quinta-feira, 2 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


As chamas

As chamas brilhavam há mais de um mês na fornalha do soprador de vidro, onde eram feitos vidros e garrafas.

Um dia viram aproximar-se uma vela colocada num castiçal fino e brilhante. Imediatamente, com um desejo ardente, as chamas tentaram aproximar-se da linda vela.

Uma delas, saltando da brasa que a alimentava, virou-se de costas para a fornalha e, passando através de uma pequenina fresta, atirou-se para cima da vela, devorando-a sofregamente.

Porém a ávida chama logo consumiu a pobre vela e, não desejando morrer com ela, tentou voltar para a fornalha de onde havia fugido.

Porém não conseguiu desgrudar-se da cera amolecida e, em vão, gritou para as outras chamas, pedindo socorro.

A chama rebelde transformou-se numa sufocante fumaça, e deixou todas suas irmãs resplandecentes, com a perspectiva de uma vida longa e brilhante.

Moral: A ganância, o egoísmo e a busca por prazeres imediatos destroem aquilo que cobiçam e isolam o indivíduo de sua fonte de segurança.

Leonardo da Vinci. Fábulas

A vida, a liberdade e a busca da felicidade

Entre os dias 11 e 28 de junho de 1776, no apartamento de segundo andar que alugara em Filadélfia, Thomas Jefferson trabalhou nas hora vagas — era delegado ao Congresso e, como a maioria dos colegas, assíduo ao trabalho — no texto de uma declaração a ser feita pelo II Congresso Continental. Era conhecido por sua dificuldade em socializar e por sua facilidade em escrever frases sonoras. Ele e quatro outros haviam sido nomeados como Comitê de Redação; os outros, entre eles John Adams e Benjamin Franklin, lhe repassaram a tarefa. No dia 28 submeteu um esboço de quatro páginas a Adams e Franklin.

O Congresso discutia a moção de Richard Henry Lee, apresentada no dia 7 de junho, de que fosse feita uma Declaração de Independência. No dia 2 de julho, por unanimidade dos votos, salvo a abstenção da delegação de Nova York (ainda não havia o Mandani mandando nem o Tammany Hall), ela foi aprovada. O plenário passou a rever a fair copy do texto — destruída, possivelmente, no processo de impressão. Cortou um quinto dele, diz Joseph Ellis. Aceitou sem problemas o preâmbulo começado com as mágicas palavras:


Consideramos esta verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade. — Que para assegurar esses direitos governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados.

Fala-se em inspiração no Second Treatise of Government (1690) de John Locke: “mutual preservation of their lives, liberties and estates, which I call by the general name, property”. O gênio de Jefferson foi trocar essa coisa detestável, propriedade, por essa coisa desejável, felicidade, para todos uma eterna busca.

Jefferson lamentou especialmente a retirada de um único parágrafo da lista de agravos cometidos pelo rei da Inglaterra:

O rei fez guerra cruel contra a própria natureza humana, violando seus mais sagrados direitos de vida e liberdade nas pessoas de um povo distante que nunca o ofendeu, capturando-o e levando-o em escravatura a um outro hemisfério, ou para sofrer morte miserável no próprio transporte para ali. Essa guerra prática, o opróbrio dos poderes individuais, é a guerra do rei CRISTÃO da Grã-Bretanha. Determinado a manter aberta como mercado onde HOMENS podem ser comprados e vendidos, ele tem prostituído sua negativa de suprimir toda tentativa legislativa de suprimir esse comércio execrável. E para que esse conjunto de horrores não receba de nenhuma maneira morte distinta, ele está agora excitando aqueles mesmos a pegar em armas contra nós e comprar aquela liberdade de que os privou por tornando o povo em que os impôs, assim pagando seus crimes anteriores de um povo com crimes que ele os incita a cometer contra a VIDA de outro povo.

Jefferson culpava, com razão, a pressão da Carolina do Sul e da Geórgia, mas também os estados do Norte, que lucravam com o tráfico. Não lembrava que Virgínia, seu Estado, tinha razões cruéis para ser contra o tráfico: ter um excesso de escravizados, uma população de origem africana maior que a de origem inglesa — ou “americanos”. Dizia que seu manuscrito tinha sido mutilado — mangled. Em 1822 ele escreveria para Madison — seu alter ego na redação da Nova Constituição de 1787, já que estava na Inglaterra, e a quem o ligavam o amor da contradição, o deleite na inconsistência e a “propriedade” de seres humanos:

Nada está escrito com mais certeza no livro do destino do que que estas pessoas serão livres. Realmente tremo por nosso país quando reflito que Deus é justo, que sua justiça não pode dormir para sempre, que considerando apenas números, natureza e meios naturais, uma volta da roda da fortuna, uma mudança de situação, está entre os eventos possíveis… O Todo-Poderoso não tem como ficar do nosso lado num caso destes.

Não olhemos para Jefferson com o julgamento dos olhos de hoje. Lembremos o mundo em que ele vivia. O ícone da integridade, George Washington, logo que assumiu o comando geral do exército de libertação, surpreso de ver negros servindo ao lado de brancos, emitiu uma ordem proibindo a presença de escravos e de quaisquer negros; algumas semanas depois, ante o choque da realidade de que sem os negros a vitória seria impossível, revogou sua ordem — “se o Congresso aprovar”. Os abolicionistas ingleses ainda estavam em gestação — o Slave Trade Act de Wilberforce e Clarkson é de 1807, e seus primeiros movimentos da década de 1780. Em 1780 o debate para acabar com a escravidão na Pensilvânia — em sua honrosa prioridade — deixava a emancipação para o futuro, quando as crianças nascidas de mãe escravizada teriam 28 anos de idade. Mas logo a abolição em Massachusetts (1783) é real.

No ano seguinte o Congresso, por pequena margem, derrota a proposta de Jefferson de abolição nos treze Estados a partir de 1800. Já na França, compartilhando a responsabilidade dos acordos diplomáticos com John Adams, Thomas Jefferson publica seu único livro, Notas sobre o Estado de Virgínia, e recebe uma mensagem do amigo, incapaz de entender a própria existência da escravidão: “As Passagens sobre a escravatura são Diamantes. Elas terão mais efeitos que Volumes escritos por meros Filósofos.” Estava errado. As coisas vão piorar.

Pouco depois o espírito da Convenção de Filadélfia é empurrar para baixo do tapete tudo que não possa ser consensuado. James Madison é grande por ter conseguido, com o auxílio do monarquista Alexander Hamilton, o impossível: num encontro (quase) inconvocado e (quase) informal de 55 homens, escrever um pacto social que dura mais de duzentos anos, com compromissos — ou, se preferirem, checks and balances — imorais que tornaram moral o resultado. Mas considerar os escravizados como 3/5 de pessoas para dar força aos Estados escravocratas, proibir o fim do tráfico de escravos até 1808 — será Jefferson, como presidente, o responsável pela passagem do Act to Prohibit the Importation of Slaves — são alucinações que explicam que, em Monticello, eram “como os sinos de alarme de incêndio na noite, [que] me acordam e enchem de terror. Eu considero [a escravidão] como o dobrar do sino da morte da União”.

Por volta de 1820 a ideia de fim da escravidão era postergada e qualquer solução pacífica se tornava cada vez mais distante e improvável. Se os quakers já em 1790 propõem ao Congresso a abolição, se uma vela se acende quando em 1792 a Dinamarca se torna o primeiro país a proibir a escravidão, em 1793 um primeiro Fugitive Slave Act trata da devolução dos que escaparam. A divisão dos Estados é nítida: o Sul é escravocrata, o Norte abolicionista. E a cada novo Estado se joga um balanço com a vida: um livre tem que ser compensado com um escravocrata, seguindo um “Missouri Compromise”, a linha de escravidão abaixo de 36º e 30’.

Se em 1832 um neto de Jefferson propõe — inutilmente — a emancipação gradual, em 1835 se peticiona a proibição de que circule propaganda abolicionista pelos Correios. Desde 1836 a Câmara resolve, no início de cada sessão legislativa, tratar de escravidão, e John Quincy Adams começa sua longa jornada de tentar quebrar a Gag Rule — ele morrerá no plenário sempre defendendo a abolição. Há 500 sociedades abolicionistas ativas, mas o jornalista Elijah Lovejoy é linchado e sua prensa empastelada. Em 1838 se forma a Underground Railroad para dar fuga aos escravos e um primeiro abolicionista é eleito para o Congresso. A ascensão de John Calhoun é a grande marca do poder do Sul: segundo ele, o Congresso tem a obrigação de proteger a escravidão e o Sul tem o direito de deixar a União.

Em março de 1857 a Suprema Corte se levanta como a pior da História americana — até a atual. Ela decide que Dred Scott, um homem livre, é negro e, portanto, não pode ser cidadão, é escravo. O presidente do tribunal sustenta que “todos os homens são criados iguais” exclui os negros. Estes “seres de uma ordem inferior” não têm “qualquer direito que o homem branco deva respeitar”. A reação da Nova Inglaterra foi firme: todos os Estados declaram livres todos os homens em seus territórios.

Chega a hora de Abraham Lincoln. Ele percorre Illinois — estado do Norte com um black code draconiano — debatendo com Frederick Douglas, defensor por $$$ dos direitos dos escravocratas. Diz que a sorte dos escravizados parecia ir melhorando, mas que os fundadores da República, se levantassem de seus túmulos, não a reconheceriam:

Eles queriam dizer o que disseram. Eles não queriam sustentar a óbvia inverdade de que todos os homens gozavam da igualdade, ainda não, que estava para ser conferida sobre todos. Na realidade eles não tinham esse poder. Eles simplesmente queriam declarar o direito de modo que sua garantia avançasse tão rapidamente quando as circunstâncias permitissem. Queriam fixar um padrão máximo para uma sociedade livre […] nunca perfeitamente alcançável, constantemente aproximado, e, portanto, se espalhando e aumentando sua influência e aumentando a felicidade e o valor da vida para todas as pessoas de todas as cores em toda parte.

