sábado, 31 de outubro de 2026

Quando o choro da derrota vira violência até contra indígenas

Enquanto grande parte do mundo celebra a virada que garantiu a Lula seu quarto mandato presidencial, aqui segue a choradeira dos inconformados com a derrota de Flávio Bolsonaro no último domingo.

Foram quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele. Uns por acreditarem em sua palavra de que, uma vez eleito, faria deste um país melhor; outros por desejarem, pura e simplesmente, se livrar de Lula e do PT. O período de luto dessas pessoas deve ser respeitado. Que elas enterrem em paz sua frustração ou revisem suas ideias.

O que não se pode tolerar, porém, é que o choro dê lugar a atos de violência contra quem quer que seja. Infelizmente, é isso o que está acontecendo. Há mortos e feridos entre os que se limitaram a digitar o 13 nas urnas. Nem os povos originários são poupados, e há a pregação escancarada do boicote aos negócios dos vencedores.


Como sempre, o mau exemplo vem do alto. Cito apenas um para não cansá-los: o governo de Tarcísio de Freitas demitiu Silvana Gimenes do cargo de coordenadora de Desenvolvimento de Programas da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Seu “crime” foi criticar a fala de Flávio, durante o debate da TV Globo, sobre o fato de Lula ter perdido um dedo em um acidente de trabalho quando era jovem.

Tarcísio aspira se eleger presidente daqui a quatro anos. Se dependesse para isso apenas do apoio dos donos das maiores fortunas do Brasil, dos milionários do agronegócio e da chamada grande mídia, estaria eleito desde agora. Ou melhor: teria sido eleito há quase uma semana.

Mas faltou coragem a Tarcísio para confrontar a família Bolsonaro, a quem devota lealdade. Seguirá assim nos próximos anos também por não dispor de votos suficientes para se eleger por conta própria. Se os bolsonaristas lhe derem as costas, tchau, tchau.

Na ausência de dois dos seus enteados, Flávio e Eduardo, que não voltarão tão cedo de Miami para não serem presos, a recém-eleita senadora Michelle Bolsonaro saiu em defesa de Tarcísio. Reconduzida à posição de porta-voz do marido condenado por tentativa de golpe de Estado, ela acolheu os que mais se envolveram de perto na segunda aventura consecutiva e fracassada do clã para recuperar o poder. Michelle ambiciona ser vice de Tarcísio em 2030.

“Vivemos tempos difíceis. Precisamos refletir e só depois agir”, ela afirmou. “O meu marido ressalta que é momento de união e não de procurar culpados. Não caiamos nas enganações daqueles que sempre semeiam o ódio, a mentira e provocam a nossa divisão em troca de likes e engajamento. Deus está conosco e a Ele cabe o Julgamento e a Justiça”.

Pelo jeito, Deus não se deu ao trabalho de prestar atenção no avanço do “Exército de Lula”, sob o comando de André Janones.

O legítimo representante de Deus na Terra, Leão XIV, ainda não disse uma palavra sobre o que se passou no Brasil. O país é o reduto da maior população católica do mundo, estimada em cerca de 182 milhões de fiéis — aproximadamente 13% de todos os católicos do planeta, segundo dados do Anuário Pontifício do Vaticano.

Ele é o primeiro Papa da história a votar numa eleição – no caso, a do seu país de nascimento, os Estados Unidos. Votou por correspondência, e certamente não foi no Partido Republicano de Donald Trump.

Assim as redes sociais sitiam o espaço público

O tema é essencial: o impacto da conectividade global manipulada por gigantes planetários de gestão da informação, o chamado GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft), gerando uma capacidade de influenciar comportamentos em escala radicalmente nova, atingindo bilhões de pessoas em todo o planeta. Há muita discussão sobre fake-news, mas a imensa maioria utiliza as mídias sociais de maneira pouco consciente, e em todo caso desconhecendo o uso da Inteligência Artificial, a função dos algoritmos, o interesse dos anunciantes, e as articulações políticas, em particular com os sistemas de segurança norte-americanos. É um universo novo, que transforma a economia, a política, as relações sociais, a cultura, o uso do tempo, as relações de trabalho. Nesse sentindo, o estudo de Max Fisher é uma leitura necessária. Fisher é jornalista do New York Times, com prêmio Pulitzer, e fez a lição de casa. Viajou para todos os países onde pesquisou os impactos desta “máquina do caos”, inclusive no Brasil, entrevistou líderes de movimentos de diferentes posicionamentos políticos, pesquisadores, e os líderes mundiais como Zuckerberg e outros. Consultou material de pesquisas internas das próprias corporações de mídias sociais. Em outros termos, temos uma primeira visão de conjunto das dinâmicas que representa esse novo universo. As fontes são detalhadas de maneira muito profissional – 40 páginas de notas e referências – que tornam esse livro uma ferramenta importante. A escrita flui de maneira agradável, é um jornalista, escreve de maneira simples e direta, tem dados suficientes para não precisar embelezar.


Inteligência artificial manipulada por estupidez natural

É importante lembrar que esse universo que absorve horas do nosso tempo diariamente é imensamente rentável. Estamos falando das maiores fortunas e das maiores corporações do mundo. O dinheiro vem essencialmente da publicidade. É importante lembrar que os acessos são gratuitos, mas toda a publicidade que alimenta as fortunas dos gigantes da comunicação é financiada pelas empresas que produzem os bens e serviços que compramos, e é incorporada nos preços que pagamos. Em outros termos, este gigante corporativo mundial é financiado por nós, no pagamento extra que custeamos. A opção é “transformar todos os usuários em renda, vendendo anúncios…E, conforme o fornecimento de anúncios de internet aumenta, o preço cai. Em um memorando de 2014, o CEO da Microsoft anunciou que ‘cada vez mais, a commodity realmente escassa é a atenção do ser humano.’” A filosofia básica? “Eles iam vender anúncios, todo mundo ia ficar rico”.

A batalha, portanto, é por nossa atenção, e o “engajamento”, ou seja, a geração de um vínculo emotivo o mais forte possível, amarrando as pessoas na telinha. O método é simples. Usando AI e algoritmos, a análise do uso das mídias pela população é permanentemente analisado, em detalhe, e as mensagens que mais captam atenção, likes, comentários, compartilhamentos, têm o seu conteúdo analisado e categorizado, identificando os conteúdos e formatos que mais “engajam” as pessoas. Selecionando o que mais captura a atenção, entre bilhões de mensagens, o algoritmo evolui para outra seleção entre seleções, e assim sucessivamente, até concentrar a reprodução no tipo de conteúdo que mais amarra as pessoas, e essas mensagens é que passam a aparecer a cada passo, para cada usuário, segundo o perfil identificado.

De certa forma, não somos mais nós que escolhemos o que ver, somos alimentados com o que gostamos de ver. “Em questão de meses, com uma equipe pequena, tínhamos um algoritmo que aumentava o tempo assistido e gerava milhões de dólares de receita extra em publicidade”, diz um participante. “Foi muito, muito empolgante”. Em termos de impacto, o sistema, sem consciência dos usuários, passou a canalizar a atenção das pessoas, e a confirmar visões cada vez mais estreitas, por confirmações repetidas de diversas fontes. É o que chamamos de “bolhas”, e que Fisher chama de “tocas de coelho”.

A gestão baseada em algoritmos que priorizam o que maximiza a atenção, utiliza pontuação. No Facebook, “comentários curtos ganhavam quinze pontos, recompartilhamentos e comentários longos ganhavam trinta, recompensando tudo que provocasse uma discussão longa e emotiva.” Um relatório interno alertou que “os conteúdos com desinformação, veneno e violência são excessivamente dominantes entre os recompartilhamentos.” O próprio Zuckerberg escreveu que “quando deixamos sem controle, as pessoas se envolverão de modo desproporcional com conteúdo mais sensacionalista e provocador.” A deformação ficava clara, mas o que prevaleceu foi o interesse comercial: como o envolvimento emocional, em particular carregado de ódio, era é que gerava mais adesão e multiplicação de mensagens, e, portanto, mais interesse publicitário, os algoritmos foram instruídos a reforçar as polarizações.

Ainda que Trump, Bolsonaro e outros líderes utilizassem empresas como a Cambridge Analytica e outras empresas de difusão direcionada por algoritmos, a realidade é que, no quadro da política de maximização de atenção das próprias plataformas, as pessoas eram levadas à polarização e a reações fanáticas, de tanto ver os seus preconceitos reproduzidos e compartilhados. As plataformas geraram na realidade um sistema de seleção negativa. Uma pesquisa de 300 milhões de comentários descobriu “como tratar pessoas e fatos em termos moral-emotivos aguçados traz à tona os instintos de aversão e violência no público – que é afinal de contas, exatamente o que as plataformas sociais fazem, em uma escala de bilhões, a cada minuto de todos os dias…Sociedades inteiras estimuladas para o conflito, a polarização e a fuga da realidade – para algo como o trumpismo.” 

Importante insistir no mecanismo, que fica claro nas análises e nos exemplos: para vender mais espaço publicitário, busca-se maximizar o compartilhamento, e os algoritmos são instruídos para canalizar, estimular ou abafar as mensagens de bilhões de usuários segundo este critério, com a IA ajudando a encontrar as reorientações necessárias. Como as polarizações emotivas, em particular os sentimentos de identidade grupal e de ódio tribal são poderosos motivadores, terminam por dominar as mídias sociais. Em outros termos, a deformação é embutida, e inteligentemente construída pelo próprio critério de maximização, guiado por sua vez pelo interesse geral de maximização de retorno financeiro. “Em linhas gerais, é algo inconsciente, quase animalista, e por isso facilmente manipulado por líderes oportunistas ou por algoritmos em busca de lucro.” Provavelmente ambos. 

