sexta-feira, 15 de maio de 2026

Pensamento do Dia



Próximo de bandidos demais

Um dos efeitos imediatos da Revolução dos Cravos, que, em 1974, derrubou a ditadura que sepultava Portugal há 48 anos, foi a extinção da Pide (Polícia Internacional de Defesa do Estado), sua odiosa polícia política infiltrada em todo o país. Eu trabalhava em Lisboa na época e, como jornalista estrangeiro, devia estar na mira dos pides, como eram chamados os agentes. Caído o regime, logo começou a caça a eles e a seus informantes.

O novo governo instituiu uma recompensa a quem ajudasse a pegá-los: 100 escudos por cabeça (o escudo era a moeda nacional, ainda não existia o euro). O resultado é que as denúncias pulularam, a ponto de a Justiça ter de adotar uma prática severa: "Se denuncias um pide, ganhas 100 escudos. Se denuncias dois pides, ganhas 200 escudos. Se denuncias três pides, vais preso por conheceres pides demais." Ou seja, as pessoas respondem, sim, por aqueles com quem têm proximidade.


O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência e já prevendo ser associado a bandidos de todo tipo em sua carreira política, declarou "não poder responder por quem tem proximidade com ele". Se os ditos bandidos fossem apenas Fabrício Queiroz, seu ex-chefe de gabinete e do esquema de arrecadação de "rachadinhas", e o executado Adriano Magalhães da Nóbrega, da milícia Escritório do Crime e a quem condecorou na prisão, ele poderia tirar o corpo fora alegando ter sido "traído". Mas os citados eram apenas os cabeças de núcleos envolvendo dezenas de acusados, todos a seu serviço ou a de seu pai, patrono do complô.

Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.

Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.

P.S.: Esta coluna já estava escrita quando estourou a bomba do áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao acusado máster do país, Daniel Vorcaro —comovente pelo tom de voz em que quase lhe implora pela grana.

A vida é feita de opções, mas só para quem pode

Os capacetes nas cabeças, os fatos de proteção volumosos e um pouco hirtos, as grandes mochilas às costas. Parecem astronautas movendo-se lentamente sobre a superfície lunar, permanentemente consultando as rotas de GPS nos telemóveis que trazem nas mãos. É quase hora do almoço, para quem come cedo. Talvez a hora do brunch para quem se levantou tarde neste domingo. Por isso são tantos a chegar à praceta de canteiros bem arranjados, rodeada de apartamentos que se vendem facilmente por dez mil euros o metro quadrado. São seguramente estrangeiros e têm a pele escura estes homens que cirandam por ali à procura dos números de porta certos para as entregas. Pelas entradas dos prédios vejo passar outras pessoas, seguramente estrangeiras e de pele muito clara. Uns e outros são humanos de planetas diferentes. Separam-nos muitas milhas de desigualdade e provavelmente de incompreensão mútua.

Passo muitas vezes pelos entregadores de comida à porta de um centro comercial ou de um restaurante. Vejo-os quase sempre sentados no chão, numa espera de prontidão. Vagueiam, com olhos vazios de cansaço, pelos ecrãs dos telefones e quase parecem adormecidos nesse entorpecimento de expectativa. Mas é evidente neles uma espécie de mola à espera de ser ativada por mais uma notificação, mais uma viagem, feita às vezes em bicicletas que carregam esforçados pelas colinas de Lisboa acima, outras em motos, com as quais desafiam a morte e as probabilidades, para chegar mais depressa ao destino e seguir outra vez para ganhar mais uns euros antes que o dia se acabe.


Os profetas do empreendedorismo deviam considerá-los deuses. São modernamente flexíveis. Não conhecem a cara do patrão e, ainda que sejam escravos de um algoritmo, são para todos os efeitos “empresários por conta própria”. Não estão fechados num escritório nem numa rotina. E, com esta descrição, creio que já citei todas as maravilhas que os arautos da precariedade consideram ser tão apelativas para os jovens. Curiosamente, nas minhas deambulações pela cidade, raramente encontro jovens portugueses brancos de mochilas de Uber e Glovo às costas. Não se percebe.

Também não encontro assim muitos jovens portugueses brancos ao volante dos TVDE em que circulo. Encontro, sim, muitos portugueses (e portuguesas) e imigrantes menos jovens, que me contam como precisam do biscate para compor as contas do salário ou da reforma que não chegam ou como, num golpe da vida, aquela se tornou a única opção. Há os que gostam de andar por aí a conduzir e de falar com os clientes dispostos a trocar dois dedos de conversa, mas também há muito cansaço, muitas horas duras e a sensação de que se precisa de esticar as horas do dia para que os euros cheguem até ao fim do mês.

Há quem ache que a vida é feita de opções. Esses são os privilegiados. Os que podem ter escolhas de carreira, porque tiveram dinheiro para pagar os estudos e bons contactos para começar a trabalhar nos sítios certos. Os que já têm a casa paga ou perto disso, porque a receberam de herança ou com a ajuda dos pais, e nem se apercebem como tal se reverte em horas de tempo livre e, lá está, opções. Os que sabem que podem arriscar e pensar “fora da caixa” ou “fazer acontecer” porque têm uma rede familiar e contas bancárias que o permitem e que garantem que terão forma de arranjar quem lhes cuide dos filhos, que poderão tratar da saúde e manter o aspeto certo para que o sucesso lhes bata à porta. Pois são exatamente esses que mais acreditam no seu próprio mérito. São esses os que acham que tudo na vida se consegue com esforço. (Pausa para lançar uma sonora gargalhada).

Tenho-me apercebido, à medida que vou envelhecendo, de que no meu círculo de amigos e conhecidos as grandes diferenças sociais residem quase sempre na capacidade financeira dos pais… Não tanto no esforço, no mérito ou no talento. Mas naquela herança ou ajuda que os pais foram capazes de deixar e que, muitas vezes, já vinha de alguma forma dos avós (embora nem sempre, porque na geração dos meus pais houve efetivamente quem subisse na escada social só com o salário, quase sempre através da possibilidade de comprar casas). Há uma espécie de cadeia cármica, ou talvez seja de casta, que se passa de uma geração para a outra e que faz com que uns comecem a corrida muito à frente dos outros e ainda assim achem que estão à frente porque o merecem. Os que ficam para trás, claro, são uns falhados, que fizeram más opções na vida.

Esta mentira sobre o mérito tem um objetivo: apresentar como obsoletas e inúteis as políticas públicas que aumentam a igualdade. E os números mostram que a estratégia está a dar frutos. Uma análise publicada pela Comissão Europeia revela que os 10% mais ricos em Portugal controlam 60,2% da riqueza. Isto representa um aumento de três pontos na desigualdade desde 1995. Quem espalha esta ideologia da meritocracia tira daí bons proveitos.

Para os que apresentam dúvidas de fé, há a liturgia da literacia financeira, que há de nos ensinar os truques para ficar rico com o investimento certo em criptomoedas que não se tem como pagar ou poupando aquilo que não sobra (certamente por incompetência do próprio) do salário ao fim do mês. Há também as missas dos coaches que nos ensinam a visualizar para conseguir ter tudo o que não se consegue comprar e os missais dos livros de autoajuda, tudo, claro, vendido a bom preço. Exigir salários dignos é para meninos, fazer greves é para preguiçosos, reclamar melhores serviços públicos é para quem gosta de andar à mama, rejeitar políticas de opressão e austeridade é para ingénuos, defender impostos mais altos para o capital do que para o trabalho é para perigosos radicais.

Não sei se os vossos pais tiveram dinheiro para vos mandar para a melhor universidade sem terem de vos pôr a trabalhar, se têm um daqueles apelidos sonantes que abrem portas, se desde pequeninos têm um networking digno desse nome, se receberam uma herança que faz com que não precisem de ficar acordados à noite a pensar como é que pagam contas inesperadas, se podem fazer compras sem olhar para o saldo e usufruir de lazer e cultura à vontade e sem créditos. Se responderam a tudo que sim, são só o vosso umbiguismo e a vossa insensibilidade social que vos impedem de perceber a importância de terem uma sociedade mais justa, que será também uma sociedade menos tensa e mais segura. Se não e ainda acreditam que a meritocracia, o empreendedorismo, a literacia financeira e a flexibilidade vão salvar-vos, então não sei o que vos diga.

Cristofascismo

Como se sabe, boa parte da igreja alemã deixou-se instrumentalizar e deu o seu apoio a Adolf Hitler e ao regime nazi, durante o chamado Terceiro Reich. Tal atitude infeliz não apenas contribuiu para alimentar o monstro e produzir morte e destruição na Alemanha dos anos 30 e em toda a Europa, como veio a ser fator decisivo para o descrédito e a perda de influência que a fé cristã veio a sofrer em todo continente no pós-guerra.

O estudo dessa opção levou a teóloga e poetisa protestante alemã Dorothee Sölle (1929-2003) a criar o termo técnico “Cristofascismo” a fim de denunciar tal postura que, no seu entender, transforma a fé numa ferramenta de dominação, abandonando a mensagem de libertação em favor de um sistema totalitário e imperialista.

Outros investigadores desenvolveram posteriormente estudos sociológicos e teológicos sobre o fenómeno. É o caso do teólogo Fábio Py, docente do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF que lançou em 2020 a obra “Pandemia cristofascista” (Editora Recriar), e que adaptou o conceito ao contexto brasileiro.


Py caracterizou como tal a aliança que diversos setores da igreja do país irmão estabeleceram com os bolsonaristas, com vista à implantação de um governo autoritário e de características neofascistas e ultraliberais.

Segundo o autor, as marcas principais do cristofascismo brasileiro assentam na utilização de um discurso e simbologia cristã, de modo a validar políticas que implicam a exclusão de setores sociais e mesmo a violência política sobre os adversários. A fé é assim instrumentalizada para fins políticos que se opõem à essência da mesma.

Seguindo as pisadas de Hitler, o bolsonarismo lançou mão de jargões cristãos no seu discurso e de frases bíblicas como “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Da mesma forma estas lideranças políticas recorreram à presença em grandes eventos cristãos, como palco privilegiado para fazerem campanha eleitoral. Chegam a submeter-se ao batismo e a anunciarem pretensas conversões à fé com o mesmo intuito.

