domingo, 29 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


O powerpoint certo do Banco Master

Um programa da GloboNews mostrou um gráfico que colocava Lula e a esquerda no centro do escândalo do Master. Estava errado. A emissora pediu desculpas. Mas como seria o Powerpoint certo?

No centro, coloque Daniel Vorcaro como símbolo do ecossistema Master (que tem também Fictor, Will Bank, Reag, etc.).

Em volta, desenhe um primeiro círculo com o título "suspeitos de roubar com o Master". São os três governadores (todos de direita) e 15 prefeitos (14 de direita) que investiram dinheiro de aposentados no banco. A administração do PT da Bahia é suspeita de coisa diferente, mas pode ser colocada aqui –como um dos 19 casos. Se algum caso merece destaque é Cláudio Castro, do PL, que queimou R$ 1 bilhão dos aposentados do Rio no Master.


Desenhe um segundo círculo com o título "suspeitos de tentar salvar o Master com mutreta". Aqui entram: os partidos PL, PP, União Brasil, Republicanos, MDB e PSB, que assinaram urgência para projeto que lhes permitiria afastar a diretoria do Banco Central que investigava o Master (Req. 3651/2025); Ciro Nogueira (PP-PI) e Filipe Barros (PL-PR), que tentaram mudar a lei para aumentar a cobertura do FGC, dando sobrevida ao esquema (Emenda 11 à PEC 65/2023 e PL 4395/2024); Dias Toffoli, do STF, e Jhonatan de Jesus, ministro do TCU e ex-deputado do Republicanos, que tentaram melar o trabalho do BC.

Guido Mantega, que atuou como lobista para Vorcaro e conseguiu uma reunião dele com Lula e Galípolo; os dois diretores do Banco Central subornados por Vorcaro; e, com absoluto destaque, Ibaneis Rocha (MDB-DF), que deu um rombo de R$ 15 bi a R$ 20 bilhões no BRB tentando salvar o Master.

Nesse segundo círculo também devem entrar Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques. Não sabemos, ainda, se fizeram ou prometeram fazer algo para salvar o Master. Porém, seus familiares (esposa de Moraes, filho de Nunes Marques) têm contratos de advocacia com o ecossistema Master com valores suspeitos. Eu não incluiria Ricardo Lewandowski no mesmo círculo, porque a Polícia Federal, sob sua responsabilidade, prendeu o ecossistema inteiro; e porque os honorários que o Master lhe pagava eram muito mais compatíveis com os valores de mercado. Mas o leitor pode colocá-lo aqui, se achar melhor.

Desenhe um terceiro círculo com o título "recebeu dinheiro do Master para fazer campanha eleitoral". Aqui estão Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) e, sobretudo, Jair Bolsonaro. Além dos R$ 3 milhões recebidos de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, os passeios de jatinho de Nikolas Ferreira eram para fazer campanha para Jair.

Lula não está no Powerpoint. Até agora, não há sinal de que tenha roubado com o Master, tentado salvá-lo ou recebido dinheiro de seus sócios. Se algo aparecer, colocamos Lula.

Haddad é, pelo que se sabe, o único político que se negou a encontrar Vorcaro. Galípolo liquidou o Master.

Esse tipo de gráfico tem seus defeitos: há gente que fez coisas de gravidade diferente no mesmo círculo. Mais importante: o gráfico precisa ser atualizado com o conteúdo dos celulares de Vorcaro (mais importante que as delações).

Há outros envolvidos, mas todo o núcleo político do caso Master está aí. Agora pinte os envolvidos de direita de azul, os de esquerda de vermelho, os juízes de preto, e observe o padrão.

No balcão de compra e venda, o que se quer da República é uma fachada conveniente

Há algo de salutar no escândalo do Banco Master, pois toda grande crise (do grego "krinein", descriminar, ver nas fissuras) revela aspectos despercebidos da realidade. No caso do Master, mais do que revelar, trata-se de expor: quando não se conhecem detalhes, ao menos se sente o peso do poder paralelo de entidades corruptivas na dinâmica nacional. Na exposição, incrementada nas redes por mobilização neural, o argumento dá lugar à cenografia, como num conto moral. As massas veem o que sentem de coração.


Desse modo, a visibilidade do fato privilegia palavras e imagens projetivas: festa de noivado na Sicília orçada em R$ 21 milhões, R$ 363 milhões em celebração em Taormina, também na Itália, passeio de R$ 10 milhões em iate, jato transatlântico, champanhe e caviar inesgotáveis, beldades eslavas.

Por trás, o azeitamento corruptivo da máquina do poder em Brasília, efeito da falência da política positiva (homóloga à historicidade da ordem e do progresso), ultrapassada por organizações econômicas (bancos, grupos de finanças, agronegócio), direita e centrão.

Nessa crise, fenômenos e movimentos suscitam interrogações relevantes sobre as relações do poder com a sociedade, mas também com a mutação do sentimento de existência nas classes dirigentes.

São diversos os modos de realização da democracia liberal quando os caminhos sociais se decidem por elites abrigadas em protocolos entre formais e obscuros, à sombra do Estado. É o caso dos estamentos burocráticos que ganham autonomia decisória na debilitação político-institucional. Por exemplo, Judiciário e Legislativo vulneráveis a círculos financeiros e empresariais.

Um sentimento de existência permeável à sua própria exposição pública leva um capo fraudulento como Vorcaro à enunciação de verdades escandalosas: "Esse negócio de banco é uma máfia", "eu sou a anarquia do sistema". E como a mafialização é também evangélica, alega-se parceria com o "Senhor dos Exércitos" em desavenças pessoais. Algo correlato ao vaticínio bíblico sobre os que desprezam a palavra do Santo de Israel: " Por isso, o furor do Senhor se inflama contra seu povo, apodera-se dele e o castiga; os montes tremem, seus cadáveres, como carniça, jazem nas ruas" (Isaías, 5-25). Pequena lagoa de ódio que respalda a milícia particular destinada a agredir a imprensa e ameaçar de morte os dissidentes.

A exposição do escândalo levanta a suspeita de que um outro Brasil tenha nascido e se alojado nas vísceras federais como um chupa-cabra de energias do trabalho produtivo. Dinheiro é o sangue vital, corrupção o modo operatório. Nesse balcão de compra e venda, o que se quer da República é uma fachada conveniente, um "brilho de aluguel" (João Bosco/Aldir Blanc).

Não é fenômeno exclusivo, mas aqui a desigualdade social e o desprezo das elites no poder pelo território dão à fraude estatuto de cataclisma moral e cívico. Por isso, ao sentimento público de justiça pouco satisfazem, expostos, uniforme, chinelão e a cela exígua do mestre corruptor, por mais que bata nas paredes a cabeça tosada. Uma delação verdadeira, essa, sim, mostraria o conteúdo da caixa de Pandora chamada Brasília. Aí então, seria um verdadeiro salve-se quem puder.

A inteligência artificial e a nova fronteira da desigualdade no Brasil

A empresária Natalia Beauty provocou reações ao admitir que utiliza inteligência artificial para estruturar seus artigos publicados na Folha de São Paulo. Questionada após um leitor sugerir que seus textos pareciam “escritos por IA”, ela não negou. Disse que as ideias são suas, mas que usa modelos como o Claude, da Anthropic, para redigir as colunas. Comparou o uso da ferramenta às canetas emagrecedoras: muita gente usa, mas poucos assumem. A reação pública revelou um desconforto com o uso da tecnologia. Mas deixou de expor um fenômeno estrutural: no Brasil, a inteligência artificial pode se tornar um diferencial de classe.

O debate internacional já reconheceu esse fenômeno e lhe deu um nome: AI Divide – ou divisão da inteligência artificial. O conceito descreve uma nova camada de desigualdade baseada não apenas no acesso à tecnologia, mas na capacidade de utilizá-la estrategicamente para ampliar produtividade, renda e poder. Um estudo publicado pela JP Morgan mostra que elites econômicas passaram a incorporar a IA como ferramenta estratégica para ganhar eficiência, antecipar decisões e otimizar processos. A tecnologia aparece não apenas como instrumento de produtividade, mas como forma de converter tempo em vantagem competitiva.


Na mesma direção, estudos da McKinsey & Company sobre consumo e estilo de vida identificam que o bem-estar se tornou um novo luxo e que o activewear é o novo símbolo de status. Para sustentar essa estética de equilíbrio e performance é preciso tempo – e tempo, hoje, virou ativo econômico. A inteligência artificial entra nesse circuito como ferramenta estratégica: acelera tarefas, organiza informações e libera horas que podem ser reinvestidas.

No Brasil, os dados confirmam a concentração. Segundo a TIC Domicílios 2025, 69% da classe A utilizam inteligência artificial generativa, contra apenas 16% nas classes D e E. Entre pessoas com ensino superior, o índice chega a 59%; entre quem tem apenas ensino fundamental, cai para 17%. No total, 32% dos usuários de internet no país já utilizaram IA – mas a média nacional mascara uma desigualdade profunda no acesso qualificado à tecnologia.

Nos ambientes corporativos, a IA é apresentada como estratégia e inovação. Nos territórios vulneráveis, aparece associada a golpes digitais, deepfakes, perda de emprego e desinformação. Os riscos existem. Mas quando a diferença diária de produtividade, acumulada ao longo dos anos, se converte em desigualdade estrutural, limitar o debate apenas às ameaças reforça a exclusão. Ao enfatizar o risco sem oferecer capacitação, a mensagem implícita é clara: essa tecnologia não é para você.

O jornalismo já sente esse efeito. Grandes grupos já integram a IA às suas estratégias de produto e distribuição. Veículos independentes a utilizam de forma pontual, segundo estudo da Thomson Media, muitas vezes restrita a tarefas operacionais. Quando apenas organizações com maior capital incorporam a IA de forma estratégica, a desigualdade no ecossistema informacional se aprofunda.