Boa parte da força do livro resulta do fato de ser recente: nos últimos anos, universidades e centro de pesquisa de vários países realizaram estudos quantitativos e qualitativas, que são aqui sintetizadas. Temos realmente agora um dimensionamento do impacto frequentemente catastrófico, em particular no caso do Youtube, que inflamou ódios e conflitos raciais em diversas partes do mundo. “O feito dos sistemas do YouTube de conseguir analisar e organizar bilhões de horas de vídeo em tempo real, depois direcionar bilhões de usuários pela rede, com esse nível de precisão e consistência, era incrível para a tecnologia e demonstrava a sofisticação e a potência do algoritmo.” O YouTube, comenta um pesquisador, “havia criado uma nova identidade coletiva”.

Fisher dedica capítulos a Myanmar, onde o ódio entre comunidades de religiões diferentes levou a massacres de minorias, mas também no Sri Lanka, apresenta o caso dos Estados Unidos, do Brasil, da Índia, da Alemanha e outras regiões europeias com subida do fascismo ou de movimentos neonazistas. De repente, frustrados ideológicos encontram não só caminhos para falar para o mundo, mas algoritmos que potencializam os seus discursos de forma desproporcional. Em dezembro 2022, o Facebook informava ter 2,96 bilhões de usuários mensais.

É importante notar, e isso aparece em numerosas partes do livro, a que ponto as deformações continuam sem enfrentamento, sem regulação, apesar de muitas denúncias, e evidências claras do papel nefasto para o convívio social. Deixem-me lembrar que estive na Tunísia nos momentos da Primavera Árabe, e jovens me explicavam como as mídias sociais os haviam ajudado a se articularem online. Alguns anos depois, essas mesmas pessoas lamentavam a inversão de valores que essas mídias haviam gerado. Continuamos no limbo. Inteligência artificial manipulada por estupidez natural.

Os irmãos Koch miram a América Latina

Há uma rede multidimensional de instituições e grupos políticos que difundem o ideário “libertariano”, atuando sobre a formação de jovens. Nessa rede, os jovens são vistos como novas lideranças empreendedoras, perfeitos na operação de modificações estruturais na sociedade, entre elas, a alteração de fundamentos republicanos de forma ampla e a mudança no funcionamento da educação pública, de forma específica.

O mote desse grupo é alterar a noção de “educação como direito” e tornar a noção de “educação como mercadoria” um senso comum. Agem, principalmente, por dois meios: primeiro, disseminando a desconfiança em relação à escola pública e os seus professores, acusando-os de fabricar ideologias, instigando uma cultura da delação; segundo, disseminando a adoção de vouchers em larga escala, a gestão privada de aparelhos públicos, defendendo a liberação do homeschooling, e até mesmo o unschooling, que é o direito de não escolarização. Segundo o ideário libertariano, crianças que não podem ir à escola são melhor aproveitadas no mundo do trabalho.


Os libertarianos hasteiam a bandeira da liberdade, porém o termo é usado como sinônimo de livre mercado. Fazem a defesa radical da liberdade individual, o que eventualmente pode ter relação com a liberação do aborto, a liberação das drogas, em nome das liberdades sexuais etc. Mas o que está claro é o manifesto em nome do “indivíduo”. Da vontade do indivíduo emana todo o poder social. Aborto, drogas, sexo são temas secundários quando se pensa que o indivíduo é a célula primeva da sociedade. Pensar as cadeias de interdependências entre o indivíduo e o coletivo, é impossível pela mentalidade desses quadros. Para eles, a sociedade é a somatória absoluta de elementos únicos, separados por vontades e mérito.

Frequentemente, os libertarianos fazem aliança com grupos conservadores, são aqueles que se descrevem como “liberais no que diz respeito à economia e conservadores no que diz respeito aos costumes”. Por exemplo, no caso da expansão do homeschooling, fazem estreitas alianças com grupos religiosos que militam por escolarizar as crianças em casa aos moldes dos valores de suas religiões, na esmagadora maioria das vezes de orientação cristã, muitas vezes promovendo o negacionismo científico e revisionismos históricos que relativizam violências.

Como pensam e agem pela primazia da propriedade, partem da ideia de que o corpo é a nossa primeira propriedade e daí derivam seu axioma, de que o individualismo e a propriedade capitalista é fundada pela natureza ou por Deus. E a partir dessa ideia são disseminados os valores contrários aos movimentos sociais com seus interesses coletivos e comunitários. Pregam esse espírito de pureza do elemento individual que não se deixa levar pelo fracasso das utopias. A vida é pensada na rusticidade da competência de cada um de nós, separadamente, desconsiderando os processos históricos de acumulação. Libertarianos simplesmente não se envergonham de serem ingratos com os pais, professores, amigos, seus possíveis formadores, e não compreenderem absolutamente nada sobre cultura.

Esse ideário é financiado por uma plutocracia bilionária.

Os irmãos Koch podem ser entendidos como um ponto de partida para compreender a organização estratégica e os modos de financiamento na construção histórica de uma rede com programa expansionista desse ideário político-social.

Por uma perspectiva histórica, entende-se que a rede plutocrática da família Koch se inicia com o avô, Harry Koch, seguida pelo pai, Fred Koch, e os irmãos, David e Charles Koch. O avô adquiriu um monopólio da mídia em sua cidade. Fred Koch introduziu a família no universo dos think tanks. Herdeiros da Koch Industries, empresa do ramo petrolífero, os irmãos Koch vêm multiplicando seu patrimônio desde então, hoje avaliado em mais de 100 bilhões. Eles atuam em diversos segmentos de produção, desde steak para ração, a derivados de petróleo em geral, como botões para equipamentos eletrônicos, tapetes e etc.

Trata-se de uma história escalonar que conta sobre o aumento do patrimônio financeiro, o aumento da difusão ideológica, presa ao enriquecimento e a meritocracia, concentrando esforços no sentido de moldar a mentalidade social. Mas não é só na atuação industrial e de comunicação que os Koch vêm expandindo e se diversificando como instituição.

Em 1992, Charles Koch fez uma declaração ao National Journal, dizendo que o seu conceito geral de vida “é minimizar o papel do governo e maximizar o papel da economia privada e maximizar as liberdades pessoais“ii, justificando a sua ação direta, filantrópica, para diferentes instituições “sem fins lucrativos” de modo a ampliar os efeitos da ideia de supervalorização do indivíduo e da economia privada. Desse modo os irmãos Koch promovem a sua visão de mundo com muito dinheiro em uma série de projetos e instituições, principalmente de cunho educativo.

A John Birch Society (JBS) que, entre outras coisas, busca na Bíblia argumentos para se opor à democracia, difunde teorias da conspiração e apoia o homeschooling do tipo cristão, foi o think thank de estreia da família Koch. Trabalharam junto ao Libertarian Party (LP), tentativa frustrada de ingresso dos irmãos na política partidária, quando David Koch concorreu como candidato a vice-presidente de Ed Clark, com propostas de desregulamentação para todos os setores sociais, para avançar na minimização do papel do estado na economia. O cargo eletivo direto, plano inicial, passou a ser secundário quando perderam a eleição, e perceberam na juventude o melhor caminho para difundir seu ideário, pensando em uma formação libertariana desde as bases. E o caminho foi permear os centros de pesquisa, as universidades com thinks tanks produtoras de conhecimento e financiadoras de ações, com o objetivo de estabelecer uma nova subjetividade.

Partiram à “guerra de ideias” para fomentar a desconfiança concernente ao Estado e agir pela educação passou a ser um dos principais caminhos do programa. A educação não é apenas um meio para se ganhar dinheiro, um negócio. A escola pública, republicana, entendida como tecnologia emissora de ideais, conceitos e valores acabou se transformando no principal mecanismo de estruturação neoliberal pela visão desses sujeitos.

Por isso é muito comum encontrar financiamento deste grupo no ensino superior em diferentes países. As think tanks dos irmãos Koch financiam departamentos de pesquisa e bolsas de estudo que buscam de soluções para questões sociais orientadas pela defesa do livre mercado e produzem conhecimento sobre empreendedorismo, privatização e a “filosofia da liberdade”. Chamados de filantropos, pagam por análises conjunturais por essa perspectiva, treinando pessoas para a replicarem, produzindo pesquisas nas áreas das ciências humanas, econômicas e na formação docente. Existe, inclusive, consultoria para acadêmicos, que queiram orientar suas publicações, afinando-se ideologicamente por referências bibliográficas interessadas em contabilizar as menções a autores libertarianos.

Impetuoso na década de 1970, o movimento de expansão libertariana se concretiza por meio de um golpe de estado e posterior instauração da ditadura no Chile. Naquele momento, intelectuais orgânicos da Mont Pelerin Society (MPS), fundada pelo economista Friedrich Hayek, produtores das ideologias distribuídas pelos think tanks mantidos pelos Koch, participaram ativamente da construção do novo regime. Libertarianos recorrem ao estado máximo no que tange à repressão, ao uso de recursos como golpes de estado e lawfare, para evitar o que entendem como “excessos democráticos”.

Para Hayek, “a democracia ilimitada traria resultados tão ruins que seria necessário um período de transição com uma ditadura, para que a sociedade tivesse assegurada sua liberdade individual e assim, pudesse voltar para um sistema democrático com regras e restrições ao poder governamental”. Isto é, o economista defendeu a necessidade de uma “ditadura transicional”, ao falar sobre o regime de Pinochet, no Chile, onde teve papel relevanteiii. E a educação foi usada como meio para o estabelecimento do regime, instrumentalizada à implantação dos instrumentos neoliberais de educação (1980-1988), para garantir a fase seguinte, o “consenso privatizador” (1988-1990)iv.

Por reunirem alguns fatores como garantirem maior longevidade ao ideário, os jovens são vistos como sujeitos principais da ação libertariana. Nas palavras de Frank Chodorovv, na década de 1950, “O individualismo pode ser revivido implantando-se as ideias já nas mentes das gerações vindouras… É, em suma, um projeto de cinquenta anos”vi. Além disso, a juventude, passa ares de inovação ao movimento.