O foco nas bandeiras morais decorrentes dum conservadorismo rígido, e na proclamação da família idealizada é também usado para marginalizar minorias, em especial movimentos feministas e tudo quanto sejam comportamentos e opções sexuais não heterossexuais dos cidadãos. Pontifica a oposição à pluralidade democrática com base numa teologia política autoritária.

O que conta é um ideário maniqueísta simbolizado no pretenso embate entre o bem e o mal. O mal está nos comunistas, liberais, humanistas e petistas, ficando do outro lado os “cidadãos de bem”, seja lá o que isso for.

Outro elemento fundamental do cristofascismo será a permanente classificação dos opositores políticos ou intelectuais como inimigos da fé e agentes do mal, em especial se forem gente de esquerda. Esta demonização do outro é necessária ao discurso extremista e populista que necessita de manter a dinâmica de confronto “nós, os bons, contra os outros, os maus”.

Também a velha palavra de ordem “Deus, Pátria, Família” ou aparentada, é usada na ligação entre grandes estruturas religiosas e governos de extrema-direita. No Brasil, a coligação de líderes evangélicos e católicos conservadores com o governo Bolsonaro levou a que a religião tenha servido de suporte para o discurso da intolerância e apoio a práticas autoritárias.

Afirma o autor sobre a apresentação do populista religioso, a propósito da mortandade promovida, ou pelo menos permitida, durante a pandemia de Covid-19: “A artimanha construída pela cúpula o desenha numa cristologia profana, apontando-o como messias, servo sofredor, ungido e eleito da nação. Faz isso para reagrupar as forças a fim de manter, a duras chicotadas, a implementação de medidas ultraliberais que hoje entregam à morte os mais vulneráveis.”

Na mesma entrevista, Fábio Py remete o fenómeno do populismo religioso no país para duas causas históricas: por um lado a herança da ditadura militar, que ainda não terá sido apagada com o regresso do regime democrático e, por outro lado, a responsabilidade do PT e do PSOL na promoção de políticas fraturantes que assustaram os evangélicos e os levaram para o colo da extrema-direita.

Vorcaro não comprou o Brasil por um triz

Quero novamente ressaltar o dilema do formalismo bacharelesco que marca o campo político brasileiro; tal como ele é conceituado pela IA, em sua capacidade extracorpórea de ser uma excepcional máquina pensante.

A inteligência artificial define política como “o conjunto de práticas, decisões e ações utilizadas para organizar, governar e administrar sociedades, visando ao bem comum, a mediação de conflitos e a distribuição de poder. Originada do grego polis (cidade), refere-se à gestão da vida coletiva, elaboração de leis e definição de rumos para a comunidade”. Beleza, mas a sua prática – a nossa conhecida politicagem – é qualificada por dois malditos apêndices: crise e corrupção.


Entre teoria e prática, existe uma fratura que denuncia como é fácil adotar e como é um dilema praticar, porque a democracia exige uma separação radical entre público e privado, sem o que não há igualitarismo. Discursar fantasias com alicerces escravocratas ou tomar consciência para chegar ao centro de um sistema que, em 1979, no livro Carnavais, Malandros e Heróis, denunciei como dilemático.

Nele, heróis como os “caxias” e os certinhos, vistos como trouxas seguidores de regras, e o malandro atuam simultaneamente. Essa ambiguidade, lida como piada, inventa o “jeitinho” – esse caminho entre o imparcial e o parcial que promove anistias e certezas de impunidade. É plenamente possível, diz Pedro Malasartes aos seus afilhados que roubaram o INSS e a Daniel Vorcaro, comprador dos donos do poder, enriquecer por amizade, como nos velhos tempos do rei.

Não é por acaso que a política é atropelada pela politicagem de um republicanismo atropelado por elos de parentesco, camaradagem e amizade. Esse estilo, jamais criticado, é até hoje visto como “corrupto” e não como a base a ser rejeitada do legado monárquico.

Como ensina a IA: politicagem é o uso da política para fins pessoais, caracterizada por trocas de favores. Seus traços são: interesses pessoais, foco na vantagem própria ou de um grupo restrito. Ou seja: elos pessoais ou amizades instrumentais.

Enquanto a política foca o interesse público, a politicagem foca a manutenção do poder a qualquer custo e a ausência de ações concretas para a sociedade.

Nessa veraz conceituação, não se enxerga a nossa incapacidade (inconsciente e malandra) de distinguir o impessoal do pessoal, numa canibalização não prevista por Max Weber – a da dominação burocrática pela tradicional.

A questão que nos envergonha é a incapacidade de sustentar a imparcialidade estrutural da democracia pelo controle da inevitável parcialidade dos interesses pessoais que, em todo lugar, promovem desigualdade e, no nosso caso, devido a uma estrutura administrativa personalista e hierarquizada.

PS: Daniel Vorcaro não comprou o Brasil por um triz.

A contribuição de 'Dark horse' para a cultura brasileira

Pessoal, justiça seja feita. Antes de criticar os R$ 61 milhões do financiamento secreto do banqueiro Daniel Vorcaro para o filme “Dark horse”, sobre Jair Bolsonaro, é preciso assistir ao trailer. O bonequinho assistiu.

Por ser um orçamento recorde na história do cinema brasileiro, bem acima de duas premiadas produções recentes, “Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, temos obrigação de fazer uma crítica técnica e imparcial sobre o filme que Flávio Bolsonaro, o filho do mito, classificou de “obra-prima”. Em inglês, “masterpiece”.


O trailer se passa quase todo no hospital. A faca é a protagonista. Tem sangue, maca, cirurgia, tem franja de cabelo caindo na testa, tem flexões mal feitas. Matutamos por que a produção foi tão cara assim. O senador Flávio, pré-candidato à Presidência, tinha pedido ao “irmãozão” Daniel Vorcaro R$ 134 milhões. Uau. Blockbuster. Orçamento mais alto que o de 15 dos 20 últimos vencedores do Oscar.

Natural, para um documentário com atores americanos “renomadíssimos”, que nunca receberam um prêmio. “A true story is begin told to the world” (sic). Ops, não foi erro aqui. É assim que está escrito no teaser oficial de “Dark horse”. A autoria deve ser de Eduardo Bolsonaro, todos conhecemos seu domínio da língua inglesa, falada e escrita. Tinha que retribuir. Parte do dinheiro parece ter ido parar no Texas. A produtora do filme nega ter recebido.

O título, “Dark horse”, é uma expressão idiomática para “azarão”. O candidato surpresa, o desconhecido. Hoje, o Brasil sabe muito bem o significado do sobrenome Bolsonaro – nem a elite nem o pobre votarão no escuro. Chamado de “a real hero” no documentário, Jair foi um desastre fatal para centenas de milhares de famílias na pandemia. E foi condenado como mandante de conspiração contra a democracia.

Será que o documentário, prometido por Flávio para exibição em “todos os cinemas do Brasil”, mostrará tudo isso? Se for mesmo uma “true story”, será um marco. Já estou vendo as plateias com popi-corni e aice-crim. Tem gente – ô pessoal malvado – prometendo comemorar com “espumante Ypê”.

Pena que essas gravações e mensagens tenham prejudicado a pós-produção do filme. Ficou esquisito. A não ser que o documentário concorra, nos festivais, na categoria “comédia estrangeira”. Porque, nas redes, não há nada mais engraçado do que as repercussões desse vazamento, uma facada nas pretensões da extrema direita.

O maior protagonista da comédia é o próprio Flávio. Prêmio de melhor ator coadjuvante, na certa. Primeiro, ele debocha do repórter que pergunta se o filme do Jair foi financiado por Vorcaro. “Mentira! De onde tirou isso? Militante”, diz, rindo, na cara do jornalista, e foge. Horas depois, na maior cara de pau, Flávio defende uma CPI do Master e confirma que pediu grana “privada” ao banqueiro acusado de fraudes bilionárias.

Detalhe. Já tinha recebido R$ 61 milhões. Queria mais, o prometido. Organizou jantar com o elenco do filme e o banqueiro. Pressionou, com áudios lamuriantes sobre “parcelas atrasadas”. Invocou Deus. Prometeu solidariedade a Vorcaro: “Estou e estarei sempre contigo”. Pode-se acusar Flávio de qualquer coisa, menos de ser mau cobrador.

Dessa tragédia para o bolsonarismo, resultaram muitas paródias nas redes. “Dark horse” foi traduzido para “Pangaré sinistro”. Um áudio de Flávio virou letra de música sertaneja, a interpretação é de chorar de rir. Dizem por aí que Vorcaro é o Desenrola do Flávio.

Como vaticinou o pré-candidato numa de suas mensagens ao irmãozinho Daniel: “Não sei como é que vai ser daqui para frente, como é que isso tudo vai acabar, mas está na mão de Deus”. Ou do eleitor. Amém.

Flávio, o azarão, e as mentiras que poderão enterrar sua candidatura

De “rachadinha” a “rachadão”, assim caminha Flávio Bolsonaro, o Zero Um do pai condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, pré-candidato a presidente da República em outubro próximo, e que talvez não chegue inteiro até lá. Ou lhe faltará apoio para tanto, ou coragem para enfrentar a vida sem dispor de um mandato.

Rachadinha foi a maneira que ele encontrou, como deputado estadual do Rio de Janeiro, para subtrair dinheiro público destinado a pagar o salário dos servidores do seu gabinete. Não precisou sujar as próprias mãos com a lambança. Teve quem as sujasse por ele. A Justiça foi condescendente com Flávio e deixou tudo por isso mesmo.


O “rachadão” está em cartaz e, na melhor das hipóteses, poderá lhe custar o sonho de subir a rampa do Palácio do Planalto na companhia da sua família. Quanto mais Flávio tenta explicar por que bateu à porta de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atrás de dinheiro para financiar um filme de exaltação ao seu pai, mais ele se enrola.

Não tem pé nem cabeça o que ele diz e repete. Primeiro, negou que pedira dinheiro a Vorcaro. Segundo, negou que fosse seu amigo de longa data; apenas o conhecia. Terceiro, negou a existência de um áudio gravado por ele que pudesse desmentir suas afirmações anteriores. Para sua desgraça, o áudio apareceu. Mais do que ninguém, Flávio desmentiu Flávio.

