quarta-feira, 1 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Humanos como não-animais

Plenamente cientes de sermos mamíferos, nós humanos a toda hora nos diferenciamos dos outros animais. Esse viés, cuja origem se encontra principalmente em algumas religiões, é a cada dia mais perigoso.

Veja-se a primeira frase de artigo publicado na excelente revista “Knowable”: “O calor excessivo afeta os humanos e os animais”. Se somos animais, não seria suficiente e mais correto dizer que muito calor afeta todos os animais? Apesar dessa falha, as informações relatadas são de enorme atualidade e importância.


São inúmeras pesquisas demonstrando como o elevado calor afeta animais. Já no início do século XIX o estatístico belga Adolphe Quetelet notou que havia um pico de crimes violentos na França durante o verão. Pesquisas posteriores mostraram relação entre forte calor e aumento de violência armada, de hospitalizações por problemas mentais, suicídios e jogos de azar. Notou-se também que os cães tendem a morder humanos com mais frequência em dias mais quentes, mesmo descontando o fato de os humanos saírem mais às ruas com seus bichinhos em dias mais aquecidos. A dúvida persistiu sobre se os cães atacavam mais por estarem desequilibrados, ou se os humanos, também fora do prumo em razão da quentura, irritavam mais seus melhores amigos!

Na canícula, os animais humanos têm maior dificuldade de tomar decisões e sua memória se degrada. Em escolas sem climatização, o desempenho dos alunos cai. Diversas espécies, inclusive peixes e o orgulhoso autodenominado sapiens, se tornam mais agressivas em ondas de calor. Um estudo chinês de 2025 mostrou que até serpentes e gatos tornaram-se agressivos em condições de canícula. Apesar de conviver com o general inverno, terá o Putin atacado a Ucrânia em razão de um desequilíbrio mental decorrente do aquecimento? E o genocida Netanyahu, promove a matança por motivos semelhantes? E Trump, que suponho viver 95% do tempo em ambientes com temperatura controlada, ataca por problemas mentais de igual origem?

Afora esses potentados, também abelhas e outros insetos, aparentemente tão frágeis, são afetados e acabam por revelarem-se poderosos. Sem mecanismos de ajuste da temperatura do corpo, as produtoras de mel ficam desorientadas sob forte calor, seus cérebros superaquecem e, para resfriá-los, borrifam água em suas cabeças. Mesmo assim, perdem o rumo e desconhecem as flores certas para colher o pólen. O poder das abelhas se revela porque, sem elas, sabemos que não haverá humanos, em razão da queda na polinização das culturas. E o Brasil, grande produtor agrícola, como ficará, com sua população mais agressiva e carente de comida?

Amanda Ridley, pesquisadora do tema, aponta que com ondas de calor mais fortes e longas, a capacidade mental das espécies – sem separar a humana – será reduzida e diz que “a capacidade de adaptar seu comportamento é ainda mais essencial num clima que muda”.

Humanos com menor capacidade mental, mais agressivos, resistentes a mudar comportamentos e sofrendo a concorrência da inteligência artificial.

Qual futuro legaremos a nossos filhos e netos?

A escola ferida: autoridade, silêncio e violência num tempo sem escuta

Há mais de 30 anos, um sociólogo francês avisava que a violência na escola não era um desvio, mas uma estrutura. Hoje, essa violência não desapareceu, transformou-se. Tornou-se invisível, difusa, digital. E enquanto os alunos procuram existir, os professores lutam para não desaparecer. O que está verdadeiramente em causa não é a disciplina: é o sentido da escola num mundo que já mudou e que a educação tarda em reconhecer.


Em 1990, Éric Debarbieux escreveu La Violence dans la Classe e obrigou-nos a olhar para aquilo que sempre esteve diante de nós: a violência não como exceção, mas como condição silenciosa do espaço escolar. Não a violência ruidosa das agressões, mas a outra, a mais persistente, feita de silêncios impostos, de humilhações subtis, de ausência de palavras. Uma violência que não deixa marcas visíveis, mas que corrói, lentamente, a dignidade de quem aprende.

Trinta anos depois, em Portugal, dizemos que muito mudou. E mudou, de facto. A violência física tornou-se menos tolerada e até proibida, os direitos dos alunos foram consagrados, o discurso institucional evoluiu. Mas esta seria uma leitura confortável e, por isso mesmo, incompleta. A verdade é que a violência não desapareceu. Adaptou-se. Tornou-se mais difícil de reconhecer, mais difusa, mais entranhada nas relações quotidianas.


Quem habita hoje a escola, professores, mediadores, técnicos, não docentes, conhece bem essa transformação. A violência já não está apenas no gesto extremo: está na desmotivação que se instala, na palavra que não chega a ser dita, na indiferença que ocupa o lugar da curiosidade. Está na sensação de não pertença, de desenraizamento, de deslocação permanente. E isso é particularmente visível nos alunos que vivem entre mundos, linguísticos, culturais, afetivos, que a escola nem sempre sabe acolher.

Como mediadores linguísticos e culturais, todos encontram diariamente jovens que chegam à sala de aula com uma história que ninguém ouviu. Carregam deslocações abruptas, perdas não elaboradas, línguas que ficam à margem. E, no entanto, a escola continua, tantas vezes, a pedir-lhes que apaguem tudo isso para poderem aprender. Este pedido, tão aparentemente neutro, é já uma forma de violência simbólica.

Quando a escola recusa o aluno real, substituindo-o por um modelo abstrato, cria um vazio. E esse vazio não permanece neutro: transforma-se em tensão, em recusa, em conflito. A violência surge, então, não como desvio, mas como linguagem alternativa de quem não encontrou outra forma de existir.

Hoje, porém, essa equação tornou-se ainda mais complexa. A escola deixou de ser um espaço fechado. As redes sociais atravessam-na, invadem-na, redefinem-na. O conflito já não começa nem termina dentro da sala de aula. Um vídeo compartilhado à noite pode incendiar o dia seguinte. Um comentário anónimo pode transformar um aluno numa vítima exposta a centenas. A violência tornou-se contínua, sem fronteiras, sem pausa.

Neste novo contexto, o professor encontra-se num lugar profundamente instável. Durante décadas, a sua autoridade foi sustentada por uma relação clara entre saber, estatuto e instituição. Hoje, esses três pilares foram abalados. O saber tornou-se acessível em segundos. O estatuto perdeu reconhecimento social. A instituição deixou de garantir proteção simbólica.

O professor continua a entrar na sala de aula − mas já não entra sozinho: entra acompanhado por todos os dispositivos digitais que disputam a atenção dos alunos. Explica enquanto alguém desliza o dedo num ecrã. Propõe enquanto o mundo inteiro se oferece, em fragmentos rápidos, sedutores, imediatos. E, nesse confronto desigual, não é raro que o professor perca a centralidade.

A Inteligência Artificial acentua esta desconstrução. Se a resposta está disponível instantaneamente, qual é o papel do professor? Se o aluno pode produzir textos, resolver exercícios, aceder a explicações em segundos, o que resta da autoridade pedagógica?

Resta o essencial − mas também o mais exigente: dar sentido.

Num mundo onde a informação é abundante, o problema já não é saber mais, mas compreender melhor. E isso exige mediação, orientação, presença. Exige alguém que ensine a distinguir, a interpretar, a questionar. Alguém que não se limite a transmitir respostas, mas que ajude a formular perguntas.

Mas esta transformação do papel docente está a ser exigida sem que o sistema mude verdadeiramente.

Pedimos aos professores que sejam tudo: especialistas, psicólogos, mediadores, gestores de conflito, orientadores digitais, e continuamos a avaliá-los como se fossem apenas transmissores de conteúdos. Este desfasamento entre o que se exige e o que se reconhece é, ele próprio, uma forma de violência institucional.

Entretanto, os decisores políticos persistem em olhar para a escola a partir de fora. Regulam, avaliam, reformam, mas raramente habitam o espaço real onde o conflito acontece. Legislam para uma escola idealizada, não para a escola vivida. E essa distância entre decisão e realidade aprofunda a sensação de abandono.

O que está em causa já não é apenas a violência. É o próprio sentido da escola.

Vivemos numa sociedade fragmentada, acelerada, saturada de estímulos e pobre em escuta. Os alunos chegam à escola com essa fragmentação na mochila: ansiedade, solidão, necessidade de reconhecimento imediato. Muitos não encontram pertença. Não se reconhecem nos currículos, nos ritmos, nas linguagens. E quando o sujeito deixa de se sentir parte, rompe-se a base da convivência.

A violência, neste contexto, é muitas vezes uma tentativa de inscrição: um gesto para dizer “eu estou aqui”, ainda que de forma destrutiva.

As redes sociais reforçam esta lógica. O reconhecimento tornou-se visível, quantificável, instantâneo. A escola, por contraste, oferece um reconhecimento lento, muitas vezes silencioso. Neste desequilíbrio, o gesto extremo ganha mais valor do que o percurso consistente. A disrupção torna-se forma de visibilidade.

Perante isto, não basta adaptar metodologias. É necessário reconstruir o pacto educativo.

Recolocar a escuta no centro. Dar tempo à palavra. Transformar o erro em aprendizagem e não em exposição. Reconfigurar a sala de aula como espaço de relação e não apenas de transmissão. Criar pertença. Sem isso, qualquer estratégia disciplinar será apenas contenção temporária.