Desde então, a América Latina vai sendo desbravada, de modo a formar um contingente libertariano juvenil importante. Por meio de militância e intercâmbio de jovens, a rede se expande. Atualmente, as doações dos Koch afluem por meio da Atlas Network e do Students for Liberty (SFL), dentre outras instituições. O SFL é a maior organização estudantil “pró-liberdade” no planeta. Está sediado na Virgínia, tem um grande número de sucursais pelo mundo. Sua missão é “educar, desenvolver e empoderar a próxima geração de líderes da liberdade”, num modelo único de educação. No Brasil, o número de parceiros não para de crescer, atualmente são 15, de acordo com o site da Atlasvii.

Um exemplo que interliga educação e juventude a maneira libertariana é o Gloria Álvarez, militante guatemalteca que ganhou popularidade no final de 2014, quando o vídeo de sua fala, na sua exposição durante o parlamento Ibero-americano da juventudeviii, viralizou nas redes sociais. No referido vídeo, a militante ataca o que chama de “populismo” na América Latina, reiterando afirmações que desenvolveu ao longo de sua formação na Universidade Francisco Marroquín (UFM). A UFM é uma universidade que segue os princípios libertarianos, única do mundo que há mais de três décadas forma seus alunos na “filosofia da liberdade”. Segundo eles, a ideia é combater o “vitimismo” latino-americano dependente do populismo de todo governo que se proponha a garantir direitos sociais.

Álvarez afirma que o “livre mercado é o remédio para todos os males”. Diz que nenhum habitante do planeta está livre do egoísmo. A musa libertariana se opõe a tudo o que é público, reafirmando que todo político luta por interesse próprioix. Ironicamente, tornou-se presidenciável em 2019, pleiteando um cargo público, talvez tendo em vista o cumprimento dos seus próprios objetivos.

Essa jovem também atuou de maneira intensificada, no Brasil, durante as manifestações de oposição à presidenta Dilma Rousseff. Financiada por fundações latino-americanas parceiras da Rede Atlas, Álvarez foi à Avenida Paulista discursar a favor do impeachment, no palanque do grupo “Vem pra Rua”x, paramentada com a bandeira do Brasil estampada na camiseta. Há sucursais da Atlas Network espalhadas por toda América Latina.

Em 1 de abril de 2015, a Atlas publicou uma matéria elogiando a atuação do Movimento Brasil Livre (MBL), dizendo que havia um parceiro da Atlas Network e do Students for Liberty, estrela libertária em ascensão à frente do movimento. Este é Kim Kataguiri, um dos líderes que passa a aplicar o que aprendeu no terreno onde vive e trabalhaxi.

Para atuar nas manifestações que ficaram conhecidas como Jornadas de Junho, em 2013, membros do “Estudantes pela Liberdade” (EPL) forjaram a marca MBL, porque como membros de instituições mantidas por doações estrangeiras, eles não poderiam atuar diretamente na política brasileira. Entretanto, como a marca ganhou projeção nacional, foi reaproveitada para atuar nas manifestações de oposição ao governo petistaxii. E, como sabemos, foi peça importante na difusão do antipetismo.

De acordo com a Reason TV, da Reason Foundation, think tank parceiro da Atlas, a deposição da presidenta teria fracassado sem a força propulsora do MBL. Não parece coincidência que essa rede de quadros juvenis esteja tão apegada ao processo de impeachment, estimulando a espetacularização do rito. Inclusive, aproveitando-se da pauta de procedimentos frequentemente chamada de “pós-verdade”.

Steve Tesich que, ao que tudo indica, foi um dos primeiros sujeitos a empregar o termo em 1992, explica que a novidade deste fenômeno social é que “a verdade não é falsificada ou contestada, mas passa a ser de importância secundária”. Isso é, há de se compreender que um coletivo juvenil brasileiro, o MBL passou também à história como produtor de pós-verdade do tipo “libertariana”. Porque são notórios produtores de desinformação replicando as mesmas pautas dos think tanks libertaristas. No campo educativo, procuram destruir o projeto iluminista de escola pública, tentando alterar a função da escola. No campo político, justificam o neoliberalismo econômico, fazendo movimento em nome da remoção de entraves para o seu avançar. No plano econômico, lutam pelas alterações das leis de seguridade social e trabalhistas.

As ações do MBL chegam ao grande remate dos Koch no campo social: financiar a produção de “movimentos populares”. Essa tática foi desenvolvida pelo alto funcionário de Charles Koch, Richard Fink, em sua tese “Structure of social changes”. O autor identifica a necessidade de financiar ativistas, para vencer a “guerra de ideias” como em uma linha de produção.

O que se vê claramente como associação de ideias é sistematizado no primeiro Congresso Nacional do MBL em 2015. Vemos propostas que pregam pela reforma empresarial da educação; aliança com movimentos conservadores, em busca da “Escola sem Partido”; movimentos de destruição do ensino público. É oferecida à sociedade uma carta de produtos como caminhos “para maior igualdade social e eficiência da escola”, embora já exista uma profusão de pesquisas que concluem o contrário.

Não chega a ser problema para o grupo ser arauto de um mundo em “concorrência universal”. Neste caso, a ideia de que o “novo sempre vem” porque se é jovem, nos mostra que ser jovem não é prerrogativa para ser progressista.

Flávio tira a máscara na carta golpista e revela os isentões sem disfarce

Como este mundo pode ser divertido! O colunismo isentão, equilibrista entre a democracia e o afascistamento, levou Flávio Bolsonaro a cometer o mais grotesco dos erros: dizer quem realmente é.

Uma nota: esse falso centrismo me enoja mais do que o reaça que baba até a última gota de ódio. Este é, afinal, mais identificável do que um piruá numa vistosa tigela de pipocas. O ambíguo e anfíbio não. Encarna o papel de um prudente impostor. Não é bom o bastante para o Céu nem mau o bastante para brilhar no Inferno. Dante reservou a esse tipo um castigo terrível no “Vestíbulo”. Procurem. Mas volto.

O valentão que foge sentiu-se acolhido pela turma do nem-nem e escreveu uma carta golpista. Quem o conduziu ao Inferno foram esses bacanas… Vá lá: tiveram utilidade uma vez na vida ao menos. Vamos ver.


Alexandre de Moraes fez a coisa certa ao atender ao pedido da Polícia Federal e mandar recolher os passaportes do candidato derrotado à Presidência. Mas logo apareceram os “isentistas” — aqueles sempre no meio do caminho entre a corda e o pescoço — para dizer que, de novo, o ministro havia exagerado. Sempre escarneço de formulações que começam assim: “Especialistas se dividem…”. Bem, os experts muitas vezes não se entenderam nem sobre as virtudes ou os malefícios do ovo… Adiante.

O tal Zero Um animou-se. Sentiu que, quem sabe?, teria uma vez mais setores da imprensa a seu lado e então assumiria a condição de vítima do Xandão. Vocês sabem: é aquele cuja cabeça André Mendonça tentou cortar com ilegalidades flagrantes, pautando o primeiro turno das eleições e tornando-se o grande fornecedor de manchetes para uma imprensa involuntariamente — ou nem tanto — bolsonarizada, quando não afascistada.

Quase o Lobo Mau passou por Chapeuzinho — “e o nosso chapeuzinho jamais será vermelho!”… Aprendi em alguns editoriais muito doutos que o petista até poderia ser melhor em democracia e programas sociais, mas o senador do PL zelaria mais pelo rigor fiscal, ainda que tivesse alguns defeitos… Ninguém teve a delicadeza de mencionar que, entre eles, contavam-se a tentativa de soltar sediciosos e a de encarcerar adolescentes de 14 anos. Se 1964 se desse em 2026, não tenham dúvida: boa parte desses valentes moralistas estaria de novo do lado errado da história…

Mas o que faria de tal gênio um disciplinado fiscal? Vai ver ele confidenciou isso apenas a devotados exegetas. E estes nunca explicaram por quê. Talvez ele tenha feito promessas clandestinas aos finórios no escurinho do cinema, enquanto chupavam dropes de anis. O motivo não está no programa, não está nas entrevistas, não está nos debates.

Flávio resolveu roubar do pai o papel de mártir do terrível magistrado e pôs em prática um plano de fuga que arquitetara havia tempos para o caso de derrota. De novo, os adoradores da Seita do Santo Mendonça dos Últimos Dias preparavam-se para pedir a cabeça vocês sabem de quem… Pelo visto, até gente do governo andou falando porcaria — deve ser aquela parte do PT que quase perdeu a eleição por medo de enfrentar quem tem de ser enfrentado, o que inclui o “consenso” do colunismo-pesquisismo picareta…

Ocorre que um Bolsonaro sempre será um Bolsonaro. Sentindo-se seguro em Miami — e Pateta que se cuide porque pode perder o emprego —, o derrotado houve por bem dizer o que realmente pensa. E redigiu um manifesto em que não reconhece o resultado das eleições. Não conseguiu nem sequer a adesão dos pares que ficaram por aqui, enquanto ele se mandava em grande estilo para os EUA, onde, em companhia do irmão, terá vida de milionário.

Os que ensaiavam o coro contra Moraes ficaram boquiabertos. Se a fuga já parecia coisa de covarde, a carta foi além do limite do tolerável. Estava tudo errado ali, a começar pelo brasão. Fugiu porque sabe o que fez no verão passado e tem ciência de que seus folguedos com o tal Willer Tomaz começaram a vir a público. A eventual vitória era seu passaporte para a impunidade. Sem ela, intui que a Papuda o aguarda.

Então resolveu escrever aquele troço. E aí os isentões o abandonaram. Nas linhas que escreveu, ele se mostrava inteiro. Justamente quando decidiu envergar as vestes de perseguido e herói, caiu do cavalo (ops!). Só ali, para recorrer a uma passagem célebre de Karl Marx em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, é que “se tornou a vítima da sua própria concepção do mundo: o bufão sério que já não toma a história universal por uma comédia, mas a própria comédia pela história universal”.

Suponho que até os governistas porventura contrariados com Moraes tenham percebido que, ao cumprir sua obrigação, o ministro fez surgir o fascistoide que se escondia na fantasia do moderado. E notem: o ministro não lhe forneceu o roteiro. O próprio Flávio assumiu a personagem que realmente lhe cabia na história.