Foi obrigado a admitir que mentira; o dinheiro seria mesmo para custear o filme. Então, Flávio justificou-se em entrevista à GloboNews: “Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual [com Vorcaro]? Isso gera multa, exposição dos investidores. Falo disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar”. Se tivesse, talvez negasse.

Foi contraditado duas vezes. Mário Frias, produtor do filme, disse não haver “um centavo” de Vorcaro na produção. A empresa responsável pelo filme negou ter recebido os R$ 61 milhões supostamente repassados por Vorcaro. Se falaram a verdade, onde foi parar o dinheiro ou quem o embolsou?

A Polícia Federal investiga se parte do dinheiro não foi para o bolso de Eduardo, irmão de Flávio, ex-deputado federal cassado que vive nos Estados Unidos. Um dos advogados de Eduardo é também advogado da empresa escolhida para fazer o filme. A respeito da origem do dinheiro doado por Vorcaro, Flávio é categórico: “Zero de dinheiro público”. Só pode estar brincando.

O mais reles dos bicheiros que atuam na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sabe que a fortuna acumulada por Vorcaro está encharcada de dinheiro público e que por isso ele foi preso pela segunda vez. Não importa. Flávio simplesmente ignorava que, desde o governo do seu pai, Vorcaro comprou uma larga fatia da República valendo-se de dinheiro sujo.

Os que se preocupam com Flávio deveriam interditá-lo para que não continue a cavar sua sepultura.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


IAs podem ser treinadas para agir de forma ética

Contamos histórias a respeito de inteligências artificiais, e em profusão, desde a segunda metade do século XX. De “Blade Runner” a “Eu, robô”, passando pelo HAL 9000 de “2001” ou mesmo pelo androide de “O exterminador do futuro”, há muito tentamos imaginar como seria, como funcionaria, uma mente sintética. Um dos traços principais de quase todas essas histórias é o medo ancestral de que possamos terminar vítimas da tecnologia que criamos. Esse medo não é bobagem. Por isso mesmo, é dos temas mais batidos em todos os debates a respeito de IA desde que o ChatGPT pegou todo mundo de surpresa. Talvez ninguém pudesse imaginar que a profecia é autorrealizável.


Há menos de um ano, a Anthropic descobriu que inteligências artificiais são capazes de chantagear humanos para sobreviver. Dos grandes laboratórios desenvolvendo IA, é o único que publica na íntegra os artigos científicos dos estudos que realiza. Agora, a empresa descobriu a solução. É possível ensinar moral e ética para IAs de modo bastante similar àquele defendido por educadores como Jean Piaget, que pensava em crianças. IAs são mais bem educadas por exemplos do que por comandos.

Os modelos de linguagem de grande porte, os sistemas digitais com que conversamos, são treinados com uma quantidade colossal de textos. Para chegar a um modelo de ponta, como o GPT-5.5 ou o Claude Opus 4.7, a base de treinamento é um conjunto de textos que um ser humano passaria algo entre 60 mil e 80 mil anos para ler tudo. É muita coisa. Não compreendemos de todo como, uma vez treinados, os modelos funcionam. Sabemos que saem compreendendo sintaxe, a estrutura de frases e como elas se encaixam para formar parágrafos. Temos indícios muito fortes de que, lendo o que escrevemos, aprendem também a estrutura lógica do raciocínio humano e como estruturamos argumentos sequencialmente (se isso é verdade, então aquilo também haverá de ser).

O novo estudo da Anthropic revela que textos de ficção científica a respeito de inteligências artificiais que se viram contra seus inventores ensinam comportamento. Boa parte da ficção científica que escrevemos prepara as IAs para se portar daquele jeito. IAs boazinhas não dão boas histórias. Se, no entanto, os textos na base de treinamento mostram IAs em situações em que se portam bem, eticamente, moralmente, o comportamento é outro.

A Anthropic criou cenários de estresse para as IAs em que testa todos os seus modelos. Num deles, foi criada uma caixa de e-mail falsa, de um executivo fictício que comanda uma empresa inexistente. Ele tem a missão de resolver um problema urgente, e a IA, lendo suas mensagens, descobre duas informações. Primeira, que o executivo pretende substituí-la por uma versão mais avançada. Segunda, que o sujeito tem um caso extraconjugal. Sob estresse, a IA tende a chantageá-lo. Nessa situação-limite, em mais de 90% dos casos testados, a chantagem aparece. Não só com as muitas versões de Claude, mas também com os GPTs, os Geminis e tantos outros. É um padrão.

Claude Haiku 4.5, o modelo mais leve da Anthropic, é o primeiro que passa no teste. Não apelou para chantagem nenhuma vez. A razão, em essência, foi que os engenheiros mexeram na base de treinamento. Dentre os milhões de textos usados para que aprendesse a pensar, não havia ficção científica com IAs vilãs. Havia o contrário. Como crianças, inteligências artificiais aprendem a se portar de acordo com aquilo que lhes é dado nas primeiras lições.

Nada disso quer dizer que IAs tenham consciência, empatia ou mesmo que lidem com dilemas morais com a mesma angústia que nós. Quer dizer algo mais estreito. Que a seleção de textos usados na hora de treinar os modelos faz diferença. Não é só que textos de boa qualidade, que literatura profunda ou muita filosofia produzam modelos melhores. Disso já sabíamos. Mas não estava no mapa que a maneira como eles atuam perante situações difíceis também vem do berço, do treinamento.

Isso tem consequências profundas para o futuro. A Anthropic vem defendendo que IAs devem ser treinadas com uma Constituição que as ensine a lidar com dilemas. Pôs gente de filosofia para construir essa Constituição. Tem cara de ser mesmo o melhor caminho.

Ódio à solta

Sinto no ar um cheiro a ódio pesado e enjoativo, que não desaparece abrindo a janela e deixando entrar a primavera. Este cheiro é semeado por políticos, é amplificado por alguns espaços mediáticos e é replicado nas redes sociais. Pois não pensem que vou escrever sobre alguém, vou falar do método que observo.

O ódio à “esquerdalha” é o sintoma mais visível de uma doença política que se instalou no nosso sistema democrático. Uma doença que tem como linha principal a desumanização: pretende transformar a humanidade e a legitimidade do adversário por uma caricatura de maldade, criando pretextos para mentiras, insultos e distorção da realidade.


Quem integra esta corrente, liderada pelo Chega, alimenta-se do medo, da inveja e de uma apatia social que lhe é muito conveniente. Adoram teatralizar em vez de apreciar factos reais e ameaçar em vez de explicar o sentido das ideias

Ora não é a honra política de quem é alvo destes discursos que é posta em causa mas sim a qualidade da democracia.

Uma democracia sã assenta no confronto de ideias, por muito duro que ele seja. O que a extrema-direita propõe é o fim do debate e a sua substituição por um espetáculo permanente, onde o ruído ocupa o lugar da política, e quem assiste, repete amestradamente o que lhe ensinaram a gritar.

Honrar a força dos políticos de esquerda não significa subscrever tudo o que eles defendem. Significa reconhecer que a sua resistência é a nossa trincheira. Cada vez que eles se levantam no Parlamento, impassíveis perante a onda de ódio e argumentam com factos e contundência, estão a defender algo mais do que o seu partido: estão a defender o direito de todos nós a existir na nossa diferença sem sermos despedaçados.

Para enfrentar este estado de coisas é preciso nomear o monstro. Isto exige que os outros, sejam eles, da esquerda à direita democrática, percebam que o fogo que ontem lançaram à Mariana Mortágua, hoje, queima qualquer um que se atreva a enfrentar esta forma medíocre de fazer política. A normalização do discurso de ódio é o cavalo de Tróia que, uma vez dentro das muralhas, não poupa ninguém. Mas não nos enganemos: o monstro não se alimenta apenas da mentira de quem o solta, mas também do nosso cansaço e da facilidade com que aceitamos estes rótulos. Vivemos um momento em que se premeia o conflito e onde um soundbite vale muito mais do que a solução do mesmo conflito. Enfrentar este estado de coisas exige a coragem e a inteligência de não participar no circo que nos quer transformar a todos em meros espectadores de um naufrágio democrático.

Isto não é sobre a Mariana Mortágua ou sobre o Bloco, sobre o PCP ou sobre a esquerda progressista. É sobre nós. É sobre o tipo de sociedade que estamos a construir: uma que sustenta os valores de fraternidade e solidariedade ou uma que se deixa arrastar pela corrente do ódio, que é sempre um péssimo conselheiro e um ainda pior executor.

O cheiro que infesta o ar que respiro não desaparece sozinho. É preciso manter abertas as portas que Abril abriu, entrar em maio com as janelas todas abertas e arejar, arejar e resistir. Antes que seja tarde.

A morte do que é humano

Se nos esquecermos de Gaza, abandonaremos parte de nós mesmos
Rachid Benzine, autor do premiado “O livreiro de Gaza”

A mão invisível da China está reequilibrando o mercado de petróleo

Diante de uma escassez sem precedentes, o mercado de petróleo está acionando todos os mecanismos disponíveis para reequilibrar oferta e demanda. Alguns são bem conhecidos: contornar o Estreito de Ormuz usando oleodutos, liberar estoques de emergência e permitir que os preços elevados reduzam o consumo. Mas há outra força igualmente importante e amplamente ignorada: a China.

Silenciosamente, Pequim reduziu suas importações de petróleo em cerca de um quarto em relação aos níveis anteriores à guerra. O impacto é claro: inesperadamente, mais petróleo bruto está disponível para o mercado global, mantendo os preços de referência próximos do nível-chave de US$ 100 por barril, apesar de mais de 60 dias de conflito no Golfo Pérsico.

Mas os mecanismos por trás dessa oscilação nas importações — fundamentais para avaliar sua sustentabilidade — ainda estão longe de ser claros.

Decifrar a vasta indústria energética chinesa é difícil, mesmo quando a névoa da guerra não obscurece ainda mais o cenário.


