sexta-feira, 17 de abril de 2026
A queda do império americano
Nunca imaginei que um dia veria, em tempo real, a queda do império americano. Em pouco mais de um ano de Trump no poder, os Estados Unidos se tornaram a nação mais odiada, e temida, do mundo. Perderam o respeito, a confiança e a admiração da comunidade internacional. Embora uma boa parte do povo americano seja de gente competente, trabalhadora, empreendedora e pacífica, vanguarda acadêmica e científica, produção artística e cultural, e até políticos como o prefeito muçulmano de Nova York, Zohran Mamdani, um democrata socialista que está cumprindo suas promessas de campanha, com creches para todos, mercados públicos baratos e taxação de bilionários. Assim como o Brasil, os Estados Unidos estão radicalmente divididos, e esta é sua maior fraqueza, apesar de seu imenso poder militar.
Desde 1945, os Estados Unidos entraram em cinco guerras longas e sangrentas, quando não estavam ameaçados, que custaram trilhões de dólares e a vida de milhares de americanos. E, apesar de seu poder de fogo, perderam todas, não ganharam nada com elas, só destruíram cidades e mataram milhões de pessoas. De lá para cá os Estados Unidos mantêm 800 bases militares espalhadas pelo mundo. Para quê? A maioria não tem importância para conter ameaças diretas aos Estados Unidos, serve só para controle dos seus interesses na região e para seu vício de ser polícia do mundo. Mas esse mundo está mudando rapidamente. Trump apoiou e mandou o vice, J. D. Vance, à Hungria para fazer campanha para o ultradireitista Viktor Orbán, mas acabou queimando seu filme e dando vitória estrondosa ao adversário.
No mesmo período, a China não entrou em nenhuma guerra, investiu essa dinheirama em educação e tecnologia, inventou um comuno-capitalismo de sucesso e se tornou uma das três grandes potências econômicas e militares. E muito mais moderna que Estados Unidos e Rússia. As tarifas, os insultos e as grosserias de Trump com aliados e parceiros comerciais os levaram para os braços da China. Enquanto Trump esbraveja e ameaça, os chineses fazem negócios no mundo inteiro, crescem geometricamente, ganham prestígio e popularidade com suas cidades futuristas e sua vanguarda tecnológica e científica, têm as melhores universidades do mundo. O número de turistas nos Estados Unidos desabou dramaticamente, o custo de vida subiu, o governo tem 60% de desaprovação, 70% estão contra a guerra.
Não se sabe se o novo mundo que está se desenhando vai ser melhor ou pior que o velho, com um novo mapa do poder econômico e tecnológico, em que o império americano perdeu dinheiro, prestígio e parceiros comerciais — mas tudo pode mudar se Trump for deposto pelo Congresso depois de derrotado nas eleições de novembro, que vai tentar cancelar, alegar fraude, insuflar a revolta popular e até provocar uma nova guerra civil.
Enquanto isso, a China olha tudo de longe com os olhos bem abertos e espalha pelo mundo o seu progresso com obras monumentais, modernas e futuristas, trens ultravelozes, serviços de saúde pública de qualidade e educação de alto nível.
Desde 1945, os Estados Unidos entraram em cinco guerras longas e sangrentas, quando não estavam ameaçados, que custaram trilhões de dólares e a vida de milhares de americanos. E, apesar de seu poder de fogo, perderam todas, não ganharam nada com elas, só destruíram cidades e mataram milhões de pessoas. De lá para cá os Estados Unidos mantêm 800 bases militares espalhadas pelo mundo. Para quê? A maioria não tem importância para conter ameaças diretas aos Estados Unidos, serve só para controle dos seus interesses na região e para seu vício de ser polícia do mundo. Mas esse mundo está mudando rapidamente. Trump apoiou e mandou o vice, J. D. Vance, à Hungria para fazer campanha para o ultradireitista Viktor Orbán, mas acabou queimando seu filme e dando vitória estrondosa ao adversário.
No mesmo período, a China não entrou em nenhuma guerra, investiu essa dinheirama em educação e tecnologia, inventou um comuno-capitalismo de sucesso e se tornou uma das três grandes potências econômicas e militares. E muito mais moderna que Estados Unidos e Rússia. As tarifas, os insultos e as grosserias de Trump com aliados e parceiros comerciais os levaram para os braços da China. Enquanto Trump esbraveja e ameaça, os chineses fazem negócios no mundo inteiro, crescem geometricamente, ganham prestígio e popularidade com suas cidades futuristas e sua vanguarda tecnológica e científica, têm as melhores universidades do mundo. O número de turistas nos Estados Unidos desabou dramaticamente, o custo de vida subiu, o governo tem 60% de desaprovação, 70% estão contra a guerra.
Não se sabe se o novo mundo que está se desenhando vai ser melhor ou pior que o velho, com um novo mapa do poder econômico e tecnológico, em que o império americano perdeu dinheiro, prestígio e parceiros comerciais — mas tudo pode mudar se Trump for deposto pelo Congresso depois de derrotado nas eleições de novembro, que vai tentar cancelar, alegar fraude, insuflar a revolta popular e até provocar uma nova guerra civil.
Enquanto isso, a China olha tudo de longe com os olhos bem abertos e espalha pelo mundo o seu progresso com obras monumentais, modernas e futuristas, trens ultravelozes, serviços de saúde pública de qualidade e educação de alto nível.
Crônica de uma guerra estúpida
Ormuz estava aberto para cargueiros de todas as bandeiras. Os preços do petróleo mantinham-se em patamar estável, o que favorecia compradores asiáticos, vendedores árabes e o mercado global. Eis que Netanyahu convence Trump de que chegara o momento de aniquilar os aiatolás, que teriam perdido apoio popular ao reprimir os protestos populares de fevereiro. Movido por empáfia e hubris, Trump despejou bombas no território iraniano e matou Khamenei. Só que o filho assumiu e, em vez de se render, fechou as duas pontas do Estreito.
Possesso, o ministro da Defesa Pete Hegseth ameaçou fazer o Irã regredir à idade da pedra. Mais bombas caíram, atingindo também escolas, hospitais e outros alvos civis. Nem assim os iranianos se renderam. Pelo contrário, demonstraram força para atacar países aliados dos EUA no Golfo Pérsico. Nos EUA, a economia começou a dar sinais de enfraquecimento. Ato contínuo, pesquisas registraram nova queda de popularidade do governo.
Dia 7, foi a vez de Trump trovejar num tuíte apocalíptico que, caso Ormuz continuasse fechado, "uma civilização inteira desaparecerá para sempre na noite de hoje". Como? Explodindo bombas atômicas? Matando 90 milhões de pessoas?
No seu triunfalismo midiático, Trump vai logo cantando vitória e exigindo a subserviência dos adversários. Desta vez, porém, patenteou-se a miopia de sua estratégia. A dificuldade para vencer mais uma guerra que não deveria ter começado evidencia os limites do poder americano.

O regime iraniano sai até fortalecido pela extraordinária demonstração de resiliência. Ganhou consciência, ademais, de que o estreito de Ormuz pode ser um trunfo a seu favor, detalhe que Trump parecia desconhecer, e os russos conheciam de sobra. Nas negociações que se iniciam em Islamabad, o Irã dispõe da boa vontade e eventual assistência de Putin, que sai vencedor nesse imbróglio.
A Europa perde. Uma das mais preocupantes consequências da guerra é o agravamento das relações entre os EUA e a Otan. Ao negarem ajuda para desobstruir Ormuz, os europeus expuseram-se a uma confrontação com o imprevisível Trump. Assim, a retirada americana do bloco passa a ser uma hipótese real. Num tal cenário, quem se beneficiaria, mais uma vez, seria Putin.
Outra consequência com que a Casa Branca não contava é que o fechamento de Ormuz expôs a fragilidade do sistema baseado em combustíveis fósseis. Os países asiáticos estão apressando compras de maquinário de energia renovável. Os EUA perdem competitividade comercial para a China, que domina a tecnologia da energia limpa.
Trump embrulhou-se com problemas imprevistos. A segurança dos cidadãos americanos entra em jogo. Nas Filipinas, por exemplo, onde foi decretado estado de emergência devido ao desabastecimento de petróleo, manifestações na frente da embaixada americana fizeram lembrar o tempo da guerra no Vietnã. Até na Austrália se fala em rever o Aukus, aliança estratégica trilateral com os EUA e o Reino Unido para conter a China no Indo-Pacífico.
Essa evolução na política interna australiana sugere que a China, sem dar um tiro, emergiu como a principal beneficiária da guerra. O próprio Trump confirmou que a diplomacia chinesa ajudou a convencer os iranianos a negociar a paz. A confirmação aumenta o trânsito diplomático chinês. Entre os países árabes, vários porta-vozes árabes já manifestaram de público que passaram a ter uma visão mais favorável da China.
Trump perdeu. Colou na sua imagem a manipulação por Netanyahu. Os prognósticos Democratas com relação às eleições parlamentares de 4 de novembro tornaram-se muito mais otimistas, e Trump já revelou receios de que uma derrota Republicana redunde no seu impeachment pelo Congresso americano. A campanha será acirrada e, nesse contexto, as eleições do último domingo na Hungria devem ser escrutinizadas, sobretudo para se aferir a influência da utilização da tecnologia da IA nos resultados eleitorais.
Por fim, impõe-se lembrar que o Tribunal de Nuremberg deitou jurisprudência segundo a qual palavras que estimulam a destruição de um povo equivalem a um crime. Juristas internacionais começam a emitir pareceres de que, no âmbito do direito internacional moderno, o tuíte de Trump seria o caso mais evidente da intenção de genocídio. Ou seja, além da possibilidade de um impeachment, Trump pode ter de se preocupar com um processo no Tribunal Penal Internacional.
Possesso, o ministro da Defesa Pete Hegseth ameaçou fazer o Irã regredir à idade da pedra. Mais bombas caíram, atingindo também escolas, hospitais e outros alvos civis. Nem assim os iranianos se renderam. Pelo contrário, demonstraram força para atacar países aliados dos EUA no Golfo Pérsico. Nos EUA, a economia começou a dar sinais de enfraquecimento. Ato contínuo, pesquisas registraram nova queda de popularidade do governo.
Dia 7, foi a vez de Trump trovejar num tuíte apocalíptico que, caso Ormuz continuasse fechado, "uma civilização inteira desaparecerá para sempre na noite de hoje". Como? Explodindo bombas atômicas? Matando 90 milhões de pessoas?
No seu triunfalismo midiático, Trump vai logo cantando vitória e exigindo a subserviência dos adversários. Desta vez, porém, patenteou-se a miopia de sua estratégia. A dificuldade para vencer mais uma guerra que não deveria ter começado evidencia os limites do poder americano.
O regime iraniano sai até fortalecido pela extraordinária demonstração de resiliência. Ganhou consciência, ademais, de que o estreito de Ormuz pode ser um trunfo a seu favor, detalhe que Trump parecia desconhecer, e os russos conheciam de sobra. Nas negociações que se iniciam em Islamabad, o Irã dispõe da boa vontade e eventual assistência de Putin, que sai vencedor nesse imbróglio.
A Europa perde. Uma das mais preocupantes consequências da guerra é o agravamento das relações entre os EUA e a Otan. Ao negarem ajuda para desobstruir Ormuz, os europeus expuseram-se a uma confrontação com o imprevisível Trump. Assim, a retirada americana do bloco passa a ser uma hipótese real. Num tal cenário, quem se beneficiaria, mais uma vez, seria Putin.
Outra consequência com que a Casa Branca não contava é que o fechamento de Ormuz expôs a fragilidade do sistema baseado em combustíveis fósseis. Os países asiáticos estão apressando compras de maquinário de energia renovável. Os EUA perdem competitividade comercial para a China, que domina a tecnologia da energia limpa.
Trump embrulhou-se com problemas imprevistos. A segurança dos cidadãos americanos entra em jogo. Nas Filipinas, por exemplo, onde foi decretado estado de emergência devido ao desabastecimento de petróleo, manifestações na frente da embaixada americana fizeram lembrar o tempo da guerra no Vietnã. Até na Austrália se fala em rever o Aukus, aliança estratégica trilateral com os EUA e o Reino Unido para conter a China no Indo-Pacífico.
Essa evolução na política interna australiana sugere que a China, sem dar um tiro, emergiu como a principal beneficiária da guerra. O próprio Trump confirmou que a diplomacia chinesa ajudou a convencer os iranianos a negociar a paz. A confirmação aumenta o trânsito diplomático chinês. Entre os países árabes, vários porta-vozes árabes já manifestaram de público que passaram a ter uma visão mais favorável da China.
Trump perdeu. Colou na sua imagem a manipulação por Netanyahu. Os prognósticos Democratas com relação às eleições parlamentares de 4 de novembro tornaram-se muito mais otimistas, e Trump já revelou receios de que uma derrota Republicana redunde no seu impeachment pelo Congresso americano. A campanha será acirrada e, nesse contexto, as eleições do último domingo na Hungria devem ser escrutinizadas, sobretudo para se aferir a influência da utilização da tecnologia da IA nos resultados eleitorais.
Por fim, impõe-se lembrar que o Tribunal de Nuremberg deitou jurisprudência segundo a qual palavras que estimulam a destruição de um povo equivalem a um crime. Juristas internacionais começam a emitir pareceres de que, no âmbito do direito internacional moderno, o tuíte de Trump seria o caso mais evidente da intenção de genocídio. Ou seja, além da possibilidade de um impeachment, Trump pode ter de se preocupar com um processo no Tribunal Penal Internacional.
Sportswashing: de Hitler a Trump
Quando se iniciaram os Jogos Olímpicos de Berlim, no dia 1º de agosto de 1936, muitos eram os Tarnschriften, panfletos camuflados usados para denunciar os horrores do III Reich, distribuídos pelas ruas alemãs. Meses antes, nos Estados Unidos, ocorriam manifestações explícitas contrárias à realização dos jogos em território nazista, já sob vigência das leis antissemitas de Nuremberg, o que dava o tom da tensão presente naquele ano no mundo.
Jeremiah Mahoney, presidente da União Atlética Amadora (AAU), liderava o movimento pelo boicote à participação da delegação estadunidense em Berlim. Além da solidariedade aos judeus, denunciava que cristãos não arianos, comunistas e todo tipo de oposição ao regime alemão também eram alvo de perseguição. O pleito de Mahoney por muito pouco não foi aprovado, sendo derrotado em votação na AAU por apenas dois votos. Avery Brundage, chefe do Comitê Olímpico Americano (AOC), foi o protagonista na defesa da legitimidade dos Jogos e da participação de seu país, contando também com a inércia de Roosevelt, fiel à Lei de Neutralidade de 1935.
Na Europa, a resistência a Hitler parecia mobilizar mais corações e mentes. Carregando a bandeira dos verdadeiros ideais olímpicos de paz e fraternidade, fora criado um Comitê Olímpico Popular em 1º de maio de 1936, Dia dos Trabalhadores. Este comitê organizaria a Olimpíada Popular em Barcelona, com início marcado para o dia 19 de julho daquele ano. Cerca de 10 mil atletas e 25 mil espectadores se deslocaram à Catalunha para estar nesse evento, que contava com o apoio financeiro e institucional também da Espanha e da França.
Dois dias antes do início dos jogos alternativos, um levante, liderado por Francisco Franco e Emílio Mola, começou no Protetorado de Marrocos e se estendeu por todo o território espanhol. A tentativa de golpe de Estado fascista resultou na Guerra Civil Espanhola, que durou até 1939, culminando na vitória dos golpistas e na destruição tanto do governo popular de Santiago Quiroga, quanto do governo autônomo catalão de Lluís Companys.
Cerca de duzentos a trezentos atletas ficaram em Barcelona para apoiar o governo republicano contra o golpe fascista. Foram peças-chave para a formação das Brigadas Internacionais, destacamentos de soldados estrangeiros que atuaram em solidariedade aos ibéricos. Somaram-se a atletas catalães, como Antonio Cánovas, jovem nadador do movimento desportivo operário local, que atuou em diversas frentes de batalha até 1939.
Os livros de história pouco falam da resistência esportiva ao nazismo e ao fascismo dos anos 1930, mas lembram muito a política de não intervenção das maiores potências europeias, crucial para consolidar o franquismo na Península Ibérica. Enquanto Hitler não hesitava em apoiar Franco, mesmo tendo assinado o Pacto de Não Intervenção de 1936, Léon Blum, presidente do Conselho de Ministros da França, seria impedido de apoiar a Segunda República Espanhola, tanto por pressão de alas conservadoras francesas como do governo britânico, que preferiam ver a República sucumbir aos golpistas a arriscar uma aliança dos espanhóis com os soviéticos.
A chamada política de não intervenção europeia e neutralidade norte-americana foi uma das principais razões, senão a principal, para que o expansionismo nazista até 1939 fizesse da Segunda Guerra Mundial a maior tragédia humanitária da história, com cerca de 80 milhões de mortos. Uma aliança pelo boicote às Olimpíadas em solo alemão entre países como Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética, se tivesse ocorrido já em 1936, possivelmente teria antecipado o inevitável confronto da humanidade com sua barbárie em forma de regime.
O que vimos em Berlim é o que chamamos hoje de sportswashing (lavagem, ou limpeza, pelo esporte), que ocorre quando um determinado regime ou governo utiliza o esporte como forma de melhorar sua imagem ou, no caso de Hitler, blindá-la diante dos absurdos que estaria cometendo no período das Olimpíadas e do que faria em seguida – do apoio a Franco ao Holocausto.
Ao longo da história, é possível constatar que, antes e depois de Hitler, a prática de usar a visibilidade positiva dos esportes para esconder medidas e regimes impopulares foi frequente e explorada de diversas formas. Para Mussolini, a vitória na Copa do Mundo da Itália, em 1934, era uma demonstração da eficácia do regime fascista. Em 1970, a vitória da Seleção Brasileira na Copa do Mundo no México, associada à ferrenha censura da imprensa no país, silenciou a insatisfação popular com a ditadura civil-militar, estratégia repetida e ampliada pelos argentinos em 1978.
Outros exemplos, já no período recente, devem ser mencionados. Mansour bin Zayed al Nahyan, acionista majoritário do Abu Dhabi United Group, dos Emirados Árabes Unidos (EAU), comprou, em 2008, o clube inglês Manchester City por 200 milhões de libras. De lá para cá, o City se consolidou como uma das mais fortes equipes de futebol do planeta, vencendo diversos torneios nacionais e internacionais. Enquanto isso, os EAU conquistaram, em 2024, o “título” de ter realizado o segundo maior julgamento injusto da história, criminalizando ativistas por democracia e direitos humanos.
A Qatar Sports Investments (QSI) é a pessoa jurídica criada pelo Governo do Catar para investimentos em esportes ou, podemos assumir, a operadora do sportswashing catari. Fundada em 2004, ela comprou o Paris Saint-Germain por 50 milhões de euros em 2011. Desde então, investiram cerca de R$ 2,2 bilhões somente em contratações de jogadores, a exemplo de Messi, Mbappé e Neymar, o que eventualmente culminou na primeira conquista da Liga dos Campeões do clube, em 2025. Nesse período, o país manteve uma dura repressão à comunidade LGBTQIAP+, a tutela masculina e a submissão jurídica das mulheres aos homens de sua família, além de acumular inúmeras denúncias de violações humanitárias contra migrantes nas obras preparatórias da Copa do Mundo de 2022.
