segunda-feira, 2 de março de 2026
Ouçam só o que vos digo
Não confiem nos vossos olhos. A mulher que veem a sorrir para o polícia que a mata está a ameaçá-lo. O homem baleado no chão várias vezes depois de ter sido desarmado era um perigo. Toda a gente sabe que quem não deve não teme. Se os agentes os mataram, a culpa foi deles. Não confiem em quem vos manipula. Duvidem de tudo. Duvidem sempre. Só não duvidem do que vos diz aquele que é a voz do povo.
A voz do povo só tem um intérprete. Um escolhido. Um eleito. Eleito por Deus, primeiro, e pelos vossos votos depois. A ordem é esta. Nunca se esqueçam da ordem. A ordem é uma coisa muito importante. Sem ordem é tudo uma bandalheira. Mas calma. Há coisas que se podem proibir e outras que não. Porque, senão, qualquer dia já não se pode dizer nada. Quem sabe o que se pode dizer e o que não se deve sequer pensar? O eleito, claro. Devemos sempre confiar em quem é eleito, mas nem sempre nas eleições. As eleições são a expressão da voz do povo quando o eleito as conquista, mas não valem nada e são manipuladas quando o eleito as perde. Porque o que conta é ser escolhido por Deus. E por isso é que ele é eleito.
Não confiem nos vossos ouvidos. Se ouviram dizer uma coisa e depois outra, é porque entretanto as coisas mudaram ou uma voz divina guiou o eleito noutra direção. A voz divina é a voz do povo. Por isso, o povo já não precisa de falar. Tem os seus ventríloquos. E pode trabalhar e meter-se na sua vida. Porque a política é uma coisa suja, a não ser que seja feita pelo eleito, claro. Nesse caso, nem se lhe pode bem chamar política. É só fazer o que está certo.
Às vezes, o que está certo causa vítimas. Há uns bandidos que morrem ou uns preguiçosos que perdem o trabalho ou a casa. Isso não muda nada. Toda a gente sabe que Deus escreve direito por linhas tortas. E as linhas do Excel podem ser muito tortas, mesmo que pareçam uma quadrícula perfeita. Se as contas batem certo, que se lixem as pessoas. Toda a gente sabe que só não prospera quem não trabalha, só morre à fome quem se pôs a jeito, só definha por falta de cuidados quem não merece viver. É a seleção natural. A ordem natural das coisas. E a ordem é muito importante.
Não confiem nos vossos instintos. O vizinho de turbante que vos parece simpático e pacífico está a enganar-vos. O cigano que trabalha é uma exceção. O imigrante que foi ajudar nos incêndios ou nas cheias é uma criação de Inteligência Artificial. Tudo falso. Falso como todas as mentiras a que chamam notícias e factos e estatísticas. O que é que valem as estatísticas quando se conhece um caso que as desmonta? O que é que vale a ciência, feita por um bando de vendidos? O que é que interessa que tenha sido o progresso científico a aumentar a esperança de vida? Balelas. Toda a gente tem uma avó que viveu rija que nem um pero até aos 100 sem precisar de nada disso.
E o que é que interessam as crianças que agonizam em Gaza? E as do Sudão? E as da Ucrânia? Há tantos lugares onde as crianças agonizam. Quantos mais houver, menos se liga a cada um deles. E assim é que está bem. Temos de cuidar dos nossos primeiro. Os nossos, sim, os nossos. Os nossos que são tão brancos como nós, apesar de haver uns mais brancos do que nós que nos acham escuros e inferiores, mas isso não vem ao caso.
É preciso salvar as crianças. Não as que morrem da guerra e da fome. As que tomam vacinas e as que vão à escola para serem endoutrinadas. Qualquer dia estão todas a ir às mesmas casas de banho. E já se sabe que é assim que se dá a pedofilia. Sim, em casa usam todas as mesmas casas de banho e os jornais estão cheios de notícias de pais, tios e avôs abusadores. E às vezes até um ou outro eleito. Mas isso são coisas que escrevem para nos distrair dos perigos verdadeiros. Tudo jornalixo feito por vendidos do sistema.
Temos de deitar abaixo o sistema. E é por isso que contamos com o apoio dos mais ricos dos mais ricos, que entretanto garantem que ficam ainda mais ricos. É claro que eles estão também contra o sistema. Sim, eles têm dinheiro e poder quase infinito. Mas estão contra os que andam a mamar. Sim, eles acumulam milhões em contratos públicos, subsídios e benefícios fiscais, mas é porque merecem. Só são ricos porque se esforçaram. Podem ter herdado, mas não esbanjaram tudo como aqueles que recebem apoios sociais e passam a tarde a beber minis no café. Podem ser pouco mais de 200 euros, mas é um roubo. Roubam-nos a nós que nos esfalfamos a trabalhar para pagar impostos. Sim, os mais ricos não pagam impostos quase nenhuns, mas é porque são espertos.
É preciso é ser esperto. Somos contra os tachos. Mas se um dos eleitos é apanhado a roubar ou nomear a namorada, a tia e a sobrinha é porque os outros também o fazem. Eles são todos iguais. Escolhemos os eleitos porque estamos fartos de que sejam iguais. Mas aceitamos que sejam iguais, porque essa é a ordem natural das coisas. Já vos disse que a ordem é muito importante?
A ordem é a base de tudo. Mas primeiro é preciso criar a desordem. É preciso que não se saiba no que acreditar, que tudo pareça precário, incerto e inseguro. As ovelhas com medo são as que mais facilmente seguem o pastor. E é tudo pelo nosso bem. Já vos disse que o eleito foi escolhido por Deus.
Deus, Pátria e Família. Deus, porque é preciso haver quem mande. E a quem temer. Sem medo, isto é tudo uma bandalheira. Pátria, porque é preciso fingir que há uma coisa maior que une os mais poderosos dos poderosos aos miseráveis que os seguem alegremente. É preciso ter inimigos e as fronteiras são boas para isso. Há os de cá e os de lá. O que é que interessa que haja uns poucos no topo e milhões espezinhados na base? E a família, claro. Porque é a família que tem de nos cuidar quando precisamos. Não há cá direitos garantidos. Querem ajuda? Peçam à família. E na família manda o pai, claro, ele próprio um eleito à sua pequena escala, com livre passe para descarregar na mulher e nos filhos a frustração acumulada, que isto um homem não é de ferro. E se tudo continua mal, ao menos há futebol e pimba, que já ninguém liga ao fado e Fátima é coisa para mulheres se entreterem e perceberem o seu lugar.
Toda a gente tem um lugar. Há os que são de cá e os que são de fora. Há os que estão em cima e os que estão em baixo. O quê? Isso parece o sistema? Que conversa de comunas! Caladinhos. Vão ver como as coisas lhes mordem quando houver uma limpeza. Acabam-se os disparates, que a conversa do “isto agora não se pode dizer nada” é só quando nos convém. Perdão. Quando convém à ordem. Somos contra o sistema, mas queremos manter tudo como estava desde os tempos do Adão e da Eva. Já vos disse que a ordem é muito importante?
A voz do povo só tem um intérprete. Um escolhido. Um eleito. Eleito por Deus, primeiro, e pelos vossos votos depois. A ordem é esta. Nunca se esqueçam da ordem. A ordem é uma coisa muito importante. Sem ordem é tudo uma bandalheira. Mas calma. Há coisas que se podem proibir e outras que não. Porque, senão, qualquer dia já não se pode dizer nada. Quem sabe o que se pode dizer e o que não se deve sequer pensar? O eleito, claro. Devemos sempre confiar em quem é eleito, mas nem sempre nas eleições. As eleições são a expressão da voz do povo quando o eleito as conquista, mas não valem nada e são manipuladas quando o eleito as perde. Porque o que conta é ser escolhido por Deus. E por isso é que ele é eleito.
Não confiem nos vossos ouvidos. Se ouviram dizer uma coisa e depois outra, é porque entretanto as coisas mudaram ou uma voz divina guiou o eleito noutra direção. A voz divina é a voz do povo. Por isso, o povo já não precisa de falar. Tem os seus ventríloquos. E pode trabalhar e meter-se na sua vida. Porque a política é uma coisa suja, a não ser que seja feita pelo eleito, claro. Nesse caso, nem se lhe pode bem chamar política. É só fazer o que está certo.
Às vezes, o que está certo causa vítimas. Há uns bandidos que morrem ou uns preguiçosos que perdem o trabalho ou a casa. Isso não muda nada. Toda a gente sabe que Deus escreve direito por linhas tortas. E as linhas do Excel podem ser muito tortas, mesmo que pareçam uma quadrícula perfeita. Se as contas batem certo, que se lixem as pessoas. Toda a gente sabe que só não prospera quem não trabalha, só morre à fome quem se pôs a jeito, só definha por falta de cuidados quem não merece viver. É a seleção natural. A ordem natural das coisas. E a ordem é muito importante.
Não confiem nos vossos instintos. O vizinho de turbante que vos parece simpático e pacífico está a enganar-vos. O cigano que trabalha é uma exceção. O imigrante que foi ajudar nos incêndios ou nas cheias é uma criação de Inteligência Artificial. Tudo falso. Falso como todas as mentiras a que chamam notícias e factos e estatísticas. O que é que valem as estatísticas quando se conhece um caso que as desmonta? O que é que vale a ciência, feita por um bando de vendidos? O que é que interessa que tenha sido o progresso científico a aumentar a esperança de vida? Balelas. Toda a gente tem uma avó que viveu rija que nem um pero até aos 100 sem precisar de nada disso.
E o que é que interessam as crianças que agonizam em Gaza? E as do Sudão? E as da Ucrânia? Há tantos lugares onde as crianças agonizam. Quantos mais houver, menos se liga a cada um deles. E assim é que está bem. Temos de cuidar dos nossos primeiro. Os nossos, sim, os nossos. Os nossos que são tão brancos como nós, apesar de haver uns mais brancos do que nós que nos acham escuros e inferiores, mas isso não vem ao caso.
É preciso salvar as crianças. Não as que morrem da guerra e da fome. As que tomam vacinas e as que vão à escola para serem endoutrinadas. Qualquer dia estão todas a ir às mesmas casas de banho. E já se sabe que é assim que se dá a pedofilia. Sim, em casa usam todas as mesmas casas de banho e os jornais estão cheios de notícias de pais, tios e avôs abusadores. E às vezes até um ou outro eleito. Mas isso são coisas que escrevem para nos distrair dos perigos verdadeiros. Tudo jornalixo feito por vendidos do sistema.
Temos de deitar abaixo o sistema. E é por isso que contamos com o apoio dos mais ricos dos mais ricos, que entretanto garantem que ficam ainda mais ricos. É claro que eles estão também contra o sistema. Sim, eles têm dinheiro e poder quase infinito. Mas estão contra os que andam a mamar. Sim, eles acumulam milhões em contratos públicos, subsídios e benefícios fiscais, mas é porque merecem. Só são ricos porque se esforçaram. Podem ter herdado, mas não esbanjaram tudo como aqueles que recebem apoios sociais e passam a tarde a beber minis no café. Podem ser pouco mais de 200 euros, mas é um roubo. Roubam-nos a nós que nos esfalfamos a trabalhar para pagar impostos. Sim, os mais ricos não pagam impostos quase nenhuns, mas é porque são espertos.
É preciso é ser esperto. Somos contra os tachos. Mas se um dos eleitos é apanhado a roubar ou nomear a namorada, a tia e a sobrinha é porque os outros também o fazem. Eles são todos iguais. Escolhemos os eleitos porque estamos fartos de que sejam iguais. Mas aceitamos que sejam iguais, porque essa é a ordem natural das coisas. Já vos disse que a ordem é muito importante?
A ordem é a base de tudo. Mas primeiro é preciso criar a desordem. É preciso que não se saiba no que acreditar, que tudo pareça precário, incerto e inseguro. As ovelhas com medo são as que mais facilmente seguem o pastor. E é tudo pelo nosso bem. Já vos disse que o eleito foi escolhido por Deus.
Deus, Pátria e Família. Deus, porque é preciso haver quem mande. E a quem temer. Sem medo, isto é tudo uma bandalheira. Pátria, porque é preciso fingir que há uma coisa maior que une os mais poderosos dos poderosos aos miseráveis que os seguem alegremente. É preciso ter inimigos e as fronteiras são boas para isso. Há os de cá e os de lá. O que é que interessa que haja uns poucos no topo e milhões espezinhados na base? E a família, claro. Porque é a família que tem de nos cuidar quando precisamos. Não há cá direitos garantidos. Querem ajuda? Peçam à família. E na família manda o pai, claro, ele próprio um eleito à sua pequena escala, com livre passe para descarregar na mulher e nos filhos a frustração acumulada, que isto um homem não é de ferro. E se tudo continua mal, ao menos há futebol e pimba, que já ninguém liga ao fado e Fátima é coisa para mulheres se entreterem e perceberem o seu lugar.
Toda a gente tem um lugar. Há os que são de cá e os que são de fora. Há os que estão em cima e os que estão em baixo. O quê? Isso parece o sistema? Que conversa de comunas! Caladinhos. Vão ver como as coisas lhes mordem quando houver uma limpeza. Acabam-se os disparates, que a conversa do “isto agora não se pode dizer nada” é só quando nos convém. Perdão. Quando convém à ordem. Somos contra o sistema, mas queremos manter tudo como estava desde os tempos do Adão e da Eva. Já vos disse que a ordem é muito importante?
Trump sendo Trump no Discurso do Estado da União
Discursos do Estado da União fazem parte do rito anual de todo presidente dos Estados Unidos. Costumam ser longos e enfadonhos. Servem, em teoria, para o mandatário prestar contas ao Congresso sobre o que fez e pretende fazer. O desempenho de Donald Trump na noite de terça-feira foi um exercício de embevecimento fascista com a própria voz. Durante uma hora e 47 minutos, embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos e transformou o plenário do Capitólio em claque de auditório.
O Grande Comunicador sabia ter em mãos um trunfo que obliteraria a canseira dos presentes. Dois dias antes, o time masculino de hóquei no gelo derrotara o arqui-inimigo Canadá de forma espetacular em Milão-Cortina. Comemoravam o cobiçado ouro olímpico no vestiário da Arena Santagiulia quando Trump adentrou a festança pelo celular do diretor do FBI, Kash Patel, que atravessara o Atlântico para assistir à final:
— Inacreditável! Fantástico! Teremos o discurso do Estado da União na terça-feira. Posso mandar um avião militar ou qualquer outra coisa, se vocês quiserem. Vai ser a noite mais cool — convidou Trump no viva-voz.
Na gravação que se tornou pública, ouve-se um animado “estamos dentro” de alguém do grupo. O presidente, fiel a seus instintos mais enraizados, ainda acrescentou uma gracinha que deve ter achado espirituosíssima:
— Teremos de trazer também o time feminino, vocês sabem. [Senão] acredito que provavelmente sofrerei impeachment — acrescentou, gerando risos no vestiário em Milão.
O episódio diz montes sobre o que o ocupante da Casa Branca realmente pensa das duas condenações de impeachment que sofreu no primeiro mandato, mas foram rejeitadas pelo Senado. E abre um flanco a mais na baixa aprovação junto ao eleitorado feminino e ao voto independente. Três dias antes do ouro masculino, a equipe olímpica feminina dos Estados Unidos já havia eletrizado o país vencendo de virada, também na prorrogação, a sempre campeoníssima equipe do Canadá. Na ocasião, não recebeu convite de Trump. Quando finalmente recebeu, declinou polidamente.
Em entrevista à ESPN americana, Hilary Knight, capitã da equipe vitoriosa, deu uma aula de civilidade. Com dois ouros e três pratas olímpicas na gaveta, foi serena e classuda nas respostas. Alertou sobre a situação difícil da equipe masculina diante da “vergonhosa piada” de Trump, sem minimizar o “momentâneo lapso de julgamento” dos colegas olímpicos:
— É uma pena que essa história ofusque a conexão e apoio mútuo que (as duas equipes) sempre mantiveram — disse a camisa 21.
Declarou-se orgulhosa da vitória masculina e lamentou as duas equipes não celebrarem em conjunto. De quebra, confirmou com alegria seu noivado com a patinadora de velocidade Brittany Bowe (mais de uma dezena de vezes medalhista em mundiais) e informou que a comemoração pela medalha terá local e data decididos pela equipe.
Da presença de Patel, ela certamente não sentiu falta em Milão. O vídeo que vazou do diretor do FBI na euforia do vestiário masculino — garrafa de cerveja numa mão e esmurrando a mesa com a outra — foi a versão real do que parece ser uma fantasia trumpista. Na rasteira do ouro de domingo, a página oficial de Trump publicou um meme dele dando as tacadas finais contra o Canadá e, ao final, esmurrando um dos jogadores adversários. O ideal olímpico da turma é MMA. Segundo explicações fornecidas a posteriori, Patel estava em missão ao embarcar para Milão num jato da Força Aérea: avaliar o papel do FBI na segurança dos atletas, reunir-se com seus pares italianos e ouvir o embaixador americano na Itália. Beleza. Só que chegou ao país faltando apenas três dias para o encerramento dos Jogos.
Não que lhe faltassem problemas agudos em casa. Na mesma semana de sua escapadela, um homem armado tentara invadir o resort de Trump em Mar-a-Lago e fora morto por agentes do Serviço Secreto; o Departamento de Estado emitira um alerta a cidadãos americanos para a onda de violência desencadeada no México pelos cartéis; o país acompanhava avidamente o misterioso sequestro da mãe de uma apresentadora de televisão, com o FBI tateando às cegas havia mais de três semanas. Sem falar no estado de combustão permanente implementado pelos agentes do ICE no país.
Em seu discurso no Congresso, Trump adotou um tom francamente mussoliniano ao anunciar a entrada da equipe olímpica:
— As pessoas me dizem o tempo todo, por favor, por favor, por favor, não aguentamos mais vencer todas; até o senhor chegar à Presidência, perdíamos todas... Então eu digo: “não, não, não”. Vamos continuar ganhando grande, vamos ganhar tudo. Estamos ganhando tanto que não sabemos mais o que fazer com tudo isso... e, para provar meu ponto, temos aqui esta noite o time que dá orgulho à nação toda.