A questão era de princípios: certo ou errado. Ninguém poderia ser indiferente. Por isso, “toda a honra a Jefferson — ao homem que, na pressão concreta da luta pela independência nacional de um povo teve a tranquilidade, a previsão e a capacidade de introduzir num mero documento revolucionário uma verdade abstrata, aplicável a todos os homens em todos os tempos!

Para se definir Lincoln dissera que “costumava ser um escravo” — literalmente, já que seu pai vendia seus serviços e recebia a remuneração deles, o filho não tinha qualquer direito. Da escravidão subiu à Presidência da República, venceu a secessão, fez a abolição, instituiu o governo do povo pelo povo para o povo e lançou o maior projeto de igualdade da História. Pelo que fez, pelo que pretendeu fazer pagou o preço da própria vida.

Mas a luta não terminou no martírio de Abraham Lincoln. Vieram os anos das leis “Jim Crown”: a segregação com toda a sua violência, a Ku-Klux-Klan. Veio novamente a luta pelos direitos civis. O martírio de Martin Luther King, o compromisso de Johnson de passar os projetos Kennedy. Finalmente um negro chegou à Presidência. O 4 de julho — o dia em que foi assinado o texto de Jefferson —se tornava realidade. E então…

E então o dragão da maldade ressurge na figura laranjada de Donald Trump. A Constituição é novamente estuprada com o endosso da Suprema Corte. Mas o povo americano, embora tarde, reage com coragem. Assim, nosso tempo verá novamente a luta para que todos, naquela terra, tenham direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade.

— E nós teremos o dever de garantir que aqui também se tornem verdade.
Pedro Costa

Flávio tem força, na Casa Branca

Adélio Bispo de Oliveira esfaqueou Jair Bolsonaro no dia 6 de setembro de 2018. Ninguém pode garantir que a facada de Juiz de Fora tenha decidido a eleição, mas, um mês depois, Bolsonaro conseguiu 46% dos votos no primeiro turno. Fernando Haddad ficou com 29%. A eleição estava decidida, e no segundo turno o ex-capitão correu para o abraço, com 55% dos votos.

Não foi Bolsonaro quem ganhou, foram Haddad e o PT que perderam. Lula estava preso em Curitiba, o juiz Sergio Moro e os procuradores da Operação Lava-Jato faziam o que queriam. Nada disso estará no pano verde na eleição de outubro.

Lula terá governado por quatro anos sem maiores sobressaltos, e quem está preso é Bolsonaro. As tensões que ele espargiu, insultando um ministro do Supremo Tribunal Federal, opondo-se a um programa de vacinação durante uma pandemia que matou mais de 700 mil pessoas, viraram má lembrança.


A eleição de 2018 foi o apogeu do antipetismo. Em 2026, lida-se com o antibolsonarismo. Assim como, em 2018, a soberba petista detonou Haddad, agora a soberba bolsonarista poderá detonar Flávio Bolsonaro, e as pesquisas apontam nessa direção. A candidatura do senador tem um sabor dinástico, agravado pelo deserto de ideias de seu campo. Sem a facada de Juiz de Fora e as turbinas da Lava-Jato, como a divulgação da delação do ex-ministro Antonio Palocci às vésperas do primeiro turno, o antipetismo não dá caldo.

A essas adversidades somou-se a autofagia bolsonarista. A mulher de Bolsonaro fez um estudado vídeo, em que o sujeito oculto de suas críticas é Flávio. Qual é a raiz dessa quizília? A política cearense e a preterição de uma vereadora que aspirava a disputar o Senado. É pouco para tanto barulho.

O repórter Luis Felipe Azevedo mostrou que, na Bahia, em Pernambuco, Ceará e Maranhão, os candidatos do arco oposicionista evitam partilhar palanques com a campanha de Flávio. Tratando-se do principal reduto lulista, essa ausência é mau presságio. Os erros da famiglia certamente explicam em parte esse movimento. Contudo o principal fator está além deles. O antipetismo, cimento da vitória de 2018, dissolveu-se no ar, abrindo espaço a um novo anti, o antibolsonarismo.

Flávio é forte na Casa Branca, fraco em Pindorama. A ideia de jactar-se da imposição do primeiro tarifaço de Donald Trump foi um caso raro de um só tiro acertando os dois pés. Naquele tarifaço, a patrulha bolsonarista acampada em Washington pode ter exercido alguma influência. No próximo, a despeito da carta de Flávio ao secretário de Estado, Marco Rubio, pedindo que o Brasil seja poupado, essa janela de oportunidade encolheu.

O tarifaço de 2025 foi concebido com o voluntarismo da Casa Branca. Basta lembrar a tarifa imposta a uma ilha de pinguins. Desta vez, o novo tarifaço será essencialmente técnico. Enviesado, porém com verniz técnico.

Novas tarifas virão, transformando-se numa bola de ferro amarrada a um pé dos Bolsonaros. Eles cometeram o mesmo erro que o bilionário Elon Musk, que em poucos meses passou de gênio a maluco e acabou defenestrado da Casa Branca. Em sua fase de delírio, Musk tentou morar na Casa Branca.

O trôpego pedestal da soberba humana

Algumas décadas atrás – talvez cinco ou mais – houve uma matança de uma colônia de gatos no Passeio Público do Rio de Janeiro, por um grupo de adolescentes, armados de pedaços de paus. À época a única pessoa que veio a público lamentar o episódio foi o jornalista e escritor Paulo Alberto de Barros, o Arthur da Távola, em sua coluna em um jornal do Rio de Janeiro. Ressaltou que os bichanos não mereciam isso porque “o gato é um bicho zen”. Mais ou menos uma década depois, o programa Fantástico mostrou uma reportagem acrítica sobre um homem no interior do Amazonas que costumava colocar armadilhas para prender uma das patas das onças, e daí eliminá-las a pauladas. Nenhum destes dois casos causou indignação, passando despercebidos pela sociedade brasileira.


Já a recente tortura e morte do cachorro Orelha, em janeiro deste ano em Florianópolis, tem causado uma comoção em todo o país. Como entender essa mudança, em apenas algumas décadas, no humor da população? Aqueles que acham que está havendo demasiada atenção para a morte de um cão, em um país com múltiplos problemas como o Brasil, certamente estão perdendo o famoso bonde da história. Toda esta revolta em torno da morte do Orelha, na realidade, revela uma transformação, ainda que sutil e vagarosa, na autocompreensão dos seres humanos sobre seu lugar e relação com o mundo.

Na origem do pensamento ocidental, o homem colocou-se em um pedestal acima da natureza e de todos os demais seres viventes por possuir aquela faculdade que lhe dava a mais importante das vantagens para sua sobrevivência e dominação: a Razão. E não só sobre a natureza e os animais, mas também sobre aqueles humanos – bárbaros, escravos, etc. que supostamente, por não deterem a Razão, eram meros “instrumentos vivos” e portanto condenados aos trabalhos corporais e à escravidão, como expressou-se Aristóteles em seu tratado A Política.

A prepotência da Razão informou o cristianismo por meio da patrística e da escolástica, municiando a fé cristã de explicações lógicas e reforçando a ideia do homem “criado à imagem de Deus”. Finalmente, a Razão desembocou no secularismo iluminista e no seu lema kantiano: “sapere aude” (ouse saber). Tal trajetória teórica foi adotada pelas principais correntes políticas da era moderna – o marxismo e o liberalismo – que levaram à prática, cada uma a seu modo, o que já estava inscrito no destino do ser humano racional: dominar a natureza, inclusive todos os demais seres viventes, colocando-os a seu serviço. Além disso, extrair dela o que for útil para o homem, destruir o que não pode ser aproveitável e, desse modo, desenvolver as “forças produtivas” para criar as bases materiais e espirituais da civilização humana moderna.

Certo é que esse projeto delirante encontrou inúmeros obstáculos e gerou visíveis contradições, já que a razão humana, ao contrário do que pregavam as teorias originadas a partir dela, nunca impediu inúmeras guerras de conquista, tentativas de aniquilamento de populações inteiras (do qual a destruição da faixa de Gaza pelo governo de Israel é um exemplo recente), e a conquista e colonização de territórios de outros povos considerados “inferiores” e “irracionais”. Enquanto enaltecia as artes e obras arquitetônicas geradas pela sua criatividade, o homem ao mesmo tempo desenvolvia armas e instrumentos de guerra cada vez mais mortíferos, que multiplicavam exponencialmente as ondas de destruição e morte.

Todo esse lado sombrio da era do Antropoceno era justificado racionalmente – afinal de contas, o homem tinha de dominar a natureza para sobreviver, sendo as guerras sempre legitimadas por necessidades de defesa, eliminação de inimigos ameaçadores, etc. A Primeira Guerra Mundial chegou até a ser defendida como uma suposta causa nobre: dar um fim definitivo aos conflitos humanos. Seria, dessa forma, “a guerra para acabar com todas as guerras”. E o impacto das mortes era sempre amenizado por um humanismo choramingão e filisteu.

Claro está que os descaminhos da Razão não passaram desapercebidos nas obras de arte, na poesia, em movimentos culturais diversos, e nas disciplinas sociais. Os filósofos da Escola de Frankfurt, só para citar um exemplo, dedicaram vários estudos críticos à racionalidade humana. Jurgen Habermas apontou como a parte “instrumental” da Razão – que busca o sucesso e a dominação, e opera pela técnica e a relação meio-fins – veio a predominar sobre a “razão comunicativa”, voltada para o potencial humano de entendimento.