É aqui que ferramentas como a mediação escolar ganham um papel decisivo. Não como resposta ocasional, mas como eixo estruturante. Ao permitir que o conflito seja nomeado, escutado e trabalhado, a mediação rompe a lógica da punição automática e abre espaço à responsabilidade partilhada.

A comunicação não violenta oferece, por sua vez, uma linguagem que falta à escola contemporânea. Ensinar a identificar emoções, a reconhecer necessidades, a formular pedidos, eis um trabalho profundamente educativo. Num mundo de respostas rápidas e impulsivas, reaprender a dizer é um ato revolucionário.

Os mediadores linguísticos e culturais são hoje pontes indispensáveis. Permitem que a escola compreenda aquilo que não vê: os códigos, as histórias, as tensões invisíveis. Ajudam a traduzir mundos antes que estes entrem em choque. São, muitas vezes, os primeiros a desativar conflitos que, de outra forma, se tornariam explosivos.

Mas para que tudo isto tenha impacto, é preciso sair da lógica do remendo. Estas ferramentas não podem ser episódicas, precárias, periféricas. Têm de ser integradas numa política pública sólida, contínua, assumida. Caso contrário, continuaremos a tratar sintomas, sem tocar nas causas.

Porque a détresse da escola não é um acidente. É um sinal. Um sinal de que estamos a ensinar num mundo que já não existe, com modelos que já não respondem, ignorando sujeitos que já não cabem nas estruturas herdadas.

Se quisermos transformar verdadeiramente a escola, teremos de ter coragem para uma mudança mais profunda do que qualquer reforma curricular. Teremos de recentrar o humano. Reconhecer que ensinar é construir relação. Que aprender é sentir-se reconhecido. Que a autoridade nasce do vínculo, não do medo.

Neste tempo dominado por algoritmos, velocidade e virtualidade, talvez o gesto mais radical da educação seja simples: parar, escutar, estar. Criar, enfim, um espaço onde ninguém precise de recorrer ao desespero, à violência, para existir. E a escola pode ser o último reduto.

Brasil finge que problemas não existem

Tem cada vez mais gente achando que o caso Vorcaro vai dar em nada. Não porque os envolvidos sejam todos inocentes. É bem o contrário: há muitos suspeitos em todo o espectro político e nas mais altas esferas do poder. Assim, tal é a conversa em Brasília, melhor abafar o caso para não criar uma crise institucional em pleno ano eleitoral.

Dirá o leitor: mas não deveria ser o contrário? Se há tantos envolvidos, gente graúda, a crise já está instalada e precisa ser resolvida, com ampla apuração e punição dos culpados, tudo dentro da lei. Faz sentido, mas não pela lógica praticada nos Poderes de Brasília. Lá, funciona mais ou menos assim: um corrupto de esquerda anula um corrupto de direita, de modo que o resultado é zero. Problema resolvido.


Vorcaro foi bem esperto. Distribuiu dinheiro e favores com as duas mãos. Formou uma legião não de “amigos de vida”, mas de autoridades interessadas em abafar o caso, por puro instinto de sobrevivência. Mas o que fazer com o próprio? A mesma coisa que ele, Vorcaro, está fazendo. Vai enrolando. Oferece uma delação fajuta, depois outra, quem sabe uma terceira — e assim vai ganhando tempo à espera de que o caso esfrie. Daí pode receber uma pena pequena, quem sabe uma domiciliar, salvando uns trocados. Moral da história: se todos estão envolvidos, então ninguém está envolvido.

Esse tipo de lógica, que faz desaparecer o problema, vale para diversas situações. O leitor pode estranhar, mas considere o caso da taxa de juros e das metas de inflação. A inflação está em alta sob qualquer medida que se considere. As projeções também. Pela regra do regime de metas, o Banco Central deveria elevar a taxa de juros (a Selic) e não reduzi-la, como fez há duas semanas. Mas, sabe como é, a Selic já está muito alta, há bastante tempo. E se a gente olhar mais à frente, lá por 2028, a inflação se aproxima da meta de 3% ao ano. Ao adiar o cumprimento da meta, o BC está, de certo modo, mudando o alvo. E tem gente dizendo que essa meta de 3% é muito baixa. Elevando-a para, digamos, 5% ao ano, está tudo resolvido. Já estamos lá, os juros podem ser derrubados.

Não é mesmo uma manobra parecida, suprimir o problema? Se bem que, nesse caso, tem outra lógica. Como diz o próprio BC, uma causa básica da inflação está no frequente aumento de gastos do governo Lula, estimulando o consumo. O BC eleva juros para esfriar a economia e derrubar a inflação. Mas o governo acelera gastos e distribui créditos subsidiados, o que aquece a economia e pressiona a inflação. Além disso, os déficits seguidos do governo Lula elevam a dívida pública e, pois, os juros. Para os analistas de fora do governo, o déficit deste ano chegará a R$ 60 bilhões. Mas, quando se olha para as projeções do Ministério da Fazenda, lá se diz que o resultado das contas públicas será um superávit em torno de R$ 4 bilhões. E as duas aritméticas, acreditem, estão certas. Ocorre que a Fazenda tira várias despesas da contabilidade oficial, até chegar a um superávit, que é meta do arcabouço fiscal.

De novo, suprimiram o problema. Na real, tem déficit. No papel timbrado, sobra dinheiro. Vai por aí o caso dos penduricalhos. Pela Constituição, nenhum funcionário público pode receber mais de R$ 46.336,19, valor do subsídio mensal dos magistrados do Supremo Tribunal Federal. É o teto. Milhares de funcionários ganham muito mais que isso, com base em interpretações jurídicas construídas pelos próprios interessados. Surgiram assim os penduricalhos, auxílios diversos, vantagens, indenizações, que ultrapassam o teto, mas são considerados extrateto. O STF poderia simplesmente declarar que teto é teto — e ponto final. Em vez disso, está regularizando os penduricalhos. Na prática, suprimiu o teto.

E ficamos assim: na real, tem corruptos; a inflação está fora da meta; o déficit público sobe; a dívida aumenta; funcionários recebem acima do teto. No modo à brasileira, os corruptos escapam, a meta de inflação se ajeita, o buraco nas contas públicas desaparece, e o teto salarial não existe.

A invenção de uma cultura chamada brasileira

O Brasil surge do olhar estrangeiro. Antes de nos vermos como um povo, foi a Europa que nos denominou. Acredita-se que foi o Frei Vicente do Salvador (1564-1636), franciscano nascido na Bahia, o primeiro a registrar por escrito o termo “brasileiro” para o nascido na colônia. O termo, contudo, teria surgido com os portugueses da metrópole que usavam “brasileiro” para se referir aos colonos com desprezo. A tal ponto que, em muitos contextos, chamar alguém de “brasileiro” era tido como uma ofensa, equivalia a ser identificado com o contrabando, a extração predatória e a degradação moral associada à vida na colônia — um ambiente que a metrópole via como lugar de degredo, enriquecimento rápido e ausência de civilidade.

Os naturais desta terra preferiam ver-se como portugueses nascidos na sua respectiva capitania. E havia muitos. Assim, por aqui, essa pessoa via-se como um mineiro ou baiano ou um pernambucano etc., antes do que brasileiro. Um português mineiro pareceria a essa pessoa muito mais natural do que falar brasileiro. Claro, aquele que podia ser considerado português, porque os afro-brasileiros gozavam o estranho estatuto de africanos residentes em Minas Gerais ou na capitania que fosse, propriedade de seus senhores. Já os povos originários eram vistos como “gentios ou originais da terra”, mas não súditos da Coroa Portuguesa, que era a condição para serem identificados como portugueses.


O Brasil era pluralidade para os nascidos nestas colônias tropicais. A ideia de Brasil como unidade política integrada era, no século XVIII, uma abstração para a maioria dos colonos. O que existia eram capitanias com administrações próprias, economias voltadas para Portugal e pouca comunicação entre si. O sentimento de pertencimento era local: mineiro, baiano, pernambucano, paulista — não brasileiro.

Isso, não obstante as raízes serem as mesmas: povos originários, Portugal, África. Falar, então, por exemplo, de Tiradentes como mártir da independência do Brasil é um erro em vários aspectos. O que a Conjuração Mineira (1789) desejava era a independência de Minas. Do mesmo modo, a Conjuração Baiana (1798) buscava a independência da capitania da Bahia, não do Brasil como unidade. Os conjurados baianos pensavam a Bahia como república autônoma.

A pluralidade estava também entre os que aqui viviam, mesmo os que eram considerados portugueses. Havia os que enriqueciam aqui (ou já chegavam ricos e se faziam mais ricos) e se tornavam poderosa elite colonial e havia os que nunca conseguiam ascender social ou economicamente. Contudo, os colonos pobres nascidos no Brasil eram a camada mais numerosa da população brasileira e se confundiam com os demais excluídos pela Coroa. Excluídos também pela historiografia.

Esses brasileiros pobres — que se identificavam como portugueses — viviam em condições precárias, sem acesso à terra, à educação ou à mobilidade social. Se formalmente eram livres, na prática dependiam dos grandes proprietários, na sua maior parte, brasileiros ricos, que também se identificavam como portugueses. Muitos viviam em regime de clientelismo: trocavam lealdade política e serviços por proteção e favores.