Há coisas que só um Bolsonaro legítimo pode fazer por si mesmo. E até por nós…

Ao tentar posar de herói trágico com o aval da patota do “nem-nem”, o Bonaparte de poltrona acabou tragado pela própria pantomima e desmascarou, de quebra, os seus avalistas de plantão. A patota do nem-nem, que ensaiava niná-lo para manter o charme da neutralidade anfíbia, agora finge olhar para o outro lado, espantada com o cheiro de enxofre do golpismo.

No fim das contas, a peça encerra-se com cada personagem no seu devido lugar: o bufão isolado em sua farsa, e os covardes do meio do caminho, despachados, sem direito a recurso, diretamente para o Vestíbulo…

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro encarnou o Brazil que não conhece o Brasil


O Brazil não conhece o Brasil. No último debate presidencial, Flávio Bolsonaro ofendeu moradores de Belém ao descrever a cidade como um “esgoto a céu aberto”. “É urubu revirando comida na porta de casa, e as pessoas se acostumando a morar, a viver num lugar que tem cheiro ruim”, disse.

O Brasil nunca foi ao Brazil. Instado a apresentar ideias para o Nordeste, o senador afirmou: “Vou ser o carioca mais nordestino que vocês já viram na face da Terra”. Na Presidência, seu pai costumava se referir aos habitantes da região como “paus de arara”. “Se chamar cearense de cabeçudo, você não consegue identificar ninguém, lá todo mundo é cabeçudo”, gracejou, certa vez.


O Brazil não merece o Brasil. Derrotado nas urnas, Flávio se negou a reconhecer o resultado, despistou a polícia e fugiu num jatinho para a Flórida. Em carta golpista, autoproclamou-se “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, comparou-se a Rui Barbosa e humilhou os aliados que ficaram no país, dizendo que passará a comandá-los à distância.

O Brazil tá matando o Brasil. O Ministério da Justiça informou que dez pessoas foram mortas em episódios de violência política no segundo turno. Foram vítimas de espancamentos, atropelamentos intencionais, disparos de arma de fogo. A brutalidade se intensificou na noite de domingo, quando bolsonaristas atacaram eleitores de Lula que festejavam a vitória nas urnas.

Em “Querelas do Brasil”, Aldir Blanc descreve uma elite colonizada que ignora a diversidade do país, despreza a herança indígena e busca validação no olhar estrangeiro — o tal Brazil com Z.

Composta no fim da ditadura, em parceria com Maurício Tapajós, a canção parodia o ufanismo da “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso. No lugar das “fontes murmurantes”, entram em cena o Arariboia e o Pererê. No lugar da “terra boa e gostosa”, a vida dura nos subúrbios de Madureira, Olaria e Bangu.

Flávio enfeitou a primeira versão de sua carta golpista com um brasão da República e a inscrição “Estados Unidos do Brazil”. O país não é chamado assim desde 1931, quando passou a ser grafado com S. Em 1967, adotou o nome de República Federativa do Brasil.

Em outro ato falho, o candidato derrotado iniciou a missiva com um agradecimento ao “maravilhoso povo americano”. No décimo parágrafo, lembrou-se de mencionar os quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele.

O mar de lama que ameaça engolir Flávio e a fuga por procuração

Meus dedos estão cansados de tanto ter teclado ao longo da última campanha eleitoral que o sacripanta do Flávio Bolsonaro (ou prefere chamá-lo de velhaco, patife, canalha, enganador, sem caráter?) não passava de uma cópia encardida do pai, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.

Não passou de farsa apresentar-se como o Bolsonaro que parte do país ansiava. Está aí para quem quiser ver: se moderado de fato fosse, reconheceria os resultados das urnas, cumprimentaria o presidente eleito e vida que segue – no caso dele, como o principal líder da oposição, detentor de quase 60 milhões de votos e provável candidato a presidente do Brasil nas eleições de 2030. Lula perdeu três batalhas cruentas antes de subir pela primeira vez a rampa do Palácio do Planalto. Flávio não poderia perder uma?


Mas não. Com medo de ser preso de uma hora para a outra, porque sua vida está ameaçada de ser engolida por um mar de lama, ele simplesmente correu para os braços de Donald Trump em busca de um local seguro e acolhedor. Ao desembarcar na pátria dos sonhos de toda a sua família, uma vez rasgada a fantasia de político moderado, revelou-se o que nunca deixou de ser: um golpista, como o pai.

Trump pode gostar de golpistas, até porque, sem sucesso, ele já tentou abolir a democracia no seu país. Mas detesta a proximidade com derrotados. Acreditou que Flávio, se eleito, lhe entregaria o Brasil de mão beijada – a cereja de um bolo de que ele gostaria de se fartar, a oitava maior economia do mundo, rica em terras raras e o maior parceiro comercial da China na América Latina, quintal dos Estados Unidos.

O erro fatal de Flávio foi esquecer que, no tabuleiro do pragmatismo extremista, quem perde o poder perde o valor. Trump não gerencia afetos, gerencia ativos. Ao bater às portas da Casa Branca com o peso da derrota nas costas, o herdeiro do clã brasileiro não encontrará um padrinho pronto para o resgate, mas sim um espelho de sua própria derrocada política. A tentativa de internacionalizar o choro pós-eleitoral é o sintoma definitivo de uma oposição que faliu internamente e agora implora por validação estrangeira.

Enquanto isso, o Brasil real seguirá o seu curso, indiferente ao exílio voluntário dos que preferem a Flórida ao debate público que as urnas lhes impuseram. Se a estratégia era se blindar em solo americano contra o avanço das investigações judiciais que o cercam, o tiro tende a sair pela culatra. A história mostra que líderes que governam ou se opõem por procuração, escondidos atrás de fronteiras convenientes, rapidamente se tornam notas de rodapé na memória do eleitorado.

Resta saber se os quase 60 milhões de eleitores que acreditaram no discurso de resistência patriótica de Flávio continuarão aceitando que seu principal representante prefira o conforto dos resorts americanos ao asfalto das ruas do Brasil, que sempre lhe foi estranho. O figurino de mártir perseguido perde o brilho quando o cenário de fundo é o horizonte de Miami. O mar de lama que Flávio tanto teme pode não ter vindo das urnas, mas sim da própria incapacidade de sustentar, na derrota, a altivez que ostentou na campanha.

Os afetos coloniais que forjam o bolsonarismo

A cena política brasileira recente é atravessada por uma coreografia curiosa: quando a ordem vacila por dentro, busca-se o amparo por fora. Não bastam tribunais, nem parlamentos; é preciso que uma voz estrangeira diga o que vale e o que não vale, quem deve ser punido e quem deve ser absolvido. A exceção veste uniforme importado.

Não é apenas cálculo ideológico: é um regime de afeto. O desejo de tutela encontra no estrangeiro o Pai capaz de nomear, punir e purificar. A democracia aparece como vertigem, a exceção como cura, e a soberania só se confirma quando validada por um Outro imperial. O aplauso às sanções, as listas de proscritos, as reprimendas vindas de Washington, tudo isso funciona como liturgia de obediência, um sacramento político em que a dependência se transmuta em virtude.


É nesse deslocamento libidinal (do soberano interno ao Pai estrangeiro) que proponho situar a noção de colonialidade afetiva. Mais que obediência ou submissão, trata-se de uma economia emocional que organiza o campo político brasileiro em torno da renúncia: renúncia à autonomia, renúncia ao conflito democrático, renúncia ao próprio nome. O ensaio que segue procura cartografar esse território afetivo e suas consequências, não apenas para entender o bolsonarismo, mas para pensar o que resta de soberania quando o desejo já não nos pertence.

Um outro vetor decisivo para compreender a resposta entusiástica de alguns setores bolsonaristas às sanções impostas por Trump, bem como às suas críticas ao sistema jurídico brasileiro, é a persistente idealização dos Estados Unidos como arquétipo civilizacional: potência geopolítica revestida de autoridade moral, erguida como totem planetário de legitimidade. Essa idealização opera menos no campo da análise do que no da afeição: é uma paixão política, uma estrutura imaginária de reconhecimento vertical que posiciona o Brasil como filho menor de uma ordem superior. O que se dramatiza é uma filiação transnacional de caráter sacrificial: um laço vertical no qual o poder de fora é autorizado a separar os justos dos transgressores, reencenando o mito da redenção por mãos alheias.

 É preciso desfazer o encantamento que transforma o Brasil em periferia de si mesmo

O resultado é um duplo deslocamento: o da autoridade, que é exportada; e o da autoimagem, que se organiza em torno de um eixo externo, gerando uma subjetividade periférica que se sonha central, desde que espelhada. Esse gesto de identificação com o centro imperial não é novo, mas reaparece sob a forma de colonialidade afetiva, desejo de pertencimento e ressentimento nacional: três faces de uma mesma estrutura mítica em que o Outro é simultaneamente aquilo que se quer ser e aquilo que jamais se poderá alcançar sem abdicar de si.

A obediência ao Pai externo, convém insistir, assume uma dimensão litúrgica antes que estratégica. O que se apresenta como política revela-se, na verdade, como um elaborado processo de autoalienação: o deslocamento voluntário do poder para fora, como forma de eximir o eu da tarefa de sustentá-lo por dentro.

A identificação com os Estados Unidos, vistos como horizonte civilizatório de força, riqueza e liberdade performativa, exprime mais que simples admiração; evidencia um desejo profundo de fusão simbólica com o corpo mítico do vencedor. A nação norte-americana, nesse imaginário, opera como figura escatológica de um futuro idealizado, um espelho no qual se tenta enxergar uma versão mais viril e bem-sucedida de si.

Trump, como figura totêmica desse imaginário, excede o papel de representante de uma política conservadora: encarna um ethos importável, replicável, contagiante, o arquétipo de uma autoridade que dispensa justificativas, de uma liberdade blindada por armas, de uma verdade que se impõe sem mediações institucionais, como se fosse revelação direta, quase divina.