Se o esporte é eficaz como instrumento para esconder a verdadeira face de tiranias, as resistências a esses regimes também são capazes de entrar em campo a fim de anular a agenda perversa que alia opressão a ilusão, coerção a consenso, e violência a disfarce.
A menos de seis meses do início da 23ª Copa do Mundo de seleções de futebol masculino, a jornalista do UOL, Milly Lacombe, defendeu o boicote ao evento, justificado pela prisão de Nicolás Maduro – à época presidente venezuelano – e pela exigência de coerência da Fifa, que baniu a Rússia de suas competições por conta da agressão à Ucrânia.
O caso russo de sportswashing chama a atenção por denotar a apropriação do conceito como forma de contrapropaganda a um adversário econômico e armamentista dos Estados Unidos. Os holofotes voltados às contradições do regime de Vladimir Putin nos noticiários estadunidenses não foram, até o momento, minimamente replicados diante dos atos de profunda beligerância de Trump, em menos de dezoito meses de seu segundo mandato.
Dois momentos em 2025 reforçam o conceito de esporte como instrumento de soft power, o exercício do poder geopolítico fora do uso militar. Um mês antes de invadir a Venezuela e sequestrar Maduro, no dia 3 de janeiro deste ano, Trump havia recebido o “Prêmio da Paz da Fifa”, entregue pessoalmente pelo presidente da entidade, Gianni Infantino.
Logo após o incidente venezuelano, Trump declarou, em 9 de janeiro, que os Estados Unidos precisavam “fazer alguma coisa na Groenlândia, quer eles gostem ou não”, confirmando comunicados da assessoria da Casa Branca que apontavam para um plano estadunidense de anexação do território, atualmente pertencente à Dinamarca. Justificando que sua ação evitaria que o local fosse tomado por chineses ou russos, o presidente estadunidense fez uma ameaça inédita a um país associado à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Alguns analistas podem apontar uma mera coincidência entre a legitimação da maior entidade esportiva do mundo – que organiza um torneio com 5 bilhões de telespectadores, números drasticamente superiores aos do Super Bowl – e a escalada violenta do governo estadunidense. Contudo, mesmo sendo belicamente inferiores aos Estados Unidos, os europeus foram capazes de obrigar Trump a mudar seu discurso sobre a Groenlândia no dia 21 de janeiro, no Fórum Econômico Mundial, assumindo que não iria usar a força no território e sinalizando um possível acordo pacífico bilateral (obviamente rejeitado pelos europeus).
A inferioridade bélica europeia pouco importou diante da poderosa ameaça de boicote de seleções como França, Inglaterra e Alemanha à Copa do Mundo nos Estados Unidos. Mesmo políticos conservadores do Velho Continente foram resolutos no enfrentamento à ameaça de invasão à Groenlândia. Simon Hoare, do Reino Unido, ao ser indagado sobre os riscos de um boicote de sua seleção nacional, cravou: “agora precisamos combater fogo com fogo”.
Após o vergonhoso recuo na questão europeia, a Casa Branca mudou seu foco para um país menos relevante no futebol mundial: o Irã. Classificado para o torneio, o país solicitou à Fifa que seus jogos fossem realizados fora dos Estados Unidos, no México ou no Canadá, que também sediam o evento. Sendo alvo de ataques dos estadunidenses desde 28 de fevereiro, o país sequer solicitou a punição devida para seus agressores, o banimento de competições de futebol internacionais. Mesmo o pedido em prol da segurança iraniana foi devidamente negado e não se sabe o que os iranianos decidirão. Nem mesmo Trump garantiu a segurança de seus inimigos durante a Copa e ainda sugeriu que desistissem de viajar[6]. Para quem já ameaçou acabar com toda uma civilização em apenas uma noite, capturar uma delegação ou permitir que sejam atacados não nos soa como algo moralmente reprovável para o presidente yankee.
A campanha até o momento desastrosa da aliança israelo-americana contra o país islâmico torna a limpeza de imagem da Copa ainda mais relevante para o Tio Sam. Com o menor índice de popularidade desde que retornou a Washington como presidente, o republicano de extrema-direita caiu de 47% para 25% de aprovação em menos de dois anos. Considerando ainda que, ao final de 2026, estão previstas as eleições de midterm, focadas na renovação do Congresso, Trump precisa muito que a competição mundial de seleções seja perfeita; e, mesmo assim, ainda que Infantino invente um novo Prêmio da Paz para ele, dificilmente o presidente se recuperará da vergonha na Pérsia.
Apenas quatro dias foi o intervalo entre o primeiro míssil lançado pelos russos na Ucrânia, no dia 24 de fevereiro de 2022, e a decisão da Fifa e da Uefa de banir a seleção russa e seus clubes de competições mundiais e europeias. A ferocidade dos jornais norte-americanos e europeus à época é destacável como exemplo singular na discussão sobre sportswashing. Pela cobertura jornalística ianque, a Copa do Mundo na Rússia em 2018 representou um formidável exemplo de limpeza de imagem pelo esporte — conforme apontou Musa Okwonga no artigo “This World Cup, Remember the Russian People” para o New York Times, em que localiza o evento como uma vitória de relações públicas para Putin, enquanto este silenciava opositores e minorias. Ao menos nesse caso, toda a pressão possível do mundo do esporte foi feita para forçar os russos a abandonarem sua ofensiva militar.
No exemplo de Trump, embora já seja possível mapear vozes dissonantes denunciando o uso da Copa do Mundo para esconder as mazelas de seu governo, não há qualquer perspectiva de boicote ao torneio por seleções protagonistas, justificada pelo covarde bombardeio ao Irã. Pelo contrário: no dia 5 de março, uma semana depois de iniciada a ofensiva ilegal trumpista, o capitão da última campeã da Copa do Mundo, o argentino Lionel Messi, juntou-se a outros atletas para entregar a Trump uma bola comemorativa e uma camisa do Inter Miami, atual campeão da Major League Soccer.
Ainda que a atitude aparentemente bajuladora de Messi e cia. em relação ao presidente tenha sido defendida por muitos pelo seu caráter protocolar – visto tratar-se de uma tradição da liga de futebol do país –, o discurso de Trump não deu brechas para que o evento fosse tratado como tal. Na frente de diversos ídolos latinos, ele defendeu a ofensiva contra os iranianos e sugeriu uma invasão a Cuba.
O silêncio dos campeões da MLS foi o cenário perfeito para legitimar e normalizar o que está por vir para o continente americano. Além da possível e até provável invasão militar a Cuba – que hoje enfrenta o pior bloqueio econômico de sua história desde a revolução de 1959 –, a Casa Branca declarou recentemente que facções criminosas brasileiras, como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), são organizações terroristas de alcance regional. Esse cenário, associado a um acordo de cooperação firmado em agosto de 2025 entre Estados Unidos e Paraguai para combater o terrorismo e o crime organizado na região (o que inclui a construção de uma base militar em solo paraguaio), são sintomas de um novo estágio do big stick. Trata-se do imperialismo clássico de Theodore Roosevelt, do início do século XX, e que se apresentou em diversas versões de lá para cá: desde os golpes militares durante a Guerra Fria até a política de tarifaço de Trump no ano passado, adotada como retaliação à condenação de Jair Bolsonaro.
Considerando que estamos em ano eleitoral no Brasil – com as pesquisas apontando, no momento em que publicamos este artigo, um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro –, e que o centro da propaganda eleitoral no país passa hoje pelas redes sociais (quase todas controladas por aliados do presidente estadunidense), o cenário é crítico. Se a megalomania de Trump culminar em uma intervenção direta na soberania nacional brasileira, seja militarmente pelo Paraguai ou interferindo nos algoritmos de Facebook, Instagram, etc., deveremos “agradecer” a Infantino e a Messi por bajularem o tirano, tal qual conservadores franceses, ingleses e norte-americanos fizeram com Hitler, estendendo-lhe um tapete vermelho, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.
Jeremiah Mahoney, presidente da União Atlética Amadora (AAU), liderava o movimento pelo boicote à participação da delegação estadunidense em Berlim. Além da solidariedade aos judeus, denunciava que cristãos não arianos, comunistas e todo tipo de oposição ao regime alemão também eram alvo de perseguição. O pleito de Mahoney por muito pouco não foi aprovado, sendo derrotado em votação na AAU por apenas dois votos. Avery Brundage, chefe do Comitê Olímpico Americano (AOC), foi o protagonista na defesa da legitimidade dos Jogos e da participação de seu país, contando também com a inércia de Roosevelt, fiel à Lei de Neutralidade de 1935.
Na Europa, a resistência a Hitler parecia mobilizar mais corações e mentes. Carregando a bandeira dos verdadeiros ideais olímpicos de paz e fraternidade, fora criado um Comitê Olímpico Popular em 1º de maio de 1936, Dia dos Trabalhadores. Este comitê organizaria a Olimpíada Popular em Barcelona, com início marcado para o dia 19 de julho daquele ano. Cerca de 10 mil atletas e 25 mil espectadores se deslocaram à Catalunha para estar nesse evento, que contava com o apoio financeiro e institucional também da Espanha e da França.
Dois dias antes do início dos jogos alternativos, um levante, liderado por Francisco Franco e Emílio Mola, começou no Protetorado de Marrocos e se estendeu por todo o território espanhol. A tentativa de golpe de Estado fascista resultou na Guerra Civil Espanhola, que durou até 1939, culminando na vitória dos golpistas e na destruição tanto do governo popular de Santiago Quiroga, quanto do governo autônomo catalão de Lluís Companys.
Cerca de duzentos a trezentos atletas ficaram em Barcelona para apoiar o governo republicano contra o golpe fascista. Foram peças-chave para a formação das Brigadas Internacionais, destacamentos de soldados estrangeiros que atuaram em solidariedade aos ibéricos. Somaram-se a atletas catalães, como Antonio Cánovas, jovem nadador do movimento desportivo operário local, que atuou em diversas frentes de batalha até 1939.
Os livros de história pouco falam da resistência esportiva ao nazismo e ao fascismo dos anos 1930, mas lembram muito a política de não intervenção das maiores potências europeias, crucial para consolidar o franquismo na Península Ibérica. Enquanto Hitler não hesitava em apoiar Franco, mesmo tendo assinado o Pacto de Não Intervenção de 1936, Léon Blum, presidente do Conselho de Ministros da França, seria impedido de apoiar a Segunda República Espanhola, tanto por pressão de alas conservadoras francesas como do governo britânico, que preferiam ver a República sucumbir aos golpistas a arriscar uma aliança dos espanhóis com os soviéticos.
A chamada política de não intervenção europeia e neutralidade norte-americana foi uma das principais razões, senão a principal, para que o expansionismo nazista até 1939 fizesse da Segunda Guerra Mundial a maior tragédia humanitária da história, com cerca de 80 milhões de mortos. Uma aliança pelo boicote às Olimpíadas em solo alemão entre países como Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética, se tivesse ocorrido já em 1936, possivelmente teria antecipado o inevitável confronto da humanidade com sua barbárie em forma de regime.
O que vimos em Berlim é o que chamamos hoje de sportswashing (lavagem, ou limpeza, pelo esporte), que ocorre quando um determinado regime ou governo utiliza o esporte como forma de melhorar sua imagem ou, no caso de Hitler, blindá-la diante dos absurdos que estaria cometendo no período das Olimpíadas e do que faria em seguida – do apoio a Franco ao Holocausto.
Ao longo da história, é possível constatar que, antes e depois de Hitler, a prática de usar a visibilidade positiva dos esportes para esconder medidas e regimes impopulares foi frequente e explorada de diversas formas. Para Mussolini, a vitória na Copa do Mundo da Itália, em 1934, era uma demonstração da eficácia do regime fascista. Em 1970, a vitória da Seleção Brasileira na Copa do Mundo no México, associada à ferrenha censura da imprensa no país, silenciou a insatisfação popular com a ditadura civil-militar, estratégia repetida e ampliada pelos argentinos em 1978.
Outros exemplos, já no período recente, devem ser mencionados. Mansour bin Zayed al Nahyan, acionista majoritário do Abu Dhabi United Group, dos Emirados Árabes Unidos (EAU), comprou, em 2008, o clube inglês Manchester City por 200 milhões de libras. De lá para cá, o City se consolidou como uma das mais fortes equipes de futebol do planeta, vencendo diversos torneios nacionais e internacionais. Enquanto isso, os EAU conquistaram, em 2024, o “título” de ter realizado o segundo maior julgamento injusto da história, criminalizando ativistas por democracia e direitos humanos.
A Qatar Sports Investments (QSI) é a pessoa jurídica criada pelo Governo do Catar para investimentos em esportes ou, podemos assumir, a operadora do sportswashing catari. Fundada em 2004, ela comprou o Paris Saint-Germain por 50 milhões de euros em 2011. Desde então, investiram cerca de R$ 2,2 bilhões somente em contratações de jogadores, a exemplo de Messi, Mbappé e Neymar, o que eventualmente culminou na primeira conquista da Liga dos Campeões do clube, em 2025. Nesse período, o país manteve uma dura repressão à comunidade LGBTQIAP+, a tutela masculina e a submissão jurídica das mulheres aos homens de sua família, além de acumular inúmeras denúncias de violações humanitárias contra migrantes nas obras preparatórias da Copa do Mundo de 2022.
Se o esporte é eficaz como instrumento para esconder a verdadeira face de tiranias, as resistências a esses regimes também são capazes de entrar em campo a fim de anular a agenda perversa que alia opressão a ilusão, coerção a consenso, e violência a disfarce.
A menos de seis meses do início da 23ª Copa do Mundo de seleções de futebol masculino, a jornalista do UOL, Milly Lacombe, defendeu o boicote ao evento, justificado pela prisão de Nicolás Maduro – à época presidente venezuelano – e pela exigência de coerência da Fifa, que baniu a Rússia de suas competições por conta da agressão à Ucrânia.
O caso russo de sportswashing chama a atenção por denotar a apropriação do conceito como forma de contrapropaganda a um adversário econômico e armamentista dos Estados Unidos. Os holofotes voltados às contradições do regime de Vladimir Putin nos noticiários estadunidenses não foram, até o momento, minimamente replicados diante dos atos de profunda beligerância de Trump, em menos de dezoito meses de seu segundo mandato.
Dois momentos em 2025 reforçam o conceito de esporte como instrumento de soft power, o exercício do poder geopolítico fora do uso militar. Um mês antes de invadir a Venezuela e sequestrar Maduro, no dia 3 de janeiro deste ano, Trump havia recebido o “Prêmio da Paz da Fifa”, entregue pessoalmente pelo presidente da entidade, Gianni Infantino.
Logo após o incidente venezuelano, Trump declarou, em 9 de janeiro, que os Estados Unidos precisavam “fazer alguma coisa na Groenlândia, quer eles gostem ou não”, confirmando comunicados da assessoria da Casa Branca que apontavam para um plano estadunidense de anexação do território, atualmente pertencente à Dinamarca. Justificando que sua ação evitaria que o local fosse tomado por chineses ou russos, o presidente estadunidense fez uma ameaça inédita a um país associado à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Alguns analistas podem apontar uma mera coincidência entre a legitimação da maior entidade esportiva do mundo – que organiza um torneio com 5 bilhões de telespectadores, números drasticamente superiores aos do Super Bowl – e a escalada violenta do governo estadunidense. Contudo, mesmo sendo belicamente inferiores aos Estados Unidos, os europeus foram capazes de obrigar Trump a mudar seu discurso sobre a Groenlândia no dia 21 de janeiro, no Fórum Econômico Mundial, assumindo que não iria usar a força no território e sinalizando um possível acordo pacífico bilateral (obviamente rejeitado pelos europeus).
A inferioridade bélica europeia pouco importou diante da poderosa ameaça de boicote de seleções como França, Inglaterra e Alemanha à Copa do Mundo nos Estados Unidos. Mesmo políticos conservadores do Velho Continente foram resolutos no enfrentamento à ameaça de invasão à Groenlândia. Simon Hoare, do Reino Unido, ao ser indagado sobre os riscos de um boicote de sua seleção nacional, cravou: “agora precisamos combater fogo com fogo”.
Após o vergonhoso recuo na questão europeia, a Casa Branca mudou seu foco para um país menos relevante no futebol mundial: o Irã. Classificado para o torneio, o país solicitou à Fifa que seus jogos fossem realizados fora dos Estados Unidos, no México ou no Canadá, que também sediam o evento. Sendo alvo de ataques dos estadunidenses desde 28 de fevereiro, o país sequer solicitou a punição devida para seus agressores, o banimento de competições de futebol internacionais. Mesmo o pedido em prol da segurança iraniana foi devidamente negado e não se sabe o que os iranianos decidirão. Nem mesmo Trump garantiu a segurança de seus inimigos durante a Copa e ainda sugeriu que desistissem de viajar[6]. Para quem já ameaçou acabar com toda uma civilização em apenas uma noite, capturar uma delegação ou permitir que sejam atacados não nos soa como algo moralmente reprovável para o presidente yankee.
A campanha até o momento desastrosa da aliança israelo-americana contra o país islâmico torna a limpeza de imagem da Copa ainda mais relevante para o Tio Sam. Com o menor índice de popularidade desde que retornou a Washington como presidente, o republicano de extrema-direita caiu de 47% para 25% de aprovação em menos de dois anos. Considerando ainda que, ao final de 2026, estão previstas as eleições de midterm, focadas na renovação do Congresso, Trump precisa muito que a competição mundial de seleções seja perfeita; e, mesmo assim, ainda que Infantino invente um novo Prêmio da Paz para ele, dificilmente o presidente se recuperará da vergonha na Pérsia.
Apenas quatro dias foi o intervalo entre o primeiro míssil lançado pelos russos na Ucrânia, no dia 24 de fevereiro de 2022, e a decisão da Fifa e da Uefa de banir a seleção russa e seus clubes de competições mundiais e europeias. A ferocidade dos jornais norte-americanos e europeus à época é destacável como exemplo singular na discussão sobre sportswashing. Pela cobertura jornalística ianque, a Copa do Mundo na Rússia em 2018 representou um formidável exemplo de limpeza de imagem pelo esporte — conforme apontou Musa Okwonga no artigo “This World Cup, Remember the Russian People” para o New York Times, em que localiza o evento como uma vitória de relações públicas para Putin, enquanto este silenciava opositores e minorias. Ao menos nesse caso, toda a pressão possível do mundo do esporte foi feita para forçar os russos a abandonarem sua ofensiva militar.
No exemplo de Trump, embora já seja possível mapear vozes dissonantes denunciando o uso da Copa do Mundo para esconder as mazelas de seu governo, não há qualquer perspectiva de boicote ao torneio por seleções protagonistas, justificada pelo covarde bombardeio ao Irã. Pelo contrário: no dia 5 de março, uma semana depois de iniciada a ofensiva ilegal trumpista, o capitão da última campeã da Copa do Mundo, o argentino Lionel Messi, juntou-se a outros atletas para entregar a Trump uma bola comemorativa e uma camisa do Inter Miami, atual campeão da Major League Soccer.
Ainda que a atitude aparentemente bajuladora de Messi e cia. em relação ao presidente tenha sido defendida por muitos pelo seu caráter protocolar – visto tratar-se de uma tradição da liga de futebol do país –, o discurso de Trump não deu brechas para que o evento fosse tratado como tal. Na frente de diversos ídolos latinos, ele defendeu a ofensiva contra os iranianos e sugeriu uma invasão a Cuba.