Mas talvez tenha sido Freud quem melhor sintetizou a fragilidade do palanque em que se apoiava o amor-próprio do homem, ao apontar as três descobertas científicas, ou “feridas narcísicas”, em sua expressão, que relativizaram o poder da razão humana: a descoberta de Nicolau Copérnico, que demonstrou que a terra não era o centro do universo mas um mero planeta girando em torno do sol; a teoria da evolução de Charles Darwin, que provou que o homem não é uma criação divina, mas um descendente dos primatas; e a sua própria descoberta do inconsciente, que demonstrou que o pensamento humano é influenciado por desejos e impulsos que o próprio homem não controla.

Como viu muito bem Hannah Arendt, são fatos, e não teorias, que transformam o mundo. O caso do cão Orelha é um desses fatos. Ele pode ser politizado à esquerda ou à direita, mas isso faz parte do jogo político. Não vai deixar de refletir, e em sua tragicidade encorajar, a tomada de consciência que o ser humano compartilha um mundo em comum com outros seres, mundo este que ele tem de preservar até para sua própria sobrevivência. E que a Razão não pode ser substituída pela paixão das irracionalidades, como gostariam algumas seitas moderninhas ou pós-qualquer-coisa, mas ajudar o homem a tornar-se o que um controverso filósofo chamou certa vez de “pastor” do mundo existente.

O candidato que ninguém está vendo

O caso Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro. Ao atingir Jacques Wagner, um dos políticos mais influentes e mais próximos do presidente Lula, a investigação alcançou o coração do poder. Mais importante, porém, do que a eventual responsabilidade deste ou daquele personagem, é o efeito político produzido pelo episódio. As investigações passaram a envolver figuras associadas ao governo, à oposição, ao Centrão e ao sistema financeiro, reforçando uma percepção cada vez mais difundida entre os eleitores: a de que as fronteiras entre interesses públicos e privados continuam excessivamente permeáveis.


Durante muito tempo, a política parece previsível. Os mesmos partidos ocupam o centro do palco, os mesmos líderes dominam o debate público e os analistas discutem apenas qual deles chegará primeiro à linha de chegada. Então, de repente, surge alguém que poucos levavam realmente a sério alguns anos antes.

Foi assim com Fernando Collor em 1989 e com Jair Bolsonaro em 2018. Em outros países, ocorreu com Javier Milei, na Argentina, e Emmanuel Macron, na França. Em comum, esses casos não têm ideologias, trajetórias ou propostas semelhantes. O que compartilham é outra característica: emergiram quando parcelas expressivas da sociedade perderam a confiança nos atores tradicionais.

Talvez seja cedo para afirmar que o Brasil esteja novamente diante de um momento dessa natureza. Mas é difícil ignorar alguns sinais.

A polarização entre lulismo e bolsonarismo organizou a vida política brasileira por quase uma década. Dominou eleições, moldou identidades, mobilizou paixões e transformou adversários em inimigos existenciais. Hoje, porém, começam a surgir sinais de desgaste.

Não porque as divergências tenham desaparecido. Ao contrário. Elas permanecem profundas. O que parece enfraquecer é a capacidade de cada campo político de se apresentar como resposta aos problemas do país.

Durante anos, a esquerda denunciou a corrupção, os privilégios e os impulsos autoritários da direita. A direita denunciou a corrupção, o aparelhamento do Estado e a impunidade da esquerda. Cada lado alimentou a convicção de que representava uma alternativa moral ao adversário.

O problema é que a realidade se encarregou de desgastar essa narrativa. Escândalos, favorecimentos indevidos, relações pouco transparentes entre agentes públicos e interesses privados, promessas de moralização que terminaram frustradas e sucessivas crises de governança atingiram personagens de diferentes espectros políticos. Para uma parcela crescente da população, a disputa deixou de opor virtuosos e culpados. Passou a parecer um confronto entre grupos igualmente incapazes de entregar a renovação prometida.

O caso Master tornou-se emblemático justamente por isso. Não apenas pelos fatos sob investigação, mas porque reforça a percepção de que um mesmo sistema de relações atravessa partidos, governos, Congresso, grupos econômicos e estruturas de poder. O problema já não parece restrito a uma ideologia ou a um campo político específico.

O desgaste, contudo, não decorre apenas dos escândalos. Outros problemas estruturais continuam avançando sem que o sistema político pareça capaz de enfrentá-los com a urgência necessária.

O crime organizado amplia sua presença na economia formal, infiltra-se em cadeias produtivas, controla territórios e movimenta bilhões de reais. Relatórios recentes apontam sua expansão para setores como transporte, combustíveis, construção civil, serviços financeiros e comércio. O problema deixou de ser apenas policial. Tornou-se institucional.

A economia também oferece sinais contraditórios. Embora indicadores importantes permaneçam positivos, persistem preocupações relacionadas ao crescimento dos gastos públicos, ao aumento do endividamento e à dificuldade de construir uma trajetória fiscal mais sólida. Para muitos brasileiros, cresce a sensação de que o país administra crises sucessivas sem atacar suas causas mais profundas.

O que está em crise não são apenas governos ou lideranças, mas a crença de que um dos lados possui autoridade moral e competência suficientes para se apresentar como antídoto ao outro.

E é provável que o elemento mais importante seja de natureza psicológica.

Em 2018 predominava a indignação. Havia revolta contra a corrupção, contra a crise econômica e contra o sistema político. Hoje o ambiente parece diferente. Menos marcado pela raiva e mais pela exaustão.

Muitos brasileiros já não demonstram a mesma disposição para defender incondicionalmente um dos polos. Não necessariamente porque tenham mudado de posição ideológica, mas porque passaram a enxergar limitações, contradições e fracassos dos dois lados.

É nesse ambiente que candidatos improváveis costumam surgir.

O erro mais comum dos analistas é imaginar que o próximo presidente necessariamente estará entre os nomes já conhecidos. A história mostra exatamente o contrário. Quando sistemas políticos entram em processo de desgaste, novas lideranças encontram espaço para crescer rapidamente. O fenômeno raramente começa com o candidato. Começa com o esgotamento do ambiente que sustentava os candidatos tradicionais.

Naturalmente, não há hoje um nome capaz de ocupar esse espaço de forma evidente. Talvez ele sequer apareça nas pesquisas. Bolsonaro parecia improvável poucos anos antes de vencer. Collor também. O mesmo ocorreu em diversos países que atravessaram crises de representação.

A questão, portanto, não é identificar quem será o próximo candidato improvável. É saber se as condições para seu surgimento estão novamente se formando.
Hubert Alquéres

Ganhos bilionários de Trump com atividade empresarial durante o mandato não têm precedente nos EUA

A esposa do presidente americano Lyndon Johnson (1963-1969) era proprietária de um lucrativo grupo de comunicação. George W. Bush fazia parte do conselho de administração de uma empresa petrolífera enquanto seu pai ocupava a Casa Branca. Hunter Biden recebeu pagamentos de uma empresa ucraniana de gás natural enquanto Joe Biden era vice-presidente. Porém, não há paralelo com o caso de Donald Trump, que no primeiro ano de mandato faturou US$ 2,2 bilhões por meio de empresas — incluindo US$ 1,4 bilhão em receitas provenientes de negócios com criptomoedas, beneficiados por suas ações como presidente.

Historiadores e pesquisadores apontam que a regra geral entre presidentes americanos tem sido se afastar de negócios empresariais, mesmo levando prejuízo, para não configurar conflito de interesse. Trump e sua família fizeram o oposto: criaram novos empreendimentos, e não parecem se esforçar para esconder qualquer benefício alcançado.

A Casa Branca e a família Trump têm rejeitado questionamentos sobre os ganhos do presidente. As alegações de conflito de interesse têm sido rebatidas com o argumento de que os dois filhos mais velhos de Trump, Eric e Donald Jr., administram as operações da família. É uma mudança marcante de postura, mesmo em comparação ao primeiro mandato.


Quando Trump chegou a Washington em 2017, ele e a família concordaram em não fechar novos contratos internacionais, cientes de que isso poderia alimentar acusações de que estariam lucrando com o mandato. Ainda assim, surgiram questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse devido a gastos de governos estrangeiros e lobistas em hotéis de Trump e em outros estabelecimentos pertencentes à sua família.

— No primeiro mandato fizemos tudo o que era imaginável para evitar qualquer aparência de conduta imprópria e, francamente, fomos atacados da mesma forma — disse Eric Trump no fim de 2024, pouco antes da eleição, argumentando que a Presidência havia custado ao pai "uma fortuna".

Os filhos de Trump de fato administram as operações empresariais da família, mas o presidente é o beneficiário dos fundos fiduciários criados após sua primeira eleição, e continua lucrando com as atividades empresariais. A maioria dos ex-presidentes da era moderna vendeu empresas e mesmo participações em negócios e ações individuais antes de assumir o cargo.

George W. Bush (2001-2009) vendeu sua parte no time de beisebol Texas Rangers, enquanto Jimmy Carter (1977-1981) transferiu a administração de sua produção de amendoim para um administrador independente.

Depois do assassinato de John F. Kennedy e da chegada de Lyndon Johnson à Casa Branca, sua esposa, Lady Bird Johnson, transferiu suas emissoras de rádio e televisão para um grupo administrado por um advogado e um executivo do setor de radiodifusão.

Mesmo quando filhos ou irmãos de presidentes realizaram negócios — em uma escala muito menor do que Trump — esses episódios tiveram forte reação pública. James Roosevelt, filho de Franklin D. Roosevelt (1933-1945), foi coproprietário de uma companhia de seguros que vendia apólices para empresas americanas e órgãos do governo enquanto ele trabalhava como assessor do pai. Depois que a revista The Saturday Evening Post e o jornal The New York Times publicaram sobre os negócios, o filho do presidente deixou o cargo no governo.
Eric Lipton

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Humanos como não-animais

Plenamente cientes de sermos mamíferos, nós humanos a toda hora nos diferenciamos dos outros animais. Esse viés, cuja origem se encontra principalmente em algumas religiões, é a cada dia mais perigoso.