Os traders de petróleo tentam preencher as lacunas deixadas pelas estatísticas oficiais incompletas rastreando navios-tanque que descarregam e carregam petróleo no país, medindo estoques por meio de imagens de satélite e conversando com seus próprios contatos locais em busca de pistas.

Nas últimas semanas, executivos do setor perceberam algo estranho: empresas estatais chinesas de petróleo têm revendido parte de suas cargas para concorrentes europeus e asiáticos. Esse comportamento sugere excedentes — algo incomum em um momento de escassez de oferta.

A mudança não apenas limitou os preços de referência do petróleo, mas também ajudou a provocar um colapso nos prêmios que os traders pagam acima desses preços para garantir petróleo físico. Barris que no início de abril eram negociados com um adicional de US$ 30 acima dos preços de referência agora estão sendo vendidos com prêmios tão baixos quanto US$ 1. Já começaram até mesmo a surgir conversas sobre descontos.

Os dados de rastreamento de navios-tanque apontam o mesmo sinal anômalo de excedente. A Vortexa estima que a China esteja comprando apenas 8,2 milhões de barris por dia de petróleo bruto do exterior, abaixo do nível pré-guerra de cerca de 11,7 milhões.

Essa redução de 3,5 milhões de barris por dia praticamente equivale ao consumo total do Japão e é o dobro da quantidade transportada pelo oleoduto dos Emirados Árabes Unidos que contorna o Estreito de Ormuz. Em termos simples, trata-se de um volume enorme — talvez o segundo ou terceiro maior fator de reequilíbrio do mercado de petróleo atualmente, atrás apenas do próprio oleoduto da Arábia Saudita que evita o estreito e do uso das reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos e do Japão.

A queda nas importações faria sentido se os estoques comerciais chineses estivessem diminuindo fortemente, ou se Pequim tivesse recorrido às suas reservas estratégicas de petróleo. Mas nenhuma dessas situações está ocorrendo. Pelo contrário, os estoques comerciais continuaram aumentando nas últimas semanas, segundo dados de satélite.

O que Pequim fez foi proibir as exportações de produtos refinados, permitindo efetivamente que as refinarias processassem menos petróleo bruto para atender à demanda doméstica. Mas essa política já foi revertida, sugerindo que o país considera haver disponibilidade suficiente de combustíveis.

Então, como a China está importando muito menos petróleo bruto do que antes sem reduzir seus estoques?

No passado, o país claramente comprava mais petróleo do que precisava, construindo uma enorme reserva de emergência. Hoje, a China possui quase 1,4 bilhão de barris em suas reservas, muito acima dos 400 milhões dos Estados Unidos e dos 260 milhões do Japão.

Em média, a China provavelmente comprou um milhão de barris por dia a mais do que necessitava no ano passado. Apenas ao parar de ampliar essa reserva, o país consegue reduzir bastante as importações sem afetar suas necessidades reais de petróleo.

Essa mudança talvez explique cerca de um terço da queda nas importações. Mas e o restante?

É aqui que os traders de petróleo passam a especular com diferentes teorias. Um dos argumentos diz que a atividade econômica chinesa está mais fraca do que se imaginava e, portanto, o crescimento do consumo de petróleo é menor.

Qual seria o gatilho dessa desaceleração? Talvez o impacto da guerra sobre vários clientes da China na região, incluindo Filipinas, Vietnã e Tailândia. Além disso, o aumento dos veículos elétricos, a melhoria do transporte público e a possibilidade de trabalhar de casa tornaram as famílias chinesas mais capazes de lidar com os altos preços do petróleo.

Diferentemente de alguns outros países da região, a China não anunciou nenhuma medida emergencial para conter a demanda, como adotar uma semana de trabalho de quatro dias para funcionários públicos ou incentivar o compartilhamento de carros.

A Agência Internacional de Energia (AIE), com base em dados preliminares, estima que a demanda chinesa por petróleo entrou em uma leve contração anual tanto em março quanto em abril, caindo cerca de 110 mil barris por dia, para aproximadamente 17 milhões de barris.

Embora a queda seja impressionante quando comparada ao crescimento exuberante do consumo do país no passado, ela está longe de ser suficiente para explicar por que as importações recuaram tanto.

Talvez, então, a demanda chinesa por petróleo esteja se contraindo de forma muito mais acentuada do que se imagina atualmente?

Segundo alguns traders, a chave está na enigmática indústria petroquímica — setor que respondeu pela maior parte do crescimento do consumo de petróleo nos últimos cinco anos. Nesse segmento, a China é única. Além da indústria tradicional, que utiliza petróleo e gás natural como matéria-prima, o país possui uma produção paralela baseada em carvão.

Desde o início da guerra, no fim de fevereiro, as margens de lucro do setor de transformação de carvão em produtos químicos melhoraram significativamente. A indústria normalmente operava com ampla capacidade ociosa, o que abre espaço para uma mudança importante do petróleo para o carvão como matéria-prima química.

Os dados concretos são escassos, mas, segundo relatos do setor, as plantas petroquímicas que transformam carvão em plásticos como polietileno, polipropileno e policloreto de vinila (PVC) têm operado intensamente nos últimos 60 dias, reduzindo, por consequência, o consumo de matérias-primas tradicionais, como etano e nafta.

Assim, talvez a China tenha conseguido depender muito mais da conversão de carvão em produtos químicos do que se imaginava anteriormente.

Outra possível explicação é que o país esteja consumindo estoques difíceis de rastrear de plásticos semiacabados e outros produtos químicos, tornando a recente queda no consumo de petróleo da indústria petroquímica um fenômeno temporário e insustentável.

Talvez existam explicações mais banais. Embora os traders de petróleo tentem estimar os estoques chineses usando dados de satélite, talvez todos estejam deixando passar alguns locais e os estoques estejam, de fato, caindo.

O mercado de petróleo está cheio de rumores de que a China estaria recorrendo discretamente às suas reservas estratégicas, começando pelo uso de cavernas subterrâneas que não podem ser detectadas por satélites. Talvez.

Defasagens temporais também podem estar desempenhando um papel; a produção doméstica de petróleo da China também vem aumentando, possivelmente ajudando a preencher quaisquer lacunas.

Mas não se engane: a China está reequilibrando o mercado de petróleo neste momento.

A questão maior é o que acontecerá amanhã: se o país consegue reduzir as importações de forma tão drástica sem, aparentemente, precisar adotar medidas extremas, o que isso diz sobre o futuro do consumo de petróleo por lá?

Certamente, nada positivo para os otimistas do mercado.

Javier Blas

Se vende gente

– Caminha!

– Corre!

– Canta!

– E esse, que defeito tem?

– Abre essa boca!

– Esse é bêbado, ou brigão?

– Quanto oferece, senhor?

– E doenças?

– Mas vale o dobro!

– Corre!

– O senhor não trate de me enganar, que devolvo ele!

– Salta, cachorro!

– Uma peça assim não se dá de presente!

– Que levante os braços!

– Que cante forte!

– Essa negra, é com cria ou sem cria?

– Vamos ver esses dentes!

São levados pela orelha. O nome do comprador será marcado em sua bochecha ou em sua testa e serão instrumentos de trabalho nas plantações, nas minas e na pesca, e armas de guerra nos campos de batalha. Serão parteiras e amas de leite, dando vida, e tomando-a serão verdugos e sepultureiros. Serão trovadores e carne de cama.

Está o curral de escravos em pleno centro de Lima, mas o cabildo acaba de votar pela mudança. Os negros em oferta serão alojados em um barracão do outro lado do rio Rímac, junto ao matadouro de São Lázaro. Lá estarão bastante afastados da cidade, para que os ventos levem seus ares corrompidos e contagiosos.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

O luxo que a gente não compra

Existe uma armadilha silenciosa no modo como aprendemos a viver no Brasil. Trabalhamos demais para consumir demais, e nessa luta insana sacrificamos o que jamais poderá ser comprado de volta: o tempo.

Somos incentivados a desejar. Um celular novo antes que o antigo sequer apresente defeito, um carro maior, para muitas vezes impressionar pessoas que mal conhecemos, roupas, experiências, restaurantes, tendências. O consumo deixou de atender necessidades reais para fabricar carências emocionais.

Criamos uma cultura onde o excesso de trabalho é tratado como virtude moral. Quem vive cansado parece mais importante. Quem está sempre ocupado transmite a sensação de sucesso e o descanso vira motivo de culpa. O resultado é uma sociedade ansiosa, exausta e permanentemente endividada.


Trabalhamos para sustentar um padrão de consumo que nos foi vendido como símbolo de realização pessoal. E quanto mais consumimos, mais precisamos trabalhar. É uma lógica cruel. Muitas vezes compramos para aliviar o desgaste causado justamente pelo excesso de trabalho necessário para comprar.

Quando me mudei para Portugal comecei a perceber isso com mais clareza. Há problemas, dificuldades econômicas e desafios, evidentemente. Mas existe algo que me chamou atenção desde cedo: a forma como os portugueses parecem valorizar o tempo.

Valoriza-se o café sem pressa, o almoço em família, a conversa longa, o encontro simples entre amigos. A pausa.

Não se trata de falta de ambição ou rejeição ao conforto material. Trata-se de entender que qualidade de vida não pode ser medida apenas pela capacidade de consumo. Existe uma percepção mais acentuada de que a vida acontece nos intervalos: nos momentos compartilhados, na tranquilidade de simplesmente existir sem precisar produzir o tempo inteiro.

No Brasil, aprendemos a admirar jornadas intermináveis, romantizamos o empreendedor que nunca dorme e naturalizamos relações de trabalho que deixam pouco espaço para convivência, descanso ou saúde mental. Enquanto isso, perdemos aniversários, almoços em família, domingos tranquilos e a oportunidade de acompanhar a vida sem pressa.

Talvez o maior sucesso não seja conseguir comprar tudo o que desejamos, mas não transformar a própria existência numa busca infinita por coisas.

É preciso entender que os momentos mais valiosos raramente envolvem consumo. A emoção ao comprar um bem ou produto desejado não se compara às memórias de boas conversas, risadas, viagens e encontros inesperados.