A ala republicana se pôs de pé e, entre aplausos estrondosos, entoou “U-S-A, U-S-A”. Aos democratas, restou o silêncio envergonhado de não ter contido antes o Grande Comunicador.
O Grande Comunicador sabia ter em mãos um trunfo que obliteraria a canseira dos presentes. Dois dias antes, o time masculino de hóquei no gelo derrotara o arqui-inimigo Canadá de forma espetacular em Milão-Cortina. Comemoravam o cobiçado ouro olímpico no vestiário da Arena Santagiulia quando Trump adentrou a festança pelo celular do diretor do FBI, Kash Patel, que atravessara o Atlântico para assistir à final:
— Inacreditável! Fantástico! Teremos o discurso do Estado da União na terça-feira. Posso mandar um avião militar ou qualquer outra coisa, se vocês quiserem. Vai ser a noite mais cool — convidou Trump no viva-voz.
Na gravação que se tornou pública, ouve-se um animado “estamos dentro” de alguém do grupo. O presidente, fiel a seus instintos mais enraizados, ainda acrescentou uma gracinha que deve ter achado espirituosíssima:
— Teremos de trazer também o time feminino, vocês sabem. [Senão] acredito que provavelmente sofrerei impeachment — acrescentou, gerando risos no vestiário em Milão.
O episódio diz montes sobre o que o ocupante da Casa Branca realmente pensa das duas condenações de impeachment que sofreu no primeiro mandato, mas foram rejeitadas pelo Senado. E abre um flanco a mais na baixa aprovação junto ao eleitorado feminino e ao voto independente. Três dias antes do ouro masculino, a equipe olímpica feminina dos Estados Unidos já havia eletrizado o país vencendo de virada, também na prorrogação, a sempre campeoníssima equipe do Canadá. Na ocasião, não recebeu convite de Trump. Quando finalmente recebeu, declinou polidamente.
Em entrevista à ESPN americana, Hilary Knight, capitã da equipe vitoriosa, deu uma aula de civilidade. Com dois ouros e três pratas olímpicas na gaveta, foi serena e classuda nas respostas. Alertou sobre a situação difícil da equipe masculina diante da “vergonhosa piada” de Trump, sem minimizar o “momentâneo lapso de julgamento” dos colegas olímpicos:
— É uma pena que essa história ofusque a conexão e apoio mútuo que (as duas equipes) sempre mantiveram — disse a camisa 21.
Declarou-se orgulhosa da vitória masculina e lamentou as duas equipes não celebrarem em conjunto. De quebra, confirmou com alegria seu noivado com a patinadora de velocidade Brittany Bowe (mais de uma dezena de vezes medalhista em mundiais) e informou que a comemoração pela medalha terá local e data decididos pela equipe.
Da presença de Patel, ela certamente não sentiu falta em Milão. O vídeo que vazou do diretor do FBI na euforia do vestiário masculino — garrafa de cerveja numa mão e esmurrando a mesa com a outra — foi a versão real do que parece ser uma fantasia trumpista. Na rasteira do ouro de domingo, a página oficial de Trump publicou um meme dele dando as tacadas finais contra o Canadá e, ao final, esmurrando um dos jogadores adversários. O ideal olímpico da turma é MMA. Segundo explicações fornecidas a posteriori, Patel estava em missão ao embarcar para Milão num jato da Força Aérea: avaliar o papel do FBI na segurança dos atletas, reunir-se com seus pares italianos e ouvir o embaixador americano na Itália. Beleza. Só que chegou ao país faltando apenas três dias para o encerramento dos Jogos.
Não que lhe faltassem problemas agudos em casa. Na mesma semana de sua escapadela, um homem armado tentara invadir o resort de Trump em Mar-a-Lago e fora morto por agentes do Serviço Secreto; o Departamento de Estado emitira um alerta a cidadãos americanos para a onda de violência desencadeada no México pelos cartéis; o país acompanhava avidamente o misterioso sequestro da mãe de uma apresentadora de televisão, com o FBI tateando às cegas havia mais de três semanas. Sem falar no estado de combustão permanente implementado pelos agentes do ICE no país.
Em seu discurso no Congresso, Trump adotou um tom francamente mussoliniano ao anunciar a entrada da equipe olímpica:
— As pessoas me dizem o tempo todo, por favor, por favor, por favor, não aguentamos mais vencer todas; até o senhor chegar à Presidência, perdíamos todas... Então eu digo: “não, não, não”. Vamos continuar ganhando grande, vamos ganhar tudo. Estamos ganhando tanto que não sabemos mais o que fazer com tudo isso... e, para provar meu ponto, temos aqui esta noite o time que dá orgulho à nação toda.
A ala republicana se pôs de pé e, entre aplausos estrondosos, entoou “U-S-A, U-S-A”. Aos democratas, restou o silêncio envergonhado de não ter contido antes o Grande Comunicador.
Guerras do ópio na era das big tech
Um detalhe histórico para os ocidentais, um evento marcante para os chineses. No século XIX, o volume das exportações para a Europa de chá, seda e porcelana assegurava à China um balanço comercial positivo. A empresa inglesa East India Company (EIC) – à data, a maior empresa do mundo, com o seu próprio Exército – dedicou-se à produção de ópio no subcontinente indiano, que vendia aos chineses. O consumo de ópio tornou-se um problema social relevante e um custo económico significativo. Sucessivos imperadores chineses proibiram o comércio, mas o contrabando e o consumo continuaram a aumentar. Quando, em 1839, o imperador chinês ordenou a destruição de uma carga de ópio, o responsável máximo da EIC, Charles Elliot, apelou ao governo inglês e Inglaterra respondeu com uma força armada, que rapidamente impôs uma derrota militar aos chineses. A Primeira Guerra do Ópio terminou com um acordo que impunha à China o pagamento de reparações, a cedência da ilha de Hong Kong e a eliminação de tarifas sobre os produtos ingleses (incluindo o ópio, que se tornou legal). Nas escolas chinesas, o período entre o final da Primeira Guerra do Ópio e o final da II Guerra Mundial é denominado “Século de Humilhação”, e ainda hoje condiciona a perceção e a postura da China face ao mundo ocidental.
Na defesa dos seus interesses económicos, as big tech comportam-se como a EIC. Arregimentam o apoio do governo americano, que pressiona a Europa a rever a sua legislação sobre redes sociais e Inteligência Artificial, sob a ameaça de tarifas e a retirada de apoio militar (na Ucrânia, mas de forma mais geral minando a confiança de que os Estados Unidos da América serão solidários, caso um país da NATO seja alvo de ataque). Potenciam a divisão, seja via algoritmos que promovem a difusão de posições extremistas nas redes sociais, e cujas configurações recusam alterar, seja apoiando, de forma clara, políticos e partidos antidemocráticos. Fazem-no com campanhas de propaganda, com apoio financeiro, com a promoção de desinformação que causa a perda de confiança no Estado e nos representantes eleitos. Recusam participar nos custos de infraestrutura necessários ao seu próprio negócio – seja estruturas de fornecimento de água e luz necessárias à laboração dos data centers, seja cabos de fibra e antenas que permitem que, no computador e no telemóvel, os conteúdos que difundem possam ser acedidos. Roubam propriedade intelectual para treinar LLM. Resistem a uma tributação efetiva dos lucros gerados na União Europeia.
A Europa é a nova colónia do século XXI, e nós − os utilizadores das redes sociais e dos motores de busca e resposta − somos as novas minas de ouro, cujos dados pessoais são extraídos e tratados para fins comerciais. Em troca, recebemos redes sociais que nos entretêm até à morte e chats (GPT ou outros) com quem optamos por conversar, porque é mais simples do que cultivar relações humanas verdadeiras, mas por vezes complicadas.
Mas se sabemos isto tudo, porque não reagimos? Porque tardamos em proibir o scrolling, o feed, as notificações automáticas, o botão do like, o autoplay? Porque não responsabilizamos penalmente os donos das plataformas pelos conteúdos maliciosos e ilegais que promovem via feeds automáticos? Não seria censura, pois não se trata de impedir ninguém de divulgar os seus pensamentos e posições, mas apenas de aplicar às big tech as mesmas regras que aplicamos aos dirigentes de televisões e de jornais. Até o fazermos, medidas como o bloqueio das redes sociais a crianças podem ajudar, mas não protegem a saúde mental de adultos, nem a sociedade democrática, cuja construção tantas vidas custou.
Na defesa dos seus interesses económicos, as big tech comportam-se como a EIC. Arregimentam o apoio do governo americano, que pressiona a Europa a rever a sua legislação sobre redes sociais e Inteligência Artificial, sob a ameaça de tarifas e a retirada de apoio militar (na Ucrânia, mas de forma mais geral minando a confiança de que os Estados Unidos da América serão solidários, caso um país da NATO seja alvo de ataque). Potenciam a divisão, seja via algoritmos que promovem a difusão de posições extremistas nas redes sociais, e cujas configurações recusam alterar, seja apoiando, de forma clara, políticos e partidos antidemocráticos. Fazem-no com campanhas de propaganda, com apoio financeiro, com a promoção de desinformação que causa a perda de confiança no Estado e nos representantes eleitos. Recusam participar nos custos de infraestrutura necessários ao seu próprio negócio – seja estruturas de fornecimento de água e luz necessárias à laboração dos data centers, seja cabos de fibra e antenas que permitem que, no computador e no telemóvel, os conteúdos que difundem possam ser acedidos. Roubam propriedade intelectual para treinar LLM. Resistem a uma tributação efetiva dos lucros gerados na União Europeia.
A Europa é a nova colónia do século XXI, e nós − os utilizadores das redes sociais e dos motores de busca e resposta − somos as novas minas de ouro, cujos dados pessoais são extraídos e tratados para fins comerciais. Em troca, recebemos redes sociais que nos entretêm até à morte e chats (GPT ou outros) com quem optamos por conversar, porque é mais simples do que cultivar relações humanas verdadeiras, mas por vezes complicadas.
Mas se sabemos isto tudo, porque não reagimos? Porque tardamos em proibir o scrolling, o feed, as notificações automáticas, o botão do like, o autoplay? Porque não responsabilizamos penalmente os donos das plataformas pelos conteúdos maliciosos e ilegais que promovem via feeds automáticos? Não seria censura, pois não se trata de impedir ninguém de divulgar os seus pensamentos e posições, mas apenas de aplicar às big tech as mesmas regras que aplicamos aos dirigentes de televisões e de jornais. Até o fazermos, medidas como o bloqueio das redes sociais a crianças podem ajudar, mas não protegem a saúde mental de adultos, nem a sociedade democrática, cuja construção tantas vidas custou.
Vaga-lumes e iluminação pública
Luminárias antigas sempre me encantaram. Se são eficientes? Hoje em dia, talvez não mais, mas com certeza, trazem um toque de charme à paisagem urbana. O que se sabe é que, ao longo da história, a noite sempre foi vista com temor e reservas. Aliás, é fácil imaginar como seriam as cidades na Idade Média, com ruas estreitas, escuras e desertas, enquanto vigílias noturnas, quando existiam, patrulhavam as ruas. Quem quisesse sair à noite deveria usar tochas ou esperar a noite de lua cheia. Nada de bom poderia advir desse mundo de trevas, certo? A literatura é rica em detalhes sobre os cantos sombrios, assustadores e perigosos dos núcleos urbanos de então.
Sabe-se que, nos séculos XV e XVI, houve várias tentativas de melhor iluminar as ruas das cidades europeias. Um exemplo foi a emissão de decretos cobrando a instalação de lanternas estendidas por uma barra de ferro para reduzir a escuridão das vias públicas. Mas foi só com a iluminação pública, à base de lampiões a óleo, que tudo começou a mudar. Devagar, é certo, mas começou. Se, para nós, habitantes do século XXI, as cidades já eram escuras com os lampiões, imagine sem eles, só com aquelas lanternas…
Nesse quesito, a Grã-Bretanha também foi pioneira: o The Mall, em Londres, em 1807, foi a primeira área urbana a ser iluminada com gás. Entre as décadas de 1870 e 1880, outras capitais europeias instalaram lâmpadas de arco, o primeiro tipo de luz elétrica prático, ao longo de algumas das suas principais ruas comerciais.
No Brasil, o Rio de Janeiro, então Capital Federal, instalou os primeiros lampiões a óleo (de mamona, de peixe ou de baleia), no final do século XVIII. Depois do óleo, gás de hulha e querosene alimentaram os lampiões.
Na segunda metade do século XIX, em 1869, a The San Paulo Gas Company Ltd, fundada em Londres, passou a ser responsável pela exploração dos serviços de iluminação pública a gás, em São Paulo. Em 1870, a Várzea do Carmo, no Brás, foi escolhida como o local ideal para a construção da fábrica de gás de carvão, o Gasômetro. O edifício que se tornaria a Casa das Retortas, típico exemplo da arquitetura fabril inglesa, é hoje tombado pelos órgãos de patrimônio do estado e da cidade. Em tempo, retorta é o nome dos grandes recipientes que recebiam o carvão para a produção de gás.
Para quem não se lembra, a Casa das Retornas foi desativada em 1972, restaurada em 1978, com projeto de Paulo Mendes da Rocha e, durante alguns anos, abrigou o Departamento de Informação e Documentação Artísticas (IDART) e o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Mais tarde, uma proposta, do início dos anos 2000, de abrigar o Museu da História de São Paulo acabou não se concretizando e, em 2023, decidiu-se que o local seria um centro gastronômico e de moda. O prazo para conclusão das obras venceu em 2015. E como estará hoje aquele belo exemplo de arquitetura fabril?
Voltando aos lampiões a gás. Eram acesos diariamente ao anoitecer; ao nascer do sol, eram apagados, os vidros eram limpos e as lamparinas, reabastecidas. Quem cuidava desse serviço eram os acendedores de lampiões, conhecidos como “vaga-lumes”. Se você perguntar a uma criança hoje, ela não vai saber o que era um lampião e, muito menos, o que os tais acendedores acendiam. Talvez ela nem saiba o que é um vaga-lume de verdade… E graças aos lampiões e aos denominados “vaga-lumes”, as ruas, até então desertas à noite, passaram a ser utilizadas. Foi uma grande ocasião para as cidades, ainda que, num primeiro momento, só para as maiores.
Depois dos lampiões, só após a famosa invenção (lâmpada elétrica) de Thomas Alva Edison (1847-1931) é que veio a iluminação elétrica. Nova York foi a primeira cidade a ter iluminação pública elétrica, em 1882. No Brasil, Campos dos Goytacazes (RJ), em 1883, e depois o Rio de Janeiro. Mesmo assim, o sistema a gás e o elétrico coexistiram por décadas. Aqui, as primeiras experiências foram feitas no Rio de Janeiro (1879), mas foi só a partir de 1906 que essa tecnologia se expandiu pelas nossas cidades. Os últimos lampiões a gás ainda conviveram com os elétricos até o final da década de 1920, mas foram apagados definitivamente em 1933, no Rio, e em 1938, em São Paulo.
Data dessa época a instalação de diversos modelos de postes na capital paulista, sendo que inúmeros resistem até hoje. A maioria era de ferro fundido, tornando-se uma marca dos novos tempos, a transição entre a cidade provinciana e a modernidade. Esses postes marcaram época e até foram tema para vários poetas, como Oswald de Andrade, com o seu “Postes da Light”.
Aos poucos, a eletricidade substituiu de vez o sistema a gás e, com o tempo, a tecnologia foi mudando na busca por cidades mais claras, mais seguras e com equipamentos de menor impacto ambiental. Depois das incandescentes, surgiram as lâmpadas fluorescentes, as de vapor de mercúrio (brancas), as de sódio (amarelas) e, finalmente, as de LED.
Hoje, como antigamente, o design das luminárias é um elemento essencial no planejamento e no desenho urbanos, mas, convenhamos, o charme dos antigos postes e luminárias é imbatível.pos, a transição entre a cidade provinciana e a modernidade. Esses postes marcaram época e até foram tema para vários poetas, como Oswald de Andrade, com o seu “Postes da Light”.
Aos poucos, a eletricidade substituiu de vez o sistema a gás e, com o tempo, a tecnologia foi mudando na busca por cidades mais claras, mais seguras e com equipamentos de menor impacto ambiental. Depois das incandescentes, surgiram as lâmpadas fluorescentes, as de vapor de mercúrio (brancas), as de sódio (amarelas) e, finalmente, as de LED.
Hoje, como antigamente, o design das luminárias é um elemento essencial no planejamento e no desenho urbanos, mas, convenhamos, o charme dos antigos postes e luminárias é imbatível.
Sabe-se que, nos séculos XV e XVI, houve várias tentativas de melhor iluminar as ruas das cidades europeias. Um exemplo foi a emissão de decretos cobrando a instalação de lanternas estendidas por uma barra de ferro para reduzir a escuridão das vias públicas. Mas foi só com a iluminação pública, à base de lampiões a óleo, que tudo começou a mudar. Devagar, é certo, mas começou. Se, para nós, habitantes do século XXI, as cidades já eram escuras com os lampiões, imagine sem eles, só com aquelas lanternas…
Nesse quesito, a Grã-Bretanha também foi pioneira: o The Mall, em Londres, em 1807, foi a primeira área urbana a ser iluminada com gás. Entre as décadas de 1870 e 1880, outras capitais europeias instalaram lâmpadas de arco, o primeiro tipo de luz elétrica prático, ao longo de algumas das suas principais ruas comerciais.
No Brasil, o Rio de Janeiro, então Capital Federal, instalou os primeiros lampiões a óleo (de mamona, de peixe ou de baleia), no final do século XVIII. Depois do óleo, gás de hulha e querosene alimentaram os lampiões.
