terça-feira, 10 de março de 2026

Tenho medo

Aflige-me ver homens e mulheres em cafés, supermercados e caixas de comentários de redes sociais — que, lamento, são cada vez mais um fiel reflexo das pessoas que se cruzam connosco na rua — que, observando os desenvolvimentos do mundo e perspetivando o futuro, sentem conforto e confiança.

Em tempos idos, poderíamos retirar algum conforto da certeza de que os exércitos de perfis falsos davam uma ideia distorcida da realidade fazendo parecer que a barbárie e a boçalidade estavam sobrerrepresentadas e não correspondiam aos verdadeiros sentimentos prevalecentes. Mas a verdade é que a vida real tem-se tornado cada vez mais parecida com a realidade das caixas de comentários.

O avanço de forças políticas autoritárias e musculadas parece inspirar uma sensação de segurança que faz estes homens e estas mulheres aninharem-se aconchegados, debaixo das mantas, telemóvel na mão, embalados pela gritaria, a distribuir emojis de riso por tudo quanto é notícia trágica que apareça no seu feed.


Agora, sentem, é que vai ser. Os criminosos vão presos, os não brancos vão para a terra deles, os ditadores maus vão para o galheiro, os bons saem reforçados para defender o seu povo, os poderosos são todos presos por pedofilia, os julgamentos tornam-se mera formalidade, faz frio no inverno e calor no verão.

Sente-se um desejo vago de vingança dirigido contra incertos que é satisfeito através da violência. As agressões de polícias a imigrantes servem para matar essa sede, como servem os bombardeamentos que por esse mundo fora rebentam com inocentes em nome de uma ideia difusa de justiça. Há um prazer sádico que percorre o mundo.

Essa sede de vingança estava ali à mão de semear e foi direcionada contra todos os movimentos de natureza progressista que trouxeram mudanças significativas à nossa vida. Falo de sindicatos, grupos feministas, movimentos pelos direitos de pessoas não heterossexuais, ambientalistas ou movimentos antirracistas.

Todos eles são alvo de fúria tão incontida quanto orgulhosamente ignorante e, por isso, intransponível. A forma como os movimentos ambientalistas são ridicularizados, apesar de a natureza das suas reivindicações ser universal e não a favor de um determinado grupo específico, é particularmente desconcertante. Afinal de contas, como é que se conversa com alguém que está disposto a apostar a vida de toda a humanidade com base numa publicação que leu no Reddit ou num vídeo que viu no Youtube?

A brutalidade das imagens que ocupam os canais noticiosos, e que deveriam causar uma sensação de repulsa, aparentam ter o efeito contrário. As direções editoriais parecem sabê-lo e dividem o ecrã entre alguém que comenta a barbárie e imagens da carnificina em repetição perpétua. Como dependentes que vão aumentando a tolerância à substância, precisamos de doses cada vez maiores, mais sangrentas e mais brutais até ficarmos completamente dormentes.

Na verdade, a vida política e social foi hollywoodizada a tal ponto que não só entendemos a realidade que nos rodeia com o simplismo dual que separa os bons dos maus num filme do Chuck Norris, como aprendemos a celebrar as mortes do outro lado. Quanto mais sangrentas, melhor. A ver se aprendem.

Mas também fomos aceitando, à boleia desta hollywoodização, a ideia de que as leis e as regras nacionais e internacionais são um empecilho burocrático destinado a dificultar a vida dos bons que até querem impedir o ataque terrorista mas, coitados, não podem torturar ninguém. Malditos burocratas!

Então, perante o avanço desta cultura política da violência, e para minha absoluta perplexidade, há todo um exército que se ergue para a receber de braços abertos. É claro que este desejo de que venha alguém, de preferência que assuma a figura de pai austero, para resolver todos os nossos problemas não é novo. Uma pessoa mais aventureira poderia discorrer sobre como isso quer dizer que somos todos adultos mal resolvidos e inseguros à espera que um paizinho nos diga o que fazer.

Não sou essa pessoa. Sou, antes, a pessoa que diz que estou com medo e se calhar devíamos estar todos com medo. Meia dúzia de tipos com poder resolveram aproveitar esta repentina maré de ressentimento e de repente temos o mundo a fazer marcha à ré a toda a velocidade.

O medo de que falo não é novo. É só novo para uma parte do mundo que estava habituada a estar do lado que não precisa de ter medo. Para o resto da humanidade, esta é uma sensação com a qual há muito tiveram que se habituar a conviver.

De repente, o bully com o qual não tínhamos grande problema porque não implicava connosco começou a implicar connosco e ninguém está a salvo. Os liberais centristas anseiam por um regresso a uma normalidade em que só o Sul global tinha de viver aterrorizado e todos aceitamos sem chinfrim que o eleitorado norte-americano possa decidir o futuro da humanidade.

O mundo borbulha caoticamente e há quem não tenha medo. Pelo contrário, vejo tanta gente a clamar por um paizinho e custa-me ver os paizinhos deste mundo a fazer fila para roubar a mesada dos filhos, darem-lhes na boca e abandonarem-nos.

É por isso que tenho medo. Não deveríamos ter todos?

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