Veja-se a primeira frase de artigo publicado na excelente revista “Knowable”: “O calor excessivo afeta os humanos e os animais”. Se somos animais, não seria suficiente e mais correto dizer que muito calor afeta todos os animais? Apesar dessa falha, as informações relatadas são de enorme atualidade e importância.


São inúmeras pesquisas demonstrando como o elevado calor afeta animais. Já no início do século XIX o estatístico belga Adolphe Quetelet notou que havia um pico de crimes violentos na França durante o verão. Pesquisas posteriores mostraram relação entre forte calor e aumento de violência armada, de hospitalizações por problemas mentais, suicídios e jogos de azar. Notou-se também que os cães tendem a morder humanos com mais frequência em dias mais quentes, mesmo descontando o fato de os humanos saírem mais às ruas com seus bichinhos em dias mais aquecidos. A dúvida persistiu sobre se os cães atacavam mais por estarem desequilibrados, ou se os humanos, também fora do prumo em razão da quentura, irritavam mais seus melhores amigos!

Na canícula, os animais humanos têm maior dificuldade de tomar decisões e sua memória se degrada. Em escolas sem climatização, o desempenho dos alunos cai. Diversas espécies, inclusive peixes e o orgulhoso autodenominado sapiens, se tornam mais agressivas em ondas de calor. Um estudo chinês de 2025 mostrou que até serpentes e gatos tornaram-se agressivos em condições de canícula. Apesar de conviver com o general inverno, terá o Putin atacado a Ucrânia em razão de um desequilíbrio mental decorrente do aquecimento? E o genocida Netanyahu, promove a matança por motivos semelhantes? E Trump, que suponho viver 95% do tempo em ambientes com temperatura controlada, ataca por problemas mentais de igual origem?

Afora esses potentados, também abelhas e outros insetos, aparentemente tão frágeis, são afetados e acabam por revelarem-se poderosos. Sem mecanismos de ajuste da temperatura do corpo, as produtoras de mel ficam desorientadas sob forte calor, seus cérebros superaquecem e, para resfriá-los, borrifam água em suas cabeças. Mesmo assim, perdem o rumo e desconhecem as flores certas para colher o pólen. O poder das abelhas se revela porque, sem elas, sabemos que não haverá humanos, em razão da queda na polinização das culturas. E o Brasil, grande produtor agrícola, como ficará, com sua população mais agressiva e carente de comida?

Amanda Ridley, pesquisadora do tema, aponta que com ondas de calor mais fortes e longas, a capacidade mental das espécies – sem separar a humana – será reduzida e diz que “a capacidade de adaptar seu comportamento é ainda mais essencial num clima que muda”.

Humanos com menor capacidade mental, mais agressivos, resistentes a mudar comportamentos e sofrendo a concorrência da inteligência artificial.

Qual futuro legaremos a nossos filhos e netos?

A escola ferida: autoridade, silêncio e violência num tempo sem escuta

Há mais de 30 anos, um sociólogo francês avisava que a violência na escola não era um desvio, mas uma estrutura. Hoje, essa violência não desapareceu, transformou-se. Tornou-se invisível, difusa, digital. E enquanto os alunos procuram existir, os professores lutam para não desaparecer. O que está verdadeiramente em causa não é a disciplina: é o sentido da escola num mundo que já mudou e que a educação tarda em reconhecer.


Em 1990, Éric Debarbieux escreveu La Violence dans la Classe e obrigou-nos a olhar para aquilo que sempre esteve diante de nós: a violência não como exceção, mas como condição silenciosa do espaço escolar. Não a violência ruidosa das agressões, mas a outra, a mais persistente, feita de silêncios impostos, de humilhações subtis, de ausência de palavras. Uma violência que não deixa marcas visíveis, mas que corrói, lentamente, a dignidade de quem aprende.

Trinta anos depois, em Portugal, dizemos que muito mudou. E mudou, de facto. A violência física tornou-se menos tolerada e até proibida, os direitos dos alunos foram consagrados, o discurso institucional evoluiu. Mas esta seria uma leitura confortável e, por isso mesmo, incompleta. A verdade é que a violência não desapareceu. Adaptou-se. Tornou-se mais difícil de reconhecer, mais difusa, mais entranhada nas relações quotidianas.


Quem habita hoje a escola, professores, mediadores, técnicos, não docentes, conhece bem essa transformação. A violência já não está apenas no gesto extremo: está na desmotivação que se instala, na palavra que não chega a ser dita, na indiferença que ocupa o lugar da curiosidade. Está na sensação de não pertença, de desenraizamento, de deslocação permanente. E isso é particularmente visível nos alunos que vivem entre mundos, linguísticos, culturais, afetivos, que a escola nem sempre sabe acolher.

Como mediadores linguísticos e culturais, todos encontram diariamente jovens que chegam à sala de aula com uma história que ninguém ouviu. Carregam deslocações abruptas, perdas não elaboradas, línguas que ficam à margem. E, no entanto, a escola continua, tantas vezes, a pedir-lhes que apaguem tudo isso para poderem aprender. Este pedido, tão aparentemente neutro, é já uma forma de violência simbólica.

Quando a escola recusa o aluno real, substituindo-o por um modelo abstrato, cria um vazio. E esse vazio não permanece neutro: transforma-se em tensão, em recusa, em conflito. A violência surge, então, não como desvio, mas como linguagem alternativa de quem não encontrou outra forma de existir.

Hoje, porém, essa equação tornou-se ainda mais complexa. A escola deixou de ser um espaço fechado. As redes sociais atravessam-na, invadem-na, redefinem-na. O conflito já não começa nem termina dentro da sala de aula. Um vídeo compartilhado à noite pode incendiar o dia seguinte. Um comentário anónimo pode transformar um aluno numa vítima exposta a centenas. A violência tornou-se contínua, sem fronteiras, sem pausa.

Neste novo contexto, o professor encontra-se num lugar profundamente instável. Durante décadas, a sua autoridade foi sustentada por uma relação clara entre saber, estatuto e instituição. Hoje, esses três pilares foram abalados. O saber tornou-se acessível em segundos. O estatuto perdeu reconhecimento social. A instituição deixou de garantir proteção simbólica.

O professor continua a entrar na sala de aula − mas já não entra sozinho: entra acompanhado por todos os dispositivos digitais que disputam a atenção dos alunos. Explica enquanto alguém desliza o dedo num ecrã. Propõe enquanto o mundo inteiro se oferece, em fragmentos rápidos, sedutores, imediatos. E, nesse confronto desigual, não é raro que o professor perca a centralidade.

A Inteligência Artificial acentua esta desconstrução. Se a resposta está disponível instantaneamente, qual é o papel do professor? Se o aluno pode produzir textos, resolver exercícios, aceder a explicações em segundos, o que resta da autoridade pedagógica?

Resta o essencial − mas também o mais exigente: dar sentido.

Num mundo onde a informação é abundante, o problema já não é saber mais, mas compreender melhor. E isso exige mediação, orientação, presença. Exige alguém que ensine a distinguir, a interpretar, a questionar. Alguém que não se limite a transmitir respostas, mas que ajude a formular perguntas.

Mas esta transformação do papel docente está a ser exigida sem que o sistema mude verdadeiramente.

Pedimos aos professores que sejam tudo: especialistas, psicólogos, mediadores, gestores de conflito, orientadores digitais, e continuamos a avaliá-los como se fossem apenas transmissores de conteúdos. Este desfasamento entre o que se exige e o que se reconhece é, ele próprio, uma forma de violência institucional.

Entretanto, os decisores políticos persistem em olhar para a escola a partir de fora. Regulam, avaliam, reformam, mas raramente habitam o espaço real onde o conflito acontece. Legislam para uma escola idealizada, não para a escola vivida. E essa distância entre decisão e realidade aprofunda a sensação de abandono.

O que está em causa já não é apenas a violência. É o próprio sentido da escola.

Vivemos numa sociedade fragmentada, acelerada, saturada de estímulos e pobre em escuta. Os alunos chegam à escola com essa fragmentação na mochila: ansiedade, solidão, necessidade de reconhecimento imediato. Muitos não encontram pertença. Não se reconhecem nos currículos, nos ritmos, nas linguagens. E quando o sujeito deixa de se sentir parte, rompe-se a base da convivência.

A violência, neste contexto, é muitas vezes uma tentativa de inscrição: um gesto para dizer “eu estou aqui”, ainda que de forma destrutiva.

As redes sociais reforçam esta lógica. O reconhecimento tornou-se visível, quantificável, instantâneo. A escola, por contraste, oferece um reconhecimento lento, muitas vezes silencioso. Neste desequilíbrio, o gesto extremo ganha mais valor do que o percurso consistente. A disrupção torna-se forma de visibilidade.

Perante isto, não basta adaptar metodologias. É necessário reconstruir o pacto educativo.

Recolocar a escuta no centro. Dar tempo à palavra. Transformar o erro em aprendizagem e não em exposição. Reconfigurar a sala de aula como espaço de relação e não apenas de transmissão. Criar pertença. Sem isso, qualquer estratégia disciplinar será apenas contenção temporária.

É aqui que ferramentas como a mediação escolar ganham um papel decisivo. Não como resposta ocasional, mas como eixo estruturante. Ao permitir que o conflito seja nomeado, escutado e trabalhado, a mediação rompe a lógica da punição automática e abre espaço à responsabilidade partilhada.

A comunicação não violenta oferece, por sua vez, uma linguagem que falta à escola contemporânea. Ensinar a identificar emoções, a reconhecer necessidades, a formular pedidos, eis um trabalho profundamente educativo. Num mundo de respostas rápidas e impulsivas, reaprender a dizer é um ato revolucionário.