Na segunda metade do século XIX, em 1869, a The San Paulo Gas Company Ltd, fundada em Londres, passou a ser responsável pela exploração dos serviços de iluminação pública a gás, em São Paulo. Em 1870, a Várzea do Carmo, no Brás, foi escolhida como o local ideal para a construção da fábrica de gás de carvão, o Gasômetro. O edifício que se tornaria a Casa das Retortas, típico exemplo da arquitetura fabril inglesa, é hoje tombado pelos órgãos de patrimônio do estado e da cidade. Em tempo, retorta é o nome dos grandes recipientes que recebiam o carvão para a produção de gás.
Para quem não se lembra, a Casa das Retornas foi desativada em 1972, restaurada em 1978, com projeto de Paulo Mendes da Rocha e, durante alguns anos, abrigou o Departamento de Informação e Documentação Artísticas (IDART) e o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Mais tarde, uma proposta, do início dos anos 2000, de abrigar o Museu da História de São Paulo acabou não se concretizando e, em 2023, decidiu-se que o local seria um centro gastronômico e de moda. O prazo para conclusão das obras venceu em 2015. E como estará hoje aquele belo exemplo de arquitetura fabril?
Voltando aos lampiões a gás. Eram acesos diariamente ao anoitecer; ao nascer do sol, eram apagados, os vidros eram limpos e as lamparinas, reabastecidas. Quem cuidava desse serviço eram os acendedores de lampiões, conhecidos como “vaga-lumes”. Se você perguntar a uma criança hoje, ela não vai saber o que era um lampião e, muito menos, o que os tais acendedores acendiam. Talvez ela nem saiba o que é um vaga-lume de verdade… E graças aos lampiões e aos denominados “vaga-lumes”, as ruas, até então desertas à noite, passaram a ser utilizadas. Foi uma grande ocasião para as cidades, ainda que, num primeiro momento, só para as maiores.
Depois dos lampiões, só após a famosa invenção (lâmpada elétrica) de Thomas Alva Edison (1847-1931) é que veio a iluminação elétrica. Nova York foi a primeira cidade a ter iluminação pública elétrica, em 1882. No Brasil, Campos dos Goytacazes (RJ), em 1883, e depois o Rio de Janeiro. Mesmo assim, o sistema a gás e o elétrico coexistiram por décadas. Aqui, as primeiras experiências foram feitas no Rio de Janeiro (1879), mas foi só a partir de 1906 que essa tecnologia se expandiu pelas nossas cidades. Os últimos lampiões a gás ainda conviveram com os elétricos até o final da década de 1920, mas foram apagados definitivamente em 1933, no Rio, e em 1938, em São Paulo.
Data dessa época a instalação de diversos modelos de postes na capital paulista, sendo que inúmeros resistem até hoje. A maioria era de ferro fundido, tornando-se uma marca dos novos tempos, a transição entre a cidade provinciana e a modernidade. Esses postes marcaram época e até foram tema para vários poetas, como Oswald de Andrade, com o seu “Postes da Light”.
Aos poucos, a eletricidade substituiu de vez o sistema a gás e, com o tempo, a tecnologia foi mudando na busca por cidades mais claras, mais seguras e com equipamentos de menor impacto ambiental. Depois das incandescentes, surgiram as lâmpadas fluorescentes, as de vapor de mercúrio (brancas), as de sódio (amarelas) e, finalmente, as de LED.
Hoje, como antigamente, o design das luminárias é um elemento essencial no planejamento e no desenho urbanos, mas, convenhamos, o charme dos antigos postes e luminárias é imbatível.pos, a transição entre a cidade provinciana e a modernidade. Esses postes marcaram época e até foram tema para vários poetas, como Oswald de Andrade, com o seu “Postes da Light”.
Aos poucos, a eletricidade substituiu de vez o sistema a gás e, com o tempo, a tecnologia foi mudando na busca por cidades mais claras, mais seguras e com equipamentos de menor impacto ambiental. Depois das incandescentes, surgiram as lâmpadas fluorescentes, as de vapor de mercúrio (brancas), as de sódio (amarelas) e, finalmente, as de LED.
Hoje, como antigamente, o design das luminárias é um elemento essencial no planejamento e no desenho urbanos, mas, convenhamos, o charme dos antigos postes e luminárias é imbatível.
Não é o Irã que ameaça a paz no mundo. É Trump que ameaça
Pau que bate em Chico também bate em Francisco. Está ok?
Não está. Depende de quem maneja o pau. E de quem seja Chico ou Francisco. Se Chico é forte e Francisco não, Francisco é quem apanha. Chico escapa ileso ou com pequenas escoriações.
Aplique-se o ensinamento ao que ocorre desde tempos imemoriais no Oriente Médio. Ou pelo menos desde a criação do Estado de Israel em terras que pertenciam aos palestinos.
A criação de Israel, em maio de 1948, se deu no rastro do Holocausto de 6 milhões de judeus e de outras minorias promovido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.
À época, as maiores potências ocidentais prometeram criar um estado para os palestinos chamarem de seu. A promessa não saiu do papel. E não há sinais de que sairá um dia.
Israel, hoje, controla de 78% a 97% da Palestina histórica, dependendo se o cálculo inclui a ocupação da Cisjordânia, a administração de Jerusalém Oriental e áreas da Faixa de Gaza.
E funciona como um braço armado dos Estados Unidos. O ex-presidente Joe Biden já disse que Israel é o maior porta-aviões dos Estados Unidos estacionado no Oriente Médio. E assim é.
O pau está comendo nas costas do Francisco da vez – no caso, o Irã, coração do antigo Império Persa, um dos maiores da história. O motivo: o Irã é uma ameaça à segurança do Ocidente.
Em 1953, a CIA e a inteligência britânica (MI6) derrubaram o primeiro-ministro democraticamente eleito do Irã para proteger os interesses petrolíferos ocidentais, e instalaram o Xá.
Mohammad Rezā Shāh Pahlavi, o Xá, governou o Irã de 16 de setembro de 1941 até à sua deposição pela Revolução Iraniana, em de fevereiro de 1979. Comportou-se como um ditador sanguinário.
Seu regime era escandalosamente corrupto e violento. Sua polícia secreta torturava e matava dissidentes com o conhecimento e o apoio financeiro dos Estados Unidos e de outros países.
Já sob o jugo cruel do aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini, que sucedeu ao Xá, o Irã foi invadido pelo Iraque do ditador Saddam Hussein. Os Estados Unidos apoiaram a invasão. Mas não só.
Os Estados Unidos fecharam os olhos enquanto Saddam usava armas químicas contra os iranianos. Morreram até um milhão deles. As leis da guerra proíbem o uso de armas químicas.
Tanto que, a pretexto de que Saddam acumulava armas de destruição em massa, os Estados Unidos, em 2003, invadiram o Iraque, capturaram Saddam e o mataram. Não havia armas.
Por décadas, os Estados Unidos esmagaram os iranianos comuns com sanções que destruíram sua economia, enquanto o regime dos aiatolás permanecia intocado. Tudo pelo petróleo. Sempre foi.
Em 2015, a diplomacia deu esperança aos iranianos. O acordo nuclear assinado por eles com os Estados Unidos ia bem. As sanções diminuíram. Até que em 2018, Trump o desmantelou.
E agora bombardeia o país. É o que o povo iraniano vê quando olha para os EUA. “Setenta anos de promessas quebradas, traição e destruição”, segundo a blogueira americana Heather Reese.
A Constituição americana é explícita, como observa Reese. O Artigo I, Seção 8, concede ao Congresso, e somente ao Congresso, o poder de declarar guerra. Trump sequer consultou o Congresso.
A Resolução sobre Poderes de Guerra, de 1973, permite que o presidente mobilize forças militares sem a aprovação do Congresso apenas quando houver uma ameaça iminente ao país.
Trump não apresentou provas sobre ameaça iminente. Porque não as tem. Porque não há nenhuma. Porque o Irã não representa ameaça. Quem tem bombas atômicas é Israel, seu aliado.
Trump é quem ameaça a paz no mundo.
Não está. Depende de quem maneja o pau. E de quem seja Chico ou Francisco. Se Chico é forte e Francisco não, Francisco é quem apanha. Chico escapa ileso ou com pequenas escoriações.
Aplique-se o ensinamento ao que ocorre desde tempos imemoriais no Oriente Médio. Ou pelo menos desde a criação do Estado de Israel em terras que pertenciam aos palestinos.
A criação de Israel, em maio de 1948, se deu no rastro do Holocausto de 6 milhões de judeus e de outras minorias promovido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.
À época, as maiores potências ocidentais prometeram criar um estado para os palestinos chamarem de seu. A promessa não saiu do papel. E não há sinais de que sairá um dia.
Israel, hoje, controla de 78% a 97% da Palestina histórica, dependendo se o cálculo inclui a ocupação da Cisjordânia, a administração de Jerusalém Oriental e áreas da Faixa de Gaza.
E funciona como um braço armado dos Estados Unidos. O ex-presidente Joe Biden já disse que Israel é o maior porta-aviões dos Estados Unidos estacionado no Oriente Médio. E assim é.
O pau está comendo nas costas do Francisco da vez – no caso, o Irã, coração do antigo Império Persa, um dos maiores da história. O motivo: o Irã é uma ameaça à segurança do Ocidente.
Em 1953, a CIA e a inteligência britânica (MI6) derrubaram o primeiro-ministro democraticamente eleito do Irã para proteger os interesses petrolíferos ocidentais, e instalaram o Xá.
Mohammad Rezā Shāh Pahlavi, o Xá, governou o Irã de 16 de setembro de 1941 até à sua deposição pela Revolução Iraniana, em de fevereiro de 1979. Comportou-se como um ditador sanguinário.
Seu regime era escandalosamente corrupto e violento. Sua polícia secreta torturava e matava dissidentes com o conhecimento e o apoio financeiro dos Estados Unidos e de outros países.
Já sob o jugo cruel do aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini, que sucedeu ao Xá, o Irã foi invadido pelo Iraque do ditador Saddam Hussein. Os Estados Unidos apoiaram a invasão. Mas não só.
Os Estados Unidos fecharam os olhos enquanto Saddam usava armas químicas contra os iranianos. Morreram até um milhão deles. As leis da guerra proíbem o uso de armas químicas.
Tanto que, a pretexto de que Saddam acumulava armas de destruição em massa, os Estados Unidos, em 2003, invadiram o Iraque, capturaram Saddam e o mataram. Não havia armas.
Por décadas, os Estados Unidos esmagaram os iranianos comuns com sanções que destruíram sua economia, enquanto o regime dos aiatolás permanecia intocado. Tudo pelo petróleo. Sempre foi.
Em 2015, a diplomacia deu esperança aos iranianos. O acordo nuclear assinado por eles com os Estados Unidos ia bem. As sanções diminuíram. Até que em 2018, Trump o desmantelou.
E agora bombardeia o país. É o que o povo iraniano vê quando olha para os EUA. “Setenta anos de promessas quebradas, traição e destruição”, segundo a blogueira americana Heather Reese.
A Constituição americana é explícita, como observa Reese. O Artigo I, Seção 8, concede ao Congresso, e somente ao Congresso, o poder de declarar guerra. Trump sequer consultou o Congresso.
A Resolução sobre Poderes de Guerra, de 1973, permite que o presidente mobilize forças militares sem a aprovação do Congresso apenas quando houver uma ameaça iminente ao país.
Trump não apresentou provas sobre ameaça iminente. Porque não as tem. Porque não há nenhuma. Porque o Irã não representa ameaça. Quem tem bombas atômicas é Israel, seu aliado.
Trump é quem ameaça a paz no mundo.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Trump fará mais pela guerra do que pela paz
Na sua primeira reunião, o Conselho da Paz de Donald Trump serviu para dois atos nada pacíficos: ameaçar de guerra o Irã e insinuar que uma organização que só obedece ao narcisismo e megalomania do Presidente dos EUA poderia substituir ou tutelar a ONU.
Embalado pelo rapto de Nicolás Maduro, Trump quer derrubar a teocracia iraniana em nome de quê? O Presidente dos EUA não tem nenhum argumento plausível para atacar o Irão. Foi o próprio que afirmou que a capacidade iraniana de enriquecimento de urânio tinha sido fortemente comprometida após os bombardeamentos em Junho do ano passado, pelo que um segundo ataque, em menos de um ano, contradiz o discurso anterior de vitória.
Contrariamente ao que aconteceu na Venezuela, não há ninguém em Teerã para desempenhar o papel que Delcy Rodríguez desempenha em Caracas. Nem o exilado Reza Pahlavi tem as mesmas condições para desempenhar no futuro do Irã o mesmo papel que Corina Machado pode desempenhar um dia no futuro de Caracas.
Um quase certo ataque ao Irã só favorece o Governo de Benjamin Netanyahu. Thomas L. Friedman, conhecido colunista do New York Times, tem estatuto para dizer o que a outros causaria demasiados incómodos: “Ao mesmo tempo que mantém Trump focado na ameaça nuclear e de mísseis iranianos — que, embora reduzida, ainda é muito real e terá de ser enfrentada diplomática ou militarmente —, Bibi está, fundamentalmente, a ameaçar os interesses mais amplos do EUA no Médio Oriente, sem mencionar a segurança dos judeus em todo o mundo.”
Friedman sustenta que as tentativas claras de anexação da Cisjordânia e de permanência em Gaza, “negando aos palestinianos direitos políticos, é um “empreendimento messiânico”, com consequências para as instituições judaicas em todo o mundo. O argumento é este: as suas semelhanças com o apartheid sul-africano são indistinguíveis e elas só contribuirão para que um “número crescente de jovens democratas e republicanos dos EUA se volte contra Israel e, em alguns casos, contra os judeus em geral”.
Como diz Friedman, o Irã nada tem que ver com os esforços de Netanyahu para limitar o Estado de direito em Israel, com a insistência no afastamento da procuradora-geral, com a isenção total do serviço militar para os judeus ultra ortodoxos, que o mantêm no poder. Nem com o impedimento de uma comissão independente de inquérito às falhas do 7 de outubro de 2023, quando se suspeita de que o mesmo fora avisado dos planos do Hamas para atacar Israel. No fundo, Netanyahu é uma ameaça para o seu próprio país e de nada valem os acordos de Abraão, celebrados ou a celebrar, enquanto israelitas e palestinianos não fizerem a paz.
Este Conselho da Paz, do qual Trump se autointitula presidente vitalício, imaginando-se como presidente do mundo, é uma farsa patética na qual só alinham os subservientes do costume. Israel lá está, ao lado das monarquias do Golfo. O organismo foi anunciado em outubro, na sequência de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e tem servido para encobrir a anexação em curso da Cisjordânia, a continuidade do genocídio lento e silencioso de Gaza e para fazer planos de negócio imobiliário com a reconstrução do enclave destruído, à custa de uma provável deportação forçada.
Zangado com a academia norueguesa, por esta não lhe ter concedido o Prêmio Nobel da Paz, insatisfeito pela atribuição do Prêmio de Paz FIFA, Trump considera que os países que não aceitaram o convite para entrarem no seu clube pacifista estão a “aramar-se em espertos” (Portugal optou pelo estatuto de observador).
O israelita Yuval Noah Harari escrevia no Financial Times que o mantra para resolver o conflito israel-palestino foi o da solução “dois estados para dois povos” e que, se ambos “não puderem ser mais generosos, a solução final para o conflito poderá ser ‘zero estados para zero pessoas’”. Referindo-se à Ucrânia, Harari observava que a “guerra não é vencida por quem conquista mais território, destrói mais cidades ou mata mais pessoas. A guerra é vencida por quem alcança os seus objetivos políticos. E, na Ucrânia, já está claro que Putin falhou em atingir o seu principal objetivo de guerra: a destruição da nação ucraniana. E na Palestina?
Com um presidente como Trump em Washington e num cenário de impotência e desvalorização do papel da ONU, é pouco provável que Netanyahu e Vladimir Putin desistam das guerras que travam e que aceitem uma negociação justa. Dois anos e quatro meses depois, o primeiro não cede na limpeza étnica em curso. E, quatro anos depois da invasão da Ucrânia, o segundo irá até onde lhe for possível para se declarar triunfante. Uma coisa parece certa: o falso clube pacifista de Trump fará mais pela guerra do que pela paz.
Embalado pelo rapto de Nicolás Maduro, Trump quer derrubar a teocracia iraniana em nome de quê? O Presidente dos EUA não tem nenhum argumento plausível para atacar o Irão. Foi o próprio que afirmou que a capacidade iraniana de enriquecimento de urânio tinha sido fortemente comprometida após os bombardeamentos em Junho do ano passado, pelo que um segundo ataque, em menos de um ano, contradiz o discurso anterior de vitória.
Contrariamente ao que aconteceu na Venezuela, não há ninguém em Teerã para desempenhar o papel que Delcy Rodríguez desempenha em Caracas. Nem o exilado Reza Pahlavi tem as mesmas condições para desempenhar no futuro do Irã o mesmo papel que Corina Machado pode desempenhar um dia no futuro de Caracas.
Um quase certo ataque ao Irã só favorece o Governo de Benjamin Netanyahu. Thomas L. Friedman, conhecido colunista do New York Times, tem estatuto para dizer o que a outros causaria demasiados incómodos: “Ao mesmo tempo que mantém Trump focado na ameaça nuclear e de mísseis iranianos — que, embora reduzida, ainda é muito real e terá de ser enfrentada diplomática ou militarmente —, Bibi está, fundamentalmente, a ameaçar os interesses mais amplos do EUA no Médio Oriente, sem mencionar a segurança dos judeus em todo o mundo.”
Friedman sustenta que as tentativas claras de anexação da Cisjordânia e de permanência em Gaza, “negando aos palestinianos direitos políticos, é um “empreendimento messiânico”, com consequências para as instituições judaicas em todo o mundo. O argumento é este: as suas semelhanças com o apartheid sul-africano são indistinguíveis e elas só contribuirão para que um “número crescente de jovens democratas e republicanos dos EUA se volte contra Israel e, em alguns casos, contra os judeus em geral”.