O Brasil não se fragmentou e o sentimento de pertencimento nacional, ainda que artificial, construído e imposto, acabou se tornando realidade, pelo menos quando há Copa do Mundo e a Seleção entra em campo

Os senhores de engenho e os fazendeiros latifundiários, para além dos grandes mineradores formavam a elite colonial. Eram proprietários de vastas extensões de terra, de dezenas ou centenas de escravos, e controlavam a produção e o comércio local. Esses, sem desculpar a má gestão da Coroa Portuguesa feita a esta terra, foram os que igualmente roubaram o nosso ouro, extraindo e administrando de forma predatória. E tampouco nunca o pensaram em devolver.

Essa visão em territórios menores do que o total da colônia aparece também na América Espanhola e na Inglesa. A América Espanhola dividiu-se a partir dos rachas políticos e sociais que já existiam na época da Colônia. Treze colônias dessa América perceberam que, se pudessem se unir, seria mais fácil conseguirem a Independência da poderosa Grã-Bretanha. E assim nasceu um país, mas não necessariamente uma cultura.

Havia muitos pontos em comum entre essas treze colônias, mas também muitas diferenças. Não havia uma cultura estadunidense anterior à independência. Foi um pacto estratégico que as aproximou, tanto que algum tempo depois haveria uma guerra entre elas, a Guerra Civil Americana (1861-1865).

O Brasil começa a se ver como unidade a partir de um esforço externo, por assim dizer, até ao ponto que possamos considerar externa, naquele momento, a Coroa Portuguesa. Podemos situar o começo desse esforço de construir uma identidade brasileira a partir de 1808, com a chegada da Família Real. O signo “Brasil” ganha corpo com a vinda da Família Real, que centralizou a administração no Rio de Janeiro, uma cidade até então de importância secundária, criando uma estrutura estatal comum.

Se a Independência (1822) iniciou a comunidade imaginada, a consolidação de um “nós, brasileiros” só ocorreu no Segundo Reinado. O Império institucionalizou símbolos, heróis e uma história unificada para sufocar os regionalismos e evitar a fragmentação do território em várias pequenas repúblicas. E, de algum modo, deu certo.

Essa nova nação inventou a sua identidade cultural em um projeto que veio de cima para baixo. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838, foi o braço intelectual desse projeto: encomendou uma história oficial, elegeu heróis nacionais e forjou uma continuidade entre colônia, império e nação que simplesmente não existia na experiência concreta dos habitantes do século XVIII. Além disso, assim como ocorreu com outros países latino-americanos, escolheu a França como símbolo de civilidade, desejando transformar o Rio de Janeiro, a capital da época, na Paris Tropical.

A nossa primeira constituição como país, a de 1824, não mencionava a escravidão. Escravizados eram não-cidadãos. Negros libertos eram cidadãos de segunda classe: podiam votar nas eleições primárias, mas não ser eleitos. Indígenas continuaram sob tutela do Estado, sem direitos políticos, considerados “incapazes”. O projeto era o de uma nação europeia e liberal na forma, escravista na prática, que incluía seletivamente para melhor poder excluir.

A ironia é que o projeto funcionou. O Brasil não se fragmentou e o sentimento de pertencimento nacional, ainda que artificial, construído e imposto, acabou se tornando realidade, pelo menos quando há Copa do Mundo e a Seleção entra em campo. A ficção deu certo. Mas se a identidade brasileira foi uma construção estatal tardia, bem-sucedida em evitar a fragmentação, ela de fato substituiu as identidades regionais ou apenas as recobriu? Em que dimensões continuamos sendo uma ficção? Precisamos desmontar o Brasil para entender melhor a sua realidade: desigual, diverso, fundado na violência e no apagamento sistemático de suas próprias fraturas?
José Luís Landeira

Michelle Firmo, a mulher-bomba que ameaça explodir Flávio Bolsonaro

Está lá um corpo estendido no chão. É o de Michelle de Paula Firmo Reinaldo, 44 anos, natural de Ceilândia, filha de família humilde que concluiu seus estudos em escola pública, secretária parlamentar na Câmara dos Deputados entre 2004 e 2008. Foi ali que ela conheceu seu futuro marido, Jair Messias Bolsonaro, militar da reserva, que hoje, em voz baixa, simplesmente a chama de “A incontrolável”.

Ex-primeira-dama, a única a discursar no parlatório do Palácio do Planalto durante uma posse presidencial e a aparecer em rede nacional de rádio e televisão para desejar feliz Natal aos brasileiros, Michelle acreditou que um dia, por seus próprios méritos, alçaria voo alto na política, contando para isso com a compreensão e a ajuda do marido e dos seus enteados. Mas que nada. Acabou rebaixada à condição atual: cuidadora do marido enfermo, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, e alvo da hostilidade dos filhos dele que sempre a rejeitaram.


Bem-feito. Quem mandou se meter com um bando de misóginos? Ou ignorava que fossem? Ou não os tolerou depois de descobrir que eram misóginos e de sofrer na pele com isso? Deu no que se vê. Magoada, vingou-se da família que nunca a aceitou rompendo publicamente com ela ao divulgar um vídeo onde acusou Flávio e os irmãos de a maltratarem e desrespeitarem.

Poupou o marido, pensando que ele pelo menos a protegeria por ser pai da sua filha Laura, uma adolescente. Bastaria uma palavra de Bolsonaro para salvá-la de retaliações. Não houve palavra até agora. Então Michelle renunciou à presidência do PL Mulher, partido-covil do clã. Por pouco não se desfiliou dele ontem. Está nos seus planos abdicar de sua candidatura ao Senado no Distrito Federal e voltar a ser exclusivamente “uma mulher do lar”, como sempre quis Bolsonaro.

Por último, não contem com ela como cabo eleitoral de Flávio, candidato a presidente. Era só o que faltava. Michelle quer mais é que Flávio não se eleja. De sua parte, Flávio quer mais é que Michelle feche a boca e nunca revele toda a verdade sobre ele. Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), teme que Michelle se transforme numa mulher-bomba, capaz de explodir de uma hora para outra matando todos ao seu redor.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


O dever

Passamos as nossas vidas a lutar para conseguir que pessoas ligeiramente mais estúpidas que nós aceitem as verdades que os grandes homens conheceram desde sempre. Já há milhares de anos que eles sabiam que fechar uma pessoa doente num ambiente solitário torna-a ainda pior. Já há milhares de anos que eles sabiam que um homem pobre que é assustado, pelo seu patrão, e pela polícia, é um escravo. Eles sabiam. Nós sabemos. Mas será que a grande massa iluminada dos britânicos o sabem? Não. É o nosso dever, Ella, o teu e o meu, de lhes dizer. Porque os grandes homens são demasiado grandes para serem incomodados. Estão já a descobrir como colonizar Vênus e como irrigar a Lua. Isso é que é o mais importante para o nosso tempo. Tu e eu somos os empurradores da pedra. Todas as nossas vidas, tu e eu, temos que empregar as nossas energias, e todo o nosso talento, a empurrar uma enorme pedra por uma montanha acima. A pedra é a verdade que os grandes homens sabem por instinto, e a montanha é a estupidez da humanidade.

Doris Lessing, "O Carnê Dourado"

Moralidade pública

Escrever sobre a moralidade pública no Brasil significa falar de algo inexistente. Pode-se discorrer sobre duendes, contar suas estórias, sem que daí se siga que sejam reais. Por mais que se procure, torna-se cada vez mais difícil encontrar algo que, no passado, foi considerado um fator essencial da vida política, um eixo a guiar a conduta da sociedade e de seus representantes institucionais e políticos. Na vida social, porém, observa-se que os brasileiros prezam os valores morais e familiares, sendo muito frequentemente conservadores e respeitosos no que diz respeito à honestidade e a comportamentos retos.


Contudo, quando passamos para a vida pública, o descalabro é total. Políticos de esquerda e de direita, em qualquer posição, se empanturram de recursos públicos por meio de emendas às suas bases eleitorais, muitas vezes desviadas para o bolso de alguns, sem nenhum controle público eficaz. Em nome da não contaminação privada da vida política, criaram-se fundos partidários e eleitorais, aumentados ao bel-prazer dos parlamentares, como se o dinheiro dos pagadores de impostos fosse deles. E muitos parlamentares ainda se dão ao luxo de se aproveitarem de recursos de supostos banqueiros – como Daniel Vorcaro –, na verdade criminosos. Ganham, assim, uma vida luxuosa para se tornarem corretores de luxo. Não se deve, todavia, confundir a atividade bancária com atos ilícitos.

Note-se que as posições ideológicas são as mais variadas, mas tendo em comum uma mesma apetência para o enriquecimento ilícito. Nas atividades deste dito “banqueiro”, houve uma contaminação generalizada, cujos efeitos ainda não se esgotaram. O candidato do PL, Flávio Bolsonaro, foi diretamente afetado, assim como o presidente do PP, Ciro Nogueira, e o ex-líder do governo no Senado, Jacques Wagner, numa lista que não se exaure aqui. Mais impressionante ainda, atingiu igualmente dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Os argumentos utilizados, para além do fato de atingirem a inteligência alheia, compartilham de um mesmo padrão: a ausência de moralidade à qual se acrescentam supostos argumentos jurídicos.

Torna-se, então, necessária uma distinção entre valores morais e justificativas jurídicas. Do ponto de vista da moralidade, nada é apresentado, nem padrões mínimos de probidade pública ou impessoalidade. Passa-se por cima de uma questão moral essencial, tal como formulada por Kant, uma ação ou uma regra qualquer, política ou jurídica, deve ser submetida ao seguinte teste: a ação ou a regra em questão pode ser universalizada, tendo validade para qualquer um? É ela válida para a coletividade como um todo?

