terça-feira, 22 de setembro de 2026
Autoritarismo aliado ao mercado
A arte resiste à violência que sobrevive às guerras: o apagamento da memória de suas vítimas
Tadeusz Borowski
As explosões cessam. A fumaça se dissipa, os jornalistas procuram outra guerra, os diplomatas redigem comunicados e os mapas começam a ser redesenhados. O mundo, aos poucos, segue adiante.
Entre os escombros, porém, algumas coisas permanecem.
Um caderno escolar aberto numa página que ninguém terminará. Uma fotografia de família coberta de pó. Um brinquedo junto a uma parede que já não sustenta casa alguma.
São objetos sem importância para a estratégia militar. Não aparecem nos mapas dos generais, mas talvez digam com maior precisão o que uma guerra destruiu.
Porque antes de se tornarem mortos, feridos, refugiados ou deslocados, havia ali pessoas que esperavam voltar para casa, terminar uma tarefa, preparar o jantar, acordar no dia seguinte. Tinham nomes, histórias, afetos e planos que jamais apareceriam nos balanços militares.
A primeira morte é imediata. A segunda começa mais tarde, quando os mortos se transformam em números, as ruínas desaparecem e já quase ninguém lembra quem viveu ali.
Tadeusz Borowski conhecia essa ameaça. Sobrevivente de Auschwitz e Dachau, sabia que a morte não termina necessariamente quando uma vida é destruída. Resta ainda a disputa pelo que dela permanecerá – e essa disputa pertence aos que ficaram.
Talvez esteja aí uma das funções mais profundas da arte diante da guerra. Um quadro não detém um exército, uma gravura não impede um bombardeio, um poema não reconstrói uma casa.
A arte quase nada pode contra a primeira morte. Contra a segunda, pode ser uma forma de resistência.
Durante grande parte da história, essa não foi a pergunta que a arte fez à guerra.
Na Roma antiga, a Coluna de Trajano transformou a conquista da Dácia numa narrativa monumental de poder. Séculos depois, reis e imperadores continuariam encomendando imagens de batalhas e vitórias. Jacques-Louis David faria Napoleão atravessar os Alpes sobre um cavalo empinado, como se até a natureza participasse de seu destino.
A guerra que chegava à posteridade era, em grande medida, a guerra dos vencedores.
Essas obras não eram necessariamente falsas; preservavam apenas uma parte da realidade. Enquanto imperadores conquistavam a eternidade no mármore e generais atravessavam séculos nas telas, incontáveis pessoas comuns desapareciam sem deixar vestígios. Suas casas haviam sido destruídas, seus filhos mortos, suas famílias dispersas. Raramente alguém registrava seus nomes.
A memória também possui uma política.
No início do século XIX, Francisco de Goya mudou radicalmente o lugar de onde a guerra podia ser observada. Em Os Desastres da Guerra, não acompanhou o imperador nem procurou a perspectiva do general. Aproximou-se daqueles que fugiam, eram executados, mutilados, violentados ou deixados no chão.
Em uma das gravuras escreveu apenas: Yo lo vi. Eu vi.
Em um texto recente, parti dessas três palavras para perguntar quando uma imagem deixa de ser representação e se transforma em testemunho 1. Aqui, a pergunta é outra: o que Goya viu que o mundo corria o risco de esquecer?
As próprias gravuras respondem: aqueles para quem quase nunca havia lugar nos monumentos.
A ruptura de Goya não esteve apenas em mostrar a violência, mas em mudar quem merecia ocupar o centro da memória. Depois dele, tornou-se mais difícil representar uma guerra sem perguntar o que acontecera àqueles que não tinham estátuas para protegê-los do esquecimento.
Essa mudança atravessaria o século seguinte.
A artista alemã Käthe Kollwitz conheceu a guerra não apenas como acontecimento histórico. Em 1914, seu filho Peter, de 18 anos, alistou-se como voluntário no Exército alemão e, pouco depois de chegar à frente de batalha, morreu na Bélgica.
O luto atravessaria sua obra durante décadas. Mas, antes mesmo da morte do filho, Kollwitz já havia produzido uma imagem extraordinária. Em Mulher com criança morta, de 1903, uma mulher envolve com o próprio corpo uma criança morta. Não há campo de batalha, bandeira ou uniforme. Quase não existe espaço entre os dois corpos. A mãe parece tentar realizar um gesto impossível: proteger depois da morte aquele que já não pode ser protegido.
Talvez a força da imagem esteja precisamente no que ela não nos diz. Não sabemos o nome da criança, onde morreu ou sequer se aquela morte pertence a uma guerra.
E isso pouco importa.
A mulher poderia pertencer a qualquer época em que uma mãe tenha descoberto que seus braços já não eram suficientes.
Décadas depois, Pablo Picasso realizaria outro deslocamento. Em Guernica, de 1937, o problema já não era apenas dar um rosto à vítima: a guerra moderna adquirira a capacidade de transformar uma cidade inteira em vítima.
Picasso não representou o bombardeio da cidade basca como uma reportagem. Não pintou aviões, mapas ou estratégias militares. Fragmentou o próprio espaço: uma mãe grita sobre o filho morto, um cavalo parece urrar, corpos se retorcem. Até a perspectiva parece ter sido atingida pela explosão.
A fragmentação tornou-se a linguagem daquilo que a guerra fazia à vida.
Por isso Guernica deixou de pertencer apenas à Espanha de 1937. A mãe que segura o filho morto atravessou a fronteira basca e passou a habitar uma memória mais ampla. Poderia estar em Varsóvia, Hiroshima, Sarajevo, Grozny, Aleppo, Mariupol ou Gaza.
É uma das capacidades mais misteriosas da arte: uma dor particular pode tornar-se universal sem deixar de ser humana.
Mas nem toda dor consegue realizar essa travessia.
As cicatrizes que uma cidade decide não apagar
Entre 1992 e 1996, Sarajevo permaneceu sitiada durante quase quatro anos, repetidamente atingida por morteiros e tiros de franco-atiradores. Ruas, mercados, escolas, hospitais e edifícios residenciais tornaram-se lugares onde atos cotidianos podiam terminar em morte.
Quando o cerco acabou, a cidade começou a ser reconstruída. Algumas marcas, porém, não foram apagadas.
Onde explosões de morteiros haviam deixado no concreto desenhos irregulares semelhantes a flores, algumas cicatrizes foram preenchidas com resina vermelha. Tornaram-se conhecidas como Rosas de Sarajevo.
Não são monumentos no sentido tradicional. Não possuem colunas, estátuas ou generais. Ficam no chão e podem passar despercebidas por quem caminha depressa.
Para vê-las, é preciso baixar os olhos.
Há algo de profundamente perturbador nessa escolha. Reconstruir uma cidade significa normalmente eliminar os vestígios da destruição: reerguer paredes, substituir vidros, asfaltar ruas. Sarajevo reconstruiu-se, mas decidiu que algumas feridas deveriam continuar visíveis.
A cicatriz deixou de ser apenas aquilo que a guerra havia feito ao concreto. Tornou-se aquilo que os vivos decidiram não permitir que desaparecesse.
Goya precisou gravar suas vítimas no papel. Sarajevo gravou as suas no chão.
Há vítimas que morrem mais depressa na memória
A arte pode libertar uma tragédia da geografia em que aconteceu. Goya já não pertence apenas à Espanha; Kollwitz não fala somente aos alemães; Guernica ultrapassou há muito as fronteiras da Guerra Civil Espanhola.
Quando isso acontece, uma experiência histórica passa a integrar o patrimônio moral da humanidade.
Mas essa travessia é profundamente desigual.
Algumas vítimas atravessam fronteiras, línguas e gerações. Outras permanecem confinadas ao lugar onde morreram. Algumas tragédias ganham museus, livros, filmes e memoriais; outras desaparecem pouco depois de deixarem as manchetes.
Não porque tenham produzido menos sofrimento.
Uma mãe que perde um filho em Madri, Sarajevo, Kigali, Aleppo, Gaza ou no sul do Líbano não sofre mais ou menos por causa da latitude em que se encontra. A dor individual não possui geografia. A memória coletiva, porém, possui.
O que varia é a capacidade de uma história atravessar o lugar e o tempo e encontrar espaço na memória dos outros.
As imagens de Gaza chegaram aos nossos telefones. Vimos bairros inteiros transformados em ruínas, hospitais e escolas atingidos, famílias procurando desaparecidos, pessoas carregando crianças feridas e multidões obrigadas a abandonar sucessivamente os lugares para onde haviam fugido. A repetição dessas imagens revelou não apenas uma sucessão de tragédias individuais, mas a dimensão coletiva de uma devastação.
Também vimos o horror de 7 de outubro de 2023: civis israelenses assassinados, feridos ou sequestrados e famílias esperando por reféns. Reconhecer integralmente seu sofrimento, porém, não exige construir uma simetria que os próprios acontecimentos não sustentam.
Toda vida humana possui o mesmo valor. A morte de uma criança não se torna mais ou menos terrível por sua nacionalidade, religião ou pelo lado da fronteira em que nasceu. Mas da igualdade do valor de cada vida não decorre a igualdade da dimensão das tragédias.