O silêncio dos campeões da MLS foi o cenário perfeito para legitimar e normalizar o que está por vir para o continente americano. Além da possível e até provável invasão militar a Cuba – que hoje enfrenta o pior bloqueio econômico de sua história desde a revolução de 1959 –, a Casa Branca declarou recentemente que facções criminosas brasileiras, como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), são organizações terroristas de alcance regional. Esse cenário, associado a um acordo de cooperação firmado em agosto de 2025 entre Estados Unidos e Paraguai para combater o terrorismo e o crime organizado na região (o que inclui a construção de uma base militar em solo paraguaio), são sintomas de um novo estágio do big stick. Trata-se do imperialismo clássico de Theodore Roosevelt, do início do século XX, e que se apresentou em diversas versões de lá para cá: desde os golpes militares durante a Guerra Fria até a política de tarifaço de Trump no ano passado, adotada como retaliação à condenação de Jair Bolsonaro.
Considerando que estamos em ano eleitoral no Brasil – com as pesquisas apontando, no momento em que publicamos este artigo, um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro –, e que o centro da propaganda eleitoral no país passa hoje pelas redes sociais (quase todas controladas por aliados do presidente estadunidense), o cenário é crítico. Se a megalomania de Trump culminar em uma intervenção direta na soberania nacional brasileira, seja militarmente pelo Paraguai ou interferindo nos algoritmos de Facebook, Instagram, etc., deveremos “agradecer” a Infantino e a Messi por bajularem o tirano, tal qual conservadores franceses, ingleses e norte-americanos fizeram com Hitler, estendendo-lhe um tapete vermelho, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.
A revolução será analógica
Sinto a memória em erosão. Não me recordo de como se chamava uma música que em tempos ouvi em loop, esqueço-me dos títulos dos livros que me marcaram mesmo quando consigo fechar os olhos e ver-lhes a capa, falham-me os nomes dos meus realizadores favoritos. Pego numa ponta solta de memória, um fragmento qualquer e, com um pouco de persistência, consigo chegar lá através do Google. É uma cábula sempre à mão, rápida de usar, que me ajuda a chegar a coisas que já soube, mas das quais só me recordo vagamente. É prático. Não tem como falhar. Ou será que tem?
Aquele génio de Aladino sempre pronto a ajudar-me nos meus esquecimentos tem os seus quês. Comecei a percebê-lo enquanto procurava insistentemente artigos que eu sabia que tinha escrito e publicado online e o Google insistia teimosamente em que eles não existiam. É possível que eles continuem a existir algures, debaixo da poeira eletrónica, soterrados pelo algoritmo, ou que se tenham eclipsado num servidor que deixou de existir. Nunca saberei. E como alguns deles não foram publicados em papel, não há como ir à Hemeroteca resgatá-los. Escrever na internet pode, afinal, ser como tentar deixar uma marca na água, por muito que neste momento se encontrem mais pessoas preocupadas com o que as redes sociais não esquecem do que com aquilo que o digital tem a capacidade de obliterar como se nunca tivesse existido.
No caso dos textos que escrevi e não encontro, o esquecimento é com certeza fruto de um acaso qualquer completamente aleatório e desprovido de intenções de ocultação. Mas o simples facto de não os encontrar pôs-me a pensar. E chego à conclusão de que houve um tempo em que era muito mais difícil apagar o que foi escrito do que hoje, quando tudo parece deixar uma marca e uma simples lista de compras enviada por email há dez anos pode persistir no histórico de mensagens, sobrevivendo muito para lá do seu prazo de validade de post-it.
Há uma história com a qual me cruzei há pouco tempo no livro do Pedro Vieira, Vénus em Chamas, que me reforçou essa convicção. Reza a história que o bispo Atanásio de Alexandria decidiu no ano de 367 mandar queimar um conjunto de escritos que punham em causa a versão que os poderes da Igreja queriam deixar para a posteridade de uma série de acontecimentos, entre eles as revelações que, segundo o Evangelho de Maria, teriam sido feitas por Jesus a Maria Madalena. Era suposto não ficar nem um vestígio dessa e de outras obras, incluindo uma tradução de A República de Platão e vários textos gnósticos. Mas quase 1600 anos depois, um camponês chamado Mohammed Ali Samman encontrou-os por acaso numa espécie de pote de barro enterrado. Os 13 códices em papiro enrolados em couro sobreviveram ao apagamento eterno a que o poder os tinha votado, porque alguém, provavelmente uns monges, decidiu preservá-los, escondendo-os na terra.
Sabemos como a Santa Inquisição perseguiu autores e obras, sabemos como os nazis faziam pilhas de livros proibidos para os queimar em fogueiras, sabemos como Estaline ia apagando das fotografias os antigos amigos que se tinham tornado inimigos, sabemos da censura do Estado Novo e das listas de livros que os republicanos nos Estados Unidos estão a banir das bibliotecas escolares. Sabemos como o poder usa a memória, reconstruindo-a de acordo com as narrativas que melhor o sustentam, procurando eliminar ou limitar a dissidência. E sabemos como o conhecimento é absolutamente subversivo, porque quem o detém não é manipulável, ousa questionar, imagina e, imaginando, constrói alternativas.
Sabendo tudo isto, pensem no tal pote de barro enterrado com 13 papiros e como ele sobreviveu mais de 1600 anos. E agora pensem na facilidade com que os donos das grandes tecnológicas podem manobrar com uns poucos cliques todo o conhecimento que existe, toda a memória coletiva, todas as notícias, todos os registos. Como podem apagar, ocultar ou mesmo adulterar tudo o que está na internet, sem precisar de fazer fogueiras, criando passados alternativos como se fossem verdades cristalizadas. Não é uma teoria da conspiração. É só ter a noção da fragilidade dos sistemas aos quais confiamos todo o saber e dos quais estamos tão absolutamente dependentes, apesar de não termos sobre eles qualquer tipo de controlo público, coletivo, democrático.
Sempre que entro numa sala forrada a estantes e olho para as lombadas que exibem, sei que dentro de cada um daqueles livros estão ideias, histórias, teses, factos, hipóteses, vozes muito mais difíceis de manipular do que qualquer registo digital. Claro que um livro pode trazer impressas falsidades, teorias da conspiração, deturpações. Mas um livro, numa estante, é só uma voz num conjunto de várias outras. Mesmo ao lado, terá outros livros com os quais poderá ser confrontado, que nos darão contexto, que nos farão questionarmo-nos, que nos ajudarão a situá-lo.
Não só isso como os cérebros treinados pela leitura vão acumulando camadas, que os protegem de cair na primeira esparrela. Quando a Inteligência Artificial for um simulacro tão perfeito de realidade que não será já possível ver as costuras das mentiras, um cérebro analógico, treinado na leitura de livros, será o melhor apetrecho para navegar num mundo de incertezas e manipulação.
A informação é poder. Sempre foi. Foi por o perceberem que os sumérios desenvolveram a escrita, para codificar o que era importante. E é por isso que durante séculos os saberes da leitura estiveram reservados a uma elite reduzida em quase todas as partes do mundo. Ainda assim, talvez nunca tenha existido um momento na História da Humanidade em que a concentração de riqueza e poder tecnológico estivesse nas mãos de um número tão reduzido de pessoas. Segundo a Oxfam, em 2026 os 12 mais ricos do mundo, com Elon Musk à cabeça, têm mais riqueza do que metade da Humanidade junta.
E é por isso que tenho a certeza de que a verdadeira revolução será analógica. Não a do deslumbramento acéfalo da tecnologia, mas também não a do ludismo em luta contra as máquinas. A revolução de que falo é aquela que nascerá da resistência do saber e do pensamento. Aquela que virá da consciência profunda do que é ser humano e da urgência absoluta de lutar por isso, da resistência ao poder de poucos e da construção de um mundo mais justo e melhor, que, sim, ainda é possível. O analógico é o novo punk.
Aquele génio de Aladino sempre pronto a ajudar-me nos meus esquecimentos tem os seus quês. Comecei a percebê-lo enquanto procurava insistentemente artigos que eu sabia que tinha escrito e publicado online e o Google insistia teimosamente em que eles não existiam. É possível que eles continuem a existir algures, debaixo da poeira eletrónica, soterrados pelo algoritmo, ou que se tenham eclipsado num servidor que deixou de existir. Nunca saberei. E como alguns deles não foram publicados em papel, não há como ir à Hemeroteca resgatá-los. Escrever na internet pode, afinal, ser como tentar deixar uma marca na água, por muito que neste momento se encontrem mais pessoas preocupadas com o que as redes sociais não esquecem do que com aquilo que o digital tem a capacidade de obliterar como se nunca tivesse existido.
No caso dos textos que escrevi e não encontro, o esquecimento é com certeza fruto de um acaso qualquer completamente aleatório e desprovido de intenções de ocultação. Mas o simples facto de não os encontrar pôs-me a pensar. E chego à conclusão de que houve um tempo em que era muito mais difícil apagar o que foi escrito do que hoje, quando tudo parece deixar uma marca e uma simples lista de compras enviada por email há dez anos pode persistir no histórico de mensagens, sobrevivendo muito para lá do seu prazo de validade de post-it.
Há uma história com a qual me cruzei há pouco tempo no livro do Pedro Vieira, Vénus em Chamas, que me reforçou essa convicção. Reza a história que o bispo Atanásio de Alexandria decidiu no ano de 367 mandar queimar um conjunto de escritos que punham em causa a versão que os poderes da Igreja queriam deixar para a posteridade de uma série de acontecimentos, entre eles as revelações que, segundo o Evangelho de Maria, teriam sido feitas por Jesus a Maria Madalena. Era suposto não ficar nem um vestígio dessa e de outras obras, incluindo uma tradução de A República de Platão e vários textos gnósticos. Mas quase 1600 anos depois, um camponês chamado Mohammed Ali Samman encontrou-os por acaso numa espécie de pote de barro enterrado. Os 13 códices em papiro enrolados em couro sobreviveram ao apagamento eterno a que o poder os tinha votado, porque alguém, provavelmente uns monges, decidiu preservá-los, escondendo-os na terra.
Sabemos como a Santa Inquisição perseguiu autores e obras, sabemos como os nazis faziam pilhas de livros proibidos para os queimar em fogueiras, sabemos como Estaline ia apagando das fotografias os antigos amigos que se tinham tornado inimigos, sabemos da censura do Estado Novo e das listas de livros que os republicanos nos Estados Unidos estão a banir das bibliotecas escolares. Sabemos como o poder usa a memória, reconstruindo-a de acordo com as narrativas que melhor o sustentam, procurando eliminar ou limitar a dissidência. E sabemos como o conhecimento é absolutamente subversivo, porque quem o detém não é manipulável, ousa questionar, imagina e, imaginando, constrói alternativas.
Sabendo tudo isto, pensem no tal pote de barro enterrado com 13 papiros e como ele sobreviveu mais de 1600 anos. E agora pensem na facilidade com que os donos das grandes tecnológicas podem manobrar com uns poucos cliques todo o conhecimento que existe, toda a memória coletiva, todas as notícias, todos os registos. Como podem apagar, ocultar ou mesmo adulterar tudo o que está na internet, sem precisar de fazer fogueiras, criando passados alternativos como se fossem verdades cristalizadas. Não é uma teoria da conspiração. É só ter a noção da fragilidade dos sistemas aos quais confiamos todo o saber e dos quais estamos tão absolutamente dependentes, apesar de não termos sobre eles qualquer tipo de controlo público, coletivo, democrático.
Sempre que entro numa sala forrada a estantes e olho para as lombadas que exibem, sei que dentro de cada um daqueles livros estão ideias, histórias, teses, factos, hipóteses, vozes muito mais difíceis de manipular do que qualquer registo digital. Claro que um livro pode trazer impressas falsidades, teorias da conspiração, deturpações. Mas um livro, numa estante, é só uma voz num conjunto de várias outras. Mesmo ao lado, terá outros livros com os quais poderá ser confrontado, que nos darão contexto, que nos farão questionarmo-nos, que nos ajudarão a situá-lo.
Não só isso como os cérebros treinados pela leitura vão acumulando camadas, que os protegem de cair na primeira esparrela. Quando a Inteligência Artificial for um simulacro tão perfeito de realidade que não será já possível ver as costuras das mentiras, um cérebro analógico, treinado na leitura de livros, será o melhor apetrecho para navegar num mundo de incertezas e manipulação.
A informação é poder. Sempre foi. Foi por o perceberem que os sumérios desenvolveram a escrita, para codificar o que era importante. E é por isso que durante séculos os saberes da leitura estiveram reservados a uma elite reduzida em quase todas as partes do mundo. Ainda assim, talvez nunca tenha existido um momento na História da Humanidade em que a concentração de riqueza e poder tecnológico estivesse nas mãos de um número tão reduzido de pessoas. Segundo a Oxfam, em 2026 os 12 mais ricos do mundo, com Elon Musk à cabeça, têm mais riqueza do que metade da Humanidade junta.
E é por isso que tenho a certeza de que a verdadeira revolução será analógica. Não a do deslumbramento acéfalo da tecnologia, mas também não a do ludismo em luta contra as máquinas. A revolução de que falo é aquela que nascerá da resistência do saber e do pensamento. Aquela que virá da consciência profunda do que é ser humano e da urgência absoluta de lutar por isso, da resistência ao poder de poucos e da construção de um mundo mais justo e melhor, que, sim, ainda é possível. O analógico é o novo punk.
Quando a palavra se endurece e o país se estilhaça
Houve um tempo em que as palavras tinham a leveza da água. Não era metáfora gratuita, era experiência concreta da vida comum. Elas passavam entre as pessoas sem pedir licença, tocavam sem ferir, dissolviam o que havia de áspero. Lavavam pequenas dores, carregavam impurezas invisíveis, seguiam adiante. Como rios que não conheciam o cansaço de serem rios. Como se falar fosse ainda uma forma de estar junto.
Hoje, não. Hoje as palavras pesam. Endureceram. São pedras. E não apenas porque ferem, mas porque delimitam. Porque se acumulam em estruturas rígidas. Porque constroem muros onde antes havia passagem. Há uma arquitetura da linguagem em curso, feita de blocos duros, de frases que não dialogam, de afirmações que não se abrem. Fala-se como quem ocupa território. Fala-se para marcar posição. Conversar deixou de ser um gesto cotidiano e se converteu em uma operação tensa, quase militar. Cada frase pode explodir. Cada palavra pode denunciar.
E o silêncio, que já foi abrigo, que já foi pausa necessária, tornou-se trincheira. Um lugar de cálculo. Um espaço de proteção diante da ameaça constante do outro. O país não se fala. O país se mede, se vigia, se testa o tempo inteiro.
Há algo que se infiltrou nas relações mais íntimas. Não chegou de repente. Foi se acomodando aos poucos, como poeira que ninguém percebe até cobrir tudo. Nos rostos mais próximos, onde antes se reconhecia confiança, nasce uma sombra. Pequena no início. Depois persistente. Depois inevitável. Entre mãos que já se apertaram com afeto, cresce uma espécie de espinho invisível. Uma recusa silenciosa. Uma intolerância que não se explica completamente, mas se manifesta em gestos mínimos. No desvio do olhar. Na palavra não dita. Na ironia que substitui o cuidado.
O tempo não resolve. O tempo acumula.
O afeto, submetido ao regime das convicções absolutas, começa a apodrecer. Não desaparece de imediato. Se deforma. Ganha outra textura. Outro cheiro. Amar alguém que pensa diferente passa a carregar um peso moral. Uma suspeita latente. Como se o amor precisasse de autorização. Como se fosse necessário justificar o vínculo. Quem atravessa essa fronteira simbólica é visto como traidor. Quem hesita é fraco. Quem escuta é ingênuo. E o amor, esse território indisciplinado que nunca se deixou organizar por doutrinas, é capturado. Enquadrado. Julgado.
Há algo de brutal nisso.
Dentro das casas, o cenário também mudou. Não de forma espetacular. De forma lenta, quase imperceptível. O pão ainda chega à mesa, mas já não tem o mesmo significado. O riso aparece, mas não permanece. As refeições deixaram de ser encontro e se transformaram em zonas sensíveis. Lugares onde tudo pode acontecer e, ao mesmo tempo, onde nada se resolve.
Há dias em que se mastiga apenas o que não se diz. Em que se engole o incômodo junto com a comida. Em que se brinda, sem perceber, ao afastamento.
A mesa, que já foi espaço de partilha, torna-se um campo de pequenas disputas simbólicas. O afeto, comprimido, ganha caráter inflamável. A memória deixa de ser lembrança e passa a ser arma. O passado é reorganizado conforme a necessidade do presente. O presente se fragmenta. O futuro desaparece do horizonte comum.
O nós se rompe.
E o que resta são indivíduos fechados em si, protegidos por certezas que funcionam como armaduras. Pesadas. Rígidas. Ineficazes para o encontro.
Morreu o tempo da dúvida. E não morreu de forma digna. Não houve vigília, não houve despedida, não houve sequer reconhecimento de sua importância. Foi sepultado sem velas, sem luto, sem silêncio respeitoso. Como um cadáver barato abandonado à pressa, sem nome, sem história, sem direito à memória. Enterrado não por acidente, mas por conveniência.
E no lugar da dúvida, que inquietava, que deslocava, que obrigava a pensar, ergueu-se um sistema de respostas prontas. Um repertório fechado. Um altar onde se cultuam certezas como se fossem verdades definitivas. Não se pergunta mais. Afirma-se. Não se busca compreender. Classifica-se.
Pensar tornou-se uma atividade incômoda.
Porque pensar desloca. E deslocar exige coragem. Pensar desorganiza aquilo que parecia estável. E há um custo em admitir que não se sabe. Por isso, evita-se. Por isso, combate-se. Por isso, se substitui o pensamento pela repetição.
Não há espaço para nuance onde se exige alinhamento. Não há espaço para respiração onde tudo precisa estar trancado, fechado, definido. O ar circula com dificuldade. O país respira pouco. Respira mal.
E há uma sensação difusa de que pensar junto é arriscado. De que escutar pode comprometer. De que o silêncio, mesmo desconfortável, é mais seguro do que a palavra exposta.
As janelas foram fechadas. Não de uma vez, mas progressivamente. E com elas se fechou também a possibilidade de circulação do diferente. O que entra agora é o eco. O próprio eco. Cada um se recolhe ao interior de sua própria caverna simbólica. Ali, reafirma o que já sabe, o que já acredita, o que já decidiu que é verdade. E o som retorna. Amplificado. Deformado. Convincente.
Há uma ilusão de universalidade que se constrói nesse circuito fechado.
A política, que deveria ser espaço de mediação, de negociação, de construção coletiva, torna-se outra coisa. Um teatro contínuo. Uma encenação exaustiva. Não há plateia porque todos estão em cena. Todos atuam. Todos reagem. Todos disputam.
E pouco se transforma.
Os sonhos, expulsos desse ambiente saturado, recuam. Não desaparecem por completo. Se escondem. Se alojam em lugares mais discretos. No olhar de quem ainda observa com alguma lentidão. No gesto de quem ainda não se rendeu completamente à lógica do confronto.
Há resistência. Pequena. Fragmentada. Mas há.
Talvez ela esteja em uma frase que escapa ao padrão. Em uma palavra dita sem cálculo. Em um gesto que não busca aprovação. Talvez esteja no cansaço. No cansaço de gritar. No cansaço de sustentar certezas o tempo inteiro. No cansaço de não poder errar, de não poder recuar, de não poder simplesmente escutar.
