sexta-feira, 9 de outubro de 2026
A renda digital e a erosão da propriedade
A mobilização popular massiva e consistente continua a ser uma arma que verga até os que parecem muito poderosos
Comecei por apagar algumas coisas. Tentei perceber o que ocupava ali mais espaço. E, como acontece quando se arrumam prateleiras, encontrei algumas relíquias, como o email que enviei aos meus pais com o vídeo da primeira ecografia da minha primeira filha. Também encontrei lixo, coisas que não percebi porque tinha guardado e o que nem imaginava que alguma vez tinha tido no email. Apesar disso, a barra que sinaliza a ocupação de armazenamento continuava teimosamente a vermelho. E, como muitas vezes em que sei que tenho de arrumar armários, percebi que não tinha muito tempo para andar ali a mexer na tralha, tentando entender o que era importante e o que podia ser descartado. Pressionada pelas notificações alarmantes que me indicavam o fim da capacidade de memória, comprei mais espaço.
Foi nesse momento que me dei conta de que a minha existência digital me obriga já a pagar uma renda. E não é pequena. É preciso pagar a Cloud para onde vão as minhas memórias. É preciso pagar a certificação das redes sociais que garante a fiabilidade da identidade das minhas contas. É preciso pagar aplicações que me ajudam a fazer as coisas. É, claro, preciso pagar a própria internet, sem a qual já não consigo desempenhar as mais básicas tarefas. Sim, viver em Lisboa está cada vez mais caro. Mas existir digitalmente também não está barato.
Quando, na pausa para café de uma conferência sobre Inteligência Artificial e Jornalismo, troco umas palavras com quem me recorda a importância de lembrar o lado material do digital (cada vez mais sedento de recursos físicos como água, energia e terras raras), comento a minha constatação recente sobre o custo de viver na internet. A minha interlocutora abre os olhos e diz-me com ar de descoberta: “É verdade! Nunca tinha pensado nisso!”
O facto de as nossas existências digitais terem custos crescentes coloca, claro, um problema de desigualdade entre quem pode e quem não pode pagar por estas extensões de si mesmo, cada vez mais importantes para as nossas vidas profissionais e sociais. Mas há ainda outra questão que se coloca quando pensamos na forma como a desmaterialização de alguns bens põe em causa a própria noção de propriedade. A minha geração ainda cresceu a fazer coleções físicas de música, filmes, fotografias e videojogos. Eram coisas que ocupavam espaço nas prateleiras das casas e podiam ser dadas, emprestadas, revendidas ou herdadas. Discos, cassetes, DVD e álbuns eram objetos físicos dos quais podíamos dispor. Eram nossos. Mas essa é uma propriedade cada vez mais precária quando o que adquirimos são licenças de uso, seja sob a forma da contratação de streaming ou plataformas. Não somos verdadeiramente donos dos filmes da Netflix, das músicas do Spotify, das fotografias que guardamos no Google Photos, dos videojogos que compramos adquirindo uma caixa com um código de acesso. Ninguém vai poder herdar as nossas coleções e não podemos emprestá-las nem revendê-las. Mais: se alguma destas plataformas deixar de existir, podemos perder tudo; se deixarmos de pagar as licenças, deixamos de poder aceder aos conteúdos; se as empresas forem vendidas ou fundidas, os catálogos podem mudar e aquele filme a que julgávamos ter acesso vai deixar de estar disponível.
Isto é uma mudança de placas tectónicas na ideia de propriedade. Nesta nova fase do capitalismo, a propriedade torna-se etérea, volátil, precária, sujeita a pagamentos permanentes e a alterações das condições de uso. Mas só para alguns. Na verdade, a propriedade desloca-se da base para o topo. Os donos das plataformas concentram a propriedade, nós perdemo-la.
Perceber este movimento de acumulação da base para o topo é essencial para entendermos a era em que vivemos. Essa noção está presente na forma como a base é cada vez mais sobrecarregada de impostos, ao mesmo tempo que os mais ricos dos mais ricos quase não os pagam. Está presente quando as instituições trocam a decisão democrática pela tecnocracia. Quando há movimentos que defendem o regresso do voto censitário, propondo excluir as mulheres ou os pobres. Quando as tecnologias de que dependemos crescentemente estão nas mãos de uns poucos, quase sem escrutínio nem controlo público. Quando os mais poderosos dispõem livremente do poder, indiferentes à pressão popular ou à opinião pública.
Agora, o que está em causa é uma alteração profunda do conceito de propriedade, através da desmaterialização dos bens. A questão é importante porque o Estado é uma ferramenta essencial para a definição da propriedade. É o Estado que tem as ferramentas para reconhecer e proteger os direitos dos proprietários. Esta desmaterialização corresponde a um movimento que impõe fronteiras a pessoas, mas as dilui quando estão em causa os capitais. Os Estados perdem sentido, a não ser como garantes de financiamento massivo para os projetos dos techbros, que vivem dos impostos que não pagam. Não deixa de ser muito irónico que seja este capitalismo desenfreado a pôr em causa a noção de propriedade. Mas não é por acaso que isso acontece numa altura em que a ideia política de classe média perde importância estratégica, ao ritmo a que a coerção ganha terreno sobre a democracia. Estes são sinais que devem fazer-nos entender a importância de reclamar o poder dos muitos sobre os poucos. O caso de Maricarmen, em Espanha, mostra que a mobilização popular massiva e consistente continua a ser uma arma que verga até os que parecem muito poderosos. E essa é já uma esperança.
Proposta de Flávio reabre brecha à sonegação e mexe na reforma tributária
O anúncio foi feito por Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e porta-voz econômica do candidato, que também quer rever outros pontos da reforma depois da eleição – caso seja, de fato, eleito.
É uma promessa de quem já se vê no Planalto e com votos no Congresso para refazer o que o país levou décadas para aprovar.
O nome em inglês quer dizer pagamento dividido. Hoje, quando você compra algo, o imposto vem embutido no preço. A loja recebe do consumidor e repassa a parte do governo somente semanas depois, é aproveitando dessa brecha que parte das empresas cobra o imposto do cliente e não repassa.
Com o split payment, o banco separa o imposto na hora do Pix, do cartão ou do boleto e manda separadamente para o comerciante e para o governo o valor que é de direito de cada um. Assim, o dinheiro do imposto não passa mais pela mão da loja, e quem quiser sonegar fica sem ter como.
A Fazenda estima que a automação da cobrança pode reduzir em R$ 150 bilhões por ano a sonegação de impostos sobre o consumo.
Só no setor de combustíveis, estudo da FGV aponta mais de R$ 14 bilhões anuais em sonegação e inadimplência.
Até a CNI, que representa a indústria, apoia o mecanismo por proteger quem paga em dia da concorrência desleal. E quando menos gente sonega, a alíquota cai para todos.
A campanha de Flávio argumenta que o sistema tira dinheiro do caixa das empresas, sobretudo de varejo e postos, que usam o intervalo até o vencimento do imposto como capital de giro.
Integrantes do governo lembram, porém, que a retenção só ocorre sobre o imposto que ainda não foi pago. A campanha também não explicou o que poria no lugar para combater a sonegação.
O mecanismo foi aprovado pelo Congresso em dezembro de 2024, dentro da lei que regulamentou a reforma, por 324 votos a 123 na Câmara e 49 a 19 no Senado.
O PL orientou contra em todas as votações, tentou adiar a decisão na Câmara e, no Senado, teve o próprio Flávio entre os votos contrários. Se vitorioso nas eleições, agora quer refazer a votação e tentar inverter o placar. Para derrubá-lo, o próximo governo precisaria de 257 deputados e 41 senadores.
Nesta quinta-feira, Durigan defendeu o split payment ao lado do deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator da reforma na Câmara.
Segundo o ministro, o sistema combate notas frias e empresas de fachada, porque o crédito do imposto só existe quando o tributo foi pago.
Ele disse que a implantação será gradual, com cursos e linhas de crédito para as empresas. Pelo cronograma da Receita, o uso será voluntário em 2027 entre empresas e obrigatório a partir de 2028, sem diferença para o consumidor final.
Aguinaldo chamou a reforma de projeto de Estado e disse que o split payment amplia a base de quem paga e ajuda a baratear o imposto. Pediu que o debate não seja “contaminado” pela eleição.
A disputa da eleição presidencial ainda não está decidida, embora Flávio esteja em vantagem. E Aguinaldo, apesar de ter sido o relator da reforma no governo Lula, é um dos principais caciques do PP, partido que anunciou nesta quarta-feira apoio incondicional a Flávio Bolsonaro.