Esse desejo de importação não é neutro. Envolve abdicação simbólica das diferenças que formam o Brasil (pluralidades históricas, regionais e raciais) em troca de uma filiação imaginária a um projeto apresentado como universal, mas efetivamente excludente, hierárquico e colonizador. Estamos diante de uma adesão litúrgica ao sistema-mundo imperial, cujo ingresso exige, como moeda, a abdicação não só da autonomia institucional, mas da própria existência como alteridade.

Trata-se, no limite, de uma recusa da invenção de si: o sujeito abdica da criação para aderir à forma já legitimada, já nomeada, já instituída. E nesse processo, a diferença local é sacrificada no altar de uma semelhança impossível, mas desejada com fúria. A particularidade se dissolve na cópia; e a política, mais uma vez, se revela como rito de autoapagamento.


Ao celebrar com entusiasmo gestos autoritários vindos de fora, sobretudo quando voltados contra instituições nacionais, certos grupos revelam algo que excede o dissenso político: um movimento de autoapagamento. A crítica ao Supremo funciona como superfície visível de um gesto mais profundo: a recusa do Brasil como espaço legítimo de enunciação política. O que se desenha é uma economia simbólica da autodegradação, em que o externo é sinônimo de autenticidade, e o interno, de falsificação.

Nesse espelho invertido, o Brasil deixa de ser sujeito e passa a ser simulacro; um país condenado à secundariedade, cuja validade só pode vir de fora, como selo de autenticidade. O STF, o Estado, a cultura política local, tudo se torna ruína antecipada diante do mito regulador de uma “nação verdadeira” (os Estados Unidos) que simboliza, ao mesmo tempo, potência, pureza e verdade.

Essa lógica vai além de qualquer desejo de correção; expõe a internalização ativa de uma posição de inferioridade. É colonialidade em sua versão mais refinada, um colonialismo voluntário no qual o sujeito político se entrega como reflexo, como sombra, como plateia da autoridade do outro. O poder externo não intervém à revelia; ele é convocado, desejado, celebrado, como se apenas de fora pudesse emergir o gesto capaz de restaurar uma ordem considerada inalcançável pelas vias internas. O resultado é uma soberania paradoxal, que se realiza por meio da própria abdicação: um teatro de espelhos onde o eu político só adquire contorno ao desaparecer na imagem do outro.

A relação com os Estados Unidos, nesse regime de afetos e representações, opera como uma economia psíquica da filiação idealizada. O Pai distante aparece como aquele que tudo vê, tudo julga e tudo protege, enquanto o Brasil é figurado como criança rebelde, imatura e sempre por civilizar, cuja salvação se imagina depender da imitação obediente do modelo exterior. Temos aí uma fábula política na qual a virtude é sempre importada, e a soberania, um efeito colateral da imitação bem-sucedida.

Essa assimetria vai além das dimensões política ou econômica; ela é, sobretudo, epistemológica. Opera como um sistema de validação de saberes, normas e instituições que rebaixa tudo o que se origina fora do eixo euro-americano, classificando-o como inferior, exótico ou simplesmente descartável. No imaginário de alguns setores bolsonaristas, essa lógica não é questionada: é reforçada. O que se reproduz é mais que uma geopolítica da dependência, mas uma ontologia da inferioridade, em que formas locais de pensar, governar e existir são sistematicamente desautorizadas. A racionalidade brasileira (forma de organizar o pensamento, o tempo e o conflito político no Brasil), marcada por contradições, processos lentos, conflitos constitutivos, é interpretada não como expressão de uma complexidade histórica, mas como defeito, insuficiência, falha diante da verdade rígida, binária e armada que se atribui ao Norte.

Nesse espelho colonial, o Brasil nunca é o autor de sua própria narrativa; é sempre o aluno, o réu ou o rebelde diante de um tribunal moral estrangeiro. E a política torna-se, assim, um esforço permanente de autoadequação a um Outro que nunca reconhece reciprocamente aquilo que exige ser imitado.

Esse fenômeno atinge sua expressão mais aguda no interior do bolsonarismo, cuja estrutura discursiva é atravessada por uma miríade de símbolos, slogans e rituais importados do imaginário político norte-americano. A questão não é de mera inspiração, mas de possessão simbólica. Da apropriação da bandeira dos Estados Unidos às referências bélicas e escatológicas do conservadorismo made in USA, o bolsonarismo opera como uma tradução ressentida de uma teologia imperial.

A idolatria de Trump, nesse contexto, é o sintoma visível de uma arquitetura mais profunda: a constituição de um Pai estrangeiro como fonte de verdade, moralidade e soberania. Ao investir libidinalmente em um líder externo, o movimento faz mais do que celebrar um modelo: deslegitima a própria capacidade nacional de gerar autoridade e produzir verdade.

O Brasil não se apresenta só como território marcado pela colonização; configura-se como uma consciência colonizada. Um lugar que já não acredita em sua própria capacidade de redenção, esperando que a salvação venha de fora, pronunciada num idioma estrangeiro, por um verbo que jamais se conjuga em português. A política, assim, torna-se ato litúrgico de mímese. O bolsonarismo surge como um culto nacional à própria insuficiência.

Paradoxalmente, e talvez inevitavelmente, ao buscar força, legitimidade e redenção fora de si, esses grupos corroem justamente aquilo que dizem defender: a soberania nacional, a liberdade do povo, a autonomia das instituições. O apelo a um Pai autoritário estrangeiro que intervenha na cena política brasileira escancara uma crise de autoridade interna, e sobretudo revela uma recusa mais funda: a incapacidade de reconhecer o Brasil como espaço legítimo de maturidade política e subjetiva.

A exaltação de Trump atua menos como gesto ideológico do que como encenação de uma fantasia de tutelagem restaurada, o desejo de ser governado por um Outro superior, mais forte, mais verdadeiro. É rendição simbólica consentida, não forçada. Um retorno à casa colonial, reencenada no palco expandido da política global.

O Brasil, nesse gesto, é reinscrito como periferia moral de um império imaginário, e seus próprios cidadãos, em vez de autores de um projeto nacional, tornam-se personagens secundários de uma narrativa estrangeira. A subalternidade deixa de ser imposta e passa a ser desejada, reafirmando com zelo quase devocional o lugar do país como filho menor da história, incapaz de governar-se sem espelhos.
Desejo, colonialidade e autoridade

Chegamos ao ponto onde a análise se dissolve no feitiço. Não estamos diante de um fenômeno político em sentido estrito, mas de uma cosmopolítica afetiva, em que os sujeitos não apenas defendem ideias: eles encarnam entidades. Trump não é uma figura: é um espírito. Um operador de autoridade transfigurada, convocado para corrigir, punir e salvar. Não porque entenda o Brasil, mas porque se ergue acima dele como instância de legitimação cósmica, potência transcendental a quem se atribui a tarefa de purgar a aldeia.

Em sua vertente mais simbólica e devocional, o bolsonarismo, é menos um programa político do que uma máquina a convidar o espírito estrangeiro para ocupar o corpo do país com a promessa de que, possuído, seremos enfim purificados. Há mais que submissão: há entrega desejante, possessão consentida. Um regime de subjetivação no qual o desejo de tutela é tão intenso que se transforma em vocação metafísica.

O Pai não está perdido, ele está no exterior. E é preciso trazê-lo de volta, mesmo que, para isso, o preço seja a abdicação simbólica da soberania. O que se desenha é uma economia política da autoridade: um deslocamento da fonte de poder para além das fronteiras, como se só no corpo do Outro residisse a verdade do Eu. O Brasil, nesse teatro, não fala, ele é ventríloquo; não age, é médium; não decide, é decidido.

E o mais perturbador: isso é desejado. Mais do que erro, o que se firma é um vínculo afetivo com a autoridade como feitiço de sentido. Um culto estrutural à insuficiência local que transforma o nacional em ruína antecipada, e o estrangeiro em totem escatológico. Um país que, em vez de inventar-se, imita. Que, em vez de narrar-se, copia. Que, em vez de habitar sua diferença, exila-se num espelho.

É nessa chave que a obediência ao Pai da exceção pode ser lida: como processo de estabilização frente à vertigem democrática. A democracia, como máquina de negociação permanente, de indeterminação generalizada, aparece como ameaça. E a exceção, como promessa de cura. O desejo de Trump não é desejo de Trump: é desejo de simplificação do mundo. O bolsonarismo, portanto, se revela como cosmologia política reativa, um sistema simbólico que mobiliza a transcendência estrangeira para resolver o colapso do imanente local. Uma política na qual o poder não vem do outro mundo para equilibrar este, mas deste mundo para subjugar o nosso.

No tempo em que o delírio se disfarça de destino, urge mais do que nomear o feitiço: é preciso rompê-lo. É preciso desfazer o encantamento que transforma o Brasil em periferia de si mesmo.

Advogado de araque

No domingo da eleição, os jornais abriram páginas com a galeria dos presidentes da República. Sob as fotos, a profissão e o mandato de cada um. Três foram eleitos, mas, por impedimento (Júlio Prestes) ou morte (Rodrigues Alves e Tancredo Neves), não tomaram posse.

Oito (Deodoro, Floriano, Getúlio e os cinco milicos de 1964) não foram eleitos —nem precisavam, porque tinham cavalos e tanques. E quatro exerceram mandatos-tampão constitucionais. Excluindo as reeleições (donde Lula só contou uma vez), foram 38 presidentes.


Deles, 23 eram advogados. Os demais foram nove militares (o nono, definido como "reformado", Jair Bolsonaro), um médico (Juscelino), um "jornalista" (Collor), um engenheiro (Itamar), um sociólogo (FHC), uma economista (Dilma) e um metalúrgico (Lula). O que tirar dessa lista? A perplexidade ao constatar que, apesar de 23 presidentes advogados, a República sofreu tantos golpes, tentativas, golpes abortados e golpes dentro de golpes. Não seria de se esperar que, com tanto saber jurídico, o poder se mantivesse estável?

Não. Nenhum desses presidentes advogados está entre os grandes advogados do país. A maioria nunca defendeu uma causa e sua única relação com o direito se limitou ao diploma na parede. Não quer dizer que, além da carreira política, alguns não se dessem bem na profissão.

