sexta-feira, 20 de março de 2026
O espelho que nos rouba o rosto
Os defensores da integração acrítica da IA nas universidades falam em “ferramenta”, em “personalização do ensino”, em “competências para o futuro”. Soa bem. Soa a moderno. Mas esconde uma traição silenciosa ao ato educativo. Como escrevi em outubro passado, inspirando-me nas reflexões de Hannah Arendt sobre a vita activa, educar não é transferir informação — é cultivar a capacidade de parar, de duvidar, de formular a pergunta certa. E aqui reside o perigo: a IA satisfaz a resposta antes que a pergunta amadureça na alma do estudante. Transforma o laborioso caminho do pensamento — esse território onde nascem a ética e a criatividade — numa auto-estrada lisa, rápida e vazia de significado. O aluno não percorre a estrada; é transportado nela, de olhos vendados.
Lembro as palavras do neurocientista António Damásio, que tantas vezes citei: “As emoções não são ruído no pensamento; são a sua matéria-prima”. Ora, a IA não sente a hesitação diante de um conceito difícil; não experimenta a alegria súbita da compreensão; não carrega a angústia produtiva da dúvida. Quando delegamos na máquina a mediação do saber, roubamos ao estudante a experiência corporal do aprender — essa dimensão sensorial e afetiva sem a qual o conhecimento permanece letra morta. Os estudantes de Aveiro falam em “eficiência”; eu pergunto: eficiência para quê? Para formar técnicos rápidos ou seres pensantes?
E há um segundo engano, mais grave ainda: a crença na neutralidade algorítmica. Nas minhas crónicas de 2025, baseadas nos relatórios do Comité de Ética da União Europeia, demonstrei que os modelos de linguagem são espelhos distorcidos da cultura que os alimenta — reproduzem vieses, hierarquias e silêncios históricos. Quando um estudante confia cegamente na “resposta” da IA para compreender Foucault ou Arendt, não está a dialogar com o pensamento crítico; está a ingerir uma síntese pasteurizada, filtrada por lógicas comerciais e ocidentais. A verdadeira educação exige confronto com a complexidade, não com a sua simplificação algorítmica.
O Reitor fala em “não privar os alunos das competências modernas”. Concordo — mas as competências mais urgentes do século XXI não são saber operar uma interface; são saber resistir à pressão da instantaneidade, cultivar o silêncio interior necessário ao juízo ético, e discernir entre informação e sabedoria. Como escrevi, inspirando-me nos Padres do Deserto: “Quem não aprende a escutar o próprio silêncio, nunca ouvirá a voz do outro.” A IA, na sua voracidade de resposta imediata, ensina-nos a temer o silêncio — e assim mata a escuta, essa arte primeira do encontro humano.
Não sou tecnófobo, antes pelo contrário, fui um dos pioneiros em Portugal na utilização das TIC no Ensino e na Aprendizagem. Sou pensamento-fóbico — fóbico da sua substituição silenciosa. A tecnologia deve servir a pedagogia, nunca substituí-la. Que usemos a IA para traduzir textos, sim; para mapear fontes, sim; para simular cenários, sim. Mas que nunca permitamos que ela ocupe o lugar do Professor que, com os seus silêncios e as suas perguntas incómodas, nos ensina que pensar é um ato de coragem — não de comodidade.
A universidade não existe para formar consumidores eficientes de respostas. Existe para formar seres capazes de habitar a dúvida com dignidade. E nesse território sagrado — onde a pergunta vale mais que a resposta — nenhuma máquina tem lugar. Porque ali, onde o espírito se debate com a sua própria luz e sombra, só o humano pode caminhar. E deve caminhar sozinho.
'1984' versão hoje
Vide as teletelas. No livro, elas ficam em todas as paredes, regulando a vida dos cidadãos, e não podem ser desligadas. Hoje estão no nosso bolso ou na palma da mão. São os celulares. Assim como as teletelas, eles nos veem e nos ouvem, queiramos ou não. Já o Grande Irmão é o algoritmo. Sabe tudo sobre nós e nos bombardeia com mensagens dirigidas aos nossos gostos, preferências e, mais que tudo, convicções, permitindo-nos viver numa bolha onde nos sentimos "pertencendo", donde protegidos.
No país de "1984", o culto ao ódio é obrigatório. As pessoas são instadas a pôr para fora a sua raiva contra indivíduos ou instituições sem saber muito bem por quê. Obedecem aos haters das redes sociais, especialistas em destruir a reputação do inimigo da vez –a contaminação é imediata, e o sujeito se vê, de repente, odiando alguém de quem jamais ouvira falar. No livro, não se tem descanso, porque o país está sempre em guerra contra um inimigo a ser odiado. Só que o inimigo de hoje pode se tornar o aliado de amanhã ou vice-versa. Mas o povo reage de acordo, porque acredita em tudo que lhe injetam.
Como a verdade é agora a mentira, alteram-se textos, imagens e biografias para produzir novos "fatos" – as fake news. O povo de "1984" acredita que a Terra é o centro do Universo, em torno da qual giram o Sol e os planetas. Equivale aos que no Brasil a acham plana, telefonam para ETs, rezam para pneus e negam a pandemia.
O país de "1984" é a URSS de Stálin. Os zumbis bolsonaristas não desconfiam, mas viveriam muito bem nele.
Jovens cheios de mofo
Sem mais conversas de circunstância, como se se tivessem ali sentado para aquele exercício, ele começa a debitar o que, vou percebendo à medida que o oiço, são as melhores qualidades dela. “Tens muito sentido de humor… para rapariga. É uma coisa rara nas raparigas.” Ela acena vagamente com a cabeça, a mão ainda afagando o ventre, enquanto ele discorre sobre como ela tem aquela característica que ele acha que falta às mulheres em geral. “És muito boa mãe. Consegues sempre acalmá-la. Não é porque tens muita paciência. Às vezes, também gritas.” Ela encolhe os ombros e lança-se para a frente. “A minha paciência tem limites”, exaspera-se. “Sim, mas tu és melhor a lidar com ela, porque é como se soubesses sempre aquilo de que ela precisa. Tens instinto”, conclui, antes de rematar com a qualidade que deixou para o fim. “Cuidas de ti. Há mulheres que se desleixam depois de serem mães, tu não.”
Fico em suspenso. Estou sentada demasiado perto da mesa deles. É-me impossível não ser testemunha deste momento, que talvez tenha acontecido depois de uma consulta de terapia de casal ou talvez seja, tal como o chá de framboesas, o resultado de uma pesquisa na internet que aconselhou este exercício. Estou sentada ao lado dele, quase como se partilhássemos a mesa os três. Tenho-a à minha frente. E olho-a à espera que ela perceba o mesmo que eu.
Enquanto o ouvia falar, foi-me completamente evidente o desprezo dele pelas mulheres, em geral, e a total ausência de encantamento com aquela que tinha à frente, em particular. Era como se cada elogio que lhe veio à cabeça só o fosse na medida em que a distinguia dessa entidade coletiva una que ele acredita serem “as mulheres” ou “as raparigas”. As suas qualidades resumiam-se ao que a tornava menos próxima do que ele acha serem as mulheres em geral, com exceção apenas para aquele instinto “maternal”, que ele deve achar que vem no pacote biológico. E nesse desenho, feito em negativo, não havia uma única singularidade, uma exaltação, um espanto. Ela era uma sombra recortada de uma amálgama de mulheres. Boa apenas por ser diferente das outras. Não por ser única. Mas por não ser mais uma.
Fiquei à espera que o esgar que as ligeiras contrações lhe provocavam se transformasse numa expressão de revolta ou enjoo, que lhe atirasse para cima a pequena mesa redonda e saísse carregando com as mãos a pesada barriga dentro do vestido de veludo preto e flores garridas. Mas ela ficou, quase impávida. Talvez colada à cadeira pelo peso daquele ventre, debitou sem emoção qualidades do parceiro, que repetiam mais ou menos o que ele tinha dito, sem a comparação com os outros espécimes do género masculino. “Tens sentido de humor. És bom pai”, dizia, sem expressão, enquanto eu me levantava de olhos baixos, envergonhada por ser testemunha daquela desistência, sabendo que são tantos os momentos em que desistimos e que eles não nos definem, mas devem ser mantidos secretos e, se possível, sem testemunhas que os julguem.
Saí dali com um nó no estômago e a remoer naquilo que tinha ouvido. Aqueles dois jovens na casa dos 30, com um ar cosmopolita, a beber chá num café de um bairro de classe média alta de Lisboa, no século XXI, estavam cheios de mofo. Onde estava o arejamento que o passado nos prometeu? Mesmo seguindo dicas de autoajuda pós-modernas, são só uma repetição de uma cena antiga: homem e mulher reproduzem-se em conjunto e desistem do amor. Mas talvez eu esteja enganada e o amor seja uma coisa antiga, inventada para as fotonovelas que encontrei na casa do meu bisavô quando era criança e me davam vontade de rir. Sim, aquele lado mecânico e desistente da conversa tinha-me incomodado. Mas o pior não era isso. O pior era ver aquele rapaz a fazer enunciados sobre as mulheres. No fundo, era isso que me tinha feito mossa. Senti-me traída na ideia de que num futuro qualquer essas ideias gastas sobre o que é ou não feminino fossem só uma caricatura ou, na pior das hipóteses, usadas para teses gerais, nunca para definir a parceira.