Parte do debate público ainda tende a moralizar o uso da inteligência artificial, o que frequentemente dificulta uma discussão mais madura sobre sua adoção no Brasil. Utilizar IA seria uma forma de trapaça? Tornaria o trabalho menos legítimo ou o usuário menos inteligente? Ao enquadrar a questão nesses termos, o debate se desloca da discussão sobre infraestrutura, acesso e regulação – justamente os elementos que definem quem realmente se beneficia da tecnologia.

Em texto recente publicado no blog da Mozilla.ai, AI Generated Code Isn’t Cheating: OSS Needs to Talk About It, desenvolvedores defendem que o problema não é utilizar inteligência artificial para gerar código, mas fingir que ela não está presente. Paralelamente, o debate internacional sobre IA tem se deslocado de uma lógica de proibição para uma discussão sobre transparência, responsabilidade e distribuição dos benefícios da tecnologia. O relatório Mind the AI Divide: Shaping a Global Perspective on the Future of Work, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), chama atenção para um aspecto estrutural desse processo: a infraestrutura necessária para desenvolver e operar sistemas avançados de IA – como centros de dados, capacidade computacional e investimento em pesquisa – permanece concentrada em poucos países e empresas globais.

Assim, a disputa de poder na economia da inteligência artificial não se limita ao uso da tecnologia pelos indivíduos, mas envolve também o controle das plataformas, dos dados e da infraestrutura que tornam esses sistemas possíveis. A inteligência artificial não é neutra. Ela amplia estruturas preexistentes. Num país marcado por desigualdades históricas, o resultado tende a ser previsível.

Sem políticas públicas de formação massiva em IA, conectividade de qualidade e apoio a iniciativas locais e independentes, a tecnologia se consolidará como mais um benefício de classe. A questão não é se a IA será usada. Ela já está sendo. A questão é quem acumulará produtividade, renda e poder – e quem ficará apenas com o discurso do risco. Até agora, o futuro continua sendo apropriado pelas mesmas pessoas do presente.

Aplausos trumpistas

Trump 2.0 é muito melhor que Trump 1.0, não é? Bem, Bolsonaro 2.0 também será muito melhor.

Flávio Bolsonaro, ovacionado de pé no Texas durante discurso na CPAC, a conferência anual do movimento conservador americano

Os irmãos Bolsonaro e a sabotagem do Brasil

Flávio Bolsonaro, aquele que muitos tentam vender como o “rosto moderado” da família, resolveu vestir uma nova fantasia. Esqueçam o figurino de centro ou centro-direita que tentam lhe impor.

Reportagem recente do The New York Times pôs luz sobre o que vinha sendo cozinhado nos bastidores: um lobby intenso de Flávio e seu irmão Eduardo junto à administração de Donald Trump.

O objetivo? Convencer os americanos a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Segundo o jornal, Flávio chegou a entregar relatórios detalhados ao Departamento de Estado, atuando quase como um chanceler paralelo – ou, no bom português, um lobista de luxo.

A ideia parece saída diretamente do manual de “idiotices políticas” que a família domina com maestria.


Há uma diferença fundamental que os Bolsonaros fingem não entender: o crime organizado quer lucro. Organizações terroristas querem derrubar Estados e ideologias. Ao misturar as estações, Flávio não busca segurança pública para o brasileiro.

Ele busca um trunfo eleitoral para sua pré-candidatura em 2026 e, pior, abre as portas para uma intervenção externa que fere a nossa soberania.

Se Trump, cercado por uma equipe que só sabe dizer “sim senhor”, cair nessa conversa, entregará um presente de bandeja para Lula. O petista não perderia a chance de se enrolar na bandeira nacional para denunciar o óbvio: um atentado à autonomia do Brasil provocado por brasileiros.

Flávio Bolsonaro parece não perceber que, ao tentar criar esse fato internacional, pode estar cavando um buraco ainda mais fundo. A vida do senador tende a ficar muito mais complicada se Washington começar a ditar as regras no nosso quintal. O tiro, como de costume, tem tudo para sair pela culatra.

Depois das sanções, estimuladas pelo “chanceler do caos” Eduardo Bolsonaro, temos agora o patriota Flávio abrindo as portas para interferência em ano eleitoral.

É o amadorismo da família Bolsonaro atravessando o oceano (de novo) para passar vergonha.

Dondon

Chamava-se Dondon. Mais exatamente, o nome era Antônio Santana Castelo Branco, mas ele próprio acrescentava: — “vulgo Dondon”; e com o tempo, já morto, não se tornou de todo alheio a mim pela misteriosa rede dos afetos que o sangue confirma, pois era parente longe da menina moça que um dia me deu um lar e, mais perto, do meu professor de francês no Liceu Piauiense, que há quarenta anos quero e admiro, Cristino Castelo Branco, e de seu filho, Carlos, que amo como irmão. Pensando melhor, emendo a tempo. Esse clã dos Castelo Branco, no ramo piauiense, sempre foi muito da minha gente. Havia os amigos de meu pai, Fenelon, Heitor e houve os meus, Huguinho, que morreu em meus braços, de cabelos brancos e com quem se perderam os segredos mais típicos do vale do Parnaíba, exceto a altura exata de armador de rede, pois esse ainda teve ocasião de me confiar, e Sansão, menino de cachos vestido de veludo que vi adulto morrer dispersando o gênio, gênio mesmo de verdade, em noites boêmias, cujo amanhecer por vezes refluía para minha casa de Santa Teresa, onde iam parar suas compras de madrugada em mercado de peixe, siris vivos, ou algum pato que preparava ao tucupi com a mesma arte dos seus quadros.


Ora, isto posto, como ia dizendo, chamava-se Dondon e (com perdão da má palavra) era meio doido, senão doido inteiro. Ele próprio dizia que morava no Campo de Marte, no mesmo largo em que estavam a Santa Casa, o Asilo de Loucos, a Cadeia Pública e o Cemitério, que era para não dar trabalho em caso de necessidade…

Dizia, só? Não. Escrevia. Porque esse piauiense atarracado e falante, por cujo desvario nunca faltou caridade em casa de meus pais, era jornalista. Foi, mesmo, um dos primeiros jornalistas que conheci, e ainda hoje o vejo (ou revejo) com os olhos da infância, que viu outros, e no exemplo de outros se banhou, mas com Antônio Santana Castelo Branco, vulgo Dondon, aprendeu cedo como não se deve fazer jornal.

Desde logo, porém, direi uma coisa em seu louvor. Era tudo, em sua folha; e gabava-se disso. Diretor, redator, revisor, tipógrafo, distribuidor a domicílio, vendedor de número avulso no Bar Carvalho, não dependia de ninguém para fazer O Denunciante. Era esse o nome daquelas quatro páginas impressas; e nelas se derramava toda a maledicência da pequena cidade provinciana, a Teresina da era de Vinte. Do fundo da memória emerge o cabeçalho, e se o tempo não me trai nele se acrescentava aos apelidos e qualificações de Dondon no desempenho profissional de suas tarefas outra condição mais alta, a de “Defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz”.

Não propriamente a paz entre as famílias, nem dentro delas; porque algumas das hipóteses que os filhos da Candinha e a imaginação alucinada de Dondon transformavam em verdades incontestáveis e matéria impressa eram de molde a separar marido e mulher, filhos e pais, irmãos e cunhados, e assim por diante, sem falar em patrões e caixeiros, governados e governantes. Um destes últimos, cujo nome ainda hoje no Piauí é coberto de bênçãos pela excelência do seu governo, cometeu com Dondon a única arbitrariedade consciente de que sua mocidade severa e ativa o acusa. Estava-se em plena Revolução de 1930, o Tenente Landri Sales era interventor, cansou-se daquela maluquice exaltada que fazia da calúnia e da injúria um sistema jornalístico; mandou jogar a tipografia de Dondon no Parnaíba. E Antônio Santana Castelo Branco passou a viver de carregar banana em lombo de burro.

Falei em sistema. Era um sistema. O Denunciante não tinha preço fixo para a venda. Cada família, suscetível de vir a ter o nome impresso em tinta de jornal, era taxada, segundo as suas posses, que não segundo seus pecados. Pois a lembrança da espórtula arrecadada, cinco, vinte ou cinquenta mil réis que fossem, mesmo cem — o preço de dois bois —, se apagava totalmente da memória de Antônio Santana Castelo Branco, o defensor do Bem, da Humanidade, da Justiça, da Liberdade e da Paz, quando se sentava para escrever. Não assumia compromissos com ninguém — a não ser com a maledicência pública e com seu próprio desvario denunciatório. Nem adiantava pagar-lhe para que se calasse, pois, ao contrário de tantos cosmopolitas, não escrevia que lhe pagassem — e se calasse. Faltava-lhe o siso, não a honestidade.