Talvez alguém, em algum momento, desça do seu próprio palanque íntimo. Talvez alguém aceite o risco do encontro sem garantias. Sem roteiro. Sem controle total.
E talvez, apenas talvez, o afeto volte a circular. Não como consenso, mas como possibilidade. O desacordo pode reaparecer sem carregar a ameaça da ruptura. Escutar pode voltar a ser prática cotidiana. Não como estratégia. Como condição.
Se isso acontecer, ainda que de forma irregular, sem ordem, sem simetria, o país pode ensaiar um retorno. Não a um passado idealizado, que nunca existiu de fato, mas a uma forma mais aberta de convivência. Imperfeita. Tensa. Contraditória.
Mas viva.
Uma conversa possível. Uma conversa que não resolve tudo, mas que não destrói tudo. Uma conversa que reconhece o outro não como inimigo a ser eliminado, mas como presença inevitável na construção da vida comum.
E isso, hoje, já seria muito.
Hoje, não. Hoje as palavras pesam. Endureceram. São pedras. E não apenas porque ferem, mas porque delimitam. Porque se acumulam em estruturas rígidas. Porque constroem muros onde antes havia passagem. Há uma arquitetura da linguagem em curso, feita de blocos duros, de frases que não dialogam, de afirmações que não se abrem. Fala-se como quem ocupa território. Fala-se para marcar posição. Conversar deixou de ser um gesto cotidiano e se converteu em uma operação tensa, quase militar. Cada frase pode explodir. Cada palavra pode denunciar.
E o silêncio, que já foi abrigo, que já foi pausa necessária, tornou-se trincheira. Um lugar de cálculo. Um espaço de proteção diante da ameaça constante do outro. O país não se fala. O país se mede, se vigia, se testa o tempo inteiro.
Há algo que se infiltrou nas relações mais íntimas. Não chegou de repente. Foi se acomodando aos poucos, como poeira que ninguém percebe até cobrir tudo. Nos rostos mais próximos, onde antes se reconhecia confiança, nasce uma sombra. Pequena no início. Depois persistente. Depois inevitável. Entre mãos que já se apertaram com afeto, cresce uma espécie de espinho invisível. Uma recusa silenciosa. Uma intolerância que não se explica completamente, mas se manifesta em gestos mínimos. No desvio do olhar. Na palavra não dita. Na ironia que substitui o cuidado.
O tempo não resolve. O tempo acumula.
O afeto, submetido ao regime das convicções absolutas, começa a apodrecer. Não desaparece de imediato. Se deforma. Ganha outra textura. Outro cheiro. Amar alguém que pensa diferente passa a carregar um peso moral. Uma suspeita latente. Como se o amor precisasse de autorização. Como se fosse necessário justificar o vínculo. Quem atravessa essa fronteira simbólica é visto como traidor. Quem hesita é fraco. Quem escuta é ingênuo. E o amor, esse território indisciplinado que nunca se deixou organizar por doutrinas, é capturado. Enquadrado. Julgado.
Há algo de brutal nisso.
Dentro das casas, o cenário também mudou. Não de forma espetacular. De forma lenta, quase imperceptível. O pão ainda chega à mesa, mas já não tem o mesmo significado. O riso aparece, mas não permanece. As refeições deixaram de ser encontro e se transformaram em zonas sensíveis. Lugares onde tudo pode acontecer e, ao mesmo tempo, onde nada se resolve.
Há dias em que se mastiga apenas o que não se diz. Em que se engole o incômodo junto com a comida. Em que se brinda, sem perceber, ao afastamento.
A mesa, que já foi espaço de partilha, torna-se um campo de pequenas disputas simbólicas. O afeto, comprimido, ganha caráter inflamável. A memória deixa de ser lembrança e passa a ser arma. O passado é reorganizado conforme a necessidade do presente. O presente se fragmenta. O futuro desaparece do horizonte comum.
O nós se rompe.
E o que resta são indivíduos fechados em si, protegidos por certezas que funcionam como armaduras. Pesadas. Rígidas. Ineficazes para o encontro.
Morreu o tempo da dúvida. E não morreu de forma digna. Não houve vigília, não houve despedida, não houve sequer reconhecimento de sua importância. Foi sepultado sem velas, sem luto, sem silêncio respeitoso. Como um cadáver barato abandonado à pressa, sem nome, sem história, sem direito à memória. Enterrado não por acidente, mas por conveniência.
E no lugar da dúvida, que inquietava, que deslocava, que obrigava a pensar, ergueu-se um sistema de respostas prontas. Um repertório fechado. Um altar onde se cultuam certezas como se fossem verdades definitivas. Não se pergunta mais. Afirma-se. Não se busca compreender. Classifica-se.
Pensar tornou-se uma atividade incômoda.
Porque pensar desloca. E deslocar exige coragem. Pensar desorganiza aquilo que parecia estável. E há um custo em admitir que não se sabe. Por isso, evita-se. Por isso, combate-se. Por isso, se substitui o pensamento pela repetição.
Não há espaço para nuance onde se exige alinhamento. Não há espaço para respiração onde tudo precisa estar trancado, fechado, definido. O ar circula com dificuldade. O país respira pouco. Respira mal.
E há uma sensação difusa de que pensar junto é arriscado. De que escutar pode comprometer. De que o silêncio, mesmo desconfortável, é mais seguro do que a palavra exposta.
As janelas foram fechadas. Não de uma vez, mas progressivamente. E com elas se fechou também a possibilidade de circulação do diferente. O que entra agora é o eco. O próprio eco. Cada um se recolhe ao interior de sua própria caverna simbólica. Ali, reafirma o que já sabe, o que já acredita, o que já decidiu que é verdade. E o som retorna. Amplificado. Deformado. Convincente.
Há uma ilusão de universalidade que se constrói nesse circuito fechado.
A política, que deveria ser espaço de mediação, de negociação, de construção coletiva, torna-se outra coisa. Um teatro contínuo. Uma encenação exaustiva. Não há plateia porque todos estão em cena. Todos atuam. Todos reagem. Todos disputam.
E pouco se transforma.
Os sonhos, expulsos desse ambiente saturado, recuam. Não desaparecem por completo. Se escondem. Se alojam em lugares mais discretos. No olhar de quem ainda observa com alguma lentidão. No gesto de quem ainda não se rendeu completamente à lógica do confronto.
Há resistência. Pequena. Fragmentada. Mas há.
Talvez ela esteja em uma frase que escapa ao padrão. Em uma palavra dita sem cálculo. Em um gesto que não busca aprovação. Talvez esteja no cansaço. No cansaço de gritar. No cansaço de sustentar certezas o tempo inteiro. No cansaço de não poder errar, de não poder recuar, de não poder simplesmente escutar.
Talvez alguém, em algum momento, desça do seu próprio palanque íntimo. Talvez alguém aceite o risco do encontro sem garantias. Sem roteiro. Sem controle total.
E talvez, apenas talvez, o afeto volte a circular. Não como consenso, mas como possibilidade. O desacordo pode reaparecer sem carregar a ameaça da ruptura. Escutar pode voltar a ser prática cotidiana. Não como estratégia. Como condição.
Se isso acontecer, ainda que de forma irregular, sem ordem, sem simetria, o país pode ensaiar um retorno. Não a um passado idealizado, que nunca existiu de fato, mas a uma forma mais aberta de convivência. Imperfeita. Tensa. Contraditória.
Mas viva.
Uma conversa possível. Uma conversa que não resolve tudo, mas que não destrói tudo. Uma conversa que reconhece o outro não como inimigo a ser eliminado, mas como presença inevitável na construção da vida comum.
E isso, hoje, já seria muito.
Esquecida e sem acordo de paz, Gaza permanece em limbo
Há vários meses, esforços de mediação internacional tentam estabelecer um cessar-fogo estável entre o Hamas e Israel na Faixa de Gaza. Mais recentemente, no domingo, uma delegação do grupo viajou ao Cairo para se reunir com mediadores egípcios sobre os próximos passos no processo para pôr fim às hostilidades.
O foco está nas questões pendentes da – ainda – primeira fase do acordo de cessar-fogo alcançado há mais de seis meses, e em saber se a segunda fase – e, sobretudo, a fase final – seria de fato viável.
O Hamas, classificado como organização terrorista pela Alemanha, União Europeia (UE), Estados Unidos e outros países, desencadeou uma guerra em Gaza ao realizar seus ataques terroristas em Israel em 7 de outubro de 2023, aos quais Israel respondeu com uma devastadora ofensiva aérea e terrestre. Um frágil cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025, embora seja repetidamente violado por ataques isolados.
Especialistas consideram preocupante o saldo do cessar-fogo. As negociações políticas estagnaram e, com elas, a perspectiva de uma estabilização duradoura. Seis meses depois, essa "promessa esperançosa permanece em grande parte não cumprida", segundo uma análise do Conselho Norueguês para Refugiados.
Os esforços para encontrar uma solução e mediar o conflito, atualmente ofuscados pelos efeitos da guerra no Irã, têm apresentado poucos avanços. O trabalho do Conselho de Paz – iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – tem sido amplamente ineficaz. Lançado com grandes aspirações políticas para fazer concorrência com a ONU, teve até agora pouco impacto. Embora estruturas institucionais tenham sido estabelecidas e promessas de bilhões de dólares tenham sido feitas, muitos desses fundos, segundo relatórios de agências, estão sendo liberados com relutância ou simplesmente não foram enviados.
Peter Lintl, especialista em Israel e Oriente Médio do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP) em Berlim, descreve a situação de maneira cautelosa. "No momento, tudo parece estar fora de controle" e, em torno disso, as questões cruciais – o desarmamento do Hamas, a futura administração de Gaza e a retirada das tropas israelenses – permanecem há meses sem solução. Ao mesmo tempo, há uma falta de mecanismos funcionais para garantir o cumprimento de quaisquer acordos que possam ser alcançados, disse Lintl à DW.
Simon Wolfgang Fuchs, especialista em estudos islâmicos da Universidade Hebraica de Jerusalém, vê as coisas de modo semelhante. Ele também observa que as negociações não estão progredindo e os prazos têm sido repetidamente ultrapassados. De modo geral, aumenta a impressão de que há um impasse diplomático. Segundo Fuchs, a dinâmica é caracterizada mais por desconfiança do que por reaproximação.
Não se trata apenas de detalhes, mas de questões fundamentais – e também da sequência de eventos relacionados às questões complexas a serem resolvidas. Por exemplo, as partes em conflito permanecem divididas sobre o que deve ocorrer primeiro, o desarmamento do Hamas ou a retirada das tropas israelenses.
"Observadores internacionais e independentes monitorarão o processo de desmilitarização da Faixa de Gaza", declarou o embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, no início do ano. Embora tais planos demonstrem que existem algumas ideias concretas para uma transição, essa proposta pressupõe que ambos os lados façam concessões fundamentais – e é justamente isso que tem faltado até agora.
"Para Israel, está claro que deve ocorrer primeiro o desarmamento, depois a retirada. Para o Hamas, é exatamente o oposto", afirma Fuchs ao descrever o dilema. Ambos os lados estão, portanto, presos em posições que são atualmente quase impossíveis de conciliar, acrescentou.
No entanto, todo o desenvolvimento futuro depende de um acordo sobre essa questão. Ao mesmo tempo, apesar do seu enfraquecimento militar, o Hamas continua a ser um ator relevante. Suas estruturas persistem apesar da dura campanha militar de Israel, que resultou em dezenas de milhares de mortes e assassinatos seletivos de membros do Hamas. O grupo continua a controlar partes da Faixa de Gaza e atua efetivamente como a autoridade dominante e a força da ordem na região – fato este que complica ainda mais qualquer solução política.
A situação militar permanece tensa, enquanto Israel continua a recorrer a ataques direcionados contra líderes do Hamas. No entanto, civis são atingidos repetidamente nesses ataques – o que diminui ainda mais as perspectivas de uma paz duradoura. Segundo uma análise recente da organização internacional de ajuda humanitária Oxfam, o plano de cessar-fogo do governo Trump está à beira do colapso.
Outros elementos-chave do plano para Gaza também ainda não foram implementados. Por exemplo, o órgão tecnocrático planejado para a administração civil da Faixa de Gaza ainda não está em funcionamento.
O financiamento da reconstrução também permanece incerto – principalmente devido à situação tensa em toda a região. Os Estados do Golfo, que deveriam cobrir grande parte dos custos de reconstrução da Faixa de Gaza, estão sob pressão devido aos danos causados pela nova guerra envolvendo o Irã. "Refinarias, campos de petróleo e terminais de exportação danificados por ataques de foguetes e drones precisarão de meses – e, em alguns casos, anos – para reparos", de acordo com um relatório analítico da agência de notícias Reuters. Consequentemente, os fundos para Gaza provavelmente serão escassos.
Enquanto isso, os civis continuam a sofrer as consequências. A situação humanitária na Faixa de Gaza permanece precária e, em muitos lugares, está se deteriorando novamente.
Escassez de suprimentos, aumento de preços e infraestruturas danificadas são parte do cotidiano. O especialista Fuchs descreve os acontecimentos como uma "espiral descendente". Mesmo onde a ajuda humanitária consegue chegar, a insegurança permanece em alta. "As experiências de escassez anteriores, especialmente a fome de 2025, têm impacto duradouro e reforçam a sensação de ameaça constante", afirma Fuchs.
Ao mesmo tempo, o clima político na Faixa de Gaza é difícil de avaliar externamente. Segundo Peter Lintl, relatos indicam que qualquer crítica ao Hamas continua sendo brutalmente reprimida nas áreas controladas pelo grupo. Isso complica ainda mais uma avaliação confiável. Ao mesmo tempo, os palestinos nutrem temores persistentes de deslocamentos forçados permanentes impostos por Israel.
Peter Lintl vê com ceticismo a possibilidade de uma solução em curto prazo. Os custos políticos para ambos os lados são atualmente muito altos, afirma. Bloqueios estruturais também persistem. Muitos analistas internacionais compartilham da visão de que, embora exista um cessar-fogo que, apesar das inúmeras mortes, deslocamentos e destruição, proporcione algum alívio para o cotidiano da população, ele é apenas parcialmente eficaz – e uma solução política sustentável ainda não está à vista.
Por ora, a Faixa de Gaza parece permanecer em um estado que não é nem de guerra nem de paz. Isso não é, de forma alguma, seguro, pois significa que uma nova escalada permanece possível a qualquer momento.
O foco está nas questões pendentes da – ainda – primeira fase do acordo de cessar-fogo alcançado há mais de seis meses, e em saber se a segunda fase – e, sobretudo, a fase final – seria de fato viável.
O Hamas, classificado como organização terrorista pela Alemanha, União Europeia (UE), Estados Unidos e outros países, desencadeou uma guerra em Gaza ao realizar seus ataques terroristas em Israel em 7 de outubro de 2023, aos quais Israel respondeu com uma devastadora ofensiva aérea e terrestre. Um frágil cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025, embora seja repetidamente violado por ataques isolados.
Especialistas consideram preocupante o saldo do cessar-fogo. As negociações políticas estagnaram e, com elas, a perspectiva de uma estabilização duradoura. Seis meses depois, essa "promessa esperançosa permanece em grande parte não cumprida", segundo uma análise do Conselho Norueguês para Refugiados.
| O que restou do hospital Al-Schifa |
Os esforços para encontrar uma solução e mediar o conflito, atualmente ofuscados pelos efeitos da guerra no Irã, têm apresentado poucos avanços. O trabalho do Conselho de Paz – iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – tem sido amplamente ineficaz. Lançado com grandes aspirações políticas para fazer concorrência com a ONU, teve até agora pouco impacto. Embora estruturas institucionais tenham sido estabelecidas e promessas de bilhões de dólares tenham sido feitas, muitos desses fundos, segundo relatórios de agências, estão sendo liberados com relutância ou simplesmente não foram enviados.
Peter Lintl, especialista em Israel e Oriente Médio do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP) em Berlim, descreve a situação de maneira cautelosa. "No momento, tudo parece estar fora de controle" e, em torno disso, as questões cruciais – o desarmamento do Hamas, a futura administração de Gaza e a retirada das tropas israelenses – permanecem há meses sem solução. Ao mesmo tempo, há uma falta de mecanismos funcionais para garantir o cumprimento de quaisquer acordos que possam ser alcançados, disse Lintl à DW.
Simon Wolfgang Fuchs, especialista em estudos islâmicos da Universidade Hebraica de Jerusalém, vê as coisas de modo semelhante. Ele também observa que as negociações não estão progredindo e os prazos têm sido repetidamente ultrapassados. De modo geral, aumenta a impressão de que há um impasse diplomático. Segundo Fuchs, a dinâmica é caracterizada mais por desconfiança do que por reaproximação.
Não se trata apenas de detalhes, mas de questões fundamentais – e também da sequência de eventos relacionados às questões complexas a serem resolvidas. Por exemplo, as partes em conflito permanecem divididas sobre o que deve ocorrer primeiro, o desarmamento do Hamas ou a retirada das tropas israelenses.
"Observadores internacionais e independentes monitorarão o processo de desmilitarização da Faixa de Gaza", declarou o embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, no início do ano. Embora tais planos demonstrem que existem algumas ideias concretas para uma transição, essa proposta pressupõe que ambos os lados façam concessões fundamentais – e é justamente isso que tem faltado até agora.
"Para Israel, está claro que deve ocorrer primeiro o desarmamento, depois a retirada. Para o Hamas, é exatamente o oposto", afirma Fuchs ao descrever o dilema. Ambos os lados estão, portanto, presos em posições que são atualmente quase impossíveis de conciliar, acrescentou.
No entanto, todo o desenvolvimento futuro depende de um acordo sobre essa questão. Ao mesmo tempo, apesar do seu enfraquecimento militar, o Hamas continua a ser um ator relevante. Suas estruturas persistem apesar da dura campanha militar de Israel, que resultou em dezenas de milhares de mortes e assassinatos seletivos de membros do Hamas. O grupo continua a controlar partes da Faixa de Gaza e atua efetivamente como a autoridade dominante e a força da ordem na região – fato este que complica ainda mais qualquer solução política.
A situação militar permanece tensa, enquanto Israel continua a recorrer a ataques direcionados contra líderes do Hamas. No entanto, civis são atingidos repetidamente nesses ataques – o que diminui ainda mais as perspectivas de uma paz duradoura. Segundo uma análise recente da organização internacional de ajuda humanitária Oxfam, o plano de cessar-fogo do governo Trump está à beira do colapso.
Outros elementos-chave do plano para Gaza também ainda não foram implementados. Por exemplo, o órgão tecnocrático planejado para a administração civil da Faixa de Gaza ainda não está em funcionamento.
O financiamento da reconstrução também permanece incerto – principalmente devido à situação tensa em toda a região. Os Estados do Golfo, que deveriam cobrir grande parte dos custos de reconstrução da Faixa de Gaza, estão sob pressão devido aos danos causados pela nova guerra envolvendo o Irã. "Refinarias, campos de petróleo e terminais de exportação danificados por ataques de foguetes e drones precisarão de meses – e, em alguns casos, anos – para reparos", de acordo com um relatório analítico da agência de notícias Reuters. Consequentemente, os fundos para Gaza provavelmente serão escassos.
Enquanto isso, os civis continuam a sofrer as consequências. A situação humanitária na Faixa de Gaza permanece precária e, em muitos lugares, está se deteriorando novamente.