Como diz Friedman, o Irã nada tem que ver com os esforços de Netanyahu para limitar o Estado de direito em Israel, com a insistência no afastamento da procuradora-geral, com a isenção total do serviço militar para os judeus ultra ortodoxos, que o mantêm no poder. Nem com o impedimento de uma comissão independente de inquérito às falhas do 7 de outubro de 2023, quando se suspeita de que o mesmo fora avisado dos planos do Hamas para atacar Israel. No fundo, Netanyahu é uma ameaça para o seu próprio país e de nada valem os acordos de Abraão, celebrados ou a celebrar, enquanto israelitas e palestinianos não fizerem a paz.
Este Conselho da Paz, do qual Trump se autointitula presidente vitalício, imaginando-se como presidente do mundo, é uma farsa patética na qual só alinham os subservientes do costume. Israel lá está, ao lado das monarquias do Golfo. O organismo foi anunciado em outubro, na sequência de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e tem servido para encobrir a anexação em curso da Cisjordânia, a continuidade do genocídio lento e silencioso de Gaza e para fazer planos de negócio imobiliário com a reconstrução do enclave destruído, à custa de uma provável deportação forçada.
Zangado com a academia norueguesa, por esta não lhe ter concedido o Prêmio Nobel da Paz, insatisfeito pela atribuição do Prêmio de Paz FIFA, Trump considera que os países que não aceitaram o convite para entrarem no seu clube pacifista estão a “aramar-se em espertos” (Portugal optou pelo estatuto de observador).
O israelita Yuval Noah Harari escrevia no Financial Times que o mantra para resolver o conflito israel-palestino foi o da solução “dois estados para dois povos” e que, se ambos “não puderem ser mais generosos, a solução final para o conflito poderá ser ‘zero estados para zero pessoas’”. Referindo-se à Ucrânia, Harari observava que a “guerra não é vencida por quem conquista mais território, destrói mais cidades ou mata mais pessoas. A guerra é vencida por quem alcança os seus objetivos políticos. E, na Ucrânia, já está claro que Putin falhou em atingir o seu principal objetivo de guerra: a destruição da nação ucraniana. E na Palestina?
Com um presidente como Trump em Washington e num cenário de impotência e desvalorização do papel da ONU, é pouco provável que Netanyahu e Vladimir Putin desistam das guerras que travam e que aceitem uma negociação justa. Dois anos e quatro meses depois, o primeiro não cede na limpeza étnica em curso. E, quatro anos depois da invasão da Ucrânia, o segundo irá até onde lhe for possível para se declarar triunfante. Uma coisa parece certa: o falso clube pacifista de Trump fará mais pela guerra do que pela paz.
Pesadelo palestino
Ninguém poderia imaginar que o fim da Guerra Fria iria mergulhar o mundo em sangrentos conflitos – que saudades da Guerra Fria! Entre os muitos confrontos em meio à Guerra EUA-China em curso, a carnificina em escala industrial no Levante me atinge particularmente, porque a Palestina é a minha terra natal.
Com o fim do Império Otomano, a Palestina foi entregue à Inglaterra por mandato da Liga das Nações, que agenciou a imigração dos judeus do Leste Europeu. Os alemães, por sua vez, expulsaram seus (ex) cidadãos judeus para a Palestina nos anos 1930, Juden raus! Auf nach Palastina! No decorrer da Segunda Guerra Mundial, a Europa promoveu o extermínio em massa dos judeus. Com que direito as Nações Unidas resolveram partilhar a Palestina para despejar os sobreviventes europeus indesejados? Acharam por bem desvestir um santo para vestir outro – enquanto os judeus deixavam os campos de refugiados na Europa, os palestinos foram forçados a deixar as suas casas para se aglomerar nos campos de refugiados na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e ao longo das fronteiras com os países árabes vizinhos.
Durante a catástrofe, Al-Nakba, Israel ocupou uma área superior à designada no Plano de Partilha e 700 mil palestinos foram expulsos de suas terras. Em 1948, 1,3 milhão de árabes vivia na Palestina (900 mil em terras ocupadas por Israel e 400 mil na Cisjordânia e em Gaza). Apenas 200 mil palestinos foram autorizados a permanecer em Israel, o que garantia uma maioria judia no país. Em dezembro de 1948, as Nações Unidas aprovaram a Resolução 194, assegurando o direito de retorno dos refugiados palestinos às suas casas.
A crise causada pela criação do Estado de Israel motivou ainda a expulsão dos judeus que até então conviviam pacificamente com os muçulmanos nos países da África do Norte e do Oriente Médio. O resultado, na ocasião, foi a substituição dos 700 mil palestinos expulsos de suas terras por 700 mil judeus oriundos da Europa (400 mil) e dos países muçulmanos (300 mil).
Israel não restituiu os territórios palestinos designados no Plano de Partilha, nem permitiu o retorno dos 700 mil refugiados. Ao contrário, ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza em 1967 – hoje a Cisjordânia encontra-se reduzida a limitadas áreas entrecortadas por ocupações e estradas controladas por Israel; e Gaza encontra-se totalmente arrasada.
Em sua política oficial de limpeza étnica, enquanto extermina e desterra gradualmente a população nativa da Palestina, o Estado Judeu promove ativamente a imigração e concede cidadania a judeus oriundos de qualquer parte do globo (mais de 1.500.000 russos vivem hoje em Israel, a maioria tendo emigrado nos anos 1990, após a dissolução da União Soviética).
Apesar dos sionistas de esquerda responsabilizarem o atual governo de direita israelense pelas atuais atrocidades, a violência contra os palestinos é centenária. A expulsão do povo nativo em 1948, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza em 1967 e o assentamento de colonos em terras palestinas foram obras dos governos trabalhistas da esquerda sionista, acompanhadas por discursos dissimulados e apaziguadores. A direita no poder representa o coroamento deste processo.
Para a Europa, a criação do Estado de Israel serviu tanto para absorver os sobreviventes indesejados como para exorcizar o seu sentimento de culpa pelo extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial – os palestinos pagaram e continuam pagando o preço pelos crimes que a civilização europeia cometeu em Auschwitz. O mundo ocidental e a maioria dos judeus festejaram as vitórias militares israelenses como atos heroicos que contrarrestavam a imagem do judeu brando e pacífico da diáspora (aventuras militares são efetivamente o avesso da cultura do judeu da diáspora).
Além disso, o antissemitismo judeu na Europa foi substituído pelo antissemitismo muçulmano. Neste sentido, a Europa e Israel têm um inimigo comum. Theodor Herzl, fundador do moderno sionismo político, no final do século XIX, escreveu que os judeus na Palestina deveriam “formar parte de uma fortaleza da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie” (O estado judeu). Historicamente considerados estrangeiros asiáticos na Europa, os judeus são hoje vistos como europeus em território asiático em guerra santa contra o Islão.
O pesadelo palestino foi acirrado após a investida do Hamas em 2023, embora as ofensivas terroristas do Estado de Israel por mais de sete décadas, documentadas tanto pelos palestinos como por historiadores israelenses, tenham sido muito mais bárbaras e cruéis do que a iniciativa de 7 de outubro. A grande maioria dos israelenses apoiou a operação militar do governo em Gaza. Na pesquisa Visão israelense da guerra entre Israel e Hamas, realizada em março e abril de 2024, apenas 4% dos judeus israelenses declararam que a ofensiva foi longe demais. Com base no relatório da pesquisa, que não abre os demais dados entre judeus e árabes israelenses, estima-se que 96% dos judeus israelenses consideravam que a intervenção militar foi adequada (51%) ou mesmo muito branda (45%).
No decorrer da história da humanidade, várias atrocidades foram empreendidas, mas os responsáveis pelos crimes faziam questão de acobertar os seus atos e se empenhavam em negar extermínios promovidos em escala industrial, porque os consideravam vergonhosos. O que estamos presenciando neste momento são povos, que se acreditam civilizados, apoiando ou se abstendo de boicotar uma nação que está promovendo uma carnificina em massa veiculada em tempo real, em que os algozes se orgulham dos crimes cometidos contra a humanidade, inclusive bloqueando ajuda humanitária às suas vítimas.
Os palestinos e os demais coletivos pró-palestinos fazem questão de declarar que são antissionistas, mas não antissemitas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, instrumentalizando a memória do Holocausto, diz que fala tanto em nome do Estado Judeu como em nome dos judeus da diáspora (o reduzido número de judeus que se posiciona contra o Estado de Israel, inclusive os judeus ortodoxos Satmar e Neturei Karta, é considerado antissemita). Ou seja, o posicionamento do primeiro-ministro estimula o antissemitismo.
Quando e como terminará o pesadelo palestino? Embora somem 14 milhões – 7 milhões na diáspora, 3 milhões na Cisjordânia, 2 milhões em Gaza e 2 milhões em território israelense – o objetivo de Israel é varrer, desterrar a população nativa para provar aos judeus e ao mundo que a Palestina era uma terra sem povo antes da imigração dos judeus. Para os incrédulos que não acreditam que a Palestina era um deserto que foi transformado em oásis, Israel argumenta que os palestinos abandonaram as suas terras em 1948, assim como estão hoje evacuando a faixa de Gaza e as terras ocupadas pelos colonos judeus na Cisjordânia.
A Europa, principalmente a Alemanha, palco do Holocausto, reprime qualquer ato pró-Palestina. A despeito das manifestações em defesa do povo palestino ao redor do mundo, praticamente todos os países não muçulmanos continuam mantendo relações comerciais e diplomáticas com o Estado de Israel, mesmo aqueles que o acusam de estar cometendo genocídio, mesmo os membros do BRICS (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa), que hoje inclui vários outros países emergentes. Israel alardeia que foi criado por determinação das Nações Unidas, embora se recuse sistematicamente a acatar as suas resoluções.
A Torah e a história do povo judeu foram moldadas e escritas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos. Em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência é a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Em 1952, pouco depois da catástrofe que se abateu sobre os palestinos em 1948, Frantz Fanon nos advertiu que os judeus que se instalaram em Israel criariam em menos de cem anos um inconsciente coletivo diferente daquele que possuíam em 1945, nos países de onde foram expulsos. Setenta e quatro anos depois, qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios.
Samuel Kilsztajn
Com o fim do Império Otomano, a Palestina foi entregue à Inglaterra por mandato da Liga das Nações, que agenciou a imigração dos judeus do Leste Europeu. Os alemães, por sua vez, expulsaram seus (ex) cidadãos judeus para a Palestina nos anos 1930, Juden raus! Auf nach Palastina! No decorrer da Segunda Guerra Mundial, a Europa promoveu o extermínio em massa dos judeus. Com que direito as Nações Unidas resolveram partilhar a Palestina para despejar os sobreviventes europeus indesejados? Acharam por bem desvestir um santo para vestir outro – enquanto os judeus deixavam os campos de refugiados na Europa, os palestinos foram forçados a deixar as suas casas para se aglomerar nos campos de refugiados na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e ao longo das fronteiras com os países árabes vizinhos.
Durante a catástrofe, Al-Nakba, Israel ocupou uma área superior à designada no Plano de Partilha e 700 mil palestinos foram expulsos de suas terras. Em 1948, 1,3 milhão de árabes vivia na Palestina (900 mil em terras ocupadas por Israel e 400 mil na Cisjordânia e em Gaza). Apenas 200 mil palestinos foram autorizados a permanecer em Israel, o que garantia uma maioria judia no país. Em dezembro de 1948, as Nações Unidas aprovaram a Resolução 194, assegurando o direito de retorno dos refugiados palestinos às suas casas.
A crise causada pela criação do Estado de Israel motivou ainda a expulsão dos judeus que até então conviviam pacificamente com os muçulmanos nos países da África do Norte e do Oriente Médio. O resultado, na ocasião, foi a substituição dos 700 mil palestinos expulsos de suas terras por 700 mil judeus oriundos da Europa (400 mil) e dos países muçulmanos (300 mil).
Israel não restituiu os territórios palestinos designados no Plano de Partilha, nem permitiu o retorno dos 700 mil refugiados. Ao contrário, ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza em 1967 – hoje a Cisjordânia encontra-se reduzida a limitadas áreas entrecortadas por ocupações e estradas controladas por Israel; e Gaza encontra-se totalmente arrasada.
Em sua política oficial de limpeza étnica, enquanto extermina e desterra gradualmente a população nativa da Palestina, o Estado Judeu promove ativamente a imigração e concede cidadania a judeus oriundos de qualquer parte do globo (mais de 1.500.000 russos vivem hoje em Israel, a maioria tendo emigrado nos anos 1990, após a dissolução da União Soviética).
Apesar dos sionistas de esquerda responsabilizarem o atual governo de direita israelense pelas atuais atrocidades, a violência contra os palestinos é centenária. A expulsão do povo nativo em 1948, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza em 1967 e o assentamento de colonos em terras palestinas foram obras dos governos trabalhistas da esquerda sionista, acompanhadas por discursos dissimulados e apaziguadores. A direita no poder representa o coroamento deste processo.
Para a Europa, a criação do Estado de Israel serviu tanto para absorver os sobreviventes indesejados como para exorcizar o seu sentimento de culpa pelo extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial – os palestinos pagaram e continuam pagando o preço pelos crimes que a civilização europeia cometeu em Auschwitz. O mundo ocidental e a maioria dos judeus festejaram as vitórias militares israelenses como atos heroicos que contrarrestavam a imagem do judeu brando e pacífico da diáspora (aventuras militares são efetivamente o avesso da cultura do judeu da diáspora).
Além disso, o antissemitismo judeu na Europa foi substituído pelo antissemitismo muçulmano. Neste sentido, a Europa e Israel têm um inimigo comum. Theodor Herzl, fundador do moderno sionismo político, no final do século XIX, escreveu que os judeus na Palestina deveriam “formar parte de uma fortaleza da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie” (O estado judeu). Historicamente considerados estrangeiros asiáticos na Europa, os judeus são hoje vistos como europeus em território asiático em guerra santa contra o Islão.
O pesadelo palestino foi acirrado após a investida do Hamas em 2023, embora as ofensivas terroristas do Estado de Israel por mais de sete décadas, documentadas tanto pelos palestinos como por historiadores israelenses, tenham sido muito mais bárbaras e cruéis do que a iniciativa de 7 de outubro. A grande maioria dos israelenses apoiou a operação militar do governo em Gaza. Na pesquisa Visão israelense da guerra entre Israel e Hamas, realizada em março e abril de 2024, apenas 4% dos judeus israelenses declararam que a ofensiva foi longe demais. Com base no relatório da pesquisa, que não abre os demais dados entre judeus e árabes israelenses, estima-se que 96% dos judeus israelenses consideravam que a intervenção militar foi adequada (51%) ou mesmo muito branda (45%).
No decorrer da história da humanidade, várias atrocidades foram empreendidas, mas os responsáveis pelos crimes faziam questão de acobertar os seus atos e se empenhavam em negar extermínios promovidos em escala industrial, porque os consideravam vergonhosos. O que estamos presenciando neste momento são povos, que se acreditam civilizados, apoiando ou se abstendo de boicotar uma nação que está promovendo uma carnificina em massa veiculada em tempo real, em que os algozes se orgulham dos crimes cometidos contra a humanidade, inclusive bloqueando ajuda humanitária às suas vítimas.
Os palestinos e os demais coletivos pró-palestinos fazem questão de declarar que são antissionistas, mas não antissemitas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, instrumentalizando a memória do Holocausto, diz que fala tanto em nome do Estado Judeu como em nome dos judeus da diáspora (o reduzido número de judeus que se posiciona contra o Estado de Israel, inclusive os judeus ortodoxos Satmar e Neturei Karta, é considerado antissemita). Ou seja, o posicionamento do primeiro-ministro estimula o antissemitismo.
Quando e como terminará o pesadelo palestino? Embora somem 14 milhões – 7 milhões na diáspora, 3 milhões na Cisjordânia, 2 milhões em Gaza e 2 milhões em território israelense – o objetivo de Israel é varrer, desterrar a população nativa para provar aos judeus e ao mundo que a Palestina era uma terra sem povo antes da imigração dos judeus. Para os incrédulos que não acreditam que a Palestina era um deserto que foi transformado em oásis, Israel argumenta que os palestinos abandonaram as suas terras em 1948, assim como estão hoje evacuando a faixa de Gaza e as terras ocupadas pelos colonos judeus na Cisjordânia.
A Europa, principalmente a Alemanha, palco do Holocausto, reprime qualquer ato pró-Palestina. A despeito das manifestações em defesa do povo palestino ao redor do mundo, praticamente todos os países não muçulmanos continuam mantendo relações comerciais e diplomáticas com o Estado de Israel, mesmo aqueles que o acusam de estar cometendo genocídio, mesmo os membros do BRICS (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa), que hoje inclui vários outros países emergentes. Israel alardeia que foi criado por determinação das Nações Unidas, embora se recuse sistematicamente a acatar as suas resoluções.
A Torah e a história do povo judeu foram moldadas e escritas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos. Em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência é a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Em 1952, pouco depois da catástrofe que se abateu sobre os palestinos em 1948, Frantz Fanon nos advertiu que os judeus que se instalaram em Israel criariam em menos de cem anos um inconsciente coletivo diferente daquele que possuíam em 1945, nos países de onde foram expulsos. Setenta e quatro anos depois, qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios.
Samuel Kilsztajn
Mercado de IA já contrata por valores de craques de futebol
Um bilhão de dólares por uma contratação. Isso é novo. Semana passada foi a primeira vez em que a imprensa de economia que olha para o mundo digital falou de compra de passe como se fosse jornalismo esportivo. E teve disputa. A Microsoft chamou o desenvolvedor austríaco Peter Steinberger para conversar, a Meta mandou um envelope com proposta. Ao fim, ele topou o convite da OpenAI. E o valor do contrato foi este: US$ 1 bilhão. A OpenAI pode parecer rica, mas, no jogo das três líderes do mercado de inteligência artificial, que inclui também Anthropic e Google, é a que está com o caixa mais pressionado. Não é dinheiro gasto com facilidade. Ainda assim, pagou. Por quê?