Cheguei ao Rio em março de 1930. A 6 de janeiro de 1931 Félix Pacheco iluminava de alegria os meus dezesseis anos com um emprego no Jornal do Comércio. Fui ser repórter no Ministério do Trabalho e conheci Lindolfo Collor, com quem a Revolução de 30 dizia ao que vinha, coisa que as Revoluções faziam depressa naquele tempo. Lá se vão mais de 33 anos que vivo em jornal. Nunca mais vi O Denunciante. Dondon já morreu há muito. Eis senão quando esta surpresa brutal: seu espírito ressuscita e invade a imprensa brasileira com uma fúria a que poucos restam imunes. Mistério insondável da natureza, os tipos do O Denunciante, que o então Tenente Landri Sales Gonçalves mandou jogar no Parnaíba, germinaram monstruosamente. Sua tinta pesteou as águas; e com elas desceu rio abaixo, salgou o mar oceano e onde houve terra brasileira banhada pelo Atlântico e mais chão adentro esse vírus maníaco foi contaminar jornais e jornalistas. E no caminho em que vão as coisas, será em breve necessário acrescentar ao currículo das escolas de jornalismo a cadeira em que se ensine a técnica da delação e a arte da denúncia.
Odylo Costa, filho (Jornal do Brasil, 26 de maio de 1964)

A barata americana

Donald Trump anuncia o completo esmagamento do Irã. Logo a seguir surpreende-se com a resistência. Admite ter proposto um cessar-fogo. Diz que foram os iranianos a iniciar as conversações. Reivindica a vitória total. Na frase seguinte proclama, com a ingenuidade de um anjo recém-saído das mãos de Deus, que ninguém poderia prever o encerramento do Estreito de Ormuz. Escreve que o Irã tem 48 horas para reabrir a passagem, caso contrário, aniquilará várias usinas de energia. Anuncia que suspende por cinco dias os ataques às infraestruturas energéticas. Diz-se disposto a abandonar o cenário de guerra. Os europeus que resolvam o problema. Irrita-se com o alheamento dos europeus. Implora ajuda aos europeus. Grita que não precisa dos europeus. Confessa que os israelenses o forçaram a iniciar o conflito. Volta, ainda na mesma frase, a proclamar vitória. Diz que não se importa que os aiatolás se mantenham no poder desde que lhe entreguem o petróleo. Noticia o levantamento do embargo petrolífero ao inimigo mortal. Acrescenta que nunca os americanos foram tão vitoriosos. É uma vitória a seguir à outra. Tantas vitórias já cansam.

Analistas conservadores se esforçam por dar um véu de coerência aos desencontrados discursos do presidente norte-americano. Suam. Balbuciam. É um esforço formidável, inglório, como tentar dar consistência a uma efêmera nuvem num esplendoroso céu de verão.

“O problema é que Trump partiu para a guerra sem um Plano B”, reconhece um deles.

“Talvez não tivesse nem sequer um Plano A”, arrisca outro, num fio de voz.


Um terceiro elogia a intuição de Donald Trump. O presidente americano, segundo este especialista, e outros da mesma escola, seria uma espécie de poeta da estratégia política e militar. Eu diria mais — um profeta! O próprio Donald confessou ter tomado a decisão de atacar o Irã após escutar os seus ossos. Não disse quais. Podemos imaginá-lo a dialogar, por exemplo, com a tíbia direita. É mais fácil imaginá-lo debruçado sobre a tíbia do que a falar com o estribo, desde logo porque Trump nem deve conhecer a palavra, quanto mais o osso.

Acredito na intuição. Tenho para mim que a intuição é uma manifestação sutil de inteligência. O pensamento se organizando, num súbito clarão, antes da linguagem. Qualquer pedra tem mais intuição do que Donald Trump.

O atual presidente americano pode ser um inimigo temível, sim, não por causa da sua intuição, mas por causa da sua estupidez. A estupidez é imprevisível.

Canalhas, tiranos, pessoas perversas, todos eles traçam estratégias. Obedecem a estratégias. Podemos combatê-los. É muito mais difícil enfrentar um homem tolo, sobretudo um homem tolo com grande poder, porque, como acontece com as baratas americanas, nunca sabemos que rumo irá tomar.

Donald Trump é uma barata americana com uma bomba nuclear atada às costas. Uma barata americana esvoaçando, a toda velocidade, numa sala fechada.

Eu estou encolhido, imóvel, num canto da sala.

Medo. Muito medo.

sábado, 28 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


Sob escuta

No Hospital Miguel Bombarda existe um dos poucos edifícios panóticos construídos no mundo. Trata-se do Pavilhão de Segurança, hoje museu. Visitá-lo é perturbador se tivermos presente que se destinava a presos políticos e, no centro da edificação (construída em círculo), existia uma torre central com persianas que permitia ver sem ser visto. O sentimento de estar ou parecer estar sob constante vigilância induzia ao “bom comportamento”. A arquitetura incutia terror.

Um sentimento semelhante é o sentido pelos imigrantes nos Estados Unidos da América. A torre é a Inteligência Artificial, que cruza dados para identificar e localizar imigrantes ilegais.

Os imigrantes ilegais não têm os documentos adequados, mas o seu nome é conhecido pelas autoridades (a maioria iniciou o processo de legalização ou pedido de asilo). A ICE (a agência responsável pelo serviço de controlo de fronteiras) precisa, apenas, de uma morada atualizada.


O consumo de eletricidade numa habitação, o sinal de um telemóvel, uma câmara de vigilância num espaço público, o registo automóvel, a carta de condução, análises de crédito, dados das Finanças e da Segurança Social… Dados de registos públicos e de empresas privadas − sobre o imigrante e aqueles com quem se relaciona − são cruzados para localizar indivíduos e cumprir a promessa de deter e deportar os ilegais. Sejam ou não indivíduos com historial criminal (de acordo com os dados divulgados pela própria ICE, dois terços dos detidos não têm registo criminal).

Embora a Anthropic não tenha nenhum contrato com a ICE, no seu recente conflito com a Administração Trump afirmou que a utilização de Inteligência Artificial para “vigilância doméstica em massa” viola princípios democráticos. Dados inócuos per se, que quando conjugados permitem um retrato abrangente de qualquer pessoa – imigrante ou não. As ferramentas são hoje tão poderosas, que tal pode ser feito de forma sistemática, em grande escala e num curtíssimo espaço de tempo.

Do conforto da nossa casa, aqui na Europa, não devemos assumir que estamos imunes a abusos semelhantes. A questão sobre que dados são recolhidos por entidades públicas e privadas e como são usados não deve ser-nos indiferente.

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos tem vindo a pronunciar-se sobre a violação do artigo 8 da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, que estabelece a proteção dos dados pessoais, pelas leis de vários Estados-membros. Leis que impõem deveres genéricos de manutenção de registos de comunicações e partilha com as autoridades para a investigação de crimes graves, fora de um processo judicial específico.

O Tribunal admite este arquivo e acesso, mas com limitações. Os Estados, na sequência das decisões, estabelecem regras que na prática impõem um arquivo generalizado.

França alega a ameaça terrorista para manter um dever genérico de manutenção de registos. A Dinamarca estabelece o risco de criminalidade em termos tão apertados que 70% da população se encontra abrangida. Em Portugal, as operadoras de telecomunicações estão obrigadas a manter o registo de todas as comunicações pelo prazo de um ano.

Para que o sentimento de “sob escuta” não exista, melhor seria que o tema fosse abertamente discutido na revisão em curso do RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados) e que regras claras fossem estabelecidas quanto aos dados que podem ser recolhidos, mantidos e quando e para que fins podem ser cruzados com outros (e quais) por autoridades públicas. Não é apenas nos Estados Unidos da América que a lei não acompanha o poder da Inteligência Artificial.

Inteligências

Sistemas algorítmicos exercem cada vez mais influência em decisões judiciais, políticas públicas, campanhas eleitorais, rotinas administrativas e no próprio funcionamento da esfera pública em geral. Mas não parecem alterar o contraste entre os pavores e os entusiasmos relativos à inteligência artificial (IA).

Segundo alguns conceituados analistas, sistemas de IA tendem a destruir instituições cívicas capitais. Corroer a expertise, prejudicar decisões e isolar as pessoas umas das outras. Contra os desejáveis níveis de transparência, cooperação e responsabilidade, há quem garanta que a IA é um “câncer”.


Numa economia baseada em intensa extração de dados comportamentais, a IA não apenas organiza informações, mas antecipa, direciona e molda condutas humanas. Decisões que antes pertenciam ao espaço da política e da deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de modulação algorítmica, concentrados nas mãos de gigantescas plataformas privadas.

Além disto, é uma infraestrutura pesada, dependente de recursos naturais, trabalho humano precarizado e escolhas políticas. Na qual os algoritmos reproduzem e ampliam desigualdades — raciais, socioeconômicas e geopolíticas —, além de introduzir novas assimetrias de poder.

No extremo oposto, não falta quem veja na IA uma oportunidade decisiva de fortalecimento institucional. Enfatizando que ela aumentará substancialmente a capacidade produtiva e administrativa de Estados e organizações.

Para eles, o problema não estaria na tecnologia em si, mas na forma como seus ganhos são distribuídos. Instituições bem desenhadas poderiam usar sistemas inteligentes para melhorar políticas públicas, ampliar o acesso a serviços e liberar servidores humanos de tarefas repetitivas.

Mas também há quem prefira rejeitar a alternativa. Pois a IA seria uma tecnologia “plástica”, com efeitos que dependem dos incentivos econômicos, das regras institucionais e do grau de controle democrático. Sem regulação, tende a concentrar poder e renda, mas, com adequada gestão, pode favorecer participação, transparência e inovação institucional.

A ideia-chave desta espécie de “caminho do meio” é que os impactos da IA não estarão predeterminados por linhas de código. Mas, sim, pelas decisões coletivas que definirem quem controla os sistemas, com quais objetivos e sob quais mecanismos de responsabilização.

Não é outra a postura que mais pode estimular o pragmatismo: botar tamanha controvérsia em banho-maria de fogo baixíssimo, para melhor investigar as dinâmicas evolutivas de empresas que já façam uso dos sistemas algorítmicos.

Foi o que fez um time de 14 profissionais dedicados a este tipo de prática, cujas principais conclusões podem ser sintetizadas em meia dúzia de afirmações.

Isolada, a IA tende a gerar ganhos pontuais de eficiência. Mas, se incorporada a uma boa estratégia, pode redefinir o papel das empresas na economia e na sociedade. Ela só funciona bem se integrada a uma visão mais ampla de sustentabilidade, propósito e regeneração.

O comportamento empresarial contemporâneo precisa superar a lógica extrativista. Em um contexto de crise climática, desigualdade social e instabilidade econômica, modelos regenerativos — capazes de restaurar recursos naturais, fortalecer comunidades e criar valor de longo prazo — deixam de ser periféricos e passam a ser centrais.

Nesta perspectiva, a IA funciona como catalisadora: ao ampliar a capacidade analítica e preditiva das organizações, permite decisões mais informadas, responsáveis e voltadas a objetivos socioambientais.