Em seu lugar, encontramos pretensos argumentos jurídicos, segundo os quais tudo é feito legalmente, havendo sempre uma “interpretação” ou ato administrativo qualquer a validar tal decisão. O Brasil está se tornando o País das interpretações.

Daqui a pouco 2 + 2 não serão mais quatro, mas cinco ou três ou seis, dependendo da “interpretação”, sempre havendo o recurso adicional de decretos e normas internas às corporações estatais. Terminaremos, assim, numa hermenêutica do ilícito justificada legalmente, mandando para o espaço a moralidade e a racionalidade pública.

Pegue-se ainda os penduricalhos do Judiciário, uma verdadeira excrescência, embora os desembargadores e juízes se comprazam em justificar os seus atos com “interpretações”, numa exuberância retórica visando a justificar o injustificável. A Constituição é clara: nenhum funcionário público pode ganhar mais do que estipulado para um ministro do STF. Começam, então, os “argumentos”: a verba não é do tipo X, mas do tipo Y e assim por diante. São “penduricalhos” materiais e linguísticos, os dessa hermenêutica muito criativa.

Jamais se deveria esquecer um fato básico, o de que os recursos ditos públicos são oriundos do setor privado. São os recursos dos contribuintes que foram transferidos para a esfera estatal, sob a condição, evidente, de que deveriam ser utilizados para a totalidade da sociedade e não em benefício de alguns, os privilegiados. Quantos mais recursos são gastos em privilegiar alguns, sejam agentes públicos ou privados, menos recursos haverá para creches, educação, saúde, saneamento e assim por diante. O bolo dos impostos e contribuições é finito. Uma fatia maior para uns resulta numa fatia menor para outros.

E para piorar a situação, vivemos sob um governo perdulário, cuja característica principal é a do descontrole dos gastos públicos, na mais completa irresponsabilidade fiscal. Quem deveria dar o exemplo torna-se partícipe do empobrecimento da sociedade. Procura contornar os limites dos recursos públicos em uma frenética corrida por mais impostos, cujos resultados são aumento da dívida pública, asfixia da atividade econômica e pressão inflacionária.

E o bem comum esvai-se na ausência de moralidade pública, nas “interpretações legais” e na irresponsabilidade institucional e governamental.

A liberdade é não ter medo, ser precário é temer

Quando cheguei a Lisboa para estudar, comecei a usar um caderninho de papel quadriculado para apontar as despesas. De cada vez que ia à mercearia, tomava um café ou comprava um bilhete de metro, gatafunhava a caneta azul os gastos, que iam somando, subtraindo o resultado à mesada que os meus pais me davam. O dinheiro era curto, mas as minhas paciência e capacidade de gestão financeira ainda eram mais. Rapidamente, perdi o hábito de apontar as despesas, até porque me enervava ver aquelas contas de somar a subtrair ao pouco que tinha. E, além disso, tinha mais o que fazer. A falta de método deu-me direito a alguns sustos. Dias em que percebia que só podia comer esparguete com atum ou em que ia ao supermercado fazer contas de cabeça às moedas e às calorias para ver como podia safar o fim de semana antes de me chegar à conta mais uma remessa de dinheiro parental.

O pior de tudo foi quando tive de ir fazer um trabalho para a faculdade à Baixa e percebi que já não tinha dinheiro para o bilhete do metro. Arranjei maneira de passar os torniquetes e lá me enfiei no comboio sem pagar. Claro que não foi preciso andar muito para aparecerem uns fiscais e eu acabar com uma multa grande e uma humilhação ainda maior. Sou pouco dada às pequenas prevaricações não tanto por questões morais (embora elas também me aflijam), mas sobretudo porque tenho a certeza de que vou ser apanhada. Esta pequena história confirma-o e vem dar razão aos motivos que me levaram a nunca ousar levar cábulas ou a copiar num exame.

Sou uma privilegiada. Tive sempre a rede financeira de pais e avós, para ajudar a compor salários magros numa cidade cara. Não tenho a pretensão de saber o que é o susto de viver na angústia de não ter como chegar ao final de cada mês, embora saiba o que é ver uma conta chegar aos zeros. Apesar de todo o privilégio, há uma coisa que sei: não há maior liberdade do que não ter de olhar para o saldo da conta. E não há nada que nos tolha mais do que a incerteza financeira. É ela que nos cala a boca quando queremos reivindicar. É ela que nos prende as pernas quando gostaríamos de arriscar. É ela que nos congela quando sonhamos mudar de vida.

O poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes

Uma vida de precariedade é uma trela curta. A falta de dinheiro é um açaime. O instinto de sobrevivência diz-nos que caladinhos e dóceis é que estamos bem. E assim ficamos, cheios de medo, encolhidos na vidinha, talvez apenas espumando raiva para os que não podem ameaçar-nos, que olhar para cima já é um perigo. Ter os olhos rentes ao chão é tudo o que nos resta.


Vem esta conversa a propósito da palavra “liberdade”. Essa palavra bonita, arejada, ampla e luminosa. Os novos arautos da “liberdade” dizem-nos que a segurança é uma amarra, a flexibilidade é um trampolim e a falta de regras é o que nos fará prosperar. Vêm munidos de motosserras, que em vez de usarem para cortar as amarras da exploração, brandem contra tudo aquilo que protege aqueles que nasceram com pouco. “Que bonita é a liberdade”, dizem-nos. E tendemos a acreditar, porque a sabemos bela e preciosa. Quem não quer, afinal, ser livre?

Começam, então, a deitar paredes abaixo, para que possamos sentir-nos livres. Vão ao chão a Educação, a Saúde e a Habitação. Derrubam-se as pensões e os direitos no trabalho. Fazem-se em pó as prestações sociais. Fica arejado, sim. Mas começamos, depois, a perceber que estamos já sem paredes. E é uma casa muito engraçada, que fica sem teto e fica sem nada.

Mas dizem-nos, aí, que cada um de nós poderá erguer a sua própria mansão. Cada um com o seu esforço e o seu trabalho. Só não nos explicam que há os que já nascem com milhões e os que, agora que tudo foi demolido, nem as migalhas têm para se aguentarem nas pernas. E há os doentes e os velhos e as crianças. Mas não pensem nisso, esforcem-se. Trabalhem e prosperem. Agora, sem Estado a atrapalhar, tudo é caminho. Não há quem nos limite.

Os que estão em cima rejubilam. Os seus milhões parecem fêmeas, reproduzindo-se sobre o trabalho dos que perderam todos os direitos, com as jogadas dos casinos financeiros, com a especulação sobre o que até agora era um direito, com as rendas garantidas pelo Estado que afinal serve só para distribuir contratos milionários. Os de baixo sonham. Talvez um dia, pensam, enquanto aguentam mais uma jornada que não acaba, enquanto percebem que o pão e a casa estão cada vez mais caros. E olham para um ou dois casos de alguém que nada tinha e tudo conseguiu como num golpe de mágica, com criptomoedas ou visualizações de YouTube. Talvez um dia.

Sim, claro, mas ao menos são livres. Somos livres. Podemos dizer o que queremos, ser o que queremos. Podemos mesmo? Nos EUA acabam de ser presos 15 influencers acusados de “atividades antifascistas” pela forma como expuseram operações do ICE, a polícia anti-imigração de Donald Trump, nas redes sociais. São acusados de conspiração e a acusação considera que independentemente de terem ou não provocado danos reais às atividades do ICE, já incorreram em crimes.

Elon Musk, o grande libertário, também usou esta semana o seu poder financeiro ilimitado para obrigar um canal alemão de televisão a cortar uma peça na qual se fazia a relação entre as suas declarações incendiárias no X e o pogrom feito por racistas que perseguiram, atacaram e incendiaram casas de imigrantes em Belfast na sequência de um crime de esfaqueamento praticado por um imigrante. A Musk, o novo dono da mais colossal das fortunas, devidamente amparada pelos contratos públicos milionários que vai somando, bastou-lhe acenar com a ideia de um processo judicial contra a estação televisiva. O medo fez o resto. O medo faz sempre o resto.

Liberdade é não ter medo. Mas o poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes. Não se pode ser livre sem se ser igual. Não se consegue ser igual perante a lei e nos direitos quando o fosso que nos separa se agiganta ao ponto de alguns ficarem ao nível dos deuses e outros tão rasteiros que deixam de ser humanos.

Quando vierem falar-vos em liberdade, lembrem-se de que ela não é uma palavra vazia. É uma palavra frágil, que definha quando o ar da igualdade se torna rarefeito, que se desfaz quando não a partilhamos. Se queremos a liberdade para nós, temos de saber dá-la aos outros. Se queremos a liberdade para todos, temos de partilhar direitos e redistribuir recursos. Se queremos liberdade, temos de a exigir por inteiro. Sem medo.
Margarida Davim

'Por una cabeza'

Pelas apurações extraoficiais, Abelardo de la Espriella, o candidato da direita radical, foi eleito presidente da Colômbia. As pesquisas já indicavam que Espriella levava vantagem sobre seu rival no segundo turno, o esquerdista Iván Cepeda. O que surpreendeu foi o resultado apertado. Se os números da contagem prévia se confirmarem, o que normalmente acontece, Espriella venceu por uma diferença de apenas um ponto percentual (49,66% a 48,7%). Na Colômbia, os votos em branco são válidos, daí que o vencedor não precisa atingir 50%.


O resultado colombiano vem enquanto o Peru ainda tenta determinar quem venceu o pleito presidencial do dia 7. A também direitista Keiko Fujimori lidera a contagem oficial por margem mínima (50,1% contra 49,9%). É impossível não recordar a vitória apertada de Lula sobre Jair Bolsonaro em 2022, por apenas 1,8 ponto percentual.