O génio individual e a força do coletivo
O fascínio pelo indivíduo excecional é uma das marcas mais antigas e persistentes da cultura humana. Todas as nações têm os seus heróis, cujos nomes ouvimos em histórias… que nem sempre precisam de ser fiéis à História. Os mitos dos heróis são absolutamente essenciais para a criação das narrativas que sustentam as crenças e os pensamentos coletivos. Eles são aglutinadores e permitem, ainda por cima, dar rosto humano a grandes movimentos de massas ou ímpetos coletivos que moldaram nações, ganharam batalhas ou, mais recentemente, criaram e desenvolveram empresas de alcance global. A nossa imaginação coletiva está moldada, desde sempre, pela figura do líder solitário, que conseguiu alcançar a glória, mesmo quando todos os prognósticos estavam contra ele.
No entanto, é preciso ter noção da realidade. E não podemos deixar-nos seduzir pela convicção de que o curso da História, a inovação disruptiva e a salvação das crises civilizacionais dependem exclusivamente do génio e da vontade de uma única mente brilhante. Embora alguns tenham procurado cultivar essa imagem, os heróis não são uns eremitas, isolados do resto do mundo. Sabemos hoje, por diversos relatos, que alguns dos maiores génios da Humanidade eram até, na verdade, uns tipos pessoal e socialmente detestáveis, capazes das maiores atrocidades na intimidade. E sabemos também que todos eles, em algum momento, só alcançaram esse estatuto porque puderam beneficiar de um ecossistema social, científico, técnico ou artístico que potenciou as suas qualidades. Mas também de mecanismos de autopromoção desenhados para os glorificar, apagando quase sempre todo o trabalho coletivo que os rodeou.
Há um exemplo bem ilustrativo dessa situação: embora tenha inventado a World Wide Web, com um extraordinário impacto para a Humanidade, Tim Berners-Lee continua a ser um nome completamente eclipsado face a figuras como Mark Zuckerberg ou Elon Musk, personalidades hiperbólicas e egocêntricas da tecnologia, com uma capacidade brutal de autopromoção. E, noutros campos, poderíamos juntar centenas de exemplos semelhantes.
Apesar de precisarmos de líderes e de heróis, já devíamos ter consciência de que ninguém faz nada sozinho. E isso é tanto verdade na política como no desporto, embora tantos procurem vender o contrário.
Vivemos, aliás, tempos em que, um pouco por todo o mundo, se procura glorificar o mito de heróis isolados, como se fossem detentores de uma clarividência infinita e de uma infalibilidade a roçar o divino. Tudo isto em conjunto com uma postura implacável, agressiva e intolerante à crítica. Não é por acaso que vivemos numa era que volta a ser dominada por “homens-fortes”, que procuram captar o fascínio dos heróis do passado – com os resultados trágicos que estão à vista.
A História já nos ensinou vezes suficientes que a idolatria cega corrói as bases da democracia. Devemos valorizar a excelência individual. Contudo, quando transformamos o indivíduo num messias solitário, caímos na caricatura e no culto de personalidade.
O desporto é atualmente o espaço onde melhor se pode aferir a importância do coletivo para o resultado final. Atualmente, mesmo o melhor atleta de uma disciplina individual não terá hipóteses de vencer se ficar a treinar sozinho, isolado do resto do mundo – como poderia acontecer há um século. E, em todos os desportos, é visível o batalhão de técnicos, fisioterapeutas, nutricionistas e os mais diversos especialistas que rodeiam cada equipa – a somar a tantos mais que estão longe dos holofotes. Num tempo em que a saída intempestiva de um herói da Seleção nacional de futebol cria e alimenta novos focos de polarização, convém saber realçar a força superior do coletivo – aquele que garante vitórias, sem ficarem completamente dependentes de golpes de génio de atletas superlativos. Há um facto eloquente: as duas formações dominantes do futebol atual – a seleção de Espanha e o Paris Saint-Germain – são também as duas equipas mais coletivas a pisar os relvados. Nelas, todos tentam, em simultâneo, ser heróis – e essa devia ser uma lição para o futebol e para a organização da sociedade.
O exitoso diversionismo da reforma constitucional
Está claro que pretende mudar o foco. Seu limite, na economia, são mudanças na reforma tributária, sempre na linha de cortar impostos, sem mencionar como fará a reforma orçamentária de R$ 200 bilhões que o mercado espera. A estratégia tem método. Na tarde de segunda-feira, eleitores receberam em seu celular um vídeo de três minutos. O protagonista, sentado à mesa de um escritório, fez um apelo aos eleitores da terceira via.
“Você que votou pela mudança, termine o que começou”. Passava então a descrever o que aconteceu naquela manhã pós-primeiro turno. “O dólar é o trigo do pão, o diesel do caminhão, o adubo de sua lavoura, o remédio da sua mãe. Dólar barato segura a inflação e com a inflação contida o juro cai (...) O juro caindo, o pequeno contrata, a empresa investe, abre vaga e sua previdência rende”.
O protagonista é Tallis Gomes, CEO do G4, um grupo que ensina empresários a ganhar público e aumentar vendas no digital criando polêmicas. No seu caso, depois daquela que lhe deu fama (“Deus me livre de mulher CEO”), foi desligado do conselho da Hope, teve que pedir desculpas e colocar uma mulher à frente do G4. O vídeo pós-1º turno teve mais de 20 milhões de visualizações. Se impulsionou, driblou a lei eleitoral porque não citou o nome de Flávio Bolsonaro. Não é neófito. Está para o senador do PL como, em 2024, esteve para Pablo Marçal. Há um mês disse integrar o Rockbridge, grupo de JD Vance, vice-presidente dos EUA.
A polêmica criada por Flávio Bolsonaro em torno de uma nova reforma constitucional segue a cartilha que pauta o trumpismo. Coloca a democracia na roda para não falar dos programas sociais que estão em xeque. Vai levar jovens de classe média para as ruas em defesa da democracia? É possível, mas o país já viveu o efeito rebote de manifestações protagonizadas por estudantes a partir de junho de 2013. Deu em Jair Bolsonaro.
Na manhã desta quarta, outra distração entrou em pauta. A euforia resumida naquele vídeo de Tallis Gomes passou, mas o otimismo persiste, ainda que não sejam conhecidas as contas com as quais o candidato pretende fazer o ajuste. Começou, então, a circular o resumo de uma reunião entre a Eurasia e um ex-diretor do Itaú BBA, Luiz Felipe Trevisan, em que se detalhou que este ajuste viria de uma super PEC com reforma administrativa, digitalização, alienação patrimonial de imóveis da União, combate a fraudes e distorções na tributação de investimentos, além do corte de emendas parlamentares. Os gastos sociais e a Previdência seriam, inicialmente, evitados.
A Eurasia não se compromete com o relatório nem comenta a reunião, ocorrida em 9 de setembro. Nesta terça, porém, a consultoria publicou um relatório em que eleva a previsão de vitória de Flávio Bolsonaro para 70% e diz que a chance de uma reforma fiscal mais sólida aumenta. Sem citar Trevisan, argumenta que a meta de corte não é crível. Vai, porém, além do resumo apócrifo.
Ao mencionar as mudanças fiscais defendidas pelos assessores do candidato, avança na magnitude do corte: “As promessas de cortar gastos em até R$ 200 bilhões (2% do PIB), não parecem críveis, mas uma reforma constitucional que redefina as regras de crescimento dos gastos obrigatórios seria suficiente para gerar um superávit primário crescente ao longo dos próximos quatro anos”. O novo arcabouço fiscal a ser anunciado imporia um teto de gastos com corte automático de despesas. Quais? Ninguém sabe, ninguém viu.
Se Lula ganhar também terá que fazê-lo, mas a expectativa do mercado está no senador, não no presidente. Para manter a expectativa do mercado sem desiludir seu eleitor, Flávio tem manobrado com habilidade o diversionismo da pauta democrática. O ministro licenciado da Fazenda, Fernando Haddad, não vê como o candidato do PL possa atingir um corte de R$ 200 bilhões sem uma megaprivatização ou faca nas despesas sociais a partir da trinca desvinculação de gastos saúde/educação, reforma da Previdência e fim da política de valorização do salário mínimo.
O que o senador fala, porém, vai na mão inversa. Nesta quarta, disse que a Caixa Econômica Federal viraria o “banco da prosperidade”. Como? Com gastos. A Caixa compraria dívidas de pessoas físicas e jurídicas e as refinanciaria com prazos mais longos e juros menores.