Escassez de suprimentos, aumento de preços e infraestruturas danificadas são parte do cotidiano. O especialista Fuchs descreve os acontecimentos como uma "espiral descendente". Mesmo onde a ajuda humanitária consegue chegar, a insegurança permanece em alta. "As experiências de escassez anteriores, especialmente a fome de 2025, têm impacto duradouro e reforçam a sensação de ameaça constante", afirma Fuchs.
Ao mesmo tempo, o clima político na Faixa de Gaza é difícil de avaliar externamente. Segundo Peter Lintl, relatos indicam que qualquer crítica ao Hamas continua sendo brutalmente reprimida nas áreas controladas pelo grupo. Isso complica ainda mais uma avaliação confiável. Ao mesmo tempo, os palestinos nutrem temores persistentes de deslocamentos forçados permanentes impostos por Israel.
Peter Lintl vê com ceticismo a possibilidade de uma solução em curto prazo. Os custos políticos para ambos os lados são atualmente muito altos, afirma. Bloqueios estruturais também persistem. Muitos analistas internacionais compartilham da visão de que, embora exista um cessar-fogo que, apesar das inúmeras mortes, deslocamentos e destruição, proporcione algum alívio para o cotidiano da população, ele é apenas parcialmente eficaz – e uma solução política sustentável ainda não está à vista.
Por ora, a Faixa de Gaza parece permanecer em um estado que não é nem de guerra nem de paz. Isso não é, de forma alguma, seguro, pois significa que uma nova escalada permanece possível a qualquer momento.
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Como mulher religiosa, compartilho a culpa. Nossas mãos não estão limpas
No final das festas de outono de 2000, no início da Segunda Intifada, passei o Shabat com amigos em uma das fazendas do outro lado da Linha Verde. Meus anfitriões, cabeludos e descalços, buscavam redimir a terra e implementar a "Torat Eretz Yisrael" ("Torá da Terra de Israel") em uma leitura desprovida de interpretação e sem levar em conta a diversidade de opiniões no pensamento judaico. Eles se apegavam ao significado literal dos textos bíblicos: "olho por olho, dente por dente" e "não tenham misericórdia deles".
Trump tornou-se um ativo tóxico
A derrota de Viktor Orbán, na Hungria, foi um duro golpe para Vladimir Putin e para a sua estratégia de enfraquecimento, por dentro, da União Europeia. Mas foi também a confirmação eloquente de que, nos dias que correm, ser amigo ou ter o apoio de Donald Trump se tornou uma desvantagem eleitoral.
A tendência manifestou-se pela primeira vez, há cerca de um ano, no Canadá, quando o primeiro-ministro Mark Carney, em funções havia pouco tempo, em substituição de um desgastado Justin Trudeau, conseguiu inverter, em apenas um par de meses, um resultado anunciado como desastroso pelas sondagens numa retumbante vitória e conquistar uma grande vaga de apoio popular. O seu segredo? Enfrentar Donald Trump sem rodeios, devolvendo, com a mesma veemência, cada uma das ameaças que este, do outro lado da fronteira, dirigia ao Canadá, com a pretensão de o incorporar como 51º estado americano. Na noite de vitória, Carney não se esqueceu de “agradecer” a Trump o impulso que lhe deu para conquistar os votos da maioria dos canadianos. “O Presidente Trump está a tentar destruir-nos para que os EUA fiquem com as nossas terras, os nossos recursos, a nossa água, o nosso país”, declarou. “Isso nunca irá acontecer”, sublinhou, soltando uma longa ovação da multidão. E antecipou, em linhas gerais, alguns dos pontos que, já no início deste ano, iriam estar no centro do seu muito elogiado discurso em Davos: o fim da relação com os EUA baseada numa “integração crescente e constante” e o início de uma nova era alicerçada no fortalecimento de “relações com parceiros confiáveis na Europa, na Ásia e noutros lugares”.
Mais recentemente, a pretensão ativa de Trump em relação à “compra” ou à invasão da Gronelândia, nos moldes habitualmente desproporcionados e ainda mais indelicados que o caracterizam, acabou por facilitar a vida da primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen, quando o seu governo de centro-esquerda estava a sofrer um desgaste de popularidade, visível nas sondagens. O braço de ferro de Frederiksen com o Presidente dos EUA e a sua determinação em não ceder às pressões do “amigo americano” funcionaram como uma espécie de poção mágica para o seu partido. E ela capitalizou o momento, com a mestria de uma veterana política: convocou eleições antecipadas e, embora não tenha alcançado a maioria absoluta com a qual chegou a sonhar, conseguiu ser eleita para um terceiro mandato como chefe de governo.
Agora, na Hungria, tudo indica que o apoio declarado de Donald Trump acabou por gerar a onda que fez transbordar o dique iliberal que Viktor Orbán construiu ao longo dos últimos 16 anos, com sucessivos atropelos à democracia. A sua submissão a Moscovo era já conhecida dos húngaros − e, é preciso reconhecê-lo, até muito apoiada por vários setores da população. Aliás, Orbán não o escondia e usava isso como trunfo eleitoral, para vincar a sua oposição a Bruxelas e aos ditames da União Europeia. Quer se queira, quer não, existe afinidade histórica, e até cultural, entre Budapeste e Moscovo, alicerçada mesmo em sonhos imperiais do passado e em glórias guerreiras do antigo leste europeu. Algo completamente diferente é, neste momento, mostrar-se aliado de um Presidente dos EUA que não inspira um pingo de confiança em ninguém, que se sabe apenas estar interessado na sua afirmação pessoal e que a qualquer momento, como se tem visto, pode mudar as regras do jogo, ameaçar com tarifas ou proclamar mais uma “obliteração” total.
As consequências estão à vista. Enfrentar Trump, no plano político, passou a ser uma medalha de bons serviços. Aceitar ser seu súbdito significa perder duas vezes: primeiro, a honra e, depois, os eleitores. As eleições na Hungria confirmam também um outro sinal positivo: começa a ser manifestamente difícil, com um Trump em roda livre contra tudo e contra todos, a exportação do movimento MAGA para países com tradição, História e cultura. Muita da extrema-direita europeia, aliás, já o percebeu e tem feito questão de se desmarcar de Washington em muito pontos, como já fizeram Marine Le Pen, em França, e Alice Weidel (AfD), na Alemanha – por cá, André Ventura prefere o silêncio… No entanto, algum do centro-direita continua a não querer ver o óbvio e permanece agarrado à ilusão de que tem de prestar vassalagem a todo e qualquer inquilino da Casa Branca. É um erro… tóxico.
A tendência manifestou-se pela primeira vez, há cerca de um ano, no Canadá, quando o primeiro-ministro Mark Carney, em funções havia pouco tempo, em substituição de um desgastado Justin Trudeau, conseguiu inverter, em apenas um par de meses, um resultado anunciado como desastroso pelas sondagens numa retumbante vitória e conquistar uma grande vaga de apoio popular. O seu segredo? Enfrentar Donald Trump sem rodeios, devolvendo, com a mesma veemência, cada uma das ameaças que este, do outro lado da fronteira, dirigia ao Canadá, com a pretensão de o incorporar como 51º estado americano. Na noite de vitória, Carney não se esqueceu de “agradecer” a Trump o impulso que lhe deu para conquistar os votos da maioria dos canadianos. “O Presidente Trump está a tentar destruir-nos para que os EUA fiquem com as nossas terras, os nossos recursos, a nossa água, o nosso país”, declarou. “Isso nunca irá acontecer”, sublinhou, soltando uma longa ovação da multidão. E antecipou, em linhas gerais, alguns dos pontos que, já no início deste ano, iriam estar no centro do seu muito elogiado discurso em Davos: o fim da relação com os EUA baseada numa “integração crescente e constante” e o início de uma nova era alicerçada no fortalecimento de “relações com parceiros confiáveis na Europa, na Ásia e noutros lugares”.
Mais recentemente, a pretensão ativa de Trump em relação à “compra” ou à invasão da Gronelândia, nos moldes habitualmente desproporcionados e ainda mais indelicados que o caracterizam, acabou por facilitar a vida da primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen, quando o seu governo de centro-esquerda estava a sofrer um desgaste de popularidade, visível nas sondagens. O braço de ferro de Frederiksen com o Presidente dos EUA e a sua determinação em não ceder às pressões do “amigo americano” funcionaram como uma espécie de poção mágica para o seu partido. E ela capitalizou o momento, com a mestria de uma veterana política: convocou eleições antecipadas e, embora não tenha alcançado a maioria absoluta com a qual chegou a sonhar, conseguiu ser eleita para um terceiro mandato como chefe de governo.
Agora, na Hungria, tudo indica que o apoio declarado de Donald Trump acabou por gerar a onda que fez transbordar o dique iliberal que Viktor Orbán construiu ao longo dos últimos 16 anos, com sucessivos atropelos à democracia. A sua submissão a Moscovo era já conhecida dos húngaros − e, é preciso reconhecê-lo, até muito apoiada por vários setores da população. Aliás, Orbán não o escondia e usava isso como trunfo eleitoral, para vincar a sua oposição a Bruxelas e aos ditames da União Europeia. Quer se queira, quer não, existe afinidade histórica, e até cultural, entre Budapeste e Moscovo, alicerçada mesmo em sonhos imperiais do passado e em glórias guerreiras do antigo leste europeu. Algo completamente diferente é, neste momento, mostrar-se aliado de um Presidente dos EUA que não inspira um pingo de confiança em ninguém, que se sabe apenas estar interessado na sua afirmação pessoal e que a qualquer momento, como se tem visto, pode mudar as regras do jogo, ameaçar com tarifas ou proclamar mais uma “obliteração” total.
As consequências estão à vista. Enfrentar Trump, no plano político, passou a ser uma medalha de bons serviços. Aceitar ser seu súbdito significa perder duas vezes: primeiro, a honra e, depois, os eleitores. As eleições na Hungria confirmam também um outro sinal positivo: começa a ser manifestamente difícil, com um Trump em roda livre contra tudo e contra todos, a exportação do movimento MAGA para países com tradição, História e cultura. Muita da extrema-direita europeia, aliás, já o percebeu e tem feito questão de se desmarcar de Washington em muito pontos, como já fizeram Marine Le Pen, em França, e Alice Weidel (AfD), na Alemanha – por cá, André Ventura prefere o silêncio… No entanto, algum do centro-direita continua a não querer ver o óbvio e permanece agarrado à ilusão de que tem de prestar vassalagem a todo e qualquer inquilino da Casa Branca. É um erro… tóxico.
Os atentados contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas continuam impunes
Com os ataques de segunda-feira, no Pacífico , os Estados Unidos realizaram 49 incursões contra embarcações de narcotráfico desde o início da campanha em setembro nas águas do Caribe . Um total de 170 suspeitos foram mortos. Para os críticos, inclusive dentro do país, tratam-se de "execuções extrajudiciais". "Não há outra forma de descrever", protesta Carlos Pérez Ricart, pesquisador do Centro Mexicano de Pesquisa e Ensino Econômico (CIDE), para quem são "assassinatos sem qualquer processo legal".
“Obviamente, [o presidente dos EUA, Donald Trump sempre encontrará uma desculpa legal para fazer as pessoas pensarem que isso não é ilegal”, admite o próprio Pérez Ricart. “Mas, segundo o direito internacional básico, isso precisa ser punido em algum momento”, afirma. Para ele, o objetivo dessa estratégia “nunca foi acabar com o narcotráfico”. “O interesse de Trump sempre foi enviar um sinal de política interna para o seu mercado doméstico, demonstrando firmeza no combate ao narcotráfico ”, resume.
O cientista político venezuelano Víctor M. Mijares concorda com essa interpretação propagandística dos atentados: "Tem muito mais a ver com a mobilização da base MAGA em torno de Trump diante dos desafios eleitorais que se avizinham". No entanto, ele acredita que algo foi alcançado. "Acho que o fator decisivo em tudo isso é a transformação que os Estados Unidos provocaram com a remoção de Maduro do regime venezuelano, que agora coopera com o narcotráfico", afirma, observando que "sabemos que há evidências consideráveis que ligam o regime ao narcotráfico".
O último desses ataques no Caribe ocorreu em 25 de março. O anterior havia sido em 23 de fevereiro, mais de um mês antes. O ritmo de destruição de embarcações de narcotráfico diminuiu e o foco mudou do Caribe para o Pacífico. Mas o que explica isso? Estaríamos testemunhando uma mudança na estratégia dos EUA? E, acima de tudo, os ataques a embarcações de narcotráfico têm sido eficazes?
"O tráfico diminuiu bastante porque eles sabem o que vai acontecer com eles", explica Manuel Supervielle, advogado e ex-oficial militar americano especializado em direito internacional. Ele também destaca que o tráfico de drogas não é punível com pena de morte nos Estados Unidos, sob nenhuma circunstância. A justificativa legal para essas operações passou por diversas fases, desde a declaração de guerra aos cartéis até a sua designação como grupos terroristas, chegando mesmo à definição de "conflito armado não internacional".
Isso demonstra, segundo Supervielle, que o principal objetivo era simplesmente preparar o terreno para "derrubar Maduro", a quem ele considera apenas a "cabeça visível" de um regime que permanece no poder. Ele também lembra que, quando ingressou no Comando Sul, barcos de narcotráfico já eram interceptados no Caribe, mas que, naquela época, as forças navais (incluindo helicópteros), sob o comando da Guarda Costeira, estavam autorizadas a atirar apenas nos motores de popa. Essa era uma estratégia muito mais eficaz, afirma ele, pois permitia a prisão e o interrogatório dos narcotraficantes.
"O preço de um grama de cocaína não se alterou nas ruas de Nova York ou Los Angeles", explica Ricart vividamente. "O mercado não sofreu nenhum impacto; está tão aquecido quanto antes dos atentados. Não há nenhum sinal de que algo tenha mudado", acrescenta. Além disso, as rotas caribenhas são rotas intermediárias usadas principalmente para enviar cocaína para a Europa, embora também para os Estados Unidos.
"Os ataques aéreos dos EUA conseguiram interromper certas rotas de tráfico de drogas no Mar do Caribe, mas o fluxo geral de cocaína não parou", concorda Alex Papadovassilakis, analista da InSight Crime. "Os grupos de narcotráfico têm muito mais opções", resume ele. "O impacto é muito limitado e provavelmente temporário, porque os Estados Unidos não podem manter esse nível de pressão militar a longo prazo", acrescenta.
Para ele, e outros especialistas concordam, "enquanto houver demanda, eles sempre encontrarão uma maneira de transportar as drogas". Uma estratégia mais eficaz para tentar conter o tráfico envolveria o desmantelamento das estruturas organizacionais e de lavagem de dinheiro que o viabilizam, em vez de focar "nas pessoas que operam essas lanchas rápidas, que não são figuras de destaque na logística de drogas da região".
De fato, os líderes das redes de narcotráfico não estão viajando nessas lanchas rápidas; em vez disso, são meros capangas, pescadores ou até mesmo contrabandistas contratados especificamente para um transporte pontual. Em outras palavras, o impacto na estrutura organizacional é mínimo. E o custo de sua execução, com um destacamento naval sem precedentes , é enorme. Aliás, grande parte da frota inicialmente mobilizada já deixou a área, a começar pelo mega-porta-aviões USS Gerald R. Ford, que partiu para o Levante para o ataque ao Irã em 28 de fevereiro.
Barcos usados para o tráfico de drogas são apenas uma parte do comércio de drogas, um elo em uma cadeia complexa. Estima-se que entre 75% e 80% das drogas que entram nos Estados Unidos cruzam a fronteira com o México. Em muitos casos, são utilizadas redes logísticas comerciais, com carregamentos camuflados entre outros produtos, ou serviços de transporte de pessoas são empregados. O uso de submarinos e até drones também se tornou comum. Afundar barcos usados para o tráfico de drogas em ataques aéreos é um poderoso fator de dissuasão, mas não há indícios de que esteja diminuindo o tráfico de drogas.
É claro que você pode cercar um campo aberto e usar um canhão para matar moscas, mas tentar impedir o tráfico de drogas bloqueando suas rotas é, para usar outra analogia batida, como tentar represar um riacho com pedras. O resultado é que ele ou encontra outros caminhos ou seu fluxo aumenta. E, no caso do tráfico de drogas, isso não é novidade. Pablo Escobar escondia carregamentos de drogas em pneus de avião e se gabava de que, quando foi descoberto, já tinha vários sistemas igualmente engenhosos preparados para evitar a detecção.
Em janeiro, as famílias de dois cidadãos trinitários que morreram em um atentado a bomba contra uma embarcação supostamente ligada ao narcotráfico, realizado pelos Estados Unidos em 16 de outubro do ano passado, entraram com uma ação judicial por homicídio culposo contra o governo Trump em um tribunal federal. Em dezembro, a família de um colombiano morto em outro ataque apresentou uma queixa à Corte Interamericana de Direitos Humanos, com sede na Costa Rica.
Nesse caso, foi o especialista em direitos humanos Dan Kovalik, advogado do presidente colombiano Gustavo Petro, quem entrou com a ação judicial. Petro havia sido muito crítico dos ataques a barcos de narcotráfico até, como lembra o professor Mijares, de Bogotá, "sua visita aos Estados Unidos e a promessa da possibilidade de suspensão das sanções, em particular sua remoção da Lista Clinton". Assim, no fim das contas, nenhuma queixa foi apresentada na Colômbia contra os militares americanos. Nem na Venezuela.
"Nenhum processo judicial foi instaurado na Venezuela, entre outros motivos porque não existe um sistema judicial eficaz no país e, sem o Estado de Direito, não faz sentido apresentar uma queixa", explica Mijares .
Controvérsia sobre ataques contra sobreviventes
No primeiro ataque a uma embarcação de tráfico de drogas, em 2 de setembro, dois tripulantes sobreviveram inicialmente. Em vez de resgatá-los e prendê-los, a Marinha dos EUA os eliminou com um segundo bombardeio menos de uma hora depois. "O Secretário Hegseth apoia integralmente o Almirante Bradley. O Almirante Bradley tomou a decisão correta", disse a porta-voz do Pentágono, Kingsley Wilson, em uma coletiva de imprensa na época, insistindo que essas ações "foram aprovadas pelos melhores advogados militares e civis em toda a cadeia de comando".
Contudo, em casos subsequentes onde houve sobreviventes, talvez devido às críticas recebidas, eles não foram mortos. Em 16 de outubro, por exemplo, um ataque a um semissubmersível no Caribe deixou dois mortos e dois náufragos, que foram resgatados, interrogados e repatriados para a Colômbia e o Equador. Eles não foram processados nesses países porque os americanos não apresentaram provas de que eram traficantes de drogas. Isso não significa que não tivessem provas: frequentemente, as provas são ocultadas para evitar comprometer as fontes ou os meios pelos quais foram obtidas.
Um terceiro sobrevivente, um costarriquenho que viajava com dois outros compatriotas em outra embarcação supostamente usada para o tráfico de drogas, afundada em um bombardeio em 20 de março, também foi repatriado. Nesse caso, o Ministério Público e as autoridades judiciais conduziram a investigação inicial, embora não haja indícios de que tenham aberto um processo criminal.
Descontentamento até mesmo nos Estados Unidos
Dentro das próprias fileiras das Forças Armadas dos EUA, o descontentamento cresce com essa guinada belicosa na estratégia do governo Trump. Basta observar o número de oficiais de alta patente que renunciaram ou foram demitidos, incluindo os principais generais militares, o Chefe do Estado-Maior Conjunto e três dos principais assessores jurídicos do Exército. O Secretário de Defesa, Pete Hegseth, deixou claro que não quer ninguém no Pentágono que obstrua os planos do Presidente Trump.