Muitas empresas aplicam soluções de IA dissociadas da cultura organizacional, da governança e da diversidade, o que limita os seus melhores efeitos. Não terão êxito sem integração entre tecnologia, pessoas e valores, além de lideranças capazes de traduzir dados em boas decisões econômica e sociais.

No fundo, a IA tende a dar um novo sentido ao termo “estratégia”. Em vez de planos rígidos e lineares, as organizações precisam operar com aprendizagem contínua, adaptação e visão de longo prazo. E há empresas de diferentes setores usando inteligência artificial para inovar, reduzir riscos e reposicionar os seus negócios em direção a uma economia mais sustentável.

Em suma, não se trata apenas de usar inteligência artificial, mas de convertê-la em “inteligência estratégica”, colocando a tecnologia a serviço de um modelo de desenvolvimento menos vulnerável, versátil, ético e regenerativo.

São justificativas bem circunstanciadas destes seis entendimentos que constituem a riqueza reflexiva do livro “Inteligência Estratégica — Como IA e Regeneração Transformam os Negócios”.

Quase todo o conteúdo é de produção coletiva, apresentado em capítulos em coautoria com a organizadora Regina Magalhães. Consultora em inovação e sustentabilidade, Regina é doutora em ciência ambiental (Procam-USP), teve formações executivas no MIT e Stanford e ocupou posições de liderança na Microsoft, Johnson Controls, Schneider Electric e IFC.

Os Estados Unidos sob ameaça autoritária

Os americanos já não vivem numa democracia liberal: eis a conclusão do instituto sueco V-Dem, que monitora e classifica as democracias do mundo segundo a saúde de suas instituições. A organização mede periodicamente como os países efetivam os princípios constitutivos do ideal democrático: eleições livres; garantia das liberdades fundamentais; participação cidadã; processos decisórios com efetiva deliberação; e igualdade política plena.


A rigor, o relatório V-Dem 2026, que vê a potência do norte em franco processo de autocratização, apenas resume o colapso político em curso desde que Donald Trump voltou à Casa Branca. Os indicadores são inequívocos: rápida e gigantesca concentração de poder no Executivo federal; desmantelamento dos freios e contrapesos institucionais; desrespeito aos direitos civis e à igualdade de todos perante a lei; tentativas de calar a mídia, as vozes dissidentes e a academia; ameaça de supressão das associações livres.

Segundo o instituto sediado em Gotemburgo, está em curso o mais dramático declínio das instituições democráticas na América. Somente as regras eleitorais permanecem íntegras: os EUA são hoje uma democracia apenas eleitoral.

Pois agora são aquelas regras o alvo doméstico do presidente, ao mesmo tempo empenhado em destruir a arquitetura internacional pensada para assegurar a paz, quando possível. Na verdade, a integridade das eleições sempre esteve na mira de Trump. Ele nunca abandonou o falacioso discurso que atribuiu a vitória de Joe Biden, em 2020, a fraudes nas urnas.

Ao regressar à Casa Branca, tentou por meio de uma ordem executiva —o equivalente ao decreto presidencial brasileiro— impor o controle federal sobre os pleitos e multiplicar exigências que de fato limitariam o direito de voto. Foi brecado pelo Judiciário, que considerou a manobra ilegal.

Em breve, o Senado apreciará o "SAVE America Act" —assim, em letra maiúscula, no melhor estilo trumpista para as redes sociais—, em que retoma, com outro fraseado, as intenções da fracassada ordem executiva. Caso aprovado, ficará mais difícil para os eleitores alistar-se e votar nos pleitos federais —o que, segundo os críticos, poderá privar alguns milhões da cidadania política, em prejuízo, sobretudo, do Partido Democrata.

A meta do golpe de mão é assegurar a vitória do republicano e de seu partido nas eleições legislativas de novembro deste ano e no pleito presidencial de 2028. Mas a retórica que a justifica faz parte de uma estratégia comum aos populistas com ambição de autocratas.

Trata-se de lançar suspeitas sobre regras e procedimentos eleitorais estabelecidos, alimentando a descrença dos cidadãos, criando um seguro contra uma futura derrota nas urnas e justificativa para, se for o caso, contestá-la "na marra". Tal discurso é prova de que, para os populistas, a democracia eleitoral é um caminho para chegar ao poder, não uma forma de limitar seu exercício. Por isso, é um sistema intrinsecamente instável: ou vem associada ao regime de liberdades e a freios e contrapesos à concentração de poder, ou vira antessala do autoritarismo.

Difícil imaginar os EUA ocupando a posição atual na próxima edição do relatório do V-Dem.

Quem é o outro?

Estão as duas à espera de que um equipamento fique livre no ginásio enquanto falam. Uma delas conta a viagem que fez, acompanhando um DJ americano de Londres para Lisboa, em trabalho. “Quando chegámos ao aeroporto, perguntou: porque é que temos de passar pela Imigração? Eu sou americano!” Riem-se as duas. Não sei se da soberba do americano, que se considera a si mesmo um cidadão do mundo, incapaz de se ver em algum momento como imigrante ou estrangeiro. Ou se da ironia revelada pelo espanto de quem vem de um país que tem um Presidente eleito à custa de fazer da perseguição aos imigrantes uma prioridade política. Creio que são duas boas razões para se rir: a soberba e a ironia. Mas há um momento em que temos de deixar de rir.

No dia em que ouvi esta conversa, tropecei nas redes sociais nas imagens de um político de extrema-direita. Estava, como é costume, no meio de uma moldura de gente, que se atropelava para conseguir ficar no enquadramento das fotografias, tiradas numa feira qualquer. Como é costume, eram muito jovens os que se acotovelavam para estar perto do homem. Nada de novo. Mas só à primeira vista. Ao olhar melhor para as fotos, reparei que em várias delas havia jovens negros. Rapazes e raparigas negros, felizes por se fotografarem ao lado de quem faz vida de dizer que os direitos devem ser só para “os portugueses de bem”, de quem desmente que haja o racismo que certamente sentem todos os dias na pele, de quem defende a bondade do colonialismo português.

Congelei por um momento. Fiquei a olhar para as fotografias. Para aqueles rostos sorridentes, os cabelos afro, os fatos de treino da Adidas e todos aqueles sinais exteriores de quem vem da periferia. Todos aqueles sinais que, na rua errada à hora errada, são motivo suficiente para ficar encostado a uma parede, numa rusga da polícia. Aquela polícia que a extrema-direita acha que deve “atirar a matar”, antes mesmo de perguntar.


Mesmo muito jovens, é impossível que ainda ninguém lhes tenha atirado um “preto, vai para a tua terra”, que não tenham percebido como os seguranças os seguem quando entram numa loja ou como algumas mulheres se agarram às carteiras e baixam o rosto quando passam por eles num passeio. É impossível que não percebam que, quando se fala em “portugueses de bem”, estão excluídos, mesmo que estudem e se matem a trabalhar, mesmo que sigam todas as leis e todas as regras. É impossível que não tenham percebido já que, para alguns, é muito mais fácil seguir todas as leis e todas as regras do que para outros. Ou será que não? Será que a sucessão encantatória de vídeos no TikTok os anestesiou a ponto de acharem que o mérito tudo alcança, que a pobreza é coisa de falhados, que a riqueza está à distância de um post viral ou da aposta certa numa criptomoeda?

Independentemente do que pensem estes jovens sobre tudo isso, uma coisa é certa: eles não se consideram o alvo do discurso de ódio da extrema-direita. Da mesma maneira que o americano não se considera estrangeiro, mesmo quando atravessa as fronteiras de outro país. Da mesma forma que uma e outra vez ouvi imigrantes (muitas vezes brasileiros) alinharem com o discurso de que têm de se mandar embora todos aqueles que aqui vivem de subsídios, mesmo que não haja subsídios para quem nunca descontou por eles (à exceção do RSI, que tem o valor de €155,52 por pessoa e só abrange neste momento 80 mil famílias).

E depois há as mulheres. Aquelas que acham que as mulheres deviam estar em casa a cuidar dos filhos, mas estão no Parlamento. Aquelas que acham que as mulheres não deviam votar, mas são militantes de um partido e por vezes candidatas a que votem nelas. Aquelas que defendem que os homens é que devem sustentar-nos, porque o trabalho não combina com a energia feminina, mas fazem fortunas a partilhar vídeos machistas no Instagram. Aquelas que têm nojo do feminismo que lhes deu voz e escolhas e nem ousam questionar um capitalismo que invisibiliza e desqualifica um trabalho de cuidado que escraviza tantas mulheres, deixando-as à beira do esgotamento.

O que tem toda esta gente em comum? Todos eles se acham exceção. Todos eles ouvem discursos de ódio feitos à medida da pele que vestem e acreditam que, por alguma razão, não serão atingidos. Todos se acham acima da categoria de alvo que apontam aos outros. Todos se sentem a salvo dos ataques.

Não sei o suficiente de psicologia para descortinar as razões desta incapacidade de perceber que se é aquele que se odeia, que se está com as palavras a atiçar uma fogueira onde outros quererão ver-nos arder. Mas talvez tudo isto tenha que ver com o mesmo mecanismo que faz um racista abrir uma exceção para “um amigo preto”, um homofóbico exibir “um amigo gay” ou um machista ressalvar sempre que ama “a mulher e as irmãs”. O ódio funciona melhor quando é abstrato. Odiar categorias é fácil. Odiar quem nos olha nos olhos é muito mais difícil.

As pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres, gays, que se juntam às fileiras de partidos de extrema-direita ou que dão força aos seus discursos olham para si e não veem o que imaginam nas pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres e gays que acham que já têm direitos a mais, que vivem à custa de subsídios, que têm a vida fácil, que não cumprem a lei nem trabalham. Porque cada um deles sabe interiormente que os seus direitos são frágeis, que nunca viveram à custa de um subsídio e que se matam a trabalhar. Se eles não são assim, nunca serão penalizados pelo ódio que instigam. Serão os outros. E nunca ninguém sabe bem quem é outro. Nunca ninguém lhe sabe o nome ou lhe conhece a história. E, se conhece, então é só mais uma exceção. Os outros é que são os maus, os preguiçosos, os que andam à mama.


