sistema: o petróleo.

É por isso que o barril aparece sempre, mesmo quando ninguém o nomeia. O petróleo regressa como linguagem de segurança, como medo de interrupção, como prémio de risco e como inflação. A guerra passa a ser discutida como fatura e não como escolha. Quem está no terreno paga primeiro em vidas e destruição. Quem está longe paga no bolso, na instabilidade e na normalização do curto prazo.

O clima paga de outra forma. Cada escalada empurra a crise climática para fora do enquadramento e devolve ao fóssil o estatuto de inevitável. A transição, que precisa de continuidade, investimento e atenção pública, é adiada em nome da urgência. E esse adiamento não é neutro. Quando uma guerra recentra o mundo no barril, reforça a dependência que acelera o aquecimento global.

No fim, a ligação é simples e raramente assumida com clareza. A narrativa abre caminho para a guerra, a guerra reabilita o petróleo, o petróleo adia a transição energética e o adiamento aumenta o risco climático que já está a cair sobre todos. O resultado é um século em que se morre no terreno e se perde no planeta. O clima não aceita adiamentos. Cobra sempre. E cobra com juros.