O que está acontecendo? As margens de vitórias eleitorais estão se estreitando? É possível que sim, mas é preciso cuidado para não superestimar o alcance desse efeito. Tivemos aqui mesmo na América Latina vários pleitos recentes, como o do Chile e o da Bolívia, que foram vencidos com maiorias bem mais confortáveis. O que parece mais seguro afirmar é que a polarização afetiva em ambiente de rápida circulação de informações (e desinformações) deixa o eleitorado mais arisco e isso, notadamente em disputas de segundo turno em que ambos os candidatos têm alta rejeição, produz as margens apertadas. Mesmo quem não é polarizado e não morre de amores por nenhum dos contenedores é forçado a optar pelo que considera menos ruim.

É interessante notar que essa maior volatilidade afeta também os líderes eleitos por maiorias mais expressivas. O tradicional período de lua de mel dos governantes foi drasticamente encolhido, como mostram os protestos na Bolívia e a rápida deterioração da popularidade de Kast no Chile.

Mesmo que consigamos restaurar o espaço do eleitor moderado, a impaciência algorítmica, creio, veio para ficar.

A política como continuação da guerra pela linguagem

A política moderna, além de se apresentar como espaço do diálogo, da negociação e do pacto, continua falando como se estivesse no campo de batalha. O candidato não disputa uma eleição: “entra na guerra”. O adversário não é concorrente: é inimigo. A campanha não se organiza apenas por ideias: monta “estratégias”, define “táticas”, escolhe “alvos”, concentra “fogo”, prepara “ataques”, executa “manobras”, “ocupa territórios” e busca “aniquilar” a resistência do outro.

A linguagem revela mais do que parece. Quando a política usa palavras da guerra, expõe a natureza conflitiva do poder. Toda campanha é uma disputa por corações, mentes, territórios sociais e simbólicos. Há generais de marketing, soldados de rua, artilharia digital, infantaria partidária, trincheiras ideológicas e bombardeios de versões. O voto transforma-se no território a conquistar.


Sun Tzu, o general-filósofo, que escreveu o livro A Arte da Guerra, há mais de 2.500 anos, ensinava que a vitória superior é vencer sem combater. Na política, isso significa desarmar o adversário antes que ele ataque: ocupar sua agenda, confundir sua base, antecipar seus movimentos, atraí-lo para terreno desfavorável. Miyamoto Musashi, perito na arte desenvolvida pelos samurais (duas espadas presas â faixa da cintura, com a lâmina para cima); recomendava ver o distante como próximo e o próximo com distância. Em seu livro famoso (Um Livro dos Cinco Anéis), oferece lições preciosas para campanhas: perceber o detalhe escondido, a fraqueza invisível, o momento certo de “cruzar o riacho”

Níccolò Machiavelli, considerado o artífice da Ciência Política, famoso por escrever o Principe, mostrou que o poder raramente caminha de mãos limpas. A aparência, a dissimulação, o cálculo e a administração do medo fazem parte do repertório dos que desejam mandar. O cardeal Mazarino, primeiro-ministro da França (1602-1661), um estadista italiano radicado na França, foi ainda mais cru: simular, dissimular, prever antes de agir, falar bem de todos e não confiar em ninguém. É a cartilha amarga da política como arte da sobrevivência.

Karl von Clausewitz, um filósofo da guerra, em seu livro, Da Guerra, publicado por sua esposa em 1832, cunhou a ideia de que a guerra é continuação da política por outros meios. Talvez, hoje, seja possível inverter a frase: a política muitas vezes parece a continuação da guerra por meios verbais, eleitorais e midiáticos. Já Liddell Hart, um ex-capitão e conselheiro do Gabinete inglês, considerado um dos mais respeitados militares do mundo, mostrou, em seu livro Grandes Guerras da História, como a estratégia indireta, ajuda a compreender a política contemporânea: nem sempre o ataque frontal é o mais eficaz. Muitas vezes, vence quem desgasta lentamente, corrói a credibilidade, mina a moral adversária e obriga o inimigo a errar.

O problema é quando a linguagem de guerra deixa de ser metáfora e passa a contaminar a democracia. O adversário vira traidor. A divergência vira ameaça. A negociação vira rendição. A prudência vira covardia. O centro vira pântano. A política, que deveria organizar o conflito civilizadamente, passa a incendiá-lo Campanhas precisam de estratégia, disciplina, método e foco. Mas democracia não é campo de extermínio. O objetivo da política não deveria ser destruir o adversário, mas convencer a sociedade. Não deveria ser esmagar o outro, mas construir maioria legítima. Não deveria ser manipular o eleitor, mas apresentar caminhos.

A política pode aprender com os estrategistas da guerra, desde que não esqueça sua finalidade civilizatória. Estratégia sem ética vira emboscada. Tática sem verdade vira fraude. Comunicação sem responsabilidade vira munição.

No fim, a grande batalha democrática não é contra este ou aquele adversário. É contra a tentação permanente de transformar a política em guerra total. Porque, quando a política abandona a palavra como ponte e a usa como espada, a democracia começa a sangrar.

domingo, 28 de junho de 2026

Pensamento do Dia


 

O centro progressista precisa se radicalizar

Dois eventos recentes, em lados opostos do Atlântico, apontam para o mesmo problema. No Reino Unido, o homem que, segundo as expectativas gerais, deve substituir o imponente Keir Starmer como primeiro-ministro é Andy Burnham, que defende o “socialismo favorável aos negócios” como seu credo. Em Nova York, as eleições primárias democratas resultaram em vitórias impressionantes para os socialistas, sugerindo que a esquerda insurgente encontrou uma maneira de transformar o protesto em poder.

Primeiro, uma ressalva: a esquerda não está caminhando de maneira uniforme em direção ao socialismo. Muitas primárias fora da cidade de Nova York foram vencidas por democratas moderados. Em um distrito nos arredores da cidade, a veterana de guerra Cait Conley venceu com facilidade. Mas um certo tipo de progressismo está perdendo força, confiança e conexão com as pessoas que afirma representar.


No novo livro de Adrian Wooldridge, The Revolutionary Center: The Lost Genius of Liberalism (O Centro Revolucionário: O Gênio Perdido do Liberalismo, na tradução livre), o autor nos lembra que o progressismo já foi a força mais radical da política. Ele atacava os privilégios herdados, o poder monopolista, a censura, a aristocracia, a autoridade clerical e as corporações fechadas. Não era a ideologia do establishment. Era o aríete contra o establishment.

Hoje, o progressismo passou a ser identificado com o poder – grandes universidades, fundações, organizações de mídia, corporações e burocracias. Wooldridge argumenta que isso resultou em duas falhas graves.

A primeira é a passividade. O progressismo moderno, certamente desde a década de 1990, tem exaltado os mercados livres e as pessoas livres. Na prática, isso significou desregulamentar tanto a vida econômica quanto a vida pessoal, tratando as consequências como o preço da liberdade.

Nos mercados, isso permitiu que a consolidação corporativa e a desigualdade se alastrassem descontroladamente. Na vida pessoal, os progressistas passaram a relutar em afirmar que certos comportamentos são socialmente destrutivos.

O resultado é o fatalismo progressista. Pessoas acampam nas ruas das cidades – viciadas e com doenças mentais –, e os progressistas costumam descrever isso como um problema de moradia. Milhões sofrem de doenças relacionadas à obesidade, e os progressistas se sentem mais à vontade culpando os “desertos alimentares” do que enfrentando as empresas que viciam seus clientes em alimentos processados. As empresas de mídia social fazem o mesmo com a atenção de seus consumidores.

Wooldridge defende um renascimento do paternalismo progressista. A expressão soa estranha aos ouvidos modernos. Mas uma sociedade liberal deve valorizar os direitos individuais – e também exigir responsabilidade individual. Deve compreender que a liberdade pode ser destruída não apenas pelo Estado, mas também pelo vício, pelo monopólio, pelo crime, pela ignorância e pela dependência.

Isso não é um argumento a favor do socialismo. É um argumento a favor de um progressismo mais autêntico. Os progressistas deveriam valorizar os mercados não porque eles permitem que os fortes dominem ou que a desigualdade aumente, mas porque a concorrência genuína permite que os mais fracos desafiem os fortes.

Um mercado saudável não é aquele em que quatro empresas dividem discretamente um setor e usam advogados, lobistas e algoritmos para manter os concorrentes de fora. É aquele em que novos participantes podem surgir, os consumidores podem escolher, os trabalhadores podem mudar de emprego e os já estabelecidos podem fracassar.

A segunda falha identificada por Wooldridge é mais incômoda, pois diz respeito à própria condição dos progressistas. O progressismo acredita na meritocracia. Historicamente, essa foi uma de suas causas mais nobres. Defendia que as pessoas deveriam ascender por meio do talento e do esforço, e não por nascimento, raça, casta ou classe. Mas, com o passar do tempo, a elite

A saída para a crise do liberalismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical meritocrática se transformou em sua própria aristocracia.

Os progressistas de elite defendem a justiça social, mas fazem pouco para acabar com o sistema de admissão por legado. Eles querem que os pobres subam na escala social, mas não se isso exigir a construção de mais moradias nos bairros arborizados onde eles moram. Eles elogiam o mérito individual, mas criaram uma vasta burocracia da diversidade que, com muita frequência, julga as pessoas com base na identidade de grupo, em vez de no caráter pessoal.