A desumanização é a maior arma das políticas de ódio. E é por isso que a proximidade as desarma. Nada combate melhor esse vírus do que conhecer o outro, ver-lhe a cara, dar-lhe um nome. Nada desmontará melhor esses discursos do que sairmos das redes sociais e encontrarmo-nos cara a cara, onde não há caricaturas, mas gente. Nada será mais eficaz do que erguermos comunidades de gente que se conhece e que se ajuda. Podemos e devemos mudar o mundo, uma rua de cada vez, um encontro de cada vez, recebendo os outros com um sorriso e a vontade de os escutar. No fim, perceberemos que somos todos muito mais iguais do que imaginávamos.

Não se deve subestimar o perigo à democracia

A democracia corre grave perigo, em todo o mundo. Essa é a mensagem de dois conceituados relatórios recentes - um da V-Dem, da Suécia, intitulado, “Desmonte da Era Democrática?”, o outro da Freedom House, dos Estados Unidos, intitulado “A Crescente Sombra da Autocracia”. Eles apresentam dois argumentos fundamentais. O primeiro é que fenômeno chamado por Larry Diamond, de Stanford, de “recessão democrática”, iniciado há 20 anos, começa perigosamente a parecer-se mais a uma depressão democrática. O outro é que, em 2025, o governo Trump iniciou o que se revelou o declínio mais rápido na saúde de qualquer grande democracia nos últimos tempos.

De acordo com a Freedom House, “a liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025”. “Um total de 54 países passou por uma deterioração em seus direitos políticos e liberdades civis, enquanto só 35 registraram melhoras”. A V-Dem mensura esse declínio não apenas pelo número de países afetados, mas também pelo número de pessoas. Conclui que entre 2005 e 2025, a proporção da população mundial vivendo em autocracias aumentou de 50% para 74%, enquanto a que vive em verdadeiras democracias liberais, onde se oferece um leque completo de direitos civis e legais, além de eleições, desabou de 17% para apenas 7%.


Acima de tudo, a V-Dem argumenta que o mundo nunca antes viu tantos países se “autocratizando” ao mesmo tempo. A liberdade de expressão sofre uma queda particularmente rápida, com 44 países tendo apresentado um declínio nesse aspecto em 2025. Até a tortura vem sendo mais empregada.

Ainda mais importante, isso também vem ocorrendo nos EUA. O índice agregado da V-Dem sobre a saúde da democracia dos EUA caiu para os patamares de 1965, logo na esteira da Lei dos Direitos Civis de 1964. Desta vez, contudo, o que vemos é um exemplo clássico de uma tentativa de um Poder Executivo de derrubar uma democracia liberal por dentro. Os freios legislativos ao Executivo - possivelmente o mais fundamental de todos os controles constitucionais - chegaram a seu menor patamar em 100 anos, segundo a V-Dem. Os direitos civis e a igualdade diante da Justiça caíram para os piores níveis desde meados dos anos 1960 e, apesar de toda a ladainha sobre o “discurso livre”, a liberdade de expressão está em seu pior ponto desde o início dos anos 1950. Segundo avalia a V-Dem, apenas os componentes eleitorais da democracia ficaram intocados, pelo menos por enquanto.

Para os que duvidam de tudo isso, recomendo a leitura de Trump Action Tracker (o rastreador das atitudes de Trump), que lista 2.816 ações tomadas desde janeiro de 2025. Talvez o aspecto mais gritante do que está ocorrendo seja o descaramento da corrupção. A ideia pela qual se lutou por tanto tempo de que o serviço público é confiado a alguém em nome do benefício público, não uma oportunidade para enriquecimento pessoal, foi quase inteiramente abandonada. Alguns argumentam, de forma plausível infelizmente, que pessoas com informações privilegiadas têm conseguido lucrar com operações financeiras por possuírem conhecimento prévio de anúncios presidenciais, como o desta semana que retirou ameaças contra o Irã.

O que se deduz a partir de tudo isso? De acordo com a Freedom House, a qualidade da democracia americana está agora no mesmo nível da sul-africana, embora esta venha melhorando, não se deteriorando. Segundo a V-Dem, a velocidade do declínio americano em 2025 superou em muito a da Rússia, Índia, Turquia e Hungria no início da queda desses países. Caso volte a ocorrer um declínio similar no índice de democracia liberal da V-Dem em 2026, os EUA chegariam no patamar em que a Hungria estava em 2018 e terão chegado lá muito mais rápido.

A liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025 (Freedom House). De um total de 54 países, só 35 registraram melhoras em seus direitos políticos e liberdades civis. Subiu a 74% a proporção da população mundial que vive sob uma autocracia (V-Dem)

Infelizmente, até agora nenhum desses outros declínios foi revertido. Isso porque esses aspirantes a autocratas sabem muito bem que não podem se dar ao luxo de perder eleições, e porque conquistaram poder suficiente para impedir isso. A primeira parte certamente já se aplica a Donald Trump, sua família e muitos membros do governo. Alguém duvida, então, de que o governo fará tudo o que estiver a seu alcance para “vencer” as eleições de meio de mandato em novembro, sem dúvida alegando o tempo todo que vêm tentando apenas garantir eleições “justas”? Se eles vão ter sucesso? Veremos.

Na história da humanidade, a democracia, em qualquer forma, é uma raridade, em especial em grandes potências. Muito mais comuns são a autocracia, a oligarquia ou alguma combinação das duas. Foi apenas no fim do século XX que a democracia se tornou uma espécie de norma global. Os EUA tiveram um papel decisivo nesse êxito, tanto em virtude de seu poder quanto de seu exemplo.

O “poder” ainda permanece, embora o governo Trump esteja montando um ataque contra os alicerces desse poder no Estado de Direito, na segurança dos direitos de propriedade, na governança eficaz, na ciência avançada e na liberdade de imprensa. Já o “exemplo” deixou de existir. Para o mundo, os EUA demonstram diariamente seu repúdio aos valores que as pessoas acreditavam que o país representava. Em particular, nos países em desenvolvimento, mas também em muitos outros, as pessoas estão mais do que familiarizadas com aquilo que os EUA de Trump representam: despotismo. Os EUA nunca estiveram perto de ser um modelo perfeito dos ideais democráticos. No entanto, eram esses ideais que o mundo passou a acreditar que os EUA representavam.

Com os EUA sob o comando de pessoas que desprezam a tradição iluminista que criou a civilização ocidental atual (que não é aquela que eles imaginam), onde iremos parar? Não sabemos. Talvez, a democracia americana dê um jeito de se salvar. Talvez, a pura ferocidade do ataque gere a resposta necessária. Infelizmente, a Europa continua dividida entre seus membros, e dentro deles próprios. Portanto, hoje carece da disposição de defender a democracia pelo mundo. O restante das democracias reais pelo mundo também é fraco demais para fazer grande coisa nesta era de autocratas.

Ainda assim, recuso-me a entrar em desespero. As noções de que o Estado não pertence a um governante absoluto, mas, sim, ao povo; de que as pessoas precisam ter o direito de falar e de ser ouvidas; de que a lei existe para protegê-las; e de que não se pode confiar a ninguém poder absoluto sobre elas continuam sendo, na minha visão, as melhores da política. No entanto, seria tolice acreditar que elas estão seguras. Mais uma vez, elas correm gravíssimo perigo. 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Pensamento do Dia




Flávio Bolsonaro moderado é conversa mole para boi dormir

O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, anda vendendo uma imagem de moderado. Não vai colar. Para citar a velha canção "Touradas em Madri", isso é conversa mole para boi dormir. Estamos falando do filho 01 de Jair Bolsonaro, o líder da extrema direita brasileira, condenado e preso por tentativa de golpe e atentado à democracia e ao Estado de Direito.

A coreografia de moderado tem certo interesse. Atrai, por exemplo, simpatias da direita liberal, viúva da sempre chorada terceira via, que rejeita Lula e o PT, e tem histórico de se inclinar por projetos autoritários, na expectativa de que adotem uma linha privatista na economia. O caso mais recente foi o apoio ao próprio Jair Bolsonaro.


É um tipo de perfil que se observa em outros países da região. O filósofo Vladimir Safatle apelidou essa irrefreável tendência de liberais latino-americanos à aliança com a extrema direita de "complexo de Vargas Llosa". Referência ao grande escritor e político menor peruano que, lido e esclarecido, na hora da decisão optava pela pior direita.

Flávio Bolsonaro ainda não foi submetido ao ambiente de campanha. Tem-se a impressão de que a esquerda está até evitando fazer marola para esperar a confirmação da candidatura de Tarcísio de Freitas à reeleição paulista, que deve ocorrer no início do próximo mês.

Tão logo o clima comece a esquentar, o 01 vai ter que explicitar suas posições ideológicas, suas simpatias por Donald Trump, seu reacionarismo profundo. Terá também que dar respostas a encrencas pregressas, como o esquema de rachadinha em seu gabinete, a proximidade fraternal com a milícia no Rio e acusações de lavagem de dinheiro, entre outras situações, para dizer o mínimo, desconfortáveis.

Por enquanto, a subida do candidato nas pesquisas, que têm revelado empate em segundo turno contra Lula, não é desprezível, porém não diz muita coisa sobre a corrida eleitoral pela frente.

É certo que o petista tem problemas, a começar pelo desgaste do personagem, o cansaço que sua longevidade política naturalmente acarreta. Mesmo alguns setores de inclinação progressista parecem sentir falta de novidade, prefeririam um candidato de renovação da centro-esquerda que Lula representa. Não se sabe bem as razões pelas quais conquistas verificáveis do atual governo, em economia e outras áreas, não se transformam em aumento de popularidade.