Os mediadores linguísticos e culturais são hoje pontes indispensáveis. Permitem que a escola compreenda aquilo que não vê: os códigos, as histórias, as tensões invisíveis. Ajudam a traduzir mundos antes que estes entrem em choque. São, muitas vezes, os primeiros a desativar conflitos que, de outra forma, se tornariam explosivos.

Mas para que tudo isto tenha impacto, é preciso sair da lógica do remendo. Estas ferramentas não podem ser episódicas, precárias, periféricas. Têm de ser integradas numa política pública sólida, contínua, assumida. Caso contrário, continuaremos a tratar sintomas, sem tocar nas causas.

Porque a détresse da escola não é um acidente. É um sinal. Um sinal de que estamos a ensinar num mundo que já não existe, com modelos que já não respondem, ignorando sujeitos que já não cabem nas estruturas herdadas.

Se quisermos transformar verdadeiramente a escola, teremos de ter coragem para uma mudança mais profunda do que qualquer reforma curricular. Teremos de recentrar o humano. Reconhecer que ensinar é construir relação. Que aprender é sentir-se reconhecido. Que a autoridade nasce do vínculo, não do medo.

Neste tempo dominado por algoritmos, velocidade e virtualidade, talvez o gesto mais radical da educação seja simples: parar, escutar, estar. Criar, enfim, um espaço onde ninguém precise de recorrer ao desespero, à violência, para existir. E a escola pode ser o último reduto.

Brasil finge que problemas não existem

Tem cada vez mais gente achando que o caso Vorcaro vai dar em nada. Não porque os envolvidos sejam todos inocentes. É bem o contrário: há muitos suspeitos em todo o espectro político e nas mais altas esferas do poder. Assim, tal é a conversa em Brasília, melhor abafar o caso para não criar uma crise institucional em pleno ano eleitoral.

Dirá o leitor: mas não deveria ser o contrário? Se há tantos envolvidos, gente graúda, a crise já está instalada e precisa ser resolvida, com ampla apuração e punição dos culpados, tudo dentro da lei. Faz sentido, mas não pela lógica praticada nos Poderes de Brasília. Lá, funciona mais ou menos assim: um corrupto de esquerda anula um corrupto de direita, de modo que o resultado é zero. Problema resolvido.


Vorcaro foi bem esperto. Distribuiu dinheiro e favores com as duas mãos. Formou uma legião não de “amigos de vida”, mas de autoridades interessadas em abafar o caso, por puro instinto de sobrevivência. Mas o que fazer com o próprio? A mesma coisa que ele, Vorcaro, está fazendo. Vai enrolando. Oferece uma delação fajuta, depois outra, quem sabe uma terceira — e assim vai ganhando tempo à espera de que o caso esfrie. Daí pode receber uma pena pequena, quem sabe uma domiciliar, salvando uns trocados. Moral da história: se todos estão envolvidos, então ninguém está envolvido.

Esse tipo de lógica, que faz desaparecer o problema, vale para diversas situações. O leitor pode estranhar, mas considere o caso da taxa de juros e das metas de inflação. A inflação está em alta sob qualquer medida que se considere. As projeções também. Pela regra do regime de metas, o Banco Central deveria elevar a taxa de juros (a Selic) e não reduzi-la, como fez há duas semanas. Mas, sabe como é, a Selic já está muito alta, há bastante tempo. E se a gente olhar mais à frente, lá por 2028, a inflação se aproxima da meta de 3% ao ano. Ao adiar o cumprimento da meta, o BC está, de certo modo, mudando o alvo. E tem gente dizendo que essa meta de 3% é muito baixa. Elevando-a para, digamos, 5% ao ano, está tudo resolvido. Já estamos lá, os juros podem ser derrubados.

Não é mesmo uma manobra parecida, suprimir o problema? Se bem que, nesse caso, tem outra lógica. Como diz o próprio BC, uma causa básica da inflação está no frequente aumento de gastos do governo Lula, estimulando o consumo. O BC eleva juros para esfriar a economia e derrubar a inflação. Mas o governo acelera gastos e distribui créditos subsidiados, o que aquece a economia e pressiona a inflação. Além disso, os déficits seguidos do governo Lula elevam a dívida pública e, pois, os juros. Para os analistas de fora do governo, o déficit deste ano chegará a R$ 60 bilhões. Mas, quando se olha para as projeções do Ministério da Fazenda, lá se diz que o resultado das contas públicas será um superávit em torno de R$ 4 bilhões. E as duas aritméticas, acreditem, estão certas. Ocorre que a Fazenda tira várias despesas da contabilidade oficial, até chegar a um superávit, que é meta do arcabouço fiscal.

De novo, suprimiram o problema. Na real, tem déficit. No papel timbrado, sobra dinheiro. Vai por aí o caso dos penduricalhos. Pela Constituição, nenhum funcionário público pode receber mais de R$ 46.336,19, valor do subsídio mensal dos magistrados do Supremo Tribunal Federal. É o teto. Milhares de funcionários ganham muito mais que isso, com base em interpretações jurídicas construídas pelos próprios interessados. Surgiram assim os penduricalhos, auxílios diversos, vantagens, indenizações, que ultrapassam o teto, mas são considerados extrateto. O STF poderia simplesmente declarar que teto é teto — e ponto final. Em vez disso, está regularizando os penduricalhos. Na prática, suprimiu o teto.

E ficamos assim: na real, tem corruptos; a inflação está fora da meta; o déficit público sobe; a dívida aumenta; funcionários recebem acima do teto. No modo à brasileira, os corruptos escapam, a meta de inflação se ajeita, o buraco nas contas públicas desaparece, e o teto salarial não existe.

A invenção de uma cultura chamada brasileira

O Brasil surge do olhar estrangeiro. Antes de nos vermos como um povo, foi a Europa que nos denominou. Acredita-se que foi o Frei Vicente do Salvador (1564-1636), franciscano nascido na Bahia, o primeiro a registrar por escrito o termo “brasileiro” para o nascido na colônia. O termo, contudo, teria surgido com os portugueses da metrópole que usavam “brasileiro” para se referir aos colonos com desprezo. A tal ponto que, em muitos contextos, chamar alguém de “brasileiro” era tido como uma ofensa, equivalia a ser identificado com o contrabando, a extração predatória e a degradação moral associada à vida na colônia — um ambiente que a metrópole via como lugar de degredo, enriquecimento rápido e ausência de civilidade.

Os naturais desta terra preferiam ver-se como portugueses nascidos na sua respectiva capitania. E havia muitos. Assim, por aqui, essa pessoa via-se como um mineiro ou baiano ou um pernambucano etc., antes do que brasileiro. Um português mineiro pareceria a essa pessoa muito mais natural do que falar brasileiro. Claro, aquele que podia ser considerado português, porque os afro-brasileiros gozavam o estranho estatuto de africanos residentes em Minas Gerais ou na capitania que fosse, propriedade de seus senhores. Já os povos originários eram vistos como “gentios ou originais da terra”, mas não súditos da Coroa Portuguesa, que era a condição para serem identificados como portugueses.


O Brasil era pluralidade para os nascidos nestas colônias tropicais. A ideia de Brasil como unidade política integrada era, no século XVIII, uma abstração para a maioria dos colonos. O que existia eram capitanias com administrações próprias, economias voltadas para Portugal e pouca comunicação entre si. O sentimento de pertencimento era local: mineiro, baiano, pernambucano, paulista — não brasileiro.

Isso, não obstante as raízes serem as mesmas: povos originários, Portugal, África. Falar, então, por exemplo, de Tiradentes como mártir da independência do Brasil é um erro em vários aspectos. O que a Conjuração Mineira (1789) desejava era a independência de Minas. Do mesmo modo, a Conjuração Baiana (1798) buscava a independência da capitania da Bahia, não do Brasil como unidade. Os conjurados baianos pensavam a Bahia como república autônoma.

A pluralidade estava também entre os que aqui viviam, mesmo os que eram considerados portugueses. Havia os que enriqueciam aqui (ou já chegavam ricos e se faziam mais ricos) e se tornavam poderosa elite colonial e havia os que nunca conseguiam ascender social ou economicamente. Contudo, os colonos pobres nascidos no Brasil eram a camada mais numerosa da população brasileira e se confundiam com os demais excluídos pela Coroa. Excluídos também pela historiografia.

Esses brasileiros pobres — que se identificavam como portugueses — viviam em condições precárias, sem acesso à terra, à educação ou à mobilidade social. Se formalmente eram livres, na prática dependiam dos grandes proprietários, na sua maior parte, brasileiros ricos, que também se identificavam como portugueses. Muitos viviam em regime de clientelismo: trocavam lealdade política e serviços por proteção e favores.

O Brasil não se fragmentou e o sentimento de pertencimento nacional, ainda que artificial, construído e imposto, acabou se tornando realidade, pelo menos quando há Copa do Mundo e a Seleção entra em campo

Os senhores de engenho e os fazendeiros latifundiários, para além dos grandes mineradores formavam a elite colonial. Eram proprietários de vastas extensões de terra, de dezenas ou centenas de escravos, e controlavam a produção e o comércio local. Esses, sem desculpar a má gestão da Coroa Portuguesa feita a esta terra, foram os que igualmente roubaram o nosso ouro, extraindo e administrando de forma predatória. E tampouco nunca o pensaram em devolver.

Essa visão em territórios menores do que o total da colônia aparece também na América Espanhola e na Inglesa. A América Espanhola dividiu-se a partir dos rachas políticos e sociais que já existiam na época da Colônia. Treze colônias dessa América perceberam que, se pudessem se unir, seria mais fácil conseguirem a Independência da poderosa Grã-Bretanha. E assim nasceu um país, mas não necessariamente uma cultura.