Em nenhum outro lugar isso fica mais claro do que no ensino fundamental e médio. Uma política genuinamente progressista começaria pela criança. Ela atacaria qualquer instituição – sindicato, burocracia, conselho escolar, departamento universitário – que alimente seu próprio poder enquanto falha com as crianças dos EUA.

É aí que os socialistas e os populistas de direita ganham força. Eles entendem que as pessoas querem alguém que lute por elas. Podem oferecer respostas equivocadas – a esquerda com luta de classes, protecionismo e controle estatal, e a direita com protecionismo, ressentimento étnico e nostalgia racial. Mas soam como outsiders dispostos a enfrentar privilégios arraigados e oferecer proteção em um mundo onde a liberdade parece significar caos.

A saída para a crise do progressismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical. Os progressistas devem voltar a ser aqueles que detestam o monopólio, as vantagens herdadas, os sistemas fechados e os jogos viciados. Devem defender a concorrência real, a meritocracia real e a igualdade real de oportunidades. Devem enfrentar o poder corporativo quando ele esmaga os mercados, o poder governamental quando protege os privilegiados e o poder cultural quando cria burocracias que substituem a dignidade individual pela identidade de grupo.

Como argumenta Wooldridge, o centro não pode ser meramente um ponto médio entre a esquerda e a direita. Ele precisa ser revolucionário à sua maneira. A grande promessa do progressismo nunca foi que as pessoas fossem deixadas à própria sorte para definhar na liberdade. Era que as pessoas recebessem as ferramentas, as regras e as responsabilidades necessárias para prosperar. O progressismo começou como uma revolta contra o poder arraigado. Ele só sobreviverá se voltar a ser aquilo que foi em sua origem.

Fareed Zakaria

O barraco de Michelle e o rolo Master de Wagner contam como o país funciona

Um assunto político da semana foi o vídeo de Michelle Bolsonaro, que armou salseiro novo na extrema direita. Pode ter relevância nesta eleição apertada, pois ameaça tirar votos de Flávio Bolsonaro. Além do mais, Michelle pode vir a ter posição política maior do que já tem por causa de seu status na família irreal dos Bolsonaro e de seu apelo de palco gospel. Tem presença virtual eficaz e militância real.

Que figura nacional viaja pelo país a organizar células de base, de resto com mulheres, com um comitê político de comando majoritariamente feminino? Que lideranças nacionais de esquerda, que quase inexistem, têm tamanha organização digital e agregam militantes no chão de fábrica político? Mesmo quem não gosta do que diz Michelle deveria prestar atenção ao que ela faz, um plano de entrincheirar a direita. A querela de Michelle com os Bolsonaro é "pop", porém, por misturar fofoca, novela, barraco familiar, BBB e pinimba de influenciadores, paixões nacionais.


Outro assunto da semana, Jaques Wagner, teve também apelo sensacional, inclusive por servir à contagem de gols contra que direita e esquerda marcam por se envolver com gangue. O Master, porém, é mais: um fato social total do mundo dominante, para dizê-lo com sarcasmo.

Nesta semana ficou mais evidente o interesse de ministros do Supremo de, no mínimo, conter danos do processo contra Daniel Vorcaro, por interesse pessoal e por alianças no Congresso. Já vimos isso antes, o acordão que acabou por enterrar a Lava Jato ou, mais importante, provas de corrupção sistêmica de parte graúda da elite econômica e que ia muito além do PT.

O lavajatismo foi muitas coisas. Além de fraude processual e parte do movimento para acabar com o PT, era uma das revoltas contra um sistema político podre e impermeável. Perdeu, entre outros motivos, porque a política politiqueira ocupou o espaço deixado pela repressão provisória do lulismo-petismo. Partidos dos mais envolvidos na corrupção deste século, como PL e PP, foram ao centro do poder com Jair Bolsonaro. Aí valeram-se do enfraquecimento do Executivo, se apropriaram de mais recursos (fundos, emendas, favores empresariais), ampliaram bancadas, currais e a prestação de serviços ao poder econômico. Pode acontecer de novo.

O caso Master é também tentativa de normalizar o que se pode chamar de corrupção contratual ou cordial: contratos para lobby nebulosamente corrupto e favores bandidos chamados de amizade. Vorcaro e políticos, da direita à esquerda, assim justificam seus rolos.

Evidencia também a institucionalização da finança bandida. O Master se valia de um sistema de fintechs, fundos secretos e fraudulentos, de liberalização financeira tosca e de falta de instrumentos de fiscalização disso tudo, pois o Estado é fraco, por captura e falta de recursos no lugar certo. Esse sistema continua vivo, se reorganiza e está no centro de operações de facções, de sonegação e evasão de divisas, de fundos políticos corruptos, tráfico de drogas, armas, combustíveis, ouro e madeira, grilagem, desmatamento etc.

Pela lente de aumento do Master a gente vê a ruína do STF, o poder renovado do centrão direitão, a compra empresarial do Congresso, a infraestrutura financeira do crime, aluguel de poderosos por contrato, corrupção cordial e o padrão de acordões e perseguições políticas vigente desde 2015.

O caso Master e até o de Michelle contam um tanto de como o país funciona.

As dinâmicas afetivas e a polarização política brasileira

A política brasileira atual costuma ser explicada por uma palavra inevitável: polarização. A expressão ajuda a descrever parte do nosso contexto, mas também pode esconder mais do que revela. Quando se fala em polarização afetiva, a imagem que se forma é a de uma sociedade dividida em dois blocos equivalentes, movidos por paixões opostas e estáveis. O Brasil, porém, parece viver algo mais complexo. Não apenas se polarizou. Também se tornou mais negativo em sua relação com a política.

Essa diferença importa. Polarização afetiva significa gostar de um campo político e rejeitar intensamente o outro. Mas nem toda negatividade se converte em adesão. Há eleitores que rejeitam Lula sem necessariamente gostarem de Bolsonaro. Há eleitores que rejeitam Bolsonaro sem demonstrar entusiasmo por Lula. E há os que olham para os dois campos com frieza, distância ou desconfiança.


A comparação entre dois levantamentos da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) ajuda a enxergar essa mudança. Em 2006, uma pesquisa com 2.400 entrevistas mediu sentimentos em relação a Lula, então presidente, e Geraldo Alckmin, principal nome da oposição. Em maio de 2026, outro levantamento, com 1.500 entrevistas, repetiu a lógica, agora tendo Lula e Bolsonaro como referências dos campos nacionais. Nos dois casos, foram considerados sentimentos positivos, como entusiasmo, esperança e orgulho; e negativos, como raiva, medo e decepção.

O resultado confirma o avanço da polarização, mas aponta para algo além dela. A parcela de eleitores que combina adesão positiva a um campo com rejeição ao adversário passou de 19% para 31%. É um crescimento expressivo. Ainda assim, significa que 69% dos eleitores não se enquadram na polarização afetiva estrita. Isso, porém, não quer dizer que exista uma avenida livre, da mesma dimensão, para uma terceira via. A ausência de polarização pode significar indiferença, desalento, rejeição seletiva ou afastamento da política.

O dado mais revelador talvez esteja em outro lugar. O grupo dos que rejeitam um lado sem aderir positivamente ao outro passou de 6% para 19%. A política, portanto, não se tornou apenas mais polarizada; tornou-se mais movida por recusas. Cresceu o eleitor que se define menos pelo entusiasmo com um projeto e mais pela rejeição a uma alternativa. A negatividade passou a organizar a percepção política mesmo sem identificação forte com o campo oposto.

No sentido inverso, diminuiu a adesão positiva sem rejeição. Em 2006, 32% dos entrevistados gostavam de um campo político sem necessariamente rejeitar o outro. Em 2026, esse grupo caiu para 16%. Tornou-se menos comum preferir sem hostilizar. Também diminuiu a ambivalência, isto é, a presença de sentimentos mistos ou pouco definidos, de 29% para 10%. A política ficou menos cinzenta e menos aberta a zonas intermediárias de afeto.

A indiferença também cresceu: foi de 12% para 19%. A dupla rejeição aumentou de 2% para 5%, permanecendo minoritária, mas simbolicamente relevante. Esses dados mostram que a sociedade brasileira não está apenas dividida entre militantes de campos opostos. Ela também é composta por eleitores reativos, frios, desconfiados ou pouco mobilizados.

A mudança mais importante das últimas duas décadas talvez esteja justamente aí: tornou-se menos comum gostar de um campo sem rejeitar o outro; e tornou-se mais comum rejeitar um campo sem aderir plenamente ao adversário. A política brasileira ficou menos ambígua, mas não necessariamente mais programática. Ficou mais negativa.

Essa negativização afetiva tem consequências para a democracia. A emoção na política não é um problema em si. Democracias precisam de esperança, pertencimento e identificação coletiva. O risco surge quando a emoção predominante deixa de ser a adesão a um projeto comum e passa a ser a hostilidade ao outro. Quando isso acontece, a política se aproxima de uma dinâmica permanente de veto, medo e ressentimento.

Por isso, compreender o Brasil atual exige ir além da imagem de dois blocos simétricos em confronto. A política brasileira é estruturada por campos dominantes, mas ao redor deles há segmentos afetivos distintos: engajados, reativos, indiferentes, ambivalentes e os que rejeitam todos os lados. O país não vive apenas uma polarização entre paixões opostas. Vive também uma expansão da política como experiência negativa.