Hoje teme afugentar o eleitor que sonha com serviços públicos sem fila. Se eleito, arrisca abespinhar a rede de governadores aliados. Ao lado do governador reeleito Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro desautorizou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que havia falado na volta de Jair em 2030. Só não disse como ficaria a rede hospitalar paulista se a União tiver que restringir os repasses do SUS, equivalentes a 62% do seu custeio se seu novo arcabouço reduzir as despesas obrigatórias.
Maria Cristina Fernandes
Com Flávio, Brasil vai virar a Venezuela ou a Hungria?
Bolsonaro pai tentou um golpe à moda antiga e foi condenado por isso; Bolsonaro filho, um pouco mais esperto, vai perdoar o pai no primeiro dia como presidente e tentar um golpe à moda contemporânea, refundando a Constituição.
Mal passou o primeiro turno, Flávio já cogita ampliar o mandato do presidente, no caso, o dele.
Foi assim na Hungria com Viktor Orbán, antes um político mediano e depois um autocrata que se embrenhou em alterar a Constituição, em 2011, reinventando a nação, inebriado com a supermaioria que ganhou em seu segundo mandato, eleição essa em que o tema da reforma constitucional nem sequer esteve em pauta.
Qualquer semelhança não é mera coincidência. Os laços entre Orbán, que ficou 16 anos no poder, e a família Bolsonaro são amplamente documentados; com visitas mútuas, hospedagem em embaixada e apelidos afetuosos.
Flávio conhece bem o playbook autocrático, à esquerda na Venezuela de Nicolás Maduro e à direita na Hungria de Orbán. O manual é o mesmo. Mudar a Constituição para reduzir freios e contrapesos é um deles.
Dizem que ninguém dá a mínima para a Constituição, exceto alguns democratas de plantão. Pois deveriam: Orbán fez uso da queda do Estado de Direito para distribuir contratos públicos a seus amigos corruptos, algo que deveria preocupar o empresariado; também fez seus amigos monopolizarem a imprensa, algo que deveria preocupar o povo do doisladismo na mídia.
Se Flávio decidir fazer o que quiser com a Constituição — de alterar regras eleitorais para favorecê-lo a acabar com casamento entre pessoas do mesmo sexo—, quem irá pará-lo? Ninguém.
Maduro e Orbán mostraram que, com Suprema Corte e Congresso governistas, não adianta chorar o leite derramado.
Cabe à imprensa cobrar de Flávio o que ele quer dizer com "alterar a Constituição para democratizá-la".
Normalizar esse discurso beira o proselitismo futebolístico de uma torcida organizada com a bola na cara do gol.
Patriotada cúmplice
Victor Hugo
Fascismo liberal é igual a voo de galinha
O coach fascista Benito Mussolini já mostrava que o ilusionismo liberal serve apenas no começo, para acalmar a parcela do PIB mais afeita a facilidades de ocasião. Em questão de meses revela-se que a tal liberdade de empreender servirá para pouquíssimos, como se pode comprovar hoje nos EUA desde Wall Street até o Vale do Silício. Outro exemplo é a economia russa, derretendo de Moscou a Kiev. Empresário que tem compromisso real de longo prazo com seu negócio (e um pouco de juízo) não deveria acreditar no canto das sereias extremistas. Melhor buscar seu “Eu” no Caminho de Santiago.
É notório que o primeiro sinal de que a canoa liberal de um governo foi feita apenas para afundar é justamente o discurso reacionário de costumes. O papo religioso cafona, o falatório anticomunista fora de moda, as bravatas militaristas, a misoginia, a homofobia, a conversa fiada sobre segurança pública, o blá blá blá sobre apoio ianque, tudo isso serve apenas para amaciar o cidadão comum, para que continue confiando no governo autocrático quando a economia afundar. E, pode crer, ela vai afundar rapidinho, como na Argentina e nos EUA. Ajuste fiscal, se houver de fato, vai servir apenas para engordar o caixa da presidência e as Emendas Parlamentares. Privatizações podem até acontecer no começo do mandato, para animar os financiadores da campanha, como houve nos governos Bolsonaro 1, Tarcísio e nos seus ícones históricos da Itália e Alemanha em meados do século XX. Economia de mercado que é bom, nem pensar.
Enquanto defendem castração química e laqueadura compulsória (para pobres, é claro), prometem corte de impostos e redução de juros. Tudo emoldurado por uma devoção subjetiva à família, a Jesus e ao livre mercado. Ficam dois alertas importantes. Para o mercado: entendam que governantes antidemocráticos na verdade praticam o estatismo nacionalista para enriquecimento próprio e jamais realizarão reformas estruturantes neoliberais. Para o eleitor conservador: reconheçam que políticos que defendem tortura, milícias e se envolvem em tretas e orgias com bandidos do colarinho branco não estão nem aí para os bons costumes e o bem-estar social.
No fim das contas, o que acontece é privatização para amigos, cortes de impostos para ricos, liberou geral para devastação ambiental, estímulo à compra de armas, aumento da tensão social, desemprego, pobreza, taxas de risco nas alturas, gasto público duvidoso, falta de transparência, aumento da violência policial, isolamento internacional, perda de mercados exteriores, encolhimento da economia e fragilização da democracia. Não existe mercado próspero e sociedade civilizada em governos antidemocráticos.
O que vem por aí caso Flávio vença
Um dos primeiros atos de Rogério Marinho, coordenador da campanha e visto como homem forte de um possível governo Flávio, foi visitar o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, para deixar claro que o futuro governo não “se omitirá” em relação a ministros da Corte.
Não deveria ser surpresa para ninguém mais esse recado. Flávio foi explícito durante toda a campanha. Quem resgatar a live do dia em que não houve o debate da TV Globo, está tudo lá, na voz do candidato, de seu novo melhor amigo Pablo Marçal, dos irmãos que entraram remotamente, dos então candidatos a senador que se alternaram no microfone.
A promessa de enquadrar o STF, e não qualquer plano econômico, é a chave para entender a lavada da direita no primeiro turno, e não só no Senado, uma vez que esse argumento foi central também na propaganda dos candidatos a deputados e governadores.
A outra prioridade, casada, será o indulto a Jair Bolsonaro e aos demais condenados pela trama golpista, além da “repatriação” dos investigados que se evadiram para os Estados Unidos. De novo, não se trata de suposição. Flávio disse na mesma live, mais esclarecedora que qualquer debate, que fará de tudo para que “pais abracem seus filhos” se for eleito.
De onde vem, então, tanta fé por parte dos agentes econômicos? Difícil entender, uma vez que não existe esse programa escrito com começo, meio e fim. Mais: a prometida suspensão da imediata entrada em vigor da reforma tributária significará, isso sim, a frustração de concretização de uma das poucas reformas levadas a cabo pelo governo Lula.
Se o Senado estará ocupado com esses temas que podem provocar um impasse institucional, o que esperar da Câmara eleita? A consagração, como campeões de votos, justamente dos deputados com perfil de forte presença digital, à esquerda e à direita, já permite cravar que a Casa estará entregue a uma briga ideológica intestina e paralisante, com um grau de virulência ainda maior do que aquela que se desdobra desde 2019 e que, nesta legislatura, transformou comissões em picadeiros e o plenário em estúdio de gravações para o Instagram.
Projetos da pauta de costumes passarão na frente das discussões econômicas, porque são eles que atendem ao chamado com que a bancada da selfie conseguiu angariar seus milhões de votos.
A disputa pela presidência das duas Casas também promete canalizar as atenções na largada de 2027. A aproximação de Hugo Motta e Davi Alcolumbre com Lula, aliada à perda de musculatura do Centrão mais tradicional, dificulta os planos de ambos de continuar em suas cadeiras. Ainda que Rogério Marinho prefira virar ministro a comandar o Senado, há uma lista de outros nomes do PL mais bem postos que Alcolumbre na fila para pleitear o cargo, crucial diante da centralidade que a Casa ganhou e que terá no embate com o STF.
Essa é a crua realidade que espera o país em 2027. Em caso de uma inédita virada de Lula, o cenário de impasse não melhora, uma vez que, além do impeachment dos ministros do STF, o dele próprio será uma arma sacada das algibeiras do novo Parlamento, em que ele teria uma minoria ainda mais evidente que a atual.
Espanta que, com uma história recente tão didática em apontar exatamente como se comporta cada grupo político quando chega ao poder, a análise de quem comanda as decisões de investimentos e os indicadores de mercado seja tão rasa, quando não pautada por uma até pueril vontade de acreditar.