Havia muitos pontos em comum entre essas treze colônias, mas também muitas diferenças. Não havia uma cultura estadunidense anterior à independência. Foi um pacto estratégico que as aproximou, tanto que algum tempo depois haveria uma guerra entre elas, a Guerra Civil Americana (1861-1865).

O Brasil começa a se ver como unidade a partir de um esforço externo, por assim dizer, até ao ponto que possamos considerar externa, naquele momento, a Coroa Portuguesa. Podemos situar o começo desse esforço de construir uma identidade brasileira a partir de 1808, com a chegada da Família Real. O signo “Brasil” ganha corpo com a vinda da Família Real, que centralizou a administração no Rio de Janeiro, uma cidade até então de importância secundária, criando uma estrutura estatal comum.

Se a Independência (1822) iniciou a comunidade imaginada, a consolidação de um “nós, brasileiros” só ocorreu no Segundo Reinado. O Império institucionalizou símbolos, heróis e uma história unificada para sufocar os regionalismos e evitar a fragmentação do território em várias pequenas repúblicas. E, de algum modo, deu certo.

Essa nova nação inventou a sua identidade cultural em um projeto que veio de cima para baixo. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838, foi o braço intelectual desse projeto: encomendou uma história oficial, elegeu heróis nacionais e forjou uma continuidade entre colônia, império e nação que simplesmente não existia na experiência concreta dos habitantes do século XVIII. Além disso, assim como ocorreu com outros países latino-americanos, escolheu a França como símbolo de civilidade, desejando transformar o Rio de Janeiro, a capital da época, na Paris Tropical.

A nossa primeira constituição como país, a de 1824, não mencionava a escravidão. Escravizados eram não-cidadãos. Negros libertos eram cidadãos de segunda classe: podiam votar nas eleições primárias, mas não ser eleitos. Indígenas continuaram sob tutela do Estado, sem direitos políticos, considerados “incapazes”. O projeto era o de uma nação europeia e liberal na forma, escravista na prática, que incluía seletivamente para melhor poder excluir.

A ironia é que o projeto funcionou. O Brasil não se fragmentou e o sentimento de pertencimento nacional, ainda que artificial, construído e imposto, acabou se tornando realidade, pelo menos quando há Copa do Mundo e a Seleção entra em campo. A ficção deu certo. Mas se a identidade brasileira foi uma construção estatal tardia, bem-sucedida em evitar a fragmentação, ela de fato substituiu as identidades regionais ou apenas as recobriu? Em que dimensões continuamos sendo uma ficção? Precisamos desmontar o Brasil para entender melhor a sua realidade: desigual, diverso, fundado na violência e no apagamento sistemático de suas próprias fraturas?
José Luís Landeira

Michelle Firmo, a mulher-bomba que ameaça explodir Flávio Bolsonaro

Está lá um corpo estendido no chão. É o de Michelle de Paula Firmo Reinaldo, 44 anos, natural de Ceilândia, filha de família humilde que concluiu seus estudos em escola pública, secretária parlamentar na Câmara dos Deputados entre 2004 e 2008. Foi ali que ela conheceu seu futuro marido, Jair Messias Bolsonaro, militar da reserva, que hoje, em voz baixa, simplesmente a chama de “A incontrolável”.

Ex-primeira-dama, a única a discursar no parlatório do Palácio do Planalto durante uma posse presidencial e a aparecer em rede nacional de rádio e televisão para desejar feliz Natal aos brasileiros, Michelle acreditou que um dia, por seus próprios méritos, alçaria voo alto na política, contando para isso com a compreensão e a ajuda do marido e dos seus enteados. Mas que nada. Acabou rebaixada à condição atual: cuidadora do marido enfermo, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, e alvo da hostilidade dos filhos dele que sempre a rejeitaram.


Bem-feito. Quem mandou se meter com um bando de misóginos? Ou ignorava que fossem? Ou não os tolerou depois de descobrir que eram misóginos e de sofrer na pele com isso? Deu no que se vê. Magoada, vingou-se da família que nunca a aceitou rompendo publicamente com ela ao divulgar um vídeo onde acusou Flávio e os irmãos de a maltratarem e desrespeitarem.

Poupou o marido, pensando que ele pelo menos a protegeria por ser pai da sua filha Laura, uma adolescente. Bastaria uma palavra de Bolsonaro para salvá-la de retaliações. Não houve palavra até agora. Então Michelle renunciou à presidência do PL Mulher, partido-covil do clã. Por pouco não se desfiliou dele ontem. Está nos seus planos abdicar de sua candidatura ao Senado no Distrito Federal e voltar a ser exclusivamente “uma mulher do lar”, como sempre quis Bolsonaro.

Por último, não contem com ela como cabo eleitoral de Flávio, candidato a presidente. Era só o que faltava. Michelle quer mais é que Flávio não se eleja. De sua parte, Flávio quer mais é que Michelle feche a boca e nunca revele toda a verdade sobre ele. Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), teme que Michelle se transforme numa mulher-bomba, capaz de explodir de uma hora para outra matando todos ao seu redor.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


O dever

Passamos as nossas vidas a lutar para conseguir que pessoas ligeiramente mais estúpidas que nós aceitem as verdades que os grandes homens conheceram desde sempre. Já há milhares de anos que eles sabiam que fechar uma pessoa doente num ambiente solitário torna-a ainda pior. Já há milhares de anos que eles sabiam que um homem pobre que é assustado, pelo seu patrão, e pela polícia, é um escravo. Eles sabiam. Nós sabemos. Mas será que a grande massa iluminada dos britânicos o sabem? Não. É o nosso dever, Ella, o teu e o meu, de lhes dizer. Porque os grandes homens são demasiado grandes para serem incomodados. Estão já a descobrir como colonizar Vênus e como irrigar a Lua. Isso é que é o mais importante para o nosso tempo. Tu e eu somos os empurradores da pedra. Todas as nossas vidas, tu e eu, temos que empregar as nossas energias, e todo o nosso talento, a empurrar uma enorme pedra por uma montanha acima. A pedra é a verdade que os grandes homens sabem por instinto, e a montanha é a estupidez da humanidade.

Doris Lessing, "O Carnê Dourado"

Moralidade pública

Escrever sobre a moralidade pública no Brasil significa falar de algo inexistente. Pode-se discorrer sobre duendes, contar suas estórias, sem que daí se siga que sejam reais. Por mais que se procure, torna-se cada vez mais difícil encontrar algo que, no passado, foi considerado um fator essencial da vida política, um eixo a guiar a conduta da sociedade e de seus representantes institucionais e políticos. Na vida social, porém, observa-se que os brasileiros prezam os valores morais e familiares, sendo muito frequentemente conservadores e respeitosos no que diz respeito à honestidade e a comportamentos retos.


Contudo, quando passamos para a vida pública, o descalabro é total. Políticos de esquerda e de direita, em qualquer posição, se empanturram de recursos públicos por meio de emendas às suas bases eleitorais, muitas vezes desviadas para o bolso de alguns, sem nenhum controle público eficaz. Em nome da não contaminação privada da vida política, criaram-se fundos partidários e eleitorais, aumentados ao bel-prazer dos parlamentares, como se o dinheiro dos pagadores de impostos fosse deles. E muitos parlamentares ainda se dão ao luxo de se aproveitarem de recursos de supostos banqueiros – como Daniel Vorcaro –, na verdade criminosos. Ganham, assim, uma vida luxuosa para se tornarem corretores de luxo. Não se deve, todavia, confundir a atividade bancária com atos ilícitos.

Note-se que as posições ideológicas são as mais variadas, mas tendo em comum uma mesma apetência para o enriquecimento ilícito. Nas atividades deste dito “banqueiro”, houve uma contaminação generalizada, cujos efeitos ainda não se esgotaram. O candidato do PL, Flávio Bolsonaro, foi diretamente afetado, assim como o presidente do PP, Ciro Nogueira, e o ex-líder do governo no Senado, Jacques Wagner, numa lista que não se exaure aqui. Mais impressionante ainda, atingiu igualmente dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Os argumentos utilizados, para além do fato de atingirem a inteligência alheia, compartilham de um mesmo padrão: a ausência de moralidade à qual se acrescentam supostos argumentos jurídicos.

Torna-se, então, necessária uma distinção entre valores morais e justificativas jurídicas. Do ponto de vista da moralidade, nada é apresentado, nem padrões mínimos de probidade pública ou impessoalidade. Passa-se por cima de uma questão moral essencial, tal como formulada por Kant, uma ação ou uma regra qualquer, política ou jurídica, deve ser submetida ao seguinte teste: a ação ou a regra em questão pode ser universalizada, tendo validade para qualquer um? É ela válida para a coletividade como um todo?

Em seu lugar, encontramos pretensos argumentos jurídicos, segundo os quais tudo é feito legalmente, havendo sempre uma “interpretação” ou ato administrativo qualquer a validar tal decisão. O Brasil está se tornando o País das interpretações.

Daqui a pouco 2 + 2 não serão mais quatro, mas cinco ou três ou seis, dependendo da “interpretação”, sempre havendo o recurso adicional de decretos e normas internas às corporações estatais. Terminaremos, assim, numa hermenêutica do ilícito justificada legalmente, mandando para o espaço a moralidade e a racionalidade pública.

Pegue-se ainda os penduricalhos do Judiciário, uma verdadeira excrescência, embora os desembargadores e juízes se comprazam em justificar os seus atos com “interpretações”, numa exuberância retórica visando a justificar o injustificável. A Constituição é clara: nenhum funcionário público pode ganhar mais do que estipulado para um ministro do STF. Começam, então, os “argumentos”: a verba não é do tipo X, mas do tipo Y e assim por diante. São “penduricalhos” materiais e linguísticos, os dessa hermenêutica muito criativa.