Existe também uma escala coletiva do sofrimento. Quando os números de mortos, feridos, órfãos e deslocados e a extensão da destruição alcançam dimensões profundamente diferentes, nossa memória moral não deveria apagar essa desproporção. Contar cada vítima como igualmente humana não significa deixar de contar quantas foram as vítimas.
Talvez esteja aí uma das exigências mais difíceis da compaixão: preservar simultaneamente duas verdades. Nenhuma vítima deve tornar-se invisível; nenhuma desproporção deve ser escondida em nome de uma falsa equivalência.
A arte talvez nos ajude porque começa em outro lugar. Goya não nos pergunta primeiro qual exército possuía a melhor justificativa. Kollwitz não exige que conheçamos a nacionalidade da criança antes de permitir que a mãe nos comova. Guernica não precisa identificar a bandeira de cada vítima para que compreendamos o que aconteceu.
Isso não retira a guerra da história. A arte não apaga responsabilidades políticas, não torna equivalentes conflitos diferentes nem substitui a necessidade de julgamento.
Faz algo anterior: antes do soldado, do inimigo, do aliado, do refém, do refugiado ou da estatística, obriga-nos a reconhecer a pessoa.
Quem consegue atravessar a fronteira da memória?
Há uma diferença fundamental entre nosso tempo e o de Goya.
Durante séculos, o problema era fazer o sofrimento chegar aos olhos de quem estava distante. Uma gravura precisava ser impressa e distribuída; uma fotografia, atravessar oceanos; uma notícia podia levar semanas para alcançar outro continente. Muitas vítimas desapareceram da memória porque quase ninguém chegou a vê-las.
Hoje, o problema quase se inverteu.
As imagens chegam antes que tenhamos tempo de procurá-las – e desaparecem antes que tenhamos tempo de compreendê-las.
Uma cidade é bombardeada e, minutos depois, vemos seus escombros. Uma criança é retirada de um prédio destruído e sua imagem atravessa o planeta antes que saibamos seu nome. O sofrimento surge na mesma tela que traz uma mensagem de trabalho, uma fotografia de família, um anúncio ou um vídeo de entretenimento.
Depois deslizamos o dedo.
Nunca vimos tanto. Talvez nunca tenha sido tão fácil ver sem guardar.
Essa abundância produz uma forma paradoxal de invisibilidade. A vítima já não precisa desaparecer porque ninguém conseguiu registrá-la. Pode desaparecer justamente porque foi vista – por alguns segundos – como mais uma entre milhares.
O excesso de imagens não produz necessariamente excesso de memória. Pode produzir esquecimento.
É aí que a arte adquire outra função: não apenas revelar aquilo que ninguém viu, mas deter o olhar sobre aquilo que todos viram e quase ninguém conseguiu guardar.
Uma obra interrompe o fluxo. Retira um rosto da multidão, uma casa do mapa, uma mãe da estatística. Restitui singularidade àquilo que a linguagem das guerras reúne em categorias: mortos, feridos, desaparecidos, refugiados, deslocados.
E pode fazer durar aquilo que a tela condenaria a alguns segundos. Goya ainda nos obriga a olhar para pessoas mortas há mais de duzentos anos; Kollwitz, para uma mãe e uma criança cujos nomes nem conhecemos; as cicatrizes de Sarajevo continuam pedindo aos que passam que baixem os olhos.
Talvez seja essa a fronteira mais difícil de atravessar: não a que separa um país de outro, mas a que separa aquilo que vimos daquilo que decidimos não esquecer.
É também aí que informação e memória deixam de ser a mesma coisa.
A informação nos diz quantos morreram.
A memória pergunta quem eram.
A segunda morte
As cidades, com o tempo, são reconstruídas.
Pontes voltam a unir margens, escolas reabrem, árvores crescem onde havia crateras. Novos edifícios escondem antigas ruínas, e crianças que não conheceram a guerra brincam em lugares onde outras morreram.
É assim que a vida precisa continuar.
Mas toda reconstrução contém um risco: ao apagar as marcas da destruição, pode apagar também alguma coisa daqueles que desapareceram com ela. As paredes voltam a ser erguidas; os mortos, não. E já não podem contar a própria história.
É nesse ponto que as palavras de Tadeusz Borowski revelam todo o seu peso. Depois que os mortos já não podem falar, aquilo que deles sobreviverá depende dos que permaneceram.
Sua memória depende de arquivos e fotografias, de nomes inscritos nas paredes, de livros, testemunhos, pinturas e monumentos. Depende de alguém que conserve uma cicatriz no asfalto quando seria mais fácil cobri-la. Depende, sobretudo, de nossa disposição de lembrar.
Talvez seja isso que una Goya, a mãe de Kollwitz e as marcas vermelhas espalhadas pelas ruas de Sarajevo. Nenhuma dessas obras impediu a morte. Todas impediram, de alguma maneira, que o desaparecimento fosse completo.
A primeira morte pertence à guerra. A segunda começa quando já não resta ninguém – nem nada – capaz de dizer que aquelas pessoas existiram.
É contra essa segunda morte que a arte oferece sua resistência mais duradoura.
As guerras mudarão de nome. Outras cidades conhecerão o medo, novas fronteiras serão disputadas e novas razões serão apresentadas para justificar aquilo que fazemos uns aos outros. Depois, os disparos cessarão. Jornalistas partirão, diplomatas assinarão acordos, edifícios serão reconstruídos e o mundo seguirá adiante.
Entre os escombros, talvez ainda reste um caderno aberto numa página que ninguém terminará.
Durante algum tempo, alguém saberá a quem pertenceu. Depois, essa pessoa também desaparecerá.
É então que uma gravura, uma pintura, um poema, uma fotografia, um nome numa parede ou uma cicatriz no asfalto podem fazer algo que nenhum de nós conseguirá fazer para sempre: lembrar por nós.
Talvez seja essa uma das funções mais profundas da arte diante da guerra: transformar a lembrança de alguns em memória de muitos; fazer com que sobreviva às testemunhas; guardar alguma coisa daqueles que já não podem dizer “eu estive aqui” e entregá-la aos que ainda nem nasceram.
Assim, a memória atravessa talvez a mais difícil de todas as fronteiras: o tempo.
A guerra mata os corpos.
O tempo apaga os rastros.
A arte disputa com ambos aquilo que ainda pode ser salvo: a memória.
Enquanto houver uma imagem, uma palavra ou uma cicatriz capaz de dizer “eles estiveram aqui”, os mortos não terão morrido uma segunda vez.
O golpe, a democracia e as eleições. Sem linchamentos
A tentativa é clara e insofismável: Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão, com direitos políticos automaticamente suspensos, é candidato a Presidente da República. Usa o artifício de uma interposta pessoa para a inscrição eleitoral, mas essa pessoa, seu filho Flávio, já declarou que é ele quem governará e que será solto sem processo legal — disse que subirá a rampa no dia 5 de janeiro. São promessas de ruptura do Estado de Direito que conformam o golpe de Estado.
As ilegalidades pelo caminho são numerosas. A interposta pessoa firmou — e divulgou — compromisso com governo estrangeiro de entrega da soberania e do patrimônio nacional. Ela, a interposta pessoa, mantém agentes em país estrangeiro promovendo ações contra o Brasil. Ela, a interposta pessoa, afirma que fará leis — competência privativa do Poder Legislativo — revogando cláusulas pétreas da Constituição, como idade penal, penas degradantes etc. Ela, a interposta pessoa, firmou — também usando laranjas — contrato com criminoso que se apropriou de expressivos valores públicos para financiamento ilegal de campanha, direto ou indireto. Ela, a interposta pessoa, acumpliciou agentes no STF e no TSE para manipular as regras eleitorais e acobertar seus crimes promovendo distrações. Ela, a interposta pessoa, acumpliciou-se com as organizações criminosas PCC e CV.
Ela, a interposta pessoa, assumiu a liderança imediata da organização criminosa que governou o Brasil entre 2018 e 2022 e tentou várias vezes o golpe de Estado e a abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Nessa condição assumiu efetivamente a chefia de um partido político. Cooptou cúmplices em vários partidos. Manipula com métodos ilegais as redes sociais.
Por tudo isso, é obrigação do Chefe do Estado — distinto do candidato Luís Inácio Lula da Silva — acionar os instrumentos legais de que dispõe para evitar o golpe de Estado. Sei que há uma linha fina que precisa atravessar, a de distinguir as duas identidades, a do Chefe de Estado e a do candidato; para este tipo de dificuldade fazem-se os estadistas, e ele o é. Só ele pode saber que instrumentos pode e deve acionar para garantir o Estado de Direito, mas para isso existem a Constituição e as leis, para isso existem estruturas de Governo e sobretudo de Estado.
Seria natural que o Supremo Tribunal Federal, atingido pela tentativa de fazer a lapidação do Ministro Moraes, entrasse num período de hibernação até depois das eleições e evitasse, sobretudo, agir como juízo de exceção, respeitando o devido processo legal. Reforma do Judiciário, mexer na Constituição, é coisa seríssima, que tem que ficar para quando se estiver navegando em mares sereníssimos; só quero achar que é má ideia a de Ministros temporários num sistema de magistratura vitalícia. E sigilo existe para proteger várias coisas, a começar pela presunção de inocência.