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
'Papai, por que você votou no Hitler?'
O líder prometia ordem e trabalho, o resto era menos importante. As ameaças, as propostas, o ódio, tudo era periférico. "Papai dizia que era preciso que as coisas mudassem."
Ao longo do livro, Otto testemunha os efeitos do regime apoiado por seu pai. Vizinhos desaparecem, livros queimados, censura, um primeiro campo de concentração para homossexuais, ciganos, judeus, pessoas com deficiência. Até que chega a tragédia familiar: nasce sua irmã, bebê com deficiência mental, alvo das políticas de eugenia do governo que seu pai ajudou a eleger.
A história ilustra o processo rápido e violento de radicalização pela perspectiva da família, pelos olhos de uma criança. Mostra a preocupação com conveniências imediatas do pai, rejeitadas pela mãe.
Ilumina a banalidade do voto que incentiva a força mais sociopática naquela comunidade. Não era um voto ideológico, apenas desespero e ressentimento, crente em soluções mágicas. O autoengano, a subestimação do risco, a cumplicidade. A miopia de curto prazo. O líder lhe deu uma explicação da crise, um culpado.
Otto nunca faz ao pai a pergunta do título ("Papai, Por Que Você Votou no Hitler?", de Didier Daeninckx, tradução de Julia Simões, Ed. Cecerelê). Ela ecoa no silêncio da casa, na sua incapacidade de entender e verbalizar a incongruência entre o voto do pai e o som ao redor.
Otto não julga, apenas sobrevive. E expõe a maior crueldade do voto extremista: atinge a família e deixa legado para o futuro. O pai, homem de bem, ignora sinais. Jornais também ignoram e não nomeiam o horror. Ele não sabia que poderia atingir a própria filha, cuja existência o regime não atribuía valor.
Analistas sabichões podem dizer que o livro não passa de um exemplo da "Lei de Godwin": à medida que uma discussão se estende, aumenta a probabilidade de surgir uma comparação com Hitler. Mike Godwin, que deu nome a essa "lei", se referia a abusos hiperbólicos, não à possibilidade de qualquer comparação com o nazismo. Ele próprio afirmou: "É ok comparar Trump com Hitler. Não me deixe impedi-lo".
Richard Hamilton, no livro "Quem Votou em Hitler?", mostrou que o voto no partido nazista crescia conforme aumentava o nível econômico. Milton Mayer, em "Eles Pensavam Que Eram Livres: Alemães Entre 1933-1945", mostra como cidadãos comuns vão ignorando perdas graduais nas liberdades até ser tarde demais.
A imagem viral que marca a comemoração do resultado eleitoral de domingo no Brasil foi a de um menino com camisa do Brasil dançando no capô de um carro segurando uma arma.
Essa a enormidade da barganha: você entra na mesa de negociação com pedido de ajuste fiscal. O outro lado promete atender, sem explicar como. Só cobra armar crianças, intimidar professores, jornalistas e artistas; descredibilizar médicos, discriminar homossexuais, desproteger mulheres; explodir o clima, enriquecer a família, legitimar a incivilidade gratuita e liberar recursos nacionais para país estrangeiro.
Ignorar a Constituição. E você diz sim, negócio fechado.
Muitos Bolsonaros para um Brasil só
Jair Bolsonaro, sem sair de casa, provisoriamente atado a um pé de mesa por uma tornozeleira eletrônica, emplacou o filho Flávio Bolsonaro, na boca para a Presidência; a mulher, Michelle Bolsonaro, senadora; outro filho, Carlos Bolsonaro, também senador; mais um filho, Jair Renan Bolsonaro, deputado federal; e até um irmão, Renato Bolsonaro, também federal. Uma bancada que só não se reunirá para um churrasco familiar porque madrasta e enteados se odeiam e não será surpresa se ela partir para voo solo.
Rogéria Bolsonaro, ex-mulher de Jair Bolsonaro, ficou na suplência para federal no DF. Se Flávio Bolsonaro for presidente, fará de um deputado eleito o chefe do armário de vassouras do Planalto e abrirá a vaga para a sua mãe. E, suplentes como ela, mas para os Legislativos regionais, Eduardo Torres, irmão de Michelle Bolsonaro, e Marcelo Bolsonaro (primo de Jair Bolsonaro) e sua esposa, Valéria Bolsonaro. Os Bolsonaros são muitos para um Brasil só.
Vários Bolsonaros avulsos, parentes ou não, também se elegeram ou foram para o banco em disputas locais, como Fabiana Bolsonaro e Samanta Bolsonaro (SP), Jean Bolsonaro (RJ), Joel Bolsonaro (RS) e Fã do Bolsonaro (PR). Inapelavelmente derrotados, só Freitas Bolsonaro (ES), Helio Rodrigues Bolsonaro (TO), Renata Bolsonaro (SP), Rodrigo Bolsonaro (RN), Bolsonaro Sergipano (SE) e Bolsonaro da Shopee (MT).
Hélio Negão não pôde concorrer como Hélio Bolsonaro. Perdeu. Logo ele, fiel Bolsonaro cenográfico.
Para que não digam depois que votaram em Flávio por engano
Isso suscita a questão sobre o que Flávio entende por democracia. Para ele, em 1964, não houve um golpe militar, mas sim “uma revolução” para salvar a democracia do comunismo. No mais, não importa que o golpe tenha implantado uma ditadura que se estendeu por 21 anos, torturou, matou e sumiu com os corpos de muitos dos seus oponentes para, no final, fracassar e bater em retirada.
Flávio pensa a mesma coisa sobre a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, que resultou na condenação de seu pai a 27 anos e 3 meses de prisão. O que o Brasil assistiu pela televisão, na opinião dele, não passou de uma ação desesperada de pessoas acampadas às portas de quartéis e que, legitimamente, protestavam contra a eleição de Lula. Afinal, elas tinham o direito de expressar seu pensamento.
Deu na invasão e vandalização das sedes dos Três Poderes da República (Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal)? Infelizmente, sim. Mas havia, em meio à turba descontrolada, agentes da esquerda infiltrados que estimularam a baderna, segundo Flávio. Os culpados foram eles, não a massa de bolsonaristas convocada para participar da “Festa da Selma”.
A palavra “Selma” é uma alusão direta a “Selva!”, o tradicional grito de guerra do Exército Brasileiro, amplamente adotado por grupos de extrema-direita e apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. O uso desse tipo de jargão de mobilização ganhou tração logo após as eleições de 2022, impulsionado por narrativas alinhadas a articuladores internacionais da extrema-direita.
Coincidência ou não, a mulher do almirante Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha — o único chefe militar que pôs suas tropas à disposição de Bolsonaro para dar o golpe —, chama-se Selma Foligne Crespio de Pinho. Garnier Santos cumpre pena em regime fechado na Estação de Rádio da Marinha, uma instalação militar no Distrito Federal. Foi condenado a 24 anos de prisão.
A exemplo do pai, que lhe deu como missão libertá-lo, o que disse e fez Flávio no passado, e o que diga ou venha a fazer agora, merece ser escrutinado sem dó nem piedade. Porque ele está a poucos passos de ser eleito (tomara que não seja). E para que ninguém, no futuro, possa alegar que não o conhecia muito bem ou que votou nele por engano.
Não há falta de futuros, mas há falta de sentidos
A sensação de que "nada acontece" tem sido usada como justificativa para uma tendência aceleracionista em política, principalmente à direita, mas não só, na tentativa de provocar uma transformação política e social extremada, qualquer que ela seja.
Mas olhem o mundo à nossa volta: alguém pode dizer verdadeiramente que nada acontece? Temos várias guerras em simultâneo, limpeza étnica e (por mais que alguns tentem evitar vê-lo) políticos que aceitam ou até promovem ideias de limpeza étnica e genocídio, da Ucrânia a Gaza.
O avanço tecnológico, em particular no campo da inteligência artificial, é de natureza exponencial. Tivemos pandemias, resultados inesperados em eleições e referendos, crises financeiras, golpes de Estado. Alguém pode seriamente dizer que está aborrecido porque nada acontece?
O aborrecimento pode ser genuíno, mas a razão tem de ser outra. E o mesmo se pode dizer desta sensação de "falta de futuro". Na verdade, nunca os futuros foram tantos e tão divergentes: da superabundância tecnológica ao colapso ecológico, do fim do trabalho à sociedade em rede, escolha não falta. Mas a sensação de falta de futuro é real, e não basta dizer a estes jovens: por que não se empenham numa destas versões do futuro desejável e lutam por ela?