Jamais se deveria esquecer um fato básico, o de que os recursos ditos públicos são oriundos do setor privado. São os recursos dos contribuintes que foram transferidos para a esfera estatal, sob a condição, evidente, de que deveriam ser utilizados para a totalidade da sociedade e não em benefício de alguns, os privilegiados. Quantos mais recursos são gastos em privilegiar alguns, sejam agentes públicos ou privados, menos recursos haverá para creches, educação, saúde, saneamento e assim por diante. O bolo dos impostos e contribuições é finito. Uma fatia maior para uns resulta numa fatia menor para outros.

E para piorar a situação, vivemos sob um governo perdulário, cuja característica principal é a do descontrole dos gastos públicos, na mais completa irresponsabilidade fiscal. Quem deveria dar o exemplo torna-se partícipe do empobrecimento da sociedade. Procura contornar os limites dos recursos públicos em uma frenética corrida por mais impostos, cujos resultados são aumento da dívida pública, asfixia da atividade econômica e pressão inflacionária.

E o bem comum esvai-se na ausência de moralidade pública, nas “interpretações legais” e na irresponsabilidade institucional e governamental.

A liberdade é não ter medo, ser precário é temer

Quando cheguei a Lisboa para estudar, comecei a usar um caderninho de papel quadriculado para apontar as despesas. De cada vez que ia à mercearia, tomava um café ou comprava um bilhete de metro, gatafunhava a caneta azul os gastos, que iam somando, subtraindo o resultado à mesada que os meus pais me davam. O dinheiro era curto, mas as minhas paciência e capacidade de gestão financeira ainda eram mais. Rapidamente, perdi o hábito de apontar as despesas, até porque me enervava ver aquelas contas de somar a subtrair ao pouco que tinha. E, além disso, tinha mais o que fazer. A falta de método deu-me direito a alguns sustos. Dias em que percebia que só podia comer esparguete com atum ou em que ia ao supermercado fazer contas de cabeça às moedas e às calorias para ver como podia safar o fim de semana antes de me chegar à conta mais uma remessa de dinheiro parental.

O pior de tudo foi quando tive de ir fazer um trabalho para a faculdade à Baixa e percebi que já não tinha dinheiro para o bilhete do metro. Arranjei maneira de passar os torniquetes e lá me enfiei no comboio sem pagar. Claro que não foi preciso andar muito para aparecerem uns fiscais e eu acabar com uma multa grande e uma humilhação ainda maior. Sou pouco dada às pequenas prevaricações não tanto por questões morais (embora elas também me aflijam), mas sobretudo porque tenho a certeza de que vou ser apanhada. Esta pequena história confirma-o e vem dar razão aos motivos que me levaram a nunca ousar levar cábulas ou a copiar num exame.

Sou uma privilegiada. Tive sempre a rede financeira de pais e avós, para ajudar a compor salários magros numa cidade cara. Não tenho a pretensão de saber o que é o susto de viver na angústia de não ter como chegar ao final de cada mês, embora saiba o que é ver uma conta chegar aos zeros. Apesar de todo o privilégio, há uma coisa que sei: não há maior liberdade do que não ter de olhar para o saldo da conta. E não há nada que nos tolha mais do que a incerteza financeira. É ela que nos cala a boca quando queremos reivindicar. É ela que nos prende as pernas quando gostaríamos de arriscar. É ela que nos congela quando sonhamos mudar de vida.

O poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes

Uma vida de precariedade é uma trela curta. A falta de dinheiro é um açaime. O instinto de sobrevivência diz-nos que caladinhos e dóceis é que estamos bem. E assim ficamos, cheios de medo, encolhidos na vidinha, talvez apenas espumando raiva para os que não podem ameaçar-nos, que olhar para cima já é um perigo. Ter os olhos rentes ao chão é tudo o que nos resta.


Vem esta conversa a propósito da palavra “liberdade”. Essa palavra bonita, arejada, ampla e luminosa. Os novos arautos da “liberdade” dizem-nos que a segurança é uma amarra, a flexibilidade é um trampolim e a falta de regras é o que nos fará prosperar. Vêm munidos de motosserras, que em vez de usarem para cortar as amarras da exploração, brandem contra tudo aquilo que protege aqueles que nasceram com pouco. “Que bonita é a liberdade”, dizem-nos. E tendemos a acreditar, porque a sabemos bela e preciosa. Quem não quer, afinal, ser livre?

Começam, então, a deitar paredes abaixo, para que possamos sentir-nos livres. Vão ao chão a Educação, a Saúde e a Habitação. Derrubam-se as pensões e os direitos no trabalho. Fazem-se em pó as prestações sociais. Fica arejado, sim. Mas começamos, depois, a perceber que estamos já sem paredes. E é uma casa muito engraçada, que fica sem teto e fica sem nada.

Mas dizem-nos, aí, que cada um de nós poderá erguer a sua própria mansão. Cada um com o seu esforço e o seu trabalho. Só não nos explicam que há os que já nascem com milhões e os que, agora que tudo foi demolido, nem as migalhas têm para se aguentarem nas pernas. E há os doentes e os velhos e as crianças. Mas não pensem nisso, esforcem-se. Trabalhem e prosperem. Agora, sem Estado a atrapalhar, tudo é caminho. Não há quem nos limite.

Os que estão em cima rejubilam. Os seus milhões parecem fêmeas, reproduzindo-se sobre o trabalho dos que perderam todos os direitos, com as jogadas dos casinos financeiros, com a especulação sobre o que até agora era um direito, com as rendas garantidas pelo Estado que afinal serve só para distribuir contratos milionários. Os de baixo sonham. Talvez um dia, pensam, enquanto aguentam mais uma jornada que não acaba, enquanto percebem que o pão e a casa estão cada vez mais caros. E olham para um ou dois casos de alguém que nada tinha e tudo conseguiu como num golpe de mágica, com criptomoedas ou visualizações de YouTube. Talvez um dia.

Sim, claro, mas ao menos são livres. Somos livres. Podemos dizer o que queremos, ser o que queremos. Podemos mesmo? Nos EUA acabam de ser presos 15 influencers acusados de “atividades antifascistas” pela forma como expuseram operações do ICE, a polícia anti-imigração de Donald Trump, nas redes sociais. São acusados de conspiração e a acusação considera que independentemente de terem ou não provocado danos reais às atividades do ICE, já incorreram em crimes.

Elon Musk, o grande libertário, também usou esta semana o seu poder financeiro ilimitado para obrigar um canal alemão de televisão a cortar uma peça na qual se fazia a relação entre as suas declarações incendiárias no X e o pogrom feito por racistas que perseguiram, atacaram e incendiaram casas de imigrantes em Belfast na sequência de um crime de esfaqueamento praticado por um imigrante. A Musk, o novo dono da mais colossal das fortunas, devidamente amparada pelos contratos públicos milionários que vai somando, bastou-lhe acenar com a ideia de um processo judicial contra a estação televisiva. O medo fez o resto. O medo faz sempre o resto.

Liberdade é não ter medo. Mas o poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes. Não se pode ser livre sem se ser igual. Não se consegue ser igual perante a lei e nos direitos quando o fosso que nos separa se agiganta ao ponto de alguns ficarem ao nível dos deuses e outros tão rasteiros que deixam de ser humanos.

Quando vierem falar-vos em liberdade, lembrem-se de que ela não é uma palavra vazia. É uma palavra frágil, que definha quando o ar da igualdade se torna rarefeito, que se desfaz quando não a partilhamos. Se queremos a liberdade para nós, temos de saber dá-la aos outros. Se queremos a liberdade para todos, temos de partilhar direitos e redistribuir recursos. Se queremos liberdade, temos de a exigir por inteiro. Sem medo.
Margarida Davim

'Por una cabeza'

Pelas apurações extraoficiais, Abelardo de la Espriella, o candidato da direita radical, foi eleito presidente da Colômbia. As pesquisas já indicavam que Espriella levava vantagem sobre seu rival no segundo turno, o esquerdista Iván Cepeda. O que surpreendeu foi o resultado apertado. Se os números da contagem prévia se confirmarem, o que normalmente acontece, Espriella venceu por uma diferença de apenas um ponto percentual (49,66% a 48,7%). Na Colômbia, os votos em branco são válidos, daí que o vencedor não precisa atingir 50%.


O resultado colombiano vem enquanto o Peru ainda tenta determinar quem venceu o pleito presidencial do dia 7. A também direitista Keiko Fujimori lidera a contagem oficial por margem mínima (50,1% contra 49,9%). É impossível não recordar a vitória apertada de Lula sobre Jair Bolsonaro em 2022, por apenas 1,8 ponto percentual.

O que está acontecendo? As margens de vitórias eleitorais estão se estreitando? É possível que sim, mas é preciso cuidado para não superestimar o alcance desse efeito. Tivemos aqui mesmo na América Latina vários pleitos recentes, como o do Chile e o da Bolívia, que foram vencidos com maiorias bem mais confortáveis. O que parece mais seguro afirmar é que a polarização afetiva em ambiente de rápida circulação de informações (e desinformações) deixa o eleitorado mais arisco e isso, notadamente em disputas de segundo turno em que ambos os candidatos têm alta rejeição, produz as margens apertadas. Mesmo quem não é polarizado e não morre de amores por nenhum dos contenedores é forçado a optar pelo que considera menos ruim.

É interessante notar que essa maior volatilidade afeta também os líderes eleitos por maiorias mais expressivas. O tradicional período de lua de mel dos governantes foi drasticamente encolhido, como mostram os protestos na Bolívia e a rápida deterioração da popularidade de Kast no Chile.

Mesmo que consigamos restaurar o espaço do eleitor moderado, a impaciência algorítmica, creio, veio para ficar.