O Brasil não apenas se polarizou. Ele se negativizou afetivamente. E talvez seja esse o traço mais importante para entender os impasses democráticos dos próximos anos.

A Copa superlativa

A Fifa conseguiu organizar uma Copa do Mundo com números extravagantes: 48 seleções, 1.248 atletas de diferentes credos, etnias e culturas, estádios gigantescos espalhados pelos Estados Unidos, México e Canadá. Consta que a Fifa projeta faturar US$ 8,9 bilhões, tornando a Copa de 2026 a mais lucrativa da história do torneio. Em direitos de transmissão serão US$ 3,9 bilhões. Com ingressos e hospitalidade, outros US$ 3,12 bilhões. Patrocínios e marketing, mais US$ 1,8 bilhão. Com as pausas para hidratação virão US$ 500 milhões em receitas de publicidade.


A Copa 2026 expressa bem a mundialização do esporte mais popular do planeta. Está radicalmente mercantilizada. É uma máquina de fazer dinheiro. Os atletas protagonizam o espetáculo: viabilizam a rentabilidade das marcas e, ao mesmo tempo, exibem suas identidades, seus estilos pessoais, suas chuteiras valiosas. Uns mais, outros menos, todos são stars. A mundialização aprofundou a miscigenação, filha da “diáspora” mais recente. Fugindo das guerras e das más condições de vida em vários países (muitas ex-colônias) da África, da Ásia, do Oriente Médio e do leste europeu, diversas famílias criaram seus filhos no Ocidente e alimentaram tanto as seleções dos países originários quanto das europeias. Tudo se misturou. Seleções “brancas” ficaram multicoloridas.

Essa integração esportiva nivelou o jogo jogado. Não eliminou diferenças: continuam existindo equipes fortíssimas, fortes, medianas e fracas. Mas o equilíbrio aumentou. O milionário futebol europeu se tornou a Meca do esporte. Quem tem talento vai aprender lá. Com isso, atletas de diferentes países passaram a receber treinamentos semelhantes e a assimilar concepções táticas parecidas. Todas as seleções estão bem preparadas, com atletas que sabem o que fazer com a bola. As mais fracas se fecham, as mais fortes assumem riscos. Mas, no futebol, um erro decide. Não se ganha jogos por antecipação ou só pelo peso da camisa. Como observou o professor Paulo Fábio Dantas Neto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), “o futebol é um esporte em que jogadores e times podem substituir sua menor qualidade por mais retranca, garra, entrega, superação, coragem, heroísmo ou qualquer outro nome que se possa dar a zebras e surpresas em geral”.

Coisas importantes continuam a fazer a diferença. A tradição, a identidade e a continuidade do trabalho ao longo de anos. Das grandes escolas futebolísticas, apenas a italiana ficou de fora, mais uma vez. O tempo de preparação, de convívio dos atletas e de assimilação tática, o que produz harmonia e coesão coletiva. Os jogadores decisivos, em torno dos quais gira o jogo. Há vários craques distribuídos pelas seleções mais fortes. A Argentina tem um gênio, Messi. O Brasil tem Vini Jr., mas a seleção busca recuperar a identidade perdida e seu técnico não consegue definir uma equipe. Parece estar melhorando jogo após jogo.

E o que falar das transmissões televisivas, tanto da Globo quanto da novata e poderosa CazéTV? São uma prova de resistência para os espectadores. Carregadas de informações supérfluas e ufanismo. Investem pesado em autopromoção. A CazéTV o faz de forma escrachada, celebrando sua audiência e seus patrocinadores. A Globo é mais contida, mas segue roteiro semelhante. Os profissionais conhecem futebol, mas também atuam como animadores de torcida e garotos-propaganda. As emoções do futebol são amplificadas por discursos passionais. Menospreza-se a qualidade das seleções mais fortes para se exaltar a coragem e a resiliência das mais fracas. Fabricam-se heróis instantâneos (os 15 minutos de fama do goleiro Vozinha, de Cabo Verde) e tropeços ocasionais são transformados em feitos históricos. Há aí um componente de compensação: já que não há uma seleção brasileira competitiva, desconstruamos a imagem das melhores, torcendo contra elas.

Fernando Gabeira lembrou, numa coluna do Estadão (Hora de jogar com a cabeça na Copa, 19/6, A6), que a Copa, concebida como apologia do esporte e do fair-play, teve de conviver com a política migratória e a xenofobia de Trump. Os “ares da guerra contra o Irã foram transplantados para o campo esportivo”. O governo estadunidense passou vexame ao exigir que os iranianos jogassem nos Estados Unidos, mas dormissem no México. O árbitro somali Omar Artan foi barrado ao entrar nos Estados Unidos. Jogadores senegaleses foram submetidos a inspeções rigorosas sob suspeitas paranoicas. A Fifa aceitou.

Agora falta o desfecho. Virá o hexa? Por que não? Afinal, trata-se de futebol. Mas o futebol brasileiro não é mais um bicho-papão, perdeu qualidade e brilhantismo, paga um preço alto por sua desorganização, pelas gestões incompetentes, pelo endividamento dos clubes, pela ruindade da arbitragem. A eliminação precoce da seleção talvez contribua para que se veja a situação a que chegamos e impulsione mudanças importantes: reforma do calendário, aperfeiçoamento da formação de base e maior incorporação de tecnologia. A conquista da Copa, ao contrário, poderá varrer a sujeira e a mediocridade para baixo do tapete.

Só nos resta aguardar.

O eu dos outros

Volta e meia completos estranhos dirigem-se a mim para contestar o que acreditam que eu penso sobre um determinado assunto. Algumas pessoas fazem-no de forma gentil, outras com inacreditável brutalidade, animadas por um terrível ódio e indignação. Há quem me atribua ideias que jamais defenderia, intenções que nunca me ocorreram, frases que não escrevi — eventualmente, romances inteiros.

No início tentava defender-me. Certa ocasião, numa longa viagem aérea, fui reconhecido pelo passageiro ao lado.

— Você não é aquele palhaço?!

E logo me atacou, enterrando na minha alma espantada uma série de insultos afiados, tudo porque eu teria dito isto e aquilo a um determinado jornal. Neguei. Não, eu não pensava assim. O homem espetou-me no peito o indignado dedo indicador:

— Pensa, pensa, palhaço! Só não sabe que pensa!…

Hoje já não me defendo. Escuto com curiosidade. Afinal, quem sou eu para contradizer desconhecidos que me conhecem tão intimamente?


Só porque eu sou eu não significa que me conheça. Os meus inimigos íntimos, pelo contrário, conhecem-me admiravelmente. Não precisam conviver comigo, nem ler as crônicas que escrevo para este jornal, muito menos os meus livros. Basta-lhes passar os olhos por uma frase breve, retirada do contexto; assistir aos cinco primeiros segundos de um vídeo; escutar o comentário áspero do amigo de um amigo.

Antigamente, para conhecer um homem, era preciso jantar com ele, viajar na sua companhia, jogar cartas, passar noites partilhando cervejas, piadas, confissões. No mínimo, frequentar a mesma barbearia.

Hoje basta segui-lo no Instagram.

Com isto, venho descobrindo que, como Fernando Pessoa, escondo em mim um sem-número de personalidades. Todas, graças a Deus!, com opiniões fortes e originais. O mais curioso é que enquanto uns me acusam de uma qualquer heresia, outros acusam-me da heresia oposta. Ou seja, não apenas sou multidões, como sou também multidões contraditórias.

Suspeito que a nossa época resolveu um dos grandes problemas da filosofia. Durante séculos os homens perguntaram-se:

— Quem sou eu?

A resposta revelou-se afinal muito simples: basta consultar as redes sociais.

Existem hoje milhares de especialistas em identidades alheias. São pessoas de extraordinária competência. Conseguem determinar as nossas opiniões políticas a partir de uma simples fotografia; a nossa vida íntima a partir de um adjetivo distraído; as nossas intenções mais profundas através de uma vírgula mal colocada. Alguns, mais talentosos, descobrem até as teses que defenderemos amanhã.

Conheço desconhecidos que sabem exatamente o que penso sobre questões tão complexas como a situação na Palestina, o aborto, a inteligência artificial, o aquecimento global, a metafísica do impedimento e a melhor forma de preparar bacalhau. Enquanto eu hesito, duvido e, muitas vezes, me contradigo, estes meus procuradores espirituais mostram-me ao mundo com uma formidável coleção de firmes convicções bizarras.

Esta ideia me tranquiliza. Aos 65 anos começo a cansar-me de ser eu. É um ofício difícil. Felizmente, estes filantropos estão dispostos a desempenhá-lo por mim. A todos eles deixo aqui a minha infinita gratidão.

Nuremberg das bets no Brasil

Em uma manhã cinzenta de setembro de 2030, havia um silêncio elétrico no tribunal. Todas as atenções tateavam os réus. Reconhecia-se no olhar de alguns deles um sentimento de deslocamento, havia um não-lugar em suas íris; outros suspiravam a mais absoluta surpresa, como se tivessem dormido em um quarto nas Maldivas e de repente acordado ali. Pairava sobre um ou outro uma aura de injustiça. Afinal, se qualquer pessoa faria o mesmo para ganhar milhões de reais, por que eles eram acusados? Lá estavam no banco dos réus Casemiro Miguel, Luciano Huck, Neymar Jr, Virgínia Fonseca, Gusttavo Lima, Ronaldo Fenômeno, Carlinhos Maia, Galvão Bueno, Vinícius Jr entre outros.