Mais uma vez, a realidade mostrou-me que as estatísticas estão certas, contra todas as minhas esperanças. Um estudo do Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, com mais de 23 mil inquiridos em 29 países, revelou que um terço dos homens nascidos entre 1997 e 2012 acredita que as mulheres devem obedecer ao marido, 33% acham que o marido deve ter a palavra final em decisões importantes, quase um quarto acredita que as mulheres não devem parecer independentes e 21% defende que elas não devem tomar a iniciativa sexual. Curiosamente, todas as notícias que encontrei sobre o tema usavam o adjetivo “conservadora” para descrever esta Geração Z. A mim parece-me que “machista” seria muito mais adequado.
Estas visões sobre o papel dos géneros são o reflexo de ideias antigas, sim, mas acima de tudo patriarcais. Elas têm um intuito político e tentam recuperar uma ideia de “guerra dos sexos” que devia estar completamente ultrapassada. A crescer numa sociedade em crise permanente, esmagados pela crescente desigualdade e por uma ausência de horizonte de esperança, os jovens rapazes são iludidos com a ideia de que estão a perder terreno para as mulheres. Vivem precários e sem esperança? A culpa é delas, que passam de seres humanos em pé de igualdade para objetos de consumo para validação pessoal ou inimigas simbólicas, culpadas de todos os males.
No Brasil, a Polícia Federal anunciou, esta semana, a abertura de inquéritos aos autores dos vídeos Treinando caso ela diga não, que basicamente mostram homens ajoelhados com um anel na mão, que começam aos murros e aos pontapés, para treinar a reação violenta à rejeição. O ódio que é semeado, vídeo atrás de vídeo misógino, pelo algoritmo da indignação, garante que ficam suficientemente adormecidos para não se aperceberem de como são explorados e oprimidos por um sistema controlado por um punhado de multimilionários.
Esses machos alfa, inchados de testosterona e creatina, gastam assim contra as mulheres a revolta que devia fazê-los questionar a sua condição, levando-as também a encolher-se e a desaparecer como agentes políticas. Todos domesticados por um sistema que oculta a desigualdade e a injustiça, entretendo-nos com o ódio. Até quando vamos deixar-nos manipular desta forma?
Margarida Davim
Os meninos do Brasil
Vê-se que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.
É evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo ponto corriqueiro.
O problema é que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra no país.
Consequência inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.
Seria altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos, desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do Brasil.
Clóvis Rossi, Folha de S. Paulo, 30/10/92
Os desafios da direita democrática
Houve resistência. O ex-governador paulista João Doria se bateu de peito aberto contra o ex-presidente. Alguns deputados federais, também. O MBL ensaiou participar de um pedido de impeachment. Agora está distante e muita gente não lembra, mas o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), foi para a rua defender o distanciamento social no princípio da pandemia. Todos os que enfrentaram Bolsonaro sofreram derrotas eleitorais acachapantes. Ou recuaram. Todos sabem que Bolsonaro não é um bom confrade político. É desleal, trai sem dó, não cumpre acordos. Não bastasse, é um paranoico que vê conspirações por toda parte. Todo mundo compreende que Bolsonaro só confia na própria família. Golpista é só um dos adjetivos que cabem a Bolsonaro.
Há uma miragem nas pesquisas. A base dura do bolsonarismo circula entre 13% (Quaest) e 12% (Ideia), mas, quando alguém com o sobrenome Bolsonaro se põe em campanha, já surge com pelo menos 20% das intenções de voto. É instantâneo. Isso pode ser medido pelas pesquisas espontâneas, quando não são oferecidas opções para os entrevistados. De bate-pronto o entrevistado já logo saca, quero votar neste. Um quinto dos brasileiros já tem o nome Bolsonaro na ponta da língua e responde assim, na lata. Desde 2006, Lula tem 30% de base.
Os números de Lula são sólidos há 20 anos. Não mudarão. Não sabemos o que se dá entre os 12%-13% da base sólida pelas pesquisas e os 20% da espontânea de seu adversário. Essa base, Bolsonaro não teve por boa parte da campanha de 2018, mas já estava lá em 2022 e permanece desde então. Foi toda transferida, agora, para seu filho Flávio.
A provocação de Celso é boa, mas depende da compreensão de como se dá a política. A sociedade dá o tom, e os políticos reagem? Ou os políticos dão o tom, e a sociedade se adéqua? É um debate antigo e que não se resolve apenas na dicotomia. As duas coisas acontecem. Grandes líderes são capazes de convencer a sociedade a ir com eles, mas na maioria das vezes o caminho é o contrário. Políticos sentem o clima e constroem o discurso para que reverbere no sentimento popular já presente. O trabalho de marqueteiros políticos costuma ser justamente este: convencer o eleitor de que seus anseios existentes serão atendidos pelo candidato A ou B.
Se o problema for uma base sólida de 20% da sociedade que é bolsonarista, não há o que qualquer político de direita consiga fazer. Porque dificilmente outro candidato ultrapassará essa marca. E a coisa complica. Segundo a pesquisa Meio/Ideia, que coordeno com o economista Maurício Moura, 54% dos brasileiros não acreditam que Bolsonaro tentou um golpe de Estado em 2022. Acham que ele foi injustiçado. Mais de metade dos brasileiros.
É por isso que os governadores do Paraná, Ratinho Junior (PSD), de Minas, Romeu Zema (Novo), e o próprio Caiado hoje fazem um discurso ambíguo sobre o golpe e defendem anistia. O único que acusa o golpe com clareza é o gaúcho Eduardo Leite (PSD). O cálculo do trio pró-anistia é eleitoral, não tem nada a ver com convicções pessoais. Eles olham as pesquisas, sabem que do eleitorado à esquerda não tirarão votos e concluem que, para ter chance de vitória, precisam dizer essas coisas. Que não está claro se houve tentativa de golpe. Houve. Só que mais de metade do Brasil não entende assim.
Por quê? Nesses 54% tem muita coisa. Por exemplo, antipetismo. Na polarização afetiva, se você está de um lado, já se posiciona com uma coleção de bandeiras contra o outro sem pensar. Há, também, a frustração com o Supremo Tribunal Federal (STF) no caso Master. O autoritarismo e o corporativismo da Corte estão destroçando a imagem do STF para um pedaço do Brasil que se amplia, e isso contamina a percepção a respeito do julgamento do golpe. A defesa do Supremo pela militância de esquerda e o ataque a jornalistas colaboram mais para a sensação de que autoritário é o outro lado. E tem o tempo. Muitos esqueceram o inferno que foi viver aquele governo. Pois é. E se o problema não forem os políticos de direita? E se o problema estiver na sociedade?
O nacionalismo trumpista e a colonização do espaço doméstico dos EUA
Tradicionalmente, a política de imigração dos EUA é analisada sob a ótica da gestão de fronteiras, da regulação do mercado de trabalho ou da segurança nacional –perspectivas que podem ser consideradas normais para a maioria dos Estados contemporâneos. No entanto, o movimento de controle migratório desencadeado na segunda gestão de Trump representa uma mudança significativa neste panorama: não é apenas um processo de endurecimento do controle das fronteiras ou da administração de imigrantes que já se encontram no país, mas, efetivamente, uma tentativa deliberada de redefinir a própria composição étnico-racial da nação estadunidense.
As políticas migratórias do trumpismo representam um deslocamento sísmico de um nacionalismo cívico, tradicionalmente observado nos EUA (ao menos em termos formais), para um nacionalismo étnico e agressivo. Mais do que proteger as fronteiras nacionais, este projeto político opera por meio de uma lógica de colonização interna: um esforço do governo para reconfigurar o espaço doméstico, purificando-o de elementos considerados exógenos à nação dos EUA e buscando homogeneizar aquela sociedade. Para além da orientação para o espaço doméstico, esta obsessão pela reconstrução de uma nação etnicamente pura projeta-se para o internacional, reconfigurando também a política externa dos EUA, que passa a apresentar, de forma mais explícita, uma postura internacional de hostilidade e isolacionismo beligerante.
Para compreender a magnitude desta mudança, é necessário revisitar o consenso do pós-Segunda Guerra Mundial sobre a identidade nacional estadunidense. Durante décadas, os EUA projetaram-se como uma nação proposicional, fundamentada em um nacionalismo cívico. Nesta concepção, ser estadunidense não dependia de sangue, raça ou religião, mas sim da adesão, do compartilhamento e da participação a um credo político comum: a Constituição, a democracia e o Estado de Direito, ou seja, as instituições fundadas no pós-independência (1776) e estabelecidas no pós-Guerra Civil (1861-1865). O Caldeirão Cultural estadunidense (Melting Pot), que preconizava a construção daquela nação a partir da fusão voluntária de pessoas de diferentes origens e tradições culturais, embora falho na prática e permanentemente desafiado por grupos supremacistas de extrema direita, era o ideal normativo que pautava a organização institucional da sociedade dos EUA.