Supervielle lamenta que isso viole uma longa tradição do Exército dos EUA, cujo Corpo Jurídico remonta à Guerra da Independência, quando George Washington solicitou ao Congresso a criação de uma autoridade jurídica militar para garantir a legitimidade e o controle legal das tropas. Caso contrário, disse ele, nada as diferenciaria de um mero bando de homens armados. Algo certamente as diferenciaria hoje, porém: poder de fogo.
“Obviamente, [o presidente dos EUA, Donald Trump sempre encontrará uma desculpa legal para fazer as pessoas pensarem que isso não é ilegal”, admite o próprio Pérez Ricart. “Mas, segundo o direito internacional básico, isso precisa ser punido em algum momento”, afirma. Para ele, o objetivo dessa estratégia “nunca foi acabar com o narcotráfico”. “O interesse de Trump sempre foi enviar um sinal de política interna para o seu mercado doméstico, demonstrando firmeza no combate ao narcotráfico ”, resume.
O cientista político venezuelano Víctor M. Mijares concorda com essa interpretação propagandística dos atentados: "Tem muito mais a ver com a mobilização da base MAGA em torno de Trump diante dos desafios eleitorais que se avizinham". No entanto, ele acredita que algo foi alcançado. "Acho que o fator decisivo em tudo isso é a transformação que os Estados Unidos provocaram com a remoção de Maduro do regime venezuelano, que agora coopera com o narcotráfico", afirma, observando que "sabemos que há evidências consideráveis que ligam o regime ao narcotráfico".
O último desses ataques no Caribe ocorreu em 25 de março. O anterior havia sido em 23 de fevereiro, mais de um mês antes. O ritmo de destruição de embarcações de narcotráfico diminuiu e o foco mudou do Caribe para o Pacífico. Mas o que explica isso? Estaríamos testemunhando uma mudança na estratégia dos EUA? E, acima de tudo, os ataques a embarcações de narcotráfico têm sido eficazes?
"O tráfico diminuiu bastante porque eles sabem o que vai acontecer com eles", explica Manuel Supervielle, advogado e ex-oficial militar americano especializado em direito internacional. Ele também destaca que o tráfico de drogas não é punível com pena de morte nos Estados Unidos, sob nenhuma circunstância. A justificativa legal para essas operações passou por diversas fases, desde a declaração de guerra aos cartéis até a sua designação como grupos terroristas, chegando mesmo à definição de "conflito armado não internacional".
Isso demonstra, segundo Supervielle, que o principal objetivo era simplesmente preparar o terreno para "derrubar Maduro", a quem ele considera apenas a "cabeça visível" de um regime que permanece no poder. Ele também lembra que, quando ingressou no Comando Sul, barcos de narcotráfico já eram interceptados no Caribe, mas que, naquela época, as forças navais (incluindo helicópteros), sob o comando da Guarda Costeira, estavam autorizadas a atirar apenas nos motores de popa. Essa era uma estratégia muito mais eficaz, afirma ele, pois permitia a prisão e o interrogatório dos narcotraficantes.
"O preço de um grama de cocaína não se alterou nas ruas de Nova York ou Los Angeles", explica Ricart vividamente. "O mercado não sofreu nenhum impacto; está tão aquecido quanto antes dos atentados. Não há nenhum sinal de que algo tenha mudado", acrescenta. Além disso, as rotas caribenhas são rotas intermediárias usadas principalmente para enviar cocaína para a Europa, embora também para os Estados Unidos.
"Os ataques aéreos dos EUA conseguiram interromper certas rotas de tráfico de drogas no Mar do Caribe, mas o fluxo geral de cocaína não parou", concorda Alex Papadovassilakis, analista da InSight Crime. "Os grupos de narcotráfico têm muito mais opções", resume ele. "O impacto é muito limitado e provavelmente temporário, porque os Estados Unidos não podem manter esse nível de pressão militar a longo prazo", acrescenta.
Para ele, e outros especialistas concordam, "enquanto houver demanda, eles sempre encontrarão uma maneira de transportar as drogas". Uma estratégia mais eficaz para tentar conter o tráfico envolveria o desmantelamento das estruturas organizacionais e de lavagem de dinheiro que o viabilizam, em vez de focar "nas pessoas que operam essas lanchas rápidas, que não são figuras de destaque na logística de drogas da região".
De fato, os líderes das redes de narcotráfico não estão viajando nessas lanchas rápidas; em vez disso, são meros capangas, pescadores ou até mesmo contrabandistas contratados especificamente para um transporte pontual. Em outras palavras, o impacto na estrutura organizacional é mínimo. E o custo de sua execução, com um destacamento naval sem precedentes , é enorme. Aliás, grande parte da frota inicialmente mobilizada já deixou a área, a começar pelo mega-porta-aviões USS Gerald R. Ford, que partiu para o Levante para o ataque ao Irã em 28 de fevereiro.
Barcos usados para o tráfico de drogas são apenas uma parte do comércio de drogas, um elo em uma cadeia complexa. Estima-se que entre 75% e 80% das drogas que entram nos Estados Unidos cruzam a fronteira com o México. Em muitos casos, são utilizadas redes logísticas comerciais, com carregamentos camuflados entre outros produtos, ou serviços de transporte de pessoas são empregados. O uso de submarinos e até drones também se tornou comum. Afundar barcos usados para o tráfico de drogas em ataques aéreos é um poderoso fator de dissuasão, mas não há indícios de que esteja diminuindo o tráfico de drogas.
É claro que você pode cercar um campo aberto e usar um canhão para matar moscas, mas tentar impedir o tráfico de drogas bloqueando suas rotas é, para usar outra analogia batida, como tentar represar um riacho com pedras. O resultado é que ele ou encontra outros caminhos ou seu fluxo aumenta. E, no caso do tráfico de drogas, isso não é novidade. Pablo Escobar escondia carregamentos de drogas em pneus de avião e se gabava de que, quando foi descoberto, já tinha vários sistemas igualmente engenhosos preparados para evitar a detecção.
Em janeiro, as famílias de dois cidadãos trinitários que morreram em um atentado a bomba contra uma embarcação supostamente ligada ao narcotráfico, realizado pelos Estados Unidos em 16 de outubro do ano passado, entraram com uma ação judicial por homicídio culposo contra o governo Trump em um tribunal federal. Em dezembro, a família de um colombiano morto em outro ataque apresentou uma queixa à Corte Interamericana de Direitos Humanos, com sede na Costa Rica.
Nesse caso, foi o especialista em direitos humanos Dan Kovalik, advogado do presidente colombiano Gustavo Petro, quem entrou com a ação judicial. Petro havia sido muito crítico dos ataques a barcos de narcotráfico até, como lembra o professor Mijares, de Bogotá, "sua visita aos Estados Unidos e a promessa da possibilidade de suspensão das sanções, em particular sua remoção da Lista Clinton". Assim, no fim das contas, nenhuma queixa foi apresentada na Colômbia contra os militares americanos. Nem na Venezuela.
"Nenhum processo judicial foi instaurado na Venezuela, entre outros motivos porque não existe um sistema judicial eficaz no país e, sem o Estado de Direito, não faz sentido apresentar uma queixa", explica Mijares .
Controvérsia sobre ataques contra sobreviventes
No primeiro ataque a uma embarcação de tráfico de drogas, em 2 de setembro, dois tripulantes sobreviveram inicialmente. Em vez de resgatá-los e prendê-los, a Marinha dos EUA os eliminou com um segundo bombardeio menos de uma hora depois. "O Secretário Hegseth apoia integralmente o Almirante Bradley. O Almirante Bradley tomou a decisão correta", disse a porta-voz do Pentágono, Kingsley Wilson, em uma coletiva de imprensa na época, insistindo que essas ações "foram aprovadas pelos melhores advogados militares e civis em toda a cadeia de comando".
Contudo, em casos subsequentes onde houve sobreviventes, talvez devido às críticas recebidas, eles não foram mortos. Em 16 de outubro, por exemplo, um ataque a um semissubmersível no Caribe deixou dois mortos e dois náufragos, que foram resgatados, interrogados e repatriados para a Colômbia e o Equador. Eles não foram processados nesses países porque os americanos não apresentaram provas de que eram traficantes de drogas. Isso não significa que não tivessem provas: frequentemente, as provas são ocultadas para evitar comprometer as fontes ou os meios pelos quais foram obtidas.
Um terceiro sobrevivente, um costarriquenho que viajava com dois outros compatriotas em outra embarcação supostamente usada para o tráfico de drogas, afundada em um bombardeio em 20 de março, também foi repatriado. Nesse caso, o Ministério Público e as autoridades judiciais conduziram a investigação inicial, embora não haja indícios de que tenham aberto um processo criminal.
Descontentamento até mesmo nos Estados Unidos
Dentro das próprias fileiras das Forças Armadas dos EUA, o descontentamento cresce com essa guinada belicosa na estratégia do governo Trump. Basta observar o número de oficiais de alta patente que renunciaram ou foram demitidos, incluindo os principais generais militares, o Chefe do Estado-Maior Conjunto e três dos principais assessores jurídicos do Exército. O Secretário de Defesa, Pete Hegseth, deixou claro que não quer ninguém no Pentágono que obstrua os planos do Presidente Trump.
Supervielle lamenta que isso viole uma longa tradição do Exército dos EUA, cujo Corpo Jurídico remonta à Guerra da Independência, quando George Washington solicitou ao Congresso a criação de uma autoridade jurídica militar para garantir a legitimidade e o controle legal das tropas. Caso contrário, disse ele, nada as diferenciaria de um mero bando de homens armados. Algo certamente as diferenciaria hoje, porém: poder de fogo.
O regresso dos psicopatas
Durante o século passado, tivemos uns quantos psicopatas no poder, seja na sequência de revoluções violentas ou mesmo por via eleitoral, o que se tornou trágico para os povos. A má notícia é que nas últimas décadas eles regressaram aos palácios presidenciais e governamentais um pouco por todo o mundo, pelo que estamos outra vez a ser governados por eles.
Um psicopata é um indivíduo que sofre de um desequilíbrio patológico em matéria de controlo das emoções e impulsos. Apesar de se relacionar com multidões, frequentemente revela um comportamento antissocial e um défice de empatia.
O drama da democracia é que ela nos leva a acreditar na boa-fé de todos os políticos. Num sistema político democrático, os cidadãos são convidados a ouvir as propostas políticas dos candidatos, e a ter conhecimento das suas ideias para o país. Numa democracia madura é suposto ir um pouco mais além, isto é, ter ciência de como tais ideias e propostas serão implementadas, com que verbas e em que condições.
Mas, infelizmente, a vida política está hoje parasitada pelo imediato, por isso as pessoas não gastam muito tempo em ouvir o “como” porque se alimentam de esperança e o que importa é suscitá-la no eleitorado. Aquele que melhor o conseguir fazer é eleito, mesmo contra o candidato mais honesto e competente, que desenvolve laboriosamente o trabalho de casa, que estuda a fundo as suas propostas e as quantifica com seriedade.
Mas o que interessa é o sound bite, a mensagem simples mas eficaz, o slogan que não diz nada mas cai bem. Depois, quando se ganham eleições e se vai para o governo, há que disfarçar a falta de estudo e preparação através de expedientes, como culpar o governo anterior por todos os desaires ou proclamar aos quatro ventos que se receberam os cofres vazios.
Por outro lado, as pessoas só revelam realmente quem são quando conseguem alcançar o poder, seja ele de caráter político, militar, económico ou religioso. Alguém disse que se queremos conhecer de facto uma pessoa, experimentemos contrariá-la. Ou então passar-lhe poder para as mãos, como disse Abraham Lincoln: “Quase todos os homens são capazes de superar a adversidade, mas, se se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-se-lhe poder.”
É que o exercício do poder, de qualquer espécie de poder, exige um equilíbrio mental e emocional a toda a prova, caso contrário esse poder torna-se uma espécie de droga, cujo efeito altera toda a forma de pensar, sentir e agir. E segundo Edmund Burke: “Quanto maior o poder, mais perigoso é o abuso.”
Caso tal equilíbrio saudável não exista estamos perante um perigo real. Muitos ditadores e alguns dos maiores facínoras da história ascenderam ao poder pela via democrática, e depois foi o que se viu. Outros alcançaram o poder através dum golpe de estado ou duma revolução, mas contaram inicialmente com forte apoio popular, antes de descambarem por completo num rol interminável de crimes.
Ainda assim, muitos ainda continuam a ser vassalos de tais suseranos, mesmo contra todas as evidências, revelando estranhos mecanismos de fascínio, submissão e desapego à verdade dos factos. Por vezes é mais doloroso aceitar a dura realidade do engano em que se caiu do que continuar a ser embalado por uma doce ilusão.
Um psicopata é um indivíduo que sofre de um desequilíbrio patológico em matéria de controlo das emoções e impulsos. Apesar de se relacionar com multidões, frequentemente revela um comportamento antissocial e um défice de empatia.
O drama da democracia é que ela nos leva a acreditar na boa-fé de todos os políticos. Num sistema político democrático, os cidadãos são convidados a ouvir as propostas políticas dos candidatos, e a ter conhecimento das suas ideias para o país. Numa democracia madura é suposto ir um pouco mais além, isto é, ter ciência de como tais ideias e propostas serão implementadas, com que verbas e em que condições.
Mas, infelizmente, a vida política está hoje parasitada pelo imediato, por isso as pessoas não gastam muito tempo em ouvir o “como” porque se alimentam de esperança e o que importa é suscitá-la no eleitorado. Aquele que melhor o conseguir fazer é eleito, mesmo contra o candidato mais honesto e competente, que desenvolve laboriosamente o trabalho de casa, que estuda a fundo as suas propostas e as quantifica com seriedade.
Mas o que interessa é o sound bite, a mensagem simples mas eficaz, o slogan que não diz nada mas cai bem. Depois, quando se ganham eleições e se vai para o governo, há que disfarçar a falta de estudo e preparação através de expedientes, como culpar o governo anterior por todos os desaires ou proclamar aos quatro ventos que se receberam os cofres vazios.
Por outro lado, as pessoas só revelam realmente quem são quando conseguem alcançar o poder, seja ele de caráter político, militar, económico ou religioso. Alguém disse que se queremos conhecer de facto uma pessoa, experimentemos contrariá-la. Ou então passar-lhe poder para as mãos, como disse Abraham Lincoln: “Quase todos os homens são capazes de superar a adversidade, mas, se se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-se-lhe poder.”
É que o exercício do poder, de qualquer espécie de poder, exige um equilíbrio mental e emocional a toda a prova, caso contrário esse poder torna-se uma espécie de droga, cujo efeito altera toda a forma de pensar, sentir e agir. E segundo Edmund Burke: “Quanto maior o poder, mais perigoso é o abuso.”
Caso tal equilíbrio saudável não exista estamos perante um perigo real. Muitos ditadores e alguns dos maiores facínoras da história ascenderam ao poder pela via democrática, e depois foi o que se viu. Outros alcançaram o poder através dum golpe de estado ou duma revolução, mas contaram inicialmente com forte apoio popular, antes de descambarem por completo num rol interminável de crimes.
Ainda assim, muitos ainda continuam a ser vassalos de tais suseranos, mesmo contra todas as evidências, revelando estranhos mecanismos de fascínio, submissão e desapego à verdade dos factos. Por vezes é mais doloroso aceitar a dura realidade do engano em que se caiu do que continuar a ser embalado por uma doce ilusão.
O homem na Lua e a era da pós-verdade
Este texto é uma análise da curiosa onda negacionista ao novo grande feito da astronomia: o ser humano de volta à Lua (desta vez em redor dela). Mas iniciemos um pouco atrás na história. O poeta Luís de Camões (1524-80), quando escreveu sua grande epopeia – Os Lusíadas – mergulhado no turbilhão do século XVI, estava reagindo frontalmente às transformações que redesenhavam o Ocidente: as Grandes Navegações. Logo, não é à toa o tom pretencioso com que iniciou sua obra: “Cessem do sábio Grego e do Troiano/ As navegações grandes que fizeram;/ Cale-se de Alexandro e de Trajano/ A fama das vitórias que tiveram”. Em outras palavras, Camões evoca a memória dos maravilhosos feitos da Antiguidade Clássica (gregos e troianos), e mesmo a fama guerreira dos macedônios e romanos (Alexandro e Trajano), e lhes ordena “calarem a boca” para a mais emblemática e exclusiva façanha da humanidade: o desbravamento, além mar, de regiões do globo que a Europa desconhecia.
Quando Camões publicou sua epopeia em 1572, já datava em 70 anos a viagem de Vasco da Gama às Índias através dos contornos do continente africano (uma viagem mais extensa do que rodear a Terra pela Linha do Equador); Pedro Álvares Cabral já havia pisado nas futuras regiões brasileiras em 1500, e Fernão de Magalhães, em 1522, houvera provado de uma vez por todas a redondeza da Terra ao tê-la circundado a serviço da Espanha: o mundo era realmente redondo e plenamente conectável pelo mar.
Foi um século XVI bastante agitado. É claro que naquele tempo muitos apostavam na própria observação e não conseguiam entender a ideia de um mundo redondo; é realmente mais fácil vê-lo plano e concluir assim. Existia também espaço para um farto imaginário folclórico que visualizava o oceano como um lar de mistérios e monstruosidades. Seria realmente possível ir tão longe e se localizar num mar que parece engolir o próprio horizonte? Poderiam instrumentos de madeira e metal, como o astrolábio, realmente traduzir a vontade dos astros em rotas sobre águas nunca antes navegadas? Bem, acabamos por rememorar em linhas gerais esses acontecimentos históricos a fim de abrir uma janela para o que está a ocorrer em abril de 2026: acompanhamos, pela tela de nossos smartphones, a odisseia de quatro astronautas que circundam a Lua, um feito que (considerando o pouso de 1969 – Missão Apollo 11 da Nasa) faz as caravelas de Camões parecerem brinquedos de banheira. Eis a Missão Ártemis II.
Denominamos “progresso” essa percepção de estarmos refinando nossa leitura da realidade e sofisticando as técnicas com as quais submetemos a natureza às nossas vontades. É difícil não falarmos em termos de progresso quando anteriormente navegávamos por mar, e, agora, sondamos o silêncio do vácuo lunar. Porém, se cada época tem, por assim dizer, suas realizações, também tem seus limites; e, ao falarmos em termos de “conhecimento científico”, tais limites ganham formas institucionais (universidades, laboratórios, agências reguladoras etc.) e métodos que tentam garantir o que é ou não verdadeiro (científico). Em outras palavras, a ciência de cada época possui aquilo que Michel Foucault (1926-84) denominou de “regime de verdade”, que nada mais é que um conjunto de procedimentos que produz, regula e faz circular o conhecimento de determinada forma. Entendendo assim, o regime de verdade do século XVI tornava real a possibilidade da travessia dos mares por causa dos meios científicos disponíveis, tais como a bússola e o quadrante, que permitiam aos marinheiros lerem as estrelas para não se perderem no vazio, e as caravelas, equipadas com velas triangulares que desafiavam a direção dos ventos. Esses instrumentos não eram apenas ferramentas; constavam como validadores daquela realidade de “descobrimentos”. Para o regime de verdade da época, a prova de que a Terra era esférica e navegável não vinha de um debate de opiniões, mas do fato de que, ao seguir os cálculos matemáticos desses aparelhos, o navio efetivamente chegava ao destino (o que realmente ocorreu).