Lula, contudo, é um animal eleitoral e terá a máquina federal na mão.

Quanto ao cenário mais amplo, há enorme incerteza. Não apenas pelas aventuras de Donald Trump, mas sobretudo pelos desdobramentos do caso Master. Virá uma delação? Será confiável? Está muito claro que até aqui o abacaxi está muito mais difícil de ser descascado pela direita, em que pesem power points e tentativas frequentes de colocar o escândalo no colo da esquerda.

É de se perguntar também se a manutenção de Jair Bolsonaro em casa irá mudar alguma coisa. Deixará de ser tratado como vítima do STF e do "sistema sádico" da esquerda. Flávio não ganha com isso. Para um nome que não reúne qualidades para conquistar o cargo, talvez o melhor seja continuar fazendo dancinhas, como a que apresentou no Nordeste ao som de "01, novo capitão".
Marcos Augusto Gonçalves

'Eleitos' só mudam de cara

De uma forma que pode surpreender aqueles que vivem em um ambiente tão turbulento, existem apenas três casos no Oriente Médio em que um Estado ou poderes dentro dele são liderados por entidades que se declaram representantes de Deus na Terra: o Irã, governado pelo aiatolá (literalmente, sinal de Deus), detentor da autoridade suprema no país; o Hezbollah (Partido de Deus), que foi liderado pelo líder dominante Hassan Nasrallah até seu assassinato; e Israel, onde partidos religiosos, de todo o espectro ultra ortodoxo e nacionalista, desempenham um papel decisivo na esfera política e na sobrevivência do governo Netanyahu.

Roni Weinstein, no jornal Haaretz de Israel

Esse grande simulacro

Cada vez que nos dão lições de amnésia
como se nunca houvesse existido
os ardentes olhos da alma

ou os lábios da pena órfã
cada vez que nos dão aulas de amnésia
e nos obrigam a apagar
a embriaguez do sofrimento
convenço-me de que meu território
não é a ribalta de outros

Em meu território há martírios de ausência
resíduos de sucessos / subúrbios enlutados
mas também singelezas de rosa
pianos que arrancam lágrimas
cadáveres que ainda olham de seus hortos
lembranças imóveis em um poço de colheitas
sentimentos insuportavelmente atuais
que se negam a morrer no escuro

O esquecimento está tão cheio de memória
que às vezes não cabem as lembranças
e rancores precisam ser jogados pela borda
no fundo o esquecimento é um grande simulacro
ninguém sabe nem pode / ainda que queira / esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de Santiago

o dia ou a noite em que o esquecimento estale
exploda em pedaços ou crepite /
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arrastarão afinal a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento

Mario Benedetti

Donald Trump faltou às aulas de História

A partida, para um leigo, enviar uma força militar com a missão de capturar ou liquidar o líder de um país parece uma tarefa que obedece a um mesmo plano de ação: aniquilar a voz de comando e, dessa forma, fazer cair o regime e, ato contínuo, impor um novo poder ou uma nova forma de coerção.

No entanto, se as operações militares podem ser semelhantes ou até procurar objetivos aparentemente iguais, há muito mais que precisa de ser levado em linha de conta, antes de dar ordem para avançar.

É preciso ter respostas prontas para uma mão-cheia de perguntas: Como é a estrutura desse regime? Qual a sua antiguidade? De que forma se preparou para um eventual ataque? Qual é o histórico do país face a invasores externos? De que forma a geografia do seu território pode albergar e ampliar um foco de resistência?


Naturalmente, como já se percebeu, é totalmente diferente uma ação militar de decapitação do líder do regime num país fundado há apenas dois séculos, como a Venezuela, de outra numa nação, como o Irão, que, apesar das suas transformações, é a herdeira de uma civilização com três mil anos de História. É como querer comparar a personalidade de uma criança de 2 anos com a do seu avô, octogenário.

No entanto, cada vez parece mais evidente que esse foi o erro infantil cometido por Donald Trump, ao aceder aos apelos do seu parceiro Benjamin Netanyahu para intervir militarmente no Irão – onde o único beneficiado, no final do dia, seria o primeiro-ministro israelita, que precisa de estar permanentemente em batalha atrás de batalha para continuar no poder.

Pensar que, por exemplo, o regime tenebroso dos aiatolas seria derrubado apenas com o corte da sua “cabeça” principal é, no mínimo, não ter memória histórica. E é não perceber que o sentimento antiamericano no Irão não nasceu em 1979, com a fundação da República Islâmica, por Khomeini. As sementes do antiamericanismo foram plantadas pelos próprios líderes de Washington, em 1953, quando promoveram o golpe que derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, para manterem o acesso ao petróleo iraniano, cuja exploração aquele governante democraticamente eleito queria nacionalizar.

Como a História indica, as mudanças de regime impostas de fora raramente resultam em democracias estáveis. E pior: costumam até radicalizar a população contra o invasor. Foi isso que sucedeu, no início dos anos 1980, quando o Iraque invadiu o Irão, dando início a uma das mais sangrentas guerras da segunda metade do século XX. Esse conflito, iniciado com um ataque externo, acabou por ser fundamental para unir as fações internas, fortalecendo as jovens instituições criadas com a revolução islâmica, em vez de as enfraquecer.

Depois, temos a geografia. Não só as montanhas que dificultam o acesso ao território, mas também a localização estratégica e fundamental para a economia mundial, que permite ao Irão controlar o estreito de Ormuz – aquele acidente geográfico que já há cinco séculos o português Afonso de Albuquerque percebeu ser fundamental para controlar o comércio no Índico (quando ainda nem se sabia para que serviria aquele líquido viscoso e negro a que chamamos petróleo…).

Como bem observou, recentemente, o historiador britânico Niall Ferguson (conhecido, aliás, pelas suas posições profundamente conservadoras), os EUA podem estar prestes a repetir o erro cometido pelos britânicos, na I Guerra Mundial, quando o jovem Winston Churchill, então primeiro lorde do almirantado e confiante na imensa capacidade militar do Império Britânico, ordenou a invasão de Galípoli, com o objetivo de abrir o estreito de Dardanelos, que permite a ligação entre o Mediterrâneo e o mar Negro, e que os otomanos tinham bloqueado. A operação revelou-se um desastre total e ficou como uma das maiores derrotas de sempre das forças britânicas.

Ninguém, com seriedade, pode esperar que Donald Trump se debruce sobre a História e a geografia dos países em que deseja intervir. Ele só se preocupa com a defesa dos seus interesses – especialmente, aqueles que podem ter mais impacto nos seus negócios e nos da sua família. Por isso, o problema não é Trump decidir por instinto, com base na ignorância e sem uma avaliação correta dos riscos. O que preocupa mesmo é o muro de silêncio que ele conseguiu erguer à sua volta, sem que ninguém tenha autoridade para o chamar à razão ou ao confronto com as lições do passado. Trump pode ter faltado às aulas de História, mas se insistir neste caminho, a História não vai perdoar-lhe. E, se calhar, bem mais depressa do que ele pensa.
Rui Tavares Guedes

Domiciliar de Bolsonaro é caso de memória curta e editoriais de ocasião

Há uma coincidência curiosa nas páginas de opinião dos grandes jornais essa semana: Tanto O Globo quanto o Estadão decidiram que é hora de o Supremo Tribunal Federal ter um “gesto de sensatez e humanidade” e transferir Jair Bolsonaro para a prisão domiciliar. O argumento é o quadro clínico sensível. É a mesma música cantada pela família e pelos advogados de defesa, agora com o coro da dita imprensa tradicional.

Engraçado que essa súbita onda de humanitarismo parece ter destino certo.

Não se lê nos mesmos editoriais uma linha sequer sobre os milhares de presos que sofrem de doenças graves, muitas vezes piores que as de Bolsonaro, e que continuam mofando e morrendo nos presídios brasileiros sem qualquer “extrema cautela” das instituições. Para esses, a legislação que admite a domiciliar em casos de saúde incompatível com o cárcere parece não existir.

O Estadão fala em “dever de maturidade” e lembra que a prisão de um ex-presidente nunca é um fato trivial. De fato, não é. Bolsonaro é o primeiro ex-presidente condenado por tentativa de golpe. Mas onde estava essa mesma sensibilidade institucional quando Lula, preso em Curitiba, foi impedido de ir ao velório do próprio neto? Onde estavam os editoriais pedindo “serenidade” e “humanidade” naquele momento?

O que guardamos na memória é o editorial de 2018 que classificava a escolha entre a democracia e o golpismo como uma “escolha difícil”.

A tentativa de comparar o caso de Bolsonaro ao de Fernando Collor – que obteve a domiciliar alegando males como Parkinson – ignora o essencial: o comportamento do réu. Bolsonaro sempre foi um desrespeitador contumaz das ordens judiciais. Foi para a Papudinha justamente porque não sabe conviver com os limites da lei.

Dar a Bolsonaro o benefício da domiciliar agora, sob o pretexto de um quadro que o Estado já se provou capaz de tratar com 144 atendimentos em um mês, não é humanidade. É privilégio. É tratar um cidadão comum como se ainda estivesse acima da lei por conta do cargo que ocupou e que tentou manter no grito.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


Aos pobres, a podridão


Se para o Bolsonaro cabe o direito de ser transferido para regime domiciliar, antes disso também cabe o direito para o réu pobre, preto e periférico que está em situações semelhantes ou até piores. 
Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do Prerrogativas, grupo de advogados

Como as Big Techs querem nos tornar dependentes da IA

Acreditar que as máquinas podem superar e controlar os seres humanos pode ser uma armadilha alienante. Isso porque é preciso entender que a ficção científica (FC) se desenvolve com a Revolução Industrial, isto é, quando a burguesia passa a ter o monopólio dos principais meios de produção da era contemporânea: as máquinas.