Steinberger é o desenvolvedor que, em algumas semanas entre novembro e dezembro, criou o OpenClaw. Neste ano, é a terceira vez que esse software é tema por aqui. Complicado de instalar, com inúmeros problemas de segurança, ele leva a IA para o mundo. Permite criar um robô autônomo dentro de qualquer computador conectado à internet, que usa a rede para fazer o que seu humano mandar. Se não sabe fazer, escreve o programa que lhe permite agir. Nas palavras de Sam Altman, CEO da OpenAI, a missão de Steinberger será liderar o time que fará o mesmo que o OpenClaw, mas de forma que “até minha avó possa usar”. Um sistema assim não está longe de surgir. Coisa de um, dois anos.
Mas o que é? Imagine o smartphone reinventado. Em vez de abrir um app de chamar carro, simplesmente mandar um zap ao robô: “Chama para mim um carro executivo”. Ele não procurará num só aplicativo, procurará em todos e escolherá o mais barato. Ou então mandar outra mensagem: “Quero viajar com a família para a França no ano que vem, qual a melhor época?”. Ele diz quando o clima é melhor, quando as passagens são mais baratas, fala que viajar na quarta traz mais chance de upgrade que na sexta. Desenha o roteiro, modifica conforme o pedido. E, quando todas as decisões estiverem tomadas, escolhe em que época é melhor comprar a passagem, reservar os hotéis. Aí faz os pagamentos.
Ou então volte-se ao mundo corporativo. Grandes empresas trabalham com plataformas caras de software. Gerenciam folha de pagamento, estoque de produtos, relação com fornecedores e consumidores, tudo. Como cada companhia tem suas particularidades, boa parte do ganho dessas fornecedoras está na consultoria que vem junto. É caro montar o pacote para fazer o negócio girar e, todo ano, essas gigantes do software impõem um aumento. Como o custo para trocar fornecedor é sempre muito alto, ficam trancadas na escolha. Quando um robô inteligente pode ir desenvolvendo seu sistema internamente, o gerencia e conserta bugs que apareçam eventualmente, a vida melhora. Melhora muito. Os custos com tecnologia despencam.
Apenas exemplos corriqueiros de como agentes assim, autônomos, são transformadores. Reorganizam a vida de todo mundo e mexem radicalmente na economia física e na digital. Um OpenClaw fácil de usar pode ter muitas interfaces diferentes. Para muitos dos usos atuais de smartphones, ninguém precisará de um paralelepípedo com tela. Chamar um carro? Basta dar a ordem por voz. Isso se resolve com fone, relógio ou par de óculos. O robô da empresa vive na nuvem. Não quer dizer que smartphones deixarão de existir, mas possivelmente não serão mais o centro da vida digital.
E não é só a interface, a forma como interagimos com tecnologia. Para que, exatamente, servirão negócios como agências de turismo? Como empresas aéreas gerenciarão seus preços e disputarão mercado? Como funcionarão investimentos quando todo mundo tiver sistemas equivalentes para escolher no que aplicar dinheiro? Publicidade anunciará de que jeito?
Há uma razão para a Anthropic, dona do Claude, não ter apresentado qualquer proposta para Steinberger. Ela é quem está mais avançada num agente. Seu Cowork funciona por enquanto apenas nos computadores pessoais, já gerencia arquivos fora da janela de chat e abre alguns aplicativos, como Notion ou Excel, e, dentro deles, manipula dados. Tudo a partir de uma ordem dada pelo usuário.
Essa supercontratação deixa evidente parte da loucura que é o mercado de IA. Em outubro, não estava ainda claro que agentes autônomos chegariam tão rápido. Os passos são, muitas vezes, assim. Saltos repentinos. Esse ritmo deverá aumentar.
Steinberger é o desenvolvedor que, em algumas semanas entre novembro e dezembro, criou o OpenClaw. Neste ano, é a terceira vez que esse software é tema por aqui. Complicado de instalar, com inúmeros problemas de segurança, ele leva a IA para o mundo. Permite criar um robô autônomo dentro de qualquer computador conectado à internet, que usa a rede para fazer o que seu humano mandar. Se não sabe fazer, escreve o programa que lhe permite agir. Nas palavras de Sam Altman, CEO da OpenAI, a missão de Steinberger será liderar o time que fará o mesmo que o OpenClaw, mas de forma que “até minha avó possa usar”. Um sistema assim não está longe de surgir. Coisa de um, dois anos.
Mas o que é? Imagine o smartphone reinventado. Em vez de abrir um app de chamar carro, simplesmente mandar um zap ao robô: “Chama para mim um carro executivo”. Ele não procurará num só aplicativo, procurará em todos e escolherá o mais barato. Ou então mandar outra mensagem: “Quero viajar com a família para a França no ano que vem, qual a melhor época?”. Ele diz quando o clima é melhor, quando as passagens são mais baratas, fala que viajar na quarta traz mais chance de upgrade que na sexta. Desenha o roteiro, modifica conforme o pedido. E, quando todas as decisões estiverem tomadas, escolhe em que época é melhor comprar a passagem, reservar os hotéis. Aí faz os pagamentos.
Ou então volte-se ao mundo corporativo. Grandes empresas trabalham com plataformas caras de software. Gerenciam folha de pagamento, estoque de produtos, relação com fornecedores e consumidores, tudo. Como cada companhia tem suas particularidades, boa parte do ganho dessas fornecedoras está na consultoria que vem junto. É caro montar o pacote para fazer o negócio girar e, todo ano, essas gigantes do software impõem um aumento. Como o custo para trocar fornecedor é sempre muito alto, ficam trancadas na escolha. Quando um robô inteligente pode ir desenvolvendo seu sistema internamente, o gerencia e conserta bugs que apareçam eventualmente, a vida melhora. Melhora muito. Os custos com tecnologia despencam.
Apenas exemplos corriqueiros de como agentes assim, autônomos, são transformadores. Reorganizam a vida de todo mundo e mexem radicalmente na economia física e na digital. Um OpenClaw fácil de usar pode ter muitas interfaces diferentes. Para muitos dos usos atuais de smartphones, ninguém precisará de um paralelepípedo com tela. Chamar um carro? Basta dar a ordem por voz. Isso se resolve com fone, relógio ou par de óculos. O robô da empresa vive na nuvem. Não quer dizer que smartphones deixarão de existir, mas possivelmente não serão mais o centro da vida digital.
E não é só a interface, a forma como interagimos com tecnologia. Para que, exatamente, servirão negócios como agências de turismo? Como empresas aéreas gerenciarão seus preços e disputarão mercado? Como funcionarão investimentos quando todo mundo tiver sistemas equivalentes para escolher no que aplicar dinheiro? Publicidade anunciará de que jeito?
Há uma razão para a Anthropic, dona do Claude, não ter apresentado qualquer proposta para Steinberger. Ela é quem está mais avançada num agente. Seu Cowork funciona por enquanto apenas nos computadores pessoais, já gerencia arquivos fora da janela de chat e abre alguns aplicativos, como Notion ou Excel, e, dentro deles, manipula dados. Tudo a partir de uma ordem dada pelo usuário.
Essa supercontratação deixa evidente parte da loucura que é o mercado de IA. Em outubro, não estava ainda claro que agentes autônomos chegariam tão rápido. Os passos são, muitas vezes, assim. Saltos repentinos. Esse ritmo deverá aumentar.
Lacerdismo volta à política brasileira
O pensador grego Aristóteles, um dos fundadores da filosofia ocidental, que viveu há cerca de 2.500 anos, ensinava que a arte da política consistia na busca do bem comum, pautado por justiça e equidade, por meio de um debate racional, travado franca e abertamente. Esse ideal, que corresponde à própria essência da democracia, embora jamais tenha se concretizado em toda a sua plenitude, sempre pautou a ação daqueles que, filiados a tal tradição, atuaram na arena pública.
Lamentavelmente, de uns tempos para cá, ressurge entre nós, na contramão desse respeitável legado, uma prática nefasta, que julgávamos definitivamente sepultada no passado, que atende pelo nome de “lacerdismo”. Cuida-se de um estilo peculiar de ação política que privilegia uma retórica agressiva e inflamada, pautada num moralismo refalsado, cujo objetivo único é deslegitimar os adversários, destruindo suas reputações.
O lacerdismo tem origem na figura de Carlos Lacerda, político e jornalista que liderava a oposição aos governos trabalhistas nos anos 1950 e 1960. Atuava basicamente por meio de um constante e feroz denuncismo, artificialmente construído, que dispensava qualquer proposta para o país, limitando-se a apontar, com o cinismo e a desfaçatez que lhe eram próprios, supostos atos de corrupção, subversão ou outros desvios de conduta de opositores reais ou imaginários.
Essa prática renasce atualmente, de forma difusa e transversal, sem respeitar diferenças partidárias ou ideológicas, manifestando-se tanto à direita como à esquerda do espectro político. Expressa-se geralmente sob a forma de uma cruzada puritana farisaica, em que os adversários são tratados como inimigos, destinados a proscrição, cadeia ou eliminação física.
A disputa não se trava mais entre projetos ou programas de governo, mas passa por um permanente embate de narrativas morais concorrentes, que, não raro, encontra expressão em comissões parlamentares de inquérito, as quais se arvoram em investigar temas cuja apuração, em geral, já vem sendo realizada por parte dos órgãos constitucionalmente competentes.
De fato, é mais simples denunciar do que propor soluções consistentes. Apresentar propostas estruturadas e coerentes para o país exige esforço intelectual, disposição para o debate e abertura ao compromisso, atributos hoje escassos entre aqueles que atuam nas lides da política.
Não é à toa que o lacerdismo inspirou a atuação da famosa “banda de música”, integrada por parlamentares da extinta União Democrática Nacional (UDN) que fustigaram os governos nacionalistas e populistas entre os anos 1946 e 1964, com discursos afinados e slogans mordazes, levando o presidente Getúlio Vargas ao suicídio, acusado de chafurdar num “mar de lama”.
É mais fácil e cômodo repetir palavras de ordem curtas e simples, revestidas de uma indignação hipócrita, porém contundente, preferencialmente através de mídias digitais, perpetuando a polarização e o confronto, do que propor soluções que permitam o desenvolvimento social, cultural e econômico da sociedade.
O lacerdismo hoje redivivo, que atinge tanto os que atuam na vida pública como aqueles que se encontram fora dela, corresponde à antipolítica, por empobrecer o debate democrático, fomentar a descrença nas instituições e estimular a equivocada convicção segundo a qual apenas soluções extravagantes — judiciais, tecnocráticas ou autoritárias — são capazes de resolver os problemas nacionais, cuja origem, aliás, remonta à própria colonização do Brasil.
Ricardo Lewandowski
Lamentavelmente, de uns tempos para cá, ressurge entre nós, na contramão desse respeitável legado, uma prática nefasta, que julgávamos definitivamente sepultada no passado, que atende pelo nome de “lacerdismo”. Cuida-se de um estilo peculiar de ação política que privilegia uma retórica agressiva e inflamada, pautada num moralismo refalsado, cujo objetivo único é deslegitimar os adversários, destruindo suas reputações.
O lacerdismo tem origem na figura de Carlos Lacerda, político e jornalista que liderava a oposição aos governos trabalhistas nos anos 1950 e 1960. Atuava basicamente por meio de um constante e feroz denuncismo, artificialmente construído, que dispensava qualquer proposta para o país, limitando-se a apontar, com o cinismo e a desfaçatez que lhe eram próprios, supostos atos de corrupção, subversão ou outros desvios de conduta de opositores reais ou imaginários.
Essa prática renasce atualmente, de forma difusa e transversal, sem respeitar diferenças partidárias ou ideológicas, manifestando-se tanto à direita como à esquerda do espectro político. Expressa-se geralmente sob a forma de uma cruzada puritana farisaica, em que os adversários são tratados como inimigos, destinados a proscrição, cadeia ou eliminação física.
A disputa não se trava mais entre projetos ou programas de governo, mas passa por um permanente embate de narrativas morais concorrentes, que, não raro, encontra expressão em comissões parlamentares de inquérito, as quais se arvoram em investigar temas cuja apuração, em geral, já vem sendo realizada por parte dos órgãos constitucionalmente competentes.
De fato, é mais simples denunciar do que propor soluções consistentes. Apresentar propostas estruturadas e coerentes para o país exige esforço intelectual, disposição para o debate e abertura ao compromisso, atributos hoje escassos entre aqueles que atuam nas lides da política.
Não é à toa que o lacerdismo inspirou a atuação da famosa “banda de música”, integrada por parlamentares da extinta União Democrática Nacional (UDN) que fustigaram os governos nacionalistas e populistas entre os anos 1946 e 1964, com discursos afinados e slogans mordazes, levando o presidente Getúlio Vargas ao suicídio, acusado de chafurdar num “mar de lama”.
É mais fácil e cômodo repetir palavras de ordem curtas e simples, revestidas de uma indignação hipócrita, porém contundente, preferencialmente através de mídias digitais, perpetuando a polarização e o confronto, do que propor soluções que permitam o desenvolvimento social, cultural e econômico da sociedade.
O lacerdismo hoje redivivo, que atinge tanto os que atuam na vida pública como aqueles que se encontram fora dela, corresponde à antipolítica, por empobrecer o debate democrático, fomentar a descrença nas instituições e estimular a equivocada convicção segundo a qual apenas soluções extravagantes — judiciais, tecnocráticas ou autoritárias — são capazes de resolver os problemas nacionais, cuja origem, aliás, remonta à própria colonização do Brasil.
Ricardo Lewandowski
De fascismo a fascismo
Alguns lembrarão que houve Umberto Eco. Que falta ele faz para rirmos o bom riso! Eco explicava o fascismo eterno, que é uma combinação de certos pontos, entre eles o culto das tradições (interpretadas de uma maneira própria), a recusa da modernidade e da razão, o irracionalismo e o culto da ação pela ação, a rejeição das críticas e do espírito crítico, o medo da diversidade e o racismo, a obsessão com as conspirações, a ideia de guerra permanente, o desprezo pelos fracos, o uso de uma neolíngua (como descrevia Orwell). Se você vê pessoas e grupos com essas características, já sabe: é lícito dizer que são fascistas.
Eco nos ensinava também que a internet é um instrumento do fascismo contemporâneo e que as redes sociais “dão a palavra a uma legião de imbecis que falavam no bar sobre um copo de vinho e agora têm o mesmo direito de palavra dos Prêmio Nobel”. Outro italiano, Alberto Brandolini, descobriu uma lei: “A quantidade de energia necessária para refutar bullshit é de uma ordem de grandeza maior que a necessária para produzi-lo.” E Jonathan Koomey: “Um idiota pode criar mais merda do que você jamais pode ter a esperança de refutar.”
Nada disso é tão relevante quanto a emergência do twosidism, que faz os jornais dizerem que têm de publicar as opiniões divergentes com o mesmo rigor, mesmo se uma é de que a Terra é plana. Mas hoje o que vemos é outra coisa: é a ressurgência de um delírio que quase destruiu o Brasil, a lavajato. Disfarçada de moral e bons costumes, ela — inominada — tomou agora como foco a destruição do Supremo Tribunal Federal. Como já disse, a “operação linchamento” tem duas motivações: a primeira é o processo de Sérgio Moro, cujo relator é Dias Toffoli; a segunda é a desqualificação do julgamento de Bolsonaro. É claro que ambas fazem parte do mesmo discurso fascista, no falso adágio maquiavélico de que o fim justifica os meios.
Para a destruição das reputações vale tudo, inclusive, sob a proteção do sigilo das fontes (art. 5º, XIV), quebrar os sigilos pessoais (art. 5º, XII) dos ministros. Ambos são sagrados, mas divulgar informações sigilosas é crime (Código Penal, art. 154, 1 a 4 anos; art. 154A, para dispositivo informático, §3º e 4º, 2 a 5 anos, mais 2/3; art.154B, se contra a administração pública dispensa representação; art. 325, §2º, violação de sigilo com dano, 2 a 6 anos). Isto é, a pessoa não precisa revelar quem lhe deu a informação, mas comete um crime. E essas penas são acrescidas de multa, sem definição exata de valor. Se fosse na França a multa seria de 300 mil euros, doeria na parte sensível do corpo capitalista.
Mas, assumindo o comando as redes sociais, os caras que quebraram os sigilos passaram a ser uns heróis, coitados, estão fazendo o mesmo que tantos heróis já fizeram, como Silvério dos Reis e outros praticantes do dedodurismo anônimo. Por outro lado, os donos dos IP que divulgam o neolavajatismo certamente não se importam que quebrem os deles, que só estão exercendo a liberdade de expressão.
Aliás, destruído o STF, o soluçante reinstalado no Alvorada, as cadeias e os cemitérios cheios de discordantes, eleições unânimes o elegerão pelos séculos dos séculos e depois o 01, o 02 e assim por diante. Episódios como o dessa semana na França, quando um agitador de extrema-direita foi linchado por agitadores de extrema-esquerda, não acontecerão, porque os milicianos terão exclusividade nos linchamentos. Viva Deus Pátria Família!
Expressão por expressão, acho curioso que o Brasil, que já teve um dos cleros mais avançados do mundo — conheci D. Helder já magrelo e ainda bispo auxiliar — tenha agora um dos mais retrógrados, com D. Orani bancando um Lefebvre social: tomou o partido dos evangélicos que vestiram a carapuça, reprovou “a utilização de símbolos da fé cristã e da instituição familiar em manifestações culturais de maneira que compreendemos como ofensiva”. Enquanto isso, os bispos americanos, considerados dos mais reacionários, estão trabalhando valentemente contra a guerra miliciana que o Trump faz contra quem não é ku klux klan — o que inclui deportar ou matar os seres inferiores, como mulheres, crianças, lgbt+, não branquelos, que não falam inglês etc. É claro que eles, bispos, são influenciados pelo papa peruano e imigrante que nasceu americano, ¿que tal?
É verdade que a ala 22, quase fechando a escola que homenageava o Lula — sacrilégio! — tinha umas fantasias de lata de conserva e, falo por ler, que não consegui ver, umas bíblias na mão — horror, deviam estar com o livrinho vermelho de Mao ou o verde do Khomeini. Não era algo puro, como desfilar com o troço de fora, com uma estrelinha cobrindo a coisa, fantasiado de diabo e outras delicadezas que fazem parte das boas manifestações culturais.