A questão não é, portanto, a da falta. Nem falta de acontecimentos, nem falta de futuros possíveis. Mais plausível dizer que vivemos num problema de excesso: excesso de acontecimentos dramáticos e excesso de possibilidades de futuro, gerando confusão e pânico.
O problema é outro: o da falta de sentidos. Por duas razões.
A primeira é a da dessensibilização, fomentada em boa medida pelas redes sociais e pela mediação tecnológica entre humanos e acontecimentos. Não é que aconteçam poucas coisas: nós é que estamos como que entorpecidos e distantes. O sofrimento é lá longe; enquanto passamos os polegares pelas telas dos celulares, a desgraça do mundo começa por indignar, mas depois deprime e desmobiliza.
A segunda razão é a da crise de imaginação em que estamos mergulhados: ela atravessa a política progressista, a cultura e até as artes. A única imaginação que sobra é cínica e destrutiva. Democratas e progressistas ficam limitados a responder à sua ofensiva, em vez de terem tempo e espaço mental para inventar alternativas.
Discute-se muito se a pauta do campo progressista deve estar focada na narrativa ou nas questões materiais. A dicotomia é errada.
Nós podemos dar uma abundância de bens materiais às pessoas. Mas se não lhes dermos sentidos — para a democracia, para o progresso e até para a humanidade— não teremos vidas que valham a pena ser vividas. O vazio que explica a revolta começa por aí. A humanidade busca significados morais e não tem lideranças que lhos queiram dar.
A síndrome do segundo mandato
A literatura mostra que processos de erosão democrática patrocinados por líderes autoritários costumam ficar mais agudos a partir de seus segundos mandatos. E esses movimentos tendem a intensificar-se ainda mais se o dirigente tiver sido removido do poder por um período e depois retornado. É aí que eles vêm com sangue nos olhos. Vimos isso claramente nos casos de Trump 2, de Netanyahu pós-2022 e do último Viktor Orbán. Candidatos a explicar a radicalização incluem os ressentimentos acumulados, o maior conhecimento das engrenagens do poder, que torna suas ações mais eficazes, e o afastamento dos membros mais moderados de suas coalizões.
No caso brasileiro, um eventual Bolsonaros 2 encontrará ainda um ambiente institucional deteriorado. O STF, que no mandato de Jair foi uma importante linha de defesa contra abusos, está em frangalhos.
Registre-se que a fragilidade do Supremo decorre de erros e defeitos de seus próprios membros. Outra força moderadora da política brasileira é o centrão. O bloco de parlamentares com pouca ideologia e muito amor por cargos e verbas nunca teve problemas para apoiar qualquer administração que pagasse seu preço, mas costumava vetar radicalismos.
O centrão se opôs às iniciativas legislativas mais tresloucadas de Bolsonaro 1 e, mais recentemente, não permitiu a aprovação de uma anistia ao ex-presidente condenado. Bem, a vitória da direita bolsonarista no Parlamento foi tão contundente que o centrão, ao menos nominalmente, perdeu espaço.
O grupo segue existindo e continuará a atuar como fiel da balança. Mas, a partir da nova legislatura, o bolsonarismo não precisará cooptar mais do que meia dúzia de senadores e algumas dezenas de deputados do bloco para fazer passar suas boiadas constitucionais e impeachments.
O risco extremo da democracia
Para o Brasil, não há cenários fáceis à frente. Se o presidente Lula for eleito, pode enfrentar crises de governabilidade, a menos que tenha a capacidade de formar uma coalizão diante da direita fortalecida no Congresso. Se o eleito for Flávio Bolsonaro, ele terá nas mãos mais instrumentos para realizar o projeto autoritário do pai: bancadas robustas na Câmara e no Senado, o Supremo Tribunal Federal enfraquecido e o apoio do governo Donald Trump. A ciência política sabe que é no segundo mandato que o projeto autocrata dobra a aposta. Veja-se o caso de Donald Trump. O risco não é de o filho repetir o pai, é de superá-lo.
Só o então PMDB, no começo da redemocratização, teve bancadas maiores do que a que o PL terá na próxima legislatura. Mas o MDB, não tinha candidato competitivo à presidência, e o PL tem Flávio chegando com chances reais de ganhar o pleito no segundo turno. Portanto, será um partido ainda mais forte. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tinha o projeto de ter apenas uma boa bancada para ficar com a parte maior dos fundos partidário e eleitoral. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi eleito por outro partido, o PSL, que usou como carona. Depois é que foi para o PL. O partido nunca teve um projeto ideológico. Preferia ser capaz de se adaptar às circunstâncias.
Se for eleito, Lula enfrentará uma oposição com a força que jamais enfrentou. Uma bancada de 121 deputados e 28 senadores apenas do PL. Para manter a governabilidade e aprovar seus projetos, Lula teria que atrair o centrão e negociar com os parlamentares com os quais seja possível algum diálogo.
A vitória de Lula no segundo turno de 2022 veio com o voto de eleitores progressistas que não se identificavam como petistas, e do movimento de personalidades que fizeram parte dos governos do PSDB, que o consideraram a barreira contra o risco de golpe. Tanto havia perigo de um ataque às instituições, que houve o atentado em 8 de janeiro. Esse grupo depois foi desprezado. O presidente não fez movimentos ao centro. E parte dos eleitores que se identificam com esse grupo pode ter simplesmente deixado de votar. Esse é o cálculo que alguns especialistas fazem para explicar o fato de Lula ter tido três milhões de votos a menos em 2026 do que em 2022.
Lula terá que fazer um caminho muito longo para ser reeleito em 25 de outubro, dado que chegou em segundo lugar, dois pontos percentuais atrás de Flávio Bolsonaro. Terá que recuperar os votos perdidos, terá que convencer uma parte do eleitorado que optou pelos outros candidatos, e trazer de volta às urnas quem simplesmente se absteve por falta de interesse em qualquer um dos postulantes. Como ele fará isso não está claro. Ontem, em entrevista ao Estúdio i de Andréia Sadi, o presidente do PT, Edinho Silva, admitiu a ausência de material de campanha no primeiro turno e disse que será resolvido. Mas não explicitou nenhum outro movimento de mudança na campanha. Ele disse que faltou o confronto entre os candidatos no primeiro turno, que desta vez Flávio Bolsonaro não poderá fugir disso, e anunciou a ida de Lula aos debates.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, entrevistado no mesmo programa, afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro vai participar ativamente do mandato de Flávio Bolsonaro. Falou que o senador “aprendeu” com o pai e seguirá as mesmas diretrizes sobre como montar equipe e de que maneira governar. Em outras palavras, um governo de Flávio seria exercido por Jair, que sempre mostrou mão de ferro para comandar o clã. Mesmo preso, foi de Jair Bolsonaro a escolha de Flávio Bolsonaro para disputar a presidência. O perigo extremo e concreto da eleição do candidato do PL é nova tentativa de golpe de Estado. Flávio segue as mesmas ideias do pai e já disse que é preciso que haja uma intervenção nas instituições.
Lula precisa mudar radicalmente a campanha para ter alguma chance de vitória. Desde a redemocratização, nenhum candidato que ficou em segundo lugar na disputa para a presidência ganhou a eleição. Caso eleito, Lula terá uma outra batalha para montar a coalizão. Flávio Bolsonaro, se eleito, terá provavelmente o seu chefe de campanha, Rogério Marinho, na presidência do Senado e uma tropa de choque para realizar o projeto antidemocrático da extrema direita.
Como o Plano Barrabás e mexida na Constituição ameaçam ajuste fiscal de um Bolsonaro 2
Não interessa agora se a expectativa vai se confirmar. Amanhã vai ser outro dia. Importa falar dos riscos das expectativas para Bolsonaro 2.
Para vencer, Lula precisa do voto de 2 de cada 3 eleitores que optaram por outros candidatos que não Flávio. É aritmética rudimentar, com pressupostos óbvios: abstenção, nulos e brancos na mesma; Flávio não perde votos. Serve apenas para indicar que a situação está difícil para Lula, o que se confirma com a mera inspeção de outros resultados do primeiro turno.
Enquanto pesquisas não desmentirem essa aritmética, a conversa é o "ajuste" de Flávio, de que ninguém sabe e ninguém viu, fora pequena panela bolsonarista. Há dúvidas.
Primeiro, não se sabe o quanto um Bolsonaro 2 vai se dedicar, por exemplo, ao Plano Barrabás (libertação de golpistas), que já conta com a ajuda de Kassio Nunes Marques. De modo geral, não se sabe se vai dar prioridade a atacar o "sistema" ou, como diz, "redemocratizar o país" mudando a Constituição. Vai fazê-lo no início, no meio ou no fim do governo?