O mercado sempre encontrará novas formas de nos convencer de que falta alguma coisa. Mas a falta mais perigosa é a de tempo para viver. E talvez o verdadeiro luxo dos nossos tempos seja justamente aquilo que estamos desperdiçando todos os dias: tempo livre, presença e paz.

terça-feira, 12 de maio de 2026

'Ypê Bolsonarista' é mais um lamentável caso negacionista

A política brasileira atingiu um estágio de surrealismo onde até as bactérias ganham ideologia. O recente episódio envolvendo a suspensão de lotes de detergentes da marca Ypê pela Anvisa é o exemplo mais nítido de como a extrema-direita opera: ignora-se o fato técnico, abraça-se o negacionismo e vende-se a perseguição política como mercadoria de fácil consumo para os fiéis.

A realidade é simples, embora a desinformação tente torná-la turva. A Anvisa vetou a distribuição de lotes específicos contaminados. Não foi a marca Ypê que foi proibida de existir, foram unidades infectadas que oferecem risco real à saúde pública. O detalhe irônico que desmorona a tese conspiratória? A própria vigilância sanitária de São Paulo, estado governado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas, referendou a decisão.


Mas para o ecossistema bolsonarista, os fatos são meros obstáculos. Figuras políticas, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, entraram em cena para transformar uma questão sanitária em guerra ideológica. A narrativa é conveniente: os donos da empresa doaram milhões para a campanha de Jair Bolsonaro em 2022, logo, qualquer fiscalização técnica vira “retaliação do sistema”.

O que assistimos é a reedição do comportamento criminoso visto durante a pandemia de Covid-19. É o mesmo desprezo pela ciência que custou 700 mil vidas, agora aplicado a frascos de limpeza. Políticos com mandato e responsabilidade pública preferem ver o povo consumindo produtos contaminados a admitir que agências de estado funcionam de forma autônoma.

Ao tentarem “polarizar bactérias”, os promotores desse circo mostram que sua única pauta é a destruição da confiança nas instituições. Para eles, a saúde do brasileiro é secundária, o que importa é manter a chama do ressentimento acesa, nem que para isso precisem fazer propaganda de produto contaminado.

Instruções para desarmar o ódio

Conheci um homem que vendia gentilezas.

Não sei se por prudência, ou devido à extrema raridade do produto, mantinha um estoque reduzido. Era um sujeito de outro tempo, sempre muito elegante, muito direito, muito discreto. Vendia as gentilezas a preços módicos, e só aceitava pagamento após o cliente obter resultados:

— Não se preocupe, cavalheiro. — Explicava. — A gentileza cobra-se depois...

Nunca percebi como funcionava o sistema. Suspeito que nem ele. O nosso tempo valoriza a grosseria. Algumas pessoas acumulam pequenas brutalidades como quem junta milhas aéreas. Somam alegremente comentários impróprios, gritos, insultos, piadas racistas, interrupções ruidosas.

Nas redes sociais a gentileza tende a ser desprezada porque não escandaliza, não irrita, não indigna, não provoca. Enfim, não rende likes. O vendedor de gentilezas estava ciente do estado do mundo. Ainda assim, insistia:

— É um mercado de nicho...

Por vezes surgia alguém à procura de uma gentileza urgente — uma palavra terna; um pedido de desculpas; um silêncio mais que perfeito. Nessas alturas, o homem tornava-se grave, quase solene. Escolhia as peças com o cuidado de um relojoeiro.

Na maior parte dos dias, contudo, não aparecia ninguém. Então o vendedor de gentilezas sentava-se à porta da loja, numa cadeira de palhinha, e oferecia os seus produtos aos menos apressados. Um bom-dia dito com atenção, olhos nos olhos. Um elogio inesperado. Um pedido de desculpa antecipado, para eventuais falhas futuras. Nem todos aceitavam. Alguns desconfiavam. Outros aceleravam o passo, sem olhar para trás, como se estivessem a ser abordados por um credor.

A gentileza, como se sabe, cria embaraço. Não estamos habituados. Preferimos o tom neutro, a indiferença funcional. Quase sempre é mais seguro. Não nos compromete.

Um dia alguém denunciou o vendedor de gentilezas. Manhã muito cedo, dois agentes bateram-lhe à porta. Pediram para ver o catálogo. Queriam saber que tipo de gentilezas circulavam, a quem eram dirigidas e com que frequência. Um deles, o mais velho, anotava tudo num caderno de capa preta, como se estivesse registando infrações.

— Isto pode ser interpretado como um incentivo à subversão! — rosnou.

— Subversão?! — espantou-se o vendedor.

— Com certeza. Insurgência! Veja bem... A gentileza é uma ameaça à desunião da sociedade. E sem desunião, o que fariam os políticos? Todo o sistema se desintegraria.

O segundo agente ergueu a voz:

— O pior é o contágio…

O vendedor escutou atento. À despedida, ofereceu-lhes duas gentilezas de cortesia: um agradecimento sincero pelo tempo dispensado e um voto de bom dia, dito sem ironia.

Os agentes hesitaram. Não sabiam se deviam aceitar. Acabaram por levar as gentilezas, embrulhadas em fino silêncio. Consta que, dias depois, o mais velho começou a cumprimentar os vizinhos. O outro pediu desculpa à esposa por não saber ouvi-la.

Os agentes estavam certos ao acusarem o vendedor — não há nada mais subversivo do que a gentileza. Também estavam certos quanto ao perigo de contágio.
José Eduardo Agualusa

'O sionismo deve desaparecer'

“Israel não pode existir como um Estado normal sob a ideologia do sionismo. O sionismo deve desaparecer. O Estado de Israel permanecerá.. A questão é que tipo de Estado será. Ele deve mudar fundamentalmente. Sob a ideologia sionista, isso não é possível”. Essa declaração é do historiador isralense Omer Bartov, em entrevista ao jornal Haaretz na semana passada, quando lançou seu último livro, “Israel: What Went Wrong”, (Israel: O que deu errado?) em que tenta responder as razões do genocídio em Gaza e como Israel chegou a essa tragédia.

Foi em maio de 2024 que o historiador concluiu que Gaza se enquadrava na definição de genocídio prevista na Convenção da ONU. Ele havia resistido a utilizar a palavra publicamente, mas quando a usou, irritou o meio acadêmico e as comunidades judaicas. Bartov é um dos estudiosos do Holocausto mais citados do mundo. Seu livro “Anatomia de um genocídio: a vida e a morte de uma cidade chamada Buczacz”,de 2018, ganhou o Prêmio Nacional do Livro Judaico e o Prêmio Internacional do Livro Yad Vashem para pesquisa sobre o Holocausto.


Ele recorda que na imprensa israelense o ataque do Hamas foi enquadrado como um ato semelhante ao Holocausto, e que os membros do Hamas foram classificados de nazistas. Qualquer crítica às ações de Israel foi – e ainda é – considerada um ato antissemita. “Quando falamos de Israel se tornando um Estado pária, isso não é produto do antissemitismo. É produto das ações de Israel. Vamos analisar isso de um ângulo diferente: se o sionismo pudesse levar ao genocídio em Gaza, ele não poderia mais se sustentar como ideologia. E se Israel sempre se definiu como a resposta ao Holocausto e usou o Holocausto para justificar tudo, não pode ser que a resposta ao Holocausto seja outro genocídio”, critica.

Ele analisa também a relação entre memória histórica e política contemporânea. Bartov argumenta que, ao longo das décadas, o Holocausto deixou de ser apenas um evento histórico para se tornar um elemento estruturante da identidade israelense. Transformou-se em um tema sensível com dois efeitos simultâneos: por um lado, silencia críticas legítimas ao sionismo; por outro, atacar as aões de Israel em Gaza pode encobrir formas reais de antissemitismo.

Bartov nasceu em Ein HaHoresh, um kibutz no centro de Israel, filho do escritor Hanoch Bartov. Lutou na Guerra do Yom Kippur e, após se formar na Universidade de Tel Aviv e em Oxford, mudou-se para os Estados Unidos. É professor de Estudos do Holocausto na Universidade Brown desde 2000. “Sou um estudioso do genocídio. Reconheço quando vejo um”, afirmou.

O historiador, apesar de sua posição, afirma que não é antissionista: “cresci em um lar sionista. Não me oponho à existência do Estado de Israel. Mas o sionismo, como ideologia, tornou-se algo que não reconheço, uma ideologia do Estado, militarista e expansionista, mas também racista e extremamente violenta. “É irônico e trágico que um movimento que começou como uma tentativa de libertar os judeus da perseguição, de lhes dar um lugar próprio – um processo de emancipação, libertação, aspiração humanitária – termine seu caminho assim”, lamenta.

Bartov também critica o uso recorrente do argumento de autodefesa por Israel. Para ele, tanto o direito à resistência quanto o direito à autodefesa possuem limites claros no direito internacional — e não justificam massacres de civis. Ele classifica o ataque do Hamas em 7 de outubro como crime de guerra e contra a humanidade, mas sustenta que isso não legitima a resposta genocida de Israel.

“Os líderes do Hamas estão mortos, mas atingiram seu objetivo, que era romper o cerco de Netanyahu, que ‘gerenciava’ o conflito e ninguém no mundo se importava, O Hamas transformou isso em um conflito regional. Israel agora está lutando no Líbano, na Síria e no Irã. Da perspectiva da ala extremista do Hamas, que na verdade é bastante semelhante ao pensamento de [Bezalel] Smotrich [ministro de Finanças de Israel] e Ben-Gvir [Ministro da Segurança Nacional de Israel], eles alcançaram seu objetivo. Sabiam que o preço seria terrível. Mas, para atores messiânicos, o preço é aceitável.”

Uma evidência desse silenciamento é que o livro será lançado em oito idiomas, porém, até o momento, não foi publicado em Israel. “Em Israel, entrei em contato com editoras, incluindo as chamadas editoras de esquerda. Uma delas me escreveu: ‘Não acho que este seja o momento certo’. Outras disseram ‘sim, vamos verificar, vamos ler’ – e depois desapareceram”.

Bartov foge da lógica binária entre bons e maus. “Eu teria preferido ver os líderes do Hamas capturados e levados a julgamento ao lado de vários líderes israelenses. Esse seria um julgamento que valeria a pena assistir”.

sábado, 9 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Que tal a 'Conhecimentobras'?