Realmente a família, a boa, fascista, da agronegociata, de bíblia e bala, estava sendo atacada. Pelo menos segundo a excelsa michela — assim chamava José Bonifácio à Domitila, significando o registrado pelo Houaiss, Brasil tabu prostituta, meretriz, tadinha dela que não era nada disso, só cobrava dos clientes —, que classificou de “um escárnio”. Já que estou indo de dicionário, escárnio é: 1 aquilo que é objeto de desdém, ironia ou sarcasmo | 2 o que é feito ou dito com intenção de provocar riso ou hilariedade acerca de alguém ou algo; caçoada, troça, zombaria | 3 atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo, por vezes indignado.
Ih!, acho que escarneci de umas pessoas. Será que serei excomungado? Deus me livre.
Pedro Costa
Eco nos ensinava também que a internet é um instrumento do fascismo contemporâneo e que as redes sociais “dão a palavra a uma legião de imbecis que falavam no bar sobre um copo de vinho e agora têm o mesmo direito de palavra dos Prêmio Nobel”. Outro italiano, Alberto Brandolini, descobriu uma lei: “A quantidade de energia necessária para refutar bullshit é de uma ordem de grandeza maior que a necessária para produzi-lo.” E Jonathan Koomey: “Um idiota pode criar mais merda do que você jamais pode ter a esperança de refutar.”
Nada disso é tão relevante quanto a emergência do twosidism, que faz os jornais dizerem que têm de publicar as opiniões divergentes com o mesmo rigor, mesmo se uma é de que a Terra é plana. Mas hoje o que vemos é outra coisa: é a ressurgência de um delírio que quase destruiu o Brasil, a lavajato. Disfarçada de moral e bons costumes, ela — inominada — tomou agora como foco a destruição do Supremo Tribunal Federal. Como já disse, a “operação linchamento” tem duas motivações: a primeira é o processo de Sérgio Moro, cujo relator é Dias Toffoli; a segunda é a desqualificação do julgamento de Bolsonaro. É claro que ambas fazem parte do mesmo discurso fascista, no falso adágio maquiavélico de que o fim justifica os meios.
Para a destruição das reputações vale tudo, inclusive, sob a proteção do sigilo das fontes (art. 5º, XIV), quebrar os sigilos pessoais (art. 5º, XII) dos ministros. Ambos são sagrados, mas divulgar informações sigilosas é crime (Código Penal, art. 154, 1 a 4 anos; art. 154A, para dispositivo informático, §3º e 4º, 2 a 5 anos, mais 2/3; art.154B, se contra a administração pública dispensa representação; art. 325, §2º, violação de sigilo com dano, 2 a 6 anos). Isto é, a pessoa não precisa revelar quem lhe deu a informação, mas comete um crime. E essas penas são acrescidas de multa, sem definição exata de valor. Se fosse na França a multa seria de 300 mil euros, doeria na parte sensível do corpo capitalista.
Mas, assumindo o comando as redes sociais, os caras que quebraram os sigilos passaram a ser uns heróis, coitados, estão fazendo o mesmo que tantos heróis já fizeram, como Silvério dos Reis e outros praticantes do dedodurismo anônimo. Por outro lado, os donos dos IP que divulgam o neolavajatismo certamente não se importam que quebrem os deles, que só estão exercendo a liberdade de expressão.
Aliás, destruído o STF, o soluçante reinstalado no Alvorada, as cadeias e os cemitérios cheios de discordantes, eleições unânimes o elegerão pelos séculos dos séculos e depois o 01, o 02 e assim por diante. Episódios como o dessa semana na França, quando um agitador de extrema-direita foi linchado por agitadores de extrema-esquerda, não acontecerão, porque os milicianos terão exclusividade nos linchamentos. Viva Deus Pátria Família!
Expressão por expressão, acho curioso que o Brasil, que já teve um dos cleros mais avançados do mundo — conheci D. Helder já magrelo e ainda bispo auxiliar — tenha agora um dos mais retrógrados, com D. Orani bancando um Lefebvre social: tomou o partido dos evangélicos que vestiram a carapuça, reprovou “a utilização de símbolos da fé cristã e da instituição familiar em manifestações culturais de maneira que compreendemos como ofensiva”. Enquanto isso, os bispos americanos, considerados dos mais reacionários, estão trabalhando valentemente contra a guerra miliciana que o Trump faz contra quem não é ku klux klan — o que inclui deportar ou matar os seres inferiores, como mulheres, crianças, lgbt+, não branquelos, que não falam inglês etc. É claro que eles, bispos, são influenciados pelo papa peruano e imigrante que nasceu americano, ¿que tal?
É verdade que a ala 22, quase fechando a escola que homenageava o Lula — sacrilégio! — tinha umas fantasias de lata de conserva e, falo por ler, que não consegui ver, umas bíblias na mão — horror, deviam estar com o livrinho vermelho de Mao ou o verde do Khomeini. Não era algo puro, como desfilar com o troço de fora, com uma estrelinha cobrindo a coisa, fantasiado de diabo e outras delicadezas que fazem parte das boas manifestações culturais.
Realmente a família, a boa, fascista, da agronegociata, de bíblia e bala, estava sendo atacada. Pelo menos segundo a excelsa michela — assim chamava José Bonifácio à Domitila, significando o registrado pelo Houaiss, Brasil tabu prostituta, meretriz, tadinha dela que não era nada disso, só cobrava dos clientes —, que classificou de “um escárnio”. Já que estou indo de dicionário, escárnio é: 1 aquilo que é objeto de desdém, ironia ou sarcasmo | 2 o que é feito ou dito com intenção de provocar riso ou hilariedade acerca de alguém ou algo; caçoada, troça, zombaria | 3 atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo, por vezes indignado.
Ih!, acho que escarneci de umas pessoas. Será que serei excomungado? Deus me livre.
Pedro Costa
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Louco é quem não sonha
Comemoram-se este ano os 500 anos da publicação da “Utopia”, de Thomas More. A data está a servir de pretexto para uma série de iniciativas, não apenas para lembrar More e a sua obra, mas também (ou sobretudo) para celebrar a ideia de utopia. Utopias e distopias são poderosos exercícios de imaginação que nos ajudam a compreender os erros dos atuais modelos políticos e a projetar e construir melhores modelos.
Atravessamos tempos convulsos. Tempos de incerteza. Depois de Barack Obama, um modelo de elegância e inteligência, concorde-se ou não com as suas ideias, ninguém acreditava que os EUA pudessem regredir até alguém (alguma coisa) tão ruim quanto, por exemplo, George W. Bush — e foi então que surgiu Donald Trump. No início parecia apenas um pequeno erro do sistema, um divertimento antes da ação a sério, como os palhaços, no circo, antecedendo a entrada dos trapezistas. Agora começa a parecer-se com o que sempre foi — um pesadelo.
No Brasil, cujo processo de democratização acompanhei com entusiasmo, que vi crescer, prosperar, vencer a inflação e o desemprego — antes da crise atual —, há quem saia para as ruas clamando pelo regresso dos militares. Olhando a partir de fora custa a compreender. Olhando a partir de dentro custa ainda mais.
Desistir da democracia porque alguns políticos são corruptos é como cortar a cabeça para acalmar uma enxaqueca. As ditaduras tendem a ser muitíssimo mais corruptas do que as democracias. A diferença entre uma ditadura e uma democracia, no que diz respeito à corrupção, é que numa democracia os corruptos nem sempre conseguem dormir, com receio de que polícia lhes entre em casa a meio da noite, enquanto numa ditadura são as pessoas honestas que não conseguem dormir — com receio de que a polícia lhes entre em casa a meio da noite. Uma democracia é tanto mais avançada quando mais capaz for de combater a corrupção e, em particular, a corrupção no mundo da política. Creio mesmo que uma democracia é tanto mais avançada quanto menos ricos forem os seus políticos. Gosto da Holanda porque o primeiro-ministro vai para o emprego de bicicleta. Amo Cabo Verde, entre tantos outros bons motivos, porque o governo fica na Praia, e porque, entrando num boteco qualquer, nunca saberemos se o sujeito sentado ao nosso lado, tocando cavaquinho, é um humilde pedreiro ou o presidente da República.
Não há ditaduras boas, da mesma forma que não há doenças boas. Há democracias avançadas e vigorosas e há democracias em crise, democracias frágeis, democracias necessitadas de um novo começo. O que não há com toda a certeza é democracias que possam ser substituídas com proveito por uma qualquer ditadura. Nenhuma democracia é tão má que consiga ser pior do que a melhor ditadura.
Quando se analisam, à distância de séculos, tempos de incerteza e convulsão verifica-se, tantas vezes, que estes assinalam importantes avanços na História. As pessoas que acordaram em Paris, naquela manhã de 14 de julho de 1789, não podiam imaginar que os confrontos desse dia, que culminaram na tomada da Bastilha, iriam dar origem não só a mudanças políticas fundamentais, mas, mais importante, a alterações positivas de mentalidade, em particular ao enraizamento da noção de que todos os homens nascem livres e são iguais em direitos e deveres. Para muitos franceses aqueles foram dias de puro terror. Dias em que um mundo acabou. Mas hoje, olhando para trás, o que vemos é um mundo novo a começar.
Tempos como aqueles que vivemos são susceptíveis de engendrar monstros. Contudo, também são capazes de gerar sonhos enormes e poderosos. Mais do que nunca é urgente revisitar utopias antigas e projetar novas. A obra de Thomas More inspirou, entre outros, Pierre-Joseph Proudhon, um dos pais do anarquismo. Mesmo quem nunca ouviu falar em Proudhon conhece certamente a mais famosa das suas proclamações, “a propriedade é um roubo”, e muitos a repetem, ainda que a não compreendam. Algumas das ideias antiautoritárias de Proudhon são hoje mais atuais — e menos “utópicas” — do que quando este as produziu.
O comunismo morreu e o capitalismo ameaça matar-nos a todos. A corrupção da classe política, as crises de refugiados, o aquecimento global, tudo isto são problemas decorrentes da própria natureza do sistema capitalista. É urgente procurar outros caminhos. Sonhar não é loucura. Loucura, hoje, é não sonhar. Na certeza, porém, de que esses caminhos, esses sonhos, só podem ser encontrados por meios pacíficos e democráticos. A democracia, essa utopia primordial, não pode ser posta em causa. Todos somos poucos para a defender.
Atravessamos tempos convulsos. Tempos de incerteza. Depois de Barack Obama, um modelo de elegância e inteligência, concorde-se ou não com as suas ideias, ninguém acreditava que os EUA pudessem regredir até alguém (alguma coisa) tão ruim quanto, por exemplo, George W. Bush — e foi então que surgiu Donald Trump. No início parecia apenas um pequeno erro do sistema, um divertimento antes da ação a sério, como os palhaços, no circo, antecedendo a entrada dos trapezistas. Agora começa a parecer-se com o que sempre foi — um pesadelo.
No Brasil, cujo processo de democratização acompanhei com entusiasmo, que vi crescer, prosperar, vencer a inflação e o desemprego — antes da crise atual —, há quem saia para as ruas clamando pelo regresso dos militares. Olhando a partir de fora custa a compreender. Olhando a partir de dentro custa ainda mais.
Desistir da democracia porque alguns políticos são corruptos é como cortar a cabeça para acalmar uma enxaqueca. As ditaduras tendem a ser muitíssimo mais corruptas do que as democracias. A diferença entre uma ditadura e uma democracia, no que diz respeito à corrupção, é que numa democracia os corruptos nem sempre conseguem dormir, com receio de que polícia lhes entre em casa a meio da noite, enquanto numa ditadura são as pessoas honestas que não conseguem dormir — com receio de que a polícia lhes entre em casa a meio da noite. Uma democracia é tanto mais avançada quando mais capaz for de combater a corrupção e, em particular, a corrupção no mundo da política. Creio mesmo que uma democracia é tanto mais avançada quanto menos ricos forem os seus políticos. Gosto da Holanda porque o primeiro-ministro vai para o emprego de bicicleta. Amo Cabo Verde, entre tantos outros bons motivos, porque o governo fica na Praia, e porque, entrando num boteco qualquer, nunca saberemos se o sujeito sentado ao nosso lado, tocando cavaquinho, é um humilde pedreiro ou o presidente da República.
Não há ditaduras boas, da mesma forma que não há doenças boas. Há democracias avançadas e vigorosas e há democracias em crise, democracias frágeis, democracias necessitadas de um novo começo. O que não há com toda a certeza é democracias que possam ser substituídas com proveito por uma qualquer ditadura. Nenhuma democracia é tão má que consiga ser pior do que a melhor ditadura.
Quando se analisam, à distância de séculos, tempos de incerteza e convulsão verifica-se, tantas vezes, que estes assinalam importantes avanços na História. As pessoas que acordaram em Paris, naquela manhã de 14 de julho de 1789, não podiam imaginar que os confrontos desse dia, que culminaram na tomada da Bastilha, iriam dar origem não só a mudanças políticas fundamentais, mas, mais importante, a alterações positivas de mentalidade, em particular ao enraizamento da noção de que todos os homens nascem livres e são iguais em direitos e deveres. Para muitos franceses aqueles foram dias de puro terror. Dias em que um mundo acabou. Mas hoje, olhando para trás, o que vemos é um mundo novo a começar.
Tempos como aqueles que vivemos são susceptíveis de engendrar monstros. Contudo, também são capazes de gerar sonhos enormes e poderosos. Mais do que nunca é urgente revisitar utopias antigas e projetar novas. A obra de Thomas More inspirou, entre outros, Pierre-Joseph Proudhon, um dos pais do anarquismo. Mesmo quem nunca ouviu falar em Proudhon conhece certamente a mais famosa das suas proclamações, “a propriedade é um roubo”, e muitos a repetem, ainda que a não compreendam. Algumas das ideias antiautoritárias de Proudhon são hoje mais atuais — e menos “utópicas” — do que quando este as produziu.
O comunismo morreu e o capitalismo ameaça matar-nos a todos. A corrupção da classe política, as crises de refugiados, o aquecimento global, tudo isto são problemas decorrentes da própria natureza do sistema capitalista. É urgente procurar outros caminhos. Sonhar não é loucura. Loucura, hoje, é não sonhar. Na certeza, porém, de que esses caminhos, esses sonhos, só podem ser encontrados por meios pacíficos e democráticos. A democracia, essa utopia primordial, não pode ser posta em causa. Todos somos poucos para a defender.
José Eduardo Agualusa (crônica de 2016)
Isto é Verdun (ainda 110 anos depois)
Verdun, uma palavra terrível! Incontáveis pessoas, jovens e cheias de esperança, tiveram de entregar aqui suas vidas; seus ossos agora apodrecem em algum lugar, entre posições, em valas comuns, em cemitérios. O front oscila: hoje o inimigo está na colina, amanhã [seremos] nós; sempre há aqui um combate desesperado. Alguns, que ainda há pouco se alegravam com o sol quente, logo ouviam urros e choros se aproximando de algum lugar. Acabaram‑se todos os sonhos de paz e lar; o homem vira verme e procura o buraco mais profundo. Campos de bombardeio e de batalha onde nada se vê além de fumaça sufocante, gás, torrões de terra e trapos voando pelo ar, rodopiando selvagemente: isto é Verdun.
Paul Boelicke, de 20 anos, em carta à sua família
O último dos bolsonaristas
Num aprazível condomínio da região serrana do Rio vive o que me apontaram como "o último bolsonarista". Uma hipérbole, senão mero exagero; basta conferir as pesquisas eleitorais. Mas ele representa todo conjunto onde ninguém mais admite publicamente conexão com Bolsonaro, embora guarde ativo o fetiche do nome. Como um palavrão silencioso. "Último" também metaforiza aqui o inglês "ultimate", que designa atitude extrema, de ir até o fim.
O exemplo em pauta emergiu do silêncio de um adepto notório, pela violação de seu tabu condominial: o filho de 6 anos do zelador, residente no local, molhou os pés na piscina comum. Ele exige agora proibição formal, para constrangimento da maioria, pois o acesso é franqueado pela convenção. Mantidas as proporções, é fato análogo ao do ex-ministro da Fazenda bolsonarista, ultrajado por viagem de empregada doméstica à Disney. Hoje é guru do filho 01, viajante tão frequente que parece fazer campanha nos EUA pela presidência do Brasil.
O nome Bolsonaro, grife posta no mercado partidário, virou lubrificante para que a máquina neofascista persista nos corpos biopolíticos dos adeptos. Essa "máquina" não é um objeto técnico, mas um dispositivo sociopolítico que conecta fragmentos ideológicos da ultradireita contemporânea. Ela avança nos fenômenos de atração e repulsa sociais, cujos tópicos de insatisfação incidem sobre as mudanças nos costumes e a ascensão de minorias ao plano visível da sociabilidade.
Séculos antes, no "Hamlet", Shakespeare concebia genialmente uma "destilação leprosa" na consciência. E ao falar do fascismo como "mutação antropológica", o cinepoeta Pasolini enxergou verdadeira transformação "genética". O que hoje faz a máquina neofascista é intensificar a coordenação psíquica dos indivíduos, liberando-os para seguir os próprios instintos por mais persecutórios e violentos que sejam. Todas as variações de uma região do mundo para outra podem se encaixar numa lista de repulsas em que figuram o pobre, o preto, o gênero divergente.
Daí uma incongruência na atitude do citado "último": a família visada tem pele clara, escolaridade superior e fino trato. Uma explicação provável é a inerência do sujeito a uma fantasia pessoal, uma identidade guardada no fundo de si mesmo, ao modo de uma igualdade de estirpe que o impediria, por secreta hierarquia, de reconhecer um zelador como socius. É a shakespeareana "destilação leprosa" que, entre nós, conduz à rejeição antipetista. Não tem a ver com realidade econômica (desemprego baixo, inflação controlada) nem política (estabilização democrática), mas com o temor ressentido de que a identidade pessoal esteja ameaçada.