Segundo, o histórico bolsonarista de gestão econômica é feito das mutretas de 2022 e das tentativas de Bolsonaro 1 de evitar reformas "liberais" em 2019 (era contra a reforma da Previdência). No mais, entregou o governo ao centrão vorcarista; a epidemia solapou outras possibilidades.
Terceiro, em 2027 o crescimento do PIB será baixo. Pode ser menor ainda pois, de início, "ajustes" tendem a ser recessivos. A receita do governo crescerá pouco ou nada. Não se sabe qual será a receita também por causa do início da reforma tributária. Vai haver menos emprego novo ou mais desemprego. Difícil que o peso de pagamento de dívidas diminua em relação à renda média das famílias. A inadimplência deve cair bem pouco. Nesse ambiente, empresas faturam menos; dívidas sufocam muitas delas.
Quarto, dificilmente haverá superávit nas contas públicas federais — vai faltar receita. Pode haver contenção de despesa, o que implica também que a renda das famílias seria afetada porque benefícios sociais não teriam reajuste real. Quanto menos corte de benefício de imposto para rico e certas empresas, mais o povo será esfolado. Será ambiente político difícil, a não ser que o povo aceite o sacrifício. Os Bolsonaros, demagogos sempiternos, aguentariam em paz a impopularidade?
Quinto, havendo plano capaz, coerente em termos macroeconômicos, goste-se ou não dele, o Congresso Nacional vai aceitá-lo ou "cortar na carne" das emendas?
Sexto, na hipótese de haver plano bom e de implementação longa (quatro anos e mais), Bolsonaro 2 vai sustentá-lo? Não vai dar jeito de gastar ou meter a mão de outra maneira?
Sétimo, a equipe de um Bolsonaro 2, Fazenda e Casa Civil, será capaz de negociar o pacote com o Congresso? A Casa Civil estará dedicada a isso ou a mudar "o sistema"? Qual será então o grau de apodrecimento institucional (Supremo, Congresso etc.)?
Oitavo, em troca de apoio para o "ajuste", Bolsonaro 2 vai negociar acordão entre Poderes, políticos e poderosos para ajudar todo mundo a fugir da polícia (nos casos Vorcaro, emendas, INSS etc.)? Quanto vai custar o apoio do centrão? Em qual moeda?
Vinicius Torres Freire
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Computando a felicidade
Nas últimas décadas, psicólogos e biólogos aceitaram o desafio de estudar cientificamente o que de fato deixa as pessoas felizes. É o dinheiro, a família, a genética ou, talvez, a moral? O primeiro passo é definir o que será medido. A definição geralmente aceita de felicidade é “bem-estar subjetivo”. A felicidade, de acordo com essa visão, é algo que sinto dentro de mim, uma sensação de prazer imediato ou de contentamento no longo prazo com o modo como minha vida avança. Se é algo sentido do lado de dentro, como pode ser medido de fora? Supostamente, podemos fazer isso pedindo que as pessoas nos digam como se sentem. Desse modo, os psicólogos e biólogos que desejam avaliar o quanto as pessoas se sentem felizes lhes dão questionários para responder e computam os resultados.
Um típico questionário sobre bem-estar subjetivo pede aos entrevistados para avaliarem em uma escala de zero a dez o quanto concordam com afirmações do tipo “Sinto-me satisfeito com minha forma de ser”, “Sinto que a vida é muito satisfatória”, “Sou otimista com relação ao futuro” e “A vida é boa”. O pesquisador, então, soma todas as respostas e calcula o nível geral de bem-estar subjetivo do entrevistado.
Tais questionários são usados para correlacionar a felicidade com vários fatores objetivos. Um estudo pode comparar mil pessoas que ganham 100 mil dólares por ano com mil pessoas que ganham 50 mil dólares por ano. Se o estudo descobrir que o primeiro grupo tem um nível médio de bem-estar subjetivo de 8,7, ao passo que o segundo grupo tem um nível médio de apenas 7,3, o pesquisador pode concluir, de maneira razoável, que há uma correlação positiva entre riqueza e bem-estar subjetivo. Dito de forma simples, dinheiro traz felicidade. O mesmo método pode ser usado para examinar se pessoas vivendo em democracias são mais felizes que pessoas vivendo em ditaduras e se os casados são mais felizes que os solteiros, divorciados ou viúvos.
Isso fornece uma base para os historiadores, que podem examinar a riqueza, a liberdade política e os índices de divórcio no passado. Se as pessoas são mais felizes em democracias e as pessoas casadas são mais felizes que as divorciadas, um historiador tem uma base para argumentar que o processo de democratização das últimas décadas contribuiu para a felicidade da humanidade, ao passo que os índices crescentes de divórcio indicam uma tendência oposta.
Essa maneira de pensar não é isenta de falhas, mas, antes de apontar algumas delas, vale considerar suas descobertas.
Uma conclusão interessante é que, de fato, o dinheiro traz felicidade. Mas só até certo ponto, e além desse ponto tem pouca significância. Para as pessoas presas na base da pirâmide econômica, mais dinheiro significa mais felicidade. Se você é uma mãe solteira brasileira que ganha 12 mil reais por ano limpando casas e de repente ganha 500 mil reais na loteria, provavelmente sentirá um aumento significativo e duradouro em seu bem-estar subjetivo. Conseguirá alimentar e vestir seus filhos sem se afundar ainda mais em dívidas. No entanto, se você é um alto executivo que ganha 250 mil reais por ano e de repente ganha 1 milhão de reais na loteria, ou se a diretoria de sua empresa de repente decide dobrar seu salário, é provável que seu aumento no bem-estar subjetivo dure apenas algumas semanas. De acordo com descobertas empíricas, é quase certo que não fará uma grande diferença no modo como você se sente no longo prazo. Você comprará um carro mais pomposo, se mudará para uma casa suntuosa, se acostumará a comer coisas mais sofisticadas e a tomar os melhores vinhos, mas logo tudo isso parecerá rotineiro e nada excepcional.
Outra descoberta interessante é que a doença diminui a felicidade no curto prazo, mas só é fonte de sofrimento no longo prazo se as condições de vida de uma pessoa se deteriorarem de forma constante ou se a doença envolver dor contínua e debilitante. As pessoas que são diagnosticadas com doenças crônicas como diabetes geralmente ficam deprimidas por um tempo, mas, se a doença não piorar, elas se ajustam à nova condição e classificam sua felicidade nos mesmos patamares que as pessoas saudáveis. Imagine que Lúcia e Lucas são gêmeos de classe média, que concordam em participar de um estudo sobre bem-estar. Ao voltar do laboratório de psicologia, o carro de Lúcia é atingido por um ônibus, deixando-a com uma série de ossos fraturados e uma perna permanentemente danificada. Enquanto a equipe de resgate a está tirando do meio das ferragens, o telefone toca e Lucas grita que acabou de ganhar 10 milhões de reais na loteria. Dois anos depois, ela estará mancando e ele estará muito mais rico, mas, quando o psicólogo aparece para um estudo de acompanhamento, ambos tendem a dar as mesmas respostas que deram na manhã daquele dia fatídico.
Família e comunidade parecem ter mais impacto na nossa felicidade do que dinheiro e saúde. Pessoas com famílias coesas que vivem em comunidades unidas que lhes dão apoio são significativamente mais felizes do que pessoas cujas famílias são disfuncionais e que nunca encontraram (ou nunca buscaram) uma comunidade da qual fazer parte. O casamento é particularmente importante. Repetidos estudos descobriram que há uma relação muito direta entre bons casamentos e nível elevado de bem-estar subjetivo e entre maus casamentos e sofrimento. Isso é verdade independentemente de condições econômicas ou mesmo físicas. Um inválido sem recursos cercado por uma esposa amorosa, uma família dedicada e uma comunidade afetuosa pode se sentir melhor do que um bilionário alienado, contanto que a pobreza do inválido não seja extrema e que sua doença não seja degenerativa nem dolorosa.
Isso levanta a possibilidade de que a melhoria gigantesca nas condições materiais dos últimos dois séculos tenha sido compensada pelo colapso da família e da comunidade. As pessoas no mundo desenvolvido contam com o Estado e o mercado para quase tudo de que necessitam: alimento, abrigo, educação, saúde, segurança. Desse modo, tornou-se possível sobreviver sem ter uma família estendida ou amigos reais. Um indivíduo que mora em uma cobertura urbana é cercado por milhares de pessoas onde quer que vá, mas possivelmente jamais visitou o apartamento vizinho e sabe muito pouco sobre seus colegas de trabalho. Até mesmo seus amigos talvez sejam apenas companheiros de bar. Hoje, muitas amizades envolvem pouco mais do que conversar e se divertir juntos.