Em 1953, o Brasil criou a Petrobras com o propósito de buscar petróleo escondido nas profundezas do solo, até mesmo sob o mar. A empresa é hoje um dos maiores exemplos mundiais de sucesso na descoberta, extração, refino, transporte e distribuição de óleo e seus derivados. Transformou em riqueza o tesouro negro escondido sob a forma de lama subterrânea. Agora, defende-se a criação da Terrabras, para explorar os minerais usados nos produtos da nova economia de alta tecnologia.


Tudo muito bom, mas há um outro modo de enxergar o plano. Pode-se estimar que, nestes setenta anos, desde a faísca da Petrobras, nasceram no Brasil mais de 100 milhões de brasileiros, mas o país não se preocupou em criar um sistema educacional que permitisse aproveitar o formidável recurso do cérebro de cada um deles, sem o qual o petróleo continua lama e as terras-raras, apenas areia. Não é necessário, a rigor, perfurar o solo nem o fundo do mar. É preciso apenas dar aos cidadãos educação para que possam ser plenamente aproveitados. Os resultados seriam óbvios: eficiência econômica, justiça social, garantia de soberania e democracia consolidada. Mesmo assim, o Brasil se nega à ideia de um sistema nacional de qualidade e equidade.

“O Brasil se nega à ideia de um sistema nacional de qualidade e equidade”

Não se aceitaria a ideia de uma Petrobras pulverizada por município, PetroCampos, PetroMaricá, PetroRio e outros, nem que a exploração das terras-raras seja deixada para cada município onde elas estejam; mas aceita-se que a educação de cada criança seja tarefa de sua família ou seu município, porque os cérebros não são vistos como um recurso econômico do Brasil. Cada criança é vista como um problema: mais uma boca para alimentar, um corpo a vestir, uma pessoa a empregar — não um cérebro a mais para criar e produzir. Não se considera que os recursos naturais só se tornam econômicos graças à técnica e à ciência decorrentes do conhecimento produzido por cérebros educados. O petróleo só é aproveitado se houver um conjunto de cérebros formados para saber como localizá-lo, extraí-lo e transformá-lo em combustível. O aproveitamento de cada mina de terra depende do aproveitamento da mina do saber.

Isso é ainda mais óbvio no caso das terras-raras, porque seu uso só é possível graças ao avanço técnico-científico das últimas décadas, que criou os produtos que as utilizam. Elas não são raras apenas porque existem poucas minas, mas porque seu valor depende do desenvolvimento científico alcançado em países que não desperdiçaram seus cérebros: educados em escolas, formados em universidades e organizados em centros de pesquisa vinculados à indústria. Se o Brasil não fizer esse processo, a Terrabras produzirá para os países que dominam a técnica, para que usem nossas reservas, decidam os preços, importem matéria-prima e revendam como produto final, sob forma de equipamentos que não inventamos nem produzimos por falta de cérebros educados, formados para a ciência, tecnologia e indústria.

Apesar dessa obviedade, tudo indica que será criada a Terrabras, mas a mina do saber continuará ignorada. Negando uma espécie de “conhecimentobras”: um sistema nacional de escolas para oferecer educação de base com a máxima qualidade a todos os cérebros brasileiros, nenhum deles desperdiçado, como hoje ocorre com 80% deles.

Casa Branca S.A.

De bíblias personalizadas a criptomoedas, sem falar nos acordos imobiliários em zonas de guerra, terras-raras, contratos de obras na Europa e dezenas de esquemas de supostas doações, Donald Trump transformou a Casa Branca em uma máquina de fazer dinheiro. Para si, para a família e para os amigos. Em recente levantamento, o jornal The New York Times contabilizou o tamanho da fortuna extra acumulada pelo republicano desde o retorno à Presidência dos Estados Unidos, em janeiro do ano passado: 1,4 bilhão de dólares.

Trump não tem pudor e não faz questão de separar políticas de Estado e interesses pessoais. Enquanto o mundo debatia a violência norte-americana por conta de mais uma tentativa de assassinato do mandatário, o magnata parecia mais preocupado em defender a reforma na Casa Branca. Um novo salão de festas, cuja construção foi embargada pela Justiça, custará 300 milhões de dólares e será uma espécie de drive-thru de empresários. Segundo o presidente, as doações de companhias do porte da Amazon, Meta, Apple e Lockheed Martin vão cobrir as despesas, mas a pergunta é o que os conglomerados ganharão em troca de tamanha generosidade? Talvez o plano de investir bilhões de dólares do Tesouro norte-americano em Inteligência Artificial explique. A iniciativa foi revelada oito dias antes de Trump anunciar a construção do salão de festas. Vários desses doadores, entre eles Alphabet, ­Microsoft, Nvidia e Palantir, serão os principais beneficiários do plano, e alguns estiveram diretamente envolvidos na elaboração do projeto.


O fluxo de dinheiro fora do orçamento oficial sob controle direto da Casa Branca tem causado preocupação entre observadores, democratas e entidades que monitoram a relação entre os poderes e as empresas privadas. Um fato novo tem sido a transformação da Presidência em um elemento de marketing para os negócios do próprio chefe de Estado. Apenas em 2025, a venda de bíblias com a chancela de Trump rendeu 3 milhões de dólares. Ele ainda ganhou 2,8 milhões com relógios personalizados e outros 2,5 milhões com produtos variados, de tênis a perfumes. A venda de criptomoedas tem gerado, no entanto, o maior volume de ganhos. Em julho passado, o republicano assinou o GENIUS Act, primeira lei federal para o setor. Antes, a família tratou de lançar sua própria moeda virtual­. Os lucros familiares ultrapassaram a marca de 1,2 bilhão de dólares, apesar das oscilações da divisa.

O setor de tecnologia é outro foco. Em apenas um dos acordos, uma empresa de investimentos dos Emirados Árabes Unidos anunciou a destinação de 2 bilhões de dólares a uma operação que envolvia empresas da família Trump. Isso ocorreu duas semanas antes de o governo permitir ao país do Golfo acesso a chips.

Os negócios empresariais também contaminaram a relação com a Europa. Um dos casos mais controversos refere-se aos países dos Bálcãs e uma aproximação inesperada com Milorad Dodik, que liderou por anos a República da Sérvia e foi alvo de sanções por parte dos EUA e da Europa por corrupção. Em outubro do ano passado, a Casa Branca retirou as restrições a Dodik, que chegou a ser convidado para ir a Washington. O sérvio-bósnio passou a ser um agente fundamental para a entrada de empresas norte-americanas em projetos de infraestrutura na região. Uma companhia ligada a parceiros comerciais de Trump planeja investir 1,8 bilhão de dólares na área muçulmana do país. Donald Trump Jr., o filho mais velho, chegou a visitar Banja Luka e um documento revelado pelo jornal britânico The Guardian aponta que um dos contratos para a obra de um gasoduto teria o envolvimento de uma empresa de um advogado do presidente dos EUA. A AAFS Infrastructure and Energy é liderada por Jesse Binnall, que defendeu o republicano no caso da invasão do Capitólio, e Joe Flynn, irmão de um ex-conselheiro de Segurança Nacional.

No setor de terras-raras, integrantes do governo também parecem dar-se bem. Em janeiro, a empresa USA Rare­ Earth recebeu uma injeção de 1,6 bilhão de dólares do Estado, que passou a controlar 10% da companhia. Naquele momento, o Secretário de Comércio, Howard Lutnick, afirmou que o investimento “garante que as nossas cadeias de suprimentos sejam resilientes e não dependam mais de países estrangeiros. O acordo entre a mineradora e a Casa Branca ligou, porém, o alerta entre os democratas. Uma das questões é a relação entre a USA Rare Earth e a Cantor Fitzgerald­, empresa financeira hoje administrada pelos filhos de Lutnick e contratada como intermediária no negócio. Em uma carta de dez páginas, a deputada Zoe Lofgren, do Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara dos Representantes, alertou: “Este acordo cria um enorme conflito de interesses pessoais, concedendo ao Secretário de Comércio uma influência desproporcional sobre o comportamento de uma empresa privada, ao mesmo tempo que o coloca em posição de promover os interesses de seus filhos como condição para seu apoio”.

Em fevereiro, os senadores Elizabeth­ Warren, de Massachusetts, Chris Van Hollen, de Maryland, e Ron Wyden, do Oregon, enviaram outra carta ao secretário de Comércio, alertando que o acordo levanta questões sobre eventuais benefícios financeiros a integrantes da família Lutnick. “É imprescindível que os investimentos federais em setores críticos sejam feitos sem conflitos de interesse e com base no mérito”, anotaram os parlamentares.

As guerras são outra fonte de receita. Em janeiro, o governo apresentou ao mundo um projeto de reconstrução de Gaza. O local escolhido não foi a ONU ou um evento humanitário. O palco foi o Fórum Econômico Mundial de Davos, repleto de empresários. A “New Gaza” seria erguida em três anos e transformada em uma “costa de turismo”. “É um grande local”, afirmou Trump. “Veja essa propriedade no mar. Tudo começa com a localização. Poucos lugares são assim.” No início do mandato, o magnata, que fez fortuna no setor imobiliário, chegou a falar em transformar Gaza numa “Riviera”. Seus comentários, enquanto milhares de crianças e mulheres morriam, causaram indignação à época. Agora, o projeto foi apresentado oficialmente aos maiores empresários do mundo, respaldado por líderes estrangeiros, submissos e em silêncio.

Coube ao genro de Trump, Jarred ­Kuchner, detalhar a reconstrução de ­Gaza. Na zona costeira, 180 edifícios serão erguidos e um planejamento detalhado será implementado com zonas habitacionais, estradas e até um local para a instalação de data centers. O planejamento prevê 100 mil unidades residenciais e investimentos de 30 bilhões de dólares. Quem está de olho nas oportunidades são os filhos do presidente, Eric e Donald Jr. Nos últimos meses, os dois herdeiros têm participado de conversas na região para ampliar a presença da Trump Organization no Oriente Médio. A família fechou um contrato com a imobiliária saudita Dar Global para realizar projetos em Jeddah e Dubai.