O trumpismo rompe com essa tradição ao introduzir, com vigor renovado, um nacionalismo étnico como princípio central da identidade nacional dos EUA. Nesta visão, a nação não é um projeto político aberto à adesão voluntária, mas uma entidade cultural e demográfica fixa, enraizada em uma herança étnica específica (branca e europeia) que precisa ser protegida contra a diluição e a poluição (ou seja, a assimilação de minorias culturais e a miscigenação com outros grupos étnico-raciais).
A retórica da invasão é uma peça central para a compreensão desta proposta. Quando lideranças políticas enquadram a migração como uma invasão, alteram fundamentalmente a natureza do debate. O imigrante deixa de ser um potencial cidadão ou um ator econômico para se tornar um invasor. Esta linguagem beligerante legitima medidas de exceção. Se o país está sendo invadido, então a resposta não é o processo legal administrativo, mas a defesa territorial militar. Assim, a presença do imigrante, documentado ou não, é reconfigurada como uma ameaça existencial à soberania popular, pavimentando o caminho para que o governo atue não apenas contra estrangeiros presentes em seu território, mas também, como observado nos últimos meses, contra cidadãos que não se encaixam nos critérios de pertencimento nacional agora então redefinidos a partir da chave étnico-racial.
A manifestação prática deste processo pode ser compreendida como uma colonização do espaço doméstico e descreve a inversão da lógica estatal: o governo deixa de proteger os habitantes do seu território para tratar o próprio interior do país como uma fronteira hostil a ser domada. Sob a lógica trumpista, a fronteira deixa de ser uma linha estática demarcada geograficamente e passa a ser móvel, seguindo as redefinições étnico-raciais do governo sobre a população presente no território. Ela se move para o interior, reconfigurando o espaço público por meio de quatro mecanismos principais: o emprego de tecnologia digital para o rastreamento de pessoas e grupos, o estabelecimento de um complexo de centros de detenção, a consolidação de uma força policial para a ocupação e o controle do espaço doméstico e a instauração de uma política do medo.
A primeira ferramenta desta colonização é tecnológica. A construção do muro, tão anunciada durante a campanha eleitoral de 2016, não é apenas física, mas agora também é digital. Por meio da expansão massiva de tecnologias de vigilância, como o reconhecimento facial, a coleta de dados biométricos e o monitoramento de redes sociais, o governo cria um panóptico digital voltado às comunidades imigrantes e às minorias étnico-raciais. O uso de tornozeleiras eletrônicas e de aplicativos de rastreamento para imigrantes em processo judicial transforma o próprio corpo do indivíduo na fronteira. Onde quer que o imigrante vá, a fronteira o acompanha. Esta vigilância de dados permite ao governo exercer controle sem a necessidade de encarceramento físico imediato, criando uma prisão a céu aberto em que a liberdade de movimento é ilusória.
Paralelamente à vigilância, ocorre uma expansão física da infraestrutura de detenção, que funciona como enxertos coloniais na metrópole. O sistema de detenção de imigrantes nos EUA (frequentemente gerido por empresas privadas com fins lucrativos) tende a ser localizado em áreas rurais e remotas. Esta geografia isola os detidos do acesso a advogados, à visibilidade da mídia e às redes de apoio comunitário. Tais centros constituem espaços no território nacional em que os direitos constitucionais são suspensos. Ao segregar fisicamente milhares de pessoas, o governo realiza uma higienização étnico-racial do espaço social, tratando seres humanos como excedentes indesejáveis a serem armazenados antes da expulsão.
A colonização do espaço doméstico exige uma força de ocupação. Isto é alcançado por meio da fusão entre o direito penal e o direito migratório, um fenômeno conhecido como crimigração. Programas como o 287(g), que conferem a policiais locais capacidades de agentes de imigração, dissolvem a distinção entre a polícia civil e a polícia de imigração. Quando a polícia local atua como braço do ICE, qualquer infração de trânsito pode se tornar um gatilho para a deportação. Isso militariza a sociedade civil: escolas, igrejas e hospitais, tradicionalmente zonas de segurança, tornam-se locais de risco.
Por fim, a colonização interna também articula uma dimensão emocional. A ameaça constante de revogação de status legais (como o ataque ao Dream Act e a retórica contra a cidadania por nascimento) serve para produzir novas ilegalidades, convenientes ao processo de homogeneização nacional. O governo remove ativamente o tapete jurídico que protege residentes legais, transformando vizinhos em invasores por decreto administrativo. Este mecanismo aposta na criação de um ambiente doméstico hostil. O medo torna-se uma ferramenta de governança, maximizando ameaças (frequentemente imaginárias) para fins políticos pouco democráticos.
Subjacente a estas iniciativas de reengenharia da sociedade dos EUA está a lógica da Grande Substituição (Great Replacement), uma teoria conspiratória de movimentos supremacistas brancos de que elites globais estão orquestrando a substituição da população branca e cristã dos países do Norte por imigrantes do Sul Global. Embora nem sempre explicitada, essa teoria orienta a rejeição ao multiculturalismo. O veto a viajantes de países muçulmanos (Muslim Ban) e a preferência declarada por imigrantes de países como a Noruega, em detrimento de “países de merda” (a forma como Trump escolheu se referir ao Haiti e ao El Salvador em declaração proferida em janeiro de 2018), revelam um desejo de engenharia social racializada.
Ao tentar purgar a coletividade de indivíduos e grupos considerados não assimiláveis, o projeto trumpista busca criar uma sociedade em que estadunidense seja sinônimo de um perfil cultural e linguístico específico: branco, cristão, de origem europeia. É uma rejeição frontal ao pluralismo democrático em favor de uma identidade homogênea, forçada pela coerção estatal.
Ainda que a tendência geral seja a de analisar os processos supracitados como uma dimensão puramente interna da política dos EUA, é relevante destacar que, historicamente, observa-se uma correlação entre a forma como uma nação trata os seus residentes internos, estrangeiros ou minorias étnico-raciais, e sua postura no sistema internacional. A lógica de colonização interna e de homogeneização nacional não para na fronteira; ela transborda, gerando uma política externa agressiva e paranoica.
Se a premissa deste processo de colonização interna é que o país está sob cerco de forças estrangeiras que já penetraram o território, a atitude internacional decorrente de tal premissa é de profunda desconfiança. O mundo exterior deixa de ser um espaço de potenciais parcerias mutuamente benéficas para se tornar uma fonte de contaminação e de ameaça. O multilateralismo é substituído por uma visão de soma-zero: para os EUA ganharem, os outros devem perder. Esta mentalidade justifica o abandono de tratados internacionais, o desprezo por organizações como a ONU e a OTAN, e uma abordagem transacional nas relações exteriores. A agressividade interna necessária para deportar milhões requer uma desumanização que, quando projetada externamente, resulta em uma política internacional insensível às crises humanitárias e desdenhosa dos direitos humanos. O nacionalismo de homogeneização étnico-racial parece criar um Estado que se vê como vítima do mundo, justificando, paradoxalmente, que atue como agressor no sistema internacional.
Em suma, as políticas de imigração da era Trump não devem ser vistas como um fenômeno isolado de gestão pública, ou como uma distração para outras questões, mas sim como a ponta de lança de um projeto de reengenharia social de alcance nacional e projeção internacional. Ao transitar formalmente do nacionalismo cívico para o étnico, o atual governo estadunidense adota uma postura de colonização interna, tratando o próprio território do país como um campo de batalha em que a homogeneidade deve ser imposta à força por meio da tecnologia, do encarceramento e da militarização da sociedade civil. Este processo tem custos devastadores. Internamente, corrói o tecido social e os direitos civis, criando uma casta de subcidadãos e normalizando a violência estatal. Externamente, transforma os EUA em uma nação entrincheirada, cuja insegurança identitária se manifesta em agressividade geopolítica, um processo com potencial para reconfigurar as relações internacionais contemporâneas.
Tatiana Vargas-Maia
O jornalismo serve para afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos
Ninguém é imparcial. Porque você é obrigado a fazer escolhas a todo momento – e, ao fazer toma partido.
Quando destaco mais uma notícia do que outra, faço uma escolha. Tomo partido.
Quando opino a respeito de qualquer coisa, tomo partido.
Cobre-se do jornalista honestidade.
Não posso inventar nada. Não posso mentir. Não posso manipular fatos.
Mas posso errar – como qualquer um pode. E quando erro devo admitir o erro e me desculpar por ele.
Cobre-se do jornalista independência.
Não posso omitir informações ou subvertê-las para servir aos meus interesses ou a interesses alheios.
Se me limito a dar uma notícia, devo ser objetivo. Cabe aos leitores tirarem suas próprias conclusões.
Se comento uma notícia ou analiso um fato, ofereço minhas próprias conclusões. Cabe aos leitores refletir a respeito, concordar, divergir ou se manter indiferente.