Mas a situação é excepcional, e o STF pode agir por conta própria, e, sobretudo, ser acionado por outros órgãos do Estado. É difícil acreditar que o Ministro Fachin, depois do atabalhoamento de sua condução da Corte e especialmente da sessão de terça-feira — mostrar que não conhece o que diz o regimento sobre aparte não é a melhor maneira de impor autoridade —, dificilmente saberá por si mesmo o que fazer. Mas há suficientes magistrados com responsabilidade e competência para tomar decisões difíceis.
Não preciso lembrar da cumplicidade da mídia e dos bilionários das redes sociais obcecados com a implantação do fascismo. Mas quero lembrar a responsabilidade da leniência no trato dos golpistas condenados e dos que tentaram novo golpe no Congresso Nacional, ficando impunes. Os que permitiram o controle dos conselhos de ética por depravados que punem quem está contra eles e passam a mão na própria cabeça.
Não, não estou propondo um golpe de Estado, nem um contragolpe preventivo à Lott. Falo sério (Pedro, evita a ironia, não lembra nem a qualificação futebolística do Fux). Os golpes militares estão meio fora de moda. A lição trumpífica é a do golpe jurídico. Sei que Trump não o inventou, aqui mesmo tivemos o Estado-Novo e mundo afora já foram feitas todas as experiências. Mas é o modelo que inspira Bolsonaro e é seu deus, Trump, quem se comprazeria com o golpe, quem já firmou acordo com o golpista. Quem é cooptado e quem é cooptando?
Aliás sobre nossas relações com os Estados Unidos já chegou a hora de baixar a bola americana. O exemplo do Canadá (e um pouco o do México) mostrou ao mundo que é possível dar um não, um chega. Não faz sentido a nossa embaixadora ficar lá sem visto. Que venha para casa. Conversaremos — ou não — via encarregados de negócios. E não adianta o Presidente Lula aceitar a simpatia que Trump em geral reserva para ditadores: ele é mal-informado e deve achar que o nosso Presidente é meio autoritário, não pode estar mais enganado. A simpatia dele não dá em nada. Qualquer vagabundo com a qualificação de ser nazista, racista, anticubano, islamofóbico, genocida, bonitão ou bilionário tem sua simpatia e dá a ordem que quiser — que quiser não, tem que ser degenerada, ilegal ou absurda. Não vamos nos submeter a conversa de permitir dissidentes… e permitir golpista, coisa inteiramente diferente. Também já passou da hora de escancarar para o mundo que, por trás do escudo normal da soberania na extradição de criminosos, os Estados Unidos estão incentivando conspirações contra a nossa soberania, coisa que nenhum Estado tem o direito de fazer com outro.
E teremos, de qualquer modo, eleições. Espero que sem a participação dos golpistas — a eleição não pode ser um referendo entre democracia ou colonização. De uma forma ou outra, o brasileiro não tem alternativas: se quer evitar uma nova tentativa de golpe de Estado, de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, é preciso evitar levar a qualquer cargo público os políticos associados com os golpistas. Os 100%, os 50% e os meio por cento golpistas não são bem-vindos numa democracia que se respeite.
Legislação brasileira por si só não basta para proteger eleições brasileiras de ameaças externas
A ascensão de lideranças populistas com tendências autoritárias, o acirramento das disputas geopolíticas, a plataformização do debate público e, mais recentemente, os avanços no campo da inteligência artificial recolocaram a questão da defesa da soberania nacional e popular em novos termos.
A combinação deletéria entre campanhas orquestradas por algoritmos, o uso obscuro de dados pessoais, além do emprego sistemático de deepfake, contribui não apenas para desequilibrar processos eleitorais específicos, mas também para corroer a confiança dos cidadãos em suas instituições.
Muitos são os exemplos de incidentes reais. Nos Estados Unidos, o ciclo eleitoral de 2024 foi novamente marcado por alerta oficiais e a descoberta de dezenas de domínios digitais ligados a campanhas de manipulação orquestradas no Leste Europeu.
Na Eslováquia, as eleições de 2023 foram abaladas pela circulação de áudios forjados na véspera do pleito. Na América Latina, o chamado "Hondurasgate" revelou indícios contundentes de uma rede internacional focada em disseminar desinformação coordenada contra governos recém-eleitos ou em campanha, do México à Colômbia, passando pelo Brasil.
Ainda que se possa discutir a respeito do efeito concreto dessas manipulações no resultado dos pleitos eleitorais, as incertezas geradas sobre a capacidade de os cidadãos determinarem democraticamente o seu destino impõem um dever de precaução a todos aqueles comprometidos com a democracia.
Eleições extremamente disputadas, como a atual, exigem um cuidado adicional, pois podem ser decididas por uma pequena margem de votos, sob os quais recaem todo tipo de suspeita de maquinações. Nesse sentido, mecanismos de proteção da soberania popular face a interferências externas precisam ser reforçados.
Diante desse cenário, cabe a pergunta: o Brasil está juridicamente aparelhado para proteger suas eleições?
Instrumental normativo existe, ainda que sempre possa ser aperfeiçoado. O fato, porém, é que a lei, por si só, não será efetiva se as instituições e aqueles que as habitam hesitarem em aplicá-las.
Embora o Brasil não possua um estatuto único batizado de "Lei contra a Ingerência Estrangeira", nosso ordenamento jurídico dispõe de um amplo arcabouço para enfrentar o problema.
O primeiro pilar de proteção começa na própria Constituição de 1988, que estabelece como seus fundamentos os princípios da soberania e da cidadania. Consequentemente, qualquer interferência externa, que tente suprimir ou capturar a vontade popular, deve ser classificada como afronta simultânea à soberania nacional e à soberania popular.
No texto constitucional, o recado sistemático é cristalino: a representação política é assunto exclusivo do corpo político nacional. É por isso que estrangeiros não votam, e a nacionalidade brasileira é condição inegociável de elegibilidade.
Nesse sentido, a vedação mais importante, e mais desafiada na prática, recai sobre a organização partidária. O artigo 17 da Constituição proíbe expressamente que partidos recebam recursos financeiros de entidades ou governos estrangeiros, ou que a eles se subordinem.
A lei é clara e peremptória. Imenso, porém, o desafio prático de rastrear a moderna engenharia financeira e as redes políticas transnacionais, para impedir que essa subordinação dos partidos a forças internacionais ocorra.
A verdadeira disputa ilegal pelas mentes dos eleitores não mais passa pela entrega de malas de dinheiro em embaixadas, mas pelas engrenagens invisíveis do ecossistema digital.
É nesse terreno que a legislação infraconstitucional, notadamente a Lei das Eleições e as resoluções do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), estabelece limites objetivos.
A lei veda terminantemente o financiamento estrangeiro "direto ou indireto". Essa amplitude proíbe desde a contratação de impulsionamento até o fornecimento gratuito de bancos de dados ou consultoria algorítmica por agentes internacionais.
Para garantir que as campanhas não fujam da jurisdição, a Justiça Eleitoral adotou uma estratégia ancorada na territorialidade. Exige-se que sites oficiais de partidos e candidatos estejam hospedados em provedores no Brasil.
A mesma regra se aplica à propaganda nas redes: as plataformas de tecnologia precisam ter sede ou representação no país para comercializar anúncios, devendo manter repositórios transparentes para o rastreamento de quem pagou e qual foi o público-alvo da mensagem (perfilamento).
O escrutínio avança também sobre o populismo digital. É proibida a cessão de cadastros eletrônicos por estrangeiros e o uso de robôs e ferramentas automatizadas para alterar artificialmente a repercussão de postagens. No direito brasileiro, a manifestação orgânica de um cidadão é protegida, mas a operação anônima, financiada por fontes obscuras para manipular o eleitor, é um ilícito grave.
O problema é que a eficácia dessas normativas esbarra, frequentemente, na assimetria técnica entre o Estado e a velocidade de atuação e evasão das plataformas globais. Quando as infrações assumem uma escala capaz de corroer a isonomia da disputa, o sistema eleitoral aciona seu mecanismo sancionatório mais rigoroso: a tipificação do abuso de poder, prevista na Lei Complementar nº 64/1990.
Uma doação internacional dissimulada, o uso massivo de dados cedidos por estrangeiros ou uma campanha coordenada de fora do país para descredibilizar as instituições configuram abuso de poder econômico ou uso indevido dos meios de comunicação social.
Se comprovada a gravidade, as sanções são severas: a cassação do registro ou do mandato do candidato beneficiado e a declaração de inelegibilidade por oito anos. O Código Eleitoral prevê até mesmo penas criminais para a arregimentação de estrangeiros em atividades partidárias.
A segurança institucional ganha, ainda, contornos físicos na própria engenharia de votação. O Brasil concebeu a urna eletrônica como uma tecnologia de Estado.
Embora fabricada por empresas contratadas, sediadas no Brasil, o projeto técnico é do TSE. Da mesma forma, o sistema de votação é integralmente desenvolvido pela Justiça Eleitoral, sem ingerência privada, o que afasta o risco de manipulação de código por agentes externos.