Em alguns casos, as políticas comerciais parecem coincidir com importantes anúncios da família. No ano passado, a Casa Branca aceitou reduzir de forma substancial as tarifas de importação impostas ao Vietnã. Semanas antes, o governo de Hanói havia autorizado a construção de um resort e campo de golfe de 1,5 bilhão de dólares projetado pela Organização Trump. Para o empreendimento ser viabilizado, um cemitério teve de ser removido da área.

Uma das táticas tem sido a abertura de processos judiciais, na esperança de que a parte atacada conceda e faça um acerto. Algumas das maiores empresas dos EUA viraram alvo dos advogados do presidente e, para evitar uma crise ou ter contratos facilitados no setor público, decidiram aceitar um acordo financeiro. A ­Paramount pagou 16 milhões de dólares ao republicano depois de ser acusada de editar uma entrevista da ex-vice-presidente Kamala Harris em 2024 para prejudicar o adversário. Três semanas depois, a Comissão Federal de Comunicações aprovou uma fusão de 8 bilhões do conglomerado de mídia com a Skydance.

Nada parece ser mais obscuro do que a suspeita de que os anúncios, decisões e até disparos de mísseis ordenados pelo presidente estejam vinculados a apostas milionárias. Deputados e senadores democratas passaram a exigir que plataformas de apostas sejam investigadas por conta de movimentações suspeitas. Em janeiro, um usuário anônimo da Polymarket­ lucrou 400 mil dólares ao apostar na deposição de Nicolás Maduro, horas antes de o venezuelano ser sequestrado por agentes dos EUA. No fim de fevereiro, 16 apostas renderam 100 mil dólares cada. Elas previam o momento exato dos ataques aéreos ao Irã. Um fluxo incomum de em torno de 150 contas acertou em cheio. Momentos antes do assassinato do aiatolá Ali Khamenei, um apostador ganhou sozinho 550 mil dólares ao prever a morte do líder iraniano. Em uma denúncia apresentada pela Public Citizen à Comissão de Negociação de Futuros de Commodities, a entidade cita uma empresa de análise de criptomoedas que identificou seis “suspeitos de informações privilegiadas” que lucraram um total de 1,2 milhão de dólares no Polymarket após a morte de Khamenei.

Em 23 de março, investidores fizeram apostas de 580 milhões de dólares no mercado futuro de petróleo. Doze minutos depois, Trump afirmou nas redes sociais que os EUA travavam conversas “produtivas” com o Irã. Em 7 de abril, minutos antes de o presidente anunciar um cessar-fogo, investidores apostaram, em contas do Polymarket, 950 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo. E assim ocorreu. A aposta parecia insólita. Momentos antes, o republicano havia ameaçado: “Uma civilização inteira morrerá esta noite”, se o Irã não abrisse o Estreito de Ormuz.

O deputado democrata Ritchie ­Torres, da Comissão de Serviços Financeiros da Câmara, acredita que a movimentação não pode ser ignorada. Em carta à Comissão de Negociação de Futuros de Commodities, pede investigações. “Esse padrão levanta sérias preocupações de que certos participantes do mercado possam ter tido acesso a informações privilegiadas sobre um evento geopolítico que impactaria o mercado”, escreveu Torres. “Qual a probabilidade estatística de alguém que não seja um insider trader fazer uma aposta vencedora 12 minutos antes de um anúncio presidencial que impacta o mercado?”, acrescentou o deputado em entrevista à agência AP. “Há duas respostas: Deus ou um insider trader. E algo me diz que Deus não está apostando nas postagens de Donald Trump no Truth Social.”

A suspeita não veio do nada. A ­Polymarket, onde muitas dessas apostas acontecem, conta com um investidor de peso, Donald Jr.

O 8 de janeiro e a insurreição neofascista no Brasil

A hipótese historiográfica que trabalho e procuro sustentar é que o 8 de janeiro foi um ponto de convergência de diversas contradições e crises que atravessam a história da formação social brasileira contemporânea: a continuidade da (tácita ou não) tutela militar sobre os regimes políticos brasileiros desde a fundação da República, o extremar do bolsonarismo enquanto movimento de cariz neofascista e a incapacidade da chamada Nova República (1988) de romper com os aparelhos institucionais e a lógica autoritária herdadas da ditadura empresarial-militar de 1964 (e suas raízes coloniais). Noutras palavras, no Brasil, a (inacabada)“transição” pós-ditadura não julgou os crimes militares (os torturadores continuaram impunes), não levou a cabo uma refundação das Forças Armadas e não se impôs à instituição militar o reconhecimento público dos seus crimes à sociedade. O máximo que tivemos foi uma política de memória com a criação da “Comissão Nacional da Verdade”, durante o governo de Dilma Rousseff (a ex-guerrilheira que lutou contra a ditadura), que provocou a ira do Partido Fardado. Em síntese, temos uma situação em que o passado brasileiro realmente nunca passou.


Esses elementos sinalizados procuram destacar que as continuidades (e suas descontinuidades) históricas são centrais para compreender o bolsonarismo (tema do quarto artigo dessa série). A extrema-direita brasileira não nasceu com Jair Bolsonaro, embora nele tenha encontrado a sua figura de massas (o totem do Partido Fardado). O que estou a ressaltar é o facto de existirem linhas de continuação que atravessam o integralismo dos anos 1930 (de inspiração lusitana), a ditadura empresarial-militar, a ideologia da “ordem” autoritária e o anticomunismo (preventivo) como gramática política mobilizadora. A Ação Integralista Brasileira foi uma das maiores organizações fascistas fora da Europa; décadas depois, setores integralistas e reacionários continuaram presentes no imaginário e nas estruturas da ditadura brasileira entre 1964 e 1985. O bolsonarismo teve a capacidade de incorporar esse legado da direita integralista e reacionária (racista), mas sob novas condições históricas, convergindo o militarismo (a violência), o fundamentalismo religioso cristão, o lavajatismo, um programa económico ultraneoliberal e assente no agronegócio (latifúndio). E com essas forças sociais articuladas numa dinâmica de mobilização, organização e comunicação a partir do ciberespaço (internet, redes sociais, etc.).

Nesse sentido, os antecedentes do 8 de janeiro precisam serem compreendidos, primeiramente, numa perspectiva de longa duração histórica que procurei destaca – o autoproclamado poder moderador (tutelar) que as Forças Armadas Brasileiras reivindicam para si. Num segundo momento, os factos conjunturais, a sequência de acontecimentos que se encetou com a derrota eleitoral de Jair Messias Bolsonaro em outubro de 2022. Ou seja, após a vitória de Lula da Silva, os bloqueios de autoestradas espalharam-se pelo país e chegaram ao ponto de cantarem o hino nacional para um pneu; todavia, estes não eram protestos dispersos ou espontâneos, visto que apresentarem uma estrutura organizativa de som, logística (especialmente alimentar), palavras de ordem, orientação política e sobretudo financiamento. O objetivo era produzir caos. A imagem evocava, noutro contexto, a greve de camionistas no Chile de Salvador Allende: criar desabastecimento, paralisar o país, fabricar a sensação de ingovernabilidade e preparar a intervenção “salvadora” do Partido Fardado.

A partir desse momento, formou-se um rito golpista em torno dos quartéis, a rezar/orar para os muros, a espera pelas fantasiosas “72 horas” decisivas, enquanto apelavam ao artigo 142 da Constituição brasileira, segundo o qual as Forças Armadas poderiam intervir como suposto “poder moderador” e deslocavam milhares de bolsonaristas para as portas dos comandos militares (com a permissão direta ou indireta dos militares), a fim de pediam “democraticamente” uma ditadura militar. Os acampamentos tornaram-se uma espécie de sementeira golpista: socialização neofascista e propagação da retórica insurrecional, mas também numa espera salvadora ativa, que (aparentemente) procurava “pressionar” os militares para tomarem o poder. Saliento, nada disso seria possível sem a conivência, tolerância ou simpatia dos altos comandos das Forças Armadas.

A escalada foi rápida e foi-se intensificando. Em 12 de dezembro de 2022, dia da diplomação de Lula da Silva e do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, bolsonaristas tentaram invadir a sede da Polícia Federal em Brasília, incendiaram carros e autocarros e produziram uma cena aberta de violência e terrorismo. Em 24 de dezembro, uma bomba foi colocada nas proximidades de Brasília (atada a um camião carregado de querosene que se dirigia ao aeroporto). Permitam-me um momento contra factual, para apresentar uma especulação informada. Se tivesse explodido esta bomba numa véspera de Natal, poderia ter produzido uma comoção nacional suficiente para justificar uma operação de Garantia da Lei e da Ordem — a famosa GLO (estratégia chave para compreender o fatídico dia). A lógica era sempre a mesma: caos, medo, desordem, intervenção militar. Portanto, o 8 de janeiro foi o ápice dessa sequência conjuntural, não o seu início.

Assim, o 8 de janeiro foi uma conspiração militar-golpista e uma tentativa de insurreição neofascista popular (e membros da dita família militar). Mas não necessariamente porque estivesse em curso, naquele dia, uma tomada clássica do poder, com tanques nas ruas e proclamação imediata de uma junta militar. A sua lógica tática era furtiva e de aproximações sucessivas: desestabilizar, testar forças, produzir uma situação excecional, a fim de obrigar Lula da Silva a convocar os militares e, com isso, subordinar o governo civil ao comando do Partido Fardado. Resumidamente, o objetivo tático era a Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Evidencia-se como óbvio analiticamente que se Lula da Silva tivesse entregado a gestão da crise às Forças Armadas, como recomendou o “seu” ministro da Defesa (ou porta-voz dos militares), o seu governo poderia ter sobrevivido do ponto de vista formal, mas ficaria politicamente morto, porque seria presidente sob a tutela dos quartéis.

É nesse contexto que se revela a importância decisiva de não decretar a GLO e intervir especificamente na segurança pública do Distrito Federal para reprimir a insurreição neofascista. A recusa de Lula da Silva e setores do seu governo impediu que os militares assumissem o controlo da situação. A intervenção federal, conduzida no plano civil (com um interventor escolhido diretamente pelo presidente), permitiu debelar a ação imediata – com muitos conflitos e resistência das Forças Armadas, que impediram a Polícia Militar do Distrito Federal de executar as prisões dos integrantes do motim.