O ex-candidato e fujonildo Flávio Bolsonaro é advogado. Seu "escritório", aberto em 2021, ficava na sua própria mansão em Brasília. Não empregava outros advogados, não acolhia estagiários e era administrado por uma senhora moradora nos cafundós. Dos poucos casos de que tratou, um era em causa própria e outro, defendendo seu pai — pelo visto, sem muito sucesso. Apesar disso, seu CNPJ faturou cerca de R$ 14 milhões nesses cinco anos.

Por coincidência, as contas bancárias do "escritório" de Flávio batem com as do também advogado Willer Tomaz, ambos investigados por lavagem de dinheiro. Flávio poderia defender Willer e a si próprio, mas, que pena, se mandou sem nem se despedir.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


O jornalismo e as eleições

E, de repente, não menos que de repente, a coisa não coube mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Parecia haver um problema com os eventos da realidade, mas não era isso. O problema não estava nas coisas, nos fatos e nos objetos, mas no modo como o jornalismo os nomeava. Recapitulemos.

Enquanto a campanha eleitoral pegava fogo, gente de direita começou a dizer que não estava à vontade na direita. Personagens expressivos do chamado campo conservador, ou seja, personagens notoriamente da direita, passaram a atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que vinha sendo qualificada nos órgãos de imprensa, com poucas exceções, como a chapa de direita. O general Santos Cruz, a ex-deputada Joice Hasselmann e até João Amoêdo, entre várias outras pessoas, todas de direita, passaram a repudiar a candidatura que representaria a direita no segundo turno. Mas como assim, perguntava o cidadão? Não eram todos igualmente de direita? O público se sentia tragado por uma dissonância cognitiva. Se Flávio Bolsonaro era o representante da direita, como diziam os jornais, o rádio e a TV, por que tanta gente da direita o rejeitava?


A explicação teria sido muito simples, embora até hoje não tenha sido assimilada por uma parcela expressiva das redações. Os personagens de direita não se reconheciam na candidatura da direita não porque tivessem desistido de ser o que eram, ou seja, de direita, mas porque não queriam mais abaixar a cabeça para a extrema direita antidemocrática, que o discurso jornalístico insistia em designar como de “direita”, sem outros qualificativos.

Os personagens lembrados aqui há dois parágrafos, exatamente por se reconhecerem de direita, não se dispunham mais a bater continência para uma coagulação que namorava o golpismo, chafurdava no entreguismo, estreitava laços de camaradagem com gangues armadas e, de resto, sabotava a Justiça (parece que um dos seus se esmerou em escafederse, em fugir das autoridades).

Pois bem. Ao dar a essa aberração o rótulo singelo de “direita”, pura e simplesmente, muitas das narrativas da imprensa atrapalharam o discernimento do público. O objeto não coube no conceito e, como resultado, o que seria fácil de explicar assumiu o aspecto de mistério insondável.

O jornalismo deveria ter prestado mais atenção. Nas páginas e nas telas noticiosas, nós não devemos chamar muriçoca de varejeira, arcebispo de cardeal e promotor de magistrado. Não podemos escrever que juiz dá parecer. Pelas mesmas razões, não há como chamar a direita e a extrema direita antidemocrática pelo mesmo nome. Os dois fenômenos são distintos, jamais poderiam ter se embaralhado no discurso jornalístico. A direita valoriza o respeito às instituições republicanas, enquanto a extrema direita antidemocrática não hesita em conspirar contra a alternância no poder. A primeira preza a urbanidade e a convivência pacífica; a segunda hostiliza a dissidência e autoriza a violência. Uma coisa não é igual à outra coisa, mas, infelizmente, uma parte considerável do discurso jornalístico as igualou.

A chapa de Flávio Bolsonaro não era, nunca foi e jamais poderia ter sido tratada como se fosse uma composição de direita, pois nunca se pautou pelos princípios liberais ou pela sobriedade conservadora. Longe disso, tinha origem na celebração do golpe de 1964, na idolatria de torturadores, no culto das garruchas (de preferência desviadas das Forças Armadas) e no obscurantismo. Por definição, era uma anormalidade política – anormalidade que, ao ser chamada candidamente de “direita”, saiu por aí desfilando com uma roupagem semântica de normalidade.

Foi então que, de repente, não menos que de repente, a retórica da normalidade foi varrida pelos ventos factuais. A coisa não cabia mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Com a terminologia que dava ao aberrante um aspecto benigno de eventualidade cotidiana, não havia como demonstrar o que levou tanta gente identificada com a direita a recusar seu voto para Bolsonaro.

Foi um tropeço, um descuido, uma imprecisão. Se as redações, desde o início, tivessem chamado a extrema direita antidemocrática pelo seu nome devido, seu nome objetivo, a explicação teria sido mais fácil, ou mesmo óbvia.

A designação irrefletida – e incorreta – trouxe um segundo desvio: a tentativa de tratar como simétricas as duas candidaturas que disputavam o segundo turno. Entre ambas, contudo, não havia nenhuma homologia, nenhuma paridade. Uma, a de Lula, apesar de todos os defeitos, tinha compromisso provado e já testado com as instituições democráticas e com o respeito à Justiça. A outra desdenhava dos ordenamentos do Estado de Direito. As duas eram de naturezas distintas. Por sorte, ou por milagre, o eleitorado, intuitivo, enxergou a distinção de natureza. Uma boa parte do jornalismo não viu até agora.

Em nota pública, o Instituto Vladimir Herzog, do qual sou conselheiro, alertou sobre o tema, sem maiores repercussões. Por dever de ofício, volto ao ponto, sem maiores esperanças.

O iate não paga IPVA

A Constituição de 1988 deu à União o poder de criar um imposto sobre grandes fortunas. O artigo 153, inciso VII, está lá há 38 anos e nunca foi regulamentado. Em novembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal reconheceu, por maioria, que o Congresso está em omissão, mas não fixou prazo para que ela acabe. Entre o que a Constituição permite e o que o Estado cobra fica um espaço vazio, que mostra bem como o sistema tributário brasileiro trata a riqueza: em vez de proibir a cobrança, simplesmente nunca a regulamenta.

A palavra “luxo” precisa de uma definição antes de qualquer conta, porque cada leitor tem a sua. Em economia, bem de luxo é aquele cuja procura cresce mais depressa do que a renda: quem ganha o dobro não compra o dobro de arroz, mas pode comprar dez vezes mais em viagens, joias ou barcos. O luxo, portanto, não se mede pelo preço absoluto. Mede-se por quem pode comprá-lo. O geógrafo Milton Santos, no livro O espaço do cidadão (1987), descreveu outro lado da mesma questão: “no Brasil, muita gente foi incluída como consumidora antes de ser incluída como cidadã. O consumo virou o lugar onde se mede quem pertence, e o imposto sobre o consumo virou o lugar onde se paga essa entrada.”

O rico adia a compra, e quem perde é o trabalhador da fábrica

A tese que os números permitem sustentar é esta: no Brasil, a carga tributária pesa mais sobre o que se consome para viver do que sobre o que se possui para acumular, e algumas das exceções mais visíveis beneficiam justamente os bens que só os mais ricos têm.


O retrato mais citado vem de cálculos do Ipea com a Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2008-2009, divulgados pela Oxfam. Segundo esses cálculos, os 10% mais pobres entregavam cerca de 32% da renda em tributos, quase tudo embutido nos preços. Os 10% mais ricos entregavam cerca de 21%. Um estudo mais recente, de Rozane Siqueira, José Ricardo Nogueira e Carlos Feitosa Luna, baseado na POF de 2017-2018, chega a uma conclusão parecida por outro método: os tributos indiretos equivaliam a 15,9% da renda disponível do décimo mais pobre e a 10,6% da do décimo mais rico. As duas contas não são comparáveis entre si, porque medem coisas diferentes. Apontam, porém, para o mesmo lado.

O mecanismo é simples. O imposto sobre o consumo é cobrado no caixa, igual para todos, sem perguntar a renda de quem paga. Uma família que gasta toda a renda em comida, transporte e roupa, entrega ao Estado uma fatia maior do que outra que gasta só uma parte e aplica o resto. É a isso que os economistas chamam tributação regressiva: proporcionalmente, pesa mais embaixo do que em cima.

O imposto que ninguém vê na nota é o que mais pesa em quem conta as moedas. 

O IPVA é um exemplo expressivo. Durante décadas, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal entendeu que o imposto só alcançava veículos terrestres, porque sucedeu uma antiga taxa rodoviária. Como resultado, a moto do entregador e o carro popular pagavam, em geral, alíquotas de 1% a 4% do valor do veículo ao ano, conforme o estado. Jatinhos, helicópteros e iates ficavam fora da cobrança.

A reforma tributária de 2023, porém, abriu caminho para a incidência do imposto sobre veículos aquáticos e aéreos, com exceções para aeronaves agrícolas, empresas de serviço aéreo ou de transporte aquaviário, barcos de pesca e plataformas. Mas a permissão ainda não virou cobrança. Falta uma lei complementar com as regras gerais e, depois, leis em cada estado. O projeto que trata disso, o PLP 138/2025, recebeu parecer favorável no Senado, em março de 2026, e voltou ao relator para reexame dias depois. Em outubro de 2026, o dono de um jatinho continua sem pagar IPVA. O Sindifisco Nacional, sindicato dos auditores da Receita, estimou em 2024, que a cobrança renderia cerca de R$ 10 bilhões por ano. É uma estimativa sindical, não um cálculo oficial, e por isso deve ser lida com cautela.

A moto que leva a encomenda paga todos os anos. O iate que fica parado na marina, não.

Na outra ponta do consumo, o Estado foi mais rápido. Em agosto de 2024 passou a cobrar 20% de imposto de importação sobre compras internacionais de até 50 dólares, além do ICMS estadual. Segundo a Receita Federal, a cobrança rendeu R$ 5 bilhões em 2025, com mais de 165 milhões de encomendas taxadas. Quem comprava nesses sites? Uma pesquisa encomendada pela própria Shein ao Ipsos, em 2024, indicou que só 11% dos clientes eram das classes A e B. Por ter sido paga pela empresa interessada, a pesquisa serve como indício, não como prova.