Jornalista é um incômodo. E é assim que deve ser. Se não for, jornalista não é.
O jornalismo serve para afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos.
quinta-feira, 19 de março de 2026
Quando a guerra fala e o clima cala
O mecanismo é simples e recorrente. Começa pelas palavras. Nuclear, terror, sobrevivência, preventivo, cirúrgico. Não são descrições neutras. Funcionam como selos morais. Encolhem o espaço da discordância e empurram o debate para um corredor estreito, onde apoiar vira dever e duvidar soa a fraqueza. O público é conduzido à ideia de inevitabilidade e, quando a guerra parece inevitável, o fóssil reaparece como destino.
Quando o conflito entra neste modo, a energia deixa de ser um tema económico e passa a ser tratada como questão de segurança. A linguagem muda e a política muda com ela. A transição energética, que exige prazo, investimento e estabilidade, perde terreno para a lógica da urgência. O petróleo entra como nervo do sistema, não apenas como combustível, mas como fluxo de navios, de seguros, de crédito e de inflação. Basta uma ameaça credível no estreito de Ormuz, mesmo sem fecho formal, para o risco virar prémio e o prémio virar alta.
O bolso sente antes do relatório. E quando a conta aperta, a exigência ética tende a baixar. A pergunta pública muda de eixo. Deixa de ser se é justo e passa a ser quanto vai custar. A indignação perde prioridade porque o custo de vida ocupa o centro do debate. A guerra deixa de ser avaliada por princípios e passa a ser medida pelo impacto no supermercado.
Trump entende esta lógica como poucos presidentes. Não trata as redes sociais como canal, mas como arma. Usa repetição, ritmo e imagem para produzir disciplina emocional. Frases curtas, promessa fácil, um inimigo total e uma missão moral. Sabe que, na primeira janela do ciclo noticioso, não vence quem prova, vence quem fixa a moldura. Isso não é acaso, é método.
O efeito climático é direto e raramente dito com clareza. A guerra faz o fóssil reaparecer como solução provisória, uma provisoriedade que se alonga e vira infraestrutura. Cada choque incentiva contratos longos, novas perfurações e investimento em ativos fósseis. O resultado é o adiamento da transição energética e a dificuldade crescente de reduzir emissões rapidamente, porque a economia passa a depender de estruturas desenhadas para durar décadas. E o peso dos fósseis no clima é decisivo. Segundo a ONU, o dióxido de carbono proveniente dos combustíveis fósseis e dos processos industriais representa cerca de dois terços das emissões globais de gases com efeito de estufa.
No fundo, nada disto é apenas sobre mísseis. É sobre comando. A narrativa de guerra serve para legitimar a intervenção e organizar o campo político antes de a poeira assentar. Washington e Telavive falam de prevenção e de ameaça nuclear para encurtar o debate e alargar a margem de manobra. Por trás dessa moldura está o velho mapa do poder no Médio Oriente, onde quem lidera controla alianças, bases, rotas e o preço da energia. O Irão é a pedra no sapato porque não cabe nesse desenho. Resiste, arma redes, negoceia com Moscovo e Pequim e mantém capacidade de perturbar o ponto mais sensível do sistema: o petróleo.
É por isso que o barril aparece sempre, mesmo quando ninguém o nomeia. O petróleo regressa como linguagem de segurança, como medo de interrupção, como prémio de risco e como inflação. A guerra passa a ser discutida como fatura e não como escolha. Quem está no terreno paga primeiro em vidas e destruição. Quem está longe paga no bolso, na instabilidade e na normalização do curto prazo.
O clima paga de outra forma. Cada escalada empurra a crise climática para fora do enquadramento e devolve ao fóssil o estatuto de inevitável. A transição, que precisa de continuidade, investimento e atenção pública, é adiada em nome da urgência. E esse adiamento não é neutro. Quando uma guerra recentra o mundo no barril, reforça a dependência que acelera o aquecimento global.
No fim, a ligação é simples e raramente assumida com clareza. A narrativa abre caminho para a guerra, a guerra reabilita o petróleo, o petróleo adia a transição energética e o adiamento aumenta o risco climático que já está a cair sobre todos. O resultado é um século em que se morre no terreno e se perde no planeta. O clima não aceita adiamentos. Cobra sempre. E cobra com juros.
Fábrica de feminicidas
Há 30 anos, quem visita o Distrito Federal surpreende-se com a civilidade dos motoristas que respeitam pedestres quando esses desejam atravessar a rua. O respeito à faixa de pedestre não foi construído pela engenharia de trânsito nem por leis que obrigassem essa postura: nasceu de uma campanha educativa.
Ao longo de alguns meses, em cada faixa foram colocados conscientizadores, com incentivos e mimos aos motoristas que demonstram civilidade. Outros motivadores foram as escolas: as crianças se empolgaram com a ideia e passaram a pressionar pais, mães e responsáveis para que respeitassem os pedestres.
A vergonha do feminicídio precisa ser enfrentada com punição dos bandidos, condenação a anos de cadeia e desapropriação de todos os seus bens. E a experiência do trânsito em Brasília precisa ser lembrada para educar a população masculina desde a infância, de modo a quebrar a arrogância machista que assedia, molesta, violenta e assassina mulheres. A ferramenta imediata para barrar os criminosos da violência contra a mulher é a repressão pela Justiça, pela Polícia e pelo Ministério Público. Mas a guerra contra o machismo não será vencida sem campanha educacional dirigida a todos desde a infância, sobretudo aos meninos.
Os feminicidas decorrem da perversão de milhões de homens que cometem atos machistas e violências contra mulheres e, por fim, a maldade absoluta do feminicídio. Poucos dos meninos que na escola puxam cabelos, fazem bullying, insistem em aproximações recusadas ou expressam ideias de superioridade sobre as colegas meninas tornam-se violentos contra mulheres; mas certamente todos os feminicidas começaram com comportamentos machistas tolerados por parecerem leves, desde quando eram meninos ou adolescentes, anos e décadas antes do feminicídio.
O destino dos facínoras que cometem violência contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser a punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por meio da educação, em duas dimensões: garantir escola de qualidade para todas crianças em horário integral e incluir, em todas escolas, conteúdo humanista que ensine o respeito às meninas. Para os atuais agressores de mulheres, é preciso punir duramente e tirá-los do convívio social; mas, para formar uma consciência humanista na sociedade, especialmente entre os homens, é preciso escola de qualidade pedagógica e conteúdo humanista para todos.
Comemoramos que depois de quase meio século de democracia, praticamente, universalizamos a matrícula, relegando o fato que matrícula não é frequência, que não é assistência, que não é permanência, que não é o aprendizado necessário para os tempos atuais, inclusive criando consciência de solidariedade entre os seres humanos e deles com a natureza. As crianças não permanecem seis a oito horas por dia, 200 dias por ano, durante 11 anos de suas vidas, em escolas que despertam entusiasmo, esperança e respeito ao outro, solidariedade com a natureza e com todos os seres humanos. Sem um sistema educacional sólido de educação básica para todas as crianças, dificilmente construiremos uma geração de homens comprometidos com o respeito pleno às mulheres.
Muitos dos mais violentos feminicidas passaram por escolas que não os educaram. Em geral, os feminicidas têm instrução, mas não educação. Os jovens bandidos que recentemente cometeram estupro contra uma menina no Rio de Janeiro eram alunos de uma de nossas melhores escolas, o Colégio Pedro II, assim como foram alunos do nosso orgulho ITA os que fizeram um jogo eletrônico brincando com a humilhação de mulheres. É impossível termos educação humanista sem um sistema escolar de qualidade para todos; mas esse sistema não terá papel de formação humanista se se limitar a instruir, sem dar formação ética.
A escola, por melhor que seja, terá eficácia limitada se a "escola fora da escola" trabalhar na direção oposta: quando a mídia promove o machismo, ela destrói o que a escola tenta ensinar; discursos religiosos que afirmam supremacia masculina inviabilizam a formação de respeito às mulheres; não adianta escola se as redes sociais têm se transformado em espaços de incentivo à violência contra a mulher.
O Brasil precisa fechar a fábrica de feminicídio. Punir os agressores de mulheres, mas também formar um país que deixemos de produzir feminicidas por falta de escola, escola incompleta ou escola sem humanismo.
Ao sair atirando, peça-chave do governo fragiliza Trump na base
O pedido público de demissão, nesta terça-feira, em protesto contra a guerra no Irã, do diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo (NCTC, na sigla em inglês), Joe Kent, escolhido a dedo pelo presidente Donald Trump, pegou o primeiro escalão do governo de surpresa. Ao sair atirando contra o governo, o oficial mais graduado na missão de desbaratar ações terroristas contra os americanos ilustrou como a decisão da Casa Branca de atacar Teerã fraturou a base de modo inédito e ainda deu fôlego para a crítica de parte substantiva da oposição de que as agressões no Oriente Médio, em sua terceira semana, teriam sido teleguiadas por Israel. Os americanos irão às urnas em novembro para decidir quem comandará o Congresso a partir de 2027.
"Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã”, escreveu Kent em rede social. Veterano de guerra do Iraque, ele perdeu sua companheira, Shannon, também militar, na Síria. Ferrenho crítico das incursões americanas no Oriente Médio, juntou-se ao Trump 2.0 por acreditar, como frisa em sua mensagem de despedida, direcionada ao presidente, que “o senhor compreendera que as guerras no Oriente Médio foram armadilhas, responsáveis por subtrair vidas preciosas de nossos patriotas e esgotar a riqueza e a prosperidade de nossa nação”.
Kent também argumentou que Teerã “não representava uma ameaça iminente ao nosso país, e está claro que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby nos EUA”. Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu é dos mais próximos aliados do Trump 2.0. Foi recebido na Casa Branca cinco vezes desde o retorno do republicano ao poder em janeiro de 2025, a mais recente em fevereiro deste ano — além de mais uma em Mar-a-Lago, a residência particular de Trump na Flórida, um recorde absoluto — e tem, de acordo com o próprio presidente, conversas diárias com o parceiro desde o início das agressões ao Irã, em 28 de fevereiro. Indicado em fevereiro de 2025, o diretor do NCTC foi sabatinado e aprovado pela maioria do Senado em julho, quando explicitou sua visão isolacionista, sacerdote do credo dos “EUA Primeiro”. Sentiu-se traído por Trump. Não é o único.
Além da deputada Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, que abandonou sua cadeira ao romper publicamente com a Casa Branca, vozes com amplo poder de mobilização popular, cruciais para o voto em novembro, e alinhadas ao movimento Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês), entre eles o ex-apresentadores da Fox Megyn Kelly e Tucker Carlson, e os podcasters conservadores Matt Walsh e Joe Rogan, também denunciaram publicamente o que classificam como "desvio ideológico" de uma Casa Branca ativa no tabuleiro geopolítico global. E com feições cada vez mais distantes da do vice-presidente JD Vance e mais próximas da do secretário de Estado, Marco Rubio, defensor de intervenções cirúrgicas e arriscadas.
Seu maior tento foi a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, após o asfixiamento econômico do país, tática que busca agora repetir na Cuba de seus antepassados. O Irã, no entanto, se prova missão muito mais complexa, com a resistência feroz de um regime que não acena com a possibilidade de futuras colaborações esdrúxulas com Washington. Ao contrário. Teerã, de acordo com uma fonte do Partido Democrata, tem hoje o potencial de se transformar no que ela traduziu como “a ratoeira do Trump 2.0”.
Principal nome da ainda acéfala oposição para 2028, e às voltas com o lançamento de sua autobiografia, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, foi dos primeiros a questionar se os EUA não travam no Irã uma "guerra de opção", deflagrada quando Washington negociava com Teerã, e as perspectivas de avanço no desbaratamento do aparato nuclear do país eram promissoras. A ala esquerda da sigla já fala, em caso de vitória em novembro, em invesigar se o Irã de fato planejava um ataque a alvos americanos. Se comprovada a falsidade, defendem emparelhara à da invasão americana ao Iraque em 2003, a partir de premissas depois comprovadamente inexistentes do governo George W.Bush, repudiado pelo trumpismo.
Ao dizer, sem meias palavras, que Trump arriscava vidas locais – já são pelo menos 13 americanos mortos desde 28 de fevereiro — para ajudar Netanyahu, Newsom foi acusado de antissemita e, menos grave, mas com potencial real de prejudicar suas ambições políticas, cauteloso em excesso, tal qual a Casa Branca anterior, notadamente sua amiga próxima e ex-vice-presidente Kamala Harris. Como ela, o governador seria incapaz de se aproveitar da possibilidade de destruir um inimigo quando este estava mais débil, caso do Irã hoje.
Daí o peso da crítica devastadora de Joe Kent, um representante puro-sangue da vertente ideológica do Maga. Foi justamente depois dos horrores que viu no Oriente Médio que o militar tentou duas vezes se eleger, sem sucesso, ao Congresso, pelo estado de Washington, localizado na Costa Oeste, um bastião democrata. Militou então nas alas mais extremistas da direita do Partido Republicano.
Para além de colocar, de dentro das hostes trumpistas, o dedo na ferida persa, que não parece, como defendia a Casa Branca, pronto para desabar, sua defecção também tem outra relevância de peso. Até esta terça-feira ele era o responsável por cuidar das estratégias de contraterrorismo do país. E especialistas afirmam que uma das possibilidades mais óbvias em uma guerra estendida com o Irã é o incremento de ataques terroristas contra alvos americanos, ainda que provavelmente não dentro dos EUA, o que poderia afetar os números ainda majoritariamente altos de aprovação da direita ao Trump 2.0.
Ao todo, pelo menos cinco agressões foram registradas na Europa e nos Estados Unidos em menos de duas semanas. Embora nenhuma delas tenha sido atribuída oficialmente ao Irã, serviços de inteligência europeus afirmam que Teerã dispõe hoje de uma rede composta por agentes e criminosos voltada para realizar operações clandestinas mundo afora.
O cientista político Javed Ali, professor da Universidade de Michigan, que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional no primeiro governo Trump argumentou que o ataque devastador ao Irã aumentaria exponencialmente os riscos de ataques terroristas patrocinados pelo Irã contra alvos americanos, o que complicaria ainda mais a situação de Trump, cada vez mais isolado interna e externamente, vide a recusa dos países europeus de enviarem aparato militar para garantir a abertura do Estreito de Ormuz e diminuir o pânico no mercado global de energia:
— Embora o Irã não tenha, hoje, capacidade de atos de terror dentro dos EUA, há possibilidade de ações contra cidadãos e interesses americanos fora do país. Na América do Sul, e não só na Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, os governos devem aumentar a vigilância nos próximos meses — afirmou.
Quando a democracia deixa de importar
O contrato democrático enfraqueceu. Globalmente, observamos que organizações multilaterais como as Nações Unidas e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e as coalizões globais que as apoiam, estão cada vez mais fracas, deslegitimadas e subfinanciadas. Particularmente paradoxal é o fato de os Estados Unidos e seus aliados europeus, outrora os principais impulsionadores de uma ordem global baseada na democracia liberal, estarem agora liderando essa capitulação. O governo Trump retirou-se de órgãos como o Conselho de Direitos Humanos da ONU e fechou por completo a agência de desenvolvimento USAID; os europeus reduziram drasticamente o financiamento para essas agendas, ao mesmo tempo que aumentaram seus orçamentos de defesa e segurança; e a agência canadense de desenvolvimento IDRC acaba de fechar sua divisão de democracia. A Rede de Financiadores de Direitos Humanos estima uma redução de 28% no financiamento nessa área este ano em comparação com 2023. Isso significa menos apoio para organizações da sociedade civil engajadas em litígios estratégicos, para ativistas ambientais, para jornalistas que denunciam injustiças, para uma distribuição mais equitativa de vacinas e muito mais. É preocupante que, pela primeira vez em muito tempo, nenhuma das grandes potências globais esteja promovendo uma ordem mundial baseada na democracia e nos direitos humanos. E se algum governo viola seus princípios, não há apelos urgentes por ação, nem represálias, nem condenações. Lembremos o que aconteceu recentemente na Venezuela. A palavra democracia estava visivelmente ausente.
Mais doloroso ainda é constatar que o apoio popular também diminuiu substancialmente. Governos ou movimentos que atacam as democracias são cada vez mais populares. Aqueles que as defendem estão cada vez mais fracos e se encontram na defensiva. Falar de democracia hoje é falar de um conceito desgastado, quase anacrônico, incapaz de despertar entusiasmo ou mobilizar maiorias. Tornou-se sinônimo de superficialidade, parecendo inofensivo diante das urgentes demandas sociais por empregos, combate ao narcotráfico , guerras comerciais e desastres naturais. Às vezes, parece que desistimos dela.
Contudo, perder essa autonomia não é um luxo que podemos nos dar. Nossas sociedades pagaram um preço alto para construir acordos e instituições políticas que garantem que possamos eleger nossos representantes, circular livremente e nos reunir sem medo de perseguição, expressar nossas preferências políticas e lutar por sociedades mais justas. As contradições, os retrocessos e todas as deficiências não são uma desculpa para eliminá-la, mas sim para superá-la e avançar em direção a versões mais substanciais.
Acontece que as sociedades democráticas são objetivamente melhores. O ganhador do Prêmio Nobel, Daron Acemoglu, demonstrou, em um estudo que analisou 184 países entre 1960 e 2010, que os países que se democratizaram aumentaram seu PIB per capita entre 20% e 25% nos 25 anos seguintes, em comparação com o que teriam ocorrido se tivessem permanecido autoritários. Outro ganhador do Prêmio Nobel, Amartya Sen, destaca que nunca houve uma grande fome em uma democracia devido à pressão da imprensa e da oposição diante de tais crises. Durante o século XX, as transições para a democracia estiveram ligadas a um aumento médio de 3% na expectativa de vida em apenas dez anos após a democratização. Dados do Journal of Democracy mostram que as democracias reduzem a mortalidade infantil de forma muito mais drástica do que as autocracias, já que os gastos públicos tendem a priorizar a atenção primária à saúde em vez de construir elefantes brancos ou aumentar os gastos militares. De forma semelhante, na América Latina e no sul da Europa, o fim dos regimes autoritários nas décadas de 1970 e 1980 impulsionou o aumento do investimento em educação e a expansão dos direitos substantivos para as populações vulneráveis. Além disso, evidências empíricas mostram que as democracias são mais pacíficas entre si, pois priorizam os canais diplomáticos.