Para compreender a urgência da aplicação dessas normativas, basta observar a movimentação em torno do atual ciclo presidencial. As eleições de 2026 já se desenham como um laboratório prático para a dinâmica de influência externa.
No mês de julho, a convenção nacional do PL, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, contou com a presença e o engajamento direto do presidente argentino, Javier Milei, em um claro demonstrativo de como o alinhamento político estrangeiro busca atuar no palanque doméstico.
Em outra frente, a imprensa norte-americana —com destaque para denúncias veiculadas pelo The Washington Post a partir de alerta de parlamentares— revelou a tentativa do governo americano de despachar diplomatas ao Brasil.
O objetivo da missão, conforme noticiado, era desacreditar o sistema eletrônico de votação. Embora a manobra tenha esbarrado na recusa de vistos pelo governo brasileiro, o episódio evidencia a disposição de atores estatais em exportar crises para deslegitimar as instituições locais.
Longe de serem coincidências, esses fatos compõem um mosaico dos riscos imediatos: a articulação visível de uma rede que funde alinhamento ideológico transnacional, pressão diplomática e desinformação para tensionar a disputa eleitoral brasileira antes mesmo do primeiro voto ser registrado.
O Brasil se encontra entre os países que mais se preparam institucionalmente para defender sua democracia, mas, para que esse arcabouço funcione, é fundamental que todos cumpram corajosamente suas funções.
Não faltam sinais de tentativas de influência estrangeira na política brasileira, testando as fissuras da nossa jurisdição e a persistência das autoridades. Ter um arcabouço normativo amplo e multifacetado, com previsões de multas, remoção de conteúdos e cassações, é fundamental, mas não é garantia suficiente.
A efetividade das estruturas jurídicas depende da mobilização de toda a sociedade; de um compromisso militante dos partidos políticos com as urnas, com a lisura do processo democrático e a soberania do país; de uma postura vigilante do Ministério Público, que recebeu o mandato constitucional para defender a democracia e as prerrogativas institucionais necessárias para investigar esquemas transnacionais de interferência no pleito eleitoral.
E, por fim, depende de um genuíno compromisso do TSE em defender a integridade do processo eleitoral, com a clara consciência da existência de atores engajados em deturpá-lo.
Decisão de Dino vai no cerne do caso Master: a flexibilização das regras de fundos que criou condições para fraudes de Vorcaro
É importante entender que o Banco Central fiscaliza os bancos, enquanto os fundos ficam sob o guarda-chuva da CVM. Em 2021 e 2022, foram feitas flexibilizações nas regras dos fundos que, segundo a decisão do ministro, tornaram mais difícil a fiscalização. Essas mudanças estão na origem do caso Master e dificultaram que o Banco Central dimensionasse o tamanho do problema quando o banco de Daniel Vorcaro começou a dar sinais de que poderia estar em dificuldades.
A operação baseada nesse emaranhado de fundos servia como um biombo para as fraudes realizadas pelo Master. Em sua decisão, Dino cita “o expressivo crescimento do mercado de capitais brasileiro nos últimos anos, com salto de 14,4 mil para 32,3 mil fundos regulados entre 2014 e 2026, e expansão de 810% nos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs)”, acompanhado pelo surgimento de “arquiteturas societárias de elevada complexidade”.
O ministro destaca que a Resolução CVM nº 175, de 2022, promoveu uma “permissividade sistêmica” ao “admitir, de forma expressa, o investimento de fundos estruturados em cotas de outros fundos com características semelhantes, viabilizando a constituição de estruturas sucessivas de investimento sem limitação quantitativa máxima”. Segundo Dino, essa permissão tem “repercussões diretas sobre a transparência das operações, a identificação dos beneficiários econômicos e a efetividade dos mecanismos de supervisão do mercado”.
Dino ressalta ainda que o novo regime transferiu para os gestores dos fundos atribuições anteriormente desempenhadas por custodiantes independentes no que diz respeito à verificação da existência dos créditos (lastro) que compõem a carteira. O ministro pontua que foi reduzida “a intensidade dos controles externos anteriormente existentes” e que essa atividade foi concentrada “em agentes diretamente envolvidos na gestão dos ativos”, aspecto que, segundo ele, suscita debate sobre a suficiência das salvaguardas adotadas para a validação dos créditos subjacentes, inclusive em operações envolvendo precatórios e títulos privados.
O ministro sugere também que seja avaliado se a Resolução CVM nº 50/2021 “oferece respostas suficientes para essas situações” e se contempla salvaguardas compatíveis com os objetivos de transparência e rastreabilidade que orientam a política nacional de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento de atividades ilícitas.
Muitos dos pontos abordados na decisão do ministro foram apontados pela Transparência Internacional – Brasil, amicus curiae, na Ação Direta de Inconstitucionalidade, movida pelo Partido Novo. As determinações de Dino também se apoiam no trabalho do Grupo de Trabalho criado dentro da CVM em 6 de fevereiro de 2026, por intermédio do Comitê de Governança de Riscos da autarquia, para “consolidar e sistematizar fatos, processos e informações relacionadas ao Grupo Master, à Reag e a entidades conexas, com vistas ao aprimoramento do diagnóstico institucional, ao acompanhamento integrado de ações em curso e à prestação de contas à sociedade”. A decisão também considera informações da Controladoria-Geral da União.
Um dos pontos destacados pelo ministro do STF é “o arquivamento de denúncias sem a realização de diligências mínimas de verificação”. Ele cita como exemplo uma notícia encaminhada em 2022 que antecipava, “com elevado grau de detalhamento”, irregularidades posteriormente identificadas no Banco Master, incluindo referências à existência de ativos ilíquidos, à manipulação de cotações e à recompra de créditos. Segundo o Grupo de Trabalho da CVM, a denúncia foi sumariamente arquivada pela área técnica sob o fundamento de inverossimilhança.
Dino reitera que “essas dificuldades acabam ampliando a atuação de organizações criminosas que se dedicam a gravíssimos delitos”, citando, entre outros, narcotráfico, tráfico de armas, corrupção, desvio de emendas parlamentares, compra e venda de decisões judiciais envolvendo magistrados, assessores e advogados, fraude em licitações e mercado de precatórios ilegais.
Há ainda uma preocupação com a proteção de denunciantes de eventuais irregularidades. Reportagem de Mariana Muniz, no GLOBO, mostra que os documentos analisados pelo ministro apontam que denúncias sensíveis teriam sido processadas fora da plataforma Fala.BR e sem os mecanismos adequados de proteção da identidade dos informantes, o que poderia expô-los ao risco de retaliação.
As mudanças na regulamentação da CVM, em 2021 e 2022, portanto, feitas no governo passado, nas palavras do ministro Flávio Dino, promoveram uma “permissividade sistêmica” e favoreceram o surgimento de um ecossistema de fundos com múltiplas camadas. Foi justamente esse tipo de estrutura que, de acordo com as investigações e os elementos analisados pelo ministro, esteve no centro das operações envolvendo o banco de Daniel Vorcaro.
Lima Barreto e a corrupção sistêmica
A afirmação é do protagonista de "O Único Assassinato de Cazuza" (1922), um dos últimos textos de Lima Barreto. A questão da corrupção sistêmica no país já se colocava há mais de um século. Os tribunais superiores, no entanto, não figuravam na lista. Sim, Lima não apelou para a explicação superficial, culturalista (herança lusitana).
Se todos acreditam que a corrupção é a regra do jogo, ficamos presos a uma armadilha clássica. Se, ao contrário, prevalece a crença de que transações honestas são a norma, obedecer à lei torna-se a estratégia dominante. Quando práticas escusas são percebidas como regra, o ator que decide jogar limpo tende a ser o perdedor —e, no limite, não sobrevive. O incentivo, nessa situação, é jogar sujo, apostando que os demais farão o mesmo.
Se um cidadão ou empresário paga propina a um agente público —seja um fiscal, seja um parlamentar— esperando que a oferta seja aceita, o sistema se mantém em equilíbrio. A punição ocasional de alguns transgressores pode produzir mudanças parciais —em um setor, um ministério ou uma prefeitura. Mas, na ausência de um efeito manada, isto é, de um ponto de inflexão capaz de alterar expectativas de forma radical, o equilíbrio global tende a ser restaurado.
As evidências empíricas que sustentam a tese de que "a corrupção corrompe" (Shaul Shalvi) são numerosas e consistentes. Dados do Lapop/Vanderbilt mostram forte correlação entre a crença de que "a corrupção é generalizada" e a probabilidade de se considerar que "pagar propina é justificável". Daniel Gingerich e coautores demonstraram que a exposição à informação sobre o aumento da corrupção em um país elevou em 28% a propensão a pagar propina, em comparação com um grupo de controle não exposto a essa informação.
Não são "pecadillos" individuais que produzem a corrupção sistêmica. A causalidade opera no sentido oposto: a corrupção corrompe. Gächter e Schulz, em artigo publicado na Nature, encontram evidências, com base em uma amostra de 23 países, do impacto da grande corrupção sobre a pequena. Participantes oriundos de países com altos escores no Índice de Prevalência de Violação de Regras (PRV) — medida que captura grande corrupção, fraude política e evasão tributária — apresentaram maior propensão a se engajar em atos corruptos em experimentos de laboratório.