Avançamos para abril de 2026 e percebemos que o “regime de verdade” apenas mudou de escala, ou seja, o que antes era uma bússola e um mapa em papel grosseiro, hoje são algoritmos de propulsão e transmissões via satélite que nos permitem assistir a astronautas circundando a Lua. Porém, e eis aqui um ponto interessante, o alto índice de pessoas que simplesmente não acredita nas missões espaciais revela o quão fraco tem sido o discurso científico fora dos laboratórios. A ciência parece ser uma língua que muita gente simplesmente não sabe falar. É interessante o que estamos a assistir (apesar de negacionismo ser um fenômeno nada novo): uma era de pós-verdade em que o discurso científico é validado ou invalidado pela sociedade a partir de parâmetros bem distantes da Academia que o produziu.
Se, de acordo com o “regime de verdade” de Michel Foucault, entendido como o conjunto de procedimentos, instrumentos e saberes que validam o que é considerado verdadeiro, hoje dispomos de tecnologias cada vez mais capazes de registrar e transmitir esses acontecimentos até em tempo real, ainda assim não demorou para surgirem postagens falsas nas redes sociais, alegando que as imagens da missão foram gravadas em estúdio, com “fundo verde” e efeitos visuais. Curioso comportamento: mesmo diante de registros e transmissões em tempo real, nem todos acreditam no que veem. Prova disso é uma pesquisa do DataFolha, que mostra que 33% dos brasileiros não acreditam que humanos tenham ido à Lua. Para essa parcela da população, a Missão Artemis II seria, portanto, a primeira viagem espacial até o satélite.
Avançamos enormemente na forma de produzir e comprovar o conhecimento, mas hoje enfrentamos um novo desafio: dar mais peso aos fatos do que às crenças pessoais. Em 1976, Hannah Arendt, no ensaio Verdade e Política, apontava que a mentira nunca havia sido tão tolerada. Décadas depois, em 2016, Oxford elege “pós-verdade” como palavra do ano, indicando uma mudança mais profunda que, embora possa parecer semelhante à mentira, não é igual nem tão fácil de identificar.
Na pós-verdade, a distorção não se apresenta de forma clara, ela se mistura às emoções e permite que a crença pessoal se sobreponha ao fato, mesmo quando há evidências disponíveis. Mais sutil do que a mentira, como aponta Ralph Keyes (2018), em "A era da pós-verdade: desonestidade e enganação", surge uma espécie de terceira categoria com afirmações que não são nem totalmente verdadeiras nem completamente falsas, mas podem ser “verdade melhorada”, “neoverdade” ou “verdade light”. Já Matthew D’Ancona (2018) em A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news, explica que o abalo da verdade está relacionado a um cenário de disputa política e intelectual onde a ciência passa a ser tratada com desconfiança ou desprezo.
As estratégias de promoção da pós-verdade são sutis. Não dizer exatamente a verdade, nem assumir uma mentira, é um dos recursos mais utilizados, assim como a contradição e a repetição, que mantêm a discussão em andamento. Por isso, Lee McIntyre (2018) explica que ela equivale a uma forma de supremacia ideológica, na qual seus praticantes tentam fazer com que alguém acredite em algo, haja ou não boas evidências para isso. Nesse contexto, não surpreende que, mesmo diante de provas ou de documentação científica baseada em métodos rigorosos, ainda haja quem questione a ida do homem à Lua, abrindo espaço para a criação de “fatos alternativos”. O problema, portanto, não está na falta de provas, mas na forma como elas são recebidas ou, na verdade, rejeitadas.
Quando Camões publicou sua epopeia em 1572, já datava em 70 anos a viagem de Vasco da Gama às Índias através dos contornos do continente africano (uma viagem mais extensa do que rodear a Terra pela Linha do Equador); Pedro Álvares Cabral já havia pisado nas futuras regiões brasileiras em 1500, e Fernão de Magalhães, em 1522, houvera provado de uma vez por todas a redondeza da Terra ao tê-la circundado a serviço da Espanha: o mundo era realmente redondo e plenamente conectável pelo mar.
Foi um século XVI bastante agitado. É claro que naquele tempo muitos apostavam na própria observação e não conseguiam entender a ideia de um mundo redondo; é realmente mais fácil vê-lo plano e concluir assim. Existia também espaço para um farto imaginário folclórico que visualizava o oceano como um lar de mistérios e monstruosidades. Seria realmente possível ir tão longe e se localizar num mar que parece engolir o próprio horizonte? Poderiam instrumentos de madeira e metal, como o astrolábio, realmente traduzir a vontade dos astros em rotas sobre águas nunca antes navegadas? Bem, acabamos por rememorar em linhas gerais esses acontecimentos históricos a fim de abrir uma janela para o que está a ocorrer em abril de 2026: acompanhamos, pela tela de nossos smartphones, a odisseia de quatro astronautas que circundam a Lua, um feito que (considerando o pouso de 1969 – Missão Apollo 11 da Nasa) faz as caravelas de Camões parecerem brinquedos de banheira. Eis a Missão Ártemis II.
Denominamos “progresso” essa percepção de estarmos refinando nossa leitura da realidade e sofisticando as técnicas com as quais submetemos a natureza às nossas vontades. É difícil não falarmos em termos de progresso quando anteriormente navegávamos por mar, e, agora, sondamos o silêncio do vácuo lunar. Porém, se cada época tem, por assim dizer, suas realizações, também tem seus limites; e, ao falarmos em termos de “conhecimento científico”, tais limites ganham formas institucionais (universidades, laboratórios, agências reguladoras etc.) e métodos que tentam garantir o que é ou não verdadeiro (científico). Em outras palavras, a ciência de cada época possui aquilo que Michel Foucault (1926-84) denominou de “regime de verdade”, que nada mais é que um conjunto de procedimentos que produz, regula e faz circular o conhecimento de determinada forma. Entendendo assim, o regime de verdade do século XVI tornava real a possibilidade da travessia dos mares por causa dos meios científicos disponíveis, tais como a bússola e o quadrante, que permitiam aos marinheiros lerem as estrelas para não se perderem no vazio, e as caravelas, equipadas com velas triangulares que desafiavam a direção dos ventos. Esses instrumentos não eram apenas ferramentas; constavam como validadores daquela realidade de “descobrimentos”. Para o regime de verdade da época, a prova de que a Terra era esférica e navegável não vinha de um debate de opiniões, mas do fato de que, ao seguir os cálculos matemáticos desses aparelhos, o navio efetivamente chegava ao destino (o que realmente ocorreu).
Avançamos para abril de 2026 e percebemos que o “regime de verdade” apenas mudou de escala, ou seja, o que antes era uma bússola e um mapa em papel grosseiro, hoje são algoritmos de propulsão e transmissões via satélite que nos permitem assistir a astronautas circundando a Lua. Porém, e eis aqui um ponto interessante, o alto índice de pessoas que simplesmente não acredita nas missões espaciais revela o quão fraco tem sido o discurso científico fora dos laboratórios. A ciência parece ser uma língua que muita gente simplesmente não sabe falar. É interessante o que estamos a assistir (apesar de negacionismo ser um fenômeno nada novo): uma era de pós-verdade em que o discurso científico é validado ou invalidado pela sociedade a partir de parâmetros bem distantes da Academia que o produziu.
Se, de acordo com o “regime de verdade” de Michel Foucault, entendido como o conjunto de procedimentos, instrumentos e saberes que validam o que é considerado verdadeiro, hoje dispomos de tecnologias cada vez mais capazes de registrar e transmitir esses acontecimentos até em tempo real, ainda assim não demorou para surgirem postagens falsas nas redes sociais, alegando que as imagens da missão foram gravadas em estúdio, com “fundo verde” e efeitos visuais. Curioso comportamento: mesmo diante de registros e transmissões em tempo real, nem todos acreditam no que veem. Prova disso é uma pesquisa do DataFolha, que mostra que 33% dos brasileiros não acreditam que humanos tenham ido à Lua. Para essa parcela da população, a Missão Artemis II seria, portanto, a primeira viagem espacial até o satélite.
Avançamos enormemente na forma de produzir e comprovar o conhecimento, mas hoje enfrentamos um novo desafio: dar mais peso aos fatos do que às crenças pessoais. Em 1976, Hannah Arendt, no ensaio Verdade e Política, apontava que a mentira nunca havia sido tão tolerada. Décadas depois, em 2016, Oxford elege “pós-verdade” como palavra do ano, indicando uma mudança mais profunda que, embora possa parecer semelhante à mentira, não é igual nem tão fácil de identificar.
Na pós-verdade, a distorção não se apresenta de forma clara, ela se mistura às emoções e permite que a crença pessoal se sobreponha ao fato, mesmo quando há evidências disponíveis. Mais sutil do que a mentira, como aponta Ralph Keyes (2018), em "A era da pós-verdade: desonestidade e enganação", surge uma espécie de terceira categoria com afirmações que não são nem totalmente verdadeiras nem completamente falsas, mas podem ser “verdade melhorada”, “neoverdade” ou “verdade light”. Já Matthew D’Ancona (2018) em A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news, explica que o abalo da verdade está relacionado a um cenário de disputa política e intelectual onde a ciência passa a ser tratada com desconfiança ou desprezo.
As estratégias de promoção da pós-verdade são sutis. Não dizer exatamente a verdade, nem assumir uma mentira, é um dos recursos mais utilizados, assim como a contradição e a repetição, que mantêm a discussão em andamento. Por isso, Lee McIntyre (2018) explica que ela equivale a uma forma de supremacia ideológica, na qual seus praticantes tentam fazer com que alguém acredite em algo, haja ou não boas evidências para isso. Nesse contexto, não surpreende que, mesmo diante de provas ou de documentação científica baseada em métodos rigorosos, ainda haja quem questione a ida do homem à Lua, abrindo espaço para a criação de “fatos alternativos”. O problema, portanto, não está na falta de provas, mas na forma como elas são recebidas ou, na verdade, rejeitadas.
O que uma cidade sueca pode ensinar ao Brasil
Entre um prato e outro, a conversa enveredou – como tantas vezes acontece – para clima, cidades e essas soluções que parecem distantes, quase estrangeiras demais para a nossa realidade.
Foi quando ela me falou de Västerås.
Não é o tipo de cidade que costuma frequentar o nosso imaginário. Eu mesma nunca tinha ouvido falar. Não é Estocolmo, não é cenário de filme, não é destino turístico óbvio. Trata-se, na verdade, de uma cidade industrial. Daquelas que cresceram ao redor de fábricas, de infraestrutura pesada, de engenharia.
Västerås não nasceu verde. Não foi desenhada já com ciclovias perfeitas e energia limpa. Ela precisou se transformar para se adaptar à atual realidade. E, ao fazer isso, acabou se tornando uma espécie de laboratório silencioso da transição climática.
Patrícia descrevia com certa naturalidade algo que, para nós, ainda soa futurista: um sistema de aquecimento urbano que aproveita calor gerado por resíduos e por processos industriais para aquecer casas inteiras. O que sobra da indústria vira conforto dentro de casa. O que seria desperdício vira eficiência.
Isso tudo não é apenas uma solução técnica. É uma mudança de lógica.
Ali, energia, cidade e indústria conversam entre si.
Enquanto ela falava, pensei no Brasil, claro, e em como ainda tratamos esses sistemas como compartimentos isolados. Energia é energia. Cidade é cidade. Resíduo é problema. Raramente pensamos em como uma coisa pode resolver a outra.
Aí que está o “pulo do gato”.
A transição climática, quando acontece de verdade, não se dá apenas em grandes anúncios ou projetos grandiosos. Ela acontece nessas conexões menos visíveis. No encanamento que leva calor de um lugar para outro. Na decisão de reaproveitar o que antes era descartado. Na integração entre diversas partes desse todo.
Västerås também investiu pesado em eletrificação, em mobilidade urbana, em planejamento. Mas nada disso parece feito para impressionar. É quase o oposto: é feito para funcionar.
Imagine o que poderíamos fazer no Brasil, esse país que conta com uma vantagem estrutural de poucos: uma matriz elétrica majoritariamente renovável. No entanto, seguimos enfrentando desafios básicos de integração.
Produzimos energia limpa, mas perdemos eficiência na distribuição. Temos potencial em economia circular, mas ainda tratamos resíduos como fim de linha. Temos cidades vibrantes, mas pouco conectadas em termos de planejamento energético e climático.
No fim do almoço, ficou a sensação de que o modelo Västerås é difícil demais para ser copiado – são contextos muito diferentes.
Mas esta pequena cidade sueca funciona nos ensina que dá para transformar uma base industrial em algo mais eficiente, mais inteligente, mais alinhado com o clima. Tudo isso sem abrir mão do desenvolvimento.
As soluções mais interessantes, Västerås nos lembra, nem sempre são as mais visíveis.
Foi quando ela me falou de Västerås.
Não é o tipo de cidade que costuma frequentar o nosso imaginário. Eu mesma nunca tinha ouvido falar. Não é Estocolmo, não é cenário de filme, não é destino turístico óbvio. Trata-se, na verdade, de uma cidade industrial. Daquelas que cresceram ao redor de fábricas, de infraestrutura pesada, de engenharia.
Västerås não nasceu verde. Não foi desenhada já com ciclovias perfeitas e energia limpa. Ela precisou se transformar para se adaptar à atual realidade. E, ao fazer isso, acabou se tornando uma espécie de laboratório silencioso da transição climática.
Patrícia descrevia com certa naturalidade algo que, para nós, ainda soa futurista: um sistema de aquecimento urbano que aproveita calor gerado por resíduos e por processos industriais para aquecer casas inteiras. O que sobra da indústria vira conforto dentro de casa. O que seria desperdício vira eficiência.
Isso tudo não é apenas uma solução técnica. É uma mudança de lógica.
Ali, energia, cidade e indústria conversam entre si.
Enquanto ela falava, pensei no Brasil, claro, e em como ainda tratamos esses sistemas como compartimentos isolados. Energia é energia. Cidade é cidade. Resíduo é problema. Raramente pensamos em como uma coisa pode resolver a outra.
Aí que está o “pulo do gato”.
A transição climática, quando acontece de verdade, não se dá apenas em grandes anúncios ou projetos grandiosos. Ela acontece nessas conexões menos visíveis. No encanamento que leva calor de um lugar para outro. Na decisão de reaproveitar o que antes era descartado. Na integração entre diversas partes desse todo.
Västerås também investiu pesado em eletrificação, em mobilidade urbana, em planejamento. Mas nada disso parece feito para impressionar. É quase o oposto: é feito para funcionar.
Imagine o que poderíamos fazer no Brasil, esse país que conta com uma vantagem estrutural de poucos: uma matriz elétrica majoritariamente renovável. No entanto, seguimos enfrentando desafios básicos de integração.
Produzimos energia limpa, mas perdemos eficiência na distribuição. Temos potencial em economia circular, mas ainda tratamos resíduos como fim de linha. Temos cidades vibrantes, mas pouco conectadas em termos de planejamento energético e climático.
No fim do almoço, ficou a sensação de que o modelo Västerås é difícil demais para ser copiado – são contextos muito diferentes.
Mas esta pequena cidade sueca funciona nos ensina que dá para transformar uma base industrial em algo mais eficiente, mais inteligente, mais alinhado com o clima. Tudo isso sem abrir mão do desenvolvimento.
As soluções mais interessantes, Västerås nos lembra, nem sempre são as mais visíveis.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Homenagem a Alexei Sakarov
de cima do palanque
LÍDERES, o povo
Não é paisagem
Nem mansa geografia
Para a voragem
Do vosso olho.
POVO, POLVO
UM DIA.
O povo não é o rio
De mínimas águas
Sempre iguais.
Mais fundo, mais além
E por onde navegais
Uma nova canção
De um novo mundo.
E sem sorrir
Vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
Que fingis alisar,
Essa superfície
Que jamais castiga
Vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA.
de cima da alta poltrona estofada
de cima da rampa
olhar de cima
de cima da rampa
olhar de cima
LÍDERES, o povo
Não é paisagem
Nem mansa geografia
Para a voragem
Do vosso olho.
POVO, POLVO
UM DIA.
O povo não é o rio
De mínimas águas
Sempre iguais.
Mais fundo, mais além
E por onde navegais
Uma nova canção
De um novo mundo.
E sem sorrir
Vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
Que fingis alisar,
Essa superfície
Que jamais castiga
Vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA.
Hilda Hilst
Ideia perigosa
O Brasil não gosta de ideias que ameacem seu status quo social, especialmente a divisão da população entre um "andar de cima", formado pela elite rica, e um "andar de baixo", composto pelo povão. A única ideia ousada foi a abolição da escravatura sem indenização aos proprietários. Depois de 350 anos, cerca de 800 mil escravizados foram soltos, mas temia-se que a agricultura não funcionaria sem o trabalho escravo e que a elite perderia seus serviçais negros.
Ainda assim, foi uma ousadia contida: foram soltos, mas não foram libertados, porque não receberam o "mapa" para caminhar — um pedaço de terra e uma escola. Um século e meio depois, o temor continua: não se fez reforma agrária nem se implantou um sistema educacional de qualidade para os descendentes sociais dos escravizados. Os ousados abolicionistas que defenderam a libertação não ousaram incluir mais um artigo na Lei Áurea: "Fica implantado um Sistema Único Nacional Público de Educação em todo o território nacional, onde estudarão, nas mesmas escolas, os filhos de escravizados e os filhos de seus ex-escravocratas".
Desde então, o Brasil adiou até mesmo ideias moderadamente ousadas: o direito a férias remuneradas para trabalhadores, só foi outorgado em 1925; a primeira universidade, 1922; a criação de um Ministério da Educação, 1930; a instituição do salário mínimo, 1936; o décimo terceiro salário, 1962; o piso salarial para professores e a obrigatoriedade de vaga a partir dos quatro anos, em 2008; e vaga até o final do ensino médio, em 2009.
Eram ideias relativamente modestas e, ainda assim, temidas, que demoraram a ser adotadas. Por isso, quase na metade do século 21, nenhum partido — nem mesmo os que se dizem de esquerda — propõe a criação de um sistema nacional público único de educação básica, com a mesma qualidade, no qual estudem os filhos da elite e os filhos do povão, independentemente da renda e do endereço. A esquerda contemporânea defende, corretamente, políticas de cotas para ingresso no ensino superior, mas não avança na defesa de um sistema educacional capaz de torná-las desnecessárias. Tem o humanismo dos emancipacionistas, sem a perigosa ousadia dos abolicionistas. Teme os efeitos de uma ideia perigosa.
Perigosa para o resto do mundo, pois o Brasil se tornaria uma das cinco maiores economias globais ao mobilizar o potencial intelectual de seus 200 milhões de habitantes, com a produtividade decorrente de educação de alta qualidade. Em 1888, tiramos as algemas das mãos e, nos anos 1930, dos pés; falta tirar as algemas dos cérebros, o que não ocorre por falta de uma escola de qualidade máxima para todos. A democratização do uso dos pés em quadras de clubes futebolísticos nos fez uma potência futebolística; a inclusão de todos os cérebros bem formados nos fará uma potência científica, tecnológica e econômica. No século 21, o imperialismo inglês ganhou com a Abolição, o atual imperialismo global teme um Brasil educado.