Em maio de 2026, uma medida provisória zerou o imposto federal para essas compras, e o Congresso aprovou a conversão em setembro. O Ministério da Fazenda estimou a perda de arrecadação em R$ 1,94 bilhão, em 2026, e R$ 4,24 bilhões, em 2028. O ICMS estadual continua a ser cobrado. Durante quase dois anos, o tributo novo que o país conseguiu cobrar com rapidez foi o que recaía sobre a encomenda barata.

Seria incompleto parar aqui, porque houve mudança no topo. A Lei 15.270, sancionada em novembro de 2025, e em vigor desde janeiro de 2026, isentou de imposto de renda quem ganha até R$ 5 mil por mês e criou um imposto mínimo para rendas acima de R$ 600 mil por ano, com alíquota que chega a 10% a partir de R$ 1,2 milhão. Segundo o Ministério da Fazenda, cerca de 10 milhões de pessoas deixam de pagar e 141,4 mil passam a pagar o mínimo. Esses 141,4 mil contribuintes, 0,06% da população, pagavam até então uma alíquota efetiva média de 2,54% sobre a renda. Os números mostram, ao mesmo tempo, o tamanho da correção e o tamanho do que havia para corrigir.

A reforma do consumo também incluiu um Imposto Seletivo que vai alcançar veículos, embarcações e aeronaves a partir de 2027. As alíquotas ainda não foram fixadas, e a própria lei permite alíquota zero para aeronaves e barcos considerados eficientes. O desenho final, portanto, continua em disputa.

Quem se opõe a taxar o luxo tem um caso histórico forte. Em 1990, os Estados Unidos criaram um imposto de 10% sobre a parte do preço de barcos acima de US$ 100 mil, de aviões acima de US$ 250 mil, de carros acima de US$ 30 mil e de joias e peles acima de US$ 10 mil. Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso americano, o imposto foi revogado em 1993, exceto para os carros, depois de pressões que o acusavam de derrubar as vendas e os empregos de quem construía os barcos, e não de quem os comprava. É o argumento clássico: o rico adia a compra, e quem perde é o trabalhador da fábrica.

A experiência francesa aponta noutra direção. Em 2018, a França trocou o imposto sobre a fortuna por um imposto só sobre imóveis. O comitê de avaliação do governo, da France Stratégie, concluiu em 2023, que a troca custa mais de 4 bilhões de euros por ano. Sob o imposto antigo, cerca de 950 contribuintes ricos deixavam o país por ano e 370 voltavam. Depois da troca, passaram a sair 260 e a voltar 380. E não foi possível detectar ganho de investimento. A fuga existia, mas era pequena, e o investimento prometido não apareceu.

Em 2024, sob a presidência brasileira do G20, o economista Gabriel Zucman propôs um imposto mínimo global de 2% ao ano sobre o patrimônio de cerca de 3 mil bilionários. Segundo o Observatório Fiscal da União Europeia, esses bilionários pagavam o equivalente a algo entre 0% e 0,5% do patrimônio em imposto pessoal. A declaração final dos ministros do G20 comprometeu-se a “cooperar” para que os ultrarricos sejam “efetivamente tributados”. Não fixou alíquota nem prazo.

Portugal e Alemanha, os outros dois países deste percurso, mostram versões próprias do mesmo dilema. Em Portugal, o regime de residentes não habituais, criado para atrair estrangeiros com rendimentos altos, custou ao Estado 1,74 mil milhões de euros em benefícios fiscais em 2024, segundo uma auditoria da Inspeção-Geral de Finanças. Em contrapartida, o adicional ao IMI sobre imóveis de valor superior a 600 mil euros arrecadou 147,9 milhões no mesmo ano. Na Alemanha, o imposto sobre o patrimônio não é cobrado desde 1997, depois de o Tribunal Constitucional ter decidido, em 1995, que a forma de avaliar os bens era desigual. O imposto nunca foi revogado. Está suspenso há quase trinta anos, como o brasileiro está por regulamentar há 38.

Nenhum destes números prova que alguém tenha planejado proteger o iate e taxar a blusinha. Mostram, no entanto, um padrão que se repete: o imposto que alcança a maioria é cobrado com rapidez, na fonte e no caixa, enquanto o imposto que alcançaria o topo depende de leis complementares, regulamentações, avaliações e reexames que se arrastam por décadas. Quando a demora favorece sempre o mesmo lado, parece menos um acaso e mais uma escolha de desenho, que alguém pode refazer.

Entre a moto que paga e o iate que não paga não há mistério técnico. Há uma lei que falta escrever e uma pergunta que falta fazer: quem ganha com a espera?

Família 'Jumenaros'

Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige. Trump já tirou o apoio: "Deixei ele vir para a América, mas não me me meto nessa questão". Um bando de amadores babacas.
Silas Malafaia

A fuga do amarelão

Qual você prefere? Amarelão, covarde, medroso, pusilânime, frangote, maricas, desertor, foragido, poltrão, peidão, pipoqueiro, frouxo, trêmulo, borrão, arregão? Ou, numa palavra, cagão — digo, fujão? Se você for um dos meus fiéis leitores bolsonaristas ou um dos 59.826.041 eleitores que cravaram o número de Flávio Bolsonaro na urna neste domingo, a escolha é farta. Todas definem o caráter do homem que, não fosse por outros 64.256.232 brasileiros, poderia ser agora o presidente da República. Derrotado e sujeito a investigação e processo por uma quantidade de acusações — a escolha também é farta —, preferiu escafeder-se a enfrentar a Justiça. Onde está o machão que ele fingia ser?


Menos de 12 horas depois de produzir um vídeo em que bateu no peito e desmentiu a possibilidade de fugir do país —ao contrário, entregaria os passaportes e ficaria para liderar a oposição, retomar o Brasil e fazer e acontecer—, meteu-se na escuridão, tomou um avião na moita ou atravessou de cócoras a fronteira e foi se esconder sob a gravata vermelha de seu chefe, Donald Trump.

Como ficaram seus seguidores que assistiram ao vídeo e acreditaram nele? Como passaram a vê-lo depois desta? Se quiserem, aqui vão sugestões: falso, embusteiro, fingido, enganador, trapaceiro, mendaz, pérfido, perjuro, desleal, simulado, charlatão, cascateiro, impostor, xavequeiro, patureba, trambiqueiro. Ou, também, em uma palavra, mentiroso.

É uma atitude decepcionante para alguém que, assim como seus adeptos, fala grosso, faz arminha, ronca motocicletas e exibe braços musculosos sob as camisetas amarelas, mas é incapaz de enfrentar uma Justiça armada apenas com fatos, números e provas. A contrapô-los com seus próprios fatos, números e provas, escolheu vazar, escapar, ciscar, dar o pira, cair fora, dar no pé, picar a mula. Em resumo, fugir.

Ao abandonar seus eleitores —na verdade, traí-los—, Flávio Bolsonaro apenas repetiu o que levou toda a campanha fazendo: mentir para eles, iludi-los, ludibriá-los, fazê-los de otários.

A fuga de Flávio Bolsonaro e a covardia do bolsonarismo

O patriotismo de Flávio Bolsonaro atravessou uma fronteira. Depois de uma campanha em que apresentou a si e a seu campo político como defensores do Brasil, o senador derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva deixou o país, segundo relatos de aliados, com destino aos Estados Unidos.

A notícia chegou em meio a uma investigação e à determinação judicial para que Flávio entregasse seus passaportes. O senador havia declarado que cumpriria a ordem e se defenderia.

Entre a promessa de enfrentar os questionamentos e os relatos de que deixou o país, abriu-se um abismo político. Não é necessário aguardar a conclusão de um processo para examinar a postura de uma liderança pública. A responsabilidade criminal depende de prova, defesa e julgamento. A responsabilidade política começa no instante em que um homem pede a confiança de milhões e depois precisa explicar suas próprias escolhas.

Flávio Bolsonaro tem direito ao devido processo legal, à presunção de inocência e a uma defesa ampla. Mas também não tornam sua conduta imune ao escrutínio. Garantias processuais não são salvo-conduto político.

O que sua saída sugere, sobretudo diante das circunstâncias noticiadas, é uma tentativa de escapar do alcance imediato das instituições brasileiras. Essa é uma leitura política do episódio; as autoridades ainda precisam esclarecer o que ocorreu e quais são suas consequências jurídicas. Mesmo com essas informações pendentes, a cena desorganiza a narrativa de coragem que o bolsonarismo cultivou durante anos.

Porque a coragem que se exigiu dos outros sempre pareceu maior do que aquela que se cobrava dos próprios líderes.O candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL), fala com jornalistas após ser derrotado no segundo turno das eleições pelo candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT).


Aos apoiadores, ofereceu-se uma causa permanente, uma pátria em perigo, a urgência de resistir. A eles se pediu que confiassem mesmo quando a desconfiança em relação às instituições contaminava famílias, amizades e espaços de convivência. Pediu-se que enfrentassem o mundo em nome de um projeto político. Quando chegou a hora de o candidato derrotado enfrentar as perguntas dirigidas a ele, aliados passaram a dizer que havia partido.

Essa é a pedagogia cruel da liderança que se imagina acima de seus seguidores: o povo deve permanecer fiel; o líder pode procurar uma saída.

Não há heroísmo em conclamar uma nação à vigilância permanente e, ao ser alcançado pelo escrutínio público, buscar distância. Não há bravura em transformar instituições em inimigas sempre que elas deixam de funcionar como instrumentos de proteção pessoal. Tampouco há compromisso com a pátria na ideia de que o país só merece respeito enquanto oferece poder, vitória ou abrigo.

O bolsonarismo ensinou seus seguidores a suspeitar de tudo: da imprensa, das universidades, do processo eleitoral, do sistema de justiça. A suspeita, porém, raramente deveria alcançar o próprio líder. Para ele, reservava-se outra regra: cada investigação seria uma perseguição; cada decisão contrária, uma prova de arbítrio; cada exigência de explicação, uma afronta.