A questão fundamental é que precisamos de democracia para construir nosso futuro. Não há agenda de desenvolvimento possível sem democracia. Sem instituições democráticas fortes com apoio social, não temos mecanismos de controle e equilíbrio em um mundo que, apesar de estar cada vez mais rico, vivencia crescente desigualdade e exclusão. A transformação digital sem controle democrático se torna uma infraestrutura para vigilância em massa, extração e manipulação de dados. Não podemos vislumbrar um futuro para a Amazônia sem acordos globais vinculativos, especialmente quando ativistas ambientais são assassinados enquanto Estados que desmantelaram suas instituições de direitos humanos permanecem inertes. Tampouco podemos vislumbrar empregos de qualidade para nossos jovens quando os mercados são controlados por enormes corporações que, sem fiscalização, buscam apenas maximizar os lucros. Muito menos podemos elaborar políticas migratórias sustentáveis se não priorizarmos os migrantes como sujeitos de direitos.
Não podemos ceder aos desesperançosos, e muito menos ao cinismo daqueles que buscam benefícios para uma minoria privilegiada. O voto, o protesto social, a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e a identidade não só têm valor intrínseco, como também são ferramentas insubstituíveis para a construção de sociedades mais prósperas, equitativas, inclusivas e igualitárias. É por isso que, se não agirmos agora, sem eufemismos ou ambivalência, a democracia corre o risco de se tornar um período que nossos netos lerão com perplexidade nos livros de história, um breve experimento na longa história da crueldade do poder.
Crime ou esperteza? Resposta pode ser relativa às circunstâncias
O crime é relativo a muitas circunstâncias. Tirar dinheiro do pai, vender gato por lebre, falsificar documentos ou roubar livros de bibliotecas públicas são espertezas, malandragens e jeitinhos. Tais práticas, feitas por parentes e amigos, serão enquadradas na ética de reciprocidade da “casa” ou da categoria profissional, o que os jornais chamam de “corporativismo”. Ora, o corporativismo tem como base precisamente esse transbordamento pessoal que anula regras igualitárias impessoais em favor de simpatias e favores pessoais, o que leva à desmoralização institucional e à descrença na igualdade, visto que a obrigação de retribuir favores anula normas profissionais. Há um óbvio desequilíbrio entre costumes jamais criticados e normas legais racionais, de modo que não conseguimos ultrapassar a dominação tradicional, efetivando a dominação burocrática.
Dilema que se expressa no batido: se for “nosso”, é esperteza; se for “deles”, é crime!
Nesse axioma cultural há a incontornável força dos hábitos e costumes que – como definiu E.B. Tylor em 1871 – são aprendidos pelos membros de uma sociedade como “cultura”.
Se o nosso sistema moral adota uma ética de ambiguidade, a igualdade como um ideal antiaristocrático sofre aceitação ou rejeição. Se eu roubar numa ciranda financeira impessoal, por intermédio de uma prestigiosa rede pessoal, o crime pode virar esperteza. Mas sem elos políticos importantes a esperteza corre o excepcional risco de virar crime.
Como sair dessa ambiguidade determinada pelo axioma de que a sociedade é feita de doutores e analfabetos, sabidos e trouxas?
Como acabar com pobres e ricos, abandonando a ideia de que são os ricos que vão, nobremente, acabar com os pobres, em vez de pensar num sistema no qual todos possam enriquecer?
É mais fácil alienar o pobre, remediando sua pobreza, do que criar instituições capazes de fazê-lo prosperar. Mas como abrir o cofre das fortunas sociais de modo igualitário e universal?
Será somente pela política, como até hoje insistimos em imaginar? Ou seria pela criação de um movimento de conscientização igualitária, por intermédio de uma simplificação desses legalismos que sustentam um obsoleto sistema cultural incapaz de distinguir crime e esperteza.
El Salvador depois de Bukele
E ele fará mais. E exilará mais pessoas. E reprimirá mais, muito mais. E prenderá mais, muito mais. Quem não quiser ver, que não olhe. Quem não quiser ver, que espere, mais cedo ou mais tarde terá que ver. Bukele tem 44 anos e, aparentemente, muita vontade e energia para continuar fazendo o que bem entender.
Para aqueles de nós que sofremos com esse poder arbitrário, seja no exílio ou naquele país que nada mais é do que a propriedade de Bukele, resta apenas sobreviver e, se possível, continuar fazendo o que levou à nossa perseguição: jornalismo, ativismo, política, arte, engajamento cívico.
Mas nós, como cidadãos oprimidos, também ficamos com algo mais, algo imperativo, mesmo que pareça inatingível; algo criativo em meio à repressão. Ficamos imaginando El Salvador depois de Bukele. Porque as ditaduras chegam ao fim, mesmo que pareçam rochas imortais; elas morrem, desmoronam, e então restam apenas fragmentos, não mais rocha, mas sujeira, desordem.
Voltarei a este tema em outra coluna, pois não se pode imaginar o futuro de uma nação sozinho ou em um curto período de tempo. Posso ser um bom cronista, mas não me atrevo a descrever imagens desse futuro que virá, porque ele virá, mas me atrevo a levantar questões para este presente que devem alimentar o que está por vir.
Como ensinaremos aos futuros policiais, hoje com pouco mais de vinte anos, que não podem prender quem bem entenderem simplesmente para satisfazer a retórica política do líder? Como ensinaremos aos promotores que não podem acusar dezenas de pessoas em um único caso sem qualquer prova? Como ensinaremos aos juízes a condenar apenas se houver provas? Como lembraremos aos patologistas forenses que sejam meticulosos e examinem os corpos liberados da prisão como se fossem os de um irmão, e que escrevam nas autópsias que o ferimento parecia ser resultado de traumatismo contuso, e não de "edema pulmonar", como escrevem em todos esses relatórios? Como obrigaremos os guardas prisionais a eliminar a tortura de seus protocolos?
Como iremos puni-los? Quem iremos punir? Quem iremos perdoar? Porque o perdão será necessário, não se enganem, o perdão será necessário. Quem iremos punir?
E os soldados… Os soldados como… Como faremos a única coisa que precisa ser feita com eles, que é colocá-los de volta nos quartéis? Como os faremos entender que foram necessários 12 anos de guerra sangrenta para impedi-los de vagar pelas ruas prendendo nossas crianças quando bem entendem, cortando seus cabelos ou controlando o Ministério da Educação? E se, agora que estão tão empoderados, ainda se recusarem a entender, como lidaremos com eles e seus fuzis?
E o que diremos aos jornalistas que se tornaram propagandistas da ditadura, funcionários da máquina de mentiras, zombaria e difamação, quando tudo isso acabar? O que diremos quando eles argumentarem que também tiveram medo, que tinham filhos para alimentar? E o que diremos aos acadêmicos que se venderam, que abandonaram toda evidência e metodologia para aplaudir, com sua linguagem rebuscada, a construção de um ditador? Não tínhamos escolha, dirão alguns, quando tantos outros tiveram que ir para o exílio. O que diremos a eles?
E como vamos convencer aqueles artistas que, como é normal, atualmente não se atrevem a fazer arte livre e crítica de protesto, de que o passado acabou, de que queremos que eles sejam críticos, rebeldes e livres novamente?
E o que diremos àqueles que, sem dúvida, se beneficiaram da ditadura — empresários, parlamentares, funcionários públicos, diplomatas — e que, quando tudo isso terminar, talvez fiquem com os bolsos cheios de moedas? Deixaremos que eles recebam suas moedas?
Como nos tornaremos novamente uma república, onde todos, ou quase todos, se encaixem? Como nos livraremos da raiva e seguiremos em frente sem que o ódio nos prenda?
Vamos nos questionar sobre isso e muito mais. Vamos nos questionar sobre isso, especialmente aqueles que são oprimidos hoje. Vamos resgatar o que nos aconteceu enquanto idealizamos um país que não existe, mas que esperamos que venha a existir. Vamos contar essa história para nós mesmos.
Como faremos isso quando Bukele não for mais todo-poderoso?
Oscar Martinez
Flávio Bolsonaro, um candidato sem ideias ou com medo de expô-las
Atenção, coleguinhas jornalistas: não perguntem a ele. Mas, se perguntarem, não se satisfaçam com a primeira resposta.
Jair Bolsonaro, o golpista condenado e agora enfermo, nunca esteve nem aí para essa história de programa de governo.
Mas quando em 2018, não escondeu de ninguém que lhe faltavam ideias para governar.