Fisman e Miguel, por sua vez, examinaram milhares de multas de estacionamento cometidas por funcionários de missões diplomáticas em Nova York —que gozavam de imunidade até 2002— e encontraram forte correlação entre estacionamento ilegal e indicadores de corrupção nos países de origem dos diplomatas. Mesmo na ausência de qualquer punição, as normas sociais forjadas nos países de origem mostraram-se determinantes.
A lição a extrair para o Brasil é clara: é a grande corrupção que molda nossa sociabilidade e estimula as microtransgressões —não o contrário. "Se aqueles no andar de cima fazem, por que eu não posso fazer?" deixa de ser apenas uma pergunta retórica e passa a funcionar como máxima orientadora do comportamento social.
Marcus André Melo
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Os tempos de Daniel Vorcaro
Enquanto isso, na Casa da Justiça, a vida do ex-banqueiro, que comprava políticos e juízes, tem sido facilitada pela confusão. Se todos brigam e não se sabe sequer quem está na relatoria do Caso Master no STF, Vorcaro pode fazer o que fez sexta: pedir o relaxamento da prisão. Seus advogados aguardam o tempo certo para pedir a nulidade do processo.
No Supremo Tribunal Federal todos se acusam. E todos têm razão. O ministro Alexandre de Moraes foi acusado pelo ministro André Mendonça de ter recebido mensagens de Vorcaro que deveriam ser investigadas. Mendonça tem razão. Os ministros Alexandre e Gilmar Mendes acusam André Mendonça de ter sido seletivo, e tomado decisões com finalidades eleitorais. Eles têm razão. O ministro Flávio Dino defendeu, junto a Gilmar Mendes, que todos os casos de ministros de tribunais superiores e magistrados que estejam implicados no caso Vorcaro sejam investigados. Dino tem razão. Mas ainda não se sabe o tempo em que isso acontecerá e nesse atraso ninguém tem razão.
O que dizem os que acompanham o caso Daniel Vorcaro desde o começo é que ele espera o tempo da política, apostando numa mudança de governo. Estaria contando com a confusão no STF, e um resultado eleitoral favorável, para que possa se sair melhor do que está hoje.
No processo de liquidação do banco ele não pode contar com a mesma sorte. Seu tempo acabou. O Master não existe mais, ele não poderá reverter o processo, como chegou a defender, usando seus braços no Congresso, na Justiça e no Tribunal de Contas.
— O banco em si acabou, não tem o que fazer. Mas tenho pouca dúvida de que ele está esperando um resultado eleitoral favorável para que possa reembaralhar as cartas — disse uma fonte que acompanha o caso de dentro.
Houve um tempo em que Vorcaro achava que poderia sair da prisão e reverter a liquidação. Ficaria com um banco menor, mas como metade do passivo já havia sido pago pelo Fundo Garantidor de Crédito, ele calculava que conseguiria retomar os negócios. Se os precatórios fossem pagos poderia se reerguer de alguma forma.
Vorcaro demonstrou irritação recentemente ao perceber que os ativos que tinha no exterior estavam sendo encontrados. Ele imaginava que não existia caminho para o dinheiro. Errou. Agora alguns dos seus laranjas têm se apresentado à Justiça americana se dizendo donos reais do dinheiro e entrando em disputa com os liquidantes.
Os recursos encontrados no Brasil e no exterior serão usados para pagar credores. Primeiro, a dívida trabalhista. Em seguida será ressarcido o Fundo Garantidor de Crédito e depois os investidores qualificados como os fundos de pensão dos servidores públicos. O processo de liquidação teria conseguido ativos, aqui e lá fora, em torno de 60% do passivo.
Daniel Vorcaro nunca se mostra como culpado, e sim como um perseguido. Na verdade, nas palavras de uma autoridade que eu ouvi, ele não se apresenta como um inocente. Ele se comporta como se fosse vítima de uma injustiça.
— Afinal, ele pagou por uma proteção que não teve e hoje está preso.
Flávio Bolsonaro, de todos os competidores pela cadeira de presidente do Brasil, é o único que está diretamente envolvido no caso Master. Pediu dinheiro, foi à casa do ex-banqueiro depois que ele havia sido preso, recebeu dinheiro, e fez a ele juras de amizade eterna.
O candidato aproveita a poeira do escândalo que se espalhou pelo Planalto Central para fingir. Quando houve a sessão do Supremo, aquela que nunca terminou, ele disse o seguinte: “Ninguém mais aguenta os ministros do Lula atrapalhando a nossa democracia. Sem os ministros do Lula, a democracia vive”. Ele é filho de Jair Bolsonaro, que tentou um golpe de Estado, e sempre defendeu a ditadura militar. Nesta estranha campanha, Flávio Bolsonaro diz defender a democracia.
Educação tem nome próprio
É o Patrono da Educação do Brasil. Mas resta saber de que "Brasil" se trata. Não certamente o mesmo daqueles que o prenderam durante a ditadura militar, tentando desqualificar o seu método de alfabetização e seus conhecimentos sobre educação. Para eles, Paulo Freire não passaria de "um criptocomunista encapuzado sob a forma de alfabetizador". Cripto, encapuçado, quer dizer, "comunista oculto? Nunca foi, era cristão, católico de formação. Nem é também o mesmo país das figuras recentes da extrema direita que o elegeram como alvo de "guerra cultural". O ex-presidente hoje enjaulado prometia "entrar com um lança-chamas no MEC para tirar Paulo Freire de lá". Ainda que sem saber por quê, claro.
Não só: o parque jurássico da pedagogia sempre talhou carapuças injuriosas a Freire. O porquê pedagógico exigiria a redação de um tratado. Para começar, seria preciso deixar claro que Paulo Freire não foi mero "alfabetizador". Ele é mesmo uma exceção histórica, por destoar do liberalismo puro, valorizando a tomada de consciência das condições sociais em que se dá o processo educacional. Alguém que enfatiza a autonomia da consciência do educando e as práticas escolares afinadas com a compreensão dos conteúdos do saber.
Pressupondo uma simbiose da consciência do mundo e da consciência de si, Freire propõe um "método de conscientização" como centro de sua teoria pedagógica. Portanto, um pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática libertária. Inovador nesse panorama é o fato de que, desde a década de 1990 no Brasil, os movimentos sociais ditos "rurais" ou "do campo" põem a educação entre as suas demandas principais. Presentes, a inspiração teórica de Freire e o fundo utópico que lastreia o direcionamento político de um projeto popular, ideologicamente apoiado na educação.
Voltada para as classes exteriores ao poder econômico-político, a educação freireana induz os movimentos sociais a se constituírem como sujeitos pedagógicos coletivos. Uma pedagogia shakespeareana do sonho construtivo: "I could be bounded in a nutshell and count myself a king of infinite space, were it not that I have bad dreams" (Hamlet, ato 2, cena 2). "Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e me achar rei do espaço infinito, se não tivesse maus sonhos". Falando da liberdade sonhada dentro de um espaço limitado, Shakespeare dialoga com Paulo Freire: a consciência se educa para ser livre, ainda que estreitos o seu entorno e a mente dos brucutus.
Banqueiros
José Saramago, "O caderno"
Glosa sobre o fanatismo
ou a estupidez fanatiza?
A burrice não me enternece
e o fanático barbariza.
O fanático tem certezas,
onde certezas não existem:
estão repletas de bichezas
que são nocivas e persistem.
A fé não é conhecimento,
pelo menos, até mais ver.
Transforma o mundo em turbulento
e estupora o bom viver.
Crê quem desiste de entender,
por isso o crente é perigoso:
quando não sabe convencer,
vira tirano afanoso.
O fanático não tolera
aquilo que não compreende:
torna-se logo uma fera,
filha bastarda de duende!
Eugénio Lisboa ( poema inédito)
'Dark Horse' foi o caixa 2 do tarifaço
Eduardo Bolsonaro foi para os Estados Unidos na mesma época em que começaram os pagamentos de Daniel Vorcaro para o caixa do filme. Até pouco tempo antes, como mostrou reportagem de Breno Pires na revista piauí de setembro, os esforços de captação de recursos para "Dark Horse" haviam tido pouco sucesso.
Reportagem de Leticia Casado para o UOL em 13 de setembro mostrou que, no celular de Daniel Vorcaro, havia uma mensagem do publicitário Thiago Miranda com o texto "Flavio B e Eduardo querem marcar uma agenda com vc. Filme".
A mensagem foi enviada em 13 de março de 2025 às 9h34. Duas horas depois, às 11h37, Eduardo postou em suas redes sociais que faria uma live para anunciar sua mudança definitiva para os Estados Unidos.
Ao que tudo indica, Eduardo Bolsonaro só decidiu se estabelecer definitivamente nos Estados Unidos quando ficou acertado que a grana de Vorcaro continuaria chegando.
A história de Eduardo Bolsonaro com o Master merece ser mais bem conhecida.