O "último bolsonarista" não é uma ficção e vale como paradigma do homúnculo moral, cuja benignidade é apenas tempo de espera de carta branca para humilhar o zelador, a doméstica, o vulnerável. Enquanto isso, nas prospecções eleitorais, contam-se em 32% os eleitores independentes, ditos "pêndulos", dos quais pouco se sabe sobre o potencial de autonomia frente à máquina neofascista, sempre ativa. Para desgosto dos "últimos", entretanto, as pesquisas indicam que o retorno da marca Bolsonaro inspira aversão popular maior do que a dirigida ao petismo.
O exemplo em pauta emergiu do silêncio de um adepto notório, pela violação de seu tabu condominial: o filho de 6 anos do zelador, residente no local, molhou os pés na piscina comum. Ele exige agora proibição formal, para constrangimento da maioria, pois o acesso é franqueado pela convenção. Mantidas as proporções, é fato análogo ao do ex-ministro da Fazenda bolsonarista, ultrajado por viagem de empregada doméstica à Disney. Hoje é guru do filho 01, viajante tão frequente que parece fazer campanha nos EUA pela presidência do Brasil.
O nome Bolsonaro, grife posta no mercado partidário, virou lubrificante para que a máquina neofascista persista nos corpos biopolíticos dos adeptos. Essa "máquina" não é um objeto técnico, mas um dispositivo sociopolítico que conecta fragmentos ideológicos da ultradireita contemporânea. Ela avança nos fenômenos de atração e repulsa sociais, cujos tópicos de insatisfação incidem sobre as mudanças nos costumes e a ascensão de minorias ao plano visível da sociabilidade.
Séculos antes, no "Hamlet", Shakespeare concebia genialmente uma "destilação leprosa" na consciência. E ao falar do fascismo como "mutação antropológica", o cinepoeta Pasolini enxergou verdadeira transformação "genética". O que hoje faz a máquina neofascista é intensificar a coordenação psíquica dos indivíduos, liberando-os para seguir os próprios instintos por mais persecutórios e violentos que sejam. Todas as variações de uma região do mundo para outra podem se encaixar numa lista de repulsas em que figuram o pobre, o preto, o gênero divergente.
Daí uma incongruência na atitude do citado "último": a família visada tem pele clara, escolaridade superior e fino trato. Uma explicação provável é a inerência do sujeito a uma fantasia pessoal, uma identidade guardada no fundo de si mesmo, ao modo de uma igualdade de estirpe que o impediria, por secreta hierarquia, de reconhecer um zelador como socius. É a shakespeareana "destilação leprosa" que, entre nós, conduz à rejeição antipetista. Não tem a ver com realidade econômica (desemprego baixo, inflação controlada) nem política (estabilização democrática), mas com o temor ressentido de que a identidade pessoal esteja ameaçada.
O "último bolsonarista" não é uma ficção e vale como paradigma do homúnculo moral, cuja benignidade é apenas tempo de espera de carta branca para humilhar o zelador, a doméstica, o vulnerável. Enquanto isso, nas prospecções eleitorais, contam-se em 32% os eleitores independentes, ditos "pêndulos", dos quais pouco se sabe sobre o potencial de autonomia frente à máquina neofascista, sempre ativa. Para desgosto dos "últimos", entretanto, as pesquisas indicam que o retorno da marca Bolsonaro inspira aversão popular maior do que a dirigida ao petismo.
A história da Palestina que tentam apagar
Passado, presente, futuro — a história de Gaza e da Palestina anda revolta em três tempos, simultaneamente. São tempos interligados, que têm em comum o apagamento da pegada histórica, física e cultural de todo um povo. Na mesma semana em que o venerando Museu Britânico removeu o termo “Palestina” de parte de seu acervo permanente sobre o Oriente Médio, a menção à situação em Gaza despencou para 1,5% do noticiário nas mídias dos Estados Unidos, e Donald Trump estreou em Washington seu Comitê de Paz para tornar o enclave mais desfrutável (e rentável) no futuro.
Começando pelo passado. A coleção permanente do museu londrino dedicada à história, arte e cultura das civilizações é uma das maiores do mundo — conta com mais de 8 milhões de peças que documentam os passos da Humanidade, dos primórdios até hoje. Os textos, painéis informativos e mapas alterados na semana passada encontram-se na ala destinada à História do Oriente Médio, que inclui os territórios do antigo Levante e do Egito antes da Era Cristã. Nessa seção, a costa leste do Mediterrâneo era identificada como “Palestina”, e os povos que lá viviam como “de ascendência palestina”. Em seu lugar, agora são referidos como “Canaã” e “de ascendência cananeia”.
Canaã costuma ser empregado por historiadores para a região que englobava o que é hoje Palestina, Israel, Síria e Jordânia. O termo foi criado em referência aos primeiros habitantes de Jericó, que hoje integra a Cisjordânia ocupada por Israel. No Velho Testamento, Canaã também é referida como a terra prometida por Deus ao povo judeu. Ou seja, encrenca milenar.
A troca na nomenclatura foi comemorada pelo grupo de advogados UK Lawyers for Israel (UKLFI), que exercera pressão forte para a mudança argumentado, entre outros motivos, que o nome “Palestina” poderia minimizar a existência dos antigos reinos israelitas. A reação contrária veio de pronto, com abaixo-assinado pela reversão da medida, firmado por milhares de integrantes do próprio museu.
— É ridículo o Museu Britânico remover a palavra “Palestina” quando ela tem antiguidade maior que a palavra “Britânico” — escreveu o historiador de arte escocês William Dalrymple, que situa a primeira referência ao termo a um monumento egípcio de 1186 a.C.
Dificilmente se verá reversão, pois o próprio museu considera que o termo deixou de ser “historicamente neutro”. Ou seja, tornou-se tóxico. A Palestina não está a salvo nem no seu passado milenar.
No presente, 4 mil anos depois, o apagamento se agrava desde outubro de 2025, quando Trump anunciou um cessar-fogo que já matou mais de 600 civis palestinos.
— A guerra em Gaza acabou — decretou o presidente.
A imprensa dos Estados Unidos parece ter acreditado, pois, segundo dados do instituto Fairness & Accuracy In Reporting (Fair), o noticiário sobre o lento morrer no enclave encolheu brutalmente. Chegou a ocupar 4,5% do espaço; hoje mal alcança 1,3%. O fato de o governo Benjamin Netanyahu proibir acesso ao que resta de Gaza a toda e qualquer mídia estrangeira independente apenas acentua o esquecimento e o silêncio mundial. Em paralelo, o Comitê de Proteção a Jornalistas documentou a detenção por Israel de 94 repórteres palestinos (32 em Gaza, 60 na Cisjordânia ocupada e dois em Israel) e expôs as condições prisionais degradantes a que são submetidos. Eram deles as únicas vozes ainda ativas no infernal cotidiano da vida palestina presente.
— É fácil manifestar cinismo ou desesperança sobre o estado das artes do jornalismo — escreveu a crítica de mídia Margaret Sullivan — quando nos sentimos frustrados, atolados em desinformação e em dúvida sobre o sentido da profissão. Mas é por meio do jornalismo que o viver de um povo é contado, que o poder é desafiado, a História é registrada, mudanças são empurradas.
O general Dwight Eisenhower disse mais ou menos a mesma coisa em abril de 1945, apenas em tom de urgência necessária à ocasião — as tropas sob seu comando haviam libertado o campo de concentração nazista de Ohrdruf, pouco antes:
— Registrem tudo agora. Filmem tudo. Chamem as testemunhas. Pois, em algum ponto do fio da História, algum canalha se erguerá e dirá que isso jamais aconteceu.
No tempo futuro, será inevitável a obliteração das raízes de Gaza caso a “reconstrução” do enclave siga a distopia planejada por Trump. O que até outubro de 2023 era a Cidade Velha, lar da Grande Mesquita de Omari, foi redesenhado para se tornar um “complexo industrial”; 180 torres turísticas à beira-mar devem cortar o acesso à orla para a população local; as outrora férteis terras agrícolas e dois imensos campos de refugiados serão ocupados por centros de dados, sem ligação com as comunidades originais; as 400 mil novas moradias prometidas na semana passada — designadas como “comunidades seguras alternativas” — serão fortemente vigiadas, com os moradores submetidos a monitoramento biométrico e verificação por parte de Israel — escreveu Muhammad Shehada, pesquisador do European Council on Foreign Relations.
Nessa toada, o futuro palestino se anuncia pior que o passado; e, do presente, poucos querem se lembrar.
Dorrit Harazim
Começando pelo passado. A coleção permanente do museu londrino dedicada à história, arte e cultura das civilizações é uma das maiores do mundo — conta com mais de 8 milhões de peças que documentam os passos da Humanidade, dos primórdios até hoje. Os textos, painéis informativos e mapas alterados na semana passada encontram-se na ala destinada à História do Oriente Médio, que inclui os territórios do antigo Levante e do Egito antes da Era Cristã. Nessa seção, a costa leste do Mediterrâneo era identificada como “Palestina”, e os povos que lá viviam como “de ascendência palestina”. Em seu lugar, agora são referidos como “Canaã” e “de ascendência cananeia”.
Canaã costuma ser empregado por historiadores para a região que englobava o que é hoje Palestina, Israel, Síria e Jordânia. O termo foi criado em referência aos primeiros habitantes de Jericó, que hoje integra a Cisjordânia ocupada por Israel. No Velho Testamento, Canaã também é referida como a terra prometida por Deus ao povo judeu. Ou seja, encrenca milenar.
A troca na nomenclatura foi comemorada pelo grupo de advogados UK Lawyers for Israel (UKLFI), que exercera pressão forte para a mudança argumentado, entre outros motivos, que o nome “Palestina” poderia minimizar a existência dos antigos reinos israelitas. A reação contrária veio de pronto, com abaixo-assinado pela reversão da medida, firmado por milhares de integrantes do próprio museu.
— É ridículo o Museu Britânico remover a palavra “Palestina” quando ela tem antiguidade maior que a palavra “Britânico” — escreveu o historiador de arte escocês William Dalrymple, que situa a primeira referência ao termo a um monumento egípcio de 1186 a.C.
Dificilmente se verá reversão, pois o próprio museu considera que o termo deixou de ser “historicamente neutro”. Ou seja, tornou-se tóxico. A Palestina não está a salvo nem no seu passado milenar.
No presente, 4 mil anos depois, o apagamento se agrava desde outubro de 2025, quando Trump anunciou um cessar-fogo que já matou mais de 600 civis palestinos.
— A guerra em Gaza acabou — decretou o presidente.
A imprensa dos Estados Unidos parece ter acreditado, pois, segundo dados do instituto Fairness & Accuracy In Reporting (Fair), o noticiário sobre o lento morrer no enclave encolheu brutalmente. Chegou a ocupar 4,5% do espaço; hoje mal alcança 1,3%. O fato de o governo Benjamin Netanyahu proibir acesso ao que resta de Gaza a toda e qualquer mídia estrangeira independente apenas acentua o esquecimento e o silêncio mundial. Em paralelo, o Comitê de Proteção a Jornalistas documentou a detenção por Israel de 94 repórteres palestinos (32 em Gaza, 60 na Cisjordânia ocupada e dois em Israel) e expôs as condições prisionais degradantes a que são submetidos. Eram deles as únicas vozes ainda ativas no infernal cotidiano da vida palestina presente.
— É fácil manifestar cinismo ou desesperança sobre o estado das artes do jornalismo — escreveu a crítica de mídia Margaret Sullivan — quando nos sentimos frustrados, atolados em desinformação e em dúvida sobre o sentido da profissão. Mas é por meio do jornalismo que o viver de um povo é contado, que o poder é desafiado, a História é registrada, mudanças são empurradas.
O general Dwight Eisenhower disse mais ou menos a mesma coisa em abril de 1945, apenas em tom de urgência necessária à ocasião — as tropas sob seu comando haviam libertado o campo de concentração nazista de Ohrdruf, pouco antes:
— Registrem tudo agora. Filmem tudo. Chamem as testemunhas. Pois, em algum ponto do fio da História, algum canalha se erguerá e dirá que isso jamais aconteceu.
No tempo futuro, será inevitável a obliteração das raízes de Gaza caso a “reconstrução” do enclave siga a distopia planejada por Trump. O que até outubro de 2023 era a Cidade Velha, lar da Grande Mesquita de Omari, foi redesenhado para se tornar um “complexo industrial”; 180 torres turísticas à beira-mar devem cortar o acesso à orla para a população local; as outrora férteis terras agrícolas e dois imensos campos de refugiados serão ocupados por centros de dados, sem ligação com as comunidades originais; as 400 mil novas moradias prometidas na semana passada — designadas como “comunidades seguras alternativas” — serão fortemente vigiadas, com os moradores submetidos a monitoramento biométrico e verificação por parte de Israel — escreveu Muhammad Shehada, pesquisador do European Council on Foreign Relations.
Nessa toada, o futuro palestino se anuncia pior que o passado; e, do presente, poucos querem se lembrar.
Dorrit Harazim
A vida psíquica quando o lucro se torna a medida de tudo
Quais são os impactos psicológicos de viver em um sistema no qual o valor é estritamente medido pelo lucro? Essa pergunta, que por muito tempo pôde permanecer amortecida por promessas de progresso e estabilidade, hoje se impõe com uma força quase insuportável. Muitas pessoas parecem experimentar, talvez pela primeira vez, a percepção de que certas ilusões – a neutralidade das instituições, a racionalidade moral do Ocidente, a separação entre economia, política e vida cotidiana – sempre foram ilusões, embora não fossem reconhecidas como tal.
Essa ruptura não ocorre no vazio. Ela se dá diante do que governos realizam em nosso nome, frequentemente com recursos públicos, e diante do papel desempenhado por corporações multinacionais e por uma mídia que, em muitos casos, administra o sofrimento alheio como dano colateral aceitável. Quando a cumplicidade se torna impossível de negar, a questão que emerge não é apenas política ou moral, mas profundamente psíquica e existencial: como continuar vivendo neste mundo?
Omar El Akkad formula essa pergunta de modo brutal ao expor o paradoxo central daquilo que ainda chamamos de “mundo civilizado”. Para que seus valores sejam preservados, afirma ele, torna-se aceitável incendiar bibliotecas, explodir mesquitas, arrancar oliveiras, destruir universidades, saquear casas, humilhar corpos, prender e matar crianças. A violência não aparece como desvio, mas como requisito. Tudo é feito – paradoxalmente – em nome da civilização, da ordem, da segurança, do progresso. Caso contrário, sugere a lógica dominante, “o mundo incivilizado pode vencer”.
Do ponto de vista psicológico, essa inversão produz efeitos devastadores. Quando a barbárie é apresentada como necessidade moral, o sujeito é convocado a recalcar sua própria capacidade de sentir. A empatia passa a ser tratada como fraqueza, ameaça ou erro cognitivo. Hoje, demonstrar solidariedade aos palestinos pode significar perder o emprego, ser silenciado, banido de espaços públicos ou profissionais. Não se trata apenas de repressão política, mas de uma pedagogia afetiva que ensina quais vidas merecem luto e quais podem ser descartadas sem escândalo.
O que acontece com uma sociedade que aprende a desconfiar da empatia? Que custo psíquico tem viver em um mundo onde sentir com o outro se torna perigoso? A resposta não se limita ao sofrimento das vítimas diretas da violência. Todos adoecem. A normalização da crueldade produz cinismo, dissociação, apatia moral, culpa difusa e um sentimento persistente de impotência. A vida psíquica se empobrece quando o laço social é corroído e quando a ética é substituída por cálculos de eficiência.
Naomi Klein, em sua palestra Let Them Drown: The Violence of Othering in a Warming World, aprofunda essa análise ao mostrar como a lógica da desumanização se intensifica em um mundo marcado por crises climáticas e colapsos ecológicos. À medida que os recursos se tornam escassos, o sistema responde não com solidariedade, mas com fronteiras mais rígidas, políticas de exclusão e a produção ativa de “outros” descartáveis. “Deixem-nos afogar” não é apenas uma metáfora: é uma política que define quem deve viver e quem pode morrer para que a ordem econômica permaneça intacta.
Nesse cenário, o capitalismo tardio revela sua dimensão necropolítica: algumas vidas são protegidas a qualquer custo; outras são administradas como excesso, risco ou obstáculo. Palestinos hoje, migrantes climáticos amanhã. O sofrimento deixa de ser um acidente e se torna parte estrutural de um sistema que coloca o lucro acima das pessoas, refinando continuamente suas tecnologias de controle, vigilância e violência.
Viver sob essa lógica tem consequências psíquicas profundas. Quando aprendemos que certos corpos podem ser humilhados, torturados ou exterminados sem que isso abale a ordem moral do mundo, algo essencial se rompe na experiência humana compartilhada. A sensação de pertencimento se fragiliza, a confiança no outro se dissolve, e a própria ideia de futuro se torna ameaçada. O trauma deixa de ser apenas individual e passa a ser coletivo.
Diante disso, a pergunta de El Akkad – como devemos continuar vivendo neste mundo? – não admite respostas fáceis. O que se desenha, no entanto, tanto em sua escrita quanto nas reflexões de Naomi Klein, é a possibilidade de uma ética que não pode ser reconhecida pelo império: uma ética fundada no vínculo, na memória, na recusa da desumanização. Um amor entre povos que não se orienta pelo lucro, mas pela dignidade compartilhada.
Talvez o caminho para alguma forma de cura – individual e coletiva – comece justamente aí: na recusa em aceitar a violência como norma, na insistência em preservar a empatia como força política e psíquica, e no reconhecimento de que pessoas comuns, em seus gestos cotidianos, também participam da manutenção ou da ruptura dessas estruturas. Em um mundo que mede tudo em termos de lucro, sustentar a humanidade do outro não é ingenuidade. É resistência.
Essa ruptura não ocorre no vazio. Ela se dá diante do que governos realizam em nosso nome, frequentemente com recursos públicos, e diante do papel desempenhado por corporações multinacionais e por uma mídia que, em muitos casos, administra o sofrimento alheio como dano colateral aceitável. Quando a cumplicidade se torna impossível de negar, a questão que emerge não é apenas política ou moral, mas profundamente psíquica e existencial: como continuar vivendo neste mundo?