No princípio, orientado por seu faro, limitou-se a atacar adversários e a repetir um monte de chavões de sua própria autoria ou da autoria de terceiros.
Como descobriu a tempo que precisaria dizer alguma coisa sobre economia, procurou um economista para falar por ele.
Foi quando entrou em cena o economista Paulo Guedes, que fora professor na Universidade do Chile à época da ditadura do general Augusto Pinochet.
Bolsonaro batizou Guedes de “Posto Ipiranga”, dono do bordão famoso “Pergunta lá no Posto Ipiranga”.
Os coleguinhas deram-se por satisfeitos, mas não só. Empresários, agentes do mercado financeiro e banqueiros, também.
Estava em jogo impedir que o PT voltasse a governar o país. De resto, Guedes jurava que Bolsonaro era um liberal de carteirinha. A direita de todos os matizes aderiu de imediato.
Diga-se a favor de Bolsonaro que ele, em pessoa, jamais escondeu o que era e o que pretendia: “derrubar o sistema” para pôr outro no seu lugar”. Tarefa, no mínimo, para oito anos ou mais.
Palavras ao vento, cada um que as interpretasse ao seu gosto. Mas para Bolsonaro, derrubar o sistema significava derrubar a democracia tal qual a conhecemos. Deu no que vimos.
Flávio é candidato do pai, deverá ao pai os votos que amealhar, mas quer se apresentar como uma versão atualizada do pai. Daí sua preocupação com um programa de governo.
O documento está sendo esboçado, há cinco meses, com consulta a especialistas e formatação pela consultoria GO Associados.
Elenca medidas com apelo popular e outras com diagnóstico sobre problemas a serem enfrentados.
Acontece que o governo Lula instruiu seus aliados a começarem a criticar Flávio desde já para que ele não continue crescendo.
Então, o anúncio do programa do filho do papai ficará para mais adiante, talvez para o final de julho ou começo de agosto.
Se Flávio, hoje, vive um bom momento sem ter que expor suas ideias ou a falta delas, por que estragar o bom momento?
A mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada em 7 de março, mostrou Flávio empatado tecnicamente com Lula em simulação de segundo turno: o presidente tem 46% e ele, 43%.
Dirão os antipetistas: Lula venceu em 2022 sem lançar um programa de governo.
Dirão os petistas: depois de ter disputado a Presidência seis vezes, tendo ganho em duas ocasiões, Lula carecia de um programa de governo para se eleger novamente?
Em linhas gerais, quem não conhece o que Lula pensa?
Não foi por falta de um programa que Lula venceu Bolsonaro por uma minúscula diferença de votos. Foi porque não é fácil derrotar um presidente candidato à reeleição e no exercício do cargo.
Flávio saberá, se já não sabe, que não é fácil.
terça-feira, 17 de março de 2026
Gostar do nosso país não significa gostar de quem fala em seu nome
Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.
O controle é parcial, não total. A vigilância é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.
O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.
Também na propaganda houve uma evolução. Já ninguém espera um nazista como Joseph Goebbels ou um fascista como Alessandro Pavolini gritando palavras de ordem pelo rádio ou em praça pública.
A lavagem cerebral deixou de depender da monumentalidade artística, do entusiasmo coreografado ou da repetição de slogans fervorosos. Não se impõe uma crença total; basta dissolver lentamente a capacidade de distinguir entre verdade e narrativa.
Neste mundo, a propaganda não cria fanáticos. Cria conformistas. Não procura transformar radicalmente a natureza humana –a velha ambição utópica. Basta reorganizar lentamente o cotidiano, fragmentando a sociedade e isolando consciências.
É neste contexto que surge Karabash, o palco do documentário. No mapa, é uma terra insignificante: 10 mil habitantes perdidos em algum lugar nos Montes Urais. A esperança média de vida mal chega aos 38 anos. Vou escrever novamente, por extenso, para não haver dúvida: trinta e oito. A poluição explica esse recorde: há uma indústria pesada de fundição de cobre na cidade que vai semeando doença e sofrimento.
Mas a vida segue. Pasha Talankin, professor do ensino médio, gosta do seu pequeno mundo. Gosta dos alunos. Gosta de filmar as cerimônias escolares, como quem preserva a normalidade num frasco.
Até fevereiro de 2022.
A invasão da Ucrânia muda tudo —e muda sobretudo a escola. Como Vladimir Putin declara na televisão, as guerras não se ganham apenas com generais; ganham-se com professores disponíveis para educar as crianças e os adolescentes nas virtudes da "operação militar especial".
Voluntários para o serviço não faltam —e a guerra entra na sala de aula servida em eufemismos: "desmilitarização", "desnazificação". Mentiras e mais mentiras —"ordens de cima", alguém diz, encolhendo os ombros— que Pasha filma, incrédulo, enojado.
Os menores cantam o hino nacional e desfilam em paradas simbólicas, prestando juramento à bandeira e ao regime.
Os mais velhos têm o recrutamento ao virar da esquina —e até o grupo de mercenários Wagner faz uma aparição para os convencer.
Muitos dos alunos de Pasha cedem ao apelo. Raspam o cabelo, despedem-se das famílias como sonâmbulos que marcham rumo ao abismo. Alguns acreditam que a experiência compensa financeiramente.
Pasha sabe que não compensa. Continua filmando: a escola que se esvazia, os alunos que não regressam, suas próprias vigílias noturnas. A câmera se transforma num diário moral.
Um traidor, ele, por contestar o regime?
Não. Apenas o "ninguém" do título, que, apesar da sua condição anônima, consegue distinguir o amor à Rússia do amor a Putin. Gostar do nosso país, mesmo com todos os seus defeitos, não significa gostar de quem fala em seu nome. Uma distinção simples, mas cada vez mais rara, mesmo em democracias.
Que os outros sejam incapazes de vê-la, eis um problema que se vai adensando –até Pasha, sob suspeita, optar por fugir da Rússia levando com ele horas e horas de filmagens heréticas.
A história de Pasha poderia ser ficção —e talvez por isso o cinema contemporâneo tenha voltado a interessar-se tanto pelo impacto do autoritarismo sobre a vida das pessoas comuns. No Oscar deste ano, dois filmes foram exemplares ao tratar do tema: "O Agente Secreto" e "Foi Só um Acidente", do iraniano Jafar Panahi.
Mas "Mr. Nobody Against Putin", vencedor do Oscar de melhor documentário, tem a vantagem de ser um retrato real, imediato, alguns diriam amador, sobre um homem comum que se recusou a viver na mentira. Um zé-ninguém? Precisamente. A liberdade sempre sobreviveu graças a eles.
O rigor da lei e as leis que não são cumpridas
Abro parênteses: Em novembro/dezembro de 1964 Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, explodiu em destampatórios — a expressão é de editorial do JB da época — contra o STF: o primeiro para cassar o governador de Goiás, Mauro Borges, o segundo para poder adotar o Ato Institucional — na época só havia o primeiro — para passar por cima da Assembleia. Perdeu as duas vezes. O presidente da Corte, Ribeiro da Costa, que no segundo caso rejeitou a suspeição de 4 dos Ministros, foi processado por Lacerda por injúria. Moral: o Supremo sabe resistir a ataques apopléticos. Pelo menos já soube. Fecha parênteses.
Há séculos se diz que o excesso de leis é um dos problemas, o que é verdade. Em tese, o ideal seria que todo cidadão conhecesse todas as leis, o que é impossível no Estado contemporâneo. Bem, essa é uma área em que somos líderes mundiais, imbatíveis. Comecemos com as normas regulatórias: é um truísmo que não é possível a qualquer empresa cumprir corretamente todas as regras fiscais. Haveria mais de 550 mil normas tributárias posteriores à Constituição, com cerca de 1,5 bilhões de palavras. E o nosso dia a dia, como vai? Seriam cerca de 8 milhões de normas, mais de 1 milhão em vigor, portanto absolutamente impossível do melhor computador seguir a Lei — pois decretos e portarias fazem parte dela. Em 1998 a Lei Complementar 95 determinou a consolidação das leis. Você fez? O Congresso também não.
E as leis, como vão? A Lei 15.000/2024 declarou Anísio Teixeira patrono da escola pública (ele merecia era que valorizassem o ensino público). Começamos a atual contagem das leis federais em 1946, mas há muitas leis antigas em vigor, algumas importantes, como o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940. Estamos hoje na número 15.352; este ano já são 31 novas leis. Federais. Se formos ao LexML, o portal das leis, veremos que são 1.716.350 em todo o País. Assim, se você disser ao juiz que não sabia da lei, ele deve acolher sua declaração como verdadeira, mesmo que tenha dúvida sobre sua boa-fé. E todo mundo, em um momento ou outro, acaba desobedecendo a alguma lei.
Salto mortal: vamos para a Constituição. O desconhecimento da Constituição é tão grande que muita gente, instruída por um ex-militar, acredita que ela só tem quatro linhas. Mas não é fácil conhecer seu texto: ele é modificado ao menor pretexto. Agora estamos na Emenda no 138, passada em dezembro passado, e ainda não tivemos nenhuma este ano. O tamanho do texto dos dispositivos permanentes aumentou 70%; o das disposições transitórias, 200%. Há artigo que já mudou de redação 6 vezes.