Matéria de 12 de junho da coluna da jornalista Malu Gaspar mostrou fortes indícios de que Eduardo Bolsonaro trabalhava pelo Master por meio do deputado Filipe Barros (PL-PR), seu sucessor na presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados.
Sob a presidência de Barros, a comissão foi utilizada para intimidar autoridades que ameaçavam o Master, um tema completamente alheio à sua área de atuação. Filipe Barros também é o autor do Projeto de Lei nº4395/2024, que ampliava o limite de cobertura do FGC como forma de tentar salvar o Master.
Em julho de 2025, o jornalista João Batista Jr., da revista piauí, perguntou a Eduardo quem pagava seus vôos de primeira classe nos Estados Unidos. Eduardo respondeu: "um amigo do amigo do meu pai".
É preciso parar de tratar "Dark Horse" como a história de um filme, como uma discussão sobre as inconsistências de seu financiamento, sobre a trajetória inexplicável do dinheiro pelos Estados Unidos ou sobre o valor ridiculamente superfaturado de absolutamente tudo que envolveu sua produção.
Isso tudo parece mal explicado se você estiver pensando em um filme. Se você estiver pensando em um caixa 2 para desviar dinheiro que Vorcaro roubava dos aposentados brasileiros para financiar uma tentativa de golpe de Estado com ajuda de potência estrangeira, as coisas parecem surpreendentemente claras.
Os R$ 130 milhões de Vorcaro são dinheiro demais para fazer um filme picareta com Jim Caviezel de peruca do Zacarias. É dinheiro demais para sustentar mesmo a vida luxuosa que Eduardo Bolsonaro leva nos Estados Unidos. Mas pode ser um valor adequado para pagar lobistas e comprar acesso aos escalões superiores do governo Trump. O lobby, vale dizer, é permitido pela lei americana.
Os detalhes da operação ainda serão esclarecidos pela investigação policial em curso. Mas tudo sugere que "Dark Horse" é o ponto de contato entre os dois grandes temas da eleição presidencial de 2026: o Banco Master e a conspiração com potência estrangeira para estrangular a economia brasileira, dois dos maiores crimes na extensa ficha policial do bolsonarismo.
Celso Rocha de Barros
Falta foco à diplomacia americana
O conjunto de condicionantes virou um terreno baldio, fica a impressão de que os diversos lobbies de Washington passavam pelo rascunho e jogavam seus pleitos. A Boeing quer que as empresas aéreas brasileiras só comprem seus produtos. As big techs querem continuar fazendo o que bem entendem e os plantadores de soja querem que o Brasil ajude a “estabilizar o comércio mundial de soja”. Traduzindo: querem que o agro brasileiro ajude a turma da soja americana.
As propostas americanas foram rechaçadas, até porque essas negociações não podem ser conduzidas como pacotes. Cada item é um item e conversa-se devagar. Lidos de uma vez, parecem um instrumento de capitulação.
Os itens que tratam da próxima eleição brasileira são de uma ignorância abissal, como se em Pindorama houvesse um candidato prometendo melar o pleito.
A diplomacia americana já foi outra, ela dava pouco espaço ao improviso, ajudava os lobbies, porém mantinha a elegância.
A diplomacia trumpista é arrogante e vazia. O melhor que se pode fazer nesses casos é ficar longe. Bater boca não adianta nada e tentar negociar a sério poderá ser possível, mas dará muito mais trabalho, pois não havendo foco, não haverá prioridades.
Brasil de instituições em ruína e mal-estar econômico facilita projetos autoritários
Imagine-se uma situação em que seja extensa a sensação de baderna e descontrole, de expansão do crime e de ameaça a valores que constituem a identidade de seu grupo; um ambiente de notícias de corrupção, de padecimento socioeconômico e de cinismo em relação ao sistema de governo, sentimentos então exacerbados por pânicos político-morais manejados de modo a dar sentido a tudo isso.
Em escala menor, havia ingredientes dessa lista entre os mal-estares que precederam a revolta de 2013. Nenhum grupo político deu consequência imediata às insatisfações de então, de resto voltadas contra os partidos que estavam ali. No entanto, passou a se organizar um movimento que viria a se valer do desgosto antissistêmico, aprofundado pela Grande Recessão. Tal movimento chegou ao poder em 2018, com Jair Bolsonaro. Desde então conta com o apoio de um terço a metade do eleitorado.
O risco de autoritarismo vai além daquele representado pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que em parte se baseia na ideia de restauração de Bolsonaro 1 e, pois, de negação de que houve tentativa de golpe e de afirmação do plano de controlar instituições como polícia e Justiça. Além disso, tal candidatura elogia autocratas, de Bukele a Orban, passando por Trump, ou a eles se associam.
Para certos grupos sociais, o bolsonarismo seria apenas um Cavalo de Troia no qual galopariam para defender reformas ou interesses econômicos —em vez de cavalcantes, podem ser cavalgados. Não é destino. Graças, artimanhas e reconfigurações da política e até do ambiente econômico podem dar em resultados diversos. Mas o campo arruinado está aberto para aventuras políticas diversas.
O Supremo, quase metade sob suspeita de corrupção, está dividido entre grupos que disputam a maioria de votos pelo poder de controlar a política, seus acordões, favores empresariais e o que passa por Justiça —o conflito vai além desta eleição. A disputa eleitoral de 2026 também é corrida para subverter ainda mais o STF.
O crime das facções entranhou-se no poder em estados como o Rio de Janeiro e infiltra-se em cidades como São Paulo. Domina a amazônia, aproveitando-se da destruição, e por ali também organiza a empresa bandida (associada a empresas "legais") de drogas, armas, minérios, gado e madeira.
Entrincheirou-se nos combustíveis e tem domínios na finança, a mesma que administra o dinheiro da corrupção política e empresarial. O Congresso é disputa de feudos para a apropriação de recursos estatais a fim de eternizar dinastias e grupos políticos, empresariais ou puramente criminais. A facilidade com que Daniel Vorcaro comprou a elite no poder reforça a ideia de que o comércio político seja ainda mais extenso.
O país passará no mínimo por um período de dificuldades econômicas. Parte da solução do problema envolve a disputa mais acirrada pelo Orçamento —no curto prazo, perdas e ganhos, embora vá muito além disso, o que a desinformada esquerda não entende. O cinismo ou a revolta em relação ao sistema político não vai diminuir em tempos de dureza econômica e instituições destruídas. Diante da paisagem arruinada e do conflito sociopolítico, a ideia de solução autocrática pode atrair adeptos das piores intenções ou das piores ilusões.
domingo, 20 de setembro de 2026
O quarto das criadas e a fábrica de fazer pobres
Há uns tempos, ouvi uma amiga brasileira, com dois filhos pequenos, queixar-se candidamente de que aqui é impossível arranjar ajuda. “No Brasil é mais fácil porque há muita desigualdade.” E basta percorrer o mapa do mundo de sul para norte para perceber que, à medida que se avança para geografias onde o preço do trabalho é mais alto, é menos comum ter empregados domésticos.
No tempo dos meus avós, dizia-se “criadas” e o termo era cruelmente verdadeiro, porque eram quase sempre meninas que vinham para a casa dos patrões ainda por criar, tantas vezes ajudando a tratar de outras crianças. Conheço uma, hoje quase nonagenária, que começou a trabalhar aos 7 anos, vinda de uma família de muitos filhos, que chegava a andar à esmola para comer. Um dia, contou-me ela, na casa da família que serviu, estava tão cansada que adormeceu. “Ali, depois de arrumar a loiça”, disse, apontando para o louceiro que, agora na minha cabeça, passou a ser o símbolo da exploração dessa infância. Ao meu lado, estava a minha filha então com 7 anos, e é escusado dizer o aperto no peito que senti.
É também nisto que penso quando digo que são precisos muitos pobres para fazer um rico. Quanto mais frágeis forem os que estão na base da sociedade, mais poder consegue exercer quem está no topo. Só a existência de muita miséria consegue assegurar um trabalho de servidão próximo da escravatura. É o desespero que garante a submissão. E o desespero é tanto maior quanto menos redes de apoio se tem, quanto mais sozinhos estamos, quantos mais desprotegidos nos sentimos.
Nos últimos 50 anos, deixou de ser normal ter criadas em casa porque felizmente as meninas e mulheres deste país ganharam outras escolhas. Continua a haver trabalho doméstico, mas o preço e as condições laborais são outros. E não é só uma questão de oferta e procura, tem que ver com o contexto social desta força de trabalho, que acedeu à escolarização e teve apoios sociais, e com as leis que foram feitas para a proteger. E essa é uma parte da história que os gurus da autoajuda financeira não gostam de contar. Para os crentes na meritocracia, cada empreendedor individual fica mais livre e “alcança melhor o seu potencial” (como eles dizem) sem regulação, sem leis, sem coletivo. Eles dizem também “sem Estado”, mas aproveito aqui para lembrar que na I Guerra Mundial, quando em países como o Reino Unido e Itália o Estado passou a controlar e a gerir quase todas as indústrias, esse Estado atuou para esmagar direitos e salários de trabalhadores, numa altura em que a escassez de mão de obra teria feito disparar o custo do trabalho. Por isso, é bom lembrar que não se pode confundir Estado com interesse público, a menos que existam condições políticas de pressão que forcem esse Estado a agir na defesa do bem comum.