Mas a descoberta mais importante de todas é que a felicidade não depende de condições objetivas de riqueza, saúde ou mesmo comunidade. Em vez disso, depende da correlação entre condições objetivas e expectativas subjetivas. Se você quer uma carroça e consegue uma carroça, fica contente. Se você quer uma Ferrari zero e só consegue um Fiat usado, sente que algo lhe foi negado. É por isso que ganhar na loteria tem, com o tempo, o mesmo impacto sobre a felicidade das pessoas que um acidente de carro debilitante. Quando as coisas melhoram, as expectativas inflam, e consequentemente até mesmo melhorias drásticas nas condições objetivas podem nos deixar insatisfeitos. Quando as coisas se deterioram, as expectativas diminuem, e consequentemente até mesmo com uma doença grave a pessoa pode ser tão feliz quanto era antes.
Você poderia dizer que não precisamos de um bando de psicólogos e seus questionários para descobrir isso. Profetas, poetas e filósofos perceberam, há milhares de anos, que estar satisfeito com o que você já tem é muito mais importante do que obter mais daquilo que deseja. Ainda assim, é bom quando pesquisas atuais – sustentadas por uma porção de números e gráficos – chegam à mesma conclusão a que os antigos chegaram.
Yuval Noah Harari, "Sapiens: uma breve história da humanidade"
'Redemocratização' ???
Também causa profunda estranheza a promessa de ‘redemocratizar’ o Brasil, na medida em que nosso país vive, plenamente, sob regime democrático, com eleições competitivas, pluralismo político, oposição legítima e liberdade de crítica. A própria possibilidade de o candidato disputar a Presidência e defender publicamente suas propostas integra essa realidade.
Celso de Mello, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF)
A Constituição de 1988 e o golpe dentro das regras do jogo
Por outro lado, o próprio PT e analistas políticos frequentemente apontavam que Lula tinha a capacidade única de fazer o marketing do seu governo sozinho. Ele desarmava tensões sociais diretamente com o público “no gogó”, uma herança direta de seus tempos de liderança sindical, quando discursava para milhares de operários. Vale ressaltar que tanto Fernando Henrique quanto Lula continuam vivos.
Caso se eleja presidente, faltará “gogó” a Flávio Bolsonaro para governar em momentos de crise. Falta-lhe também a experiência de que seus antecessores dispunham, em graus variados, no exercício de cargos públicos, além do carisma que Fernando Collor de Mello, Lula e Jair Bolsonaro sempre tiveram de sobra. Por fim, Itamar Franco, Dilma Rousseff e Michel Temer pontuaram positivamente no quesito disposição para o trabalho.
Para os eleitores de Flávio, porém, nada disso parece ter alguma importância, nem mesmo o vazio de suas ideias. E assim ele sente-se autorizado a calar-se, a ser vago ou a dizer qualquer coisa sobre o que lhe der na telha, guiado apenas pelo que seus assessores lhe soprem a cada instante em que tenha de abrir a boca.
Então, tome a prometer que cortará despesas tão logo se eleja, e sem apontar onde. É o que ele chama de “tesouraço”, remédio para curar todos os males do país.
Então, tome a prometer a castração química de pedófilos e estupradores, a redução da maioridade penal e a promoção das facções criminosas à categoria de “organizações terroristas”, por exigência do presidente Donald Trump. Então, tome a promessa de que irá “arregaçar com vagabundos”, sem estabelecer que “vagabundos” são esses, nem o que significa “arregaçar”.
Essa postura centralizadora e messiânica faz lembrar o universo da fantasia. “Eu tenho a força” é a frase clássica de transformação do He-Man, um dos heróis mais icônicos dos desenhos animados dos anos 1980 e 1990! A expressão completa que ele diz ao erguer a Espada de Grayskull é: “Pelos poderes de Grayskull… Eu tenho a força!”
Agora, sem sequer ter sido eleito, Flávio imagina que terá essa mesma força mítica para redesenhar o Brasil ao seu gosto. E como? E por quê?
Com a palavra o candidato que pensa que seu destino já está traçado: “O Brasil já me deu um Congresso muito mais à direita do que é hoje, com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado, e na Câmara dos Deputados para fazer o presidente da Câmara. Para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição”.
A Constituição Federal de 1988 completou 38 anos de existência no último dia 5 de outubro. Ela já foi emendada 145 vezes, e a responsabilidade de alterá-la cabe exclusivamente ao Congresso Nacional por meio de um rigoroso processo de votação.
Mas, como um eventual governo Flávio supostamente contará com o apoio quase integral do Parlamento para obter a supermaioria necessária para aprovar os projetos de seu interesse, as barreiras institucionais desapareceriam. Assim, as vontades do novo presidente seriam prontamente satisfeitas.
Está em marcha um golpe dentro das regras do jogo que dispensaria o emprego da força bruta. Se ele não for bem-sucedido, não se descarte o uso da força sem disfarce.
Quando restringir direitos se torna promessa de proteção
A promessa de proteção pode carregar um projeto de submissão. Quando uma liderança afirma que salvará a família, restaurará a ordem ou defenderá a sociedade, é necessário perguntar o que pretende fazer em nome dessas palavras. Quem terá sua liberdade restringida? Quem será obrigado a obedecer? E quem receberá o poder de definir quais vidas são aceitáveis?
É nesse terreno que Gilead, a sociedade de O conto da aia, de Margaret Atwood, oferece uma referência incômoda. Seu poder organiza a subordinação das mulheres por meio de uma ordem que reivindica legitimidade religiosa. O corpo feminino passa a cumprir uma função determinada pelo regime. A autonomia torna-se uma ameaça; a obediência, uma virtude pública.
O Brasil não é Gilead. A comparação interessa porque permite examinar uma operação política: apresentar a retirada de direitos como condição para preservar a sociedade. Sua eficácia depende de fazer com que parte da população aceite a perda da liberdade alheia como garantia de sua própria segurança.
A democracia se enfraquece quando aceita que proteger uns exige retirar direitos de outros
A radicalização do Congresso precisa ser discutida a partir dessa operação. O problema ultrapassa a classificação dos parlamentares em conservadores e progressistas. Está na força adquirida por projetos que prometem resolver conflitos sociais mediante o controle de determinados grupos e na tolerância que encontram para transformar essa promessa em legislação. A restrição de direitos raramente precisa se anunciar dessa maneira. Pode chegar como defesa da infância, preservação dos valores, combate à criminalidade ou proteção da vida. Essas finalidades têm apelo porque dizem respeito a preocupações legítimas. É justamente por isso que exigem exame: uma justificativa socialmente valorizada pode encobrir medidas que agravam a vulnerabilidade de quem dizem proteger.
Um exemplo concreto está no texto original do PL 1904/2024. A proposta equiparava a homicídio simples o aborto após 22 semanas, inclusive em gravidez decorrente de estupro. Em junho de 2024, a Câmara aprovou sua urgência, permitindo que fosse levado diretamente ao plenário. A aprovação da urgência não tornou a proposta lei, mas demonstrou que uma medida com esse alcance punitivo conseguiu obter prioridade institucional.
A pergunta política é incontornável: que proteção se oferece a uma vítima de estupro quando sua possibilidade de interromper a gestação é colocada sob a ameaça de punição equivalente à de homicídio? A retórica da defesa da vida precisa responder pela vida concreta da pessoa submetida à violência. Precisa explicar por que sua integridade, sua saúde e sua capacidade de decidir recebem menor importância que a obrigação que se pretende impor.
Nesse caso, a crítica deve alcançar a autoridade que o Estado reivindica sobre o corpo. Uma convicção moral particular passa a disputar a condição de comando jurídico obrigatório. Quem dispõe de poder legislativo procura definir quanto sofrimento outra pessoa deverá suportar para cumprir uma concepção de sociedade que talvez sequer compartilhe.
Gilead ajuda a enxergar esse deslocamento: a mulher é reconhecida pela função que deve desempenhar, e sua liberdade fica subordinada a essa função. A analogia não exige identidade entre a ficção e o Brasil. Exige atenção ao momento em que a autonomia passa a ser tratada como um obstáculo à ordem.