É claro que tudo começa no Legislativo. Ele deve seguir três leis internas, os regimentos. Então, pensam eles, vamos fazer diferente. É preciso um interstício (um intervalo de tempo) entre os dois turnos exigidos para emendar a Carta? Faz de conta, encerra sessão, abre sessão, repete 5 vezes e conta como tendo passado o intervalo de “5 dias úteis” e mais “três sessões deliberativas ordinárias” para discussão. Pode? Não pode, mas muitas emendas constitucionais passaram assim. Votação simbólica é realizada entre os presentes — a regra é: aprovam os sentados e os contra se levantam, os líderes podendo representar os presentes —; agora os ausentes contam como sentados, independente de como se sabe que votariam — e assim se manifesta a advocacia do Senado, valha-me Deus! Bem, isso de regimento é para banana, quem pode pode, os outros se sacudam. Golpe baixo é o que conta.
Lei é lei. O Código Penal diz que os crimes contra a inviolabilidade dos segredos são cometidos por qualquer pessoa, apenas sujeitando a pena mais grave se forem “informações sigilosas, assim definidas em lei”. Não exclui jornalista. Qualquer um que divulga informação sigilosa deve passar de 2 a 5 anos na cadeia (com a pena aumentada de um a dois terços). Contra a administração pública a ação é incondicionada, isto é, não precisa de representação. Mas há anos se divulga enxurradas de dados sigilosos e ninguém vê o Ministério Público fazer o que manda a Lei, pois nem sempre lei é Lei. Alega-se sigilo da fonte, mas o que é mesmo que isso tem a ver? A lei não obriga o informado a revelar a fonte, apenas a passar um tempo na cadeia. O protegido pela Constituição não é o jornalista, é o comparsa. O art. 5º XIV não suspende o inciso XII — pressuponho que todos sabem a Constituição de cor, se não sabem vão olhar agorinha mesmo, faz bem à saúde. E não se diga que o sigilo já estava quebrado, a divulgação não revoga a definição legal.
Lei é lei. Mesmo internacional. O Trump já passou da hora de ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional. Ah!, mas o Khamenei era um monstro! Há poucos dias vi esta afirmação ser feita ao Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro (centrista) da França. Ele lembrou que existe o caminho legal, o Conselho de Segurança e, se continuar sendo presidido pela Melania (isso eu que digo), a Assembleia Geral da ONU. A outra hipótese leva, segundo ele, a que todo mundo compre uma arma e saia matando os outros na rua.
Que tal, para variar, se cumprir a Lei?
A terra é nossa
Que pertence a cada um.
Com o seu poder além,
Deus fez a grande Natura
Mas não passou escritura
Da terra para ninguém.
Se a terra foi Deus quem fez,
Se é obra da criação,
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão.
Quando um agregado solta
O seu grito de revolta,
Tem razão de reclamar.
Não há maior padecer
Do que um camponês viver
Sem terra pra trabalhar.
O grande latifundiário,
Egoísta e usurário,
Da terra toda se apossa
Causando crises fatais
Porém nas leis naturais
Sabemos que a terra é nossa.
Já não conseguimos ver este filme
O José Rodrigues dos Santos não saía dos estúdios da RTP. Nós começámos a saber nomes de mísseis. A Operação Instant Thunder parecia o título de qualquer coisa com o Darth Vader, a Operação Tempestade no Deserto tinha nome de aventura do Indiana Jones. O vilão era o Saddam, com um bigode cinematográfico, bunkers e palácios. E nem nos passava pela cabeça questionar que os bons eram os americanos. No fim, o Kuwait (que até aí não sabíamos que existia) seria libertado, a democracia chegaria ao Iraque e em breve as crianças do Médio Oriente iriam ter vidas mais parecidas com as nossas, talvez comendo Bollycaos no recreio da tarde e rindo das piadas dos Simpsons ou do Alf, um extraterrestre peludo e simpático, que gostava de comer gatos e do qual eu tinha feito a caderneta toda, conseguindo até aqueles cromos difíceis e prateados.
Não se pode dizer que a primeira guerra da qual tive consciência tenha sido muito traumática. Porque ela foi devidamente embrulhada num invólucro de irrealidade. Naquela época, eu não sabia que a isso se chamava propaganda e nem sequer percebi bem quando um miúdo da escola questionou o facto de eu ter uns jeans com uma bandeira americana no bolso. Para mim, eram só as calças de ganga que melhor me assentavam na altura em que comecei a preocupar-me com isso.
No fim dos filmes, os maus são castigados, os bons dão um beijo na boca e vivem felizes para sempre, o ecrã enche-se de uma lista de nomes e nós somos embalados por uma música alegre e vitoriosa, escolhida para nos fazer acreditar que no fim fica sempre tudo bem. E esse foi o problema da Primeira Guerra do Golfo. E de todas as guerras em que os americanos se meteram depois disso. Não houve um final feliz e os argumentos foram ficando cada vez piores. Quando tentaram convencer-nos de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, em 2003, já se conseguia ver o papelão do cenário numa produção de quinta categoria. A Cimeira das Lajes foi só um momento patético, em que alguns escolheram fingir acreditar, porque às vezes é preciso acreditar em mentiras, mesmo sabendo que são mentiras.
Claro que os EUA foram sempre tentando ficar com o papel do herói, capaz de salvar o mundo, mas a cada bomba lançada, a cada país reduzido a pó, era cada vez mais difícil acreditar que o nosso herói tinha qualquer motivo nobre nas lutas que começava ou que ajudava a que nunca acabassem.
Os soldados americanos começaram a matar à distância, como num videojogo. Muitos deles comandando drones com controlos remotos, num escritório qualquer, enquanto decidiam se premiam o gatilho e matavam uns homens a carregar umas sacas, que podiam ser de algodão ou explosivos, antes de irem para casa jantar com os filhos. A guerra era uma coisa que acontecia aos outros. E só suscitou comoção a sério quando os alvos passaram a ser as crianças loiras de olhos azuis da Ucrânia. Mas só até a repetição dos bombardeamos russos nos anestesiar e nos fazer substituir a raiva pela impaciência com que se pega num comando para mudar de canal se a programação não interessa.
Assim que o genocídio se tornou evidente em Gaza, começaram a aparecer os que queriam convencer-nos de que o que estávamos a ver não era o que estávamos a ver. E que era muito diferente ter uma criança palestiniana morta a tiro na fila do pão de ter uma criança judia eliminada por nazis. Não se preocuparam muito em usar argumentos sofisticados, porque entretanto tudo se tornou uma questão de fé. Quem adere à seita acredita que o povo que está a ser dizimado só tem o que merece. Alguns sonham mesmo em construir resorts e restaurantes de luxo sobre os seus ossos desfeitos em pó.
Quando as coisas chegam a este ponto, Donald Trump já não tem de disfarçar, já não tem de fingir objetivos nobres, já não tem de construir uma narrativa moral. Ele faz o que lhe apetece. Se é preciso tirar um escândalo das notícias, começa-se uma guerra. Se o dólar está em risco, sequestra-se um Presidente e verga-se um país produtor de petróleo, transformando-o num protetorado. Se as eleições estão tremidas, porque há cada vez mais americanos a viver mal e a economia se afunda, aperta-se o garrote da energia para tentar voltar a colonizar Cuba, matando à fome quem for preciso para que isso aconteça. Tudo óbvio, tudo simples, tudo claro.
Há quem se dobre em explicações e alinhave argumentos arrevesados para tentar fingir que tudo isto tem um outro propósito, uma outra racionalidade, uma certa moralidade até. É só triste vê-los a contorcerem-se. O mundo está a ser tomado de assalto por um pequeno grupo de oligarcas, comandado por um pirata. Aprendemos nas séries passadas em liceus americanos que só há duas maneiras de lidar com um bully: ou se lhe dá o dinheiro do almoço e se foge de cabeça baixa ou se abre o peito e se levanta a voz. Em toda a Europa, só Pedro Sánchez conseguiu olhá-lo de frente e mandá-lo passear. Todos os outros foram pondo-se de gatas, mais ou menos contrariados.
A partir daqui, até podemos olhar para os livros de História para tentar adivinhar o futuro. Mas não me parece que encontremos lá as respostas. No passado, houve líderes com coragem, capazes de pensar para lá da sua sobrevivência estratégica, sim. Mas sobretudo a tecnologia de destruição, morte e controlo ainda não tinha atingido o grau de sofisticação totalitária que existe hoje.
A cada minuto, estamos mais perto da III Guerra Mundial. Mas estamos também mais conscientes das histórias de fadas que andaram a vender-nos. As mentiras que nos contam, mesmo com toda a Inteligência Artificial do mundo, são cada vez mais frágeis e evidentes. E talvez esse seja o ponto de esperança que ilumina estes dias sombrios. Começar a ver as coisas tal como elas são é sempre melhor do que viver iludido.