Omar El Akkad formula essa pergunta de modo brutal ao expor o paradoxo central daquilo que ainda chamamos de “mundo civilizado”. Para que seus valores sejam preservados, afirma ele, torna-se aceitável incendiar bibliotecas, explodir mesquitas, arrancar oliveiras, destruir universidades, saquear casas, humilhar corpos, prender e matar crianças. A violência não aparece como desvio, mas como requisito. Tudo é feito – paradoxalmente – em nome da civilização, da ordem, da segurança, do progresso. Caso contrário, sugere a lógica dominante, “o mundo incivilizado pode vencer”.
Do ponto de vista psicológico, essa inversão produz efeitos devastadores. Quando a barbárie é apresentada como necessidade moral, o sujeito é convocado a recalcar sua própria capacidade de sentir. A empatia passa a ser tratada como fraqueza, ameaça ou erro cognitivo. Hoje, demonstrar solidariedade aos palestinos pode significar perder o emprego, ser silenciado, banido de espaços públicos ou profissionais. Não se trata apenas de repressão política, mas de uma pedagogia afetiva que ensina quais vidas merecem luto e quais podem ser descartadas sem escândalo.
O que acontece com uma sociedade que aprende a desconfiar da empatia? Que custo psíquico tem viver em um mundo onde sentir com o outro se torna perigoso? A resposta não se limita ao sofrimento das vítimas diretas da violência. Todos adoecem. A normalização da crueldade produz cinismo, dissociação, apatia moral, culpa difusa e um sentimento persistente de impotência. A vida psíquica se empobrece quando o laço social é corroído e quando a ética é substituída por cálculos de eficiência.
Naomi Klein, em sua palestra Let Them Drown: The Violence of Othering in a Warming World, aprofunda essa análise ao mostrar como a lógica da desumanização se intensifica em um mundo marcado por crises climáticas e colapsos ecológicos. À medida que os recursos se tornam escassos, o sistema responde não com solidariedade, mas com fronteiras mais rígidas, políticas de exclusão e a produção ativa de “outros” descartáveis. “Deixem-nos afogar” não é apenas uma metáfora: é uma política que define quem deve viver e quem pode morrer para que a ordem econômica permaneça intacta.
Nesse cenário, o capitalismo tardio revela sua dimensão necropolítica: algumas vidas são protegidas a qualquer custo; outras são administradas como excesso, risco ou obstáculo. Palestinos hoje, migrantes climáticos amanhã. O sofrimento deixa de ser um acidente e se torna parte estrutural de um sistema que coloca o lucro acima das pessoas, refinando continuamente suas tecnologias de controle, vigilância e violência.
Viver sob essa lógica tem consequências psíquicas profundas. Quando aprendemos que certos corpos podem ser humilhados, torturados ou exterminados sem que isso abale a ordem moral do mundo, algo essencial se rompe na experiência humana compartilhada. A sensação de pertencimento se fragiliza, a confiança no outro se dissolve, e a própria ideia de futuro se torna ameaçada. O trauma deixa de ser apenas individual e passa a ser coletivo.
Diante disso, a pergunta de El Akkad – como devemos continuar vivendo neste mundo? – não admite respostas fáceis. O que se desenha, no entanto, tanto em sua escrita quanto nas reflexões de Naomi Klein, é a possibilidade de uma ética que não pode ser reconhecida pelo império: uma ética fundada no vínculo, na memória, na recusa da desumanização. Um amor entre povos que não se orienta pelo lucro, mas pela dignidade compartilhada.
Talvez o caminho para alguma forma de cura – individual e coletiva – comece justamente aí: na recusa em aceitar a violência como norma, na insistência em preservar a empatia como força política e psíquica, e no reconhecimento de que pessoas comuns, em seus gestos cotidianos, também participam da manutenção ou da ruptura dessas estruturas. Em um mundo que mede tudo em termos de lucro, sustentar a humanidade do outro não é ingenuidade. É resistência.
Metáforas: as lentes invisíveis do poder
Na política, há duas maneiras de dizer a mesma coisa: pela régua da razão ou pelo pincel da imaginação. A primeira mede; a segunda mobiliza. E, entre medir e mobilizar, vence quem consegue traduzir a aridez dos conceitos em imagens que falem ao coração do eleitor. É nesse território que a metáfora se transforma em ferramenta de poder.
A política é, por natureza, abstrata. Fala de déficit, soberania, arcabouço fiscal, governança, inflação inercial, pacto federativo. Conceitos que não moram no cotidiano do cidadão comum. O eleitor não toma café da manhã com a Lei de Responsabilidade Fiscal, nem leva para o trabalho a taxa Selic. Mas entende o que significa dizer que “o país está à deriva”, que “o governo perdeu o leme”, que “a economia patina” ou que “a inflação corrói o salário”.
A metáfora cumpre, assim, uma função pedagógica: simplifica o complexo. Quando se afirma que “o Brasil é um navio em mar revolto”, não se está apenas ornamentando o discurso. Está-se oferecendo ao público uma moldura cognitiva para compreender a instabilidade política e econômica. O governante vira capitão. A oposição, tempestade. O mercado, correnteza. E o eleitor, passageiro — ora apreensivo, ora esperançoso.
Mais do que explicar, a metáfora orienta. Ela indica culpados e sugere saídas. Ao dizer que “o Estado é um paquiderme lento”, o orador já está insinuando a necessidade de reformas. Ao afirmar que “a corrupção é um câncer”, legitima-se a ideia de extirpação radical. Ao tratar a polarização como “um campo minado”, adverte-se sobre os riscos do confronto. Cada imagem carrega uma agenda implícita.
Campanhas não se vencem apenas com dados, mas com narrativas. E narrativas são tecidas com metáforas. O “caçador de marajás”, o “pai dos pobres”, a “mãe do PAC”, o “mito”. Cada rótulo condensa uma história inteira em duas ou três palavras. É a economia simbólica do discurso.
Mas há perigos nesse recurso. Metáforas não apenas iluminam; também ocultam. Ao comparar a política a uma guerra, por exemplo, naturaliza-se o inimigo, a trincheira, o combate sem quartel. O adversário deixa de ser concorrente e passa a ser ameaça existencial. O debate vira batalha; o parlamento, campo de confronto; o voto, munição. E, nesse ambiente, o compromisso soa como rendição.
George Lakoff, linguista americano, demonstrou que as metáforas estruturam nosso modo de pensar. Quando a política é vista como jogo, aceita-se a trapaça como estratégia. Quando é tratada como mercado, tudo vira negociação. Quando se converte em espetáculo, a performance supera o conteúdo. A escolha da imagem não é inocente: molda percepções e comportamentos.
No Brasil de 2026, marcado pela radical polarização, as metáforas tendem a se tornar ainda mais bélicas. Fala-se em “tomar o poder”, “resistir ao avanço”, “derrotar o inimigo”, “defender a democracia”. O vocabulário é de quartel. E o risco é que, ao militarizar a linguagem, militarize-se também a prática política.
Cabe, portanto, ao comunicador público — jornalista, marqueteiro ou líder — usar a metáfora com responsabilidade. Em vez de incendiar, pode-se iluminar. Em vez de dividir, pode-se conectar. A política não precisa ser sempre um ringue; pode ser uma ponte. Não precisa ser um tabuleiro de xadrez; pode ser uma mesa de negociação. Não precisa ser um campo de batalha; pode ser uma arena de consensos.
A metáfora é inevitável. O desafio é escolher imagens que ampliem a compreensão sem reduzir a complexidade; que inspirem ação sem estimular o ódio; que traduzam a realidade sem deformá-la. Afinal, como ensinava Aristóteles, metáfora é ver o semelhante no dessemelhante. E, na política, ver bem é metade do caminho para governar melhor.
Gaudêncio Torquato
A política é, por natureza, abstrata. Fala de déficit, soberania, arcabouço fiscal, governança, inflação inercial, pacto federativo. Conceitos que não moram no cotidiano do cidadão comum. O eleitor não toma café da manhã com a Lei de Responsabilidade Fiscal, nem leva para o trabalho a taxa Selic. Mas entende o que significa dizer que “o país está à deriva”, que “o governo perdeu o leme”, que “a economia patina” ou que “a inflação corrói o salário”.
A metáfora cumpre, assim, uma função pedagógica: simplifica o complexo. Quando se afirma que “o Brasil é um navio em mar revolto”, não se está apenas ornamentando o discurso. Está-se oferecendo ao público uma moldura cognitiva para compreender a instabilidade política e econômica. O governante vira capitão. A oposição, tempestade. O mercado, correnteza. E o eleitor, passageiro — ora apreensivo, ora esperançoso.
Mais do que explicar, a metáfora orienta. Ela indica culpados e sugere saídas. Ao dizer que “o Estado é um paquiderme lento”, o orador já está insinuando a necessidade de reformas. Ao afirmar que “a corrupção é um câncer”, legitima-se a ideia de extirpação radical. Ao tratar a polarização como “um campo minado”, adverte-se sobre os riscos do confronto. Cada imagem carrega uma agenda implícita.
Campanhas não se vencem apenas com dados, mas com narrativas. E narrativas são tecidas com metáforas. O “caçador de marajás”, o “pai dos pobres”, a “mãe do PAC”, o “mito”. Cada rótulo condensa uma história inteira em duas ou três palavras. É a economia simbólica do discurso.
Mas há perigos nesse recurso. Metáforas não apenas iluminam; também ocultam. Ao comparar a política a uma guerra, por exemplo, naturaliza-se o inimigo, a trincheira, o combate sem quartel. O adversário deixa de ser concorrente e passa a ser ameaça existencial. O debate vira batalha; o parlamento, campo de confronto; o voto, munição. E, nesse ambiente, o compromisso soa como rendição.
George Lakoff, linguista americano, demonstrou que as metáforas estruturam nosso modo de pensar. Quando a política é vista como jogo, aceita-se a trapaça como estratégia. Quando é tratada como mercado, tudo vira negociação. Quando se converte em espetáculo, a performance supera o conteúdo. A escolha da imagem não é inocente: molda percepções e comportamentos.
No Brasil de 2026, marcado pela radical polarização, as metáforas tendem a se tornar ainda mais bélicas. Fala-se em “tomar o poder”, “resistir ao avanço”, “derrotar o inimigo”, “defender a democracia”. O vocabulário é de quartel. E o risco é que, ao militarizar a linguagem, militarize-se também a prática política.
Cabe, portanto, ao comunicador público — jornalista, marqueteiro ou líder — usar a metáfora com responsabilidade. Em vez de incendiar, pode-se iluminar. Em vez de dividir, pode-se conectar. A política não precisa ser sempre um ringue; pode ser uma ponte. Não precisa ser um tabuleiro de xadrez; pode ser uma mesa de negociação. Não precisa ser um campo de batalha; pode ser uma arena de consensos.
A metáfora é inevitável. O desafio é escolher imagens que ampliem a compreensão sem reduzir a complexidade; que inspirem ação sem estimular o ódio; que traduzam a realidade sem deformá-la. Afinal, como ensinava Aristóteles, metáfora é ver o semelhante no dessemelhante. E, na política, ver bem é metade do caminho para governar melhor.
Gaudêncio Torquato
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Nada é impossível de mudar
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
Bertolt Brecht
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
Bertolt Brecht
Grito do Ipiranga
Escutámos Mark Carney em Davos, e depois Ursula von der Leyen e Emmanuel Macron e sentimos que era o momento “Grito do Ipiranga” da Europa (e do resto do mundo democrático). Reconhecemos a realidade e seguimos empenhados na construção da nossa autonomia, com os custos a que tal obriga. Mas, assim como no processo de independência do Brasil, não será nem simples nem imediato.
O Parlamento Europeu suspendeu a ratificação do Acordo de Tarifas negociado com os Estados Unidos da América, no verão. Havia sido um acordo controverso. Houve augúrios de que era uma vassalagem que não impediria novos ataques, mas compreende-se que uma Europa, fundada no primado da lei e na relação transatlântica, tudo tentasse para preservar uma ordem que lhe garantiu paz e prosperidade durante 80 anos. A recente divulgação da proposta da Comissão Europeia de uma nova legislação para o setor das telecomunicações (Digital Networks Act) confirma o limbo em que, ainda, nos encontramos.
A internet parece etérea, mas os cabos de fibra e antenas que a sustentam não são. E os investimentos necessários para manter e atualizar a rede são astronómicos.
A Europa já investiu 160 mil milhões de euros na rede 5G, mas até 2030 será necessário investir mais 175 mil milhões de euros. O custo é suportado pelo consumidor (e a longo prazo). Os grandes beneficiários são as big tech. Utilizam sem custo acrescido a rede, não obstante gerarem mais de metade de todo o tráfego (imagem e som).
Ao contrário do que acontece com outras infraestruturas, onde quem mais usa paga mais (pense, por exemplo, na diferença de preço numa portagem de um carro ligeiro versus um camião), tal não acontece na infraestrutura de telecomunicações.
A razão é histórica. Aquando do grande boom da internet, o legislador preocupou-se em garantir igualdade de acesso a todos os utilizadores: o “princípio da neutralidade”. A rede seria agnóstica a quem a usava ou à informação transmitida (sem censura). Todos os conteúdos beneficiariam da mesma qualidade de serviço. Para tal não poderiam existir preços diferenciados.
O mundo de 1990 era muito diferente da atualidade. Não existiam plataformas (Instagram e TikTok), nem motores de busca (Google) ou de resposta (ChatGPT). Não existia YouTube, Netflix ou AppleTV.
O mundo mudou, mas a legislação não. O atual modelo é vantajoso apenas para as big tech, que utilizam sem custo a rede, de cuja existência dependem para gerar lucros incomparáveis com qualquer outro serviço ou indústria. Para manterem o statu quo, promovem, junto do público, o discurso da liberdade de expressão: que um preço do serviço diferenciado poderia ser utilizado como um instrumento de censura. Mas é sobretudo na Administração Trump que encontram o seu maior apoiante.
No verão, aquando da negociação do acordo de tarifas, além de pretender que a União Europeia revogasse o Regulamento de Inteligência Artificial e o Regulamento de Serviços Digitais (o que não conseguiu), Trump exigiu, e conseguiu, que as big tech não tivessem de passar a contribuir para os custos de investimento da infraestrutura de telecomunicações.
Da proposta ora divulgada não consta de facto essa obrigação, mas um mecanismo para negociação de uma eventual colaboração. Não é um repúdio ao acordado no verão, mas também não é o desejado pelas big tech.
A Europa vive o seu momento Ipiranga. Embora no famoso quadro de Pedro Américo, D. Pedro estivesse em pose altiva, montado num cavalo branco rodeado de tropas, da imagem apenas o riacho Ipiranga era verdadeiro. Segundo os documentos da época, o príncipe deslocava-se de mula, estava adoentado e não havia tropas em uniformes brilhantes. A realidade é muito mais difícil do que a Conferência de Davos.
O Parlamento Europeu suspendeu a ratificação do Acordo de Tarifas negociado com os Estados Unidos da América, no verão. Havia sido um acordo controverso. Houve augúrios de que era uma vassalagem que não impediria novos ataques, mas compreende-se que uma Europa, fundada no primado da lei e na relação transatlântica, tudo tentasse para preservar uma ordem que lhe garantiu paz e prosperidade durante 80 anos. A recente divulgação da proposta da Comissão Europeia de uma nova legislação para o setor das telecomunicações (Digital Networks Act) confirma o limbo em que, ainda, nos encontramos.
A internet parece etérea, mas os cabos de fibra e antenas que a sustentam não são. E os investimentos necessários para manter e atualizar a rede são astronómicos.
A Europa já investiu 160 mil milhões de euros na rede 5G, mas até 2030 será necessário investir mais 175 mil milhões de euros. O custo é suportado pelo consumidor (e a longo prazo). Os grandes beneficiários são as big tech. Utilizam sem custo acrescido a rede, não obstante gerarem mais de metade de todo o tráfego (imagem e som).
Ao contrário do que acontece com outras infraestruturas, onde quem mais usa paga mais (pense, por exemplo, na diferença de preço numa portagem de um carro ligeiro versus um camião), tal não acontece na infraestrutura de telecomunicações.
A razão é histórica. Aquando do grande boom da internet, o legislador preocupou-se em garantir igualdade de acesso a todos os utilizadores: o “princípio da neutralidade”. A rede seria agnóstica a quem a usava ou à informação transmitida (sem censura). Todos os conteúdos beneficiariam da mesma qualidade de serviço. Para tal não poderiam existir preços diferenciados.
O mundo de 1990 era muito diferente da atualidade. Não existiam plataformas (Instagram e TikTok), nem motores de busca (Google) ou de resposta (ChatGPT). Não existia YouTube, Netflix ou AppleTV.
O mundo mudou, mas a legislação não. O atual modelo é vantajoso apenas para as big tech, que utilizam sem custo a rede, de cuja existência dependem para gerar lucros incomparáveis com qualquer outro serviço ou indústria. Para manterem o statu quo, promovem, junto do público, o discurso da liberdade de expressão: que um preço do serviço diferenciado poderia ser utilizado como um instrumento de censura. Mas é sobretudo na Administração Trump que encontram o seu maior apoiante.
No verão, aquando da negociação do acordo de tarifas, além de pretender que a União Europeia revogasse o Regulamento de Inteligência Artificial e o Regulamento de Serviços Digitais (o que não conseguiu), Trump exigiu, e conseguiu, que as big tech não tivessem de passar a contribuir para os custos de investimento da infraestrutura de telecomunicações.
Da proposta ora divulgada não consta de facto essa obrigação, mas um mecanismo para negociação de uma eventual colaboração. Não é um repúdio ao acordado no verão, mas também não é o desejado pelas big tech.
A Europa vive o seu momento Ipiranga. Embora no famoso quadro de Pedro Américo, D. Pedro estivesse em pose altiva, montado num cavalo branco rodeado de tropas, da imagem apenas o riacho Ipiranga era verdadeiro. Segundo os documentos da época, o príncipe deslocava-se de mula, estava adoentado e não havia tropas em uniformes brilhantes. A realidade é muito mais difícil do que a Conferência de Davos.
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