A política como continuação da guerra pela linguagem

A política moderna, além de se apresentar como espaço do diálogo, da negociação e do pacto, continua falando como se estivesse no campo de batalha. O candidato não disputa uma eleição: “entra na guerra”. O adversário não é concorrente: é inimigo. A campanha não se organiza apenas por ideias: monta “estratégias”, define “táticas”, escolhe “alvos”, concentra “fogo”, prepara “ataques”, executa “manobras”, “ocupa territórios” e busca “aniquilar” a resistência do outro.

A linguagem revela mais do que parece. Quando a política usa palavras da guerra, expõe a natureza conflitiva do poder. Toda campanha é uma disputa por corações, mentes, territórios sociais e simbólicos. Há generais de marketing, soldados de rua, artilharia digital, infantaria partidária, trincheiras ideológicas e bombardeios de versões. O voto transforma-se no território a conquistar.


Sun Tzu, o general-filósofo, que escreveu o livro A Arte da Guerra, há mais de 2.500 anos, ensinava que a vitória superior é vencer sem combater. Na política, isso significa desarmar o adversário antes que ele ataque: ocupar sua agenda, confundir sua base, antecipar seus movimentos, atraí-lo para terreno desfavorável. Miyamoto Musashi, perito na arte desenvolvida pelos samurais (duas espadas presas â faixa da cintura, com a lâmina para cima); recomendava ver o distante como próximo e o próximo com distância. Em seu livro famoso (Um Livro dos Cinco Anéis), oferece lições preciosas para campanhas: perceber o detalhe escondido, a fraqueza invisível, o momento certo de “cruzar o riacho”

Níccolò Machiavelli, considerado o artífice da Ciência Política, famoso por escrever o Principe, mostrou que o poder raramente caminha de mãos limpas. A aparência, a dissimulação, o cálculo e a administração do medo fazem parte do repertório dos que desejam mandar. O cardeal Mazarino, primeiro-ministro da França (1602-1661), um estadista italiano radicado na França, foi ainda mais cru: simular, dissimular, prever antes de agir, falar bem de todos e não confiar em ninguém. É a cartilha amarga da política como arte da sobrevivência.

Karl von Clausewitz, um filósofo da guerra, em seu livro, Da Guerra, publicado por sua esposa em 1832, cunhou a ideia de que a guerra é continuação da política por outros meios. Talvez, hoje, seja possível inverter a frase: a política muitas vezes parece a continuação da guerra por meios verbais, eleitorais e midiáticos. Já Liddell Hart, um ex-capitão e conselheiro do Gabinete inglês, considerado um dos mais respeitados militares do mundo, mostrou, em seu livro Grandes Guerras da História, como a estratégia indireta, ajuda a compreender a política contemporânea: nem sempre o ataque frontal é o mais eficaz. Muitas vezes, vence quem desgasta lentamente, corrói a credibilidade, mina a moral adversária e obriga o inimigo a errar.

O problema é quando a linguagem de guerra deixa de ser metáfora e passa a contaminar a democracia. O adversário vira traidor. A divergência vira ameaça. A negociação vira rendição. A prudência vira covardia. O centro vira pântano. A política, que deveria organizar o conflito civilizadamente, passa a incendiá-lo Campanhas precisam de estratégia, disciplina, método e foco. Mas democracia não é campo de extermínio. O objetivo da política não deveria ser destruir o adversário, mas convencer a sociedade. Não deveria ser esmagar o outro, mas construir maioria legítima. Não deveria ser manipular o eleitor, mas apresentar caminhos.

A política pode aprender com os estrategistas da guerra, desde que não esqueça sua finalidade civilizatória. Estratégia sem ética vira emboscada. Tática sem verdade vira fraude. Comunicação sem responsabilidade vira munição.

No fim, a grande batalha democrática não é contra este ou aquele adversário. É contra a tentação permanente de transformar a política em guerra total. Porque, quando a política abandona a palavra como ponte e a usa como espada, a democracia começa a sangrar.

domingo, 28 de junho de 2026

Pensamento do Dia


 

O centro progressista precisa se radicalizar

Dois eventos recentes, em lados opostos do Atlântico, apontam para o mesmo problema. No Reino Unido, o homem que, segundo as expectativas gerais, deve substituir o imponente Keir Starmer como primeiro-ministro é Andy Burnham, que defende o “socialismo favorável aos negócios” como seu credo. Em Nova York, as eleições primárias democratas resultaram em vitórias impressionantes para os socialistas, sugerindo que a esquerda insurgente encontrou uma maneira de transformar o protesto em poder.

Primeiro, uma ressalva: a esquerda não está caminhando de maneira uniforme em direção ao socialismo. Muitas primárias fora da cidade de Nova York foram vencidas por democratas moderados. Em um distrito nos arredores da cidade, a veterana de guerra Cait Conley venceu com facilidade. Mas um certo tipo de progressismo está perdendo força, confiança e conexão com as pessoas que afirma representar.


No novo livro de Adrian Wooldridge, The Revolutionary Center: The Lost Genius of Liberalism (O Centro Revolucionário: O Gênio Perdido do Liberalismo, na tradução livre), o autor nos lembra que o progressismo já foi a força mais radical da política. Ele atacava os privilégios herdados, o poder monopolista, a censura, a aristocracia, a autoridade clerical e as corporações fechadas. Não era a ideologia do establishment. Era o aríete contra o establishment.

Hoje, o progressismo passou a ser identificado com o poder – grandes universidades, fundações, organizações de mídia, corporações e burocracias. Wooldridge argumenta que isso resultou em duas falhas graves.

A primeira é a passividade. O progressismo moderno, certamente desde a década de 1990, tem exaltado os mercados livres e as pessoas livres. Na prática, isso significou desregulamentar tanto a vida econômica quanto a vida pessoal, tratando as consequências como o preço da liberdade.

Nos mercados, isso permitiu que a consolidação corporativa e a desigualdade se alastrassem descontroladamente. Na vida pessoal, os progressistas passaram a relutar em afirmar que certos comportamentos são socialmente destrutivos.

O resultado é o fatalismo progressista. Pessoas acampam nas ruas das cidades – viciadas e com doenças mentais –, e os progressistas costumam descrever isso como um problema de moradia. Milhões sofrem de doenças relacionadas à obesidade, e os progressistas se sentem mais à vontade culpando os “desertos alimentares” do que enfrentando as empresas que viciam seus clientes em alimentos processados. As empresas de mídia social fazem o mesmo com a atenção de seus consumidores.

Wooldridge defende um renascimento do paternalismo progressista. A expressão soa estranha aos ouvidos modernos. Mas uma sociedade liberal deve valorizar os direitos individuais – e também exigir responsabilidade individual. Deve compreender que a liberdade pode ser destruída não apenas pelo Estado, mas também pelo vício, pelo monopólio, pelo crime, pela ignorância e pela dependência.

Isso não é um argumento a favor do socialismo. É um argumento a favor de um progressismo mais autêntico. Os progressistas deveriam valorizar os mercados não porque eles permitem que os fortes dominem ou que a desigualdade aumente, mas porque a concorrência genuína permite que os mais fracos desafiem os fortes.

Um mercado saudável não é aquele em que quatro empresas dividem discretamente um setor e usam advogados, lobistas e algoritmos para manter os concorrentes de fora. É aquele em que novos participantes podem surgir, os consumidores podem escolher, os trabalhadores podem mudar de emprego e os já estabelecidos podem fracassar.

A segunda falha identificada por Wooldridge é mais incômoda, pois diz respeito à própria condição dos progressistas. O progressismo acredita na meritocracia. Historicamente, essa foi uma de suas causas mais nobres. Defendia que as pessoas deveriam ascender por meio do talento e do esforço, e não por nascimento, raça, casta ou classe. Mas, com o passar do tempo, a elite

A saída para a crise do liberalismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical meritocrática se transformou em sua própria aristocracia.

Os progressistas de elite defendem a justiça social, mas fazem pouco para acabar com o sistema de admissão por legado. Eles querem que os pobres subam na escala social, mas não se isso exigir a construção de mais moradias nos bairros arborizados onde eles moram. Eles elogiam o mérito individual, mas criaram uma vasta burocracia da diversidade que, com muita frequência, julga as pessoas com base na identidade de grupo, em vez de no caráter pessoal.

Em nenhum outro lugar isso fica mais claro do que no ensino fundamental e médio. Uma política genuinamente progressista começaria pela criança. Ela atacaria qualquer instituição – sindicato, burocracia, conselho escolar, departamento universitário – que alimente seu próprio poder enquanto falha com as crianças dos EUA.

É aí que os socialistas e os populistas de direita ganham força. Eles entendem que as pessoas querem alguém que lute por elas. Podem oferecer respostas equivocadas – a esquerda com luta de classes, protecionismo e controle estatal, e a direita com protecionismo, ressentimento étnico e nostalgia racial. Mas soam como outsiders dispostos a enfrentar privilégios arraigados e oferecer proteção em um mundo onde a liberdade parece significar caos.

A saída para a crise do progressismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical. Os progressistas devem voltar a ser aqueles que detestam o monopólio, as vantagens herdadas, os sistemas fechados e os jogos viciados. Devem defender a concorrência real, a meritocracia real e a igualdade real de oportunidades. Devem enfrentar o poder corporativo quando ele esmaga os mercados, o poder governamental quando protege os privilegiados e o poder cultural quando cria burocracias que substituem a dignidade individual pela identidade de grupo.

Como argumenta Wooldridge, o centro não pode ser meramente um ponto médio entre a esquerda e a direita. Ele precisa ser revolucionário à sua maneira. A grande promessa do progressismo nunca foi que as pessoas fossem deixadas à própria sorte para definhar na liberdade. Era que as pessoas recebessem as ferramentas, as regras e as responsabilidades necessárias para prosperar. O progressismo começou como uma revolta contra o poder arraigado. Ele só sobreviverá se voltar a ser aquilo que foi em sua origem.

Fareed Zakaria