Os dados eleitorais acrescentam uma contradição importante. A cobertura inicial das eleições de 2026, registrou 109 mulheres eleitas para a Câmara, diante de 91 em 2022. Se confirmada na base oficial consolidada, essa contagem corresponderá a aproximadamente 21,2% das cadeiras. O crescimento merece reconhecimento, mas mantém uma ampla desigualdade na distribuição do poder parlamentar.
Também exige abandonar uma expectativa simplificadora: a presença de mulheres não determina, por si só, uma agenda favorável à autonomia feminina. Mulheres podem defender projetos conservadores, assim como homens podem atuar pela igualdade de gênero. Isso não diminui a importância da representação. Obriga a avaliar presença e atuação conjuntamente.
A questão não pode terminar na contagem de quantas mulheres chegaram ao Parlamento. Deve alcançar o uso que todos os representantes fazem do poder conquistado. Uma instituição pode ampliar sua diversidade e continuar a produzir normas que restringem as possibilidades de vida de parte da população. O reconhecimento da identidade de uma liderança não dispensa o exame de suas propostas. O mesmo cuidado vale para a composição partidária. A Câmara informou que o PL elegeu 121 deputados em 2026, aproximadamente 23,6% das cadeiras. O número dimensiona uma capacidade expressiva de negociação e influência, embora não dê ao partido maioria absoluta nem autorize presumir o comportamento individual de todos os eleitos.
O que esse poder poderá produzir depende de alianças, prioridades e disputas internas. É exatamente por isso que a análise precisa ir além do resultado eleitoral. Uma bancada ganha consequências políticas quando controla comissões, influencia a pauta, negocia apoio e transforma certas propostas em prioridades. A normalização de uma ideia se completa institucionalmente quando ela deixa de ser apenas uma declaração e passa a organizar o trabalho do Estado.
Como chegamos a esse ponto? Uma explicação séria precisa investigar a organização política construída entre eleições, a distribuição de recursos, as redes de comunicação e os vínculos territoriais. Mas também deve examinar a oferta de sentido feita ao eleitorado: quem explica seu sofrimento, quem lhe oferece pertencimento e quem consegue dar um nome à ameaça que parece cercá-lo?
A insegurança econômica, o medo da violência e a sensação de abandono não são invenções. Podem, contudo, ser mobilizados para sustentar respostas que concentram poder e restringem direitos. O sofrimento ganha uma explicação acessível: a sociedade teria perdido o rumo porque concedeu liberdade demais a determinadas pessoas. A solução proposta é recuperar o controle.
Essa narrativa transforma relações de igualdade em sinais de desordem. A autonomia das mulheres pode aparecer como ataque à família; a visibilidade LGBTQIA+, como ameaça à infância; garantias processuais, como obstáculo à segurança. São associações que precisam ser identificadas e contestadas sempre que surgem no debate público, porque deslocam a responsabilidade pelos problemas sociais para a existência ou para os direitos de grupos específicos. O ganho político está na fabricação de uma fronteira entre quem merece proteção e quem pode ser sacrificado em seu nome. Uma sociedade atravessada por desigualdades torna-se especialmente vulnerável a essa divisão: é possível prometer segurança a alguns enquanto se amplia a exposição de outros à violência, à punição e ao abandono.
Para mulheres negras e moradores de periferias, essa distinção merece atenção particular. A pergunta sobre proteção estatal deve considerar quem consegue acessar serviços, fazer uma denúncia ser ouvida, obter defesa jurídica e contestar uma decisão. Uma restrição formalmente geral pode ter consequências profundamente desiguais quando as condições para enfrentá-la já são desiguais.
A crítica também precisa alcançar os setores que oferecem respeitabilidade ou apoio a essas agendas por conveniência. Uma aliança deve ser avaliada pelo que viabiliza. Apoiar a ascensão de uma força política em troca de benefícios econômicos ou posições institucionais produz responsabilidade pelas condições criadas para o avanço de seu programa. A moderação declarada perde consistência quando convive com a aceitação prática de medidas que corroem direitos.
Isso não autoriza tratar toda posição conservadora como autoritária. Uma democracia comporta disputas sobre valores e políticas públicas. O critério deve ser o conteúdo das propostas: preservam a igualdade jurídica, o pluralismo e a legitimidade dos adversários? Ou procuram subordinar certos grupos a uma ordem em cuja definição eles terão menos voz?
A participação religiosa merece o mesmo rigor. Pessoas religiosas têm pleno direito à atuação política. O problema aparece quando uma interpretação particular reivindica poder estatal para obrigar toda a sociedade a viver segundo seus preceitos. A liberdade religiosa pressupõe também a possibilidade de não professar aquela fé e de não ser submetido a suas regras por imposição pública.
A normalização do autoritarismo se fortalece quando essa distinção deixa de importar. O debate passa a premiar a contundência da promessa e a dispensar o exame de suas consequências. A capacidade de produzir medo torna-se um recurso de autoridade. Quem apresenta a ameaça reivindica também o direito de definir a resposta. Uma vitória eleitoral amplia essa capacidade, mas não elimina os limites democráticos. O mandato autoriza governar e legislar sob a Constituição. Não transforma toda medida em legítima nem retira da sociedade o direito de contestá-la. Uma maioria política continua obrigada a reconhecer os direitos daqueles que não a elegeram.
A resposta democrática exige mais que denunciar o extremismo. Precisa enfrentar as condições que tornam atraente a promessa de ordem: insegurança material, violência, ausência de serviços e dificuldade de participar das decisões. Direitos devem chegar à experiência cotidiana como proteção efetiva. Quando essa proteção falha, cresce o espaço para quem oferece submissão como solução.
O roteiro de Gilead é útil porque nos obriga a examinar o preço da segurança prometida. A pergunta decisiva é quem será obrigado a pagá-lo. Quando a liberdade de algumas pessoas se torna moeda para conquistar votos e negociar poder, o problema já ultrapassou o discurso: alcançou a definição de quem poderá viver com autonomia.
A democracia se enfraquece quando aceita que proteger uns exige retirar direitos de outros. Sua defesa começa por recusar essa autorização, especialmente quando ela chega às urnas com linguagem de cuidado e ao Congresso com poder para legislar.
As ilusões perdidas e o futuro da República após o voto de 2026
Seria preciso um Balzac para demonstrar como a terceira via se iludiu durante quatro anos ao se juntar aos Bolsonaros em cada manifestação da Avenida Paulista em vez de lhes disputar a hegemonia na oposição? Quem passou a vida vendo a banda passar sai da urna da mesma forma que entrou. Ou pior: desempregado. Esperidião Amin que o diga. A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o velho MDB tratava as siglas de esquerda que abrigava nos anos 1980: uma turma do barulho, mas que lhe trazia votos.
O bolsonarismo se estabiliza no centro do poder como, nos anos 2000, nem o petismo conseguiu. E surge nova ilusão na 3.ª via: achar outra vez que esse movimento pode ser normalizado ou controlado em suas pulsões. Liberais cometeram esse erro na Europa em relação à ultradireita. Lei e ordem não eram limites para Viktor Orbán. Em vez de se preparar como alternativa aos Bolsonaros, há quem deixe a prudência e o cálculo de lado.
Caiado, Kassab, Eduardo Leite e outros têm pouco a ver com as práticas do bolsonarismo. Pode-se perguntar: quem acredita que o entorno carioca de Flávio não estará presente em um futuro governo? Kassab é um dos que não creem, assim como Leite. Nenhum deles parece assinar um cheque em branco a quem, no passado, demonstrou o mesmo populismo fiscal que todos apontam no oponente.
Enfim, pode-se dizer que, do outro lado, está Lula e tudo o que ele representa. Todos nesta eleição sabem o que os dois candidatos no 2.º turno são. Ninguém pode alegar desconhecimento de seus passados, de seus entornos, de suas políticas e das consequências de suas escolhas ideológicas. Quais valores éticos e morais cada um representa. Para o bem e para o mal. É difícil crer que exista alguém iludido. E nenhum colunista, por mais vaidoso, pode ter a pretensão de que seu texto tenha o mesmo efeito que os nomes para a antiga aristocracia.
Ainda assim, Pedro Parente e Moreira Salles estão debatendo. Nenhum deles é como o jovem Lucien. Todos já perderam suas ilusões, fizeram escolhas. Ninguém deseja o destino do personagem de Balzac. O eleitor pode entregar o País a quem lhe aprouver, mas ainda é preciso lembrar que há diferença entre democracia e republicanismo.






