As máquinas – e o conhecimento científico para desenvolvê-las – são o centro de diversas histórias de FC. Quando dissemos que as máquinas vão controlar os seres humanos, como no filme Matrix, estamos escondendo, colocando um véu sobre a classe que controla as máquinas: a burguesia.

A burguesia nunca irá perder o controle sobre as máquinas. Isso é um engodo para temermos o domínio das máquinas, e não à exploração burguesa, algo similar ao subtítulo do Realismo Capitalista, de Mark Fisher, “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.


O mesmo se diz quando se apela para a ideia de que os robôs irão se revoltar contra os seres humanos. Geralmente é um discurso contra a escravidão, como no conto O homem bicentenário e no game Detroit: become human. Escravos já foram meios de produção, sim. Mas máquinas não são pessoas. Na verdade, esse discurso esconde a exploração atual dos trabalhadores livres, parecendo que não há motivos para se rebelarem, mas as máquinas, por outro lado, sim, pois a exploração de verdade é quando se é escravo, quando se tem a liberdade tolhida, e não quando um trabalhador de plataforma que, supostamente, faz o seu próprio horário.

A ficção cinetífica está fazendo 100 anos. Após a definição de Hugo Gernsback em 1926 (“um romance cativante entremeado de fatos científicos e visão profética”), o gênero se consolidou. Essa data pode ser útil para discutirmos o projeto de poder de quem controla os principais dispositivos tecnológicos da atualidade.

Concordamos com a posição do professor Adam Roberts de que “a FC é mais bem definida como ficção tecnológica”. A tecnologia é o principal elemento na “retórica que evoca para justificar seu elemento fantástico”. Por isso que David Allen define ficção científica “pela presença de ‘engenhos’ produzidos pela tecnologia resultante de ciências extrapoladas”.

Isaac Asimov chamou o medo imaginário de que as máquinas possam superar os seres humanos de “complexo de Frankenstein”. “O êxito de Frankenstein foi tão grande que a ideia básica – ‘o homem cria o robô; o robô mata o homem’: – se repetiu sem parar numa série inacabável de histórias de ficção científica”.

Asimov acreditava que se entendermos inteligência como “a perspicácia, a intuição, a criatividade, a capacidade de analisar um problema como um todo e adivinhar a resposta pela ‘percepção’ da situação”, “os computadores são, decididamente, muito ignorantes”. Contudo, já em sua época, o neoliberalismo estava trabalhando para fundar uma nova episteme que iria impor um novo padrão de inteligência.

A professora Tatiana Roque mostra que, durante a Guerra Fria, “surgiu uma nova visão sobre ‘racionalidade’, diferente da própria ideia de ‘razão’. Foi nesse momento que se passou a conceber a racionalidade humana de modo similar aos algoritmos”. Surge o Homo economicus, “que decide em função de perdas e ganhos”.

Trata-se do que os liberais chamaram de “paradigma da escolha racional” no qual “o homem age por meio do cálculo entre custo e benefício”. Ser inteligente passou a ser saber investir o mínimo possível para se conseguir o maior ganho. Isso é ser lógico e racional. Ser inteligente é tomar decisões a partir dessa lógica, semelhante ao modelo econômico.

Durante a Guerra Fria, vivia-se a iminência de uma guerra que ninguém jamais havia lutado: a guerra nuclear. Um pânico se instalou no mundo. Era, portanto, “preciso desenvolver métodos sistemáticos para lidar com incertezas”. Assim, a computação ganha espaço mediante as pesquisas operacionais que exploravam “técnicas para simular decisões a partir de dados e prospecção de cenários”. “Tarefas complexas, antes atribuídas a pessoas experientes e hábeis, com virtudes para julgar e avaliar cenários de modo original, eram reduzidas a sequências de passos automatizados”. A nova concepção de racionalidade jogava a autoridade de tomar decisões nas mãos de uma máquina que poderia simular comportamentos e, a partir daí, tomar decisões. “Com base nesses pressupostos, bastante redutores, a racionalidade adquiria um aspecto algorítmico”.

Mas com o fim da corrida armamentista entre EUA e URSS, há uma queda de investimento na inteligência artificial. Alguns chamam de segundo inverno da IA. Mas a ideia de reduzir a inteligência humana ao princípio da escolha racional permaneceu como um projeto cultural do neoliberalismo, o que, ao longo dos anos, contribuirá para a ascensão atual das máquinas e aplicativos inteligentes. Tanto que, já em 1997, o professor da Emory University, Rammath Chellapa, “indicava que o futuro das tecnologias digitais estaria umbilicalmente ligado aos interesses da lucratividade das corporações”.

As classes dominantes perceberam que para implantar o neoliberalismo era necessário promover uma reforma cultural. Para tanto se empenhou em “estratégias culturais orientadas a reverter certa base de consenso e de legitimidade acerca da consideração do espaço público como um cenário aberto à negociação-luta por direitos individuais, coletivos e sociais”, substituindo tais premissas por um novo consenso, no qual incorpore “os valores de empresa, da competitividade, da mensurabilidade e do lucro”. O objetivo não é formar cidadãos interessados em conquistar e expandir seus direitos, mas construir a mentalidade de prosperidade individual por meio da competição e do investimento em si. As noções de igualdade, cidadania e direitos sociais devem ser substituídas por noções econômicas e tecnocráticas de eficácia, produtividade, eficiência e êxito pessoal.

Assim, o projeto cultural do neoliberalismo é a idiossubjetivação, “um processo de formatação de sujeitos que tem por objetivo a construção de indivíduos egoístas, incapazes de reconhecer a importância da coletividade e que negam a possibilidade de uma esfera comum, isto é, que diga respeito a todos”.

Com essa redução da inteligência humana à racionalidade instrumental, como não pensar que a máquina irá, de fato, substituir os seres humanos?

Dora Kaufman, partindo dos estudos de Roberto Lent, explica que tecnicamente estamos a anos-luz da possibilidade das máquinas se equipararem ao cérebro humano. Isso porque o ser humano possui 86 bilhões de neurônios, “considerando apenas os neurônios, como em média ocorrem 100 mil sinapses por neurônio, temos um total aproximado de 8,6 quatrilhões de circuitos que, ainda por cima, são plásticos, ou seja, mutáveis continuamente”. Só para termos uma noção, “o tempo de computação e análise utilizado por pesquisadores chineses para estudar as conexões de 135 mil neurônios de uma mosca foi de 10 anos, estimando-se em 17 milhões de anos o tempo necessário para o mesmo procedimento no cérebro humano”.

Outro ponto é levantado pelo neurocientista Antônio Damásio. Para ele, a inteligência humana não é fruto somente do cérebro, mas do corpo, das vísceras, responsáveis, em grande parte, pelos sentimentos. Centenas de milhares de decisões que tomamos ao longo da história tem como fonte os sentimentos. “Um sistema nervoso não forma uma mente por conta própria, e sim em cooperação com o resto de seu organismo”. Sendo assim um cérebro sem corpo é uma “inteligência” muito aquém do potencial humano.

Mas, a intenção dos donos dos meios de produção, hoje encastelados no Vale do Silício, os mesmos que orquestram o capitalismo de dados, não é substituir o ser humano pela máquina, mas nos tornar dependentes destas. A produção de idiotas é fundamental para o projeto lucrativo da classe dominante. O conhecimento não deve ser reflexivo, devemos admirar as respostas rápidas e objetivas, um formato que uma IA pode produzir com facilidade. Para Rubens Casara esta é “uma das mais importantes estratégias utilizadas no processo de idiossubjetivação”: a “simplificação excessiva”. “No lugar da reflexão bem-informada, a decisão rápida e acrítica passa a ser apresentada como algo positivo”. De modo que a “valorização econômica da ignorância” se relaciona “à demonização da educação, da cultura e do pensamento reflexivo” e “cada vez mais pessoas recorrem a uma linguagem empobrecida, bem como slogans argumentativos, frases feitas, jargões, análises superficiais”.

Não é que a máquina ficou mais inteligente, a inteligência humana que foi sendo reduzida a princípios que podem ser “algoritmizados”, por meio de um projeto cultural neoliberal (agora coordenado pelas Big Techs), para que fosse possível nos satisfazer com o que uma inteligência artificial é capaz de produzir.

Ou seja, o complexo de Frankenstein ainda existe, principalmente nos filmes e livros de ficção científica, mas, não faz parte dos planos das elites econômicas substituir os seres humanos por máquinas. O objetivo é a idiossubjetivação para a formação de seres dependentes das parafernálias tecnológicas. Assim como a Igreja Católica proibia a expansão do conhecimento em muitos aspectos para manter o seu domínio durante a Idade Média e Moderna, as Big Techs (e nesse aspecto concordamos com uma espécie de tecnofeudalismo) precarizam o saber, atacam a reflexão e a educação pública, para manter a sua hegemonia. A Igreja dominava dentro de uma mentalidade que fazia sentido para os membros de diversos grupos sociais, assim como o fazem as Big Techs atualmente, no bojo da reforma cultural empreendida para a consolidação do neoliberalismo.

A relação entre o ideário neoliberal de individualização e a consolidação de uma plataformização da sociedade, foi bem observada por André Luiz Pires Pelliccione. O Estado deve ser mínimo, de modo que as ofertas de serviços e as soluções devem vir do mercado. Essas são “as condições para que as grandes plataformas da atualidade funcionem”, oferecendo serviços até mesmo de saúde, autoajuda e trabalho.

Se nos inspirarmos em Mark Fisher podemos chegar à conclusão de que tudo faz parte do realismo capitalista. Aceitamos um imenso sistema de recomendação que nos diz como perder peso, como decorar a casa, mas nenhum sugere que devemos aprimorarmo-nos culturalmente, porque, convenientemente, “exigir qualquer tipo de aperfeiçoamento cultural é ser opressivo e elitista”.