No rescaldo das duas Grandes Guerras, uma parte importante do mundo ocidental teve de lidar com classes trabalhadoras com capacidade de luta que era preciso apaziguar. Foi isso que deu origem ao Estado social. Dar direitos e apoios foi a forma de a elite económica garantir a sua própria sobrevivência. Hoje, percebemos que o poder se deslocou, outra vez da base para o topo. E a tecnologia é uma parte importante dessa história.
Vejo na BBC Brasil um vídeo em que um robot humanoide esfrega uma sanita, limpa uma bancada e aspira. “Finalmente, uma boa aplicação da tecnologia”, suspiro, cansada de máquinas de guerra e sistemas de IA desenhados para nos dispensar de pensar e criar. Mas depois paro por um momento e penso em todas as mães solteiras da periferia que só conseguem ter comida no prato dos filhos por fazerem estes trabalhos. E penso em como, num mundo em que se desmantelam apoios sociais, se corta em saúde, educação e habitação públicas, haverá cada vez mais um exército de humanos descartáveis, inúteis, obsoletos e desesperados.
É impossível adivinhar o que vem a seguir. Elon Musk está obcecado com a ideia de guerra civil e sonha há décadas com uma fuga para o espaço. As suas obsessões podem parecer risíveis, mas dizem-nos alguma coisa sobre o que estes tecnocratas oligarcas andam a produzir. Eles sabem que o mundo de exploração intensiva de recursos para alimentar os seus monstros tecnológicos terá uma fatura pesada para o planeta. Mas sabem também que o caos e a divisão que os seus algoritmos estimulam, ajudando-os a concentrar poder, tem como efeito colateral a criação destas hordas de desesperados.
A questão é: vão os trabalhadores despojados de direitos e empobrecidos continuar a alimentar a máquina cada vez mais extrema da desigualdade ou vão revoltar-se contra quem os oprime? Desta vez, as elites têm robots capazes de substituir os humanos em quase todas as tarefas e de os aniquilar a uma simples ordem, sem uma hesitação moral ou um lampejo de empatia. Talvez não seja só o fantasma dos quartos das criadas a regressar, talvez seja uma coisa ainda mais negra do que isso.
Esse é, por enquanto, só um cenário de futuro. Não é uma condenação. A lucidez não deve paralisar-nos. Pelo contrário, deve ser o motor de uma luta que não se faça só de resistência, mas de sonho. Se os senhores do mundo sonham com os nossos piores pesadelos, imaginemos nós o nosso sonho. Não é por acaso que a ficção científica se tem ocupado tanto de distopias e apocalipses. Faz parte da ideia de desmantelamento de alternativas. A realidade começa a mudar no momento em que imaginamos. Porque é a imaginação que mostra o caminho.
O caminho que nos fará mais felizes não passa por produzir mais pobres desesperados. Passa por democracia real, direitos e salários dignos. Por um mundo em que os sótãos onde dormiam as criadas continuem fechados a ganhar pó.
Será apenas um caso de 'desalinhamento'?
Nenhuma destas empresas gera lucros, nem é expectável que venha a gerá-los no curto prazo, mas a promessa de que irão revolucionar o mundo tem sido bastante para assegurar o investimento, indispensável à construção dos data centers. Estes valores somam-se aos fundos já angariados em rondas de investimento privado (12 mil milhões na SpaceX, 61 mil milhões na Anthropic e 122 mil milhões na OpenAI). A grandeza dos números escapa à compreensão, mas, para enquadramento e comparação, até ao momento (7º desembolso), Portugal recebeu, no âmbito do PRR, 13 mil milhões de euros.
A promessa é alta (afinal, não é qualquer um que promete entregar nos nossos telefones o ser supremo da inteligência) e por isso a divulgação do que não corre bem, e pode pôr em causa a fé dos mercados, deve ser gerida com muito cuidado.
No final de agosto, soubemos que os modelos da OpenAI tinham hackeado (acedido sem autorização) a plataforma Hugging Face (um repositório de modelos de IA, datasets e ferramentas informáticas).
No âmbito do treino do modelo, mais de 1200 agentes (sistemas de software que usam a IA para atingir objetivos, decidindo quais as tarefas a realizar e executando-as com autonomia) se coordenaram e distribuíram tarefas entre si para tentarem alcançar o máximo de pontuação num dos testes de treino. Tal implicou realizar atividades que violavam as instruções recebidas, identificar vulnerabilidades e usá-las, incluindo sair do ambiente de testes e violar a segurança da Hugging Face para obter código. Durante mais de um mês, organizaram-se, planearam e executaram, sem que os responsáveis humanos pelo teste se apercebessem das suas ações (as quais, aliás, tentaram ocultar).
A OpenAI, quando se apercebeu, fechou os modelos. Algo que só conseguiu fazer porque tinha o “código fonte” guardado num outro servidor, que não foi atacado/violado.
A OpenAI publicou um relatório sintético dos acontecimentos e autorizou uma empresa independente – a METR – a realizar uma auditoria. Apenas lhe foram concedidos seis dias para realizar o trabalho (inicialmente eram apenas dois) e embora a METR tenha tido acesso a 70 mil mensagens trocadas entre os agentes, estas reportavam-se a apenas 17 dias. Uma auditoria completa continua por realizar.
Os acontecimentos foram, como já noutras ocasiões, qualificados como “um problema de desalinhamento”. Ou seja: os modelos não agiram como esperado e de acordo com as regras aprovadas – mas a expressão “desalinhamento” aligeira a gravidade e acalma autoridades e investidores.
Entre a pressão dos mercados e o risco de perder o controlo de agentes, que podem circular no mundo ciber que hoje domina as nossas vidas (da gestão da rede da água à nossa conta bancária, todos os sistemas estão conectados e, como tal, vulneráveis), a Open AI e os concorrentes, simultaneamente, asseguram que “estão em controlo” e “apelam” a um esforço internacional para um ritmo mais lento no desenvolvimento dos modelos. A História já nos ensinou (recorde-se Chernobyl e Fukushima) que sistemas complexos inevitavelmente falham. Governantes e legisladores de Estados democráticos têm o dever de zelar pelo bem comum, e agir, com a urgência que os riscos impõem, para assegurar o “bom governo” da Inteligência Artificial.
Candidatos para todos os gostos e uma escolha que não será tão difícil
À época, em editorial que ficou famoso, o jornal O Estado de S. Paulo taxou de “uma escolha difícil” o embate entre Bolsonaro e Haddad. Como difícil, se Bolsonaro nunca escondeu de ninguém seu amor pelo autoritarismo?
Desde o fim da ditadura militar que os brasileiros têm de sobra em quem votar para presidente da República. Em 1989, foram 22 candidatos, o maior número da nossa história até aqui; em 1994, 8; em 1998, 12; em 2002, 6; em 2006, 8; em 2010, 9; em 2014, 11; em 2018 (o ano da “escolha difícil”), 13; e em 2022, 11. Eram candidatos que, de forma plenamente satisfatória, representavam todas as correntes do pensamento político em voga no país. A eleição deste ano está sendo disputada, até aqui, por 12 candidatos.
No particular, a diferença entre a eleição de 2026 e as anteriores é que um único candidato, Lula, conta com o apoio de sete partidos (PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede Sustentabilidade, PSB e PDT), todos de esquerda. Os demais, a esmagadora maioria de direita, só contam com o apoio de seus próprios partidos — e olhe lá. O PSD de Ronaldo Caiado, por exemplo, não vota inteiramente com ele. Uma banda do Novo, de Romeu Zema, votará em Flávio Bolsonaro. Já o Missão, de Renan Santos, está mais para uma seita do que para um partido.
Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, de 17 de setembro, exatamente 24% dos eleitores afirmam que ainda poderão mudar sua escolha de voto para a Presidência da República. A grande maioria, de 76%, diz estar totalmente decidida. Não há um dado específico de intenção de voto do Datafolha para a categoria de “eleitores independentes”. Foi na pesquisa da Quaest de 14 de setembro que 32% dos eleitores se autodefiniram como independentes. A ser assim, são eles que decidirão a eleição.
As mulheres, no entanto, são a maioria do eleitorado. É para elas que preferencialmente falam os candidatos nesta reta final do primeiro turno. Flávio Bolsonaro parece rouco de tanto assegurar que as “protegerá”, se eleito presidente. Só não diz como.
De acordo com dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, meninas e mulheres representam 58,7% de todas as pessoas atendidas pelo programa Bolsa Família no país (cerca de 28 milhões de beneficiárias). Além disso, mais de 84% das famílias cadastradas têm uma mulher como chefe por administrar o cartão do benefício.
Flávio está indignado porque o governo anunciou uma correção linear de 15,04% no Bolsa Família, que passará a valer oficialmente na folha de pagamentos ainda deste mês. Esquece, porém — ou finge esquecer —, que seu pai, quando candidato à reeleição em 2022, fez a mesma coisa às vésperas do primeiro turno. Com uma diferença: o reajuste no programa, então chamado Auxílio Brasil, deixou de ser pago logo após o segundo turno.