Perigosa por romper o "condomínio educacional" que protege os filhos dos ricos da concorrência com os filhos dos pobres. No livro "Jogados ao mar", uma médica militante de esquerda demite a empregada porque ela reivindicava matricular seu filho na mesma escola do filho da patroa. Ao colocar todos na mesma escola, quebra-se a barreira que impede a ascensão social dos pobres pela educação, salvo raríssimas exceções. O exemplo do futebol assusta: depois da abertura das quadras aos brasileiros negros, quase nenhum filho de classe média ou alta chega à seleção, porque a bola é redonda para todos, e a maioria é de classe pobre.
Perigosa para os quase 6 mil dirigentes de sindicatos de professores, porque o sistema único teria um sindicato único, que seria parceiro da educação. Também seria perigosa para os políticos locais, que perderiam o poder sobre a construção de prédios e a nomeação de servidores nas escolas municipais.
Perigosa pela tentação de o governo federal centralizar a gestão, em vez de adotar uma federalização com autonomia, como dispõem as universidades e as escolas federais atuais.
No entanto, essa ideia perigosa representaria o grande salto do Brasil: completaria a abolição inacabada, elevaria a produtividade, aumentaria e distribuiria melhor a renda nacional conforme o talento e o esforço, dinamizaria a cultura, promoveria maior equidade social, pacificaria a sociedade, consolidaria a democracia e poderia transformar um país periférico em protagonista no cenário global — na economia, na ciência, na tecnologia, na cultura e na diplomacia.
Ainda assim, foi uma ousadia contida: foram soltos, mas não foram libertados, porque não receberam o "mapa" para caminhar — um pedaço de terra e uma escola. Um século e meio depois, o temor continua: não se fez reforma agrária nem se implantou um sistema educacional de qualidade para os descendentes sociais dos escravizados. Os ousados abolicionistas que defenderam a libertação não ousaram incluir mais um artigo na Lei Áurea: "Fica implantado um Sistema Único Nacional Público de Educação em todo o território nacional, onde estudarão, nas mesmas escolas, os filhos de escravizados e os filhos de seus ex-escravocratas".
Desde então, o Brasil adiou até mesmo ideias moderadamente ousadas: o direito a férias remuneradas para trabalhadores, só foi outorgado em 1925; a primeira universidade, 1922; a criação de um Ministério da Educação, 1930; a instituição do salário mínimo, 1936; o décimo terceiro salário, 1962; o piso salarial para professores e a obrigatoriedade de vaga a partir dos quatro anos, em 2008; e vaga até o final do ensino médio, em 2009.
Eram ideias relativamente modestas e, ainda assim, temidas, que demoraram a ser adotadas. Por isso, quase na metade do século 21, nenhum partido — nem mesmo os que se dizem de esquerda — propõe a criação de um sistema nacional público único de educação básica, com a mesma qualidade, no qual estudem os filhos da elite e os filhos do povão, independentemente da renda e do endereço. A esquerda contemporânea defende, corretamente, políticas de cotas para ingresso no ensino superior, mas não avança na defesa de um sistema educacional capaz de torná-las desnecessárias. Tem o humanismo dos emancipacionistas, sem a perigosa ousadia dos abolicionistas. Teme os efeitos de uma ideia perigosa.
Perigosa para o resto do mundo, pois o Brasil se tornaria uma das cinco maiores economias globais ao mobilizar o potencial intelectual de seus 200 milhões de habitantes, com a produtividade decorrente de educação de alta qualidade. Em 1888, tiramos as algemas das mãos e, nos anos 1930, dos pés; falta tirar as algemas dos cérebros, o que não ocorre por falta de uma escola de qualidade máxima para todos. A democratização do uso dos pés em quadras de clubes futebolísticos nos fez uma potência futebolística; a inclusão de todos os cérebros bem formados nos fará uma potência científica, tecnológica e econômica. No século 21, o imperialismo inglês ganhou com a Abolição, o atual imperialismo global teme um Brasil educado.
Perigosa por romper o "condomínio educacional" que protege os filhos dos ricos da concorrência com os filhos dos pobres. No livro "Jogados ao mar", uma médica militante de esquerda demite a empregada porque ela reivindicava matricular seu filho na mesma escola do filho da patroa. Ao colocar todos na mesma escola, quebra-se a barreira que impede a ascensão social dos pobres pela educação, salvo raríssimas exceções. O exemplo do futebol assusta: depois da abertura das quadras aos brasileiros negros, quase nenhum filho de classe média ou alta chega à seleção, porque a bola é redonda para todos, e a maioria é de classe pobre.
Perigosa para os quase 6 mil dirigentes de sindicatos de professores, porque o sistema único teria um sindicato único, que seria parceiro da educação. Também seria perigosa para os políticos locais, que perderiam o poder sobre a construção de prédios e a nomeação de servidores nas escolas municipais.
Perigosa pela tentação de o governo federal centralizar a gestão, em vez de adotar uma federalização com autonomia, como dispõem as universidades e as escolas federais atuais.
No entanto, essa ideia perigosa representaria o grande salto do Brasil: completaria a abolição inacabada, elevaria a produtividade, aumentaria e distribuiria melhor a renda nacional conforme o talento e o esforço, dinamizaria a cultura, promoveria maior equidade social, pacificaria a sociedade, consolidaria a democracia e poderia transformar um país periférico em protagonista no cenário global — na economia, na ciência, na tecnologia, na cultura e na diplomacia.
Parem!
Parem com a idolatria do ego e do dinheiro! Parem com as demonstrações de poder! Parem com a guerra!
Papa León XIV
Papa León XIV
Como ficar rico no Brasil?
São ideais de vida neste nosso mundo de desencantamento lunar e de bilionários que vivem a vida como um negócio. A variante brasileira, que amarra a burocracia do capital financeiro à esperteza malandra dos favores pessoais e do populismo salvacionista, subtrai o que os inventores do capitalismo chamam de “work” – ação, invenção e movimento – base desse modo de enriquecer.
Isso explica por que, no Brasil, o luxo vence a riqueza, pois, entre nós, trabalhar ainda é castigo. Significados rotineiros numa sociedade de base histórico-cultural, escravagista.
Nela, aspira-se ao luxo e à riqueza com pouco ou sem trabalho. Dizem que ficamos ricos trabalhando, mas ficamos podres de rico com a ajuda de amigos do peito com quem trocamos favores. É isso que o noticiário estampa, e nós fingimos surpresa e indignação...
O luxo coroa a riqueza. Ele se estampa no estilo de vida ostentatório, escorado pelo fausto das despesas excessivas e ilimitadas, como as de um banqueiro cujo programa incluía enriquecer com “amigos” com poderes supremos, numa sociedade na qual elos pessoais predominam sobre leis universais.
Pode haver riqueza sem luxo, mas não há luxo sem riqueza e, para comprovar esse elo, basta ler esses casos que chamamos de “corrupção”, observando que roubar por meio do governo é um estilo de governar.
O que chamamos de “política” é o campo aberto a esse ideal de enriquecer, pairando acima das pessoas comuns como você e eu, leitor... Como ficar rico? “Entrando na política”, na qual se pode transformar o ilegal no legal com canetadas e desengavetamentos.
No nosso caso, são raras as mitologias de pioneirismo financeiro, exceto nos episódios de assalto aos bens públicos.
Os “espertos” que cultivam laços com agentes estratégicos do Estado assaltam tranquilamente a sociedade. É fascinante observar o luxo em que vivem políticos eleitos em nome do povo pobre, que constitui o capital de suas vidas. Os privilégios e as leis privadas para certas categorias funcionais transformam governantes em donos do poder, como apontou Raymundo Faoro.
Tudo isso para ressaltar que o dono do Master mostrou que, para enricar, se deve mapear a elite e seduzi-la, seguindo uma lógica relacional de prestação de favores luxuosos. Pois eles obrigam a contraprestações que, independentemente de ideologia, pavimentam a estrutura da elite brasileira.
Vorcaro teve uma perfeita compreensão de que elos sociais particularistas neutralizam obrigações universalistas, liquidando as imparcialidades e isenções que formam a base do Estado Democrático de Direito. Ou, como viu Oliveira Viana, que amizades regadas a luxo e contratos milionários produzem coragem para tudo, menos para dizer não aos amigos; e eu diria, com a devida modéstia, a nós mesmos.
Isso explica por que, no Brasil, o luxo vence a riqueza, pois, entre nós, trabalhar ainda é castigo. Significados rotineiros numa sociedade de base histórico-cultural, escravagista.
Nela, aspira-se ao luxo e à riqueza com pouco ou sem trabalho. Dizem que ficamos ricos trabalhando, mas ficamos podres de rico com a ajuda de amigos do peito com quem trocamos favores. É isso que o noticiário estampa, e nós fingimos surpresa e indignação...
O luxo coroa a riqueza. Ele se estampa no estilo de vida ostentatório, escorado pelo fausto das despesas excessivas e ilimitadas, como as de um banqueiro cujo programa incluía enriquecer com “amigos” com poderes supremos, numa sociedade na qual elos pessoais predominam sobre leis universais.
Pode haver riqueza sem luxo, mas não há luxo sem riqueza e, para comprovar esse elo, basta ler esses casos que chamamos de “corrupção”, observando que roubar por meio do governo é um estilo de governar.
O que chamamos de “política” é o campo aberto a esse ideal de enriquecer, pairando acima das pessoas comuns como você e eu, leitor... Como ficar rico? “Entrando na política”, na qual se pode transformar o ilegal no legal com canetadas e desengavetamentos.
No nosso caso, são raras as mitologias de pioneirismo financeiro, exceto nos episódios de assalto aos bens públicos.
Os “espertos” que cultivam laços com agentes estratégicos do Estado assaltam tranquilamente a sociedade. É fascinante observar o luxo em que vivem políticos eleitos em nome do povo pobre, que constitui o capital de suas vidas. Os privilégios e as leis privadas para certas categorias funcionais transformam governantes em donos do poder, como apontou Raymundo Faoro.
Tudo isso para ressaltar que o dono do Master mostrou que, para enricar, se deve mapear a elite e seduzi-la, seguindo uma lógica relacional de prestação de favores luxuosos. Pois eles obrigam a contraprestações que, independentemente de ideologia, pavimentam a estrutura da elite brasileira.
Vorcaro teve uma perfeita compreensão de que elos sociais particularistas neutralizam obrigações universalistas, liquidando as imparcialidades e isenções que formam a base do Estado Democrático de Direito. Ou, como viu Oliveira Viana, que amizades regadas a luxo e contratos milionários produzem coragem para tudo, menos para dizer não aos amigos; e eu diria, com a devida modéstia, a nós mesmos.
O marketing não ganha eleição
Quem ganha a eleição é o candidato. A frase, que à primeira vista pode soar como uma simplificação, encerra uma verdade que a prática política insiste em confirmar: não há estratégia capaz de sustentar, por muito tempo, um projeto vazio de substância humana, política e simbólica. O marketing pode potencializar virtudes, corrigir imperfeições, organizar narrativas. Mas não cria, do nada, aquilo que o eleitor busca — benefícios, coerência e presença.
A profissionalização das campanhas eleitorais trouxe ganhos inegáveis. Hoje, nenhuma candidatura competitiva prescinde de planejamento, pesquisa qualitativa e quantitativa, definição de públicos, construção de mensagens e domínio das linguagens midiáticas. O marqueteiro tornou-se peça relevante nesse tabuleiro, atuando como um estrategista que organiza o discurso, ajusta o tom da comunicação, sugere agendas, calibra promessas e orienta o candidato diante dos humores da opinião pública.
Mas há um limite claro — e intransponível — para essa engenharia. O marketing não substitui a essência. Pode polir, mas não inventa caráter. Podemos iluminar trajetórias, mas não construir biografias. Pode até criar momentos de empatia, mas não sustenta emoções que não sejam óbvias. Em campanhas eleitorais, essa fronteira costuma aparecer de forma dramática quando candidatos encontrados “produzidos” revelam-se frágeis diante do improviso, da crítica ou do confronto.
O eleitor contemporâneo, mais informado e mais exposto a múltiplas fontes de informação, desenvolveu uma espécie de radar para detectar artificialidades. Discursos ensaiados demais, gestos coreografados, frases de efeito desconectadas da realidade — tudo isso tende a produzir um efeito reverso. Em vez de aproximar, afastar. Em vez de convencer, despertar desconfiança.
Uma analogia com produtos de consumo, tão utilizados no passado, mostra-se cada vez mais conveniente. Candidato não é sabonete. Não é um objeto inerte a ser embalado, perfumado e distribuído no mercado eleitoral. É um ser humano, com história, contradições, virtudes e falhas. E é justamente essa dimensão humana que estabelece o vínculo com o eleitor. A política, afinal, continua sendo, antes de tudo, uma relação de confiança.
Isso não significa minimizar o papel do marketing — ao contrário. Um bom profissional de comunicação política é aquele que compreende essa complexidade. Sua função não é fabricar um personagem, mas revelar, com inteligência e sensibilidade, o melhor do candidato. Cabe a ele identificar pontos fortes, atenuar fragilidades, organizar ideias e traduzi-las em linguagem acessível, sem deformar a essência do protagonista da campanha.
Esse profissional precisa atuar com visão sistêmica. O marketing eleitoral não se resume à propaganda de televisão ou às redes sociais. Envolve posicionamento estratégico, leitura de cenário, articulação entre discurso e prática, coerência entre promessa e trajetória. Exige domínio técnico, mas também percepção política. Não se trata apenas de comunicar, mas de compreender o ambiente em que se comunica.
Quando essa integração falha, surgem campanhas dissonantes. De um lado, uma comunicação sofisticada; de outro, um candidato incapaz de sustentar o que está aqui. O resultado é previsível: perda de compensação. Porque, no fim das contas, o eleitor não vota na peça publicitária — vota na pessoa.
As campanhas mais bem-sucedidas são aquelas em que o marketing e o candidato operam em sintonia. O discurso não é tão artificial porque nasce de convicções reais. A linguagem não é um disfarce, mas uma ponte. A estratégia não impõe um personagem, mas organiza uma identidade já existente.
Em tempos de hiperexposição digital, essa coerência tornou-se ainda mais decisiva. O candidato é apresentado o tempo todo — nas entrevistas, nos debates, nas redes sociais, nos encontros públicos. Qualquer descompasso entre o que diz e o que tende a ser rapidamente percebido e amplificado. Não há edição que resista à reprodução cotidiana da incoerência.
Por isso, slogans e chavões, isoladamente, perdem a força. Podem funcionar como síntese, como elemento de memorização, mas não substituir conteúdo. O eleitor quer mais do que frases prontas: busca sentido, direção, consistência. Quer considerar no candidato alguém capaz de compreender seus problemas e oferecer caminhos plausíveis.
A boa comunicação política, portanto, não é uma arte de maquiar a realidade, mas de organizá-la de forma inteligível e persuasiva. É um exercício de tradução — do pensamento em linguagem, da proposta em narrativa, da intenção em compromisso público. E, como toda tradução, depende da fidelidade ao original.
No fim, fica a lição essencial: o marketing pode ajudar a ganhar uma eleição, mas não ganha sozinho. Sem densidade humana, sem proteção e sem coerência, qualquer campanha — por mais sofisticada que seja — corre o risco de desmoronar diante do olhar atento do eleitor. Porque, na política, como na vida, não há estratégia que substitua a verdade de quem se apresenta.
A profissionalização das campanhas eleitorais trouxe ganhos inegáveis. Hoje, nenhuma candidatura competitiva prescinde de planejamento, pesquisa qualitativa e quantitativa, definição de públicos, construção de mensagens e domínio das linguagens midiáticas. O marqueteiro tornou-se peça relevante nesse tabuleiro, atuando como um estrategista que organiza o discurso, ajusta o tom da comunicação, sugere agendas, calibra promessas e orienta o candidato diante dos humores da opinião pública.
Mas há um limite claro — e intransponível — para essa engenharia. O marketing não substitui a essência. Pode polir, mas não inventa caráter. Podemos iluminar trajetórias, mas não construir biografias. Pode até criar momentos de empatia, mas não sustenta emoções que não sejam óbvias. Em campanhas eleitorais, essa fronteira costuma aparecer de forma dramática quando candidatos encontrados “produzidos” revelam-se frágeis diante do improviso, da crítica ou do confronto.
O eleitor contemporâneo, mais informado e mais exposto a múltiplas fontes de informação, desenvolveu uma espécie de radar para detectar artificialidades. Discursos ensaiados demais, gestos coreografados, frases de efeito desconectadas da realidade — tudo isso tende a produzir um efeito reverso. Em vez de aproximar, afastar. Em vez de convencer, despertar desconfiança.
Uma analogia com produtos de consumo, tão utilizados no passado, mostra-se cada vez mais conveniente. Candidato não é sabonete. Não é um objeto inerte a ser embalado, perfumado e distribuído no mercado eleitoral. É um ser humano, com história, contradições, virtudes e falhas. E é justamente essa dimensão humana que estabelece o vínculo com o eleitor. A política, afinal, continua sendo, antes de tudo, uma relação de confiança.
Isso não significa minimizar o papel do marketing — ao contrário. Um bom profissional de comunicação política é aquele que compreende essa complexidade. Sua função não é fabricar um personagem, mas revelar, com inteligência e sensibilidade, o melhor do candidato. Cabe a ele identificar pontos fortes, atenuar fragilidades, organizar ideias e traduzi-las em linguagem acessível, sem deformar a essência do protagonista da campanha.
Esse profissional precisa atuar com visão sistêmica. O marketing eleitoral não se resume à propaganda de televisão ou às redes sociais. Envolve posicionamento estratégico, leitura de cenário, articulação entre discurso e prática, coerência entre promessa e trajetória. Exige domínio técnico, mas também percepção política. Não se trata apenas de comunicar, mas de compreender o ambiente em que se comunica.
Quando essa integração falha, surgem campanhas dissonantes. De um lado, uma comunicação sofisticada; de outro, um candidato incapaz de sustentar o que está aqui. O resultado é previsível: perda de compensação. Porque, no fim das contas, o eleitor não vota na peça publicitária — vota na pessoa.
As campanhas mais bem-sucedidas são aquelas em que o marketing e o candidato operam em sintonia. O discurso não é tão artificial porque nasce de convicções reais. A linguagem não é um disfarce, mas uma ponte. A estratégia não impõe um personagem, mas organiza uma identidade já existente.
Em tempos de hiperexposição digital, essa coerência tornou-se ainda mais decisiva. O candidato é apresentado o tempo todo — nas entrevistas, nos debates, nas redes sociais, nos encontros públicos. Qualquer descompasso entre o que diz e o que tende a ser rapidamente percebido e amplificado. Não há edição que resista à reprodução cotidiana da incoerência.
Por isso, slogans e chavões, isoladamente, perdem a força. Podem funcionar como síntese, como elemento de memorização, mas não substituir conteúdo. O eleitor quer mais do que frases prontas: busca sentido, direção, consistência. Quer considerar no candidato alguém capaz de compreender seus problemas e oferecer caminhos plausíveis.
A boa comunicação política, portanto, não é uma arte de maquiar a realidade, mas de organizá-la de forma inteligível e persuasiva. É um exercício de tradução — do pensamento em linguagem, da proposta em narrativa, da intenção em compromisso público. E, como toda tradução, depende da fidelidade ao original.
No fim, fica a lição essencial: o marketing pode ajudar a ganhar uma eleição, mas não ganha sozinho. Sem densidade humana, sem proteção e sem coerência, qualquer campanha — por mais sofisticada que seja — corre o risco de desmoronar diante do olhar atento do eleitor. Porque, na política, como na vida, não há estratégia que substitua a verdade de quem se apresenta.
Assinar:
Comentários (Atom)