Essa lógica não é defesa da liberdade. É a reivindicação de uma imunidade política que dispensa o líder de prestar contas.

A impunidade começa muito antes de uma sentença que não vem. Ela começa como cultura: na convicção de que certas pessoas não deveriam sequer ser chamadas a responder. Manifesta-se quando uma pergunta legítima é tratada como ataque, quando uma medida judicial se torna automaticamente perseguição e quando a lealdade a um nome vale mais do que o compromisso com regras comuns.

Ao apresentar qualquer investigação como prova de perseguição, o líder pede a seus seguidores algo mais profundo do que confiança. Pede que desistam de examinar os fatos. Que aceitem sua palavra como suficiente. Que substituam a pergunta “o que aconteceu?” pela declaração antecipada “ele é inocente porque está conosco”.

Essa inversão é útil para quem deseja poder sem controle. E é devastadora para uma sociedade que precisa de instituições capazes de investigar com independência, respeitar direitos e prestar contas de seus próprios atos.

Flávio Bolsonaro não deve ser tratado como culpado por ser adversário de Lula. Mas também não deve receber uma blindagem política por ter sido candidato à Presidência. A igualdade perante a lei é testada justamente quando alguém poderoso precisa responder às mesmas perguntas que alcançam os demais cidadãos.

Na democracia que o bolsonarismo diz defender, um líder pode contestar uma decisão judicial. Pode recorrer. Pode apresentar sua versão. Pode demonstrar que houve abuso. Tudo isso deve ser assegurado. O que não pode exigir é que o país confunda seu direito de defesa com um direito de estar fora do alcance de qualquer responsabilização.

A postura de Flávio, tal como relatada até aqui, também revela o caráter seletivo de uma política acostumada a falar em ordem. A ordem costuma ser cobrada com dureza dos corpos pobres, negros e periféricos. Para eles, a suspeita frequentemente chega antes da prova; a violência, antes da escuta. Já quando o investigado ocupa uma posição de poder, surgem discursos sobre garantias, excessos e perseguição.

As garantias estão corretas. O que escandaliza é sua distribuição desigual na imaginação política de quem as reclama.

Um país comprometido com o Estado de Direito precisa assegurar a Flávio Bolsonaro todas as garantias que a Constituição prevê. E precisa se perguntar por que tantas pessoas, sem sobrenome influente e sem recursos para buscar proteção além das fronteiras, não encontram a mesma disposição pública para defender seus direitos.

O problema brasileiro não é que um político poderoso tenha defesa. É que a defesa de muitos se torna invisível justamente quando eles mais precisam dela.

A saída atribuída a Flávio tampouco pode ser lida apenas como um drama individual. Ela integra uma maneira de exercer poder em que a política se organiza em torno da proteção de uma família, de sua influência e de seus aliados. Nessa estrutura, o povo é convocado a acreditar que participa de uma causa nacional, enquanto os interesses particulares das lideranças se confundem com o destino da própria nação.

Quando a família é questionada, diz-se que a pátria está sob ataque. Quando um de seus integrantes perde, diz-se que o povo foi derrotado. Quando as instituições investigam, apresenta-se o procedimento como perseguição a milhões de eleitores.

Essa operação transforma seguidores em escudo. Pede-se que eles defendam como interesse coletivo aquilo que pode ser, antes de tudo, a preservação de interesses privados.

Os eleitores de Flávio Bolsonaro não são responsáveis pelas decisões pessoais do candidato. Tampouco formam um grupo homogêneo. Há entre eles trabalhadores, famílias e pessoas com preocupações legítimas sobre segurança, economia e futuro. Não merecem ser ridicularizados por terem votado de outra forma. Merecem, isso sim, respostas honestas de quem pediu sua confiança.

Onde está a coragem prometida quando ela passa a exigir prestação de contas? Onde está o compromisso com o Brasil quando a liderança escolhe se afastar no momento em que o país precisa de explicações? E que espécie de patriotismo exige sacrifício dos seguidores, mas reserva aos dirigentes a possibilidade de escapar do confronto com as consequências de seus atos?

A derrota eleitoral já havia imposto ao bolsonarismo uma prova democrática: reconhecer que o povo pode escolher outro caminho. A saída de Flávio acrescentou uma prova moral e política: demonstrar se a retórica da coragem sobreviveria ao momento em que seu principal personagem precisasse praticá-la.

Até aqui, a resposta que emerge dos relatos de sua partida é desoladora.

Enquanto o candidato busca distância, o país permanece. Permanecem seus eleitores, inclusive os que agora precisam decidir se a fidelidade a um líder deve prevalecer sobre o direito de questioná-lo. Permanecem os cidadãos que rejeitaram seu projeto e esperam que a justiça atue sem privilégios nem exceções. Permanecem as instituições, com a obrigação de esclarecer os fatos sem ceder à perseguição ou à condescendência.

A democracia não exige vingança contra Flávio Bolsonaro. Exige algo mais difícil e mais necessário: que ele responda com as garantias devidas e sem privilégios, diante das mesmas regras que valem para os demais.

O patriotismo que só resiste enquanto o poder está garantido é uma fidelidade interessada. A coragem que desaparece quando chegam as perguntas é apenas encenação. E a liberdade reivindicada exclusivamente para escapar de consequências tem outro nome: privilégio.

O patriota pegou o avião. Ao Brasil, deixou a tarefa de provar que nenhuma liderança é maior do que o direito do povo de saber, questionar e exigir responsabilidade.

Flávio, o 'Bolsonaro vacinado', deu positivo para raiva e golpe

Flávio Bolsonaro divulgou nesta quarta, lá dos EUA, uma carta que não reconhece o resultado da eleição presidencial. Lula foi reeleito com 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% dele próprio. O texto tem a mesma essência golpista da pauta do pai: derrota é fraude, e o juiz é perseguidor. Se ainda faltassem motivos, cai a máscara do “Bolsonaro vacinado”, aquele que seria a versão civilizada da família. Flávio chegou a dizer que aceitaria o veredito das urnas. E deixou o país menos de 24 horas depois de afirmar que ficaria para liderar a oposição. A hidrofobia política é a mesma, sem o, vá lá, “carisma” do original…

Tudo na carta está errado, a começar pelo timbre. A primeira versão trazia um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com “Z”, em vez de “República Federativa do Brasil”. O país deixou de ter aquele nome em 1967, e o “Z” já havia sido aposentado da ortografia oficial décadas antes.


Segundo a coluna de Paulo Capelli, um aliado pediu ao ChatGPT que acrescentasse o brasão, e a máquina entregou o modelo antigo. O valentão que prometia salvar a pátria terceirizou o símbolo nacional a um robô e não conferiu o serviço. O texto circulou em três edições em menos de uma hora. Na primeira, ele se apresentava como “presidente eleito”. Só na seguinte virou “líder do Brasil”. Eleito por quem, cara-pálida? O PL, o seu partido, já havia reconhecido a vitória de Lula na segunda-feira.

No extremo da sandice, comparou-se a De Gaulle no exílio. O homem que organizou a França Livre contra a ocupação nazista é invocado por quem tem como parceiro internacional Steve Bannon. Em 19 de janeiro de 2025, em Washington, Bannon pediu que representantes da AfD (Alternativa para a Alemanha) se levantassem para ser saudados e, na sequência, chamou Eduardo Bolsonaro ao palco. Isso foi acompanhado, como relataram vários veículos, de um gesto de braço estendido, alusivo à saudação nazista.

A neonazista AfD, diga-se, é o partido de Beatrix von Storch, neta de Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças durante o nazismo e um dos poucos que serviram a Hitler do início ao fim do regime. Ela foi recebida por Jair Bolsonaro no Planalto em 19 de julho de 2021. O encontro não constou da agenda oficial, e a foto só veio a público no dia 26 daquele mês. A família também cultiva a ultradireita francesa: Eduardo montou, em 2025, uma rede de pressão contra o STF que incluía a eurodeputada Virgine Joron, ligada ao partido de Marine Le Pen.

Esse partido é herdeiro da Frente Nacional, e a história da França ensina de que lado ficou, na Segunda Guerra, a extrema direita que condenou De Gaulle à morte, em agosto de 1940. Comparar-se ao general é oferecer à posteridade uma peça de humor involuntário.

Há ainda o plano de liderar a oposição de dentro dos Estados Unidos, com o beneplácito de Donald Trump, a quem a carta agradece. Convém lembrar o que dizem as leis. A Constituição, no artigo 17, inciso II, proíbe que partidos recebam recursos de entidade ou governo estrangeiros ou sejam subordinados a eles, e a Lei dos Partidos, no artigo 28, prevê o cancelamento do registro pelos mesmos motivos. Oposição se faz com voto, com mandato e com presença, não a distância, com a ajuda de uma potência que aplica sanções contra o país.

A propósito: não se conhece a fonte de renda que sustentará Flávio no exterior. Será a mesma que arca com o custo da vida milionária de Eduardo. O “exilado” ainda não explicou o orçamento da “Resistência”.

Fica a pergunta final, a que a elite brasileira deve uma resposta. O que ela viu, afinal, num bravateiro que pregava o encarceramento de adolescentes — defendeu reduzir a maioridade penal de 18 para 14 anos —, mas sai correndo diante da primeira adversidade? É um Falstaff de Henrique IV, o fanfarrão que se fingiu de morto no campo de batalha para escapar à espada e ainda se gabou da “discrição”. Falstaff é cômico porque é covarde. Os Bolsonaros são perigosos porque, além de covardes, têm eleitores.

Enquanto eles comandarem a extrema direita, o pensamento progressista talvez deva regozijar-se, mas nunca descansar. Porque, na versão corrente de Brecht, a cadela do fascismo está sempre no cio. A eleição para o Senado está aí para provar. A verdadeira resistência tem de se fortalecer.

Eis aí. Eles são quem são e não podem negar a sua natureza. A esta altura, só caem na conversa os coniventes. Até os tolos já desertaram.