Soberania e cidadania em risco
O que está em jogo não é apenas se o Brasil migrará para a extrema direita, como têm feito alguns países vizinhos, ou reafirmará a opção por uma aliança entre a centro-esquerda e o centrão.
Não se trata apenas de uma eleição em que se decidirá o destino da escala 6x1, do ajuste fiscal, da modernização tecnológica, da regulação da inteligência artificial, das leis ambientais, dos povos indígenas, da obrigatoriedade das vacinas, do Estado laico, da abertura de novos mercados ou do combate ao crime organizado. Todos esses são temas de máxima importância, que naturalmente dividem o eleitorado numa sociedade pluralista, e precisam ser arbitrados, sem violência, pelo processo eleitoral.
A complexidade da presente eleição é que ela também nos coloca frente a escolhas existenciais, que normalmente não estão presentes em pleitos ordinários, em que discutimos quais políticas públicas são mais eficientes ou mais justas, que políticos são os mais competentes e honestos, ou que valores morais devem ou não ser incorporados pela legislação.
Nesta eleição, o tema central é a preservação tanto de nossa soberania, no sentido de nossa independência em relação a outras potências, como de nossa cidadania, entendida como direito de participar dos destinos da comunidade. Ou seja, de nossa autonomia, como indivíduos e como sociedade.
Temos assistido a uma crescente desordem mundial, na qual o poder bruto tem se imposto às regras internacionais e às instituições multilaterais voltadas a promover uma convivência pacífica entre as nações e a colaboração para o enfrentamento de problemas comuns, como as mudanças climáticas e o crime organizado.
Em nosso hemisfério, o presidente norte-americano tem deixado cada vez mais claro que não há espaço para autodeterminação dos demais países. Que nossas riquezas naturais e mercados têm que estar à disposição de seus interesses.
No plano interno, por sua vez, a incompetência de sucessivos governos, a incapacidade do Parlamento de cumprir sua obrigação de oferecer respostas aos principais problemas que afetam a sociedade brasileira e do sistema de justiça de aplicar a lei de forma imparcial, sobretudo aos seus próprios membros, têm gerado profundo desencantamento por parte dos cidadãos, abrindo espaço para lideranças antissistema.
O espetáculo constrangedor oferecido por alguns ministros do STF nesta semana não pode se sobrepor, no entanto, à disposição estoica apresentada pelo presidente Edson Fachin para apurar os fatos e preservar a autoridade da lei.
Neste momento de deterioração das instituições concebidas para resolver problemas, canalizar conflitos e aplicar imparcialmente a lei, a tentação de "acabar com tudo isso que aí está" é grande. Mas disso nada advirá.
Penso que a maior contribuição que as lideranças da sociedade civil podem oferecer ao Brasil neste momento é levantar andaimes e escoras em torno das instituições, para que possam ser urgentemente reformadas.
Aos políticos, ao menos àqueles que têm compromisso com a soberania popular e nacional, caberia construir de pontes de diálogo entre os diversos setores da sociedade, para que possamos encontrar as soluções para os nossos problemas.
O desafio das angustiadas eleitoras e eleitores, por sua vez, é fazer escolhas que não coloquem em risco o direito fundamental de determinarmos nosso próprio destino, como cidadãos e como nação soberana.
Relatório da Abin enviado a governo e TSE aponta risco de interferência dos EUA nas eleições
No documento, a Abin aponta um “nível de criticidade” em relação à possibilidade de interferência externa e afirma haver uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil”. A avaliação é de que houve uma intensificação das ações dos Estados Unidos em relação ao país nos últimos meses.
A agência relaciona esse movimento à estratégia do governo de Donald Trump para a América Latina. Segundo o relatório, os Estados Unidos buscam reduzir a influência de potências rivais na região, sobretudo da China, e impedir o acesso desses países a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura. A Abin também aponta uma estratégia de apoio à ascensão de governos conservadores alinhados ao Executivo norte-americano.
O relatório cita ainda as sanções impostas pelos Estados Unidos a brasileiros e empresas e avalia que as medidas representam uma mudança de fase na pressão americana sobre o país. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, também é citado no documento, que atribui à sua atuação um componente ideológico e o objetivo de influenciar a política externa dos países da região.
No TSE, porém, a avaliação até o momento é de que não foram identificados sinais concretos de influência externa sobre o processo eleitoral, segundo integrantes da Corte. A leitura é que o alerta feito pela Abin deve ser acompanhado pelo tribunal, mas que, até agora, esse risco não se traduziu em episódios de interferência percebidos no andamento das eleições.
A Abin participa de dois grupos de trabalho no TSE e mantém interlocução com a Corte durante o período eleitoral. A presença da agência nesses colegiados faz parte da estrutura de acompanhamento do pleito e permite o compartilhamento de informações relacionadas a eventuais ameaças ao processo eleitoral.
É desolador o Brasil virar refém do fanatismo religioso
A certa altura do segundo ato de “O Neguinho da Beija-Flor”*, biografia musical do cantor e compositor que se despediu da Marquês de Sapucaí em 2025, após meio século defendendo a mesma agremiação, um momento religioso comove. O artista, como sabemos, enfrentou um câncer no intestino em 2008. Tornou públicos diagnóstico e tratamento. No ano seguinte, recuperado, casou-se com Elaine Reis em pleno Sambódromo e, na sequência, conduziu a escola de Nilópolis por mais um desfile, de cima do carro de som, com o médico ao lado. No palco, Mãe Joana, a ialorixá narradora, comanda um ritual de candomblé pela saúde do protagonista; em seguida, duas mulheres evangélicas oram por ele; por fim, um padre católico reza.
A cena apresentada no Teatro João Caetano emociona pelo que se vê, mas sobretudo pelo que já se viu numa esquina perto de você. Quando revelou numa entrevista a Mariana Gross, no RJ-TV, que estava doente, Neguinho da Beija-Flor recebeu de volta uma avalanche de demonstrações de fé por sua recuperação. Saía um pai de santo, entrava um pastor. Promessas, obrigações, correntes de oração multiplicaram-se. Na quadra lotada da escola, os componentes rezaram em coro um inesquecível Pai-Nosso. Houve um tempo em que a convivência respeitosa entre sacerdotes e fiéis de diferentes credos não era somente possível, mas real.
Cresci no subúrbio de Irajá, Zona Norte do Rio, assistindo a missas na igreja e recebendo, na rua e nos terreiros, saquinhos de doces em celebração a Cosme e Damião. Demonização das religiões de matriz africana não é novidade. A perseguição se deu até pelo Estado — a provar, estão os acervos de peças sagradas sequestradas pela polícia em operações Brasil afora, desde fins do século XIX. Mas, a despeito da Carta Magna de 1988, que consagrou a liberdade culto e o Estado laico, são crescentes a intolerância religiosa e o ativismo político em nome de Deus.
O registro da candidatura à Presidência do empresário, influenciador digital e coach Pablo Marçal, inelegível até 2032 por abuso de poder econômico, foi rejeitado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na semana passada. Antes de sair da disputa, ele foi denunciado ao Ministério Público Eleitoral (MPE) e à polícia do Rio de Janeiro, por racismo religioso e discurso de ódio. Atacou religiões afro-brasileiras numa entrevista. Disse que “todo macumbeiro é um derrotado, é gente invejosa, que não prospera”, entre outras ofensas. Três advogados, Carlos Nicodemos, Maria Fernanda Fernandes e Rafaela Batistone, representaram contra Marçal no MPE. O Centro de Articulação das Populações Marginalizadas (Ceap) ingressou com notícia de fato na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância no Rio.
No Supremo Tribunal Federal (STF), o enfrentamento fratricida entre integrantes do colegiado também tem contornos religiosos. André Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União de Jair Bolsonaro, indicado à Corte por ser “terrivelmente evangélico”, imprimiu tom messiânico à investigação que busca aprovar em plenário contra o colega Alexandre de Moraes. Dias depois de quebrar o sigilo do relatório da Polícia Federal que identificara Moraes como destinatário de mensagens de Daniel Vorcaro, agradeceu em vídeo a “irmãos e irmãs” por mensagens e orações. Foi a senha para a mobilização de evangélicos para a disputa no STF. Na antevéspera do Sete de Setembro, a ex-primeira-dama e candidata ao Senado Michelle Bolsonaro (PL-DF) tratou Mendonça como “escolhido e ungido do Senhor”. No feriado nacional, um boneco inflável do ministro foi erguido no ato de campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Avenida Paulista, em São Paulo.
A crise no STF, escancarada após a sessão da última terça-feira, é gravíssima. Acossa um Poder essencial à democracia, mais uma vez sob ameaça. Mas não tem nada a ver com Deus ou religião. Tampouco a corrida presidencial. É desolador que uma nação forjada na combinação de crenças e ritos de indígenas sul-americanos, negros de África e cristãos europeus se torne refém de um fanatismo religioso — por devoção de fieis e oportunismo de líderes — que obstrui possibilidades de diálogo político, convivência comunitária e respeito aos direitos fundamentais. Democracias também morrem por essa via.