Havia outros personagens ausentes e com acusações diversas nesse julgamento imaginário. O ex-presidente Jair Bolsonaro e outros integrantes de seu governo foram indiciados por omissão, já que deixou deixar o prazo expirar para a lei da regulamentação, não editou normas e assistiu o mercado explodir sem controle algum. Segundo a filósofa alemã Hannah Arendt, a omissão administrativa também pode permitir a consolidação de sistemas socialmente nocivos.

Talvez devesse começar esse texto com um aviso. Não se trata de uma comparação direta entre bets e nazismo e o Julgamento de Nuremberg, que entre 1945 e 1946, julgou os principais líderes dos crimes contra a humanidade Apostas são um atentado à saúde pública. A analogia se dá entre as engrenagens políticas, econômicas e sociais que produzem uma barbaridade; está na visão de Arendt: em vez de burocratas, os réus são influenciadores e comunicadores que apenas cumprem funções, ganham seu dinheiro trabalhando, como qualquer outro. Esse julgamento hipotético responderia a uma pergunta: quem são os responsáveis pelos danos causados pelas bets?

Não estou torcendo para ninguém ser preso. Mas por que essas celebridades são julgadas e não os donos das bets? Aí é que está. Quem são os donos? Onde vivem? Como se alimentam? Os famosos são a ponta do iceberg, estão ali por uma questão de jurisdição e exposição.

Durante o julgamento de Adolff Eichmann, um dos principais responsáveis pela organização logística do Holocausto, Hannah Arendt ficou aterrorizada ao não perceber sobre ele as sombras do fanatismo e do cinismo, enxergou apenas uma submissão cega à lei, o cumprimento rigoroso do dever, sem qualquer reflexão sobre uma ordem recebida – o que torna o mal banal.

As empresas pagam impostos, os influenciadores fazem publicidade, tvs e plataformas oferecem entretenimento, o Congresso regulamenta, os bancos processam as transações. Quem tem culpa? Quem é responsabilizado frente a uma população apunhalada por agrotóxicos, microplásticos, álcool, antibióticos, tabaco, algoritmos e toda sorte de poluição?

Uma de nossas crises é essa, o mercado deixou de ser instrumento, uma parte da sociedade, e passou a organizar toda a vida social. O verdadeiro tribunal não é apenas jurídico, mas moral e político. O debate não é apenas se as bets são legais, mas se uma sociedade pode considerar legítima uma atividade cuja prosperidade depende da desgraça de milhões.
Marco Miguel

sábado, 27 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 



O homem apagado

Não era apenas um objeto. O homem largado sobre a cadeira de rodas era um ser humano. Repleto de sonhos, de frustrações. Quem sabe de amores perdidos ao longo da vida? Talvez por ser uma pessoa em situação de rua, o homem foi apagado aos olhos dos outros. Morreu dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Recanto das Emas, em circunstâncias que estão sendo apuradas. De repente, o homem deixou este mundo. Parou de respirar. O corpo, inerte sobre a cadeira de rodas, somente foi percebido tempos depois por uma mulher, enfermeira, que estava na sala de espera com o marido. Mas era tarde demais.


O homem apagado estava sem sinais vitais. Virou número, estatística, dado que provavelmente será usado para evitar novos apagamentos em unidades de saúde. No dia seguinte, ganhou identidade pelas autoridades: Vilmar da Silva, 49 anos. Antes de morrer, contou a um grupo de religiosos que não se alimentava havia 15 dias. Acredita-se que estivesse ali para se proteger do frio e para aliviar a sede. Dessa vez, parece ter sido ignorado. Até partir.

Outros homens, mulheres e crianças apagados cobram o preço de sua mera existência mundo afora. Os palestinos sofrem apagamento quase diariamente. Bombardeios israelenses arrastaram para a morte dezenas de milhares de moradores da Faixa de Gaza. E o mundo se cala, parece acostumado à política de matança. Dia desses me deparei no Instagram com a história de um palestino assassinado em ataque aéreo enquanto buscava os convites de seu casamento. Quase diariamente, nós, jornalistas, recebemos fotos das agências de notícias em que pais e mães da Palestina se desesperam e se debruçam sobre os corpos dos filhos envoltos em mortalha. Assim como Vilmar, que morreu sobre uma cadeira de rodas na UPA de Recanto das Emas, retiraram-lhes o direito de viver.

Mas não é preciso ir tão longe para ver homens anulados pela sociedade. Muitos de nós estamos presos ao individualismo, ao egoísmo, à busca do enriquecimento e da prosperidade. Nós nos preocupamos tanto conosco e não olhamos para o próximo, para o lado. Quantos filhos abandonam seus pais em asilos e os apagam da própria história? Tantas vezes, quando o fazem, levam meses ou anos sem uma visita. O idoso alimenta aquela esperança, irreal, a cada fim de semana. Do outro lado, muitos encontram silêncio, desprezo e esquecimento em vida. Também quantos pais ignoram a existência de seus filhos e não lhes oferecem o mínimo suporte afetivo e financeiro? Destroem a saúde psicológica de quem deveriam amar.

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade. Estão nos semáforos, nas portas dos supermercados, sob as pontes e os viadutos, lançados na sarjeta. Dependem unicamente da empatia alheia, que quase sempre inexiste. Quando o Estado lhes dá atenção, normalmente é para sepultá-las.

Intervenção assumida

Observamos seu otimismo em relação às próximas eleições de outubro e sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição caso o senhor seja eleito.

Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos 

Livro XI


I
. Devo considerar o meu vínculo com os homens e que fomos feitos uns para os outros. Sob outra perspectiva, fui concebido para pastorar, como um carneiro que chefia o rebanho ou um touro que conduz a manada. Devo examinar a questão a partir das primeiras convicções: caso não existam somente átomos, a natureza ordena tudo. Assim sendo, as coisas inferiores existem para o benefício das superiores, e essas para o bem umas das outras.

II. Devo avaliar quais tipos de homens são na mesa, na cama e assim por diante. Particularmente, a quais compulsões estão sujeitos devido às suas opiniões e o quanto se orgulham das suas ações.

III. Caso os homens façam o que é certo, não devemos nos descontentar. Caso não, agem por falta de consciência e por ignorância. Nenhuma alma é voluntariamente privada da verdade ou tolhida da aptidão para lidar com os homens conforme seus méritos. Esse é o motivo de se chatearem quando são chamados de injustos, ingratos e gananciosos e, em especial, malfeitores dentre seus vizinhos.

IV. Também erro e sou um homem como qualquer outro. Embora não incorra em certas falhas, ainda estou inclinado a cometê-las — mesmo que a covardia, o apego à reputação ou outras motivações vis me previnam de falhar.

V. Nem sequer sei se os homens estão agindo errado ou não, porque muitas ações são realizadas proporcionalmente às circunstâncias. Um homem precisa saber muito para ser capaz de julgar corretamente as ações do outro.

VI.Caso esteja aborrecido ou aflito, devo ponderar: a vida do homem é um breve instante e logo estaremos todos mortos.

VII. O que nos perturba não são os atos dos homens — pois esses se fundamentam nas suas faculdades hegemônicas —, mas sim nossas próprias opiniões acerca dos atos. Portanto, remova a sua opinião. Pare de julgar um ato como doloroso e sua dor cessará.

“Como, então, remover essas opiniões?”

Basta reconhecer que nenhum ato errôneo sofrido por você é vergonhoso. Afinal de contas, se o que é vergonhoso fosse apenas mau, você cometeria muitos erros, seria um ladrão e tudo mais.

VIII. A dor é causada mais pela cólera e pelo aborrecimento em resposta aos atos do que  pelos atos em si.

IX. Uma boa disposição é invencível quando é genuína—quando o sorriso não é falso ou fingido. Não há nada que o homem mais violento possa fazer caso você continue tratando-o gentilmente, admoestando-o e calmamente corrigindo-o quando tentar prejudicá-lo. Diga a ele: “Não é assim, meu filho. Fomos constituídos por natureza para outro propósito. Você prejudica não a mim, mas a você mesmo.” Mostre-o, com tato e recorrendo a convicções abrangentes, que nem as abelhas nem quaisquer animais gregários agem como ele. Você deve se dirigir a ele de modo afetuoso, sem sarcasmo ou reprimenda e sem guardar rancor na sua alma. Você deve admoestá-lo não como se fosse um professor ou como se pretendesse impressionar espectadores, mas sim como se ele estivesse sozinho — ainda que outros estejam presentes.

Receba essas nove regras como se fossem dádivas das nove Musas.

Comece, enquanto ainda vive, a ser um homem. Evite, na mesma medida, tagarelar e se aborrecer com os outros, porque ambos são comportamentos antissociais e danosos. Quando encolerizado, retenha esta verdade: ser movido pela paixão não é viril. A brandura e a gentileza, por estarem mais em consonância com a natureza humana, são mais viris. Quem possui essas duas qualidades demonstra força, nervos e coragem, diferente do homem sujeito ao ímpeto da paixão e do descontentamento. Ao passo que se liberta das paixões, o homem se fortalece. A raiva é uma característica da fraqueza tanto quanto o sofrimento. Quem cede à ira está tão ferido e rendido quanto quem cede à dor.

Por fim, caso queira, receba uma décima dádiva do líder das Musas:

X. Esperar que homens maus não façam o mal é insanidade, pois significa expectar o impossível. Permitir que se comportem dessa maneira com o outro mas não com você é irracional e tirânico.
Marco Aurélio, "Meditações"