Nesse mundo controlado pelas Big Techs, forjado com o auxílio das premissas ideológicas neoliberais, os indivíduos não lutam por novas formas de contrato social. A alucinação de uma liberdade sem limites, fornecida pela internet, deu ao indivíduo a suposta capacidade de viver sem um Estado que lhe garanta direitos. “A participação consensual nos valores nos quais a autoridade legítima é derivada, justamente com o livre-arbítrio e os direitos e obrigações recíprocos, é substituída pelo equivalente universal da tornozeleira eletrônica do prisioneiro”. É o que Shoshana Zuboff chamou de Big Other, isto é, “o poder soberano de um futuro próximo que aniquila a liberdade alcançada pelo Estado de direito”.

E como essa tornozeleira eletrônica funciona? Silveira e Avelino mostram que nos anos 2000 já se alertava “que a entrega de arquivos e dados para as corporações que mantém os servidores de nuvem tornaria as pessoas mais dependentes das grandes corporações”. Portanto, o projeto de dominação do capital no século XXI, não é a substituição dos seres humanos pelas máquinas, mas a nossa dependência em relação às corporações.

Lógico que a IA pode ser usada para fins positivos. Mas há uma tarefa urgente, alertada por Morozov: “a de imaginar um mundo altamente tecnológico […] livre da influência perniciosa das Big Techs”. Isso só será possível com o domínio popular dos meios de produção, seguido de uma mudança estrutural na concepção de inteligência. Esta deve ser baseada no senso de solidariedade e de bem comum. Somente assim poderemos usar a tecnologia para benefício humano, não mais para ampliar a margem de lucro.
Raphael Silva Fagundes

Uso inédito de IA e drones torna guerra contra o Irã imprevisível

Um funcionário da Casa Branca afirmou que, ao escolher o nome, Trump estava menos focado na raiva do que na força americana. O funcionário, que falou sob condição de anonimato para descrever o pensamento do presidente, disse que o republicano acredita que foi eleito com a promessa de restaurar a posição do país no cenário mundial e que o nome da operação militar contra o Irã reflete isso.

Por gerações, os nomes das operações militares foram escolhidos de forma um tanto aleatória. Mas, durante a Guerra da Coreia, o Tenente-General Matthew Ridgway tentou fortalecer suas tropas desmoralizadas dando nomes agressivos às operações, incluindo Thunderbolt (Raio), Killer (Assassino), Courageous (Corajoso) e Audacious (Audacioso), como Gregory C. Sieminski relatou em um artigo de 1995 publicado no periódico do Army War College. Os nomes das operações muitas vezes refletiram poder, como Rolling Thunder (Trovão Rolante), a campanha de bombardeio durante a Guerra do Vietnã.


Após o Vietnã, o Pentágono criou um sistema computadorizado chamado Sistema de Palavras-Código, Apelidos e Termos de Exercício (NICKA, na sigla em inglês) para registrar os nomes das operações e ajudar os comandantes a evitar repetições. Mas, para grandes ofensivas, as sensibilidades políticas tornaram-se cada vez mais importantes a partir de 1989, quando George H.W. Bush invadiu o Panamá.

O General James J. Lindsay, comandante das Forças Especiais, opôs-se ao nome original daquela invasão, Operação Colher Azul. "Vocês querem que seus netos digam que vocês estiveram na Colher Azul?", perguntou ele. Outro general sugeriu Ação Justa, que se tornou Causa Justa. A maioria dos nomes de operações desde então tentou, de forma semelhante, projetar virtude. Até mesmo a incursão de Trump na Venezuela, em janeiro, foi chamada de Operação Resolução Absoluta.

Pelo menos uma operação anterior usou a palavra "fúria". A invasão de Granada por Ronald Reagan, em 1983, foi chamada de Operação Fúria Urgente, mas acabou sendo criticada por soar muito raivosa e beligerante, em vez de inspiradora. O perigo de usar Fúria Épica, como qualquer consultor político poderia ter alertado a Casa Branca, é que, se a guerra não for percebida como um sucesso, ela poderá facilmente ser ridicularizada como Operação Fracasso Épico.

Mas Trump gosta do som visceral e "machosfera" de "Fúria Épica", muito parecido com a Operação Martelo da Meia-Noite, seu ataque aéreo ao Irã no ano passado. Seu governo adotou nomes igualmente carregados de testosterona para operações domésticas, incluindo batidas policiais contra imigrantes na Flórida (Operação Saco de Lixo) e no Maine (Operação Captura do Dia).

Ele destacou a nomenclatura da guerra com o Irã no comício no Kentucky na semana passada como se estivesse lançando sua mais recente campanha de marketing. "Operação Fúria Épica!", proclamou. "É um bom nome?". "Bem", admitiu, "só é bom se você ganhar." Então, em vez de arriscar e esperar, ele simplesmente declarou vitória. "E nós ganhamos. Deixe-me dizer a vocês, nós ganhamos."

Sonhando no Terceiro Reich

Quem nunca teve a maravilhosa sensação de a vida colocar o livro certo em nossas mãos quando estávamos procurando outra coisa? Aconteceu comigo novamente no mês passado em Buenos Aires, quando eu procurava um romance de Clarice Lispector e encontrei “O Terceiro Reich dos Sonhos”, de Charlotte Beradt, um projeto tão surpreendente que a princípio pensei ser pura ficção, realizado por uma jornalista alemã durante os anos de consolidação do nazismo (1933-39).


Naquela Alemanha que deslizava perigosamente rumo ao fascismo (de uma forma não muito diferente da nossa atual, que caminha para um novo totalitarismo), Beradt teve uma intuição: que os sonhos das pessoas comuns continham a chave para a compreensão de sua época. Assim, ele decidiu criar um vasto arquivo de sonhos que funcionasse como uma radiografia de sua era. Ele queria saber até que ponto todas aquelas leis raciais, a vigilância rigorosa, as violações de privacidade e o clima de medo generalizado também haviam invadido o subconsciente das pessoas. O arquivo de sonhos de Beradt era mais do que uma mera curiosidade psíquica; era uma tentativa desesperada de compreender seu tempo, quando as ferramentas para essa compreensão já haviam se tornado obsoletas.

Durante vários dias li o livro de Beradt, profundamente comovido, não só pelo seu valor histórico, mas também pela sua semelhança com muitos dos nossos sentimentos contemporâneos. Pareceu-me que, para além do medo previsível dos abusos do Estado, todos aqueles sonhos de pessoas comuns partilhavam com os meus próprios sonhos uma qualidade muito perturbadora que eu não conseguia descrever, até que, de repente, li um sonho que me atingiu como um soco no estômago. Era o sonho de um empresário de origem judaica. Na vida real, este empresário sentia uma clara aversão a fazer a saudação nazi, mas no seu sonho acontece algo horrível: ele está na sua pequena fábrica quando, de repente, recebe a visita do próprio Goebbels, que o obriga a fazer a saudação nazi para sobreviver. O que se segue é um pesadelo; depois de um enorme esforço para levantar o braço, ele não consegue mais abaixá-lo. O seu braço permanece para sempre preso naquele gesto enganoso.

Ao ler aquele pesadelo, senti uma onda de emoção porque algo semelhante ao medo do empreendedor residia em mim: o medo de fazer, por frivolidade ou por sobrevivência, um gesto enganoso do qual eu não pudesse me recuperar depois. Além disso, pensei que o pior aspecto de viver totalmente imerso em uma estrutura de mentiras em todos os níveis — político, institucional e emocional — como a que caracteriza este mundo pré-totalitário, é precisamente o fato de nos forçar a comunicar por meio de estruturas que nos obrigam a praticar atos enganosos. Não se trata simplesmente de políticos mentirem, por exemplo, mas de mentirem sabendo que seus ouvintes consideram a mentira como certa e até contam com ela; que a mentira não é um acidente ou uma fraqueza, mas uma condição necessária para a compreensão do discurso. É uma mentira estrutural semelhante à das redes sociais quando postamos fotos (embelezadas, editadas ou parcialmente verdadeiras, o que nada mais é do que outra forma de falsidade) para criar a ficção de uma identidade para pessoas que também estão cientes de sua falácia e que fazem o mesmo com suas próprias vidas. O perigo de aceitarmos a inautenticidade de todos os nossos sistemas de comunicação como algo natural não reside tanto na normalização de uma consciência cínica da realidade, mas sim no fato de que, quando quisermos ser sinceros, não conseguiremos mais sê-lo. Não se trata tanto de a falsidade ter usurpado a verdade, mas sim de a falsidade ser agora a nossa verdade. Esse era o sonho do empresário alemão, compreendi de repente, e por isso ele não conseguia desistir dele. E também me lembrei de uma história sobre uma camponesa asturiana que me fascinou certa vez, sobre uma mulher muito simples que, para não magoar a irmã, que tinha saúde frágil, começou a fingir-se de manca desde muito jovem e que, quando a irmã morreu quarenta anos depois, já não conseguia andar normalmente: a sua fingida manca era mais real do que a verdade.

Em sua monumental *Crítica da Razão Cínica *, o filósofo alemão Peter Sloterdijk alertou astutamente que o cinismo estrutural era um sistema de proteção contra a ascensão do totalitarismo, uma forma de dissidência no pensamento. Mas ninguém escapa ileso de gestos inautênticos. Aqueles que fingem indignação que não sentem, que constroem sua identidade fingindo serem mais felizes do que são, que fingem ser vítimas quando não o são, que fingem se ofender com uma piada e forçam o comediante a se desculpar para evitar o cancelamento, que ameaçam provocar uma guerra para que outros a precipitem — esses não estão tentando “esconder” uma verdade com uma mentira, mas sim criar uma nova realidade.

O cinismo, mais do que uma transcendência da realidade por meio da inteligência, é a manifestação da angústia que sentimos por não sermos capazes de aceitar a realidade. Ser cínico não é sinal de inteligência, mas uma demonstração de fraqueza e fragilidade. Descobrimos isso na primeira vez em que fomos encurralados por um valentão na escola, mas às vezes parece que ainda não entendemos completamente.