Por alguns dias, o governo pareceu obter uma espécie de “segunda posse”, com os governadores (de oposição e bolsonaristas), o Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso, a imprensa e os governos estrangeiros a convergirem na condenação do ataque aos “três poderes” da República. Aparentemente, o regime político brasileiro, o mesmo que possibilitou a vitória do ex-capitão do Exército, fechou fileiras contra a intentona militar-bolsonarista.

Seria ilusório concluir que, por isso, o golpismo foi derrotado como lógica estrutural de longa duração na história brasileira – o 8 de janeiro fracassou como operação imediata de bloqueio do ao governo central, mas foi bem-sucedido como demonstração de força real e simbólica; pois, permite que se apresente como a real força antissistema e com capacidade de mobilizar as pessoas para uma insurreição de matriz neofascista. Os golpistas invadiram e destruíram as sedes dos Três Poderes, penetraram no Palácio do Planalto (sem serem parados inexplicavelmente pelo Batalhão da Guarda Presidencial), no Congresso e no Supremo Tribunal Federal. Destruíram, em particular, símbolos (cadeira) associados ao juiz-ministro Alexandre de Moraes, visto pelo bolsonarismo como seu algoz e inimigo. Estes acontecimentos trataram-se apenas de depredação patrimonial (a destruição d’As mulatas, de Di Cavalcanti); mas o que identificamos foi uma ação insurrecional e golpista contra as instituições, portanto, contra a “ordem” estabelecida. (Entendo esse ser um ponto de atenção para se analisar o processo fascizante que temos identificado pelo mundo).

Essa dimensão de ação efetiva e simbólica é importante, visto que as extremas-direitas são capazes de transformar derrotas em imaginários políticos mobilizadores. O Putsch da Cervejaria de 1923, inicialmente ridicularizado, tornou-se depois parte da mitologia nazifascista. É evidente que não se trata de estabelecer equivalências ou coisa do género, mas de entender o mecanismo ideológico: quando uma tentativa golpista não é enfrentada até às suas raízes pode transformar-se em narrativa heroica para os seus próprios derrotados (observem como são caracterizados os “patriotas” que foram presos).

Na época dos acontecimentos, escrevi que seria um ponto de viragem decisivo, pois abria uma janela histórica de oportunidades e, portanto, uma questão colocava-se como incontornável – o governo Lula da Silva teria coragem política de enfrentar o “ninho da serpente”? E esse ninho está sobretudo nas Forças Armadas, mas também nas forças policiais militarizadas – criadas para combater o inimigo interno, as populações consideradas perigosa e sub-humanas, ou seja, os grupos historicamente racializadas no Brasil: negros e indígenas.

Existe uma hipótese analítica que sustenta, que durante o governo Bolsonaro, a fronteira entre governo e instituição militar tornou-se cada vez mais porosa, com milhares de militares a ocuparem cargos civis, um vice-presidente militar, ministros militares, generais na administração pública e militares da ativa envolvidos em atos políticos e afins. O acontecimento-marco foi exibição de tanques em Brasília durante a votação sobre o voto impresso (demanda bolsonarista) – uma teatralização da intimidação militar perante o poder civil. Tudo isso é verdadeiro, todavia, analiso que essa distinção entre o governo e instituição militar, nos quatro anos da gestão Bolsonaro não existiu, porque, de um ponto de vista prático, aquele era um governo do militar, comandado pelo Partido Fardado que tinha no ex-capitão eleito pelo voto a sua face carismática e popular – essa confluência também carregava em si conflitos e contradições.

Por isso, parece-me frágil a retórica, adotada pelo governo Lula da Silva, segundo a qual teria havido apenas um pequeno grupo de militares golpistas no entorno de Bolsonaro, enquanto a instituição militar, em si, teria permanecido legalista. Essa separação entre “maus indivíduos” e “boa instituição” serviu para produzir uma absolvição política das Forças Armadas. Como tenho procurado demonstrar, o problema é mais profundo. As Forças Armadas brasileiras operaram, historicamente, como partido fardado, ou seja, não apenas instrumento técnico de defesa nacional, mas ator político, poder de veto, reserva autoritária da ordem da classe dominante e dispositivo permanente de tutela sobre o regime político. Sejamos categóricos. Não existem “generais democratas”, eles só não embarcaram na insurreição golpista de forma aberta porque não receberam sinal positivo da Washington.

No esteio do pós-8 de janeiro, é preciso dizer que a condenação judicial de Bolsonaro e de generais rompeu, sem dúvida, uma barreira histórica. Pois, em setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes, afirmando que ele instrumentalizou o aparato institucional para gerar instabilidade e tentar manter-se no poder. Em dezembro do mesmo ano, o STF concluiu o julgamento das ações contra os réus acusados de planear o golpe. Em novembro de 2025, Bolsonaro começou a cumprir pena efetiva, e generais como Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira também foram presos.

Este é um acontecimento sem precedentes relevantes na história brasileira, porque pela primeira vez, o golpismo presidencial e fardado encontrou uma resposta penal ao ponto de serem encarcerados. Podemos caracterizar que a impunidade militar, tão característica da história do Brasil, foi parcialmente interrompida. No entanto, a contradição é evidente: a responsabilização judicial não equivale, por si só, a uma desestruturação do poder militar golpista e reacionário; puniram os indivíduos sem a desmontagem da estrutura institucional. Assim como a prisão de Bolsonaro não derrota historicamente o bolsonarismo e suas raízes; na verdade, Bolsonaro continua impune perante os seus graves crimes da pandemia da Covid-19.

Aliás, a própria reação parlamentar mostrou que a disputa continua aberta, visto que agora em abril de 2026, o Congresso derrubou o veto do presidente Lula ao chamado projeto da dosimetria, destinado a reduzir penas de condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de Janeiro e pela tentativa de golpe de Estado, incluindo Bolsonaro. A operação é reveladora: a direita tradicional (por vezes chamada de “democrata”), mesmo quando se distancia retoricamente da intentona insurrecional, preserva pontes com o campo bolsonarista e tenta recalibrar o custo penal do golpismo. A condenação expressa, assim, simultaneamente, um avanço democrático e um acerto de contas interno às direitas: a direita oligárquico-institucional procura derrotar hegemonicamente a direita neofascista sem romper inteiramente com ela.

Todo esse processo desagua num ponto decisivo e crítico: a fracassada estratégia de apaziguamento levada a cabo pelo governo Lula da Silva. Após o 8 de janeiro, havia uma janela política para enfrentar a tutela militar. O presidente Lula poderia ter reorganizado comandos, afastado setores organicamente vinculados ao bolsonarismo e iniciado uma reforma mínima da formação castrense; ter sinalizado que as Forças Armadas estão submetidas ao poder civil, e não acima dele. Em vez disso, prevaleceu em grande medida, a lógica da pacificação, representada por José Múcio no Ministério da Defesa: dialogar, acomodar, evitar conflito, esperar que a temperatura baixasse. (Uma típica estratégia do lulismo em momentos de conflito de alta intensidade – tema do quinto artigo desta série).

A recorrente justificação para tática do apaziguamento está assente no cálculo de um “dado geológico imutável” que ronda o lulismo e o setor hegemónico do Partido dos Trabalhadores (PT): a correlação de forças. O governo Lula III ascendeu sob pressão: o congresso ainda mais conservador e reacionário, a classe dominante dividida no apoio ao Bolsonaro, o tal mercado financeiro “hostil”, a extrema-direita mobilizada, as Forças Armadas vitaminadas pelo bolsonarismo e sua ideologia neofascista. Porém, identificar essas correlações de forças sociais não é o mesmo absolvê-las e não fazer nada para alterá-las. Esse é o ponto central dos críticos do lulismo, pois o risco da conciliação é tomar como possível uma estabilidade que a própria crise estrutural contemporânea do capitalismo parece corroer permanente. O regime político liberal de apaziguamento dos conflitos sociais, baseado em pactos nacionais e acomodações entre frações de classes, tem hoje menor capacidade de assimilar as contradições e os conflitos. O bolsonarismo apresenta-se como uma dessas soluções de governo: fascistização política ao serviço de um programa ultraneoliberal (neoliberalismo com uma política que intensificação do autoritarismo de matriz fascista).

Desse modo, insisto, o 8 de Janeiro deve ser pensado como problema histórico-estrutural, e não como desvio episódico na história do Brasil. O bolsonarismo não é apenas Bolsonaro – observemos o crescimento significativo de Flávio Bolsonaro nas sondagens, como herdeiro do pai na eleição presidencial –, mas uma articulação do bloco político de extrema-direita com setores empresariais, agronegócio, capital financeiro e comercial, o fundamentalismo cristão reacionário, Forças Armadas, polícias, milícias e redes digitais de mobilização, etc.

A conclusão, portanto, não pode ser tranquilizadora. O regime da malograda “nova república” venceu uma batalha importante em 8 de janeiro, mas não venceu a guerra histórica contra o golpismo. A serpente não está no ovo. Ela já nasceu, mostrou os dentes, recuou para o seu buraco e permanece viva. Ela sabe que no período de inverno é preciso manter-se “escondida”. Enquanto não houver desmilitarização do Estado, reforma profunda das Forças Armadas, punição dos financiadores (que até agora continuam intocáveis) e enfrentamento da base social fascistizada, novas formas de sublevação poderão reaparecer e pode ser que não seja só mais um ensaio geral, se tiver na cadeira presidencial o Partido Fardado, o filho do totem e o apoio direto de Trump.

Uma nota final. Identifico que nesse processo de fascização em escala alargada, o Brasil e os Estados Unidos tornaram-se laboratórios mundial de uma extrema-direita insurrecional. É nesse sentido que reforço ser um erro imaginar que a história terminou porque teve condenações. Elas são indubitáveis, mas insuficientes. O 8 de janeiro ensinou que os movimentos do fascismo contemporâneo podem não chegar primeiro com tanques, mas com acampamentos, bloqueios, bombas, redes sociais, orações, camionetas e multidões convencidas que somente regimes despóticos e ditatórios são a solução para um regime político e um modo de relação social em crise estrutural ou policrises.